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Copyright © 2018 by Sarah Mackenzie Publicado originalmente sob o título: The Read-
Aloud Family: Making Meaningful and Lasting Connections with your Kids “Published by
arrangement with The Zondervan Corporation L.L.C, a division of HarperCollins Christian
Publishing, Inc.”
 
1ª edição 2021
ISBN: 978-65-89129-06-6
Impresso no Brasil Tradução: Elmer Pires Revisão: Cesare Turazzi Capa: Bárbara Lima
Diagramação: Marcos Jundurian Versão ebook: Tiago Dias ---------------------------------------
------
PIRATARIA É PECADO E TAMBÉM UM CRIME
RESPEITE O DIREITO AUTORAL
O uso e a distribuição de livros digitais piratas ou cópias não autorizadas prejudicam o
financiamento da produção de novas obras como esta. Respeite o trabalho de ministérios
como a Editora Trinitas.
----------------------------------------------
M157f
Mackenzie, Sarah, 1981-A família leitora : como ler em voz alta cria laços
significativos e duradouros com seus filhos / Sarah Mackenzie ; [tradução: Elmer
Pires]. – São Paulo: Trinitas, 2021.
270 p. ; 21cm Inclui bibliografia: p. 247-250 e índices.
Tradução de: The read-aloud family.
ISBN 978-65-89129-06-6
1. Leitura oral. 2. Leitura – participação dos pais. 3. Educação – Participação
dos pais. I. Título.
CDD: 372.452
 
Catalogação na publicação: Mariana C. de Melo Pedrosa – CRB07/6477
 
Todos os direitos reservados à:
Editora Trinitas LTDA São Paulo, SP
www.editoratrinitas.com.br
Para os meus filhos, que me ensinaram a ler em voz alta: Audrey,
Allison, Drew, Clara Jane, Emerson e Becket. 
Que histórias e narrativas sempre nos unam em amor.
 
E para meu irmão, que passou para a vida eterna enquanto eu
escrevia este livro. Sentiremos saudades 
e o amaremos para sempre, Nate.
Conceda-lhe o descanso eterno, ó Senhor, 
e que a luz eterna brilhe sobre ele.
 
 
O mundo atual está em falta com os bons Contos de Fadas. Assim, quem
deve tomar o seu lugar? Quem deve garantir que o senso de deslumbramento
das nossas crianças crescerá de forma indestrutível ao longo dos anos? Nós
devemos. Você e eu.
— Katherine Paterson, 
A Sense of Wonder (Um Senso de Deslumbramento)
Sumário primeira parte | a hora é agora
 
Capítulo 1
Como ler em voz alta pode mudar o mundo
Capítulo 2
Esperando a morsa
Capítulo 3
O rugido do leão
Capítulo 4
Prontos ou não
Capítulo 5
Caminhando uma milha
segunda parte | relacionando-nos com nossos filhos
por meio dos livros
 
Capítulo 6
Crie em sua casa uma cultura de clube do livro
Capítulo 7
Desmascarando cinco mitos
Capítulo 8
Prepare-se para o sucesso
Capítulo 9
Seja uma casamenteira literária
Capítulo 10
Domine a arte da conversa
Capítulo 11
Faça perguntas pertinentes
terceira partE | LANÇANDO NOSSOS FILHOS AOS
LIVROS
 
Como utilizar os capítulos 12–15
Capítulo 12
Livros são deliciosos
Capítulo 13
Idade do deslumbramento
Capítulo 14
O mundo se expande
Capítulo 15
Encontrando o caminho
Agradecimentos
Referências bibliográficas
Índice por títulos
Índice por faixa etária
Índice por nome de autor e ilustrador
 
 
CAPÍTULO
1
Como ler em voz alta 
pode mudar o mundo (Ou, no mínimo, como está
mudando 
o meu mundo) Jamais alguém dirá, não importa quão bom pai ou mãe esse
alguém seja, “Na minha opinião, passei tempo demais com os meus filhos
durante a infância deles”.
— Alice Ozma, The Reading Promise [O Compromisso de Ler]
Não passava de uma terça-feira comum, de verdade, mas
acabou se tornando muito mais que um dia de semana normal.
Eu tinha os meus vinte e quatro anos; a primavera havia sido
longa e chuvosa, e os 40 metros quadrados em que eu e meu
marido vivíamos estavam nos dando a impressão de ser mais
apertado do que o normal. Arrumei a minha filha de um ano, uma
bolsa transbordando de fraldas, um melão quase estragando de tão
maduro, e saí.
Quando, vinte e cinco minutos mais tarde, cheguei na casa de
minha amiga Christina, ela abriu a porta, abraçou-me e nos
conduziu para dentro de sua casa, grande e alegre. Suspirei de
alívio e deixei a bolsa de fraldas ao lado das escadas — mais uma
tarde entediante em nosso minúsculo apartamento havia sido
evitada com sucesso.
Minha filha Audrey saiu imediatamente, ansiosa por encontrar a
caixa de brinquedos, então conduzi minha pequena em direção à
caixa enquanto abria seu casaco. A bebê da Christina, ainda não
tão amigável comigo, respondeu ao meu sorriso com uma careta.
Christina foi para a cozinha caçar alguma coisa na geladeira, e
eu a segui. Havíamos nos afeiçoado meses atrás em conversas
sobre partos e café em uma pracinha da região, e estava
agradecida porque, apesar da diferença de uma década de idade,
podíamos trocar medos e sentimentos como mães de primeira
viagem.
“Você fica de olho nos pequenos?”, ela perguntou. “Só vou
preparar alguma coisinha para o almoço”.
Caminhei devagar até a sala de descanso, de olho enquanto as
crianças vasculhavam a caixa de brinquedos. Quando estava pronta
para me sentar no sofá de couro, vi algo: um livro quase caindo na
beirada da cornija da lareira, com post-its saindo por todos os
cantos. Peguei-o rapidamente e vi o título: The Read-Aloud
Handbook [Manual de Leitura em Voz Alta], de Jim Trelease.
Se aquele momento estivesse acontecendo em um filme, tenho
certeza de que haveria uma música tocando de fundo. Na verdade,
seria a parte onde a tensão é formada na trilha sonora. Aquela parte
que ajuda quem está assistindo ao filme a perceber que alguma
coisa importante está acontecendo, e que o restante da história
depende daquele momento aparentemente insignificante.
Contudo, naquela hora, a única coisa que ouvi foi o balbuciar das
crianças e o chiado da linguiça que a Christina estava grelhando
para o almoço. Virei as páginas do livro notando quantas partes
haviam sido marcadas, e quantas haviam sido sublinhadas e
comentadas.
“O que você acha desse livro?”, perguntei à Christina, de costas
para ela.
Ela se virou do fogão e se inclinou para frente, forçando a vista
para ver o que eu estava segurando. “Ah, esse? É ótimo!”.
De volta ao fogão, ela acrescentou: “Pode pegá-lo emprestado,
se quiser”.
(Essa é a sua deixa para aumentar o volume da trilha sonora).
INCOMPARÁVEL
Levei a cópia do Manual de Leitura em Voz Alta da Christina para
casa, mas não só o li: eu o devorei. Essa voracidade por si só não
era terrivelmente incomum — sendo mãe recente, eu lia com afinco.
Eu tinha sonhos grandes e idealistas para Audrey e para mim
mesma — para o tipo de mãe que desejava ser. Eu sabia o
suficiente para perceber que não fazia ideia de como aplicar o
conteúdo daquele livro, então fiz o que sempre fazia quando tentava
tirar uma nota 10: eu li.
Naqueles primeiros dias de maternidade, raramente tomava
decisões sem consultar um livro. Li livros sobre como alimentar
minha bebê, sobre como incentivá-la a tirar uma soneca, sobre o
que fazer para que seu cérebro se desenvolvesse. Minhas
expectativas eram altas, e eu estava determinada a alcançá-las.
Durante uma noite escura, dos dias quando Audrey tinha só um
aninho, minha pequena não conseguia dormir. Esse problema havia
se tornado recorrente e, temerosa de que a culpa pelos maus
hábitos de dormir fosse minha, juntei todos os livros sobre
maternidade que pude encontrar. Espalhei-os ao meu redor e, de
pernas cruzadas, sentada no chão do meu apartamento, busquei
desesperadamente por uma solução para aquele problema. Audrey
engatinhava em volta de mim enquanto eu me acabava de chorar,
passando de um livro para outro, perguntando-me por que todos
eles pareciam dar conselhos conflitantes, sem saber em qual
confiar. (Quinze anos e cinco filhos mais tarde, gostaria de poder
dizer à minha jovem eu para relaxar e confiar em seus instintos! Ah,
algumas lições devem ser aprendidas pelo tempo e pela
experiência).
Mas até a minha vontade de acabar com os problemas da hora
de dormir era pequena quando comparada ao desejo que sentia de
formar um relacionamento significativo com Audrey. A ideia de Jim
Trelease me intrigou: de que ler com minha filha poderia ser um dos
passos mais importantes para uma relaçãosaudável e duradoura
entre nós duas. De todas as ideias, eu queria ao menos acertar
nessa.
O Manual de Leitura em Voz Alta já vendeu mais de um milhão
de cópias até hoje, então creio que seja seguro dizer que fui apenas
mais uma de muitas cuja atenção foi capturada por sua mensagem.
O livro me apresentou uma nova ideia: o principal objetivo de ler
para crianças e ensiná-las a ler não é esperar que, passado um
tempo, elas aprenderão a ler por conta própria.
O livro de Trelease é repleto de estatísticas e informações que
provam que a leitura em voz alta conecta e une famílias, que ler
para todos ajuda a criança a crescer e a ter sucesso em
praticamente todas as áreas da vida, em especial na escola. No
livro, o autor afirma que a leitura em voz alta é o fundamento para
laços estreitos entre pais e filhos, entre professores e alunos.
A Comissão de Leitura de 1985 declarou: “A atividade mais
importante para a construção do conhecimento necessário ao
sucesso final na leitura é a prática de ler em voz alta para as
crianças”.1 Trelease desenvolve esse ponto e então conta sobre o
surpreendente poder que a leitura em voz alta tem de construir o
vocabulário da criança, plantar as sementes do desejo pela leitura e
ajudá-las a continuar a amar os livros ao longo da adolescência e
por toda a vida.
Esse mesmo autor sugere a leitura em voz alta como antídoto
para os problemas acadêmicos, e não apenas para crianças que
ainda não sabem ler. A prática de ler em voz alta serve para bebês
no ventre, para recém-nascidos que ainda não conseguem nem
mesmo equilibrar a própria cabeça, para crianças que ainda usam
fraldas, para crianças que estão na pré-escola e no Ensino
Fundamental, e até mesmo para adolescentes que são bem
capazes de ler por contra própria. Trelease defende em especial a
leitura em voz alta para crianças que já conseguem ler por conta
própria, e chega mesmo a dizer que se falta tempo aos professores
ou pais para encaixar a leitura em voz alta em sua rotina, que
“roubem [tempo] de outras disciplinas não tão essenciais quanto a
leitura, ou seja, praticamente todo o restante”.2
A ideia de que a leitura em voz alta deve ter primazia sobre
outras matérias — de que mesmo professores em seu ambiente
escolar devem substituir outras disciplinas do seu próprio horário,
para dar mais tempo à leitura em voz alta — era nova para mim. É
claro que quando criança, adorava que lessem para mim. Minha
parte predileta do Ensino Fundamental I foi no primeiro ano, quando,
em quinze minutos, após o recreio do lanche, a professora lia para
nós The Mouse and the Motorcycle [O Rato e a Moto], de Beverly
Cleary. Diariamente, eu ansiava por aquele momento de leitura em
voz alta.
Agora, sendo uma mãe recente, ler livros cartonados com a
Audrey era uma das minhas formas favoritas de passar tempo com
ela. De todas as tarefas e responsabilidades associadas com a
maternidade, ler era a mais fácil e mais prazerosa. Eu ficava
espantada e encantada ao mesmo tempo com o fato de ler em voz
alta para a minha filhinha ser tão profundamente importante como
Jim Trelease afirma.
Naquela noite, deitei-me perto da Audrey e fiquei observando sua
respiração, pequenos suspiros soprando uma mecha do seu cabelo
enquanto dormia. Eu revirava as páginas do Manual de Leitura em
Voz Alta, e algo profundo ressoava dentro de mim.
Foi então naquele momento que percebi que meu
relacionamento com aquela bebê era a coisa mais importante da
minha vida. Nada poderia se comparar ao laço entre aquele
pequeno ser humano e eu. Se a leitura em voz alta seria a melhor
forma de nutrir aquele laço, então, caramba, eu sabia o que tinha de
fazer.
SEM GARANTIAS
Eu alimentava muitas expectativas para Audrey. Tinha em mente
que ela cresceria para amar a Deus de todo coração, mente e alma.
Queria que ela fosse bem na escola. Queria um relacionamento
próximo com ela, sempre. Queria que ela fosse gentil e compassiva,
fazendo o que é certo mesmo quando ninguém estivesse olhando.
Também sabia que na maternidade não existem garantias. Filhos
não são receitas, e só porque os preparamos com especial cuidado,
não significa que eles serão aquilo que o nosso gosto dita. Conheço
dezenas de pais e mães amorosos e generosos cujos filhos já
adultos sempre parecem estar cometendo uma série de erros e
infortúnios. Filhos são seres humanos, e a humanidade é
bagunçada. Sabia desde o início que a minha própria habilidade
materna não era garantia de que meus filhos abraçariam crenças
cristãs, entrariam em boas universidades ou tomariam decisões na
vida das quais me orgulharia.
Na maternidade, não há garantias de nada disso, mas ainda
sentia um forte desejo de dar o meu melhor à Audrey, desejosa de
aumentar as chances de minha pequena se tornar o tipo de pessoa
capaz e amorosa que eu esperava.
Todo o tempo e esforço que levaria para criá-la valeria a pena; e
não porque houvesse garantias de bons resultados, mas porque
amá-la e me relacionar com a minha própria filha sempre valeria o
meu esforço e tempo: pois ela me pertencia; pois minha filha foi
criada por Deus; porque aquele era o meu grande dever.
Mas o que eu não sabia, enquanto acariciava sua bochecha e
considerava o rumo que a minha vida tinha tomado enquanto ainda
tão jovem, era que mais cinco irmãos se juntariam a ela nos
próximos doze anos. Amar os meus filhos, relacionar-me com eles
tanto se tornaria o maior desafio quanto o privilégio mais
emocionante da minha vida. A maternidade seria muito mais difícil
do que eu poderia imaginar naqueles primeiros anos, e muito mais
recompensadora.
Apesar de tudo, eu já sabia de uma coisa, mesmo naquela
época: eu poderia errar em várias áreas, mas, ah, como eu queria
acertar na maternidade!
MEU MAIOR TEMOR
Uma coisa que me aterrorizava era a possibilidade de que um dia
meus filhos cresceriam, sairiam de casa e de que eu me
arrependeria das decisões tomadas enquanto os criava. Nosso
tempo de escolhas na vida é curto, no final das contas. Como
escolhemos gastar esse tempo tem consequências significativas,
pois afeta a maneira como nossos filhos viverão o resto de suas
vidas. É uma realidade assustadora.
Estou no olho do furacão, e se está lendo este livro, creio que
você também esteja. Enquanto este livro vai para a impressão,
meus seis filhos (sim, seis) têm idades variadas, desde a pré-escola
ao Ensino Médio.
Audrey, aquela bebê que me acompanhou juntamente com um
melão maduro e uma bolsa de fraldas na visita à casa de Cristina
muitos anos atrás, está passando seus últimos dias aqui em casa.
Estou perfeitamente ciente de como é fácil entrar na rotina de
apenas sobreviver a mais um dia, enfatizando seu final e a chegada
da noite. Quero criar laços significativos e duradouros com cada um
de meus filhos, antes que seja tarde demais.
Sou uma mãe bastante ocupada, logo luto para me ligar de
verdade com cada um dos meus filhos num relacionamento que
resistirá ao teste do tempo. Há uma casa inteira para ser cuidada,
jantar para ser feito, uma pilha de roupas sempre espalhada pelo
corredor. A vida parece constantemente apressada e cheia demais.
Escola, trabalho, igreja, atividades extracurriculares, esportes,
assuntos familiares, tarefas domésticas, recados. Coisas demais
para fazer. E-mails, telefonemas, mensagens de texto. Muito
barulho.
Barulho.
Demais.
É muito mais fácil deixar esses preciosos anos da infância
passarem voando; na verdade, estão passando, e não consigo
contê-los.
N. D. Wilson expressa perfeitamente essa ideia em seu livro
Morrer de Tanto Viver: “Contemplar o filho de um ser humano
crescer e envelhecer equivale a um impacto. É como estar preso em
um sonho, incapacitado de falar; é como ser um fantasma que pode
ver mas não tocar; é como estar em um enorme ralo debaixo de
uma tempestade de diamantes oleados, como recolher penas em
uma tempestade. Pais que amam seus filhos são acometidos de
amnésia, tentando lembrar, tentando estimar momentos, fantasmas
tentando segurar o mundo”.3
Essa sou eu — tentando segurar o mundo nas costas, tentando
desesperadamente pegaros diamantes oleados enquanto caem.
Além de desejar fazer um bom trabalho nesse negócio chamado
maternidade, quero curtir o crescimento dos meus filhos. Não quero
olhar para trás daqui a vinte anos e perceber que aquele tempo de
maternidade ativa passou rápido demais e que não o desfrutei. Fico
horrorizada só de pensar que um dia eu seja obrigada a desejar ter
sido menos distraída e mais atenta. Temo que chegarei ao desfecho
quando já for tarde demais, concluindo que deveria ter sido mais
presente. Tenho medo de precisar admitir que deveria ter curtido
mais.
Os dias que me restam para criar meus filhos enquanto ainda
estão debaixo do meu teto, e os dias que você tem para criar os
seus, são finitos. Quando pegou esse livro, você deve ter pensado
que estava pegando um manifesto sobre a leitura em voz alta. Ao
final dele, talvez conclua exatamente isso.
Mas bem aqui no início, quero ter certeza de que você sabe
exatamente do que esse livro trata: trata-se de você e eu entrarmos
de cabeça na criação de nossos filhos. Trata-se de fazer o que mais
importa sob uma chuva de diamantes que caem pelo ralo debaixo
dos nossos pés.
O NASCIMENTO DE UMA RESTAURAÇÃO
Alguns anos depois daquele dia na casa da Christina, eu estava
de pé sobre um banquinho na minha cozinha, usando calças de
ioga, com fones de ouvido e bucha na mão. Determinada a limpar
todos os armários da cozinha, coloquei as três crianças para brincar
com seus amiguinhos no quintal enquanto atacava as gavetas de
talheres e prateleiras da despensa.
Estava ouvindo Andrew Pudewa, presidente do Institute for
Excellence in Writing, dar uma palestra intitulada “Nutrindo
Comunicadores Competentes”. Tinha uma amiga que estava
inspirada, motivada e revigorada com novo entusiasmo e confiança
depois de ter ouvido Pudewa palestrar em uma conferência de
ensino domiciliar. Eu havia acabado de começar minha jornada no
ensino domiciliar, mas já estava me sentindo sobrecarregada e além
dos meus limites. Pensei que certamente poderia usar um pouco
desse recente entusiasmo.
Eu ouvia e esfregava enquanto Pudewa dizia a uma multidão de
pais educadores que a melhor maneira de ajudar seus filhos a se
tornarem bons comunicadores é ler em voz alta para eles o máximo
possível e fazê-los memorizar poesia. Juntei algumas migalhas em
minhas mãos e me lembrei do Manual de Leitura em Voz Alta,
devorado havia tantos anos. Talvez Pudewa estivesse no caminho
certo.
Eu já lia histórias na hora de dormir e livros escolares em voz alta
para os meus filhos — especialmente para os dois mais novos, que
ainda não conseguiam ler nada por conta própria. Mas alguma coisa
sobre a fala de Pudewa naquele dia acendeu uma brasa que havia
permanecido dormente, enterrada dentro de mim. Cheguei ao final
da palestra e outra vez fui ao começo, aspirando os cantos dos
armários e escovando respingos de mel enquanto o ouvia mais uma
vez.
Isso, pensei comigo mesma. Tem algo aqui.
Você já viu o que resta de uma fogueira quando permanece o
braseiro, mas sem chamas? Parece que nada está acontecendo,
mas basta adicionar um pouquinho do combustível certo — um
pedaço de papel, um graveto seco, um sopro — e o fogo volta à
vida.
Foi exatamente isso que aconteceu quando ouvi Andrew
Pudewa. Comecei a ler em voz alta para meus três filhos (na época
com idades de oito, seis e quatro anos) mais do que nunca. O
resultado foi tão surpreendente — com mudanças completamente
transformadoras em nossa família — que cinco anos mais tarde e
três bebês depois, quase não conseguia me conter de emoção.
Eu tinha um blog ativo e comecei a considerar a ideia de
começar um podcast. Já que amava ouvir podcasts, pensei que
seria legal começar um. Foi então que num momento de puro
impulso, em março de 2014, enviei um e-mail para o Institute for
Excellence in Writing: O senhor Pudewa gostaria de vir conversar
comigo em um podcast sobre a importância da leitura em voz alta?
Passadas poucas horas, recebi uma resposta de seu diretor de
marketing: sim, o Sr. Pudewa ficaria honrado em ser entrevistado
em seu podcast.
Humm, pensei, de olho nos meus gêmeos de nove meses
enquanto fugiam pelo chão, é melhor eu descobrir como começar
um podcast.
Acontece que “como começar um podcast” é, de fato, uma
pesquisa válida no Google. Comprei um fone com microfone, criei
uma conta no Skype e assisti a um tutorial on-line sobre como editar
gravações de áudio. Marquei com um marcador de texto amarelo
fluorescente o dia agendado da entrevista com Andrew Pudewa em
meu calendário de parede, mas conforme o dia se aproximava,
ficava cada vez mais inquieta.
No dia da entrevista, meu estômago estava virado. Enviei uma
mensagem para minha amiga Pam: O que eu estava pensando
quando pedi para que Andrew Pudewa viesse ao meu programa?
Eu nem mesmo tenho um programa! Vou passar mal. Essa ideia é
horrível. SEMPRE foi uma péssima ideia. E de quem foi a ideia,
afinal de contas? Tá vendo, é praí que meu entusiasmo precipitado
e impulsivo me levam. Pro abismo.
Pam respondeu com apenas quatro palavras: Vai dar tudo certo.
(Ela não tem coração. Ou acho que estava acostumada a
receber mensagens assim de mim. Fica a seu critério).
A entrevista saiu melhor do que eu poderia imaginar (então, no
final das contas, acho que a Pam estava certa), e o senhor Pudewa
foi um convidado encantador e falador. Até hoje, duvido que ele
saiba o quanto eu estava apavorada.
Uma semana depois, entre uma troca de fraldas e intermináveis
pilhas de roupa suja, lancei o podcast Read-Aloud Revival [A
Restauração da Leitura em Voz Alta]. Tinha certeza de que o
programa de rádio pela internet duraria apenas alguns episódios e
no máximo encorajaria o pequeno círculo de leitores do meu blog a
ler mais com seus filhos.
Nunca poderia ter imaginado naqueles primeiros dias do podcast
que o programa cresceria até se tornar o que é hoje — nunca
sonhei que veria milhões de downloads nos primeiros anos de
existência e que seria ouvida por milhares de famílias ao redor do
mundo. À medida que o podcast crescia e as respostas dos ouvintes
chegavam, percebi algo lindo: eu não estava sozinha. Outras
famílias haviam se comprometido com essa ideia de que a leitura
em voz alta poderia transformar seus lares, e havia histórias
maravilhosas sobre toda essa realidade. Encontrar outras famílias
como a minha, priorizando os livros e os momentos de leitura em
voz alta, fazia meu coração pular de alegria.
E-mails começaram a encher a minha caixa de entrada. Ouvintes
escreviam para me contar que estavam lendo em voz alta com seus
filhos, e que esses haviam se tornado os momentos prediletos de
todos durante o dia. Eles diziam que desde quando começaram a
ouvir o podcast, também começaram a ler em voz alta antes de
dormir, ou na hora do almoço, ou a ouvir audiolivros no carro. De
repente as famílias tinham suas próprias piadas internas, suas
próprias experiências compartilhadas. Era uma prática que os
estava juntando de novas maneiras. Pais e mães contavam que
seus filhos, mesmo os que ainda não sabiam ler, imploravam por
“mais um capítulo”, e que o lar deles havia recebido uma carga extra
de energia e um entusiasmo jamais experimentado. Algo grandioso
estava acontecendo nos lares ao redor do mundo. Havia uma
restauração tomando forma.
Depois de todas as entrevistas e conversas com especialistas,
autores, mães, pais e entusiastas da leitura no podcast Read-Aloud
Revival, vim a entender algo que me encanta e, ao mesmo tempo,
me alivia: ler em voz alta com os filhos é de fato o melhor uso do
tempo e da energia dos pais. É mais importante do que
praticamente qualquer outra coisa.
Ler em voz alta pode parecer simples demais para causar tanto
impacto. Mas, ao longo dos anos, ouvindo histórias de famílias de
diversas partes do mundo, aprendendo com especialistas e com a
experiência de vida que adquiri compartilhando histórias com meus
seis filhos, sem sombra de dúvidas fui também convencida.
QUEM SABERIA? 
(POIS BEM, ALÉM DE JIM TRELEASE) Acontece que eu estava
certa por todos aqueles anos, quando ficavadeitada com a Audrey,
pensando sobre os mistérios da maternidade, sobre a magnitude do
dever tão cheio de propósito que se colocava diante de mim: não há
garantias. Mas essa incerteza não importa, de verdade. Não é
porque nos prometem resultados brilhantes que fazemos de tudo
pelos nossos filhos. Fazemos de tudo porque eles significam mais
para nós do que qualquer coisa no mundo. Quanto a isso, queremos
que eles vivam a totalidade da visão de Deus na própria vida deles,
e estamos dispostas a fazer praticamente qualquer coisa para que a
sorte coopere.
Gostaria de poder voltar no tempo e cochichar algo para a Sarah
de vinte anos — naquele dia fatídico quando me deparei com o
Manual de Leitura em Voz Alta na sala de estar da Christina. Eu
sentaria ao lado de mim mesma como mãe de primeira viagem,
daria a ela um belo cafezinho e uma pausa do seu bebê por
algumas horas.
Depois, viraria para ela, com os olhos brilhando e um fogo em
meu íntimo, e diria: “Pegue um livro. Ponha a bebê no seu colo. Leia
em voz alta. Você nunca, jamais vai se arrepender do tempo que
gastou lendo com sua filha”.
Terminei aquela primeira leitura do Manual de Leitura em Voz
Alta tarde da noite — bem depois do horário que deveria estar
dormindo. Acabei de ler a última página, pus o livro na cama,
pertinho de mim, e me cobri até o queixo. Fitando o nosso
apartamento, que mais parecia um cubículo, fiquei pensando se Jim
Trelease estava certo.
Será que a leitura em voz alta poderia mudar a vida da Audrey?
Será que poderia causar tamanha diferença em seu futuro? Seria
possível que a leitura em família nos uniria com uma experiência
compartilhada que duraria uma vida inteira?
Minha versão de vinte anos ainda não sabia a resposta. Ela se
imaginava lendo para Audrey com dois anos, depois com oito, com
doze. Ela se imaginava lendo para ela aos dezesseis. E sabe de
uma coisa… eu gostava do que via. Duas pessoas embarcando em
uma jornada, de mãos dadas — buscando aventuras, indo a lugares
novos, perseguindo o desconhecido —, fazendo tudo aquilo juntas,
e tudo por meio das páginas de um livro. Mãe e filha abraçadas no
sofá ou deitadas no chão, buscando o que poderiam experimentar
ao lerem histórias juntas. Pensava como ter esse hábito com a
minha filha poderia impactar nós duas para sempre. Queria aquela
experiência para Audrey. Queria aquela jornada para mim mesma.
Queria tudo aquilo para nós duas.
Naquela noite, enquanto deitada debaixo das cobertas, parecia
que Jim Trelease estava dizendo que a leitura em voz alta podia
mudar o mundo. O que eu jamais teria previsto era como essa
prática mudaria o meu mundo.
 
CAPÍTULO
2
Esperando a morsa Sendo Completamente Presente
Portanto, como mãe e como escritora, permita-me incentivá-lo a ler para os
seus filhos, ler mais para eles e, repito, outra vez ler para eles. Ora, se
deixarmos de nutrir a imaginação, o mundo vai pagar por isso. O mundo já
paga por isso.
— Katherine Paterson, A Sense of Wonder Era um dia nublado,
típico do Noroeste Pacífico. Mesmo assim, agasalhei meus
três filhos e fomos para o zoológico, como era nosso
costume, fizesse chuva, fizesse sol.
“Que animal vocês querem ver hoje?”, perguntei enquanto
chegávamos ao estacionamento vazio. Eu amava dias como aquele
— manhãs dos dias de semana durante a primavera, com umidade
e garoa suficientes para afastar a maioria dos visitantes. Sempre
pronta para uma mudança de cenário, aceitei de bom grado a ideia
de não ficar confinada em casa, mesmo com o frio.
“A morsa?”, Audrey, de sete anos, sugeriu do assento de trás do
carro. “Ainda não vimos esse bicho”.
Balancei a cabeça concordando. Belo plano. Juntei nossas
coisas, procurei por meu cartão de sócio do zoológico e conduzi
meus filhos pela entrada.
Eu já tinha visto a morsa antes e estava ansiosa para presenciar
a reação das crianças ao seu primeiro encontro com aquela criatura.
Não importava quantas vezes eu já tivesse visto fotos em revistas
ou assistido a documentários na TV, sempre ficava um pouco
surpresa com os olhos arregalados do tigre, com a tromba curvada
do elefante, com a redondeza da barriga de uma cobra. Tinha
certeza de que meus filhos sentiriam o mesmo deslumbramento
naquele dia. Afinal, na primeira vez que vi uma morsa, fiquei
perplexa, imaginando como uma criatura tão grande podia se mover
de forma tão elegante na água.
Devagar chegamos à área noroeste do parque, parando
rapidamente para ver os alegres suricates e dar uma olhada no
lobo-vermelho tirando um cochilo. Ao chegarmos na exibição da
morsa, Allison, de cinco anos (sempre a primeira das crianças a
ficar cansada), jogou-se no chão e deu um suspiro dramático.
A exibição parecia vazia, mas sabia que aquele era um animal
que exigiria paciência para que conseguíssemos vê-lo. As morsas
só iam para a área principal da apresentação quando tinham algum
interesse, e passavam a maior parte do tempo em um dos cantos
mais reservados do tanque.
Audrey e Drew chutavam pedrinhas no chão e eu, contente,
baixava a mochila, que estava pesada, com garrafas de água,
cadernos de desenho e lápis de cor. Uma gaivota pousou ao nosso
lado, bicando um resto de pretzel amolecido no chão. Allison foi em
direção ao tanque das morsas e, ajoelhando-se, grudou o nariz no
vidro do tanque.
E então aconteceu. A água agitada deu sinal de movimentação
dentro do tanque. Abri um sorriso. Depressa chamei meus outros
dois filhos, disse que se juntassem com a Allison e esperassem.
“Ela está chegando!”, disse às crianças. “Conseguem ver a água
se agitando?”
Ansiosos, olhávamos através do vidro. Assim que aquela criatura
maravilhosa apareceu, Allison gritou de alegria: “Mamãe, olha!”.
Virei para ela na expectativa de ver sua primeira reação ao
tamanho e exuberância da morsa, mas ao invés disso ela não
estava nem olhando através do vidro. Ela estava de quatro, com o
nariz grudado na calçada e os olhos arregalados em
deslumbramento, vendo uma formiga passar carregando um pedaço
de comida maior que o próprio corpo.
Na minha ansiedade de ver as morsas, deixava passar
despercebido o milagre de uma pequena formiga, sem nada de
especial, carregando um pedaço de comida maior que ela mesma.
Tenho certeza de que teria perdido aquela cena, não fosse Allison
chamando minha atenção para o milagre da formiga.
Allison sempre foi a minha observadora. Mais quieta que o
restante de nós, pega detalhes que os outros deixam passar. Uma
vez ela disse, enquanto a colocava porta afora para uma ida rápida
ao mercadinho: “Mamãe, devagar, você está indo rápido demais
para o meu estômago!”.
Naquele dia frio de primavera no zoológico, há quase dez anos,
vi minha filha de queixo caído, atenta e extasiada vendo uma
formiga atravessar a calçada. Ela não ouviu nada, não viu nada,
nem notou nada, a não ser aquele pequeno milagre diante dela.
Ah, como o meu coração anseia fazer o mesmo.
PRIORIDADES
Esses dias de maternidade — dias cheios de roupa suja, lição de
matemática, jantares feitos na panela elétrica, de areia no tapete da
entrada, de lições de piano, de treinos de futebol, de consultas com
o dentista, de idas à feira, de festas do pijama, de bebês com cólica
— são dias repletos de momentos das formigas.
Não fazemos mais caminhadas semanais no zoológico, mas me
pego esperando por aqueles momentos grandiosos, maravilhosos,
momentos de tirar o fôlego. Fico esperando a morsa. E enquanto
espero, perco todos os outros milagres.
Se você está lendo este livro, aposto que, assim como eu, deseja
ter relacionamentos significativos e duradouros com seus filhos.
Aposto que você, assim como eu, espera que quando seus filhos
tiverem crescido, ainda tenham vontade de voltar para casa na ceia
de Natal.
Tenho o dobro de filhos hoje do que tinha naquele dia nublado no
zoológico, mas de muitas formas, muita coisa não mudou. Ainda me
pego esperando pela morsa; ainda costumo ignorar o ordinário;
ainda sou atormentada pelo medo contra o qual lutava tantas vezes
naquela época — o medo de não ter tempo suficiente para dar aos
meus filhos tudo aquilo de queprecisam, medo de que estou
perdendo a chance de fazer o que mais importa. Tenho a sensação
de estar infinitamente distraída com todas as outras partes da
criação dos meus filhos, e me pergunto se daqui a vinte anos não
vou ter vontade de me dar um chacoalhão e dizer: “Preste atenção!
Você está perdendo o momento que está bem na sua frente!”.
Você e eu sabemos que esse negócio de maternidade é
extremamente importante. Se criar relacionamentos significativos e
duradouros com nossos filhos requer que estejamos completamente
presentes e que enfatizemos aquilo que mais importa, então há uma
pergunta à qual devemos responder para nós mesmas: O que é
prioridade? Aquelas milhares de distrações não desaparecerão,
então precisamos deixar claro como investir bem o nosso tempo e
as nossas energias.
Em outras palavras, precisamos descobrir como perceber
aquelas formigas na calçada: os pequenos e milagrosos momentos
que, em busca das morsas, tendemos a ignorar. Se conseguirmos
perceber as formigas, se pudermos nos entregar de corpo e alma —
mesmo enquanto dirigimos, preparamos o jantar, compramos novos
filtros para o exaustor, pagamos a conta de água, limpamos a
garagem, escrevemos a lista de compras na parte de trás da conta
de gás —, daí então é que seremos capazes de olhar para trás,
para esses anos, com carinho e satisfação.
Aprendi uma coisa ou outra desde que me tornei mãe, e a mais
importante delas é esta: o sucesso na criação dos meus filhos é
estar presente e dar o meu melhor nas prioridades do momento. O
que significa, é claro, que preciso saber quais são as prioridades do
momento.
PODO HELMER VS O PROFESSOR 
DE CHARLIE BROWN
Meus filhos estavam me enlouquecendo. A temperatura lá fora
estava abaixo de zero, então não podia nem mesmo mandá-los para
brincar lá. Um passeio no zoológico estava fora de cogitação. Minha
filha de três anos estava com uma infecção no ouvido, os gêmeos
não paravam quietos e estavam com a mania de esvaziar os
armários da cozinha sempre que eu tirava os olhos deles, e
havíamos acabado de voltar de uma visita a familiares do outro lado
do estado. Malas cheias estavam espalhadas por toda a sala. A
geladeira estava praticamente vazia, assim como minha reserva de
paciência. O dia todo havia sido uma batalha para convencer meus
filhos mais velhos a cooperar, para não deixar os gêmeos me
fazerem subir pelas paredes com suas manias de esvaziar os
armários, e para amenizar a febre da filha de três anos até que
conseguisse levá-la ao médico.
Então quando as meninas mais velhas descem as escadas
correndo e reclamando que o irmão de nove anos está bisbilhotado
o quarto delas e se escondendo no armário outra vez, você passa a
ter a mais absoluta certeza de que perderá as estribeiras.
Desesperada, joguei a pilha de correspondências que eu estava
separando na bagunça em cima da bancada. Ao fazer isso, nossa
mais recente leitura em voz alta apareceu por baixo e chamou
minha atenção — Nos Limites do Mar Sombrio da Escuridão, o
primeiro livro da Saga Wingfeather, de Andrew Peterson. Olhei para
o livro por um instante, e comecei a ter uma ideia.
“Mamãe!”, Audrey ficou de pé ao meu lado, com as mãos na
cintura. “Sério. Diga que ele PRECISA parar de bisbilhotar o nosso
QUARTO!”.
Drew, de nove anos, desapareceu correndo, mas teve uma
parada abrupta quando viu minha expressão de desagrado.
“Drew”, eu disse, usando as palavras que haviam acabado de ser
formadas na minha mente alguns instantes atrás, “Não seja um
thwap”.
Um silêncio momentâneo encheu a sala. Depois vieram as
risadas. Até as meninas, iradas há instantes, relaxaram os ombros e
gargalharam. Com aquelas quatro simples palavras, fomos
transportados para os penhascos da Kistamos e começamos a
observar Podo Helmer perseguir os desagradáveis e travessos
thwaps que bisbilhotavam o seu jardim.
Pensando sobre a criação de filhos, muitas vezes me imagino
como o professor de Charlie Brown. Tenho certeza que meus filhos
ouvem blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá enquanto repreendo, instruo ou
lembro de algo que já disse inúmeras vezes.
“Quantas vezes eu já não disse isso?!”
“Vou explicar mais uma vez…”
“Você está me OUVINDO?”
Eu poderia ter lançado qualquer uma dessas reações, e sendo
completamente honesta, devo admitir que reajo assim com
frequência. Mas a resposta que recebo com a reação já habitual é
sempre a mesma, o mesmo olhar vidrado.
Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.
Em vez disso, aquele momento — resultado de nada mais que
exaustão e uma rápida olhada na capa do livro que estávamos
lendo juntos há não muito tempo — nos proporcionou uma mudança
de paradigma. Drew sabia exatamente o que eu queria dizer com
“Não seja um thwap”.
Fique fora de lugares que não lhe dizem respeito.
Não seja uma peste.
Não seja bisbilhoteiro.
Qualquer um desses comandos serviria, mas nenhum deles
serviria tão bem — e certamente nenhum deles seria tão eficaz para
iluminar o clima e nos fazer dar uma tão necessária gargalhada.
Naquele dia, essa história ganhou o dia. Ela atravessou a
monotonia e a frustração. Ela nos deu nossa própria piada interna.
De repente, a vida parecia mais leve. Mesmo em meio ao conflito,
tornamo-nos mais ligados uns aos outros do que em outros
momentos.
Placar — Podo Helmer: 1, professor do Charlie Brown: 0.
PARA FICAR MARAVILHADO
Na maioria dos dias estou sobrecarregada com as demandas de
criar uma família. As tarefas são infinitas — roupa suja, almoço e
janta, idas ao médico, brigas entre irmãos. Disciplino, limpo,
organizo, planejo, ouço, dou conselhos, instruções e lembretes.
Quando os dias são longos e minha energia (isso sem mencionar
minha paciência) está acabando, não tenho muita coisa a mais para
oferecer.
Mas não é de algo a mais que preciso? Algo a mais, para que eu
consiga desenvolver um relacionamento significativo e duradouro
com meus filhos, que resistirá ao teste do tempo. Algo a mais, a fim
de que eu consiga me agachar e perceber a formiga atravessando a
calçada.
Em dias como estes que brilha o poder da leitura em voz alta.
Requer tão pouco de mim: basta que eu me sente e leia algumas
palavras em uma página. O livro faz o trabalho por mim.
Podemos visitar o jardim de Podo em Kistamos, ou uma
choupana coberta de neve em Nárnia, ou o porão de Ramona
Quimby, na Rua Klickitat, que logo se acende uma faísca. Todas nós
sabemos que para começar um incêndio basta uma faísca. Quando
meu coração anseia por se relacionar com meus filhos, mas minhas
reservas de energia estão esgotadas, uma faísca é exatamente do
que preciso.
Na nossa casa, quando alguém diz a palavra fascinante, outro
interrompe (com a voz mais nerd possível), e fala “Fascinante!
Simplesmente fascinante!”. Essa referência vem da divertidíssima
coleção de livros Mercy Watson, de Kate DiCamillo, e sempre que
isso acontece, estamos um tanto desprevenidos e todos riem. Uma
única palavra já dá o gatilho para uma piada interna em família.
Espero que quando crescerem, meus filhos ouçam a palavra
fascinante e aquela doce lembrança venha à tona para animá-los,
quer onde estiverem.
Se um dia visitar a minha casa e precisar de algo para escrever,
você pode pedir por uma caneta, mas também pode pedir por um
frindle. Já fiz isso inúmeras vezes enquanto ajudava um dos meus
filhos com uma tarefa escolar difícil, e nunca falha em tirar um
sorriso das crianças. Você também sorriria, se tivesse lido sobre
Nick Allen causando confusão (e fazendo um de seus professores
subir pelas paredes) no romance infantil de Andrew Clements,
Frindle.
E quando um dos meus filhos mais novos grita da cama,
precisando de mais um gole de água ou de mais um chamego,
recito silenciosamente uma página de Llama Llama Red Pajama
[Lhama, Lhama, Pijama Laranja], de Anna Dewdney: “Pequena
Lhama, você não sabe que a Mama Lhama te ama? Mama Lhama
está sempre acessível, mesmo que não esteja visível”. E então
meus filhos se lembram, ainda que eu não diga nada, de que estão
seguros mesmo quando o sono não vem, mesmo no escuro.
As histórias que lemos juntos servem de ponte quandoparece
que não conseguimos encontrar outra forma de nos unirmos. Elas
são nossa moeda de troca, nosso idioma, nossa cultura familiar. As
palavras e histórias que compartilhamos são parte da nossa
identidade familiar.
Foi exatamente isso que aconteceu na família de Clay e Sally
Clarkson. Por meio de sua organização sem fins lucrativos,
chamada Whole Heart Ministries, Clay e Sally dedicaram a vida para
encorajar e capacitar pais cristãos na criação de filhos que amem a
Deus. Os dois escreveram vários livros sobre como criaram seus
quatro filhos em uma casa repleta de histórias e leitura em voz alta.
Agora, essas quatro crianças são adultas e seguiram sua própria
vida.
“Há não muito tempo, estávamos todos juntos para o Natal”,
disse Sarah, a filha mais velha da família Clarkson “e a quantidade
de referências a histórias e leituras […] é apenas um dos jeitos de
nos comunicarmos sobre a vida. Compartilhamos histórias. É isso
que fazemos. Essas histórias criaram uma profunda amizade entre a
gente”.1
De tudo que quero para os meus filhos, a verdadeira amizade
entre eles é um dos meus maiores desejos. Discussões entre
irmãos podem ser experiências dolorosas e cansativas para todos
os envolvidos — e podem fazer uma mãe no auge da maternidade
pensar se algum dia seus filhos se darão bem.
Minha oração é para que, apesar das inevitáveis disputas entre
irmãos, meus filhos compartilhem tantas memórias boas que olhem
para trás, para a infância, e vejam que foi repleta de momentos
“perceba a formiga”. Repleta de thwaps, risadas e pequenas
memórias que compartilharam ao descobrir Kistamos, quando
entraram no guarda-roupa de Nárnia, no dia em que deram a
primeira mordida em cada maçã no porão de Ramona Quimby.
Espero que algumas das melhores memórias dos meus filhos
venham das vezes quando ficamos deslumbrados com o que vimos,
com o que lemos e com quem nos encontramos. Deslumbrados com
a mágica que experimentamos. Deslumbrados com o grande e belo
mundo e as pessoas maravilhosas com quem convivemos.
Deslumbrados.
HISTÓRIAS SÃO COMO A 
COMIDA CASEIRA DA MAMÃE
Courtney, uma ouvinte do podcast Read-Aloud Revival, me
escreveu sobre um período familiar especificamente difícil. Seu
marido estava desempregado, e o estresse financeiro começava a
colocar uma nuvem cinzenta sobre a família. Quando ele
encontraria um emprego? Por quanto tempo eles ainda
conseguiriam se sustentar? Como conseguiriam lidar com o
estresse?
É claro que, no contexto familiar, a dificuldade financeira afeta
não só os pais, mas também os filhos. Courtney e seu marido
perceberam que quanto mais tempo ele ficava desempregado, pior
tendia a ficar o comportamento das crianças.
“Lembro-me de uma noite em especial em que as crianças
estavam se enforcando”, disse Courtney. “Decidi tirar meu filho mais
novo da situação e ler um livro para ele. Lemos um livro… e então
outro… e mais outro. A cada livro, mais um de nossos filhos se
juntava a nós no sofá, até que meu colo estava cheio.
“Não consigo me lembrar de um momento em que nos sentimos
tão unidos como família quanto naquele exato momento. Era como
se todos os estressores da vida tivessem desaparecido, e podíamos
ser nós mesmos outra vez. Jamais me esquecerei daqueles
momentos”.
Tsh Oxenreider, fundadora do site TheArtofSimple.com e do
podcast Simple Show, recentemente passou nove meses viajando o
mundo com seu marido e seus três filhos pequenos. Viajando pela
China e passando por Singapura, Austrália, Uganda, França,
Croácia e alguns outros países, eles viajaram por quase um ano,
adquirindo uma experiência com viagens única e rica. Ela recontou
a aventura em suas memórias, At Home in the World [Meu Lar,
Minha Casa]. Aquela não era a primeira vez que o casal fazia uma
viagem internacional com os filhos, e antes de partirem
especificamente para essa jornada, Tsh disse que mesmo enquanto
viajavam por novos países e continentes ao redor do globo, eles
criavam tempo para ler juntos. Por quê?
“Quando estamos em uma cidade nova”, disse Tsh, “não fazemos
nada além de conhecer pessoas novas, comer comidas novas e ter
novas experiências. E ainda assim, no final do dia, fosse em um
quarto de hotel, fosse em uma tenda, ou mesmo em um avião,
podíamos abrir If You Give a Moose a Muffin [Dando um Bolinho ao
Alce], ou Blueberries for Sal [Mirtilos para a Sal], ou qualquer outro
livro que já lemos um milhão de vezes, e nos sentir em casa
comendo a comidinha da nossa mãe. Histórias assim nos lembram
de quem verdadeiramente somos”.2
Histórias são como a comida caseira da mamãe. Histórias são
piadas internas. Histórias são momentos de perceber a formiga.
Elas nos unem mesmo quando a vida é dura. Quando colocamos
uma criança em nosso colo e abrimos as páginas de um livro, o que
estamos fazendo é pegá-la pela mão e conduzi-la a um jardim
silencioso no centro de uma cidade barulhenta e poluída. Temos
uma trégua, mesmo que por alguns momentos. Somos gratos pela
companhia uns dos outros no jardim. Deixamos o calor, a aridez de
um dia difícil e buscamos por algo melhor em família.
O INIMIGO NO NINHO
Foi um retiro maravilhoso — um final de semana repleto de luzes
cintilantes, música inspiradora, novos amigos e amizades
aprofundadas, e preletores inspiradores. Quando terminou,
quatrocentas mães voltaram para suas famílias. Voltei para casa no
estado de Washington, e Stacey, uma ouvinte do podcast Read-
Aloud Revival, voltou para sua família no Tennessee.
Apenas um mês mais tarde, a família de Stacey ficou sabendo
que os sintomas que sua filha de cinco anos estava tendo eram
evidências de um inimigo no meio deles. O diagnóstico: leucemia.
Toda a família de Stacey ficou chocada.
“Me vi pegando um livro e o lendo em voz alta quando não sabia
mais o que fazer”, disse Stacey, recontando estadias hospitalares,
baterias intermináveis de exames de sangue, remédios, dor,
sofrimento e a preocupação avassaladora.
“Acredito que [a leitura em voz alta] nos apresenta ferramentas
inerentes de cultivo, embora eu até então não compreendesse de
verdade essa prática”, ela relatou. “Tínhamos uma sensação de paz
quando líamos juntos. A leitura conjunta nos ajudou durante os
momentos mais difíceis”.
Sei de uma coisa sobre a experiência de Courtney de ler em voz
alta enquanto sua família lutava por dificuldades financeiras e da
experiência de Stacey enquanto todos lutavam contra o câncer que
acometia sua pequena. Talvez os filhos dela não se lembrem
exatamente das histórias, do enredo ou das personagens dos livros
que compartilharam durante aquele período. Lembrem ou não do
título do livro que leram juntos, a verdade é que nada disso importa.
Mas estou certa de uma coisa: eles não se esquecerão de que a
mamãe leu para eles.
Eles não se esquecerão de como os momentos mais difíceis da
infância foram aliviados pelo partilhar de histórias, pela oportunidade
de deixar a vida barulhenta e poluída da cidade e permanecer por
um período na quietude do jardim com as pessoas que mais amam.
Ouço de inúmeros pais que ler em voz alta tem ajudado suas
famílias a superar dificuldades como adoção, doenças, problemas
emocionais, solidão e separações dolorosas. Quando lemos com
nossos filhos, deixamos de lado o barulho, a correria, os atritos e,
por apenas alguns minutos, ficamos por inteiro presentes. O simples
ato da presença pode tornar até mesmo a fase mais difícil e
dolorosa da vida um pouco mais doce.
Lara, outra ouvinte do podcast Read-Aloud Revival, me escreveu
sobre como sua família lutava quando seu marido era enviado para
cumprir o serviço militar. Lara praticava o ensino domiciliar e tentava
manter a roupa suja, o trabalho doméstico, a preparação das
refeições, as sessões de terapia ocular e o fonoaudiólogo de seus
filhos, bem como todas as outras infindáveis tarefas associadas com
a criação de uma família sob controle.
“Eu me entregava aos meus filhos”, ela escreveu, “mas ainda me
sentia desunida. Não havia alegria duradoura. Ansiava por algo a
mais em meu relacionamento com meus filhos”.
Lara se deparou com o podcast Read-AloudRevival e ouviu tudo
que podia. Ela começou a ler com seus filhos de maneira mais
intencional e frequente, e descobriu que os momentos de leitura em
voz alta eram os únicos em que não ficava estressada. “Ler em voz
alta com os meus filhos tornou-se nosso porto seguro durante
aqueles meses extenuantes sem o meu marido”, ela disse. “[Ler em
voz alta] literalmente salvou o meu relacionamento com meus filhos;
deu-me esperança de que ainda podia me unir a eles, mesmo após
dias difíceis de disciplina constante. Tudo que precisava fazer era ler
as palavras em uma página”.
“Meus filhos não imaginam o quanto amo ler para eles”, ela disse
contente. “Eles acham que são eles que estão levando vantagem
nesse negócio. Na minha mente, estou apenas pensando: missão
cumprida”.
MISSÃO CUMPRIDA Há muitos anos, naquele dia nublado de
primavera no zoológico, fiquei de fato consciente de que pequenos
momentos aparentemente sem importância na vida são os que mais
importam. Também percebi que os perderia se não estivesse
prestando atenção.
Esses pequenos momentos, alinhados um após o outro como
miçangas num barbante, resultam em uma vida inteira de
experiências, instantes e memórias. São esses momentos
aparentemente insignificantes que sustentam e fortalecem Courtney,
Stacey, Lara e a legião de famílias que passam por momentos
difíceis. No final, são os momentos que mais importam.
Por mais insignificante, simples e quieto que possa parecer, ler
em voz alta é uma maneira de diminuir o passo, acalmar-se e então
aproveitar o meu filho naquele momento, aproveitar o hoje e o
agora, aproveitar essa formiga andando por essa calçada. São
momentos como esse que viverão no coração dos nossos filhos
mesmo quando eles já tiverem saído de casa.
Então, hoje, eu me pergunto: por que pareço determinada a
esperar pela morsa enquanto há tantos momentos como o da
formiga a serem desfrutados? Consigo criar, hoje, lembranças com
meus filhos, memórias que, embora pequenas, serão duradouras,
memórias de quando peguei um livro de Contos de Fadas e o li em
voz alta? Espero que um dia meus filhos estejam dando uma olhada
numa livraria ou num sebo e vejam a capa de um livro de Contos de
Fadas. E oro para que, quando fizerem isso, se lembrem de quem
são, de onde vieram e a Quem pertencem.
Leio em voz alta para os meus filhos, pois sei que meus anos
com eles vão passar depressa. Pois anseio por uma união sólida,
verdadeira e cheia de vida com cada um deles. E porque
dificilmente quero gastar esses preciosos anos esperando pelas
morsas, perdendo cada momento, cada formiga enquanto aguardo.
Quando chega a noite e deito a cabeça no travesseiro, quero ter
certeza de que fiz aquilo que mais importa: alimentei memórias
afetivas e felizes, e criei laços duradouros com meus filhos —
mesmo quando o restante da vida parece difícil.
São esses os momentos dos quais nunca nos arrependemos.
Melhor, estes são os momentos que nossos filhos valorizarão pelo
resto da vida.
 
