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AMH AR Direito comum e direito colonial (BHZ 2005).doc (10/11/2005 18:39:00)
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António Manuel Hespanha*, Porque é que existe e em que é que consiste um direito colonial
brasileiro.
esde há uns anos que o tema das relações entre a sociedade metropolitana e a sociedade
brasileira se tem vindo a libertar de algumas imagens historiográficas translatícias,
adoptando modelos de análise e pontos de vista que se distanciam dos imaginários nacionalistas
e que incorporam perspectivas mais modernas da historiografia geral.
Neste texto, abordo uma questão que interessa particularmente aos historiadores do
poder e das instituições e cuja compreensão necessita de alguns esclarecimentos que a história
do direito de Antigo Regime pode fornecer.
O meu ponto o seguinte. Para se falar de um direito colonial brasileiro - com a
importância política e institucional que e isto tem -, é preciso entender que, no sistema jurídico
de Antigo Regime, a autonomia de um direito não decorria principalmente da existência de leis
próprias, mas, muito mais, da capacidade local de preencher os espaços jurídicos de abertura ou
indeterminação existentes na própria estrutura do direito comum 1.
De algum modo, a tendência para andar à procura do leis especiais para o Brasil quando
se quer comprovar existência de um direito próprio é induzida pelo modo como a historiografia
espanhola tratou tradicionalmente o chamado “direito das Índias”. Na verdade, só muito
recentemente – a partir de um livro do historiador argentino Vítor Tau Antzoategui 2 – é que a
concepção de “direito das Índias” como complexo de leis da coroa foi substituída por uma
concepção de direito construído pela prática - eventualmente, pela prática dos tribunais – nos
espaços que o direito comum clássico deixava à regulamentação local, consuetudinária ou
judicial.
É certo que a monarquia portuguesa emitiu algumas leis para o Brasil, embora em menor
quantidades do que as editadas pela monarquia espanhola para a sua América 3. Em todo o caso,
se se procurara pelo direito do Brasil colonial, é minimamente aí que ele se encontra. Diria
mesmo que a maior parte destas providências vindas da corte indiciam - quando não as referem
expressamente - zonas de incumprimento do direito real e, portanto, de existência de um direito
próprio.
De seguida, lembraremos os conceitos de direito comum que permitiam que as práticas
locais se tornassem direito. Mostraremos, depois, como esta abertura às particularidades locais
era política e doutrinalmente antipática ao poder da coroa, quer elas se referissem à metrópole,
quer se referissem às colónias. Salientaremos, em todo o caso, como estas virtualidades de
* Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
1 Lauren Benton, em “The Legal Regime of the South Atlantic World, 1400-1750: Jurisdictional Complexity as
Institutional Order”, Journal of World History 11.1 (2000) 27-56, constrói sobre esta base a sua tese de que o direito
comum “ibérico” (que, na verdade, pouco tinha de específico em relação ao restante direito comum seiscentista e
setecentista, sobretudo no Sul da Europa) constituiu o principal factor de unificação dos impérios atlânticos de Portugal e
da Espanha.
2 Vitor Tau Anzoategui, Casuismo y sistema, Buenos Aires, Instituto de Investigaciones de Historia del derecho, 1992; v.
também Eduardo Partiré, “Un Derecho Propio de un Derecho Particular, el Derecho Indiano", presentado al Congreso
sobre "La pervivencia del Derecho Común" organizado por la Univ.Católica Argentina, publicado en la Revista de Historia
del Derecho n°29, Instituto de Investigaciones de Historia del Derecho, Buenos Aires, 2001, pp. 333-363.
3 O projecto ius Lusitaniae, dirigido por Pedro Cardim e Ângela Barreto Xavier, disponibilizará em suporte electrónico,
uma boa parte dessa legislação. Outra banda dispersa, até porque nem sempre revestia a forma mais solene, a de carta
de lei, consistindo frequentemente em cartas régias, provisões, portarias, alvarás, regimentos, contendo instruções, por
vezes dirigidas a uma pessoa em concreto. De facto, para além de tudo, nunca podemos perder de vista que o actual
conceito de lei para compreende, nas práticas formulares de Antigo Regime, uma vasta pluralidade de tipologias
documentais. O próprio CCM lista uma séria importante de providências normativas, em geral relativas aos distritos
auríferos de Minas (p. 352-370.
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diferenciação periférica do direito, embora existissem em todos os lugares das monarquias, eram
enormemente potenciadas nas situações “de fronteira”, como as colónias. Ao longo do texto,
daremos alguns exemplos - quase todos referentes a Minas e provenientes do Códice Costa
Matoso 4 - do vigor destas práticas particularistas periféricas que as fontes continuamente
referem como divergentes, ou mesmo contrárias, ao direito do Reino.
1. A autonomia do direito colonial como reflexo do pluralismo do ordenamento jurídico
europeu de Antigo Regime.
a sociedade europeia medieval e moderna, conviviam diversas ordens jurídicas - o direito
comum temporal, (basicamente identificável com a doutrina da tradição romanística,
incorporada numa a mole imensa de textos, invariavelmente escritos em latim, e existentes nas
bibliotecas das universidades e dos tribunais europeus), o direito canónico (direito comum em
matérias espirituais, obedecendo basicamente à mesma natureza formal) e os direitos dos
reinos, constantes, antes do mais, de leis que representavam a vontade do soberano, mas
também do direito estabelecido pelos tribunais do Reino (praxe ou estilo dos tribunais).
A esta situação de coexistência de ordens jurídicas diversas no seio do mesmo
ordenamento jurídico tem-se chamado pluralismo jurídico 5, que significa, portanto, a
coexistência de distintos complexos de normas, com legitimidades e conteúdos distintos, no
mesmo espaço social, sem que exista uma regra de conflitos fixa e inequívoca que delimite, de
uma forma previsível de antemão, o âmbito de vigência de cada ordem jurídica. Tal situação
difere da actual - pelo menos tal como ela é encarada pelo direito oficial -, em que uma ordem
jurídica, a estadual, pretende o monopólio da definição de todo o direito, tendo quaisquer
outras fontes jurídicas (v.g., o costume ou a jurisprudência) uma legitimidade (e, logo, uma
vigência) apenas derivada, ou seja, decorrente de uma determinação da ordem jurídica
estadual.
