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CONTEXTO, INTERLOCUÇÃO 
E SENTIDO
PORTUGUÊS
Componente curricular: 
LÍNGUA PORTUGUESA
Maria Luiza M. Abaurre
Maria Bernadete M. Abaurre
Marcela Pontara
 ENSINO M
ÉD
IO
3
MANUAL DO 
PROFESSOR
Maria Luiza M. Abaurre
Bacharel em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 
Mestre em Letras na área de Teoria Literária pela Unicamp. 
Membro da banca elaboradora das provas de redação, língua portuguesa 
e literatura de língua portuguesa do vestibular da Unicamp (1992, 1993, 1995, 1996). 
Consultora (língua portuguesa) do Enem/Inep/MEC (2000-2002). 
Coordenadora de 3o e 4o ciclos do Ensino Fundamental e de Ensino Médio 
(língua portuguesa) em escola particular há mais de 12 anos.
Maria Bernadete M. Abaurre
Licenciada em Letras (Português — Inglês) pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). 
Mestre em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 
Doutora em Filosofia pela Universidade Estadual de New York — Buffalo. 
Professora titular do Departamento de Linguística (IEL-Unicamp). 
Coordenadora executiva da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (1988-2002). 
Consultora (língua portuguesa) do Enem/Inep/MEC (2000-2002).
Marcela Pontara
Licenciada em Letras (Português — Latim) pela Universidade 
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). 
Membro da banca de correção das provas de redação, língua portuguesa e literatura 
de língua portuguesa dos vestibulares da Unicamp e da Unesp (seis anos). 
Professora em escolas particulares de ensino há mais de 20 anos. 
Assessora de 1o a 4o ciclos do Ensino Fundamental e de Ensino Médio 
(língua portuguesa) em escola particular há mais de 6 anos.
Componente curricular: LÍNGUA PORTUGUESA
CONTEXTO, INTERLOCUÇÃO E SENTIDO
PORTUGUÊS
3
Ensino Médio
3a edição
São Paulo, 2016
MANUAL DO PROFESSOR
1 3 5 7 9 10 8 6 4 2
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
www.moderna.com.br
2016
Impresso no Brasil
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Abaurre, Maria Luiza M.
Português : contexto, interlocução e sentido / 
Maria Luiza M. Abaurre, Maria Bernadete M. Abaurre, 
Marcela Pontara. — 3. ed. — São Paulo : Moderna, 2016.
Obra em 3 v.
 “Componente curricular: língua portuguesa.”
Bibliografia. 
1. Linguagem e línguas (Ensino médio) 2. Literatura 
(Ensino médio) 3. Português (Ensino médio) 4. Textos 
(Ensino médio) I. Abaurre, Maria Bernadete M. II. Pontara, 
Marcela. III. Título.
15-11095 CDD-469.07-807
Índices para catálogo sistemático:
1. Línguas e linguagem : Ensino médio 469.07
2. Literatura : Ensino médio 807
3. Português : Ensino médio 469.07
Coordenação editorial: Aurea Regina Kanashiro
Edição de texto: Mônica Franco Jacintho, Ademir Garcia Telles, Átila Augusto Morand, 
Daniela Cristina Calvino Pinheiro, Debora Silvestre Missias Alves, Glaucia Amaral de 
Lana, José Gabriel Arroio, Luiz Carlos Oliveira, Pedro Paulo da Silva
Assessoria didático-pedagógica: Bruna Sanchez Moreno, Juanito Avelar, Juliana 
Sylvestre da Silva Cesila, Tatiana Fadel
Apoio editorial: Juana Avelar
Assistência editorial: Solange Scattolini
Preparação de texto: Anabel Ly Maduar
Gerência de design e produção gráfica: Sandra Botelho de Carvalho Homma
Coordenação de produção: Everson de Paula
Suporte administrativo editorial: Maria de Lourdes Rodrigues (coord.)
Coordenação de design e projetos visuais: Marta Cerqueira Leite
Projeto gráfico: Everson de Paula, Marta Cerqueira Leite, Mariza de Souza Porto
Capa: Mariza de Souza Porto
Ilustração: Jeffrey Fisher. Imagens inspiradas em detalhe de A Cuca, de Tarsila 
do Amaral; em detalhe de obra sem título, de Basquiat, de 1981; em ilustração 
de trovador medieval; e em Inauguração da primeira linha ferroviária entre 
Tsarskoe Selo a Pavlovski, em 1837. Escola Russa
Coordenação de arte: Patricia Costa, Wilson Gazzoni Agostinho
Edição de arte: Alexandre Lugó Ayres Neto
Editoração eletrônica: APIS design integrado, Estação das Teclas
Coordenação de revisão: Adriana Bairrada
Revisão: Ana Maria C. Tavares, Fernanda Marcelino, Geuid Dib Jardim, Leandra 
Trindade, Viviane Teixeira Mendes
Coordenação de pesquisa iconográfica: Luciano Baneza Gabarron
Pesquisa iconográfica: Cristina Mota, Márcia Sato, Maria Marques e Tempo Composto
Coordenação de bureau: Américo Jesus
Tratamento de imagens: Denise Feitoza Maciel, Marina M. Buzzinaro, Rubens M. 
Rodrigues.
Pré-impressão: Alexandre Petreca, Everton L. de Oliveira, Fabio N. Precendo, Hélio P. 
de Souza Filho, Marcio H. Kamoto, Vitória Sousa
Coordenação de produção industrial: Viviane Pavani
Impressão e acabamento: 
Apresentação
A linguagem, considerada em seu aspecto artístico, estrutural 
ou prático, é parte integrante de nossas vidas, instrumento 
indispensável tanto para a aquisição de conhecimento em 
quaisquer áreas do saber, como para nossa participação nos 
mais diversos contextos sociais de interlocução. É por isso que 
dedicamos tanto tempo ao estudo da língua portuguesa em todas 
as suas dimensões.
O desafi o, porém, é fazer com que esse estudo deixe de ser, 
para você, o mero cumprimento de uma obrigação escolar e passe 
a ser visto como tão signifi cativo quanto a presença da linguagem 
em sua vida. 
Em um mundo em que o ritmo com que desenvolvemos 
nossas atividades diárias é cada vez mais acelerado, precisamos 
encontrar espaços de descanso, momentos nos quais nossa mente 
retome um compasso mais lento. Ler e escrever são atividades que 
propiciam esse descanso necessário. 
O tempo da leitura é o tempo do contato com personagens 
e cenários, com imagens e refl exões, com ritmos narrativos e 
poéticos. Por meio dos textos literários, somos transportados para 
outras realidades, entramos em contato com diferentes momentos 
da história humana, vivemos novas experiências estéticas e, no fi m 
dessa jornada, conhecemos um pouco melhor a sociedade e as 
pessoas que contribuíram para dar ao mundo sua feição atual. 
O contato com textos de diferentes gêneros discursivos e o 
estudo das estruturas gramaticais promovem o desenvolvimento 
das habilidades de escrita e leitura. Como resultado dessa 
experiência, você verá que estabelecer hipóteses, confrontar ideias, 
analisar e comparar pontos de vista são procedimentos naturais 
para quem domina o uso da linguagem. 
Esperamos que, ao fi m dessa jornada pelos muitos caminhos da 
língua portuguesa, você também tenha sido seduzido pelo poder 
das palavras.
EL
O
A
R 
G
U
A
ZZ
EL
LI
Faça todos os exercícios e atividades 
no caderno. Este exemplar é reutilizável 
e deverá ser devolvido, bem conservado, 
ao final do ano letivo.
Lembre-se:
SUMÁRIO
LITERATURA 
Unidade 1 O MODERNISMO
 Diálogos literários: presente e passado ............................... 10
Capítulo 1 
Pré-Modernismo 12
Leitura da imagem ................................................................................................................ 12
Da imagem para o texto ............................................................................................... 12
O Brasil republicano: conflitos e contrastes ..................................... 13
A reforma das cidades ................................................................................................................ 13
Os conflitos no Nordeste ........................................................................................................ 13
A riqueza da borracha e do café................................................................................... 14
O Pré-Modernismo: autores em busca de um país ................ 14
O projeto literário do Pré-Modernismo ........................................................ 14
Os agentes do discurso ............................................................................................................14
Linguagem: a agilidade jornalística ........................................................................ 15
Euclides da Cunha: narrador da guerra 
do fim do mundo.................................................................................................................................... 15
Os sertões: “a Bíblia da nacionalidade brasileira” ............................. 15
Texto para análise .................................................................................................................. 16
Lima Barreto: a vida nos subúrbios cariocas ................................... 17
Isaías Caminha e Clara dos Anjos: a denúncia 
do preconceito ..................................................................................................................................... 17
Policarpo Quaresma: um nacionalista quixotesco ........................... 17
Texto para análise .................................................................................................................. 18
Monteiro Lobato: a decadência do café .................................................... 18
As cidades mortas do interior paulista ............................................................ 19
Texto para análise .................................................................................................................. 19
Augusto dos Anjos: poeta de muitas faces ......................................... 20
A marca da angústia e do pessimismo .............................................................. 20
Linguagem: ciência e símbolos ..................................................................................... 20
Texto para análise .................................................................................................................. 21
 Diálogos literários: presente e passado ................................. 22
Capítulo 2 
Vanguardas culturais europeias. 
Modernismo em Portugal 24
Leitura da imagem ................................................................................................................ 24
Da imagem para o texto ............................................................................................... 24
Um agitado início de século na Europa ....................................................... 25
Vanguardas: ventos de inquietação 
e de mudança ............................................................................................................................................. 26
O projeto artístico das vanguardas europeias ............................. 26
Os agentes do discurso ............................................................................................................ 26
Cubismo ............................................................................................................................................................. 27
A multiplicação dos pontos de vista ..................................................................... 27
A literatura cubista .......................................................................................................................... 27
Futurismo ........................................................................................................................................................... 27
Uma literatura agressiva e provocadora ......................................................... 28
Expressionismo ....................................................................................................................................... 28
Literatura expressionista: a tradução das 
vivências humanas ........................................................................................................................... 28
Texto para análise .................................................................................................................. 28
Dadaísmo ............................................................................................................................................................ 29
Literatura: a negação de todos os princípios 
e relações ...................................................................................................................................................... 29
Surrealismo..................................................................................................................................................... 29
Literatura surrealista: dimensões oníricas ................................................. 30
A herança brasileira das vanguardas .............................................................. 30
Texto para análise .................................................................................................................. 30
O século XX chega a Portugal ....................................................................................... 31
Modernismo português: primeiros passos .......................................... 31
Nas páginas de Orpheu, o Modernismo 
português toma forma ............................................................................................................... 31
Almada Negreiros: a ira contra a 
estagnação portuguesa .......................................................................................................... 32
Mário de Sá-Carneiro e a fragmentação do “eu” ........................ 32
Fernando Pessoa: o poeta de muitas faces ....................................... 33
A poesia ortônima.............................................................................................................................. 33
A poesia heterônima ...................................................................................................................... 34
Texto para análise .................................................................................................................. 37
Os anos sombrios da ditadura em Portugal ....................................... 38
O “interregno” ............................................................................................................................................. 38
Florbela Espanca, “a charneca rude a abrir em flor” ..................... 38
Aquilino Ribeiro: a importância das tradições ........................................ 39
Presencismo: os escritores ensimesmados ..................................... 39
O Neorrealismo português ................................................................................................. 39
Alves Redol e os trabalhadores da terra ......................................................... 40
Texto para análise .................................................................................................................. 41
 Diálogos literários: presente e passado ................................. 42
Capítulo 3
Modernismo no Brasil. Primeira 
geração: ousadia e inovação 44
Leitura da imagem ................................................................................................................ 44
Da imagem para o texto ............................................................................................... 45
A República Velha chega ao fim ................................................................................. 46
São Paulo: riqueza e industrialização................................................................... 46
A polêmica exposição de Anita Malfatti........................................................... 46
Semana de Arte Moderna: três noites 
que fizeram história ........................................................................................................................ 47
Vaias, relinchos e miados: o espanto do público ................................ 47
O projeto literário da primeira geração 
modernista ...................................................................................................................................................... 48
Os agentes dodiscurso ............................................................................................................ 48
Manifestos: proposição de novos caminhos estéticos............ 48
Adeus às fórmulas literárias ............................................................................................. 49
Linguagem: o português brasileiro .......................................................................... 49
Texto para análise .................................................................................................................. 49
Oswald de Andrade: irreverência e crítica ............................................. 51
A poesia ............................................................................................................................................................. 51
A prosa ............................................................................................................................................................. 51
Texto para análise .................................................................................................................. 52
Mário de Andrade: a descoberta 
do Brasil brasileiro ............................................................................................................................. 52
Poesia: a liberdade formal e as longas meditações ...................... 53
Amar, verbo intransitivo: o impiedoso retrato 
da aristocracia paulistana.................................................................................................... 53
Macunaíma: a redefinição do herói nacional............................................. 53
Texto para análise .................................................................................................................. 54
Manuel Bandeira: olhar terno para o cotidiano ............................ 55
A poesia da mais simples ternura ............................................................................. 55
Alcântara Machado: os italianos em São Paulo ........................... 56
Texto para análise .................................................................................................................. 57
 Diálogos literários: presente e passado ................................. 58
Capítulo 4 
Segunda geração: misticismo e 
consciência social 60
Leitura da imagem ................................................................................................................ 60
Da imagem para o texto ............................................................................................... 61
Um mundo às avessas: guerra e autoritarismo .............................. 62
Segunda geração modernista: 
a consolidação de uma estética ............................................................................. 62
O projeto literário da poesia da 
segunda geração modernista ...................................................................................... 63
Os agentes do discurso ............................................................................................................ 63
Linguagem: tendências diversas ................................................................................ 63
Carlos Drummond de Andrade: poeta 
do finito e da matéria................................................................................................................... 64
“Mundo mundo vasto mundo” ......................................................................................... 64
Família e origens: a viagem na memória ......................................................... 64
“O tempo é a minha matéria” ............................................................................................ 65
O exercício incansável da reflexão ........................................................................... 65
Fazer poético: ação e transformação .................................................................. 66
A “concha vazia” do amor ....................................................................................................... 66
Texto para análise .................................................................................................................. 67
Cecília Meireles: a vida efêmera e transitória ................................ 68
Vinicius de Moraes: o cantor do amor maior .................................... 68
Texto para análise .................................................................................................................. 69
Murilo Mendes: o católico visionário ............................................................... 70
Jorge de Lima: o católico engajado .................................................................... 70
Texto para análise .................................................................................................................. 71
 Diálogos literários: presente e passado ................................. 72
Capítulo 5 
O romance de 1930 74
Leitura da imagem ................................................................................................................ 74
Da imagem para o texto ............................................................................................... 74
A retomada de um olhar realista ............................................................................. 75
O projeto literário do romance de 1930 ..................................................... 75
Os agentes do discurso ............................................................................................................ 76
Linguagem: a “cor local” ........................................................................................................... 76
Graciliano Ramos: mestre das palavras secas ............................. 77
A linguagem constrói o olhar realista ................................................................. 77
São Bernardo: retrato da destruição individual .................................... 78
Vidas secas: a desumanização provocada pelo meio ...................... 79
Texto para análise .................................................................................................................. 80
José Lins do Rego: lembranças de um 
menino de engenho ......................................................................................................................... 80
Texto para análise .................................................................................................................. 81
Rachel de Queiroz: um olhar feminino 
para o sertão ............................................................................................................................................... 82
A seca como motivo literário ............................................................................................ 82
Jorge Amado: retrato da diversidade 
econômica e cultural ..................................................................................................................... 83
Retratos da Bahia .............................................................................................................................. 83
Texto para análise .................................................................................................................. 83
Erico Verissimo: o intérprete dos gaúchos ........................................... 84
O tempo e o vento: entre o mítico, o histórico 
e o social ......................................................................................................................................................... 84
Dyonelio Machado: as angústias do 
homem comum ........................................................................................................................................ 85
Texto para análise .................................................................................................................. 85
Enem e vestibulares.................................................................................................................... 86
 Jogo de ideias: apresentação oral e 
leitura dramatizada ........................................................................................................... 88
Unidade 2 O PÓS-MODERNISMO
 Diálogos literários: presente e passado ............................... 90
Capítulo 6 
A geração de 1945 e o Concretismo 92
Leitura da imagem ................................................................................................................ 92
Da imagem para o texto ............................................................................................... 93
O mundo após a bomba: indagações e impasses ....................... 93
Pós-Modernismo: a arte procura novos rumos ..................................... 94
A poesia em busca de um caminho .................................................................... 94
O projeto literário da poesia de 1945 ............................................................. 94
Os agentes do discurso ............................................................................................................ 95
Linguagem: o desdobramento dos sentidos ............................................ 95
João Cabral: a “máquina” do poema .................................................................. 96
Morte e vida severina: recriação do
nascimento de Cristo ................................................................................................................... 96
Texto para análise .................................................................................................................. 97
O Concretismo ........................................................................................................................................... 99
Os três cavaleiros do Concretismo ......................................................................... 99
Desdobramentos do Concretismo............................................................................ 100
Ferreira Gullar: a poesia engajada ........................................................................ 101
Texto para análise .................................................................................................................. 103
 Diálogos literários: presente e passado ................................. 104
Capítulo 7 
A prosa pós-moderna 106
Leitura da imagem ................................................................................................................ 106
Da imagem para o texto ............................................................................................... 107
A reinvenção da narrativa ..................................................................................................... 108
O projeto literário da prosa pós-moderna .............................................. 109
Os agentes do discurso ............................................................................................................ 109
Linguagem: experimentalismo criador .............................................................. 110
Guimarães Rosa: o descobridor 
do sertão universal ........................................................................................................................... 110
As narrativas curtas: contos e novelas............................................................. 111
Grande sertão: veredas e os avessos do homem ............................... 111
Texto para análise .................................................................................................................. 112
Clarice Lispector: a busca incansável
da identidade .............................................................................................................................................. 113
A descoberta do “eu” .................................................................................................................... 113
Uma estrutura recorrente ..................................................................................................... 114
Texto para análise .................................................................................................................. 114
 Diálogos literários: presente e passado ................................. 116
Capítulo 8 
Tendências contemporâneas. 
O teatro no século XX 118
Leitura da imagem ................................................................................................................ 119
Da imagem para o texto ............................................................................................... 119
Os extremos do século XX ................................................................................................... 120
A literatura do mundo contemporâneo: 
um espelho fragmentado...................................................................................................... 121
Marcas da produção pós-moderna ......................................................................... 122
A ficção contemporânea em Portugal ........................................................... 122
Lobo Antunes e as marcas indeléveis da guerra ................................ 122
Saramago: o olhar do presente analisa o passado ......................... 123
O “tsunami linguístico” de Valter Hugo Mãe ............................................... 124
Os rumos da prosa brasileira contemporânea .............................. 124
O conto ............................................................................................................................................................. 124
A crônica .......................................................................................................................................................... 125
O romance ..................................................................................................................................................... 126
Texto para análise .................................................................................................................. 127
O novo lirismo português ...................................................................................................... 129
Sophia de Mello: a essência revelada ................................................................. 129
Gonçalo Tavares: uma voz para o século XXI ............................................ 129
Lirismo e experimentação na poesia 
brasileira contemporânea ................................................................................................... 129
Tropicália: “seja marginal, seja herói” .................................................................. 130
A poesia marginal ............................................................................................................................... 130
A reinvenção da linguagem e o cotidiano 
redescoberto ............................................................................................................................................ 131
Texto para análise .................................................................................................................. 131
Panorama do teatro brasileiro no século XX ..................................... 132
Nelson Rodrigues: um revolucionário................................................................... 132
Jorge Andrade e o Brasil rural ......................................................................................... 132
Os conflitos urbanos chegam ao palco ............................................................ 133
As comédias de costumes voltam à cena .................................................... 133
Texto para análise .................................................................................................................. 134
Enem e vestibulares ....................................................................................................................135
 Jogo de ideias: blog literário ............................................................................ 136
Seção especial LITERATURA AFRICANA
A poesia africana de língua portuguesa .................................................... 138
A África que fala português ................................................................................................ 140
Minha língua é minha pátria? .............................................................................. 141
O caminho da poesia ..................................................................................................................... 142
Cabo Verde: olhos voltados para a imensidão 
do mar ...................................................................................................................................................... 143
São Tomé e Príncipe: o drama da cor no 
espaço insular ............................................................................................................................. 146
Angola: a mágoa antiga e o caminho das estrelas .................. 149
Moçambique: versos à beira do Índico .................................................. 152
Guiné-Bissau: a fome e a miséria como 
complementos ............................................................................................................................ 155
Texto para análise .................................................................................................................. 157
A narrativa africana de língua portuguesa ........................................... 160
A África que conta histórias ............................................................................................... 162
Tradição oral, ficção escrita: encontros necessários ................. 162
Escritores angolanos: engajamento político e 
criação literária ..................................................................................................................................... 163
A ficção a serviço da História ............................................................................... 163
Luandino Vieira: o peso político da palavra ...................................... 164
Pepetela: o contador de histórias ancestrais ............................. 166
Agualusa: o esfumaçamento 
das fronteiras geográficas....................................................................................... 168
Ondjaki: a vida que segue ........................................................................................... 170
Moçambique: um escritor revela seu país ............................................ 171
Mia Couto: o transcriador de palavras e histórias .............................. 172
As muitas belezas de um país destruído ....................................................... 172
Texto para análise .................................................................................................................. 175
GRAMÁTICA 
Unidade 3 SINTAXE DO PERÍODO COMPOSTO
Capítulo 9 
O estudo do período composto 178
A articulação das orações ................................................................................................... 178
Período composto por coordenação .................................................................... 179
Período composto por subordinação................................................................... 181
Período composto por coordenação 
e subordinação ...................................................................................................................................... 182
Atividades ........................................................................................................................................... 182
 Usos do período composto ........................................................................... 184
Capítulo 10 
Período composto por coordenação 186
As orações coordenadas ....................................................................................................... 186
Orações coordenadas assindéticas ...................................................................... 187
Orações coordenadas sindéticas .............................................................................. 187
Relações coesivas ............................................................................................................................. 191
Atividades ......................................................................................................................................... 191
Capítulo 11 
Período composto por subordinação I 193
As orações que equivalem a substantivos ........................................... 193
Orações subordinadas substantivas subjetivas................................. 194
Orações subordinadas substantivas 
objetivas diretas.................................................................................................................................. 195
Orações subordinadas substantivas 
objetivas indiretas ............................................................................................................................. 196
Orações subordinadas substantivas 
completivas nominais ................................................................................................................. 197
Orações subordinadas substantivas predicativas .......................... 198
Orações subordinadas substantivas apositivas................................. 198
Orações reduzidas ............................................................................................................................ 199
Atividades ........................................................................................................................................... 201
Capítulo 12 
Período composto por subordinação II 203
As orações que equivalem a adjetivos ......................................................... 203
Orações subordinadas adjetivas restritivas ............................................. 204
Orações subordinadas adjetivas explicativas ........................................ 205
Atividades ........................................................................................................................................... 207
As orações que equivalem a advérbios ....................................................... 209
Orações subordinadas adverbiais causais .................................................. 210
Orações subordinadas adverbiais consecutivas ................................ 211
Orações subordinadas adverbiais condicionais .................................. 212
Orações subordinadas adverbiais concessivas ................................... 213
Orações subordinadas adverbiais comparativas ............................... 213
Orações subordinadas adverbiais conformativas ............................ 214
Orações subordinadas adverbiais finais ......................................................... 215
Orações subordinadas adverbiais proporcionais .............................. 215
Orações subordinadas adverbiais temporais .......................................... 216
Atividades ........................................................................................................................................... 219
Enem e vestibulares .................................................................................................................... 221
 Usos das orações subordinadas adverbiais 
consecutivas ................................................................................................................................. 221
Unidade 4
ARTICULAÇÃO DOS 
TERMOS NA ORAÇÃO
Capítulo 13 
Concordância e regência 224
Concordância nominal e verbal .................................................................................. 224
Concordância nominal ................................................................................................................ 225
Concordânciaverbal ...................................................................................................................... 231
Concordância ideológica ......................................................................................................... 242
Atividades ........................................................................................................................................... 244
Regência nominal e verbal .................................................................................................. 247
Regência nominal ............................................................................................................................... 248
Regência verbal..................................................................................................................................... 250
Atividades ........................................................................................................................................... 253
Capítulo 14 
Colocação pronominal 255
Os pronomes oblíquos átonos ..................................................................................... 255
As posições ocupadas pelos pronomes 
oblíquos átonos .................................................................................................................................... 256
Atividades ........................................................................................................................................... 258
 Enem e vestibulares .................................................................................................................... 260
Unidade 5 ASPECTOS DA CONVENÇÃO ESCRITA
Capítulo 15 
A crase e seu uso 262
Crase .......................................................................................................................................................................... 262
Regras para o uso do sinal indicativo de crase .................................... 264
Casos em que o sinal de crase não deve 
ser utilizado ................................................................................................................................................ 266
Atividades ........................................................................................................................................... 267
Capítulo 16 
Pontuação 269
A pontuação no português ................................................................................................. 269
Os sinais de pontuação ............................................................................................................. 270
Atividades ........................................................................................................................................... 277
Enem e vestibulares .................................................................................................................... 279
 Usos da pontuação ........................................................................................................... 280
PRODUÇÃO DE TEXTO 
Unidade 6 NARRAÇÃO E DESCRIÇÃO
Capítulo 17 
Conto 282
282
Análise 283
284
284
Estrutura 285
Linguagem 291
 A concisão narrativa: produção de 
conto de mistério 292
Unidade 7 EXPOSIÇÃO
Capítulo 18 
Relatório 294
294
Análise 296
Estrutura 298
Linguagem 299
Apresentação de resultados: produção 
de um relatório 299
Unidade 8 ARGUMENTAÇÃO
Tipos de argumento 304
Capítulo 19 
Textos publicitários 307
Análise 308
308
310
Estrutura 311
Linguagem 313
A arte de persuadir: produção de anúncio 315
Capítulo 20 
Resenha 319
319
Análise 319
320
320
Estrutura 321
Linguagem 322
Análise crítica: produção de resenha 324
Unidade 9
EXPOSIÇÃO E ARGUMENTAÇÃO 
NO ENEM E NOS VESTIBULARES
Capítulo 21 
Texto dissertativo-argumentativo I 326
326
Análise 326
Estrutura
Linguagem 328
Exposição de um ponto de vista: produção 
de texto dissertativo-argumentativo 329
Capítulo 22 
Texto dissertativo-argumentativo II: 
elaboração de um projeto 332
332
Análise 333
Exposição de um ponto de vista: produção de 
texto dissertativo-argumentativo 336
Seção especial: A introdução e a conclusão 339
Enem e vestibulares 344
Bibliografia 347
UNIDADE
LITERATURA
1
Capítulos
Capítulos
 1. Pré-Modernismo, 12
 2. Vanguardas culturais europeias. 
Modernismo em Portugal, 24
 3. Modernismo no Brasil. Primeira geração: 
ousadia e inovação, 44
 4. Segunda geração: misticismo e 
consciência social, 60
 5. O romance de 1930, 74
 