CAPÍTULO
3
O rugido do leão Inspirando Virtude e Heroísmo Aslam
sacudiu a cabeça felpuda, abriu a boca e proferiu uma única nota longa; não
muito alta, mas cheia de poder. O coração de Polly deu um salto; só podia ser
um chamado, e, fosse quem fosse que o ouvisse, desejaria obedecer-lhe e
(mais ainda) encontraria meios para atendê-lo, não importando quantos
mundos se interpusessem.
— C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago (São
Paulo: WMF Martins Fontes, volume único, 2. ed.) Drew tinha quatro
anos quando ouviu pela primeira vez a história de George
Washington e a cerejeira. Ele estava suado e cheirando a
terra e grama; puxei-o para o meu colo e, numa manhã de
verão, li em voz alta a lenda de quando George Washington,
com apenas seis anos, ganhou uma machadinha.
A história diz que em sua tolice pueril, George usou a
machadinha em uma das cerejeiras prediletas de seu pai. Ele se
arrependeu imediatamente de sua decisão precipitada, sabendo que
uma surra logo viria como punição por, sem motivo algum, destruir a
propriedade de seu pai. Quando seu pai o abordou em relação ao
ocorrido, o garoto se levantou e proclamou com corajosa
honestidade, “Não posso mentir; cortei-a com minha machadinha”.
Surpreendentemente, George não teve problemas por suas ações.
Em fabulosa sabedoria, seu pai declarou que um filho honesto era
mais valioso do que mil cerejeiras.1
Drew ouvia atenciosamente enquanto eu lia a história, e depois
correu até o quintal para brincar com suas irmãs.
Mais tarde daquele mesmo dia, enquanto esfregava a pilha com
pratos sujos de espaguete do jantar da noite anterior, olhei pela
janela acima da pia da cozinha em tempo de notar Drew cortando
minhas rosas com uma grande vara; seu pequeno corpo girava de
um lado para o outro em destrutiva exuberância.
Joguei o pano de prato no chão, escancarei a porta de vidro
corrediça e gritei para ele parar, exigindo que ele me contasse o que
diabos estava fazendo. Ele jogou a vara no chão e virou seus olhos
castanhos brilhantes para mim enquanto um largo sorriso se
espalhava em seu rosto.
“Me pergunte se fiz isso!”, ele dizia, apontando orgulhosamente
para a roseira caída.
E então eu entendi.
Sentei-me desolada no último degrau. “Você... destruiu... minhas
rosas?”, perguntei, já sem forças.
Ele franziu o rosto e estufou o peito: “Não posso mentir!”.
A DÁDIVA DA PRÁTICA Histórias permitem que nossos filhos
pratiquem e vivam uma experiência vicária. Não podemos estar ao
lado dos nossos filhos em todas as dificuldades que encontram, e
não podemos carregar todos os seus fardos. Em 2017, Anne Lamott
deixou claro durante seu TED Talk “12 Things I Know for Sure” [12
Coisas que sei ao Certo]2 que não podemos correr atrás de nossos
filhos com o protetor solar e a manteiga de cacau sendo eles já
adultos. Quando crescem e saem de casa, nossos filhos entram em
desafios no trabalho, em relacionamentos e em todos os tipos de
situação deste mundo. Não podemos suportar o peso por eles; na
verdade, nem é essa a nossa vontade. Queremos que nossos filhos
sejam corajosos, pessoas de bem e honestas. Contudo, como isso
será possível se nunca tiveram a oportunidade de encarar o medo, a
crueldade, e a tentação de fazer a coisa errada?
Para nós que amamos desesperadamente nossos filhos,
perceber que não podemos protegê-los das piores partes do mundo
é como se fosse demais para aguentar, não é verdade? Saber que
não conseguimos protegê-los de tudo faz o coração de um pai ou de
uma mãe doer. Na verdade, não podemos protegê-los de nada, uma
vez que tenham partido de casa.
Podemos, no entanto, dar-lhes algo que os ajudará. Podemos
oferecer algo muito melhor do que proteção. Podemos prover-lhes
prática — muita, muita prática.
Nossos filhos, sendo eles crianças desta geração, não costumam
se deparar com oportunidades que exigem coragem ou, ainda mais
difícil, atos de heroísmo. Mas a criança que esteve com Rudi
enquanto lutava no topo da Cidadela, em Banner in the Sky [Um
Estandarte no Céu]; que desafiou todas as probabilidades para
provar a si mesma sua capacidade diante do que seu tio lhe dera,
em Hattie Big Sky; que passou pelos Montes Ozark com Billy, o
velho Dan e a pequena Ann, em Where the Red Fern Grows [A
História de Dois Cachorros e Um Garoto]— essa criança viveu as
páginas de um livro de forma vicária. A criança que ouve histórias
como essas recebe um tipo de experiência e preparo que a infância
ordinariamente não proporciona.
A criança que leu uma variedade de gêneros e estilos visitou
mais realidades do que se tivesse vivido na periferia, passado anos
nas ruas de uma cidade grande ou crescido na fazenda. Ela terá
vivido todas essas realidades e ainda mais; terá viajado o mundo e
espalhado sementes de tremoço nas encostas para tornar o mundo
mais belo com Miss Rumphius [Senhorita Rumphius]; terá enganado
o grande Lobo Mau com audácia como na versão de Paul Galdone
de Os Três Porquinhos; terá enfrentado tempestades e inimigos com
a Valente Irene; terá corrido atrás do último ingrediente (e extraído
coragem de sabe-selá onde!) com a vovó em Thundercake.
Adolescentes lendo livros como a adaptação juvenil de Meninos
de Ouro ou O Refúgio Secreto descobrirão verdadeiros relatos de
heroísmo. Crianças não tão novas — e até mesmo as mais novas,
ouvindo Contos de Fadas e fábulas — encaram desafios e superam
problemas na companhia de seus personagens prediletos. Histórias
de ficção e não ficção dão às crianças de todas as idades a
oportunidade de experimentar o que significa sentir-se oprimido, ter
problemas, lutar, vencer e sair como um herói.
“Ser corajoso em qualquer situação — ser alguém que consegue
ser gentil… você vivenciou decisões difíceis em sua imaginação, o
que é quase tão bom quanto experimentar isso na própria pele”,
disse Carolyn Leiloglou, autora de livros infantis, em um episódio do
podcast Read-Aloud Revival.3
Quando lemos em voz alta, damos aos nossos filhos a prática de
viverem como heróis. A prática de lidar com situações de vida e
morte, de viver com virtude, prática de falhar em virtude. Enquanto
os personagens em nossos livros favoritos lutam contra dificuldades,
lutamos junto deles. Consideramos se seríamos tão corajosos,
ousados, tão humanos quanto nossos heróis favoritos. E então
compreendemos — em um nível mais profundo e significativo — a
história que também estamos vivendo e a espécie de personagem
que nos tornaremos à medida que a história se desdobra.
Quando lemos O Longo Inverno, sofremos de maneira vicária por
períodos longos, escassos e solitários, e passamos a compreender
o real significado da gratidão. Quando lemos O Leão, a Feiticeira e o
Guarda-Roupa, consideramos se tomaríamos a mesma decisão que
Edmundo tomou em seguir a Feiticeira. Quando lemos Anne de
Green Gables, provamos as emoções da impulsividade, imaginação
e solidão, e experimentamos as profundezas do desespero. Quando
lemos Ladrão de Olhos: As Aventuras de Peter Nimble, temos um
vislumbre de como deve ser não conseguir enxergar, vivendo em
um novo local rodeado por pessoas que não conhecemos e
encarregado de uma grande tarefa.
“À medida que os desafios do personagem tornam-se os seus”,
escreve Jamie Martin em Give Your Child the World [Dê o Mundo
aos Seus Filhos], “torcemos para o bem vencer e entendemos mais
profundamente a história que estamos escrevendo com nossa
própria vida. Uma narrativa poderosa acelera as batidas do coração
do herói dentro de nós. Palavras bem escolhidas tocam e
transformam nossa alma, fazendo-nos desejar ser melhores do que
somos agora”.4
Há muito que nós, pais, devemos ensinar aos nossos filhos. Há
lições a partilhar, sabedoria e insights a oferecer antes que nossos
filhos sejam lançados ao mundo por conta própria. Mas uma lição de
moral ou uma repreensão da mamãe ou do papai só chega até certo
ponto. Simplesmente não há substituto para uma história. Quando
se trata de partilhar a verdade com nossos filhos, palestras irritantes
de um adulto simplesmente não podem ser comparadas com uma
história em um momento oportuno. A história vai até a criança onde
ela estiver, acendendo nela o autêntico desejo de dar seu melhor,
tentar novamente, amar mais. Ela dá aos nossos filhos uma
experiência vicária, fornecendo-lhes a preciosa dádiva da prática.
Histórias nos alcançam onde nada mais pode nos alcançar e
aceleram os batimentos cardíacos do herói que vive dentro de nós.
INTENSIFICANDO OS BATIMENTOS 
CARDÍACOS DO HERÓI Desejo que meus filhos saibam disto: a
coragem não é a ausência do medo, mas sim a ousadia de agir
corretamente mesmo diante do perigo. Posso colocar meu filho de
seis anos sentado e explicar isso a ele. Posso escrever uma
definição da palavra coragem na lousa, ilustrando que a palavra
vem da raiz latina cor, que significa “coração” e, portanto, significa
ter coragem, ser bravo de espírito e fortalecer-se quando a sorte
está contra você. Posso fazer um “brainstorm” com meus filhos de
maneiras que demonstrem coragem em acontecimentos do
cotidiano. Posso sugerir que se apresentem à família que acabou de
se mudar para o final da rua ou que defendam uma criança que está
sendo maltratada no parquinho. Posso implorar que demonstrem
coragem quando tiverem de encarar uma injeção no médico ou uma
maquininha do dentista. Tudo isso requer uma espécie de coragem,
mas não o tipo que acelera os batimentos cardíacos do herói dentro
de mim — e tenho plena certeza de que não aceleraria os
batimentos do herói em meus filhos.
O problema, evidentemente, é que se trata de uma lição chata e
pouco inspiradora. Estou bufando só de pensar nisso. Não quero
que meu maior ato de heroísmo seja superar a timidez ou ter um
desejo satisfeito. Fui criada para mais do que isso. E meus filhos?
Eles também foram.
E se, ao invés de colocar meus filhos sentados para essa lição
didática acima, eu os ajeitasse no sofá e começasse a ler a Saga
Wingfeather? Estaríamos lado a lado com os filhos de Igiby ao
encarar os terríveis Fangs de Dang, buscando dentro de si mesmos
para encontrar o que precisam para viver como joias da coroa de
Anniera, enfrentando dificuldades intransponíveis com uma
tenacidade que eles nem mesmo imaginavam ter. Nos perderíamos
na história e testemunharíamos como é ser verdadeiramente
corajoso. Veríamos, de forma clara, que sem adversidade não pode
haver coragem, que sem a tentação de correr, não pode haver
virtude. Não pode haver honra quando não há tentação ao pecado.
A coragem de um herói começa vaga, devagar, calma em nosso
coração, crescendo constantemente à medida que percorremos a
história com Janner, Sininho e Leeli, enquanto vivemos vicariamente
como os escolhidos chamados a um caminho mais difícil e mais
elevado.
Certa vez ouvi Andrew Peterson, autor da Saga Wingfeather,
dizer: “se você quer que uma criança conheça a verdade, conte-lhe
a verdade. Se você quer que uma criança ame a verdade, conte-lhe
uma história”.
Não queremos que nossos filhos cresçam e enfrentem
adversidades se perguntando “Será que tenho o que é necessário?”.
Queremos que saibam. Queremos que tenham testemunhado tantos
heróis vivendo com integridade e lutado contra suas próprias
fraquezas, que confiem na certeza de fazer a coisa certa, mesmo
quando ninguém estiver olhando. Queremos que se levantem como
heróis e parem de se perguntar “Será que tenho o que é
necessário?”. Queremos que perguntem: “Que tipo de herói me
tornarei?”.
Quando lemos Bud, Not Buddy, de Christopher Paul Curtis, meus
filhos enfrentaram a pergunta, “O que você faria se ficasse trancado
à noite em uma cabana como aconteceu com Bud?”. Eles tiveram
de se perguntar se ficariam em Hooverville ou se entrariam no trem.
Eles tinham de imaginar se seriam tão corajosos ou positivos como
Bud, mesmo naqueles dias tenebrosos e difíceis da Grande
Depressão. Uma vez que meus filhos nunca tiveram de encarar o
tipo de crueldade, preconceito ou dificuldade que Bud teve de
superar, estas eram questões que os tocavam em novas áreas —
que os alcançaram de novas formas.
Os meus três filhos mais velhos eram ainda muito novos na
primeira vez que li O Mágico de Oz, de L. Frank Baum. Após ler a
parte onde o Homem de Lata e o Espantalho debatem se é mais
importante ter coração ou cérebro, decidi lançar uma pergunta aos
meus jovens ouvintes — na época, tinham nove, sete e cinco anos.
“O que vocês acham que é mais importante?”, perguntei, “Um
coração? Ou um cérebro? Se você pudesse escolher apenas um,
qual escolheria?”.
Audrey não esperou nem um segundo, respondendo “cérebro”
antes que eu tivesse terminado de fazer a pergunta.
“Mas como você amaria a Deus?”, perguntou Allison, “E como se
apaixonaria?”.
Ali começamos uma pequena, mas poderosa conversa sobre
quão importante é que não deixemos nem o cérebro nem o coração
se sobreporem. Quando encontramos o Leão Covarde,
acrescentamos coragem ao diálogo, percebendo quão importante é
pensar profundamente, amar completamente e encarar os medos.
Não tenho certeza de que poderia ter criado essa conversa por
conta própria se a história não tivesse nos impulsionado. Mas tenho
certeza de que ela não teria se aprofundadotanto quanto se
aprofundou naquele dia. Ela não deixou uma marca apenas em
meus filhos; afinal, cá estou, há cerca de sete anos, ainda falando
sobre isso. Ela evidentemente me impactou também.
Quando nossos filhos forem embora de casa, não queremos que
fiquem imaginando se eles importam ou não. Queremos que saibam
que importam, que são essenciais. Se lhes contarmos um número
suficiente de histórias, eles terão encontrado questões difíceis e
praticado a vida por meio de provações, dificuldades e situações
inesperadas, e assim, se Deus quiser, terão o que precisam para se
tornarem heróis de suas próprias histórias.
MEIOS DE VERDADE
Costumo ficar enfornada em meu mundinho. Frustrações e
problemas que surgem em um dia comum consomem muito do meu
tempo e energia. A claraboia começa a vazar, um dos gêmeos
quebra um braço (de novo), a energia acaba por alguns dias e
perdemos toda a carne do congelador. É em momentos assim que
eu perco a perspectiva. Sou vítima disso com mais frequência do
que gostaria de admitir — um olhar para o meu próprio umbigo e
uma introspecção míope que consomem uma quantidade
inadequada do meu tempo e energia. Esqueço que, assim como a
partícula de Horton, sou — nós somos — uma pequena, mas
importante parte de uma história maior e melhor.
Porém, quando leio uma história com meus filhos, a névoa se
dissipa e então eu me lembro. Eu olho para cima e vejo que sou
apenas uma pequena parte de um grande, grandioso e glorioso
mundo, cujo Criador existe e sempre existiu. Que todos nós
fazemos parte de seu plano. Que fomos convidados a buscá-lo e
segui-lo, independentemente da situação. Os livros se tornam
excelentes binóculos que nos ajudam a ver além de nossa
capacidade normal, convidando-nos a participar de algo fora de nós
mesmos.
Uma história faz isso por conta própria, sem que tenhamos de
dizer uma só palavra a respeito. Esqueça o quadro branco. Esqueça
a lição didática. Esqueça os pontos de ensino ou as planilhas de
compreensão. Quando contamos aos nossos filhos a história de
Jesus curando a filha de Jairo, da cura dos leprosos, da
ressurreição de Lázaro não precisamos encerrar a história com uma
explicação banal sobre como Deus é poderoso, bom e
misericordioso. Não temos que acrescentar nada, porque a verdade
da história já está fervendo. É a história. Quando Deus derrama o
maná dos céus, não é necessário dizer a uma criança que Deus
fornecerá o que precisamos no momento certo e nem um momento
antes. Nós simplesmente lemos a história e nossos filhos sentem a
verdade dela em seus ossos.
Isso acontece com histórias verdadeiras que são relatos literais
(como as histórias registradas nos Evangelhos ou as narrativas
históricas), bem como histórias verdadeiras que não pretendem ser
literais (como um mito ou um Conto de Fadas). Patricia Polacco,
amada autora e ilustradora de livros infantis, ganhadora de muitos
prêmios de prestígio, contou-me certa vez sobre sua avó, que
costumava contar à pequena Patrícia e seu irmão todos os tipos de
contos. O irmão e a irmã se inclinavam para frente depois de uma
história e sussurravam esperançosos: “vovó, Babushka... é
verdade?”, ao que a avó exclamava com gosto: “Mas é claro que é
verdade!” e então, com um leve sorriso e uma piscadela, dizia, “Mas
pode não ter acontecido exatamente assim...”.
É esse entendimento de que a verdade se sobressai acima de
fatos literais, detalhes cronológicos e relatos históricos que
demonstra como as histórias, especialmente as fictícias, têm o
poder de falar ao coração dos leitores de uma maneira profunda e
duradoura.
“[A história] tem sido o meio de expressar a verdade desde os
primórdios da raça humana”, escreveu Katherine Paterson, autora
vencedora da medalha Newbery, em uma coleção de ensaios. “A
ficção nos permite fazer algo que nada senão ela faz; a ficção nos
permite entrar plenamente na vida do ser humano”.5
Quando lemos uma verdadeira história com nossos filhos — não
no sentido literal, mas no sentido sobrenatural — não fechamos o
livro e dizemos: “E foi assim que aconteceu, exatamente assim”. Em
vez disso, dizemos: “Lá está ela”. Porque a verdade sempre,
sempre nos faz olhar para o céu outra vez. A verdade, seja factual
ou não, sempre nos aponta de volta para Cristo. E qual dos dois
você acha que é mais poderoso? Ter um relato exato dos eventos
na ordem particular em que se desdobraram na História, ou ter a
capacidade de ver a Deus em cada pessoa, em cada situação, em
cada lugar? Saber que ele é onipotente e intensamente apaixonado
pelo mundo?
Histórias realistas provocam nossas emoções e nossa empatia,
mas os livros que se elevam acima dos fatos são especialmente
capazes de nos ajudar a ver o mundo, a vida, a humanidade e Deus
com uma clareza surpreendente.
É por isso que 100 Cupboards [Cem Portas], o romance juvenil
fantasticamente assustador e estranhamente inspirador de N. D.
Wilson, capta a atenção dos jovens leitores. Nesta história de um
menino comum em uma cidade ordinária no Kansas, descobrimos
que não há nada comum sobre o local de onde ele vem ou o mundo
em que vive. Trata-se de uma aventura extraordinária que acontece
em um lugar onde nada parece acontecer. E qual é a melhor
maneira de reavivar a imaginação de uma criança, talvez uma que
se sinta comum, do que ler a história de um menino que descobre
maravilhas incríveis em seu próprio ambiente monótono? O que é
mais eletrizante para uma criança do que perceber que ela está
realmente vivendo em um mundo selvagem e feroz onde coisas
grandes e bizarras podem acontecer — e de fato estão acontecendo
— ao seu redor? Um sótão em Henry, Kansas, parece normal até
que nos encontramos lá com o personagem principal de 100
Cupboards, lutando contra uma rainha-bruxa malvada e
encontrando criaturas assustadoras de outro mundo.
Enquanto escrevia sua trilogia, Wilderking [O Rei Bárbaro],
Jonathan Rogers disse que quase criou um goblin do pântano,
apenas para animar as coisas e mantê-las interessantes. Ele decidiu
não fazer isso quando sua esposa perguntou: “Por que um goblin do
pântano quando se pode ter crocodilos?”. De fato, no temido
Feechiefen, nada (além dos feechies, é claro) é tão traiçoeiro e
assustador quanto os crocodilos do pântano. Os crocodilos parecem
comuns para nossa mente moderna até que os ouvimos e os vemos
espreitando nas águas do pântano da história.
“Os Contos de Fadas dizem que as maçãs são douradas apenas
para refrescar o momento esquecido quando descobrimos que eram
verdes”, escreveu G. K. Chesterton. “Os Contos de Fadas fazem os
rios correrem com vinho apenas para nos fazer lembrar, por um
momento descontrolado, de que eles correm com água”.6
O que as melhores histórias fazem — e os contos fantásticos
fazem ainda melhor do que qualquer outro gênero — é extrair do
familiar a fim de revelar uma verdade mais prevalecente, universal.
Essas histórias nos ajudam a notar o mundo empolgante que muitas
vezes tomamos por certo. Elas nos dão dragões, monstros,
feiticeiras, e então inspiram em nós um cavaleiro corajoso o
bastante para derrotar o dragão, um herói corajoso o bastante para
encarar o monstro, uma heroína discreta o suficiente para passar
furtivamente pela bruxa.
Somos inspirados por aquilo que vale a pena lutar e morrer.
Enxergamos o mal pelo que ele é; apegamo-nos ao que é bom.
Entramos em terrenos mágicos e vemos o corpo de Aslam morto
sobre a fria mesa de pedra. E sentimos no íntimo a verdade nua e
crua: entregar uma vida no lugar da outra é o ato de amor mais
sincero. E no final — bem no final — o bem sempre, sempre vence.
O “felizes para sempre” raramente é um mito para aqueles que
acreditam na promessa da alegria eterna no céu.
Essa busca pela verdade está inserida em cada história, e
nossos filhos não conseguem deixar de ouvi-las depois que
começamos a lê-las. É o rugido do leão, a canção de Aslam, o
chamado a que fomos criados para responder. Ele já bate dentro de
cada um de nós, embora de forma fraca, e nos encoraja, mostrando
que temos o que precisamos para fazer o que é certo diante da
dificuldade, quandoninguém está olhando e quando faríamos o que
é fácil.
VIVA MIL VIDAS
É dito que a pessoa que lê vive mil vidas, mas aquele que nunca
lê vive apenas uma. Que oportunidade melhor podemos dar aos
nossos filhos do que viver mil vidas antes que deixem o nosso lar?
Que melhor forma há de prepará-los para qualquer coisa que
possam encontrar do que deixá-los matar mil dragões, morrer mil
mortes, viver mil vezes como heróis?
Ocorre que a história de George Washington e a cerejeira não é
real. Um dos biógrafos de Washington criou a lenda no início do
século XIX. Mas mesmo não sendo um relato literal e histórico da
infância de George, mexeu com algo dentro de Drew, de quatro
anos, que o ajudou a ver a si mesmo não apenas como uma criança
pequena em um quintal suburbano, lutando contra um arbusto de
flores, mas como um herói em formação.
Uma infância cheia de histórias que inspiram e alimentam o
coração do herói que carregamos no íntimo é uma das maneiras
mais simples de amar e preparar nossos filhos. Ao fazer isso, nós os
ajudamos a entender que o chamado para ser um herói é um
chamado para viver plenamente a visão de Deus. Lemos na
esperança de que nossos filhos sintam as batidas do coração de
herói que há neles e olhem para o céu e se perguntem: Qual é o
meu grandioso propósito?
C. S. Lewis usa as melhores palavras: “Visto que é muito
provável que encontrarão inimigos cruéis, que ao menos tenham
ouvido falar de cavaleiros corajosos e da coragem heroica. Caso
contrário, você estará transformando o destino deles não em algo
mais brilhante, mas em algo mais sombrio”.7
Um conto bem elaborado permite que nossos filhos vejam o
mundo com novos olhos. E eles assim verão as maravilhas da
nossa realidade. À medida que compartilhamos histórias com
nossos filhos, os batimentos cardíacos de um herói batem
silenciosamente dentro de cada um deles. Eles enfrentam
dificuldades e provações ao lado de seus personagens favoritos.
Eles enfrentam probabilidades aparentemente intransponíveis. Eles
se valem de uma coragem que não imaginavam ter.
Ao ler em voz alta com eles, ajudamos nossos filhos a entender
que a vida será difícil, talvez mais difícil do que ainda podem
imaginar, mas que eles — assim como os heróis dos contos de sua
infância — são capazes de enfrentar dificuldades inimagináveis com
virtude e heroísmo. História por história, aos poucos os nossos filhos
vão percebendo que dentro de cada um de nós habita um herói.
 
CAPÍTULO
4
Prontos ou não Preparando-se para o Sucesso Acadêmico A
coisa mais barata que podemos dar a uma criança, fora abraços, acaba sendo
a mais valiosa: palavras.
— Jim Trelease, Manual de Leitura em Voz Alta Quando eu tinha
onze anos, sonhava em me tornar uma apresentadora de
rádio. Toda manhã, meu pai ouvia as notícias pelo rádio em
seu Zephyr cor de pêssego enquanto me levava para a
escola. Quando a apresentadora da manhã repetia as
atualizações do trânsito e as notícias locais, eu me imaginava
fazendo o mesmo. No fundo da minha imaginação, eu usava
um grande fone de ouvido e ficava inclinada sobre um
complexo painel de áudio.
“Quando eu crescer, vou fazer o trabalho dela”, dizia a meus
pais. Aparentemente, eles acreditavam em mim. No meu aniversário
de doze anos, papai me surpreendeu na escola. “Almoço fora no
seu aniversário!”, ele disse com um brilho nos olhos. “Vamos ao
restaurante Red Robin!”
Joguei minha mochila para dentro do Zephyr e sentei no banco
de passageiro. Ouvimos Paul Harvey durante o caminho. Os
programas de rádio ocuparam minha infância e eu adorava cada
minuto deles.
Assim que nos sentamos no restaurante, a própria apresentadora
de rádio da manhã se sentou à minha frente. Eu a reconheci
instantaneamente — eu teria reconhecido aquela voz em qualquer
lugar.
“Feliz Aniversário, Sarah! Você se importa se eu almoçar com
você?”
Fiquei impressionada, mas não tanto para puxar assunto com a
minha heroína pela próxima uma hora. Como era estar no trabalho
às quatro da manhã? Que faculdade ela cursou? Ela sempre soube
que queria ser apresentadora de rádio?
A apresentadora perguntou por que eu queria entrar no programa
de notícias. Eu gostaria de poder dizer que dei uma resposta
inspirada. Em vez disso, disse a ela que todos diziam que eu falava
muito, então achei que deveria fazer disso minha carreira. Lembro
que ela não ficou impressionada com minha resposta.
No entanto, não foi até os meus trinta anos — depois de lançar o
podcast Read-Aloud Revival e mesmo algum tempo depois de ter
adquirido o primeiro milhão de downloads — que percebi que havia
me tornado o que sempre quis ser, afinal de contas. Eu não fazia
transmissão via rádio. Nunca fiz faculdade de jornalismo ou
comunicação. A palavra podcast nem existia naquele aniversário em
que me sentei para conversar com minha heroína tomando Coca-
Cola e comendo batata frita à vontade. Mesmo assim, agora eu
tinha um trabalho falando em um podcast que ia ao ar para famílias
em todo o mundo. Se pudesse ter dito isso a mim mesma no oitavo
ano, certamente ficaria chocada.
Quando pensamos sobre nossa infância, ficamos imaginando o
que nossos próprios filhos serão quando crescerem. Penso nisso o
tempo todo. Minha filha continuará fazendo arte quando for mais
velha? Meu filho vai se tornar um empresário? Um professor? Um
florista? Ter uma grande família? Uma família pequena? Viajar pelo
mundo?
Gosto de sonhar acordada sobre o futuro dos meus filhos, pois
tenho um palpite de que estou tendo vislumbres agora de como eles
serão um dia. Todos os dias dou uma olhada em seus dons e
talentos; com o que gostam de gastar o tempo e como poderão
contribuir com o mundo.
Não acho que foi coincidência ter acabado num programa de
rádio. Não acredito que sejam meros planos fantasiosos e
incoerentes ou sonhos que temos enquanto acordados. Quando
ainda era criança, Deus colocou esse desejo em meu coração;
tenho certeza disso. Não compreendia essa realidade naquela
época, mas durante todos aqueles anos, o Senhor estava nutrindo
as sementes que cresceram no que se tornaram hoje — o trabalho
que me preenche, me satisfaz e que contribui para o mundo.
Logo, olho para cada um dos meus seis filhos e imagino quais
sementes irão germinar e crescer em algo no futuro. Tenho a
oportunidade agora, hoje, de prepará-los para aquilo que os espera.
Posso regar essas sementes agora. Posso encorajar seus sonhos
mais selvagens e dar a eles toda vantagem — assim como meu pai
fez com aquele almoço de aniversário surpresa com minha heroína
de infância — para ajudá-los a serem aquilo que Deus os criou para
ser. E que honra! E que responsabilidade!
Enquanto fico animada com as possibilidades que o futuro
reserva para cada um dos meus filhos, também fico impressionada
com o fato de não saber o que o futuro reserva, nem o que cada um
dos meus filhos precisará conquistar academicamente a fim de obter
sucesso nessa obra. Afinal, não posso prever o que acontecerá na
vida de cada um deles — de que habilidades precisarão, que
disciplinas escolares provarão ser mais úteis em suas futuras
carreiras, a que recursos internos mais precisarão recorrer para
realizar o trabalho de suas vidas.
Quando palestro em uma conferência de ensino domiciliar,
geralmente peço que levantem a mão aos pais que estão
preocupados em ensinar seus filhos tudo o que precisam saber
antes que as crianças saiam de casa e vivam a vida adulta. Sem
pestanejar, quase todos levantam a mão. Então pergunto: “Quantos
de vocês pensam que é possível ensinar seus filhos tudo de que
precisam saber antes que saiam de casa?”. O silêncio na plateia
fala por si só.
A revista Forbes estima que o adulto comum muda de carreira
em média de quinze a vinte vezes ao longo da vida.1 O que isso
significa é que não podemos saber com certeza do que nossos
filhos precisarão no futuro. A maternidade é um gigantesco ato de fé
para todas nós. Posso me esfolar tentando dar aos meus filhos tudo
aquilo que possam precisar no futuro. Posso dar aos meus filhos um
milhão de boas experiências, um milhão de livros que valema pena,
de aulas, de oportunidades que podem trazer algum benefício para
o futuro deles.
Mas o céu nunca é o limite quando lidamos com pessoas, não é
mesmo? Todos somos limitados pelo tempo, pelos recursos e pela
energia. Assim como aqueles pais que levantam a mão durante
minhas palestras, você e eu estamos no mesmo barco. Precisamos
seguir em frente e tomar decisões sobre o que vale o nosso tempo e
o que não vale — sobre o que vale nossa melhor atenção, sobre o
que vale nossa atenção indireta e sobre o que não vale a nossa
atenção.
Faz sentido, então, considerar o que podemos fazer como pais a
fim de preparar nossos filhos para o sucesso acadêmico de modo
geral, ao invés do sucesso em uma disciplina ou campo específicos.
Há uma maneira de fazer exatamente isso, e ela é mais fácil do que
você imagina.
A ARTE DE APRENDER A PENSAR
A Dra. Catherine Pakaluk teve um Ensino Médio fraco de
ciências e matemática, mas forte nas Artes Liberais. Ou seja, ela lia
muito mais do que calculava. Isso frustrava a jovem Catherine até
não poder mais. Durante todo o Ensino Médio, ela se angustiava
pensando não estar sendo preparada para o futuro em que se
imaginava no campo da ciência.
Ela se formou e foi aceita em uma Ivy League por um triz.
“Eu estava em completa desvantagem, se comparada aos outros
jovens que cursavam Harvard, vindos de escolas com robustos
currículos de ciências e matemática”, disse Catherine. “Desde o
início podia ver que estava aprendendo tudo do zero. Os outros
alunos já haviam sido expostos a conceitos científicos e
matemáticos muito mais sofisticados dos que eu tinha aprendido”.
O currículo de Harvard não era moleza para ninguém, é claro.
Em poucas semanas, todos os alunos estavam no mesmo barco —
com a água batendo no pescoço ou, na melhor das hipóteses,
começando a bater nos tornozelos. A pequena vantagem que os
alunos tinham inicialmente sobre Catherine desapareceu em
questão de um mês.
Então o jogo virou. Seus colegas, que haviam passado por aulas
de AP [Colocação Avançada] no Ensino Médio com ênfase em
matemática e ciências, começaram a buscar a ajuda de Catherine.
Ela estava em vantagem e eles queriam saber como se dava tão
bem em seus relatórios e artigos científicos.
Durante todos os anos de Ensino Médio, Catherine, convicta de
que um currículo voltado às ciências e à matemática supriria melhor
suas necessidades e objetivos, ficava frustrada com a vasta
quantidade de leitura e literatura exigida pela escola em que
estudava. Entretanto, ela descobriu que aqueles anos de leitura e
literatura haviam a preparado especialmente para um nível mais
elevado de matemática e ciência.
“A leitura de literatura afeta o seu cérebro e a maneira de
raciocinar informações, mostrando um método intrinsecamente
superior ao mero domínio de habilidades dispostas como numa
receita”, disse Catherine. “Eu era capaz de pegar um conjunto de
habilidades que não haviam sido aplicadas anteriormente às
ciências e à investigação científica e ter sucesso com mais
facilidade que meus colegas, que gastaram seus anos de Ensino
Médio dominando nada menos que conteúdos relacionados à
ciência”.2
A experiência de Catherine ajuda a provar que ler para os nossos
filhos os ensina a pensar, faz conexões e transmite conhecimento.
Ler em voz alta não só abre janelas, mas escancara as portas das
oportunidades para muito além do âmbito da linguagem e da
literatura.
É difícil acreditar que investir tempo em uma prática tão simples
traga tantos benefícios para nossos filhos; é difícil mensurar que
com algo tão básico eles terão tanta vantagem em qualquer carreira
que vierem a escolher. Mas para que você não seja obrigado a
acreditar somente em mim ou na Dra. Catherine Pakaluk, vejamos o
testemunho de pesquisadores que estudam os dados e as
estatísticas.
LENDO EM VOZ ALTA: UMA PÍLULA MÁGICA Especialistas na
educação por todo o mundo buscam constantemente fatores que
possam produzir melhores resultados. Salas de aula menores?
Educação continuada para professores? Dias letivos mais longos?
Orçamentos mais robustos? Há uma boa razão para que busquem
respostas, é claro, mas me parece um pouco irônico que tanto
tempo, dinheiro e energia sejam despendidos em pesquisa sobre o
que pode dar à nossa geração de estudantes uma melhora
acadêmica, enquanto o poder se encontra nas mãos de um pai
comum em sua casa. Se quiser ter certeza de que seu tempo e sua
energia como pai ou mãe exercerão forte diferença e impacto sobre
a vida acadêmica do seu filho, não vá além do alcance de sua
estante.
O Dr. Joseph Price, professor adjunto de economia na
Universidade Brigham Young, especializou-se em economia familiar
e educacional. Sua pesquisa demonstra que um dia a mais por
semana com momentos de leitura em voz alta entre pais e filhos
durante os dez primeiros anos da criança dá uma vantagem de
quase metade na pontuação padrão em provas e vestibulares. Isso
totaliza um ganho de 15–30 em pontos percentuais: um ganho
tremendo.3
Em Manual de Leitura em Voz Alta, Jim Trelease indica que os
benefícios acadêmicos da leitura em voz alta são tão grandes que
se alguém inventasse uma pílula que fornecesse esses resultados,
haveria uma fila quilométrica para consegui-la. Pais se amontoariam
e pagariam fortunas para fornecer aos seus filhos o benefício dessa
pílula. Ele cita a Comissão da Leitura de 1985 que mencionei no
Capítulo 1: “A atividade que, sozinha, prova ser a mais importante
na construção do conhecimento necessário para o sucesso final na
leitura, é ler em voz alta para as crianças”.4
Trelease também descreve os resultados da pesquisa conduzida
pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico, mostrando que mais crianças devem ler a fim de
aumentar o resultado positivo em provas e testes — às vezes numa
vantagem de até meio ano letivo. Essa era uma realidade
independentemente da renda familiar. Ele continua dizendo que a
leitura em voz alta provou ser tão poderosa para aumentar o
sucesso acadêmico da criança, que é mais eficaz do que pagar um
tutor caro ou mesmo aulas particulares.
“Pais costumam me perguntar se deveriam tocar Mozart para
seus bebês, ou comprar brinquedos caros, ou proibir a televisão, ou
dar logo cedo um computador”, escreve Trelease. Mas a resposta é
muito mais simples: “Leia para seus filhos”.5
Esta, contudo, é apenas a ponta do iceberg quando lidamos com
pesquisas e informações que explicam o poder que a leitura em voz
alta exerce sobre o desenvolvimento acadêmico da criança, mas
benefícios surgem imediatamente para explicar sua eficácia.
TRÊS BENEFÍCIOS DA 
LEITURA EM VOZ ALTA Benefício n.º 1: aumento do vocabulário e 
desenvolvimento de padrões linguísticos 
profundos e sofisticados Quando analisamos as habilidades de uma
criança, o vocabulário é a mais fundamental. O domínio do
vocabulário é, nas palavras de Jim Trelease em Manual da Leitura
em Voz Alta, “o maior indicador de sucesso ou fracasso escolar”.6
Ouvir palavras que normalmente não aparecem em uma roda de
conversa expande o vocabulário da criança com mais eficácia e
rapidez do que qualquer outra prática. As crianças ouvem as
palavras sob determinado contexto e geralmente conseguem
deduzir seu significado sem maiores explicações.
Quando considero o vocabulário que uso em conversas
cotidianas com meus filhos — mesmo com os adolescentes —,
percebo que a minha escolha de palavras é muito mais básica do
que o uso vocabular de uma obra literária. O livro em questão não
precisa nem mesmo ser uma obra de Ernest Hemingway. Um
simples livro ilustrado geralmente usa vocabulários mais rebuscados
do que aqueles que usamos em uma conversa normal com um
vizinho ou um amigo. Encaremos o fato: não falamos por padrões
de linguagem sofisticados nem de forma gramaticalmente correta. E
é isso o que nossos filhos mais precisam quando lidam com a
aquisição de linguagem: padrões de linguagem sofisticados e
gramaticalmente corretos.
Mandie, uma ouvinte do podcast Read-Aloud, leu em voz alta Um
Conto de Natal, de Charles Dickens para seus filhos.A escrita de
Dickens é sofisticada e rica, é claro, e Mandie não sabia ao certo
quanto da história seus filhos estavam compreendendo. Após
alguns dias, sua filha de três anos correu para a sala chorando. Ela
estava brava, pois seu irmão de quatro anos havia a chamado de
“velha pecadora e cobiçosa” por se recusar a dividir seus
brinquedos.
É exatamente isso que acontece quando lemos para os nossos
filhos.
Eles ouvem o vocabulário sofisticado e gramaticalmente correto...
que acaba saltando da boca quando menos esperamos.
Considere essa passagem do segundo capítulo de O Mágico de
Oz, de L. Frank Baum [Rio de Janeiro: Clássicos Zahar], um livro
que geralmente recomendo para os pais lerem com seus filhos mais
novos de até quatro ou cinco anos: DOROTHY FOI ACORDADA por um
choque, tão repentino e forte que, se não estivesse deitada na cama macia,
poderia ter se machucado. Deitada, só levou um susto e se perguntou o que
teria acontecido; Totó encostou o narizinho frio no rosto dela e ganiu com a
maior tristeza. Dorothy sentou-se na cama e percebeu que a casa não se
mexia mais; e nem estava mais escuro, porque a luz do sol entrava pela
janela e inundava o cômodo único da casinha. A menina pulou da cama e,
com Totó seguindo de perto, correu para abrir a porta.
Não costumamos falar de nosso bicho de estimação “ganindo
com a maior tristeza” ou “encostando seu narizinho frio” (apesar de
serem coisas que de fato acontecem). Mas ouvir repetidas vezes
esse padrão linguístico desenvolverá em nossos filhos bom
vocabulário e linguagem mais precisa. Conforme ouvem histórias,
seu vocabulário será fortalecido sem muito esforço.
Ao descrever a frustração que professores de redação encontram
quando tentam melhorar a escrita de seus alunos, Andrew Pudewa
disse: “Você não pode colher aquilo que não plantou”.7 Se a criança
não recebe grandes reservas de padrões linguísticos e estruturas
complexas gramaticalmente corretas (e um manancial de ideias)
para delas recorrer quando for sua vez de se comunicar —
escrevendo um artigo de pesquisa, um relatório científico, uma
apresentação, a redação do vestibular —, ela própria não terá ao
que recorrer para conseguir extrair algo de valor. Mas supra essa
reserva, e então se surpreenda com o que vive dentro dos seus
filhos.
É claro, a criança que lê sozinha aprimora seu próprio
vocabulário, mas é ainda melhor quando alguém lê para ela. Isso
porque seu nível de compreensão auditiva é mais elevado do que
seu nível de compreensão na hora da leitura. Crianças conseguem
ter uma melhor desenvoltura na hora de ouvir histórias com
vocabulários mais complexos, e não lendo por conta própria. Lá no
fundo, você já sabe que isso é verdade, ainda que não houvesse
pensado nisso antes. A criança de cinco ou seis anos que está
aprendendo a ler não consegue pegar um exemplar de O Ursinho
Pooh e lê-lo sozinha, mas seus pais podem ler para ela em voz alta,
e a criança acompanhará a história muito bem.
Benefício n.º 2: a habilidade de nutrir relacionamentos 
(em outras palavras, compreender a leitura) Você provavelmente já
ouviu falar sobre compreensão de texto e de leitura. Os educadores
querem sempre garantir que as crianças estão indo bem. A
compreensão da leitura é apenas uma expressão sofisticada para
considerar se o aluno compreendeu o que leu e se pode acrescentar
a nova informação a seu corpo de conhecimento.
Quando temos uma boa compreensão na leitura,
automaticamente percebemos o que está acontecendo nos eventos
da História. Podemos relacionar informações que encontramos pela
primeira vez com outros fatos e ideias que já havíamos encontrado.
Comparamos as histórias de agora com as que já lemos e ouvimos
e as confrontamos com a nossa vida. Mesmo sem desejar, fazemos
conexões — muito mais do que poderíamos enumerar — todas as
vezes que abrimos um livro. Essa é, reconhecidamente, uma
explicação sofisticada do conceito de compreender a leitura, mas
que captura sua essência.
Eis o que sabemos: bons leitores costumam compreender bem o
que estão lendo. Com a leitura provam soluções, consideram
problemas e relacionam novas informações com aquilo que já
sabem. Isso porque quando lemos praticamos a arte de pensar com
fluidez; fazemos perguntas. Entrelaçamos ideias.
Quando estão aprendendo a ler, contudo, as crianças não
usufruem tanto da prática de compreender a leitura. Todo o poder do
cérebro se volta à decodificação, eis o porquê aquele que não
domina a leitura geralmente consegue pronunciar uma página inteira
de palavras e olhar para você abismado quando questionado acerca
do que acabou de ler. O leitor que não domina essa arte não está
sendo obstinado, mas de fato não compreendeu o que acabou de
ler. Ele depositou tanta energia para decifrar as letras e palavras
daquela página que não foi capaz de gastar qualquer energia mental
em sua compreensão.
A criança que conseguisse ler sozinha Cam Jansen ou Nate the
Great seria capaz de ter sua imaginação capturada pelas Crônicas
de Nárnia. Ela se deleitaria com as selvagens aventuras de verão
em Swallows and Amazons [As Andorinhas e as Amazonas], se
encantaria com a oportunidade de visitar A Ilha do Tesouro e riria
histericamente com os intermináveis solilóquios do pai de Louis, em
The Trumpet of the Swan [A Trombeta do Cisne]. Contudo, não é
esse o caso, pois ainda não consegue ler por conta própria. A
criança até certa idade ainda precisa de alguém para concluir por
ela o árduo trabalho de decodificar o texto, traduzir o ritmo e a
cadência a fim de animá-la e ajudá-la a entrar de cabeça na
narrativa.
Quando fazemos o trabalho de decodificar o texto — quando
lemos um livro em voz alta e descortinamos os ritmos, a cadência e
a entonação correta para cada linha —, nossos filhos que o estão
ouvindo podem então gastar sua energia mental com outros
elementos da leitura. Eles então desfrutam da história e fazem
conexões. Isso é praticar a compreensão de leitura.
Agora, essa não é uma realidade apenas para o caso de leitores
iniciantes. Ao longo dos anos escolares, permanece a importância
de ouvir histórias que estejam acima do seu próprio nível de leitura.
Por isso, geralmente recomendo o seguinte aos pais que desejam
que seus filhos leiam os clássicos: leiam em voz alta para eles antes
que precisem se preocupar com tarefas escolares ou qualquer coisa
do tipo. As estruturas de linguagem robustas e o vocabulário
complexo da literatura clássica são elementos compreendidos com
mais facilidade quando alguém toma a frente e lê por você.
Enquanto ouve, você pode investir toda a sua energia mental nas
relações e conexões da leitura. Essa é, sem dúvidas, a parte mais
impactante de ler um clássico.
Mesmo já adulta, ainda prefiro receber minha dose de Dickens e
de Shakespeare ouvindo audiolivros. As nuances dos diálogos e dos
significados são muito mais óbvias para mim quando ouço um
habilidoso narrador as lendo em voz alta.
Qualquer professor há de considerar vital ao aluno compreender
o texto que está lendo. A criança precisa compreender o que lê e
aplicar esse entendimento ao que já sabe. Essa é a arte de pensar
bem. Quando lemos em voz alta com nossos filhos, damos a eles
uma grande vantagem na hora de aprender a pensar bem.
Benefício n.º 3: amor pela leitura Falando no TEDxTalk em 2015,
Rebecca Bellingham, em sua palestra “Por que Devemos Ler em
Voz Alta para as Crianças”, contou a história de Joey, um garoto do
terceiro ano do Ensino Fundamental, aluno dela em uma escola da
região sul do Bronx. No dia em questão, a Sra. Bellingham estava
lendo em voz alta a história A Teia de Charlotte. Joey,
completamente atento, ouvia extasiado a professora ler sobre o
confronto de Wilbur com o machado do Sr. Arabel. Em sua
imaginação, ele via a luz da manhã brilhando sobre a pele rosada
de Wilbur, sentia o cheiro de café e bacon exalado pela cozinha da
casa da fazenda, ouvia os ruídos do café da manhã sendo
preparado — bacon fritando, café sendo coado.
Após terminar o capítulo naquele dia, Joey disse à Sra.
Bellingham que nunca havia gostado tantode uma história. Ele
disse que se sentiu bem no meio da narrativa e que isso não
costumava acontecer quando ele próprio lia.
Lembro-me de deitar minha cabeça sobre a carteira todos os dias
depois do intervalo no sexto ano, deliciando-me com as histórias
que a professora lia em voz alta durante aqueles quinze minutos de
aula que eram os meus favoritos do dia. Eu me sentia como Joey:
transportada para dentro do livro de uma maneira que não acontecia
quando lia por conta própria. Por que ler em voz alta faz isso?
“O homem que não lê não tem vantagem sobre aquele que não
sabe ler”, disse Mark Twain.8 O mesmo pode ser dito acerca das
crianças. Se desejamos que desfrutem da leitura — se desejamos
que leiam não apenas por serem capazes, mas porque de fato
querem ler —, então precisamos fazer mais do que meramente
ensinar nossos filhos a como decodificar textos.
Mais importante do que ensinar para nossos filhos a verdadeira
habilidade de leitura é cultivar um profundo amor por histórias.
Afinal, a criança amará a leitura se praticá-la voluntariamente ao
longo da vida. Rebecca Bellingham deu o primeiro passo com seus
alunos do terceiro ano quando leu em voz alta para eles A Teia de
Charlotte. Ao lê-lo, essa professora fez o trabalho duro de
decodificar sons e interpretar ritmos e pistas vocais. Por tê-lo feito
no lugar delas, as crianças ficaram livres para se apaixonar pela
história.
Quando focamos em nutrir o amor de nossos filhos por histórias,
atingimos tanto as crianças que têm a capacidade de ler quanto
aquelas que já praticam a leitura. Se possível, precisamos que
nossos filhos se apaixonem por histórias antes mesmo que
aprendam as primeiras letras, pois todo o mais — fônica,
compreensão, análise e até mesmo a escrita — é adquirido mais
facilmente quando a criança ama livros.
Se conhece algum leitor compulsivo (ou talvez você mesmo seja
um), sabe que leitura gera leitura. Quanto mais o leitor lê, mais
deseja ler. É algo belo, de fato — e quando reconhecemos o
tremendo impacto que uma vida saudável de leitura pode exercer
sobre o sucesso acadêmico de nossos filhos, percebemos que dar-
lhes a oportunidade de se apaixonar por livros acaba sendo uma
incrível dádiva acadêmica. É um dom que cultiva a curiosidade
natural de descobrir o que vem a seguir ou o que mais posso
aprender, e lhes dá um impulso para ler mais, ajudando-os a
encontrar novas ideias e a fazer melhores conexões.
No caso da Dra. Catherine Pakaluk, a leitura prolífica que ela
teve quando criança a ajudou em seus estudos científicos numa
universidade Ivy League. Por ter aprendido a pensar com
profundidade e a fazer conexões em sua leitura, ela foi capaz de
aplicar essas habilidades a uma disciplina fora da linguagem e da
literatura. Os benefícios de uma vida de leitura saudável têm amplo
alcance. Quando ajudamos nossos filhos a se tornarem leitores
consistentes e vorazes, eles desenvolvem habilidades que os
ajudarão em outras áreas acadêmicas.
As crianças não precisam dessas habilidades a fim de que leiam
mais livros de não ficção. Como discutimos no Capítulo 3, histórias
representam a transmissão de grandes verdades, especialmente na
tradição cristã. Acontece que No princípio e Era uma vez não são
meios tão diferentes um do outro. Antigas profecias, parábolas, o
Evangelho e as histórias bíblicas que lemos todas as semanas na
igreja, seja o que for, são meios de comunicar e transmitir as
verdades mais importantes que conhecemos.
Leitura gera leitura. A criança que ama ler lê vorazmente. Eis um
ganho acadêmico que dificilmente pode ser replicado de outra forma
a não ser pelo abrir de um livro e perder-se nele.
VERDADEIRAS PÍLULAS MÁGICAS
Quem imaginaria que histórias de dormir teriam tanto impacto?
Quando lemos em voz alta, damos aos nossos filhos um acervo
repleto de vocabulário e de estruturas linguísticas profundamente
rebuscadas. Damos às nossas crianças a prática de relacionar
conhecimentos e pensar corretamente. Ainda melhor que isso,
nutrimos a paixão pela leitura, um sentimento que lhes será útil para
o resto da vida.
E assim, embora continue sonhando acordada e imaginando o
que meus filhos serão um dia e qual o grandioso plano que Deus
preparou para cada um deles, proponho-me a fazer a única coisa
que eu sei que os preparará para o futuro. Não custa nem um
centavo; é fácil e é a forma mais eficaz de ajudar os meus pequenos
para que um dia alcancem o tão almejado sucesso acadêmico: eu
vou ler em voz alta para eles.
 
