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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E ARTES PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE CULTURA CONTEMPORÂNEA DOUTORADO JULIANA CAPILE RIVERA POR UMA POÉTICA CARTOGRÁFICA: estratégias para a construção da dramaturgia e da encenação em EntreNãoLugares. Cuiabá 2021 JULIANA CAPILE RIVERA POR UMA POÉTICA CARTOGRÁFICA: estratégias para a construção da dramaturgia e da encenação em EntreNãoLugares. . Tese apresentada ao Programa de Pós- graduação em Estudos de Cultura Contemporânea, da Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito para obtenção do título de doutora na Linha de Pesquisa: Poéticas Contemporâneas. Orientadora: Prof.ª Dra. Maria Thereza de Oliveira Azevedo Cuiabá 2021 Dedico esse trabalho aos parceiros de estrada e de cena: os que eu já encontrei e os que ainda virão. AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, à Julia Varley, por ter aceitado trabalhar conosco nessa obra. Sua generosidade, competência e carinho definiram os rumos do que fizemos juntas. À Eugenio Barba, por sua contribuição e, principalmente, por ter encontrado as cartoneras para nós. Agradeço, também, a todos os professores que tive, porque minha história no teatro foi uma sucessão de encontros felizes que me trouxeram até aqui. Ao Odin Teatret, por ter sido sede de gratificantes trocas e experiências. Meus colegas do Nordisk Teaterlaboratorium, essa tese tem um pouco de vocês. Minha gratidão pelas contribuições e por ajudar a manter essa teia de afetos que nos une em um mesmo idioma. À minha orientadora, Maria Thereza de Oliveira Azevedo, agradeço imensamente. Seu zelo por esse trabalho corresponde com tudo que você fez e faz pelos artistas-pesquisadores de Mato Grosso. Meu muito obrigada aos professores e técnicos do PPG ECCO, que lutam para que um dos melhores programas de pós-graduação da UFMT não morra estrangulado por uma política retrógrada. Aos meus colegas do grupo de pesquisa Artes Híbridas: contaminações, intersecções, transversalidades, pelas contribuições em nossas reuniões. Agradeço aos parceiros, colaboradores e profissionais que nos ajudaram a criar EntreNãoLugares: Ana Wolf, Anna Stigsgaard, Claudio Coloberti, Cristiane Puertas, Douglas Peron, Eleonor Bovon, Elka Victorino, Fausto Pro, Fred Gustavos, Jane Klitzke, Karina Figueredo, Karla Izidro, Paul Hales, Rina Skeel e Sabrina Martello. Às doutoras e doutor, membros da banca, por sua generosidade e competência, cujas observações contribuíram para que a pesquisa assumisse um novo rumo. E, finalmente, à minha amada Tatiana Horevicht, parceira de todas as cenas. Ao seu lado todo caminho é prazeroso. O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES). RESUMO No contexto do teatro contemporâneo, a dramaturgia deixou de ser uma palavra ligada somente ao texto e passou a caracterizar as conjugações dinâmicas entre elementos da encenação, como corpo, voz, espaço e objetos de cena. A dramaturgia passa a ser vista como parte da encenação e utiliza um conjunto de procedimentos em sua elaboração localizados na instabilidade das junções limítrofes das territorialidades e na estabilidade das tradições teatrais. Essa construção dramatúrgica concebida na encenação é definida por nós, para esta tese, como poética cartográfica. O objeto da pesquisa é a sondagem desses procedimentos na construção da poética de um espetáculo cênico elaborado em consonância com a tradição teatral do Terceiro Teatro e teatro laboratório difundido pelo grupo dinamarquês Odin Teatret. O campo de experiência é o processo de construção da obra teatral EntreNãoLugares, da Cia Pessoal de Teatro (MT) Nordisk Teaterlaboratorium (DK), com direção de Julia Varley (Odin Teatret). O processo de montagem da obra se assemelha ao processo da cartografia como procedimento de criação artística, tal como pensada por Deleuze, Guattari e desenvolvida por Rolnik, Passos e Kastrup. A metodologia utilizada na tese emprega levantamento bibliográfico, análise auto descritiva, revisão bibliográfica e estudo de caso, além de se apoiar nos cadernos de anotações do processo. Na compreensão da dramaturgia em campo expandido, a mediação no trabalho teatral e as questões acerca da performatividade, é fundamental os escritos de, respectivamente, José Sánchez, Erika Fischer-Lichte e Eleonora Fabião. Para observar a complexidade da dramaturgia contemporânea, autores como Sílvia Fernandes, Patrícia Leonardelli, José da Costa e Stephen Baumgärtel. Na abordagem do teatro laboratório e Terceiro Teatro, Eugenio Barba, Jerzy Grotowski, Jane Turner e Patrick Campbell. Também são utilizados depoimentos das atrizes do Odin Teatret como Julia Varley, Roberta Carreri, Else-Marie Laukvik e Iben Nagel Rasmussen. Que dramaturgia é essa elaborada na tradição do Terceiro Teatro? É possível que a dramaturgia esteja vinculada ao processo de encenação e a criação da dramaturgia seja a própria encenação. A elaboração da obra passa a ser um procedimento de criação que pode se apropriar de metodologias como a cartografia realizando, assim, uma poética cartográfica. Palavras-chave: Dramaturgia contemporânea; encenação; Terceiro Teatro; cartografia; EntreNãoLugares. ABSTRACT In the context of contemporary theater, dramaturgy is no longer a word linked only to the text; rather it has started to characterize the conjugations between differing elements of staging, such as body, voice, space and scenic objects. Dramaturgy can now be seen as part of staging, and uses a set of procedures in its elaboration, located in the instability of borderline junctions between territorialities, and in the stability of theatrical traditions. This dramaturgical construction conceived in the staging is defined by us, for this thesis, as a cartographic poetics. Our object is to probe these procedures in terms of the construction of the poetics of a theatrical performance, elaborated in accordance with the theatrical tradition of the Third Theater and laboratory theater, as disseminated by the Danish theater group Odin Teatret. We used, as a field of experience, the devising process of the show EntreNãoLugares (BetweenNoPlace), by Cia Pessoal de Teatro (MT) and Nordisk Teaterlaboratorium (DK), directed by Julia Varley (Odin Teatret). The making process employed cartography as a dramaturgical principle, a concept first elaborated by Deleuze and Guattari, and further developed by Rolnik, Passos and Kastrup. Methodologically, the thesis employs a literature review, self-descriptive analysis, and a case study, in addition to relying on artist notebooks. In order to understand dramaturgy as an expanded field, the role of mediation in theatrical work and questions regarding performativity, the writings of José Sánchez, Erika Fischer-Lichte and Eleonora Fabião are referred to, respectively. To better delineate the complexity of contemporary drama, authors such as Sílvia Fernandes, Patrícia Leonardelli, José da Costa and Stephen Baumgärtel are referenced. In terms of approaching laboratory theater and the Third Theater, we drew on the writing of Eugenio Barba, Jerzy Grotowski, Jane Turner and Patrick Campbell. We also used the testimonies of OdinTeatret actresses, such as Julia Varley, Roberta Carreri, Else-Marie Laukvik and Iben Nagel Rasmussen. What type of dramaturgy is elaborated in the Third Theater tradition? It is possible that this approach to dramaturgy is linked to the staging process, and the creation of the dramaturgy is the staging itself. The elaboration of the performance becomes a creative procedure that can appropriate methodologies such as cartography, thus realizing a cartographic poetics. Keywords: Contemporary dramaturgy; staging; Third Theater; cartography; BetweenNoPlaces (EntreNãoLugares). LISTA DE IMAGENS Figura 1 - Ikarus Stage Arts ...................................................................................................... 64 Figura 2 - Cena das viúvas ..................................................................................................... 106 Figura 3 - Cena da benzedeira ................................................................................................ 109 Figura 4 - Cena de Guilhermina ............................................................................................. 113 Figura 5 - Castelo de papelão ................................................................................................. 114 Figura 6 - Cena dos vestidos .................................................................................................. 115 Figura 7 - Partitura Zélia Gattai .............................................................................................. 116 Figura 8 - Construindo cemitério............................................................................................ 117 Figura 9 - Cemitério de livros................................................................................................. 118 Figura 10 - A última "lápide" ................................................................................................. 120 Figura 11 - Mágicas ................................................................................................................ 123 Figura 12 - Registro no caderno de anotações ........................................................................ 125 Figura 13 - Cena das vivandeiras ........................................................................................... 126 Figura 14 e 15 - O jornal quebra a realidade .......................................................................... 140 Figura 15 - Pisando no cotidiano ............................................................................................ 141 Figura 16 - Autoras de sua própria história ............................................................................ 142 Figura 17 - Ensaio em busca do figurino - Sala Vermelha (2016) ......................................... 185 Figura 18 - Ensaio - Sala Branca (2016) ................................................................................ 185 Figura 19 - Ensaio com primeiro carrinho – Sala Preta (2016) .............................................. 186 Figura 20 - Ensaio com Atlas - Sala Preta (2016) .................................................................. 186 Figura 21 - Ensaio com o segundo carrinho - Sala Preta (2017) ............................................ 187 Figura 22 - Ensaio das músicas com Anna Stigsgaard - Sala de Música (2017) ................... 187 Figura 23 – Ensaio da cena: Regras para os refugiados - Sala Preta (2018) .......................... 188 Figura 24 - Estudando a dobradura do jornal – Sala Branca (2019) ...................................... 188 Figura 25 - Cena do jornal - Sala Branca (2019) .................................................................... 189 Figura 26 - Ensaio regras para os refugiados com terceiro carrinho - Sala Branca (2019) .... 189 Figura 27 - Regras para os refugiados - Sala Branca (2019) .................................................. 190 Figura 28 - A Princesa Nausicaa - Sala Branca (2019) .......................................................... 190 Figura 29 - Preparação de luz para a estreia - Sala Vermelha (2019) .................................... 191 SUMÁRIO I INTRODUÇÃO: O INÍCIO DA LONGA JORNADA ................................... 12 Cia Pessoal de Teatro, a dramaturgia autoral e a academia..................................................... 12 O encontro com o Odin Teatret ............................................................................................... 15 EntreNãoLugares e o processo poético ................................................................................... 19 A pesquisa da dramaturgia que se desdobra em observação da poética .................................. 19 Por que seguir a rota da dramaturgia? ..................................................................................... 21 A poética observada em EntreNãoLugares e a relação com o Terceiro Teatro ...................... 22 A cartografia no processo poético e os principais conceitos ................................................... 23 1 CAPÍTULO 1: RASTREANDO AS PEGADAS .............................................. 27 1.1 A revolução do Drama Moderno .......................................................................... 28 1.2 Os reformadores da virada do século.................................................................... 30 1.3 O narrador, o sujeito rapsódico e a autoficção ..................................................... 34 1.4 O século XX e o “Novo Teatro” ........................................................................... 36 1.5 A dramaturgia contemporânea .............................................................................. 38 1.6 A contribuição das artes visuais ........................................................................... 41 1.7 Dramaturgia expandida ......................................................................................... 42 2 CAPITULO 2: DRAMATURGIA DO TERCEIRO TEATRO E AS ROTAS POSSÍVEIS ............................................................................................................................ 50 2.1 Para além do texto escrito: a dramaturgia que desenha poesia no espaço ............ 50 2.2 A Dramaturgia Expandida do Terceiro Teatro: quando o ethos se transforma em poética.......................................................................................................................................53 2.2.1 Terceiro Teatro: uma cultura de teatro de grupo .................................................. 55 2.2.2 Cultura teatral e os modos de fazer....................................................................... 58 2.2.3 A prática dramatúrgica do Terceiro Teatro .......................................................... 62 2.2.4 Treinamento, exercícios, partituras: a dramaturgia orgânica ................................ 65 2.2.5 Partitura e subpartitura .......................................................................................... 68 2.2.6 Os exercícios na construção da dramaturgia ........................................................ 70 2.2.7 Para tecer a dramaturgia a partir de partituras ...................................................... 73 2.3 Os procedimentos da sala de ensaio ..................................................................... 74 2.4 O espectador como cocriador do espetáculo ........................................................ 77 2.4.1 Os dois elencos: atores e espectadores ................................................................. 78 2.4.2 Dramaturgia evocativa e a relação com o espectador ........................................... 79 2.4.3 Opostos complementares ...................................................................................... 84 2.5 Construção da dramaturgia evocativa: Rumo a uma poética cartográfica ........... 85 2.5.1 Cartografia: o anti-método.................................................................................... 86 2.5.2 A cartografia na elaboração do espetáculo ........................................................... 88 2.5.3 A escrita como mapeamento ................................................................................. 90 2.5.4 A dramaturgia cartografada da poética ................................................................. 91 2.5.5 Poética cartográfica .............................................................................................. 92 3 CAPÍTULO 3 - ENTRENÃOLUGARES: A CONSTRUÇÃO POÉTICA ..... 96 3.1 A preparação da jornada: a tripulação .................................................................. 99 3.2 O início da jornada: os primeiros mapas ............................................................ 100 3.3 Mapeando histórias e depoimentos: lidando com outras vozes .......................... 101 3.4 A sala de ensaio como território a ser habitado .................................................. 102 3.5 O mapa complexo das territorialidades .............................................................. 102 3.6 O Outro como o Diverso..................................................................................... 104 3.7 Equipando os navios: os materiais dramatúrgicos .............................................. 104 3.8 A obra de lastro: um procedimento antigo que não se aplica ............................. 105 3.9 Juntas, no mesmo barco ...................................................................................... 107 3.10 Içando as velas: a criação de partituras e seus procedimentos ........................... 107 3.11 Procedimento com imagens e objetos: dramaturgia evocativa ........................... 111 3.12 A memória como procedimento ......................................................................... 120 3.13 Estratégias para partituras ................................................................................... 122 3.14 Procedimentos de registro: caderno de anotação ................................................ 125 3.15 O “tudão” e o “haja o que hajar”: nossos procedimentos ................................... 125 3.15.1 Nossa briga com Ulisses: uma questão de gênero .............................................. 128 3.16 A voz que viaja e faz viajar ................................................................................ 129 3.17 Procedimentos da dramaturgia sonora ................................................................ 133 3.18 A rede de afetos: disposição para receber críticas e contribuições ..................... 134 3.18.1 Ulisses se amarra no mastro para ouvir o canto da sereia: é ou, não é? ............. 135 3.18.2 A estratégia do excesso: Lidar com as necessidades fez surgir materiais .......... 136 3.18.3 As narradoras de sua própria história ................................................................. 138 3.19 Quando impedimentos influenciam a dramaturgia ............................................. 143 3.20 Procedimentos da tradição teatral que promovem estratégias ............................ 144 3.21 O extracotidiano na cantiga finlandesa e a gordura sobre manteiga .................. 146 3.22 Por último, as Catadoras de Papel ...................................................................... 149 CONCLUSÃO: DE UM AFLUENTE ATINGI O MAR .............................. 151 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 155 ANEXO A - TEXTO DE ENTRENÃOLUGARES ......................................... 162 ANEXO B – FOTOS PROCESSO DE MONTAGEM .................................................... 185 ANEXO C – FICHA TÉCNICA - ENTRENÃOLUGARES ............................................. 192 12 INTRODUÇÃO: O INÍCIO DA LONGA JORNADA Dentre as muitas descobertas que essa tese me trouxe, uma delas eu considero especial: sempre trabalhei alinhada com o ethos do Terceiro Teatro e não sabia disso. Foi preciso vivenciar uma imersão na sede do Odin Teatret1, na Dinamarca, e mergulhar no estudo sobre o Terceiro Teatro para reconhecer que eu e minha companhia de teatro pertencemos a uma “tribo” teatral na qual falamos um mesmo idioma. Antes de iniciar a pesquisa acadêmica em torno da elaboração dramatúrgica de EntreNãoLugares2, o Terceiro Teatro era uma denominação que se referia a um teatro datado, ultrapassado, que pertencia somente a grupos de teatro e não a companhias, como era o caso da Cia. Pessoal de Teatro. Além disso, acreditava que fazer parte de um ethos coletivo internacional poderia restringir a capacidade criativa da nossa companhia e nos aliar a uma ideia de “seita” teatral. Eu estava enganada. Cia Pessoal de Teatro, a dramaturgia autoral e a academia 1 Odin Teatret é um grupo de teatro laboratório desenvolvido por Grotowski. Foi fundado por Eugenio Barba em 1964, na Noruega, e posteriormente migrou para Dinamarca. Trabalha com dramaturgia do ator baseada em partituras de ações físicas. Possui 40 membros, oriundos de 11 países e 4 continentes. Odin Teatret criou cerca de 79 performances, realizadas em 66 países em diferentes contextos sociais. (Baseado em informações do site do grupo: www.odinteatret.dk 2 Espetáculo coproduzido por Cia Pessoal de Teatro e Nordisk Teaterlaboratorium, com direção de Julia Varley, dramaturgia: Julia Varley, Juliana Capilé e Tatiana Horevicht; atuação: Juliana Capilé e Tatiana Horevicht. O espetáculo foi financiado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2015 e Fundo Municipal de Fomento à Cultura de Cuiabá 2016. Estreou no NTL Festival, (Holstebro, Dinamarca) em fevereiro de 2019. http://www.odinteatret.dk/ 13 A Cia Pessoal de Teatro3 foi criada por mim, minha companheira Tatiana Horevicht4 e Karla Izidro5, durante nossa graduação na UFOP/MG. Eu e Tatiana estávamos no curso de Direção Teatral e Karla cursava Música. Por influência dos nossos professores, que haviam estudado nos livros de Eugenio Barba e seguiam os embasamentos da Antropologia Teatral, a companhia já nasceu alinhada com o espírito do teatro laboratório. Tínhamos uma tríade de trabalho, que envolvia pesquisas com técnicas de atuação, música cênica e dramaturgia autoral. Fizeram parte da companhia, em Ouro Preto: Marco Túlio Müller, Antônio Apolinário, Clóvis Domingos e Nicollas Lopes. A montagem de estreia foi Primeira Pele (2001), para participar do Festival de Monólogos organizado pelo Centro Acadêmico da UFOP. Escrevi o texto para Tatiana atuar e eu dirigir, mas trocamos os papéis no meio do caminho. Com Tatiana na direção, mergulhamos em uma pesquisa que incluía a música cênica composta junto com as partituras físicas. Para a composição da dramaturgia textual trabalhei a história de duas mulheres: minha amiga Mariana e D. Aparecida, nossa vizinha em Ouro Preto: ambas sofriam com problemas psíquicos. Na época eu trabalhava com depoimentos na elaboração de dramaturgia autoral e nosso nome é “Pessoal” não para designar uma trupe de teatro, mas porque nosso interesse eram as histórias íntimas, secretas, pessoais. Eu trabalhava a partir de depoimentos e confissões criando uma narrativa ficcional a partir do que eu chamava de “desabafos” colhidos de histórias de outros. Mais tarde, passei a buscar um narrador oculto nos meus textos. Havia sempre o ponto de vista de algum personagem, ou vários. Como no caso do experimento cênico Casa de Asterion sob o ponto de vista do Minotauro, no qual me baseava no conto de Jorge Luís Borges como obra de lastro6. Ou, nos dois monólogos Eu Sempre Acabo..., e ...Esbarrando no 3 Cia Pessoal de Teatro nasceu em Ouro Preto (MG), em 2001, com o espetáculo Primeira Pele. Monta Antígone, História do Zoo e Criadouro, além de diversos experimentoscênicos, como: O Chá, A Ratoeira, Casa de Asterion, entre outros. Participa do projeto Trilhas da Cultura – MG, do primeiro Fórum das Artes Brasil/Portugal e do Festival de Inverno de Ouro Preto. Em 2005 muda-se para Cuiabá onde realiza o Núcleo de Pesquisas Teatrais, que em 2012 se torna Encontros Possíveis – seminário internacional de teatro contemporâneo. Participa do Amazônia das Artes, do FITO de Ourense, na Espanha e representa MT no encontro nacional Primeiro Ato, do Itaú Rumos. Espetáculos:Criadouro (2009), Cidade dos Outros (2010), Réquiém para Dançar (2014), Criame (2018), EntreNãoLugares (2019). Participou do Palco Giratório 2014, do Festival de Teatro Amazônia Mato- grossense, Festival Velha Joana de Primavera do Leste, Mindelact de Cabo Verde e NTL Festival da Dinamarca. Atualmente é artista residente do Nordisk Teaterlaboratorium (DK) e tem como integrantes: Juliana Capilé, Tatiana Horevicht e Elka Victorino. 4 Tatiana Horevicht é atriz de teatro e cinema, e encenadora, com curso técnico no CEFAR-BH e graduação na UFOP-MG, mestra e doutoranda no PPG-ECCO - UFMT, cujo foco de pesquisa é o espaço como propositor na encenação. Proponente do seminário internacional de teatro Encontros Possíveis. É uma das fundadoras da Cia. Pessoal de Teatro, desde 2001, e minha companheira de vida e de trabalho. 5 Karla Izidro é formada em Música na FAP (Faculdade de Artes do Paraná / PR), desenvolve em Curitiba trabalhos como preparadora vocal e compositora de música cênica para espetáculos e trilhas. Vencedora do Prêmio Gralha Azul de Melhor Canção em 2013.Foi integrante da Cia Pessoal de Teatro na sua formação, em 2001 em Ouro Preto 6 Nomino “obra de lastro” a obra, literária ou dramatúrgica, na qual me baseio para escrever uma livre adaptação. 14 Vermelho, onde dois personagens, em monólogos diferentes, conversam um com a foto do outro sobre um mesmo evento. Também nesse período iniciei minha apropriação de obras autorais. Adaptei Terra em Transe e A Hora da Estrela para teatro, por encomenda dos colegas de curso. Escrevi, para o TCC da Tatiana, uma livre adaptação do texto As Criadas, de Jean Genet, que retomamos recentemente. No entanto, para o meu TCC montei História do Zoo, de Edward Albee, ipsis literis. Não mudei uma vírgula. Precisava experimentar montar o texto de outra pessoa para entender que, para mim, era fundamental me apropriar dos textos e mudá-los. Nessa época eu era conhecida como dramaturga na universidade e todos me pediam textos. Pensava que minha função era escrever e me dediquei a isso. Até então, dramaturgia era, apenas, o trabalho com o texto teatral. O entrelaçamento das dramaturgias na encenação era um trabalho físico da atuação, que envolvia uma assimilação do texto pelo corpo. Ou seja, nessa época a encenação, para mim, tinha início no trabalho com o texto e os primeiros dias de ensaio eram em volta de uma mesa, sentada, com o texto na mão. Quando eu e Tatiana nos mudamos para Cuiabá, em 2005, deixamos a outra metade da companhia em Ouro Preto com várias turnês e festivais na bagagem. Precisamos interromper as atividades e começar de novo. Passamos a desenvolver, então, o Núcleo de Pesquisas Teatrais7 na tentativa de encontrar parceiros para dialogar. Iniciava nosso braço pedagógico e a companhia ficou mais conhecida pelas oficinas e seminários do que por seus espetáculos, que passaram a ser raros. Em Cuiabá a companhia ganhou parcerias de grandes artistas como Daniela Leite, Lilian Marques e Karina Figueredo, além de várias associações profícuas e gratificantes, como: Fora do Eixo, Cia D’Artes do Brasil, Spectrolab, Elka Victorino, Fred Gustavos e tantas mais. Para aprimorar nossos conhecimentos participamos de eventos nacionais, festivais e encontros. Parte da renda da companhia é frequentemente convertida em cursos e investida para ampliar nossos horizontes. Estávamos construindo uma rede nacional de trocas e práticas teatrais. Ao ingressar no PPG – ECCO e me aproximar dos estudos de performance através do Grupo de Pesquisas Artes Híbridas: contaminações, intersecções, transversalidades8, vivi uma 7 Projeto criado por nós em 2009 para fomentar a pesquisa prática e o estudo teórico do teatro contemporâneo. 8 O grupo de pesquisa Artes Híbridas: intersecções, contaminações, transversalidades foi criado e cadastrado no CNPQ em 2009, liderado pela prof.ª Dra. Maria Thereza de Oliveira Azevedo. Tem aderência à linha de Pesquisa Poéticas Contemporâneas do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea, ECCO da UFMT. É organizado em quatro linhas de investigação: Artes da cena, territórios e fronteiras; Cinema e transversalidades; Feminismos, decolonialidade e autobiografias; Transferências e deslocamentos na arte contemporânea. As investigações em nível de mestrado e doutorado, na sua maioria, são realizadas por artistas- pesquisadores/pesquisadoras que desenvolvem suas propostas de criação, no lugar onde vivem. Essas práticas poéticas são transversalizadas pelas discussões que ocorrem no interior do grupo, fornecendo suporte teórico para pesquisas em poéticas, visto que o Programa não é de Artes Cênicas. 15 crise com a dramaturgia. Eu ainda queria escrever histórias, mas acreditei que não cabia mais no teatro a dramaturgia autoral e fabular. Passei, então, a escrever roteiros para cinema para seguir lidando com a fábula, o personagem e o conflito. No teatro, desenvolvi uma escrita mais contaminada, intersticial, mais próxima do Dramaturgismo9, ou seja, recolhia textos, promovia a criação das palavras a serem usadas, ao invés de escrever sozinha e de próprio punho. Minha orientadora Dra. Maria Thereza de Oliveira Azevedo, a Marithê, é cineasta e diretora de teatro, uma junção que me ajudou a pensar o meu fazer artístico. Da mesma forma, o programa de pós- graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT alargou meus limites para além do teatro, incluindo artes plásticas, cinema e performance. No mestrado, e posteriormente no doutorado, fui apresentada aos autores vindos da filosofia, antropologia, sociologia, psicologia. O teatro passou a ser acompanhado de um pensamento teórico e crítico, conectado com o tempo presente. Quando a Cia Pessoal de Teatro montou Cidade dos Outros (2010) com a direção de Amauri Tangará eu ainda era responsável pelo texto, mas a maneira como lidava com essa autoria havia mudado. Eu achava que quanto mais elementos do meio eu conseguisse incluir no texto mais interessante ficaria. Ter montado o espetáculo em regime de imersão, na sede da Cia D’Artes do Brasil10 em Chapada dos Guimarães fez toda a diferença, pois promoveu uma maior interação entre nós criadores11. O encontro com o Odin Teatret Eu e Tatiana Horevicht conhecemos o Odin Teatret durante o Odin Week Fest de 2011, em uma das viagens para aprimoramento técnico. Foi impactante. Tínhamos aulas com Augusto Omolú12, palestras com Eugenio Barba13, oficinas com Julia Varley e Roberta Carreri, e 9 O termo dramaturg foi cunhado por Lessing para definir o trabalho teórico que precede a encenação. O Dramaturgismo, como utilizado no Brasil, é o trabalho de pesquisa para a montagem. O dramaturgista não escreve o texto, e sim, recolhe e organiza o material teórico. 10 Cia D’Artes do Brasil é a companhia de teatro de Amauri Tangará e Tati Mendes. Trabalham em parceria com o Teatro O Bando, de Portugal. A sede fica no meio do cerrado, em Chapada dos Guimarães/MT. 11 O trabalho dramatúrgico serviu de campo de experiência para minha pesquisa acadêmica no mestrado: CAPILÉ RIVERA, Juliana. CIDADE DOS OUTROS: contaminações de um processo poético. Orientadora: Maria Thereza de Oliveira Azevedo. 2014. 110 f. Dissertação (Mestrado Estudos de Cultura Contemporânea) – PPG-ECCO, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2014. 12 Augusto Omolú, baiano, trabalhou no Odin Teatret de 2002 a 2013. Desenvolveua Dança dos Orixás, criando repertório a partir dos movimentos de dança das entidades do Candomblé. Foi assassinado na Bahia no dia 2 de junho de 2013. A Cia Pessoal, em sua homenagem, montou Réquiem para Dançar (2014). 13 Eugenio Barba é italiano e um dos encenadores que reformulou o teatro do século XX. Foi assistente de direção de Jerzy Grotowski e seu principal divulgador. Criou o Odin Teatret em 1964, em Oslo, Noruega, onde vivia como migrante, mudando para Dinamarca, a atual sede, em 1966. Nominou sua pesquisa de Antropologia Teatral e é o principal idealizador da ISTA – Internacional School of Theatre Antropology e, até 2019, foi diretor do Nordisk 16 assistimos os espetáculos do repertório do grupo. Desde esse momento, nossa aproximação maior foi com Julia Varley14. Por sua habilidade poliglota Julia nos traduzia nas ocasiões nas quais não conseguíamos nos comunicar direito em inglês e traduzia para nós o que não podíamos compreender. A primeira vez que vi uma peça do Odin notei que os espetáculos não trabalhavam com texto previamente escrito. Eles tinham uma outra relação que eu ainda não entendia muito bem, mas que produzia um efeito inquietante. A princípio isso me atraiu porque nos seus livros Barba menciona a dramaturgia o tempo todo, que nada tem a ver com texto. Cada ator fala em seu idioma: a dinâmica não estava nas palavras, mas em todo o espetáculo, isto é: não era texto, era corpo em cena. Com a intenção de compartilhar com os fazedores de teatro de Cuiabá organizamos o primeiro Encontros Possíveis15, um seminário internacional de teatro contemporâneo, com a participação de Roberta Carreri e Jan Ferslev, ambos do elenco Odin Teatret. Estreitamos os laços com o Nordisk Teaterlaboratorium16 a partir desses seminários, a fim de estudar melhor o que era dramaturgia para o Odin Teatret. Mais do que a técnica ou os fundamentos da Antropologia Teatral, o que me chamou a atenção era a cultura teatral cultivada pelo grupo. Me interessou, naquele momento, saber como o grupo se formou, as histórias de vida, os conflitos internos e as soluções que criaram. Para mim havia uma ligação entre o que eles faziam e quem eles eram. E mais, como haviam permanecido juntos por tanto tempo? Por trás dessa pergunta estava o interesse em descobrir os arranjos internos e suas dinâmicas de sobrevivência. Saber o que os mantinha unidos significava adentrar nos segredos internos que poderiam revelar os ajustes, negociações, soluções e conflitos. Em 2015, Tatiana e eu ficamos três meses em Holstebro com o intuito de pesquisar essas questões. Entrevistamos todo o elenco, inclusive Barba e sua família. O que Teaterlaboratorium. Escreveu muitos livros e artigos, participou de centenas de seminários e dirigiu mais de 79 espetáculos, com intercâmbio cultural com mais de 66 países. Vive em Holstebro, Dinamarca, onde é a sede de seu grupo. 14 Julia Varley nasceu em Londres, em 1954, e se mudou ainda jovem para a Itália, onde iniciou sua carreira artística nos grupos Teatro del Drago, Centro Sociale Santa Marta e Circolo La Comune. Se juntou ao Odin Teatret em 1976. Além de atriz e diretora de vários espetáculos, é diretora artística dos festivais Transit e NTL Festival. Participa da concepção e organização do Magdalena Project, uma rede de mulheres do teatro contemporâneo, e da ISTA, a Escola Internacional de Antropologia Teatral. 15 A Cia Pessoal de Teatro produz o seminário internacional Encontros Possíveis, através do Núcleo de Pesquisas Teatrais, desenvolvido desde 2009, com o intuito de estabelecer um intercâmbio entre grupos teatrais e interessados, de um lado, e profissionais de áreas diversas, personalidades da cultura e grandes mestres do teatro. O Odin Teatret participou das edições de 2012, 2013, 2015 e 2016. 16 Nordisk Teaterlaboratorium é a instituição que abriga o Odin Teatret, e promove, ainda, diversos projetos de pesquisa, difusão e produção teatral. Possui um programa internacional de residências artísticas, do qual a Cia Pessoal de Teatro faz parte como artista residente desde 2017. 17 ficou claro, a partir desses encontros, foi a lealdade do grupo com seu ofício e com a parceria compartilhada no trabalho com as obras. Tatiana e eu já nos identificávamos com o teatro laboratório, mas, como artistas latino- americanas, tínhamos preconceito contra o Terceiro Teatro. Recebemos, na nossa formação, os respingos das discussões da ISTA e dos encontros de teatro de grupo, onde foi dito que “Terceiro Teatro” era um termo pejorativo para designar o teatro do “Terceiro Mundo”, ou seja, o teatro de grupo latino-americano. Com razão, os grupos da América do Sul não queriam se associar a um termo que os designavam como inferiores, subdesenvolvidos, selvagens. Foi em Holstebro, convivendo com artistas do Terceiro Teatro de tantos países, que ressignificamos o termo. Foi determinante, também, o encontro com a pesquisa dos professores da Manchester Metropolitan University, Jane Turner e Patrick Campbell, durante sua estada no OTA (Odin Teatret Archives). Nossas conversas ampliaram minha percepção, e mais, me fizeram perceber a ligação do Terceiro Teatro com um ethos com o qual me identificava. O termo Terceiro Teatro, quando foi cunhado na década de 1970, se relaciona com a “marginalidade, o autodidatismo, a dimensão ética e existencial do ofício e a vocação social” (BARBA, 2010a, p. 186) de um teatro realizado por artistas que se preocupavam com as causas dos problemas sociais, mais do que com seus efeitos. O mesmo termo foi utilizado por Octavio Getino e Fernando “Pino” Solanas para designar um “Terceiro Cinema”17, periférico e engajado politicamente, realizado entre as décadas de 1960 e 1970, ou seja, o termo fazia referência a uma terceira via e era recorrente sua utilização na época. Quando Barba se apropriou do termo buscava nominar o teatro que conheceu em seu encontro com grupos da América do Sul, que praticavam uma arte comprometida política e socialmente com seu tempo e inventavam procedimentos próprios e autodidatas, criando heranças para si mesmos. O Terceiro Teatro, atualmente, é uma comunidade de artistas que opera nas dimensões existencial e ética do ofício teatral, que consideram a cultura teatral como campo ético, poético e pedagógico. Comumente criam sua própria tradição teatral e inventam seus próprios procedimentos de criação. Compactuam uma mesma prática laboratorial diária com vocação para o autodidatismo e se localizam nas margens de sua realidade cultural, contestando seu tempo e espaço. O Terceiro Teatro pratica os fundamentos do teatro realizado em grupo e amplia para a prática artística individual, de artistas sem um coletivo. Por isso, Terceiro Teatro 17 Para o artigo Hacia um tercer cine: Apuntes y experiencias para el desarollo de um cine de Liberación em el tercer mundo, texto de 1969. Em: https://cinedocumentalyetnologia.files.wordpress.com/2013/09/hacia-un-tercer- cine.pdf Acessado em 10/07/2021. https://cinedocumentalyetnologia.files.wordpress.com/2013/09/hacia-un-tercer-cine.pdf https://cinedocumentalyetnologia.files.wordpress.com/2013/09/hacia-un-tercer-cine.pdf 18 trata de um ethos, de um modo de fazer que tem relação com a forma que o artista se compromete com o teatro que realiza, independentemente de ser em grupo, coletivo ou solo. Eu e Tatiana nos identificamos com a comunidade de artistas do Terceiro Teatro porque queríamos fazer parte de um coletivo maior, mais amplo, que não se relacionava apenas com uma realidade local, mas sim, possuía um propósito que unificava artistas no mundo todo. Unificava, e não homogeneizava, quer dizer, a diversidade é a tônica principal. No nosso encontro com outros grupos e artistas que se identificavam com o Terceiro Teatro conhecemos trabalhos diversos, de estéticas diferentes, como o Yuyachkani, do Peru, cujos espetáculos revolvem opassado indígena andino ou o Teatro Tascabile, da Itália e Teatr Om, da Dinamarca. Durante muito tempo nós, artistas da cena, vivemos com uma ideia de que havia um jeito certo de fazer teatro, como se realmente houvesse um método, um sistema, uma fórmula, apesar da maioria dos encenadores/encenadoras serem avessos a essa ideia. Continuávamos insistindo na ideia de que havia um caminho pré-determinado para a elaboração de um espetáculo. Com isso, copiamos fórmulas, imitamos experiências, repetimos o que outros fizeram, tentando encontrar esse “jeito certo de fazer”. Não há um jeito certo quando se trata de produto artístico. O que existe são técnicas, que podem ou não ser aplicadas, depende de onde se quer chegar. É como cartografar18 um tema: é a experiência que desenha as rotas. É ao longo da experiência que se aprende a ouvir as necessidades de um trabalho, porque quando se está elaborando um trabalho cênico, tudo o que foi vivido até ali, importa para a obra: desde as pessoas envolvidas e o que elas trazem para o trabalho, até o local onde essa obra será elaborada. Fazer parte de uma comunidade teatral como o Terceiro Teatro não significa ter um método ou sistema de trabalho. Nem se trata de um “jeito certo” de fazer. O Terceiro Teatro não busca um alinhamento estético e nem mesmo técnico. Está mais para uma confraria que compactua de ideais semelhantes, humanos e cênicos. Para mim, significa pertencer a uma família teatral e reconhecer que, apesar de nossas diferenças, concordamos que o teatro é mais do que nossa profissão. É nossa existência. 18 A cartografia utilizada como método social serve de apoio para pensar no processo determinando o percurso e auxilia na análise dos dispositivos utilizados para o desenvolvimento de uma obra artística. Cartografar, nesse caso, passa a ser a experiência em si. 19 EntreNãoLugares e o processo poético Encontrei com o tema de EntreNãoLugares pela primeira vez quando estava em Holstebro realizando a série de entrevistas com o Odin Teatret, em 2015. A experiência em um país estrangeiro me despertou para a questão das migrações, mas, me deparar com as estratégias de adaptação dos integrantes do grupo em um país diferente forneceu um panorama mais amplo19. Quando eu e Tatiana conversamos com Julia sobre a possibilidade de ela nos dirigir em um novo espetáculo queríamos uma oportunidade de vivenciar a cultura teatral do grupo e ver como funcionava, na prática, a elaboração da dramaturgia de uma montagem. O trabalho iniciou em 2016, quando passamos no edital Myriam Muniz de Teatro, da Funarte, que financiou até a penúltima viagem à Holstebro. A última viagem foi paga pela Cia. Pessoal de Teatro. As viagens foram: 15 de janeiro a 12 de março de 2017; 20 de julho a 15 de agosto de 2017; 20 de dezembro de 2017 a 15 março de 2018 e 16 de dezembro de 2018 a 18 de fevereiro de 2019. A estreia aconteceu no 1st NTL International Theatre Festival and Meeting20, dia 01 de fevereiro de 2019. Trabalhar com Julia Varley foi um privilégio. Sua generosidade e rigor técnico transformaram para sempre nosso teatro e nos inseriu na rede extensa e prolífica de artistas residentes do Nordisk Teaterlaboratorium. A experiência que vivemos na montagem de EntreNãoLugares serviu de campo de pesquisa para meus questionamentos em torno da dramaturgia no teatro. A pesquisa da dramaturgia que se desdobra em observação da poética Para estudar os procedimentos para a elaboração de EntreNãoLugares precisei trancar matrícula do doutorado, entre os anos de 2017 e 2018, para avançar um pouco mais na montagem. Durante o avanço da pesquisa eu ainda estava sendo guiada pela ideia de 19 Os integrantes do Odin Teatret e Nordisk Teaterlaboratorium são, em sua maioria, estrangeiros na Dinamarca, vindos da Itália, Inglaterra, Canadá, Chile, Índia, Noruega, com ex-integrantes de países como Brasil, Espanha, Colômbia, Argentina e outros. O idioma oficial do setor de administração é o dinamarquês, da sala de ensaio do grupo é o italiano, dos simpósios, seminários, palestras e oficinas é o inglês e espanhol. 20 Em 2019, entre os dias 30 de janeiro e 3 de fevereiro, o Nordisk Teaterlaboratorium promoveu o primeiro NTL Festival, com o tema The Laboratory Spirit (O Espírito do Laboratório). Além da apresentação de espetáculos, palestras e demonstrações de trabalho, o evento comportou um seminário, conduzido por Jane Turner e Patrick Campbell, ambos doutores do Departamento de Artes Contemporâneas da Manchester Metropolitan University, da Inglaterra. No seminário discutiu-se questões em torno do teatro laboratório: sua prática, os treinamentos, as produções e, a organização interna de trabalho: o ethos que move os adeptos do Terceiro Teatro. 20 dramaturgia quanto escrita de texto. Meu interesse era entender como a dramaturgia de EntreNãoLugares estava sendo construída, já que não utilizamos texto previamente escrito, nem dramaturgia autoral; o texto é um mosaico de recortes, excertos, citações, o que me levou a observar a intertextualidade no processo. Algumas questões apareciam como problema da tese: Que dramaturgia era essa e quais suas características? Quais foram os procedimentos utilizados para a elaboração da dramaturgia de EntreNãoLugares? Como esses procedimentos foram criados? Acreditava que a resposta era um procedimento dramatúrgico e que estava diante de uma escrita que havia sido elaborada seguindo padrões da cartografia. Mais tarde entendi que a dramaturgia, a elaboração de materiais da atuação e a encenação haviam sido construídos ao mesmo tempo. Não se tratava mais de texto e sim, de procedimentos de criação. Essa tese foi desenvolvida dentro de um programa interdisciplinar, na linha de pesquisa em Poéticas Contemporâneas. A linha de pesquisa me permite tratar aqui da elaboração da poética de um espetáculo teatral observando seu processo de construção que segue a tradição do teatro laboratório difundido pelo grupo dinamarquês Odin Teatret e seu diretor, Eugenio Barba e do qual a diretora, Julia Varley, é integrante desde 1976. Nessa construção, dramaturgia, atuação e encenação se misturam utilizando procedimentos como estratégia para a criação teatral. Criação de partituras cênicas e vocais, resolução de tarefas, repetição e excesso são alguns procedimentos que serão abordados adiante. A montagem esteve aliada, ainda, a um mergulho nos valores éticos do Terceiro Teatro com o qual nos relacionamos através dos colegas do Nordisk Teaterlaboratorium. O Terceiro Teatro é a nominação dada a uma comunidade internacional ampliada de artistas e grupos de teatro, que cultivam um ethos comum e desenvolvem sua poética a partir de uma prática pedagógica expandida. Se desenvolve em torno da cultura teatral criada por um determinado grupo de artistas, onde todos compartilham um mesmo território criativo. Essa proximidade conferiu o tom pedagógico da pesquisa teatral, como ensaios com a presença de observadores aprendizes e a disposição de todos em contribuir com o espetáculo. Nesta tese, nominamos de poética cartográfica a estratégia que organiza os procedimentos para a confecção da trama dramatúrgica realizada simultaneamente com a criação de cenas, derivadas do trabalho da atuação e com a conjunção dos elementos teatrais. Designa um conjunto de procedimentos criados na elaboração de uma obra que dizem respeito aos vários níveis do urdimento da criação cênica. Ou seja, a poética cartográfica é uma forma de chegar a um resultado que evidencia o processo e que é decorrente das escolhas subjetivas dos criadores. Esse procedimento tem como característica a utilização de diversos recursos 21 dramatúrgicos, mas está calcado na tradição teatral do teatro laboratório difundido por Jerzy Grotowski e Eugenio Barba. Por que seguir a rota da dramaturgia? Na conjuntura do teatro contemporâneo,a dramaturgia está além da criação de um escritor dramaturgo e pode ser entendida, também, como um procedimento que mapeia as conexões dos elementos da cena para conjugá-los, formando uma trama invisível que pretende dialogar com todos os sentidos do espectador. Essa dramaturgia foi amplamente abordada por Lehmann (2007) com a provocação do termo “pós-dramático”, que gerou muito debate, mas, levanta a questão dos procedimentos para elaboração da criação artística e a proximidade entre cena e performance21. As abordagens contemporâneas para a elaboração dramatúrgica não excluem a dramaturgia tradicional e não estamos tratando de um processo que “evolui” para outro. A dramaturgia tradicional continua sendo amplamente utilizada em montagens teatrais, que operam do texto para a cena e que partem do trabalho de um dramaturgo-escritor ou dramaturga-escritora. No entanto, tratamos aqui de uma dramaturgia praticada nos moldes do teatro laboratório e utilizada na prática do Terceiro Teatro. Ou seja, uma dramaturgia executada pela encenação e atuação, que confere mais ênfase para a cena do que para as palavras ditas pelo elenco. Quando a dramaturgia não está baseada no texto, mas naquilo que se produz articulando os elementos da encenação com a atuação, passa a ser composta a partir de procedimentos utilizados como disparadores para a criação de cenas. O termo dramaturgia passa a ser uma operação, em vários níveis, que procede nos interstícios, no entre, não mais dependente do discurso para fazer sentido para quem assiste. No caso da dramaturgia de EntreNãoLugares, o sentido brota das conexões entre, principalmente, texto falado ou cantado e partitura cênica. Em EntreNãoLugares, a dramaturgia foi elaborada durante o percurso de montagem baseado na criação de partituras de ação física. Aborda a questão dos refugiados, migrantes e deserdados da terra, citando a odisseia de Ulisses, personagem de Homero, para tratar da migração humana. A peça é conduzida por duas catadoras de papel que encontram uma caixa 21 Lehmann revisa sua posição e acrescenta que não entende o pós-dramático como um programa a ser aprendido. Segundo ele, pós-dramático é um conceito que visa abranger uma série de estéticas teatrais muito distintas. E ressalta ainda que, a palavra pós-dramático “não expressa de forma alguma ‘fim do drama’, mas que denota ‘visto em relação com o drama’. Afinal, desenvolvimentos históricos não ocorrem como a sucessão de capítulos de um livro” (LEHMANN et al., 2013, p. 241). 