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MARIANA SPADOTO DE BARROS Reitor Márcio Mesquita Serva Vice-reitora Profª. Regina Lúcia Ottaiano Losasso Serva Pró-Reitor Acadêmico Prof. José Roberto Marques de Castro Pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Ação Comunitária Profª. Drª. Fernanda Mesquita Serva Pró-reitor Administrativo Marco Antonio Teixeira Direção do Núcleo de Educação a Distância Paulo Pardo Coordenadora Pedagógica do Curso Fabiana Aparecida Arf Designer Educacional Juliana Spadoto Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico B42 Design *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Universidade de Marília Avenida Hygino Muzzy Filho, 1001 CEP 17.525–902- Marília-SP Imagens, ícones e capa: ©envato, ©pexels, ©pixabay, ©Twenty20 e ©wikimedia B277d Barros, Mariana Spadoto de Didática [livro eletrônico] / Mariana Spadoto de Barros. Fabiana Aparecida Arf (coord.) - Marília: Unimar, 2019. PDF : il. color. ISBN 978-85-86860-31-7 1. Aprendizagem 2. Didática 3. Ensino 4. Ensino e Aprendizagem – Brasil 5. Planejamento Educacional 6. Processo Didático – Avaliação I. Título. CDD – 371.3 005 Aula 1: O conceito de Didática e seu uso 013 Aula 2: Introdução à História Geral da Didática 021 Aula 3: Foco na aprendizagem: inatismo, empirismo e associacionismo 029 Aula 4: Foco no ensino - O comportamentalismo 040 Aula 5: Foco no ensino - O cognitivismo 049 Aula 6: Foco no ensino - O socioconstrutivismo (ou sociointeracionismo) 055 Aula 7: O Ensino e a Aprendizagem no Brasil: tendências pedagógicas liberais 063 Aula 8: O Ensino e a Aprendizagem no Brasil:as tendências pedagógicas progressistas 069 Aula 9: As formas de ensinar: métodos de ensino 078 Aula 10: A Relação Pedagógica 087 Aula 11: A dimensão pessoal em questão: a relação Professor - Aluno 093 Aula 12: O planejamento educacional 100 Aula 13: O plano de ensino 111 Aula 14: O plano de aula 118 Aula 15: A sequência didática 124 Aula 16: A importância da avaliação no processo didático 002 Introdução Estimado(a) aluno(a), Você iniciará seus estudos em Didática, uma disciplina que trata das maté- rias-primas do ofício do professor: o ensino e a aprendizagem. Como se aprende? Qual a melhor forma de ensinar? Como organizar as au- las? Quais são as finalidades do ensino de determinados conteúdos? Como estabelecer uma boa relação com meus alunos? Tenho clareza quanto aos objetivos do ensino de conteúdos escolares? Todas essas questões serão exploradas neste material. Mas não se engane: não há respostas prontas. Certas dúvidas perseguirão o professor por toda a sua vida profissional, já que as respostas variam de acordo com o contexto histórico, social e político em que o processo educativo e o próprio professor estão inseridos. O que a disciplina Didática fará é fornecer elementos para que você pense sua práti- ca pedagógica de maneira a assumir sua responsabilidade técnico-político, inerente à carreira profissional. A palavra didática vem do grego didasko que significa instruir, ensinar. Foi, porém, o educador checo Comenius (1592 – 1670), no século XVII, quem atribui à didática, por meio de sua obra Didática Magna, o sentido “a arte de ensinar”. Você também deve ter ouvido a palavra didática como adjetivo para algo relacionado à educação: livro didático, material didático. Ou como substantivo e sinônimo de técnica de ensino: “Esta professora tem didática! Sabe ensinar!”. Tais sentidos para o conceito de didática cabem nele. Em nosso curso, con- tudo, os aprofundaremos, pois nos debruçaremos sobre a Didática como disciplina responsável por orientar o professor acerca de tudo que envolve o processo de ensino, tais como seus objetivos, conteúdos e métodos. O curso tratará do conceito de Didática, de sua história geral. Em seguida, você estudará as principais concepções sobre a forma de aprender, as pro- postas de ensino e tendências pedagógicas que podem embasar o processo pedagógico do professor. Trataremos também de alguns métodos de ensino, da relação pedagógica e, especificamente, da relação professor-aluno. 003 Adentrando a etapa final do curso, discutiremos sobre a importância a as instâncias do planejamento educacional. E, finalizando o curso, discutiremos o processo avaliativo escolar e suas dimensões. É muito importante que você faça a leitura do material e acompanhe as videoaulas, pois são complementares. O material também conterá sugestões que podem ampliar sua visão sobre os assuntos trabalhados, o que ajudará na efetivação da aprendizagem. Vamos juntos desbravar alguns caminhos destes fenômenos incríveis da ação humana: ensinar e aprender! Professora Mariana Spadoto de Barros 004 01 O conceito de Didática e seu uso 005 006 O que é educação? Quando falamos de educação, certamente estamos citando um termo amplo que engloba muitas dimensões humanas, individuais e sociais. Abordaremos aqui o conceito de educação - o objeto de conhecimento da Pedagogia. De�nir o que é educação é algo complexo, já que o fenômeno educativo – educar e ser educado – é multidimensional. Pense comigo: os pro�ssionais que, de alguma forma, estão ligados ao campo educacional, como, por exemplo, psicólogos, sociólogos, antropólogos ou pro�ssionais da saúde, se perguntados sobre sua de�nição de educação, dariam respostas relacionadas a sua área de atuação. Um psicólogo, provavelmente, diria algo relacionado à aprendizagem dos comportamentos, das emoções ou mesmo do desenvolvimento dos processos cognitivos. Da mesma forma, se perguntarmos a uma pessoa que não é do campo educacional, “O que é educação?” ou “O que é educar?”, sua resposta basear-se-á em concepções do senso comum, como, por exemplo, ensinar ou aprender sobre boas maneiras, aprender ou ensinar coisas, dizer ou ouvir de alguém o que se deve ou não fazer. Fonte: Disponível aqui De acordo com o dicionário online Michaelis: Senso comum, FILOS: conjunto de ideias, opiniões e pontos de vista de um grande número de pessoas em um determinado contexto social que se estabelecem e impõem como naturais e necessárias, não admitindo grandes questionamentos nem re�exões; consenso. https://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=senso 007 O conceito de educação na contemporaneidade assume uma identidade muito abrangente, vistos os inúmeros processos nos quais o sujeito está inserido: campos social, cultural, econômico, político, religioso e cientí�co, além das questões psicológicas. Portanto, de acordo com Libâneo (2010, p. 30), “Educação é o conjunto das ações, processos, in�uências, estruturas que intervêm no desenvolvimento humano de indivíduos e grupos na sua relação ativa com o meio natural e social, num determinado contexto de relações entre grupos sociais”. Apoiados em Libâneo (2010), então, compreendemos que tudo aquilo que interfere no desenvolvimento integral do ser humano ou de um grupo, que o modi�ca, é educação. A partir dessa compreensão, qualquer fator, seja natural ou social, que transforma o sujeito, é educação. Assim, podemos a�rmar que existem situações intencionais de educação, ou seja, em que se há sistematização e planejamento a �m de educar, e situações não-intencionais de educação, em que a educação acontece de forma intuitiva, não-planejada. Como a educação se dá em diversos campos da vida, Libâneo (2010) classi�ca tais situações em três categorias. São elas: Educação informal: ações e in�uências exercidas pelo meio (ambiente sociocultural), por meio das relações. Ex.: relações familiares. Educação não-formal: instituições educativas com certo grau de sistematização e estruturação. Ex.: Meios de comunicação sociais, associações de bairro, museus. Educação formal: onde há objetivos educativos explícitos e uma ação educacional institucionalizada, estruturada, sistemática (mesmo que fora do ambiente escolar propriamente dito). Ex.: escolas formais, educação pro�ssional, educação de adultos. 008 É importante saber que a educação formal e a não-formal são sempre perpassadas pela educação informal. É função da educação formal considerar, de forma crítica, as diversas in�uências vindas do ambiente natural e sociocultural de seus alunos. Também a educação formal e não-formal se interpenetram, pois os alunos das escolas formais são também agentes de outras esferas educativas. Assim, o professor deve considerar que o aluno é também participante de outras esferas educativas e traz consigo uma bagagem de conhecimentos. Após entendermos que a educação acontece nas mais variadas esferas sociais (nas famílias, nos grupos sociais, nas instituições educacionais ou assistenciais, nas associações pro�ssionais, sindicais e comunitárias, nas igrejas, nas empresas, nos meios de comunicação de massa etc.) e assume diferentes formas de organização, é possível agora, compreender, que é ela o objeto de estudo da Pedagogia, isto é, cabe à Pedagogia estudar o fenômeno educativo em sua globalidade, propondo teorias e práticas. Agora sim, caro(a) aluno(a), é possível compreender melhor o que é a Pedagogia e o que faz um pedagogo - e consequentemente um professor - para só então conseguirmos entender a importância da disciplina Didática. 009 Acesse: Disponível aqui Para entender melhor o conceito de educação não-formal, conheça o projeto Curumim, idealizado pelo SESC SP em 1987 e que permanece ativo. Pedagogia: a ciência da educação Pedagogia é o campo de conhecimento que estuda a educação. Porém, dentro do universo cientí�co, há muitas disciplinas que têm a educação como um de seus focos de estudo, como a psicologia, as ciências sociais, algumas áreas da saúde, entre outras. Então, o que difere a Pedagogia dessas ciências? Essas ciências e muitas outras que estudam a educação o fazem abordando-a a partir de suas próprias perspectivas e métodos. A Pedagogia estuda o ato educativo em si, ou seja, os elementos da ação educativa e sua contextualização. De acordo com Libâneo (2010, p. 38), a Pedagogia analisa, então, “[...] o sujeito que se educa, o educador, o saber e os contextos em que ocorre”. Observe o esquema baseado nessa a�rmação: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/9676_APRENDER+E+BRINCAR+O+QUE+E+O+CURUMIM. 010 Título: Objeto de Estudo da Pedagogia | Fonte: autor O pedagogo e o professor são especialistas em educação, pois não apenas dominam as técnicas de ensino, mas compreendem, por meio da teoria pedagógica, a problemática educativa na sua totalidade, além de produzir teoria pedagógica em resposta aos problemas da prática. Por isso é que você poderá atuar tanto como professor, em sala de aula, na gestão escolar (coordenação pedagógica, direção, supervisão e dirigente de ensino), como na organização de projetos educativos em empresas e ONGs, ou dedicando-se à pesquisa acadêmica nas universidades. Concluindo: A Pedagogia, mediante conhecimentos cientí�cos, �losó�cos e técnico- pro�ssionais, investiga a realidade educacional em transformação, para 011 explicitar objetivos e processos de intervenção metodológica e organizativa referentes à transmissão/assimilação de saberes e modos de ação. Ela visa ao entendimento, global e intencionalmente dirigido, dos problemas educativos e, para isso, recorre aos aportes teóricos providos pelas demais ciências da educação. (LIBÂNEO, 2010, p. 32-33). E onde entra a Didática nesse contexto? A Didática é uma disciplina da Pedagogia, um ramo de estudo dessa ciência. Vejamos. Didática: disciplina da Pedagogia Ao compreendermos que a educação é todo e qualquer processo em que haja modi�cação, intencional ou não, no desenvolvimento do sujeito e que a Pedagogia é a ciência que estuda esse processo de modi�cação, analisando todo o contexto em que ele ocorre, é possível inferir que a Didática é um ramo da Pedagogia. A Didática é uma disciplina da Pedagogia. Ela se preocupa, basicamente, com a investigação e a proposição de teorias acerca do ensino. Libâneo (2001) conceitua: A didática é uma disciplina que estuda o processo de ensino no seu conjunto, no qual os objetivos, conteúdos, métodos e formas organizativas da aula se relacionam entre si de modo a criar as condições e os modos de garantir aos alunos uma aprendizagem signi�cativa. (LIBÂNEO, 2001, p. 2). A Didática então, como disciplina da Pedagogia, ajuda o professor na orientação de seu trabalho, proporcionando a segurança pro�ssional necessária para este árduo ofício. Isto porque o professor, compreendendo as �nalidades do ensino, é capaz de selecionar os métodos mais adequados para o sucesso de sua ação educativa. É de primordial importância que você, futuro professor, compreenda que a atividade docente está diretamente ligada com o para que educar (Libâneo, 2001). Isso porque a educação acontece inserida em uma determinada sociedade, composta por grupos 012 sociais diferentes, com visões igualmente distintas do sentido da educação. É função do professor compreender as relações de disputa para que se posicione criticamente e tenha clareza das �nalidades que tem em mente para a educação das crianças. Portanto: Não há técnica pedagógica sem uma concepção de homem e de sociedade, como não há concepção de homem e sociedade sem uma competência técnica para realizá-la educacionalmente. Por isso, o planejamento do ensino deve começar com propósitos claros sobre as �nalidades do ensino na preparação dos alunos para a vida social: que objetivos mais amplos queremos atingir com o nosso trabalho, qual o signi�cado social da matéria que ensinamos, o que pretendemos fazer para que meus alunos reais e concretos possam tirar proveito da escola etc. As �nalidades ou objetivos gerais que o professor deseja atingir vão orientar a seleção e organização de conteúdos e métodos e das atividades propostas aos alunos. Essa função orientadora dos objetivos vai aparecer a cada aula, perpassando todo o ano letivo. (LIBÂNEO, 2001, p. 2-3). Mais adiante, nossas aulas tratarão dos processos relacionados ao ensino e à aprendizagem, como a relação professor-aluno e os métodos de ensino. Antes disso, conheceremos um pouco da história da Didática. O importante sobre a Didática é compreendermos que não se trata de uma disciplina especí�ca para ensinar técnicas de ensino ao professor, apesar de sua importância, mas que se propõe a estudar todo o contexto em que o ensino se dá, com que objetivo ele ocorre, qual conteúdo ele apresenta e como ensiná-lo, considerando o espaço em que ele acontece e as relações desenroladas nesse espaço. É para isso que a Didática serve: para que o professor consiga realizar intencionalmente o seu ofício de ensinar, para além do senso puramente prático, de modo que o aluno aprenda de fato. 02 Introdução à História Geral da Didática 013 014 A origem da palavra didática, segundo Cordeiro (2007), vem do grego didasko, que signi�ca ensinar ou instruir. Na Grécia antiga, o ensino infantil acontecia de modo bem diferente do que o que hoje entendemos por instrução. Vamos compreender um pouco da história do ensino e da Didática? Segundo Malheiros (2012), muitos autores consideram Platão como o primeiro professor de que se ouviu falar. Considerando que Platão nasceu em por volta de 427 a. C., as formas e objetivos de ensino mudaram muito nestes, aproximadamente, 2.500 anos. É importante conhecer o desenvolvimento histórico da Didática para compreender muitas das ideias atuais de educação. Nosso modelo de instrução atual, centra-se, basicamente, em paradigmas europeus de educação. Por isso, centremo-nos neles. Muito da forma de educação da Idade Média (séculos V a XV), de acordo com Malheiros (2012), vinha da Antiguidade. As crianças podiam ser dadas, vendidas ou mortas a partir da decisão do pai. Com a expansão do cristianismo, no entanto, a Igreja passou a assumir a tarefa de acolher as crianças, garantindo não a educação integral, tal qual pensamos hoje, mas sua sobrevivência (alimentação, vestimenta, higiene). A educação dada era, basicamente, catequização. As corporações medievais, que eram associações de pessoas de uma determinada pro�ssão, também admitiam crianças para que aprendessem um ofício e, futuramente, �zessem parte da associação. Malheiros (2012) explica ainda que a partir do século VI é que a Igreja passou a abrir espaços escolares para garantir a formação cristã nas maiores cidades europeias. Neste momento, não havia um ensino diferenciado que considerasse a maneira própria das crianças aprenderem. A partir dos cinco anos, elas aprendiam juntamente com os adultos. Foi somente com o início da Idade Moderna, no �m do século XV, que os jesuítas criaram a ideia de seriação. As escolas, no formato como conhecemos hoje, são fruto do modelo europeu de escola consolidado a partir do século XVII. Esse século consolida a ideia de professores regentes e grupos mais homogêneos de alunos, separados �sicamente. Foi neste século que se começa a pensar especi�camente em conteúdos, objetivos e métodos de ensino. Vejamos quem deu este passo. 015 Jan Amos Comenius (1592 – 1670) Costuma-se dizer que a Didática foi fundada no século XVII por um educador da Europa central chamado Comenius. Nesse século, ele publicou um livro que se chamava Didática Magna: tratado da arte universal de ensinar tudo a todos (1632). Por que essa obra tornou-se tão importante? Por dois motivos: pelo seu pioneirismo em propor um método universal que orientasse a prática do professor e por in�uenciar muitas teorias e práticas futuras que buscariam tornar o ensino efetivo, e�ciente, por meio da racionalização das formas de ensinar. Sua obra também é considerada muito relevante porque traz como inovação a aprendizagem do aluno como elemento central na prática educativa, além da ideia da pro�ssionalização do ensino, ou seja, de um conjunto de competências cabíveis ao professor. Fonte: Disponível aqui Conheça a obra Didática Magna de Comenius, com tradução do professor doutor da Faculdade de Letras de Coimbra, Joaquim Ferreira Gomes, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 2001, que está disponível no formato e-book. Comenius (ou Comênio) foi o primeiro educador a ter a intenção de que os conhecimentos fossem difundidos para todos, segundo princípios e regras do ensino. Libâneo (2013, p. 59) salienta que: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/didaticamagna.pdf 016 Comênio desenvolveu ideias avançadas para a prática educativa nas escolas, numa época em que surgiam novidades no campo da Filoso�a e das Ciências e grandes transformações nas técnicas de produção, em contraposição às ideias conservadoras e do clero. O sistema de produção capitalista, ainda incipiente, já in�uenciava a organização da vida social, política e cultural. A Didática de Comenius centrava-se em determinados princípios. Vejamos alguns deles: Educação como direito: todos os homens merecem a sabedoria, a moralidade e a religião. A educação é um direito natural de todos. Respeito ao desenvolvimento natural humano: o homem deve ser educado conforme seu próprio desenvolvimento natural. A Didática deve estudar e propor métodos de ensino respeitando tal processo Aprender pelos sentidos: a assimilação não é algo mecânico. Os conhecimentos devem ser construídos pela observação, por meio dos órgãos dos sentidos. Do simples para o complexo: O planejamento deve seguir o curso da natureza infantil. Deve ser ensinada uma coisa de cada vez, partindo do conhecido para o desconhecido. Considerada a época dessas ideias, podemos dizer que são uma grande novidade. Embora acreditasse na importância da observação e da experiência dos sentidos, Comenius tinha em seus ideais algumas características comuns ao período, como o caráter transmissor do ensino, o método único e o ensino simultâneo. Além disso, considerava que a única forma de aprendizagem seria pela experiência sensorial, o que o fez desconsiderar a experiência socialmente acumulada. Comenius teve uma in�uência signi�cativa por seu empenho ao desenvolvimento dos métodos mais e�cientes de instrução e também pelo desejo de que todas as pessoas fossem bene�ciadas pela aquisição dos conhecimentos. Mesmo com as propostas de Comenius, no século XVII e também nos seguintes, houve ainda a predominância de práticas escolares medievais, como o ensino integralmente intelectual, verbal e dogmático, centrado na memorização e na repetição mecânica do ensino. “Nessas escolas não havia espaço para ideias próprias dos alunos, o ensino era separado da vida, mesmo porque ainda era grande o poder da religião na vida social”. (LIBÂNEO, 2013, p. 60). 