BRAQUE, G. Violino e jarro. 
1909-1910. Óleo sobre 
tela, 117 � 73,5 cm. ©
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O Modernismo
O Modernismo representou uma ruptura profunda 
com os padrões artísticos que vigoraram até o final 
do século XIX. Inspirado pelas vanguardas que 
irromperam no cenário europeu no início do século XX, 
o Modernismo no Brasil inovou os temas e a linguagem 
das obras ao mesmo tempo em que afirmou nossa 
identidade. Sem idealizações, valorizou nossa cultura e 
denunciou nossas mazelas de modo contundente. 
Em suas diversas gerações, o Modernismo criou 
novas perguntas e novas respostas para as grandes 
questões humanas. E produziu algumas das melhores 
obras da literatura em língua portuguesa. Acompanhe 
esse movimento nesta unidade. 
Diálogos literários: presente e passado
A reflexão crítica sobre o Brasil é uma questão de permanente interesse. Na produção literária 
contemporânea, textos de diversos autores revelam um olhar cortante sobre nossa realidade e levam 
os leitores a perceber os contrastes que marcam o país e sua sociedade.
Como você viu ao estudar a obra de Machado de Assis, a preocupação em apresentar um olhar 
crítico para a realidade brasileira surgiu no século XIX, durante o Realismo e o Naturalismo. Aluísio 
Azevedo foi outro autor que, em obras como O mulato, expôs a mentalidade provinciana e preconcei-
tuosa da sociedade do período. 
No próximo capítulo, você verá como essa preocupação literária com o país se intensifica nas obras 
de autores pré-modernistas, que, vivendo no conturbado momento inicial da República, se esforçam 
por desnudar a dimensão real dos problemas do Brasil e do seu povo. 
Algumas décadas mais tarde, o desejo de retratar a alma verdadeiramente nacional é revisitado 
pela primeira geração modernista, em textos marcados pela consciência crítica e bem-humorada do 
nosso passado colonial, retratado em especial por Oswald de Andrade. Já os romancistas da década 
de 1930 privilegiam as questões relacionadas ao Nordeste do país, maltratado pela seca e pela mi-
séria de seus habitantes.
Antes, porém, de conhecer a diversidade da produção pré-modernista e a imagem de Brasil revelada 
nas obras dos autores desse período, veja algumas das abordagens contemporâneas das diferenças 
que marcam o nosso país. 
Affonso Romano de Sant’Anna e o questionamento da pátria
Que país é este?
1
 Uma coisa é um país,
 outra um ajuntamento.
 Uma coisa é um país,
 outra um regimento.
 Uma coisa é um país,
 outra o confi namento.
 [...]
 Uma coisa é um país,
 outra um fi ngimento.
 Uma coisa é um país,
 outra um monumento.
 Uma coisa é um país,
 outra o aviltamento.
[...]
2
[...]
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
 não somos nada violentos,
 quem espera sempre alcança
 e quem não chora não mama
 ou quem tem padrinho vivo 
 não morre nunca pagão.
Há 500 anos propalamos:
 este é o país do futuro,
 antes tarde do que nunca,
 mais vale quem deus ajuda
 e a Europa ainda se curva.
[...]
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poesia 
contemporânea. Cadernos de Poesia Brasileira. 
São Paulo: Instituto Cultural Itaú,
 1997. p. 22-23. (Fragmento). 
Aviltamento: desvalorização, humilhação. 
Propalamos: divulgamos, propagamos.
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Sem saber de nada me torno anacoluto insistente,
indigente nas metáforas de tua língua vulgar 
que não se comprometeu
pois a minha palavra — inaugurada na boca do
 [homem,
 a dama maior do artifício social —
perdeu a voz
Voz sem ouvido é mero sopro sem fonemas
É voz morta enterrada na garganta
E a palavra vida, muda no mundo legal, me faz
 [o teu marginal.
LINS, Paulo. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 
Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro:
 Aeroplano, 1998. p. 256-257. (Fragmento).
Paulo Lins e o olhar do marginalizado 
para o Brasil
Fui feto feio feito no ventre-brasil
estou pronto para matar
já que sempre estive para morrer
Sou eu o bicho iluminado apenas
pela luz das ruas
que rouba para matar o que sou
e mato para roubar o que quero
Já que nasci feio, sou temido
Já que nasci pobre, quero ser rico
e assim o meu corpo oculta outros
que ao me verem se despiram da voz
Voz indo até o grito
Grito e tiro disputando intensidade
[...]
Sou eu assim herói do nada
De vez em quando revelo o vazio
de ser irmão de tudo e todos contra mim
Sou eu a bomba que cresceu
na fl or do cerne da miséria,
entre becos e vielas
onde sempre uma loucura está para acontecer
Sou teu inimigo
Coração de bandido é batido na sola do pé
Enquanto eu estiver vivo,
todos estão para morrer
Sou eu que roubo o teu amanhecer
por um cordão
por um tostão
por um não
Meço-me e me arremesso na vida
lançando-me em posição mortal
Prefi ro morrer na fl or da mocidade
do que no caroço da velhice
Junte-se a seus colegas e releia os textos desta seção. Analise quem são as persona-
gens que aparecem neles e qual a situação em que se encontram. Em seguida, faça uma 
pesquisa de imagens que possam ilustrar um dos poemas — elas podem retratar as per-
sonagens ou as situações identificadas por vocês. Para finalizar, apresentem os poemas 
ilustrados para a classe, justificando oralmente a escolha das imagens.
A nostalgia crítica de Bernardo Vilhena
À sombra de um pé de Pau-Brasil
Acredito no balanço das árvores
que se não induzem, sugerem
leve origem dos ventos
a encher de sons o ar
soprado de respostas às vezes esquecidas
varrendo as mentiras pregadas
em nome da evolução e do progresso
à sombra
à sombra de um pé de Pau-Brasil
VILHENA, Bernardo. In: HOLLANDA, Heloísa 
Buarque de (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: 
Aeroplano, 2007. p. 239. 
Pare e pense
Cerne: âmago, centro. 
Vielas: ruas estreitas, travessas. 
Anacoluto: figura de linguagem em que, numa mesma frase, 
ocorrem duas construções sintáticas distintas em que a primeira é 
abandonada, ficando incompleta; por extensão, frase quebrada. 
O exercício proposto nesta seção é identificar a crítica social presente nos textos, reconhecendo as situações apresentadas (de opressão 
ou de marginalização social) e seus protagonistas (indivíduos abandonados ou excluídos da sociedade). Após a leitura e a discussão em 
grupos, os alunos devem escolher um dos poemas e pesquisar imagens que possam ilustrá-lo, apresentando posteriormente a justifi-
cativa para a seleção feita. Seria interessante, na discussão, mencionar aos alunos o livro Quarto de despejo (apresentado no boxe De 
olho no livro, no Capítulo 9 do volume 2 — Naturalismo), de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel que relata seu cotidiano 
de forma pungente. Além disso, várias letras de rap também fazem a abordagem da opressão sob o ponto de vista dos oprimidos. Um 
levantamento dessa natureza ajuda a mostrar aos alunos a forte presença da tradição abordada na seção.
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Capítulo
Pré-Modernismo
BARROS, Flávio 
de. Prisão de 
jagunços pela 
cavalaria. 
1897. Foto em 
preto e branco 
feita durante 
a guerra de 
Canudos.
Leitura da imagem Da imagem para o texto
4. Leia um trecho de Os sertões, de Euclides da Cunha.
Na descrição da vila de Canudos e dos sertanejos que 
para lá se dirigiam, o leitor toma conhecimento de um dos 
fatores determinantes do conflito: a vida de sofrimento 
e privações no interior do sertão brasileiro.
Aspecto original
A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinis-
tra do erro. O povoado surgia, dentro de algumas semanas, 
já feito em ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado 
pelos cômoros, atulhando as canhadas cobrindo área enor-
me, truncado nas quebradas, revolto nos pendores — tinha 
o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo houvesse sido 
sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto. [...]
Feitas de pau a pique e divididas em três comparti-
mentos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da 
antiga morada romana: um vestíbulo exíguo, um atrium 
servindo ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar 
1. Observe a fotografia da abertura. Que situação parece 
ser retratada na imagem? Justifique.
2. Essa foto, intitulada Prisão de jagunços pela cavalaria, foi 
feita por Flávio de Barros em 1897, durante a guerra de 
Canudos, conflito que opôs os seguidores do beato An-
tônio Conselheiro e as tropas do Governo federal.
a) O que a aparência das pessoas sugere sobre sua con-
dição socioeconômica?
b) É possível identificar uma diferença significativa entre 
os jagunços e os membros da cavalaria? Explique.
3. Como fotógrafo encarregado de exaltar os feitos do exér-
cito brasileiro na guerra de Canudos, Flávio de Barros 
recorreu, em alguns casos, a “encenações” que retra-
tassem o embate entre soldados e jagunços, já que não 
havia condições reais para fotografar esses momentos. 
Acredita-se que a foto Prisão de jagunços pela cavalaria 
seja uma das simulações criadas por Flávio de Barros. 
Qual pode ter sido a intenção do fotógrafo ao criar essa 
encenação?
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Sugerimos que todas as questões sejam 
respondidas oralmente para que os alu-
nos possam trocar impressões e ideias.
Informe aos alunos que, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, Euclides 
da Cunha cobriu o conflito de Canudos, registrando os embates entre conselheiristas 
Discutir com os alunos o sentido de urbs e civitas no texto transcrito. Esse trecho é usado pelo narrador para caracterizar a precariedade das casas 
do povoado de Canudos, encaminhando à conclusão de que elas traduziam “mais do que a miséria do homem, a decrepitude da raça”. Nesse 
sentido, a primeira afirmação do texto ganha a dimensão de uma tese que será demonstrada por meio da descrição do povoado. Se a cidade (urbs) 
é monstruosa, a civilização (civitas) que se ergue em Canudos tem a dimensão sinistra do erro: ao acreditarem na salvação prometida por Antônio 
Conselheiro, os milhares de miseráveis que o seguem perpetuam sua condição, já que o povoado não garante uma qualidade mínima de vida.
e tropas republicanas.
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e de recepção; e uma alcova lateral, furna escuríssima 
mal revelada por uma porta estreita e baixa. [...] Traíam 
a fase transitória entre a caverna primitiva e a casa. [...] 
O mesmo desconforto e, sobretudo, a mesma pobreza 
repugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a 
miséria do homem, a decrepitude da raça. [...]
[...] Vinham [as caravanas de fiéis] de todos os pontos, 
carregando os haveres todos; e, transpostas as últimas 
voltas do caminho, quando divisavam o campanário 
humilde da antiga Capela, caíam genuflexos sobre o 
chão aspérrimo. Estava atingido o termo da romagem. 
Estavam salvos da pavorosa hecatombe, que vaticinavam 
as profecias do evangelizador. Pisavam, afinal, a terra da 
promissão — Canaã sagrada, que o Bom Jesus isolara do 
resto do mundo por uma cintura de serras...
Chegavam, estropeados da jornada longa, mas felizes. [...]
CUNHA, Euclides da. Os sertões. In: Obra completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. v. 2, p.227-232. (Fragmento).
> Como é descrito o povoado que está sendo construído 
pelos seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos?
5. Releia este trecho, observando os adjetivos destacados.
“Feitas de pau a pique e divididas em três compartimen-
tos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da antiga 
morada romana: um vestíbulo exíguo, um atrium servindo 
ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar e de recepção; 
e uma alcova lateral, furna escuríssima mal revelada por 
uma porta estreita e baixa. [...] Traíam a fase transitória 
entre a caverna primitiva e a casa.” 
a) O que os adjetivos sugerem a respeito das casas de 
Canudos?
b) No fim desse parágrafo, o narrador conclui que aquelas 
casas traduziam “mais do que a miséria do homem, 
a decrepitude da raça”. Que relação há entre essa 
conclusão e a comparação entre as casas romanas e 
as habitações dos fiéis?
6. Depois de descrever o povoado, o narrador volta-se para 
as pessoas. Que motivação elas tinham para ir até o 
povoado e ali ficar?
a) No caderno, transcreva o trecho que comprove sua 
resposta.
b) “Vinham de todos os pontos, carregando os haveres 
todos.” Essa frase oferece uma importante pista sobre 
a condição social dos fiéis que mudam para Canudos. 
Que condição é essa? Justifique com base no trecho.
7. Que explicação o texto dá para o fato de, mesmo che-
gando “estropeados”, os romeiros estarem felizes?
Urbs: em latim, cidade, capital.
Civitas: em latim, cidade, conjunto de cidades, raiz de civilização. O 
termo é usado, no trecho, com o sentido de civilização.
Cômoros: pequenas elevações de terreno.
Canhadas: planícies entre montanhas.
Pendores: rampas (declive ou aclive).
Atrium: em latim, átrio, sala principal.
Genuflexos: ajoelhados.
Termo da romagem: fim da romaria.
Hecatombe: destruição, desgraça. No contexto da pregação de 
Antônio Conselheiro, refere-se ao momento do Juízo Final, quando 
todos os fiéis serão julgados por Deus.
Canaã: na Bíblia, é a terra prometida ao povo escolhido por Deus. 
Lugar de fartura e felicidade terrenas.
O Brasil republicano: 
conflitos e contrastes
A Proclamação da República, em 1889, não representou 
uma mudança muito grande no cenário econômico brasileiro. 
A situação das famílias que viviam no campo, dois terços 
da população do país, continuava sendo determinada pelos 
grandes latifundiários, que controlavam extensas porções 
de terra tanto no litoral quanto no interior.
A reforma das cidades
Com a República, os principais centros políticos passaram 
por uma transformação do espaço urbano que desencadeou 
um processo de “europeização” do país. Cidades como Rio de 
Janeiro, São Paulo, Manaus e Belém foram as mais afetadas 
pelo que ficou conhecido, na época, como bota-abaixo: a 
abertura de largas avenidas e a imitação de prédios euro-
peus, para eliminar os traços da arquitetura portuguesa que 
orientara a construção dessas cidades.
Uma consequência imediata da reurbanização das gran-
des cidades foi o deslocamento de milhares de famílias 
pobres das áreas centrais, onde moravam em cortiços, para 
locais de difícil acesso. Nasciam, assim, as favelas, como um 
desdobramento negativo da tentativa de “embelezar” o país.
Se a reurbanização sugeria prosperidade, ela era apenas 
aparente. Nos centros urbanos, escravos libertos viviam em 
um estado de quase completo abandono. Não tinham acesso 
à educação e não eram mais empregados pelos proprietários 
rurais. Essa elite econômica preferia “importar” imigrantes 
europeus.
Os conflitos no Nordeste
A região Nordeste do país enfrentava o crônico proble-
ma da seca. Vivendo de modo precário, muitos aderiram à 
pregação messiânica de Antônio Conselheiro, o beato que 
profetizava a transformação do sertão em mar, anunciando 
a aproximação do dia do Juízo Final.
Instalado em uma velha fazenda no interior da Bahia, 
Conselheiro criou a comunidade de Belo Monte, para onde 
iam milhares de fiéis em busca da salvação. Logo o líder 
religioso se desentendeu com os poderes republicanos e 
os embates locais acabaram se transformando em um dos 
mais sangrentos confrontos internos do Brasil: a guerra 
de Canudos, que durou quase um ano (de novembro de 
1896 a outubro de 1897). Estima-se que o conflito tenha 
dizimado cerca de 25 mil brasileiros, entre soldados e 
conselheiristas.
Aqueles que não sentiam o chamado da religião aten-
diam a um outro apelo: o do cangaço. O sertão nordes-
A divisão do país em regiões foi estabelecida somente a partir da década de 1940. Portanto, o uso do termo 
“Nordeste” é apenas um recurso para que possamos localizar a região, utilizando uma referência atual.
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LITERATURA
Como não existe um critério estético para definir a pro-
dução pré-modernista, adota-se um princípio cronológico. 
Por isso, é considerada pré-modernista a literatura produzi-
da entre 1902, ano da publicação do romance Os sertões, e 
1922, ano da realização da Semana de Arte Moderna, marco 
da chegada do Modernismo.
Tome nota
tino virou palco para batalhas entre a polícia e grupos 
de cangaceiros, que exigiam dos principais coronéis o 
pagamento de “taxas” de proteção para suas fazendas. 
O mais famoso líder do cangaço foi Virgulino Ferreira da 
Silva, o Lampião. Havia, além de seu bando, alguns outros 
de menor porte e fama.
A riqueza da borracha e do café
A Amazônia vivia, nesse momento, a fase áurea da extra-
ção da borracha. Com a riqueza que ela gerava, cidades como 
Manaus e Belém prosperaram. Tornaram-se importantes 
centros culturais. 
São Paulo também passava por um momento de expansão 
econômica graças à cultura do café, que acelerou o processo 
de urbanização e de industrialização. A cidade atraía muitos 
brasileiros esperançosos de conseguir um trabalho estável 
e mais bem remunerado.
Olhar para o Brasil, nesse momento, significa ver um país 
multifacetado, onde pequenas zonas de prosperidade e rique-
za convivem com vastas extensões marcadas pela pobreza. 
O desafio da literatura será representar esses contrastes.
O Pré-Modernismo: autores 
em busca de um país
As grandes mudanças políticas, sociais e econômicas não 
deixavam mais espaço para a idealização. Era o momento de 
buscar um conhecimento mais real e profundo das condições 
de vida que podiam ser observadas em um país tão grande. Por 
isso, o foco da produção literária se fragmenta e os autores 
escrevem sobre as diferentes regiões, os centros urbanos, 
os funcionários públicos, os sertanejos, os caboclos e os 
imigrantes.
Tudo era motivo de interesse para escritores como Eucli-
des da Cunha, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Graça Aranha 
e Augusto dos Anjos.
Essa multiplicidade de focos e de interesses torna impos-
sível tratar o Pré-Modernismo como uma escola literária. Se 
essa semelhança agrupa diferentes autores, o mesmo não 
se pode dizer das características estéticas dos romances 
e poemas que escrevem. Por essa razão, o Pré-Modernismo 
é considerado um período de transição: conserva algumas 
tendências das estéticas da segunda metade do século XIX 
(Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo), ao 
mesmo tempo que antecipa outras, que serão aprofundadas 
durante o Modernismo.
O projeto literário do 
Pré-Modernismo
Pode parecer estranho falar de um projeto “literário” se não 
é possível definir uma estética pré-modernista. Mas, como o 
conceito de projeto se define, entre outros critérios, pelas in-
tenções que agrupam os vários escritores de um determinado 
período, pode-se reconhecer, no Pré-Modernismo, um projeto: 
o desejo de revelar o “verdadeiro” Brasil para os brasileiros.
A primeira condição para a realização desse projeto era 
desviar o olhar das classes sociais mais privilegiadas. Perso-
nagens que ainda não haviam aparecido na literatura, como 
o pequeno funcionário público, o caboclo, os imigrantes, são 
elevados à condição de protagonistas dos romances do pe-
ríodo. Outros,como os sertanejos, que já tinham sido objeto 
da atenção dos romances regionalistas de José de Alencar e 
Franklin Távora, recebem um novo tratamento, mais objetivo 
e distanciado, bem diferente da idealização característica 
dos textos românticos.
Os agentes do discurso
As condições de produção da literatura, naquele momen-
to, são muito influenciadas pelo interesse da população dos 
grandes centros pelas notícias diárias. Euclides da Cunha e 
Monteiro Lobato, por exemplo, começam a escrever em jornais 
e falam sobre problemas nacionais. A cobertura jornalística 
dos conflitos entre os seguidores de Antônio Conselheiro e 
as tropas federais exemplifica bem esse interesse. 
As inovações tecnológicas contribuem para favorecer uma 
circulação mais rápida dos textos. O telégrafo, por exemplo, 
permitiu que os correspondentes enviados a Canudos atuas-
sem como testemunhas oculares do conflito, dando maior 
veracidade aos fatos notificados para os leitores distantes.
A fotografia também ajuda a estimular a busca pelo real. 
O exército brasileiro contrata o fotógrafo Flávio de Barros 
(autor da foto de abertura deste capítulo) para registrar o 
sucesso da campanha de Canudos. 
O Pré-Modernismo e o público
Em um contexto de circulação mais eficiente, é natural 
que o público busque, também nas obras literárias, narrati-
vas mais voltadas para acontecimentos históricos e atuais.
Essa expectativa é confirmada pelo imediato sucesso 
alcançado pelo livro Os sertões. Em pouco mais de dois 
meses, a primeira edição se esgota, rendendo considerável 
lucro ao autor. 
O que o sucesso dessa obra revela é a resposta imediata 
dos leitores brasileiros a uma literatura que mostrava agi-
lidade no trato com os acontecimentos contemporâneos. 
Outros escritores do período, como Monteiro Lobato e Lima 
Barreto, também verão suas obras serem bem recebidas pelo 
público. Era o sinal mais claro de que os leitores desejavam 
uma mudança de abordagem em relação aos idealizados 
romances do século XIX.
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Literatura e contexto histórico
 Analise as informações apresentadas no capítulo 
e discuta com seus colegas: quais acontecimen-
tos explicam o surgimento, na literatura, de 
obras que negarão a imagem de um Brasil sem 
problemas?
Linguagem: a agilidade jornalística
Como consequência natural da maior aproximação en-
tre literatura e rea lidade, a linguagem utilizada nos textos 
modifica-se, torna-se mais direta, mais objetiva, mais próxima 
da linguagem característica do texto jornalístico.
Do conjunto de romances e contos publicados na época, 
emergem as tendências que dentro de duas décadas serão 
agitadas como bandeiras pelos primeiros modernistas: a des-
mistificação do texto literário, a utilização de um português 
mais “brasileiro”, a crítica à realidade social e econômica 
contemporânea, enfim, a constituição de uma literatura que 
retrate verdadeiramente o Brasil.
A estrutura do livro
Para criar todo o embasamento científico necessário ao es-
tudo das condições que contribuíram para um conflito como o 
de Canudos, Euclides da Cunha dividiu sua obra em três partes.
A Terra (primeira parte): apresentação detalhada das 
características do sertão nordestino, com informa-
ções sobre o clima, a composição do solo, o relevo e 
a vegetação.
O Homem (segunda parte): retrato do sertanejo, em que 
o texto procura demonstrar o impacto do meio sobre as 
pessoas. O destaque fica para a apresentação de Antônio 
Conselheiro e sua transformação em líder messiânico.
A Luta (terceira parte): narração dos embates entre as 
tropas oficiais e os seguidores de Conselheiro. O livro 
termina com a descrição da queda do Arraial de Canudos 
e a destruição de todas as casas erguidas no local.
 Casa de pau a pique. Moradia típica do Arraial de Canudos. s. d.
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Euclides da Cunha: 
narrador da guerra 
do fim do mundo
Euclides da Cunha (1866-1909) foi o pioneiro entre os 
pré-modernistas na aproximação entre a literatura e a 
história. Quando publicou a recriação literária da guerra 
de Canudos, em 1902, fazia somente cinco anos que o 
sangrento conflito tinha acabado.
Os sertões: “a Bíblia da 
nacionalidade brasileira”
Os sertões é um livro de difícil classificação. A obra 
apresenta características de texto literário porque capta, 
em suas descrições, a sinceridade da alma simples e leal do 
sertanejo, pronto a seguir um líder e a morrer combatendo 
a seu lado; de tratado científico, porque analisa as carac-
terísticas do solo do sertão nordestino; de investigação 
socioantropológica, já que se preocupa em caracterizar 
minuciosamente o sertanejo ou explicar a gênese de An-
tônio Conselheiro como um líder messiânico; e de matéria 
jornalística, pois registra em detalhes as lutas entre as 
tropas oficiais e os revoltosos.
Embora essa mistura de estilos aponte para novas 
tendências literárias, o livro apresenta uma clara visão 
determinista, que o liga ao Naturalismo e à visão do ser hu-
mano como produto do meio em que vive. Euclides, porém, 
dá um tratamento regional ao determinismo, antecipando, 
em cerca de três décadas, marcas da prosa de ficção da 
segunda geração modernista: o romance regionalista, que 
será desenvolvido por mestres como Graciliano Ramos, José 
Américo de Almeida e Rachel de Queiroz, entre outros.
Linguagem: o barroco científico
O uso da linguagem define o estilo de Euclides da Cunha 
de modo muito particular entre os pré-modernistas. O em-
prego constante de expressões que sugerem um conflito 
interior que não pode ser solucionado fez com que os críticos 
reconhecessem a marca barroca do seu texto. 
III — O sertanejo
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raqui-
tismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, 
revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desem-
peno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, 
reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem 
firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a 
translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura 
normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe 
dá um caráter de humildade deprimente. […]
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de 
improviso. […] Basta o aparecimento de qualquer incidente 
Quando tratarmos da obra de Euclides da Cunha e de Augusto dos Anjos, destacaremos características específicas do trabalho 
que realizaram com a linguagem, porque as observações feitas aqui não refletem bem o estilo particular desses dois autores.
Foi o escritor Joaquim Nabuco quem definiu Os sertões como “a Bíblia da nacionalidade brasileira”. Chamar 
a atenção dos alunos para esse fato, porque ele mostra a importância que os autores do período davam para 
textos que, como a obra de Euclides, ajudassem a traçar um panorama mais próximo da realidade do Brasil. 15
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LITERATURA
De olho no livro
Na voz dos sobreviventes, Canudos renasce 
Quando o peruano Mario Vargas 
Llosa resolveu reescrever a história da 
guerra de Canudos, buscou os relatos, 
reais ou fictícios, preservados pela 
tradição oral. Percorrendo os cami-
nhos do interior da Bahia trilhados por 
Antônio Conselheiro, refez sua história 
dando destaque para o aspecto huma-
no e para as impressões que ficaram 
gravadas na memória do povo simples 
que, 82 anos após o conflito (Llosa 
percorreu o sertão baiano em 1979), 
mantinha vivo o mito do beato que veio 
para salvar os sertanejos.
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 Capa do livro A 
guerra do fimdo 
mundo, de Mario 
Vargas Llosa.
Literatura e contexto histórico
 Vocês se lembram de outro acontecimento 
mais recente da história do Brasil que tenha 
sido alvo de interpretações opostas? Qual? 
TEXTO PARA ANÁLISE
 Leia os textos a seguir para responder às ques-
tões de 1 a 4.
Dois olhares para o mesmo conflito
Os textos a seguir apresentam duas visões 
diferentes sobre a Guerra de Canudos.
Euclides da Cunha, no final de Os sertões, registrava:
[...] Canudos não se rendeu. Exemplo único em 
toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. 
Expugnado palmo a palmo, [...] caiu no dia 5, ao en-
tardecer, quando caíram os seus últimos defensores, 
que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, 
dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais 
rugiam raivosamente cinco mil soldados.
CUNHA, Euclides da. Os sertões. In: Obra completa. Rio de 
Janeiro: Nova Aguilar, 1995. v. 2, p. 513. (Fragmento).
Já Olavo Bilac, escrevendo sobre o mesmo episódio, 
comemorava:
Enfim, arrasada a cidadela maldita! Enfim, domina-
do o antro negro, cavado no centro do adusto sertão, 
onde o Profeta das longas barbas sujas concentrava 
sua força diabólica, feita de fé e de patifaria, alimen-
tada pela superstição e pela rapinagem! [...]
BILAC, Olavo. Cidadela maldita. In: Vossa insolência: crônicas. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 412. (Fragmento).
1. Que visão cada trecho manifesta sobre o episódio?
2. Transcreva no caderno as expressões utilizadas por 
Olavo Bilac em seu texto para caracterizar a vila de 
Canudos e Antônio Conselheiro. 
> Que juízo de valor está associado a elas? Explique. 
3. O que pode explicar duas visões tão diferentes a 
respeito de um mesmo acontecimento histórico?
4. Os dois textos citados circularam em jornais da 
época. Que repercussão a apresentação de duas 
visões tão distintas pode ter tido sobre os leitores 
da época? Os dois textos podem ter contribuído 
para a polarização de opiniões da população a 
respeito do conflito? Explique. 
exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O 
homem transfigura-se. Impertiga-se […] e da figura vulgar 
do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto 
dominador de um titã acobreado e potente, num desdobra-
mento surpreendente de força e agilidade extraordinárias. [...]
CUNHA, Euclides da. Os sertões. In: Obra completa. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 1995. v. 2, p. 179-180. (Fragmento).
Raquitismo: definhamento físico.
Neurastênicos: que sofrem de doença mental.
Desempeno: porte esbelto.
Fealdade: feiura.
Impertiga-se (variante de “empertigar-se”): aprumar-se, comportar-se 
de modo altivo, orgulhoso.
Tabaréu: caipira (regionalismo usado no fim do século XIX).
Canhestro: desajeitado.
Titã: na mitologia, cada um dos gigantes que quiseram escalar o céu 
para destronar Júpiter.
Nessa passagem, uma metáfora resume a ideia central 
de toda a caracterização feita: embora a aparência sugira 
fraqueza e cansaço, o sertanejo é um “titã acobreado”, que 
surpreende nas situações de emergência. A associação entre 
Hércules (herói da mitologia grega, homem de força extraor-
dinária, admirado) e Quasímodo (ser disforme, monstruoso, 
amedrontador) é um exemplo da busca por imagens que 
sintetizem o que é dito.
Para elaborar essas imagens, o narrador usa frequente-
mente características contraditórias, destacando o conflito 
percebido no espaço inclemente do sertão, na vida sofrida 
dos sertanejos, na resistência dos conselheiristas. Por essa 
razão, muitos outros exemplos de paradoxos e antíteses 
povoam o texto de Os sertões: paraíso tenebroso, tumulto 
sem ruídos, sol escuro, construtores de ruínas, etc. 
Também se destaca na construção da linguagem a busca 
da precisão científica e o desejo de garantir um realismo 
absoluto ao que é narrado. É a convivência de todas essas 
características que torna impossível definir Os sertões como 
um romance. O livro é isso e muito mais, o que explica a impor-
tância que tem, até hoje, no conjunto da literatura brasileira.
Lembrar aos alunos que Quasímodo é personagem do livro Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo. Vítima de uma monstruosa deformidade de nascença, 
foi criado na famosa catedral de Paris. Como seu destino é nunca ser feliz, jamais realizará sua paixão por Esmeralda. Morre depois de um ato heroico para 
salvar sua amada, condenada à forca por um crime que não cometeu.
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Lima Barreto: a vida nos 
subúrbios cariocas
Lima Barreto (1881-1922) sofreu o preconceito de uma 
sociedade que discriminava as pessoas com base na cor de 
sua pele. O escritor foi responsável por compor um retrato de 
partes dos centros urbanos ignorados pela elite cultural do 
país: os subúrbios cariocas. Era lá que vivia a pequena clas-
se média composta de funcionários públicos, professores, 
moças à espera de casamento e uma variedade de outras 
personagens que povoam a obra do autor. Dá assim voz a 
uma parcela da população que havia sido ignorada pelos 
principais escritores românticos e realistas. 
Os romances, contos e crônicas de Lima Barreto com-
põem um painel em que se desenham de forma mais clara 
os verdadeiros mecanismos de relacionamento social típicos 
do Brasil no início do século XX.
Isaías Caminha e Clara dos Anjos: 
a denúncia do preconceito
No primeiro romance publicado por Lima Barreto, Recorda-
ções do escrivão Isaías Caminha, já se pode identificar a denún-
cia do preconceito como uma das suas preocupações literárias. 
A leitura do livro deixa evidente seu caráter autobiográfi-
co: assim como Isaías, Lima Barreto sofreu o preconceito por 
ser mulato e, também como ele, conseguiu relativo sucesso 
com a carreira jornalística.
Em Clara dos Anjos, um romance inacabado, o preconceito 
racial retorna, enfocando agora uma moça que é seduzida por 
um tipo suburbano, Cassi Jones. Após relatar a humilhação da 
jovem pela família do rapaz que a desonrou, o narrador conclui:
[...] Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa 
cena que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é 
que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora 
preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres 
de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se 
convencer de que ela não era uma moça como as outras; era 
muito menos no conceito de todos. […]
[...] Ora, uma mulatinha, filha de um carteiro! O que era 
preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, 
revestir-se de vontade […], para se defender de Cassis e 
semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, 
por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e 
moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito 
geral e a covardia com que elas o admitiam…
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. In: VASCONCELLOS, Eliane (Org.). 
Prosa seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001. p. 748. (Fragmento).
O aspecto mais comovente da cena, além da desilusão 
sofrida pela jovem, é a constatação da impossibilidade de 
vencer uma sociedade acostumada a determinar o valor de 
uma pessoa pela cor de sua pele.
Policarpo Quaresma: 
um nacionalista quixotesco
O mais lido e conhecido romance de Lima Barreto é Triste 
fim de Policarpo Quaresma. O protagonista, Policarpo Quares-
ma, é um major que trabalha como subsecretário do Arsenal 
de Guerra. Sua cegueira, contudo, é a pátria. Estudioso das 
coisas do Brasil, tem uma biblioteca de clássicos sobre a 
fauna e a flora brasileira, conhece as obras completas dos 
grandes escritores nacionais, interessa-se pelas tradições 
e costumes do povo. Esse patriotismo desmedido é ridicu-
larizado por todos aqueles com quem convive, incapazes de 
perceber a pureza de seu idealismo.
[...] Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-
-guarani. Todas as manhãs, [...] estudava o jargão caboclo 
com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empre-
gados, amanuenses eescreventes, tendo notícia desse seu 
estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que 
em chamá-lo — Ubirajara. Certa vez, o escrevente Azevedo, 
ao assinar o ponto, distraído, sem reparar quem lhe estava 
às costas, disse em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje 
o Ubirajara está tardando?”.
[...] Sentindo que a alcunha lhe era dirigida, não perdeu a 
dignidade, não prorrompeu em doestos e insultos. Endireitou- 
-se, concertou o pince-nez, levantou o dedo indicador no ar 
e respondeu:
— Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridí-
culo aqueles que trabalham em silêncio, para a grandeza e a 
emancipação da Pátria. [...]
BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. 
In: VASCONCELLOS, Eliane (Org.). Prosa seleta. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001. p. 264-265. 
(Fragmento).
Amanuenses: funcionários públicos que cuidavam da 
correspondência, copiavam e registravam documentos.
Chocarreiro: zombeteiro.
Doestos: injúrias, acusações.
Através de Policarpo, Lima Barreto tematiza o embate 
entre o real e o ideal. Em Policarpo, o patriotismo é um 
ideal. Ele assume ares de visionário, louco, por não pensar 
em si, por não se interessar por sua carreira ou tentar obter 
qualquer tipo de vantagem pessoal. Seu único objetivo é o 
engrandecimento do Brasil. 
O “triste fim” de Policarpo é a perda de todos os ideais, 
quando percebe que dedicou sua vida a uma causa inútil.
A desilusão final de Policarpo é a desilusão de Lima 
Barreto, que morreu acreditando ser o dever dos escritores 
“deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina 
exterior dos gêneros e aproveitar de cada um deles o que 
puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar 
reformar certas usanças”. Por esse motivo, o novo Brasil que 
surgia nos textos pré-modernistas, marcado por grandes 
desigualdades sociais, não era um país que motivasse o 
orgulho dos leitores. Mas era um país real.
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LITERATURA
 Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, c. 1865. Foto de Georges 
Leuzinger. No romance de Lima Barreto, após ter participado 
da Revolta da Armada, Policarpo Quaresma é transferido 
como carcereiro para o presídio da ilha, onde depois acaba 
preso, acusado injustamente de traição à pátria.
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 Ferazes: férteis.
Monteiro Lobato: a decadência do café
Monteiro Lobato (1882-1948) começou a sua carreira literária por acaso. Tendo vivido no interior, 
pôde observar as dificuldades e os vícios característicos da vida rural. Suas observações dão origem 
a uma longa carta, enviada para o jornal O Estado de S. Paulo. A carta funciona como uma denúncia e 
chama a atenção das pessoas para um problema que, como tantos outros, era desconhecido por não 
fazer parte do Brasil “oficial”.
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A afilhada
Acusado de traição, Policarpo Quaresma espera pela 
morte e reflete com amargura sobre o nacionalismo 
ingênuo que o impediu de ver o verdadeiro 
país que tanto defendeu.
[...] Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? 
E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda 
ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e 
querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua feli-
cidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a 
sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, 
como ela o recompensava, como ela o premiava, como 
ela o condecorava? Matando-o. [...]
Desde dezoito anos que o tal patriotismo o absorvia 
e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe 
importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em 
que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos 
heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse 
sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, 
do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso 
tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, 
o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agri-
cultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era 
fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando 
o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? 
Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois 
ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar 
prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era 
uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento 
de decepções.
A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma 
criado por ele no silêncio do seu gabinete. [...]
Contudo, quem sabe se outros que lhe seguissem as pe-
gadas não seriam mais felizes? E logo respondeu a si mesmo: 
mas como? Se não se fizera comunicar, se nada dissera e 
não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo e substância? 
E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa 
continuidade traria enfim para a terra alguma felicida-
de? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se 
1. O trecho apresenta dois retratos de Policarpo: o que 
caracterizou a sua vida e aquele que surge diante da 
morte. Quais são as características de cada retrato?
> Ao refletir sobre sua trajetória, o protagonista se dá 
conta do que fez em nome de seu patriotismo. Quais 
foram suas ações?
2. Qual é a imagem idealizada que Policarpo tinha do 
povo brasileiro?
3. Apesar de saber que a pátria que buscara era um 
mito, Policarpo ainda mostra esperança de que sua 
trajetória e seu ideal não tenham sido em vão. Mas 
essa esperança logo se desfaz. Explique por quê. 
> A amargura da personagem é mais forte no trecho 
final do texto transcrito. Como sua desesperança 
é apresentada no último parágrafo?
4. De que forma a transformação de Policarpo exem-
plifica a intenção dos pré-modernistas de criar uma 
consciência crítica a respeito do Brasil? 
TEXTO PARA ANÁLISE
vinham oferecendo, sacrificando e as coisas ficaram na 
mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, 
na mesma tristeza. [...]
BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo 
Quaresma. In: VASCONCELLOS, Eliane (Org.). 
Prosa seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 
2001. p. 404-405. (Fragmento).
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TEXTO PARA ANÁLISE
Urupês
Na descrição de Jeca Tatu, Monteiro Lobato 
despe-o da idealização que, para ele, marcava a 
representação da figura do caboclo.
[...] a verdade nua manda dizer que entre as raças de 
variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas 
entre o estrangeiro recente e o aborígine de tabuinha 
no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de 
evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada 
a põe de pé. [...]
Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso 
epitome de carne onde se resumem todas as caracte-
rísticas da espécie. [...]
De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua 
emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao 
fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, 
tostar um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será 
desastre infalível. Há de ser de cócoras. [...]
Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio 
na realidade!
Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo...
Quando comparece às feiras, todo mundo logo 
adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza 
derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de 
espichar a mão e colher [...].
Seu grande cuidado é espremer todas as consequên-
cias da lei do menor esforço — e nisto vai longe. [...]
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o 
beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores — 
nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a terra; 
porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem 
aproveite; porque para frutas há o mato; porque a 
“criação” come; porque...[...]
Jeca, interpelado, olha para o morro coberto de moi-
rões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
— “Não paga a pena.”
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha 
nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. 
Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. 
De qualquer jeito se vive. [...]
LOBATO, Monteiro. Urupês. 37. ed. São Paulo: 
Brasiliense, 2004. p. 166-170. (Fragmento). 
Essa carta levou o editor do jornal a insistir para que Lo-
bato lhe enviasse mais artigos. Nascia, assim, uma carreira 
de longa colaboração jornalística. A carta foi importante 
também por outra razão: é nela que o escritor cita pela pri-
meira vez o nome da personagem a que ele ficará associado 
para sempre: Jeca Tatu.
O caboclo apresentado como o parasita que incendeia 
a terra é, de certa forma, o “pai” literário do Jeca, que será 
apresentado em sua forma completa em outro texto, Uru-
pês (1918). Nesse livro, Lobato traça um minucioso perfil do 
caboclo que vivia pelo interior de São Paulo, encostado nas 
fazendas de café, esgotando os recursos da terra para depois 
mudar-se e continuar com seus hábitos.
As cidades mortas do interior 
paulista
O aspecto literário mais importante da obra de Montei-
ro Lobato é a sua preocupação em denunciar alguns dos 
problemas que marcavam a vida das pessoas do interior. O 
foco do autor é a região do Vale do Paraíba, que entrou em 
decadência após o deslocamento das culturas de café para 
o Oeste Paulista. 
Nos contos de Cidades mortas (1919), Lobato caracteriza 
a desolação provocada nas pequenas cidades que, até pouco 
tempo antes, prosperavam com o cultivo do café.
Café! Café!
E o velho major recaiu em cisma profunda. A colheita 
não prometia pouco: florada magnífica, tempo ajuizado, 
sem ventania nem geadas. Mas os preços, os preços! Uma 
infâmia! Café a seis mil-réis, onde se viu isso? E ele que 
anos atrás vendera-o a trinta! E este governo, santo Deus, 
que não protege a lavoura, que não cria bancos regionais, 
que não obriga o estrangeiro a pagar o precioso grão a 
peso de ouro! […]
Veio, porém, a baixa; as excessivas colheitas foram abar-
rotando os mercados, dia a dia os estoques do Havre e de 
Nova York aumentavam. Os preços baixavam sempre, cada 
vez mais; chegara a dez mil-réis, a nove, a oito, a seis. O 
major ria-se e limpando as unhas profetizava: “Em janeiro o 
café está a 35 mil-réis”.
Chegou janeiro; o café desceu a cinco mil e quinhentos. 
“Em fevereiro eu aposto que vai a quarenta!” Foi a cinco.
O major emagrecia. […] O café em março desceu a quatro.
O major enlouquecia. Estava à míngua de recursos, endi-
vidado, a fazenda penhorada, os camaradas desandando, os 
credores batendo à porta. […]
E ninguém o tirava dali. A fazenda era uma desolação, 
a penúria extrema; os agregados andavam esfomeados, a 
roupas em trapo, imundos, mas a trabalhar ainda, a limpar 
café, a colher café, a socar café. [...]
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. São Paulo: 
Brasiliense, 1995. p. 159-162. (Fragmento).
Sorna: indolente, preguiçosa.
Piraquara: pessoa que vive no campo, caipira.
Epitome: síntese, resumo. 
Entramam: confundem(-se).
Grulha: relativo a tagarelice, falatório. 
Modorra: sonolência, apatia.
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LITERATURA
1. O narrador sugere que a figura do caboclo é idea-
lizada indevidamente. Transcreva em seu caderno 
o trecho em que isso aparece.
> Por que o narrador critica essa idealização?
2. Releia.
“Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance 
e feio na realidade! Jeca mercador, Jeca lavrador, 
Jeca filósofo...”
a) De que maneira, no trecho destacado, o narrador 
demonstra a imagem “bonita” que a personagem 
adquire nos romances?
b) De acordo com o texto, como é o Jeca Tatu na 
realidade?
3. Essa caracterização do caboclo, vista por muitos 
como preconcei tuosa, valeu inúmeras críticas 
a Monteiro Lobato. Discuta com seus colegas: 
a imagem do caboclo no texto denota, de fato, 
preconceito? Justifique sua resposta.
4. De que maneira a crítica à idealização do caboclo 
reflete um desejo de retratar um Brasil mais “ver-
dadeiro”?
Augusto dos Anjos: 
poeta de muitas faces
A leitura da poesia enigmática e sombria de Augusto dos 
Anjos (1884-1914) revela influência de diferentes estéticas 
do século XIX. Do Simbolismo, o autor recupera o gosto 
pelas imagens fortes e a preocupação com a construção 
formal dos poemas. O uso de termos científicos marca a 
inspiração do Naturalismo. A preferência pelo soneto traz 
ecos do Parnasianismo. 
Embora tenha publicado seu único livro em um momento 
no qual a literatura brasileira manifestava tendências pré-
-modernistas, o poeta deve ser visto como um fenômeno 
isolado. 
A marca da angústia e do 
pessimismo
As divagações metafísicas e a expressão de uma angústia 
existencial são as características mais fortes da poesia de 
Augusto dos Anjos. É esse o sentimento que sobressai nos 
versos do seu mais conhecido soneto.
Versos íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Quimera: na mitologia, ser monstruoso que tinha 
cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, 
além de lançar fogo pelas narinas. O termo é usado 
em sentido figurado para fazer referência às fantasias 
inalcançáveis, às ilusões, às utopias.
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
ANJOS, Augusto dos. Eu. In: BUENO, Alexei (Org.). 
Obra completa. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 1996. p. 280.
A crença na quimera — fantasia, sonho, ilusão — resume a 
causa para a desilusão humana. No poema, o eu lírico dirige-
-se aos leitores para afirmar a impossibilidade de uma vida 
feliz. Além da morte dos sonhos, as pessoas estão condena-
das à mais irremediável solidão. Os gestos de solidariedade 
devem ser vistos como sinal da desilusão futura. É esse o 
contexto que explica o terrível conselho final: “Escarra nessa 
boca que te beija!”.
Linguagem: ciência 
e símbolos
A linguagem característica dos poemas de Augusto dos 
Anjos surpreende os leitores. O poeta recorre à ciência para 
melhor definir suas preocupações com a origem da angústia 
moral que, a seu ver, atormenta a humanidade. 
Augusto dos Anjos adotou como modelo os estudos 
de Ernest Heckel, biólogo alemão que publicou uma obra 
relacionando teorias de natureza biológica a interpreta-
ções filosóficas sobre a alma e a existência humanas. 
Por isso, os versos do poeta apresentam termos como 
psicogênese, trama neuronial, sinergia, morfogênese, car-
bono e amoníaco.
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
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Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
ANJOS, Augusto dos. Eu. In: BUENO, Alexei (Org.). Obra completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 203.
Obcecado com a ideia das forças da matéria, que pulsam em todos os seres e conduzem ao “nada” 
absoluto, o poeta usa o verme como símbolo desse processo de decomposição.
A referência ao “sangue podre” assinalamais uma característica da poesia de Augusto dos Anjos: o 
uso de termos fortes e chocantes, muitas vezes associados às funções corporais (como o escarro de 
“Versos íntimos”). Por essa razão, muitos críticos da época destacavam o “mau gosto” do vocabulário 
como um dos defeitos da poesia do autor.
O Deus-Verme
Neste soneto, o eu lírico trata da morte em sua dimensão física.
Factor universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme — é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.
TEXTO PARA ANÁLISE
ANJOS, Augusto dos. Eu. In: BUENO, Alexei (Org.). Obra completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 209.
1. Uma das características da obra de Augusto dos Anjos é a incorporação de um vocabulário 
científico à poesia. No soneto transcrito, quais palavras justificam essa afirmação?
> Além do uso de termos da ciência, o assunto tratado no poema chama a atenção: a “caracte-
rização” do verme que se alimenta dos corpos em decomposição. Qual é essa caracterização?
2. O tema da morte é abordado por muitos poetas, que tratam de sua dimensão espiritual ou 
sentimental. Como a morte é apresentada no poema “O Deus-Verme”?
> No título do poema, o verme é definido como um “deus” a quem se destina “a carne podre”. 
Explique de que maneira esse processo de “divinização” dos vermes revela uma visão racional 
da morte. 
3. Por que a poesia de Augusto dos Anjos se opõe à estética parnasiana, que predominava como 
gosto literário no início do século XX?
> Transcreva no seu caderno, dos versos de “O Deus-Verme”, elementos que podem ter provo-
cado uma reação desfavorável dos leitores habituados ao gosto parnasiano. 
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
Teleológica: 
(filosofia) diz-se 
de argumento, 
conhecimento ou 
explicação que 
relaciona um fato 
com sua causa 
final.
Acérrimo: muito 
acre, ácido, amargo.
Contubérnio: 
camaradagem, 
familiaridade, vida 
em comum.
Antropomorfismo: 
atribuição de 
características e 
comportamentos 
típicos da condição 
humana às formas 
inanimadas da 
natureza ou 
aos seres vivos 
irracionais.
Drupas: frutos 
carnosos, como o 
pêssego e a manga. 
Agras: de sabor 
acre, ácido ou 
azedo. 
Hidrópicos: que 
ou aqueles que 
se caracterizam 
por inchação ou 
retenção de líquido. 
Vísceras: 
entranhas.
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LITERATURA
Diálogos literários: presente e passado
A saudade é um tema frequente em textos de diferentes autores da literatura contemporânea. Seja 
o efeito provocado pela ausência de pessoas queridas, a nostalgia em relação a outra época da vida 
ou a dor pelo exílio, qualquer um desses sentimentos revela, em geral, aquilo que define a saudade: 
uma conexão entre o que é e o que foi.
O destaque dado a essa questão em textos literários, no entanto, nasceu há alguns séculos e em 
terras além-mar. Na história da literatura portuguesa, a saudade constitui um elemento tão importan-
te que inaugura uma tradição, atravessa muitos movimentos estéticos e passa a integrar o próprio 
sentimento de identidade nacional português. No Classicismo, por exemplo, a saudade começa a se 
delinear como algo que vai além do sentimento individual: era possível lamentar a ausência da Pátria, 
grande império ultramarino que lentamente começava a se desfazer. Camões, em Os lusíadas, celebra 
a glória de um povo vitorioso em suas conquistas, mas que estava deixando de ser o que fora um dia, 
como lamenta no epílogo da obra. 
Como você verá no próximo capítulo, no início do século XX, o poeta Fernando Pessoa revisita essa 
tradição, mostrando, em alguns de seus textos, como a visão do cais evoca memórias que repercutem 
nos sentimentos e nas percepções individuais. Para ele (e para os portugueses, em geral), o mar está 
associado à saudade de um tempo glorioso do passado. 
Antes, porém, confira, nos textos a seguir, como a saudade e suas diversas formas de expressão 
atravessaram os séculos e os mares e apareceram nas obras de escritores africanos e brasileiros, 
contagiados pela colonização portuguesa que levou a esses lugares bem mais que a língua: levou um 
modo de sentir a ausência de algo.
José Bento e a saudade dos mortos e de si mesmo
7
É vão buscar os mortos
sob os ciprestes,
mesmo que em nós sangrem ainda
palavras e olhares que eles nos deram:
como tentar colher o esplendor de um rosto
que, por muito o termos amado, destruímos,
debatendo as mãos cegas
entre a neve que o lembra sobre os cedros.
Se me detenho aqui,
não venho procurar-te,
de ninguém senão de mim estou afastado:
o céu nos meus olhos alagado,
um rumor ácido
a agredir-me entre a perversão do que me cerca:
a lassidão dos fenos e das asas
prenunciando o despojar dos mastros,
os homens a afundar-se na sua morte,
com um peso estelar de casas,
quase pedras.
Aqui, nem ecos nem pegadas.
A luz, uma coluna que me escolheu para centro.
Um círculo perfeito
no meu redor aceso.
Em ti a raiz das labaredas
que hão-de cercar-me enquanto eu enfrentar 
a tua ausência
sobre o lugar
 e o tempo.
(In memoriam)
BENTO, José. In: NEJAR, Carlos (Org.). 
Poesia portuguesa contemporânea. São Paulo: 
Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores, 1982. p. 377-378.
Lassidão: 
esgotamento. 
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Gabriel Mariano: a saudade de Cabo Verde
Observe a imagem a seguir. 
 
