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A CANÇÃO DE CÂMARA
BRASILEIRA E SEUS
INTÉRPRETES
Mauro Chantal
Luciana Monteiro de Castro
(Organizadores)
Minas de Som
ANAIS DO
VI SEMINÁRIO DA CANÇÃO BRASILEIRA
DA ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG
A CANÇÃO DE CÂMARA BRASILEIRA E SEUS
INTÉRPRETES
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
REITOR: Profª. Sandra Regina Goulart Almeida
VICE-REITOR: Prof. Alessandro Fernandes Moreira
PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO: Profª. Claudia Andrea Mayorga Borges
PRÓ-REITOR DE PÓS-GRADUAÇÃO: Prof. Fábio Alves da Silva Júnior
PRÓ-REITORA DE PESQUISA: Prof. Mário Fernando Montenegro Campos
DIRETORIA DE AÇÃO CULTURAL: Prof. Fernando Mencarelli
DIRETOR DA ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG: Prof. Renato Tocantins Sampaio
DIRETOR DO CONSERVATÓRIO UFMG: Prof. Fernando Rocha
COORDENADORES DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA: Prof.
Flávio Terrigno Barbeitas e Profª. Luciana Monteiro de Castro.
SELO MINAS DE SOM
COORDENADORA: Luciana Monteiro de Castro
CONSELHO EDITORIAL: Carlos Aleixo dos Reis
Fausto Borém de Oliveira
Flavio Terrigno Barbeitas
Luciana Monteiro de Castro
Margarida Maria Borghoff
Mauro Camilo de Chantal Santos
Mônica Pedrosa de Paula
5
ANAIS DO
VI SEMINÁRIO DA CANÇÃO BRASILEIRA
DA ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG
A CANÇÃO DE CÂMARA BRASILEIRA E SEUS
INTÉRPRETES
Mauro Camilo de Chantal Santos
Luciana Monteiro de Castro
(Organizadores)
Escola de Música da UFMG
Belo Horizonte
2020
6
VI SEMINÁRIO DA CANÇÃO BRASILEIRA DA ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG
COMISSÃO ORGANIZADORA: Mauro Camilo de Chantal Santos (UFMG)
Luciana Monteiro de Castro (UFMG)
Mônica Pedrosa de Pádua (UFMG)
Patrícia Valadão (UFMG)
Fábio Janhan (UFMG)
Andréa Peliccioni (Doutoranda-UFMG)
Melina Peixoto (Doutoranda-UFMG)
Elias Magalhães (Graduando-UFMG)
COMISSÃO CIENTÍFICA: PRESIDENTE � Mauro Camilo de Chantal Santos (UFMG)
Luciana Monteiro de Castro (UFMG)
Mônica Pedrosa (UFMG)
Patrícia Valadão (UFMG)
Adriana Kayama (UNICAMP)
Aline Araújo (UFS)
Angelo José Fernandes (UNICAMP)
Cristine Guse (UFPEL)
Flávio Carvalho (UFU)
Juliana Melleiro Rheinboldt (UERN)
Juliana Starling (UNESP)
Lenine Santos (UFRJ)
Marcus Medeiros (UFJF)
Marília Alvares (UFG)
Sérgio Anders (UFAM)
ANAIS DO VI SEMINÁRIO DA CANÇÃO BRASILEIRA DA ESCOLA DE MÚSICA DA
UFMG
ORGANIZADORES: Mauro Camilo de Chantal Santos
Luciana Monteiro de Castro
CRIAÇÃO: CEDECOM UFMG
DIAGRAMAÇÃO: Mauro Camilo de Chantal Santos
Luciana Monteiro de Castro
REVISÃO: Angelo José Fernandes
Luciana Monteiro de Castro
Mauro Camilo de Chantal Santos
7
SUMÁRIO
01 Apresentação: A CANÇÃO DE CÂMARA BRASILEIRA E SEUS
INTÉRPRETES...................................................................................................10
02 Primeiras palavras pelo Dr. Antônio Alexandre Bispo - Maura Moreira: o canto
e a imagem do Brasil na Musicologia � um esboço evocativo............................18
03 O vocalise na obra vocal de Francisco Mignone: um estudo analítico-
interpretativo de sua canção Valsa-vocalise � Patrícia Cardoso Chaves
Pereira..................................................................................................................31
04 As canções de câmara para voz aguda e piano de Carlos Alberto Pinto Fonseca
(1933-2006): aspectos históricos e composicionais � Raíssa Amaral.................47
05 12!Poemas!da!Negra: ciclo de canções para canto e piano de Camargo Guarnieri
com poemas de Mário de Andrade � Rafaela Haddad........................................60
06 Nigue-nigue-ninhas: um acalanto para Vera � Celina Delmonaco.....................69
07 As relações texto-música em Jardim!do!amor!e!da!paixão de Almeida Prado e
José Aristodemo Pinotti � Leandro Cavini..........................................................83
08 A Romanza na canção brasileira de câmara: a contribuição de Luiz Melgaço para
esse gênero � Joice Coutinho...............................................................................96
09 Dados sobre a trajetória da cantora Lia Salgado e sua atuação na divulgação da
canção brasileira de câmara � Raquel Brecht....................................................110
10 Junturas de palavras no português brasileiro cantado, a transitoriedade no
encontro de dois sistemas � Juliana Starling.....................................................123
11 As! relações! texto-música! e! a! construção! da! performance! de! Teu! nome, de
Almeida Prado � Isabela Siscari........................................................................133
12 O diálogo entre o timbre e a relação música-texto na construção da Performance
da canção Belo!belo de Almeida Prado � Rose Dália Carlos............................148
13 Edmundo Villani-Côrtes (1930) e sua composição para canto e piano - Papagaio!
azul: breve biografia e análise da obra � Andréa Peliccioni..............................164
14 A inteligibilidade da canção de câmera em vernáculo sob a ótica de não músicos
- um estudo piloto � Cristina Gusmão...............................................................180
!
15 Prece! de!Caboclo de Raul Marinuzzi com arranjo de Pedro de Castro: dados
históricos, descrição e edição de performance da partitura - Suely Lauar........188
8
16 Aspectos históricos e composicionais de três canções para mezzo-soprano e
piano de Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933-2006) � Sarah Migliori.............203
17 Tributo à Pátria � canção que compõe o álbum Les! nuits! brésiliennes do
compositor José Amat � Poliana Alves.............................................................215
!
18 Folhas! ao! vento de Maria Helena Buzelin (1931 � 2005): dados sobre sua
estrutura musical e sobre seu texto poético � Urbano Peres de Lima...............223
19 Pedagogia do canto em português brasileiro: considerações sobre as diversas
influências estéticas e tecnológicas na interpretação da canção de câmara
brasileira e na construção de uma estética vocal nacional � Rosana Lamosa...237
!
20 Um! Homem! Morreu...: Uma Análise Interpretativa da Canção de Realejo de
Arthur Bosmans � Lígia Ishitani.......................................................................249
21 Maria Lúcia Godoy e sua contribuição para a canção brasileira de câmara �
Penha Vasconcelos............................................................................................261
22 Personas na canção O! Pato (1993) de Ernst Mahle � Eliana
Asano.................................................................................................................275
23 Radamés Gnattali e o ciclo de canções Três!Poemas!de!Augusto!Meyer � Luísa
Vogt...................................................................................................................286
!
24 Mistério! do!Mundo de Denise Garcia e Fernando Pessoa: aspectos poéticos e
composicionais para a construção da performance � Leandro Cavini..............302
25 Relações texto-música na canção Oxalá (Ponto cantado de Umbanda) de Carlos
Alberto Pinto Fonseca (1933-2006) � Heitor Coelho........................................316
26 EuniceKatunda (1915-1990) e sua canção para canto e piano Incelença! dos!
Cravos!e!Rosas � Melina Peixoto......................................................................332
27 O dodecafonismo na canção Madrigal de Frederico Richter: Uma abordagem
interpretativa � Caroline Peres..........................................................................347
28 Luiz Melgaço (1903-1983) e sua Noite!em!surdina: dados sobre o compositor,
descrição e editoração da partitura � Elias Magalhães......................................362
!
29 As!sem!razões!do!amor: canção de Carlos Alberto Pinto Fonseca sobre poema de
Carlos Drummond de Andrade � Sérgio Anders...............................................379
30 Vera Janacópulos e a canção de câmara brasileira: considerações sobre a
presença desse gênero em recitais � Rosana Lamosa........................................394
31 Desenvolvendo aspectos da performance da canção de câmara brasileira:
reflexões sobre a presença cênica no recital de canções � Cristine Bello
Guse...................................................................................................................405
9
32 O acervo de Hermelindo Castelo Branco e suas coleções de harmonizações para
canto e piano: novo universo de repertório descortinado � Lenine
Santos.................................................................................................................422
33 As canções de câmara de Carlos Alberto Pinto Fonseca: aspectos históricos e
características composicionais � Angelo José Fernandes..................................443
34 Últimas palavras pela Dra. Patricia Caicedo � A canção de câmara brasileira no
Barcelona!Festival!of!Song................................................................................467
10
Apresentação
Criado em 2003, o Diretório de pesquisa Resgate da Canção Brasileira, da Universidade
Federal de Minas Gerais vem promovendo estratégias de estudo e difusão deste gênero
musical, atuando na pesquisa, na elaboração bibliográfica e na organização de eventos
voltados para a canção de câmara brasileira. Como resultado dos trabalhos realizados,
realizaram-se diversas publicações, em diferentes formatos, como livros, cadernos
musicais, CDs e, ainda, eventos como os Seminários da Canção Brasileira da Escola de
Música da UFMG.
Com o reconhecimento crescente destes Seminários da Canção Brasileira da Escola de
Música da UFMG - os SCBUFMG -, atingimos em sua sexta edição um público
internacional, contando com comunicações de pesquisa, palestras, mesas-redondas,
depoimentos e recitais. Ao todo, foram quatro dias de atividades diárias somando cerca
de 12 horas de atividades a cada dia.
O Seminário denominado �A CANÇÃO DE CÂMARA BRASILEIRA E SEUS
INTÉRPRETES�, título desta sexta edição, trouxe inúmeras informações aos seus
participantes, sobretudo por meio da divulgação de trabalhos acadêmicos relacionados à
atuação do intérprete da canção de câmara brasileira, de dados sobre o português
brasileiro cantado, de análises e edições de obras inéditas ou resgatadas, resultando em
uma nova percepção da produção e da qualidade artística desse gênero, para alunos,
profissionais da música e público que nos acompanhou.
Distantes dos palcos e consequentemente do público, dezenas de artistas apresentaram-
se em recitais transmitidos pela rede, por meio de gravações audiovisuais que integram
hoje o acervo de vídeos disponíveis no canal do VI Seminário da Canção Brasileira da
Escola de Música da UFMG. A íntegra da programação do Seminário está disponível
em: https://www.youtube.com/channel/UC0IKtxeEF3BYSZGdXGzRKEg/videos
Cerceados em nossa antiga rotina de ir e vir, devido às imposições da atual crise
sanitária mundial causa pela COVID-19, contamos com um alcance amplo, permitido
pela internet, por meio de plataformas de transmissão e arquivamento de toda a
programação do VI SCBUFMG. Entre professores, pesquisadores, alunos e ouvintes,
ficou impressa a realidade da canção de câmara brasileira, campo inesgotável de
pesquisa, envolvendo performance, edição, musicologia, arquivologia, criação, dentre
outros estudos que confirmam a dimensão e representatividade desse gênero em nossa
sociedade.
Tristes por seu falecimento, mas agradecidos por poder prestar-lhe homenagem, os
coordenadores desta edição registraram com carinho o nome de Eladio Pérez-Gonzáles
(1926-2020), inesquecível professor e intérprete da canção de câmara brasileira, como
homenageado no evento. Sua atuação, ao longo de décadas, privilegiou a canção de seu
11
tempo, além de encaminhar diversos artistas que hoje atuam com o mesmo senso ético e
profissional que lhe era tão peculiar.
Contamos com a generosa presença da Professora Edmar Ferretti, nossa Convidada de
Honra, que nos brindou com memórias de sua vida musical (e também generosos
conselhos).
Lançamos nesta edição a versão on-line do livro Canções!de!Carmen!Vasconcellos!para!
canto! e! piano, reedição formato virtual do volume nove da série Cadernos Musicais
Brasileiros, editado pelo Selo Minas de Som, Programa de Extensão criado pela
Professora Luciana Monteiro de Castro e vinculado ao Programa de Pós-Graduação da
Escola de Música da UFMG. Este volume pode ser acessado por meio do endereço:
https://musica.ufmg.br/selominasdesom/?page_id=22
Nas próximas páginas, o leitor terá acesso aos textos de artigos e palestras apresentados
durante o Seminário. Antes, porém, contamos também com as pródigas palavras do
eminente Dr. Alexandre Bispo, que gentilmente contribuiu com o VI SCB ao nos enviar
um relato sobre uma das mais significativas intérpretes da canção brasileira de câmara
no século XX, a contralto mineira Maura Moreira (1933). São, portanto, as palavras do
Professor Alexandre Bispo que dão início ao conjunto de informações que integram este
volume sobre a história de nossa canção de câmara no passado e no presente.
Por fim, registramos nossos sinceros agradecimentos à diretoria da Escola de Música da
UFMG, do Conservatório UFMG e à coordenação do Programa de Pós-Graduação da
Escola de Música da UFMG, cujos significativos apoios contribuíram sobremaneira
para a realização do VI Seminário da Canção Brasileira da Escola de Música da UFMG.
Sabará, 18 de fevereiro de 2021.
12
PROGRAMAÇÃO DO VI SEMINÁRIO DA CANÇÃO BRASILEIRA DA
EMUFMG�14, 15, 16 E 17 DE DEZEMBRO DE 2020
14 de dezembro de 2020 � segunda-feira
09:00 às 09:05 � Abertura - Profª. Luciana Monteiro
09:05 às 09:35 � Depoimento: Profª. Edmar Ferretti, convidada de honra
09:40 às 12:00 � Sessão de comunicação de pesquisa I
09:40 às 10:00 - O vocalise na obra vocal de Francisco Mignone: um estudo analítico-interpretativo de sua
canção Valsa-vocalise � Patrícia Cardoso;
10:00 às 10:20 - As canções de câmara para voz aguda e piano de Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933-2006):
aspectos históricos e composicionais � Raíssa Amaral;
10:20 às 10:40 - 12!Poemas!da!Negra: ciclo de canções para canto e piano de Camargo Guarnieri com poemas
de Mário de Andrade � Rafaela Haddad;
10:40 às 11:00 - Nigue-nigue-ninhas: um acalanto para Vera � Celina Delmonaco;
11:00 às 11:20 - As relações texto-música em Jardim! do! amor! e! da! paixão de Almeida Prado e José
Aristodemo Pinotti � Leandro Cavini;
11:20 às 11:40 - A Romanza na canção brasileira de câmara: a contribuição de Luiz Melgaço para esse gênero
� Joice Coutinho;
11:40 às 12:00 - Dados sobre a trajetória da cantora Lia Salgado e sua atuação na divulgação da canção
brasileira de câmara � Raquel Brecht.
12:00 às 14:00h � Intervalo de Almoço
14:00 às 15:00. � Mesa redonda I: �A canção de câmara brasileira anterior ao Modernismo�-
Marcus Medeiros (UFJF)/Moderador, Aline Araújo(UFS), Angelo José Fernandes
(UNICAMP), Cristine Guse (UFPel), Mauro Chantal (UFMG), Luciana Monteiro,
(UFMG) e Poliana Alves (UFU).
15:00 às 15:30h � Intervalo
15:30 às 16:30 � Palestra I: �Processos tradutórios e intermidiáticos na interpretação da canção de câmara� �
Profª. Dra. Mônica Pedrosa (UFMG).
Recitais de professores
16:30 às 16:50 � Mini-recital I: �A contribuição de Vera Janacópulos para a difusão da
canção de câmara brasileira� � Rosana Lamosa e Lucas Albuquerque;
16:50 às 17:10 � Mini-recital II: �Canto da Terra: tributo a Villa-Lobos� � Rosana Orsini e Marco
Brescia;
17:10 às 17:30 � Mini-recital III: �RECORDAS ELA� � Juliana Starling e Soledad Yaya;
17:30 às 17:50 � Mini-recital IV: ��Acalantos do Folclore Brasileiro� de Aloysio de Alencar
Pinto� � Luane Voigan e Marcus Medeiros.
13
17:50 às 18:20h � Intervalo
18:20 às 19:20 � Palestra II: �JUNTURAS DE PALAVRAS NO PB CANTADO � � Profª. Dra. Juliana
Starling (UNESP).
Recitais de alunos
19:20 às 19:40 � Mini-recital V: �A saudade, o amor e a dor na canção de câmara brasileira�-
Raquel Brecht (mestranda pela UFMG) e Mauro Chantal;
19:40 às 20:00 � Mini-recital VI: �Jardim do amor e da paixão�- Leandro Cavini (mestrando
pela UNICAMP) e Isabela Siscari;
20:00 às 20:20 � Mini-recital VII: �Canções de Babi de Oliveira e Eunice Katunda: amor e
solidão em música�- Melina Peixoto (doutoranda pela UFMG) e Mauro
Chantal.
20:20 às 21:20 � Palestra III: �O canto na Era de ouro do rádio� � Prof. Dr. Angelo Dias (UFG).
Fim das atividades do dia.
15 de dezembro de 2020 � terça-feira
09:00 às 09:30 � Lançamento do livro Canções!de!Carmen!Vasconcellos!para!canto!e!piano!pelo!!Selo Minas
de Som da Escola de Música da UFMG, com apoio do Programa de Pós-Graduação em Música/UFMG.
Palavras da Profª. Luciana Monteiro. !
09:40 às 12:00 � Sessão de comunicação de pesquisa II
09:40 às 10:00 - Junturas de palavras no português brasileiro cantado, a transitoriedade no encontro de dois
sistemas � Juliana Starling;
10:00 às 10:20 - As relações texto-música e a construção da performance de Teu!nome, de Almeida Prado �
Isabela Siscari;
10:20 às 10:40 - O diálogo entre o timbre e a relação música-texto na construção da Performance da canção
Belo!belo de Almeida Prado � Rose Dália Carlos;
10:40 às 11:00 - Edmundo Villani-Côrtes (1930) e sua composição para canto e piano - Papagaio!azul breve
biografia e análise da obra � Andréa Peliccioni;
11:00 às 11:20 - A inteligibilidade da canção de câmera em vernáculo sob a ótica de não músicos - um estudo
piloto � Cristina Gusmão;
11:20 às 11:40 - Prece! de! Caboclo de Raul Marinuzzi com arranjo de Pedro de Castro: dados históricos,
descrição e edição de performance da partitura - Suely Lauar;
11:40 às 12:00 - Aspectos históricos e composicionais de três canções para mezzo-soprano e piano de Carlos
Alberto Pinto Fonseca (1933-2006) � Sarah Migliori.
12:00 às 14:00h � Intervalo de Almoço
14:00 às 15:00 � Mesa redonda II: �A canção de câmara brasileira no século XX� � Flávio
Carvalho(UFU)/Moderador, Angelo Dias (UFG), Elenis Guimarães (UFSJ), Juliana
Starling (UNESP), Mônica Pedrosa (UFMG), Patrícia Cardoso Chaves (UFOP) e Sérgio
Anders (UFAM).
15:00 às 15:30h � Intervalo
15:30 às 16:30 � Palestra IV: �Vera Janacópulos e a canção de câmara brasileira: considerações
sobre a presença desse gênero em recitais� � Profª. Dra. Rosana Lamosa.
14
Recitais de professores
16:30 às 16:50 � Mini-recital VIII: �Canções de Carmen Vasconcellos� � Luciana Monteiro
e Mauro Chantal;
16:50 às 17:10 � Mini-recital IX: �Ausências e Anseios� � Cristine Guze e Igor Baggio;
17:10 às 17:30 � Mini-recital X: �Canções para lembrar: uma homenagem aos 90 anos de
Villani-Côrtes� � Andréa Peliccioni e Patricia Valadão;
17:30 às 17:50 � Mini-recital XI: �Francisco Mignone: canções para canto e violão� � Mônica
Pedrosa e Fernando Araújo.
17:50 às 18:20h � Intervalo
18:20 às 19:20 � Palestra V: �Helza Cameu: uma vida em canções� � Profª. Dra. Luciana Monteiro.
Recitais de alunos
19:20 às 19:40 � Mini-recital XII: �Canções de Radamés Gnattali�- Luísa Vogt (Doutoranda
pela UFMG) e Thiago de Freitas;
19:40 às 20:00 � Mini-recital XIII: �A Canção de Câmara no Rio Grande do Sul na segunda
metade do século XX! - Caroline Peres (Mestranda pela UFMG) e Hélco Vaz;
20:00 às 20:20 � Mini-recital XIV: �Canções de Ernst Mahle�- Raíssa Amaral (Doutoranda
pela UNICAMP) e Eliana Asano;
20:20 às 21:20 � Palestra VI: �Maria Sylvia Pinto: intérprete, pesquisadora e divulgadora
da canção de câmara brasileira� � Prof. Dr. Marcus Medeiros.
Fim das atividades do dia.
16 de dezembro de 2020 � quarta-feira
09:00 às 09:30 � Depoimento sobre a Canção de Câmara Brasileira pela professora Dra. Patricia Caicedo,
especialista em canções de câmera ibéricas e da América latina. !
09:40 às 12:00 � Sessão de comunicação de pesquisa III
09:40 às 10:00 - Tributo!à!Pátria � canção que compõe o álbum Les!nuits!brésiliennes do compositor José
Amat � Poliana Alves;
10:00 às 10:20 - Folhas!ao!vento de Maria Helena Buzelin (1931 � 2005): dados sobre sua estrutura musical e
sobre seu texto poético � Urbano Peres de Lima;
10:20 às 10:40 - Pedagogia do canto em português brasileiro: considerações sobre as diversas influências
estéticas e tecnológicas na interpretação da canção de câmara brasileira e na construção de uma estética vocal
nacional � Rosana Lamosa.
10:40 às 11:00 - Um!Homem!Morreu...: Uma Análise Interpretativa da Canção de Realejo de Arthur Bosmans
� Lígia Ishitani;
11:00 às 11:20 - Maria Lúcia Godoy e sua contribuição para a canção brasileira de câmara � Penha
Vasconcelos;
11:20 às 11:40 - Personas na canção O!Pato, de Ernst Mahle � Eliana Asano;
11:40 às 12:00 - Radamés Gnattali e o ciclo de canções Três!Poemas!de!Augusto!Meyer � Luísa Vogt.
15
12:00 às 14:00h � Intervalo de Almoço
14:00 às 15:00 � Mesa redonda III: � Canção de Câmara Brasileira no Séc. XXI� - Angelo José Fernandes
(UNICAMP)/Moderador, Andréa Peliccioni (UEMG), Daiana Melo (UEMG), Diego
Almeida (UEMG), Flávio Carvalho (UFU) e Lenine Santos (UFRJ).
15:00 às 15:30h � Intervalo
15:30 às 16:30 � Palestra VII: �Maria Lúcia Godoy e a canção brasileira de câmara� � Prof.
Dr. Mauro Chantal.
Recitais de professores
16:30 às 16:50 � Mini-recital XV: �A Inspiração Afro na Canção Brasileira de Câmara� �
Poliana Alves e Thiago de Freitas;
16:50 às 17:10 � Mini-recital XVI: �Álbum para canto e piano do compositor Hostílio
Soares� � Patrícia Cardoso Chaves e Patrícia Valadão;
17:10 às 17:30 � Mini-recital XVII: �O soprano na Canção de Câmara Brasileira� � Daiana
Melo e Wagner Sander;
17:30 às 17:50 � Mini-recital XVIII: �Modinhas Imperiais e Canções Folclóricas� � DiegoAlmeida e Wagner Sander.
17:50 às 18:20h � Intervalo
18:20 às 19:20 � Palestra VIII: �Aldo Baldin Brasileiro� � Prof. Dr. Lenine Santos.
Recitais de alunos
19:20 às 19:40 � Mini-recital XIX: �A metáfora do amor na canção brasileira moderna e
pós-moderna�- Rosedália Carlos (Doutoranda pela UNICAMP) e Marina
Machado;
19:40 às 20:00 � Mini-recital XX: �Canções de câmara de Carlos Alberto Pinto Fonseca�- Sarah
Migliori (Mestranda pela UNICAMP) e André Alves;
20:00 às 20:20 � Mini-recital XXI: �Canto In Câmera�- Cristina Gusmão (Doutoranda pela
UFMG) e Mauro Chantal;
20:20 às 21:20 � Palestra IX: �A Canção de Câmara brasileira e seus intérpretes presentes
na crítica musical de Dinorá de Carvalho em periódicos brasileiros� � Prof.
Dr. Flávio Carvalho.
Fim das atividades do dia.
17 de dezembro de 2020 � quinta-feira
09:00 às 09:30 � Acervo de Partituras Hermelindo Castelo Branco � Segundo Grupo (1922-
1996). Palavras do Prof. Lenine Santos.
09:40 às 12:00 � Sessão de comunicação de pesquisa IV
09:40 às 10:00 - O!Mistério!do!Mundo de Denise Garcia e Fernando Pessoa: aspectos poéticos e composicionais
para a construção da performance � Leandro Cavini;
10:00 às 10:20 - Relações texto-música na canção Oxalá (Ponto cantado de Umbanda) de Carlos Alberto
Pinto Fonseca (1933-2006) � Heitor Coelho;
16
10:20 às 10:40 - Eunice Katunda (1915-1990) e sua canção para canto e piano Incelença!dos!Cravos!e!Rosas!�
Melina Peixoto;
10:40 às 11:00 - O dodecafonismo na canção Madrigal de Frederico Richter: Uma abordagem interpretativa �
Caroline Peres;
11:00 às 11:20 - Luiz Melgaço (1903-1983) e sua Noite! em! surdina: dados sobre o compositor, descrição e
editoração da partitura � Elias Magalhães;
11:20 às 11:40 - As! sem! razões! do! amor: canção de Carlos Alberto Pinto Fonseca sobre poema de Carlos
Drummond de Andrade � Sérgio Anders.
12:00 às 14:00h � Intervalo de Almoço
14:00 às 15:00 � Mesa redondaIV: �A contribuição do intérprete na história da Canção de Câmara Brasileira�
� Lenine Santos (UFRJ)/Moderador, Edmar Ferreti (Convidada de honra), Angelo Dias
(UFG), Angelo José Fernandes (UNICAMP), Cristine Guse (UFPel), Flávio Carvalho
(UFU), Juliana Starling (UNESP), Luciana Monteiro (UFMG), Marcus Medeiros
(UFJF), Mauro Chantal (UFMG), Mônica Pedrosa (UFMG), Poliana Alves (UFU) e
Rosana Lamosa (UNESP).
15:00 às 15:30h � Intervalo
15:30 às 16:30 � Palestra X: �As canções de câmara de Carlos Alberto Pinto Fonseca: aspectos
históricos e características composicionais� � Prof. Dr. Angelo José Fernandes.
Recitais de professores
16:30 às 16:50 � Mini-recital XXII: �Toadas!de!Macumba de Ernani Braga� � Celina Delmonaco e
Mauro Chantal;
16:50 às 17:10 � Mini-recital XXIII: �Canções de Alberto Nepomuceno� � Aline Araújo e
Priscila Gambary;
17:10 às 17:30 � Mini-recital XXIV: �O amor na canção brasileira de câmara - Penha Vasconcelos e Wagner
Sander;
17:30 às 17:50 � Mini-recital XXV: �Alma seresteira� � Angelo José Fernandes e Mauro
Chantal.
17:50 às 18:20h � Intervalo
18:20 às 19:20 � Palestra XI: �Desenvolvendo aspectos da performance da canção de câmara brasileira� �
Profª. Dra. Cristine Guse.
Recitais de ex-alunos
19:20 às 19:40 � Mini-recital XXVI: �Canções de Arthur Bosmans�- Lígia Ishitani e Mauro
Chantal;
19:40 às 20:00 � Mini-recital XXVII: �Saudade da minha terra�- Matheus Pompeu e José Ramón Martín;
20:00 às 20:20 � Mini-recital XXVIII: �Canções de amor de Cláudio Santoro�- Rebeca
Oliveira e Isabela Siscari.
Fim das atividades do VI Seminário da Canção Brasileira.
17
O VI SEMINÁRIO DA CANÇÃO BRASILEIRA DA ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG homenageia o
professor e cantor Eladio Pérez-González, falecido em 2020. A ele, artista sensível e incansável defensor da
canção de câmara brasileira, nosso maior agradecimento.
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Primeiras palavras
!
Maura Moreira: o canto e a imagem do Brasil na Musicologia � um esboço
evocativo
!
Pelo!Dr.!Antônio!Alexandre!Bispo!
a.bispo@ismps.de!
Maura Moreira, pelas suas qualidades artísticas e humanas, pelas suas realizações
na vida musical e, sobretudo, pelo papel que desempenhou na representação do Brasil no
Exterior mereceria estudos que considerassem de forma documentada a sua trajetória de vida.
Maura Moreira foi durante décadas a cantora brasileira por excelência sob muitos aspectos na
vida musical europeia, foi a representação lírica do Brasil na Europa Central e a voz da
comunidade brasileira na Alemanha, sobretudo a da cidade de Colônia.
Ela não só foi cantora de excepcionais qualidades, mas imagem e presença. O seu
canto não serviu apenas à realização sonora de grandes obras da literatura musical europeia ou
à difusão de composições de autores brasileiros, mas ao mover de afetos nos ouvintes que a
contemplavam e que, emocional e cognitivamente visualizavam uma imagem do Brasil: de
um Brasil lírico, cantante nas suas vibrações íntimas, sensível, aberto, portador de mensagens
e valores humanos universais. Maura Moreira foi nesse sentido uma diplomata cultural e
evocá-la nessa sua exemplaridade representa não só uma tarefa à pesquisa, mas uma
imposição de consciência na procura de orientação em presente no qual a imagem do Brasil
encontra-se tragicamente danificada, tão negativa como nunca esteve na sua história.
O intento de considerar Maura Moreira na sua trajetória de vida a partir de fontes
históricas ainda não pode ser realizado. Ela teve o cuidado de preservar programas, críticas,
cartas, comentários em recortes de jornais e fotografias que constituem um acervo valioso
para o estudo de suas atuações e mesmo da história da vida musical da segunda metade do
século XX. Ela, porém, reteve para si essa documentação. Modesta, ganhou uma convicção
desilusionada da vanidade de aspirações no meio artístico perante a gravidade das condições
sociais e das necessidades do homem no Brasil e em outros países. Em anos que, terminada a
sua carreira na Ópera de Colônia, passou a dedicar todo o tempo e todas as forças a obras
caritativas através da sua organização Humanitas, passou a ver esses testemunhos da sua vida
artística como lembranças de esforços fátuos, de momentos de brilho transitório na existência,
sem maior sentido e significado duradouro. Essa atitude que dá testemunho das altas
qualidades humanas, e do caráter de Maura Moreira, coloca, porém, dificuldades para a
consideração de sua vida e de suas atuações, que de forma alguma podem ser vistas como vãs.
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Somente a localização do paradeiro desse acervo possibilitará uma reconstrução
pormenorizada de sua biografia e estudos de contextos e processos em que se inseriu.
Há, porém, outros caminhos para estudos de Maura Moreira. Se ela ainda não
pode ser objeto de pesquisa a partir de fontes documentais, ela pode ser considerada na sua
participação atuante não só na vida musical europeia como em reflexões musicológicas das
últimas décadas. Neste sentido, ela não é objeto, mas coagente no desenvolvimentodo
pensamento e de perspectivas no debate referente ao canto e à canção numa musicologia de
orientação científico-cultural inserida em determinada tradição de pensamento e iniciativas.
Esse seu papel levou a que fosse homenageada em preito de gratidão na sessão de
abertura do Congresso Internacional Música e Visões em 1999, realizado pela Deutsche Welle
e pelo Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS) às
vésperas das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Essa foi a última
ocasião de sua presença física em evento iniciado por instituição da qual foi cofundadora em
1985. Como o tema Música e Visões traz à consciência, a consideração de Maura Moreira diz
respeito ao sonoro e ao visual, a concepções visualizadoras condutoras de desenvolvimentos.
Estes são produtos de processos, mas determinam por sua vez visões do passado e do vir-a-
ser. Levam a criações de autoimagens identificadoras e determinam a imagem do Brasil no
Exterior. São visualizações e imagens em contínuas transformações, uma vez que se inserem
em processos.
A sua personalidade e sua obra foram consideradas a seguir em seminários da
Universidade de Bonn voltados a Gender e Cultural studies em 2003 e 2004 por
representarem um extraordinário exemplo de mulher na história mais recente da vida musical.
Ela se insere no rol das muitas mulheres que desempenharam papel relevante pelas suas
atuações e criações musicais, mas que foram silenciadas por grande tempo em estudos
histórico-musicais e que apenas gradualmente vão sendo reconhecidas. Também a história das
ciências é marcada por mulheres que não se restringiram ao espaço doméstico, ao local e
regional, mas que realizaram grandes viagens pelo mundo, enfrentando dificuldades de todo o
tipo, dando testemunho de extraordinária coragem, auto decisão e emancipação. Também os
seus relatos de viagens vêm recebendo cada vez mais atenção na pesquisa da história dos
conhecimentos, da etnografia e das relações internacionais. Uma consideração mais atenta de
Maura Moreira é sob estes e outros aspectos de relevante e atual significado.
Uma personalidade como Maura Moreira, que vivenciou a experiência da saída do
Brasil e de sua fixação na Europa, a mudança de contextos socioculturais e de língua, de Belo
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Horizonte e do Rio de Janeiro a Viena, Innsbruck, Ulm e Colônia, pode ser considerada sob a
perspectiva dos estudos de mobilidades e processos migratórios, e estes são estreitamente
vinculados com questões de identidade, de integração, assimilação, diferenciação e imagem.
Em caminho inverso àquele dos muitos migrantes que marcaram a formação populacional do
Brasil, tem-se em Maura Moreira não a situação do europeu que se transfere às Américas, mas
a do brasileiro que se desloca e passa a viver na Europa.
Como muitos outros, Maura Moreira experimentou existencialmente situações de
instabilidade, de ambivalências, de transformações em modos de sentir e ver, de interações de
visões, de diferentes olhares do próprio país natal e dos países que a receberam. Ela vivenciou
necessariamente perspectivações que relativizam modos de ver e de sentir. Também Maura
Moreira experimentou as tensões entre impulsos à integração e aqueles de afirmação das
próprias diferenças daquele que passa a viver num Estrangeiro que deixa gradualmente de ser
estranho. Também em Maura Moreira pode-se constatar alternâncias e dicotomias, a
aspirações e inserções das mais contrastantes, de proximidades a meios altamente marcados
por germanismo àqueles imbuídos de nostalgia e a sentimentos de lealdade para com a pátria:
situações dúbias, que possuem momentos conflitantes do ponto de vista emocional e de
consciência.
Assim como todo aquele que se desloca ao Estrangeiro, Maura Moreira vivenciou
sentimentos e modos de ver complexos e contraditórios nas suas interações e um deles é
aquele que leva idealizações do país natal. Essas idealizações explicam a frequência de
celebrações de aspectos caracterizadores do país de origem em muitos círculos de migrantes,
do passar a ver o próprio país segundo olhares daqueles que, de fora, procuram o diferente e o
exótico. Também aqui se constatam complexas interações entre anelos de autoafirmação
diferenciadora ou de saudosismo com visões assimiladas do novo meio. São processos
mentais e psíquicos que exigem análises. Eles se manifestam na estranha intensidade de
interesses de migrantes por raízes, por tradições, pelo folclore e tornam compreensíveis a
proximidade de muitos a tendências políticas do mais alto conservadorismo, tanto
relativamente ao país de origem como do receptor.
Esse fenômeno à primeira vista paradoxal pode ser constatado em círculos de
imigrantes no Brasil, como nas regiões alemãs do Sul, como em círculos de migrantes na
Europa, sejam eles turcos, portugueses, ou de outra nacionalidade, seja na França, na
Alemanha ou em outros países. Brasileiros que nunca se interessaram por futebol ou samba
no Brasil passam, na Alemanha, a ser ardentes torcedores, a tomar parte em escolas de samba
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ou em maracatus. Talvez essas observações possam contribuir às aproximações a Maura
Moreira, uma vez que a sua vida e carreira são marcadas pela perplexidade que causa a sua
proximidade a círculos wagnerianos, a compositores dos mais representativos de uma severa
alemanidade ao lado de sua imagem celebrativa de brasilidade como líder de festejos
carnavalescos e de festas de sete de setembro.
Maura Moreira vivenciou essa situação existencial marcada por ambivalências da
forma mais intensa e agravante possível pelo fato de ter antepassados africanos. É a partir de
uma conscientização das dificuldades que decorrem dessas origens que se pode avaliar à
altura as suas extraordinárias conquistas pessoais e artísticas. Maura Moreira teve que
enfrentar barreiras discriminatórias, manifestas ou veladas. Os ferimentos sofridos nunca
foram por ela esquecidos. Em momentos de mais silêncio, a sua constante exuberância de
alegria dava lugar a expressões de uma tristeza íntima, quase sempre calada. Nesses
momentos, ela deixava transparecer a sua mágoa por não ter podido fazer carreira no Brasil,
por terem-lhe negado participações em óperas devido à sua tez, sempre lembrando situações e
pessoas que a deprimiram na antiga capital. Nunca deixou de lembrar que foi justamente e de
forma paradoxal no meio marcado pela presença alemã da Pró-Arte do Rio de Janeiro que
encontrou apoio e que viu abertas portas para a sua carreira internacional. Na Áustria, e a
seguir na Alemanha, foi recebida sem reticências, sendo a ela confiados papéis e solos em
obras dos clássicos vienenses e mesmo de compositores dos mais representativos de um
germanismo exacerbado como R. Wagner, onde chegou a personificar até mesmo Venus no
Tannhäuser" Ela deixou documentos gravados não só de suas atuações em Tristan!und!Isolde,
estória de amor de dimensões supranacionais, mas de suas interpretações em obras alemãs por
excelência como os Wesendonker! Lieder de Wagner, a Rhapsodie Op. 53 e o Deutsches!
Requiem!op. 45 de J. Brahmas ou os Ruckert-Lieder de G. Mahler. Entre aqueles que surgem
na sua história de vida encontra-se Robert Wagner (1915-2008), regente e compositor
austríaco, influente personalidade em Viena e em Insbruck, possibilitador de atuações de
Maura Moreira no Tirol e de seus elos com o Mozarteum de Salzburg, o que também não
deixa de causar perplexidade pelo seu passado como destacado membro do partido nacional-
Socialista alemão.
Maura Moreira não se cansava de lembrar o fato quase que em si absurdo - mas
gratificante para a sua autoestima - de ter desempenhado papéis na Áustria e na Alemanha que
lhe tinham sido negados no Brasil devido à sua aparência, que supostamentenão se
coadunaria com aquela de personagens de obras de um Mozart ou Wagner. É a empatia com
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essa dor velada, mas perene no seu íntimo, que permite ao ouvinte perceber sentidos mais
profundos nas suas interpretações de obras brasileiras, na aura que envolve o seu canto da
terra, como na gravação com este título de 1979. O seu cantar de modinhas e de canções
imbuídas de reminiscências folclóricas, sempre tão admirado por ouvintes e pela crítica pelas
suas extraordinárias qualidades expressivas, não deve ser ouvido como execuções altamente
convincentes, mas de cunho ilustrativo de folclore brasileiro. Esse seu cantar expressa
exteriormente um canto interior, aquele de uma vida íntima marcada por mágoas de
ferimentos recebidos. Também essas aproximações trazem à consciência o significado e a
atualidade de considerações de Maura Moreira numa musicologia de orientação cultural que
atenta aos problemas discriminatórios e racistas do presente.
Trocas de ideias com Maura Moreira sobre o canto e a canção, sobre concepções,
posições, visões e aspirações constituíram desde 1975 momentos significativos em programa
de estudos e contatos possibilitado pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico.
Maura Moreira era a personalidade mais destacada da ainda pequena comunidade
de brasileiros da cidade no Reno, uma liderança que se manteve com o seu crescimento nos
anos que se seguiram. Ela se tornaria não só um dos principais motores do Círculo Brasileiro
de Colônia por ela como cofundadora, mas em âmbito mais amplo honorária da Sociedade
Teuto-Brasileira em Bonn sob a presidência do Prof. Dr. Hermann Görgen, seu grande
admirador. Esse seu significado era conhecido no Brasil, tendo sido Cleofe Person de Mattos
aquela que expressamente a recomendou como personalidade indispensável para atuar no
programa musicológico a ser desenvolvido. Essa grande pesquisadora de José Maurício
Nunes Garcia e posteriormente presidente da Sociedade Brasileira de Musicologia foi ligada a
Maura Moreira por estreitos elos de amizade, sempre a procurando nas suas estadias em
Colônia.
Maura Moreira fazia parte da Ópera de Colônia desde 1961/2 e contava já com
renome e admiração pelas suas inúmeras apresentações, apoiada pelo regente Michael Gielen,
personalidade decisiva na sua carreira. Entre elas destacara-se a sua participação na realização
de obras contemporâneas, como a da ópera Os!Soldados de Bernd Alois Zimmermann, levada
em primeira audição em 1965. Zimmermann, natural de Colônia, era um dos mais renomados
representantes da música contemporânea local, mantendo estreitas relações tanto com a
Escola Superior de Música como com o Instituto de Musicologia da Universidade.
