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COESÃO E COERÊNCIA 
 
A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo 
parecido a uma feitiçaria evocatória: as palavras ressuscitam 
revestidas de carne e osso, o substantivo, em sua majestade 
substancial, o adjetivo, roupa transporte que o veste e colore como 
um verniz, e o verbo, anjo do movimento que dá impulso à frase. 
 
Charles Baudelaire (poeta francês, 1821-1867). 
 
 Escrever um bom texto exige de nós a capacidade de estabelecer relações claras entre 
as várias ideias a serem apresentadas. O desafio a ser enfrentado é descobrir a melhor maneira 
de construir essas relações com os recursos que a língua nos oferece. 
 Pense, por exemplo, na construção de uma casa. As paredes são essenciais para a sua 
sustentação. No texto, as ideias, informações e argumentos equivalem aos tijolos que, 
dispostos lado a lado, permitem que as paredes de uma casa sejam erguidas. 
 Mas, assim como os tijolos precisam de argamassa para mantê-los unidos, o texto 
precisa de elementos que estabeleçam uma ligação de ideias, informações e argumentos. 
 A “argamassa” textual se define em dois níveis diferentes. O primeiro dele é o aspecto 
formal, linguísticos, alcançado pela escolha de palavras (elementos linguísticos específicos) 
cuja função é justamente a de estabelecer referências e relações, articulando entre si as várias 
partes do texto. A isso chamamos de coesão textual. 
 O segundo nível da “argamassa” textual é o da significação. Somente a seleção e a 
articulação de ideias, informações, argumentos e conceitos compatíveis entre si produzirão 
como resultado um texto claro. Nesse caso, como a articulação textual promove a construção 
do sentido, ela é chamada de coerência textual. 
 
COERÊNCIA: a construção do sentido 
 
 A falta de coerência fica clara quando o leitor não é capaz de perceber de que modo as 
informações apresentadas em um texto se articulam. Observe o cartum. 
 
HARRIS, Sidney. A ciência ri: o melhor de Sidney Harris. São Paulo: Editora Unesp, 2007. p. 206 
INSTITUTO FEDERAL 
CAMPUS: BELA VISTA - MT ANO: 2020 
CURSO: 
COMPONENTE CURRICULAR: LÍNGUA PORTUGUESA 
PROFESSOR: JONH KENNEDY MACIEL 
ALUNO (A) 
 O cartum apresenta uma cena que pode ser identificada como uma reunião de um grupo 
de cientistas. Um deles dirige-se aos colegas e faz uma afirmação que provoca estranhamento: 
“Como mencionei na próxima semana em minha palestra sobre tempo reversível...”. 
 Para o leitor do cartum, a relação temporal entra uma ação passada (mencionei) e um 
evento futuro (na semana passada em minha palestra) é certamente absurda. Essa é uma 
relação que não faz sentido. É incoerente, porque, no mundo conhecido, o tempo passado 
sempre antecede o tempo futuro. Não seria possível, portanto, já ter sido mencionado algo em 
uma palestra que ainda não aconteceu. 
 No contexto do cartum, porém, a fala do cientista adquire sentido quando se leva em 
consideração o tema da palestra: o tempo reversível. O efeito de humor, no texto, é construído 
a partir dessa incoerência, porque o leitor é levado a aceitar que, se fosse possível reverter o 
tempo (hipótese absurda!), uma ação passada poderia ocorrer em um momento futuro em 
relação ao tempo presente. 
 Quando avaliamos a coerência de um texto, o que fazemos é investigar se os nexos de 
sentido estabelecidos entre as informações, dados, argumentos correspondem, de fato, a 
relações possíveis entre as ideias apresentadas. Para construir um texto coerente, por tanto, 
precisamos garantir que a articulação entre as ideias seja estabelecida de modo adequado. 
 A seguir, veremos como diferentes mecanismos coesivos contribuem para garantir a 
articulação das ideias e, portanto, a construção do sentido de um texto. 
 
