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A PERSONIFICAÇÃO DA FIGURA O DIABO EM O AUTO DA BARCA DO INFERNO Lauro Inácio de Moura Filho1 Diego Amaral Barreiros2 RESUMO Este trabalho tem como objetivo analisar a figura do Diabo na obra O Auto da Barca do Inferno, primeiro livro da “Trilogia das Barcas” escrita por Gil Vicente tendo em vista como o mesmo foi personificado pelo autor. Para este trabalho ainda buscou-se saber sobre a origem dessa figura icônica e como a mesma é vista pela sociedade. A partir dos estudos realizados pôde-se concluir que o Diabo traz características já conhecidas e também atribuídas pelo autor tornando uma figura única dentro de sua obra. Palavras-chave: Gil Vicente. Personificação. O Diabo. O Auto da Barca do Inferno. INTRODUÇÃO De origem portuguesa e linguagem arcaica, O Auto da Barca do Inferno é uma peça teatral escrita por Gil Vicente (1465-1540) na qual foi representada pela primeira vez em 1517. Esta é a primeira parte de uma trilogia de Autos conhecida por “Trilogia das Barcas”, escrita pelo autor e tendo por continuação: o Auto da Barca do Purgatório (1518) e o Auto da Barca da Glória (1519). Considerado pelos estudiosos pertencente ao período intitulado de Humanismo (1418-1527), que segundo Moisés (2012) é um período na qual se faz uso das idéias humanísticas e que traz trabalhos com teor historiográfico, doutrinatário, poético, teatral e novelístico. Em O Auto da Barca do Inferno temos um trabalho satírico do autor por meio de um viés cristão, acerca da sociedade daquela época. As peças vicentinas como bem apontadas por Moisés (2013) podem ser classificadas de três formas: comédias, farsas e moralidade. No caso de O Auto da Barca do Inferno, o mesmo trabalha com o modo cômico para camuflar a crítica feita a sociedade de seu período. Na peça já supracitada anteriormente escrita por Gil Vicente nota-se a presença absoluta de um personagem, o Diabo na qual se faz presente o tempo todo dentro da obra e interage durante toda a narrativa com os outros personagens apresentados dentro do Auto. Tomando por nota, Gil Vicente nos apresenta esse 1 Orientador. Professor do Curso de Letras - IFCE/Campus Tianguá. 2 Graduando do Curso de Letras - IFCE/Campus Tianguá. E-mail: dibangfire@gmail.com 2 personagem de forma um tanto personificada, sendo este através de suas características nos dadas a partir dos diálogos construídos em forma de versos. O Diabo é uma figura já recorrente em nossa história há muitos séculos, levando em conta isso esse artigo buscará apresentar a personificação do Diabo dentro da obra O Auto da Barca do Inferno fazendo uma comparação do mesmo com as personificações que o mesmo vem sendo apresentado ao longo dos nossos séculos. 1. O DIABO É A CONCEPÇÃO DO MAL É necessário se notar que a religião que trouxe o que pode se denominar como “origem” do Diabo foi o cristianismo, porém muitas outras religiões acabaram por adaptar esse conceito. Segundo Faria (2016) o cristianismo coloca Deus como a origem de tudo e de todas, ele seria a bondade do mundo, enquanto o Diabo, seria a personificação e a presença daquilo que é profano, ou seja, ele seria o contraposto do que é Deus. O ser humano restringe essa dualidade pelo aquilo que se conhece por: bem e mal. Além disso, os mesmos acreditam que estão sempre sendo desviado daquilo a qual chamam de caminho “correto”, colocando a busca por Deus a forma de atingir esse caminho: Homens e mulheres balançavam entre o bem e o mal constantemente, sempre com o Diabo tentando arrastá-los para seu lado. Por isso havia a necessidade da crença em Deus, pois ele era o único capaz de afastá-los de todo mal existente (FARIA, 2016). Na era Medieval a concepção do Diabo foi muito influenciada pelo folclore dos povos que o compõem, o mesmo era citado em sermões na hora das homilias como uma forma de aterrorizar as pessoas. Faria (2016) cita através de Russel (2003) que o Diabo recebia nesse período várias denominações como: Anticristo, gigante, dragão, fantasma, monstro, entre outros. De acordo com Faria (2016) existem vários questionamentos de “quem é” o