CAPÍTULO
5
Caminhando uma milha Nutrindo Empatia e Compaixão
Construa a vida de seus filhos em um sólido fundamento de histórias e assim
você lhes dará [...] uma reserva de compaixão que transbordará e perdurará
em uma vida ativa de amor.
— Jamie C. Martin, Give Your Child the World Sempre soube da
crise hídrica do Sudão. Já assisti a noticiários na TV e li
artigos no jornal sobre como vilas inteiras na África lutam a
fim de conseguir água limpa para suas famílias. Isso me deixa
triste, com uma sensação repentina de desespero diante dos
problemas avassaladores que atingem o mundo. É dor
demais. Sofrimento demais.
Ainda assim, foi como um tapa na cara quando li, ano passado, o
livro Uma Longa Caminhada Até a Água, de Linda Sue Park: um
romance juvenil que conta a história de dois sudaneses de onze
anos. Metade do livro se passa em 1985, baseado na história real
de Salva, um dos “garotos perdidos” do Sudão, que a pé atravessou
o continente africano inteiro em busca de segurança. A outra
metade conta a história de Nya, uma garota moderna fictícia que
gasta oito horas por dia se arrastando pelo calor e pela poeira,
tendo seus pés perfurados por espinhos e suas costas fatigadas
pelo sol escaldante enquanto se esforça por juntar duas jarras de
água para sua família.
Todos os dias. Duas jarras.
Trata-se de uma leitura rápida; devorei-a em duas tardes. Li esse
livro enquanto cuidava dos meus filhos pequenos brincando na
caixa de areia do quintal, e de poucas em poucas páginas me
deparava olhando para meus três pequenos — meu par de gêmeos
e minha pequena. Minha própria dupla de Salvas e minha pequena
Nya. Então comecei a pensar sobre aquelas duas crianças do livro,
considerando o tamanho das dificuldades com que ambas se
deparavam. Como suportaram tudo aquilo? O que uma vida assim
causa ao espírito humano? Digo, como será que é carregar uma
carga tão esmagadora? Como é que outras crianças que passam
por essa mesma situação sobrevivem a uma vida assim?
Enquanto lia, parei um pouco para olhar um dos meus gêmeos
derramar água por um funil, criando um pequeno riacho ao lado
esquerdo da caixa de areia. Seus olhos brilhavam com aquela
criação enquanto suas mãos brincavam de espalhar areia em forma
de pequenas montanhas ao redor das margens do pequeno riacho
que ele havia acabado de criar com as próprias mãos. A água fluía
em abundância.
Terminei o livro, levantei e disse a eles que estava entrando para
preparar o jantar.
Ao colocar o livro no balcão da cozinha, ainda fiquei concentrada
nele, pensando nas palavras que o tio de Salva disse para ele: “Um
passo de cada vez […] um dia de cada vez. Apenas hoje: não mais
que passar pelo dia de hoje”.
Em silêncio, enchi uma panela com água, acendi o fogo, medi a
quantidade de arroz. Peguei um pacote grande de cenouras do
congelador, coloquei-as na tábua de cortar e olhei pela janela,
meditando sobre o que havia acabado de ler.
Ataques de crocodilos. Violência. Fome. Solidão.
Esperança.
O livro me encheu de tristeza e, em algumas partes, de medo,
mas também me encheu de esperança. Até mesmo de um
sentimento triunfante. Aquelas páginas me deram o conhecimento
necessário de que o bem sempre triunfa sobre o mal, mesmo
quando é difícil enxergar essa verdade; de que o espírito humano
pode ser abatido, mas não destruído por completo — de que as
dificuldades vividas por Salva em 1985 podem de fato ser redimidas.
Não ouvi o Andy chegar do trabalho. Na verdade, não percebi
que ele estava em casa até o momento em que me deu um beijo na
bochecha e me cutucou paraque pudesse passar e lavar suas
mãos na pia.
“Meu Deus, o que aconteceu com você?”, perguntou ao pegar a
faca e começar a cortar os vegetais.
Eu não conseguia responder. Juro que não conseguia encontrar
as palavras. Enxuguei uma lágrima no canto do olho, senti minha
garganta seca e apontei lentamente para o livro na borda do balcão
em nossa casa espaçosa.
O livro havia me transformado. Um passo de cada vez… um dia
de cada vez…
COLOCANDO-SE NO LUGAR DO PRÓXIMO
Um livro pode nos afetar de uma forma como o noticiário não
consegue. Não é quando ouvimos um resumo das notícias daquilo
que está acontecendo no Oriente Médio que o nosso coração pega
fogo. É quando ouvimos a história de uma pessoa: de um homem,
uma mulher, uma criança. É quando arrancamos o espinho do pé de
Nya, quando viajamos com ela por horas debaixo do sufocante sol
africano, quando experimentamos sua solidão e seu medo. É aí
então que sentimos a relação de ser humano para ser humano. Daí
que nossa empatia é aguçada. É aí quando nos sentimos totalmente
humanos.
Colocamo-nos no lugar de outra pessoa por alguns minutos ou
por 121 páginas, e nosso espírito é movido. Nunca mais voltamos a
ser a mesma pessoa.
Esse é o poder de uma história.
Uma história nos desperta para a beleza e a confusão do mundo
que nos cerca. Narrativas despertam em nós um desejo por
misericórdia, justiça e verdade. Histórias fazem com que nos
apaixonemos um pouco mais pelo mundo em que vivemos e pelas
pessoas que Deus colocou em nossa vida.
Em seu livro For the Children’s Sake [Pelo Bem das Crianças],
Susan Schaeffer Macaulay nos conta que “Na literatura, talvez mais
do que em qualquer outra forma de arte, somos capazes de nos
colocar no lugar do próximo”.1 É fácil julgar os outros quando lemos
livros didáticos de história, atualizações de status no Facebook, ou
quando vemos o resumo das notícias. Somos bombardeados com
mensagens o dia todo e não à toa começamos a ignorá-las. Não à
toa ficamos insensíveis, entorpecidos, optando por evitar o olhar do
mendigo com quem cruzamos sempre que estamos no centro da
cidade.
O antídoto para esse tipo de indiferença é cultivar em nós
mesmos sincera empatia. É viver de maneira vicária mediante os
sentimentos, os pensamentos, as atitudes e as experiências de vida
de outra pessoa — alguém que nunca conheceríamos de outra
forma. O primeiro passo é caminhar uma milha no lugar do nosso
próximo.
Foi esse raciocínio que me transformou no final de uma tarde de
verão quando terminei de ler Uma Longa Caminhada Até a Água.
Era como se estivesse atravessando o deserto africano, imaginando
onde encontraria segurança, apenas desejando um gole de água
bem gelada. Foi vivendo de forma vicária por meio da história de
outra pessoa — de uma pessoa completamente inventada, no caso
da Nya — que me despertou a amar as pessoas da vida real, do
meu mundo.
Quando minha filha mais velha, Audrey, acabou de ler Red Scarf
Girl [A Menina do Cachecol Vermelho], autobiografia de Ji-li Jiang
vivenciando a Grande Revolução Cultural Popular da China sob o
líder comunista Mao Tsé-Tung, ela veio até mim com os olhos
arregalados. “Como ele teve coragem de fazer isso?”, ela perguntou
sobre o ditador Mao. “Como ele foi capaz de convencer com
sucesso uma nação inteira de que seus planos maus eram para o
bem?”
O que a autobiografia de Jiang faz muito bem — e o que toda
história é capaz de fazer, e não um noticiário — é nos ajudar a
enxergar a vida do ponto de vista que nunca consideramos. Como é
crescer debaixo do poder comunista? Que pensamentos vêm à
cabeça de uma criança de doze anos nessa situação? E o que seria
necessário para ela se livrar dessa maneira de pensar?
Seria quase impossível ler uma história como Red Scarf Girl e
permanecer a mesma pessoa. O amor da minha filha pela
verdadeira liberdade foi nutrido pela descoberta de que ser livre —
algo que ela sempre viu como um direito dado por Deus — é uma
grande dádiva. Minha filha chegou a uma nova compreensão, a qual
não teria se não houvesse se colocado no lugar de Ji-li Jiang.
Seu coração começou a bater por aqueles que sofreram debaixo
de um governo opressivo. Este não é o final da história, é claro. Ler
um livro como Red Scarf Girl é apenas o primeiro passo. É aquele
começo que abre os nossos olhos.
Criar nossos filhos não é simplesmente prepará-los para a vida
adulta. Não se trata de mera preparação para uma carreira. Trata-se
de transformar e moldar o coração e a mente de um ser humano.
Trata-se de nutrir sua alma, construindo relacionamentos e forjando
conexões. Trata-se de nutrir em nossas crianças um sentimento de
cuidado e compaixão pelo próximo.
Trata-se de desenvolver a mente de Cristo. Assim como Jesus
chorou quando Lázaro morreu, também devemos chorar com
nossos irmãos e irmãs, amigos e estrangeiros, com os de coração
partido e com os oprimidos.
A LEITURA VICÁRIA NÃO 
É TÃO VICÁRIA ASSIM
Acontece que as histórias são excelentes formadores de
empatia. O processo de entrar em uma vida diferente da nossa nos
obriga a ver o mundo a partir de outro ponto de vista. Não se trata
de mera teoria. Keith Oatley, psicólogo especializado em cognição
da Universidade de Toronto, ajudou a conduzir uma pesquisa que
demonstrou que a leitura de histórias fictícias aumenta a resposta
empática do leitor às pessoas na vida real. Na verdade,
pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon descobriram que a
leitura de histórias dá ao cérebro conexões em cadeia semelhantes
às experiências vividas pela própria pessoa.2 Acontece que a leitura
vicária não é tão vicária quanto pensávamos.
No artigo “Mirrors, Windows, and Sliding Glass Doors”,
[Espelhos, Janelas e Portas de Vidro de Correr], Rudine Sims
Bishop explicou o fenômeno que acontece quando lemos. De
acordo com Bishop, os livros podem funcionar como janelas,
“oferecendo visões de mundos que podem ser reais ou imaginadas,
familiares ou estranhas”. Às vezes, os livros são espelhos que
“transformam a experiência humana e a refletem de volta para nós”.
Em outros momentos, são portas de vidro de correr pelas quais o
leitor “precisa simplesmente atravessar com imaginação para tornar-
se parte do mundo que foi criado e recriado pelo autor”.3
Quando começamos a considerar dessa forma — como janelas,
espelhos e portas de vidro de correr — os livros que compartilhamos
com nossos filhos, começamos a valorizar aquilo que não é
quantificável de outra forma. Sem sombra de dúvidas, queremos
que nossos filhos saibam que pessoas são pessoas, mesmo que
não se pareçam conosco, nem falem ou ajam como nós, e que até a
última pessoa neste mundo merece ser amada com total entrega,
pois cada um de nós foi criado à imagem e semelhança de Deus.
Quando Rebekah Gonzalez estava em idade escolar, sua mãe,
Toni, leu em voz alta Johnny Tremain, de Esther Forbes. Situado em
Boston durante os eventos que culminaram na Guerra de
Independência, o livro conta a história de um aprendiz de ourives de
catorze anos. Após a mão de Johnny ser desfigurada e ficar
incapacitada, ele acaba trabalhando como mensageiro a cavalo
para os Filhos da Liberdade. Enquanto sua mãe lia o livro em voz
alta, Rebekah se apaixonou por Johnny, encantada com sua história
de aventuras, lealdade e coragem.
No verão seguinte, Rebekah participou de uma Escola Bíblica de
Férias e voltava para casa todas as noites falando incessantemente
sobre seu novo melhor amigo, Billy. Todas as noites ela contava à
sua mãe as coisas engraçadas que ele dizia, quão inteligente ele
era com a memorização dos versículos, sobre sua camiseta legal,
seu cabelo estiloso e seu prêmio de acampante do dia.
Toni acabou não encontrando Billy até o último dia da Escola
Bíblica de Férias. Quando Rebekah chamou Billy para apresentá-lo
à sua mãe, Toni foi surpreendida.
Apoiando-se com cuidado em seu andador, Billy foi em direção
de Rebekah e Toni. Foi só então que Toni compreendeu: Billy tinha
paralisia cerebral. Durante toda aquela conversa sobre seu novo
melhor amigo, Rebekah nunca havia mencionado esse fato.
Naquele dia, Toni percebeuque a maioria dos colegas de
Rebekah estava desconfortável com a presença de Billy. Quando
perguntou à filha sobre sua nova amizade, Rebekah agradeceu a
seu amigo fictício Johnny Tremain, que lhe mostrou como deve ser
se sentir com incapacidades físicas e, portanto, diferente de todo
mundo.
Quando terminamos o último capítulo de um livro que nos tocou
profundamente e voltamos à nossa realidade, nunca mais somos os
mesmos. Somos transformados. Começamos de uma forma e
finalizamos de outra bem diferente — mais misericordiosos, mais
compreensivos, talvez um pouco mais compassivos do que éramos.
Se a mãe de Rebekah não tivesse lido a história de ficção de
Johnny Tremain para sua filha, aquela experiência da Escola Bíblica
de Férias teria sido bem diferente — diferente para Rebekah e,
certamente, para Billy também.
A EDUCAÇÃO VOLTA-SE AO AMOR
Shannon, uma ouvinte do podcast Read-Aloud Revival,
escreveu-me sobre a leitura de Uma Casa na Campina para seu
filho de oito anos, Ray. Quando o vovô e a vovó inesperadamente
tiveram de arrumar as malas e partir de sua pequena casa depois
de um ano de trabalho duro, Ray interrompeu Shannon no meio do
parágrafo e, da beliche de cima, gritou: “Meus olhos estão
molhados”. Shannon parou por um instante. Ray parecia surpreso,
então ela decidiu sondá-lo gentilmente.
“Querido, é por isso aqui que você está chorando?”
“Bom”, respondeu ele, “... um pouco”. A razão para aquelas
lágrimas inesperadas? O vovô deixou a trava desprotegida. Em vez
de nutrir amargura após um ano de trabalho árduo construindo uma
casa que ele agora teria de abandonar, o vovô escolheu oferecer
seu lar para qualquer um que, passando por ali e cansado, pudesse
precisar de abrigo. Ray sentia — ainda que por apenas uma noite,
por um só instante — como deve ser experimentar frustração,
cansaço, perda e, ainda assim, mostrar consideração pelos outros.
Ser mais gentil do que o necessário mesmo quando se mostra um
ato extremamente difícil Estou certa de que Shannon não
conseguiria ter ensinado essa lição ao seu filho de uma maneira
melhor. O vovô deu o ensino por ela, e ela só foi perceber depois
que a lição já havia sido aprendida. Agora, porém, o aprendizado
está profundamente alojado no âmago de um menino que vai
crescer e saber que mesmo em meio a dificuldades, ele ainda pode
ser gentil. Mesmo sofrendo, ele poderá levar os outros em
consideração.
Que melhor educação podemos oferecer aos nossos filhos do
que moldar seus corações no amor pelo próximo como retribuição
ao amor de Deus por nós? Charlotte Mason, educadora do século
XIX, disse o mesmo quando ensinava que o importante não é o
quanto as crianças sabem, mas o quanto se importam.4 A educação
é praticada com maestria quando nos ensina a amar.
Porém, é tentador idolatrar certos aspectos da educação.
Valorizamos bons resultados, notas altas em provas, graduação em
universidades de elite e carreiras lucrativas. Mas nossa obsessão
nos impede de lembrar para que a educação serve. A educação é
voltada para o amor.
Desejamos uma excelente educação para os nossos filhos a fim
de que eles consigam superar seus colegas? Para que consigam se
classificar em posições melhores, uma promoção mais rápida, mais
sucesso financeiro? Ou desejamos que nossos filhos sejam
educados a fim de que possam seguir os dois grandes
mandamentos: amar a Deus e amar o próximo?
Logo, a boa educação não é aquela que resulta em notas altas,
na aceitação de excelentes faculdades ou na capacidade de ler
Virgílio em latim ou Guerra e Paz sem precisar de um guia
explicativo do lado. Uma boa educação nos ensina — e também
ensina nossos filhos — a amar por completo e a amar de verdade.
“Acima de tudo, porém,”, lemos em 1Pedro 4.8, “tende amor
intenso uns para com os outros, porque o amor cobre uma multidão
de pecados”. Sendo cristãos, sabemos que nosso principal dever é
amar. Jesus Cristo tornou essa obrigação abundantemente clara
quando disse que o maior mandamento é “Amar ao Senhor seu
Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo seu
entendimento”,5 deixando então um segundo mandamento: “Ame o
seu próximo como a si mesmo”.6
A educação atinge sua melhor forma quando a utilizamos para
ajudar nossos filhos a sentirem a dor ou a alegria de outra pessoa.
Em O Sol é Para Todos, Atticus Finch diz à sua filha: “Se puder
aprender esse simples truque, Scout, você se dará muito melhor
com todo tipo de pessoa. Você não compreende de fato uma pessoa
até que considere as coisas do ponto de vista dela”.7
Liguei para minha colega, Rea Berg, durante uma tarde de verão,
para conversar sobre isso. Rea abriu uma editora, a Beautiful Feet
Books, em um esforço de oferecer o melhor da literatura infantil do
passado para os leitores de hoje. Gosto de como ela acredita que os
livros podem nutrir o coração e a mente das crianças pelo papel que
desempenham em sua educação.
Naquela tarde em especial, conversei com Rea enquanto o sol se
punha por trás dos pinheiros do quintal e as partículas de poeira
flutuavam em frente à janela do meu quarto.
“Veja”, disse Rea, “não queremos criar gênios intelectuais
desprovidos de humanidade, compaixão e empatia. Gênios
intelectuais sem coração são perigosos, muito perigosos”. Logo, a
boa educação educa o coração.
Isso inclui a prática de escutar — pois de fato precisamos escutar
os outros a fim de compreendê-los. E somente quando
compreendemos o próximo é que conseguimos amá-lo
devidamente, conforme fomos chamados a fazer.
Lemos Out of the Dust [Fora do Deserto], de Karen Hesse, e
pensamos, pela primeira vez, como deve ter sido sobreviver ao
desastre ambiental das tempestades de areia, em Oklahoma, na
década de 1930. Ficamos imaginando como seria viver com areia
em cada porção de comida, infestando nossas pálpebras, forrando
nossas camas. Ou embarcamos em um navio com Hà, a
personagem principal em Inside Out and Back Again [Separação e
Regresso], de Thanha Lai. Tornamo-nos sua companheira após a
Queda de Saigon e pela primeira vez enxergamos os Estados
Unidos pelos olhos de um refugiado assustado.
Dormimos debaixo de uma ponte no Rio Sena com Suzy, Paul e
Evelyne em The Family Under the Bridge [A Família Debaixo da
Ponte], de Natalie Savage Carlson. Aprendemos o que significa ficar
sem teto, com fome e passando necessidade. Vivenciamos a
resistência dinamarquesa por meio dos olhos da garota de dez anos
Annemarie, em Um Caminho na Noite. Trememos de medo e pavor
diante da ocupação nazista e nos enchemos de compaixão por
aqueles que foram forçados a se esconder ou fugir. Fomos para a
escola com August Pullman em Extraordinário, de R. J. Palacio, e
descobrimos como é ser desfigurado e rejeitado por colegas. Como
é ser envergonhado.
É claro que a empatia é apenas o começo. Precisamos dar
pernas à empatia e transformá-la em compaixão. Precisamos pegar
nosso pesar e tristeza e transformá-los em amor e ação. As histórias
nos ajudam a dar esse primeiro passo com nossos filhos. Como Rea
disse, histórias nos ajudam “a identificar as dificuldades, as
tragédias e as vitórias do próximo, que é o começo da empatia”.
Rea me contou sobre uma noite de verão enquanto estava na
cozinha, preparando o jantar. Seu filho de quinze anos,
normalmente estoico e retraído, entrou na sala com lágrimas
escorrendo pelo rosto. Ele havia acabado de ler Let the Circle Be
Unbroken [Laços Inquebráveis], de Mildred Taylor, e perguntou à
sua mãe: “Como as pessoas podem se tratar dessa forma?”. Era um
brado, Rea disse, por todas as vítimas e espectadores inocentes da
injustiça ao longo dos tempos. Foi o início da empatia.
Lemos com nossos filhos, pois a leitura educa o nosso coração e
a nossa mente. Alimenta o nosso intelecto e nos ensina a ter
empatia. Lemos juntos e aprendemos, pois histórias nos ensinam a
amar.
SAL E LUZ
Já era quase o dia dos namorados, e a família Case (ouvintes do
podcast Read-Aloud Revival) deparou-se na biblioteca com um dos
meus livros ilustrados favoritos, Somebody Loves You, Mr. Hatch
[Alguém Ama Você, Senhor Hatch], de Eileen Spinelli.
A históriatrata de um homem solitário que nunca sorri ou
conversa com ninguém de sua vizinhança, até o dia em que recebe
por correios um bilhete anônimo. No bilhete está escrito: alguém
ama você. Por causa do bilhete, o comportamento do Sr. Hatch
muda. Ele se torna alegre e cativante, um homem desejoso de
ajudar seus vizinhos e mostrar bondade mesmo nos detalhes. Os
filhos de Case amaram o livro e pediram sua leitura várias vezes.
“Todas as vezes que lemos o livro”, a mãe dos garotos disse,
“meus filhos e eu conversamos sobre como o simples gesto de
transmitir graça à realidade de uma pessoa — mesmo por meio de
um simples bilhete ou de um gesto gentil — pode impactar
profundamente um indivíduo”.
Ao ler Somebody Loves You, seu filho de seis anos decidiu que
queria espalhar alguns bilhetes para a vizinhança e região. Eles
distribuíram esses bilhetes e os deixaram na biblioteca, nas
máquinas de venda automática, em espelhos de banheiros, em
bancos de praças e em filas de mercadinhos.
Ler um simples livro ilustrado inspirou a família Case a tornar o
mundo um pouco melhor. Histórias despertam o coração das
crianças que as ouvem e dos pais que as leem.
É chocante como o simples gesto de ler com nossos filhos pode
tocá-los tão profundamente (e a nós também), não é mesmo?
Imagino que para a maioria de nós, atingir nossos filhos dessa
forma — no cerne de sua alma, onde sentem e amam mais
profundamente — é praticamente o que há de mais importante.
Tenho tanta vontade de que os meus filhos cresçam e sejam
pessoas mais gentis que o necessário. Quero que amem em
abundância. Que cuidem do próximo, mesmo quando for difícil de
compreendê-los. Quero que sejam sal e luz.
Você se lembra da minha experiência depois de ler Uma Longa
Caminhada Até a Água, de Sue Park? É claro que não fui a única
impactada pela leitura dessa história. Uma ouvinte do podcast
Read-Aloud Revival me escreveu para contar sobre sua experiência
ao ler o livro com seus filhos.
“Ao final do livro”, disse ela, “estava suspirando de tanto chorar, e
meus filhos estavam apaixonados pela obra”. No mês seguinte, seu
filho de dez anos contou à mãe que ele e seus irmãos haviam
guardado a mesada para ajudar a pagar por um poço.
Essas crianças poderiam ter sido movidas de forma tão profunda
por um apanhado de notícias, por um livro didático, por uma
postagem no Facebook ou por um comercial?
Como a autora Linda Sue Park me contou, um livro não pode
mudar o mundo por conta própria, mas pode transformar seus
leitores.8 E os leitores? Eles podem mudar o mundo. Nossos
pequenos leitores — meus filhos, seus filhos — podem amar com
entrega, com vida; podem manifestar uma bondade inexplicável,
construir poços em comunidades pobres, dar um sorriso inesperado,
cumprimentar uma pessoa que prefeririam ignorar, dar um abraço
em alguém que está passando por dificuldades.
Nossos pequenos leitores crescerão e amarão com fervor,
porque as histórias que lemos em voz alta para eles durante sua
infância os apresentaram a um elenco de personagens mais amplo
do que poderiam ter conhecido de outra forma. Essas histórias
podem desencadear esperança e compaixão incontroláveis.
Histórias nos oferecem um começo — um primeiro passo no
caminho de viver uma vida de amor. A história de Uma Longa
Caminhada Até a Água me impactou para sempre. Red Scarf Girl
impressionou para sempre a minha filha. Quando lemos sobre
personagens — reais e fictícios — passando por dificuldades e
encontrando injustiças, algo se move dentro de nós. Este algo é
empatia — o começo da compaixão. Sempre que viramos a página
de um livro estamos entregando uma dádiva tremenda aos nossos
filhos.
 
 
CAPÍTULO
6
Crie em sua casa uma cultura 
de clube do livro Quando mal deixara de ser uma jovenzinha, a
Srta. Minnie entrou numa faculdade de pedagogia e se preparou para
lecionar, aprendendo muitos métodos astutos que acabou nunca usando. Pois
a senhorita Minnie amava crianças e amava livros, e ensinava simplesmente
apresentando um ao outro.
— Wendell Berry, Watch with Me [Observe Comigo]
A mulher jogou uma pilha de revistas na mesa da frente da
biblioteca onde eu trabalhava e se virou para sua filha de dez anos.
“O que você encontrou?”, perguntou ela.
A garota prendeu uma mecha do seu longo cabelo loiro claro
atrás da orelha. “Nada demais, mas achei isso”. Ela empurrou
timidamente um livro desbotado com capa amarela e azul para a
mãe.
“As Irmãs Penderwick!”, exclamei por trás do balcão, puxando a
pilha de revistas em minha direção e digitando a senha no
computador. “Você vai amar”. Peguei o livro para começar a
escanear o código de barras.
“Espere. O que é isso?”. A mãe da garota tomou o livro da minha
mão, ajeitou os óculos e, dando uma olhada cética, virou-se para a
filha: “Isso está na lista para a escola?”.
“Na verdade, não…”. A garota começou a ficar um tanto inquieta
e seu pescoço avermelhado.
“Você vai perder seu tempo lendo algo que nem mesmo conta?”
Mordi minhas bochechas por dentro e fiquei olhando a mãe
balançar a cabeça com desdém. Ela se virou para mim.
“Você pode guardar esse de volta para nós, certo?”, perguntou,
jogando o livro no balcão e revirando os olhos. “Voltaremos em um
minuto. Primeiro, precisamos encontrar algo que realmente esteja
na lista”. Ela voltou a pegar a pilha de revistas, firmou-a em um de
seus braços e, ainda falando, começou a distanciar-se ao lado da
filha.
“Sério mesmo, Emma, ler algo que não conta não serve para
nada…”
Ao ver o olhar melancólico de Emma voltado ao livro “As Irmãs
Penderwick”, então abandonado ao meu lado, mordi minhas
bochechas por dentro com mais força. Eu estava lutando para não
acabar jogando nada na parede.
AMARRAS CURRICULARES
Naquela tarde em especial, fui convencida de algo de que já
suspeitava há muito tempo: um senso de responsabilidade está
matando em nossos filhos a capacidade de ler por prazer.
Jim Trelease não mede palavras sobre isso no Manual de Leitura
em Voz Alta. “Toda criança começa a escola desejando aprender a
ler”, ele escreve. “Em outras palavras, temos 100% de entusiasmo e
empolgação quando começam as aulas”.1
Entretanto, esse número começa a diminuir drasticamente logo
no começo do Ensino Fundamental, e continua a cair rapidamente
nos anos seguintes. Um típico aluno do Ensino Médio lê por prazer
durante aproximadamente seis minutos por dia. O Dr. Daniel
Willingham nos conta o que isso significa em seu livro Raising Kids
to Read [Educando Filhos para Ler]. Professor de psicologia na
Universidade da Virgínia, Willingham tem pesquisado e escrito sobre
estratégias que ajudem os pais a apreciar livros juntos de seus
filhos. Em Raising Kids to Read, ele mostra que aqueles seis
minutos diários indicam, na verdade, que de fato a maioria das
crianças não lê e pouquíssimas leem um pouco mais que a
maioria.2
A pergunta natural é: por quê? Trelease a responde no primeiro
capítulo do seu livro: “[O prazer pela leitura] ou nunca foi plantado,
ou então foi extirpado por exercícios e provas, não deixando espaço
para uma relação prazerosa”.3 O autor acusa a quantidade cada
vez menor de tempo que adultos gastam lendo com as crianças à
medida que elas crescem como um dos maiores culpados pela
perda dessa relação entre dever e prazer. A maioria de nós para de
ler para os filhos tão logo que eles começam a ler por conta própria,
e quase ninguém — nem pais, nem professores — lê em voz alta
para alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental e do Ensino
Médio. Esse, de acordo com Trelease, é o principal motivo para a
maioria das crianças não ler por prazer.
Faz sentido, não? As crianças menores amam o calor e o elo de
sentar no colo da mamãe ou do papai para ouvir uma história. Para
crianças menores, livros são sinônimo de prazer. Já no Ensino
Fundamental, nossos filhos já absorveram a mensagem de que ler é
algo que fazemos para um fim — fazer relatórios, redações, testes,
provas. A leitura é uma obrigação, algo para marcar na lista de
lembretes, começar e acabar. Ler é um trabalho.
Naquele dia na biblioteca, a mãe de Emmadeixou claro para sua
filha que o propósito da leitura é acadêmico. Agora, talvez você e eu
não digamos isso com palavras, mas, embora considerando uma
mentira, comuniquemos a mesma coisa com nossas ações e
expectativas. Fico pensando se nossas escolas, nossos professores
e — o pior de tudo — os pais não estão passando uma mensagem
às nossas crianças de que lemos unicamente a fim de obter
sucesso escolar.
Fazemos isso sem perceber, e o fazemos com as melhores das
intenções. Queremos que nossos filhos conquistem o sucesso
acadêmico e consigam ler fluidamente. Mas boas intenções podem
terminar em desastre. Você pode acender uma fogueira para se
aquecer, mas essa mesma fogueira pode, ainda que
involuntariamente, queimar uma casa ou um matagal. Essa fogueira
pode incendiar uma floresta inteira.
Acendemos uma fogueira para os nossos filhos menores ao
aconchegá-los em nosso colo, lendo contos divertidos e fábulas
deliciosas, virando as páginas de um livro ilustrado, perdendo-se em
contos da série Strega Nona, A Pequena Galinha Vermelha, Sheep
in a Jeep [Uma Ovelhinha no Jipe]. Mas algo muda à medida que
essas crianças crescem. Elas aprendem a ler por conta própria, e
daí presumimos que vai embora aquele desejo de ouvir seus pais
lendo em voz alta. A leitura para a escola deixa de ser aqueles
contos divertidos e aquelas fábulas deliciosas da infância, e passa a
ser mais uma obrigação escolar. A agenda fica cheia, as listas de
afazeres e obrigações aumentam e a leitura por prazer se torna uma
prática do passado. Uma memória. Devagar e sempre ensinamos
nossos filhos que ler é algo que se faz por obrigação, e não por
prazer.
“Por que nos empenhamos tanto em ensinar nossos filhos a
ler?”, Katherine Paterson pergunta em sua coleção de ensaios A
Sense of Wonder. “Para que consigam ler placas de trânsito? É
claro. Para preencher um formulário de emprego? É claro. Descobrir
o destino do ônibus para chegar ao trabalho? Sim, é claro. Mas não
queremos algo a mais para nossos filhos, algo além da mera
capacidade de decodificar? Não desejamos para nossas crianças a
vida, o desenvolvimento e o vigor que apenas a completa riqueza da
nossa língua pode dar? […] De que adianta ter dentes perfeitos e
aulas de trompete se a pessoa não consegue enxergar a grandeza
do mundo?”4
Talvez esse seja um dos capítulos mais importantes neste livro,
pois nos lembra de que ler é, acima de tudo, um prazer; é um
deleite. Comunicamos nossa visão acerca dos livros por meio da
atmosfera de leitura (ou pela falta dela) em nossos lares. Ou
criamos um espaço onde se lê por pura alegria, onde a imaginação
é cultivada e tem permissão de vagar, expandir-se e crescer, ou
arrefecemos o amor natural de nossos filhos pela palavra escrita.
De uma forma ou de outra, esse cenário depende de nós — você
e eu, pais da próxima geração. “Se você deseja criar um leitor, não
confie tanto assim na escola do seu filho”, escreve o Dr. Daniel
Willingham, em Raising Kids Who Read [Criando Filhos Leitores].
Depende dos pais criar uma atmosfera onde a vida de leitura da
criança possa florescer”.5
A SUPREMA IMPORTÂNCIA DO DELEITE
Eis algo que talvez o surpreenda: pais que pensam que a
importância da leitura é o sucesso escolar são menos propensos a
terem filhos que gostam de ler do que pais que enxergam a leitura
primariamente como forma de lazer.
Entendeu isso?
Filhos cujos pais acreditam que a leitura é sobretudo um modo
de entretenimento e prazer acabam se tornando leitores mais
vorazes do que filhos cujos pais incentivam a leitura pensando no
sucesso acadêmico. Essas crianças também acabam se tornando
leitoras melhores. Nossa postura diante da leitura e a atmosfera que
criamos em nosso lar são elementos essenciais. Nossos filhos
percebem isso mesmo quando não dizemos nada disso em voz alta,
ainda que não sejamos a mãe no empréstimo da biblioteca
insistindo que sua filha devolva a cópia de As Irmãs Penderwick.
É essencial que comuniquemos com nossas palavras, ações e
atitudes que a leitura por si só já vale a pena. Não porque nos
aprimora ou nos ajuda academicamente; não porque nos faz
pessoas mais articuladas, ou nos leva a tirar notas mais altas no
vestibular, ou nos dá uma compreensão cultural daqueles que estão
ao nosso redor. A leitura proporciona todas essas vantagens, é
claro, mas é de suma importância comunicar aos nossos filhos que
a leitura é prazerosa e vale a pena pelo mais puro deleite.
Desejamos que nossos filhos, como o distinto professor de
Humanidades no programa de Honors da Universidade Baylor diz,
“leia por capricho”. Jacobs explica a leitura por capricho em seu
perspicaz livro The Pleasures Of Reading in an Age of Distraction [O
Prazer de Ler em Meio a Uma Geração Distraída], um comentário
sobre a importância da leitura pelo prazer.
“Pelo amor do céu”, escreve Jacobs, “não transforme a leitura no
equivalente intelectual de consumir comida orgânica ou (mudando
um pouco a metáfora) de alguma obrigação como uma esteira da
mente em que contamos palavras ou páginas da mesma forma
como algumas pessoas colocam sua atenção nas “calorias
queimadas” […] que deprimente”.6
Ao contrário, diz ele, “Leia o que lhe dá prazer”.7
Ler por capricho — isto é, ler pelo mais puro prazer de ler —
pode ter um impacto muito maior na vida do seu filho do que você
imagina. Para muitos de nós, os livros que escolhemos ler por conta
própria são aqueles que nos cativam. Acontece que não há nada de
mágico num livro só por entrar em uma lista de livros escolares ou
acabar na ementa de um professor. O ato de pegar um livro e lê-lo
por nenhuma outra razão, a não ser o prazer, pode abrir as portas
para um impacto significativo.
BEM-VINDO AO CLUBE DO LIVRO
Alimente sua imaginação comigo por um momento. Imagine que
você acabou de chegar ao encontro de um clube do livro. Você teve
um longo dia com as crianças e está ansiosa para participar pela
primeira vez daquela reunião semanal. A obra do mês é Toda Luz
que Não Podemos Ver, de Anthony Doerr. O livro a deixou sem
palavras, e você está pronta para uma profunda discussão com os
outros membros do grupo.
Você é recebida à porta pela anfitriã, uma amiga que a abraça e
prontamente lhe dá uma folha de papel com uma lista de múltipla
escolha sobre o livro. “Bem-vinda ao clube do livro!”, ela brada com
alegria. “Vá em frente e comece por aqui. Apenas queremos ter
certeza de que você leu e compreendeu o livro antes de dar
continuidade”.
Você faz a provinha, chutando o nome das cidades, o número, os
detalhes e as datas. (A garota que caçou a consciência de Werner
era vietnamita ou parisiense? Werner tinha… dezesseis? Ou
dezessete? A madame Manec pegou um resfriado ou uma
pneumonia? A história começou em 1944? Ou em 1934? Ou em
algum momento entre essas datas?). Você preencherá as respostas
tentando acertar tudo, percebendo que leria o livro de forma
diferente se soubesse que teria de fazer uma prova sobre a obra.
Você dá uma olhada e vê que os demais participantes do grupo
do livro estão esperando, ansiosos, pela sua conclusão, então
responde mais algumas perguntas e aguarda para ver no que vai
dar.
A anfitriã tira um caderno. “Tudo bem”, ela diz, “vamos começar
fazendo um brainstorming sobre o que podemos escrever em nossa
redação de cinco parágrafos. Quem se atreve a dizer qual é o tema
do livro?
Na hora de ir embora, você recebe a tarefa de escrever uma
redação sobre o papel da responsabilidade de acordo com o caráter
de Werner. Você também recebe uma lista de atividades manuais
das quais pode escolher algumas — você pode fazer um diorama,
escrever um diário da perspectiva de Étienne, ou desenhar um
mapa dos passos de Marie Laure ao longo de Paris.
Voltando para casa, você percebe que o clube do livro é, na
verdade, apenas uma maneira de demonstrar que você leu a obra.
Não há discussões construtivas, nem relacionamentos sendo
formados; não há imersão nas turvas águas de uma bela história.
Você recebe tarefas apenas para provar que, de fato, leu o livro.
Tire esse livro da lista — você já o “leu”. Agora,vá para o
próximo.
Você voltaria para um clube do livro assim? Você estaria se
coçando para reler o romance durante seu tempo livre, ou para ligar
para sua melhor amiga e perguntar se ela entendeu a parte que
você está se matando para entender, a parte que a deixou sem
saber o que dizer? Você — após terminar a provinha, escrever a
redação e fazer um diorama — acha que o livro foi um de seus
companheiros de vida? Você diria que o livro a transformou? A
moldou? A desafiou?
Ou você simplesmente diria que “acabou o livro”?
É exatamente assim que tratamos a vida de leitura de nossos
filhos, e ainda nos perguntamos por que eles enxergam a leitura
como algo a ser feito para a escola, para nota, para uma lista, nada
mais que uma simples obrigação.
Todas essas coisas — da provinha de compreensão (avaliação
para ver se realmente leu a história e a compreendeu) à redação de
cinco parágrafos (dissecando o tema do livro) aos projetos criativos
como a criação de um diorama ou a criação de um mapa — são
tarefas típicas que tendem a acompanhar os livros que nossos filhos
leem.
Nós literalmente “escolarizamos” o amor pela leitura dos nossos
filhos e, logo em seguida, nos perguntamos por que eles não
adquirem um amor voraz pela literatura e um desejo ardente de
desfrutar a leitura por prazer.
Fico me perguntando: o que aconteceria se começássemos a
tratar a vida de leitura de nossos filhos como tratamos a nossa? E
se saíssemos do caminho da criança e deixássemos o livro fazer
sua mágica sem interferir, sem ditar o que pensar sobre o livro, sem
insistir que repita os fatos ou concorde conosco sobre o tema? E se,
ao invés de ficarmos obcecadas com o fato de a criança ter ou não
“terminado” o livro, deixássemos nosso filho encontrar grandes
ideias, fazer conexões, pensar por conta própria e experimentar o
que significa ser completamente humano, completamente vivo
mediante as grandes ideias e por meio dos grandes personagens
que encontramos nas histórias e narrativas?
Não me interprete mal. Não estou sugerindo que o professor ou o
pai nunca deva dar uma tarefa relacionada a um livro. Quero dizer,
no entanto, que o deleite deve ter um papel primordial. Se queremos
criar nossos filhos como leitores de fato, então faremos bem se
dermos a eles uma “página” de verdadeiros leitores adultos —
aqueles que leem pela simples alegria e emoção da leitura.
Os adultos que conheço que leem por prazer não criam
dioramas, não fazem provinhas de compreensão, nem escrevem
redações de cinco parágrafos sobre o conflito principal ou acerca do
tema da história. Leitores reais gostam de livros que despertam
interesse e curiosidade. Leitores de verdade conversam com seus
amigos sobre essas obras. Por vezes, inclusive, eles também
gostam de um clube do livro. Durante os encontros, eles aproveitam
os comes e bebes enquanto dialogam acerca de perguntas abertas
a respeito da leitura. Leitores assim fazem perguntas que instigam a
reflexão sobre o livro e sobre o que o autor deve estar tentando
dizer. São perguntas que lidam com o que o livro tem a dizer para
nós.
Leitores reais se perdem em histórias. Por vezes ficam loucos
para conversar com os outros sobre o que estão lendo; às vezes
apenas leem e ponderam sozinhos. Ora marcam, ora não marcam
as páginas; por vezes anotam passagens do livro em seus diários,
talvez grifem algumas linhas e rabisquem nas margens. Leitores
reais se envolvem com os livros de uma maneira que alimenta a
curiosidade, inspira relacionamentos e dá prazer.
Li a obra The Chosen [O Escolhido], de Chaim Potok, quando
estava na escola, mas não me recordo muito dela. Lembro-me de
me esforçar para ler o livro, tentando encontrar trechos do texto que
poderia usar para construir um argumento em uma redação
persuasiva. Lembro que tentava perceber detalhes aleatórios que,
pensava eu, pudessem aparecer em uma provinha de sexta-feira.
Não me lembro muito mais do que isso. Na idade adulta, não tenho
vontade nenhuma de relê-lo, embora muitas pessoas que amo e em
quem confio o classifiquem como o melhor livro que já leram.
Os livros sobre os quais você escreveu relatórios quando criança
são os mesmos pelos quais você, anos depois, tem um grande
afeto? São os livros que você não consegue esperar para ler com
seus filhos, os livros que você associa com as suas memórias de
infância mais felizes?
É certo que a criança que sempre amou histórias, cuja vida foi
ricamente banhada por narrativas, que teve muitas conversas sobre
os personagens e as buscas nas histórias que leu, não terá
problemas em dissecar um trecho de literatura para analisá-lo na
faculdade. Mas sua inclinação natural não será a de dissecar o livro.
E não queremos que seja! Há um tempo e um lugar para a análise
literária — para traçar enredos e observar o curso de um
personagem. Mas não estou absolutamente convencida de que o lar
seja esse lugar. O lar é onde nos apaixonamos pelos livros. O lar é o
único lugar onde nossos filhos têm a chance de se apaixonar pelos
livros.
Já sabemos o que acontece com crianças cujos pais não veem o
prazer e a diversão como o principal motivo da leitura, pais que
acreditam que o maior objetivo da leitura é o sucesso acadêmico.
Essas crianças acabam simplesmente não lendo.
MEDIDAS EXTREMAS
A mãe de Jonathan Auxier, preocupada com a falta de interesse
de seu filho pela leitura motivada por prazer, tirou-o ainda novo da
escola, com a intenção de transformá-lo em um leitor.
“Sou de uma família de leitores sérios”, relata Jonathan.8 “Eu
mesmo sabia como ler, mas não gostava tanto assim. Eu
simplesmente preferia fazer outras coisas, assim creio. Ler não era
uma atividade que me trazia alegria”.
Sua mãe entrou em choque. Não ter um de seus filhos lendo por
prazer e deleite simplesmente não era uma opção em sua casa. Ela
decidiu começar o ensino domiciliar com Jonathan em seu terceiro
ano do Fundamental, e a principal tarefa era que ele lesse por três
horas diárias.
Na época, Jonathan não sabia que havia sido tirado da escola
para que se apaixonasse por livros. Mas ela sabiamente percebeu
que Jonathan só aprenderia a amar a leitura se desassociasse o ato
de ler das obrigações escolares. Ele precisava de tempo suficiente e
precisava da oportunidade de escolher livros que desejasse ler, não
apenas livros de leitura obrigatória. Sua mãe também sabia que
Jonathan precisava obter a identidade de leitor por conta própria.
Ela não podia fazer aquilo por ele. Tudo o que podia fazer era
organizar as circunstâncias para que tornasse o amor pela leitura
mais provável de existir.
E passou a existir.
“Quando voltei para a escola tradicional, era um ano mais velho,
para ser justo — mas também um leitor muito forte”, disse Jonathan.
“A sacada que minha mãe teve de me tirar da escola certamente foi
a intervenção que me transformou em um leitor”.
Jonathan Auxier é agora um escritor premiado de romances
juvenis — você encontrará Ladrão de Olhos: As Aventuras de Peter
Nimble em uma das listas de livros na terceira parte deste livro.
É evidente que sua mãe deu-lhe mais do que uma mera
oportunidade de tornar-se um simples leitor. Ela deu ao filho a
oportunidade de formar um profundo e duradouro amor tanto por
palavras quanto por histórias.
Você provavelmente não tem controle absoluto sobre todas as
interações dos seus filhos com os livros, especialmente com obras
de leitura obrigatória para a escola. O professor do seu filho
provavelmente pede relatórios de leitura, dá provas de compreensão
textual e outras tarefas relacionadas aos livros lidos. Não importa
onde o seu filho se formará academicamente falando, uma coisa é
fato: você pode dar forma à atmosfera do seu lar. Na sua casa é
você quem decide como os livros são escolhidos, discutidos e
tratados. E essa atmosfera significa muito. O lar, lembre-se, é onde
nossos filhos se apaixonam pelos livros.
A postura dos pais diante dos livros faz uma enorme diferença na
vida de leitura dos filhos, independentemente da escola em que a
criança estuda ou do tipo de educação literária que recebe. Assim,o
que os pais devem fazer? Como criar um ambiente onde
comunicamos e transmitimos o prazer dos livros, a curiosidade de
ideias contidas nessas obras e um desejo de nos relacionarmos
com nossos filhos? Basta criar uma “cultura de clube do livro” em
nossa casa.
COMO CRIAR UMA “CULTURA DE CLUBE 
DO LIVRO” EM NOSSO LAR
Tentemos imaginar aquele cenário do clube do livro novamente.
Desta vez você chega à casa da sua amiga e é recepcionada com
um caloroso abraço e com o tremular da luz de velas. Você se joga
no sofá chique e bate um papo por alguns minutos com outros
amigos que já estavam lá. A anfitriã então chega e serve uma tábua
de petiscos com uma boa garrafa de vinho.
Sem muita formalidade, ela muda a conversa para o livro,
conduzindo a discussão ao fazer perguntas sem maiores
pretensões. Você não está sendo avaliada sobre o quanto sabe ou
não sabe; você está pensando sobre o livro por perspectivas que
não havia imaginado antes. Você está fazendo relações que não
havia feito sozinha, ouvindo intuições que nunca lhe ocorreram.
Você oferece sua perspectiva sobre qual personagem era o mais
covarde, ou sobre qual personagem mais se desenvolveu, ou de
como esse livro a lembrou do livro que leu no verão passado. Você
lança ideias sobre o que os personagens realmente querem e sobre
o que eles temem.
Você deixa o clube do livro sentindo que experimentou o livro
com mais completude. Você experimentou suas amizades de uma
forma um pouco mais completa, pois foi capaz de dar uma espiada
na mente e na alma dos seus amigos enquanto todos discutiam
partes que os fizeram rir ou chorar, partes que nos pegam
desprevenidos, trechos que nos assustam e nos fazer amar. A forma
como um dos seus amigos descreveu a cena quando Marie Laure
se escondeu nos dá vontade de voltar para casa e reler o livro, pois
acabamos não enxergando tudo que essa pessoa enxergou. Você
não fez as conexões que ela fez. Você quer ver se o livro cochicha
algo novo desta vez.
Você deixa o clube do livro se sentindo enriquecida.
É para isso que serve um clube do livro: para nos relacionarmos
mais profundamente com o que lemos, para nos ajudar em nossos
relacionamentos, para nos fazer sentir como se déssemos as mãos
à história que está sendo lida durante os encontros. Agora estamos
famintos para voltar e passar mais tempo com o livro — ou com
outra obra.
Uma história verdadeiramente boa não será devidamente
experimentada debaixo do escrutínio de uma lupa. Essa narrativa
não pode ser testada, avaliada ou reduzida em uma redação de
cinco parágrafos e então introduzida à alma. Uma boa história dá
forma à experiência humana e toca nos locais mais íntimos. Ela nos
encontra onde estamos e nos leva a outro lugar; ela nos muda, nos
transforma, nos desperta, nos vivifica, nos deixa cientes. Tornamo-
nos pessoas melhores. Enriquecidas.
Katherine Paterson escreveu diversos livros infantis (ganhadores
de prêmios) sobre assuntos grandiosos e profundos. Tragédia,
comédia, morte, solidão, esperança, medo, sofrimento — tudo tem o
seu lugar nas páginas de seus livros ricos e imaginativos. Mas
Paterson não quer que suas obras sejam usadas em sala de aula
para ensinar vocabulário ou melhorar a pontuação nas avaliações.
“Ao escrever uma história, não tento transformar a criança em
alguém bom ou mais esperto — apenas Deus é capaz de fazer isso,
e nem mesmo Deus faz isso sem a cooperação da criança”, diz ela.
“Com meus livros simplesmente tento dar às crianças um lugar onde
possam encontrar descanso para suas almas cansadas”.9
Se compararmos a experiência em sala de aula de um aluno
comum com os nossos encontros do clube do livro, perceberemos
que precisamos tratar a vida de leitura dos nossos filhos de maneira
mais parecida com a nossa. Criaremos uma cultura de clube do livro
em casa de uma forma orgânica, simples e natural. Não sugiro que
você substitua a experiência literária do seu filho em sala de aula a
fim de viver uma experiência literária mais rica no lar (embora
reconheça que é isso que escolhi fazer com meus próprios filhos).
Mas sua casa pode ser infundida com um espírito de “clube do
livro”. Sua própria postura diante dos livros e da leitura pode mudar
e, assim, permitir que cada membro da família dedique mais tempo
e espaço para ler pelo mais puro prazer da leitura.
COMIDA, GLORIOSA COMIDA Experimente algo para mim. Asse
uma forma de brownies. Enquanto o aroma conduz todos da sua
casa para a cozinha em uma curiosidade esperançosa, coloque na
mesa alguns pratinhos, guardanapos e um pouco de leite. Deixe os
brownies — deliciosos, quentinhos, de grudar nos dedos — no
centro da mesa e abra um livro. Pode ser de qualquer tipo: um livro
ilustrado, uma ficção juvenil, um poema. Não importa muito qual
livro seja; apenas comece a lê-lo em voz alta.
Posso quase garantir que você terá uma mesa repleta de
pessoas ouvindo e que se lembrarão — até mesmo no futuro — de
que leu em família e com brownies. Muito provavelmente olharão
para trás e se lembrarão daquele livro com carinho.
Nunca estive em uma reunião de clube do livro que não tivesse
comida, porém tantas vezes faço os momentos de leitura com meus
filhos parecerem mais uma sala de aula do que um clube do livro.
Por que não servir guloseimas? Ou lanchinhos? Por que não
colocar uma toalha de piquenique na grama do jardim e deixar todos
comerem uma tigela gigantesca de pipoca e beberem um suco
geladinho? Por que não arrumar algumas louças na mesa e servir
chá com bolinhos? Por que não pegar um pacote de biscoitos,
pratinhos descartáveis e juntar todo mundo ao redor da mesa para
alguns momentos de descanso e leitura?
Não é sempre que dou lanches para meus filhos enquanto lemos
em voz alta, mas tento administrar isso em cada ocasião,
especialmente se estou tendo problemas persuadindo alguém para
o momento da leitura em voz alta, ou se nosso relacionamento e
interação foram fragilizados por algum motivo. Comida é conforto, e
conforto é uma coisa maravilhosa de associar ao tempo de leitura
em voz alta.
Meu marido fala com carinho das noites de jogos em família da
época em que ainda era criança e adolescente. Eles jogavam Banco
Imobiliário, War e outros clássicos de tabuleiro. Mas quando ele me
conta essas histórias de noites de jogos em família, os jogos em si
figuram um papel secundário em suas lembranças. Ele se lembra
mais do chá, da pequena tigela de doces, da caneca cheia de leite e
do bolo de café fofinho, leve e doce servido por sua mãe.
Chá e bolo de café se tornaram um símbolo dessas noites de
jogos. Quando meu marido toma chá em uma xícara chique, mistura
um pouco de leite e coloca um pouco de açúcar, ele pensa na noite
de jogos. Ele se lembra dos momentos em família, calorosos e
confortantes.
Podemos fazer o mesmo com as histórias. Você não precisa
fazer bolo de café toda vez que lê em voz alta, é claro, mas fazer
algo do tipo não arranca pedaço de ninguém. Pipoca é minha
escolha de praxe. É fácil e rápido de fazer e todo mundo adora,
então geralmente faço uma tigela enorme e a coloco no centro da
mesa enquanto leio.
Pode ser algo simples — um pacote de biscoitos, um bolo
comprado, frutas picadas, uma tigela de uvas. Compartilhar comida
e se juntar à mesa significa comunidade, amizade, amor, risada e
cordialidade. É isso que queremos para nossa hora de leitura,
certo?
Temos a coragem de admitir que o propósito principal de ler pode
de fato ser a alegria pela alegria em si? A afeição tem grande
importância quando tratamos do relacionamento com nossos filhos
por meio dos livros. Quando demonstramos interesse nas coisas
que interessam nossos filhos — e isso inclui as histórias de que eles
gostam —, estamos comunicando amor.
O que eu gostaria de ter dito àquela mãe na biblioteca, aquela
que disse à filha de dez anos para deixar o livro As Irmãs
Penderwick de lado e pegar algo que “contasse” para escola, é o
seguinte: vá e compre seu próprio exemplar. Leia-o com ela, apenas
pelo prazer. Não porque “conta”, não porque ela receberá ou não
nota por isso, não porque essa leitura a tornaráum ser humano
melhor (embora isso possa acontecer).
Leia-o para passar tempo com ela. Leia pelo motivo de pura e
simplesmente se perder em uma boa história ao lado da sua filha.
Leia para relacionar-se. As memórias que ela acumulará do tempo
que ambas passaram juntas e que não “contou” para nada além da
pura alegria de relacionar-se: essas são as memórias que ela
carregará consigo no futuro. Leia com sua filha por capricho.
Quando criamos uma cultura de clube do livro em nosso lar,
transmitimos uma mensagem crucial para nossos filhos.
Comunicamos que sua vida de leitura importa e que deve ser uma
fonte de alegria e deleite. Damos aos nossos filhos a liberdade e a
habilidade de se envolver com ideias bem naquele lugar que
desejamos que eles próprios amem acima de tudo: o lar. E talvez
melhor que tudo: damos aos nossos filhos a chance de se apaixonar
perdidamente pela vida de leitura.
 