O programa de estudos musicológicos, realizado juntamente com as áreas de
Etnomusicologia e Estética da Faculdade de Música e Educação Artística do Instituto Musical
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de São Paulo, tinha como objetivo a intensificação de um debate internacional com
musicólogos e pesquisadores culturais sobre os aportes teóricos de renovação dos estudos
musicais e culturais desenvolvidos no Brasil.
Esses intentos renovadores remontavam a preocupações originadas no âmbito de
matérias teóricas de conservatórios paulistas quanto objeto de estudos, de orientações e
perspectivas em várias áreas disciplinares, em particular naquelas do Folclore e da História da
Música. Esse movimento visualizava uma renovação de estudos a partir de procedimentos
interdisciplinares, de interações entre esferas nos seus muitos sentidos, de transpasse de
barreiras e fronteiras, de superação de um pensamento determinado por categorizações de
objeto nas disciplinas teóricas, de concepções de áreas ou esferas do saber e da cultura
qualificadas por adjetivações. A focalização de processos em estudos culturais e musicais
deveria levar à superação desse modo de pensar e ver que levava à acepção de
compartimentos e entidades essencializadas, o de uma cultura erudita ou popular, o de uma
história da música brasileira e não de uma história da música no Brasil, o de um folclore
brasileiro e não de um folclore no Brasil. Esse debate levou em 1968 à fundação de uma
sociedade � a Nova Difusão � e, nela, do Centro de Pesquisas em Musicologia.
Desde os seus inícios em 1965/66, o canto desempenhou importante papel nesse
movimento renovador. Esse significado deveu-se à atuação de cantores e professores de canto
que nele participaram e que devem ser relembrados, uma vez que os seus aportes marcaram as
trocas de ideias com Maura Moreira.
Entre os nomes que se vincularam com determinados complexos temáticos que
continuaram a ser tratados através das décadas, cumpre lembrar o esquecido nome de Edgar
Arantes Franco, ao mesmo tempo professor de Folclore e de Canto do tradicional
Conservatório Carlos Gomes de São Paulo. Antiga Sociedade Benedetto Marcello, esse
conservatório era o centro dos círculos musicais italianos da cidade, sendo dirigido por
Armando Belardi, maestro que dominava as temporadas líricas do Teatro Municipal de São
Paulo. Embora atuando em meio marcado pela presença de cantores italianos, Edgard Arantes
diferenciava-se da vida operística estabelecida pelas suas origens e pelo fato de dedicar-se a
estudos culturais. Era enraizado em antigos meios socioculturais paulistas, marginalizados na
vida cultural da metrópole, aqueles de bandas, de música sacra coro-orquestral de irmandades
tradicionais que mantinham o antigo repertório sacro-musical de séculos. Era cantor e regente
da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo, responsável pela manutenção de
práticas musicais nas grandes solenidades de Semana Santa.
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Como preparador de cantoras que assumiam o papel de Verônica em procissões
de cidades periféricas e do interior, assim como de solistas em missas solenes com música
coro-orquestral que se tornavam cada vez mais raras, Edgard Arantes contribuiu ao despertar
de consciência para com a existência de um universo musical submerso àquele da vida
musical dominante, possibilitando o descobrimento de cantoras de extraordinárias qualidades
vocais e que em muitos casos tinham recebido ou recebiam orientação em canto de
professores, muitos deles também esquecidos.
Essa tomada de consciência teve amplas consequências, dando início não só a
levantamentos e a estudos de cantos de Verônica, em geral anônimos, mas também a de
grandes solos em obras sacro-musicais do passado anterior ao nacionalismo musical ou à tão
celebrada Semana de 1922. Levou a intentos de reconstrução de redes de relações entre
cantores e seus professores, à descoberta de nomes e obras caídos em esquecimento e a
revisões de perspectivas histórico-musicais. O intento de seguir os elos em redes de relações
deu ensejo a viagens ao interior de São Paulo e a Minas Gerais. Em São João del Rei deu-se a
constatação cabal do significado dessa cultura consuetudinária de canto e das extraordinárias
qualidades vocais e artísticas de solistas. A vivência de realizações de obras de compositores
locais e de um repertório do século XIX como de um Stabat!Mater de Rossini na Semana
Santa de S. João del Rei, de canções em saraus da Lyra Sanjoanense ou em Ouro Preto ou
Mariana em 1969/70 foi decisiva para o desenvolvimento das reflexões em meios paulistas
que visavam uma pesquisa musicológica de orientação científico-cultural.
Foi essa constatação de um universo musical até então ignorado em meios
artísticos e no ensino na metrópole paulista com os seus muitos nomes de cantores, cantoras e
professores de canto que determinou perspectivas e intentos de análises socioculturais e
psicológicas de processos que passaram a ser discutidos desde 1975 com Maura Moreira. Elaprovinha também desse universo, de seu meio sociocultural, de uma vida lírica que, fora dos
palcos, era sobretudo aquela dos grandes solos de Glória e o dos cantos de Verônica. Maura
Moreira podia contribuir com a sua vivência e pelo muito que a sua memória guardara em
nomes e fatos de Minas Gerais às reflexões e estudos, e isso não só entoando cantos de
Verônica que sabia de cor nos encontros do ISMPS. Esse passado mineiro marcado pela
tradição coro-orquestral nas igrejas correspondia na Europa a universos musicais também
submersos de regiões católicas da Áustria, do Sul da Alemanha e de Colônia, também estes
alvos de redescobrimentos e reavaliações e nos quais Maura Moreira sentia-se em casa. A sua
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carreira decorreu em centros da antiga tradição coro-orquestral de Viena, Innsbruck, Salzburg,
do sul da Alemanha e de Colônia.
É esse substrato músico-cultural que merece ser acentuado ao considerar-se
Maura Moreira, não tanto a sua formação e o seu aperfeiçoamento no Brasil ou na Áustria,
seja no Conservatório Mineiro de Música, seja na Academia de Viena, ou com professores
como Maximilian Hellamann no âmbito da Pró-Arte no Rio de Janeiro, ou com Josef Witt,
Wolfgang Steinbrück ou Erik Werba em Viena.
A atenção dirigida a processos nas preocupações renovadoras em São Paulo dos
anos 60 levou também ao despertar de interesses pelo estudo de transmissões de concepções,
perspectivas, práticas e repertórios através de relações entre professores e alunos e de elos em
redes de contatos em diferentes círculos da sociedade cosmopolita da metrópole.
O próprio meio operístico italiano era marcado por �escolas�, por professores e
alunos que representavam determinadas correntes que remontavam a mestres e centros da
Itália, defendendo alguns representarem o autêntico bel!canto. Neste sentido pode-se salientar
Giuseppe! Rossi! Della! Riva,! que! com! os! seus! �Schiarimenti! sulla! scuola! italiana! del! 'Bel!
Canto�! - conferências pronunciadas na Sala Ricordi de Buenos Aires em 1951- e com as
suas aulas em São Paulo distinguia-se entre os professores de canto da cidade. Essa tradição
foi alvo de trocas de ideias com Maura Moreira, que no início de sua carreira destacou-se em
interpretações em concurso Verdi na Itália, que debutou na Alemanha na Cavalleria!
Rusticana em Ulm em 1959 e que se distinguiu em óperas como Aída, Don! Carlos e
Troubadour.
Também no levantamento de nomes pouco conhecidos de cantores e professores
de canto no meio italiano de São Paulo a atenção foi dirigida à reconstrução de redes. Estas
transpassavam fronteiras nacionais e continentais. Em Conservatório que trazia o nome de
Carlos Gomes não bastava apenas considerar o significado da ópera italiana na história da
música europeia nos séculos XVIII e XIX, em particular também naquela de Portugal, o papel
de viagens de companhias líricas italianas itinerantes no século XIX, da atuação de italianos
no Brasil e dos estudos e da atuação de compositores brasileiros na Itália como Carlos Gomes.
Tratava-se de considerar a vigência de elos não só interamericanos com os meios operísticos
de Buenos Aires ou de Montevideo, mas, sobretudo, com aqueles na Itália e que exigiam a
consideração de desenvolvimentos políticos, sociais e econômicos causadores de emigrações.
As! diferenças! entre! �escolas�! no! meio! musical! de! São! Paulo! - então uma das
grandes cidades de fisionomia italiana do globo - não podiam ser explicadas apenas segundo
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critérios exclusivamente técnico-musicais ou estéticos, mas exigiam levar em conta os
contextos socioculturais e políticos em que se inseriam. Havia aqueles que ainda se
inscreviam no movimento unificador italiano do século XIX, havia cantores que tinham
participado nas guerras, havia empresários, regentes e cantores declaradamente fascistas,
admiradores incondicionais de Mussolini, mas também outros que, ao contrário tinham fugido
e procurado refúgio no Brasil. Esses estudos possibilitaram o aguçamento da percepção para
diferenças quanto a orientações não só especificamente musicais no próprio meio musical
italiano paulista. Contribuíram ao conhecimento de contextos não identificáveis numa
primeira aproximação e que questionavam colocações indiferenciadas sobre o italianismo na
vida musical, generalizações também presentes em estudos histórico-musicais.
Entre aqueles que procuraram refúgio no Brasil encontravam-se judeus de cidades
como Triste que, provenientes em parte de famílias tradicionais e influentes na vida musical e
cultural nas suas cidades de origem, passaram a desempenhar papel significativo no ensino e
na vida musical de São Paulo. O descobrimento desse em geral ignorado meio judaico-
italiano paulista, em si complexo nas suas tensões internas, demonstrou a necessidade de
critérios adequados para a sua consideração e a das personalidades que a ele pertenciam.
Várias delas enfrentaram dificuldades para impor-se no meio musical paulista, bastando
lembrar Sara Sermarini, filha de catedrática de piano e composição no Conservatório
Dramático e Musical de São Paulo e que, embora tendo demonstrado as suas extraordinárias
qualidades em memoráveis recitais no desaparecido Teatro São Paulo nos anos 60,
permaneceu como muitas outras injustamente na obscuridade, sendo silenciadas em visões
histórico-musicais por demais niveladoras.
Essa necessidade de diferenciações quanto a contextos em considerações da ópera
italiana foi constantemente tematizada nos colóquios com Judith Maura Moreira. Tendo
desempenhado papéis de relevo em realizações de obras de grandes compositores da Itália e
vivenciando estruturas e políticas internas do meio teatral podia contribuir aos estudos a partir
de sua experiência, de sua visão de dentro quanto a inserções de regentes e empresários em
contextos socioculturais e políticos. Tendo iniciado a sua carreira europeia em Viena, a
problemática da perseguição de judeus � a grande tragédia do século XX - foi um dos
aspectos tematizados, uma vez que implicavam na consideração de Trieste, que fora no
passado o grande porto da Áustria e que era de particular significado para o Brasil. A situação
político-cultural de Viena de pós-guerra, em particular aquela do início dos anos 50, quando
sob muitos aspectos procurava-se superar e ocultar um passado político com a sua ideologia
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racial e os seus crimes deveria ser objeto de atenção ao considerar-se o ensino de canto na
Academia de Música e Arte Dramática visitada por Maura Moreira.
Um dos principais complexos temáticos sempre considerados nas trocas de ideias
com Maura Moreira não poderia deixar de ser o Lied e o ensino e a prática do canto de
câmara na Alemanha. Também aqui os diálogos foram marcados por um lado pela sua própria
experiência como aluna de Erik Werba, destacado especialista na arte do Lied! e como
extraordinária intérprete dos Wesendonker! Lieder de R. Wagner, por outro pelos
desenvolvimentos que levaram ao programa musicológico a ser desenvolvido.
O cultivo do Lied e da canção folclórica em alemão sempre foi do mais alto
significado nos círculos de língua alemã de São Paulo, o que é compreensível pelo fato do
canto em alemão possibilitar a conservação do idioma e dos elos afetivos com o país de
origem. A difusão de obras para canto de compositores da Europa Central foi promovida por
sociedades alemãs e austríacas, salientando-se, nos anos 20 e 30, a Sociedade Austríaca
Donau e a sociedade alemã Lyra. Entre as principais promotoras do canto em alemão em São
Paulo salientaram-se Tatiana Braunwieser (Kipmann) e Elsa Rösler.
Essas e outras artistas e professoras promoveram obras para canto de
compositores alemães pouco ou não conhecidosno Brasil, também e sobretudo de obras para
canto de câmara de autores contemporâneos da Europa Central. Apresentaram em primeira
audição obras, entre outras, de E. Kornauth ou F. Petyrek. Esse elo estreito entre o cultivo do
canto em alemão e tendências da música contemporânea desde fins da década de 1920
manteve-se através das décadas e intensificou-se à época do movimento renovador da
Sociedade Nova Difusão Musical. As concepções que guiaram o ensino de canto de Tatiana
Braunwieser e das cantoras que com ela atuaram remontavam ao início do século na antiga
Áustria-Hungria, aos princípios que levaram à reorientação do Mozarteum de Salzburg e ao
movimento antroposófico. O cultivo do canto em alemão nessa tradição em São Paulo
manteve-se estreitamente vinculado com concepções teosóficas e antroposóficas que se
diferenciavam sob muitos aspectos daquelas de escolas italianas. Nessa orientação, o conceito
central!era!de!natureza!antropológica!e!espiritual,!o!da!revelação!(�Enthüllung�)!da!voz.
Assim como o cultivo de canto pelos músicos de língua alemã em São Paulo
possibilitara nas décadas de entreguerras a divulgação de obras para canto de câmara de
autores então contemporâneos, também na década de 1960 destacaram-se cantoras de língua
alemã nos intuitos de renovação da técnica vocal e do repertório para canto em São Paulo.
Menção especial deve ser feita a Ula Wolf que, com a sua participação no Concerto de
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Música Contemporânea no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo com
obras de Luigi Dallapiccola e Boris Blecher no dia 19 de novembro de 1968 estabeleceu um
marco no movimento de difusão do canto de câmara contemporâneo e de correspondentes
reflexões estéticas. Não se poderia também deixar de recordar Ilka Machado, de Barbacena,
que realizara carreira operística na Alemanha e que, em 16 de junho de 1969, ofereceu recital
no! ciclo! �A! Grande! Música! de! Câmara�! patrocinado! pelo! círculo! italiano! de! São! Paulo,!
quando, ao lado de R. Strauss e R. Schumann, apresentou The!Wonderful!Widow!of!Eighteen!
Springs de John Cage e composições de O. Lacerda, H. Alimonda e E. Mahle.
Tanto a tradição teosófico-antroposófica, espiritualista e holística da escola de
Tatiana Braunwieser como o movimento de difusão de obras contemporâneas no exemplo de
Ula Wolf foram temas que marcaram os diálogos com Maura Moreira na Alemanha a partir
de 1975. Mantendo-se aberta às tendências avançadas de compositores contemporâneos, era
ela agora, como brasileira, que contribuía à difusão da música nova para canto na Alemanha.
Marco no desenvolvimento das reflexões foi o colóquio sobre H.-J. Koellreutter que se seguiu
a programa de Margarita Schack no Instituto de Musicologia de Colônia em 1975. Esses
estreitos elos de Maura Moreira com a música contemporânea explicam-se sobretudo pelo seu
trabalho sob Michael Gielen na Ópera de Colônia, regente que se destacou pelo seu empenho
na divulgação de obras de G. Ligeti, K. Stockhausen, H. W. Henze e outros.
Maura Moreira acompanhou desde o início o levantamento e o estudo da literatura
de cunho teórico relativa ao canto e de sua recepção no Brasil para o desenvolvimento do
programa de estudos musicológicos. Ocupou-se, entre outras obras mais antigas da história do
pensamento voltado ao canto no Brasil, com a tese de Bernardo Eisenlohr apresentada à
Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil para o concurso à cátedra de Noções de
Ciências Físicas e Biológicas!Aplicadas!em!1939!de!título!�A voz: sua higiene e importância
na!vida!de!relação�,!tecendo!comentários!nos!encontros!realizados.
Os anelos de ultrapassagem de fronteiras do movimento renovador de repertórios,
de concepções e do ensino de meados dos anos 60 em São Paulo levaram também a uma
intensificação da consideração de compositores e de tendências contemporâneas de outros
países do continente americano. Principal personalidade nesse empenho foi o barítono Eladio
Pérez-González. De família de músicos paraguaios, com ampla experiência artística na
Europa, esse cantor e professor realizou vários recitais voltados à divulgação de música
contemporânea de diferentes países do continente, salientando-se como marco histórico o seu
recital de canções das Américas levado a efeito a 20 de agosto de 1969 no Teatro Anchieta de
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São Paulo. Obras de compositores como Alberto Ginastera, Amadeo Roldán, Aaron Copland,
Gerardo Guevara, Antonio Estevez, Silvestre Revueltas, dos paraguaios Nicolas Pérez-
González e Emilio Bigi, apresentados ao lado de brasileiros como Jamary Oliveira
contribuíram ao situar o desenvolvimento brasileiro no panorama continental americano. Essa
visão de Eladio Pérez-González, correspondendo àquela interamericanista na Musicologia e
que tinha o seu centro no Instituto Interamericano de Musicologia em Montevideo dirigido
por Francisco Curt Lange, manteve-se nos trabalhos desenvolvidos na Alemanha e nos quais
Maura Moreira também atuou.
Elos com a Argentina foram intensificados sobretudo com a presença de Leo
Schwarz e Maria Kallay no Festival de Música de Curitiba e Curso Internacional de Música
do Paraná nas suas edições de 1969 e 1970. Neles aperfeiçoou-se Maria da Graça Cruz Dias,
cantora de excepcionais qualidades do Rio Grande do Sul que, transferindo-se para São Paulo,
passou a desenvolver intensa atividade de ensino e de apresentações, atuando como professora
de canto dos membros diretivos da Nova Difusão no conservatório orientado por essa
sociedade. Esses elos com Maria da Graça, que passou a ter como sobrenome Pereira,
mantiveram-se no decorrer das décadas tanto durante a sua vida em Hamburgo como após a
sua transferência a New York. A sua presença foi uma constante nos estudos referentes ao
canto com Maura Moreira no programa desenvolvido a partir de 1975 e no ISMPS. A
inserção de Maura Moreira nessa visão global do canto e da canção nas Américas explica-se
também pelo fato de Michael Gielen ter atuado em Buenos Aires, mantendo sempre estreitas
relações com o meio musical sul-americano.
Menção deve ser feita também ao interesse pela música antiga nos anos sessenta
em São Paulo e que incluíram necessariamente reflexões sobre a técnica de execução vocal e
interpretação. Já na tradição de ensino de canto de Tatiana Braunwieser nos meios de língua
alemã de São Paulo a partir de fins da década de 20 não só a música contemporânea, mas sim
e talvez sobretudo a música da Renascença e do Barroco fora alvo de particular empenho de
cultivo e difusão, o que levou á fundação da Sociedade Bach em 1935. Também esse
empenho pela música antiga correspondeu a intentos de renovação de repertórios e de
concepções, de superação de uma vida musical estabelecida e convencional. Nos anos
sessenta, esse interesse renovou-se, tendo a sua expressão tanto na popularidade alcançada por
conjuntos de instrumentos antigos como o Musikantiga e o seu sucessor Paraphernália, como
em conjuntos corais e madrigais. No primeiro caso, significativa orientadora vocal foi Celina
Sampaio dos Seminários de Música Pró-Arte. No segundo caso, cumpre salientar o Collegium
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
30
Musicum de São Paulo onde, sob a direção de Roberto Schnorrenberg, participavam cantores
de sólida formação que também se salientavam como recitalistas, entre eles Mariinha de
Magalhães Lacerda e Neide Carvalho.
Neide Carvalho, através de sua decisiva atuação na Sociedade Brasileira de
Musicologia e a seguir no ISMPS, manteve-se sempre vinculada com os desenvolvimentos na
Alemanha. Os encontros realizados com Maura Moreira por ocasião de suas estadias e
concertos em Colônia foram significativos para a atualização de conhecimentos e idealizações
de projetos.Um marco nesse relacionamento deu-se com a execução em primeira audição, em
1985, de Missa composta por Sigismund von Neukomm para o Imperador da Áustria no Rio
de Janeiro, quando Neide Carvalho responsabilizou-se por partes solistas. Assim como nessa
oportunidade, Maura Moreira esteve presente em encontros do ISMPS e nas suas assembleias
anuais, assumindo ela a organização de sessões em locais significativos da comunidade
portuguesa e brasileira de Colônia. Nesses encontros, Maura Moreira participou ativamente
com comentários sobre publicações significativas para o estudo do canto no mundo de língua
portuguesa, como a obra a de Mário Moreau sobre os Cantores de Ópera Portugueses em
1981. A sua presença no Simpósio Luso-Brasileiro em Colônia, em 1989, assim como em
encontros durante visitas do maestro português Ivo Cruz, com Luís Heitor Correa de Azevedo
e com o Embaixador Vasco Mariz foi sempre decisiva para a consideração de temas
relacionados com o canto nos estudos relacionados com a música no Brasil e em dimensões
globais.
Na abertura do centro de estudos da Academia Brasil-Europa em Colônia, em
1997, Maura Moreira, embora já afastada das atividades musicais, marcou com a sua
orientação a realização do primeiro ciclo de eventos. Entre eles efetuou-se em 1998 encontro
para o Círculo Brasileiro de Colônia por ela co-fundado e a conferência-concerto!de!tema!�A
Imagem do Brasil e a Canção Brasileira - algumas reflexões metodológicas� sob o patrocínio
da Embaixada do Brasil. O recital, a cargo de Sílvia Donato, discípula de Henrique Travassos
Siffert, professor do conservatório de Colmar, França, foi acompanhado por conferências e
debates. Foi Henrique Travassos que, na presença de Maura Moreira, cantou, em sua
homenagem, na abertura do Congresso Música e Visões de 1999 no auditório da Deutsche
Welle, entre outras obras, o Xangô de Heitor Villa-Lobos.
A.A.Bispo
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O vocalise na obra vocal de Francisco Mignone: um estudo analítico-
interpretativo de sua canção Valsa-vocalise
Patrícia!Cardoso!Chaves!Pereira!
UFOP!�!patrícia.chaves@ufop.edu.br!
!
Luciana!Monteiro!de!Castro!!
UFMG!�!lumontecastro@hotmail.com!
Resumo: O presente trabalho apresenta considerações analítico-interpretativas sobre a canção
vocalizada de Francisco Mignone, a Valsa-vocalise. Para contextualizar a natureza dessa canção,
apresentamos, além de dados biográficos do compositor, uma breve explicação acerca do que
consideramos vocalises artísticos e uma exposição das composições de Mignone que também
podem receber tal classificação.
Palavras-chave: Canção de câmara brasileira. Vocalise artístico. Francisco Mignone. Análise
musical. Práticas interpretativas.
The Vocalise in the vocal work by Francisco Mignone: an analytical-interpretative study of
his song Valsa-vocalise
Abstract: This research presents analytical-interpretative considerations about Francisco
Mignone's vocalized song, Valsa-vocalise. To contextualize the nature of this song, we present
biographical data of the composer, a brief explanation about artistic vocalise, in addition to
exposing all Mignone's compositions that can also receive such classification.
Keywords: Brazilian Chamber Song. Artistic Vocalise. Francisco Mignone. Musical Analysis.
Performance Practice.
1. Introdução: algumas palavras sobre Francisco Mignone (1897-1986)
Francisco Paulo Mignone nasceu em três de setembro de 1897, na cidade de São
Paulo. Iniciou os estudos de música com seu pai, aprendendo flauta e violoncelo. Em 1917,
Mignone concluiu os cursos de flauta, piano e composição no Conservatório Dramático e
Musical de São Paulo. Foi na ocasião em que estudou no Conservatório, que Mignone
conheceu Mário de Andrade (1893-1945), que se formou no mesmo ano e na mesma
instituição.
A flauta era, para Mignone, o instrumento principal, sobretudo em sua prática de
música popular, na interpretação dos choros e das serenatas (KIEFER, 1983: 11). Foi a partir
desse contato com a música popular que Mignone iniciou sua carreira de compositor,
assinando suas composições com o pseudônimo de Chico Bororó. Segundo Mignone, o
motivo de não assinar suas obras com seu próprio nome era o fato de que, em sua opinião, a
sociedade julgava que �escrever música popular era coisa defesa e desqualificante mesmo�
(MIGNONE apud KIEFER, 1983: 12).
Em 1920, Francisco Mignone viajou para a Itália, onde estudou com Vincenzo
Ferroni1 (1858-1934), aperfeiçoando seus conhecimentos musicais, absorvendo ainda boa
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dose de elementos da vaga romântica italiana, assim como elementos da estética
composicional francesa do período. Em 1932, Mignone retornou definitivamente ao Brasil,
passando a residir na cidade do Rio de Janeiro.
Diante de toda sua formação musical e devido, principalmente, às qualidades de
sua ópera L�Innocente, muitos músicos e críticos musicais contemporâneos a Mignone o
apontavam como o sucessor de Antônio Carlos Gomes (1836-1896). A ópera mencionada foi
composta em 1927, com libreto do italiano Arturo Rossato (1882-1942), e estreou no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro, em 1928 (AZEVEDO, 1997: 13).
O estilo composicional então empregado por Mignone desagradava a Mário de
Andrade e a outros músicos que investiam esforços na construção de uma arte nacional e
buscavam banir das composições brasileiras todo o oficialismo italianizante. Esse
descontentamento conduziu o crítico a expor sua opinião sobre Mignone e sobre a referida
ópera em uma crônica publicada no Diário!Nacional, no mesmo ano da estreia de L�Innocente
no Brasil. Nessa crônica, que posteriormente foi incluída no livro de Mário de Andrade
intitulado Música,!doce!música,!o crítico comenta:
Mas tenho que reconhecer que a situação atual de Francisco Mignone é bem
dolorosa e que estamos em risco de perder, perdendo-o, um valor brasileiro útil.
Músico se sentindo essencialmente dramático, dotado de uma cultura
exclusivamente europeia, desenvolvido no ritmo da sensibilidade italiana, Francisco
Mignone está numa situação dolorosa [...] Ora diante de tais circunstâncias,
Francisco Mignone se vê a compor o quê? O!inocente. É uma peça que prova bem a
cultura do músico, as suas possibilidades. Mas que valor nacional tem O!inocente?
Absolutamente nenhum. E é muito doloroso no momento decisivo de normalização
étnica em que estamos, ver um artista nacional se perder em tentativas inúteis.
Porque em música italiana, Francisco Mignone será mais um, numa escola brilhante,
rica, numerosa, que ele não aumenta. Aqui ele será um valor imprescindível. Mas
com O!inocente ele é mais um na escola italiana. No tempo de Carlos Gomes ainda
O!inocente teria de ser contado como manifestação brasileira de arte. Porque então
não tínhamos base nacional definitivada, nem mesmo na música popular, que se
debatia entre a habanera cubana e a roda portuga. Hoje não. Possuímos música
popular original. E as circunstâncias históricas do momento, em que os valores
nacionais que contam em música, Villa-Lobos, Lourenço Fernandez, Luciano
Gallet, Camargo Guarnieri e outros, pelejam entre achados e enganos, pra oferecer
ao país uma tradição artística nacional, não permitem mais que O! Inocente seja
contado como representação brasileira (ANDRADE, 1933: 202-203).
As críticas de Mário de Andrade a respeito do rumo composicional tomado por
Mignone, até então, o fizeram repensar sua estética, a ponto de o próprio compositor afirmar
que seus olhos teriam sido abertos pelas declarações de Andrade (KIEFER, 1983: 19). Em
1929, Mignone compõe a 1ª!Fantasia!Brasileira, estreada em 1931. A obra recebeu críticas
positivas de Andrade, que nela reconheceu muitos elementos nacionais. A partir de então,
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Mignonese aproximou de Andrade, que se tornaria um grande amigo. Dessa fecunda amizade
surgiram várias obras.
Na busca por uma nova estética composicional nacionalista, Mignone estudou as
obras de compositores modernos brasileiros como Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Mozart
Camargo Guarnieri (1907-1993), dentre outros. O próprio compositor afirmou, em entrevista
para o Jornal! do! Brasil realizada no dia 17 de abril de 1977, que a obra de Villa-Lobos
contribuiu para que ele se dedicasse à música nacionalista, em que costumes e tradições
extraídos da cultura popular brasileira eram fontes de inspiração (MIGNONE apud MARIZ,
1997: 48).
Atualmente, Francisco Mignone é citado na história da música brasileira como um
importante compositor nacionalista, mesmo não tendo sido o seu único padrão composicional
durante a sua trajetória, e como ressalta Travassos (2000: 10), o compositor �comparece como
um dos realizadores da proposta de nacionalidade artística idealizada com ardor combativo e
seriedade intelectual por Mário de Andrade�.
Mignone é responsável pela criação de grande número de canções de câmara e,
segundo Azevedo (1997: 15), essas composições estão entre as mais conhecidas do repertório
para canto erudito brasileiro. Mário de Andrade, em um artigo publicado no jornal O!Estado!
de!São!Paulo, no dia 22 de outubro de 1939, afirmou que �as canções de Francisco Mignone
são de uma vocalidade rara�. Manuel Bandeira (1997: 23), o poeta mais musicado por
compositores no Brasil, em palestra realizada em 1955, afirmou que Francisco Mignone �deu
à voz de meia dúzia de meus poemas um timbre de eternidade que eles não tinham�.
Durante o período que se estende de 1917 a 1975, Mignone compôs 165 canções
para canto e piano, sete para canto e violão, cinco para canto e fagote, cinco para canto e
formações de câmara, quinze obras para canto e orquestra e dez harmonizações.
2. O vocalise artístico na canção de câmara brasileira
Os vocalises2 artísticos3 são peças de duração considerável e que não veiculam
palavras, exigindo do cantor perícia técnica para execução de uma melodia sobre uma vogal.
São muitas as peças escritas para o canto vocalizado encontradas no repertório vocal,
principalmente a partir do final do século XIX. As canções vocalizadas são, em sua maioria,
obras que impõem ao intérprete consideráveis desafios técnicos, o que exige do cantor
habilidade vocal e interpretativa.
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Para Valente (2004: 4), o vocalise artístico é uma canção sem palavras, que
permite à voz revelar mais verdades do que o conteúdo de um texto poderia, considerando que
em um canto vocalizado �a voz do cantor exerce uma função que extrapola o que é
pronunciado, aquilo que é dito�.
Os vocalises artísticos apresentam, normalmente, certas características, como uma
linha melódica que por vezes se sobressai em relação ao acompanhamento, e que apresenta
um alto nível de dificuldade técnica e musical. Por esse motivo, a execução dessas peças pode
demonstrar o virtuosismo técnico de um cantor. Nas canções vocalizadas a voz pode ser
empregada com outros objetivos para além da reprodução da linha melódica, como a
exploração de ruídos, cacofonias, gritos, sussurros, procedimentos mais frequentemente
observados em composições contemporâneas.
Ainda que um cantor esteja habituado aos estudos com vocalizes desde o início de
sua preparação técnica, assim que o intérprete se depara com um vocalise artístico, ou seja,
uma peça de concerto, tal peça lhe possibilita uma redescoberta de sua voz, de seus recursos e,
sobretudo, ressalta suas dificuldades técnicas. Com base em nossa experiência pessoal,
podemos afirmar que a execução dessas peças não é tarefa simples. Além do alto nível de
exigência musical característico de composições nessa modalidade, é notório o fato de que a
execução dos vocalises artísticos faz com que as qualidades sonoras da voz fiquem mais
expostas, uma vez que não há o auxílio semântico do texto e nem a articulação de palavras.
A produção de vocalises artísticos brasileiros é relevante quanto ao número de
obras4, porém, grande parte dessas composições permanece desconhecida, tanto do grande
público, quanto dos intérpretes. Francisco Mignone, Heitor Villa-Lobos, Helza Camêu (1903-
1995) e Cláudio Santoro (1919-1989) são alguns dos compositores brasileiros que
compuseram canções vocalizadas.
3. Os vocalises artísticos de Francisco Mignone
Mignone foi o compositor brasileiro que mais escreveu vocalises artísticos5,
conforme pudemos constatar até o momento. São eles: Cantiga! de! ninar! (1925), Luar! do!
Sertão! (1931), Valse! presque! noble! et! sentimentale (1949) e Vocalise! (1952), para canto e
piano; O!impossível!carinho!(1976), Choro!para!canto!e!violão!(1976) e Dialogando!(1976),
para canto e violão; Quatorze!Cânones!(1954) para duas vozes iguais; e Valsa-vocalise!(1972)
para canto e oito violoncelos.
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Apesar do número considerável de canções artísticas vocalizadas, são escassas as
referências a elas encontradas nos dois catálogos6 de obras de Francisco Mignone.
Acreditamos que isso se deva ao fato de essas obras terem sido pouco executadas, algumas
delas talvez não tenham sido sequer estreadas até o presente, o que dificultaria sua divulgação
e o acesso dos intérpretes a tal repertório.
A canção Cantiga!de!ninar, para canto e piano, foi composta em 1925, antes que
Mignone se preocupasse em compor música nacionalista. Há referências a essa canção nos
dois catálogos de obras do compositor. Ela é dividida em duas seções: na primeira, é
apresentado um texto de Sybika, pseudônimo de Sylvia Autuori (1906-?), e, na segunda, o
canto executa uma linha melódica em bocca! chiusa. Mariz (1997: 116) considera que essa
canção pode representar a melhor realização do primeiro período composicional de Mignone.
Luar!do!sertão ou Mondschein (título em alemão citado na partitura), composta
em 1931, é uma canção originalmente escrita para soprano leggero e piano, e já faz parte da
fase nacionalista de Mignone. A peça apresenta variações sobre um tema brasileiro de Catulo
da Paixão Cearense (1863-1946), e Mignone a escreveu em português e alemão. �Não há, oh
gente não, luar como esse do sertão� é a frase apresentada duas vezes na canção, uma vez no
início e outra vez a alguns compassos do final da peça. A variação do tema, apresentada no
decorrer da composição, é realizada pelo canto vocalizado. A cada apresentação de uma nova
variação, o andamento também é modificado. A obra se apresenta como uma interessante
composição, entre o temático nacionalista, representado pelo tema de Catulo da Paixão, e a
escrita lírica empírica, caracterizada pelo belo uso da coloratura na escrita vocal.
A canção Valse!presque!noble!et!sentimentale, composta em 1949, e o Vocalise,
composto em 1952, tiveram sua estreia no Auditório Oscar Guanabarino. Os intérpretes foram
Alice Ribeiro (1917-1988), canto, e o próprio compositor ao piano. A primeira peça tem a
duração de aproximadamente dois minutos e a segunda tem duração de um minuto.
Em 1954, Mignone compôs a obra Quatorze!cânones, para duas vozes iguais, que
não possui acompanhamento instrumental e tem duração aproximada de dez minutos. As
seguintes peças compõem essa obra:
Cânone! �! moderato! bem! melódico! /! 1°! Cânone! perpétuo! /! 2°! Cânone! perpétuo! /! 3°!
Cânone!perpétuo!/!4°!Cânone!perpétuo!/!Cânone!e!Coda!(à!8ª)!/!Cânone!e!Coda!(à!4ª)!/!
Seresteiro!/!Valsando!/!Cânone!alegre!/!Canção!de!roda!/!Cantiga!de!ninar!/!Dengoso!/!
Brejeirice!
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Finalmente, citamos três canções para canto e violão: Choro!para!canto!e!violão,
Dialogando e O!impossível!carinho, todas compostas em 1976. A peçaO!impossível!carinho
apresenta uma parte vocalizada extensa no início; na seção central, encontram-se os versos do
poeta Manuel Bandeira; a obra se encerra com o canto executando novamente a melodia
vocalizada. As outras duas canções não possuem texto e o canto se apresenta integralmente
em forma de vocalise. Uma das principais dificuldades oferecidas por essas obras, para o
canto, é a articulação rítmica das frases melódicas, a serem executadas sobre uma vogal. Isso
acontece porque os ataques rítmicos, sem o auxílio das consoantes, dificultam, por vezes, a
emissão vocal em figurações nas quais os acentos rítmicos são muito frequentes e de
execução rápida.
4. Valsa-vocalise de Francisco Mignone
A composição da canção Valsa-vocalise data de 1° de dezembro de 1972. A obra,
como dissemos, foi dedicada à célebre cantora Maria Lúcia Godoy (1924), mediante a
seguinte dedicatória: �a Maria Lúcia Godoy, o admirador�. Até o presente momento, não
encontramos uma edição impressa do manuscrito da obra. Em nossa pesquisa de mestrado,
apresentamos como parte do trabalho uma versão digitalizada da obra, tanto da partitura para
oito violoncelos quanto de sua transcrição para piano (CHAVES, 2012).
Utilizamos o termo transcrição para nos referirmos à partitura de canto e piano da
Valsa-vocalise, considerando que Francisco Mignone tenha adaptado o acompanhamento
realizado pelos violoncelos para o piano. Importante observar que Francisco Mignone, por ser
um exímio pianista, escreveu essa transcrição de maneira a respeitar as limitações e
possibilidades do instrumento, garantindo a fluência da execução musical pelo piano e
levando em conta suas possibilidades idiomáticas.
Francisco Mignone utilizou a mesma instrumentação da Valsa-vocalise, canto e
oito violoncelos, em duas outras peças, Noturno!sertanejo, também dedicada à Maria Lúcia
Godoy, e Modinha. Todas as três obras foram compostas no mesmo ano, 1972. A ideia de se
ter um conjunto de violoncelos é muito interessante porque, apesar de serem oito instrumentos
iguais, a formação propicia uma grande produção de harmônicos, o que permite ao
compositor extrair dessa instrumentação uma série de sons variados.
Considerando não ser essa uma instrumentação frequentemente adotada, quer no
repertório brasileiro, quer no estrangeiro, e tendo em vista que a Valsa-vocalise foi composta
posteriormente à composição da Bachianas! Brasileiras! n°! 5, que apresenta a mesma
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instrumentação e é também uma canção vocalizada, somos levados a acreditar que Mignone
tenha se inspirado na referida obra de Villa-Lobos para compor sua Valsa-vocalise.
Valsa-vocalise, como o próprio nome indica, é uma peça que revela características
de uma valsa. A melodia desse vocalise também nos remete à seresta, estilo musical ao qual
pertenciam muitas músicas populares contemporâneas a Mignone.
A valsa é, talvez, o gênero musical mais explorado por Mignone em suas
composições. Isso é reflexo da música popular com a qual conviveu no início de sua carreira,
quando ainda assinava suas composições como Chico Bororó. Mignone procurava contemplar
os vários tipos de valsas encontrados no populário musical brasileiro: �valsas de violão e
valsas de pianeiros, serestas rasgadas ou chorinhos caipiras� (KIEFER, 1983: 49). Predomina,
nessas valsas, um clima amoroso e saudosista, herdado da velha modinha romântica e,
segundo Martins (1997: 65), �a valsa [...] é para Mignone o resultado de todo um acervo
adquirido na cidade e voltado à improvisação, à serenata, à descontração, à nostalgia�.
As valsas de Mignone não são valsas para serem dançadas e, geralmente, o
compositor faz alusões aos marcantes baixos do violão seresteiro. Outra característica das
valsas de Mignone, e assim da Valsa-vocalise, é a utilização do português e do italiano nas
indicações de valores de expressão, andamento e dinâmica.
O número total de valsas compostas por Mignone chega a 111. Por essa razão, o
compositor foi chamado, pelo poeta Manuel Bandeira, de �o Rei das Valsas� (FRANÇA,
1997: 96).
Pode-se considerar que a canção Valsa-vocalise esteja organizada em uma forma
ternária, sendo composta por três grandes Seções e uma breve Coda: A (a1: c. de 1 ao 8; a2: c.
de 9 ao 15; a3: c. de 16 ao 24) � B (b1: c. de 25 ao 40; b2: c. de 41 ao 57) � A� (a�1: c. de 58 ao
65; a�2: c. de 66 ao 72; a�3: c. de 73 ao 84) � Coda (c. de 85 ao 90).
Do ponto de vista formal, a Valsa-vocalise possui semelhança com a obra Valsas-
Choro, de Mignone, composta por doze valsas, na qual a valsa n°5 tem a forma ABA e a
valsa n°6 ABA�B�. Outra característica comum entre essa obra e a Valsa-vocalise é a
quadratura das frases que, quase sempre, são estruturadas em oito compassos.
A peça Valsa-vocalise, está composta em compasso ternário (3/4). Só há um
compasso escrito em quaternário (4/4), que é o de número 57, que corresponde ao último
compasso da cadência vocal, elemento de transição da Seção B para a Seção A�. A indicação
de andamento fornecida pelo compositor no início da canção é �Tempo de valsa�, e Mignone
não estabelece nenhum valor metronômico.
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A Seção A contém vinte e quatro compassos e está dividida em três frases: a1, a
qual apresenta o tema nos oito primeiros compassos; a2 que é a reapresentação do tema com
uma pequena diferença nos últimos compassos da melodia; a última, a3, composta de nove
compassos, onde é apresentado um motivo ritmo-melódico bastante diferente do tema vocal
inicial.
Essa primeira Seção da Valsa-vocalise, assim como a Seção A�, é caracterizada
por ser uma melodia acompanhada, ou seja, apresenta uma textura homofônica na qual há
uma clara distinção entre a melodia e o acompanhamento, sendo o canto responsável pela
melodia e os violoncelos ou o piano pelo acompanhamento. Apesar de essas duas Seções, A e
A�, serem homofônicas, a textura musical que apresentam não é idêntica. A Seção A possui
uma textura mais rarefeita devido à quantidade de elementos que a compõe, enquanto, na
Seção A� a textura se apresenta mais densa.
