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Copyright © 2018 by Sarah Mackenzie Publicado originalmente sob o título: The Read- Aloud Family: Making Meaningful and Lasting Connections with your Kids “Published by arrangement with The Zondervan Corporation L.L.C, a division of HarperCollins Christian Publishing, Inc.” 1ª edição 2021 ISBN: 978-65-89129-06-6 Impresso no Brasil Tradução: Elmer Pires Revisão: Cesare Turazzi Capa: Bárbara Lima Diagramação: Marcos Jundurian Versão ebook: Tiago Dias --------------------------------------- ------ PIRATARIA É PECADO E TAMBÉM UM CRIME RESPEITE O DIREITO AUTORAL O uso e a distribuição de livros digitais piratas ou cópias não autorizadas prejudicam o financiamento da produção de novas obras como esta. Respeite o trabalho de ministérios como a Editora Trinitas. ---------------------------------------------- M157f Mackenzie, Sarah, 1981-A família leitora : como ler em voz alta cria laços significativos e duradouros com seus filhos / Sarah Mackenzie ; [tradução: Elmer Pires]. – São Paulo: Trinitas, 2021. 270 p. ; 21cm Inclui bibliografia: p. 247-250 e índices. Tradução de: The read-aloud family. ISBN 978-65-89129-06-6 1. Leitura oral. 2. Leitura – participação dos pais. 3. Educação – Participação dos pais. I. Título. CDD: 372.452 Catalogação na publicação: Mariana C. de Melo Pedrosa – CRB07/6477 Todos os direitos reservados à: Editora Trinitas LTDA São Paulo, SP www.editoratrinitas.com.br Para os meus filhos, que me ensinaram a ler em voz alta: Audrey, Allison, Drew, Clara Jane, Emerson e Becket. Que histórias e narrativas sempre nos unam em amor. E para meu irmão, que passou para a vida eterna enquanto eu escrevia este livro. Sentiremos saudades e o amaremos para sempre, Nate. Conceda-lhe o descanso eterno, ó Senhor, e que a luz eterna brilhe sobre ele. O mundo atual está em falta com os bons Contos de Fadas. Assim, quem deve tomar o seu lugar? Quem deve garantir que o senso de deslumbramento das nossas crianças crescerá de forma indestrutível ao longo dos anos? Nós devemos. Você e eu. — Katherine Paterson, A Sense of Wonder (Um Senso de Deslumbramento) Sumário primeira parte | a hora é agora Capítulo 1 Como ler em voz alta pode mudar o mundo Capítulo 2 Esperando a morsa Capítulo 3 O rugido do leão Capítulo 4 Prontos ou não Capítulo 5 Caminhando uma milha segunda parte | relacionando-nos com nossos filhos por meio dos livros Capítulo 6 Crie em sua casa uma cultura de clube do livro Capítulo 7 Desmascarando cinco mitos Capítulo 8 Prepare-se para o sucesso Capítulo 9 Seja uma casamenteira literária Capítulo 10 Domine a arte da conversa Capítulo 11 Faça perguntas pertinentes terceira partE | LANÇANDO NOSSOS FILHOS AOS LIVROS Como utilizar os capítulos 12–15 Capítulo 12 Livros são deliciosos Capítulo 13 Idade do deslumbramento Capítulo 14 O mundo se expande Capítulo 15 Encontrando o caminho Agradecimentos Referências bibliográficas Índice por títulos Índice por faixa etária Índice por nome de autor e ilustrador CAPÍTULO 1 Como ler em voz alta pode mudar o mundo (Ou, no mínimo, como está mudando o meu mundo) Jamais alguém dirá, não importa quão bom pai ou mãe esse alguém seja, “Na minha opinião, passei tempo demais com os meus filhos durante a infância deles”. — Alice Ozma, The Reading Promise [O Compromisso de Ler] Não passava de uma terça-feira comum, de verdade, mas acabou se tornando muito mais que um dia de semana normal. Eu tinha os meus vinte e quatro anos; a primavera havia sido longa e chuvosa, e os 40 metros quadrados em que eu e meu marido vivíamos estavam nos dando a impressão de ser mais apertado do que o normal. Arrumei a minha filha de um ano, uma bolsa transbordando de fraldas, um melão quase estragando de tão maduro, e saí. Quando, vinte e cinco minutos mais tarde, cheguei na casa de minha amiga Christina, ela abriu a porta, abraçou-me e nos conduziu para dentro de sua casa, grande e alegre. Suspirei de alívio e deixei a bolsa de fraldas ao lado das escadas — mais uma tarde entediante em nosso minúsculo apartamento havia sido evitada com sucesso. Minha filha Audrey saiu imediatamente, ansiosa por encontrar a caixa de brinquedos, então conduzi minha pequena em direção à caixa enquanto abria seu casaco. A bebê da Christina, ainda não tão amigável comigo, respondeu ao meu sorriso com uma careta. Christina foi para a cozinha caçar alguma coisa na geladeira, e eu a segui. Havíamos nos afeiçoado meses atrás em conversas sobre partos e café em uma pracinha da região, e estava agradecida porque, apesar da diferença de uma década de idade, podíamos trocar medos e sentimentos como mães de primeira viagem. “Você fica de olho nos pequenos?”, ela perguntou. “Só vou preparar alguma coisinha para o almoço”. Caminhei devagar até a sala de descanso, de olho enquanto as crianças vasculhavam a caixa de brinquedos. Quando estava pronta para me sentar no sofá de couro, vi algo: um livro quase caindo na beirada da cornija da lareira, com post-its saindo por todos os cantos. Peguei-o rapidamente e vi o título: The Read-Aloud Handbook [Manual de Leitura em Voz Alta], de Jim Trelease. Se aquele momento estivesse acontecendo em um filme, tenho certeza de que haveria uma música tocando de fundo. Na verdade, seria a parte onde a tensão é formada na trilha sonora. Aquela parte que ajuda quem está assistindo ao filme a perceber que alguma coisa importante está acontecendo, e que o restante da história depende daquele momento aparentemente insignificante. Contudo, naquela hora, a única coisa que ouvi foi o balbuciar das crianças e o chiado da linguiça que a Christina estava grelhando para o almoço. Virei as páginas do livro notando quantas partes haviam sido marcadas, e quantas haviam sido sublinhadas e comentadas. “O que você acha desse livro?”, perguntei à Christina, de costas para ela. Ela se virou do fogão e se inclinou para frente, forçando a vista para ver o que eu estava segurando. “Ah, esse? É ótimo!”. De volta ao fogão, ela acrescentou: “Pode pegá-lo emprestado, se quiser”. (Essa é a sua deixa para aumentar o volume da trilha sonora). INCOMPARÁVEL Levei a cópia do Manual de Leitura em Voz Alta da Christina para casa, mas não só o li: eu o devorei. Essa voracidade por si só não era terrivelmente incomum — sendo mãe recente, eu lia com afinco. Eu tinha sonhos grandes e idealistas para Audrey e para mim mesma — para o tipo de mãe que desejava ser. Eu sabia o suficiente para perceber que não fazia ideia de como aplicar o conteúdo daquele livro, então fiz o que sempre fazia quando tentava tirar uma nota 10: eu li. Naqueles primeiros dias de maternidade, raramente tomava decisões sem consultar um livro. Li livros sobre como alimentar minha bebê, sobre como incentivá-la a tirar uma soneca, sobre o que fazer para que seu cérebro se desenvolvesse. Minhas expectativas eram altas, e eu estava determinada a alcançá-las. Durante uma noite escura, dos dias quando Audrey tinha só um aninho, minha pequena não conseguia dormir. Esse problema havia se tornado recorrente e, temerosa de que a culpa pelos maus hábitos de dormir fosse minha, juntei todos os livros sobre maternidade que pude encontrar. Espalhei-os ao meu redor e, de pernas cruzadas, sentada no chão do meu apartamento, busquei desesperadamente por uma solução para aquele problema. Audrey engatinhava em volta de mim enquanto eu me acabava de chorar, passando de um livro para outro, perguntando-me por que todos eles pareciam dar conselhos conflitantes, sem saber em qual confiar. (Quinze anos e cinco filhos mais tarde, gostaria de poder dizer à minha jovem eu para relaxar e confiar em seus instintos! Ah, algumas lições devem ser aprendidas pelo tempo e pela experiência). Mas até a minha vontade de acabar com os problemas da hora de dormir era pequena quando comparada ao desejo que sentia de formar um relacionamento significativo com Audrey. A ideia de Jim Trelease me intrigou: de que ler com minha filha poderia ser um dos passos mais importantes para uma relaçãosaudável e duradoura entre nós duas. De todas as ideias, eu queria ao menos acertar nessa. O Manual de Leitura em Voz Alta já vendeu mais de um milhão de cópias até hoje, então creio que seja seguro dizer que fui apenas mais uma de muitas cuja atenção foi capturada por sua mensagem. O livro me apresentou uma nova ideia: o principal objetivo de ler para crianças e ensiná-las a ler não é esperar que, passado um tempo, elas aprenderão a ler por conta própria. O livro de Trelease é repleto de estatísticas e informações que provam que a leitura em voz alta conecta e une famílias, que ler para todos ajuda a criança a crescer e a ter sucesso em praticamente todas as áreas da vida, em especial na escola. No livro, o autor afirma que a leitura em voz alta é o fundamento para laços estreitos entre pais e filhos, entre professores e alunos. A Comissão de Leitura de 1985 declarou: “A atividade mais importante para a construção do conhecimento necessário ao sucesso final na leitura é a prática de ler em voz alta para as crianças”.1 Trelease desenvolve esse ponto e então conta sobre o surpreendente poder que a leitura em voz alta tem de construir o vocabulário da criança, plantar as sementes do desejo pela leitura e ajudá-las a continuar a amar os livros ao longo da adolescência e por toda a vida. Esse mesmo autor sugere a leitura em voz alta como antídoto para os problemas acadêmicos, e não apenas para crianças que ainda não sabem ler. A prática de ler em voz alta serve para bebês no ventre, para recém-nascidos que ainda não conseguem nem mesmo equilibrar a própria cabeça, para crianças que ainda usam fraldas, para crianças que estão na pré-escola e no Ensino Fundamental, e até mesmo para adolescentes que são bem capazes de ler por contra própria. Trelease defende em especial a leitura em voz alta para crianças que já conseguem ler por conta própria, e chega mesmo a dizer que se falta tempo aos professores ou pais para encaixar a leitura em voz alta em sua rotina, que “roubem [tempo] de outras disciplinas não tão essenciais quanto a leitura, ou seja, praticamente todo o restante”.2 A ideia de que a leitura em voz alta deve ter primazia sobre outras matérias — de que mesmo professores em seu ambiente escolar devem substituir outras disciplinas do seu próprio horário, para dar mais tempo à leitura em voz alta — era nova para mim. É claro que quando criança, adorava que lessem para mim. Minha parte predileta do Ensino Fundamental I foi no primeiro ano, quando, em quinze minutos, após o recreio do lanche, a professora lia para nós The Mouse and the Motorcycle [O Rato e a Moto], de Beverly Cleary. Diariamente, eu ansiava por aquele momento de leitura em voz alta. Agora, sendo uma mãe recente, ler livros cartonados com a Audrey era uma das minhas formas favoritas de passar tempo com ela. De todas as tarefas e responsabilidades associadas com a maternidade, ler era a mais fácil e mais prazerosa. Eu ficava espantada e encantada ao mesmo tempo com o fato de ler em voz alta para a minha filhinha ser tão profundamente importante como Jim Trelease afirma. Naquela noite, deitei-me perto da Audrey e fiquei observando sua respiração, pequenos suspiros soprando uma mecha do seu cabelo enquanto dormia. Eu revirava as páginas do Manual de Leitura em Voz Alta, e algo profundo ressoava dentro de mim. Foi então naquele momento que percebi que meu relacionamento com aquela bebê era a coisa mais importante da minha vida. Nada poderia se comparar ao laço entre aquele pequeno ser humano e eu. Se a leitura em voz alta seria a melhor forma de nutrir aquele laço, então, caramba, eu sabia o que tinha de fazer. SEM GARANTIAS Eu alimentava muitas expectativas para Audrey. Tinha em mente que ela cresceria para amar a Deus de todo coração, mente e alma. Queria que ela fosse bem na escola. Queria um relacionamento próximo com ela, sempre. Queria que ela fosse gentil e compassiva, fazendo o que é certo mesmo quando ninguém estivesse olhando. Também sabia que na maternidade não existem garantias. Filhos não são receitas, e só porque os preparamos com especial cuidado, não significa que eles serão aquilo que o nosso gosto dita. Conheço dezenas de pais e mães amorosos e generosos cujos filhos já adultos sempre parecem estar cometendo uma série de erros e infortúnios. Filhos são seres humanos, e a humanidade é bagunçada. Sabia desde o início que a minha própria habilidade materna não era garantia de que meus filhos abraçariam crenças cristãs, entrariam em boas universidades ou tomariam decisões na vida das quais me orgulharia. Na maternidade, não há garantias de nada disso, mas ainda sentia um forte desejo de dar o meu melhor à Audrey, desejosa de aumentar as chances de minha pequena se tornar o tipo de pessoa capaz e amorosa que eu esperava. Todo o tempo e esforço que levaria para criá-la valeria a pena; e não porque houvesse garantias de bons resultados, mas porque amá-la e me relacionar com a minha própria filha sempre valeria o meu esforço e tempo: pois ela me pertencia; pois minha filha foi criada por Deus; porque aquele era o meu grande dever. Mas o que eu não sabia, enquanto acariciava sua bochecha e considerava o rumo que a minha vida tinha tomado enquanto ainda tão jovem, era que mais cinco irmãos se juntariam a ela nos próximos doze anos. Amar os meus filhos, relacionar-me com eles tanto se tornaria o maior desafio quanto o privilégio mais emocionante da minha vida. A maternidade seria muito mais difícil do que eu poderia imaginar naqueles primeiros anos, e muito mais recompensadora. Apesar de tudo, eu já sabia de uma coisa, mesmo naquela época: eu poderia errar em várias áreas, mas, ah, como eu queria acertar na maternidade! MEU MAIOR TEMOR Uma coisa que me aterrorizava era a possibilidade de que um dia meus filhos cresceriam, sairiam de casa e de que eu me arrependeria das decisões tomadas enquanto os criava. Nosso tempo de escolhas na vida é curto, no final das contas. Como escolhemos gastar esse tempo tem consequências significativas, pois afeta a maneira como nossos filhos viverão o resto de suas vidas. É uma realidade assustadora. Estou no olho do furacão, e se está lendo este livro, creio que você também esteja. Enquanto este livro vai para a impressão, meus seis filhos (sim, seis) têm idades variadas, desde a pré-escola ao Ensino Médio. Audrey, aquela bebê que me acompanhou juntamente com um melão maduro e uma bolsa de fraldas na visita à casa de Cristina muitos anos atrás, está passando seus últimos dias aqui em casa. Estou perfeitamente ciente de como é fácil entrar na rotina de apenas sobreviver a mais um dia, enfatizando seu final e a chegada da noite. Quero criar laços significativos e duradouros com cada um de meus filhos, antes que seja tarde demais. Sou uma mãe bastante ocupada, logo luto para me ligar de verdade com cada um dos meus filhos num relacionamento que resistirá ao teste do tempo. Há uma casa inteira para ser cuidada, jantar para ser feito, uma pilha de roupas sempre espalhada pelo corredor. A vida parece constantemente apressada e cheia demais. Escola, trabalho, igreja, atividades extracurriculares, esportes, assuntos familiares, tarefas domésticas, recados. Coisas demais para fazer. E-mails, telefonemas, mensagens de texto. Muito barulho. Barulho. Demais. É muito mais fácil deixar esses preciosos anos da infância passarem voando; na verdade, estão passando, e não consigo contê-los. N. D. Wilson expressa perfeitamente essa ideia em seu livro Morrer de Tanto Viver: “Contemplar o filho de um ser humano crescer e envelhecer equivale a um impacto. É como estar preso em um sonho, incapacitado de falar; é como ser um fantasma que pode ver mas não tocar; é como estar em um enorme ralo debaixo de uma tempestade de diamantes oleados, como recolher penas em uma tempestade. Pais que amam seus filhos são acometidos de amnésia, tentando lembrar, tentando estimar momentos, fantasmas tentando segurar o mundo”.3 Essa sou eu — tentando segurar o mundo nas costas, tentando desesperadamente pegaros diamantes oleados enquanto caem. Além de desejar fazer um bom trabalho nesse negócio chamado maternidade, quero curtir o crescimento dos meus filhos. Não quero olhar para trás daqui a vinte anos e perceber que aquele tempo de maternidade ativa passou rápido demais e que não o desfrutei. Fico horrorizada só de pensar que um dia eu seja obrigada a desejar ter sido menos distraída e mais atenta. Temo que chegarei ao desfecho quando já for tarde demais, concluindo que deveria ter sido mais presente. Tenho medo de precisar admitir que deveria ter curtido mais. Os dias que me restam para criar meus filhos enquanto ainda estão debaixo do meu teto, e os dias que você tem para criar os seus, são finitos. Quando pegou esse livro, você deve ter pensado que estava pegando um manifesto sobre a leitura em voz alta. Ao final dele, talvez conclua exatamente isso. Mas bem aqui no início, quero ter certeza de que você sabe exatamente do que esse livro trata: trata-se de você e eu entrarmos de cabeça na criação de nossos filhos. Trata-se de fazer o que mais importa sob uma chuva de diamantes que caem pelo ralo debaixo dos nossos pés. O NASCIMENTO DE UMA RESTAURAÇÃO Alguns anos depois daquele dia na casa da Christina, eu estava de pé sobre um banquinho na minha cozinha, usando calças de ioga, com fones de ouvido e bucha na mão. Determinada a limpar todos os armários da cozinha, coloquei as três crianças para brincar com seus amiguinhos no quintal enquanto atacava as gavetas de talheres e prateleiras da despensa. Estava ouvindo Andrew Pudewa, presidente do Institute for Excellence in Writing, dar uma palestra intitulada “Nutrindo Comunicadores Competentes”. Tinha uma amiga que estava inspirada, motivada e revigorada com novo entusiasmo e confiança depois de ter ouvido Pudewa palestrar em uma conferência de ensino domiciliar. Eu havia acabado de começar minha jornada no ensino domiciliar, mas já estava me sentindo sobrecarregada e além dos meus limites. Pensei que certamente poderia usar um pouco desse recente entusiasmo. Eu ouvia e esfregava enquanto Pudewa dizia a uma multidão de pais educadores que a melhor maneira de ajudar seus filhos a se tornarem bons comunicadores é ler em voz alta para eles o máximo possível e fazê-los memorizar poesia. Juntei algumas migalhas em minhas mãos e me lembrei do Manual de Leitura em Voz Alta, devorado havia tantos anos. Talvez Pudewa estivesse no caminho certo. Eu já lia histórias na hora de dormir e livros escolares em voz alta para os meus filhos — especialmente para os dois mais novos, que ainda não conseguiam ler nada por conta própria. Mas alguma coisa sobre a fala de Pudewa naquele dia acendeu uma brasa que havia permanecido dormente, enterrada dentro de mim. Cheguei ao final da palestra e outra vez fui ao começo, aspirando os cantos dos armários e escovando respingos de mel enquanto o ouvia mais uma vez. Isso, pensei comigo mesma. Tem algo aqui. Você já viu o que resta de uma fogueira quando permanece o braseiro, mas sem chamas? Parece que nada está acontecendo, mas basta adicionar um pouquinho do combustível certo — um pedaço de papel, um graveto seco, um sopro — e o fogo volta à vida. Foi exatamente isso que aconteceu quando ouvi Andrew Pudewa. Comecei a ler em voz alta para meus três filhos (na época com idades de oito, seis e quatro anos) mais do que nunca. O resultado foi tão surpreendente — com mudanças completamente transformadoras em nossa família — que cinco anos mais tarde e três bebês depois, quase não conseguia me conter de emoção. Eu tinha um blog ativo e comecei a considerar a ideia de começar um podcast. Já que amava ouvir podcasts, pensei que seria legal começar um. Foi então que num momento de puro impulso, em março de 2014, enviei um e-mail para o Institute for Excellence in Writing: O senhor Pudewa gostaria de vir conversar comigo em um podcast sobre a importância da leitura em voz alta? Passadas poucas horas, recebi uma resposta de seu diretor de marketing: sim, o Sr. Pudewa ficaria honrado em ser entrevistado em seu podcast. Humm, pensei, de olho nos meus gêmeos de nove meses enquanto fugiam pelo chão, é melhor eu descobrir como começar um podcast. Acontece que “como começar um podcast” é, de fato, uma pesquisa válida no Google. Comprei um fone com microfone, criei uma conta no Skype e assisti a um tutorial on-line sobre como editar gravações de áudio. Marquei com um marcador de texto amarelo fluorescente o dia agendado da entrevista com Andrew Pudewa em meu calendário de parede, mas conforme o dia se aproximava, ficava cada vez mais inquieta. No dia da entrevista, meu estômago estava virado. Enviei uma mensagem para minha amiga Pam: O que eu estava pensando quando pedi para que Andrew Pudewa viesse ao meu programa? Eu nem mesmo tenho um programa! Vou passar mal. Essa ideia é horrível. SEMPRE foi uma péssima ideia. E de quem foi a ideia, afinal de contas? Tá vendo, é praí que meu entusiasmo precipitado e impulsivo me levam. Pro abismo. Pam respondeu com apenas quatro palavras: Vai dar tudo certo. (Ela não tem coração. Ou acho que estava acostumada a receber mensagens assim de mim. Fica a seu critério). A entrevista saiu melhor do que eu poderia imaginar (então, no final das contas, acho que a Pam estava certa), e o senhor Pudewa foi um convidado encantador e falador. Até hoje, duvido que ele saiba o quanto eu estava apavorada. Uma semana depois, entre uma troca de fraldas e intermináveis pilhas de roupa suja, lancei o podcast Read-Aloud Revival [A Restauração da Leitura em Voz Alta]. Tinha certeza de que o programa de rádio pela internet duraria apenas alguns episódios e no máximo encorajaria o pequeno círculo de leitores do meu blog a ler mais com seus filhos. Nunca poderia ter imaginado naqueles primeiros dias do podcast que o programa cresceria até se tornar o que é hoje — nunca sonhei que veria milhões de downloads nos primeiros anos de existência e que seria ouvida por milhares de famílias ao redor do mundo. À medida que o podcast crescia e as respostas dos ouvintes chegavam, percebi algo lindo: eu não estava sozinha. Outras famílias haviam se comprometido com essa ideia de que a leitura em voz alta poderia transformar seus lares, e havia histórias maravilhosas sobre toda essa realidade. Encontrar outras famílias como a minha, priorizando os livros e os momentos de leitura em voz alta, fazia meu coração pular de alegria. E-mails começaram a encher a minha caixa de entrada. Ouvintes escreviam para me contar que estavam lendo em voz alta com seus filhos, e que esses haviam se tornado os momentos prediletos de todos durante o dia. Eles diziam que desde quando começaram a ouvir o podcast, também começaram a ler em voz alta antes de dormir, ou na hora do almoço, ou a ouvir audiolivros no carro. De repente as famílias tinham suas próprias piadas internas, suas próprias experiências compartilhadas. Era uma prática que os estava juntando de novas maneiras. Pais e mães contavam que seus filhos, mesmo os que ainda não sabiam ler, imploravam por “mais um capítulo”, e que o lar deles havia recebido uma carga extra de energia e um entusiasmo jamais experimentado. Algo grandioso estava acontecendo nos lares ao redor do mundo. Havia uma restauração tomando forma. Depois de todas as entrevistas e conversas com especialistas, autores, mães, pais e entusiastas da leitura no podcast Read-Aloud Revival, vim a entender algo que me encanta e, ao mesmo tempo, me alivia: ler em voz alta com os filhos é de fato o melhor uso do tempo e da energia dos pais. É mais importante do que praticamente qualquer outra coisa. Ler em voz alta pode parecer simples demais para causar tanto impacto. Mas, ao longo dos anos, ouvindo histórias de famílias de diversas partes do mundo, aprendendo com especialistas e com a experiência de vida que adquiri compartilhando histórias com meus seis filhos, sem sombra de dúvidas fui também convencida. QUEM SABERIA? (POIS BEM, ALÉM DE JIM TRELEASE) Acontece que eu estava certa por todos aqueles anos, quando ficavadeitada com a Audrey, pensando sobre os mistérios da maternidade, sobre a magnitude do dever tão cheio de propósito que se colocava diante de mim: não há garantias. Mas essa incerteza não importa, de verdade. Não é porque nos prometem resultados brilhantes que fazemos de tudo pelos nossos filhos. Fazemos de tudo porque eles significam mais para nós do que qualquer coisa no mundo. Quanto a isso, queremos que eles vivam a totalidade da visão de Deus na própria vida deles, e estamos dispostas a fazer praticamente qualquer coisa para que a sorte coopere. Gostaria de poder voltar no tempo e cochichar algo para a Sarah de vinte anos — naquele dia fatídico quando me deparei com o Manual de Leitura em Voz Alta na sala de estar da Christina. Eu sentaria ao lado de mim mesma como mãe de primeira viagem, daria a ela um belo cafezinho e uma pausa do seu bebê por algumas horas. Depois, viraria para ela, com os olhos brilhando e um fogo em meu íntimo, e diria: “Pegue um livro. Ponha a bebê no seu colo. Leia em voz alta. Você nunca, jamais vai se arrepender do tempo que gastou lendo com sua filha”. Terminei aquela primeira leitura do Manual de Leitura em Voz Alta tarde da noite — bem depois do horário que deveria estar dormindo. Acabei de ler a última página, pus o livro na cama, pertinho de mim, e me cobri até o queixo. Fitando o nosso apartamento, que mais parecia um cubículo, fiquei pensando se Jim Trelease estava certo. Será que a leitura em voz alta poderia mudar a vida da Audrey? Será que poderia causar tamanha diferença em seu futuro? Seria possível que a leitura em família nos uniria com uma experiência compartilhada que duraria uma vida inteira? Minha versão de vinte anos ainda não sabia a resposta. Ela se imaginava lendo para Audrey com dois anos, depois com oito, com doze. Ela se imaginava lendo para ela aos dezesseis. E sabe de uma coisa… eu gostava do que via. Duas pessoas embarcando em uma jornada, de mãos dadas — buscando aventuras, indo a lugares novos, perseguindo o desconhecido —, fazendo tudo aquilo juntas, e tudo por meio das páginas de um livro. Mãe e filha abraçadas no sofá ou deitadas no chão, buscando o que poderiam experimentar ao lerem histórias juntas. Pensava como ter esse hábito com a minha filha poderia impactar nós duas para sempre. Queria aquela experiência para Audrey. Queria aquela jornada para mim mesma. Queria tudo aquilo para nós duas. Naquela noite, enquanto deitada debaixo das cobertas, parecia que Jim Trelease estava dizendo que a leitura em voz alta podia mudar o mundo. O que eu jamais teria previsto era como essa prática mudaria o meu mundo. CAPÍTULO 2 Esperando a morsa Sendo Completamente Presente Portanto, como mãe e como escritora, permita-me incentivá-lo a ler para os seus filhos, ler mais para eles e, repito, outra vez ler para eles. Ora, se deixarmos de nutrir a imaginação, o mundo vai pagar por isso. O mundo já paga por isso. — Katherine Paterson, A Sense of Wonder Era um dia nublado, típico do Noroeste Pacífico. Mesmo assim, agasalhei meus três filhos e fomos para o zoológico, como era nosso costume, fizesse chuva, fizesse sol. “Que animal vocês querem ver hoje?”, perguntei enquanto chegávamos ao estacionamento vazio. Eu amava dias como aquele — manhãs dos dias de semana durante a primavera, com umidade e garoa suficientes para afastar a maioria dos visitantes. Sempre pronta para uma mudança de cenário, aceitei de bom grado a ideia de não ficar confinada em casa, mesmo com o frio. “A morsa?”, Audrey, de sete anos, sugeriu do assento de trás do carro. “Ainda não vimos esse bicho”. Balancei a cabeça concordando. Belo plano. Juntei nossas coisas, procurei por meu cartão de sócio do zoológico e conduzi meus filhos pela entrada. Eu já tinha visto a morsa antes e estava ansiosa para presenciar a reação das crianças ao seu primeiro encontro com aquela criatura. Não importava quantas vezes eu já tivesse visto fotos em revistas ou assistido a documentários na TV, sempre ficava um pouco surpresa com os olhos arregalados do tigre, com a tromba curvada do elefante, com a redondeza da barriga de uma cobra. Tinha certeza de que meus filhos sentiriam o mesmo deslumbramento naquele dia. Afinal, na primeira vez que vi uma morsa, fiquei perplexa, imaginando como uma criatura tão grande podia se mover de forma tão elegante na água. Devagar chegamos à área noroeste do parque, parando rapidamente para ver os alegres suricates e dar uma olhada no lobo-vermelho tirando um cochilo. Ao chegarmos na exibição da morsa, Allison, de cinco anos (sempre a primeira das crianças a ficar cansada), jogou-se no chão e deu um suspiro dramático. A exibição parecia vazia, mas sabia que aquele era um animal que exigiria paciência para que conseguíssemos vê-lo. As morsas só iam para a área principal da apresentação quando tinham algum interesse, e passavam a maior parte do tempo em um dos cantos mais reservados do tanque. Audrey e Drew chutavam pedrinhas no chão e eu, contente, baixava a mochila, que estava pesada, com garrafas de água, cadernos de desenho e lápis de cor. Uma gaivota pousou ao nosso lado, bicando um resto de pretzel amolecido no chão. Allison foi em direção ao tanque das morsas e, ajoelhando-se, grudou o nariz no vidro do tanque. E então aconteceu. A água agitada deu sinal de movimentação dentro do tanque. Abri um sorriso. Depressa chamei meus outros dois filhos, disse que se juntassem com a Allison e esperassem. “Ela está chegando!”, disse às crianças. “Conseguem ver a água se agitando?” Ansiosos, olhávamos através do vidro. Assim que aquela criatura maravilhosa apareceu, Allison gritou de alegria: “Mamãe, olha!”. Virei para ela na expectativa de ver sua primeira reação ao tamanho e exuberância da morsa, mas ao invés disso ela não estava nem olhando através do vidro. Ela estava de quatro, com o nariz grudado na calçada e os olhos arregalados em deslumbramento, vendo uma formiga passar carregando um pedaço de comida maior que o próprio corpo. Na minha ansiedade de ver as morsas, deixava passar despercebido o milagre de uma pequena formiga, sem nada de especial, carregando um pedaço de comida maior que ela mesma. Tenho certeza de que teria perdido aquela cena, não fosse Allison chamando minha atenção para o milagre da formiga. Allison sempre foi a minha observadora. Mais quieta que o restante de nós, pega detalhes que os outros deixam passar. Uma vez ela disse, enquanto a colocava porta afora para uma ida rápida ao mercadinho: “Mamãe, devagar, você está indo rápido demais para o meu estômago!”. Naquele dia frio de primavera no zoológico, há quase dez anos, vi minha filha de queixo caído, atenta e extasiada vendo uma formiga atravessar a calçada. Ela não ouviu nada, não viu nada, nem notou nada, a não ser aquele pequeno milagre diante dela. Ah, como o meu coração anseia fazer o mesmo. PRIORIDADES Esses dias de maternidade — dias cheios de roupa suja, lição de matemática, jantares feitos na panela elétrica, de areia no tapete da entrada, de lições de piano, de treinos de futebol, de consultas com o dentista, de idas à feira, de festas do pijama, de bebês com cólica — são dias repletos de momentos das formigas. Não fazemos mais caminhadas semanais no zoológico, mas me pego esperando por aqueles momentos grandiosos, maravilhosos, momentos de tirar o fôlego. Fico esperando a morsa. E enquanto espero, perco todos os outros milagres. Se você está lendo este livro, aposto que, assim como eu, deseja ter relacionamentos significativos e duradouros com seus filhos. Aposto que você, assim como eu, espera que quando seus filhos tiverem crescido, ainda tenham vontade de voltar para casa na ceia de Natal. Tenho o dobro de filhos hoje do que tinha naquele dia nublado no zoológico, mas de muitas formas, muita coisa não mudou. Ainda me pego esperando pela morsa; ainda costumo ignorar o ordinário; ainda sou atormentada pelo medo contra o qual lutava tantas vezes naquela época — o medo de não ter tempo suficiente para dar aos meus filhos tudo aquilo de queprecisam, medo de que estou perdendo a chance de fazer o que mais importa. Tenho a sensação de estar infinitamente distraída com todas as outras partes da criação dos meus filhos, e me pergunto se daqui a vinte anos não vou ter vontade de me dar um chacoalhão e dizer: “Preste atenção! Você está perdendo o momento que está bem na sua frente!”. Você e eu sabemos que esse negócio de maternidade é extremamente importante. Se criar relacionamentos significativos e duradouros com nossos filhos requer que estejamos completamente presentes e que enfatizemos aquilo que mais importa, então há uma pergunta à qual devemos responder para nós mesmas: O que é prioridade? Aquelas milhares de distrações não desaparecerão, então precisamos deixar claro como investir bem o nosso tempo e as nossas energias. Em outras palavras, precisamos descobrir como perceber aquelas formigas na calçada: os pequenos e milagrosos momentos que, em busca das morsas, tendemos a ignorar. Se conseguirmos perceber as formigas, se pudermos nos entregar de corpo e alma — mesmo enquanto dirigimos, preparamos o jantar, compramos novos filtros para o exaustor, pagamos a conta de água, limpamos a garagem, escrevemos a lista de compras na parte de trás da conta de gás —, daí então é que seremos capazes de olhar para trás, para esses anos, com carinho e satisfação. Aprendi uma coisa ou outra desde que me tornei mãe, e a mais importante delas é esta: o sucesso na criação dos meus filhos é estar presente e dar o meu melhor nas prioridades do momento. O que significa, é claro, que preciso saber quais são as prioridades do momento. PODO HELMER VS O PROFESSOR DE CHARLIE BROWN Meus filhos estavam me enlouquecendo. A temperatura lá fora estava abaixo de zero, então não podia nem mesmo mandá-los para brincar lá. Um passeio no zoológico estava fora de cogitação. Minha filha de três anos estava com uma infecção no ouvido, os gêmeos não paravam quietos e estavam com a mania de esvaziar os armários da cozinha sempre que eu tirava os olhos deles, e havíamos acabado de voltar de uma visita a familiares do outro lado do estado. Malas cheias estavam espalhadas por toda a sala. A geladeira estava praticamente vazia, assim como minha reserva de paciência. O dia todo havia sido uma batalha para convencer meus filhos mais velhos a cooperar, para não deixar os gêmeos me fazerem subir pelas paredes com suas manias de esvaziar os armários, e para amenizar a febre da filha de três anos até que conseguisse levá-la ao médico. Então quando as meninas mais velhas descem as escadas correndo e reclamando que o irmão de nove anos está bisbilhotado o quarto delas e se escondendo no armário outra vez, você passa a ter a mais absoluta certeza de que perderá as estribeiras. Desesperada, joguei a pilha de correspondências que eu estava separando na bagunça em cima da bancada. Ao fazer isso, nossa mais recente leitura em voz alta apareceu por baixo e chamou minha atenção — Nos Limites do Mar Sombrio da Escuridão, o primeiro livro da Saga Wingfeather, de Andrew Peterson. Olhei para o livro por um instante, e comecei a ter uma ideia. “Mamãe!”, Audrey ficou de pé ao meu lado, com as mãos na cintura. “Sério. Diga que ele PRECISA parar de bisbilhotar o nosso QUARTO!”. Drew, de nove anos, desapareceu correndo, mas teve uma parada abrupta quando viu minha expressão de desagrado. “Drew”, eu disse, usando as palavras que haviam acabado de ser formadas na minha mente alguns instantes atrás, “Não seja um thwap”. Um silêncio momentâneo encheu a sala. Depois vieram as risadas. Até as meninas, iradas há instantes, relaxaram os ombros e gargalharam. Com aquelas quatro simples palavras, fomos transportados para os penhascos da Kistamos e começamos a observar Podo Helmer perseguir os desagradáveis e travessos thwaps que bisbilhotavam o seu jardim. Pensando sobre a criação de filhos, muitas vezes me imagino como o professor de Charlie Brown. Tenho certeza que meus filhos ouvem blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá enquanto repreendo, instruo ou lembro de algo que já disse inúmeras vezes. “Quantas vezes eu já não disse isso?!” “Vou explicar mais uma vez…” “Você está me OUVINDO?” Eu poderia ter lançado qualquer uma dessas reações, e sendo completamente honesta, devo admitir que reajo assim com frequência. Mas a resposta que recebo com a reação já habitual é sempre a mesma, o mesmo olhar vidrado. Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. Em vez disso, aquele momento — resultado de nada mais que exaustão e uma rápida olhada na capa do livro que estávamos lendo juntos há não muito tempo — nos proporcionou uma mudança de paradigma. Drew sabia exatamente o que eu queria dizer com “Não seja um thwap”. Fique fora de lugares que não lhe dizem respeito. Não seja uma peste. Não seja bisbilhoteiro. Qualquer um desses comandos serviria, mas nenhum deles serviria tão bem — e certamente nenhum deles seria tão eficaz para iluminar o clima e nos fazer dar uma tão necessária gargalhada. Naquele dia, essa história ganhou o dia. Ela atravessou a monotonia e a frustração. Ela nos deu nossa própria piada interna. De repente, a vida parecia mais leve. Mesmo em meio ao conflito, tornamo-nos mais ligados uns aos outros do que em outros momentos. Placar — Podo Helmer: 1, professor do Charlie Brown: 0. PARA FICAR MARAVILHADO Na maioria dos dias estou sobrecarregada com as demandas de criar uma família. As tarefas são infinitas — roupa suja, almoço e janta, idas ao médico, brigas entre irmãos. Disciplino, limpo, organizo, planejo, ouço, dou conselhos, instruções e lembretes. Quando os dias são longos e minha energia (isso sem mencionar minha paciência) está acabando, não tenho muita coisa a mais para oferecer. Mas não é de algo a mais que preciso? Algo a mais, para que eu consiga desenvolver um relacionamento significativo e duradouro com meus filhos, que resistirá ao teste do tempo. Algo a mais, a fim de que eu consiga me agachar e perceber a formiga atravessando a calçada. Em dias como estes que brilha o poder da leitura em voz alta. Requer tão pouco de mim: basta que eu me sente e leia algumas palavras em uma página. O livro faz o trabalho por mim. Podemos visitar o jardim de Podo em Kistamos, ou uma choupana coberta de neve em Nárnia, ou o porão de Ramona Quimby, na Rua Klickitat, que logo se acende uma faísca. Todas nós sabemos que para começar um incêndio basta uma faísca. Quando meu coração anseia por se relacionar com meus filhos, mas minhas reservas de energia estão esgotadas, uma faísca é exatamente do que preciso. Na nossa casa, quando alguém diz a palavra fascinante, outro interrompe (com a voz mais nerd possível), e fala “Fascinante! Simplesmente fascinante!”. Essa referência vem da divertidíssima coleção de livros Mercy Watson, de Kate DiCamillo, e sempre que isso acontece, estamos um tanto desprevenidos e todos riem. Uma única palavra já dá o gatilho para uma piada interna em família. Espero que quando crescerem, meus filhos ouçam a palavra fascinante e aquela doce lembrança venha à tona para animá-los, quer onde estiverem. Se um dia visitar a minha casa e precisar de algo para escrever, você pode pedir por uma caneta, mas também pode pedir por um frindle. Já fiz isso inúmeras vezes enquanto ajudava um dos meus filhos com uma tarefa escolar difícil, e nunca falha em tirar um sorriso das crianças. Você também sorriria, se tivesse lido sobre Nick Allen causando confusão (e fazendo um de seus professores subir pelas paredes) no romance infantil de Andrew Clements, Frindle. E quando um dos meus filhos mais novos grita da cama, precisando de mais um gole de água ou de mais um chamego, recito silenciosamente uma página de Llama Llama Red Pajama [Lhama, Lhama, Pijama Laranja], de Anna Dewdney: “Pequena Lhama, você não sabe que a Mama Lhama te ama? Mama Lhama está sempre acessível, mesmo que não esteja visível”. E então meus filhos se lembram, ainda que eu não diga nada, de que estão seguros mesmo quando o sono não vem, mesmo no escuro. As histórias que lemos juntos servem de ponte quandoparece que não conseguimos encontrar outra forma de nos unirmos. Elas são nossa moeda de troca, nosso idioma, nossa cultura familiar. As palavras e histórias que compartilhamos são parte da nossa identidade familiar. Foi exatamente isso que aconteceu na família de Clay e Sally Clarkson. Por meio de sua organização sem fins lucrativos, chamada Whole Heart Ministries, Clay e Sally dedicaram a vida para encorajar e capacitar pais cristãos na criação de filhos que amem a Deus. Os dois escreveram vários livros sobre como criaram seus quatro filhos em uma casa repleta de histórias e leitura em voz alta. Agora, essas quatro crianças são adultas e seguiram sua própria vida. “Há não muito tempo, estávamos todos juntos para o Natal”, disse Sarah, a filha mais velha da família Clarkson “e a quantidade de referências a histórias e leituras […] é apenas um dos jeitos de nos comunicarmos sobre a vida. Compartilhamos histórias. É isso que fazemos. Essas histórias criaram uma profunda amizade entre a gente”.1 De tudo que quero para os meus filhos, a verdadeira amizade entre eles é um dos meus maiores desejos. Discussões entre irmãos podem ser experiências dolorosas e cansativas para todos os envolvidos — e podem fazer uma mãe no auge da maternidade pensar se algum dia seus filhos se darão bem. Minha oração é para que, apesar das inevitáveis disputas entre irmãos, meus filhos compartilhem tantas memórias boas que olhem para trás, para a infância, e vejam que foi repleta de momentos “perceba a formiga”. Repleta de thwaps, risadas e pequenas memórias que compartilharam ao descobrir Kistamos, quando entraram no guarda-roupa de Nárnia, no dia em que deram a primeira mordida em cada maçã no porão de Ramona Quimby. Espero que algumas das melhores memórias dos meus filhos venham das vezes quando ficamos deslumbrados com o que vimos, com o que lemos e com quem nos encontramos. Deslumbrados com a mágica que experimentamos. Deslumbrados com o grande e belo mundo e as pessoas maravilhosas com quem convivemos. Deslumbrados. HISTÓRIAS SÃO COMO A COMIDA CASEIRA DA MAMÃE Courtney, uma ouvinte do podcast Read-Aloud Revival, me escreveu sobre um período familiar especificamente difícil. Seu marido estava desempregado, e o estresse financeiro começava a colocar uma nuvem cinzenta sobre a família. Quando ele encontraria um emprego? Por quanto tempo eles ainda conseguiriam se sustentar? Como conseguiriam lidar com o estresse? É claro que, no contexto familiar, a dificuldade financeira afeta não só os pais, mas também os filhos. Courtney e seu marido perceberam que quanto mais tempo ele ficava desempregado, pior tendia a ficar o comportamento das crianças. “Lembro-me de uma noite em especial em que as crianças estavam se enforcando”, disse Courtney. “Decidi tirar meu filho mais novo da situação e ler um livro para ele. Lemos um livro… e então outro… e mais outro. A cada livro, mais um de nossos filhos se juntava a nós no sofá, até que meu colo estava cheio. “Não consigo me lembrar de um momento em que nos sentimos tão unidos como família quanto naquele exato momento. Era como se todos os estressores da vida tivessem desaparecido, e podíamos ser nós mesmos outra vez. Jamais me esquecerei daqueles momentos”. Tsh Oxenreider, fundadora do site TheArtofSimple.com e do podcast Simple Show, recentemente passou nove meses viajando o mundo com seu marido e seus três filhos pequenos. Viajando pela China e passando por Singapura, Austrália, Uganda, França, Croácia e alguns outros países, eles viajaram por quase um ano, adquirindo uma experiência com viagens única e rica. Ela recontou a aventura em suas memórias, At Home in the World [Meu Lar, Minha Casa]. Aquela não era a primeira vez que o casal fazia uma viagem internacional com os filhos, e antes de partirem especificamente para essa jornada, Tsh disse que mesmo enquanto viajavam por novos países e continentes ao redor do globo, eles criavam tempo para ler juntos. Por quê? “Quando estamos em uma cidade nova”, disse Tsh, “não fazemos nada além de conhecer pessoas novas, comer comidas novas e ter novas experiências. E ainda assim, no final do dia, fosse em um quarto de hotel, fosse em uma tenda, ou mesmo em um avião, podíamos abrir If You Give a Moose a Muffin [Dando um Bolinho ao Alce], ou Blueberries for Sal [Mirtilos para a Sal], ou qualquer outro livro que já lemos um milhão de vezes, e nos sentir em casa comendo a comidinha da nossa mãe. Histórias assim nos lembram de quem verdadeiramente somos”.2 Histórias são como a comida caseira da mamãe. Histórias são piadas internas. Histórias são momentos de perceber a formiga. Elas nos unem mesmo quando a vida é dura. Quando colocamos uma criança em nosso colo e abrimos as páginas de um livro, o que estamos fazendo é pegá-la pela mão e conduzi-la a um jardim silencioso no centro de uma cidade barulhenta e poluída. Temos uma trégua, mesmo que por alguns momentos. Somos gratos pela companhia uns dos outros no jardim. Deixamos o calor, a aridez de um dia difícil e buscamos por algo melhor em família. O INIMIGO NO NINHO Foi um retiro maravilhoso — um final de semana repleto de luzes cintilantes, música inspiradora, novos amigos e amizades aprofundadas, e preletores inspiradores. Quando terminou, quatrocentas mães voltaram para suas famílias. Voltei para casa no estado de Washington, e Stacey, uma ouvinte do podcast Read- Aloud Revival, voltou para sua família no Tennessee. Apenas um mês mais tarde, a família de Stacey ficou sabendo que os sintomas que sua filha de cinco anos estava tendo eram evidências de um inimigo no meio deles. O diagnóstico: leucemia. Toda a família de Stacey ficou chocada. “Me vi pegando um livro e o lendo em voz alta quando não sabia mais o que fazer”, disse Stacey, recontando estadias hospitalares, baterias intermináveis de exames de sangue, remédios, dor, sofrimento e a preocupação avassaladora. “Acredito que [a leitura em voz alta] nos apresenta ferramentas inerentes de cultivo, embora eu até então não compreendesse de verdade essa prática”, ela relatou. “Tínhamos uma sensação de paz quando líamos juntos. A leitura conjunta nos ajudou durante os momentos mais difíceis”. Sei de uma coisa sobre a experiência de Courtney de ler em voz alta enquanto sua família lutava por dificuldades financeiras e da experiência de Stacey enquanto todos lutavam contra o câncer que acometia sua pequena. Talvez os filhos dela não se lembrem exatamente das histórias, do enredo ou das personagens dos livros que compartilharam durante aquele período. Lembrem ou não do título do livro que leram juntos, a verdade é que nada disso importa. Mas estou certa de uma coisa: eles não se esquecerão de que a mamãe leu para eles. Eles não se esquecerão de como os momentos mais difíceis da infância foram aliviados pelo partilhar de histórias, pela oportunidade de deixar a vida barulhenta e poluída da cidade e permanecer por um período na quietude do jardim com as pessoas que mais amam. Ouço de inúmeros pais que ler em voz alta tem ajudado suas famílias a superar dificuldades como adoção, doenças, problemas emocionais, solidão e separações dolorosas. Quando lemos com nossos filhos, deixamos de lado o barulho, a correria, os atritos e, por apenas alguns minutos, ficamos por inteiro presentes. O simples ato da presença pode tornar até mesmo a fase mais difícil e dolorosa da vida um pouco mais doce. Lara, outra ouvinte do podcast Read-Aloud Revival, me escreveu sobre como sua família lutava quando seu marido era enviado para cumprir o serviço militar. Lara praticava o ensino domiciliar e tentava manter a roupa suja, o trabalho doméstico, a preparação das refeições, as sessões de terapia ocular e o fonoaudiólogo de seus filhos, bem como todas as outras infindáveis tarefas associadas com a criação de uma família sob controle. “Eu me entregava aos meus filhos”, ela escreveu, “mas ainda me sentia desunida. Não havia alegria duradoura. Ansiava por algo a mais em meu relacionamento com meus filhos”. Lara se deparou com o podcast Read-AloudRevival e ouviu tudo que podia. Ela começou a ler com seus filhos de maneira mais intencional e frequente, e descobriu que os momentos de leitura em voz alta eram os únicos em que não ficava estressada. “Ler em voz alta com os meus filhos tornou-se nosso porto seguro durante aqueles meses extenuantes sem o meu marido”, ela disse. “[Ler em voz alta] literalmente salvou o meu relacionamento com meus filhos; deu-me esperança de que ainda podia me unir a eles, mesmo após dias difíceis de disciplina constante. Tudo que precisava fazer era ler as palavras em uma página”. “Meus filhos não imaginam o quanto amo ler para eles”, ela disse contente. “Eles acham que são eles que estão levando vantagem nesse negócio. Na minha mente, estou apenas pensando: missão cumprida”. MISSÃO CUMPRIDA Há muitos anos, naquele dia nublado de primavera no zoológico, fiquei de fato consciente de que pequenos momentos aparentemente sem importância na vida são os que mais importam. Também percebi que os perderia se não estivesse prestando atenção. Esses pequenos momentos, alinhados um após o outro como miçangas num barbante, resultam em uma vida inteira de experiências, instantes e memórias. São esses momentos aparentemente insignificantes que sustentam e fortalecem Courtney, Stacey, Lara e a legião de famílias que passam por momentos difíceis. No final, são os momentos que mais importam. Por mais insignificante, simples e quieto que possa parecer, ler em voz alta é uma maneira de diminuir o passo, acalmar-se e então aproveitar o meu filho naquele momento, aproveitar o hoje e o agora, aproveitar essa formiga andando por essa calçada. São momentos como esse que viverão no coração dos nossos filhos mesmo quando eles já tiverem saído de casa. Então, hoje, eu me pergunto: por que pareço determinada a esperar pela morsa enquanto há tantos momentos como o da formiga a serem desfrutados? Consigo criar, hoje, lembranças com meus filhos, memórias que, embora pequenas, serão duradouras, memórias de quando peguei um livro de Contos de Fadas e o li em voz alta? Espero que um dia meus filhos estejam dando uma olhada numa livraria ou num sebo e vejam a capa de um livro de Contos de Fadas. E oro para que, quando fizerem isso, se lembrem de quem são, de onde vieram e a Quem pertencem. Leio em voz alta para os meus filhos, pois sei que meus anos com eles vão passar depressa. Pois anseio por uma união sólida, verdadeira e cheia de vida com cada um deles. E porque dificilmente quero gastar esses preciosos anos esperando pelas morsas, perdendo cada momento, cada formiga enquanto aguardo. Quando chega a noite e deito a cabeça no travesseiro, quero ter certeza de que fiz aquilo que mais importa: alimentei memórias afetivas e felizes, e criei laços duradouros com meus filhos — mesmo quando o restante da vida parece difícil. São esses os momentos dos quais nunca nos arrependemos. Melhor, estes são os momentos que nossos filhos valorizarão pelo resto da vida. CAPÍTULO 3 O rugido do leão Inspirando Virtude e Heroísmo Aslam sacudiu a cabeça felpuda, abriu a boca e proferiu uma única nota longa; não muito alta, mas cheia de poder. O coração de Polly deu um salto; só podia ser um chamado, e, fosse quem fosse que o ouvisse, desejaria obedecer-lhe e (mais ainda) encontraria meios para atendê-lo, não importando quantos mundos se interpusessem. — C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago (São Paulo: WMF Martins Fontes, volume único, 2. ed.) Drew tinha quatro anos quando ouviu pela primeira vez a história de George Washington e a cerejeira. Ele estava suado e cheirando a terra e grama; puxei-o para o meu colo e, numa manhã de verão, li em voz alta a lenda de quando George Washington, com apenas seis anos, ganhou uma machadinha. A história diz que em sua tolice pueril, George usou a machadinha em uma das cerejeiras prediletas de seu pai. Ele se arrependeu imediatamente de sua decisão precipitada, sabendo que uma surra logo viria como punição por, sem motivo algum, destruir a propriedade de seu pai. Quando seu pai o abordou em relação ao ocorrido, o garoto se levantou e proclamou com corajosa honestidade, “Não posso mentir; cortei-a com minha machadinha”. Surpreendentemente, George não teve problemas por suas ações. Em fabulosa sabedoria, seu pai declarou que um filho honesto era mais valioso do que mil cerejeiras.1 Drew ouvia atenciosamente enquanto eu lia a história, e depois correu até o quintal para brincar com suas irmãs. Mais tarde daquele mesmo dia, enquanto esfregava a pilha com pratos sujos de espaguete do jantar da noite anterior, olhei pela janela acima da pia da cozinha em tempo de notar Drew cortando minhas rosas com uma grande vara; seu pequeno corpo girava de um lado para o outro em destrutiva exuberância. Joguei o pano de prato no chão, escancarei a porta de vidro corrediça e gritei para ele parar, exigindo que ele me contasse o que diabos estava fazendo. Ele jogou a vara no chão e virou seus olhos castanhos brilhantes para mim enquanto um largo sorriso se espalhava em seu rosto. “Me pergunte se fiz isso!”, ele dizia, apontando orgulhosamente para a roseira caída. E então eu entendi. Sentei-me desolada no último degrau. “Você... destruiu... minhas rosas?”, perguntei, já sem forças. Ele franziu o rosto e estufou o peito: “Não posso mentir!”