CAPÍTULO
7
Desmascarando cinco mitos Por vezes é necessário
pintar o céu de preto para mostrar como pequenos pontos de luz são belos
[...] Quando uma criança lê a última frase das minhas histórias, espero que ela
caia no sono com um brilho em seu coração e um calor em seu corpo,
acreditando que tudo ficará bem, e tudo bem ficará, e toda situação cooperará
para o bem.
— Andrew Peterson1
O pequeno lago cintilante era um bolsão de água fria e escura,
escondido na encosta de pinheiros altíssimos. Sentei em minha
cadeira de praia, dando um gole no chá gelado enquanto as
crianças iam na ponta dos pés até o alto de um pequeno cais
rochoso e pegavam peixinhos com uma rede portátil. Elas ficavam
paralisadas como uma estátua, esperando pelo momento certo
antes de afundar a rede na água — tchibum! Bastava um peixe se
enroscar por um instante na rede do pescador, que as crianças
vibravam. Elas comparavam o tamanho de cada peixinho com o do
anterior, davam-lhe um nome e então o colocavam de volta na água,
mostrando-lhe a liberdade.
Espero que façam isso o dia todo, pensei comigo mesma,
abrindo o romance que coloquei de forma otimista em minha bolsa
de praia. “Não... está… funcionando!”, Clara exclamou, frustrada,
com seu corpo de quatro aninhos, rígido, de punhos cerrados. Ela
estava imitando as outras crianças quase perfeitamente —
debruçando-se sobre a água, imóvel, à espera de um sinal de
movimento antes de abaixar a rede para pegar alguma coisa.
Entretanto, sua rede sempre voltava vazia e suas bochechas
ficavam vermelhas de frustração.
Fui até o pequeno cais e me ajoelhei para ver se poderia ajudar.
Imediatamente identifiquei o problema. Sua rede tinha um furo.
“Boas notícias: podemos arrumá-la”, disse, pegando na mão de
Clara e a conduzindo de volta pela areia. Paramos debaixo da área
coberta, onde coletes salva-vidas, brinquedos para a água e
dezenas de boias ficavam guardados em uma pilha gigante e
desorganizada.
“Você não conseguirá pegar um peixe com essa rede furada!”,
disse a ela, trocando a rede que estava usando por uma sem furos.
Clara tomou a rede da minha mão e se virou, correndo direto de
volta para as outras crianças no cais, de volta ao objetivo. Desta
vez, ela seria vitoriosa.
USANDO UMA REDE FURADA Naquele dia no lago, Clara foi
motivada por um forte desejo de pegar peixes. Ela foi inspirada pela
técnica das crianças mais velhas e sentiu o desejo de seguir o
exemplo — executando a mesma postura, as mesmas ações e com
a velocidade correta de passar a rede, baixá-la e levantá-la. Mas ela
não conseguia pegar nem um peixe sequer pois algo mais a estava
impedindo de ter sucesso: sua rede estava furada. E quando temos
uma ferramenta quebrada, a motivação só consegue nos levar até
determinado ponto.
Se a leitura em voz alta é de fato a forma mais eficaz de usar
nosso tempo e energia com nossos filhos, então por que não
fazemos isso com mais frequência? Por que parece tão difícil ler em
voz alta com nossas crianças? Mesmo os pais e mães mais
motivados (estou levantando minha mão aqui) lutam para fazer o
tempo de leitura em voz alta ocorrer com a frequência desejada.
Quando converso com outras famílias acerca da vida de leitura
no lar, tenho percebido uma coisa curiosa. Muitos de nós temos a
motivação de que precisamos. Afinal, desejamos o melhor para os
nossos filhos. Queremos que eles se enxerguem como heróis em
suas próprias histórias, que conquistem o sucesso acadêmico, que
se tornem gentis e compassivos. Não nos falta motivação.
Mas temos uma tendência de complicar demais as coisas. Uma
vez ouvi a Dra. Meg Meeker dizer que muitos pais chegam ao seu
consultório de pediatria preocupados com a autoestima de seus
filhos. Ela diz que esses pais têm todos os tipos de planos para
consertar essa preocupação — matriculá-los em artes marciais, num
curso de natação, em aulas de pintura.2 Colocar os filhos em mais e
mais atividades parece ser a melhor resposta, pois assim a criança
tem mais oportunidade de tornar-se boa em alguma coisa, de se
superar. Mas a doutora Meeker não acredita que essa seja a melhor
maneira de melhorar a autoestima dos filhos.
A criança provavelmente terá uma grande autoestima se acredita
que seus pais gostam dela e desejam passar tempo com ela. Logo,
segundo a Dra. Meeker, a melhor alternativa é passar tempo
desfrutando nossos filhos e comunicando esse deleite com clareza.3
Além disso, ficar com eles é muito mais barato do que os matricular
em aulas e os levar a clubes por toda a cidade. É muito mais fácil
também. Não sei você, mas sacar um baralho de UNO e gastar uma
hora ao redor da mesa jogando cartas e bebendo chocolate quente
com meu filho pré-adolescente é muito mais atrativo do que correr
com a comida para que eu consiga levá-lo até o centro da cidade
para aulas de escalada em uma noite escura de terça-feira.
Essa tendência de complicar demais as coisas que encontramos
na maternidade é uma reação comum para muitas mães. E não é
diferente quando lidamos com a leitura em voz alta.
O que nos impede de ter relacionamentos significativos e
duradouros com nossos filhos não é a falta de motivação ou de
desejo, mas sim nossa infeliz tendência de complicar as coisas.
Essa complicação normalmente acontece por acreditarmos em
cinco mitos sobre compartilhar livros com nossos filhos. Esses mitos
nos impedem de progredir na área que como nenhuma outra
exercerá impacto sobre nossos filhos. Resumindo, acreditamos em
mentiras que transformam o trabalho da maternidade, que já é
difícil, em algo ainda mais difícil do que precisava ser.
Até que possamos ter certeza do que é verdade na vida de
leitura em voz alta em família, toda essa lambança vai ser muito
mais difícil do que precisa ser.
MITO n.º 1: SE DESEJA QUE A LEITURA 
EM VOZ ALTA FAÇA DIFERENÇA, 
VOCÊ PRECISA LER MUITO
Fato: se você se encontra esperando ter trinta minutos livres para
ler com seus filhos, há uma grande chance de que não lerá para
eles com tanta frequência (ou talvez nunca). Muitas distrações
disputam nossa atenção todos os dias, afastando-nos do nosso
trabalho mais importante. Em dias comuns, lido com várias pilhas de
roupa suja, preparo refeições para uma família de oito pessoas,
ensino matemática ao meu filho, corrijo a redação do meu filho que
está no Ensino Médio, organizo a casa um zilhão de vezes, corro
atrás de três crianças pequenas, atendo cinco chamadas
telefônicas, respondo a e-mails, cumpro uma longa lista de afazeres
e trabalho, tento me relacionar com meu marido e levo um filho ao
ortopedista enquanto dou uma passadinha no mercado para
comprar pão e leite. E recomeço tudo de novo.
Uma simples conta pode ser útil aqui. Digamos que eu leia dez
minutos por dia com meus filhos. Apenas dez minutos. Posso
encontrar dez minutos em praticamente qualquer dia, até nos dias
mais cheios. Talvez tenha de deixar de varrer a cozinha, de dobrar
uma pilha de roupas, ou abandonar um dos meus momentos de
bisbilhotar no Facebook, mas tenho certeza de que posso encontrar
dez minutos no meu dia. Se leio por dez minutos todos os dias, terei
lido com meus filhos por sessenta horas ao longo de um ano.
Sessentahoras!
Sempre que alguém me diz para fazer algo “todos os dias”, no
entanto, encontro-me com um novo arsenal de urticária. Use o fio
dental todos os dias. Faça exercícios todos os dias. Ore todos os
dias. Coma verdura todos os dias.
Todos os dias. Essas três palavras sozinhas me enchem de
ansiedade. Como posso acrescentar mais uma coisa à minha
súmula diária? E agora preciso encontrar tempo para ler em voz alta
todos os dias também?
Na verdade, não. E para constar, vou dizer da forma mais clara
possível: Você não precisa ler em voz alta para os seus filhos todos
os dias.
Se leio por dez minutos com meus filhos dia sim, dia não,
teremos mais ou menos trinta e cinco minutos por semana. Factível,
não? Estou respirando um pouco aliviada agora. Consigo me
imaginar lendo em voz alta dia sim, dia não mesmo durante as
férias, mesmo doente por alguns dias, mesmo nas semanas mais
atarefadas durante as finais do basquete, mesmo cheia de trabalho.
Eis onde a realidade fica ainda melhor: dez minutos dia sim, dia
não resultam em trinta e cinco horas de leitura em voz alta ao longo
de um ano. São muitas horas de leitura. Você pode ler As Crônicas
de Nárnia por inteiro ou mais de duzentos livros ilustrados em trinta
horas. Você consegue ler todos os livros da Ramona Quimby, de
Beverly Cleary mais três ou quatro livros de Roald Dahl.
Você não tem trinta minutos para ler com seus filhos? Você não
precisa de tudo isso. Tente dez minutos. Você pode chegar ao treino
de futebol do seu filho dez minutos antes e ler em voz alta no carro
enquanto espera, ou ficar à mesa mais dez minutos para que possa
ler um pouco sobre Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate, ou
Heidi. Coloque as crianças para dormir um pouco mais tarde ou as
acorde para a escola um pouco mais cedo.
Da próxima vez que se pegar pensando que não tem tempo
suficiente para ler em voz alta com seus filhos, pare e diga a si
mesma a verdade. Você pode encontrar dez minutos, e isso é tudo
de que precisa. Mesmo que deseje que a leitura em voz alta faça
diferença, ainda assim você não precisa praticá-la por muito tempo.
Você precisa ler pouco, mas pouco com frequência. Pouca leitura
com frequência se acumula em muita leitura.
MITO n.º 2: A LEITURA EM VOZ ALTA 
SÓ CONTA SE EU MESMA A FIZER
Minha amiga Laura me enviou uma mensagem de última hora:
Estamos prestes a chegar na estrada. Estou com medo.
Laura e seu marido estavam arrumando seus três filhos para
uma viagem até a Chattanooga, Tennessee, e estava preocupada
que seus filhos ficassem grudados nos eletrônicos ou brigando o
caminho todo. Respondi de forma curta e crua, recomendando que
ela baixasse alguns audiolivros. Meu telefone tocou novamente:
Sugestões?
Enviei uma pequena lista de opções que envolvia seus três filhos,
com a esperança de não enlouquecer o marido dela, e então disse
que se ainda não tivessem ouvido Poppy, de Avi, esta seria a
primeira opção.
Foi tudo que ouvi da Laura até que voltaram da viagem uma
semana depois. “Nossa família inteira ficou completamente animada
o tempo inteiro”, disse Laura. O filho de sete anos quase não ficou
agitado, e um dos mais velhos disse, “Não, mamãe! Você não pode
parar agora!” quando pararam para almoçar e usar o banheiro.
“Foi uma loucura. Foi maravilhoso. As crianças nem pediram o
celular ou o tablet”, disse Laura, rindo.
Em algum momento nos convencemos de que audiolivros não
contam como livros de verdade. Alcançamos a mágica das leituras
em voz quando compartilhamos histórias juntos. É a experiência
compartilhada em si que causa o maior impacto,
independentemente se a voz da leitura for a sua, a de seu cônjuge
ou a de um ator profissional narrando um audiolivro. Mesmo
ouvindo, as crianças ainda assim se beneficiam com padrões
linguísticos complexos e corretos, e são inspiradas a serem os
heróis de suas próprias histórias.
E fica ainda melhor. Seus filhos terão os benefícios da leitura em
voz alta com muito mais frequência se não for você que tiver de
sempre ler tudo. Pense em quantos livros a mais você será capaz
de compartilhar com seus filhos desta forma! Você pode colocar os
audiolivros no carro, durante uma refeição, ou enquanto toda a
família ajuda a dobrar uma pilha de roupas (minha maneira predileta
de enfrentar essa árdua tarefa).
Os audiolivros também valem. É óbvio que há algo nostálgico e
emotivo sobre o que uma criança ouve e suas memórias sendo
preenchidas pela voz da mãe ou do pai. Jennifer Trafton, autora da
obra The Rise and Fall of Mount Majestic [A Ascensão e a Queda do
Monte Majestic] e Henry and the Chalk Dragon [Henry e o Dragão
de Giz], disse-me certa vez que a voz de Aslam sempre soará como
a voz de seu pai. Ele passava horas lendo As Crônicas de Nárnia
em voz alta para ela quando mais nova. Lindo, não é? Se você
mesma pode ler em voz alta, então leia! Agora, se você também
incluir audiolivros, acrescentará mais uma forma de leitura em voz
alta, e nesse caso enquanto você faz outras coisas.
A família que aproveita os audiolivros tem muito a ganhar, seja
enquanto reunida, seja com os filhos ouvindo sozinhos. Meu filho,
um leitor tardio, ouviu dezenas de audiolivros ao longo dos seus
sete e oito anos em nossa Hora da Leitura em Silêncio durante
muitas tardes. Enquanto suas irmãs mais velhas liam sozinhas, ele,
por um velho aparelho de som portátil, ouvia audiolivros gravados
em CD da série Redwall enquanto construía seus projetos de
LEGO. Apenas imagine quantos livros a mais ele foi capaz de “ler”
desta forma.
Outro benefício de usar os audiolivros é que eles permitem ao
narrador habilidoso atrair o ouvinte para dentro da história. Você se
lembra da parte do Capítulo 4 em que Rebecca Bellingham lê A Teia
de Charlotte para sua sala? Seus alunos conseguiram se perder no
livro, pois ela fez a difícil tarefa de decodificar as palavras escritas
nas páginas e ler com o ritmo e tom corretos. O mesmo acontece
em nosso caso com os audiolivros. Em inglês, as histórias de Mark
Twain, por exemplo, podem ser difíceis de ler em voz alta quando
não se tem familiaridade com as pronúncias de certos dialetos. Da
mesma forma, a obra de Charles Dickens é primorosa quando lida
por um narrador de sotaque britânico. Entregamo-nos ao privilégio
de nos perder na história quando ouvimos um audiolivro narrado
com maestria.
MITO n.º 3: OS LIVROS MAIS 
“LEVES” NÃO CONTAM
Lembro-me do livro que fez de mim a leitora de verdade que sou
hoje. Já lia sozinha há algum tempo quando me deparei com
Matilda, de Roald Dahl. No entanto, quando terminei de lê-lo, eu já
era um ser humano diferente. Eu queria mais. Estava faminta. De
repente, comecei a ter uma sede insaciável por livros e pelas ideias
e histórias neles contidos. Este é um momento fundamental para
todas nós e geralmente ocorre quando lemos algo leve, agradável e
que nos toma de prazer, não enquanto nos arrastamos para ler um
texto complexo e de difícil compreensão.
A maioria das pessoas que conheço e que se apaixonaram por
livros na infância não se apaixonaram enquanto liam O Cão dos
Baskerville ou a edição integral de As Aventuras de Tom Sawyer ou
The Swiss Family Robinson [A Família Suíça dos Robinsons]. O
amor por estes livros veio mais tarde (se é que veio), mas aquele
amor inicial — aquele momento de transformação quando
passamos de uma criança que quase não lê para uma que lê
vorazmente — geralmente acontece com livros mais leves. Já pedi
para que inúmeros ouvintes do podcast Read-Aloud Revival me
dissessem quais livros fizeram deles leitores, e é isso que me
dizem: Cam Jansen, The Hardy Boys [Os Durões], Nancy Drew, The
Babysitter’s Club [O Clube das Babás]… Seus olhos chegam a
brilhar enquanto se lembram das noites gastas com uma lanterna
debaixo das cobertas, passando pela coleção de Garfield, Calvin &
Haroldo ou revistas da Marvel e DC. Eles me dizem que liam tudo
que conseguissem encontrar de Trixie Belden, cada exemplar de
Nate the Great que pudessem ter.
Claro, afirmar que a leitura mais “leve” é importante e que tem
seu lugar não significa desvalorizar uma leituramais pesada. Os
clássicos — aqueles livros antigos e maravilhosos que passaram
pelo teste do tempo — estão entre as maiores obras literárias já
escritas. Longe de mim minimizar o impacto que tais livros têm
sobre nós como indivíduos e como cultura.
Aquilo com que alimentamos nosso corpo é fundamental, e
aquilo com que alimentamos nossa alma também é essencial. É um
fato para nós, mas ainda mais para os nossos filhos, que estão
descobrindo quem são — e a Quem pertencem — à medida que
crescem.
Porém, por vezes nos pegamos valorizando os clássicos e a rica
literatura a ponto de excluir os outros livros, obras mais leves. Se
nos escondermos quando nossos filhos devorarem os livros mais
leves ou se atentarem à literatura mais suave que lotam nossas
bibliotecas e livrarias, perderemos uma importante percepção.
Livros mais leves têm seu papel especial no crescimento e
desenvolvimento dos leitores mais novos.
Quando tinha doze anos, Audrey não se cansava da série
Cupcake Diaries [Meu Doce Diário], de Coco Simon. Seu nível de
leitura excedia em muito aqueles livros, e me ocorria que ela poderia
estar consumindo alimento mais edificante e nutritivo. Pensei em
dizer a Audrey que deixasse de lado a série e escolhesse algo mais
denso. Fico feliz de não ter feito isso. Cupcake Diaries teve o
mesmo efeito nela que The Babysitter’s Club [O Clube das Babás]
teve em mim quando eu era adolescente. Ela os lia com voracidade,
ganhando fluência e rapidez enquanto descobria que a leitura em si
mesma era agradável. Sua farra com os livros da série Cupcake
Diaries durou pouco tempo e não retardou seu gosto literário de
adolescente mais madura. Hoje em dia, ela mesma provavelmente
pegará para ler Louisa May Alcott ou Jane Austen.
Da mesma maneira, minha filha Allison devorou a série literária
Rainbow Magic [O Arco-Íris Mágico] assim que conseguiu lê-los
sozinha. Eram como doces e deles ela não se cansava. Tenho
certeza de que esses livros a tornaram uma leitora. Lendo muitos
livros fáceis, sua habilidade de ler melhorou e muito — uma
habilidade que a ajudará por toda a vida. Agora, apesar de ainda
estar na adolescência, não raras vezes a encontro lendo livros que
estão muito além do nível típico de leitura de um adolescente. Ela
escolhe clássicos literários por puro prazer. Ler pilhas de livros
fáceis durante aqueles anos iniciais não a prejudicou. Na verdade,
todas essas leituras a ajudaram a consolidar-se como uma leitora de
verdade. E isso pode fazer toda a diferença na vida de leitura de
uma criança.
A maioria de nós fará bem se perceber que todo tempo que
passamos lendo com nossos filhos é um tempo de qualidade,
independentemente se os livros estiverem ou não em uma lista
especial de leitura ou se cumprem ou não cumprem determinado
padrão literário. Às vezes esquecemos da seguinte verdade:
crianças são mais importantes que livros. Os livros são importantes,
mas apenas na medida em que nutrem o pequeno portador da
imagem divina diante de nós.
Trataremos sobre como escolher excelentes livros no Capítulo 9.
Por enquanto, estejamos cientes de que não precisamos limitar
nossos filhos a certos livros. Livros leves contam. Livros difíceis
contam. Clássicos contam. Todos têm seu lugar na tapeçaria da vida
de leitura de uma criança.
MITO n.º 4: MEUS FILHOS DEVEM PERMANECER 
SENTADOS ENQUANTO LEIO PARA ELES
Qualquer um com um filho inquieto sabe que esperar até que ele
se sente para que então possa ler em voz alta é uma causa perdida.
Fico de boca aberta quando percebo que meu filho — aquele que
está envolvendo um grupo de soldadinhos em uma batalha,
plantando bananeira em um canto, ora desenhando, ora brigando
com seu irmão mais novo, depois bebendo um gole de água — é
quem mais se lembra do que lemos em voz alta em nossa casa.
Estudos mostram que para muitas crianças, o envolvimento ativo
em alguma prática com as mãos as ajuda a ouvir melhor. Para
muitas crianças, o ato de se mover enquanto se envolve em uma
atividade cerebral que exige concentração facilita o processo, e não
o anula. Dê aos seus filhos pequenos algo para fazer com as mãos
e, de repente, o cérebro deles fica livre para se concentrar e
aprender.
Perguntei acerca disso ao Dr. Michael Gurian, renomado
conselheiro familiar, fundador do Instituto Gurian, autor de 28 livros
sobre aspectos do desenvolvimento infantil e best-seller do New
York Times. Ele disse que para algumas crianças, a informação
pode penetrar nas profundezas de seu cérebro enquanto elas se
movem com o corpo. Essas crianças escutam melhor quando se
levantam e se movem porque seu cérebro está programado assim.
Logo, não é um problema quando começam a ficar inquietos — na
verdade, para muitas crianças é até melhor! O desejo de se mexer
indica um processamento mais avançado daquilo que escutam
enquanto lemos para elas. O Dr. Gurian diz que, estatisticamente,
esse fator costuma estar mais presente em meninos. Você pode
aprender mais a esse respeito em seu livro Boys and Girls Learn
Differently [Meninos e Meninas Aprendem de Forma Diferente].
Meus seis filhos quase sempre estão fazendo alguma coisa com
as mãos enquanto me ouvem ler em voz alta. Eles brincam com
massinha, pintam com giz de cera ou marcadores, praticam
caligrafia, esculpem com argila, montam LEGOS, fazem crochê —
todos costumam fazer alguma coisa.
Você ficará surpresa quando perceber que seus filhos escutam
por mais tempo, ficam mais concentrados durante a leitura e,
consequentemente, deixam a sua experiência de leitora muito mais
pacífica, se simplesmente tiverem a liberdade de se mexer enquanto
você lê para eles.
Meus filhos, por exemplo, coloriram alguns livros de formas e
mosaicos da editora Dover Publications enquanto eu lia o lindo livro
de Gloria Whelan, Listening for Lions [O Som da Coragem]. Eles
tricotaram com os dedos longos fios coloridos enquanto eu lia sobre
a épica jornada das crianças Sager na Rota do Oregon em On to
Oregon [Em Direção a Oregon], de Honore Morrow! Eles usaram
canetões especiais para encher nossas janelas da sala de jantar
com desenhos enquanto eu lia By the Great Horn Spoon!, de Sid
Fleischman (uma das nossas leituras em voz alta prediletas —
acrescente este na sua lista de leitura com crianças de sete anos
para cima).
Você encontrará listas de atividades que seus filhos podem fazer
durante a leitura em voz alta, a depender da sua idade, nos últimos
quatro capítulos deste livro.
Seus filhos não precisam permanecer sentados e imóveis para
absorver o máximo do seu tempo de leitura em voz alta. Na
verdade, eles podem tirar mais proveito se você deixá-los se mexer
ou rabiscar enquanto lê.
MITO n.º 5: SE NÃO FOR COMO IMAGINEI 
QUE SERIA, DEVO ESTAR FAZENDO 
ALGUMA COISA ERRADA A primeira vez em que tentei tornar a
leitura em voz alta um pilar frequente em nossa vida familiar,
imaginei-me sentada em frente à lareira lendo Robinson Crusoé
enquanto meus filhos se sentavam no chão ao meu redor fazendo
coisas produtivas, inspiradoras e criativas. Talvez talhando em
mármore. Quem sabe costurando uma colcha.
Mas a leitura em voz alta não acontece desta forma na minha
casa. Nos nossos melhores dias, as crianças estão ao redor da
mesa de jantar, usando as mãos para alguma coisa enquanto leio.
Os copos de tinta guache costumam respingar. Alguém chuta a
perna do irmão por baixo da mesa. O filho de três anos decide gritar
a palavra cocô a cada três minutos. (Não? Isso não acontece na sua
casa?) Vendedores batem à porta, desatentos à placa de PROIBIDA
A VENDA. Na hora em que dispenso o vendedor e volto para o meu
assento, já perdi metade da minha audiência.
As famílias que conheço que leem em voz alta com mais
frequência (e, portanto, aproveitam mais dos benefícios) me dizem
que esse tipo de leitura também não parece perfeito na casa deles;
ao que me parece, eles raramente (isso se uma só vez) imaginaram
que seria um momento de perfeição.
As crianças brigam pelas almofadas do sofá. Alguém reclama
que o mais novo está fazendo muito barulho. A criança que está
aprendendo a andar sai correndoe começa a jogar os carrinhos no
vaso sanitário antes mesmo de notarmos que ela sumiu. Um pula a
cada minuto para apontar um de seus lápis coloridos, outro some na
cena mais emocionante do livro. Existem infinitas interrupções e
brigas constantes.
Quando o momento de leitura em voz alta não é exatamente da
maneira que imaginamos, começamos a duvidar que aquela rotina
esteja nos dando algum daqueles maravilhosos benefícios que
discutimos na primeira parte.
Mas eis a questão: mesmo assim, ler em voz alta ainda funciona.
Mesmo quando é barulhenta, bagunçada e mais caótica do que
você gostaria que fosse, sua prática funciona. Mesmo quando as
crianças estão resmungando, reclamando e não parecem estar
ouvindo, sua execução dá frutos. Quando lemos em voz alta para os
nossos filhos, apesar do fato de parecer muito diferente da nossa
visão inicial, estamos dando um passo de fé. Se posso lhe contar
uma coisa neste capítulo, é isto: continue dando esse passo.
Quando visões idealistas surgirem na sua cabeça, quando você
se pegar pensando sobre aquela publicação no Instagram daquela
mãe cujos filhos parecem perfeitamente contentes enquanto ela lê
um clássico por horas: simplesmente pare. Desligue a visão
idealista, pois enquanto lê em voz alta, mesmo quando nada parece
perfeito, você está se entregando. E você nunca se arrependerá.
Você não dirá daqui a vinte anos algo como “Droga, se pudesse
exercer a maternidade outra vez, leria menos para os meus filhos”.
Vale a pena mesmo que não pareça nada com aquela linda foto
de revista. Talvez valha a pena justamente por não parecer nada
com uma foto de revista. Ler em voz alta mais parece com viver,
amar e se entregar. Afinal, é exatamente essa a realidade.
Sou muito parecida com a minha filha de quatro anos, Clara,
tentando pegar um peixe com uma rede furada. Estou motivada.
Estou usando boas listas de livros, colocando meus filhos no sofá,
tentando fazer conexões significativas e duradouras com eles. Mas
acreditar em qualquer um desses mitos é como tentar pescar com
uma rede furada. Não funciona. Faço o trabalho, mas fico frustrada
por não ser como pensei que seria.
Clara só precisava de uma nova rede. Eu, portanto, preciso
trocar minha crença de que preciso ler inúmeras horas em voz alta
pela crença de que um pouco dia sim, outro pouco dia não causará
impacto. Preciso usar os audiolivros em meu favor e tirar vantagem
daquele maravilhoso impulso que pode dar vida à leitura em família.
Preciso dar à minha família a liberdade de ler livros leves, a
liberdade de se mexer, de se virar, a liberdade para nenhuma
criança ficar parada enquanto leio. Acima de tudo, preciso entender
que mesmo quando tudo vai contra as minhas expectativas, ainda
assim o momento como um todo é de qualidade. Mesmo assim vale
a pena. Apesar dos pesares, a leitura em voz alta ainda causará
impactos de uma forma que eu dificilmente imaginaria.
 
CAPÍTULO
8
Prepare-se para o sucesso Para que tenham vontade de
ficar em casa com os livros, nossos filhos precisam de um lar que ama livros.
— Elizabeth Wilson, Books Children Love [Livros que as Crianças
Amam]
Estávamos num dia de primavera excepcionalmente quente e eu
não tinha nenhuma intenção de deixá-lo escapar. Peguei o romance
juvenil de Jennifer Trafton, The Rise and Fall of Mount Majestic, um
pacote de picolés no congelador e disse aos meus filhos que me
encontrassem em uma toalha de piquenique no quintal em cerca de
três minutos.
Os pequenos foram direto para a porta, prontos para aproveitar
uma festa surpresa à tarde. Acomodei-me na toalha, abri os picolés
e logo chamei os mais velhos outra vez: “Vamos pessoal! Momento
de leitura em voz alta!”.
“Tô indo!”
“Já vou!”
“Chegando!”
Clara derrubou seu picolé na grama e começou a espernear.
Peguei o picolé e corri para limpá-lo na torneira da cozinha,
observando pedacinhos de grama e sujeira escorrerem pelo ralo.
“Vamos criançada! Toalha da leitura em voz alta! No quintal!
Agora!”, eu disse.
Ouvi um barulho de papéis vindo do escritório e o ruído do
apontador elétrico.
“Estamos chegando, mamãe! Só estamos pegando algumas
coisas para fazer!”
Voltei bufando para o quintal, percebendo que os picolés dos
outros já estavam quase no fim. Eles haviam chupado pela metade,
com aquele líquido grudento escorrendo por seus braços. Emerson
segurou seu picolé derretido por cima da cabeça de seu irmão só
para provocá-lo, olhando calmamente o suco vermelho que reluzia e
fazia seu caminho com vagar até a orelha esquerda de seu irmão.
Becket começou a espernear enquanto sentia aquele líquido
grudento escorrer.
Até que enfim os três mais velhos se jogaram na toalha de
piquenique, mas não antes que os gêmeos reclamassem dos dedos
pegajosos.
“Vá pegar lenços umedecidos, por favor”, disse ao mais velho. O
celular, que estava no meu bolso de trás, vibrou com uma
mensagem do meu marido: “você pode me passar a nova senha do
cartão, por favor? Estou tentando pagar algumas contas”. Logo em
seguida a campainha tocou e os três menores pularam para ir ver
quem era.
Ri para não chorar diante de todo aquele absurdo. Não era para
ser fácil? Não era para ser divertido? Como esse negócio de leitura
em voz alta me ajudaria a criar laços profundos e para todo o
sempre com meus filhos?
No capítulo anterior, destruímos o mito de que o período de
leitura em voz alta precisa ser como um dia já imaginamos. A
realidade é que ele não parece nada com as nossas expectativas,
ao menos não agora. Mas a leitura em voz alta pode ser mais
pacífica — ou, no mínimo, menos caótica do que a experiência que
acabei de mencionar — se nos preparamos para o sucesso.
O que sei é o seguinte: o estilo de vida permeado de leitura em
voz alta não existirá em nossos lares por acidente. Você e eu —
pais em um mundo frenético, cheio de distrações — precisamos
tornar a leitura em voz alta uma parte cotidiana, um momento
proposital da nossa vida em família.
Precisamos de algumas estratégias para nos ajudar a fazer com
que o tempo de leitura em voz alta seja mais frequente, bem como
estratégias para nos ajudar a aproveitar esses momentos em
família. Sabemos que são momentos importantes — e sabemos
muito bem! —, mas não queremos transformá-lo em mais um item
de nossa lista de afazeres, mais uma tarefa que causa receio,
amontoada em uma programação já lotada. Também precisamos de
estratégias para lidar com as telas, pois todos nós enfrentamos um
tremendo competidor do tempo e da atenção de toda a família.
Precisamos nos preparar para o sucesso.
LIÇÕES FOTOGRÁFICAS
Foi um presente do meu aniversário de trinta anos e eu estava
com medo dele. É claro que gosto de fotografar — e quem não
gostaria de aprender a tirar fotos maravilhosas quando está prestes
a surgir mais um recém-nascido na casa? Mas uma câmera DSLR é
um presente de aniversário caro, então a recebi com um misto de
deslumbramento e pavor. Como vou aprender a usá-la? E se meu
talento e habilidade nunca chegarem ao nível desse equipamento?
Com certeza meu marido se arrependeria de ter comprado algo tão
caro. É claro que eu poderia aprender a fotografar em uma câmera
muito mais barata do que aquela bela máquina.
Agradeci Andy pelo presente e então peguei todos os livros sobre
fotografia que pude encontrar na biblioteca. Li a respeito de como
tirar fotos estáticas, fotos de movimentos, fotos de bebês. Aprendi
sobre abertura, efeitos bokeh e função ISO. Acompanhei um trilhão
de blogs de fotografia e até fiz um curso on-line. No ano seguinte,
aprendi a usar a câmera — não como uma profissional, mas talvez
como uma amadora entusiasta. Aprendi a não ter medo. Achei meu
ritmo e aquele acabou sendo o melhor presente de aniversário que
já recebi.
Naquele ano, percebi uma coisa: mesmo lendo sobre técnicas
fotográficas, eu não aprendi de verdade até deixar a teoria, pegar a
câmera e ir ao quintal da frente para praticar fotografando meus
dentes-de-leão. Foi quando comecei a usar melhor o obturador que
percebi uma verdadeira melhora em minhas fotos.
Acontece que a experiência é o melhorprofessor. Quanto mais
eu pegava minha câmera, melhor ficava. Todas aquelas coisas
obscuras que estava lendo nos livros, tipo “sombra aberta” e
“iluminação facial” começaram a fazer sentido, mas só começaram a
fazer sentido quando eu dei pernas e braços à teoria. Precisei
começar a fazer para de fato alcançar os benefícios da prática.
Vídeos do YouTube, tutoriais on-line e pilhas de livros podiam me
levar apenas até certo ponto.
Naquele ano, minha câmera estava sempre por perto. Para mim,
não era natural fotografar com constância. Minha primeira reação
não era fotografar assim que a luz entrava pela cozinha ou quando
um tom dourado banhava o quintal.
Ao invés disso, tive de me preparar para o sucesso. Tive de
tornar fácil pegar minha câmera e começar a fotografar antes que
visse qualquer verdadeira melhora em minha fotografia.
FACILITE
A maioria de nós deseja ter relacionamentos significativos e
duradouros com os filhos. Se você já leu até aqui, estou disposta a
apostar que você também deseja o mesmo. Também estou disposta
a apostar que você sabe que a melhor maneira de ter
relacionamentos assim é abrindo um livro com seu filho.
Parece simples, não? E que alívio é saber que por mais
opressora e intimidadora que a maternidade possa parecer, a
melhor maneira de obter sucesso é simplesmente sentar-se com
seus filhos e ler algumas páginas de um livro.
E uma coisa é certa: se não tornamos a leitura em voz alta uma
prática fácil — se não nos preparamos para o sucesso —, nada
acontecerá. Se eu não colocar a câmera no balcão da cozinha e
deixar a bateria carregada, provavelmente não fotografarei tanto
quanto gostaria, e se não der alguns passos estratégicos para tornar
o momento de leitura em voz alta uma prática simples,
provavelmente não lerei com meus filhos tanto quanto gostaria.
Se não é nossa prática pegar um livro e começar a lê-lo com
nossos filhos, então podemos ser intencionais em tornar essa
prática um hábito, e assim nos preparamos para o sucesso.
Podemos facilitar a leitura em voz alta com mais frequência.
Torne a leitura em voz alta uma prática acessível Quando descobri
que fotografar mais era a chave para melhorar nessa área, percebi
que precisava tornar o ato de pegar minha câmera algo mais
habitual. Não estabeleci um alvo de quantas vezes por dia deveria
fotografar, ou de quantas fotos gostaria de tirar por semana. O
método que escolhi foi muito mais simples: deixar minha câmera
onde a veria com frequência e pegá-la no momento que
conseguisse.
Todos os dias passo pelo balcão da cozinha inúmeras vezes. É
por isso que a pilha de coisas do meu marido no canto da cozinha
(que eu carinhosa, passiva e agressivamente chamo de estação de
entulho) me deixa louca. Olho para aquela montanha o dia inteiro. O
balcão da cozinha é, provavelmente, o lugar mais ocupado e
frequentado em toda a nossa casa. É onde fico para preparar as
refeições, onde junto minhas ideias, passo para a próxima tarefa,
abro correspondências, corrijo lição de casa, assino formulários de
permissão da escola dos meus filhos. É minha central de comando.
Se eu deixar o livro que estou lendo em voz alta
estrategicamente sobre a bancada, há uma grande probabilidade de
que o verei um zilhão de vezes ao longo do dia. Há também a
probabilidade de que, mais cedo ou mais tarde, eu acabe decidindo
lê-lo em voz alta.
Sabe quando você está tentando ter uma alimentação mais
saudável e já deixa os vegetais picados dentro dum potinho na
geladeira? Se a primeira coisa que vejo quando abro minha
geladeira é um monte de cenouras picadas, é maior a probabilidade
de pegá-las para comer quando estou ansiosa por um lanche.
Nossos livros de leitura em voz alta dificilmente são como
cenouras cortadas (pois é, né?), mas a mesma ideia se aplica:
mantenha seu livro para leitura em voz alta num local acessível,
facilite o acesso. O que você quer é vê-lo com frequência. Desta
forma, você recebe um lembrete constante de que é algo que você
deseja fazer hoje.
Coloque alguns livros para leitura em voz alta no balcão da
cozinha pela manhã, e veja se isso não a inspira a ler com um
pouco mais de frequência do que se os livros estivessem
escondidos, organizados de forma alfabética na estante ou
organizadamente guardados em uma caixa debaixo da mesa na
sala. Coloque seus livros em frente e no centro do balcão.
Mantenha-os acessíveis. Assim não terá de sair do seu percurso
quando for o momento para ler em voz alta, pois os livros estarão
bem ali.
Faça dessa prática algo fixo do seu dia Os hábitos são hábitos
justamente porque acontecem sem que pensemos neles. Não há
uma decisão quando se trata de um hábito. Todas as noites quando
estou me preparando para dormir, ligo minha luminária de cabeceira
e desligo a luz do teto. Não preciso pensar nisso, simplesmente faço
quando entro no meu quarto a caminho do banheiro para lavar meu
rosto e escovar os dentes. Quando desço pela manhã, não fico lá
decidindo se preciso tomar café (imagine só!). Apenas ligo a
cafeteira. É um hábito.
Se você está convencida de que ler em voz alta com seus filhos
é uma prática digna do seu tempo, então a maneira mais simples de
fazer isso acontecer com mais frequência é transformá-la em um
hábito. O jeito mais fácil que conheço de transformar a leitura em
voz alta num hábito é relacionar a prática a alguma outra coisa que
acontece todos os dias.
Se você anexar a leitura em voz alta a algo que já faz todos os
dias, a probabilidade de que fará aquela leitura vai repentinamente
subir pelas paredes.
Melissa Wiley, autora de vários livros, inclusive do alegre
romance juvenil The Prairie Thief [O Ladrão da Campina], disse que
quando seus filhos eram mais novos, ela queria ler poesia com eles.
Mas era difícil encaixar a leitura em sua rotina; semanas se
passavam e eles acabavam não lendo nem mesmo uma única
estrofe. Certo dia, no entanto, ela percebeu que seus filhos
apareciam com certa frequência para o café da manhã, então ela
bolou um plano. Eles começaram a ler poesia juntos enquanto
tomavam o café da manhã, e foi aí que Melissa percebeu que eles
passaram a de fato ler com mais frequência. A prática só se tornou
hábito quando a família começou a ler durante o café da manhã. Foi
daí que se tornou costume. Eles passaram a ler poesia em família, e
de outra forma não leriam com aquela frequência.
Jamie Martin, autor do fabuloso livro Give Your Child the World,
incorporou a leitura em voz alta à hora do jantar. Enquanto acabava
de fazer o jantar, seu marido lia para as crianças ao redor da mesa
para ajudá-los a se desligar das atividades do dia e acalmá-los.
Então Jamie arrumava os pratos do jantar e todos comiam e
conversavam sobre como foi o dia. Jamie e seu marido (ou quem
acabasse primeiro o jantar) mais uma vez pegavam o livro e o liam
de dez a quinze minutos. A hora do jantar já era um hábito na casa
de Martin, então acrescentar a prática de ler em voz alta fazia
sentido. Isso tornou a leitura em voz alta mais frequente.
Refeições são um bom fixador, pois são diárias. Além disso,
costuma ser fácil convencer as crianças a aparecer quando há
comida envolvida. Como um bônus, a boca de todos está cheia,
então o barulho pode ser mantido no mínimo (a menos que você
tenha crianças de um a três anos, é claro; neste caso, as refeições
talvez sejam os piores momentos do dia para ler em voz alta). Você
pode decidir o que funciona ou não para cada época da sua família;
sinta-se livre para mudar quando necessário.
Considere qualquer coisa que acontece com frequência na rotina
da sua família. O trajeto até a escola? A ida ao treino de basquete?
Uma pilha enorme de roupas para passar? Insira uma breve sessão
de leitura em algo que já acontece regularmente na vida de sua
família e você descobrirá que é muito mais fácil ler em voz alta,
mesmo nos dias mais ocupados.
Quanto mais cedo, melhor Durante um inverno, quando meus filhos
mais velhos tinham nove, sete e cinco anos, descobri que era muito
mais fácil tirá-los da cama quentinha se soubessem que
começaríamos o dia com uma leituraem voz alta. Levantávamos e
saíamos cambaleando para a cozinha, cada um enchia uma xícara
com café, chá ou chocolate quente antes de nos reunirmos nos
sofás e então nos enfiávamos debaixo das cobertas e dávamos as
boas-vindas ao dia com uma história. Naquele inverno, lemos O
Mágico de Oz, Caddie Woodlawn, e Justin Morgan Had a Horse
[Justin Morgan Tinha um Cavalo]. Estas são algumas das minhas
lembranças prediletas daquele ano: logo cedo pela manhã o dia já
nos aconchegava com boas histórias.
Tivemos mais alguns filhos e, desde então, paramos de ler em
voz alta antes do café da manhã, mas ler logo cedo pela manhã
continuou sendo o padrão de ouro para mim.
Sou uma mãe que fica mais descontraída e simpática se consigo
fazer as coisas mais importantes do dia logo pela manhã. Mesmo se
o restante do dia der errado, fico feliz que conseguimos fazer as
coisas mais importantes. Além do mais, tendo a aproveitar mais os
livros (e fico mais disposta a ler mais) se conseguimos ter o nosso
momento de leitura em voz alta antes que eu fique cansada.
Registre seu progresso Eu particularmente reluto para oferecer essa
estratégia. Por quê? Pois quando enxergo uma necessidade de
mudança em meu método de maternidade tendo a mudar tudo e
fazer grandes planos. Por exemplo, se decido que precisamos
passar mais tempo ao ar livre, então busco meios de estudar a
natureza, faço uma lista de possíveis locais para visitar e reorganizo
todo o meu calendário para dar espaço a uma caminhada semanal.
Ou se vejo que não estou lendo minha Bíblia com a frequência
esperada, logo crio uma tabela, me proponho a acordar antes do sol
nascer para ler meu devocional e crio um rigoroso plano de leitura
bíblica.
Apesar dos meus esforços, no entanto, meus métodos raramente
funcionam por muito tempo. Tendo a manter minha nova resolução
por um ou dois dias e por fim acabo desistindo. Por isso, fico
hesitante em sugerir que “registre seu progresso” como estratégia.
Quando sinto que meus filhos precisam ficar mais tempo ao ar
livre, o melhor que posso fazer é naquela hora dizer a eles que
coloquem um calçado e levá-los para dar uma caminhada. Quando
não gasto tempo suficiente na Palavra, o melhor a fazer é pegar na
hora minha Bíblia e gastar dez minutos lendo meu evangelho
predileto (só para constar, João).
Se estiver frustrada por não conseguir ler em voz alta com seus
filhos com mais frequência, o que você provavelmente precisa fazer
é, naquele exato momento, pegar o filho que estiver mais próximo e
escolher um livro que esteja na estante mais próxima. E então leia
por dez minutos.
Estou falando sério. Tem um filho dando sopa? Faça um teste
agora. Vou aguardar.
Viu? Você é uma mãe que lê em voz alta. Você não precisa de
um quadro ou de um plano. Você só precisa de dez minutos e
vontade suficiente para deixar a próxima tarefa da lista para depois
enquanto gasta alguns minutos investindo naquele serzinho que
significa o mundo para você.
Sei que existem almas que amam e são motivadas por listas de
afazeres. Sou uma delas. Por isso, estou sugerindo esse plano
como uma estratégia contra o meu melhor julgamento. Consigo
sentir a adrenalina ao marcar um X no calendário ou no quadro de
casa quando completo uma lista, quando consigo ver o progresso.
Contam que Jerry Seinfeld ensinava um jovem comediante a
como melhorar suas piadas. Quando o humorista, ainda em
aprendizado, pediu a Seinfeld o seu melhor conselho, Seinfeld lhe
disse: “Escreva piadas novas todos os dias. Marque um grande X no
seu calendário quando escrever uma piada nova”. Ou seja, ele falou
ao comediante para que visse quantos X seguidos conseguiria
marcar, tornando aquilo um objetivo de manter o ritmo.
A lista de afazeres dentro de nós pode fazer o mesmo com a
leitura em voz alta. Podemos fazer um X no calendário para cada
dia que lemos em voz alta com ao menos um dos nossos filhos por
dez minutos ou mais. Na verdade, você pode baixar de graça e
imprimir um calendário específico para este propósito em
ReadAloudCalendar.com. Eu mesma mantenho esse calendário
anual na minha geladeira e sempre que leio por dez minutos ou
mais (com qualquer um dos meus filhos) marco um X. Meu
calendário não é infalível, mas pouco importa. Ao final de cada ano,
vejo todos aqueles X no calendário me olhando de volta e sei que
eles acumulam — que o tempo foi bem gasto, que sou uma mãe
que lê em voz alta mesmo que não todos os dias. Isso me faz
lembrar de que as pequenas coisas importam, que dez minutos por
dia se acumulam e tornam-se horas e anos — uma vida gasta
fazendo a coisa mais importante.
Crie uma estante de livros que você pretende ler em voz alta O
quarto mito que desmistificamos no capítulo anterior foi o seguinte:
as crianças precisam permanecer sentadas enquanto lemos para
elas. A verdade é que não precisam. Muitas crianças escutam bem
mais quando estão inquietas ou se mexem de cá para lá enquanto
se concentram. Aposto que você já sabe quais dos seus filhos mais
se beneficiarão com as mãos ocupadas enquanto você lê para eles.
Na minha casa, todas as crianças tendem a fazer alguma coisa
enquanto leio em voz alta. Alguns precisam disso mais do que
outros, mas mexer e rabiscar enquanto ouvem é uma prática
comum em nosso lar.
Contudo, manter não mais que uma lista mental daquilo que seus
filhos podem fazer enquanto você lê em voz alta não é o suficiente.
Lembra-se da minha experiência com os picolés e meus filhos mais
velhos que estavam demorando h-o-r-a-s para vir ao momento da
leitura em voz alta? Ter um espaço apropriado e de fácil acesso
torna o momento de leitura em voz alta mais propício. É frustrante
olhar para o relógio e perceber que tenho no máximo vinte minutos
para encaixar um tempinho de leitura em voz alta antes que
precisemos correr para o dentista ou preparar o jantar; daí então eu
gasto metade desse tempo esperando por meus filhos. Enfim, acaba
se tornando uma experiência de leitura em voz alta curta, cansativa
e frustrante.
A minha solução para essa dificuldade é montar uma estante de
livros que pretendo ler em voz alta. Também pode ser uma gaveta,
um armário, uma caixa, a depender da quantidade de espaço. Na
minha estante de livros que pretendo ler em voz alta tenho um
conjunto de gavetas organizadoras (do tipo usado em escritório) e
um porta-revistas. Cada criança tem uma gaveta para guardar
projetos em andamento. Se estiverem no meio de um desenho,
pintura, ou usando um caderno de caligrafia, eles, por exemplo,
podem guardar o trabalho em progresso em sua própria prateleira.
Meu porta-revistas fica cheio de atividades acessíveis. Um só
porta-revistas comporta vários manuais de desenho, rascunhos e
lápis apontados. Quando chega o momento de ler em voz alta, tudo
que preciso fazer é pegar o porta-revistas e chamar as crianças
para a mesa. Esse planejamento nos faz começar o nosso momento
de leitura em voz alta muito mais rápido e de forma menos
atrapalhada. Outro porta-revistas guarda papéis para pintura e potes
de tinta/pincéis, manuais de cortes com tesouras para a pré-escola
e plásticos com adesivos reutilizáveis usados, etc. Apenas pegue
qualquer objeto que esteja planejando deixar seus filhos manusear
durante o período de leitura em voz alta e os agrupe proposital e
estrategicamente para uso rápido e fácil.
Talvez você queira dar a cada filho seu próprio porta-revistas. Por
exemplo, minha filha mais velha enche o dela com folhas de
caligrafia, exercícios e canetas para caligrafia. Meu filho de doze
anos prefere encher o seu com origamis e materiais para fazer
aviões de papel. Com esse preparo, você (e seus filhos) não
perderá o seu precioso tempo de leitura em voz alta planejando
distrações ou tentando pensar no que fazer.
Aproveite as vantagens de um público cativo Como já falamos no
Capítulo 7, os audiolivros são, sim, válidos. O carro é um excelente
lugar para ouvir audiolivros. Semanalmente, acabamos lendo
bastante em voz alta durante nossas viagens de 35 minutos até o
instituto de apoio voltado ao ensino domiciliar; apesar disso, o
trajeto ficamuito mais divertido quando ouvimos audiolivros juntos.
Quando ouço a série Little House lida por Cherry Jones (um
queridinho de nossa família), imediatamente penso nas longas
viagens ao longo da Interestatal 90 no estado de Washington
durante o ano em que mudamos de um lado do estado para o outro.
Na minha opinião, os infindáveis campos de trigo de Washington
casam perfeitamente com o violino de Pa, com as descrições
angustiantes de Laura em O Longo Inverno e com o concurso local
de soletração.
Dentro do carro, seus filhos basicamente se tornam uma
audiência cativa. Se os seus (assim como os meus) tendem a brigar
em viagens de carro, você descobrirá que os audiolivros são um
alívio bem-vindo. De qualquer forma, você fará mais leituras em voz
alta se aproveitar o tempo que já está gastando no carro
desfrutando um livro em família.
Livros espalhados por todos os quartos Pesquisas indicam que
crianças que vivem em lares onde há abundância de livros se
beneficiam da simples presença dos livros. O fato de estarem lá
exerce efeito positivo e duradouro sobre nossos filhos — na forma
de pensar sobre o lar, na forma de pensar sobre si mesmos, na
forma de ver o papel dos livros.
Como uma família escolhe gastar dinheiro diz muito sobre quem
são e sobre o que valorizam. Se deseja que sua família seja uma
família leitora, considere deixar os livros fazerem parte do seu
orçamento familiar. Você pode comprar livros por um bom preço em
vendas de bibliotecas, sebos e bazares. Você não precisa encher
suas prateleiras de uma vez. Ter apenas alguns poucos livros
maravilhosos é melhor do que colecionar pilhas e mais pilhas de
livros simplórios e que ninguém sente vontade de ler. Você também
pode adquirir o hábito de comprar um livro para o seu filho a cada
feriado ou aniversário, integrando os livros à celebração em família.
Dar uma mesada aos filhos para ajudá-los a aumentar a coleção na
estante. Uma vez por mês, os meus filhos recebem determinado
valor para o gasto com livros. Meus filhos ficam ansiosos para voltar
à livraria e mantêm listas de títulos que gostariam de adquirir. Allison
ama a qualidade de brochuras da Bloomsbury; então, quando
encontra outro livro da série Wide-Awake Princess [O Despertar da
Princesa], de E. D. Baker, ela usa sua mesada de livros para
comprá-lo (mesmo que já o tenha lido). Audrey usou sua mesada
para formar uma linda coleção da Lucy Maud Montgomery. Ela está
sempre à procura de clássicos com lindas capas e projeto gráfico
exuberante para adicionar à sua bela prateleira. Dois dos meus
filhos literalmente contam os dias todas as vezes que Brandon Mull
está prestes a lançar outro romance fantástico. Eles nem tentam
pegar emprestado da biblioteca, pois já sabem que querem tê-los na
prateleira, para lê-los e relê-los. Estes livros, comprados com seu
próprio dinheiro e organizados em suas prateleiras, tornam-se parte
de preciosas coleções pessoais. Quando forem adultos e saírem de
casa, todos levarão embora formidáveis bibliotecas; bibliotecas que
os ajudarão a lembrar quem são e de onde vieram, mesmo muito
depois de terem deixado o lar.
Passamos uma imagem clara aos nossos filhos quando
gastamos parte de nosso orçamento familiar com livros e quando
damos aos livros um espaço prioritário em nosso lar. Comunicamos
que os livros são fundamentais, que fazem parte de quem realmente
somos, que cada obra é um pedaço da cultura do nosso lar.
O CANTO DA SEREIA DAS TELAS
Eu costumava levar meu iPhone para cama. Dizia a mim mesma
que o estava usando como um alarme, o que era verdade. Eu o
colocava em meu criado-mudo e entrava debaixo das cobertas,
pegava meu livro, ajeitava os travesseiros e lia um ou dois
parágrafos. E então me lembrava. Daí logo ia olhar minhas
notificações! Só dar uma olhadinha no celular!
Trinta minutos depois, me pegava navegando no Instagram sem
nem me lembrar de ter aberto o aplicativo. Ficava frustrada por ter
usado tanto tempo de leitura para mexer na internet. O celular
deveria ser não mais que um alarme!
Sou uma mulher de 36 anos, considero-me leitora, faço planos
de leitura e tenho uma lista de livros não lidos de mais ou menos um
quilômetro de altura. Meu desejo é conseguir ler muitas páginas
todos os dias, e ainda assim dificilmente consigo resistir ao canto de
sereia das telas. Meu celular pode ficar no silencioso, no modo
vibrar ou mesmo permanecer em modo avião no criado-mudo, e
mesmo assim sinto minha atenção sendo desviada para ele.
Se esta é a minha experiência sendo uma mulher adulta, quanto
mais sedutoras as telas não são para os nossos filhos? Quanta
tentação eles não acabam encarando quando se sentam com um
livro ou qualquer outra coisa menos atrativa, viciante ou chamativa
do que as telas?
As telas são parte da nossa vida moderna e para a maioria de
nós estão aqui para ficar. Conheço famílias que proíbem dispositivos
e telas em seu lar, e se este é o seu caso, o restante deste capítulo
não o ajudará muito. Mas se você, assim como eu, deseja ajudar
seu filho a aprender como navegar em um mundo de telas de
maneira saudável, permitindo o uso moderado de tecnologia e
dispondo tempo abundante para os livros, então continue lendo.
O Dr. Daniel Willingham compara o livro a uma melancia:
suculenta, doce, deliciosa. Seus filhos adoram uma boa fatia de
melancia, eles se deliciam com a deliciosidade daquele pedação
suculento, docinho e gelado num dia bem quente. Agora, se o seu
filho tiver de escolher entre um doce e uma fatia de melancia, ele
certamente escolherá o doce.
Aqui é onde entramos como pais. De vez em quando, podemos
oferecer doce (as telas) para os nossos filhos, mas não deve ser
uma opção constante. A melancia (o livro) é em si um doce delicioso
e nutritivo, desfrutado com mais prazer quando não somos tentados
por guloseimas. Ao tirar as guloseimas da mesa em alguns
momentos, aliviamos dos nossos filhos o peso da escolha. A
liberdade que damos aos nossos filhos para que desfrutem da
melancia surge quando anulamos a escolha de comer o doce.
Estabelecendo limites para as telas Em vez de estabelecer alguns
momentos do dia em que as telas não são uma opção, estabeleça
alguns momentos no dia em que são. O segredo é inverter a ordem.
Se proibir as telas em determinados horários, na verdade você
estará abrindo o restante do dia para seu uso. Mas tente inverter
esse padrão, tornando as telas exceção, não regra.
Conheço famílias que permitem o uso das telas apenas das 14h
às 16h, ou das 19h às 20h, por exemplo. No restante do tempo, a
regra é: “Sem telas — nem peça”.
Para o pai cansado de ouvir “Posso assistir...?” ou “Posso
jogar…?” ou de ver o filho adolescente conversando com os amigos
pela internet e usando as redes sociais sem parar, este é um alívio
mais que bem-vindo.
Se, por exemplo, a regra é “sem telas”, a não ser das 18h às 20h,
então nossos filhos estão livres do desejo de lidar com as telas
antes das 18h, pois sabem que não adianta nem tentar, que não
poderão usar e então partem para outra atividade.
Considero regras como essas úteis para refrear também o meu
próprio uso das telas. Apenas você poderá decidir quando e quanto
tempo é apropriado para que seus filhos tenham a opção de usar as
telas. Mas veja bem: quando passa a permitir as telas, você
basicamente pergunta se eles preferem uma fatia de melancia ou
um doce. Não espere que seu filho escolha a melancia quando o
doce der as caras. Nossos filhos dificilmente lerão se tiverem
infindáveis oportunidades de ir às telas. Faz parte da natureza
humana escolher o que requer menos esforço — quase sempre
sinônimo de uma tela.
Limitar o uso das telas abre portas para muitas outras atividades
— leitura (ao menos é o que espero), jogar bola, andar de bicicleta,
atividades artesanais, jogos de tabuleiro, lição de casa, conversas
longas e prazerosas, estreitar laços, ajudar com as tarefas de casa.
Mantenha as telas em seu devido lugar, limite-as a determinados
horários e não as deixe descontroladas nas mãos do seu filho.
Nossos momentos de leitura em voz alta provavelmente nãoserão como imaginamos em nossos sonhos mais idealistas. Não é
por acidente que passamos a ter um estilo de vida envolto pela
leitura em voz alta, leitura com prazer e deleite. Mas se nos
prepararmos para o sucesso, aumentaremos a chance que temos
de nossos filhos, no futuro, considerarem as lembranças da leitura
em família como uma das mais queridas.
Mantenha por perto o livro que você estiver lendo em voz alta
com seus filhos, relacione o momento de leitura em voz alta com
algum hábito do seu dia e simplesmente leia o mais cedo possível.
Se quiser, registre seu progresso e torne acessível o momento de
leitura em voz alta criando uma estante com os livros lidos e
pendentes e com materiais de atividade para seus filhos. Sempre
que possível, tire vantagem da audiência cativa no carro e tome
cuidado com as telas. Lembre-se de não esperar que o seu filho
escolherá a melancia no lugar do doce.
Agora, você só precisa encontrar um livro que manterá todos
envolvidos. Trataremos disso a seguir.
 
