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Pa CECÍLIA AZEVEDO LIMA COLLARES Ps MARIA APARECIDA AFFONSO MOYSÉS MÔNICA CINTRÃO FRANÇA RIBEIRO B (ORGANIZADORAS) U C P F NOVAS CAPTURAS, ANTIGOS DIAGNÓSTICOS NA N ERA DOS TRANSTORNOS MEMÓRIAS DO SEMINÁRIO INTERNACIONAL EDUCAÇÃO MEDICALIZADA: DISLEXIA, TDAH E OUTROS SUPOSTOS TRANSTORNOS FORUM EUR MERCADO R ESTA OBRA FO1 IMPRESSA EM PAPEL 75% PRÉ-CONSUMO, 25 % PÓS-CONSUMO, A PAR- TIR DE IMPRESSÕES E TIRAGENS CUMPRIMOS NOSSO PAPEL NA EDUCAÇÃO E NA LETRAS PRESERVAÇÃO DO MEIODados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Brasileira do Livro, SP, Brasil) Novas capturas, antigos diagnósticos na era dos transtornos : memórias do se- minário / Cecília Azevedo Lima Collares, Maria Aparecida Affonso Moysés, Mônica Cintrão França Ribeiro (organizadoras). - 1. ed. Campinas, SP : Mercado de Letras, 2013. ISBN 978-85-7591-272-0 1. Crianças com transtorno de déficit de atenção 2. Psicologia infantil 3. Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade 4. Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade Diagnóstico 5. Transtorno de déficit de atenção com hiperativi- SUMÁRIO dade - Tratamento Collares, Cecilia Azevedo Lima. II. Moysés, Maria Aparecida Affonso III. Ribéiro, Mônica Cintrão França IV. Título. CDD-618.928589 13-00937 NLM-WS 350 Índices para 1. Transtorno de Déficit de Atenção com : Diagnóstico e tratamento : Neuropsiquiatria infantil : Pediatria Medicina 618.928589 PREFÁCIO 9 Carla Biancha Angelucci APRESENTAÇÃO 15 capa e gerência Vande Rotta preparação dos originais: Editora Mercado de Letras foto de capa: Marina Meirelles Gomide LA (RE)CREACIÓN DEL CONSUMIDOR DE SALUD Y LA BIOMEDICALIZACIÓN DE LA INFANCIA 21 Obra em acordo com as novas normas da ortografia portuguesa. Celia Lisbeth DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA: OBSCURANTISMO REINVENTADO 41 MERCADO DE Maria Aparecida Affonso Moysés V.R. GOMIDE ME Cecília Azevedo Lima Collares Rua João da Cruz e Souza, 53 Telefax: (19) 3241-7514 CEP 13070-116 Campinas SP Brasil INDÚSTRIA FARMACÊUTICA E MEDICALIZAÇÃO 65 José Gomes Temporão CONHECIMENTO NA ERA DOS LIMITES E POSSIBILIDADES 79 Barbosa de Oliveira 1a edição julho/2013 IMPRESSÃO DIGITAL MEDICALIZACIÓN DE LA INFANCIA A TRAVÉS DEL ANÁLISIS DEL IMPRESSO NO BRASIL TRASTORNO POR DÉFICIT DE ATENCIÓN CON HIPERACTIVIDAD (TDA/H) EN USUARIOS, PSICOFÁRMACOS Y Esta obra está protegida pela Lei MANUALES DE DIAGNÓSTICO 93 É proibida sua reprodução parcial ou total Silvia Faraone sem a autorização prévia do Editor. infrator Eugenia Bianchi estará sujeito às penalidades previstas na Lei.of a cultural construct for the disorder?" Biological psychiatry, vol. 57, 11, pp. 1436-1441. SKOUNTI, M.; PHILALITHIS, A. e GALANAKIS, E. (2007). "Varia- tions in prevalence of attention deficit hyperactivity disorder worl- dwide." Eur J Pediatr, vol. 166, 2, 117-123, 2007. STRAUSS, J. (1996). 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Sociological 'produtividade', planejamento da economia etc...) conquistad historicamente a duras penas; um mínimo de controle sobre a Review, vol. 20, 487-504. de saúde (planos, programas, organização de serviço a própria concepção de saúde); um de controle sobi a produção e a reprodução ensino) dos conhecimentos Ao povo restam 'milagres' médicos milagreiro 1. As autoras declaram não ter nenhum conflito de interesse, seja com Jansen, Shire, qualquer indústria, ou qualquer outro tipo de conflito 40 41populares. De fato, se economicamente politicamente ele foi 0 lidarem com os sofrimentos e perdas decorrentes da própria vida e com grande excluído do 'milagre', só lbe restou a procura de outros a morte, transformando as dores da vida em doenças. Segundo autor, a santos. As Instituições Médicas têm sido, assim, um 'santo re- vida estaria sendo medicalizada pelo sistema médico que pretendia ter au- para males da saúde do povo. toridade sobre pessoas que ainda não estariam doentes, sobre pessoas para Madel Luz, As instituições médicas no Brasil: instituição e quem não se poderia racionalmente esperar a cura, e sobre pessoas com estratégia de hegemonia, 1986 problemas para os quais os tratamentos prescritos por médicos teriam resultados semelhantes aos dos oferecidos por familiares mais experientes (Illich 1982). No início de 2002, uma das mais conceituadas revistas médicas in- Posteriormente, a medicalização foi por Michel Foucault ternacionais, British Medical Journal, publicou os resultados de levanta- (1977, 1980), autor fundamental quando se discute Para ele, um mento sobre que os médicos ingleses enquadram em uma irônica defi- dos elementos de sua sustentação é a dupla promessa da medicina, ao se nição de não-doença: "processo ou problema humano que alguém definiu afirmar capaz de curar e prevenir as doenças, a ponto de poder construir como uma condição médica, em que as pessoas poderiam ter melhores um futuro em que sua própria existência será dispensável, pois terá elimi- resultados se não encarassem dessa maneira". A hiperatividade, termi- todas as doenças. Embora sua impossibilidade de realizá-las esteja nologia ainda mais usada para se referir às disfunções neurológicas que se evidenciando mais e mais, a medicina mantém tais promessas em seu provocariam distúrbios de aprendizagem e de comportamento, foi apon- discurso. tada por 13% dos médicos como uma não-doença. O editor da revista res- saltava que objetivo da pesquisa não foi desqualificar sofrimentos reais e No Brasil, uma das primeiras autoras a discutir a medicalização foi suas causas, mas alertar sobre crescente processo de medicalização dos Cecília Donnangelo, socióloga, professora da Faculdade de Medicina da USP, que se dedicou a pesquisar as relações entre saúde e sociedade. Em problemas inerentes aos modos de levar a vida nas sociedades ocidentais sua tese de doutorado, ainda atual, decorridos mais de 30 anos, analisa e a necessidade de tomá-lo por objeto de pesquisa. as consequências desse projeto de medicalização da sociedade, iniciado Nas sociedades ocidentais, é crescente a