Francisco Mignone utiliza o material melódico, harmônico e rítmico apresentado
no tema, a1, para a construção de toda sua obra, a única frase que possui um distanciamento
da ideia apresentada no tema é a frase a3. Esse distanciamento é observado principalmente no
ritmo, por causa do emprego das quiálteras de 4.
A Seção B possui trinta e três compassos e é marcada, principalmente, pelas
repetições de pequenas estruturas melódicas que vão surgindo no decorrer da seção. Ela é
formada por dois períodos, b1 e b2. O primeiro é formado por dezesseis compassos e o
segundo por dezessete compassos. No final do segundo período da Seção B é apresentada
uma passagem em coloratura no canto que conduz o retorno para reexposição do tema.
Definimos como períodos as duas partes que compõem a Seção B, e não como frases, como
ocorre na Seção A, pelo fato de apresentarem mais de uma frase em sua constituição. A
textura dessa Seção é contrapontística, pelo fato de o acompanhamento possuir uma linha
melódica que dialoga com a melodia principal executada pela voz.
A terceira Seção da peça, A�, é uma repetição da Seção A. A melodia é
reapresentada da mesma forma que no início da peça, porém, o acompanhamento se apresenta
mais denso, graças à causa da inserção de novos elementos melódicos na harmonia.
A Coda é composta por seis compassos e sua melodia vocal é muito próxima da
estrutura melódica apresentada na primeira frase da Seção A.
Para a condução de uma Seção a outra, o compositor emprega elementos de
transição. Da Seção A para a B, quem realiza a transição é o acompanhamento; da Seção B
para a A� o elemento de transição é a cadência tonal descendente executada pela voz; da
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Seção A� para a Coda, a transição é feita pelo acompanhamento novamente, e possui
semelhanças rítmicas se comparado ao primeiro elemento de transição, sendo, porém, maior e
de andamento mais rápido. Francisco Mignone marca em sua obra as letras de ensaio, que
também caracterizam, nesta obra, mudanças de elementos musicais empregados.
Sobre a classificação vocal a que se destina a Valsa-vocalise, supõe-se que a obra
seja destinada a uma voz de soprano, considerando-se ter a obra sido dedicada a um soprano,
a cantora mineira Maria Lúcia Godoy, citada anteriormente, e podemos entender que ele tenha
privilegiado uma extensão melódica que evidenciasse os atributos vocais dessa cantora. É
importante salientar que por muitos anos Maria Lúcia Godoy foi classificada como mezzo-
soprano e até mesmo como contralto (logo no início de seus estudos). Ela chegou a cantar
papéis operísticos de mezzo-soprano. Era uma voz híbrida e sua classificação como soprano
aconteceu mais tardiamente.
A extensão da melodia do canto situa-se entre o Ré3 e o Lá4. É uma extensão
confortável para os sopranos porque a disposição dessas notas na melodia da Valsa-vocalise,
privilegia principalmente o registro vocal médio e início do registro agudo, não se
concentrando nem no registro grave e nem no agudo, que poderia ser desconfortável para
algumas cantoras.
A Valsa-vocalise apresenta uma melodia principal executada pelo canto e
acompanhada pelos violoncelos ou pelo piano na versão transcrita. As notas que compõem a
melodia vocal estão relacionadas e pertencem à harmonia em todo o decorrer da peça. A
melodia é bastante movimentada e marcada, pelo próprio compositor, através de frases curtas.
Ao se analisar a melodia do ponto de vista idiomático observa-se uma semelhança
na escrita vocal com a escrita melódica para a flauta. A melodia é formada, sobretudo, por
arpejos, por fragmentos de escalas, por apojaturas e por passagens cromáticas. Seria
caracterizada como uma melodia �serrilhada� ou ondulada, consideravelmente movimentada.
O acompanhamento realizado na Valsa-vocalise é constituído, principalmente,
por progressão de acordes. Além de acordes com a presença de 6ª, 7ª, 9ª e 11ª, Mignone
emprega acordes sobrepostos, o que gera uma ambiguidade sonora. É preciso ressaltar
também que a presença de apojaturas e acordes formados através da superposição de
intervalos terças são elementos característicos dessa obra, aparecendo em todas as Seções.
Muito característico de músicas escritas para valsa, como um gênero de dança, é a
presença de um baixo marcando o primeiro tempo de cada compasso e uma movimentação
maior nos segundo e terceiro tempos. Por essa questão específica da dança, as frases iniciais
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de cada seção da Valsa-vocalise são frases anacrústicas, com pausas de semínima no primeiro
tempo, iniciando o movimento melódico a partir do segundo tempo.
5. Decisões interpretativas
Importante salientar mais uma vez que a escrita vocal da Valsa-vocalise está
inserida na tessitura de um soprano e permite que a cantora efetue com relativa tranquilidade
as respirações necessárias para a sua execução.
Não há indicação do compositor quanto à vogal a ser adotada na interpretação da
canção, o que permite que o cantor escolha a vogal que julgar melhor à sua interpretação.
Também não há recomendações que favoreçam variações ou nuances tímbricas7 para o canto
ou para o acompanhamento. O que se pode afirmar é que as variações de dinâmica e textura
do acompanhamento, mais rarefeita ou mais densa, propiciam variações tímbricas tanto na
voz quanto no acompanhamento, ficando a critério do cantor adaptar a �cor� de sua voz
conforme o caráter expressivo alcançado nas várias partes da peça, do pianista a optar pelo
uso dos pedais e toques das teclas, com intensidades variadas, ou ainda do regente e
instrumentistas ao escolherem determinadas qualidades tímbricas possíveis no conjunto de
violoncelos.
Para a interpretação da Valsa-vocalise optamos pela vogal /"/, por ser uma vogal
central, ou seja, durante a sua emissão, a língua não adota uma posição elevada posterior ou
anteriormente, permanecendo abaixada; isso favorece a abertura dos lábios e o relaxamento
do maxilar; é uma vogal oral e é uma vogal que pode ser arredondada (SILVA, 1999: 79-90).
Todas essas características fonéticas favorecem a construção de uma homogeneidade sonora
da voz de maneira a conservar o máximo possível das características vocais em toda a
extensão da peça. Essa vogal também é frequentemente escolhida por vários compositores
para a execução de seus vocalises, tendo em vista a indicação presente em várias partituras.
Como o compositor também não indicou uma medida metronômica, optamos pelo
andamento de semínima = 80 como Tempo I, porque permite uma fluência melódica do
tempo de valsa, possibilitando a realização de todas as mudanças de agógica solicitadas por
Mignone.
Apontaremos, a seguir, algumas decisões interpretativas associadas a elementos
observados na análise realizada, segundo suas disposições nas Seções da obra.
Na primeira parte da Seção A, na frase a1, apresentamos o tema e a dinâmica
sugerida é p, acreditamos que todas as pequenas frases possam ser executadas em amplo
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legato. Consideramos que algumas notas merecem um realce específico, como as apojaturas e
as duas resoluções melódicas cromáticas, de forma que o efeito de tensão e relaxamento
produzido por esses dois elementos musicais possam ser evidenciados na performance. As
frases possuem indicações de um crescendo em direção ao agudo e um diminuendo em
direção ao grave, por isso, o grave pede ser cantado com leveza, de forma a se delinear o
desenho melódico. No último compasso, o compasso 8, não há linha de expressão sobre a
melodia, o que indica uma pequena interrupção no legato, diminuindo o andamento em uma
resolução melódica cromática, no qual cada nota pode ser bem articulada como se numa certa
estaticidade, para logo em seguida retornar-se ao movimento. Como todo o acompanhamento
se localiza na região média e grave dos instrumentos, o timbre vocal pode ser pensado de uma
forma mais velada, com menos brilho, de maneira a dialogar com o registro produzido pela
harmonia.
Em a2 temos a repetição do tema, portanto, as intenções interpretativas da parte
anterior se aplicam nessa parte, com a diferença nos dois últimos compassos que continuam
em legato e sustentando a última nota com a dinâmica decrescendo.
Na última parte da Seção A, a3, a compreensão da harmonia para a execução dessa
frase é essencial, porque sem a compreensão das relações das notas melódicas com a
harmonia pode-se perder a condução melódica, como se uma nota estivesse desligada da
outra. O compositor divide essa frase em duas semi-frases, sendo que para a execução da
segunda, o tempo de respiração é brevíssimo, sendo ela maior, que a primeira. Assim, é
preciso ter-se consciência da quantidade de ar a ser inspirado e a forma de como dosar o seu
uso no canto, a fim de que se possa executar a frase inteira, sem interrupção.
Na Seção B, em b1, o caráter da música começa a mudar; o acompanhamento
torna-se mais brilhante e movido e o timbre vocal também deve acompanhar essa mudança, se
apresentando um pouco mais brilhante e rico em harmônicos. Nos compassos de 25 a 32 as
ligaduras de expressão dividem pequenas frases de dois em dois compassos e há um
crescendo na indicação da dinâmica da melodia que deve ser evidenciada na voz. Nos
compassos 33, 34 e 35 a melodia apresenta um movimento ascendente, com a presença de
saltos e a dinâmica continua em um crescendo. Nesse momento, o cantor precisa controlar
bem o aumento da pressão de ar subglóticapara que a clareza das notas e a afinação não
fiquem comprometidas. Com base em nossa experiência pessoal, percebemos que, quanto
mais a dinâmica da melodia cresce, maior é a tendência de empenhar força na saída do ar, o
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42
que aumenta a tensão laríngea e impede que saltos e cromatismos sejam executados com
precisão.
A última frase, presente em b1, marcada pela ligadura de expressão compreende
os compassos 36 a 40. Esse trecho é uma cadência de graus conjuntos e cromatismo em
movimento descendente, a que podemos chamar de coloratura. Para vozes com a
característica mais cheia ou pesada, esse trecho exige maior atenção, por ser de difícil
execução. É preciso manter-se a mesma postura adotada na frase anterior, ou seja, a de não
imprimir demasiada força para a saída do ar, permitindo a emissão de um timbre mais leve e
contribuindo para que a voz possa �correr� por sobre as notas, permitindo maior fluência
melódica. Como se trata de uma frase longa, e que no último compasso ainda apresenta a
indicação poco! ritardando,! faz-se necessário também dosar bem o ar expirado para que a
frase não seja interrompida antes de sua conclusão.
A segunda parte da Seção B, b2, se inicia com a retomada da ideia inicial de b1,
nos compassos de 41 a 44. Porém, a melodia será conduzida diferentemente. Logo no
compasso 45 as semicolcheias são introduzidas e conferem à melodia uma maior
movimentação; a dinâmica está em mf caminhando para o f, o acompanhamento está todo
mais agudo e a voz, timbricamente deve acompanhar todo esse crescimento e aumento do
brilho. O caráter é tenso, então o timbre não deve soar somente brilhante, mas também
�nervoso�, caminhando como que ansioso pela chegada ao ponto culminante. Essa frase de
chegada ao ponto culminante é anacrústica, começando duas semicolcheias antes da nota Lá4
que tem a duração de nove tempos e uma colcheia, de modo que a respiração deve ser bem
preparada, apesar de não se haver nenhuma pausa anterior que facilite tal processo.
Ao final da sustentação da nota Lá, inicia-se a cadência vocal que marca o retorno
à ideia apresentada em A. Essa cadência é composta das notas da escala de Dó, portanto, a
primeira nota de cada grupo de quiálteras de 3 devem ser evidenciadas. Quando aparecem as
colcheias, no final da cadência, as quatro notas também devem ser destacadas porque todas
fazem parte da escala.
Em todas as três partes constituintes da Seção A� � a�1, a�2, a�3 � como a
instrumentação está mais aberta e aguda devida, principalmente, às notas em harmônicos nos
violoncelos ou subida no registro, evidenciada pela clave de sol, indicada para a mão esquerda
do pianista, a voz, na reexposição do tema, pode-se dar um tratamento tímbrico vocal
diferente do apresentado em A, buscando-se abrir o timbre de maneira a garantir coerente com
a atmosfera harmônica.
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Na Coda, apesar de a harmonia realizar, no primeiro compasso da Coda, um
acorde de F7+, cantar a primeira nota do canto, que é um Fá é difícil, porque a nota mais aguda
que o acompanhamento toca é o Mi, e além dela ser a nota que a mais se escuta nesse
momento é a nota que se guarda de referência por ser a mesma que se inicia o tema. Portanto,
é necessário muita atenção para atacar a primeira nota da melodia da Coda. O seu caráter é
bastante etéreo, então a voz não deve quebrar esse clima, e para isso é importante deixar o
timbre mais leve. A última nota possui uma fermata e um sinal de diminuição, que sugere que
a nota não deve ser cortada, mas que vá diminuindo gradativamente junto ao som do
acompanhamento.
6. Conclusões
Os vocalises artísticos revelaram-se neste estudo como peças de maior dificuldade
interpretativa e exigências técnicas. De fato, aos cantores habituados a veicularem nas
canções um texto com uma mensagem semântica, torna-se complexo pensar em comunicar
ideias exclusivamente pela articulação de uma melodia vocalizada, sem mencionar uma
palavra, o que acontece nos vocalises artísticos. A música, entretanto, nos conduz a várias
sensações, emoções, imagens ou mesmos a ausências absolutas de significados traduzíveis em
palavras, os quais buscamos exteriorizar por meio da condução de nossos timbres, da
intensidade de nossas vozes, do modo como atacamos ou abandonamos cada nota emitida, de
como executamos cada um dos elementos exigidos na obra.
Um fator determinante na interpretação de um vocalise artístico se concentra, nas
possibilidades técnicas pessoais, individuais do cantor. Pode-se perceber que as escolhas
interpretativas de um cantor ao executar uma peça vocalizada de concerto são baseadas
essencialmente nas características que lhe são próprias, não apenas relacionadas à sua técnica,
timbre e preparo musical, mas às suas capacidades de conduzir uma melodia, à sua
!musicalidade!. Cada intérprete revela suas principais qualidades e suas lacunas na
interpretação de uma obra dessa natureza.
Tivemos assim o privilégio de estudar mais profundamente a Valsa-vocalise de
Francisco Mignone. Francisco Mignone foi um compositor especialmente dedicado à
construção da música nacionalista brasileira e soube imprimir nessa peça uma brasilidade
inconfundível e, acreditamos, de alto padrão composicional.
A análise musical da peça nos permitiu reconhecer características de brasilidade
da peça, tais como, a escrita para os violoncelos que nos remete à idiomática da moda de viola
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caipira; a escrita melódica para o canto que aponta para a escrita idiomática da flauta, sendo
que o conjunto de viola e flauta é muito característico das serestas e choros. Outro aspecto
que evidenciado nesse contexto, também nos conduz a interpretar que Mignone tenha
imprimido na Valsa-vocalise a linguagem da seresta, são as muitas passagens cromáticas
como resolução melódica na linha do canto. Podemos afirmar, portanto, que a Valsa-vocalise
é uma composição de caráter essencialmente nacionalista.
O estudo analítico-interpretativo da Valsa-vocalise, que nos forneceu uma visão
global da obra, abrangeu seguramente as três dimensões do fenômeno musical8: a dimensão
imanente, apoiada nos parâmetros musicais analisados; a dimensão poiética, baseada em
estudos históricos e musicológicos do compositor e a relatos a nós fornecidos pela cantora e
amiga de Mignone, Maria Lúcia Godoy; e a dimensão estésica, que abarcou as impressões
que obtivemos da peça e que nos conduziram à decisões pessoais de interpretação.
Para a sua performance, podemos afirmar que, após a realização desse estudo,
esta se tornou mais consciente e eficaz, estando nossas decisões interpretativas fundamentadas
nos vários aspectos musicais constituintes da obra.
As decisões interpretativas apresentadas nesse artigo não pretendem e não podem
ser definitivas, uma vez que a construção de uma interpretação musical é individual e,
associado aos aspectos analíticos factíveis, estão também aspectos abstratos e subjetivos
pessoais.
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Rio de Janeiro. Anais. Disponível em: <http://www.hist.puc.cl/iaspm/rio/Anais
2004%20(PDF)/HeloisaValente.pdf >. Acesso em: 02 fev. 2012.
Notas
1 Vicenzo Ferroni foi aluno de Massenet, em Paris.
2 A palavra �vocalise�, na língua portuguesa, pode ser grafada com [s] ou com [z] (vocalize). Mesmo
encontrando o termo vocalise escrito com a letra [z], em dicionários da língua portuguesa, adotamos a palavra
escrita com [s], já que é essa a grafia utilizada no título da maior parte das composições de �vocalises�
brasileiros.
3 A classificação que apresentamos no presente artigo de �vocalise artístico� se originou da nossa pesquisa de
mestrado, na qual propomos uma categorização dos vocalises executados por um cantor em seu percurso de
construção técnica, estudo e performance, a saber: vocalises de aquecimento e aperfeiçoamento técnico,
vocalises de estudo e vocalises artísticos (CHAVES, 2012; CHAVES, 2015).
4 Apresentamos em nossos trabalhos anteriores (CHAVES, 2012; CHAVES, 2015) uma tabela com todos os
vocalises artísticos que conseguimos localizar até o momento da realização da pesquisa e constatamos quase
cinquenta composições dessa categoria no repertório brasileiro de canções.
5 É uma particularidade de alguns vocalises artísticos brasileiros a alternância entre um texto literário e uma
melodia vocalizada, como é o caso das canções Cantiga de ninar e Luar do sertão de Mignone, como também
observamos na Bachianas Brasileiras n°5 de Heitor Villa-Lobos e outros compositores.
6 KIEFER, Bruno. Mignone Vida e obra. Porto Alegre: Editora Movimento, 1983.
MARIZ, Vasco et al. Francisco Mignone: o homem e a obra. Rio de Janeiro: Funarte, 1997.
7 Faz-se aqui referência às qualidades tímbricas da voz que podem ser alteradas pelo cantor, de acordo com
sugestões de caráter expressivo, capazes de levar o intérprete a produzir uma sonoridade vocal mais �clara�,
mais �escura�, mais �soprosa�, mais �aberta�, etc.
8 Faz-se aqui referência às três dimensões simbólicas do fenômeno musical propostas por Jan Molino e J. J.
Nattiez: a dimensão poiética, relacionada ao ato da criação, a dimensão estésica, relacionada à percepção ou
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compreensão, e a dimensão imanente, relacionada às evidências dadas pelo suporte da obra, sua partitura ou
gravação, na qual se identifica o resíduo material da música.
Sobre as autoras
Patrícia Cardoso Chaves Pereira, soprano, é professora de Canto na Universidade Federal
de Ouro Preto. Graduada em Música pela Universidade do Estado de Minas Gerais, Mestre
em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutoranda, sob a orientação da
Profa. Dra. Mônica Pedrosa de Pádua, também pela UFMG. Participa, desde 2004, do Coro
Madrigale, sob a regência do maestro Arnon Sávio, no qual atua como soprano solista e
corista. Atuou junto ao Coral Lírico de Minas Gerais de 2007 a 2010 e participou, no período
de 2004 a 2011, do Grupo Experimental de Ópera (GEO), curso de extensão da UEMG, sob a
direção da Professora Marilene Gangana.
Luciana Monteiro de Castro, graduada em Canto pela UFMG e Conservatório Nacional de
Lisboa. Mestre em Performance Musical e Doutora em Literatura comparada, é professora na
Escola de Música da UFMG desde 2002, onde leciona Canto e outras disciplinas na
graduação e pós-graduação. Tem se dedicado ao estudo e divulgação da canção brasileira de
câmara; coordena o Programa de Extensão Selo Minas de Som e atua como pesquisadora do
grupo Resgate da Canção Brasileira. Organiza Seminários da canção da UFMG desde 2003.
Cantora de experiência, além de concertos de câmara, atuou em obras sinfônicas e óperas sob
a regência de nomes como David Machado, Silvio Viegas, Isaac Karabtchevsky, Marcelo
Ramos, Roberto Tibiriçá, L. Fernando Malheiro, Emílio de César dentre outros.
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As canções de câmara para voz aguda e piano, de Carlos Alberto Pinto
Fonseca (1933-2006): aspectos históricos e composicionais
Raíssa Amaral Magrini
UNICAMP �!raissa.amaral.music@gmail.com!
Angelo!José!Fernandes!
UNICAMP!�!angelojf@unicamp.br!
Resumo. O presente trabalho é uma comunicação sintetizada das principais conclusões de uma
pesquisa de mestrado realizada sobre nove canções de câmara para voz aguda e piano, do
compositor mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca. Foi realizada uma análise musical sob o viés do
cantor, por meio da qual se levantaram aspectos sobre o contexto histórico de cada canção, seu
texto, o conteúdo musical e os elementos relacionados à interpretação e à performance. Neste
trabalho, após uma introdução sobre o assunto, há uma explanação sobre todo conjunto das 19
canções de câmara do compositor e, na sequência, a apresentação de aspectos levantados na
análise musical das nove canções para voz aguda e piano.
Palavras-chave: Práticas interpretativas. Música vocal Canção de câmara brasileira. Carlos
Alberto Pinto Fonseca.
The Art Songs for High Voice and Piano, by Carlos Alberto Pinto Fonseca: Historical and
Compositional Aspects.
Abstract: The present work is a summarized communication of the main conclusions of a master's
research on the nine art songs for high voice and piano, by the Brazilian composer Carlos Alberto
Pinto Fonseca. A musical analysis under the singer's view was carried out, through which aspects
were raised about the historical context of each song, its text, the musical content, and the
elements related to interpretation and performance. In this work, after an introduction about the
subject, there is an explanation about the whole set of the 19 art songs of the composer and, next,
the presentation of aspects aroused in the musical analysis of the nine songs for high voice and
piano.
Keywords. Performance Practices. Vocal Music. Brazilian art song. Carlos Alberto Pinto Fonseca.
1. Introdução
Este trabalho apresenta, de forma resumida, resultados obtidos em nossa pesquisa
de mestrado1 por meio da qual analisamos, sob a ótica do cantor, nove canções para canto e
piano do compositor mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca(1933-2006)2. Do conjunto das 19
canções para essa formação, catalogadas por Santos (2001), selecionamos aquelas que são
adequadas à classificação vocal da primeira autora deste trabalho, qual seja, soprano lírico. As
canções são: 1) Canção!da!Retirante (1953), com texto do próprio compositor; 2) Poema!do!
Gitanjali!nº!84 (1955), com texto traduzido de Rabindranth Tagore (1861-1941); 3) Ogun!de!
Nagô (1977), com texto da Umbanda; 4) A!Estrela (1977), com texto de Manuel Bandeira
(1886-1968); 5) As!sem-razões!do!amor (1988), com texto de Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987); 6) Ave!Maria (1987), oração tradicional católica; 7) O!Tempo!Perdido (1988),
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com texto traduzido de Rabindranath Tagore; 8) Ave! Maria (1999), oração tradicional
católica; e 9) Água!do!Coração (data de composição desconhecida), com texto de Carmen de
Melo (s.d.). Embora o compositor não tenha indicado, em seus manuscritos, a classificação
vocal desejada, especialmente nas canções que consideramos adequadas às vozes agudas, em
algumas delas, há notações claras a respeito. Por exemplo, aquelas que foram compostas para
barítono e/ou baixo, além de possuírem a indicação notada por CAPF, a linha vocal está
escrita na clave de fá. Há outras que, mesmo tendo sua linha vocal escrita em clave de sol,
apresentam quer uma tessitura favorável à voz de mezzosoprano3 quer uma indicação clara do
compositor notada na partitura.
Os objetivos centrais de nosso trabalho no mestrado foram a análise do repertório
sob a ótica do cantor e a sua realização em recital público. As análises realizadas permitiram-
nos propor diretrizes interpretativas para a performance e exigiram um trabalho de edição
crítica das partituras, uma vez que todas se encontravam manuscritas no arquivo particular do
compositor, atualmente administrado pelo ICAPF � Instituto Carlos Alberto Pinto Fonseca.
Embora tenhamos realizado a análise somente do grupo das nove canções para voz aguda, o
trabalho de edição foi feito com todo o conjunto das 19 canções, com exceção de uma
partitura a que não tivemos acesso: What!if!I!speed (data de composição desconhecida), com
texto de Robert Jones (s.d.).
O desenvolvimento da pesquisa ocorreu a partir das seguintes ferramentas
metodológicas: levantamento bibliográfico a respeito de trabalhos sobre a obra de CAPF, dos
quais destacamos SANTOS (2001), FERNANDES (2004) e MATHEUS (2010);
levantamento do material pesquisado junto ao ICAPF; editoração das partituras com o auxílio
do software de edição musical Sibelius! 7.0;! estudo analítico das partituras, tendo como
principais referenciais teóricos STEIN; SPILLMAN (1996), KIMBALL (2006) e KOSTKA
(2006), contemplando três etapas: (1) poema, (2) música e (3) a relação entre texto e música;
e, por fim, a vivência musical mediante o estudo e a performance pública das canções. A
seguir, apresentamos informações sobre o conjunto das canções de câmara de CAPF e, em
seguida, alguns dados musicais e interpretativos levantados em nossa pesquisa.
2. CAPF e suas canções de câmara
A obra do compositor mineiro soma mais de 200 peças compostas para diversas
formações. Apesar da diversidade, grande parte desta obra é direcionada à voz, em especial ao
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coro. Segundo Matheus (2010: 31), do conjunto de obras de CAPF, 74% são composições
para coro, enquanto 9,7% são para canto e piano.
Cabe-nos ressaltar que a obra de CAPF é eclética do ponto de vista do estilo. Embora o
compositor seja conhecido como nacionalista, especialmente pela notoriedade de suas peças
corais inspiradas pela cultura afro-brasileira, segundo ele próprio, em entrevista a Santos
(2001), suas experiências vão da música impressionista ao dodecafonismo.
O conjunto de suas canções é um bom exemplo de seu ecletismo, em que há desde
canções de caráter seresteiro e popular a canções impressionistas. O ecletismo começa na
escolha dos textos. CAPF compôs suas 19 peças para canto e piano, utilizando textos de sua
própria autoria, textos provenientes da liturgia católica, provenientes da Umbanda, de poetas
como Rabindranath Tagore, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Carmen de
Melo e Robert Jones e, ainda, poemas chineses traduzidos por Paulo Mendes Campos (1922-
1991). O Quadro a seguir, por nós elaborado, apresenta toda a produção de canções para canto
e piano de CAPF, baseada em Santos (2001) e Matheus (2010):
Ano Título da obra Texto Extensão vocal Classificação
1952 Escuta!Moreno! CAPF Lá 2 ao Lá 4 Mezzosoprano!
1952 Berceuse! CAPF Réb 3 ao Fá 4 Mezzosoprano!
1953 Canção!da!Retirante! CAPF Réb 3 ao Sib 4 Voz aguda
1954 Volta! R. Tagore Si 2 ao Lá 4 Mezzosoprano!
1955 Poema!do!Gitanjali!nº!84! R. Tagore Mi 3 ao Sol 4 Voz aguda
1977 A!Estrela! M. Bandeira Ré 3 ao Sol 4 Voz aguda
1977 Ogun!de!Nagô! Umbanda Ré 3 ao Lá 4 Voz aguda
1977 Oxalá! Umbanda Mi 1 ao Mi 3 Barítono/Baixo
1987 Ave!Maria! Oração católica Ré# 3 ao Fá# 4 Voz Aguda
1988 As!sem-razões!do!amor! C. D. Andrade Si 2 ao Fá# 4 Voz aguda
1988 O!tempo!perdido! R. Tagore Ré# 3 ao Sol# 4 Voz aguda
1999 Ave!Maria! Oração católica Dó# 3 ao Si 4 Voz aguda
s.d.! Água!do!coração! C. Melo Mi 3 ao Lá 4 Voz aguda
s.d.! Fumaça! Poema chinês Si 1 ao Ré 3 Barítono/Baixo
s.d.! Desespero!em!luz! Poema chinês Dó 2 ao Ré# 3 Barítono/Baixo
s.d.! Ao!Espelho! Poema chinês Fá 1 ao Sol 2 Baixo
s.d.! O!moinho! Poema chinês Lá 1 ao Dó 3 Barítono/Baixo
s.d.! Meu!nome! Poema chinês Dó# 2 ao Ré 3 Barítono/Baixo
s.d.! What!if!I!speed! R. Jones Dó# 3 ao Mi4 ?
Quadro 1: relação das 19 canções de câmara de CAPF com as informações: ano de composição; título da obra;
origem do texto; extensão vocal; e classificação vocal adequada. Fonte: elaborado pelos autores.
Pelo quadro, observamos que essa produção aconteceu de modo disperso, entre
longos intervalos temporais, podendo ser dividida em quatro momentos principais, a saber,
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
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1952 e 1955, quando CAPF compôs suas cinco primeiras canções; 1977, quando compôs três;
entre 1987 e 1988, quando escreveu outras três; e, por fim, em 1999, quando compôs sua
última canção de câmara. Cabe-nos informar que, além das canções escritas para canto e
piano, há três trios para barítono, flauta e piano, compostos no ano de 1970, com poemas
chineses traduzidos por Paulo Mendes Campos: Nuvens!de!cisnes!brancos (1970), Gelado e
Mudo!Amor; e ainda um quarteto para flauta, clarineta, contralto e piano, composto em 1970,
a partir do poema de Li Tai Po traduzido por CAPF: Adeus!às!margens!de!um!rio.
Parte das canções foram dedicadas a pessoas que participaram da vida de CAPF,
na maioria cantores: Escuta!Moreno!e Berceuse, para Maria Lúcia Godoy (1924); Canção!da!
Retirante,!para D. Lia Salgado (1914-1980); As!sem-razões!do!amor, Tempo!Perdido e Ave!
Maria (1999), para Katya Kazzaz (s.d.), ex-cantora do Ars!Nova � Coral da UFMG, grupo
regido por CAPF; Água!do!coração, para Rita Paixão (s.d.); Oxalá,!para o barítono Francisco
Campos Neto (1947); e, por fim, Volta, para sua mãe, Carmen Pinto Fonseca (s.d.). Um olhar
histórico para o conjunto das canções de CAPF permite-nos observar tendências, interesses e
escolhas do compositor. Por exemplo, suas duas primeiras canções, Escuta! Moreno e
Berceuse, foram dedicadas à mesma cantora, Maria Lúcia Godoy, e compostas no mesmo ano
de 1952.
Segundo Matheus, a temática de três das quatro primeiras canções aborda a
relação entre mãe e filho: Berceuse! (1952), Canção!da!Retirante! (1953) e Volta! (1954). A
primeira, como o nome sugere, é uma canção de ninar. A segunda relata o drama de uma mãe
nordestina que tenta fazer dormir o filho que tem fome. A terceira, além de dedicada à mãe do
compositor, �aborda a morte precoce de um filho e o pedido de suamãe, implorando para que
ele volte para vê-la� (MATHEUS, 2010: 38).
Volta!(1954), ao mesmo tempo em que mantém a temática mãe-filho, já revela um
novo momento composicional de CAPF, direcionado para elementos impressionistas,
juntamente com Poema! do! Gitanjali! nº! 84 (1955). Importante notar que, além da escrita
impressionista, ambas as canções apresentam textos de R. Tagore.
É sabido que a cultura afro-brasileira exerceu grande influência sobre a obra do
compositor ao longo de toda a sua vida; contudo, essa influência foi mais significativa no
setor da música coral. No conjunto das canções de câmara, apenas duas apresentam relação
com o tema, tendo, ambas, sido compostas em 1977: Ogun!de!Nagô e Oxalá. Nessa época
(1977-1978), CAPF escreveu quatro peças afro-brasileiras, a maioria delas com textos
retirados do livro 400!Pontos!Cantados!e!Riscados!de!Umbanda!e!Candomblé, assim como as
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51
canções de câmara. As obras corais mencionadas são: Cobra!Corá (1977), Xirê!Ogun (1977),
Ponto!Máximo!de!Xangô (1978) e Oxossi!Beira-Mar (1978).
Uma década mais tarde, entre os anos de 1987 e 1988, CAPF compôs três canções
dedicadas a outra cantora, Kátia Kazzaz, conforme mencionado anteriormente: Ave!Maria
(1987), As!sem!razões!do!amor (1988) e Tempo!Perdido (1988).
Finalmente, embora não possamos ter certeza sobre datas de composição, chama-
nos a atenção o grupo das cinco pequenas canções para barítono e piano com poemas chineses
traduzidos por Paulo Mendes Campos: Fumaça, Desespero!em!luz, Ao!Espelho, O!Moinho e
Meu! nome. Conforme observamos no manuscrito, são canções muito curtas e escritas para
serem executadas sequencialmente. Apresentam uma escrita moderna e atonal, similar àquela
utilizada nos trios para barítono, flauta e piano, que também se valem de poemas chineses
traduzidos por Paulo Mendes Campos. O emprego desses poemas para a voz de barítono em
todas essas peças pode revelar que seriam de uma mesma fase, provavelmente o princípio da
década de 70, quando CAPF dedicou-se ao estilo impressionista e, também, ao
dodecafonismo e ao uso de técnicas estendidas.
3. Características musicais das canções para voz aguda e piano de CAPF
Apresentamos, a seguir, uma síntese dos principais aspectos observados nas
conclusões de nossa pesquisa de mestrado, a partir de análises realizadas das nove canções
para voz aguda e piano, a saber: Canção! da! Retirante (1953), Poema! do! Gitanjali! nº! 84
(1955), A!Estrela (1977), Ogun!de!Nagô (1977), Ave!Maria (1987), As!sem-razões!do!amor
(1988), O! Tempo! perdido (1988), Ave!Maria (1999) e Água! do! Coração (s.d.). Em nosso
estudo, contemplamos seu contexto histórico, o poema, os aspectos musicais (forma, melodia
e material melódico, ritmo, harmonia e material harmônico), além de aspectos interpretativos
e relações texto-música.
Inicialmente, detivemo-nos nos textos escolhidos por CAPF, todos em português,
com exceção da Ave!Maria de 1999, composta em latim. O compositor escolheu diversos
autores, e uma parte dos poemas apresenta uma linguagem mais moderna, como é o caso do
Poema!do!Gitanjali!nº!84 e O!tempo!perdido, ambos do poeta simbolista R. Tagore, além de
A!estrela, de Manuel Bandeira, As!sem-razões!do!amor, de Carlos Drummond de Andrade e
Água!do!coração, de Carmen de Melo, textos característicos do Modernismo Brasileiro. Esses
poemas, especialmente os simbolistas, são carregados de metáforas e simbolismos,
ressignificação das palavras, signos, ausência de rimas e pontuações, além de fragmentações
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do verso poético. O texto de Ogun!de!Nagô, proveniente da Umbanda, também é carregado de
simbolismos e envolto de subjetividade e religiosidade. Já Canção! da! Retirante traz uma
linguagem mais simples e cotidiana, com ausência de metáforas e signos, mas em que se
apresenta uma considerável dramaticidade, embora seja uma canção de ninar.! As duas
canções sacras possuem como texto a tradicional oração católica �Ave!Maria�, um dos textos
sacros prediletos do compositor que, além das duas canções de câmara, compôs outras quatro
Ave!Marias para coro misto a capella e uma para coro infantil.
As análises mostraram-nos que a maior parte das canções possui um centro tonal,
com certa indefinição em alguns momentos. Em geral, o centro tonal acontece por asserção,
ou seja, quando uma nota ou sonoridade é focalizada por algum tipo de reforço direto, como
recorrência, localização formal (início e fim de frases e seções), localização métrica, durações
alongadas, arpejos, pontos pedais, registro extremo, senso de repouso e consonância e, em
alguns casos, ênfase em saltos e intervalos de quinta-justa, lembrando o tradicional
movimento tonal dominante-tônica (KOSTKA, 2006). A Figura 1, a seguir, ilustra um caso de
centricidade por asserção, em Ogun! de!Nagô, no qual o centro em Mi é estabelecido pela
asserção das notas Mi e Si no primeiro tempo dos compassos:
Figura 1: reiteração das notas Mi e Si, em Ogun!de!Nagô, c. 58-64, de CAPF. Fonte: partitura editada pelos
autores.
Em alguns casos, há trechos em que não é possível encontrar um centro definido.
Neles, não há nenhuma nota que seja ressaltada, como na segunda seção da canção Tempo!
Perdido, em que há a utilização de todas as notas da escala cromática.
Há casos em que a centricidade é ambígua. Segundo Stein (1996), ambiguidade é
o termo frequentemente usado para indicar a falta de claridade, usualmente empregada em
música para uma maior expressividade ou intensidade do texto poético. Ela pode ocorrer na
harmonia, no ritmo, na métrica, na estrutura do fraseado e na forma; também pode ocorrer ao
longo de toda a música ou somente em um trecho. Na composição de canções, a ambiguidade
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é frequentemente usada para expressar algum tipo de conflito. Em Ogun! de! Nagô, por
exemplo, há um conflito entre a linha vocal e o piano, nos quais há uma ambiguidade de
centro, sendo Mi mixolídio na linha vocal e Lá mixolídio na linha do piano.
CAPF utilizou diversos materiais escalares em suas canções para voz aguda e
piano. Foram encontradas escalas diatônicas (incluindo maiores, menores e modais), escalas
de tons inteiros, octatônicas e cromáticas. Há também melodias que não possuem contornos
definidos e que acabam se dissolvendo em meio à textura do piano. Por muitas vezes, as
escalas foram utilizadas para delimitar seções e uma mesma canção pode ter sido composta
com a utilização de várias escalas. É comum a utilização de um determinado material escalar
para a linha vocal e outro na linha do piano, ou ainda, uma coleção de notas que apenas
sugere determinada escala. De maneira geral, as escalas modais permeiam todas as canções de
CAPF. Em alguns momentos, há uma combinação de outros elementos resultando em
sonoridades instáveis e dissonantes, normalmente sugerindo algum conflito ou distúrbio
poético, como ilustrado na Figura 2, logo abaixo:
Figura 2: escala de Mi Frígio conflitando com o Ré#, em Poema!do!Gitanjali nº 84, c.29-32, de CAPF. Fonte:
partitura editada pelos autores.
Do ponto de vista harmônico, encontramos acordes tradicionais (maiores,
menores e sétimas de dominante) como nas duas Ave!Maria e em outras. Além deles, foram
encontrados, frequentemente, acordes quartais, acordes com a inclusão de notas dissonantes
como a 4ª aum., a 6ª M, a 7ª M e a 9ª, além de poliacordes. Na Figura 3, a seguir, em As!sem!
razões!do!amor, há a presença dos acordes de Sol Maior e Ré Maior sobrepostos:
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Figura 3: poliacorde em As!sem!razões!do!amor, c.52 -55, de CAPF. Fonte: partitura editada pelos autores.
Nas canções Poema!do!Gitanjali, A!Estrelae O!Tempo!Perdido, percebe-se um
tratamento mais moderno na harmonia em relação às outras canções. Juntamente com Volta
(1954), formam um conjunto de canções impressionistas, nas quais há uma exploração de
elementos harmônicos típicos do Impressionismo, além de aspectos timbrísticos,
principalmente na escrita do piano. Como exemplo, em Poema! do! Gitanjali! nº! 84, CAPF
utiliza-se de acordes arpejados para evocar o som da lira (c. 22-23). Esses acordes são de
apenas três ou quatro sons, remetendo ao reduzido número de cordas do instrumento. Nos c.
23-25, um trêmulo de fusas sugere os sussurros das folhas, e a inserção de escalas cromáticas
em fusas faz alusão à chuva, como pode ser observado na Figura 4, a seguir:
Figura 4: excerto de Poema!do!Gitanjali, c. 22-25, de CAPF. Exemplo de utilização de uma harmonia elaborada
e da exploração de recursos texturais e timbrísticos no piano, como acordes arpejados, trêmolos e cromatismos,
relacionando-se com os elementos do texto: o som da lira, os sussurros das folhas e a chuva. Fonte: partitura
editada pelos autores.
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55
A preocupação em valorizar o texto mediante os elementos timbrísticos-
evocativos é recorrente nas canções de CAPF. Na canção O! tempo!Perdido, há a indicação
�toque impressionístico �mecanismo de relógio��, fazendo alusão ao texto �cada momento de
minha vida�. Como o termo mecanismo do relógio corresponde à mecânica responsável por
seu funcionamento, a indicação ainda recomenda um toque preciso e articulado. A Figura 5,
logo abaixo, demonstra a preocupação do compositor em utilizar elementos timbrístico-
evocativos de forma a dialogar com o texto:
Figura 5: trecho de O!Tempo!Perdido, c.15-18, de CAPF, em que há uma marcação de �Toque impressionístico�.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Além da exploração de elementos timbrísticos, CAPF empregou recursos rítmicos
afro-brasileiros para explorar o piano de forma percussiva, como em Ogun!de!Nagô. A escrita
percussiva do piano em nenhum momento expõe alguma característica melódica do
instrumento. A utilização de blocos de notas com indicações para o toque a ser utilizado pode
ser percebido desde o primeiro compasso, no qual o autor indica a palavra seco. Como pode
ser observado na Figura 6, a seguir, além da indicação seco, os ritmos utilizados poderiam ter
sido escritos sem a utilização de pausas e, ainda assim, soariam no piano de forma percussiva.
Contudo, as pausas recorrentes sugerem um toque mais próximo das práticas da percussão
popular encontrada nos terreiros de Umbanda, como se as pausas abafassem o couro do
instrumento.