. A DÁDIVA DA PRÁTICA Histórias permitem que nossos filhos pratiquem e vivam uma experiência vicária. Não podemos estar ao lado dos nossos filhos em todas as dificuldades que encontram, e não podemos carregar todos os seus fardos. Em 2017, Anne Lamott deixou claro durante seu TED Talk “12 Things I Know for Sure” [12 Coisas que sei ao Certo]2 que não podemos correr atrás de nossos filhos com o protetor solar e a manteiga de cacau sendo eles já adultos. Quando crescem e saem de casa, nossos filhos entram em desafios no trabalho, em relacionamentos e em todos os tipos de situação deste mundo. Não podemos suportar o peso por eles; na verdade, nem é essa a nossa vontade. Queremos que nossos filhos sejam corajosos, pessoas de bem e honestas. Contudo, como isso será possível se nunca tiveram a oportunidade de encarar o medo, a crueldade, e a tentação de fazer a coisa errada? Para nós que amamos desesperadamente nossos filhos, perceber que não podemos protegê-los das piores partes do mundo é como se fosse demais para aguentar, não é verdade? Saber que não conseguimos protegê-los de tudo faz o coração de um pai ou de uma mãe doer. Na verdade, não podemos protegê-los de nada, uma vez que tenham partido de casa. Podemos, no entanto, dar-lhes algo que os ajudará. Podemos oferecer algo muito melhor do que proteção. Podemos prover-lhes prática — muita, muita prática. Nossos filhos, sendo eles crianças desta geração, não costumam se deparar com oportunidades que exigem coragem ou, ainda mais difícil, atos de heroísmo. Mas a criança que esteve com Rudi enquanto lutava no topo da Cidadela, em Banner in the Sky [Um Estandarte no Céu]; que desafiou todas as probabilidades para provar a si mesma sua capacidade diante do que seu tio lhe dera, em Hattie Big Sky; que passou pelos Montes Ozark com Billy, o velho Dan e a pequena Ann, em Where the Red Fern Grows [A História de Dois Cachorros e Um Garoto]— essa criança viveu as páginas de um livro de forma vicária. A criança que ouve histórias como essas recebe um tipo de experiência e preparo que a infância ordinariamente não proporciona. A criança que leu uma variedade de gêneros e estilos visitou mais realidades do que se tivesse vivido na periferia, passado anos nas ruas de uma cidade grande ou crescido na fazenda. Ela terá vivido todas essas realidades e ainda mais; terá viajado o mundo e espalhado sementes de tremoço nas encostas para tornar o mundo mais belo com Miss Rumphius [Senhorita Rumphius]; terá enganado o grande Lobo Mau com audácia como na versão de Paul Galdone de Os Três Porquinhos; terá enfrentado tempestades e inimigos com a Valente Irene; terá corrido atrás do último ingrediente (e extraído coragem de sabe-selá onde!) com a vovó em Thundercake. Adolescentes lendo livros como a adaptação juvenil de Meninos de Ouro ou O Refúgio Secreto descobrirão verdadeiros relatos de heroísmo. Crianças não tão novas — e até mesmo as mais novas, ouvindo Contos de Fadas e fábulas — encaram desafios e superam problemas na companhia de seus personagens prediletos. Histórias de ficção e não ficção dão às crianças de todas as idades a oportunidade de experimentar o que significa sentir-se oprimido, ter problemas, lutar, vencer e sair como um herói. “Ser corajoso em qualquer situação — ser alguém que consegue ser gentil… você vivenciou decisões difíceis em sua imaginação, o que é quase tão bom quanto experimentar isso na própria pele”, disse Carolyn Leiloglou, autora de livros infantis, em um episódio do podcast Read-Aloud Revival.3 Quando lemos em voz alta, damos aos nossos filhos a prática de viverem como heróis. A prática de lidar com situações de vida e morte, de viver com virtude, prática de falhar em virtude. Enquanto os personagens em nossos livros favoritos lutam contra dificuldades, lutamos junto deles. Consideramos se seríamos tão corajosos, ousados, tão humanos quanto nossos heróis favoritos. E então compreendemos — em um nível mais profundo e significativo — a história que também estamos vivendo e a espécie de personagem que nos tornaremos à medida que a história se desdobra. Quando lemos O Longo Inverno, sofremos de maneira vicária por períodos longos, escassos e solitários, e passamos a compreender o real significado da gratidão. Quando lemos O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, consideramos se tomaríamos a mesma decisão que Edmundo tomou em seguir a Feiticeira. Quando lemos Anne de Green Gables, provamos as emoções da impulsividade, imaginação e solidão, e experimentamos as profundezas do desespero. Quando lemos Ladrão de Olhos: As Aventuras de Peter Nimble, temos um vislumbre de como deve ser não conseguir enxergar, vivendo em um novo local rodeado por pessoas que não conhecemos e encarregado de uma grande tarefa. “À medida que os desafios do personagem tornam-se os seus”, escreve Jamie Martin em Give Your Child the World [Dê o Mundo aos Seus Filhos], “torcemos para o bem vencer e entendemos mais profundamente a história que estamos escrevendo com nossa própria vida. Uma narrativa poderosa acelera as batidas do coração do herói dentro de nós. Palavras bem escolhidas tocam e transformam nossa alma, fazendo-nos desejar ser melhores do que somos agora”.4 Há muito que nós, pais, devemos ensinar aos nossos filhos. Há lições a partilhar, sabedoria e insights a oferecer antes que nossos filhos sejam lançados ao mundo por conta própria. Mas uma lição de moral ou uma repreensão da mamãe ou do papai só chega até certo ponto. Simplesmente não há substituto para uma história. Quando se trata de partilhar a verdade com nossos filhos, palestras irritantes de um adulto simplesmente não podem ser comparadas com uma história em um momento oportuno. A história vai até a criança onde ela estiver, acendendo nela o autêntico desejo de dar seu melhor, tentar novamente, amar mais. Ela dá aos nossos filhos uma experiência vicária, fornecendo-lhes a preciosa dádiva da prática. Histórias nos alcançam onde nada mais pode nos alcançar e aceleram os batimentos cardíacos do herói que vive dentro de nós. INTENSIFICANDO OS BATIMENTOS CARDÍACOS DO HERÓI Desejo que meus filhos saibam disto: a coragem não é a ausência do medo, mas sim a ousadia de agir corretamente mesmo diante do perigo. Posso colocar meu filho de seis anos sentado e explicar isso a ele. Posso escrever uma definição da palavra coragem na lousa, ilustrando que a palavra vem da raiz latina cor, que significa “coração” e, portanto, significa ter coragem, ser bravo de espírito e fortalecer-se quando a sorte está contra você. Posso fazer um “brainstorm” com meus filhos de maneiras que demonstrem coragem em acontecimentos do cotidiano. Posso sugerir que se apresentem à família que acabou de se mudar para o final da rua ou que defendam uma criança que está sendo maltratada no parquinho. Posso implorar que demonstrem coragem quando tiverem de encarar uma injeção no médico ou uma maquininha do dentista. Tudo isso requer uma espécie de coragem, mas não o tipo que acelera os batimentos cardíacos do herói dentro de mim — e tenho plena certeza de que não aceleraria os batimentos do herói em meus filhos. O problema, evidentemente, é que se trata de uma lição chata e pouco inspiradora. Estou bufando só de pensar nisso. Não quero que meu maior ato de heroísmo seja superar a timidez ou ter um desejo satisfeito. Fui criada para mais do que isso. E meus filhos? Eles também foram. E se, ao invés de colocar meus filhos sentados para essa lição didática acima, eu os ajeitasse no sofá e começasse a ler a Saga Wingfeather? Estaríamos lado a lado com os filhos de Igiby ao encarar os terríveis Fangs de Dang, buscando dentro de si mesmos para encontrar o que precisam para viver como joias da coroa de Anniera, enfrentando dificuldades intransponíveis com uma tenacidade que eles nem mesmo imaginavam ter. Nos perderíamos na história e testemunharíamos como é ser verdadeiramente corajoso. Veríamos, de forma clara, que sem adversidade não pode haver coragem, que sem a tentação de correr, não pode haver virtude. Não pode haver honra quando não há tentação ao pecado. A coragem de um herói começa vaga, devagar, calma em nosso coração, crescendo constantemente à medida que percorremos a história com Janner, Sininho e Leeli, enquanto vivemos vicariamente como os escolhidos chamados a um caminho mais difícil e mais elevado. Certa vez ouvi Andrew Peterson, autor da Saga Wingfeather, dizer: “se você quer que uma criança conheça a verdade, conte-lhe a verdade. Se você quer que uma criança ame a verdade, conte-lhe uma história”. Não queremos que nossos filhos cresçam e enfrentem adversidades se perguntando “Será que tenho o que é necessário?”. Queremos que saibam. Queremos que tenham testemunhado tantos heróis vivendo com integridade e lutado contra suas próprias fraquezas, que confiem na certeza de fazer a coisa certa, mesmo quando ninguém estiver olhando. Queremos que se levantem como heróis e parem de se perguntar “Será que tenho o que é necessário?”. Queremos que perguntem: “Que tipo de herói me tornarei?”. Quando lemos Bud, Not Buddy, de Christopher Paul Curtis, meus filhos enfrentaram a pergunta, “O que você faria se ficasse trancado à noite em uma cabana como aconteceu com Bud?”. Eles tiveram de se perguntar se ficariam em Hooverville ou se entrariam no trem. Eles tinham de imaginar se seriam tão corajosos ou positivos como Bud, mesmo naqueles dias tenebrosos e difíceis da Grande Depressão. Uma vez que meus filhos nunca tiveram de encarar o tipo de crueldade, preconceito ou dificuldade que Bud teve de superar, estas eram questões que os tocavam em novas áreas — que os alcançaram de novas formas. Os meus três filhos mais velhos eram ainda muito novos na primeira vez que li O Mágico de Oz, de L. Frank Baum. Após ler a parte onde o Homem de Lata e o Espantalho debatem se é mais importante ter coração ou cérebro, decidi lançar uma pergunta aos meus jovens ouvintes — na época, tinham nove, sete e cinco anos. “O que vocês acham que é mais importante?”, perguntei, “Um coração? Ou um cérebro? Se você pudesse escolher apenas um, qual escolheria?”. Audrey não esperou nem um segundo, respondendo “cérebro” antes que eu tivesse terminado de fazer a pergunta. “Mas como você amaria a Deus?”, perguntou Allison, “E como se apaixonaria?”. Ali começamos uma pequena, mas poderosa conversa sobre quão importante é que não deixemos nem o cérebro nem o coração se sobreporem. Quando encontramos o Leão Covarde, acrescentamos coragem ao diálogo, percebendo quão importante é pensar profundamente, amar completamente e encarar os medos. Não tenho certeza de que poderia ter criado essa conversa por conta própria se a história não tivesse nos impulsionado. Mas tenho certeza de que ela não teria se aprofundadotanto quanto se aprofundou naquele dia. Ela não deixou uma marca apenas em meus filhos; afinal, cá estou, há cerca de sete anos, ainda falando sobre isso. Ela evidentemente me impactou também. Quando nossos filhos forem embora de casa, não queremos que fiquem imaginando se eles importam ou não. Queremos que saibam que importam, que são essenciais. Se lhes contarmos um número suficiente de histórias, eles terão encontrado questões difíceis e praticado a vida por meio de provações, dificuldades e situações inesperadas, e assim, se Deus quiser, terão o que precisam para se tornarem heróis de suas próprias histórias. MEIOS DE VERDADE Costumo ficar enfornada em meu mundinho. Frustrações e problemas que surgem em um dia comum consomem muito do meu tempo e energia. A claraboia começa a vazar, um dos gêmeos quebra um braço (de novo), a energia acaba por alguns dias e perdemos toda a carne do congelador. É em momentos assim que eu perco a perspectiva. Sou vítima disso com mais frequência do que gostaria de admitir — um olhar para o meu próprio umbigo e uma introspecção míope que consomem uma quantidade inadequada do meu tempo e energia. Esqueço que, assim como a partícula de Horton, sou — nós somos — uma pequena, mas importante parte de uma história maior e melhor. Porém, quando leio uma história com meus filhos, a névoa se dissipa e então eu me lembro. Eu olho para cima e vejo que sou apenas uma pequena parte de um grande, grandioso e glorioso mundo, cujo Criador existe e sempre existiu. Que todos nós fazemos parte de seu plano. Que fomos convidados a buscá-lo e segui-lo, independentemente da situação. Os livros se tornam excelentes binóculos que nos ajudam a ver além de nossa capacidade normal, convidando-nos a participar de algo fora de nós mesmos. Uma história faz isso por conta própria, sem que tenhamos de dizer uma só palavra a respeito. Esqueça o quadro branco. Esqueça a lição didática. Esqueça os pontos de ensino ou as planilhas de compreensão. Quando contamos aos nossos filhos a história de Jesus curando a filha de Jairo, da cura dos leprosos, da ressurreição de Lázaro não precisamos encerrar a história com uma explicação banal sobre como Deus é poderoso, bom e misericordioso. Não temos que acrescentar nada, porque a verdade da história já está fervendo. É a história. Quando Deus derrama o maná dos céus, não é necessário dizer a uma criança que Deus fornecerá o que precisamos no momento certo e nem um momento antes. Nós simplesmente lemos a história e nossos filhos sentem a verdade dela em seus ossos. Isso acontece com histórias verdadeiras que são relatos literais (como as histórias registradas nos Evangelhos ou as narrativas históricas), bem como histórias verdadeiras que não pretendem ser literais (como um mito ou um Conto de Fadas). Patricia Polacco, amada autora e ilustradora de livros infantis, ganhadora de muitos prêmios de prestígio, contou-me certa vez sobre sua avó, que costumava contar à pequena Patrícia e seu irmão todos os tipos de contos. O irmão e a irmã se inclinavam para frente depois de uma história e sussurravam esperançosos: “vovó, Babushka... é verdade?”, ao que a avó exclamava com gosto: “Mas é claro que é verdade!” e então, com um leve sorriso e uma piscadela, dizia, “Mas pode não ter acontecido exatamente assim...”. É esse entendimento de que a verdade se sobressai acima de fatos literais, detalhes cronológicos e relatos históricos que demonstra como as histórias, especialmente as fictícias, têm o poder de falar ao coração dos leitores de uma maneira profunda e duradoura. “[A história] tem sido o meio de expressar a verdade desde os primórdios da raça humana”, escreveu Katherine Paterson, autora vencedora da medalha Newbery, em uma coleção de ensaios. “A ficção nos permite fazer algo que nada senão ela faz; a ficção nos permite entrar plenamente na vida do ser humano”.5 Quando lemos uma verdadeira história com nossos filhos — não no sentido literal, mas no sentido sobrenatural — não fechamos o livro e dizemos: “E foi assim que aconteceu, exatamente assim”. Em vez disso, dizemos: “Lá está ela”. Porque a verdade sempre, sempre nos faz olhar para o céu outra vez. A verdade, seja factual ou não, sempre nos aponta de volta para Cristo. E qual dos dois você acha que é mais poderoso? Ter um relato exato dos eventos na ordem particular em que se desdobraram na História, ou ter a capacidade de ver a Deus em cada pessoa, em cada situação, em cada lugar? Saber que ele é onipotente e intensamente apaixonado pelo mundo? Histórias realistas provocam nossas emoções e nossa empatia, mas os livros que se elevam acima dos fatos são especialmente capazes de nos ajudar a ver o mundo, a vida, a humanidade e Deus com uma clareza surpreendente. É por isso que 100 Cupboards [Cem Portas], o romance juvenil fantasticamente assustador e estranhamente inspirador de N. D. Wilson, capta a atenção dos jovens leitores. Nesta história de um menino comum em uma cidade ordinária no Kansas, descobrimos que não há nada comum sobre o local de onde ele vem ou o mundo em que vive. Trata-se de uma aventura extraordinária que acontece em um lugar onde nada parece acontecer. E qual é a melhor maneira de reavivar a imaginação de uma criança, talvez uma que se sinta comum, do que ler a história de um menino que descobre maravilhas incríveis em seu próprio ambiente monótono? O que é mais eletrizante para uma criança do que perceber que ela está realmente vivendo em um mundo selvagem e feroz onde coisas grandes e bizarras podem acontecer — e de fato estão acontecendo — ao seu redor? Um sótão em Henry, Kansas, parece normal até que nos encontramos lá com o personagem principal de 100 Cupboards, lutando contra uma rainha-bruxa malvada e encontrando criaturas assustadoras de outro mundo. Enquanto escrevia sua trilogia, Wilderking [O Rei Bárbaro], Jonathan Rogers disse que quase criou um goblin do pântano, apenas para animar as coisas e mantê-las interessantes. Ele decidiu não fazer isso quando sua esposa perguntou: “Por que um goblin do pântano quando se pode ter crocodilos?”. De fato, no temido Feechiefen, nada (além dos feechies, é claro) é tão traiçoeiro e assustador quanto os crocodilos do pântano. Os crocodilos parecem comuns para nossa mente moderna até que os ouvimos e os vemos espreitando nas águas do pântano da história. “Os Contos de Fadas dizem que as maçãs são douradas apenas para refrescar o momento esquecido quando descobrimos que eram verdes”, escreveu G. K. Chesterton. “Os Contos de Fadas fazem os rios correrem com vinho apenas para nos fazer lembrar, por um momento descontrolado, de que eles correm com água”.6 O que as melhores histórias fazem — e os contos fantásticos fazem ainda melhor do que qualquer outro gênero — é extrair do familiar a fim de revelar uma verdade mais prevalecente, universal. Essas histórias nos ajudam a notar o mundo empolgante que muitas vezes tomamos por certo. Elas nos dão dragões, monstros, feiticeiras, e então inspiram em nós um cavaleiro corajoso o bastante para derrotar o dragão, um herói corajoso o bastante para encarar o monstro, uma heroína discreta o suficiente para passar furtivamente pela bruxa. Somos inspirados por aquilo que vale a pena lutar e morrer. Enxergamos o mal pelo que ele é; apegamo-nos ao que é bom. Entramos em terrenos mágicos e vemos o corpo de Aslam morto sobre a fria mesa de pedra. E sentimos no íntimo a verdade nua e crua: entregar uma vida no lugar da outra é o ato de amor mais sincero. E no final — bem no final — o bem sempre, sempre vence. O “felizes para sempre” raramente é um mito para aqueles que acreditam na promessa da alegria eterna no céu. Essa busca pela verdade está inserida em cada história, e nossos filhos não conseguem deixar de ouvi-las depois que começamos a lê-las. É o rugido do leão, a canção de Aslam, o chamado a que fomos criados para responder. Ele já bate dentro de cada um de nós, embora de forma fraca, e nos encoraja, mostrando que temos o que precisamos para fazer o que é certo diante da dificuldade, quandoninguém está olhando e quando faríamos o que é fácil. VIVA MIL VIDAS É dito que a pessoa que lê vive mil vidas, mas aquele que nunca lê vive apenas uma. Que oportunidade melhor podemos dar aos nossos filhos do que viver mil vidas antes que deixem o nosso lar? Que melhor forma há de prepará-los para qualquer coisa que possam encontrar do que deixá-los matar mil dragões, morrer mil mortes, viver mil vezes como heróis? Ocorre que a história de George Washington e a cerejeira não é real. Um dos biógrafos de Washington criou a lenda no início do século XIX. Mas mesmo não sendo um relato literal e histórico da infância de George, mexeu com algo dentro de Drew, de quatro anos, que o ajudou a ver a si mesmo não apenas como uma criança pequena em um quintal suburbano, lutando contra um arbusto de flores, mas como um herói em formação. Uma infância cheia de histórias que inspiram e alimentam o coração do herói que carregamos no íntimo é uma das maneiras mais simples de amar e preparar nossos filhos. Ao fazer isso, nós os ajudamos a entender que o chamado para ser um herói é um chamado para viver plenamente a visão de Deus. Lemos na esperança de que nossos filhos sintam as batidas do coração de herói que há neles e olhem para o céu e se perguntem: Qual é o meu grandioso propósito? C. S. Lewis usa as melhores palavras: “Visto que é muito provável que encontrarão inimigos cruéis, que ao menos tenham ouvido falar de cavaleiros corajosos e da coragem heroica. Caso contrário, você estará transformando o destino deles não em algo mais brilhante, mas em algo mais sombrio”.7 Um conto bem elaborado permite que nossos filhos vejam o mundo com novos olhos. E eles assim verão as maravilhas da nossa realidade. À medida que compartilhamos histórias com nossos filhos, os batimentos cardíacos de um herói batem silenciosamente dentro de cada um deles. Eles enfrentam dificuldades e provações ao lado de seus personagens favoritos. Eles enfrentam probabilidades aparentemente intransponíveis. Eles se valem de uma coragem que não imaginavam ter. Ao ler em voz alta com eles, ajudamos nossos filhos a entender que a vida será difícil, talvez mais difícil do que ainda podem imaginar, mas que eles — assim como os heróis dos contos de sua infância — são capazes de enfrentar dificuldades inimagináveis com virtude e heroísmo. História por história, aos poucos os nossos filhos vão percebendo que dentro de cada um de nós habita um herói. CAPÍTULO 4 Prontos ou não Preparando-se para o Sucesso Acadêmico A coisa mais barata que podemos dar a uma criança, fora abraços, acaba sendo a mais valiosa: palavras. — Jim Trelease, Manual de Leitura em Voz Alta Quando eu tinha onze anos, sonhava em me tornar uma apresentadora de rádio. Toda manhã, meu pai ouvia as notícias pelo rádio em seu Zephyr cor de pêssego enquanto me levava para a escola. Quando a apresentadora da manhã repetia as atualizações do trânsito e as notícias locais, eu me imaginava fazendo o mesmo. No fundo da minha imaginação, eu usava um grande fone de ouvido e ficava inclinada sobre um complexo painel de áudio. “Quando eu crescer, vou fazer o trabalho dela”, dizia a meus pais. Aparentemente, eles acreditavam em mim. No meu aniversário de doze anos, papai me surpreendeu na escola. “Almoço fora no seu aniversário!”, ele disse com um brilho nos olhos. “Vamos ao restaurante Red Robin!” Joguei minha mochila para dentro do Zephyr e sentei no banco de passageiro. Ouvimos Paul Harvey durante o caminho. Os programas de rádio ocuparam minha infância e eu adorava cada minuto deles. Assim que nos sentamos no restaurante, a própria apresentadora de rádio da manhã se sentou à minha frente. Eu a reconheci instantaneamente — eu teria reconhecido aquela voz em qualquer lugar. “Feliz Aniversário, Sarah! Você se importa se eu almoçar com você?” Fiquei impressionada, mas não tanto para puxar assunto com a minha heroína pela próxima uma hora. Como era estar no trabalho às quatro da manhã? Que faculdade ela cursou? Ela sempre soube que queria ser apresentadora de rádio? A apresentadora perguntou por que eu queria entrar no programa de notícias. Eu gostaria de poder dizer que dei uma resposta inspirada. Em vez disso, disse a ela que todos diziam que eu falava muito, então achei que deveria fazer disso minha carreira. Lembro que ela não ficou impressionada com minha resposta. No entanto, não foi até os meus trinta anos — depois de lançar o podcast Read-Aloud Revival e mesmo algum tempo depois de ter adquirido o primeiro milhão de downloads — que percebi que havia me tornado o que sempre quis ser, afinal de contas. Eu não fazia transmissão via rádio. Nunca fiz faculdade de jornalismo ou comunicação. A palavra podcast nem existia naquele aniversário em que me sentei para conversar com minha heroína tomando Coca- Cola e comendo batata frita à vontade. Mesmo assim, agora eu tinha um trabalho falando em um podcast que ia ao ar para famílias em todo o mundo. Se pudesse ter dito isso a mim mesma no oitavo ano, certamente ficaria chocada. Quando pensamos sobre nossa infância, ficamos imaginando o que nossos próprios filhos serão quando crescerem. Penso nisso o tempo todo. Minha filha continuará fazendo arte quando for mais velha? Meu filho vai se tornar um empresário? Um professor? Um florista? Ter uma grande família? Uma família pequena? Viajar pelo mundo? Gosto de sonhar acordada sobre o futuro dos meus filhos, pois tenho um palpite de que estou tendo vislumbres agora de como eles serão um dia. Todos os dias dou uma olhada em seus dons e talentos; com o que gostam de gastar o tempo e como poderão contribuir com o mundo. Não acho que foi coincidência ter acabado num programa de rádio. Não acredito que sejam meros planos fantasiosos e incoerentes ou sonhos que temos enquanto acordados. Quando ainda era criança, Deus colocou esse desejo em meu coração; tenho certeza disso. Não compreendia essa realidade naquela época, mas durante todos aqueles anos, o Senhor estava nutrindo as sementes que cresceram no que se tornaram hoje — o trabalho que me preenche, me satisfaz e que contribui para o mundo. Logo, olho para cada um dos meus seis filhos e imagino quais sementes irão germinar e crescer em algo no futuro. Tenho a oportunidade agora, hoje, de prepará-los para aquilo que os espera. Posso regar essas sementes agora. Posso encorajar seus sonhos mais selvagens e dar a eles toda vantagem — assim como meu pai fez com aquele almoço de aniversário surpresa com minha heroína de infância — para ajudá-los a serem aquilo que Deus os criou para ser. E que honra! E que responsabilidade! Enquanto fico animada com as possibilidades que o futuro reserva para cada um dos meus filhos, também fico impressionada com o fato de não saber o que o futuro reserva, nem o que cada um dos meus filhos precisará conquistar academicamente a fim de obter sucesso nessa obra. Afinal, não posso prever o que acontecerá na vida de cada um deles — de que habilidades precisarão, que disciplinas escolares provarão ser mais úteis em suas futuras carreiras, a que recursos internos mais precisarão recorrer para realizar o trabalho de suas vidas. Quando palestro em uma conferência de ensino domiciliar, geralmente peço que levantem a mão aos pais que estão preocupados em ensinar seus filhos tudo o que precisam saber antes que as crianças saiam de casa e vivam a vida adulta. Sem pestanejar, quase todos levantam a mão. Então pergunto: “Quantos de vocês pensam que é possível ensinar seus filhos tudo de que precisam saber antes que saiam de casa?”. O silêncio na plateia fala por si só. A revista Forbes estima que o adulto comum muda de carreira em média de quinze a vinte vezes ao longo da vida.1 O que isso significa é que não podemos saber com certeza do que nossos filhos precisarão no futuro. A maternidade é um gigantesco ato de fé para todas nós. Posso me esfolar tentando dar aos meus filhos tudo aquilo que possam precisar no futuro. Posso dar aos meus filhos um milhão de boas experiências, um milhão de livros que valema pena, de aulas, de oportunidades que podem trazer algum benefício para o futuro deles. Mas o céu nunca é o limite quando lidamos com pessoas, não é mesmo? Todos somos limitados pelo tempo, pelos recursos e pela energia. Assim como aqueles pais que levantam a mão durante minhas palestras, você e eu estamos no mesmo barco. Precisamos seguir em frente e tomar decisões sobre o que vale o nosso tempo e o que não vale — sobre o que vale nossa melhor atenção, sobre o que vale nossa atenção indireta e sobre o que não vale a nossa atenção. Faz sentido, então, considerar o que podemos fazer como pais a fim de preparar nossos filhos para o sucesso acadêmico de modo geral, ao invés do sucesso em uma disciplina ou campo específicos. Há uma maneira de fazer exatamente isso, e ela é mais fácil do que você imagina. A ARTE DE APRENDER A PENSAR A Dra. Catherine Pakaluk teve um Ensino Médio fraco de ciências e matemática, mas forte nas Artes Liberais. Ou seja, ela lia muito mais do que calculava. Isso frustrava a jovem Catherine até não poder mais. Durante todo o Ensino Médio, ela se angustiava pensando não estar sendo preparada para o futuro em que se imaginava no campo da ciência. Ela se formou e foi aceita em uma Ivy League por um triz. “Eu estava em completa desvantagem, se comparada aos outros jovens que cursavam Harvard, vindos de escolas com robustos currículos de ciências e matemática”, disse Catherine. “Desde o início podia ver que estava aprendendo tudo do zero. Os outros alunos já haviam sido expostos a conceitos científicos e matemáticos muito mais sofisticados dos que eu tinha aprendido”. O currículo de Harvard não era moleza para ninguém, é claro. Em poucas semanas, todos os alunos estavam no mesmo barco — com a água batendo no pescoço ou, na melhor das hipóteses, começando a bater nos tornozelos. A pequena vantagem que os alunos tinham inicialmente sobre Catherine desapareceu em questão de um mês. Então o jogo virou. Seus colegas, que haviam passado por aulas de AP [Colocação Avançada] no Ensino Médio com ênfase em matemática e ciências, começaram a buscar a ajuda de Catherine. Ela estava em vantagem e eles queriam saber como se dava tão bem em seus relatórios e artigos científicos. Durante todos os anos de Ensino Médio, Catherine, convicta de que um currículo voltado às ciências e à matemática supriria melhor suas necessidades e objetivos, ficava frustrada com a vasta quantidade de leitura e literatura exigida pela escola em que estudava. Entretanto, ela descobriu que aqueles anos de leitura e literatura haviam a preparado especialmente para um nível mais elevado de matemática e ciência. “A leitura de literatura afeta o seu cérebro e a maneira de raciocinar informações, mostrando um método intrinsecamente superior ao mero domínio de habilidades dispostas como numa receita”, disse Catherine. “Eu era capaz de pegar um conjunto de habilidades que não haviam sido aplicadas anteriormente às ciências e à investigação científica e ter sucesso com mais facilidade que meus colegas, que gastaram seus anos de Ensino Médio dominando nada menos que conteúdos relacionados à ciência”.2 A experiência de Catherine ajuda a provar que ler para os nossos filhos os ensina a pensar, faz conexões e transmite conhecimento. Ler em voz alta não só abre janelas, mas escancara as portas das oportunidades para muito além do âmbito da linguagem e da literatura. É difícil acreditar que investir tempo em uma prática tão simples traga tantos benefícios para nossos filhos; é difícil mensurar que com algo tão básico eles terão tanta vantagem em qualquer carreira que vierem a escolher. Mas para que você não seja obrigado a acreditar somente em mim ou na Dra. Catherine Pakaluk, vejamos o testemunho de pesquisadores que estudam os dados e as estatísticas. LENDO EM VOZ ALTA: UMA PÍLULA MÁGICA Especialistas na educação por todo o mundo buscam constantemente fatores que possam produzir melhores resultados. Salas de aula menores? Educação continuada para professores? Dias letivos mais longos? Orçamentos mais robustos? Há uma boa razão para que busquem respostas, é claro, mas me parece um pouco irônico que tanto tempo, dinheiro e energia sejam despendidos em pesquisa sobre o que pode dar à nossa geração de estudantes uma melhora acadêmica, enquanto o poder se encontra nas mãos de um pai comum em sua casa. Se quiser ter certeza de que seu tempo e sua energia como pai ou mãe exercerão forte diferença e impacto sobre a vida acadêmica do seu filho, não vá além do alcance de sua estante. O Dr. Joseph Price, professor adjunto de economia na Universidade Brigham Young, especializou-se em economia familiar e educacional. Sua pesquisa demonstra que um dia a mais por semana com momentos de leitura em voz alta entre pais e filhos durante os dez primeiros anos da criança dá uma vantagem de quase metade na pontuação padrão em provas e vestibulares. Isso totaliza um ganho de 15–30 em pontos percentuais: um ganho tremendo.3 Em Manual de Leitura em Voz Alta, Jim Trelease indica que os benefícios acadêmicos da leitura em voz alta são tão grandes que se alguém inventasse uma pílula que fornecesse esses resultados, haveria uma fila quilométrica para consegui-la. Pais se amontoariam e pagariam fortunas para fornecer aos seus filhos o benefício dessa pílula. Ele cita a Comissão da Leitura de 1985 que mencionei no Capítulo 1: “A atividade que, sozinha, prova ser a mais importante na construção do conhecimento necessário para o sucesso final na leitura, é ler em voz alta para as crianças”.4 Trelease também descreve os resultados da pesquisa conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mostrando que mais crianças devem ler a fim de aumentar o resultado positivo em provas e testes — às vezes numa vantagem de até meio ano letivo. Essa era uma realidade independentemente da renda familiar. Ele continua dizendo que a leitura em voz alta provou ser tão poderosa para aumentar o sucesso acadêmico da criança, que é mais eficaz do que pagar um tutor caro ou mesmo aulas particulares. “Pais costumam me perguntar se deveriam tocar Mozart para seus bebês, ou comprar brinquedos caros, ou proibir a televisão, ou dar logo cedo um computador”, escreve Trelease. Mas a resposta é muito mais simples: “Leia para seus filhos”.5 Esta, contudo, é apenas a ponta do iceberg quando lidamos com pesquisas e informações que explicam o poder que a leitura em voz alta exerce sobre o desenvolvimento acadêmico da criança, mas benefícios surgem imediatamente para explicar sua eficácia. TRÊS BENEFÍCIOS DA LEITURA EM VOZ ALTA Benefício n.º 1: aumento do vocabulário e desenvolvimento de padrões linguísticos profundos e sofisticados Quando analisamos as habilidades de uma criança, o vocabulário é a mais fundamental. O domínio do vocabulário é, nas palavras de Jim Trelease em Manual da Leitura em Voz Alta, “o maior indicador de sucesso ou fracasso escolar”.6 Ouvir palavras que normalmente não aparecem em uma roda de conversa expande o vocabulário da criança com mais eficácia e rapidez do que qualquer outra prática. As crianças ouvem as palavras sob determinado contexto e geralmente conseguem deduzir seu significado sem maiores explicações. Quando considero o vocabulário que uso em conversas cotidianas com meus filhos — mesmo com os adolescentes —, percebo que a minha escolha de palavras é muito mais básica do que o uso vocabular de uma obra literária. O livro em questão não precisa nem mesmo ser uma obra de Ernest Hemingway. Um simples livro ilustrado geralmente usa vocabulários mais rebuscados do que aqueles que usamos em uma conversa normal com um vizinho ou um amigo. Encaremos o fato: não falamos por padrões de linguagem sofisticados nem de forma gramaticalmente correta. E é isso o que nossos filhos mais precisam quando lidam com a aquisição de linguagem: padrões de linguagem sofisticados e gramaticalmente corretos. Mandie, uma ouvinte do podcast Read-Aloud, leu em voz alta Um Conto de Natal, de Charles Dickens para seus filhos.A escrita de Dickens é sofisticada e rica, é claro, e Mandie não sabia ao certo quanto da história seus filhos estavam compreendendo. Após alguns dias, sua filha de três anos correu para a sala chorando. Ela estava brava, pois seu irmão de quatro anos havia a chamado de “velha pecadora e cobiçosa” por se recusar a dividir seus brinquedos. É exatamente isso que acontece quando lemos para os nossos filhos. Eles ouvem o vocabulário sofisticado e gramaticalmente correto... que acaba saltando da boca quando menos esperamos. Considere essa passagem do segundo capítulo de O Mágico de Oz, de L. Frank Baum [Rio de Janeiro: Clássicos Zahar], um livro que geralmente recomendo para os pais lerem com seus filhos mais novos de até quatro ou cinco anos: DOROTHY FOI ACORDADA por um choque, tão repentino e forte que, se não estivesse deitada na cama macia, poderia ter se machucado. Deitada, só levou um susto e se perguntou o que teria acontecido; Totó encostou o narizinho frio no rosto dela e ganiu com a maior tristeza. Dorothy sentou-se na cama e percebeu que a casa não se mexia mais; e nem estava mais escuro, porque a luz do sol entrava pela janela e inundava o cômodo único da casinha. A menina pulou da cama e, com Totó seguindo de perto, correu para abrir a porta. Não costumamos falar de nosso bicho de estimação “ganindo com a maior tristeza” ou “encostando seu narizinho frio” (apesar de serem coisas que de fato acontecem). Mas ouvir repetidas vezes esse padrão linguístico desenvolverá em nossos filhos bom vocabulário e linguagem mais precisa. Conforme ouvem histórias, seu vocabulário será fortalecido sem muito esforço. Ao descrever a frustração que professores de redação encontram quando tentam melhorar a escrita de seus alunos, Andrew Pudewa disse: “Você não pode colher aquilo que não plantou”.7 Se a criança não recebe grandes reservas de padrões linguísticos e estruturas complexas gramaticalmente corretas (e um manancial de ideias) para delas recorrer quando for sua vez de se comunicar — escrevendo um artigo de pesquisa, um relatório científico, uma apresentação, a redação do vestibular —, ela própria não terá ao que recorrer para conseguir extrair algo de valor. Mas supra essa reserva, e então se surpreenda com o que vive dentro dos seus filhos. É claro, a criança que lê sozinha aprimora seu próprio vocabulário, mas é ainda melhor quando alguém lê para ela. Isso porque seu nível de compreensão auditiva é mais elevado do que seu nível de compreensão na hora da leitura. Crianças conseguem ter uma melhor desenvoltura na hora de ouvir histórias com vocabulários mais complexos, e não lendo por conta própria. Lá no fundo, você já sabe que isso é verdade, ainda que não houvesse pensado nisso antes. A criança de cinco ou seis anos que está aprendendo a ler não consegue pegar um exemplar de O Ursinho Pooh e lê-lo sozinha, mas seus pais podem ler para ela em voz alta, e a criança acompanhará a história muito bem. Benefício n.º 2: a habilidade de nutrir relacionamentos (em outras palavras, compreender a leitura) Você provavelmente já ouviu falar sobre compreensão de texto e de leitura. Os educadores querem sempre garantir que as crianças estão indo bem. A compreensão da leitura é apenas uma expressão sofisticada para considerar se o aluno compreendeu o que leu e se pode acrescentar a nova informação a seu corpo de conhecimento. Quando temos uma boa compreensão na leitura, automaticamente percebemos o que está acontecendo nos eventos da História. Podemos relacionar informações que encontramos pela primeira vez com outros fatos e ideias que já havíamos encontrado. Comparamos as histórias de agora com as que já lemos e ouvimos e as confrontamos com a nossa vida. Mesmo sem desejar, fazemos conexões — muito mais do que poderíamos enumerar — todas as vezes que abrimos um livro. Essa é, reconhecidamente, uma explicação sofisticada do conceito de compreender a leitura, mas que captura sua essência. Eis o que sabemos: bons leitores costumam compreender bem o que estão lendo. Com a leitura provam soluções, consideram problemas e relacionam novas informações com aquilo que já sabem. Isso porque quando lemos praticamos a arte de pensar com fluidez; fazemos perguntas. Entrelaçamos ideias. Quando estão aprendendo a ler, contudo, as crianças não usufruem tanto da prática de compreender a leitura. Todo o poder do cérebro se volta à decodificação, eis o porquê aquele que não domina a leitura geralmente consegue pronunciar uma página inteira de palavras e olhar para você abismado quando questionado acerca do que acabou de ler. O leitor que não domina essa arte não está sendo obstinado, mas de fato não compreendeu o que acabou de ler. Ele depositou tanta energia para decifrar as letras e palavras daquela página que não foi capaz de gastar qualquer energia mental em sua compreensão. A criança que conseguisse ler sozinha Cam Jansen ou Nate the Great seria capaz de ter sua imaginação capturada pelas Crônicas de Nárnia. Ela se deleitaria com as selvagens aventuras de verão em Swallows and Amazons [As Andorinhas e as Amazonas], se encantaria com a oportunidade de visitar A Ilha do Tesouro e riria histericamente com os intermináveis solilóquios do pai de Louis, em The Trumpet of the Swan [A Trombeta do Cisne]. Contudo, não é esse o caso, pois ainda não consegue ler por conta própria. A criança até certa idade ainda precisa de alguém para concluir por ela o árduo trabalho de decodificar o texto, traduzir o ritmo e a cadência a fim de animá-la e ajudá-la a entrar de cabeça na narrativa. Quando fazemos o trabalho de decodificar o texto — quando lemos um livro em voz alta e descortinamos os ritmos, a cadência e a entonação correta para cada linha —, nossos filhos que o estão ouvindo podem então gastar sua energia mental com outros elementos da leitura. Eles então desfrutam da história e fazem conexões. Isso é praticar a compreensão de leitura. Agora, essa não é uma realidade apenas para o caso de leitores iniciantes. Ao longo dos anos escolares, permanece a importância de ouvir histórias que estejam acima do seu próprio nível de leitura. Por isso, geralmente recomendo o seguinte aos pais que desejam que seus filhos leiam os clássicos: leiam em voz alta para eles antes que precisem se preocupar com tarefas escolares ou qualquer coisa do tipo. As estruturas de linguagem robustas e o vocabulário complexo da literatura clássica são elementos compreendidos com mais facilidade quando alguém toma a frente e lê por você. Enquanto ouve, você pode investir toda a sua energia mental nas relações e conexões da leitura. Essa é, sem dúvidas, a parte mais impactante de ler um clássico. Mesmo já adulta, ainda prefiro receber minha dose de Dickens e de Shakespeare ouvindo audiolivros. As nuances dos diálogos e dos significados são muito mais óbvias para mim quando ouço um habilidoso narrador as lendo em voz alta. Qualquer professor há de considerar vital ao aluno compreender o texto que está lendo. A criança precisa compreender o que lê e aplicar esse entendimento ao que já sabe. Essa é a arte de pensar bem. Quando lemos em voz alta com nossos filhos, damos a eles uma grande vantagem na hora de aprender a pensar bem. Benefício n.