CAPÍTULO
9
Seja uma casamenteira literária Estou prestes a
estabelecer como canônico o fato de que uma história infantil apreciada
apenas por crianças é uma história infantil ruim. As boas perduram.
— C. S. Lewis, “Três Maneiras de Escrever para Crianças”
Quando os meus três filhos mais velhos eram pequenos, eu mal
podia esperar até conseguir ler romances juvenis para eles. Eu
gostava de usar livros ilustrados, mas foi essa literatura que me
transformou em uma leitora na minha juventude. Os livros de
Beverly Cleary, Roald Dahl e Lois Lowry foram os que instigaram a
minha imaginação infantil e fizeram de mim uma amante de livros.
Eu mal podia esperar para introduzir histórias e personagens já
queridos aos meus filhos.
Quando meus filhos mais velhos tinham cinco e três anos, eu,
entusiasmada, já quis introduzir nosso primeiro romance juvenil,
mas ainda era cedo demais. Decidi começar com o padrão de ouro
da literatura infantil. E qual mais seria senão Uma Casa na Floresta?
Tivemos problemas. Meus filhos não acompanharam o enredo,
nem aquelas passagens longas e descritivas. Fiquei entediada e, no
final, sentime um fracasso, pois estávamos lendo nosso primeiro
romance juvenil — uma joia literária, nada menos que isso — e
estava sendo horrível.
O que descobri depois daquela experiência desanimadora é que,
em se tratando de leitura em voz alta, nem todos os livros são
iguais. Eu ainda não havia desenvolvido minhas habilidades dessa
prática bem o suficiente para transmitir aquelas passagens tão
arrastadas e descritivas de maneira interessante. Minhas meninas
não tinham o costume de criar imagens mentais e seguir uma longa
narrativa. Por fim, acabei frustrada e desencorajada num momento
crítico da nossa jornada de leitura em voz alta.
É claro que Laura Ingalls Wilder escreveu alguns dos melhores
livros infantis já publicados, e desde aquela primeira tentativa
acabamos lendo sua série completa três vezes — a maior parte das
vezes pela versão em áudio narrada por Cherry Jones. Mas eu
aprendi uma importante lição naquele primeiro fracasso: alguns
livros são mais oportunos para leitura em voz alta, enquanto outros,
ainda que de fácil entoação, são mais propícios para momentos
futuros. Também aprendi que o prazer pessoal (ou a falta dele)
exerce um papel importante na vida de leitura em voz alta da minha
família.
Queremos que nossos filhos leiam por amor à leitura, e não só
porque conseguem ler. Sabemos que eles não usarão muito do
tempo livre para ler, a não ser que tenham prazer no ato da leitura.
Nossa expectativa, portanto, é que eles desenvolvam um gosto
pelos livros por puro prazer. Essa alegria, é claro, começa com os
próprios livros. Neste capítulo, começaremos com um objetivo em
mente: como tornar-se a casamenteira literária da nossa família.
O PROPÓSITO DE UMA 
CASAMENTEIRA LITERÁRIA Ouvintes do podcast What Should I
Read Next? [O que ler depois?] já logo reconhecerão a ideia de
casamenteira literária. Anne Bogel, fundadora e apresentadora do
podcast, por vezes faz justamente esse papel com sua audiência.
O método da Anne é simples. Ela pede ao convidado do
programa que faça uma lista de livros que ama, mencione um de
que não gostou e cite o que está lendo no momento. Sabendo disso,
ela recomenda três livros que o convidado provavelmente irá gostar.
E se nos tornássemos casamenteiras literárias para os nossos
filhos? E se eles soubessem que a mãe deles pode indicar bons
livros? Não o que devem ler para ler melhor, ou para ter uma
compreensão mais aguçada, ou para atingir algum requisito
acadêmico, mas sim o que devem ler pelo mais puro
deslumbramento diante da palavra escrita. Afinal, adultos que de
fato leem — digo, ler por prazer, como um passatempo —, leem
aquilo que traz alegria.
POR ONDE COMEÇAR
Quando se trata de escolher grandes livros para a leitura em
família, o primeiro passo é simplesmente saber por onde começar.
Você pode se sentir despreparada para escolher livros preciosos e
excelentes. Você não tem todo o tempo do mundo, então a pré-
leitura não costuma ser uma opção.
Logo após aquela primeira leitura do Manual da Leitura em Voz
Alta, quando Audrey tinha um ano, coloquei-a no canguru e desci as
longas e estreitas escadas que levavam à biblioteca pública da
cidade em que morávamos. Hoje, disse a mim mesma, segurando
melhor a mochila vazia e afastando o cabelo dos meus olhos com a
parte de trás do meu pulso, vamos pegar alguns livros. Eu estava
cheia de zelo e determinação, cansando-me de infinitas rodadas de
Boa Noite, Lua e Mr. Brown Can Moo! Can You? Tinha certeza de
que a biblioteca poderia resolver aquele impasse.
Quando criança, eu tinha o costume de ir à biblioteca e passar
tardes inteiras garimpando as estantes, imaginando se seria
possível ler todos os livros da biblioteca. Mas agora adulta, mãe, eu
me sentia sem prática. Já havia anos que não pisava em uma
biblioteca. A porta de vidro se abriu. Ajustei a Audrey no meu colo e
senti o cheiro ligeiramente mofado e inconfundível de livros usados.
Chegamos ao departamento infantil, onde dei uma olhada na
sala, vendo as poltronas gastas e desbotadas, as mesas baixas com
mouses analógicos e fones de ouvido gigantes. Vi livros ilustrados,
livros de fantasia infanto-juvenil e expositores lotados de livretinhos
para crianças. Versões gigantes dos personagens Frog e Toad, de
Arnold Lobel foram colocadas na recepção, e um recorte de papelão
de Junie B. Junes dizia corajosamente: “Regras de leitura!”.
Enquanto passava de prateleira em prateleira de livros ilustrados,
suas finas lombadas se comprimiam uma ao lado da outra no que
parecia ser um milhão de repartições. Então me dei conta: não faço
ideia de por onde começar.
Algumas coisas você simplesmente sente que deveria saber,
mesmo sendo mãe há pouco tempo. Sentimentos de incompetência
e inadequação me dominavam enquanto permanecia lá de pé na
biblioteca. Audrey se contorceu em meus braços, então sentei-a no
chão e depois comecei a pensar em levar para casa uma coleção
inteira de livros.
Com certeza, pensei, alguns desses livros são melhores do que
outros. Quando lemos juntos em casa, os livros de Jan Brett ou de
Tomie dePaola me divertiram muito — a cadência do texto e a
beleza das ilustrações me conduziram em cada história e me
deixaram um pouco mais feliz de estar viva ao final de cada obra.
E também havia outras obras — do tipo que leio rápido, pulando
parágrafos ou páginas inteiras quando conseguia. Eram enfadonhas
de ler e me entediavam até a morte.
Qual era a diferença? O que tornava um livro tão envolvente e
outro tão chato? E como eu seria capaz de dizer qual era um mar de
possibilidades, a menos que tivesse tempo e recursos para lê-los
antes?
O QUE É UM BOM LIVRO?
Antes de explorarmos os princípios de uma casamenteira
literária, falemos sobre o que é um bom livro e como ele age. Você
também pode tornar-se uma verdadeira especialista em livros por
mérito próprio se aprender a buscar duas características
importantes nas obras que encontrar.
Bons livros cativamtodas as idades Em primeiro lugar, um bom livro
cativa o leitor independentemente da sua idade. Este é o ponto mais
importante acerca dos livros escritos para crianças: eles também
cativam o adulto. Nárnia cativa crianças e adultos. E quando um pai
acha que determinado livro é bobo ou banal, há uma grande chance
de que a criança que ouve a história concorde.
Lembro-me de ouvir uma mãe contar que levou seu filho para ler
em voz alta com ele um dos livros da saga Harry Potter em uma
cafeteria local. Os dois se sentaram em uma mesa ao lado de fora e
começaram a ler enquanto carros passavam e passarinhos
ciscavam. Enquanto mãe e filho eram transportados para Hogwarts,
um estranho se aproximou: era um homem com capacete de
bicicleta; ele acabava de chegar à cafeteria para tomar o seu café
diário. Estacionando sua bicicleta, ele ouviu a mãe lendo.
“Com licença”, disse o homem, sorrindo e se ajeitando em uma
mesa ao lado. “Apenas quero ouvir o que vai acontecer em
seguida”.
Sara, uma ouvinte do podcast ReadAloud Revival, colocou para
tocar o audiolivro The Mysterious Howling [O Uivo Misterioso] , o
primeiro livro da série The Incorrigible Children of Ashton Place [Os
Incorrigíveis de Ashton Place], de Maryrose Wood, em uma longa
viagem de carro durante as férias de verão em família. “Estávamos
rindo com nossos filhos e tentando adivinhar como seriam as férias,
e quando chegamos ao acampamento, queríamos viajar só um
pouquinho mais”, disse ela. “Ficamos inventando desculpas para
voltar para o carro — encontrar a recepção, encontrar a praia mais
distante do nosso acampamento”. Ela ria. “Não nos lembramos
muito do acampamento, mas todos nos lembramos daquela
história!”
Bons livros causam essa reação. A obra chama a atenção de
todos nós — adultos e crianças — e nos prende. Também é
agradável, independentemente da nossa idade (sem levar em
consideração o gosto pessoal, que discutiremos em breve).
Bons livros enchem o leitor de esperança Em segundo lugar, um
bom livro deixa o leitor mais agradecido por estar vivo. Você fica
ofegante quando acaba de ler as últimas páginas e agora está um
pouco mais deslumbrado com o nosso grande e glorioso mundo. O
livro pode ser trágico (Ponte para Terabítia, de Katherine Paterson),
comovente (A Single Shard [Um Único Fragmento], de Linda Sue
Park), bobo e sem sentido (The Thirteen Clocks [Os Treze
Relógios], de James Thurber), e mesmo assim deixar o leitor com
um sentimento que acha difícil de expressar: deslumbramento com
o mundo e com a vida, gratidão pela humanidade e o seu ser único,
bagunçado e cheio de vida.
O livro que não deixa o leitor com esperança negligencia seu
papel mais importante: ajudá-lo a enxergar o mundo outra vez.
Livros engraçados fazem isso, livros tristes fazem isso, livros
comoventes, angustiantes ou despreocupados fazem isso. Eles nos
deixam com uma nova visão. Eles nos permitem enxergar o mundo
aparentemente normal ao nosso redor — e as pessoas que vivem
nele — com novos olhos.
Um livro deve nos encher de esperança, mesmo no meio de uma
emoção terrível ou de uma tristeza de partir o coração.
LISTAS DE LIVROS SÃO COMO 
RODINHAS DE SEGURANÇA Naquele dia na biblioteca, sentei-me
com a Audrey em uma cadeira de plástico baixa e comecei a ler
uma pilha de livros cartonados que alguém havia deixado na mesa
infantil. Eram livros chatos — não valia a pena levá-los para casa —,
então pus a Audrey no canguru e voltamos para o carro de mãos
vazias. Eu sabia do que precisava. Eu precisava daquela lista no
final do Manual de Leitura em Voz Alta.
À medida que você se prepara para se tornar a casamenteira
literária da sua família, as listas de livros tornam-se rodinhas de
segurança em bicicletas infantis. São ferramentas inestimáveis aos
pais que estão aprendendo a colocar os livros nas mãos de seus
filhos a fim de estimular o amor pela leitura e encher o lar com os
melhores livros e as melhores leituras. Pense em uma boa lista de
livros como um bom par de rodinhas de segurança na bicicleta do
seu filho. Elas o ajudarão a pedalar com segurança antes que
consiga andar sozinho; elas se tornam companheiras confiáveis
para um passeio seguro.
Na terceira parte deste livro, você encontrará uma lista de livros
que se tornará uma companheira de confiança em sua própria
jornada de leitura em voz alta. Li cada um dos livros da lista e
muitos deles em voz alta. Mas você também encontrará
recomendações maravilhosas em livros como Honey for a Child’s
Heart [Doçura voltada ao Coração da Criança] e Give Your Child the
World — livros em que os autores fizeram a difícil tarefa de ler,
analisar, separar, classificar e recomendar previamente outras
obras.
Uma boa lista de livros é minha linguagem de amor, e se estiver
pronta para uma lista mais diferenciada do que aquela incluída aqui,
você pode encontrar uma coleção de todas as minhas listas em
ReadAloudRevival.com.
É claro que listas de livros são sempre criadas por uma pessoa
com um gosto literário único e que você não vai querer substituir
suas próprias opiniões e gostos por uma única lista,
independentemente de quão respeitável seja. Use as listas de livros
como rodinhas de segurança, mas uma vez que tenha alcançado
velocidade e habilidade suficientes para andar por conta própria,
confie na intuição que Deus lhe deu e na Avaliação de 3 Perguntas
(a seguir) para decidir quais livros entram na lista de favoritos de
sua família.
Nenhuma lista pode ser completa, pois assim como seus
familiares são pessoas únicas e especiais, assim serão também as
escolhas dos livros. Sua lista deve refletir as belezas da
singularidade, dos gostos e dos desgostos da sua família.
COMO ESCOLHER LIVROS SEM UMA LISTA: 
A AVALIAÇÃO DE 3 PERGUNTAS
E se você não tiver uma lista de livros? E se você estiver
tentando tomar uma decisão sobre um livro que não encontrou em
nenhuma lista confiável? O que fazer nessa situação?
É fácil conduzir a Avaliação de 3 Perguntas. Primeiro, abra o livro
nas primeiras páginas e leia (você precisará usar uma amostra
grátis se estiver analisando o título em sua versão on-line). Leia
alguns parágrafos (ou algumas páginas se for um livro ilustrado).
Depois, pule para uma parte mais no meio do livro — talvez um
terço ou na metade do livro — e leia mais alguns parágrafos ou
páginas. Não deve levar mais do que alguns minutos, pois você só
quer uma amostra do livro.
Então, responda rapidamente a estas três perguntas: 1.
Imagens: você é capaz de imaginar a cena com os olhos da
imaginação?
O que você está buscando é um texto capaz de transportá-la
para dentro da história a fim de que possa enxergá-la
vividamente em sua imaginação. Se for um livro ilustrado,
observe se as imagens a capturam e se você tem ou não
vontade de olhar para elas um pouco mais do que o necessário.
2. Vocabulário: a escolha das palavras parece ser rica e
variada?
Evite livros com linguagem simplória ou abobalhada demais. Os
melhores livros para leitura em voz alta contêm uma grande
variedade de palavras — o tipo de vocabulário que dá vontade
de pronunciar em voz alta.
3. Curiosidade: você está interessada em saber o que
acontecerá a seguir?
Provavelmente, a leitura não vale a pena se a sua resposta a
essa pergunta for “não”.
O livro não precisa passar necessariamente pelo teste destas
três perguntas para ser considerado digno de leitura. Na maioria das
vezes, passará por duas das três perguntas, o que costuma ser o
suficiente.
Por exemplo, um livro que não contenha textos (como o hilário
livro sem palavras de Peggy Rathmann, Goodnight Gorilla [Boa
Noite, Gorila], ou os livros de Alexandra Day) ainda pode passar
pelo teste com imagens cativantes e o estímulo à curiosidade. Às
vezes, o vocabulário de um livro é simplificado para adequar leitores
iniciantes, como no caso dos livros de Mo Willems, ou de Sam e
Dave Cavaram um Buraco, de Mac Barnett e Jon Klassen. Estes
livros contêm ricas ilustrações e definitivamente levam os leitores a
imaginar o que vai acontecer a seguir.
A Avaliação de 3 Perguntas não é infalível, mas é umamaneira
eficaz e confiável de decidir se um livro merece espaço na pilha de
livros para ser lido em voz alta com sua família ou na pilha de livros
que seus filhos lerão.
Da próxima vez que estiver vasculhando livros usados ou
conferindo o estoque da Amazon, considere essa Avaliação de 3
Perguntas e veja se ela não a ajuda a fazer melhores escolhas.
Lembre-se, estamos buscando imagens vívidas, linguagem rica e
algo que estimule a curiosidade.
PRINCÍPIOS PARA A 
CASAMENTEIRA LITERÁRIA Tratamos das duas características
de um bom livro, do valor das listas de livros como rodinhas de
segurança e do uso da Avaliação de 3 Perguntas. Existem apenas
mais alguns princípios úteis para se ter em mente enquanto você
realiza o papel de casamenteira literária para a sua família.
Saiba quando abandonar o livro Assim como temos um paladar
único e preferência por certas comidas, também temos preferência
por determinados livros. Não há problema se sua família amar um
livro que outro amante de livros que você admira não goste. Da
mesma forma, não há problema em ficar entediada por algo que sua
amiga leitora adora.
Jim Weiss — aclamado contador de histórias e narrador de
centenas de histórias em áudio pela Greathall Productions — certa
vez me disse que a primeira e principal regra para contar histórias é
que você — o contador da história — também ame a narrativa. “A
primeira regra, a regra infalível”, disse ele, “é que você só conte ou
leia em voz alta as histórias que ama. Se você tentar contar uma
história de que não gosta, seus filhos perceberão e não vai dar
certo”.1
Logo, essa é sua deixa para abandonar um livro que não lhe
trouxe interesse. Mesmo que esteja em todas as listas de livros.
Mesmo que seu melhor amigo lhe diga que é o melhor livro que já
leu. Com tantas histórias maravilhosas no mundo, você quer que os
momentos de leitura em voz alta em família sejam marcados por
memórias vívidas e prazerosas, não ofuscadas por um senso de
obrigação e frustração.
Lembro-me de abandonar O Hobbit quando me vi evitando o
momento de leitura em voz alta. Acontece que Rob Inglis faz um
trabalho muito melhor de ler o livro em áudio, e meus filhos ainda
receberam os incontáveis benefícios de ouvir Tolkien lido em voz
alta. Pude prosseguir para a leitura em voz alta de Um Caminho na
Noite, de Lois Lowry, algo que desejava fazer há algum tempo.
Recentemente, tentei ler em voz alta o premiado livro The
Westing Game, de Ellen Raskin para os meus três filhos mais
velhos. O livro era interessante e tinha um enredo convincente, mas
a quantidade de personagens e mudanças frequentes de cenários o
tornaram difícil de ler em voz alta. Um dos meus filhos ficava
constantemente perdido, fazendo perguntas a todo momento só
para manter os fatos ordenados na cabeça. Finalmente, percebi que
não estava querendo mais o momento de leitura em voz alta, então
o deixei para meus filhos que queriam terminá-lo por conta própria
ou ouvi-lo num audiolivro. E no nosso momento de leitura em voz
alta, passamos para outro livro.
Várias pessoas consideraram como favorita a série Little
Britches, de Ralph Moody. Li o primeiro livro inteiro em voz alta para
os meus filhos, mas me peguei contando páginas e olhando para o
relógio todas as vezes que o líamos juntos. Quando acabamos o
primeiro da série, eu disse aos meus filhos que se quisessem ler os
demais, teria o prazer de comprar os audiolivros, mas não os leria
em voz alta. Eu simplesmente não estava gostando deles o
suficiente para continuar.
Nós simplesmente não amamos os mesmos livros — e não é
legal sermos um pouquinho diferentes uns dos outros? Não lute
contra este fato — celebre-o. Abandone o que não está funcionando
para o seu momento de leitura em voz alta. Quando se trata de
compartilhar livros com seus filhos, o prazer é muito importante.
Cace a jujuba certa Laura Martin, autora dos livros Edge of
Extinction [À Beira da Extinção] (os quais meus filhos e eu achamos
irresistíveis), certa vez disse que escolher o livro certo é como
procurar por uma boa jujuba.2
Laura disse que não existe uma criança que não goste de ler. Ela
recontou muitas de suas experiências como professora do sétimo
ano e os emocionantes desafios de ajudar crianças que não
gostavam de ler a se apaixonarem pelos livros. De modo geral, seus
alunos presumiam que não gostavam de ler, mas isso ocorria
apenas pois não haviam encontrado o livro certo. Era como provar
uma jujuba de menta e então decidir que não gosta de jujubas. Mas
menta é apenas um dos sabores. Não importa quem você seja, há
um sabor que você amará. Você apenas precisa encontrar o sabor
certo.
Portanto, não desista. Se estiver tendo uma experiência de
leitura em voz alta frustrante, não significa que a leitura em voz alta
não funciona para a sua família. Significa apenas que você ainda
não encontrou o livro certo. Procure outra jujuba. Ela está guardada
em algum lugar.
Ajude seu filho a formar seu próprio gosto literário Lamento dizer
que as pessoas que gostam de ler têm uma tendência infeliz ao
elitismo. Sei disso, pois sou uma delas, e também porque passo
meu tempo com pessoas semelhantes.
Em nome de ajudar nossos filhos a amar o que é bom,
verdadeiro e belo — e em nosso zeloso desejo de colocar livros de
qualidade nas mãos de nossos filhos —, temos o infeliz hábito de
depreciar livros que decidimos deixar de lado.
Queremos cultivar um bom gosto literário, sim, mas há uma
grande diferença entre bom gosto e elitismo.
É tentador dizer aos nossos filhos de quais livros eles devem ou
não gostar, mas o bom gosto é adquirido ao longo do tempo. Bom
gosto varia de pessoa para pessoa. Deus deu a cada um de nós um
paladar único, e por isso podemos desfrutar de experiências
culinárias ricas e variadas. Estou convencida de que ele nos deu um
paladar literário único pelos mesmos motivos.
A melhor maneira de ajudar nossos filhos a desenvolver um bom
gosto literário é colocar vários bons livros em seu caminho.
Enchemos nossa casa de bons livros e tornamos quase impossível
que nossos filhos os evitem. Quando lemos em voz alta,
escolhemos livros que cativam independentemente da idade, que
nos deixam com um senso geral de esperança. Escolhemos livros
com imagens vívidas, linguagem rica e enredos cativantes. Desta
forma, damos à nossa família uma excelente chance de adquirir
bom gosto com o tempo.
No Capítulo 7, disse que minha filha mais velha, quando mais
nova, devorava livros de literatura leve — livros como The
Babysitter’s Club e Cupcake Diaries. Juntos, também lemos em voz
alta muitos clássicos — ganhadores da Medalha Newbery e outros
livros que, sabia eu, apelavam a uma ampla variedade de idades e
que nos deixariam com esperança e amor pelo mundo e pelas
pessoas que nele habitam. Minha filha mais velha ainda gosta de ler
livros mais leves (todos nós gostamos, mesmo que um tiquinho, não
é verdade?), mas seus favoritos são clássicos escritos por Louisa
May Alcott, Lucy Maud Montgomery e Maud Hart Lovelace.
Quando enchemos o prato literário de nossos filhos com os
melhores livros que podemos encontrar — livros que apelam a
múltiplas idades, que fazem nos sentir mais deslumbrados e mais
gratos do que estávamos quando começamos a lê-los, obras que
falam ao coração mediante o uso habilidoso e lúdico das palavras
—, o que de fato lhes damos é um banquete. E o que um gosta,
talvez outro não goste. Não tenho problema com isso, visto que as
opções são muitas.
Vale perceber, no entanto, que acabamos não indo muito longe
quando descartamos algo que nossos filhos amam. Na verdade,
provavelmente causaremos um grande estrago, fazendo a criança
imaginar o que há de errado com ela, pois gosta de algo que seus
pais acham que é um “lixo”, “tolice” ou “bobo”. Ao invés disso,
considere a ideia de que livros mais tranquilos acabam sendo como
uma pequena tigela de cereais numa mesa posta com uma grande
variedade de comidas mais nutritivas. Aquela tigela de cereais não
diminui a grandeza e a riqueza do grande banquete. Não passa de
uma pequena, embora prazerosa partede uma ampla e variada
refeição.
Não me sinto amada e cuidada quando alguém descarta ou
insulta minhas coisas favoritas, e tenho certeza de que o mesmo
ocorre com os meus filhos. Se desejamos cultivar um bom gosto em
nossos filhos, podemos concentrar nossos esforços na decisão de
expô-los a livros bons, a livros maravilhosos. Permitimos que nossos
filhos cultivem seu próprio gosto literário quando colocamos diante
deles um banquete variado dos melhores livros que podemos
encontrar e os deixamos livres para desenvolver seu próprio
relacionamento com o que leem.
Você não precisa abraçar o mundo Seus filhos não precisam passar
por nenhuma lista de livros específica até determinada idade para
que só então possam ser considerados crianças instruídas,
educadas e prontas para o mundo. Preciso repetir isso? Seus filhos
não precisam ler determinados livros antes de sair de casa. Na
verdade, nem mesmo queremos que nossos filhos leiam todos os
livros maravilhosos que existem por aí enquanto estão em nossa
casa. Queremos deixar alguns títulos para que eles próprios
descubram mais tarde!
Eu tinha uns trinta anos quando fui conhecer pela primeira vez a
obra de G. K. Chesterton, e que alegria foi descobrir, durante a
leitura do meu primeiro mistério do Padre Brown, que havia me
deparado com um tesouro. Da mesma forma, nunca havia lido nada
de Laura Ingalls Wilder até que me tornei mãe. Seus livros têm
moldado a infância de inúmeras crianças, mas meu primeiro contato
com a família Ingalls aconteceu quando li seus livros com meus
filhos. Que alegria foi experimentar com meus filhos pela primeira
vez o mundo de Laura, de sua irmã mais velha Mary e suas irmãs
mais novas, Carrie e Grace.
Às vezes, recomendo livros de Natalie Babbitt aos meus amigos,
sejam pais, sejam filhos. Muitos ficam surpresos após lerem Tuck
Everlasting ou The Search for Delicious [Em Busca dos Sabores].
“Como nunca li isso antes?”, eles se perguntam. “Como fui ler esse
livro pela primeira vez só agora?”.
Quando você se vê preocupada porque seu filho não leu
determinado livro ou determinado autor, não se desespere. Não
tente enfiá-lo na agenda. Pense consigo mesma (alegre-se): que
alegria será encontrar aquele autor/livro/série mais para frente.
Encha a vida do seu filho de bons livros, mas não se preocupe em
ler absolutamente todos. Resista à tentação de selecionar pilhas e
pilhas de leitura por medo de que seu filho esteja perdendo algo
importante.
Lacunas na vida de leitura de nossos filhos dão a eles a
oportunidade de encontrar-se com os maiores títulos da literatura e
aproveitá-los já na vida adulta. Não queremos que a melhor leitura
de nossos filhos aconteça antes dos dezoito, queremos? Queremos
que nossos filhos sejam leitores por toda a vida.
Quebre regras Lembre-se de seu objetivo. Se o que você estiver
lendo não tem ajudado seu filho a amar a experiência da leitura —
se a obra estiver se tornando mais uma pedra de tropeço —, então
mude de livro. Nenhuma lista de livros é o evangelho.
Minha querida amiga, você conhece seu filho melhor do que
qualquer pessoa neste mundo. E você foi escolhida por Deus para
ser a casamenteira literária dele, a maior defensora, a melhor guia.
Mesmo que seu filho não leia os gigantes literários nem encontre os
melhores clássicos, ele lembrará que você leu ao lado dele. Confie
em seus instintos. Você pode abandonar ou pular qualquer livro que
não pareça ser bom para a sua família, ou reler um livro ou série
dez vezes, se é isso que sua família deseja fazer. Você não amará
todos os livros que eu (ou qualquer outra pessoa) recomendo, então
aprenda a seguir seus instintos e relaxe tomando decisões
baseadas na personalidade e dinâmica única da sua família.
Use os conceitos deste capítulo para ajudá-la a escolher livros
que sejam prazerosos, inteligentes e instigantes para toda a sua
família. Ao mesmo tempo, quando se trata de satisfazer o paladar
literário do seu filho, nunca permita que as diretrizes estabelecidas
aqui ou em qualquer outro lugar sobreponham sua percepção e
seus instintos dados por Deus.
O objetivo é que seu filho ame os livros e experimente uma
infância rica de memórias e de leituras compartilhadas. Livros que
encantem toda a família, obras que façam todos se sentirem
esperançosos e deslumbrados, livros que contenham imagens
vívidas, linguagem rica e um enredo interessante.
Quando você se torna a casamenteira literária do seu filho, você
se torna sua aliada, amiga, companheira e mentora tudo de uma só
vez. Sendo tudo isso para o seu filho, você acaba criando um elo
significativo e duradouro com ele. Ser casamenteira literária é um
dos deveres mais importantes dos pais que desejam se relacionar
com os filhos e neles cultivar uma vida de leitura.
 
CAPÍTULO
10
Domine a arte da conversa Os livros são importantes, mas
as conversas que estas obras geram e os laços que criam são o que
realmente importa.
— Alice Ozma, The Reading Promise Allison colocou seu
exemplar do Academia de Princesas, de Shannon Hale no
balcão da cozinha e sorriu para mim: “Terminado!”.
Sorri de volta e perguntei se ela havia gostado.
“Ah, amei! Foi ótimo!”, respondeu.
Peguei o livro e dei uma rápida olhada na quarta capa.
Eu sabia que precisaria sondar um pouco mais para fazer com
que Allison falasse. No entanto, realmente não sabia o que
perguntar, então disse: “Do que você tanto gostou nele?”.
“Não sei”, ela respondeu, abrindo a geladeira e pegando uma
garrafa de leite. “Tudo, eu acho. É realmente muito bom”.
Repensando um pouco, percebo que perguntar à Allison “Você
gostou?” era o mesmo que, sem perceber, fazer a pergunta que
certamente acabaria com qualquer discussão significativa acerca do
livro. É a pergunta que a maioria de nós costuma fazer aos nossos
filhos quando eles terminam um livro, mas a menos que saibamos
como continuar, o questionamento não leva a lugar algum.
De todos os utensílios de nossa caixa de ferramentas para pais,
o diálogo acaba sendo um dos mais importantes. Na verdade,
sempre que construímos um relacionamento, o diálogo é a primeira
forma de conhecermos outras pessoas e com elas nos
relacionarmos.
Todos já ouvimos falar da importância de jantar em família. A
Dra. Anne Fishel, cofundadora do The Family Dinner Project [Projeto
Jantar em Família], afirma que conversas na hora do jantar são
importantes a fim de “relaxar, recarregar, rir, contar histórias e se
atualizar sobre os altos e baixos do dia, enquanto desenvolvemos
um senso de quem somos como família”. A conversa da hora do
jantar já foi até ligada a baixos índices de abuso de substâncias,
diminuição da depressão na adolescência e a altas pontuações em
provas e vestibulares.
Quando conversamos com nosso filho — quando perguntamos
como foi seu dia e com o que ele está preocupado, ou qual foi a
melhor parte da semana — comunicamos que estamos interessados
em sua vida e que temos tempo para ele. Portanto, quando
dialogamos com nosso filho acerca de livros, comunicamos que
estamos interessados no que ele está lendo e pensando. Mesmo
sem verbalizar isso diretamente, dizemos ao nosso filho que para
nós é prioridade passar tempo livre com ele.
Os livros oferecem uma porta de entrada única na conversa pois
contêm as melhores ideias que podemos encontrar. De fato, são um
portal para questões grandiosas, e com frequência podemos
começar uma conversa confortável e descontraída sobre alguns dos
tópicos mais difíceis da vida mediante as lentes de um livro. Quando
lemos com nossos filhos e nos abrimos ao diálogo, temos a
oportunidade única de ajudá-los a encontrar grandes pensamentos
e grandes ideias, a pensar com profundidade a esse respeito e
permitir que esses pensamentos e encontros formem vidas.
Esse cenário não acontece no tipo de conversa que tive com
minha filha sobre o livro Academia de Princesas. Perguntar a um
filho se gostou do livro não é muito útil. Precisamos fazer perguntas
mais profundas, e isso leva tempo. Como todas as coisas que criam
um impacto positivo em nossa paternidade/maternidade, precisamos
priorizarconversas significativas. Precisamos comunicar amor e
empenho para com nossos filhos, e fazemos reservando tempo e
espaço para conversar com eles sobre a vida. Qual é a boa notícia?
Os livros facilitam esse empenho e os diálogos a respeito se
encaixam na correria do nosso dia a dia.
COMO FALAR SOBRE LIVROS 
COM SEUS FILHOS
“Quando assistimos a um bom filme, a um jogo emocionante, a
um ótimo show, a primeira coisa que vem à mente logo em seguida
é falar sobre ele”, escreve Jim Trelease. “Depois que eu e minha
esposa assistimos a um bom filme, você acha que corremos para o
carro, pegamos guardanapos de dentro do porta-luvas e
escrevemos a ideia principal do filme? ‘Querida, qual você acha que
foi o tema?’”.1
Seria ridículo, não? Quando termino um livro ou um filme
especialmente marcante, minha vontade é dialogar com alguém que
tenha experimentado o mesmo livro ou filme. Após ler A Resposta,
de Kathryn Stockett, liguei para minha amiga e implorei para que
lesse o quanto antes. Eu estava ansiosa para falar dos meus
personagens favoritos e dos que menos gostei, comentar o contexto
histórico e contemplar o que o autor estava tentando dizer. Queria
compartilhar aquele encontro. As experiências que mais nos
impactam precisam ser compartilhadas. Somos criaturas
comunicativas e naturalmente desejamos trocar ideias quando
nossos pensamentos e emoções são impactados.
Shannon Hale, autora de Academia de Princesas, também
escreveu um livro chamado The Goose Girl [A Pastorinha de
Gansos] (você encontrará ambos na lista de livros para
adolescentes no Capítulo 15). Na noite em que uma de minhas
filhas adolescentes o terminou, ela foi me ver enquanto eu escovava
os dentes no banheiro antes de dormir. Ela entrou com tudo e bateu
o livro sobre a pia. “Leia isso!”, como uma ordem; seus olhos luziam
chamas que cintilavam. Pode apostar que ela queria conversar
sobre o livro. Uma experiência de leitura maravilhosa faz isso: nos
relaciona com os outros. Não queremos guardar só para nós nossas
melhores experiências.
Quando minha filha terminou de ler Academia de Princesas, eu
tive a chance de conversar com ela acerca da obra, mesmo que não
soubesse nada sobre análise literária, que não fosse conhecedora
de como analisar livros, mesmo que nem mesmo tivesse lido o livro.
Tudo se resume a ter uma abordagem calma e amigável, sabendo
fazer as perguntas certas.
Você pode dialogar acerca de um livro mesmo sem ser formada
em Letras, mesmo sem guias de literatura, mesmo sem ter uma
bagagem literária. Se você ama seu filho e está disposta a investir
tempo para aprender quem ele é e como ele pensa, tenha
conversas sólidas e diálogos duradouros a respeito de qualquer livro
debaixo do sol.
CONVERSAS ESPONTÂNEAS E INTENCIONAIS
Conversar é, por definição, uma “troca informal de ideias”. As
melhores histórias naturalmente se entregam a uma boa conversa.
Afinal, é o que fazemos em clubes do livro para adultos; é o que
fazemos quando assistimos a um filme. Quando separamos nossa
parte favorita do domingo e o compartilhamos com quem amamos,
ou quando chegamos em casa depois das férias e começamos a
contar histórias sobre o que aconteceu quando o carro quebrou na
estrada: narramos o que aconteceu e logo em seguida começamos
a conversar descontraidamente acerca do ocorrido. Você já sabe
fazer isso. Ué, você faz isso todos os dias no automático.
Conversar sobre livros não precisa ser tão diferente de outras
conversas que temos com nossos filhos. Tudo bem se você não
souber o que possa ser uma “exposição” ou um “desfecho”
enquanto dialoga sobre livros. Cale a professora do Fundamental
dentro de você por um instante. O que estamos buscando não é a
mesma coisa que você estava buscando naquela aula de linguística.
Queremos que nossa casa seja mais parecida com aquele ambiente
aconchegante de clube do livro e menos parecida com uma
experiência formal de sala de aula.
Os livros que nos impactam, que nos moldam e nos transformam
são quase sagrados. Convenhamos, a última coisa que você quer
fazer quando se apaixona por um livro é montar um diagrama de
Venn, uma exposição literária ou um gráfico do enredo, certo? As
melhores histórias naturalmente levantam questões que borbulham
dentro de nós; as melhores narrativas geram mais perguntas do que
respostas e nos movem a diálogos descontraídos, agradáveis e
prazerosos. Essas conversas podem se tornar uma das nossas
maiores alegrias na medida em que construímos relacionamentos
com nossos filhos, uma vez que tivermos a postura e as perguntas
certas.
Antes que você comece a se descabelar e pensar como
conseguirá inserir esse tipo de conversa em dias caóticos, deixe-me
compartilhar duas abordagens diferentes de diálogos sobre livros.
Você pode usar qualquer uma delas. Eu mesma uso ambas.
Conversas Intencionais A conversa que ganha espaço num clube do
livro é uma conversa intencional. Geralmente todos leem o livro com
antecedência, e o objetivo da reunião é discuti-lo — ou seja, trocar
ideias uns com os outros.
Conversamos com nossos filhos de forma parecida. Meus filhos e
eu não temos diálogos assim a respeito de todos os livros que
lemos juntos em voz alta. Temos conversas intencionais não mais
que algumas vezes ao longo do ano. A única característica que
distingue uma conversa intencional é separar tempo. Marco no
calendário. Trata-se de um evento. Costumamos ter essas
conversas em alguma lanchonete, e assim conseguimos registrar
aquele momento como uma excelente lembrança.
“Almoço amanhã no Frank’s Dinner para discutirmos Jasper and
the Riddle of Riley’s Mine! [Jasper e o Enigma da Mina de Riley]”,
anuncio e todos vibram por causa das panquecas — e por
gostarmos das nossas conversas a respeito dos livros. Ninguém
sabe antes da hora que rumo a conversa vai tomar, e é isso que dá
graça ao momento.
Durante uma conversa intencional fazemos as mesmas
perguntas que faríamos num diálogo espontâneo. Mas falaremos
sobre essas perguntas no Capítulo 11. Antes, falemos dos diálogos
que não planejamos, daqueles mais espontâneos.
Conversas Espontâneas Na minha casa, conversas espontâneas
são muito mais comuns que as intencionais. Podemos estar a
caminho do treino de futebol ou da aula de dança, então dou uma
olhada pelo retrovisor e sem maiores formalidades pergunto a um
dos meus filhos: “Vi que você terminou de ler Fablehaven. Quem
você acha que foi a pessoa mais corajosa da história?”, ou “Quanto
ao livro Brown Girl Dreaming... Você acha que o livro se parece com
o The Crossover [O Encontro]?”.
Conversas espontâneas surgem do nada; começam ou terminam
com uma pergunta enquanto andamos de carro, enquanto lavamos
a louça do jantar ou saímos à noite. Às vezes, duram meia hora ou
mais. Geralmente duram apenas alguns minutos. De qualquer
forma, são pequenos pontos de conexão. São diálogos que nos
ajudam a tecer mais um fio na gloriosa tapeçaria do relacionamento
com nossos filhos e a mais uma vez mergulhar em uma história
antes de guardá-la. São espontâneas porque ocorrem em
momentos normais e esporádicos do nosso dia.
Considere essas duas naturezas de diálogo, a conversa
intencional e a conversa espontânea, e tenha em mente que uma
não é melhor que a outra. Ambas são excelentes ferramentas para
construir o relacionamento entre pai e filho. Use a que mais se
adequar ao momento. Se estiver a caminho do treino do seu filho ou
sem muito o que fazer em casa, tente uma conversa espontânea.
Se vocês acabaram de ler um livro em voz alta juntos e querem
festejar, iniciem uma conversa intencional e dela façam um
momento específico.
A IMPORTÂNCIA DE UMA 
ABORDAGEM FÁCIL E AMIGÁVEL
Seja uma conversa intencional, seja espontânea, é imperativo
adotar uma abordagem fácil e amigável para conversar com seus
filhos acerca dos livros lidos. Não queremos que nossos filhos se
sintam como se estivéssemos tentando, em primeiro lugar, melhorá-
los ou moldá-los enquanto tratamos de literatura. Filhos não são
projetos. (E mesmo que você esteja tentando melhorar ou moldar
seus filhos por meio de histórias, acompanhe meuraciocínio.
Ninguém gosta de se sentir como se fosse o projeto de melhoria de
alguém).
Você perceberá que seus filhos se abrem muito mais e se
sentem muito mais à vontade quando os livros são abordados com
descontração e gentileza.
Uma vez que ser tranquilo e amigável não é necessariamente
nossa disposição natural quando se trata de interagir com nossos
filhos (cof, cof), é útil termos algumas coisas em mente. Eu as
chamo de As 5 Chaves de uma Conversa — e queremos guardar
com cuidado essas chaves, pois pretendemos conversar com
nossos filhos acerca dos livros que lemos. Essas chaves ajudam a
diminuir a pressão e relembram que bons diálogos servem
sobretudo para desfrutar e conhecer mais seu filho.
AS 5 CHAVES DE UMA CONVERSA Chave n.º 1: Não converse
sobre todos os livros.
Sir Francis Bacon certa vez disse: “Alguns livros devem ser
provados, outros engolidos e alguns poucos mastigados e
digeridos”.2 Permita que seus filhos experimentem, engulam e
mastiguem. Você não precisa discutir todos os livros que lê em voz
alta ou todos os livros que seu filho lê por conta própria. Quando
exige que todos os livros sejam discutidos, você tira o prazer da
leitura e faz com que os livros percam sua importante relação de
prazer. Confie que o livro pode falar diretamente ao seu filho,
mesmo que você não intervenha com uma conversa ou discussão.
Chave n.º 2: Não existem respostas certas. É sério.
Lembre-se de ser amigável e informal. Em especial se estiver
tendo uma conversa intencional, atente-se para não falar com um ar
de superioridade. A última coisa a fazer no relacionamento com
nossos filhos é falar com tom de superioridade. A relação
simplesmente não floresce.
Mesmo que suas respostas não sejam tão profundas ou
impressionantes quanto esperava que fossem, não se preocupe
tanto assim. Há uma jornada até a Verdade e cada um deve trilhá-la
individualmente. Deixe que seus filhos descubram a Verdade aos
poucos, faça com que a encontrem em seus momentos mais
íntimos. Trata-se de uma maratona, não de uma corrida de cem
metros. Mesmo que você não tenha conversas estrondosas com o
seu filho, lembre-se de que a parte mais importante é manifestar
interesse no que está acontecendo com a mente dele. Não somos
capazes de quantificar o poder do genuíno contato entre mãe e filho,
e estamos em busca justamente desse elo.
Todas as vezes que seu filho der uma resposta monossilábica,
pergunte logo em seguida: “Por quê?”. Pode levar algum tempo até
que ele confie que você não está procurando uma resposta
específica ou o testando. A princípio, crianças desacostumadas com
perguntas sem segundas intenções — sem a intenção por parte do
adulto de moldar, mudar ou avaliar a resposta da criança —
provavelmente se sentirão intimidadas. Continue. Continue fazendo
perguntas abertas; continue enfatizando que não há uma resposta
específica que esteja buscando; continue conversando e
comunicando.
Chave n.º 3: Perguntas pertinentes importam mais do que respostas
convincentes.
Quando começar a fazer perguntas mais abertas aos seus filhos,
talvez você se surpreenda com as respostas. Lembre-se disso: a
arte de fazer perguntas pertinentes é mais importante do que
receber respostas convincentes. A criança que pratica o fazer de
perguntas começará a fazê-las por conta própria, consciente ou
subconscientemente, articulando-as ou não. Queremos fortalecer o
hábito da criança de fazer perguntas e pensar com profundidade.
Algumas das melhores conversas literárias que tive com meus
filhos surgiram a partir de livros que eles haviam lido, mas eu não.
Suspeito que isso aconteça porque meus filhos sabem que não
estou buscando respostas certas — eu mesma não sei as respostas
certas! Só quero saber o que pensam, e isso gera uma bela
oportunidade de afeto e comunicação.
O mesmo vale para a vida de seus filhos à parte da leitura. Use
perguntas dessa natureza para saber o que eles pensam sobre
aquela série, aquele filme, aquele gibi, aquela música, um esporte,
um lazer, um jogo — afinal, são todos histórias. Do filme ao esporte,
todos contêm um personagem que deseja algo, que precisa superar
um obstáculo e que alcança ou não o sucesso. Tente fazer
perguntas desse tipo acerca de qualquer história ou narrativa,
escrita ou não, e se atente às oportunidades de diálogo.
Chave n.º 4: Plante sementes e afaste-se.
Nós, adultos, gostamos de verdades contidas em pequenas
lições e estruturas simples. Mas a Verdade não é simples nem
pequena, e o próprio Deus nos revelou esse fato em parábolas e
histórias que nos fazem levantar perguntas várias, que nos fazem
voltar uma vez mais e inquirir, amar, contemplar. São textos que nos
deslumbram, nos maravilham.
Você nem sempre conseguirá concluir uma boa conversa com a
cereja do bolo. Afinal, a última coisa que você quer é acabar falando
“então, a lição que aprendemos com essa história foi…”. Dê espaço
para a história atingir todo o seu potencial de majestade e
grandiosidade. Deixe-a cercada por um pouco de mistério.
Sally Lloyd-Jones, autora do livro O Livro de Histórias Bíblicas de
Jesus, certa vez me disse que adultos se sentem mais à vontade
com currículos, programas e tópicos, pois quando os utilizamos
estamos no controle. As histórias nos deixam desconfortáveis, pois
quando as contamos não estamos no controle.
“Quando você lê uma história para a criança”, disse ela, “você
está plantando uma semente. O mais interessante sobre a semente
é que você não consegue vê-la, uma vez que está escondida.
Talvez nada aconteça por um longo período, e, na prática, o que
está acontecendo com a semente não é da sua conta. Seu trabalho
é simplesmente plantá-la.”3
Plante suas sementes ao ler em voz alta com seus filhos. Regue-
as fazendo perguntas gerais. Mas não exija que a semente floresça
antes do tempo. Seu trabalho é plantar, regar e nutrir. Deixe o livro
fazer sua mágica na mente do seu filho como Deus bem quiser. No
que as sementes se transformam — o que se tornam e como
nutrem a vida do seu filho — é um mistério tanto para nós quanto
para eles. A vitória depende exclusivamente do Mestre Jardineiro.
Chave n.º 5: Use diários de leitura simples para aprofundar a
conversa.
As melhores perguntas costumam levar seu filho de volta ao livro
para conseguir a resposta. Desta forma, pode ser útil encorajá-lo a
manter um caderno de fichamento ou diário de leitura. O caderno de
fichamento ou diário de leitura nada mais é que um espaço para
anotar passagens e citações, para fazer uma lista de livros que já
leu, deseja ler ou dos livros que mais amou. Seu filho também pode
sugerir ideias, se desejar. Você pode apostar na simplicidade de um
caderno espiral, ou ser um pouco mais chique e investir num diário
ou numa agenda.
A criança que se acostuma a perceber a linguagem que a abala é
uma criança que aprende que a língua tem poder. Em nossa casa,
quando começamos a discutir um livro, não poucas vezes
acabamos folheando nossos diários de leitura a fim de relembrar o
que mais nos tocou. Não precisamos anotar necessariamente as
passagens ou citações mais profundas e marcantes. Seu filho não
precisa nem mesmo entender o significado da passagem ou por que
ela é tão importante para o caso dele.
Mantenha a simplicidade, a leveza e o prazer pela leitura, e não
se prenda a regras ou restrições demais. Uma coleção particular de
citações é um tesouro, não algo a ser avaliado ou criticado. Não é a
oportunidade de notar a caligrafia desleixada ou a ortografia ruim do
seu filho. É, na verdade, uma extensão do elo que o seu filho criou
com o livro.
Eu peço aos meus filhos que registrem os livros que leram em
seus diários de leitura, mas evito impor outras exigências. Sim, só
você pode decidir o que é o melhor para os seus filhos, mas tenha
em mente que o propósito de um diário de leitura é ser uma
ferramenta que ajude a família a manter-se com uma disposição
tranquila e amigável. Não se entregue à tentação de transformá-lo
em uma obrigação, do contrário você perceberá que o diário servirá
a outros propósitos, exceto o prazer da leitura.Agora, quanto ao impacto que podemos exercer sobre a vida dos
nossos filhos, dificilmente encontraremos melhor ferramenta que o
diálogo. Meu desejo é que você tenha conversas intencionais e
esporádicas com seus filhos e os trate com cuidado e carinho.
Mantenha essas 5 Chaves em mente.
Você não precisa dialogar sobre todas as leituras dos seus filhos.
Não existem respostas “certas” para aquelas perguntas abertas e
despretensiosas acerca dos livros lidos. É mais importante fazer
perguntas pertinentes do que receber respostas convincentes. Seu
dever é plantar a semente, e se funcionar para a sua família, você
pode aprofundar a conversa ajudando seus filhos a escolher
citações de um livro para transcrevê-las num diário de leitura.
Você percorrerá um longo caminho até conseguir criar um elo
com seu filho, mas é só o começo. Por ora, precisamos saber quais
perguntas fazer para mantermos o diálogo interessante e as
conversas vivas.
 