JÚNIOR, A. Saudade. 
1899. Óleo sobre 
tela, 197 � 101 cm.
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Vela do exílio
Acendi hoje uma vela
de estearina na fina
mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
da chama para os meus olhos
velhas lembranças seguiam.
E súbito sobre a parede
da velha casa onde moro
o mapa árido e breve
das ilhas do Cabo Verde.
Que vento não vem ou se agita
no barco em forma de vela
por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran
da ilha difusa difunde
meu nome em projeto?
Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
por sobre a mesa pessoas
vivas e mortas passavam.
Vela do exílio acendida
na noite de Moçambique:
pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
com apenas um sopro apagas
a vela, o exílio não.
MARIANO, Gabriel. In: APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo; 
DÁSKALOS, Maria Alexandre (Orgs.). Poesia africana 
de língua portuguesa (Antologia). Rio de Janeiro: 
Lacerda Editores, 2003. p. 151-152.
Junte-se a seus colegas e analise com eles, em grupo, os detalhes do quadro que podem justificar o 
seu título. Em seguida, imaginem o que está escrito no papel que a personagem está lendo. Discutam, 
então, a relação entre essa imagem e os poemas transcritos nesta seção. Apresentem oralmente 
para a classe as conclusões do grupo.
Pare e pense
Gabriel Mariano 
(1928-2002): 
nasceu em Ribeira 
Grande, Cabo 
Verde, África.
Estearina: 
substância usada 
na fabricação de 
velas, sabões, etc.
Écran: superfície 
sobre a qual se 
reproduz a imagem 
de um objeto. 
Para a realização desta atividade, é interessante que haja uma 
discussão para definir em que consiste o sentimento de saudade 
tematizado na seção. Esse sentimento pode existir em várias 
instâncias: a saudade de uma pessoa, de uma época, de uma 
situação, de um lugar. Também seria importante reler o epílogo 
de Os lusíadas na íntegra para que se possa perceber como a 
constituição da identidade portuguesa se fundamenta nesse 
sentimento relacionado à dissolução do espírito empreendedor 
das navegações. A atividade proposta baseia-se na observação e 
na análise doquadro de Almeida Júnior, que mostra uma mulher 
de aspecto melancólico, com um papel na mão. Os alunos devem 
supor que esse papel evoca o sentimento de saudade expresso no 
título da obra. Cabe a eles imaginar a que tipo de situação esse 
papel está associado para que possam comparar esse sentimento 
com aqueles evocados pelos poemas desta seção. Muitas possibi-
lidades se apresentam para o desenvolvimento da discussão: De 
quem seria a carta? O remetente foi embora, está longe ou mor-
reu? A carta traz notícias de longe ou da terra natal? A moça está 
onde? Longe de casa e daqueles que ama? Por quê? Os poemas 
apresentam que tipo de saudade? Que elementos dos textos levam 
a essa hipótese? Dessa forma, pode-se compreender de modo mais 
concreto o sentimento de saudade e suas implicações nos demais 
sentimentos que experimentamos. Depois da discussão, cada 
grupo deverá apresentar, oralmente, suas conclusões para a sala.
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Capítulo
Vanguardas culturais europeias. 
Modernismo em Portugal2
BOCCIONI, U. 
Carga de 
lanceiros. 
 1914-1915. 
Têmpera e 
colagem 
sobre papelão, 
32 � 50 cm. 
A renovação 
toma conta 
da arte no 
início do 
século XX.
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Leitura da imagem
1. Observe a imagem de abertura. Descreva a cena que 
ela retrata.
2. O quadro passa a sensação de movimento, própria de um 
ataque da cavalaria. Analise a imagem e explique como 
esse efeito é construído.
a) Compare o modo como os cavaleiros e os soldados 
entrincheirados são representados na imagem. Quem 
tem maior destaque? Como esse destaque é feito?
b) Por meio dessa representação, o quadro sugere que 
os cavaleiros serão vitoriosos nesse embate. Explique 
por quê.
3. No canto superior direito da tela, há uma colagem de 
recortes de jornais que descrevem os ataques franceses 
à Alemanha, na região da Alsácia, em 1914. Pode-se di-
zer que os recortes e a imagem se referem a um mesmo 
tema. Que tema é esse? 
> Os recortes parecem integrados à imagem. Por que isso 
acontece?
Da imagem para o texto
4. Os leitores do conservador jornal francês Le Figaro 
foram surpreendidos, no dia 20 de fevereiro de 1909, 
por um texto de Filippo Tommaso Marinetti (1876- 
-1944). Leia.
O Futurismo
[...] — Vamos, meus amigos! disse eu. Partamos! Enfim 
a Mitologia e o Ideal místico estão ultrapassados. Vamos 
assistir ao nascimento do Centauro e veremos logo voa-
rem os primeiros Anjos. — É preciso abalar as portas da 
vida para nela experimentar os gonzos e os ferrolhos!... 
Partamos! Eis o primeiro sol nascendo sobre a terra!... 
Nada é igual ao esplendor de sua espada vermelha que 
se esgrima pela primeira vez nas nossas trevas milenares.
[...] com o rosto mascarado pela boa lama das usinas, 
cheio de escórias de metal, de suores inúteis e de fuligem 
celeste, [...] nós ditamos nossas primeiras vontades a 
todos os homens vivos da terra:
Sugerimos que todas as questões sejam respondidas oralmente para 
que os alunos possam trocar impressões e ideias.
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Manifesto do Futurismo
 1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à 
energia e à temeridade.
 2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a 
coragem, a audácia e a revolta.
 3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade 
pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o 
movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginás-
tico, o salto mortal, a bofetada e o soco.
 4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enri-
queceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. 
Um automóvel de corrida com seu cofre adornado de 
grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo... um 
automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, 
é mais belo que a Vitória de Samotrácia. [...]
 7. Não há mais beleza senão na luta. Nada de obra-
-prima sem um caráter agressivo. A poesia deve ser 
um assalto violento contra as forças desconhecidas, 
para intimá-las a deitar-se diante do homem.
 8. Nós estamos sobre o promontório extremo dos sécu-
los!... [...] O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós 
vivemos já no absoluto, já que nós criamos a eterna 
velocidade onipresente.
 9. Nós queremos glorificar a guerra — única higiene 
do mundo —, o militarismo, o patriotismo, o gesto 
destrutor dos anarquistas, as belas ideias que matam, 
e o menosprezo à mulher.
 10. Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, 
combater o moralismo, o feminismo e todas as co-
vardias oportunistas e utilitárias.
 11. Nós cantaremos as grandes multidões movimentadas 
pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta; [...] os navios 
aventureiros farejando o horizonte; as locomotivas de 
grande peito, que escoucinham os trilhos, como enor-
mes cavalos de aço freados por longos tubos, e o voo 
deslizante dos aeroplanos, cuja hélice tem os estalos 
da bandeira e os aplausos da multidão entusiasta.
É para a Itália que nós lançamos este manifesto de 
violência agitada e incendiária, pela qual fundamos 
hoje o Futurismo, porque queremos livrar a Itália 
de sua gangrena de professores, de arqueólogos, de 
cicerones e de antiquários. [...]
MARINETTI, F. T. In: TELES, Gilberto Mendonça. 
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed. 
Petrópolis: Vozes, 1986. p. 89-92. (Fragmento).
b) Quando afirma “Eis o primeiro sol [...] Nada é igual 
ao esplendor de sua espada vermelha que se esgrima 
pela primeira vez nas nossas trevas milenares”, o texto 
cria, metaforicamente, a imagem de um momento 
de libertação. O que podem significar as imagens do 
“primeiro sol” e das “trevas milenares”?
5. Releia o segundo parágrafo, em que Marinetti descreve a 
si mesmo e a seus companheiros. Essa descrição sugere 
a valorização do progresso. Por quê?
> Ao se referir aos “homens vivos da terra”, o texto pres-
supõe que existam homens mortos. No contexto do Ma-
nifesto, a quem podemos associar os vivos e os mortos? 
Justifique. 
6. Os três primeiros princípios do Manifesto do Futurismo 
resumem as ideias valorizadas por seu autor. Quais 
são elas?
> “Não há mais beleza senão na luta.” Observe a imagem 
de abertura. Podemos dizer que ela incorpora o ideal de 
beleza futurista? Por quê?
7. Em quais princípios do manifesto o caráter violento dos 
futuristas é apresentado de modo positivo?
a) Iconoclasta é alguém que destrói os ícones, as ima-
gens. Você diria que os futuristas são iconoclastas? 
Explique. 
b) “Nós queremos glorificar a guerra — única higiene do 
mundo [...].” Como essa afirmação polêmica pode ser 
entendida?
Cofre: capô do carro.
Metralha: metralhadora.
Vitória de Samotrácia: escultura de Nike, deusa da 
Vitória, representada como uma figura feminina alada 
sobre a proa de uma embarcação (c. 200 a.C.).
Destrutor: destruidor.
Escoucinham: dão coices.
a) No primeiro parágrafo, Marinetti declara que a mito-
logia, símbolo da cultura clássica, está ultrapassada. 
Explique por que essa afirmação mostra o desejo de 
romper com as referências tradicionais usadas para a 
produção artística.
Um agitado início 
de século na Europa
No início do século XX, a Europa se encontrava em inten-
sa turbulência. Problemas de natureza política e conflitos 
entre países vizinhos deram início a desentendimentos 
locais que acabaram provocando, em 1914, a Primeira 
Guerra Mundial. 
Ao lado da instabilidade política, as pessoas tinham 
também de construir um novo olhar para a vida, agora 
transformada pelo impacto das descobertas tecnológicas 
que começavam a causar espanto. Considerado a era da 
eletricidade, o século XX viu surgir o telefone, o telégrafo 
sem fio, o aparelho de raios X, o cinema, o automóvel, o 
avião, invenções que ampliaram o domínio humano sobre 
o espaçoe o tempo.
A ciência descobriu mundos invisíveis com o auxílio do 
microscópio: vírus, bactérias, seres minúsculos passaram 
a ser identificados como inimigos muitas vezes mortais. 
A teoria da relatividade abalou certezas centenárias e 
provocou uma verdadeira revolução na física. Quando 
Einstein afirmou a relatividade do tempo e da distância, 
transformou o modo como as pessoas percebiam a rea-
lidade e avaliavam o universo. Nada mais era definitivo, 
nada era certo. 
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Outro grande abalo para a sociedade europeia foi o surgi-
mento da psicanálise. Quando Freud identificou o inconsciente 
humano, revelou o impacto dessa força desconhecida sobre 
as noções tradicionais de identidade, personalidade, respon-
sabilidade e consciência. Mais uma vez as certezas ruíram.
As dimensões da vida e do pensamento não podiam 
mais ser orientadas pelas referências herdadas do passado. 
Os primeiros anos do século XX foram o cemitério no qual 
seriam enterradas as convicções do passado e o berço 
no qual nasceria uma civilização marcada pela incerteza e 
pela relatividade. 
Vanguardas: ventos de 
inquietação e de mudança
Nas três primeiras décadas do século XX, o cenário artís-
tico europeu também vivia um momento de grande agitação. 
Diferentes movimentos artísticos, denominados vanguardas, 
surgiram para estabelecer novas referências para a pintura, 
a literatura, a música e a escultura.
De origem latina e alemã, o termo vanguarda aparece, 
já no século XII, associado a uma posição avançada de ata-
que, por oposição a retaguarda. No século XVIII, aparecem 
os primeiros registros de emprego metafórico da palavra 
para indicar aquilo que está em “primeiro lugar”, que tem 
“precedência”. A partir da Primeira Guerra Mundial, o termo 
voltou a ser usado com frequência para designar, nas letras 
francesas, a parte mais radical dos movimentos literários e 
estéticos, as propostas artísticas mais inovadoras.
Tome nota
O novo século precisava criar as próprias referências 
estéticas. É nesse contexto histórico-cultural que nascem 
os vários “ismos”: Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Da-
daísmo e Surrealismo.
Praticamente todas as vanguardas lançaram manifestos. 
Esses manifestos eram textos que divulgavam as propostas 
das novas formas de expressão artística e definiam estraté-
gias formais para alcançá-las.
 BALLA, G. A velocidade do automóvel. 1913. Óleo sobre cartão, 60 � 98 cm.
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O projeto artístico das 
vanguardas europeias
Cada uma das vanguardas que surgem no início do 
século XX apresenta um projeto próprio, mas todas elas 
têm uma intenção em comum: romper radicalmente com 
os princípios que orientavam a produção artística do sé-
culo XIX. Podemos, então, resumir o projeto artístico das 
vanguardas como um movimento ousado que quer libertar 
a arte da necessidade de representar a realidade de modo 
figurativo e linear.
O desafio enfrentado pelos artistas é claro: encontrar 
uma nova linguagem capaz de expressar a ideia de veloci-
dade, capturar a essência transformadora da eletricidade, 
o dinamismo dos automóveis. Por esse motivo, toda a pro-
dução artística de vanguarda terá um caráter de ruptura, 
de choque e de abertura. A ruptura se dá com os valores e 
princípios do passado; o choque, com as expectativas do 
público. A abertura é marcada pela busca de novos modos 
de olhar e interpretar a realidade em permanente estado 
de transformação.
Os agentes do discurso
Nos últimos anos do século XIX, Paris é a capital cultural 
da Europa e pulsa com a agitação característica da Belle 
Époque. Jovens de diversos locais da Europa correm para a ci-
dade, buscando acolhida nos ateliês da região de Montmartre 
ou da Rive Gauche. Pablo Picasso, Georges Braque, Fernand 
Léger foram alguns desses jovens. A agitação cultural de 
Paris é imensa. A própria cidade está de cara nova, reformada 
pelo projeto de desenvolvimento urbano implementado meio 
século antes pelo barão Haussmann.
É nesse contexto de produção que nascem as vanguar-
das. Diferentes grupos se organizam em torno de líderes 
que assumem o papel de propor e divulgar novos caminhos 
para a arte. 
Surgem então os manifestos como meio de dar maior 
visibilidade às propostas das diferentes vanguardas. O con-
texto de circulação dos manifestos é o jornal. 
As vanguardas e o público
O espírito agressivo das vanguardas, anunciado no Ma-
nifesto do Futurismo, é confirmado pela reação — de modo 
geral, horrorizada — do público à apresentação da primeira 
obra cubista: o quadro As senhoritas de Avignon, de Pablo 
Picasso, que mostra cinco prostitutas nuas, com o rosto e o 
corpo deformados.
Passado o espanto inicial, o público parisiense dos salões 
e galerias acostuma-se à “nova arte”. Reconhece que os 
artistas nem sempre seguem os caminhos tradicionais para 
fazer circular suas ideias. Como quem lança uma mercadoria 
e pretende acompanhar a recepção dos consumidores, os 
jovens artistas invadem jornais, revistas e salões, bombar-
deando o público com suas propostas iconoclastas.
A primeira parte deste capítulo configura-se como um painel das várias vanguardas artísticas que surgiram no início do século XX. Considerando que a 
abrangência das vanguardas vai muito além das suas manifestações literárias, foi necessário adaptar a seção “Projeto literário”. Por esse motivo, estamos 
falando de um projeto artístico, que também engloba as intenções que definem a produção literária do período. Explicar isso para os alunos.
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Cubismo
Em 1907, a exposição da tela As senhoritas de Avignon 
provoca comoção na cena artística parisiense.
O quadro revela um modo revolucionário de representar a 
realidade, rompendo com os conceitos tradicionais de harmo-
nia, proporção, beleza e perspectiva. Com essa obra nasce a 
pintura cubista, e o seu criador, Pablo Picasso, será o grande 
mestre do Cubismo, que marcou a arte do século XX. Além dele, 
também se destacarão Georges Braque e Juan Gris.
A multiplicação dos pontos de vista
Os artistas desejam, agora, apresentar relações e não 
formas acabadas. Para enfatizar essas relações, propõem 
diferentes pontos de vista a partir dos quais um determinado 
objeto pode ser observado. É por isso que essa vanguarda se 
define pela sobreposição de diferentes planos.
Com essa técnica, os cubistas pretendem forçar o 
observador a questionar a realidade, não aceitando uma 
interpretação única, linear. 
Literatura e sociedade
 Com base nas informações apresentadas no capítulo, 
discuta com seus colegas: que acontecimentos indi-
cam uma revolução na sociedade e o surgimento de 
uma arte marcada pela ruptura e pela radicalização 
das vanguardas? 
De olho na arte
Mulheres nuas e máscaras africanas
Na tela, cinco mulheres nuas exibem 
corpos e rostos definidos por formas 
geométricas. A deformação dá ao obser-
vador a impressão de que foram talhadas 
a golpes de machado. Os braços são 
disformes, os cotovelos, pontiagudos, 
acentuando os ângulos. Com essa obra, 
Picasso destrói o mito da beleza feminina, 
ao mesmo tempo que alude à diversidade 
étnica, deixando evidente nos rostos a 
inspiração das máscaras africanas.
 
PICASSO, P. As senhoritas 
de Avignon. 1907. 
Óleo sobre tela, 
243,9 � 233,7 cm.
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 Máscara africana 
da tribo Biombo, 
proveniente 
da República 
Democrática do 
Congo, s. d.
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A literatura cubista
O primeiro manifesto da literatura cubista, de autoria do 
poeta francês Guillaume Apollinaire, só surge em 1913, bem 
depois das primeiras exposições das obras de Picasso e 
Braque. No texto, Apollinaire procura aliar a visão destruidora 
dos futuristas à ideia de construção de algo novo. 
É na poesia que a literatura cubista ganha forma. 
Explorando a associação entre ilogismo, simultaneidade, 
instantaneísmo e humor, os poetas cubistas buscam criar 
novas perspectivas e afirmar a necessidade de manter 
as coisas em permanente relação. No Brasil, a influência 
dessa vanguarda aparece na obra de autores como Oswald 
de Andrade.
Futurismo
Em 1909, a Europa é surpreendida pelo surgimento de 
uma nova vanguarda: o Futurismo. Com propostas mais or-
ganizadas que o Cubismo, o Futurismo é divulgado através 
de um manifesto assinado pelo seu líder, Filippo Tommaso 
Marinetti. Alguns trechos desse texto foram transcritos na 
abertura deste capítulo.
O grande estardalhaço do Futurismo é provocado pela po-
lêmica figura de Marinetti, que lança mais de 30 manifestos 
definindo diversos aspectos da nova vanguarda. Em todos, a 
mesma proposta violenta de destruição total do passado; o 
mesmo fascínio pela guerra que promove a aniquilação dos 
símbolos do passado; a mesma exaltação pelas formas do 
mundo moderno: automóveis, aviões, em um eterno culto à 
velocidade que Marinetti, fascinado pelas novas tecnologias, 
vê como uma força mística.
Adotando uma perspectiva violenta, agressiva e icono-
clasta, os futuristas exaltam “a bofetada e o soco” como meio 
de despertar o público da passividade em que se encontra. 
De olho na arte
A deslumbrante luz das grandes lâmpadas elétricas
O fascínio pela ele-
tricidade dava identi-
dade à arte futurista. 
Giacomo Balla, inspira-
do em um dos primeiros 
postes de iluminação 
elétrica instalados em 
Roma, pintou esse qua-
dro em que justapõe 
os raios de luz descar-
regados pela lâmpada 
em setas multicolores. 
Perdida em meio aos 
raios, a Lua parece girar 
ao redor da lâmpada, 
sugerindo a submissão 
da natureza às forças 
da tecnologia.
 BALLA, G. Poste de iluminação. 1909. 
Óleo sobre tela, 174,7 � 114,5 cm.
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LITERATURA
Uma literatura agressiva e 
provocadora
A violência que destrói as certezas e os modelos obriga 
o leitor a reagir. O processo de recepção da nova arte passa 
a ser, assim, mais dinâmico e interativo.
Marinetti recomenda que os textos futuristas destruam 
a sintaxe, apresentando os substantivos “ao acaso, como 
nascem”. Os verbos devem ser usados no infinitivo, para 
que o leitor seja levado a participar da construção do sen-
tido do texto. O líder futurista também recomenda abolir a 
pontuação, os adjetivos e os advérbios. O objetivo é sempre 
o mesmo: impedir que a literatura continue a exaltar “a imo-
bilidade pensativa”.
O lado sombrio do Futurismo surge, na Itália, com a 
chegada de Mussolini ao poder. O fascínio de Marinetti pela 
violência e pela guerra, aliado a um patriotismo exacerbado, 
faz com que transforme o movimento em uma espécie de 
porta-voz do regime fascista, a partir de 1919.
Expressionismo
Alemanha, 1910: uma nova vanguarda toma forma, 
apresentando-se como reação à estética impressionista de 
valorização sensorial. É o Expressionismo. Contemporâneo 
do Cubismo e do Futurismo, a base do Expressionismo é o 
resultado de um processo criativo que supõe a perda do 
controle consciente durante a produção da obra de arte. A 
realidade não deve mais ser percebida em planos distintos 
(físico, psíquico, etc.), mas sim transformada em expressão.
O movimento expressionista é bastante influenciado pela 
Primeira Guerra Mundial, e seus quadros ressaltam um lado 
obscuro da humanidade, retratando faces marcadas pela 
angústia e pelo medo. A mais conhecida tela expressionista 
é O grito, de Edvard Munch.
Literatura expressionista: 
a tradução das vivências humanas
O único manifesto expressionista surge em 1918. Seu autor, 
Kasimir Edschmid, procura estabelecer os rumos que a nova 
visão impunha à literatura. 
[...] o universo total do artista expressionista torna-se 
visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula 
vivências. Ele não reproduz, ele estrutura. Ele não colhe, ele 
procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, 
casas, doença, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a 
visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto 
em que a mão do artista os atravessa para agarrar o que se 
encontra além deles. [...]
EDSCHMID, Kasimir. In: TELES, Gilberto Mendonça. 
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed. 
Petrópolis: Vozes, 1986. p. 111. (Fragmento).
Inspirados por essas palavras, os poetas expressionistas 
abordam, em suas obras, a derrocada do mundo burguês e 
capitalista, denunciando um universo em crise e a sensação 
de impotência do homem preso em um mundo “sem alma”. 
Temas como esses garantem aos textos expressionistas 
um forte caráter negativista, fazendo com que muitas vezes 
a representação do mundo se faça de forma grotesca e 
deformada. A literatura expressionista cria também imagens 
distorcidas da realidade para traduzir as vivências humanas. 
 MUNCH, E. O grito. 1893. Óleo, têmpera 
e pastel em cartão, 91 � 73,5 cm.
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TEXTO PARA ANÁLISE
aperitivo
Neste poema, a cidade de São Paulo da década de 
1920 aparece em flashes cubistas.
A felicidade anda a pé 
Na Praça Antônio Prado
São 10 horas azuis
O café vai alto como a manhã de arranha-céus
Cigarros Tietê
Automóveis
A cidade sem mitos
 ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. 
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 126.
1. Nos dois primeiros versos do poema, qual é a ima-
gem inicial da cidade de São Paulo e da “vida” que 
nela se movimenta?
a) Em que momento do dia se desenrola essa cena?
b) Que imagens são utilizadas para caracterizar 
esse momento?
Sugerir aos alunos que revejam, no Capítulo 11 do volume do 2o ano desta coleção, os princípios da estética simbolista. Isso irá ajudá-los a compreender 
por que o Expressionismo não pode ser confundido com o Simbolismo. Para os simbolistas, as experiências sensoriais, desencadeadas pela obra de 
arte, são o primeiro passo para o indivíduo perceber a existência de outros planos, que vão além do universo visível. Os expressionistas acreditam que, 
por abrirem mão do controle consciente durante a criação artística, a obra de arte resultante desse processo já contenha a expressão da realidade.
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2. Explique de que maneira a expressão “o café vai 
alto” é a chave para compreender o momento retra-
tado no poema. Considere que o poe ma foi escrito 
por volta de 1925, época em que o café era respon-
sável por 70% a 80% das exportações brasileiras.
> “São 10 horas azuis.” O uso do adjetivo no verso 
cria um interessante efeito expressivo. A que 
pode estar se referindo esse adjetivo?
3. No verso “O café vai alto como a manhã de arranha-
-céus”, dois aspectos da cidade se sobrepõem: o 
tempo e o espaço. Explique como isso ocorre. 
4. Os três últimos versos do poema apresentam 
outros aspectos da cidade por meio de alguns 
elementos. Que elementos são destacados pelo 
eu lírico?
5. O último verso é uma síntese da cidade de São 
Paulo. O que ela revela sobre o quadro apresentado 
ao leitor? 
6. Explique por que a composição desse poema é 
comparada a uma pintura cubista.
Dadaísmo
Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o romeno 
Tristan Tzara (1896-1963) espanta o mundo commais uma 
vanguarda: o Dadaísmo, ou Dadá, a mais radical e a menos 
compreensível de todas as vanguardas.
O Dadá vem para abolir de vez a lógica, a organização, o 
olhar racional, dando à arte um caráter de espontaneidade 
total. A falta de sentido já é anunciada no nome escolhido 
para a vanguarda. Segundo o próprio Tzara: “Dadá não sig-
nifica nada”.
O principal problema de todas as manifestações artísti-
cas está, segundo os dadaístas, em almejar algo impossível: 
explicar o ser humano. Em mais uma afirmação retumbante, 
Tzara decreta: “A obra de arte não deve ser a beleza em si 
mesma, porque a beleza está morta”.
Literatura: a negação de todos 
os princípios e relações
A falta de lógica e a espontaneidade alcançam na litera-
tura sua expressão máxima. Em seu último manifesto, Tzara 
diz que o grande segredo da poesia é que “o pensamento se 
faz na boca”. Para orientar melhor seus seguidores, cria uma 
receita para fazer um poema dadaísta.
Pegue um jornal.
Pegue a tesoura. 
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja 
dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que 
formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são 
tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sen-
sibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
TZARA, Tristan. In: TELES, Gilberto Mendonça. 
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed. 
Petrópolis: Vozes, 1986. p. 132. (Fragmento).
Embora muitas das propostas dadaístas pareçam infantis 
aos olhos contemporâneos, é preciso levar em consideração 
o momento em que surgiram. Em uma Europa caótica e em 
guerra, insistir na falta de lógica e na gratuidade dos aconte-
cimentos talvez não fosse um absurdo, mas o espelho crítico 
de uma realidade incômoda.
Surrealismo
“O Surrealismo não é um estilo. É o grito da mente que se 
volta para si mesma.” Assim o ator e escritor Antonin Artaud 
definiu a última das vanguardas europeias.
Fortemente ligado às artes visuais, o Surrealismo é uma 
vanguarda interessada em adquirir um maior conhecimento 
do ser humano. Seus seguidores pretendem, por meio da 
valorização da fantasia, do sonho, do interesse pela loucura, 
liberar o inconsciente humano, terreno fértil e ainda muito 
pouco explorado.
O fascínio pelo inconsciente e por todas as formas que 
vão além da realidade objetiva aproxima os surrealistas da 
teoria psica nalítica de Sigmund Freud. Para eles, a teoria de 
Freud é um sinal de que há muito a ser descoberto sobre o 
ser humano, mas a razão não é o melhor instrumento para 
essas descobertas, porque ela ignora nosso universo in-
consciente. Por isso, as manifestações artísticas produzidas 
pelos surrealistas são um desafio evidente à organização 
racional do mundo.
Explorando os limites do real, estudando a loucura, os 
sonhos, os estados alucinatórios e outras manifestações do 
inconsciente, os surrealistas produzem uma arte de impacto, 
que chega até nossos dias nas telas de Salvador Dalí, Juan 
Miró, Giorgio de Chirico e René Magritte, entre outros.
 
DE CHIRICO, G. O som do 
amor. 1914. Óleo sobre tela, 
73 � 59,1 cm. A combinação 
de elementos na tela 
desencadeia uma inusitada 
relação, criando o que 
Giorgio de Chirico chamou 
de pintura metafísica. 
A atmosfera fragmentada 
e melancólica resultante 
dessas associações evoca, 
segundo o autor, o absurdo 
de um mundo dividido pela 
Primeira Guerra Mundial.
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LITERATURA
Literatura surrealista: 
dimensões oníricas
O grande nome da literatura surrealista é André Breton. 
Em 1924, ele publica em Paris o Manifesto do Surrealismo, 
em que define o espírito e os objetivos da nova vanguarda. 
Na literatura, a liberação do inconsciente deve ser alcan-
çada com o auxílio da escrita automática. No manifesto, 
André Breton ensina como usar o automatismo para fazer 
emergir o inconsciente.
[...] Mandem trazer algo com que escrever, depois de se 
haverem estabelecido em um lugar tão favorável quanto pos-
sível à concentração do espírito sobre si mesmo. Ponham-se 
no estado mais passivo, ou receptivo que puderem. Façam 
abstração de seu gênio, de seus talentos e dos de todos os 
outros. Digam a si mesmos que a literatura é um dos mais 
tristes caminhos que levam a tudo. Escrevam depressa, sem 
um assunto preconcebido, bastante depressa para não se 
conterem e não serem tentados a reler. A primeira frase virá 
sozinha, tanto é verdade que a cada segundo é uma frase 
estranha a nosso pensamento consciente que só pede para 
se exteriorizar. [...]
BRETON, André. In: TELES, Gilberto Mendonça. 
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed. 
Petrópolis: Vozes, 1986. p. 194. (Fragmento).
O resultado desse processo é sempre um texto em 
que as relações lógicas não servem de apoio para o leitor, 
porque as imagens criadas não encontram equivalente no 
mundo conhecido. Privado das bases racionais de análise, 
não resta ao leitor outra saída a não ser entregar-se ao 
universo de sonho proposto pelo texto.
Ecos brasileiros da literatura 
surrealista
No Brasil, o Surrealismo lança suas raízes na obra do mo-
dernista Murilo Mendes, que procura, em vários poemas, cons-
truir imagens que trazem à tona o misterioso inconsciente.
Aproximação do terror
I
Dos braços do poeta
Pende a ópera do mundo
(Tempo, cirurgião do mundo): —
O abismo bate palmas,
A noite aponta o revólver.
Ouço a multidão, o coro do universo,
O trote das estrelas
Já nos subúrbios da caneta:
As rosas perderam a fala.
Entrega-se a morte a domicílio.
Dos braços...
Pende a ópera do mundo. [...]
MENDES, Murilo. Poesia liberdade. 
In: PICCHIO, Luciana Stegagno (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2. p. 431. (Fragmento).
A sucessão de imagens apresentadas no poema não 
permite que o leitor componha um quadro único, racional, 
em que possa perceber as relações lógicas entre as sequên-
cias. A atmosfera criada lembra o espaço do sonho, em que 
acontecimentos totalmente não relacionados se apresentam 
enca deados, como se formassem uma sequência lógica.
A herança brasileira das 
vanguardas
A principal herança das vanguardas europeias para a 
literatura brasileira, além da influência localizada que algu-
mas delas exerceram sobre certos poetas e escritores, é o 
impulso de destruir os modelos arcaicos, desafiar o gosto 
estabelecido e propor um olhar inovador para o mundo. 
Ruptura e transformação: dois termos que definem bem o 
espírito da primeira geração modernista, como veremos no 
próximo capítulo.
Justamente porque tiveram em comum o desejo de ques-
tionar posturas convencionais e coragem para ousar, não se 
pode falar em uma “tradição” específica das vanguardas. 
Seria até uma contradição pensar que movimentos tão de-
safiadores estabeleceriam “padrões” a serem seguidos em 
momentos futuros. Seu legado foi a irreverência diante de 
todo e qualquer padrão preestabelecido. 
Com suas propostas agressivas, iconoclastas, desafia-
doras, as vanguardas libertaram a arte dos modelos que, 
durante séculos, dominaram o olhar dos artistas para a 
realidade. Em resumo, criaram uma nova arte para um novo 
mundo e uma nova humanidade.
TEXTO PARA ANÁLISE
O pastor pianista
Uma estranha situação é apresentada 
neste poema: pianos são “pastoreados”.
Soltaram os pianos na planície deserta
Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
Eu sou o pastor pianista, 
Vejo ao longe com alegria meus pianos
Recortarem os vultos monumentais
Contra a lua.
Acompanhado pelas rosas migradoras
Apascento os pianos: gritam
E transmitem o antigo clamor do homem
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Que reclamando a contemplação,
Sonha e provoca a harmonia,
Trabalha mesmo à força,
E pelo vento nas folhagens,
Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
Pelo amor e seus contrastes, 
Comunica-se com os deuses.
MENDES, Murilo. Poesia liberdade. In: PICCHIO, Luciana 
Stegagno (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 1. p. 343.
Apascento: conduzo ao pasto, 
pastoreio.
1. O poema apresenta uma cena com elementos 
estranhos ao real, que remetem ao universo dos 
sonhos. Que cena é essa? Justifique com passagens 
do poema.
> O que produz estranhamento nas imagens cria-
das pelo poema?
2. O título do poema apresenta mais de um significado 
possível. Qual seria o significado mais convencional 
da expressão “pastor pianista”? 
a) Que significado essa expressão assume no con-
texto do poema?
b) Quais são os elementos do texto que justifi-
cam sua resposta? 
3. Na última estrofe, o eu lírico deixa de se referir aos 
pianos e passa a refletir sobre a natureza humana. 
Quais são, segundo o eu lírico, as ações desempe-
nhadas pelo homem no mundo?
a) Através de que meios o homem “comunica-se 
com os deuses”?
b) Explique por que as imagens não provocam mais 
estranhamento nessa estrofe.
O século XX chega a 
Portugal 
A crise política do regime monárquico, iniciada pelo 
Ultimatum inglês (1890), agravou-se com o assassinato, 
em fevereiro de 1908, do rei Carlos I e de seu herdeiro, o 
príncipe Luís Felipe. 
Em outubro de 1910 eclodiu a revolução que pôs fim à mo-
narquia portuguesa. O partido democrático, responsável pela 
condução do país nesse primeiro momento, enfrentou dura 
resistência dos setores burgueses. Associados ao capital 
estrangeiro, os burgueses eram politicamente representados 
pelos partidos conservadores. 
Um golpe de estado liderado por Sidônio Pais, em 1917, 
deu início a um período de ditadura. O assassinato de Sidônio, 
em 14 de dezembro de 1918, porém, agravou ainda mais a 
instabilidade política no país.
Os governos republicanos tiveram, de modo geral, uma 
feição progressista: houve uma evidente ampliação da 
participação política, foram feitos investimentos na edu-
cação, promovendo o ensino livre e levando a cultura às 
massas populares. O cenário político, porém, permanecia 
em estado de turbulência, e os governos parlamentares 
enfrentavam oposição tanto dos setores de esquerda 
quanto dos de direita.
Uma reação burguesa contra a “corrupção” política deu 
origem ao golpe militar de 1926. Favorecidos pela desarticu-
lação das forças político-partidárias, os militares prometiam 
restaurar a ordem pública e impor um duro controle à eco-
nomia portuguesa. Para desenvolver a nova política econô-
mica foi convocado Antonio de Oliveira Salazar, professor de 
Finanças da Universidade de Coimbra. 
Aos poucos Salazar foi conquistando maior poder dentro 
do governo até que, em 1933, fez aprovar uma nova Consti-
tuição e iniciou a ditadura do Estado Novo, que só chegaria 
ao fim em 1974.
Modernismo português: 
primeiros passos
O panorama de instabilidade interna fez com que o povo 
português manifestasse, de modo acentuado, um sentimento 
que sempre o caracterizou: o saudosismo. 
A lembrança das antigas glórias marítimas que haviam 
tornado Portugal uma das potências mundiais no século 
XVI e a lamentação pelo desconcerto que dominou o país 
após o desaparecimento de Dom Sebastião serviram de 
berço para o nascimento de uma revista que representaria 
o primeiro momento do Modernismo português: Orpheu, 
lançada em 1915.
Nas páginas de Orpheu, 
o Modernismo português 
toma forma
Mais do que uma revista, Orpheu foi um marco: símbolo do 
nascimento de uma geração de escritores que trouxe para 
Portugal a essência do movimento modernista. Nas suas 
páginas surgiram as grandes revelações literárias do início 
do século XX: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e José 
de Almada Negreiros. 
Orpheu só teve dois números publicados (um terceiro 
chegou a ser editado). Os textos que circularam na revista 
revelam uma clara influência de alguns movimentos da 
vanguarda europeia, principalmente o Cubismo e o Cubofu-
turismo. Na proposta de ruptura com o passado, pode ser 
identificada a influência da estética surrealista, que defendia 
o abandono da reprodução naturalista da realidade. Ecos fu-
turistas também se fazem presentes, já no primeiro número 
de Orpheu, nos versos da “Ode triunfal”, de Álvaro de Campos, 
um dos heterônimos de Fernando Pessoa, e no “Ultimatum 
futurista”, de Almada Negreiros.
No site <http://videos.sapo.pt/OuULMSr6j4VlPN5gzTlK>, há um filme para 
ilustrar o episódio do regicídio.
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LITERATURA
Almada Negreiros: a ira contra 
a estagnação portuguesa
Um dos mais ativos e influentes artistas da geração Orpheu 
foi José de Almada Negreiros (1893-1970). O autor nasceu em 
São Tomé e Príncipe, mas veio cedo para Portugal, onde estudou 
no colégio dos jesuítas. Quando ingressou na Escola Interna-
cional de Lisboa, começou a divulgar seus textos e desenhos. 
Entusiasmado com a possibilidade de transformar a sociedade 
portuguesa por meio da arte, Almada destaca-se não apenas 
pelos textos que escreve, mas também por sua excelente pro-
dução como pintor, revelando-se um homem perfeitamente sin-
tonizado com as tendências mais modernas da arte na Europa. 
 Em 1917, o escritor chocou o povo português com a divul-
gação do “Ultimatum futurista”, no qual fazia um apelo aos 
jovens para que assumissem a recuperação da pátria e do 
espírito portugueses, comprometidos pela fraqueza e saudo-
sismo das gerações anteriores. Na exaltação que faz da guerra 
como mecanismo transformador, fica evidente a influência das 
ideias do líder futurista Marinetti. Observe.
ULTIMATUM FUTURISTA
ÀS GERAÇÕES PORTUGUESAS DO SÉCULO XX
1917
EU NÃO PERTENÇO a nenhuma das gerações revolucio-
nárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.
Eu sou um poeta português que ama a sua pátria. Eu tenho 
a idolatria da minha profissão e peso-a. Eu resolvo com a 
minha existência o significado actual da palavra poeta com 
toda a intensidade do privilégio.
Eu tenho 22 anos fortes de saúde e de inteligência.
[...]
É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimen-
talismo literário dos passadistas. 
É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o he-
roísmo quotidiano.
É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebas-
tianismo de beira-mar.
[...]
FINALMENTE: é preciso criar a pátria portuguesa do século XX.
DIGO SEGUNDA VEZ: é preciso criar a pátria portuguesa 
do século XX.
DIGO TERCEIRA VEZ: é preciso criar a pátria portuguesa 
do século XX.
[...]
O povo completo será aquele que tiver reunido no seu 
máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, 
Portugueses, só vos faltam as qualidades.
ALMADA NEGREIROS, José de. Obra completa. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 1997. p. 649-655. (Fragmento).
Atavismo: herança de características psicológicas, 
intelectuais ou comportamentais.
Sebastianismo: crença na volta mística de D. Sebastião, rei de 
Portugal; reacionarismo; teimosia.
Além de uma vasta produção poética, Almada Negreiros 
também se destaca pelos romances e peças de teatro. Sua 
presença mais contundente na cena modernista portu-
guesa, porém, ficará registrada nos inúmeros manifestos, 
ensaios, crônicas e textos de prosa doutrinária que publicou 
ao longo dos seus 77 anos.
Mário de Sá-Carneiro e 
a fragmentação do “eu”
Um pouco mais de sol — eu era brasa, / Um pouco mais de 
azul — eu era além, lamenta-se o eu lírico do poema “Quase”, 
resumindo em belas imagens a imensa frustração que mar-
cou a vida de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916). 
Ao contrário do entusiasmado e combativo Almada, Sá-
-Carneiro anuncia, em suas obras, não a necessidadede 
transformar a realidade, mas aquele que será o grande dra-
ma do homem do século XX: a fragmentação da identidade, 
a aflição do indivíduo que se vê sufocado pela multidão e 
pelas inovações tecnológicas. O autor persegue esse tema 
tanto nas obras em prosa quanto na poesia que escreveu. A 
esse respeito, são célebres os versos do poema “Dispersão”.
Dispersão
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
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 Neste painel da Gare Marítima de Alcântara, de 
1936, José de Almada Negreiros, modernista 
português, registra a presença fundamental do mar 
e das navegações no imaginário do povo lusitano, 
promovendo a associação entre o real e o lendário. 
Se julgar interessante, explicar aos alunos que os três painéis que compõem a Gare de Alcântara foram inspirados em uma história da tradição oral portuguesa, A 
Nau Catrineta (“Lá vem a Nau Catrineta que traz muito o que contar”). Nas imagens, Almada descreve a fome que acometia os marinheiros (sentados diante de 
pratos vazios); representa o capitão, ansioso para avistar terra, cercado pelas imagens do diabo e da morte; a triste espera das moças, em um laran-
jal; a vitória do anjo sobre o demônio, salvando a alma do capitão; e o encontro festivo das famílias em uma feira popular. A imagem reproduzida 
representa somente o primeiro painel da obra de Almada.
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Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
[...]
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...
Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.
Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...
.....................................................
.....................................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
.....................................................
.....................................................
Paris, maio de 1913
SÁ-CARNEIRO, Mário de. Obra completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. 
p. 61-63. (Fragmento). 
Todos os textos que Sá-Carneiro escreveu manifestam 
uma grande sensibilidade, marcada pela expressão de uma 
angústia existencialista praticamente insuportável. 
A influência do decadentismo e da estética simbolista 
de fim de século é recorrente nos poemas de Dispersão, nas 
novelas de Princípio e Céu em fogo, na peça teatral Amizade 
e, principalmente, no estranho A confissão de Lúcio. Com 
esta narrativa, Sá-Carneiro leva para a ficção o tema da 
fragmentação do “eu” e constrói a mais impressionante 
novela do Modernismo português. 
Fernando Pessoa: 
o poeta de muitas faces
Quando se estuda a obra poética de Fernando António 
Nogueira Pessoa (1888-1935), é necessário fazer uma dis-
tinção entre todos os poemas que assinou com o seu nome 
verdadeiro, portanto considerados poesia ortônima, e todos 
os outros, atribuídos a diferentes heterônimos.
Além do escândalo da publicação de Orpheu, que lhe rendeu 
alguma celebridade, a vida de Fernando Pessoa foi basica-
mente anônima e solitária. Conhecido apenas por um reduzido 
grupo de amigos, dentre os quais merece posição destacada 
Mário de Sá-Carneiro, o autor costumava espantá-los com 
sua inteligência assombrosa e sua vasta produção poética. 
Quando, após sua morte, os críticos descobriram a riqueza 
de sua obra e o fenômeno da heteronímia, Pessoa finalmente 
conheceu a fama merecida e hoje é visto como um dos maiores 
escritores da língua portuguesa de todos os tempos.
Trilha sonora
....................................................
O outro
Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio: 
Pilar da ponte de tédio 
Que vai de mim para o outro. 
CALCANHOTTO, Adriana; SÁ-CARNEIRO, Mário de. O outro. 
Intérprete: Adriana Calcanhotto. Público, 2000. Rio de Janeiro: 
BMG. © Editora Minha Música/Domínio Público 
....................................................
Os versos de “O outro”, musicados por Adriana Calca-
nhotto, resumem bem a essência da poesia de Sá-Carneiro, 
sempre voltada para as indagações sobre a constituição 
da identidade.
Entre eu e o outro
 