Referimo-nos, no parágrafo anterior, basicamente a três ordens jurídicas: o direito
secular comum (tradição romanística), o direito canónico (a tradição canonística) e o direito
secular próprio (direito do Reino). Estamos, no entanto, a simplificar muito. Diremos brevemente
porquê.
2. A ambivalência das ordens jurídicas. Divergências doutrinais.
direito comum, quer o secular, quer o eclesiástico, eram quase exclusivamente de origem
doutrinal; e, por isso, estavam cheios de controvérsias, de argumentos de sentido diferente,
desembocando em soluções contraditórias. Pode dizer-se que o tecido do direito não era feito de
regras, mas antes de problemas; para a resolução dos quais os juristas dispunham de fontes
contraditórias, logo nos textos de direito romano, e de argumentos de sentidos contrários. A
abordagem do caso concreto era, por isso, feita de uma forma tentativa, confrontando o caso
com vários argumentos (ou figuras de direito) possíveis, cada um dos quais justificaria uma
solução diversa.Dou um exemplo tirado de uma decisão real (embora aqui algo simplificada), que não é
brasileira, embora trate de um assunto com relevância para o Brasil. Se um pai, em testamento,
legou uma escrava a um filho e, à data da morte testador, desta tinham nascido cinco filhos,
estes fazem parte do legado ou devem ser considerados como incluídos na massa da herança, a
dividir pelos herdeiros ? A resposta a esta questão depende da qualificação doutrinal que
fizermos dos objectos “escrava” e “filhos de escrava”. Se estes forem tidos como frutos da coisa
legada, não entrarão na herança, de acordo com a regra de direito comum de que os frutos
4 Códice Costa Matoso. Colecção das notícias dos primeiros descobrimentos da Minas na América que fez o Doutor [...]
Ouvidor-Geral do Ouro Preto, que tomou posse em Fevereiro de 1749, coord. geral de Luciano Raposo de Almeida
Figueiredo e Maria Verónica Campos; estudo crítico de Luciano R. de Almeida Figueiredo, S. Paulo, Biblioteca Mário de
Andrade, s/d [?], 2 vols.. Citações ulteriores: CCM.
5 Sobre o tema da arquitectura do ordenamento jurídico medieval, exemplarmente, António Manuel Hespanha, Cultura
jurídica europeia. Síntese de um milénio, ed. bras., Florianópolis, Fundação Boiteux, cap. 6.3. Também, com muito
maior detalhe, Paolo Grossi, L’ordine giuridico medievale, Bari, Laterza, 1995.
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seguem o destino da coisa principal. Se forem considerados como objectos independentes da sua
mãe, não se consideram legados e entrarão, por isso, na partilha do remanescente da herança 6.
É certo que existia o princípio de que se devia decidir pela opinião comum, incorrendo
numa violação deontológica, e até em pecado, o jurista que imprudentemente se afastasse da
solução mais frequentemente adoptada 7. Porém, apesar de se conceber, assim, a prática (local)
como uma “ciência digestiva”, a escolha entre soluções diversas, quaisquer delas justificáveis
em direito, criava uma grande margem de liberdade na altura de decidir. É isto que alimenta a
burocracia judicial ou para-judicial: memoriais jurídicos, litígios judiciais, alegações dos
advogados das partes, sentenças contraditórias, recursos ou, puramente, a recusa de obedecer
às ordens mais terminantes do monarca ou dos seus oficiais, mesmo de alto nível, com base
numa opinião jurídica distinta.
A incerteza do direito não é igualmente boa ou má para todos. Normalmente, serve os
mais poderosos, os que têm capacidade de influenciar, de subordinar, de sustentar um litígio
durante anos em tribunal ou, pura e simplesmente, de se estribarem no parecer de um letrado
por sua conta para desobedecerem ao direito estabelecido. Como um sinal do seu poder de
sustentar litígios em tribunal, o abade de um mosteiro do Norte de Portugal (Santa Maria do
Bouro) levava consigo, quando viajava, uma mula carregada com todos os processos que tinha
pendentes.
É, por isso, com este espírito que devemos ler as queixas, frequentes no Brasil ou em
Portugal, sobre a incerteza do direito e a liberdade dos juristas (ou juízes) na sua interpretação.
Disso se queixam normalmente os mais fracos ou, por outro razões, os funcionários mais zelosos
do interesse da coroa.
Os problemas começavam com a própria interpretação das leis. É que as próprias leis do
Reino não estão da salvo deste entendimento de que o direito tem muitas faces, abrindo mais
questões do que aquelas que fecha.
O que alguns (mas não outros) querem é, portanto, que haja um norte, uma regra certa,
nas interpretações: “Assim como o leme é o governo da embarcação, assim são os despachos
para os contadores, e faltando nestes a clareza a respeito das condenações já se põem os
contadores a adivinhar, e disto nascem dúvidas causadas pelas interpretações que cada um dá
aos despacho, conforme lhe faz mais conta para se lhe diminuir o que se tem contado ou ao
menos dilatar a causa, com o pretexto de embargo de erros de contas [...] Só assim se poderão
evitar muitas maldade e ladroeira que fazem, e com muito grande excesso, os oficiais dos
contratos e fazenda real” (CCM, I, p. 699). Num papel do povo amotinado de Minas, dirigido ao
governador D. Pedro de Almeida Portugal, conde de Assumar, em 1720, reclama-se um
“Regimento para os salários [...] de sorte que se forem lá [no Rio] 4 vinténs de prata não
duvidem [no Brasil] que sejam de ouro” (CCM, I, 372).
Pode dizer-se que a interpretação distorcida era a tanto legitimação formal como o
princípio do abuso aberto dos poderosos locais contra a lei: “querem que os senhores do senado -
mais exigem os povos de Minas no papel antes citado - moderem as condenações tão
exorbitantes que costumam fazer sem Regimento nem lei [ … e …] requerem mais que nenhum
ministro faça vexações ao povo com o seu os despachos violentos, procedendo à prisão e fuga,
sem as circunstâncias do direito, e que em tudo se observe com ele a lei do Reino” (CCM, I, p.
373).
