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O puerpério ou pós-parto é o período que sucede o parto e, do ponto de vista fisiológico, é caracterizado por uma série de processos involutivos e de recuperação do organismo materno. Ele se inicia após a dequitação (saída da placenta) e se estende por um período cuja duração ainda é bastante discutida na literatura. Embora a maioria considere que se estenda por 4 a 6 semanas a partir do parto, muitos consideram uma duração de 12 meses, pois nem todos os sistemas maternos voltam para o estado primitivo até a sexta semana – à exceção das mamas, que não retornam ao estado pré- gravídico. Puerpério Imediato: Inicia-se após a saída da placenta e se estende até o 10º dia pós-parto. Puerpério Tardio: Vai do 10º dia até o 45º dia. Puerpério Remoto: É o período de duração imprecisa, que tem início no 46º dia e se estende até a completa recuperação das alterações determinadas pela gestação e parto e o retorno dos ciclos menstruais ovulatórios normais. SISTEMA REPRODUTOR Involução uterina Logo após o parto, o útero se encontra um pouco acima da cicatriz umbilical, a partir do qual inicia um processo de involução. O útero se contrai, comprimindo os vasos sanguíneos e causando uma aparência isquêmica. A contração também contrai os vasos intramiometriais, reduzindo o fluxo sanguíneo e prevenindo a hemorragia pós-parto. Além disso, os vasos calibrosos são obliterados (trombose), constituindo outro mecanismo hemostático para prevenir perda sanguínea. Após 24h, o fundo uterino atinge a cicatriz umbilical. Após uma semana, atinge a região entre a cicatriz umbilical e a sínfise púbica. Na segunda semana, deixa de ser palpável no abdome e, por fim, atinge as dimensões pré-gravídicas em 6-8 semanas após o parto. O colo uterino, ao fim da dequitação (saída da placenta), se encontra amolecido, com lacerações no orifício externo, que continua dilatado. A dilatação do colo regride de forma lenta, ficando entre 2-3 cm nos primeiros dias após o parto, e menos de 1cm com uma semana de puerpério. É comum haver cólicas abdominais nos primeiros 3 dias, e estas são mais fortes em multíparas e em lactantes, pois a estimulação do mamilo estimula a liberação de ocitocina pelo eixo neuro- hipofisário. Em relação às tubas uterinas, seu epitélio durante a gestação é predominantemente composto de células não ciliadas, em decorrência do desequilíbrio entre os níveis de progesterona e estrogênio. Com a diminuição destes hormônios após o parto, há extrusão nuclear das células não ciliadas e diminuição do tamanho das células ciliadas e não-ciliadas. Também, há uma salpingite aguda em cerca de 38% dos casos, mas sem evidência de infecção. Além disso, após a dequitação, persiste a porção basal da decídua. Esta se divide em duas novas camadas: a superficial, que sofre descamação; e a profunda, que regenera o novo endométrio a partir das glândulas e do estroma da decídua basal, recobrindo a cavidade endometrial dentro de 16 dias após o parto. A involução uterina é mais rápida nas mulheres que amamentam e isso ocorre, pois, a estimulação dos mamilos e da árvore galactóforo acarreta na produção de ocitocina pela neuro- hipófise. Este hormônio promove a ejeção do leite e desperta as contrações referidas pelo paciente como cólicas, esse fenômeno descreve chamado útero mamário. Todo esse processo de involução uterina e regeneração endometrial gera a eliminação vaginal dos lóquios, líquido formado por exsudatos e transudatos, compostos de eritrócitos, leucócitos, porções da decídua, células epiteliais e bactérias. Nos primeiros dias, o maior número de eritrócitos confere cor vermelha aos lóquios (lochia rubra). Após 3 a 4 dias, os lóquios adquirem aspecto serossanguíneo (lóquios fusca), mais acastanhados, devido à hemoglobina semidegradada. Após o 10º dia, pela incorporação de leucócitos e diminuição do volume de loquiação, os lóquios adquirem cor amarelada (lochia flava) e, por fim, esbranquiçada (lochia alba). À ultrassonografia, a cavidade uterina pode demorar até 5 semanas para retornar ao estado pré- gravídico. ÚTERO O fundo uterino que se encontrava à altura do escavado epigástrico situa-se um pouco acima da cicatriz umbilical, firmemente contraído. No útero de consistência firme, o elemento primordial da hemostasia é o chamado globo de segurança*, que promove as ligaduras vivas, de Pinard, relacionadas com a constrição dos vasos parientais pelo miométrio bem contraído, fenômeno que