017 Ainda de acordo com Libâneo (2013), nesse contexto, transformações intensas se sucederam, gerando avanços signi�cativos na ciência e cultura. Com isso, houve a diminuição do poder da nobreza e do clero e, consequentemente, a burguesia teve ascensão. Com o seu fortalecimento como classe social, na disputa pelo poder econômico e político com a nobreza, cresceu também a intenção de que o ensino estivesse ligado ao mundo da produção e dos negócios, contemplando o desenvolvimento livre das capacidades e dos interesses de cada um. Por isso, outros tratados didáticos focados no desenvolvimento do sujeito, surgem. O desenvol�mento da teoria didática Jean Jacques Rousseau (1712 - 1778) 018 Com a ascensão da burguesia, no século XVIII, a era moderna começa a se instalar com novas visões de mundo. Rousseau, um pensador que procurou interpretar esse cenário, propôs novas concepções de ensino e de infância com base nos interesses imediatos da criança. Rousseau inova “quando põe em relevo a natureza da criança e transforma o método num procedimento natural, exercido sem pressa e sem livros”. (CASTRO, 1991, p. 17). São ideias rousseaunianas: Para preparar a criança para a vida futura, parte-se do estudo das coisas que re�itam seus interesses e necessidades atuais. “Os verdadeiros professores são a natureza, a experiência e o sentimento. O contato da criança com o mundo que a rodeia é que desperta o interesse e suas potencialidades naturais”. (LIBÂNEO, 2013, p. 60). A educação é um processo natural, fundamentada no desenvolvimento interno da criança ou jovem. “As crianças são boas por natureza, elas têm uma tendência natural para se desenvolverem” (LIBÂNEO, 2013, p. 60). Nota-se, então, de acordo com Castro (1991, p. 17), que “enquanto Comenius, ao seguir as pegadas da natureza, pensava em domar as paixões das crianças, Rousseau parte da ideia da bondade natural do homem, corrompido pela sociedade”. Entretanto, cabe ressaltar que Rousseau não colocou em prática tais ideias e também não elaborou uma teoria de ensino. Essa tarefa foi cumprida por outro pedagogo: o suíço Henrique Pestalozzi, que trabalhou até o �m da vida na educação de crianças pobres, em instituições dirigidas por ele próprio. Henrique Pestalozzi (1746 – 1827) O pedagogo Pestalozzi valorizava o ensino como meio de desenvolver as capacidades humanas, seus sentimentos, sua mente e seu caráter. Haydt (2011, p. 15) elucida que ele: [...] acreditava que o ser humano nascia bom e que o caráter de um homem era formado pelo ambiente que o rodeia. Sustentava que era preciso tornar esse ambiente o mais próximo possível das condições naturais, para que o caráter do indivíduo se desenvolvesse ou fosse formado positivamente. Para ele, a transformação da sociedade iria se processar através da educação, que tinha por �nalidade o 019 desenvolvimento natural, progressivo e harmonioso de todas as faculdades e aptidões do ser humano. Para o pedagogo suíço, a educação deve desenvolver a linguagem, o senso de observação e de análise (de objetos e fenômenos da natureza). Além disso, dava importância à Psicologia infantil, considerando-a como princípio do desenvolvimento do processo de ensino. Pestalozzi, com tais ideias, lança as sementes da Pedagogia Moderna. “Foi ele o primeiro a formular de forma clara e explícita o princípio de que a educação deveria respeitar o desenvolvimento infantil”. (HAYDT, 2011, p. 15). Os três pensadores vistos até aqui in�uenciaram Herbart (1766-1841), um pedagogo alemão que na primeira metade do século XIX teve in�uência relevante nas práticas docentes. Foi considerado (e ainda é) inspiração da pedagogia conservadora. As ideias de Herbart, segundo Libâneo (2013), estão presentes nos dias atuais na prática das salas de aula brasileiras. Tal concepção de ensino e de aprendizagem valoriza a aquisição de conhecimentos, direcionados pelo professor (o “arquiteto da mente”). Cabe a ele inserir ideias corretas na cabeça dos alunos, de modo que controle seus interesses. Johann Friedrich Herbart (1746 – 1827) Para Herbart, de acordo como Haydt (2011, p. 17), a educação moral decorre da educação intelectual, pois são as ideias que formam o caráter. “O conhecimento produz ideias que moldam a vontade, isto é, o caráter. A este ciclo, conhecimento-ideias-caráter, 020 Herbart chamou de instrução educativa”. A instrução permite atingir a moralidade, entendida como a �nalidade da educação. Aproveitando as leis da psicologia do conhecimento, Herbart formulou um método de ensino, estabelecendo quatro passos didáticos que deveriam ser rigorosamente seguidos (LIBÂNEO, 2013). Vejamos: 1º passo - Clareza: é preciso realizar a preparação e a apresentação do conteúdo novo de forma clara e completa; 2º passo - Associação: é necessário que haja associação das ideias antigas com as novas; 3º passo - Sistematização: deve ocorrer a sistematização dos conhecimentos com vistas à generalização; 4º passo - Aplicação: fazer uso dos conhecimentos adquiridos com exercícios. Posteriormente, de acordo com Libâneo (2013), os seguidores de Herbart acrescentaram mais um passo didático, a generalização, e tal sequência ainda é muito utilizada atualmente. Os passos �caram na seguinte ordem: preparação; apresentação; assimilação; generalização; aplicação. Libâneo (2013) critica tal sequência a�rmando que a aprendizagem se torna mecânica, pois não mobiliza a atividade mental do aluno, inibindo a re�exão, o pensamento independente e a criatividade. O sistema pedagógico de Herbart e seus seguidores — chamados de herbartianos — trouxe esclarecimentos válidos para a organização da prática docente, como por exemplo: a necessidade de estruturação e ordenação do processo de ensino, a exigência de compreensão dos assuntos estudados e não simplesmente memorização, o signi�cado educativo da disciplina na formação do caráter. Entretanto, o ensino é entendido como repasse de ideias do professor para a cabeça do aluno; os alunos devem compreender o que o professor transmite, mas apenas com a �nalidade de reproduzir a matéria transmitida. (LIBÂNEO, 2013, p. 62). Os autores explorados até aqui abordaram a educação a partir de pontos de vista muito diversos. Analisaremos a seguir as correntes �losó�cas que explicam como o ser humano aprende, cada uma à sua maneira. Você conseguirá relacionar tais correntes aos pensamentos vistos até aqui. 03 Foco na aprendizagem: inatismo, empirismo e associacionismo 021 022 Você viu, até aqui, que a nossa disciplina se ocupa de investigar os conteúdos de ensino (o que ensinar), os objetivos desse ensino (por que ensinar) e os métodos de ensino (como ensinar), bem como suas �nalidades mais amplas, ou seja, qual a importância que o que está sendo ensinado tem para a sociedade, de forma que o aluno efetivamente aproveite a escola como meio de inserção e interação social e econômica. É muito importante que você, futuro professor, aproveite o máximo de nossas aulas para que, ultrapassando as ideias de ensino e escola do senso comum, faça boas escolhas, preocupadas realmente com a aprendizagem de seus alunos. Como as pessoas aprendem? Para um professor, a resposta a essa pergunta pode determinar suas escolhas didáticas e relação pedagógica. Por muito tempo, os sujeitos se questionaram - e ainda se questionam - sobre esse assunto. Segundo Malheiros (2012), historicamente, as teorias construídas acerca de como se aprende podem ser agrupadas em três blocos: o inatismo, o empirismo e o associacionismo. Como as pessoas aprendem? - O inatismo O inatismo parte do princípio de que todas as características que de�nem o sujeito nascem com ele. Nesta perspectiva, as pessoas nascem com mais ou menos potencialidades. O desenvolvimento precede a aprendizagem. Alguns nascem mais desenvolvidos que outros. Essa teoria tem como seu primeiro representante o �lósofo Platão (427-347 a.C.). Platão defendia que aprender signi�ca desenvolver os dons com os quais as pessoas nascem. Assim, o meio social não tem in�uência no desenvolvimento cognitivo do indivíduo. 023 Atualmente, quase não há pesquisadores que defendam essa teoria. Isso porque ela foi muita utilizada para justi�car atos discriminatórios ao longo do tempo, embasando a ideia de que pais pouco instruídos passam essa herança a seus �lhos, mesmo que tivessem crescido em outro contexto social, político ou econômico. Muitos grupos étnicos foram discriminados ao longo do tempo por conta, entre outras coisas, dessa ideia. Não há evidências cientí�cas que justi�quem essa teoria. Por se tratar da mais antiga concepção de aprendizagem, está ainda presente no imaginário das pessoas. Você certamente já ouviu alguém – ou mesmo um professor – dizer: “Tal pessoa não nasceu pra isso”. Ou mesmo: “Aquele sujeito consegue realizar tal atividade porque possui um dom”. A maior crítica que se faz a este tipo de crença é que se o sujeito nasce com determinadas características, de forma inata, então, não é possível mudar. O meio, portanto, não interfere no desenvolvimento cognitivo da pessoa. 024 O inatismo acredita que todas as características que de�nem uma pessoa estão presentes no momento em que esta pessoa nasce. Aprender seria, portanto, estimular características que já́ existem. (MALHEIROS, 2012, p. 9). Como as pessoas aprendem? - O empirismo O empirismo: se opõe completamente ao inatismo, pendendo para o outro extremo. De acordo com o empirismo, nascemos sem saber nada e que as estruturas cognitivas vão sendo construídas a o longo da vida. Quanto mais experiências vivenciadas, mais informações acumuladas. A aprendizagem acompanha o desenvolvimento, e não vem depois dele. John Locke (1632-1704) se opôs profundamente ao inatismo e entrou para a história como �lósofo da teoria do conhecimento. Provavelmente, você ouvir falar que a mente humana é uma “tábula rasa”. Foi ele quem deu visibilidade a essa expressão. Isso signi�ca dizer que a cognição humana é uma tela em branco a ser preenchida com informação retiradas de sua própria experiência. Acontece, então, uma aprendizagem “de fora para dentro”, ou seja, o meio constrói o desenvolvimento cognitivo do sujeito. 025 Para Lock, a experiência (empiria) se dá por meio dos sentidos (visão, olfato, paladar, tato). Por meio da apreciação de um objeto, o sujeito constrói o seu conceito. A crítica que se faz ao empirismo tem a ver com a forma de apreensão do conhecimento. Ora, se conhecer é simplesmente entrar em contato com o objeto e descobrir com ele, aprender é, então, apreender, decorar, receber um conteúdo. Assim, descartam-se as questões subjetivas que permitem ao ser humano reconstruir o conhecimento, buscando suas próprias interpretações e respostas. O empirismo acredita que nascemos sem saber absolutamente nada, e que construímos nosso conhecimento por meio das experiências. (MALHEIROS, 2012, p. 10). 026 A relação entre empirismo e inatismo Observe o quadro que compara as duas teorias vistas até aqui: Inatismo Empirismo Conhecimento O conhecimento é pré- formado e fruto do desenvolvimento biológico. O conhecimento é oriundo da experiência, captado de fora pelos sentidos. Aprendizagem Armazenamento de informações por meio da memória. Alteração de comportamentos, fruto da experiência. Ensino Uso maciço de exposição de conteúdos pelo professor. Controle do ambiente para levar o aluno a viver uma experiência. Avaliação Mensuração da quantidade de informações retidas pelo aluno. Mensuração de respostas modi�cadas e comportamento alterado. Fonte: BARROS, 2012, p. 11. Você deve estar se perguntando: inatismo e empirismo não reconhecem a relação entre as pessoas como ponto importante para a aprendizagem? E a resposta é não. Não reconhecem. Ainda segundo Malheiros (2012), foi a partir do início do século XIX que alguns pensadores começaram a considerar e a investigar o impacto do meio e das relações sociais no ensino e na aprendizagem. Isso se deu porque a psicologia, no ocidente, começou a se a�rmar como disciplina autônoma e a fortalecer ideias acerca da in�uência das interações sociais na formação do indivíduo, além da noção de que 027 existia um vínculo entre o meio no qual se vivia e o tipo de educação oferecido. A partir de então, novas formas de se conceber a aprendizagem, e também o ensino, passaram a �gurar. Como as pessoas aprendem? – O associacionismo A partir das descobertas da psicologia que apontavam para uma in�uência do meio no desenvolvimento humano, as teorias denominadas associacionistas despontaram. O associacionismo: a educação acontece por meio de um estímulo e de uma recompensa. Por exemplo, os pais recompensam seus �lhos com uma sobremesa caso estes comam o alimento saudável oferecido durante a refeição. Caso não comam verduras e legumes, não ganham a sobremesa. Dessa forma, o resultado esperado é que os �lhos compreendam a relação estabelecida entre o estímulo e a recompensa, entendendo as consequências positivas e negativas dessa relação, e passem a dar respostas positivas a tais estímulos, mantendo tal comportamento. As ideias associacionistas foram a gênese do comportamentalismo. Fonte: Disponível aqui Saiba mais sobre as diversas formas de se compreender a aprendizagem, de maneira simples e atrativa, acompanhando online os conteúdos da Revista Nova Escola. https://novaescola.org.br/conteudo/41/inatismo-empirismo-e-construtivismo-tres-ideias-sobre-a-aprendizagem 028 Você pode se perguntar se aprender depende de algo tão simples e mecânico, como provocar o estímulo adequado para obter a resposta desejada. Pare e pense: quando você era criança, provavelmente sua professora fazia um elogio em seu caderno, esperando que você continuasse a aprender e a esforçar-se para isso. Entretanto, a carinha feliz ou a estrelinha colada em seu caderno provavelmente tinha pouca in�uência sobre sua di�culdade de aprender determinados conteúdos. Mesmo assim, séculos depois desta formulação teórica acerca de como aprendemos aparecer, ainda há pais, professores e psicólogos que se orientam pela concepção associacionista de aprendizagem, mãe do comportamentalismo. “O inatismo, o empirismo e o associacionismo são correntes �losó�cas que orientam a forma como se crê̂ que o conhecimento se estabelece. Não são métodos. Os métodos de ensino são os caminhos utilizados para garantir que o outro aprenda.” (MALHEIROS, 2012, p. 12). Baseadas nessas três formas de conceber a aprendizagem, teorias focadas em como ensinar – em métodos – foram desenvolvidas. Veremos quais são elas a seguir: Inatismo, empirismo e associacionismo são correntes �losó�cas que postulam a forma como as pessoas aprendem. Não são métodos de ensino. (MALHEIROS, 2012, p. 12). 04 Foco no ensino - O comportamentalismo 029 030 Já discutimos sobre as principais formas de se conceber a aprendizagem que embasaram os primeiros estudos sobre educação escolar no ocidente. Tais correntes deram origem a estudos mais estruturados sobre a aprendizagem, que propuseram métodos de ensino. Vimos em nossa primeira aula que é função da Didática estudar as �nalidades do ensino. De posse dessa informação, é fundamental que você, futuro professor, compreenda que dependendo da visão de mundo do educador, ou de um sistema organizado de ensino, a educação terá determinadas �nalidades e utilizará determinados meios para alcançá-las. Nenhum tipo de educação é neutro. Nenhum método de ensino é neutro. Sempre há uma concepção de homem e de sociedade para os quais a educação forma. Método e Metodologia são conceitos diferentes, contudo são comumente utilizados no campo da educação como sinônimos. Método signi�ca o caminho que se percorre para chegar a um objetivo, o passo a passo, as estratégias, as técnicas. Metodologia é um conceito mais amplo, que engloba o estudo do método, a análise dos procedimentos, os conhecimentos teórico-�losó�cos que embasam as técnicas. Discutiremos, nesta aula, o comportamentalismo e suas implicações para a educação. O comportamentalismo estabeleceu-se como teoria psicológica a�rmando que todo comportamento pode ser controlado por estímulos. Além disso, centra seus estudos psicológicos estudando o comportamento que pode ser observado, se opondo a outros 031 estudos, como a psicanálise freudiana. Um cientista que viveu entre os séculos XIX e XX, Pavlov, foi o primeiro a ser mundialmente conhecido por utilizar cães para comprovar o condicionamento comportamental. Uma experiência muito famosa que ele realizou com cães consistia em transferir a resposta de um estímulo para outro estímulo. Por exemplo: sempre que ele apresentava um pedaço de carne, o cão salivava. Em seguida, ele passou a apresentar um pedaço de carne e tocar um sino simultaneamente. Algum tempo depois, apenas ao tocar o sino, o cão já́ salivava. O grande feito de Pavlov foi mostrar que é possível moldar o comportamento (pelo menos em animais), o que instigou pesquisadores da psicologia a buscar compreender se esta associação também seria possível em humanos. (MALHEIROS, 2012, p. 13). Logo em seguida, dando continuidade aos estudos comportamentalistas, Watson (1878- 1958) iniciou uma corrente chamada de comportamentalismo (ou behaviorismo) clássico, que acredita ser possível comandar todos os comportamentos humanos a partir da identi�cação do melhor estímulo. Ele a�rmava que qualquer comportamento poderia ser condicionado por meio de estímulo-resposta, sem, contudo, conseguir comprovar completamente tal a�rmação. Tolman, contemporâneo de Watson, explanou que entre o estímulo e a resposta há um organismo, e que o mesmo estímulo pode desencadear respostas diferentes dependendo do organismo em questão. As pesquisas que orientam Tolman o levaram a apresentar o conceito de aprendizagem por mapas cognitivos, que são estruturas mentais orientadoras do comportamento a ser manifestado, dependendo do objetivo. É o que atualmente se chama de behaviorismo cognitivo. A relação entre as duas palavras (behaviorismo e cognitivo) sinaliza que, além da importância dada aos estímulos, Tolman coloca a cognição dentro da discussão. Neste caso, a resposta dada a um determinado estímulo dependerá fundamentalmente da intenção do organismo. (MALHEIROS, 2012, p. 14). 032 Hull, contemporâneo de Watson e Tolman, opõe-se a este último discutindo a ideia de aprendizagem por meio de memorização. Para Tolman, a manifestação da aprendizagem se dava pela realização de um comportamento que correspondia a uma experiência passada. Hull defendia que a experiência provoca alterações neuro�siológicas e, portanto, não se trataria simples- mente de um processo de aquisição de memória. É possível a�rmar que nesta nova visão do behaviorismo, os diversos reforços de comportamento são capazes de alterar a própria morfo�siologia daquele que é alvo do experimento. Hull é o autor que mais leva sua concepção de aquisição ou modulação de comportamentos para a educação. Ao se opor à ideia da separação entre corpo e mente, reforça a questão da modulação do comportamento por meio da modulação biológica. (MALHEIROS, 2012, p. 14). Foi com o psicólogo Skinner que o comportamentalismo teve sua expressão denominada comportamentalismo radical (MALHEIROS, 2012). Para este autor, haveria uma separação entre corpo e mente. A mente decide como agir, e o corpo recebe os estímulos externos. Skinner apresentou o conceito de condicionamento operante. Neste condicionamento, um estímulo é oferecido visando a uma determinada resposta. E essa resposta só existirá se ela gerar um novo estímulo, dentro dos desejos deste respondente. Para Skinner, “o comportamento não surge de um estímulo isolado, mas da expectativa do estímulo futuro.” (MALHEIROS, 2012, p. 15). Tal ideia contraria o comportamentalismo clássico, pois a resposta não é simplesmente uma resposta �siológica a um estímulo, mas nasce de uma expectativa de novo estímulo. Duas ideias são fundamentais para entender esta forma de entender a aprendizagem: reforço e punição. O reforço são os estímulos que produzem a ocorrência e a repetição do comportamento. A punição são estímulos que fazem com que um comportamento seja evitado. Observe a seguir o esquema que representa esse conceito. 033 Fonte: MALHEIROS, 2012, p. 15. O esquema explicita que o reforço leva à repetição da mesma resposta, se o estímulo for o mesmo e a punição suspende a resposta. Esta ideia in�uenciou fortemente a educação, mais especi�camente a escolha de um método de ensino. Aceitando que o comportamento pode ser modelado por meio de estímulos, basta que se ofereçam aos alunos os estímulos corretos para que apresentem comportamentos socialmente desejáveis e punindo comportamentos indesejáveis. Skinner defendia que simplesmente ter contato com o meio não bastava para que houvesse aprendizagem, mas que é necessária uma transmissibilidade organizada. Malheiros (2012, p.16) apresenta o desenvolvimento das ideias comportamentalistas no ensino: Em sala de aula, o comportamentalismo se manifestou principalmente pela criação e utilização das máquinas de ensinar. Estas máquinas apresentavam o conteúdo em uma sequência tal que permitiam que o aluno fosse apresentando as respostas esperadas. Os tipos de aprendizado eram categorizados por Skinner em três grupos: 034 - Comportamento re�exo: como a dilatação das pupilas diante da mudança na intensidade da luz. Neste caso, o sujeito não tem controle do comportamento. - Comportamento operante: são voluntários, como escrever um texto. É controlado pelas consequências dos estímulos. - Comportamento respondente: similar ao comportamento operante, mas controlado pelos estímulos que o precedem, como correr para atender ao chamado de alguém que chama. Mizukami (2014) explica que a abordagem comportamentalista de educação preconiza que o conhecimento está fora do sujeito, é uma descoberta. A ciência, nessa abordagem, é uma forma de descobrir a ordem e a natureza dos eventos, para utilizá-la e controlá-la. Por isso, o aluno é considerado como um “recipiente de informações e re�exões”. (MIZUKAMI, 2014, p. 20). Ensinar é mudar padrões de comportamento através do treinamento, de acordo com objetivos prede�nidos. De acordo com a autora, neste tipo de abordagem: [...]supõe-se e objetiva-se que o professor possa aprender a analisar os elementos especí�cos de seu comportamento, seus padrões de interação, para, dessa forma, ganhar controle sobre eles e modi�ca-los em determinadas direções quando necessário, ou mesmo desenvolver outros padrões. (MIZUKAMI, 2014, p. 21). Para Mizukami (2014), adotar a perspectiva comportamentalista implica em compreender o homem como uma consequência da in�uência do meio ambiente. Assim, a subjetividade do indivíduo é, praticamente, ignorada. O ideal dessa teoria, entretanto, é que o controle da situação ambiental seja transferido para o próprio indivíduo, de modo que ele possua autocontrole, porém, são as forças externas que continuam a exercer, ainda, maior controle. A visão de mundo dos comportamentalistas é a de que este é uma realidade objetiva, construída, pronta. Que cabe ao homem apenas manipulá-lo. O comportamento pode ser modi�cado alterando-se os elementos ambientais. Segundo Mizukami (2014, p. 23): 035 Para que a formulação das relações entre um organismo e seu meio seja adequada, devem-se sempre especi�car três aspectos: a ocasião na qual a resposta ocorreu, a própria resposta e as consequências reforçadoras. As relações entre esses três elementos constituem as contingências de reforço. São essas contingências de reforço que alteram o comportamento. Com relação à sociedade e à cultura, os comportamentalistas acreditam que é preciso que haja uma ciência para o planejamento desta última, isso porque o centro desta teoria, como vimos, admite a alteração por meio do controle das contingências. Assim, por meio do controle dos comportamentos, seria possível uma sociedade sem violência, sem autoridade, sem classes sociais ou propriedades privadas. A teoria do reforço garantiria uma nova forma de viver, encontrando a e�ciência ao máximo. Ora, se o comportamento humano é totalmente determinado pelas forças genéticas e ambientais, não é possível haver mérito individual. Segundo Mizukami (2104) o indivíduo é, então, como uma peça de uma máquina controlada, realizada a função que se espera dele. O comportamentalismo e a educação Você pôde observar, estimado aluno, que o conhecimento, para os comportamentalistas, é o resultado direto da experiência. Vimos que o maior expoente do comportamentalismo, Skinner, não se preocupou em investigar de que modo o conhecimento é construído na mente do indivíduo, mas lidou com o controle do comportamento observável. Assim, o comportamentalismo tem uma base empirista, que vimos na nossa segunda aula. A inteligência, para os comportamentalistas, foi herdada à medida que contingências de reforço que controlaram as respostas fornecidas pelo homem, cujas consequências têm a ver com a sobrevivência da espécie. 036 É por esse motivo que a educação, nesta abordagem, está ligada à transmissão cultural, porque se acredita que é impossível que o homem descubra por si mesmo elementos importantes de sua cultura. A educação, pois, deverá transmitir conhecimentos, assim comportamentos éticos, práticas sociais, habilidades consideradas básicas para a manipulação e controle do mundo/ambiente (cultural, social etc.). (MIZUKAMI, 2014, p. 27). Observe como a educação assume um caráter bastante controlador, pois, nesta teoria, saber signi�ca apreender exatamente o que se quer ensinar. Nada a mais. O sistema educacional, portanto, tem como objetivo promover mudanças individuais desejáveis, adquirindo-se comportamentos e modi�cando os já existentes por meio do reforço (recompensa e punição). O objetivo máximo é que cada indivíduo seja também controlador das contingências de reforço. Quanto maior o controle sobre si, mais responsabilidade, mais liberdade. Por isso, as contingências de reforço devem ser usadas de forma organizada e sistematizada pelo sistema educacional para o treinamento social e�ciente. 