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Figura 6: excerto de Ogun!de!Nagô, c. 1-4, de CAPF, com exemplo de utilização do piano de forma percussiva.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Elementos do nacionalismo brasileiro como a síncopa e o caráter seresteiro estão
presentes em As! sem-razões! do!Amor. A linha do piano apresenta, constantemente, acordes
com ritmo similar ao da melodia apresentada na linha vocal. As notas mais agudas dos
acordes do piano desenham uma outra melodia, uma espécie de segunda voz que deve ser
tocada com as mesmas intenções prosódicas do texto cantado, como demonstrado na Figura 7,
logo abaixo.
Figura 7: excerto de As!sem-razões!do!Amor, c. 1-4, de CAPF, com exemplo de utilização de elementos
nacionalistas. Fonte: partitura editada pelos autores.
Em algumas canções, o piano possui apenas a função de acompanhamento com
algumas intervenções solistas. Canção! da! Retirante, demonstrada em excerto na Figura 8,
além das Ave!Maria, é um exemplo de melodia acompanhada, assim como Água!do!coração,
embora sua harmonia apresente um tratamento mais moderno e elaborado.
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Figura 8: excerto de Canção!da!Retirante, de CAPF, exemplo de melodia acompanhada.
Fonte: partitura editada pelos autores.
A extensão vocal exigida para a execução das canções que formam o escopo de
nosso trabalho é ampla (Si2 a Sib4), abrangendo praticamente duas oitavas. Conforme
mencionamos anteriormente, Oxalá e todas as que formam uma pequena coleção compostas
sobre poemas chineses, com tradução de Paulo Mendes Campos, foram escritas em clave de
fá, mediante uma execução de baixo ou barítono com ampla extensão (Mi1 ao Mi3). Também,
sob uma análise da extensão da linha vocal e da tessitura, classificamos como canções
adequadas às vozes médias, em especial à voz de mezzosoprano, as canções Escuta!Moreno,!
Berceuse e Volta, devido à predominância da tessitura no registro médio da voz. Além disso,
na canção Berceuse, há uma notação indicando que se trata de uma canção para
mezzosoprano.
Finalmente, outro traço característico de CAPF, explorado em suas canções e em
obras corais, é a utilização de vocalise em determinadas seções ou frases da canção. Em A!
Estrela e As! sem-razões! do! amor, há trechos vocalizados em bocca! chiusa; em Água! do!
coração, há um trecho vocalizado em /o/, conforme ilustrado na Figura 9, a seguir:
Figura 9: excerto de Água!do!Coração, c. 13-19, de CAPF, em que há utilização de vocalise na linha melódica.
Fonte: partitura editada pelos autores.
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4. Considerações finais
Conforme mencionamos, este trabalho é um recorte de uma investigação que nos
mostrou uma porção pouco conhecida da obra de CAPF. Este compositor, que se destacou,
principalmente, por sua atividade como regente coral à frente do Ars!Nova � Coral da UFMG
por quase 40 anos, sempre demonstrou domínio da escrita para a voz, tendo se tornado
conhecido internacionalmente por suas inúmeras peças para coro, em especial aquelas
relacionadas ao Nacionalismo.
O estudo das nove canções por nós realizado mostrou-nos uma variedade de
aspectos que se revelam: nas diferentes motivações e inspirações para a composição de cada
uma das canções; na diversidade de textos e temáticas utilizadas; no tratamento vocal e,
principalmente, na exploração de distintas funções na escrita pianística; na utilização de
material tonal, modal e, por vezes, atonal; na elaboração rítmica; e, por fim, no contraste
estético, atestado pelo uso de diferentes linguagens como a romântica, a nacionalista e a
impressionista.
Por meio de nossa pesquisa, acreditamos ter demonstrado que sua obra para canto
e piano não é menos notória, embora menos numerosa. Ela nos permite perceber o ecletismo
que o próprio compositor sempre fez questão de afirmar sobre sua música, revelando sua
habilidade de transitar por diferentes estilos sem, contudo, deixar de tratar a voz com
propriedade e autoridade.
Referências
FERNANDES, Angelo José. Missa! Afro-Brasileira! (de! Batuque! e! Acalanto)! de! Carlos!
Alberto! Pinto! Fonseca:! Aspectos! Interpretativos. Campinas, 2004. 171f. Dissertação
(Mestrado em Música). Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, Campinas,
2004.
KIMBALL, Carol. A!Guide!to!Art!Song!Style!and!Literature. Milwaukee: Hal Leonard, 2006.
KOSTKA, Stefan. Materials!and!techniques!of!twentieth!century!music.!Upper Saddle River:
Prentice-Hall, 2006.
MAGRINI, Raíssa Amaral. As! canções! para! voz! aguda! e! piano! de! Carlos! Alberto! Pinto!
Fonseca:!análise!e!interpretação.!Campinas, 2017, 197 f. Dissertação (Mestrado em Música).
Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.
MATHEUS, Rize Lorentz. Elementos! impressionistas! na! obra! de! Carlos! Alberto! Pinto!
Fonseca. Belo Horizonte, 2010. 100 f. Dissertação (Mestrado em Música). Escola de Música
da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.
SANTOS, Mauro Camilo de Chantal. Carlos! Alberto! Pinto! Fonseca:! dados biográficos e
catálogo deobras. Belo Horizonte, 2001. 80 f. Dissertação (Mestrado em Música). Escola de
Música da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2001.
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STEIN, Deborah; SPILLMAN, Robert. Poetry! into! song: Performance and Analysis of
Lieder. New York: Oxford University Press, 1996.
Notas
1 A pesquisa mencionada deu origem à dissertação intitulada As! canções! para! voz! aguda! e! piano! de!Carlos!
Alberto!Pinto!Fonseca:!análise!e!interpretação, defendida em 2017 e publicada em 2019, escrita pela primeira
autora desta comunicação, sob orientação do Prof. Dr. Angelo José Fernandes (segundo autor).
2 Doravante, usaremos a sigla CAPF para referência ao nome do compositor.
3 Importante informar, neste contexto, que, no âmbito da prática vocal, a palavra tessitura não significa extensão
vocal. Esta última engloba toda a região que o cantor consegue atingir, desde sua nota mais grave até a mais
aguda. Entretanto, tessitura é um termo que se refere somente à região mais confortável da voz. Uma peça vocal
pode até exigir notas extremas de um cantor, mas sua escrita fica predominantemente dentro da tessitura
adequada ao tipo vocal para o qual ela foi composta.
Sobre os autores
Raíssa Amaral Magrini é Bacharela em Música com habilitação em Canto e Cordas Popular
pela UNICAMP, tendo sido orientada respectivamente por Angelo José Fernandes e Ulisses
Rocha. É Mestre em Práticas Interpretativas tendo defendido dissertação que trata das canções
para voz aguda e piano de Carlos Alberto Pinto Fonseca. Atualmente, é doutoranda pela
UNICAMP, desenvolvendo uma pesquisa sobre as óperas do compositor Ernst Mahle.
Participou de diversos concertos e óperas sob regência de Abel Rocha, Cinthia Aliretti, Vitor
Hugo Toro, Silvio Viegas e Roberto Minczuck. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6641-
3057. E-mail: raissa.amaral@gmail.com
Angelo José Fernandes tem se destacado com grande sucesso por sua dedicação à música
vocal e à pedagogia do canto. É docente do Departamento de Música do Instituto de Artes da
UNICAMP, sendo responsável por significativa produção artística e acadêmica. Doutor em
Música, tem se dedicado ao estudo da técnica vocal nos diversos períodos históricos e sua
aplicação na performance atual, além de liderar um grupo de pesquisa que estuda a obra vocal
do compositor mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca de quem foi aluno. É diretor artístico do
Coro Contemporâneo de Campinas e do Ópera Estúdio UNICAMP. ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-6117-6702 . E-mail: angelojf@unicamp.br
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12!Poemas!da!Negra: ciclo de canções para canto e piano de Camargo
Guarnieri com poemas de Mário de Andrade
Rafaela!Haddad!
haddad.rafaela@gmail.com!
!
Angelo!José!Fernandes!
UNICAMP!- angelojf@unicamp.br!
Geraldo!Ribas!
UEM!- gmbribas@uem.br!
!
Resumo: Esta comunicação é um excerto da tese de doutorado, cujo objeto de estudo é o ciclo de
canções 12!Poemas!da!Negra de Mozart Camargo Guarnieri. Com poemas de Mário de Andrade,
o ciclo poético foi publicado em 1930 no livro Remate!de!Males. As canções foram compostas
dentro de um período de 42 anos, considerando a primeira composição em 1933 e a última em
1975. Apresentamos uma revisão bibliográfica com os principais estudos já realizados, além de
delinear os aspectos históricos que envolvem o texto literário e o texto musical.
Palavras-chave: Camargo Guarnieri. Mário de Andrade. Canção de câmara brasileira.
12!Poemas!da!Negra: Song Cycle for Voice and Piano by Camargo Guarnieri with poems by
Mário de Andrade
Abstract: This communication is an excerpt from the doctoral thesis, whose object of study is the
song cycle 12!Poemas!da!Negra!by M. Camargo Guarnieri. With poems by Mário de Andrade, the
poetic cycle was published in 1930 in the book Remate!de!Males. The songs were composed over
a period of 42 years, considering the first composition in 1933 and the last in 1975. We present a
bibliographic review with the main studies already carried out, in addition to outlining the
historical aspects that involve the literary and musical text.
Keywords: Camargo Guarnieri. Mário de Andrade. Brazilian art song.
1. Introdução
A música produzida no Brasil sempre carregou uma forte herança europeia, e em
especial a canção de câmara1 do séc. XIX. Com o passar dos séculos, apesar deste legado, a
música foi se mesclando à cultura local, especialmente aquelas vindas dos negros
escravizados. O aumento no intercâmbio, com compositores brasileiros estudando na Europa,
fez com que a música e os costumes em terras brasileiras fossem um simulacro do que
acontecia além-mar.
Foi especialmente a partir da segunda metade do séc. XIX que os acontecimentos
políticos no Brasil, tais como o movimento pela libertação dos negros e a proclamação da
república, viriam ao encontro dos ideais de cunho nacionalista.
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No século XX, o ideal nacional associado ao movimento modernista trouxe para o
cenário cultural brasileiro um movimento de vanguarda, decorrente da necessidade de ruptura
com os ideais estéticos herdados do século anterior. A Semana! de! Arte! Moderna que
aconteceu em São Paulo em 1922 não representou uma mudança radical, muito embora tenha
tido seus momentos polêmicos, mas deixou suas marcas a médio e longo prazo (KATER,
2001: 23).
É neste contexto que Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), nascido no interior
de São Paulo, irá ter seu primeiro contato com aquele que representaria um marco, tanto
intelectual quanto musical, o polímata Mário de Andrade (1893-1945).
2. Objetivos
Cada vez mais observamos pesquisadores interessados em aprofundar os estudos
sobre compositores brasileiros e o nome de Camargo Guarnieri tem sido sobremaneira
investigado, tanto para o aperfeiçoamento da prática interpretativa quanto no que concerne ao
estudo sobre sua composição.
Nossa pesquisa teve como objetivo geral a análise da linha vocal do ciclo de
canções intitulado 12!Poemas!da!Negra. Realizamos um estudo tripartite que compreende a
escrita musical, a análise dos poemas e, por fim, reflexões interpretativas e estudos sobre o
tratamento dado ao binômio texto-música sob o ponto de vista da execução musical.
Nas análises dos poemas observamos os critérios: estrutura! rítmica/ictos,
estrutura!métrica/células!métricas!e estrofe. Ainda no tocante à parte textual, consideramos a
presença de figuras!de efeito!sonoro (aliteração, assonância e anáfora), rima e prosódia. Na
parte musical, as canções foram analisadas segundo os parâmetros forma, dinâmica,!
centricidade e tessitura!vocal. Por fim, a cada canção investigamos a relação texto-música e
os aspectos interpretativos. Fatores como persona, modos de endereçamento, metáforas,
personificação e similaridades foram utilizados para melhor compreender a aprofundar o texto
de Mário de Andrade (HADDAD, 2020: 26).
Para além de fornecer bases para uma melhor interpretação artística, a
compreensão minuciosa da escrita (musical/poética) dá ao intérprete bases para um melhor
entendimento das canções como um todo.
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3. O ciclo poético
Os Poemas!da!Negra já constituíam um ciclo e havia sido publicado por Mário de
Andrade no livro Remate!de!Males em 1930. Dedicado ao artista plástico Cícero Dias (1907-
2003), a ambientação é o nordeste brasileiro, mais especificamente a cidade de Recife, capital
de Pernambuco.
De caráter meditativo e sublime, os Poemas! representam o ponto alto da escrita
marioandradiana. Tendo como fio condutor a sedução entre a negra e o poeta, o ciclo �inicia
com a memória do que existiu, ou seja, a escrita modernista, deixada para traz, frenteà nova,
porém, primitiva� (HADDAD, 2020: 72). Os textos descrevem uma noite de amor entre estes
dois personagens, história esta que sustentou nossa análise interpretativa.
Com um conhecimento aprofundado sobre as questões sociais e políticas do
passado e de seu próprio tempo, o autor de Paulicéia já havia estudado meticulosamente o
negro e sua condição na sociedade brasileira. Em um dossiê intitulado Preto com inúmeras
anotações e observações, é possível chegar a conclusão que a escolha pela negra como tema
central dos poemas não fora aleatória (GRILLO, 2016: 113).
Mário de Andrade, além de preconizar os fundamentos de um ideal nacionalista
na música brasileira, aproveitou seus estudos para tentar preencher uma lacuna deixada pelos
poetas do passado, reconhecidamente pilares da literatura nacional: o de elevar a mulher negra
ao status de musa inspiradora do poeta, lugar este apenas visto em Luís Gama (1830-1882).
Podemos dizer com firmeza que os Poemas! da! Negra! é um epinício à esta mulher, tão
vilipendiada pela história.
4. Os 12!Poemas!da!Negra
Não é possível saber exatamente quando Guarnieri travou conhecimento sobre os
Poemas! da! Negra uma vez que já haviam sido publicados quando se deu a primeira
composição, em 1933. O quadro a seguir mostra o ciclo na ordem de composição. Vale
ressaltar que o compositor publicou-as seguindo a ordem sequencial original.
n.
Título da canção
Ano de composição
III Você!é!tão!suave...! 12/12/1933
I Não!sei!porque!espírito!antigo! 1934
VI Quando...! 1934
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II Não!sei!se!estou!vivo! 1968
IV Estou!com!medo...! 09/04/1974
V Lá!longe!no!sul...! 18/04/1974
VII Não!sei!porque!os!tetéus...! 05/08/1974
VIII Nega!em!teu!ser!primário...! 1975
IX Na!zona!da!mata! 1975
X Há!o!mutismo!exaltado!dos!astros...! 1975
XI Ai,!momentos!de!físico!amor! 1975
XII Lembrança!boa...! 07/1975
Quadro 1: ordem cronológica de composição dos Poemas!da!Negra,!de!Camargo!Guarnieri.
!Fonte: elaborado pelos autores.
Como podemos observar, o ciclo musical levou 42 anos para ser concluído, desde
sua primeira composição, em 1933, e as últimas, em 1975. Embora haja esta distância, o
domínio composicional de Guarnieri dá unidade ao ciclo como um todo. De maneira geral, as
canções trazem características próprias de sua escrita, como por exemplo, o uso da polifonia,
acordes quartais (justaposição de intervalos de quarta), terças paralelas na escrita pianística ou
entre o piano e a linha vocal, rítmica marcadamente sincopada e constantes mudanças de
fórmulas de compasso.
Ao longo do ciclo há uma célula rítmica recorrente, exposta de forma variada em
diferentes métricas em quase todas as canções, tanto na linha vocal quando na linha do piano.
Essa célula, formada por uma colcheia pontuada seguida de uma semicolcheia ligada a uma
semínima, dá unidade ao ciclo como um todo.
A estrutura formal utilizada pelo compositor segue padrões tradicionais da canção
de câmara, sendo elas estróficas (A-B-A, A-B, A-A�), livres (A-B-C) ou de seção única.
Outra característica que se observa neste ciclo é o desenvolvimento contínuo da melodia,
quase sem repetições. Embora existam canções com forma estrófica, como é o caso das duas
últimas (XI XII), Guarnieri utiliza motivos melódicos que retornam recorrentemente com
pequenas diferenças, em geral mudanças de ordem rítmica, para que tais motivos sejam
adaptados à prosódia do texto. Não há alterações sobre o texto original, sendo o compositor
estritamente fiel ao ciclo publicado por Mário de Andrade.
A dinâmica do ciclo varia entre p!e mf. Embora apareçam indicações de extremos
tais como ff, fff,!pp e ppp, a característica geral são as nuances de piano, corroborando então
para o contexto poético e favorecendo a intimidade necessária para que haja um equilíbrio
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entre a rítmica fortemente presente, especialmente na parte do piano, e a delicadeza que o
texto sugere.
A parte do piano é um elemento fundamental para a ambientação do ciclo. Ora
atuando como interlocutor entre os personagens, ora adquirindo sua própria persona,
dialogando com o eu poético ou ainda comentando o texto, o piano deixa de ser mero
acompanhador tornando-se parte independente devido a sua importância. A Figura 1,
apresentada a seguir, mostra a presença do piano como um terceiro personagem: aquele que
comenta e observa os amantes. O uso dos pronomes �nós� e �nossos� em quase todos os versos
da segunda e terceira estrofes reafirma a presença desses personagens.
Figura 1: trecho da canção X, Há!o!mutismo!exaltado!dos!astros, c. 47-54, de Camargo Guarnieri. Fonte:
partitura editada pelos autores.
Além disso, a escrita pianística nos auxiliou no delineamento da forma de cada
canção. Uma vez que a linha vocal apresenta um desenvolvimento mais contínuo sem
repetições, as frequentes recorrências expostas na linha do piano permitem uma melhor
identificação da forma.
A tessitura!vocal do ciclo como um todo é indicada para voz média, no entanto, o
compositor prioriza as regiões agudas. A nota mais grave não passa do Dó32 e a nota mais
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aguda é um Lá4. Este é um ciclo que pode ser cantado confortavelmente por barítonos leves,
meio-sopranos, sopranos e tenores. No quadro a seguir apresentamos a extensão vocal e a
centricidade de cada uma das canções:
Canção Centricidade Extensão vocal
I Fá Ré3-Fá4
II Mi/Si Dó#-Sol4
III Sol Mi3-Mi4
IV Mi Ré#-Mi4
V Ré Ré3-Sol4
VI Mi/Ré Mi3-Mi#4
VII Fá Do3-Sol4
VIII Ré Do#3-Mi#
IX Sib Do3-Fá4
X Mi Do3-Lá4
XI Lám Ré#3-Sol4
XII Ré Dó#-Fá#4
Quadro 2: centricidade e tessitura vocal das canções dos 12!Poemas!da!Negra,!de Camargo Guarnieri.
Fonte: elaborado pelos autores.
No que diz respeito à centricidade, nossa análise levou em consideração ambas as
linhas, canto e piano, utilizando a dimensão vertical e horizontal. Acreditamos que para o
cantor, a identificação dessa centricidade colabora com o processo de memorização, atuando
como guia para o estudo da melodia e auxiliando o solfejo, uma vez que as dissonâncias
aliadas à rítmica entre as partes cria uma dificuldade própria e característica.
Quanto aos poemas, os organogramas apresentaram de maneira sintética e direta
os principais itens analíticos da estrutura textual. De maneira geral, a célula métrica
preponderante é o anfíbraco (fraca|forte|fraca), o jâmbico (fraca|forte) e o troqueu
(forte|fraca), indicando então um ciclo predominantemente anacrústico. Já na linha do canto é
possível observar que a célula rítmica preponderante é a semicolcheia-colcheia-semicolcheia
(sincopa), indo ao encontro da rítmica de ambas partes: texto e música.
Os versos do ciclo são livres, não obedecendo nenhuma estrutura rígida de
metrificação. Guarnieri aproveitou este recurso e utilizou o texto declamado em algumas de
suas canções: estes versos declamados seguem o ritmo da prosódia e estão presentes nas
canções de número II, IV e X. A seguir, na Figura 2, observamos o trecho final da canção II:
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66
Figura 2: versos declamados no trecho final da canção II � Você!é!tão!suave..., c. 42-43, de Camargo Guarnieri.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Outra observação é a altura da haste indicada na pauta, o que dá ao cantor mais
um indício de que a declamação deve seguir a inflexão do português brasileiro, com as
nuances próprias do idioma.
Mário de Andrade era rigoroso no que diz respeito a inteligibilidade do texto e
clareza do português cantado e condenava veementemente aqueles que compunham sem dar
atenção adequada às idiossincrasias da língua. Camargo Guarnieri observou com muita
atenção os apontamentosde seu mestre quanto a prosódia na composição para canto, sendo
ele mesmo, minucioso em sua obra para voz. Nos Poemas!é comum observarmos o tempo
forte do compasso estar representado por uma figura de menor valor, por exemplo Ä ± ou ±
°, muitas vezes a tônica da palavra incidindo sobre o tempo fraco do compasso ou na figura
de menor valor, como podemos observar na Figura 3 a seguir.
Figura 3: rítmica sincopada e tônicas das palavras incidindo sobre notas de menor valor na canção I � Não!sei!
porque!espírito!antigo,!c. 5-7, de Camargo Guarnieri. Fonte: partitura editada pelos autores.
Pelas análises é possível observar que o compositor apresenta uma sonoridade
característica, o que não significa erro ou equívoco na prosódia, ficando assim, a cargo do (a)
cantor (a) a responsabilidade de melhor adaptar a inflexão correta da palavra à rítmica
indicada.
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67
Considerações finais
Os Poemas!da!Negra causaram certo impacto aos amigos próximos de Mário de
Andrade. Manuel Bandeira foi um dos que reagiram ao primeiro contato. Em carta ao amigo,
diz que os Poemas! causaram certa estranheza, sentindo-os em �blocos�. No entanto, mais
tarde reconhece em outra carta que �esperança de Mário cedo se realizou. [Os Poemas]
acabaram insinuando-se no meu espírito e no meu coração, e eu mesmo não podia
compreender no fim de algum tempo, como não havia gostado à primeira vista!� (MORAES
apud HADDAD, 2020: 68).
É por meio do �código poético� que Andrade irá desvelar o Brasil. Neste sentido,
para além da beleza estética e profundidade do conjunto dos doze poemas, o que se observa é
que há uma coerência enquanto artífice em seu metier, um profundo conhecimento no que diz
respeito às origens e uma responsabilidade enquanto brasileiro, consciente sobre seu tempo e
sua história (HADDAD, 2020: 73).
Influenciado pelos ensinamentos de seu mestre intelectual, Camargo Guarnieri
tornou-se um dos nomes mais importantes da música erudita brasileira. Reconhecido
internacionalmente, ficou cunhado como ferrenho defensor dos ideais nacionalistas, embora
ele mesmo tenha dito que se considerava um homem de seu tempo assim como sua música.
Se no início de seu percurso musical, há exatamente um século atrás suas
primeiras canções apresentavam certos problemas de prosódia � de acordo com seu mentor
Mário de Andrade, com o passar do tempo e o amadurecimento na arte de compor Guarnieri
mostrou-se exímio artesão, alcançando um total domínio no desenvolvimento da canção.
Há nos Poemas um leque de cores e sonoridades com padrões característicos de
sua linguagem. Para além da importância histórica dentro da canção de câmara brasileira, este
ciclo tem uma relevância à altura dos ciclos já consagrados pela tradição.
Referências
GRILLO, Angela Teodoro. O losango negro na poesia de Mário de Andrade.!São Paulo, 2016
[239f]. Tese [Doutorado em Literatura brasileira]. Departamento de Letras Clássicas e
Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo, São Paulo, SP: 2016.
HADDAD, Rafaela. 12 Poemas da Negra, ciclo de canções para canto e piano de Camargo
Guarnieri (1907-1993) e Mário de Andrade (1893-1945): análise e interpretação. Campinas,
2020 [223f]. Tese [Doutorado em Música]. Instituto de Artes da Universidade de Campinas.
Campinas, SP: 2020.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
68
KATER, Carlos Elias. Música viva e H. J. Koellreutter: movimentos em direção à
modernidade. Musa Editora, São Paulo, SP: Através, 2001.
PICCHI, Achille Guido. As serestas de Villa-Lobos: um estudo de análise, texto-música e o
pianismo para uma interpretação. Campinas, 2010. [358]. Tese [Doutorado em Música].
Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP: 2010.
Notas
1 O termo de canção de câmara aqui é o defendido por Achille Picchi em sua tese de doutorado: �A canção,
interação ideal de um texto poético e um texto musical, fundamentalmente uma linha vocal acompanhada por um
piano, é o que, afinal, aqui se trata por canção de câmera� (PICCHI, 2009: 23).
2 Optamos pelo Sistema Francês que tem como Dó3 o Dó central.
Sobre os autores
Rafaela Haddad é Doutora e Mestra em Música pela Universidade Estadual de Campinas na
classe dos professores Dra. Adriana G. Kayama e Dr. Angelo José Fernandes. Tem atuado
como cantora, professora de canto e produtora musical. Sua pesquisa é voltada para a canção
de câmara brasileira com foco nos compositores do séc. XX.
Angelo José Fernandes tem se destacado com grande sucesso por sua dedicação à musica
vocal e à pedagogia do canto. É docente do Departamento de Música do Instituto de Artes da
UNICAMP, sendo responsável por significativa produção artística e acadêmica. Doutor em
Música, tem se dedicado ao estudo da técnica vocal nos diversos períodos históricos e sua
aplicação na performance atual, além de liderar um grupo de pesquisa que estuda a obra vocal
do compositor mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca de quem foi aluno. É diretor artístico do
Coro Contemporâneo de Campinas e do Ópera Estúdio UNICAMP.
Geraldo Ribas é Doutor em Música pela Universidade Estadual de Campinas na classe do
Prof. Dr. Maurícy Martin e mestre em Práticas Interpretativas pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, na classe do Prof. Dr. Ney Fialkow. É natural de Santos. Iniciou seus
estudos musicais com a Professora Maria Emília Rebelo Gouveia em Santos e Beatriz Roman
na Escola Municipal de Música em São Paulo. Graduou-se em piano pela Universidade
Estadual de Campinas, sob a orientação do Prof. e pianista Fernando Lopes (in memorian).
Responde pelo cargo de músico junto à Escola de Música da Universidade Estadual de
Maringá onde ministra aulas de piano e matérias teóricas desde 1994.
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69
Nigue-nigue-ninhas:!um acalanto para Vera
Celina!Delmonaco!
UFMG!�!celinatarrago@gmail.com!
!
Luciana!Monteiro!de!Castro!!
UFMG!�!lumontecastro@hotmail.com!
!
Resumo: Este artigo propõe uma reflexão sobre a importância do intérprete na divulgação e
perpetuação de uma obra, tendo como exemplo o caso da canção Nigue-nigue-ninhas, do
compositor Ernani Braga. Verifica-se como as intérpretes de Ernani Braga exerceram papel
fundamental na difusão de sua obra, por meio de uma transmissão eficaz, com recepção altamente
positiva. Destaca-se o papel da intérprete Bidú Sayão na divulgação desse acalanto de inspiração
africana, tema harmonizado para uma voz com acompanhamento de piano, obra que se apresenta
como fonte para análise de um percurso de legitimação do autor e fixação da obra pelo viés da
performance.
Palavras-chave: Canção de câmara brasileira. Intérpretes de Ernani Braga. Performance da
canção brasileira. Canções brasileiras harmonizadas.
!
Nigue-!nigue-!ninhas: a lullaby for Vera
Abstract: This article proposes a reflection on the importance of the performer for dissemination
and perpetuation of a work, in that case, Nigue-nigue-ninhas by the composer Ernani Braga.
Ernani Braga's performers play their role as interpreters of his work through the transmission and
great reception of his performance. We highlight the role of the interpreter Bidú Sayão for the
dissemination of this African inspired lullaby, harmonized/arranged for voice with piano
accompaniment, as a source for an analysis of the author's legitimation path and fixation of his
work through performance bias.
Keywords: Brazilian art song. Performers of Ernani Braga. Performance of Brazilian art song.
Arranged Brazilian art songs.
1. Os caminhos da memória: a trajetória de uma canção
O contato inicial da primeira autora deste capítulo com a canção Nigue-nigue-
ninhas! ocorreu durante seus estudos no Bacharelado em Cantopela EMBAP, atualmente
UNESPAR Campus I. À época, a professora de canto da instituição Neyde Thomas (1929-
2011), cantora e mestra reconhecida em todo o país, entusiasta da canção brasileira e atenta ao
interesse e aptidão da aluna para a interpretação do gênero, conduziu-a ao estudo dessa
harmonização de uma tradicional canção de ninar de inspiração africana, como informa a
partitura impressa (ver Figura1, a seguir). Neyde aconselhou-a ainda à escuta da gravação da
obra realizada pela soprano brasileira Bidú Sayão (1902 - 1999). A referida gravação
encontrava-se então no formato LP, impresso em 1959 pelo Selo Columbia Records, com o
título Folk!Songs!of!Brazil, número de série ML 52311, sendo Bidú Sayão acompanhada pela
pianista norte-americana Milne Charnley (s.d.).
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Nigue-nigue-ninhas, terceira canção da coletânea Cinco!Canções!Nordestinas!do!
Folclore!Brasileiro2,!apresenta em seu cabeçalho uma dedicatória do compositor à filha Vera.
Sua publicação foi realizada pela Editora Ricordi Americana S.A. de Buenos Aires, em 1944,
e posteriormente pela Ricordi Brasileira. Bidú Sayão terá tido acesso à obra por meio desta
primeira edição ou através de manuscrito do autor, considerando-se os laços artísticos que a
cantora já mantinha com Braga, tendo gravado em 1933 sua harmonização de Casinha!
pequenina, pelo Selo RCA Victor.
Figura 1: primeira página da canção Nigue-nigue-ninhas, de Ernani Braga, editada em 1944,
pela Ricordi Argentina. Fonte: acervo pessoal Celina Delmonaco.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
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Vale lembrar que as canções harmonizadas configuraram, no Brasil, sobretudo
entre meados da década de 30 e início da década de 60 do século XX, um repertório vocal
muito apreciado pelo público, requisitado em concursos e nos programas curriculares dos
cursos de Canto, assim como na programação das rádios, sendo bastante visitado pelos
compositores de formação acadêmica, em especial por aqueles de vinculação nacionalista.
Todo esse interesse viria na esteira de influências culturais anteriores, como o romantismo
nacionalista europeu e mesmo do Modernismo brasileiro, com valorização do folclore e
estímulo às possibilidades criativas com base em temas do folclore nacional e de constâncias
da música popular. Além disso, vivia-se numa atmosfera otimista, após o fim da Segunda
Guerra Mundial, com gradativa recuperação dos ânimos e das economias. Uma música
ligeira, como eram consideradas muitas das canções harmonizadas, seria apropriada à difusão
pelo principal meio de comunicação da época, o rádio. Vivia-se a Era do Rádio e a produção
fonográfica musical era associada, através da mesma veiculação midiática, à propaganda
publicitária de produtos nacionais e norte-americanos, como sabonetes, cigarros, refrigerantes,
eletrodomésticos etc.
Também o mercado editorial experimentou no Brasil um certo período de
crescimento, sobretudo com a publicação de obras de caráter híbrido, entre o popular e o
erudito. A publicação de Cinco!Canções!Nordestinas!do!Folclore!Brasileiro!pela Ricordi, em
sua subsidiária argentina,! e o lançamento do LP Folk! Songs! of! Brazil, pelo selo norte-
americano, em 1946, seriam exemplos de uma valorização mercadológica da música de
Ernani Braga em níveis internacionais, sobretudo a partir da difusão de suas obras por
intérpretes importantes no cenário da época. Vera Braga Silva Brito, filha do compositor, em
seu livro Ernani!Braga � maestro,!compositor,!pianista,!professor!�!coletânea!de!dados!sobre!
sua!obra (2008: 55), fala das perspectivas de difusão das canções de Ernani Braga no ano de
1946:
Sua obra para canto já era conhecida das plateias europeias, através de intérpretes
como Ninon Vallin, Madeleine Gray, Vera Janacopolus, Bidú Sayão. É a vez agora
da plateia novaiorquina conhecê-la, pela interpretação de Bidu Sayão, que encerra
um concerto no Carnegie Hall com suas Cinco!Canções!Nordestinas. O sucesso foi
tamanho que ela passa a interpretá-las, acrescidas de algumas mais, a pedido seu, em
tournée por vários estados americanos. Victor Young escreve a Ernani Braga
solicitando autorização para editá-las, o que não é permitido por já serem editadas
pela Ricordi Argentina e Ricordi Brasileira (BRITO, 2008: 55).
O êxito das apresentações de tais obras, e o contínuo diálogo entre Braga e sua
principal intérprete, Bidú Sayão, levaram à gravação em 1947 do álbum Folk!Songs!of!Brazil!
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
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�!Ernani!Braga, cuja capa pode ser vista na Figura 1, que se segue. Nessa capa constam, no
canto inferior à direita, a lista das obras de Ernani Braga gravadas por Bidú Sayão, sendo
Nigue-nigue-ninhas a primeira delas. O álbum encontra-se em exposição no acervo do
Memorial do Conservatório Pernambucano de Música, onde foi feita a fotografia, tendo sido
este um dos itens doados por Vera Brito ao acervo do Conservatório Pernambucano.
Figura 2: capa do Álbum de LPs com as Cinco!Canções!Nordestinas de Ernani Braga. Interpretação de Bidú
Sayão e Milne Charnley. Fonte: acervo MCP, acervo de fotos Celina Delmonaco.
2. Acervo do Conservatório Pernambucano de Música: desvendando a
história
Após percorrer um caminho considerável na pesquisa sobre Ernani Braga, a
primeira autora teve a oportunidade de, em 2009, durante seu mestrado, realizar uma longa
entrevista com a filha do compositor, Vera Braga Silva Brito, então com 90 anos de idade.
Vera havia recentemente lançado o livro sobre a vida profissional de seu pai, desfrutando
ainda de excelente memória. Nesse contato, além da obtenção de informações biográficas
sobre o compositor e da coleta de rico material investigativo, a pesquisadora recebeu de Vera
a indicação e a autorização para pesquisa no acervo do compositor, depositado �em
confiança� no Conservatório Pernambucano de Música em dezembro de 2008, à ocasião
dirigido pelo Sr. Sidor Hulak3. Contudo, somente alguns anos mais tarde, em 2018, a
investigação teve continuidade, diante das novas perspectivas investigativas do doutorado
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73
(ainda em andamento). Após contatos com a diretoria do Conservatório Pernambucano de
Música, novas buscas foram empreendidas na cidade de Recife.
Em visita ao Conservatório, o responsável pela biblioteca do Conservatório
Pernambucano de Música informou que não havia registro de nenhuma das canções que
motivavam suas novas buscas. Foram apresentadas exclusivamente partituras editadas para
piano e violino, num total de quatro: 1)! Tanguinho!Brasileiro,!partitura para piano, edição
original do autor pela Ricordi; 2) Prenda!Minha, partitura do arranjo para piano, da canção
popular do Rio Grande do Sul, cópia e original; 3) Suíte! à! Antiga, para três violinos,
restaurada por Benny Wolkoff, ex-aluno do Conservatório entre 1930 e 1940, e editado pelo
próprio Conservatório em maio/1980, e 4) Valse!Mignone para piano, edição de propriedade
reservada do autor, obra essa dada como obra desaparecida (BRITO, 2008: 79). Na lista do
acervo da biblioteca constava ainda a partitura da peça Tagarelices, para 2 pianos, de 19394.
No Memorial do Conservatório, entretanto, foi solicitado o acesso a um armário
chaveado e, ao inspecioná-lo, verificou-se em seu conteúdo a presença de uma coleção de
originais e fotocópias de obras e outros documentos referentes a Ernani Braga, condizentes
com os descritos no depoimento de Vera Brito, ainda sem o devido tratamento arquivístico.
Dentre tais documentos, foi localizado um manuscrito autógrafo de Braga da canção Nigue-
nigue-ninhas,!feliz e improvável descoberta, dadas as circunstâncias.
Pode-se observar na Figura 3, a seguir, uma foto da partitura da canção, nacaligrafia do próprio compositor, em que se lê acalanto;!trata-se de uma transcrição do tema
original da Paraíba, que seria empregado posteriormente pelo compositor em suas
harmonizações com piano, sendo o documento possivelmente uma transcrição específica para
voz solo ou coro em uníssono, escrita na tonalidade de Sol M e compasso binário simples. As
indicações de dinâmica e agógica apontam para um início devagar e piano, na primeira vez,
ao longo de toda a seção A (8 compassos) e B (12 compassos). Nos compassos 11, 12 e 13,
Ernani Braga indica um ligadíssimo! para a vocalização, com movimentos em crescendo e
diminuindo. Para as seções A� e B�, numa repetição, o autor indica uma expressão mais
suave, o pianíssimo mysterioso, e um mais! devagar, sem indicação do sinal de repetição,
entendendo talvez o autor que o intérprete compreenda o procedimento repetitivo por meio da
sugestão de execução 2ª!vez. O acalanto, nessa versão transcrita, está situado em uma tessitura
vocal confortável para vozes médias, sem maiores exigências técnicas para além do legato e
do controle das dinâmicas, sendo adequado a vozes acostumadas à prática coral ou
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simplesmente, ao canto popular, permanecendo no âmbito centro/médio e centro/médio/agudo
da voz, entre o Ré3 e o Ré4.
Figura 3: partitura original manuscrita de Ernani Braga. Fonte: acervo do Conservatório Pernambucano de
Música no Recife.
Após este achado, foi dado prosseguimento à busca e ao registro das fontes.
Foram então localizados outros originais relevantes, como manuscritos do autor, grafados a
bico de pena, de obras conhecidas e de outras dadas como desaparecidas pela bibliografia
existente, a exemplo de Três!Momentos!Musicais,!para piano, de 1939.!Além de Brito (2008),
outros pesquisadores já haviam alertado sobre a importância do acervo do CPM, como Gisete
Pereira (1986) e Ricardo Pereira (2007), que referenciaram em seus trabalhos este acervo
como sendo de grande relevância para o conhecimento das obras de Ernani Braga. Isso se
deveria, naturalmente, ao fato de Ernani Braga ter vivido durante quase 10 anos em Recife,
trabalhando ativamente como produtor, diretor, professor, compositor, regente, crítico
musical, folclorista, recitalista e pianista acompanhador. Tal atuação, ampla e contundente na
vida musical da cidade, atestada pelas informações dadas pela filha Vera em entrevista e livro
e pelos registros em recortes jornalísticos da época, levam à compreensão da relevância de
Braga na vida musical recifense daquele período. O fato de ter se mudado com a família com
firme propósito de fundar em Recife uma escola de música, como de fato ocorreu em 1930, a
ânsia por transmitir a tradição musical e com ela, suas concepções estéticas e de estilo
musical, revelam ainda a intenção do compositor de deixar a itinerância que caracterizava sua
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
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vida de músico de até então, e o desejo de se estabelecer em Pernambuco. Sua permanência
ali foi, contudo, frustrada por contingências políticas, que levaram à interrupção abrupta e
desproposital de sua principal atuação profissional naquela cidade. Naturalmente, não cabe
neste capítulo uma discussão sobre este doloroso episódio da vida do compositor.
Outros episódios importantes ilustram a trajetória da canção de Ernani Braga no
universo da música, e revelam como suas intérpretes seguiram interferindo na difusão de sua
obra.
3. A importância da intérprete para a divulgação de compositor e obra
Além de LPs, críticas e recortes de periódicos e jornais da época, foram
localizados no Conservatório Pernambucano outras partituras fotocopiadas, fotos, manuscritos
autógrafos e cópias manuscritas de obras de Braga feitas por seus alunos, além de
correspondência trocada entre o compositor e intelectuais e artistas da época. Dentre tais
documentos, a correspondência entre com o empresário de Bidú Sayão, já referida por Vera
em sua entrevista de 2009, e em seu livro de 2008, chamou-nos a atenção.
Nela, documenta-se, pela resposta do compositor à solicitação do empresário de
Bidú Sayão, Victor Young (s.d.), o interesse da soprano e do próprio empresário pelas obras,
visando uma possível edição norte-americana e a inclusão de obras de Braga em uma futura
tournée!pelos Estados Unidos, em que Ernani e Bidú se apresentariam juntos. Datada de 19 de
junho de 1947, tal resposta foi enviada por Braga a partir de São Paulo, onde o compositor se
encontrava.
Na Figura 4, vê-se imagem do rascunho datilografado do texto de Braga,
traduzido para o inglês, língua do destinatário.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
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Figura 4: rascunho datilografado e traduzido para inglês da carta resposta de Ernani Braga enviada
a Victor Young. Fonte: acervo de fotos Celina Delmonaco.
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Na Figura 5, lê-se a resposta de Victor Young a Ernani Braga, onde constata-se que o
empresário teria sim interesse nas novas composições de Braga, o que, seguramente, traria
benefícios artísticos e pecuniários ao compositor, em um período de grandes dificuldades
financeiras e sérios problemas de saúde.
Figura 5: carta de Victor Young para Ernani Braga, solicitando o envio das novas partituras5.
Fonte: acervo de fotos Celina Delmonaco.
O resultado de toda esta negociação é sabido. Bidú Sayão fez grande sucesso ao
interpretar a música brasileira composta por Ernani Braga, difundindo-a e ao seu autor, graças
ao seu talento, sua ampla rede de contatos, influência social e apoio financeiro. Infelizmente,
Ernani Braga não pôde viajar aos Estados Unidos. Os parcos recursos e a saúde frágil
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impediram-no. De fato, Braga faleceu poucos meses depois, sem usufruir em vida do sucesso
que lhe seria destinado, nem do justo reconhecimento e remuneração.