22 cheia de livros dispensados para reciclagem. Na medida em que começam a ler a Odisseia, de Homero, incorporam a aventura do herói grego na sua própria jornada diária de trabalho e mergulham em um passeio pela ancestralidade, repleta de viajantes anônimos e destituídos. A montagem utiliza trechos de outros livros, depoimentos dos familiares das atrizes e de refugiados, matérias de jornais e músicas compostas a partir de pesquisas em sala de ensaio. A poética observada em EntreNãoLugares e a relação com o Terceiro Teatro O objeto de pesquisa dessa tese é sondar a criação de procedimentos na elaboração de uma obra teatral utilizando a construção poética de EntreNãoLugares para auscultar a dinâmica dessa criação. Devido a forma como o espetáculo foi montado foi preciso aprofundar na prática de trabalho do teatro laboratório e nos métodos criativos do Odin Teatret para estabelecer uma linguagem em comum com a encenadora Julia Varley. O Odin Teatret possui uma forte tradição pedagógica mantida pelo grupo desde sua criação, em 1964. Desde então, o grupo mantém uma série de atividades, em sua sede em Holstebro e ao redor do mundo, com o intuito de promover o estudo e a pesquisa teatral. Sua prática segue os princípios do teatro laboratório de Grotowski, de quem Barba foi assistente de direção. A Cia Pessoal de Teatro segue, também, essa tradição. Foi criada dentro da Universidade Federal de Ouro Preto, por alunas dos cursos de Artes e desde o início estava vinculada com programas pedagógicos de teatro. A pesquisa sempre esteve no cerne das nossas produções e o teatro laboratório sempre foi entendido como o “nosso jeito” de fazer teatro. Recentemente, por ocasião da parceria com o Nordisk Teaterlaboratorium, nos aproximamos mais da tradição laboratorial praticada pelo Odin Teatret e nos identificamos com o Terceiro Teatro como uma comunidade de fazedores de teatro que compactuam de uma cultura teatral semelhante. O convívio e a experiência de EntreNãoLugares nos incluiu nessa comunidade e passamos a partilhar procedimentos de criação com os colegas estrangeiros. Nesta tese vamos seguir a trilha da poética que é criada tendo, como um dos propositores, uma cultura teatral, ou seja, o ethos participando ativamente da montagem dramatúrgica. O compartilhamento e troca entre as diferentes culturas teatrais, da Cia Pessoal de Teatro e de Julia Varley, provoca a criação de procedimentos que servirão de disparadores para a criação de cenas. A cartografia utilizada como método, por ser aplicável a processos em que o criador importa tanto quanto a criação, surge como um recurso para acompanhar a dinâmica da criação artística promovida por essas culturas teatrais. O que será chamado aqui 23 de poética cartográfica é a metodologia para essa criação artística produzida por esse processo baseado no compartilhamento entre artistas. A cartografia no processo poético e os principais conceitos A cartografia aborda um campo a ser pesquisado, sem excluir as influências do meio ou dos pesquisadores/pesquisadoras, como é comum em metodologias mais objetivas. Por essa característica é uma metodologia bastante utilizada em pesquisas sociais, que precisam englobar elementos subjetivos em suas observações. Sondaremos a utilização dessa estratégia metodológica na criação de procedimentos para a elaboração de uma obra teatral, construída nos moldes laboratoriais. A obra que nos serve de campo para essa sondagem é EntreNãoLugares, montada em regime de imersão. A escolha deste espetáculo, em especial, se dá pela experiência que significou sua elaboração. O mergulho na cultura teatral do Odin Teatret, de seus colaboradores e parceiros, a convivência com a comunidade do Terceiro Teatro, a imersão na Dinamarca são alguns fatores. Essa experiência influenciou nos meus estudos no doutorado e ainda reverbera para conexões que vão além do palco. Esse estudo aborda os procedimentos utilizados para criação da obra, que juntam dramaturgia, encenação e atuação em um mesmo processo criativo. Apesar de abordar a junção entre encenação, dramaturgia e atuação, a ênfase está na dramaturgia. Interessa saber como foi construída a dramaturgia da obra e quais procedimentos foram utilizados no processo criativo. Entende-se por dramaturgia da obra o encadeamento elaborado, propositadamente, na busca de um sentido, não lógico, mas, cinestésico. Lidamos, portanto, com a dramaturgia em seu sentido expandido, como a engrenagem que despertará os sentidos de quem assiste. O conceito das múltiplas dramaturgias de Barba (2010b) serve de embasamento para essa pesquisa, que concebe a dramaturgia orgânica22 como nível de organização do trabalho cênico, na qual as ações dos atores/atrizes são orquestradas para criar um fluxo que visa atingir o cinestésico23 do espectador/espectadora tecendo, assim, a dramaturgia evocativa e a narrativa. Abordaremos a questão mais adiante. 22 Para aprofundar na elaboração da dramaturgia orgânica, ver os trabalhos das atrizes do Odin Teatret descritos em seus livros: VARLEY, 2010; 2016, RASMUSSEN, 2016, CARRERI, 2011. 23 O que estamos chamando de cinestésico é a capacidade humana de perceber o que se passa em volta utilizando os sentidos do corpo: audição, olfato, visão, tato e paladar. Atingir o cinestésico é uma expressão comum que designa o esforçoem envolver o espectador pela sua capacidade de percepção, e não pela capacidade intelectual. 24 Para abarcar a dramaturgia que reverbera para além do momento da apresentação e a dramaturgia que se utiliza de elementos do cotidiano e das relações para se constituir, recorro a José Sánchez, que elabora a ideia de uma dramaturgia no campo expandido. Sánchez vê a dramaturgia como mediadora entre teatro, atuação e drama. Segundo o autor, dramaturgia é a relação entre o espaço da encenação, o trabalho do ator e a articulação do tema. Para Sánchez (2010), a dramaturgia em campo expandido surge como uma interrogação a partir do entrecruzamento dessas linhas de força e não tem a ver com texto falado, e sim, com mediação. Bernard Dort e Joseph Danan vão discorrer sobre a "mentalidade dramatúrgica" (DANAN, 2010) que trata do pensamento que está na gênese do trabalho e diz respeito às escolhas da encenação, o espaço além da cena e o diálogo com o público. E ainda, a esfera imaterial na qual o espetáculo é construído. Essa noção de dramaturgia como “mentalidade” ajuda a entender a dramaturgia como um procedimento e não uma obra encadernada em uma prateleira de livraria. Erika Fischer-Lichte (2008) vai falar de medialidade e co-presença para se referir às mesmas instâncias que são convocadas na criação de sentidos na dramaturgia expandida. Para ela o público também está presente com o corpo inteiro, não apenas com olhos e ouvidos e se relaciona com o que é apresentado não somente com o intelecto. A poética cartográfica tratada aqui foi inspirada na cartografia como recurso metodológico. A cartografia, a partir da proposta de Passos, Escóssia e Kastrup (2009), apoiados em Rolnik (1989), Guattari (1986) e Deleuze (1995) não é considerada um método, mas um “anti-método”. É adotada no nosso grupo de pesquisa, Artes Híbridas: contaminações, intersecções, transversalidades, para abordar processos artísticos e criativos auxiliando no mapeamento das experiências, vivências e impressões dos processos de criação. A cartografia fornece pistas para a abordagem nas pesquisas, ao contrário de impor métodos. Ademais, a cartografia confia na percepção do pesquisador-cartógrafo/pesquisadora-cartógrafa, porque foca no destino sem descartar o percurso e se assemelha ao próprio procedimento de elaboração de uma obra artística. Assim como na experiência poética, o resultado do trabalho é o produto dos procedimentos aplicados. Sendo assim, observa-se que a cartografia pode ser uma estratégia aplicada, também, na elaboração da dramaturgia teatral, tal como no processo de construção de EntreNãoLugares. O conjunto de procedimentos utilizados na elaboração do espetáculo mais a dinâmica de criação das criadoras é o que chamo aqui de poética cartográfica. Utilizo a palavra poética seguindo o conceito que Aristóteles utilizou para se referir à poesia, atualizado por Pareyson (2005) que ampliou o termo para toda produção no campo das 25 artes. Com isso, o termo poética surge como “criação”, “modo de fazer”, de um processo artístico. A poética cartográfica se refere, portanto, à criação de uma obra artística que utiliza a cartografia como estratégia de elaboração e construção. É o que será abordado nos capítulos para sondar os procedimentos utilizados na elaboração de uma poética cartográfica, construída na conjunção dos elementos constitutivos da cena, tendo EntreNãoLugares como campo de experiência. Para compreender como a dramaturgia passou a ser vista para além do texto há uma breve revisão bibliográfica no capítulo 1, partindo do final do Drama Moderno abordado por Peter Szondi. Seguimos com os provocadores Artaud, Brecht e Henry Müller, pelos reformadores Stanislavski, Grotowski e Barba. Observo a dramaturgia que privilegia os procedimentos aplicados na construção da obra, o que vai desembocar no que estamos chamando de poética cartográfica. No capítulo 2 observo a dramaturgia do ator, os procedimentos de sala de ensaio e a partitura de ação como uma ferramenta da dramaturgia para a criação de sentido. Trato ainda do espectador/espectadora como cocriador/cocriadora e da encenação que busca o efeito cinestésico elaborado para ressoar nos campos sensíveis de quem está presente, lidando com seus sentidos físicos, mais do que com o entendimento lógico. Apesar de tratar do espectador/espectadora, este trabalho não pretende lidar com as questões em torno da recepção. O espectador/espectadora é entendido aqui como o receptor/a receptora, para quem a cena é elaborada com o intuito de ser percebida de forma mais abrangente e não como texto falado a ser compreendido logicamente. Será abordado ainda as questões subjetivas que influenciam a criação em sala de ensaio e que conduzem a dramaturgia do espetáculo observando a elaboração de uma poética cartográfica. A cartografia utilizada como metodologia é tratada desde os estudos de Deleuze a partir de conversas com Foucault, quando o conceito recebe a contribuição de Guattari e, mais tarde, Rolnik, até ser atualmente utilizada como estratégia metodológica para abordar campos de experiência e pesquisa artística. A partir dos estudos de Passos, Kastrup e Escóssia surge uma ferramenta de acercamento do tema que pode vir a ser utilizada no processo de construção dramatúrgica. Essa ferramenta metodológica foi utilizada para a composição da dramaturgia de EntreNãoLugares, como dito anteriormente. O campo de experiência é abordado no capítulo 3, onde serão identificadas as questões abordadas nos capítulos anteriores. A experiência vivida na montagem de EntreNãoLugares 26 conflui com a criação de procedimentos utilizados na elaboração das cenas, amalgamando técnica e vivência cotidiana. O interlocutor oculto dessa tese é o estudante de teatro que inicia seus estudos, tanto em atuação quanto em encenação e dramaturgia. As questões discutidas aqui estão se referindo ao teatro de encenação, realizado em um espaço cênico que define, separadamente, palco e plateia. O teatro abordado aqui possui, ainda, funções de atuação e direção previamente determinadas, que elaboram a dramaturgia ao longo do processo de trabalho, concomitantemente com a construção de cenas. É diferente, por exemplo, de um teatro elaborado em criação coletiva no qual todos os integrantes criam em todas as áreas: todos fazem o texto, todos atuam, um dirige o outro. É mais próximo do processo colaborativo24 de trabalho, no qual os integrantes da criação possuem áreas definidas na criação e colaboram a partir de suas áreas. Apesar dessa proximidade, não será abordado aqui o processo colaborativo, e sim, o processo utilizado no teatro laboratório difundido por Grotowski e Barba. Tentar acercar dos procedimentos utilizados em uma construção teatral é uma tarefa que nos aproxima da crítica genética de Cecília Salles (2011), porque é preciso recorrer a registros sobre o processo de trabalho. Nos registros encontram-se os resquícios dos momentos da criação que são apagados pela dinâmica do fazer e são incorporados na obra, por vezes, sem deixar pegadas. Utilizarei, na escrita dessa tese, barras para pontuar os termos masculinos e femininos de uma palavra. Não utilizo a linguagem neutra para não complicar a leitura dos deficientes visuais que utilizam o recurso de voz, mas sinalizo, com isso, a necessidade da inclusão do feminino das palavras por se tratar de uma tese cuja orientanda e orientadora são mulheres e que possui, como campo de estudo, uma experiência que envolveu criadoras mulheres. Infelizmente, criadoras mulheres ainda são poucas na teoria teatral e precisamos agir para mudar essa realidade. Concluo a trajetória no doutorado com uma bagagem volumosa e um mapa aberto nas mãos. Tenho ainda um longo caminho para percorrer, tanto no estudo acadêmico quanto como artista, mas as possibilidades animam a porção caminhanteque existe em mim: que venham os novos caminhos! Como disse Julia Varley na nossa estreia: “esse não é o fim de um trabalho, mas o início de uma jornada”. 24 Para aprofundar no entendimento do processo colaborativo, sugerimos ARAÚJO, Antônio. O processo colaborativo no Teatro da Vertigem. Revista Sala Preta, v. 6, p. 127-133, 28 nov. 2006. 27 1 CAPÍTULO 1: RASTREANDO AS PEGADAS Os processos de criação dramatúrgica contemporânea se distinguem bastante entre si, principalmente no que tange ao modo de fazer e a dinâmica de sua elaboração. A crise do drama, ou da forma dramática, é localizada por Peter Szondi (2001) por volta de 1880, período em que “a crescente complexidade das relações sociais já não cabe no mecanismo do drama absoluto” (FERNANDES, 2001, p. 70). Segundo Sílvia Fernandes, essa crise gerou os precedentes para o que, hoje, observamos nas Artes da Cena: uma profusão de procedimentos dramatúrgicos, modos e tipos de escrituras, que ampliaram o entendimento sobre a dramaturgia contemporânea e suas possibilidades. No entanto, depois de ampliar seus procedimentos de escrita, a dramaturgia passa a ser operada para além da palavra e recebe a contribuição do trabalho do ator/da atriz, da iluminação de cena, do espaço utilizado, ou seja, a dramaturgia expande para ser operada no espaço entre os elementos da encenação. É entendida como um acontecimento, em tempo real, ocorrido nos interstícios do espetáculo e para além do momento da apresentação. De acordo com Jorge Dubatti em seu livro O Teatro dos Mortos (2016), o teatro é um acontecimento no sentido que propõe Deleuze, como “algo que acontece e em que se dá a produção de sentido” (DUBATTI, 2016, p. 27). Ainda segundo ele, o acontecimento excede o texto e a cadeia de significantes de uma compreensão semiótica da linguagem escrita e produz entes em seu acontecer, vinculados à “cultura aurática dos corpos viventes” (DUBATTI, 2016, p. 27). Um processo que começa a ser articulado na confecção e montagem tem seu ápice no ato da apresentação e prolonga sua reverberação com a participação do público, inclusive, depois da apresentação. Para compreender o caminho da dramaturgia contemporânea traçamos aqui uma breve revisão do percurso histórico dos fatos que marcaram os desdobramentos no campo da dramaturgia, lembrando que estamos tratando da dramaturgia praticada no ocidente, mais especificamente na Europa. Essa forma dramatúrgica reverberou para as colônias europeias, chegando dessa forma no Brasil e fundamentando o teatro praticado hoje25. 25 Essa forma dramatúrgica reverberou para as colônias europeias, chegando dessa forma no Brasil e fundamentando o teatro praticado hoje. Por mais que outras teatralidades tenham se imiscuído, o teatro brasileiro ainda é um afluente do teatro perpetuado pela Europa durante o período colonial. ALCÂNTARA, C. N. O Decolonial na pesquisa em artes no Brasil [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018. Disponível em:https://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/10/23/o-decolonial-na-pesquisa-em-artes-no- brasil/#.YMY6vKhKjDc https://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/10/23/o-decolonial-na-pesquisa-em-artes-no-brasil/#.YMY6vKhKjDc https://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/10/23/o-decolonial-na-pesquisa-em-artes-no-brasil/#.YMY6vKhKjDc 28 1.1 A revolução do Drama Moderno Até meados do século XIX, os espetáculos possuíam uma relação forte e estreita com o dramático. Dramaturgia era um termo que servia, exclusivamente, para designar a porção que se referia ao texto escrito. A relação com o dramático consistia em: histórias com enredo e encadeamento causal; diálogo como forma de linguagem; ênfase na ação sem a interferência de um narrador, ou qualquer coisa “fora” da cena; utilização de personagens que “agiam” na história; apresentações ocorridas, preferencialmente, no palco e diante do espectador com o uso do “frontalidade”26 (SZONDI, 2001). A função da dramaturgia era “projetar uma ação dramática que a cena deveria atualizar” (FERNANDES, 2001, p. 73). Ou seja, prescindia de um sentido direto e obrigatório, do autor para a cena. O diretor era encarregado de encenar o que estava no texto escrito, de preferência, sem alterar uma só palavra do que escreveu o dramaturgo: vivia-se o período conhecido por textocentrismo. Melhor dizendo, o texto escrito era o início e o fim de uma representação teatral e a parte mais importante da montagem. Tudo na cena derivava do texto escrito. Quando iniciei no teatro, em 1988, participava de espetáculos montados na escola salesiana e dirigidos pelas professoras de arte. Naquele contexto os textos eram livretos finos na biblioteca, na sua maioria da autora Maria Clara Machado em uma coleção difundida pela Funarte, que copiávamos e distribuíamos entre nós, para ler e reproduzir o que estava escrito. Quando entrei para o Grupo Folhas de Teatro, em 1990, havia o “ensaio de mesa” que consistia na leitura da obra, discussão e compreensão de cada palavra, cada rubrica, cada movimentação de cena. O diretor, eu não conhecia diretoras mulheres, contava com um assistente que ficava com o texto na mão conferindo a fala dos atores: se houvesse alguma alteração, ele corrigia e pedia para repetir. A valorização da palavra escrita, em detrimento do que acontece em cena, como a atuação, a iluminação, cenário e figurino, não faz parte do protocolo do drama e nem é citado por Aristóteles, na Poética. Mas, criou-se uma tradição, alimentada pela elite intelectual francesa, para a valorização do teatro literário em detrimento das comédias, balés, farsas e óperas, mais populares na época. Essa manobra afirmava o poder dos que sabiam ler, no caso, a aristocracia. O textocentrismo, portanto, foi uma prática que acaba por reafirmar o poder do autor-dramaturgo, colocando-o acima de todas as outras instâncias da produção cênica. 26 “Frontalidade” descreve a disposição da cena, de frente para o espectador. Nessa disposição, os espectadores/espectadoras estão dispostos em apenas um dos lados do palco, chamado de “quarta parede”. 29 Esse textocentrismo começa a ser abalado no final do século XIX e início do século XX. De acordo com Szondi (2001), esse é o período em que o teatro passa a assimilar um novo mundo, desmantelado pela Primeira Grande Guerra, e que já vinha abalado desde as Revoluções Europeias. É necessário esclarecer que tratamos aqui do teatro europeu e a partir da Europa. As revoluções, rupturas e reformas acontecem no teatro a partir da história vivida pela Europa e se espalha pelas “colônias” culturais, onde o teatro europeu foi disseminado. Por muito tempo, a Europa ditou as regras do que acontecia no teatro, assim como nas artes em geral, criando um código a ser seguido (MIGNOLO, 2010; 2019) e moldando o sentido estético com o qual experiencia-se a arte. Apesar de não nos atermos às questões da Colonialidade estética, é imprescindível observar que o assunto não está apartado das discussões teóricas atuais, pois boa parte de nosso atual entendimento de arte deriva dos processos de colonização. O que acontece na cena, geralmente, está relacionado aos processos de seu tempo. Nos espetáculos da tragédia antiga havia o prólogo, o coro, o epílogo, e o diálogo dos personagens, como elementos da narrativa. Ao longo dos séculos, os elementos passaram por transformações ficando somente os diálogos dos personagens como elemento condutor da narrativa. O que estava no palco pertencia a um universo paralelo e fictício, fechado na ilusão da “'quarta parede', onde o espectador era um observador que compactuava da 'ilusão do drama'” (LEHMANN, 2007, p. 26). O Drama Moderno rompe com fundamentos bastante rígidos, que até então regiam a cena (SZONDI, 2001). No drama absoluto tudo devia ser mencionado anteriormente para existir como realidade na obra. A criação não podia conter citação ou ser aadaptação de outra obra; o drama devia ser primário (SZONDI, 2001). Da mesma forma, o dramaturgo ou autor27 não podia expor sua opinião, ou ao menos, não deveriam ser explicitadas em primeira pessoa. O drama devia estar sempre no presente e precisa ser uma sucessão de acontecimentos que seguem, gradativamente, para um desfecho. Um acontecimento deve estar conectado ao outro e nada pode fugir desse encadeamento causal. A unidade de lugar era seguida fielmente e só podia haver o local do acontecimento. Tudo o mais devia ser eliminado da consciência dos espectadores/espectadoras. O drama dependia do conflito para a ação se desenvolver e do herói dramático, um resquício do herói trágico, para guiar a linha narrativa, que, por sua vez, era uma sucessão de fatos que geravam outra situação e assim por diante, até o desfecho ou desenlace. 27 Durante esse período, dramaturgos, autores teatrais e diretores eram, majoritariamente, homens. Temos raras mulheres na posição de criadoras de produtos cênicos e mais raras ainda são as mulheres na posição de líderes de companhia teatral. 30 A forma dramática era entendida, portanto, como uma ação que se desenrola através da relação intersubjetiva ocorrida entre os personagens através dos diálogos. Nos interessa aqui acompanhar, nesse momento da história da dramaturgia, o que acontece com a condução da narrativa, quer dizer, como o acontecimento cênico se desenrola em cena, quem conta e se existe alguém na posição de narrador. Para Szondi (2001), o elemento épico invade o dramático e o transforma, como se o épico “elevasse” o dramático. Sarrazac (2017) discorda que o épico venha, de alguma forma, superar o dramático e fala em “desdramatização do dramático”, que consiste em uma “série descontínua de micro conflitos, mais ou menos ligados uns aos outros” (SARRAZAC, 2017, p. 20). Para chegar na desdramatização, Sarrazac segue a trilha traçada por Schiller e sua “teoria do contrapeso”, que “embaralha a fronteira” entre épico e dramático, sendo o momento épico um relaxamento da tensão do dramático. Ou seja, a tensão do Drama move continuamente para frente, os motivos progressivos, e uma força de resistência da poesia épica se impõe, os motivos regressivos (SARRAZAC, 2017). O que nos interessa em relação ao épico é identificar o papel de quem fala, da condução da história. Se, de acordo com Schiller, a tensão do épico está em motivos regressivos que aplicam uma resistência ao movimento progressivo do Drama, pode-se notar que quem conduz a narrativa o faz regredindo na história, ou seja, tratando do que aconteceu. Diferente do Drama no qual a condução da história está na ação dos personagens, quer dizer, no que vai acontecer, conduzindo a história para o futuro. De qualquer forma, a utilização do recurso de lembrar, narrar, relatar, sempre esteve presente nas dramaturgias, em maior ou menor intensidade, e o épico pode ser identificado no teatro medieval, pós-medieval, no Renascimento, no Iluminismo, em Shakespeare e outros. É um elemento que remete aos contadores de histórias, às narrativas históricas e à relação que nós, humanos, temos com a conversa em torno da fogueira. Por isso, a discussão sobre a desdramatização do drama pelo épico, ou a invasão do épico no drama é irrelevante, já que são recursos de se contar uma história: ora é possível identificar quem conta, e ora a história se passa diante de quem a acompanha. 1.2 Os reformadores da virada do século A revolução que ocorre no teatro, na virada do século XX, é uma mudança na abordagem do texto teatral. Quando autores, como Tchekhov, passam a dissociar o que o 31 personagem diz daquilo que ele faz em cena cria a “conversação”, diferente de “diálogo”, como comenta Silvia Fernandes: Nem é preciso dizer que a peça de Tchekhov abre espaço para uma interpretação sujeita a amplas variações. As constantes divergências do dramaturgo com Stanislavski a respeito da montagem de seus textos são mais uma prova da instauração da polifonia significante a que Bernard Dort se refere quando analisa o teatro contemporâneo. (FERNANDES, 2001, p. 73). O texto de Tchekhov possui diálogos que tratam de trivialidades, aparentemente desconectadas do todo, sem grandes acontecimentos, com maior potencial de sugestão do que de ação. Isso leva Peter Szondi (2001) a dizer que o texto de Tchekhov é uma negação da própria forma dramática. É possível pensar que foi essa “brecha” no texto de Tchekhov que permitiu o trabalho de Stanislavski, que por sua vez inaugura, com suas pesquisas e metodologia, o trabalho das ações. Esse trabalho é baseado na atuação e exige um aprofundamento nas técnicas do ator. Com Tchekhov, os personagens aparecem conversando um “outro diálogo”, como chamou Maeterlink, dizendo que “a qualidade e a extensão desse diálogo inútil é que determinam a qualidade e o alcance inefável da obra” (MAETERLINK, apud SARRAZAC, 2018, p 18). É necessário constatar que o “outro diálogo” ocupa hoje um lugar considerável nos textos teatrais e que já não se limita, como nos tempos de Maeterlinck, a expressar o “inefável”. Quando Nathalie Sarraute institui como diálogo teatral o que na verdade é tão somente a “subconversação” ou o “pré-diálogo” entre seus personagens, ou quando Michel Vinaver desnaturaliza e transfigura — por meio da despontuação, por meio da descronologização e por meio do jogo da repetição-variação... — a palavra hegemônica, estamos perante “outro diálogo”, um diálogo de segundo grau e um diálogo mediatizado que se impõe em cena. (SARRAZAC, 2018, p. 18-19). Considerando que o diálogo é, por si só, a relação entre personagens falantes de um texto, temos, na observação acima de Sarrazac, uma expansão da relação dialógica. Com isso, o diálogo se amplia para, além de expor a relação entre personagens, revelar também sua mediação. A relação é expandida, pois deixa de ser embasada pelas palavras e passa a ser ampliada pela relação que há entre os personagens. Falar o que se quer dizer, para além das palavras, expandindo seu significado, era o desejo de Antonin Artaud. Artaud é, de todos os reformadores, o que deixou um legado mais impactante por ter mudado a forma do Drama. Além disso, ele definiu uma dimensão política para o que fazia, transformando em arte o seu dilema psíquico28. Ele questiona a sujeição do teatro à palavra e 28 Antonin Artaud (1896-1948), ator, diretor e poeta francês, foi diagnosticado como louco e internado, seguidas vezes, no manicômio, de onde denuncia seu sofrimento e desenvolve suas teorias mais expressivas. 32 pergunta se o teatro não teria uma linguagem própria (ARTAUD, 2006), como uma arte independente da literatura. Para ele, a encenação era uma linguagem que podia estar além das palavras. Quanto à linguagem da encenação considerada como linguagem pura, trata-se de saber se ela é capaz de atingir o mesmo objeto interior que a palavra; se, do ponto de vista do espírito e teatralmente, ela pode pretender a mesma eficácia intelectual que a linguagem articulada. Em outras palavras, é possível perguntar se ela pode não precisar de pensamentos, mas fazer pensar, se pode levar o espírito a assumir atitudes profundas e eficazes de seu próprio ponto de vista. (ARTAUD, 2006, p. 76). O ponto que Artaud toca é a questão do logos na cena. Isto é, o fato de o teatro reforçar a ênfase na sua capacidade de produzir sentido no intelecto, não só do espectador, mas antes disso, do ator, do diretor e de todos os profissionais envolvidos na obra. O que estamos chamando de logos da cena, se refere à capacidade do texto de trabalhar o sentido a partir das palavras. O discurso, baseado em diálogos, força o espectador a compreender o sentido das palavras do texto, intelectualmente. Artaud contesta esse peso dado ao intelecto, assim como muitos artistas depois dele: o teatro precisado discurso? Durante meu início de carreira no teatro, me recordo da necessidade que eu e meus colegas tínhamos de ter o que dizer. Quando não tínhamos texto parecia que não havia o que fazer em cena. Nessa época, o acontecimento estava na história contada, no enredo e no encadeamento causal e o texto apresentava tramas tão bem ajustadas que quando algo era mudado havia uma alteração grande da ordem. Não só os acontecimentos, mas as questões discutidas no tema estavam apoiadas nas palavras. Quando o ator ou a atriz mudava algo das palavras ou incluía um “caco”29 na cena, alterava o sentido do texto ou deixava perder algum significado importante. Para Artaud, não é função do teatro resolver conflitos sociais ou “servir de campo de batalha para paixões morais”. Mas sim, expressar as verdades secretas “refugiadas sob as formas em seus encontros com o Devir” (ARTAUD, 2006, p. 77). Artaud pretendia transcender as palavras através da própria potência teatral e apontou o corpo como caminho dessa possibilidade. Brecht, outro grande reformador da dramaturgia, trabalha o logos da cena a favor da ideologia de seu momento histórico. Ele se apropria de elementos da tragédia antiga, como prólogo, epílogo, coro, entre outros, resultando em uma eficiência maior no campo político dialógico. Brecht nomina seu formato de Teatro Épico, em contraposição ao Teatro Dramático, no qual a cena é narrada e o espectador se torna testemunha do que presencia. Através do 29 Nome dado a uma fala, geralmente curta, usada como recurso da atuação para se adequar ao texto. 33 Verfremdungseffekt (Efeito de Distanciamento), Brecht propõe elementos que contestam a relação entre a cena e o espectador que a assiste promovendo a reflexão crítica.30 O teatro de Bertolt Brecht é direcionado a um público que reage como coletivo. Brecht pretendia que essa reação fosse, “ao mesmo tempo, interessada e descontraída” (BENJAMIN, 2000), quer dizer, a ideologia estava diluída na potência de entreter, herdada dos cabarés alemães que tanto o inspiraram. Portanto, Brecht também desloca o logos de lugar, porque em seus espetáculos o ator não dizia em palavras o que estava querendo dizer. As palavras possuíam um significado semântico, mas a forma com que eram ditas e como eram empregadas mudava todo seu contexto. Também nas peças de Beckett a dissociação entre texto e cena foi bastante explorada. Beckett rompe com a ação e desloca elementos importantes para o drama, como personagem, diálogo, conflito, palavra, entre outros. Beckett retratava o ser humano estilhaçado pelas guerras mundiais e a elaboração de sua obra corresponde ao que ele vivenciava em seu tempo. A dissociação entre texto e cena no teatro de Heiner Müller, que viveu o período posterior a Segunda Guerra Mundial em uma Alemanha novamente devastada, aparece também no texto escrito, que se apresenta aberto, sem princípio ou fim, não linear e atemporal, como fragmento, sem desfecho ou causalidade. Ele adota uma estratégia de narrativa não linear e intertextual que intensifica a potência política da cena31 e deixa transparecer sua visão sobre os acontecimentos de seu tempo na forma como trabalha os elementos narrativos em sua obra. Além desses dramaturgos, acrescento à essa brevíssima lista dois reformadores que, a partir da cenografia e iluminação, promoveram grandes mudanças para a encenação: Edward Gordon Craig (1872-1966) e Adolphe Appia (1862-1928). Eles contribuíram para a dramaturgia a partir de outras materialidades, que não o texto teatral, incrementando, assim, a cena. Ambos utilizaram o espaço e a iluminação para derrubar os ditames do teatro realista e abrir caminho para a sugestão trazida pelos Simbolistas32, que vão preferir uma cenografia mais sugerida e menos decorativa. Appia criou para suas cenas palcos giratórios, plataformas móveis, modificou a relação com as escalas métricas. Craig foi o primeiro encenador a utilizar a iluminação elétrica em uma apresentação teatral. 30 Para a diferença entre Teatro Épico e Teatro Dramático sugerimos a leitura de BRECHT, Bertold. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. 31 Para ler sobre o teatro de Heiner Müller recomendamos ROHL, Ruth. O Teatro de Heiner Müller. São Paulo: Perspectiva, 1997. 32 Para aprofundar nessa questão recomendamos AZEVEDO. Maria Thereza de Oliveira. Sugestão e Ambiguidade: Substratos do movimento simbolista no teatro e no cinema do tempo presente. Polifonia, Cuiabá, v. 18, n. 24, p. 83-98, jul./dez. 2011. 34 As contribuições de Craig e Appia foram, entre tantas, pensar a cena a partir de uma instância que não era a dramaturgia textual. E mais, operar, como encenadores, a dramaturgia a partir do cenário e da luz. Com isso, eles elevam o status dos elementos da cena que estavam, por bastante tempo, inferiorizados nas suas funções práticas: o cenário só oferecia o suporte para o ator e ambientação, enquanto a luz servia apenas para iluminar o ator. Depois de Craig e Appia, cenário e luz não podiam ser considerados, apenas, elementos de suporte. Se tornaram parte da dramaturgia. Recordo-me que, nos espetáculos onde trabalhei em Cuiabá no início da minha carreira no teatro, só conhecíamos o iluminador no dia da estreia no teatro. Mas, no Grupo Folhas de Teatro33 tínhamos iluminador e sonoplasta como integrantes do grupo e era comum eles estarem presentes nos ensaios participando da criação dos espetáculos. Essa presença, invariavelmente, resultava em planos de luz mais ousados, interações sonoras e uma pesquisa mais intensa em cada área. Certa vez, uma cena na qual eu atuava foi subitamente interrompida pelo Ney Cartaxo, iluminador do grupo. Ele disse: “espera aí, você vai subir no banco nessa hora?”; no plano de luz que ele estava idealizando o meu movimento ficaria no escuro. Em outra ocasião, em um trabalho coletivo de vários artistas, eu recitava um poema e o diretor queria microfone de lapela para os declamadores. Na hora Lourivaldo Rodrigues, o sonoplasta do Grupo Folhas e contratado do projeto, disse: “Não vai funcionar. Juliana faz um grito nessa cena e se ela gritar com microfone de lapela, todos vão ficar surdos. Vou sonorizar diferente”. O fato dele conhecer a cena fez toda diferença. 1.3 O narrador, o sujeito rapsódico34 e a autoficção Quando a cena trabalha na chave do épico, ganha um elemento que contribui para “abrir” a estrutura do drama, até então, fechada em si mesma: o narrador. O que estamos chamando de “chave do épico” aqui são os elementos regressivos em maior intensidade do que os elementos progressivos, ou seja, uma narrativa que conta, ao invés de agir. O narrador é um interlocutor para o púbico e intermedia a história, atestando-a ou contestando-a, mas, principalmente, oferecendo sua presença em nome do engajamento do 33 Grupo Folhas de Teatro foi criado em 1980 pelo diretor e dramaturgo Justino Astrevo Aguiar, em Cuiabá/MT. 34 De acordo com Sarrazac (2012), o sujeito rapsódico apresenta-se como um “sujeito dividido”, que está ao mesmo tempo dentro e fora da ação. 35 espectador com o que é narrado. O narrador está diante da plateia como os griôs35 diante da comunidade. São, antes de tudo, testemunhas: contam o que sabem. O narrador, do qual trata Benjamin (2000) é, basicamente, uma testemunha do que é narrado, quando não é o próprio personagem da história. Benjamin trata dos narradores das histórias de marinheiros, comerciantes ou camponeses sedentários: os tipos de narradores existentes, segundo o autor. Ou seja, contam o que viveram e o que lhes contaram. Esse narrador faz parte, portanto, da continuidade da história. Além disso, a figura do narrador trabalha com a imaginação do espectador. Enquanto o narrador narra um fato, o contexto, o cenário, a sequência de ações está a cargo das palavras do narrador. Ao espectador cabe ouvir e se deixar levar participandocom sua imaginação na construção do que é narrado. O fim do século XIX foi momento de muitas mudanças na forma como os autores lidavam com os textos teatrais. Uma dessas é chamada de “virada rapsódica” por Sarrazac (2012), e de “novelização” por Joseph Danan (2010). Segundo eles, o drama entrou em competição com o romance sem abandonar a teatralidade, resultando em uma alteração das didascálias que se tornam, por sua vez, extensas. A narração e a descrição ganham força ao passo que o diálogo se enfraquece. Nesse momento da história do teatro os textos apresentam contaminações na unidade de tempo apresentando constantes retornos ao passado, revisitações de memórias, atitudes reflexivas, interrogativas, panorâmicas. A partir disso, o autor passa a “atribuir a si mesmo a função de maquinista perante essa volta no tempo” (SARRAZAC, 2018, p. 17) e multiplica suas intervenções se colocando entre o palco e a plateia. Uma contribuição importante da figura do narrador é unir palco e plateia, o que Szondi (2001) reconhece como “sujeito épico” e Sarrazac (2018) como “sujeito rapsódico”. Sarrazac se recusa a utilizar o termo “épico”, como fez Szondi, para evitar a ideia de que o teatro dramático é superado dialeticamente pelo teatro épico, alfinetando as teorias de “morte do drama”, de Adorno a Lehmann. Para Sarrazac, o épico e o dramático são elementos que equalizam a progressão regressiva e progressiva da narrativa; elemento rapsódico aparece no texto para “costurar” os diferentes modos poéticos: lírico, épico, dramático, argumentativo. Segundo Sarrazac, o narrador é um “costurador de vozes”, um mediador que se coloca entre a cena e o público sendo, ao mesmo tempo, agente e testemunha. Esse fenômeno abala o diálogo, que deixa de ser lateral, entre personagens, e passa a ser heterogêneo e multidimensional. 35 Palavra derivada do francês griot que denomina o contador de histórias tradicionais da África Ocidental, detentores dos conhecimentos sagrados do povo. 36 Com o sujeito rapsódico temos um discurso mais fragmentado, cheio de polifonia e intertextualidades, com um ritmo maior de transferências entre cena e público, mesmo que ligado à fábula e com o compromisso de contar uma história. A diferença entre o narrador e sujeito rapsódico é a forma como media o acontecimento entre palco-plateia. O narrador é um sujeito autodenominado, que assume a função de narrar sabendo que é o responsável pela condução da história. O sujeito rapsódico por sua vez, media porque se vê nessa posição. Seu compromisso é com o espectador na sua frente, mais do que com o que está sendo narrado. Ao mesmo tempo, o sujeito rapsódico está mergulhado na narrativa que ele intermedia a partir do seu papel na história. Quando o teatro deixa de estar centrado nas noções de fábula e narrativa para começar a valorizar a experiência, Óscar Cornago Bernal (2018) identifica elementos para adotar a “confissão como estratégia cênica”. Reconhece, com isso, o potencial da presença do corpo como testemunha de um acontecimento para o vislumbre do “real”. Um passado que vem para o presente, ou seja, o narrador conta agora o que aconteceu antes, sendo que toda narração é sobre algo que já aconteceu, mesmo que tenha acontecido no segundo anterior. Essa narração é na primeira pessoa e se caracteriza como depoimento, narrativas de si, não mais como reprodutor do acontecimento; não se trata do que viu, mas do que viveu. Nessa manobra dramatúrgica o personagem dá lugar ao sujeito real da ação, ou à testemunha viva de um acontecimento, trazendo para a cena um pedaço de realidade que vai impactar o relato. O corpo que testemunhou, viveu, experienciou, é um corpo potente. Além disso, o narrador aciona a capacidade imaginativa do espectador e não está narrando sozinho: o espectador é um coautor do que está sendo narrado, pois atua na história através de sua imaginação. Quando o espectador imagina o que é narrado preenche as lacunas deixadas pelas palavras do narrador com elementos muito particulares de sua própria vivência. Por isso, a imaginação tem capacidade, também, de acionar as memórias sensitivas e potencialidades criativas do cérebro. Em outras palavras, aciona seu potencial cinestésico porque desperta os sentidos associados à experiência, tanto a que presencia quanto a experiência que reverberou em sua memória. 1.4 O século XX e o “Novo Teatro” O mundo que sobreviveu às duas grandes guerras não era o mesmo que havia produzido o Drama Burguês. O teatro, então, precisava urgentemente de mudança de paradigma para 37 conseguir acompanhar a transformação ocorrida em seu tempo e a mudança ocorre, principalmente, nos procedimentos de construção das criações teatrais e na relação entre os artistas criadores. O que é chamado de “Teatro Novo” surgiu na segunda metade do século XX empurrado pelos movimentos sociais e políticos de artistas que precisavam “mudar o mundo”. São grupos, coletivos e trupes como o Living Theatre, Bread and Puppet Theatre, San Francisco Mime Troupe, o Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski, Teatro de La Candelária, as propostas capitaneadas por Peter Brook e o Odin Teatret de Eugenio Barba, somente para citar alguns exemplos. Esse “movimento” foi constituído, basicamente, por grupos de artistas que possuíam, em sua prática teatral, pelo menos uma dessas características: resistência ao uso de texto teatral, interesse pelo trabalho do ator, tendência à experimentação de cena, prática da pesquisa de materiais e técnicas corporais que testavam exaustivamente em “laboratório”, além de uma inclinação à esquerda política. Aqui se propaga a prática teatral conhecida como teatro laboratório, que foi criada em outro contexto, mas foi apropriada por coletivos de artistas na metade do século XX em diante. O movimento que começa a acontecer nessas iniciativas de grupo é a horizontalização da criação teatral, onde os princípios seguidos pelo grupo auxiliavam na criação de uma ética que partia da singularidade do coletivo de artistas. O convívio cotidiano, em maior ou menor grau, vivenciado pelo grupo incluía coletivização de tarefas e práticas de treinamento de longo prazo. Essa prática fez crescer o trabalho, principalmente, dos atores e diminuiu o “poder” do autor nas criações artísticas que construíam juntos. Ainda havia a figura do diretor, mas esta já estava borrada pelo papel de encenador na criação, ou seja, mais do que guiar o trabalho, o encenador passava a “fazer acontecer” a criação na qual todos participavam. Nesse período histórico é comum ver a figura do encenador, em grande maioria homens por uma questão histórico-social, tomando a frente do dramaturgo e passando a valorizar a cena além do texto escrito. Em sua primeira montagem com o Odin Teatret, Ornitofilene (1964), Eugenio Barba partiu do texto do escritor norueguês Jens Bjørneboe para criar um espetáculo que tinha como tema principal os efeitos da guerra e do colonialismo para as comunidades colonizadas. No caso desse espetáculo em particular, Barba teve o aval do autor e, inclusive, sua colaboração para a adaptação e apropriação do texto. Mesmo assim, conta que o autor ficou por diversas vezes surpreso com o rumo que a obra tomava durante sua montagem. O autor não interferiu no trabalho do encenador porque se tratava de suportes diferentes: na época ambos entenderam 38 que o texto era uma literatura que o encenador transformava em teatro. Havia, portanto, uma permissão mútua de apropriação da obra para transformá-la em cena. Além da apropriação de obras que não eram escritas originalmente para o teatro, o período considerado como ‘Teatro Novo” trouxe mudanças na forma de lidar com o conhecimento desenvolvido dentro do grupo. Começa a surgir uma preocupação em sistematizar o trabalho do ator e difundir técnicas em formatode simpósios, oficinas, seminários direcionados, encontros e festivais. Mais do que nunca os artistas passam a se encontrar, trocar técnicas e práticas, aprendendo um com o outro. O intercâmbio dissemina o teatro de grupo como núcleos de experimentação e potencializa a postura política ideológica do teatro. Alguns desses grupos conseguem apoio financeiro ou logístico de seus governos para continuarem existindo. A consequência disso é a possibilidade dos grupos se dedicarem às suas pesquisas sem a urgência da sobrevivência. Por outro lado, esse fato requer que o trabalho artístico seja justificado perante uma municipalidade que paga impostos e “sustenta” os artistas. Acredito que esse fator é crucial para incentivar atividades que acabam por propagar as técnicas criadas no interior dos grupos e na materialização dessas práticas em livros e revistas de teatro. A necessidade de explicar sua arte fez esses novos reformadores recorrerem à teorização. Em parte, para justificar suas atividades para os financiadores de seus trabalhos. Mas também, para fazer frente às escolas de teatro que já surgiam na Europa e Estados Unidos obrigando a reconfiguração do ofício teatral que, por muito tempo, foi considerado um campo autodidata e diletante. Os encenadores desse período, para reafirmarem seu ofício como profissão, criam seus próprios métodos e saem em busca de fontes de inspiração em outras áreas das artes, em outras disciplinas, em outros países: a regra era diversificar. Até então, o que se aprendia nas escolas de arte diziam respeito à esgrima, ginástica rítmica, canto lírico, que eram um excelente preparo para os dramas de capa e espada, mas, não ofereciam suporte para o que pretendiam os novos encenadores e encenadoras no teatro. Partindo da necessidade de criar meios para resolver questões da cena, os encenadores acabaram por ampliar o espectro do estudo teatral e passaram, eles mesmos, a inventar seus procedimentos de criação artística. Isso aconteceu com o Living Theatre, La Candelária, Odin Teatret e com o teatro de Peter Brook e Ariane Mnouchkine. 1.5 A dramaturgia contemporânea Quando observamos o que acontece em certos espetáculos contemporâneos, em relação a sua dramaturgia, percebemos que a dramaturgia não pode mais ser entendida como sendo um 39 texto escrito e nem tampouco a encenação final. Dramaturgia é todo o processo. Se continuarmos a olhar a dramaturgia por seu resultado, quer seja texto ou cena, veremos uma multiplicidade tão grande de espectros que podem entorpecer a observação e confundir o juízo de quem busca entender o que se passa na cena atual. Nas palavras de Sílvia Fernandes: Pois tudo o que aparecia até o final do século XIX como marca inconfundível do dramático, como o conflito e a situação, o diálogo e a noção de personagem, torna-se condição prescindível quando os artistas passam a usar todo tipo de escritura para eventual encenação, na tentativa de responder às exigências de tema e forma deste final de século. (FERNANDES, 2001, p. 69). Sendo assim, observando a dramaturgia contemporânea pelos seus procedimentos e não por sua forma é possível observar que existe um padrão que une grande parte da produção cênica atual. José da Costa (2009) nomina de escritura cênico-dramatúrgica a composição que considera o que se passa no texto e na cena, mesmo que inscrita no corpo e não no papel. O termo reflete, por extensão, um outro tipo de teatro: elaborado em parceria, que transcende noções de autoria, possui temas pertinentes ao grupo e suas localidades, que parte da criação do ator/atriz e é construída na fricção criativa do grupo, no calor e atrito do processo de montagem. Portanto, uma dramaturgia cheia de arestas, rizomática, fragmentada, mais distante da escrita literária, que caracteriza uma dramaturgia autoral, e mais próxima da escritura de registro, comum na escrita de processos. Para ele, a dramaturgia diz respeito "a um campo de mediações intertextuais, intertemporais, intersemióticas, interartísticas e/ou intermídias", que a vertente teatral abordada parece priorizar como seu "território preferencial, um território limítrofe e intersticial"(DA COSTA, 2009, p. 33). Isso quer dizer que a dramaturgia é o que acontece “entre”, na relação dos diversos elementos convocados para a criação da obra. Apesar de identificar a dramaturgia por sua característica de mediação, Da Costa ainda considera a dramaturgia por sua relação com o texto quando chama a cena de "escritura". Mesmo se tratando de uma escrita do corpo no espaço, tratando de “escritura” aos moldes do proposto por Derrida, a palavra tem relação com texto: escrever, escriturar. A utilização dessa palavra reforça que o texto pode deixar de ser escrito e repetido em cena, mas ele vai estar “inscrito” na cena de alguma forma. A questão aqui é tentar pensar na dramaturgia além do texto e consequentemente, para além da obrigação com o sentido lógico que o encadeamento causal requer. Transbordada do texto, a dramaturgia é operada por outros elementos, perceptíveis e invisíveis. 