3. A possibilidade de impugnação jurídica das leis régias.
as havia mais motivos de incerteza. É que, até aos meados do séc. XVIII, as próprias leis
reais podiam ser embargadas - ou seja, não apenas não obedecidas, mas ainda
6 Inspiro-me num caso semelhante (sentença da Casa da Suplicação, de 1673) em Manuel Álvares Pegas (ed. Luís Álvares
Pegas), Commentaria ad Ordiantiones (Adittiones ad Lib. 1 & 2), Ulyssipone, Valentino da Costa Deslandes, 1703, p. 138,
n. 36 .
7 A. M. Hespanha, Cultura [...], cit., cap. 6.6.2.3..
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positivamente impugnadas na sua validade. Os motivos podiam ser vários. Os mais comuns eram,
porém, ou a arguição de que o rei estava mal informado 8, ou a invocação de que a providencia
régia lesava direitos adquiridos. Um exemplo do último tipo foi o que aconteceu, por exemplo,
em relação a várias leis que fixaram o regime da capitação do ouro nas Minas Gerais, contestadas
pelas câmaras e pelos contratadores, e embargadas por alguns destes 9, quer com o fundamento
em que eram contra direito 10, quer ainda com base na irrevogabilidade dos contratos
anteriormente firmados pela coroa e que as novas leis viessem alterar. As leis, de facto, não
apenas podiam ver recusada a selagem do Chanceler Mor do Reino (Ord. Fil., I, 2) e, portanto,
de não poderem valer como leis, as determinações do monarca podiam ser objecto de embargos
opostos por particulares que se considerassem prejudicados por elas 11. É justamente por esta
época que a admissibilidade de embargos em relação às leis do rei começa a ser considerada
como “indecente” na Europa, nomeadamente porque se entende que um monarca iluminado não
pode emitir leis contrárias à razão do direito. Mas, os obstáculos da distância, a distorçãoda
informação, ou o carácter exótico e diferente das colónias, bem poderiam, neste caso, explicar
ainda a falta de informação.
3.1 Contratos, privilégios e normas gerais.
Esta primazia de contratos e privilégios – a que acabamos de nos referir - sobre as
normas gerais - de natureza doutrinal ou da natureza legal - constituía um segundo factor de
particularização (localização) do direito. Muito frequentemente, eram concedidos privilégios,
por vezes “exuberantes” (como então se dizia) por motivos particulares, por pressão das
circunstâncias, por favoritismo os ou em troca de favores – mesmo que fossem favores à coroa,
como o auxílio numa situação de apuro militar ou financeiro. Também muitos contratos eram
celebrados pelas mesmas razões. Mais tarde, quando se queria proceder à emenda dos erros
políticos, quando o governador era substituído por um outro mais rigoroso, ou quando a coroa,
como sucedeu por volta de 1750 em Minas Gerais, queria dar uma nova ordem à administração,
já as situações a sanear estavam consolidadas por privilégios ou contratos passados. E, então, a
doutrina era implacável. Como se escreve num memorial, de 1751, contra a obrigação de os
contratadores pagarem as somas do contrato em ouro quintado: “são os contratos dos principies
leis, e suas condições tem tanta eficácia que os mesmos príncipes contraentes não podem
encontrar nem modificar o que neles prometeram e estipularam, e neles nada pode inovar-se. E
quando não é lícita qualquer alteração ao príncipe no seu contrato, menos é facultado a
qualquer dos seus subalternos” (CCM, I, 570-571). Qualquer que fosse o resultado final, a dúvida
sobre a prevalência entre contrato e lei permitia decisões diversas. Neste caso concreto, as
primeiras decisões, do “doutor Procurador da coroa” de Vila Rica dão razão ao contratador 12. Só
a intervenção de uma junta ad hoc, nomeada pelo governador, reverte a decisão. Embora um
recurso para a justiça ordinária dos tribunais superiores da colónia ou do Reino pudesse inverter
de novo o sentido do direito.
3.2 A criação de normas particulares: costumes, graça e privilégio.
8 For mera falta ou por ocultamento doloso da verdade (obrepção e subrepção, respectivamente). Arguição
particularmente adaptada à situação colonial, que o rei não conhecia senão indirectamente, por intermédio de ministros
que podiam esconder informações relevantes.
9 Cf. embargo contra da lei de 3.12.1750, que fixou a oitava de ouro em 1200 reis, oposto por contratador (CCM, I, 558).
10 Num Papel acerca de como se estabeleceu a capitação nas Minas Gerais, datado de 1749, que assim fica-se o regime
legal como contrário “a todas as disposições das leis e de direito” (CCM, I, p. 492); num outro parecer contra a
capitação, de 1751, pode ler-se “da mesma sorte, se consultarmos juristas sobre o ponto da promessa que em 24 de
Março de 1734 fizeram os procuradores das câmaras ao Conde das Galveias, prometendo fazer certo o número do cem
arrobas em que se funda a sempre venerando lei, estes hão-de de declarar que este fundamento é contrário às regras de
direito [...]” (CCM, I, 543).
11 A. M. Hespanha, História de Portugal moderno. Político e institucional, Lisboa, Universidade Aberta, p. 286 ss.; ed.
bbrasileira, Florianópolis, Fundação Boiteux.
12 Porém, uma junta nomeada pelo Governador e Capitão Geral da Capitania de Minas, decide o contrário, contra este e
outros rendeiros, ridicularizando, en passant, a decisão do procurador da coroa local; 1751, cf. CCM, I, 604 e seguintes.
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Um outro factor de autonomia do direito da colónia reside no modelo de relação entre
direito geral e direito particular que a modelava a ordem jurídica de Antigo Regime.