MECANISMOS COESIVOS 
 A língua dispõe de uma série de mecanismos que criam vínculos entre as palavras, entre 
as orações e entre diferentes partes de um mesmo texto. Esses mecanismos podem 
estabelecer dois tipos de coesão textual: a referencial e a sequencial. 
 A coesão referencial é aquela que cria, no interior do texto, um sistema de relação entre 
palavras e expressões, permitindo que o leitor identifique os referentes sobre os quais se fala 
no texto. 
 A coesão sequencial é aquela que cria, no interior do texto, condições para que o 
discurso avance. As diferentes flexões verbais de tempo e modo e as conjunções são os 
principais elementos linguísticos responsáveis pelo estabelecimento e pela manutenção da 
coesão sequencial no interior do texto. 
 A relação entre coesão e coerência é muito forte. Na verdade, os mecanismos de coesão 
sequencial, ou seja, os elementos utilizados para garantir a articulação formal das partes do 
texto, são essenciais para estabelecer a relação entre ideias, que está na base da coerência 
textual. Por esse motivo, um bom controle dos mecanismos coesivos ajuda a garantir a 
progressão temática a promover uma boa articulação de ideias, informações e argumentos no 
interior do texto. 
 
COESÃO REFERENCIAL 
 Da mesma maneira que determinadas placas de trânsito nos orientam a seguir em frente, 
virar à direita ou à esquerda, podemos utilizar palavras cuja função é orientar os leitores de um 
texto, indicando se devem voltar atrás para recuperar algo que foi dito ou se devem procurar a 
informação que desejam mais adiante. Se forem usadas de maneira equivocada, o leitor ficará 
confuso e desorientado. 
 Vamos, agora, conhecer alguns mecanismos responsáveis pelo estabelecimento da 
coesão referencial. 
 
• Anáfora: leia, com atenção, o texto a seguir. Observe de que modo os termos 
destacados se relacionam entre si. 
Veja como os pronomes têm um papel muito importante na associação entre as partes 
desse texto. Eles sempre apontam para algo que foi dito anteriormente. 
 
 Os animais que comemos são crias de 
grandes laboratórios rurais – ou aquáticos. 
O salmão é um exemplo. Na natureza, ele é 
branco e vai ganhando a cor rosada porque 
come camarão, que por sua vez come um 
tipo de alga que contém um pigmento 
rosado chamado astaxantina. Só que quase 
100% desse peixe vendido no Brasil vêm de 
cativeiros e recebem astaxantina “na veia”. 
Bom, não na veia, mas misturado à ração. 
Seja como for, é como se pintássemos os 
salmões para eles parecerem mais 
apetitosos. Uma linha de montagem, 
basicamente. 
KEDOUK, Marcia. Usinas de carne. In: Prato sujo. 
São Paulo: Abril, 2013. P. 129. (Fragmento) 
 
 Repare quantos vínculos textuais foram criados em um único parágrafo do texto. Se as 
referências criadas pelos vários pronomes utilizados no texto não forem “decodificadas”, não 
há condições de compreender o que a autora está informando. 
 Todas as referências textuais estabelecidas, nesse caso, retomam elementos expressos 
anteriormente no texto. Esse mecanismo coesivo chama-se anáfora. 
 
• Catáfora: as relações estabelecidas pelos pronomes entre diferentes partes do texto 
não ocorrem comente pelo resgate de algo que foi dito anteriormente. Observe estre 
trecho de Téta Barbosa. 
 
- Alô! 
Ele toca e você sai em desabalada carreira. 
Não, não foi sirene de incêndio que tocou, foi seu celular mesmo. 
E você corre como se fosse perder o trem das onze. 
E se o alô vier seguido de “você acaba de ganhar na megassena” ou, “pode comemorar, você 
recebeu um aumento”, ótimo, você está fora das estatísticas. Mas, em 99,9% dos casos, aquela 
ligação (que fez você abrir a bolsa com uma mão só enquanto dirigia e colocava o batom com 
a outra) não tem urgência nenhuma! [...] 
BARBOSA, Téta. Batida Salve Todos. 
 
O texto “- Alô” começa com um pronome cujo referente só será identificado no segundo 
parágrafo: 
 
Ele toca e você sai em desabalada carreira. 
Não, não foi sirene de incêndio que tocou, foi seu celular mesmo. 
 
 Ao contrário da anáfora, neste caso mecanismo o referente aparece depois do item 
coesivo. Trata-se então de uma catáfora. 
 
• Substituição:observe as palavras destacadas a seguir. 
 
A cidade de faz de conta 
Ele tem supermercado, restaurantes, teatro, cinema e pracinhas agradáveis. 
Uma típica vila holandesa. Mas nada disso é o que parece. 
 
 Hogewey é um lugar pacato e charmoso, com 23 casinhas simpáticas, um restaurante 
agradável e várias opções de lazer para os cerca de 150 moradores. Poderia ser apenas mais 
uma vilinha qualquer no norte da Holanda. Mas é uma cidade de faz de conta – que foi 
construída dentro de um asilo para idosos portadores de doenças mentais. A ideia é que eles 
façam compras, frequentem teatros, se encontrem para comer ou bater papo pelas ruas da vila, 
levam a vida como se estivessem numa cidade de verdade, mas protegidos dos perigos do 
mundo real. 
MEDEIROS, Débora. 
Superinteressante, 
Ed. 332, maio de 2004. P. 21. 
 