40 De acordo com a prática de escritura cênico-dramatúrgica da qual Da Costa se refere, a hierarquia entre texto e cena se desfaz. O dramaturgo/dramaturga do processo, quando o processo possui tal, antes acostumado ao trabalho solitário “do gabinete”36, se torna um auscultador da prática teatral. Vai a campo com o elenco, desenvolve técnicas de registro de experiências e passa a considerar toda intervenção como sendo “texto” em cena. Assim, cria tecnologias para organizar o material acumulado avançando na área da intertextualidade, da polifonia, da contaminação e tantas mais. Não há limite para o que pode vir a acontecer depois que a dramaturgia passa a ser entendida como um campo aberto. Quando a fronteira texto e cena é borrada surge uma nova denominação para a função do dramaturgo/dramaturga: dramaturgista. Aportuguesado do alemão dramaturg, a palavra deriva da função criada por Gotthold Ephraim Lessing37 para nominar o escritor que colabora com a obra, ao invés de escrever a obra. Em seus textos, Lessing comenta as obras, traz informações adjacentes e questiona criticamente os espetáculos do Teatro Nacional de Hamburgo, onde trabalhou como dramaturg. Em busca de um teatro verdadeiramente alemão, Lessing refutou o modelo utilizado na época, que importava da França os textos e a encenação, exigindo que a Alemanha tivesse sua própria representação nacional tratando dos temas pertinentes ao país. O dramaturg, nesse caso, é um consultor literário que interfere na obra, se apropriando do texto para torná-lo mais próximo de seu público. Na Europa, a figura do dramaturg é conhecida desde então, mas no Brasil só apareceu no fim do século XX e reacendeu o trabalho das companhias e grupos teatrais, como o Teatro Oficina, Companhia de Ópera Seca e Teatro da Vertigem, entre outros. Para essas companhias, dramaturgista não escreve o texto: o constrói. Juntamente com o encenador/encenadora, os atores/atrizes e outros colaboradores, o/a dramaturgista articula os temas organizando e desorganizando estruturas, sugerindo enunciados que serão trabalhados pela atuação e/ou associando o trabalho a outras instâncias temáticas. Portanto, o/a dramaturgista constrói a dramaturgia a partir da cena, e não antes, como faz o dramaturgo/dramaturga. Essa é a principal diferença entre as duas funções. Aos poucos, o teatro se distancia da literatura surgindo a compreensão de texto escrito e texto da cena, o que Josette Féral (2008), a partir de uma designação de Richard Schechner, 36 “Dramaturgo ou dramaturga de gabinete” é uma expressão comum no meio teatral para se referir ao escritor de peças de teatro que trabalha sozinho. 37 LESSING. Gotthold Ephraim. Dramaturgia de Hamburgo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005. 41 vai chamar de "texto" o queé escrito e "texto performativo" o que é da cena. Ou seja, tudo é considerado “texto”: o que se passa no palco ainda está atrelado à termos da literatura. De qualquer forma, ao definir o que se passa na cena por “texto performativo” os teóricos assumem que a dramaturgia passa a acontecer de forma a transbordar para a cena o que antes estava confinado ao texto escrito. Nas palavras de Féral: De fato, seria adequado dizer que os dois termos desta distinção – “texto” e “texto performativo” – representam os dois polos entre os quais oscilam atualmente as encenações no seu uso do texto e que o teatro, segundo os encenadores, as épocas e a estética teatral do momento, tem oscilado – e oscila sempre – de um extremo ao outro. [...] A distinção entre um teatro baseado no texto prévio que lhe serve de matriz para a encenação e um teatro em que o texto significativo é apenas o texto performativo, representa, demasiado bem, intuitivamente, a diferença entre “teatro tradicional” e o “novo teatro.” (FÉRAL, 2015, p. 250). O embate entre o texto e o texto performativo cria um jogo de dissonâncias e complementaridades que ocorrem, precisamente, diante do espectador. Por vezes, esse embate provoca sobreposições de um e outro criando um fenômeno que Lehmann chamou de "parataxe", onde o "texto será considerado apenas como elemento, camada e material da configuração cênica, e não como regente desta configuração" (LEHMANN, 2007, p. 19). Parataxe é um termo de origem bélica que exprime uma disposição específica da tropa no campo de batalha: lado a lado. Também é traduzido, por vezes, como “comparação”. Quando usado em relação aos textos, tanto o texto escrito quanto o texto da cena, a palavra parataxe remete à comparação, embate, movimento coordenado, que significa que estão em "pé de igualdade" e possuem a mesma importância. Apesar do termo de origem grega nunca ter sido relacionado ao vocábulo poético ou iconográfico, o conceito foi muito utilizado para se referir às obras homéricas, para designar uma elocução “não orgânica”, ou melhor, não caracterizada pela dependência dos enunciados. Por outro lado, José Sánchez (2010; 2019) elabora a ideia de uma dramaturgia no campo expandido, também podendo ser entendida como um espaço mediador entre teatro, atuação e drama. Para Sánchez, a dramaturgia em campo expandido surge como uma interrogação a partir do entrecruzamento dessas linhas de força e não tem a ver com texto, nem tampouco, com escritura, o que abordaremos mais adiante. 1.6 A contribuição das artes visuais Muita coisa acontecia nos anos 1960 no mundo político, com quedas de governos e imposições de novos regimes. Na sociedade, as mudanças de paradigmas e no mapa mundial, 42 a criação e anexação de novos territórios, além do avanço da globalização e o fortalecimento do capitalismo mundial, somente para citar alguns eventos. Alguns artistas visuais processaram essas mudanças de forma imagética e impactante, não mais aceitando os moldes estagnados dos materiais plásticos e partindo para as experimentações físicas corporais. Criaram, com isso, o happening e a performance. Artistas como Alan Kaprow, Joseph Beuys e John Cage alargaram seu alcance artístico e tornaram suas obras mais contundentes e de acordo com o tempo que buscavam questionar, como comentam Fernandes e Isaacsson: No período, os eventos de Cage e Merce Cunningham, o movimento Fluxus, as experiências radicais de Beuys e os environments imersivos surgem como formas artísticas que usam a teatralidade material do espaço e a corporeidade real do performer para projetar um campo expandido de corpos, objetos, encenações visuais, escultóricas e sonoras de difícil identificação. (FERNANDES; ISAACSSON, 2016, p. I). Em 1979, a ensaísta Rosalind Krauss, em seu artigo A escultura em campo ampliado38 (1984), se referiu a um certo rompimento com determinadas especificidades do Modernismo que estava fazendo surgir obras nas quais as fronteiras entre arte, ciência e tecnologia deixavam de existir. Provavelmente Krauss tomou o termo utilizado por Gene Youngblood em seu artigo Expanded Cinema, de 1970, que tratava das possibilidades do cinema experimental com o uso de várias telas para projeções simultâneas em tempo real que, por sua vez, retoma o termo utilizado em 1966 pelo vanguardista do vídeo-arte Stan Vanderbeek para se referir ao seu trabalho. Ou seja, arte expandida é um termo que nomeia a arte que amplia seu suporte e forma. Ao borrar a fronteira entre ficção e realidade, as experiências dos performers provocam no teatro uma "irrupção do real" (LEHMANN, 2007). Experiências como as de Allan Kaprow, Bruce Naumann e Chris Burden, entendidas como "ações da vida real", o teatro documentário de Erwin Piscator e tantas outras experiências convocam o teatro a soltar suas amarras e transpor o limite entre ilusão e realidade. 1.7 Dramaturgia expandida Bernard Dort e Joseph Danan vão discorrer sobre a "mentalidade dramatúrgica" (DANAN, 2010) que trata do pensamento que está na gênese do trabalho. Esse pensamento vai embasar as escolhas da encenação, o espaço além da cena e o diálogo com o público. E ainda, a esfera imaterial na qual o espetáculo é construído. É a dramaturgia sendo encarada como 38 Tradução de Elizabeth Baez do original Sculpture in the Expanded Field, originalmente publicado em The AntiAesthetic: Essays on PostModern Cultura, Washington: Bay Press, 1984. 43 processo. Joseph Danan dizia que a dramaturgia nada mais é do que o "pensamento do teatro" seguindo seu curso, o que coloca o teatro, ao mesmo tempo, como objeto e como sujeito do pensamento (DANAN, 2010, p. 120). A questão principal aqui é que o entorno do produto cênico e os eventos que estão na gênese de sua criação são também entendidos como parte de sua dramaturgia, visto que interferem, contaminam e contribuem para moldar os elementos teatrais constituindo um material amalgamado e inerente ao material cênico. Danan (2010) elenca três polos que se colocam em relação para formar a dramaturgia, que são: a ação, o teatro e o pensamento. Nesse sentido, a dramaturgia é a "circulação de energia" que emana dos três polos enquanto em relação. O problema dessa afirmação é que centraliza o acontecimento teatral na sua capacidade de produzir significado inteligível, novamente assentando a ideia da dramaturgia no logos, isto é, na sua habilidade de produzir sentido de entendimento lógico. Mas, por outro lado, trata da dramaturgia como uma relação entre polos. Talvez já possamos entender que a dramaturgia é a ordenação, proposital ou não, de elementos que se tornarão signos quando colocados em relação. Isso quer dizer que, não só a dramaturgia não é inerente ao teatro, somente, como também não acontece unicamente quando podemos controlar o seu entendimento racional. Algo se move por debaixo da superfície da obra que se parece com um encadeamento causal, feito de ações e reações, que é construído pelas relações intersubjetivas dos envolvidos no trabalho. Os efeitos disso respingam no material poético tornando-se parte da obra. São fragmentos de vida comum que colam o artista a seu trabalho sendo impossível, às vezes, separar o que é obra e o que é artista. É um fenômeno que a dramaturgia contemporânea conhece bem, quando o trabalho artístico deixa de ser puramente técnico e passa a ser parte da existência, como se o ethos e o páthos ganhassem força na medida que o logos desinfla39. Isso é compreensível visto que a retórica, como colocada desde Aristóteles, é atualizada pelas necessidades do tempo presente. Portanto, não é uma coisa ou outra que se desloca de eixo quando falamos de dramaturgia contemporânea, um elemento da linguagem ou um novo procedimento de execução, como visto anteriormente. O que se desloca é todo o paradigma. Estamos lidando com uma ampliação do campo de operaçãodo artista. Para a concepção expandida, reforçada pelos performers, só vai 39 Originalmente do grego, o ethos é o conjunto de costumes, valores e hábitos fundamentais para a sociabilização. O páthos se refere ao sentimento de empatia em relação a algo. Enquanto que o logos é o conjunto de leis racionais. 44 ser arte se envolver todos os sentidos do corpo e tomar a vida toda dos seus criadores. Caso contrário é um ofício vazio e sem engajamento. A performance traz para o teatro a consciência do “corpo-em-experiência” e a criação de programas performativos, como aborda Eleonora Fabião (2013). O corpo-em-experiência tem ligação com o “corpo-sem-órgãos40” de Artaud e com o “corpo-em-vida” de Eugenio Barba. Na performance, a desconstrução da representação acontece no momento do ato performativo através de um programa que se torna o "motor" da experimentação, como elucida Fabião: Programa é motor de experimentação porque a prática do programa cria corpo e relações entre corpos; deflagra negociações de pertencimento; ativa circulações afetivas impensáveis antes da formulação e execução do programa. Programa é motor de experimentação psicofísica e política. Ou, para citar palavra cara ao projeto político e teórico de Hanna Arendt, programas são iniciativas. (FABIÃO, 2013, p. 4, grifo da autora). O performer, ou a performer, ativa e exercita seu corpo sem órgãos para "escovar a contrapelo", como costuma dizer Fabião, e bagunçar os limites entre Corpus e Socius, ou seja, promover política e experimentação. No programa o performer elabora o que será feito, como será feito e cumpre, com uma disciplina férrea, o que foi determinado. Entre os programas performativos citados por Fabião, estão os de: Francis Alys (2000), que empurrou um bloco de gelo pelas ruas da Cidade do México até seu total derretimento; Theching Hsieh (1978/1979), que se trancou por 365 dias e noites em uma cela e entregou a chave a um advogado que documentou toda ação, sem qualquer item de distração e sem se comunicar com ninguém; William Pope L. rastejou pela Tompkins Square de Nova York trajando terno, camisa branca e gravata, com um vaso de flor amarela na mão; Marina Abramovic, que colocou em uma mesa objetos como faca, flor, caneta, batom, tesoura, mel, uma pistola carregada, entre outros, e convidou as pessoas presentes a utilizarem, durante seis horas, esses objetos em seu corpo; e a própria autora, que coloca duas cadeiras frente a frente em um largo carioca ao lado de um cartaz escrito: “conversa-se sobre qualquer assunto”, e aguardou candidatos41. Por esses exemplos é possível perscrutar o nível de comprometimento do artista performer para a realização do programa performativo e do cumprimento de um enunciado de performance. Para fazer cumprir seu enunciado o performer se entrega à disposição do programa disponibilizando não apenas seu corpo-matéria, pele, carne, ossos, vísceras, mas ainda, sua 40 Vale lembrar que Corpo sem Órgãos não é um conceito, mas sim, uma prática ou um conjunto de práticas. 41 Os programas performativos aqui citados podem ser encontrados em dois artigos da autora: FABIÃO, 2008 e FABIÃO, 2013. 45 identidade, sua integridade física e psíquica, sua dignidade e existência. Uma prática de vida, nas palavras de Fabião: Uma prática "acidulante" e humorada que chacoalha a separação entre arte e não-arte. Que lança o corpo do artista na urgência do mundo e a urgência do mundo no regime de atenção artístico. Uma prática do não ensaio. Um elogio à determinação do agente e à indeterminação da vida. Uma prática que exige tônus e flexibilidade, planejamento e abertura, disciplina e presença de espírito. Mas então, como preparar-se para performar? Ouso uma resposta: vivendo a vida. É a vida vivida até aquele momento que possibilita a concepção de cada programa e sua realização (FABIÃO, 2013, p. 10). A performance rompe com os limites aos quais o teatro estava acostumado. Quanto ao limite do espaço, a performance expande e faz acontecer em qualquer lugar. O limite do tempo, a performance estende o aqui e agora e multiplica o presente momento, anuviando o princípio e o fim. A separação entre artista e trabalho é borrada - não há personagem na performance, portanto, não há uma divisão entre o eu atuando e o eu fora da cena. Para mim, o contato com a performance redefiniu o sentido de presença e fez meu teatro parecer antiquado, careta e, pior, pouco engajado. Por conta disso, fui empurrada para rever meus conceitos e me atualizar. Existe uma atitude interna que move o performer a executar seus programas e essa atitude, que ele se autoimpõe, tece uma rede de regras as quais ele seguirá à risca. Em alguns casos, a ação desprograma o programa, mas a atitude diante de um programa a ser executado é cumprir. Retomando a oposição entre texto escrito e performance e a separação entre essas duas instâncias, é possível entender a “cena” como sendo com o texto falado e a “performance” como sendo sem texto. Com isso reforça-se que o texto, escrito ou falado, determina, mede e estrutura a cena. Essa não deixa de ser uma reafirmação do texto como centro do poder no teatro e leva à crença de que para superar o textocentrismo é necessário retirar o texto falado da cena. O que não é verdade. Por outro lado, quando se abre mão do texto como única fonte de informação de uma proposta, o artista está aberto a outras fontes. A dramaturgia se expande e transborda para uma atuação que encontra sua potência no corpo do ator/atriz e não nas palavras ditas em cena. A dramaturgia que não parte de um texto previamente escrito possui outra peculiaridade: cria um engajamento dos elementos teatrais que são convocados para contribuírem na criação de sentidos. Isto significa que cada instância do espetáculo contribui à sua maneira com a narrativa, como o design de luz, que deixa de apenas iluminar o ator/atriz em cena e passa a estudar as nuances de luz e sombra, cores e texturas. Ou a utilização do espaço que irá reforçar 46 ou opor o que está sendo trabalhado na cena. Os elementos da cena contribuem para a dramaturgia. Essa noção levou Eugenio Barba a conceber a ideia das várias dramaturgias como linhas que serão trabalhadas em uma tessitura para formar a trama dramatúrgica da obra (BARBA, 2010). Os termos “dramaturgia da luz”, “dramaturgia do ator” ou até “dramaturgia do espectador” se tornaram comuns e são derivadas das dramaturgias apontadas por Barba. Para Barba, as dramaturgias são, principalmente, três: a dramaturgia orgânica, elaborada pela atuação a partir da produção de materiais; a dramaturgia narrativa, que se refere a um nível lógico de entendimento; e a dramaturgia evocativa, que transcende os limites do entendimento lógico e é captada pelos sentidos do espectador. A relação entre as dramaturgias é a trama dramatúrgica que ocorre diante do espectador, gerando a participação cinestésica: O movimento de qualquer pessoa põe em jogo a experiência do mesmo movimento por parte de seu observador. A informação visual gera, no espectador, uma participação cinestésica. A cinestesia é a sensação corporal interna dos próprios movimentos e tensões e também dos movimentos e tensões dos outros. Isso quer dizer que as tensões e as modificações do corpo do ator provocam um efeito imediato no corpo do espectador [...] O visível e o cinestésico são indissociáveis: aquilo que o espectador vê produz nele uma reação física, a qual, sem que ele saiba, influencia sua interpretação sobre o que vê. [...] Entendo por “orgânico” as ações que provocam uma participação cinestésica no espectador e que, para ele, tornam-se convincentes independentemente da convenção ou do gênero teatral do qual o ator faz parte (BARBA, 2010, p. 57). Erika Fischer-Lichte (2008) também observa a trama dramatúrgica entrelaçada a partir dos elementosda cena que se expande para plateia. Ela utiliza os termos medialidade e co- presença para se referir a essas mesmas instâncias que são convocadas na criação de sentidos na dramaturgia expandida e vai além para incluir o processo de criação e a presença do espectador na obra. O que para Barba era fim, para ela é meio; a relação entre as dramaturgias, a mediação, está também no processo e não somente na obra diante do espectador. Além disso, o espectador também está presente com o corpo inteiro, não apenas com olhos e ouvidos e essa presença impacta a obra. Não que Barba não tenha contado com isso, mas o que para ele parecia ser uma coisa só, uma "tessitura", se apresenta como um fenômeno vivo, disforme e pulsante, pois uma "mediação" sugere que existe um "entre". Talvez a trama de ações seja não mais uma trama que deflagrará no encadeamento causal do discurso textual, mas a trama da luz em relação ao espaço, ou a trama do corpo em relação ao objeto no espaço e assim por diante. Portanto, a elaboração de cada elemento lança uma ação que, em relação com outra ação de outro elemento, cria a dramaturgia. 47 O objetivo de uma obra artística, se precisa haver algum, não é transmitir um conteúdo lógico. Quando se trata de produção de sentido não se trata de um sentido lógico, mas uma provocação aos sentidos. Nesse caso, o espetáculo de teatro está, portanto, em diálogo com o sentido cinestésico do espectador e não apenas com seu intelecto. Além disso, é um diálogo porque estamos considerando aqui o espectador com os sentidos ativos, que se torna um coautor/coautora da cena, que participa com suas reações e micro-reações, com sua imaginação e que mais tarde prolongará o tempo da apresentação com o eco de sua memória. O espectador como coautor ou coautora não é o mesmo que espectador participativo. Ou seja, participação inclui uma interação física distinta, na qual o corpo é acolhido na cena. Isso requer artifícios especiais, como jogos de improvisação e técnicas de interação, que auxiliam nessa mediação. O espectador como coautor/coautora participa, principalmente, por estar no mesmo espaço: o que olha é também visto. Retomando a visão de José Sánchez de dramaturgia em campo expandido consideramos que a dramaturgia não está relacionada com a escritura. Segundo ele, quando a cena se fixa em um texto está, com isso, traindo o meio para qual serve. Sánchez acredita que a dramaturgia pode ser algo invisível “como desenhar no tempo, desenhar no ar” (SÁNCHEZ, 2019) desde que esse desenho permita que os corpos se mantenham em movimento e não os imobilize. No esforço de buscar termos que distanciem a dramaturgia da escritura, ou seja, da sua relação com a palavra escrita e com a literatura, Sánchez reforça que a grande força do teatro está no ato do acontecimento teatral, na mediação entre a cena e a plateia, nos interstícios dos elementos teatrais, como a articulação entre encenação e espaço, corpo e luz, texto e voz. Quando tratamos de distanciar a dramaturgia da relação com o texto escrito não estamos, com isso, falando de um teatro sem texto ou sem palavras. As experiências teatrais que eliminam o texto e que se apoiam na dinâmica corporal, assim como as performances, são acontecimentos teatrais bastante potentes, mas não são o objeto dessa tese. Tratamos aqui do teatro realizado em caráter de encenação, elaborado através de ensaios, junto com a figura de um encenador ou encenadora e que utiliza o texto e a palavra. Um teatro falado, mas que elabora sua dramaturgia a partir da cena e não de um texto escrito previamente concebido. Conforme tratado anteriormente, Sánchez defende que existem três fatores que compõe o fenômeno cênico, como ele chamou: o teatro, como o local da atuação, ou seja, o espaço físico onde se dá a representação; a atuação, que se trata da performance do ator; e o drama, que seria a ação, codificada ou não, fabular ou não. Esses fatores de Sánchez se relacionam com a tríade teatral de Stanislavski que elenca o ator, o texto e o espectador como sendo fundamentais para o acontecimento teatral. Todavia, Sánchez elege o espaço, em vez do espectador e amplia, com 48 isso, para todo local o que se passa em uma representação organizada relacionando pessoas e lugar. Ele pontua ainda que a "a dramaturgia é um lugar que está entre esses três lugares, e portanto, também em lugar nenhum. É um espaço de mediação" (SÁNCHEZ, 2010, p. 19, tradução nossa). Em 2019, Sánchez corrige a si mesmo e vai afirmar que dramaturgia, em nenhum caso, pode ser entendida como um espaço. Prefere pensar como uma interrogação a ser resolvida no encontro instável dos elementos que compõem a experiência cênica. Gostaria que esse tipo de dramaturgia existisse no cotidiano, pois garantiria que os desenhos sociais que afetam a vida dos corpos sejam feitos com uma sensibilidade artística, com uma sensibilidade que pensa os corpos dos outros como parte de uma criação comum. É como se quem faz a dramaturgia saísse de si para se colocar no lugar dos corpos que vão fazer a experiência de um desenho urbano ou de um programa de estudos, como se se colocasse no imaginário do que os outros vão viver, como o espaço vai afetá-los, os limites, as normas e as relações com outros corpos, por sua vez determinados e afetados por esses limites e normas. Esse é o exercício de quem faz a dramaturgia, não um exercício de imposição, mas um exercício de imaginação afetiva, que se resolve como o ato de desenhar no ar (SÁNCHEZ, 2019, p. s/p, tradução nossa). Quando o entendimento de dramaturgia passa a ser "um exercício de imaginação afetiva", como disse Sánchez, estamos diante de algo que vai muito além do seu entendimento inicial. Essa dramaturgia passa a ser a operação compartilhada de uma experiência, com a intenção de organizar sentidos para serem expostos e, posteriormente, percebidos por outras pessoas. É uma dramaturgia que não está, apenas, com os criadores do espetáculo, mas também com os receptores, quem assiste, porque está trabalhada para manter seus interstícios, polifonias e intertextualidades no ato do acontecimento teatral. É na articulação, nos interstícios, que a dramaturgia carrega sua potência maior de significados. Entre o texto e a cena, entre a partitura física do corpo da atriz e o desenho no espaço e entre o que acontece na cena em relação com o público. O grande campo dramatúrgico está aí: na articulação dos elementos da cena para que possibilite entendimentos e percepções múltiplos, em alguns casos imprevisíveis, que não possuem um significado preso no sentido semântico. Para tecer a trama dramatúrgica o artista cênico passa a se valer de processos de criação que vão, por sua vez, conduzir o trabalho na sala de ensaio. Essa exploração dos processos de criação abre um horizonte de procedimentos, operações, intertextualidades e potências figuradas em novos modos de agenciamentos. Nesse sentido, o entendimento da dramaturgia não se encerra mais no texto escrito ou falado, mas em “linhas de forças intrínsecas ao processo de criação” (LEONARDELLI; FERRACINI, 2013, p. 154), materialidades e imaterialidades inscritas nos elementos compositores da cena. 49 Quando tomamos a definição de dramaturgia a partir de linhas de força que coadunam, nos aproximamos da noção de tessitura (BARBA, 2010) pautada pelo entendimento de texto a partir da sua etimologia (do latim texere: construir, tecer) e dramaturgia como drama-ergein: trabalho das ações. Essas noções nos dão ferramentas para a compreensão da multiplicidade do que podemos chamar de dramaturgia-tecido. Sendo a dramaturgia uma espécie de tecido a ser confeccionado pelos criadores e criadoras e tendo o conhecimento de que esse tecido será tramado de forma exclusiva em cada situação de criação teatral é necessário, portanto, criar procedimentos que conduzirão aelaboração da dramaturgia. Uma parte da criação dramatúrgica contemporânea se depara com essa situação em sala de ensaio: criar procedimentos de criação para construção de uma dramaturgia autoral e exclusiva, que trata das questões pertinentes ao coletivo de artistas reunido para a obra. Esse é o teatro que me interessa realizar: com uma dramaturgia autoral construída em colaboração com todos os artistas envolvidos no trabalho. Para mim, a dramaturgia que esse tipo de criação confecciona é dinâmica, intersticial, que se retroalimenta do que cria e de quem cria. Encaro, portanto, a palavra dramaturgia como o processo de montagem de um espetáculo, ou seja, o próprio ato criativo que vai tecer e entrelaçar as várias camadas da produção criativa. 50 2 CAPÍTULO 2: DRAMATURGIA DO TERCEIRO TEATRO E AS ROTAS POSSÍVEIS Quando o texto teatral perde seu status de produtor de sentidos por excelência, com as proposições do Teatro Novo, o encenador/encenadora aparece como organizador/organizadora da produção do sentido que, antes, era articulado por palavras e organizado pelo autor. Com essa manobra a cena ganha em multiplicidade, pois conta com a contribuição criativa de outros artistas, com outras singularidades e pontos de vista diversos. Quando o sentido de mão única, do texto para a cena, se rompe é quebrada também a lógica sequencial em que a montagem teatral é conduzida fazendo com que o material criativo seja afetado de todas as formas, ficando cada vez mais difícil apontar uma autoria. A sala de ensaio passa a ser o local da elaboração dessa dramaturgia diversa, plural, situada em “territórios bastardos” (FERNANDES, 2010), que se conjuga e se articula para produzir um espetáculo trabalhado a várias mãos. 2.1 Para além do texto escrito: a dramaturgia que desenha poesia no espaço Artaud identifica a dramaturgia como uma estratégia, não uma ordenação, e afirma que ela não pode ser encarada como um trabalho intelectual, mas sim, um trabalho de encenação, de manipulação dos objetos cênicos, como: luz, forma, palavra, espaço. Ele sugere que é através do corpo que se pode elaborar uma nova dramaturgia (ARTAUD, 2006). O movimento proposto por Artaud pretendia substituir a palavra de um “Deus da morte” pela palavra-da-vida, onde a própria obra pudesse construir-se a si mesmo, encontrando um discurso que não fosse apenas palavra. Não se trata de abolir o texto, mas ampliar sua “vida”. A palavra brota da relação do corpo com o meio e não se esgota no sentido semântico, mas, se expande para provocar e produzir sentidos diversos. Ao tratar da palavra na concepção de Artaud, Derrida diz: Como funcionarão, então, a palavra e a escritura? Voltando a ser gestos: a intenção lógica e discursiva será reduzida ou subordinada, essa intenção pela qual a palavra vulgarmente assegura a sua transparência racional e sutiliza seu próprio corpo em direção ao sentido, deixa-o estranhamente recobrir por isso mesmo que o constitui e diafaneidade: desconstruindo o diáfano, desnuda-se a carne da palavra, a sua sonoridade, a sua entoação, a sua intensidade, o grito que a articulação da língua e da lógica ainda não calou totalmente, aquilo que em toda a palavra resta de gesto oprimido, esse movimento único e insubstituível que a generalidade do conceito e da repetição nunca deixaram de recusar. (DERRIDA, apud LEONARDELLI, 2013, p. 90) 51 Derrida fala da palavra vocalizada não apenas pela voz, mas pelo corpo, enquanto vibração, pulsão, potência. Seguindo esse percurso, nos deparamos com o “texto” escrito no espaço, como um “desenho no ar”, como coloca Sánchez (2019), o que amplia a forma como vemos a dramaturgia. Pode ser que estejamos diante de um procedimento ocorrido na relação, na conexão, no entre, dos elementos teatrais. Isso quer dizer que, possivelmente, podemos considerar uma dramaturgia como procedimento; como um meio e não um fim. É claro que cada encenador/encenadora possui sua forma de trabalhar e não estamos afirmando que o trabalho teatral com o texto escrito previamente deve ser condenado ou deve deixar de existir. Ao contrário, reafirmamos a diversidade de modos de fazer da dramaturgia contemporânea. Apontamos, no entanto, a distância a ser preenchida, entre o texto e a cena, no que tange à atualização de seu material. Quando o trabalho criativo mobiliza os criadores para executarem o que está escrito em um texto, não leva em consideração as particularidades envolvidas e nem, tampouco, a potencialidade do grupo criativo. Na minha prática como atriz sempre senti, mesmo em experiências criativas menos convencionais, a presença forte do texto na cena, em forma de estrutura organizadora. A herança do período do textocentrismo aparece quando descrevo os momentos de cena ou quando organizo o trabalho. Percebo que, dessa forma, a cena ainda é vista pela perspectiva da linguagem escrita, com termos da literatura e com a necessidade de criar um sentido lógico que possa ser “lido” por quem assiste. Por exemplo, quando se fala em grafar o que se passa em cena ou encontrar o sentido lógico baseado em produção de imagens, ainda se fala em texto. Quando é nominado o que está em cena como "escritura", ainda se trata de texto. Desta forma o corpo em cena é visto como texto, a luz, a voz, o desenho do corpo no espaço: textos. Ou seja, ao se basear na capacidade da cena de escrever, grafar, narrar ou descrever, estamos olhando para a cena com o viés do texto. Falamos de intertextualidade na cena, evocamos Derrida, Bakhtin, Deleuze, e buscamos compreender o que o corpo inscreve no espaço. Com isso, as etapas, antes textuais, são identificadas na cena: a sintaxe do discurso, o agon, o conflito promovido pela luz, as materialidades dialógicas, entre outras expressões de uso comum. No movimento constante em busca de um significado lógico, ou talvez em busca de um suporte que antes o texto escrito oferecia, a cena reafirma a necessidade da leitura. Durante muito tempo, eu parti da relação com o texto para ver a cena. O que rompe com essa relação são experiências nas quais a voz e o corpo são os próprios propositores da cena: experiências performativas. A performance propõe uma dramaturgia que fala com o corpo inteiro e que está no encontro entre o emissor e o receptor. Não possui mais um único sentido, de um para outro, 52 mas acontece como testemunha de um estado: é um acontecimento. Retomando as palavras de Artaud, vemos que: Considerando-se essa sujeição do teatro à palavra, é possível perguntar se o teatro por acaso não possuiria sua linguagem própria, se seria absolutamente quimérico considerá-lo como uma parte independente e autônoma, assim como a música, a pintura, a dança, etc., etc. (ARTAUD, 2006, p. 76) Qual seria a linguagem própria do teatro da qual se referia Artaud senão a linguagem da cena? Para o autor a resposta é o corpo presente, e tudo mais que está em volta, criando conexões que vão além da lógica racional favorecida pela sintaxe textual. Segundo Stephan Baumgärtel a crise entre texto e cena é, na verdade, a crise do indivíduo na modernidade, identificada por ele como crise do “logos realista” (BAUMGÄRTEL, 2011). Ele aponta que quando os criadores trabalham sem a necessidade de criar um sentido racional estão tentando substituir “a lógica do pensamento burguês” por uma escrita que contém uma multiplicidade de centros, que trabalha com outras percepções epistemológicas e, portanto, outras lógicas cênicas. A arquitetura dramática, por estar alicerçada na ideia do logos como força hierárquica causal, entra em conflito para romper com essa cadeia. O motivo pelo qual esse aspecto chegou à consciência dos artistas é em parte histórico, mas também estrutural. Logos aqui não significa simplesmente um enfoque na palavra, mas o enfoque em uma forma fechada que concatena as ações de tal modo agarantir a eficácia da ação. É o logos enquanto força formadora que garante a identidade entre as ações apresentadas e o tema representado, ou seja, a força presencial do espetáculo. (BAUMGÄRTEL, 2011, p.4) O logos, portanto, trata da utilização do discurso como voz única, com um só sentido, emissor e receptor, “defendendo” uma ideia e “levando uma mensagem”. A escrita que tenta romper com o logocentrismo desloca o sujeito enquanto agente unificador para transformá-lo em um portador de múltiplas vozes. Essa escrita possui seus autores também dentro de uma estética textual predominantemente representacional. O que a torna contemporânea é a inclusão da performatividade linguística enquanto dimensão de uma linguagem verbal não figurativa e o direcionamento do texto para o eixo palco-theatron. Não se trata do texto como representação de uma intriga, mas do texto enquanto palco do verbo, da palavra em ação, cujo principal endereçado não é um personagem ficcional, mesmo quando estamos perante uma estrutura formalmente dialógica, mas o espectador. O texto teatral assume características de um poema dramático ou de um epos lírico, sem necessariamente perder por completo seus traços dramáticos. O que acontece é uma inversão de hierarquia, do eixo intra-ficcional com sua estética representacional para o eixo palco-plateia alicerçado numa estética performativa. (BAUMGÄRTEL, 2011, p. 5) 53 Um dos pontos interessantes da análise de Baumgärtel é compreender a dramaturgia performativa pelo agon da cena. O agon, de acordo com o Dicionário de Termos Literários, é um termo proveniente do grego que significa luta, competição, conflito, discussão. Remete ao agones, as disputas esportivas e/ou artísticas da Grécia antiga. Na tragédia grega, o agon é um elemento textual que acontece dentro do discurso, ou melhor, do embate, entre um personagem e outro. É, portanto, um elemento da natureza do texto. É o momento em que o conflito da peça se materializa no “bate-boca” entre protagonista e antagonista e estabelece o debate entre as questões que movem a ação. No caso de alguns textos performativos, o agon se estabelece no conjunto de signos teatrais. Temos, então, o conflito não mais dentro da fábula como antes, mas, distribuído no “entre” relacional dos elementos: luz e corpo, corpo e espaço, palavra e voz. É uma manobra que desloca o conflito de lugar mantendo-o na cena. Mas, será que pensar no agon é buscar a equivalência de um efeito que antes era obtido pelo texto? O corpo sem órgãos de Artaud pretende se livrar dos códigos e expressar sem as amarras, nem das palavras nem dos sistemas sociais. Apesar de almejar a liberdade do texto, Artaud se preocupava se a encenação poderia “atingir o mesmo objeto interior que a palavra” (ARTAUD, 2006, p. 76). Não se trata de lidar com o pensamento das palavras, mas com as "corporificações". Falamos de palavras ainda, ou estamos lidando com expressões, significantes, evocações, sensações? Qual a ferramenta do dramaturgo/dramaturga quando as palavras não estão? 2.2 A Dramaturgia Expandida do Terceiro Teatro: quando o ethos se transforma em poética A história subterrânea dos teatros nos coloca diante da consciência dos limites, das zonas de sombra e das contradições onde a voz dos teóricos se estanca. Que tipo de rebelião se esconde nas regras e técnicas dos artesãos do teatro? Que fome não artística nutre a arte? E, sobretudo: o que o chamado "acaso" disfarça e esconde? Os encontros “casuais”, as coincidências, as paixões e os ódios, as migrações, as viagens que juntam e separam as pessoas, como folhas rasgadas pelo vento cego a que chamamos História? (BARBA in: BARBA; SAVARESE, 2017, p. 300, tradução nossa42) 42 La storia sotterranea dei teatri ci pone di fronte alla coscienza dei limiti, delle zone d’ombra e delle contraddizioni in cui il racconto degli storici si arena. Che tipo di ribellione si nasconde nelle regole e nelle tecniche degli artigiani del teatro? Quale non-artistica fame nutre l’arte? E soprattutto: che cosa traveste e dissimula il cosiddetto “caso”? Gli incontri “casuali”, le coincidenze, le passioni e gli odi, le migrazioni, i viaggi che radunano e separano persone, come foglie strappate dal vento cieco che chiamiamo Storia? 54 A primeira vez que estive em Holstebro visitando a sede do Odin Teatret foi em 2011, durante o Odin Week Festival43. Éramos em torno de 50 participantes do mundo todo, sentados em uma enorme roda, quando Eugenio Barba fez seu discurso de abertura dizendo: “Bem-vindos à Galápagos”! Todos riram da brincadeira e ele explicou que estávamos adentrando uma ilha cujos espécimes nativos haviam se desenvolvido de forma única e independente de outros de sua espécie. Barba se referia ao seu grupo Odin Teatret e à característica principal do Terceiro Teatro: a prática de criar seus próprios procedimentos. Em seu discurso inicial deixou claro que essa forma desenvolvida por seu grupo não tinha a intenção de ser definitiva e nem devia ser tomada como método, mas sim, que devíamos olhar como entomólogos curiosos e pegássemos apenas as “borboletas” que fossem interessantes para nós, segundo suas palavras. Durante dez dias o Odin Teatret apresentou sua técnica de trabalho, formada na ética da cultura teatral do grupo. O que estamos chamando de cultura teatral se refere ao conjunto das práticas desenvolvidas somado ao modo de fazer de um determinado local ou grupo de artistas. A cultura teatral é construída coletivamente, por meio de hábitos, regras internas, acordos íntimos, expressos ou não. É formada nos interstícios da convivência do grupo e se expande para a criação artística que se contamina, por sua vez, com o cotidiano de seus integrantes. Para Barba, um grupo de teatro é uma ilha flutuante que faz parte de um arquipélago: no caso do seu grupo, o Terceiro Teatro44. Apesar do grupo ser “descendente” dos laboratórios de Stanislavski e Grotowski, o Odin Teatret tem seu caminho teórico e técnico particular, desenvolvido por seus integrantes e determinado pelas experiências que constituíram sua história coletiva45. As singularidades de seus integrantes, juntamente com as escolhas tomadas coletivamente, fizeram do Odin Teatret um dos grupos mais longevos da história do teatro mundial recente46. Os grupos de teatro e de artistas independentes que se relacionam atualmente com o Odin Teatret, e que fazem parte das atividades do Nordisk Teaterlaboratorium, são bastante 43 Odin Week Festival é uma das ações pedagógicas promovida pelo Nordisk Teaterlaboratorium, que ocorre na sede do Odin Teatret, todos os anos, em Holstebro (Dinamarca). Criado pela atriz Roberta Carreri, o seminário consiste em 10 dias de imersão na tradição teatral do Odin Teatret, com palestras, workshops, demonstrações de trabalho, experimentações entre os participantes e apresentações de espetáculos do repertório do grupo. Maiores informações em https://odinteatret.dk/festivals/odin-week-festival/ 44 A relação do Odin Teatret com o Terceiro Teatro pode ser estudada no livro Teatro: solidão, ofício, revolta (BARBA, 2010a). 45 LEDGER, Adam. Odin Teatret: theatre in a new century. New York: Palgrave Macmillan, 2012. 46 Em 2021 o grupo completa 57 anos de trabalhos contínuos. https://odinteatret.dk/festivals/odin-week-festival/ 55 diferentes entre si47. Suas origens, histórias de vida e de grupo, escolhas estéticas ou situações financeiras diferem bastante. Evidentemente, nem todas as produções do Nordisk Teaterlaboratorium estão alinhadas com o que é chamado de Terceiro Teatro. Esse alinhamento ocorre quando os grupos ou artistas individuais compactuam uma necessidade ética de trabalhar seu teatro como uma contribuição para um mundo melhor. 2.2.1 Terceiro Teatro: uma cultura de teatro de grupo Se o teatro é uma ilha flutuante, os companheiros que escolhi – queformei e que me formaram – determinaram sua duração e seu modo de flutuar. No fundo, trata-se de vínculos afetivos. Será que esse amor especial, que mistura gratidão e ternura, é um método que pode ser ensinado? (BARBA, 2019, p. 2) O teatro de grupo é entendido aqui como a prática de criação que possui o coletivo como criador. É diferente de grupo de teatro, termo utilizado para designar um grupo fixo de artistas que trabalham constantemente juntos. Quando o termo “grupo de teatro” é referido nesta tese, é com a intenção de considerar, também, os artistas que se juntam para trabalhar em uma produção coletiva, mesmo que seja pela primeira vez: ou seja, um grupo de trabalho colaborativo. Esclarecemos ainda que teatro de grupo e grupo de teatro são termos que designam um modus operandi de produção teatral, onde todos os integrantes trabalham criativamente para a elaboração artística48. O teatro realizado em grupo e por um grupo difere do teatro de produção, normalmente empreendido para atender a exigências do mercado do entretenimento. O Terceiro Teatro ocorre nos interstícios da relação do teatro feito em grupo e pauta sua ética, e por mais que possa comercializar seus produtos cênicos, não o faz pautado pelo mercado de entretenimento. Eugenio Barba utiliza o termo Terceiro Teatro pela primeira vez em um relatório oficial escrito como contrapartida pelo financiamento oferecido pela UNESCO e ITI (Internacional Theatre Institut) na ocasião do International Workshop of Theatrical Research (Belgrado), em setembro de 197649. Neste documento, Barba especifica um determinado grupo de fazedores de 47 Ver o site https://odinteatret.dk/nordisk-teaterlaboratorium/ e https://www.thirdtheatrenetwork.com/ 48 Os outros modos mais comuns de produção teatral são: comandadas por um criador, onde o ator executa o que o diretor pede; e criação coletiva, onde todos criam tudo e ao mesmo tempo, sem distinção de áreas. 49 Em maio do mesmo ano o Odin Teatret esteve pela primeira vez na América do Sul, para participar do Festival de Caracas, na Venezuela, onde se apresentaram em uma aldeia de Ianomamis na Floresta Amazônica. Sobre esse encontro, ver SANCTIS (2019). O primeiro encontro do Terceiro Teatro acontece em 1978, em Ayacucho. https://odinteatret.dk/nordisk-teaterlaboratorium/ https://www.thirdtheatrenetwork.com/ 56 teatro, que fazem do teatro não uma profissão, mas um estilo de vida50. Foi uma tentativa de nominar um movimento teatral, e não criar um método ou escola. O Odin Teatret seguia a tradição do Teatro Laboratório51 de Stanislavski e Grotowski, e aportou no continente latino-americano trazendo suas demonstrações de trabalho, workshops e a peculiar curiosidade antropológica. Essa prática não apenas causou impacto entre os presentes52, mas divulgou uma tradição teatral que valoriza a investigação corporal, o trabalho do ator, a troca artística e teórica, os encontros e debates sobre as poéticas dos espetáculos. Essa tradição encontrou com o teatro engajado realizado por certos grupos na América do Sul53 e sua agenda sociopolítica, na época, estrangulados por sucessivas ditaduras e por um colonialismo sufocante, que também possuía o artifício de criar sua própria tradição teatral e seu próprio “modo de fazer”. A diferença era as realidades sociais bem distintas entre Europa e América do Sul e, claro, os lados opostos de um passado colonialista. A despeito do choque cultural ocorrido pelas diferenças entre essas realidades, os modos de fazer e de pensar, criou-se uma colaboração mútua intercontinental que perdura até hoje, carregada de polêmicas e discussões, mas profícua e generosa. Não obstante as discussões da escolha do nome54, Terceiro Teatro faz relação com a terceira via entre o Primeiro Teatro e o Segundo. O Primeiro Teatro denomina as produções clássicas, de tendência dominante, que apresentam o que o público quer ver e que estão em concordância com o mercado cultural; são as grandes companhias que geralmente utilizam métodos convencionais na montagem de seus espetáculos. O Segundo Teatro é a denominação para produções que tendem a ir na contracorrente e estão situadas no campo da experimentação artística, nos hibridismos, na vanguarda. São companhias ou artistas independentes 50 O termo diferencia do utilizado por Badar Sircar, diretor e autor indiano. Sircar utiliza o termo “Terceiro Teatro” para se referir a um formato de palco, que ele dividia em dois tipos: Anganmancha e Muktamancha. No primeiro o público se posiciona em volta do espaço cênico, e no segundo o espaço cênico se mistura ao espaço destinado ao espectador. Em ambos as modalidades, não existe barreira entre palco e plateia. Quando o mestre indiano adota um significado político e social para o termo, ele passa a chamar de Teatro Livre. Para saber mais sobre o teatro de Bavar Sircar recomendamos KATYAL, Anjum. Badal Sircar: Towards a Theatre of Conscience. New Delhi: Sage Publications, 2015. 51 O Teatro Laboratório iniciou com o trabalho de Constantin Stanislavski (1863-1938) como um campo teórico e prático de investigação do ator para aprimoramento da arte da atuação. Foi difundido por Jerzy Grotowski (1933 – 1999), do qual Eugenio Barba foi assistente de direção de 1961 a 1963. 