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Seletividade penal e processos criminais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Compreender o sistema penal brasileiro sob a ótica da lógica punitiva moderna. � Distinguir a criminalização primária e secundária na doutrina crítica. � Reconhecer a seletividade quantitativa e qualitativa no sistema penal. Introdução A seletividade penal é uma construção da doutrina crítica no sistema penal, no sentido de que o Estado seleciona quem será investigado, denunciado, processado e julgado e cumprirá a pena de acordo com interesses da classe dominante. Neste capítulo você vai estudar o conceito de seletividade penal, suas classificações e ponderações a respeito das consequências e benefícios trazidos por essa corrente intelectual. O sistema penal brasileiro sob a lente da lógica punitiva moderna A chamada lógica punitiva moderna é um conceito que reúne visões críticas da doutrina garantista, que visualiza o sistema penal como descreditado. Nas palavras de Zaffaroni e Pierangeli (2015), a descrição da teoria penal se distanciou em muito da prática das instituições, cujo papel é a imposição das penas positivadas em nosso ordenamento jurídico de forma igual, mas que acabam por selecionar os “clientes” do sistema penal. É nesse sentido que Zaffaroni e Pierangeli (2015) definem o sistema penal como um controle social punitivo institucionalizado, que carrega a suspeita de delito até que uma pena seja imposta e executada, pressupondo uma atividade normativa que cria a lei que institucionaliza o procedimento e a atuação dos funcionários, e que define os casos e condições para essa autuação. Para os autores, o sistema penal, em sentido mais amplo, inclui ações controladoras e repressoras que aparentemente nada têm a ver com o sistema penal no sentido técnico. Zaffaroni e Pierangeli (2015) sintetizam o pensamento crítico sobre o sistema penal tradicional ao afirmar que a legislação penal não pode ser in- terpretada como um objeto que se esgota em si mesmo, e sim como um objeto que se realiza com caráter programático. Daí que não podemos simplesmente afirmar que a institucionalização formal realiza o programa, quando ela meramente o anuncia. No discurso da doutrina crítica, a legitimidade do sistema penal é utópica, uma vez que o contratualismo clássico não seria suficiente para legitimar a ação estatal em relação a grupos excluídos da sociedade enquanto aqueles que, de fato, detêm o poder do governo e das instituições têm a chance de utilizar o sistema penal como extensão da manutenção de sua situação de controle social, por meio da escolha dos tipos penais e do fortalecimento da fiscalização de determinadas categorias sociais (BOSCHI, 2004). Nesse sentido, os autores mais radicais dessa corrente advogam o fim do sistema penal como conhecemos, visando o fim da fase do encarceramento e das penas alternativas e, até mesmo, o desaparecimento completo do direito penal (BERISTAIN, 2000). O sistema penal brasileiro atualmente é uma mistura de teorias clássicas da punição e reformas garantistas do código penal, com tentativas de ambas as escolas de amenizar ou enrijecer o sistema ao longo das últimas décadas. Ao passo que a Constituição Federal de 1988 consagrou diversas garantias aos réus do sistema penal brasileiro, o Código Penal vigente ainda mantém a estrutura proibicionista liberal que o conformou em 1940, notadamente abrangendo atenuantes e requisitos de avaliação subjetiva do delinquente que reafirmam a influência dos movimentos críticos da criminologia em sua essência. No âmbito social, vivemos momentos pós-constitucionais de seletividade e abertura do sistema penal. Se de 1988 até o início dos anos 2000 o combate aos crimes era marcadamente pautado pela patente seletividade penal às classes menos privilegiadas e por uma tolerância esquizofrênica do sistema penal aos crimes cometidos pela classe política e empresarial do país, a Operação Lava-Jato trouxe notoriedade aos esforços da Polícia Federal e do Ministério Público Federal de mudar esse cenário, “selecionando” alvos do mais alto escalão social brasileiro. Seletividade penal e processos criminais2 Esse cenário, no entanto, não invalida as críticas à escolha de alvos por parte do sistema penal, pois, reconhecidamente, não há recursos humanos suficientes na administração pública para penalizar todos os delitos praticados diariamente em nosso país. No entanto, em nenhum momento histórico houve correspondência de 100% entre a incidência normativa penal e a eficácia das instituições que aplicam essas regras, de modo que o sistema penal sempre foi baseado na eficácia exemplar de determinados sujeitos que incidiram no tipo penal, foram flagrados, denunciados, processados, condenados, execu- tados e que efetivamente cumpriram suas penas. Dessa forma, não é possível desconstruir por completo a virtude do sistema penal de criar incentivos para a dissuasão de práticas delituosas por aqueles que acreditam em seu funcionamento e na probabilidade de por ele serem punidos. É nesse sentido que Badaró (1970) condena a doutrina crítica abolicionista, ratificando que a lei trata de forma igual aos brancos, negros, ricos, pobres, estrangeiros e nacionais sem discriminação, uma vez que se trata de norma abstrata