CAPÍTULO
11
Faça perguntas pertinentes O hábito de fazer perguntas
ao livro durante a leitura faz de você um leitor melhor do que seria se não as
fizesse.
— Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, Como Ler Livros Mesmo
que consiga de vez em quando ter conversas intencionais e
se dedique aos diálogos espontâneos adequados à cultura de
clube do livro da sua família, você ainda precisa acrescentar
uma peça (muito) importante nesse quebra-cabeça: perguntas
pertinentes.
Não pretendemos traçar exposições e desfechos — não fazemos
listas de vocabulários nem dissecamos o tema de um livro como se
estivéssemos em sala de aula —, então como exatamente
dialogaremos acerca dos livros que lemos?
É mais fácil do que você imagina. Quando estou conversando
com meus filhos acerca dos livros que lemos, uso dez perguntas
para nos ajudar. São questionamentos simples, porém pertinentes.
O QUE TORNA UMA 
PERGUNTA PERTINENTE?
Neste capítulo, abordarei dez perguntas pertinentes que você
pode fazer ao seu filho. São questionamentos adequados a
qualquer obra, cujo potencial é conduzir a uma grande conversa.
Antes de compartilhar minhas dez perguntas com você, é
importante conhecermos as três qualidades que compõem uma
pergunta pertinente.
Perguntas pertinentes são perguntas abertas Você não começa uma
conversa significativa com seu filho se tudo o que estiver fazendo for
uma pergunta que não exige mais do que um “sim” ou “não” como
resposta. Você também não terá uma conversa significativa se fizer
perguntas que visem avaliar o nível de compreensão de leitura do
seu filho. Estamos criando relacionamentos, lembra? A arte da
conversa em um relacionamento significa circular em torno de
ideias; o objetivo é considerá-las, pesá-las e compará-las. Nosso
propósito é construir um elo com nossos filhos, não por querermos a
resposta certa, mas porque ficamos curiosos com o que se passa na
mente deles e que tipo de pessoa única e maravilhosa estão se
tornando. Fazemos perguntas porque desejamos aprofundar nosso
relacionamento com nossos filhos. Certifique-se de que suas
perguntas acerca dos livros lidos sejam livres. Você sabe que a
pergunta é aberta se não houver uma resposta “certa”, específica.
Você pode fazer perguntas pertinentes sobre qualquer livro As
perguntas neste capítulo podem ser feitas sobre qualquer história,
desde O Gato do Chapéu até Frog and Toad [O Sapo e a Rã], de
Ramona e Beezus a Watership Down e Um Conto de Duas Cidades.
Na verdade, as perguntas a seguir podem ser feitas a qualquer
história, mesmo que esteja contida dentro de um livro. Tente fazer
uma dessas perguntas após assistir a um filme ou a um jogo. A
profundidade da conversa varia dependendo da história, mas
também da idade e do desenvolvimento da criança, embora as
perguntas possam ser as mesmas.
Perguntas pertinentes podem ser usadas com ou sem outros
questionamentos Quando estou conversando com meus filhos sobre
um livro, não costumo fazer as dez perguntas. Normalmente só faço
uma. Raramente faço mais que três. Depende do tempo disponível
que tenho para conversar com minha filha, quão interessada ela
está na história e, para ser sincera, de quanto café tenho correndo
pelo meu corpo. Não se prenda a usar essa lista de perguntas como
uma lista de controle. Você pode fazer uma só pergunta pertinente,
mas se tiver tempo e vontade, pode logo engatar outro
questionamento e aprofundar um pouco mais a conversa.
DEZ PERGUNTAS
Use estas dez perguntas para dar início a uma conversa
intencional ou espontânea acerca de livros com seus filhos. Embora
você possa, sim, se prender a essas dez perguntas e ter um número
incontável de diálogos grandiosos, não quer dizer que essas sejam
as únicas perguntas a serem feitas. Toda pergunta que manifestar
as três qualidades mencionadas acima são questionamentos
pertinentes e levarão a um diálogo significativo com seus filhos.
Você perceberá que as dez perguntas mostrarão essas três
qualidades: são abertas, podem ser feitas sobre livros de qualquer
faixa etária e podem ser usadas com ou sem outros
questionamentos relacionados. Pense nessas perguntas como
portas. Abrir qualquer uma dessas portas pode levar a uma
discussão maravilhosa e deliciosa. Então escolha uma porta —
qualquer uma — e veja para onde ela conduz!
Pergunta n.º 1: O que o personagem deseja e por que ele ou ela
não consegue ter o que deseja?
Essa pergunta irá levá-la ao cerne do livro imediatamente. Todo
personagem principal de uma história deseja algo que não
consegue obter: eis o conflito. Algo impede o personagem de
conseguir o que deseja. Geralmente não há apenas uma resposta
certa à pergunta feita, e você não precisa saber qual é a “melhor”
resposta antes de fazer o questionamento. Você pode se
surpreender, de fato, com a resposta de seu filho à pergunta.
Um dos meus diálogos sobre livros mais enriquecedores surgiu a
partir da leitura do livro ilustrado Anatole; li-o com meus filhos de
oito e dez anos. A história trata de um rato parisiense que fica
consternado ao descobrir que os seres humanos têm desafetos por
sua espécie de roedores. Ele então decide resolver essa desavença
contribuindo com a raça humana em troca de sua pilhagem noturna
na cozinha. Quando acabei de lê-lo tive a certeza de que Anatole
ansiava por dignidade e respeito, e o que o mantinha longe de
recebê-los era sua incapacidade de retribuir. Basicamente, eu
pensava que o livro tratava da ética do trabalho. Mas quando
perguntei à minha filha de dez anos o que considerava ser o desejo
de Anatole, ela concordou que era dignidade e respeito, mas disse
que o preconceito das pessoas contra suas intenções era o que o
estava privando de ser tratado dignamente. A afirmação da minha
filha gerou uma conversa que nunca imaginei que teria, um diálogo
extremamente enriquecedor e muito mais significativo do que eu
pensava que pudéssemos ter.
Alguns exemplos • O que o Pequeno Urso mais deseja e por que
não consegue ter o que deseja? (Pequeno Urso, Else Holmelund
Minarik) • O que Dorothy Gail mais deseja e por que ela não
consegue satisfazer seu desejo? (O Mágico de Oz, L. Frank Baum) •
O que Tom Sawyer mais deseja e por que não consegue alcançar
seu desejo? (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain).
Pergunta n.º 2: Ele ou ela deveria ter feito o que fez?
Deveria é uma palavra incrivelmente poderosa, uma palavra a
ser pensada, fundamentada e defendida. A resposta pode parecer
superficialmente óbvia, mas faça essa pergunta uma ou duas vezes
e talvez se surpreenda com o quanto pode se divertir com ela.
Lembro-me da primeira vez que presenciei o uso desse
questionamento. Estava participando de um seminário voltado ao
ensino da escrita para crianças. Aquele que estava à frente do
evento perguntou aos participantes se Edmundo deveria ter seguido
a Feiticeira Branca em O Leão, A Bruxa e o Guarda-Roupa, de C. S.
Lewis. Todos concordamos imediatamente que a resposta era um
retumbante não. Mas ele sugeriu que a resposta poderia ser sim —
não saberíamos de fato até que seguíssemos a trilha para ver
aonde o caminho nos levaria.
Durante a hora seguinte consideramosrazões do porquê
Edmundo deveria ou não ter seguido a Feiticeira Branca. Chegamos
a um número surpreendente de respostas para ambas, e discutimos
qual rumo a história tomaria se Edmundo tivesse escolhido um
caminho diferente. Durante o curso da discussão, consideramos a
integridade, a coragem e a habilidade de Edmundo (ou a falta
dessas qualidades) para reconhecer a bondade ou a maldade que
ele teve de encarar.
Fiquei chocada quando terminamos a discussão. Ambos os lados
argumentativos levaram ao mesmo entendimento essencial de
quem Edmundo era e qual propósito ele buscava alcançar. Não
importava qual argumento levantássemos — se ele deveria ou não
ter seguido a Feiticeira Branca —, sempre acabávamos no mesmo
lugar, na profunda verdade daquilo que C. S. Lewis não pôde deixar
de transmitir por meio de sua história tão bem contada.
Na hora do intervalo, olhei para uma amiga que estava sentada
ao meu lado e disse: “Então não importa se sabemos ou não a
resposta certa — se Edmundo deveria ou não ter seguido a
Feiticeira Branca! Por se tratar da verdade, ela própria emergirá da
história, apesar da nossa conclusão!”.
Eu estava imersa. Sabia que a pergunta “deveria?” me
acompanharia em muitas outras leituras.
Para fazer esse tipo de questionamento, escolha qualquer
personagem da história e qualquer uma de suas ações no enredo.
Pergunte ao seu filho se o personagem em questão deveria ter
realizado ou não aquela ação, e então prossiga perguntando o
porquê.
Alguns exemplos: • Cachinhos Dourados deveria ter entrado na
cabana dos ursos? (Os Três Ursos, Paul Galdone) • Anne deveria
ter batido na cabeça de Gilbert com a lousa? (Anne de Green
Gables, L. M. Montgomery) • Sam Gribley deveria ter fugido? (My
Side of the Mountain [Meu Lado da Montanha], Jean Craighead
George).
Pergunta n.º 3: Como X se parece com Y? Ou como X é diferente
de Y?
Tudo no mundo se parece com outra coisa. Da mesma forma,
tudo no mundo se difere das demais coisas. Considere como algo é
parecido ou diferente de outra coisa e você estará entrando no
profundo universo da metáfora. Metáforas são importantes, pois nos
fazem compreender e comunicar ideias. Quando pensamos
cuidadosamente a respeito dos personagens, lugares ou eventos
dos livros que lemos e como são parecidos ou diferentes,
praticamos a arte de pensar em metáforas.
Você pode ler Anne de Green Gables e comparar Anne a
qualquer um dos personagens. Como Anne se parece com Marilla?
Em que aspectos são diferentes? Como Anne se parece com
Diana? Em que aspectos são diferentes? Minha pergunta favorita é:
como Anne se parece com Rachel Lynde? Talvez essa surpreenda
os fãs de Anne!
Quando perguntei à minha filha como Anne e a senhorita Lynde
se parecem, ela aparentou ficar brevemente horrorizada, e então
parou um pouco para pensar. “Bom”, depois de alguns momentos de
contemplação, decidiu: “acho que nenhuma das duas tem medo de
insultar”, então parou e pensou um pouco mais. Ambas vivem em
Avonlea, é claro. E nenhuma das duas entende muito bem a
Marilla”. E logo depois de mais uma pausa, afirmou: “Sim! Sim! Sim!
Ambas têm a tendência de falar demais!”.
Aposto que da próxima vez que ler Anne de Green Gables (e eu
estou falando de Anne, é claro que minha filha relerá muitas outras
vezes!), ela fará muitas outras ligações e pensará com mais
profundidade e de formas inéditas acerca dos personagens e, é
claro, sobre o relacionamento entre Anne e sua vizinha intrometida.
É muito mais fácil de perceber as diferenças do que as
semelhanças entre dois personagens. Se você ou seus filhos se
encontrarem travados nessa questão, tente perguntar sobre as
diferenças antes de tratar das semelhanças.
E não se sinta limitada aos personagens! Você pode perguntar
como o pote de mel do Ursinho Pooh se parece (ou se difere) com a
varinha mágica de Harry Potter, ou como o sapato de cristal da
Cinderela é parecido (ou diferente) com o caderno de Harriet the
Spy [Harriet, a Espiã]. Confie em mim: tudo no mundo se parece
com outra coisa. Dê uma olhada nessa pergunta e você entenderá o
que quero dizer. É muito divertido!
Alguns exemplos: • Como o Ursinho Pooh é parecido com ou
diferente do Leitão? (O Ursinho Pooh, A. A. Milne) • Como Heather
se parece com ou é diferente de Picket? (The Green Ember, S. D.
Smith) • Como a casa de Trunchbull se parece com ou é diferente
da casinha da senhorita Honey? (Matilda, Roald Dahl) • Como o
guarda-roupa que conduz até Nárnia se parece com ou é diferente
da porta que conduz ao Jardim Secreto? (O Leão, a Feiticeira e o
Guarda-Roupa, C. S. Lewis; O Jardim Secreto, Frances Hodgson
Burnett).
Pergunta n.º 4: Quem é o mais _________ na história?
Talvez esta seja minha pergunta predileta, mesmo porque é a
mais simples. Insira qualquer traço de caráter no espaço. Talvez
você precise acompanhar esta pergunta com outra — algo como: “O
que o leva a dizer isso?” ou “Pode me dar um exemplo?”. Se você
perguntar ao seu filho quem ele considera o personagem mais
corajoso do livro, esteja preparada para continuar a pergunta com
“Qual foi o momento em que ele ou ela demonstrou mais
coragem?”.
Durante uma tarde, depois que meu filho terminou de ler My Side
of the Mountain, de Jean Craighead George, entramos no carro para
levá-lo ao treino de futebol. “Então você terminou seu livro hoje,
hein?”, perguntei, enquanto dava marcha ré no carro. “Qual
personagem era o mais corajoso?”, questionei.
Drew sorriu. “Bom, na verdade só tem um personagem naquele
livro, mamãe”.
“Ah, sim. Esqueci,” respondi rindo. “Então… Sam Gribley, certo?
Qual foi a coisa mais corajosa que Sam fez no livro?”
Drew pensou por um instante, olhando para os sinais de trânsito
na rua e para as casas da vizinhança que passavam pela janela do
carro. Eu esperava que ele me dissesse algo sobre Sam — um
garoto de catorze anos, fugitivo, vivendo na selva por conta própria,
que precisava procurar comida ou caçar animais selvagens. Eu
tinha certeza de que ele diria algo sobre sobrevivência na selva.
Drew parou por um instante e então respondeu: “Quando ele
fugiu de casa”.
Bom, não era aquilo que eu esperava! O que se seguiu foi uma
conversa sobre como é preciso coragem para estabelecer seu
próprio caminho. Foi muito mais interessante do que eu estava
esperando quando fiz a pergunta inicial.
Se eu tivesse conduzido a conversa pedindo a meu filho que
respondesse às perguntas com respostas positivas ou “corretas”,
provavelmente teríamos uma discussão superficial sobre as técnicas
de sobrevivência descritas no livro. Em vez disso, tivemos um
diálogo significativo acerca do significado de entrar na idade adulta.
Esse é o poder de uma pergunta aberta.
Só para constar, esta é a pergunta que mais gosto de fazer aos
meus filhos sobre livros que não li. Na verdade, pergunto quem foi
mais corajoso com tanta frequência que uma das minhas filhas
adolescentes diz que pensa na resposta a essa pergunta todas as
vezes que lê porque tem certeza de que vou perguntar.
(Ela acha que está me enganando. Não conte isso a ela, mas
estou aqui me parabenizando escondida, pois a verdade é que ela
criou o hábito de indagar sobre coragem em todo livro que lê —
mesmo quando não estou com ela, conduzindo-a a esse tipo de
pergunta. Considero uma vitória, se é que posso me gabar disso.)
Eis alguns traços de caráter para você questionar: ambicioso,
ousado, corajoso, inteligente, calmo, capaz, cuidadoso, cauteloso,
charmoso, elegante, detalhista, perfeccionista, covarde, criativo,
perigoso, destemido, enganador, desleal, exigente, determinado,
fiel, tolo, amigável, generoso, grato, ganancioso, feliz, trabalhador,
honesto, bem-humorado, inteligente, amoroso, misericordioso,
misterioso, travesso, nervoso, nobre, desagradável, persistente,
agradável, orgulhoso, confiável, engenhoso, inquieto, triste, egoísta,
altruísta, perspicaz, sincero, atencioso, indelicado, desinteressado,
virtuoso, sábio, espirituoso...
Pergunta n.º 5: Quais são as lembranças que essa história ou esse
personagem causa em você?
Repito, queremos que nossos filhos aprendama pensar em
metáforas, pois metáforas transmitem e comunicam ideias. Essa
pergunta é prática para perceber como duas coisas aparentemente
diferentes se parecem. E assim como a Pergunta n.º 3, esse tipo de
questionamento também ajuda nossos filhos na hora de pensar em
metáforas.
Podemos responder a essa pergunta usando outras histórias. Por
exemplo, King Hugo’s Huge Ego [O Grande Ego do Rei Hugo], livro
ilustrado de Chris Van Dusen, me faz lembrar do conto de fadas A
Roupa Nova do Rei. Jasper, o personagem principal de Jasper and
the Riddle of Riley’s Mine, de Caroline Starr Rose, me faz lembrar
do personagem principal de As Aventuras de Huckleberry Finn, de
Mark Twain Talvez o livro em questão não o conduza a outra
história, mas a alguma realidade em sua vida. Por exemplo, The
Seven Silly Eaters [Os Sete Comilões], livro incrivelmente prazeroso
escrito por Mary Ann Hoberman e Marla Frazee, me faz lembrar da
casa alegre e animada de minha amiga Meghan. Penso nela todas
as vezes que o leio. E Tom, de Tomie dePaola (da biografia ilustrada
sobre seu avô) me faz lembrar do meu querido avô Curly.
Alguns exemplos: • O cachorro Carl faz você lembrar de alguém?
(Good Dog, Carl [Carl, o Bom Cachorro], Alexandra Day) • Tumtum
faz você lembrar de alguém específico? (Tumtum and Nutmeg
[Tumtum e Nutmeg], Emily Bearn) • A Tartaruga e a Lebre faz você
lembrar de outra história? (A Tartaruga e a Lebre, Jerry Pinkney) •
Mary Poppins faz você pensar em outra história específica? (Mary
Poppins, P. L. Travers) • Orgulho e Preconceito faz você lembrar de
outra narrativa semelhante? (Orgulho e Preconceito, Jane Austen).
Pergunta n.º 6: Qual o maior medo do personagem X ou Y?
Chegamos diretamente ao âmago de um personagem quando
perguntamos o que eles mais desejam (como na Pergunta n.º 1) e
também ao perguntar o que mais temem. Aprendemos muito sobre
alguém quando separamos tempo para considerar seus maiores
medos. Não precisa ser o protagonista; você pode fazer esse
questionamento sobre qualquer personagem, sobre seus medos e
desejos.
O livro Extraordinário, de R. J. Palacio é a história de August
(Auggie) Pullman, um garoto de dez anos que sofre de uma severa
deformidade facial. Educado em casa, Auggie é matriculado em
uma escola pela primeira vez no sexto ano e lá enfrenta a crueldade
dos colegas.
Ao discutir o livro com a minha filha, Allison, levantamos a
pergunta: “O que Auggie mais teme?”. Allison pensou na pergunta
por alguns minutos e então respondeu: “Ele quer ser normal”. Ela
parou e pensou um pouco mais, e então corrigiu sua resposta:
“Bom, na verdade, ele sabe que é normal, mas teme que ninguém
mais seja capaz de enxergá-lo como ele é de fato, pois querem que
ele se pareça com os outros”.
Aquela segunda resposta nos levou a considerar que talvez
Auggie não quisesse ser como todo mundo (o que pensávamos a
princípio), mas que temia nunca ser aceito como era, sem precisar
mudar a fim de ser aceito. O medo de não ser igual a todo mundo é
muito diferente do medo de não ser aceito por quem você é.
Se fizéssemos a Pergunta n.º 1 (“O que o personagem mais
deseja?”) chegaríamos ao mesmo entendimento. Perguntar sobre
seus medos foi apenas outra forma de entender melhor o
personagem.
Alguns exemplos: • O que Henry Huggins mais teme? (Henry
Huggins, Beverly Cleary) • Qual o maior medo de Janner Igiby? (A
Saga Wingfeather, Andrew Peterson) • O que Corrie Ten Boom mais
teme? (O Refúgio Secreto, Corrie Ten Boom).
Pergunta n.º 7: O que você mudaria em relação ao cenário ou ao
personagem principal se fosse o autor do livro?
Em determinado episódio do podcast Read-Aloud Revival, N. D.
Wilson, autor líder de vendas, disse que quando jovem não gostava
de ler livros novos. Quando estava no quinto ano, seu pai sugeriu
que enquanto lesse, ele determinasse o que mudaria se fosse o
autor. N. D. se viu motivado, embora contra sua vontade, desejando
tornar as histórias que estava lendo mais interessantes do que ele
mesmo as considerava.
“Se não gostasse de um livro”, N.D. disse, “eu tinha de dizer ao
meu pai o que faria para melhorá-lo. Essa prática me envolvia de
uma forma completamente diferente. Eu me colocava no lugar do
autor e pensava ‘Não, não faça isso. Vá por aqui. Adicione um
pirata. Mate todo mundo’. Eu estava no quinto ano”, ele riu.
“Comecei a ler de forma mais ampla e no sexto anunciei à minha
família: ‘É isso que vou fazer. Vou escrever livros’”.
E foi exatamente isso que ele fez. Suspeito que a maneira
divertida que seu pai o ensinou a abordar a leitura foi fundamental
para transformá-lo no autor best-seller que ele é hoje. Você
encontrará alguns de seus livros recomendados na terceira parte
deste livro.
Você pode fazer essa mesma pergunta aos seus filhos, apesar
de eu provavelmente guardá-la para as crianças com mais de sete
anos. Se seu filho é um aspirante a escritor ou ilustrador, essa pode
ser uma ótima maneira de praticar. Eles se beneficiam de utilizar o
mundo e os personagens de outra pessoa enquanto brincam com a
linguagem e a mudança de enredo.
Alguns exemplos: • O que você mudaria na Ilha Selvagem? (O
Dragão do Meu Pai, Ruth Stiles Gannett) • O que você mudaria
sobre a comunidade distópica onde Jonas vive? (O Doador de
Memórias, Lois Lowry) • O que você mudaria no personagem
Grady? (The Charlatan’s Boy, Jonathan Rogers).
Pergunta n.º 8: O que mais surpreendeu você?
Podemos descobrir muito a respeito de nossos filhos ao perceber
o que os pega de surpresa. Às vezes me surpreendo quando
respondo a essa pergunta! Percebi que tinha determinada
expectativa até eu articular o que não imaginava.
Amo fazer essa pergunta a crianças mais novas depois de ler um
livro ilustrado. Alguns anos atrás, quando li em voz alta com os
meus três filhos mais velhos Ox-Cart Man, de Donald Hall e Barbara
Cooney e então perguntei o que mais os surpreendeu, um dos meus
filhos respondeu imediatamente que havia sido a quantidade de
tempo e o quão duro a família trabalhava antes de partir para
Portsmouth Market. Essa fala nos levou a uma conversa sem rumo,
e começamos a ler uma pilha de livros sobre a vida de colonos
durante o século XVIII e XIX. Uma pergunta que fizemos sobre o
Ox-Cart Man nos abriu para um novo mundo.
Questionar o que surpreendeu o seu filho é uma pergunta
especialmente boa após a leitura de livros ilustrados, uma vez que
autores e ilustradores de obras desse tipo trabalham duro para
surpreender seus leitores. Tente fazer essa pergunta depois de ler
algo escrito e ilustrado por Jon Klassen, como Quero meu Chapéu
de Volta, Este Chapéu Não é Meu, ou Encontramos um Chapéu.
Esses livros divertidos certamente a surpreenderão durante a
primeira leitura e continuarão a encantá-la quando seus filhos
pedirem que sejam relidos.
Alguns exemplos: • O que mais a surpreendeu quando os
animais chegaram à costa? (The Circus Ship, Chris Van Dusen) • O
que você esperava que acontecesse com Emmy? (Emmy and the
Incredible Shrinking Rat [Emmy e o Incrível Rato Encolhido], Lynne
Jonell) • O que mais a surpreendeu nos personagens? (Minha Vida
Fora dos Trilhos, Clare Vanderpool).
Pergunta n.º 9: Qual personagem mais faz lembrar de você mesmo?
Embora eu adore perguntar isso aos autores convidados ao
Read-Aloud Revival, levantar esse questionamento ao leitor pode
levar a uma conversa muito interessante! Geralmente, veremos
parte de nós mesmos em vários aspectos de diferentes
personagens. É claro que costumamos ter um vínculo afetivo maior
com o protagonista, mas o diálogo à luz desse questionamento pode
desenvolver conversas muito proveitosas e estreitar os laços dos
leitores.
Enxergar a nós mesmos nos livros que lemos pode trazer muita
luz — não apenas à história (apesar de isso realmente acontecer),
mas às nossas próprias forças e fraquezas da vida cotidiana.
Jennifer Trafton, autora de The Rise and Fall of Mount Majestic,
uma história de aventura fantástica, disse que de todos os
personagens de seu livro (e há vários personagens cômicos!), ela
mais se parece com Worvil — sempre preocupado com aquela
perigosapalavra: poderia. O que poderia acontecer? Ao enxergar
sua preocupação pelos olhos de um personagem em uma ilha
fantástica, ela obteve uma imagem mais clara e objetiva do que
acontece dentro de si e no mundo ao seu redor.
Personagens em livros como The Rise and Fall of Mount Majestic
geram uma fantástica justaposição de personalidade. Persimmony
Smudge anseia por glória e aventura, enquanto sua mãe é
desconfiada e cautelosa. Os Rumblebumps são alegres e
despreocupados, enquanto os leafeaters impecavelmente
educados. Worvil, o personagem com quem a autora se associou
tão fortemente, anseia por segurança e teme o desconhecido. Ao
longo da narrativa, fica claro quais qualidades destes personagens
ajudam e inibem suas missões e aventuras.
Os contos do Ursinho Pooh, de A. A. Milne fazem algo parecido.
É bastante revelador quando uma criança pergunta se ela é mais
parecida com o cauteloso Leitão, com o bondoso Ursinho Pooh,
com o afoito Tigre, com o perspicaz Abel ou com o pessimista
Bisonho! E pode acabar resultando em uma conversa divertida e
esclarecedora.
Se essa pergunta não leva à conversa que se desejava ter, peça
exemplos ao seu filho de coisas que o personagem fez que os faz
lembrar de suas próprias atitudes. Lembre-se de que sempre que
conduzimos a criança de volta ao texto para encontrar exemplos,
estamos no caminho certo para cavar mais fundo e começar uma
boa discussão.
Alguns exemplos: • Qual personagem de The Rise and Fall of
Mount Majestic se parece mais com você? (The Rise and Fall of
Mount Majestic, Jennifer Trafton) • Qual personagem do Ursinho
Pooh mais se parece com você? (Ursinho Pooh, A. A. Milne) • Qual
das irmãs March mais se parece com você? (Mulherzinhas, Louisa
May Alcott).
Pergunta n.º 10: O que você não quer esquecer neste livro (ou neste
capítulo)?
Para responder a essa pergunta, o leitor precisa se lembrar da
história e relembrar uma cena específica. Gosto de responder a
essa pergunta em meu diário de leitura, mesmo após ler sozinha,
pois me ajuda a lembrar os detalhes de histórias que eu
simplesmente esqueceria se não tivesse anotado. Essa é uma
pergunta mais fácil de responder: “Qual sua parte favorita da história
toda?”, pois não há pressão para encontrar a melhor resposta. Você
pode apenas nomear qualquer coisa de que não deseja esquecer.
Quando li O Esconderijo Secreto, de Corrie Ten Boom, atentei-
me à cena em que a irmã de Betsie percebe que se uma pessoa
consegue aprender a odiar (como os nazistas foram ensinados por
Adolf Hitler), então ela também consegue aprender a amar. A meu
ver, esta foi uma das cenas mais marcantes do livro — e embora eu
não diga que seja a minha favorita, porque foi uma época muito
sombria na vida de Corrie e Betsie, é algo que quero recordar para
sempre. O trecho me fez refletir sobre o fato de que em face da
perseguição, podemos escolher a alegria e inspirar outros a amar.
Embora o exemplo acima seja mais maduro, ainda assim a
pergunta pode ser feita para crianças acerca de um livro ilustrado,
um conto de fadas ou um poema infantil. Crianças pequenas estão
sempre prontas para dizer qual foi a parte favorita do livro que
leram.
No podcast Read-Aloud Revival, terminamos cada episódio com
o segmento que chamamos de “Deixa a Criança Falar”. Crianças
então ligam e deixam mensagens contando sobre os livros que
gostaram e de que jamais querem se esquecer. Crianças de todas
as idades deixam mensagens diariamente, contando-nos sobre as
partes mais animadas e memoráveis de alguns de seus livros
prediletos.
Uma das minhas mensagens favoritas veio de um menininho que
disse que amava uma parte do livro infantil Five Little Monkeys
Jumping on the Bed [Cinco Macaquinhos Pulando na Cama], de
Eileen Christelow, quando a mãe pula em sua própria cama bem no
final e começa a saltar. É claro que essa foi a parte favorita daquele
menininho! Não seria a sua também?
Alguns exemplos: • Do que você espera não se esquecer nesta
jornada ao redor do mundo? (How to Make an Apple Pie and See
the World, Marjorie Priceman) • Do que você espera não se
esquecer da história de Meg? (Uma Dobra no Tempo, Madeleine
L’Engle) • Do que você espera não se esquecer do livro Meninos de
Ouro? (Meninos de Ouro, Daniel James Brown).
As conversas que você gera ao fazer perguntas abertas de uma
maneira fácil e amigável são ilimitadas. Talvez você mesma perceba
aquelas perguntas que mais tende a fazer, aqueles
questionamentos favoritos que você sempre vai querer fazer ao seu
filho. Marque este capítulo e o releia com frequência, pois uma
disposição amigável e essa coleção de perguntas abertas são tudo
aquilo de que você precisa para ter conversas significativas e
duradouras a respeito dos livros com seus filhos.
Lembre-se de que o hábito de fazer perguntas pertinentes é mais
importante do que receber respostas convincentes. Torne o hábito
de fazer perguntas e iniciar conversas tão frequente e natural
quanto perguntar a seus filhos como foi o dia deles ou o que eles
fizeram na casa de um amigo. Não dê tanta ênfase à profundidade
das respostas; elas se desenvolvem com tempo e prática. Ao invés
disso, ajude o seu filho a desenvolver o hábito de fazer perguntas,
de questionar.
Quando lemos com os nossos filhos e separamos tempo para
conversar e dialogar sobre o que lemos, abrimos portas, encaramos
ideias e fortalecemos nosso relacionamento com eles. É dessa
maneira que construímos uma cultura em torno dos livros. É assim
que fortalecemos elos significativos e duradouros com nossos filhos.
O tempo é então despendido da melhor forma possível com aquilo
que de fato importa. Jamais nos arrependeremos desses momentos
em família.
 
 
Como utilizar os capítulos 12–15
Os próximos 4 capítulos deste livro foram escritos com o
propósito de ajudá-la a navegar pelas águas da leitura em voz alta
com seus filhos com base nas idades a seguir. Cada capítulo cobrirá
uma faixa etária específica: • Capítulo 12: do nascimento aos três
anos, • Capítulo 13: dos quatro aos sete anos, • Capítulo 14: dos
oito aos doze anos, • Capítulo 15: de treze para mais.
Em cada capítulo, você se familiarizará com a essência da leitura
em voz alta de acordo com a faixa etária, e verá possíveis
obstáculos que podem surgir durante a jornada.
Cada capítulo contém uma lista de livros recomendados para
cada faixa etária. Escolhi a dedo obras que provavelmente trarão
aquela experiência de leitura em voz alta positiva com seus filhos,
não importando quantos livros já tenha lido ou não em voz alta (se é
que tenha lido algum). Li de capa a capa cada um dos livros
contidos nestas listas e, por isso, estou convencida de que todos
dão uma boa leitura em voz alta. Esta não é uma lista exaustiva,
obviamente, mas é um bom ponto de partida para se aventurar
nessa prática.
COMO A MAIORIA DAS EDITORAS 
SEGMENTA SUAS PUBLICAÇÕES
É provável que você perceba que minhas recomendações por
idade diferem das recomendações das editoras. Tenho meus
motivos.
Afora os livros ilustrados e os livros para crianças em período de
alfabetização, as editoras costumam ter outras duas categorias
principais: infanto-juvenil e jovem adulto (JA). As editoras escolhem
a categoria baseando-se em critérios distintos, por exemplo: • a
complexidade do texto (por exemplo, a medida Lexile), • a idade do
protagonista, • a maturidade do conteúdo da história.
Livros infanto-juvenis normalmente são recomendados para a
faixa etária de 8–12 anos ou de 10 anos para cima. Geralmente se
adequam ao nível de leitura próprio a essa idade e apresentam
protagonistas com mais de 10 anos. Não se trata de uma regra
absoluta (você encontrará exceções), mas não costuma fugir muito
disso.
Livros para Jovens Adultos são destinados a leitores dos 13 aos
20 anos, apresentam um protagonista com 14 anos ou mais e a
partir de determinada faixa etária entregam conteúdo mais maduro,
incluindo linguagem inapropriada, violência e sexo. Livros para
Jovens Adultos (embora nem sempre) apresentam situações
centradas em um protagonista jovem ou em histórias de
amadurecimento,e geralmente pressionam os limites no quesito
conteúdo, refletindo o que está acontecendo na cultura (ou
subcultura) corrente.
Tenho vários problemas a tratar aqui. Começarei dizendo que
apesar de ser uma regra geral em publicações infantis que o
protagonista seja um pouquinho mais velho que o público-alvo,
ainda estou para encontrar uma criança a dizer que os personagens
em seus livros prediletos são mais velhos que ela. Às vezes as
editoras decidem que um livro se encaixa com crianças de 8–12
anos porque o protagonista tem 11 anos, e pensam que pré-
adolescentes de 13 anos não querem ler livros sobre crianças de 11
anos. Evidentemente, não é essa a realidade, e o sucesso de Harry
Potter no mercado adolescente e adulto deveria ser o suficiente
para nos convencer disso. Muitos adolescentes se apaixonam por
personagens mais novos. Moças com mais de dezoito anos ainda
se encantam com Anne Shirley, de 14 anos. Adolescentes amam
Auggie Pullman, menino de dez anos do livro de R. J. Palacio,
Extraordinário. E conheço um monte de crianças de 8–10 anos que
amam os livros Ramona Quimby, uma menina tão nova.
Não concordo com as editoras quando estas afirmam que a
idade do protagonista deve decidir seu público-alvo, então ignoro
essa variável por completo quando recomendo minhas listas de
leitura.
Você notará que recomendo uma boa quantidade de livros
infanto-juvenis para adolescentes, justamente porque procuro por
algo a mais (e não somente a idade do protagonista) quando
recomendo um livro. Contarei exatamente o que estou buscando em
alguns instantes.
Antes disso, tratemos de outra questão acerca da forma como as
editoras categorizam suas publicações. Qualquer um que passe
tempo com crianças sabe que há uma grande diferença entre a
maturidade emocional de uma criança de 8 anos e a de uma criança
de 12 anos. Por exemplo, uma criança de 8 anos talvez não esteja
pronta para ler uma história sobre os horrores da era de Hitler ou da
Ku Klux Klan. Aos 12 anos, entretanto, muitas crianças já estão
prontas para ler livros sobre tópicos mais pesados.
Há uma diferença emocional ainda maior entre um pré-
adolescente de 13 anos e um jovem de 17. Categorizar livros para
jovens mais velhos (especialmente aqueles com violência gráfica e
conteúdo sexual) junto a livros apropriados para pré-adolescentes
de 13 anos é a receita para o desastre juvenil (e para os pais que
estão tentando ajudar seus filhos com bons livros!).
De modo geral, acredito que as editoras têm a tendência de
inverter um pouco a faixa etária de suas categorizações. Por
exemplo, por vezes me deparo com livros recomendados para a
faixa etária 8–12 anos, mas que se adequariam com maior precisão
à maturidade emocional dos meus filhos entre 13–15 anos. Além
disso, há uma enorme quantidade de livros recomendados para
Jovens Adultos que mesmo adulta considerei de difícil leitura, e eu
não gosto nada que essas mesmas obras sejam colocadas ao lado
dos contos de fantasia favoritos do meu filho de treze anos.
Encerro meu protesto em poucas linhas (prometo!), mas saber
como os editores segmentam as faixas etárias devolve o controle
aos pais. São eles quem precisam decidir qual o melhor livro para
leituras em família. Finalmente, tenha sempre uma verdade em
mente: quem precisa decidir qual livro é ou não adequado para o
seu filho é você, pai e mãe dele. Apesar das recomendações
editoriais, obras recomendadas para determinada idade podem não
ser recomendadas para o seu filho. Quem o conhece de fato é você.
Atente-se a isso!
O QUE ESTOU BUSCANDO NOS LIVROS 
QUE RECOMENDO
Nas listas de livros a seguir, busco dar aos pais que estão lendo
com seus filhos uma experiência prazerosa e memorável. Quero
dizer, não estou tentando encontrar os livros mais desafiadores para
cada faixa etária. Pelo contrário, busco livros que darão a você e a
seus filhos uma experiência de leitura em voz alta encantadora,
independentemente do “grau de dificuldade de leitura” dos textos, da
idade do protagonista ou da recomendação etária por parte da
editora.
Os livros listados nos capítulos seguintes fazem exatamente o
que falamos no Capítulo 9 — são livros prazerosos para adultos e
crianças, que deixam os leitores com um amplo senso de esperança
e deslumbramento, e passam pela minha Avaliação de 3 Perguntas:
apelando ao nosso sentido visual, usando um vocabulário rico e
variado e aumentando nosso interesse e desejo pela leitura.
Enquanto criava cada uma das listas, tentei me ater aos livros
contemporâneos, embora você também encontre alguns clássicos.
Espero que goste de mergulhar nos padrões antigos, e fiz questão
de acrescentar alguns clássicos especialmente adequados para a
leitura em voz alta. Entretanto, listas de grandes clássicos abundam
na internet, e nestes capítulos meu desejo sincero é introduzi-la a
novos autores e obras que encantarão e surpreenderão você e seus
filhos. Talvez você estranhe que alguns de seus livros favoritos não
figuram nestas listas — na verdade, alguns dos meus favoritos
também não estão! Na verdade, eu mesma montei listas específicas
para a leitura em voz alta. Alguns livros são mais fáceis de ler em
voz alta, outros nem tanto; por isso criei essas listas, tendo em
mente uma experiência positiva.
Você encontrará livros de autores/ilustradores diversos e livros
que apresentam personagens distintos. Lembre-se, quando lemos
estamos buscando janelas, espelhos e portas de vidro corrediças
(leia o Capítulo 5 para entender melhor).
Também escolhi uma versão da Bíblia (ou duas) para cada nível
de leitura. Acredito que essas versões tenham uma boa
desenvoltura para a leitura em voz alta. E você pode, é claro, ler em
voz alta qualquer versão da Bíblia usada em sua igreja e/ou casa,
mas descobri que alguns livros de histórias da Bíblia voltados ao
público infantil são particularmente agradáveis e significativos no
caso da leitura em voz alta.
Lembre-se de que esta não é uma lista dos livros mais
importantes. Meu único objetivo ao criá-la foi o seguinte: ajudar
você, mamãe ou papai, a desfrutar da leitura em voz alta com seus
filhos. As obras aqui listadas pretendem ajudá-los nesse processo.
“NÃO CREIO QUE A SARAH 
INCLUIU ESSE LIVRO!”
Todas nós temos gostos diferentes, então imploro que siga seus
instintos dados por Deus quando estiver selecionando livros para ler
em voz alta com seus filhos. Só porque um livro entrou na minha
lista de recomendações (ou na de qualquer outra pessoa), não
significa que o livro automaticamente seja um encaixe perfeito para
o seu filho.
Você conhece o seu filho, sua família, seus valores melhor do
que eu. Sinta-se confiante em suas próprias decisões para escolher
os livros que irá ler com eles — você é a melhor pessoa para ajudar
seu filho a aprender a amar a leitura e a encontrar livros que
causem um impacto significativo e duradouro nele. Se vocês não
estiverem aproveitando a leitura ou se o livro simplesmente não se
encaixou no ritmo da família, abandone-o e leiam outro! Lembre-se
do que dissemos no Capítulo 9: às vezes, você precisa procurar
pela jujuba certa.
Acima de tudo, espero que estes livros tragam deleite e
inspiração. Espero que conduzam toda a sua família para uma
discussão maravilhosa e deliciosa com seus filhos, imprimam-se nas
memórias de sua família e ajudem você e seus filhos a se
apaixonarem um pouco mais por histórias e narrativas. Espero que
essas obras a encham de esperança, ajudem-na a ver o mundo
outra vez e encantem o seu coração. Acima de tudo, espero que os
livros aqui indicados ajudem sua família a amar a Deus e o próximo
de todo o seu coração, alma, mente e força.
Nunca é tarde demais para começar a ler em voz alta. Quer onde
você esteja, qual seja a idade dos seus filhos, hoje é o melhor dia
para começar a ler em família. Então pegue uma lista e comece.
Garanto que você não vai se arrepender.
 