Fernando Pessoa. 
Local e data da foto 
desconhecidos.
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A poesia ortônima
Alguns temas marcam a poesia ortônima de Fernando 
Pessoa. Em inúmeros poemas, o tema do “questionamento 
do eu” é abordado, às vezes de modo mais sofrido e deno-
tando uma grande angústia, às vezes de modo mais casual. 
Se julgar interessante, explicar aos alunos que ortônimo significa nome civil completo e correto, declarado pelo próprio indivíduo. No caso 
da obra de Fernando Pessoa, o termo se fez necessário para diferenciar os textos assinados pelo poeta de todos os outros que atribuiu a seus 
vários heterônimos. Trataremos especificamente dos heterônimos pessoanos mais adiante, na seção “A poesia heterônima”. 33
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LITERATURA
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). 
Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 156.
Outra questão que ocupou Pessoa foi a da “sinceridade 
do fingimento”, condição da criação literária, e que deu ori-
gem a alguns poemas muito conhecidos, como o que segue.
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. 
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). 
Obra poética. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 1999. p. 165.
A variação de tom, porém, não representa uma diminuição 
no interesse do poeta em investigar como se constitui a 
identidade individual. Observe. 
Nesse livro, o poeta promove uma releitura do destino de 
Portugal, tendo como base o fenômeno das navegações, a 
ligação entre os portugueses e o mar e o mito do encoberto, 
associado ao desaparecimento misterioso de D. Sebastião. 
Os poemas de Mensagem revelam a crença em um futuro 
no qual Portugal voltará a ocupar uma posição de destaque 
entre as nações, cumprindo, assim, o destino que lhe foi 
atribuído pelos deuses. 
O infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
PESSOA, Fernando. Mensagem. 
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Obra poética. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 78.
Nas três partes em que organizou os poemas (“Brasão”, 
“Mar português”e “O encoberto”), Pessoa reinterpreta os 
principais símbolos históricos e míticos da cultura portuguesa, 
sempre enfatizando a vocação do povo para superar todos os 
obstáculos, movido por uma grandeza de alma que o torna único. 
Elemento central na arquitetura poética de Mensagem 
é o mar oceano, símbolo da transcendência a ser alcançada 
pela provação individual e coletiva. Como afirma o eu lírico, 
nos versos finais de “Mar português”: “Deus ao mar o perigo 
e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu”. 
A poesia heterônima
O fenômeno da heteronímia resolveu de modo interessante 
uma questão que perseguiu Fernando Pessoa durante toda sua 
vida: o desdobramento do “eu”, a multiplicação de identidades. 
“Desde criança tive a tendência para criar em meu torno 
um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que 
nunca existiram”, confessou o poeta ao amigo Adolfo Casais 
Monteiro em carta que explica a gênese dos heterônimos.
Sagrou: concedeu um título ou uma honra.
Enleio: aquilo que prende, liga, envolve.
Heterônimos são autores imaginados por Fernando Pes-
soa. Quando assumia a forma de um de seus heterônimos, 
Pessoa produzia textos com características completamente 
diferentes dos de sua autoria. Entre os heterônimos, desta-
cam-se Bernardo Soares, autor do Livro do desassossego, e 
os poetas Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. 
Tome notaMensagem: releitura mítica 
do destino português 
Dentre as obras da poesia ortônima de Fernando Pessoa, 
destacam-se os belíssimos poemas de Mensagem, livro com o 
qual obteve o segundo lugar em um concurso do Secretariado 
de Propaganda Nacional português. Foi o único livro publicado 
em vida por Pessoa (1934).
a
a O termo encoberto está relacionado às profecias do sapateiro Bandarra, feitas à época do desaparecimento de D. Sebastião. Segundo os versos 
de Bandarra, o rei voltaria, “encoberto pela névoa do mar português”, para liderar Portugal em direção a um destino de glória. 
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Em termos práticos, o que se observa é que Pessoa criou 
várias “personas” poéticas (seus heterônimos) e, por meio 
delas, deu forma a diferentes modos de olhar o mundo. Como 
veremos a seguir, cada um desses heterônimos contava com 
personalidade e estilo próprios.
O “mestre” Alberto Caeiro
Autor de uma poesia cuja simplicidade aparente esconde 
uma complexidade filosófica bastante grande, Alberto Caeiro de-
fine-se como o “homem do campo”, “o guardador de rebanhos”.
O desafio de uma filosofia de vida como a defendida por 
Caeiro é evidente: precisamos “desaprender” um olhar defi-
nido pela cultura ocidental que insiste em tomar a natureza 
como símbolo de emoções e sentimentos humanos. Aceitar 
que o luar é somente o luar é um imenso desafio para “nós 
que trazemos a alma vestida”, como reconhece o poeta. 
Esse modo de encarar a vida aproxima a poesia de 
Alberto Caeiro da filosofia zen-budista, negando a ideia 
de qualquer realidade além da que constitui nossa expe-
riência concreta e imediata das coisas.
O lirismo clássico de Ricardo Reis
Ricardo Reis é o heterônimo clássico de Fernando Pes-
soa. Em todos os poemas que escreveu, revela a influência 
dos poetas clássicos gregos e latinos. Sua visão pagã foi 
inspirada pelo mestre Caeiro. 
Alberto Caeiro, segundo Fernando Pessoa
....................................................
Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; 
nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no 
campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. 
Era de estatura média, e, embora realmente frágil (mor-
reu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Tinha 
a cara rapada, era louro sem cor, olhos azuis. [...] Como 
disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só 
instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e 
deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos ren-
dimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó.
PESSOA, Fernando. Cartas escolhidas. In: QUADROS, António 
(Org., int. e notas). Obra poética e em prosa. Porto: Lello & Irmão 
Editores, 1986. v. 2. p. 342-343. (Fragmento adaptado).
....................................................
Ricardo Reis, segundo Fernando Pessoa
....................................................
Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do 
dia e mês, mas tenho os algures), no Porto, é médico. 
[...] Educado num colégio de jesuítas, vive no Brasil 
desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por 
ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e 
um semi-helenista por educação própria.
PESSOA, Fernando. Cartas escolhidas. In: QUADROS, António 
(Org., int. e notas). Obra poética e em prosa. Porto: Lello & Irmão 
Editores, 1986. v. 2. p. 342-343. (Fragmento adaptado).
....................................................
Toda a sua produção poética gira em torno da questão 
da percepção do mundo e da tendência do ser humano 
em interpretar o que vê como símbolos de outras coisas. 
Segundo Caeiro, essa é a razão de não conseguirmos com-
preender que as coisas são o que são e que este é o seu 
verdadeiro significado. Observe.
XXXV
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos 
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais 
Que o luar através dos altos ramos.
PESSOA, Fernando. Poemas completos de Alberto 
Caeiro. In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Obra poética. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 222.
Esse tipo de lógica desconcertante está no centro do olhar 
de Alberto Caeiro para o mundo: a natureza não é constituída 
por símbolos. 
Com uma sintaxe de grandes inversões, usando regências 
desusadas e vocabulário raro, Ricardo Reis dá a seus poe-
mas uma característica bastante diferente da simplicidade 
observada nos textos de Caeiro. Observe.
As rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
 Que em o dia em que nascem,
 Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
 Antes que Apolo deixe 
 O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia, 
Inscientes, Lídia, voluntariamente
 Que há noite antes e após
 O pouco que duramos.
PESSOA, Fernando. Odes de Ricardo Reis. 
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Obra poética. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 259.
Volucres (vólucres): que têm vida 
curta, efêmeras.
Inscientes: ignorantes, que desconhecem.
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LITERATURA
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado 
[da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos 
[na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por 
[dentro.
[...]
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que 
[tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades 
[do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
[...]
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. 
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Obra poética. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 1999. p. 362-363. (Fragmento).
Mansarda: sótão, último andar de uma casa, cujas 
janelas dão acesso ao telhado, água-furtada.
Esse poemailustra a influência dos temas greco-latinos 
na poesia de Ricardo Reis. Todo o raciocínio desenvolvido 
pelo eu lírico pode se resumir de modo simples: é necessário 
viver o momento, aproveitá-lo, sem pensar no que veio antes 
ou no que virá depois. 
O exemplo das rosas, que florescem e morrem no período 
de um dia, é apresentado para encaminhar o apelo dirigido 
à amada: “Assim façamos nossa vida um dia”. Um dia, nesse 
caso, não é uma referência a um momento futuro, mas sim 
uma medida de tempo. O eu lírico deseja viver sua vida de 
modo pleno, como se a duração de que dispusesse fosse a 
mesma das rosas.
As angústias do engenheiro 
Álvaro de Campos
Heterônimo futurista de Fernando Pessoa, Álvaro de 
Campos também é conhecido pela expressão de uma angús-
tia intensa, que sucede seu entusiasmo com as conquistas 
da modernidade.
Álvaro de Campos, segundo Fernando Pessoa
....................................................
Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outu-
bro de 1890 [...]. É engenheiro naval (por Glasgow), mas 
agora está aqui em Lisboa em inactividade. É alto (1,75 m 
de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco ten-
dente a curvar-se, cara rapada, entre branco e moreno, 
tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso 
e normalmente apartado ao lado, monóculo. Teve uma 
educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a 
Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois 
naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde 
resultou o “Opiário”. Ensinou-lhe latim um tio bei rão 
que era padre.
PESSOA, Fernando. Cartas escolhidas. In: QUADROS, António 
(Org., int. e notas). Obra poética e em prosa. Porto: Lello & Irmão 
Editores, 1986. v. 2. p. 342-343. (Fragmento adaptado).
....................................................
Na fase da “amargura angustiada”, o poeta escreve lon-
gos poemas em que um grande desencanto existencial se 
revela. O mais conhecido deles é “Tabacaria”. Nos trechos 
que seguem podemos identificar a manifestação de um 
grande descontentamento consigo mesmo, aliado a uma 
visão bastante crítica da realidade que o cerca.
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Passados mais de oitenta anos da morte de Fernando 
Pessoa, ele continua a ser considerado um fenômeno sem 
igual entre os poetas de língua portuguesa. Não se tem 
conhecimento, em nenhuma outra cultura, de um autor que 
tenha se multiplicado em tantos outros e, com cada uma 
dessas identidades literárias, produzido uma obra tão vasta 
e de tão grande qualidade. 
Os estudiosos do espólio de Pessoa contaram pelo 
menos 72 heterônimos e semi-heterônimos criados pelo 
poeta para dar vazão a sentimentos e ideias que, em muitos 
casos, não chegava sequer a reconhecer como seus. “Não 
há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos 
meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, 
sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler 
como estão, que é aliás como se deve ler”, escreveu o autor 
em um de seus muitos textos a respeito do fenômeno da 
heteronímia. 
O contato com a poesia de Fernando Pessoa (ortônima ou 
heterônima) revela, portanto, a essência do fazer literário: a 
capacidade de olhar para o mundo com olhos que, ao mesmo 
tempo, indagam, interpretam e traduzem uma realidade e os 
muitos sentimentos por ela evocados.
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 Leia com atenção o poema abaixo para responder 
às questões de 1 a 6.
Texto 1 
No poema, o eu lírico surpreende-se com um 
acontecimento que, além de afetar a rotina da 
cidade, desencadeia uma reflexão 
sobre sua própria identidade.
Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.
Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.
Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.
Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.
Mas ao menos a ele alguém o via.
Ele era fixo, eu, o que vou.
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.
PESSOA, Fernando. 
Poesias de Álvaro de Campos. 
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Obra poética. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 383-384. 
1. O poema de Álvaro de Campos é estruturado de modo 
a criar um efeito de monotonia. Que elementos for-
mais produzem esse efeito?
2. O primeiro verso da primeira estrofe revela a reação do 
eu lírico ao perceber que algo inesperado aconteceu. 
Que acontecimento é esse?
a) Qual é a reação do eu lírico a tal acontecimento? De 
que modo ela é sugerida por esse primeiro verso?
b) Ao se dar conta do ocorrido, o estado de espírito do 
eu lírico se modifica imediatamente. Explique.
3. Por que o acontecimento em questão desencadeia 
uma reação tão forte no eu lírico? Justifique.
4. Na última estrofe, o eu lírico explicita a razão de 
ter reagido de modo tão forte à quebra da sua mo-
notonia. Transcreva no caderno os versos em que 
isso ocorre.
> Qual é a importância do refrão, no conjunto do 
poema, quando consideramos a reflexão final feita 
pelo eu lírico?
5. Podemos afirmar que a reflexão desencadeada pela 
quebra da monotonia relaciona-se ao tema da iden-
tidade. Por quê?
6. Álvaro de Campos é o engenheiro, o homem que vive 
intensamente as transformações trazidas pelo pro-
gresso. Por esse motivo, ele é, entre os heterônimos 
pessoanos, o mais afetado pela crise de identidade 
que marca a vida nos centros urbanos no início do 
século XX. De que modo o tema desenvolvido no 
poema ilustra essa característica?
 Leia com atenção o poema abaixo para responder às 
questões de 7 a 9.
Texto 2 
No poema, as estações do ano são apresentadas 
como importantes símbolos para diferentes 
momentos da vida humana.
Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
PESSOA, Fernando. Odes de Ricardo Reis. 
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Obra poética. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 283.
Outrem: outra pessoa, alguém indefinido que não 
participa da interlocução estabelecida no momento.
Estio: verão.
7. Ricardo Reis utiliza as estações do ano, em seu poe-
ma, como metáforas para diferentes momentos da 
vida humana. Que momento cada uma das estações 
simboliza?
> Considerando o sentido metafórico das esta-
ções, em que momento o eu lírico se encontra? 
Explique.
8. As estações do ano são utilizadas como símbolos 
para que o eu lírico explicite uma determinada 
filosofia de vida. Qual é ela? Justifique. 
TEXTO PARA ANÁLISE
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LITERATURA
9. Nos versos a seguir, escritos pelo poeta latino Horácio, o carpe diem foi tematizado pela primeira 
vez. Leia.
Texto 3 
Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber;
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos, 
[...]
Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.
HORÁCIO. Poesia grega e latina. Tradução de Péricles Eugênio da 
Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1964. p. 185. (Fragmento).
> A filosofia de vida expressa por Ricardo Reis é a mesma apresentada no poema de Horácio? Explique.
Os anos sombrios 
da ditadura em Portugal
Com a chegada de Salazar ao poder e o início da ditadura 
do Estado Novo, a repressão passa a ser praticada em largaescala, com a instituição da censura e a criação da polícia 
política (a Pide). 
Em termos administrativos, cria-se uma fachada de 
tranquilidade, equilíbrio e ordem, apoiada pela realização de 
inúmeras obras públicas, como a construção de edifícios, 
de hidrelétricas que, de certo modo, preparavam o país 
para a industrialização que chegaria na década de 1950. Na 
verdade, o medo e a insegurança, aliados à passividade e 
à fragilidade das instituições, formam o verdadeiro retrato 
de Portugal sob a ditadura salazarista. 
É no contexto do início do Estado Novo que surge a revista 
Presença com a proposta de uma literatura mais introspec-
tiva e intimista.
O “interregno”
Entre o fim de Orpheu e o surgimento da revista Presença 
(em 1927), que marcará o início do segundo momento moder-
nista, aparecem no cenário literário português alguns escri-
tores que demonstram, em suas obras, uma forte vinculação 
à tradição do Simbolismo/Decadentismo. Nesse período, 
muitas vezes identificado como “interregno”, destacam-se 
dois nomes: o de Florbela Espanca e o de Aquilino Ribeiro.
Vivendo em plena agitação modernista, esses escritores 
não chegam a ser influenciados pelo espírito da ruptura com 
o passado que caracterizou, como vimos, a primeira geração 
modernista portuguesa. 
Florbela Espanca, “a charneca 
rude a abrir em flor”
Florbela Espanca (1894-1930), que também escreveu con-
tos muito bem elaborados, consagra-se como uma poetisa 
de sensibilidade aguda. Definia-se como “filha da charneca 
erma e selvagem”, aludindo à vegetação de sua terra amada. 
Precursora do feminismo em Portugal, teve como ídolo o poe-
ta António Nobre, mestre simbolista e autor do “livro mais 
triste de Portugal”. 
Nos vários sonetos que escreveu, nota-se uma opção por 
certos temas típicos da estética do fim do século, como os 
cenários outonais, o gosto pelas horas da tarde, a abordagem 
de estados de alma indefinidos, acompanhados por um tom 
decadentista. Dor, angústia existencial e profundo sofrimento 
dão o tom da maioria dos poemas escritos pela autora. 
Em alguns poemas, porém, emerge um erotismo pode-
roso, que sinaliza um olhar feminino marcado pela indepen-
dência em relação ao convencionalismo da sociedade da 
época. Observe.
Se tu viesses ver-me...
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesse toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traças as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
ESPANCA, Florbela. Charneca em flor. 
In: FARRA, Maria Lúcia Dal (Org., int. e notas). 
Poemas de Florbela Espanca. São Paulo: 
Martins Fontes, 1996. p. 218.
Se julgar necessário, explique aos alunos que 
“interregno” significa interrupção, intervalo.
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Florbela mostrou ser possível atingir a excelência literária 
dominando uma forma poética específica, o soneto. Revelou-
-se, assim, uma herdeira digna da tradição portuguesa de 
mestres como Camões, Bocage e Antero de Quental. Entre 
suas obras, destacam-se: Trocando olhares (1915-1917), Livro 
de mágoas (1919), Livro de “Sóror Saudade” (1923) e Charneca 
em flor (1931, publicação póstuma).
Aquilino Ribeiro: a importância 
das tradições
Aquilino Ribeiro (1885-1963) dá continuidade à imagem do 
tradicional escritor português ligado à terra. Sua obra é mar-
cada por um certo tom provinciano, nacionalista, revelado pela 
reverência a alguns escritores consagrados, que, antes dele, 
trataram da questão das tradições portuguesas, como Camilo 
Castelo Branco e Eça de Queirós.
Consagra-se no cenário literário pelo cuidado com a 
expressão linguística. Sua obra de ficção desdobra-se em 
vários temas: o culto da religiosidade, a valorização dos 
costumes rústicos e a introspecção psicológica. Dentre 
Trilha sonora
Fanatismo
Minh’alma de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
Posto que és já toda a minha vida
Não vejo nada assim, enlouquecida
Passo no mundo meu amor a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história, tantas vezes lida
[...]
Raimundo Fagner. Ao vivo. 
Rio de Janeiro: Sony Music, 2000. (Fragmento).
Um dos mais conheci-
dos poemas de Florbela 
Espanca, Fanatismo, foi 
musicado por Fagner no 
disco Traduzir-se (1981). 
A beleza do soneto com-
binou bem com a música 
e o sucesso foi tão grande 
que o compositor cearen-
se criou outra “parceria” 
com Florbela no soneto 
“Fumo”: “Longe de ti são 
ermos os caminhos / Longe 
de ti não há luar nem rosas / Longe de ti há noites silenciosas / 
Há dias sem calor, beirais sem ninho”.
Florbela e Fagner: poesia e música
 Capa do CD Ao vivo, de 
Raimundo Fagner. Rio de 
Janeiro: Sony Music, 2000.
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suas obras, destacam-se: Via Sinuosa (1918), Terras do Demo 
(1919), Filhas de Babilônia (1920), Maria Benigna (1933) e A 
casa grande de Romarigães (1957).
Presencismo: os escritores 
ensimesmados
O lançamento de uma revista literária também marcará 
o início da segunda geração modernista portuguesa. Em 
1927, surgiu o primeiro número da revista Presença — Folha 
de arte e crítica, que alcançaria um total de 54 números pu-
blicados, consagrando-se como a revista literária de maior 
duração do país. 
Considera-se que a segunda geração modernista por-
tuguesa, identificada ao movimento denominado presen-
cismo, estendeu-se de 1927 a 1940, existindo enquanto foi 
publicada a revista Presença.
Tome nota
Como traço característico da literatura produzida 
pelos jovens presencistas, observamos a opção por uma 
certa alienação social. Atuando em um momento de sérias 
crises políticas, esses escritores preferiram interrogar 
o sentido da existência humana, criando uma literatura 
introspectiva.
Não se pode, contudo, afirmar que eles formaram um 
conjunto coeso, porque havia polêmicas geradas princi-
palmente pelas diferenças ideológicas (conservadoras ou 
progressistas) em relação à literatura.
O maior mérito dos presencistas foi, na verdade, o de 
divulgar as conquistas da primeira geração modernista, 
consolidando a nova visão estética em Portugal. Além disso, 
suas preocupações existenciais aproximaram a literatura das 
teorias de Freud sobre o inconsciente humano. Na mesma 
linha, sofreram a influência das narrativas psicologizantes 
de Proust e Dostoiévski.
Destacam-se, como autores do período, José Régio (o 
principal “teórico” do grupo), Miguel Torga, João Gaspar 
Simões, Adolfo Casais Monteiro e Branquinho da Fonseca.
O Neorrealismo português
Para fazer frente à literatura intimista e introspectiva dos 
autores de Presença, surgiu em Portugal, no final da década 
de 1930, o chamado movimento Neorrealista. Os autores que 
divulgaram a nova tendência estética declararam o desejo 
de enfrentar a ditadura salazarista como proposta definidora 
de suas obras.
A literatura precisava, segundo esses autores, assumir 
um caráter mais engajado, vinculando-se à realidade portu-
guesa do momento. O objetivo da tematização da realidade 
seria, através dos textos literários, conscientizar a população 
sobre os males advindos dos anos de censura imposta pela 
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LITERATURA
Os neorrealistas foram fortemente influenciados pelo 
romance regionalista brasileiro, principalmente pela obra de 
Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Entre seus 
conterrâneos, adotaram Eça de Queirós como modelo inspirador. 
Em linhas gerais, os textosda terceira geração mo-
dernista definiam-se por apresentar duas características 
fundamentais:
histórico-social específico, de uma realidade concreta.
possível tal realidade, como a exploração dos traba-
lhadores, a falta de educação, as precárias condições 
de saúde e o governo ditatorial.
O fim do Neorrealismo não está associado a uma data pre-
cisa. Costuma-se adotar duas referências: a morte de Salazar, 
em 1968, e a Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974) como 
marcos possíveis do seu término. É preciso ressaltar, porém, 
que muitos dos autores portugueses contemporâneos ainda 
apresentam traços dessa estética em suas obras.
Boléu: pancada.
Rabezanos: camponeses.
Jornas: trabalhos contratados por dia.
Fateiras: vendedoras.
Conduto: alimento que se come com pão.
Considera-se que o Neorrealismo português teve 
início em 1939, com a publicação do romance Gaibéus, 
de Alves Redol.
Tome nota
Alves Redol e os trabalhadores 
da terra
Antônio Alves Redol (1911-1969) desponta para a lite-
ratura portuguesa no ano de 1939, com a publicação do 
romance Gaibéus. O título da obra refere-se aos modestos 
camponeses do Ribatejo, cuja vida sofrida e injustiçada 
é apresentada pelo autor em uma série de episódios que 
se justapõem, como se formassem “manchas”, símbolo 
da existência dessas criaturas sem nome nem esperança. 
Observe.
Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro 
de um fogo que alastrava-se na Lezíria Grande. 
Como se da Ponta de Erva ao Vau a leiva se 
consumisse nas labaredas de um incêndio que 
irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte.
O ar escaldava; lambia-lhes de febre os 
rostos corridos pelo suor e vincados por es-
gares que o esforço da ceifa provocava. O Sol 
desaparecera há muito, envolvido pela massa 
cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não 
o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela 
fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se 
dissolvido no ar que respiravam, pastoso e 
espesso. Trabalhavam à porta de uma fornalha 
que lhes alimentava os pulmões com metal 
em fusão.
Quase exaustos, os peitos arfavam num 
ritmo de máquinas velhas saturadas de mo-
vimento.
A ceifa, porém, não parava, e ainda bem — a 
ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, 
o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam 
os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles 
próprios não a desejavam; se as foices não cor-
tassem arroz, as jornas acabariam também. E 
se ao sábado o apontador não enchesse a folha, 
as fateiras não trariam pão e conduto da vila.
Então os dias tornar-se-iam ainda mais pe-
nosos e o degredo por terras estranhas mais 
insuportável. [...]
REDOL, Antônio Alves. Gaibéus. 
In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa 
através dos textos. 24. ed. São Paulo: 
Cultrix, 1997. p. 461. (Fragmento).
Além de Alves Redol, destacaram-se entre os neorrealis-
tas Fernando Namora, José Cardoso Pires, Urbano Tavares 
Rodrigues, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira e Carlos 
de Oliveira. 
ditadura. A “arte pela arte” presencista devia abrir espaço 
para a consciência dos problemas enfrentados por Portugal e 
para o risco representado pela aproximação ideológica entre 
o Estado Novo e o nazifascismo.
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 Gaibéu, em Portugal, é o termo utilizado para 
designar o trabalhador rural que limpa a campina 
de galhos e ervas daninhas, preparando o campo 
para a plantação. Capa da 1a edição de 1939. 
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Oiros: ouros. Seara: terra cultivada.
 O poema a seguir refere-se às questões de 1 a 3.
Texto 1 
Epitáfio para um poeta
No poema, o eu lírico reflete sobre 
a morte de um poeta.
As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não veem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!
RÉGIO, José. In: BERNARDELLI, Cleonice (Org.). 
José Régio: antologia. Rio de Janeiro: 
Nova Fronteira, 1985. p. 217.
Farpela: roupa, vestimenta.
1. O poema retrata o momento em que o corpo de um 
poeta, morto, é preparado para o sepultamento. A 
quem o eu lírico se dirige? 
> Na visão do eu lírico, há algo inadequado no modo 
como o morto está sendo preparado. Por quê?
2. Podemos afirmar que as roupas do morto são vistas 
pelo eu lírico como simbólicas de algo negativo. 
Explique, com base no texto, o que essas roupas 
simbolizam.
3. No início do poema, uma imagem sugere que o poe-
ta, apesar de morto, é um símbolo da liberdade. Que 
imagem é essa?
> A partir da caracterização que o eu lírico faz do 
poeta, é possível depreender uma certa visão de 
poesia presente no poema. Qual seria essa visão? 
Explique. 
 O poema a seguir refere-se às questões de 4 a 8.
Texto 2 
Versos de orgulho
No poema, Florbela Espanca revela algumas das 
características que a definiram como uma mulher 
de perspectivas muito avançadas para o seu tempo.
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu Reino fica para além...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!
O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?
— O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos, pão bendito...
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
— São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.
ESPANCA, Florbela. Livro de mágoas. In: FARRA, Maria 
Lúcia Dal (Org.). Poemas de Florbela Espanca. São Paulo: 
Martins Fontes, 1996. p. 210.
4. Embora tenha escrito durante o Modernismo português, 
Florbela Espanca revela influências, no conteúdo e na 
forma, que a associam às estéticas do fim do século 
XIX. Em termos formais, como se estrutura o poema? 
Esse aspecto formal sugere um afastamento da poesia 
de Florbela da estética modernista? Por quê?
5. O eu lírico é feminino. Como isso é marcado no texto? 
> Qual é o sentimento expresso pelo eu lírico nas duas 
primeiras estrofes? 
6. Como o eu lírico define seu mundo?
7. Leia um trecho de um texto escrito por Florbela para 
uma revista portuguesa intitulada A mulher (1913). 
Texto 3 
Mulheres da minha terra! Gatas Borralheiras com o 
cérebro vazio, que esperam, sentadas à lareira e com es-
tremecimentos mórbidos, a hipotética aparição do prín-
cipe encantado; [...] bonecas de luxo, vestidas como as 
senhoras de Paris e com a inteligência toda absorvida na 
decifração das modas, incapazes de outro interesse ou de 
outra compreensão! [...] Pobres mulheres da minha terra!
ESPANCA, Florbela. Florbela: um caso feminino e poético. 
In: FARRA, Maria Lúcia Dal (Org., int. e notas). Poemas de Flor-
bela Espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. XXXVIII.
a) O que esse trecho permite concluir a respeito da 
opinião de Florbela em relação ao comportamento 
das mulheres no início do século XX?
b) O aspecto inovador de “Versos de orgulho” é marcado 
pelo fato de a postura do eu lírico ser totalmente opos-
ta ao comportamento criticado por Florbela. Explique.
8. Os versos finais podem ser lidos como expressão de 
um desejo de fusão entre os amantes, como símbolo 
da realização plena. Explique.
> Explique se há uma contradição entre essa imagem 
e a postura libertária assumida pelo eu lírico.
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LITERATURA
Diálogos literários: presente e passado
Na poesia contemporânea, elementos aparentemente insignificantes e comuns ganham uma ines-
perada dimensão lírica. Essa tendência de valorizar os fatos cotidianos, porém, não é uma descoberta 
dos dias atuais. Ela já tem algumasdécadas de existência e foi revelada no verso de importantes 
poetas modernistas, como Manuel Bandeira. 
A partir da década de 1920, diferentes autores apresentam aos leitores brasileiros, acostumados 
ao formalismo parnasiano, como elementos prosaicos podem ganhar contornos cômicos ou simbolizar 
o mais profundo lirismo. E o que produz efeitos expressivos únicos é o olhar que dirigem para acon-
tecimentos ou cenas aparentemente comuns: qualquer elemento pode ser poético, desde que seja 
assim visto. No próximo capítulo, você verá como a poesia dos nossos primeiros modernistas desafiou 
os limites do lirismo tradicional e abriu novas e importantes possibilidades para a criação literária. 
Na década de 1970, essa tradição amplia-se com os poetas da chamada Geração Mimeógrafo, cuja 
produção também é chamada de poesia marginal e para quem poesia e vida deveriam ser algo único. 
Mas, antes de conhecer os textos carregados de ousadia e inovação dos autores da primeira 
geração modernista, veja como alguns poetas contemporâneos transformam o prosaico em lirismo. 
Adélia Prado e a beleza da simplicidade
O café tomado na esquina 
— meio de lado 
no balcão 
a ponto de observar 
a manhã que reproduz 
e se mistura 
em pernas rápidas 
(decomposição do movimento)
 
O café pago no caixa 
— troco, obrigado, cigarro na boca 
de mais uma manhã 
 
mais uma manhã 
trocando olhares 
medindo gestos 
(somos todos estrangeiros
nesta cidade
neste corpo que acorda)
e não me misturo
— com essa gente,
não me misturo.
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fi m, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
PRADO, Adélia. Poesia reunida. 
São Paulo: Siciliano, 1991. p. 252.
O estranhamento do cotidiano em Heitor Ferraz
Estrangeiro
FERRAZ, Heitor. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). 
Esses poetas: uma antologia dos anos 90. 
Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998. p. 164.
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Observe a foto a seguir.
 Eduardo White e o cotidiano do poeta
Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.
À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de 
 [Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.
Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.
Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
[...]
WHITE, Eduardo. In: APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo; 
DÁSKALOS, Maria Alexandre (Orgs.). Poesia africana 
de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro: Lacerda 
Editores, 2003. p. 240-241. (Fragmento).
O que vocês não sabem e nem imaginam
(Ao Abdul Magide, ao Pilinhas, ao Ungulani, 
ao Rui, ao Zé Camadjoma e outros)
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Reúna-se com seus colegas, analise a imagem do ponto de vista da forma e do conteúdo e discu-
ta os seguintes aspectos: de que maneira a foto revela a transformação do cotidiano em elemento 
artístico? Como a imagem pode ser relacionada aos textos apresentados na seção? Em seguida, 
escreva um comentário sobre a foto, relacionando-a à tradição vista nesta seção. Utilize os poemas 
aqui transcritos como base para o seu comentário.
Pare e pense
Eduardo White 
(1963-2014): nasceu 
em Quelimane, 
Moçambique — África 
Oriental. 
Ostentosos: que 
impressionam pela 
importância. 
Fatos: ternos. 
Rebuçados: doces 
feitos de calda de 
açúcar endurecida.
Prendar: presentear.
 