Abaixo do plano do reino, proliferavam as ordens jurídicas particulares, todas elas
protegidas pela regra da preferência do particular sobre o geral. Por exemplo, as normas que
protegiam os estatutos (ou direitos das comunas, cidades, municípios), considerando-os, nos
termos da lei "omnes populi" 13, como ius civile ("dicitur ius civile quod unaqueque civitas sibi
constituit", [diz-se direito civil o que cada cidade institui para si], Odofredo, século XII), ou seja,
com dignidade igual à do direito de Roma. Ou as que protegiam o costume (nomeadamente, o
costume local), cujo valor é equiparado ao da lei ("também aquilo que é provado por longo
costume e que se observa por muitos anos, como se constituísse um acordo tácito dos cidadãos,
se deve observar tanto como aquilo que está escrito", D.,1,3,34; v. também os frags. 33 a 36 do
mesmo título) 14. Ou, finalmente, o regime de protecção dos privilégios, que impedia a sua
revogação por lei geral sem expressa referência; ou mesmo a sua irrevogabilidade pura e
simples, sempre que se tratasse de privilégios concedidos contratualmente ou em remuneração
de serviços ("privilegia remuneratoria") 15. Ou seja, em todos estes casos, ainda que as normas
particulares não pudessem valer contra o direito comum do reino enquanto manifestação de um
poder político, podiam derrogá-lo enquanto manifestação de um direito especial, válido no
âmbito da jurisdição dos corpos de que provinham. E, nessa medida, eram intocáveis. Pois
decorrendo estes corpos da natureza, a sua capacidade de autogoverno e de edição de direito
era natural e impunha-se, assim, ao próprio poder político mais eminente.
3.3 Direito estrito e ordens normativas próximas. Fundamentos doutrinais.
A razão da preferência outorgada às normas individuais sobre as normas gerais relaciona-
se também com a estrutura mais profunda do sistema de direito comum. O fundamento do
direito era, para a visão medieval do mundo, a ordem, um dom gratuito de Deus. Porém, a
ordem mantinha-se, antes de mais, pela existência de forças íntimas que atraem as coisas umas
para as outras, de acordo com as suas simpatias naturais (amores, affectiones) transformando a
criação numa rede gigantesca de simbioses ou empatias. Numa quaestio sobre o amor (Sum.
theol, IIa.IIae, q. 26, a. 3, resp), S. Tomás define o amor como o (plural, diverso) afecto das
coisas, sublinhando que estes afectos se exprimem através de diferentes níveis de sensibilidade
(intelectual, racional, animal ou natural). Isto explica, desde logo, a proximidade e estreita
relação entre mecanismos disciplinares que hoje são vistos como muito distantes (direito,
religião, amor e amizade). Para os níveis mais elevados – e menos externos - da ordem, existem
mecanismos mais subtis, como a fé ou as virtudes, que disparam sentimentos também
ordenadores (de amizade, de liberalidade, de gratidão, de sentido de honra, de vergonha). Num
certo sentido, estes mecanismos estão ainda mais próximos da justiça, como virtude que “dá a
cada um o que é seu” (ius suum cuique tribuit), ou do direito natural, como aquele que a
natureza ou Deus ensinaram a cada animal (quod Natura [gl. id est Deus] omnia animalia
docuit). É por isto que os teólogos e os juristas definem este conjunto de deveres de amor, de
amizade, de gratidão como “como que legais” (quasi legali), cometendo também aos juristas a
sua guarda destes.
Todos estes amores criavam, de facto, obrigações. E a estas ainda se podiam acrescentar
as que surgiam da religião (ou seja, do amor para com Deus e, através dele, para com todas as
suas criaturas, animais, plantas e entes inanimados incluídos). Bem como as afeições que Deus
imprimiu nas nossas mentes (afectos intelectuais) ou nos nossos desejos (afectos sensitivos).
Em alguns casos, estas ordens normativas supra-jurídicastemperavam o rigor da ordem
civil (como no caso do adequação do direito civil às posições mais maleáveis da aequitas
canonica; ou no caso dos juízes criminais, que tinham que compensar a ferocidade da lei penal
(rigor legis) com a misericórdia (misericordia). Noutros casos, como no da ordem doméstica, as
13 Cf. António Manuel Hespanha, Cultura [...], cit., cap. 6.3..
14 "Lex est sanctio sancta, sed consuetudo est sanctio sanctior, et ubi consuetudo loquitur, lex manet sopita" [a lei é
uma sanção santa, mas o costume ainda é mais santo, e onde fala o costume, cala-se a lei] (Consuetudines
amalfitenses); Hespanha, 1989, 291 ss.
15 Cf. António Manuel Hespanha, Cultura [...], ibid.
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normas decorriam da própria “natureza” (natura, honestas), sendo transcritas para o corpo do
direito os comandos contidos no “direito do corpo” (na sexualidade, na feminilidade, na
masculinidade): a fraqueza, a indignidade e a maldade das mulheres; a natureza da sexualidade
humana (monogâmica, hetero, vaginal: vir cum foemina, recto vaso, recta positio); a natureza
da comunidade doméstica (unitária, patriarcal). Como a família não era a única instituição
natural, outras relações humanas tinham pretensões “naturais” em relação ao direito; mesmo
aquelas instituições que a cultura actual considera como perfeitamente arbitrárias e disponíveis,
como os contratos. O conceito cunhado para exprimir estas normas implícitas e forçosas contidas
em certos tipos de relações era o de “natureza dos contratos” (natura contractus) ou de
“vestes” dos pactos (vestimenta pacti, como que dizendo que, sem certos atributos formais, os
acordos [nús] não podiam valer).
Esta necessidade e possibilidade de transcrever normas de uma ordem na outra tornava-
se possível pela existência de conceitos genéricos que serviam como que de “canais de
comunicação” entre elas. Entre a ordem política e o direito, as importações e exportações
faziam-se através de canais como a “utilidade pública” (publica utilitas), bem comum (bonum
communem), poder absoluto ou extraordinário (absoluta vel extraordinaria potestas), posse de
estado (possessio status); direitos adquiridos (iura quaesita), estabilidade das decisões jurídicas
(stare decisis), razão jurídica (ratio iuris) 16.
Como as hierarquias entre as diferentes ordens normativas eram sensíveis ao contexto
(case-sensitive) e os modelos de transferência (ou transcrição) não eram fixos, o resultado era
uma ordem entrecruzada e móvel, cujas particularizações não podiam ser antecipadamente
previstas. É a isto que se pode chamar a “geometria variável” do direito comum (ius commune).
Em vez de um sistema fechado de níveis normativos, cujas relações estavam definidas uma vez
por todas (como os sistemas de fontes de direito do legalismo contemporâneo), o direito comum
constituía uma constelação aberta e flexível de ordens cuja arquitectura só podia ser fixada em
face de um caso concreto 17.