Diabo? O que causa uma certa confusão entre às pessoas, o mesmo cita que esta personalidade teria vários nomes como: Satanás, Belial e Belzebu. O Diabo também seria atribuído à figura de deuses antigos como, Hades que é o deus na cultura grega responsável por reinar no submundo e sobre os mortos. Além de tudo, a figura 3 do mesmo chega a ser remetido a animais. Russel (2003) em sua obra Lúcifer definiu o Diabo como: O Diabo aparece monstruoso e deformado, a forma externa traindo o seu defeito interno. Ele é manco por causa da queda do céu, os seus joelhos estão para trás, tem uma face extra na barriga, nos joelhos ou nádegas é cego, tem chifres e um rabo, não tem narinas ou só uma, não tem nenhuma sobrancelha, seus olhos são lacrimejantes e incandescentes ou atiram fogo, tem cascos partidos, emite um odor sulfuroso e, quando parte, faz isso com fedor, barulho e fumaça, ele está coberto com cabelo grosso e preto, possuem disfarces asas como de morcego (apud FARIA, 2016). 2.O DIABO EM O AUTO DA BARCA DO INFERNO Na peça de teatro intitulada O Auto da Barca do Inferno, escrita por Gil Vicente temos uma narrativa que se inicia com a figura do Diabo arrumando sua barca junto com seu companheiro em um porto para encaminhar-se para o Inferno. Neste mesmo porto também existe outra barca regida pelo Anjo, chamada de “Barca da Glória” onde apenas aqueles que não teriam pecado poderiam embarcar. Durante a obra vemos alguns personagens que nos são apresentados além dos supracitados, são estes: o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Parvo, o Frade junto com a sua dama que tem por nome Florença, Brísida Vaz, o Judeu, o Corregedor e um Procurador, o Enforcado e os quatro Cavaleiros. Cada um desses personagens discutem com às figuras do Diabo e do Anjo, e são julgados pelos seus atos cometidos em vida apesar de todos estes quererem embarcar na Barca da Glória apenas o Parvo e os quatro Cavaleiros é que embarcam na mesma, os outros personagens apresentados tem que se encaminhar para a Barca do Inferno. FIDALGO Esta barca para onde vai, Que assim está apercebida? (preparada) DIABO Vai para a ilha perdida, E há de partir daqui a nada. FIDALGO E para lá vai a senhora? DIABO Sou um senhor, Ao vosso serviço. FIDALGO Parece- me isto um cortiço… (uma embarcação reles) DIABO 4 Porque a vedes daí de fora. FIDALGO Pois sim, e por que terra passais? DIABO Para o inferno, senhor (VICENTE, 1517, p. 7-9). Segundo Lima (2009) no teatro vicentino, a figura do Diabo era a representação de todos os castigos que o homem enfrentaria após a sua morte. Na obra O Auto da Barca do Inferno, o Diabo faz contraposição com o Anjo, sendo o primeiro responsável pela barca que levará ao Inferno, enquanto seu rival é responsável pela barca que levará ao paraíso e que recebe até a denominação de “Barca da Glória”. ANJO Ó cavaleiros de Deus, Por vós estou a esperar, Que morrestes a lutar Por Cristo, Senhor dos Céus! Sois livres de todo mal, Mártires da Santa Igreja, Que quem morre em tal peleja (luta) Merece a paz eternal. E assim embarcam (VICENTE, 1517, p. 107-108). Dentro da obra o Diabo é aquele que sabe acerca de todos os pecados cometidos pelos personagens quando os mesmos ainda estavam vivos na Terra, ele é aquele que fala todas as verdades que são necessárias para condenar as almas destes e encaminhá-las para o Inferno. Segundo Lima (2009) a peça criada por Gil Vicente é composta por uma visão medieval tendo em vista a questão do pecador e dos seus pecados mortais. DIABO Quando éreis ouvidor Nonne accepistis rapina? (não aceitaste suborno?) Pois ireis agora à bolina (à vela) Onde a nossa pessoa for… Oh! E que isca é esse papel Para um fogo que eu cá sei! (VICENTE, 1517, p. 83).No trecho supracitado da obra ainda pode ser notado que o Diabo além de saber sobre os pecados, também fica subentendido que o mesmo fala outros idiomas como o latim quando este cita: “Nonne accepistis rapina?” (VICENTE, 1517, p. 83). Fora que na obra não existe apenas essa frase falada pela figura do Diabo 5 em latim, já que na mesma têm-se uma discussão do personagem com o