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Educação bimultilíngue e bimultilinguismo Tipos e Modelos de Educação Bilíngue PASSO VI Educação Bimultilíngue 6.2 6.3 TIPOS E MODELOS DE EDUCAÇÃO BILÍNGUE Objetivos Conhecer modelos aditivos, subtrativos, dinâmicos e recursivos de educação bilíngue. Reconhecer diversas possibilidades de organização curricular para educação bilíngue. Nos dois passos anteriores, tivemos contato com concepções de bilinguismo e de sujeito bilíngue. Essas concepções refletem em muitas das decisões curriculares que são feitas dentro das escolas e estão alinhadas a visões de língua(gem) que podem ser monoglóssicas ou heteroglóssicas. Dessas visões derivam diferentes modelos de educação bilíngue. Vejamos a seguir: ANTERIORMENTE Modelos monoglóssicos de educação bilíngue Uma visão monoglóssica da linguagem “assume que práticas linguísticas legí- timas são apenas aquelas promulgadas por monolíngues” (GARCÍA, 2009, p. 115). Dessa visão de linguagem derivam dois tipos de educação bilíngue: I - Programas que promovem uma educação subtrativa de bilinguismo. Programas subtrativos têm como objetivo promover o aprendizado da língua de prestígio em detrimento da primeira língua. Pode ser representado como L1 + L2 – L1 = L2 (GARCÍA, 2009, p. 116). 6.2 Educação Bimultilíngue 6.3 García (2009) categorizou quatro tipos de programas de educação bilíngue de acordo com essa visão de língua: transição, manutenção, prestígio e imersão. II - Programas que promovem uma educação aditiva de bilinguismo. Os programas aditivos têm como objetivo adicionar outra língua ao repertório dos alunos. Podem ser representados como L1 + L2 = L1 + L2 (GARCÍA, 2009, p. 116). Esses programas trabalham para o desenvolvimento do bilinguismo de acordo com padrões monolíngues, portanto, as duas línguas funcionam de modo compartimentado. Os modelos de transição têm como meta linguística a mudança da língua de uso do falante da L1 para a L2 e visa à assimilação cultural e à incor- poração social. García (2009) explica que esses modelos usam a L1 como veículo de instrução somente até o aluno ser capaz de receber toda a instrução na L2. Portanto, esse modelo de educação bilíngue “apoia e valoriza o monolinguismo e permite o bilinguismo apenas como medida temporária” (GARCÍA, 2009, p. 124). Além disso, Fishman (1976), um crítico dos programas de transição esta- dunidenses, compara esse modelo a uma “vacina” e argumenta que a L1, nessa perspectiva, é considerada uma doença dos pobres nos Estados Unidos. Assim, seu objetivo é “jogar fora a L1 e abraçar todo o vigor e a estabilidade americanos por meio da L2” (FISHMAN, 1976, p. 34). Os modelos de manutenção visa preservar a língua minoritária enquanto os alunos desenvolvem profi- ciência em uma língua dominante. O objetivo cultural desses modelos é fortalecer a cultura local dos alunos, e seu objetivo social é afirmar o direito de ter a língua minoritária na escola. Educação Bimultilíngue 6.4 6.5 Em programas bilíngues de prestígio, os alunos são ensinados por meio de duas línguas de prestígio. García (2009) afirma que, nesses programas, as línguas são claramente separadas pelos professores, seguindo o princípio de uma pessoa – uma língua . Em programas de imersão, os alunos falantes de uma certa L1 recebem toda ou parte da instrução escolar por meio de uma L2. Grosjean (1982) afirma que, em programas de imersão, embora as crianças possam ser primeiramente instruídas em uma segunda língua, a L1 é introduzida no contexto escolar gradativamente, até tornar-se um segundo meio de instrução. Hamers e Blanc (2000) esclarecem que os programas de imersão estão baseados em duas hipóteses. A primeira delas é que a L2 é aprendida de modo equivalente ao aprendizado da L1, e a segunda hipótese é de que a língua é apren- dida de modo mais eficaz em um contexto estimulante, que aprimore as suas funções, expondo as crianças a formas naturais da mesma. Ainda de acordo com Hamers e