translocação para campo há quase dois séculos; aponta as formas pelas quais ele se concretiza nos médico de problemas inerentes à vida, com a transformação de questões tempos atuais, destacando a extensão da prática médica como elemento coletivas, de ordem social e política, em questões individuais, biológicas. primordial. Tratar questões sociais como se iguala mundo da vida ao mundo da natureza. Isentam-se de responsabilidades todas as instâncias No que se designa aqui por extensão da prática médica há que des- tacar pelo menos dois sentidos que devem merecer atenção: em primeiro de poder, em cujas entranhas são gerados e perpetuados tais problemas. lugar, a ampliação quantitativa dos serviços e a incorporação crescente das Não se pode esquecer que a medicina constitui seu estatuto de ci- populações ao cuidado médico e, como segundo aspecto, a extensão do ência moderna, na transição entre os séculos 18 e 19, atribuindo-se a com- campo da normatividade medicina por referência às representações ou petência para legislar e normatizar que seja saúde ou doença que concepções de saúde e dos meios para se obtê-la, bem como às condições significa definir "homem modelo" e, honrando suas raízes positivistas, gerais de vida. (Donnangelo 1976, p. 33) passa a reger todos os aspectos da vida dos seres humanos a partir de um Ainda no Brasil, merece destaque a socióloga Madel Luz, que apro- olhar biologizado, que reduz pessoas a corpos. fundou entendimento do papel político que passa a ser desempenhado A expressão medicalização foi difundida por Ivan Illich em seu livro pelas instituições médicas, por referência às promessas que faz, repetida- 'A expropriação da saúde: nêmesis da medicina', ao alertar que a ampliação mente, de salvação e felicidade, promessas que é incapaz de e extensão do poder médico minavam as possibilidades das pessoas de 42 43A era dos transtornos comportar e de não se comportar, que escapem de padrões mais ou menos rígidos a depender do observador/avaliador, corre risco de ser rotulado como portador de um transtorno neuropsiquiátrico que demanda longos Vivemos a Era dos Transtornos. e caros tratamentos, envolvendo vários profissionais e drogas psicoativas. Uma época em que as pessoas são de si mesmas e A questão que nos incomoda é: como médicos, psicólogos, fono- capturadas-submetidas na teia de antigos e audiólogos, podem acreditar e querer fazer todos acreditarem que 18 per- novos, cosmeticamente rejuvenescidos ou reinventados. guntas possam de fato identificar pessoas com uma doença neurológica, Menino maluquinho não existe mais, está rotulado e recebendo ou neuropsiquiátrica? Perguntas como as que compõem questionário psicotrópicos para TDAH; Mafalda está tratada e seu Transtorno Opo- SNAP IV (ABDA 2012a), que se pretende capaz de diagnosticar TDAH: sitor Desafiante (TOD) foi silenciado; Xaveco não vive mais nas nuvens, aterrissou desde que seu Déficit de Atenção foi identificado; Emília, tão Não consegue prestar muita atenção a detallies ou comete erros verborrágica e impulsiva, está calada e quimicamente contida; Cebolinha por nos trabalhos da escola ou tarefas está em treinamento na mesma cabine e nas mesmas tarefas usadas para Parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele rotulá-lo como portador de Distúrbio de Processamento Auditivo Central Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que (DPAC) e assim está em tratamento profilático da dislexia que terá com exigem esforço mental prolongado certeza quando ingressar na escola; é objeto de grandes debates no Distrai-se com estímulos externos comitê que está elaborando DSM com divergências se ele sofreria de É esquecido em atividades do dia a dia TOCS (transtorno obsessivo compulsivo por sujeira) ou de TFH (trans- Sai do lugar na sala de aula ou em outras situações em que se torno de fobia hídrica), mas tudo indica que chegarão a um acordo e os espera que fique sentado dois novos transtornos recém inventados serão lançados no mercado, pois Tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de quanto mais transtornos melhor. lazer de forma calma Porém, para além do tom jocoso, a realidade é que toda criança Tem dificuldade de esperar sua vez ou adolescente que apresente modos de aprender, de agir e reagir, de se Perguntas vagas, imprecisas, mal formuladas! Descontextualizadas, absolutizadas! 2. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) foi criado pela Parece não ouvir?! Quando quem fala quê em qual situação? Todo Associação Americana de Psiquiatria (APA). Em sua primeira versão, publicada pediatra sabe que quando uma mãe reclama que filho não a escuta, deve- em 1952, elencava 106 categorias de desordens mentais. Em 1968 foi lançada a segunda versão, DSM-II, com 182 desordens. Em 1980, DSM-III, com 265 se perguntar se isso ocorre quando ela chama para arrumar quarto ou transtornos, representou a inflexão da psiquiatria americana para modelo bio- para tomar sorvete. médico, organicista e biologizante. Em 1994, o DSM-IV listou 297 transtornos. Estima-se que a nova revisão, DSM-V, a ser lançada em 2013, amplie ainda mais O que é esforço mental prolongado!? Na racionalidade da medicina, se a abrangência, aproximando-se de 500 transtornos. Além de aumentar número, isto permite identificar uma doença, há de ser claramente explicitado e foram introduzidos conceitos que ampliam ainda mais a abrangência. No DSM-IV conceituado, com critérios bem definidos do que seja è do que não seja. surgiu "espectro", que inclui pessoas que apresentam algumas características de um transtorno, mas não preenchem quadro completo; DSM-V, por sua Um jovem que gosta de videogame não considera esforço mental jogar vez, introduzirá "risco", que coloca todos sempre em risco de desenvolver um por três horas, mas pode achar insuportável esforço para ler um livro se transtorno Assim, elimina-se a possibilidade de alguém escapar do não gostar de ler. Em contraste, ler um livro é prazer que não demanda enquadramento em uma doença inventada pela APA e listada no DSM. 44 45esforço algum