52 Além do espetáculo ter causado estranhamento e empolgação, o grupo polemizou sobre vários assuntos, de naturezas diversas. Por exemplo, se recusou a hospedar em hotel de luxo, e durante todo período do festival, alugou uma casa na periferia de Caracas para estar mais próximo das pessoas da cidade. 53 Entre esses grupos estão: Mario Delgado (Cuatro Tablas, Peru), Miguel Rubio (Yuyachkani, Peru), Santiago Garcìa (La Candelária, Colômbia), além de Paulo Dourado e Luís Otávio Burnier. 54 A denominação Terceiro Teatro já foi bastante marginalizada, principalmente na América do Sul, por sua relação com a designação “Terceiro Mundo”. A polêmica foi bastante discutida e não faz parte do propósito dessa tese. 57 sintonizados com as tendências do momento e que constantemente se reinventam. O Terceiro Teatro está à margem do Primeiro e Segundo: possui apego a tradições, se organiza em grupos de artistas, valoriza o ethos coletivo e, na maioria das vezes, enfrenta adversidades de cunho social, financeiro ou político, mas preservam certa independência criativa do mercado cultural. São marginalizados, de alguma forma e travam sua batalha no espaço cênico. Sobre o Terceiro Teatro, Barba comenta: O que parece definir o Terceiro Teatro, o que parece ser o denominador comum entre grupos e experiências tão diferentes, é uma tensão difícil de ser definida. É como se necessidades pessoais que nem sempre conseguimos expressar para nós mesmos – ideais, medos, múltiplos impulsos que poderiam continuar turvos – quisessem se transformar em trabalho. E essa atitude é justificada extremamente como um imperativo ético que não se limita somente à profissão, mas que se estende para a totalidade da vida cotidiana. No entanto, eles pagam o preço da própria escolha em primeira pessoa (BARBA, 2010, p. 188) Os grupos de teatro identificados com o Terceiro Teatro desenvolvem seu ofício a partir de sua própria visão, ou seja, não seguem os ditames do mercado cultural. Descrevem uma tradição de teatro de grupo com ethos laboratorial, cuja poética está associada a uma cultura teatral desenvolvida pelo coletivo. Possuem uma organização interna que evidencia a cultura teatral talhada coletivamente, valorizando tópicos como o comprometimento com o trabalho, a dedicação integral, as atividades do grupo e para o grupo, as práticas coletivas e individuais de manutenção, como exercícios, trainings, aprendizado constante, aprimoramento de técnicas específicas e diversas, entre outras. A vocação pedagógica também é uma característica recorrente do Terceiro Teatro: investimento em workshops, oficinas, cursos,seminários, simpósios, encontros. Não apenas buscam aprimoramento constante, como incentivam seus participantes na difusão de conhecimentos e intercâmbio de técnicas. Naturalmente, os resultados estéticos de suas práticas variam bastante, mas o modo de se organizar como grupo e a forma com que compreendem seu posicionamento quanto artistas é semelhante. Importante lembrar que muitos dos tópicos que definem o Terceiro Teatro vêm da tradição do Teatro Laboratório, o que pode causar confusão; Teatro Laboratório é o campo onde se desenvolve o Terceiro Teatro, sendo que este último se refere ao “como”, com que espírito, o artista desenvolverá sua investigação. Ao longo dos anos, e muito em função da vocação pedagógica dos grupos, o modus operandi do Terceiro Teatro55 se difundiu e atualmente independe das razões pelas quais os 55 Essas características são recorrentes na tradição criada por grupos que fazem parte do Terceiro Teatro e são uma tentativa de elencar fatores semelhantes, e não de unificar produções e grupos tão diversos. 58 grupos são formados, se estão reivindicando espaços de fala ou não, se enfrentam dificuldades ou se são marginalizados de alguma forma. Terceiro Teatro se tornou um termo que designa o “arquipélago” que aglutina as “ilhas flutuantes” chamadas grupos de teatro, que valorizam a cultura teatral, a pedagogia e a poética em suas produções56. Turner e Campbell abordam o Terceiro Teatro contemporâneo destacando o pertencimento a uma comunidade teatral com um “forte ethos em cultivar a diferença” (TURNER; CAMPBELL, 2021, p. 157, tradução nossa) que necessita dispor de tempo em comunidade para trabalhar em um contexto de laboratório. De fato, o que podemos constatar é que boa parte dos artistas do Terceiro Teatro investem em oportunidades de encontros, quer seja como participantes ou produtores. A vocação pedagógica faz parte das escolhas da Cia Pessoal de Teatro. Desde o início do intercâmbio com o Odin Teatret, em 2011, a Cia Pessoal de Teatro já trouxe para Mato Grosso diversos parceiros do Nordisk Teaterlaboratorium, em especial o diretor Eugenio Barba e integrantes do elenco. Participamos de diversos eventos na sede do grupo na Dinamarca, e também no Brasil, promovidos por colaboradores do NTL. Parceiros que conhecemos na sede do grupo também promovem eventos em seus países. Esse grande fluxo não é um fenômeno recente, pelo contrário, faz parte da tradição do Nordisk Teaterlaboratorium como extensão da vocação pedagógica do Odin Teatret, e corresponde a um movimento coletivo promovido pelos adeptos do teatro laboratório, desde o Novo Teatro, e também faz parte do Terceiro Teatro. Logicamente, promover eventos teatrais não é exclusividade desses movimentos, mas é perceptível que a inclinação à coletividade e as práticas pedagógicas praticadas por esses grupos são fatores que promovem o encontro e mais, se beneficiam da troca e intercâmbio. 2.2.2 Cultura teatral e os modos de fazer A cultura teatral de um grupo é seu território inventado para servir ao propósito coletivo, onde o conhecimento incorporado opera. De acordo com a definição de Deleuze e Guattari (1995), o território pode ter uma conotação de mentalidade de pertencimento que revela uma apropriação subjetiva do meio, se tornando um conjunto de projetos e representações que são alimentados por “toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos 56 Sobre o movimento do Terceiro Teatro no Brasil, houve um extenso seminário virtual promovido por uma parceria entre UFOP, UFMG, UFRGS e UnB. Os debates podem ser vistos na página do evento no endereço: https://www.youtube.com/c/TerceiroTeatro2021 . Na ocasião, muitos grupos brasileiros participaram, como: Udi Grudi (BSB), Ói Nóis Aqui Traveis (RS), Lume Teatro (SP), Grupo Galpão (MG), Grupo Andante (MG), Cia Biruta (PE). Cia Ynspiração (BSB), Cia Pessoal de Teatro (MT), entre outros. https://www.youtube.com/c/TerceiroTeatro2021 59 espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos” (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 323). A criação de um território, portanto, se torna um meio de estabelecer regras e condutas dos integrantes de um grupo que vão, por sua vez, coordenar procedimentos do trabalho coletivo. Jorge Dubatti (2016) considera que o teatro é um fenômeno que não se pode desterritorializar justamente porque é um acontecimento que se dá a partir das territorialidades de cada criador, além de precisar da presença viva e aurática para acontecer. Ao considerar o teatro como algo que acontece, ou seja, prescinde da presença real de artistas e espectadores/espectadoras, Dubatti ressalta a importância do convívio no teatro, considerado por ele como “uma zona de experiência territorial, incapturável, imprevisível, efêmera e aurática” (DUBATTI, 2016, p. 129). Isso reafirma o teatro como uma arte coletiva, por excelência, tanto na sua realização quanto na sua elaboração e uma arte que precisa da presença para acontecer. Portanto, um espaço de construção de “subjetividades alternativas”, ou seja, de territórios de singularidades. A cultura teatral de um grupo pode ser entendida, então, como a dinâmica das relações interterritoriais dos integrantes, cuja micropolítica delimitará as estratégias necessárias para o convívio no trabalho coletivo. Turner e Campbell (2021) apresentam três pilares, tanto da prática laboratorial expandida do Terceiro Teatro, que consiste em sua poética, quanto da cultura teatral praticada pelos grupos, que caracteriza a ética comum. Os pilares de um ethos recorrente que determinam a maneira de estar perante o outro são: a hospitalidade incondicional, a prática artesanal do artista e o (re)encantamento. Os pilares da poética são: treinamento do ator, dramaturgia teatral e ação cultural. Dos pilares da ética, a hospitalidade incondicional pode ser sentida não apenas nos momentos de intercâmbio entre os grupos, mas na atitude de cada artista de estar disponível e aberto às diferenças. A artesania se refere não apenas à confecção e elaboração de figurinos ou adereços de cena, mas também à base de criação desses artistas, que partem de suas próprias habilidades pessoais para criar, uma característica que remonta ao fato de a maioria dos grupos disporem de pouco ou nenhum financiamento para suas produções. No entanto, o (re)encantamento é uma característica bastante peculiar, que consiste em uma reenergização da prática diária, como um impulso que renova e recarrega as baterias e faz com que o trabalho não deixe de ser prazeroso. É uma capacidade de perseverar, resistir, recomeçar. No meu entendimento, o (re)encantamento mantém os grupos em constante movimento e é responsável pela longevidade no ofício teatral: uma espécie de pacto mútuo. 60 Em uma entrevista57 concedida pela atriz Else-Marie Laukvik58, a mais longeva do grupo Odin Teatret, ela menciona a força desse pacto mútuo entre os integrantes do grupo. No início dos anos do grupo na Dinamarca, Laukvik decidiu que iria cumprir com a temporada ainda em cartaz e, antes do grupo iniciar nova montagem, ela partiria de volta para a Noruega, sua terra natal. Nesse mesmo período, enquanto mantinha segredo de sua decisão, o diretor Eugenio Barba foi convidado a lecionar em uma Universidade importante da Escandinávia, com a promessa de grande soldo. Ele, no entanto, declinou da oferta em respeito ao grupo de pessoas que o havia seguido até ali. Laukvik conta que, para ela, essa foi uma prova de lealdade que ela não podia ignorar e decidiu que corresponderia ao pacto com o grupo. Até hoje ela trabalha ativamente no elenco do Odin Teatret. Devido a esse tipo de escolha que a cultura teatral do Odin Teatret se formou, priorizando o estar junto. A cada nova tentativa de algum integrante deixar o grupo, algo acontecia que os faziam ficar. As entrevistas concedidas a nós em 2015 estão repletasde histórias de brigas, desavenças, reconciliações: cada integrante teve seu momento de decidir ir embora. Quando perguntados sobre as razões de terem ficado, as respostas afluíam para a mesma palavra: lealdade com o trabalho em grupo. Por vezes, para se manterem trabalhando juntos os artistas do Odin Teatret desenvolvem trabalhos individuais. Cada artista cria seu repertório de engajamento de forma autônoma e pessoal desenvolvendo uma prática moto contínua de constante aprendizado e surpresas. No caso do Odin Teatret, os atores preparam constantemente materiais de pesquisas individuais e costumam apresentar em eventos específicos, como os frequentes simpósios organizados pelo Nordisk Teaterlaboratorium. Muitas dessas pesquisas acabam se tornando grandes projetos, como o trabalho do ator Kai Bredholt59 com um centro de idosos local que se tornou um polo 57 Realizei, com Tatiana Horevicht, várias entrevistas durante os meses de junho a agosto de 2015. Conversamos com o diretor Eugenio Barba, atores, técnicos e staff do Odin Teatret, assim como os filhos e a esposa de Barba, realizadas nas cidades de Holstebro, Aahus (Dinamarca) e Berlim (Alemanha), onde entrevistamos Nicola Savarese, colaborador de Barba em vários livros. Pedíamos para os entrevistados responderem à pergunta “qual o segredo que faz um grupo de teatro continuar junto por mais de 50 anos?”. O resultado desse trabalho será publicado em livro em breve. 58 Else-Marie Laukvik se juntou ao Odin Teatret desde o primeiro momento do grupo, em 1964, na Noruega, seu país de origem. Criou uma das personagens mais icônicas do grupo: Andrógina. Else Marie Laukvik nasceu em 1944 em Oslo, Noruega. Ela foi um dos cinco jovens que concordaram em trabalhar com o então desconhecido Eugenio Barba em Oslo em 1964. Else Marie seguiu o grupo para Holstebro, Dinamarca. Suas experiências como atriz são publicadas em The Actor's Way, editado por Erik Exe Christoffersen. (Texto extraído do site http://odinteatret.dk ) 59 Kai Bredholt é dinamarquês e se juntou ao Odin Teatret em 1990. dirige apresentações de rua para grupos de teatro em todo o mundo e criou apresentações circenses particulares que apresentam atores, animais de estimação, fazendeiros com seus animais, bailarinos em tratores e muito mais. Ele também colabora com um clube local de Tae Kwondo, dançarinos folclóricos e um pastor para criar situações teatrais, e com o arquiteto Anton Ryslinge para criar salas de teatro ao ar livre, por exemplo, com gelo ou fardos de palha. (Texto extraído do site http://odinteatret.dk ) http://odinteatret.dk/ http://odinteatret.dk/ 61 de teatro na terceira idade. Durante a pandemia de 2020, Bredholt construiu, no condomínio rural onde mora, um teatro ao ar livre feito de feno, com apresentações que combinam cavalos e dança flamenca, com sua esposa Erika Sanchez Zepeda. Estar continuamente produzindo é uma estratégia econômica do grupo, desde o início de suas atividades. Mas, manter-se produzindo como grupo, e como artistas individualmente, faz com que o teatro não seja, apenas, o trabalho em sala. Determinado nível de comprometimento promove a expansão do fazer teatral para criar um modo de agir coerente com o teatro do grupo. Além disso, existem regras no Odin Teatret que são respeitadas por todos. Entre essas, estão: a limpeza da sala de ensaio é de responsabilidade de quem está utilizando, e o elenco organiza um rodízio durante as grandes montagens; dentro da sala de trabalho só é permitido conversar sobre o trabalho; não é permitido cantar as músicas do espetáculo fora das apresentações; pontualidade rigorosa; concentração silenciosa; colaboração mútua. Os integrantes do grupo incorporaram essas e outras regras em seu fazer e praticam em seu dia a dia. O aprendizado se dá pelo contato dos visitantes com esse cotidiano. Como revela a cultura oriental de mestre e aprendiz, o conhecimento é assimilado pelo exemplo e pela partilha. O grupo leva a sua cultura teatral para sua prática pedagógica e o resultado é uma coletivização do modo de fazer. Aqueles que se identificam logo importam a ética e poética em sua prática individual. Dessa forma o Odin Teatret cria uma rede mundial de artistas que possuem o teatro como pátria. Cada um fala seu próprio idioma e todos se entendem. Nas produções do Nordisk Teaterlaboratorium o compartilhamento do modus operandi de criação forma o conhecimento incorporado que intermedia as criações coletivas entre artistas de diferentes nacionalidades. Na dinâmica da organização do trabalho artístico coletivo, cada integrante tem uma função determinada e clara. O ator/atriz contribui com a montagem a partir da atuação, o encenador/encenadora a partir da encenação; isso quer dizer que o encenador/encenadora não produz a partitura para o ator/atriz e nem conduz sua criação. Da mesma forma, a atuação está circunscrita à sua função. Na lógica desse trabalho colaborativo, não existe a possibilidade de o ator/atriz fazer em cena algo que não foi ensaiado, assim como é inconcebível alterar um trabalho depois que ele foi entregue pelo encenador/encenadora. Cada trabalho conta e é de extrema importância, e não são as pessoas envolvidas que julgam o que deve prevalecer e o que deve ser cortado, e sim, a obra que está sendo concebida. Por isso, é comum o dispêndio de muitos esforços e de muita energia para testar cada ideia, cada possibilidade, porque não se sabe qual será a ideal para a obra até que se conclua. 62 Uma cultura teatral pode ser, portanto, uma aliada do trabalho coletivo, quando pessoas de culturas diferentes se encontram para criar. Além disso, é uma estratégia de convivência para os longos períodos de imersão60. Nas salas de trabalho do Nordisk Teaterlaboratorium é comum ver grupos silenciosos trabalhando, onde não há debates ou discussões; não se discute porque a experimentação é física, corporal, da cena. Para esses trabalhos, atitudes como preguiça, desleixo ou mau humor não são bem aceitas. Existem listas de limpeza dos ambientes comuns e o cumprimento desse dever é algo levado muito à sério. Perturbar o descanso é desrespeito grave. Promover distração no local de trabalho é comportamento condenável. E muitas outras práticas menores, como não aplaudir exercícios ou demonstrações, não gritar nos corredores, não deixar bens pessoais em espaços coletivos, não interromper um trabalho corporal depois que se inicia. Essas são regras simples de convivência, que devem ser respeitadas civilmente por qualquer indivíduo, é certo, e podem parecer rígidas demais para alguns, e de fato são. Mas, são as pequenas regras que formam um ethos coletivo, porque o grupo começa no individuo disponível a trabalhar junto e, principalmente, no respeito mútuo pelo produto a ser criado. Para muitos, esse rigor experimentado na cultura teatral do Terceiro Teatro pode parecer opressor ou desnecessário, mas para muitos artistas do Nordisk Teaterlaboratorium significa disciplina e comprometimento com sua arte. E, claro, uma forma de organizar uma convivência entre culturas diversas que inclui morar, por vários meses, em uma mesma “casa”61. 2.2.3 A prática dramatúrgica do Terceiro Teatro É comum observar, nos grupos identificados com o Terceiro Teatro, a prática de trabalhar a dramaturgia concomitante com a encenação e com o trabalho de atuação. Mesmo quando o grupo trabalha com um texto previamente escrito, a construção da encenação toma um caminho dramatúrgico próprio. Este foi o caso da montagem Te Duele?, com direção de Carolina Pizarro62 e Luís Alonso63 a partir do texto de César Brie64. Apesar encenarem um texto 60 Os workshops que acontecem na sede costumam ter a duração de uma semana a dois meses. 61 Os artistas residentes do Nordisk Teaterlaboratorium ficam, em sua maioria, hospedados na sede do Odin Teatret em quartos coletivos e cozinhas compartilhadas. 62Carolina Pizarro é chilena, onde construiu sua experiência teatral como atriz e pesquisadora. Se juntou ao Odin Teatret em 2015. É a principal diretora do Ikarus Stage Arts, onde organiza workshops contínuos e espetáculos para a cidade de Holstebro, atendendo centros de refugiados, imigrantes e demais institutos. É adepta de kalaripayattu, técnica indiana de arte marcial que pratica desde 2011, a qual utiliza como treinamento do ator. Possui espetáculos solo e em parceria com outras atrizes, como atriz e diretora. 63 Luís Alonso é chileno com experiência em contação de histórias. Ingressou no Odin Teatret primeiro como pesquisador e depois, em 2016, como o mais recente integrante do elenco. Coordena, junto com Pizarro, o Ikarus Stage Arts. 64 Atuação de Yessica Alvarado e John Velasco, do grupo Festum (Chile), é uma co-produção Ikarus Stage Arts e Nordisk Teaterlaboratorium. Estreou em 04 de outubro de 2018. 63 previamente escrito, os atores trabalharam na elaboração da fisicalidade das cenas, independente do que o texto denotava. Turner e Campbell comentam sobre essa particularidade: Na prática do Terceiro Teatro o trabalho do grupo em exercícios e treinamento é seguido pelo trabalho dos atores individuais nas partituras, que geralmente alimentam estratégias dramatúrgicas distintas caracterizadas por processos de montagem, muitas vezes manipulados criativamente por um diretor. É importante ressaltar que essas montagens frequentemente evitam a lógica narrativa linear e, ao fazê-lo, frequentemente enfatizam a presença corporificada e o impacto afetivo sobre o logocentrismo e a leitura interpretativa do texto performático (TURNER; CAMPBELL, 2021, p. 158) Quando os artistas do Terceiro Teatro adentram a sala de ensaio precisam desenvolver procedimentos na construção da dramaturgia porque esta é entendida como parte da encenação, e não uma função separada e independente. Mesmo quando o texto está previamente escrito, a dramaturgia é a construção de sentido elaborada em articulação com a encenação e atuação. Voltando ao exemplo de Te Duele?, a concepção artística da obra não se limita a dizer as palavras do texto, e sim, criar um ambiente que constantemente questiona, atualiza, reforça ou nega as palavras ditas. A montagem é uma extensão da relação dos atores com Carolina Pizarro e Luís Alonso, que dirigem o Ikarus Stage Arts65 como parte do Nordisk Teaterlaboratorium desde 2017. Os diretores mantêm encontros periódicos com artistas de diferentes países e desenvolvem treinamentos, apresentações artísticas e ações performáticas na cidade de Holstebro. Eu pude acompanhar algumas apresentações onde fotografei uma apresentação artística no Asyl Center - centro para refugiados. O grupo heterogêneo trabalha exaustivamente com os diretores durante o período da residência na sede do Odin Teatret e ao final apresentam um produto que reúne as investigações individuais de cada participante, sem se preocupar com uma linearidade. Cada ator/atriz trabalha em sua língua original, mas as músicas são coletivas e de distintos países. 65 De acordo com o site do grupo, Ikarus Stage Arts é um grupo interdisciplinar e multicultural que se dedica a criação artística, desenvolvimento de pesquisa corporal e ações culturais. É formado por integrantes de diversos países e dirigido por Carolina Pizarro e Luís Alonso. 64 Figura 1 - Ikarus Stage Arts66 Fonte: Juliana Capilé Certamente, a dinâmica experienciada pelos atores Yéssica Alvarado e John Velasco no Ikarus Stage Arts, incluindo o treinamento físico baseado no kalaripayattu67 e as ações performáticas do grupo, foram basilares para a elaboração do espetáculo. O treinamento do ator é uma prática do teatro laboratório e também forma um dos pilares da poética do Terceiro Teatro, segundo Turner e Campbell (2021), juntamente com a ação cultural e a dramaturgia teatral. A ação cultural a qual Turner e Campbell se referem é uma exigência do Nordisk Teaterlaboratorium; os artistas residentes devem atender a comunidade com ações culturais como contrapartida da produção. O Nordisk Teaterlaboratorium possui uma série de ações na cidade de Holstebro e arredores, e os residentes escolhem onde e como querem contribuir. No entanto, a dramaturgia é primordial nas produções artísticas do Terceiro Teatro. Refiro-me aqui a elaboração de material artístico. Ou seja, a dramaturgia é entendida como todo o processo posto em cena. A cultura teatral conduzida pelo ethos do grupo promove uma dramaturgia expandida. Em outras palavras, a dramaturgia, o treinamento do ator/atriz e a encenação se misturam na sala de ensaio utilizando todo repertório criado pela vivência do grupo. Dentro dessa perspectiva, a construção de um trabalho teatral é a elaboração de sua dramaturgia. 66 Apresentação do Ikarus Stage Arts, com numeroso elenco internacional, no abrigo para refugiados de Holstebro (DK), em 2015. 67 Técnica de artes marciais indiana da qual Carolina Pizarro é praticante, como aluna do mestre Lakshman Gurukal do Kalari Gram (Índia). O kalaripayattu também é utilizado como técnica de treinamento pelos atores do Grotowski Institut de Wroclaw (Polônia). Em 2015 a Cia Pessoal de Teatro introduziu o kalaripayattu como treinamento para atores durante o Encontros Possíveis – seminário internacional de teatro – com workshop do mestre Sankar Lal Sivasankaran Nair.(http://ciapessoaldeteatro.com.br/p/agenda-de-eventos.html ). http://ciapessoaldeteatro.com.br/p/agenda-de-eventos.html 65 2.2.4 Treinamento, exercícios, partituras: a dramaturgia orgânica O treinamento é o território de autonomia do ator/da atriz do teatro laboratório68, assim como do Terceiro Teatro. É durante o training69 que é possível capacitar o corpo com as qualidades necessárias para um bom desempenho, como: equilíbrio, atenção, agilidade, visão periférica, resistência, potência vocal e física, variação de qualidades de movimentos, entre outros. Além disso, é através do treinamento que o ator/atriz cria seus repertórios de movimentos que serão utilizados em sua dramaturgia. Os atores e atrizes do Odin Teatret são famosos por seus treinamentos, que foram desenvolvidos desde o início do grupo, na Noruega, em 1964. A princípio os exercícios lidavam com a inexperiência do elenco70. Mais tarde, foram aprimorando para exercícios aprendidos com grandes mestres como Grotowski e seu ator Ryszard Cieslak, através de seminários e encontros que promoviam na sede de Holstebro. Quando os treinamentos deixaram de ser coletivos, cada integrante passou a ser responsável pelo próprio training, desenvolvendo individualmente seus exercícios. Iben Nagel Rasmussen71 comenta que quando entrou no Odin Teatret, em 1966, o que mais lhe chamou a atenção foi a atitude na aplicação dos exercícios. A atriz conta que entravam na sala em silêncio e os movimentos eram mostrados e todos aplicavam, sem explicações. Lembra ainda que gostava de observar os colegas mais antigos no grupo realizarem os exercícios, porque via algo que transcendia o físico e tornava o corpo “transparente”. Rasmussen relata em seu livro (2016) que não conseguia atingir essa “transparência” por mais que se esforçasse, e que apenas depois que iniciou seu treinamento sozinha pôde fazer as perguntas que a levaram a ter consciência do próprio corpo: o que é uma ação dramática e o que isso significava para ela em particular. É necessário acrescentar que o treinamento é uma prática diária e inclui exercícios que passam a fazer parte do repertório corporal do ator/atriz, como os que Rasmussen descreve a seguir: 68 Ver GROTOWSKI, Jerzy; FLASZEN, Ludwik. O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. 2ª. ed. São Paulo: Perspectiva e Edições SESC SP, 2010. 69 Muitas vezes é utilizada a palavra em inglês como um substantivo para designar o treinamento específico utilizadona rotina de treinamento de cada artista. 70 A primeira formação do grupo foi através de um convite de Barba aos alunos rejeitados no processo seletivo da escola de teatro de Oslo, Noruega. Os primeiros integrantes nunca haviam feito teatro e os exercícios serviam para treinar o corpo para a atuação. 71 Iben Nagel Rasmussen é atriz, diretora, professora e escritora. Nasceu em 1945 em Copenhagen, Dinamarca. Foi a primeira atriz a ingressar no Odin Teatret após sua chegada a Holstebro em 1966. Em 1983 fundou, paralelamente ao seu trabalho no Odin Teatret, o grupo Farfa com atores de vários países. Desde 1989 dirige The Bridge of Winds (Vindenes Bro), um projeto anual recorrente com atores da América Latina e da Europa que compartilham sua experiência artística e realizam performances. 66 E foi aí que comecei a experimentar todas as maneiras possíveis de sentar, de girar, de ir até o chão e de sair do equilíbrio. Olhando para trás, voltando a pensar naquilo tudo agora – como sair do equilíbrio e depois retornar, como ir até o chão e depois ficar novamente em pé, - eu vejo que, para mim, foi como encontrar... sim, uma fênix: eu me jogo, perco completamente o equilíbrio, não sei o que vai acontecer. E depois eu volto a ficar de pé, como se... renascesse (RASMUSSEN, 2016, p. 282). O treinamento exige disciplina e frequência. Faz parte da rotina de cada ator/atriz, como o músico que pratica seu instrumento ou o bailarino que exercita seu corpo. Além de exercícios físicos, exercícios vocais, de memorização, leituras ou meditação também podem compor o training, desde que executado com a intenção de aprimorar o repertório corporal teatral. Serve para treinar o corpo-mente do ator/atriz, e não seus músculos. Na sede do Odin Teatret, durante as temporadas de imersão, salas são preenchidas com práticas de yoga, kalaripayattu, katakhali, dança do ventre; qualquer técnica pode ser desdobrada e utilizada no treinamento do ator/ atriz do teatro laboratório. O importante é manter a atitude corporal de constante aprendizado para a ativação do corpo-memória na autonomia de sua singularidade em relação a seu corpo72. Esta autonomia da singularidade instrumenta o corpo para as partituras cênicas e ajuda a criar um “amuleto feito de memória” (BARBA, 1998), que o ator vai acessar quando estiver em estado de representação. Ao passo que a partitura cênica73 é uma sequência de movimentos que, interligados e repetidos com precisão, criam um sentido para quem vê. É elaborado movimento por movimento, trabalhando suas intensidades, volumes ou tamanhos, e memorizado na sequência. Uma partitura memorizada se torna um material para o ator/atriz. Esse material, por sua vez, será disponibilizado para a montagem, tendo a figura do encenador, ou encenadora, como responsável pela articulação de todos os elementos. Para Julia Varley (2010), o termo “material” descreve “a atividade autônoma de uma atriz antes da intervenção do diretor ou da montagem definitiva no curso dos ensaios” (VARLEY, 2010, p. 93). Cada ator/atriz possui sua forma de desenvolver partituras, que costumam iniciar com ações construídas a partir de algo que ressoa da mente para o corpo. Certa vez, acompanhando Julia Varley em seu treinamento pessoal perguntei como ela criava uma partitura. Ela respondeu que se deixa levar por uma imagem e reproduz, com o corpo e voz, as associações que aquela imagem provoca no seu íntimo; se deixa conduzir pelas associações e depois, para fixar a 72 Sobre o trabalho sobre si mesmo recomendamos o artigo QUILICI, Cassiano Sydow. O Treinamento do Ator/Performer: Repensando o “Trabalho sobre Si” a partir de Diálogos Interculturais. Revista Urdimento, no. 19, nov. 2012. 73 A partitura de ação, ou partitura cênica, é tratada aqui como método de criação de cena, utilizado pelo ator/atriz para criação e composição de materiais, semelhante à composição de uma partitura musical. 67 partitura, introduz dinamismos, cria oposições, altera intensidades, e assim por diante, até ter um material completo. Roberta Carreri74 comenta que improvisa a partir de qualquer coisa, mas que quando estava cansada demais para criar descobriu um método que utiliza até hoje. Ela conta que: Para fazer improvisações que devo memorizar rapidamente, parto sempre de um texto que conheço bem. Por exemplo, “San Martino” de Giosué Carducci, uma poesia que aprendi na minha infância: “A neblina nas colinas/ chuviscando sal/ e sob o mistral/ urra e empalidece o mar...” A primeira imagem é da neblina diante de mim, então lentamente, meu olhar fica nebuloso e eu mesma me transformo em névoa. Ando pelo espaço e sou atingida pelo pensamento da morte do meu primo: seu carro corria na estrada e, de repente, por causa da neblina, bateu contra outro. Agora sou o carro que corre e bate. Caio no chão, morta. Posso olhar a névoa, ser a névoa ou dar caminho livre para uma associação a partir da névoa. Assim, um texto breve pode servir como fio de Ariadne para uma improvisação relativamente longa. (CARRERI, 2011, p. 136) Os atores e atrizes do Odin Teatret são autônomos em suas partituras; são autores exclusivos de seus materiais. O diretor não dita o que devem fazer; ele propõe um tema e, em seguida, organiza os materiais fornecidos pelos atores e atrizes combinando os diferentes estratos, como a cenografia e a música, em consonância com o macro tema que estão, eventualmente, trabalhando. O espetáculo, portanto, está calcado no trabalho dos atores e atrizes que produzem materiais a partir de sugestões que podem vir do diretor ou de suas próprias pesquisas pessoais. É essa dramaturgia composta pelo ator/atriz que Barba chama de Dramaturgia Orgânica, a base onde ele organiza a elaboração do trabalho cênico. Esse é um dos caminhos utilizados na prática de trabalho do Terceiro Teatro: a elaboração de partituras de ação. O objetivo a ser alcançado é a precisão e organicidade das ações, ou seja, conseguir realizar uma ação, movimento ou gesto que atinja o cinestésico75 do espectador de modo que a imagem transcenda os limites físicos. Isso requer um treinamento corpo-mente que capacita o ator/ a atriz à dinâmicas extra cotidianas76, que criam uma equivalência da realidade percebida. A equivalência é um elemento fundamental para a compreensão da elaboração de uma partitura de ação, pois as ações não podem ser criadas ao acaso, somente como gestos, vazias 74 Roberta Carreri é atriz do Odin Teatret desde 1974. Se juntou ao grupo quando este passava uma temporada em Carpignano, Itália, seu país de origem. É graduada em Design Publicitário e estudou História da Arte na Universidade de Milão. Teve contato com diversas técnicas de atuação do Japão, Bali, Índia e China. Estudou diretamente com mestres como Kazuo Ohno, Katsuko Azuma e Natsu Nakajima. Organiza o Odin Week Festival e diverso cursos e workshops. Também é diretora e escritora. 75 Barba trata, em muitos de seus textos, sobre a intenção de “tocar” os sentidos do espectador, não apenas seu intelecto. Para ele, a obra cênica deve ser percebida com o corpo todo. Ver BARBA, 1994. 76 Termo muito utilizado na Antropologia Teatral, se refere à qualidade de um movimento que transcende os limites da atitude corporal cotidiana. No cotidiano o corpo humano evita se desgastar, mas na atitude extra cotidiana, o corpo dispende muita energia para o mínimo movimento. Ver BARBA; SAVARESE, 2012. 68 de origem. As ações criadas possuem uma relação com algo que não pode ser visto; equivalem a algo não revelado. Podem ser, portanto, considerados dramaturgia, porque organizam estratos de significados. As ações têm relação com a convocação de imagens arquetípicas, responsáveis por fazer a atualização temporal de uma obra, ou seja, remeter a conceitos inerentes ao ser humano que estão além do tempo. 2.2.5 Partitura e subpartitura No jargãoda Música, “partitura” é uma palavra que descreve a representação escrita de uma música e utiliza símbolos próprios para grafar sons, ritmos, andamentos. O Teatro se apropria do termo para descrever um conjunto de “objetivos físicos e objetivos psicológicos simples”, ao qual Stanislavski chama de “partitura” (STANISLAVSKI, 1984, p. 74). Para compreender a partitura de ação, devemos retornar ao método das ações físicas de Stanislavski, no início do seu Laboratório, quando buscava organizar o estudo para despertar a sensibilidade cênica do ator. A tarefa da atuação era identificar, no texto teatral, as questões que não estavam nas palavras, mas, escondidas em um campo lógico de ações e reações vividos pelo personagem. Essas ações tinham relação com procedimentos psicofisiológicos, que deveriam ser captados e trazidos à tona na atuação. O ator ou atriz deve criar um contexto lógico, crível, e reagir a ele; para isso, precisa construir exigências mentais que serão respondidas corporalmente em forma de "impulso para a ação". A mente, para Stanislavski, é a inter-relação entre intelecto, vontade e sentimento. Na prática isso significava o trabalho com o "subtexto", ou seja, o que mais estava acontecendo na cena que não estava explícito e que deveria ser trazido à tona para criar a perezivanie, um termo russo que designa a recriação de uma dupla natureza, outra realidade viva: a realidade do personagem. Na prática de Stanislavski essa etapa era, basicamente, um trabalho de estudo de texto perscrutando motivos reais e ocultos, investigando a semântica, a sintaxe, as relações entre personagens. Por isso, nessa época, os ensaios iniciavam com todos sentados em torno de uma mesa, cada um com uma cópia do texto em mãos, lendo, relendo, anotando e fazendo perguntas: era preciso entender, antes de qualquer coisa. A partitura de ação utilizada por Barba, no entanto, é a equivalência do método das ações físicas de Stanislavski adaptada para um contexto afastado do texto escrito. Quando Eugenio Barba nomina de "partitura", a equivalência que ele faz é para uma composição que não estava baseada no texto escrito, e sim, nas "reverberações e ressonâncias" provocadas no 69 corpo do ator. Provavelmente, Barba se deixou contaminar pelas várias alusões que Stanislavski faz entre o corpo do ator e o instrumento musical. Uma partitura física pode ser improvisada ou memorizada, pode ser uma série de exercícios ou uma dança. É uma “poesia do corpo no espaço”, como costuma dizer Barba em suas palestras. A partitura é composta por várias subpartituras, que por sua vez é a equivalência física que representa algo. Assim como o subtexto mencionado por Stanislavski revelava questões ocultas da psiquê do personagem, a subpartitura traz à tona elementos que estão invisíveis. A subpartitura não está presa a um contexto lógico, como antes estava o subtexto, portanto, os movimentos não precisam fazer sentido, e sim, precisam fazer sentir. Para criação da subpartitura, o ator/atriz faz o mesmo caminho proposto por Stanislavski ampliando o método para além do realístico: cria exigências mentais e se coloca nesse contexto para reagir a um estímulo. As provocações para a criação de imagens são uma equivalência do "se" mágico, da circunstância e objetivo de Stanislavski, uma ferramenta que pretende auxiliar o ator em uma situação dada. Por exemplo: e se você estivesse nessa situação do personagem, o que faria? Na subpartitura a situação dada pode ser uma questão, uma pergunta, uma tarefa ou uma frase. Por exemplo: o dia em que parti de Ítaca. O ator/atriz se deixa tomar pelo estímulo e cria imagens que serão fisicalizadas no corpo-em-vida. Em outras palavras, cria uma história para si, possivelmente com elementos de experiências pessoais, e essa história se torna o subterrâneo de seus movimentos. Para exemplificar, tomemos um aceno de adeus com a mão. É um movimento. Mas, se o ator/atriz faz o aceno como se estivesse dando adeus a alguém distante, deixa de ser apenas um movimento e se torna uma ação, pois é um movimento com uma intenção. Se ainda, acrescentar um elemento de sua experiência, como um adeus que gostaria de ter dado a alguém que partiu para sempre, essa ação passa a ter uma carga de tensão especial; passa a ser subpartitura, quer dizer, pertence a um “segredo” que só diz respeito ao indivíduo que criou. O ator/atriz não vai reproduzir a emoção que sentiu, nem expressar dor e tristeza, porque a partitura é um desenho corporal, psicofísico, e não emocional. A emoção deve ser sentida pelo espectador, e não pelo atuante. O que o ator sente faz parte de seu trabalho pessoal com as ações, que passa por treinamento, assimilação, elaboração de movimento e memorização. 70 Durante esse processo, a emoção se transforma em técnica e não é mais acionada da mesma forma que antes77. Voltando ao exemplo da sugestão de tema, “o dia em que parti de Ítaca”, na criação da partitura o ator/atriz constrói uma história interna que faz sentido somente para si, como por exemplo: “No dia que parti da minha cidade para ir para Europa pela primeira vez na minha vida e não esperava passar tanto frio”. Essa é uma história interna e secreta, sobre a qual os movimentos serão elaborados. Os movimentos conterão elementos que farão equivalência com “partir da minha cidade natal”, “viagem”, “Europa, que nunca vi”, “expectativa”, “frio”. Além disso, trarão as conexões que cada sensação pode realizar., como a sensação de tédio da cidade natal, o medo da viagem, ou ainda o fascínio pelo frio junto com a raiva de não conseguir calçar uma bota a tempo de ver a neve cair. O processo de criação de partituras pode se tornar bastante complexo. O ator/atriz deve evitar operar em uma zona óbvia de criação ao mesmo tempo em que precisa se conter para não ser muito complexo. Quanto mais simples uma partitura, mais chance tem de torná-la profunda e dilatada. Para chegar no simples, o caminho é complexo. A subpartitura dá vida à partitura, ao que o espectador vê. É a relação viva entre um corpo e outro. Não deve ser entendida como um pilar oculto, e sim, como um processo profundamente pessoal, muitas vezes difícil de compreender ou verbalizar, cuja origem pode ser uma ressonância, um impulso, uma imagem, uma constelação de palavras. A subpartitura é o lado “de dentro” do tecido dramatúrgico da partitura; é a camada de sentido criada pelo repertório do ator/atriz. 2.2.6 Os exercícios na construção da dramaturgia Na prática do ator do teatro laboratório, ou na atuação que segue a premissa de que o ator/atriz precisa de uma preparação para desenvolver seu trabalho, existe a elaboração de exercícios como meio de preparação de um corpo que tem condições de ir além do estado cotidiano. Não se trata de um treinamento físico para os músculos, e sim, um treinamento que refina a percepção e a resposta corporal, como se abaixo da pele, entre a pele e os músculos, houvesse um molde energético a ser tensionado e exercitado. O exercício desse molde energético do corpo do ator é a ativação do corpo-em-vida do qual trata Grotowski (1987) e que 77 A emoção é decodificada para ser repetida diversas vezes, mas isso não quer dizer que o ator ou atriz deixe de se emocionar enquanto atua. Significa, sim, que não é mais a emoção que guia a ação – porque, emoção é algo que desmancha, e com o tempo a memória deixa de emocionar. 71 possui tantos outros nomes, mas que correspondem ao centro reativo muscular e perceptivo do corpo em estado de representação organizada78. De acordo com os procedimentos de criação de cena utilizados pelo Odin Teatret e que seguem princípios do Teatro Laboratório de Grotowski (GROTOWSKI; FLASZEN, 2010), os exercícios são criados pelo próprio ator/atriz em um autoestímulo para a criação de imagens. É interessante a semelhança entre os exercícios paracriação do corpo-em-vida e os enunciados da performance. De acordo com Eleonora Fabião, um enunciado é: [...]um conjunto de ações previamente estipuladas, claramente articuladas e conceitualmente polidas a ser realizado pelo artista, pelo público ou por ambos sem ensaio prévio. Ou seja, a temporalidade do programa é muito diferente daquela do espetáculo, do ensaio, da improvisação, da coreografia (FABIÃO, 2013, p. 4). Salvo as devidas particularidades dos dois contextos, performance e teatro, o princípio de comprometimento do ator/atriz é o mesmo nos dois casos. O atuante performer cria um estado de presença, o corpo-em-vida, para executar o que se propõe. No caso da performance, o “corpo-em-experiência”; o performer está no limiar e a realização do enunciado se dá em caráter inédito. Por outro lado, o ator/atriz pratica os exercícios muitas vezes até seu corpo conseguir realizar o caminho para a reação dilatada sem necessitar do estímulo intelectual. A repetição, nesse caso, faz parte do teatro, enquanto o ato da experiência, com sua característica irrepetível e vibrátil, faz parte da performance. Fabião (2013) critica o uso da performance como forma de produzir material para o espetáculo. De acordo com ela, a performance só tem sentido se estiver operando na “imediatidade”, na urgência, e não como método de ensaio: "assim como uma performance não é ‘ensaiável’, não faz sentido transformá-la em ensaio"(FABIÃO, 2013, p. 9). O exercício não transforma, portanto, performance em ensaio. A semelhança está no comprometimento em realizar o enunciado proposto, do começo ao fim, em atenção dilatada e concentração focada, sem fingir o movimento, sem forçar ou intensificar a reação, mas estudar o que acontece no momento em que está acontecendo. É no exercício que o corpo é testado em seu limite e capacidade. Um exemplo de exercício amplamente divulgado nos anos 1980 e que foi desenvolvido por Iben Nagel Rasmussen é conhecido como Dança dos Ventos. Consiste em movimentos 78 Nem sempre podemos chamar de atuação o trabalho do ator/atriz, porque nem sempre existe uma “ação” acontecendo em cena. Na maioria das vezes, quando tratamos de partitura, o corpo realiza uma dinâmica, como uma dança. Por esse sentido preferimos tratar aqui como um estado de representação organizada utilizando o termo de Barba e Savarese (2012). 72 simples, que apoiam ora em um pé, ora em outro, como uma dança de valsa. O/A praticante, de pé, alterna os passos em movimentos pequenos e grandes, baixos e altos, respeitando o ritmo: pequeno-pequeno-grande, pequeno-pequeno-grande. Ou ainda: chão-chão-céu, chão-chão-céu. Ao longo do tempo, a dança passa a fazer parte do corpo, o ritmo passa a ser incorporado a todas as células e não se pensa mais para executar, apenas voa. É um exercício executado em regime de exaustão, em grupo ou sozinho, durante horas. Da mesma forma que a performance não deve ser usada como ensaio, o exercício não deve ser usado como espetáculo79. Pode ser utilizado para capacitar o corpo do ator/atriz para criar dramaturgia, pois as partituras são uma forma de elaborar a dramaturgia orgânica, única para cada corpo. A diferença entre exercício e enunciado tem relação com a atenção despendida para o corpo-em-vida80 de cada procedimento. No caso da performance, o performer está em uma atitude de se deixar surpreender, de estar no limiar, ou seja, seu corpo é um reagente que possui uma condução intelectual mínima. Sua atenção está voltada para fora, para o entorno, mantendo o corpo em estado vibrátil para ressoar os estímulos que vem de fora. O performer não controla sua ação, apenas reage ao que está em volta. Os exercícios exigem outra atitude do ator/atriz; a atenção está voltada para dentro, para o que seu corpo está fazendo, como está reagindo ao estímulo, que músculos estão sendo acionados, qual o tônus muscular exato, a intensidade e volume. O ator/atriz precisa memorizar sua reação, transformar em passo-a-passo, entender o que acontece, como e por que, para conseguir repetir da maneira mais fiel possível. Com as repetições o exercício se torna parte imantada do corpo do ator, sem que precise pensar para fazer. Realizar sem pensar não significa executar uma ação de forma automática e vazia, embora seja inevitável passar por essa fase na elaboração e memorização de partituras. Durante a etapa de memorização, o corpo está aprendendo as dinâmicas, as sequências e intensidades, e é inevitável que as ações pareçam calculadas e refletidas em demasia. Depois que a memorização está efetuada, o trabalho é manter sua energia e suas nuances sutis no objetivo de despertar a "segunda natureza" do corpo na reelaboração da espontaneidade. Essa espontaneidade não simula o comportamento do cotidiano; não é um faz-de-conta. É a 79 Existem as demonstrações de trabalho que são apresentadas como peças teatrais. São obras cênicas que reúnem as técnicas, procedimentos e exercícios para a montagem de um trabalho ou que descrevem a trajetória técnica do artista. 80 Ver BARBA; SAVARESE, 2012. 73 reelaboração do estado do cotidiano em uma equivalência para o estado de representação organizada. Os exercícios, portanto, servem para criar impulsos que por sua vez contribuem na formação de imagens. Existem aqui dois caminhos: aquele que leva à imagem que pode ser lida e compreendida pelo espectador, e a imagem que não é entendida com o intelecto, mas percebida com todos os sentidos do corpo. Em um caso, o corpo está significando algo com a ajuda do intelecto. Em outro, está operando no hemisfério límbico do espectador, quer dizer, na parte do cérebro que reage ao meio, instintivamente, sem recorrer ao raciocínio. 