Ao ouvir a interpretação de Bidú Sayão de Nigue-nigue-ninhas, percebe-se a
sensibilidade com que a intérprete dá vida a esse acalanto, que Ernani Braga dedicara à filha
Vera. A mesma canção de encontra registrada em CD com masterização de vinis, a exemplo
do Cd Bidú! Sayão! �!Bachiana! Brasileira! No.! 5! Opera! Arias! &! Brazilian! Folksongs,
registrado na Figura 6, a seguir:
Figura 6: série Masterwords!Heritage, formato CD, Sony Classical, 1996. Fonte: foto Internet.
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Outra importante gravação da canção de Nigue-nigue-ninhas foi feita em 1984,
Selo Sanyo/Japan, pela mezzo-soprano espanhola Tereza Berganza, intérprete
internacionalmente reconhecida. Berganza declarou em entrevista ao crítico musical Irineu
Perpetuo (1971) ter obtido as partituras dessa obra (e de todo a coletânea gravada) da cantora
e amiga brasileira Bidú Sayão. Revela ter nela se baseado, quanto à pronúncia e brasilidade,
visando aprimoramento de sua performance nas canções de Ernani Braga, em gravações
realizadas pela soprano brasileira. Contudo, observa-se um erro lamentável no encarte do CD
gravado. O nome de Ernani Braga aparece grafado erroneamente como Francisco Ernani
Braga6, como se pode observar na Figura 7, a seguir. Isso causou, e causa, penosa confusão na
atribuição de valor à obra e à memória do compositor, e registra a desinformação
internacional acerca de um autor brasileiro que teve projeção por vozes internacionalmente
reconhecidas. Ao confundirem Ernani Braga com o também importante compositor Francisco
Braga, seu ex-professor e colega na Escola Nacional de Música do RJ, amigo e padrinho de
sua filha Vera, confundem-se dados reais da históriae da memória musical brasileira.
Figura 8: Nigue-nigue-ninhas � Francisco [sic] Ernani Braga �Faixa 09.7 Fonte: internet.
4. Conclusão
Ao observarmos todas estas ocorrências históricas sucessivas, pertinentes à obra e
ao seu autor, seguindo ainda o caminho traçado e percorrido por suas intérpretes, passamos a
compreender melhor o processo por meio do qual se atribuiu valor e legitimidade a um
compositor e à sua obra durante esse recorte temporal e geográfico, que atravessou a linha da
vida de Ernani Braga. Tudo dependia de contatos. Precisava-se deles para obter-se contratos,
para alcançar uma colocação de trabalho, um posto, um cargo. A necessidade de
reconhecimento pelos pares impunha-se mesmo à real capacidade possuída.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
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Pudemos observar que, somente as obras de Ernani Braga que foram interpretadas
por artistas de renome, intérpretes reconhecidos e autorizados para atribuir valor de capital
cultural às obras que escolhiam interpretar tornaram-se conhecidas, mesmo nacionalmente. O
álbum Cinco!Canções!Folclóricas!do!Nordeste!Brasileiro, as canções de câmara brasileiras
harmonizadas Ogundê-Uareré e Casinha!Pequenina, situam-se nessa condição. Somente se
tornaram conhecidas e se fixaram na memória histórico-musical de nosso país a partir de seu
reconhecimento internacional, decorrente de um pensamento colonizador muito bem
implementado, após sua disseminação por intérpretes internacionais. A fama do Ernani Braga
�harmonizador�, apesar de ter sio importante para a música nacional e para o próprio
compositor, obscurecem, de certa forma, a produção de canções originais deste compositor.
A responsabilidade dos intérpretes na tarefa da difusão se mantém e pode
estabelecer-se, sobretudo, por sua atuação na pesquisa, lado a lado com a prática de
performance. É necessário ter-se consciência dos processos sociais e do contexto criativo de
um compositor, para além de sua própria obra. Necessário ainda é assumir-se um
posicionamento alinhado a princípios éticos, estéticos e filosóficos fortalecidos, visando
atribuir, difundir e valorar o que realmente guarda valor estético e artístico,
independentemente de influências de pensamento mercadológico, elitista ou centralizador,
que deleguem direta ou indiretamente valor ao capital cultural. O valor da obra de Ernani
Braga não é medido por seu relativo êxito mercadológico, alavancado pelas vozes
reconhecidas de intérpretes como Bidu Sayão ou Tereza Berganza, nem pelo sucesso imediato
que se pode experimentar ao cantar suas canções harmonizadas em concertos fora do país,
mas pela sua real qualidade artística, revelada no conjunto de sua obra.
Ao observarmos a trajetória deste compositor, ao reconhecermos aspectos de sua
biografia e de sua própria obra musical, agora mais difundida, assim como da intérprete
afamada, podemos compreender como os percursos se entrecruzam e interagem, afetando o
destino e a valoração dos envolvidos, pessoas e obras. É uma dinâmica constante e atual. Uma
vez conscientes, refletindo no espaço acadêmico acerca do papel de cada ator social, podemos
nos tornar aptos a revelar perspectivas de reconhecimento e visibilidade a quem cabe por
direito. Talvez por meio da pesquisa com viés musicológico, associada às práticas da
performance, possamos compreender o valor da obra de arte e o papel do intérprete nesse
campo de atribuições e poderes.
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Referências
Bidú Sayão � Bachiana Brasileira No. 5 Opera Arias & Brazilian Folksongs Selo: Sony
Classical � MHK 62355 Série: Masterworks Heritage � Formato: CD, Compilation,
Remastered País: USA Lançado:1996 Barcode: 0 7464-62355-2 2.
BRAGA, Ernani. Cinco!Canções!Nordestinas!do!Folclore!Brasileiro- 3 - Nigue-nigue-ninhas:!
Acalanto! Afro-brasileiro, Buenos Aires, Edição do próprio autor pela Ricordi Americana
S.A., Argentina, 1944. Partitura.
_____________. Nigue-nigue-ninhas. Acervo do Memorial do Conservatório Pernambucano
de Música: Partitura manuscrita à bico de pena, sobre página de caderno de música. Recife,
Pernambuco.
BRITO, Vera B. Ernani! Braga - Maestro,! Compositor,! Pianista,! Professor: Coletânea de
dados sobre sua Obra. Edição da autora, Rio de Janeiro, 2008.
_____________. Entrevista de C.G. em 20/04/2009, Rio de Janeiro. MP3 em Audiogravador
Sony. Residência da Entrevistada.
GROVERMANN, Celina G.D.T. O! Cancioneiro! Gaúcho! de! Ernani! Braga:! uma! obra!
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(Mestrado em Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Porto Alegre, RS, Brasil, 2011.
MIRANDA, Sérgio A.M. Five! Songs! of! Northeastern! Brazilian! Folklore! by! Ernani! Braga
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Dakota), Estados Unidos, 2010.
PEREIRA, Gisete A.C. Ernani! Braga:! vida! e! obra.!Edição da Secretaria de Educação do
Estado de Pernambuco, DSE/Departamento de Cultura. Governo do Estado de Pernambuco,
Recife, 1986.
PEREIRA, José R.L. The!solo!vocal!music!of!Ernani!Braga. Tese (Doutorado em University
of California, Santa Bárbara, Estados Unidos, 2007.
Notas
1 A catalogação online da Biblioteca do Congresso para esta gravação pode ser revista em LCCNr 57001082
http://lccn.loc.gov/r57001081.
2 Partitura musical que se encontra na biblioteca da UNESPAR Campus I, Curitiba, Paraná, antiga EMBAP.
3 Natural do Recife, Sidor Hulak iniciou seus estudos musicais no CPM em 1980, cursou violão posteriormente
em Berklee College of Music (Boston � EUA). Enquanto diretor do CPM, de 2007 a 2014, recebeu das mãos de
Vera grande parte da Obra de Ernani Braga (documentos do acervo da família: partituras manuscritas, editadas,
conferências, pictogramas, fonogramas, programas de concerto, críticas de jornais da época, crônicas e corres
pondência pessoal) que somados ao acervo do CPM seriam disponibilizados a pesquisadores e estudiosos no
futuro Memorial Ernani Braga (então atual Memorial do Conservatório Pernambucano de Música - MCPM).
4 Assim como a Valse!Mignone, a peça Tagarelices consta no livro de Vera Brito sob o título �Obras de Ernani
Braga executadas em concertos cujas partituras não foram encontradas� (BRITO, 2008: 79)
5 �9/10/47 - Prezado Sr. Braga: A Sra. Bidú Sayão recém retornou de suas férias e informou-me que não recebeu
os manuscritos de suas novas canções. Você estabeleceu em sua carta de 19 de Junho que enviou suas novas
canções para a Sra. Sayão. Por favor avise se elas foram enviadas. Terei muito prazer em ver essas músicas.
Cordialmente, Victor Young.� Tradução das autoras.
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6 Antônio Francisco Braga nasceu no Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1868. Começou seus estudos musicais no
Asilo dos Meninos Desvalidos, em 1876. Ingressou no Conservatório de Música e em 1886 concluiu seu curso
de clarineta com Antônio Luís de Moura, tendo também sido aluno de harmonia e contraponto de Carlos de
Mesquita. No ano seguinte, estreou Fantasia-Abertura, no primeiro dos concertos da Sociedade de Concertos
Populares. Em 1888, foi nomeado professor de música do Asilo. Em 1890, ao classificar-se entre os quatro
primeiros colocados no concurso para a escolha do novo hino nacional brasileiro, obteve bolsa do governo para
estudar na Europa. Francisco Braga foi professor e amigo próximo de Ernani Braga, tendo Ernani homenageado
o mestre ao dar a seu primeiro filho o nome de Francisco e ao convidá-lo para padrinho de batismo de Vera, sua
filha.
7 Teresa Berganza,Juan Antonio Alvarez Parejo, Villa-Lobos* / Braga* / Guastavino* � Selo: Claves � CD 50-
8401 Formato: CD País: Switzerland Lançado: 1984 Genre: Classical Manufactured By �Sanyo Japan Créditos
Mezzo-soprano Vocals � Teresa Berganza Piano � Juan Antonio Alvarez Parejo.
Sobre as autoras
Celina Delmonaco, soprano paranaense, é Bacharel em Canto pela EMBAP (Escola de
Música e Belas Artes do Paraná) hoje UNESPAR, licenciada em Psicologia pela UFPR
(Universidade Federal do Paraná) e Técnica em Piano e disciplinas teórico/musicais (teoria,
harmonia, folclore, didática, história da música e análise harmônica) pelo Conservatório Santa
Cecília/Maringá e Secretaria de Educação do Paraná. Lecionou no ISEI (Instituto Superior de
Ensino de Ivoti/RS) e na UEM (Universidade Estadual de Maringá/UNESPAR), atuando como
professora de canto, técnica vocal, expressão vocal, Dicção e Prosódia musical. Cursa
atualmente Doutorado na Escola de Música da UFMG, sob orientação de Luciana Monteiro
de Castro.
Luciana Monteiro de Castro, graduada em Canto pela UFMG e Conservatório Nacional de
Lisboa. Mestre em Performance Musical e Doutora em Literatura comparada, é professora na
Escola de Música da UFMG desde 2002, onde leciona Canto e outras disciplinas na
graduação e pós-graduação. Tem se dedicado ao estudo e divulgação da canção brasileira de
câmara; coordena o Programa de Extensão Selo Minas de Som e atua como pesquisadora do
grupo Resgate da Canção Brasileira. Organiza Seminários da canção da UFMG desde 2003.
Cantora de experiência, além de concertos de câmara, atuou em obras sinfônicas e óperas sob
a regência de nomes como David Machado, Silvio Viegas, Isaac Karabtchevsky, Marcelo
Ramos, Iara Fricke-Matte, Roberto Tibiriçá, L. Fernando Malheiro, Emílio de César dentre
outros.
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As relações texto-música em Jardim!do!amor!e!da!paixão, de Almeida Prado
e José Aristodemo Pinotti
Leandro!Augusto!Cavini!
UNICAMP!�!leandroacavini@gmail.com!
Adriana!Giarola!Kayama!
UNICAMP!�!akayama@unicamp.br!
Resumo: Fruto de pesquisa de Mestrado, o presente trabalho trata do ciclo Jardim!do!amor!e!da!
paixão, de José Antônio de Almeida Prado e José A. Pinotti, composto para barítono e piano.
Primeiramente, aborda-se a relação entre o compositor e o poeta. Em sequência, o ciclo é
apresentado com suas características gerais. Por fim, focamos, de maneira mais direta, nas relações
texto-música presentes em todo o ciclo, destacando como elas se estabelecem no decorrer do
desenvolvimento da obra.
Palavras-chave: Almeida Prado. Canção de câmara brasileira. Música vocal.
The Relation between Text and Music in Jardim!do!amor!e!da!paixão,!by Almeida Prado and
José Aristodemo Pinotti.
Abstract: As the result of our research (Master), the present work deals with the cycle Jardim!do!
amor!e!da paixão, for baritone and piano, composed by José Antônio de Almeida Prado, with a
poem written by José A. Pinotti. First, it highlights the relation between the composer and the
poet. In sequence, the cycle is presented with its general characteristics. Finally, we focus more
directly on the text and music binomial, throughout the cycle, highlighting how they are
established during the development of the work.
Keywords: Almeida Prado. Brazilian art song. Vocal Music.
1. Jardim do amor e da paixão, a obra e sua estrutura
Este trabalho apresenta o ciclo Jardim!do!amor!e!da!paixão, de José Antônio de
Almeida Prado � Almeida Prado � obra pertencente à terceira fase estilística1 do compositor,
denominada de �Ecológica ou Astronômica�2.
Composto no ano de 1982, o ciclo é datado do mesmo período em que o
compositor desenvolve a técnica denominada de �transtonalismo� que, segundo o próprio
compositor, trata-se da:
Observância dos harmônicos resultantes das fundamentais e a incorporação de tudo
o que se poderia obter das técnicas contemporâneas, como o serialismo e o
minimalismo, na utilização das manchas sonoras (clusters) e toda a riqueza rítmica
de Messiaen e Villa-Lobos (PRADO, 1985: 558).
Jardim!do!amor!e!da!paixão foi composto originalmente para barítono e piano, com
textos retirados do livro Suave!Presença3, de José Aristodemo Pinotti (1934-2009). A obra foi
dedicada ao poeta-autor, professor e reitor da Universidade Estadual de Campinas �
UNICAMP, José A. Pinotti, e à artista plástica Suely Pinotti4 (1936), como podemos constatar
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a seguir, na dedicatória deixada na partitura estabelecida pela editora alemã Tonos!
International!Darmstadt:
Figura 1: dedicatória contida na partitura de Jardim!do!amor!e!da!paixão, realizada pela editora Tonos!
International!Darmstadt. Fonte: partitura editada pela Tonos!International!Darmstadt.
A obra é estruturada em sete movimentos5 e retrata as horas de amor vividas por
um casal em um ensolarado e luzente jardim. Para compor o ciclo, o compositor usa quatro
poemas retirados do livro Suave! Presença, dentre os quais destacamos: �Pausa�6, �Suave
Presença�, �Curto Instante de Memória� e �Plenitude�. Formado pelos seguintes movimentos,
enumeramos: 1) Prelúdio (piano solo) � Crepuscular; 2) Plenitude � Noturnal; 3) Interlúdio I
� Auroreal; 4) Curto instante de memória � Matinal; 5) Interlúdio II � Solar; 6) Suave
Presença � Vesperal e 7) Epílogo � Crepuscular/Noturnal.
Em relação à estrutura poética do ciclo, observamos que o movimento �Plenitude
� Noturnal� é constituído pelo poema �Plenitude�. Já os movimentos �Interlúdio I �
Auroreal�, �Interlúdio II � Solar� e �Epílogo � Crepuscular/Noturnal� foram compostos a
partir de fragmentos do poema �Pausa�. Por fim, os movimentos �Curto instante de memória
� Matinal� e �Suave Presença � Vesperal� utilizaram-se dos poemas homônimos �Curto
instante de memória� e �Suave Presença�.
Os poemas trazem temáticas eróticas e bucólicas, descrevendo as cenas de amor
vividas pelo eu lírico e sua amada, dentre as quais destacamos alguns exemplos:
�Silhuetas das montanhas vistas ao longe
o verde agreste que ela gosta
contra o céu de nuvens que
intimidam�
�Suas mãos percorrem meu corpo,
algo sugerem.
O sangue entumesce nas veias,�
Ao depararmo-nos com os títulos de cada um dos movimentos, identificamos, em
cada um destes, a indicação do que chamamos de �luminosidades�. Essas, por sua vez,
sugerem distintos horários do dia, no qual se traça uma linha temporal, criando toda a
progressão poética da obra. Na figura a seguir, podemos observar o transcorrer do fluxo das
horas do dia descritas no ciclo:
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Noturnal Solar Noturnal
Matinal
Vesperal
Crepuscular Auroreal Crepuscular
Figura 2: luminosidades e os fluxos do transcorrer das horas no ciclo. Fonte: elaborado pelos autores.
Tais signos são de grande valia, pois auxiliam na concepção das paisagens do
luminoso e brilhante jardim, bem como ajudam na criação das relações texto-música de todo
o ciclo.
A seguir, demonstraremos alguns exemplos do emprego do binômio texto-música
em diversos movimentos da obra, ressaltando como o compositor utiliza-se desse artifício na
linha pianística, na construção de paisagens sonoras e na descrição e ilustração do conteúdo
textual exposto pela linha vocal.
2. As relações texto-música em Jardim!do!amor!e!da!paixão
Nesse tópico, abordaremos como Almeida Prado trabalha de distintas formas as
relações texto-música em todo o ciclo. Conforme relatado anteriormente, Jardim!do!amor!e!
da!paixão retrata o ciclo de um dia de amor vivido por um casal.
Para uma maior compreensão de como o compositor utiliza-se de tais elementos
(texto-música), destacamos uma breve fala de Almeida Prado ao pianista RobervaldoLinhares Rosa7, na qual o compositor explicita como trabalha o material poético dentro do
universo da música vocal camerística: �Cada poema é tratado como um camafeu delicado,
uma aquarela. O piano pinta um cenário adequado a cada poema...� (OLIVEIRA, Anexos,
2019). Tomando como referência as palavras do compositor, demonstraremos como Almeida
Prado �pinta� o cenário poético-musical existente em Jardim!do!amor!e!da!paixão.!
O ciclo inicia-se com uma pequena peça solo para piano de nove compassos, com
o título �Prelúdio � Crepuscular�. Nesse momento, uma textura coral, na região aguda do
piano, forma acordes nos quais há uma predominância clara de intervalos de 4ª e 5ª (tanto
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justos, quanto aumentados e diminutos). Os acordes sofrem uma concreção8, comprimindo o
material intervalar das duas pautas, afunilando-os.
Figura 3: �Prelúdio � Crepuscular�, c. 01-05: movimento de concreção do material intervalar.
Fonte: partitura editada pelos autores.
O movimento inicia em pp e, a partir do c. 7, muda para ff. Em apenas dois
compassos, o volume sonoro muda drasticamente. Ambas as mudanças � tessitura do piano e
dinâmica � reforçam a imagem que transcorre durante todo o movimento, o crepúsculo, citado
no título do movimento �Prelúdio � Crepuscular� (cair da tarde e o início da noite).
Figura 4: �Prelúdio � Crepuscular�, c. 06-09, com mudança da tessitura do movimento simulando o cair da tarde
e o início da noite. Fonte: partitura editada pelos autores.
Importante notarmos que, no final de Prelúdio! �! Crepuscular, encontramos a
expressão - Attaca! � denotando continuidade e fluidez da obra. Tal ação ilustra o transcorrer
das horas e a mudança das luzes do dia. O movimento �Plenitude � Noturnal� inicia-se com a
indicação �Intenso�, o que, em nossa visão, remete ao ambiente da noite que surge nesta
primeira seção.
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Figura 5: �Plenitude � Noturnal�, c. 1-5, introdução que ilustra o cair da noite.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Quando a noite cai por completo, o movimento estabiliza-se em um ostinato
formado por colcheias e mínima ligadas. Para o auxílio da construção da imagem da noite,
temos, no c. 16, a indicação de �Calmo�. O ostinato, formado por colcheias e mínima,
aparecerá novamente no final do ciclo, retomando a ideia do cair da noite.
Figura 5: �Plenitude � Noturnal�, c. 16-22, ostinato ilustrando o cair da noite.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Ostinato
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O movimento sequente � �Interlúdio I � Auroreal� � trata de um recitativo
acompanhado pelo piano, cujas linhas são formadas por poucas notas ou poucos acordes. Em
todo o momento, Almeida Prado vale-se da alternância de partes instrumentais e partes
vocais; o piano, por sua vez, descreve a paisagem entoada na linha vocal, como podemos
conferir a seguir.
Logo no início, o eu lírico, representado na figura do canto, entoa o texto
�Silhuetas das montanhas vistas ao longe�. A melodia do c. 03, que tem a extensão de uma
quinta, está em uma região média da voz de barítono, com muitas notas repetidas, graus
conjuntos e um intervalo de terça.
Figura 6: �Interlúdio I � Auroreal� (c. 3), linha vocal semelhante a um recitativo.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Em seguida, uma longa e extensa linha pianística desenvolve uma representação
gráfico-musical das �silhuetas das montanhas�, com uma melodia na qual há a predominância
de intervalos melódicos de 5ª e 7ª.
Figura 7: �Interlúdio I � Auroreal�, c. 4-5, representação gráfico-musical das �silhuetas das montanhas�.
Fonte: editado pelos autores.
O 4º movimento �Curto instante de memória � Matinal� pode ser classificado
como um Through composed form9.
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89
Nesse movimento, há um grande desenvolvimento emocional do eu lírico.
Conseguimos distinguir diversos estados emocionais, que vão desde a lembrança de
momentos de amor e paixão, a recordação dos primeiros impasses e a felicidade de saber que
o amor resistiu ao tempo e aos �machucados�. A todo o momento, a linha pianística ilustra os
sentimentos expressos no poema, como vemos no exemplo que segue. Nesse caso, o eu lírico
esboça seu desejo e sua euforia ao relatar a lembrança do cheiro, da cor, do gosto da amada.
Figura 8: �Curto Instante de Memória�, c. 3-4, linha vocal demonstrando o desejo do eu lírico.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Para representar o estado de excitação e euforia do eu lírico, entre outras emoções
a que referenciamos anteriormente, Almeida Prado emprega uma escrita pianística muito
cromática e rítmica. Como base para o desenvolvimento de tais relações da música com o
texto, são utilizados intervalos de segunda e quarta; estes, por sua vez, encontram-se de
maneira muito recorrentes em toda a obra, como observamos nos exemplos a seguir:
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
90
Figura 9: �Curto Instante de Memória�, c. 5-9, trecho pianístico com utilização de intervalos de quarta e
segunda. Fonte: partitura editada pelos autores.
No movimento �Interlúdio II � Solar�, localizamos outros exemplos de relações
estabelecidas entre o texto e a música, como ocorre no c. 04, em que a linha vocal apresenta
sua primeira frase recitada, formada por apenas duas notas (Sol e Dó), utilizando novamente o
intervalo de quarta. O ritmo da melodia vocal é próximo ao ritmo da fala, o que sugere ao
intérprete uma declamação natural do texto.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
91
Figura 10: �Interlúdio II � Solar� (c. 04), linha vocal composta sobre o intervalo de quarta.
Fonte: partitura editada pelos autores.
Surge, no c. 05, um elemento que rompe com o que há anteriormente, um novo
motivo baseado em semicolcheias e arpejos ascendentes, que parte da região grave do piano e
estende-se até à região médio-aguda. Esse novo elemento apresentar-se-á recorrentemente
após a execução da melodia vocal ao longo de todo o movimento. Do ponto de vista
interpretativo, esse novo motivo é a representação sonora dos �pensamentos [que] giram
suaves�, entoados anteriormente pela linha vocal.
�Suave Presença � Vesperal� inicia-se com uma imagem da tarde dos amantes �
Suave, tênue, como estar na sombra de um Flamboyant florido � com uma marcação
metronômica de 96 bpm para a semínima. Tal marcação cria a imagem desse cenário
tranquilo, bucólico e luminoso que se transcorrerá por todo o movimento. Para a elaboração
de tal imagem, o piano estabiliza-se em um acompanhamento delicado, em pianíssimo, na
região médio-aguda do instrumento, acrescido de um longo pedal (c. 1 a 16) de sustentação
que complementará a criação da paisagem sonora do jardim ensolarado.
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Figura 11: �Suave Presença � Vesperal�, c. 1-16, ambientação sonora da imagem da marcação �Suave, tênue,
como estar na sombra de um Flamboyant florido�. Fonte: partitura editada pelos autores.
Após a tarde de amor, seguem o cair da tarde e o início da noite, em �Epílogo �
Crepuscular/Noturnal�. O movimento principia-se com um grande trecho instrumental,
simbolizando o final da tarde e o início da noite. No c. 17, a noite, estabelecida, cria um
contraste de luminosidade (Noturnal): o ostinato apresentado no segundo movimento
(�Plenitude � Noturnal�), signo da noite, retorna de maneira ampliada em compasso
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quaternário. Essa figura contribui para a criação da imagem do términoda calma tarde de
amor, descrita pela linha vocal, como observamos na figura a seguir:
Figura 12: �Epílogo � Crepuscular�, c. 17-27, início da noite. Fonte: partitura editada pelos autores.
Considerações finais
A análise realizada do ciclo Jardim do Amor e da Paixão demonstra uma pequena
parte do processo composicional de Almeida Prado para o gênero da canção de câmara.
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Temos observado que o compositor se utiliza dos elementos textuais para desenvolver sua
narrativa musical, unindo texto e música em uma diversa exploração dos elementos inerentes
às duas linguagens. Ressaltamos, por fim, que o texto apresentado revela apenas uma pequena
parte de nossa investigação.
Referências
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Almeida Prado. São Paulo. Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes, Universidade
Estadual de São Paulo, São Paulo, 2011.
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(poeta), Hilda Hilst (poetisa). Walter Walter Weiszflog (Barítono). CD, 50 min. São Paulo:
Clavicord Records, 2000. 1 disco compacto (50 + min.): digital, estéreo. MS45-1000 A.
GONÇALVES, Fúlvia. Fúlvia Gonçalves � Biografia, acervo, exposições, galeria e vídeos,
2018. Disponível em: http://www.fulviagoncalves.art.br/biografia/. Acesso em: 22 ago. 2018.
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Estadual de Campinas, Campinas, 1996.
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%20Edson%20Heleno%20da%20Silva%20/. Acesso em: 22 ago. 2018.
OHNO, Massao. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Massao_Ohno.
Acesso em: 22 ago. 2018.
OLIVEIRA, Rosedalia Carlos de Oliveira. O timbre e a relação música-texto na construção
da performance nos 4 Poemas de Manuel Bandeira para canto e piano, de Almeida Prado
(1943-2010). Dissertação (Mestrado em Música). Escola de música e Artes Cênicas,
Universidade Federal de Goiás, Goiás, 2019.
PINOTTI, José A. Suave Presença. São Paulo: Massao Ohno � Roswitha Kempf / Editores,
1982.
PINOTTI, Suely. Dicionário de artistas do Brasil. Disponível em:
http://brasilartesenciclopedias.com.br/nacional/pinotti_suely.htm. Acesso em: 22 ago. 2018.
PRADO, José Antônio R. de Almeida. Jardim do amor e da paixão. Ciclo de canções para
barítono, trompa e cordas, versão canto e piano. 1982. Partitura manuscrita.
_____________________. Jardim do amor e da paixão. Ciclo de canções para piano e
barítono. Darmstadt. Tonos International Darmstadt, 1984. Partitura.
_____________________. Modulações da memória (um memorial). Campinas, 1985. 381 f.
Memorial. Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1985.
SANT�ANA, Edson Hansen. A concepção intervalar em Almeida Prado: um estudo em três
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Universidade Estadual Paulista �Júlio de Mesquita Filho�, São Paulo, 2017.
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SCARDUELLI, Fábio. A obra para violão solo de Almeida Prado. Campinas, 2007. 228 f.
Dissertação (Mestrado em Música). Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas,
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SCHOENBERG, Arnold. Fundamentos da composição musical. 3.ª ed. São Paulo: EDUSP,
2008.
STEIN, Deborah; SPILLMAN, Robert. Poetry into song: performance and analysis of Lieder.
New York: Oxford University Press, 1996.
Notas
1 Scarduelli (2007) e Costa (2010) enumeram ao todo sete fases estilística de Almeida Prado, assim enumeradas:
1) Infanto-juvenil (1952 a 1960); 2) Nacionalista ou Guarnieriana (1960 a 1965); 3) Autodidatismo ou
Atonalismo Serial (1965 a 1969); 4) Universalista (1969 a 1973), 5) Ecológica ou Astronômica (1969 a 1983);
6) Pós-moderna (1083 a 1993); 7) Síntese ou Tonal Livre (1993 a 2010).
2 A fase Ecológica ou Astronômica caracteriza-se pela inspiração na fauna e na flora brasileiras, nas cores das
folhagens, nos ruídos onomatopaicos dos animais e também no céu brasileiro.
3 O Livro Suave Presença, de José A. Pinotti, foi editado por Massao Ohno (1936-2010) e Roswitha Kempf
(s.d.), em São Paulo, com capa e ilustrações de Helenos.
4
Suely Pinotti é esposa do médico e poeta José Aristodemo Pinotti.
5 O termo �movimento� é utilizado pelo próprio compositor para designar cada uma das sete partes do ciclo,
incluindo a �Introdução�, que é instrumental, e as seis canções que a seguem.
6 O poema �Pausa� não é utilizado integralmente por Almeida Prado, senão de forma fragmentada na
composição dos 3º, 5º e 7º movimentos.
7
Professor Doutor, pianista e musicólogo da Universidade Federal de Goiás (UFG).
8 Concreção é um procedimento composicional de tratamento harmônico que se baseia em uma diminuição
progressiva de intervalos determinados. O termo concreção harmônica ou concreção intervalar é utilizado por
Meneses em suas obras: Apoteose de Schoenberg, Música maximalista e Acústica musical em palavras e sons.
9 Segundo Stein e Spillman (1996: 203) Through Composed Form são composições que se mostram pouco
repetitivas e parecem descrever uma jornada emocional tão direta e completa que nenhum retorno é possível ou
necessário; nesse caso, a forma poética tem precedência sobre a criação de uma forma musical cíclica específica
(tradução nossa).
Sobre os autores
Leandro Augusto Cavini é Mestre em Música e Bacharel em Regência e Canto pelo Instituto
de Artes da UNICAMP. Atualmente cursa o Doutorado em Música orientado pela Professora
Doutora Denise Garcia na mesma universidade, desenvolvendo pesquisa sobre a obra vocal
do compositor Almeida Prado. Participa em diversas montagens operísticas junto ao Ópera
Estúdio UNICAMP e ao coletivo Ocupação Lírica de Teatro Itinerante como cantor e
produtor. É integrante do Coro Contemporâneo de Campinas desde 2012, atuando como
regente, cantor e membro da equipe de produção.
Adriana Giarola Kayama, Bacharel em Regência e Composição pela UNICAMP, Mestre e
Doutora em Voice Performance pela University of Washington, foi docente na área de canto
junto à UNICAMP por mais de 30 anos, e hoje continua vinculada como Professora
Colaboradora. Dedicou toda sua vida acadêmica à pesquisa da música vocal brasileira. Atuou
como cantora tanto no Brasil quanto no exterior, com grande sucesso. Presidiu a ANPPOM de
2003 a 2007.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
96
A Romanza na canção brasileira de câmara: a contribuição de Luiz
Melgaço para esse gênero
Joice!Rafaela!Coutinho!
UFMG!-!joicercoutinho@gmail.com!
!
Mauro!Camilo!de!Chantal!Santos!
UFMG!-!maurochantal@gmail.com!
!
Resumo: Este artigo trata da canção brasileira de câmara Romanza de Luiz Melgaço (1903-1983).
Será apresentada uma descrição da canção, juntamente com dados biográficos do compositor, que
possui obras para diversas formações que ainda não foram observadas pela pesquisa acadêmica.
Configura-se como objetivo deste estudo a divulgação do nome e de parte da obra de Luiz
Melgaço. Como acréscimo aos dados apresentados, anexaremos nossa edição de Romanza,
realizada a partir de uma única fonte disponível, a saber, uma cópia manuscrita que os autores
deste texto supõem ser o manuscrito original.
Palavras-chave: Luiz Melgaço. Canção Brasileira de Câmara. Romanza. Edição.
Romanza in Brazilian art song: Luiz Melgaço's contribution to this genre
Abstract: This article deals with the Brazilian art song Romanza by Luiz Melgaço (1903-1983). A
description of this song will be presented, along with biographical data of the composer, who has
works for various formations that havenot yet been observed by academic research. The objective
of this study is to disseminate the name and part of the work of Luiz Melgaço. In addition to this
article, we will attach our edition of Romanza, made from a single available source, namely, a
handwritten copy that the authors of this text assume to be the original manuscript.
Keywords: Luiz Melgaço. Brazilian art song. Romanza. Edition.
1. Introdução
O termo Romanza está presente na história da música há séculos e caracteriza-se
como gênero. Traduzido para outras línguas, temos o romance nos países de língua
portuguesa, o romance/romanza na Espanha, o Romanze na Alemanha, a romanza na Itália, o
romance na França e ainda outras traduções para línguas diversas. Segundo o Dicionário
Oxford de Música online:
A partir do século 15, romance na Espanha e romanza na Itália quase sempre
significaram uma balada; o romance narrativo foi, ao lado do villancico, o tipo de
canção mais popular nos países de língua espanhola. Na França e na Alemanha, o
termo passou a indicar um conto extravagante, sentimental ou !romântico! em prosa
ou verso estrófico. Desde as configurações vocais e instrumentais do século 18
intituladas !romance! continuaram a expressar essas qualidades !românticas! e
líricas (...)1. (OXFORD ONLINE).
Especialmente no século XIX, a música afasta-se de maneira considerável das
formas estabelecidas nos séculos anteriores, para dar vazão a peças circunstâncias como
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Baladas, Caprichos, Romances sem palavras, Prelúdios (lembrando que foi com polonês
Frédéric Chopin que o prelúdio se desligou definitivamente da Fuga), Noturnos e diversas
outras designações de gênero.
Embora possamos encontrar Romanzas de autores como W. A. Mozart (1756-
1791) e Joseph Haynd (1732-1809), foi no século XIX que essa designação passou a ser
abordada de maneira volumosa por tantos que dedicaram suas penas em formações solistas,
de câmara ou mesmo sinfônicas. Desta maneira, podemos citar o Romanze em Fá maior para
piano solo de Johannes Brahms (1833-1897), o Romance em Fá menor para violino e
orquestra, Op. 11, de Antonín Dvorák (1841-1904), O Romance em Ré maior de Camille
Saint-Saëns (1835-1921) para violoncello e orquestra entre tantos outros. No que diz respeito
à música vocal, especialmente à canção de câmara, relacionamos o Romance de Claude
Debussy (1862-1918), que é das páginas mais famosas do repertório de Mélodies!Françaises,
os 6!Romances,!Op.!16, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) ou mesmo os 6!Romances,!
Op.!4,!de Sergei Rachmaninoff (1873-1943).
No Brasil, o termo Romance ou Romanza não é facilmente encontrado na
produção de nossos defensores da canção de câmara, embora na ópera nacional possamos
citar a Romanza da ópera Fosca, Ah"! se! tu! sei! fra! gli! angeli, e a Romanza da ópera Lo!
Schiavo,!Oh,!come!splendido...
O compositor mineiro Luiz Melgaço (1903-1983) legou-nos uma canção
intitulada Romanza, o objeto deste estudo. Por se tratar de uma composição praticamente
inédita, apresentaremos um estudo sobre suas características como canção brasileira de
câmara e uma edição da peça, visto que a partitura permanece em manuscrito, além de dados
biográficos do compositor, pouco conhecido na atualidade fora do âmbito de Minas Gerais,
embora tenha sido um performer e compositor reconhecido no período em que atuou. Nosso
objetivo com este estudo é, pois, tornar acessível ao intérprete essa obra de Luiz Melgaço,
bem como promover a divulgação do nome do compositor.
2. Sobre o compositor mineiro Luiz Melgaço
Luiz Gonzaga Melgaço nasceu em quatro de junho de 1903, em Dores do Indaiá,
município de Minas Gerais. Iniciou seus estudos de música aos onze anos de idade, em 1914,
no Instituto Dom Bosco, em Itajubá (MG), onde estudou teoria, solfejo e clarinete com o
professor Francisco Nisticó2 (1879-1963). Nessa instituição, Melgaço permaneceu até o ano
de 1922. Estou também orquestração com o maestro germânico Willy Kune (s.d.).
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Em 1927, Melgaço começou a lecionar teoria e solfejo no Conservatório Mineiro
de Música, que havia sido criado no ano anterior, 1926. Paralelamente, estudou teoria musical
com Francisco Nunes3 (1875-1934). Mais tarde, de 1941 a 1943, atuou como regente das
orquestras das rádios Guarani e Mineira, quando pôde reger algumas de suas próprias
composições. Tornou-se professor catedrático de teoria e solfejo no Conservatório Mineiro de
Música, e a partir de 1953 passou a lecionar as mesmas disciplinas na Universidade Mineira
de Arte.
Melgaço integrava o respeitado grupo de professores compositores do
Conservatório Mineiro de Música. Sua primeira composição foi gravada em 1930, o hino Vai!
Soldado, com texto alusivo à Revolução de 30, escrito pelo poeta Augusto Lima (1889-1970).
Essa composição foi gravada pela Orquestra Guanabara, do Rio de Janeiro, o que tornou
Melgaço reconhecido para além das Minas Gerais.
Sua história como compositor passa pela dança de salão, onde concentra a maior
parte de suas composições mas, além desse estilo musical, compôs muitos hinos, peças para
piano solo, canções, música de câmara e obras orquestrais. No período que compreende os
anos de 1966 a 1972, compôs sua ópera em um ato e três quadro, a!Catuíra!dos!Araxás, com
libreto em tupi de Edmundo Dantés Passos (s.d.). Pouco se sabe sobre o paradeiro dessa
ópera, que chegou a ser noticiada pela imprensa fluminense em 1966, na edição 0009 da
Revista Cruzeiro, como podemos verificar na Figura 01:
Figura 1: nota sobre a estreia da ópera Catuíra!dos!Araxás, de Luiz Melgado lançada pela Revista Cruzeiro.
Fonte: acervo Hemeroteca Nacional.
Sua obra para canto e piano não apresenta grande volume. No livro Do!
conservatório!à!escola!�!80!anos!de!criação!musical!em!Belo!Horizonte,!Freire!e!col. (2006)
constam os seguintes títulos para essa formação: Canção!do!berço, Canções!estivaes (Op. 5),
Cantilena, Eu!não!sei!te!dizer, Evocação, Galera!de!velas!negras, Heleodora!�!Poema!lírico!
da! Inconfidência, Meus!pecados, Os! ipês! estão! florindo, Quando!ela! fala, Quando! fores! já!
velhinha, Rio!enamorado, Romanza, Tu!quiseste!o!mar e Vamos!juntos!sorrir.
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Amante do canto dos pássaros, Melgaço transcreveu na pauta musical cerca de
300 cantos de aves. Faleceu em 1983, aos oitenta anos, em Belo Horizonte, deixando um
acervo de composições pouco explorado, sendo difundido apenas no âmbito de Minas Gerais.
3. Descrição e edição da partitura de Romanza para canto e piano de Luiz
Melgaço
A cópia manuscrita de Romanza observada para este estudo é proviniente do
acervo pessoal de Isolda de Paiva Garcia4, pianista e cantora em Belo Horizonte. Sendo esta
nossa única fonte, um trabalho cuidadoso para identificação das notas, ritmos e texto poético
foi necessário, diante do estado precário da cópia manuscrita, que supomos ser do próprio
compositor Luiz Melgaço, não apresentando qualquer identificação de copista.
Ao todo, a partitura apresenta 46 compassos distribuídos em quatro páginas. Sua
tonalidade é a de Fá maior, com fórmula de compasso 9/8 e a indicação de Cantabile no
primeiro compasso. Notamos também a indicação de Opus 17, no canto direito da primeira
página, logo abaixo da indicação do nome do compositor, como podemos verificar na Figura
02:
Figura 2: excerto da cópia do manuscrito da canção Romanza!de Luiz Melgaço, única fonte para realização de
nossa edição. Fonte: acervo pessoal de Mauro Chantal.
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Podemos entender sua estrutura como duas grandes partes, A e A�, nas quais o
compositor valeu-se do uso de arpejos e acordes batidos, em sua maioria, para a escrita
pianística. A parte A, c.1 ao 20, apresenta breve introdução, c.1 ao 4, e subdivide-se em duas
seções de duas frases de quatro compassos cada. Nas duas primeiras frases, c. 5 ao 12,
notamos o uso de arpejos que evocam a harpa, num ambiente propício para os versos "Teus!
olhos! serenos! simbolizam! a! tristeza! e! a! dor.! Vejo-os! assim! tão! amenos,! quanta! angústia,!
quanta!sede!de!amor". A segunda seção, que compreende os c. 13 ao início do 20, apresenta
um acréscimo aos arpejos, desta vez executados apenas pela mão esquerda, com o uso de
terças em movimento descendente, do c.13 ao 16, com acréscimo de acordes batidos nos c. 17
ao 19, e retorno de arpejos nos c. 20 e 21. A parte A� tem início no c. 21, e digno de nota é
que a escrita para o acompanhamento e também para a voz dos c. 21 ao 24 é a mesma dos c. 5
ao 8, apresentando diferença apenas no texto poético. Essa parte A� apresenta três seções,
contendo duas frases de quatro compassos as duas primeiras seções, e uma última frase
contendo 10 c.