º 3: amor pela leitura Falando no TEDxTalk em 2015, Rebecca Bellingham, em sua palestra “Por que Devemos Ler em Voz Alta para as Crianças”, contou a história de Joey, um garoto do terceiro ano do Ensino Fundamental, aluno dela em uma escola da região sul do Bronx. No dia em questão, a Sra. Bellingham estava lendo em voz alta a história A Teia de Charlotte. Joey, completamente atento, ouvia extasiado a professora ler sobre o confronto de Wilbur com o machado do Sr. Arabel. Em sua imaginação, ele via a luz da manhã brilhando sobre a pele rosada de Wilbur, sentia o cheiro de café e bacon exalado pela cozinha da casa da fazenda, ouvia os ruídos do café da manhã sendo preparado — bacon fritando, café sendo coado. Após terminar o capítulo naquele dia, Joey disse à Sra. Bellingham que nunca havia gostado tantode uma história. Ele disse que se sentiu bem no meio da narrativa e que isso não costumava acontecer quando ele próprio lia. Lembro-me de deitar minha cabeça sobre a carteira todos os dias depois do intervalo no sexto ano, deliciando-me com as histórias que a professora lia em voz alta durante aqueles quinze minutos de aula que eram os meus favoritos do dia. Eu me sentia como Joey: transportada para dentro do livro de uma maneira que não acontecia quando lia por conta própria. Por que ler em voz alta faz isso? “O homem que não lê não tem vantagem sobre aquele que não sabe ler”, disse Mark Twain.8 O mesmo pode ser dito acerca das crianças. Se desejamos que desfrutem da leitura — se desejamos que leiam não apenas por serem capazes, mas porque de fato querem ler —, então precisamos fazer mais do que meramente ensinar nossos filhos a como decodificar textos. Mais importante do que ensinar para nossos filhos a verdadeira habilidade de leitura é cultivar um profundo amor por histórias. Afinal, a criança amará a leitura se praticá-la voluntariamente ao longo da vida. Rebecca Bellingham deu o primeiro passo com seus alunos do terceiro ano quando leu em voz alta para eles A Teia de Charlotte. Ao lê-lo, essa professora fez o trabalho duro de decodificar sons e interpretar ritmos e pistas vocais. Por tê-lo feito no lugar delas, as crianças ficaram livres para se apaixonar pela história. Quando focamos em nutrir o amor de nossos filhos por histórias, atingimos tanto as crianças que têm a capacidade de ler quanto aquelas que já praticam a leitura. Se possível, precisamos que nossos filhos se apaixonem por histórias antes mesmo que aprendam as primeiras letras, pois todo o mais — fônica, compreensão, análise e até mesmo a escrita — é adquirido mais facilmente quando a criança ama livros. Se conhece algum leitor compulsivo (ou talvez você mesmo seja um), sabe que leitura gera leitura. Quanto mais o leitor lê, mais deseja ler. É algo belo, de fato — e quando reconhecemos o tremendo impacto que uma vida saudável de leitura pode exercer sobre o sucesso acadêmico de nossos filhos, percebemos que dar- lhes a oportunidade de se apaixonar por livros acaba sendo uma incrível dádiva acadêmica. É um dom que cultiva a curiosidade natural de descobrir o que vem a seguir ou o que mais posso aprender, e lhes dá um impulso para ler mais, ajudando-os a encontrar novas ideias e a fazer melhores conexões. No caso da Dra. Catherine Pakaluk, a leitura prolífica que ela teve quando criança a ajudou em seus estudos científicos numa universidade Ivy League. Por ter aprendido a pensar com profundidade e a fazer conexões em sua leitura, ela foi capaz de aplicar essas habilidades a uma disciplina fora da linguagem e da literatura. Os benefícios de uma vida de leitura saudável têm amplo alcance. Quando ajudamos nossos filhos a se tornarem leitores consistentes e vorazes, eles desenvolvem habilidades que os ajudarão em outras áreas acadêmicas. As crianças não precisam dessas habilidades a fim de que leiam mais livros de não ficção. Como discutimos no Capítulo 3, histórias representam a transmissão de grandes verdades, especialmente na tradição cristã. Acontece que No princípio e Era uma vez não são meios tão diferentes um do outro. Antigas profecias, parábolas, o Evangelho e as histórias bíblicas que lemos todas as semanas na igreja, seja o que for, são meios de comunicar e transmitir as verdades mais importantes que conhecemos. Leitura gera leitura. A criança que ama ler lê vorazmente. Eis um ganho acadêmico que dificilmente pode ser replicado de outra forma a não ser pelo abrir de um livro e perder-se nele. VERDADEIRAS PÍLULAS MÁGICAS Quem imaginaria que histórias de dormir teriam tanto impacto? Quando lemos em voz alta, damos aos nossos filhos um acervo repleto de vocabulário e de estruturas linguísticas profundamente rebuscadas. Damos às nossas crianças a prática de relacionar conhecimentos e pensar corretamente. Ainda melhor que isso, nutrimos a paixão pela leitura, um sentimento que lhes será útil para o resto da vida. E assim, embora continue sonhando acordada e imaginando o que meus filhos serão um dia e qual o grandioso plano que Deus preparou para cada um deles, proponho-me a fazer a única coisa que eu sei que os preparará para o futuro. Não custa nem um centavo; é fácil e é a forma mais eficaz de ajudar os meus pequenos para que um dia alcancem o tão almejado sucesso acadêmico: eu vou ler em voz alta para eles. CAPÍTULO 5 Caminhando uma milha Nutrindo Empatia e Compaixão Construa a vida de seus filhos em um sólido fundamento de histórias e assim você lhes dará [...] uma reserva de compaixão que transbordará e perdurará em uma vida ativa de amor. — Jamie C. Martin, Give Your Child the World Sempre soube da crise hídrica do Sudão. Já assisti a noticiários na TV e li artigos no jornal sobre como vilas inteiras na África lutam a fim de conseguir água limpa para suas famílias. Isso me deixa triste, com uma sensação repentina de desespero diante dos problemas avassaladores que atingem o mundo. É dor demais. Sofrimento demais. Ainda assim, foi como um tapa na cara quando li, ano passado, o livro Uma Longa Caminhada Até a Água, de Linda Sue Park: um romance juvenil que conta a história de dois sudaneses de onze anos. Metade do livro se passa em 1985, baseado na história real de Salva, um dos “garotos perdidos” do Sudão, que a pé atravessou o continente africano inteiro em busca de segurança. A outra metade conta a história de Nya, uma garota moderna fictícia que gasta oito horas por dia se arrastando pelo calor e pela poeira, tendo seus pés perfurados por espinhos e suas costas fatigadas pelo sol escaldante enquanto se esforça por juntar duas jarras de água para sua família. Todos os dias. Duas jarras. Trata-se de uma leitura rápida; devorei-a em duas tardes. Li esse livro enquanto cuidava dos meus filhos pequenos brincando na caixa de areia do quintal, e de poucas em poucas páginas me deparava olhando para meus três pequenos — meu par de gêmeos e minha pequena. Minha própria dupla de Salvas e minha pequena Nya. Então comecei a pensar sobre aquelas duas crianças do livro, considerando o tamanho das dificuldades com que ambas se deparavam. Como suportaram tudo aquilo? O que uma vida assim causa ao espírito humano? Digo, como será que é carregar uma carga tão esmagadora? Como é que outras crianças que passam por essa mesma situação sobrevivem a uma vida assim? Enquanto lia, parei um pouco para olhar um dos meus gêmeos derramar água por um funil, criando um pequeno riacho ao lado esquerdo da caixa de areia. Seus olhos brilhavam com aquela criação enquanto suas mãos brincavam de espalhar areia em forma de pequenas montanhas ao redor das margens do pequeno riacho que ele havia acabado de criar com as próprias mãos. A água fluía em abundância. Terminei o livro, levantei e disse a eles que estava entrando para preparar o jantar. Ao colocar o livro no balcão da cozinha, ainda fiquei concentrada nele, pensando nas palavras que o tio de Salva disse para ele: “Um passo de cada vez […] um dia de cada vez. Apenas hoje: não mais que passar pelo dia de hoje”. Em silêncio, enchi uma panela com água, acendi o fogo, medi a quantidade de arroz. Peguei um pacote grande de cenouras do congelador, coloquei-as na tábua de cortar e olhei pela janela, meditando sobre o que havia acabado de ler. Ataques de crocodilos. Violência. Fome. Solidão. Esperança. O livro me encheu de tristeza e, em algumas partes, de medo, mas também me encheu de esperança. Até mesmo de um sentimento triunfante. Aquelas páginas me deram o conhecimento necessário de que o bem sempre triunfa sobre o mal, mesmo quando é difícil enxergar essa verdade; de que o espírito humano pode ser abatido, mas não destruído por completo — de que as dificuldades vividas por Salva em 1985 podem de fato ser redimidas. Não ouvi o Andy chegar do trabalho. Na verdade, não percebi que ele estava em casa até o momento em que me deu um beijo na bochecha e me cutucou paraque pudesse passar e lavar suas mãos na pia. “Meu Deus, o que aconteceu com você?”, perguntou ao pegar a faca e começar a cortar os vegetais. Eu não conseguia responder. Juro que não conseguia encontrar as palavras. Enxuguei uma lágrima no canto do olho, senti minha garganta seca e apontei lentamente para o livro na borda do balcão em nossa casa espaçosa. O livro havia me transformado. Um passo de cada vez… um dia de cada vez… COLOCANDO-SE NO LUGAR DO PRÓXIMO Um livro pode nos afetar de uma forma como o noticiário não consegue. Não é quando ouvimos um resumo das notícias daquilo que está acontecendo no Oriente Médio que o nosso coração pega fogo. É quando ouvimos a história de uma pessoa: de um homem, uma mulher, uma criança. É quando arrancamos o espinho do pé de Nya, quando viajamos com ela por horas debaixo do sufocante sol africano, quando experimentamos sua solidão e seu medo. É aí então que sentimos a relação de ser humano para ser humano. Daí que nossa empatia é aguçada. É aí quando nos sentimos totalmente humanos. Colocamo-nos no lugar de outra pessoa por alguns minutos ou por 121 páginas, e nosso espírito é movido. Nunca mais voltamos a ser a mesma pessoa. Esse é o poder de uma história. Uma história nos desperta para a beleza e a confusão do mundo que nos cerca. Narrativas despertam em nós um desejo por misericórdia, justiça e verdade. Histórias fazem com que nos apaixonemos um pouco mais pelo mundo em que vivemos e pelas pessoas que Deus colocou em nossa vida. Em seu livro For the Children’s Sake [Pelo Bem das Crianças], Susan Schaeffer Macaulay nos conta que “Na literatura, talvez mais do que em qualquer outra forma de arte, somos capazes de nos colocar no lugar do próximo”.1 É fácil julgar os outros quando lemos livros didáticos de história, atualizações de status no Facebook, ou quando vemos o resumo das notícias. Somos bombardeados com mensagens o dia todo e não à toa começamos a ignorá-las. Não à toa ficamos insensíveis, entorpecidos, optando por evitar o olhar do mendigo com quem cruzamos sempre que estamos no centro da cidade. O antídoto para esse tipo de indiferença é cultivar em nós mesmos sincera empatia. É viver de maneira vicária mediante os sentimentos, os pensamentos, as atitudes e as experiências de vida de outra pessoa — alguém que nunca conheceríamos de outra forma. O primeiro passo é caminhar uma milha no lugar do nosso próximo. Foi esse raciocínio que me transformou no final de uma tarde de verão quando terminei de ler Uma Longa Caminhada Até a Água. Era como se estivesse atravessando o deserto africano, imaginando onde encontraria segurança, apenas desejando um gole de água bem gelada. Foi vivendo de forma vicária por meio da história de outra pessoa — de uma pessoa completamente inventada, no caso da Nya — que me despertou a amar as pessoas da vida real, do meu mundo. Quando minha filha mais velha, Audrey, acabou de ler Red Scarf Girl [A Menina do Cachecol Vermelho], autobiografia de Ji-li Jiang vivenciando a Grande Revolução Cultural Popular da China sob o líder comunista Mao Tsé-Tung, ela veio até mim com os olhos arregalados. “Como ele teve coragem de fazer isso?”, ela perguntou sobre o ditador Mao. “Como ele foi capaz de convencer com sucesso uma nação inteira de que seus planos maus eram para o bem?” O que a autobiografia de Jiang faz muito bem — e o que toda história é capaz de fazer, e não um noticiário — é nos ajudar a enxergar a vida do ponto de vista que nunca consideramos. Como é crescer debaixo do poder comunista? Que pensamentos vêm à cabeça de uma criança de doze anos nessa situação? E o que seria necessário para ela se livrar dessa maneira de pensar? Seria quase impossível ler uma história como Red Scarf Girl e permanecer a mesma pessoa. O amor da minha filha pela verdadeira liberdade foi nutrido pela descoberta de que ser livre — algo que ela sempre viu como um direito dado por Deus — é uma grande dádiva. Minha filha chegou a uma nova compreensão, a qual não teria se não houvesse se colocado no lugar de Ji-li Jiang. Seu coração começou a bater por aqueles que sofreram debaixo de um governo opressivo. Este não é o final da história, é claro. Ler um livro como Red Scarf Girl é apenas o primeiro passo. É aquele começo que abre os nossos olhos. Criar nossos filhos não é simplesmente prepará-los para a vida adulta. Não se trata de mera preparação para uma carreira. Trata-se de transformar e moldar o coração e a mente de um ser humano. Trata-se de nutrir sua alma, construindo relacionamentos e forjando conexões. Trata-se de nutrir em nossas crianças um sentimento de cuidado e compaixão pelo próximo. Trata-se de desenvolver a mente de Cristo. Assim como Jesus chorou quando Lázaro morreu, também devemos chorar com nossos irmãos e irmãs, amigos e estrangeiros, com os de coração partido e com os oprimidos. A LEITURA VICÁRIA NÃO É TÃO VICÁRIA ASSIM Acontece que as histórias são excelentes formadores de empatia. O processo de entrar em uma vida diferente da nossa nos obriga a ver o mundo a partir de outro ponto de vista. Não se trata de mera teoria. Keith Oatley, psicólogo especializado em cognição da Universidade de Toronto, ajudou a conduzir uma pesquisa que demonstrou que a leitura de histórias fictícias aumenta a resposta empática do leitor às pessoas na vida real. Na verdade, pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon descobriram que a leitura de histórias dá ao cérebro conexões em cadeia semelhantes às experiências vividas pela própria pessoa.2 Acontece que a leitura vicária não é tão vicária quanto pensávamos. No artigo “Mirrors, Windows, and Sliding Glass Doors”, [Espelhos, Janelas e Portas de Vidro de Correr], Rudine Sims Bishop explicou o fenômeno que acontece quando lemos. De acordo com Bishop, os livros podem funcionar como janelas, “oferecendo visões de mundos que podem ser reais ou imaginadas, familiares ou estranhas”. Às vezes, os livros são espelhos que “transformam a experiência humana e a refletem de volta para nós”. Em outros momentos, são portas de vidro de correr pelas quais o leitor “precisa simplesmente atravessar com imaginação para tornar- se parte do mundo que foi criado e recriado pelo autor”.3 Quando começamos a considerar dessa forma — como janelas, espelhos e portas de vidro de correr — os livros que compartilhamos com nossos filhos, começamos a valorizar aquilo que não é quantificável de outra forma. Sem sombra de dúvidas, queremos que nossos filhos saibam que pessoas são pessoas, mesmo que não se pareçam conosco, nem falem ou ajam como nós, e que até a última pessoa neste mundo merece ser amada com total entrega, pois cada um de nós foi criado à imagem e semelhança de Deus. Quando Rebekah Gonzalez estava em idade escolar, sua mãe, Toni, leu em voz alta Johnny Tremain, de Esther Forbes. Situado em Boston durante os eventos que culminaram na Guerra de Independência, o livro conta a história de um aprendiz de ourives de catorze anos. Após a mão de Johnny ser desfigurada e ficar incapacitada, ele acaba trabalhando como mensageiro a cavalo para os Filhos da Liberdade. Enquanto sua mãe lia o livro em voz alta, Rebekah se apaixonou por Johnny, encantada com sua história de aventuras, lealdade e coragem. No verão seguinte, Rebekah participou de uma Escola Bíblica de Férias e voltava para casa todas as noites falando incessantemente sobre seu novo melhor amigo, Billy. Todas as noites ela contava à sua mãe as coisas engraçadas que ele dizia, quão inteligente ele era com a memorização dos versículos, sobre sua camiseta legal, seu cabelo estiloso e seu prêmio de acampante do dia. Toni acabou não encontrando Billy até o último dia da Escola Bíblica de Férias. Quando Rebekah chamou Billy para apresentá-lo à sua mãe, Toni foi surpreendida. Apoiando-se com cuidado em seu andador, Billy foi em direção de Rebekah e Toni. Foi só então que Toni compreendeu: Billy tinha paralisia cerebral. Durante toda aquela conversa sobre seu novo melhor amigo, Rebekah nunca havia mencionado esse fato. Naquele dia, Toni percebeuque a maioria dos colegas de Rebekah estava desconfortável com a presença de Billy. Quando perguntou à filha sobre sua nova amizade, Rebekah agradeceu a seu amigo fictício Johnny Tremain, que lhe mostrou como deve ser se sentir com incapacidades físicas e, portanto, diferente de todo mundo. Quando terminamos o último capítulo de um livro que nos tocou profundamente e voltamos à nossa realidade, nunca mais somos os mesmos. Somos transformados. Começamos de uma forma e finalizamos de outra bem diferente — mais misericordiosos, mais compreensivos, talvez um pouco mais compassivos do que éramos. Se a mãe de Rebekah não tivesse lido a história de ficção de Johnny Tremain para sua filha, aquela experiência da Escola Bíblica de Férias teria sido bem diferente — diferente para Rebekah e, certamente, para Billy também. A EDUCAÇÃO VOLTA-SE AO AMOR Shannon, uma ouvinte do podcast Read-Aloud Revival, escreveu-me sobre a leitura de Uma Casa na Campina para seu filho de oito anos, Ray. Quando o vovô e a vovó inesperadamente tiveram de arrumar as malas e partir de sua pequena casa depois de um ano de trabalho duro, Ray interrompeu Shannon no meio do parágrafo e, da beliche de cima, gritou: “Meus olhos estão molhados”. Shannon parou por um instante. Ray parecia surpreso, então ela decidiu sondá-lo gentilmente. “Querido, é por isso aqui que você está chorando?” “Bom”, respondeu ele, “... um pouco”. A razão para aquelas lágrimas inesperadas? O vovô deixou a trava desprotegida. Em vez de nutrir amargura após um ano de trabalho árduo construindo uma casa que ele agora teria de abandonar, o vovô escolheu oferecer seu lar para qualquer um que, passando por ali e cansado, pudesse precisar de abrigo. Ray sentia — ainda que por apenas uma noite, por um só instante — como deve ser experimentar frustração, cansaço, perda e, ainda assim, mostrar consideração pelos outros. Ser mais gentil do que o necessário mesmo quando se mostra um ato extremamente difícil Estou certa de que Shannon não conseguiria ter ensinado essa lição ao seu filho de uma maneira melhor. O vovô deu o ensino por ela, e ela só foi perceber depois que a lição já havia sido aprendida. Agora, porém, o aprendizado está profundamente alojado no âmago de um menino que vai crescer e saber que mesmo em meio a dificuldades, ele ainda pode ser gentil. Mesmo sofrendo, ele poderá levar os outros em consideração. Que melhor educação podemos oferecer aos nossos filhos do que moldar seus corações no amor pelo próximo como retribuição ao amor de Deus por nós? Charlotte Mason, educadora do século XIX, disse o mesmo quando ensinava que o importante não é o quanto as crianças sabem, mas o quanto se importam.4 A educação é praticada com maestria quando nos ensina a amar. Porém, é tentador idolatrar certos aspectos da educação. Valorizamos bons resultados, notas altas em provas, graduação em universidades de elite e carreiras lucrativas. Mas nossa obsessão nos impede de lembrar para que a educação serve. A educação é voltada para o amor. Desejamos uma excelente educação para os nossos filhos a fim de que eles consigam superar seus colegas? Para que consigam se classificar em posições melhores, uma promoção mais rápida, mais sucesso financeiro? Ou desejamos que nossos filhos sejam educados a fim de que possam seguir os dois grandes mandamentos: amar a Deus e amar o próximo? Logo, a boa educação não é aquela que resulta em notas altas, na aceitação de excelentes faculdades ou na capacidade de ler Virgílio em latim ou Guerra e Paz sem precisar de um guia explicativo do lado. Uma boa educação nos ensina — e também ensina nossos filhos — a amar por completo e a amar de verdade. “Acima de tudo, porém,”, lemos em 1Pedro 4.8, “tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre uma multidão de pecados”. Sendo cristãos, sabemos que nosso principal dever é amar. Jesus Cristo tornou essa obrigação abundantemente clara quando disse que o maior mandamento é “Amar ao Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo seu entendimento”,5 deixando então um segundo mandamento: “Ame o seu próximo como a si mesmo”.6 A educação atinge sua melhor forma quando a utilizamos para ajudar nossos filhos a sentirem a dor ou a alegria de outra pessoa. Em O Sol é Para Todos, Atticus Finch diz à sua filha: “Se puder aprender esse simples truque, Scout, você se dará muito melhor com todo tipo de pessoa. Você não compreende de fato uma pessoa até que considere as coisas do ponto de vista dela”.7 Liguei para minha colega, Rea Berg, durante uma tarde de verão, para conversar sobre isso. Rea abriu uma editora, a Beautiful Feet Books, em um esforço de oferecer o melhor da literatura infantil do passado para os leitores de hoje. Gosto de como ela acredita que os livros podem nutrir o coração e a mente das crianças pelo papel que desempenham em sua educação. Naquela tarde em especial, conversei com Rea enquanto o sol se punha por trás dos pinheiros do quintal e as partículas de poeira flutuavam em frente à janela do meu quarto. “Veja”, disse Rea, “não queremos criar gênios intelectuais desprovidos de humanidade, compaixão e empatia. Gênios intelectuais sem coração são perigosos, muito perigosos”. Logo, a boa educação educa o coração. Isso inclui a prática de escutar — pois de fato precisamos escutar os outros a fim de compreendê-los. E somente quando compreendemos o próximo é que conseguimos amá-lo devidamente, conforme fomos chamados a fazer. Lemos Out of the Dust [Fora do Deserto], de Karen Hesse, e pensamos, pela primeira vez, como deve ter sido sobreviver ao desastre ambiental das tempestades de areia, em Oklahoma, na década de 1930. Ficamos imaginando como seria viver com areia em cada porção de comida, infestando nossas pálpebras, forrando nossas camas. Ou embarcamos em um navio com Hà, a personagem principal em Inside Out and Back Again [Separação e Regresso], de Thanha Lai. Tornamo-nos sua companheira após a Queda de Saigon e pela primeira vez enxergamos os Estados Unidos pelos olhos de um refugiado assustado. Dormimos debaixo de uma ponte no Rio Sena com Suzy, Paul e Evelyne em The Family Under the Bridge [A Família Debaixo da Ponte], de Natalie Savage Carlson. Aprendemos o que significa ficar sem teto, com fome e passando necessidade. Vivenciamos a resistência dinamarquesa por meio dos olhos da garota de dez anos Annemarie, em Um Caminho na Noite. Trememos de medo e pavor diante da ocupação nazista e nos enchemos de compaixão por aqueles que foram forçados a se esconder ou fugir. Fomos para a escola com August Pullman em Extraordinário, de R. J. Palacio, e descobrimos como é ser desfigurado e rejeitado por colegas. Como é ser envergonhado. É claro que a empatia é apenas o começo. Precisamos dar pernas à empatia e transformá-la em compaixão. Precisamos pegar nosso pesar e tristeza e transformá-los em amor e ação. As histórias nos ajudam a dar esse primeiro passo com nossos filhos. Como Rea disse, histórias nos ajudam “a identificar as dificuldades, as tragédias e as vitórias do próximo, que é o começo da empatia”. Rea me contou sobre uma noite de verão enquanto estava na cozinha, preparando o jantar. Seu filho de quinze anos, normalmente estoico e retraído, entrou na sala com lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele havia acabado de ler Let the Circle Be Unbroken [Laços Inquebráveis], de Mildred Taylor, e perguntou à sua mãe: “Como as pessoas podem se tratar dessa forma?”. Era um brado, Rea disse, por todas as vítimas e espectadores inocentes da injustiça ao longo dos tempos. Foi o início da empatia. Lemos com nossos filhos, pois a leitura educa o nosso coração e a nossa mente. Alimenta o nosso intelecto e nos ensina a ter empatia. Lemos juntos e aprendemos, pois histórias nos ensinam a amar. SAL E LUZ Já era quase o dia dos namorados, e a família Case (ouvintes do podcast Read-Aloud Revival) deparou-se na biblioteca com um dos meus livros ilustrados favoritos, Somebody Loves You, Mr. Hatch [Alguém Ama Você, Senhor Hatch], de Eileen Spinelli. A históriatrata de um homem solitário que nunca sorri ou conversa com ninguém de sua vizinhança, até o dia em que recebe por correios um bilhete anônimo. No bilhete está escrito: alguém ama você. Por causa do bilhete, o comportamento do Sr. Hatch muda. Ele se torna alegre e cativante, um homem desejoso de ajudar seus vizinhos e mostrar bondade mesmo nos detalhes. Os filhos de Case amaram o livro e pediram sua leitura várias vezes. “Todas as vezes que lemos o livro”, a mãe dos garotos disse, “meus filhos e eu conversamos sobre como o simples gesto de transmitir graça à realidade de uma pessoa — mesmo por meio de um simples bilhete ou de um gesto gentil — pode impactar profundamente um indivíduo”. Ao ler Somebody Loves You, seu filho de seis anos decidiu que queria espalhar alguns bilhetes para a vizinhança e região. Eles distribuíram esses bilhetes e os deixaram na biblioteca, nas máquinas de venda automática, em espelhos de banheiros, em bancos de praças e em filas de mercadinhos. Ler um simples livro ilustrado inspirou a família Case a tornar o mundo um pouco melhor. Histórias despertam o coração das crianças que as ouvem e dos pais que as leem. É chocante como o simples gesto de ler com nossos filhos pode tocá-los tão profundamente (e a nós também), não é mesmo? Imagino que para a maioria de nós, atingir nossos filhos dessa forma — no cerne de sua alma, onde sentem e amam mais profundamente — é praticamente o que há de mais importante. Tenho tanta vontade de que os meus filhos cresçam e sejam pessoas mais gentis que o necessário. Quero que amem em abundância. Que cuidem do próximo, mesmo quando for difícil de compreendê-los. Quero que sejam sal e luz. Você se lembra da minha experiência depois de ler Uma Longa Caminhada Até a Água, de Sue Park? É claro que não fui a única impactada pela leitura dessa história. Uma ouvinte do podcast Read-Aloud Revival me escreveu para contar sobre sua experiência ao ler o livro com seus filhos. “Ao final do livro”, disse ela, “estava suspirando de tanto chorar, e meus filhos estavam apaixonados pela obra”. No mês seguinte, seu filho de dez anos contou à mãe que ele e seus irmãos haviam guardado a mesada para ajudar a pagar por um poço. Essas crianças poderiam ter sido movidas de forma tão profunda por um apanhado de notícias, por um livro didático, por uma postagem no Facebook ou por um comercial? Como a autora Linda Sue Park me contou, um livro não pode mudar o mundo por conta própria, mas pode transformar seus leitores.8 E os leitores? Eles podem mudar o mundo. Nossos pequenos leitores — meus filhos, seus filhos — podem amar com entrega, com vida; podem manifestar uma bondade inexplicável, construir poços em comunidades pobres, dar um sorriso inesperado, cumprimentar uma pessoa que prefeririam ignorar, dar um abraço em alguém que está passando por dificuldades. Nossos pequenos leitores crescerão e amarão com fervor, porque as histórias que lemos em voz alta para eles durante sua infância os apresentaram a um elenco de personagens mais amplo do que poderiam ter conhecido de outra forma. Essas histórias podem desencadear esperança e compaixão incontroláveis. Histórias nos oferecem um começo — um primeiro passo no caminho de viver uma vida de amor. A história de Uma Longa Caminhada Até a Água me impactou para sempre. Red Scarf Girl impressionou para sempre a minha filha. Quando lemos sobre personagens — reais e fictícios — passando por dificuldades e encontrando injustiças, algo se move dentro de nós. Este algo é empatia — o começo da compaixão. Sempre que viramos a página de um livro estamos entregando uma dádiva tremenda aos nossos filhos. CAPÍTULO 6 Crie em sua casa uma cultura de clube do livro Quando mal deixara de ser uma jovenzinha, a Srta. Minnie entrou numa faculdade de pedagogia e se preparou para lecionar, aprendendo muitos métodos astutos que acabou nunca usando. Pois a senhorita Minnie amava crianças e amava livros, e ensinava simplesmente apresentando um ao outro. — Wendell Berry, Watch with Me [Observe Comigo] A mulher jogou uma pilha de revistas na mesa da frente da biblioteca onde eu trabalhava e se virou para sua filha de dez anos. “O que você encontrou?”, perguntou ela. A garota prendeu uma mecha do seu longo cabelo loiro claro atrás da orelha. “Nada demais, mas achei isso”. Ela empurrou timidamente um livro desbotado com capa amarela e azul para a mãe. “As Irmãs Penderwick!”, exclamei por trás do balcão, puxando a pilha de revistas em minha direção e digitando a senha no computador. “Você vai amar”. Peguei o livro para começar a escanear o código de barras. “Espere. O que é isso?”. A mãe da garota tomou o livro da minha mão, ajeitou os óculos e, dando uma olhada cética, virou-se para a filha: “Isso está na lista para a escola?”. “Na verdade, não…”. A garota começou a ficar um tanto inquieta e seu pescoço avermelhado. “Você vai perder seu tempo lendo algo que nem mesmo conta?” Mordi minhas bochechas por dentro e fiquei olhando a mãe balançar a cabeça com desdém. Ela se virou para mim. “Você pode guardar esse de volta para nós, certo?”, perguntou, jogando o livro no balcão e revirando os olhos. “Voltaremos em um minuto. Primeiro, precisamos encontrar algo que realmente esteja na lista”. Ela voltou a pegar a pilha de revistas, firmou-a em um de seus braços e, ainda falando, começou a distanciar-se ao lado da filha. “Sério mesmo, Emma, ler algo que não conta não serve para nada…” Ao ver o olhar melancólico de Emma voltado ao livro “As Irmãs Penderwick”, então abandonado ao meu lado, mordi minhas bochechas por dentro com mais força. Eu estava lutando para não acabar jogando nada na parede. AMARRAS CURRICULARES Naquela tarde em especial, fui convencida de algo de que já suspeitava há muito tempo: um senso de responsabilidade está matando em nossos filhos a capacidade de ler por prazer. Jim Trelease não mede palavras sobre isso no Manual de Leitura em Voz Alta. “Toda criança começa a escola desejando aprender a ler”, ele escreve. “Em outras palavras, temos 100% de entusiasmo e empolgação quando começam as aulas”.1 Entretanto, esse número começa a diminuir drasticamente logo no começo do Ensino Fundamental, e continua a cair rapidamente nos anos seguintes. Um típico aluno do Ensino Médio lê por prazer durante aproximadamente seis minutos por dia. O Dr. Daniel Willingham nos conta o que isso significa em seu livro Raising Kids to Read [Educando Filhos para Ler]. Professor de psicologia na Universidade da Virgínia, Willingham tem pesquisado e escrito sobre estratégias que ajudem os pais a apreciar livros juntos de seus filhos. Em Raising Kids to Read, ele mostra que aqueles seis minutos diários indicam, na verdade, que de fato a maioria das crianças não lê e pouquíssimas leem um pouco mais que a maioria.2 A pergunta natural é: por quê? Trelease a responde no primeiro capítulo do seu livro: “[O prazer pela leitura] ou nunca foi plantado, ou então foi extirpado por exercícios e provas, não deixando espaço para uma relação prazerosa”.3 O autor acusa a quantidade cada vez menor de tempo que adultos gastam lendo com as crianças à medida que elas crescem como um dos maiores culpados pela perda dessa relação entre dever e prazer. A maioria de nós para de ler para os filhos tão logo que eles começam a ler por conta própria, e quase ninguém — nem pais, nem professores — lê em voz alta para alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Esse, de acordo com Trelease, é o principal motivo para a maioria das crianças não ler por prazer. Faz sentido, não? As crianças menores amam o calor e o elo de sentar no colo da mamãe ou do papai para ouvir uma história. Para crianças menores, livros são sinônimo de prazer. Já no Ensino Fundamental, nossos filhos já absorveram a mensagem de que ler é algo que fazemos para um fim — fazer relatórios, redações, testes, provas. A leitura é uma obrigação, algo para marcar na lista de lembretes, começar e acabar. Ler é um trabalho. Naquele dia na biblioteca, a mãe de Emmadeixou claro para sua filha que o propósito da leitura é acadêmico. Agora, talvez você e eu não digamos isso com palavras, mas, embora considerando uma mentira, comuniquemos a mesma coisa com nossas ações e expectativas. Fico pensando se nossas escolas, nossos professores e — o pior de tudo — os pais não estão passando uma mensagem às nossas crianças de que lemos unicamente a fim de obter sucesso escolar. Fazemos isso sem perceber, e o fazemos com as melhores das intenções. Queremos que nossos filhos conquistem o sucesso acadêmico e consigam ler fluidamente. Mas boas intenções podem terminar em desastre. Você pode acender uma fogueira para se aquecer, mas essa mesma fogueira pode, ainda que involuntariamente, queimar uma casa ou um matagal. Essa fogueira pode incendiar uma floresta inteira. Acendemos uma fogueira para os nossos filhos menores ao aconchegá-los em nosso colo, lendo contos divertidos e fábulas deliciosas, virando as páginas de um livro ilustrado, perdendo-se em contos da série Strega Nona, A Pequena Galinha Vermelha, Sheep in a Jeep [Uma Ovelhinha no Jipe]. Mas algo muda à medida que essas crianças crescem. Elas aprendem a ler por conta própria, e daí presumimos que vai embora aquele desejo de ouvir seus pais lendo em voz alta. A leitura para a escola deixa de ser aqueles contos divertidos e aquelas fábulas deliciosas da infância, e passa a ser mais uma obrigação escolar. A agenda fica cheia, as listas de afazeres e obrigações aumentam e a leitura por prazer se torna uma prática do passado. Uma memória. Devagar e sempre ensinamos nossos filhos que ler é algo que se faz por obrigação, e não por prazer. “Por que nos empenhamos tanto em ensinar nossos filhos a ler?”, Katherine Paterson pergunta em sua coleção de ensaios A Sense of Wonder. “Para que consigam ler placas de trânsito? É claro. Para preencher um formulário de emprego? É claro. Descobrir o destino do ônibus para chegar ao trabalho? Sim, é claro. Mas não queremos algo a mais para nossos filhos, algo além da mera capacidade de decodificar? Não desejamos para nossas crianças a vida, o desenvolvimento e o vigor que apenas a completa riqueza da nossa língua pode dar? […] De que adianta ter dentes perfeitos e aulas de trompete se a pessoa não consegue enxergar a grandeza do mundo?”4 Talvez esse seja um dos capítulos mais importantes neste livro, pois nos lembra de que ler é, acima de tudo, um prazer; é um deleite. Comunicamos nossa visão acerca dos livros por meio da atmosfera de leitura (ou pela falta dela) em nossos lares. Ou criamos um espaço onde se lê por pura alegria, onde a imaginação é cultivada e tem permissão de vagar, expandir-se e crescer, ou arrefecemos o amor natural de nossos filhos pela palavra escrita. De uma forma ou de outra, esse cenário depende de nós — você e eu, pais da próxima geração. “Se você deseja criar um leitor, não confie tanto assim na escola do seu filho”, escreve o Dr. Daniel Willingham, em Raising Kids Who Read [Criando Filhos Leitores]. Depende dos pais criar uma atmosfera onde a vida de leitura da criança possa florescer”.5 A SUPREMA IMPORTÂNCIA DO DELEITE Eis algo que talvez o surpreenda: pais que pensam que a importância da leitura é o sucesso escolar são menos propensos a terem filhos que gostam de ler do que pais que enxergam a leitura primariamente como forma de lazer. Entendeu isso? Filhos cujos pais acreditam que a leitura é sobretudo um modo de entretenimento e prazer acabam se tornando leitores mais vorazes do que filhos cujos pais incentivam a leitura pensando no sucesso acadêmico. Essas crianças também acabam se tornando leitoras melhores. Nossa postura diante da leitura e a atmosfera que criamos em nosso lar são elementos essenciais. Nossos filhos percebem isso mesmo quando não dizemos nada disso em voz alta, ainda que não sejamos a mãe no empréstimo da biblioteca insistindo que sua filha devolva a cópia de As Irmãs Penderwick. É essencial que comuniquemos com nossas palavras, ações e atitudes que a leitura por si só já vale a pena. Não porque nos aprimora ou nos ajuda academicamente; não porque nos faz pessoas mais articuladas, ou nos leva a tirar notas mais altas no vestibular, ou nos dá uma compreensão cultural daqueles que estão ao nosso redor. A leitura proporciona todas essas vantagens, é claro, mas é de suma importância comunicar aos nossos filhos que a leitura é prazerosa e vale a pena pelo mais puro deleite. Desejamos que nossos filhos, como o distinto professor de Humanidades no programa de Honors da Universidade Baylor diz, “leia por capricho”. Jacobs explica a leitura por capricho em seu perspicaz livro The Pleasures Of Reading in an Age of Distraction [O Prazer de Ler em Meio a Uma Geração Distraída], um comentário sobre a importância da leitura pelo prazer. “Pelo amor do céu”, escreve Jacobs, “não transforme a leitura no equivalente intelectual de consumir comida orgânica ou (mudando um pouco a metáfora) de alguma obrigação como uma esteira da mente em que contamos palavras ou páginas da mesma forma como algumas pessoas colocam sua atenção nas “calorias queimadas” […] que deprimente”.6 Ao contrário, diz ele, “Leia o que lhe dá prazer”.7 Ler por capricho — isto é, ler pelo mais puro prazer de ler — pode ter um impacto muito maior na vida do seu filho do que você imagina. Para muitos de nós, os livros que escolhemos ler por conta própria são aqueles que nos cativam. Acontece que não há nada de mágico num livro só por entrar em uma lista de livros escolares ou acabar na ementa de um professor. O ato de pegar um livro e lê-lo por nenhuma outra razão, a não ser o prazer, pode abrir as portas para um impacto significativo. BEM-VINDO AO CLUBE DO LIVRO Alimente sua imaginação comigo por um momento. Imagine que você acabou de chegar ao encontro de um clube do livro. Você teve um longo dia com as crianças e está ansiosa para participar pela primeira vez daquela reunião semanal. A obra do mês é Toda Luz que Não Podemos Ver, de Anthony Doerr. O livro a deixou sem palavras, e você está pronta para uma profunda discussão com os outros membros do grupo. Você é recebida à porta pela anfitriã, uma amiga que a abraça e prontamente lhe dá uma folha de papel com uma lista de múltipla escolha sobre o livro. “Bem-vinda ao clube do livro!”, ela brada com alegria. “Vá em frente e comece por aqui. Apenas queremos ter certeza de que você leu e compreendeu o livro antes de dar continuidade”. Você faz a provinha, chutando o nome das cidades, o número, os detalhes e as datas. (A garota que caçou a consciência de Werner era vietnamita ou parisiense? Werner tinha… dezesseis? Ou dezessete? A madame Manec pegou um resfriado ou uma pneumonia? A história começou em 1944? Ou em 1934? Ou em algum momento entre essas datas?). Você preencherá as respostas tentando acertar tudo, percebendo que leria o livro de forma diferente se soubesse que teria de fazer uma prova sobre a obra. Você dá uma olhada e vê que os demais participantes do grupo do livro estão esperando, ansiosos, pela sua conclusão, então responde mais algumas perguntas e aguarda para ver no que vai dar. A anfitriã tira um caderno. “Tudo bem”, ela diz, “vamos começar fazendo um brainstorming sobre o que podemos escrever em nossa redação de cinco parágrafos. Quem se atreve a dizer qual é o tema do livro? Na hora de ir embora, você recebe a tarefa de escrever uma redação sobre o papel da responsabilidade de acordo com o caráter de Werner. Você também recebe uma lista de atividades manuais das quais pode escolher algumas — você pode fazer um diorama, escrever um diário da perspectiva de Étienne, ou desenhar um mapa dos passos de Marie Laure ao longo de Paris. Voltando para casa, você percebe que o clube do livro é, na verdade, apenas uma maneira de demonstrar que você leu a obra. Não há discussões construtivas, nem relacionamentos sendo formados; não há imersão nas turvas águas de uma bela história. Você recebe tarefas apenas para provar que, de fato, leu o livro. Tire esse livro da lista — você já o “leu”. Agora,vá para o próximo. Você voltaria para um clube do livro assim? Você estaria se coçando para reler o romance durante seu tempo livre, ou para ligar para sua melhor amiga e perguntar se ela entendeu a parte que você está se matando para entender, a parte que a deixou sem saber o que dizer? Você — após terminar a provinha, escrever a redação e fazer um diorama — acha que o livro foi um de seus companheiros de vida? Você diria que o livro a transformou? A moldou? A desafiou? Ou você simplesmente diria que “acabou o livro”? É exatamente assim que tratamos a vida de leitura de nossos filhos, e ainda nos perguntamos por que eles enxergam a leitura como algo a ser feito para a escola, para nota, para uma lista, nada mais que uma simples obrigação. Todas essas coisas — da provinha de compreensão (avaliação para ver se realmente leu a história e a compreendeu) à redação de cinco parágrafos (dissecando o tema do livro) aos projetos criativos como a criação de um diorama ou a criação de um mapa — são tarefas típicas que tendem a acompanhar os livros que nossos filhos leem. Nós literalmente “escolarizamos” o amor pela leitura dos nossos filhos e, logo em seguida, nos perguntamos por que eles não adquirem um amor voraz pela literatura e um desejo ardente de desfrutar a leitura por prazer. Fico me perguntando: o que aconteceria se começássemos a tratar a vida de leitura de nossos filhos como tratamos a nossa? E se saíssemos do caminho da criança e deixássemos o livro fazer sua mágica sem interferir, sem ditar o que pensar sobre o livro, sem insistir que repita os fatos ou concorde conosco sobre o tema? E se, ao invés de ficarmos obcecadas com o fato de a criança ter ou não “terminado” o livro, deixássemos nosso filho encontrar grandes ideias, fazer conexões, pensar por conta própria e experimentar o que significa ser completamente humano, completamente vivo mediante as grandes ideias e por meio dos grandes personagens que encontramos nas histórias e narrativas? Não me interprete mal. Não estou sugerindo que o professor ou o pai nunca deva dar uma tarefa relacionada a um livro. Quero dizer, no entanto, que o deleite deve ter um papel primordial. Se queremos criar nossos filhos como leitores de fato, então faremos bem se dermos a eles uma “página” de verdadeiros leitores adultos — aqueles que leem pela simples alegria e emoção da leitura. Os adultos que conheço que leem por prazer não criam dioramas, não fazem provinhas de compreensão, nem escrevem redações de cinco parágrafos sobre o conflito principal ou acerca do tema da história. Leitores reais gostam de livros que despertam interesse e curiosidade. Leitores de verdade conversam com seus amigos sobre essas obras. Por vezes, inclusive, eles também gostam de um clube do livro. Durante os encontros, eles aproveitam os comes e bebes enquanto dialogam acerca de perguntas abertas a respeito da leitura. Leitores assim fazem perguntas que instigam a reflexão sobre o livro e sobre o que o autor deve estar tentando dizer. São perguntas que lidam com o que o livro tem a dizer para nós. Leitores reais se perdem em histórias. Por vezes ficam loucos para conversar com os outros sobre o que estão lendo; às vezes apenas leem e ponderam sozinhos. Ora marcam, ora não marcam as páginas; por vezes anotam passagens do livro em seus diários, talvez grifem algumas linhas e rabisquem nas margens. Leitores reais se envolvem com os livros de uma maneira que alimenta a curiosidade, inspira relacionamentos e dá prazer. Li a obra The Chosen [O Escolhido], de Chaim Potok, quando estava na escola, mas não me recordo muito dela. Lembro-me de me esforçar para ler o livro, tentando encontrar trechos do texto que poderia usar para construir um argumento em uma redação persuasiva. Lembro que tentava perceber detalhes aleatórios que, pensava eu, pudessem aparecer em uma provinha de sexta-feira. Não me lembro muito mais do que isso. Na idade adulta, não tenho vontade nenhuma de relê-lo, embora muitas pessoas que amo e em quem confio o classifiquem como o melhor livro que já leram. Os livros sobre os quais você escreveu relatórios quando criança são os mesmos pelos quais você, anos depois, tem um grande afeto? São os livros que você não consegue esperar para ler com seus filhos, os livros que você associa com as suas memórias de infância mais felizes? É certo que a criança que sempre amou histórias, cuja vida foi ricamente banhada por narrativas, que teve muitas conversas sobre os personagens e as buscas nas histórias que leu, não terá problemas em dissecar um trecho de literatura para analisá-lo na faculdade. Mas sua inclinação natural não será a de dissecar o livro. E não queremos que seja! Há um tempo e um lugar para a análise literária — para traçar enredos e observar o curso de um personagem. Mas não estou absolutamente convencida de que o lar seja esse lugar. O lar é onde nos apaixonamos pelos livros. O lar é o único lugar onde nossos filhos têm a chance de se apaixonar pelos livros. Já sabemos o que acontece com crianças cujos pais não veem o prazer e a diversão como o principal motivo da leitura, pais que acreditam que o maior objetivo da leitura é o sucesso acadêmico. Essas crianças acabam simplesmente não lendo. MEDIDAS EXTREMAS A mãe de Jonathan Auxier, preocupada com a falta de interesse de seu filho pela leitura motivada por prazer, tirou-o ainda novo da escola, com a intenção de transformá-lo em um leitor. “Sou de uma família de leitores sérios”, relata Jonathan.8 “Eu mesmo sabia como ler, mas não gostava tanto assim. Eu simplesmente preferia fazer outras coisas, assim creio. Ler não era uma atividade que me trazia alegria”. Sua mãe entrou em choque. Não ter um de seus filhos lendo por prazer e deleite simplesmente não era uma opção em sua casa. Ela decidiu começar o ensino domiciliar com Jonathan em seu terceiro ano do Fundamental, e a principal tarefa era que ele lesse por três horas diárias. Na época, Jonathan não sabia que havia sido tirado da escola para que se apaixonasse por livros. Mas ela sabiamente percebeu que Jonathan só aprenderia a amar a leitura se desassociasse o ato de ler das obrigações escolares. Ele precisava de tempo suficiente e precisava da oportunidade de escolher livros que desejasse ler, não apenas livros de leitura obrigatória. Sua mãe também sabia que Jonathan precisava obter a identidade de leitor por conta própria. Ela não podia fazer aquilo por ele. Tudo o que podia fazer era organizar as circunstâncias para que tornasse o amor pela leitura mais provável de existir. E passou a existir. “Quando voltei para a escola tradicional, era um ano mais velho, para ser justo — mas também um leitor muito forte”, disse Jonathan. “A sacada que minha mãe teve de me tirar da escola certamente foi a intervenção que me transformou em um leitor”. Jonathan Auxier é agora um escritor premiado de romances juvenis — você encontrará Ladrão de Olhos: As Aventuras de Peter Nimble em uma das listas de livros na terceira parte deste livro. É evidente que sua mãe deu-lhe mais do que uma mera oportunidade de tornar-se um simples leitor. Ela deu ao filho a oportunidade de formar um profundo e duradouro amor tanto por palavras quanto por histórias. Você provavelmente não tem controle absoluto sobre todas as interações dos seus filhos com os livros, especialmente com obras de leitura obrigatória para a escola. O professor do seu filho provavelmente pede relatórios de leitura, dá provas de compreensão textual e outras tarefas relacionadas aos livros lidos. Não importa onde o seu filho se formará academicamente falando, uma coisa é fato: você pode dar forma à atmosfera do seu lar. Na sua casa é você quem decide como os livros são escolhidos, discutidos e tratados. E essa atmosfera significa muito. O lar, lembre-se, é onde nossos filhos se apaixonam pelos livros. A postura dos pais diante dos livros faz uma enorme diferença na vida de leitura dos filhos, independentemente da escola em que a criança estuda ou do tipo de educação literária que recebe. Assim,o que os pais devem fazer? Como criar um ambiente onde comunicamos e transmitimos o prazer dos livros, a curiosidade de ideias contidas nessas obras e um desejo de nos relacionarmos com nossos filhos? Basta criar uma “cultura de clube do livro” em nossa casa. COMO CRIAR UMA “CULTURA DE CLUBE DO LIVRO” EM NOSSO LAR Tentemos imaginar aquele cenário do clube do livro novamente. Desta vez você chega à casa da sua amiga e é recepcionada com um caloroso abraço e com o tremular da luz de velas. Você se joga no sofá chique e bate um papo por alguns minutos com outros amigos que já estavam lá. A anfitriã então chega e serve uma tábua de petiscos com uma boa garrafa de vinho. Sem muita formalidade, ela muda a conversa para o livro, conduzindo a discussão ao fazer perguntas sem maiores pretensões. Você não está sendo avaliada sobre o quanto sabe ou não sabe; você está pensando sobre o livro por perspectivas que não havia imaginado antes. Você está fazendo relações que não havia feito sozinha, ouvindo intuições que nunca lhe ocorreram. Você oferece sua perspectiva sobre qual personagem era o mais covarde, ou sobre qual personagem mais se desenvolveu, ou de como esse livro a lembrou do livro que leu no verão passado. Você lança ideias sobre o que os personagens realmente querem e sobre o que eles temem. Você deixa o clube do livro sentindo que experimentou o livro com mais completude. Você experimentou suas amizades de uma forma um pouco mais completa, pois foi capaz de dar uma espiada na mente e na alma dos seus amigos enquanto todos discutiam partes que os fizeram rir ou chorar, partes que nos pegam desprevenidos, trechos que nos assustam e nos fazer amar. A forma como um dos seus amigos descreveu a cena quando Marie Laure se escondeu nos dá vontade de voltar para casa e reler o livro, pois acabamos não enxergando tudo que essa pessoa enxergou. Você não fez as conexões que ela fez. Você quer ver se o livro cochicha algo novo desta vez. Você deixa o clube do livro se sentindo enriquecida. É para isso que serve um clube do livro: para nos relacionarmos mais profundamente com o que lemos, para nos ajudar em nossos relacionamentos, para nos fazer sentir como se déssemos as mãos à história que está sendo lida durante os encontros. Agora estamos famintos para voltar e passar mais tempo com o livro — ou com outra obra. Uma história verdadeiramente boa não será devidamente experimentada debaixo do escrutínio de uma lupa. Essa narrativa não pode ser testada, avaliada ou reduzida em uma redação de cinco parágrafos e então introduzida à alma. Uma boa história dá forma à experiência humana e toca nos locais mais íntimos. Ela nos encontra onde estamos e nos leva a outro lugar; ela nos muda, nos transforma, nos desperta, nos vivifica, nos deixa cientes. Tornamo- nos pessoas melhores. Enriquecidas. Katherine Paterson escreveu diversos livros infantis (ganhadores de prêmios) sobre assuntos grandiosos e profundos. Tragédia, comédia, morte, solidão, esperança, medo, sofrimento — tudo tem o seu lugar nas páginas de seus livros ricos e imaginativos. Mas Paterson não quer que suas obras sejam usadas em sala de aula para ensinar vocabulário ou melhorar a pontuação nas avaliações. “Ao escrever uma história, não tento transformar a criança em alguém bom ou mais esperto — apenas Deus é capaz de fazer isso, e nem mesmo Deus faz isso sem a cooperação da criança”, diz ela. “Com meus livros simplesmente tento dar às crianças um lugar onde possam encontrar descanso para suas almas cansadas”.9 Se compararmos a experiência em sala de aula de um aluno comum com os nossos encontros do clube do livro, perceberemos que precisamos tratar a vida de leitura dos nossos filhos de maneira mais parecida com a nossa. Criaremos uma cultura de clube do livro em casa de uma forma orgânica, simples e natural. Não sugiro que você substitua a experiência literária do seu filho em sala de aula a fim de viver uma experiência literária mais rica no lar (embora reconheça que é isso que escolhi fazer com meus próprios filhos). Mas sua casa pode ser infundida com um espírito de “clube do livro”. Sua própria postura diante dos livros e da leitura pode mudar e, assim, permitir que cada membro da família dedique mais tempo e espaço para ler pelo mais puro prazer da leitura. COMIDA, GLORIOSA COMIDA Experimente algo para mim. Asse uma forma de brownies. Enquanto o aroma conduz todos da sua casa para a cozinha em uma curiosidade esperançosa, coloque na mesa alguns pratinhos, guardanapos e um pouco de leite. Deixe os brownies — deliciosos, quentinhos, de grudar nos dedos — no centro da mesa e abra um livro. Pode ser de qualquer tipo: um livro ilustrado, uma ficção juvenil, um poema. Não importa muito qual livro seja; apenas comece a lê-lo em voz alta. Posso quase garantir que você terá uma mesa repleta de pessoas ouvindo e que se lembrarão — até mesmo no futuro — de que leu em família e com brownies. Muito provavelmente olharão para trás e se lembrarão daquele livro com carinho. Nunca estive em uma reunião de clube do livro que não tivesse comida, porém tantas vezes faço os momentos de leitura com meus filhos parecerem mais uma sala de aula do que um clube do livro. Por que não servir guloseimas? Ou lanchinhos? Por que não colocar uma toalha de piquenique na grama do jardim e deixar todos comerem uma tigela gigantesca de pipoca e beberem um suco geladinho? Por que não arrumar algumas louças na mesa e servir chá com bolinhos? Por que não pegar um pacote de biscoitos, pratinhos descartáveis e juntar todo mundo ao redor da mesa para alguns momentos de descanso e leitura? Não é sempre que dou lanches para meus filhos enquanto lemos em voz alta, mas tento administrar isso em cada ocasião, especialmente se estou tendo problemas persuadindo alguém para o momento da leitura em voz alta, ou se nosso relacionamento e interação foram fragilizados por algum motivo. Comida é conforto, e conforto é uma coisa maravilhosa de associar ao tempo de leitura em voz alta. Meu marido fala com carinho das noites de jogos em família da época em que ainda era criança e adolescente. Eles jogavam Banco Imobiliário, War e outros clássicos de tabuleiro. Mas quando ele me conta essas