2.2.7 Para tecer a dramaturgia a partir de partituras O caminho que a partitura faz é para além da representação de uma ação. O ator/atriz não está corporificando uma ação com uma imagem, e sim, está corporificando várias imagens com uma ação. Não é representar, por exemplo, o susto, ou a fome: é montar uma sequência de imagens em torno do tema susto ou fome. Os perigos da utilização da partitura na encenação são conhecidos: executar uma ação “fria”, sem significado; automatizar a execução; decodificar em excesso, distanciando do tema; pontuar com o corpo o que já está revelado; realizar um “faz-de-conta”. A conquista da organicidade é um ponto forte desse percurso, é o que torna vivo o que é partitura. Sobre uma partitura livre bem executada e o impacto que pode provocar no espectador, cito aqui, à título de exemplo, o espetáculo de Eduardo Fukushima, Como Superar o Grande Cansaço (FUKUSHIMA, 2010), baseado em suas pesquisas em torno da depressão quanto sofrimento psíquico. O bailarino, que possui treinamento nas técnicas derivadas do Tai Chi Chuan, atinge sua expressividade utilizando sua técnica não como “alfabeto”, mas como suporte técnico para a criação da corporeidade que conduz sua partitura. No debate ao final de sua apresentação, Fukushima relatou que possuía um número limitado de movimentos e deixava o momento decidir a sequência em que os movimentos seriam acionados pelo seu corpo. Cada movimento foi elaborado a partir de investigações físicas em torno do tema e elaborado individualmente. Na apresentação, o bailarino aciona seu corpo reativo para executar as partituras, na sequência que elas aparecerem, até atingir a exaustão. Ele cria uma estrutura lógica onde vemos seu corpo em trabalho, lutando contra o “grande cansaço” do título, e imediatamente apreendemos seu sistema de tensão. Fukushima conduz seu público para presenciar a realização de seu enunciado-narrativo, sua partitura de ação, e de onde se sai com a sensação cinestésica de um sofrimento depressivo. Em momento algum a palavra "depressão" 74 é mencionada, e é provável que isso não passe pela cabeça de quem assiste ao espetáculo. Mas, épossível perceber seu estado de esgotamento, como uma narrativa invisível que desperta para a percepção do universo temático. O espetáculo possui um tempo de duração único para cada apresentação, porque depende da resistência física do dia, e é inédito também em sua estrutura, porque nunca haverá uma sequência exatamente igual a outra. Para Eugenio Barba, a subpartitura (BARBA, 2010) faz parte de uma “verdade interna” criada pelo ator/atriz que conduz sua ação corporal carregando de sentido cada ação. A diferença entre uma partitura “vazia” ou carregada de potência e densidade é a qualidade de sua subpartitura, porque existe “algo” acontecendo no corpo que desperta os sentidos de quem vê. É possível que a partitura cênica seja um texto invisível: um texto não escrito que contém as escolhas, conscientes ou não, da direção, e que podem ser percebidas no espetáculo, mas que ao mesmo tempo exclui o texto e a escritura. Ou seja, a partitura cênica pode estar vinculada às escolhas do encenador/encenadora e funciona como um conjunto organizado e abstrato de signos, enquanto a subpartitura pertence às escolhas do ator/ atriz, que serão trabalhadas individualmente, solitariamente, a partir de referências subjetivas e particulares. Essas histórias subterrâneas povoam a obra com uma autobiografia não explícita, mas que está carregada de elementos do microuniverso do ator/da atriz, sua história de vida e seus sentidos particulares e, por vezes, íntimos. As partituras estão, portanto, carregadas de subjetividade e da porção do narrador- testemunha. Ao utilizar elementos de suas experiências de vida, a atuação se potencializa quanto corpo que testemunhou algo, como o fragmento de vida real que é transportada para a encenação e, com isso, se relaciona com a porção vida do espectador. É mais provável o público se identificar com quem viveu uma história do que com quem está, simplesmente, imitando-a. 2.3 Os procedimentos da sala de ensaio O modo de trabalho de um grupo inspirado por sua cultura teatral cria procedimentos para cada novo espetáculo. Procedimentos são, portanto, os métodos que o grupo de artistas cria como uma “série de operações lógicas responsáveis pelo desenvolvimento da obra” (SALLES, 2011, p. 60). Os procedimentos estão relacionados, ainda, ao “conhecimento de instrumentos que são necessários, como mediação entre aquilo que o artista quer fazer e o acesso que ele tem à matéria” (SALLES, 2011, p. 108). Ou seja, o “jeito de fazer” de cada grupo que se reúne em torno de uma criação artística. 75 Quando a dramaturgia é construída durante o processo de encenação, isto é, ela não existe anteriormente em forma de texto autoral, sua elaboração se dá, geralmente, em sala de ensaio mediante a criação de procedimentos para produção de materiais, criação de subpartituras e partituras. Ao encenador/encenadora cabe a organização de tudo que foi produzido. Evidentemente, cada grupo realiza esse procedimento de uma forma, e cada experiência de montagem é única, pois os procedimentos acontecem na intenção de resolver as questões da dramaturgia, e não o contrário. Por isso, cada grupo possui sua forma de pensar e resolver as questões. Essa dramaturgia, construída durante o processo, é diferente do work in progress, termo utilizado por Renato Cohen (1998), que trata da dramaturgia que está sempre aberta, em constante mudança, mesmo depois da estreia. A dramaturgia aqui mencionada, já foi chamada por Antônio Araújo de "dramaturgia em processo" e por Schettini (2008) de "dramaturgia da sala de ensaio", e se caracteriza pela elaboração durante o processo, com a organização e montagem dos materiais produzidos pelo elenco, com a contribuição dos outros setores do espetáculo. Em alguns casos existe a elaboração de um texto que se dá em concomitância com a criação das cenas e a articulação dos elementos. O Teatro da Vertigem (SP), por exemplo, utiliza a figura do dramaturgista para a pesquisa teórica do tema, elaboração do texto a partir da improvisação do elenco, organização das fontes de provocações e até a criação dessas provocações ou enunciados, que estimularão o elenco a produzir material. Nas palavras do diretor do grupo: [...] acreditamos num dramaturgo presente no corpo-a-corpo da sala de ensaio, discutindo não apenas o arcabouço estrutural ou a escolha das palavras, mas também a estruturação cênica daquele material. Nesse sentido, pensamos na dramaturgia como uma escritura da cena e não como uma escrita literária, aproximando-a da precariedade e da efemeridade da linguagem teatral (ARAÚJO, 2006, p. 129). Em alguns casos o papel do dramaturgista é distribuído entre os integrantes do grupo, mas a necessidade de registrar o que é criado é uma tarefa que precisa ser feita, ou o material produzido no ensaio se perde no esquecimento. O recurso mais utilizado é a anotação, em bloco de notas ou caderno, comumente chamado de "diário de bordo" da atuação. Costuma ser transcrito pelo próprio ator/atriz, ou por alguma boa alma que se disponibilize a registrar, para que o elenco não precise fazer interrupções. Confiar na memória corporal é sempre necessário e todo ator/atriz registra suas criações primeiro no corpo. Conforme o processo se torna complexo e o volume de partituras se 76 acumula, ou o encenador/encenadora transforma o material criado pelo elenco, a memória corporal se torna menos eficaz. Isso acontece porque o ator/atriz perde a referência do material que foi criado em sua partitura pessoal, em detrimento da referência estabelecida pela montagem. A diretora Leo Sykes, do grupo Udi Grudi (DF), utiliza as etapas para a construção de uma casa como metáfora para a elaboração de uma dramaturgia. Para ela, existe a fase de escolher os tijolos, erguer uma parede, preparar alicerces, rebocar, passar argamassa, pintar. Geralmente, faço um primeiro esboço do espetáculo, tento perceber o que há de não harmonioso, de fraco, de perigoso, de monótono, etc. e modifico a estrutura uma vez. Depois disso, não trabalhamos mais com a construção de cenas inteiras, mas com a qualidade do cimento, a massa corrida, a tinta, a colocação de janelas e portas. A massa corrida e a tinta não são elementos decorativos, são elementos que criam a harmonia e emenda entre um tijolo e outro. Ou seja, o que faz com que cenas avulsas venham a constituir um espetáculo. (SYKES, 2012, p. 64) Na sala de ensaio é possível se deparar com descobertas e dores que nunca mais serão acessadas da mesma forma, e tudo que se pretende com as estratégias de registro, a escrita de processo, o dramaturgista em sala de ensaio, é tentar apreender o inapreensível. Como tratado anteriormente, as práticas de trabalho de cada grupo formam a cultura teatral: um conjunto de práxis, modos de fazer, tecnologias e procedimentos. São acompanhados de um ethos: regras de convívio, acordos e combinados, que por sua vez estão recheados de vivência coletiva, experiências afetivas, romances, inimizades, amizades fiéis, disputas competitivas, histórias compartilhadas. Essa matéria orgânica subjetiva se mistura à técnica apreendida e compartilhada pelo grupo, que é seu cabedal teórico. A mescla de tudo isso forma a dinâmica de trabalho de um grupo e é com esse material que elaboram espetáculos e dão vida a sua arte. Kirsten Hastrup (2010) lembra que, na visão da antropologia, o corpo é um lócus da experiência, onde é sedimentado os processos culturais para a criação de um habitus particular que internaliza a cultura aprendida como uma segunda natureza. O que foi absorvido se torna algo incorporado e, posteriormente, esquecido. As regras de convívio não estão escritas em uma ata ou estampadas em um quadro na parede. São compartilhadas através da rotina de trabalho, esmeriladas pelas conquistas e fracassos. Nas palavras de Hastrup, "viver outra cultura implicauma imersão de ação e consciência, baseado num auto testemunho do conhecimento incorporado na nossa vida cotidiana." (HASTRUP, 2010, p. 75). 77 A cultura teatral passa a ser um "conhecimento incorporado", como fala Hastrup, e determina o lugar de cada um. Também é a cultura teatral de um grupo que mantém aquelas pessoas unidas em torno de um propósito comum. A sala de ensaio é o local principal onde é possível deduzir muitos elementos da cultura teatral de um grupo. O Odin Teatret, por exemplo, possui uma regra bastante compreensível para um grupo que trabalha junto há mais de 55 anos: da porta da sala de ensaio para dentro fica terminantemente proibido falar ou discutir qualquer assunto referente ao que se passa do lado de fora. Quando a porta se fecha, somente são falados assuntos que possuem relação com o trabalho. Essa prática está tão arraigada no modo de fazer da diretora Julia Varley, atriz do Odin Teatret desde 1976, que durante os ensaios de EntreNãoLugares ela mantinha a porta aberta enquanto não podia deixar de tratar de assuntos que estavam fora da matéria do espetáculo. Em alguns casos, marcávamos algum compromisso depois do trabalho ao qual ela só combinava o horário depois que abria a porta da sala, ao final do dia. É um hábito que faz parte do modus operandi do Odin Teatret, mas também é como se cria um território comum e coletivo, onde o conhecimento é tácito e compartilhado na convivência: um modus vivendi. Certamente, não é necessário ter mais de 55 anos de compartilhamento de experiências, como é o caso do Odin Teatret, para desenvolver um conhecimento incorporado. A cultura teatral pode ser baseada em um acordo entre as pessoas envolvidas no trabalho, independente de quanto tempo trabalham juntas. A partilha de afetos81 entre as pessoas do grupo contribui para o trabalho. Partilhar afetos, portanto, remete a uma prática de compartilhamento de percepções sensoriais ocorrida em um ambiente restrito na qual ocorra a relação entre pessoas, o que exige boa dose de disponibilidade e abnegação. A sala de ensaio será o ambiente onde essas relações se desenvolverão a ponto de se transformarem em peça teatral. A forma de lidar com o trabalho, o cumprimento das regras estabelecidas pelo grupo, as questões que estão além do trabalho e a forma de lidar com isso, os códigos de convivência e os níveis de tolerância: a relação entre pessoas que criam uma obra cênica pode se desdobrar em muitas resoluções de cena. 2.4 O espectador como cocriador do espetáculo 81 Tratamos aqui do termo afeto no sentido de Spinoza, Deleuze e Guattari, ou seja, um estado da alma gerado por uma mudança que ocorre simultaneamente no corpo e na alma, despertado pela relação com o mundo e com o outro. 78 O espectador faz parte do acontecimento teatral, pois está na ponta, diante da dramaturgia que se desdobra à sua frente. Trataremos do espectador aqui, não no sentido de incluir uma pesquisa de recepção, mas sim, contando com um elemento essencial do acontecimento teatral. O espectador, nessa tese, está como o destinatário e coparticipante da dramaturgia que é elaborada. Portanto, faz parte da mediação palco-plateia que trataremos mais adiante. Da mesma forma, não cabe, nessa pesquisa, investigar se o que é elaborado realmente chega ao espectador. 2.4.1 Os dois elencos: atores e espectadores Para o encenador Grotowski (1987), por exemplo, existem dois elencos: o de atores/atrizes e o de espectadores/espectadoras. O espetáculo deve ser a centelha que passa entre os dois e o encenador/encenadora coloca em cena os dois elencos, "aproxima-os reciprocamente, coloca-os em contato, em curto-circuito, em co-atuação de modo que a centelha passe"(GROTOWSKI; FLASZEN, 2010, p. 50), visando abordar o inconsciente coletivo dos espectadores/espectadoras e dos atores. A questão da participação dos espectadores/espectadoras na encenação foi levantada por Max Herrmann, no início do século XX, para a criação de uma nova disciplina na academia: a Ciência Teatral, na Universidade de Berlim, em 1923. Com a obra de Goethe Sobre Verdade e Possibilidade da Obra de Arte, de 1789, e o texto de Wagner A Obra de Arte do Futuro, de 1848, a crença de que o caráter teatral se baseava nas obras literárias estava reforçado e validado: teatro era o texto representado. Max Herrmann se coloca contra esse conceito e traz a encenação para o primeiro plano da arte teatral. Para isso, elenca a materialidade, medialidade e estética (FISCHER-LICHTE; ROSELT, 2008) como tríade da encenação. A materialidade era, basicamente, o movimento do ator em cena, e envolvia espacialidade, corporalidade e sonoridade. Medialidade tem ligação com a relação entre atuação e público que, para ele, era um jogo que dava o sentido original do teatro. A estética, que está mais para aesthesis82, é uma consequência das duas anteriores, valorizando o acontecimento da relação entre o trabalho do ator/atriz e a mediação com o espectador, tudo em 82 De acordo com Mignolo, a palavra aesthesis origina-se do grego e seu significado gira em torno de vocábulos como “sensação”, “percepção”, percepções dos sentidos, derivando o vocábulo synaesthesia, que se refere ao entrecruzamento dos sentidos e sensações. Ao passo que a estética é um conceito criado no século XVII como teoria do belo. De acordo ainda com Mignolo, a “colonização da aesthesis pela estética” desloca a percepção da arte para relacionar aesthesis a beleza, ao passo que perceber arte é um fenômeno comum a todos os organismos viventes e não apenas aos que conhecem a teoria sobre o que é o belo (MIGNOLO, 2010, p. 13). 79 um mesmo tempo e espaço. Isso considera, portanto, o espectador como parte da mediação entre palco e plateia, isto é, parte do acontecimento teatral. O espectador diante de uma obra teatral não consegue deixar de pensar, e quanto mais for tirado de sua zona de conforto, mais buscará se aferrar ao processo cognitivo cerebral de buscar entender o que se passa ao seu redor. É quase uma reação involuntária de sobrevivência. A questão do espetáculo não deve ser, portanto, fazer com que o espectador pare de pensar - isso seria improdutivo e até invasivo - mas, talvez, "espalhar" a atividade intelectual para o restante dos sentidos. Melhor dizendo, pensar, também, com outras partes do corpo. Para Eugenio Barba, “a substância definitiva do teatro são os sentidos e a memória do espectador. É essa substância que as ações dos atores atingem” (BARBA, 2010, p. 252), o que sintetiza sua intenção, como encenador, de fazer com que o espectador “escorregasse” para dentro de um mundo só seu enquanto estivesse diante de uma obra teatral. Essa é a base para sua noção de dramaturgia evocativa que, de todas as dramaturgias de Barba83, é a que menos se pode controlar. 2.4.2 Dramaturgia evocativa e a relação com o espectador Dramaturgia evocativa ressoa da junção entre dois elementos dissonantes colocados juntos, em fricção, em uma mesma partitura ou cena, tanto em nível micro, quanto macro da ação. Como exemplo, ele cita o gesto de um ator para dar um tapa, no qual ele pede para que seja transformado em um afago. O ator segue com o ímpeto do tapa, mas o gesto é transformado para se tornar um afago, gerando uma ação com oposições, de um afago que guarda o registro físico de um tapa. A ação evoca algo que não está na superfície do gesto; porta um registro que revela uma segunda camada, oculta, de sentido. Em outras palavras, a dramaturgia evocativa é uma quintessência que desprende do espetáculo e toca em zonas desconhecidas da percepção do espectador, que não são memória ou associação, necessariamente, mas que provocam uma reação cinestésica que está além do raciocínio lógico. Para Barba, e para Grotowski antes dele, a área do cérebro que responde cinestesicamente é o Sistema Límbico e ambos se debruçaram em tornodo tema para compreender como funciona o mecanismo de pensar com todo o corpo, não apenas através do raciocínio lógico. 83 Além da Dramaturgia Evocativa, existem a Dramaturgia Orgânica, a partir do trabalho do elenco com as ações físicas, e a Dramaturgia Narrativa, o enredo da encenação, propriamente, ou seja, a camada que contém as informações de sentido lógico. O nível orgânico toca os sentidos do espectador, enquanto que o nível narrativo envolve a esfera emotiva e intelectual. (BARBA, 2010; 2012) 80 É certo que o cérebro humano não tem, somente, a função de raciocinar. O cérebro também é capaz de cumprir com funções da percepção que não correspondem ao conhecimento logocêntrico. O Sistema Límbico cerebral, descoberto pelo neuro-anatomista James Papez em 1937, responde pelas reações instintivas, impulsos básicos e emoções profundamente arraigadas na capacidade humana de armazenamento de conhecimento, como: sexo, ira, prazer e sobrevivência. Além disso, o registro da sensação de nojo e repulsa, misturado com a sensação de segurança e afeto, como, por exemplo, a memória de ingerir um remédio de gosto horrível trazido pela mãe em uma colher. Essa é a área do cérebro que despertou o interesse de Grotowski e Barba, porque o cérebro processa o que é uma rede de percepções, como bem coloca Leonardelli: É pela experiência corpórea, em toda sua complexidade, que as redes neurais vão organizando seus desenhos pelos quais serão produzidas os conceitos, as linguagens, a produção simbólica em geral. E essas redes se reconfiguram de forma mais dinâmica do que se imaginava até algumas décadas, em função exatamente das novas experiências corpóreas. As redes neurais que se ativam para a ação são as mesmas que trabalham na elaboração dos conceitos, sugerindo uma aproximação muito maior entre ação e trabalho simbólico do que supunha. (LEONARDELLI, 2013, p. 83) A partir disso, vemos que o Sistema Límbico está entre dois importantes polos do nosso cérebro: o córtex central, responsável pela consciência superior, e o tronco encefálico, que regula as funções corporais. Baseado nessa informação, Barba entende sua trama dramatúrgica prevendo que, se intercalar as dramaturgias Narrativa e Orgânica, pode acentuar a atenção cerebral do espectador, estimulando seus centros sensoriais. Por isso, era imprescindível compreender como o cérebro funciona para processar informações diferentes, e o efeito que isso poderia gerar, pois o cérebro não distingue por áreas aquilo que absorve do meio: uma área que calcula pode ser a mesma que sente saudade. Por exemplo, o Lobo Frontal é responsável pela elaboração do pensamento, pelo planejamento e programação, e cumpre com a função de elaborar necessidades e emoções individuais; Lobo Temporal também processa emoções ligadas a memória, além de regular e compreender o que é percebido pela audição; também o Lobo Pariental, está ligado às sensações de dor, percepção da temperatura, sensações gustativas, percepção do tato e com a lógica matemática. Mas, afinal, o que isso tem a ver com dramaturgia? O trabalho de elaboração do simbólico é uma ação de “digerir” a realidade em volta. Pode ser processada pelo cérebro, mas conta com a operação de múltiplos centros de captação da percepção em um fluxo constante e ininterrupto de troca de pulsares, para utilizar um termo da física quântica, como centelhas de luz pulsantes. O corpo não é mais o invólucro da mente 81 intelectiva, mas sim, um campo vivo de relação com o meio no intuito de conexão e autorreconhecimento, como afirma Leonardelli: Ele é um território dinâmico de sedentarismos provisórios que se abre à permanente construção com a diferença: o fora é menos um espaço outro, e mais uma dobra que retorna ao corpo, e vice-versa. A síntese das estruturas de auto-reconhecimento se dá nessa dinâmica de criação, em que a cognição atravessa todas as etapas o tempo inteiro. Não há um sujeito fora da experiência, e a experiência não cessa de se instaurar. Não há uma pré-estratificação do corpo biológico sobre a qual se ergue o corpo cultural, são processos simultâneos, e, cujas fronteiras parecem ser, em muitos momentos, indiscerníveis. (LEONARDELLI, 2013, p. 86) A forma como o cérebro está apto a captar dados do meio e compará-los com sensações e registros internos, dizem respeito ao modo como o espectador vê um espetáculo. De forma alguma ele vai utilizar somente uma parte do cérebro de cada vez e nunca assistirá algo utilizando sua capacidade de raciocínio independente de sua percepção cinestésica, simplesmente porque uma coisa não está independente da outra. Quer dizer, organicamente falando, a capacidade humana de raciocinar e produzir emoções é a mesma, e a ordem hierárquica entre as duas funções são crenças históricas de outra ordem, e as duas funções são, na verdade, processos muito semelhantes dentro do cérebro. Portanto, quando o espectador está diante de uma obra de teatro, sua emoção equivale a um raciocínio, sua percepção espacial aciona sua memória, e um estímulo aciona outro e outro, como um rastilho incandescente, despertando regiões inalcançadas, acordando áreas embotadas pelo cotidiano massacrante. Se continuarmos com esse raciocínio vamos chegar à conclusão que ir ao teatro enriquece a inteligência; e como dizer o contrário? Em termos de dramaturgia, a relação entre diferentes estímulos, de diferentes áreas do cérebro, pluraliza a experiência do acontecimento teatral para quem assiste. Quanto mais complexo for a elaboração de um espetáculo mais estimulante será para o espectador e mais áreas cerebrais serão acionadas. Um espetáculo pode transcender o julgamento e o raciocínio. Não aquele natural, orgânico, que o cérebro realiza no Lobo Frontal ou Parietal, mas o julgamento carregado de embotamento, vindo da construção do cotidiano que controla as ações dos humanos em sociedade. A dramaturgia que é capaz de ressoar no espectador trabalha com a multiplicidade de estímulos tentando acionar várias áreas cerebrais ao mesmo tempo, baseado no trabalho do ator/atriz em cena, transformando o espetáculo teatral em uma "experiência de uma experiência” (BARBA, 2016, p. 11). Na intenção de se relacionar com o cérebro todo do espectador e não somente com sua capacidade racional, a dramaturgia que consegue cumprir 82 com essa expansão pode ir além do logos, estimulando sensações no espectador que, por sua vez, acionarão memórias e referências imagéticas que contribuem para que a "experiência de uma experiência" seja enriquecedora. Um dos campos que a dramaturgia além do logos opera é o da performatividade, já que pode utilizar o trabalho com as partituras de ação para estabelecer a mediação entre palco e plateia. Assim, não está lidando com a encenação enquanto acontecimento somente, mas sim, com a relação intersticial e mediática que se dá entre as subjetividades dos envolvidos, no caso, espectadores/espectadoras e atores/atrizes. Para Fischer-Lichte trata-se do corpo-ativo do espectador: A atividade do espectador não é entendida como uma tarefa da fantasia, da sua imaginação, como se pode ver numa primeira aproximação, mas como um processo corporal. Esse processo é desencadeado pela participação na encenação e envolve não apenas o olho e o ouvido, mas todo o corpo. São os corpos ativos no espaço que constituem a encenação (FISCHER-LICHTE; ROSELT, 2008, p. 117, tradução nossa)84 Para Fischer-Lichte os espectadores/espectadoras são coparticipantes e cocriadores em uma encenação através da sua presença física, sua percepção, recepção e reação. Por isso a autora afirma que as "condições de comunicação de uma encenação são determinadas como regras de um jogo que são levadas a cabo pelos participantes, atores/atrizes e espectadores/espectadores, que podem ser seguidas ou abandonadas por todos" (FISCHER-LICHTE; ROSELT, 2008, p. 118). Um jogo de ação e reação determinado pelo compartilhamento do espaço-tempo. Max Herrmann falava, inclusive, em uma atividade criativa do espectador, que seria sua produção imaginativa, tanto durante o espetáculo quanto depois. A imaginação do espectador prolonga a encenação não apenas se expandindo do palco para a plateia, mas prolonga também no tempo, para além do instante da peça. Para Herrmann, a experiência estética de uma encenação tem relação direta com o fato de elenco e público compartilharem o mesmo tempo e espaço, o que torna a encenação uma experiência corpóreo-mental, leiblich-mentale Erfahrung. Não como emissor e receptor, mas como corpos vibráteis pulsando e se relacionando, na percepção da dimensão espacial do ambiente compartilhado no instante presente. 84 La actividad del espectador no se entiende como una tarea de la fantasía, de su imaginación, como podría verse en una primera aproximación, sino como un proceso corporal. Este proceso se pone en marcha a través de la participación en la puesta en escena y no implica únicamente ojo y oreja, sino a la totalidad el cuerpo. Son los cuerpos activos en el espacio los que constituyen la puesta en escena84. (FISCHER-LICHTE; ROSELT, 2008, p. 117). 83 Compartilhar o mesmo tempo e espaço, em estado de presença, é uma máxima do teatro, inclusive quando os conceitos se expandem. Em outras palavras, estar no mesmo tempo e no mesmo lugar significa a expansão da presença do corpo do ator/atriz, mas também, da espectadora/espectador que compartilha esse mesmo espaço. O instante presente é entendido, nas práticas de meditação budistas, como o único momento no qual existimos realmente. Somente no presente é possível agir: o passado e o futuro são inatingíveis. No entanto, a mente humana, inquieta, nunca está no tempo presente, mas alternando, como um pêndulo, entre reviver algo do passado através de memórias, rancores, nostalgias, ou no futuro, planejando, desejando, esperando. A meditação budista, e tantas outras práticas semelhantes de equilíbrio mental, pretendem colocar a mente no tempo presente e frear a oscilação do pêndulo mental, acreditando que o corpo recebe uma quantidade grande de energia quando consegue sintonizar o real agora. Também nas práticas terapêuticas, entre elas a técnica chamada Constelação Sistêmica, criada pelo pesquisador autodidata Bert Hellinger85, a representação no nível físico de uma questão psíquica pode ser libertadora por promover um desenlace, no tempo real, de problemas do passado que impedem o futuro. Essa prática terapêutica utiliza o poder da representação em nível corporal dos problemas, para acessar a memória epigenética86 do paciente. Procede em nível de conscientização do paciente mediante o reconhecimento de seus problemas e bloqueios que, no tempo presente, podem ser transformados. Colaboradores na terapia "representam" o problema, como ocorre no psicodrama, encenando a situação para o paciente que, por sua vez, se identifica com os elementos encenados e permite o processo de autocura. Diante disso podemos pensar que o instante do espetáculo teatral aciona os registros mentais do espectador, contidos em sua memória, e opera em um nível além do racional lidando com identificações que podem surgir a partir de reconhecimentos de elementos arquetípicos contidos em imagens, sons, gestos, impulsos, intensidades, entre outros. Não estamos tratando aqui dos efeitos terapêuticos do teatro, mas sim, apontando que a representação teatral se utiliza de uma via reconhecida por técnicas terapêuticas e de meditação, que possui ligação do corpo com a mente, o que reforça que o ser humano possui capacidades mentais que vão além do racional. 85 Para informações sobre essa terapia, consultamos o site https://www.hellinger.com/pt/ 86 Um registro que armazena informações de experiências vividas por si e pelos ancestrais, contidas no campo genético-energético de cada um. https://www.hellinger.com/pt/ 84 Quando a encenação trabalha com imagens e sons, oferece ao espectador elementos para acionar sua "memória epigenética" ou seus registros internos, não em nível terapêutico, mas como experiência aesthética se relacionando, em nível corpóreo-mental, com o que ocorre no ambiente compartilhado de tempo e espaço, e devolve para a encenação suas micro-reações. É a dinâmica da dramaturgia evocativa, que aciona e provoca micro reações do espectador. 2.4.3 Opostos complementares Barba e Grotowski vão buscar na física quântica o raciocínio para compreenderem questões do teatro. Saber que o átomo é composto de núcleo, próton e elétron, e que sua maior parte é feita de espaço entre um quantum87 e outro, abriu campo para pensar que a relação entre os elementos é mais importante do que o elemento em si. O princípio da incerteza de Heisenberg88 diz que existe uma interação não determinável entre o observador e o que é observável, o que alterou os princípios de causalidade da física clássica. O princípio da incerteza abriu caminho para o trabalho do físico dinamarquês Niels Bohr89, autor da frase “contraria sunt complementa”90, estampada no logotipo do Nordisk Teaterlaboratorium, o que certifica a influência do físico para o grupo. A teoria da complementaridade de Bohr diz que "as propriedades ondulatórias e corpusculares de um objeto quântico constituem aspectos complementares de seu comportamento" (SILVEIRA; RIBEIRO FILHO; BISPO DA SILVA, 2011), que significa que os elementos só existem juntos. Bohr diz ainda que não é possível fazer a observação de um sistema sem perturbá-lo, revelando que a simples observação de um sistema já o altera. Ele provou cientificamente que quando um elétron é observado, o outro é ofuscado. Ou seja, o foco de atenção, quando depositado em alguma coisa, realmente provoca um efeito que o "potencializa" de alguma forma. O olhar tem a capacidade de potencializar o que está sendo olhado. Voltando ao instante da encenação, o momento em que o espectador pousa sua atenção neste ou naquele elemento do espetáculo está, com isso, potencializando este elemento, ou seja, se relacionando materialmente/energeticamente/atomicamente com ele. Segundo a física quântica, o espectador/espectadora está trocando energia. 87 Na física, um quantum é a menor partícula de qualquer grandeza física envolvida em uma interação. 88 Werner Karl Heisenberg (1901 – 1976) foi um físico teórico alemão, premiado com o Nobel de Física de 1932, criador da Mecânica Quântica. 89 Neils Henrik David Bohr (1885 – 1962), físico dinamarquês, premiado com o Nobel de Física em 1922, desenvolveu o modelo atômico. 90 Do latim: opostos complementares. 85 Bohr vai além e prova que os opostos são complementares, o que explicaria o fato de a atenção do espectador ser atraída para aquilo que lhe causa estranheza. Esse é também o raciocínio de Eugenio Barba (2010), quando opta por uma estética extracotidiana: apostar no estranhamento desperta a atenção do espectador e promove uma interação do observador com o observável por via da complementaridade. Portanto, quando a dramaturgia não é logocêntrica, ela está evocando, chamando e estimulando imagens e associações diversas e quem assiste se vê em um banquete onde toda refeição está disposta na mesa. Cabe ao convidado escolher o que vai degustar. De qualquer forma, pensar que o espectador participa ativamente na dramaturgia de uma encenação é expandir o conceito de dramaturgia para além do palco, e perceber que as associações feitas por cada indivíduo da plateia também são uma ação continuada, deflagrada pelo que aconteceu em cena. O espectador está vivo e ativo durante o espetáculo e vai carregar suas associações cerebrais para além, prolongando o instante em sua memória e seus registros sensoriais. Existe uma dose de controle no que tange a evocação de imagensa partir da trama das dramaturgias, mas o encenador não detém o controle dos significados das cenas para quem assiste e isso não é um problema, ao contrário: liberta o espectador/espectadora das amarras semióticas pré-definidas pelo encenador/encenadora. Existe aqui um espaço para o aleatório e o imprevisível, que tem origem nas descobertas da física quântica que influenciou o pensamento do século XX, inclusive nas artes, por abrir uma possibilidade ao imponderável e por provar cientificamente "que existe mais coisas entre o céu e a terra do que foram sonhadas na sua filosofia", como disse Hamlet em Shakespeare. 2.5 Construção da dramaturgia evocativa: Rumo a uma poética cartográfica A principal dificuldade encontrada ao se elaborar um espetáculo que não parte de um texto previamente escrito está na constante elaboração e reelaboração do que está sendo criado. É como construir um edifício sem ter uma planta arquitetônica antes: os pedreiros da obra devem, a cada pavimentação, parar e recalcular, estudar a metragem, conferir o resultado para planejar o piso seguinte, e ainda, se afastar para observar à distância o desenvolvimento da obra. Se um edifício não é bem construído, pode ruir. Não é diferente com um espetáculo de teatro. Por isso, é tão utilizado nessa tese o termo “construir” uma dramaturgia, porque é disso que se trata: uma metáfora da prática em sala de ensaio. Da mesma forma utiliza-se o termo “confecção” para fazer jus à tessitura das tramas, como na tecelagem, que assenta um fio de cada vez para formar uma trama harmônica. 86 A dramaturgia construída sem um texto prévio não é algo que “parte do nada”. Há sempre um começo, algo que aciona a criação e cria critérios de associações. Nem sempre as associações podem ser entendidas e explicadas de forma lógica. Ou seja, a poética de criação não é logocêntrica – pulsa em outros campos de significação. É um procedimento que se assemelha com a cartografia, no sentido de Guattari e Rolnik (1986), que olha para a superfície criativa com a intenção de mapear elementos invisíveis e criar conexão entre os mapas. Para Sueli Rolnik, o mapa é uma “representação de um todo estático” enquanto a cartografia, tal como trazemos aqui, se refere a “um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem” (ROLNIK, 1989, p. 23). Os criadores fluem na criação, sem saber ao certo aonde chegar, e é o percurso que cria o mapa a ser cartografado: o passo que desenha a rota. Cartografar algo é estar inserido, é fazer parte. De acordo com a prática de criação do teatro laboratório, a elaboração de um espetáculo tem como base o trabalho com as ações. Como essa base parte do elenco, com cada ator e atriz criando seu material a partir de seu repertório pessoal, o produto é, portanto, uma errância subjetiva, coletiva e autoral. Errar, nesse caso, passa a ser uma palavra utilizada para designar errância, e não falha ou fracasso. É preciso errar para criar. 2.5.1 Cartografia: o anti-método A cartografia é utilizada como dispositivo metodológico nas ciências humanas e sociais há algum tempo, adotada também nas áreas artísticas, possibilitando a observação de processos poéticos em andamento sem excluir os sujeitos participantes da experiência. Segundo Prado Filho e Teti (2013), a cartografia como método social foi desenvolvida por Deleuze em colaboração com Foucault91 e trata-se de uma estratégia de análise crítica e ação política. Essa estratégia enfatiza a dinâmica micropolítica das relações e não exclui o observador, ao contrário, utiliza a percepção do observador para “desemaranhar as linhas de um dispositivo”, como colocou Deleuze: Desemaranhar as linhas de um dispositivo é, em cada caso, traçar um mapa, cartografar, percorrer terras desconhecidas, é o que Foucault chama de ‘trabalho de 91 Desenvolvida por Deleuze a partir de conversas com Foucault, a cartografia deriva de outras perspectivas metodológicas do autor, como arqueologia do saber, genealogia do poder ou genealogia da ética, e se relaciona com a prática de Deleuze de relacionar seu pensamento com palavras vindas da geografia, como: campo, deslocamento, território, geopolítica, arquipélago, paisagem. 87 terreno’. É preciso instalarmo-nos sobre as próprias linhas, que não se contentam apenas em compor um dispositivo, mas atravessam-no, arrastam-no, de norte a sul, de leste a oeste ou em diagonal. (DELEUZE, 2005, p.1) Sendo que o dispositivo é uma “estratégia de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas por eles” (FOUCAULT, 1984, p. 246), a cartografia surge, portanto, como um método de enfrentamento e resistência aos dispositivos impostos de um sistema. A perspectiva de Foucault e Deleuze vai balizar a utilização do termo cartografia, nas ocasiões em que existe a necessidade de um método para observar produções coletivas. Em parceria com Guatarri, Deleuze avança com a utilização do conceito de cartografia como construtora de conexões, quer seja de processos complexos ou situações cotidianas, explorando a capacidade para interligar aspectos da pesquisa que pertencem a um território existencial e subjetivo. O território aparece aqui como um ethos que abrange os sujeitos e seus territórios existenciais, como um “lugar de passagem” (DELEUZE; GUATTARI, 1995) em constante processo de produção. Habitar um território também implica a disponibilidade do pesquisador/pesquisadora diante da experiência, não como uma atitude recomendada, mas ainda, um procedimento diante do processo cartografado. Estar disponível tem a conotação de estar aberto a participar, e se relaciona com uma ética horizontal de relação, que faz circular a experiência incluindo todo o ambiente. A cartografia não é utilizada como um conjunto de regras e métodos preestabelecidos, e sim, uma estratégia de abordagem do tema, entre essas, a criação de procedimentos de trabalho. Por essa característica podem existir “tantas cartografias possíveis, quanto campos a serem cartografados” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 46). Dessa forma, é necessária a criação de uma cartografia para cada trabalho a ser desenvolvido, que se apresenta como uma conduta do pesquisador-cartógrafo/pesquisadora-cartógrafa diante do objeto de sua pesquisa. O pesquisador-cartógrafo/pesquisadora-cartógrafa mantém estreita relação com as pessoas do campo cartografado, em contato direto com os territórios existenciais envolvidos na experiência cartográfica, assim como o etnógrafo em sua pesquisa. O etnógrafo não apenas observa a experiência etnográfica, mas interfere, com sua presença, no que é observado modificando e sendo modificado durante o processo de pesquisa. Ainda que a atitude do cartógrafo esteja bastante próxima da postura do etnógrafo, não se trata da mesma coisa. A pesquisa do etnógrafo está circunscrita ao campo da etnologia, se relacionando com questões da antropologia e da observação de etnias observadas. A cartografia, no entanto, é uma metodologia ampla que se aplica a qualquer campo de pesquisa cujo interesse 88 seja mapear aspectos do âmbito subjetivo e objetivo de uma experiência em decurso. Porém, boa parte dos procedimentos do etnólogo que sai a campo e, principalmente, sua atitude cognitiva diante do objeto a ser observado são considerados pelo pesquisador cartográfico/pesquisadora cartográfica, que precisa se deixar conduzir pelo processo sem forçar sua trajetória. Sendo assim, vemos que a cartografia como anti-método, ao contrário de metodologias aplicadas pelas ciências modernas, não isola o objeto de suas articulações históricas e nem de suas conexões sociais, permitindo que a pesquisa absorva a participação do cartógrafo, suas impressões e particularidades, se mantendo aberta ao campo dos afetos. Na cartografia, o agenciamento de enunciação é coletivo, pois ocorre em um“plano de fluxos heterogêneos e múltiplos que se cruzam incessantemente, possibilitando infinitas montagens” (PASSOS; et al, 2009, p. 168), ou seja, o objeto observado da pesquisa se confunde com os observadores. Esse fenômeno, próprio de métodos que incluem a dimensão subjetiva de um processo, resulta em um registro escrito menos objetivo, que permite a observação do pesquisador-cartógrafo/da pesquisadora-cartógrafa. A cartografia propõe uma transgressão ao método que exige a purificação da linguagem científica, do rigor asséptico acadêmico, “que distingue e separa o fazer do dizer, que distingue e separa as disciplinas”, como pontua Passos e Benevides (PASSOS; et al, 2009, p. 158). Apesar de tratarmos aqui da cartografia como uma estratégia metodológica de abordagem de processos, não podemos deixar de registrar a aversão da ideia cartográfica ao princípio do método. De acordo com a origem grega da palavra, metá – hodos significa: direção para se atingir um determinado fim. Ou seja, uma metodologia seria um percurso determinado, com um objetivo concreto. A cartografia não pretende atingir um objetivo concreto. Não é um modelo a ser aplicado, mas experimentado. Sendo assim, podemos dizer que a cartografia é um anti-método que funciona na desestabilização dos eixos cartesianos (vertical/ horizontal) na qual costumam ser categorizadas. Segundo Passos, cartografar é habitar um território existencial singular. 2.5.2 A cartografia na elaboração do espetáculo Cartografar se torna, portanto, a criação de procedimentos que vão auxiliar na abordagem do tema de uma determinada pesquisa, sendo que esses procedimentos não excluem os aspectos subjetivos que podem ou não surgir durante o percurso da pesquisa. 89 Essa característica amplia o espectro de ação do método para o campo ético e político, como observa Passos e Benevides: Toda experiência cartográfica acompanha processos, mais do que representa estados de coisa; intervém na realidade, mais do que a interpreta; monta dispositivos, mais do que atribui a eles qualquer natureza; dissolve o ponto de vista dos observadores, mais do que centraliza o conhecimento em uma perspectiva identitária e pessoal. O método da cartografia implica também a aposta ético-política em um modo de dizer que expresse processos de mudança de si e do mundo. (PASSOS; BENEVIDES in: PASSOS; et al, 2009, p. 170) A elaboração de um espetáculo de acordo com a prática teatral do Terceiro Teatro é, precisamente, uma aposta ético-política de seus criadores/de suas criadoras. O cerne ético- político, que move os/as artistas do Terceiro Teatro como vimos no capítulo anterior, se torna a força motriz da atitude que impele os criadores/as criadoras a criar seus procedimentos e dispositivos. Certamente, artistas do Terceiro Teatro não chamam sua elaboração dramatúrgica de cartografia, e nem precisam. A estratégia cartográfica acontece por semelhança, por imantação, com os métodos já utilizados pela sua tradição teatral. Afirmo isso quando relaciono pontos aproximais, como: o nível e tipo de comprometimento do artista-cartógrafo/da artista-cartógrafa com seu trabalho; a errância subjetiva do processo; a criação de procedimentos para a abordagem do tema; a construção baseada no processo e não em um objetivo final; a disposição para incluir elementos pessoais e particulares; o envolvimento de todos os integrantes, e outras semelhanças. O mapeamento, por exemplo, pode ser observado em vários níveis do processo de elaboração de um espetáculo. Desde o ato do ator/atriz em mapear seu repertório pessoal para construir uma partitura, quanto a ação do encenador/encenadora em articular os vários níveis dramatúrgicos do espetáculo. Mapear é uma bela imagem que descreve a atitude do criador/da criadora diante de seu tema: como abordar, que caminhos tomar, de onde partir? Mapear é o ato de compreender o território a ser abordado pelo tema trabalhado. É, ainda, a averiguação dos elementos iniciais disponíveis, como sondar a trajetória de um rio, a distância entre dois morros, a topografia do terreno. O artista-cartógrafo/cartógrafa mapeia seu repertório em busca de impulsos para seus materiais criativos, como Iben Nagel Rasmussen investigando sobre as maneiras de sentar, levantar, girar, perder o equilíbrio (RASMUSSEN, 2016, p. 282), ou a seleção de fotos de esculturas da atriz Roberta Carreri como imagens a serem reproduzidas em sequência, como uma dança, para composição de sua partitura (CARRERI, 2011, pp. 178-179). 90 Também é um mapeamento as escolhas singulares que são requisitadas, em qualquer criação artística, pois o criador/a criadora é seu próprio material de trabalho. Para Rolnik, a cartografia serve para mapear sentimentos, no sentido de afetar e ser afetado, e diz que é papel do cartógrafo “dar língua para afetos que pedem passagem” (ROLNIK, 1989, p. 15). Para a autora, o cartógrafo/cartógrafa se apropria de tudo que encontra pelo caminho se esquivando de reservas, preconceitos ou “achismos”, para engolir, deglutir e digerir as experiências, pois “o cartógrafo é, antes de tudo, um antropófago” (ROLNIK, 1989, p. 16). No contexto da criação da dramaturgia de um espetáculo, os criadores/criadoras são os cartógrafos-antropófagos/cartógrafas-antropófagas que se comprometem com o trabalho, acompanhando o processo e fazendo parte dele, com uma escuta ativa para os fatores extra cognitivos e eventos diversos que podem mudar o rumo da rota a qualquer momento. Esses cartógrafos-criadores/cartógrafas-criadoras embarcam na nau que desenvolverá uma trajetória, mas concordam que a nau navegará por águas diversas, atravessará tempestades, precisará lidar com correntes de ventos e marés, que acabarão por determinar o ponto exato do desembarque. Tudo é impreciso em uma criação artística. 2.5.3 A escrita como mapeamento Um dos procedimentos utilizados na cartografia é a escrita como registro em um diário de anotações ou caderno de campo. Kastrup relembra o hipomnemata92 de Foucault, para trazer a importância do registro que tem um objetivo administrativo de “reunir o logos fragmentado” (PASSOS; et al, 2009, p. 70), se tornando uma memória material do que foi dito, ouvido, pensado, experimentado, vivido. Cecília Salles (2011) também ressalta a importância da escrita no processo criativo, para a concepção da obra. Para a autora, os registros escritos produzidos no ato da criação revelam o processo criativo do/da artista e seu percurso de escolha subjetiva. O registro escrito no caderno de anotações constrói um mapa físico de impressões e memórias que, no caso de uma pesquisa cartográfica teatral, tem grandes chances de se tornar dramaturgia. É o que revela a experiência de montagem de Janaína Leite (2014), que vai do diário à cena utilizando para o espetáculo o material acumulado em registros escritos de impressões subjetivas sobre seu pai, no espetáculo Conversas com meu Pai. 92 O termo grego é composto pela preposição hypo e mneme, e significa “memória comemorativa”. É um antigo gênero literário de registro em cadernos e serviam como pilares de memória e também como guias pessoais do modo de vida. É uma memória de experiência de leitura, diferente do diário pessoal. Foucault se apropriou da palavra dos estoicos para designar o caderno de anotações que formam matéria prima para redação de tratados mais sistemáticos. 