para quem gosta e jogar videogame pode ser extenuante Você tem dificuldade para sossegar e relaxar quando tem tem- para quem não gosta. Ou seja, esforço mental prolongado geralmente é po livre para você? exigido pelo que não gosto! Você se sente ativo (a) demais e necessitando fazer coisas, como Distrair-se com externos?? Mas quais seriam os estímulos inter- se estivesse "com um motor ligado"? nos, além de dores, mal estar? Só sentimos os estímulos internos, ou seja, Você se pega falando demais em situações sociais? os que nosso próprio corpo nos manda, quando algo não vai bem, como sinal de alerta. Todos os estímulos chegam do exterior. Inclusive Sem comentários... Não, não podemos deixar de comentar pelo os advindos dos pais, da professora, do avaliador! Podemos traduzir por: menos Em uma época em que muitos questionam os modos de vida prestar atenção em outra coisa que não aquilo que adulto avaliador acha que estamos nos impondo, nos tornando a cada dia mais competitivos que deve ser objeto de atenção. e produtivistas, em uma sociedade mercantilizada e dirigida pelo e para Um ponto é fundamental: toda criança, todo adolescente que não o mercado, transformar a dificuldade em relaxar em critério de doença presta atenção está atento em outra coisa. Mesmo os que vivem no mundo individual é claro instrumento ideológico, de submissão incondicional às da lua, estão atentos ao mundo da lual Não há possibilidade de não atender normas vigentes, ao status quo mercadológico. a nada, trata-se de claro do avaliador por sua posição autoritária A perplexidade se amplia, ao nos depararmos com que é divulga- de pretender que a atenção certa, correta, melhor, é aquela voltada para do como definição oficial de dislexia, publicada em periódico da Interna- que ele decide (aí, sim, externamente ao avaliado!) ser digno de atenção. tional Dyslexia Association e disponível em sua página eletrônica: Por fim, selando definitivamente que estamos lidando com normas sociais destaque-se: mais rígidas e estreitas do que as que regem nossos Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica. É grupos sociais na atualidade enfim, normas artificiais transformadas em caracterizada pela dificuldade com a fluência correta na leitura e por pretensas normas biológicas, neurológicas, capazes de discriminar saúde e dificuldade na habilidade de decodificação e soletração. Essas dificul- dades resultam tipicamente do déficit no componente fonológico da doença, surgem perguntas como: sair do lugar em situações em que quem linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas espera que sentado?!? consideradas na faixa etária. (Lyon, Shaywitz e Shaywitz 2003) Retomando nossa inquietação, como se pode acreditar que as per- guntas abaixo, retiradas do questionário ASRS 18 (ABDA 2012b) sejam Ciência? Coerência científica? Onde estão?? suficientes e capazes de diagnosticar TDAH em adultos? Uma doença neurológica que comprometeria exclusivamente a aprendizagem da linguagem escrita, que se caracterizaria por algo que de- Você comete erros por falta de atenção quando tem de traba- pende de acesso a bom processo de ensino e hábito de ler com frequên- lhar num projeto chato ou difícil? cia?! A frase seguinte desvela a concepção de leitura e escrita assumida Você tem dificuldade para manter a atenção quando está fazen- pelos autores: técnica neutra, descontextualizada, em que sujeito é redu- do um trabalho chato ou repetitivo? zido a um cérebro sem escolhas, desejos, conflitos, que não se transforma Você quando precisa fazer algo que exige muita concentração, ao constituir linguagem e saberes, e que apenas processaria os estímulos evita ou adia início? que chegam. Concepção que embasa método fônico de Você tem dificuldade para fazer um trabalho que exige organi- disseminado nos Estados Unidos da América nos oito anos de gestão de Bush filho, e que linguistas americanos apontam como um dos fatores que zação? Você se distrai com atividades ou barulho a sua volta? 46 47facilitaram a escalada de diagnósticos de dislexia em jovens americanos. temas e polaridades opostos e isomorfos: a) mito de profissão médica na- Será por isso que esse método está sendo implantado no Brasil? cionalizada, organizada como o clero e investida, no plano da saúde e do Ainda, como aceitar argumentos que, partindo do fato de muitos corpo, de poderes semelhantes aos que este exercia sobre as almas; b) mito acidentes de trânsito envolverem motociclistas, eles devem sofrer de dé- do desaparecimento total da doença em uma sociedade sem distúrbios e ficit de atenção? E preconizar a obrigatoriedade legal de exames para sem restituída à sua saúde de origem (Foucault 1977). identificar TDAH nos que buscam habilitação para dirigir motocicletas? Com advento da medicina moderna, ela se atribui a tarefa de Criação de florescente mercado de trabalho, sem dúvida. Mas nossa legislar e normatizar o que é saúde e que é doença, que é saudável e inquietação é anterior: como isso tudo pode se articular em um ideário tão que não é; quase "naturalmente", passa a legislar também sobre os cri- térios para identificar, segregar e silenciar (de diferentes maneiras) os que facilmente aceito e disseminado? afrontavam as normas sociais. Inicialmente, foi no campo da psiquiatria, logo depois também na A medicalização da vida neurologia, surgiram os diagnósticos que subsidiavam os critérios. Diagnósticos.qu desde sempre legitimavam e até mesmo prescreviam a segregação. Vivemos em uma sociedade permeada por problemas coletivos, so- Segundo Franco Basaglia, psiquiatra italiano que revolucionou teo- ciais, em grande parte política e economicamente gerados e perpetuados, rias e práticas da psiquiatria, esse processo não distinguia, no início, doen- e que historicamente geram as desigualdades de inserção social, de etnia, tes e criminosos, alienados e delinquentes. de gênero, que caracterizam as sociedades através dos tempos. Vivemos um tempo em que a medicalização avança a largos passos sobre todas as Durante séculos, loucos, delinquentes, prostitutas, alcoólatras, ladrões