CAPÍTULO
12
Livros são deliciosos Faixa Etária: 0–3
Crianças tornam-se leitoras no colo dos pais.
— Emilie Buchwald A criança nunca é nova demais para um
momento de leitura em voz altaem família. Bebês no útero se
beneficiam de escutar o som da voz dos pais e os recém-
nascidos normalmente ficam calmos com o ritmo e a cadência
de ter alguém lendo ou falando com eles. E a prática fica
ainda mais animadora quando o bebê começa a engatinhar
por todos os cantos da casa, ainda que ele aparente preferir
brincar com o livro ou mastigá-lo a olhar para as imagens ou
se sentar em silêncio para uma história!
Segundo pesquisas, bebês que ouvem alguém lendo para eles
em voz alta desde os seis meses de idade têm vocabulários mais
robustos e mais facilidade na alfabetização quatro anos depois
(quando geralmente começa a escola). Os benefícios acadêmicos,
então, começam quando nossos filhos são muito, muito pequenos.
Estamos preparando nossos pequeninos para o sucesso futuro
quando os abraçamos e compartilhamos uma história.
Mas queremos muito mais do que simplesmente investir em seu
sucesso futuro, certo? Ler com nossos filhos mais novos é ajudá-los
a associar livros e histórias com afeição. Eles relacionam livros com
amor e carinho. Quando colocamos nossos pequenos no colo e
tiramos tempo para ler uma história, eles se sentem cuidados e
seguros. Ajudar nossos filhos a associar esse sentimento caloroso,
feliz e amável aos livros é um grande presente.
QUANDO AS COISAS 
COMEÇAM A COMPLICAR
A parte complicada de ler para os pequenos é se reconhecer
bem-sucedida mesmo quando não parece. Seu bebê pode estar
balbuciando, brincando, dormindo ou aparentemente a ignorando, e
então você começa a se perguntar se ele está mesmo prestando
atenção. Como isso pode fazer alguma diferença?
Deixe-me garantir que faz toda diferença; o efeito cascata de ler
com uma criança menor de quatro anos é surpreendente. Mesmo
que seu bebê esteja ocupado brincando, olhando para o nada,
balbuciando ou aparentemente completamente desinteressado, a
linguagem entrando em seus ouvidos ainda causa impacto positivo.
Algumas de nós se frustram quando nossos filhos viram a página
do livro depressa ou devagar demais. No caso das crianças mais
novas, o simples gesto de apontar para imagens e falar sobre elas
já costuma ser uma experiência prazerosa. Neste estágio, os pais já
colhem frutos por simplesmente sentar com seu filho — um por vez,
caso tenha mais de um — e tirar tempo para virar as páginas de um
livro (ainda que não seja exatamente para ler cada uma das
palavras da página).
Lendo com nosso bebê, queremos ter certeza de que o estamos
respeitando como um ser racional e honrando sua afinidade natural
por histórias. Uma criança pequena naturalmente será atraída a
livros bonitos, engraçados, simples, ou até mesmo bobos. Lembre-
se, bons livros são histórias que os pais amam ler e os filhos amam
escutar. Trata-se de uma verdade até mesmo no caso de filhos mais
novos.
ESCOLHENDO LIVROS PARA 
A FAIXA ETÁRIA ENTRE 0–3 ANOS
Quando estiver escolhendo livros para crianças muito novas,
mantenha os olhos em padrões previsíveis, em textos simples e
prazerosos e ilustrações que levem seu filhos a gastar mais tempo
que o estritamente necessário apenas olhando. As crianças dessa
idade gostam especialmente de rimas bem escritas (Mamãe Ganso,
mais alguém?).
A marca desta idade é seu amor pela repetição. Você descobrirá
que seu filho, ao contrário de você, não se cansa das mesmas
histórias. Na verdade, é muito provável que seu filho menor prefira
ouvir ou ler as mesmas histórias várias vezes seguidas, e não uma
lista mais variada. Você também não precisa ter uma enorme
coleção de livros para crianças de 0–3 anos. “Antes dos dois anos”,
diz Jim Trelease, “a leitura repetida de poucos livros é melhor do
que uma grande coleção lida sem frequência”.1 Mantenha uma
pequena caixa com alguns favoritos à mão e os torne acessíveis ao
seu filho; e esteja pronta para lê-los uma vez depois da outra até
que consiga recitá-los involuntariamente.
Para crianças com menos de dois anos (ou para crianças mais
velhas que ainda não estão familiarizadas com livros), opte pelos
livros cartonados e pelos “indestrutíveis” (um tipo de livro cujo
material é difícil de rasgar ou danificar, à venda em muitas livrarias
físicas e virtuais). Deixe seu bebê mastigá-lo, sentar nele, brincar
com ele, senti-lo de diversas formas. Você quer que os livros se
tornem o brinquedo e companheiro favorito do seu pequeno. Não
insista com o seu bebê para que ele manuseie as páginas de uma
forma específica. Com o tempo (e com o seu exemplo, é claro) seu
pequeno aprenderá por si só a manusear um livro de forma
adequada.
O mais importante ao ler com uma criança pequena é manter os
laços de alegria, energia e vida. Essa postura é mantida quando
nossos momentos de leitura permanecem calorosos e
aconchegantes, com tempo disponível para — eis a dica — ler com
calma, com naturalidade, e não correndo, como é do nosso costume
hoje em dia. Deixe que seus filhos tomem tempo nas ilustrações ou
folheiem rapidamente as páginas, uma após a outra, com liberdade.
Essa abertura permite que os nossos filhos menores formem seus
próprios relacionamentos com os livros.
Todo tempo gasto lendo com uma criança de três anos ou menos
é um tempo bem gasto. Ler esses mesmos livros simples repetidas
vezes (e continuamente) proporciona ao seu filho um salto incrível,
bem como um belo relacionamento com as histórias e, o mais
importante, um vínculo especial com você.
O QUE OS BEBÊS E AS CRIANÇAS 
PEQUENAS PODEM FAZER 
ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA No momento de leitura em
voz alta, as seguintes atividades são excelentes para conseguir a
atenção dos bebês ou para distraí-los enquanto lê para os irmãos
mais velhos.
• Sirva lanches (ofereça picolés — eles demoram para chupar um
picolé. Quando seu filho já tiver um pouco mais de coordenação
motora, uma boa pedida é dar pequenas porções de alimentos
em formatos geométricos, como cereais matinais, cubos de
queijo ou pedaços de fruta).
• Monte quebra-cabeças gigantes voltados a crianças dessa
idade.
• Faça o seu filho pintar. Coloque a criança no cadeirão, cole uma
cartolina na mesinha de apoio e dê ao seu filho giz de cera
grosso.
• Construa coisas com bloquinhos.
• Derrame no chão uma caixa com os brinquedos favoritos do seu
filho (não há problema se ele aparentemente não estiver
prestando atenção na leitura).
• Use um pincel para “pintar” com um pouco de água (use essa
distração com a criança no cadeirão ou no quintal; diga ao seu
filho “pinte a cartolina” ou “pinte a mesinha” enquanto você lê).
• Faça modelagens com massinha (quando o seu filho tiver
crescido o suficiente para não comê-la).
• Dê ao seu filho canetões de tinta removível (disponíveis em
papelarias e lojas especializadas, tanto físicas como virtuais) e
grandes folhas de papel.
MINHA BÍBLIA FAVORITA PARA LER 
EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 0–3 ANOS
Os volumes de Read-Aloud Bible Stories [Histórias Bíblicas Lidas
em Voz Alta] escritos e organizados por Ella Lindvall e H. Kent
Puckett são os meus favoritos para os mais novos. Ilustrações
simples e claras contam o que o pequeno texto mínimo não conta.
Amo como as ilustrações ao lado desses textos mostram cenas a
partir de perspectivas inesperadas. O texto espalhado pelas páginas
é perfeito para ler em voz alta, e os pais leitores podem até mesmo
perceber nuances totalmente novas ao longo da leitura. Os mesmos
autores e a mesma equipe de ilustradores que produziu os volumes
1–5 da Read-Aloud Bible Stories foram também os produtores do
livro How God Made the World [Como Deus Criou o Mundo].
ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER 
EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 0–3 ANOS
Enquanto criava minha lista, buscava por livros com ritmo e
cadência prazerosos, de belas ilustrações e cuja estrutura fosse
apetecível para crianças pequenas. Meu esforço foi escolher obras
que os pais pudessem ler repetidas vezes sem enlouquecer. Tente
garantir que os livros escolhidos serão como um reflexo de culturas
e personagens diversificados — minha lista a ajudará com isso.
É claro, os melhores livros para a faixa etária de 0–3 anos são os
livros que cativam o seufilho. Comece com essa lista e vá
sondando o interesse do seu pequeno. E lembre-se da parte mais
importante: divirta-se!
Bee-bim Bop!, de Linda Sue Park, ilustrado por Ho Baek Lee Um
livro cartonado com rimas e muita diversão, esta história cantada
narra o momento em que uma mãe e sua filha pequena preparam
juntas uma receita com arroz tipicamente coreana. O ritmo de Linda
Sue Park é perfeito; as cores vibrantes e a harmonia entre as
palavras fazem com que reler este livro repetidas vezes seja um
deleite. Sim, você provavelmente fará exatamente isso; e o melhor:
a pedido do seu filho! Leia também: Jamberry, de Bruce Degen.
Blue Hat, Green Hat [Chapéu Azul, Chapéu Verde], de Sandra
Boynton Os livros de Sandra Boynton farão você e seu pequeno
ouvinte dar boas risadas — suas histórias têm sido descritas como
“sérias bobagens para todas as idades”. Em Blue Hat, Green Hat,
um peru confuso tenta se vestir. Leia este livro algumas vezes e
logo seu pequenino será capaz de “lê-lo” com você! Leia também:
But Not the Hippopotamus, Barnyard Dance, The Going-to-Bed
Book, e Happy Hippo, Angry Duck — todos do mesmo
autor/ilustrador.
Carlinhos precisa de uma Capa, de Tomie dePaola Vale a pena ler
qualquer material de Tomie dePaola, mas Carlinhos precisa de uma
Capa há de cativar em especial medida a atenção do seu pequeno
leitor. Pobre Carlinhos, o pastor usa uma capa esfarrapada. Com
ilustrações bem-humoradas, de texto simples e conciso, veja
Carlinhos tosar as ovelhas, cardar e fiar a lã, tingir o tecido e
costurar uma linda e nova capa vermelha. Seus filhos vão amar ver
o rato guardando tesouros ao longo das páginas. E não se
surpreenda se seus filhos começarem a gargalhar na última página!
Leia também: Pancakes for Breakfast, My First Mother Goose, do
mesmo autor/ilustrador, e Pelle’s New Suit, um livro sobre tosquia de
ovelhas escrito e ilustrado por Elsa Beskow.
Querido Zoo, de Rod Campbell Onde procurar o animal de
estimação perfeito? No zoológico, é claro! Mas qual animal seria o
ideal? Crianças pequenas adoram levantar as abas para revelar os
animais neste clássico dos livros cartonados. Trata-se de um
queridinho todo especial para bebês de um a dois anos. (Quase
sempre dou esse título como presente em chás de bebê). Leia
também: Peek-a Who? e Peek-a-Moo!, ambos de Nina Laden.
Pêssego, Pera, Ameixa no Pomar, de Allan e Janet Ahlberg Uma
divertida combinação de Mãe Ganso e I Spy, este livro é um
daqueles que seu filho não vai se cansar de ouvir repetidas vezes.
Os pequenos se divertem encontrando os personagens ocultos nas
lindas obras de arte e ouvindo as rimas. Meus filhos me pediram
para lê-lo inúmeras vezes. Posso recitá-lo de olhos fechados! Leia
também: Peek-a-Boo, de Allan e Janet Ahlberg.
The Giant Jumperee [O Gigante Jumperee], de Julia Donaldson,
ilustrado por Helen Oxenbury Pobre Coelho! Há uma criatura
assustadora se escondendo dentro de sua toca! Os amigos do
Coelho vêm em seu auxílio, mas eles também estão apavorados
com a voz estrondosa e misteriosa. O que farão? Quem é o Gigante
Jumperee e como ele sairá da toca? Embora recente, este livro
tende a se tornar um clássico nos próximos anos. Julia Donaldson é
mestre nas rimas e as expressões dos animais nas ilustrações de
Helen Oxenbury farão até os adultos rirem. Leia também: O Grúfalo
e O Caracol e a Baleia, ambos escritos por Julia Donaldson e
ilustrados por Axel Scheffler.
Go, Dog. Go!, de P.D. Eastman São poucos os deleites para uma
criança como a festa canina que aparece no final deste livro — e a
alegre experiência de presenciá-la sempre que o relê. Adquira a
versão completa em capa dura ou em brochura, ou mesmo a versão
resumida em forma de livro cartonado (de material mais resistente e
tão prazerosa quanto a versão completa), voltada a crianças
menores. Livros cheios de rimas são especialmente deliciosos para
as crianças pequenas, uma vez que podem ajudá-las a “ler” o livro
após o terem escutado algumas vezes. Este é um predileto por todo
o mundo. Leia também: livros cartonados do Dr. Seuss, como One
Fish Two Fish Red Fish Blue Fish, Hop on Pop, e Fox in Socks.
Good Dog, Carl [Carl, o Bom Cachorro], de Alexandra Day Livros
sem texto são especialmente divertidos de ler com crianças
pequenas. Talvez você se surpreenda com o que cativa a atenção
do seu filho à medida que ele olha as imagens. É preciso habilidade
cuidadosa e uma imaginação robusta para contar uma história
completamente em imagens, e Alexandra Day exibe ambas as
qualidades com suas histórias sobre o amado cachorro Carl — o
melhor amigo do bebê. Leia também: o restante dos livros sobre
Carl, de Alexandra Day, como Carl’s Afternoon in the Park, Carl’s
Summer Vacation, e Carl’s Birthday, além de outros livros sem texto
como Goodnight, Gorilla, de Peggy Rathmann (esse é hilário!).
Hello Ninja, de N. D. Wilson, ilustrado por Forrest Dickison Pronto
para rir? Esse livro cartonado, divertido e brincalhão mostra o dia a
dia de um ninja — afinal, ninjas também comem, dormem e vão ao
banheiro, são gente como a gente. Certo? Mas não o acorde! Ninjas
fazem coisas de ninja o dia todo, e esse pequeno ninja precisa de
descanso! Leia também: Blah Blah Black Sheep, de N. D. Wilson e
Forrest Dickison, além de I’m Grumpy e I’m Sunny!, ambos de
Jennifer L. Holm & Matthew Holm.
Hush! A Thai Lullaby [Silêncio, Thai está Dormindo!] de Minfong Ho,
ilustrado por Holly Meade Esta doce história de ninar ganhou uma
Medalha Caldecott pelas lindas ilustrações de Holly Meade. Lagarto,
lagarto, não venha espiar! Não vê que meu bebê está a ninar? Cada
nova criatura que aparece ameaça acordar o bebê, e a última
página é a minha favorita! Leia também: o divertido e cativante
Hush, Little Baby, de Marla Frazee, uma abordagem da canção
folclórica americana, e Twinkle, Twinkle, Little Star [Brilha, Brilha,
Estrelinha], ilustrado por Iza Trapani.
Kitten’s First Full Moon [A Primeira Lua Cheia do Gatinho], de Kevin
Henkes Tudo o que o gatinho quer é uma tigela de leite. Mas por
que essa tigela branca e redonda de leite é tão difícil de alcançar?
Crianças que amam animais vão adorar este doce conto de um
gatinho faminto e uma brilhante lua cheia. Em tons vibrantes de
preto e branco, este livro ganhou a Medalha Caldecott de melhor
ilustração de 2015. Leia também: O Mundo Inteiro, de Liz Garton
Scanlon e Marla Frazee, e Gossie, de Olivier Dunrea.
O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro e o Grande Urso
Esfomeado, de Don Wood e Audrey Wood Um ratinho fica
emocionado ao encontrar um morango vermelho maduro, mas como
ele pode protegê-lo do grande e faminto urso? Adquira este livro em
sua edição cartonada e ele aguentará o manuseio frequente. Don e
Audrey Wood assinam juntos vários dos meus livros infantis
favoritos. Leia também: A Casa Sonolenta, A Lua Cheia na Casa
Sonolenta, e Rápido como um Gafanhoto, todos do mesmo autor e
ilustrador.
Mr. Gumpy’s Outing [O Passeio do Sr. Gumpy], de John Burningham
Os livros do Sr. Gumpy encantam as crianças há décadas, e não é
de admirar. Em Mr. Gumpy’s Outing, os animais querem pegar uma
carona no barco do Sr. Gumpy. E não há problema, desde que a
ovelha não faça barulho, o coelho não pule e as crianças não
briguem. Mas e se eles fizerem tudo isso? Minha parte favorita dos
livros do Sr. Gumpy é o tema que permeia todas as histórias: no
final, tudo ficará bem (e sempre há tempo para o chá!). Leia
também: Mr. Gumpy’s Motor Car, do mesmo autor, One-Dog Canoe
e One-Dog Sleigh, de Mary Casanova, ilustrados por Ard Hoyt.
Pancakes, Pancakes! [Panquecas!], de Eric Carle Com Eric Carle
não tem erro. Ele é mais conhecido por Uma Lagarta Muito
Comilona, é claro, um dos livros infantis mais icônicos de todos os
tempos. Em Pancakes, Pancakes! seguimos Jack enquanto ele
reúne todos os ingredientes de que sua mãe precisa para fazer uma
simples panqueca para o café da manhã. A melhor parte de todas é
a última etapa! Leia também: Brown Bear, Brown Bear, What do you
see?, A Joaninha Mal-humorada, A House for Hermit Crab, e The
Very Lonely Firefly — todos ilustrados por EricCarle.
Richard Scarry’s Best Mother Goose Ever, de Richard Scarry Mother
Goose [Mamãe Ganso] é sempre um sucesso com os pequeninos.
E há um bom motivo para todo esse sucesso — a repetição e a
cadência das rimas de Mother Goose acalmam e estimulam
crianças pequenas. Gosto da versão de Richard Scarry, embora
tenhamos vários volumes diferentes de Mother Goose espalhados
por nossa casa. Certifique-se de que seu filho tenha pelo menos um
volume para guardar. Leia também: Mother Goose, de Sylvia Long,
The Real Mother Goose, de Blanche Fisher Wright, Favorite Nursery
Rhymes from Mother Goose, de Scott Gustafson, Mary Engelbreit’s
Mother Goose, My Very First Mother Goose, de Rosemary Wells e
Iona Opie, e Mother Goose, de Tomie dePaola.
Um Dia de Neve, de Ezra Jack Keats Este foi um dos livros favoritos
da minha filha por vários anos. Líamos antes de dormir, mesmo no
verão! Peter começa a explorar a primeira nevasca em sua cidade,
observando suas próprias pegadas e arrastando consigo uma vara
pelos montões de neve que se formaram, brancos e cintilantes. O
uso que Keats faz de colagens e aquarela é inconfundível e
cativante. Esta obra fez história em 1963 por ser, de acordo com a
revista Horn Book, “o primeiro livro de imagens coloridas a
apresentar um pequeno herói negro”.2 Leia também: Whistle for
Willie, e Peter’s Chair, ambos do mesmo autor/ilustrador.
Ten, Nine, Eight [Contagem Regressiva], de Molly Bang “Dez
dedinhos dos pés, todos lavados e aquecidos, nove amiguinhos em
uma sala silenciosa”. É hora de dormir, mas não antes de uma
coisinha. Você e seu filho irão adorar as ricas ilustrações deste livro
condecorado com a Medalha Caldecott, perfeito para ler antes de
dormir. Leia também: Boa Noite, Lua, de Margaret Wise Brown,
Peekaboo Morning, de Rachel Isadora, e Feast for Ten, de Cathryn
Falwell (outro livro divertido que brinca com somas e contagem).
The Three Billy Goats Gruff [Os Três Bodes], de Paul Galdone Se
pudesse escolher apenas uma série de livros ilustrados para meus
filhos, eu escolheria tudo que Paul Galdone produziu. Suas fábulas
e seus contos de fadas ilustrados são os melhores que encontrei.
São os livros que mais ocupam espaço em nossa casa, e quando
preciso acalmar uma criança agitada, costumo ir a essas obras.
Faça um favor a si mesma e monte uma biblioteca em sua casa com
as edições em capa dura desses livros maravilhosos. Leia também:
A Pequena Galinha Vermelha, Os Três Gatinhos, Cachinhos
Dourados e os Três Ursos, O Macaco e o Crocodilo, Os Elfos e o
Sapateiro, Chapeuzinho Vermelho, O Rato do Campo e o Rato da
Cidade, João e o Pé de Feijão, e Cinderela, todos recontados e
ilustrados por Paul Galdone.
Vamos à Caça do Urso, de Michael Rosen, ilustrado por Helen
Oxenbury Você ficaria com medo se fosse caçar ursos? E se
surgissem problemas? Se você não pode passar por cima, não pode
passar por baixo e não pode contornar, você terá que atravessar.
Este é um daqueles livros particularmente divertidos de interpretar,
fazendo barulhos e sons enquanto o lê. Helen Oxenbury é uma das
minhas ilustradoras de materiais infantis favoritas! Leia também: Ten
Little Fingers and Ten Little Toes, de Mem Fox, ilustrado por Helen
Oxenbury, So Much!, de Trish Cooke, ilustrado por Helen Oxenbury,
e Hand, Hand, Fingers, Thumb, de Al Perkins.
Whose Knees Are These? [De Quem São Estes Joelhos?], de
Jabari Asim, ilustrado por LeUyen Pham De quem são esses
joelhos? Joelhos assim não crescem em folhedos. Tão fortes e
morenos, a quem pertencem esses belos joelhos? Seu filho vai rir
junto com esse texto tão alegre e provavelmente conseguirá
depressa “ler” esse delicioso livro cartonado para você depois de
apenas algumas leituras. Leia também: Whose Toes Are Those?,
Girl of Mine e Boy of Mine pelo mesmo autor e pela mesma equipe
de ilustradores.
 
CAPÍTULO
13
Idade do deslumbramento Faixa Etária: 4–7 anos Na
vida da criança, não há nada que substitua um livro.
— Mary Ellen Chase Os momentos de leitura em voz alta
tornam-se notoriamente mais tranquilos quando a criança
chega aos quatro anos. Crianças nesta faixa etária
normalmente conseguem ouvir a leitura por mais tempo e,
embora ainda gostem de encher os olhos com livros
belamente ilustrados, também se atêm a histórias sem
ilustrações. Crianças de quatro a sete anos estão na idade
perfeita para Contos de Fadas e fábulas e normalmente
amam uma variedade de narrativas: de aventuras heroicas e
angustiantes a histórias bobas e sem sentido.
Crianças dessa idade provavelmente (mas nem sempre)
começarão a ser alfabetizadas. Algo de que você precisará se
lembrar é manter os livros como fonte de prazer para os seus filhos.
Frequentemente, pais e educadores ficam ansiosos demais para
que as crianças comecem a ler sozinhas, sacrificando a alegria da
criança pelos livros no processo de ensinar fonologia, fonética,
caligrafia e compreensão de texto. Tenha em mente que, em se
tratando de nossos filhos e livros, não vale a pena ensinar uma
criança a ler cedo se, ao longo do processo, esse ensino significa
sacrificar seu amor pela leitura. Nossa primeira e mais importante
prioridade é nutrir amor pelos livros em nossos filhos.
A criança com um apetite insaciável por histórias aprenderá a ler
de fato (mesmo que isso não aconteça no tempo que você, papai ou
mamãe, imaginou... seja paciente!). Na verdade, seu filho por fim
será motivado a aprender a ler. E qual é a melhor parte? Seu filho
amará a leitura. Priorize o amor do seu filho pela literatura e você
descobrirá mais adiante que tem filhos capazes de ler por conta
própria e — ainda melhor — que de fato leem por conta própria...
mesmo quando ninguém estiver olhando.
No livro Manual de Leitura em Voz Alta, Jim Trelease escreve:
“Pesquisas demonstram que mesmo quando a criança chega aos
primeiros anos do Ensino Fundamental, repetir os mesmos livros
ilustrados (ao menos três vezes) melhora a aquisição de vocabulário
de 15% a 40%”.1 Você sabe o que isso significa, certo? Significa
que não podemos deixar os livros ilustrados de lado!
Com muita frequência associamos livros ilustrados a crianças
bem novas, mas assim que nossos filhos se tornam capazes de ler
e/ou ouvir um livro somente com linguagem escrita, abandonamos a
linguagem visual. Não passa de um grande erro. Livros ilustrados
costumam ter um vocabulário mais variado e mais rico do que os
livros infantis não ilustrados e até mesmo do que os romances
infanto-juvenis. Prossiga lendo livros ilustrados com seus filhos
mesmo que eles já sejam capazes de ouvir livros não ilustrados e
mais complexos.
Quando estiver pronta para começar narrativas mais longas, é
interessante que você encurte os momentos de leitura em voz alta e
escolha livros com enredos dinâmicos e personagens cativantes.
Você não quer que a primeira experiência do seu filho com livros
mais longos seja chata e maçante. Se você escolher romances
envolventes (este capítulo certamente irá ajudá-la!), seu filho terá
vontade de descobrir quais outras histórias maravilhosas esperam
por ele dentro da capa de livros mais longos.
Quando estiver escolhendo livros para ler em voz alta com
crianças de 4–7 anos, tente, se possível, evitar adaptações de
linguagem simplificada ou paráfrases infantilizadas. Livros desse
tipo optam por vocabulário simplificado e são voltados para crianças
que estão começando a ler, pois facilitam a decodificação de sons e
palavras. São livros que acabam sendo chatos para a leitura em voz
alta. Queremos encher os ouvidos de nossos filhos com vocabulário
rico e variado. Você encontrará esse tipo de vocabulário tanto em
livros ilustrados quanto em romances, mas dificilmente em
adaptações simplificadas e paráfrases.
Na lista que se encontra no final desse capítulo, você verá os
livros ilustrados que mais amo para ler em voz alta com essa faixa
etária, bem como alguns excelentes romances. Não se apresse para
chegar ao estágio de leitura de romances. Permaneça com os livros
ilustrados por um bom tempo antes de começar seu primeiro
romance em voz alta ao lado do seu filho! Oobjetivo é que o
primeiro romance lido em conjunto seja encantador e divertido;
adiantar demais essa fase dificultará o prazer da leitura.
Nesta idade é fácil se distrair com atividades extras que dão ao
seu filho experiências manuais relacionadas ao livro. Trabalhos
manuais e outras atividades baseadas em livros são úteis quando
alimentam o deleite do seu filho pela história, embora não sejam
essenciais de maneira alguma. O livro é suficiente — a história
consegue se sustentar por si só. Pegue leve nas atividades extras;
use-as somente para dar uma diversão a mais ao seu filho. O
objetivo é que os livros se tornem os companheiros do seu filho,
mesmo que não haja nenhuma outra atividade ao mesmo tempo. Dê
tempo e espaço e você provavelmente testemunhará uma criança
tendo prazer na leitura. Deixe que as atividades baseadas nos livros
sejam como o granulado do brigadeiro: gostoso, mas
completamente dispensável diante do sabor do próprio brigadeiro.
Assim como no período de 0–3 anos, o objetivo mais importante
de compartilhar livros com crianças de 4–7 anos é sobretudo cultivar
em seu filho um amor profundo e permanente por histórias. Sempre
que lemos com uma criança nessa faixa etária, estamos plantando
sementes de amor pela leitura. Criamos lembranças vívidas e
alegres que moldarão a vida de nossos filhos. Servimos de
ajudadores na compreensão de que ler é de fato um dos maiores
prazeres da vida.
O QUE CRIANÇAS DE 4-7 ANOS PODEM FAZER 
ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA • Colorir ou desenhar
(escolha canetas ou marcadores e os torne especiais: use-os
exclusivamente no momento de leitura em voz alta).
• Trabalhe com livros de pintar com água (existem alguns muito
bons produzidos por Melissa & Doug).
• Laceie cartões com um cordão.
• Use livros de atividades como os de colagem, de colorir ou de
pontilhar (gostamos dos livros de Usborne).
• Brinque com ímãs em formatos diferentes (animais, dinossauros,
etc.) e os cole em uma assadeira.
• Faça colares com canudos, barbante e miçangas.
• Use elásticos para preencher formas geométricas em uma tábua
de geometria.
• Monte quebra-cabeças.
• Tricô.
• Faça esculturas com massinha.
• Use os livros de colorir Water Wow!, produzidos por Melissa e
Doug (livros reutilizáveis de pintar com água que quase não
fazem bagunça) — meus pequenos amam esses.
MINHA BÍBLIA FAVORITA PARA LER 
EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 4–7 ANOS
Quanto à leitura de histórias bíblicas para crianças nessa faixa
etária, minha primeira parada é no Livro de Histórias Bíblicas de
Jesus: Todas as Histórias Sussurram seu Nome, de Sally Lloyd-
Jones. Há mais do que beleza para os olhos nessa obra. Sally
retratou cada narrativa bíblica visando a história por trás de todas as
demais — a história que sempre aponta para Jesus. Conversei com
a autora em um episódio do podcast Read-Aloud Revival e Sally
manifestou seu desejo de que as crianças compreendessem que
Jesus está no coração de cada história já contada, inclusive (e em
especial) na história de vida de cada uma delas.
ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER 
EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 4–7 ANOS
A parte mais difícil de criar essa lista de livros foi mantê-la
pequena! Lembre-se de não se apressar para ler livros com
narrativas maiores do que os seus filhos são capazes de
acompanhar. É melhor permanecer com os livros ilustrados por mais
tempo do que o necessário do que introduzir romances antes do
tempo certo. E tenha em mente que seu filho nunca será velho
demais para livros ilustrados! Leio livros ilustrados até com os meus
filhos adolescentes. Certifique-se de que os livros escolhidos
oferecerão uma variedade de personagens e culturas. A própria lista
de livros pode ajudá-la na hora de tomar essas decisões.
Livros Ilustrados Blueberries for Sal [Mirtilos para Sal], de Robert
McCloskey Quando começar a ler com mais frequência para seus
filhos, você perceberá que o nome de alguns autores aparecem
mais de uma vez. Estes são os mais marcantes, os ícones, os
autores e ilustradores que, geração após geração, imprimem suas
obras na vida das crianças. Robert McCloskey é um deles. Se você
se deparar com um de seus livros durante sua peregrinação por
bibliotecas, livrarias ou sebos, há apenas uma coisa certa a ser
feita: pegue-o. Blueberries for Sal conta a história de uma garotinha
e um ursinho que se confundem em uma tarde de colheita de mirtilo.
Leia também: One Morning in Maine, Make Way for Ducklings, e
Time of Wonder, todos de Robert McCloskey.
Building Our House [Construindo nosso Lar], de Jonathan Bean Não
é surpresa alguma que as crianças adoram livros sobre construção,
e este é o meu favorito. Com base na própria experiência familiar de
Jonathan (seus pais construíram uma casa do zero quando ele era
jovem), ele apresenta todas as etapas que envolvem a construção
de uma casa. 
As ilustrações de Bean contam a segunda camada da história —
linhas firmes que adicionam uma sensação de solidez e concretude
ao livro. Crianças de todas as idades (e adultos também!) vão gostar
de estudá-lo repetidas vezes e rever as fotografias nas últimas
páginas dessa obra, baseada na vida de Bean. Leia também: At
Night; This Is My Home, This Is My School (um livro ilustrado sobre
a experiência de educação domiciliar de Jonathan na infância); e Big
Snow, todos do mesmo autor/ilustrador.
The Circus Ship [O Navio dos Animais], de Chris Van Dusen Se
você ler este livro para seu filho, vai passar um bom tempo
admirando a página do zoológico — é meio mágico mesmo. Aqui
está a história de um navio carregado de animais de circo que
precisam nadar por segurança quando a embarcação começa a
afundar. Mas a verdadeira diversão começa quando eles acabam
numa cidade cheia de gente! Chris Van Dusen fala tanto por meio
do texto quanto de suas ilustrações deslumbrantes. Ele é um mestre
das rimas, e seu filho será apresentado a várias palavras novas em
uma história que ele irá reler e com a qual se deliciará muitas e
muitas vezes. Leia também: Hattie & Hudson, King Hugo’s Huge
Ego, If I Built a Car e Down to the Sea with Mr. Magee, todos do
mesmo autor/ilustrador.
Daisy Comes Home [Em Busca de Daisy], de Jan Brett Não tem erro
com os livros de Jan Brett, e você os reconhecerá assim que se
deparar com algum deles! As lindas ilustrações detalhadas de Jan
Brett são causa de muito prazer e diversão. O uso de artifícios e
referências em suas ilustrações cuidadosamente pensadas é
divertido até para adultos. Em Daisy Comes Home, Mei Mei precisa
encontrar uma de suas galinhas, Daisy, que acidentalmente foi
andando até o rio. Trata-se de uma doce história de cuidado e
aventura, e de uma olhada na bela China. Leia também: The Empty
Pot, de Demi (outro adorável conto chinês). E não deixe de ler as
outras obras maravilhosas de Jan Brett! Meus favoritos são The
Mitten, The Hat, Honey... Honey... Lion!, The Turnip, e Hedgie’s
Surprise. Se for Natal, certifique-se de dar uma olhada nos
seguintes livros dela: The Wild Christmas Reindeer, Gingerbread
Christmas, The Night Before Christmas, e The Three Snow Bears.
The Gardener [O Jardineiro], de Sarah Stewart, ilustrado por David
Small Todos estão na Grande Depressão, o tio Jim está mal-
humorado e Lydia Grace é enviada para morar com ele. Lydia teme
que não tenha onde plantar suas amadas sementes em sua nova
casa na cidade. Este conto comovente disserta sobre o poder da
beleza em um mundo que parece sem esperança. As ilustrações
dão um toque leve, tranquilo e ligeiramente mágico à história. Seus
filhos vão sentir afinidade com Lydia, carinho pelo rabugento tio Jim
e esperança diante do futuro. Leia também: The Library, da mesma
fonte de energia que é o autor e ilustrador, O Jardim Curioso, de
Peter Brown, além de Nobody Likes a Goblin e Julia’s House for
Lost Creatures, ambos de Ben Hatke.
How to Make an Apple Pie and See the World [Como Preparar uma
Torta de Maçã e Descobrir o Mundo], de Marjorie Priceman Fazer
uma torta de maçã é simples, na verdade. Você só precisa dos
ingredientes certos. Vá até a loja para comprá-los. Se a loja estiverfechada, ainda dá para fazer sua torta — você só precisa viajar o
mundo para reunir o necessário! Este livro é uma divertida excursão
pelo mundo — tenha um mapa à disposição quando for lê-lo e assim
encontre todos os lugares que visitar ao longo do caminho. E não
perca outro livro parecido com esse, também de Marjorie Priceman:
How to Make a Cherry Pie and See the U.S.A.
Last Stop on Market Street [Última Parada], de Matt De La Peña,
ilustrado por Christian Robinson Vencedor da Medalha Newbery
2016 pela melhor contribuição à literatura infantil americana, bem
como uma série de outros prêmios. Prepare-se para se aquecer e
se deliciar com esta história de uma avó e seu neto andando de
ônibus pela cidade depois da igreja. CJ tem inveja dos amigos, que
estão livres no domingo à tarde e não precisam pegar o ônibus com
a vovó. Mas a vovó sabe o que é mais importante e onde de fato
reside a beleza da vida. Esse tornou-se recentemente um dos meus
favoritos entre os livros ilustrados e merece seu lugar em cada lar.
Leia também: A Chair for My Mother, de Vera B. Williams, e
Amazing Grace, de Mary Hoffman, ilustrado por Caroline Binch.
O Leão e o Camundongo, de Jerry Pinkney Livros sem texto não
são exclusivos aos pequenos! Seus filhos de 4–7 anos adorarão as
ilustrações exuberantes e o enredo rico da versão de Jerry Pinkney
desta fábula clássica. Este livro, ambientado no Serengueti africano,
ganhou a Medalha Caldecott de melhor livro ilustrado americano
para crianças em 2010. E não perca as outras fábulas de Jerry
Pinkney: The Three Billy Goats Gruff, The Tortoise and the Hare,
Three Little Kittens, e Puss in Boots.
Miss Rumphius [Senhorita Rumphius], de Barbara Cooney O avô de
Alice era um artista, e quando menina, ele lhe disse o que deveria
fazer: embelezar o mundo. Viaje com Alice mundo afora, ainda mais
quando ela por fim chega numa pequena casa à beira-mar. O que
ela fará para deixar o mundo mais bonito? A arte desta obra é tão
magnífica que está exposta permanentemente no Museu de Arte de
Bowdoin College, em Maine. Cooney é um dos ilustradores de livros
infantis mais talentosos de todos os tempos. Leia também: Ox-Cart
Man, de Donald Hall e Roxaboxen, de Alice McLerran, ambos
ilustrados por Barbara Cooney.
Muncha! Muncha! Muncha!, de Candace Fleming, ilustrado por G.
Brian Karas O Sr. McGreeley decidiu plantar um jardim. Mas quando
os coelhos começam a fazer visitas noturnas e comer sua colheita
— Chomp, chomp, chomp, mastigam os coelhinhos —, ele decide
evitar que aqueles bigodudos comilões roubem mais de seus
vegetais. Suas tentativas ficam cada vez mais cômicas até que ele
finalmente consegue. Ou não? Candace Fleming produz alguns dos
melhores livros ilustrados para leitura em voz alta; seu texto é lírico
e perfeito, com cadência agradável e divertida. E leia também outros
livros de Candace Fleming, incluindo Oh No!, ilustrado por Eric
Rohmann e Boxes for Katje, ilustrado por Stacey Dressen-
McQueen.
The Seven Silly Eaters [Os Comilões], de Mary Ann Hoberman,
ilustrado por Marla Frazee Se pressionada, provavelmente o
nomearei como meu livro ilustrado favorito de todos os tempos. The
Seven Silly Eaters conta a história da pobre Sra. Peters, que ama
muito seus sete filhos pequenos, todos seletivos e exigentes para
comer. A maioria dos autores de livros infantis dirá que fazer boas
rimas consiste em uma das formas de arte mais complexas, mas
Mary Ann Hoberman acerta em cheio com esta história encantadora
da família Peters. As ilustrações de Marla Frazee são
divertidíssimas e, como mãe de uma casa cheia de crianças, esta
obra é um alívio cômico muito bem-vindo nos meus dias mais
frustrantes. Definitivamente, compre-o para a biblioteca de sua casa.
Leia também: A House Is a House for Me, de Mary Ann Hoberman,
ilustrado por Betty Fraser, The Relatives Came, de Cynthia Rylant,
ilustrado por Stephen Gammell, e Harriet, You’ll Drive Me Wild!, de
Mem Fox, ilustrado por Marla Frazee. Seus filhos adoram livros com
rimas e trocadilhos? Então leia Chicken Soup with Rice: A Book of
Months, de Maurice Sendak.
Strega Nona: A Avó Feiticeira, de Tomie dePaola Conheça o livro
que tornou Tomie dePaola um dos autores de livros infantis mais
icônicos da história. Strega Nona cuida dos habitantes de uma
cidadezinha italiana na Calábria, ajudando-os com sua calvície,
suas verrugas, até mesmo preparando poções do amor. Mas a
verdadeira magia deste livro acontece quando seu ajudante, Tonhão
coloca as mãos no caldeirão de macarrão da Strega Nona. Tonhão
seria o personagem mais adorável que você poderia imaginar, se ao
menos ele prestasse atenção! Seu filho vai adorar este conto
mágico, bem como todos os outros livros sobre seus personagens:
Strega Nona: Her Story; Strega Nona’s Magic Lessons; Big Anthony:
His Story; Strega Nona Takes a Vacation; Strega Nona’s Harvest;
Strega Nona’s Gift; Strega Nona Meets Her Match, e absolutamente
qualquer outra obra de Tomie. Outros favoritos em nossa casa
incluem Nana Upstairs & Nana Downstairs; The Art Lesson; Tony’s
Bread; The Lady of Guadalupe; The Legend of Old Befana; The
Legend of the Poinsettia; e The Clown of God. Quando se trata de
Tomie dePaola, livros nunca são demais.
Thundercake, de Patricia Polacco Uma tempestade está se
aproximando e a vovó e sua neta estão esperando por ela fazendo
um Thundercake, o bolo trovão. Mas as tempestades podem ser
barulhentas e assustadoras; será que elas conseguirão obter todos
os ingredientes de que precisam em tempo? Uma história sobre
coragem — não a ausência de medo, mas a disposição de enfrentá-
lo — e um doce conto sobre o vínculo de uma avó com seu neto,
este livro será sua leitura para dias chuvosos. Em nossa casa, nós o
pegamos ao primeiro som de um trovão. E, claro, serve
perfeitamente para preparar um lanche da tarde. Aliás, experimente
fazer a receita de Thundercake listada no final do livro. O
ingrediente secreto pode surpreendê-lo! Leia também: Rechenka’s
Eggs, The Bee Tree, e The Keeping Quilt, todos de Patricia Polacco.
Outro livro ilustrado que destaca o vínculo especial entre um adulto
carinhoso e uma criança (neste caso, pai e filha) é o premiado e
absolutamente deslumbrante Owl Moon, de Jane Yolen, ilustrado
por John Schoenherr.
Tops and Bottoms [O Coelho e o Urso], de Janet Stevens O Urso é
preguiçoso, mas o Coelho tem um plano. Ambos podem ser
parceiros — o Urso pode continuar dormindo enquanto o Coelho
puder plantar um jardim no quintal espaçoso do Urso. Eles dividirão
a colheita em metade para cada um — o Urso pode até escolher a
metade que quiser! Um conto de visão renovada, este é um livro
que irá encantar e surpreender seus pequenos leitores. As
ilustrações contêm um humor peculiar. Leia também os contos de
Eric A. Kimmel (ilustrados por Janet Stevens): Anansi and the Magic
Stick, Anansi and the Talking Melon, e Anansi and the Moss-
Covered Rock. O Dr. De Soto, de William Steig é outro conto incrível
(com uma peculiaridade!) que as crianças parecem amar.
Water Can Be… [As Formas da Água], de Laura Purdie Salas,
ilustrado por Violeta Dabija Pode parecer impossível apresentar a
ciência a seus filhos por meio da poesia e com ilustrações
maravilhosas, mas Laura Purdie Salas e Violeta Dabija fazem
exatamente isso neste livro adorável. Water Can Be... mata a sede,
dá de beber à criança, dissipa as nuvens, apaga o fogo... E muito
mais. Toda esta série é simplesmente espetacular. Leia também: A
Leaf Can Be... e A Rock Can Be…, ambos do mesmo autor e time
de ilustradores.
Romances Um Urso Chamado Paddington, de Michael Bond,
ilustrado por Peggy Fortnum Recomendo como um dos meus livros
favoritos para introduzir romances em voz alta. Um Urso Chamado
Paddington é ainda melhor em audiolivro (adoro a versão narrada
por Stephen Fry). Todos os livros de Paddington são cheios de
aventuras divertidas e... bom… desventuras. É impossível não amá-
los, e seus filhos vão implorar que você leia um pouco mais para
descobrir o que acontece em seguida. Todos os livros sobre o Urso
Paddington são divertidos, incluindo OsSegredos de Paddington,
Paddington na França, Paddington Tenta Ajudar. Certifique-se de
procurar as versões completas, pois são de longe as melhores.
Versões que priorizam as ilustrações e adaptações resumidas não
fazem justiça às histórias. Leia também: The Tales of Olga da Polga,
escrito por Michael Bond, conta acerca de um porquinho-da-índia
com uma imaginação vigorosa. Alguns dos livros de Olga da Polga,
porém, estão esgotados e são mais difíceis de encontrar.
Anna Hibiscus [Ana Hibisco], de Atinuke, ilustrado por Lauren Tobia
Anna Hibiscus vive com toda sua família na África. Grandiosa África.
Seus filhos vão adorar ouvir as histórias que os tios e tias dela
contam, a extravagante Tia Comfort e a “dupla do barulho”, irmãos
gêmeos de Anna. Escritos pela brilhante contadora de histórias
nigeriana, Atinuke, que ansiava por contar as histórias da África que
ela mesma ouvia durante a infância e adolescência, desde o
primeiro capítulo esses livros são perfeitos de ler em voz alta, com
lindas ilustrações de Lauren Tobia em quase todas as páginas.
Talvez você tenha um pouco de dificuldade para encontrá-los, mas
valem todo o esforço! Leia também: outros livros sobre Anna
Hibiscus, incluindo Hooray for Anna Hibiscus e Good Luck Anna
Hibiscus.
Begin [O Começo], de Erin Ulrich e Philip Ulrich Assim que recebe
uma mensagem misteriosa, o jovem urso chamado Growly sabe que
é hora de deixar sua vida tranquila em Haven e partir para uma
aventura. Consigo ele tem sua mochila, um planador e muito ânimo.
Os livros que contam sobre a vida de Growly são histórias
saudáveis que encantam os leitores mais novos e, ao mesmo
tempo, provocam um senso de mistério e aventura. Leia também:
todos os livros da série Growly, incluindo Widewater, Morning e o
que trata da vila que Growly chama de lar, Haven.
O Dragão do Meu Pai, de Ruth Stiles Gannett, ilustrado por Ruth
Christian Gannett Este livro continua sendo o que recomendo a
qualquer um que esteja prestes a começar a ler em voz alta
narrativas mais longas. Tive sucesso em lê-lo com crianças de três a
oito anos. O narrador conta a história de seu pai, Elmer Elevator,
quando ainda menino em viagem à Ilha Selvagem — de onde
ninguém volta vivo! — para salvar um dragão bebê que está sendo
maltratado. A quantidade incomum que Elmer juntou de suprimentos
o ajuda a sair de todos os ferimentos e escapar de ser comido pelos
animais ferozes da ilha. Os capítulos são curtos, o vocabulário é rico
e a história manterá até os mais novos fascinados. Uma escolha
fabulosa para a sua primeira narrativa mais longa. Leia também: o
restante da série sobre Elmer Elevator, incluindo Elmer and the
Dragon e The Dragons of Blueland.
Old Mother West Wind, de Thornton Burgess Acredito que Thornton
Burgess seja um dos maiores autores de livros infantis de todos os
tempos, embora seu trabalho seja frequentemente esquecido. No
início do século XX, ele escreveu quase duzentas fábulas infantis, e
muito de seu trabalho está em domínio público hoje. Você pode
encontrar cópias de seus livros publicados pela Dover Children’s
Classics por um custo baixo. Seus personagens — Jimmy Skunk,
Sammy Jay, Bobby Raccoon, Grandfather Frog e muitos outros,
incluindo Old Mother Westwind e sua Merry Little Breezes —
figuram repetidas vezes em suas fábulas. Simplesmente amo os
bocados de real conhecimento sobre essas criaturas surgindo em
seus contos, textos de um capricho primoroso. Leia também: The
Burgess Animal Book for Children, The Burgess Bird Book for
Children, The Burgess Seashore Book for Children e todas as suas
séries de The Adventures of...
Tumtum and Nutmeg, de Emily Bearn O Sr. Mildew e seus filhos
órfãos de mãe vivem em uma cabana, sem saber que são auxiliados
por um casal de ratos muito gentis, que ajudam o Sr. Mildew a
cuidar de seus filhos. No entanto, quando a tia Ivy vem fazer uma
visita e vê os ratos, as coisas ficam interessantes. Tia Ivy está
determinada a livrar a casa dos ratos. Este livro vai fazer você
querer preparar um bule de chá e alguns bolinhos. É uma obra
engraçada e extremamente cativante. Não se intimide com o
tamanho do livro — o ritmo e o formato facilitam a leitura, mesmo
para crianças muito pequenas, e esboços encantadores estão
espalhados ao longo da história. Leia também: Os Pequeninos
Borrowers, de Mary Norton (para outro conto em miniatura) ou O
Mágico de Oz (muito melhor e muito menos assustador do que o
filme; este é um dos meus favoritos para ler em voz alta com esta
faixa etária, e até mesmo com as crianças mais velhas).
 