surge com a saída da placenta. *O globo de segurança de Pinard é um coágulo de sangue que se forma no útero logo após o parto para ajudar a cicatrizar as pequenas feridas dos vasos sanguíneos que irrigavam a placenta, servindo de tampão a uma eventual hemorragia no ponto onde a placenta estava inserida. VAGINA E VULVA A vagina está alargada e lisa logo após o parto. Gradualmente, suas dimensões se reduzem, mas não voltam ao estado pré- gravídico. A rugosidade vaginal reaparece na terceira semana, por redução do edema e da vascularização. Nódulos de mucosa fibrosados formam as carúnculas himenais devido ao rompimento do hímen no momento do parto. Por fim, a distensão fascial e possíveis lacerações causam afrouxamento da musculatura pélvica, que pode não regredir ao estado original. Em decorrência disso, o parto predispõe à incontinência urinária e fecal. Histologicamente, há progressiva atrofia do epitélio escamoso vaginal nos primeiros dez dias. No 15º dia, a descamação alcança seu pico e a regeneração se inicia. A partir do 25º dia, há alterações que geram epitélio eutrófico em mulheres que não amamentam, enquanto as que amamentam desenvolvem um epitélio vaginal subatrófico. PAREDE ABDOMINAL No puerpério, a musculatura da parede abdominal está afrouxada. Várias semanas depois, seu tônus normal é readquirido na maioria dos casos. Em algumas mulheres, no entanto, persiste a diástase do musculo reto abdominal. A pele pode ainda continua frouxa, se houver ruptura extensa de fibras elásticas. SISTEMA ENDÓCRINO Ao fim da gravidez, os níveis de estrogênio e progesterona estão bastante elevados, assim como os de prolactina (PRL). Após a saída da placenta, diminuem os níveis de esteróides placentários e, a prolactina, apesar de cair um pouco, continua alta. As gonadotrofinas e esteroides sexuais atingem seus menores valores 2 a 3 semanas após o parto. A gonadotrofina coriônica (hCG) atinge o valor normal de 2 a 4 semanas após o parto. Na ausência da lactação, nas primeiras semanas, tanto o hormônio luteinizante (LH) quando o folículo-estimulante (FSH) se mantêm baixos, para então elevarem-se lentamente. No início do puerpério, o estrogênio se mantém baixo e a progesterona não é detectável. A recuperação das gonadotrofinas até os níveis pré-gravídicos depende da lactação. Mulheres lactantes tem a fertilidade inibida pela ação direta da sucção do mamilo sobre o hipotálamo por via neuro-endócrina, que eleva a PRL e inibe o LH e FSH. O PRL, por sua vez, inibe a liberação pulsátil do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) pelo hipotálamo. O retorno da menstruação para as não- lactantes ocorre em 7 a 9 semanas, com média de 45 dias para nova ovulação. PERDA PONDERAL Após a gravidez, a mulher perde quase a totalidade do peso adquirido durante a gestação. Cerca de metade do peso ponderal adquirido é perdida durante as primeiras 6 semanas após o parto. O restante ocorre entre as 6 semanas e os 6 meses depois, sendo maior nos 3 primeiros meses. No entanto, cerca de 28% das mulheres não volta ao peso pré-gravidez, o que pode ser atribuído a diversos fatores, sendo alguns dos fatores de risco: ganho excessivo de peso durante a gestação, raça negra, obesidade, e interrupção do consumo de cigarros. Outros fatores que podem influenciar no acúmulo de peso após o parto são idade materna (adolescentestêm maior risco), paridade, etnia, estado civil, intervalo entre gestações e tempo de retorno à atividade profissional. ALTERAÇÕES ÓSSEAS Há diminuição generalizada da densidade óssea em gestantes, voltando ao estado pré-gravidez dentro de 12 a 18 meses após o parto. Não é recomendada qualquer intervenção, sendo essas alterações autolimitadas e reversíveis ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS Ao longo do parto e durante o puerpério imediato, é comum haver leucocitose, chegando a níveis de 30.000/µl. A leucocitose é caracterizada pelo predomínio de granulócitos, linfopenia relativa e eosinofilia absoluta. Em geral, esses parâmetros se normalizam 5 a 6 dias após o parto. Quanto à série vermelha, os níveis de hematócrito e hemoglobina costumam flutuar moderadamente nos primeiros dias pós-parto. Quedas acentuadas nos seus valores podem traduzir uma perda sanguínea excessiva e, em aproximadamente 6 semanas após o parto, se encontra em níveis pré- gravídicos. Modificações importantes ocorrem nos fatores de coagulação. Após a dequitação, há geralmente queda das plaquetas, com elevação secundária