037 Para pôr em prática tais conceitos educacionais, a escola, explica Mizukami (2014), é o ambiente que deve adotar formas de controle de acordo com o os comportamentos que se deseja instalar e manter, isto é, aqueles que úteis e desejáveis para a sociedade; por isso é que os comportamentalistas criticam uma escola voltada para o saber clássico, conteudista, mas defende uma escola voltada para as demandas de controle social. O desenvolvimento da individualidade é, portanto, pautado por valores sociais, não subjetivos. Como aconteceriam os processos de ensinar e aprender nesta abordagem? Mizukami (2014) salienta que ensinar é planejar contingências de reforço sobre os quais os estudantes aprendem, e o professor é quem deve assegurar esta aprendizagem. Os comportamentos desejados dos alunos serão instalados e mantidos por condicionantes e reforçadores arbitrários, tais como: elogios, graus, notas, prêmios, reconhecimentos do mestre e dos colegas, prestígio etc., os quais, por sua vez, estão associados a uma outra classe de reforçadores mais remotos e generalizados, tais como: o diploma, as vantagens da futura pro�ssão, a aprovação �nal no curso, a possibilidade de ascensão social, monetária, status, prestígio da pro�ssão etc. (MIZUKAMI, 2014, p. 30). A organização das contingências, realizadas pelo professor, vai depender dos comportamentos observáveis: um evento anterior, uma resposta, um reforço e fatores contextuais. O foco da proposta de aprendizagem da abordagem comportamentalista se encontra na organização das experiências curriculares. Essa organização dirigirá os alunos pelos caminhos adequados para que eles cheguem ao comportamento �nal. A aprendizagem, assim, é garantida pela organização. Para os comportamentalistas, como acontece a relação entre professor e aluno? O controle do processo está nas mãos do professor. É ele quem planeja e desenvolve o sistema de ensino-aprendizagem, a �m de maximizar o desempenho do aluno. Ele é um planejador e um analista e deve organizar as contingências de reforço de modo a possibilitar a ocorrência de uma resposta aprendida. Ao aluno, cabe apresentar as respostas esperadas. O ensino é individualizado, pois parte de um diagnóstico para detecção do melhor planejamento para o alcance da resposta esperada. 038 Segundo Mizukami (2014), Skinner propôs uma metodologia de ensino baseada na elaboração de uma tecnologia adequada para isso, com vistas a uma maior e�ciência na aprendizagem. Por isso, as estratégias pensadas são individualizadas. A individualização do ensino surge, na abordagem comportamentalista, como decorrente de uma coerência teórico-metodológica. Tal individualização implica: especi�cação de objetivos; envolvimento do aluno; controle de contingências; feedback constante que forneça elementos que especi�quem o domínio de uma determinada habilidade; apresentação do material em pequenos passos; e respeito ao ritmo individual de cada aluno. (MIZUKAMI, 2014, p. 33). O comportamentalismo se preocupa com que o maior número possível de alunos atinja níveis altos de e�ciência. Para isso, uma das estratégias principais utilizadas é o módulo instrucional como material de ensino (Mizukami, 2014). Para os comportamentalistas, é fundamental que o aluno tenha conhecimento preciso do que dele se espera e dos resultados que ele atingiu no processo. O ensino com base na competência é caracterizado por: especi�cação dos objetivos em termos comportamentais; especi�cação dos meios para determinar se o desempenho está de acordo com os níveis indicados de critérios; fornecimento de uma ou mais formas de ensino pertinentes aos objetivos; conhecimento público dos objetivos, critérios, formas de atingi-las e atividades alternativas. A experiência de aprendizagem, pois, é considerada em termos de competência. (MIZUKAMI, 2014, p. 33). Neste formato, o módulo de ensino pode ser utilizado para a aquisição de um ou vários objetivos de ensino. Os comportamentalistas, como se vê, não se preocupam em estudar por que o aluno aprende, mas em fornecer uma tecnologia que produza mudanças no comportamento e fazer o aluno estudar. Como visto, a programação é o fundamento do ensino comportamentalista. A matéria deve ser dividida em pequenos passos, de modo que o professor consiga reforçar todas as respostas e comportamentos operantes emitidos pelo aluno. 039 Podemos concluir que uma educação baseada no comportamentalismo objetiva a autonomia do aluno, ao dominar os objetivos de ensino, mas em nome de algo que é exterior a ele, planejado por seu professor, garantindo objetivos importantes para o social. Vimos uma educação pautada na programação, em que o aluno é ativo, mas não para objetivos subjetivos. E uma educação diretivista. Não cooperação entre os alunos. A educação é pensada para cada indivíduo. A metodologia e os princípios utilizados nessa abordagem derivam da análise experimental do comportamento. A aplicação desse tipo de análise ao ensino, produziu, até o momento, grande quantidade de pesquisa básica e aplicada, o que, a partir dos anos 1950, aproximadamente, permitiu a elaboração de uma tecnologia de ensino, que, por sua vez, tem fornecido dados para a própria análise comportamental. (MIZUKAMI, 2014, p. 36). 05 Foco no ensino - O cognitivismo 040 Esta aula traz para você os fundamentos do cognitivismo e suas propostas para a educação. O cognitivismo, de acordo com Malheiros (2012), passou a ser estruturado pela psicologia também no século XIX e tem em Wundt seu primeiro expoente. Os trabalhos desse autor investigavam as atividades que estruturam a mente e a consciência. Esta abordagem entende que há algo dentro da mente do sujeito que é responsável pela relação entre as pessoas, e das pessoas para com o meio. Ao contrário da abordagem da aula anterior, o cognitivismo busca conhecer o mundo interno do sujeito, já que compreende que a aprendizagem é um processo interior. Portanto, compreende o processo de aprendizagem como algo individual e orgânico, que pode ser estimulado por fatores externos, mas que não pode ser controlado. O maior objetivo dos pesquisadores cognitivistas é compreender a estrutura da mente humana. No campo da educação, este entendimento serviria de base para a estruturação de métodos de ensino mais ecientes, ̀ ante a esta nova compreensão da aprendizagem. (MALHEIROS, 2012, p. 17). Segundo Malheiros (2012), foi o biólogo Jean Piaget (1896-1980), considerado por muitos o nome mais importante da educação do século XX, quem deu a maior contribuição a essa teoria. Ele dedicou sua vida a compreender as estruturas mentais envolvidas na construção do conhecimento. Ele não desenvolveu, entretanto, um método de ensino. Ele aponta para a compreensão do fenômeno cognitivo, mas não indica métodos a serem seguidos. A epistemologia genética, a partir dos trabalhos de Piaget, tornou-se um campo de investigação que passou a ocupar espaço privilegiado nas teorias de educação. Neste campo, percebeu-se que não se pode fazer uma pessoa aprender um conteúdo para o qual ela não está preparada. Tal compreensão serve de subsídio à estruturação de currículos educacionais até os dias de hoje, dando prevalência à aprendizagem cumulativa, que organiza os conteúdos partindo dos mais simples para os mais complexos. Além disso, notou-se que o interesse pelo conteúdo a ser estudado inuenciaria ̀ na construção do conhecimento. (MALHEIROS, 2012, p. 17). 041 Perceba, caro(a) aluno(a), que a ideia de aprendizagem cumulativa, do mais simples ao mais complexo, interfere completamente na organização dos currículos, legitimando a proposta de ensino seriado, de modo que Piaget ganhou importância ímpar na área educacional. A expressão epistemologia genética não tem a ver com “gene”, “gen”, mas com a “gênese” do conhecimento, ou seja, o conjunto de saberes teóricos acerca de como o conhecimento nasce, como ele é internamente construído. Piaget destacou-se por propor que há uma relação intrínseca entre afetividade e cognição, e que uma não acontece sem a outra; mas sua maior contribuição foi ter comprovado que a aprendizagem é construída pelo aluno, e jamais transferida de fora para dentro por outra pessoa: um professor ou alguém mais experiente que o sujeito. Esta constatação se opõe completamente ao comportamentalismo e inaugura a corrente construtivista de ensino. Nela o professor não é um controlador do processo, mas um estimulador da construção do saber, a partir da criação de situações que motivem o aluno a buscar respostas. Piaget descobriu, por meio de suas investigações, segundo Malheiros (2012), que a construção do conhecimento se dá por meio de dois processos: a assimilação e a acomodação, que acontecem simultaneamente e de forma inter-relacionada em nossa cognição. Assimilação: o aprendiz identi�ca novos conceitos e busca, por meio de seus conhecimentos anteriores, enquadrá-los em uma lógica, dar sentido a eles. Acomodação: o novo conhecimento é acomodado quando se adéqua às estruturas atuais, modi�cando-as, criando ainda novos esquemas. Equilibração: o novo conhecimento busca sua acomodação na cognição do sujeito, fortalecendo as estruturas cognitivas. 042 Para que você compreenda melhor todos esses processos que acontecem quando aprendemos um novo conhecimento, preste atenção ao exemplo dado por Malheiros (2012). Tente pensar em uma criança que está aprendendo a nomear os animais. Ela conhece, até este momento, o cachorro. Quando se depara com um cavalo ela exclama: “Nossa! Que cachorro enorme!”. Isto porque ela possui estruturas cognitivas que fazem com interprete o cavalo como um cachorro grande, já que ele também anda sobre quatro patas, é marrom, tem rabo, focinho, etc. Este é um exemplo do processo de assimilação; a criança acessou conhecimentos prévios para tentar dar sentido ao novo conhecimento identi�cado. 043 Imagine agora que um adulto intervenha nessa situação e diga: “Aquilo não é um cachorro, é um cavalo: é de outra espécie.” Então, a criança percebe que existem algumas características que diferenciam os animais, criando uma nova estrutura cognitiva, já que nenhuma estrutura consolidada identi�cou o cavalo. Assim acontece o processo de acomodação, no confronto do conhecido com o novo. Nesse exemplo, os dois processos, assimilação e acomodação visam ao processo de equilibração das estruturas cognitivas, que é a aprendizagem do conhecimento novo. Observe o esquema que exempli�ca esses processos. 044 Fonte: (MALHEIROS, 2012, p. 19). Piaget, ao explanar os processos de assimilação e acomodação do conhecimento, prioriza as estruturas cognitivas em detrimento da aquisição de novos conteúdos, explica Malheiros (2012). Desloca-se a ênfase dada à inteligência como demonstração de retenção de conteúdos para a capacidade de alterar estruturas mentais. Inteligência é, portanto, não o domínio de um conteúdo, como sustentava as formas tradicionais de ensino. Observe, então, como isso revoluciona as formas de se pensar o ensino. Ensinar não é transmitir conhecimentos, mas promover situações desequilibradoras da cognição para que novas estruturas sejam formadas. Por isso, o ensino centrado na fala do professor se desloca para a ênfase no aluno, porque é nele que o conhecimento é construído, daí o nome construtivismo. 045 Assim como você encontrará atitudes comportamentalistas nas instituições de ensino que você conhecerá em seus estágios, você também encontrará muitas escolas dizendo-se construtivistas, e algumas ações pedagógicas nesse sentido também (muito mais falas e escritos teóricos do que ações, é verdade, porque a utilização da metodologia construtivista implica na mudança total da estrutura da escola que temos hoje, no geral). Outra enorme contribuição de Piaget para a educação diz respeito às fases de desenvolvimento da criança, organizadas por ele, e que ajudariam as escolas a organizarem seus currículos de modo a considerar conteúdos para os quais as crianças estejam cognitivamente preparas para aprenderem. Veja: Fonte: MALHEIROS, 2012, p. 20. Período Idade 1 Sensório-motor 0-2 anos 2 Pré-operacional 2-7 anos 3 Operacional concreto 7-11 anos 4 Operacional formal 11-15 anos 046 Vamos compreender um pouco dos estágios de desenvolvimento propostos por Piaget, de acordo com Malheiros (2012, p. 20). No período sensório-motor, que abrange os meses iniciais da vida da criança, acontece a aprendizagem sensorial. Esta fase é responsável pela base de conhecimentos e habilidades que serão demandadas para futuras assimilações. Desta forma, a criança constrói o conhecimento no uso dos reexos, ̀ coordenações e combinações mentais. No período pré-operacional, a criança já́ consegue se perceber separada do mundo ligando-se ao concreto. Torna-se, portanto, capaz de compreender uma situação completa, mas ainda não consegue perceber por um ponto de vista que não seja o seu próprio. Esta fase é caracterizada pela sensação de integralidade vivida pela criança, ou seja, acontecimentos deixam de ser fatos isolados. O período operacional concreto é marcado pelo pensamento reversível e pelo entendimento de que as ações da criança repercutem no meio no qual estão inseridas. Todavia, conforme o nome atribuído ao período, a criança ainda não é capaz de desenvolver situações em sua mente. E o último período apresentado por Piaget é o período operacional formal. Esta fase é caracterizada pela capacidade de o pensamento reter o conhecimento e, em seguida, desenvolver situações exclusivamente no âmbito mental. É importante frisar que essa classi�cação ligando a idade da criança ao potencial de aprendizagem não é algo estanque nem rígido, são parâmetros variáveis. De posse desses conhecimentos, o professor pode pensar no método de ensino adequado para a faixa etária de seus alunos e seu estágio de desenvolvimento. Ao perceber, por exemplo, que aos oito anos de idade, a criança não é capaz de abstrair uma situação, o método deveria valorizar o concreto. Um exemplo seria o ensino das operações básicas na matemática. Os números são uma abstração que representa uma quantidade concreta. Se a criança não é capaz de abstrair, o entendimento de uma operação será extremamente complicado, o que pode ser contornado pela utilização de elementos reais em sala de aula. Em vez de questionar qual o resultado da operação 2+2, seria adequado questionar: se tenho duas laranjas e comprei mais duas, 047 com quantas laranjas quei? ̀ Melhor ainda se for possível utilizar as laranjas para o ensino. (MALHEIROS, 2012, p. 20 - 21). A abordagem construtivista pede métodos de ensino que proporcionem desequilíbrio cognitivo: situações-problema reais a serem desenvolvidos, alunos em grupos heterogêneos com relação ao desenvolvimento cognitivo, atividades práticas que partam do que as crianças já sabem. O construtivismo recebeu críticas de alguns estudiosos da educação no sentido de que Piaget focou demasiadamente seus estudos nos processos internos da aprendizagem, sem debruçar-se tanto sobre a importância das interações sociais na construção do conhecimento. Veremos, na próxima aula, uma teoria pedagógica denominada socioconstrutivismo que impõe maior peso às relações nos processos cognitivos. Fonte: Disponível aqui Assista ao vídeo do professor Yves de La Taille, professor da USP, um dos expoentes dos estudos piagetianos no Brasil, sobre a teoria construtivista do Piaget para a série “Grandes Educadores”. 048 https://www.youtube.com/watch?v=2OzhE4pX_ng 06 Foco no ensino - O socioconstrutivismo (ou sociointeracionismo) 049 A corrente socioconstrutivista ou sociointeracionista é, juntamente com a construtivista, a mais importante e inovadora teoria educacional surgida no século XX. O expoente desta teoria é o russo Lev Vygotsky (1896-1934). Apesar de ter vivido apenas 38 anos, seu legado teórico in�uenciou e in�uencia muitos países na construção de seus sistemas educacionais. Do mesmo modo que Piaget, Vygotsky não desenvolveu nenhum método de ensino. Seu pensamento é fundamentado, segundo Malheiros (2012) na ideia de que a aprendizagem está intimamente ligada às interações sociais realizadas pelo indivíduo, que interferem mais do que questões biológicas na hora de aprender. Você já deve ter ouvido falar nas irmãs indianas Amala e Kamala, conhecidas como meninas-lobo. Tais meninas se comportavam como os animais que viviam e ilustram a forma de Vygotsky compreender a importância das interações sociais para a aprendizagem. Fonte: MALHEIROS, 2012, p. 21. Amala e Kamala �caram conhecidas como as meninas-lobo. Eram duas meminas que viviam em estado selvagem e foram encontradas na Índia em 1920. Quando foram encontradas, Amala tinha um ano e meio de idade e Kamala tinha oito anos. Ambas cresceram junto a uma matilha de lobos e por isso comportaam-se como estes animais. Andavam em quatro apoios, não falavam, não sorriam, uivavam para a lua, etc. Depois de resgatadas, foram levadas para um orfanato, no qual se iniciaria o processo de socialização. Amala morreu alguns meses depois, pela difícil adaptação. Kamala ainda viveu mais sete anos: levou seis anos para aprender a andar e, ao morrer, com quinze anos de idade, tinha um vocabulário de menos de cinquenta palavras. 050 Fonte: MALHEIROS, 2012, p. 22. Para Vygotsky, a formação da pessoa acontece apenas na relação com o outro. Ele rechaçava as teorias que apregoavam que o homem nasce com o conhecimento potencial (inatismo) e as empiristas-comportamentalistas, que acreditam que os estímulos adequados podem in�uenciar o desenvolvimento do sujeito, como vimos em aulas anteriores. De acordo com Malheiros (2014), Vygotsky dividiu o processo de aprendizagem em dois: os elementares e os complexos. Os processos elementares correspondem às atitudes inerentes à raça humana e, sobre os quais, não se tem controle por estímulo (respirar, por exemplo). Os complexos são fruto do processo de aprendizagem aliada ao desenvolvimento. Ler, fazer contas, dirigir, dentre outras atividades, são processos complexos. (MALHEIROS, 2012, p. 22). Além dos elementos mediadores entre o sujeito e o mundo, Vygotsky também propõe, segundo Malheiros (2012), que o próprio sujeito é um mediador entre o estímulo recebido e a resposta que é dada. Na perspectiva comportamentalista, como vimos, o estímulo gera uma resposta. Já para o socioconstrutivismo, esta relação não é mais linear, ou seja, é triangular. Para Vygotsky, entre o estímulo e a resposta está o sujeito. Observe a imagem: 051 Zona de atividade proximal. Para Vygotsky, a relação de uma pessoa com o mundo sempre acontece por meio de uma ferramenta ou de um símbolo. A linguagem, por exemplo, é uma estrutura simbólica de mediação. (MALHEIROS, 2012, p. 22). Vygotsky, então, preconiza que o homem se relaciona com o mundo não diretamente, mas de forma intermediária, por meio de signos e instrumentos. O papel da escola, então, de acordo com Malheiros (2012), seria estimular interações entre as pessoas e destas com um ambiente que proporcione o desenvolvimento intelectual. A escola deve ser a instituição capacitada para que esse desenvolvimento ocorra. Observe, por meio deste esquema, como acontecem os processos cognitivos da aprendizagem acontecem. Este esquema demonstra a suprema importância da mediação educacional para a aprendizagem, em Vygotsky. O papel da cultura e dos símbolos é central na teoria socioconstrutivista. Na escola, as crianças com habilidades ainda parciais vão desenvolvê-las com a ajuda de um parceiro mais habilitado (professores), até que tais habilidades passem de parciais para totais. 052 Vygotsky valoriza a linguagem como instrumento de comunicação e aprendizagem, já que é por meio dela que há interação. A linguagem é, antes de tudo, social. Portanto, sua função inicial é a comunicação, expressão e compreensão. Essa função comunicativa está estreitamente combinada com o pensamento. A comunicação é uma espécie de função básica porque permite a interação social e, ao mesmo tempo, organiza o pensamento. Para Vygotsky, a aquisição da linguagem passa por três fases: a linguagem social, que seria esta que tem por função denominar e comunicar, e seria a primeira linguagem que surge. Depois teríamos a linguagem egocêntrica e a linguagem interior, intimamente ligada ao pensamento. (RABELLO; PASSOS, 2013, p. 8). Vygotsky e Piaget foram contemporâneos, mas não estabeleceram diálogo entre suas teorias. Há, no espaço acadêmico, muitas tentativas de con�uência e contraponto entre os dois. Ambos, entretanto, estavam preocupados com a aprendizagem, sendo que Piaget preocupou-se mais com elementos internos e Vygotsky preocupou-se mais com as formas de mediação intencionais que devem acontecer para que o aluno passe daquilo que ela ainda não sabe para o que ele pode vir a fazer. Para J. Piaget, dentro da re�exão construtivista sobre desenvolvimento e aprendizagem, tais conceitos se inter-relacionam, sendo a aprendizagem a alavanca do desenvolvimento. A perspectiva piagetiana é considerada maturacionista, no sentido de que ela preza o desenvolvimento das funções biológicas – que é o desenvolvimento - como base para os avanços na aprendizagem. Já na chamada perspectiva sociointeracionista, sociocultural ou socio-histórica, abordada por L. Vygotsky, a relação entre o desenvolvimento e a aprendizagem está atrelada ao fato de o ser humano viver em meio social, sendo este a alavanca para estes dois processos. Isso quer dizer que os processos caminham juntos, ainda que não em paralelo. (RABELLO; PASSOS, 2013, p. 4). A ideia de que toda criança pode aprender, desde que a atuação na Zona de Desenvolvimento Proximal aconteça de forma intencional pelo professor, traz para a educação um caráter democrático, igualitário, não segregador. 053 Fonte: Disponível aqui Assista ao vídeo da professora Marta Kohl de Oliveira, professora da USP, um dos expoentes dos estudos vygotskyanos no Brasil, sobre a teoria interacionista do Vygotsky para a série “Grandes Educadores”. Você pode estar pensando como as concepções do modo de aprender e as correntes pedagógicas estudadas até aqui in�uenciaram no pensamento e na prática pedagógicos brasileiros. Na próxima aula, conversaremos sobre isso. 054 https://www.youtube.com/watch?v=T1sDZNSTuyE 07 O Ensino e a Aprendizagem no Brasil: tendências pedagógicas liberais 055 O que são Tendências Pedagógicas? É sempre bom enfatizar: a prática escolar sofre inuências ̀ sociais e políticas que reetem ̀ nas diversas concepções de homem e de sociedade, gerando diferentes ideias sobre o papel da escola e do aluno, da aprendizagem, das relações e dos métodos. Você já deve ter ouvido alguém dizer: “Este professor é muito tradicional, não permite que ninguém fale na aula dele”. Grande parte dos professores em sua prática adotam técnicas pedagógicas das próprias vivências como aluno ou se espelham em colegas de pro�ssão, com mais experiência. Sabe o que isso signi�ca? Que nas práticas cotidianas na sala de aula, eles seguem pressupostos teóricos/metodológicos implícitos. Há também os que entendem sua prática de modo mais amplo, e ainda outros que aderem às tendências da “moda”, pouco se importando se possuem ou não relação com as suas crenças (LIBÂNEO, 1998). Agora, estudaremos essas abordagens pedagógicas que aconteceram ou acontecem na atualidade nas escolas brasileiras, pela prática dos professores. Vale ressaltar que alguns autores usam o termo abordagens pedagógicas, ao passo que outros preferem chamar de tendências pedagógicas. É importante saber que ambos estão corretos e usaremos os dois nesta unidade. Fonte: Disponível aqui Você pode ampliar os seus conhecimentos sobre as tendências pedagógicas, assistindo ao vídeo “Tendências Pedagógicas”. De maneira resumida e complementar, os esquemas apresentados podem ajudá-lo na compreensão dos conceitos. 