Blanc (2000), existem três tipos de imersão. O primeiro deles, denominado Imersão Inicial Total, estabelece que toda a instrução dada na educação infantil deve ser realizada na L2, o que acontece também nos primeiros dois anos da educação primária, quando as crianças são alfabeti- zadas nesta L2. A L1 é introduzida gradualmente a partir, aproximada- mente, do terceiro ano primário, até que o tempo destinado à instrução na L2 seja equivalente ao tempo destinado à L1. O segundo tipo de imersão é conhecido como Imersão Inicial Parcial e difere do primeiro tipo 6.4 Educação Bimultilíngue 6.5 Modelos heteroglóssicos de educação bilíngue García (2009) propõe que, no século XXI, os conceitos de bilinguismo aditivo e subtrativo sejam reconside- rados a partir de uma visão heterogló- ssica, que não considera essas línguas como separadas completamente, e, sim, que o sujeito se constitui na imbri- cação de ambas. Nesse sentido, Cummins (1984) propõe o que denominou de Common Underlying Proficiency, como mostra a figura a seguir. porque as duas línguas são utilizadas como meio de instrução desde o início da vida escolar. Nesse tipo de imersão, o uso relativo de ambas as línguas varia de programa para programa. O terceiro tipo é a Imersão Tardia, designada a alunos do Ensino Médio que receberam, até o momento, instrução tradicional na L2. No primeiro ano do Ensino Médio, 85% das aulas são ministradas na L2, e, durante os anos seguintes, o aluno pode escolher e frequentar 40% das aulas ministradas na L2. A ideia é de que as línguas não estão armazenadas separadamente, pelo contrário, as informações de uma inte- ragem com as da outra. L1 L2 Educação Bimultilíngue 6.6 6.7 Com base nisso, García (2009) propõe os conceitos de bilinguismo recursivo e dinâmico. O recursivo, segundo a autora, refere-se a casos em que o bilinguismo é desenvolvido após as práticas linguísticas de uma comuni- dade terem sido suprimidas. Nesses casos, o desenvolvimento da língua materna da comunidade não pode ser considerado uma simples adição que tem início em um ponto mono- língue, uma vez que a língua ancestral continua sendo utilizada em cerimô- nias tradicionais e por alguns membros da comunidade em diferentes graus. De acordo com García (2009), o bilinguismo, nesses casos, é recursivo porque alcança novamente algumas práticas linguísticas ancestrais, enquanto elas são redirecionadas para novas funções e, com isso, ganham ímpeto para serem projetadas no futuro. O bilinguismo dinâmico, por sua vez, refere-se a práticas linguísticas que são múltiplas e se ajustam ao terreno multilíngue e multimodal do ato comunicativo. Esse modelo, segundo García (2009), está relacionado com o modo como o Language Policy Division of the Council of Europe define o conceito de plurilinguismo, como a habilidade “de usar línguas para os propósitos de comunicação e para participar de ações interculturais, nas quais a pessoa, vista como agente social, tem proficiência, em variados graus, em várias línguas e experimenta diversas culturas” (COUNCIL OF EUROPE, 2000, p. 168). García (2009) comple- menta, salientando que o bilinguismo dinâmico se refere aos variados graus de habilidade e usos de múltiplas práticas linguísticas necessárias para se cruzar fronteiras físicas e virtuais. 6.6 Educação Bimultilíngue 6.7 García (2009) argumenta que a progressão dos modelos de bilin- guismo subtrativo e aditivo para os modelos recursivo e dinâmico é ideo- lógica, uma vez que reconhece o valor de discursos heteroglóssicos e de múltiplas vozes. Segundo a autora, práticas e discursos heteroglóssicos não apenas afirmam a inter-relação funcional de práticas bilíngues, mas também quebram o ciclo de poder que sustenta práticas monolíngues como dominantes. Práticas bilínguesou translíngues passam a ser conside- radas a norma, uma vez que falantes começam a ser vistos como sujeitos que ocupam diferentes pontos em um contínuo bilíngue, ao invés de partirem de uma totalidade