Escadaria da Galeria 
Prestes Maia. 
São Paulo, 1946.
Nesta atividade, os alunos são levados a analisar uma foto de Thomaz Farkas, que retrata duas mulheres, de braços dados, 
descendo a escadaria da Galeria Prestes Maia (espaço artístico e cultural da cidade de São Paulo, que tem uma ligação 
subterrânea entre a Praça do Patriarca e o Vale do Anhangabaú). O que seria uma cena prosaica (duas mulheres descendo 
uma escadaria em direção a uma passagem subterrânea) ganha contornos artísticos porque obriga o observador a enfrentar 
uma mudança de perspectiva: o ângulo escolhido para capturar a imagem opõe o cenário claro em que estão as mulheres 
à escuridão da entrada do túnel, dando a impressão de que elas parecem caminhar em direção a um buraco negro. É 
justamente essa mudança 
de perspectiva que reve-
la como uma cena banal 
(pessoas caminhando pela 
cidade em um dia comum) 
pode ser transformada em 
elemento artístico. No co-
mentário que farão, os 
alunos devem destacar esses 
elementos e compará-los 
aos textos transcritos na 
seção, pois eles também 
adotam o cotidiano como 
ponto de partida para a 
experiência poética.
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Capítulo
3
Modernismo no Brasil. 
Primeira geração: 
ousadia e inovação
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 AMARAL, T. do. A Cuca. 1924. Óleo sobre tela, 73 � 100 cm.
Leitura da imagem
1. Que elementos da natureza estão presentes na tela de 
Tarsila do Amaral (1886-1973)?
> O modo como esses elementos foram representados 
pela artista provoca algum estranhamento no obser-
vador? Por quê? 
2. Em A Cuca, o uso das cores fortes (“cores caipiras”, segundo 
a artista) e o modo como os elementos da natureza foram 
recriados sugerem uma releitura menos formal, mais alegre 
e irreverente. Como isso fica evidente no quadro?
3. Em fevereiro de 1924, Tarsila escreveu para sua filha 
Dulce e contou:
Estou fazendo uns bichos bem brasileiros que têm sido 
muito apreciados. Agora fiz um que se intitula A Cuca. É 
um bicho esquisito, no mato com um sapo, um tatu e 
outro bicho inventado. 
Disponível em: <http://tarsiladoamaral.com.br/ 
obras/pau-brasil-1924-1928/>. 
Acesso em: 24 mar. 2016.
> Considerando o contexto em que a Cuca foi retratada 
por Tarsila, podemos associar sua presença na tela ao 
desejo da artista de produzir obras verdadeiramente 
brasileiras. Por quê?
4. Observe, na página seguinte, o quadro Paisagem na mata 
virgem do Brasil, com figuras, de Johann Moritz Rugendas, 
visto na abertura do Capítulo 2, Volume 2.
Sugerimos que todas as questões sejam respondidas oralmente 
para que os alunos possam trocar impressões e ideias.
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Sereias: sirenes.
Coxilhas: extensões de terra com pequenas e grandes 
elevações nas quais se desenvolve atividade pastoril.
Aboiados: brados fortes e compassados dados pelos 
vaqueiros para conduzir o gado.
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RUGENDAS, J. M. Paisagem 
na mata virgem do Brasil, 
com figuras. 1830. Óleo 
sobre tela, 62,5 � 49,5 cm.
Da imagem para o texto
5. A releitura crítica dos símbolos da nacionalidade é 
uma das principais características do Modernismo. Veja 
como Ronald de Carvalho (1893-1935) apresenta a nova 
identidade do país.
Brasil
Nesta hora de sol puro
Palmas paradas
Pedras polidas
Claridades
Faíscas
Cintilações
Eu ouço o canto enorme do Brasil!
[...]
Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando, 
 [vociferando!
Redes que se balançam,
Sereias que apitam,
Usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam 
 [e roncam,
[...]
Rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos, 
 [aboiados e mugidos,
Repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro Preto, Bahia, 
 [Congonhas, Sabará,
Vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
Tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
Vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga 
 [no sertão!
Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil.
Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar…
A conversa dos fazendeiros nos cafezais,
A conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
A conversa dos operários nos fornos de aço,
> A natureza brasileira é representada por Rugendas de 
modo muito diferente da visão de Tarsila. Se conside-
rarmos as intenções de cada artista, como podemos 
explicar essa diferença de olhar? 
A conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias,
A conversa dos coronéis nas varandas das roças…
Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
Palmas paradas
Pedras polidas
Claridades
Brilhos
Faíscas
Cintilações
É o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
 onde dorme, com a boca escorrendo leite,
 moreno, confiante, o homem de amanhã!
CARVALHO, Ronald de. In: BANDEIRA, Manuel (Org.). 
Antologia dos poetas brasileiros: fase moderna. Rio de Janeiro: 
Nova Fronteira, 1996. v. 1, p. 124-126. (Fragmento).
> Segundo o eu lírico, é possível determinar a identidade 
do Brasil por meio de um único símbolo? Justifique.
6. Releia o trecho abaixo.
“Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando, 
 [vociferando!
Redes que se balançam,
Sereias que apitam,
Usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam 
 [e roncam!”
> Qual é a imagem do Brasil sugerida pelos verbos desta-
cados? Explique.
7. De quem são as conversas a que o eu lírico se refere? 
Onde elas acontecem?
a) Os locais das conversas mostram atividades econômi-
cas importantes para o país. Quais são essas atividades?
b) O que as atividades demonstram em relação ao aspecto 
econômico do país?
8. Transcreva em seu caderno o verso que faz referência à 
participação dos imigrantes no desenvolvimento do país. 
Explique de que forma isso é feito.
a) Os dois versos anteriores a esse também aludem me-
taforicamente a importantes transformações por que 
passou o Brasil. Quais são elas? 
b) De que modo essas transformações são integradas ao 
retrato que o eu lírico faz de sua pátria?
9. Depois de falar dos imigrantes e das riquezas do país, o 
eu lírico afirma que esse “É o canto dos teus berços, Brasil, 
de todos esses teus berços”. Como se pode interpretar o 
uso do plural nesse verso?
a) O homem de amanhã é “moreno”. O que essa tonali-
dade de pele sugere sobre o povo brasileiro? 
b) Além de moreno, o brasileiro é apresentado como “con-
fiante”, como “o homem de amanhã”. Essa imagem 
sugere um futuro grandioso para o país. Por quê?
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LITERATURA
A República Velha 
chega ao fim
No começo dos anos 1920, o exército brasileiro vivia uma 
situação desanimadora: o treinamento era insatisfatório, 
os armamentos eram antigos, os soldos eram baixos. Os 
tenentes estavam entre os mais insatisfeitos, pois eram 
muitos e as promoções podiam levar anos. Nada indicava 
que o governo do presidente Epitácio Pessoa iria mudar 
esse panorama. Em meio a essa situação ocorreram várias 
revoltas militares, conhecidas como movimentos tenentis-
tas ou tenentismo.
A crise se agravou em 1922, com a eleição de Arthur 
Bernardes para a presidência da República. Antes da posse 
do novo governo, em 2 de julho, o presidente Epitácio Pessoa, 
reagindo às críticas do marechal Hermes (ex-presidente da 
República e presidente do Clube Militar), mandou prendê-lo 
e fechar o Clube Militar. Três dias depois, no Rio de Janeiro, 
ocorreu a revolta conhecida como os 18 do Forte, que se 
propunha a depor Arthur Bernardes. Durante 24 horas, os 17 
tenentes e um civil enfrentaram os mais de mil soldados das 
forças governistas e então se entregaram. 
Em julho de 1924, outro grupo de tenentes, reivindicando 
maior representatividade política, voto secreto e justiça, deu 
início a uma nova revolta em São Paulo. Um mês depois, diante 
do avanço das tropas governistas, os revoltosos retiraram-se 
em direção ao interior.
Em outubro, tropas no Rio Grande do Sul iniciaram um 
levante comandado pelo capitão Luís Carlos Prestes e 
encontraram-se com os rebeldes paulistas, que naquele 
momento estavam combatendo em Foz do Iguaçu, no Pa-
raná. Estava formada a Coluna Prestes, que, durante dois 
anos, percorreu o Brasil para difundir os ideais revolucio-
nários comunistas e conclamar o povo a se revoltar contra 
os grandes latifundiários. A Coluna Prestes não conseguiu 
derrubar o governo, mas explicitou a crise política e o de-
sejo dos oficiais de terem uma atuação mais incisiva no 
cenário político.
Na economia, o mundo encaminhava-se para um colapso, 
concretizado com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. 
O Brasil, que dependia em grande parte das exportações de 
café, sofreu um duro golpe e teve de enfrentar um período 
de grande instabilidade econômica.
A política do “café com leite”
A política do “café com leite” previa a alternância entre 
paulistas e mineiros na Presidência do Brasil, garantindo po-
der político às duas oligarquias econômicas: os pecuaristas 
de Minas e os cafeicultores de São Paulo. Em vez de indicar 
um mineiro, como era a regra, Washington Luís indicou um 
paulista, Júlio Prestes, e provocou uma crise política que 
terminaria com a sua deposição.
O agravamento da crise econômica contribuiu para tor-
nar mais tenso o clima político, que atingiu o seu auge nas 
eleições de 1930. A insatisfação com o controle paulista 
do poder uniu líderes políticos e militares de diferentes 
estados brasileiros. Formou-se a Aliança Liberal. Getúlio 
Vargas concorreu com Júlio Prestes, que venceu as eleições 
sob acusações de fraude. Como o caminho das urnas não 
dera certo, gaúchos e nordestinos depuseram o presidente 
Washington Luís. Chegava ao fim a República Velha, contro-
lada pelos grandes proprietários rurais.
Getúlio Vargas tomou posse “provisória” em 3 de novembro 
de 1930. Começava a era Vargas, que se estenderia até 1945.
São Paulo: riqueza e 
industrialização
Sede do Império e, mais tarde, da República, o Rio de Ja-
neiro era a cidade de maior prestígio político e social do país, 
onde se concentrava boa parte dos interesses econômicos, 
porque funcionava como porta de entrada para as merca-
dorias importadas da Europa e de saída para a exportação 
da riqueza nacional.
Nova fonte de riqueza, o café trouxe, além do desen-
volvimento econômico, uma transformação importante no 
eixo de poder do país. Ele financiou a industrialização de 
São Paulo, que logo se tornou um dos estados mais ricos 
e influentes do Brasil. 
O glamour da Belle Époque ainda marcava as ruas do Rio de 
Janeiro, com seus cafés, livrarias, teatros e festas. O Parna-
sianismo, com seus versos rígidos e suas rimas rebuscadas, 
reinava soberano no gosto popular. 
Pouco a pouco, porém, a vida cultural de São Paulo passou 
a sentir os efeitos das vanguardas que tomavam a Europa 
de assalto. Uma mudança radicalnas artes começava a ser 
preparada. Coincidindo com o fim da República Velha, o Mo-
dernismo chegava ao Brasil.
A polêmica exposição de Anita 
Malfatti
Em 1917, ao voltar dos Estados Unidos, onde entrou em 
contato com as estéticas cubista e expressionista, a jovem 
Anita Malfatti (1889-1964) expôs algumas de suas obras, que 
ilustravam a influência das vanguardas europeias. Monteiro 
Lobato chamou a atenção do público para a exposição, ao pu-
blicar no jornal O Estado de S. Paulo uma dura crítica ao traba-
lho da artista e à necessidade de se criar uma arte “moderna”.
Paranoia ou mistificação?
Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que 
veem normalmente as coisas e em consequência disso 
fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e 
adotando para a concretização das emoções estéticas os 
processos clássicos dos grandes mestres. [...] A outra espé-
cie é formada pelos que veem anormalmente a natureza, 
e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão 
estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furún-
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Teratológica: doentia, monstruosa.
Zabumbadas: anunciadas com alarde.
culos da cultura excessiva. [...] Embora eles se deem como 
novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que 
a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e 
com a mistificação. De há muito já que a estudam os psi-
quiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros 
desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. 
A única diferença reside em que nos manicômios esta arte 
é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas 
mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públi-
cas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por america-
nos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma 
lógica, sendo mistificação pura. [...]
LOBATO, Monteiro. Monteiro Lobato. 2. ed. 
São Paulo: Nova Cultural, 
1988. p. 116-117. (Fragmento).
Em resposta, Mário de Andrade publicou, no Jornal do 
Commercio, artigo no qual começa a revelar os princípios 
que orientarão a arte modernista: rejeição ao artificialismo, à 
“arte pela arte”, às regras limitadoras da criação, à imposição 
de um conceito de beleza convencional.
A polêmica iniciada por Lobato, além de contribuir para 
a organização dos novos artistas, também deslocou o eixo 
cultural do Rio de Janeiro para São Paulo.
Semana de Arte Moderna: 
três noites que fizeram 
história
Em 1922, comemorava-se o centenário da Independên-
cia política do Brasil. Os intelectuais modernistas viram 
na data a oportunidade de promover um evento de gala, 
em que as novas tendências estéticas fossem apresen-
tadas. Nasceu assim a ideia de realizar uma semana de 
arte moderna.
O grupo, formado por Oswald de Andrade, Guilherme de Al-
meida, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti e Mário de Andrade, 
organizou uma série de conferências, exposições e concertos 
para divulgar as novas posturas estéticas.
Logo, importantes intelectuais cariocas aderiram ao 
evento: Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Manuel 
Bandeira (que não compareceu, mas enviou um poema) foram 
apenas alguns dos nomes que tomaram parte na Semana 
de Arte Moderna.
Vaias, relinchos e miados: 
o espanto do público
Na noite de 13 de fevereiro, a elite paulistana compareceu 
em peso ao Teatro Municipal para assistir à conferência de 
abertura, feita por Graça Aranha.
A confusão aconteceu na segunda noite, quando Ronald 
de Carvalho leu o poema “Os sapos”, no qual Manuel Bandeira 
critica a estética parnasiana.
[...]
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos.
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
“Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”
Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei” — “Foi!” 
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”.
[...]
BANDEIRA, Manuel. Carnaval. 
In: SEFFRIN, André (Org.). Poesia completa 
e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 
2009. p. 48-49. (Fragmento).
Frumento: trigo selecionado, puro. 
Joio: semente da família das gramíneas. A 
expressão “separar o joio do trigo”, base para o 
verso de Bandeira, significa separar o que é bom 
(trigo) do que é ruim (joio).
A plateia o acompanhou com apupos e assobios, repe-
tindo ruidosamente o refrão “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”. 
O terceiro dia foi marcado pelo incidente com Villa-Lobos. 
Atormentado por um calo, o músico não conseguiu calçar 
sapatos que combinassem com a roupa de gala que usava 
e apresentou-se de casaca e chinelos. Atribuindo o gesto 
a uma excentricidade “futurista”, boa parte dos presentes 
sentiu-se ofendida pela atitude do maestro.
Ainda em 1922, Mário de Andrade publicou o seu volu-
me de poemas, Pauliceia desvairada. Em 1923, foi a vez de 
Oswald de Andrade, com o romance Memórias sentimentais 
de João Miramar. Manuel Bandeira, em 1924, apresentou O 
ritmo dissoluto. Aos poucos surgiam as obras que tornavam 
irreversíveis as mudanças anunciadas em fevereiro de 1922.
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LITERATURA
O projeto literário 
da primeira geração 
modernista
Menotti del Picchia (1890-1954) resumiu de modo objeti-
vo o projeto literário da primeira geração de modernistas bra-
sileiros. Segundo ele, o grupo da Semana “não formulou um 
código: formou uma consciência, um movimento libertador a 
integrar nosso pensamento e nossa arte na nossa paisagem 
e no nosso espírito dentro da autêntica brasilidade”. Mais 
uma vez a busca pela identidade nacional voltava ao centro 
do projeto literário de uma geração.
Para cumprir esse projeto, o Modernismo, inspirado pe-
las propostas iconoclastas das vanguardas europeias, deu 
início a um questionamento sistemático dos valores que 
fundamentavam o gosto nacional. 
É a crença na necessidade de destruir os valores do 
passado para propor um novo olhar para a arte que anima os 
primeiros modernistas. Assim, ao mesmo tempo que davam 
seu grito de independência e se revoltavam contra modelos 
do passado, enfrentavam heroicamente a resistência de um 
público que cultivava esses modelos como sinônimo de beleza.
Os agentes do discurso
As condições de produção da primeira geração moder-
nista estão diretamente ligadas ao fenômeno das vanguar-
das culturais europeias. 
O interesse de alguns ricos mecenas pelas novidades 
artísticas fez com que São Paulo contasse com salões 
artístico-literários como a Villa Kyrial, do gaúcho Freitas 
Valle. As reuniões, frequentadas tanto por ricos oligarcas 
quanto por jovens talentos sem recursos, eram animadas 
pelas posições ideológicas muitas vezes divergentes dos 
participantes. As ideias fervilhavam e fecundavam a imagi-
nação dos novos artistas.
Para divulgar essas ideias e, principalmente, aproveitar a 
agitação provocada pela Semana de Arte Moderna, foi preciso 
imaginar novos meios de realizar a circulação dos textos. Os 
primeiros modernistas brasileiros investiram no lançamento 
de revistas e manifestos. 
Klaxon foi a primeira revista a surgir, em maio de 1922. 
A ela somaram-se Estética (Rio de Janeiro, 1924), A Revista 
(Minas Gerais, 1925), Terra Roxa e Outras Terras (São Paulo, 
1926) e Verde (Minas Gerais, 1927).
A multiplicação das revistas mostra que a onda mo-
dernista ia aos poucos tomando conta do centro político e 
econômico do país, concentrando-se nas principais capitais 
da região Sudeste.
A primeira geração modernista 
e o público
O apoio econômico e social da elite permitiu que as pro-
postas de vanguarda continuassem a florescer, embora não 
contassem com o apoio do público, que não as entendia. A 
esse respeito,é interessante notar a diferença entre a re-
cepção dessas propostas no Brasil e na França. Em Paris, a 
efervescência cultural da cidade e o acesso mais frequente 
das pessoas a inovações artísticas fizeram com que, em 
pouco tempo, as vanguardas artísticas deixassem de provo-
car espanto. No Brasil, a aceitação da produção modernista 
demorou muito mais para se consolidar junto ao público.
Manifestos: proposição de 
novos caminhos estéticos
Boa parte das propostas da primeira geração modernis-
ta foi apresentada sob a forma de manifestos. O primeiro 
deles, Manifesto pau-brasil, foi lançado por Oswald de An-
drade no dia 18 de março de 1924 nas páginas do Correio 
da Manhã. 
O ideal desse manifesto era conciliar a cultura nativa e a 
cultura intelectual. O manifesto também propunha “ver com 
olhos livres”, fazer uso da língua sem preconceitos e resgatar 
todas as manifestações culturais, fossem da elite ou do povo. 
Uma reação conservadora nasceu com o manifesto 
Nhengaçu verde-amarelo (também chamado de Manifesto 
do verde-amarelismo ou da Escola da Anta), publicado em 
maio de 1929, que defendia um estado forte e centralizador 
e a adoção de um nacionalismo ufanista e primitivista. O 
grupo, do qual participavam Menotti del Picchia e Cassiano 
Ricardo, escolheu a anta como seu símbolo, por esse animal 
ter sido um totem tupi. O Verde-amarelismo assumiu uma 
feição radical, pregando ideias políticas reacionárias, asso-
ciadas ao integralismo do líder Plínio Salgado, uma versão 
brasileira do fascismo.
Em 1928, Oswald de Andrade lançou o Manifesto antropó-
fago em reação ao nacionalismo ufanista do grupo da Anta. 
A proposta, agora, tinha feição anarquista.
Valendo-se da antropofagia como uma metáfora do que 
deveria ser culturalmente assimilado, digerido e superado 
para que se alcançasse uma verdadeira independência cul-
tural, Oswald defendia que, como antropófagos, os brasileiros 
deveriam adotar uma postura crítica diante das influências 
culturais europeias, “digerindo” o que interessasse e elimi-
nando o resto. Com essa proposta, afirmava uma postura 
nacionalista diferente de todas as anteriores, que propunham 
eliminar tudo o que fosse estrangeiro para louvar os símbolos 
da nacionalidade.
Os poetas nacionalistas
Em Martim Cererê (1928), Cassiano Ricardo (1895-1974) 
adota como tema a natureza brasileira “primitiva”. O resgate de 
mitos e o uso de onomatopeias contribuem para a descrição 
da natureza tropical.
Raul Bopp (1898-1984), com Cobra Norato (1931), explora 
as lendas da Amazônia para desenvolver o tema da viagem no 
tempo e no espaço. Cobra Norato é “parente” de Macunaíma, 
de Mário de Andrade, e de Martim Cererê, de Cassiano Ricardo.
O uso do termo “Sudeste” é apenas um recurso para que possamos localizar a região, usando uma referência atual, uma 
vez que a divisão do país em regiões foi estabelecida somente a partir da década de 1940.
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Adeus às fórmulas literárias
A liberdade de criação deu identidade à produção dos 
primeiros modernistas. Ela se manifestou tanto na escolha de 
temas como no aspecto formal assumido pelo texto literário. 
Manuel Bandeira, em “Poética”, resumiu de modo exemplar 
a nova perspectiva estética.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto 
 [expediente protocolo e manifestações de 
 [apreço ao Sr. diretor
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no 
 [dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de 
 [si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do 
 [amante exemplar com cem modelos de 
 [cartas e as diferentes maneiras de agradar 
 [às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. 
In: SEFFRIN, André (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985. p. 101-102.
© dos poemas de Manuel Bandeira, do Condomínio 
dos Proprietários dos Direitos Intelectuais de 
Manuel Bandeira (In: Estrela da vida inteira — 
Editora Nova Fronteira) — Direitos cedidos por Solombra — 
Agência Literária (solombra@solombra.org).
Com os modernistas, a expressão poética alcançou uma 
liberdade formal jamais vista: versos de todos os tamanhos, 
com rimas e sem rimas, estrofes com diferentes números de 
versos, tudo era permitido.
 AMARAL, T do. Abaporu. 1928. Óleo sobre 
tela, 85 � 73 cm. O quadro Abaporu (em 
tupi, aba quer dizer “homem” e poru, “que 
come”) inspirou o movimento antropófago.
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Linguagem: o português brasileiro
A nova postura nacionalista também se manifesta no plano 
da linguagem. Mário de Andrade lidera a campanha pelo uso 
da língua “brasileira” nos textos literários. Por isso, opta por 
escrever algumas palavras de modo mais semelhante à forma 
como são faladas pelo povo, como milhor, si, pra, entre outras.
Além da aproximação entre fala e escrita, a linguagem da 
prosa modernista torna-se mais ágil. As longas descrições 
românticas e realistas dão lugar a cenas breves, curtas, que 
são apresentadas em rápida sucessão, criando o efeito de 
fotogramas que ganham movimento quando montados em se-
quência. Os romances e contos, compostos de inúmeras cenas 
como essas, lembram uma nova forma de expressão: o cinema.
 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 5.
II
Acalanto do seringueiro
Neste poema, o eu lírico dirige um 
acalanto ao seu interlocutor.
Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...
TEXTO PARA ANÁLISE
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LITERATURA
[...]
Seringueiro, seringueiro,
Queria enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Algumas coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
[...]
Mas porém é brasileiro, 
Brasileiro que nem eu...
[...]
Literatura e contexto histórico
 Considere as informações a seguir. 
 I. Em 1920, a exposição dadaísta em Colônia 
causa escândalo: na entrada, os visitantes 
recebiam uma faca para danificar os quadros.
 II. Em 1926, os irmãos Warner experimentam o 
vitafone, dando início ao cinema sonoro.
> Como você deve ter observado, essas infor-
mações indicam uma renovação em relação 
às estéticas do passado. Discuta com seus 
colegas: de que maneira elas revelam o caráter 
revolucionário que caracterizou a primeira 
geração modernista? 
Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
“Sagrados” como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!Seringueiro dorme...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz!...
1. No poema, o eu lírico se dirige a um interlocutor. Quem 
é ele?
> Por que o eu lírico se dirige a esse interlocutor?
2. Como o eu lírico caracteriza seu interlocutor na se-
gunda estrofe?
> De que maneira o trabalho desse homem determina 
a caracterização feita pelo eu lírico?
3. O olhar do eu lírico para o seringueiro mostra a visão 
de um homem diferente. Com o que trabalharia esse 
homem? Justifique.
a) Explique por que o eu lírico fala de uma realidade 
diferente da do seringueiro.
b) Por que a descoberta da diferença entre os dois “mun-
dos” provoca o espanto e a comoção do eu lírico?
4. Na última estrofe, o eu lírico reflete sobre qual seria a 
reação do seringueiro às preocupações e aos desejos 
manifestados nesse “acalanto”. O que ele afirma a 
esse respeito?
> O que o eu lírico gostaria que acontecesse? Explique. 
5. Releia os versos a seguir.
“Mas porém é brasileiro, 
Brasileiro que nem eu...
[...]
E não sinto os meus patrícios!
[...]
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz!...”
a) Esses versos revelam a reflexão do eu lírico sobre o 
verdadeiro significado da nacionalidade. Explique 
por quê.
b) De que maneira essa reflexão se relaciona ao projeto 
literário modernista?
Nem você pode pensar 
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver se consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(... numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras
(... numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...
[...]
ANDRADE, Mário de. In: FIGUEIREDO, Tatiana Longo; LOPES, Telê Ancona (Orgs.). Poesias completas. 
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013. p. 288-291. v. 1. (Fragmento). 
Acalanto: cantiga de ninar, geralmente usada para embalar o sono 
de crianças. 
Ponteando: dedilhando, tocando (em geral, um instrumento de corda). 
Forcejo: esforço(-me); empenho(-me). 
Despotismo: poder absoluto, opressão. 
Mumbavas: diz-se de indivíduos que vivem à custa de outro(s). 
Chupitando: chupando ou bebendo aos poucos. 
Patrícios: que pertencem à mesma pátria. 
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Oswald de Andrade: 
irreverência e crítica
A obra de Oswald de Andrade (1890-1954) reúne todas as 
características que marcaram a produção literária do perío-
do. Escreveu poesia, romance, teatro, crítica e, em todos os 
gêneros, deixou registrada a sua vocação para transgredir, 
para quebrar as expectativas e criar polêmica.
Publicou, dentre outras obras, Os condenados (1922), 
Memórias sentimentais de João Miramar (1924), Pau-Brasil 
(1925), Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade 
(1927), Serafim Ponte Grande (1933), A morta (1937), O rei da 
vela (1937) e Marco zero (1943-1946).
A poesia
Em seus poemas, Oswald de Andrade afirma uma imagem 
de Brasil marcada pelo humor, pela ironia e também por uma 
crítica profunda e um imenso amor ao país, como atesta o 
lirismo de muitos de seus versos.
Uma visão crítica da história do Brasil se manifesta na 
releitura de textos e eventos do período colonial do país.
Brasil
Para Trolyr
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha 
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval.
ANDRADE, Oswald de. Primeiro caderno do aluno de poesia 
Oswald de Andrade. 13. ed. São Paulo: Globo, 2001. p. 41. 
(Col. Obras completas de Oswald de Andrade).
O tom coloquial do poema recria de modo irônico a chegada 
dos portugueses. O momento, normalmente tratado de modo 
solene, é apresentado a partir de uma perspectiva irreveren-
te. O diálogo entre o índio guarani e o Zé Pereira, ou seja, um 
indivíduo qualquer, ilustra as muitas influências e vozes que 
contribuíram para a definição do caráter nacional. 
Oswald também se tornou conhecido pelos poemas-
-piada, textos curtos em que um trocadilho ou jogo verbal 
mais ligeiro desencadeia o efeito humorístico. 
amor
humor
ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. In: Obras completas. 5. ed. 
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 157.
Azula: gíria para “foge”.
Escafedem a massa: expressão que se refere à falência fraudulenta.
Abrindo o pala: gíria para “escapando”.
O leitor, ao mesmo tempo que sorri do trocadilho, percebe 
o questionamento contido no verso que define o amor: só 
existiria no plano do humor? Sem maiores explicações, o 
poema-piada obriga o leitor a participar da construção do 
sentido do texto.
Nas várias faces da poesia de Oswald de Andrade, perce-
be-se a habilidade para desencadear efeitos de sentido com 
uma linguagem simples e ágil. Essa característica também 
será um aspecto definidor da sua prosa.
A prosa
Os dois romances escritos por Oswald de Andrade, 
Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte 
Grande, trouxeram para a literatura brasileira uma estrutura 
inovadora. Os capítulos curtos formam um imenso mosaico 
em que a realidade nacional é flagrada em rápidos flashes, 
em técnica semelhante à usada na poesia.
146. Verbo crackar
Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa
 Sê pirata
 Sede trouxas
Abrindo o pala
Pessoal sarado
Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular.
ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. 
13. ed. São Paulo: Globo, 2001. p. 97-98. 
(Col. Obras completas de Oswald de Andrade).
A conjugação do verbo “crackar” revela o olhar do autor 
para questões sociais (“Eu empobreço de repente / Tu en-
riqueces por minha causa”), tratadas de modo irônico, mas 
incisivo. Memórias sentimentais de João Miramar conta a 
história de João Miramar, escritor, intelectual provinciano e 
filho de ricos cafeicultores.
Considerado um livro de vanguarda, mantém o humor 
como lente pela qual a sociedade brasileira é examinada de 
modo impiedoso. A estrutura do romance, composto de 163 
fragmentos, usa elementos da linguagem cinematográfica. 
Escrita com grande economia de linguagem, a obra é marcada 
pela presença de diferentes gêneros, o que se tornou marca 
registrada da prosa do autor.
Já Serafim Ponte Grande radicaliza a abordagem feita em 
Memórias sentimentais de João Miramar. O enredo se constrói 
pelo incessante deslocamento geográfico da personagem prin-
cipal, que embarca em um navio cujos tripulantes fundariam a 
sociedade ideal, em permanente estado de transformação. A 
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LITERATURA
história desafia o leitor: são 203 fragmentos organizados sem 
lógica aparente. Personagens aparecem e desaparecem repen-
tinamente, o estilo flutua entre narração em primeira e terceira 
pessoas, cartas, diários íntimos, fragmentos apresentados 
sob forma de texto teatral, poemas, abaixo-assinados, etc. 
É considerado um romance revolucionário e seu signi-
ficado não se limita ao enredo, nasce principalmente da 
organização dada à obra pelo mais inquieto de todos os 
modernistas da primeira geração.
TEXTO PARA ANÁLISE
 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 5.
ocaso
Por meio de imagens multifacetadas, 
o poema constrói o retrato da arte 
sacra de Minas e do país.
No anfiteatro de montanhas 
Os profetas do Aleijadinho 
Monumentalizam a paisagem 
As cúpulas brancas dos Passos 
E os cocares revirados das palmeiras 
São degraus da arte de meu paísOnde ninguém mais subiu 
Bíblia de pedra-sabão 
Banhada no ouro das minas
ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. 
In: Obras completas. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 1971. p. 140-141.
Ocaso: usado em sentido figurativo, significa algo que caminha 
para a ruína, processo de decadência, declínio. Além disso, o termo 
pode significar “fim”. Como o poema é o último da série “Roteiro 
de Minas”, essa é uma outra possibilidade de leitura do termo.
1. Que elementos o eu lírico destaca no poema?
> O que ele pretende enfatizar ao se referir a esses 
elementos? Transcreva em seu caderno as expres-
sões que traduzem essa ênfase.
2. O verso “E os cocares revirados das palmeiras” 
estabelece uma relação de semelhança entre dois 
A obra-prima de Aleijadinho
No Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 
localizado em Congonhas do Campo (MG), está o mais 
grandioso conjunto de arte barroca da humanidade. São 
78 esculturas ao todo: 66 imagens em cedro, dispostas 
em seis capelas, que simbolizam as etapas (os “Passos”) 
da Paixão de Cristo, e os 12 profetas em pedra-sabão.
Esse trabalho esplêndido, realizado no espaço de 
dez anos, ficou a cargo de um só escultor: o Aleijadinho, 
auxiliado apenas por alguns assistentes.
elementos. Que elementos são esses e como se dá 
a semelhança entre eles?
> Esse verso valoriza a cultura indígena? Justifique.
3. A que se referem, no poema, os “degraus da arte 
de meu país”? 
a) Qual é, segundo o eu lírico, a expressão maior 
dessa arte no cenário descrito?
b) Como pode ser interpretado o verso “Onde nin-
guém mais subiu”?
4. Minas Gerais viveu a opulência trazida pelo ouro 
durante o Barroco, período que produziu artistas 
como Aleijadinho. Com base nessas informações, 
como podem ser entendidos os dois últimos versos 
do poema?
5. De que forma a valorização de elementos da cul-
tura e da arte nacionais, preocupação da primeira 
geração modernista, aparece no poema? 
Mário de Andrade: 
a descoberta do Brasil 
brasileiro
Um dos líderes da primeira geração modernista, Mário Raul 
de Morais Andrade (1893-1945) foi um apaixonado por São 
Paulo, cidade em que morou praticamente toda a sua vida. O 
poema “Inspiração” é uma declaração de amor à cidade das 
frias neblinas.
Inspiração
São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. 
Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1987. p. 83.
Viajou pelo Brasil coletando exemplos de manifestações 
folclóricas e musicais na tentativa de compreender melhor a 
essência do país. A língua “brasileira” era outra de suas ob-
sessões. Chegou a pensar na criação de uma “gramatiquinha 
da língua brasileira”, que incorporasse os falares regionais e 
seus neologismos sintáticos.
Com uma vida pacata, dedicada à música e à literatura, o 
grande desgosto do poeta era constatar que a geração moder-
nista de que participou foi relativamente omissa no que dizia 
respeito à criação de uma arte socialmente engajada, pragmáti-
ca, capaz de contribuir para o aperfeiçoamento do ser humano. 
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Banzeiro: em sentido figurado, 
mar de ondas calmas.
Esplende: brilha muito.
Caxingam: (regionalismo) 
caminham com hesitação. 
Blau: azul.
Considerado o testamento poético de Mário de Andrade, 
“A meditação sobre o Tietê” foi concluído treze dias antes da 
sua morte. O poema usa as águas do rio que corta a cidade 
de São Paulo como uma grande tela onde são projetados 
os principais motivos de sua obra: os amores, os sonhos, 
as lutas e as imagens iluminadas da cidade e da estranha 
fauna humana que a povoa. Essas reflexões, ao mesmo tempo 
que recuperam momentos da vida do poeta, denunciam com 
amargura “a forma corrupta de vida” que suja o rio. Articula-
das sob a forma de símbolos — a cidade, o rio, a noite —, tais 
reflexões definem a poesia de Mário de Andrade.
Amar, verbo intransitivo: o 
impiedoso retrato da aristocracia 
paulistana
Os textos em prosa escritos por Mário de Andrade 
representam um questionamento das estruturas típicas 
do romance do século XIX. Em obras como Amar, verbo 
intransitivo, o escritor deixa claro seu desejo de experi-
mentar diferentes organizações para o texto em prosa, 
ora eliminando a marcação de capítulos, ora criando um 
narrador que, mesmo em terceira pessoa, atua quase como 
uma personagem do livro.
O romance apresenta vários quadros da vida de uma 
família de novos-ricos que vivia na cidade de São Paulo na 
década de 1920. Felisberto Sousa Costa, o patriarca da fa-
mília, contrata Fräulein Elza, professora alemã, como tutora 
dos filhos e governanta da casa. Mas, na verdade, ela é uma 
“professora de amor”, eufemismo que se refere à função de 
iniciar sexualmente os filhos de burgueses ricos.
O quadro familiar criado no romance representa uma im-
placável crítica aos burgueses endinheirados e sem cultura, 
incapazes de lidar com verdadeiros sentimentos, desempe-
nhando cada um o papel que a sociedade capitalista estabe-
leceu. O olhar irônico e crítico para a elite paulistana, que já 
aparecia em vários dos poemas de Mário de Andrade, explode 
com força total nas páginas de Amar, verbo intransitivo. 
Macunaíma: a redefinição do 
herói nacional
Com Macunaíma, publicado na sua forma definitiva em 
1928, Mário de Andrade renova a imagem do herói brasi-
leiro. Macunaíma é uma personagem que se transforma 
a cada instante, assumindo as feições das diferentes 
etnias que deram origem ao povo brasileiro (índio, negro 
e europeu).
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de 
nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. 
Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escu-
tando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas 
pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de 
Macunaíma. 
Poesia: a liberdade formal 
e as longas meditações
Em “Prefácio interessantíssimo”, texto que introduz os 
poemas de Pauliceia desvairada, Mário de Andrade apresenta 
a essência da sua poesia: arte + lirismo = poesia.
Nos poemas de Pauliceia desvairada (1922), Losango cáqui 
(1926), Clã do jabuti (1927), Remate de males (1930) e Lira pau-
listana (1946), os versos livres exprimem sensações, ideias, 
momentos da vida. Nessas obras, o poeta busca conciliar 
elementos da vida cotidiana e suas reflexões mais íntimas. 
Essa tendência para associar imagens a sentimentos deu 
origem, na obra de Mário, às importantíssimas meditações, poe-
mas longos que mostram como a experiência imediata se trans-
forma em reflexão sobre a vida, a pátria, a própria identidade.
A meditação sobre o Tietê
 Água do meu Tietê,
 Onde me queres levar?
 — Rio que entras pela terra
 E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácio e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinosauros caxingam
Agora, arranhacéus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
[...]
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águasE te afastas do mar e te adentra na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
[...]
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...
[...]
ANDRADE, Mário de. Lira paulistana. In: Poesias completas. Belo 
Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1987. p. 386-387. (Fragmento).
Chamar a atenção dos alunos para a incorporação no poema de palavras que reproduzem a linguagem coloquial, uma das preocupações de Mário de Andrade. 
Se achar oportuno, comentar que a grafia das palavras "dinosauro" e “arranhacéus” não corresponde à grafia oficial.
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LITERATURA
 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 5.
I — Macunaíma
Neste trecho, o “herói sem nenhum caráter” 
é apresentado com as características 
que o definirão no romance.
[...] Ficava no canto da maloca, trepado no 
jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e 
principalmente os dois manos que tinha, Maanape 
já velhinho e Jiguê na força de homem. O diver-
timento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia 
deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Ma-
cunaíma dandava pra ganhar vintém. E também 
espertava quando a família ia tomar banho no rio, 
todos juntos e nus. [...] No mucambo si alguma 
cunhatã se aproximava dele para fazer festinha, 
Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã 
se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém 
respeitava os velhos e frequentava com aplicação 
a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, 
todas essas danças religiosas da tribo. [...]
Nas conversas das mulheres no pino do dia o 
assunto eram sempre as peraltagens do herói. As 
mulheres se riam muito simpatizadas, falando que 
“espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”, e 
numa pajelança Rei Nagô fez um discurso e avisou 
que o herói era inteligente.
Nem bem teve seis anos deram água num cho-
calho pra ele e Macunaíma principiou falando como 
todos. E pediu pra mãe que largasse da mandioca 
ralando na cevadeira e levasse ele passear no 
mato. A mãe não quis porque não podia largar da 
mandioca não. Macunaíma choramingou dia intei-
ro. De-noite continuou chorando. [...] A mãe [...] 
pediu pra nora, companheira de Jiguê, que levasse 
o menino. A companheira de Jiguê era bem moça 
e chamava Sofará. Foi se aproximando ressabiada 
Jirau: armação de madeira parecida com um estrado ou palanque.
Paxiúba: tipo de palmeira.
Cunhatã: menina, jovem mulher.
Pajelança: ritual realizado pelo pajé com o objetivo de cura ou de 
magia.
Cevadeira: dispositivo que rala ou mói a mandioca para fazer 
farinha.
Aninga: tipo de planta.
Derrame: declive de morro.
Tiriricas: tipo de erva daninha.
Tajás: planta comestível nativa das regiões tropicais. 
Trapoerabas: planta medicinal. 
Serrapilheira: camada de folhas e ramos que cobre o solo de 
florestas e bosques.
porém desta vez Macunaíma ficou muito quieto 
sem botar a mão na graça de ninguém. A moça 
carregou o piá nas costas e foi até o pé de aninga 
na beira do rio. [...] A moça botou Macunaíma na 
praia porém ele principiou choramingando, que 
tinha muita formiga!... e pediu pra Sofará que o 
levasse até o derrame do morro lá dentro do mato, 
a moça fez. Mas assim que deitou o curumim nas 
tiriricas, tajás e trapoerabas da serrapilheira, ele 
botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo. 
Andaram por lá muito. [...]
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum 
caráter. 30. ed. Belo Horizonte: Villa Rica, 
1997. p. 9-10. (Fragmento).
1. Que características de Macunaíma, apresentadas no 
trecho, indicam sua “falta” de caráter?
> Quais são as suas características positivas?
2. O romance de Mário de Andrade cumpre o projeto 
modernista de resgatar aspectos originais da cultura 
brasileira. Que elementos dessa cultura são apresen-
tados no trecho?
3. A narrativa conta com vários elementos “fantásticos”. 
No trecho transcrito, em que momento o fantástico 
aparece?
TEXTO PARA ANÁLISE
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro 
passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar 
exclamava:
— Ai! que preguiça!... [...]
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem 
nenhum caráter. 30. ed. Belo Horizonte: 
Villa Rica, 1997. p. 9. (Fragmento).
que estão diretamente relacionados às aventuras do herói, 
muitas vezes definidas pelo elemento fantástico, que surge 
de modo inesperado.
Síntese das reflexões de Mário de Andrade sobre o Brasil, 
Macunaíma pode ser visto, como sugeriu o próprio autor, 
como uma alegoria dos destinos do país, que escolheu ca-
minhos europeus em lugar de explorar as possibilidades de 
construir uma grande civilização tropical.
Na obra de Mário de Andrade, também merecem desta-
que os contos que escreveu. Reunidos em três publicações 
(Primeiro andar, 1926, Belazarte, 1934, e Contos novos, pu-
blicado postumamente em 1956), eles têm a capacidade de 
traçar breves quadros do cotidiano, capturando importantes 
aspectos da realidade brasileira.
Sarapantar: espantar.
Ao apresentar a trajetória de Macunaíma, a mitologia 
indígena se funde com a piada, a brincadeira e a malandra-
gem nacional, que definirão o protagonista como “o herói 
sem nenhum caráter”. Espaço e tempo são arbitrários, por-
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Manuel Bandeira: olhar 
terno para o cotidiano
Conhecer a vida de Manuel Bandeira é, de certa maneira, 
conhecer alguns aspectos fundamentais de sua obra. Nasci-
do no Recife em 1886, mudou-se com a família para o Rio de 
Janeiro, onde permaneceu por quase toda sua vida.
Em 1904, um ano após iniciar os estudos na Escola Poli-
técnica de São Paulo, abandonou o curso para se dedicar ao 
tratamento da tuberculose, doença incurável na época. Em 
1913, foi tratar-se em um sanatório na Suíça. Lá, o médico 
traçou-lhe com franqueza uma perspectiva bastante incer-
ta: “Pode viver cinco, dez, quinze anos... Quem poderá dizer?”.
A poesia passou a representar uma saída para o descon-
solo em que vivia Bandeira desde a descoberta da doença. 
No exercício literário, o poeta reflete sobre a vida, fala sobre 
suas memórias de menino, registra cenas do cotidiano e, 
acima de tudo, aprende a lidar com a ameaça da doença 
e da morte.
Ironicamente, uma vida que se imaginava breve em fun-
ção da doença durou até o dia 13 de outubro de 1968. Manuel 
Bandeira tinha então 82 anos e havia criado um novo rumo 
para a poesia brasileira.
Entre seus principais livros, destacam-se Libertinagem 
(1930), Estrela da manhã (1936), Mafuá do Malungo (1948), 
Lira dos cinquent’anos e Belo belo (publicados em diferentes 
edições sob o título de Poesias completas, em 1948 e 1951, 
respectivamente), Estrela da tarde (1958) e Estrela da vida 
inteira (1966).
A poesia da mais simples ternura
Uma das inovações da obra de Manuel Bandeira é o uso 
que faz da linguagem na apresentação das situações coti-
dianas. A capacidade de ver as cenas prosaicas, as situações 
mais banais do dia a dia filtradas por lentes líricas, e de recriá-
-las poeticamente por meio de uma linguagem simples são 
as características mais marcantes da sua poesia.
Mauritsstad: nome em holandês de Cidade Maurícia, erguida 
por Maurício de Nassau no século XVII. Atualmente, faz parte 
da cidade do Recife.
Pataca: moeda antiga de prata no valor de 320 réis.
A evocação do passado
As memórias da infância vivida no Recife têm lugar 
especial entre os poemas de Bandeira. Cenas de rua, 
pessoas com quem conviveu vão revivendo em versos 
inesquecíveis.
Evocação do Recife
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois —
 Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recifeda minha infância
[...]
Rua da União onde todas as tardes passava a preta 
[das bananas com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
 que se chamava midubim e não era 
[torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
 Ovos frescos e baratos
 Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
[...]
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In: SEFFRIN, André (Org.). 
Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 2009. p. 107-108. (Fragmento).
© dos poemas de Manuel Bandeira, do Condomínio dos 
Proprietários dos Direitos Intelectuais de Manuel Bandeira 
(In: Estrela da vida inteira — Editora Nova Fronteira) — 
Direitos cedidos por Solombra — Agência Literária 
(solombra@solombra.org).
O poema ilustra o processo de transformação da me-
mória pessoal em reflexão mais ampla que marca a poética 
de Manuel Bandeira. O passado é apresentado como fonte 
da sabedoria presente, o português falado (“Língua certa 
do povo”) também é valorizado, consolidando a proposta 
da primeira geração modernista de usar o português do 
Brasil como língua literária, despindo o texto dos arcaísmos 
e rebuscamentos sintáticos que caracterizaram a poesia 
do século XIX.
4. Leia o trecho a seguir.
“No mucambo si alguma cunhatã se aproximava 
dele para fazer festinha, Macunaíma punha a mão 
nas graças dela, cunhatã se afastava.”
> Como aparece nesse trecho a preocupação de 
Mário de Andrade de criar uma língua que repre-
sentasse a linguagem do povo brasileiro?
5. Macunaíma não corresponde à imagem de herói 
apresentada nos romances indianistas. Explique 
por quê.
> Macunaíma é o símbolo do povo brasileiro. De que 
maneira a construção dessa personagem revela a 
intenção de caracterizar, por meio de seu herói, 
o povo brasileiro de forma crítica?
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LITERATURA
A morte como libertação
Entre os temas recorrentes na obra do poeta pernambu-
cano, a morte tem lugar de destaque.
Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e 
 [demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e 
 [sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da manhã. 
In: SEFFRIN, André (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 130.
© dos poemas de Manuel Bandeira, do Condomínio dos 
Proprietários dos Direitos Intelectuais de Manuel Bandeira 
(In: Estrela da vida inteira — Editora Nova Fronteira) — 
Direitos cedidos por Solombra — Agência Literária 
(solombra@solombra.org).
O tamanho dos versos marca a mudança de tom ope-
rada no poema. A primeira estrofe é toda com posta de 
versos curtos, que sugerem um tom mais descontraído, 
ecoando o gesto automático de saudar o morto sem 
pensar. Na segunda estrofe, os versos são mais longos, 
refletindo o aspecto solene da conclusão que será apre-
sentada: não há finalidade na vida e a morte pode chegar 
a qualquer momento. 
O poema torna-se o espaço de reflexão no qual a 
doença e a morte, fantasmas “reais” da vida de Bandeira, 
transformam-se em experiência lírica e reflexiva, ganhan-
do uma dimensão universal.
A revelação que universaliza a reflexão sobre a vida 
e a morte (“[...] a vida é uma agitação feroz e sem fina-
lidade”) vem acompanhada da simplicidade que define 
a poética de Bandeira. A descoberta de que a vida não 
tem finalidade é feita sem drama ou sofrimento, e é essa 
descoberta que permite aceitar a morte como libertação 
final da matéria.
A obra de Manuel Bandeira vai além dos limites his-
tóricos para tematizar angústias e conflitos humanos 
de natureza universal, como o amor, a paixão pela vida, a 
saudade de uma infância idealizada e o medo da morte.
Carcamano: forma pejorativa usada para designar indivíduo 
nascido na Itália.
Cláxon: buzina.
Pompeando: exibindo com vaidade.
Serpejando: (variante de serpeando) movendo-se de modo 
sinuoso, ondulando-se. 
Alcântara Machado: os 
italianos em São Paulo
Integrado à primeira leva de modernistas, Antônio 
Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira (1901-1935) re-
gistrou em seus livros cenas urbanas de uma São Paulo 
que se industrializava. Sua primeira obra foi Pathé Baby: 
panoramas internacionais (1926), escrita na volta de uma 
viagem à Europa. Mas seu livro mais conhecido é Brás, 
Bexiga e Barra Funda (1927), em que o tema da integração 
do imigrante italiano à sociedade brasileira é a base de 
todos os contos.
A sociedade
— Filha minha não casa com filho de carcamano!
A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda 
disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita 
misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto ba-
tendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas 
com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.
O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel 
e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço. 
O Lancia passou como quem não quer. Quase parando. 
A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino. 
Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Melli calcou o acelerador. Na primeira 
esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Conti-
nuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma 
rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do 
número 259-C já sabe: uiiiia-uiiiia!
— O que você está fazendo aí no terraço, menina?
— Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?
Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando 
na rua. Vestido do Camilo, verde, grudado à pele, serpejando 
no terraço. 
— Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando 
ele chegar!
— Ah meu Deus, meu Deus, que vida meu Deus!
Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. De-
sapontou. Tocou para a Avenida Paulista. [...]
MACHADO, Antônio de Alcântara. Brás, 
Bexiga e Barra Funda: notícias de São Paulo. 
São Paulo: Nova Alexandria, 1995. 
p. 41-42. (Fragmento).
O trecho ilustra a técnica narrativa que consagrou 
Alcântara Machado: cenas rápidas, flagrando situações e 
tipos, quase como tomadas cinematográficas, com cortes 
bruscos entre uma cena e outra, compondo quadros que 
se assemelham a instantâneos fotográficos. 
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 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 5.
Poema só para Jaime Ovalle
Neste poema, o eu lírico reflete 
melancolicamente a respeito de sua vida.
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia. 
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. 
BANDEIRA, Manuel. Belo, belo. 
In: SEFFRIN, André (Org.). 
Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 173.
1. O eu lírico inicia o poema caracterizando a manhã. Que elementos ele destaca do momento 
em que acordou? 
> A referência a esses elementos contribui para construir o tom “melancólico” do poema? 
Explique.
2. A chuva é caracterizada como “triste” e “de resignação”. Considerando que esse é o “olhar” 
do eu lírico para a chuva, o que essas expressões simbolizam?
a) Qual o sentido, no poema, da expressão “resignação”? 
b) Como você viu neste capítulo, a morte sempre foi um “fantasma” na vida de Manuel Ban-
deira.De que maneira o verso que caracteriza a chuva reflete, de forma lírica, a postura 
do poeta diante da morte? 
3. A manhã se opõe à noite no poema. Que característica marca essa noite?
> Por que a chuva, nesse caso, significa um consolo?
4. Explique por que no verso “Bebi o café que eu mesmo preparei” o trecho destacado é o 
recurso utilizado pelo eu lírico para se referir à sua solidão. 
> Que outros elementos dos versos finais revelam essa solidão do eu lírico?
5. No verso final, como pode ser interpretada a expressão “humildemente” no contexto 
do poema?
TEXTO PARA ANÁLISE
O leitor reconstrói, pelo comportamento quase caricato das personagens, pelas informações do 
cenário, pela apresentação de situações típicas da cidade de São Paulo, o cotidiano dos pequenos 
comerciantes, das costureirinhas, dos empregados de armazém, imortalizando o autor como o cronista 
dos imigrantes italianos.
Brás, Bexiga e Barra Funda antecipa uma tendência narrativa explorada por muitos escritores 
contemporâneos: a composição híbrida entre conto, crônica e texto jornalístico, sem que haja uma 
preocupação com o acúmulo de informações. Laranja da China (1928), o outro livro de Alcântara Ma-
chado, dará continuidade a essa técnica narrativa.
Seria interessante expli-
car aos alunos que Jaime 
Ovalle (1894-1955) era um 
compositor, poeta e boê-
mio por quem Bandeira 
nutria grande admira-
ção. Seu grande sucesso, 
“Azulão”, foi composto 
em parceria com o poe-
ta triste, que fez a letra 
para a melodia da canção. 
Ovalle, uma figura enig-
mática, de quem pouco se 
sabe, foi citado também 
por outros nomes da lite-
ratura brasileira. Além de 
Manuel Bandeira, Vinicius 
de Moraes, Murilo Men-
des, Fernando Sabino, en-
tre outros, fazem algum 
tipo de referência a Jaime 
em suas obras. 
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LITERATURA
Diálogos literários: presente e passado
Na literatura contemporânea, a percepção que o poeta tem do mundo que o cerca determina, 
muitas vezes, a conversão da poesia em testemunho crítico da realidade. São vários os textos em 
que um “eu” se manifesta pela relação com o contexto no qual está inserido e se nega a cantar a 
irrealidade. Do confronto entre o “eu” e o mundo, vem a angústia ou a melancolia, assim como o desejo 
de transformação daquilo que fere ou perturba.
Como você viu, a tradição de cantar as relações entre o “eu” e o mundo inicia-se no Romantismo. 
Para os poetas românticos, o mundo é um lugar que não compreende o indivíduo, sendo, por isso, 
desagradável e opressor. O olhar egocêntrico característico do Romantismo foi substituído por uma 
visão mais crítica no Realismo. 
No próximo capítulo, você verá que essa forma de olhar a realidade será consolidada no Modernis-
mo, especialmente pelos poetas da segunda geração, como Drummond. Nesse período, o “eu” passa 
a perceber-se como um ser social: o mundo torna-se mais importante do que o indivíduo e do que as 
rupturas formais e estéticas da primeira fase.
Veja, nos textos a seguir, como alguns poetas modernos e contemporâneos fazem de seus versos 
instrumentos de denúncia e de crítica da realidade à sua volta. 
Affonso Romano de Sant’Anna e o ser 
humano diante da ditadura
Uma geração vai, 
outra geração vem
Quando eu era menino
e meus pais e tios falavam da ditadura
que demorou 15 anos, partiu suas vidas em duas
entre censuras, polícias e torturas
eu os olhava como uma criança olha o desamparo de um
 [adulto.
Hoje, minhas fi lhas me perguntam
sobre esses 15 anos de outra ditadura
que me sobreveio em plena juventude,
e eu as olho como um adulto olha o desamparo da criança. 
Tenho 40 anos. Escapei
de afogamentos e desastres antes e depois das festas,
e atravesso agora a zona negra do enfarte.
Em breve
 estarei sem cabelos e com mais rugas na face.
Quando vier de novo nova ditadura
 estarei velho
e com tédio frente ao espelho
contemplando o desamparo em que vou deixar meus netos.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. 
Poesia reunida: 1965-1999. Porto Alegre: 
L&PM, 2004. v. 1, p. 251. 
Daniel Felipe: a angústia diante do mundo
Pátria, lugar de exílio:
[...]
Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três fi lhos famintos
[...]
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora ofi cial
exilado na pátria
FELIPE, Daniel. In: NEJAR, Carlos (Org.). Poesia portuguesa 
contemporânea. São Paulo: Massao Ohno/Roswitha Kempf 
Editores, 1982. p. 112-113. (Fragmento). 
Rossio: estação do metrô de Lisboa. 
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Com base nas reflexões dos grupos, façam um debate, mediado pelo professor, no qual se discu-
tam os conflitos entre o “eu” e o mundo identificados nos textos e na imagem que analisaram, além 
de outros presentes na atualidade, sugerindo soluções para eles.
David Mestre e o repúdio à colônia 
Portugal colonial
Nada te devo
nem o sítio
onde nasci
nem a morte
que depois comi
nem a vida
repartida
pelos cães
nem a notícia
curta
a dizer-te
que morri
nada te devo
Portugal
colonial
cicatriz
doutra pele
apertada
MESTRE, David (Angola). In: DANIEL, Claudio (Org.). Ovi-Sungo: treze poetas de Angola. 
São Paulo: Lumme Editor, 2006. p. 107. 
Flower Power
Em 21 de outubro de 1967, milhares de jovens norte-americanos reuniram-se em frente ao Pentágono, 
em Washington, contra a Guerra do Vietnã.
Protestos como esse, registrado na foto de Bernie Boston, tornaram conhecido o movimento 
Flower Power, que promovia manifestações pacíficas e tinha a flor como símbolo da antiviolência.
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Pare e pense
Em grupos, releiam os poemas apresentados e discutam: que sentimento o eu lírico apresenta em 
cada um dos textos? Como ele vê o mundo? Há propostas de intervenção nas situações apresentadas?
Agora, observem a imagem e leiam o texto apresentado no boxe a seguir e reflitam sobre as 
seguintes questões: o que se vê nessa imagem? De que maneira essa foto se relaciona com a 
tradição apresentada nesta seção? 
David Mestre (1948-
-1998): nasceu em 
Loures (Portugal), mas 
viveu em Angola (África 
Central) desde os oito 
meses. Era cidadão 
angolano.
A atividade propõe aos alu-
nos que constatem o confli-
to entre o “eu” e o mundo 
nos poemas e na imagem 
(uma fotografia histórica 
do protesto contra a Guerra 
do Vietnã em Washington, 
em 1967). Para realizar 
essa tarefa, é importante 
que, na análise dos poe-
mas, os alunos percebam: 
a angústia e a sensação de 
exílio na própria pátria, 
em face de conflitos ideo-
lógicos, em Daniel Felipe; 
a impotência de diferentes 
gerações diante da ditadu-
ra, que resulta em poesia, 
em Affonso Romano de 
Sant’Anna; o repúdio à na-
ção colonizadora presente 
no poema de David Mestre. 
É importante, também, 
que os alunos notem al-
guns elementos da imagem 
(por exemplo, a atitude de 
confronto dos policiais em 
oposição à postura pacífica 
dos jovens, em especial da-
quele que coloca flores no 
cano da arma) e analisem as 
informações apresentadas 
no boxe (além de outras 
que venham a pesquisar). 
Para uma melhor com-
preensão do movimento 
Flower Power, os alunos 
podem fazer uma pesquisa 
em sites de busca. Sugeri-mos também que eles as-
sistam ao musical Across the 
Universe (de Julie Taymor, 
Columbia Pictures, 2007). 
Com canções dos Beatles, 
o filme narra uma história 
que se passa em meio a esse 
movimento. Depois de ana-
lisar os poemas e a imagem 
e ler as informações apre-
sentadas no boxe, os alunos 
devem realizar um debate 
em sala, a ser mediado pelo 
professor, no qual discutam 
os conflitos entre o “eu” 
e o mundo identificados 
nos textos e na imagem 
que analisaram, além de 
outras situações desse tipo 
vividas na atualidade (por 
exemplo, manifestações 
da sociedade para expres-
sar seu descontentamento 
com diferentes questões, 
a relação entre o público 
e o privado com a popu-
larização de redes sociais 
virtuais, etc.). Ao final, os 
grupos devem apresentar 
possíveis soluções para as 
questões debatidas.
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Capítulo
4 Segunda geração: misticismo e consciência social
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 SEGALL, L. Guerra. 1942. Óleo sobre tela, 270 � 185 cm. As duas guerras mundiais e os conflitos existenciais 
gerados por elas marcaram de forma significativa a produção artística da segunda geração modernista.
Leitura da imagem
1. Observe a tela de Lasar Segall (1891-1957) que abre este capítulo. Ela foi intitulada Guerra. Que 
elementos compõem esse retrato da guerra?
a) É possível identificar que exércitos estão lutando? 
b) Observe a postura dos soldados. O que eles parecem estar fazendo?
2. Todos os soldados têm o rosto voltado para baixo e ocultado por um capacete. Que imagem dos 
soldados é criada por esse modo de representação? 
a) As únicas faces que aparecem são as dos mortos, sempre voltadas para o céu. Na sua opinião, 
o que elas sugerem?
b) Os soldados não usam armas nessa cena. O que isso pode indicar?
3. Uma figura destaca-se na tela. É o homem que, decapitado, segura a própria cabeça. Sua postura 
é diferente da postura dos demais. O que ele parece fazer?
> Para você, o que representa essa figura? 
Sugerimos que todas as questões sejam respondidas oralmente para 
que os alunos possam trocar impressões e ideias.
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Peremptório: definitivo, decisivo.
Hirtos: tesos, duros.
4. Mário de Andrade, escrevendo sobre a obra de Lasar 
Segall, afirmou:
“[...] pela bravura do pincel, já demonstrava um horror 
instintivo das cores radiantes e felizes.”
ANDRADE, Mário de. Lasar Segall. Modernidade: 
arte brasileira do século XX. Paris: Musée d’Art Moderne de la 
Ville de Paris, 1988. p. 20. Disponível em: <http://www. 
itaucultural.org.br>. Acesso em: 22 mar. 2016.
a) Observe atentamente a imagem de abertura. Que cores 
predominam na tela? 
b) Podemos afirmar que essa obra ilustra o “horror instin-
tivo das cores radiantes e felizes”, como afirma Mário 
de Andrade? Explique. 
5. Que imagem da guerra o quadro transmite? Justifique.
Da imagem para o texto
6. A literatura também criou representações para a guerra. 
Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade para 
conhecer uma delas.
A noite dissolve os homens
A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores 
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, 
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, 
a noite espalhou o medo 
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, 
sem esperança... Os suspiros 
acusam a presença negra 
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho 
na noite. A noite é mortal, 
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, 
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, 
apagou os almirantes 
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo... 
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
Aurora, 
entretanto eu te diviso, ainda tímida, 
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, 
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a 
 [treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato 
 [de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram 
mas que avançam na escuridão como um sinal verde 
 [e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes 
 [se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, 
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo 
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário 
para colorir tuas pálidas faces, aurora.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. 
In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. 
p. 70-71. Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
a) A primeira parte do poema apresenta uma “noite” que 
desceu sobre o mundo. Escreva no caderno as caracte-
rísticas dessa noite.
b) Considerando essas características, podemos concluir 
que essa noite é uma metáfora. O que ela simboliza? 
Explique.
7. O poema pode ser dividido em duas partes. Quais são 
elas?
a) Que tipo de sentimento caracteriza cada uma dessas 
partes? Por quê?
b) No texto, a expressão “aurora” é uma metáfora. O que 
ela representa?
8. Observe os verbos nas duas partes do poema. Que flexão 
(tempo e modo) predomina em cada uma das partes? 
Justifique com exemplos.
a) Podemos afirmar que a flexão verbal é usada para 
distinguir fatos apresentados como reais de outros 
vistos como uma possibilidade futura. Qual parte 
apresenta acontecimentos reais? Qual apresenta as 
possibilidades? 
b) Explique por que a flexão verbal é essencial para cons-
truir esse efeito de sentido.
c) “Havemos de amanhecer”. Esse é o único verso em que o 
verbo aparece flexionado na primeira pessoa do plural. 
A quem ele se refere? 
9. Na segunda parte, o eu lírico faz uma referência históri-
ca que nos permite formular uma hipótese sobre a que 
guerra ele se refere. Transcreva em seu caderno o verso 
em que essa referência aparece.
> A qual guerra ela pode ser associada? Por quê?
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LITERATURA
10. Nos versos a seguir, que caracterísicas humanas 
foram atribuídas à aurora?
“Aurora
[...]
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva 
 [noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de 
 [teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram 
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e 
 [peremptório.”
a) Que outros termos são empregados nesses versos para 
fazer referência à aurora?
b) A figura de pensamento que atribui características 
humanas a seres inanimados, como a aurora, é a 
personificação ou prosopopeia. A figura de palavra 
que ocorre quando um termo é utilizado em lugar de 
outro para indicar algo, estabelecendo uma relação 
de proximidade, como no emprego de “teus dedos 
frios” para fazer referência à aurora, é a metonímia. Nos 
versos em destaque, qual é o sentido produzido pela 
combinação entre essas duas figuras de linguagem? 
11. A imagem de guerra apresentada na tela de Lasar Segall 
é semelhante à do poema de Drummond? Por quê?
Um mundo às avessas: 
guerra e autoritarismo
Os mercados financeiros de todo o mundo foram abala-
dos pelo crack da bolsa, em 1929. O Brasil não foi poupado: 
os preços do café despencaram no mercado internacional. 
A permanência de Getúlio Vargas no poder, após a revolução 
de 1930 (movimento liderado por políticos e militares contra 
as oligarquias cafeeiras), teve como consequência o inícioda 
Revolução Constitucionalista em São Paulo, em 9 de julho de 
1932. Quatro meses mais tarde, os paulistas foram derrotados.
Com a promulgação de uma nova Constituição em 1934, 
Vargas foi legitimado no poder. No ano seguinte, as esquerdas 
se uniram para formar a Aliança Nacional Libertadora (ANL). 
Sentindo-se ameaçado, Getúlio conseguiu a aprovação de 
uma Lei de Segurança Nacional e passou a perseguir os ma-
nifestantes de esquerda. O comunista Luís Carlos Prestes e 
vários líderes da oposição foram presos. 
Em 1937, o Congresso Nacional foi fechado. Estava decre-
tado o Estado Novo. Vargas passou a exercer o poder de modo 
autoritário e centralizador. O Departamento de Imprensa e 
Propaganda (DIP) perseguiu e prendeu muitos escritores, 
acusados de subversão.
Em 1939, Hitler invadiu a Polônia, dando início à Se-
gunda Guerra Mundial. Em 1941, a guerra agravou-se com 
o bombardeio em Pearl Harbor, que causou a entrada dos 
norte-americanos no conflito. Em 1945, quando os aliados 
desembarcaram na Normandia e deram fim à guerra, foram 
expostas ao mundo as atrocidades cometidas pelos nazistas.
A Segunda Guerra deixou como legado mais do que ruí-
nas de cidades arrasadas por bombardeios. Ela nos obrigou 
a enfrentar a barbárie humana e a reconhecer que o precon-
ceito e o desejo desmedido de poder podem levar à perda 
de milhões de vidas. “Meus olhos são pequenos para ver/ o 
mundo que se esvai em sujo e sangue”, escreve Drummond 
em 1944, registrando o espanto dos poetas ao refletirem 
sobre a perversidade de que o ser humano é capaz. 
O lançamento das bombas atômicas, em agosto de 1945, 
em Hiroxima e Nagasaki, foi a última fronteira da ética derru-
bada pela ciência: o ser humano havia descoberto uma forma 
eficiente de exterminar a própria raça. Estava criado o contexto 
para que a arte assumisse uma perspectiva mais intimista e 
procurasse respostas para as muitas dúvidas existenciais de-
sencadeadas por todo esse cenário de horror e de destruição.
Segunda geração 
modernista: a consolidação 
de uma estética
A instabilidade social e política relacionada a esse 
momento faz com que surjam, na literatura, propostas de 
diferentes modos de interpretar a realidade e de responder 
às grandes questões humanas. 
No Brasil, passada a agitação inicial, o Modernismo atin-
ge, por volta de 1930, sua fase áurea. O romance ganha um 
impulso extraordinário, como veremos no próximo capítulo. 
Na poesia, a fase do nacionalismo crítico, que promovia a 
releitura do passado histórico do Brasil, é superada, e os 
autores passam a refletir sobre o mundo contemporâneo.
A publicação, em 1930, do livro Alguma poesia, de Carlos 
Drummond de Andrade, é considerada a referência do início da 
poesia da segunda geração modernista. Os críticos adotam o 
ano de 1945 como data do fim da poesia dessa geração, em-
bora os escritores pertencentes a ela continuem a produzir.
Tome nota
 Desembarque dos aliados na Normandia, conhecido como Dia D, 
em 6 de junho de 1944. Após essa invasão militar, Hitler 
perde forças e, meses depois, a Segunda Guerra acaba.
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O projeto literário da 
poesia da segunda geração 
modernista
Refletir sobre o sentido de estar no mundo é a proposta que 
define o projeto literário da poesia da segunda geração moder-
nista. Essa reflexão está associada a uma grande preocupação 
com a renovação da linguagem, anunciada na geração anterior.
A análise do ser humano e de suas angústias, o desejo 
de compreender a relação entre o indivíduo e a sociedade 
da qual faz parte são os elementos recorrentes na poesia 
produzida na década de 1930.
Enquanto a primeira geração modernista experimentou 
uma grande variedade de temas e de técnicas, a segunda 
geração é caracterizada por uma produção com forte di-
mensão social. 
Os agentes do discurso
As condições de produção dos poetas da segunda 
geração modernista são muito semelhantes às dos moder-
nistas de 1922. Enquanto Oswald e Mário de Andrade se 
entusiasmavam com a leitura dos manifestos das vanguardas 
artísticas europeias, Drummond e seus companheiros liam, 
pelos jornais, os manifestos dos modernistas brasileiros. 
O mesmo espírito de troca de experiências que caracterizou 
o grupo organizador da Semana de Arte Moderna contamina 
jovens escritores de diferentes partes do Brasil e os leva a 
aderir ao projeto maior de transformação da literatura nacional.
A circulação dos textos também segue os passos dos 
primeiros modernistas: revistas literárias e jornais. Além dis-
so, o mercado de livros se aquece com a criação de editoras 
brasileiras. Monteiro Lobato é o primeiro proprietário de uma 
editora nacional, o que facilita a publicação das obras. Assim, 
em revistas, jornais ou livros a produção poética da segunda 
geração é divulgada e começa a ganhar a simpatia dos leitores.
A segunda geração modernista 
e o público
Carlos Drummond de Andrade, em uma série de aponta-
mentos literários, faz uma curiosa observação.
Às 398 razões de incompatibilidade entre a arte moder-
na e o público poder-se-ia acrescentar mais esta: o público 
geralmente procura o assunto, enquanto a arte moderna o 
esquiva ou elimina.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Passeios na ilha. 
In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 1422. 
(Fragmento). Carlos Drummond de Andrade 
© Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).
O poeta apresenta uma explicação possível para o estra-
nhamento que a literatura modernista provoca no público. O 
experimentalismo literário inicial dá maior importância à forma 
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e à linguagem do que ao conteúdo, contrariando a tendência 
de um público que costumava dar maior atenção ao assunto. 
Quando as experimentações estéticas dão lugar a uma 
poesia mais voltada para as indagações humanas, o interesse 
dos leitores pela poesia da segunda geração cresce muito e 
torna célebres alguns de seus representantes, como Vinicius 
de Moraes, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. 
Linguagem: tendências diversas
Quando analisamos a poesia da segunda geração moder-
nista, observamos que a principal característica no uso da lin-
guagem é a liberdade para explorar todo tipo de recurso formal. 
A seleção de palavras parece sugerir uma opção pela 
simplicidade, mas a estrutura sintática dos versos é muitas 
vezes mais elaborada, sinalizando a direção oposta. Essa 
maior complexidade sintática pode ser associada à própria 
temática desenvolvida nos textos. Drummond, Cecília Meireles, 
Murilo Mendes e Jorge de Lima usam a poesia para falar de 
um momento em que a humanidade está diante de questões 
complicadas. Refletir sobre elas exige uma elaboração sintá-
tica de complexidade equivalente.
A maneira como são usados os recursos próprios da 
linguagem poética, como versos, ritmos e rimas, também 
reforça a liberdade como marca dessa geração. Versos livres 
e brancos convivem com outros rimados e de métrica fixa. 
Formas poéticas fixas, como o 
soneto, também serão revisita-
das por todos os poetas, que 
submetem a linguagem às suas 
necessidades, valendo-se de 
todos os recursos (formais ou 
não) à sua disposição.
Literatura, arte e contexto histórico
 Como você viu no capítulo, em meados do sécu-
lo XX, o mundo apresentava um cenário sombrio 
que gerou obras como os quadros Guernica, de 
Pablo Picasso (apresentado no Capítulo 5 do vo-
lume 1), Guerra, de Lasar Segall, e poemas como 
“A noite dissolve os homens”, de Drummond.
 Identifique os principais acontecimentos que 
compõem o contexto da época e discuta com seus 
colegas:
a) De que maneira o contexto cultural e político indi-
cado pelas informações apresentadas no capítulo 
determinará as obras produzidas pelos artistas da 
segunda geração modernista?
b) O que essas obras revelam sobre o papelassumido 
por esses artistas diante da realidade que os cerca 
nesse momento?
Capa da obra Poesia até agora, de 
Drummond, publicada pela José 
Olympio Editora em 1948, que 
divulgou o trabalho dos principais 
escritores da geração de 1930.
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LITERATURA
Carlos Drummond de 
Andrade: poeta do finito 
e da matéria
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) conheceu a 
notoriedade em 1928. Nesse ano aparecia, nas páginas da re-
vista Antropofagia, o polêmico poema “No meio do caminho”.
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. In: Poesia e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 15. Carlos Drummond de 
Andrade © Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).
O poema causou controvérsia. De um lado, os modernistas 
o reconheciam como uma manifestação significativa dos 
novos valores estéticos. Do outro, a opinião pública via o 
poema como uma síntese do desrespeito da nova geração 
de poetas em relação à “boa” literatura. 
Durante toda a vida, Drummond conciliou sua atuação 
como funcionário público com a criação literária. O primeiro 
livro, Alguma poesia, é de 1930. Dez anos mais tarde surgia 
Sentimento do mundo. Dali em diante as publicações se 
multiplicaram: Poesias (1942), A rosa do povo (1945), Poesia 
até agora (1948), Claro enigma e A mesa (1951), Viola de bolso 
(1952), Fazendeiro do ar & Poesia até agora (1953), Viola de 
bolso novamente encordoada (1955), 50 Poemas escolhidos 
pelo autor (1956) e Poemas (1959).
A estreia de Drummond como ficcionista ocorreu em 
1950, quando publicou Contos de aprendiz. As crônicas con-
tinuaram a aparecer em jornais, enquanto eram publicadas 
as obras de poemas e de contos. Em 1952, publicou seu 
segundo volume de crônicas: Passeios na ilha.
Com a aposentadoria, em 1962, sua produção se intensi-
ficou. Dentre os volumes de poesia lançados após essa data 
destacam-se Boitempo & A falta que ama (1968), As impurezas 
do branco (1973), A paixão medida (1980) e Amar se aprende 
amando (1985).
“Mundo mundo vasto mundo”
O poema que abre o primeiro livro de poesias de Drum-
mond já anuncia alguns temas que estarão presentes em 
toda sua produção literária: o ques tionamento do sentido da 
vocação literária e da função social do poeta, a dificuldade 
de compreender os sentimentos, a importância da família.
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos!, ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu 
 [coração.
Porém meus olhos 
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é o meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. 
In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. 
p. 4. Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
Gauche: esquerdo, diferente. 
O desencontro entre o ser e o mundo dará a tônica da 
poesia de Drummond. Ser poeta é ser desajeitado (gauche), 
diferente dos outros. Esse “eu” deslocado vê o mundo de 
modo particular, diferente do de seus semelhantes. A inca-
pacidade do eu lírico de compreender as coisas dá um tom 
pessimista, algo resignado, ao poema.
O desejo de responder às indagações sobre o mundo, 
porém, faz com que o poeta continue buscando respostas e 
determina o caráter reflexivo da poesia de Drummond.
Família e origens: a viagem 
na memória
O tema da família se confunde com o das origens, 
representadas na poesia de Drummond pelas inúmeras 
referências à infância, à cidade natal, Itabira, e ao estado 
de Minas Gerais.
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Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu 
a ninar nos longes da senzala — e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha 
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
— Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. In: Poesia e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 5. Carlos Drummond de 
Andrade © Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).
A recordação de uma cena da infância permite que o 
passado seja rea valiado e que sua importância seja re-
conhecida no presente. O eu lírico revê o significado do 
momento familiar e conclui, no presente, algo que a criança 
não podia compreender: havia mais beleza nas atitudes da 
mãe e do pai do que no universo de ficção das aventuras de 
um herói literário. O leitor é surpreendido por essa mudança 
de “tom” nos últimos versos, porque o poema começa de 
modo despretensioso, apenas como a recordação de uma 
cena familiar.
“O tempo é a minha matéria”
Em inúmeros poemas, Drummond aborda a função social 
do poeta: denunciar a opressão e lutar pela construção de 
um mundo novo. Esse tema é abordado principalmente em 
A rosa do povo, livro publicado em 1945. Escrito sob o impacto 
da ditadura de Vargas e da Segunda Guerra Mundial, ali estão 
representados a angústia e o engajamento político do poeta.
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da 
[janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens 
[presentes
a vida presente.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. 
In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 68. 
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
Desinteressado do passado (o mundo caduco) ou do 
futuro, o eu lírico anuncia nesse poema o compromisso 
com seus semelhantes. É quando assume a “vida presente” 
como matéria de sua poesia, como faz nesse poema, que 
Drummond marca o papel do escritor como intérprete de 
seu tempo. 
O exercício incansável da reflexão
Uma das forças criadoras da obra de Drummond é a 
expressão lírica de suas reflexões. Em sua poesia reflexiva 
Drummond define-se por perseguir algumas questões fun-
damentais para o poeta: que “coisa” é o ser humano? O que 
significa fazer parte da humanidade? Como combater as 
injustiças do presente?
Às vezes, o caminho encontrado para dar forma poética 
a essareflexão surpreende pelo inusitado.
Um boi vê os homens
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
 