91 O texto registrado durante o processo da cartografia é uma produção coletiva de conhecimento. Por mais que possa ser escrito por uma pessoa apenas, as impressões registradas pertencem a uma experiência compartilhada que é resultado de encontros. Da mesma forma, o texto escrito de forma colaborativa ou coletiva em uma experiência de montagem teatral será o registro de um processo compartilhado com o grupo que, na maioria das vezes, inclui múltiplas vozes, não apenas do/dadramaturgista que registrou. É um texto, portanto, mais amplo e aberto do que o texto escrito por uma só voz. 2.5.4 A dramaturgia cartografada da poética Seguiremos com a associação entre cartografia e elaboração de espetáculo para sondar a dramaturgia que se constrói na prática da criação dramatúrgica do Terceiro Teatro, na intenção de perscrutar o percurso dessa rota de elaboração dramatúrgica que levará à poética cartográfica. No contexto da criação cênica que estamos nos referindo, observamos uma dramaturgia que mapeia, investiga, perscruta, ausculta e que vai ser incorporada à encenação e à atuação no processo de criação. Ou seja, a dramaturgia também é construída pelo corpo do ator/atriz e pelo encenador/encenadora. Portanto, o processo de cartografar não acontece, apenas, na dramaturgia, mas também, na encenação e atuação. Estamos lidando com a cartografia como estratégia de criação, e por isso, chamamos de poética cartográfica. Para elaborar uma poética cartográfica os criadores/criadoras precisam inventar os processos que fazem os elementos emergirem, ou seja, não existe um método pronto ou uma fórmula a seguir, porque cada conjunção é única, assim como não se pode navegar pelas mesmas águas. Existe o caminho a seguir que, no caso da prática teatral, é o método de trabalho que cada artista cria para si mesmo. Quando esses artistas-cartógrafos/cartógrafas se reúnem para conceber uma obra teatral precisam combinar seus métodos pessoais de forma a garantir equidade nas escolhas artísticas e critérios para decidir sobre os rumos da obra. Esse combinado nem sempre ocorre racionalmente, por via do contrato ou regras claras. Por vezes se dá no embate cotidiano, recheado de tensões e desgastes, tendo como apaziguador o próprio comprometimento com o ofício a ser desempenhado. Os passos de um processo dramatúrgico não são sequenciais e podem acontecer em tempos diferentes: uma cena pode estar pronta no momento em que é criada enquanto outra pode demorar mais tempo para ser absorvida pelo contexto do espetáculo. Da mesma forma, as descobertas de novas tecnologias, novos elementos, novas formas de se relacionar com o 92 material e com os colegas de criação, nunca param de acontecer. Os avanços são realizações coletivas, mas também sucessos individuais, porque exigem abnegação para partir para outras etapas. A imersão contribui para a potencialização da dramaturgia elaborada coletivamente e durante os ensaios de uma forma contundente, porque reduz os elementos dispersivos e estreitam a distância entre vida pessoal e trabalho. Também promove mais tempo em sala de ensaio, testando, treinando, refinando experiências: a sala de ensaio é o laboratório por excelência. Quando o grupo opta por desenvolver o processo em regime de imersão opta pela convivência apartada de seu meio, fora da zona de conforto, e abre para experimentar o estranhamento que vai atiçar a criatividade e despertar conexões inéditas. Expor-se ao novo e lançar-se ao desconhecido é uma forma de se colocar à disposição do fenômeno criativo e criar simpatia com a obra. A simpatia, como procedimento, não tem a ver com afeição, mas sim, com um método para abraçar o fenômeno criativo que emana da obra e que também será incentivado e acolhido pelos outros criadores/criadoras. A simpatia promove uma aura de proteção que envolve a obra em processo e a protege das turbulências dos afetos. Escolher entre uma cena criada por um ator/atriz em detrimento da cena criada por outro/outra, por exemplo, pode despertar a insatisfação e até frustração no ator/atriz da cena rejeitada, mas se o nível de simpatia do grupo está forte o suficiente, todos vão respeitar a decisão que for melhor para a obra. Obviamente que, na prática, essas questões são muito mais oscilantes. O nível de simpatia está adequado para uma coisa e não está para outra, porque a relação com o trabalho está muito próxima das singularidades individuais, portanto, perto da relação pessoal entre os criadores/criadoras. Por isso, a palavra simpatia como procedimento. É necessário ser simpático, também, no nível pessoal: estar aberto a receber do outro, o que melhor tem para oferecer. Nesse sentido, ser simpático é estar disponível para o encontro. Para a poética cartográfica, as arestas de uma convivência pessoal são tão importantes para a criação de material quanto as afeições. Como os materiais não são previamente concebidos estão suscetíveis a estímulos microscópios do convívio. A elaboração da dramaturgia é, justamente, trançar a rede de forças que envolvem a obra a ser elaborada sendo que as subjetividades são uma porção significativa no contexto criativo. 2.5.5 Poética cartográfica A elaboração de uma poética cartográfica pode parecer caótica, e de fato é, mas não é um processo frívolo, sem controle ou critério, imprudente ou superficial. O caos se estabelece 93 a partir da proximidade com o acaso e com o fato de os criadores/criadoras terem por critério não descartar nenhuma possibilidade antes de testar. Na ocasião da elaboração de partituras para o espetáculo EntreNãoLugares, no qual participei como atriz e dramaturgista93, a criação das subpartituras seguia o critério da resposta a estímulos criados pela encenadora Julia Varley. O espetáculo será abordado mais adiante. A criação de materiais dependia da minha dedicação e aprofundamento na criação física, ou seja, a criação da subpartitura da atriz não pode ser uma mera resposta a um pedido da encenação. Precisa conter seu comprometimento com o material trabalhado. Se a atuação elabora uma partitura com poucos níveis de profundidade, linear em produção de significado e em qualidade de ações entrega para a obra uma contribuição pobre, com baixo engajamento artístico. Por isso, o trabalho com os materiais é de particular importância para o trabalho artístico. Para Julia Varley, o material é a própria partitura, tamanho é seu nível de cuidado e rigor com o que elabora (VARLEY, 2011, p. 93). Contudo, o material é o que o ator/ a atriz leva para oferecer à encenação, não somente o que é elaborado na sua dramaturgia pessoal, mas também objetos, canções, habilidades especiais. Existem diferentes níveis para tratar do material artístico, porque quando a questão é recolher material para criação de uma obra teatral, vários níveis são requisitados para o procedimento: nível pessoal, nível artístico, nível cognitivo, nível da materialidade, nível da imaterialidade, são alguns deles. O nível pessoal vai trazer para o trabalho elementos da memória e do campo individual/pessoal do criador, incluindo suas percepções, suas memórias, sua relação com o meio e com os outros. Aqui está o nível de doação ao trabalho, tanto material quanto emocional. Doa-se a disposição, as referências de vida, as memórias, e ainda, pares de sapatos, peças de roupa, fotografias. O nível cognitivo do trabalho é o nível no qual o ator/atriz realiza as conexões de algo, por exemplo, de sua lembrança pessoal com o tema escolhido para ser abordado pela obra. São as primeiras articulações dramatúrgicas às quais o material é exposto. Nesse nível relacionam- se, também, as individualidades do grupo: comparações com personagens da obra, equivalências com a vida pessoal, paixões e desafetos correspondentes com o material trabalhado. O nível da materialidade é onde reside a técnica do ator/atriz e onde se vai buscar ou criar recursos para tornar o material mais interessante, como: explorar qualidades vocais, 93 Dramaturgista, porque não fui a autora do texto, apenas organizei textos escritos por outros autores, ou criados em sala de ensaio. O dramaturgista é o responsável pelo trabalho do texto, e não por sua autoria. 94 técnicas de atuação, utilização do espaço ou objetos de cena. Nesse nível o trabalho é materializado em forma. Aqui é cristalizado todas as conexõesdos outros níveis. Nível da imaterialidade é o nível dos sentidos, o nível onde o ator/atriz vai estabelecer o conteúdo do que quer dizer, como por exemplo, arrastar um vestido no chão como se fosse um cadáver ou falar um texto como se estivesse latindo. No nível da imaterialidade acontece a elaboração do que transcende ao que é material. E, por fim, o nível artístico, que suplanta todos os outros porque é onde se trabalha o refinamento do material, no que tange a equalização dos outros níveis, e faz com que o material rompa com a realidade para ganhar expressão amplificada e presente. Na elaboração de uma poética cartográfica, os criadores/criadoras não só constroem a dramaturgia a partir do trabalho com os materiais, mas, além disso, os criadores/criadoras “descobrem” a dramaturgia na medida em que as conexões vão sendo estabelecidas. Isso acontece quando os cartógrafos/cartógrafas trabalham com a cognição ampliada para atingir um tipo de sensibilidade que lida com o material buscando não apenas o seu entendimento, mas sua ampliação; ou seja, quando não procuram uma forma de explicar ou resolver, mas sim, elevar a uma outra instância o que está sendo trabalhado. Na experiência de montagem de EntreNãoLugares, quando surgia algum problema a regra era trabalhar com o obstáculo, ao invés de tentar contorná-lo. Em uma ocasião o avental do figurino que eu usava se molhou, porque usávamos um bloco de gelo em cena que ia degelando aos poucos. Ao invés de parar o ensaio para trocar a peça do figurino por outra seca, eu incorporei o avental molhado no movimento, torcendo e alisando o tecido antes de vestir. Os movimentos de torcer e alisar ficaram na partitura final mesmo depois que a marcação de vestir o avental e o bloco de gelo não existiam mais na montagem. Mais tarde, o mesmo movimento se mistura com a ação de fazer um pão, onde torcer e sovar se tornam etapas de um mesmo farfalhar do avental, misturados no nível da materialidade. Ora eu torço como se estivesse tirando a água, para em seguida amassar como se sovasse um pão, alternando os movimentos. No nível pessoal e cognitivo recorri à memória da minha avó materna e seus pães caseiros para realizar uma fusão com o tema proposto pela encenação: na cama do quarto de minha avó. Realizando uma união de todos os estímulos a subpartitura trabalhava, no nível da imaterialidade, o que para mim havia sido a vida de opressão, trabalho e silêncio de uma mulher como minha avó. Esse caminho rizomático e em deriva da poética cartográfica, que possui uma construção aonde elementos vão se aglutinando um ao outro para formar outra coisa que 95 também não tem nada a ver é uma forma de criar um significado por acúmulo de elementos. As partituras são os complexos criados a partir de várias subpartituras colocadas em um contexto diferente para, assim, descobrir um novo nível de significado. Para trilhar esse caminho as técnicas são menos importantes do que a disposição dos criadores/criadoras para lidar com o material criativo e descobrir as conexões possíveis. Estamos falando de uma criação artística que acontece nos interstícios, nas conexões entre elementos e materiais, entre criadores e possíveis obstáculos do trajeto e, por isso, é uma poética que está em relação com as áreas do espetáculo, com múltiplas instâncias subjetivas, com técnicas pessoais e relações interpessoais: uma poética cartográfica. Sua construção não isola a dramaturgia na produção de texto, mas amplia o processo dramatúrgico para criar procedimentos e estratégias, também, na atuação e na encenação. A cartografia passa a ser utilizada aqui como estratégia para a criação artística e, com isso, uma forma de abordar o material criativo. Portanto, que dramaturgia é essa que é tramada por várias mãos, confeccionada na prática colaborativa de criação, em um território limítrofe entre obra e vida? Para auscultar os procedimentos de criação de uma obra teatral criada sob esses parâmetros, utilizo aqui a experiência de montagem do espetáculo EntreNãoLugares, produzido em parceria da Cia Pessoal de Teatro, a companhia da qual faço parte e o Nordisk Teaterlaboratorium, dirigido pela encenadora Julia Varley, do Odin Teatret. 96 3 CAPÍTULO 3 - ENTRENÃOLUGARES: A CONSTRUÇÃO POÉTICA A partir de um intercâmbio da Cia Pessoal de Teatro com Nordisk Teaterlaboratorium (Dinamarca) montamos, em regime de imersão na sede do Odin Teatret na Dinamarca, de 2017 a 2019, o espetáculo EntreNãoLugares com direção de Julia Varley, atriz do Odin Teatret desde 1976. Estreado em fevereiro de 2019, no 1st NTL Inernational Theatre Festival and Meeting em Holstebro (DK), a obra tem como macro-tema a migração enquanto crise do humano, com o desterro da chamada massa supérflua por questões religiosas, étnico-raciais, gênero. Esses deslocados são os anônimos invisíveis, foragidos, aqueles que não têm um lugar na terra. Ao mesmo tempo, são os ancestrais dos que hoje vivem. Pode-se dizer que a humanidade descendente de caminhantes, de uma maneira ou outra. As criadoras envolvidas diretamente com a obra são: Julia Varley, como encenadora, Tatiana Horevicht como atriz e eu como atriz e dramaturgista. Em cena, duas catadoras de papel encontram uma caixa cheia de livros e levam em seu carrinho94. Enquanto desmembram os livros para reciclar citam trechos de obras clássicas, como a Odisseia (HOMERO, 2018), de romance histórico, como Anarquistas Graças à Deus de Zélia Gattai (2009), recitam poemas, como de Konstantin Kavafis, Clarisse Lispector e João Cabral de Melo Neto, relatam memórias de ancestrais que migraram, e cantam seus pensamentos com músicas autorais e do registro biográfico das atrizes. Além de atuar, eu também assumi algumas funções de dramaturgista: era responsável em buscar os textos que a encenadora pedia e escrevi alguns outros que foram necessários no decorrer do percurso. Normalmente quem ficava com a função de anotar o que foi dito em improvisações e grafar as partituras era Tatiana. O título, EntreNãoLugares, com a grafia sem espaço entre as palavras, é uma escolha deliberada e tem relação com a falta de lugar dos que são julgados como inadequados ou invisíveis. Criei esse título inspirada na leitura de Marc Augé sobre o não lugar95 e as conexões com o consumismo, o colonialismo e a relação com o outro, mas a pesquisa cênica encontrou outro caminho, distante da definição de Augé de não lugar96. 94 O carrinho das Catadoras de Papel foi construído por Douglas Peron. Ele faz parte do Coletivo Spectro Lab, e é parceiro da Cia Pessoal de Teatro na confecção de adereços de cena e cenotecnia. 95 O texto que me inspirou foi SÁ, Teresa. Lugares e não lugares em Marc Augé. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 26, n. 2, pp.209-229, novembro 2014. 96 O não lugar, para Augé, são espaços que não possibilitam identidade, além de serem não históricos e não relacionais como, por exemplo, aeroportos. É o oposto de “lugar antropológico”. 97 Como não tínhamos um texto previamente escrito, fomos ao encontro de vários “pontos de partida” para traçar as rotas do mapa. Esses são alguns utilizados para abrir o panorama da elaboração da dramaturgia: 1. O desejo de se lançar na aventura de um novo trabalho cênico, com a parceria da encenadora Julia Varley e com o Nordisk Teaterlaboratorium como coprodutor. Pode parecer que este seja um ponto de partida que não tem a ver com a elaboração da dramaturgia, mas os deslocamentos geográficos e culturais, a imersão, o ambiente teatral, as pessoas envolvidas, e as conexões que surgiram a partir disso, tiveram muita influência nas escolhas da dramaturgia. 2. Havia uma pesquisa prévia com duas personagens de um roteiro que eu estava elaborando para cinema, chamado Penélopes que Esperam Godot. A história abordava mãe e filha presas em uma casa à espera do marido/pairetornar para seguir suas vidas. Entreguei esse texto como ponto de partida. Ele foi recusado, mas contribuiu para definir o material que serviria. Para escapar das Penélopes e da espera da mulher, nos concentramos em Ulisses e sua Odisseia: sua viagem, sua bravura, suas fraquezas, seu privilégio de homem. Esse ponto se encontra com o ponto seguinte. 3. A questão da leva migratória, trazida por um amigo sírio97 que vivia como refugiado em Holstebro. Ele trabalhava como artesão na confecção de objetos de cena para o Odin Teatret quando nos conhecemos em uma das viagens. Sua história nos tocou profundamente e sentimos necessidade de falar disso. Esse ponto leva ao ponto seguinte. 4. Ao pesquisar sobre migrações, Tatiana e eu atentamos para o fato de que, nós somos descendentes de migrantes que vieram para o Brasil em busca de um futuro melhor. Ao buscar relatos das viagens dos ancestrais, reproduzidos por nossas mães, nos deparamos com a história da Vilma Clara Mendes Horevicht, mãe da Tatiana. Ela partiu da Paraíba de ônibus, na sua adolescência, e foi para o Paraná junto com a família carregando seus pertences mais valiosos: uma caixa pesada de madeira cheia de livros didáticos. Quando ela chegou ao destino, os livros não serviam mais; haviam saído da lista de livros do ano letivo. Essa história contém muitas outras, como a do pai da Karla Izidro, compositora da trilha sonora, cujo pai faleceu sem conseguir voltar para rever Pernambuco, de onde migrou na juventude. Eles fizeram parte de uma grande onda migratória no Brasil, os Retirantes do Sertão, quando milhares de pessoas precisaram deixar o Nordeste por causa da seca. Além desses somaram: meus ancestrais, vindos da 97 Samier Edo é artista plástico da Síria. Reside, atualmente, na Dinamarca. 98 Itália, Polônia, Líbano; os bisavôs da Tatiana, vindos da Ucrânia, da Rússia; e a história de vida de Julia Varley, repleta de viagens. 5. Os objetos que forneceram o ponto de partida para as investigações iniciais foram: livros e vestidos. No início, livros de capa dura, com aparência de antigos e vestidos pretos, compridos. Os vestidos tinham ligação com as Penélopes e foram incorporados durante uma investigação em uma oficina ofertada pela Julia Varley em São Paulo. Eu e Tatiana compramos dois vestidos iguais, porque a oficina exigia uma proposta de figurino. Imaginamos que essas mulheres Penélopes seriam sóbrias e sofredoras. O livro entrou pela primeira vez na mesma ocasião, quando foi pedido que criássemos uma partitura com um objeto e como eu não havia levado nenhum, peguei um livro emprestado de um colega para utilizar no exercício. Mesmo os pontos de partida descartados durante o percurso foram fundamentais para determinar as pistas de investigação. Com esses pontos de partida descobrimos que tudo confluía para o macro tema da migração e seguimos nessa rota. A elaboração do espetáculo aconteceu a partir da construção de sua dramaturgia, ou seja, da criação da trama entre as diversas fontes de textos escritos, as partituras de ação compostas a partir de enunciados propostos pela direção e a inclusão de experiências compartilhadas pelas criadoras. A dramaturgia é, portanto, o resultado da trama entre as dramaturgias narrativa, orgânica e evocativa, ou seja, envolvem, também, a atuação e a encenação. O trabalho da encenação é a própria elaboração da dramaturgia criada pela atuação. A confecção dramatúrgica de EntreNãoLugares não partiu de um texto previamente concebido, mas foi moldado em sala de ensaio, primeiro criando as partituras para depois aplicar o texto falado ou cantado promovendo, assim, um sentido que não parte nem do texto nem da música, mas ressoa em camadas de significados reverberadas, quer dizer, nos interstícios. Os procedimentos para a dramaturgia foram criados durante o percurso do trabalho, desenvolvidos para lidar com os obstáculos encontrados e para promover a criação de cenas, em uma dinâmica que está sendo nominada aqui de poética cartográfica. É uma criação cartográfica, principalmente, porque navegamos em mares de antigas rotas e precisamos criar procedimentos no nosso percurso. Chamamos de antigas rotas, porque lidamos com tradições que vieram antes de nós, como teatro laboratório, Terceiro Teatro e a tradição teatral do Odin Teatret. Mas, é uma poética cartográfica porque, apesar das tradições que carregamos, nós traçamos nossa própria rota marítima ao criar nossos procedimentos. 99 3.1 A preparação da jornada: a tripulação Na construção de EntreNãoLugares participaram muitas pessoas que, direta ou indiretamente, estiveram conosco durante o percurso. Mas, as criadoras são três mulheres: eu, Tatiana Horevicht e Julia Varley. Somos as criadoras, e não as autoras, porque compusemos com o que somos e não com nosso trabalho apenas. Quando entendemos que nosso tema era a migração, os refugiados e viajantes, passamos a observar a porção estrangeiro que residia em cada uma. Trouxemos para a obra esse registro de nível pessoal de forma delicada, como um culto aos ancestrais, um agradecimento à vida. Durante as entrevistas que realizamos em 2015 na sede do Odin Teatret, Julia Varley nos havia acompanhado de perto. Ela ajudava a marcar as entrevistas, realizava almoços ou jantares para criar possibilidades de encontro, auxiliava na compreensão e sugeria fontes de pesquisa. Também veio dela os depoimentos que serviam de fio condutor para nossa jornada. Essa proximidade fez com que conhecêssemos sua história e, melhor, nos fez compreender a história do grupo sob sua ótica pessoal: de atriz e estrangeira. Varley entrou no grupo quando Barba já havia decidido que não poderiam incluir mais nenhum integrante. Ela viajou da Itália para a Dinamarca e decidiu que iria ficar. Nesse período ela já tinha vivido, juntamente com o Teatro del Drago, uma prática de teatro engajado e militante, com uma organização interna adepta do anarquismo. Como integrante do Teatro del Drago, ela era responsável por dar aulas a jovens aspirantes e tinha uma intensa rotina como uma das organizadoras das atividades. A experiência com o Odin Teatret trouxe a possibilidade de fazer do teatro a sua vida, mas a confrontou com um teatro que exigia um engajamento mais intenso e uma divisão clara de funções. Tudo era diferente e isso a fascinou98. Varley havia contado, durante as entrevistas de 2015, sobre seus primeiros anos na Dinamarca e o quanto se sentia uma estrangeira. O fato de não se sentir bem-vinda no grupo, o difícil caminho de aprendizado, a solidão da derrota. Mas também, a sua satisfação e seu orgulho em fazer parte, até hoje, desse grupo. Sua história inspirou a forma como olhamos para tantos outros viajantes ao longo do processo criativo. Há a dor da perda, mas há também, a alegria do encontro. EntreNãoLugares recebeu da Tatiana Horevicht muito mais do que sua contribuição como atriz. Ela ofereceu a história de sua mãe. Reconheço o quanto lhe foi difícil continuar trabalhando, depois da morte de sua mãe, em um acidente de carro. Varley e eu tínhamos um 98 No seu livro Pedras D’Água: bloco de notas de uma atriz do Odin Teatret, Varley conta sua trajetória e como foi parar no grupo. O livro é uma excelente fonte de informação sobre a cultura teatral do grupo na prática e revela, em detalhes, o trabalho de atriz do grupo, a criação de materiais, as decisões e escolhas. 100 cuidado em dobro para lidar com os materiais que ela havia trazido da sua relação com sua mãe. Seu luto foi reciclado e ressignificado pelas Catadoras de Papel. Como parceira nesse percurso, Tatiana foi, muitas vezes, a propositora de muitos procedimentos. Observar seu trabalho com as ações me fez compreender muitos dos mecanismos que, nesta tese, busquei descortinar. Suas partituras servem de exemplo, em várias passagens a seguir. 3.2 O início da jornada: os primeirosmapas Quando iniciamos o trabalho em EntreNãoLugares, não conhecíamos boa parte do que se tornaria o espetáculo. Em outras palavras, não sabíamos para onde estávamos indo, porque não consideramos que havia um objetivo. Não havia ainda o destino, mas, já havia o caminho. Ou seja, não tínhamos uma imagem de como seria ao final de todo o processo, mas queríamos experimentar o percurso. Por isso, precisamos criar mapas. O mapeamento dos elementos e a elaboração dos materiais trabalhados na atuação se tornaram parte do processo de percurso, fundamentais para burilar cena a cena e construir, a partir das escolhas dos caminhos tomados, o destino de um trajeto sem rumo. É um procedimento que conta com a micropolítica como estratégia de economia do desejo no campo social, no que tange ao arranjo diário e cotidiano das relações interterritoriais dos criadores envolvidos. Tudo que vivíamos no cotidiano de nossa imersão ia parar nos ensaios. Assuntos, curiosidades, piadas internas. Como se não houvesse paredes que separassem a sala de trabalho dos outros espaços. A relação interterritorial tem a ver com as territorialidades trazidas para o trabalho por cada integrante da criação que possui, naturalmente, sua constelação de afetos e seu conjunto de crenças pessoais. As territorialidades pessoais promovem encontros felizes ou tristes, na produção de energia necessária para que a criação conjunta cresça. Levando em conta que os territórios são conceitos dinâmicos em constante ajuste com o meio e com outras territorialidades, a interterritorialidade pode ainda conter a intraterritorialidade, que destaca as particularidades territoriais dentro dos territórios que já foram anteriormente delimitados. A questão da territorialidade vem à tona quando o procedimento é cartográfico, pois uma das etapas do processo se corresponde ao mapeamento desses territórios e suas particularidades. 101 3.3 Mapeando histórias e depoimentos: lidando com outras vozes A história de Ulisses nos levou a pesquisar outras histórias, de outros viajantes. Isso nos conduziu a buscar os viajantes que vieram antes de nós: nossos ancestrais. A busca pelas histórias familiares foi deflagrada pelas histórias épicas dos livros, juntamente com as histórias dos refugiados. Para a busca das histórias dos nossos ancestrais procedemos da seguinte maneira: entrevistando nossas mães. Com a história da Vilma Mendes Horevicht tivemos o relato escrito por ela, através de e-mails. Os relatos dos meus ancestrais eram relatados em mensagens de voz da minha mãe que eu, posteriormente, transcrevia. Os relatos dos refugiados recolhemos de pessoas que conhecemos no Asyl Center, durante nossas ações culturais, promovidas pelo Nordisk Teaterlaboratorium. Também recolhemos depoimentos de refugiados em artigos de revista, como o da ativista pelos direitos dos apátridas Maha Mamo, que acabou se tornando uma cena inteira. Havia vários elementos para serem mapeados, o que se deu simultaneamente, criando um entrelaçamento entre histórias pessoais, familiares, de personagens dos livros, dos refugiados e de memórias de pessoas que assistiam aos ensaios e contribuíam com algum comentário. Se esse procedimento de mapeamento tivesse seguido uma linearidade não teria chegado no resultado amalgamado que chegou, pois o procedimento de misturar um mapa com outro, um território com outro, foi acontecendo ao longo do percurso. A característica rizomática da poética cartográfica inclui o “antes” e o “depois” de cada procedimento, o que impede que uma ação seja vista isoladamente. Ou seja, se na atuação a atriz prepara uma partitura utilizando elementos da pesquisa, mais a fala de um entrevistado ou uma música, e essa partitura vai para a cena, não é possível dizer que a cena possui um único autor. Essa afirmação estaria excluindo a contribuição do depoente, dos elementos da pesquisa, da encenação que conduziu para a elaboração da partitura, a contribuição da parceira de cena, os comentários de quem assistiu aos ensaios, e todo contexto da criação. A contribuição da atriz está inserida em um processo criativo de um ambiente de criação dramatúrgica. É, portanto, criadora desse processo. Não autora. Outro fator que contribui para a pluralidade da autoria na poética cartográfica é a atenção para as relações micropolíticas do processo de criação. Existe sempre algo que veio antes, que impulsionou o percurso criativo e gerou o resultado. 102 3.4 A sala de ensaio como território a ser habitado A direção de Varley trabalhou as cenas a partir do desenvolvimento de partituras geradas pelas atrizes e posteriormente manipuladas para a criação de cenas. Como visto anteriormente, essa prática possui algumas características, como: elaboração de materiais a partir de investigação corporal para criação de subpartituras e partituras; ênfase no trabalho da atuação; a cena que encontra o texto, não o contrário; valorização das oposições e equivalências; procedimentos para construir uma dramaturgia evocativa costurando as dramaturgias narrativa e orgânica. É um método utilizado pela tradição teatral do Odin Teatret e bastante comum no Terceiro Teatro e em encenações que elaboram sua dramaturgia durante o processo de montagem, onde as criadoras necessitam encontrar uma forma de fazer funcionar a dinâmica de criação. O espaço da sala de ensaio se apresenta como zona de conflito e de afetos, espaço de dor e de prazer, frustrações e júbilos. Não como a antessala do espetáculo, mas como o próprio território da criação, onde podemos identificar o traço biográfico, a impressão digital das criadoras. No caso da montagem de EntreNãoLugares, se tornou o território da elaboração da cartografia da obra. A sala de ensaio, durante um processo de criação, é um ambiente em ebulição, onde todo contexto importa e pode interferir no processo criativo. É o território a ser habitado pela cartógrafa. É esse ambiente que pode favorecer a criação ou prejudicar, mas sempre vai contribuir para criar conexões entre os elementos, quer seja da pesquisa, do espetáculo, das relações ou do íntimo de cada integrante da criação. Uma vez que as conexões são estabelecidas, a trilha que levou a esse caminho desaparece e raramente podemos dizer de onde veio determinada ideia ou como realizamos alguma conexão específica, porque o elemento entra para o material criado e se amalgama se tornando, imediatamente, parte do todo. É como o curso do navio que, depois que passa, não deixa rastros na água. 3.5 O mapa complexo das territorialidades Para a construção de um mapa cartográfico, as geógrafas utilizam escalas de distâncias nas quais quilômetros são traduzidos por centímetros. Da mesma forma, o mapa cartográfico possui escalas que buscarão traduzir o macro, no micro. Por exemplo, o trecho do espetáculo que conecta os passos da trajetória de Ulisses até sua Ítaca e a busca por paz dos refugiados: 103 “Muitos são os Ulisses que atualmente fazem um longo caminho de volta para uma casa que não existe mais” (ENTRENÃOLUGARES, 2019). Para chegar a essa frase, uma das poucas que escrevi de próprio punho ao invés de apropriar das palavras ditas por outros, parti do princípio que todos os humanos do mundo contam uma mesma história – epicamente monstruosa, longa e não linear – e que, ao mesmo tempo que contamos também a lemos. Seguindo essa imagem um tanto poetizada e generalizante dos caminhos da humanidade, as migrações apareceram como um virar de página e um avanço nessas narrativas. Diante disso, temos uma história contada através das territorialidades existentes, porque não é um indivíduo, apenas, que se desloca e sim, todo seu “continente” singular, sua “constelação” de ancestrais e descendentes, seu território, enfim. Esse vasto território necessitará de novas demarcações e novos ajustes à medida que se desloca,como se afirmasse que a humanidade precisa se deslocar para se reciclar, para virar a página de suas histórias e mover adiante, como uma nau deve fazer, para encontrar outras águas. O que essa imagem cria, portanto, é um mapa complexo de territorialidades pelo mundo, com cada indivíduo carregando seu próprio universo, interagindo por semelhanças e diferenças. Para a criação dessa imagem norteadora foi importante perceber a existência dessas diversas territorialidades, que me foi possível a partir do intercâmbio com artistas de outras culturas. E, vivenciar a elaboração do espetáculo em um processo imersivo, em um país estrangeiro para nós atrizes. O fato de estar fora da zona de conforto social nos colocou em um estado de alerta constante e de simpatia acionada, que fazia com que filtrássemos as relações cotidianas através do filtro da disponibilidade para o encontro. Esse elemento foi crucial para produzir o território coletivo mestiço99 no qual o trabalho foi concebido. Mapear os diversos territórios foi importante para compreender tudo que tínhamos nas mãos, que chamamos de materiais. Portanto, o que me levou a escrever a frase que conecta a Odisseia de ontem à odisseia de hoje, foi estar mergulhada no processo de criação, respirando e pulsando, em estado de disponibilidade, tudo o que estava em volta. Pois, o que fazemos como artistas-cartógrafas enquanto estamos em trabalho, será o espetáculo per se. Mais uma reação ao meio, do que uma pulsão individual. 99 Baseado no pensamento de Edouard Glissant, que nomeia como “crioulização” o encontro entre culturas diferentes, valorizando a potência da miscigenação entre as diversas “manifestações do Diverso”, que faz gerar algo imprevisível e novo. Para ele, “a mestiçagem como proposição supõe a negação da mestiçagem como categoria, consagrando uma mestiçagem de fato que o imaginário humano sempre quis (na tradição ocidental) negar ou dissimular” (GLISSANT, apud DAMATO, 1996). 104 3.6 O Outro como o Diverso Estar em estado de disponibilidade para o encontro é uma prática no teatro laboratório, que segue a tradição de Grotowski, cujo encontro considera o outro como o Diverso. Glissant (2005) prevê a necessidade de reavaliar e reinterpretar os territórios e fronteiras intelectuais, inclusive as construções identitárias, linguísticas e culturais desses sujeitos envolvidos na criação. A “identidade-rizoma” de Glissant, fornece a imagem ideal para olharmos para a diversidade de territórios sem o julgamento hierarquizado, porque toma o outro como um ser relacional, que está em dinâmica mobilidade territorial. O Outro é visto como um território em movimento, se relacionando interna e externamente ao próprio território, e se desterritorializando para se reterritorializar o tempo todo. É a atitude ideal da cartógrafa diante de seu campo de trabalho: vivenciar a experiência sem o julgamento hierarquizado, o que a tradição teatral de laboratório nomina como “estar disponível” para o trabalho cênico. Por isso, nossas histórias pessoais, íntimas e, por vezes, secretas estavam disponíveis ao trabalho. Não iniciamos o processo de montagem com a intenção de fazer uma peça sobre nossos ancestrais. Ao contrário, nossa história de vida foi requerida pelo material trabalhado e oferecemos à obra nossos depoimentos, assim como oferecemos nossos sapatos. A disponibilidade tem a ver com o campo da ética do trabalho de criação que utiliza o “convívio, a experiência e a expectação” (DUBATTI, 2010) como procedimentos para se chegar em uma prática de teatro pluralista; em outras palavras, a relação micropolítica do trabalho artístico. Para que essa estratégia possa funcionar como procedimento de criação é necessário a atitude ética dos criadores envolvidos. A postura da criação cartográfica diante das singularidades dos envolvidos na criação determina como se dará a relação entre os territórios. Antes de ser um procedimento, a cartografia é uma atitude diante do que se vai fazer. Por isso dizemos ser um anti-método, pois cartografar não é apontar onde devemos pisar, mas sim, o caminhar e o caminho, ao mesmo tempo em que observamos como os pés imprimem as pegadas durante o percurso. 3.7 Equipando os navios: os materiais dramatúrgicos De todas as obras literárias que utilizamos como texto escrito na dramaturgia do espetáculo a Odisseia de Homero foi a mais utilizada, pois serviu de guia nessa jornada cartográfica de elaboração da dramaturgia. A Odisseia é a obra ideal por vários motivos. Entre 105 eles, o fato de ser uma epopeia, ou seja, um poema dedicado às aventuras de um herói ou um povo, com o objetivo de ser narrado através da oralidade. Além disso, é uma obra que possui várias partes e segue uma rota não linear. A primeira parte, os Cantos de I a IV, narra episódios ocorridos em Ítaca depois da Guerra de Tróia, enquanto Penélope e Telêmaco100 esperam o retorno de Ulisses. A segunda parte do poema Ulisses conta suas tentativas de voltar para sua casa, enquanto está hospedado no reino do pai de Nausicaa. E na terceira parte, Ulisses chega em Ítaca e precisa enfrentar os pretendentes de sua esposa, Penélope. A narrativa de Homero utiliza a técnica in media res, que começa a história por um ponto onde muita coisa já aconteceu e vai relatando os eventos passados através de relatos da memória. O poema de Homero serviu até certo ponto. Depois o largamos para assumir uma trajetória própria. 3.8 A obra de lastro: um procedimento antigo que não se aplica Nas outras dramaturgias escritas por mim, que prefiro aqui chamar de texto dramatúrgico, tenho um procedimento que se repete em vários trabalhos. Tomo como referência alguma obra, mito ou história para servir de lastro para a escrita. Chamo de obra de lastro fazendo referência à função de suporte, como o lastro de uma cama que sustenta o colchão. Em Cidade dos Outros (2010) eu me baseei em Esperando Godot de Beckett tentando imaginar como os personagens Vladimir e Estragon lidariam com as questões da existência nos dias de hoje. Em Criadouro101 (2005) reescrevi As Criadas de Jean Genet utilizando ecos de Brecht no que pensei ser uma adaptação da obra, mas acabou se tornando outra. No caso de EntreNãoLugares, a Odisseia entra na obra como um dos livros que as catadoras de papel pegam do lixo e começam a ler. É o livro de cabeceira, literalmente, porque faço-o de travesseiro em uma das cenas colocando minha cabeça sobre ele. Mas, não se configura como obra de lastro, como fiz com outros textos. Em EntreNãoLugares não existe uma obra de lastro. A Odisseia, e todos os outros textos entram como acompanhamento de uma travessia que é outra, que vai por outro caminho. Mas, observo que o mesmo procedimento de eleger uma obra de lastro é utilizado na elaboração das minhas subpartituras. 100 Penélope é esposa de Ulisses, o herói da Odisseia. Telêmaco é o filho do casal. 101 Criadouro estreou no antigo asilo Lar São Vicente de Paula em 2005, em Ouro Preto, com direção de Tatiana Horevicht, dramaturgia de Juliana Capilé e atuação de Antônio Apolinário, Clóvis Domingos e Nicolas Lopes. 106 A dinâmica de uma obra de lastro é utilizar um percurso como base, o roteiro de acontecimentos de uma história, mas desdobrá-la de maneira diferente, deixando que os elementos novos façam conduzir a história para outro rumo. A partir da decupagem da fonte de lastro reescrevo a história sem perder a estrutura de referência. Dessa forma, é possível perceber a obra que está “de fundo”, mas não corresponde a mesma obra. É uma referência de inspiração, não plágio. Utilizo a obra de lastro para propor um outro entendimento evocando a referência original. Na elaboração de uma subpartitura, ocorre algo semelhante: utilizo uma história como roteiro da sequência elaborada. Por exemplo, na cena da viúva no cemitério de livros, quando Tatianaestá narrando a viagem da família da Zélia Gattai, da Itália para o Brasil, eu faço o “sepultamento” dos sapatos utilizando livros como “covas”. Enquanto executo a ação, relembro momentos da história de Antígona, da peça de Sófocles102. A forma de recolher os sapatos e depositá-los atrás do livro aberto está carregado com a energia dessa minha memória da história. São dois pares de sapatos: dois irmãos mortos. Isso não transparece na obra, porque faz parte da minha subpartitura. Ou seja, usei como subpartitura uma história de lastro. Figura 2 - Cena das viúvas Fonte: William Fidelis 102 Da peça do mesmo nome, Antígona, de Sófocles. Uma tragédia grega que faz parte da trilogia tebana, de autoria do tragediógrafo. Seus dois irmãos, lutando em lados opostos, morreram na guerra de Tebas: Etéocles foi enterrado com honras militares, mas o outro, Polinice, devia permanecer insepulto. Antígona enterra seu irmão Polinice, enfrentando seu tio Creonte e as leis de Tebas. 107 3.9 Juntas, no mesmo barco Em uma conversa com a encenadora Julia Varley, ao final de um dia de oficina103, a imagem de uma mulher carregando seus livros por um longo trajeto foi escolhida como imagem inspiradora para guiar nossa travessia. Particularmente considero este o momento em que entramos juntas no barco no qual faríamos essa viagem: a escolha da imagem definiu e alinhou nossas visões em relação ao trabalho que iriamos construir. A história da viagem de Vilma Clara Mendes Horevicht criou um campo mágico que passou a vibrar e atrair outras questões: por que ela quis carregar os livros em uma caixa? Eles estavam viajando em quantas pessoas? Que peso tinha essa caixa? Como era o trajeto rodoviário, entre um estado e outro, naquela época? Perguntas que despertavam nossos centros nervosos, nosso cérebro límbico, enquanto a imaginação tentava reconstruir uma experiência. Essas percepções eram carregadas de informações vindas dos noticiários e fotos de jornais: botes lotados de refugiados, multidões andando a pé e carregando seus pertences e filhos, fronteiras lotadas com policiais impedindo a entrada dos refugiados. As pessoas ficavam sem lugar: não podiam seguir, tampouco tinham para onde voltar. A imagem da Vilma, adolescente, carregando sua pesada caixa de livros, se sobrepunha às fotos dos refugiados com suas bagagens na mão, que era o que podiam carregar de suas vidas. Nossa solidariedade, à essas pessoas, nos uniu em torno do trabalho. Em uma entrevista, logo depois da estreia, eu e Tatiana despedimos de Varley, agradecendo pelo fato de ela ter nos aceitado para a montagem. Ela disse que não nos aceitou, pessoalmente, mas aceitou o trabalho que ela viu em nós. Ou seja, aceitou a missão de construir o espetáculo que nosso trabalho estava propondo. 3.10 Içando as velas: a criação de partituras e seus procedimentos Na sua maioria, as cenas eram elaboradas a partir de uma provocação. Invariavelmente partia da direção, em forma de frase ou tarefa, como: “O dia em que parti de Ítaca”, ou “a briga dos livros”, ou "na cama da casa da minha avó”. As tarefas eram, por exemplo: 20 movimentos para 20 palavras diferentes, ou construir um castelo utilizando os livros, ou passos de dança somente com os pés. 103 Workshop O Sussurrar do Fundo do Mar, com Julia Varley, produzida pelo grupo Mundo Rodá (SP), de Juliana Pardo e Alício Amaral, sob supervisão de Marilyn Nunes, na Casa Mundo Rodá, nos dias 28 a 30 de novembro de 2016. 108 Para os textos a serem falados em cena, as demandas eram semelhantes. Varley pedia, por vezes, trechos de textos específicos, como o trecho da viagem de navio da Itália para o Brasil, da obra Anarquistas Graças a Deus da Zélia Gattai. Outras vezes, pedia que eu escrevesse “uma história que contasse sobre alguém que viajou carregando um livro apenas”. O procedimento comum era elaborar uma sequência de movimentos corporais, a partir do enunciado dado, que precisava ser memorizado a ponto de ser executado com exatidão em seus mínimos detalhes. A criação partia do enunciado para se desdobrar, se deixando levar pelas possibilidades do corpo. Para criar as partituras eu, primeiramente, aquecia o corpo com o training diário104. Depois dançava uma música, livremente. Deixava a playlist escolher uma música aleatoriamente. Depois lia minha tarefa do dia e só sentia, primeiramente, deixando a frase reverberar no meu corpo, à espera de conexões mentais. De pé, no meio da sala, tentava manter o meu corpo em estado de presença105. Para a frase “na cama da casa da minha avó”, por exemplo, o caminho foi deixar o pensamento vagar buscando conexões: cama, que lembra: dormir, transar, cama da avó, mulher, cama de parir, casa de vó. Lembrei da casa da minha avó materna e da cama de sua casa. Dos cochilos depois do almoço quando, junto com meus primos, lotávamos sua cama de crianças para aproveitar o frescor do ambiente. Meu corpo encontrou o estado de energia das brincadeiras de infância. Depois, lembrei do frescor e do cheiro da roupa de cama limpa. Essa memória me acalmou o corpo e, mesmo de pé, deixei vir para a pele a sensação de aconchego e frescor que fez meu corpo pender levemente para o lado, mas ainda, estar firme e seguro. Logo em seguida associo essa imagem com as brincadeiras com seus batons, joias, sapatos de salto e construí uma sequência de movimentos que vestia um xale, calçava sapatos de salto, passava batom e colocava um colar no pescoço. Essa sequência, repetida algumas vezes em intensidades diferentes, me remeteu a uma questão que notava desde minha infância: a distância entre a vida da minha avó e de sua empregada, uma mulher indígena. A mulher que eu chamava de madrinha Dila, e que, em silêncio, cuidava de mim com tanto carinho. A lembrança dessa constatação infantil da injustiça social, étnica e de gênero levou meu movimento para uma área mais obscura e, uma a uma, as pérolas do colar imaginário são arrancadas e jogadas para trás, como contas perdidas. O gesto de jogar algo para trás e curvar 104 Nosso treino diário incluía os “sete movimentos de capoeira”, alguns ásanas de Yoga e aquecimento da voz seguido das escalas vocais. Na última fase dos ensaios contamos com a preparação corporal de Elka Victorino, que incluía exercícios de pilates, ballet clássico e moderno. 105 Para Julia Varley, a presença cênica é definida como “um corpo que respira e cuja energia se move”. (VARLEY, 2010, p. 60). 109 o corpo para responder ao obscurantismo da lembrança e para retratar a submissão daquela mulher indígena, me faz lembrar da sua magia pessoal, do seu canto e do seu choro na morte de sua filha. Ao mesmo tempo, me lembro que minha avó também era benzedeira: meu corpo responde de imediato reproduzindo o benzimento e o canto de dor indígena. Figura 3 - Cena da benzedeira106 Fonte: Elka Victorino Todas essas imagens, e são muitas, vão surgindo na cabeça e vão sendo reverberadas no corpo, até compor uma sequência. Nessa etapa não existe atuação. Não estou “fazendo de conta” ou representando o personagem da minha avó, ou expressando sentimentos evocados pela minha memória. A execução é técnica e reproduz imagens mentais, de memórias ou conexões cerebrais. Seria incorreto dizer que é uma execução “fria”, porque a execução de ações para compor um material, quando realizado de forma satisfatória, busca em cada estímulo a expansão do seu sentido. Ou seja, a memória do benzimento não aparece como uma ação rígida, mas busca a variação de tônus muscular de um corpo envelhecido e a variação da respiração, que também está carregada com a memória do canto fúnebre indígena. 106 Ensaio da cena da rezadeira. As contas de pérolas imaginárias eram representadas pelos pedaços de papel picado que Tatiana recolhia com um papelão como bandeja. 110 Ao mesmo tempo em que essas variações acontecem,uma perna cobre a outra, ora se relacionando com o parto ora com o desejo, ou ainda, a agressão e a perda. Na reprodução dos movimentos, equalizo o que deve ser rápido, o que deve ser lento, o movimento que é executado escancaradamente e o gesto mínimo, vario as intensidades e as texturas, tanto físicas quanto vocais. Depois, toda sequência é memorizada e repetida várias vezes, porque é a repetição que vai assentar o movimento no corpo em busca de uma organicidade própria. Depois de memorizada e repetida, quando a ação encontra a organicidade, é que temos uma partitura. A organicidade, ou seja, o corpo-em-vida ativo, como visto no capítulo anterior, não pode ser confundida com uma execução cotidiana dos movimentos. Ela segue a fluência do cotidiano, mas está distante do movimento cotidiano, pois busca, através do excêntrico, do estranho, do irreal, revelar algo que está oculto da lógica comum. É o extracotidiano. Para Varley, atingimos a organicidade quando deixamos as células respirarem com a energia do que estamos buscando, e assim, é possível conseguir realizar uma verdadeira ação cênica107. Por muitas vezes, as conexões mentais e, posteriormente, as imagens não têm lógica entre si. São os caminhos tortuosos do subjetivo que respondem a esse tipo de associação, e o segredo do trabalho é não bloquear nenhuma imagem e buscar lidar com o que aparece: como em uma deriva. Claro que, nem sempre a descoberta é agradável e edificante. Embrenhar na criação de partituras a partir de memórias é deparar com conexões do subconsciente que serão evocadas, sem julgamento, sem condenação. Por mais que possam doer. Para compor essas partituras, meu corpo operava na “imediatidade” (FABIÃO, 2013), tal como o performer executando a performance. No entanto, mantendo a atenção voltada para dentro, para a origem dos movimentos deflagrados por cada estímulo e a memorização técnica de cada movimento reativo. As partituras, depois de memorizadas, eram apresentadas para a diretora, que passa a manipulá-las, como blocos de uma engrenagem, para montar as cenas. Varley pedia para apresentar, ao menos, três vezes a mesma partitura. Repetindo, sem alteração. Nessa etapa, a dramaturgia orgânica é tecida com a dramaturgia narrativa, em um contexto desenhado pela encenação. A partitura das minhas avós recebeu o texto de uma poesia de Clarice Lispector e uma música de capoeira. Passam, assim, a evocar diferentes associações que trazem o resquício das imagens da construção inicial, mas não mais remetem às mesmas evocações. A criação da 107 A ação cênica é quando alguma coisa é mudada com a atuação, e a realidade não é mais a mesma do início (VARLEY, 2010). 