esferas da vida, ocultando desigualdades ao transformá-las em problemas e extravagantes compartilharam o mesmo lugar, um lugar no qual a di- individuais, inerentes ao sujeito, geralmente no plano biológico. O mesmo versidade da natureza de sua era ocultada e nivelada processo desqualifica as diferenças que nos e constituem por um elemento comum a todos: o desvio da e de suas re- somos todos diferentes, em modos de ser, agir, reagir, pensar, afetar e ser gras, junto com a necessidade de isolar o anormal do comércio social. Os muros da prisão circunscreviam, continham e ocultavam ende- afetado, em modos de aprender. moniado, o louco, como expressão do mal involuntário e irresponsá- Desde sempre, as pessoas que se diferenciavam por questionarem vel, junto ao delinquente, expressão do mal intencional, e/ou não seguirem normas sociais incomodaram e foram segregadas, e delinquência representavam, assim, conjuntamente, a par- até eliminadas. Até recentemente, a perseguição era baseada e justificada te do homem que devia ser eliminada, circunscrita e ocultada até que por religiosos: eram marcados com os rótulos de hereges, ateus, a ciência não decretasse a clara separação entre ambas, através da in- endemoniados, bruxas... Nessa época, a medicina afirmava que as doenças dividualização de suas características específicas. (Basaglia 1986, p. 74) eram produzidas por miasmas, humores, que se propagavam e penetravam nos corpos porosos dos seres humanos. Esse quadro persistiu até os anos Ainda segundo Basaglia, a grande conquista da ciência, no campo 1770, quando a medicina inicia rápido processo de grandes transforma- do comportamento humano, especificamente no aspecto reclusão, con- siste em: ções e rupturas, constituindo seu estatuto de ciência moderna em pouco mais de 50 anos. Primeiro campo dedicado ao estudo do homem a se constituir na modernidade científica, a medicina será raiz epistemológica (...) uma ancoragem mais potente para esta ilha de exclusão e de re- clusão, na qual a inadaptação doente e a inadaptação sadia de todas as ciências humanas. E surge já com dois grandes mitos, com 48 49e ou seja encontram seus lugares. Para tilidade e fecundidade, da terra e das pessoas. Acreditavam sair de seus homem moralmente desviado: a prisão; para homem doente do es- corpos em noites pré-definidas, reunindo-se para combater, com ramos de pírito: manicômio. (Basaglia op cit, p. 74) sorgo, os malandanti, que estragavam as colheitas e azedavam vinho. Até a transição entre os séculos 16 e 17, eram aceitos aberta e tranquilamente Não mais possuídos, mas loucos, epilépticos.. Delinquentes no lu- em suas gar de endemoniados.. No inicio, indiferenciados, todos enquadrados na mesma etiqueta e mesma cela da mesma instituição; depois separados em Nessa época, a igreja católica, mais especificamente, a Inquisição, os transformou em bruxos. Isso foi feito pela construção e disseminação etiquetas, celas e instituições diferentes e exatamente iguais. de ideário apropriado, por meio de tratados, sermões repetidos à exaustão, Assim se inicia processo de medicalização do comportamento imagens religiosas e, principalmente, de torturas e um modo peculiar de humano. Transformando em objeto biológico algo social e historicamente interrogar, alternando posturas ora intimidatórias, compreensivas, de construído. Reduzindo a própria essência da historicidade do objeto - a cumplicidade e de ameaças. Essa "técnica" foi chamada de "interrogatório diferença, o questionamento a características inerentes ao sujeito-objeto, sugestivo", por Carlo Ginzburg (2010), historiador que se dedicou a pes- inatas, biológicas; a uma doença, enfim. Um processo ainda não concluído, quisas sobre a idade média e a inquisição. em franca expansão e sofisticação; basta olhar as capas de revistas leigas. A revista Galileu, 240, de julho de 2011, avisa na reportagem de capa: O interrogatório de Paolo Gasparutto, primeiro benandantia cair De onde vem mal? Cientistas afirmam que maldade é doença e tem cura. nas garras da Inquisição, feito por Frei Felice, é exemplar de como per- Impossível exemplo melhor da atualidade da antiga promessa da medicina guntar não para saber a verdade ou para esclarecer dúvidas, mas para fazer de erradicar a doença a ponto de, no futuro, nem ser mais com que a própria pessoa se incrimine, caindo em contradições, geral- mente ao acreditar que inquisidor realmente queria ajudá-lo; este, por Segundo Conrad (2007), a medicalização segue passos bem defini- sua vez, tentava a todo custo identificar os relatos qualquer relato sobre dos: definir problema em termos médicos; descrever usando linguagem qualquer coisa com suas imagens mentais de rituais satânicos, de sabá médica; difundir ideário de entendimento baseado em modelos médicos; das bruxas. Ao ser denunciado, a condenação estava definida. Impossível "tratar" com intervenção médica, psicológica, fonoaudiológica, ou outras. sair incólume, impossível provar ou recuperar a inocência. Podemos acrescentar um outro passo, que permeia todos os demais: evitar deliberadamente que os fatos, ou todos os de algo, sejam conhe- Abaixo, os principais trechos do interrogatório de Gasparutto, feito em Udine, Itália, na data de 24 de junho de 1580. Nele, Paolo, que até cidos. então dizia não ser benandanti, ao acreditar nas boas intenções do frei, Para nos aproximarmos de como um ideário com tantas fragilida- assume sua condição e a partir daí cai em seguidas contradições; logo de- des se dissemina e se infiltra com facilidade nos modos de pensar a vida pois, a armadilha final: reconhecer que já havia visto "anjo mau", diabo cotidiana, alguns personagens históricos podem nos auxiliar: I Benandan- (Ginzburg 2010, p. 30). ti, Zumbi, Giordano Bruno. Aí, talvez entendamos que está acontecen- do com os Meninos Maluquinhos e as Mafaldas. Frei Felice: vos chamon para entrar nessa companbia de Paolo um anjo todo de ouro como dos altares, cha- e men sain. I benandanti FF: Que coisas vos mulheres, comida, danças, que outras coisas? PG: Não me