nos primeiros dias do pós-parto juntamente com a adesividade plaquetária. O fibrinogênio plasmático diminui em concentração no momento do parto, atingindo o seu menor nível no primeiro dia do puerpério e voltando a se elevar em seguida, igualando-se aos níveis pré-gravídicos entre o 3º e o 5º dia. SISTEMA CARDIOVASCULAR Na gestação, há aumento do volume de líquido extracelular, e a diurese no pós- parto corresponde à reversão desse processo. Pode haver, no entando, pouca diurese no pós-parto devido à desidratação ocasionada pelo trabalho de parto. Nesse caso, a diurese que reverte a hipervolemia se dá entre o 2º e o 6º dias pós-parto. Nesse sentido, alterações cardíacas e vasculares dependem do estado volêmico da paciente no pós parto. A frequência e o débito cardíacos se mantém elevados por 24h a 48h após o parto, voltando ao estado pré- -gravídico aproximadamente no 10º dia pós-parto. A resistência vascular, por sua vez, permanece diminuída por 48h e, a partir daí, retorna gradualmente aos níveis normais. SISTEMA URINÁRIO No puerpério imediato, a mucosa vesical está edemaciada, devido ao parto e ao trabalho de parto. Há também uma distensão vesical, o que predispõe à retenção urinária e esvaziamento incompleto ao urinar, causando urina residual. O uso de analgésicos, anestesia epidural e bloqueios espinhais contribuem para esse quadro. Até a sexta semana, na maioria das puérperas, o exame ultrassonográfico evidencia dilatação do sistema pielocalicial. Todos esses fatores citados são fator de risco para infecção do trato urinário. A retenção urinária pode ser definida como ausência de micção por 6h após o parto ou após a retirada da sonda vesical após cesariana. Está presente em 0,5% das gestantes no pós- parto imediato, resolvendo-se na primeira semana na maioria dos casos e pode decorrer de lesão no nervo pudendo. Seus fatores de risco incluem: primiparidade, parto instrumentado, primeiro e segundo períodos de parto prolongados, cesárea e anestesia epidural. PELE As estrias nas mamas e no abdome perdem a cor vermelho-arroxeada e se tornam esbranquiçadas. Essas estrias são irreversíveis. Já o cloasma gravídico, caracterizado por hiperpigmentação da face, regridem geralmente durante o período puerperal. Há também uma queda de cabelo comum entre 1 e 5 meses após o parto – o que leva à crença equivocada de que amamentar causa queda de cabelo, por coincidir com o momento da amamentação – essa queda de cabelo é autolimitada, e o cabelo retorna aos padrões normais de crescimentode 6 a 15 meses após o parto. PUERPÉRIO IMEDIATO - Produção do colostro – momento propício para início da amamentação; - Prevenção de hemorragia materna - Identificar situações de risco e intercorrências - Loquiação – perda vaginal após o parto - Alterações emocionais, período de ansiedade podendo gerar estado depressivo PUERPÉRIO TARIO - Cuidados com o recém-nascido - Direitos da mulher (reprodutivo, sociais e trabalhistas); - Orientar quanto ao retorno da atividade sexual, informando-a a respeito de prevenção de DST/Aids; - As relações sexuais podem ser restabelecidas por volta de 40 dias após o parto, quando já estiver ocorrido a cicatrização, no entanto devem ser tomadas providencias quanto à anticoncepção. PUERPÉRIO REMOTO Período de transição - Nas mulheres que não amamentam, a menstruação retorna, em média, com 1,5 mês e precedida de ovulação, ao contrário do que se pensava anteriormente. - Nas lactantes os prazos dependem da duração do aleitamento. MANEJO DO PUERPÉRIO Cuidados hospitalares Na primeira hora após o parto, deve-se monitorar a puérpera cuidadosamente. Isso servirá para diagnosticar possíveis casos de hemorragia – decorrentes ou não de hipotonia uterina. Assim, a pressão arterial deve ser aferida e a frequência cardíaca monitorada a cada 15 minutos, e deve-se assegurar que a hemorragia uterina esteja dentro da anormalidade e o útero esteja firmemente contraído. O fundo uterino deve ser palpado e, se houver hipotonia, deve ser realizada massagem uterina através da parede abdominal até que ele se contraia. Se necessário, pode ser administrada uterotomias. O útero puerperal é firme, móvel e indolor. Uma bexiga cheia pode ocasionar a “subida” do útero no exame físico. Nas primeiras 12h, a altura do útero é de 12cm. Do 2º dia em diante, desce em média 1cm por dia. Caso o parto tenha ocorrido com anestesia, deve haver acompanhamento próximo com equipe especializada. Se não houve complicações maternas ou