histórias de noites de jogos em família, os jogos em si figuram um papel secundário em suas lembranças. Ele se lembra mais do chá, da pequena tigela de doces, da caneca cheia de leite e do bolo de café fofinho, leve e doce servido por sua mãe. Chá e bolo de café se tornaram um símbolo dessas noites de jogos. Quando meu marido toma chá em uma xícara chique, mistura um pouco de leite e coloca um pouco de açúcar, ele pensa na noite de jogos. Ele se lembra dos momentos em família, calorosos e confortantes. Podemos fazer o mesmo com as histórias. Você não precisa fazer bolo de café toda vez que lê em voz alta, é claro, mas fazer algo do tipo não arranca pedaço de ninguém. Pipoca é minha escolha de praxe. É fácil e rápido de fazer e todo mundo adora, então geralmente faço uma tigela enorme e a coloco no centro da mesa enquanto leio. Pode ser algo simples — um pacote de biscoitos, um bolo comprado, frutas picadas, uma tigela de uvas. Compartilhar comida e se juntar à mesa significa comunidade, amizade, amor, risada e cordialidade. É isso que queremos para nossa hora de leitura, certo? Temos a coragem de admitir que o propósito principal de ler pode de fato ser a alegria pela alegria em si? A afeição tem grande importância quando tratamos do relacionamento com nossos filhos por meio dos livros. Quando demonstramos interesse nas coisas que interessam nossos filhos — e isso inclui as histórias de que eles gostam —, estamos comunicando amor. O que eu gostaria de ter dito àquela mãe na biblioteca, aquela que disse à filha de dez anos para deixar o livro As Irmãs Penderwick de lado e pegar algo que “contasse” para escola, é o seguinte: vá e compre seu próprio exemplar. Leia-o com ela, apenas pelo prazer. Não porque “conta”, não porque ela receberá ou não nota por isso, não porque essa leitura a tornaráum ser humano melhor (embora isso possa acontecer). Leia-o para passar tempo com ela. Leia pelo motivo de pura e simplesmente se perder em uma boa história ao lado da sua filha. Leia para relacionar-se. As memórias que ela acumulará do tempo que ambas passaram juntas e que não “contou” para nada além da pura alegria de relacionar-se: essas são as memórias que ela carregará consigo no futuro. Leia com sua filha por capricho. Quando criamos uma cultura de clube do livro em nosso lar, transmitimos uma mensagem crucial para nossos filhos. Comunicamos que sua vida de leitura importa e que deve ser uma fonte de alegria e deleite. Damos aos nossos filhos a liberdade e a habilidade de se envolver com ideias bem naquele lugar que desejamos que eles próprios amem acima de tudo: o lar. E talvez melhor que tudo: damos aos nossos filhos a chance de se apaixonar perdidamente pela vida de leitura. CAPÍTULO 7 Desmascarando cinco mitos Por vezes é necessário pintar o céu de preto para mostrar como pequenos pontos de luz são belos [...] Quando uma criança lê a última frase das minhas histórias, espero que ela caia no sono com um brilho em seu coração e um calor em seu corpo, acreditando que tudo ficará bem, e tudo bem ficará, e toda situação cooperará para o bem. — Andrew Peterson1 O pequeno lago cintilante era um bolsão de água fria e escura, escondido na encosta de pinheiros altíssimos. Sentei em minha cadeira de praia, dando um gole no chá gelado enquanto as crianças iam na ponta dos pés até o alto de um pequeno cais rochoso e pegavam peixinhos com uma rede portátil. Elas ficavam paralisadas como uma estátua, esperando pelo momento certo antes de afundar a rede na água — tchibum! Bastava um peixe se enroscar por um instante na rede do pescador, que as crianças vibravam. Elas comparavam o tamanho de cada peixinho com o do anterior, davam-lhe um nome e então o colocavam de volta na água, mostrando-lhe a liberdade. Espero que façam isso o dia todo, pensei comigo mesma, abrindo o romance que coloquei de forma otimista em minha bolsa de praia. “Não... está… funcionando!”, Clara exclamou, frustrada, com seu corpo de quatro aninhos, rígido, de punhos cerrados. Ela estava imitando as outras crianças quase perfeitamente — debruçando-se sobre a água, imóvel, à espera de um sinal de movimento antes de abaixar a rede para pegar alguma coisa. Entretanto, sua rede sempre voltava vazia e suas bochechas ficavam vermelhas de frustração. Fui até o pequeno cais e me ajoelhei para ver se poderia ajudar. Imediatamente identifiquei o problema. Sua rede tinha um furo. “Boas notícias: podemos arrumá-la”, disse, pegando na mão de Clara e a conduzindo de volta pela areia. Paramos debaixo da área coberta, onde coletes salva-vidas, brinquedos para a água e dezenas de boias ficavam guardados em uma pilha gigante e desorganizada. “Você não conseguirá pegar um peixe com essa rede furada!”, disse a ela, trocando a rede que estava usando por uma sem furos. Clara tomou a rede da minha mão e se virou, correndo direto de volta para as outras crianças no cais, de volta ao objetivo. Desta vez, ela seria vitoriosa. USANDO UMA REDE FURADA Naquele dia no lago, Clara foi motivada por um forte desejo de pegar peixes. Ela foi inspirada pela técnica das crianças mais velhas e sentiu o desejo de seguir o exemplo — executando a mesma postura, as mesmas ações e com a velocidade correta de passar a rede, baixá-la e levantá-la. Mas ela não conseguia pegar nem um peixe sequer pois algo mais a estava impedindo de ter sucesso: sua rede estava furada. E quando temos uma ferramenta quebrada, a motivação só consegue nos levar até determinado ponto. Se a leitura em voz alta é de fato a forma mais eficaz de usar nosso tempo e energia com nossos filhos, então por que não fazemos isso com mais frequência? Por que parece tão difícil ler em voz alta com nossas crianças? Mesmo os pais e mães mais motivados (estou levantando minha mão aqui) lutam para fazer o tempo de leitura em voz alta ocorrer com a frequência desejada. Quando converso com outras famílias acerca da vida de leitura no lar, tenho percebido uma coisa curiosa. Muitos de nós temos a motivação de que precisamos. Afinal, desejamos o melhor para os nossos filhos. Queremos que eles se enxerguem como heróis em suas próprias histórias, que conquistem o sucesso acadêmico, que se tornem gentis e compassivos. Não nos falta motivação. Mas temos uma tendência de complicar demais as coisas. Uma vez ouvi a Dra. Meg Meeker dizer que muitos pais chegam ao seu consultório de pediatria preocupados com a autoestima de seus filhos. Ela diz que esses pais têm todos os tipos de planos para consertar essa preocupação — matriculá-los em artes marciais, num curso de natação, em aulas de pintura.2 Colocar os filhos em mais e mais atividades parece ser a melhor resposta, pois assim a criança tem mais oportunidade de tornar-se boa em alguma coisa, de se superar. Mas a doutora Meeker não acredita que essa seja a melhor maneira de melhorar a autoestima dos filhos. A criança provavelmente terá uma grande autoestima se acredita que seus pais gostam dela e desejam passar tempo com ela. Logo, segundo a Dra. Meeker, a melhor alternativa é passar tempo desfrutando nossos filhos e comunicando esse deleite com clareza.3 Além disso, ficar com eles é muito mais barato do que os matricular em aulas e os levar a clubes por toda a cidade. É muito mais fácil também. Não sei você, mas sacar um baralho de UNO e gastar uma hora ao redor da mesa jogando cartas e bebendo chocolate quente com meu filho pré-adolescente é muito mais atrativo do que correr com a comida para que eu consiga levá-lo até o centro da cidade para aulas de escalada em uma noite escura de terça-feira. Essa tendência de complicar demais as coisas que encontramos na maternidade é uma reação comum para muitas mães. E não é diferente quando lidamos com a leitura em voz alta. O que nos impede de ter relacionamentos significativos e duradouros com nossos filhos não é a falta de motivação ou de desejo, mas sim nossa infeliz tendência de complicar as coisas. Essa complicação normalmente acontece por acreditarmos em cinco mitos sobre compartilhar livros com nossos filhos. Esses mitos nos impedem de progredir na área que como nenhuma outra exercerá impacto sobre nossos filhos. Resumindo, acreditamos em mentiras que transformam o trabalho da maternidade, que já é difícil, em algo ainda mais difícil do que precisava ser. Até que possamos ter certeza do que é verdade na vida de leitura em voz alta em família, toda essa lambança vai ser muito mais difícil do que precisa ser. MITO n.º 1: SE DESEJA QUE A LEITURA EM VOZ ALTA FAÇA DIFERENÇA, VOCÊ PRECISA LER MUITO Fato: se você se encontra esperando ter trinta minutos livres para ler com seus filhos, há uma grande chance de que não lerá para eles com tanta frequência (ou talvez nunca). Muitas distrações disputam nossa atenção todos os dias, afastando-nos do nosso trabalho mais importante. Em dias comuns, lido com várias pilhas de roupa suja, preparo refeições para uma família de oito pessoas, ensino matemática ao meu filho, corrijo a redação do meu filho que está no Ensino Médio, organizo a casa um zilhão de vezes, corro atrás de três crianças pequenas, atendo cinco chamadas telefônicas, respondo a e-mails, cumpro uma longa lista de afazeres e trabalho, tento me relacionar com meu marido e levo um filho ao ortopedista enquanto dou uma passadinha no mercado para comprar pão e leite. E recomeço tudo de novo. Uma simples conta pode ser útil aqui. Digamos que eu leia dez minutos por dia com meus filhos. Apenas dez minutos. Posso encontrar dez minutos em praticamente qualquer dia, até nos dias mais cheios. Talvez tenha de deixar de varrer a cozinha, de dobrar uma pilha de roupas, ou abandonar um dos meus momentos de bisbilhotar no Facebook, mas tenho certeza de que posso encontrar dez minutos no meu dia. Se leio por dez minutos todos os dias, terei lido com meus filhos por sessenta horas ao longo de um ano. Sessentahoras! Sempre que alguém me diz para fazer algo “todos os dias”, no entanto, encontro-me com um novo arsenal de urticária. Use o fio dental todos os dias. Faça exercícios todos os dias. Ore todos os dias. Coma verdura todos os dias. Todos os dias. Essas três palavras sozinhas me enchem de ansiedade. Como posso acrescentar mais uma coisa à minha súmula diária? E agora preciso encontrar tempo para ler em voz alta todos os dias também? Na verdade, não. E para constar, vou dizer da forma mais clara possível: Você não precisa ler em voz alta para os seus filhos todos os dias. Se leio por dez minutos com meus filhos dia sim, dia não, teremos mais ou menos trinta e cinco minutos por semana. Factível, não? Estou respirando um pouco aliviada agora. Consigo me imaginar lendo em voz alta dia sim, dia não mesmo durante as férias, mesmo doente por alguns dias, mesmo nas semanas mais atarefadas durante as finais do basquete, mesmo cheia de trabalho. Eis onde a realidade fica ainda melhor: dez minutos dia sim, dia não resultam em trinta e cinco horas de leitura em voz alta ao longo de um ano. São muitas horas de leitura. Você pode ler As Crônicas de Nárnia por inteiro ou mais de duzentos livros ilustrados em trinta horas. Você consegue ler todos os livros da Ramona Quimby, de Beverly Cleary mais três ou quatro livros de Roald Dahl. Você não tem trinta minutos para ler com seus filhos? Você não precisa de tudo isso. Tente dez minutos. Você pode chegar ao treino de futebol do seu filho dez minutos antes e ler em voz alta no carro enquanto espera, ou ficar à mesa mais dez minutos para que possa ler um pouco sobre Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate, ou Heidi. Coloque as crianças para dormir um pouco mais tarde ou as acorde para a escola um pouco mais cedo. Da próxima vez que se pegar pensando que não tem tempo suficiente para ler em voz alta com seus filhos, pare e diga a si mesma a verdade. Você pode encontrar dez minutos, e isso é tudo de que precisa. Mesmo que deseje que a leitura em voz alta faça diferença, ainda assim você não precisa praticá-la por muito tempo. Você precisa ler pouco, mas pouco com frequência. Pouca leitura com frequência se acumula em muita leitura. MITO n.º 2: A LEITURA EM VOZ ALTA SÓ CONTA SE EU MESMA A FIZER Minha amiga Laura me enviou uma mensagem de última hora: Estamos prestes a chegar na estrada. Estou com medo. Laura e seu marido estavam arrumando seus três filhos para uma viagem até a Chattanooga, Tennessee, e estava preocupada que seus filhos ficassem grudados nos eletrônicos ou brigando o caminho todo. Respondi de forma curta e crua, recomendando que ela baixasse alguns audiolivros. Meu telefone tocou novamente: Sugestões? Enviei uma pequena lista de opções que envolvia seus três filhos, com a esperança de não enlouquecer o marido dela, e então disse que se ainda não tivessem ouvido Poppy, de Avi, esta seria a primeira opção. Foi tudo que ouvi da Laura até que voltaram da viagem uma semana depois. “Nossa família inteira ficou completamente animada o tempo inteiro”, disse Laura. O filho de sete anos quase não ficou agitado, e um dos mais velhos disse, “Não, mamãe! Você não pode parar agora!” quando pararam para almoçar e usar o banheiro. “Foi uma loucura. Foi maravilhoso. As crianças nem pediram o celular ou o tablet”, disse Laura, rindo. Em algum momento nos convencemos de que audiolivros não contam como livros de verdade. Alcançamos a mágica das leituras em voz quando compartilhamos histórias juntos. É a experiência compartilhada em si que causa o maior impacto, independentemente se a voz da leitura for a sua, a de seu cônjuge ou a de um ator profissional narrando um audiolivro. Mesmo ouvindo, as crianças ainda assim se beneficiam com padrões linguísticos complexos e corretos, e são inspiradas a serem os heróis de suas próprias histórias. E fica ainda melhor. Seus filhos terão os benefícios da leitura em voz alta com muito mais frequência se não for você que tiver de sempre ler tudo. Pense em quantos livros a mais você será capaz de compartilhar com seus filhos desta forma! Você pode colocar os audiolivros no carro, durante uma refeição, ou enquanto toda a família ajuda a dobrar uma pilha de roupas (minha maneira predileta de enfrentar essa árdua tarefa). Os audiolivros também valem. É óbvio que há algo nostálgico e emotivo sobre o que uma criança ouve e suas memórias sendo preenchidas pela voz da mãe ou do pai. Jennifer Trafton, autora da obra The Rise and Fall of Mount Majestic [A Ascensão e a Queda do Monte Majestic] e Henry and the Chalk Dragon [Henry e o Dragão de Giz], disse-me certa vez que a voz de Aslam sempre soará como a voz de seu pai. Ele passava horas lendo As Crônicas de Nárnia em voz alta para ela quando mais nova. Lindo, não é? Se você mesma pode ler em voz alta, então leia! Agora, se você também incluir audiolivros, acrescentará mais uma forma de leitura em voz alta, e nesse caso enquanto você faz outras coisas. A família que aproveita os audiolivros tem muito a ganhar, seja enquanto reunida, seja com os filhos ouvindo sozinhos. Meu filho, um leitor tardio, ouviu dezenas de audiolivros ao longo dos seus sete e oito anos em nossa Hora da Leitura em Silêncio durante muitas tardes. Enquanto suas irmãs mais velhas liam sozinhas, ele, por um velho aparelho de som portátil, ouvia audiolivros gravados em CD da série Redwall enquanto construía seus projetos de LEGO. Apenas imagine quantos livros a mais ele foi capaz de “ler” desta forma. Outro benefício de usar os audiolivros é que eles permitem ao narrador habilidoso atrair o ouvinte para dentro da história. Você se lembra da parte do Capítulo 4 em que Rebecca Bellingham lê A Teia de Charlotte para sua sala? Seus alunos conseguiram se perder no livro, pois ela fez a difícil tarefa de decodificar as palavras escritas nas páginas e ler com o ritmo e tom corretos. O mesmo acontece em nosso caso com os audiolivros. Em inglês, as histórias de Mark Twain, por exemplo, podem ser difíceis de ler em voz alta quando não se tem familiaridade com as pronúncias de certos dialetos. Da mesma forma, a obra de Charles Dickens é primorosa quando lida por um narrador de sotaque britânico. Entregamo-nos ao privilégio de nos perder na história quando ouvimos um audiolivro narrado com maestria. MITO n.º 3: OS LIVROS MAIS “LEVES” NÃO CONTAM Lembro-me do livro que fez de mim a leitora de verdade que sou hoje. Já lia sozinha há algum tempo quando me deparei com Matilda, de Roald Dahl. No entanto, quando terminei de lê-lo, eu já era um ser humano diferente. Eu queria mais. Estava faminta. De repente, comecei a ter uma sede insaciável por livros e pelas ideias e histórias neles contidos. Este é um momento fundamental para todas nós e geralmente ocorre quando lemos algo leve, agradável e que nos toma de prazer, não enquanto nos arrastamos para ler um texto complexo e de difícil compreensão. A maioria das pessoas que conheço e que se apaixonaram por livros na infância não se apaixonaram enquanto liam O Cão dos Baskerville ou a edição integral de As Aventuras de Tom Sawyer ou The Swiss Family Robinson [A Família Suíça dos Robinsons]. O amor por estes livros veio mais tarde (se é que veio), mas aquele amor inicial — aquele momento de transformação quando passamos de uma criança que quase não lê para uma que lê vorazmente — geralmente acontece com livros mais leves. Já pedi para que inúmeros ouvintes do podcast Read-Aloud Revival me dissessem quais livros fizeram deles leitores, e é isso que me dizem: Cam Jansen, The Hardy Boys [Os Durões], Nancy Drew, The Babysitter’s Club [O Clube das Babás]… Seus olhos chegam a brilhar enquanto se lembram das noites gastas com uma lanterna debaixo das cobertas, passando pela coleção de Garfield, Calvin & Haroldo ou revistas da Marvel e DC. Eles me dizem que liam tudo que conseguissem encontrar de Trixie Belden, cada exemplar de Nate the Great que pudessem ter. Claro, afirmar que a leitura mais “leve” é importante e que tem seu lugar não significa desvalorizar uma leituramais pesada. Os clássicos — aqueles livros antigos e maravilhosos que passaram pelo teste do tempo — estão entre as maiores obras literárias já escritas. Longe de mim minimizar o impacto que tais livros têm sobre nós como indivíduos e como cultura. Aquilo com que alimentamos nosso corpo é fundamental, e aquilo com que alimentamos nossa alma também é essencial. É um fato para nós, mas ainda mais para os nossos filhos, que estão descobrindo quem são — e a Quem pertencem — à medida que crescem. Porém, por vezes nos pegamos valorizando os clássicos e a rica literatura a ponto de excluir os outros livros, obras mais leves. Se nos escondermos quando nossos filhos devorarem os livros mais leves ou se atentarem à literatura mais suave que lotam nossas bibliotecas e livrarias, perderemos uma importante percepção. Livros mais leves têm seu papel especial no crescimento e desenvolvimento dos leitores mais novos. Quando tinha doze anos, Audrey não se cansava da série Cupcake Diaries [Meu Doce Diário], de Coco Simon. Seu nível de leitura excedia em muito aqueles livros, e me ocorria que ela poderia estar consumindo alimento mais edificante e nutritivo. Pensei em dizer a Audrey que deixasse de lado a série e escolhesse algo mais denso. Fico feliz de não ter feito isso. Cupcake Diaries teve o mesmo efeito nela que The Babysitter’s Club [O Clube das Babás] teve em mim quando eu era adolescente. Ela os lia com voracidade, ganhando fluência e rapidez enquanto descobria que a leitura em si mesma era agradável. Sua farra com os livros da série Cupcake Diaries durou pouco tempo e não retardou seu gosto literário de adolescente mais madura. Hoje em dia, ela mesma provavelmente pegará para ler Louisa May Alcott ou Jane Austen. Da mesma maneira, minha filha Allison devorou a série literária Rainbow Magic [O Arco-Íris Mágico] assim que conseguiu lê-los sozinha. Eram como doces e deles ela não se cansava. Tenho certeza de que esses livros a tornaram uma leitora. Lendo muitos livros fáceis, sua habilidade de ler melhorou e muito — uma habilidade que a ajudará por toda a vida. Agora, apesar de ainda estar na adolescência, não raras vezes a encontro lendo livros que estão muito além do nível típico de leitura de um adolescente. Ela escolhe clássicos literários por puro prazer. Ler pilhas de livros fáceis durante aqueles anos iniciais não a prejudicou. Na verdade, todas essas leituras a ajudaram a consolidar-se como uma leitora de verdade. E isso pode fazer toda a diferença na vida de leitura de uma criança. A maioria de nós fará bem se perceber que todo tempo que passamos lendo com nossos filhos é um tempo de qualidade, independentemente se os livros estiverem ou não em uma lista especial de leitura ou se cumprem ou não cumprem determinado padrão literário. Às vezes esquecemos da seguinte verdade: crianças são mais importantes que livros. Os livros são importantes, mas apenas na medida em que nutrem o pequeno portador da imagem divina diante de nós. Trataremos sobre como escolher excelentes livros no Capítulo 9. Por enquanto, estejamos cientes de que não precisamos limitar nossos filhos a certos livros. Livros leves contam. Livros difíceis contam. Clássicos contam. Todos têm seu lugar na tapeçaria da vida de leitura de uma criança. MITO n.º 4: MEUS FILHOS DEVEM PERMANECER SENTADOS ENQUANTO LEIO PARA ELES Qualquer um com um filho inquieto sabe que esperar até que ele se sente para que então possa ler em voz alta é uma causa perdida. Fico de boca aberta quando percebo que meu filho — aquele que está envolvendo um grupo de soldadinhos em uma batalha, plantando bananeira em um canto, ora desenhando, ora brigando com seu irmão mais novo, depois bebendo um gole de água — é quem mais se lembra do que lemos em voz alta em nossa casa. Estudos mostram que para muitas crianças, o envolvimento ativo em alguma prática com as mãos as ajuda a ouvir melhor. Para muitas crianças, o ato de se mover enquanto se envolve em uma atividade cerebral que exige concentração facilita o processo, e não o anula. Dê aos seus filhos pequenos algo para fazer com as mãos e, de repente, o cérebro deles fica livre para se concentrar e aprender. Perguntei acerca disso ao Dr. Michael Gurian, renomado conselheiro familiar, fundador do Instituto Gurian, autor de 28 livros sobre aspectos do desenvolvimento infantil e best-seller do New York Times. Ele disse que para algumas crianças, a informação pode penetrar nas profundezas de seu cérebro enquanto elas se movem com o corpo. Essas crianças escutam melhor quando se levantam e se movem porque seu cérebro está programado assim. Logo, não é um problema quando começam a ficar inquietos — na verdade, para muitas crianças é até melhor! O desejo de se mexer indica um processamento mais avançado daquilo que escutam enquanto lemos para elas. O Dr. Gurian diz que, estatisticamente, esse fator costuma estar mais presente em meninos. Você pode aprender mais a esse respeito em seu livro Boys and Girls Learn Differently [Meninos e Meninas Aprendem de Forma Diferente]. Meus seis filhos quase sempre estão fazendo alguma coisa com as mãos enquanto me ouvem ler em voz alta. Eles brincam com massinha, pintam com giz de cera ou marcadores, praticam caligrafia, esculpem com argila, montam LEGOS, fazem crochê — todos costumam fazer alguma coisa. Você ficará surpresa quando perceber que seus filhos escutam por mais tempo, ficam mais concentrados durante a leitura e, consequentemente, deixam a sua experiência de leitora muito mais pacífica, se simplesmente tiverem a liberdade de se mexer enquanto você lê para eles. Meus filhos, por exemplo, coloriram alguns livros de formas e mosaicos da editora Dover Publications enquanto eu lia o lindo livro de Gloria Whelan, Listening for Lions [O Som da Coragem]. Eles tricotaram com os dedos longos fios coloridos enquanto eu lia sobre a épica jornada das crianças Sager na Rota do Oregon em On to Oregon [Em Direção a Oregon], de Honore Morrow! Eles usaram canetões especiais para encher nossas janelas da sala de jantar com desenhos enquanto eu lia By the Great Horn Spoon!, de Sid Fleischman (uma das nossas leituras em voz alta prediletas — acrescente este na sua lista de leitura com crianças de sete anos para cima). Você encontrará listas de atividades que seus filhos podem fazer durante a leitura em voz alta, a depender da sua idade, nos últimos quatro capítulos deste livro. Seus filhos não precisam permanecer sentados e imóveis para absorver o máximo do seu tempo de leitura em voz alta. Na verdade, eles podem tirar mais proveito se você deixá-los se mexer ou rabiscar enquanto lê. MITO n.º 5: SE NÃO FOR COMO IMAGINEI QUE SERIA, DEVO ESTAR FAZENDO ALGUMA COISA ERRADA A primeira vez em que tentei tornar a leitura em voz alta um pilar frequente em nossa vida familiar, imaginei-me sentada em frente à lareira lendo Robinson Crusoé enquanto meus filhos se sentavam no chão ao meu redor fazendo coisas produtivas, inspiradoras e criativas. Talvez talhando em mármore. Quem sabe costurando uma colcha. Mas a leitura em voz alta não acontece desta forma na minha casa. Nos nossos melhores dias, as crianças estão ao redor da mesa de jantar, usando as mãos para alguma coisa enquanto leio. Os copos de tinta guache costumam respingar. Alguém chuta a perna do irmão por baixo da mesa. O filho de três anos decide gritar a palavra cocô a cada três minutos. (Não? Isso não acontece na sua casa?) Vendedores batem à porta, desatentos à placa de PROIBIDA A VENDA. Na hora em que dispenso o vendedor e volto para o meu assento, já perdi metade da minha audiência. As famílias que conheço que leem em voz alta com mais frequência (e, portanto, aproveitam mais dos benefícios) me dizem que esse tipo de leitura também não parece perfeito na casa deles; ao que me parece, eles raramente (isso se uma só vez) imaginaram que seria um momento de perfeição. As crianças brigam pelas almofadas do sofá. Alguém reclama que o mais novo está fazendo muito barulho. A criança que está aprendendo a andar sai correndoe começa a jogar os carrinhos no vaso sanitário antes mesmo de notarmos que ela sumiu. Um pula a cada minuto para apontar um de seus lápis coloridos, outro some na cena mais emocionante do livro. Existem infinitas interrupções e brigas constantes. Quando o momento de leitura em voz alta não é exatamente da maneira que imaginamos, começamos a duvidar que aquela rotina esteja nos dando algum daqueles maravilhosos benefícios que discutimos na primeira parte. Mas eis a questão: mesmo assim, ler em voz alta ainda funciona. Mesmo quando é barulhenta, bagunçada e mais caótica do que você gostaria que fosse, sua prática funciona. Mesmo quando as crianças estão resmungando, reclamando e não parecem estar ouvindo, sua execução dá frutos. Quando lemos em voz alta para os nossos filhos, apesar do fato de parecer muito diferente da nossa visão inicial, estamos dando um passo de fé. Se posso lhe contar uma coisa neste capítulo, é isto: continue dando esse passo. Quando visões idealistas surgirem na sua cabeça, quando você se pegar pensando sobre aquela publicação no Instagram daquela mãe cujos filhos parecem perfeitamente contentes enquanto ela lê um clássico por horas: simplesmente pare. Desligue a visão idealista, pois enquanto lê em voz alta, mesmo quando nada parece perfeito, você está se entregando. E você nunca se arrependerá. Você não dirá daqui a vinte anos algo como “Droga, se pudesse exercer a maternidade outra vez, leria menos para os meus filhos”. Vale a pena mesmo que não pareça nada com aquela linda foto de revista. Talvez valha a pena justamente por não parecer nada com uma foto de revista. Ler em voz alta mais parece com viver, amar e se entregar. Afinal, é exatamente essa a realidade. Sou muito parecida com a minha filha de quatro anos, Clara, tentando pegar um peixe com uma rede furada. Estou motivada. Estou usando boas listas de livros, colocando meus filhos no sofá, tentando fazer conexões significativas e duradouras com eles. Mas acreditar em qualquer um desses mitos é como tentar pescar com uma rede furada. Não funciona. Faço o trabalho, mas fico frustrada por não ser como pensei que seria. Clara só precisava de uma nova rede. Eu, portanto, preciso trocar minha crença de que preciso ler inúmeras horas em voz alta pela crença de que um pouco dia sim, outro pouco dia não causará impacto. Preciso usar os audiolivros em meu favor e tirar vantagem daquele maravilhoso impulso que pode dar vida à leitura em família. Preciso dar à minha família a liberdade de ler livros leves, a liberdade de se mexer, de se virar, a liberdade para nenhuma criança ficar parada enquanto leio. Acima de tudo, preciso entender que mesmo quando tudo vai contra as minhas expectativas, ainda assim o momento como um todo é de qualidade. Mesmo assim vale a pena. Apesar dos pesares, a leitura em voz alta ainda causará impactos de uma forma que eu dificilmente imaginaria. CAPÍTULO 8 Prepare-se para o sucesso Para que tenham vontade de ficar em casa com os livros, nossos filhos precisam de um lar que ama livros. — Elizabeth Wilson, Books Children Love [Livros que as Crianças Amam] Estávamos num dia de primavera excepcionalmente quente e eu não tinha nenhuma intenção de deixá-lo escapar. Peguei o romance juvenil de Jennifer Trafton, The Rise and Fall of Mount Majestic, um pacote de picolés no congelador e disse aos meus filhos que me encontrassem em uma toalha de piquenique no quintal em cerca de três minutos. Os pequenos foram direto para a porta, prontos para aproveitar uma festa surpresa à tarde. Acomodei-me na toalha, abri os picolés e logo chamei os mais velhos outra vez: “Vamos pessoal! Momento de leitura em voz alta!”. “Tô indo!” “Já vou!” “Chegando!” Clara derrubou seu picolé na grama e começou a espernear. Peguei o picolé e corri para limpá-lo na torneira da cozinha, observando pedacinhos de grama e sujeira escorrerem pelo ralo. “Vamos criançada! Toalha da leitura em voz alta! No quintal! Agora!”, eu disse. Ouvi um barulho de papéis vindo do escritório e o ruído do apontador elétrico. “Estamos chegando, mamãe! Só estamos pegando algumas coisas para fazer!” Voltei bufando para o quintal, percebendo que os picolés dos outros já estavam quase no fim. Eles haviam chupado pela metade, com aquele líquido grudento escorrendo por seus braços. Emerson segurou seu picolé derretido por cima da cabeça de seu irmão só para provocá-lo, olhando calmamente o suco vermelho que reluzia e fazia seu caminho com vagar até a orelha esquerda de seu irmão. Becket começou a espernear enquanto sentia aquele líquido grudento escorrer. Até que enfim os três mais velhos se jogaram na toalha de piquenique, mas não antes que os gêmeos reclamassem dos dedos pegajosos. “Vá pegar lenços umedecidos, por favor”, disse ao mais velho. O celular, que estava no meu bolso de trás, vibrou com uma mensagem do meu marido: “você pode me passar a nova senha do cartão, por favor? Estou tentando pagar algumas contas”. Logo em seguida a campainha tocou e os três menores pularam para ir ver quem era. Ri para não chorar diante de todo aquele absurdo. Não era para ser fácil? Não era para ser divertido? Como esse negócio de leitura em voz alta me ajudaria a criar laços profundos e para todo o sempre com meus filhos? No capítulo anterior, destruímos o mito de que o período de leitura em voz alta precisa ser como um dia já imaginamos. A realidade é que ele não parece nada com as nossas expectativas, ao menos não agora. Mas a leitura em voz alta pode ser mais pacífica — ou, no mínimo, menos caótica do que a experiência que acabei de mencionar — se nos preparamos para o sucesso. O que sei é o seguinte: o estilo de vida permeado de leitura em voz alta não existirá em nossos lares por acidente. Você e eu — pais em um mundo frenético, cheio de distrações — precisamos tornar a leitura em voz alta uma parte cotidiana, um momento proposital da nossa vida em família. Precisamos de algumas estratégias para nos ajudar a fazer com que o tempo de leitura em voz alta seja mais frequente, bem como estratégias para nos ajudar a aproveitar esses momentos em família. Sabemos que são momentos importantes — e sabemos muito bem! —, mas não queremos transformá-lo em mais um item de nossa lista de afazeres, mais uma tarefa que causa receio, amontoada em uma programação já lotada. Também precisamos de estratégias para lidar com as telas, pois todos nós enfrentamos um tremendo competidor do tempo e da atenção de toda a família. Precisamos nos preparar para o sucesso. LIÇÕES FOTOGRÁFICAS Foi um presente do meu aniversário de trinta anos e eu estava com medo dele. É claro que gosto de fotografar — e quem não gostaria de aprender a tirar fotos maravilhosas quando está prestes a surgir mais um recém-nascido na casa? Mas uma câmera DSLR é um presente de aniversário caro, então a recebi com um misto de deslumbramento e pavor. Como vou aprender a usá-la? E se meu talento e habilidade nunca chegarem ao nível desse equipamento? Com certeza meu marido se arrependeria de ter comprado algo tão caro. É claro que eu poderia aprender a fotografar em uma câmera muito mais barata do que aquela bela máquina. Agradeci Andy pelo presente e então peguei todos os livros sobre fotografia que pude encontrar na biblioteca. Li a respeito de como tirar fotos estáticas, fotos de movimentos, fotos de bebês. Aprendi sobre abertura, efeitos bokeh e função ISO. Acompanhei um trilhão de blogs de fotografia e até fiz um curso on-line. No ano seguinte, aprendi a usar a câmera — não como uma profissional, mas talvez como uma amadora entusiasta. Aprendi a não ter medo. Achei meu ritmo e aquele acabou sendo o melhor presente de aniversário que já recebi. Naquele ano, percebi uma coisa: mesmo lendo sobre técnicas fotográficas, eu não aprendi de verdade até deixar a teoria, pegar a câmera e ir ao quintal da frente para praticar fotografando meus dentes-de-leão. Foi quando comecei a usar melhor o obturador que percebi uma verdadeira melhora em minhas fotos. Acontece que a experiência é o melhorprofessor. Quanto mais eu pegava minha câmera, melhor ficava. Todas aquelas coisas obscuras que estava lendo nos livros, tipo “sombra aberta” e “iluminação facial” começaram a fazer sentido, mas só começaram a fazer sentido quando eu dei pernas e braços à teoria. Precisei começar a fazer para de fato alcançar os benefícios da prática. Vídeos do YouTube, tutoriais on-line e pilhas de livros podiam me levar apenas até certo ponto. Naquele ano, minha câmera estava sempre por perto. Para mim, não era natural fotografar com constância. Minha primeira reação não era fotografar assim que a luz entrava pela cozinha ou quando um tom dourado banhava o quintal. Ao invés disso, tive de me preparar para o sucesso. Tive de tornar fácil pegar minha câmera e começar a fotografar antes que visse qualquer verdadeira melhora em minha fotografia. FACILITE A maioria de nós deseja ter relacionamentos significativos e duradouros com os filhos. Se você já leu até aqui, estou disposta a apostar que você também deseja o mesmo. Também estou disposta a apostar que você sabe que a melhor maneira de ter relacionamentos assim é abrindo um livro com seu filho. Parece simples, não? E que alívio é saber que por mais opressora e intimidadora que a maternidade possa parecer, a melhor maneira de obter sucesso é simplesmente sentar-se com seus filhos e ler algumas páginas de um livro. E uma coisa é certa: se não tornamos a leitura em voz alta uma prática fácil — se não nos preparamos para o sucesso —, nada acontecerá. Se eu não colocar a câmera no balcão da cozinha e deixar a bateria carregada, provavelmente não fotografarei tanto quanto gostaria, e se não der alguns passos estratégicos para tornar o momento de leitura em voz alta uma prática simples, provavelmente não lerei com meus filhos tanto quanto gostaria. Se não é nossa prática pegar um livro e começar a lê-lo com nossos filhos, então podemos ser intencionais em tornar essa prática um hábito, e assim nos preparamos para o sucesso. Podemos facilitar a leitura em voz alta com mais frequência. Torne a leitura em voz alta uma prática acessível Quando descobri que fotografar mais era a chave para melhorar nessa área, percebi que precisava tornar o ato de pegar minha câmera algo mais habitual. Não estabeleci um alvo de quantas vezes por dia deveria fotografar, ou de quantas fotos gostaria de tirar por semana. O método que escolhi foi muito mais simples: deixar minha câmera onde a veria com frequência e pegá-la no momento que conseguisse. Todos os dias passo pelo balcão da cozinha inúmeras vezes. É por isso que a pilha de coisas do meu marido no canto da cozinha (que eu carinhosa, passiva e agressivamente chamo de estação de entulho) me deixa louca. Olho para aquela montanha o dia inteiro. O balcão da cozinha é, provavelmente, o lugar mais ocupado e frequentado em toda a nossa casa. É onde fico para preparar as refeições, onde junto minhas ideias, passo para a próxima tarefa, abro correspondências, corrijo lição de casa, assino formulários de permissão da escola dos meus filhos. É minha central de comando. Se eu deixar o livro que estou lendo em voz alta estrategicamente sobre a bancada, há uma grande probabilidade de que o verei um zilhão de vezes ao longo do dia. Há também a probabilidade de que, mais cedo ou mais tarde, eu acabe decidindo lê-lo em voz alta. Sabe quando você está tentando ter uma alimentação mais saudável e já deixa os vegetais picados dentro dum potinho na geladeira? Se a primeira coisa que vejo quando abro minha geladeira é um monte de cenouras picadas, é maior a probabilidade de pegá-las para comer quando estou ansiosa por um lanche. Nossos livros de leitura em voz alta dificilmente são como cenouras cortadas (pois é, né?), mas a mesma ideia se aplica: mantenha seu livro para leitura em voz alta num local acessível, facilite o acesso. O que você quer é vê-lo com frequência. Desta forma, você recebe um lembrete constante de que é algo que você deseja fazer hoje. Coloque alguns livros para leitura em voz alta no balcão da cozinha pela manhã, e veja se isso não a inspira a ler com um pouco mais de frequência do que se os livros estivessem escondidos, organizados de forma alfabética na estante ou organizadamente guardados em uma caixa debaixo da mesa na sala. Coloque seus livros em frente e no centro do balcão. Mantenha-os acessíveis. Assim não terá de sair do seu percurso quando for o momento para ler em voz alta, pois os livros estarão bem ali. Faça dessa prática algo fixo do seu dia Os hábitos são hábitos justamente porque acontecem sem que pensemos neles. Não há uma decisão quando se trata de um hábito. Todas as noites quando estou me preparando para dormir, ligo minha luminária de cabeceira e desligo a luz do teto. Não preciso pensar nisso, simplesmente faço quando entro no meu quarto a caminho do banheiro para lavar meu rosto e escovar os dentes. Quando desço pela manhã, não fico lá decidindo se preciso tomar café (imagine só!). Apenas ligo a cafeteira. É um hábito. Se você está convencida de que ler em voz alta com seus filhos é uma prática digna do seu tempo, então a maneira mais simples de fazer isso acontecer com mais frequência é transformá-la em um hábito. O jeito mais fácil que conheço de transformar a leitura em voz alta num hábito é relacionar a prática a alguma outra coisa que acontece todos os dias. Se você anexar a leitura em voz alta a algo que já faz todos os dias, a probabilidade de que fará aquela leitura vai repentinamente subir pelas paredes. Melissa Wiley, autora de vários livros, inclusive do alegre romance juvenil The Prairie Thief [O Ladrão da Campina], disse que quando seus filhos eram mais novos, ela queria ler poesia com eles. Mas era difícil encaixar a leitura em sua rotina; semanas se passavam e eles acabavam não lendo nem mesmo uma única estrofe. Certo dia, no entanto, ela percebeu que seus filhos apareciam com certa frequência para o café da manhã, então ela bolou um plano. Eles começaram a ler poesia juntos enquanto tomavam o café da manhã, e foi aí que Melissa percebeu que eles passaram a de fato ler com mais frequência. A prática só se tornou hábito quando a família começou a ler durante o café da manhã. Foi daí que se tornou costume. Eles passaram a ler poesia em família, e de outra forma não leriam com aquela frequência. Jamie Martin, autor do fabuloso livro Give Your Child the World, incorporou a leitura em voz alta à hora do jantar. Enquanto acabava de fazer o jantar, seu marido lia para as crianças ao redor da mesa para ajudá-los a se desligar das atividades do dia e acalmá-los. Então Jamie arrumava os pratos do jantar e todos comiam e conversavam sobre como foi o dia. Jamie e seu marido (ou quem acabasse primeiro o jantar) mais uma vez pegavam o livro e o liam de dez a quinze minutos. A hora do jantar já era um hábito na casa de Martin, então acrescentar a prática de ler em voz alta fazia sentido. Isso tornou a leitura em voz alta mais frequente. Refeições são um bom fixador, pois são diárias. Além disso, costuma ser fácil convencer as crianças a aparecer quando há comida envolvida. Como um bônus, a boca de todos está cheia, então o barulho pode ser mantido no mínimo (a menos que você tenha crianças de um a três anos, é claro; neste caso, as refeições talvez sejam os piores momentos do dia para ler em voz alta). Você pode decidir o que funciona ou não para cada época da sua família; sinta-se livre para mudar quando necessário. Considere qualquer coisa que acontece com frequência na rotina da sua família. O trajeto até a escola? A ida ao treino de basquete? Uma pilha enorme de roupas para passar? Insira uma breve sessão de leitura em algo que já acontece regularmente na vida de sua família e você descobrirá que é muito mais fácil ler em voz alta, mesmo nos dias mais ocupados. Quanto mais cedo, melhor Durante um inverno, quando meus filhos mais velhos tinham nove, sete e cinco anos, descobri que era muito mais fácil tirá-los da cama quentinha se soubessem que começaríamos o dia com uma leituraem voz alta. Levantávamos e saíamos cambaleando para a cozinha, cada um enchia uma xícara com café, chá ou chocolate quente antes de nos reunirmos nos sofás e então nos enfiávamos debaixo das cobertas e dávamos as boas-vindas ao dia com uma história. Naquele inverno, lemos O Mágico de Oz, Caddie Woodlawn, e Justin Morgan Had a Horse [Justin Morgan Tinha um Cavalo]. Estas são algumas das minhas lembranças prediletas daquele ano: logo cedo pela manhã o dia já nos aconchegava com boas histórias. Tivemos mais alguns filhos e, desde então, paramos de ler em voz alta antes do café da manhã, mas ler logo cedo pela manhã continuou sendo o padrão de ouro para mim. Sou uma mãe que fica mais descontraída e simpática se consigo fazer as coisas mais importantes do dia logo pela manhã. Mesmo se o restante do dia der errado, fico feliz que conseguimos fazer as coisas mais importantes. Além do mais, tendo a aproveitar mais os livros (e fico mais disposta a ler mais) se conseguimos ter o nosso momento de leitura em voz alta antes que eu fique cansada. Registre seu progresso Eu particularmente reluto para oferecer essa estratégia. Por quê? Pois quando enxergo uma necessidade de mudança em meu método de maternidade tendo a mudar tudo e fazer grandes planos. Por exemplo, se decido que precisamos passar mais tempo ao ar livre, então busco meios de estudar a natureza, faço uma lista de possíveis locais para visitar e reorganizo todo o meu calendário para dar espaço a uma caminhada semanal. Ou se vejo que não estou lendo minha Bíblia com a frequência esperada, logo crio uma tabela, me proponho a acordar antes do sol nascer para ler meu devocional e crio um rigoroso plano de leitura bíblica. Apesar dos meus esforços, no entanto, meus métodos raramente funcionam por muito tempo. Tendo a manter minha nova resolução por um ou dois dias e por fim acabo desistindo. Por isso, fico hesitante em sugerir que “registre seu progresso” como estratégia. Quando sinto que meus filhos precisam ficar mais tempo ao ar livre, o melhor que posso fazer é naquela hora dizer a eles que coloquem um calçado e levá-los para dar uma caminhada. Quando não gasto tempo suficiente na Palavra, o melhor a fazer é pegar na hora minha Bíblia e gastar dez minutos lendo meu evangelho predileto (só para constar, João). Se estiver frustrada por não conseguir ler em voz alta com seus filhos com mais frequência, o que você provavelmente precisa fazer é, naquele exato momento, pegar o filho que estiver mais próximo e escolher um livro que esteja na estante mais próxima. E então leia por dez minutos. Estou falando sério. Tem um filho dando sopa? Faça um teste agora. Vou aguardar. Viu? Você é uma mãe que lê em voz alta. Você não precisa de um quadro ou de um plano. Você só precisa de dez minutos e vontade suficiente para deixar a próxima tarefa da lista para depois enquanto gasta alguns minutos investindo naquele serzinho que significa o mundo para você. Sei que existem almas que amam e são motivadas por listas de afazeres. Sou uma delas. Por isso, estou sugerindo esse plano como uma estratégia contra o meu melhor julgamento. Consigo sentir a adrenalina ao marcar um X no calendário ou no quadro de casa quando completo uma lista, quando consigo ver o progresso. Contam que Jerry Seinfeld ensinava um jovem comediante a como melhorar suas piadas. Quando o humorista, ainda em aprendizado, pediu a Seinfeld o seu melhor conselho, Seinfeld lhe disse: “Escreva piadas novas todos os dias. Marque um grande X no seu calendário quando escrever uma piada nova”. Ou seja, ele falou ao comediante para que visse quantos X seguidos conseguiria marcar, tornando aquilo um objetivo de manter o ritmo. A lista de afazeres dentro de nós pode fazer o mesmo com a leitura em voz alta. Podemos fazer um X no calendário para cada dia que lemos em voz alta com ao menos um dos nossos filhos por dez minutos ou mais. Na verdade, você pode baixar de graça e imprimir um calendário específico para este propósito em ReadAloudCalendar.com. Eu mesma mantenho esse calendário anual na minha geladeira e sempre que leio por dez minutos ou mais (com qualquer um dos meus filhos) marco um X. Meu calendário não é infalível, mas pouco importa. Ao final de cada ano, vejo todos aqueles X no calendário me olhando de volta e sei que eles acumulam — que o tempo foi bem gasto, que sou uma mãe que lê em voz alta mesmo que não todos os dias. Isso me faz lembrar de que as pequenas coisas importam, que dez minutos por dia se acumulam e tornam-se horas e anos — uma vida gasta fazendo a coisa mais importante. Crie uma estante de livros que você pretende ler em voz alta O quarto mito que desmistificamos no capítulo anterior foi o seguinte: as crianças precisam permanecer sentadas enquanto lemos para elas. A verdade é que não precisam. Muitas crianças escutam bem mais quando estão inquietas ou se mexem de cá para lá enquanto se concentram. Aposto que você já sabe quais dos seus filhos mais se beneficiarão com as mãos ocupadas enquanto você lê para eles. Na minha casa, todas as crianças tendem a fazer alguma coisa enquanto leio em voz alta. Alguns precisam disso mais do que outros, mas mexer e rabiscar enquanto ouvem é uma prática comum em nosso lar. Contudo, manter não mais que uma lista mental daquilo que seus filhos podem fazer enquanto você lê em voz alta não é o suficiente. Lembra-se da minha experiência com os picolés e meus filhos mais velhos que estavam demorando h-o-r-a-s para vir ao momento da leitura em voz alta? Ter um espaço apropriado e de fácil acesso torna o momento de leitura em voz alta mais propício. É frustrante olhar para o relógio e perceber que tenho no máximo vinte minutos para encaixar um tempinho de leitura em voz alta antes que precisemos correr para o dentista ou preparar o jantar; daí então eu gasto metade desse tempo esperando por meus filhos. Enfim, acaba se tornando uma experiência de leitura em voz alta curta, cansativa e frustrante. A minha solução para essa dificuldade é montar uma estante de livros que pretendo ler em voz alta. Também pode ser uma gaveta, um armário, uma caixa, a depender da quantidade de espaço. Na minha estante de livros que pretendo ler em voz alta tenho um conjunto de gavetas organizadoras (do tipo usado em escritório) e um porta-revistas. Cada criança tem uma gaveta para guardar projetos em andamento. Se estiverem no meio de um desenho, pintura, ou usando um caderno de caligrafia, eles, por exemplo, podem guardar o trabalho em progresso em sua própria prateleira. Meu porta-revistas fica cheio de atividades acessíveis. Um só porta-revistas comporta vários manuais de desenho, rascunhos e lápis apontados. Quando chega o momento de ler em voz alta, tudo que preciso fazer é pegar o porta-revistas e chamar as crianças para a mesa. Esse planejamento nos faz começar o nosso momento de leitura em voz alta muito mais rápido e de forma menos atrapalhada. Outro porta-revistas guarda papéis para pintura e potes de tinta/pincéis, manuais de cortes com tesouras para a pré-escola e plásticos com adesivos reutilizáveis usados, etc. Apenas pegue qualquer objeto que esteja planejando deixar seus filhos manusear durante o período de leitura em voz alta e os agrupe proposital e estrategicamente para uso rápido e fácil. Talvez você queira dar a cada filho seu próprio porta-revistas. Por exemplo, minha filha mais velha enche o dela com folhas de caligrafia, exercícios e canetas para caligrafia. Meu filho de doze anos prefere encher o seu com origamis e materiais para fazer aviões de papel. Com esse preparo, você (e seus filhos) não perderá o seu precioso tempo de leitura em voz alta planejando distrações ou tentando pensar no que fazer. Aproveite as vantagens de um público cativo Como já falamos no Capítulo 7, os audiolivros são, sim, válidos. O carro é um excelente lugar para ouvir audiolivros. Semanalmente, acabamos lendo bastante em voz alta durante nossas viagens de 35 minutos até o instituto de apoio voltado ao ensino domiciliar; apesar disso, o trajeto ficamuito mais divertido quando ouvimos audiolivros juntos. Quando ouço a série Little House lida por Cherry Jones (um queridinho de nossa família), imediatamente penso nas longas viagens ao longo da Interestatal 90 no estado de