Os dados supracitados abarcam o texto poético, sem identificação de autor, mas
que podemos supor ser do próprio Luiz Melgaço, transcrito a seguir:
Teus olhos serenos simbolizam a triste e a dor.
Vejo-os assim tão amenos, quant�angústia, quanta sede de amor.
Quisera ao menos poder aliviar o teu sofrer e depois morrer.
Ouça, querida, o meu queixume, a minha prece para você... Ah!
Teus olhos serenos sintetizam a tristeza e a dor.
Vejo-os assim tão pequenos, quanta angústia, quanta sede de amor.
Ah! Quando alongo meus olhos a ti, eu sinto a tristeza arrancar-te o fulgor.
Oh! Que ventura fazer do amargo pranto sonhos lindos, amor...
Ah! Quando alongo meus olhos a ti, eu sinto a tristeza arrancar-te o fulgor.
Ah! Que prazer ver-te assim, libertada da dor, amor...
De harmonia tonal, previsível de certa forma, e uma linha vocal que exige um
grande controle do legato, essa canção pode ser definida como romântica. Seu âmbito vocal
abarca as notas Dó 3 ao Sol 4, encaixando-se perfeitamente em classificações médias e
agudas, em relação às vozes femininas (soprano e mezzo-soprano) e à voz aguda masculina,
tenor, sem que haja perda da doçura vocal inspirada tanto pelas linhas melódicas, quanto pelo
texto poético.
A edição que apresentamos neste artigo foi realizada com o software!Finale, na
versão de 2014, a partir da cópia do manuscrito possivelmente realizado por Luiz Melgaço,
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como informado anteriormente. Notamos na cópia do manuscrito-fonte interferências
marcadas a lápis possivelmente por outros intérpretes, com caligrafia diversa da que assina a
partitura, o que ressignificou o estudo da partitura, tornando-o um mais atento à identificação
da escrita original. Como citado acima, o manuscrito de Romanza apresenta quatro páginas de
texto musical, e nossa edição, que segue como Anexo neste trabalho, apresenta-se em seis
páginas. Há ,portanto, interferências gráficas na formatação.
Em comparação com a Figura 2, anteriormente apresentada, a seguir, na Figura 3,
um excerto de nossa edição realizada a partir desse manuscrito:
Figura 3: excerto de nossa cópia de Romanza!de Luiz Melgaço. Fonte: editada pelos autores.
Alguns elementos inseridos em nossa edição são descritos a seguir:
· Inserção das datas de nascimento e morte do compositor, de modo a
melhor localizar a composição como do século XX;
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· atualização do texto poético, segundo as normas vigentes na atualidade,
substituindo a palavra �dôr� por �dor� (c.8, 24 e 44) e �fulgôr� por
�fulgor� (c.40);
· troca da vogal A pela interjeição Ah" no c.20;
· redistribuição da posição de hastes dos arpejos contidos na escrita para o
piano, de modo a melhor a visualização da partitura;
· acréscimo de ligadura de expressão nas notas Dó sustenido 3 e Ré 3 na
linha do canto do c. 16, de modo a ilustrar melhor a relação texto-música
proposta pelo compositor (no caso, a palavra �morrer�);
· escrita das notas reais nos c. 17 ao 19 e 37 ao 41, substituindo a indicação
de repetição indicada pelo compositor, de modo a facilitar a leitura da
partitura;
· inserção de uma indicação de respiração no c.44, antes da última nota da
linha do canto, favorecendo a execução da frase em questão e contribuindo
para uma melhor expressão da mesma.
4. Considerações finais
Este artigo teve como objetivo um estudo sobre a canção Romanza, de Luiz
Melgaço, compositor mineiro de século XX, que atuou na primeira turma de professores do
Conservatório Mineiro de Música, e cuja obra é pouco conhecida além do estado de Minas
Gerais. Por suas características harmônicas e melódicas, pudemos situá-la como canção
tipicamente romântica. O estudo e apresentação de suas características musicais, quanto à
linguagem e estrutura, visam despertar o interesse por parte de performers para que essa obra
possa vir à luz como representante de nosso repertório de canções, valorizando, assim, o
nome de Luiz Melgaço e, consequentemente, nosso cancioneiro.
Referências
Do conservatório à escola � 80 anos de criação musical em Belo Horizonte. Luiz Melgaço
(Compositor). Patrícia Ahmaral (Intérprete), Mauro Chantal (Intérprete). Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2006.
FREIRE, Sérgio; Belém, Alice; MIRANDA, Rodrigo. Do!conservatório!à!escola � 80 anos
de criação musical em Belo Horizonte. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2006.
MELGAÇO, Luiz. Romanza. Cópia xerox. Partitura manuscrita, Belo Horizonte, Minas
Gerais.
https://www.oxfordmusiconline.com/search?q=romanza&searchBtn=Search&isQuickSearch=
true. Acesso em: 03.nov. 2020.
https://otaciliomelgaco.wixsite.com/melgacoencomium/blank-cnec. Acesso em: 03. Nov.
2020.
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103
http://bndigital.bn.gov.br. Acesso em: 03. Nov. 2020.
!
Notas
1 Tradução dos autores.
2Maestro e compositor, foi o organizador de cinco bandas em Itajubá, duas das quais de adolescente. Compôs
150 dobrados, valsas (algumas foram até gravadas) e músicas sacras. Fez parte do conjunto, como flautista, que
acompanhou o tenor italiano Enrico Caruso, quando este veio ao Brasil.
3 Clarinetista e maestro, Francisco Nunes foi o primeiro diretor do Conservatório Mineiro de Música.
4 Isolda de Paiva Garcia nasceu em Belo Horizonte. Formada pelo Conservatório Mineiro de Música, essa
pianista e cantora, trabalhou junto à Fundação Clóvis Salgado por 20 anos no desempenho das funções de
pianista acompanhadora e copista.
Sobre os autores
Joice Coutinho é natural de Belo Horizonte, graduou-se em música com habilitação em viola
pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2018, tendo sido orientada pelo
Prof. Carlos Aleixo. Atuou na Orquestra Jovem Vallourec como primeira viola, na Orquestra
Sinfônica da UFMG e na Academia da Orquestra Ouro Preto. Participou de diversos festivais
de música e na VI Semana Internacional de Música de Câmara do Rio de Janeiro (SIMCRJ)
atuou como violista no quarteto jovem residente. Foi selecionada pelos Concursos Segunda
Musical (2016/2018) e BDMG Jovem Músico (2016) e atualmente é violista no Quinteto
Caliandra e integra o naipe de violas da Orquestra Ouro Preto. Iniciou os estudos de canto
lírico orientada pelo Prof. Mauro Chantal e hoje cursa o segundo período da graduação em
canto pela UFMG.
Mauro Chantal é Doutor em Música pela Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP,
onde desenvolveu pesquisa sobre a vida e a obra de Arthur Ibêre de Lemos, tendo sido
orientado pela Profa. Dra. Adriana GiarolaKayama. Mestre em música pela UFMG, graduou-
se em piano, classe do Prof. Dr. Lucas Bretas, e também em canto, classe da Profa. Dra.
Mônica Pedrosa. Atua como docente na Escola de Música da UFMG nas áreas de canto e
técnica vocal, além de integrar o projeto de pesquisa Resgate da Canção Brasileira. Possui
mais de 100 títulos como compositor, todos envolvendo a música vocal. Com Lígia Ishitani,
em 2005, gravou o CD Un! doux! refuge, com a íntegra das canções para canto e piano de
Arthur Bosmans (1908-1991). Desenvolve atividades como baixo solista, tendo atuado em
óperas como Rigoletto, Le! nozze! di! Figaro, La! traviata, Il! ballo! delle! ingrate, Pelléas! et!
Mélisande, Macbeth, Roméo! et! Juliette e Il! Guarany, além de atuar como pianista
acompanhador. Em outubro de 2018, integrou o elenco de Pelléas!et!Mélisande na produção
do Theatro Municipal de São Paulo, sob regência de Alessandro Sangiorgi, em comemoração
aos 100 anos de morte do compositor Claude Debussy. Em 2019, sob regência de Sílvio
Viegas, cantou no palco do Palácio das Artes o Te!Deum, de Bruckner, a Missa!da!Coroação
e o Requiem, de Mozart.
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ANEXO � Nossa edição de Romanza de Luiz Melgaço
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Dados sobre a trajetória da cantora Lia Salgado e sua atuação na
divulgação da canção brasileira de câmara
Raquel!Giesbrecht!Calais!
UFMG!-!raquelbrecht@gmail.com!
!
Mauro!Camilo!de!Chantal!Santos!
UFMG!-!maurochantal@gmail.com!
!
Resumo: Este artigo apresenta dados biográficos de Lia Salgado (1914-1980), soprano fluminense
que se notabilizou em diversos seguimentos da música erudita, atuando em produções operísticas e
em recitais de câmara. Como artista representante de seu tempo, seu nome é parte incontestável na
história da música brasileira no século XX, com sólida contribuição na divulgação de
compositores e obras nacionais, por meio de estreias de compositores de seu tempo e resgate
histórico decorrente do trabalho musicológico envolvendo a produção sacra do Brasil do século
XVIII.
Palavras-chave: Lia Salgado. Canção brasileira de câmara. Biografia.
Data on the trajectory of the singer Lia Salgado and her performance in promoting the
Brazilian art song
Abstract: This article presents biographical data about Lia Salgado (1914-1980), a soprano born
in Rio de Janeiro who became famous in several segments of classical music, working in operatic
productions and chamber recitals. As a representative artist of her time, her name is an
indisputable part in the history of Brazilian music in the 20th century, with a solid contribution in
the dissemination of composers and national works, through premieres of composers of her time
and historical recovery resulting from the musicological work involving the sacred production of
Brazil from XVIII century.
Keywords: Lia Salgado. Brazilian art song. Biography.
1. Introdução
Dissertar a trajetória de uma artista como Lia Salgado (1914-1980) é também
compreender parte do desenvolvimento da música vocal erudita no Brasil do século XX.
Entendemos que a música como veículo social atesta o tempo no qual é composta, e ao nos
debruçarmos sobre o percurso artístico de Lia Salgado podemos perceber quão profícua foi a
produção vocal brasileira no período em que essa artista atuou.
O século XX pôde contar com significativas transformações no âmbito da música
erudita a partir do trabalho de nossos compositores modernistas, que investigaram e
investiram na busca por uma identidade musical brasileira. Assim, foram transportados para a
canção de câmara aspectos da cultura indígena, cantos originais da população de ascendência
africana, os lamentos de caboclos e suas paisagens árduas e ao mesmo tempo plácidas. O
desenvolvimento de gêneros como a seresta e a modinha, por exemplo, alcançaram seu ápice
na pena de compositores como Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1897-
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111
1986) e Camargo Guarnieri (1907-1993), dentre tantos outros que delinearam o tratamento
vocal e instrumental de nossa canção de câmara. Dessa maneira, o piano foi tratado como
instrumento transformador de timbres, transportando para salas de concerto tambores negros,
instrumentos sonoros indígenas e o violão seresteiro. Além disso, adaptar à escrita vocal
características de nosso idioma sempre foi tarefa árdua para compositores brasileiros, que nem
sempre receberam crédito ou reconhecimento por isso, como podemos aferir nas palavras de
Mário de Andrade:
O conflito entre o canto e a língua nacional é patente, é contundente, é enorme em
todas as canções eruditas. Mas se o conflito existe, não podemos de forma alguma
concluir, pelas obras existentes, que os compositores nacionais têm-se preocupado
com ele. A minha conclusão particular e aflita é que os nossos compositores, quase
todos, jamais se preocuparam com o problema, jamais se lançaram na árdua
pesquisa estética de acomodar às exigências do canto as exigências da palavra
nacional (ANDRADE, 1938: 98-99).
Diante desse cenário, encontramos na figura de Lia Salgado uma artista completa,
que soube interagir tecnicamente com a linguagem da ópera de repertório, bem como com os
rumos até então não tão sólidos da canção brasileira de câmara. Desta maneira, este estudo,
apresentado no quadragésimo ano de falecimento de Lia Salgado, pretende abordar de
maneira sucinta a trajetória artística dessa solista em meio às transformações artísticas do
tempo em que viveu, tratando inclusive de seu reconhecimento não somente como cantora
solista, mas também como personagem social para além do universo musical.
A metodologia para abordagem dos dados contidos neste trabalho envolve
entrevistas com familiares, acesso ao catálogo do Acervo Lia Salgado, dados contidos na
Hemeroteca Digital Brasileira e referências inseridas em livros sobre a história da música no
Brasil.
2. O início, os estudos e a ascenção artística de Lia Salgado
Nascida no estado do Rio de Janeiro, a 09 de junho de 1914, e com ascendência
familiar oriunda de Recife, pelo lado paterno, e fluminense, pelo lado materno, Lia
Portocarrero de Albuquerque Salgado desde cedo manifestou grande musicalidade, da qual
registramos uma citação sobre sua participação em "apresentação das alunas do Collegio
Maria Imaculada, no Rio de Janeiro (c.1922), na qual cantou 'com naturalidade e
desembaraço'" (GONTIJO, 2013: 2).VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
112
Em sua formação musical, Lia Salgado estudou piano e violão, mas foi com a voz
que se estabeleceu como artista. A mudança para Belo Horizonte se deu em decorrência de
seu casamento com Clóvis Salgado1, ocorrido em 1934. Digno de nota é o incentivo que Lia
Salgado recebeu de seu esposo (profundo admirador das artes), com quem teve os filhos
Clóvis Augusto, Virginia Helena e Marília. Este incentivo levou Lia a investir em estudos
musicais de maneira formal, que culminaram em sua formatura no Conservatório Mineiro de
Música, em 1946.
Consta no Catálogo do Acervo Lia Salgado a data de 1943 referente à estreia da
artista em um recital, ocorrido no Instituto Nacional de Música. Sobre sua estreia como
recitalista, resgatamos crítica lançada pelo Diário de Notícias, datado de 1º de setembro de
1943, na qual a artista, citada à época como Lia Portocarrero Salgado, foi mencionada por
D'OR com as seguintes palavras: �Lia Portocarrero Salgado tem, antes de tudo, magnífico
material a explorar. Possui uma voz de soprano lírico cujo timbre é dos mais belos. Sua
sonoridade, é límpida, clara, além de suficientemente volumosa�. Mais adiante, na mesma
matéria, podemos aferir mais informações sobre a crítica supracitada:
Lia Portocarrero (...) cantou de modo elogiável "Tristesse Eternelle", de Chopin; "La
Wally", de Catalani; "Impatience", de Schubert; "Improviso", de Mignone;
�Colombetta", de Buzzi-Peccia, e "Mia Piccirella", de Carlos Gomes, sendo alguns
números bisados (Diário de Notícias datado de 1º de setembro de 1943).
Posteriormente, em 1947, ocorreu sua estreia como solista em ópera. Trata-se da
Cavalleria! Rusticana de Pietro Mascagni (1863-1945), cujas récitas ocorreram no Cine
Theatro Brasil. Essa seria também a estreia de outra cantora mineira destinada a permanecer
na história da música brasileira, Maria Lúcia Godoy (1924). Essa produção foi planejada para
a comemoração dos 50 anos da capital mineira, e como decorrência das necessidades sociais à
época, três anos mais tarde seria criada a Sociedade Coral de Belo Horizonte, dando início às
temporadas líricas oficiais da capital mineira2.
Para os autores deste texto, inquestionável foi identificar o equilíbrio alcançado
pela artista Lia Salgado no trânsito entre o repertório camerístico, com especial atenção à
canção de câmara nacional, e o repertório operístico, ao qual se dedicou de maneira
cuidadosa, de modo a preservar-lhe a voz. Lia Salgado, segundo as informações disponíveis
em plataformas digitais, acervos públicos e pessoais, estabeleceu-se como uma artista
completa. Ao observarmos sua atuação em registros de áudio, podemos perceber uma atenção
especial dada à canção brasileira de câmara. Dos 10 títulos gravados pela artista, citados no
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113
Quadro 01, a seguir, nota-se a presença da canção brasileira, seja em sua veste erudita ou
folclórica:
Título Selo Acompanhamento
Villa-Lobos,!a!Canção!e!a!Criança! Caravelle Murillo Santos (piano)
Lia! Salgado! Interpretando!Autores!
Brasileiros!
Sinter Camargo Guarnieri e Alceu Bocchino
(piano)
Música!Brasileira! Corcovado Francisco Mignone (piano)
Brinde!Cantado! Continental Grupo de chorinho não identificado
Canções!brasileiras! Continental Não identificado
Moteto!Exultate!Jubilate! Redentor Sociedade Mineira de Concertos
Sinfônicos
Musique!Brésilienne! Decca (Paris) Não identificado
Mestres!do!Barroco!Mineiro3! Festa Orquestra Sinfônica Brasileira, sob
regência de Edoardo de Guarnieri
Rebelião! em! Vila! Rica! (Trilha!
sonora!do!filme)!
Lira (Ricordi
Brasileira)
Arranjos orquestrais de Camargo
Guarnieri
Lia!Salgado!e!a!Canção!Brasileira! Chantecler Camargo Guarnieri e Alceu Bocchino
Quadro 01: dados sobre a discografia de Lia Salgado4. Fonte: elaborado pelos autores.
Para Gontijo (2013), o empenho com o qual a artista trabalhou em prol da canção
brasileira pode ser considerado �um dos traços mais marcantes de sua trajetória artística�:
Dedicação que se intensifica ao longo de sua carreira, como podemos observar ao
percorrer seus programas. Estes eram, inicialmente, compostos por canções e árias
então em voga. Com o passar dos anos, Lia parece descobrir seu gosto e propensão,
tanto para a música de câmera quanto para a música brasileira. Junto a isso,
provavelmente tenha descoberto, como parte de sua �missão�, divulgar nossos
compositores, que, segundo ela, incluem outros nomes de relevo, além do já
aclamado Villa-Lobos. Assim, se, na década de 1940, apenas algumas peças
brasileiras integram seus programas, mais tarde a cantora dedica toda uma parte de
um recital, ou até mesmo um recital completo, à nossa música. É o que ocorre em
algumas de suas turnês pelo exterior: Lia é a primeira cantora a oferecer, nos EUA,
programa exclusivamente composto por canções brasileiras (GONTIJO, 2013: 4-5).
Aos leitores deste estudo, indicamos uma pequena parcela dos registros em áudio
de Lia Salgado disponibilizados pelo Instituto Moreira Salles por meio do endereço:
https://discografiabrasileira.com.br/artista/98067/lia-salgado.
Segundo Azevedo (1947), é na canção de câmara �que a música brasileira
encontra os seus momentos de mais íntimo e efetivo lirismo, por vezes os seus momentos de
mais funda afirmação nacional� (AZEVEDO, 1947: 271). Ao compararmos muitas
referências sobre a atuação de Lia Salgado como recitalista, defensora da canção brasileira de
câmara, podemos associar seu nome ao comentário supracitado, feito por Luíz Heitor Corrêa
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
114
de Azevedo. Neste sentido, inserimos uma das críticas recebidas pela cantora, datada de 13 de
abril de 1960 e assinada por Eurico Nogueira França, publicada no jornal fluminense Correio
da Manhã:
(...) A cantora Lia Salgado é uma artista profissional, igualmente experimentada no
repertório de ópera como no de concerto. (...) Ao lado dos novos recursos que dão
mais ampla segurança ao seu canto, e a afirmam na posse do instrumento vocal, há
tudo aquilo que não se aprende: a sensibilidade, a musicalidade, a emoção sincera
capaz de matizar-se, de tingir-se de diferentes graus do sentimento dramático e
poético, a comunicabilidade, a ternura ou a graça. Acima de tudo, a inteligência
interpretativa, misto de intuição e de lucidez penetrante. (...) A doçura do timbre de
Lia Salgado, na tessitura em que se inscrevem essas canções, e o acento de
diversificada sinceridade íntima que a animava, somando-se à observação dos
necessários valores estilísticos, perfizeram uma dessas versões que se ouvem com
verdadeiro prazer. (...) Um grupo de brasileiros, finalmente, mostrou a autenticidade
de Lia Salgado, no trato da nossa música. Uma primeira audição de Lorenzo
Fernandez (versos de Múcio Leão) - "Trovas de Amor" - constituiria, por si só,
como de fato sucede, algo de importante a assinalar: é página em que na delicadeza
camerística se insinua a comoção seresteira. A deliciosa �Evocação� de Villa-Lobos,
expressa ao mesmo tempo com requinte e calor, fez jus a bis. A essa bonita página
sucedeu-se �Cantiga de Ninar�, de Alceu Bocchino, em que o pianista cria uma
ambiência harmônica e melodicamente embaladora. �Não sei..." de Camargo
Guarnieri, e o brilhante "Outro Improviso", de Francisco Mignone, completaram a
audição, a que se somaram números extras, multiplicando os aplausos que Lia
Salgado despertou no transcurso de todo o programa (Eurico Nogueira França.
Correio da Manhã, 13/04/1960).
Se a vivência de Lia Salgado no âmbito da canção brasileira de câmara garante
sua permanência na história da música brasileira, deparamo-nos também com sua atuação na
cena lírica, desempenhando a vivência teatral ao interpretar algumas das heroínas mais
tradicionais do universo operístico. A artista possuíaa classificação vocal de soprano lírico, o
que, para Magnani (1989), ao referir-se às características dessa classificação, seria:
a voz típica do soprano, sonora e aveludada, igual nos vários registros, com natural
aptidão para o legato expressivo e pouca propensão para a agilidade virtuosística. A
qualidade do som prevalece sempre sobre a intensidade e brilho. É a voz que
expressa a feminilidade nos seus aspectos de devotamento e ternura (Mimì, na
Bohème, de Puccini; a protagonista, em Louise, de Charpentier), de nobre virtude
(Pamina, em A! flauta! mágica, de Mozart; Elsa, em Lohengrin, de Wagner), de
inquieta ânsia amorosa (Manon, na homônima ópera de Massenet), de capacidade de
sacrifício (a protagonista, em Butterfly, de Puccini; Liù, em Turandot, do mesmo
autor), de encantada contemplação (Mélisande, em Pelléas! et! Mélisande, de
Debussy). Por estes motivos, é a voz típica das heroínas do melodrama intimista e,
consequentemente, do teatro de Puccini (MAGNANI, 1989: 213).
Como solista de óperas, Lia Salgado atuou em importantes teatros líricos do
Brasil. O equilíbrio conquistado por essa artista ao transitar entre o repertório camerístico e o
universo lírico foi apreciado em diversas críticas, muitas delas disponíveis na plataforma da
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
115
Hemeroteca Digital Brasileira, que pode ser acessada pelo endereço:
http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx.
Na busca por dados sobre sua atuação como solista em óperas, encontramos
informações sobre os seguintes títulos, que contaram com a participação da artista, todos eles
descritos no Quadro 02 a seguir, em que constam informações sobre o papel interpretado, bem
como os teatros onde as obras foram representadas:
Título e autor Papel Local de representação
Cavalleria!Rusticana de
Pietro Mascagni
Santuzza Cine-Theatro Brasil � Belo Horizonte � 27/8/1947;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 3/12/1964;
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
2/9/1966.
La!Bohème de Giacomo
Puccini
Mimì Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 7/5/1949;
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
7/8/1956;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 14/8/1956;
Teatro Municipal João Caetano � Niterói �
8/5/1957;
Theatro Municipal � São Paulo � 21/11/1957;
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
4/12/1959;
Teatro Municipal João Caetano � Niterói-
3/12/1959.
Il!Guarany de A. Carlos
Gomes
Cecy Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte � julho
de 1951;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 7/5/1952;
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte � julho
de 1952.
La!traviata de Giuseppe
Verdi
Violetta
Valéry
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte � julho
de 1953;
Theatro São Pedro � Porto Alegre � 27/6/1958 (foi
a única solista brasileira em elenco do Teatro
Colón, de Buenos Aires);
Cine-Theatro Central � Juiz de Fora � s.d.
La!Serva!Padrona de
Giovanni Battista
Serpina Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 29/11/1953;
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
23/07/1954;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro - 1956
Escola Nacional de Música � Rio de Janeiro �
30/7/1957;
Instituto de Educação � Belo Horizonte �
10/9/1959;
Instituto de Educação � Belo Horizonte �
25/8/1970.
O!Sertão de Fernand
Jouteaux
Cília Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
29/11/1954 (première mundial).
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
116
Faust de Charles Gound Marguerite Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 21/9/1955;
Theatro São Pedro � Porto Alegre � 27/8/1957;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 10/10/1957;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 13/11/1958;
Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
21/8/1959;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 28/4/1960;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 22/10/1960.
Don!Giovanni de W. A.
Mozart
Zerlina Theatro Municipal � Rio de Janeiro � maio de
1956;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 11/6/1967.
Carmen de Bizet Micaëla Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 16/8/1956;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 3/12/1970.
Don!Pasquale de
Gaetano Donizetti
Norina Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 6/5/1958;
Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 6/7/1958;
Theatro São Pedro � Porto Alegre � 2/9/1959;
Teatro de Cultura de Brasília � 14/12/1960.
L�Enfant Prodigue de
Claude Debussy
Lìa Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 17/4/1959;
Instituto de Educação � Belo Horizonte �
10/9/1959;
Teatro Francisco Nunes- Belo Horizonte �
9/12/1959;
Escola Nacional de Música � Rio de Janeiro �
15/12/1962.
Manon de Jules
Massenet
Manon Theatro Municipal � Rio de Janeiro � 23/7/1960.
A!Compadecida de José
Siqueira
Compadecida Theatro Municipal � Rio de Janeiro �
11/5/1961(première mundial).
O!Telefone de Gian
Carlo Menotti
Lucy Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
24/8/1962;
Instituto de Educação � Belo Horizonte �
4/12/1964;
Escola Nacional de Música � Rio de Janeiro �
9/8/1965.
Um!Homem!Só de
Camargo Guarnieri
� 3 papéis
femininos
Teatro Municipal � Rio de Janeiro � 21/10/1962
(première mundial).
Madama!Butterfly de
Giacomo Puccini
Cio-Cio San Teatro Francisco Nunes � Belo Horizonte �
19/8/1966.
Lo!Schiavo de A. Carlos
Gomes!
Ilara Palácio das Artes � Belo Horizonte � novembro de
1972.
Quadro 2: dados sobre a participação de Lia Salgado em montagens operísticas no Brasil.
Fonte: elaborado pelos autores.
Segundo as informações apresentadas no Quadro 02, ressalta-se a participação da
artista em três premières mundiais, a saber, O!Sertão de Fernand Jouteux, A!Compadecida de
José Siqueira e Um!Homem!Só de Camargo Guarnieri. Lia Salgado estreou também canções
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
117
nacionais, algumas das quais dedicadas a ela. Neste sentido, nas Figuras 01 e 02, a seguir,
apresentamos excertos de dois manuscritos de partituras dedicadas à artista: Canção! da!
retirante de Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933-2006) e Saudade de Pedro de Castro (1895-
1978):
Figura 1: excerto de Canção!da!retirante de Carlos Alberto Pinto Fonseca, dedicada à soprano Lia Salgado.
Fonte: acervo do Instituto Cultural Carlos Alberto Pinto Fonseca � ICAPF.
Figura 2: excerto da capa da canção Saudade de Pedro de Castro, com dedicatória à artista Lia Salgado. Fonte:
acervo de partituras Hermelindo Castelo Branco � APHECAB.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
118
Em sua profícua carreira, Lia Salgado atuou ao lado de nomes consagrados
mundialmente no cenário operístico, como Giulietta Simionato (1910-2010), Mario Del
Monaco (1915-1982), Boris Christoff (1914-1993) e Italo Tajo (1915-1993), entre outros.
Esteve sob a regência de maestros como Isaac Karabtschevsky, Sergio Magnani, Camargo
Guarnieri e Edoardo de Guarnieri, dedicando-se também à performance em obras sinfônicas
como o Exultate!Jubilate e o Requiem de W. A. Mozart (1756-1791), e a Nona!Sinfonia de L.
van Beethoven (1770-1827). Sua beleza, delicadeza e elegância não eram apenas atributos
vocais, como podemos verificar em fotos de divulgação artística, aparência que completava
sua atuação em papéis de heroínas frágeis como Mimì (La! Bohème), Violetta Valéry (La!
traviata) e Marguerite (Faust). Na Figura 3, a seguir, apresentaremos uma fotografia da artista
publicada na Revista Ilustração!Brasileira, de dezembro de 1956, na matéria �Retrato de Lia
Salgado�, escrita por Sheila Ivert:
Figura 3: Lia Salgado em foto publicada pela Revista Ilustração!Brasileira, em 1956. Fonte: internet.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
119
Citamos também como acontecimento relevante na carreira da artista Lia Salgado
a criação do ConservatórioEstadual de Música Lia Salgado, criado pela Lei nº 1.123, de 03
de novembro de 1954. Essa instituição passou a funcionar em 23 de janeiro de 1956, e uma
fotografia de seu prédio pode ser vista na Figura 4, a seguir:
Figura 4: fachada do Conservatório Estadual de Música Lia Salgado, em Leopoldina, MG. Fonte: internet.
Voltada para a canção brasileira de câmara, dedicou-se também à sua difusão no
exterior, tendo se apresentado na Argentina e em palcos europeus nas cidades de Paris, Madri,
Lisboa e Londres. Nos Estados Unidos, apresentou-se em Nova York, Boston, São Francisco,
Los Angeles, Houston, Miami, Washington D.C., e New Orleans. Considerada a intérprete
oficial de Camargo Guarnieri, recebeu desse amigo e compositor a seguinte crítica:
Lia Salgado é, sem dúvida, uma das maiores cantoras do Brasil. Possuidora de uma
voz bela e generosa a serviço de uma técnica raramente atingida por outro cantor
brasileiro. Sua sensibilidade é refinada e seu gosto artístico é de primeira ordem (CD
Lia!Salgado!e!a!Canção!Brasileira, 2009).
Lia Salgado faleceu no dia 14 de novembro de 1980, em Belo Horizonte. Na
Academia Feminina Mineira de Letras � AFEMIL é a patrona da cadeira de número 24.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
120
Grande parte de sua produção artística encontra-se organizada no Acervo Lia Salgado,
pertencente ao Museu Abílio Barreto, em Belo Horizonte. Nele estão contidos dados sobre a
trajetória desta artista, que tem sua excelência profissional refletida nas páginas da história da
canção brasileira de câmara, como exemplo de técnica apurada refletida na qualidade sonora
de suas frases e de sua perfeita dicção do vernáculo.
Referências
ANDRADE, Mário de. Os compositores e a língua nacional. In: Anais do 1º Congresso de
Língua Nacional Cantada. São Paulo, 1938, p.98 e 99.
CALAIS, Raquel; CHANTAL, Mauro. (2020) Canção!da!retirante (1953), de Carlos Alberto
Pinto Fonseca: dados históricos, análise estilística e edição de performance. In: Diálogos
Musicais na Pós-Graduação: Práticas de Performance Nº5. Org. e ed. de Fausto Borém e
Eduardo Campolina. Belo Horizonte: UFMG, Selo Minas de Som, p.302-316.
CASTRO, Pedro de. Saudade. Para canto e piano. Partitura. Belo Horizonte: manuscrito,
1948, 6 p. Partitura manuscrita.
FONSECA, Carlos Alberto Pinto. Canção! da! retirante. Para canto e piano. Partitura. Belo
Horizonte: manuscrito, 1953, 2 p. Partitura manuscrita.
https://www.bheventos.com.br/noticia/07-14-2013-museu-historico-abilio-barreto-mostra-ao-
publico-os-acervos-de-lia-e-clovis-salgado. Acesso em: 09 nov. 2020.
http://memoria.bn.br/pdf/107468/per107468_1956_00245.pdf. Acesso em: 09 nov. 2020.
https://cemliasalgado.com.br/. Acesso em: 09 nov.2020.
LIA SALGADO E A CANÇÃO BRASILEIRA. Camargo Guarnieri (Compositor), Francisco
Mignone (Compositor), Heitor Villa-Lobos (Compositor), Lorenzo Fernandez (Compositor),
Alceu Bocchino (Compositor), José Siqueira (Compositor), Luciano Gallet (Compositor),
Jayme Ovalle (Compositor). Lia Salgado (Intérprete), Alceu Bocchino (Intérprete), Camargo
Guarnieri (Intérprete). Belo Horizonte, 2009. Compact Disc. Patrocínio de Furnas Centrais
Elétricas S.A., pela Lei Federal de Incentivo à Cultura � Lei Rouanet.
MAGNANI, Sérgio. Expressão! e! comunicação! na! linguagem! da! música. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 1989.
SALGADO, Lia. Entrevista de Sheila Ivert. Novembro de 1956. Revista Ilustração Brasileira.
Ano XLVIII. Número 245.
SALGADO, Marília. Entrevista a Raquel Calais em 14 de novembro de 2020. Belo
Horizonte. Documento escrito. Casa da entrevistada.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
121
Notas
1 Patrono da cadeira de número5 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes, e nascido em Leopoldina em
1906, Clóvis Salgado da Gama teve uma carreira pública das mais férteis. Formado pela Faculdade de Medicina
do Rio de Janeiro, em 1929, dedicou-se ao magistério na Faculdade Nacional de Medicina e também na
Universidade Federal de Minas Gerais. Como político, contribuiu na organização da Cruz Vermelha em Minas
Gerais, foi diretor do Hospital das Clínicas (1944) até 1954, quando passou a integrar o Conselho Federal de
Educação. Eleito vice-governador de Minas Gerais pelo Partido Republicano (PR), assumiu o governo do estado
em março de 1955, após a renúncia de Juscelino Kubitschek. Posteriormente, atuou como ministro da Educação
e Cultura em três oportunidades. Seus feitos em prol da arte, da saúde e da cultura e da educação podem ser
conferidos na criação do Conservatório Estadual de Música, no Departamento de Saúde Pública e no
Departamento Social do Menor e iniciou a construção do Hospital do Câncer e da Escola de Saúde Pública.
Citamos ainda sua atuação enquanto ministro da Educação, ao criar o Teatro Nacional de Comédia, o Museu
Villa-Lobos e sua participação na elaboração da Universidade de Brasília � UNB.
Clóvis Salgado atuou novamente como vice-governador do estado de Minas Gerais entre os anos de 1961 a
1966. Em decorrência da necessidade de um teatro que pudesse abarcar as demandas de Belo Horizonte no final
da década de 1960, participou ativamente da idealização do Palácio das Artes de Belo Horizonte, inaugurado em
1971. Criou ainda o Teatro Marília e presidiu a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Em atuação pública
constante, tornou-se diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais em 1973,
permanecendo no cargo até 1976. Faleceu na capital mineira em 1978, dois anos antes de sua esposa.
2 Digno de nota é o trabalho realizado pela Sociedade Coral de Belo Horizonte, que chegou a produzir 12
grandes obras por ano, entre óperas e ballets. Segundo o jurista e escritor Celso Brant (1920-2004), em texto
registrado em sua coluna Vida Artística, no Jornal Estado de Minas, em 15 de março de 1950: Não é de hoje que
Belo Horizonte está privada de temporadas líricas. As poucas representações de óperas que aqui se realizaram
ultimamente foram o resultado do esforço e do entusiasmo de alguns pouco abnegados. Desde a venda do velho
Teatro Municipal, sem dúvida um verdadeiro crime contra a cultura popular, a música lírica caiu em quase
completo esquecimento. A nova geração não sabe, mesmo, a real significação desse gênero musical que, por
desconhecimento, despreza. Por isso mesmo, diante da perspectiva de uma vida nova, (talvez este ano mesmo já
possamos ter uma pequena temporada lírica) é natural que sejam estudados os problemas que, em futuro
próximo, terão de surgir. (...) Para criar entre nós um bom ambiente vocal, tal como já existe ambiente para a
música sinfônica, está sendo organizada, na capital, uma sociedade, no modelo da Sociedade de Concertos
Sinfônicos. Iniciativa do Dr. Clóvis Salgado, grande benemérito da nossa arte, e do professor João Décimo
Brescia, um dos nossos mais abalizados conhecedores da arte do canto, essa entidade está destinada a prestar, à
nossa cultura, os mais relevantes serviços.
3 Trata-se da primeira gravação de música colonial brasileira.
4 O LP Lia!Salgado!e!a!Canção!Brasileira foi lançado posteriormente, em 2009, numa versão em CD, sendo
acoplado ao seu conteúdo as faixas de outro LP lançado pela artista, a saber,! Lia! Salgado! interpreta! autores!
brasileiros, lançado pelo selo Sinter. Esta junção de faixas reunidas no CD Lia!Salgado!e!a!Canção!Brasileira
teve patrocínio de Furnas Centrais Elétricas S.A., pela Lei Federal de Incentivo à Cultura � Lei Rouanet.
Sobre os autores
Raquel Brecht concluiu o mestrado em música pela UFMG, sob orientação de Mauro
Chantal, tendo desenvolvido pesquisa sobre a trajetória artística de Lia Salgado. É bacharela
em música, com habilitação em canto, pela Universidade Estadual de Minas Gerais - UEMG,
tendo estudado sob orientação de Marisa Simões. Na França, estudou canto, interpretaçãocamerística e operística no Centre d´Études de Musique e de Danse de Toulouse, onde esteve
sob orientação de solistas como Mady Mesplé (1931) e Leontina Vaduva (1960). Frente à
orquestrae de Castre, atuou como solista na obra Vespro! della! Beata!Vergine, de Claudio
Monteverdi (1567 � 1643), e Davide!Penitente, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756 � 1791),
sob regência de Rolandas Muleika. Interpretou ainda os seguintes personagens mozartianos:
Suzanna, da ópera Le!nozze!di!Figaro, sob a direção de Gabriel Bacquier, no teatro St. Pierre
des Cuisines, em Toulouse, e Madame Silberklang, da ópera Der!
Schauspieldirektor. Participou das seguintes montagens do Teatro da ópera de
Toulouse: Carmen, de George Bizet (1838 � 1875), Os!mestres!cantores, de Richard Wagner
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122
(1813 � 1883), A!mulher! sem!sombra, de Richard Strauss (1864 � 1949), e Le! roy!d`ys, do
compositor Édouard Lalo (1823 � 1892). Sob orientação de Neyde Thomas (1929 � 2011),
interpretou Fanny, da ópera La! Cambiale! di! Matrimonio, de Gioacchino Rossini (1792 �
1868).
Mauro Chantal é Doutor em Música pela Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP,
onde desenvolveu pesquisa sobre a vida e a obra de Arthur Ibêre de Lemos, tendo sido
orientado pela Profa. Dra. Adriana Giarola Kayama. Mestre em música pela UFMG, graduou-
se em piano, classe do Prof. Dr. Lucas Bretas, e também em canto, classe da Profa. Dra.
Mônica Pedrosa. Atua como docente na Escola de Música da UFMG nas áreas de canto e
técnica vocal, além de integrar o projeto de pesquisa Resgate da Canção Brasileira. Possui
mais de 100 títulos como compositor, todos envolvendo a música vocal. Com Lígia Ishitani,
em 2005, gravou o CD Un! doux! refuge, com a íntegra das canções para canto e piano de
Arthur Bosmans (1908-1991). Desenvolve atividades como baixo solista, tendo atuado em
óperas como Rigoletto, Le! nozze! di! Figaro, La! traviata, Il! ballo! delle! ingrate, Pelléas! et!
Mélisande, Macbeth, Roméo! et! Juliette e Il! Guarany, além de atuar como pianista
acompanhador. Em outubro de 2018, integrou o elenco de Pelléas!et!Mélisande na produção
do Theatro Municipal de São Paulo, sob regência de Alessandro Sangiorgi, em comemoração
aos 100 anos de morte do compositor Claude Debussy. Em 2019, sob regência de Sílvio
Viegas, cantou no palco do Palácio das Artes o Te!Deum, de Bruckner, a Missa!da!Coroação
e o Requiem de Mozart.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
123
Junturas de palavras no português brasileiro cantado:
a transitoriedade no encontro de dois sistemas
Juliana!de!Carvalho!Starling!
Unesp!-!julianastarlingsoprano@gmail.com!
!!
Resumo: As junturas de palavras no PB cantado, formadas pelos limites de vocábulos, constituem
eventos transitórios e maleáveis participantes dos sistemas verbal e musical em conjunto.
Orientada para a reflexão sobre os elementos notados e não notados por estes sistemas em
partituras vocais, em PB, a ideia de sílaba!complexa!transitória (SCT) é apresentada sob o esteio
de aspectos fonéticos, fonológicos e musicais. A metodologia envolveu a revisão bibliográfica
sobre o tema, bem como a análise de partitura.
Palavras-chave: Junturas de palavras. PB cantado. Música brasileira.
Title of the Paper in English: Linking Words in Brazilian Portuguese Sung: Transience with the
Meeting of Two Systems
Abstract: The linking words in the sung PB, formed by the limits of words, are temporary and
malleable events participating in the verbal and musical systems together. Oriented to the reflexion
about the elements noticed and not noticed by these systems in vocal scores, in PB, the idea of
complex! transient! syllable! (SCT) is presented under the support of phonetic, phonological and
musical aspects. The methodology involved the bibliographic review on the theme, as well as the
score analysis.
Keywords: Linking words. PB sung. Brazilian music.