Nesta constelação, cada ordem normativa (com as suas soluções ou seus princípios
gerais: instituta, dogmata, rationes) era apenas um tópico heurístico (ou perspectiva) cuja
eficiência (na construção do consenso comunitário) havia de ser posta à prova. Daí que coubesse
ao juiz fornecer um solução arbitrária 18 em torno da qual a harmonia pudesse ser encontrada
(interpretatio in dubio est faciendam ad evitandam correctionem, contrarietatem,
repugnantiam) 19.
4. Flexibilidade do direito em função da graça.
flexibilidade jurídica não decorria apenas da pluralidade de ordens normativas e do carácter
aberto e casuístico da sua hierarquização.
Resultava também da ideia de que o território do direito era uma espécie de “jardim
suspenso”, entre os céus e a vida quotidiana. Entre o domínio sobrenatural da religião e o
domínio das normas jurídicas terrenas.
Na verdade, as normas jurídicas, as máximas doutrinais e as decisões judiciais
constituíam as regras da vida quotidiana. Normalmente, cumpriam bem o seu papel. No entanto,
elas não constituíam o critério último de normação.
Passava-se com o direito o que se passava com a natureza. Tal como a lei que Deus
imprimira na natureza (causae secundae [causas segundas], natura rerum [natureza das coisas])
para os seres não humanos, também o direito positivado (nas instituições, nos costumes, na lei,
na doutrina comum) instituíra uma ordem razoavelmente boa e justa para as coisas humanas. No
16 Ou seja, valores políticos eram transformados em valores jurídicos porque o direito permitia que valores externos
fossem recebidos em nome de conceitos genéricos [vazios, indeterminados], como “utilidade pública”, “bem comum”;
ou porque o direito reconhecia como jurídicos os valores já admitidos pelos dados da vida social (“posse de estado”); ou
ainda porque o direito incorporava os comandos de uma razão natural acerca das relações humanas.
17 Ao contrário do que Lauren Benton, em “The Legal Regime of the South Atlantic World,[...] “, cit., parece insinuar,
esta flexibilidade do direito da época moderna não se relaciona com particularidades ibéricas, relacionadas com
contactos inter-étnicos mais estreitos (com mouros e judeus, nomeadamente), mas com a estrutura do ius commune, de
que os direitos português e castelhano participavam.
18 “Arbitrium iudex relinquitur quod in iure definitum non est”.
19 Cf. António Manuel Hespanha, Cultura [...], cit...
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entanto, acima da lei da natureza, tal como acima do direito positivo, existia a suprema, embora
frequentemente misteriosa e inexprimível, ordem da Graça, intimamente ligada à própria
divindade (causa prima, causa incausata).
No nível político-constitucional, os actos incausados (como as leis ou os actos de graça do
príncipe), alterando a ordem estabelecida, são, por isso, prerrogativas extraordinárias e muito
exclusivas dos vigários de Deus na Terra – os príncipes. Usando este poder extraordinário
(extraordinaria potestas), eles imitam a Graça de Deus, fazendo como que milagres. Como
fontes dessa graça terrena, introduzem uma flexibilidade quase divina na ordem humana 20.
Como senhores da graça, os príncipes:
� Criam novas normas (potestas legislativa) ou revogam as antigas (potestas
revocatoria);
� Tornam pontualmente ineficazes normas existentes (dispensa da lei, dispensatio legis);
� Modificam a natureza das coisas humanas (v.g., emancipando menores, legitimando
bastardos, concedendo nobreza a plebeus, perdoando penas);
� Modificam e redefinem o “seu” de cada um (v.g., concedendo prémios ou mercês).
De certo modo, esta prerrogativa constitui a face mais visível do poder taumatúrgico dos
reis, a que a tradição europeia tanto recorre. Teorizando esta actividade “livre e absoluta” dos
reis, João Salgado de Araújo, um jurista português dos meados do séc. XVII, usa expressamente a
palavra “milagre” (João Salgado de Araújo, Ley regia de Portugal, Madrid, 1627), enquanto que
outro declara que o príncipe, através da graça, “pode transformarquadrados em círculos”
(mutare quadratos rotundis, cf. Manuel Álvares Pegas, Commenaria ad Ordinationes, t. IX, p.
308, n. 85.), na sequência de fórmulas que vêm dos primeiros juristas medievais que discutiram
os poderes dos papas e dos reis.
No entanto, esta passagem do mundo da Justiça para o mundo da Graça não nos introduz
num mundo de absoluta flexibilidade. Por um lado, a graça é um acto livre e absoluto (i.e.,
como se diz do poder absoluto ou pleno do rei: plenitudo potestatis, seu arbitrio, nulli
necessitate subjecta, nullisque juris publicis limitata, [um poder ou vontade absolutos, livre de
qualquer necessidade, não limitado por quaisquer vínculos do direito público], Cod. Just., 3, 34,
2). Mas, por outro lado, a graça não é uma decisão arbitrária, pois tem que corresponder a uma
causa justa e elevada (salus & utilitas publica, necessitas, aut justitiae ratio). Nem isenta da
observância da equidade, da boa fé e da recta razão ("aequitate, recta ratio [...], pietate,
honestitate, & fidei data"), nem do dever de indemnizar por prejuízos colaterais causados a
terceiros. Em contrapartida, pode tornar-se como que “devida”, em face de actos também
gratuitos (favores, serviços) que os vassalos tenham feito ao rei, e que, assim, forçavam os reis à
atribuição de recompensas ou mercês.
Como a graça não é o puro arbítrio e antes configura um nível mais elevado da ordem, a
potestas extraordinaria dos príncipes aparece, não como uma violação da justiça, mas antes
como uma sua versão ainda mais sublime. Para Salgado de Araújo (Ley regia de Portugal, Madrid,
1627, 46), o governo por estes meios extraordinários da graça – ou seja, tirado fora dos
mecanismos jurídico-administrativos ordinários – representa uma forma última e eminentemente
real de realizar a justiça, sempre que esta não pudesse ser obtida pelos meios ordinários.
Este tipo de flexibilidade correspondia, portanto, à existência de vários e sucessivos
níveis de ordem. Quanto mais elevados eles estivessem, tanto mais escondidos, inexplicitáveis e
não generalizáveis seriam. A flexibilidade era, então, a marca da insuficiência humana para
esgotar, pelo menos por meios racionais e explicáveis, o todo da ordem da natureza e da
humanidade.
Apesar da distância, a graça também chegava a Minas.