neonatais, o contato mãe-filho (pele a pele) deve ser logo estimulado ainda na sala de parto. A amamentação deve ser encorajada nesse momento. Quanto à dieta, mulheres que tiveram parto normal podem alimentar-se normalmente após 2h do parto e sem complicações, sem restrição alimentar. Na amamentação, a quantidade calórica deve ser aumentada. Caso a mãe não amamente, seu aporte calórico deve ser igual ao do estado pré - - gravídico. Em alguns serviços, há a prática de manter suplementação de ferro por no mínimo 3 meses depois do parto e avaliar o hematócrito na primeira consulta após o puerpério. Além disso, a deambulação e o caminhar precoce reduzem a incidência de retenção urinária, constipação e fenômenos tromboembólicos. Após o parto normal, a paciente poderá deambular assim que se sinta preparada para tal. A primeira deambulação, no entanto, deve ser acompanhada por um profissional, pelo risco de síncope. Deve-se também orientar a mulher a realizar a higienização vulvar da anterior para posterior (sentido vagina -> ânus) e o uso de gelo no primeiro dia pode reduzir o desconforto por eventual laceração ou episiotomia. O uso de antissépticos locais em aerossol, bem como anti- inflamatórios (via oral ou retal), pode ser feito nos primeiros dias após o parto. Se houver dor excessiva na região, um exame físico cuidadoso é imperativo, para descartar hematomas ou infecção. Depois das primeiras 24h de puerpério, a gestante pode realizar banho de assento com água morna para aliviar a dor local. A incisão da episiotomia está totalmente cicatrizada e assintomática por volta da 3ª semana. Considerando a função vesical, vimos que a retenção urinária afeta até 5% dos partos vaginais. Dentre os fatores de risco, tem-se: primiparidade, doses elevadas de ocitocina, lacerações, cateterismo vesical durante trabalho de parto, parto instrumental, trabalho de parto com duração maior que 10h e analgesia peridural ou raquidiana. Mulheres com qualquer um desses fatores de risco deve ser monitorado quanto ao débito urinário. Caso a paciente não urine nas primeiras 4h, não é provável que consiga espontaneamente. Realiza-se, então, um exame físico para identificar hematomas no períneo outrato genital. Se a bexiga estiver distendida, devemos manter o cateter urinário até que as causas da distensão sejam resolvidas. Se a causa não é detectável, é orientado manter o cateter nas primeiras 24h, para dar tempo para a recuperação vesical. Quando o cateter for retirado, é necessário demonstrar que a paciente já consegue urinar espontaneamente. Caso a paciente não consiga urinar em até 4h, passa-se novamente o cateter urinário: se o volume de urina que vier for maior que 200mL, significa que há retenção urinária e o cateter deve ser mantido por mais um dia. Se menos de 200mL, o cateter pode ser retirado e, a paciente, reavaliada novamente horas depois. Por fim, muitas dessas pacientes desenvolvem bacteriúria, tornando racional tratá-las com dose única ou ciclo curto de antibioticoterapia após retirada do cateter. Quanto à temperatura, exceto nas primeiras 24h – quando pode haver alguma febre – o normal é ausência de (<38º). Existe um fenômeno chamado “febre do leite”, que ocasionalmente coincide com o momento da apojadura, que é classificada como fisiológica por uns, embora alguns defendam que se trate da ascensão de germes vaginais à cavidade uterina. O cuidado com as mamas é outro ponto importante a ser abordado durante o cuidado hospitalar. Recomenda-se uso de porta-seios apropriado, prevenindo congestão sanguínea e galactoestase. Por fim, a paciente precisa passar por avaliação psicológica/psiquiátrica. O blues puerperal, caracterizado por algum grau de humor deprimido nos primeiros dias após o parto, é muito comum entre puérperas nos primeiros dias. Instruções, detecção e tranquilização constitui um tratamento eficaz para a maioria delas, sendo a condição autolimitada e de curta duração (2 a 3 dias), podendo durar até 10 dias. Se o humor deprimido existir, deve- -se avaliá-la para depressão maior, que pode ocorrer em quase 20% das puérperas. Nas mulheres com transtorno psiquiátrico pré-existente, deve-se observá-la de perto pois a taxa de reinternação psiquiátrica aumenta significantemente. Ideias suicidas ou infanticidas devem ser levadas a sério. Como a depressão puerperal grave tem risco de recidiva de 25% em gestações subsequentes, recomenda-se fazer profilaxia farmacológica ao final da gravidez ou logo após o parto.