1. Partitura não é �a música�
Ao encontro de tantas outras pesquisas, nossa questão inicial também parte da
práxis envolvida na performance da música vocal brasileira, que, como em outros idiomas, se
iniciam com o estudo de uma partitura. Sabemos, na prática, que embora os diversos
constituintes de uma obra vocal estejam expressos como índices para a sua execução (texto,
ritmo, altura, dinâmicas, andamento, articulações, dentre outros), a performance não se limita
à observância desses elementos, e, mais, mesmo �cumprindo� o rol de indicações
representadas, cada expressão será única, variando conforme o tempo e o espaço.
Os desdobramentos da execução de uma obra vocal registrada frequentemente
fazem, assim, ecoar materiais não notados (na partitura), mas que participam na emissão
sonora cantada em uma determinada língua. Por exemplo, como a característica de um som
linguístico, cuja variação pode ocorrer em regiões geográficas diferentes (ex: o �r� carioca e o
�r� paulistano).
Nesta linha, a investigação dos aspectos da área da dicção que se relaciona com a
linguística (nos âmbitos da fonética, da fonologia, da semântica e da cognição), com a
fisiologia humana (no âmbito da produção sonora), com os aspectos estilísticos, históricos e
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124
expressivos (no âmbito da interpretação), encontra diversos desafios quando da junção dos
sistemas musical e verbal.
A questão da limitação da escrita (aqui disposta na notação musical simultânea
com a notação verbal), como foi citada, permeia o desenvolvimento da ideia do que
chamamos de sílaba! complexa! transitória, e que pode nos propiciar reflexões sobre a
manipulação do texto e dos constituintes musicais (altura, ritmo, dinâmica, articulação, etc.)
em canções brasileiras.
As junturas de palavras representam um microuniverso de muitas possibilidades
da expressão vocal elaboradas numa composição musical em harmonia com o argumento de
John Rink (2002), de que a �partitura não é �a música�, �a música� não está confinada à
partitura�
1 (RINK, 2002: 39). Conforme sua defesa, os estudos podem estar implícitos ou
explícitos nas escolhas de um cantor, porém a partitura, que é parca para conter os dois
sistemas plenamente, não deve estar acima da performance, mas, sim, servir como um meio
para orientá-la.
2. Fonética e Fonologia: fontes para a ideia da SCT
A língua como parte essencial da linguagem constitui um objeto unificado e
suscetível de classificação, �é, ao mesmo tempo, produto social da faculdade da linguagem e
um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício
dessa faculdade nos indivíduos� (SAUSSURE, 1973: 17). Para Ferdinand de Saussure (1973),
língua e fala estão intrinsecamente ligadas. A língua é necessária para que a fala seja
inteligível, mas a fala é essencial para que a língua se estabeleça. Segundo Margarida Petter
(2005), dentro do conjunto linguagem e língua, a fala pertence a esse último conceito, é um
ato individual e resulta das combinações feitas pelo sujeito falante utilizando o código da
língua.
Discutir sobre os aspectos da linguagem (gesto, expressão, codificações
idiomáticas e materialidade) no canto requer a compreensão de que a sua manifestação ocorre
para além do sistema verbal, muitas vezes referenciada pela fala, também sobre o sistema
musical. Ambos se coadunam na propagação de ideias expressivas, que os extrapolam,
atribuindo-lhes um sentido.
Sobre o sistema verbal, que envolve a dicção de um idioma, segundo Ricardo
Cavaliere (2005: 14-15), cabe à Fonética estudar e descrever os sons do ponto de vista
material ou físico descrevendo detalhadamente como eles são produzidos (posições e
VI Seminário daCanção Brasileira � Escola de Música da UFMG
125
movimentos dos lábios, da língua e de outros órgãos relacionados, como as pregas vocais;
dentre outros) e quais os seus efeitos acústicos.
Ela se desdobra em pelo menos três áreas bem delimitadas, segundo Cavaliere
(2005: 23-24): a Fonética!Articulatória � que descreve e classifica os sons da fala da maneira
como são produzidos pelo aparelho fonador; a Fonética!Acústica � que estuda as propriedades
físicas dos sons produzidos e do percurso que as ondas trilham até chegar ao interlocutor; e a
Fonética!Auditiva � que se ocupa da forma como os sons da fala são captados pelo aparelho
auditivo e interpretados pelo cérebro humano. Aqui abordamos prioritariamente os aspectos
relativos à Fonética! Articulatória, que se vincula à manifestação da língua em sua
materialidade.
Ainda, segundo Cavaliere (2005: 14-15), à Fonologia, também denominada
fonêmica2, cabe o estudo dos fonemas3, assim entendidos como unidades fonológicas
distintivas e abstratas; ou seja, cuida do papel que tais sons desempenham no sistema de uma
língua particular: se podem ocorrer em qualquer posição silábica ou se estão restritos a uma
dada vizinhança fonêmica, dentre outros aspectos.
A busca de descrições explicativas para as regras fonológicas, entre elas as que
levavam em consideração os tipos de fronteiras existentes entre as palavras, via observação de
dados, deu margem ao surgimento de diferentes teorias denominadas não-lineares4, tais como
a Fonologia Prosódica.
Marina Nespor e Irina Vogel (1986) definem, assim, um conjunto de domínios
para compor a aplicação das regras fonológicas, num modelo hierárquico, como mostra a
figura abaixo.
U enunciado
I (I) frase!entoacional
" (") frase!fonológica
C (C) grupo!clítico
# (#) palavra!fonológica
$ ($) pé
!
% (%) sílaba
Figura 1: Escala prosódica. Fonte: BISOL, 2004: 60.
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126
Esse modelo ficou conhecido como hierarquia prosódica ou escala prosódica. Em
linhas gerais, a hierarquia se estabelece de forma que cada constituinte prosódico é a unidade
composta de uma ou mais unidades da categoria imediatamente inferior.
A sílaba (%), portanto, no modelo de representação fonológica não-linear,
corresponde ao menor ou menos extenso constituinte prosódico, que corresponde à camada
mais inferior da hierarquia e pode ser organizada formalmente com base na organização
hierárquica similar à dos níveis que são superiores a ela, na estrutura prosódica do enunciado
verbal. Desta maneira:
M A R
Figura 2: Organização rítmico-prosódica no âmbito da sílaba �mar�5. Fonte: autora.
Conforme Nespor e Vogel (1986), esta formalização contribui para a observação
da estrutura silábica, bem como os fenômenos acentuais prosódicos, em especial os relativos à
altura, intensidade e duração.
A partir destas perspectivas Wladimir F. C. Mattos (2014) procede na
investigação da sílaba, estabelecendo um modelo �híbrido� (não linear) de representação para
a referência para o estudo da abordagem articulatória aplicada à prática do canto. O modelo
considera as correlações entre a �sílaba verbal� e a �nota musical�
6, para a formação do que
ele denomina �sílaba melódica�.
Consideramos a sílaba melódica, cuja estrutura interna é formada essencialmente pelos
processos de coarticulação entre os subcomponentes da �sílaba verbal� e da �nota musical�,
como o elemento que define o domínio do menor componente ou do componente de base no
qual se estabelece a justaposição dos componentes verbais e musicais da melodia. Propomos
que estes processos sejam compreendidos no contexto da delimitação e das dinâmicas de um
�envelope silábico� a ser considerado pelo cantor na realização dos processos articulatórios
internos e/ou externos à sílaba melódica, processos estes que caracterizam simultaneamente a
sua conformação pontual e a sua predisposição à linearidade no fluxo rítmico-prosódico da
melodia (MATTOS, 2014: 77).
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
127
Neste modelo geral da �sílaba melódica�, o contorno acústico de uma nota
musical (ataque, sustentação e relaxamento)7 se assemelha ao das fases da produção dos
segmentos fonêmicos de uma sílaba (ataque, núcleo e coda). Abaixo, segue a descrição da
sílaba mais complexa do PB, conforme Mattos (2014).
Figura 3: Acoplamentos da sílaba melódica8 Fonte: MATTOS, 2014: 137.
Este acoplamento atribui à sílaba melódica uma representação ternária acústica
musical que se ajusta perfeitamente ao modelo ternário da sílaba verbal9. A partir desses
princípios formulamos a ideia da sílaba!complexa!transitória (SCT).
3. A sílaba complexa transitória (SCT) e sua aplicabilidade para a
performance
As junturas são fenômenos coarticulatórios ocorrentes em fonemas em limites de
vocábulos caracterizado pela manutenção ou modificação de seus traços por estarem em
contato com um fonema vizinho, em uma dada construção frasal. Por conta deste ambiente
suscetível às variadas transformações muitas realizações representam uma economia de
movimentos articulatórios pelo trato vocal ou configuram acomodações na produção sonora
conforme as escolhas do intérprete. Por estas razões, a compreensão dos processos envolvidos
na coarticulação de fonemas, agregada ao domínio dos aspectos da fonologia prosódica,
desempenham um importante papel na eleição de determinadas decisões em junturas de
palavras.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
128
As junturas de palavras podem ocasionar a composição de um grupo fônico
(fonético e fonológico) específico e transitório, o qual denoninamos de sílaba complexa
transitória (SCT). Isto é, a sílaba é complexa, porque se compõe de uma ou mais partes de
vocábulos vizinhos (de uma sílaba final e uma inicial), e se ajusta aos sistemas musical e
verbal; e é transitória, pois se estabelece no instante da produção sonora.
A SCT poderá ter em sua estrutura fônica alterações musicais, fonéticas e/ou
fonológicas, como por exemplo uma consoante ou semivogal (coda) pertencente à sílaba final
de um vocábulo, poderá se juntar ao núcleo de uma sílaba incial de outro vocábulo, conforme
as coarticulações ocorrentes10.
Assim sendo, podemos considerar que, em geral, as junturas ocorrem entre
vogais, entre vogais e consoantes, e entre consoantes do PB cantado. A partir deste universo,
podemos conceber muitas possiblidades de combinações que ora podem alterar as sílabas
verbais, ora a divisão musical atribuída ao texto, e, em alguns casos, ambas, de acordo com a
interpretação e a expressão do cantor. Podemos realizar junturas suprimindo (elisão, por
exemplo), mantendo ou modificando uma (ditongação, por exemplo) ou ambas as unidades
fonológicas envolvidas nas junturas.
Vejamos o caso da peça �Alma adorada�, com música e texto de Francisco
Mignone, cuja juntura das palavras �alma� e �adorada� pode suscitar não apenas às questões
relativas aos campos da prosódia e da música, mas também ao da semântica.
Figura 4: Alma!adorada, F. Mignone. Fonte: acervo pessoal da autora.
Na passagem acima, uma única nota (Dó bemol) é dedicada à juntura das sílabas:
-ma e a-, que pode ser realizada de variadas formas. Se considerarmos que há uma indicação
de junção, notificada pela ligadura abaixo das sílabas, e que há prescrição, também, de tratina
ou tenuto, cuja função é de manter, segurar, sustentar cada nota, a realização pode ser:
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
129
[ a:�.m�.do a.d�]. Ocorre que esta realização pode incorrer no caso de ambiguidade, a
partir da possível produção do conjunto �alma dorada�, em vez de �alma adorada�. Valeressaltar, que neste ambiente a coarticulação da vogal final arredondada �o�, da sílaba �do (a-
do-ra-da), em linha melódica ascendente (a-do-ra-da), recebe a influência da anterioridade
(palatalização) da vibrante simples �r�, da sílaba �ra, podendo acrescentar como coda da
sílaba �do a articulação da semivogal [�], transformando-a em um ditongo decrescente (�dou-
ra-da� [do:� �a.d�]), isto é, fazendo originar uma epêntese vocálica11. E, mesmo que sem a
articulação da semivogal [�], pode-se compreender na palavra �dorada�, a tendência do
fenômeno da monotongação (�dorada� em vez de �dourada�), que apaga a semivogal nos
ditongos crescentes e descrescentes, bastante frequente no PB.
Isto posto, se pensarmos a juntura �-ma a-� como um único grupo fônico, portanto
uma SCT, a ambiguidade poderá ocorrer, como vimos. Mas, podemos contribuir para a
inteligibilidade do texto produzindo, por exemplo, duas sílabas por meio de uma alteração
musical como se segue.
Figura 5:!Alma!adorada, F. Mignone. Fonte: edição da autora.
Nesta disposição, o alongamento da juntura se relaciona à manipulação dos
aspectos musicais (altura, ritmo e intensidade) em conjunto com o texto (fonética e prosódia).
A antecipação na articulação da sílaba átona final ��ma�, para o tempo pertencente à sílaba
�al-�, dá-se textual e musicalmente. Podemos considerar que, em função da sílaba antecipada
ser átona, esta maneira colabora para a articulação do núcleo da sílaba seguinte �a-�, de
�adorada�. Acrescente-se a isto, que esta disposição atribui uma proporcionalidade aos
motivos rítmicos12 dos dois compassos seguintes integrantes do verso, cujo texto é �alma
querida�, divididos da mesma maneira, assim:
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130
Figura 6:!Alma!adorada, F. Mignone. Fonte: edição da autora.
Outro caso seria o da peça �No meio do caminho�, com versos de Carlos
Drummond de Andrade, musicado por Osvaldo Lacerda.
Figura 7: Uma!nota,!uma!mão!só, O. Lacerda. Fonte: acervo pessoal da autora.
Se considerarmos a juntura das palavras �tinha� e �uma�, em razão de ter sido
atribuída a mesma nota musical às duas sílabas, podemos admitir, por exemplo, a elisão com a
queda da vogal final �a�, da sílaba �nha, e o núcleo da sílaba passar a ser a vogal �u� (u-ma).
Portanto a SCT seria �nhu [�u], onde a vogal �u� anterioriza e labializa a consoante palatal
vozeada [�]. Neste caso, a formação da SCT pode ser importante para a inteligibilidade do
texto, uma vez que a articulação de um ditongo �-nhau-� (�tinha uma�), poderia incorrer
numa ambiguidade também, assim: �tinhalma�, em vez de �tinha uma�.
Conclusão
De forma sintética foi apresentada, dentro do vasto tema das junturas de palavras
no PB cantado, a ideia da sílaba!complexa!transitória (SCT), mais profundamente descrita na
tese de doutorado da autora, como um recurso para colaborar para as reflexões sobre o nosso
fazer técnico e artístico. Esta investigação, como outras do canto em PB, passa por diversas
teias abrangidas pelos sistemas verbal e musical, ambos ocorrentes no momento em que se dá
a produção vocal, mas que pode ser signficativa na edificação da nossa performance.
Não se trata, justamente pela natureza transitória das junturas de palavras, neste
cenário, de estabelecermos �regras� fixas para a sua realização, mas de propor um olhar
crítico e sensível para o conhecimento de aspectos que encontramos na escrita das
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131
composições vocais em PB, e aquilo que podemos descortinar em termos da sua interpretação
e possibilidades de expressão.
Referências
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VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
132
Notas
1 The score is not �the music�; �the music� is not confined to the score (RINK, 2002, p.39).
2 Denominação da corrente de estudos norte-americanos.
3 Constitui a menor unidade sonora do sistema fonológico de uma língua, �que têm valor distintivo (servem para
distinguir palavras). Sons que estejam em oposição � por exemplo [f] e [v] em �faca� e �vaca� � são
caracterizados como unidades fonêmicas distintas e são denominados fonemas� (SILVA, 2008: 126).
4 A �estrutura de representação do modelo tradicional da fonologia gerativa representa os componentes
fonológicos de enunciado verbal sob um formato linear � caracterizada por um conjunto de segmentos
organizados sequencialmente em uma única linha � a fonologia prosódica estabelece o seu modelo de
representação sob um formato não-linear� (MATTOS, 2014: 84), como apresentado na Figura!1.
5 Termos: ataque (onset/O), rima (rhyme/R), núcleo (N), coda (Cd), consoante (C) e vogal (V). A sequência
deste exemplo (�mar�) é uma das possíveis do PB (sequência CVC).
6 �(...) compreendida como o componente musical de caráter igualmente pontual que forma a estrutura linear da
melodia� (MATTOS, 2014: 77).
7 Referenciado pelo modelo de representação do �envelope dinâmico� possui quatro estágios �mais relacionada a
uma ideia bastante difundida desde o advento dos sintetizadores e geradores de envelope utilizados no contexto
da música eletrônica e eletroacústica: o envelope ADSR (iniciais dos termos attack, decay, sustain e release)�
(MATTOS, 2014: 135).
8 Considera-se que os picos de energia dado a cada fase da sílaba (ataque, núcleo e coda) podem se alterar, assim
como as notas musicais no contínuo sonoro de uma linha melódica.
9 Vale ressaltar que as sílabas fonética e fonológica nem sempre coincidem. Enquanto a sílaba fonológica é
constituída por uma vogal precedida e/ou sucedida por uma consoante (modelos: CV, CCV, VC, VCC, CVC,
CVCC, CCVC e CCVCC), podendo esta consoante ser um ditongo; a sílaba fonética admite mais segmentos
durante um único pulso de ar e um único pico de sonoridade. Assim,�uma sílaba fonética pode ser entendida
como duas sílabas linguísticas numa determinada língua, assim como duas sílabas fonéticas podem ser uma
única sílaba linguística� (SOUZA, 1998: 128).
10 Esta definição se relaciona ao conceito de ressilabificação adotada pela fonologia, no qual o rearranjo das
estruturas silábicas de uma sequência de palavras, ou sílabas dentro das palavras, ocasiona a mudança de posição
de vogais e/ou consoantes da estrutura silábica original para os lugares de: ataque, núcleo ou coda da sílaba
formada.
11 A epêntese vocálica pode ser definida como um fenômeno de acréscimo/inserção de uma vogal ou de uma
consoante em uma sílaba, não representada na escrita, em nível intravocabular. (MENDONÇA, 2003: 32;
REDMER, 2007, p.14). Distingue-se da paragoge, que adiciona um fonema no fim de vocábulo.
12 �Um motivo é a menor ideia musical identificável. Um motivo pode consistir de um padrão de alturas ou um
padrão de ritmos, ou ambos�. (KOSTKA, 2000: 158).
Sobre a autora
Juliana Starling, mestre e doutora em Música/Canto, ambos pela Unesp, e bacharel em
Música/Canto, pela Unicamp, recebeu orientação vocal das professoras: Hermínia Russo;
Martha Herr; Vânia Pajares, Elvira B. Crimi (Academia de Santa Cecília � Roma/Itália); Rita
Patané e Maria Luisa Cioni, em Milão/Itália. Apresentou-se em diversos teatros e espaços
como: Sala São Paulo; Theatro Municipal de São Paulo; Theatro Municipal do Rio de Janeiro;
Teatro Colón de Buenos Aires/Argentina; Kurhaus de Wiesbaden, Bad Schwalbach e
Limburg (Alemanha), São Goar/Alemanha e no Palácio Foz (Lisboa/Portugal). Cantou, entre
concertos e óperas, �La bohème�, G. Puccini; �Turandot�, G. Puccini; �Lohengrin�, R.
Wagner; �A Flauta Mágica�, W. A. Mozart, �O Barbeiro de Sevilha�, G. Rossini; �Psychè�, J.
B. Lully; �Requiem�, de G. Verdi; �Ein deutsches Requiem�, J. Brahms, �Lobgesang�, de F.
Mendelssohn; �Stabat Mater�, G. B. Pergolesi; �Egmont�, L. Beethoven; �Peer Gynt�, E.
Grieg; �9ª Sinfonia�, L. Beethoven; �Missa em Bb�, Padre José Maurício Nunes Garcia; e
�Gloria�, A. Vivaldi. Desde 2008 integra o Coro Lírico Municipal do Theatro Municipal de
São Paulo. É professora substituta do Bacharelado em Música (Canto), do Instituto de Artes
da Universidade Estadual Paulista �Júlio de Mesquita Filho� � Unesp, desde 2017.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
133
As relações texto-música e a construção da performance de Teu!nome,!de
Almeida Prado
Isabela!Siscari!Campos!
UNICAMP!-!isabelascampos@gmail.com!
!
Angelo!José!Fernandes!
UNICAMP!-!angelojf@unicamp.br!
!
Resumo: o presente artigo é um recorte de uma pesquisa recém realizada sobre os procedimentos
de preparação e de construção da performance de repertório vocal sob o ponto de vista do pianista
colaborador, aplicados à canção Teu!nome,!de Almeida Prado (1943-2010). Tendo como principal
referencial teórico o processo descrito por Stein e Spillman, em Poetry! into! song! (1996), os
objetivos são: a compreensão do ciclo Quatro! Poemas! de!Manuel! Bandeira,! como um todo; a
verificação de elementos comuns a todas as peças que o constituem; a análise com ênfase no
binômio texto-música; e a proposição de sugestões interpretativas para voz, piano e conjunto.
Palavras-chave: Práticas interpretativas. Repertório vocal. Canção de câmara brasileira. Relação
texto-música. Almeida Prado.
The Binomial Text and Music, and the Construction of the Performance in Teu! nome,!by
Almeida Prado
Abstract: This article is part of a research on the procedures of preparation and construction of the
performance in a vocal repertoire from the point of view of the collaborative pianist, applied to the
song Teu!nome,!composed by Almeida Prado (1943-2010). Having as main theoretical reference
the process described by Stein and Spillman, in Poetry! into! song! (1966), the objectives are: the
understanding of the cycle Quatro!Poemas!de!Manuel!Bandeira,!as a whole; the verification of
common elements to all the songs; the analysis focusing on the binomial text-music; and the
interpretative suggestions for voice, piano, and the duo.
Keywords: Performance practices. Vocal repertoire. Brazilian art song. Text and music binomial.
Almeida Prado.
1. Introdução
Almeida Prado (1943-2010) completa 10 anos de morte em 2020, deixando uma
produção de mais de 700 títulos para formações variadas. Uma quantidade cada vez maior de
pesquisas tem sido dedicada à obra do compositor, cuja produção passou pelas fases nacional,
universal e de síntese, com períodos voltados a uma temática ecológica, astronômica e mística
(GAZZANEO, 2011: 15). Dos escritos e entrevistas do próprio compositor, percebe-se um
tratamento específico em relação às peças que portavam um texto, já que, segundo ele, ao
utilizar um poema de outro autor, buscava primeiramente situá-lo no que expressa de
pictórico e descritivo (LEFÈVRE, 2015: 19). Assim, para a construção da performance de
Teu! nome,! este artigo apresenta um entendimento do ciclo como um todo e, então, alguns
aspectos do estudo do texto, da música e das relações texto-música, bem como a sugestão de
procedimentos interpretativos para voz, piano e conjunto.
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134
2. Almeida Prado e os Quatro!Poemas! de!Manuel! Bandeira para soprano e
piano
O ciclo composto em 1998 para soprano e piano foi dedicado a Victoria Kerbauy
(1929-2017) e estreado por ela em novembro do mesmo ano, no Theatro Municipal de São
Paulo, junto do pianista Cláudio de Brito (1933-2015), de acordo com o Catálogo!de!Obras!
de!Almeida!Prado, da Academia Brasileira de Música (2016: p. 155). Conforme a assinatura
nos manuscritos ao fim de cada canção, as quatro canções foram compostas na cidade de
Campinas, no período de dois dias, entre 14 (Andorinha e Teu!nome) e 15 de janeiro (Belo!
belo e A! estrela). Este catálogo ainda apresenta duas gravações existentes: a primeira foi
realizada pelo soprano mencionado, acompanhada pelo próprio compositor; a outra foi feita
pelo soprano Mirna Rubim (1961), com o pianista Robervaldo Linhares Rosa (1973),
orientador do trabalho de Oliveira (2019), para quem Almeida Prado escreveu diversas cartas
acerca de suas obras. Nelas, encontramos a seguinte descrição dos Quatro!Poemas!de!Manuel!
Bandeira:
Cada poema é tratado como um camafeu delicado, uma aquarela. O piano pinta um
cenário adequado a cada poema, e utilizo uma linguagem da Harmonia Peregrina, ou
Tonal Livre. A Harmonia Peregrina é uma técnica que percorre os graus de uma
tonalidade livremente, alterando-os sem preocupação, de acordo com o que pede o
texto musicado, e a necessidade poética! emocional [grifo do autor] (OLIVEIRA,
2019: anexo C).
Note-se que, desde o primeiro poema, a música acontece, consoante Almeida
Prado, em função de um texto, como veículo para seu entendimento. Sem a pretensão de
aprofundarmo-nos em uma análise completa de cada uma das canções, trazemos alguns dos
aspectos principais a serem considerados, úteis à preparação e performance de Teu!nome.
Os quatro poemas escolhidos por Almeida Prado foram: �Andorinha�, �Teu
nome�, �Belo belo� e �A estrela�. Embora sejam todos do mesmo poeta, vale ressaltar que
não pertencem a um mesmo ciclo ou publicação: o primeiro está contido em Libertinagem,
livro escrito entre 1924 e 1930; o segundo foi publicado em 1948, no Mafuá! do!malungo,
conjunto de textos mais cotidianos, sobre assuntos variados; já �Belo belo� data de 1940, da
coletânea Lira dos Cinquent�anos, assim como �A estrela�. Não parece existir, entre tais
obras, uma conexão de sentido ou proximidade temática efetiva, sequer uma cronologia ou
qualquer outra coincidência, senão o fato de terem sido escritas por um mesmo autor. A
escolha por estes e não outros poemas, no entanto, aliada à variedade de estilos e
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Músicada UFMG
135
ambientações da música de Almeida Prado, certamente reflete o momento composicional em
que se encontrava, sua última fase, Temática!Livre.
Tais informações mostram-se relevantes para compreendermos que o ciclo Quatro!
Poemas! de! Manuel! Bandeira, situado no momento de síntese e inclusão de elementos
presentes em toda a trajetória do compositor, apresenta diversas pluralidades, incluindo a
escolha do texto, e engloba diferentes procedimentos musicais.
De acordo com Oliveira (2019: 69), Andorinha representa o tema ecológico, já
que, apesar de ser um poema que tem como foco o próprio eu lírico, e não o pássaro em
questão, a música que o envolve faz alusão ao seu voo linear e leve, escrita em um só
compasso de 84/8. Mesmo as figuras iniciais e finais do piano podem indicar o pouso da ave
ao se aproximar de quem fala e, depois, o momento em que levanta voo:
Figura 1: canção Andorinha, de Almeida Prado, parte do piano, compassos iniciais (à esquerda) e finais (à
direita). A aproximação e o afastamento da ave em relação ao eu lírico.
Fonte: trecho da partitura editado pelos autores.
Já os dois poemas publicados em Lira dos Cinquent�anos representam a fase
astronômica do compositor: Belo!belo traz!indicações!de!momentos!do!dia,!como!�Noturnal!
(antes!da!aurora)�!e!�Amanhecendo�,!retratando!os!versos!�A!aurora apaga-se�!e!�O!dia!vem,!
e! dia! adentro/Continuo! a! possuir! o! segredo! grande! da! noite�.! Em! relação! às! duas! últimas!
canções do ciclo, o compositor escreve sobre a performance do pianista Robervaldo Pinhares
Rosa:!�As!ressonâncias!de!A!estrela ficaram ideais � o mesmo as turbulências passionais do
Belo!belo.!Elas!envolvem!harmoniosamente!a!melodia!cambiante!da!soprano� (OLIVEIRA,
2019: anexo D).!Ele! ainda!afirma! existir! uma!�paisagem!sonora�,!uma!melodia! inerente! ao!
lirismo de Manuel Bandeira (1886-1968).
Os quatro poemas apresentam outras especificidades em termos sintáticos e
semânticos. �Andorinha� é um poema curto, de versos livres, porém, dotado de musicalidade
por conta de sua regularidade métrica, conforme observado por Gonçalves (2005: 2); além
disso, contém algumas figuras de linguagem, como a personificação da ave e a reprodução de
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
136
sua fala. A ele, sucedem: �Teu nome�, uma quadra popular; �Belo belo�, que, de acordo com
Antonio Candido (1996: 23), apresenta-se como um longo poema constituído por uma espécie
de estribilho com rima toante e um tipo de quadra irregular com uma rima, entre as sequências
maiores de versos livres; e, por fim, �A estrela�, com quatro estrofes regulares em tamanho e
rima.
Tais considerações podem servir como evidência de alguns aspectos na
abordagem do compositor a Teu! nome, mostrando que um entendimento prévio do texto é
primordial. Da observação do ciclo como um todo e de sua própria fala, entende-se que
Almeida Prado costumava evocar paisagens em sua escrita, tendo como referência o texto, sua
motivação inicial. A apreensão de alguns elementos gerais da construção de texto e música,
em Andorinha, Belo!belo e A!estrela, podem auxiliar-nos a enxergar procedimentos afins na
segunda canção, importantes para seu entendimento e preparação.
3. O estudo da obra: as relações texto-música em Teu!nome!
O poema �Teu Nome� é dividido em 4 versos, analisados na tabela que segue, no
tocante às sílabas poéticas1, ao esquema de rimas, às terminações2 e aos pés poéticos3:
1 Teu nome, voz das sereias,
2 Teu nome, o meu pensamento,
3 Escrevi-o nas areias,
4 Na água � escrevi-o no vento.
Verso Sílabas
poéticas
Esquema
de rimas
Terminações Pés
poéticos
1 Teu NO-me, VOZ das se-REI-as,
U / U / U U / U
7 a Fraca 3
2 Teu NO-me�o!MEU!pen-sa-MEN-to,
U / U / U U / U
7 b Fraca 3
3 Es-cre-VI-o nas a-REI-as,
U U / U U U / U
7 a Fraca 2
4 Na�Á-gua�es-cre-VI-o no VEN-to.
/ U U / U U / U
7 b Fraca 3
Tabela 1: elementos da estrutura poética da canção Teu!nome. Fonte: elaborada pelos autores.
Neste poema, é empregada a estrutura da quadra popular (SPONHOLZ, 1984:
48), muito frequente no folclore brasileiro, que tem como características principais os versos
heptassílabos e o esquema de rimas do segundo e quarto versos. Muitas quadras trazem os
dois últimos versos como um contraste em relação aos dois primeiros em termos de sentido;
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137
não é o caso deste, embora existam diferenças entre as duas metades: os dois primeiros versos
repetem!o!início!�teu!nome�,!além!de!apresentarem!o!mesmo!número!de!sílabas!poéticas!e!pés!
poéticos. Neles, predomina o ritmo trocaico (forte-fraco). A partir do terceiro verso, há uma
mudança na estrutura, com a substituição pelo ritmo anapéstico (fraco-fraco-forte).
Tanto a estrutura da quadra quanto o assunto são, tipicamente, populares.
Entretanto, Bandeira, ao trabalhar a palavra, cria o clima poético, principalmente por meio do
plural "nas areias", da elipse do verbo "escrevi-o" e do emprego do travessão. O poeta adotou
o esquema de rimas abab, com assonância das vogais /e/ e /o/. Há também aliteração de
consoantes fricativas, como /v/, /s/ e /z/ (remetendo ao próprio som do vento). As
terminações em todos os versos são fracas e as pontuações são, em sua maioria, simples, com
destaque para o travessão, uma cesura maior que enfatiza a elipse do verbo, já descrita acima.
O conteúdo poético do poema traz a ideia de um amor elevado e, de certa forma,
inalcançável, o que se reflete na associação! do! �nome�! a! elementos! como! �pensamento�,!
�areia�,! �água�,! �vento�,! todos! imensuráveis! e,! alguns! deles,! não palpáveis. Ele apresenta,
logo no início, a!imagem!da!�sereia�,!que!sugere uma qualidade sedutora e, ao mesmo tempo,
letal e surreal. Tudo isso contrasta com o modo de endereçamento, em segunda pessoa, como
se a persona (o eu lírico) estivesse realmente falando com alguém. Do primeiro para o
segundo verso, o nome vai se distanciando à medida que é trazido para dentro (com o
�pensamento�).! Depois, progressivamente, aparecem substantivos representantes dos três
estados!físicos:!sólido!(�areia�),!líquido!(�água�),!gasoso!(�vento�).!Tudo!remete!à!praia!e!ao!
mar.
Apesar de o poema todo tratar de algo não palpável e ilusório, existe uma
progressão poética,!uma!movimentação!psicológica/sentimental!conforme!o!�nome�!fica!cada!
vez mais distante. Primeiramente é associado a uma figura quase humana/mitológica, externa
ao eu lírico, depois ao interno dele. Em seguida, torna-se parte da natureza, passando pelos
estados! físicos! até! ser! associado! ao! vento.! Aparentemente,! a! evocação! do! �nome� pela
persona é recorrente, com a repetição do verbo nos últimos dois versos. A atmosfera poética4
dessa ilusão amorosa contrasta com a leveza trazida pelo local sugerido (praia) e com o uso da
quadra, elemento folclórico popular, até mesmo presente no meio infantil.
Quanto à colocação do texto em música, Teu!nome é dividida em 11 compassos e
quatro frases, coincidentes com a quantidade de versos. Em geral, nesta canção, Almeida
Prado procura respeitar a estrutura do poema, tendo adicionado na parte musical apenas um
poslúdio com três compassos de piano solo.
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138
A métrica, porém, nem sempre coincide com a acentuação natural do texto. No c.
3, por exemplo, o primeiro tempo de música está alinhado à voz, com!uma!sílaba!átona!(�as�,
em!�sereias�). Já no c. 7, a situação é parecida: por se tratar da primeira colcheia do 2º tempo,
a!palavra!�na�!sairia!mais!acentuada!que!�água�,!não!fosse!o!movimento!melódico!ascendente!
(Fig. 2):
Figura 2: trecho da canção Teu!nome, c. 7-8, linha vocal. Fonte: trechoda partitura editado pelos autores.
Ainda sobre a relação estrutural entre música e texto, a única elisão presente no v.
2!(�Teu!nome�o!meu!pensamento�)!não!aparece!na!distribuição!rítmica, com a existência de
uma nota para cada sílaba do texto. O restante coincide exatamente com a escrita musical: a
cesura, criada pelo uso do travessão no v. 4, reflete-se na única pausa empregada no meio de
uma frase da linha vocal (Fig. 2). O uso de uma aliteração composta, ou seja, a repetição não
somente de!uma!consoante,!mas!de!duas!palavras!no!início!dos!v.!1!e!2!(�teu!nome�),!também!
é expresso em música: o salto ascendente com o ritmo colcheia-semínima-semínima, em
caráter anacrúsico, representa!essas!palavras!e!também!aparece!em!�aliteração�, ao longo de
toda a música:
Figura 3: trecho da canção Teu!nome, c. 1-8,!linha!vocal:!presença!do!motivo!representativo!das!palavras!�teu!
nome�. Fonte: trecho da partitura editado pelos autores.
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139
A estrutura da quadra popular muda do v. 2 para o 3, com a substituição já
mencionada do ritmo trocaico por anapéstico. Também em música, no c. 5, a frase da linha
vocal inicia-se de forma diferente, sem o salto inicial de 8J ascendente. Chegamos ao clímax
no último verso, correspondente aos c. 7 e 8, o que se reflete na única indicação de dinâmica
depois do p sonoro! inicial: um crescendo que leva a mf, seguido por um diminuendo. Neste
mesmo momento, observa-se uma mudança na escrita pianística, quando a parte do piano
deixa de acompanhar a linha vocal com um contracanto, além de modificação no ritmo da
m.e.
O que mais chama a atenção no primeiro contato com a partitura é a alternância de
compassos em 11/8 e 12/8. Aliadas a isso, a indicação de andamento/caráter Ondulante e a
escrita sobrepondo agrupamentos de duas e três colcheias entre m.d., m.e. e voz ajudam a
criar a paisagem praiana descrita anteriormente, assim como a imagem auditiva dos elementos
imensuráveis ou não palpáveis do texto. Há evidências deste procedimento em diversas
declarações do compositor acerca de sua escrita, como ao dizer:
Se é um poema que fala de mar eu tenho que ter clima de oceano, de mar. E se eu
vou pensar em Santos, que tem água do mar, ou se eu vou pensar num mar nórdico,
ou num mar marciano, se é que tem, eu fico procurando que água eu vou colocar
como textura na canção. [...] Eu sou um compositor descritivo, neste sentido
romântico, e, eu procuro, nas canções sobretudo, fazer o que Schubert foi o primeiro
a fazer: o piano cria uma paisagem sonora do texto (PRADO apud!LEFÈVRE, 2015:
19).
Enquanto o piano, por si só, com as diferenças métricas entre as duas mãos, evoca
o movimento do mar, os sinais de articulação escritos para a voz, com os tenuti em uma linha
quase toda em legato, combinados à aliteração já mencionada das consoantes fricativas /v/,
/s/ e /z/, ajudam a criar uma linha vocal que se remete ao próprio vento.
O movimento e a inconstância da água também aparecem em elementos da
harmonia em Teu!nome, com a presença do intervalo característico5 de 4aum/5dim (trítono).
Ele é empregado de diversas formas ao longo da canção, tais como: (1) no material escalar,
(2) na progressão harmônica ao longo dos c. 1-6, (3) na linha vocal e (4) no alinhamento
vertical entre linha vocal e acompanhamento. Cada compasso da canção apresenta uma
coleção cromática de 10 notas (1), com omissão do 3º e 9º graus, entre os c. 1 e 6. Ou seja,
considerando como nota de início do c. 1 o Dó, teríamos uma sequência de cromatismos em
que faltam o Ré e o Sol# (4aum); no c. 3, iniciado por Sib, estão ausentes o Dó e o Solb
(5dim), e assim por diante. Consideramos a primeira nota do baixo, na m.e. da parte do piano,
como o centro de cada compasso, de maneira que se percebe uma progressão de Dó a Solb
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140
entre os c. 1 e 6 (2). Além disso, os baixos da m.e., em cada compasso, caminham em
movimento ascendente o equivalente a três tons.
A própria linha vocal entoa o trítono em algumas ocasiões (3), como nos c. 5-6, e
realiza um caminho cromático descendente de Mi a Sib nos seis primeiros compassos. O
piano dobra sua linha nas notas mais agudas da m.d. e completa o cromatismo com as notas
Dó# e Si, que não aparecem no canto. Já a última frase constitui, de certa forma, um resumo
do restante: ela começa com o salto ascendente em 8ª para o Mi46, adiciona um movimento
cromático descendente, vai até o Dó (assim como o fim da 2ª frase) e salta para o Sol, meio
termo entre o intervalo de Mi e Sib, formando um arpejo de DóM/Dóm. Esse arpejo é
reforçado no poslúdio, que termina justamente com a tríade de DóM. Por fim, o trítono
também é apresentado no alinhamento entre piano e voz (4), como na primeira entrada da voz,
que canta um Mi sobre o Lá# da m.d. do pianista.
4. Textura e temporalidade em Teu!nome!
Com base nos parâmetros elencados por Stein e Spillman (1996: 59), podemos
observar que Teu!nome!apresenta uma linha cantada constituída por uma nota por sílaba do
texto, escrita com muitas repetições ou pequenos intervalos descendentes (formando a escala
cromática já mencionada), com exceção do motivo inicial e recorrente de 8J ascendente. Em
geral, a escrita apresenta frases sem pausas e com marcações de legato e tenuto.
Apesar de o poema ter sido musicado de forma totalmente silábica (sem
melismas), as indicações citadas e o tempo moderado não parecem resultar em um canto de
estilo parlato7, falado. Dessa forma, o efeito buscado é o de um texto de fácil compreensão
por parte do ouvinte, mas, ao mesmo tempo, bem sustentado e ligado, contraste estrutural que
corrobora aqueles de sentido mencionados no item 2.
A parte do acompanhamento, com a visível intenção de simular o movimento do
mar, é dividida em quatro planos sonoros: uma linha superior executada pela m.d., com um
contracanto que ora dobra a melodia da voz, ora a completa; uma segunda voz também na
m.d. do pianista, de preenchimento rítmico-harmônico, em colcheias; e a linha da m.e.,
dividida em duas, visto que o baixo executa separadamente um movimento de considerável
importância, referente ao intervalo característico de 4aum presente em toda essa canção (Fig.
4). Apesar de se comportar polifonicamente como escrita, a parte do piano soa de forma
homofônica: ainda que tocada sem a cantora, escuta-se, nela, a linha vocal (voz superior da
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141
m.d.) sobre um acompanhamento ondulante que acentua os tempos concomitantemente a cada
duas (m.e.) e três colcheias (m.d.).
Figura 4: trecho da canção Teu!nome, c. 3 e 4: divisão dos planos sonoros: primeiro (notas com haste para cima
na m.d.), segundo (colcheias da m.d.), terceiro (notas mais agudas de cada ligadura da m.e.), quarto (notas mais
graves de cada ligadura da m.e.). Fonte: trecho da partitura editado pelos autores.
A mudança mais expressiva de textura ao longo de Teu!nome acontece justamente
no momento de clímax da música (c. 7-8), trecho em que o acompanhamento do piano deixa
de apresentar quatro planos sonoros definidos. Com a adição do pedal sustain
ininterruptamente neste trecho, a densidade aumenta, em relação à música tocada
anteriormente. Em seguida, o poslúdio do piano apresenta, pela primeira vez, uma escrita
vertical, empilhando em acordes o material escalar apresentado no compasso inicial da peça.
Quanto à temporalidade, Stein e Spillman (1996) estabelecem três parâmetros
principais a serem analisados em uma canção, a saber: (1) nuances de notação, (2)
determinação de andamento e (3) timing entre os músicos. Teu!nome!apresenta, em geral, uma
métrica musical e textual que coincide com os acentos criados principalmente por meio de
saltos (�teu!nome�!(U!/!U), escrito em saltode 8J ascendente e com repetição de nota, por
exemplo) e pela distribuição! rítmica! (�pensamento�! (U! U! /! U),! palavra! dividida! em! duas!
colcheias-semínima-semínima). Em se tratando de um poema com uma predominância de
pontuações curtas, especialmente vírgulas, e uma escrita musical que coloca o texto em
primeiro plano, Almeida Prado cria uma canção em que cada frase flui, não pesa e,
praticamente, reflete o ritmo do verso declamado.
