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Teletrabalho, zoom e depressão
Alexandre Teofilo
Arthur Barros
Daniel de Araujo
Marluce Dias
O filósofo Byung-Chul Han diz que
exploramos a nós mesmos mais do que nunca.
Nós nos exploramos voluntária e apaixonadamente, nos matamos para nos realizarmos e nos otimizarmos, nos esmagamos à base de ter um bom desempenho e fazer uma boa imagem (Fonte - Sociedade do cansaço, Livro por Byung-Chul Han).
O vírus SARS-CoV-2 é um espelho que reflete as crises de nossa sociedade. Um desses sintomas é o cansaço. É um cansaço fundamental, que acompanha de forma permanente e em toda a parte a nossa vida como se fosse a nossa própria sombra. O cansaço, que impera em tempos de pandemia.
Michel Foucault
Filósofo, Historiador das ideias, Teórico social, Filólogo, Crítico literário e Professor da Cátedra História dos Sistemas do Pensamento, no célebre Collège de France, de 1970 até 1984 (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault).
Na sociedade neoliberal, o sujeito é forçado a render, a explorar a si mesmo, é ao mesmo tempo senhor e escravo, prisioneiro e vigia, vítima e criminoso. Nisso difere do sujeito obediente da sociedade disciplinar, que Foucault descreve em seu livro Vigiar e punir.
Franz Kafka
Escritor boêmio de língua alemã, autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX (fonte - https://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka).
O que caracteriza o sujeito desta sociedade, forçado a render explora a si mesmo, é o sentimento de liberdade. Kafka já expressara com muita exatidão essa liberdade paradoxal do “servo que se acredita amo”. Um de seus aforismos diz: “O animal arranca o chicote do dono e chicoteia a si mesmo para ser amo, sem saber que isso nada mais é do que uma fantasia gerada quando na correia do chicote do amo se formou um novo nó”. Esse animal que açoita a si mesmo encarna o sujeito forçado a render e que, explorando a si mesmo, se imagina livre.
O sinistro sobre o SARS-CoV-2 é que os contagiados padecem de extremo esgotamento e abatimento. Além disso, cada vez mais se ouvem casos de pacientes que, mesmo depois de curados, continuam sofrendo graves sequelas. A bateria não recarrega mais (síndrome da fadiga). “É como quando o celular só tem 4% de bateria sobrando e com esses 4% você tem que aguentar o dia todo, sem poder recarregá-lo”.
O vírus não esgota apenas os infectados, mas também os saudáveis. Os homens se isolam e se tornam narcisistas, assimilam o mantra neoliberal: quem fracassa, o faz por sua culpa. Acusam a si mesmos e não à sociedade. Em maior ou menor grau, as redes sociais fazem de cada um de nós um produtor, um empresário de si mesmo. Globalizam o estilo de vida neoliberal.
A fadiga não vem só da pressão interna, mas também da pressão externa. As condições mundiais de produção, a própria pressão para crescer e produzir extenua a todos nós. Žižek parece se entusiasmar quando escreve: “[Pessoas que trabalham à distância] parecem arranjar ainda mais tempo para ‘explorar a si mesmas’”. Assim, em tempos de pandemia, o campo neoliberal de trabalhos forçados é chamado de teletrabalho.
Slavoj Žižek
Filósofo esloveno, nascido na antiga Iugoslávia, professor do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e diretor internacional da Birkbeck, Universidade de Londres. Ele trabalha em temas como filosofia continental, teoria política, estudos culturais, psicanálise, crítica de cinema, marxismo, hegelianismo e teologia.
O home office também cansa. É esgotante trabalhar sozinho, passar o dia todo sentado de pijama na frente da tela do computador. Também ficamos exaustos com a falta de contatos sociais, a falta de abraços e de contato corporal com os outros. No livro Do desaparecimento dos rituais ("O tempo presente em Byung-Chul Han: o desaparecimento dos rituais."), é descrito o desaparecimento dos rituais. Hoje estamos perdendo as estruturas temporárias fixas, inclusive as arquiteturas temporárias, que dão estabilidade à vida. A mídia social e a permanente encenação do ego nos esgotam porque destroem o tecido social e a comunidade, confirmando de novo a tese de que o vírus é o espelho da sociedade agrava suas crises.