111 partitura vocal, por sua vez, acompanhava a partitura corporal e, às vezes, dissociava corpo e voz. Desde o início das pesquisas, a partir do momento que abandonamos a ideia das Penélopes, não havia mais personagens. Éramos eu e Tatiana em cena executando partituras e reagindo, de acordo com nosso repertório pessoal, memória, associações. Em um momento do processo havia um texto no qual eu e Tatiana discutíamos sobre a vida de Carolina Maria de Jesus, a catadora de papel que escreveu Quarto de Despejo: diário de uma favelada (1960). Falávamos sobre problemas com o marido e a outra dizia que escolheu não ter filhos. Era um diálogo sugerido pela Julia para discutir sobre as escolhas da mulher, mas considerei inapropriado e ofereci outra versão, que Julia, por sua vez, não gostou e a cena acabou sendo cortada por inteiro. Ainda sinto pelo fato de ter perdido a chance de incluir uma citação de Carolina Maria de Jesus, mas não coube na obra por motivos diversos. Nessa cena, e apenas nesse único acontecimento, houve uma fala das Catadoras de Papel que não possuía relação direta com nossas vidas, ou seja, que era uma realidade inventada e não equivalente. Passei então a zelar por essa questão: não trabalharíamos com invenções. Esse fato reforçou a relação com o que fazíamos em cena e quem éramos em cena: personagem ou nós mesmas? Recortei do texto toda informação que possibilitasse outras conexões e acabei delimitando em personas narradoras, que considero serem versões de nossas próprias personalidades. Por isso me refiro, nesta tese, a versão de Catadora da Tatiana e a minha Catadora. Nesta tese a denominação das personas estão em maiúscula, e quando trato da profissão de catadora de papel, utilizo minúscula. 3.11 Procedimento com imagens e objetos: dramaturgia evocativa A criação das cenas passava a ser um “ajuntamento” de elementos diversos e um exemplo é a cena 14 e 15 que tentarei descrever aqui, apesar de ser uma tarefa complicada por ser muitas ações acontecendo ao mesmo tempo. A cena inicia quando a minha Catadora de Papel comenta, para a Catadora da Tatiana, que a viagem de Ulisses não foi nada comparada a história da minha tataravó, Guilhermina Guimarães. Cito, abaixo, o trecho do texto tal como grafado por nós. JU: Se você acha que a viagem de Ulisses foi difícil é porque não conhece a história da minha tataravó Guilhermina Guimarães. Guilhermina foi casada desde os 13 anos de idade. O primeiro marido era um homem muito rico e bem mais velho que ela. Quando o marido morreu Guilhermina herdou tudo, mas era muito jovem, mulher, não sabia ler, e o advogado veio e roubou tudo dela. 112 TATI: Ela não sabia ler, mas tinha muitos livros, que hoje são papelão, a nossa sobrevivência. JU: Ela se casou mais três vezes, e todas as vezes os maridos morriam. Você quer ver como era ser viúva de três maridos naquele tempo? Vou te mostrar em um livro de história. (EntreNãoLugares, 2019, p.12)108 O momento em que falo sobre o primeiro marido de Guilhermina ser “um homem muito rico” executo a partitura que construí para esse texto. Quando a partitura foi criada, eu utilizava uma longa passarela de papelão para construir um castelo e quando espalmava a passarela no chão percorria o dedo em sua extensão dizendo “uma enoooorme fazenda, onde hoje é o bairro do Brás, em São Paulo”109. Esse trecho do texto foi suprimido, assim como a passarela de papelão, mas o dedo em riste apontando para uma extensão longa no chão permaneceu. Agora estava concatenado com o trecho “um homem muito rico”. Nesse caso, meu corpo ainda se lembrava da versão original, portanto, eu sabia por que ele era rico – porque possuía uma fazenda de muitos hectares, onde hoje é o bairro do Brás, em São Paulo. 108 Essa citação faz parte do texto escrito, que é um registro do que necessitava ser falado em cena. Também servia de roteiro das cenas, que mudavam de ordem constantemente e precisava ser reeditado. Por ser de uso exclusivo para o trabalho, está com nossos apelidos, apenas para sabermos quem fala, eu ou Tatiana (Tati). Para conferência, o texto pode ser lido nos anexos desta tese. 109Esse é um trecho fazia parte do texto anterior; na versão final essa parte foi suprimida. 113 Figura 4 - Cena de Guilhermina110 Fonte: Duflair Barradas Quando paro ao final da passarela imaginária, o dedo ainda está em riste e não mais aponta. Agora, é um gesto que acompanha a frase: "e bem mais velho do que ela", que fica no meio do caminho entre dar uma bronca em alguém inferior e colocar o dedo na boca, em sinal de silêncio. Com isso, a partitura fornece várias informações sobre o casamento de Guilhermina que não estão no texto falado. Logo em seguida vou para o carrinho contando sobre a tragédia ocorrida quando Guilhermina fica viúva pela primeira vez, enquanto Tatiana constrói, com dificuldade por causa 110 Cenas da gravação na estreia em Cuiabá -MT. Dois momentos da cena sobre Guilhermina Guimarães: “primeiro marido de Guilhermina era muito rico e bem mais velho que ela” 114 do ponto de equilíbrio, um castelo com caixas de papelão desmontadas. No momento em que digo:"herdou tudo", retiro uma placa de papelão que servirá de base para apoiar um enorme livro. Quando falo: "não sabia ler", devo estar com o livro nas mãos - o sincronismo deve ser exato ou a cena não funciona. Figura 5 - Castelo de papelão Fonte: Fred Gustavos O "castelo" de papelão, que Tatiana constrói, remetia ao barraco de Carolina Maria de Jesus, escritora e catadora de papel, autora do livro Quarto de Despejo (1960), de uma partitura montada com um diálogo sobre a escritora. O diálogo saiu, mas o castelo de papelão permaneceu, frágil, como símbolo da vida de Guilhermina, de Carolina e de tantas mulheres como elas. A cena segue para uma transição: quando falo sobre o livro de história, um grande livro é aberto e equilibrado na grade do carrinho e serve para ocultar um vestido preto que retiro da caixa escondida atrás. É como se o vestido estivesse saindo do livro, de dentro dele. A forma de retirar o vestido é muito precisa, para que os braços caiam para frente como um corpo morto, que eu recolho em meus braços antes de vesti-lo na Tatiana. 115 Figura 6 - Cena dos vestidos Fonte: Fred Gustavos Depois, executo a mesma ação com o meu vestido, sempre cantando uma música de ninar finlandesa que ensina as crianças a morrer intercalando com outros elementos da história de Guilhermina, até terminar de vestir a Tatiana e vestir a mim mesma. No instante em que cubro a cabeça com um véu preto, a última ação deve ser concomitante com a palavra “viúva”. Inicia uma nova cena. Nessa cena, que chamamos de “cemitério de livros”, eu coloco os livros no chão, semiabertos para que fiquem de pé, à guisa de lápides de um túmulo, enquanto Tatiana executa uma partitura com o texto da Zélia Gattai. Depois de concluído o “cemitério”, passamos, juntas, olhando cada uma das “sepulturas”, enquanto continuamos a cantar a música finlandesa de ninar. Tatiana narra, nesse momento, o trecho do livro Anarquistas Graças a Deus, de Zélia Gattai, quando a autora conta sobre como sua família embarcou na Itália e veio parar no Brasil, e o quão difícil foi a viagem. Conta sobre a história de Dona Argia, que ficou sem leite para amamentar a filha recém-nascida. 116 Figura 7 - Partitura Zélia Gattai Fonte: Fred Gustavos O texto é dito junto com uma partitura física, que Tatiana compôs a partir de 20 palavras ditadas por Varley para serem executadas utilizando um livro. As palavras eram: chapéu, chuva, esponja, escova de dente, óculos, margarida, faca, língua, mala, rio, guarda-chuva, vapor, anel, saia, rabo, bebê, criança de 10 anos, bengala, raio, beijo. Para cada palavra, um movimento utilizando o livro. A execução de tarefas desse tipo era um procedimento recorrente para a construção da dramaturgia orgânica. Enquanto Tatiana, toda de preto, executa sua partitura de 20 movimentos e cita Zélia Gattai eu busco nossos sapatos, que foram deixados ordenados como em uma caminhada, retiro- os de seu caminho e arrumo-os, solenemente, um de cada vez, com um livro aberto e de pé em sua frente. Imediatamente, se forma a imagem de uma sepultura. Para executar essa partitura, eu recupero uma corporalidade construída em uma improvisação, onde citava um trecho de Antígona de Sófocles. Sigo abrindo outros livros e organizando-os de pé e abertos, como se abrisse novas covas. Não existe outros sapatos para serem enterrados, mas é uma imagem por extensão – é como se houvesse. 117 Figura 8 - Construindo cemitério111 Fonte: Fred Gustavos A imagem se constrói pelo movimento, pela atitude, e não pelo objeto. Não importa se o cadáver está sendo representado pelo sapato, ou se a lápide é a capa do livro. Não executo nenhum movimento de “cavar”, não faço o sinal da cruz, não finjo que estou com corpos mortos nas mãos. Nesse momento, só penso em não desafinar na música, em manter a respiração e penso em Antígona no ato nobre de enterrar seu irmão Polinice. Não interpreto Antígona e nem tento representá-la; apenas respiro pensando nela. A junção das imagens criadas se relaciona com a teoria da montagem, de Eisenstein (1990), que mostra que, grosso modo, é a sequência entre imagens que forma o sentido do que é visto112. Cecília Salles (2011) aponta esse procedimento como peças que são justapostas e não, simplesmente, adicionadas. Segundo ela, o resultado da justaposição é diferente de ver cada elemento separadamente. A justaposição faz com que um elemento se relacione com o outro no olhar do espectador. Por isso, o livro colocado de pé é uma imagem. Mas, quando posto na frente de sapatos, organizados juntos, as imagens se relacionam e evocam um sepultamento. Naturalmente, não se trata de um resultado, apenas, de justaposição. É fundamental para a partitura a atitude diante do objeto. É preciso executar o movimento com a 111 Construindo o cemitério de livros com Antígona no pensamento 112 Eisenstein se baseia nas experiências de Lev Kuleshov, que por sua vez se baseou nas pesquisas do filósofo Edmund Husserl que dizia que a consciência atribui sentidos ao que vê. 118 atitude de quem enterra seus mortos. Caso contrário, a imagem, mesmo justaposta, não funciona. Figura 9 - cemitério de livros113 Fonte: Fred Gustavos O ambiente sonoro é a música de ninar finlandesa cantada bem baixinho compondo um fundo para a narrativa da história da família da Zélia Gattai. Essa cena evoca muitas imagens: há um cemitério, mulheres vestidas de preto, uma atitude física de luto, ao mesmo tempo que narra uma história familiar, ao som de uma música de ninar. Comentando o potencial da dramaturgia evocativa Barba menciona que o ato de elaborar um espetáculo pode ser uma “viagem dentro de lembranças” (BARBA, 2010, p. 239), quando atravessamos a “zona fria da distância”, que é a abordagem de um tema, e a levamos para a “zona úmida das emoções”, quando reagimos no presente às emoções do passado. Antes de evocar no espectador qualquer memória, as imagens são evocações das criadoras, pois tratam de registros pessoais das nossas histórias familiares. Julia Varley, criada na Itália, conhecia a história dos “idealistas italianos” que embarcaram para a América para fugir da fome e da miséria na Itália. Sara, sua mãe, nos contou sobre o período de fome que precedeu a guerra e como era difícil para os italianos sobreviver como uma nação que lutou ao lado de Hitler. Eu sou parte dessa história como descendente desses idealistas que 113 O cemitério de livros e a reza cantada na “cova”. 119 desembarcaram no Brasil. Na peça conto a história da mãe do meu avô paterno, que mal falava o português e detestava o Brasil. A justaposição acontece também no nível imaterial tecendo uma dramaturgia evocativa que costura várias histórias, sintetizadas em movimentos, objetos, gestos, atitudes. O ato de sintetizar é buscar a equivalência entre algo macro, como a história de vida de alguém, para o micro, um gesto ou ação física. No difícil e longo percurso de elaboração da obra tivemos momentos em que pensamos em desistir diante das dificuldades na execução do projeto, principalmente financeiras. Estávamos em meio a uma dessas turbulências sem possibilidade de retornar à Dinamarca para terminar o trabalho quando perdemos, por um acidente de carro, a mãe da Tatiana. Foi uma dor profunda que tomou todo trabalho. Por telefone Julia Varley, ao consolar pela perda, diz: “agora vocês devem fazer um esforço para terminar. Por ela.”. Vilma Clara Mendes Horevicht nos deixou em maio de 2018. Estreamos em fevereiro de 2019 e a obra é dedicada a ela. Além dessas camadas de memória ancestral, havia a camada carregada de cuidado e afeição devido o luto que Tatiana vivia pela sua mãe. Quando construímos a cena do “cemitério de livros”, estava impressa nossa tristeza, nosso agradecimento a quem nos emprestou um relato tão inspirador.Também está impresso nosso pesar. Em um dos ensaios Julia pediu para que eu acrescentasse nomes e datas de nascimento e morte durante o percurso entre as “covas” de livros. Adicionei o nome de mulheres: minha avó, a avó da Tati, e quando chegamos em um último livro/túmulo Julia disse para acrescentar o nome da mãe da Tatiana. Quando completei a cena, Tatiana chorava. Julia a abraçou, consolando, e esse momento entrou para o registro dos nossos corpos. 120 Figura 10 - A última "lápide"114 Fonte: Fred Gustavos Quando estamos em cena e chega esse momento, Tatiana aperta meu braço e eu pego na mão dela, como um pedido de desculpas antecipado por ter que tocar nesse assunto. Um afago singelo que demonstra meu pesar pela dor que ela sente. Nossos corpos carregam essa subpartitura e a cena ganha um teor sóbrio e respeitoso. 3.12 A memória como procedimento O objeto livro é também um fio de Ariadne, por onde as narradoras viajam e encontram palavras, histórias de povos e tempos que não devem ser esquecidos. A memória aqui toma uma proporção diferente. Não é a memória dos trechos, o recitar, o reproduzir; é a memória ativa, que recicla e propõe outros caminhos. Para Bergson (1999) a memória é criadora e na dramaturgia de EntreNãoLugares é pela memória que se vai desfiando as narrativas, como se as personagens estivessem lendo em vários livros ao mesmo tempo. Aqui, a memória atua como uma espécie de disparador dramatúrgico. Por exemplo, as Catadoras de Papel estão sempre lembrando de alguma coisa e contando o que lembram, quer seja um trecho do livro, quer seja a história da tataravó que ficou viúva três vezes, do que disse o pastor sobre Jacó ter ficado 20 anos longe de sua família, do que contou 114 Leio na “lápide” o nome da mãe da Tatiana e ela aperta meu braço. 121 a tia sobre as vivandeiras de Prestes115, do que estava escrito em algum jornal ou o que disse Kavafis sobre o dia que partiremos rumo à Ítaca. Com o pretexto de lembrar, elas narram para não esquecer, em um exercício de territorializar-se (Deleuze, 1995) e demarcar seu não-lugar social, por mais que exista uma tensão inequívoca entre os dois termos. Bergson (1999) trata da memória criadora que combina conteúdos em resposta à uma experiência do presente, o que as Catadoras fazem o tempo todo. À medida que são provocadas pelas leituras dos livros e jornais, respondem com algo trazido à tona pela memória. A memória é, também, parte da metodologia poética de articulação da montagem. Durante os períodos de imersão, com oito a dez horas por dia de trabalho, durante todos os dias da semana, era inevitável o esforço da memória para que não perdêssemos textos, partituras, músicas e, principalmente, marcações. Nem sempre havia tempo suficiente para a repetição, que é uma aliada da atuação para fixar o que precisa ser lembrado. O tempo de ensaio, normalmente, era dedicado na organização das estruturas da dramaturgia. Empregamos recursos como gravação em vídeo e anotação em caderno de campo, quando o volume de marcações ultrapassava a capacidade da nossa memória. Desta forma, o espetáculo estava espalhado em vários suportes diferentes: a melodia estava no corpo, mas a letra da música estava anotada no caderno, enquanto a partitura física tinha que ser conferida no vídeo. Os fragmentos da dramaturgia eram pequenos vidrilhos de mosaico a serem organizados no espaço da cena e nossa função era fazer caber tudo isso no corpo. Quando voltávamos para o Brasil, as marcações se esvaneciam em nosso corpo e a solução era recorrer à gravação para relembrar, antes de retomar o trabalho em Holstebro. Todas as vezes tínhamos de três a sete dias para trabalharmos sozinhas relembrando o material antes de encontrar com Julia novamente. Em uma dessas imersões descobrimos que perdemos, de alguma forma ainda hoje desconhecida, todas as gravações dos ensaios. O desespero deixou claro que, se não tínhamos as imagens do que havíamos feito não teríamos como lembrar as marcações e todo trabalho estava perdido. Depositamos em um suporte, fora de nosso corpo, o registro do que havíamos construído em parceria até ali esquecendo que os vidrilhos dos mosaicos também podiam ser manipulados por nós. Utilizando as anotações sobre a sequência de ações e, principalmente, acionando a memória do corpo fomos, aos poucos, reconstruindo o trabalho do ponto em que 115 Vivandeiras é como eram chamadas as mulheres que acompanhavam a Coluna Prestes, levando víveres, e responsáveis pelo suporte a tropa. Muitas se destacaram como combatentes importantes na história. Viajavam em carroças e separadas dos revolucionários, porque Prestes proibia mulheres na tropa de combatentes. 122 havíamos parado. Com essa manobra criamos uma relação diferente com o material. Percebemos fisicamente nosso corpo como parte da dramaturgia. Quando observamos hoje as Catadoras de Papel reciclando os livros que encontram enquanto relembram histórias, fica nítida a característica não linear da memória, como o percurso da lembrança. 3.13 Estratégias para partituras Em um determinado momento, eu e minha parceira de cena fazemos uma pequena mágica com papéis: eu rasgo algumas pontas e quando abro tenho uma fileira de bonecos de papel. Tatiana rasga uma folha e amassa as partes rasgadas, quando abre o papel está inteiro. Quando realizamos essas ações estamos sentadas, as duas, na caixa de papelão, com os pés dentro da caixa. Eu estou contando sobre Innocêncio Rivera, o marido da Maria Rosa Cherul, que nada dizia e preferia "comer a polenta do que não ter bucho"(ENTRENÃOLUGARES, 2019, p. 7). O término da frase deveria coincidir com o fim das mágicas. A sequência correta da partitura deveria ser: 1) "do que não ter bucho" + fim da mágica; 2) expor a mágica para frente = trocar com o público; 3) olhar uma a mágica da outra; 4) se olhar; 5) olhar para frente, e se lançar para o chão juntas. Descrevo acima os movimentos tal como aparecem no caderno de ensaios. Nota-se que é uma sequência simples, mas com ritmos diferentes. O momento 1 deveria ser despretensioso, como uma fofoca sobre o que dizia o marido de Maria Rosa, e logo em seguida, no momento 2, ao apresentar a mágica, deveria haver uma satisfação, quase orgulho por concluir com êxito a mágica. No momento 3, esse êxito se esvai quando uma constata a mágica da outra. A troca de olhares, momento 4, raiva da outra ter feito a mesma coisa. E quando olham para frente e caem, momento 5, é uma ação inesperada - "eu quero derrubar você, mas eu caio junto". 123 Figura 11 - Mágicas116 Fonte: Fred Gustavos Durante os ensaios dessa cena algumas preocupações operacionais tiravam minha atenção. Uma delas era a caixa de papelão na qual nos sentávamos na lateral; o peso do nosso corpo, apoiado na lateral da caixa, fazia com que ela se rasgasse. Evitávamos ao máximo esse acidente, porque precisávamos comprar uma nova caixa cada vez que se rasgavam. As caixas precisavam ter sempre o mesmo tamanho e peso. Cada caixa rasgada significava um investimento perdido. Outra preocupação era cair para frente, me jogar no chão, um movimento do qual eu tinha medo de me machucar. O que nunca aconteceu. Essas preocupações tiravam minha atenção e me faziam antecipar a cena, porque minha cabeça estava operando no futuro e não no presente. Quando eu virava para minha parceira de cena para ver sua mágica, eu já trazia no rosto a surpresa da queda ao chão, que só aconteceria mais tarde. Quando virava para trocar com o público, meu corpo já estava preparado para se jogar no chão. Foi necessário pontuar, lentamente, cada momento. Decupar117 o tempo em meu corpo realizando uma ação de cada vez, completa, sem antecipações. Feito isso, juntei em uma sequência todas as ações e só então comecei a acelerar o tempo da sequência, até chegar no ritmo necessáriona cena. 116 A cena das mágicas e a postura na caixa. 117 Decupagem é um termo utilizado no cinema, e por sua vez, importado das artes plásticas, que nomina o procedimento de dividir o roteiro em cenas, sequências e planos numerados para facilitar a gravação. 124 Para decupar o tempo é preciso isolar uma cena, ou seja, saber exatamente onde ela começa e onde termina: o primeiro e último movimento. Feito isso devemos descobrir o que impulsiona a ação - por que estou fazendo isso? Na maioria das vezes o impulso é uma reação a algo que já está acontecendo. Quando se descobre o que impulsiona, fica mais compreensível a sequência de movimentos, porque podemos compreender a lógica física da ação: a lógica física não é racional. É reativa. Olho primeiro para ela, para ver se viu minha mágica, mas logo vejo que ela também fez uma mágica ainda melhor que a minha: uma lógica reativa. A decupagem do tempo também foi utilizada na cena em que tiro os vestidos de trás do livro de histórias, na cena de Guilhermina Guimarães. Nessa cena, acontece uma mudança muito brusca, de um ritmo cotidiano de trabalho para um ritmo de dor e luto. As Catadoras estão comentando sobre a vida de Guilhermina e acabam por materializar o passado, quando as mulheres não podiam decidir sobre suas vidas e havia sempre um homem para mandar nelas. Além de ser uma mudança complexa, que exigia um novo tônus muscular, tanto físico quanto vocal, havia a complicação operacional da cena. Eu deveria tirar o vestido em três tempos, fazer cair como se fosse um corpo morto pendendo do livro, abrir o vestido, vestir na Tatiana pela cabeça, fechar as costas do vestido, desembaraçar a saia para que não fique presa, pegar o meu vestido do livro, puxar em dois tempos, abri-lo no chão como se fosse ficar de pé, vestir debaixo para cima, pegar o véu e colocar na cabeça na última palavra da frase: “viúva”. Hoje, quando escrevo essa sequência me parece absurdamente simples, mas consumiu meses de treinamento e frustração. Sempre alguma coisa acontecia de errado: o livro caía, o vestido não entrava, o véu se perdia na roupa, o carrinho inteiro virava quando encostava nele, eu pisava na saia e não conseguia puxar, esquecia o texto preocupada com a ação seguinte. Precisou muito tempo de ensaio e muitas repetições para que tudo fluísse e eu conseguisse estar no tempo presente. Também, era fundamental ativar a escuta em cena. A escuta é uma qualidade da atuação que precisa ser constantemente recalibrada e atualizada, e não tem ligação somente com a consciência do que se faz em cena, mas também, a consciência do tempo, do ritmo e da ação do outro. É o verdadeiro "saber o seu lugar". No teatro laboratório existem vários exercícios que despertam a escuta do ator/da atriz na intenção de afinar, não apenas a movimentação do corpo em cena, mas ainda, aprimorar o ritmo que a cena precisa ter. Quando o ator/a atriz tem uma boa escuta em cena, a resposta é autêntica e não acontece a antecipação da intenção da fala antes do momento de falar. 125 3.14 Procedimentos de registro: caderno de anotação A complexidade da montagem de cenas exigia que anotássemos os principais câmbios para não esquecermos mais tarde. Tatiana cumpria, na maioria das vezes, com a função de registrar as partituras físicas, o que não é tarefa fácil. O registro de cenas é uma das funções do dramaturgista em sala de ensaio. Esse registro serve para, posteriormente, assumir no material definitivo o que foi feito em estado de criação. Para registrar as cenas, Tatiana descrevia, basicamente, o que havíamos feito fisicamente. Nessa manobra, cria-se gírias, apelidos, expressões, que só fazem sentido para quem partilha do processo criativo. Dessa forma, as cenas ganham nomes, como: “cemitério de livros”, “vivandeiras”, “bisavô Elias”. Também as partituras ganham nomes, pelos quais são rapidamente identificados, como: “dança maluca”, “sequência dos livros”, “Penélope”. Figura 12 - Registro no meu caderno de anotações Fonte: Juliana Capilé 3.15 - O “tudão” e o “haja o que hajar”: nossos procedimentos Raramente conseguíamos um espaço para ensaiar quando estávamos no Brasil, porque a Cia Pessoal de Teatro não possui sede e também porque éramos engolidas pelo cotidiano atarefado. Por isso, quando chegávamos em Holstebro precisávamos "levantar" o trabalho praticamente do zero. 126 O período que viajávamos correspondia às férias de fim de ano da equipe técnica e tínhamos a sede toda só para nós. Por dois anos seguidos passamos as festas de fim de ano trabalhando em Holstebro, enquanto os fogos de artifício iluminavam o céu gelado lá fora. Para estar com o espetáculo pronto para a encenação trabalhávamos, somente eu e Tatiana, por pelo menos uma semana antes do encontro com nossa diretora. Esses ensaios eram solitários e serviam para relembrarmos as subpartituras, partituras e ritmos, relembrar as músicas e fixar as mudanças propostas pela direção. Para conseguir executar nosso trabalho estipulávamos a cena a ser ensaiada, seu início e fim, e repassávamos os detalhes buscando ajustes que viabilizassem a execução. Uma das cenas que mais deu trabalho foi a “cena das vivandeiras”. Nessa cena Tatiana sobe no carrinho e fica de pé, enquanto eu manobro com ela em cima. O carrinho que usávamos nessa fase era de supermercado, com as quatro rodas giratórias e não apenas as da frente, como no Brasil. Dificuldade 1: subir no carrinho calçando botas e vestindo uma saia de muitos babados. Dificuldade 2: ficar de pé, sem cair, em posição de guerreira, enquanto o carrinho se move. Dificuldade 3: manobrar o carrinho de quatro rodas giratórias, com mais 55 quilos encima, sem derrubar a colega no chão. Dificuldade 4: realizar a ação, sem demonstrar medo e tensão. Foram muitas horas de treino, até mudar de carrinho e precisar treinar tudo de novo. Figura 13 - Cena das vivandeiras118 Fonte: Fred Gustavos 118 Tatiana no alto do carrinho como vivandeira. 127 A precisão cênica exigia que cada gesto correspondesse a certas palavras. Em alguns casos, por complementaridade e em outros, revelando elementos opostos. A precisão era algo caro à encenadora: quando não estava preciso a cena perdia seu sentido. Isso exigia muitas horas de ensaio, sem perder o ritmo da cena e sem parecer que estávamos pensando para executar o movimento. Tudo tinha que parecer orgânico, ou seja, executado com a espontaneidade do corpo cotidiano. A cada novo objeto de cena, eram necessárias muitas horas de treino para adquirir a precisão almejada. Às vezes tudo mudava, porque o livro utilizado possuía o dobro do peso do anterior, ou porque o figurino não tinha o bolso no mesmo local do outro. Até as caixas de papelão, que manipulávamos em cena, precisavam ter sempre o mesmo tamanho ou o tempo da dobra seria diferente, o som do tamborilar seria outro, o ritmo de manipulação do elemento mudava. Era comum ficarmos horas e horas em um único movimento. Outra cena que exigiu muito tempo de ensaio foi a cena de abertura. Quando as duas Catadoras encontram a caixa com livros, abrem e recolhem livro por livro. O último é o Atlas. A Catadora da Tatiana coloca o Atlas em cima da caixa, tira a caixa do chão e deposita no carrinho. A minha Catadora pega o Atlas de cima da caixa e sai. A precisão é importante nessa partitura, para que um gesto não fique forçado, enquanto espera pelo outro. Durante os ensaios, para não perder a dinâmica das ações e fixar o ritmo estipulamos que, todos os dias, faríamos ao menos um ensaio completo, do começo ao fim. Esses ensaios chamávamos de "tudão", uma tradução particular para o da capo119 da diretora. Durante o "tudão", tudo que podia dar errado, dava. Era excelente por isso, para identificarmos os pontos vulneráveis e aprender a energia necessária para cada momento. Assim, nosso corpo conseguiaadministrar o dispêndio energético. A regra era prosseguir, mesmo quando o livro caía do carrinho ou o castelo de caixas de papelão desabava antes da hora. Mas, havia sempre o momento em que era impossível continuar, porque um objeto havia sido esquecido, ou quando trocávamos a ordem das cenas. Parar um ensaio é estancar um fluxo de energia em movimento: é doloroso. Invariavelmente o corpo reage mal à essa interrupção dando lugar ao cansaço ou perdendo o ritmo inicial. A continuidade do trabalho é importante para manter esses princípios ativos, pois o que o ator treina nos ensaios é justamente o corpo-ativo, o “corpo-memória” como dizia Grotowski, que contém o registro das subpartituras iniciais a serem acionadas em novo 119 Do começo, em italiano. 128 contexto. Portanto, o ensaio é o momento de calibrar as subpartituras e absorver as partituras, que vão compor a obra através do corpo-em-vida. Como o "tudão" era ameaçado, constantemente, por questões alheias à nossa vontade, eu e Tatiana estabelecemos outra nomenclatura para reforçar a importância de passar o espetáculo do começo ao fim: "haja o que hajar". Com essa nova brincadeira criamos uma regra para nós mesmas, que nos forçava a cumprir com o fluxo energético. 3.16 - Nossa briga com Ulisses: uma questão de gênero Ulisses, personagem de Homero, é um bravo e inteligente guerreiro que, apesar de não querer ir para a guerra convocada por Agamenon por ter motivos de sobra para ficar em sua Ítaca com a esposa e seu recém-nascido filho Telêmaco, acompanha seus companheiros para cumprir com uma antiga promessa. É o herói perfeito, que aceita a aventura com resignação. Sem dúvida. Mas, para nós, mulheres criadoras, foi necessário ajustar o local da figura heróica de Ulisses na peça que queríamos. Afinal, são sempre as histórias dos homens que são contadas nos livros de aventuras: as mulheres caem em um limbo cotidiano de afazeres domésticos e peripécias amorosas. Como permitir que uma empreitada que reunia três mulheres pudesse falar da história e ponto de vista de um homem? Por outro lado, por que deveríamos nos contentar com a história de mulheres que esperam seus maridos, tecendo uma tapeçaria infinita, tendo que lidar com uma horda de homens assediando e pressionando para que se case? Precisávamos contar outra história, para não ter que contar a história de um homem, novamente, ou reforçar a história de subalternidade das mulheres. Ao invés de buscarmos outra fonte de inspiração na etapa inicial, nos forçamos a lidar com as aventuras do homem Ulisses enquanto a mulher Penélope espera. Confrontar com um herói masculino fez brotar heroínas dos nossos relatos e histórias. Para atenuar o fato do herói buscamos os contrapesos, os questionamentos, impomos a Ulisses uma saraivada de provocações: "então o homem está lá, vivendo aventuras, enquanto a mulher docilmente espera ele voltar?". A ofensa aparecia nas partituras, nos comentários do texto, em recortes selecionados e na nossa expressão de indignação cada vez que a bravura de Ulisses era mencionada. Eu conhecia a história de Ulisses e nessa altura julgava que era um relato de domínio público. O cegamento do ciclope Polifemo, a luta para não sucumbir ao canto das sereias, o 129 tapete de Penélope e as intervenções dos deuses; imagens que eu guardava em mim. Em todos os momentos da sala de ensaio, quando essas imagens eram requisitadas ou quando o texto selecionado por mim fazia referência a este ou aquele episódio, eu sabia do que se tratava. A história estava em mim como um filme distante, e eu folheava minha memória para trabalhar a dramaturgia textual. Só percebi que nunca havia lido propriamente a obra de Homero quando Eugenio Barba, em uma das vezes que assistiu nossos ensaios, perguntou diretamente: "vocês já leram a Odisseia?". Balbuciei um "sim" trêmulo e indeciso, mais tentando lembrar do que acreditando que eu pudesse não ter lido. Tatiana, por sua vez, retumbou um “não, nunca li”. Fiquei ali, por uns segundos, procurando em mim, incrédula, onde estava o registro que comprovava ter um dia lido a Odisseia, enquanto Barba prosseguia, indiferente à nossa resposta, a desenrolar sua explanação. Falou que, de todos os trechos que selecionamos da obra sentia falta de um, para ele a parte mais interessante de toda Odisseia: a história de Nausícaa. Em minha cabeça ecoou um “Quem?” bem alto. Só então ficou nítido para mim que eu estava trabalhando na dramaturgia da Odisseia sem ter lido a obra. Não foi só vergonha o que eu senti, mas também desespero: como, então, eu havia recolhido todos aqueles trechos sem ler a obra? Naquele momento eu acreditava que era minha obrigação como dramaturgista lidar com as palavras de Homero, tal como ele escreveu. Mas, eu estava imbuída de uma revolta contra a narrativa do herói masculino, com a qual eu não havia confrontado propriamente e não estava consciente do real peso dessa revolta nas minhas escolhas. Sem perceber, o que eu estava escolhendo fazia parte de um cabedal de afetos dos quais eu ignorava a extensão; escolhia os trechos às cegas mal me sabendo Polifemo. Quando consegui enxergar o que havia feito percebi que evitei as palavras de Homero e escolhi o entorno da obra: o prefácio, a apresentação, os excertos. Menos as palavras do poeta grego. Por quê? Preconceito, provavelmente, contra o herói masculino. Selecionei o texto que Kafka escreveu sobre a obra, intitulado O Silêncio das Sereias e a poesia de Kostantin Kavafis. Encontrei esses trechos separadamente buscando na internet, já que estava em Holstebro e não podia consultar minha biblioteca diretamente. 3.17 A voz que viaja e faz viajar O tensionamento entre cena e palavra se torna um jogo constante, talvez porque possua livros como objeto condutor da narrativa. Ou talvez, porque a palavra fosse uma das fronteiras 130 a serem transpostas pelos caminhantes/migrantes do nosso tema e por nós. Seja por qual motivo, a cena vinha, quase sempre, antes das palavras. Se pensarmos que existe um espaço entre palavra e corpo entendemos que pode existir um “entre” a ser preenchido com um signo invisível, que é resultado da junção da palavra no corpo. Mas, se por outro lado entendermos que palavra é corpo, já que a palavra precisa da voz do corpo sendo, portanto, prolongamento do corpo da atriz, temos outro campo de análise: a partitura vocal. O movimento da voz é tão importante quanto do corpo. Com a voz é possível criar muitos cenários, tempos e compor inúmeros estratos de uma cena. Além disso, a voz é um corpo que transmuta, que muda de tamanho e que pode sumir repentinamente. O treinamento propagado pelas oficinas de voz oferecidas pela encenadora Julia Varley, consiste em trabalhar vocalmente um texto curto dando a cada palavra uma característica diferente por associação: se a palavra fala sobre o mar, procurar reproduzir com a voz que som faz o mar, ou o barulho das ondas, ou reproduzir o movimento dos peixinhos. É um exercício de imaginação, basicamente. Que som tem o movimento dos peixinhos do mar? Qual é a voz da tempestade que se aproxima? Qual é o grito do peixeiro tentando vender seu peixe na feira? Esse "desenho vocal" é trazido para o texto curto no qual a atriz trabalha, buscando reproduzir sonoramente um evento imaginado. Essa dinâmica enriquece o texto falado, como relata Roberta Carreri, sobre seu treinamento vocal. Uma parte do treinamento vocal acontecia trabalhando com imagens que permitiam ao ator se deixar transportar e encontrar sonoridades desconhecidas para ele. Um outro princípio que usava no treinamento vocal era de "colorir" a voz, associando a ela elementos naturais: canto uma música ou falo um texto como se minha voz fosse, a cada vez, névoa, línguas de fogo ou mar tempestuoso. (CARRERI, 2011, p. 165). As improvisações vocais têm o mesmo procedimentodas improvisações físicas. Partem de uma provocação que se torna tema, e a atriz trabalha nesse tema para transpor para o texto. Um dos exemplos que Carreri cita em seu livro se chama: "no bazar de Istambul", onde é possível encontrar muitos sons, como: vendedores, crianças, gente que ri, gente que canta, animais sendo mortos, ladrões roubando carteiras. Cada imagem, uma voz diferente. Na criação da partitura vocal, também improvisamos vozes em busca do desenho mais adequado. Como no texto inicial, quando as Catadoras de Papel encontram os livros na caixa de papelão. A primeira fala desse bloco é quando Tatiana diz: “livros, vamos levar?". 131 Devia haver na voz dela, ao mesmo tempo, um misto de surpresa e alegria, já que encontrar livros não fazia parte da rotina. Ela reproduz o texto usando um acento nordestino na fala, assim ela coloca na frase inicial um elemento que lembra a mãe dela que havia inspirado a história. Além disso, havíamos jantado, na semana anterior, com o amigo Giuseppe Bonifati, artista performer e colega de Nordisk Teaterlaboratorium. Nós havíamos, recentemente, intercedido para auxiliá-lo em uma temporada no Brasil, onde participou de eventos em Florianópolis (SC) e Primavera do Leste (MT). Ao relatar sua experiência, Giuseppe brincou que os brasileiros falam: "nossa!" para tudo e que se o estrangeiro aprender a falar "nossa!" consegue se comunicar facilmente no Brasil. Rimos da observação, que gerou muitas improvisações durante o jantar com a palavra "nossa!". Na sala de ensaio, Tatiana resgatou essa brincadeira falando "livros" como se dissesse "nossa!", e a parte "vamos levar?", com um acento nordestino. O efeito desejado é uma espécie de ambiente sonoro, que desloca a palavra em direção ao som e à criação de uma imagem criando um contexto feito de sons. A composição da partitura vocal é, na maioria das vezes, o resultado das junções dos efeitos vocais produzidos pelas imagens, e costuma seguir um padrão baseado na variedade de timbres, texturas e volume. A elaboração dessa partitura se baseia em escolhas pessoais e autônomas. Apesar de todos os seres humanos possuírem o mesmo aparelho fonador, constituído da mesma forma, cada voz soa de um jeito único. No entanto, pode imitar, ou seja, reproduzir qualquer outro tipo de som humano. A produção de sentido, quando capitaneada pela voz, faz referência ao que está além do significado semântico das palavras: uma coisa é o que se diz e outra coisa é como se diz. Uma questão é se fazer entender pelo espectador, outra questão é o ator entender o que se diz em cena no sentido expandido. Não é só o que o corpo em cena está dizendo, mas com qual intenção, com qual ímpeto, com que sentido fala? No caso de EntreNãoLugares essa foi uma escolha dramatúrgica e não uma questão de lógica semântica ou sintática, pois o sentido do texto foi construído mais pela partitura vocal do que por seu significado semântico. Para a construção foi necessário criar fraseados, ou seja, variações de intensidade, velocidade e volume vocais, cuidando para variar em uma palavra ou outra da frase, porque o sentido das palavras não seguia a lógica semântica. Voltando no exemplo onde as Catadoras de Papel encontram os livros, a minha resposta para a pergunta, se iríamos levar os livros ou não é: "os que tem muito papel e os que pesam mais, sim, vamos levar". Nessa frase funcionou a forma, o desenho imagético de cada palavra: "os que têm muito papel" é o desenho melódico de uma música nordestina; "os que pesam mais" 132 se refere ao peso dos papéis, que é muito importante para os catadores, já que vendem pelo peso para as empresas de reciclagem. O trecho, "sim, vamos levar!" deve funcionar como um "avante!". Esse era o desenho inicial. Para conseguir executá-lo, eu precisei treinar as variações de cada momento, sem que um se antecipasse ou se misturasse ao outro. Como um movimento involuntário, a voz tende a reproduzir o que estamos pensando, portanto, se eu penso na frase seguinte, minha voz imediatamente segue minha cabeça e começa a se moldar para o que virá em seguida. Parte do treinamento consiste em colocar a voz e o corpo no tempo real, ou seja, obter o controle necessário para executar cada movimento a seu tempo. Uma manobra que depende mais de concentração do que de virtuosismo vocal: a concentração de se manter no tempo presente. Para sair de uma melodia musical ritmada, "os que têm muito papel", para cair no grave dizendo, "os que pesam mais", eu tinha o intervalo de uma breve inspiração no espaço entre uma frase e outra para mudar o registro vocal sem fazer pausas. Utilizei, então, o artigo "os" da frase "os que pesam mais" para me auxiliar nessa passagem de registro vocal e estabeleci a palavra "pesam" para ser o ápice da mudança de registro. Assim, a frase apresentava uma dinâmica, sem parecer um adolescente em fase de mudança de voz. Na frase seguinte, "sim, vamos levar", eu subia do grave para o agudo, para sair do registro onde estava e para evocar uma atitude otimista diante do achado: os livros na caixa. A pausa não era bem-vista pela direção, portanto deveríamos nos policiar quanto ao hábito aprendido nas escolas dramáticas brasileiras, de colocar pausa para enfatizar a carga dramática. Para Julia Varley, uma carga dramática não deve nunca ser enfatizada; ela deve ser respeitada. É, portanto, a utilização de uma relação distanciada com o material dramático lidando como se o drama fosse de outra pessoa e não nosso, evitando "sofrer" o drama. Quando a atriz "sofre" o drama está mentindo sobre ele, porque não está sofrendo "realmente" - é teatro! - mas, se a atriz narra o drama, relata o sofrimento de alguém, a atitude é de solidariedade e respeito. Uma posição ética mais empática, já que estávamos lidando com depoimentos de vida. Durante os ensaios ouvimos várias vezes a diretora gritar: "sem pausas!", mesmo nos momentos que acreditávamos que não estávamos fazendo isso. Percebi que tem a ver com o ritmo de fala de nós brasileiros. Como nossa sílaba tônica normalmente está no começo da palavra, as sílabas finais são átonas, portanto, utilizamos menos força para os finais das palavras e, consequentemente, para os finais de frase. Quando estamos em cena, esse fenômeno fica mais 133 audível e impossível de ser ocultado no ritmo da fala. Para um ouvido adaptado a outros idiomas, essa característica brilha como refletor. Foi algo que só pude identificar porque foi apontado como um efeito ruim para o texto, já que a fala não progredia em um ritmo ascendente e sim, descendente. As quedas nos finais de frase faziam o texto perder força, e soava como uma montanha russa, subindo e descendo a cada frase, sempre no mesmo ritmo e mesmo percurso: começa alto e termina baixo. Para resolver essa questão é necessário despertar a atenção para o fenômeno e aprender a se ouvir em cena. 3.18 Procedimentos da dramaturgia sonora No início dos ensaios as músicas faziam parte das nossas pesquisas vocais e dramatúrgicas. Escolher uma música que faça parte da cena é uma prática da composição de partitura física do Terceiro Teatro, da qual o/a ator/atriz extrai ritmo, melodia, sonoridade. Em alguns casos a música passa a fazer parte da obra. Às vezes, Varley pedia uma música que falasse de mar ou que tivesse um ritmo agitado, mas na maioria das vezes ela deixava a escolha por nossa conta. O canto, no teatro, não possui a mesma relação com a técnica que o canto na música. No teatro o que importa é a produção vocal. Ou seja, a música está em outro contexto. Como filha de cantora eu achava que podia cantar, mas para Tatiana não era tarefa fácil. As partes musicadas eram um desastre sonoro e a gente não sabia mais o que fazer para melhorar. Quando Julia pedia para cantarmos juntas eu tentava cantar mais alto, na tentativa de oferecer confiança para Tatiana.Servia, também, para manter a afinação, porque se eu a ouvisse me perdia, porque não estava tão convicta assim da minha voz. O resultado era sempre ruim e eu não sabia o que fazer para melhorar. Tivemos, então, uma aula com a maestrina francesa Eléonore Bovon120, que gentilmente nos ensinou alguns exercícios e regeu nossas vozes. Só então pude compreender onde estava errando. A maestrina me mostrou que quando eu tentava cantar mais alto que Tatiana eu prejudicava a harmonia do canto, porque era como se eu tivesse disparado na frente deixando Tatiana para trás. Eu deveria cantar "junto" com ela, em voz de coral, para 120 Eléonore Bovon (França) é cantora, compositora, maestrina e diretora musical de espetáculos e óperas. Funda o quarteto Sanacore de polifonias italianas e composições contemporâneas com inúmeros concertos pela Europa. Com Marianne Suner escreve e compõe uma ópera para crianças criada para programação de Marselha – Capital Europeia da Cultura 2013. 134 encontrarmos a harmonização. Quando treinamos desta forma conseguimos cantar e as músicas soaram muito melhor. A afinação não é um ponto importante na música cênica, mas a intensidade, sim. Isso acontece porque as músicas não estão no mesmo lugar do gênero musical. Elas fazem parte da dramaturgia. São diálogo, texto cantado e contribuem para a criação de sentidos. As músicas da pesquisa foram posteriormente trocadas por músicas compostas pela musicista e compositora Karla Izidro. Ela seguiu indicações, que enviei por email, de cada cena. Enviei textos sobre os temas trabalhados e sugestões de musicalidades, como fado e o forró. Ela compôs cinco músicas inéditas e utilizamos quatro: Entre-Não, Ao Mar Lancei Palavras, O que Navega o Mar e Eu Não Quero Ouvir o Canto da Sereia. Só a música A Gente tem que ir ficou de fora. Para lidarmos com as músicas tivemos, ainda, o auxílio da Anna Stigsgaard121, que nos apresentou um excelente treinamento vocal que nos preparou para toda montagem. 3.19 A rede de afetos: disposição para receber críticas e contribuições É característica dos processos cartográficos a utilização da rede de afetos como estratégia na articulação criativa. Pois, na construção da nossa poética cartográfica a rede de afetos contou com muitos colaboradores, em especial, os colegas do Nordisk Teaterlaboratorium. Esses colegas e também os trabalhadores administrativos, técnicos e participantes dos workshops, formaram as primeiras plateias para quem apresentávamos frequentemente, para “provar o espetáculo” nas palavras de Varley. As críticas que recebíamos eram tratadas com muita atenção pela direção. Durante o período de ensaios, Ana Wolf122 retornou à Holstebro para a adequação de novo cenário da obra Branca como a Lua, com direção de Julia Varley. Elas nos convidavam para assistir aos ensaios. O espetáculo é baseado na obra de Clarice Lispector e ao final, os debates em torno da obra eram intensos. Como consequência ou como registro do encontro, trechos curtos de dois livros da Clarice Lispector vieram para nossa peça: 121 Anna Stigsgaard é atriz, musicista dinamarquesa, integrante do Nordisk Teaterlaboratorium com vários projetos socio-artísticos em várias cidades da Dinamarca e exterior. 122 Atriz e diretora argentina, colaboradora de Julia Varley em vários projetos, incluindo o Magdalena Project. Ana Wolf já trabalhou no Odin Teatret como assistente de direção de Eugenio Barba. 