Por vezes a do rei, directamente ou por intermédio do vice-rei, concedendo mercês ou
perdoando. Logo desde o início, a história de Minas é a história de um perdão, o de Manuel Borba
Gato que, a troco da indicação do lugar de novas minas, foi provisoriamente perdoado (1699),
em nome do rei, pelo Governador do Rio, Artur de Sá e Menezes, quanto à acusação de morte de
20 Cf. António Manuel Hespanha, "Les autres raisons de la politique. L'économie de la grâce" (versão castelhana em La
gracia del derecho, Madrid, Centro de Estudios Constitucionales, 1993.
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um anterior governador (“Com demonstrações de grande gosto, o levantou nos braços Artur de Sá
e prometeu, em nome de Sua Majestade, o perdão se, com efeito, desse ao manifesto tal
descobrimento (das minas) e então [ … iria …] dar contra a Sua Majestade do perdão que
prometera em seu nome em recompensa do serviço que aquele vassalo fizera com aqueles
descobrimentos, para que, ao mesmo tempo que desse o perdão, achasse merecimentos para
aquela e mais Mercedes […] deu conta Artur de Sá a Sua Majestade do perdão que, em seu nome,
prometera de Manuel de Borba Gato pela morte de D. Rodrigo [...] confirmou Sua Majestade o
perdão e fez-lhe mais a mercê da patente de tenente-general de uma das praças marítimas que
primeiro vagasse, segundo as lembranças. Já sossegado, livre e premiado de generosa mão do rei
D. Pedro II, o nosso tenente-general Manuel de Borba Gato mandou vir a sua família para o Rio
das Velhas e dois genros que tinha, naturais da Ilha de São Miguel, António Tavares e Francisco
de Arruda. E estes tiraram tanto cabedal que em poucos anos se passaram à Pátria e fundaram,
cada um, seu Morgado, e vivem regalados com os mimos e fertilidade da Pátria” (CCM, I, 10-
191). À graça régia – sob a forma de alterações na administração e, sobretudo, perdão de faltas –
recorre também o povo de Vila Rica, vindo amotinado à presença do governador de S. Paulo e
Minas, em 1720 (CCM, I, 370 ss.).
Mas também Minas se sabia que a liberalidade ou graça era uma arma de dois gumes,
desencadeando uma espiral de deveres a que nem todos queriam estar sujeitos. A história do
paulista Garcia Rodrigues, contada no “Diário da jornada fez ouvidor Caetano da Costa Matoso
para minas gerais” (CCM, I, 882) é significativo: “[o rei D. Pedro II] também [lhe] mercê do ofício
de guarda mor das minas, que ele não cria a aceitar dizendo arrogantemente que não queria que
el-rei lhe fizesse mercê porque ele é que as queria fazer a el-rei, e levado desta mesma elevação
de paulista deu a el-rei passagem destes dois rios que no princípio mandava fazer pelos seus
escravos, sem emolumento, e ofereceu a el-rei dizendo podia fazer nela um bom rendimento”
(ibid, p. 889). Neste caso, porventura, Garcia Rodrigues era apenas um paulista arrogante e
pouco interessado em se prender a um cargo que o obrigaria a dividir fidelidades entre a
comunidade quase independente dos seus patrícios e o poder longínquo e tendencialmente
invasivo do rei, um poder que, no interior de São Paulo, era quase sinónimo de não poder 21.
Mas, noutros casos, o cálculo dos custos e benefícios que o aceitar de uma mercê podia causar
era uma medida de elementar prudência.
A graça era apanágio dos poderes supremos, imediatos a Deus - o do Rei e o do Papa. Em
alguns casos podiam ser por estes delegados. Era o que acontecia na dada ou na apresentação
dos ofícios. Como em todos os casos da delegação de poderes privativos, esta devia ser expressa
e constar de carta régia ou de regimento. Neste caso dos ofícios, a periferização do poder
manifestava-se ou pela usurpação por entidades locais (Câmaras, funcionários subalternos ou
mesmo particulares) da faculdade de os conceder ou pela consolidação, nos titulares dos ofícios,
do poder de os transmitir, em serventia (por arrendamento), por deixa testamentária ou mesmo
por venda. Também no Reino encontramos sinais desta usurpação do poder real relativa aos
ofícios, com a criação de costumes contra legem que punham na mão de outras entidades esta
importante graça que era a sua concessão. O arrendamento e a deixa a filhos estavam instituídos
por costume, contra o qual se reage energicamente no reinado de D. José (leis contra o direito
consuetudinário dos ofícios). Na colónia, estes fenómenos parecem ser muito frequentes, tanto
no secular, como no espiritual. Segundo o ouvidor da comarca de Vila Rica (c. 1753), o bispo de
Mariana permitia todos os abusos aos seus oficiais no que respeitava à admissão de ordenandos,
“por se admitirem todos sem escolha nem eleição, e alguns com um escândalo do bispado, por
ser público e sabido terem impedimentos animis et corporis e só não se admitem mulatos” (CCM,
I, 728). Mas, mais do que isso, provia os ofícios cuja apresentação competiria ao rei como grão-
mestre da Ordem de Cristo, cobrando, e com demasia, as respectivas pensões (bid, I, 740).
4.1 A extensão do arbítrio (julgamento de equidade) dos magistrados. Magistrados
interesses locais.21 “E pegando o secretário de Estado na lista delas [vilas e cidades do domínio real], foi nomeando as que se
ofereceram; e chegando a de São Paulo, passou por alto [...] porque, Senhor, aquelas vilas não são de Vossa Majestade,
pois se fossem, obedeceriam aos decretos que Vossa Majestade mandou expedir para todas as partes para que corressem
as patacas castelhanas a peso [...] e sendo em todas obedecido, nesta foi desprezado” (CCM, I, 188-189).
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A equidade era um outro factor de flexibilidade do direito. A discussão sobre a equidade
foi longa na tradição jurídica europeia 22, relacionando-se com várias questões.
No séc. XII, Graciano ligou esta questão à da legitimidade dos privilégios, i.e., normas
singulares que se opunham à norma geral: “Por isso, concluímos do que antecede que a Santa
Madre Igreja pode manter a alguns os seus privilégios e, mesmo contra os decretos gerais,
conceder benefícios especiais, considerada a equidade da razão, a qual é a mãe da justiça, em
nada diferindo desta. Como, por exemplo, os privilégios concedidos por causa da religião, da
necessidade, ou para manifestar a graça, já que eles não prejudicam ninguém” (Decretum de
Graciano, II, C. 25, q. 1, c. 16).