Corregedor em que dividi-se entre essa língua e o português. CORREGEDOR Domine, memento mei! (Senhor, (Deus) lembrai-vos de mim) DIABO Non es tempus, bacharel! (Não há tempo, bacharel) Imbarquemini in batel (embarcai no batel) Quia Judicastis malitia. (que a justiça é maldita) [...] CORREGEDOR Sempre ego justitia fecit. (Eu sempre agi com justiça) DIABO E as peitas dos judeus (peitas = peitos das aves; subornos) Que a vossa mulher levava? CORREGEDOR Isso eu não o tomava. (não era comigo) Eram lá percalços seus. Nom som pecatus meus, (não são meus pecados) Peccavit uxore mea. (quem pecou foi a minha esposa) DIABO Et vobis quoque cum ea, (E vós também com ela) A Deus não temeste. E de grande modo enriqueceste (VICENTE, 1517, p. 83-85). Além do mais o personagem criado por Gil Vicente ainda permanece com características impostas pela igreja e pela sociedade, algumas dessas já apontadas no tópico anterior acerca da figura icônica do Diabo como concepção do mal e esse detalhe fica mais claro dentro da obra no trecho do Parvo : PARVO Ao Inferno?... Espera lá.... Ui! Ui! É a Barca do cornudo!!! Pêro de Vinagre! Beiçudo, Lenhador de Alverca, uh, uh! SAPATEIRO da Candosa! Entrecosto de carrapato! Ui! Ui! Caga no sapato, Filho de uma grande aleivosa! (prostituta) A tua mulher é tinhosa E há de parir um sapo, Achatado num guardanapo! Neto de uma cagosa! Ladrão de cebolas! Ui! Ui! Excomungado das igrejas! Burrelas, cornudo sejas! Toma o pão que te caiu! A mulher que te fugiu, Para Ilha da Madeira! (VICENTE, 1517, p. 38-39). 6 Lima (2009) nos mostra que o personagem do Parvo descreve a figura do Diabo com determinadas palavras como “cornudo” e “beiçudo”, além de o lembrar que o mesmo é excomungado pela igreja. Essa visão que o personagem tem é a mesma imposta até os dias de hoje, na qual o Diabo é pintado como uma figura tenebrosa e ruim para todos. Porém Gil Vicente acrescenta outras características em seu personagem, além daquelas já conhecidas e dar ao mesmo um ar: sarcástico, zombador e manipulador. São essas particularidades implantadas na figura do Diabo que acaba por trazer um pouco do ar cômico para a obra do autor. DIABO Em que esperas ter guarida? (salvação) FIDALGO Que deixo na outra vida, Quem reze sempre por mim. DIABO Quem reze sempre por ti?!... Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!... Tu que viveste a teu prazer, Pensando cá guarnecer (salvares-te) Por aqueles que lá rezam por ti?!... (VICENTE, 1517, p. 10-11). CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao analisar a obra O Auto da Barca do Inferno, nota-se que a figura do personagem o Diabo ainda permanece com características impostas desde a sua “origem” e que permanece até os dias de hoje. Por outro lado a figura apresentada na obra de Gil Vicente também torna-se icônica por apresentar características que transformam num personagem único, com suas particularidades e importante dentro da obra já que muitos dos outros personagens acabam indo para a sua barca e sendo julgados pelos seus pecados apresentados por conta dessa figura. A personificação dada pelo autor dentro de sua peça acaba por fazer uma certa junção daquilo que se é conhecido acerca do Diabo, como também nos traz outra visão de um dos seres mais temidos pela humanidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FARIA, C. A. T. Onde Reina a Escuridão - A concepção do Diabo no imaginário medieval e sua construção visual. Três Lagoas: Revista Trilhas da História, v. 6, n. 11, 2016. 7 LIMA, F. W. R. A Personificação do Diabo Medieval Europeu no Teatro de Gil Vicente e seus Aspectos Residuais na Produção Teatral do Padre José de Anchieta e de Ariano Suassuna. Fortaleza: Faculdades Cearenses em Revista, v. 1, n. 1, 2009. MOISÉS, M. A literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012. MOISÉS, M. A literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, 2013. VICENTE, G. O Auto da Barca do Inferno. Luso-Livros, 1517. PDF. Disponível em: <https://www.luso-livros.net/wp-content/uploads/2013/03/Auto-da-Barca-do- Inferno.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2019.