A distância social destrói o social. O outro se tornou um potencial portador do vírus, do qual devo manter distância. O vírus atua como um amplificador das crises de nossa sociedade. Esgotamos-nos com as lives permanentes, que nos transformam em vídeo-zumbis. Obriga-nos a nos olharmos o tempo todo no espelho. Na época das selfies, que se explicam sobretudo por esse narcisismo que se espalha pela nossa sociedade. O vírus potencializa o narcisismo. Diante da tela fazemos uma espécie de selfie permanente.
O vídeo-narcisismo tem efeitos colaterais absurdos: desencadeou um boom nas cirurgias estéticas. Já se fala em vídeo-dismorfobia(ou Transtorno Dismórfico Corporal). O espelho digital faz com que as pessoas caiam em dismorfobias, ou seja, preste atenção exagerada a possíveis defeitos na aparência corporal.
Um espelho que faz com que nos desesperemos ainda mais com a própria aparência. É um fenômeno derivado da distopia digital
A comunicação digital é uma comunicação bastante unilateral, que não se transmite com o corpo ou através de olhares e que, portanto, é bastante limitada. A comunicação digital é uma comunicação sem ressonância. Em uma videoconferência, por razões puramente técnicas, não podemos nos olhar nos olhos. Cravamos o olhar na tela.
Espero que a pandemia nos faça perceber que a mera presença corporal do outro já tem algo que nos faz sentir felizes, que a linguagem implica uma experiência corporal, que um diálogo bem-sucedido pressupõe um corpo, que somos seres corporais.
Mesmo antes da pandemia, disseminava-se a histeria pela saúde, como se estivéssemos em permanente estado de guerra. Guerra contra o vírus, que intensifica a luta pela sobrevivência. O vírus transforma o mundo em uma quarentena em que a vida fica completamente estagnada, transformada em sobrevivência. A saúde é elevada a objetivo supremo da humanidade.
A sociedade de sobrevivência perde completamente a capacidade de valorizar a qualidade de vida. Até o prazer é sacrificado no altar de uma saúde entronizada como objetivo em si mesma, que Nietzsche já chamava de “nova deusa”. A sobrevivência deve substituir o prazer. Aqueles que se preocupam unicamente em sobreviver não podem desfrutar. Sacrificamos voluntariamente pela sobrevivência tudo o que torna a vida digna de ser vivida. A restrição radical dos direitos fundamentais, sob o estado de exceção viral, voluntariamente nos confinam e nos colocam em quarentena.
Friedrich Wilhelm Nietzsche
Filósofo, Filólogo, crítico cultural, Poeta e Compositor prussiano do século XIX, nascido na atual Alemanha. Escreveu vários textos criticando a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo.
Durante a quarentena, sem contato social, agrava-se a depressão, que é a verdadeira pandemia do presente. Sociedade do cansaço começa com o seguinte diagnóstico:
“Cada época tem suas doenças emblemáticas. O início do século XXI, do ponto de vista patológico, não seria nem bacteriano nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), o transtorno de personalidade borderline (TPB) ou a síndrome de burnout (esgotamento profissional) definem o panorama patológico neste início de século.”
A pandemia também agrava o problema do suicídio. O vírus é um catalisador da depressão. No entanto, em nível mundial, muito pouca atenção ainda é dada às consequências psíquicas da pandemia. A depressão é um sintoma da sociedade do cansaço.
O sujeito forçado a render sofre de síndrome de esgotamento profissional a partir do momento em que sente que não consegue mais. Fracassa por culpa das exigências de desempenhoque impõe a si mesmo. A possibilidade de não conseguir mais o leva à autorrepreensões destrutivas e à autoagressão. Nesta guerra travada contra si mesmo, a vitória é do desgaste do trabalho.
O vírus SARS-CoV-2 sobrecarrega nossa sociedade do cansaço, radicalizando suas distorções patológicas. Ele nos mergulha em um esgotamento coletivo e, por isso, também poderia ser chamado de vírus do cansaço.
Krisis
É uma associação de teóricos e grupos militantes marxistas fundada em Nuremberg, Alemanha em 1986, com o intuito de desenvolver uma crítica ao capitalismo para além do marxismo tradicional.
Mas para o sentido etimológico de krisis, que significa “ponto de inflexão”: ao fazer-nos um chamado urgente à mudança do nosso modo de vida, poderia também provocar a reversão desta precariedade. Se sujeitarmos nossa sociedade a uma revisão radical, se pudermos encontrar uma nova forma de vida que nos torne imunes ao vírus do cansaço.