 No texto, o substantivo próprio Hogewey é retomado pelos termos: lugar pacato e 
charmoso, vilinha qualquer e vila. É interessante observar que os temos vilinha qualquer e 
vila são utilizados como forma de evitar uma repetição da expressão inicial lugar pacato e 
charmoso. Esse procedimento de usar um termo como valor coesivo no lugar de outro(s) 
elemento(s) do texto, ou até mesmo de uma oração inteira, chama-se substituição. 
 
• Repetição ou reiteração: a repetição pode funcionar como um mecanismo coesivo, 
quando é utilizada para construir e manter presente o sistema de referências no interior 
do texto. Observe: 
 
Quem coleciona selos para o filho do amigo; [...] quem se detém no caminho para ver 
melhor a flor silvestre; [...] quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos 
musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da 
existência; quem não se acanha de achar o pôr do sol uma perfeição; quem se desata em 
sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem 
visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do 
viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga 
adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda 
a parte acorrentados, atados os pequenos amores da armadilha terrestre. 
 
CAMPOS, Paulo Mendes. Acorrentados. 
 
 
 A repetição de ima mesma palavra (o pronome substantivo quem), no texto, permite que 
o autor crie um interessante efeito de sentido: enumera uma série de ações que identificariam 
os indivíduos que, segundo ele, “são presidiários da ternura e andarão por toda a parte 
acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre”. A força coesiva da 
repetição fica bem marcada nesse exemplo. 
 Uma outra forma de repetição é feita pelo uso de sinônimos, hipônimos e hiperônimos. 
 
Temporada de orcas voadoras 
 Pobre orcas. Além de serem vítimas dos arpões de caçadores, recebem o desonroso 
apelido de baleias assassinas. A alcunha não se deve a uma (inexistente) fúria do mamífero 
contra banhistas de sunga, mas ao simples e natural hábito de se alimentar de cetáceos mais 
jovens. E, para ser exato, as orcas nem baleias – pertencem à família dos golfinhos 
(Delphinidae). 
FORONE, Priscila. Temporada de orcas voadoras. Terra, São Paulo. 
 
 No texto o hipônimo orcas é retomado por meio de dois hiperônimos: baleias e mamífero. 
Um deles – baleias – é equivocadamente utilizado para fazer referência às orcas, que, como 
informa o texto, pertencem à família de golfinhos. 
 Outro recurso utilizado para reiterar um referente é a sua substituição por um termo 
sinônimo. No texto, esse procedimento é exemplificado pelo uso dos termos apelido e alcunha. 
 
 
• Contiguidade: o uso de termos pertencentes a um mesmo campo semântico resulta em 
um mecanismo coesivo chamado contiguidade. 
 
 
 
Uma terra de ninguém? 
 A sequência não é boa. Dilúvio no Brasil. Terremoto no Haiti. Calor de 8º C no Ártico. 
Nevasca nos Estados Unidos. Enchente em Buenos Aires. Tempestade na França. Outro 
terremoto, no Chile. Alteração no eixo terrestre. Tsunamis – Iceberg – monstro descolado da 
Antártida a errar pelo Atlântico Sul. Terremoto de novo, em Taiwan. [...] Para quem crê que o 
fim do mundo se avizinha, este começo de ano parece farto de indícios. 
CRUZ, Christian Carvalho. Aliás O Estado de São Paulo. (Fragmento) 
 
 Os substantivos destacados criam, no texto, um campo semântico relacionado a um 
cenário apocalíptico. À medida que ca 
da um deles é utilizado, anuncia e reforça para leitor a força destruidora da natureza, o que 
permite que aconteça a progressão textual pretendida pelo autor para se referir à associação 
que costumamos fazer entre cenas de fenômenos climáticos extremos e uma ameaça de fim 
de mundo. 
 Como você viu, para a elaboração de um bom texto, é preciso que o autor domine os 
recursos textuais necessários para estabelecer relações de sentido entre as ideias que 
pretende expor. Todos os mecanismos coesivos que apresentamos são utilizados naturalmente 
pelos falantes uma língua. Agora que você tomou conhecimento de vários deles, pode utilizá-
los de modo consciente ao escrever e, assim, garantir a coesão e a coerência de seus textos.

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