Washington durante o ano em que mudamos de um lado do estado para o outro. Na minha opinião, os infindáveis campos de trigo de Washington casam perfeitamente com o violino de Pa, com as descrições angustiantes de Laura em O Longo Inverno e com o concurso local de soletração. Dentro do carro, seus filhos basicamente se tornam uma audiência cativa. Se os seus (assim como os meus) tendem a brigar em viagens de carro, você descobrirá que os audiolivros são um alívio bem-vindo. De qualquer forma, você fará mais leituras em voz alta se aproveitar o tempo que já está gastando no carro desfrutando um livro em família. Livros espalhados por todos os quartos Pesquisas indicam que crianças que vivem em lares onde há abundância de livros se beneficiam da simples presença dos livros. O fato de estarem lá exerce efeito positivo e duradouro sobre nossos filhos — na forma de pensar sobre o lar, na forma de pensar sobre si mesmos, na forma de ver o papel dos livros. Como uma família escolhe gastar dinheiro diz muito sobre quem são e sobre o que valorizam. Se deseja que sua família seja uma família leitora, considere deixar os livros fazerem parte do seu orçamento familiar. Você pode comprar livros por um bom preço em vendas de bibliotecas, sebos e bazares. Você não precisa encher suas prateleiras de uma vez. Ter apenas alguns poucos livros maravilhosos é melhor do que colecionar pilhas e mais pilhas de livros simplórios e que ninguém sente vontade de ler. Você também pode adquirir o hábito de comprar um livro para o seu filho a cada feriado ou aniversário, integrando os livros à celebração em família. Dar uma mesada aos filhos para ajudá-los a aumentar a coleção na estante. Uma vez por mês, os meus filhos recebem determinado valor para o gasto com livros. Meus filhos ficam ansiosos para voltar à livraria e mantêm listas de títulos que gostariam de adquirir. Allison ama a qualidade de brochuras da Bloomsbury; então, quando encontra outro livro da série Wide-Awake Princess [O Despertar da Princesa], de E. D. Baker, ela usa sua mesada de livros para comprá-lo (mesmo que já o tenha lido). Audrey usou sua mesada para formar uma linda coleção da Lucy Maud Montgomery. Ela está sempre à procura de clássicos com lindas capas e projeto gráfico exuberante para adicionar à sua bela prateleira. Dois dos meus filhos literalmente contam os dias todas as vezes que Brandon Mull está prestes a lançar outro romance fantástico. Eles nem tentam pegar emprestado da biblioteca, pois já sabem que querem tê-los na prateleira, para lê-los e relê-los. Estes livros, comprados com seu próprio dinheiro e organizados em suas prateleiras, tornam-se parte de preciosas coleções pessoais. Quando forem adultos e saírem de casa, todos levarão embora formidáveis bibliotecas; bibliotecas que os ajudarão a lembrar quem são e de onde vieram, mesmo muito depois de terem deixado o lar. Passamos uma imagem clara aos nossos filhos quando gastamos parte de nosso orçamento familiar com livros e quando damos aos livros um espaço prioritário em nosso lar. Comunicamos que os livros são fundamentais, que fazem parte de quem realmente somos, que cada obra é um pedaço da cultura do nosso lar. O CANTO DA SEREIA DAS TELAS Eu costumava levar meu iPhone para cama. Dizia a mim mesma que o estava usando como um alarme, o que era verdade. Eu o colocava em meu criado-mudo e entrava debaixo das cobertas, pegava meu livro, ajeitava os travesseiros e lia um ou dois parágrafos. E então me lembrava. Daí logo ia olhar minhas notificações! Só dar uma olhadinha no celular! Trinta minutos depois, me pegava navegando no Instagram sem nem me lembrar de ter aberto o aplicativo. Ficava frustrada por ter usado tanto tempo de leitura para mexer na internet. O celular deveria ser não mais que um alarme! Sou uma mulher de 36 anos, considero-me leitora, faço planos de leitura e tenho uma lista de livros não lidos de mais ou menos um quilômetro de altura. Meu desejo é conseguir ler muitas páginas todos os dias, e ainda assim dificilmente consigo resistir ao canto de sereia das telas. Meu celular pode ficar no silencioso, no modo vibrar ou mesmo permanecer em modo avião no criado-mudo, e mesmo assim sinto minha atenção sendo desviada para ele. Se esta é a minha experiência sendo uma mulher adulta, quanto mais sedutoras as telas não são para os nossos filhos? Quanta tentação eles não acabam encarando quando se sentam com um livro ou qualquer outra coisa menos atrativa, viciante ou chamativa do que as telas? As telas são parte da nossa vida moderna e para a maioria de nós estão aqui para ficar. Conheço famílias que proíbem dispositivos e telas em seu lar, e se este é o seu caso, o restante deste capítulo não o ajudará muito. Mas se você, assim como eu, deseja ajudar seu filho a aprender como navegar em um mundo de telas de maneira saudável, permitindo o uso moderado de tecnologia e dispondo tempo abundante para os livros, então continue lendo. O Dr. Daniel Willingham compara o livro a uma melancia: suculenta, doce, deliciosa. Seus filhos adoram uma boa fatia de melancia, eles se deliciam com a deliciosidade daquele pedação suculento, docinho e gelado num dia bem quente. Agora, se o seu filho tiver de escolher entre um doce e uma fatia de melancia, ele certamente escolherá o doce. Aqui é onde entramos como pais. De vez em quando, podemos oferecer doce (as telas) para os nossos filhos, mas não deve ser uma opção constante. A melancia (o livro) é em si um doce delicioso e nutritivo, desfrutado com mais prazer quando não somos tentados por guloseimas. Ao tirar as guloseimas da mesa em alguns momentos, aliviamos dos nossos filhos o peso da escolha. A liberdade que damos aos nossos filhos para que desfrutem da melancia surge quando anulamos a escolha de comer o doce. Estabelecendo limites para as telas Em vez de estabelecer alguns momentos do dia em que as telas não são uma opção, estabeleça alguns momentos no dia em que são. O segredo é inverter a ordem. Se proibir as telas em determinados horários, na verdade você estará abrindo o restante do dia para seu uso. Mas tente inverter esse padrão, tornando as telas exceção, não regra. Conheço famílias que permitem o uso das telas apenas das 14h às 16h, ou das 19h às 20h, por exemplo. No restante do tempo, a regra é: “Sem telas — nem peça”. Para o pai cansado de ouvir “Posso assistir...?” ou “Posso jogar…?” ou de ver o filho adolescente conversando com os amigos pela internet e usando as redes sociais sem parar, este é um alívio mais que bem-vindo. Se, por exemplo, a regra é “sem telas”, a não ser das 18h às 20h, então nossos filhos estão livres do desejo de lidar com as telas antes das 18h, pois sabem que não adianta nem tentar, que não poderão usar e então partem para outra atividade. Considero regras como essas úteis para refrear também o meu próprio uso das telas. Apenas você poderá decidir quando e quanto tempo é apropriado para que seus filhos tenham a opção de usar as telas. Mas veja bem: quando passa a permitir as telas, você basicamente pergunta se eles preferem uma fatia de melancia ou um doce. Não espere que seu filho escolha a melancia quando o doce der as caras. Nossos filhos dificilmente lerão se tiverem infindáveis oportunidades de ir às telas. Faz parte da natureza humana escolher o que requer menos esforço — quase sempre sinônimo de uma tela. Limitar o uso das telas abre portas para muitas outras atividades — leitura (ao menos é o que espero), jogar bola, andar de bicicleta, atividades artesanais, jogos de tabuleiro, lição de casa, conversas longas e prazerosas, estreitar laços, ajudar com as tarefas de casa. Mantenha as telas em seu devido lugar, limite-as a determinados horários e não as deixe descontroladas nas mãos do seu filho. Nossos momentos de leitura em voz alta provavelmente nãoserão como imaginamos em nossos sonhos mais idealistas. Não é por acidente que passamos a ter um estilo de vida envolto pela leitura em voz alta, leitura com prazer e deleite. Mas se nos prepararmos para o sucesso, aumentaremos a chance que temos de nossos filhos, no futuro, considerarem as lembranças da leitura em família como uma das mais queridas. Mantenha por perto o livro que você estiver lendo em voz alta com seus filhos, relacione o momento de leitura em voz alta com algum hábito do seu dia e simplesmente leia o mais cedo possível. Se quiser, registre seu progresso e torne acessível o momento de leitura em voz alta criando uma estante com os livros lidos e pendentes e com materiais de atividade para seus filhos. Sempre que possível, tire vantagem da audiência cativa no carro e tome cuidado com as telas. Lembre-se de não esperar que o seu filho escolherá a melancia no lugar do doce. Agora, você só precisa encontrar um livro que manterá todos envolvidos. Trataremos disso a seguir. CAPÍTULO 9 Seja uma casamenteira literária Estou prestes a estabelecer como canônico o fato de que uma história infantil apreciada apenas por crianças é uma história infantil ruim. As boas perduram. — C. S. Lewis, “Três Maneiras de Escrever para Crianças” Quando os meus três filhos mais velhos eram pequenos, eu mal podia esperar até conseguir ler romances juvenis para eles. Eu gostava de usar livros ilustrados, mas foi essa literatura que me transformou em uma leitora na minha juventude. Os livros de Beverly Cleary, Roald Dahl e Lois Lowry foram os que instigaram a minha imaginação infantil e fizeram de mim uma amante de livros. Eu mal podia esperar para introduzir histórias e personagens já queridos aos meus filhos. Quando meus filhos mais velhos tinham cinco e três anos, eu, entusiasmada, já quis introduzir nosso primeiro romance juvenil, mas ainda era cedo demais. Decidi começar com o padrão de ouro da literatura infantil. E qual mais seria senão Uma Casa na Floresta? Tivemos problemas. Meus filhos não acompanharam o enredo, nem aquelas passagens longas e descritivas. Fiquei entediada e, no final, sentime um fracasso, pois estávamos lendo nosso primeiro romance juvenil — uma joia literária, nada menos que isso — e estava sendo horrível. O que descobri depois daquela experiência desanimadora é que, em se tratando de leitura em voz alta, nem todos os livros são iguais. Eu ainda não havia desenvolvido minhas habilidades dessa prática bem o suficiente para transmitir aquelas passagens tão arrastadas e descritivas de maneira interessante. Minhas meninas não tinham o costume de criar imagens mentais e seguir uma longa narrativa. Por fim, acabei frustrada e desencorajada num momento crítico da nossa jornada de leitura em voz alta. É claro que Laura Ingalls Wilder escreveu alguns dos melhores livros infantis já publicados, e desde aquela primeira tentativa acabamos lendo sua série completa três vezes — a maior parte das vezes pela versão em áudio narrada por Cherry Jones. Mas eu aprendi uma importante lição naquele primeiro fracasso: alguns livros são mais oportunos para leitura em voz alta, enquanto outros, ainda que de fácil entoação, são mais propícios para momentos futuros. Também aprendi que o prazer pessoal (ou a falta dele) exerce um papel importante na vida de leitura em voz alta da minha família. Queremos que nossos filhos leiam por amor à leitura, e não só porque conseguem ler. Sabemos que eles não usarão muito do tempo livre para ler, a não ser que tenham prazer no ato da leitura. Nossa expectativa, portanto, é que eles desenvolvam um gosto pelos livros por puro prazer. Essa alegria, é claro, começa com os próprios livros. Neste capítulo, começaremos com um objetivo em mente: como tornar-se a casamenteira literária da nossa família. O PROPÓSITO DE UMA CASAMENTEIRA LITERÁRIA Ouvintes do podcast What Should I Read Next? [O que ler depois?] já logo reconhecerão a ideia de casamenteira literária. Anne Bogel, fundadora e apresentadora do podcast, por vezes faz justamente esse papel com sua audiência. O método da Anne é simples. Ela pede ao convidado do programa que faça uma lista de livros que ama, mencione um de que não gostou e cite o que está lendo no momento. Sabendo disso, ela recomenda três livros que o convidado provavelmente irá gostar. E se nos tornássemos casamenteiras literárias para os nossos filhos? E se eles soubessem que a mãe deles pode indicar bons livros? Não o que devem ler para ler melhor, ou para ter uma compreensão mais aguçada, ou para atingir algum requisito acadêmico, mas sim o que devem ler pelo mais puro deslumbramento diante da palavra escrita. Afinal, adultos que de fato leem — digo, ler por prazer, como um passatempo —, leem aquilo que traz alegria. POR ONDE COMEÇAR Quando se trata de escolher grandes livros para a leitura em família, o primeiro passo é simplesmente saber por onde começar. Você pode se sentir despreparada para escolher livros preciosos e excelentes. Você não tem todo o tempo do mundo, então a pré- leitura não costuma ser uma opção. Logo após aquela primeira leitura do Manual da Leitura em Voz Alta, quando Audrey tinha um ano, coloquei-a no canguru e desci as longas e estreitas escadas que levavam à biblioteca pública da cidade em que morávamos. Hoje, disse a mim mesma, segurando melhor a mochila vazia e afastando o cabelo dos meus olhos com a parte de trás do meu pulso, vamos pegar alguns livros. Eu estava cheia de zelo e determinação, cansando-me de infinitas rodadas de Boa Noite, Lua e Mr. Brown Can Moo! Can You? Tinha certeza de que a biblioteca poderia resolver aquele impasse. Quando criança, eu tinha o costume de ir à biblioteca e passar tardes inteiras garimpando as estantes, imaginando se seria possível ler todos os livros da biblioteca. Mas agora adulta, mãe, eu me sentia sem prática. Já havia anos que não pisava em uma biblioteca. A porta de vidro se abriu. Ajustei a Audrey no meu colo e senti o cheiro ligeiramente mofado e inconfundível de livros usados. Chegamos ao departamento infantil, onde dei uma olhada na sala, vendo as poltronas gastas e desbotadas, as mesas baixas com mouses analógicos e fones de ouvido gigantes. Vi livros ilustrados, livros de fantasia infanto-juvenil e expositores lotados de livretinhos para crianças. Versões gigantes dos personagens Frog e Toad, de Arnold Lobel foram colocadas na recepção, e um recorte de papelão de Junie B. Junes dizia corajosamente: “Regras de leitura!”. Enquanto passava de prateleira em prateleira de livros ilustrados, suas finas lombadas se comprimiam uma ao lado da outra no que parecia ser um milhão de repartições. Então me dei conta: não faço ideia de por onde começar. Algumas coisas você simplesmente sente que deveria saber, mesmo sendo mãe há pouco tempo. Sentimentos de incompetência e inadequação me dominavam enquanto permanecia lá de pé na biblioteca. Audrey se contorceu em meus braços, então sentei-a no chão e depois comecei a pensar em levar para casa uma coleção inteira de livros. Com certeza, pensei, alguns desses livros são melhores do que outros. Quando lemos juntos em casa, os livros de Jan Brett ou de Tomie dePaola me divertiram muito — a cadência do texto e a beleza das ilustrações me conduziram em cada história e me deixaram um pouco mais feliz de estar viva ao final de cada obra. E também havia outras obras — do tipo que leio rápido, pulando parágrafos ou páginas inteiras quando conseguia. Eram enfadonhas de ler e me entediavam até a morte. Qual era a diferença? O que tornava um livro tão envolvente e outro tão chato? E como eu seria capaz de dizer qual era um mar de possibilidades, a menos que tivesse tempo e recursos para lê-los antes? O QUE É UM BOM LIVRO? Antes de explorarmos os princípios de uma casamenteira literária, falemos sobre o que é um bom livro e como ele age. Você também pode tornar-se uma verdadeira especialista em livros por mérito próprio se aprender a buscar duas características importantes nas obras que encontrar. Bons livros cativamtodas as idades Em primeiro lugar, um bom livro cativa o leitor independentemente da sua idade. Este é o ponto mais importante acerca dos livros escritos para crianças: eles também cativam o adulto. Nárnia cativa crianças e adultos. E quando um pai acha que determinado livro é bobo ou banal, há uma grande chance de que a criança que ouve a história concorde. Lembro-me de ouvir uma mãe contar que levou seu filho para ler em voz alta com ele um dos livros da saga Harry Potter em uma cafeteria local. Os dois se sentaram em uma mesa ao lado de fora e começaram a ler enquanto carros passavam e passarinhos ciscavam. Enquanto mãe e filho eram transportados para Hogwarts, um estranho se aproximou: era um homem com capacete de bicicleta; ele acabava de chegar à cafeteria para tomar o seu café diário. Estacionando sua bicicleta, ele ouviu a mãe lendo. “Com licença”, disse o homem, sorrindo e se ajeitando em uma mesa ao lado. “Apenas quero ouvir o que vai acontecer em seguida”. Sara, uma ouvinte do podcast ReadAloud Revival, colocou para tocar o audiolivro The Mysterious Howling [O Uivo Misterioso] , o primeiro livro da série The Incorrigible Children of Ashton Place [Os Incorrigíveis de Ashton Place], de Maryrose Wood, em uma longa viagem de carro durante as férias de verão em família. “Estávamos rindo com nossos filhos e tentando adivinhar como seriam as férias, e quando chegamos ao acampamento, queríamos viajar só um pouquinho mais”, disse ela. “Ficamos inventando desculpas para voltar para o carro — encontrar a recepção, encontrar a praia mais distante do nosso acampamento”. Ela ria. “Não nos lembramos muito do acampamento, mas todos nos lembramos daquela história!” Bons livros causam essa reação. A obra chama a atenção de todos nós — adultos e crianças — e nos prende. Também é agradável, independentemente da nossa idade (sem levar em consideração o gosto pessoal, que discutiremos em breve). Bons livros enchem o leitor de esperança Em segundo lugar, um bom livro deixa o leitor mais agradecido por estar vivo. Você fica ofegante quando acaba de ler as últimas páginas e agora está um pouco mais deslumbrado com o nosso grande e glorioso mundo. O livro pode ser trágico (Ponte para Terabítia, de Katherine Paterson), comovente (A Single Shard [Um Único Fragmento], de Linda Sue Park), bobo e sem sentido (The Thirteen Clocks [Os Treze Relógios], de James Thurber), e mesmo assim deixar o leitor com um sentimento que acha difícil de expressar: deslumbramento com o mundo e com a vida, gratidão pela humanidade e o seu ser único, bagunçado e cheio de vida. O livro que não deixa o leitor com esperança negligencia seu papel mais importante: ajudá-lo a enxergar o mundo outra vez. Livros engraçados fazem isso, livros tristes fazem isso, livros comoventes, angustiantes ou despreocupados fazem isso. Eles nos deixam com uma nova visão. Eles nos permitem enxergar o mundo aparentemente normal ao nosso redor — e as pessoas que vivem nele — com novos olhos. Um livro deve nos encher de esperança, mesmo no meio de uma emoção terrível ou de uma tristeza de partir o coração. LISTAS DE LIVROS SÃO COMO RODINHAS DE SEGURANÇA Naquele dia na biblioteca, sentei-me com a Audrey em uma cadeira de plástico baixa e comecei a ler uma pilha de livros cartonados que alguém havia deixado na mesa infantil. Eram livros chatos — não valia a pena levá-los para casa —, então pus a Audrey no canguru e voltamos para o carro de mãos vazias. Eu sabia do que precisava. Eu precisava daquela lista no final do Manual de Leitura em Voz Alta. À medida que você se prepara para se tornar a casamenteira literária da sua família, as listas de livros tornam-se rodinhas de segurança em bicicletas infantis. São ferramentas inestimáveis aos pais que estão aprendendo a colocar os livros nas mãos de seus filhos a fim de estimular o amor pela leitura e encher o lar com os melhores livros e as melhores leituras. Pense em uma boa lista de livros como um bom par de rodinhas de segurança na bicicleta do seu filho. Elas o ajudarão a pedalar com segurança antes que consiga andar sozinho; elas se tornam companheiras confiáveis para um passeio seguro. Na terceira parte deste livro, você encontrará uma lista de livros que se tornará uma companheira de confiança em sua própria jornada de leitura em voz alta. Li cada um dos livros da lista e muitos deles em voz alta. Mas você também encontrará recomendações maravilhosas em livros como Honey for a Child’s Heart [Doçura voltada ao Coração da Criança] e Give Your Child the World — livros em que os autores fizeram a difícil tarefa de ler, analisar, separar, classificar e recomendar previamente outras obras. Uma boa lista de livros é minha linguagem de amor, e se estiver pronta para uma lista mais diferenciada do que aquela incluída aqui, você pode encontrar uma coleção de todas as minhas listas em ReadAloudRevival.com. É claro que listas de livros são sempre criadas por uma pessoa com um gosto literário único e que você não vai querer substituir suas próprias opiniões e gostos por uma única lista, independentemente de quão respeitável seja. Use as listas de livros como rodinhas de segurança, mas uma vez que tenha alcançado velocidade e habilidade suficientes para andar por conta própria, confie na intuição que Deus lhe deu e na Avaliação de 3 Perguntas (a seguir) para decidir quais livros entram na lista de favoritos de sua família. Nenhuma lista pode ser completa, pois assim como seus familiares são pessoas únicas e especiais, assim serão também as escolhas dos livros. Sua lista deve refletir as belezas da singularidade, dos gostos e dos desgostos da sua família. COMO ESCOLHER LIVROS SEM UMA LISTA: A AVALIAÇÃO DE 3 PERGUNTAS E se você não tiver uma lista de livros? E se você estiver tentando tomar uma decisão sobre um livro que não encontrou em nenhuma lista confiável? O que fazer nessa situação? É fácil conduzir a Avaliação de 3 Perguntas. Primeiro, abra o livro nas primeiras páginas e leia (você precisará usar uma amostra grátis se estiver analisando o título em sua versão on-line). Leia alguns parágrafos (ou algumas páginas se for um livro ilustrado). Depois, pule para uma parte mais no meio do livro — talvez um terço ou na metade do livro — e leia mais alguns parágrafos ou páginas. Não deve levar mais do que alguns minutos, pois você só quer uma amostra do livro. Então, responda rapidamente a estas três perguntas: 1. Imagens: você é capaz de imaginar a cena com os olhos da imaginação? O que você está buscando é um texto capaz de transportá-la para dentro da história a fim de que possa enxergá-la vividamente em sua imaginação. Se for um livro ilustrado, observe se as imagens a capturam e se você tem ou não vontade de olhar para elas um pouco mais do que o necessário. 2. Vocabulário: a escolha das palavras parece ser rica e variada? Evite livros com linguagem simplória ou abobalhada demais. Os melhores livros para leitura em voz alta contêm uma grande variedade de palavras — o tipo de vocabulário que dá vontade de pronunciar em voz alta. 3. Curiosidade: você está interessada em saber o que acontecerá a seguir? Provavelmente, a leitura não vale a pena se a sua resposta a essa pergunta for “não”. O livro não precisa passar necessariamente pelo teste destas três perguntas para ser considerado digno de leitura. Na maioria das vezes, passará por duas das três perguntas, o que costuma ser o suficiente. Por exemplo, um livro que não contenha textos (como o hilário livro sem palavras de Peggy Rathmann, Goodnight Gorilla [Boa Noite, Gorila], ou os livros de Alexandra Day) ainda pode passar pelo teste com imagens cativantes e o estímulo à curiosidade. Às vezes, o vocabulário de um livro é simplificado para adequar leitores iniciantes, como no caso dos livros de Mo Willems, ou de Sam e Dave Cavaram um Buraco, de Mac Barnett e Jon Klassen. Estes livros contêm ricas ilustrações e definitivamente levam os leitores a imaginar o que vai acontecer a seguir. A Avaliação de 3 Perguntas não é infalível, mas é umamaneira eficaz e confiável de decidir se um livro merece espaço na pilha de livros para ser lido em voz alta com sua família ou na pilha de livros que seus filhos lerão. Da próxima vez que estiver vasculhando livros usados ou conferindo o estoque da Amazon, considere essa Avaliação de 3 Perguntas e veja se ela não a ajuda a fazer melhores escolhas. Lembre-se, estamos buscando imagens vívidas, linguagem rica e algo que estimule a curiosidade. PRINCÍPIOS PARA A CASAMENTEIRA LITERÁRIA Tratamos das duas características de um bom livro, do valor das listas de livros como rodinhas de segurança e do uso da Avaliação de 3 Perguntas. Existem apenas mais alguns princípios úteis para se ter em mente enquanto você realiza o papel de casamenteira literária para a sua família. Saiba quando abandonar o livro Assim como temos um paladar único e preferência por certas comidas, também temos preferência por determinados livros. Não há problema se sua família amar um livro que outro amante de livros que você admira não goste. Da mesma forma, não há problema em ficar entediada por algo que sua amiga leitora adora. Jim Weiss — aclamado contador de histórias e narrador de centenas de histórias em áudio pela Greathall Productions — certa vez me disse que a primeira e principal regra para contar histórias é que você — o contador da história — também ame a narrativa. “A primeira regra, a regra infalível”, disse ele, “é que você só conte ou leia em voz alta as histórias que ama. Se você tentar contar uma história de que não gosta, seus filhos perceberão e não vai dar certo”.1 Logo, essa é sua deixa para abandonar um livro que não lhe trouxe interesse. Mesmo que esteja em todas as listas de livros. Mesmo que seu melhor amigo lhe diga que é o melhor livro que já leu. Com tantas histórias maravilhosas no mundo, você quer que os momentos de leitura em voz alta em família sejam marcados por memórias vívidas e prazerosas, não ofuscadas por um senso de obrigação e frustração. Lembro-me de abandonar O Hobbit quando me vi evitando o momento de leitura em voz alta. Acontece que Rob Inglis faz um trabalho muito melhor de ler o livro em áudio, e meus filhos ainda receberam os incontáveis benefícios de ouvir Tolkien lido em voz alta. Pude prosseguir para a leitura em voz alta de Um Caminho na Noite, de Lois Lowry, algo que desejava fazer há algum tempo. Recentemente, tentei ler em voz alta o premiado livro The Westing Game, de Ellen Raskin para os meus três filhos mais velhos. O livro era interessante e tinha um enredo convincente, mas a quantidade de personagens e mudanças frequentes de cenários o tornaram difícil de ler em voz alta. Um dos meus filhos ficava constantemente perdido, fazendo perguntas a todo momento só para manter os fatos ordenados na cabeça. Finalmente, percebi que não estava querendo mais o momento de leitura em voz alta, então o deixei para meus filhos que queriam terminá-lo por conta própria ou ouvi-lo num audiolivro. E no nosso momento de leitura em voz alta, passamos para outro livro. Várias pessoas consideraram como favorita a série Little Britches, de Ralph Moody. Li o primeiro livro inteiro em voz alta para os meus filhos, mas me peguei contando páginas e olhando para o relógio todas as vezes que o líamos juntos. Quando acabamos o primeiro da série, eu disse aos meus filhos que se quisessem ler os demais, teria o prazer de comprar os audiolivros, mas não os leria em voz alta. Eu simplesmente não estava gostando deles o suficiente para continuar. Nós simplesmente não amamos os mesmos livros — e não é legal sermos um pouquinho diferentes uns dos outros? Não lute contra este fato — celebre-o. Abandone o que não está funcionando para o seu momento de leitura em voz alta. Quando se trata de compartilhar livros com seus filhos, o prazer é muito importante. Cace a jujuba certa Laura Martin, autora dos livros Edge of Extinction [À Beira da Extinção] (os quais meus filhos e eu achamos irresistíveis), certa vez disse que escolher o livro certo é como procurar por uma boa jujuba.2 Laura disse que não existe uma criança que não goste de ler. Ela recontou muitas de suas experiências como professora do sétimo ano e os emocionantes desafios de ajudar crianças que não gostavam de ler a se apaixonarem pelos livros. De modo geral, seus alunos presumiam que não gostavam de ler, mas isso ocorria apenas pois não haviam encontrado o livro certo. Era como provar uma jujuba de menta e então decidir que não gosta de jujubas. Mas menta é apenas um dos sabores. Não importa quem você seja, há um sabor que você amará. Você apenas precisa encontrar o sabor certo. Portanto, não desista. Se estiver tendo uma experiência de leitura em voz alta frustrante, não significa que a leitura em voz alta não funciona para a sua família. Significa apenas que você ainda não encontrou o livro certo. Procure outra jujuba. Ela está guardada em algum lugar. Ajude seu filho a formar seu próprio gosto literário Lamento dizer que as pessoas que gostam de ler têm uma tendência infeliz ao elitismo. Sei disso, pois sou uma delas, e também porque passo meu tempo com pessoas semelhantes. Em nome de ajudar nossos filhos a amar o que é bom, verdadeiro e belo — e em nosso zeloso desejo de colocar livros de qualidade nas mãos de nossos filhos —, temos o infeliz hábito de depreciar livros que decidimos deixar de lado. Queremos cultivar um bom gosto literário, sim, mas há uma grande diferença entre bom gosto e elitismo. É tentador dizer aos nossos filhos de quais livros eles devem ou não gostar, mas o bom gosto é adquirido ao longo do tempo. Bom gosto varia de pessoa para pessoa. Deus deu a cada um de nós um paladar único, e por isso podemos desfrutar de experiências culinárias ricas e variadas. Estou convencida de que ele nos deu um paladar literário único pelos mesmos motivos. A melhor maneira de ajudar nossos filhos a desenvolver um bom gosto literário é colocar vários bons livros em seu caminho. Enchemos nossa casa de bons livros e tornamos quase impossível que nossos filhos os evitem. Quando lemos em voz alta, escolhemos livros que cativam independentemente da idade, que nos deixam com um senso geral de esperança. Escolhemos livros com imagens vívidas, linguagem rica e enredos cativantes. Desta forma, damos à nossa família uma excelente chance de adquirir bom gosto com o tempo. No Capítulo 7, disse que minha filha mais velha, quando mais nova, devorava livros de literatura leve — livros como The Babysitter’s Club e Cupcake Diaries. Juntos, também lemos em voz alta muitos clássicos — ganhadores da Medalha Newbery e outros livros que, sabia eu, apelavam a uma ampla variedade de idades e que nos deixariam com esperança e amor pelo mundo e pelas pessoas que nele habitam. Minha filha mais velha ainda gosta de ler livros mais leves (todos nós gostamos, mesmo que um tiquinho, não é verdade?), mas seus favoritos são clássicos escritos por Louisa May Alcott, Lucy Maud Montgomery e Maud Hart Lovelace. Quando enchemos o prato literário de nossos filhos com os melhores livros que podemos encontrar — livros que apelam a múltiplas idades, que fazem nos sentir mais deslumbrados e mais gratos do que estávamos quando começamos a lê-los, obras que falam ao coração mediante o uso habilidoso e lúdico das palavras —, o que de fato lhes damos é um banquete. E o que um gosta, talvez outro não goste. Não tenho problema com isso, visto que as opções são muitas. Vale perceber, no entanto, que acabamos não indo muito longe quando descartamos algo que nossos filhos amam. Na verdade, provavelmente causaremos um grande estrago, fazendo a criança imaginar o que há de errado com ela, pois gosta de algo que seus pais acham que é um “lixo”, “tolice” ou “bobo”. Ao invés disso, considere a ideia de que livros mais tranquilos acabam sendo como uma pequena tigela de cereais numa mesa posta com uma grande variedade de comidas mais nutritivas. Aquela tigela de cereais não diminui a grandeza e a riqueza do grande banquete. Não passa de uma pequena, embora prazerosa partede uma ampla e variada refeição. Não me sinto amada e cuidada quando alguém descarta ou insulta minhas coisas favoritas, e tenho certeza de que o mesmo ocorre com os meus filhos. Se desejamos cultivar um bom gosto em nossos filhos, podemos concentrar nossos esforços na decisão de expô-los a livros bons, a livros maravilhosos. Permitimos que nossos filhos cultivem seu próprio gosto literário quando colocamos diante deles um banquete variado dos melhores livros que podemos encontrar e os deixamos livres para desenvolver seu próprio relacionamento com o que leem. Você não precisa abraçar o mundo Seus filhos não precisam passar por nenhuma lista de livros específica até determinada idade para que só então possam ser considerados crianças instruídas, educadas e prontas para o mundo. Preciso repetir isso? Seus filhos não precisam ler determinados livros antes de sair de casa. Na verdade, nem mesmo queremos que nossos filhos leiam todos os livros maravilhosos que existem por aí enquanto estão em nossa casa. Queremos deixar alguns títulos para que eles próprios descubram mais tarde! Eu tinha uns trinta anos quando fui conhecer pela primeira vez a obra de G. K. Chesterton, e que alegria foi descobrir, durante a leitura do meu primeiro mistério do Padre Brown, que havia me deparado com um tesouro. Da mesma forma, nunca havia lido nada de Laura Ingalls Wilder até que me tornei mãe. Seus livros têm moldado a infância de inúmeras crianças, mas meu primeiro contato com a família Ingalls aconteceu quando li seus livros com meus filhos. Que alegria foi experimentar com meus filhos pela primeira vez o mundo de Laura, de sua irmã mais velha Mary e suas irmãs mais novas, Carrie e Grace. Às vezes, recomendo livros de Natalie Babbitt aos meus amigos, sejam pais, sejam filhos. Muitos ficam surpresos após lerem Tuck Everlasting ou The Search for Delicious [Em Busca dos Sabores]. “Como nunca li isso antes?”, eles se perguntam. “Como fui ler esse livro pela primeira vez só agora?”. Quando você se vê preocupada porque seu filho não leu determinado livro ou determinado autor, não se desespere. Não tente enfiá-lo na agenda. Pense consigo mesma (alegre-se): que alegria será encontrar aquele autor/livro/série mais para frente. Encha a vida do seu filho de bons livros, mas não se preocupe em ler absolutamente todos. Resista à tentação de selecionar pilhas e pilhas de leitura por medo de que seu filho esteja perdendo algo importante. Lacunas na vida de leitura de nossos filhos dão a eles a oportunidade de encontrar-se com os maiores títulos da literatura e aproveitá-los já na vida adulta. Não queremos que a melhor leitura de nossos filhos aconteça antes dos dezoito, queremos? Queremos que nossos filhos sejam leitores por toda a vida. Quebre regras Lembre-se de seu objetivo. Se o que você estiver lendo não tem ajudado seu filho a amar a experiência da leitura — se a obra estiver se tornando mais uma pedra de tropeço —, então mude de livro. Nenhuma lista de livros é o evangelho. Minha querida amiga, você conhece seu filho melhor do que qualquer pessoa neste mundo. E você foi escolhida por Deus para ser a casamenteira literária dele, a maior defensora, a melhor guia. Mesmo que seu filho não leia os gigantes literários nem encontre os melhores clássicos, ele lembrará que você leu ao lado dele. Confie em seus instintos. Você pode abandonar ou pular qualquer livro que não pareça ser bom para a sua família, ou reler um livro ou série dez vezes, se é isso que sua família deseja fazer. Você não amará todos os livros que eu (ou qualquer outra pessoa) recomendo, então aprenda a seguir seus instintos e relaxe tomando decisões baseadas na personalidade e dinâmica única da sua família. Use os conceitos deste capítulo para ajudá-la a escolher livros que sejam prazerosos, inteligentes e instigantes para toda a sua família. Ao mesmo tempo, quando se trata de satisfazer o paladar literário do seu filho, nunca permita que as diretrizes estabelecidas aqui ou em qualquer outro lugar sobreponham sua percepção e seus instintos dados por Deus. O objetivo é que seu filho ame os livros e experimente uma infância rica de memórias e de leituras compartilhadas. Livros que encantem toda a família, obras que façam todos se sentirem esperançosos e deslumbrados, livros que contenham imagens vívidas, linguagem rica e um enredo interessante. Quando você se torna a casamenteira literária do seu filho, você se torna sua aliada, amiga, companheira e mentora tudo de uma só vez. Sendo tudo isso para o seu filho, você acaba criando um elo significativo e duradouro com ele. Ser casamenteira literária é um dos deveres mais importantes dos pais que desejam se relacionar com os filhos e neles cultivar uma vida de leitura. CAPÍTULO 10 Domine a arte da conversa Os livros são importantes, mas as conversas que estas obras geram e os laços que criam são o que realmente importa. — Alice Ozma, The Reading Promise Allison colocou seu exemplar do Academia de Princesas, de Shannon Hale no balcão da cozinha e sorriu para mim: “Terminado!”. Sorri de volta e perguntei se ela havia gostado. “Ah, amei! Foi ótimo!”, respondeu. Peguei o livro e dei uma rápida olhada na quarta capa. Eu sabia que precisaria sondar um pouco mais para fazer com que Allison falasse. No entanto, realmente não sabia o que perguntar, então disse: “Do que você tanto gostou nele?”. “Não sei”, ela respondeu, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de leite. “Tudo, eu acho. É realmente muito bom”. Repensando um pouco, percebo que perguntar à Allison “Você gostou?” era o mesmo que, sem perceber, fazer a pergunta que certamente acabaria com qualquer discussão significativa acerca do livro. É a pergunta que a maioria de nós costuma fazer aos nossos filhos quando eles terminam um livro, mas a menos que saibamos como continuar, o questionamento não leva a lugar algum. De todos os utensílios de nossa caixa de ferramentas para pais, o diálogo acaba sendo um dos mais importantes. Na verdade, sempre que construímos um relacionamento, o diálogo é a primeira forma de conhecermos outras pessoas e com elas nos relacionarmos. Todos já ouvimos falar da importância de jantar em família. A Dra. Anne Fishel, cofundadora do The Family Dinner Project [Projeto Jantar em Família], afirma que conversas na hora do jantar são importantes a fim de “relaxar, recarregar, rir, contar histórias e se atualizar sobre os altos e baixos do dia, enquanto desenvolvemos um senso de quem somos como família”. A conversa da hora do jantar já foi até ligada a baixos índices de abuso de substâncias, diminuição da depressão na adolescência e a altas pontuações em provas e vestibulares. Quando conversamos com nosso filho — quando perguntamos como foi seu dia e com o que ele está preocupado, ou qual foi a melhor parte da semana — comunicamos que estamos interessados em sua vida e que temos tempo para ele. Portanto, quando dialogamos com nosso filho acerca de livros, comunicamos que estamos interessados no que ele está lendo e pensando. Mesmo sem verbalizar isso diretamente, dizemos ao nosso filho que para nós é prioridade passar tempo livre com ele. Os livros oferecem uma porta de entrada única na conversa pois contêm as melhores ideias que podemos encontrar. De fato, são um portal para questões grandiosas, e com frequência podemos começar uma conversa confortável e descontraída sobre alguns dos tópicos mais difíceis da vida mediante as lentes de um livro. Quando lemos com nossos filhos e nos abrimos ao diálogo, temos a oportunidade única de ajudá-los a encontrar grandes pensamentos e grandes ideias, a pensar com profundidade a esse respeito e permitir que esses pensamentos e encontros formem vidas. Esse cenário não acontece no tipo de conversa que tive com minha filha sobre o livro Academia de Princesas. Perguntar a um filho se gostou do livro não é muito útil. Precisamos fazer perguntas mais profundas, e isso leva tempo. Como todas as coisas que criam um impacto positivo em nossa paternidade/maternidade, precisamos priorizarconversas significativas. Precisamos comunicar amor e empenho para com nossos filhos, e fazemos reservando tempo e espaço para conversar com eles sobre a vida. Qual é a boa notícia? Os livros facilitam esse empenho e os diálogos a respeito se encaixam na correria do nosso dia a dia. COMO FALAR SOBRE LIVROS COM SEUS FILHOS “Quando assistimos a um bom filme, a um jogo emocionante, a um ótimo show, a primeira coisa que vem à mente logo em seguida é falar sobre ele”, escreve Jim Trelease. “Depois que eu e minha esposa assistimos a um bom filme, você acha que corremos para o carro, pegamos guardanapos de dentro do porta-luvas e escrevemos a ideia principal do filme? ‘Querida, qual você acha que foi o tema?’”.1 Seria ridículo, não? Quando termino um livro ou um filme especialmente marcante, minha vontade é dialogar com alguém que tenha experimentado o mesmo livro ou filme. Após ler A Resposta, de Kathryn Stockett, liguei para minha amiga e implorei para que lesse o quanto antes. Eu estava ansiosa para falar dos meus personagens favoritos e dos que menos gostei, comentar o contexto histórico e contemplar o que o autor estava tentando dizer. Queria compartilhar aquele encontro. As experiências que mais nos impactam precisam ser compartilhadas. Somos criaturas comunicativas e naturalmente desejamos trocar ideias quando nossos pensamentos e emoções são impactados. Shannon Hale, autora de Academia de Princesas, também escreveu um livro chamado The Goose Girl [A Pastorinha de Gansos] (você encontrará ambos na lista de livros para adolescentes no Capítulo 15). Na noite em que uma de minhas filhas adolescentes o terminou, ela foi me ver enquanto eu escovava os dentes no banheiro antes de dormir. Ela entrou com tudo e bateu o livro sobre a pia. “Leia isso!”, como uma ordem; seus olhos luziam chamas que cintilavam. Pode apostar que ela queria conversar sobre o livro. Uma experiência de leitura maravilhosa faz isso: nos relaciona com os outros. Não queremos guardar só para nós nossas melhores experiências. Quando minha filha terminou de ler Academia de Princesas, eu tive a chance de conversar com ela acerca da obra, mesmo que não soubesse nada sobre análise literária, que não fosse conhecedora de como analisar livros, mesmo que nem mesmo tivesse lido o livro. Tudo se resume a ter uma abordagem calma e amigável, sabendo fazer as perguntas certas. Você pode dialogar acerca de um livro mesmo sem ser formada em Letras, mesmo sem guias de literatura, mesmo sem ter uma bagagem literária. Se você ama seu filho e está disposta a investir tempo para aprender quem ele é e como ele pensa, tenha conversas sólidas e diálogos duradouros a respeito de qualquer livro debaixo do sol. CONVERSAS ESPONTÂNEAS E INTENCIONAIS Conversar é, por definição, uma “troca informal de ideias”. As melhores histórias naturalmente se entregam a uma boa conversa. Afinal, é o que fazemos em clubes do livro para adultos; é o que fazemos quando assistimos a um filme. Quando separamos nossa parte favorita do domingo e o compartilhamos com quem amamos, ou quando chegamos em casa depois das férias e começamos a contar histórias sobre o que aconteceu quando o carro quebrou na estrada: narramos o que aconteceu e logo em seguida começamos a conversar descontraidamente acerca do ocorrido. Você já sabe fazer isso. Ué, você faz isso todos os dias no automático. Conversar sobre livros não precisa ser tão diferente de outras conversas que temos com nossos filhos. Tudo bem se você não souber o que possa ser uma “exposição” ou um “desfecho” enquanto dialoga sobre livros. Cale a professora do Fundamental dentro de você por um instante. O que estamos buscando não é a mesma coisa que você estava buscando naquela aula de linguística. Queremos que nossa casa seja mais parecida com aquele ambiente aconchegante de clube do livro e menos parecida com uma experiência formal de sala de aula. Os livros que nos impactam, que nos moldam e nos transformam são quase sagrados. Convenhamos, a última coisa que você quer fazer quando se apaixona por um livro é montar um diagrama de Venn, uma exposição literária ou um gráfico do enredo, certo? As melhores histórias naturalmente levantam questões que borbulham dentro de nós; as melhores narrativas geram mais perguntas do que respostas e nos movem a diálogos descontraídos, agradáveis e prazerosos. Essas conversas podem se tornar uma das nossas maiores alegrias na medida em que construímos relacionamentos com nossos filhos, uma vez que tivermos a postura e as perguntas certas. Antes que você comece a se descabelar e pensar como conseguirá inserir esse tipo de conversa em dias caóticos, deixe-me compartilhar duas abordagens diferentes de diálogos sobre livros. Você pode usar qualquer uma delas. Eu mesma uso ambas. Conversas Intencionais A conversa que ganha espaço num clube do livro é uma conversa intencional. Geralmente todos leem o livro com antecedência, e o objetivo da reunião é discuti-lo — ou seja, trocar ideias uns com os outros. Conversamos com nossos filhos de forma parecida. Meus filhos e eu não temos diálogos assim a respeito de todos os livros que lemos juntos em voz alta. Temos conversas intencionais não mais que algumas vezes ao longo do ano. A única característica que distingue uma conversa intencional é separar tempo. Marco no calendário. Trata-se de um evento. Costumamos ter essas conversas em alguma lanchonete, e assim conseguimos registrar aquele momento como uma excelente lembrança. “Almoço amanhã no Frank’s Dinner para discutirmos Jasper and the Riddle of Riley’s Mine! [Jasper e o Enigma da Mina de Riley]”, anuncio e todos vibram por causa das panquecas — e por gostarmos das nossas conversas a respeito dos livros. Ninguém sabe antes da hora que rumo a conversa vai tomar, e é isso que dá graça ao momento. Durante uma conversa intencional fazemos as mesmas perguntas que faríamos num diálogo espontâneo. Mas falaremos sobre essas perguntas no Capítulo 11. Antes, falemos dos diálogos que não planejamos, daqueles mais espontâneos. Conversas Espontâneas Na minha casa, conversas espontâneas são muito mais comuns que as intencionais. Podemos estar a caminho do treino de futebol ou da aula de dança, então dou uma olhada pelo retrovisor e sem maiores formalidades pergunto a um dos meus filhos: “Vi que você terminou de ler Fablehaven. Quem você acha que foi a pessoa mais corajosa da história?”, ou “Quanto ao livro Brown Girl Dreaming... Você acha que o livro se parece com o The Crossover [O Encontro]?”. Conversas espontâneas surgem do nada; começam ou terminam com uma pergunta enquanto andamos de carro, enquanto lavamos a louça do jantar ou saímos à noite. Às vezes, duram meia hora ou mais. Geralmente duram apenas alguns minutos. De qualquer forma, são pequenos pontos de conexão. São diálogos que nos ajudam a tecer mais um fio na gloriosa tapeçaria do relacionamento com nossos filhos e a mais uma vez mergulhar em uma história antes de guardá-la. São espontâneas porque ocorrem em momentos normais e esporádicos do nosso dia. Considere essas duas naturezas de diálogo, a conversa intencional e a conversa espontânea, e tenha em mente que uma não é melhor que a outra. Ambas são excelentes ferramentas para construir o relacionamento entre pai e filho. Use a que mais se adequar ao momento. Se estiver a caminho do treino do seu filho ou sem muito o que fazer em casa, tente uma conversa espontânea. Se vocês acabaram de ler um livro em voz alta juntos e querem festejar, iniciem uma conversa intencional e dela façam um momento específico. A IMPORTÂNCIA DE UMA ABORDAGEM FÁCIL E AMIGÁVEL Seja uma conversa intencional, seja espontânea, é imperativo adotar uma abordagem fácil e amigável para conversar com seus filhos acerca dos livros lidos. Não queremos que nossos filhos se sintam como se estivéssemos tentando, em primeiro lugar, melhorá- los ou moldá-los enquanto tratamos de literatura. Filhos não são projetos. (E mesmo que você esteja tentando melhorar ou moldar seus filhos por meio de histórias, acompanhe meuraciocínio. Ninguém gosta de se sentir como se fosse o projeto de melhoria de alguém). Você perceberá que seus filhos se abrem muito mais e se sentem muito mais à vontade quando os livros são abordados com descontração e gentileza. Uma vez que ser tranquilo e amigável não é necessariamente nossa disposição natural quando se trata de interagir com nossos filhos (cof, cof), é útil termos algumas coisas em mente. Eu as chamo de As 5 Chaves de uma Conversa — e queremos guardar com cuidado essas chaves, pois pretendemos conversar com nossos filhos acerca dos livros que lemos. Essas chaves ajudam a diminuir a pressão e relembram que bons diálogos servem sobretudo para desfrutar e conhecer mais seu filho. AS 5 CHAVES DE UMA CONVERSA Chave n.º 1: Não converse sobre todos os livros. Sir Francis Bacon certa vez disse: “Alguns livros devem ser provados, outros engolidos e alguns poucos mastigados e digeridos”.2 Permita que seus filhos experimentem, engulam e mastiguem. Você não precisa discutir todos os livros que lê em voz alta ou todos os livros que seu filho lê por conta própria. Quando exige que todos os livros sejam discutidos, você tira o prazer da leitura e faz com que os livros percam sua importante relação de prazer. Confie que o livro pode falar diretamente ao seu filho, mesmo que você não intervenha com uma conversa ou discussão. Chave n.º 2: Não existem respostas certas. É sério. Lembre-se de ser amigável e informal. Em especial se estiver tendo uma conversa intencional, atente-se para não falar com um ar de superioridade. A última coisa a fazer no relacionamento com nossos filhos é falar com tom de superioridade. A relação simplesmente não floresce. Mesmo que suas respostas não sejam tão profundas ou impressionantes quanto esperava que fossem, não se preocupe tanto assim. Há uma jornada até a Verdade e cada um deve trilhá-la individualmente. Deixe que seus filhos descubram a Verdade aos poucos, faça com que a encontrem em seus momentos mais íntimos. Trata-se de uma maratona, não de uma corrida de cem metros. Mesmo que você não tenha conversas estrondosas com o seu filho, lembre-se de que a parte mais importante é manifestar interesse no que está acontecendo com a mente dele. Não somos capazes de quantificar o poder do genuíno contato entre mãe e filho, e estamos em busca justamente desse elo. Todas as vezes que seu filho der uma resposta monossilábica, pergunte logo em seguida: “Por quê?”