Drummond 
aos 2 anos, 
em Itabira, 
Minas Gerais. 
Fotografia de 
Brás Martins 
Costa, c. 1904.
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LITERATURA
Translúcido: diz-se de um corpo 
que deixa passar a luz, mas 
não permite que sejam vistos 
objetos colocados por detrás 
dele, diáfano.
Agônicos: que se encontram em 
estado de agonia.
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
[...] Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam 
 [no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. 
In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 1992. p. 204. (Fragmento). 
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
[...]
Saber que há tudo. E mover-se em meio 
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí o meu canto.
[...]
ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. In: Poesia e prosa. 
 Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 94. (Fragmento). 
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
Apresentando-se como “poeta do finito e da matéria”, 
em um desdobramento da ideia de que o objeto da sua arte 
é o tempo presente, o eu lírico afirma ter e saber tudo e 
transformar o mundo em matéria de poesia.
O que se observa é que Drummond, mesmo nos textos 
em que declaradamente trata da criação poética, continua 
a desenvolver um tema maior: a poesia em busca de si mes-
ma. Essa busca assume duas faces: a “material” (do verso, 
da escolha das palavras, das rimas) e a do conteúdo, que a 
vincula aos outros eixos temáticos da obra do autor. 
A “concha vazia” do amor
Na obra de Carlos Drummond de Andrade uma indagação 
se mantém presente desde o “Poema de sete faces”: a neces-
sidade de compreender o sentimento, que se manifesta tanto 
no nível pessoal quanto no social (o “estar no mundo”).
Mais do que registrar emoções, reconhecer sentimentos, 
o poeta de Itabira quer compreendê-los, e isso só é possível 
por meio da análise.
 
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
[...]
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
[...]
ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. In: Poesia e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 214. (Fragmento). 
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
 
O sentimento, sempre presente, não surge como uma solu-
ção para as dores da vida. O amor se apresenta em uma “concha 
vazia”, incapaz de saciar a carência do eu lírico, que procura 
“mais e mais amor”. Essa é uma busca condenada ao fracasso, 
porque já nasce definida pela ausência, pela falta, pelo vazio. 
A obra de Carlos Drummond de Andrade fica como um 
testemunho da busca, do desejo incessante de descobrir 
uma saída, mesmo que o percurso seja marcado pelo sofri-
mento e pela desilusão.
No olhar do boi (grande ironia de Drummond, já que a ex-
pressão “olhar bovino” sugere estupidez), os seres humanos 
são vistos a partir de seus comportamentos inexplicáveis, 
da sua incapacidade de reconhecer o essencial, da correria 
em busca de algo desconhecido. 
Os versos dos poemas reflexivos têm uma estrutura 
sintática mais elaborada: orações subordinadas, presença 
maior de conjunções, advérbios são alguns dos aspectos 
gramaticais que expressam a complexidade do pensamento 
que o eu lírico deseja explicitar. 
Fazer poético: ação e 
transformação
A criação poética também é um tema essencial para o 
poeta mineiro. 
 
Consideração do poema
[...]
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos, há mercados? há doenças?
É tudo meu. [...]
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
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TEXTO PARA ANÁLISE
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 Drummond em 
caricatura de 
Loredano, s. d.
E agora, José?
Neste poema, uma séria questão 
é colocada: como prosseguir?
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
E agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
[...]
Se você gritasse,
se você gemesse, 
se você tocasse
a valsa vienense
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
[...] 
Você marcha, José!
José, para onde?
ANDRADE, Carlos Drummond de. José. In: Poesia e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 88-89. (Fragmento). 
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond 
(www.carlosdrummond.com.br).
1. Na primeira estrofe, o eu lírico apresenta José no cená-
rio de uma festa que acabou. Que elementos sugerem 
o fim da festa?
a) A festa a que se refere o eu lírico tem sentido me-
tafórico. Considerando o poema na sua totalidade 
e o fato de que foi escrito em 1942, explique o que 
a festa e o seu fim simbolizam.
b) Como José pode estar se sentindo nessa situ a ção? 
Justifique. 
2. O eu lírico caracteriza seu José nos versos finais da 
primeira estrofe. Que traços o caracterizam?
a) O que representam as ações de José, no contexto do 
poema?
b) Essa descrição se opõe à situação de “fim de festa” 
em que se encontra José e o coloca diante do dile-
ma tematizado no poema pela expressão “E agora, 
José?”. Por quê? 
c) Embora o interlocutor tenha um nome — José —, o 
poema se refere a ele como “Você que é sem nome”. 
Explique o que ele simboliza no poema. 
d) O eu lírico define José como alguém “que faz versos”. 
De que maneira essa caracterização revela que José 
representa também aqueles que se dedicam à poesia?
3. Na segunda estrofe, o paralelismo é empregado para 
caracterizar a vida de José no presente. Como ele é 
construído?
a) O uso dessas estruturas enfatiza um aspecto da vida 
de José. Qual?
b) Aquilo que não veio, “o bonde”, “a utopia” e “o riso”, 
é colocado em paralelo. Que efeito isso produz?
c) Essa enumeração de negativas, associada à repe-
tição da expressão “E agora, José?”, contribui para 
aumentar a pressão exercida sobre José. Por quê?
4. Na terceira estrofe, os verbos estão flexionados no 
imperfeito do subjuntivo. O que o uso dessa estrutu-
ra linguística indica, considerando a pergunta que é 
reiterada ao longo do poema? 
a) Essa estrofe marca uma gradação nas possibilidades 
de ação de José. Explique-a.
b) O que essa gradação sugere sobre a situação em 
que se encontra José? 
5. O queestes versos indicam sobre José? 
“Mas você não morre,
você é duro, José!”
> Esses versos, associados aos da última estrofe, per-
mitem entender que o desfecho do poema caminha 
para duas direções: a da esperança e a da desespe-
rança. Por quê?
Utopia: qualquer descrição 
de uma sociedade ideal, 
fundamentada em leis justas 
e em instituições político- 
-econômicas verdadeiramente 
comprometidas com o 
bem-estar da coletividade. 
O termo passou a designar, 
por extensão de sentido, 
os sonhos, as fantasias 
irrealizáveis.
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LITERATURA
Cecília Meireles: 
a vida efêmera e transitória
Cecília Meireles (1901-1964) escreveu vários livros de 
poesia em que desenvolveu as tendências da corrente es-
piritualista da segunda geração. Na sua obra destacam-se 
Espectros (1919), Baladas para El-Rei (1925), Viagem (1939), 
Vaga música (1942), Mar absoluto (1945), Retrato natural 
(1949), Romanceiro da Inconfidência (1953), Canções (1956) 
e o livro de poesias infantis Ou isto ou aquilo (1964).
Sua sensibilidade manifestava-se na valorização da 
intuição e da emoção como formas de interpretar o mundo. 
O lirismo delicado que caracteriza sua poesia está intima-
mente ligado a imagens da natureza (a água, o mar, o ar, o 
vento, o espaço, a rosa, etc.) e do infinito, compondo uma 
atmosfera de sonho e de fuga. 
Cantiga
Ai! A manhã primorosa 
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.
Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
Imagem!
Vinde ver asas e ramos, 
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.
Os jardins têm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.
E é nisto que se resume
o sofrimento:
cai a flor, — e deixa o perfume
no vento!
MEIRELES, Cecília. Viagem. In: Obra poética. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1991. p. 115-116. 
Arroios: regatos.
A vida é apresentada metaforicamente como uma rosa. 
O eu lírico cria a analogia a partir da ideia de que os seres 
humanos se apegam às aparências (à imagem), que estão 
destinadas a desaparecer com a passagem do tempo. A 
regularidade dos ciclos da natureza (vida e morte, noite e 
dia) comprova a transitoriedade da vida. Na última estrofe, 
revela-se a razão do sofrimento humano: as lembranças do 
passado (o perfume da rosa) continuam a existir, mesmo 
depois da destruição da forma que as gerou.
Recorrendo a formas poéticas simples como a cantiga, 
Cecília Meireles desenvolve temas como o amor, o tempo, a 
transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas. Em sua 
poesia, a natureza marca os ritmos da vida. 
A autora escreveu também o poema “Romanceiro da In-
confidência”, em que reconstitui a história da Inconfidência 
Mineira e mostra como o olhar do poeta consegue atribuir 
novas dimensões à história de um povo e de seu país.
Vinicius de Moraes: 
o cantor do amor maior
Mais conhecido pelas suas composições musicais, 
Vinicius de Moraes iniciou sua obra poética na década de 
1930, com a publicação de O caminho para a distância (1933). 
Sua poesia, naquele momento, conservava ainda uma clara 
influência da estética simbolista. 
Nas obras iniciais, Vinicius aproximou-se de temas tra-
balhados por outros autores da sua geração, como a reli-
giosidade e a angústia associada à oscilação entre matéria 
e espírito.
Aos poucos, porém, seu interesse voltou-se para aspec-
tos do cotidiano e para o relacionamento amoroso. Nos seus 
inúmeros poemas de amor, a influência da poesia camoniana 
é muito forte e pode ser observada na tentativa de analisar 
o amor, na preferência pelo soneto como forma poética, e no 
uso frequente de antíteses para expressar as contradições 
próprias desse sentimento. 
 
Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
MORAES, Vinicius de. O encontro do cotidiano. 
In: BUENO, Alexei (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 337. 
Os direitos relativos ao uso do poema de 
autoria de Vinicius de Moraes foram autorizados 
pela VM EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS 
E CULTURAIS LTDA., além de: 
© VM e © CIA. DAS LETRAS 
(Editora Schwarcz).
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Descrida: descrente.
Fenecer: tornar-se extinto, acabar. 
 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 4.
Texto 1 
Canção excêntrica 
A busca existencial é tematizada neste poema.
Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.
MEIRELES, Cecília. Poesia completa. 
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. v. 1, p. 336.
> Esses versos revelam o estado de espírito do eu 
lírico feminino do poema diante dos resultados de 
sua busca. Como ele se caracteriza e que efeitos 
são gerados por seus sentimentos durante esse 
processo? 
4. Observe os verbos do poema. Em qual tempo e modo 
estão flexionados predominantemente?
> Que relação se pode estabelecer entre o uso desse 
tempo verbal e essa busca?
 O texto a seguir refere-se às questões de 5 a 9.
Texto 2 
Soneto do maior amor
Neste soneto, as contradições 
do amor são apresentadas 
pelo eu lírico.
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada 
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada. 
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo 
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
MORAES, Vinicius de. O encontro do cotidiano. 
In: BUENO, Alexei (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 310.
Os direitos relativos ao uso do poema de autoria de 
Vinicius de Moraes foram autorizados pela 
VM EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E 
CULTURAIS LTDA., além de: © VM e 
© CIA. DAS LETRAS (Editora Schwarcz).
1. Qual é a busca individual tratada no poema? 
> Considerando essa busca, como devem ser com-
preendidos os dois primeiros versos do poema? 
2. O que a leitura do poema revela sobre os resultados 
dessa busca? Explique. 
> Transcreva no caderno passagens do poema que 
revelam esses resultados. 
3. Releia.
“Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.”
TEXTO PARA ANÁLISE
Em muitos sonetos de Vinicius de Moraes, o amor é apresentado como um sentimento poderoso 
e fugaz. É essa a ideia central do “Soneto de separação”, em que as antíteses mostram o impacto 
da perda do amor na vida das pessoas: o riso torna-se pranto, traz a dor, a tristeza. A tragédia, 
que provoca o espanto, é constatar que toda essa transformação acontece de repente, em um 
breve instante.
Das inúmeras obras de Vinicius, podemos destacar: Novos poemas (1938), Poemas, sonetos e 
baladas (1946), Pátria minha (1949) e a peça de teatro Orfeu da Conceição (1956).
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LITERATURA
Murilo Mendes: 
o católico visionário
A poesia de Murilo Mendes (1901-1975) revela tendências 
bastante distintas. Na sua produção inicial, a influência do olhar 
irreverente dos primeiros modernistas é marcante, mas foi tam-
bém um entusiasmado seguidor da vanguarda surrealista, como 
vimos no Capítulo 2. Criou, porém, um estilo próprio, povoando 
o universo de sonhos surrealistas com imagens do catolicismo. 
O sentido de humanidade e a consciência social são 
sempre associados, na poesia de Murilo Mendes, à dimensão 
espiritual. O catolicismo, religião seguida pelo poeta, era a 
base para essa reflexão. 
 
O renegado
Cortina que vela a face de Deus,
O céu fecha-se violentamente sobre mim.
[...]
Que tenho eu com a sociedade dos meus irmãos?
Acaso serei responsável pela sua vida?
Sou o membro destacado de um vasto corpo.
Sou um na confusão da massa insaciável:
Entretanto vejo por todos, penso por todos, sofro por todos.
[...]
MENDES, Murilo. A poesia em pânico. In: PICCHIO, Luciana 
Stegagno (Org.). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: 
Nova Aguilar, 2003. v. 1, p. 289. (Fragmento).
5. No primeiro verso do poema, o amor é definido 
como “estranho”. Por quê? Quais comportamentos 
comprovam essa estranheza?
> O que essas imagens sugerem sobre o sentimento 
amoroso caracterizado no poema? 
6. Transcreva no caderno outras palavras e expres-
sões que caracterizam esse sentimento. 
a) De que maneira essas expressões enfatizam as 
contradições desse amor?
b) Qual é a relação estabelecida entre essas palavras 
ou expressões e o adjetivo estranho?
7. O amor deseja a resistência do coração? Por quê? 
> Nesses versos, a apresentação de uma visão do 
amor que só tem valor se não se concretizar re-
toma uma tradição clássica. Explique.
8. Na terceira estrofe, as ações do amor explicitam as 
suas leis. Por que o amor deve ser fiel a essas leis?
> As ações definem o sentimento descrito como o 
“maior amor”. Explique o que seria, no poema, 
um amor “menor”.
9. Como podemos interpretar a paixão do amor por 
si mesmo?
O eu lírico fala da agonia da rejeição por Deus. A incapa-
cidade de transformar a realidade é explicitada na série de 
perguntas que retomam aquele que foi o principal objetivo do 
projeto literário da segunda geração modernista: entender 
como se dá a relação entre o “eu” e o mundo. 
As principais obras de Murilo Mendes são A poesia em 
pânico (1938), O visionário (1941) e As metamorfoses (1944).
Jorge de Lima: 
o católico engajado
O poema “Homenagem a Jorge de Lima”, de Murilo Men-
des, permite conhecer algumas características da obra 
desse poeta.
Homenagem a Jorge de Lima
[...]
Inventor de novo corte e ritmo,
Sopras o poema de mil braços,
Fundas a realidade,
Fundas a energia.
[...]
Aplaca tua lira pedra e angústia:
Cantando clarificas
A substância de argila e estilhaços divinos
Que mal somos.
MENDES, Murilo. Parábola. In: PICCHIO, 
Luciana Stegagno (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. v. 2, p. 555-556. (Fragmento).
A conclamação feita na abertura do livro de poesias 
Tempo e eternidade é um testemunho eloquente da filiação 
católica de Jorge de Lima (1893-1953): “Restauremos a poesia 
em Cristo”. O primeiro poema desse livro pode ser lido como 
uma apresentação de sua poética. 
 
Distribuição da poesia
Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Escutai, meus irmãos: poesia tirei de tudo
para oferecer ao Senhor.
Não tirei ouro da terra
nem sangue de meus irmãos.
[...]
A vida está malograda,
creio nas mágicas de Deus.
[...]
LIMA, Jorge de. Tempo e eternidade. 
In: BUENO, Alexei (Org.). Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. 321. (Fragmento). 
© by Maria Thereza Alves Jorge de Lima e 
Lia Corrêa Lima Alves de Lima. 
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 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 7.
O filho do século
Neste poema, as transformações do novo século 
e seus resultados são objeto de reflexão.
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa “Danúbio Azul”
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardam-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora do fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos voos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos, 
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
MENDES, Murilo. O visionário. In: Poesia completa e prosa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 239-240.
1. O poema apresenta dois momentos distintos. Quais 
são eles?
2. Na primeira parte, o eu lírico trata de situações que 
deixam de existir com a chegada do século XX. Quais 
são elas?
a) Como é o retrato do mundo composto por essas 
situações? 
b) Ao descrever essas situações, o eu lírico utiliza 
as expressões nunca mais, nem e adeus. O que elas 
indicam sobre o que ocorreu em relação a essas 
situações com a mudança de século? 
3. O poema está em um livro publicado em 1941, quando 
ocorria a Segunda Guerra Mundial. Transcreva em seu 
caderno as expressões que fazem referência à guerra. 
a) Como o novo século é caracterizado na segunda 
parte do poema?
b) Que recursos de linguagem são utilizados nessa 
caracterização? Que efeito produzem?
4. Uma das características da poesia de Murilo Mendes 
é apresentar elementos de religiosidade. Levando em 
conta a possibilidade de os elementos do poema esta-
rem relacionados ao catolicismo, o século XX poderia 
ser uma metáfora de quê?
a) “Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem”. O que esse 
gesto representa, no contexto da chegada do novo 
século?
b) Que efeito a negação do mundo que conhecia tem 
sobre o “filho” do século XX?
5. Releia: “Cairei no chão do século vinte”. Considerando 
tudo o que perde o “filho do século”, como interpretar 
o verbo cair nesse verso? 
a) O termo chão foi usado em sentido metafórico. O 
que ele significa no poema? 
b) Como o “chão” do século XX é caracterizado?
6. Releia os últimos cinco versos. Segundo eles, quais 
seriam as misérias mencionadas e que sugestão ele 
faz a elas?
> No “Apocalipse”, parte do Novo testamento, são men-
cionados quatro anjos cavaleiros que representam 
a guerra, a fome, a peste e a morte. Considerando 
essa informação, explique o que representam os 
anjos-aviões e o que significa o fato de carregarem 
o cálice?
7. Segundo a tradição católica, no momento de sua mor-
te, Jesus teria dito: “Pai, por que me abandonastes?”. 
Relacione essa informação ao último verso do poema.
a) Qual o pedido feito a Deus no último verso?
b) No Novo testamento, Jesus é chamado de “O filho do 
homem”. Considerando o significado do poema, 
como pode ser interpretado seu título?
Jorge de Lima aprendeu com o mestre Manuel Bandeira a 
lição de que a poesia está nas coisas mais simples: o sal da 
água e a luz do céu. Mas relê a lição modernista pela lente 
do catolicismo e encontra matéria para poesia em tudo o 
que considera manifestação de Deus.
Poemas negros é a sua obra mais conhecida. Nela, as 
memórias do menino branco nordestino, que teve uma in-
fância marcada pela convivência com negros, denunciam o 
preconceito profundo e disfarçado da sociedade brasileira. 
TEXTO PARA ANÁLISE
O mais conhecido desses poemas é “Essa negra Fulô”, que 
tematiza a relação entre os escravos e seus senhores, esta-
belecendo umacrítica à maneira como os negros eram física 
e emocionalmente torturados.
Na produção literária de Jorge de Lima, destacam-se: XIV 
alexandrinos (1914), O mundo do menino impossível (1925), Poe-
mas escolhidos (1932), Tempo e eternidade (escrito em parceria 
com Murilo Mendes; 1945), Poemas negros (1947), Anunciação 
e encontro de Mira-Celi (1950) e Invenção de Orfeu (1952).
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LITERATURA
Diálogos literários: presente e passado
Na atualidade, com a facilidade de divulgação promovida pela internet, cada vez mais novas 
vozes, oriundas das periferias das grandes cidades, lançam seu olhar crítico sobre o mundo em 
que vivemos. São muitos os autores com um olhar voltado para a pobreza e a violência urbana 
das favelas e dos bairros de periferia.
Esse retrato crítico da realidade em obras literárias, no entanto, não é recente. Como você 
viu, foi no Pré-Modernismo, principalmente com as obras de Euclides da Cunha, Lima Barreto e 
Monteiro Lobato, que se inaugurou uma tradição de abordar o subdesenvolvimento do Brasil e 
suas mazelas. 
No próximo capítulo, você terá a oportunidade de constatar como essa denúncia dos problemas 
sociais do nosso país é retomada, posteriormente, nos romances produzidos pelos escritores da 
geração de 1930. Nas páginas das obras desse período, é possível observar a consolidação de 
uma consciência da miséria brasileira em distintas regiões do país a partir dos dramas de perso-
nagens como Fabiano, de Vidas secas, ou como os meninos de Capitães da Areia, de Jorge Amado.
Antes, porém, de conhecer um pouco mais a produção literária da geração de 1930, veja como 
a realidade retratada no poema de Dinha e o mundo descrito em Cidade de Deus, de Paulo Lins, 
dois autores contemporâneos, registram o cotidiano de personagens cujas esperanças deixaram 
de existir há muito tempo. 
Dinha e a poesia da periferia de São Paulo
Ao Mais-Novo caído
Asseguro.
Com certeza pensou no fi lho.
no menino que seria
o dos teus olhos
pra sempre.
tua mãe também
quando ouviu teu nome
e tiros
pensou no menino dos olhos
dela.
com certeza 
lembrou do batismo 
bebê no colinho 
abandonando, desde cedo, 
o pai.
Asseguro.
Pensou na vida
inteira
pela frente
que era tua e queríamos
que vivesse
DINHA. Onde escondemos o Ouro. Livro II. 
São Paulo: Edições Me Parió Revolução, 
2013. p. 9-10. 
 