A equidade aparece aqui como uma “justiça especial”, não geral e não igual, mas mais
perfeita do que a justiça igual (da qual a equidade seria a mãe).
Um passo suplementar e mais elaborado é dado por S. Tomás, na sua discussão sobre
equidade e justiça (Summa theologica, IIa.IIae, qu. 80, art. 1). Ou seja, ao passo que a justiça
geral era o produto de uma forma menos refinada e profunda de conhecimento, a justiça
particular (ou equidade) decorria dessa forma superior de entendimento das coisas que
alcançava níveis superiores e mais escondidos da ordem do mundo – a gnome.
No Antigo Regime, esta ideia de percepções não racionais, não discursivas e não
generalizáveis, nos níveis supremos da ordem, estavam na base de da teoria do direito concebida
como uma teoria argumentativa, da verdade jurídica como uma verdade “aberta” e “provisória”,
da teoria do poder de criação jurídica dos juízes (arbitrium iudicis), bem como da legitimidade
das decisões de equidade, baseadas num conhecimento mais perfeito, nomeadamente dos
particulares das situações. Nada que melhor conviesse aos magistrados coloniais que tinham na
sua frente casos que, para além de serem particulares, o eram ainda em virtude das próprias
condições excepcionais da colónia.
O número seguinte aborda, justamente, o impacto que tem sobre o direito coumum a
ideia de particularismo das situações locais.
5. A lei geral cede a abusos que, pela repetição, se transformam em práticas e costumes
locais.
facto de provirem da razão não garantia às normas de direito comum uma vigência
superior, pois da mesma razão decorria a faculdade de cada cidade ou de cada nação de
corrigir ou adaptar, em face da sua situação concreta, o princípio estabelecido em geral pela
razão. Pois, embora a razão natural tivesse em vista aquilo que resulta justo na generalidade dos
casos, a realidade seria tão multiforme 23 que bem se podia conceber que alguma utilidade
particular exijisse a correcção da norma geral (D.,1,2,16: "o direito singular é aquele que foi
introduzido pela autoridade do legislador, tendo em vista alguma utilidade particular, contra o
teor da razão"). Assim, o direito comum vigoraria apenas para os casos em que um direito
particular não o tivesse afastado; ou seja, como direito subsidiário; de acordo com um princípio
segundo o qual "as regras do direito [comum] não podem ser seguidas naqueles domínios em que
foi estabelecida [por um direito particular] uma contradição com a razão do direito", D., 1,2,15).
Assim, a teoria que o direito comum criou sobre as suas relações com os direitos
particulares não deixa de ser muito favorável a estes últimos.
5.1 Direitos dos corpos inferiores.
Desde o século XI que os direitos dos reinos pretendem, no domínio territorial da
jurisdição real, uma validade absoluta, semelhante à do direito do Império (rex superiorem non
recognoscens in regno suo est imperator [o rei que não reconhece superior é imperador no seu
reino], Azo, Guilherme Durante), definindo-se como "direito comum do reino". O fundamento
22 António Manuel Hespanha, Cultura [...], cit., cap. 6.3., e bibliografia aí citada.
23 "Plures sunt casus quam leges" (os casos da vida são mais do que as leis); "nem as leis nem os senatusconsultos podem
ser redigidos de forma a compreender todos os casos que alguma vez ocorram; basta que contenham aqueles que
ocorrem o mais das vezes", pode ler-se em D.,1,2,10.
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doutrinal desta ideia pode encontrar-se num texto do Digesto que afirma que "o que agrada ao
príncipe tem o valor de lei; na medida em que pela Lei regia, que foi concedida ao príncipe
sobre o seu poder político [imperium], o povo lhe conferiu todo o seu poder e autoridade",
D.,1,4,1).
Sendo, portanto, comum, o direito do reino continha, tal como o ius commune, uma
ratio iuris que vigorava no seu seio 24 e da qual se podiam extrair consequências normativas,
com o que adquiria alguma da força expansiva do direito comum imperial. Note-se, porém, que a
estreita relacionação entre o direito dos reinos e o poder real fazia com que nas relações entre o
direito real e os direitos locais inferiores vigorassem normas que não funcionavam nas relações
entre direitos próprios e ius commune, já que a supremacia deste último não decorria da
superioridade política, mas do seu enraizamento na natureza. Assim, a supremacia do poder real
sobre os súbditos ("superioritas iurisdictionis", superioridade quanto à jurisdição) traduzia-se
numa máxima que não podia valer nas relações entre o ius commune e os iura propria - a de que
"a lei inferior não pode impor-se à lei superior" ("lex superior derrogat legi inferiori", a lei
superior derroga a inferior; "inferior non potest tollere legem superioris", o inferior não pode
derrogar a lei do superior), tal como o inferior não pode limitar o poder do superior. Assim, o
direito do reino é, politicamente, supra-ordenado aos direitos emanados de poderes inferiores do
reino, o que não acontecia com o ius commune em relação aos iura propria.
Porém, esta supra-ordenação em termos políticos não exclui a acima referida
preferência do especial em relação ao geral. Sendo o direito do rei o direito comum do reino,
valem em relação a ele as mesmas regras que valiam quanto ao ius commune nas suas relações
com os direitos próprios. E, assim, a afirmação da supremacia política não excluía que, desde
que esta não estivesse em causa, pudessem valer dentro do reino, nos seus respectivos âmbitos,
direitos especiais de corpos políticos de natureza territorial ou pessoal. A salvaguarda da
supremacia política do rei seria garantida, então, por um princípio de especialidade, segundo o
qual a capacidade normativa dos corpos inferiores não podia ultrapassar o âmbito do seu
autogoverno 25.
Esta prevalência dos direitos particulares dos corpos tinha um apoio no direito romano.