. Pode levar algum tempo até que ele confie que você não está procurando uma resposta específica ou o testando. A princípio, crianças desacostumadas com perguntas sem segundas intenções — sem a intenção por parte do adulto de moldar, mudar ou avaliar a resposta da criança — provavelmente se sentirão intimidadas. Continue. Continue fazendo perguntas abertas; continue enfatizando que não há uma resposta específica que esteja buscando; continue conversando e comunicando. Chave n.º 3: Perguntas pertinentes importam mais do que respostas convincentes. Quando começar a fazer perguntas mais abertas aos seus filhos, talvez você se surpreenda com as respostas. Lembre-se disso: a arte de fazer perguntas pertinentes é mais importante do que receber respostas convincentes. A criança que pratica o fazer de perguntas começará a fazê-las por conta própria, consciente ou subconscientemente, articulando-as ou não. Queremos fortalecer o hábito da criança de fazer perguntas e pensar com profundidade. Algumas das melhores conversas literárias que tive com meus filhos surgiram a partir de livros que eles haviam lido, mas eu não. Suspeito que isso aconteça porque meus filhos sabem que não estou buscando respostas certas — eu mesma não sei as respostas certas! Só quero saber o que pensam, e isso gera uma bela oportunidade de afeto e comunicação. O mesmo vale para a vida de seus filhos à parte da leitura. Use perguntas dessa natureza para saber o que eles pensam sobre aquela série, aquele filme, aquele gibi, aquela música, um esporte, um lazer, um jogo — afinal, são todos histórias. Do filme ao esporte, todos contêm um personagem que deseja algo, que precisa superar um obstáculo e que alcança ou não o sucesso. Tente fazer perguntas desse tipo acerca de qualquer história ou narrativa, escrita ou não, e se atente às oportunidades de diálogo. Chave n.º 4: Plante sementes e afaste-se. Nós, adultos, gostamos de verdades contidas em pequenas lições e estruturas simples. Mas a Verdade não é simples nem pequena, e o próprio Deus nos revelou esse fato em parábolas e histórias que nos fazem levantar perguntas várias, que nos fazem voltar uma vez mais e inquirir, amar, contemplar. São textos que nos deslumbram, nos maravilham. Você nem sempre conseguirá concluir uma boa conversa com a cereja do bolo. Afinal, a última coisa que você quer é acabar falando “então, a lição que aprendemos com essa história foi…”. Dê espaço para a história atingir todo o seu potencial de majestade e grandiosidade. Deixe-a cercada por um pouco de mistério. Sally Lloyd-Jones, autora do livro O Livro de Histórias Bíblicas de Jesus, certa vez me disse que adultos se sentem mais à vontade com currículos, programas e tópicos, pois quando os utilizamos estamos no controle. As histórias nos deixam desconfortáveis, pois quando as contamos não estamos no controle. “Quando você lê uma história para a criança”, disse ela, “você está plantando uma semente. O mais interessante sobre a semente é que você não consegue vê-la, uma vez que está escondida. Talvez nada aconteça por um longo período, e, na prática, o que está acontecendo com a semente não é da sua conta. Seu trabalho é simplesmente plantá-la.”3 Plante suas sementes ao ler em voz alta com seus filhos. Regue- as fazendo perguntas gerais. Mas não exija que a semente floresça antes do tempo. Seu trabalho é plantar, regar e nutrir. Deixe o livro fazer sua mágica na mente do seu filho como Deus bem quiser. No que as sementes se transformam — o que se tornam e como nutrem a vida do seu filho — é um mistério tanto para nós quanto para eles. A vitória depende exclusivamente do Mestre Jardineiro. Chave n.º 5: Use diários de leitura simples para aprofundar a conversa. As melhores perguntas costumam levar seu filho de volta ao livro para conseguir a resposta. Desta forma, pode ser útil encorajá-lo a manter um caderno de fichamento ou diário de leitura. O caderno de fichamento ou diário de leitura nada mais é que um espaço para anotar passagens e citações, para fazer uma lista de livros que já leu, deseja ler ou dos livros que mais amou. Seu filho também pode sugerir ideias, se desejar. Você pode apostar na simplicidade de um caderno espiral, ou ser um pouco mais chique e investir num diário ou numa agenda. A criança que se acostuma a perceber a linguagem que a abala é uma criança que aprende que a língua tem poder. Em nossa casa, quando começamos a discutir um livro, não poucas vezes acabamos folheando nossos diários de leitura a fim de relembrar o que mais nos tocou. Não precisamos anotar necessariamente as passagens ou citações mais profundas e marcantes. Seu filho não precisa nem mesmo entender o significado da passagem ou por que ela é tão importante para o caso dele. Mantenha a simplicidade, a leveza e o prazer pela leitura, e não se prenda a regras ou restrições demais. Uma coleção particular de citações é um tesouro, não algo a ser avaliado ou criticado. Não é a oportunidade de notar a caligrafia desleixada ou a ortografia ruim do seu filho. É, na verdade, uma extensão do elo que o seu filho criou com o livro. Eu peço aos meus filhos que registrem os livros que leram em seus diários de leitura, mas evito impor outras exigências. Sim, só você pode decidir o que é o melhor para os seus filhos, mas tenha em mente que o propósito de um diário de leitura é ser uma ferramenta que ajude a família a manter-se com uma disposição tranquila e amigável. Não se entregue à tentação de transformá-lo em uma obrigação, do contrário você perceberá que o diário servirá a outros propósitos, exceto o prazer da leitura.Agora, quanto ao impacto que podemos exercer sobre a vida dos nossos filhos, dificilmente encontraremos melhor ferramenta que o diálogo. Meu desejo é que você tenha conversas intencionais e esporádicas com seus filhos e os trate com cuidado e carinho. Mantenha essas 5 Chaves em mente. Você não precisa dialogar sobre todas as leituras dos seus filhos. Não existem respostas “certas” para aquelas perguntas abertas e despretensiosas acerca dos livros lidos. É mais importante fazer perguntas pertinentes do que receber respostas convincentes. Seu dever é plantar a semente, e se funcionar para a sua família, você pode aprofundar a conversa ajudando seus filhos a escolher citações de um livro para transcrevê-las num diário de leitura. Você percorrerá um longo caminho até conseguir criar um elo com seu filho, mas é só o começo. Por ora, precisamos saber quais perguntas fazer para mantermos o diálogo interessante e as conversas vivas. CAPÍTULO 11 Faça perguntas pertinentes O hábito de fazer perguntas ao livro durante a leitura faz de você um leitor melhor do que seria se não as fizesse. — Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, Como Ler Livros Mesmo que consiga de vez em quando ter conversas intencionais e se dedique aos diálogos espontâneos adequados à cultura de clube do livro da sua família, você ainda precisa acrescentar uma peça (muito) importante nesse quebra-cabeça: perguntas pertinentes. Não pretendemos traçar exposições e desfechos — não fazemos listas de vocabulários nem dissecamos o tema de um livro como se estivéssemos em sala de aula —, então como exatamente dialogaremos acerca dos livros que lemos? É mais fácil do que você imagina. Quando estou conversando com meus filhos acerca dos livros que lemos, uso dez perguntas para nos ajudar. São questionamentos simples, porém pertinentes. O QUE TORNA UMA PERGUNTA PERTINENTE? Neste capítulo, abordarei dez perguntas pertinentes que você pode fazer ao seu filho. São questionamentos adequados a qualquer obra, cujo potencial é conduzir a uma grande conversa. Antes de compartilhar minhas dez perguntas com você, é importante conhecermos as três qualidades que compõem uma pergunta pertinente. Perguntas pertinentes são perguntas abertas Você não começa uma conversa significativa com seu filho se tudo o que estiver fazendo for uma pergunta que não exige mais do que um “sim” ou “não” como resposta. Você também não terá uma conversa significativa se fizer perguntas que visem avaliar o nível de compreensão de leitura do seu filho. Estamos criando relacionamentos, lembra? A arte da conversa em um relacionamento significa circular em torno de ideias; o objetivo é considerá-las, pesá-las e compará-las. Nosso propósito é construir um elo com nossos filhos, não por querermos a resposta certa, mas porque ficamos curiosos com o que se passa na mente deles e que tipo de pessoa única e maravilhosa estão se tornando. Fazemos perguntas porque desejamos aprofundar nosso relacionamento com nossos filhos. Certifique-se de que suas perguntas acerca dos livros lidos sejam livres. Você sabe que a pergunta é aberta se não houver uma resposta “certa”, específica. Você pode fazer perguntas pertinentes sobre qualquer livro As perguntas neste capítulo podem ser feitas sobre qualquer história, desde O Gato do Chapéu até Frog and Toad [O Sapo e a Rã], de Ramona e Beezus a Watership Down e Um Conto de Duas Cidades. Na verdade, as perguntas a seguir podem ser feitas a qualquer história, mesmo que esteja contida dentro de um livro. Tente fazer uma dessas perguntas após assistir a um filme ou a um jogo. A profundidade da conversa varia dependendo da história, mas também da idade e do desenvolvimento da criança, embora as perguntas possam ser as mesmas. Perguntas pertinentes podem ser usadas com ou sem outros questionamentos Quando estou conversando com meus filhos sobre um livro, não costumo fazer as dez perguntas. Normalmente só faço uma. Raramente faço mais que três. Depende do tempo disponível que tenho para conversar com minha filha, quão interessada ela está na história e, para ser sincera, de quanto café tenho correndo pelo meu corpo. Não se prenda a usar essa lista de perguntas como uma lista de controle. Você pode fazer uma só pergunta pertinente, mas se tiver tempo e vontade, pode logo engatar outro questionamento e aprofundar um pouco mais a conversa. DEZ PERGUNTAS Use estas dez perguntas para dar início a uma conversa intencional ou espontânea acerca de livros com seus filhos. Embora você possa, sim, se prender a essas dez perguntas e ter um número incontável de diálogos grandiosos, não quer dizer que essas sejam as únicas perguntas a serem feitas. Toda pergunta que manifestar as três qualidades mencionadas acima são questionamentos pertinentes e levarão a um diálogo significativo com seus filhos. Você perceberá que as dez perguntas mostrarão essas três qualidades: são abertas, podem ser feitas sobre livros de qualquer faixa etária e podem ser usadas com ou sem outros questionamentos relacionados. Pense nessas perguntas como portas. Abrir qualquer uma dessas portas pode levar a uma discussão maravilhosa e deliciosa. Então escolha uma porta — qualquer uma — e veja para onde ela conduz! Pergunta n.º 1: O que o personagem deseja e por que ele ou ela não consegue ter o que deseja? Essa pergunta irá levá-la ao cerne do livro imediatamente. Todo personagem principal de uma história deseja algo que não consegue obter: eis o conflito. Algo impede o personagem de conseguir o que deseja. Geralmente não há apenas uma resposta certa à pergunta feita, e você não precisa saber qual é a “melhor” resposta antes de fazer o questionamento. Você pode se surpreender, de fato, com a resposta de seu filho à pergunta. Um dos meus diálogos sobre livros mais enriquecedores surgiu a partir da leitura do livro ilustrado Anatole; li-o com meus filhos de oito e dez anos. A história trata de um rato parisiense que fica consternado ao descobrir que os seres humanos têm desafetos por sua espécie de roedores. Ele então decide resolver essa desavença contribuindo com a raça humana em troca de sua pilhagem noturna na cozinha. Quando acabei de lê-lo tive a certeza de que Anatole ansiava por dignidade e respeito, e o que o mantinha longe de recebê-los era sua incapacidade de retribuir. Basicamente, eu pensava que o livro tratava da ética do trabalho. Mas quando perguntei à minha filha de dez anos o que considerava ser o desejo de Anatole, ela concordou que era dignidade e respeito, mas disse que o preconceito das pessoas contra suas intenções era o que o estava privando de ser tratado dignamente. A afirmação da minha filha gerou uma conversa que nunca imaginei que teria, um diálogo extremamente enriquecedor e muito mais significativo do que eu pensava que pudéssemos ter. Alguns exemplos • O que o Pequeno Urso mais deseja e por que não consegue ter o que deseja? (Pequeno Urso, Else Holmelund Minarik) • O que Dorothy Gail mais deseja e por que ela não consegue satisfazer seu desejo? (O Mágico de Oz, L. Frank Baum) • O que Tom Sawyer mais deseja e por que não consegue alcançar seu desejo? (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain). Pergunta n.º 2: Ele ou ela deveria ter feito o que fez? Deveria é uma palavra incrivelmente poderosa, uma palavra a ser pensada, fundamentada e defendida. A resposta pode parecer superficialmente óbvia, mas faça essa pergunta uma ou duas vezes e talvez se surpreenda com o quanto pode se divertir com ela. Lembro-me da primeira vez que presenciei o uso desse questionamento. Estava participando de um seminário voltado ao ensino da escrita para crianças. Aquele que estava à frente do evento perguntou aos participantes se Edmundo deveria ter seguido a Feiticeira Branca em O Leão, A Bruxa e o Guarda-Roupa, de C. S. Lewis. Todos concordamos imediatamente que a resposta era um retumbante não. Mas ele sugeriu que a resposta poderia ser sim — não saberíamos de fato até que seguíssemos a trilha para ver aonde o caminho nos levaria. Durante a hora seguinte consideramosrazões do porquê Edmundo deveria ou não ter seguido a Feiticeira Branca. Chegamos a um número surpreendente de respostas para ambas, e discutimos qual rumo a história tomaria se Edmundo tivesse escolhido um caminho diferente. Durante o curso da discussão, consideramos a integridade, a coragem e a habilidade de Edmundo (ou a falta dessas qualidades) para reconhecer a bondade ou a maldade que ele teve de encarar. Fiquei chocada quando terminamos a discussão. Ambos os lados argumentativos levaram ao mesmo entendimento essencial de quem Edmundo era e qual propósito ele buscava alcançar. Não importava qual argumento levantássemos — se ele deveria ou não ter seguido a Feiticeira Branca —, sempre acabávamos no mesmo lugar, na profunda verdade daquilo que C. S. Lewis não pôde deixar de transmitir por meio de sua história tão bem contada. Na hora do intervalo, olhei para uma amiga que estava sentada ao meu lado e disse: “Então não importa se sabemos ou não a resposta certa — se Edmundo deveria ou não ter seguido a Feiticeira Branca! Por se tratar da verdade, ela própria emergirá da história, apesar da nossa conclusão!”. Eu estava imersa. Sabia que a pergunta “deveria?” me acompanharia em muitas outras leituras. Para fazer esse tipo de questionamento, escolha qualquer personagem da história e qualquer uma de suas ações no enredo. Pergunte ao seu filho se o personagem em questão deveria ter realizado ou não aquela ação, e então prossiga perguntando o porquê. Alguns exemplos: • Cachinhos Dourados deveria ter entrado na cabana dos ursos? (Os Três Ursos, Paul Galdone) • Anne deveria ter batido na cabeça de Gilbert com a lousa? (Anne de Green Gables, L. M. Montgomery) • Sam Gribley deveria ter fugido? (My Side of the Mountain [Meu Lado da Montanha], Jean Craighead George). Pergunta n.º 3: Como X se parece com Y? Ou como X é diferente de Y? Tudo no mundo se parece com outra coisa. Da mesma forma, tudo no mundo se difere das demais coisas. Considere como algo é parecido ou diferente de outra coisa e você estará entrando no profundo universo da metáfora. Metáforas são importantes, pois nos fazem compreender e comunicar ideias. Quando pensamos cuidadosamente a respeito dos personagens, lugares ou eventos dos livros que lemos e como são parecidos ou diferentes, praticamos a arte de pensar em metáforas. Você pode ler Anne de Green Gables e comparar Anne a qualquer um dos personagens. Como Anne se parece com Marilla? Em que aspectos são diferentes? Como Anne se parece com Diana? Em que aspectos são diferentes? Minha pergunta favorita é: como Anne se parece com Rachel Lynde? Talvez essa surpreenda os fãs de Anne! Quando perguntei à minha filha como Anne e a senhorita Lynde se parecem, ela aparentou ficar brevemente horrorizada, e então parou um pouco para pensar. “Bom”, depois de alguns momentos de contemplação, decidiu: “acho que nenhuma das duas tem medo de insultar”, então parou e pensou um pouco mais. Ambas vivem em Avonlea, é claro. E nenhuma das duas entende muito bem a Marilla”. E logo depois de mais uma pausa, afirmou: “Sim! Sim! Sim! Ambas têm a tendência de falar demais!”. Aposto que da próxima vez que ler Anne de Green Gables (e eu estou falando de Anne, é claro que minha filha relerá muitas outras vezes!), ela fará muitas outras ligações e pensará com mais profundidade e de formas inéditas acerca dos personagens e, é claro, sobre o relacionamento entre Anne e sua vizinha intrometida. É muito mais fácil de perceber as diferenças do que as semelhanças entre dois personagens. Se você ou seus filhos se encontrarem travados nessa questão, tente perguntar sobre as diferenças antes de tratar das semelhanças. E não se sinta limitada aos personagens! Você pode perguntar como o pote de mel do Ursinho Pooh se parece (ou se difere) com a varinha mágica de Harry Potter, ou como o sapato de cristal da Cinderela é parecido (ou diferente) com o caderno de Harriet the Spy [Harriet, a Espiã]. Confie em mim: tudo no mundo se parece com outra coisa. Dê uma olhada nessa pergunta e você entenderá o que quero dizer. É muito divertido! Alguns exemplos: • Como o Ursinho Pooh é parecido com ou diferente do Leitão? (O Ursinho Pooh, A. A. Milne) • Como Heather se parece com ou é diferente de Picket? (The Green Ember, S. D. Smith) • Como a casa de Trunchbull se parece com ou é diferente da casinha da senhorita Honey? (Matilda, Roald Dahl) • Como o guarda-roupa que conduz até Nárnia se parece com ou é diferente da porta que conduz ao Jardim Secreto? (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, C. S. Lewis; O Jardim Secreto, Frances Hodgson Burnett). Pergunta n.º 4: Quem é o mais _________ na história? Talvez esta seja minha pergunta predileta, mesmo porque é a mais simples. Insira qualquer traço de caráter no espaço. Talvez você precise acompanhar esta pergunta com outra — algo como: “O que o leva a dizer isso?” ou “Pode me dar um exemplo?”. Se você perguntar ao seu filho quem ele considera o personagem mais corajoso do livro, esteja preparada para continuar a pergunta com “Qual foi o momento em que ele ou ela demonstrou mais coragem?”. Durante uma tarde, depois que meu filho terminou de ler My Side of the Mountain, de Jean Craighead George, entramos no carro para levá-lo ao treino de futebol. “Então você terminou seu livro hoje, hein?”, perguntei, enquanto dava marcha ré no carro. “Qual personagem era o mais corajoso?”, questionei. Drew sorriu. “Bom, na verdade só tem um personagem naquele livro, mamãe”. “Ah, sim. Esqueci,” respondi rindo. “Então… Sam Gribley, certo? Qual foi a coisa mais corajosa que Sam fez no livro?” Drew pensou por um instante, olhando para os sinais de trânsito na rua e para as casas da vizinhança que passavam pela janela do carro. Eu esperava que ele me dissesse algo sobre Sam — um garoto de catorze anos, fugitivo, vivendo na selva por conta própria, que precisava procurar comida ou caçar animais selvagens. Eu tinha certeza de que ele diria algo sobre sobrevivência na selva. Drew parou por um instante e então respondeu: “Quando ele fugiu de casa”. Bom, não era aquilo que eu esperava! O que se seguiu foi uma conversa sobre como é preciso coragem para estabelecer seu próprio caminho. Foi muito mais interessante do que eu estava esperando quando fiz a pergunta inicial. Se eu tivesse conduzido a conversa pedindo a meu filho que respondesse às perguntas com respostas positivas ou “corretas”, provavelmente teríamos uma discussão superficial sobre as técnicas de sobrevivência descritas no livro. Em vez disso, tivemos um diálogo significativo acerca do significado de entrar na idade adulta. Esse é o poder de uma pergunta aberta. Só para constar, esta é a pergunta que mais gosto de fazer aos meus filhos sobre livros que não li. Na verdade, pergunto quem foi mais corajoso com tanta frequência que uma das minhas filhas adolescentes diz que pensa na resposta a essa pergunta todas as vezes que lê porque tem certeza de que vou perguntar. (Ela acha que está me enganando. Não conte isso a ela, mas estou aqui me parabenizando escondida, pois a verdade é que ela criou o hábito de indagar sobre coragem em todo livro que lê — mesmo quando não estou com ela, conduzindo-a a esse tipo de pergunta. Considero uma vitória, se é que posso me gabar disso.) Eis alguns traços de caráter para você questionar: ambicioso, ousado, corajoso, inteligente, calmo, capaz, cuidadoso, cauteloso, charmoso, elegante, detalhista, perfeccionista, covarde, criativo, perigoso, destemido, enganador, desleal, exigente, determinado, fiel, tolo, amigável, generoso, grato, ganancioso, feliz, trabalhador, honesto, bem-humorado, inteligente, amoroso, misericordioso, misterioso, travesso, nervoso, nobre, desagradável, persistente, agradável, orgulhoso, confiável, engenhoso, inquieto, triste, egoísta, altruísta, perspicaz, sincero, atencioso, indelicado, desinteressado, virtuoso, sábio, espirituoso... Pergunta n.º 5: Quais são as lembranças que essa história ou esse personagem causa em você? Repito, queremos que nossos filhos aprendama pensar em metáforas, pois metáforas transmitem e comunicam ideias. Essa pergunta é prática para perceber como duas coisas aparentemente diferentes se parecem. E assim como a Pergunta n.º 3, esse tipo de questionamento também ajuda nossos filhos na hora de pensar em metáforas. Podemos responder a essa pergunta usando outras histórias. Por exemplo, King Hugo’s Huge Ego [O Grande Ego do Rei Hugo], livro ilustrado de Chris Van Dusen, me faz lembrar do conto de fadas A Roupa Nova do Rei. Jasper, o personagem principal de Jasper and the Riddle of Riley’s Mine, de Caroline Starr Rose, me faz lembrar do personagem principal de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain Talvez o livro em questão não o conduza a outra história, mas a alguma realidade em sua vida. Por exemplo, The Seven Silly Eaters [Os Sete Comilões], livro incrivelmente prazeroso escrito por Mary Ann Hoberman e Marla Frazee, me faz lembrar da casa alegre e animada de minha amiga Meghan. Penso nela todas as vezes que o leio. E Tom, de Tomie dePaola (da biografia ilustrada sobre seu avô) me faz lembrar do meu querido avô Curly. Alguns exemplos: • O cachorro Carl faz você lembrar de alguém? (Good Dog, Carl [Carl, o Bom Cachorro], Alexandra Day) • Tumtum faz você lembrar de alguém específico? (Tumtum and Nutmeg [Tumtum e Nutmeg], Emily Bearn) • A Tartaruga e a Lebre faz você lembrar de outra história? (A Tartaruga e a Lebre, Jerry Pinkney) • Mary Poppins faz você pensar em outra história específica? (Mary Poppins, P. L. Travers) • Orgulho e Preconceito faz você lembrar de outra narrativa semelhante? (Orgulho e Preconceito, Jane Austen). Pergunta n.º 6: Qual o maior medo do personagem X ou Y? Chegamos diretamente ao âmago de um personagem quando perguntamos o que eles mais desejam (como na Pergunta n.º 1) e também ao perguntar o que mais temem. Aprendemos muito sobre alguém quando separamos tempo para considerar seus maiores medos. Não precisa ser o protagonista; você pode fazer esse questionamento sobre qualquer personagem, sobre seus medos e desejos. O livro Extraordinário, de R. J. Palacio é a história de August (Auggie) Pullman, um garoto de dez anos que sofre de uma severa deformidade facial. Educado em casa, Auggie é matriculado em uma escola pela primeira vez no sexto ano e lá enfrenta a crueldade dos colegas. Ao discutir o livro com a minha filha, Allison, levantamos a pergunta: “O que Auggie mais teme?”. Allison pensou na pergunta por alguns minutos e então respondeu: “Ele quer ser normal”. Ela parou e pensou um pouco mais, e então corrigiu sua resposta: “Bom, na verdade, ele sabe que é normal, mas teme que ninguém mais seja capaz de enxergá-lo como ele é de fato, pois querem que ele se pareça com os outros”. Aquela segunda resposta nos levou a considerar que talvez Auggie não quisesse ser como todo mundo (o que pensávamos a princípio), mas que temia nunca ser aceito como era, sem precisar mudar a fim de ser aceito. O medo de não ser igual a todo mundo é muito diferente do medo de não ser aceito por quem você é. Se fizéssemos a Pergunta n.º 1 (“O que o personagem mais deseja?”) chegaríamos ao mesmo entendimento. Perguntar sobre seus medos foi apenas outra forma de entender melhor o personagem. Alguns exemplos: • O que Henry Huggins mais teme? (Henry Huggins, Beverly Cleary) • Qual o maior medo de Janner Igiby? (A Saga Wingfeather, Andrew Peterson) • O que Corrie Ten Boom mais teme? (O Refúgio Secreto, Corrie Ten Boom). Pergunta n.º 7: O que você mudaria em relação ao cenário ou ao personagem principal se fosse o autor do livro? Em determinado episódio do podcast Read-Aloud Revival, N. D. Wilson, autor líder de vendas, disse que quando jovem não gostava de ler livros novos. Quando estava no quinto ano, seu pai sugeriu que enquanto lesse, ele determinasse o que mudaria se fosse o autor. N. D. se viu motivado, embora contra sua vontade, desejando tornar as histórias que estava lendo mais interessantes do que ele mesmo as considerava. “Se não gostasse de um livro”, N.D. disse, “eu tinha de dizer ao meu pai o que faria para melhorá-lo. Essa prática me envolvia de uma forma completamente diferente. Eu me colocava no lugar do autor e pensava ‘Não, não faça isso. Vá por aqui. Adicione um pirata. Mate todo mundo’. Eu estava no quinto ano”, ele riu. “Comecei a ler de forma mais ampla e no sexto anunciei à minha família: ‘É isso que vou fazer. Vou escrever livros’”. E foi exatamente isso que ele fez. Suspeito que a maneira divertida que seu pai o ensinou a abordar a leitura foi fundamental para transformá-lo no autor best-seller que ele é hoje. Você encontrará alguns de seus livros recomendados na terceira parte deste livro. Você pode fazer essa mesma pergunta aos seus filhos, apesar de eu provavelmente guardá-la para as crianças com mais de sete anos. Se seu filho é um aspirante a escritor ou ilustrador, essa pode ser uma ótima maneira de praticar. Eles se beneficiam de utilizar o mundo e os personagens de outra pessoa enquanto brincam com a linguagem e a mudança de enredo. Alguns exemplos: • O que você mudaria na Ilha Selvagem? (O Dragão do Meu Pai, Ruth Stiles Gannett) • O que você mudaria sobre a comunidade distópica onde Jonas vive? (O Doador de Memórias, Lois Lowry) • O que você mudaria no personagem Grady? (The Charlatan’s Boy, Jonathan Rogers). Pergunta n.º 8: O que mais surpreendeu você? Podemos descobrir muito a respeito de nossos filhos ao perceber o que os pega de surpresa. Às vezes me surpreendo quando respondo a essa pergunta! Percebi que tinha determinada expectativa até eu articular o que não imaginava. Amo fazer essa pergunta a crianças mais novas depois de ler um livro ilustrado. Alguns anos atrás, quando li em voz alta com os meus três filhos mais velhos Ox-Cart Man, de Donald Hall e Barbara Cooney e então perguntei o que mais os surpreendeu, um dos meus filhos respondeu imediatamente que havia sido a quantidade de tempo e o quão duro a família trabalhava antes de partir para Portsmouth Market. Essa fala nos levou a uma conversa sem rumo, e começamos a ler uma pilha de livros sobre a vida de colonos durante o século XVIII e XIX. Uma pergunta que fizemos sobre o Ox-Cart Man nos abriu para um novo mundo. Questionar o que surpreendeu o seu filho é uma pergunta especialmente boa após a leitura de livros ilustrados, uma vez que autores e ilustradores de obras desse tipo trabalham duro para surpreender seus leitores. Tente fazer essa pergunta depois de ler algo escrito e ilustrado por Jon Klassen, como Quero meu Chapéu de Volta, Este Chapéu Não é Meu, ou Encontramos um Chapéu. Esses livros divertidos certamente a surpreenderão durante a primeira leitura e continuarão a encantá-la quando seus filhos pedirem que sejam relidos. Alguns exemplos: • O que mais a surpreendeu quando os animais chegaram à costa? (The Circus Ship, Chris Van Dusen) • O que você esperava que acontecesse com Emmy? (Emmy and the Incredible Shrinking Rat [Emmy e o Incrível Rato Encolhido], Lynne Jonell) • O que mais a surpreendeu nos personagens? (Minha Vida Fora dos Trilhos, Clare Vanderpool). Pergunta n.º 9: Qual personagem mais faz lembrar de você mesmo? Embora eu adore perguntar isso aos autores convidados ao Read-Aloud Revival, levantar esse questionamento ao leitor pode levar a uma conversa muito interessante! Geralmente, veremos parte de nós mesmos em vários aspectos de diferentes personagens. É claro que costumamos ter um vínculo afetivo maior com o protagonista, mas o diálogo à luz desse questionamento pode desenvolver conversas muito proveitosas e estreitar os laços dos leitores. Enxergar a nós mesmos nos livros que lemos pode trazer muita luz — não apenas à história (apesar de isso realmente acontecer), mas às nossas próprias forças e fraquezas da vida cotidiana. Jennifer Trafton, autora de The Rise and Fall of Mount Majestic, uma história de aventura fantástica, disse que de todos os personagens de seu livro (e há vários personagens cômicos!), ela mais se parece com Worvil — sempre preocupado com aquela perigosapalavra: poderia. O que poderia acontecer? Ao enxergar sua preocupação pelos olhos de um personagem em uma ilha fantástica, ela obteve uma imagem mais clara e objetiva do que acontece dentro de si e no mundo ao seu redor. Personagens em livros como The Rise and Fall of Mount Majestic geram uma fantástica justaposição de personalidade. Persimmony Smudge anseia por glória e aventura, enquanto sua mãe é desconfiada e cautelosa. Os Rumblebumps são alegres e despreocupados, enquanto os leafeaters impecavelmente educados. Worvil, o personagem com quem a autora se associou tão fortemente, anseia por segurança e teme o desconhecido. Ao longo da narrativa, fica claro quais qualidades destes personagens ajudam e inibem suas missões e aventuras. Os contos do Ursinho Pooh, de A. A. Milne fazem algo parecido. É bastante revelador quando uma criança pergunta se ela é mais parecida com o cauteloso Leitão, com o bondoso Ursinho Pooh, com o afoito Tigre, com o perspicaz Abel ou com o pessimista Bisonho! E pode acabar resultando em uma conversa divertida e esclarecedora. Se essa pergunta não leva à conversa que se desejava ter, peça exemplos ao seu filho de coisas que o personagem fez que os faz lembrar de suas próprias atitudes. Lembre-se de que sempre que conduzimos a criança de volta ao texto para encontrar exemplos, estamos no caminho certo para cavar mais fundo e começar uma boa discussão. Alguns exemplos: • Qual personagem de The Rise and Fall of Mount Majestic se parece mais com você? (The Rise and Fall of Mount Majestic, Jennifer Trafton) • Qual personagem do Ursinho Pooh mais se parece com você? (Ursinho Pooh, A. A. Milne) • Qual das irmãs March mais se parece com você? (Mulherzinhas, Louisa May Alcott). Pergunta n.º 10: O que você não quer esquecer neste livro (ou neste capítulo)? Para responder a essa pergunta, o leitor precisa se lembrar da história e relembrar uma cena específica. Gosto de responder a essa pergunta em meu diário de leitura, mesmo após ler sozinha, pois me ajuda a lembrar os detalhes de histórias que eu simplesmente esqueceria se não tivesse anotado. Essa é uma pergunta mais fácil de responder: “Qual sua parte favorita da história toda?”, pois não há pressão para encontrar a melhor resposta. Você pode apenas nomear qualquer coisa de que não deseja esquecer. Quando li O Esconderijo Secreto, de Corrie Ten Boom, atentei- me à cena em que a irmã de Betsie percebe que se uma pessoa consegue aprender a odiar (como os nazistas foram ensinados por Adolf Hitler), então ela também consegue aprender a amar. A meu ver, esta foi uma das cenas mais marcantes do livro — e embora eu não diga que seja a minha favorita, porque foi uma época muito sombria na vida de Corrie e Betsie, é algo que quero recordar para sempre. O trecho me fez refletir sobre o fato de que em face da perseguição, podemos escolher a alegria e inspirar outros a amar. Embora o exemplo acima seja mais maduro, ainda assim a pergunta pode ser feita para crianças acerca de um livro ilustrado, um conto de fadas ou um poema infantil. Crianças pequenas estão sempre prontas para dizer qual foi a parte favorita do livro que leram. No podcast Read-Aloud Revival, terminamos cada episódio com o segmento que chamamos de “Deixa a Criança Falar”. Crianças então ligam e deixam mensagens contando sobre os livros que gostaram e de que jamais querem se esquecer. Crianças de todas as idades deixam mensagens diariamente, contando-nos sobre as partes mais animadas e memoráveis de alguns de seus livros prediletos. Uma das minhas mensagens favoritas veio de um menininho que disse que amava uma parte do livro infantil Five Little Monkeys Jumping on the Bed [Cinco Macaquinhos Pulando na Cama], de Eileen Christelow, quando a mãe pula em sua própria cama bem no final e começa a saltar. É claro que essa foi a parte favorita daquele menininho! Não seria a sua também? Alguns exemplos: • Do que você espera não se esquecer nesta jornada ao redor do mundo? (How to Make an Apple Pie and See the World, Marjorie Priceman) • Do que você espera não se esquecer da história de Meg? (Uma Dobra no Tempo, Madeleine L’Engle) • Do que você espera não se esquecer do livro Meninos de Ouro? (Meninos de Ouro, Daniel James Brown). As conversas que você gera ao fazer perguntas abertas de uma maneira fácil e amigável são ilimitadas. Talvez você mesma perceba aquelas perguntas que mais tende a fazer, aqueles questionamentos favoritos que você sempre vai querer fazer ao seu filho. Marque este capítulo e o releia com frequência, pois uma disposição amigável e essa coleção de perguntas abertas são tudo aquilo de que você precisa para ter conversas significativas e duradouras a respeito dos livros com seus filhos. Lembre-se de que o hábito de fazer perguntas pertinentes é mais importante do que receber respostas convincentes. Torne o hábito de fazer perguntas e iniciar conversas tão frequente e natural quanto perguntar a seus filhos como foi o dia deles ou o que eles fizeram na casa de um amigo. Não dê tanta ênfase à profundidade das respostas; elas se desenvolvem com tempo e prática. Ao invés disso, ajude o seu filho a desenvolver o hábito de fazer perguntas, de questionar. Quando lemos com os nossos filhos e separamos tempo para conversar e dialogar sobre o que lemos, abrimos portas, encaramos ideias e fortalecemos nosso relacionamento com eles. É dessa maneira que construímos uma cultura em torno dos livros. É assim que fortalecemos elos significativos e duradouros com nossos filhos. O tempo é então despendido da melhor forma possível com aquilo que de fato importa. Jamais nos arrependeremos desses momentos em família. Como utilizar os capítulos 12–15 Os próximos 4 capítulos deste livro foram escritos com o propósito de ajudá-la a navegar pelas águas da leitura em voz alta com seus filhos com base nas idades a seguir. Cada capítulo cobrirá uma faixa etária específica: • Capítulo 12: do nascimento aos três anos, • Capítulo 13: dos quatro aos sete anos, • Capítulo 14: dos oito aos doze anos, • Capítulo 15: de treze para mais. Em cada capítulo, você se familiarizará com a essência da leitura em voz alta de acordo com a faixa etária, e verá possíveis obstáculos que podem surgir durante a jornada. Cada capítulo contém uma lista de livros recomendados para cada faixa etária. Escolhi a dedo obras que provavelmente trarão aquela experiência de leitura em voz alta positiva com seus filhos, não importando quantos livros já tenha lido ou não em voz alta (se é que tenha lido algum). Li de capa a capa cada um dos livros contidos nestas listas e, por isso, estou convencida de que todos dão uma boa leitura em voz alta. Esta não é uma lista exaustiva, obviamente, mas é um bom ponto de partida para se aventurar nessa prática. COMO A MAIORIA DAS EDITORAS SEGMENTA SUAS PUBLICAÇÕES É provável que você perceba que minhas recomendações por idade diferem das recomendações das editoras. Tenho meus motivos. Afora os livros ilustrados e os livros para crianças em período de alfabetização, as editoras costumam ter outras duas categorias principais: infanto-juvenil e jovem adulto (JA). As editoras escolhem a categoria baseando-se em critérios distintos, por exemplo: • a complexidade do texto (por exemplo, a medida Lexile), • a idade do protagonista, • a maturidade do conteúdo da história. Livros infanto-juvenis normalmente são recomendados para a faixa etária de 8–12 anos ou de 10 anos para cima. Geralmente se adequam ao nível de leitura próprio a essa idade e apresentam protagonistas com mais de 10 anos. Não se trata de uma regra absoluta (você encontrará exceções), mas não costuma fugir muito disso. Livros para Jovens Adultos são destinados a leitores dos 13 aos 20 anos, apresentam um protagonista com 14 anos ou mais e a partir de determinada faixa etária entregam conteúdo mais maduro, incluindo linguagem inapropriada, violência e sexo. Livros para Jovens Adultos (embora nem sempre) apresentam situações centradas em um protagonista jovem ou em histórias de amadurecimento,e geralmente pressionam os limites no quesito conteúdo, refletindo o que está acontecendo na cultura (ou subcultura) corrente. Tenho vários problemas a tratar aqui. Começarei dizendo que apesar de ser uma regra geral em publicações infantis que o protagonista seja um pouquinho mais velho que o público-alvo, ainda estou para encontrar uma criança a dizer que os personagens em seus livros prediletos são mais velhos que ela. Às vezes as editoras decidem que um livro se encaixa com crianças de 8–12 anos porque o protagonista tem 11 anos, e pensam que pré- adolescentes de 13 anos não querem ler livros sobre crianças de 11 anos. Evidentemente, não é essa a realidade, e o sucesso de Harry Potter no mercado adolescente e adulto deveria ser o suficiente para nos convencer disso. Muitos adolescentes se apaixonam por personagens mais novos. Moças com mais de dezoito anos ainda se encantam com Anne Shirley, de 14 anos. Adolescentes amam Auggie Pullman, menino de dez anos do livro de R. J. Palacio, Extraordinário. E conheço um monte de crianças de 8–10 anos que amam os livros Ramona Quimby, uma menina tão nova. Não concordo com as editoras quando estas afirmam que a idade do protagonista deve decidir seu público-alvo, então ignoro essa variável por completo quando recomendo minhas listas de leitura. Você notará que recomendo uma boa quantidade de livros infanto-juvenis para adolescentes, justamente porque procuro por algo a mais (e não somente a idade do protagonista) quando recomendo um livro. Contarei exatamente o que estou buscando em alguns instantes. Antes disso, tratemos de outra questão acerca da forma como as editoras categorizam suas publicações. Qualquer um que passe tempo com crianças sabe que há uma grande diferença entre a maturidade emocional de uma criança de 8 anos e a de uma criança de 12 anos. Por exemplo, uma criança de 8 anos talvez não esteja pronta para ler uma história sobre os horrores da era de Hitler ou da Ku Klux Klan. Aos 12 anos, entretanto, muitas crianças já estão prontas para ler livros sobre tópicos mais pesados. Há uma diferença emocional ainda maior entre um pré- adolescente de 13 anos e um jovem de 17. Categorizar livros para jovens mais velhos (especialmente aqueles com violência gráfica e conteúdo sexual) junto a livros apropriados para pré-adolescentes de 13 anos é a receita para o desastre juvenil (e para os pais que estão tentando ajudar seus filhos com bons livros!). De modo geral, acredito que as editoras têm a tendência de inverter um pouco a faixa etária de suas categorizações. Por exemplo, por vezes me deparo com livros recomendados para a faixa etária 8–12 anos, mas que se adequariam com maior precisão à maturidade emocional dos meus filhos entre 13–15 anos. Além disso, há uma enorme quantidade de livros recomendados para Jovens Adultos que mesmo adulta considerei de difícil leitura, e eu não gosto nada que essas mesmas obras sejam colocadas ao lado dos contos de fantasia favoritos do meu filho de treze anos. Encerro meu protesto em poucas linhas (prometo!), mas saber como os editores segmentam as faixas etárias devolve o controle aos pais. São eles quem precisam decidir qual o melhor livro para leituras em família. Finalmente, tenha sempre uma verdade em mente: quem precisa decidir qual livro é ou não adequado para o seu filho é você, pai e mãe dele. Apesar das recomendações editoriais, obras recomendadas para determinada idade podem não ser recomendadas para o seu filho. Quem o conhece de fato é você. Atente-se a isso! O QUE ESTOU BUSCANDO NOS LIVROS QUE RECOMENDO Nas listas de livros a seguir, busco dar aos pais que estão lendo com seus filhos uma experiência prazerosa e memorável. Quero dizer, não estou tentando encontrar os livros mais desafiadores para cada faixa etária. Pelo contrário, busco livros que darão a você e a seus filhos uma experiência de leitura em voz alta encantadora, independentemente do “grau de dificuldade de leitura” dos textos, da idade do protagonista ou da recomendação etária por parte da editora. Os livros listados nos capítulos seguintes fazem exatamente o que falamos no Capítulo 9 — são livros prazerosos para adultos e crianças, que deixam os leitores com um amplo senso de esperança e deslumbramento, e passam pela minha Avaliação de 3 Perguntas: apelando ao nosso sentido visual, usando um vocabulário rico e variado e aumentando nosso interesse e desejo pela leitura. Enquanto criava cada uma das listas, tentei me ater aos livros contemporâneos, embora você também encontre alguns clássicos. Espero que goste de mergulhar nos padrões antigos, e fiz questão de acrescentar alguns clássicos especialmente adequados para a leitura em voz alta. Entretanto, listas de grandes clássicos abundam na internet, e nestes capítulos meu desejo sincero é introduzi-la a novos autores e obras que encantarão e surpreenderão você e seus filhos. Talvez você estranhe que alguns de seus livros favoritos não figuram nestas listas — na verdade, alguns dos meus favoritos também não estão! Na verdade, eu mesma montei listas específicas para a leitura em voz alta. Alguns livros são mais fáceis de ler em voz alta, outros nem tanto; por isso criei essas listas, tendo em mente uma experiência positiva. Você encontrará livros de autores/ilustradores diversos e livros que apresentam personagens distintos. Lembre-se, quando lemos estamos buscando janelas, espelhos e portas de vidro corrediças (leia o Capítulo 5 para entender melhor). Também escolhi uma versão da Bíblia (ou duas) para cada nível de leitura. Acredito que essas versões tenham uma boa desenvoltura para a leitura em voz alta. E você pode, é claro, ler em voz alta qualquer versão da Bíblia usada em sua igreja e/ou casa, mas descobri que alguns livros de histórias da Bíblia voltados ao público infantil são particularmente agradáveis e significativos no caso da leitura em voz alta. Lembre-se de que esta não é uma lista dos livros mais importantes. Meu único objetivo ao criá-la foi o seguinte: ajudar você, mamãe ou papai, a desfrutar da leitura em voz alta com seus filhos. As obras aqui listadas pretendem ajudá-los nesse processo. “NÃO CREIO QUE A SARAH INCLUIU ESSE LIVRO!” Todas nós temos gostos diferentes, então imploro que siga seus instintos dados por Deus quando estiver selecionando livros para ler em voz alta com seus filhos. Só porque um livro entrou na minha lista de recomendações (ou na de qualquer outra pessoa), não significa que o livro automaticamente seja um encaixe perfeito para o seu filho. Você conhece o seu filho, sua família, seus valores melhor do que eu. Sinta-se confiante em suas próprias decisões para escolher os livros que irá ler com eles — você é a melhor pessoa para ajudar seu filho a aprender a amar a leitura e a encontrar livros que causem um impacto significativo e duradouro nele. Se vocês não estiverem aproveitando a leitura ou se o livro simplesmente não se encaixou no ritmo da família, abandone-o e leiam outro! Lembre-se do que dissemos no Capítulo 9: às vezes, você precisa procurar pela jujuba certa. Acima de tudo, espero que estes livros tragam deleite e inspiração. Espero que conduzam toda a sua família para uma discussão maravilhosa e deliciosa com seus filhos, imprimam-se nas memórias de sua família e ajudem você e seus filhos a se apaixonarem um pouco mais por histórias e narrativas. Espero que essas obras a encham de esperança, ajudem-na a ver o mundo outra vez e encantem o seu coração. Acima de tudo, espero que os livros aqui indicados ajudem sua família a amar a Deus e o próximo de todo o seu coração, alma, mente e força. Nunca é tarde demais para começar a ler em voz alta. Quer onde você esteja, qual seja a idade dos seus filhos, hoje é o melhor dia para começar a ler em família. Então pegue uma lista e comece. Garanto que você não vai se arrepender. CAPÍTULO 12 Livros são deliciosos Faixa Etária: 0–3 Crianças tornam-se leitoras no colo dos pais. — Emilie Buchwald A criança nunca é nova demais para um momento de leitura em voz altaem família. Bebês no útero se beneficiam de escutar o som da voz dos pais e os recém- nascidos normalmente ficam calmos com o ritmo e a cadência de ter alguém lendo ou falando com eles. E a prática fica ainda mais animadora quando o bebê começa a engatinhar por todos os cantos da casa, ainda que ele aparente preferir brincar com o livro ou mastigá-lo a olhar para as imagens ou se sentar em silêncio para uma história! Segundo pesquisas, bebês que ouvem alguém lendo para eles em voz alta desde os seis meses de idade têm vocabulários mais robustos e mais facilidade na alfabetização quatro anos depois (quando geralmente começa a escola). Os benefícios acadêmicos, então, começam quando nossos filhos são muito, muito pequenos. Estamos preparando nossos pequeninos para o sucesso futuro quando os abraçamos e compartilhamos uma história. Mas queremos muito mais do que simplesmente investir em seu sucesso futuro, certo? Ler com nossos filhos mais novos é ajudá-los a associar livros e histórias com afeição. Eles relacionam livros com amor e carinho. Quando colocamos nossos pequenos no colo e tiramos tempo para ler uma história, eles se sentem cuidados e seguros. Ajudar nossos filhos a associar esse sentimento caloroso, feliz e amável aos livros é um grande presente. QUANDO AS COISAS COMEÇAM A COMPLICAR A parte complicada de ler para os pequenos é se reconhecer bem-sucedida mesmo quando não parece. Seu bebê pode estar balbuciando, brincando, dormindo ou aparentemente a ignorando, e então você começa a se perguntar se ele está mesmo prestando atenção. Como isso pode fazer alguma diferença? Deixe-me garantir que faz toda diferença; o efeito cascata de ler com uma criança menor de quatro anos é surpreendente. Mesmo que seu bebê esteja ocupado brincando, olhando para o nada, balbuciando ou aparentemente completamente desinteressado, a linguagem entrando em seus ouvidos ainda causa impacto positivo. Algumas de nós se frustram quando nossos filhos viram a página do livro depressa ou devagar demais. No caso das crianças mais novas, o simples gesto de apontar para imagens e falar sobre elas já costuma ser uma experiência prazerosa. Neste estágio, os pais já colhem frutos por simplesmente sentar com seu filho — um por vez, caso tenha mais de um — e tirar tempo para virar as páginas de um livro (ainda que não seja exatamente para ler cada uma das palavras da página). Lendo com nosso bebê, queremos ter certeza de que o estamos respeitando como um ser racional e honrando sua afinidade natural por histórias. Uma criança pequena naturalmente será atraída a livros bonitos, engraçados, simples, ou até mesmo bobos. Lembre- se, bons livros são histórias que os pais amam ler e os filhos amam escutar. Trata-se de uma verdade até mesmo no caso de filhos mais novos. ESCOLHENDO LIVROS PARA A FAIXA ETÁRIA ENTRE 0–3 ANOS Quando estiver escolhendo livros para crianças muito novas, mantenha os olhos em padrões previsíveis, em textos simples e prazerosos e ilustrações que levem seu filhos a gastar mais tempo que o estritamente necessário apenas olhando. As crianças dessa idade gostam especialmente de rimas bem escritas (Mamãe Ganso, mais alguém?). A marca desta idade é seu amor pela repetição. Você descobrirá que seu filho, ao contrário de você, não se cansa das mesmas histórias. Na verdade, é muito provável que seu filho menor prefira ouvir ou ler as mesmas histórias várias vezes seguidas, e não uma lista mais variada. Você também não precisa ter uma enorme coleção de livros para crianças de 0–3 anos. “Antes dos dois anos”, diz Jim Trelease, “a leitura repetida de poucos livros é melhor do que uma grande coleção lida sem frequência”.1 Mantenha uma pequena caixa com alguns favoritos à mão e os torne acessíveis ao seu filho; e esteja pronta para lê-los uma vez depois da outra até que consiga recitá-los involuntariamente. Para crianças com menos de dois anos (ou para crianças mais velhas que ainda não estão familiarizadas com livros), opte pelos livros cartonados e pelos “indestrutíveis” (um tipo de livro cujo material é difícil de rasgar ou danificar, à venda em muitas livrarias físicas e virtuais). Deixe seu bebê mastigá-lo, sentar nele, brincar com ele, senti-lo de diversas formas. Você quer que os livros se tornem o brinquedo e companheiro favorito do seu pequeno. Não insista com o seu bebê para que ele manuseie as páginas de uma forma específica. Com o tempo (e com o seu exemplo, é claro) seu pequeno aprenderá por si só a manusear um livro de forma adequada. O mais importante ao ler com uma criança pequena é manter os laços de alegria, energia e vida. Essa postura é mantida quando nossos momentos de leitura permanecem calorosos e aconchegantes, com tempo disponível para — eis a dica — ler com calma, com naturalidade, e não correndo, como é do nosso costume hoje em dia. Deixe que seus filhos tomem tempo nas ilustrações ou folheiem rapidamente as páginas, uma após a outra, com liberdade. Essa abertura permite que os nossos filhos menores formem seus próprios relacionamentos com os livros. Todo tempo gasto lendo com uma criança de três anos ou menos é um tempo bem gasto. Ler esses mesmos livros simples repetidas vezes (e continuamente) proporciona ao seu filho um salto incrível, bem como um belo relacionamento com as histórias e, o mais importante, um vínculo especial com você. O QUE OS BEBÊS E AS CRIANÇAS PEQUENAS PODEM FAZER ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA No momento de leitura em voz alta, as seguintes atividades são excelentes para conseguir a atenção dos bebês ou para distraí-los enquanto lê para os irmãos mais velhos. • Sirva lanches (ofereça picolés — eles demoram para chupar um picolé. Quando seu filho já tiver um pouco mais de coordenação motora, uma boa pedida é dar pequenas porções de alimentos em formatos geométricos, como cereais matinais, cubos de queijo ou pedaços de fruta). • Monte quebra-cabeças gigantes voltados a crianças dessa idade. • Faça o seu filho pintar. Coloque a criança no cadeirão, cole uma cartolina na mesinha de apoio e dê ao seu filho giz de cera grosso. • Construa coisas com bloquinhos. • Derrame no chão uma caixa com os brinquedos favoritos do seu filho (não há problema se ele aparentemente não estiver prestando atenção na leitura). • Use um pincel para “pintar” com um pouco de água (use essa distração com a criança no cadeirão ou no quintal; diga ao seu filho “pinte a cartolina” ou “pinte a mesinha” enquanto você lê). • Faça modelagens com massinha (quando o seu filho tiver crescido o suficiente para não comê-la). • Dê ao seu filho canetões de tinta removível (disponíveis em papelarias e lojas especializadas, tanto físicas como virtuais) e grandes folhas de papel. MINHA BÍBLIA FAVORITA PARA LER EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 0–3 ANOS Os volumes de Read-Aloud Bible Stories [Histórias Bíblicas Lidas em Voz Alta] escritos e organizados por Ella Lindvall e H. Kent Puckett são os meus favoritos para os mais novos. Ilustrações simples e claras contam o que o pequeno texto mínimo não conta. Amo como as ilustrações ao lado desses textos mostram cenas a partir de perspectivas inesperadas. O texto espalhado pelas páginas é perfeito para ler em voz alta, e os pais leitores podem até mesmo perceber nuances totalmente novas ao longo da leitura. Os mesmos autores e a mesma equipe de ilustradores que produziu os volumes 1–5 da Read-Aloud Bible Stories foram também os produtores do livro How God Made the World [Como Deus Criou o Mundo]. ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 0–3 ANOS Enquanto criava minha lista, buscava por livros com ritmo e cadência prazerosos, de belas ilustrações e cuja estrutura fosse apetecível para crianças pequenas. Meu esforço foi escolher obras que os pais pudessem ler repetidas vezes sem enlouquecer. Tente garantir que os livros escolhidos serão como um reflexo de culturas e personagens diversificados — minha lista a ajudará com isso. É claro, os melhores livros para a faixa etária de 0–3 anos são os livros que cativam o seufilho. Comece com essa lista e vá sondando o interesse do seu pequeno. E lembre-se da parte mais importante: divirta-se! Bee-bim Bop!, de Linda Sue Park, ilustrado por Ho Baek Lee Um livro cartonado com rimas e muita diversão, esta história cantada narra o momento em que uma mãe e sua filha pequena preparam juntas uma receita com arroz tipicamente coreana. O ritmo de Linda Sue Park é perfeito; as cores vibrantes e a harmonia entre as palavras fazem com que reler este livro repetidas vezes seja um deleite. Sim, você provavelmente fará exatamente isso; e o melhor: a pedido do seu filho! Leia também: Jamberry, de Bruce Degen. Blue Hat, Green Hat [Chapéu Azul, Chapéu Verde], de Sandra Boynton Os livros de Sandra Boynton farão você e seu pequeno ouvinte dar boas risadas — suas histórias têm sido descritas como “sérias bobagens para todas as idades”. Em Blue Hat, Green Hat, um peru confuso tenta se vestir. Leia este livro algumas vezes e logo seu pequenino será capaz de “lê-lo” com você! Leia também: But Not the Hippopotamus, Barnyard Dance, The Going-to-Bed Book, e Happy Hippo, Angry Duck — todos do mesmo autor/ilustrador. Carlinhos precisa de uma Capa, de Tomie dePaola Vale a pena ler qualquer material de Tomie dePaola, mas Carlinhos precisa de uma Capa há de cativar em especial medida a atenção do seu pequeno leitor. Pobre Carlinhos, o pastor usa uma capa esfarrapada. Com ilustrações bem-humoradas, de texto simples e conciso, veja Carlinhos tosar as ovelhas, cardar e fiar a lã, tingir o tecido e costurar uma linda e nova capa vermelha. Seus filhos vão amar ver o rato guardando tesouros ao longo das páginas. E não se surpreenda se seus filhos começarem a gargalhar na última página! Leia também: Pancakes for Breakfast, My First Mother Goose, do mesmo autor/ilustrador, e Pelle’s New Suit, um livro sobre tosquia de ovelhas escrito e ilustrado por Elsa Beskow. Querido Zoo, de Rod Campbell Onde procurar o animal de estimação perfeito? No zoológico, é claro! Mas qual animal seria o ideal? Crianças pequenas adoram levantar as abas para revelar os animais neste clássico dos livros cartonados. Trata-se de um queridinho todo especial para bebês de um a dois anos. (Quase sempre dou esse título como presente em chás de bebê). Leia também: Peek-a Who? e Peek-a-Moo!, ambos de Nina Laden. Pêssego, Pera, Ameixa no Pomar, de Allan e Janet Ahlberg Uma divertida combinação de Mãe Ganso e I Spy, este livro é um daqueles que seu filho não vai se cansar de ouvir repetidas vezes. Os pequenos se divertem encontrando os personagens ocultos nas lindas obras de arte e ouvindo as rimas. Meus filhos me pediram para lê-lo inúmeras vezes. Posso recitá-lo de olhos fechados! Leia também: Peek-a-Boo, de Allan e Janet Ahlberg. The Giant Jumperee [O Gigante Jumperee], de Julia Donaldson, ilustrado por Helen Oxenbury Pobre Coelho! Há uma criatura assustadora se escondendo dentro de sua toca! Os amigos do Coelho vêm em seu auxílio, mas eles também estão apavorados com a voz estrondosa e misteriosa. O que farão? Quem é o Gigante Jumperee e como ele sairá da toca? Embora recente, este livro tende a se tornar um clássico nos próximos anos. Julia Donaldson é mestre nas rimas e as expressões dos animais nas ilustrações de Helen Oxenbury farão até os adultos rirem. Leia também: O Grúfalo e O Caracol e a Baleia, ambos escritos por Julia Donaldson e ilustrados por Axel Scheffler. Go, Dog. Go!, de P.D. Eastman São poucos os deleites para uma criança como a festa canina que aparece no final deste livro — e a alegre experiência de presenciá-la sempre que o relê. Adquira a versão completa em capa dura ou em brochura, ou mesmo a versão resumida em forma de livro cartonado (de material mais resistente e tão prazerosa quanto a versão completa), voltada a crianças menores. Livros cheios de rimas são especialmente deliciosos para as crianças pequenas, uma vez que podem ajudá-las a “ler” o livro após o terem escutado algumas vezes. Este é um predileto por todo o mundo. Leia também: livros cartonados do Dr. Seuss, como One Fish Two Fish Red Fish Blue Fish, Hop on Pop, e Fox in Socks. Good Dog, Carl [Carl, o Bom Cachorro], de Alexandra Day Livros sem texto são especialmente divertidos de ler com crianças pequenas. Talvez você se surpreenda com o que cativa a atenção do seu filho à medida que ele olha as imagens. É preciso habilidade cuidadosa e uma imaginação robusta para contar uma história completamente em imagens, e Alexandra Day exibe ambas as qualidades com suas histórias sobre o amado cachorro Carl — o melhor amigo do bebê. Leia também: o restante dos livros sobre Carl, de Alexandra Day, como Carl’s Afternoon in the Park, Carl’s Summer Vacation, e Carl’s Birthday, além de outros livros sem texto como Goodnight, Gorilla, de Peggy Rathmann (esse é hilário!). Hello Ninja, de N. D. Wilson, ilustrado por Forrest Dickison Pronto para rir? Esse livro cartonado, divertido e brincalhão mostra o dia a dia de um ninja — afinal, ninjas também comem, dormem e vão ao banheiro, são gente como a gente. Certo? Mas não o acorde! Ninjas fazem coisas de ninja o dia todo, e esse pequeno ninja precisa de descanso! Leia também: Blah Blah Black Sheep, de N. D. Wilson e Forrest Dickison, além de I’m Grumpy e I’m Sunny!, ambos de Jennifer L. Holm & Matthew Holm. Hush! A Thai Lullaby [Silêncio, Thai está Dormindo!] de Minfong Ho, ilustrado por Holly Meade Esta doce história de ninar ganhou uma Medalha Caldecott pelas lindas ilustrações de Holly Meade. Lagarto, lagarto, não venha espiar! Não vê que meu bebê está a ninar? Cada nova criatura que aparece ameaça acordar o bebê, e a última página é a minha favorita! Leia também: o divertido e cativante Hush, Little Baby, de Marla Frazee, uma abordagem da canção folclórica americana, e Twinkle, Twinkle, Little Star [Brilha, Brilha, Estrelinha], ilustrado por Iza Trapani. Kitten’s First Full Moon [A Primeira Lua Cheia do Gatinho], de Kevin Henkes Tudo o que o gatinho quer é uma tigela de leite. Mas por que essa tigela branca e redonda de leite é tão difícil de alcançar? Crianças que amam animais vão adorar este doce conto de um gatinho faminto e uma brilhante lua cheia. Em tons vibrantes de preto e branco, este livro ganhou a Medalha Caldecott de melhor ilustração de 2015. Leia também: O Mundo Inteiro, de Liz Garton Scanlon e Marla Frazee, e Gossie, de Olivier Dunrea. O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro e o Grande Urso Esfomeado, de Don Wood e Audrey Wood Um ratinho fica emocionado ao encontrar um morango vermelho maduro, mas como ele pode protegê-lo do grande e faminto urso? Adquira este livro em sua edição cartonada e ele aguentará o manuseio frequente. Don e Audrey Wood assinam juntos vários dos meus livros infantis favoritos. Leia também: A Casa Sonolenta, A Lua Cheia na Casa Sonolenta, e Rápido como um Gafanhoto, todos do mesmo autor e ilustrador. Mr. Gumpy’s Outing [O Passeio do Sr. Gumpy], de John Burningham Os livros do Sr. Gumpy encantam as crianças há décadas, e não é de admirar. Em Mr. Gumpy’s Outing, os animais querem pegar uma carona no barco do Sr. Gumpy. E não há problema, desde que a ovelha não faça barulho, o coelho não pule e as crianças não briguem. Mas e se eles fizerem tudo isso? Minha parte favorita dos livros do Sr. Gumpy é o tema que permeia todas as histórias: no final, tudo ficará bem (e sempre há tempo para o chá!). Leia também: Mr. Gumpy’s Motor Car, do mesmo autor, One-Dog Canoe e One-Dog Sleigh, de Mary Casanova, ilustrados por Ard Hoyt. Pancakes, Pancakes! [Panquecas!], de Eric Carle Com Eric Carle não tem erro. Ele é mais conhecido por Uma Lagarta Muito Comilona, é claro, um dos livros infantis mais icônicos de todos os tempos. Em Pancakes, Pancakes! seguimos Jack enquanto ele reúne todos os ingredientes de que sua mãe precisa para fazer uma simples panqueca para o café da manhã. A melhor parte de todas é a última etapa! Leia também: Brown Bear, Brown Bear, What do you see?, A Joaninha Mal-humorada, A House for Hermit Crab, e The Very Lonely Firefly — todos ilustrados por EricCarle. Richard Scarry’s Best Mother Goose Ever, de Richard Scarry Mother Goose [Mamãe Ganso] é sempre um sucesso com os pequeninos. E há um bom motivo para todo esse sucesso — a repetição e a cadência das rimas de Mother Goose acalmam e estimulam crianças pequenas. Gosto da versão de Richard Scarry, embora tenhamos vários volumes diferentes de Mother Goose espalhados por nossa casa. Certifique-se de que seu filho tenha pelo menos um volume para guardar. Leia também: Mother Goose, de Sylvia Long, The Real Mother Goose, de Blanche Fisher Wright, Favorite Nursery Rhymes from Mother Goose, de Scott Gustafson, Mary Engelbreit’s Mother Goose, My Very First Mother Goose, de Rosemary Wells e Iona Opie, e Mother Goose, de Tomie dePaola. Um Dia de Neve, de Ezra Jack Keats Este foi um dos livros favoritos da minha filha por vários anos. Líamos antes de dormir, mesmo no verão! Peter começa a explorar a primeira nevasca em sua cidade, observando suas próprias pegadas e arrastando consigo uma vara pelos montões de neve que se formaram, brancos e cintilantes. O uso que Keats faz de colagens e aquarela é inconfundível e cativante. Esta obra fez história em 1963 por ser, de acordo com a revista Horn Book, “o primeiro livro de imagens coloridas a apresentar um pequeno herói negro”.2 Leia também: Whistle for Willie, e Peter’s Chair, ambos do mesmo autor/ilustrador. Ten, Nine, Eight [Contagem Regressiva], de Molly Bang “Dez dedinhos dos pés, todos lavados e aquecidos, nove amiguinhos em uma sala silenciosa”. É hora de dormir, mas não antes de uma coisinha. Você e seu filho irão adorar as ricas ilustrações deste livro condecorado com a Medalha Caldecott, perfeito para ler antes de dormir. Leia também: Boa Noite, Lua, de Margaret Wise Brown, Peekaboo Morning, de Rachel Isadora, e Feast for Ten, de Cathryn Falwell (outro livro divertido que brinca com somas e contagem). The Three Billy Goats Gruff [Os Três Bodes], de Paul Galdone Se pudesse escolher apenas uma série de livros ilustrados para meus filhos, eu escolheria tudo que Paul Galdone produziu. Suas fábulas e seus contos de fadas ilustrados são os melhores que encontrei. São os livros que mais ocupam espaço em nossa casa, e quando preciso acalmar uma criança agitada, costumo ir a essas obras. Faça um favor a si mesma e monte uma biblioteca em sua casa com as edições em capa dura desses livros maravilhosos. Leia também: A Pequena Galinha Vermelha, Os Três Gatinhos, Cachinhos Dourados e os Três Ursos, O Macaco e o Crocodilo, Os Elfos e o Sapateiro, Chapeuzinho Vermelho, O Rato do Campo e o Rato da Cidade, João e o Pé de Feijão, e Cinderela, todos recontados e ilustrados por Paul Galdone. Vamos à Caça do Urso, de Michael Rosen, ilustrado por Helen Oxenbury Você ficaria com medo se fosse caçar ursos? E se surgissem problemas? Se você não pode passar por cima, não pode passar por baixo e não pode contornar, você terá que atravessar. Este é um daqueles livros particularmente divertidos de interpretar, fazendo barulhos e sons enquanto o lê. Helen Oxenbury é uma das minhas ilustradoras de materiais infantis favoritas! Leia também: Ten Little Fingers and Ten Little Toes, de Mem Fox, ilustrado por Helen Oxenbury, So Much!, de Trish Cooke, ilustrado por Helen Oxenbury, e Hand, Hand, Fingers, Thumb, de Al Perkins. Whose Knees Are These? [De Quem São Estes Joelhos?], de Jabari Asim, ilustrado por LeUyen Pham De quem são esses joelhos? Joelhos assim não crescem em folhedos. Tão fortes e morenos, a quem pertencem esses belos joelhos? Seu filho vai rir junto com esse texto tão alegre e provavelmente conseguirá depressa “ler” esse delicioso livro cartonado para você depois de apenas algumas leituras. Leia também: Whose Toes Are Those?, Girl of Mine e Boy of Mine pelo mesmo autor e pela mesma equipe de ilustradores. CAPÍTULO 13 Idade do deslumbramento Faixa Etária: 4–7 anos Na vida da criança, não há nada que substitua um livro. — Mary Ellen Chase Os momentos de leitura em voz alta tornam-se notoriamente mais tranquilos quando a criança chega aos quatro anos. Crianças nesta faixa etária normalmente conseguem ouvir a leitura por mais tempo e, embora ainda gostem de encher os olhos com livros belamente ilustrados, também se atêm a histórias sem ilustrações. Crianças de quatro a sete anos estão na idade perfeita para Contos de Fadas e fábulas e normalmente amam uma variedade de narrativas: de aventuras heroicas e angustiantes a histórias bobas e sem sentido. Crianças dessa idade provavelmente (mas nem sempre) começarão a ser alfabetizadas. Algo de que você precisará se lembrar é manter os livros como fonte de prazer para os seus filhos. Frequentemente, pais e educadores ficam ansiosos demais para que as crianças comecem a ler sozinhas, sacrificando a alegria da criança pelos livros no processo de ensinar fonologia, fonética, caligrafia e compreensão de texto. Tenha em mente que, em se tratando de nossos filhos e livros, não vale a pena ensinar uma criança a ler cedo se, ao longo do processo, esse ensino significa sacrificar seu amor pela leitura. Nossa primeira e mais importante prioridade é nutrir amor pelos livros em nossos filhos. A criança com um apetite insaciável por histórias aprenderá a ler de fato (mesmo que isso não aconteça no tempo que você, papai ou mamãe, imaginou... seja paciente!). Na verdade, seu filho por fim será motivado a aprender a ler. E qual é a melhor parte? Seu filho amará a leitura. Priorize o amor do seu filho pela literatura e você descobrirá mais adiante que tem filhos capazes de ler por conta própria e — ainda melhor — que de fato leem por conta própria... mesmo quando ninguém estiver olhando. No livro Manual de Leitura em Voz Alta, Jim Trelease escreve: “Pesquisas demonstram que mesmo quando a criança chega aos primeiros anos do Ensino Fundamental, repetir os mesmos livros ilustrados (ao menos três vezes) melhora a aquisição de vocabulário de 15% a 40%”.1 Você sabe o que isso significa, certo? Significa que não podemos deixar os livros ilustrados de lado! Com muita frequência associamos livros ilustrados a crianças bem novas, mas assim que nossos filhos se tornam capazes de ler e/ou ouvir um livro somente com linguagem escrita, abandonamos a linguagem visual. Não passa de um grande erro. Livros ilustrados costumam ter um vocabulário mais variado e mais rico do que os livros infantis não ilustrados e até mesmo do que os romances infanto-juvenis. Prossiga lendo livros ilustrados com seus filhos mesmo que eles já sejam capazes de ouvir livros não ilustrados e mais complexos. Quando estiver pronta para começar narrativas mais longas, é interessante que você encurte os momentos de leitura em voz alta e escolha livros com enredos dinâmicos e personagens cativantes. Você não quer que a primeira experiência do seu filho com livros mais longos seja chata e maçante. Se você escolher romances envolventes (este capítulo certamente irá ajudá-la!), seu filho terá vontade de descobrir quais outras histórias maravilhosas esperam por ele dentro da capa de livros mais longos. Quando estiver escolhendo livros para ler em voz alta com crianças de 4–7 anos, tente, se possível, evitar adaptações de linguagem simplificada ou paráfrases infantilizadas. Livros desse tipo optam por vocabulário simplificado e são voltados para crianças que estão começando a ler, pois facilitam a decodificação de sons e palavras. São livros que acabam sendo chatos para a leitura em voz alta. Queremos encher os ouvidos de nossos filhos com vocabulário rico e variado. Você encontrará esse tipo de vocabulário tanto em livros ilustrados quanto em romances, mas dificilmente em adaptações simplificadas e paráfrases. Na lista que se encontra no final desse capítulo, você verá os livros ilustrados que mais amo para ler em voz alta com essa faixa etária, bem como alguns excelentes romances. Não se apresse para chegar ao estágio de leitura de romances. Permaneça com os livros ilustrados por um bom tempo antes de começar seu primeiro romance em voz alta ao lado do seu filho! Oobjetivo é que o primeiro romance lido em conjunto seja encantador e divertido; adiantar demais essa fase dificultará o prazer da leitura. Nesta idade é fácil se distrair com atividades extras que dão ao seu filho experiências manuais relacionadas ao livro. Trabalhos manuais e outras atividades baseadas em livros são úteis quando alimentam o deleite do seu filho pela história, embora não sejam essenciais de maneira alguma. O livro é suficiente — a história consegue se sustentar por si só. Pegue leve nas atividades extras; use-as somente para dar uma diversão a mais ao seu filho. O objetivo é que os livros se tornem os companheiros do seu filho, mesmo que não haja nenhuma outra atividade ao mesmo tempo. Dê tempo e espaço e você provavelmente testemunhará uma criança tendo prazer na leitura. Deixe que as atividades baseadas nos livros sejam como o granulado do brigadeiro: gostoso, mas completamente dispensável diante do sabor do próprio brigadeiro. Assim como no período de 0–3 anos, o objetivo mais importante de compartilhar livros com crianças de 4–7 anos é sobretudo cultivar em seu filho um amor profundo e permanente por histórias. Sempre que lemos com uma criança nessa faixa etária, estamos plantando sementes de amor pela leitura. Criamos lembranças vívidas e alegres que moldarão a vida de nossos filhos. Servimos de ajudadores na compreensão de que ler é de fato um dos maiores prazeres da vida. O QUE CRIANÇAS DE 4-7 ANOS PODEM FAZER ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA • Colorir ou desenhar (escolha canetas ou marcadores e os torne especiais: use-os exclusivamente no momento de leitura em voz alta). • Trabalhe com livros de pintar com água (existem alguns muito bons produzidos por Melissa & Doug). • Laceie cartões com um cordão. • Use livros de atividades como os de colagem, de colorir ou de pontilhar (gostamos dos livros de Usborne). • Brinque com ímãs em formatos diferentes (animais, dinossauros, etc.) e os cole em uma assadeira. • Faça colares com canudos, barbante e miçangas. • Use elásticos para preencher formas geométricas em uma tábua de geometria. • Monte quebra-cabeças. • Tricô. • Faça esculturas com massinha. • Use os livros de colorir Water Wow!, produzidos por Melissa e Doug (livros reutilizáveis de pintar com água que quase não fazem bagunça) — meus pequenos amam esses. MINHA BÍBLIA FAVORITA PARA LER EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 4–7 ANOS Quanto à leitura de histórias bíblicas para crianças nessa faixa etária, minha primeira parada é no Livro de Histórias Bíblicas de Jesus: Todas as Histórias Sussurram seu Nome, de Sally Lloyd- Jones. Há mais do que beleza para os olhos nessa obra. Sally retratou cada narrativa bíblica visando a história por trás de todas as demais — a história que sempre aponta para Jesus. Conversei com a autora em um episódio do podcast Read-Aloud Revival e Sally manifestou seu desejo de que as crianças compreendessem que Jesus está no coração de cada história já contada, inclusive (e em especial) na história de vida de cada uma delas. ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 4–7 ANOS A parte mais difícil de criar essa lista de livros foi mantê-la pequena! Lembre-se de não se apressar para ler livros com narrativas maiores do que os seus filhos são capazes de acompanhar. É melhor permanecer com os livros ilustrados por mais tempo do que o necessário do que introduzir romances antes do tempo certo. E tenha em mente que seu filho nunca será velho demais para livros ilustrados! Leio livros ilustrados até com os meus filhos adolescentes. Certifique-se de que os livros escolhidos oferecerão uma variedade de personagens e culturas. A própria lista de livros pode ajudá-la na hora de tomar essas decisões. Livros Ilustrados Blueberries for Sal [Mirtilos para Sal], de Robert McCloskey Quando começar a ler com mais frequência para seus filhos, você perceberá que o nome de alguns autores aparecem mais de uma vez. Estes são os mais marcantes, os ícones, os autores e ilustradores que, geração após geração, imprimem suas obras na vida das crianças. Robert McCloskey é um deles. Se você se deparar com um de seus livros durante sua peregrinação por bibliotecas, livrarias ou sebos, há apenas uma coisa certa a ser feita: pegue-o. Blueberries for Sal conta a história de uma garotinha e um ursinho que se confundem em uma tarde de colheita de mirtilo. Leia também: One Morning in Maine, Make Way for Ducklings, e Time of Wonder, todos de Robert McCloskey. Building Our House [Construindo nosso Lar], de Jonathan Bean Não é surpresa alguma que as crianças adoram livros sobre construção, e este é o meu favorito. Com base na própria experiência familiar de Jonathan (seus pais construíram uma casa do zero quando ele era jovem), ele apresenta todas as etapas que envolvem a construção de uma casa. As ilustrações de Bean contam a segunda camada da história — linhas firmes que adicionam uma sensação de solidez e concretude ao livro. Crianças de todas as idades (e adultos também!) vão gostar de estudá-lo repetidas vezes e rever as fotografias nas últimas páginas dessa obra, baseada na vida de Bean. Leia também: At Night; This Is My Home, This Is My School (um livro ilustrado sobre a experiência de educação domiciliar de Jonathan na infância); e Big Snow, todos do mesmo autor/ilustrador. The Circus Ship [O Navio dos Animais], de Chris Van Dusen Se você ler este livro para seu filho, vai passar um bom tempo admirando a página do zoológico — é meio mágico mesmo. Aqui está a história de um navio carregado de animais de circo que precisam nadar por segurança quando a embarcação começa a afundar. Mas a verdadeira diversão começa quando eles acabam numa cidade cheia de gente! Chris Van Dusen fala tanto por meio do texto quanto de suas ilustrações deslumbrantes. Ele é um mestre das rimas, e seu filho será apresentado a várias palavras novas em uma história que ele irá reler e com a qual se deliciará muitas e muitas vezes. Leia também: Hattie & Hudson, King Hugo’s Huge Ego, If I Built a Car e Down to the Sea with Mr. Magee, todos do mesmo autor/ilustrador. Daisy Comes Home [Em Busca de Daisy], de Jan Brett Não tem erro com os livros de Jan Brett, e você os reconhecerá assim que se deparar com algum deles! As lindas ilustrações detalhadas de Jan Brett são causa de muito prazer e diversão. O uso de artifícios e referências em suas ilustrações cuidadosamente pensadas é divertido até para adultos. Em Daisy Comes Home, Mei Mei precisa encontrar uma de suas galinhas, Daisy, que acidentalmente foi andando até o rio. Trata-se de uma doce história de cuidado e aventura, e de uma olhada na bela China. Leia também: The Empty Pot, de Demi (outro adorável conto chinês). E não deixe de ler as outras obras maravilhosas de Jan Brett! Meus favoritos são The Mitten, The Hat, Honey... Honey... Lion!, The Turnip, e Hedgie’s Surprise. Se for Natal, certifique-se de dar uma olhada nos seguintes livros dela: The Wild Christmas Reindeer, Gingerbread Christmas, The Night Before Christmas, e The Three Snow Bears. The Gardener [O Jardineiro], de Sarah Stewart, ilustrado por David Small Todos estão na Grande Depressão, o tio Jim está mal- humorado e Lydia Grace é enviada para morar com ele. Lydia teme que não tenha onde plantar suas amadas sementes em sua nova casa na cidade. Este conto comovente disserta sobre o poder da beleza em um mundo que parece sem esperança. As ilustrações dão um toque leve, tranquilo e ligeiramente mágico à história. Seus filhos vão sentir afinidade com Lydia, carinho pelo rabugento tio Jim e esperança diante do futuro. Leia também: The Library, da mesma fonte de energia que é o autor e ilustrador, O Jardim Curioso, de Peter Brown, além de Nobody Likes a Goblin e Julia’s House for Lost Creatures, ambos de Ben Hatke. How to Make an Apple Pie and See the World [Como Preparar uma Torta de Maçã e Descobrir o Mundo], de Marjorie Priceman Fazer uma torta de maçã é simples, na verdade. Você só precisa dos ingredientes certos. Vá até a loja para comprá-los. Se a loja estiverfechada, ainda dá para fazer sua torta — você só precisa viajar o mundo para reunir o necessário! Este livro é uma divertida excursão pelo mundo — tenha um mapa à disposição quando for lê-lo e assim encontre todos os lugares que visitar ao longo do caminho. E não perca outro livro parecido com esse, também de Marjorie Priceman: How to Make a Cherry Pie and See the U.S.A. Last Stop on Market Street [Última Parada], de Matt De La Peña, ilustrado por Christian Robinson Vencedor da Medalha Newbery 2016 pela melhor contribuição à literatura infantil americana, bem como uma série de outros prêmios. Prepare-se para se aquecer e se deliciar com esta história de uma avó e seu neto andando de ônibus pela cidade depois da igreja. CJ tem inveja dos amigos, que estão livres no domingo à tarde e não precisam pegar o ônibus com a vovó. Mas a vovó sabe o que é mais importante e onde de fato reside a beleza da vida. Esse tornou-se recentemente um dos meus favoritos entre os livros ilustrados e merece seu lugar em cada lar. Leia também: A Chair for My Mother, de Vera B. Williams, e Amazing Grace, de Mary Hoffman, ilustrado por Caroline Binch. O Leão e o Camundongo, de Jerry Pinkney Livros sem texto não são exclusivos aos pequenos! Seus filhos de 4–7 anos adorarão as ilustrações exuberantes e o enredo rico da versão de Jerry Pinkney desta fábula clássica. Este livro, ambientado no Serengueti africano, ganhou a Medalha Caldecott de melhor livro ilustrado americano para crianças em 2010. E não perca as outras fábulas de Jerry Pinkney: The Three Billy Goats Gruff, The Tortoise and the Hare, Three Little Kittens, e Puss in Boots. Miss Rumphius [Senhorita Rumphius], de Barbara Cooney O avô de Alice era um artista, e quando menina, ele lhe disse o que deveria fazer: embelezar o mundo. Viaje com Alice mundo afora, ainda mais quando ela por fim chega numa pequena casa à beira-mar. O que ela fará para deixar o mundo mais bonito? A arte desta obra é tão magnífica que está exposta permanentemente no Museu de Arte de Bowdoin College, em Maine. Cooney é um dos ilustradores de livros infantis mais talentosos de todos os tempos. Leia também: Ox-Cart Man, de Donald Hall e Roxaboxen, de Alice McLerran, ambos ilustrados por Barbara Cooney. Muncha! Muncha! Muncha!, de Candace Fleming, ilustrado por G. Brian Karas O Sr. McGreeley decidiu plantar um jardim. Mas quando os coelhos começam a fazer visitas noturnas e comer sua colheita — Chomp, chomp, chomp, mastigam os coelhinhos —, ele decide evitar que aqueles bigodudos comilões roubem mais de seus vegetais. Suas tentativas ficam cada vez mais cômicas até que ele finalmente consegue. Ou não? Candace Fleming produz alguns dos melhores livros ilustrados para leitura em voz alta; seu texto é lírico e perfeito, com cadência agradável e divertida. E leia também outros livros de Candace Fleming, incluindo Oh No!, ilustrado por Eric Rohmann e Boxes for Katje, ilustrado por Stacey Dressen- McQueen. The Seven Silly Eaters [Os Comilões], de Mary Ann Hoberman, ilustrado por Marla Frazee Se pressionada, provavelmente o nomearei como meu livro ilustrado favorito de todos os tempos. The Seven Silly Eaters conta a história da pobre Sra. Peters, que ama muito seus sete filhos pequenos, todos seletivos e exigentes para comer. A maioria dos autores de livros infantis dirá que fazer boas rimas consiste em uma das formas de arte mais complexas, mas Mary Ann Hoberman acerta em cheio com esta história encantadora da família Peters. As ilustrações de Marla Frazee são divertidíssimas e, como mãe de uma casa cheia de crianças, esta obra é um alívio cômico muito bem-vindo nos meus dias mais frustrantes. Definitivamente, compre-o para a biblioteca de sua casa. Leia também: A House Is a House for Me, de Mary Ann Hoberman, ilustrado por Betty Fraser, The Relatives Came, de Cynthia Rylant, ilustrado por Stephen Gammell, e Harriet, You’ll Drive Me Wild!, de Mem Fox, ilustrado por Marla Frazee. Seus filhos adoram livros com rimas e trocadilhos? Então leia Chicken Soup with Rice: A Book of Months, de Maurice Sendak. Strega Nona: A Avó Feiticeira, de Tomie dePaola Conheça o livro que tornou Tomie dePaola um dos autores de livros infantis mais icônicos da história. Strega Nona cuida dos habitantes de uma cidadezinha italiana na Calábria, ajudando-os com sua calvície, suas verrugas, até mesmo preparando poções do amor. Mas a verdadeira magia deste livro acontece quando seu ajudante, Tonhão coloca as mãos no caldeirão de macarrão da Strega Nona. Tonhão seria o personagem mais adorável que você poderia imaginar, se ao menos ele prestasse atenção! Seu filho vai adorar este conto mágico, bem como todos os outros livros sobre seus personagens: Strega Nona: Her Story; Strega Nona’s Magic Lessons; Big Anthony: His Story; Strega Nona Takes a Vacation; Strega Nona’s Harvest; Strega Nona’s Gift; Strega Nona Meets Her Match, e absolutamente qualquer outra obra de Tomie. Outros favoritos em nossa casa incluem Nana Upstairs & Nana Downstairs; The Art Lesson; Tony’s Bread; The Lady of Guadalupe; The Legend of Old Befana; The Legend of the Poinsettia; e The Clown of God. Quando se trata de Tomie dePaola, livros nunca são demais. Thundercake, de Patricia Polacco Uma tempestade está se aproximando e a vovó e sua neta estão esperando por ela fazendo um Thundercake, o bolo trovão. Mas as tempestades podem ser barulhentas e assustadoras; será que elas conseguirão obter todos os ingredientes de que precisam em tempo? Uma história sobre coragem — não a ausência de medo, mas a disposição de enfrentá- lo — e um doce conto sobre o vínculo de uma avó com seu neto, este livro será sua leitura para dias chuvosos. Em nossa casa, nós o pegamos ao primeiro som de um trovão. E, claro, serve perfeitamente para preparar um lanche da tarde. Aliás, experimente fazer a receita de Thundercake listada no final do livro. O ingrediente secreto pode surpreendê-lo! Leia também: Rechenka’s Eggs, The Bee Tree, e The Keeping Quilt, todos de Patricia Polacco. Outro livro ilustrado que destaca o vínculo especial entre um adulto carinhoso e uma criança (neste caso, pai e filha) é o premiado e absolutamente deslumbrante Owl Moon, de Jane Yolen, ilustrado por John Schoenherr. Tops and Bottoms [O Coelho e o Urso], de Janet Stevens O Urso é preguiçoso, mas o Coelho tem um plano. Ambos podem ser parceiros — o Urso pode continuar dormindo enquanto o Coelho puder plantar um jardim no quintal espaçoso do Urso. Eles dividirão a colheita em metade para cada um — o Urso pode até escolher a metade que quiser! Um conto de visão renovada, este é um livro que irá encantar e surpreender seus pequenos leitores. As ilustrações contêm um humor peculiar. Leia também os contos de Eric A. Kimmel (ilustrados por Janet Stevens): Anansi and the Magic Stick, Anansi and the Talking Melon, e Anansi and the Moss- Covered Rock. O Dr. De Soto, de William Steig é outro conto incrível (com uma peculiaridade!) que as crianças parecem amar. Water Can Be… [As Formas da Água], de Laura Purdie Salas, ilustrado por Violeta Dabija Pode parecer impossível apresentar a ciência a seus filhos por meio da poesia e com ilustrações maravilhosas, mas Laura Purdie Salas e Violeta Dabija fazem exatamente isso neste livro adorável. Water Can Be... mata a sede, dá de beber à criança, dissipa as nuvens, apaga o fogo... E muito mais. Toda esta série é simplesmente espetacular. Leia também: A Leaf Can Be... e A Rock Can Be…, ambos do mesmo autor e time de ilustradores. Romances Um Urso Chamado Paddington, de Michael Bond, ilustrado por Peggy Fortnum Recomendo como um dos meus livros favoritos para introduzir romances em voz alta. Um Urso Chamado Paddington é ainda melhor em audiolivro (adoro a versão narrada por Stephen Fry). Todos os livros de Paddington são cheios de aventuras divertidas e... bom… desventuras. É impossível não amá- los, e seus filhos vão implorar que você leia um pouco mais para descobrir o que acontece em seguida. Todos os livros sobre o Urso Paddington são divertidos, incluindo OsSegredos de Paddington, Paddington na França, Paddington Tenta Ajudar. Certifique-se de procurar as versões completas, pois são de longe as melhores. Versões que priorizam as ilustrações e adaptações resumidas não fazem justiça às histórias. Leia também: The Tales of Olga da Polga, escrito por Michael Bond, conta acerca de um porquinho-da-índia com uma imaginação vigorosa. Alguns dos livros de Olga da Polga, porém, estão esgotados e são mais difíceis de encontrar. Anna Hibiscus [Ana Hibisco], de Atinuke, ilustrado por Lauren Tobia Anna Hibiscus vive com toda sua família na África. Grandiosa África. Seus filhos vão adorar ouvir as histórias que os tios e tias dela contam, a extravagante Tia Comfort e a “dupla do barulho”, irmãos gêmeos de Anna. Escritos pela brilhante contadora de histórias nigeriana, Atinuke, que ansiava por contar as histórias da África que ela mesma ouvia durante a infância e adolescência, desde o primeiro capítulo esses livros são perfeitos de ler em voz alta, com lindas ilustrações de Lauren Tobia em quase todas as páginas. Talvez você tenha um pouco de dificuldade para encontrá-los, mas valem todo o esforço! Leia também: outros livros sobre Anna Hibiscus, incluindo Hooray for Anna Hibiscus e Good Luck Anna Hibiscus. Begin [O Começo], de Erin Ulrich e Philip Ulrich Assim que recebe uma mensagem misteriosa, o jovem urso chamado Growly sabe que é hora de deixar sua vida tranquila em Haven e partir para uma aventura. Consigo ele tem sua mochila, um planador e muito ânimo. Os livros que contam sobre a vida de Growly são histórias saudáveis que encantam os leitores mais novos e, ao mesmo tempo, provocam um senso de mistério e aventura. Leia também: todos os livros da série Growly, incluindo Widewater, Morning e o que trata da vila que Growly chama de lar, Haven. O Dragão do Meu Pai, de Ruth Stiles Gannett, ilustrado por Ruth Christian Gannett Este livro continua sendo o que recomendo a qualquer um que esteja prestes a começar a ler em voz alta narrativas mais longas. Tive sucesso em lê-lo com crianças de três a oito anos. O narrador conta a história de seu pai, Elmer Elevator, quando ainda menino em viagem à Ilha Selvagem — de onde ninguém volta vivo! — para salvar um dragão bebê que está sendo maltratado. A quantidade incomum que Elmer juntou de suprimentos o ajuda a sair de todos os ferimentos e escapar de ser comido pelos animais ferozes da ilha. Os capítulos são curtos, o vocabulário é rico e a história manterá até os mais novos fascinados. Uma escolha fabulosa para a sua primeira narrativa mais longa. Leia também: o restante da série sobre Elmer Elevator, incluindo Elmer and the Dragon e The Dragons of Blueland. Old Mother West Wind, de Thornton Burgess Acredito que Thornton Burgess seja um dos maiores autores de livros infantis de todos os tempos, embora seu trabalho seja frequentemente esquecido. No início do século XX, ele escreveu quase duzentas fábulas infantis, e muito de seu trabalho está em domínio público hoje. Você pode encontrar cópias de seus livros publicados pela Dover Children’s Classics por um custo baixo. Seus personagens — Jimmy Skunk, Sammy Jay, Bobby Raccoon, Grandfather Frog e muitos outros, incluindo Old Mother Westwind e sua Merry Little Breezes — figuram repetidas vezes em suas fábulas. Simplesmente amo os bocados de real conhecimento sobre essas criaturas surgindo em seus contos, textos de um capricho primoroso. Leia também: The Burgess Animal Book for Children, The Burgess Bird Book for Children, The Burgess Seashore Book for Children e todas as suas séries de The Adventures of... Tumtum and Nutmeg, de Emily Bearn O Sr. Mildew e seus filhos órfãos de mãe vivem em uma cabana, sem saber que são auxiliados por um casal de ratos muito gentis, que ajudam o Sr. Mildew a cuidar de seus filhos. No entanto, quando a tia Ivy vem fazer uma visita e vê os ratos, as coisas ficam interessantes. Tia Ivy está determinada a livrar a casa dos ratos. Este livro vai fazer você querer preparar um bule de chá e alguns bolinhos. É uma obra engraçada e extremamente cativante. Não se intimide com o tamanho do livro — o ritmo e o formato facilitam a leitura, mesmo para crianças muito pequenas, e esboços encantadores estão espalhados ao longo da história. Leia também: Os Pequeninos Borrowers, de Mary Norton (para outro conto em miniatura) ou O Mágico de Oz (muito melhor e muito menos assustador do que o filme; este é um dos meus favoritos para ler em voz alta com esta faixa etária, e até mesmo com as crianças mais velhas). CAPÍTULO 14 O mundo se expande Faixa Etária: 8–12 anos Ler nos dá rumo e direção, mesmo quando precisamos permanecer onde estamos. — Mason Cooley Aahhh, dos oito aos doze! Admito que este é meu período favorito para leituras em voz alta. Os livros voltados a essa faixa etária são simplesmente fantásticos; algumas das melhores obras que você lerá! Além disso, as crianças dessa idade tendem a ter mais atenção e ouvir por um bom tempo, especialmente se estiverem fazendo alguma coisa com as mãos enquanto você lê em voz alta (como desenhar ou colorir com tinta guache). A coisa mais importante a ter em mente quando se lê para crianças de oito a doze anos é que você precisa continuar lendo em voz alta mesmo que seu filho se torne um bom leitor ao longo desse processo. Como salientado no capítulo anterior, a expansão do vocabulário e os benefícios acadêmicos de ler em voz alta continuam durante essa faixa etária. Você facilmente conseguirá ler em voz alta histórias que excedem o nível de leitura de seus filhos, uma vez que dos oito aos doze eles compreendem mais por audição do que por leitura. Ao escolher os livros para ler em voz alta com seus filhos na faixa etária de oito a doze anos, tente cobrir uma variedade de gêneros. Crianças dessa idade geralmente focam nos livros que preferem e os leem com certa dificuldade, mas leem. Não há problema nisso! Eu mesma deixo que os meus filhos dessa faixa etária de 8–12 leiam por alto e mesmo com dificuldade, desde que esses livros os motivem e nutram neles o desejo da leitura. Entretanto, tento propositalmente ler em voz alta uma variedade de gêneros a fim de introduzir meus filhos a outros livros que talvez não peguem por conta própria. Esta é a idade em que os pais costumam parar de ler em voz alta para seus filhos, mas é, na verdade, o período que você vai querer ler tanto quanto possível. Crianças nessa faixa etária estão interessadas em descobrir tudo que ainda desconhecem no mundo. Elas sentem uma sede insaciável de aprender sobre outras pessoas, culturas e experiências. Provar que os livros saciam essa sede é exatamente o que você quer. O diálogo com crianças de 8–12 anos as ensina a fazer perguntas sobre os livros. O que você descobrirá (embora possa levar certo tempo, então não espere por algo imediato) é que seu filho começará a fazer perguntas e a pensar profundamente sobre os livros que lê por conta própria. São frutos da sua interação com ele enquanto vocês leem juntos. Você está dando ao seu filho bons hábitos mentais — hábitos de fazer perguntas e pensar acerca dos livros com profundidade. Esses hábitos permearão sua vida de leitura e outras atividades do seu cotidiano. Essa é uma boa idade para começar a ler em voz alta os clássicos. Livros como O Vento nos Salgueiros e O Jardim Secreto são ótimos para crianças entre 8–12 anos. Ler os clássicos pode ser muito prazeroso, contanto que você não sinta a necessidade de se tornar um gênio literário. Não se preocupe se está perdendo um significado mais profundo, ou alusões ou dispositivos literários embutidos no texto. Em primeiro lugar, os clássicos são histórias — histórias que passaram pelo teste do tempo —, portanto as aproveite como narrativas. Quando as desfruta lendo-as em voz alta e em companhia (ao invés de esperar que seu filho as leia sozinho), você está removendo o fator intimidador. Seu filho aprenderá que os clássicos não devem ser temidos — são apenas boas histórias com uma linguagem mais antiga. Ao lê-los em voz alta,você pode fazer com que seus filhos se apaixonem pelos personagens e pelas histórias, e não intimidá-los. É exatamente isso que queremos ao lidar com os clássicos. Porém, não se sinta pressionada a introduzir os clássicos aos seus filhos. É melhor esperar até que estejam prontos para ter uma experiência prazerosa do que introduzi-los cedo demais e frustrar todos os envolvidos. Incluí alguns clássicos favoritos em minha lista, mas você também encontrará obras mais novas e contemporâneas nela. Mal posso esperar por introduzi-la a alguns dos melhores livros da atualidade! Alguns pais me dizem que se sentem bobos ao ler em voz alta para filhos que já sabem ler, mas ainda assim as crianças se beneficiam grandemente com essa prática, mesmo que já sejam leitores independentes. Você está formando lembranças atemporais em seus filhos. Lembre-se de manter prazeroso o momento de leitura em voz alta. Leia livros que você amou quando criança e livros que a motivem e mantenham todos famintos por mais uma página ou por mais um capítulo. É extremamente importante que os livros sejam associados a deleite e prazer para as crianças de 8–12 anos. Essa lista de livros que eu montei deve bastar a princípio. Escolhi algumas das experiências de leitura mais prazerosas que tive. Lembre-se de ler gêneros e estilos que você (ou seu filho) normalmente não leria e busque por interesses inesperados. E também não se esqueça de ler sobre culturas e personagens diversos. O QUE CRIANÇAS DE 8–12 ANOS PODEM FAZER ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA • Colorir, contornar esboços ou desenhar. • Pintar com tinta guache. • Use livros dinâmicos e de colorir, como a série Paint by Sticker (Workman Publishing). • Costurar à mão. • Crochê. • Modelar com massinha. • Sentar-se na bola de pilates. • Dobrar roupas (meu favorito!). • Monte conjuntos simples com produtos de artesanato. • O grupo Hearthsong monta conjuntos de arte e design de que, na época, meus filhos gostaram bastante — modelos de fada, equestres, design de automóveis, estúdio de moda e design de interiores foram todas boas opções. Encontre-os em hearthsong.com. MINHAS BÍBLIAS FAVORITAS PARA LER EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 8–12 ANOS Amy Steedman escreveu uma coleção intitulada Read-Aloud Book of Bible Stories [Histórias Bíblicas Lidas em Voz Alta], publicada em 2012 pelo grupo editorial Sophia Institute Press, que eu absolutamente amo ler com essa faixa etária. Embora seja fácil de ouvir a mesma história bíblica repetidas vezes, a linguagem lírica de Steedman e sua rica contação de histórias dão vida à Bíblia. Acredito que os seus filhos gostarão de ouvir essas histórias bíblicas sendo contadas com uma linguagem mais coloquial e cativante tanto quanto você gostará de lê-las. Outra favorita é a Bible Story Book, escrita por Elsie Egermeier e ilustrada por Clive Uptton. As histórias são contadas em ordem cronológica. Gosto de dar essa Bíblia aos meus filhos que já leem sozinhos, embora também possa ser lida em voz alta de forma prazerosa por crianças tanto mais velhas quanto mais novas do que essa faixa etária. Quando meus filhos mais velhos tinham 12, 10 e 8 anos, li em voz alta A Bíblia em Ação, de Doug Mauss e Sergio Cariello. Trata- se de uma Bíblia em forma de história em quadrinhos, e seus filhos talvez prefiram lê-la por conta própria. Achamos a experiência de lê- la em voz alta muito prazerosa, e as crianças conseguiram acompanhar enquanto olhavam as ilustrações por cima dos meus ombros. Também existe uma boa versão em áudio disponível; meu filho gosta de ouvi-la enquanto acompanha o texto. ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 8–12 ANOS A criança entre 8–12 busca expandir sua visão de mundo, e os livros nessa lista a ajudarão nessa jornada. O que você encontrará é uma mistura de ficção histórica, fantasia e histórias realistas. Algumas obras combinam esses três elementos. Ainda não queremos abandonar os livros ilustrados, uma vez que fornecem vocabulário rico e enredos cativantes, que crianças de 8– 12 anos ainda aproveitarão. Eu mesma incluí na lista alguns favoritos para essa faixa etária. A criança de 8–12 anos gosta de rir e de se encantar, mas também está pronta para ler sobre personagens com vidas heroicas. É claro que o heroísmo implica circunstâncias difíceis e grandes riscos. Você encontrará livros que lidam com temas sobre os quais nossos filhos já estão pensando — amizade, lealdade, coragem, medo. Os livros nesta lista chamarão seus filhos a considerar momentos quando o verdadeiro heroísmo é necessário e a considerar a vida de um ponto de vista que eles ainda não experimentaram. Da mesma forma, essas mesmas obras darão a você e a seu filho um senso de esperança e deslumbramento. Espero que vocês deem muitas risadas, reflitam bastante e, enquanto leem juntos, meditem sobre os grandes mistérios da vida. Livros Ilustrados Locomotive [Locomotiva], de Brian Floca Este livro vencedor da Medalha Caldecott contém ricas ilustrações da nova ferrovia transcontinental da América no final do século XIX. Há muito para ver nas ilustrações e no texto informativo de Floca. Os livros de Brian Floca são excelentes opções para crianças nessa faixa etária que gostam de não ficção. Leia também: Moonshot: The Flight of Apollo 11, de Brian Floca e Finding Winnie: The True Story of the World’s Most Famous Bear, de Lindsay Mattick e Sophie Blackall, um belo livro ilustrado que conta a incrível e verdadeira história do urso que inspirou o Ursinho Pooh. A Poem for Peter: The Story of Ezra Jack Keats and the Creation of The Snowy Day [Um Poema para Peter: a História de Ezra Jack Keats e a Criação do Dia da Neve], de Andrea Davis Pinkney, ilustrado por Steve Johnson Ezra Jack Keats fez história quando escreveu e ilustrou o primeiro livro ilustrado da grande indústria editorial a apresentar um garoto negro. Por décadas, os leitores mais novos se apaixonaram por Peter. Este relato lindo e lírico do trabalho inovador de Ezra Jack Keats implora para ser lido em voz alta. O texto lírico de Pinkney desliza boca afora. Trata-se de um livro ilustrado mais longo do que o habitual, fato que o torna especialmente adequado a um público um pouco mais velho e pode fornecer muito material para boas discussões sobre direitos civis e a coragem de perseguir seus sonhos. Leia também: The Right Word: Roget and His Thesaurus, biografia ilustrada sobre Peter Mark Roget e o primeiro dicionário Thesaurus, produzida por Jen Bryant e ilustrada por Melissa Sweet. Outra ótima escolha é Some Writer!: The Story of E. B. White, biografia ilustrada, no caso um pouco mais extensa, sobre um dos maiores contadores de histórias infantis de todos os tempos, escrita e ilustrada por Melissa Sweet. Romances The Bark of the Bog Owl, de Jonathan Rogers Este livro voou para minha lista de favoritos de todos os tempos. É aquele tipo de livro que, penso eu, quanto menos souber dele antes de lê-lo, melhor. Trata-se de uma obra com todos os melhores traços de um conto de aventura e uma boa medida de elementos fantásticos. Mais do que aparenta, este livro o fará rir, mas também fará com que você considere grandes questões sobre propósito, chamado e do que somos feitos. Este é o primeiro livro da Trilogia Wilderking. Não deixe de ler o segundo e o terceiro da trilogia: The Secret of the Swamp King e The Way of the Wilderking. Cilla Lee-Jenkins: Future Author Extraordinaire [Cilla Lee-Jenkins: uma Extraordinária Futura Autora], de Susan Tan, ilustrado por Dana Wulfekotte Cilla Lee-Jenkins deve ser uma das personagens mais maravilhosas da literatura infantil. Ela também está com o prazo apertado, porque sua irmãzinha está prestes a nascer, e todos parecem preocupados. Ela precisa chegar à lista dos mais vendidos para que sua família perceba o quão incrível ela é. Esta história rápida, divertida e comovente vai fazê-la desmoronar, mesmo enquanto Cilla navega pela vida como uma criança birracial em um mundo que nem sempre a entende. Leia também: The Prairie Thief, de Melissa Wiley, outra históriadivertida e agradável de leitura rápida. Emmy and the Incredible Shrinking Rat [Emmy e o Incrível Ratinho], de Lynne Jonell, ilustrado por Jonathan Bean Quem consegue resistir a um mistério sobre uma menina muito boazinha, um rato falante e uma babá horrível e malvada? Irresistível e engraçada, essa obra manterá você e seus filhos conjecturando sobre os acontecimentos até o fim. O ritmo é preciso. Se os seus filhos não gostam muito de ouvir alguém lendo para eles, experimente começar por esse livro e veja se seus ouvintes conseguem resistir à atração de só mais um capítulo. Camundongos e ratos desempenham papéis importantes nessa que é uma das melhores histórias para essa faixa etária. Leia também: Mrs. Frisby and the Rats of NIMH, de Robert C. O’Brien, e Poppy, de Avi. Esperanza Rising, de Pam Muñoz Ryan Este livro premiado conta a história de Esperanza, filha de um fazendeiro mexicano cuja maior preocupação é o que vestir em sua festa de quinze anos. Sobrevindo a tragédia, Esperanza e sua mãe precisam fugir para os Estados Unidos em busca de refúgio. Esta é uma história incrivelmente poderosa de esperança, coragem e perseverança. Lembre-se de como, no Capítulo 5, discutimos a importância dos livros atuando como janelas, espelhos e portas de vidro corrediças. Este livro é uma janela que abrirá o seu coração, fazendo com que você pare e reflita sobre o que é necessário para enfrentar dificuldades avassaladoras. A narrativa demonstra que o espírito humano pode erguer-se em esperança, mesmo em face de tremendas dificuldades. Simplesmente lindo e poderoso, li-o com meus filhos de 11 e 12 anos (os mais velhos). Leia também: The Dreamer, da mesma autora. Pam Muñoz Ryan é uma das minhas autoras infantis favoritas. Crianças que gostam de seus livros também podem gostar de Um Caminho na Noite, romance histórico de Lois Lowry acerca da resistência holandesa à ocupação nazista. The Family Under the Bridge [A Família sob a Ponte], de Natalie Savage Carlson, ilustrado por Garth Williams Não foi à toa que este livro ganhou a medalha Newbery em 1989. Armand, um vagabundo mesquinho que vive nas ruas de Paris, não gosta de dividir seu espaço sob a ponte com três crianças recém-desabrigadas e a mãe delas. História comovente de transformação, amor, lealdade e família, esta é uma escolha perfeita para ler em voz alta na época do Natal. Mais curto do que muitos outros livros desta lista, pode ser lido com bastante rapidez e acompanhará seus filhos por muito tempo. Leia também: The Bears on Hemlock Mountain, de Alice Dalgliesh (ilustrado por Helen Sewell), uma história sobre coragem (os adultos nem sempre sabem o que é melhor!); Understood Betsy, de Dorothy Canfield Fisher, uma história encantadora que trata do verdadeiro amor. Frindle, de Andrew Clements Se você é novo na prática de leitura em voz alta com crianças entre 8 e 12 anos, eis um ponto de partida fantástico. Frindle também é, além de tudo, uma ótima obra para as crianças que ainda não se apaixonaram pela leitura. Nick não é exatamente um encrenqueiro; ele só gosta de manter as coisas interessantes! Na escola, ele aprende sobre a origem das palavras e percebe que pode chamar uma caneta do que quiser. Que tal frindle, por exemplo? O que começou como um simples jogo vira um alvoroço por toda a cidade e coloca Nick contra seu professor, que tenta acabar com a tolice que tomou conta de toda a escola e, com o tempo, de todo o país. Adoro entregar este livro a adultos e pedir- lhes que o leiam apenas por diversão. O que começa como uma leitura divertida acaba por ser uma história poderosa da dedicação de um professor e da determinação de um menino. Não perca. Leia também: Surviving the Applewhites, de Stephanie S. Tolan. Outra escolha deliciosa é The Secret School, de Avi, em que Ida Bidson deve decidir se tem ou não o que é preciso para estudar depois que sua escola for fechada. The Green Ember, de S. D. Smith, ilustrado por Zach Franzen Este campeão de vendas tem transformado uma geração de jovens leitores em entusiastas. Afinal, como não amar coelhos com espadas? Conheça Heather e Picket, irmãos coelhos cujas vidas foram viradas de cabeça para baixo por uma série de eventos devastadores e desanimadores. Uma história de coragem diante de probabilidades intransponíveis, lealdade diante da tentação de esconder-se e persistência diante da calamidade, este livro vai despertar o coração do herói em seu filho. Leia também: outros livros da série, incluindo Ember Falls e Ember Rising. Half Magic [Os Dois Lados da Mágica], de Edward Eager, ilustrado por N. M. Bodecker Quando uma família de crianças tropeça em uma moeda mágica que concede seus desejos, mas apenas pela metade, surgem a alegria e a desventura! As crianças podem superar a magia? Eager é claramente inspirado em sua predecessora, Edith Nesbit. Se seus filhos gostarem deste, leia também os demais contos de Eager (Knight’s Castle, Magic By the Lake, The Time Garden, Magic or Not?, The Well-Wishers, e Seven- Day Magic), bem como o trabalho do inimitável Edith Nesbit. Sugiro começar com Five Children and It ou Os Meninos e o Trem de Ferro. Henry and the Chalk Dragon [Henry e o Dragão de Giz], de Jennifer Trafton, ilustrado por Benjamin Schipper É preciso um tipo especial de coragem para ser um artista. Henry Penwhistle tem o que é preciso? Primeiro, ele desenha um dragão com giz em sua porta. As aventuras começam quando seu dragão quer ser visto e ter um lugar no mundo. Mas um dragão solto causa todos os tipos de problemas, como você pode imaginar, e Henry e seus colegas de escola precisam descobrir o que fazer a respeito. A verdadeira arte pode ser escondida? Ou a melhor resposta é deixar a imaginação correr solta? O uso da profundidade cômica de Trafton é magistral. Se você adorar este livro, leia também sua outra obra (outro favorito meu): The Rise and Fall of Mount Majestic. Leia também os livros de Kate DiCamillo, uma das autoras favoritas de Jennifer Trafton. Meus favoritos para recomendar como leitura em voz alta são Because of Winn-Dizier e A História de Desperaux. Jasper and the Riddle of Riley’s Mine [Jasper e o Mistério da Mina de Ouro], de Caroline Starr Rose Adoro todos os livros de Caroline Starr Rose, mas este ainda é o meu favorito. Jasper and the Riddle of Riley’s Mine conta a história de dois meninos que buscam uma vida melhor durante a corrida do ouro de Klondike. Uma aventura divertida que desvenda um mistério conforme você segue suas páginas, esta história certamente manterá seus filhos de 8–12 anos adivinhando o que vai acontecer em seguida. A atenção de Rose à precisão histórica acrescenta profundidade à narrativa e pode levar seu filho a ler mais acerca dos eventos históricos referidos para aprender sobre a realidade. Leitores atentos notarão os acenos sutis de Rose para As Aventuras de Huckleberry Finn. Leia também: By the Great Horn Spoon!, de Sid Fleischman, uma história fantástica sobre a corrida do ouro na Califórnia e uma das minhas favoritas de todos os tempos para ler em voz alta. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C. S. Lewis Quase não incluí As Crônicas de Nárnia nesta lista, pois parece ser algo óbvio. Se estiver procurando por histórias que façam tudo aquilo que discutimos na primeira parte deste livro — que inspiram virtude heroica, preparam nossos filhos para o sucesso acadêmico e nutrem empatia e compaixão, não procure em outro lugar que não seja o mágico guarda-roupa que leva para a terra de Nárnia. Esta série é completa e dificilmente pode ser superada. Há certa disputa em relação à ordem em que os livros da série completa devem ser lidos, mas creio que seja melhor lê-los na ordem em que Lewis os escreveu. Recomendo começar com O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (cronologicamente, o segundo da série) e então proceder com a série em ordem (Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata, O Cavalo e Seu Menino) antes de voltar ao O Sobrinho do Mago no final, quando ele poderá ser mais bem apreciado sob o contexto dorestante da história, e concluir com A Batalha Final. Uma Casa na Floresta, de Laura Ingalls Wilder, ilustrado por Garth Williams Elogiado por muitos como um dos melhores livros americanos para crianças de todos os tempos, a série Little House é baseada na história real de Laura Ingalls Wilder. Suas páginas começam em uma cabana e, em seguida, seguem a família enquanto embarcam na vida de pioneiros, prosseguindo a oeste por território desconhecido e enfrentando dificuldades imprevisíveis. Um clássico americano, esta é uma série que acompanhará seus filhos até a idade adulta. Eu, porém, prefiro ouvi-los em audiolivros em vez de lê-los em voz alta, pois as passagens longas e descritivas podem ser difíceis para alguns. Ouça os audiolivros lidos por Cherry Jones a fim de ter uma experiência fabulosa com toda a sua família. A compreensão adulta pode se fazer necessária para enquadrar adequadamente as experiências que Laura descreve com os nativos americanos (particularmente em relação à mãe de Laura). Sugiro lê- los em ordem: Uma Casa na Floresta, O Jovem Fazendeiro, Uma Casa na Campina, À Beira do Riacho, A Margem da Lagoa Prateada, O Longo Inverno, Uma Pequena Cidade na Campina, Anos Dourados. Além disso, não costumo recomendar The First Four Years, pois é um conto incompleto e muito mais pesado do que os outros livros da série. Porquanto inacabado, acredito que lhe falta um elemento de esperança que é a chave para a história de Laura como um todo. Tenha em mente também que Farmer Boy pode ser lido fora de ordem, uma vez que conta uma história separada de Almanzo Wilder, o homem que se torna o marido de Laura nos anos seguintes. Farmer Boy é uma excelente maneira de introduzir a série a garotos relutantes que pensam que os livros são apenas para meninas. Leia também: Caddie Woodlawn, de Carol Ryrie Brink e a série Fairchild Family, de Rebecca Caudill, começando com Happy Little Family. The Incorrigible Children of Ashton Place: The Mysterious Howling [Os Pequenos Incorrigíveis de Ashton Place: Mistério], de Maryrose Wood O primeiro livro da série Incorrigible Children of Ashton Place a surpreenderá e a encantará enquanto o lê com seus filhos. Você conhecerá algumas crianças nada comuns. Elas foram encontradas na floresta de Ashton Place, e parece que foram criados por lobos. Quando a senhorita Penelope Lumley é contratada como sua babá, ela precisa controlar seu desejo de ensinar-lhes latim e geografia para cuidar de algumas coisas mais… digamos… primárias. Ajudaria, por exemplo, se as crianças parassem de caçar esquilos. Infindáveis mistérios se desenrolam conforme a narrativa avança. De onde essas crianças vieram? E o que acontecerá a seguir com a senhorita Lumley tentando civilizá-los para satisfação da Senhora Constance? Um mistério Vitoriano (que é, perdoem-me extremamente bom). Uma das minhas histórias favoritas. Leia também: o restante da série The Incorrigible Children of Ashton Place, inclusive The Hidden Gallery, The Unseen Guest, The Interrupted Tale, The Unmapped Sea, e a última parte (lançada em junho de 2018), The Long-Lost Home. Você também pode gostar de Mary Poppins, de P. L. Travers, que provavelmente irá surpreendê-la se você tiver apenas assistido ao filme! As Irmãs Penderwick: Uma Aventura de Verão com Quatro Meninas, Dois Coelhos e Um Garoto Muito nteressante, de Jeanne Birdsall Esta é a história de quatro meninas sem mãe que viajam para uma cabana com seu pai, um homem carinhoso, durante as férias de verão. Temos Rosalind, a irmã mais velha (desesperadamente romântica); Jane, leitora voraz, sempre criando histórias e se perdendo em sua imaginação; Skye, que estuda matemática por prazer e deixa seu temperamento colocá-la em situações problemáticas; e Batty, a menor. Também temos dois coelhos, é claro, e também há Jeffrey, o pobre e solitário garoto que vive em Arundel, o belo estado onde fica a cabana de verão das garotas. O problema surge quando as meninas incomodam a senhora Tifton, mãe de Jeffrey e dona de terras. Um verão de desventuras se segue. Será difícil você não se apaixonar por esse livro vencedor do prêmio National Book Award e best-seller do New York Times. Leia também: Gone-Away Lake e Return to Gone-Away, de Elizabeth Enright. Quem ama As Irmãs Penderwick provavelmente também gostará da série Shoes, de Noel Streatfeild, começando com Ballet Shoes. Ladrão de Olhos: As Aventuras de Peter Nimble, de Jonathan Auxier No Capítulo 6, eu conto a história do ano em que Jonathan Auxier aprendeu a se apaixonar pelos livros. Sim, mas agora você pode ler sua história fantástica de Peter, o órfão cego de dez anos que vive uma vida de ladrões. Quando, porém, se depara com três pares de olhos mágicos, Peter percebe que está sendo enviado em uma missão para salvar as pessoas que precisam dele — uma missão para viajar ao perigoso Reino Desaparecido. Eis uma história que vai acelerar os batimentos cardíacos do herói que vive no interior do seu filho. Leia também: a série A Misteriosa Sociedade Benedict, de Trenton Lee Stewart, histórias de outro menino enviado em uma missão que exigia grandes habilidades motoras e intelectuais. The Search for Delicious [Em Busca dos Sabores], de Natalie Babbitt Qual é a definição de delicioso? Uma pergunta tão inocente, e ainda assim coloca Gaylen, o mensageiro do rei, na busca de uma vida. O que uma pessoa acha delicioso difere do gosto de outra, e cabe a Gaylen descobrir qual será sua definição pessoal. Babbitt escreve com um forte senso de Conto de Fadas e de fábulas, sem perder o ritmo ou a cadência de um romance difícil de largar. Este é o meu livro favorito da autora, mas outros são igualmente comoventes e memoráveis, incluindo Tuck Everlasting (notavelmente mais triste do que The Search for Delicious, mas há um filme maravilhoso baseado nele que vale a pena ver com seus filhos). Outra recomendação para quem gostou desses livros é The Angel Knew Papa and the Dog, de Douglas Kaine McKelvey. Stella by Starlight, de Sharon Draper Conheça Stella, uma garota afro-americana que mora em Bumblebee, Carolina do Norte, durante a era da Grande Depressão. Nossa história começa na noite em que Stella e seu irmão mais novo, Jojo, testemunham a Ku Klux Klan queimando uma cruz, o que muda a vida de Stella para sempre. Sua cidade e sua vida nunca mais serão as mesmas. Certifique-se que seu filho está pronto para ouvir sobre a KKK antes de começar este livro. Não há nada explícito, mas o assunto é naturalmente pesado. Draper é uma talentosa contadora de histórias, e esse livro deixará você e seus filhos com aquele sentimento de esperança, alegria, e amor pela humanidade, o que demonstra a destreza de Draper em contar histórias. Leia também Blue Birds de Caroline Starr Rose, um conto histórico que ocorre em um local e período completamente diferentes, apelando, no entanto, ao espírito de amizade, lealdade e justiça de forma semelhante. The Trumpet of the Swan [A Trombeta do Cisne], de E. B. White Como escolher um único título de E. B. White, um dos melhores contadores de histórias de todos os tempos? Não vou tentar, então recomendarei logo todos eles. The Trumpet of the Swan é a minha favorita, com personagens bem desenvolvidos, as desventuras do garoto Sam, o adorável cisne Louis, o pai divertido e falador de Sam e uma trombeta que tem o potencial de mudar tudo. Uma história que trata da beleza da música e de enfrentar obstáculos com coragem e determinação, liberdade e amizade. Leia também: A Teia de Charlotte e Stuart Little, ambos do mesmo autor. The Vanderbeekers of 141st Street [A Família Vanderbeeker], de Karina Yan Glaser A família Vanderbeeker adora sua típica casa da 141st Street no bairro de Harlem, Nova Iorque. Eles adoram tudo, exceto uma coisa: o proprietário. Beiderman é um homem mal- humorado e recluso que decide não renovar o contrato de aluguel da família Vanderbeeker. Os cinco irmãos Vanderbeeker lançam uma campanha completa para mudar a decisão daquele senhor rabugento. Se seus filhos gostam das crianças Penderwick (já recomendeiesse livro!), eles também vão adorar a equipe Vanderbeeker. Adoro livros em que os irmãos se unem para tornar a vida melhor para a família, especialmente quando há desventuras ao longo da jornada! Leitores que gostam de grandes histórias de família como The Vanderbeekers of 141st Street também precisam ler The Saturdays, o primeiro livro de uma série sobre a adorável família Melendy, de Elizabeth Enright e The Moffats, o primeiro de uma série sobre a família Moffat, de Eleanor Estes. Onde a Lua e a Montanha se Encontram, de Grace Lin Grace Lin aproveita com maestria o folclore chinês neste romance sobre uma jovem chamada Minli, que parte em uma jornada de aventuras para encontrar o Velho na Lua e mudar a pobre sorte de sua família. Elementos de fantasia e folclore se entrelaçam conforme Minli aprende o que significa descobrir as respostas para as perguntas mais urgentes da vida. As ilustrações em cores de Grace Lin estão espalhadas por todo o livro, e você se sentirá faminta por mais folclore depois de terminá-lo. Leia também o restante dos livros de Lin nesta série: Starry River of the Sky e When the Sea Turned to Silver. CAPÍTULO 15 Encontrando o caminho Faixa Etária: 13+ (Adolescência) Histórias se prestam à magia, servem a grandes aventuras, a fim de fazer o leitor sentir e enxergar realidades e levá-lo a lugares aos quais jamais foi. — Gladys Hunt e Barbara Hampton Pais que leem em voz alta com seus filhos adolescentes geralmente descrevem essa experiência como mágica. Você provavelmente terá tanto prazer quanto eles enquanto faz a leitura de livros para essa faixa etária. Você também descobrirá que o relacionamento com os filhos numa fase tão difícil quanto a adolescência fica muito mais fácil quando se tem um livro para ler em família. Há uma transição nessa fase dos seus filhos — eles não ficam em casa com tanta frequência, estão começando a esticar as asas, a vida está começando a ficar diferente e uma temporada completamente nova está se estabelecendo. Na verdade, os adolescentes estão caminhando na ponta dos pés em direção à idade adulta. Este é um momento especialmente importante para ler em voz alta com eles. Caso ainda não tenha esse hábito, não aconselho que você comece de supetão, porque seu filho pode se sentir como se você o estivesse tratando feito um bebê. Mas, calma, muita calma nessa hora: você ainda pode começar a ler em voz alta com seus adolescentes. Ainda há esperança! Nunca é tarde demais para começar a ler em voz alta. Algumas estratégias bem pensadas podem facilitar sua entrada e a de seu filho adolescente no estilo de vida da leitura em voz alta. Uma das maneiras mais efetivas de acostumar o seu filho adolescente à leitura em voz alta é reproduzir audiolivros no carro. Se seu filho disser que não quer ouvir o livro, diga que colocou o livro para VOCÊ, e não para ele. Você se deparará com uma audiência cativa e uma história interessante sendo lida por um narrador habilidoso. Será difícil resistir a isso, mesmo para um adolescente teimoso de catorze anos. Outra tática é simplesmente comunicar que a leitura em voz alta será uma prática familiar, assim como o jantar ou a noite de jogos em família. Garanta que todos estejam presentes e então dê ao seu filho adolescente alguma coisa para fazer com as mãos enquanto você lê. Ter algo que manusear pode ser incrivelmente útil para o seu filho que não está acostumado a ouvir uma história ser contada em voz alta. Uma alternativa que facilita as coisas é reproduzir um audiolivro durante as refeições ou em um sábado livre enquanto todos estão reunidos na sala. Mas lembre-se do mais importante: nossos filhos adolescentes não querem ser nossos “projetos”. Se sentirem que estamos lendo em voz alta para eles a fim de melhorá-los, então resistirão (você não faria o mesmo?). Entretanto, se sentirem que estão ouvindo uma história ou lendo em voz alta por puro prazer e diversão, talvez achem a experiência um pouco mais gostosa. Seu filho adolescente deseja ser tratado como um leitor adulto, pois (atenção!) ele é quase um adulto! Então saia da sua rotina e trate seu filho como se você e ele fossem leitores que estão juntos em uma jornada. Preste muita atenção no Capítulo 6, que trata da criação de uma cultura do clube do livro em seu lar. Evite ser condescendente com as leituras do seu filho ou crítico com a frequência (ou falta de frequência) com a qual ele lê. Até mesmo a leitura de um único livro por ano permanecerá com seu filho quando ele sair de casa. E uma vez que o seu filho provavelmente sairá de casa em um futuro não muito distante, este é um investimento de tempo que vale muito a pena enquanto ainda há oportunidade. Atenha-se menos à quantidade e mais à naturalidade da leitura e dos diálogos acerca dos livros lidos. Esta é uma prévia para futuras interações. Você está pavimentando o caminho para as mudanças que acontecerão no relacionamento com o seu filho durante a transição de adolescente para adulto. O vínculo com os adolescentes (e provavelmente com todas as idades, para falar a verdade) é formado por diálogos. Não economize saliva. Leia menos com o seu filho, caso essa decisão signifique ter mais tempo para conversar. Converse, converse e converse mais um pouco. Deixe que os livros sejam a ponte para nutrir um relacionamento íntimo com o seu filho adolescente. O vocabulário sofisticado e as estruturas complexas ainda têm seu lugar nessa fase, e um excelente meio para transmitir esses conceitos é o uso de audiolivros. O seu filho adolescente pode ouvir um audiolivro enquanto aproveita a carona para o trabalho, durante uma caminhada, ou enquanto aguarda o trajeto do ônibus. Se você e seu filho estiverem ouvindo o mesmo audiolivro (em horários e lugares diferentes), ambos podem tomar um café juntos e mais tarde conversar sobre a leitura, usando os meios e formas de diálogo listados no Capítulo 11 deste livro. A história compartilhada entre vocês dois, mesmo quando a vida está corrida para todos, começa a parecer diferente. Atente-se menos a ler os livros “certos”. O mais importante é nutrir em seu filho adolescente o amor pela palavra escrita e pelas histórias lidas. Meu desejo é que você consiga comunicar o quanto gosta de passar tempo com ele. Os livros nos dão o poder de ajudar nossos filhos adolescentes a encontrarem seu próprio caminho neste mundo bagunçado e desordenado. O QUE OS ADOLESCENTES PODEM FAZER ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA • Costura ou crochê. • Montar modelos e miniaturas (aviões, etc.). • Praticar caligrafia cursiva ou artística. • Desenhar ou contornar esboços. • Pintar com aquarela. • Modelagem com argila. • Fazer tarefas domésticas (lavar a louça, dobrar as roupas, cozinhar, etc.). • Fazer colagens. MINHA BÍBLIA FAVORITA PARA LER EM VOZ ALTA COM ADOLESCENTES Durante os anos de adolescência, prefiro ler em voz alta qualquer tradução da Bíblia que os adultos da casa estejam lendo. A minha favorita é a Ignatius Bible (RSV), mas você pode usar a NVI, a KJV, a ARA, a ACF ou mesmo qualquer outra tradução usada em sua igreja ou em sua casa. A Mensagem pode ser uma boa mudança de ritmo para a leitura em voz alta, mesmo que não a use com frequência. Reveja os princípios do Capítulo 10 deste livro sobre a arte da conversação e lembre-se de não se intrometer quando seu filho se afeiçoa a uma história das Escrituras. É importante não transformarmos a leitura bíblica em pílulas de ensino mecânico; há, ao contrário do que possamos pensar, enormes chances de uma história encontrar nossos filhos e tornar-se aos olhos deles profunda e indelével. ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER EM VOZ ALTA COM ADOLESCENTES Adolescentes estão prontos para consumir materiais mais sólidos e textos mais complexos, embora não seja esse um padrão. Você encontrará uma mistura nessa lista — algumas leituras são leves e divertidas, outras seleções são densas e substanciosas. Alguns livros aqui escolhidos abarcam ambas as características. Todas as obras aqui citadas, penso eu, servem com louvor para a leituraem voz alta e em grupo. Certifique-se de ler as sinopses, uma vez que algumas das escolhas são voltadas para adolescentes mais velhos. Você verá que as recomendações que faço voltadas aos adolescentes incluem um bom número de livros para crianças do Ensino Fundamental II, algumas escolhas para adultos e alguns poucos títulos para jovens adultos. Tentei evitar livros que contivessem linguagem ofensiva, violência gráfica e conteúdo sexual. Mesmo que se sinta confortável em dar ao seu filho adolescente livros que contenham conteúdos impróprios, você provavelmente não terá vontade de lê-los em voz alta (pode me perguntar como fiquei sabendo disso). Há exceções, e as menciono nas sinopses dos livros que indico neste capítulo. Apesar de tudo isso, escolhi sobretudo livros que cultivarão uma experiência familiar aconchegante e memorável. Incluo nesta lista alguns livros ilustrados. É provável que você fique de boca aberta com a importância desse tipo de literatura para a leitura com adolescentes. Os livros ilustrados nesta lista abordam conteúdos mais densos e complexos do que os livros que, nos capítulos anteriores, sugiro que leia em voz alta com crianças mais novas. Quando você estiver com falta de tempo ou receio de se comprometer com uma obra mais longa com seu filho adolescente, escolha um desses livros ilustrados para ler em voz alta. Eis uma vitória rápida. Como sempre, lembre-se de dar a oportunidade ao seu filho de encontrar os personagens e diferentes ambientes daqueles com que já estão acostumados. Forneça livros escritos por autores diversos e histórias sobre personagens diversos em situações diferentes do dia a dia da vida do seu filho. Esta lista de livros lhe dará um bom começo. Acima de tudo, lembre-se de que ler com adolescentes é, antes de mais nada, criar vínculos que durarão por longos anos, mesmo depois que saírem de casa. Divirta-se e curta seu filho adolescente! Livros Ilustrados Construção de Um Castelo, de David Macaulay Detalhista e mestre na arte de explicar, Macaulay talvez seja um dos ilustradores mais talentosos da atualidade. Não são meros livros ilustrados. Construção de Um Castelo é seu título mais conhecido, mas ele também escreveu outras obras. Se seu filho tende a preferir não ficção, eis um excelente título para iniciar sua prática de leitura em voz alta. Embora Macaulay (que estudou arquitetura antes de começar a produzir livros para crianças) conte histórias sobre construções e edifícios, o que ele realmente está fazendo é contar histórias de pessoas. Leia também: outras obras de David Macaulay, incluindo Construção de uma Catedral, Construção de Uma Cidade Romana, Construção de Uma Pirâmide, Como as Coisas Funcionam e outros. Embora ele seja mais conhecido por suas ilustrações em preto e branco, você também pode encontrar encantadoras versões em cores de muitos de seus livros. Pink and Say, de Patricia Polacco Este livro irá convencê-lo de que os livros ilustrados não são apenas para crianças. Pink and Say é a linda história de dois heróis da Guerra Civil — um afro-americano e um caucasiano — e sua improvável amizade em um campo de batalha americano. É uma história que você não vai esquecer tão cedo — um conto notável de misericórdia, bondade, comoção e esperança. Se esta obra tocar o seu íntimo, leia também: The Butterfly, de Patricia Polacco, que conta a história de duas meninas em uma vila francesa que foi invadida por tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Entre os livros com belas imagens e que abordam tópicos importantes incluo Show Way, de Jacqueline Woodson, ilustrado por Hudson Talbott (escravidão) e Sit-In, de Andrea Pinkney, ilustrado por Brian Pinkney (o movimento pelos direitos civis). Romances e obras de não ficção mais longos Meninos de Ouro: Nove Americanos e Sua Busca Épica Pela Vitória Nas Olimpíadas de Hitler, de Daniel James Brown Você pode ler a versão integral com adolescentes, mas caso se sintam intimidados pelo tamanho do livro, então opte pela adaptação para o público jovem; acredito que mesmo essa não a decepcionará. A versão original do livro oferece mais detalhes e contextos históricos, mas a adaptação é extremamente bem editada. Neste livro, você encontrará a verdadeira história de Joe Rantz, um menino que sofreu muito durante sua infância, mas levantou-se para encarar a vida de frente. Essa história há de agradar especialmente os adolescentes que amam esportes. Leia também: O Contrabandista de Deus, do Irmão André, a história real de um garoto que se perdeu e depois se reencontrou trabalhando disfarçado para Deus, contrabandeando Bíblias pelas fronteiras de países em que sua leitura era proibida. Esse livro me surpreendeu positivamente, pois se tornou um daqueles que a gente devora enquanto lê. Brown Girl Dreaming [Sonhadora], de Jacqueline Woodson Por se tratar de um romance em verso, você pode ler cada um de seus poemas individualmente. Quando você os lê do início ao fim, no entanto, seus versos contam a história da infância de Jacqueline, menina afro-americana que cresceu em Ohio e na Carolina do Sul durante e logo após o movimento pelos direitos civis. É aquele livro que deixa você pesaroso, grato e cheio de esperança, tudo ao mesmo tempo. Você pode lê-lo em voz alta (eu li em voz alta para mim mesma!) ou mesmo ouvir a própria Jacqueline Woodson narrá- lo em seu audiolivro. Leia também: Piecing Me Together, de Renée Watson, a história de uma adolescente negra que tenta construir seu próprio caminho em um mundo que não dá tréguas. Bud, Not Buddy, de Christopher Paul Curtis Bud, de 10 anos, está foragido. Ele fugiu do orfanato e da terrível família Amos em busca de seu pai e de um futuro melhor. Mas os tempos são difíceis em Flint, Michigan, em 1936, e Bud (não Buddy) tem dificuldade enquanto tenta se virar. Sua mãe lhe deixou apenas uma pequena pista para encontrar seu pai: os panfletos que ela tanto estimava, em que figuravam Herman E. Calloway e sua banda, os Dusky Devastators of the Depression!!!!!! (São seis pontos de exclamação, agora já sabe que a banda é popular.) Li-o em voz alta para meus adolescentes e não sei se algum dia já nos entretemos tanto. É uma história que vai partir o seu coração e depois colocá-lo de volta no lugar. E se gostou desse, leia também outros livros de Christopher Paul Curtis, particularmente The Watsons Go to Birmingham — 1963. The Charlatan’s Boy [Os Trapaceiros], de Jonathan Rogers Bem- vindo a Corenwald (ou bem-vindo de volta, se você leu a trilogia Wilderking, que recomendo no Capítulo 14). Nesta história, você encontrará um menino feio chamado Grady e também Floyd, um vendedor ambulante de circo, enquanto ambos percorrem aldeias enganando seus habitantes com um truque de mágica falso. Quando os negócios diminuem, Floyd cria um grande esquema com resultados surpreendentes tanto para as pessoas em Corenwald quanto para o próprio Grady. Trata-se de um livro que lida com o saber quem você mesmo é (o mais importante) e saber a quem você pertence. Em suas páginas há muito que desfrutar e sobre o que conversar; é bem provável que vocês ficarão acordados até tarde da noite lendo sempre mais um pouquinho, só para verem o que vai acontecer. Leia também: Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, de C. S. Lewis, um clássico que fará você contemplar grandes ideias de uma perspectiva única. Na verdade, releio as Cartas de um Diabo a seu Aprendiz todo ano (sim, ele é tão bom assim mesmo!). E, claro, fãs de Rogers e Lewis provavelmente também serão fãs de O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, bem como da trilogia de O Senhor dos Anéis, incluindo A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei. Quanto à trilogia de O Senhor dos Anéis, preferimos ouvir os audiolivros narrados por Rob Inglis. Ecos, de Pam Muñoz Ryan Não leia este livro — ouça-o. O audiolivro narrado por Mark Bramhall, David de Vries, Andrews MacLeod e Rebecca Soler é uma experiência extraordinária. A narrativa, semelhante à de um Conto de Fadas, começa com a história de Otto, três irmãs e uma gaita. Décadas depois, encontramosoutra vez a gaita nas mãos de Friedrich, um garoto alemão do lado errado do Partido Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns anos depois, na Pensilvânia, a gaita cai nas mãos de um órfão chamado Mike e seu irmão Frankie, que sonham em ter uma família própria. Então conhecemos Ivy Lopez, uma garota na Califórnia durante os anos 1940 que luta para lutar por sua identidade americana em uma época de turbulência cultural e, claro, a gaita encontra seu caminho em suas mãos. O autor tece os fios dessas histórias em uma obra-prima verdadeiramente mágica. Este é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Altamente recomendado. Leia também: outras obras de Pam Muñoz Ryan (você encontrará descrições de The Dreamer e Esperanza Rising no Capítulo 14). Você também pode desfrutar da mistura de ficção histórica, imaginação e folclore no livro de Kenneth Oppel (ilustrado por Jim Tierney), The Boundless, sobre um menino que anseia por aventura — e a encontra! — na Canadian Railway. Fever 1793 [A Febre], de Laurie Halse Anderson É verão no final do século XVIII, na Filadélfia, e Mattie Cook é pego no meio de uma praga que varre a cidade e destrói tudo em seu caminho. Quando sua mãe fica gravemente doente, Mattie e seu avô procuram ares mais saudáveis no país, mas logo descobrem que não há como fugir da febre amarela. Com base nos verdadeiros eventos da epidemia de febre amarela de 1793, este empolgante romance histórico vai manter você e seu filho adolescente roendo as unhas para descobrir o que acontece na próxima página. Se você quiser saber mais sobre a epidemia, leia também An American Plague: The True and Terrifying Story of the Yellow Fever Epidemic of 1793 (um livro vencedor da medalha Newbery e que compartilha relatos reais e verdadeiros artefatos históricos), de Jim Murphy. O Doador de Memórias, de Lois Lowry Neste livro, conhecemos Jonas, um menino de doze anos que vive em um mundo plácido de controle e conformidade “ideais”. Jonas recebe o papel de Receptor de Memórias e começa a desvendar o lado obscuro de seu mundo “perfeito”. Romance distópico e original para jovens adultos, O Doador de Memórias é uma história assustadora que irá fornecer a você e seus adolescentes muito o que discutir. Leia também: o restante de Giver Quartet, incluindo Gathering Blue, Messenger e Son, todos pela talentosa Lois Lowry. Os adolescentes que gostam de ficção distópica também podem gostar da saga Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Leia a saga Jogos Vorazes e tenha uma fonte de conversas sobre questões sociais relevantes com seus filhos adolescentes. A Pastorinha de Gansos, de Shannon Hale Este é o primeiro da série Books of Bayern, e é uma recontagem do Conto de Fadas dos irmãos Grimm de mesmo nome: A Pastorinha de Gansos. A excelente redação e o enredo bem ritmado vão impressionar seus adolescentes desde o início — e este não é apenas para as moças! Muita aventura, romance e combates manterão todos envolvidos. Leia também: os demais livros da coleção Books of Bayern, incluindo Enna Burning, River Secrets e Forest Born. Os adolescentes também vão amar a obra Academia de Princesas — mais profunda e rica do que o título permite aparentar e adequada para um público mais jovem do que os Books of Bayern. Hattie Big Sky [Hattie Mundo Afora], de Kirby Larson Hattie assumiu uma tarefa formidável — provar sozinha a reivindicação de seu falecido tio em Montana. Este romance histórico o levará à fronteira americana com uma garota que enfrenta o mundo natural, um lugar nada fácil para descobrir o que realmente significa estar em “casa”. Ganhou a medalha Newbery em 2008 e tem uma sequência maravilhosa, Hattie Ever After, enquanto a personagem principal continua sua busca de volta para “casa”, mudando-se para San Francisco a fim de perseguir seu sonho de se tornar repórter. Se o seu filho adolescente gostar desses livros sobre Hattie, leia também o romance de Susan Meissner, A Fall of Marigolds. Em A Fall of Marigolds, Meissner tece dois contos: um de Clara Wood, que deve resolver sua própria vida após o catastrófico Incêndio na Fábrica da Triangle Shirtwaist, em Manhattan, 1911, e o outro de Taryn Michaels, que está reconstruindo sua vida depois de perder seu marido no ataque terrorista de 11 de Setembro contra o World Trade Center. Adolescentes que gostam de ficção histórica como Hattie Big Sky e Hattie Ever After também podem desfrutar de The True Confessions of Charlotte Doyle, um conto do século XIX sobre a angustiante jornada de uma garota de 13 anos através do Atlântico. O Refúgio Secreto, de Corrie Ten Boom Esta é a história incrivelmente comovente e verdadeira de Corrie Ten Boom, uma relojoeira que foi lançada na resistência holandesa durante a Segunda Guerra Mundial. Acredito que seja uma leitura mais apropriada com adolescentes mais velhos, já que, sem dúvida, vai quebrar seu coração ao ler o relato surpreendente e aterrorizante da vida em um campo de concentração nazista. Também acredito que seja melhor ler este em voz alta com seu filho adolescente (em vez de deixá-lo ler sozinho), para que você possa dialogar sobre os fatos complicados e comoventes deste período terrível da História. Este livro, no entanto, não deixa o leitor em desespero. Como todos os livros verdadeiramente maravilhosos, você fecha a última página com uma promessa de esperança e boa vontade — promessa que envolverá os pensamentos do seu filho adolescente pelos próximos anos. Altamente recomendado. Leia também: Unbroken: An Olympian’s Journey from Airman to Castaway to Captive. Este livro descreve os horrores e a violência dos campos de concentração com mais detalhes do que O Refúgio Secreto; portanto, guarde-o para seus adolescentes mais velhos e certifique-se de reservar um bom tempo para ajudá-los a processar o livro e a dialogar a seu respeito. Observação: recomendo a adaptação juvenil deste livro. Homeless Bird [O Passarinho sem Ninho], de Gloria Whelan Neste romance histórico ambientado na Índia, Gloria Whelan, mestre em contar histórias, narra a vida de Koly, uma garota de treze anos que deve deixar a casa de sua infância para enfrentar um casamento arranjado. Após a cerimônia ser concluída, no entanto, Koly descobre que seu futuro foi negociado por um dote e, em uma infeliz reviravolta, sua vida muda abruptamente. Expulsa da sociedade e abandonada por todos que conhecia, Koly precisa trilhar seu próprio caminho e encontrar beleza e felicidade mesmo nas circunstâncias mais infelizes. Leia também: outros livros de Gloria Whelan, especialmente sua bela e comovente história em Listening for Lions. Adolescentes que gostarem de Homeless Bird também podem gostar do livro de Ji-li Jiang, Red Scarf Girl: A Memoir of the Cultural Revolution, acerca de crescer na China sob o revolucionário comunista Mao Tsé-Tung. Inside Out and Back Again, de Thanhha Lai Você encontrará este na seção infanto-juvenil da biblioteca e das livrarias, mas não se deixe enganar — meu filho e eu gostamos tanto quanto um pré- adolescente de 12 anos. Neste romance em versos, você conhecerá Hà, uma garota cuja família foge do Vietnã após a queda de Saigon. Sua experiência como jovem imigrante nos EUA é tocante e comovente. Este livro ganhou vários prêmios, incluindo uma medalha Newbery e um National Book Award. Se você gostar deste romance, leia também outros romances em verso: The Crossover, de Kwame Alexander (especialmente adequado para seus rapazes, praticando ou não esportes) e Out of the Dust, de Karen Hesse, uma história surpreendente ambientada na tempestade de areia (também conhecida como Dust Bowl) na década de 1930, durante a Grande Depressão. Minha Vida Fora dos Trilhos, de Clare Vanderpool Este livro ganhou a Medalha Newbery por excelência em literatura infantil em 2011. O pai de Abilene Tucker a envia para a cidade imigrante de Manifest, na zona rural do Kansas, com poucas explicações, e Abilene se sente abandonada e sozinha. Em seu quarto, ela descobre uma caixa de charutos escondida cheia de lembranças, que a leva a desvendar históriasde Manifest e do povo que vive ali. Trata-se de uma história de perda, pertencimento, lar e perdão, contada de uma forma inesquecivelmente bela. Leia também: Em Algum Lugar nas Estrelas, de Clare Vanderpool. Considero Clare Vanderpool uma das escritoras mais talentosas da atualidade. Okay for Now [Está Tudo Bem], de Gary D. Schmidt Gary D. Schmidt escreveu alguns dos romances mais interessantes que já li, e este é o meu favorito de todos eles. É um livro que vai fazer você querer contemplar as pinturas de Audubon, ler Jane Eyre, agradecer a um veterano de guerra, pegar uma orquídea, abraçar uma criança antipática. O personagem principal é Doug Sweeney, um “valentão magrelo” que sofre nas mãos de um pai abusivo. Doug trilha sua vida doméstica tumultuada, suas lutas na escola e presencia um irmão mais velho que retorna do Vietnã profundamente ferido e incapacitado. O estilo de escrita de Schmidt mudará a maneira como você vê o mundo e as pessoas que estão sofrendo ao seu redor. Esta obra é uma das principais escolhas dessa lista. Se você pretende ler poucos livros com seu filho adolescente, certifique-se de que este seja um deles. Leia também: The Wednesday Wars, de Gary Schmidt. Na verdade, essa narrativa se passa antes de Okay for Now, mas você pode lê-los em qualquer ordem. O que Schmidt faz por Audubon em Okay for Now (ou seja, deixa o leitor faminto para descobrir mais sobre seu trabalho), ele o faz por Shakespeare em The Wednesday Wars. A Saga Wingfeather: Nos Limites do Mar Sombrio da Escuridão, de Andrew Peterson Este é o primeiro livro da saga Wingfeather, uma série que menciono com frequência ao longo deste livro. A saga conta a história da família Igiby: Janner, Tink e Leeli, seu cachorro Nugget, a dedicada mãe Nia e o avô ex-pirata, Podo Helmer. Eles vivem em Glipwood, uma cidade tomada pelo mal e pelos ferozes Fangs de Dang. Os fãs de Tolkien e de Lewis apreciarão especialmente as criaturas fantásticas e os personagens fascinantes que se deparam com as crianças Igiby enquanto elas descobrem sua verdadeira identidade e aprendem o que significa ser quem são. Mais do que aparenta, não são meras aventuras de fantasia, mas contos que lidam com o quanto custa atender ao chamado para o qual fomos criados. Leia também: os demais livros da Saga Wingfeather. O segundo livro é o North! Or Be Eaten, seguido por The Monster in the Hollows e The Warden and the Wolf King. Talvez você também goste de Wingfeather Tales, uma coleção de contos sobre as criaturas e personagens de Glipwood. Aliás, são livros que crianças mais novas também conseguem ler (a partir dos nove anos, mais ou menos). A Single Shard [O Fragmento], de Linda Sue Park Ganhador de uma medalha Newbery, embora este livro normalmente seja recomendado para crianças mais novas, os adolescentes também o consideram envolvente. Esta é a história de Tree-ear, um órfão de treze anos que é contratado pelo mestre oleiro Min, na Coreia de meados do século XII. Trata-se de uma história de mestre e aprendiz, ambos tentando se provar da única maneira que sabem. Considero Linda Sue Park uma das melhores escritoras infantis da atualidade — essa obra é imperdível! Leia também suas outras obras, especialmente Uma Longa Caminhada até a Água (compartilho mais sobre minha experiência ao lê-lo no Capítulo 5). Uma Dobra no Tempo, de Madeleine L’Engle Este livro pode ser apreciado por crianças mais novas, mas os adolescentes encontrarão muito o que amar, enquanto Meg e Charles embarcam em uma jornada pelo espaço para encontrar seu pai. Trata-se de uma história do bem contra o mal, de possibilidades e conquistas. Inteligente e atemporal, este livro provavelmente se tornará um favorito da família. Se seus filhos ainda não leram, lê-lo em voz alta será uma experiência mágica. Se eles já leram por conta própria, provavelmente não se oporão à sua leitura em voz alta. Leia também: outros livros de Madeline L’Engle — recomendo especialmente Meet the Austins. Os leitores que apreciam o elemento mágico de Uma Dobra no Tempo gostarão também da obra de Elizabeth Marie Pope em The Sherwood Ring e The Perilous Gard. You Learn by Living: Eleven Keys to a More Fulfilling Life [Aprende- se Vivendo: 11 Chaves para uma Vida mais Abundante], de Eleanor Roosevelt Eleanor Roosevelt continua sendo uma das figuras públicas mais queridas da história americana. Neste guia sábio e comovente, ela compartilha histórias e sabedoria sobre ser uma aprendiz ao longo da vida, lutando contra seus medos, usando bem o tempo, amadurecendo, aprendendo a ser flexível e muito mais. “Olhando para trás”, ela escreve no início deste livro, “o fato que provavelmente mais me influenciou nos meus primeiros anos de jornada foi o ávido desejo, mesmo antes de ter consciência do que estava fazendo, de experimentar tudo que fosse possível e tão profundamente quanto pudesse”. E nas próximas duzentas ou mais páginas, ela descreve exatamente como nós mesmos podemos fazer o mesmo. Espirituoso, bem-humorado e perspicaz, este pequeno livro servirá de base para muitas discussões com seus adolescentes. Para mais livros inspiradores de não ficção, leia também: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, um livro fabulosamente divertido que trata de habilidades pessoais. Você provavelmente gostará desses livros tanto quanto seus adolescentes. Agradecimentos Sou muitíssimo agradecida a cada um de vocês, aqui nomeados ou não, que tiveram parte importante para que esse livro ganhasse vida. Essa obra não teria sido escrita sem vocês, pessoal. Jim Trelease, obrigado por dar o corajoso passo de escrever O Manual de Leitura em Voz Alta. Uma geração de famílias foi transformada por causa do seu livro. Andew Pudewa, obrigado por acender a fagulha necessária para despertar o desejo de ler para os meus filhos. Ao meu maravilhoso agente, Bill Jensen (e à Sheila, metade da causa, suspeito eu, para Bill ser tão maravilhoso), e à equipe Zondervan, especialmente Carolyn McCready, Harmony Harkema, Alicia Kasen e Robin Barnett: o meu muito obrigado por acreditarem neste livro, às vezes mais do que eu. Obrigado por me dizerem para tentar outra vez mesmo enquanto não dava certo e para me livrar de todos os obstáculos, a fim de que conseguíssemos imprimi-lo o mais rápido possível. Vocês são maravilhosos! Angela Fredericks, Natalie Schroeder e todas as lindas mulheres do St. Joseph Homeschool Group: obrigado por serem amigas fiéis para todos os momentos. Pam Barnhill: obrigado por ser meu porto seguro e amiga querida. Anne Bogel: obrigado por me manter sã e me fazer rir. Rosalie Nourse: obrigado por amar meus filhos tanto quanto uma avó. Meghan Kunzl: amo-a com grande ternura, mesmo de longe. Karla Marsh: obrigado por todo o amor de uma vida, por todo o seu apoio que não tem fim. Mystie Winckler e Brandy Vencel: obrigado por sua amizade inspiradora e inabalável. C. S. Lewis certa feita disse: “A amizade é desnecessária, como a filosofia, como a arte [...] não é de valor à nossa sobrevivência; ao contrário, é uma daquelas coisas que dão valor à sobrevivência”. De fato. Espero que compartilhemos muitos outros momentos desnecessários. Mãe, pai, Tiffany, Haylie, suas respectivas metades e seus doces filhos — a perda que sofremos enquanto eu escrevia estas páginas foi maior do que pensávamos que poderíamos suportar. Amo todos vocês. Dylan e Mikayla — eu os amo mais do que consigo expressar. Lamento muito por toda a perda que vocês sofreram. Ro, Randy, Angela, Dan e a linda família de cada um de vocês: obrigado por me amarem como se fossem sangue do meu sangue. Também agradeço à Jodie Naker, que ama tanto meus filhos. A paz e a alegria que você traz para nossa família são palpáveis. Comunidade Read-Aloud Revival: este livro não existiria sem vocês. Seus e-mails, cartas, abraços e incentivos são a causa do verdadeiro reavivamento. Aquilo que começou como uma faísca transformou-se num incêndio voraz por causa do entusiamo de casa um de vocês, por causa dessa empolgação de relacionar-se com seus filhos mediante