056 https://www.youtube.com/watch?v=HLZtZILFAps&feature=youtu.be Essa temática pode parecer complexa, mas para que você compreenda melhor vamos nos referir: 1. à posição que as tendências pedagógicas adotam em relação às circunstâncias sociopolíticas da escola; 2. a como a Didática é entendida em cada tendência. Muitas pesquisas são realizadas para identi�car as formas de perceber como o ensino e a aprendizagem acontecem. Malheiros (2012, p. 23) esclarece que: “Nas duas últimas décadas, várias teorias foram formuladas para esclarecer a história dos métodos de ensino no Brasil. A classi�cação de Libâneo (1998) ainda parece ser a mais adotada.” Observe. Fonte: MALHEIROS, 2012, p.23 Classi�cação da corrente Modelo pedagógico Não crítica (liberal) Ensino tradicional Pedagogia renovada Ensino tecnicista Dialética (progressista) Pedagogia histórico-crítica Pedagogia libertadora De acordo com Malheiros (2012, p. 23, grifo nosso): As correntes não críticas são de�nidas como aquelas que utilizam o processo educativo visando à perpetuação do modelo social vigente. Nesta compreensão, a diferenciação entre os modelos pedagógicos é dada pelo método escolhido, não pelo �m do ato educativo. Já́ as correntes dialéticas são caracterizadas pelo foco em levar o educando a construir um conhecimento que o torne passível de mudar a realidade na qual está inserido. Vamos explorar a princípio a Tendência Pedagógica Liberal. 057 As Tendências Pedagógicas Liberais O foco das Tendências Pedagógicas Liberais ou Pedagogia Liberal é que a escola deve preparar os indivíduos para desempenhar papéis sociais, seguindo as aptidões individuais; o importante é que os sujeitos se adaptem aos valores e às normas da sociedade de classes; assim, camua ̀ as diferenças de classes e desconsidera a desigualdade de condições existentes. Libâneo (1998, p. 6) enfatiza que “historicamente, a educação liberal iniciou-se com a pedagogia tradicional e, por razões de recomposição da hegemonia da burguesia, evoluiu para a pedagogia renovada”, mas não houve substituição de uma pela outra e ambas são ainda vistas na prática escolar. Temos quatro tendências da Pedagogia Liberal. Tendência Pedagógica Liberal Tradicional A primeira delas é a tendência tradicional, segundo a qual depende do esforço do próprio aluno o alcance de sua plena realização como pessoa. Assim, aqueles com menos potencial para as atividades escolares precisam se dedicar para superar suas di�culdades e alcançar os “mais capazes”. A escola disciplina os alunos “[...] de acordo com os padrões éticos e religiosos, incentivando a virtude” (CANDAU, 2010, p. 140). Como a Didática é concebida nessa abordagem? Segundo Libâneo (2013), ela re�ete o conjunto de regras e princípios que regem o ensino e é centrada no professor, que explica a matéria – na maioria das vezes usando a exposição oral como único recurso. Assim, o aluno é passivo, ao fazer exercícios repetitivos e ouvir a explicação do professor consegue “gravar” o que lhe é ensinado para depois reproduzir nas provas. O papel do aluno é memorizar o conteúdo ensinado, desvinculado de sua realidade; assim, a aprendizagem é receptiva e não estimula a sua capacidade mental. Libâneo (2013, p. 66) completa essa ideia ao a�rmar que: A Didática tradicional tem resistido ao tempo, continua prevalecendo na prática escolar. É comum nas nossas escolas atribuir-se ao ensino a tarefa de mera transmissão de conhecimentos, sobrecarregar o aluno de conhecimentos que são decorados sem questionamento, dar somente exercícios repetitivos, impor externamente a disciplina e usar castigos 058 Tendência Pedagógica Liberal Renovada Outra tendência da Pedagogia Liberal é a tendência renovada, que também valoriza o sentido da cultura para desenvolver as aptidões individuais, porém vê a educação como um processo interno que parte dos interesses individuais para a adaptação ao meio. A escola renovada valoriza o aluno como sujeito do conhecimento. É importante saber que essa tendência inclui outras correntes: a tendência renovada progressivista (ou pragmática) e a tendência renovada não diretiva. A tendência renovada progressivista, difundida pelo movimento escolanovista, desenvolveu-se nos Estados Unidos e teve como principal representante John Dewey. No Brasil, as ideias desse educador foram marcantes na liderança de Anísio Teixeira e outros educadores com o Movimento dos Pioneiros da Escola Nova, com atuação importante na formulação da política educacional. A Didática da Escola Nova valoriza o aluno como sujeito da aprendizagem, identi�cando como papel do professor o de oferecer situações que partam da necessidade e do interesse do aluno, para que assim ele possa por si mesmo buscar conhecimentos. Você já percebeu que o centro das práticas educativas não é o professor nem o conteúdo, e sim o aluno, concebido como um ser ativo. De acordo com Haydt (2011, p. 25), a Escola Nova pretendia ser um movimento de renovação pedagógico/didática que tentou aplicar na prática educativa e também “[...] na organização escolar e nos procedimentos de ensino, as conclusões dos estudos das ciências do comportamento. Mas ela não era apenas isso, pois trazia em seu interior uma visão de homem e de mundo, isto é, uma concepção �losó�ca”. Como o professor alia as situações de aprendizagem às necessidades individuais dos alunos, a Didática, nessa tendência, valoriza os métodos e técnicas que possibilitem atividades em grupo, pesquisa e experiências. Desse modo, Libâneo (2013, p. 67) reforça que “os adeptos da escola nova costumam dizer que o professor não ensina; antes, ajuda o aluno a aprender”. 059 Fonte: Disponível aqui Assista ao documentário sobre um dos defensores da Escola Nova, Anísio Teixeira, que pode ampliar sua visão sobre a tendência renovada progressivista. A tendência renovada não diretiva é “orientada para os objetivos de autorrealização (desenvolvimento pessoal) e para as relações interpessoais, na formulação do psicólogo norte-americano Carl Rogers” (LIBÂNEO, 1998, p. 22). Desse modo, valoriza as relações e a comunicação, em detrimento da transmissão de conteúdos. Nessa tendência, o aluno é o centro, que formará a sua personalidade e aperfeiçoará as características que fazem parte da sua natureza, ao passo que o professor colabora para as relações humanas e busca não interferir, como forma de aceitar o aluno na sua plenitude. Vamos agora conhecer a última tendência liberal? A tendência tecnicista visa à preparação de mão de obra para a indústria. No Brasil, na década de 1950, ganhando mais autonomia nos anos de 1960, foi imposta pelos órgãos o�ciais pelos interesses econômicos, políticos e ideológicos do regime militar (LIBÂNEO, 2013). Para melhor compreendê-la, partimos da ideia de que a indústria estabelece (cienti�camente) metas econômicas, sociais e políticas; por isso, cabe à educação treinar (cienti�camente também) nos alunos os comportamentos para atender a essas metas. Assim, acredita-se que a realidade oferece as próprias leis, e cabe aos indivíduos descobri-las e aplicá-las. Neste contexto, a realidade não faz mais diferença, o que mais importa é a forma (as técnicas) para a descoberta e aplicação. Portanto, a educação deve favorecer a promoção do desenvolvimento econômico, e isso pode acontecer tanto pela quali�cação da mão de obra e pelas questões de renda quanto pelo aumento de produção. O importante é “planejar a educação e o ensino de maneira a evitar as 060 https://www.youtube.com/watch?v=ls-FoXhfM_Y Tendência Renovada TRADICIONAL PROGRESSIVISTA NÃO DIRETIVA TECNICISTA Aluno educado para atingir plena realização pelo esforço próprio Os conteúdos, práticas educativas e relação professor/aluno não se aproximam da realidade dos alunos Valorização da palavra do professor e das regras impostas Há o cultivo do aspecto intelectual, pautado na repetição e memorização Difundida pelos pioneiros da Escola Nova Usa situações da necessidade e do interesse do aluno para que assim ele possa por si mesmo buscar conhecimentos Prepara o aluno para exercer o seu papel na sociedade Segue a ideia de “aprender fazendo”, e o aluno passa a ser o centro do processo ensino e aprendizagem Valoriza o desenvolvimento pessoal e as relações interpessoais A escola deve formar atitudes; a preocupação é com as questões psicológicas Menor importância com os aspectos pedagógicos e sociais O professor deve ajudar o aluno a se organizar, sensibilizando-o para que os sentimentos possam a�orar Importância voltada à preparação de mão de obra para a indústria As técnicas de descoberta e aplicação são mais importantes que o conteúdo da realidade A educação deve contribuir para o desenvolvimento econômico Os conteúdos são sistematizados nos manuais, livros didáticos e outros dispositivos interferências subjetivas que possam pôr em risco sua e�ciência. Deve-se operacionalizar os objetivos e, em certos aspectos, mecanizar o processo” (PILETTI, 2010, p. 28). No tecnicismo o papel da Didática está relacionado à tecnologia educacional, com a preocupação na e�cácia e na e�ciência do processo de ensino; ou seja, o foco é a racionalização do ensino, por isso a separação entre teoria e prática �ca mais evidente. O professor é concebido como um executor do planejamento. Para que você compreenda melhor as principais características de cada tendência da Pedagogia liberal, apontadas por Libâneo (1998), veri�que o quadro a seguir: Tendências da Pedagogia Liberal. Fonte: Libâneo (1998). 061 Em nossa próxima aula, discutiremos as Tendências Progressistas Libertadora e Crítico-Social. Fonte: MALHEIROS,2012, p. 34. Tendência Papel da escola Conteúdos Métodos Relacionamento com o professor Pressupostos Manifestações na prática Liberal Tradicional Preparação intelectual e moral do aluno Conhecimentos e valores sociais acumulados Exposição verbal e repetição de exercícios Predomina a autoridade do professor Aprendizagem como ato repetitivo e mecânico Ainda muito viva em nossas escolas Liberal Renovada Suprir o aluno de experiências que o permitam educar-se É mais relevante dominar o processo de aquisição do saber do que o saber em si Experimentação, aprender fazendo Professor como facilitador Aprendizagem como descoberta Aplicação reduzida na prática e estimulada na teoria Liberal Tecnicista Produzir mão de obra para o mercado Informações, princípios cientí�cos e formas de executar atividades Reforço das respostas corretas, punição das erradas Professor como administrador do processo educacional Ensino como condicionamento do comportamento Sólida presença no �nal dos anos 1960 Observe,ainda, para melhor compreensão, o quadro adaptado de Malheiros (2012, p. 34). 062 08 O Ensino e a Aprendizagem no Brasil: as tendências pedagógicas progressistas 063 Apoiados em Libâneo (2013), podemos dizer que a Pedagogia Progressista, voltada para atender aos interesses da população, no Brasil teve maior solidez em meados dos anos de 1980 e foi considerada como teoria crítica da educação. Para �ns de contextualização, a partir da segunda metade da década de 1970 as modi�cações na política e as lutas sociais em busca de democratização possibilitaram a discussão de aspectos relacionados à educação em outra perspectiva, considerando a crítica ao papel ideológico e excludente da escola na sociedade capitalista. Assim, houve interesse dos estudiosos e militantes políticos em tornar a escola parceira dos interesses populares, nascendo a Pedagogia Progressista, que se manifesta em diversas tendências. Entre elas estão: libertadora, e crítico-social dos conteúdos. Vamos explorar cada tendência da Pedagogia Progressista? A primeira é a tendência libertadora, mais conhecida como pedagogia de Paulo Freire, e sua marca é a educação não formal. Tendência Pedagógica Progressista Libertadora Paulo Freire (1921-1997), atualmente, é reconhecido como o maior nome da educação brasileira pela consistência teórica de seu trabalho e o alcance mundial que obteve. Freire era advogado, mas foi no magistério que deixou seu nome marcado na história do Brasil e do mundo. De acordo com Malheiros (2012, p. 31): A pedagogia libertadora parece, inicialmente, ser uma nova corrente da pedagogia nova, que se opunha ao ensino tradicional e focava no aluno para a construção do conhecimento. Contudo, o pensamento dos libertadores vai se afastar das correntes liberais quando começar a propor a formação de homens capazes de reetir ̀ sobre sua própria realidade visando a mudanças estruturais na sociedade. 064 Paulo Freire cunhou o termo “Educação Bancária” como uma crítica ao modelo tradicional de ensino, no qual o professor “deposita” o conhecimento em um aluno passivo que se atém, exclusivamente, a decorar o que lhe é ensinado e a reproduzir tal conteúdo na vida. (MALHEIROS, 2012, p. 31) Paulo Freire começou suas experiências em educação popular com a alfabetização de adultos. Freire percebeu que, ao alfabetizar adultos, os professores utilizavam o mesmo método utilizado com crianças e que isso tornava o ensino muito distante da realidade do aluno. Paulo Freire, então, decidiu partir de palavras, chamadas geradoras, que �zessem parte das experiências dessas pessoas. E obteve excelentes resultados. Freire, com a vinda do golpe militar, foi exilado em 1964, mas continuou trabalhando com educação popular nos países em que morou. As principais ideias da educação libertadora são: É preciso transformar algo para conhecê-lo em sua essência. O conhecimento só é construído por meio de uma participação ativa do aprendiz. A compreensão de um assunto é a síntese individual que um aluno faz deste assunto. (MALHEIROS, 2012, P. 32) Como Paulo Freire trabalhou com adultos, seu método de alfabetização envolvia discussão, estudo de caso, pesquisa participante, debate, trabalhos em grupo, dentre outros. No ano de 1970, no exílio, Freire publica sua principal obra: Pedagogia do Oprimido. Segundo Malheiros (2012, p. 32): “Sua proposta, neste livro, é a de que a educação se aproprie de métodos e crenças que façam com que aqueles que se encontram em uma situação de opressão tenham condições de reverter o quadro, não se tornando opressores, mas libertos.” 065 A Pedagogia Libertadora não formulou nenhum método, mas é possível sintetiza-la da seguinte maneira: Investigar o conteúdo a ser trabalhado a partir das experiências reais dos alunos. Selecionar contradições sociais importantes para serem objeto dos instrumentos escolhidos. Sistematizar o conteúdo. Preparar materiais e equipamentos que serão utilizados nas ações educacionais. Propor o desvelamento da realidade social dos alunos. (MALHEIROS, 2012, p. 32). A tendência libertadora é contra o autoritarismo na educação e valoriza a experiência vivida, a ideia de autogestão pedagógica e a aprendizagem grupal, com vistas a aproximar a prática educativa da prática social do povo. Assim, as discussões são centradas nos temas sociais e políticos. “É uma didática que busca desenvolver o processo educativo como tarefa que se dá no interior dos grupos sociais e por isso, o professor é coordenador ou animador das atividades que se organizam sempre pela ação conjunta” (LIBÂNEO, 2013, p. 70). Para Malheiros (2012, p.33): A Pedagogia Libertadora se assenta sobre a relação de horizontalidade entre educador e educando. Nesta relação, ambos aprendem e ambos ensinam. Trata-se de uma valorização do processo democrático em sala de aula, que norteia as relações para além do espaço pedagógico. Também por isso, a avaliação mais adotada nesta perspectiva é a autoavaliação ou a avaliação realizada em grupos. Di�cilmente uma instituição pública de ensino adotaria a pedagogia freireana como perspectiva �losó�ca de trabalho, já que esta educação implica em transformação social e consciência crítica da situação de opressão da maioria da população de nosso país. 066 “A liberdade,que é uma conquista, e não uma doação, exige permanente busca. Buscapermanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém temliberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque nãoa tem. Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, as pessoas selibertam em comunhão.” (FREIRE, 1970). A Tendência Crítico-Social dos Conteúdos Já a Tendência Crítico-social dos Conteúdos, com intenção de superar as tendências tradicional e renovada, valoriza o contexto pedagógico como parte da prática social concreta. A escola serve para fazer a mediação entre o individual e o social, espalhando os conhecimentos sistematizados, e essa articulação gera o saber criticamente reelaborado. Assim, a Didática objetiva o direcionamento do processo de ensinar. A Pedagogia Crítico-Social de conteúdos possui como nome de referência o professor Dermeval Saviani. Surgiu no �nal da década de 1970 e no começo da década de 1980. Aparece nas discussões teóricas no Brasil após a consolidação das ideias da Pedagogia Libertadora, em todos os campos teóricos relacionados à educação. Segundo Malheiros (2012, p. 33), é parecida com a pedagogia libertadora “na medida em que busca superar a ingenuidade da ação pedagógica, que se manifesta na falta de percepção das relações educacionais com as relações políticas. Mas também se assemelha à pedagogia nova ao privilegiar os conteúdos.” Para Malheiros (2012, p. 34), tal concepção anuncia uma nova forma de pensamento educacional muito atual: 067 Os pensadores que defenderam este modelo pedagógico simplesmente não consideraram suciente ̀ que se dominasse a história da humanidade, muito menos julgaram satisfatório que o ambiente pedagógico se tornasse um palco de discussões políticas. Acreditavam que ambas as perspectivas tinham sua importância e sua razão de existir, mas não se excluíam. Ao contrário, se completavam. Buscando esta relação de complementaridade, a pedagogia crítico-social se interessa em relacionar os conhecimentos sistematizados à realidade do educando. [...] Na concepção crítico- social de conteúdos, a educação é o caminho para os avanços cientícos ̀ e tecnológicos e deve ser responsabilizada por levar a todos a instrução necessária para uma vida de qualidade. Deve, ainda, se preocupar em desenvolver no educando a capacidade de estudo e o raciocínio cienti�co. Este trajeto é que levará a pessoa a ser capaz de criticar o modelo social e buscar a transformação. Observe o quadro que representa as discussões realizadas nesta aula, adaptado de Malheiros (2012, p. 34). Há ainda algumas correntes contemporâneas que carecem ainda de mais pesquisas, por isso, �nalizamos nossos estudos sobre as Tendências Pedagógicas mais in�uentes no Brasil. Tendência Papel da escola Conteúdos Métodos Relacionamento com o professor Pressupostos Manifestações na prática Progressista Libertadora Formam o homem crítico de seu papel na sociedade Temas geradores extraídos da realidade do aluno Grupos de discussão, trocas de experiênca, debates, etc. Relação de horizontalidade entre professores e alunos Aprender é problematizar a realidade Aplicado na educação de adultos Progressista crítico- social Buscar a transformação social apoiando- se em conteúdos Cultura universal aliada à crítica Experiência do aluno é relacionada aos conteúdos universais Professor como mediador entre as experiências do aluno aos conteúdos Aprender é desenvolver habilidade para processar informações Está no discurso e em diversas propostas pedagógicas Fonte: MALHEIROS,2012, p. 34 068 09 As formas de ensinar: métodos de ensino 069 De acordo com Libâneo (2013), métodos de ensino são ações realizadas pelo professor e pelos alunos para atingir os objetivos de ensino. Para isso, planejamento e sistematização são fundamentais para que tais ações cumpram seu propósito: a aprendizagem. A atual realidade, segundo Libâneo (2013), necessita de cidadãos que atuem de forma crítica e criativa, daí a importância do direcionamento dos métodos de ensino objetivando a participação máxima dos alunos. Para que você se forme como um bom professor, é importante analisar quais são os métodos de ensino que interagem com a realidade e que devem ser reproduzidos de acordo com a necessidade da atualidade. Como salienta Libâneo (2013, p. 150), “os métodos são meios mais adequados para realizar objetivos”. A escolha do melhor método, assim, está condicionada aos seus objetivos. O método de ensino expressa a relação conteúdo-método, no sentido de que tem como base um conteúdo determinado (um fato, um processo, uma teoria etc.). O método vai em busca das relações internas de um objeto, de um fenômeno, de um problema, uma vez que esse objeto de estudo fornece as pistas, o caminho para conhecê- lo. (LIBÂNEO, 2013, p. 151). Não é possível adentrar a sala de aula sem que haja clara sistematização dos meios que vão leva-lo à máxima e�ciência, por isso a importância de conhecer os diferentes métodos de ensino. Para Libâneo, (2013, p. 152), os métodos: - promovem interação entre ensino e aprendizagem; - promovem assimilação consciente dos conhecimentos; - desenvolvem capacidades cognitivas e operacionais dos alunos. 070 A prática dos métodos corresponde a uma experiência de atividades tanto do professor quanto do aluno. Partem dos objetivos do professor e expressam-se em formas de organização do ensino. (LIBÂNEO, 2013). Os diferentes métodos de ensino A escolha da melhor forma de ensinar deve se apoiar nas necessidades e características de cada área do conhecimento que será desenvolvida e depende, também, da abordagem de educação em que o professor se pauta. Os métodos mais comuns encontrados nas escolas brasileiras são: Método de exposição pelo professor; Método de trabalho independente; Método de elaboração conjunta; Método de trabalho em grupo; Método de exposição pelo professor O professor apresenta aos alunos conhecimentos novos sobre determinados conteúdos. Tal método recebe críticas por não respeitar o conhecimento prévio do aluno. A exposição da matéria, contudo, é um procedimento necessário, cabendo ao docente oportunizar também meios de interação, buscando despertar o interesse e o envolvimento dos alunos. O método de exposição pelo professor engloba algumas ações, como: a exposição verbal, a demonstração, a ilustração e a exempli�cação. 