e não permite distinções em seu conteúdo. Assim, os crivos da culpa e do dolo, além de outras medidas de segurança judiciais, cumprem o dever de não discriminação dos “clientes” do sistema penal, e o mesmo se trata de exceção restrita pelo próprio Estado Democrático de Direito pós-revoluções burguesas, de forma que o Contrato Social é pensado, enquanto teoria, para todos, e não para apenas alguns cidadãos. Nesse aspecto, é necessário respeitar os avanços da teoria crítica crimi- nológica em relação às garantias que temperam o sistema penal. Porém é necessário lembrar que o próprio sistema penal possui função de controle social não somente direcionado contra a população, mas a favor da mesma, sendo o conteúdo do sistema e o direcionamento das instituições um resultado das pressões que a própria sociedade impõe ao Estado, como estamos presenciando na atualidade brasileira. As fases da criminalização segundo a teoria da Seletividade Penal O sistema penal, conforme o entendimento da doutrina crítica e garantista do Direito Penal, não é um sistema de ressocialização de criminosos, e tampouco um sistema puramente retributivista, mas um fabricante de delinquentes com base em seus próprios “clientes”. Segundo Fonini (2016), a sociedade apresenta uma estrutura de poder institucionalizada que se utiliza da política e da economia para exercer a 3Seletividade penal e processos criminais centralização e a marginalização do controle social. A autora afirma que, no Brasil, essa estrutura de poder institucionalizada é exercida pelo Estado e seu instrumento de controle social é o sistema penal. Fonini (2016) reproduz, portanto, a ideia de fabricação de delinquentes de Foucault (2014) a partir do castigo à alma do apenado por meio do controle do tempo e do ceifamento de suas oportunidades de reintrodução à sociedade estruturada. Fonini (2016) ressalta também outros meios de controle social, como a mídia e o próprio conteúdo educacional. A autora destaca o sistema penal como um sistema com mudanças históricas em suas articulações, mas que mantém em sua espinha dorsal a estrutura do poder social dominante. Segundo a autora (FONINI, 2016), a doutrina crítica da criminologia de- fine três momentos definidores da criminalização de um agente. O primeiro momento, também chamado de criminalização primária, é executado pelo Poder Legislativo, que seleciona os bens jurídicos a serem protegidos e as espécies de condutas a serem consideradas como criminais. Segundo a doutrina garantista, é nesse momento que se denota a distribuição seletiva do status de criminoso, a chamada seletividade penal, ainda que de maneira abstrata,mas que leva em conta os interesses da classe dominante. O segundo momento apontado pela autora é chamado de criminalização secundária e ocorre por meio da atuação da instituição policial, do Ministério Público e do Poder Judiciário (FONINI, 2016). Nessa etapa, as normas são aplicadas a pessoas que a polícia supõe que tenham infringido as leis. O Mi- nistério Público, por sua vez, quando convencido pelos indícios de infração, oferece a denúncia, que será analisada pelo Poder Judiciário de acordo com o procedimento indicado nas normas legisladas. Nesse momento, segundo Fonini (2016), a distribuição seletiva do status de criminoso se concretiza sobre os alvos, determinados pelas instituições, que carregam o estereótipo negativo que será perseguido e criminalizado. A autora afirma que a aplicação da lei penal é o momento em que se torna mais evidente a seleção discriminatória, uma vez que é atribuído destaque à atividade policial, que é a primeira instituição a filtrar os futuros estigma- tizados (FONINI, 2016). É frisado pela autora que o indivíduo que não foi selecionado pelas autoridades para ser investigado não terá sobre ele os efeitos da rotulagem (FONINI, 2016). Por fim, o terceiro momento identificado pela autora, chamado crimina- lização terciária, é caracterizado pelo ingresso do sujeito no sistema penal, previamente processado e condenado no sistema carcerário. Nesse ponto, as mais nefastas consequências da distribuição do status de criminoso são perce- bidas, pois o rótulo de criminoso conferido ao indivíduo é consolidado com a Seletividade penal e processos criminais4 estigmatização proporcionada pelo sistema. Isso gera efeitos assoladores que incentivam as carreiras criminosas a partir do fracasso da função educativa da pena e da propensão à reincidência do indivíduo. Tais efeitos não atingem somente o selecionado, mas também aqueles que o cercam. Segundo Fonini (2016), 75,08% das pessoas encarceradas no Brasil possuem grau de instrução inexistente (analfabetismo), alfabetização informal ou ensino fundamental incompleto (dados de 2014 disponibilizados pelo Ministério da Justiça). A autora relaciona a natureza das infrações que correspondem a 87% dos encarceramentos brasileiros: 46% são crimes contra o patrimônio, 13% são crimes contra a pessoa e 28% são crimes ligados ao uso e à distribuição de entorpecentes (FONINI, 2016). Os crimes de roubo e furto correspondem a 2/3 dos indivíduos condenados. Partindo da análise de aspectos da população carcerária, é possível traçar um perfil médio dos indivíduos encarcerados: sexo masculino, jovem (entre 18 e 29 anos), negro/preto ou pardo, com baixa