De facto, a “lei” Omnes populi, do Digesto (D., I,1,9) reconhecia que “todos os povos usam de
um direito que em parte lhes é próprio, em parte comum a todo o género humano”. Apesar de a
primeira geração de legistas ter sido muito prudente em retirar daqui um argumento em favor da
supremacia dos direitos comunais, o célebre jurista tercentista Baldo degli Ubaldi encontrou
justificação teórica robusta para que a validade autónoma do direitolocal: “Populi sunt de iure
gntium, ergo regimen populi est de iure gentium: sed regimen non pot est esse sine legibus et
statutis, ergo eo ipso quod populus habet esse, habet per consequens regimen in suo esse, sicut
omne animal regitur a proprio spiritu et anima” 26("os povos existem por direito das gentes [i.e.,
natural] e o seu governo tem origem no direito das gentes; como o governo não pode existir sem
leis e estatutos [i.e., leis particulares], o próprio facto de um povo existir tem como
consequência que existe um governo nele mesmo, tal como o animal se rege pelo seu próprio
espírito e alma").
A situação americana prestava-se a esta invocação do poder das comunidades locais,
ecológica e humanamente tão distanciadas da metrópole, para gerarem um direito próprio,
eventualmente contrário ao do reino. A lonjura dos espaços, com a capacidade de fuga que ela
conferia e com o esbater das próprias situações jurídicas e consequente dificuldade da sua prova
ou acertamento, é um tópico corrente.
Citações judiciais não se faziam nem “nas vilas e menos a irem-nas fazer fora [...], de
mais que na América [os porteiros que deviam fazer as citações, por nunca encontrarem as
pessoas a citar] somente são pregoeiros” (cf. CCM, I, 699). Não havendo citações, não há
processo; e não havendo processo, não há direito oficial. Os oficiais de justiça, invocando o
particularismo da terra e, nomeadamente, o trabalho que lhes dão a contumácia e rebeldia das
partes, recusam que se lhes taxem os emolumentos (cf. CCM, I, 704). No eclesiástico, os
24 Que, em todo o caso, não anulava a ratio iuris communis, que permanecia como critério superior (ius naturale).
25 Para além de se reconhecer que todo o súbdito, mesmo integrado num corpo jurídico inferior, tinha o direito de
apelar para o rei, caso se sentisse injustiçado; mas o rei teria que decidir de acordo com o direito corporativo desse
súbdito.
26 In Dig. Vet., I, 1, de iust et iure, 9, n.4.
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habitantes, “ainda que façam danos ou roubos, não fazem caso da excomunhão e outros não lhe
chega a notícia pelas distâncias do país” (CCM, I, 727); “os que se deixam excomungar fogem e
mudam de terras sem buscar absolvição” (CCM, I, 727). O mesmo se passa com “os declarados
que faltam ao preceito da Quaresma [...] fogem e se retiram para outros países e não têm
domicílio certo, não cuidam em absolver-se nem tirar mandados para isso” (CCM, I, 734). A prova
do estado de solteiro ou de outros elementos para se poder casar é tão difícil, que a maior parte
dos noivos pedem esperas para prova, que acabam por nunca fazer (cf. CCM, I, 732).
Ou seja, tal como entre os rústicos europeus, o direito estrito não pode valer aqui. E,
não valendo o direito oficial, proliferam práticas locais, a que os magistrados reais chamam de
abusos, mas que, na realidade, constituem o direito da colónia, pelo menos nestas mais remotas
paragens.
6. Direito comum e ordem jurídica colonial.
tese esboçada nos números anteriores não é a de que foi a estrutura do direito comum que
provocou o particularismo das ordens jurídicas periféricas, nomeadamente da ordem jurídica
colonial brasileira. Este é, sem dúvida, o produto da dinâmica de factores locais, de ordem
geográfica, ecológica, humana e política. No entanto, o modelo de ordenamento jurídico
proposto pelo direito comum europeu não punha grandes obstáculos doutrinais às tensões
centrífugas da realidade colonial. Pelo contrário, fornecia uma série de princípios doutrinais e de
modelos de funcionamento normativo que se acomodavam bem a uma situação como a do sertão
brasileiro.
Na verdade, na arquitectura do ius commune, a primeira preocupação não é reduzir à
unidade a pluralidade de pontos de vista normativos. A primeira preocupação é torná-los
harmónicos, sem que isso implique que alguns deles devam ser absolutamente sacrificados aos
outros ("interpretatio in dubio facienda est ad evitandam correctionem, contrarietatem,
repugnantiam", a interpretação deve ser feita, em caso de dúvida, no sentido de evitar a
correcção [de umas normas pelas outras], a contradição, a repugnância). Pelo contrário, todas as
normas devem valer integralmente, umas nuns casos, outras nos outros. Assim, cada norma
acaba por funcionar, afinal, como uma perspectiva de resolução do caso, mais forte ou mais
fraca segundo essa norma tenha uma hierarquia mais ou menos elevada, mas, sobretudo,
segundo ela se adapte melhor ao caso ou à situação em exame 27. Ou seja, as normas funcionam
como "sedes de argumentos" (topoi, loci), como apoios provisórios de solução; que, no decurso
da discussão em torno da solução, irão ser admitidos ou não, segundo a aceitabilidade da via de
solução que abrem.
A regra mais geral de conflitos no seio desta ordem jurídica pluralista não é, assim, uma
regra formal e sistemática que hierarquize as diversas fontes do direito, mas antes o arbítrio do
juiz na apreciação dos casos concretos ("arbitrium iudex relinquitur quod in iure definitum non
est", fica ao arbítrio do juiz aquilo que não está definido pelo direito). É ele que, caso a caso,
ponderando as consequências respectivas, decidirá do equilíbrio entre as várias normas
disponíveis. Este arbítrio é, no entanto, guiado. Pelos princípios gerais a que já nos referimos.
Mas, sobretudo, pelos usos do lugar ao decidir questões semelhantes (no caso de decisões
judiciais, stylus curiae), usos que, assim, se vêm a transformar num elemento decisivo de deste
direito pluralista.
Como o governar estava, nesta época, muito próximo do julgar, tudo o que se disse sobre
a teoria do juízo (iudicium) vale também para a teoria do governo (regimen), explicando este
estilo do governar - sincopado, contraditório, experimental, tantas vezes pactício ou
complacente com o abuso, que alterna as bravatas com a mais miseranda rendição - da coroa
portuguesa no Brasil.
27 Sobre a estratégia casuísta, v., Com especial referência às colónias espanholas da América, a límpida exposição de
Tau Anzoategui, Casuismo y sistema [...], cit..
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