071 Método de trabalho independente Compreende a realização de tarefas orientadas previamente pelo professor e deve priorizar o estudo independente. Libâneo (2013) salienta que este deve servir para a assimilação do conteúdo ou tarefa de elaboração pessoal. As tarefas têm como objetivos veri�car conhecimentos prévios e despertar o interesse e a curiosidade sobre o assunto a ser tratado. Esse tipo de trabalho contribui para que o professor observe como cada aluno demonstra o conhecimento e também para que ocorra sistematização durante seus estudos. Método de elaboração conjunta É a interação entre professor e alunos e alunos e alunos, visando, segundo Libâneo (2013, p. 167), “a alteração de novos conhecimentos, habilidades, atitudes e convicções, bem como a �xação e consolidação de conhecimentos e convicções já adquiridos”. Método de trabalho em grupo Os alunos são organizados em grupo para que desenvolvam as propostas da aula. Para que isso seja realizado positivamente, é necessária a organização dos grupos seja previamente planejada e que o objetivo da aula seja compatível com este método. Como escolher o melhor método? De acordo com Vasconcelos (2012, p.115), escolher os métodos mais adequados consiste em “um posicionamento diante da realidade que se pretende conhecer e atuar nela”. Para a autora, a prática pedagógica tem como desa�o, ao escolher métodos de ensino, articular os saberes de cada um dos atores, ser responsável pela apropriação e transformação da realidade, ocupar um caráter político. Ao escolher um método de ensino, o educador deve observar qual visão de homem e mundo possui. Se sua visão de educação for progressista, sua prática deve atender a uma visão crítica e ser instrumento de transformação social. Ao escolher métodos de 072 ensino que sejam dinâmicos e possibilitem atender às necessidades de seus alunos, o professor desenvolve meios para que a aprendizagem seja signi�cativa. Rangel (2006) defende que diversi�car os métodos é importante pois oferece oportunidades de ampliar conhecimento e explorar novas oportunidades. Assim, o raciocínio lógico, a disposição biopsicológica, a natureza do conhecimento, sua construção (sua epistemologia), o princípio didático do ensino para a aprendizagem, a perspectiva histórica e os fatos da atualidade – que dão signicado ̀ ao conteúdo que se ensina e aprende – são alguns fatores que inuem ̀ na opção do método. (RANGEL, 2006, p. 10). Um professor progressista e crítico deve escolher um método que seja signi�cativo para o aluno, para que ele também saiba o que se espera dos conteúdos a serem desenvolvidos, que a aprendizagem seja favorecida de maneira que as questões possam ser contextualizadas, que possam gerar re�exões e inspirem uma prática transformadora. Para esses �ns, Rangel (2006) destaca: atividades envolvendo questionamentos, diálogo, exercícios, trabalhos de produção de textos. Segundo o autor (2006, p. 18), “existem atividades que podem ser comuns, aplicáveis a diversos métodos e técnicas de ensino e aprendizagem: exercícios, conversação, arguição, aplicações do conhecimento em trabalhos individuais ou em grupo”. “A articulação ensino-pesquisa pode estar presente em todos os métodos, sejam grupais, sejam individualizados”. (RANGEL, 2006, p. 18) 073 Aprendendo com o outro Discutimos em nossas aulas anteriores as diversas visões de educação que podem nortear as práticas escolares. Tomando que premissa as possibilidades mais contemporâneas de ensino, abordaremos aqui os procedimentos de ensino e de aprendizagem socializantes. Haydt (2011) destaca: O uso de jogos Dramatização Trabalho em grupo Estudo de casos Estudo do meio Os jogos De acordo com Haydt (2011, p. 129), “o jogo é uma atividade física ou mental organizada por um sistema de regras. É uma atividade lúdica, pois se joga pelo simples prazer de realizar esse tipo de atividade. Jogar é uma atividade natural do ser humano”. Ao recorrer ao uso de jogos na aprendizagem, o professor cria meios de 074 motivação e propicia envolvimento e socialização dos alunos, fornecendo meios para que aprendam a conviver e internalizem valores que os acompanharão pela vida (HAYDT, 2011). O jogo, acrescenta Haydt (2011), é um excelente instrumento didático, pois favorece vivências de ludicidade, que são necessárias e inerentes ao ser humano, gera envolvimento emocional de maneira espontânea e prazerosa. Desde a antiguidade temos relatos de experiências envolvendo os jogos e o brincar. Também desde os primeiros meses de vida os bebês são estimulados a brincar, seja com chocalhos, seja com brinquedos sonoros e, por meio desses estímulos, vão se desenvolvendo cognitivamente, nos aspectos afetivos, sociais e motores. Assim acontece com nossos alunos: ao brincar, experimentam novas situações, internalizam regras, desenvolvem agilidade e criatividade. Fonte: Disponível aqui No livro “Jogos cooperativos”, de Fábio Otuzi Brotto, o autor oferece de maneira lúdica propostas de atividades práticas que você, professor, possa desenvolver. As dramatizações A dramatização, segundo Haydt (2011), é um ato em que, de maneira espontaneamente ou planejada, os alunos desempenham papéis, têm oportunidade de vivenciar situações de seu cotidiano, criar personagens �ctícios. Em momentos de dramatização, os alunos podem expressar sentimentos e emoções. Além disso, a dramatização contribui para o desenvolvimento social e para os processos de ensino e de aprendizagem, favorece a aquisição de habilidades especí�cas de expressão e dá condições para que a interação aconteça naturalmente. A partir dela, alcançam-se 075 https://www.orelhadelivro.com.br/livros/356695/jogos-cooperativos/ Modalidades da dramatização | Fonte: Haydt (2011). objetivos como: propiciar vivências de situações reais da vida; facilitar a comunicação, para analisar e buscar soluções; desenvolver capacidade de expressão, criatividade e observação. Nota-se que a dramatização pode envolver vários aspectos cognitivos, motores e afetivos. Para sistematizar as modalidades da dramatização, Haydt (2011) as de�ne de duas maneiras, conforme apresentado a seguir: O trabalho em grupo É um recurso que contribui para a formação de novos grupos sociais, para além da escola. É um momento importante da aula, pois, ao trabalhar em grupos, o aluno se socializa, tem oportunidades de ouvir diversas opiniões, podendo trocar experiências. O trabalho em grupo permite que o aluno se expresse e participe de situações que fortalecem o convívio social. 076 O estudo de caso É uma técnica que consiste em apresentar aos alunos uma situação real, dentro do assunto estudado, para que analisem e, se for necessário, proponham alternativas de solução. É uma forma de aplicar os conhecimentos teóricos a situações práticas (HAYDT, 2011). O estudo do meio O aluno aprende explorando o meio que o cerca, tanto por meio de entrevistas quanto de passeios, registros de imagens e outros. Ao propor para seus alunos uma atividade como esta, o educador deve ter trabalhado previamente em sala de aula o conteúdo que será a fonte de pesquisa. Você, professor, poderá explorar muitas destas técnicas para que suas aulas sejam mais signi�cativas e levem à aprendizagem, que deve ser o objetivo primordial. 077 10 A Relação Pedagógica 078 No decorrer deste curso, você deparar-se-á com uma série de métodos, práticas e teorias pedagógicas que, em tese, depois de devidamente escolhidos, caso fossem bem assimilados e desenvolvidos por você em sala de aula o tornariam um excelente professor, capaz de bem ensinar. No outro polo, no imaginário dos graduandos de nosso curso, pode estar presente a noção de que basta que os alunos possuam condições prévias-satisfatórias, como motivação e garantia das necessidades básicas, que todos eles aprenderiam. Ledo engano. Essa visão impõe à Didática um papel simplista e puramente técnico. Você estudou, nas aulas anteriores, que a Didática se ocupa das �nalidades do ensino, isto é, para que se ensina, dos meios para que ele ocorra, da organização das situações de sala de aula e da interação entre os atores do processo educativo. Assim, consideramos que as escolhas didáticas realizadas pelo professor devem levar em consideração que o ensino e a aprendizagem acontecem por meio da relação entre os agentes deste processo: professor, aluno e conhecimento. Cordeiro (2007) chama essa interação de relação pedagógica. Para o autor, geralmente dá-se ênfase à relação professor-aluno como a relação central da aula. Entretanto, essa simpli�cação acaba maquiando o fato de que a situação de aula é uma situação extremamente complexa que não envolve apenas esses dois atores, mas inclui o conteúdo, motivo que une professor e aluno. De acordo com Cordeiro (2007), é possível analisar a relação pedagógica por meio de três dimensões especí�cas do ato educativo: a linguística, a pessoal e a cognitiva. A dimensão linguística do ato educativo O discurso, o diálogo na sala de aula, assume um papel central no ato educativo. Muitas vezes, a concepção do tipo de interação que o professor defende está implícita nas suas falas. Por exemplo, se o professor costuma fazer perguntas aos seus alunos cujas respostas consideradas corretas são aquelas “copiadas” da fala do professor, o aluno compreende, não pelo conteúdo, mas pela forma, que o que se valoriza durante 079 a aula não é sua participação, mas sua capacidade de memorizar dados prontos. Consegue perceber, caro(a) aluno(a)? É a forma do diálogo que impõe a concepção de ensino deste professor, mesmo que ele não a explicite claramente. Como a educação brasileira, no interior das escolas e de suas salas de aula, é fortemente in�uenciada por uma concepção tradicional de ensino, o professor busca deter o controle do diálogo em sala de aula, fazendo somente perguntas para as quais ele próprio sabe a resposta, pois, questionamentos abertos, abrangentes, podem fazer emergir o fato de que ele não é o detentor absoluto do saber, sendo esta uma concepção tradicional do que é ser professor. Acontece que são justamente as questões sem respostas que movem a produção de novos conhecimentos e impulsionam as sociedades para as mudanças. Percebe como, dessa forma, o aluno vai compreendendo que sua fala deve restringir- se às expectativas que o professor expõe? Assim, a passividade vai dando a tônica da escola, sem que se diga claramente: “Alunos e professores, sejam passivos, não questionem!”. O aluno, para ser ouvido pelo professor, para assim conseguir receber reconhecimento sobre o que tem a dizer e ser classi�cado como um “bom aluno”, passa então a reconhecer a autoridade de fala do professor, e a responder somente o que o educador quer que ele responda. O autor coloca que uma inversão desta lógica pode tornar a relação mais horizontal e fazer com que os alunos compreendam que aprender não é memorizar ideias prontas, mas questioná-las, construí-las e reconstruí-las. Por exemplo, solicitando aos alunos que produzam perguntas sobre um determinado tema, coisas que eles queiram saber, que podem ser inesperadas inclusive para o professor, abrindo espaço para investigação. Essa inversão é bené�ca. Segundo Cordeiro (2007, p. 102): 080 A instauração de outros padrões de diálogo e de relação pedagógica implica a ampliação do espectro e das modalidades de conhecimento que poderão ser abrigados pelo currículo além dos saberes que se adquirem por imitação ou por assimilação, deverão ser admitidos também alguns saberes mais indeterminados, especulativos, que se desenvolvem pela reexão ̀ e que terão que ser confrontados com os saberes acumulados. A dimensão pessoal do ato educativo Quando falamos dos vínculos entre professor e aluno, é fácil lembrar-se tanto dos positivos como dos negativos de nossas próprias vidas escolares. Quais são os fatores envolvidos nos vínculos estabelecidos no ato educativo? Como a escola concentra-se, basicamente, na aquisição do conhecimento historicamente acumulado, tem-se por premissa que o professor é a autoridade em sala de aula, já que é ele quem detém mais conhecimento de que seus alunos. Assim, há uma relação, de antemão, assimétrica, desigual. Cordeiro (2007) chama essa autoridade de autoridade pedagógica. Tal “superioridade” pode culminar em certa dependência do aluno para com seu professor ou numa atitude de negação, confronto. Segundo o autor, tem-se buscado apontar na direção de uma relação de caráter afetiva, não meramente cuidadora ou super�cial, descompromissada, mas que culmine numa relação pedagógica mais democrática, mais livre. O conceito de desvelo (CORDEIRO, 2007, p. 104) compreende uma relação entre professor e aluno centrada na dedicação do professor para com seu aluno sem, no entanto, abrir mão de sua competência técnica e compromisso político-social com uma educação crítica. O professor, movido pelo desvelo, direciona toda sua ação em favor da aprendizagem do aluno. Nesse sentido, há um forte vínculo pessoal entre professor e aluno. 081 Outro fator da relação pedagógica que in�uencia diretamente na relação entre professor e aluno é a organização física da sala de aula. É claro que uma sala organizada na perspectiva tradicional de ensino, com carteiras organizadas em �leiras e paredes sem produções dos alunos, austeras, direcionam a relação para o professor no centro. Todos estão atentos a ele e é ele quem controla as interações entre os alunos e entre os alunos e ele próprio. A organização estrutural física da sala de aula quando a visão de mundo, homem, educação do professor passa pelas tendências progressivas (que você conheceu na aula 8) passa por outra perspectiva. De outro lado, imaginemos uma sala de aula mais adaptada às pedagogias renovadoras ou às práticas construtivistas: não há lugares xos ̀ determinados, nem mesmo para o professor; grandes mesas ocupadas por vários alunos, que trabalham em equipes; nos cantos da sala, outras mesas e estantes com materiais diversos a serem utilizados naquele momento ou em qualquer outro, dependendo do desenvolvimento das atividades ou das iniciativas das crianças; nas paredes, cartazes coloridos, exposição de trabalhos realizados pelos alunos, fotogra�as, mapas etc. (CORDEIRO, 2007, p. 105). 082 Por isso, é importante que você, futuro professor, compreenda o espaço físico da sala de aula como um dispositivo pedagógico. No caso citado no parágrafo anterior, o professor se desloca em sala de aula, consegue estabelecer diálogos coletivos e individuais, acompanha bem de perto a evolução dos alunos durante as propostas, facilitando a avaliação e tornando-a processual. Observe que não basta apenas ter claro seu referencial �losó�co para a adoção de práticas didáticas, mas também com qual tipo de conteúdo se está trabalhando. Conteúdos de cunho conceitual, por exemplo, quando há necessidade de explanação do professor podem ser mais bem assimilados com leitura individual. Habilidades executivas precisam ser exercitadas, demandando que a sala esteja organizada para a prática dos alunos. No caso de conteúdos ligados às atitudes, os trabalhos em grupo são bem-vindos, bem como atividades exploratórias fora da sala de aula em si. Compreende, caro(a) aluno(a), como a relação pedagógica se associa às �nalidades do ensino? A relação entre aluno e professor, então, está permeada pelas relações com o saber, pois quem dá o tom às interações é o tipo de conhecimento com o qual se está trabalhando e como isso está acontecendo. Cordeiro (2007) nos ajuda na re�exão acerca de qual abordagem escolher para tornar a relação pessoal assertiva e positiva para professor e aluno. O autor critica o fato de se depreciar determinada abordagem ao exaltar outra. As diferentes modalidades de conhecimento com que se lida na escola exigem diferentes posturas pedagógicas dos professores e implicam diferentes formas de relação pedagógica. Em várias delas, a participação dos alunos pode se revelar mais ou menos decisiva, mais ou menos inuente ̀ sobre os resultados da aprendizagem. Desse modo, não há porque postular a adoção de um modelo pedagógico único, que implicaria a padronização das relações pessoais na escola, 083 na sala de aula e no ensino e aprendizagem. (CORDEIRO, 2007, p. 108). É importante frisar que, de acordo com Cordeiro (2007), quando pensamos na relação pessoal entre professor e aluno nos deparamos com algo que é inerente à escolarização: o aluno não está na escola porque escolheu, mas é obrigado a estar ali. Por isso, antes de qualquer iniciativa do professor acontecer, já existem tensões pedagógicas entre ele e seu aluno. Para o professor, estar na escola é seu trabalho, muitas vezes, por conta de nossa tradição histórica, tal trabalho é entendido por ele como missão. Para o aluno, é uma imposição estar ali. Percebe a contradição? O professor preocupa-se, na maior parte do tempo, com o cumprimento de seu planejamento e o aluno oferece resistência. Como é possível, então, haver uma relação saudável entre estes dois atores? Cordeiro (2007) sinaliza para que essa tensão seja transmutada para a ideia de jogo, de desa�o. Por isso, a ludicidade é importante no ambiente escolar. Fonte: Disponível aqui Uma boa indicação para a re�exão acerca da relação pedagógica professor – aluno – saber é o �lme francês de 2008 Entre os muros da escola. Está disponível no YouTube com legenda em português: A dimensão cognitiva: relações com o saber Vimos que a relação pedagógica é triádica: professor – aluno – saber. A escola existe em função do saber e, segundo Cordeiro (2007) compreender esta importância implica no entendimento que a sociedade e os alunos têm sobre a escola. O autor chama a nossa atenção para esta questão porque, muitas vezes, o entendimento errôneo das propostas progressistas de ensino provocou uma certa confusão sobre o papel da 084 https://www.youtube.com/watch?v=rBXlPg7nj-Y escola: socializar? Ensinar conceitos? Cordeiro (2007) explica que a escola, apesar da grande difusão de informação promovida pela Internet, é o único espaço de apropriação de aparatos intelectuais que não costumam estar dispostos em outras instituições, como livros cientí�cos, literatura, e é nela que se deve aprender a leitura, a análise e a interpretação deste bem historicamente acumulado. Para a maior parte da população brasileira, a escola é a única oportunidade de realização deste contato. Para Cordeiro (2007), esta questão é central porque diz respeito a algo importante: o aluno está na escola para acessar o saber, primordialmente. E o aluno precisa estar envolvido com este processo para que deseje estar ali efetivamente, aberto para aprender. Segundo Cordeiro, há duas dimensões envolvidas na compreensão de como os alunos se relacionam com a escola: a mobilização para a escola e a mobilização na escola. Mobilização para a escola: o que faz com que o aluno, estando na escola, o faz estudar ou não, ter êxito ou fracassar. Os estudos têm mostrado que a demanda familiar, ou seja, as expectativas da família em relação ao aluno ou para uma ascensão social ou para manutenção do status pro�ssional da família. Embora se saiba que a escola sozinha não melhora as condições econômicas de vida, mas 085 sua correlação com outros fatores estruturais econômicos, políticos e sociais. Assim, ao estar na escola o aluno ou atende a essas expectativas ou não. Mobilização na escola: empenho pessoal ou não na escola, in�uências de colegas, positivas ou não, preferência subjetiva pelo estudo, por determinados professores ou matérias. Observe, então, que há muitos fatores que con�uem para o sucesso ou fracasso escolar, que muitas vezes estão além do controle do professor. Para Cordeiro (2007), isso não signi�ca render-se à ideia de que “nada se pode fazer”, ao contrário, encontrar formas de atuas nessas duas frentes. Primeiramente, o professor precisa ter clareza a respeito de seus próprios motivos de estar na escola e da relevância dos conteúdos que ensina. Esta autoanálise favorece à inovação, à criatividade e não simplesmente uma prática automática que pouco contribuirá para ajudar o aluno a conectar-se com o saber. A re�exão aqui proposta ajuda você, caro(a) aluno(a), a compreender que as relações pedagógicas são produzidas pelos sujeitos: aluno – professor – saber, e que cada situação pedagógica é determinada por forças sociais e subjetivas. 086 11 A dimensão pessoal em questão: a relação Professor - Aluno 087 Como vimos na aula anterior, entre os aspectos da organização da situação didática, considera-se que a interação positiva entre professor e aluno, dentro da dimensão pessoal da relação pedagógica, é um aspecto essencial para garantir a aprendizagem dos alunos. Por isso, vamos nos deter um pouco mais neste aspecto. Apreciaremos dois aspectos da interação professor e aluno no cotidiano escolar: O aspecto cognoscitivo: “diz respeito a formas de comunicação dos conteúdos escolares e às tarefas escolares indicadas aos alunos” (LIBÂNEO, 2013, p. 274). O aspecto socioemocional: se refere às relações pessoais que acontecem entre professor e aluno, bem como as normas e regras de disciplina, que são muito importantes no ambiente escolar. Vamos discutir melhor cada um dos aspectos? Os aspectos cognoscitivos relação professor – aluno Como explica Libâneo (2013), na escola o trabalho do professor é permeado pelas tarefas cognoscitivas que ele propõe aos alunos e, ao mesmo tempo, pela condição que os alunos possuem para resolver determinadas tarefas. Por isso, o professor precisa ter uma comunicação clara e compreensível para apresentar as propostas, fazer perguntas e dar orientações aos alunos, garantindo assim que eles entendam. Isso não signi�ca que o professor e os alunos se entendam plenamente, considerando que a situação pedagógica depende de outros fatores, mas estabelecer uma comunicação adequada é fundamental para que a interação professor/aluno seja positiva. Ainda sobre a comunicação, vale ressaltar que o professor, além de orientar, falar, perguntar, também precisa ouvir os alunos, dando atenção su�ciente para que se expressem, exponham opiniões e sintam-se à vontade para emitir respostas. Sobre isso, Libâneo (2013, p. 275) acrescenta que: O trabalho docente nunca é unidirecional. As respostas e as opiniões dos alunos mostram como eles estão reagindo à atuação do professor, às di�culdades que encontram na assimilação dos 088 conhecimentos. Servem, também, para diagnosticar as causas que dão origem a essas di�culdades. E como o professor pode atingir uma boa interação no aspecto cognoscitivo? Para isso, vamos dar algumas dicas: Variar o tom de voz; Falar de modo mais detalhado sobre temas complexos; Explorar o nível de conhecimentos que os alunos possuem previamente; Fazer um bom planejamento da aula com objetivos claros; Esclarecer aos alunos as expectativas que possui em relação à aprendizagem dos conteúdos ensinados; Usar corretamente a Língua Portuguesa tanto ao falar quanto ao escrever (LIBÂNEO, 2013). Os aspectos socioemocionais da relação professor – aluno Os aspectos socioemocionais “se referem aos vínculos afetivos entre professor e alunos, como também às normas e exigências objetivas que regem a conduta dos alunos na aula (disciplina)”. (LIBÂNEO, 2013, p. 276). Quando falamos aqui em vínculo afetivo, nos referimos à noção de desvelo, discutido na aula anterior, em que o professor se dedica ao seu aluno, de modo afetuoso, sem abrir mão de sua competência técnica e de seus objetivos. O professor, visando a estimular a autonomia e independência do aluno mistura severidade e respeito, ou seja, exerce a autoridade, pelas qualidades intelectuais e técnicas que possui, expõe as normas de forma clara, bem como a expectativa dele em relação aos alunos. Libâneo (2013, p. 277) esclarece que “esta autoridade deve fecundar a relação educativa e não cerceá-la”. Assim, é muito importante compreender que a autoridade do professor e a autonomia do aluno não são contraditórias, mas complementares. 