monolíngue. García (2009) categorizou cinco modelos de educação bilíngue de acordo com a visão de língua hetero- glóssica: revitalização de línguas por imersão, desenvolvimento de línguas, dual language programs, Content and Language Integrated Learning – CLIL e educação multilíngue. Os programas de revitalização de línguas por imersão também são chamados, de acordo com García (2009), de imersões em língua de herança, porque enfatizam não só as línguas, mas também se concentram na incorporação de conhecimentos locais nos currículos da escola. Os programas de desenvolvimento de línguas reconhecem a natureza recur- siva do bilinguismo, a multiplicidade cultural dos falantes e suas diferenças linguísticas (GARCÍA, 2009). Esses programas são indicados para grupos minoritários que estão reafirmando e desenvolvendo suas línguas. Educação Bimultilíngue 6.8 6.9 Os dual language programs, como García (2009) explica, recebem alunos em todos os pontos do contínuo bilíngue. Esses alunos interagem entre si e compar- tilham suas diferenças linguísticas por meio de práticas translíngues. CLIL – Content and Language Integrated Learning significa ensino de língua e conteúdo integrados. De acordo com Coyle, Hood e Marsh, “CLIL é uma abordagem educacional em que uma língua adicional é usada para a apren- dizagem e ensino de conteúdo e língua”(2010, p. 1). CLIL é um termo genérico e, portanto, muitas variações podem ser distinguidas de acordo com o sistema do país ou contexto sociolinguístico e cultural em que a abordagem está sendo utilizada. A educação multilíngue pode envolver pelo menos três línguas. Esses programas são comuns em países em que há mais de uma língua oficial. Vamos agora organizar esses modelos de educação bilíngue, considerando o tipos de bilinguismo almejados? Complete o quadro combinando os modelos de educação bilíngue de acordo com a visão de língua e de bilinguismo adotada. 6.8 Educação Bimultilíngue 6.9 E o que acontece em sua escola? Conte no fórum como as línguas se relacionam (ou não) dentro da organização escolar em que trabalha. Agora, escreva um texto e poste no fórum, analisando teoricamente o modelo de educação bilíngue proposto em sua escola com os conceitos aqui estudados. Qual tipo de bilinguismo é almejado? Qual tipo de educação bilíngue é proposto? Em qual visão de língua o programa está baseado? Justifique suas respostas. Caso você não trabalhe em uma escola bilíngue, visite o website de uma escola bilíngue e escreva seu texto de acordo com as informações provenientes do site. DesenvolvimentoMultilingue Revitalização por imersãoTransição Manutenção Dual language programs CLIL e CLI L-Type Subtrativa Dinâmica Aditiva Prestígio Imersão Recursivo Educação BilingueBilinguismo L1+ L2 - L1 = L 2 L1+ L2 = L1 + L 2 COYLE, D., HOOD, P.; MARSH, D. Content and language integrated learning. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. COUNCIL OF EUROPE. Common European Framework of Reference for Languages; Learning, Teaching, Assessment, Language Policy Division: Strasbourg. 2000. Dispo- nível em: www.coe.int/t/dg4/linguistic/CADRE_EN.asp CUMMINS, J. The role of primary language development in promoting educational success for language minority students. In: SCHOOLING and language minority students: A theoretical framework. Los Angeles: California State University; Evaluation, Dissemination, and Assessment Center, 1984. FISHMAN, J. A. Bilingual education: An international sociological perspective. Rowley, MA: Newbury House, 1976. GARCÍA, O. Bilingual education in the 21st century: A global perspective: Bilingual education for all. United States: Blackwell Publishing, 2009. GROSJEAN. F. Life with two languages: an introduction to bilingualism. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1982. HAMERS, J. F.; BLANC, M. H. A. Bilinguality and bilingualism. 1st ed. Cambridge, UK: Cambridge University Press. 2000. REFERÊNCIAS Professora: Antonieta Megale Design: Mirela Martins