pensou, talvez, em mim
eu que sangro todo dia
tua vida e tua história
e que endereço a você
meus versos de guerra e sem glória
e divido com meus anjos
essa responsabilidade: 
garantir tua existência
avançar em tua idade
roubada
até que se prove
o contrário
e você possa
descansar
em paz.
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A cidade sem Deus de Paulo Lins
[...] Prendeu um choro, levantou-se, esticou-se para aliviar a dor de ter estado muito tempo na 
mesma posição, já ia perguntar ao amigo se estava a fi m de descolar mais um trouxa, quando notou 
que a água do rio encarnara. A vermelhidão precedera um corpo humano morto. O cinza daquele dia 
intensifi cou-se de maneira apreensiva. Vermelhidão esparramando-se na correnteza, mais um cadáver. 
As nuvens apagaram as montanhas por completo. Vermelhidão, outro presunto brotou na curva do 
rio. A chuva fi na virou tempestade. Vermelhidão, novamente seguida de defunto. [...]
Era a guerra que navegava em sua primeira premissa. A que se fez a soberana de todas as horas vinha 
para levar qualquer um que marcasse bobeira, lançar chumbo quente em crânios párvulos, obrigar bala 
perdida a se achar em corpos inocentes [...].
Busca-Pé chegou em casa com medo do vento, da rua, da chuva, do seu skate, do mais simples 
objeto, tudo lhe parecia perigoso. Ajoelhou-se diante da cama, jogou a cabeça no colchão, as mãos 
sobre ela, e numa súplica infi nita pediu a Exu que fosse lá avisar a Oxalá que um dos seus fi lhos tinha 
a sensação de estar desesperado para sempre.
LINS, Paulo. Cidade de Deus. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 
2002. p. 13-14. (Fragmento). 
Observe a imagem a seguir. 
Agora, em grupos, você e seus colegas devem discutir as seguintes questões: O que a imagem 
mostra sobre a realidade? Que crítica é possível fazer a partir dela?
Em seguida, releiam os textos desta seção e identifiquem o tema abordado por eles, relacionando-os 
à imagem e à tradição apresentada na seção. Exponham oralmente a análise para a sala, utilizando 
trechos dos textos para justificar suas conclusões. 
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 Menino em situação de rua em São Paulo, 2011.
Encarnara: tornara-
-se vermelha. 
Precedera: 
antecedera. 
Párvulos: de pouca 
idade; crianças. 
Pare e pense
A atividade propõe aos alunos discutir a relação entre a imagem e os textos desta seção. Para tanto, é necessário que antes se faça uma discussão a respeito da 
foto, ressaltando a condição da criança que dorme na rua (ironicamente sobre uma calçada desenhada com o mapa do estado de São Paulo). Ao analisar os textos, 
é importante mostrar que todos eles tratam de questões que dizem respeito ao cotidiano das classes periféricas das grandes cidades: o 
sujeito assassinado no poema de Dinha e o cotidiano de morte no trecho de Cidade de Deus, de Paulo Lins. Na exposição oral que farão 
para a sala, é importante que os alunos relacionem essa questão também à tradição de reflexão crítica da literatura 
brasileira, que tem início no Pré-Modernismo. Seria interessante sugerir aos alunos que leiam também alguns dos 
textos do capítulo que vão estudar (além dos transcritos na seção) para que o embasamento da exposição que farão 
se dê de forma mais efetiva.
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Capítulo
O romance de 19305
 Paisagem do sertão. Esta foto de Evandro Teixeira integra o livro Vidas secas: edição especial 70 anos. São Paulo: Record, 2008.
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Leitura da imagem
1. Descreva, brevemente, a imagem de abertura.
2. Que impressão o espaço retratado provoca no observador?
3. O chão gretado aparece em primeiro plano. Que leitura da 
foto o fotógrafo sugere com esse destaque?
Da imagem para o texto
4. Os romances da geração de 1930 revelam, em toda a sua 
magnitude, os problemas de uma região assolada pela seca. 
O principal intérprete dessa região foi Graciliano Ramos. 
Mudança
Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas 
manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia 
inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente 
andavam pouco, mas como haviam repousado bastante 
na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. 
Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos 
juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da 
catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, sinha Vitória com o 
filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha 
na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a 
Seca: uma tragédia que nasceu com o Brasil 
O jesuíta Fernão Cardim, viajando pelo Brasil no século XVI, 
foi o primeiro escritor a registrar o impacto da seca nordesti-
na: “As fazendas de canaviais e mandioca muitas se secaram, 
por onde houve grande fome, principalmente no sertão de 
Pernambuco”. A seca, como se vê, já era um problema durante 
o pe ríodo colonial. De lá para cá, o problema permanece e a 
solução encontrada por milhares de nordestinos tem sido a 
migração para o Sul, principalmente após a inauguração da 
estrada Rio-Bahia, em 1949.
Sugerimos que todas as questões sejam respondidas oralmente para que 
os alunos possam trocar impressões 
e ideias.
Lembrar aos alunos que a presença de um artigo antes do adjetivo faz com 
que este desempenhe uma função substantiva(nomeie algo) e seja, assim, 
classificado morfologicamente como substantivo.74
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Catinga: no texto, o mesmo que caatinga.
Escanchado: com as pernas abertas à maneira de quem monta 
a cavalo.
Quarto: quadril.
Cambaio: trôpego, com dificuldade para andar.
Aió: bolsa feita de fibras de caroá.
Pederneira: pedra que produz faíscas quando atritada por peças 
de metal. Usada na fabricação de espingardas e isqueiros. 
cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espin-
garda de pederneira no ombro. O menino mais velho e 
a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. [...]
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpica-
do de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos 
urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 71. ed. Rio de Janeiro: 
Record, 1996. p. 9-10. (Fragmento).
a) Observe as duas primeiras frases do texto. Nelas, o 
narrador introduz informações sobre o espaço e as 
personagens. Que espaço é esse?
b) O que fazem as personagens nesse espaço?
5. O uso dos adjetivos, no primeiro parágrafo, é muito 
importante. Quais adjetivos se referem ao espaço nesse 
parágrafo?
a) Por que eles são importantes para a caracterização do 
espaço da narrativa?
b) Releia o último parágrafo. Analise o que as novas in-
formações sobre o espaço sugerem a respeito da vida 
naquele local.
6. A primeira identificação das personagens é feita por meio 
de um adjetivo substantivado. Qual é o adjetivo?
a) Como pode ser explicada a escolha de um adjetivo 
substantivado para identificar as personagens?
b) Explique como os adjetivos cansados e famintos revelam 
o impacto do espaço sobre as personagens.
c) Você estudou uma outra estética literária em que os 
romances procuravam demonstrar o impacto do meio 
sobre as pessoas. Qual a estética e quais as semelhan-
ças entre ela e esse texto? Explique suas colocações.
7. O segundo parágrafo é dedicado à apresentação das 
personagens. Que relação existe entre elas?
a) Que informações levam o leitor a concluir que essas 
personagens são retirantes? Justifique.
b) A cachorrinha chama-se Baleia. Pode-se afirmar que 
há certa ironia nesse nome? Por quê?
8. Os juazeiros aparecem em três momentos diferentes do 
texto. Transcreva em seu caderno essas passagens.
> Explique o que eles indicam no desenvolvimento da 
narrativa.
9. É correto afirmar que, no trecho transcrito, o espaço é um 
fator determinante na vida das personagens? Justifique.
A retomada de um olhar 
realista
A qualidade das obras e o surgimento de autores impor-
tantes tornam os anos de 1930 a 1945 conhecidos como “a 
era do romance brasileiro”.
Essa tendência se anuncia em 1928, quando o paraibano 
José Américo de Almeida publica A bagaceira, que define uma 
nova tendência na ficção nacional: a apresentação crítica 
da realidade brasileira, que procura levar o leitor a tomar 
consciência da condição de subdesenvolvimento do país, 
visível de modo mais evidente em algumas regiões, como 
a Nordeste. Para tratar das questões sociais regionais, os 
romances escritos a partir de 1930 retomam dois momentos 
anteriores da prosa de ficção: o regionalismo romântico e o 
Realismo do século XIX. 
Do regionalismo romântico, vem o interesse pela relação 
entre os seres humanos e os espaços que eles habitam, 
apresentado agora de uma perspectiva mais determinis-
ta. Do Realismo, é recuperado o interesse em estudar as 
relações sociais. 
O romance de 1930 inova ao abandonar a idealização 
romântica e a impessoalidade realista, para apresentar uma 
visão crítica das relações sociais e do impacto do meio sobre 
o indivíduo. Essas raízes literárias que relacionam a ficção 
de 1930 às duas estéticas do século XIX fizeram com que os 
romances escritos nesse período fossem conhecidos como 
regionalistas ou neorrealistas. 
São considerados regionalistas os romances que abor-
dam a realidade específica de uma região, caracterizada 
por particularidades geográficas e por tipos humanos 
específicos, que usam a linguagem de um modo próprio e 
têm práticas sociais e culturais semelhantes.
Tome nota
Os escritores pretendiam caracterizar a vida sacrifica-
da e desumana do sertanejo e compreender a estrutura 
socioeconômica que alimentava a política do coronelismo 
nordestino. Para eles, apontar tais problemas significava 
ajudar a transformar essa realidade injusta. 
O comportamento dos indivíduos, subordinados ao es-
paço em que vivem, também é analisado, em uma tentativa 
de traçar de modo fiel o perfil social e psicológico dos habi-
tantes de determinadas regiões brasileiras.
O projeto literário 
do romance de 1930
O projeto literário do romance da geração de 1930 foi 
claro: revelar como uma determinada realidade socioeconô-
mica, no caso o subdesenvolvimento brasileiro, influenciava 
a vida dos seres humanos.
Recordar com os alunos o contexto sociopolítico apresentado no Capítulo 4. Embora tenhamos feito uma divisão da produção literária em 
dois capítulos, para melhor caracterizar como a segunda geração modernista tratou da poesia e da prosa, o contexto em que esses poetas e 
escritores produziram suas obras foi o mesmo.
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O modo encontrado para mostrar isso foi fazer com que o enredo das obras nascesse da relação 
entre o contexto socioeconômico e o espaço (caracterizado de modo bem definido). A maioria dos 
autores do período se baseou no conhecimento pessoal da realidade nordestina para desenvolver 
esse projeto. O escritor Erico Verissimo foi uma exceção, pois suas obras se voltaram para a relação 
entre o homem e a sociedade a partir da amplidão dos pampas gaúchos.
Os agentes do discurso
O eixo da ficção brasileira na década de 1930 se deslocou do Rio de Janeiro e de São Paulo para 
Maceió, capital de Alagoas. Era lá que moravam os escritores José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e 
Graciliano Ramos.
É natural que as condições de produção da literatura do período fossem favorecidas pela grande 
aproximação que havia entre esses autores. Ricardo Ramos conta sobre o pai:
[...] A nossa casa, na rua da Caridade, vivia fins de semana movimentados. Lá o grupo se reunia, muita 
gente à hora do almoço. Sem dúvida meu pai gostava desses encontros dominicais, pois se prolongaram 
no Rio, iriam durar toda a sua vida. [...]
RAMOS, Ricardo. Graciliano: retrato fragmentado. São Paulo: Siciliano, 1992. p. 41. (Fragmento).
Essa informação ajuda a compreender por que o projeto literário do romance de 1930 teve um 
desenvolvimento tão sólido e bem-sucedido: além de ser compartilhado pelos principais autores, 
também era objeto de discussão e análise constante entre eles. 
A circulação dos romances foi favorecida pelo fortalecimento das editoras brasileiras. A Livraria 
José Olympio acolhia os escritores que, chegados ao Rio de Janeiro, buscavam uma referência para 
seus diálogos intelectuais.
Mais do que publicar autores de diferentes tendências ideológicas, como José Lins do Rego, Gra-
ciliano Ramos, Jorge Amado, Murilo Mendes, Marques Rebelo e Adalgisa Nery, a “Casa” José Olympio 
permitiu que o debate entre esses escritores acontecesse de modo democrático, ajudando assim a 
fortalecer a produção literária do período. Quem ganhava com isso era o público, que se via convidado 
a conhecer dezenas de romances e livros de poesia da “nova” geração.
O romance de 1930 e o público
A multiplicação de autores e romances torna mais difícil conseguir informações sobre o público 
leitor do período, porque o seu perfil é variado. A melhor indicação de como as obras da geração de 
1930 foram recebidas, porém, são os números de venda alcançados por autores como Jorge Amado, 
José Lins do Rego e Erico Verissimo.
Esgotandosucessivas tiragens de seus romances, eles souberam criar um tipo de narrativa que 
caiu no gosto popular. Os enredos dinâmicos e a linguagem simples tornavam suas obras atraentes 
para o público num momento em que o contexto social e político fazia aumentar o desejo de conhe-
cer melhor o Brasil. O surgimento de tantos novos romancistas que abordavam, por meio da ficção, 
aspectos da realidade socioeconômica acabava por atender às expectativas de diferentes leitores, 
contribuindo para consolidar o período como a fase áurea do romance modernista.
Linguagem: a “cor local”
De modo geral, o trabalho com a linguagem realizado pelos autores dessa geração busca trazer 
para as narrativas a “cor local”, ou seja, as informações sobre espaços, comportamentos e costumes, 
que permitem ao leitor reconhecer os aspectos típicos, característicos de uma região específica.
A cena a seguir, extraída do romance O quinze, de Rachel de Queiroz, exemplifica como a cor local 
é inserida nos romances.
Depois de se benzer e de beijar duas vezes a medalhinha de S. José, Dona Inácia concluiu:
“Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria, e alcançai o que roga-
mos. Amém.”
Chamar a atenção dos alunos, na cena transcrita, para a diferença entre a “reza” de Dona Inácia (texto formal, marcado pela 
flexão de verbos na 2a pessoa do plural, típica das orações da Igreja Católica) e a fala de Conceição (claramente oral, em tom 
de comentário, com reticências sugerindo pausas).
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Vendo a avó sair do quarto do santuário, Conceição que fazia as tranças sentada numa rede ao 
canto da sala interpelou-a:
— E nem chove, hein, Mãe Nácia? Já chegou o fim do mês... Nem por você fazer tanta novena...
Dona Inácia levantou para o telhado os olhos confiantes:
— Tenho fé em S. José que ainda chove! Tem-se visto inverno começar até em abril. [...]
QUEIROZ, Rachel de. O quinze. 14. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 29. (Fragmento).
Nessa cena, vemos o apelo para São José trazer a chuva. A religiosidade, principalmente em época 
de grande necessidade, é uma característica dos nordestinos. Conceição e sua avó também “falam” 
de modo natural, sem qualquer impostação ou rebuscamento linguístico. É o romance dando voz às 
personagens e, dessa maneira, tornando-as mais “reais”.
A inclusão de termos regionais também contribui para registrar referências que ajudam o leitor a 
construir uma representação mais fiel da região retratada nesses romances.
Inverno: nas regiões 
Norte e Nordeste, 
esse termo refere- 
-se à estação das 
chuvas, que ocorre 
no verão e no 
outono.
Literatura e contexto histórico
 Considere as seguintes informações: 
 I. De 1919 a 1921, uma grande seca no Nordeste desencadeia o crescimento do êxodo rural.
 II. Em 1920, foi criada a Caixa Especial de Obras de Irrigação de Terras Cultiváveis do 
Nordeste Brasileiro, mantida com 2% da receita tributária da União e outros recursos. 
 III. Em 1945, foi criado o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, que substitui 
a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas.
> Com base nessas informações, discuta com seus colegas as questões a seguir: 
a) As informações apresentadas revelam que os problemas denunciados em obras como 
Vidas secas eram preocupações antigas e reais do Estado?
b) As medidas adotadas pelo Estado para combater os problemas causados pela seca sur-
tiram efeito?
c) Relacione essas medidas a outras mais atuais que você eventualmente conheça.
Graciliano Ramos: mestre das palavras secas
Graciliano Ramos (1892-1953) apresenta, em sua obra, dois romances que sobressaem pelo 
modo surpreendente como apresentam diferentes níveis da miséria humana: aquela causada pela 
pobreza extrema em Vidas secas e a outra, fruto da ambição, em São Bernardo. Muito mais do que 
apenas romances regionalistas, os textos que nascem das mãos de Graciliano falam de problemas 
humanos universais.
A linguagem constrói o olhar realista 
O cuidado com as palavras é um dos traços mais importantes da prosa de Graciliano Ramos. A 
economia no uso de adjetivos e advérbios, a escolha cuidadosa dos substantivos, todos os aspectos 
da construção de seus romances colaboram para a criação do “realismo bruto” que define o olhar 
neorrealista do autor. Observe, por exemplo, como o narrador de São Bernardo, Paulo Honório, fala 
sobre os funcionários que lhe serviam.
[...] Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, 
como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, 
bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os 
bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus. [...]
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. 
Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 217. (Fragmento).
Taludos: bem 
desenvolvidos.
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Toda a apresentação dos trabalhadores é feita a partir do campo semântico criado pelo substan-
tivo bichos, metáfora escolhida pelo narrador para caracterizá-los. O adjetivo domésticos e a locução 
adjetiva do mato estabelecem uma diferença no grau de civilidade de alguns deles. 
Os demais funcionários não chegam sequer a ser identificados. A imagem (bois mansos) escolhida 
para resumir sua condição ajuda a compreender como as questões sociais aparecem nos romances 
de Graciliano Ramos. O narrador faz, nesse momento, uma particularização do campo semântico ini-
cial: os bichos (funcionários de modo geral) passam a bois (somente os que trabalham nos campos). 
Desse ponto em diante, todas as informações dadas a seu respeito estarão contidas no novo campo 
semântico: suas casas são currais e seus filhos, bezerrinhos.
Por meio da linguagem, o autor constrói seus protagonistas: homens atormentados, cheios de 
conflito, solitários, destruídos pela vida, como Paulo Honório. Outro personagem emocionalmente 
abalado é Luís da Silva, de Angústia, que, em 1a pessoa, narra o desespero em que vive após assassinar 
o rival, Julião Tavares, que lhe roubara a noiva, Marina, às vésperas do casamento.
São Bernardo: retrato da destruição individual
O protagonista e narrador do romance São Bernardo, Paulo Honório, órfão, criado por uma negra 
analfabeta, luta para vencer na vida a qualquer preço. Conquista a fortuna e o prestígio desejados, mas 
descobre-se solitário e infeliz. Decide, então, fazer um balanço da própria vida na forma de uma narra-
tiva. Surgem, nessa reconstrução de sua trajetória, os traços mais marcantes de uma personalidade 
“moldada” pelo contexto socioeconômico do qual fazia parte. 
No centro da narrativa e do processo de autoanálise do protagonista, está seu casamento com 
Madalena, uma professora de origem pobre. Essa união é vista por ele como uma negociação qualquer, 
a ser decidida com base na possibilidade de lucro para os envolvidos.
[...]
— A senhora, pelo que mostra e pelas informações que peguei, é sisuda, econômica, sabe onde 
tem as ventas e pode dar uma boa mãe de família. [...]
— O seu oferecimento é vantajoso para mim, seu Paulo Honório, murmurou Madalena. Muito 
vantajoso. Mas é preciso refletir. De qualquer maneira, estou agradecida ao senhor, ouviu? A verdade 
é que sou pobre como Job, entende?
— Não fale assim, menina. E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada? Quer que lhe diga? Se 
chegarmos a um acordo, quem faz um negócio supimpa sou eu. [...]
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. 
Rio de Janeiro: Record, 2005. 
p. 101-102. (Fragmento).
Job: o mesmo que Jó. Na Bíblia (Livro de Jó), o demônio aposta com Deus que seria capaz 
de fazer seu mais dedicado fiel abandonar a religião. Essa personagem é Jó, que, testadopelo demônio, perde toda a sua riqueza de uma hora para a outra e nem assim abandona 
sua crença ou renega seu Deus. A expressão “paciência de Jó”, para designar uma pessoa 
extremamente paciente, deriva desse episódio bíblico. 
Supimpa: excelente, muito bom.
As diferenças entre Paulo Honório e Madalena são evidentes: ele é um homem rude, que só pensa 
em acumular dinheiro, bens, propriedades. Ela é uma mulher educada, que se preocupa com o bem-
-estar dos trabalhadores, defendendo-os junto ao marido. As brigas constantes tornam insuportável 
a vida em comum. 
Os conflitos entre essas personagens refletem a grande questão desenvolvida por Graciliano Ramos 
em São Bernardo: a tentativa do protagonista de ascender socialmente esbarra na sua incapacidade 
de se integrar à elite. Por trás da história desse sertanejo rude, surge uma representação inesperada 
da luta de classes, outra característica inovadora do romance de 1930: a burguesia falida aceita os 
novos-ricos como Paulo Honório, mas não sua integração socioeconômica.
[...] Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. [...] Considerando, porém, 
que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e 
mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha.
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[...] Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos 
dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes. [...]
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. 
Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 218-221. (Fragmento).
Incapaz de se integrar aos seus semelhantes ou de ser aceito pela elite, Paulo Honório sofre e 
constata que, em nome da prosperidade econômica, destruiu a própria humanidade. Por meio de per-
sonagens como ele, Graciliano Ramos conduz seus leitores a uma análise progressiva da alma humana.
Vidas secas: a desumanização 
provocada pelo meio
Vidas secas é, no conjunto da obra de Graciliano Ra-
mos, um livro singular em diferentes aspectos: é o único 
romance desse autor com foco narrativo em 3a pessoa; 
não foi planejado como romance: nasceu de um conto, 
“Baleia”; seus capítulos foram escritos fora da ordem 
que receberam na edição final; não apresenta um apro-
fundamento da análise psicológica das personagens, 
como acontece em São Bernardo e Angústia. 
O livro faz um retrato da dura existência no sertão 
nordestino. No início da narrativa, que você conheceu na 
abertura deste capítulo, Fabiano, sinha Vitória, os dois 
filhos e a cachorrinha Baleia procuram um lugar melhor 
para viver. Após longa caminhada pela caatinga, chegam 
a uma fazenda abandonada, onde resolvem se instalar.
A aridez do cenário se expande e atinge também o 
comportamento das personagens, caracterizado por 
falas monossilábicas e gestos voltados para a sobrevi-
vência imediata. A animalização das personagens se manifesta de diversas formas nesse romance: 
as crianças não chegam a ser nomeadas (são referidas como “menino mais novo” e “menino mais 
velho”); como acontece com os animais, seu comportamento é determinado pela necessidade de 
sobreviver a um espaço inóspito.
Em uma passagem muito conhecida, o vaqueiro Fabiano questiona a própria humanidade para 
concluir, orgulhoso, que é um “bicho”.
[...]
— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
[...] E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos 
outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia 
em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e 
julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. 
Corrigiu-a, murmurando:
— Você é um bicho, Fabiano.
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. [...]
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 71. ed. 
Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 18. (Fragmento).
A questão central da obra está na relação entre o indivíduo e a sociedade, agora atravessada 
também pelo espaço dominado pela seca que empurra as pessoas para uma condição de vida com-
pletamente desumana e as torna vítimas de “patrões” inescrupulosos. 
Vidas secas permanece, ainda hoje, uma obra assustadoramente atual no retrato que faz dos 
retirantes nordestinos que acalentam um único sonho: sobreviver.
 Boi morto pela seca no agreste. Município 
de Jataúba, Pernambuco, 2003.
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LITERATURA
José Lins do Rego: 
lembranças de um menino 
de engenho 
Nas obras que compõem o ciclo da cana-de-açúcar, José 
Lins do Rego (1901-1957) recria a realidade dos trabalhadores 
da região canavieira pernambucana a partir das suas recor-
dações da infância na fazenda do avô. As narrativas deixam 
clara uma grande preocupação com a linguagem, construída 
para dar veracidade às cenas e às personagens. Menino de 
engenho é o romance que inaugura esse ciclo. O dia a dia de 
um engenho ganha realidade por meio do casamento perfeito 
entre a descrição do espaço e a fala das personagens, como 
no trecho a seguir.
Estavam na limpa do partido da várzea. O eito bem per-
tinho do engenho. Da calçada da casa-grande viam-se no 
meio do canavial aquelas cabeças de chapéu de palha velho 
subindo e descendo, no ritmo do manejo da enxada: uns 
 Leia o texto a seguir e responda às questões. 
19 
Paulo Honório reflete, com amargura, 
sobre a sua trajetória de vida.
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas 
não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco 
a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi 
minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me 
deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. 
Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha 
mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas 
sou forçado a escrever. 
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da 
sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes 
as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas — e a fo-
lha permanece meio escrita, como estava na véspera. 
Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale 
a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. 
Emoções indefiníveis me agitam — inquietação ter-
rível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com 
Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. 
Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso 
enorme no coração. 
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As mi-
nhas palavras eram apenas palavras, reprodução imper-
feita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa 
que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu 
apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse 
até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. [...]
O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam 
a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo 
baixinho:
— Madalena!
A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos 
ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. [...]
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. 
Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 117-118. (Fragmento).
1. Como Paulo Honório caracteriza sua mulher?
> De quem é a culpa, segundo ele, pelo fato de Mada-
lena nunca ter se revelado inteiramente?
2. No trecho a seguir, o adjetivo destacado qualifica 
tanto a “vida” quanto a “alma” do protagonista. Que 
significado o termo assume em cada expressão? 
“[...] a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma 
alma agreste.”
a) Que relação Paulo Honório estabelece, a partir desse 
recurso, entre sua trajetória e seu temperamento?
b) De que maneira a caracterização que ele faz de si 
mesmo é uma consequência do juízo que fazde 
Madalena, a quem considera “boa em demasia”?
3. Paulo Honório resolve escrever um livro para tentar 
compreender por que se sente atormentado. De que 
maneira, no trecho transcrito, ele deixa claro que essa 
intenção será frustrada?
a) O que o obriga a escrever?
b) Que sentimentos são desencadeados em Paulo 
Honório pelas lembranças? 
c) A que a personagem atribui esses sentimentos?
4. Paulo Honório sempre se considerou inferior à espo-
sa, por ela ser instruída e ele não. Transcreva em seu 
caderno o trecho em que isso fica evidente. 
a) Por que esse trecho revela o seu sentimento de 
inferioridade?
b) Em que outro momento do texto ele sugere sua 
incapacidade com as palavras? 
5. No último parágrafo, Paulo Honório vê e ouve Mada-
lena de novo, embora ela não esteja lá, de fato. O que 
provoca essa sensação nele? 
> Como a linguagem utilizada nesse parágrafo mostra 
que ele tem consciência de que a imagem não é real?
6. No romance, Paulo Honório percebe que, embora tenha 
enriquecido, não consegue se integrar à classe que tanto 
almejou. Explique por que e justifique suas afirmações 
com exemplos do trecho.
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 Da esquerda para a direita: José Lins do Rego, Carlos Drummond 
de Andrade, Candido Portinari, José Olympio e Manuel 
Bandeira. Foto tirada na década de 1950, no Rio de Janeiro.
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A morte de um engenho
Ambientado no início do século XX, Fogo morto conta 
a história do engenho Santa Fé. Narrada em 3a pessoa, 
a obra se divide em três partes: cada uma trata de uma 
personagem. Mestre José Amaro é o seleiro (fabrica selas) 
que mora “de favor” nas terras do engenho; o coronel Lula 
de Holanda é o dono do engenho em decadência; Capitão 
Vitorino é um pequeno proprietário que vive de maneira mo-
desta e representa uma espécie de D. Quixote nordestino. 
 Leia o texto e responda às questões a seguir. 
O mestre José Amaro
Tomado pela amargura e pela raiva, José Amaro 
lamenta sua sorte.
[...] O bater do martelo do mestre José Amaro cobria 
os rumores do dia que cantava nos passarinhos, que bulia 
nas árvores, açoitadas pelo vento. [...] O martelo do mestre 
era mais forte, mais alto que tudo. [...] Ouvia o gemer da 
filha. Batia com mais força na sola. [...] Tinha aquela filha 
triste, aquela Sinhá de língua solta. Ele queria mandar 
em tudo como mandava no couro que trabalhava, queria 
bater em tudo como batia naquela sola. A filha continuava 
chorando como se fosse uma menina. O que era que tinha 
aquela moça de trinta anos? Por que chorava, sem que 
lhe batessem? Bem que podia ter tido um filho, um rapaz 
como aquele Alípio, que fosse homem macho, de sangue 
quente, de força no braço. Um filho do mestre José Amaro 
que não lhe desse o desgosto daquela filha. [...]
[...] O mestre José Amaro voltou outra vez para dentro 
de si mesmo. [...] Não tinha um filho que falasse alto com 
os grandes, que tivesse fibra para não aguentar desaforo. 
Então, muito de longe, começavam a soar as campainhas 
de um cabriolé. O mestre José Amaro se pôs de pé. Vinha 
passando pela sua porta a carruagem do senhor de suas 
terras, do dono de sua casa. Era o coronel Luís César de Ho-
landa Chacon, senhor de engenho de Santa Fé, que passava 
com a família. [...] Era o cabriolé do coronel Lula enchendo 
de grandeza a pobre estrada que dava para o Pilar. [...]
O mestre José Amaro sentou-se outra vez. O martelo 
estrondou na paz da tarde que chegava. [...] Batia forte na 
sola, batia para doer na sua perna que era torta. Que lhe 
importava o cabriolé do coronel Lula? Que lhe importava 
a riqueza do velho José Paulino? As filhas do rico morriam 
de parto. [...] Um silêncio medonho envolvia tudo, num 
instante, como se o mundo tivesse parado. Parara de bater 
o mestre José Amaro [...]. 
REGO, José Lins do. Fogo morto. 48. ed. Rio de Janeiro: 
José Olympio, 1997. p. 9-12. (Fragmento).
Cabriolé: carruagem de duas rodas, pequena, leve e rápida.
oitenta homens comandados pelo feitor José Felismino, de 
cacete na mão, reparando no serviço deles. [...]
— Deixa de conversa, gente! — gritava seu José Felismino. 
— Bota pra diante o serviço. Com pouquinho o coronel está 
aqui gritando. [...]
Manuel Riachão puxava o eito na frente, como um baliza. 
Era o mais ligeiro. [...] Sempre na dianteira, deixando na ba-
gagem os companheiros. O moleque Zé Passarinho reman-
chando, o último do eito. Não havia grito que animasse aquela 
preguiça alcoolizada. Também, ganhava dois cruzados, davam-
-lhe a mesma diária das mulheres na apanha do algodão.
— Tira a peia da canela, moleque safado! O diabo não 
anda! [...]
REGO, José Lins do. Menino de engenho. 66. ed. Rio de Janeiro: 
José Olympio, 1997. p. 58-59. (Fragmento).
Partido: plantação de cana-de-açúcar.
Eito: roça, local de trabalho dos escravos.
Remanchando: andando vagarosamente.
Peia: corda.
“Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe 
morreu”, começa a contar o narrador de Menino de engenho, 
recriação literária da própria história do autor. As recorda-
ções do protagonista dão vida a uma realidade econômica, 
política e social que foi se desgastando ao longo do tem-
po. O leitor sofre junto com esse menino desgarrado, que 
andava triste “por debaixo das árvores da horta, ouvindo 
sozinho a cantoria dos pássaros”. Na cena final, embarca-
do no trem que o levaria para a cidade, novo momento de 
ruptura: “Os olhos se encheram de lágrimas. Cortava-me a 
alma a saudade do meu engenho”.
As lembranças pessoais estão na base do processo de 
criação de José Lins do Rego, o que define seus romances 
como narrativas memorialistas.
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LITERATURA
1. José Amaro é um homem insatisfeito com a própria 
vida. O que ele lamenta? 
> Amaro significa “amargo”. Qual é a relação entre o 
nome da personagem e sua personalidade? 
2. O trabalho executado por José Amaro contribui para 
apresentar seu temperamento. De que maneira essa 
relação é mostrada no trecho transcrito?
3. Releia e compare os dois trechos. 
“O bater do martelo do mestre José Amaro cobria 
os rumores do dia que cantava nos passarinhos, que 
bulia nas árvores, açoitadas pelo vento.”
“Um silêncio medonho envolvia tudo, num instante, 
como se o mundo tivesse parado. Parara de bater o 
mestre José Amaro.”
> Qual é o impacto que a ação de José Amaro tem sobre 
o espaço?
4. José Amaro desejava ter tido um filho. Como ele ima-
gina esse filho?
> Pode-se dizer que o filho simboliza o desejo do mes-
tre de reagir diante daquilo que considera injustiça. 
Explique por quê.
5. No penúltimo parágrafo, aparece outra personagem 
importante do romance: o coronel Lula. De que forma 
o texto mostra a posição de subser viência do mestre 
em relação ao coronel?
a) Os elementos do espaço contribuem também para 
a caracterização das personagens desse romance. 
O que simboliza, nesse contexto, o cabriolé do co-
ronel?
b) Releia: “Era o cabriolé do coronel Lula enchendo 
de grandeza a pobre estrada que dava para o Pilar”. 
Explique de que maneira esse trecho indica a opo-
sição entre o coronel e José Amaro.
Rachel de Queiroz: um olhar 
feminino para o sertão
Única mulher a figurar entre os escritores da geração de 
1930, Rachel de Queiroz (1910-2003) era prima de José de 
Alencar pelo lado da mãe. Cedo manifestou a paixão pelos li-
vros. Costumava contar que leu Ubirajara, de autoria do primo 
célebre, aos cinco anos: “obviamente sem entender nada”.
A família Queiroz, fugindo dos horrores da seca de 1915, 
mudou-se de Fortaleza para o Rio de Janeiro. O episódio 
ficou gravado na memória de Rachel.Anos mais tarde, ela 
utilizaria suas lembranças como inspiração para a narrativa 
de O quinze, que trata da terrível seca daquele ano. 
Publicado em 1930, O quinze foi escrito quando tinha 
somente 18 anos e ajudou a firmar a tradição dos romances 
do “ciclo nordestino”. Definindo-se como jornalista, Rachel 
escreveu crônicas em diversos jornais brasileiros até o fim 
da vida. Entre seus romances destacam-se também João Mi-
guel (1932), Caminho de pedras (1937), As três Marias (1939), 
Dôra, Doralina (1975) e Memorial de Maria Moura (1992). Foi 
a primeira escritora a conquistar uma cadeira na Academia 
Brasileira de Letras, em 1977. 
A seca como motivo literário
Em O quinze, dois aspectos merecem atenção: a estru-
tura e a linguagem. A narrativa é construída em dois planos 
distintos. Em um deles, o leitor acompanha a história de 
Conceição, protagonista do livro. Mulher educada, professora 
que gosta de ler livros avançados para a época, a personagem 
foi desenvolvida para permitir a afirmação social da mulher 
em uma sociedade machista e organizada em torno dos co-
ronéis. No segundo plano, é narrada a trajetória do vaqueiro 
Chico Bento e sua família, que “arribam” para fugir da seca. 
A tragédia humana desencadeada pelo clima da região 
fica registrada em algumas passagens inesquecíveis, como a 
do enterro do filho mais novo do vaqueiro, que morre durante 
a viagem para a capital.
Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, 
com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai.
Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, es-
trada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente 
da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da 
mesma cruz. 
[...]
QUEIROZ, Rachel de. O quinze. 14. ed. Rio de Janeiro: 
José Olympio, 1971. p. 71. (Fragmento).
A força do romance de Rachel de Queiroz está em expor 
a realidade brutal: os filhos dos retirantes em época de seca 
vão ficando nas covas abertas no solo duro do sertão.
O segundo aspecto que merece atenção na obra é o uso 
da linguagem. Preo cupada em reproduzir a fala que ouvia 
nas ruas, a escritora inova em relação a outros romances 
sobre os nordestinos. Graciliano Ramos costumava dizer 
que suas personagens “sabiam falar”, como nesta fala de 
Chico Bento: “— Em todo pé de pau há um galho mode a 
gente armar a tipoia... E com umas noites assim limpas até 
dá vontade de se dormir no tempo... Se chovesse, quer de 
noite, quer de dia, tinha carecido se ganhar o mundo atrás 
de um gancho?”.
De olho na minissérie
A luta de uma mulher em um mundo masculino 
A minissérie Memorial de Maria Moura, inspirada no 
romance de mesmo nome de Rachel de Queiroz, faz uma 
excelente reconstituição da vida no interior nordestino no 
século XIX e ilustra o questionamento do papel da mulher 
presente nas obras da escritora. Há cenas de violência e sexo.
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Jorge Amado: retrato da diversidade 
econômica e cultural
Um dos escritores brasileiros mais conhecidos e lidos de todos os tempos, Jorge Amado (1912-2001) 
imprimiu um recorte particular ao projeto literário de sua geração: o estudo das relações humanas 
que levaram à constituição do perfil multicultural e multirracial que caracteriza o povo brasileiro. 
Os números referentes à vasta obra de Jorge Amado (32 títulos entre romances, biografias e livros 
infantis) são reveladores de seu sucesso no Brasil e no mundo. Seus romances ultrapassaram a marca 
dos 10 milhões de títulos vendidos só aqui no país e foram traduzidos para 49 línguas estrangeiras.
Retratos da Bahia
De todas as fases por que passou sua obra, algumas merecem destaque, como a que retrata a 
vida na região cacaueira de Ilhéus, caracterizando a opressão em que viviam os trabalhadores rurais 
em contraste com a situa ção dos grandes coronéis da região, enriquecidos pelo cultivo do cacau, o 
“ouro negro”. É a essa fase que pertence o romance que muitos críticos consideram sua obra-prima: 
Terras do sem-fim (1943).
Outra obra merecedora de atenção é Capitães da Areia (1937), que pertence à fase dos romances 
urbanos de Salvador e que retrata a vida de um grupo de crianças que vivem na rua. Acompanhando o 
amor entre Dora e Pedro Bala, o líder do grupo, o narrador leva o leitor pelos becos e vielas de Salvador, 
pelos terreiros de candomblé, localizando no cenário urbano o que já havia registrado na região cacaueira. 
Além disso, a sensualidade brasileira aparece em todas as obras de Jorge Amado. Povoadas de 
morenas como Gabriela, Tieta e Tereza Batista, suas narrativas falam de um amor mundano, altamente 
erotizado.
A partir da publicação de Gabriela, cravo e canela (1958), a ficção de Jorge Amado afasta-se das ques-
tões sociais para concentrar-se na construção de tipos humanos, explorando cada vez mais o tema do 
amor. Essa nova tendência de suas obras garantiu ao autor a continuidade de seu imenso sucesso popular.
TEXTO PARA ANÁLISE
 O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 5.
O trapiche
Neste trecho, a realidade miserável 
dos Capitães da Areia é apresentada.
[...] uma grande parte dos Capitães da Areia dormia no 
velho trapiche abandonado, em companhia dos ratos, sob 
a lua amarela. Na frente, a vastidão da areia, uma brancura 
sem fim. Ao longe, o mar que arrebentava no cais. Pela 
porta viam as luzes dos na vios que entravam e saíam. 
Pelo teto viam o céu de estrelas, a lua que os iluminava.
[...] moleques de todas as cores e de idades as mais 
variadas, desde os 9 aos 16 anos, que à noite se esten-
diam pelo assoalho e por debaixo da ponte e dormiam, 
indiferentes ao vento que circundava o casarão uivando, 
indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com 
os olhos puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos 
presos às canções que vinham das embarcações...
É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia: 
Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde os seus 
cinco anos. Hoje tem 15 anos. Há dez que vagabundeia nas 
ruas da Bahia. Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera 
de um balaço. Ele ficou sozinho e empregou anos em co-
nhecer a cidade. [...] Quando se incorporou aos Capitães 
da Areia (o cais recém-construído atraiu para as suas 
areias todas as crianças abandonadas da cidade) o chefe 
era Raimundo, o Caboclo, mulato avermelhado e forte.
Não durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro 
Bala era muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, 
sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a 
autoridade de chefe. [...]
Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, 
e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos 
Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do 
furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos 
que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de 
quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche. 
Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, 
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em 
verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmen-
te, os que totalmente a amavam, os seus poetas.
 AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 117. ed. Rio de Janeiro: 
Record, 2004. p. 20-21. (Fragmento).
Trapiche: armazém localizado junto a litoral marítimo ou fluvial 
utilizado para depósito de mercadorias em trânsito.
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LITERATURA
1. Como são caracterizados os Capitães da Areia? 
2. O local onde vivem retrata a miséria da vida 
desses meninos. Por quê? Justifique sua resposta 
com o texto.
3. Depois que Pedro Bala se tornou o seu líder é que 
“a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da 
Areia”. De que maneira essa liderança influiu na 
“fama” dos meninos?
4. No último parágrafo, os meninos são apresenta-
dos como os “poetas” da cidade. O que isso indica 
sobre a atitude do narradordiante desses garotos 
marginalizados?
5. É possível afirmar que o tema tratado em Capi-
tães da Areia permanece bastante atual. Explique 
por quê.
Erico Verissimo: o 
intérprete dos gaúchos
Os romances da primeira fase da produção de Erico 
Verissimo (1905-1975) cons troem um painel da burguesia 
do Rio Grande do Sul. Além de Clarissa, essa fase engloba 
os romances Caminhos cruzados (1935), Música ao longe 
(1935), Um lugar ao sol (1936) e Saga (1940), série em que 
apresenta a vida das personagens Clarissa e Vasco, Fernan-
da e Noel. São ainda da primeira fase os romances Olhai os 
lírios do campo (1938) e O resto é silêncio (1943), além da 
novela Noite (1954). 
Nessas narrativas pode-se identificar a preocupação 
do escritor com a crise moral e espiritual do homem e da 
sociedade em que vive. Na conclusão de O resto é silêncio, 
o narrador anuncia aquele que será o grande projeto dos 
romances da segunda fase de Erico Verissimo: investigar a 
relação entre o presente degradado por crises e revoluções e 
o passado histórico marcado pelo heroísmo do povo gaúcho 
na defesa de seu território.
[...] Quantos milhares de homens tinham lutado, so-
frido e morrido para manter as fronteiras da pátria? Que 
soma de sacrifício, de fé, esperança e coragem havia sido 
necessária para que o Brasil continuasse como território e 
como nação? [...]
[...] Por sobre tudo isso, sempre e sempre o vento e a soli-
dão, os horizontes sem fim e o tempo. A cada passo, o perigo 
da invasão, o tropel das revoluções e das guerras. E ainda as 
crianças tristes e pacientes, esperando, vendo o tempo passar 
com o vento, e o vento agitar os coqueiros e os coqueiros 
acenar para as distâncias. [...] 
VERISSIMO, Erico. O resto é silêncio. 
Porto Alegre: Globo, 1978. p. 402. (Fragmento).
Uma alegoria do Brasil
Incidente em Antares apresenta uma alegoria do Brasil da 
ditadura militar. O título faz referência a um incidente ocorrido 
numa sexta-feira 13: sete mortos da ci dade de Antares deixam 
de ser enterrados por causa de uma greve geral na cidade. 
Os cadáveres, fora de seus caixões, reivindicam o direito de 
descansar em paz. Representantes de diferentes classes 
sociais (uma velha dama, um advogado, uma prostituta, um 
bêbado, um sapateiro anarquista, um pianista e um preso 
que morreu torturado), os defuntos transtornam os vivos 
com suas confissões.
O tempo e o vento: entre o mítico, 
o histórico e o social
Para levar adiante o projeto de integrar as dimensões 
mítica, histórica e social do Rio Grande do Sul, Erico Verissimo 
criou a saga de duas famílias: os Terra-Cambará e os Amaral, 
que dará origem à trilogia de O tempo e o vento, composta 
dos romances O continente (1949), O retrato (1951) e O ar-
quipélago (1961). 
As histórias contadas vão tecendo, em meio à vida de Ana 
Terra, Pedro Missioneiro, Pedro Terra, Capitão Rodrigo Cam-
bará, Bibiana e seus descendentes, alguns dos inesquecíveis 
personagens de O tempo e o vento, o painel de uma região 
com contornos bem diferentes do cenário árido e miserável 
que surgiu das páginas dos romances do Nordeste.
A reconstituição do passado deixa claro o desejo de promo-
ver a reflexão crítica da sociedade presente. Nesse sentido, o 
interesse da obra não está em revelar os aspectos regionais 
típicos dos gaúchos, mas em reconhecer como o elemento 
humano, heroico ou não, participa da formação de um povo. 
[...]
— [...] Se nós os gaúchos jogamos fora os nossos mitos, 
que é que sobra?
Floriano olha para o estancieiro e diz tranquilamente:
— Sobra o Rio Grande, doutor. O Rio Grande sem máscara. 
O Rio Grande sem belas mentiras. O Rio Grande autêntico. 
Acho que à nossa coragem física de guerreiros devemos 
acrescentar a coragem moral de enfrentar a realidade. [...]
VERISSIMO, Erico. O arquipélago. Porto Alegre: Globo, 1978. v. 3, 
p. 863. (Fragmento).
Nos romances de Erico Verissimo os costumes particula-
res, o comportamento coletivo, as características próprias de 
uma determinada região interessam menos do que a reflexão 
sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. Para ele, o 
ser humano tem sempre importância maior.
Os romances da terceira fase mostram um escritor preo-
cupado em aprofundar os temas políticos, dando à sua obra 
um tom mais engajado. Isso aparece em O senhor embaixador 
(1965), O prisioneiro (1967) e Incidente em Antares (1971). 
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A veia humanística de Erico Verissimo abriu importantes caminhos para que outros autores se 
aventurassem na exploração das angústias e dos conflitos vividos pelo homem em um mundo fran-
camente em crise.
Dyonelio Machado: as angústias 
do homem comum
O mais célebre autor gaúcho contemporâneo de Erico Verissimo foi Dyonelio Machado (1895-1985). 
Em 1936, ele publicou o seu romance mais conhecido: Os ratos. Estranha narrativa que relata minucio-
samente as 24 horas da vida de um funcionário público, essa obra representa um passo importante 
na ficção social do período.
A aflição de Naziazeno, desesperado porque não tem como pagar a conta do leiteiro, é relatada por 
meio de um estilo seco, enxuto, que transmite ao leitor o pavor e a angústia de um homem comum, 
cujo salário não é suficiente para prover o básico à sua família.
Dyonelio escreveu também Um pobre homem (1927), O louco do Cati (1942), Desolação (1944), Passos 
perdidos (1955) e Os deuses econômicos (1966).
 Leia o texto e responda às questões a seguir. 
10
O capitão Rodrigo e Bento Amaral se enfrentam 
em um duelo que tem como pivô os sentimentos que ambos nutrem por Bibiana.
Chegaram quase ao mesmo tempo ao ponto marcado para o encontro. Apearam em silêncio e 
amarraram seus cavalos. [...]
E aproximaram-se um do outro, lentos, meio encurvados. Pararam quando a distância que os se-
parava era pouco mais de cinco passos e ficaram a se mirar, negaceantes. Rodrigo ouvia a respiração 
arquejante do inimigo. 
— Vou te mostrar o que acontece quando se bate na cara dum homem, patife — rosnou ele. E 
sentiu que a raiva o fazia feliz. 
— Quem vai te mostrar sou eu, canalha. 
E dizendo isto Bento avançou brandindo a adaga. Os ferros se encontraram no ar com violência 
e tiniram. No primeiro momento Rodrigo teve de recuar alguns passos. Mas logo firmou o pé no 
chão e desviou todos os pranchaços do outro. [...]
Por alguns instantes os dois inimigos terçaram armas, disseram-se palavrões, enquanto suas 
camisas se empapavam de suor. Por fim se atracaram num corpo a corpo furioso, cabeça contra 
cabeça, peito contra peito. [...]
— Vou te botar minha marca na cara, pústula! [...]
Empregando toda sua força, que o ódio aumentava, o capitão conseguiu prender a mão direita 
do outro entre suas coxas [...].
— Te prepara, porco! — gritou Rodrigo — É agora.
E riscou-lhe verticalmente a face. O sangue brotou no talho. [...]
— Falta a volta do R ! 
E num golpe rápido fez uma pequena meia-lua, às cegas. Bento cuspiu-lhe no rosto, frenético, 
e num repelão safou-se e tombou de costas, deixando cair a adaga.
Rodrigo imaginou que ele ia levantar-se, apanhar de novo a arma e voltar ao ataque. Mas, Bento, 
sentado no chão, com a mão no rosto, ficou olhando atarantadamente para todos os lados. [...]
— Não vou te matar, miserável — disse Rodrigo — mas não costumo deixar serviço incompleto. 
Quero terminar esse R. Falta só a perninha...
E caminhou para o adversário, devagarinho, antegozando a operação e lamentando que não fosse 
noite de lua cheia para ele poder ver bem a cara odiosa de Bento Amaral. [...]
VERISSIMO, Erico. Um certo capitão Rodrigo. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 81-83. (Fragmento).
Negaceantes: que 
têm atitude de 
provocar, atiçar.
Brandindo: 
levantando, 
sacudindo, 
manejando. 
Pranchaços: 
pancadas com 
espada ou faca.
Terçaram: 
cruzaram, 
bateram.
TEXTO PARA ANÁLISE
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LITERATURA
1. Que motivo levou o capitão Rodrigo a duelar com Bento Amaral? 
2. Releia o trecho a seguir. 
“E aproximaram-se um do outro, lentos, meio encurvados. Pararam quando a distância que 
os separava era pouco mais de cinco passos e ficaram a se mirar, negaceantes. Rodrigo ouvia a 
respiração arquejante do inimigo.”
a) Que sentimentos dominam as personagens nessa cena? 
b) Por meio de que recursos esses sentimentos são apresentados ao leitor?
3. O capitão Rodrigo é um dos “heróis” de O tempo e o vento. De que maneira, nessa cena, perce-
bemos que ele encarna “o código de honra” que caracteriza o gaúcho?
> Que outras características de Rodrigo, destacadas na luta, constroem no texto o “símbolo” do 
gaúcho?
4. Releia.
“Rodrigo imaginou que ele ia levantar-se, apanhar de novo a arma e voltar ao ataque. Mas, 
Bento, sentado no chão, com a mão no rosto, ficou olhando atarantadamente para todos 
os lados.”
a) Bento Amaral é o filho do homem mais poderoso de Santa Fé. Protegido pelo pai, não está 
acostumado a ser ameaçado, já que todos temem represálias. O que sua atitude, no trecho 
transcrito, revela a respeito de seu caráter? 
b) O que essa derrota simboliza, considerando a oposição de Bento Amaral à figura “heroica” 
do capitão Rodrigo na sociedade local?
1. (Unifesp)
É preciso ler esse livro singular sem a obsessão de 
enquadrá-lo em um determinado gênero literário, o 
que implicaria em prejuízo paralisante. Ao contrário, a 
abertura a mais de uma perspectiva é o modo próprio 
de enfrentá-lo. A descrição minuciosa da terra, do ho-
mem e da luta situa-o no nível da cultura científica e 
histórica. Seu autor fez geografia humana e sociologia 
como um espírito atilado poderia fazê-las no começo 
do século, em nosso meio intelectual, então avesso 
à observação demorada e à pesquisa pura. Situando 
a obra na evolução do pensamento brasileiro, diz 
lucidamente o crítico Antonio Candido: “Livro posto 
entre a literatura e a sociologia naturalista, esta obra 
assinala um fim e um começo: o fim do imperialismo 
literário, o começo da análise científica aplicada aos 
aspectos mais importantes da sociedade brasileira (no 
caso, as contradições contidas na diferença de cultura 
entre as regiões litorâneas e o interior)”. 
(Alfredo Bosi. História concisa da 
literatura brasileira, 1994. Adaptado.)
 O excerto trata da obra 
a) Capitães da Areia, de Jorge Amado. 
b) O cortiço, de Aluísio Azevedo. 
c) Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. 
Enem e vestibulares
d) Vidas secas, de Graciliano Ramos. 
e) Os sertões, de Euclides da Cunha. 
2. (Unifesp)
 Leia o poema de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando 
Pessoa. 
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo! Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
(As múltiplas faces de Fernando Pessoa, 1995.) 
 O tema tratado no poema é a 
a) necessidade de se buscar a verdadeira razão para 
uma vida plena. 
b) fugacidade do tempo, remetendo à ideia de brevida-
de da vida. 
c) busca pela simplicidade da vida, representada pela 
natureza. 
d) brevidade com que o verdadeiro amor perpassa a 
vida das pessoas. 
e) rapidez com que as relações verdadeiras começam 
e terminam.
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3. (Enem)
O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
ANDRADE, Mário de. In: MANFIO, D. Z. (Org.). 
Poesias completas de Mário de Andrade. 
Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.
 Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional 
é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. 
Em O trovador, esse aspecto é
a) abordado subliminarmente, por meio de expressões 
como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, 
remete à brasilidade.
b) verificado já no título, que remete aos repentistas 
nordestinos, estudados por Mário de Andrade em 
suas viagens e pesquisas folclóricas.
c) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões 
como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), 
“frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste 
do alaúde “Dlorom” (v. 9).
d) problematizado na oposição tupi (selvagem) � 
alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional 
que seria proposta no Manifesto Antropófago, de 
Oswald de Andrade. 
e) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos 
dos homens das primeiras eras” para mostrar o 
orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.
4. (PUC–SP) 
 Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1940, o livro 
Sentimento do mundo. Há no conjunto dos poemas que 
o compõem uma temática que aponta para uma visão 
crítica do mundo, fruto do momento histórico em que 
a produção poética se deu, materializada pela metáfora 
da noite e do amanhecer, das trevas e da luz. Assim, 
escreva no caderno a alternativa abaixo que contém o 
poema que mais fortemente desenvolve essa metáfora.
a) Congresso Internacional do Medo.
b) A Noite Dissolve os Homens. 
c) Sentimento do Mundo.
d) Noturno à Janela do Apartamento.
e) Mãos Dadas.
5. (FGV – adaptada) 
 O período da literatura brasileira conhecido como 
“Modernismo de 1930”, no qual surge, por exemplo, 
o chamado “romance nordestino”,
 I. beneficiou-se da liberdade de pesquisa estética 
conquistada pelo primeiro Modernismo, a qual 
incorporou e normalizou;
 II. procurou enraizar fortemente suas histórias e 
personagens em realidades bem determinadas e 
concretas e,
 III. com frequência, introjetou nas obras a radicalização 
político-ideológica característica do período.
 Está correto o que se afirma em
a) I, somente.
b) II, somente.
c) I e II, somente.
d) II e III, somente.
e) I, II e III. 
6. (PUC–SP) 
 De Vidas Secas, obra escrita por Graciliano Ramos, NÃO 
É CORRETO afirmar que
a) apresenta personagens cuja fisionomia e caráter 
são impulsionados e estigmatizados pelo fenômeno 
da seca.
b) é uma novela construída em quadros com capítulos 
independentes que não se articulam entre si e, por 
isso, apresenta-se desprovida de valor literário e 
falha do ponto de vista ficcional. 
c) é uma obra cuja construção verbal, marcada por 
beleza e harmonia, imprime a ela estilo e qualidade 
literária que a fazem atingir um estado de poesia.
d) apresenta personagens excessivamente introspecti-
vos, rústicos e sofridos, constituindo-se quase toda 
de monólogos interiores.
e) é uma obra de caráter humano e de densa comoção 
telúrica e encerra o maior sentimento da terra nor-
destina, flagelada por seca cíclica e natureza inóspita.
7. (Fuvest)
Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vin-
gança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a 
vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus 
das florestas d’África. Um deus dos negros pobres. Que 
podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou 
o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi trans-
formar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e 
tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas 
Omolu dizia que não fora o alastrim que matara. Fora o 
lazareto. Omolu só queria com o alastrim marcar seus 
filhinhos negros. O lazareto é que os matava. Mas as 
macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, 
levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham 
dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam 
tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro sertão. 
E os negros, os ogãs, as filhas e pais de santo cantam: 
Ele é mesmo nosso pai 
e é quem pode nos ajudar... 
Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros 
não o esqueçam avisa no seu cântico de despedida: 
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LITERATURA
Jogo de ideias: apresentação oral e leitura dramatizada
Como você viu nesta unidade, o Modernismo represen-
tou uma ruptura com os padrões artísticos que vigoravam 
até o final do século XIX. Influenciado pela perspectiva 
social revelada nas obras dos autores pré-modernistas 
e inspirado pelas vanguardas europeias, o Modernismo 
brasileiro redefiniu os padrões estéticos em voga tanto 
nos temas quanto na linguagem das obras produzidas. 
Além disso, foi um movimento que afirmou a identidade 
nacional, eliminando as idealizações, valorizando a cultura 
e denunciando os problemas do país. 
Para compreender melhor esse processo de ruptura 
e inovação da produção literária brasileira durante o 
Modernismo, propomos que você e seus colegas, em 
equipe, organizem um evento intitulado Modernismo: 
antecedentes e ecos. 
1a etapa: Preparação do evento
> Divisão da sala em grupos. Cada grupo ficará respon-
sável pela seleção de textos de autores do Pré-Mo-
dernismo, das Vanguardas e do Modernismo (um para 
cada geração) para que seja feita a leitura dramatizada, 
e também de canções contemporâneas cujos temas 
possam ser associados aos ideais que marcaram a 
produção artística do Modernismo.
> Sorteio de dois apresentadores. Eles farão a aber-
tura e explicarão à plateia de que forma o evento 
foi organizado. Além disso, apresentarão os partici-
pantes que farão a leitura dramatizada dos textos 
escolhidos e interpretarão as canções selecionadas 
para o evento. 
> Definição das participações. Durante a apresentação, 
os participantes deverão informar ao público o nome 
da obra escolhida, seu autor e os aspectos do Pré-
-Modernismo, das Vanguardas ou do Modernismo 
brasileiro (geração e tema) representados no texto 
que será lido. No caso das canções, deverão informar, 
além do nome da música escolhida e de seu autor, sua 
relação com o Modernismo. 
> Organização da ordem de apresentação dos textos 
e canções. Os textos deverão ser apresentados 
em uma ordem que permita à plateia compreender 
os antecedentes do Modernismo e os ecos desse 
movimento. Sugerimos, portanto, que essa sequên-
cia seja a mesma apresentada nos capítulos da 
unidade: um exemplo de textos que representem 
o Pré-Modernismo, as vanguardas e a produção 
das gerações modernistas. Por último, as canções 
selecionadas. 
> Realização da leitura dramatizada dos textos e a inter-
pretação das canções. Cada participante (ou grupo de 
participantes) deverá “treinar” a leitura dramatizada, 
lembrando-se de que deverá usar um tom de voz audí-
vel, uma entonação adequada e uma dicção clara. As 
canções deverão ser previamente ensaiadas. 
2a etapa: Organização da realização do evento
> Preparação do espaço do evento. No local escolhido, 
deverá haver um palco ou um espaço de destaque, de 
frente para o público, em que serão feitas as apresen-
tações. 
> Apresentação das leituras dramatizadas e canções. 
Será função dos apresentadores chamar cada partici-
pante (ou grupo de participantes) para realizar a leitura 
do texto e interpretar a canção escolhida. Finalizadas 
as participações, os apresentadores devem encerrar 
o evento, agradecendo a todos. 
Ora, adeus, ó meus filhinhos, 
Qu’eu vou e torno a vortá... 
E numa noite que os atabaques batiam nas macum-
bas, numa noite de mistério da Bahia, Omolu pulou 
na máquina da Leste Brasileira e foi para o sertão de 
Juazeiro. A bexiga foi com ele. 
Jorge Amado, Capitães da Areia. 
Lazareto: estabelecimento para isolamento sanitário 
de pessoas atingidas por determinadas doenças.
se expandia e diversificava. No excerto, considerado 
no contexto do livro de que faz parte, constitui marca 
desse pertencimento 
a) o experimentalismo estético, de caráter vanguardista, 
visível no abundante emprego de neologismos. 
b) o tratamento preferencial de realidades bem de-
terminadas, com foco nos problemas sociais nelas 
envolvidos. 
c) a utilização do determinismo geográfico e racial, na 
interpretação dos fatos narrados. 
d) a adoção do primitivismo da “Arte Negra” como modelo 
formal, à semelhança do que fizera o Cubismo europeu. 
e) o uso de recursos próprios dos textos jornalísticos, em 
especial, a preferência pelo relato imparcial e objetivo.
 Costuma-se reconhecer que Capitães da Areia pertence 
ao assim chamado “romance de 1930”, que registra 
importantes transformações pelas quais passava o 
Modernismo no Brasil, à medida que esse movimento 
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UNIDADE
LITERATURA
2 O Pós-ModernismoO Pós-Modernismo é um conceito em discussão. 
Entende-se, de modo geral, que esse movimento 
inicia-se no final da década de 1940 para se consolidar 
nos anos 1960. 
O Pós-Modernismo produziu uma arte marcada 
pela diversidade. Lançando-se em diferentes 
frentes de exploração temática e muitas linhas de 
experimentação, multiplicou os modos de expressão 
da realidade. Na literatura, é muito grande o número 
de autores que exploram linhas estéticas e gêneros 
variados. De modo geral, a literatura expressa a 
profunda crise de valores por que passa o mundo, 
em todos os campos. Conheça mais dessa produção 
nesta unidade.
 6. A geração de 1945 e o 
Concretismo, 92
 7. A prosa pós-moderna, 106
 8. Tendências contemporâneas. 
O teatro no século XX, 118
 