089 Libâneo (2013, p. 256) esclarece que a “liberdade é o fundamento da autoridade e a responsabilidade é a síntese da autoridade e da liberdade”. Assim, nas relações entre autoridade e autonomia, que perpassam a interação professor/aluno, sempre haverá deformações ou con�itos. Você já vivenciou alguma situação em que o professor, por ser uma autoridade na sala de aula, age com superioridade, fazendo imposições ou humilhando os alunos? Tais atitudes revelam uma forma de autoritarismo, a extrapolação da autoridade, que não favorece a evolução dos alunos, por isso não pode ser considerada educativa. Vale destacar que a disciplina da sala e o interesse pelas propostas do professor estão relacionados ao estilo da prática docente, logo sobre a autoridade pro�ssional, moral e técnica exercida por ele. Vejamos: Como futuro professor, você deve se lembrar de que ao interagir com cada aluno (em particular) e com a turma (geral), o professor, além de transmitir conhecimentos, ensinar conteúdos e conceitos (aspecto cognitivo), também veicula valores, ideais e princípios (aspecto afetivo/emocional), contribuindo para a formação global do aluno. É preciso perceber nessa interação o valor pedagógico, a�nal, quando os alunos são estimulados, respeitados e acolhidos, maiores são as chances de sucesso no processo ensino/aprendizagem. Os momentos de interação entre aluno e professor são aqueles que mais contribuem para a efetivação do vínculo e, consequentemente, para a aprendizagem. Para Haydt (2011, p. 42), “são nesses momentos de interação, instantes compartilhados e vividos em conjunto, que o domínio afetivo se une à esfera cognitiva e o aluno age de forma integral, como realmente é, como um todo”. O professor, na sua relação cotidiana com os alunos, precisa estimular o interesse e orientar o esforço de cada um para o alcance da aprendizagem. Desse modo, as funções do professor são: Sabemos que o aluno constrói o seu conhecimento, agrega valores e hábitos, desenvolve atitudes, formas de sentir e agir no mundo, o que gera a ampliação de suas estruturas mentais nas relações escolares. E o professor, como é atingido na relação com o aluno? Podemos a�rmar que também aprende com o aluno, ao compreender como o educando aprende, como interage com o mundo, quais conhecimentos já traz do seu ambiente familiar e social. En�m, nessa relação, o docente adquire um novo olhar. Haydt (2011, p. 44) completa dizendo que “o professor 090 pode passar a conhecer novas formas de conceber o mundo, que são diferentes da sua. Pode também rever comportamentos, rati�car ou reti�car opiniões, desfazer preconceitos, mudar atitudes, alterar posturas”. Vale lembrar que a postura do educador e a forma como ele opta por relacionar-se com os alunos estão intimamente relacionadas com as suas concepções de vida, de mundo e de educação. Assim, não adianta escolher bons métodos de ensino, fazer um bom planejamento e conceber o aluno como um ser receptivo e passivo. Concordamos com o que diz Haydt (2011, p. 46): Quando o professor concebe o aluno como um ser ativo, que formula ideias, desenvolve conceitos e resolve problemas de vida prática através da sua atividade mental, construindo, assim, seu próprio conhecimento, sua relação pedagógica muda. Não é mais uma relação unilateral, onde um professor transmite verbalmente conteúdos já prontos a um aluno passivo que os memoriza. Se o que pretendemos é que o aluno construa seu próprio conhecimento, aplicando seus esquemas cognitivos e assimiladores à realidade a ser aprendida e desenvolvendo o seu raciocínio, devemos permitir que ele exerça sua atividade mental sobre os objetos e até mesmo uma ação efetiva sobre eles. De acordo com Piletti (2010), os alunos preferem as disciplinas cujos professores são mais amigáveis, ensinando com situações agradáveis e utilizando recursos atrativos. Já professores vistos como antipáticos, que geram situações desagradáveis na aula e utilizam recursos inadequados, têm as disciplinas menos preferidas pelos alunos. Outros dados relevantes são obtidos nos estudos de Cunha (2000). Neles, constatou-se que para os alunos, entre as características dos seus melhores professores estão os que: tornam as aulas atraentes; incentivam a participação dos alunos; se expressam de modo que todos compreendam; estimulam a criatividade, a crítica e a pesquisa; favorecem a participação dos alunos. Munido deste conhecimento, ao se deparar com seus primeiros alunos em sala de aula será possível estabelecer uma relação sadia, que leve à aprendizagem. 091 Fonte: Disponível aqui Para ampliar suas re�exões acerca deste assunto, recomendamos a leitura do artigo “A relação professor/aluno no processo de ensino/aprendizagem”, da Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal de Goiás - UFG. Nele é discutida a relevância da relação professor/aluno que se desenvolve em sala de aula, além do importante papel dos educadores ao ajudar os alunos a estudarem e aprenderem. 092 https://www.revistas.ufg.br/rir/article/view/40868/20863 12 O planejamento educacional 093 Vimos até agora a importância da ação intencional do professor e o quanto a Didática é fundamental neste processo. Um professor que faz escolhas baseado em concepções claras de aprendizagem e em métodos organizados de ensino, ligados a essas concepções e a objetivos claramente de�nidos, tem condições de planejar seu trabalho e executá-lo para garantir aquilo que é primordial na escola: a aprendizagem signi�cativa e efetiva dos alunos. Muito se discute sobre a autonomia do professor em relação ao seu planejamento de suas aulas. Tal autonomia é relativa, já que existem instâncias mais amplas de planejamento educativo que interferem diretamente no dia a dia do professor. Vamos compreender isso melhor. O que é planejamento educacional? Haydt (2011) apresenta o planejamento como uma ação pedagógica essencial. Ensina que: Planejar é analisar uma dada realidade, reetindo ̀ sobre as condições existentes, e prever as formas alternativas de ação para superar as diculdades ̀ ou alcançar os objetivos desejados. Portanto, o planejamento é um processo mental que envolve análise, reexão ̀ e previsão. Nesse sentido, planejar é uma atividade tipicamente humana, e está presente na vida de todos os indivíduos, nos mais variados momentos. (HAYDT, 2011, p. 69). O que, na prática, quer dizer analisar, re�etir, prever? Signi�ca pensar em um procedimento adequado para alcançar um determinado �m. O planejamento na educação requer: análise, re�exão e previsão, interagindo entre si. Tudo que fazemos exige planejamento, mesmo que nem percebamos. Piletti (2004, p. 59) a�rma que planejar é uma atividade humana e que ao planejar é preciso responder às perguntas: 094 O que pretendo alcançar? Em quanto tempo pretendo alcançar? Como posso alcançar isso que pretendo? O que fazer e como fazer? Quais os recursos necessários? O que e como analisar a situação a m ̀ de vericar ̀ se o que pretendo foi alcançado? Libâneo (2013) de�ne o planejamento educacional como uma atividade que promove a dinâmica da aprendizagem, envolvendo fatores internos e externos. Salienta: O planejamento escolar é uma tarefa docente que inclui tanto a previsão das atividades didáticas em termos da sua organização e coordenação em face dos objetivos propostos, quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino. O planejamento é um meio para se programar as ações docentes, mas é também um momento de pesquisa e reexão ̀ intimamente ligado à avaliação. (LIBÂNEO, 2013, p. 245). O autor apresenta quais são os principais requisitos para o planejamento. Trataremos, a seguir, de quatro deles. Objetivos e tarefas da escola democrática Libâneo (2013) destaca que uma escola democrática deve atender às necessidades de crianças e jovens, preparando-os para a vida e oportunizando condições para que assimilem os conhecimentos cientí�cos e possam participar ativamente da vida social, na pro�ssão, na política e culturalmente. Se acreditarmos que a educação escolar tem um papel na democratização nas esferas econômica, social, política e cultural, ela será mais democrática quanto mais for universalizada a todos, assegurando tanto o acesso e permanência nas séries iniciais, quanto o domínio de conhecimentos básicos e socialmente relevantes e o desenvolvimento das capacidades intelectuais por parte dos alunos. (LIBÂNEO, 2013, p. 227). 095 Exigências dos planos e programas oficiais A educação é um direito de todo cidadão brasileiro, concedido pela Constituição Federal de 1988. Desse modo, cabe ao governo assegurar o ensino básico, oferecendo condições que promovam recursos �nanceiros e materiais a �m de que a proposta de educar seja garantida a todos com qualidade. Para que isso ocorra, a sociedade em geral precisa se organizar e exigir que o governo cumpra seu dever de atender às necessidades da educação brasileira. De acordo com o autor: A conversão dos planos e programas ociais ̀ em planos de ensino para situações docentes especícas ̀ não é uma tarefa fácil, mas é o que assegura a liberdade e autonomia do professor e a adequação do ensino às realidades locais. Além disso, nenhum plano geral, nenhum guia metodológico, nenhum programa social tem respostas pedagógicas e didáticas para garantir a organização do trabalho docente em situações escolares concretas. (LIBÂNEO, 2013, P. 228). Condições prévias para a aprendizagem Para Libâneo (2013), a organização do planejamento, seja da escola, seja do professor, deve acontecer de maneira que atenda às necessidades de aprendizagem dos alunos, para que os conteúdos trabalhados sirvam como elementos que possam ser assimilados. Assim, é fundamental para o educador diagnosticar como são seus alunos antes de planejar. De acordo com Libâneo (2013, p. 229), é necessário: Conversar sobre as experiências de seus alunos e seus conhecimentos prévios; Perceber suas habilidades e nível de desenvolvimento. Quando se diz que conhecer a realidade do aluno é um dos requisitos para o planejamento, isto quer dizer que deve servir como ponto de apoio, não apenas para conhecer o meio, mas resgatar informações do cotidiano das crianças e jovens que possam contribuir para que utilizem seus conhecimentos prévios como meios de sistematizar os conceitos e assimilar novos conteúdos. Libâneo (2013, p. 229) a�rma que “A introdução de matéria nova ou a consolidação da matéria anterior requerem necessariamente veri�car o ponto de preparo em que os alunos se encontram”. Dessa forma, é possível perceber qual o ponto de partida e qual a conduta necessária para todo o processo. 096 O educador não deve se apoiar em justi�cativas para as di�culdades no processo de aprendizagem de seus alunos, é preciso que sejam previstas tais adversidades e que o educador busque apoio e replaneje. Princípios e condições de transmissão/assimilação ativa: Planejar e pensar nas situações especí�cas é um dos princípios básicos para que o educador saiba aonde quer chegar e como pode contribuir para que seus alunos assimilem conteúdos. Assim, ao descrever e propor situações indicando o meio para que eles se envolvam e participem das aulas e se apropriem do conhecimento favorece a assimilação. De acordo com Lopes (2000), um planejamento realmente comprometido com a aprendizagem pressupõe: re�exão crítica, curiosidade cientí�ca, investigaçõ e criatividade. Após pensar nos objetivos e conteúdos a serem trabalhados, deve-se re�etir a respeito dos procedimentos para colocar o planejamento em ação. Aqui se encaixa a criatividade. Isto quer dizer que ao educador cabe elaborar meios para que sua aula seja atrativa. Lopes (2000) chama atenção para o fato de que caberá ao professor identi�car uma metodologia de ensino que leve em conta a variedade de atividades as quais incentivem a criatividade dos alunos. Outro aspecto importante é inserir também a sistematização do processo de avaliação da aprendizagem. Isso porque, conforme salienta Lopes (2000), a qualidade da reelaboração e produção de conhecimento realizada pelos alunos torna possível a de�nição de quais serão os próximos passos. O planejamento escolar: O Projeto Político-Pedagógico (PPP) Todas as escolas têm a responsabilidade de elaborar, de forma participativa, e fazer acontecer, executar, sua proposta pedagógica. É isso que diz o 12º artigo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394/96. Proposta Pedagógica, Projeto 097 Pedagógico ou, seu nome mais difundido, Projeto Político-Pedagógico são nomes diferentes para um documento construído de forma participativa dentro da escola, conduzido pela gestão escolar, mas que engloba toda a comunidade que faz parte da escola. Tal documento estabelece uma visão conjunta e a direção que vai ser dada ao processo pedagógico da escola. Ele expressa a prática pedagógica da escola, direcionando as atividades que acontecerão no decorrer dos anos, que tipo de educação se deseja promover, que tipo de cidadão se pretende formar. Segundo Vasconcelos (1995), ele é um instrumento teórico-metodológico que organiza a ação educacional do dia a dia da escola, tornando-a re�etida e sistematizada. O PPP dá direção às ações da escola, desde a equipe gestora até funcionários em geral, além de esclarecer que educação está sendo dada aos �lhos dos membros da comunidade local. Por ser elaborado de forma coletiva e colaborativa, o PPP é continuamente revisado, de acordo com a necessidade e o calendário da escola. O foco principal do documento é o aluno, pois a organização do processo pedagógico tem como objetivo �nal promover sua aprendizagem, garantir sua formação, por isso que a organização curricular, ou seja, o que o aluno vai aprender e que experiências serão promovidas para que isso aconteça constam deste documento. 098 Fonte: Disponível aqui No link a seguir você encontra um exemplo de Projeto Político- Pedagógico de uma escola real, de Minas Gerais, disponibilizado pela revista online Gestão Escolar. É a partir do PPP que o professor produz seu plano de ensino e plano de aula. Por isso é tão importante que a construção da Proposta Pedagógica seja realizada de forma coletiva, porque se um professor não corrobora o PPP, terá �nalidades e estratégias de ensino incoerentes com o tipo de aluno que ser formar. Na nossa próxima aula, trataremos da realização dos planos de ensino, que são a parte do planejamento que cabe ao professor. Acesse: Disponível aqui Quais são os desa�os que uma escola enfrenta para elaborar seu Plano Político-Pedagógico e colocá-lo em prática? Assista a um vídeo produzido pela equipe da revista Gestão Escolar que exempli�ca tais desa�os: 099 https://gestaoescolar.org.br/conteudo/2206/projeto-politico-pedagogico-um-exemplo-para-voce-elaborar-o-seu https://www.youtube.com/watch?v=s_tnaiuAksM&feature=youtu.be 13 O plano de ensino 100 Muitos professores quando chegam às escolas para trabalhar veem-se perdidos em meio a tantas demandas: suas aspirações educacionais, próprias da identidade de sua formação, são confrontadas com as demandas reais da escola como um todo, de seus alunos, das famílias de seus alunos, da burocracia escolar. Nesta situação, estimado(a) aluno(a), caso ela aconteça contigo (creio que sim!), você deve lançar mão das aprendizagens realizadas nesta disciplina de Didática. É hora de colocar em prática seus objetivos como pro�ssional da educação. É importante recordar o que aprendemos na aula passada: planejar é um ato de re�exão. Por mais que você se veja sufocado pela burocracia, a experiência vai levá-lo a, progressivamente, dar seu tom à aula de forma coerente com a proposta pedagógica da escola. O professor lida com inúmeras demandas ao planejar suas aulas. Observe: Então, por onde começar? Pelo PPP. Geralmente, nas reuniões pedagógicas de início de ano, há momentos para a produção ou reavaliação da proposta pedagógica da escola. Por isso a construção coletiva deste documento é tão importante, já que o 101 professor basear-se-á nele para a construção de suas aulas. Vamos compreender este processo detalhadamente. O que é plano de ensino? Por muito tempo, o plano de ensino caracterizou-se por um formulário a ser preenchido com listas de matérias a serem “dadas” e procedimentos adotados. Segundo Gandin (2014) foi a partir de 1960 que passou a ser obrigatório formular planos de ensino nas escolas. O modelo de plano de ensino que passou a vigorar desde então, comumente encontrado nas escolas, basicamente, com algumas variações, é representado assim: Fonte: GANDIN, 2014, p.12. Conteúdos Objetivos Estratégias Recursos Avaliação Observação Muitas vezes, até hoje, esse quadrinho é simplesmente reproduzido, ano após ano. Sequer é possível saber qual professor deu o “pontapé” inicial em seu preenchimento, e em que ano isso aconteceu. Ele passa a ser, assim, um instrumento burocrático, desprovido de qualquer re�exão, apenas seguido pelo professor cotidianamente. Alerta Gandin (2014, p. 12): 102 O mais importante, contudo, é que o modelo, nascido quando tudo estava decidido de antemão, direcionou-se a responder as perguntas sobre o “como” fazer e sobre o “com que fazer”. Omitiu completamente a possibilidade de reexão ̀ sobre “o que” fazer e sobre o “para que” fazê-lo. Retirou isso dos educadores, levando-os, se tudo desse certo, a pensar sobre o “como fazer bem as coisas”, mas nunca sobre “quais são as coisas certas para fazer” e, muito menos, “para que vamos fazer estas coisas”. Assim, tal quadro foi perdendo o respeito de seus professores ao longo da história, que pensavam “não servir para nada” além de apresentar ao coordenador, que por sua vez apresentava ao supervisor de ensino. Isso porque, de acordo com Gandin (2014, p. 13): 1. os conteúdos são pré-estabelecidos pela “cultura” escolar e, portanto, não são questionados; dirigem tudo e são, necessariamente, repetidos ano a ano; a “sociedade” e o pessoal da escola não se importam se não forem trocados temas tão necessários para o ensino básico como, por exemplo, os oriundos da economia, do direito, da saúde, da política, da sociologia... 2. como consequência – mas também por outros motivos-, o tal “plano” passou a ser apenas uma lista de possibilidades e não um plano para ser implantado: diz sempre o que poderia ser feito e não o que de fato se vai fazer; o tal “plano” cou ̀ como o de um agricultor que escrevesse: “plantarei milho, trigo arroz, feijão e outros vegetais; utilizarei, para isto, enxada, trator, adubo, curvas de nível e outras coisas que forem necessárias; carei ̀ contente se a colheita for boa”; por isso, os “melhores planos” eram os que mais se pareciam com um livro de didática; 3.como resistência por parte dos(das) professores(as) e como desculpa de quem exige tal lista de intenções, desenvolveu-se a ideia de que “planos”, de qualquer maneira, são exíveis; ̀ o estranho conceito de “exibilidade” ̀ foi – e ainda é- a “salvação” da não- existência de planejamento porque, no nal, ̀ “docentes devem fazer planos, mas não precisam preocupar-se em segui-los”. 103 Perceba, então, por que os professores não têm apresso por este instrumento didático? O sentido atribuído ao plano de ensino levou a uma descrença no planejamento educacional, já que o professor não toma as decisões acerca dos conteúdos e os quais ele domina, em seu sentido técnico. Para o autor: Só há sentido em falar de plano de sala de aula (escrito e com ideias que fundamentam a ação) se os professores tiverem aspirações maiores do que estabelecerem conteúdos pré-estabelecidos. A questão central do planejamento de sala de aula não pode ser a de saber como se vai passar um conteúdo pré-estabelecido. Ela deve desenvolver ideias mais amplas e mais profundas, como debater sobre que conhecimentos, que valores e que habilidades seria útil trabalhar com uma criança e com um adolescente em seu tempo de escola. (GANDIN, 2014, p. 15). Então, na prática, como tornar realidade aquele planejamento que discutimos na aula anterior, que contribua para a transformação da educação, que seja re�exivo e crítico, que incentive a investigação e a curiosidade? Trarei a proposta de plano de ensino baseado em um dos maiores expoentes da área da Didática no Brasil, a de Libâneo (2013). Perceba, caro(a) aluno(a), que ele re�ete um posicionamento teórico progressista de educação. Para Libâneo (2013), o plano de ensino – ou plano de curso – é um roteiro do qual constam os módulos, unidades ou blocos didáticos, organizados em um semestre ou em um ano. O autor explica que ele contém: “[...] justi�cativa da disciplina em relação aos objetivos da escola; objetivos gerais; objetivos especí�cos, conteúdo (com a divisão temática de cada unidade); tempo provável e desenvolvimento metodológico (atividades do professor e dos alunos).” Veja a seguir um modelo prático do plano de ensino proposto pelo autor: 104 Fonte: LIBÂNEO, 2013, p. 258. PLANO DE ENSINO (ANUAL/SEMESTRAL) Disciplina .................................................................................................................................... Série ........................................................................................................................................... Ano ............................................................................................................................................. Nº de aulas no ano................................. no semestre ........................................................... Professor.................................................................................................................................... Justi�cativa da disciplina (uma ou mais páginas) Objetivos gerais: Objetivos especí�cos Conteúdos Nº de aulas Desenvolvimento metodológico Unidade I 1) 2) 3) 4) Unidade II 1) 2) 3) Bibliogra�a (do professor) Livro adotado para estudo dos alunos No item Justi�cativa e Objetivos Gerais, o professor precisa explicitar para que serve ensinar tal matéria. Ela é iniciada com uma breve consideração sobre a função social e pedagógica da educação escolar, tendo em vista os objetivos gerais da escola, contidos no PPP. Depois cita os conteúdos básicos da disciplina e sua relevância social, política, 105 pro�ssional e cultural. Expõe-se como se fará para que o aluno alcance os objetivos previstos, considerando sempre uma assimilação ativa do conhecimento. A justi�cativa responde, basicamente, por que, para que e como ensinar. No tópico Objetivos Especí�cos explicita-se os resultados a obter do processo da transmissão-assimilação ativa de conhecimentos, conceitos, habilidades. O professor deve redigir por meio de a�rmações, o resultado esperado e que deve ser atingido por todos os alunos ao término da unidade didática. De acordo com Libâneo (2013, p. 261): Os resultados são conhecimentos (conceitos, fatos, princípios, teorias, interpretações, ideias organizadas etc.) e habilidades (o que deve aprender para desenvolver suas capacidades intelectuais: organizar seu estudo ativo e independente; aplicar fórmulas em exercícios; observar, coletar e organizar informações sobre determinado assunto; raciocinar com dados da realidade; formular hipóteses; usar materiais e instrumentos dirigidos pela aprendizagem da matéria, como dicionários, mapas, réguas etc.). Veja alguns exemplos de