escolaridade. De acordo com Fonini (2016), esses dados ajudam a entender como o fenômeno da criminalização se manifesta no país. Segundo a autora, não se pode perder de vista que o comportamento cri- minoso está presente em todos os grupos sociais (FONINI, 2016). Contudo, a atuação seletiva do sistema penal brasileiro cria um estereótipo criminoso que justifica as escolhas de busca do sistema policial (retroalimentação crimi- nológica), ação considerada por Fonini (2016) como um ciclo vicioso. Fonini (2016) ressalta que a teoria da criminologia crítica abrange como criminalização secundária os aspectos de identificação e encarceramento do indivíduo, os quais a autora caracterizou como categorias distintas em seu trabalho. As seletividades quantitativa e qualitativa do sistema penal Como visto, a seletividade penal é uma teoria desenvolvida pela doutrina crítica da criminologia que sustenta que o sistema penal é responsável pela criminalização do indivíduo, por meio da seleção de bens penais e con- dutas criminosas (criminalização primária), da identificação do “perfil” do criminoso, da seleção da fiscalização policial, da denúncia e do julgamento (criminalização secundária) e, finalmente, por meio da rotina vazia e falha do sistema educacional prisional, que não permite a ressocialização do selecionado (criminalização terciária). Além disso, a doutrina, segundo Rossi (2014), classifica a seletividade penal como qualitativa e quantitativa. De acordo com o autor, a seletividade 5Seletividade penal e processos criminais quantitativa diz respeito ao número de condutas rotuladas como criminosas e ao número de autores aos quais são atribuídas condições de “criminoso” (ROSSI, 2014). A seletividade qualitativa, por sua vez, é relacionada à não inclusão de todas as condutas socialmente nocivas como tipos criminais, bem como à falta de alcance do sistema penal a todas as pessoas que o sistema considera como “criminosas”. Dessa forma, segundo Rossi (2014), a seleti- vidade do sistema penal acaba criando as chamadas cifras ocultas e cifras douradas da criminalidade. As cifras ocultas, conforme o autor, estão relacionadas aos crimes não investigados ou processados; já as cifras douradas dizem respeito à imunidade de determinadas classes sociais e à criminalização que recai sobre as classes mais frágeis (ROSSI, 2014). Sobre esse tema é bastante pertinente a discussão que ocorre atualmente em relação à seleção de julgados na mencionada Operação Lava-Jato: alguns cidadãos creem que apenas alguns políticos ligados a um determinado partido político sofrem processo de criminalização, enquanto outros escapam do estigma provocado pelo sistema penal. Objetivamente, o que se verifica nesse âmbito é a generalização da crimi- nalização da classe política, não havendo privilégios em termos de denúncias ou investigações. Entretanto é evidente a predileção pelas figuras políticas em maior evidência para o uso do sistema penal como forma de exemplo à sociedade quanto às consequências do crime financeiro. Por outro lado, não se pode ignorar as estatísticas levantadas por Fonini (2016), que demonstram que há uma clara predileção por investigação, denúncia, julgamento e encarceramento de determinados tipos penais em detrimento de outros importantes crimes que possuem notória impunidade, como os crimes ambientais. Um exemplo disso é a mortandade de peixes no Vale dos Sinos (localizado na região metropolitana de Porto Alegre, capital do estado de Rio Grande do Sul) que perdeu a exigibilidade da pena por morosidade do judiciário. No entanto, há de se discutir com seriedade a pertinência do discurso crítico ao sistema penal de acordo com uma análise mais aprofundada das alegações do “ciclo vicioso”, do etiquetamento social, do “perfil” do delinquente, das cifras do crime nacional e da possibilidade de correspondência real entre as estatísticas e um padrão comportamental de classes, mesmo que este padrão seja determinado pela falha estatal em prover serviços de saúde, educação e condições sanitárias básicas. Essa discussão é importante para que o estigma da desigualdade deixe de existir e criar condições propícias ao crime, possi- bilitando o engajamento dos indivíduos em atividades lícitas que sejam mais eficientes em termos de bem-estar social. Seletividade penal e processos criminais6 A teoria crítica pertence às teorias conflituais da criminologia. Em contraste à visão “liberal” da teoria estrutural-funcionalista, encontram-se as teorias do conflito, que deslocam a “normalidade” da atividade delitual para a sua “fabricação” por meio dos conflitos existentes entre determinados grupos que compõe a sociedade. Os postulados da criminologia conflitual são: a dissensão da sociedade industrializada; o conflito como estrutura e dinâmica de mudança social; o direito como representação dos valores e interesses de classes ou setores dominantes, e não dos valores gerais da sociedade, e a aplicação da justiça penal de acordo com estes interesses; o delito como uma relação desigual e injusta de distribuição de poder e riqueza na sociedade (MOLINA; GOMES, 2002). BADARÓ, Ramagem. Da imputabilidade e Responsabilidade na Sistemática Penal.1970. José Konfino. Rio de Janeiro. BERISTAIN, A. 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