135 JU: Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar na praia. A morte apaga os traços de chuva na caatinga do sertão. /TATI: E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Comprazo-me com a harmonia difícil dos ásperos contrários. Para onde vou? E a resposta é: vou. (EntreNãoLugares, 2019). Os pequenos trechos de poesia de Clarice Lispector foram trazidos por Julia Varley enquanto trabalhava com os materiais criados pela Ana Wolf e entregues de presente. São como uma contrapartida, ou talvez, um pedaço do trabalho de Wolf que se estendeu até nós, porque estávamos abertas para receber e trocar. E, talvez, porque fizemos por merecer uma pegada impressa dos pés de Clarice no nosso chão. 3.20 - Ulisses se amarra no mastro para ouvir o canto da sereia: é ou, não é? Franz Kafka escreveu um texto sobre o episódio no qual Ulisses e seus companheiros se encontram com as sereias: [...]A fim de se proteger das sereias, Odisseu entupiu de cera os ouvidos e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os viajantes teriam podido fazer algo assim (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo inteiro sabia que de nada adiantava. O canto das sereias impregnava tudo – que dirá um punhado de cera –, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais que correntes e mastro. Nisso, porém, Odisseu nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias. As sereias, contudo, possuem uma arma ainda mais terrível que seu canto: seu silêncio. [...] (KAFKA, 1917 in: HOMERO, 2018). Em uma das nossas apresentações para o público, Rina Skeel, da equipe técnica de comunicação do Odin Teatret, fez uma observação. Ela disse que Ulisses não entupiu de cera os ouvidos porque ele queria ouvir o canto das sereias e para não sucumbir ordenou que o amarrassem ao mastro do navio. Eu também me recordava dessa passagem e acreditava que Ulisses havia preferido se amarrar ao mastro para não ser levado para o fundo do mar, mas queria ouvir o canto das sereias. Diante dessa crítica da Rina, Varley pediu que eu alterasse o texto para contemplar a verdade. Ou seja, tirar a parte que falava que Ulisses entupiu de cera os ouvidos ou propor alguma outra mudança, mas não podíamos manter um trecho que não estava correto. Alterar o texto, nesse caso, significava mudar o que Kafka escreveu e eu tive resistência. Não que eu pensasse que não poderia mexer no texto, mas editá-lo, mudando-lhe o sentido, não. 136 Era um limite pessoal: não alterar o sentido do texto, mas sua produção de sentido, sim. Ademais, o texto de Kafka propunha justamente uma releitura do ocorrido: que Ulisses inocentemente utilizou cera nos ouvidos, mas que as sereias resolveram fazer silêncio sendo, portanto, mais espertas que o herói de Homero. Mas, não cabia discutir isso na cena. Então, para alterar o que a diretora achava necessário, propus para a minha colega de cena uma inclusão. Enquanto eu falo o texto de Kafka, como ele escreveu, acrescento um questionamento. No trecho em que digo: “A fim de se proteger das sereias, Ulisses entupiu de cera os ouvidos e mandou que o acorrentassem no mastro do seu barco”. Logo, Tatiana pergunta: “É mentira?”, e eu respondo: “É verdade!”. Usamos na pergunta e resposta a entonação do mestre de cerimônias de festa junina, que grita durante a quadrilha. E o texto de Kafka ficou intacto. Ainda nesse trecho esbarramos com outra questão: as criaturas que Ulisses encontrou em alto-mar eram sereias ou sirenas? Porque, de acordo com nossas pesquisas, as sereias que perturbaram Ulisses não eram metade peixe, e sim, metade mulher, metade pássaro. As criaturas metade peixe são chamadas de sirenas e não sabem cantar. Desta vez não alteramos em nada as palavras do texto que se referiam a sereias, por dois motivos: primeiro, porque no conhecimento popular brasileiro, tanto “sereia” quanto “sirena” designam a mesma criatura: mulher-peixe; e segundo, porque o equívoco que transformou sereias em sirenas é de domínio público e nada se sabe sobre sereias serem, na verdade, um nome que designa mulheres-pássaro. O fato de Ulisses terse encontrado com sereias, e não sirenas, indica que neste momento atravessava o estreito de Capri, próximo da costa da Itália, um trecho rochoso onde os navios, com frequência, naufragavam por não conseguirem cruzar sem bater nas pedras. As mulheres pássaro ficavam empoleiradas nessas rochas a espera de um navio que tentasse atravessar. Por que isso importa? Porque era a carta marítima da época de Homero: narrativas de histórias heroicas. A grande fonte de conhecimentos era as contações de histórias nas feiras, eventos sociais, celebrações. Os poemas escritos registravam o que era narrado à exaustão pelos contadores - um fato que as Catadoras de Papel recuperam. A voz que narra, tece e desmembra a história, desta vez, é uma voz feminina. O espetáculo valoriza o conhecimento que é transmitido oralmente, por isso são poucas as vezes que as Catadoras estão, realmente, lendo algo em voz alta. Quando isso acontece é para ilustrar que o conhecimento dos livros também é acessado por elas. 3.21 - A estratégia do excesso: Lidar com as necessidades fez surgir materiais 137 Varley mantinha o hábito de, no máximo, reduzir um elemento ou transformá-lo, mas não o suprimir. Para algo ser extraído era preciso que tivesse sido experimentado, de várias formas diferentes, até o trecho sair quase que por conta própria. Por isso é possível perceber micro referências de cenas inteiras que passaram a ser somente um traço. Um exemplo disso é a música Sou o Estopim123 que, a princípio, estava em vários momentos e foi suprimida até restar apenas os pés dançando o forró. Na maioria dos casos o produto final é o resultado do que "sobrou" no processo de montagem, ou seja, os elementos que resistiram a todos os cortes, esquecimentos e ajustes. Às vezes, um elemento deixa de fazer sentido no conjunto e precisa ser retirado, mas o que moveu para estar ali fez com que outras coisas acontecessem. Barba tem um termo para a casualidade que ele chama em diversos artigos por “serendipidade” e consiste em um procedimento que cria circunstâncias para que dois eventos, a princípio antagônicos, se encontrem formando a possibilidade de uma outra solução, que não podia ser visível até então. É um procedimento para atingir o efeito evocativo de uma cena, mas que, para chegar a isso, devemos praticar a exaustiva tarefa da “experiência do desperdício, percorrendo o longo caminho do acúmulo e da destruição” (BARBA, 2010, p. 243). Esse princípio rege a montagem de Varley, que testava os elementos de todas as formas antes de descartar fazendo com que criassem conflitos e gerassem soluções. No estilo de direção de Varley era utilizado mais o excesso do que o desperdício. Ela promovia a profusão de criação de imagens e partituras e pouca coisa ficava de fora. Ao invés de acumular para depois destruir, Varley utilizava a justaposição. Desde os primeiros ensaios em Holstebro, Julia perseguia uma imagem que, para ela, fazia todo sentido: um livro de gelo. O bloco de gelo, com um livro dentro, ficava o tempo todo em cena para ser revelado no final. Os problemas que isso acarretava eram vários: 1) o gelo derretia e molhava todo o palco; 2) era escorregadio e difícil de manipular; 3) precisava ser preparado de um dia para o outro, com muitas horas de freezer e ocupava muito espaço; 4) o gelo precisava ser translúcido o suficiente para que pudesse transparecer o livro dentro dele, o que envolvia conhecimentos de química; 5) não podia ser visto de uma distância maior do que três metros, portanto precisávamos aproximar os espectadores/espectadoras mais e mais; 6) não tinha sentido e não se relacionava com o restante do material que estávamos trabalhando. 123 Sou o Estopim, composição de Antônio Barros, álbum “Antônio Barros canta seus Sucessos volume II”, 1981. 138 Para manipular o gelo, e não deixar molhar, usávamos aventais que impediam que o gelo escorregasse de nossas mãos. Com a adição dos aventais vimos a cena ganhar cor, o que acabou possibilitando adotarmos outro figurino para abandonar os vestidos pretos, que só foram mantidos na cena do “cemitério de livros”. Para transportar o gelo e ocultá-lo durante todo tempo da apresentação adotamos um carrinho, que no início era um antigo adereço de cena do Odin e também servia para não deixar os livros no chão. O carrinho inicial parecia um carro de chá inglês; era frágil, feito de bambu fino e não suportava o peso dos livros e mais do gelo. Conseguimos, então, um carrinho de supermercado com quatro rodas giratórias, como usam na Dinamarca. Esse carrinho aguentava muito peso, inclusive nosso próprio corpo – o que possibilitou cenas de subir e descer. Mas, era grande, desajeitado, difícil de manobrar. Por fim, encomendamos a construção de um carrinho que possibilitava todas as utilizações desenvolvidas enquanto tentávamos carregar um bloco de gelo com um livro dentro. E, que podia ser desmontado para caber em uma mala de viagem. O livro de gelo, por fim, foi suprimido mas, enquanto foi mantido, impulsionou a criação de soluções que, por sua vez, promoveram novos materiais. Essas tentativas com o bloco de gelo também ajudaram a definir a disposição do público, que deveria estar próximo da cena 3.22 As narradoras de sua própria história As Catadoras de Papel se relacionam com o sujeito rapsódico, do qual se refere Sarrazac, pois cumprem com a função de “costuradoras de vozes”, pois pulam de um gênero para outro ao longo do trabalho: dramático, épico, lírico, argumentativo. Não são somente narradoras, mas sim, mediadoras entre a cena e o público, como agentes e testemunhas, simultaneamente. O texto vagueia entre as narrativas das histórias, ora dos livros ora da memória evocada pelas histórias dos livros, que não consistem em um enredo linear. O que acontece, então? O que os personagens estão fazendo? Cadê o conflito? Cadê o agon, o protagonista e antagonista? Para Baumgärtel (2010), não é que a dramaturgia performativa abdica do conflito dramático, mas sim, desloca este conflito para outros elementos teatrais. O fato de serem narradoras de seu percurso, as Catadoras de Papel criam, dramaturgicamente falando, um recurso para o agon acontecer. É na relação entre “palco-plateia” que esse “embate” acontece, não em forma de perguntas e repostas diretas, mas como um jogo onde lacunas são abertas para serem preenchidas. 139 A “colocação de espelhos” (BAUMGÄRTEL, 2010, p. 35), é um dispositivo bastante utilizado, mas não de forma mimética. As Catadoras não representam atitudes a serem condenadas ou valorizadas: elas narram atitudes, comentam, reverberam. Todas as histórias utilizam uma trilha que as sustenta: é a rotina na vida de duas catadoras de papel enquanto elas executam seu trabalho. A questão aqui é que não acompanhamos esta jornada de forma linear, dramática, realista. Estamos seguindo sua rotina por um viés outro, de onde temos uma visão um tanto distorcida da realidade, onde é possível deduzir que uma mulher é descendente de imigrantes italianos e outra de descendentes russos, tomando pela roupa que estão vestindo. Iniciam o seu dia no final de um dia anterior, quando encontram a caixa de livros, e procuram abrigo para dormir, ou seja, não têm casa. Dormem em esteiras de papelão, levantam, trabalham, fazem comida e comem em meio ao ofício, continuam sua função com pequenos intervalos de descanso, que podem ser os dias decorridos de sua jornada ou não. Ou seja, elas estão em uma jornada diária. Essa jornada fica, por vezes, épica, devido o eco da ancestralidade evocada pelos passos das duas mulheres. Dessa ancestralidade vem imagens do luto, das mortes, das ações heroicas nos momentos em que estão vestidas de preto, andando por entre túmulos de livros, ou quando uma delas monta no carrinho como uma heroína e grita, com um livro na mão: “Para lá”! Até então é possível acompanhar asimagens estabelecidas porque existem caixas de papelão espalhadas pelo espaço cênico que elas vão recolhendo, dobrando e colocando no carrinho. Ou pegam de um lugar e depositam em outro, para desmembrar e recolher depois. É uma ação concreta que se realiza, e até esse ponto a sucessão de imagens cria um padrão baseado no corpo das atrizes, com a utilização de partituras de ação representando as instâncias com símbolos convencionados através de um exercício de equivalência. Um exemplo desta equivalência é o momento em que Tatiana vai ler, em um pedaço de jornal, a notícia da morte do menino sírio na praia da Turquia e eu canto para que Iemanjá cuide dele, com movimentações equivalentes a uma saudação para o orixá no terreiro, misturada com uma subpartitura a partir de um afogamento. Além das partituras, existem também as equivalências dos objetos de cena: um livro que se torna criança, espada, comida. Uma caixa que se torna barco, mala, baú. O público se acostuma com essa convenção e acompanha a transformação das coisas, tanto dos corpos quanto dos objetos. Pois, até esse momento, um objeto faz-se passar por outro: uso um livro como se fosse uma bengala ou um chapéu. 140 De repente, as coisas se tornam estranhas e no instante em que a última caixa de papelão entra no carrinho e elas encerram, com isso, o trabalho do dia, algo acontece que faz com que outra realidade se instaure. O limite da dimensão material dos objetos se rompe e um jornal, que parecia ser normal, se abre para ser lido, e se abre de novo, e de novo, até ficar do tamanho do palco e esconder as narradoras. Aqui, o limite da realidade é quebrado e a convenção precisa ser novamente restabelecida. Figura 14 e 15 - O jornal quebra a realidade Fonte: Fred Gustavos As Catadoras discutem em torno do ato de ler e escrever livros enquanto caminham pelo enorme jornal, como um cotidiano que as engole quase que por completo. Esse cotidiano de notícias que as engoliu é, logo em seguida, pisoteado por elas. Com isso evocam sua autonomia autoral: como mulheres, atrizes? “Não são os livros que mudam o mundo; os livros mudam as pessoas, as pessoas mudam o mundo”, diz a Catadora de Papel reivindicando a supremacia do conhecimento tácito e sumindo atrás do imenso jornal, como invisível na cidade. 141 Figura 15 - Pisando no cotidiano124 Fonte: Fred Gustavos Quando elas caminham sobre o jornal, como navios rumo ao destino, e pisam o cotidiano que as invisibiliza começa a surgir uma tentativa de restauração da convenção quebrada anteriormente. Mas, ao invés de restabelecer, se distancia ainda mais e nova convenção é quebrada. Até então, só se via papel, livro, papelão. Até o garfo, com o qual elas comem as comidas de papel, é feito de papelão. Quando o limite estabelecido com o real se rompe, um elemento, até então estranho à cena, aparece e, de repente, as Catadoras vestem vestidos de plástico colorido, cantam, dançam e declaram amor uma à outra inspiradas pela história de Nausícaa e Ulisses125. E vão além e se declaram autoras de sua própria história: “eu sou a princesa Nausícaa e escrevo a minha Odisseia”. Nessa etapa da quebra das convenções, tanto da narrativa dramatúrgica quanto das convenções sociais, as Catadoras de Papel, antes invisíveis e anônimas, retornam de sua viagem para dentro de si mesmas. Mas, estão renovadas. A convenção da narrativa é restabelecida, elas acordam do “delírio” de se verem como autoras de sua própria história, e colocam todo plástico em um saco de lixo – tudo aquilo que não é reciclável merece ser jogado fora. 124 O jornal é pisado antes de virar barco. 125 Na Odisseia, Nausicaa, filha do rei Alcinoo dos feácios, encontra Ulisses sobrevivente do último naufrágio, sozinho e nu. De acordo com o romance de Robert Graves, A Filha de Homero, Nausicaa é a verdadeira autora da epopéia atribuída a Homero 142 Figura 16 - Autoras de sua própria história126 Fonte: Fred Gustavos O jornal gigante continua no chão e evoca um símbolo curioso: o jornal representa a notícia escrita, a história do cotidiano, o nível da rotina e do social – é um estrato de realidade que se apresenta. Quando este símbolo, que é o cotidiano, se torna gigantesco a ponto de tomar toda a cena e ocultar o corpo das mulheres é possível notar que este estrato, que é o tempo atual, é maior do que tudo que está em cena: elas, o carrinho delas, o trabalho delas, as histórias de vida, seus sonhos, seu potencial imaginativo. Daí temos a imagem das mulheres, com as pontas dos dedos, se unindo por trás desse jornal, para enfim emergirem, pisando no que pode agora ser lido como “a malha do cotidiano”. Pisando sobre esse jornal elas tratam dos centros de refugiados, que abrigam mais gente do que são capazes. O jornal se transforma em um equivalente do oceano, onde flutua uma caixa como um bote tentando restabelecer a equivalência como regra. O jornal é dobrado, reduzido a um pequeno embrulho e depositado dentro de uma das caixas, que viaja junto com as Catadoras para fora do palco. Elas levam sua realidade consigo. Realidade na qual inserem um bote para salvar as vidas dos refugiados em alto-mar. A cena não tem o compromisso com o real, com o encadeamento causal, com a transmissão de informações e está desdramatizada, mas com a percepção ampliada é possível 126 Cena dos vestidos de plástico; “Eu sou a princesa Nausícaa!” 143 ir além do entendimento lógico-causal e perceber que existe uma dramaturgia subterrânea acontecendo, que está além do que acontece na cena. É a dramaturgia evocativa. A dramaturgia evocativa permeia a dramaturgia narrativa e é uma transpiração da dramaturgia orgânica. Não é compreendida pelos campos lógicos cerebrais, mas é percebido pelos sentidos e deflagra associações mentais múltiplas. 3.23 Quando impedimentos influenciam a dramaturgia Quando definimos os livros como objetos principais, falávamos de livros que pudessem "chorar", escorrer sangue ou se transformar. Perseguindo essa ideia encomendei da artesã e costureira Jane Klitzke127, um livro Atlas que escorresse terra. Ela fez um excelente trabalho e o livro possuía um mecanismo que fazia escorrer a terra depositada em um espaço no interior das páginas cavadas do livro. Eu fiz várias partituras que incluíam abrir o mecanismo e deixar escorrer areia. Em um momento, ao assistir nosso ensaio, Eugenio Barba sugeriu que a cor da terra fosse vermelha, como a que ele havia visto em Alta Floresta (MT) quando participou de uma edição do seminário que minha companhia promove, Encontros Possíveis. Achei fantástica a ideia e durante uma viagem de carro pelo interior de Mato Grosso parei no meio da estrada para recolher a terra seca e vermelha que sobrava das lavouras depois da colheita. Também colhi terra amarela, da encosta de Chapada dos Guimarães e a terra preta, de um vaso de plantas da minha casa. Ficava imaginando o que poderia dizer na alfândega, caso pedissem para eu explicar o que significava aquele “tráfico de terra”. Felizmente, esse constrangimento nunca aconteceu. Testei algumas vezes com areia seca, recolhida de uma obra nas dependências da sede do Odin e o resultado era sempre muito poético: para mim representava o território de origem que escorria de dentro do livro, como se o livro estivesse carregando o princípio do caminho daquelas caminhantes. Quando Julia cortava a cena ou mudava de lugar durante o processo de montagem, eu cuidava de reintroduzir aquela terra escorrendo do livro em outra cena, ou outra partitura. Durante uma das rotineiras apresentações abertas ao público, Roberta Carreri, assistiu a cena do livro que escorria terra e identificou semelhanças com imagens de Salt (2002)128. Há 127 Jane Klitzke é artesã e costureira, possui seu ateliê em Cuiabá. É formadora de Figurino na MT Escola de Teatroe dá aulas no curso de Design e Moda na UNIC. 128 Atuação de Roberta Carreri e Jan Ferslev, direção de Eugenio Barba. Odin Teatret, 2002. 144 uma regra no Odin Teatret sobre as imagens dos espetáculos não poderem ser repetidas. Pode- se repetir uma cena inteira, que funciona como citação, mas um mecanismo, recurso ou imagem, não se repete129. Com muito pesar, a terra escorrendo do livro foi extraída. Depois desse acontecimento, uma cena precisou ser criada para que pudéssemos organizar todas as caixas dentro do carrinho. Nasceu a cena que chamamos de “morte do livro”. Nessa cena o livro que estou recolhendo para colocar no carrinho cai no chão. A princípio parece que algo deu errado. É um trecho onde as Catadoras ficam clownescas, com um registro de atuação cômica. Nós vamos até o livro e constatamos que ele morreu na queda. Carregamos como em um féretro e o "sepultamos" dentro de uma caixa de papelão, que já está dentro do carrinho. Ao depositar o livro na caixa realizamos um rito fúnebre. Tatiana lança pitadas de terra dentro da caixa, como se fossem pitadas de sal, enquanto eu faço uma chama de fogo sair do Atlas. A cena toda tem uma atitude solene e grave. Considero essa cena um registro, muito particular e codificado, da sensação de perda da antiga cena, quando havia a terra escorrendo do livro. Entre nós, criadoras, não conversamos um minuto sequer sobre o corte da cena, tampouco lamentamos ou tentamos argumentar, mesmo porque não havia uma consciência dessa perda. No entanto, a cena que produzimos revela um sentimento amplificado de luto, perda, relacionando a terra, da nossa antiga cena, com o sal da peça da Roberta Carreri. 3.24 Procedimentos da tradição teatral que promovem estratégias Além dos procedimentos da encenadora já citados ao longo deste capítulo, existem algumas estratégias que precisam ser destacadas acerca dos critérios utilizados por Julia Varley na construção de EntreNãoLugares. Muitas das decisões tinham a ver com elementos da materialidade do espetáculo, como: ritmo, intensidade, sonoridade, movimento. Era como se a encenadora estivesse construindo uma estrutura sólida, que ela enxergava muito bem. As palavras tinham uma importância menor e nada tem a ver com a questão do idioma. Para ela, a palavra é vocalizada não apenas pela voz, mas pelo corpo quanto vibração, pulsão, potência. Por vezes ficava claro que Varley estava desenhando poesia no espaço. 129 Existe uma razão dessa regra ser tão importante: para que os espetáculos possam surpreender seu público e para que não fiquem parecidos um com o outro. Além disso, a regra tem ligação com o descontentamento do grupo em ter suas imagens copiadas por outros. 145 Varley cria seus procedimentos de encenação utilizando toda sua experiência como atriz para visualizar a cena sem, com isso, atuar na cena propriamente, mas sim, atenta a reverberação que seu próprio corpo ressoava. Como encenadora ela conduz a criação de partituras como conduz seu corpo a criar como atriz. Seu método pessoal de criação de partituras está calcado na tradição do Odin Teatret, que trabalha com a disponibilidade do corpo para ser levado pelas conexões da criação e só depois, esse material é trabalhado. Em relação à disponibilidade do corpo, Iben Nagel Rasmussen (2016) diz que o corpo da atriz é como um cavalo cego que vai ser guiado no seu trabalho; ora é guiado pelo encenador/encenadora, ora pelas próprias demandas da criação. Mas, quando a atriz executa uma ação e deixa a dúvida transparecer, adiciona ao movimento corporal um elemento que serve como contramovimento, que impede que o corpo execute a ação em sua expansão total. Ou seja, impõe um contrafluxo. Na Antropologia Teatral o contrafluxo é chamado de sats130, que significa uma mudança no fluxo energético do corpo. Por exemplo, uma atriz vai em direção a uma cadeira e se vira como se fosse sentar, mas, de repente, interrompe o movimento de descer até a cadeira e, ao invés disso, se levanta para ajeitar o casaco nos ombros. A mudança de câmbio é o sats. Varley trabalha bastante com o contramovimento e com “câmbios”131. Não apenas do fluxo do movimento ou da ação no corpo das atrizes, mas também, da dramaturgia. Quando a narrativa prosseguia por um tom melancólico, ela mudava para uma narrativa cômica. Utiliza o mesmo recurso para mudar o ritmo: ora rápido, ora lento. O contramovimento era uma tensão constante mantida no corpo que “prendia” o movimento e não deixava avançar livre. O corpo deve estar sempre em estado de alerta, como se fosse mudar de ideia, de direção, de atitude. Também o desconforto ajuda a delimitar os rumos de uma dramaturgia: desconforto físico, do ambiente, subjetivos. Na experiência de EntreNãoLugares o frio da sala de ensaio determinou a escolha de um figurino quente. Para apresentar em qualquer outro lugar fora da Dinamarca quase desmaiamos em cena de tanto calor. Uma escolha infeliz. Se adaptar à rotina das salas de ensaio do Odin também serviu para definir alguns procedimentos, que mais tarde se mostraram delineadores da dramaturgia. De acordo com as regras do espaço, os objetos de cena não podiam ficar instalados na sala. Isso fazia com que 130 Sobre sats, ver BARBA; SAVARESE, 2012, p. 280. 131 Não é um termo novo, apenas a palavra “mudança” em espanhol. Varley também utiliza a palavra “prova”, para designar “ensaio”, que também é em espanhol/italiano. Mas, em geral, o idioma dos ensaios era o português. 146 tivéssemos que recolher os objetos, desmontar cenários e limpar a sala a cada ensaio. A necessidade de concentrar todo nosso material em um só lugar nos levou a buscar o carrinho de supermercado, como dito anteriormente, para guardar tudo e transportar de uma sala para outra. Esse carrinho acabou entrando na cena para substituir o que usávamos nos experimentos, se tornando o carrinho das Catadoras de Papel, que depois precisou ser confeccionado especialmente para o espetáculo. 3.25 O extracotidiano na cantiga finlandesa e a gordura sobre manteiga A multiartista cênica Vilja Itkonen, colega de residência artística no Nordisk Teaterlaboratorium, nos contou do costume antigo de seu país, a Finlândia, de ensinar os bebês a morrerem com músicas de ninar. O medo das mães era de que suas crianças morressem devido os rígidos invernos da região e suas almas ficassem vagando em uma espécie de entre mundos, de acordo com a crença popular do local. Para Vilja, o entre lugar tratado no título do nosso trabalho a fazia lembrar do espaço mágico que havia entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Por causa do lugar entre os mundos, Vilja Itkonen nos ensinou uma dessas canções de ninar, em finlandês, que ensina a criança a morrer: Tutten Lasta. Na cena a música é cantada em looping por mim, durante toda narração sobre a viagem de Argia Gattai. Como relatei anteriormente, vou construindo um "cemitério" com os livros recolhidos enquanto canto a música. Em momento algum contextualizamos a origem da música e não nos preocupamos em fornecer uma tradução do que estava sendo dito. Mas seria necessário? Se o espectador tivesse o conhecimento de que a música cantada se tratava de uma forma dos antigos finlandeses de ensinar as crianças a morrer, sem dúvida a cena ganharia sentido especial. Ou ao menos, tétrico. O que é possível compreender sem essa informação é que se trata de uma música de ninar cantada suavemente, enquanto o relato da viagem dos Gattai ocupa o primeiro plano, digamos assim, da atenção do espectador/da espectadora. O fato de ser finlandesa, e ainda, de possuir uma origem tão inusitada, não é aproveitada na dramaturgia como representação de um signo, porque essa informação não está disponível para compreensão do espectador/da espectadora. Mas, é possível dizer que a música faz parte da dramaturgia oculta, subliminar, subterrânea da obra. Porquenós, que estamos em cena, sabemos o que significa as palavras da música e para quem ela é cantada. Portanto, a música também se torna um elemento que tem um sentido para as criadoras e outro para quem assiste. 147 Para quem assiste pode parecer apenas uma música em uma língua estranha, que embala um relato triste. Para nós, criadoras, é um canal aberto com um mundo invisível dos mortos, mencionado pela Vilja. Conhecer o significado da música aciona em nós as estruturas nervosas que alteram o tônus corporal. Essa alteração de tônus é percebida como uma dramaturgia microscópica e invisível que, por sua vez, aciona, no espectador, seus centros de percepção. Para o espectador/a espectadora pode não existir uma compreensão lógica sobre o que está ouvindo a não ser que se conheça a música ou o idioma. O que existe é uma evocação de sensações, que parte do palco para a plateia, que pode ou não ser percebido pelo espectador, mas que provoca uma alteração do corpo cotidiano para um tônus extracotidiano. E esse efeito pode despertar os sentidos de quem está assistindo, chamando a atenção para o que é invisível. Talvez, a música finlandesa tenha servido como um código estranho que expandiu nossa expressividade em cena sem reafirmar o que já estava sendo dito. Uma música em português estaria “concorrendo” com o texto sobre a viagem dos Gattai narrado por Tatiana, pois estariam, ambas, acionando a parte cognitiva do cérebro do espectador. Com uma música na qual não se pode compreender a letra, o cérebro cognitivo está “disponível” para captar o significado do texto narrado sendo “embalado” pela música, que pode conduzir a carga emocional da cena sem torná-la excessiva. Esse procedimento, utilizado pela encenação, de balancear a atenção do espectador em níveis diferentes de exigência, faz parte da direção de Julia Varley. Ela distribui, ainda, em níveis diferentes de significados fazendo com que a obra tenha muitas camadas de entendimento e utiliza um critério para equalizar as intensidades: "gordura sobre manteiga". Se um texto dito pela atriz relata uma história triste e a atriz fala com uma voz chorosa, com uma música melodiosa e lenta, todos os estratos da dramaturgia estão no mesmo nível. É como se estivesse falando a mesma coisa, várias vezes. Isso é colocar gordura sobre a manteiga, ou seja, dizer o que já foi dito, ou, em bom português, “chover no molhado”. Devido o procedimento de Varley, de não colocar gordura sobre manteiga, o texto da história da Gattai é narrado pela Tatiana com uma voz isenta de dor. Ao mesmo tempo, eu não poderia cantar uma música infantil qualquer, porque costumam ser alegres e ritmadas. Isso mudaria o aspecto da cena, "esvaziando" a carga dramática do momento. Além disso, havia o cuidado com o impacto da cena. Quando contamos o que aconteceu na viagem da família Gattai contamos também sobre todos os idealistas que viajaram da Itália para o Brasil. Mais ainda, estamos evocando memórias familiares de dor, de sofrimento, de 148 perda. O desespero de Argia Gattai em não poder salvar a filha evoca o sofrimento de muitas mães que perderam seus bebês por não conseguirem amamentar em tais situações extremas, como uma viagem árdua de navio. Portanto, é uma cena que exige cuidado. Tanto pelo sofrimento de Argia Gattai, que não é um personagem fictício, quanto pela memória e sofrimento evocados em quem assiste. Pois, a história de um, relatada em cena, faz referência à história de muitos. Cada estrato da dramaturgia serve para conduzir o espectador a um momento de encontro com sua própria história interna. A história que se passa em sua memória ou em sua imaginação. São essas reverberações no espectador que o transformam em coautor do espetáculo. Outro procedimento de Varley bastante comum é utilizar todo material cênico que havia sido produzido. Não era Varley quem dizia o que e como uma partitura era construída. Essa parte cabia a nós, atrizes. A encenadora montava as composições que lhe entregávamos e tecia a trama dos níveis dramatúrgicos. Isso significava que a partitura que era criada precisava caber no contexto do trabalho cênico como um todo. Para isso era mexida, moldada, alterada, desmembrada. Mas, raramente era descartada. Por vezes, tínhamos a impressão de que a Julia não esquecia de nada, nenhum material ficava de fora, nenhuma partitura era ignorada. Como atrizes, tínhamos a sensação clara de que nossa contribuição para o trabalho estava sendo vista e reconhecida. Porém, quando a partitura se transformava em material e era manipulada para o contexto da obra, eu sentia que o produto inicial tomava outro significado. Quando eu produzia, a partitura criava uma sequência que possuía lógica para mim no momento em que foi criado. Logo depois, deixava de fazer sentido quando era recortada, desconstruída e posta em outro contexto. Estava claro que, por mais que a criação das partituras não tinham intervenção da encenadora nas escolhas da criação, era ela quem decidia onde e como aquele material seria utilizado no trabalho. Ou seja, havia uma condução da narrativa no formato de dramaturgia das imagens, como um significante fragmentado, cuja construção se dá no transcurso do processo. As imagens são peças a serem movidas na criação de uma tessitura maior: o espetáculo. Ao compor o material e editar as partituras físicas, Julia participava com sua criação imagética. Seu trabalho, conduzido por sua habilidade técnica, também estava permeado, por que não, de impulsos particulares que elegiam os trechos a serem editados e estavam prenhes de seus próprios registros sensoriais. Portanto, sua história também estava em cena: Varley é a terceira narradora. 149 3.26 Por último, as Catadoras de Papel Por vários momentos na montagem uma questão vinha à tona: o que estamos fazendo? A imensa distância entre a criação da partitura e sua utilização, decupagem e fragmentação dentro da cena fazia com que, constantemente, não sabíamos o que estávamos fazendo e por quê. Em alguns casos o trabalho às cegas é interessante por dar forma a uma cena extracotidiana, onde o corpo executa um trabalho dentro da lógica corporal e não intelectual. Mas é inegável, para o/a ator/atriz, o desgaste emocional de realizar algo sem saber onde se pretende chegar, e se deixar conduzir pela serendipidade da qual fala Barba (2010). Nos primeiros estágios do trabalho produzíamos as subpartituras e partituras sem saber para que serviam, quem eram aquelas mulheres, o que estavam fazendo ali, para quem falavam. Seguíamos para um rumo desconhecido. Porém, quando apresentamos nosso material para Eugenio Barba ele fez uma observação: “vejo cartoneras”, disse, se referindo às catadoras de papel da Argentina, figuras que marcaram um período de recessão do país. Nessa altura, tudo já havia sido determinado: objetos de cena, corpo, voz, figurino e só então, chegamos à forma que estava na camada final, mais externa, do corpo em cena. Observamos que percorremos um longo percurso de investigação e elaboração das Catadoras, antes de saber que eram catadoras e isso definiu uma abordagem inédita e complexa dessas mulheres. Primeiro entendemos quem elas eram, para depois descobrir o que estavam fazendo ali. Esse percurso, de dentro para fora foi, também, um procedimento da direção de Julia Varley. Quem eram aquelas mulheres e por que elas estavam com aqueles livros nas mãos não era uma informação fundamental para Varley, porque ela sabia que essa informação viria em algum momento do percurso. Através da prática da errância cartográfica e da prática do excesso, essa informação apareceu na dramaturgia. Se tivéssemos tido contato com essa informação antes, nossa visão de como uma catadora de papel deve ser e como deve se comportar teria manipulado nossas escolhas. Sem saber o que eram para a sociedade pudemos chegar maisfundo em quem eram realmente: nós mesmas. A poética cartográfica não é um termo novo para um procedimento antigo. É a nominação de um procedimento possível, viável, utilizado para a criação artística. Tal como vimos, fez parte da elaboração de uma dramaturgia criada em sala de ensaio, entre dois continentes, envolvendo mulheres com histórias distintas, culturas teatrais diversas, que concordaram em se dedicar à criação de uma obra cênica. Ou seja, é uma denominação que serve para apontar a experiência da elaboração da dramaturgia de EntreNãoLugares, 150 especificamente. Contudo, revela uma metodologia recorrente no Terceiro Teatro. Uma metodologia que mistura os campos da dramaturgia, da atuação e da encenação, borra as fronteiras entre vida e trabalho e adota procedimentos para a criação artística. De tudo que envolveu essa experiência, poética cartográfica é o nome adequado, porque exprime a ideia de território: o território singular que habitamos e que nos habita, mas também, o território-chão que percorremos para realizar essa empreitada. O nome contém nossa travessia, que trilhamos juntas. Poética cartográfica também revela que o procedimento é o fazer, ou seja, o trabalho é combinado com a disposição para a empreitada. Nós construímos o caminho a ser percorrido. Por isso, cartografar é estar na experiência e fazer parte dela. É ainda, um nome dado a um procedimento para a construção da dramaturgia que é trabalhada pela encenação, e não pelas mãos de um dramaturgo ou dramaturga. Na poética cartográfica a autoria é compartilhada. A história, como um todo, não é elaborada por uma só pessoa. Por mais que a montagem coubesse à encenadora, a responsabilidade de compor os materiais pertencia às atrizes. Por isso, a poética cartográfica é construída pelo trabalho de todas as envolvidas na criação. Incluindo pessoas de fora do processo. Além disso, a poética cartográfica não isola o trabalho do meio no qual ele é produzido. Ao contrário, entende o espaço como um território carregado de elementos que podem contribuir para a criação artística. O percurso de elaboração de EntreNãoLugares foi uma experiência de mergulho na tradição dramatúrgica do Terceiro Teatro e na tradição teatral do Odin Teatret. São tradições, ou seja, modos de fazer praticados por um mesmo grupo de artistas, durante um longo período. Existem muitas outras formas de elaborar dramaturgia e cada empreitada teatral possui suas próprias exigências. Cada criação, por sua vez, requer que procedimentos sejam criados, quer esses procedimentos existam especialmente para o trabalho ou façam parte de uma tradição compartilhada. De qualquer forma, a poética cartográfica se apresenta como uma metodologia de criação artística que auxilia no mapeamento dos territórios da criação, porque no vasto campo do trabalho artístico, que a cada nova obra muda-se as rotas, todos somos estrangeiros em primeira viagem. 151 CONCLUSÃO: DE UM AFLUENTE ATINGI O MAR Iniciei essa travessia com a pergunta: que dramaturgia é essa que foi elaborada para a criação do espetáculo EntreNãoLugares? Até então, ainda não sabia como continuar sendo dramaturga diante de uma montagem na qual eu não fosse a propositora principal. Ainda vivia em mim a ideia de que dramaturgia era texto escrito e o papel da dramaturga era escrever esse texto, por mais que eu tivesse tido tantas oportunidades para pensar diferente. A experiência de EntreNãoLugares foi a culminância de um processo que estava se desenvolvendo no meu ofício como criadora: descobria as potencialidades da dramaturgia para além da palavra escrita previamente. Havia o texto, mas também havia o corpo, a voz, o espaço, os objetos de cena e todas as conexões que poderiam advir desses elementos. Em um momento desse percurso cheguei a pensar que dramaturgia era tudo o que acontecia durante o encontro que gerava o acontecimento teatral; proposital ou não, intencional ou não. Com isso, tudo se tornou muito vasto e caótico. Havia tanta opção, tanta possibilidade, que criar passou a ser tudo e ao mesmo tempo nada. Se tudo podia ser chamado de dramaturgia, nada era dramaturgia e, consequentemente, não havia mais espaço para a dramaturga na criação teatral porque a obra seria um mosaico quase aleatório de diversos trabalhos distintos. A dramaturgia estava no trabalho de tessitura organizado pela encenação, na urdidura da criação de partituras físicas da atuação, no engendramento das imagens propostas pelos interstícios dos elementos técnicos e no encontro com o público, além de todo acaso que pudesse, por ventura, suceder durante esse encontro. Mas, evidentemente, havia uma organização elaborada e complexa sobre a encenação sem um texto previamente escrito que eu ainda precisava identificar. A montagem com a encenação de Julia Varley serviu de campo de experiência para essa investigação. O que me intrigava na montagem era o fato de haver um pensamento por trás de cada cena, cada gesto, cada tom de voz em EntreNãoLugares, apesar de não haver um “fio condutor” propriamente. Havia um propósito no recorte dos textos, no uso de determinada palavra e não outra, uma preocupação com a imagem criada, com o desenho do movimento para parecer exatamente o que precisava parecer. Como Julia Varley conduzia tudo isso? Ou será que era eu ou Tatiana quem conduzia? Curiosamente, eu achava que havia uma condutora quando havia várias. Nesse ponto, a metodologia cartográfica me ajudou a compreender a dinâmica rizomática e errática desse tipo de criação, justamente por ser uma antimetodologia: não há 152 regra, não há objetivo a ser cumprido, tudo está em processo e tudo é o processo. O pensamento dramatúrgico está no propósito da criação e não na criação em si, ou seja, dramaturgia não é o produto final, mas o meio pelo qual nos acercamos desse tema. Quando experimentamos cenas e imagens na sala de ensaio, isso era a dramaturgia sendo desenhada; quando recolhemos depoimentos dos nossos familiares, isso era dramaturgia; quando apresentamos para as primeiras pessoas e quando saímos para comemorar as pequenas vitórias com os amigos, isso também era dramaturgia. Pois, a dramaturgia é o processo de construção e todo contexto da criação. A função dramatúrgica, portanto, passa a ser, para mim, a organização desses tantos elementos, mas também a manutenção do propósito de criação. No caso de EntreNãoLugares, nosso propósito era os caminhantes: os viajantes e aventureiros, como Ulisses, e ainda os que se deslocavam por motivos diversos, por vontade própria ou por necessidade, forçados ou livres. Na época buscávamos, como criadoras, deglutir as imagens que pululavam nos noticiários sobre as levas de refugiados que rumavam para Europa e Américas. Com que condição viajavam? Como seriam recebidos? Por que podemos, sim, migrar? Somos todos caminhantes sobre a terra. Nos jornais e noticiários, os europeus debatiam a questão – como receber tanta gente? Como promover alimento e saúde e bem estar para todos? Como resolver as questões das diferenças culturais e religiosas? A Europa tinha medo dos que chegavam. Uns países fechavam as fronteiras e atiravam em quem se aproximasse, e outros enviavam resgate e faziam campanhas de recepção. Nos programas de televisão haviam debates calorosos, pedidos de ajuda, reportagens sobre o aumento da violência. Ser estrangeiro era ser refugiado. E as pessoas não paravam de chegar, todos os dias, botes e mais botes apinhados de gente, levas enormes de caminhantes a pé carregando os filhos e nada mais. No Asyl Center eu me encontrava com alguns desses rostos – famílias inteiras aguardando serem aceitas no país, vivendo em suspensão. As câmeras de televisão e celulares acompanhavam as levas de pessoas, nos noticiários colocavam mapas do percurso dos refugiados e a preparação das fronteiras do próximo país: uns aguardavamcom garrafas de água mineral, enquanto outros reuniam os exércitos para impedir que entrassem. A leva seguia deixando um rastro de mortos, feridos, objetos largados e esquecidos e pilhas de garrafas de plástico. Tudo isso acontecia a nossa volta enquanto eu e Tatiana criávamos partituras sobre Ulisses, Odisseia e Penélope. Por mais que a condução da obra não tivesse sido decidida em uma conversa, nem tivesse sido determinada de alguma forma, nossas criações confluíram para 153 os pés que andavam. Não era a minha opinião ou o ponto de vista de quem quer que fosse: era o acontecimento do deslocar das pessoas que fornecia a energia para a ação e que movia a criação de cenas. A crise migratória nos levou a pesquisar nossas histórias familiares de deslocamentos e isso atraiu outros temas. Quando retomo minhas anotações e tento reconstruir os caminhos da criação observo as pistas lançadas e as tantas trilhas que se formaram a partir de cada material. É nítido hoje para mim o quanto foi importante o mapeamento que deflagrou a criação de procedimentos para as cenas, o que chamei de poética cartográfica. A metodologia cartográfica de criação de EntreNãoLugares permitiu também que as imagens criadas para a obra contivessem elementos de nós três, porque não havia uma única autoria, nem um único argumento conduzindo a obra. Havia o processo de pensar e sentir, que se misturava com as leituras e o cotidiano, e que, por sua vez, não eram independentes do contexto no qual as cenas foram trabalhadas. Por isso, para a escrita da tese foi necessário auscultar os procedimentos utilizados na criação e observar o que havíamos feito para fazer. Ou seja, quais foram as estratégias para chegar nas cenas e os disparadores utilizados na encenação e na atuação que cumpriam com a função de criar dramaturgia. Dessa forma, dramaturgia passou a ser a fazedura, a ação mesma da tessitura e do urdir, identificada na condução do processo. Se estivéssemos diante de um trabalho de costura poderíamos dizer que a dramaturgia não é o tecido pronto e costurado, como costumamos chamar o texto teatral; nem é a linha ou a agulha que faz o trabalho de costurar, como é o caso das dramaturgias de Barba. Se eu fosse comparar com a costura eu diria que a dramaturgia de EntreNãoLugares era o ato de costurar: é a linha, é a agulha, é a mão que costura, é o trabalho realizado, e é também o tecido roto antes da costura que provocou a necessidade de coser. Assim, a palavra dramaturgia expandiu em mim para pensar o fazer e não a coisa feita. E como esse fazer já não envolvia, somente, o que dizia respeito ao conflito e ao drama (drama+agon) ou ao trabalho com a trama (drama+turgie), a palavra que melhor encaixou foi poética, para incluir o fazer da encenação e atuação na elaboração desses procedimentos. Não era apenas a dramaturgia, mas estávamos tratando da própria criação artística. Uma forma de criar, um modo de fazer e de desenhar poesia no espaço: poética cartográfica. Estudar a cartografia, entendida aqui como um conjunto de estratégias para a elaboração do espetáculo, serviu para reconhecer o conjunto de estratégias como uma metodologia de elaboração de material criativo, para além das artes cênicas. Entender a criação artística a partir 154 da utilização de uma metodologia reforça que existem critérios que guiam os artistas no errático percurso poético. Mesmo que essa metodologia seja um anti-método como a cartografia. Por fim, nossa questão inicial foi respondida: a dramaturgia de EntreNãoLugares é elaborada amalgamada com a criação de partituras e dentro do campo da encenação. Ou seja, a tríade encenação, dramaturgia e atuação está bastante ativa nesse tipo de estratégia para elaboração do trabalho cênico. A dramaturgia que encontramos é uma ordenação de elementos e signos postos em relação e em estado de mediação com o espectador. No início parecia ser uma dramaturgia única e inventada, mas depois descobri pertencer a um procedimento comum do Terceiro Teatro, utilizado por uma imensa tribo de artistas espalhados pelo mundo todo. Fazer parte de uma tribo como é o Terceiro Teatro não é o mesmo que pertence a uma seita ou qualquer coisa nesse sentido, pois esse pertencimento não conduz minha criação. Ao contrário, me propicia uma partilha de bens sensíveis capazes de produzirem um (re)encantamento sucessivo e constante do que faço e para quem faço. Pois, o Terceiro Teatro é um território de partilhas. É importante que essa tese trate do trabalho de uma companhia de teatro mato-grossense. É necessário que a produção artística, que se dá fora dos grandes centros culturais, seja estudada e, principalmente, que existam pesquisas sobre processos de criação. As pesquisas artísticas em torno do modo de fazer de artistas e grupos, que produzem a partir de localidades como Mato Grosso, contribuem para a diversidade do estudo das artes cênicas brasileira. O caminho que posso vislumbrar agora, depois do encerramento dessa investigação, aponta para o contexto da poética cartográfica. Entendo que, como uma metodologia de criação artística, a poética cartográfica é um modo de fazer e que cada criador ou criadora vai desenvolver os procedimentos e estratégias necessários para sua obra. Porque, é o caminho que faz o caminhante, e não o destino do seu caminhar. 155 REFERÊNCIAS ABIN, Margarida; et al. A Cena Teatral no Campo Expandido: atuação, personagem e direção. Argus-a, Universidad de la República Uruguay, v. VIII, n. 32, junho 2019. ISSN 1853 9904. ABREU, Luís Alberto de. A Restauração da Narrativa. Núcleo de Dramaturgia SESI. Curitiba, 2013. 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