organização dos objetivos, trazidos por Libâneo (2013, p. 262 - 263). No conteúdo sobre relação entre os seres vivos e o ambiente: – Observar e identicar, ̀ numa certa área da escola ou próxima dela, tipos de seres vivos conforme diferentes habitas em que são encontrados: no solo, no ar, em troncos podres, debaixo de pedras e outros. – Após diferenciar os elementos que compõem o ambiente de uma determinada região, explicar os seus diversos efeitos sobre os seres vivos. – Dar exemplos da inuência ̀ do ambiente sobre os seres vivos e da interferência do homem sobre o ambiente. No conteúdo sobre unidades de medida: – Relacionar unidades de medida (comprimento, massa, volume, tempo, valor) aos tipos de objetos medidos. – Saber aplicar adequadamente essas medidas em várias situações 106 sociais reais (uso do metro, do quilo, da dúzia etc.) No conteúdo sobre concordância verbal: – Relacionar corretamente sujeito, verbo e complementos, sabendo fazer uso da norma prática de concordância verbal, em que o verbo deve concordar com o sujeito em número e pessoa. No conteúdo sobre multiplicação: – Resolver problemas de multiplicação de um número com três algarismos por outro com dois algarismos. Em conteúdos de Estudos Sociais: – Explicar por que os serviços de atendimento às necessidades da população (saúde, educação, transportes etc.) são direitos do cidadão e obrigação dos órgãos públicos. – Após o estudo sobre atividades econômicas básicas, os alunos deverão explicar a interdependência entre agricultura, indústria e comércio, dando vários exemplos. – Ajudar o aluno na compreensão das mudanças que o tempo provoca nas pessoas, comparando a sequência de fatos da sua própria experiência de vida (linha do tempo) com a de amigos de idades diferentes, com a da vida da professora, dos pais etc. É muito importante que você perceba que foram utilizados termos como reconhecer, aplicar, usar etc. Tais termos referem-se a operações mentais que os o professor objetiva que o aluno seja capaz de realizar após entrar em contato ativo com os conteúdos. Tais operações mentais podem ser simples, como listar, reproduzir, ou complexas, como relacionar, analisar, diferenciar. Esses verbos utilizados no plano indicam com clareza, tanto para o professor quanto para o aluno, o que se espera ao �m das unidades. Isso motiva os alunos e facilita a avaliação, pois demonstra explicitamente o que se deve ensinar e o que se deve aprender. Além disso, o professor pode indicar também, neste tópico, as atitudes em relação à matéria, ao estudo, ao relacionamento humano, à realidade social (atitude cientí�ca, consciência crítica, responsabilidade, solidariedade etc.). Para Libâneo (2013, 262): Formular objetivos é uma tarefa que consiste, basicamente, em descrever os conhecimentos a serem assimilados, as habilidades, hábitos e atitudes a serem desenvolvidos, ao término do estudo de 107 certos conteúdos de ensino. Objetivos reetem, ̀ pois, a estrutura do conteúdo da matéria. Devem ser redigidos com clareza, expressando o que o aluno deve aprender. Devem ser realistas, isto é, expressar resultados de aprendizagem realmente possíveis de serem alcançados no tempo que se dispõe e nas condições em que se realiza o ensino. Evidentemente, sua formulação e seu conteúdo devem corresponder à capacidade de assimilação dos alunos, conforme a sua idade e nível de desenvolvimento mental. Estas orientações são importantes de serem levadas em conta, pois o que importa é menos a redação formal e muito mais a sua utilidade para motivar e encaminhar a atividade dos alunos. No tópico Conteúdos elenca-se o que será estudado. O professor deve consultar, para isso, os documentos legais que orientarão sua escolha, referente à disciplina em questão: BNCC (Base Nacional Curricular Comum), os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), as Propostas Curriculares do seu Estado e do seu Município. Além disso, consultará os livros didáticos escolhidos, se houver. As unidades didáticas organizam os conteúdos no tempo. Cada unidade pode ser bimestral, trimestral, ou de acordo com a organização especí�ca combinada na escola. Essas unidades devem ser adequadas ao nível de preparo dos alunos, dando continuidade aos conteúdos do ano anterior e ao tempo de aula disponível. Quanto mais organizados e especí�cos forem os conteúdos, mais claros estarão os conhecimentos e habilidades a serem demonstrados pelos alunos ao �m de cada unidade didática. 108 Caso a escola adote o sistema apostilado, há pouca ou nenhuma autonomia do professor na escolha do conteúdo ou ordem em que será trabalhado. Alterar propostas prontas, confrontando-as com a realidade da escola e dos alunos é algo a ser de�nido quando da elaboração do PPP do estabelecimento de ensino, de acordo com seus propósitos sociais. É papel do professor realizar uma apreciação crítica de planos de ensino elaborados fora da escola, com vistas a favorecer a aprendizagem dos alunos. A�nal, é ele quem lidará diretamente com os conteúdos. Com relação ao Desenvolvimento Metodológico, o professor deve esclarecer qual é o conjunto de ações que será desenvolvido para que os conteúdos e os objetivos especí�cos ganhem vida, isto é, o que professor e aluno farão em sala de aula. É neste espaço que serão explicitados as escolhas metodológicas realizadas pelo professor, conectadas com sua concepção de educação, de mundo, de aprendizagem e suas intenções pro�ssionais. Aqui, para Libâneo (2013, p. 264), as atividades devem ser de cunho teórico-prático. Observe: A função deste componente do plano de ensino, o desenvolvimento metodológico, é articular objetivos e conteúdos com métodos e procedimentos de ensino que provoquem a atividade mental e prática dos alunos (resolução de situações-problemas, trabalhos de elaboração mental, discussões, resolução de exercícios, aplicação de conhecimentos e habilidades em situações distintas das trabalhadas em classe etc.). O desenvolvimento metodológico de objetivos e conteúdos estabelece a linha que deve ser seguida no ensino (atividade do professor) e na assimilação (atividade do aluno) da matéria de ensino. Ao preencher este item do plano de ensino, o professor estará respondendo às seguintes questões: que atividades os alunos deverão desenvolver 109 para assimilar este assunto da matéria, tendo em vista os objetivos? Que atividades o professor deve desenvolver de forma a dirigir sistematicamente as atividades dos alunos adequadas à matéria e aos objetivos? A primeira tarefa é vericar ̀ os objetivos e a matéria a ser ensinada, pois eles determinarão os métodos e procedimentos, bem como os recursos de ensino a lançar mão. Em seguida devem ser especi�cadas as ações docentes e discentes (do professor e do aluno) correspondentes a cada passo da sequência de desenvolvimento de uma aula ou conjunto de aulas. Libâneo (2013) ressalta que não podemos esquecer que no processo de ensino a assimilação de novos conhecimentos (conceitos) e o desenvolvimento de capacidades cognoscitivas, como as operações mentais que listamos no tópico “objetivos especí�cos”, acontecem simultaneamente, pelos alunos, sob a direção do professor. O que deve orientar a ação do professor é a contradição que existe entre aquilo que se quer ensinar e as condições de aprendizagem dos alunos, buscando sempre a superação, a transformação, a aprendizagem efetiva. Nunca é demais enfatizar que toda a organização do plano de ensino tem como �nalidade principal a aprendizagem dos alunos, e não o cumprimento de ações burocráticas. Ora, se o professor não tiver consigo claramente qual é sua função, que princípios deve seguir, que conteúdos deve ensinar e quais habilidade precisa ajudar a desenvolver, seu trabalho será esvaziado de sentido. Desse modo, a chance de seu trabalho não se efetivar aumenta muito. Nunca é demais relembrar que a autonomia do professor no planejamento do plano de ensino é relativa, entretanto, sem domínio deste, tampouco conquistará mais autonomia. Em nossa próxima aula, falaremos sobre o plano de ensino efetivado no dia a dia do professor por meio do plano de aula. 110 14 O plano de aula 111 Para a efetivação do plano de ensino, o professor precisa preparar sua aula. Geralmente, ele prepara um conjunto delas, semanalmente ou quinzenalmente, e as apresenta a um coordenador pedagógico. Estes documentos, que podem ser formulários, cadernos ou formulários online, são analisados e tornam-se fonte de diálogo entre a gestão e o professor, também uma possibilidade de autorre�exão do professor sobre seu processo de ensino. Pode parecer óbvio que é necessário preparar aula. Na prática, contudo, há professores que se orientam pelos roteiros dos livros didáticos ou apostilas, por planos de aula de outros professores, por vezes por anos a �o. Tal atitude não é coerente com o que estudamos nas aulas anteriores, pois perpetua modos de ensinar ine�cazes, não re�ete a realidade em que a relação pedagógica acontece e muitas vezes nega ao aluno a oportunidade de aprender, direito garantido por lei. Segundo Libâneo (2013) os planos, em qualquer instância, são instrumentos de ação que devem acontecer em ordem para que a sequência de objetividade, coerência e �exibilidade atendam ao que se propôs. O plano é um guia de orientação, contém todo o direcionamento para o educador, porém deve ser um instrumento �exível, permitindo modi�cações sempre que o professor perceber essa necessidade. Sabemos que alguns conteúdos demandam maior tempo, sendo necessárias revisões constantes. Outros pontos devem ser levados em consideração durante a produção do plano: O plano deve ser objetivo, ou seja, para realizar seu planejamento o educador deve pensar em ações práticas, quando se fala a partir da realidade de seus alunos, além de também trabalhar com os recursos humanos e materiais que estiverem ao alcance; de nada adianta pensar em estratégias que demandem tempo e desgastes muitas vezes desnecessários; O plano deve conter coerência, o que signi�ca que para chegar aonde planejamos é necessário pensar em oportunidades de participação e veri�cação 112 da aprendizagem. Apenas as avaliações sistematizadas não contribuem para que as diversas experiências sejam demonstradas; por exemplo, se se quer desenvolver autonomia, deve-se oferecer situações em que os alunos sejam motivados a isso; O plano deve ser �exível, assim, como já foi dito anteriormente, o plano não possui uma estrutura rígida, nele permite-se organizar e reorganizar. Ele está sempre em movimento, vai passando por transformações toda vez que o educador perceber essa necessidade. Terminamos de especi�car algumas características e �nalidades do planejamento, em conformidade com as ideias de Libâneo (2013). A seguir nos aprofundaremos em como o plano é de�nido. Vale relembrar que é preciso que os planos de aula estejam relacionados à prática, sendo revistos quando necessário. Libâneo (2013) defende que à medida que o professor vai acumulando experiências diante das situações vivenciadas no contexto do ensino, a ação dele se torna cada vez mais e�caz. O plano de aula é onde está sistematizado detalhadamente o desenvolvimento de determinada aula ou período de aulas. Aqui o educador deve considerar o período de sua aula, estabelecendo recursos pedagógicos, tempo de organização e preparo de cada situação. É o momento em que ele pode aliar seu conhecimento teórico com sua prática pedagógica, momento também de rever os objetivos e entender que suas aulas devem ser planejadas de maneira que haja continuidade e conexão entre elas. 113 Segundo Libâneo (2013), o plano de aula é a oportunidade que o professor tem para re�etir sobre sua prática. O aprimoramento pro�ssional do professor, como em todas as outras pro�ssões, depende dessa re�exão para ter sua prática aprimorada, transformada sempre para melhor. Há alguns pontos que se deve levar em consideração, segundo Libâneo (2013) no momento de elaborar um plano de aula: 1. A aula é um período de tempo variável. Um conteúdo não se esgota em uma aula, pois a aula passa por fases: “preparação e apresentação de objetivos, conteúdos e tarefas; desenvolvimento da matéria nova; consolidação (�xação, exercícios, recapitulação, sistematização); aplicação; avaliação.” (LIBÂNEO, 2013). Por isso, devemos planejar um conjunto de aulas (módulo, bloco, semana); 2. Reler os objetivos gerais da matéria e a sequência de conteúdos do plano de ensino. O professor tem a tarefa de tomar o tópico da unidade e desdobrá-lo numa sequência lógica, na forma de conceitos, problemas, ideias. Isso possibilita ao saber claramente o que vai ser trabalhado. 3. Previsão do tempo necessário. Essa previsão pode ser alterada no momento de detalhar o desenvolvimento metodológico da aula. 4. Redigir um ou mais objetivos especí�cos: tendo em conta os resultados esperados da assimilação de conhecimentos e habilidades (fatos, conceitos, ideias, relações, métodos e técnicas de estudo, princípios, atitudes etc.). Dos objetivos vão depender os métodos e procedimentos de transmissão e assimilação dos conteúdos e as várias formas de avaliação. O desenvolvimento metodológico será desdobrado dos seguintes itens, para cada assunto novo: preparação e introdução do assunto; desenvolvimento e estudo ativo do assunto; sistematização e aplicação; tarefas de casa. 5. Indicar, em cada um dos itens, os métodos, procedimentos e materiais didáticos. O que professor e alunos farão para alcançar os objetivos. 6. Em cada um dos itens, prever formas de vericação ̀ do rendimento dos alunos. A avaliação é feita no início (o que o aluno sabe antes do desenvolvimento de matéria nova), durante e no nal ̀ de uma unidade didática. É importante promover variadas formas de veri�cação, podendo ser informal, para �ns de diagnóstico e acompanhamento do progresso dos alunos, e formal, para �ns de atribuição de notas ou conceitos. Como realizar a avaliação de suas aulas, ou seja, criticá-las de forma a aperfeiçoá-las? Libâneo (2013, p. ??) explica que: 114 Ao fazer a avaliação das aulas, convém ainda levantar questões como estas: Os objetivos e conteúdos foram adequados à turma? O tempo de duração da aula foi adequado? Os métodos e técnicas de ensino foram variados e oportunos para suscitar a atividade mental e prática dos alunos? Foram feitas veri�cações de aprendizagem no decorrer das aulas (informais e formais)? O relacionamento professor-aluno foi satisfatório? Houve uma organização segura das atividades, de modo a ter garantido um clima de trabalho favorável? Os alunos realmente consolidaram a aprendizagem da matéria, num grau su�ciente para introduzir matéria nova? Foram propiciadas tarefas de estudo ativa e independente dos alunos? Observe um exemplo prático desta proposta de plano de aula. 115 Escola Disciplina: Português Data / / Série: 2ª Professor(a): Unidade didática: Expressão oral, leitura e escrita (Texto: “O Domador de Monstros” – Ana Maria Machado). OBJETIVOS ESPECÍFICOS CONTEÚDOS Nº DE AULAS DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO 1. Expressão de opiniões e sentimentos por meio da fala, gestos, mímica 1. Expressão verbal e não verbal 120 min Conversar com as crianças sobre histórias e �guras de monstros que conhecem (TV, revistas, �gurinhas, etc.(. Pedir que expressem com gestos como imaginam monstros. Pedir que contm alguma história de monstros. Indagar o que acham dos monstros (assustam? Dão medo? Dão vontade e rir? Será que existem mesmo?) Conversar sobre o título do texto: “O Domador de Monstros”. Como será a história? Quem será o domador? O domador conseguirá domar o monstro?, etc. 2. Compreensão do texto escrito 2. Leitura silenciosa e comentários 120 min Pedir leitura silenciosa do texto. (A professora esclarecerá dúvidas sobre o vocabukário se solicitada pelos alunos.) 3. Expressão verbal de experiências 3. Expressão verbal 120 min Após a leitura silenciosa, indagar às crianças: quem é o domador de monstros? O que o domador sentiu? O que acham do modo como Sérgio enfrentou o monstro? Por que o monstro da parede se assustou e foi embora? Como imaginam o monstro (representar com getsos e sons)? Já aconteceu isso com alguém? 116 Fonte: LIBÂNEO, 2013, p.270. Ampliar a conversação: quando se formam as sombras? Já utilizaram o corpo o objetos para projetar sombras? Que �guras foram formadas? Já tiveram medo como Sérgio? Como foi? 4. Leitura em voz alta com expressividade. 4. Leitura oral 120 min Pedir leitura oral: - do trecho que acham mais interessante - do diálogo de Sérgio com monstros - do �nal da história (Se necessário, a professora pode ler uma vez antes de os alunos lerem) 5. Compreensão do texto escrito e dar asas à imaginação 5. Expressão escrita 120 min Pedir aos alunos que escrevam outro �nal para a história, outra forma de enfrentar o monstro. Poderão introduzir outro personagem, se quiserem. Pedir que façam desenhos de monstros Reproduzir o texto em quadrinhos (a história do texto ou a história com outro �nal) (Obs: as três últimas tarefas podem ser feitas em casa ou em outra aula). Na próxima aula, traremos uma proposta de plano de aula conhecida como sequência didática, muito solicitada por escolas atualmente. 117 15 A sequência didática 118 Estimado aluno, escolhi apresentar uma proposta de plano de aula ligada a uma teoria pedagógica para exempli�car como a Didática contribui para a elucidação de um processo pedagógico ligado a �nalidades claras de educação: a sequência didática. O domínio deste plano tem sido requisitado nos concursos públicos. Isso não por acaso. Na década de 1990, o Brasil passou por uma reforma educacional que transformou os documentos o�ciais acerca da educação a ser oferecida nas escolas. Destacam-se entre esses documentos os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEIs) e, principalmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394/1996 (LDB). Tais documentos o�ciais receberam in�uência notória da Reforma Educacional Espanhola efetivada um pouco antes. Isso um porque um dos líderes dessa reforma, o professor César Coll, assessorou o Ministério da Educação brasileiro nesta empreitada. Toda a reforma educacional espanhola foi pautada pela concepção construtivista de educação, e foi o construtivismo que embasou as novas propostas didáticas apresentadas pelos PCNs, por exemplo. Por isso, a formação de professores no Brasil voltou os olhos para esta corrente, que passou a ser estudada, criticada e mesmo refutada. Você pode estar se perguntando: “Como o Brasil passou por uma reforma educacional há pouco tempo se a realidade brasileira continua parecida com a de 30 anos atrás?” A reforma educacional brasileira foi um importante instrumento de maior acesso à educação e de mudanças importantes na formação dos professores. Para que ela tivesse um alcance mais efetivo na prática das escolas, chegando à sala de aula de fato, os governos precisariam mobilizar esforços para uma reforma profunda na estrutura física e humana das escolas, oferecendo condições para outra organização didática. Todas as mudanças efetivadas aconteceram por esforços dos pro�ssionais da educação, de um modo geral. 119 A sequência didática é o nome dado a “um conjunto de atividades ordenadas, estruturadas e articuladas para a realização de certos objetivos educacionais, que têm um princípio e um �m conhecido tanto pelos professores como pelos alunos”. (ZABALA, 2010, p. 18). Convencionou-se chamar de sequência didática a estrutura de aula que tem como base as teorias construtivista/socioconstrutivista de ensino e aprendizagem e possui em sua concepção todos os passos didáticos para explorar os conhecimentos, de acordo com a teoria que a suporta. O modelo de plano de aula apresentado na semana passada também pode ser considerado uma sequência didática, pois é um ordenado de atividades com vistas a um determinado �m. A única diferença, didaticamente, é que não manifesta exclusivamente o pensamento construtivista/socioconstrutivista. Zabala (2010) explicita quais são os elementos que não podem faltar na sequência didática. Em primeiro lugar, uma sequência didática deve contemplar os três tipos de conteúdo propostos pelos socioconstrutivistas: os conteúdos conceituais, os procedimentais e os atitudinais. O mesmo autor explicita cada um desses conteúdos. Conteúdos conceituais: é o conhecimento de elementos que respondem à questão: “O que é?”. Por exemplo: “O que é densidade?”; “O que é demogra�a?”. Além disso, engloba também os princípios, como as regras matemáticas. Dizer que se sabe um conceito signi�ca dizer que se compreendeu seu signi�cado. Exigem forte elaboração pessoal cognitiva a partir dos conhecimentos prévios sobre determinado conceito. Os conteúdos conceituais são os mais valorizados pela concepção tradicional de ensino, em que saber é saber algo. Exempli�cados pela expressão “saber”. Conteúdos procedimentais: como o próprio nome diz, são os conhecimentos relacionados a ações dirigidas para realizar um objetivo, como as habilidades em geral. Ler, desenhar, observar, calcular são exemplos de conteúdos 120 procedimentais. Aprende-se a realizar ações fazendo-as. Assim, a aprendizagem de conteúdos procedimentais não se dá por explanações orais e escritas apenas, mas por exercitação prática, além do ato de re�etir sobre essa prática. Dizemos que aprendemos um conteúdo procedimental quando conseguimos aplicá-lo em contextos diferentes. Exempli�cados pela expressão “saber fazer”. Conteúdos atitudinais: são os conhecimentos relacionados aos valores (princípios éticos), atitudes (predisposição a agir corretamente, de acordo com valores éticos) e normas (diferentes regras que devemos seguir em diferentes contextos). Sua aprendizagem se dá pela vivência de situações mediada por um sujeito competente capaz de promover re�exão sobre elas, por modelos de conduta, por envolvimento afetivo. Exempli�cados pela expressão “saber ser”. Uma sequência didática, de acordo com Zabala (2010) deve considerar o trabalho com os três tipos de conteúdo. Para isso, as atividades propostas precisam completar as diferentes formas aprender cada conteúdo. Basicamente, a sequência didática obedece ao seguinte método: No documento apenas. 1. Exposição escrita dos três tipos de conteúdo. 2. Exposição escrita dos objetivos especí�cos para cada tipo de conteúdo. No documento e em sala de aula. 3. Apresentação da situação problemática relacionada ao tema, do professor para os alunos. 4. Proposição de problemas ou questões por parte dos alunos (conhecimentos prévios). 5. Proposta de busca de informações sobre o tema (coletiva ou individualmente): livros, internet, o próprio professor. 6. Busca de informação e coleta de dados (pesquisa realizada pelos alunos). 7. Generalização das conclusões e síntese (sistematização escrita, coletivamente, sob direção do professor). 8. Exercícios de memorização (realizados individualmente pelos alunos). 9. Prova ou exame. 10. Avaliação durante todo o processo (sempre comunicando aos alunos). 