prometen coisa alguma, outros pulam, vi Os andarilbos do bem, em italiano. Essa era a denominação de pes- porque combatemos contra eles. soas que, em várias regiões da Europa, realizavam cultos pagãos de fer- FF: vos disse que deve sair do corpo para falar com 0 anjo? 50 51PG: próprio anjo me disse. complemento que acrescentamos aos passos da medicalização, descritos FF: Quantas vezes vistes aquele anjo? por Conrad (2007). PG: Toda que en saía, porque comigo. Ele está em pessoa junto à nossa FF: Quando aparece quando se afasta esse anjo assusta? Interrogatórios sugestivos da atualidade PG: Não nos assusta nunca, quando deixamos grupo ele nos dá a FF: Esse anjo vos conduz ao outro anjo, sentado num belo trono? PG: Mas ele não faz parte da nossa liga, nos guarde de manter relações com Vejamos, agora, alguns "Interrogatórios Sugestivos" aquele falso inimigo! São feiticeiros que aqueles belos tronos. neos. FF: Já vistes feiticeiros junto àquele belo trono? PG: Mas não, senhor; nós não fazemos nada além de combater! Um passando por um processo diagnóstico ou sofrendo FF: Qual é mais belo, NOSSO on do belo trono? interrogatório sugestivo ao ser submetido a perguntas como as abaixo, PG: Já não vos disse que não vi aqueles tronos? (...) nosso anjo é e branco, destinadas a confirmar um diagnóstico previamente selado, e do qual não 0 deles é negro, é diabo. há como escapar se "critério diagnóstico" for composto por perguntas vagas, imprecisas, mal formuladas, corrigindo, muito bem formuladas para Pronto, Paolo foi capturado nas teias de um interrogatório suges- cumprir o propósito explícito de transformar normas sociais em normas tivo. biológicas, neurológicas até, e assim convencer avaliado de que é porta- Um elemento recorrente no discurso do inquisidor é que os anjos dor de uma doença neurológica, ou não falam com mortais comuns, somente com a alta hierarquia da igreja. Assim, em síntese, a condenação de Gasparutto, e todos os demais, se Não consegue prestar muita atenção a detalhes ou comete erros embasa em: por descuido nos trabalhos da escola ou tarefas Parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele Se Voce Falon com Deus, Estava Rezando. Se Deus (ou um Falon com Voce é Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado Esse é primeiro relato do Santo Ofício de suas perseguições aos Distrai-se com estímulos externos benandanti; a partir daí, foram rapidamente transformados, de seguidores É esquecido em atividades do dia a dia de cultos e rituais pagãos, em feiticeiros a serem eliminados. Sai do lugar na sala de aula ou em outras situações em que se Paolo Gasparutto, assim como milhares de outras pessoas, foi espera que fique sentado Tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de mas do obscurantismo disfarçado com a máscara da religião. Ódio contra lazer de forma calma as diferenças e contra todos que tentassem mudar status quo, ódio exerci- do escondido sob argumento de "em nome de Deus" Ódio que busca Tem dificuldade de esperar sua vez calar e, no limite, mata! Mas como caracterizar Obscurantismo? Um estado de re- Um adulto está sendo avaliado ou assujeitado, despossuído de sua subjetividade, de sua condição de sujeito histórico e cultural, sujeito data- fratário à razão e ao progresso intelectual e material, ancorado em ideário do e situado, com as marcas de seu tempo e espaço, ao ser submetido ao que preconiza que povo não deve ter acesso a instrução e permaneça em seguinte Interrogatório Sugestivo: completa ignorância. Um ideário que busca evitar, deliberadamente, que os fatos, ou todos os detalhes de algo, sejam conhecidos. Exatamente 52 53Você comete erros por falta de atenção quando tem de traba- Só falta mesmo famoso CQD (como demonstrar) dos lhar num projeto chato ou difícil? teoremas, que tanto pânico causam em adolescentes que não gostam de Você tem dificuldade para manter a atenção quando está fazen- matemática. Aliás, se você não gosta de matemática, temos aqui, na gaveta, do um trabalho chato ou repetitivo? um Interrogatório Sugestivo novinho, perfeito para incriminá-lo como por- Você quando precisa fazer algo que exige muita concentração, tador de discalculia! Mas se você gostar muito de matemática, podemos evita ou adia início? construir outro Interrogatório Sugestivo especialmente para você... Você tem dificuldade para fazer um trabalho que exige organi- Critérios diagnósticos de doença neurológica? Avaliação de desen- zação? volvimento cognitivo? Não, apenas Interrogatório Sugestivo, perfeito para Você se distrai com atividades ou barulho a sua volta? enquadrar todos que não aprendem dos mesmos modos e nos mesmos Você tem dificuldade para sossegar e relaxar quando tem tem- tempos padronizados como "A" normalidade, talvez por alguma entidade po livre para você? superior. Você se sente ativo (a) demais e necessitando fazer coisas, como Nessa normalidade a lógica é a descrita por Thomas Szasz: se estivesse "com um motor ligado"? Você se pega falando demais em situações sociais? So Voce Fala com Deus, Está Rezando. Se Fala com é Como entender, a partir da ciência médica, seguinte encadeamen- to discursivo: Porém é importante destacar que os Interrogatórios Sugestivos, cumprem papel maior de construir, em conjunto com os tratados e ser- da modernidade, ideário que a todos convence e se dissemina a) Existe uma doença neurológica cuja única manifestação é pelos modos de pensar a vida cotidiana. impedir ou dificultar domínio da linguagem escrita b) O cérebro é um processador de informações e estímulos, Mas quais são os tratados e sermões contemporâneos? Esses ins- que apenas recebe os inputs e os processa, como uma máqui- trumentos ideológicos também assumiram novas vestes. Se os na, desprovido de desejos, conflitos, opções, sonhos e que rios Sugestivos se disfarçam como "critérios diagnósticos", "questionários não busca ativamente os famosos "estímulos externos" padronizados", "escalas de XYZ normalizadas" e outros codinomes, os Para aprender a ler e escrever, cérebro deve aprender a tratados se apresentam como "papers", "ensaios", "pesquisas clínicas e c) processar grafemas e fonemas; desaparecem palavras, sen- epidemiológicas", porém sempre com a cautela de ocultar que a imensa tidos, valores, e até letras e sons, resta apenas uma tarefa maioria não preenche critérios mínimos de rigor científico e por isso mesmo é descartada nas pesquisas de meta-análise e é financiada, ou descontextualizada, neutra, neurológica d) Se uma pessoa não aprende a ler e escrever nos moldes pa- mesmo realizada, pelos laboratórios Os sermões, por sua dronizados, é porque seu cérebro tem a doença que interfe- re com a aprendizagem da leitura e escrita 3. Pesquisas de levantam todos os trabalhos publicados sobre os assun- e) Portanto, uma pessoa que aprende de modo diferente, é to em todas os periódicos indexados. Esse tipo de pesquisa é o que sustenta a portador da doença postulada em A. dicina Baseada em Evidências e é feito por alguns poucos centros especializados no mundo É importante frisar que nessas pesquisas não se questiona nem se valida diagnóstico, apenas se tenta estabelecer um ranking entre os tratamentos preconizados. Muito poucas pesquisas de meta-análise foram feitas sobre os efei- tos do metilfenidato. Um dado é constante: a imensa maioria dos trabalhos publi- 54 55vez, evoluíram para cursos, congressos, jornadas, para profissionais da (drapeto + mania) que provoca vontade incontrolável de correr para longe, saúde e da educação, além da criação de entidades que acolhem crianças e sem motivo e sem destino; tem a particularidade de afetar somente pes- adolescentes identificados e seus familiares, que organizam campanhas de soas negras e é muito comum nas Foi descrita em 1851, pelo divulgação para a sociedade, ocupando todos os espaços da midia. Dr. Samuel Cartwright, respeitado médico norteamericano, professor na E assim, começamos a apreender como podem profissionais da Universidade de Louisianna, que visitou Brasil em suas andanças pelo saúde, da educação, imprensa, a maioria das pessoas serem contaminadas mundo onde havia negros (leia-se: escravos), coletando material para suas aqui, sim, trata-se de contaminação do pensamento, de falência múltipla descrições de doenças que afetariam pessoas negras, apresentadas em seu da capacidade de crítica e acreditarem que esses instrumentos sejam ca- livro Diseases and Peculiarities of the Negro Race (Doenças e Peculiaridades da pazes de diagnosticar uma doença neurológica, ou neuropsiquiátrica. Raça Negra) (Sun 2011). Aqui, porém não se trata mais do mesmo Obscurantismo que vi- timou Paolo Gasparutto e um número incontável de vidas ceifadas pelo Zumbi, rei de Palmares ódio, em nome de Deus. A partir de um momento na história da humanidade, vidas continu- aram sendo ceifadas, pelo mesmo ódio, mas agora não mais em nome de A história de Zumbi, nobre africano aprisionado e vendido como Deus. Em nome da ciência. escravo no Brasil, que se rebelou contra a opressão e as torturas infligidas Para melhor entender como racismo fincou raízes em terreno aos negros, liderando a rebelião e fuga, com a criação do quilombo de recomendamos livro A Falsa Medida do Homem, de Stephen Jay Palmares, dispensa Gould (1991), renomado geneticista evolucionista; a história dos discursos Zumbi, um herói da luta por direitos humanos, pela igualdade de dos homens de ciência brasileiros, justificando e disseminado racismo, etnias, contra a discriminação racista, contra a exploração do homem foi estudada por Lilia Schwarcz, em O espetáculo das (1993). homem. Zumbi, um herói da história brasileira, um herói da humanidade. Na segunda metade do século 20, a genética derrubou de vez toda Ledo engano, caro leitor! tentativa de alicerçar racismo em terreno podemos sintetizar Na verdade, Zumbi era mais um negro, entre tantos, que sofria de esse avanço com a frase de Richard C. Lewontin (geneticista evolucionis- uma doença psiquiátrica denominada "Drapetomania". Doença mental ta), Steven Rose (neurobiólogo) e Leon J. Kamin (psicólogo), no livro Not in our genes, de 1984: cados é excluída, por não apresentarem metodologia rigorosa. A diferenciação 'racial' na espécie humana tem, na verdade, apenas a A última pesquisa, publicada em outubro de 2011, pela AHRQ (Agency for Heal- thcare Research Quality do governo norteamericano) foi realizada na Universidade profundidade da pele. Qualquer USO de categorias raciais deve tomar McMaster, de Ontario, Canadá, um dos mais importantes e reconhecidos centros suas justificações de outra fonte que não a biologia. (op. cit., p. 127, de pesquisa de Medicina em Foram levantadas todas as pu- tradução pessoal) blicações entre 1980 e maio de 2010. (disponível em www.ahrq.gov) Os resultados são impactantes: os melhores resultados no tratamento de crianças com diagnós- tico de TDAH foram obtidos com orientação familiar exclusivamente; resultados Só por isto, já expressamos nosso orgulho por sermos da mesma bem inferiores foram obtidos com orientação e metilfenidato; o uso exclusivo de espécie animal de Zumbi, representando aqui os milhões que lutaram e metilfenidato revelou-se o esquema, com baixa evidência de resultados posi- ainda lutam contra toda forma de discriminação e opressão. tivos. Ainda, não há qualquer evidência que permita afirmar que o tratamento me- dicamentoso melhore a longo prazo. Especificamente em relação a desempenho escolar, os resultados foram considerados inconclusivos! 