CAPÍTULO
14
O mundo se expande Faixa Etária: 8–12 anos Ler nos dá
rumo e direção, mesmo quando precisamos permanecer onde estamos.
— Mason Cooley Aahhh, dos oito aos doze! Admito que este é
meu período favorito para leituras em voz alta. Os livros
voltados a essa faixa etária são simplesmente fantásticos;
algumas das melhores obras que você lerá! Além disso, as
crianças dessa idade tendem a ter mais atenção e ouvir por
um bom tempo, especialmente se estiverem fazendo alguma
coisa com as mãos enquanto você lê em voz alta (como
desenhar ou colorir com tinta guache).
A coisa mais importante a ter em mente quando se lê para
crianças de oito a doze anos é que você precisa continuar lendo em
voz alta mesmo que seu filho se torne um bom leitor ao longo desse
processo. Como salientado no capítulo anterior, a expansão do
vocabulário e os benefícios acadêmicos de ler em voz alta
continuam durante essa faixa etária. Você facilmente conseguirá ler
em voz alta histórias que excedem o nível de leitura de seus filhos,
uma vez que dos oito aos doze eles compreendem mais por audição
do que por leitura.
Ao escolher os livros para ler em voz alta com seus filhos na
faixa etária de oito a doze anos, tente cobrir uma variedade de
gêneros. Crianças dessa idade geralmente focam nos livros que
preferem e os leem com certa dificuldade, mas leem. Não há
problema nisso! Eu mesma deixo que os meus filhos dessa faixa
etária de 8–12 leiam por alto e mesmo com dificuldade, desde que
esses livros os motivem e nutram neles o desejo da leitura.
Entretanto, tento propositalmente ler em voz alta uma variedade de
gêneros a fim de introduzir meus filhos a outros livros que talvez não
peguem por conta própria.
Esta é a idade em que os pais costumam parar de ler em voz alta
para seus filhos, mas é, na verdade, o período que você vai querer
ler tanto quanto possível. Crianças nessa faixa etária estão
interessadas em descobrir tudo que ainda desconhecem no mundo.
Elas sentem uma sede insaciável de aprender sobre outras
pessoas, culturas e experiências. Provar que os livros saciam essa
sede é exatamente o que você quer.
O diálogo com crianças de 8–12 anos as ensina a fazer
perguntas sobre os livros. O que você descobrirá (embora possa
levar certo tempo, então não espere por algo imediato) é que seu
filho começará a fazer perguntas e a pensar profundamente sobre
os livros que lê por conta própria. São frutos da sua interação com
ele enquanto vocês leem juntos. Você está dando ao seu filho bons
hábitos mentais — hábitos de fazer perguntas e pensar acerca dos
livros com profundidade. Esses hábitos permearão sua vida de
leitura e outras atividades do seu cotidiano.
Essa é uma boa idade para começar a ler em voz alta os
clássicos. Livros como O Vento nos Salgueiros e O Jardim Secreto
são ótimos para crianças entre 8–12 anos. Ler os clássicos pode ser
muito prazeroso, contanto que você não sinta a necessidade de se
tornar um gênio literário. Não se preocupe se está perdendo um
significado mais profundo, ou alusões ou dispositivos literários
embutidos no texto.
Em primeiro lugar, os clássicos são histórias — histórias que
passaram pelo teste do tempo —, portanto as aproveite como
narrativas. Quando as desfruta lendo-as em voz alta e em
companhia (ao invés de esperar que seu filho as leia sozinho), você
está removendo o fator intimidador. Seu filho aprenderá que os
clássicos não devem ser temidos — são apenas boas histórias com
uma linguagem mais antiga. Ao lê-los em voz alta,você pode fazer
com que seus filhos se apaixonem pelos personagens e pelas
histórias, e não intimidá-los. É exatamente isso que queremos ao
lidar com os clássicos.
Porém, não se sinta pressionada a introduzir os clássicos aos
seus filhos. É melhor esperar até que estejam prontos para ter uma
experiência prazerosa do que introduzi-los cedo demais e frustrar
todos os envolvidos. Incluí alguns clássicos favoritos em minha lista,
mas você também encontrará obras mais novas e contemporâneas
nela. Mal posso esperar por introduzi-la a alguns dos melhores livros
da atualidade!
Alguns pais me dizem que se sentem bobos ao ler em voz alta
para filhos que já sabem ler, mas ainda assim as crianças se
beneficiam grandemente com essa prática, mesmo que já sejam
leitores independentes. Você está formando lembranças atemporais
em seus filhos.
Lembre-se de manter prazeroso o momento de leitura em voz
alta. Leia livros que você amou quando criança e livros que a
motivem e mantenham todos famintos por mais uma página ou por
mais um capítulo. É extremamente importante que os livros sejam
associados a deleite e prazer para as crianças de 8–12 anos. Essa
lista de livros que eu montei deve bastar a princípio. Escolhi
algumas das experiências de leitura mais prazerosas que tive.
Lembre-se de ler gêneros e estilos que você (ou seu filho)
normalmente não leria e busque por interesses inesperados. E
também não se esqueça de ler sobre culturas e personagens
diversos.
O QUE CRIANÇAS DE 8–12 ANOS PODEM 
FAZER ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA • Colorir, contornar
esboços ou desenhar.
• Pintar com tinta guache.
• Use livros dinâmicos e de colorir, como a série Paint by Sticker
(Workman Publishing).
• Costurar à mão.
• Crochê.
• Modelar com massinha.
• Sentar-se na bola de pilates.
• Dobrar roupas (meu favorito!).
• Monte conjuntos simples com produtos de artesanato.
• O grupo Hearthsong monta conjuntos de arte e design de que,
na época, meus filhos gostaram bastante — modelos de fada,
equestres, design de automóveis, estúdio de moda e design de
interiores foram todas boas opções. Encontre-os em
hearthsong.com.
MINHAS BÍBLIAS FAVORITAS PARA LER EM VOZ 
ALTA COM CRIANÇAS DE 8–12 ANOS
Amy Steedman escreveu uma coleção intitulada Read-Aloud
Book of Bible Stories [Histórias Bíblicas Lidas em Voz Alta],
publicada em 2012 pelo grupo editorial Sophia Institute Press, que
eu absolutamente amo ler com essa faixa etária. Embora seja fácil
de ouvir a mesma história bíblica repetidas vezes, a linguagem lírica
de Steedman e sua rica contação de histórias dão vida à Bíblia.
Acredito que os seus filhos gostarão de ouvir essas histórias bíblicas
sendo contadas com uma linguagem mais coloquial e cativante
tanto quanto você gostará de lê-las.
Outra favorita é a Bible Story Book, escrita por Elsie Egermeier e
ilustrada por Clive Uptton. As histórias são contadas em ordem
cronológica. Gosto de dar essa Bíblia aos meus filhos que já leem
sozinhos, embora também possa ser lida em voz alta de forma
prazerosa por crianças tanto mais velhas quanto mais novas do que
essa faixa etária.
Quando meus filhos mais velhos tinham 12, 10 e 8 anos, li em
voz alta A Bíblia em Ação, de Doug Mauss e Sergio Cariello. Trata-
se de uma Bíblia em forma de história em quadrinhos, e seus filhos
talvez prefiram lê-la por conta própria. Achamos a experiência de lê-
la em voz alta muito prazerosa, e as crianças conseguiram
acompanhar enquanto olhavam as ilustrações por cima dos meus
ombros. Também existe uma boa versão em áudio disponível; meu
filho gosta de ouvi-la enquanto acompanha o texto.
ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER 
EM VOZ ALTA COM CRIANÇAS DE 8–12 ANOS
A criança entre 8–12 busca expandir sua visão de mundo, e os
livros nessa lista a ajudarão nessa jornada. O que você encontrará é
uma mistura de ficção histórica, fantasia e histórias realistas.
Algumas obras combinam esses três elementos.
Ainda não queremos abandonar os livros ilustrados, uma vez que
fornecem vocabulário rico e enredos cativantes, que crianças de 8–
12 anos ainda aproveitarão. Eu mesma incluí na lista alguns
favoritos para essa faixa etária.
A criança de 8–12 anos gosta de rir e de se encantar, mas
também está pronta para ler sobre personagens com vidas heroicas.
É claro que o heroísmo implica circunstâncias difíceis e grandes
riscos. Você encontrará livros que lidam com temas sobre os quais
nossos filhos já estão pensando — amizade, lealdade, coragem,
medo. Os livros nesta lista chamarão seus filhos a considerar
momentos quando o verdadeiro heroísmo é necessário e a
considerar a vida de um ponto de vista que eles ainda não
experimentaram. Da mesma forma, essas mesmas obras darão a
você e a seu filho um senso de esperança e deslumbramento.
Espero que vocês deem muitas risadas, reflitam bastante e,
enquanto leem juntos, meditem sobre os grandes mistérios da vida.
Livros Ilustrados Locomotive [Locomotiva], de Brian Floca Este
livro vencedor da Medalha Caldecott contém ricas ilustrações da
nova ferrovia transcontinental da América no final do século XIX. Há
muito para ver nas ilustrações e no texto informativo de Floca. Os
livros de Brian Floca são excelentes opções para crianças nessa
faixa etária que gostam de não ficção. Leia também: Moonshot: The
Flight of Apollo 11, de Brian Floca e Finding Winnie: The True Story
of the World’s Most Famous Bear, de Lindsay Mattick e Sophie
Blackall, um belo livro ilustrado que conta a incrível e verdadeira
história do urso que inspirou o Ursinho Pooh.
A Poem for Peter: The Story of Ezra Jack Keats and the Creation of
The Snowy Day [Um Poema para Peter: a História de Ezra Jack
Keats e a Criação do Dia da Neve], de Andrea Davis Pinkney,
ilustrado por Steve Johnson Ezra Jack Keats fez história quando
escreveu e ilustrou o primeiro livro ilustrado da grande indústria
editorial a apresentar um garoto negro. Por décadas, os leitores
mais novos se apaixonaram por Peter. Este relato lindo e lírico do
trabalho inovador de Ezra Jack Keats implora para ser lido em voz
alta. O texto lírico de Pinkney desliza boca afora. Trata-se de um
livro ilustrado mais longo do que o habitual, fato que o torna
especialmente adequado a um público um pouco mais velho e pode
fornecer muito material para boas discussões sobre direitos civis e a
coragem de perseguir seus sonhos. Leia também: The Right Word:
Roget and His Thesaurus, biografia ilustrada sobre Peter Mark
Roget e o primeiro dicionário Thesaurus, produzida por Jen Bryant e
ilustrada por Melissa Sweet. Outra ótima escolha é Some Writer!:
The Story of E. B. White, biografia ilustrada, no caso um pouco mais
extensa, sobre um dos maiores contadores de histórias infantis de
todos os tempos, escrita e ilustrada por Melissa Sweet.
Romances The Bark of the Bog Owl, de Jonathan Rogers Este livro
voou para minha lista de favoritos de todos os tempos. É aquele tipo
de livro que, penso eu, quanto menos souber dele antes de lê-lo,
melhor. Trata-se de uma obra com todos os melhores traços de um
conto de aventura e uma boa medida de elementos fantásticos.
Mais do que aparenta, este livro o fará rir, mas também fará com
que você considere grandes questões sobre propósito, chamado e
do que somos feitos. Este é o primeiro livro da Trilogia Wilderking.
Não deixe de ler o segundo e o terceiro da trilogia: The Secret of the
Swamp King e The Way of the Wilderking.
Cilla Lee-Jenkins: Future Author Extraordinaire [Cilla Lee-Jenkins:
uma Extraordinária Futura Autora], de Susan Tan, ilustrado por
Dana Wulfekotte Cilla Lee-Jenkins deve ser uma das personagens
mais maravilhosas da literatura infantil. Ela também está com o
prazo apertado, porque sua irmãzinha está prestes a nascer, e todos
parecem preocupados. Ela precisa chegar à lista dos mais vendidos
para que sua família perceba o quão incrível ela é. Esta história
rápida, divertida e comovente vai fazê-la desmoronar, mesmo
enquanto Cilla navega pela vida como uma criança birracial em um
mundo que nem sempre a entende. Leia também: The Prairie Thief,
de Melissa Wiley, outra históriadivertida e agradável de leitura
rápida.
Emmy and the Incredible Shrinking Rat [Emmy e o Incrível Ratinho],
de Lynne Jonell, ilustrado por Jonathan Bean Quem consegue
resistir a um mistério sobre uma menina muito boazinha, um rato
falante e uma babá horrível e malvada? Irresistível e engraçada,
essa obra manterá você e seus filhos conjecturando sobre os
acontecimentos até o fim. O ritmo é preciso. Se os seus filhos não
gostam muito de ouvir alguém lendo para eles, experimente
começar por esse livro e veja se seus ouvintes conseguem resistir à
atração de só mais um capítulo. Camundongos e ratos
desempenham papéis importantes nessa que é uma das melhores
histórias para essa faixa etária. Leia também: Mrs. Frisby and the
Rats of NIMH, de Robert C. O’Brien, e Poppy, de Avi.
Esperanza Rising, de Pam Muñoz Ryan Este livro premiado conta a
história de Esperanza, filha de um fazendeiro mexicano cuja maior
preocupação é o que vestir em sua festa de quinze anos.
Sobrevindo a tragédia, Esperanza e sua mãe precisam fugir para os
Estados Unidos em busca de refúgio. Esta é uma história
incrivelmente poderosa de esperança, coragem e perseverança.
Lembre-se de como, no Capítulo 5, discutimos a importância dos
livros atuando como janelas, espelhos e portas de vidro corrediças.
Este livro é uma janela que abrirá o seu coração, fazendo com que
você pare e reflita sobre o que é necessário para enfrentar
dificuldades avassaladoras. A narrativa demonstra que o espírito
humano pode erguer-se em esperança, mesmo em face de
tremendas dificuldades. Simplesmente lindo e poderoso, li-o com
meus filhos de 11 e 12 anos (os mais velhos). Leia também: The
Dreamer, da mesma autora. Pam Muñoz Ryan é uma das minhas
autoras infantis favoritas. Crianças que gostam de seus livros
também podem gostar de Um Caminho na Noite, romance histórico
de Lois Lowry acerca da resistência holandesa à ocupação nazista.
The Family Under the Bridge [A Família sob a Ponte], de Natalie
Savage Carlson, ilustrado por Garth Williams Não foi à toa que este
livro ganhou a medalha Newbery em 1989. Armand, um vagabundo
mesquinho que vive nas ruas de Paris, não gosta de dividir seu
espaço sob a ponte com três crianças recém-desabrigadas e a mãe
delas. História comovente de transformação, amor, lealdade e
família, esta é uma escolha perfeita para ler em voz alta na época
do Natal. Mais curto do que muitos outros livros desta lista, pode ser
lido com bastante rapidez e acompanhará seus filhos por muito
tempo. Leia também: The Bears on Hemlock Mountain, de Alice
Dalgliesh (ilustrado por Helen Sewell), uma história sobre coragem
(os adultos nem sempre sabem o que é melhor!); Understood Betsy,
de Dorothy Canfield Fisher, uma história encantadora que trata do
verdadeiro amor.
Frindle, de Andrew Clements Se você é novo na prática de leitura
em voz alta com crianças entre 8 e 12 anos, eis um ponto de partida
fantástico. Frindle também é, além de tudo, uma ótima obra para as
crianças que ainda não se apaixonaram pela leitura. Nick não é
exatamente um encrenqueiro; ele só gosta de manter as coisas
interessantes! Na escola, ele aprende sobre a origem das palavras e
percebe que pode chamar uma caneta do que quiser. Que tal frindle,
por exemplo? O que começou como um simples jogo vira um
alvoroço por toda a cidade e coloca Nick contra seu professor, que
tenta acabar com a tolice que tomou conta de toda a escola e, com
o tempo, de todo o país. Adoro entregar este livro a adultos e pedir-
lhes que o leiam apenas por diversão. O que começa como uma
leitura divertida acaba por ser uma história poderosa da dedicação
de um professor e da determinação de um menino. Não perca. Leia
também: Surviving the Applewhites, de Stephanie S. Tolan. Outra
escolha deliciosa é The Secret School, de Avi, em que Ida Bidson
deve decidir se tem ou não o que é preciso para estudar depois que
sua escola for fechada.
The Green Ember, de S. D. Smith, ilustrado por Zach Franzen Este
campeão de vendas tem transformado uma geração de jovens
leitores em entusiastas. Afinal, como não amar coelhos com
espadas? Conheça Heather e Picket, irmãos coelhos cujas vidas
foram viradas de cabeça para baixo por uma série de eventos
devastadores e desanimadores. Uma história de coragem diante de
probabilidades intransponíveis, lealdade diante da tentação de
esconder-se e persistência diante da calamidade, este livro vai
despertar o coração do herói em seu filho. Leia também: outros
livros da série, incluindo Ember Falls e Ember Rising.
Half Magic [Os Dois Lados da Mágica], de Edward Eager, ilustrado
por N. M. Bodecker Quando uma família de crianças tropeça em
uma moeda mágica que concede seus desejos, mas apenas pela
metade, surgem a alegria e a desventura! As crianças podem
superar a magia? Eager é claramente inspirado em sua
predecessora, Edith Nesbit. Se seus filhos gostarem deste, leia
também os demais contos de Eager (Knight’s Castle, Magic By the
Lake, The Time Garden, Magic or Not?, The Well-Wishers, e Seven-
Day Magic), bem como o trabalho do inimitável Edith Nesbit. Sugiro
começar com Five Children and It ou Os Meninos e o Trem de Ferro.
Henry and the Chalk Dragon [Henry e o Dragão de Giz], de Jennifer
Trafton, ilustrado por Benjamin Schipper É preciso um tipo especial
de coragem para ser um artista. Henry Penwhistle tem o que é
preciso? Primeiro, ele desenha um dragão com giz em sua porta. As
aventuras começam quando seu dragão quer ser visto e ter um
lugar no mundo. Mas um dragão solto causa todos os tipos de
problemas, como você pode imaginar, e Henry e seus colegas de
escola precisam descobrir o que fazer a respeito. A verdadeira arte
pode ser escondida? Ou a melhor resposta é deixar a imaginação
correr solta? O uso da profundidade cômica de Trafton é magistral.
Se você adorar este livro, leia também sua outra obra (outro favorito
meu): The Rise and Fall of Mount Majestic. Leia também os livros de
Kate DiCamillo, uma das autoras favoritas de Jennifer Trafton. Meus
favoritos para recomendar como leitura em voz alta são Because of
Winn-Dizier e A História de Desperaux.
Jasper and the Riddle of Riley’s Mine [Jasper e o Mistério da Mina
de Ouro], de Caroline Starr Rose Adoro todos os livros de Caroline
Starr Rose, mas este ainda é o meu favorito. Jasper and the Riddle
of Riley’s Mine conta a história de dois meninos que buscam uma
vida melhor durante a corrida do ouro de Klondike. Uma aventura
divertida que desvenda um mistério conforme você segue suas
páginas, esta história certamente manterá seus filhos de 8–12 anos
adivinhando o que vai acontecer em seguida. A atenção de Rose à
precisão histórica acrescenta profundidade à narrativa e pode levar
seu filho a ler mais acerca dos eventos históricos referidos para
aprender sobre a realidade. Leitores atentos notarão os acenos sutis
de Rose para As Aventuras de Huckleberry Finn. Leia também: By
the Great Horn Spoon!, de Sid Fleischman, uma história fantástica
sobre a corrida do ouro na Califórnia e uma das minhas favoritas de
todos os tempos para ler em voz alta.
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C. S. Lewis Quase não
incluí As Crônicas de Nárnia nesta lista, pois parece ser algo óbvio.
Se estiver procurando por histórias que façam tudo aquilo que
discutimos na primeira parte deste livro — que inspiram virtude
heroica, preparam nossos filhos para o sucesso acadêmico e
nutrem empatia e compaixão, não procure em outro lugar que não
seja o mágico guarda-roupa que leva para a terra de Nárnia. Esta
série é completa e dificilmente pode ser superada. Há certa disputa
em relação à ordem em que os livros da série completa devem ser
lidos, mas creio que seja melhor lê-los na ordem em que Lewis os
escreveu. Recomendo começar com O Leão, a Feiticeira e o
Guarda-Roupa (cronologicamente, o segundo da série) e então
proceder com a série em ordem (Príncipe Caspian, A Viagem do
Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata, O Cavalo e Seu Menino)
antes de voltar ao O Sobrinho do Mago no final, quando ele poderá
ser mais bem apreciado sob o contexto dorestante da história, e
concluir com A Batalha Final.
Uma Casa na Floresta, de Laura Ingalls Wilder, ilustrado por Garth
Williams Elogiado por muitos como um dos melhores livros
americanos para crianças de todos os tempos, a série Little House é
baseada na história real de Laura Ingalls Wilder. Suas páginas
começam em uma cabana e, em seguida, seguem a família
enquanto embarcam na vida de pioneiros, prosseguindo a oeste por
território desconhecido e enfrentando dificuldades imprevisíveis. Um
clássico americano, esta é uma série que acompanhará seus filhos
até a idade adulta. Eu, porém, prefiro ouvi-los em audiolivros em vez
de lê-los em voz alta, pois as passagens longas e descritivas podem
ser difíceis para alguns. Ouça os audiolivros lidos por Cherry Jones
a fim de ter uma experiência fabulosa com toda a sua família. A
compreensão adulta pode se fazer necessária para enquadrar
adequadamente as experiências que Laura descreve com os nativos
americanos (particularmente em relação à mãe de Laura). Sugiro lê-
los em ordem: Uma Casa na Floresta, O Jovem Fazendeiro, Uma
Casa na Campina, À Beira do Riacho, A Margem da Lagoa
Prateada, O Longo Inverno, Uma Pequena Cidade na Campina,
Anos Dourados. Além disso, não costumo recomendar The First
Four Years, pois é um conto incompleto e muito mais pesado do que
os outros livros da série. Porquanto inacabado, acredito que lhe falta
um elemento de esperança que é a chave para a história de Laura
como um todo. Tenha em mente também que Farmer Boy pode ser
lido fora de ordem, uma vez que conta uma história separada de
Almanzo Wilder, o homem que se torna o marido de Laura nos anos
seguintes. Farmer Boy é uma excelente maneira de introduzir a
série a garotos relutantes que pensam que os livros são apenas
para meninas. Leia também: Caddie Woodlawn, de Carol Ryrie
Brink e a série Fairchild Family, de Rebecca Caudill, começando
com Happy Little Family.
The Incorrigible Children of Ashton Place: The Mysterious Howling
[Os Pequenos Incorrigíveis de Ashton Place: Mistério], de Maryrose
Wood O primeiro livro da série Incorrigible Children of Ashton Place
a surpreenderá e a encantará enquanto o lê com seus filhos. Você
conhecerá algumas crianças nada comuns. Elas foram encontradas
na floresta de Ashton Place, e parece que foram criados por lobos.
Quando a senhorita Penelope Lumley é contratada como sua babá,
ela precisa controlar seu desejo de ensinar-lhes latim e geografia
para cuidar de algumas coisas mais… digamos… primárias.
Ajudaria, por exemplo, se as crianças parassem de caçar esquilos.
Infindáveis mistérios se desenrolam conforme a narrativa avança.
De onde essas crianças vieram? E o que acontecerá a seguir com a
senhorita Lumley tentando civilizá-los para satisfação da Senhora
Constance? Um mistério Vitoriano (que é, perdoem-me
extremamente bom). Uma das minhas histórias favoritas. Leia
também: o restante da série The Incorrigible Children of Ashton
Place, inclusive The Hidden Gallery, The Unseen Guest, The
Interrupted Tale, The Unmapped Sea, e a última parte (lançada em
junho de 2018), The Long-Lost Home. Você também pode gostar de
Mary Poppins, de P. L. Travers, que provavelmente irá surpreendê-la
se você tiver apenas assistido ao filme!
As Irmãs Penderwick: Uma Aventura de Verão com Quatro Meninas,
Dois Coelhos e Um Garoto Muito nteressante, de Jeanne Birdsall
Esta é a história de quatro meninas sem mãe que viajam para uma
cabana com seu pai, um homem carinhoso, durante as férias de
verão. Temos Rosalind, a irmã mais velha (desesperadamente
romântica); Jane, leitora voraz, sempre criando histórias e se
perdendo em sua imaginação; Skye, que estuda matemática por
prazer e deixa seu temperamento colocá-la em situações
problemáticas; e Batty, a menor. Também temos dois coelhos, é
claro, e também há Jeffrey, o pobre e solitário garoto que vive em
Arundel, o belo estado onde fica a cabana de verão das garotas. O
problema surge quando as meninas incomodam a senhora Tifton,
mãe de Jeffrey e dona de terras. Um verão de desventuras se
segue. Será difícil você não se apaixonar por esse livro vencedor do
prêmio National Book Award e best-seller do New York Times. Leia
também: Gone-Away Lake e Return to Gone-Away, de Elizabeth
Enright. Quem ama As Irmãs Penderwick provavelmente também
gostará da série Shoes, de Noel Streatfeild, começando com Ballet
Shoes.
Ladrão de Olhos: As Aventuras de Peter Nimble, de Jonathan Auxier
No Capítulo 6, eu conto a história do ano em que Jonathan Auxier
aprendeu a se apaixonar pelos livros. Sim, mas agora você pode ler
sua história fantástica de Peter, o órfão cego de dez anos que vive
uma vida de ladrões. Quando, porém, se depara com três pares de
olhos mágicos, Peter percebe que está sendo enviado em uma
missão para salvar as pessoas que precisam dele — uma missão
para viajar ao perigoso Reino Desaparecido. Eis uma história que
vai acelerar os batimentos cardíacos do herói que vive no interior do
seu filho. Leia também: a série A Misteriosa Sociedade Benedict, de
Trenton Lee Stewart, histórias de outro menino enviado em uma
missão que exigia grandes habilidades motoras e intelectuais.
The Search for Delicious [Em Busca dos Sabores], de Natalie
Babbitt Qual é a definição de delicioso? Uma pergunta tão inocente,
e ainda assim coloca Gaylen, o mensageiro do rei, na busca de uma
vida. O que uma pessoa acha delicioso difere do gosto de outra, e
cabe a Gaylen descobrir qual será sua definição pessoal. Babbitt
escreve com um forte senso de Conto de Fadas e de fábulas, sem
perder o ritmo ou a cadência de um romance difícil de largar. Este é
o meu livro favorito da autora, mas outros são igualmente
comoventes e memoráveis, incluindo Tuck Everlasting
(notavelmente mais triste do que The Search for Delicious, mas há
um filme maravilhoso baseado nele que vale a pena ver com seus
filhos). Outra recomendação para quem gostou desses livros é The
Angel Knew Papa and the Dog, de Douglas Kaine McKelvey.
Stella by Starlight, de Sharon Draper Conheça Stella, uma garota
afro-americana que mora em Bumblebee, Carolina do Norte,
durante a era da Grande Depressão. Nossa história começa na
noite em que Stella e seu irmão mais novo, Jojo, testemunham a Ku
Klux Klan queimando uma cruz, o que muda a vida de Stella para
sempre. Sua cidade e sua vida nunca mais serão as mesmas.
Certifique-se que seu filho está pronto para ouvir sobre a KKK antes
de começar este livro. Não há nada explícito, mas o assunto é
naturalmente pesado. Draper é uma talentosa contadora de
histórias, e esse livro deixará você e seus filhos com aquele
sentimento de esperança, alegria, e amor pela humanidade, o que
demonstra a destreza de Draper em contar histórias. Leia também
Blue Birds de Caroline Starr Rose, um conto histórico que ocorre em
um local e período completamente diferentes, apelando, no entanto,
ao espírito de amizade, lealdade e justiça de forma semelhante.
The Trumpet of the Swan [A Trombeta do Cisne], de E. B. White
Como escolher um único título de E. B. White, um dos melhores
contadores de histórias de todos os tempos? Não vou tentar, então
recomendarei logo todos eles. The Trumpet of the Swan é a minha
favorita, com personagens bem desenvolvidos, as desventuras do
garoto Sam, o adorável cisne Louis, o pai divertido e falador de Sam
e uma trombeta que tem o potencial de mudar tudo. Uma história
que trata da beleza da música e de enfrentar obstáculos com
coragem e determinação, liberdade e amizade. Leia também: A Teia
de Charlotte e Stuart Little, ambos do mesmo autor.
The Vanderbeekers of 141st Street [A Família Vanderbeeker], de
Karina Yan Glaser A família Vanderbeeker adora sua típica casa da
141st Street no bairro de Harlem, Nova Iorque. Eles adoram tudo,
exceto uma coisa: o proprietário. Beiderman é um homem mal-
humorado e recluso que decide não renovar o contrato de aluguel
da família Vanderbeeker. Os cinco irmãos Vanderbeeker lançam
uma campanha completa para mudar a decisão daquele senhor
rabugento. Se seus filhos gostam das crianças Penderwick (já
recomendeiesse livro!), eles também vão adorar a equipe
Vanderbeeker. Adoro livros em que os irmãos se unem para tornar a
vida melhor para a família, especialmente quando há desventuras
ao longo da jornada! Leitores que gostam de grandes histórias de
família como The Vanderbeekers of 141st Street também precisam
ler The Saturdays, o primeiro livro de uma série sobre a adorável
família Melendy, de Elizabeth Enright e The Moffats, o primeiro de
uma série sobre a família Moffat, de Eleanor Estes.
Onde a Lua e a Montanha se Encontram, de Grace Lin Grace Lin
aproveita com maestria o folclore chinês neste romance sobre uma
jovem chamada Minli, que parte em uma jornada de aventuras para
encontrar o Velho na Lua e mudar a pobre sorte de sua família.
Elementos de fantasia e folclore se entrelaçam conforme Minli
aprende o que significa descobrir as respostas para as perguntas
mais urgentes da vida. As ilustrações em cores de Grace Lin estão
espalhadas por todo o livro, e você se sentirá faminta por mais
folclore depois de terminá-lo. Leia também o restante dos livros de
Lin nesta série: Starry River of the Sky e When the Sea Turned to
Silver.
 
CAPÍTULO
15
Encontrando o caminho Faixa Etária: 13+
(Adolescência) Histórias se prestam à magia, servem a grandes aventuras,
a fim de fazer o leitor sentir e enxergar realidades e levá-lo a lugares aos
quais jamais foi.
— Gladys Hunt e Barbara Hampton Pais que leem em voz alta
com seus filhos adolescentes geralmente descrevem essa
experiência como mágica. Você provavelmente terá tanto
prazer quanto eles enquanto faz a leitura de livros para essa
faixa etária. Você também descobrirá que o relacionamento
com os filhos numa fase tão difícil quanto a adolescência fica
muito mais fácil quando se tem um livro para ler em família.
Há uma transição nessa fase dos seus filhos — eles não ficam
em casa com tanta frequência, estão começando a esticar as asas,
a vida está começando a ficar diferente e uma temporada
completamente nova está se estabelecendo. Na verdade, os
adolescentes estão caminhando na ponta dos pés em direção à
idade adulta. Este é um momento especialmente importante para ler
em voz alta com eles.
Caso ainda não tenha esse hábito, não aconselho que você
comece de supetão, porque seu filho pode se sentir como se você o
estivesse tratando feito um bebê. Mas, calma, muita calma nessa
hora: você ainda pode começar a ler em voz alta com seus
adolescentes. Ainda há esperança! Nunca é tarde demais para
começar a ler em voz alta.
Algumas estratégias bem pensadas podem facilitar sua entrada e
a de seu filho adolescente no estilo de vida da leitura em voz alta.
Uma das maneiras mais efetivas de acostumar o seu filho
adolescente à leitura em voz alta é reproduzir audiolivros no carro.
Se seu filho disser que não quer ouvir o livro, diga que colocou o
livro para VOCÊ, e não para ele. Você se deparará com uma
audiência cativa e uma história interessante sendo lida por um
narrador habilidoso. Será difícil resistir a isso, mesmo para um
adolescente teimoso de catorze anos.
Outra tática é simplesmente comunicar que a leitura em voz alta
será uma prática familiar, assim como o jantar ou a noite de jogos
em família. Garanta que todos estejam presentes e então dê ao seu
filho adolescente alguma coisa para fazer com as mãos enquanto
você lê. Ter algo que manusear pode ser incrivelmente útil para o
seu filho que não está acostumado a ouvir uma história ser contada
em voz alta. Uma alternativa que facilita as coisas é reproduzir um
audiolivro durante as refeições ou em um sábado livre enquanto
todos estão reunidos na sala.
Mas lembre-se do mais importante: nossos filhos adolescentes
não querem ser nossos “projetos”. Se sentirem que estamos lendo
em voz alta para eles a fim de melhorá-los, então resistirão (você
não faria o mesmo?). Entretanto, se sentirem que estão ouvindo
uma história ou lendo em voz alta por puro prazer e diversão, talvez
achem a experiência um pouco mais gostosa.
Seu filho adolescente deseja ser tratado como um leitor adulto,
pois (atenção!) ele é quase um adulto! Então saia da sua rotina e
trate seu filho como se você e ele fossem leitores que estão juntos
em uma jornada. Preste muita atenção no Capítulo 6, que trata da
criação de uma cultura do clube do livro em seu lar. Evite ser
condescendente com as leituras do seu filho ou crítico com a
frequência (ou falta de frequência) com a qual ele lê.
Até mesmo a leitura de um único livro por ano permanecerá com
seu filho quando ele sair de casa. E uma vez que o seu filho
provavelmente sairá de casa em um futuro não muito distante, este
é um investimento de tempo que vale muito a pena enquanto ainda
há oportunidade. Atenha-se menos à quantidade e mais à
naturalidade da leitura e dos diálogos acerca dos livros lidos. Esta é
uma prévia para futuras interações. Você está pavimentando o
caminho para as mudanças que acontecerão no relacionamento
com o seu filho durante a transição de adolescente para adulto.
O vínculo com os adolescentes (e provavelmente com todas as
idades, para falar a verdade) é formado por diálogos. Não
economize saliva. Leia menos com o seu filho, caso essa decisão
signifique ter mais tempo para conversar. Converse, converse e
converse mais um pouco. Deixe que os livros sejam a ponte para
nutrir um relacionamento íntimo com o seu filho adolescente.
O vocabulário sofisticado e as estruturas complexas ainda têm
seu lugar nessa fase, e um excelente meio para transmitir esses
conceitos é o uso de audiolivros. O seu filho adolescente pode ouvir
um audiolivro enquanto aproveita a carona para o trabalho, durante
uma caminhada, ou enquanto aguarda o trajeto do ônibus. Se você
e seu filho estiverem ouvindo o mesmo audiolivro (em horários e
lugares diferentes), ambos podem tomar um café juntos e mais
tarde conversar sobre a leitura, usando os meios e formas de
diálogo listados no Capítulo 11 deste livro. A história compartilhada
entre vocês dois, mesmo quando a vida está corrida para todos,
começa a parecer diferente.
Atente-se menos a ler os livros “certos”. O mais importante é
nutrir em seu filho adolescente o amor pela palavra escrita e pelas
histórias lidas. Meu desejo é que você consiga comunicar o quanto
gosta de passar tempo com ele. Os livros nos dão o poder de ajudar
nossos filhos adolescentes a encontrarem seu próprio caminho
neste mundo bagunçado e desordenado.
O QUE OS ADOLESCENTES PODEM FAZER 
ENQUANTO VOCÊ LÊ EM VOZ ALTA • Costura ou crochê.
• Montar modelos e miniaturas (aviões, etc.).
• Praticar caligrafia cursiva ou artística.
• Desenhar ou contornar esboços.
• Pintar com aquarela.
• Modelagem com argila.
• Fazer tarefas domésticas (lavar a louça, dobrar as roupas,
cozinhar, etc.).
• Fazer colagens.
MINHA BÍBLIA FAVORITA PARA LER 
EM VOZ ALTA COM ADOLESCENTES
Durante os anos de adolescência, prefiro ler em voz alta qualquer
tradução da Bíblia que os adultos da casa estejam lendo. A minha
favorita é a Ignatius Bible (RSV), mas você pode usar a NVI, a KJV,
a ARA, a ACF ou mesmo qualquer outra tradução usada em sua
igreja ou em sua casa. A Mensagem pode ser uma boa mudança de
ritmo para a leitura em voz alta, mesmo que não a use com
frequência. Reveja os princípios do Capítulo 10 deste livro sobre a
arte da conversação e lembre-se de não se intrometer quando seu
filho se afeiçoa a uma história das Escrituras. É importante não
transformarmos a leitura bíblica em pílulas de ensino mecânico; há,
ao contrário do que possamos pensar, enormes chances de uma
história encontrar nossos filhos e tornar-se aos olhos deles profunda
e indelével.
ALGUMAS EXCELENTES OBRAS PARA LER 
EM VOZ ALTA COM ADOLESCENTES
Adolescentes estão prontos para consumir materiais mais sólidos
e textos mais complexos, embora não seja esse um padrão. Você
encontrará uma mistura nessa lista — algumas leituras são leves e
divertidas, outras seleções são densas e substanciosas. Alguns
livros aqui escolhidos abarcam ambas as características.
Todas as obras aqui citadas, penso eu, servem com louvor para a
leituraem voz alta e em grupo. Certifique-se de ler as sinopses, uma
vez que algumas das escolhas são voltadas para adolescentes mais
velhos.
Você verá que as recomendações que faço voltadas aos
adolescentes incluem um bom número de livros para crianças do
Ensino Fundamental II, algumas escolhas para adultos e alguns
poucos títulos para jovens adultos. Tentei evitar livros que
contivessem linguagem ofensiva, violência gráfica e conteúdo
sexual. Mesmo que se sinta confortável em dar ao seu filho
adolescente livros que contenham conteúdos impróprios, você
provavelmente não terá vontade de lê-los em voz alta (pode me
perguntar como fiquei sabendo disso). Há exceções, e as menciono
nas sinopses dos livros que indico neste capítulo. Apesar de tudo
isso, escolhi sobretudo livros que cultivarão uma experiência familiar
aconchegante e memorável.
Incluo nesta lista alguns livros ilustrados. É provável que você
fique de boca aberta com a importância desse tipo de literatura para
a leitura com adolescentes. Os livros ilustrados nesta lista abordam
conteúdos mais densos e complexos do que os livros que, nos
capítulos anteriores, sugiro que leia em voz alta com crianças mais
novas. Quando você estiver com falta de tempo ou receio de se
comprometer com uma obra mais longa com seu filho adolescente,
escolha um desses livros ilustrados para ler em voz alta. Eis uma
vitória rápida.
Como sempre, lembre-se de dar a oportunidade ao seu filho de
encontrar os personagens e diferentes ambientes daqueles com que
já estão acostumados. Forneça livros escritos por autores diversos e
histórias sobre personagens diversos em situações diferentes do dia
a dia da vida do seu filho. Esta lista de livros lhe dará um bom
começo. Acima de tudo, lembre-se de que ler com adolescentes é,
antes de mais nada, criar vínculos que durarão por longos anos,
mesmo depois que saírem de casa. Divirta-se e curta seu filho
adolescente!
Livros Ilustrados Construção de Um Castelo, de David Macaulay
Detalhista e mestre na arte de explicar, Macaulay talvez seja um dos
ilustradores mais talentosos da atualidade. Não são meros livros
ilustrados. Construção de Um Castelo é seu título mais conhecido,
mas ele também escreveu outras obras. Se seu filho tende a preferir
não ficção, eis um excelente título para iniciar sua prática de leitura
em voz alta. Embora Macaulay (que estudou arquitetura antes de
começar a produzir livros para crianças) conte histórias sobre
construções e edifícios, o que ele realmente está fazendo é contar
histórias de pessoas. Leia também: outras obras de David
Macaulay, incluindo Construção de uma Catedral, Construção de
Uma Cidade Romana, Construção de Uma Pirâmide, Como as
Coisas Funcionam e outros. Embora ele seja mais conhecido por
suas ilustrações em preto e branco, você também pode encontrar
encantadoras versões em cores de muitos de seus livros.
Pink and Say, de Patricia Polacco Este livro irá convencê-lo de que
os livros ilustrados não são apenas para crianças. Pink and Say é a
linda história de dois heróis da Guerra Civil — um afro-americano e
um caucasiano — e sua improvável amizade em um campo de
batalha americano. É uma história que você não vai esquecer tão
cedo — um conto notável de misericórdia, bondade, comoção e
esperança. Se esta obra tocar o seu íntimo, leia também: The
Butterfly, de Patricia Polacco, que conta a história de duas meninas
em uma vila francesa que foi invadida por tropas nazistas durante a
Segunda Guerra Mundial. Entre os livros com belas imagens e que
abordam tópicos importantes incluo Show Way, de Jacqueline
Woodson, ilustrado por Hudson Talbott (escravidão) e Sit-In, de
Andrea Pinkney, ilustrado por Brian Pinkney (o movimento pelos
direitos civis).
Romances e obras de não ficção mais longos Meninos de Ouro:
Nove Americanos e Sua Busca Épica Pela Vitória Nas Olimpíadas
de Hitler, de Daniel James Brown Você pode ler a versão integral
com adolescentes, mas caso se sintam intimidados pelo tamanho do
livro, então opte pela adaptação para o público jovem; acredito que
mesmo essa não a decepcionará. A versão original do livro oferece
mais detalhes e contextos históricos, mas a adaptação é
extremamente bem editada. Neste livro, você encontrará a
verdadeira história de Joe Rantz, um menino que sofreu muito
durante sua infância, mas levantou-se para encarar a vida de frente.
Essa história há de agradar especialmente os adolescentes que
amam esportes. Leia também: O Contrabandista de Deus, do Irmão
André, a história real de um garoto que se perdeu e depois se
reencontrou trabalhando disfarçado para Deus, contrabandeando
Bíblias pelas fronteiras de países em que sua leitura era proibida.
Esse livro me surpreendeu positivamente, pois se tornou um
daqueles que a gente devora enquanto lê.
Brown Girl Dreaming [Sonhadora], de Jacqueline Woodson Por se
tratar de um romance em verso, você pode ler cada um de seus
poemas individualmente. Quando você os lê do início ao fim, no
entanto, seus versos contam a história da infância de Jacqueline,
menina afro-americana que cresceu em Ohio e na Carolina do Sul
durante e logo após o movimento pelos direitos civis. É aquele livro
que deixa você pesaroso, grato e cheio de esperança, tudo ao
mesmo tempo. Você pode lê-lo em voz alta (eu li em voz alta para
mim mesma!) ou mesmo ouvir a própria Jacqueline Woodson narrá-
lo em seu audiolivro. Leia também: Piecing Me Together, de Renée
Watson, a história de uma adolescente negra que tenta construir
seu próprio caminho em um mundo que não dá tréguas.
Bud, Not Buddy, de Christopher Paul Curtis Bud, de 10 anos, está
foragido. Ele fugiu do orfanato e da terrível família Amos em busca
de seu pai e de um futuro melhor. Mas os tempos são difíceis em
Flint, Michigan, em 1936, e Bud (não Buddy) tem dificuldade
enquanto tenta se virar. Sua mãe lhe deixou apenas uma pequena
pista para encontrar seu pai: os panfletos que ela tanto estimava,
em que figuravam Herman E. Calloway e sua banda, os Dusky
Devastators of the Depression!!!!!! (São seis pontos de exclamação,
agora já sabe que a banda é popular.) Li-o em voz alta para meus
adolescentes e não sei se algum dia já nos entretemos tanto. É uma
história que vai partir o seu coração e depois colocá-lo de volta no
lugar. E se gostou desse, leia também outros livros de Christopher
Paul Curtis, particularmente The Watsons Go to Birmingham —
1963.
The Charlatan’s Boy [Os Trapaceiros], de Jonathan Rogers Bem-
vindo a Corenwald (ou bem-vindo de volta, se você leu a trilogia
Wilderking, que recomendo no Capítulo 14). Nesta história, você
encontrará um menino feio chamado Grady e também Floyd, um
vendedor ambulante de circo, enquanto ambos percorrem aldeias
enganando seus habitantes com um truque de mágica falso.
Quando os negócios diminuem, Floyd cria um grande esquema com
resultados surpreendentes tanto para as pessoas em Corenwald
quanto para o próprio Grady. Trata-se de um livro que lida com o
saber quem você mesmo é (o mais importante) e saber a quem
você pertence. Em suas páginas há muito que desfrutar e sobre o
que conversar; é bem provável que vocês ficarão acordados até
tarde da noite lendo sempre mais um pouquinho, só para verem o
que vai acontecer. Leia também: Cartas de um Diabo a seu
Aprendiz, de C. S. Lewis, um clássico que fará você contemplar
grandes ideias de uma perspectiva única. Na verdade, releio as
Cartas de um Diabo a seu Aprendiz todo ano (sim, ele é tão bom
assim mesmo!). E, claro, fãs de Rogers e Lewis provavelmente
também serão fãs de O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, bem como da
trilogia de O Senhor dos Anéis, incluindo A Sociedade do Anel, As
Duas Torres e O Retorno do Rei. Quanto à trilogia de O Senhor dos
Anéis, preferimos ouvir os audiolivros narrados por Rob Inglis.
Ecos, de Pam Muñoz Ryan Não leia este livro — ouça-o. O
audiolivro narrado por Mark Bramhall, David de Vries, Andrews
MacLeod e Rebecca Soler é uma experiência extraordinária. A
narrativa, semelhante à de um Conto de Fadas, começa com a
história de Otto, três irmãs e uma gaita. Décadas depois,
encontramosoutra vez a gaita nas mãos de Friedrich, um garoto
alemão do lado errado do Partido Nazista durante a Segunda
Guerra Mundial. Alguns anos depois, na Pensilvânia, a gaita cai nas
mãos de um órfão chamado Mike e seu irmão Frankie, que sonham
em ter uma família própria. Então conhecemos Ivy Lopez, uma
garota na Califórnia durante os anos 1940 que luta para lutar por
sua identidade americana em uma época de turbulência cultural e,
claro, a gaita encontra seu caminho em suas mãos. O autor tece os
fios dessas histórias em uma obra-prima verdadeiramente mágica.
Este é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Altamente
recomendado. Leia também: outras obras de Pam Muñoz Ryan
(você encontrará descrições de The Dreamer e Esperanza Rising no
Capítulo 14). Você também pode desfrutar da mistura de ficção
histórica, imaginação e folclore no livro de Kenneth Oppel (ilustrado
por Jim Tierney), The Boundless, sobre um menino que anseia por
aventura — e a encontra! — na Canadian Railway.
Fever 1793 [A Febre], de Laurie Halse Anderson É verão no final do
século XVIII, na Filadélfia, e Mattie Cook é pego no meio de uma
praga que varre a cidade e destrói tudo em seu caminho. Quando
sua mãe fica gravemente doente, Mattie e seu avô procuram ares
mais saudáveis no país, mas logo descobrem que não há como fugir
da febre amarela. Com base nos verdadeiros eventos da epidemia
de febre amarela de 1793, este empolgante romance histórico vai
manter você e seu filho adolescente roendo as unhas para descobrir
o que acontece na próxima página. Se você quiser saber mais sobre
a epidemia, leia também An American Plague: The True and
Terrifying Story of the Yellow Fever Epidemic of 1793 (um livro
vencedor da medalha Newbery e que compartilha relatos reais e
verdadeiros artefatos históricos), de Jim Murphy.
O Doador de Memórias, de Lois Lowry Neste livro, conhecemos
Jonas, um menino de doze anos que vive em um mundo plácido de
controle e conformidade “ideais”. Jonas recebe o papel de Receptor
de Memórias e começa a desvendar o lado obscuro de seu mundo
“perfeito”. Romance distópico e original para jovens adultos, O
Doador de Memórias é uma história assustadora que irá fornecer a
você e seus adolescentes muito o que discutir. Leia também: o
restante de Giver Quartet, incluindo Gathering Blue, Messenger e
Son, todos pela talentosa Lois Lowry. Os adolescentes que gostam
de ficção distópica também podem gostar da saga Jogos Vorazes,
de Suzanne Collins. Leia a saga Jogos Vorazes e tenha uma fonte
de conversas sobre questões sociais relevantes com seus filhos
adolescentes.
A Pastorinha de Gansos, de Shannon Hale Este é o primeiro da
série Books of Bayern, e é uma recontagem do Conto de Fadas dos
irmãos Grimm de mesmo nome: A Pastorinha de Gansos. A
excelente redação e o enredo bem ritmado vão impressionar seus
adolescentes desde o início — e este não é apenas para as moças!
Muita aventura, romance e combates manterão todos envolvidos.
Leia também: os demais livros da coleção Books of Bayern,
incluindo Enna Burning, River Secrets e Forest Born. Os
adolescentes também vão amar a obra Academia de Princesas —
mais profunda e rica do que o título permite aparentar e adequada
para um público mais jovem do que os Books of Bayern.
Hattie Big Sky [Hattie Mundo Afora], de Kirby Larson Hattie assumiu
uma tarefa formidável — provar sozinha a reivindicação de seu
falecido tio em Montana. Este romance histórico o levará à fronteira
americana com uma garota que enfrenta o mundo natural, um lugar
nada fácil para descobrir o que realmente significa estar em “casa”.
Ganhou a medalha Newbery em 2008 e tem uma sequência
maravilhosa, Hattie Ever After, enquanto a personagem principal
continua sua busca de volta para “casa”, mudando-se para San
Francisco a fim de perseguir seu sonho de se tornar repórter. Se o
seu filho adolescente gostar desses livros sobre Hattie, leia também
o romance de Susan Meissner, A Fall of Marigolds. Em A Fall of
Marigolds, Meissner tece dois contos: um de Clara Wood, que deve
resolver sua própria vida após o catastrófico Incêndio na Fábrica da
Triangle Shirtwaist, em Manhattan, 1911, e o outro de Taryn
Michaels, que está reconstruindo sua vida depois de perder seu
marido no ataque terrorista de 11 de Setembro contra o World Trade
Center. Adolescentes que gostam de ficção histórica como Hattie
Big Sky e Hattie Ever After também podem desfrutar de The True
Confessions of Charlotte Doyle, um conto do século XIX sobre a
angustiante jornada de uma garota de 13 anos através do Atlântico.
O Refúgio Secreto, de Corrie Ten Boom Esta é a história
incrivelmente comovente e verdadeira de Corrie Ten Boom, uma
relojoeira que foi lançada na resistência holandesa durante a
Segunda Guerra Mundial. Acredito que seja uma leitura mais
apropriada com adolescentes mais velhos, já que, sem dúvida, vai
quebrar seu coração ao ler o relato surpreendente e aterrorizante da
vida em um campo de concentração nazista. Também acredito que
seja melhor ler este em voz alta com seu filho adolescente (em vez
de deixá-lo ler sozinho), para que você possa dialogar sobre os
fatos complicados e comoventes deste período terrível da História.
Este livro, no entanto, não deixa o leitor em desespero. Como todos
os livros verdadeiramente maravilhosos, você fecha a última página
com uma promessa de esperança e boa vontade — promessa que
envolverá os pensamentos do seu filho adolescente pelos próximos
anos. Altamente recomendado. Leia também: Unbroken: An
Olympian’s Journey from Airman to Castaway to Captive. Este livro
descreve os horrores e a violência dos campos de concentração
com mais detalhes do que O Refúgio Secreto; portanto, guarde-o
para seus adolescentes mais velhos e certifique-se de reservar um
bom tempo para ajudá-los a processar o livro e a dialogar a seu
respeito. Observação: recomendo a adaptação juvenil deste livro.
Homeless Bird [O Passarinho sem Ninho], de Gloria Whelan Neste
romance histórico ambientado na Índia, Gloria Whelan, mestre em
contar histórias, narra a vida de Koly, uma garota de treze anos que
deve deixar a casa de sua infância para enfrentar um casamento
arranjado. Após a cerimônia ser concluída, no entanto, Koly
descobre que seu futuro foi negociado por um dote e, em uma infeliz
reviravolta, sua vida muda abruptamente. Expulsa da sociedade e
abandonada por todos que conhecia, Koly precisa trilhar seu próprio
caminho e encontrar beleza e felicidade mesmo nas circunstâncias
mais infelizes. Leia também: outros livros de Gloria Whelan,
especialmente sua bela e comovente história em Listening for Lions.
Adolescentes que gostarem de Homeless Bird também podem
gostar do livro de Ji-li Jiang, Red Scarf Girl: A Memoir of the Cultural
Revolution, acerca de crescer na China sob o revolucionário
comunista Mao Tsé-Tung.
Inside Out and Back Again, de Thanhha Lai Você encontrará este na
seção infanto-juvenil da biblioteca e das livrarias, mas não se deixe
enganar — meu filho e eu gostamos tanto quanto um pré-
adolescente de 12 anos. Neste romance em versos, você conhecerá
Hà, uma garota cuja família foge do Vietnã após a queda de Saigon.
Sua experiência como jovem imigrante nos EUA é tocante e
comovente. Este livro ganhou vários prêmios, incluindo uma
medalha Newbery e um National Book Award. Se você gostar deste
romance, leia também outros romances em verso: The Crossover,
de Kwame Alexander (especialmente adequado para seus rapazes,
praticando ou não esportes) e Out of the Dust, de Karen Hesse, uma
história surpreendente ambientada na tempestade de areia (também
conhecida como Dust Bowl) na década de 1930, durante a Grande
Depressão.
Minha Vida Fora dos Trilhos, de Clare Vanderpool Este livro ganhou
a Medalha Newbery por excelência em literatura infantil em 2011. O
pai de Abilene Tucker a envia para a cidade imigrante de Manifest,
na zona rural do Kansas, com poucas explicações, e Abilene se
sente abandonada e sozinha. Em seu quarto, ela descobre uma
caixa de charutos escondida cheia de lembranças, que a leva a
desvendar históriasde Manifest e do povo que vive ali. Trata-se de
uma história de perda, pertencimento, lar e perdão, contada de uma
forma inesquecivelmente bela. Leia também: Em Algum Lugar nas
Estrelas, de Clare Vanderpool. Considero Clare Vanderpool uma das
escritoras mais talentosas da atualidade.
Okay for Now [Está Tudo Bem], de Gary D. Schmidt Gary D.
Schmidt escreveu alguns dos romances mais interessantes que já li,
e este é o meu favorito de todos eles. É um livro que vai fazer você
querer contemplar as pinturas de Audubon, ler Jane Eyre, agradecer
a um veterano de guerra, pegar uma orquídea, abraçar uma criança
antipática. O personagem principal é Doug Sweeney, um “valentão
magrelo” que sofre nas mãos de um pai abusivo. Doug trilha sua
vida doméstica tumultuada, suas lutas na escola e presencia um
irmão mais velho que retorna do Vietnã profundamente ferido e
incapacitado. O estilo de escrita de Schmidt mudará a maneira
como você vê o mundo e as pessoas que estão sofrendo ao seu
redor. Esta obra é uma das principais escolhas dessa lista. Se você
pretende ler poucos livros com seu filho adolescente, certifique-se
de que este seja um deles. Leia também: The Wednesday Wars, de
Gary Schmidt. Na verdade, essa narrativa se passa antes de Okay
for Now, mas você pode lê-los em qualquer ordem. O que Schmidt
faz por Audubon em Okay for Now (ou seja, deixa o leitor faminto
para descobrir mais sobre seu trabalho), ele o faz por Shakespeare
em The Wednesday Wars.
A Saga Wingfeather: Nos Limites do Mar Sombrio da Escuridão, de
Andrew Peterson Este é o primeiro livro da saga Wingfeather, uma
série que menciono com frequência ao longo deste livro. A saga
conta a história da família Igiby: Janner, Tink e Leeli, seu cachorro
Nugget, a dedicada mãe Nia e o avô ex-pirata, Podo Helmer. Eles
vivem em Glipwood, uma cidade tomada pelo mal e pelos ferozes
Fangs de Dang. Os fãs de Tolkien e de Lewis apreciarão
especialmente as criaturas fantásticas e os personagens fascinantes
que se deparam com as crianças Igiby enquanto elas descobrem
sua verdadeira identidade e aprendem o que significa ser quem são.
Mais do que aparenta, não são meras aventuras de fantasia, mas
contos que lidam com o quanto custa atender ao chamado para o
qual fomos criados. Leia também: os demais livros da Saga
Wingfeather. O segundo livro é o North! Or Be Eaten, seguido por
The Monster in the Hollows e The Warden and the Wolf King. Talvez
você também goste de Wingfeather Tales, uma coleção de contos
sobre as criaturas e personagens de Glipwood. Aliás, são livros que
crianças mais novas também conseguem ler (a partir dos nove
anos, mais ou menos).
A Single Shard [O Fragmento], de Linda Sue Park Ganhador de uma
medalha Newbery, embora este livro normalmente seja
recomendado para crianças mais novas, os adolescentes também o
consideram envolvente. Esta é a história de Tree-ear, um órfão de
treze anos que é contratado pelo mestre oleiro Min, na Coreia de
meados do século XII. Trata-se de uma história de mestre e
aprendiz, ambos tentando se provar da única maneira que sabem.
Considero Linda Sue Park uma das melhores escritoras infantis da
atualidade — essa obra é imperdível! Leia também suas outras
obras, especialmente Uma Longa Caminhada até a Água
(compartilho mais sobre minha experiência ao lê-lo no Capítulo 5).
Uma Dobra no Tempo, de Madeleine L’Engle Este livro pode ser
apreciado por crianças mais novas, mas os adolescentes
encontrarão muito o que amar, enquanto Meg e Charles embarcam
em uma jornada pelo espaço para encontrar seu pai. Trata-se de
uma história do bem contra o mal, de possibilidades e conquistas.
Inteligente e atemporal, este livro provavelmente se tornará um
favorito da família. Se seus filhos ainda não leram, lê-lo em voz alta
será uma experiência mágica. Se eles já leram por conta própria,
provavelmente não se oporão à sua leitura em voz alta. Leia
também: outros livros de Madeline L’Engle — recomendo
especialmente Meet the Austins. Os leitores que apreciam o
elemento mágico de Uma Dobra no Tempo gostarão também da
obra de Elizabeth Marie Pope em The Sherwood Ring e The
Perilous Gard.
You Learn by Living: Eleven Keys to a More Fulfilling Life [Aprende-
se Vivendo: 11 Chaves para uma Vida mais Abundante], de Eleanor
Roosevelt Eleanor Roosevelt continua sendo uma das figuras
públicas mais queridas da história americana. Neste guia sábio e
comovente, ela compartilha histórias e sabedoria sobre ser uma
aprendiz ao longo da vida, lutando contra seus medos, usando bem
o tempo, amadurecendo, aprendendo a ser flexível e muito mais.
“Olhando para trás”, ela escreve no início deste livro, “o fato que
provavelmente mais me influenciou nos meus primeiros anos de
jornada foi o ávido desejo, mesmo antes de ter consciência do que
estava fazendo, de experimentar tudo que fosse possível e tão
profundamente quanto pudesse”. E nas próximas duzentas ou mais
páginas, ela descreve exatamente como nós mesmos podemos
fazer o mesmo. Espirituoso, bem-humorado e perspicaz, este
pequeno livro servirá de base para muitas discussões com seus
adolescentes. Para mais livros inspiradores de não ficção, leia
também: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale
Carnegie, um livro fabulosamente divertido que trata de habilidades
pessoais. Você provavelmente gostará desses livros tanto quanto
seus adolescentes.
 
Agradecimentos Sou muitíssimo agradecida a cada um de
vocês, aqui nomeados ou não, que tiveram parte importante para
que esse livro ganhasse vida. Essa obra não teria sido escrita sem
vocês, pessoal.
Jim Trelease, obrigado por dar o corajoso passo de escrever O
Manual de Leitura em Voz Alta. Uma geração de famílias foi
transformada por causa do seu livro. Andew Pudewa, obrigado por
acender a fagulha necessária para despertar o desejo de ler para os
meus filhos.
Ao meu maravilhoso agente, Bill Jensen (e à Sheila, metade da
causa, suspeito eu, para Bill ser tão maravilhoso), e à equipe
Zondervan, especialmente Carolyn McCready, Harmony Harkema,
Alicia Kasen e Robin Barnett: o meu muito obrigado por acreditarem
neste livro, às vezes mais do que eu. Obrigado por me dizerem para
tentar outra vez mesmo enquanto não dava certo e para me livrar de
todos os obstáculos, a fim de que conseguíssemos imprimi-lo o mais
rápido possível. Vocês são maravilhosos!
Angela Fredericks, Natalie Schroeder e todas as lindas mulheres
do St. Joseph Homeschool Group: obrigado por serem amigas fiéis
para todos os momentos. Pam Barnhill: obrigado por ser meu porto
seguro e amiga querida. Anne Bogel: obrigado por me manter sã e
me fazer rir. Rosalie Nourse: obrigado por amar meus filhos tanto
quanto uma avó. Meghan Kunzl: amo-a com grande ternura, mesmo
de longe. Karla Marsh: obrigado por todo o amor de uma vida, por
todo o seu apoio que não tem fim. Mystie Winckler e Brandy Vencel:
obrigado por sua amizade inspiradora e inabalável. C. S. Lewis certa
feita disse: “A amizade é desnecessária, como a filosofia, como a
arte [...] não é de valor à nossa sobrevivência; ao contrário, é uma
daquelas coisas que dão valor à sobrevivência”. De fato. Espero que
compartilhemos muitos outros momentos desnecessários.
Mãe, pai, Tiffany, Haylie, suas respectivas metades e seus doces
filhos — a perda que sofremos enquanto eu escrevia estas páginas
foi maior do que pensávamos que poderíamos suportar. Amo todos
vocês. Dylan e Mikayla — eu os amo mais do que consigo
expressar. Lamento muito por toda a perda que vocês sofreram.
Ro, Randy, Angela, Dan e a linda família de cada um de vocês:
obrigado por me amarem como se fossem sangue do meu sangue.
Também agradeço à Jodie Naker, que ama tanto meus filhos. A
paz e a alegria que você traz para nossa família são palpáveis.
Comunidade Read-Aloud Revival: este livro não existiria sem
vocês. Seus e-mails, cartas, abraços e incentivos são a causa do
verdadeiro reavivamento. Aquilo que começou como uma faísca
transformou-se num incêndio voraz por causa do entusiamo de casa
um de vocês, por causa dessa empolgação de relacionar-se com
seus filhos mediante

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