121 Sequência didática Língua Portuguesa – 3º ano do Ensino Fundamental Número de aulas Três aulas. Conteúdos Conceituais: Conceito do dígrafo RR. Procedimentais: Utilizar corretamente o dígrafo RR de acordo com seu valor sonoro. Atitudinais: Exploração do valor respeito quanto às di�culdades de escrita relacionadas à falta de escolarização das pessoas. Objetivos Compreender o fenômeno escrito dígrafo RR. Aplicar corretamente em situações de escrita social o dígrafo RR. Respeitar a condição linguística dos menos escolarizados como condição social. Situação - Problema Serão apresentadas diversas placas e anúncios, comumente encontrados socialmente, com os diversos sons do R. Em alguns deles, o uso do dígrafo estará incorreto. Problemas ou Questões Os alunos são instigados a descobrirem os erros e problematizarem os anúncios. Conhecimentos prévios Os alunos são instigados a proporem soluções para os problemas encontrados. Propostas de fontes de informações Os alunos se organizarão para o recolhimento das fontes de informação na sala de aula e na escola sobre o assunto. Busca da informação Os alunos serão organizados em busca, farão as pesquisas sobre o dígrafo rr e seu uso. 122 Elaboração das conclusões Os alunos registrarão, e formato de cartaz, as conclusões a que chegaram (regra ortográ�ca). Ensinar a produzir o gênero cartaz. Generalização Apresentação dos cartazes e síntese realizada com a ajuda da professora. Exercícios de memorização Atividades individuais e jogos coletivos sobre o conceito aprendido. Prova Prova individual sobre o assunto. Avaliação Será realizada a todo tempo e unida aos resultados da prova, comunicando os resultados processualmente aos alunos. Exemplo de sequência didática. FONTE: A autora. 123 16 A importância da avaliação no processo didático 124 Além do cuidado com a interação com o aluno e a escolha dos métodos e procedimentos para efetivar a aprendizagem, o professor também de�ne os critérios da avaliação dos processos efetivados em sala de aula. Avaliar é identi�car o que o aluno não aprendeu, mas para além disso: por que não aprendeu e o que fazer para que ele aprenda. Avaliar é também intervir na própria prática docente identi�cando o que foi falho, o que faltou, o que precisa melhorar. Para que esta ideia de avaliação se torne efetiva nas escolas brasileiras, vamos discutir alguns conceitos que envolvem o termo avaliação.] Avaliar é mais que medir e testar Para começar o assunto, entendemos que a avaliação é uma tarefa fundamental e cotidiana da prática docente na trajetória do processo ensino/aprendizagem. Imagine a seguinte situação: o seu carro começa a apresentar problemas, emitindo um barulho intermitente. Ao levá-lo a uma o�cina, minimamente você espera ter um diagnóstico e saber qual procedimento será realizado para que a situação se resolva. Imagine sair da o�cina apenas com um papel, re�etindo uma nota: “estado geral do veículo: 5”. Acreditamos que nenhum cliente aceitaria esse tipo de informação. E os alunos que frequentam as aulas durante um bimestre, será que concordam ao receber apenas uma nota que con�rma o seu fracasso, por exemplo? Será que a avaliação do processo ensino/aprendizagem só serve para medir e con�rmar o “problema”, sem identi�cá-lo ou contribuir para sua erradicação? Precisamos esclarecer alguns conceitos ainda confundidos no contexto escolar: testar, medir e avaliar. Haydt (1997, p. 8) esclarece que durante muito tempo o termo avaliar foi usado como sinônimo de medir, principalmente por volta da década de 1940 com a importância dada a elaboração e aplicação de testes, mas “logo deixou transparecer sua limitação: é que nem todos os aspectos da educação podem ser medidos”. A partir de 1960, o termo avaliação voltou a surgir com outras perspectivas, como avaliação dos processos, e não apenas sobre resultados. 125 Observe. Tabela: Testar,medir e avaliar | Fonte: Adaptado de Haydt (1997, p.9-10), pela autora. TESTAR MEDIR AVALIAR Testar é submeter alguém ou alguma coisa (como por exemplo uma máquina) a um teste ou a uma experiência, utilizando situações organizadas anteriormente, conhecidas como testes. Atualmente os testes são muito utilizados em avaliações em larga escala na educação. No cotidiano da escola, devem ser utilizados com parcimônia, uma vez que a trajetória escolar de cada aluno não pode ser avaliada apenas por meio de testes. Medir é “determinar a quantidade, a extensão ou o grau de alguma coisa, tendo por base um sistema de unidades convencionais” (HAYDT, 1997, p. 9). No cotidiano usamos as medidas, como o metro, quilo ou litro, entre outros, que são expressas em números por ser algo objetivo e exato. Medir está ligado ao aspecto quantitativo, sendo os testes uma das formas utilizadas para mensurar. Por oferecer objetividade e praticidade, tornou-se um aliado na educação, mas vale ressaltar que é insu�ciente como instrumento de avaliação, visto que nem todas as situações didáticas podem ser mensuradas quantitativamente. Avaliar é “julgar ou fazer uma apreciação sobre alguém ou alguma coisa, tendo como base uma escala de valores” (HAYDT, 1997, p. 10). A avaliação envolve obter dados quantitativos e qualitativos para interpretá-los com base em critérios de�nidos. Você percebeu que avaliar é muito mais do que testar e medir? Desse modo, envolve tanto a aquisição de conhecimentos dos conteúdos propostos quanto atitudes, habilidades, interesses e vivência pessoal e social de cada aluno, comparado consigo mesmo. Perceba que os três conceitos se complementam: “medir é um termo mais amplo que testar, pois os testes constituem uma das formas de medida. Enquanto isso, avaliar é mais abrangente que os outros dois” HAYDT (1997, p. 10). Infelizmente muitos educadores ainda aplicam testes para medir o conhecimento adquirido pelos alunos, atribuem uma nota para classi�cá-los e assim acreditam estar avaliando. Para de fato usar os testes como instrumento de avaliação, o professor pode comparar as várias notas entre si, a nota atual de cada aluno com as anteriores e perceber, além do rendimento, os progressos, as di�culdades e as lacunas que surgiram durante o processo em relação ao objetivo proposto. A partir disso, pode 126 aperfeiçoar a sua aula, repensar as estratégias e os recursos utilizados, além de fornecer informações que direcionem o aluno para melhorar a sua performance, compreender as suas falhas ou continuar os avanços. Os pilares da avaliação escolar Sabemos que os avanços nas tendências pedagógicas e na forma de conceber a educação trouxeram progresso também na percepção da avaliação. Ela passou a ser vista como parte fundamental para o sucesso nos processos de ensino e de aprendizagem. Para que a avaliação possa adquirir a importância que de fato tem, torna-se relevante explorar alguns princípios dela, apoiados por Haydt (1997): A avaliação deve ser contínua e sistemática: não pode acontecer esporadicamente ou de modo improvisado. Deve ser frequente e planejada, visto que se integra ao processo ensino/aprendizagem, ocorre durante todo o percurso e não somente ao �nal. Além disso, precisa fornecer feedback ao aluno e prever recuperação, quando se �zer necessário. A avaliação é funcional: precisa ocorrer em função dos objetivos propostos, acompanhando o desempenho dos alunos. A avaliação é orientadora: não visa a excluir os alunos, mas orientá-los durante o processo ensino/aprendizagem para que consigam apresentar bons resultados. Assim, ao conhecer os erros e acertos, eles tendem a apresentar avanços. A avaliação é integral: analisa e compreende o aluno como um todo, ou seja, não envolve apenas os aspectos cognitivos, mas o afetivo e o psicomotor. Temos, também, em Piletti (2010) mais alguns princípios da avaliação para orientar o trabalho do professor: Situar com clareza o que será avaliado; Optar por técnicas adequadas e variadas; Compreender as possibilidades e limitações das técnicas para a avaliação; Admitir a avaliação como um meio para alcançar os �ns, ou seja, ela não é um �m em si mesma. 127 Os princípios que vimos com apoio de Haydt (1997) e Piletti (2010) devem nortear as ações didáticas do professor. Assim, o olhar do educador sobre o ato de avaliar re�ete a sua atitude e, consequentemente, as relações que tem com seu aluno. Além dos princípios da avaliação que destacamos, Libâneo (2013) apresenta as características importantes da avaliação escolar: deve re�etir a integração entre objetivos, conteúdos e métodos; possibilita revisitar o plano de ensino; estimula o desenvolvimento de capacidades e habilidades; precisa ser focada nas atividades cotidianas dos alunos; necessita de objetividade, com instrumentos e técnicas diversi�cadas; ajuda na autopercepção do aluno e do professor; re�ete as expectativas do professor em relação à turma. Avaliação da aprendizagem e para a aprendizagem Entendemos que os dados coletados antes, durante e depois dos processos de ensino e de aprendizagem precisam ser interpretados. O que conhecemos como “nota” expressa essa interpretação atríbuída de juízos de valor sobre o aproveitamento escolar de cada aluno durante a trajetória de aprendizagem. Explicando assim, pode parecer simples, mas a avaliação é uma tarefa ampla e complexa, cujo foco não é aplicar provas e atribuir notas. É fundamental entender que mensurar com atribuição de conceitos ou notas é apenas um instrumento útil para uma apreciação qualitativa, de diagnóstico e controle do percurso educativo. De acordo com Ho�man (1994, p. 56): [...] a avaliação, enquanto relação dialógica vai conceber o conhecimento como apropriação do saber pelo aluno e também pelo professor, como ação-reexão-ação ̀ que se passa na sala de aula em direção a um saber aprimorado, enriquecido, carregado de signi�cados, de compreensão. A avaliação deve ser um momento de aprendizagem para os alunos. Deve permitir que eles reconheçam os seus avanços, saibam onde e por que erraram, além de compreender como conseguirão superar as di�culdades. 128 Usar a avaliação para examinar, medir ou controlar não contribui efetivamente para o processo educativo, uma vez que não importa a trajetória, e sim o resultado �nal. “Ao �xar critérios de desempenho unilaterais, o professor avalia os alunos pelo seu mérito individual, pela sua capacidade de se ajustarem aos seus objetivos, independentemente das condições do ensino e dos alunos” (LIBÂNEO, 2013, p. 219). Além disso, fatores internos e externos que também podem re�etir no rendimento escolar são ignorados. A avaliação, portanto, não deve ser somente um instrumento para a aprovação ou reprovação dos alunos; ela deve estar a serviço da aprendizagem, e para isso o professor precisa utilizar variadas ferramentas que favoreçam a observação e a intervenção, estimulando os alunos a que superem as di�culdades e avancem nas aprendizagens com os seus ritmos e processos de aprendizagem diferentes. Sabemos que na realidade das escolas, em que a diversidade e a inclusão se fazem presentes, uma única forma de avaliar todos os educandos torna-se incoerente. Neste contexto, é imprescindível que a avaliação siga uma ótica inclusiva e equânime, pautada no diálogo, na participação e na construção coletiva dos saberes. Dada a relevância da avaliação, suas garantias são previstas em documentos o�ciais e Legislações. Para ilustrar, temos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Entre os assuntos tratados, ela aborda a coleta de informações e da avaliação com o objetivo de atuar sobre a qualidade do ensino. Vejamos o que diz o artigo 9º: Art. 9º A União incumbir-se-á de: V – coletar, analisar e disseminar informações sobre a educação; VI – assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a denição ̀ de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino. (BRASIL, 1996). As de�nições da LDB sobre a avaliação escolar evidenciam o que tratamos até aqui: ela deve trilhar outros caminhos que permitam atingir um novo propósito, qual seja, o de contribuir para o processo ensino/aprendizagem e não para apenas julgar ou classi�car os alunos em momentos pontuais. 129 As funções da avaliação Ao considerarmos as atividades desenvolvidas para alcançar o objetivo de ensinar e aprender, podemos dizer que a avaliação tem funções gerais e especí�cas (TURRA et al., 2004), as quais estão relacionadas às funções da educação. As funções gerais da avaliação são: oferecer bases para o planejamento; permitir o conhecimento dos saberes de professores e alunos; adequar as práticas educativas e as políticas. As funções especí�cas da avaliação são: favorecer o diagnóstico; oportunizar avanços no processo ensino/aprendizagem; proporcionar situações (individuais) de aprendizagem; promover e caracterizar o desenvolvimento dos alunos. Como vimos, a avaliação no contexto escolar é utilizada com algumas funções: diagnosticar, controlar e classi�car. Bloom et al. (1971 apud TURRA et al., 2004) indicaram tais formas de organização para atender a tais funções. Assim, temos a avaliação diagnóstica, a avaliação formativa e a avaliação somativa. 130 As modalidades de avaliação A avaliação diagnóstica exerce a função de diagnóstico e é realizada no “início de um curso, de um período letivo ou uma unidade de ensino” (HAYDT, 1997, p. 17) e, assim, favorece a constatação dos conhecimentos prévios dos alunos, bem como se possuem os pré-requisitos básicos para novas aprendizagens. É muito útil para individualizar o ensino, com vistas à superação de di�culdades. “É também utilizada para caracterizar eventuais problemas de aprendizagem e identi�car suas possíveis causas, numa tentativa de saná-los” (HAYDT, 1997, p. 17). A avaliação formativa, por sua vez, exerce a função de controle e pode acontecer durante todo o período letivo, permitindo veri�car se os alunos estão atingindo os objetivos e intervir para que avancem ainda mais, ou mudar a rota, se for necessário. A função de controle é exercida no sentido de acompanhar o processo ensino/aprendizagem, monitorando a qualidade para assegurar que a cada etapa nova sejam alcançados resultados tão bons ou até melhores do que na anterior. Ela contribui durante todo o percurso educativo, pois permite que o aluno perceba e entenda os seus erros e acertos, oferecendo estímulos sistematizados para a sua evolução. A avaliação formativa orienta tanto o trabalho do professor quanto o desenvolvimento cotidiano do aluno, evitando as tensões causadas pela avaliação “�nal”. De acordo com Turra et al. (2004, p. 184), para que esse tipo de avaliação ocorra é necessário que professor e aluno adotem o uso “[...] de feedback frequente, isto é, utilizem a informação para corrigir erros, insu�ciências, ou para reforçar comportamentos bem- sucedidos”. Por último, mas não menos importante, temos a avaliação somativa, que exerce a função de classi�cação. Fica claro que tanto a avaliação formativa quanto a diagnóstica podem favorecer a somativa. É mais utilizada ao �nal de um curso, ano letivo ou unidades de ensino, justamente por “classi�car os alunos de acordo com os níveis de aproveitamento previamente estabelecidos, geralmente tendo em vista sua promoção de uma série para outra” (HAYDT, 1997, p. 18). É importante você saber que essas formas de avaliação estão ligadas intimamente, ou seja, o professor precisa fazer uso conjugado dos três tipos em busca de e�cácia no processo ensino/aprendizagem. 131 Com os conceitos explicados, você deve estar se perguntando: como os conceitos teóricos sobre a avaliação acontecem na prática? Por isso, apresentaremos a seguir um quadro que ilustra esta questão: qual a função, o propósito e a melhor época para aplicar cada tipo de avaliação. Tabela: avaliação formativa | Fonte: Adaptado de Haydt (1997, p. 19). MODALIDADE (tipo) FUNÇÃO PROPÓSITO (para que usar) ÉPOCA (quando aplicar) Diagnóstica Diagnosticar Aferir os pré-requisitos para novas descobertas; Constatar di�culdades especí�cas e suas possíveis causas. No início do ano ou semestre letivo, antes de um conteúdo novo e de uma unidade de ensino. Formativa Controlar Veri�car se os objetivos estão sendo alcançados; Conhecer os dados que favoreçam a percepção do processo ensino/aprendizagem. Durante todo o ano letivo, em qualquer momento do processo educativo Somativa Classi�car Classi�car os resultados de aprendizagem obtidos, comparando-os com os objetivos estabelecidos. Ao �nal do ano ou semestre letivo; também ao �nal de uma unidade de ensino. Nós nos apoiamos em Haydt (1997, p. 20-25) para encerrar a temática deste tópico, ressaltando os propósitos da avaliação; ou seja, precisamos avaliar para: conhecer os alunos; determinar se os objetivos previstos para o processo ensino/aprendizagem foram ou não atingidos; aperfeiçoar o processo ensino/aprendizagem; diagnosticar as di�culdades de aprendizagem; promover os alunos. 132 Esperamos que você tenha compreendido que a avaliação não deve ser um instrumento de punição para os alunos indisciplinados, ou ainda unicamente para medir ou examinar os conhecimentos deles. A avaliação deve ser vivenciada no processo, como parte da rotina escolar e para enriquecer as possibilidades de ensinar e aprender. 133 Material Complementar Título: Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à prática educativa Autor: Paulo Freire Editora: Paz e Terra Sinopse: O livro de Paulo Freire é considerado um referencial para educadores, pois se trata de presença obrigatória em praticamente todos os registros e processos para educadores. Aborda aqui o que é necessário para que o educador incorpore em sua prática. LIVRO Título: Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições Autor: Cipriano Carlos Luckesi Editora: Cortez Sinopse: O conteúdo do livro permite refletir sobre as diversas verten- tes da avaliação escolar. Apresenta uma visão crítica sobre a avaliação da aprendizagem escolar e as proposições para que ela seja um fator importante no processo ensino/aprendizagem. Possui uma linguagem clara e envolvente. LIVRO Título: Nenhum a menos Ano: 1998 Sinopse: Um professor de uma escola rural precisa afastar-se por um tempo de seu trabalho, quem irá substituí-lo é uma garota de apenas 13 anos, que recebe como orientação que não deixe que seus alunos abandonem a escola. FILME 134 Título: Extraordinário Ano: 2017 Sinopse: O filme conta a história de um garoto que nasceu com uma deficiência na face e por muito tempo não frequentou a escola. Título: Como Estrelas na Terra – Toda criança é especial Ano: 2007 Sinopse: O filme aborda o preconceito da sociedade na crença de que a educação tem o papel de ensinar por meio da memorização. Também demonstra o sofrimento e a pressão que as crianças experimentam por não se enquadrar no perfil da Pedagogia Tradicional. O protago- nista é uma criança indiana de nove anos de idade que apresentava dificuldade na leitura e escrita, entretanto, tinha muita imaginação e criatividade em áreas que infelizmente não faziam parte do currículo escolar. A situação de exclusão foi eliminada quando um professor enxergou o seu potencial criador e artístico. Título: Escritores da liberdade Ano: 2007 Sinopse: O filme aborda a história de uma professora muito dedicada que busca sucesso no processo ensino/aprendizagem de uma turma de alunos jovens que apresenta problemas de aprendizagem. Ela tenta motivá-los a estudarem e a acreditarem em si mesmos. Tal motivação é fundamental, pois há grandes chances de serem reprovados. FILME FILME FILME 135 O Vídeo “Didática e a formação do professor”, apresenta de forma lú- dica os conceitos de Didática e Pedagogia, revelando o seu objeto de estudo. Ao assistir-lhe você também aprenderá sobre a trajetória da Didática e as tendências pedagógicas. O vídeo está disponível em: <https://youtu.be/yh6OKKaCozU>. Acesse o link a seguir, para ampliar seus estudos sobre Conhecimentos Pedagógicos, o vídeo apresenta de forma simples todos os passos que podem contribuir para a sua construção de conhecimentos como edu- cador. O vídeo está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nMn- XvV3-pI8 Pelo que você estudou até aqui, acredita que afetividade, vínculo e apren- dizagem estão relacionados? O professor e filósofo Mário Sergio Cortella aborda esta temática de maneira clara e evolvente. Assista ao vídeo. Web: <https://youtu.be/7bywstc8YF8>. WEB WEB WEB 136 https://www.youtube.com/watch?v=nMnXvV3-pI8 https://www.youtube.com/watch?v=nMnXvV3-pI8 Conclusão Espero que você tenha aproveitado esta leitura e que ela tenha con- tribuído para sua formação. Nas primeiras aulas de nosso curso, discutimos o lugar da Didática na Pedagogia e sua relevância para a formação do professor. Foi possí- vel perceber que a disciplina não trata apenas de técnicas de ensino, ou de saber ensinar, mas liga teoria e finalidades às técnicas de ensi- no. A Didática tem como princípio e fim a aprendizagem significativa. Aprendemos sobre a trajetória histórica da Didática e como ela vem se consolidando como teoria da prática e para a prática, com vistas à transformação da realidade educacional brasileira. Caminhamos sobre as tendências pedagógicas mais encontradas na educação brasileira, e pudemos perceber que as formas de agir em sala de aula estão completamente ligadas a uma concepção de mun- do e sociedade. É função do professor, posta pela LDB, propor uma educação assentada na solidariedade e na democracia. Pudemos compreender melhor o que são métodos de ensino e como eles podem ser uma ponte entre objetivos e a aprendizagem dos alu- nos. Verificamos que não é possível alcançar tal aprendizagem sem um planejamento reflexivo, teórico-prático, que garanta segurança ao professor, para que este enfrente os desafios de sala de aula com a força necessária vinda de uma reflexão ativa, que leva à ação. Aprender a planejar um plano de aula é ferramenta consolidadora de uma educação voltada à aprendizagem efetiva do aluno, não pauta- da pela casualidade e por achismos. Finalizando nossa disciplina, constatamos que a avaliação formativa é capaz de promover uma melhoria na forma de ensinar do profes- sor e nas aprendizagens dos alunos. Tais re lexões não dão conta sozinhas da complexidade do ato peda-gógico e das relações que se estabelecem em sala de aula. Além das aprendizagens realizadas nas demais disciplinas de seu curso, proponho que você busque sempre aperfeiçoar-se pesquisando em bibliotecas físicas e acervos digitais, assistindo aos filmes recomendados e outros tantos que o uso adequado da internet pode proporcionar. Dialogue sempre com pro issionais da área de educação que já atuam nas áreas pelas quais você se interessa, aproximando os relatos que ouvir das aulas que você está tendo, rea-lizando uma apreciação crítica dos fenômenos embasada pela teoria pedagógica à qual você está tendo acesso. Bons professores se formam quando há uma predisposição à apren-dizagem, à partilha de seu saber e o desejo de ver outras pessoas se desenvolvendo. Seja esse professor. Referências BRASIL. Ministério de Educação. LDB - Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional. Brasília, DF: MEC, 1996. CANDAU, Vera Maria. Rumo a uma nova didática. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2010. ______ (Org.). A didática e a formação de educadores. Da exaltação à negação: a busca da relevância. In: CANDAU, V. M. (Org.). A didática em questão. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 13-24. CASTRO, Amélia Domingues. A Trajetória Histórica da Didática. Centro de Referência em Educação Mario Covas. 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