WARHOL, A. Panda de corda 
tocando tambor. 1983. 
Serigrafia e acrílico 
sobre tela, 73 � 88 cm.
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Capítulos
Diálogos literários: presente e passado
A arte é sempre uma forma de intervenção no mundo, especialmente em tempos sombrios ou 
turbulentos. Na literatura contemporânea, são muitos os autores que fazem de suas palavras instru-
mentos de crítica e denúncia da realidade que nos cerca. A poesia pode lembrar-nos do imenso poder 
do sonho fraternal, convocar um povo a se levantar como nação ou ajudar a enfrentar os fantasmas 
de uma ditadura.
Como você viu, a tradição de uma poesia que traduz a consciência política começa de forma 
marcada, no Brasil, com Carlos Drummond de Andrade. Em um mundo dividido entre a democracia 
e o fascismo, em que as pessoas se matavam em uma grande guerra, o poeta fez de seus versos o 
instrumento de resistência ideológica e de denúncia de seu tempo. 
No próximo capítulo, você verá que essa consciência crítica da realidade política e social do país 
também é uma marca forte nas obras de muitos poetas de meados do século XX, como João Cabral 
de Melo Neto e Ferreira Gullar.
E como essa questão se manifesta nos textos literários da atualidade? Veja, nos poemas a seguir, 
de que forma autores contemporâneos traduziram a consciência política e social de seu tempo.
José Gomes Ferreira: a convocação 
ao sonho coletivo
XVIII
(O Sonho é a nossa arma.)
Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu,
a apanhar do chão, 
às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
para lutar:
SONHAMOS.
[...]
Sim, sonhamos.
E o sonho quem o derrota?
— mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!
O Sonho é também acção.
FERREIRA, José Gomes. In: MEDINA, Cremilda de Araújo. 
Viagem à Literatura Portuguesa Contemporânea. 
Rio de Janeiro: Nórdica, 1983. p. 46-47. (Fragmento). 
Mutimati Barnabé João e a resistência 
ao colonialismo em Moçambique
Eu, o Povo
Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão
Fiz desta força um amigo fiel.
O vento sopra com força
A água corre com força
O fogo arde com força
 
Nos meus braços que vãocrescer vou estender panos de 
 [vela
Para agarrar o vento e levar a força do vento à Produção.
As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda
Para agarrar a força da água e pô-la na Produção.
Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração
Para agarrar a força do fogo na Produção.
 
Eu, o Povo
Vou aprender a lutar do lado da Natureza
Vou ser camarada de armas dos quatro elementos.
 
A tática colonialista é deixar o Povo ao natural
Fazendo do Povo um inimigo da Natureza.
 
Eu, o Povo Moçambicano
Vou conhecer as minhas Grandes Forças todas.
JOÃO, Mutimati Barnabé. 
In: APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo; 
DÁSKALOS, Maria Alexandre (Orgs.). 
Poesia africana de língua portuguesa (Antologia). 
Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003. p. 216. 
Multimati Barnabé João (1933-1994): nasceu em Viseu 
(Portugal), mas se considerava nascido em Inhaminga. 
Foi para Moçambique (África Oriental) na década de 1960.
Caso queira apresentar aos 
alunos outros textos sobre 
a tradição de uma poesia 
que traduz a consciência 
política abordada nesta 
seção, sugerimos a leitura 
dos poemas “Congresso 
internacional do medo”, 
de Drummond, e “Que país 
é este? (1980)”, de Affonso 
Romano de Sant’Anna.
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Marco Antonio Saraiva e a memória 
dos mortos sob tortura
Para a tortura nunca mais elegia
exumam
o silêncio
calcifi cado
nos esqueletos,
identifi cam sonhadores
pelas arcadas,
mas os crânios 
não dizem nada
dos sonhos
e pesadelos.
os segredos
sobrevivem devorando-se
e renascem em documentos
de puro instinto num alfabeto vivo,
desnudados de todos os panos
e tecidos (os pensamentos vestem-se
da acústica dos caracóis)
e no mais secreto humos
irracional:
a história arquivada
nos vermes.
Eis a religião
dos heróis,
encarnam em vegetais ateus
e pássaros utópicos
e melhor escutamos
suas vozes na paisagem:
o soprano Sul pelas vazias
bocas dos caules
(com afi nada afl ição)
cantando elegias
nas folhagens.
Com a admiração e o carinho por suas lutas 
de Marco Antonio Saraiva
SARAIVA, Marco Antonio. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque 
de (Org.). Esses poetas: uma antologia dos anos 90. 
Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998. p. 218-219.
Nos anos 1970, em plena ditadura militar no Brasil, o poeta 
Cacaso se manifestou criticamente através da poesia. Leia. 
Obra aberta
Quando eu era criancinha
O anjo bom me protegia
Contra os golpes de ar.
Como conviver agora com
Os golpes? Militar?
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; 
São Paulo: Cosac Naify, 2002. p. 54.
Observe agora o meme a seguir, que circulou pela internet 
com muitas variações.
 Disponível em: <https://www.facebook.com/oquequeremos>.
Acesso em: 31 mar. 2016.
Agora, discuta com seus colegas: qual é a crítica que 
esse meme faz? De que forma essa crítica se relaciona 
com o poema de Cacaso e com os textos apresentados 
na seção?
Reflitam sobre a questão proposta por Cacaso em seu 
último verso e respondam-na oralmente, levando em consi-
deração a crítica identificada no meme e os elementos dos 
textos da seção no momento de manifestar explicitamente 
o ponto de vista do grupo a esse respeito. 
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O Que Queremos? / Quando Queremos?
Elegia: no contexto, significa canto, poema. 
Exumam: desenterram. 
Humos: componente orgânico do solo, resultante 
de decomposição de material animal ou vegetal. 
Soprano: no contexto, significa som ou canto agudo.
Pare e pense
A atividade apresentada no final da seção exige duas etapas. Na primeira, os alunos devem identificar a crítica à letargia feita no meme: embora haja o desejo 
de protestar, as personagens propõem deixar essa ação para “depois da novela”, o que indica uma certa alienação. Na segunda etapa, os alunos devem per-
ceber o jogo de palavras presente no poema de Cacaso. O termo militar faz referência ao golpe militar, mas se apresenta como um verbo, que compõe uma 
questão: a saída para os golpes da vida seria militar, no sentido de atuar politicamente, manifestar-se? Os alunos devem perceber que, de diferentes maneiras, 
a resistência a qualquer forma de opressão é proposta também nos textos da seção. José Gomes Ferreira afirma que a capacidade de sonhar também é uma 
forma de ação contra o opressor; o poeta moçambicano Mutimati Barnabé João convoca um povo a se levantar como nação; Marco Antonio Saraiva, por sua 
vez, destaca a importância de enfrentar os fantasmas de uma ditadura e manter viva a memória dos que sofreram a violência desse tipo de sistema repressor. 
Com base nas análises feitas pelos alunos, pode-se fazer um debate sobre a importância (ou não) da ação política nas mudanças para o país e para o mundo. 
O comentário oral dos alunos deve ser uma resposta à pergunta de Cacaso. Eles devem assumir claramente uma posição e fundamentá-la adequadamente. O 
professor deve estar atento, principalmente, a essa fundamentação para que o debate e a exposição não sejam simplesmente uma batalha de opiniões pessoais. 
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Capítulo
A geração de 1945 
e o Concretismo6
SACILOTTO, L. 
Concreção 8215. 
1983. Têmpera vinílica 
sobre tela fixada em 
painel, 80 � 80 cm. 
A experimentação 
característica 
da geração 
de 1945 e dos 
concretistas subverte 
o verso e as artes 
plásticas produzindo 
obras inusitadas.
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Leitura da imagem
1. Descreva como você vê a obra Concreção 8215, do paulista Luiz Sacilotto (1924-2003), identificando 
seus elementos.
2. Qual é o efeito visual criado pela disposição dos quadrados vermelhos?
> A análise atenta da obra sugere um cuidadoso planejamento prévio para garantir que ela tenha 
uma aparência controlada pelo artista. Explique.
3. Relacione o título à obra, considerando que concreção, segundo o Dicionário Houaiss, é o “ato, 
processo ou efeito de (se) tornar concreto, sólido, substancial ou real; concretização, substan-
cialização, materialização”.
Sugerimos que todas as questões sejam respondidas oralmente para 
que os alunos possam trocar impressões e ideias.
Encontra-se disponível no 
YouTube um documentá-
rio em três partes sobre 
a vida e obra de Luiz Sa-
cilotto – Concreção 0501. 
Caso julgue interessante 
apresentá-lo aos alunos, as 
informações sobre o desen-
volvimento do Concretismo 
e sobre a obra madura 
do artista encontram-se 
na segunda e terceira 
partes do documentário. 
Links: Parte 1 – <https:// 
www.youtube.com/watch 
?v=3-5pyMzh2Uk>. 
Parte 2 – <https://www. 
youtube.com/watch?v= 
gpGb8yE4Tfw>. 
Parte 3 – <https://www. 
youtube.com/watch?v= 
kHZshTmoiVw>.
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Discurso: fala fluente, texto associado a um contexto específico.
Sintaxe: parte da gramática que estuda as relações entre as 
palavras em uma frase; no texto, pode ser compreendida como a 
organização harmoniosa entre partes e elementos.
Discorria: corria em diversas direções, espalhava-se. Metaforicamente, 
refere-se a expor pensamentos através da fala ou da escrita.
Grandiloquência: modo afetado e pomposo de falar, rebuscamento.
Interina: passageira, provisória.
Enfrasem: termo não dicionarizado. Pela formação da palavra, 
significa “tornem-se frases”. Representa, no poema, a religação 
entre os diferentes poços.
Da imagem para o texto
4. O trabalho artístico com a forma pode assumir diferentes 
manifestações. Na literatura, ele se traduz pelo cuidado 
com a escolha e o arranjo das palavras, pela maneira 
como são usados os sinais de pontuação, pelos recursos 
empregados na construção dos versos. Leia o poema. 
Rios sem discurso
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio que elefazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma se comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
 
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios 
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
MELO NETO, João Cabral de. 
A educação pela pedra. In: Obra completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 350-351. 
© by herdeiros de João Cabral de Melo Neto.
a) O poema pode ser dividido em duas partes. Em cada 
uma, é construída uma imagem do rio. Quais são elas?
b) Na primeira estrofe, o fluxo cortado de um rio é compa-
rado a um discurso interrompido. Para desenvolver essa 
comparação, o poema relaciona um elemento do rio a 
um elemento do discurso. Que elementos são esses?
c) Por que o eu lírico afirma que as palavras isoladas estão 
mudas?
d) Por que a “água paralítica” é comparada a “uma palavra 
em situa ção dicionária”?
5. Podemos identificar, no poema, a presença de metáforas. 
Qual o significado metafórico do fluxo do rio, da inter-
rupção do fluxo, da água em poço, da água em fio, da 
cheia e da seca? 
> Há ainda uma metáfora menos evidente. A água em 
poço ou a palavra estariam sendo comparadas a uma 
pessoa isolada. Considerando essa possibilidade, o que 
então significariam o rio, a água em fio, a sentença-rio 
do discurso único e a seca?
6. Relacione o corte da sintaxe do rio ao combate à seca 
mencionado no último verso. 
a) No texto, qual o trecho em que o eu lírico afirma ser 
lento e difícil resgatar o discurso-rio depois de o rio 
haver sido interrompido?
b) Considerando a possibilidade de as metáforas estarem 
relacionadas também à atuação das pessoas, explique 
por que seria difícil resgatar o discurso perdido.
7. Na primeira parte do poema, aparecem mais sinais de 
pontuação que na segunda. Que relação é possível esta-
belecer entre esse uso da pontuação e o assunto tratado 
em cada parte? 
a) Na primeira parte aparecem também verbos flexiona-
dos principalmente em formas nominais (particípio); 
na segunda, principalmente no presente e no gerúndio. 
Que relação pode ser estabelecida entre essa flexão dos 
verbos e a ideia central de cada uma das partes? 
b) Considerando as respostas anteriores, discuta com 
seus colegas: qual a importância da forma para a 
construção do sentido desse poema?
O mundo após a bomba: 
indagações e impasses
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa começou 
o lento processo de reconstrução em meio aos destroços 
humanos e políticos. A Guerra Fria, iniciada com a ameaça de 
uma hecatombe nuclear, dividiu o mundo em dois blocos: um 
capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e outro socialista, 
sob o comando da ex-União Soviética.
O Brasil aliou-se aos norte-americanos contra a expansão 
do comunismo. O Partido Comunista entrou na ilegalidade. 
Escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge 
Amado tiveram suas obras queimadas em praça pública. 
Alguns foram presos, outros exilaram-se.
Em 1945, os militares depõem Getúlio Vargas. O general 
Eurico Gaspar Dutra assume a presidência. Nas eleições de 
1951, Getúlio voltou ao poder idolatrado pelo povo. Seu man-
dato, no entanto, não se concluiu. Acuado por escândalos e 
pressionado pelo exército, que representava a elite, Vargas op-
tou pelo suicídio. A repercussão popular à sua morte obrigou à 
convocação de nova eleição, que elegeu Juscelino Kubitschek.
A União Soviética ou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, oficialmente formada em 1922, chegou a ser composta de 15 países: 
Rússia, Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Moldávia, Quirguízia, (atual Quirguistão), 
Tadjiquistão, Turcomênia, Ucrânia, Uzbequistão. Fatores políticos e econômicos levaram à desintegração da União Soviética em 1991.
Chamar a atenção 
dos alunos para o 
lugar em que as vír-
gulas se concentram 
na segunda parte 
do poema. Mesmo 
em número relativa-
mente alto (7), elas 
se concentram nos 
4 versos finais, ocor-
rendo somente duas 
vezes nos iniciais. É 
isso que faz com que, 
durante a leitura, 
tenha-se a impressão 
de que o “dis-
curso” do tex-
to está fluindo 
mais naturalmente, 
sem as interrupções 
sintáticas marcadas 
pela presença das 
vírgulas. Se eles 
compararem os oito 
versos iniciais das 
duas estrofes, ob-
servarão que há 7 
vírgulas na primeira 
estrofe, contra 3 na 
segunda. É assim que 
o poeta promove o 
casamento perfeito 
entre forma e con-
teúdo, fazendo com 
que a construção do 
sentido do texto se 
dê pela articulação 
desses dois planos da 
composição.
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LITERATURA
No governo JK, o crescimento industrial acelerado desen-
cadeou um grande crescimento urbano. Massas humanas 
deslocaram-se do campo para a cidade à procura de oportu-
nidades, comprometendo a estrutura dos grandes centros. 
O cenário cultural refletia esse quadro de mudanças. 
As chanchadas da Atlântida e a criação do TBC (Teatro 
Brasileiro de Comédia) tornaram conhecidos grandes 
atores, muitos dos quais ficaram bastante populares: 
Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Tônia Carrero, Fer-
nanda Montenegro, Walmor Chagas, só para mencionar os 
mais conhecidos. 
O rádio criava ídolos: Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Mar-
lene, Ângela Maria encantavam os ouvintes e conquistavam 
milhares de fãs. Esse seria, no entanto, um reinado curto, 
porque, em 1950, o jornalista Assis Chateaubriand trouxe 
para o país a televisão, que se revelou uma máquina de 
fazer astros instantâ neos e modificou de modo irreversível 
o perfil da produção cultural brasileira.
Pós-Modernismo: a arte procura 
novos rumos
O conceito de pós-modernidade tem sido discutido por 
muitos historiadores, sociólogos e críticos de arte. De modo 
geral, embora as definições específicas possam variar, há um 
consenso em relação às linhas fundamentais que separam 
o Modernismo do Pós-Modernismo. 
Associado ao período do fim da Segunda Guerra Mundial, 
o surgimento do Pós-Modernismo parece ter sido desenca-
deado pela crise dos valores que vigoraram a partir do início 
do século XX. Os conceitos de classe social, de ideologia, 
de direita e esquerda, de arte, do Estado de bem-estar 
começam a ruir, afetados pelas duas guerras mundiais. O 
Pós-Modernismo nasce da ruptura com algumas certezas 
e definições que sustentavam conceitos do campo social, 
político, econômico, estético, etc. 
O que importa, no mundo contemporâneo, é a individuali-
dade extrema. A solidariedade e a busca do bem-estar social 
são postas em segundo plano. No centro da sociedade, o 
indivíduo reina absoluto.
Nesse mundo, as fronteiras entre ideologias de direita 
e de esquerda, bem e mal, certo e errado, beleza e feiura 
tornaram-se pouco nítidas, e os artistas também começaram 
a questionar os modelos considerados modernos.
A impossibilidade de definir o movimento nascido nesse 
contexto fez com que os teóricos optassem por apresentá-lo 
como aquilo que vem depois (pós) do Modernismo, usando a 
referência cronológica como uma base mais segura.
Esse movimento começa depois da Segunda Guerra Mun-
dial, em 1945, toma fôlego nos anos 1950 para se realizar 
mais plenamente na década de 1960. 
Muitos são os caminhos estéticos trilhados no Pós-
-Modernismo. A “matéria” ganha destaque no mundo 
contemporâneo.Os artistas passam a explorar diferentes 
possibilidades de criação e interação com o público. A ex-
perimentação torna-se o princípio norteador da estética 
pós-moderna. O sentido deixa de ser algo preexistente para 
se definir em um processo que se inicia com a concepção 
de uma obra quando ela é “lida” pelo público.
A arte se alia à mídia e busca atingir o grande público. É 
nesse contexto que estão inseridas a produção da geração 
de 1945 e a poesia concreta. Neste capítulo, serão aborda-
dos a poesia de 1945, o Concretismo, o Neoconcretismo, o 
Poema-Processo e a poesia de Ferreira Gullar. A prosa será 
abordada somente no Capítulo 7.
A poesia em busca de 
um caminho
Na década de 1940, os poetas, que desejavam devolver 
aos poemas o rigor formal abandonado pelos primeiros 
modernistas, passam a privilegiar o trabalho com a mate-
rialidade do texto poético (sons, ritmos, rimas, disposição 
do verso na página, etc.). Algumas formas fixas e modelos 
poéticos mais “clássicos” foram retomados. Com isso, os 
escritores esperavam definir de modo mais claro os limites 
que separavam o poético, fundamentado no trabalho com a 
forma, do não poético, associado ao mero registro do ele-
mento prosaico do cotidiano.
Participaram dessa retomada da forma autores como 
Péricles Eugênio da Silva Ramos, Lêdo Ivo, Geir Campos, José 
Paulo Paes e João Cabral de Melo Neto.
A partir da década de 1950, os efeitos do capitalismo 
tardio se evidenciaram na crescente individualização de uma 
sociedade voltada para o acúmulo de bens e para o consumo 
estimulado pelos veículos de comunicação de massa. Era 
preciso incorporar à poesia a ideia de multiplicidade, de 
materialidade e de fragmentação da sociedade pós-moderna. 
Como veremos na segunda parte deste capítulo, o Concre-
tismo surge como uma resposta a essa necessidade, pondo 
em prática procedimentos literários que, hoje, são reconhe-
cidos como pós-modernos, embora esse conceito ainda não 
existisse quando o movimento nasceu.
O projeto literário da 
poesia de 1945
Em artigo na Revista Brasileira de Poesia, publicado em 
1947, Péricles Eugênio da Silva Ramos resume o espírito do 
projeto literário da poesia de 1945: “Não há obra de arte sem 
forma, e a beleza é um problema de técnica e de forma”. O 
mesmo texto define a intenção de transformar o fazer poé-
tico, adotando como princípio a renovação estética. 
O crítico e professor Alfredo Bosi destaca duas preo-
cupações que orientavam a produção poética da geração 
de 1945: 
mensagens (temas, motivos poéticos) que 
dessem ao texto a dimensão de um testemunho crítico 
da realidade no plano social, moral e político; 
Veja no Guia de recursos informações sobre o conceito de 
Pós-Modernismo adotado nesta obra.
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códigos formais que trouxessem 
para o verso estruturas semelhantes às utilizadas para 
a comunicação de massa (cores, símbolos, exploração 
do formato das letras, organização gráfica, etc.), ele-
mento essencial da sociedade contemporânea.
Os agentes do discurso
O contexto de agitação política por que passava o país 
no início dos anos 1940 animava a discussão intelectual e 
estimulava o contato entre os artistas. Os maiores focos da 
produção literária ainda eram Rio de Janeiro, onde se localiza-
vam as grandes editoras, e São Paulo. A ampliação do circuito 
da produção cultural brasileira, iniciado com os romances da 
geração de 1930, alcançou a poesia. Em 1941, alguns poetas 
ainda desconhecidos, como João Cabral de Melo Neto e Lêdo 
Ivo, despontaram em um congresso de poesia realizado em 
Recife. Em 1942, foi a vez de Fortaleza acolher o 1o Congresso 
de Poesia do Ceará. Foi fundada, no ano seguinte, a seção 
cearense da Associação Brasileira de Escritores, confirmando 
o alargamento dos horizontes literários.
A circulação da poesia que começava a ser escrita deu-se 
de duas formas: em revistas literárias, como Clã e Revista 
Brasileira de Poesia (editada pelo Clube de Poesia de São 
Paulo), ou em edições particulares, muitas vezes financiadas 
pelo autor ou por sua família. Esse foi o caso, por exemplo, de 
João Cabral, cujo primeiro livro, Pedra do sono, foi publicado 
por seu pai, depois de saber dos elogios que Murilo Mendes 
dirigira ao filho em texto do Jornal do Brasil.
A poesia de 1945 e o público
Não há muita informação sobre a reação do público à 
poesia da geração de 1945. A maior parte dos autores perma-
nece, ainda hoje, pouco lida e desconhecida dos brasileiros. 
Como o nome de João Cabral ganhou grande destaque, é 
possível encontrar alguns comentários sobre o impacto de 
seus primeiros poemas.
Seu irmão, Virgínio Cabral de Melo, conta que a reação 
inicial do público aos primeiros poemas de João Cabral foi de 
choque. A secura da sua linguagem e o rigor na composição 
provocaram o estranhamento dos leitores, que, de modo geral, 
o acusavam de ser um poeta sem alma, muito frio, racional, 
que fazia poemas sem coração, medidos com fita métrica.
Quando o reconhecimento da crítica chegou, a admiração 
do público também veio, estimulada por matérias em jornais 
e revistas que o celebravam como um dos maiores poetas 
brasileiros da atualidade.
Linguagem: o desdobramento 
dos sentidos
O cuidado formal que define o projeto literário dos poetas 
de 1945 pode ser percebido na preocupação em escolher 
a palavra exata, muitas vezes desdobrada em metáforas 
que ampliam o sentido do poema para campos semânticos 
inesperados. Observe.
Os derivados do leite
Os magnatas do leite
e seus filhos derivados
têm a carne leve e tenra
dos lactentes.
A pele é alva e acídula
a face sanguínea e túmida
como os queijos de corante.
[...]
O diplomata em Paris
é derivado do leite.
O catedrático enfático
é derivado do leite.
A cadeira na assembleia
é derivada do leite.
O chapéu cardinalício
é derivado do leite.
O ar governamental
é derivado do leite.
[...]
RIVERA, Bueno de. In: BANDEIRA, Manuel; AYALA, Walmir. 
Antologia dos poetas brasileiros: fase moderna. Rio de Janeiro: 
Nova Fronteira, 1996. p. 12-13. v. 2. (Fragmento).
A expressão “derivados do leite” se refere aos produtos 
extraídos do leite (queijo, manteiga, etc.). No texto, trata-se 
de uma metáfora para todas as pessoas que enriqueceram 
por meio da pecuária e também para as instituições sociais, 
culturais, religiosas e políticas que dependem dessa riqueza. 
A repetição da expressão, ao longo do poema, reforça a ideia 
da influência dos pecuaristas na sociedade brasileira. 
Outro interessante trabalho com a linguagem observado 
no texto é a associação das características do leite e de seus 
produtos às pessoas, sugerindo uma espécie de metamor-
fose em que os seres humanos adquirem o aspecto daquilo 
que os sustenta.
Os concretistas não são parnasianos!
É importante que não se confunda a valorização da téc-
nica de composição promovida pela poesia de 1945 com o 
rebuscamento formal que marcou a poética dos parnasianos. 
Trata-se de um procedimento inverso. No Pós-Modernismo, o 
domínio da forma deve permitir que a combinação entre código 
e mensagem aconteça de modo absoluto, para que o poder de 
significação da palavra seja ampliado e o texto também tenha 
sua significação ampliada por essa articulação. Os parnasianos 
investiam no rebuscamento formal sem pretender, com isso, 
criar novos sentidos para o texto. A arte pela arte, a perfeição 
formal, a imparcialidade diante do objeto do poema eram seus 
objetivos. Os concretistas, porém, desejavam que a perfeição 
formal expressasse uma observação crítica da realidade.
Lactentes: crianças que 
ainda mamam.
Acídula: ligeiramente ácida.
Túmida: inchada, dilatada.
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LITERATURA
João Cabral: a “máquina” 
do poema
A essência da poética de João Cabral De Melo Neto (1920-

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