56 57Porém, impossível não prestar homenagem especial a Manoel Qui- Giordano Bruno rino e Pedro Archanjo4 (e a Jorge Amado, por extensão), em tempos em que a genética prova que todos os seres humanos descendem de uma Com advento da ciência moderna, da racionalidade positivista, única linhagem materna e que todos nós somos filhos de uma única mu- que se propõe a desencantar mundo, a retirar homem de um pen- lher, batizada como Eva Mitocondrial pelos cientistas Rebecca Cann, Mark samento baseado em crenças, magias, feiticeiros e demônios, duendes e Stoneking e Allan Wilson que a encontraram em 1987; Eva viveu há apro- encantamentos pela explicação racional de todas as coisas, todos os fenô- ximadamente 200.000 anos na África (Cann, Stoneking e Wilson 1987). menos, tudo que acontece na Terra. Um século depois de Manoel a ciência prova que ele e Pedro Algumas pessoas se constituíram como marcos fundamentais dessa Archanjo tinham razão: somos todos africanos, em maior ou inten- história. Aqui, escolhemos Giordano Bruno (Singer 1968). sidade genética, mas todos africanos. Somos todos mestiços, todos temos sangue negro, branco, indígena, em proporções diferentes, mas sempre Giordano nasceu em 1548, em Nola, Itália. Frade dominicano, de- todos dicou-se a estudos aprofundados em todos campos do conhecimento. Contemporâneo de Galileu Galilei, é reconhecido como um dos grandes filósofos racionalistas, antidogmático radical. Pedro Archanjo, personagem central do livro "Tenda dos Milagres" de Jorge Ama- Com grande conhecimento em matemática e física, além de biolo- 4. do (1969), é um grande pesquisador da cultura e gastronomia africanas, conhece- gia e química, também se dedicava ao estudo do homem, tanto em termos dor da etnologia, negro, mulherengo, sedutor de inúmeras mulheres porém eter- namente apaixonado por Rosa de Oxalá, frequentador de terreiros de candomblé, de fisiologia, como de relações sociais. Criou a Teoria dos Inúmeros Mun- ali batizado como Era também bedel da Faculdade de Medicina da Bahia. dos e do Infinito e, conhecedor das teorias de Copérnico, propunha uma Ali trava um combate desigual contra as ideias racistas e eugenistas de Nilo Argolo, visão de cosmos baseada no universo copernicano e infinito. É catedrático de Medicina Legal da faculdade, e branco, isto é, de pele de branca. Nilo Argolo, publica o livro "A degenerescência psíquica e mental dos povos mes- do, com razão, um dos pilares da Ciência Moderna. tiços", em que afirma: Maior fator de nosso atraso, de nossa inferioridade, consti- Uma de suas frases mais conhecidas é: Uma nova concepção de mundo tuem os mestiços uma sub-raça incapaz. Contra os preconceitos difundidos como ciência, Pedro Archanjo publica livro "Apontamentos sobre a nas exige uma nova concepção de Famílias onde afirma categoricamente: É mestiça a face do povo brasi- leiro e é mestiça sua cultura. Não há família bajana sem mistura de sangue. Branco puro é coisa inexistente na Bahia, todo sangue branco se enriqueceu de sangue indígena e negro, geralmente os dois. Pedro Archanjo e Nilo Argolo são persona- gens inspirados em pessoas reais, que viveram na mesma cidade de Salvador e se daram 147 pessoas, representativas das 5 regiões da Terra encontraram que enfrentaram na mesma Faculdade de Medicina da Bahia: Manoel Quirino, bedel DNA mitocondrial de todas tinha mesmo padrão, derivando de uma mulher da faculdade, que combateu com ardor e radicalidade o racismo e Nina Rodrigues, que viveu na África há aproximadamento 200.000 anos. Isto não quer dizer, como de pele de con branca, catedrático de Medicina Legal, ferrenho eugenista, racista, pretendem os criacionistas, que a teoria criacionista teria razão e a teoria evo- afiliado às concepções lombrosianas, um dos principais disseminadores brasileiros lucionista foi derrubada. Ao contrário! Os autores enfatizam que sua pesquisa não significa que há 200.000 anos havia uma única mulher na face da Terra; havia desse ideário travestido de ciência. 5. A revista Nature, um dos mais prestigiados periódicos em sua edição muitas outras, que procriaram e deixaram descendentes, porém a herança de seu de 01 de janeiro de 1987, publicou artigo "Mitochondrial DNA and human DNA mitocondrial foi Como? De um modo muito simples: como evolution", de Rebecca Cann, Mark Stoneking e Allan Wilson, da University of elé é herdado sempre apenas da mãe, se em uma linhagem não nascer nenhuma California, que revolucionou a genética evolucionista e, podemos dizer que foi filha em uma geração, sua marca mitocondrial desaparecerá. Esta pesquisa mostra um "presente" de ano novo para os que lutam contra toda forma de racismo, que apenas Eva Mitocondrial teve uma descendência que conseguiu manter a discriminação e opressão. Os pesquisadores partem de um dado simples e sem transmissão genética do DNA mitocondrial. DNA por sua vez, DNA mitocondrial (ácido existente nas mi- é herdado tanto do pai como da mãe portanto, não permite essa cartografia das organelas presentes no citoplasma de todas as células) do esperma- migrações humanas e das raízes genéticas. Assim, todos temos DNA tozoide é destruído logo após a penetração no óvulo, de modo que todo DNA drial herdado de Eva, africana, e um DNA cromossômico resultante de todos os mitocondrial é originário exclusivamente da linhagém materna. Os autores estu- nossos antepassados. 59 58E era coerente com isso. Diferentemente de outros estudiosos da Medicalização: a nova face do obscurantismo época, não se limitava a pesquisar, refletir, escrever. Para começar, não escrevia em latim, mas em italiano, pois queria que maior número de Vivemos hoje, no Brasil, uma situação que ilustra bem a semelhança pessoas tivesse acesso a seus pensamentos. Frequentava os salões da no- do modus operandi das forças medicalizantes com das obscurantistas. breza e também os albergues e tabernas populares, conversando com to- A crítica à medicalização tem conseguido enfim conquistar certo dos. Acreditava que poderia influenciar os detentores do poder, conven- espaço na por certo bem inferior ainda! à invasão de todos cendo-os da necessidade de mudanças. Fracassou. os espaços com entrevistas, propagandas subliminares, reportagens enco- Foi preso pelo Santo Ofício duas vezes; na primeira, conseguiu mendadas provavelmente bem pagas invasão perpetrada pelas entida- recuperar a liberdade abjurando. Na segunda; apesar de torturas brutais, des e profissionais que propagam e infiltram os processos medicalizantes recusou-se a abjurar e sustentou suas ideias e escritos até fim. Filósofo, no cotidiano das pessoas. matemático, astrônomo, político... Ao ser condenado como herege, dizia A reação das forças medicalizantes tem sido rápida, intensa e vio- repetidamente, olhando nos olhos dos inquisidores do Tribunal do Santo lenta como são todas as forças obscurantistas. Ameaças e agressões de Ofício: "Vocês têm mais medo". todo tipo e por todos os meios Sempre com um único ob- No trajeto de sua cela até local da execução, foi conduzido com as jetivo: silenciar as vozes discordantes, usando dispositivos legais de modo mãos amarradas nas costas e uma cinta de metal em sua boca, para impe- ilegítimo, e dispositivos ilegítimos. Censura acadêmica, censura física, cen- di-lo de falar. Foi queimado em praça pública, no Campo de Fiori, Roma, sura jurídica... em 17 de fevereiro de 1600. Vivemos a "Era dos Transtornos", mas que também é a "Era das No século. 19, foi declarado pela Itália "Mártir do Pensamento Li- Possibilidades de Tudo Mudar". Este embate real, em um tempo de vre", com construção de vários monumentos e estátuas em sua homena- transições! Este motivo de tanto Ódio, de tanto Medo! gem. Parafraseando Giordano Bruno, podemos dizer que as forças me- Giordano Bruno, Galileu, e tantos oútros. Graças a eles, Obscu- dicalizantes-obscurantistas têm Ódio-Medo da possibilidade de futuros rantismo é retirado de cena e Ódio em Nome de Deus perde terreno. diferentes, medo dos questionamentos, das divergências, dos deva- Mas, Obscurantismo se reinventa e se transforma, ressurgindo neios e utopias, dos sonhos e fantasias... Medo da própria Ciência e, acima mais tarde como com a da medicalização. de tudo, medo da Vida que, teimosa, consegue escapar, vazando para in- ventar novos espaços possíveis... A medicalização da vida será a nova face do obscurantismol Por isto, a tentativa de silenciar os Meninos Maluquinhos, as Ma- Ambos, Obscurantismo e Medicalização, se alimentam das mesmas faldas, os Xavecos, as Emílias e todos aqueles que resistirem e insistirem "justificativas" para se legitimarem e exercerem seu autoritarismo. Apre- em desobedecer, em questionar, em devanear para sonhar para criar novas goando a autoridade "natural" dos superiores e o inconformismo "nato" possibilidades (pois pensamento divergente, expresso em devaneios, so- dos subordinados, aliados à importância de conformismo às convenções nhos, desligamentos, fantasias, é fundante da criatividade; sem ele não é sociais para a manutenção do sistema vigente, concluem pela necessidade possível criar, inventar). imperiosa de adesão de todos às regras impostas, recorrendo à submissão Por isto, a tentativa de submeter, dessubjetivar criando novas res- se necessário. subjetivações submissas às normas e padronizações artificialmente im- Está pronto terreno para a dominação coercitiva. Não importa se postas. E os que não se submetem têm sido quimicamente assujeitados, de fundo religioso, politico ou médico. expropriados de sua subjetividade, de sua condição de sujeitos. 60 61Vivemos um tempo de guerra, guerra surda contra a Vida, contra ABDA (2012b). Sobre TDAH Diagnóstico-Adultos ASRS 18. Disponível em: Futuro. Como Giordanos Brunos contemporâneos, estamos no meio do Acesso em 20/04/ 2012. redemoinho. BASAGLIA, F. (1986). "O Homem no Pelourinho," Educação e Sociedade, Mas, como ensina Rosa, no meio do redemoinho, estão 25, 73-95. os demônios... E os Sacis-Pererês, acrescentamos nós. Que sempre pro- CANN, R. L.; STONEKING, M. e WILSON, A. C. (1987). "Mitochon- tegem todos aqueles que se dispuseram, se dispõem e ainda se disporão a drial DNA and human evolution." Nature 325, pp. 31-36. virar mundo, mesmo que preciso dar a vida. CONRAD, P. (2007). The medicalization of society: on the transformation of bu- man condition into treatable disorders. 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Rio de Janei- Ainda viro este mundo em festa, trabalho e pão ro: Forense. Gilberto Gil, Viramundo LEWONTIN, R. C.; ROSE, S. e KAMIN, L. J. (1984). Not in our genes. Biology, ideology and human nature. New York: Pantheon Books. LUZ, M. T. (1986). As instituições médicas no Brasil: instituição e estratégia de hegemonia. ed. Rio de Janeiro: Graal. LYON, G. R.; SHAYWITZ, S. E. e SHAYWITZ, B. A. (2012). "A de- Referências finition of dyslexia." Annals of Dyslexia, vol. 53, 1 pp. 1-14. Disponível em: e em http://www.dislexia.org.br/material/artigos/artigo014.html ABDA (2012). Sobre TDAH Diagnóstico em Crianças. Disponí- Acesso em: 30/07/2012. vel em: cas.html. Acesso em 20/04/2012. SCHWARCZ, L. M. (1993). O espetáculo das raças: cientistas, instituições e ques- tão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras. 62 63SINGER, D. W. (1968). Giordano Bruno; his life and thought: with annotated translation of his work, On the infinite universe and worlds. New York: Greenwood Press. SUN, T. (2011). The Biostatistical Theory of Disease Revised. Columbia Univer- sity, April 2011. Disponível em: em: 15/04/2012. INDÚSTRIA FARMACÊUTICA E MEDICALIZAÇÃO Gomes Temporão É um prazer estar aqui com vocês nessa tarde em São Paulo, nesse encontro que reúne especialistas, militantes, pesquisadores do Brasil e de outros países, falando sobre um tema que é a minha paixão: saúde pública. O encontro de vocês, na realidade é uma interface entre um campo de vários saberes, embora foco maior seja a educação. E quando me convidaram para falar sobre esse tema, preparei uma reflexão sobre as relações entre saúde pública e processo de medicalização. Considero que para nos aproximarmos do tema de maneira ade- quada, devemos começar pela saúde e irmos trabalhando alguns conceitos, algumas categorias, que estivemos nos últimos anos, na saúde pública mundial e, principalmente, na saúde pública Então, para falar em saúde pública e medicalização, a primeira coi- sa que temos que estabelecer é: que entendemos por saúde? Imediata- mente nos vem à mente a clássica definição da Organização Mundial da Saúde: saúde como uma situação de bem estar físico, mental e social, e 1. Texto elaborado a partir da transcrição da conferência proferida no II Seminário Internacional "Educação Medicalizada: Dislexia, outros supostos trans- tornos", em 12 de novembro de 2011, em São Paulo. 64 65