A escrita em compassos de 11/8 e 12/8, já analisada anteriormente, reflete o
caráter ondulante especificado no início da peça. Inclusive, os momentos em que o motivo
inicial, de caráter anacrúsico, é escrito metricamente em tempo ou porção de tempo forte
servem para somar à sensação de movimento marítimo, sem um suporte rítmico bem
estabelecido.
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142
Apesar de não indicar mudanças de tempo como ritard., accel., entre outras,
Almeida Prado alarga o tempo no poslúdio do piano, passando a escrever em semínimas, em
vez de marcar toda colcheia, valendo-se de dois acordes, em figuras mais longas, de
semibreve pontuada. Quanto ao andamento (2), a pensar na relação das partes vocal e
pianística como reflexo do vento e do mar, respectivamente, pode-se considerar condizente
com a canção, como um todo, o uso de rubato, sobre o qual o próximo item discorrerá.
Por fim, o alinhamento vertical entre voz e piano (3) não apresenta tantas
complexidades em termos de encontros consonantais presentes no texto da linha vocal, não
fosse pela articulação escrita pelo compositor, repleta de tenuti. Sabendo que toda nota do
piano normalmente soa com a vogal do cantor, e não com a(s) consoante(s) que
eventualmente possa(m) antecipá-la, os versos requererem atenção por parte do pianista, haja
vista os!dois!últimos!(com!a!aliteração!do!verbo!�escrevi�). Antes disso, no entanto, os traços
sobre as notas dentro da ligadura parecem servir como ênfase às consoantes do texto. Assim,
o colaborador deve tocar procurando coincidir com cada nota da linha vocal, sabendo que
fonemas como /v/, /s/ e /z/ demandarão mais tempo que o esperado, com base no português
falado, para serem pronunciados pelo cantor.
5. Sugestões interpretativas
A execução da linha vocal pelo soprano deve ser pautada por dois aspectos
principais: a inteligibilidade do texto e a criação da paisagem sonora praiana. Dessa forma,
tanto a semântica quanto a sintática do poema de Manuel Bandeira são levadas em
consideração.
A escrita de Almeida Prado favorece a dicção e a acentuação métrica inerente ao
texto, sendo referida por outros pesquisadores como métrica! prosódica (OLIVEIRA, 2019:
71; BARANCOSKI, 2005: 17). A estrutura silábica contribui para o entendimento dos versos,
enquanto as notações de legato e tenuto relacionam-se à! �pintura�! do! �vento�! (v.! 4).!Após!
observar tais questões, é possível concluir que o próprio compositor colocou o poema em
primeiro plano, e a partitura por si só tem indicações suficientes para que o intérprete também
o faça. Resta, logo, aproximar ao máximo o texto cantado do declamado, trazendo para a
canção o fraseado e as inflexões da fala.
É importante observar que a indicação de tenuto geralmente implica na
sustentação do valor total de uma figura de nota. Nesse caso, chega a ser redundante a
presença desse sinal em uma linha vocal repleta de ligaduras. Por isso, é possível considerar
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
143
que, mais que uma indicação de temporalidade ou duração, ela se relaciona a uma forma de
ataque, requerendo da cantora maior articulação de cada uma das consoantes. Visto que existe
no texto uma aliteração dos fonemas /v/, /s/ e /z/, essa ênfase resultaria em uma frase com
mais!ar!na!produção!das!consoantes,!o!que!condiz!com!a!ideia!do!�vento�.
Assim!como!o!�vento�!acontece!em!um!movimento!contínuo,! também!podemos!
considerar uma linha vocal que se move sem pesar nota a nota, apesar das repetições de
alturas. Para isso, contribuiria uma execução que caminhasse até o ponto culminante de cada
frase, sem interrupções, no momento em que não houvesse pausas (uma observação breve já
leva a crer que não será necessário respirar no meio de qualquer um dos versos). Mesmo
quando há pausa (c. 7), a construção do fraseado implica uma execução como se ela não
existisse, o que resultaria em um crescendo e um diminuendo mais progressivos.
Respeitando a escrita musical e a estrutura do texto, o ideal é construir um
discurso que agrupe os dois primeiros versos em um único período, por serem semelhantes
sintática e semanticamente, encaminhando sempre para a última sílaba tônica. Com a
substituição métrica no texto a partir do v. 3, sugere-se realizar a frase da forma mais linear
possível, como se não houvesse nenhum salto, e sem grandes inflexões, para, em seguida,
começar o verso final mais piano e chegar ao mf, ápice de toda a canção, de forma mais
consistente.
Quanto ao timbre, acatando algumas das sugestões presentes na dissertação de
Oliveira (2019: 81), o ideal seria pensar em uma sonoridade rica e cheia (timbre chiaroscuro),
com um espaço de ressonância para a voz, alcançado por um alongamento do trato vocal e
pela expansão da região orofaríngea, que resultará na posição mais baixa da laringe e do
palato alto. Ao mesmo tempo, é importante que as frases fluam e que cada nota não soe
pesada, com pouco vibrato, empregado apenas nos finais de frase.
Entre suas diversas atuações como diretor do Instituto de Artes da UNICAMP,
professor de composição, compositor, além dos trabalhos com televisão e rádio, Almeida
Prado declara também ter sido pianista colaborador e ter trabalhado com cantores
(MOREIRA, 2002: 67). Portanto, da sua escrita pianística, podemos considerar que tenha
incluído pontos de suporte para facilitar a execução do cantor, embora, em determinados
momentos, possa confundi-lo, ao utilizar a música em primeiro lugar para criar uma atmosfera
sonora correspondente ao poema. Assim, faz-se essencial estudar a linha do piano de maneira
a encontrar quais são esses locais de apoio ao cantor, reconhecendo os trechos em que as
melodias e ritmos possam coincidir para ambos os intérpretes, buscando estratégias para
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
144
quando ocorrer o contrário. O toque e o equilíbrio sonoro devem, prioritariamente, evidenciar
tais estruturas, de acordo com a escrita do compositor.
A partir disso, observa-se que o acompanhamento do piano tem como elementos
principais a diferenciação dos planos sonoros e a caracterização do ambiente em torno do qual
gira o poema: a praia, especialmente o mar. Quanto ao primeiro, elencam-se dois objetivos
específicos: destacar o intervalo característico (trítono), quando ele é audível, e, ao mesmo
tempo,!�cantar�!com!a!linha!vocal,!ou!seja,!executar!um!acompanhamento condizente com a
estrutura de frases e texto cantado. Outrossim, as indicações de encaminhamento melódico,
até a última sílaba tônica de cada verso, e de alívio, nas sílabas átonas, são aplicáveis à parte
do piano.
O trítono aparece em diversos momentos e de maneiras variadas ao longo de Teu!
nome; em alguns deles, sua presença é audível; em outros, não. Ele não se faz ouvir quando é
constituído por alturas ocultas8 (como as notas Ré e Sol# no primeiro compasso), mas pode
ser destacado nos baixos da m.e (vide Fig. 4). Para tanto, pode-se valer de um apoio nas
primeiras notas de cada ligadura, seguindo linearmente até a segunda, de forma que soe
comparativamente mais branda. Ainda, em prol dessa ênfase do intervalo de 4aum em cada
compasso, a sugestão seria crescer moderadamente até ele.
Esses desenhos melódicos do baixo apresentam um movimento de vai e vem que
é retomado a cada início de compasso, similar a uma onda que se aproxima da praiae logo é
puxada de volta para o mar. Dessa forma, também o acompanhamento pode atuar com o
avanço e o recuo de tempo e da dinâmica, sob os três primeiros versos da linha vocal.
Já o plano sonoro nas notas superiores da m.d. (c. 1-6) dobra e, em alguns
momentos, completa o cromatismo da linha vocal (c. 4 e 6). Para um melhor suporte ao
cantor, cabe ao pianista fazer com que este plano seja o primeiro em hierarquia sonora.
Acreditamos ser essencial haver um bom encaminhamento nas repetições da nota Mi na m.d.,
no c. 1, até o Ré#, para que a cantora possa entender com clareza o momento de sua entrada; o
mesmo processo acontece com as notas solo!do piano, que integram a descida cromática.
O alinhamento vertical deve prezar por tocar com cada vogal da linha vocal,
dando o tempo necessário para as articulações de consoante, como indicadas na partitura. É
importante entender exatamente os tempos necessários à articulação de cada consoante
fricativa, os /v/, /s/ e /z/ que aparecem em profusão ao longo do poema, ainda mais se
levarmos em consideração tanto as sugestões de performance quanto aos tenuti da linha vocal
aqui apresentadas.
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
145
Em relação à mudança de textura no c. 7, o efeito ondulante pode ser alcançado ao
articular bem as notas com haste para cima, procurando deixar que as restantes, em ambas as
mãos, misturem-se em sonoridade, aproximando-as em termos de toque e dinâmica. Sobre
isso, é conhecida a importância que o compositor atribuía ao timbre. É dele mesmo a
afirmação de que sua escrita manifesta-se �através! das! texturas,! dos! timbres,! do! toque,! do!
ataque no piano,! das! dinâmicas�! (MOREIRA,! 2002: 74). Almeida Prado ainda instiga o
pianista a pesquisar, nos modos de ataque e na pedalização, a maneira de executar sua música.
Teu!nome apresenta no poslúdio uma repetição do c. 1 que, apesar de escrito com
uma textura vertical em acordes, tem encaminhamento semelhante: a repetição do Mi leva a
um Ré#. Os dois acordes finais parecem refletir a profundidade deste mar e a vagueza com
que!é!tratado!este!�nome�,!o!que!pode!sugerir!uma!execução!com!som!cheio!(apesar!de!pp) e
bem próximo do teclado, ressaltando apenas a nota superior. Além disso, devem ser tocados
com muita calma, perdendo-se ao longe como ao lançar uma pedra em paralelo à água.
Por fim, vale destacar, da entrevista de Almeida Prado a Moreira, sua
consideração sobre o que seria uma boa performance:
Sempre emocional" Logicamente lírica. É naturalmente claro que eu exijo que os
intérpretes saibam que 5 por 4 não são 4 por 4, que uma colcheia pontuada seguida
por duas fusas soa como tal. Mas não fica nisso. O intérprete tem que ter um
emocional violento, um grande lirismo, essa coisa da respiração interrompida, para
poder passar pra quem ouve. Ou então é inútil (PRADO apud!MOREIRA, 2002:
73).
Independentemente de quais sejam os recursos técnicos e os mecanismos
empregados pelo intérprete desta canção, portanto, é essencial que estejam sempre a serviço
de uma comunicação genuína, de forma que a música torne-se veículo de transmissão do
sentido do texto.
Referências
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de Janeiro/RJ, 2016.
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem.!São Paulo: Editora Global, 1930.
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!
LEFÈVRE, Diogo. O!poema!em!música!e!a!música!além!do!poema: estudo sobre a relação
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MOREIRA, Patrícia Guimarães Oliveira. O!erotismo!no!Tríptico!Celeste!de!Almeida!Prado.
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análise interpretativa. Campinas, 2007. 198f. Dissertação (Mestrado em Música). Instituto de
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OLIVEIRA, Rosedalia Carlos de. O! timbre! e! a! relação! música-texto! na! construção! da!
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(1943-2010). Goiânia, 2019. 111f. Dissertação (Mestrado em Música). Escola de Música e
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SPONHOLZ, Elvira dos Santos. Manuel Bandeira: tradição e modernidade. Travessia,
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STEIN, Deborah; SPILLMAN, Robert. Poetry! into! song. Performance and Analysis of
Lieder. New York: Oxford University Press, 1996.
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Notas
1 Na contagem de sílabas poéticas, deve-se considerar duas sílabas em elisão como uma só. A contagem silábica
termina na última sílaba tônica de um verso (GOLDSTEIN apud RAMOS, 2011: 27).
2 Um verso tem terminação forte quando termina com uma sílaba tônica; fraco quando, ao fim, tem uma sílaba
átona (STEIN; SPILLMANN, 1996: 34).
3 Uma unidade métrica de acentuação de palavras consiste em um pé poético, que pode ser dividido em dois ou
três. Existem cinco tipos mais comuns de padrões de acentuação métrica de palavras, sendo dois deles binários: o
iâmbico (fraco-forte) e o trocaico (forte-fraco); dois ternários: anapéstico (fraco-fraco-forte) e dactílico (forte-
fraco-fraco); e o espondeu (forte) (STEIN; SPILLMANN, 1996: 38).
4 Tradução adotada por RAMOS (2011: 28) para Stimmung, que representa o sentimento que permeia o texto ou,
de acordo com (STEIN; SPILLMANN, 1996: 27), a atmosfera que ressoa na alma do poema.
5 SANT�ANA!(2017: 145) adota este termo como uma ampliação daquele criado por Almeida Prado e Nadai
(2007: 9!e!117):!�expressividade!intervalar�.!Consiste!em!uma!preferência!por!certas!distâncias!e!alturas!em!uma!
estrutura!composicional,!quando!determinados!tipos!de!intervalos!são!recorrentes,!�em!cuja!recursividade!notam-
se uma intenção e um planejamento!no!decurso!da!composição�.
6 Considerando o Dó 3 como o Dó central do piano.
7 Stein e Spillman (1996: p. 61) contrapõem o estilo parlato ao legato, este com notas longas, presença de
melismas e ênfase no efeito musicalsobre a enunciação do texto.
8 Notas que estão inseridas em uma coleção cromática, mas não aparecem em determinados trechos da peça
(NADAI, 2007: 14).
Sobre os autores
Isabela Siscari Campos, pianista e regente, tornou-se Mestra em Música em 2020 pela
UNICAMP, sob orientação de Angelo Fernandes. Tem trabalhado em montagens de óperas
como diretora!de!palco,!pianista! (�Gianni Schicchi� � 1º Festival Internacional de Ópera de
Goiânia, sob regência de Tiago Roscani) e como regente (�A Flauta Mágica� � 35ª Oficina de
Música de Curitiba). Destaca-se a estreia da peça �Divertimento para piano e orquestra�, de
Tiago Roscani, junto à Orquestra Sinfônica da UNICAMP, em 2018. Teve como principais
professores e orientadores Mauricy Martin (piano), Carlos Fiorini e Abel Rocha (regência), e
atualmente é aluna de piano de Paulo Gazzaneo. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3098-
7005.
Angelo José Fernandes tem se destacado com grande sucesso por sua dedicação à música
vocal e à pedagogia do canto. É docente do Departamento de Música do Instituto de Artes da
UNICAMP, sendo responsável por significativa produção artística e acadêmica. Doutor em
Música, tem se dedicado ao estudo da técnica vocal nos diversos períodos históricos e sua
aplicação na performance atual, além de liderar um grupo de pesquisa que estuda a obra vocal
do compositor mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca de quem foi aluno. É diretor artístico do
Coro Contemporâneo de Campinas e do Ópera Estúdio UNICAMP. ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-6117-6702 . E-mail: angelojf@unicamp.br
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O diálogo entre o timbre e a relação música-texto na construção da
performance da canção Belo!belo de Almeida Prado
Rosedalia!Carlos!de!Oliveira!
!!!!!!UNICAMP!�!rosedaliacarlos@gmail.com!
!
Resumo: Fruto de uma pesquisa iniciada no ano de 2017, este artigo relata o processo de
construção da performance a partir do diálogo entre o timbre e a relação música-texto, tendo como
objeto a canção Belo!belo (1998) do compositor brasileiro Almeida Prado (1943-2010). A sugestão
interpretativa aqui compartilhada concentra-se em colocar o timbre e a relação música-texto como
possíveis condutores na elaboração performática, bem como, da análise musical. Fomentar a
investigação sonora e a reflexão dos intérpretes é uma das metas desta proposta.
Palavras-chave: Timbre. Relação música-texto. Performance. Canção brasileira. Almeida Prado.
The dialogue between timbre and the music-text relationship in the construction of the
performance of the song Belo!belo by Almeida Prado
Abstract: As a result of a research initiated in 2017, this article reports the performance
construction process based on the dialogue between timbre and the music-text relationship, having
as object the song Belo!belo (1998) by the Brazilian composer Almeida Prado (1943-2010). The
interpretive suggestion shared here focuses on placing timbre and the music-text relationship as
possible assistance in the performance elaboration, as well as, of musical analysis. Fostering sound
research and reflection by the interpreters is one of the goals of this proposal.
Keywords: Timbre. Music-text relationship. Performance. Brazilian song. Almeida Prado.
1. Introdução
O intérprete, ao ter escolhido um determinado instrumento nos primeiros anos de
seu aprendizado musical, com disposição para dedicar boa parte de seu tempo a uma prática
constante que visa a excelência, está em contínuo aperfeiçoamento, não somente de sua
técnica interpretativa, mas, talvez, principalmente, de seu timbre pessoal.
Seja a música acompanhada de um poema ou não, esta, por sua vez, relaciona-se a
um conjunto de fatores. Em um olhar mais atento, a obra traz consigo signos extramusicais
que favorecem a compreensão de como interpretá-la � seja do ponto de vista timbrístico, ou
de demais outros aspectos.
Embora a relação música-texto, em seu sentido mais comum, se dê pela música
vinculada a um poema, a prevalência de um sobre o outro se mostra insuficiente na prática
interpretativa: o aspecto indissociável resultante de ambos, texto e música, é o que dá sentido
à performance. Todavia, tal relação não deveria ser observada somente pelo caráter final do
poema musicado, mas também, por tudo o que a obra traz consigo: questionamentos no
tocante ao compositor, ao período em que foi composta, à sociedade vigente e ao conjunto de
conhecimentos necessários para interpretá-la. A obra, portanto, deu-se a partir de algo,
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procedeu de uma imaginação especuladora à procura de nuances que pudessem ser traduzidas
em som.
A construção da performance, assim, não poderia estar alheia à especificidade
tímbrica, visto que muito provavelmente ela esteve presente na imaginação do compositor
antes da concepção de sua obra.
De acordo com Godlovitch (1998: 3), algumas obras parecem subdeterminarem
fortemente suas performances. Cook (2006), porém, ressalta que:
há decisões de dinâmica e timbre que o performer precisa tomar, mas que não estão
especificadas na partitura; há nuanças de andamento que afetam essencialmente a
interpretação e que fogem das especificações metronômicas explicitadas na partitura
(COOK, 2006: 10).
Em concordância com Cook (2006), no ano de 2017 a autora deste artigo iniciou
sua pesquisa sobre o timbre na música vocal do compositor brasileiro José Antônio Rezende
de Almeida Prado (1943-2010), para a qual, foram colhidas informações substanciais à
construção da performance de seu ciclo 4!Poemas!de!Manuel!Bandeira (1998), para canto e
piano1. Foi possível verificar que a linguagem lírica do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) é,
nestas canções, transliterada num minucioso trato da poética unida ao caráter tonal-livre!que
compreende a última fase composicional da música de Almeida Prado, em que as tonalidades
caminham de forma distinta dos tratados formais de harmonia até então2.
A canção!Belo!belo, compreendida como o momento ápice!deste ciclo, é repleta
de diferentes momentos em que o deslumbramento é seu ponto inicial; as ressonâncias
colaboram para ambientá-la neste aspecto e embalam a aurora!do ser, em seguida, vê-se o seu
amadurecimento e profundas reflexões que levam o eu-lírico de volta à simplicidade.
Ao considerar o timbre e a relação música-texto como principais condutores na
construção da performance, é compartilhado a seguir, o resultado de um trabalho em que o
amadurecimento da prática musical foi guiando a análise � inclusive poética � e gerou uma
sugestão interpretativa da canção Belo!belo, de Almeida Prado, bem como, a partitura aqui
referida, foi editada de acordo com o manuscrito do compositor3.
2. Belo!belo:!aspectos iniciais!
Belo! belo! faz parte da sexta coletânea de versos de Manuel Bandeira: Lira! dos!
Cinquent'anos, publicado em 1940. Este poema possui sete estrofes dísticas4, seguidas de uma
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150
estrofe de quatro versos e é concluído com um verso em tom de fala, que traz uma
característica ainda mais pessoal ao eu!lírico.
Bandeira, em Belo! belo,! imprime vários momentos, o sentido predominante,
porém, contempla o êxtase da vida: o desejo de transcender aquilo que é complexo em
resposta aos prazeres que somente são encontrados na simplicidade.
Belo!belo!belo,!!
Tenho!tudo!quanto!quero.!
!
Tenho!o!fogo!de!constelações!extintas!há!milênios.!!
E!o!risco!brevíssimo!-!que!foi?!passou!-!de!tantas!estrelas!cadentes.!
!
A!aurora!apaga-se,!!
E!eu!guardo!as!mais!puras!lágrimas!da!aurora.!
!
O!dia!vem,!e!dia!adentro!!
Continuo!a!possuir!o!segredo!grande!da!noite.!
!
Belo!belo!belo,!!
Tenho!tudo!quanto!quero.!
!
Não!quero!o!êxtase!nem!os!tormentos.!
Não!quero!o!que!a!terra!só!dá!com!trabalho.!
!
As!dádivas!dos!anjos!são!inaproveitáveis:!Os!anjos!não!compreendem!os!homens.!
!
Não!quero!amar,!
Não!quero!ser!amado.!
Não!quero!combater,!
Não!quero!ser!soldado.!
!
-!Quero!a!delícia!de!poder!sentir!as!coisas!mais!simples.!
3. O diálogo entre o timbre e a relação música-texto na construção da
performance!
Almeida Prado indica o andamento inicial da peça a partir do caráter envolvente:!
no c. 1, dá-se o início da seção!A.!O contraste da dinâmica, em que vemos piano!na pauta do
pianista e, forte!para o cantor, sugere uma presença marcante da voz:
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151
Figura 1: trecho da canção Belo!belo,!de Almeida Prado, caráter �envolvente�!nos!compassos iniciais. Fonte:
partitura editada pela autora.
Embora exista essa indicação de forte! ao cantor, iniciar em meio-forte,! num
crescendo conduzido ao compasso seguinte, fortalece o sentido de prazer!que envolve toda
esta seção, que vai do início até o c. 24 � os arpejos ascendentes no piano, inclusive,
corroboram este período de deslumbramento. Ao cantor, trazer maior expansão e riqueza ao
som, utilizando, ao mesmo tempo, o fundo do palato e a frontalidade na emissão da voz,
ressalta o caráter pleno e abrangente. As respirações podem soar naturalmente � a própria
posição das pausas auxilia nisso, em que, a partir do c.13, pode-se, ainda, inferir uma
especificidade fugaz à voz, de acordo com as palavras do texto: risco, brevíssimo, passou!� o
sentido ofegante na linha do canto, assim, é reforçado por essas pausas:
!
Figura 2: trecho de Belo!belo,, c.14-16, de Almeida Prado, com pausas como indicação de afobamento. Fonte:
partitura editada pela autora.
Este afobamento, portanto, não seria por cansaço, mas devido ao arrebatamento
causado pela euforia de ter o fogo!de!constelações, em síntese, de se ter!tudo!quanto!quer. Na
linha do piano, a mesma expansão sonora e ardente pode ser requerida, assim como a
naturalidade de um leve acelerando!nestes mesmos compassos do cantor, que conduzem ao
acelerando!mais proeminente no interlúdio dedicado ao piano no c.19.
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Embora toda a seção! A! seja abrangente e sonora, do c. 1 aos dois primeiros
tempos do c. 9, a busca pela maior emissão de harmônicos da voz, assim como a liberdade no
uso do vibrato, auxilia na construção do entusiasmo necessário às palavras, em contraste com
o piano!súbito no terceiro tempo do c.9, em que a linha do canto possa soar mais cristalina e
aveludada, ainda que com o crescendo na frase há!milênios. A mesma liberdade e o cuidado
na expressão podem ser conferidos ao pianista, não no ponto de apoiar o cantor � mas, em que
ambos, num comum acordo, embora personagens distintos, caminhem numa mesma direção.
O rallentando!no final da seção!A, logo após a sonoridade que evoca uma chuva!
de!meteoritos!(as estrelas!cadentes), com a emissão fortíssima dos acordes na pauta inferior
do piano desde o c. 19, norteia o cuidado para com o tempo da ressonância de todas essas
notas no espaço, após o toque da última nota no c. 24. Essa ressonância tem especial
importância e possível deixá-la ressoar no ambiente, pois, traduz o cosmos, o céu noturno e
estrelado que, assim, indicam a mudança para outro momento: a seção!B.!
!
Figura 3: início da seção!B!e do caráter noturnal (c. 25 � 28). Fonte: partitura editada pela autora.
Almeida Prado, conforme acima (Figura 3), no c. 25, indica o caráter noturnal, e
ressalta entre parênteses: antes!da!aurora. O momento inicial da seção!B, assim, além de ser
relativo à noite, seria o período da madrugada que antecede o amanhecer. A prescrição de
pianíssimo!nas pautas do piano, e, piano! na linha da voz, pode ser compreendida como o
silêncio encontrado na passagem da madrugada para o dia, quando a calmaria parece ser a
regra (andamento calmo,!conforme indicado na Figura acima).
É significativa a forma como o compositor faz um crescendo!para o mf!na frase
ascendente � conjugado à palavra aurora!� e o decrescendo!em retorno à dinâmica piano!na
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153
linha melódica descendente, em que se encontra a palavra apaga-se, após a cesura na linha do
canto. Na parte do piano aparece a expressão bastante!pedal, o que faz com que os acordes
evoquem uma sonoridade de eco. Agora, de que forma, os intérpretes podem refletir a
sonoridade do timbre neste trecho?
Ao cantor, utilizar recursos como o fundo do palato pode vir a colaborar para uma
sonoridade com tonalidade mais escura5. Ao pianista, o uso do pedal una!corda,!associado ao
pedal direito,!pode resultar em um timbre próximo ao do cantor, muito embora um pouco
mais escuro e nublado, exatamente por conta da pluralidade de ressonâncias advindas do uso
do pedal direito. Todavia, o que é mais relevante é a fusão dos dois timbres, tanto do cantor
quanto do pianista, formando um novo timbre, relacionado à ideia de aurora!presente no texto
de Bandeira.
Após quatro compassos, Almeida Prado sugere o caráter amanhecendo!(c. 33). É
interessante refletir de que forma se pode inserir um contraste entre o trecho citado e o
seguinte.
(compassos 29 � 32)
Figura 4: as lágrimas!da aurora e o caráter misterioso � momento de passagem para o amanhecer. Fonte:
partitura editada pela autora.
!
Entre os c. 29 e 32, conforme a Figura acima, Almeida Prado insere (além do
anterior noturnal) outra informação ao caráter: misterioso. A dinâmica continua piano. As
lágrimas,!nesta frase do poema de Manuel Bandeira, podem ser relacionadas ao orvalho da
manhã, e o fato de guardá-las (e!eu!guardo...) é manter seu surgimento em segredo � daí a
inserção do caráter misterioso.
Além do timbre mais escuro e levemente abafado, como já sugerido
anteriormente, o cantor pode acrescentar maior soprosidade à voz, como se estivesse dizendo
um segredo, quase um suspiro, em baixa intensidade. A propósito, Schafer (1991: 105)
compreende!que!�um!suspiro!é!uma!informação!secreta!e!privilegiada.!Por!isso,!apuramos!o!
ouvido para percebê-lo�.!Tudo!isso!colabora!para!que!a!atmosfera!de!mistério!aqui!discutida!
venha a ser instaurada no momento da performance.
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Em sequência vem o momento do nascer do dia que continua na dinâmica
pianíssimo!(pp), e embora canto e piano possam manter o timbre escuro em alusão à neblina,
aos poucos o nublado!pode ceder lugar à fumaça! (como que esvaindo-se) � o momento de
ascenção da noite para o dia: o compositor, no c. 32, inclusive, escreve a palavra aurora!em
modo ascendente tanto na linha do canto quanto na pauta inferior do piano, conforme pode ser
conferido na Figura 3. Logo, a clareza do som, no sentido de desembrulhar!algo, aos poucos,
pode ser requisitada: Almeida Prado, no c. 33, utiliza o gerúndio6 na palavra amanhecendo!
como indicativo dessa ação passageira, mas, significativa de todo o período que vai do c. 33
ao 44:
Figura 5: o caráter amanhecendo expressivo!e o ritmo quebrado no piano (c. 33 � 36). Fonte: partitura editada
pela autora.
O ritmo quebrado � devido à tercina na pauta superior concomitante ao compasso
binário na linha inferior � presente nas pautas do piano, conforme indicação acima (Figura 5)
no c. 33, permanece no c. 32 (a passagem da madrugada!para o amanhecer) e estará presente
em todo este período até o final da seção!B, no c.44. À voz é pedido expressividade, logo,
embora breve, este momento é único em toda a canção devido à sua singular despedida da
contemplação estelar frente ao nascer do dia.
O texto de Bandeira é igualmente peculiar quando anuncia o dia vindouro,
enquanto continua a!possuir!o!segredo!grande!da!noite!� tal segredo refere-se a este último
brilho das estrelas, e, em referência a este brilho, a lembrança da sonoridade metálica dacelesta7 fluiu naturalmente em alusão à paisagem celeste8. O toque do piano, assim, pode
trazer o aspecto mais aveludado concomitante ao som metálico, o clarear!do timbre, aqui, não
seria no sentido de torná-lo cristalino, mas de trazer maior brilho ao som, anunciando a estrela
da manhã: a mudança de ritmo no c. 42, devido à ligadura que conecta a última mínima da
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155
pauta superior do piano à segunda mínima do compasso seguinte, pode vir a indicar o!segredo!
da!noite!supracitado no poema de Manuel Bandeira. Este comentário!no piano poderia indicar
Vênus, popularmente conhecida no Brasil como a estrela d�Alva9, que atinge seu brilho
máximo algumas horas antes da alvorada. Na sequência, podemos conferir o aspecto aberto e
brilhante do dia, a seção A�:
Figura 6: o piano aponta a estrela e o início da seção A� (c. 41 � 45). Fonte: partitura editada pela autora.
Antes de seguirmos a falar da seção A�, sinalizamos na Figura 6 a palavra noite!e
as duas semínimas na linha do canto conforme a partitura original: por fidelidade à prosódia10,
optamos por cantar uma sequência de duas mínimas para cada sílaba na palavra noite,
ressaltando sua sílaba tônica (noi).
A seção A� abrange os c. 45 até o 51 e apresenta elementos muito semelhantes à
seção!A: tem caráter envolvente e o mesmo andamento (conforme sinalizado na Figura 6); os
arpejos ascendentes no piano são retomados; é executada em dinâmica forte, e, embora
Almeida Prado mude a unidade de compasso (Figura 6), o resultado tímbrico é inalterado.
Nesta seção, toda a riqueza sonora e harmônica, a ambos os intérpretes, precisa ser retomada
� assim como na execução inicial da seção!A: lembrando que a ambiência!desta seção é forte,!
não significando, é claro, que os ataques iniciais, tanto na linha do canto, como no piano,
devam ser em f.!
No c.49 um novo sentido merece atenção: o poema de Manuel Bandeira relata
que, embora tenha! tudo!quanto!quer! (c. 47 e 48), não quer o êxtase, nem!os! tormentos, tão
pouco, o! que! a! terra! só! dá! com! trabalho. As afirmações presentes no poema retratam a
maturidade de quem já experimentou cada um desses sentimentos e agora retorna para
confidenciar num sussurro; Almeida Prado, além de compor esta seção A� em alusão ao
indivíduo versado, ao diminuir a extensão dos arpejos a partir do c. 49, conduz a um
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156
acelerando!controlado!com uma respiração súbita no fim da seção A�, no c. 51 (conforme a
Figura 7, a seguir). As pausas no início dos c. 49, 50 e 51, assim como na seção!A, aqui,
também, optamos por interpretá-las num caráter ofegante.
Aos intérpretes, procurar interpretar este final da seção A� mantendo a dinâmica
piano, poderá criar expressividade ao que há de vir na seção!C.
Figura 7: final!da!seção!A�!e!a!inserção!de!um!compasso!unário!em!pausa!antes!da seção C
(c.51 � 52). Fonte: partitura editada pela autora.
Novamente, à voz, o timbre soproso pode ser requisitado entre os c. 49 e 51,
referindo-se ao sussurro, ao cochicho. A respiração súbita indica uma revelação a seguir:
Almeida Prado insere pausas no c. 52 a fim de valorizar o silêncio na mudança de clima.
A seção!C!(c. 53-65) compreende o clímax de toda a canção. O poema de Manuel
Bandeira inicia sua linha ascendente aos poucos e metaforicamente insere a incapacidade dos
anjos de compreender os homens, visto que suas dádivas são! inaproveitáveis. O caráter
religioso, assim, auxilia na interpretação neste início da seção!C,! que em andamento mais
calmo, requer a sonoridade singela dos antigos cantos medievais, a exemplo do cantochão11,
que funciona como um caminho para a construção do timbre: a linha do canto, a propósito, é
tal qual o cantochão! silábico, que de acordo com Sadie (1994: 167)! �cada! sílaba! do! texto!
corresponde!a!uma!única!nota!musical�
12.
Neste momento, o piano, move-se em blocos acordais simples, conforme
observado na Figura 8:
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157
!
Figura 8: c. 53 - 55 - relação do início da seção!C!com o cantochão e o arpejo de transição. Fonte: partitura
editada pela autora.
!
Acima é possível verificar a escrita silábica de Almeida Prado em que a referência
tímbrica do cantochão com a mínima interferência do vibrato � deixando-o soar nas duas
últimas sílabas da palavra inaproveitáveis!�, portanto, é algo a ser buscado pelo cantor, que,
em um caráter religioso, pode produzir uma sonoridade rica e solta, porém, não escura. O
piano, executado em una! corda, acompanha o mesmo sentimento, guiando-se pelo canto �
visto que o cantochão, como se sabe, era entoado a!capella.
O arpejo presente no c. 55 (Figura 8) é um breve momento de transição para a
próxima frase, em que a linha do canto, apresenta maior liberdade e não mais está escrita de
forma silábica. Em contraste ao caráter religioso anterior, assim, optamos pelo sentimento
hedonista13 como aporte ao sentido da frase de Manuel Bandeira: os!anjos!não!compreendem!
os!homens. O piano retira o pedal una!corda!a partir da respiração no final do c. 55, o cantor
pode deixar vir o vibrato, trazendo o sentido ascético à voz, em alusão às questões próprias do
século XX14.
No tocante à prosódia da palavra homens!(conforme a Figura a seguir), com duas
semínimas para cada sílaba, a impressão inicial é de que a sílaba átona tem maior presença do
que a sílaba tônica. Optamos por executá-la com uma mínima na tônica (ho), e deixando a
semínima apenas para a sílaba átona (mens), o que prejudicou o timbre nesta última sílaba no
tocante à junção com a sonoridade do piano e o seu desfalecimento sonoro. Mantivemos,
assim, a prosódia conforme a partitura original, em que a última sílaba pode ser executada
num decrescendo, perdendo-se e deixando a segunda nota da tercina na pauta superior do
piano soar sozinha.
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158
Figura 9: c. 57 � ponderações sobre a prosódia na palavra homens. Fonte: partitura editada pela autora.
A respiração no final desse trecho é necessária a uma comunicação entre ambos os
intérpretes para, enfim, realizar o que nos revela o eu! lírico: o caráter hedonista acima, à
primeira vista, pode ser interpretado como algo relacionado aos prazeres humanos,
puramente. Manuel Bandeira, no entanto, leva-nos a perceber que não estaria relacionado a
isso � chegamos assim, ao clímax de Belo!belo.!
Este momento é forte o suficiente para Almeida Prado escrever de forma simples,
colocando respirações ao final de cada frase em que o cantor pode inferir maior liberdade
agógica, focando na entonação de cada palavra e na verdade! (de acordo com Manuel
Bandeira) que cada verso traz consigo � a execução, portanto, pode ser em maior dinâmica
que o piano!indicado, desde que a serviço do sentido das palavras. A sonoridade, assim, tende
a ser mais escura, num caráter mais intimista, introspecto.
Cada frase entre os c. 59 e 66 requer um cuidado expressivo, a duração da
semibreve assim como a respiração ao final de cada uma delas pode soar mais livre, sem ser
metrificada, conforme escrito na partitura (figura 10). A sequência delas vai revelando uma
linha crescente de tensão até a última frase � o caráter intimista, logo, vai cedendo lugar à
negação enfática, em que podemos inserir certa irritação! nas! palavras! �não! quero! ser!
soldado�.
Figura 10: c. 59 - 64 � ponderações sobre o!espaço!entre as frases. Fonte: partitura editada pela autora.
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159
Embora a interpretação desse trecho dependa do que os intérpretes possam inferir,
optamos por executar a semibreve no c. 62 de forma ligeiramente mais longa. As respirações
entre as frases nos c. 60 e 62 tambémpodem ser mais livres no tocante ao tempo; já no c. 64
em transição para o 65, o ideal é que seja breve, aflita, devido ao que a experiência lhe trouxe
e a certeza de que nada disso envolve mais o seu anseio � motivo de suas sucessivas
negações, no desejo de se fazer entender (não!quero!amar,!não!quero!ser!amado,!não!quero!
combater,!não!quero!ser!soldado).
A transição tímbrica do caráter intimista que revela certo nervosismo na frase
�não!quero! ser! soldado�,! pode valer-se do clarear!a voz. Esse timbre, inclusive, auxilia na
condução do piano, no c. 67: a aurora.
Figura 11: c. 65-67 � o caminhar para o desfecho e o caráter de aurora no último compasso do piano. Fonte:
partitura editada pela autora.
O timbre do piano no c. 67 pode, assim, soar igualmente claro, e acolhedor; o
calor típico do sol, do dia, na transição do final da seção!C!para a Coda!que vem a seguir. A
liberdade que Almeida Prado delega aos intérpretes, aqui, assume todo o caráter de deleite
pessoal a ambos: nenhuma indicação de caráter é encontrada, como a palavra envolvente, nas
seções A e A�, ou expressivo, na seção! B; o compositor retira as divisões de compasso
indicativas de unidade de tempo/compasso, escreve tempo! livre!no compasso 68 (início da
coda), conforme a Figura 12, a seguir, e lento, no último compasso da canção.
O arpejo do c. 68 cresce em direção ao fortíssimo na fermata do último acorde,
resultando numa ressonância vibrante: o brilho no timbre do piano revela-se presente, assim
como no canto; esse trecho requer liberdade plena da voz e do brilho. Agora, apesar do tempo
livre delegado aos intérpretes, assim como já citado anteriormente no início deste trabalho, o
pianista precisa estar atento ao tempo da queda! da ressonância do acorde anterior e como
ressoa no ambiente, para assim, iniciar a frase seguinte. O cantor pode atentar-se a, no c. 68,
entrar no final do ponto mais alto da ressonância do acorde do piano, e perpetuar o sentido de
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160
plenitude do som no espaço. Logo, o pianista! pode! respirar! após! as! palavras! �quero! a�! do!
cantor, deixando a palavra �delícia�! ecoar! livremente! � é necessário ao canto, um apoio e
respiração corretos para sustentar um timbre encorpado, cheio, para que a palavra delícia,
assim como toda a frase, soe calorosa e prazerosa.
O prazer!que nos é deixado por Manuel Bandeira, aqui, é de muita profundidade:
seria como o retorno ao que é essencial, após vivenciar todos os deleites e dores humanos,
obtém-se, enfim, a percepção de viver a simplicidade, sem abstrações juvenis.
Almeida Prado nos deixa seus últimos compassos em blocos acordais no piano, o
canto, novamente em alusão ao cantochão medieval, retoma seu caráter silábico, porém, em
tempo livre, conforme o c. 68.!Depois!da!exclamação!anterior,!de!�querer!a!delícia�,!o!canto!
pode continuar com o mesmo timbre, e cantar sotto!voce15, não limitando e nem induzindo
nenhuma manifestação que possa querer vir, como a própria presença do vibrato.
Figura 12: c. 68 ao final � a respiração do piano no c. 68 e a escrita silábica nos quatro últimos compassos.
Fonte: partitura editada pela autora.
Ao pronunciar a palavra simples, o canto já pode induzir o lento! no último
compasso, em que o piano há de executar sotto!(it.), como a voz.
4. Considerações finais
As sugestões interpretativas aqui compartilhadas vieram pelo anseio em busca de
explorar os recursos tímbricos da voz, do piano!e!da!junção!�piano!e!voz�!na!canção!Belo!belo,
do ciclo 4! Poemas! de! Manuel! Bandeira! (1998), do compositor Almeida Prado.
Acreditávamos que a construção da performance a partir do timbre e o traçar da consciente
relação música-texto, assim, viria a articular uma interpretação mais convincente, dificultando
a mecanização da prática, visto que objetivávamos uma interpretação que pudesse transcender
o tecnicismo por si e a análise separada do contexto. Reiteramos que as indicações de
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161
performance aqui apresentadas, dentre tantas outras possíveis, são escolhas da autora deste
artigo.
Logo, fomentar a interpretação a partir da abordagem tímbrica é nossa
expectativa, pois foi nesta experiência, aqui relatada, que nos dispusemos a ter, que pudemos
compreender que a especificidade tímbrica alicerçada na relação música-texto é um aporte
inicial imprescindível a quem deseja construir uma performance!sólida, porém, sensível.
Referências
COOK, Nicholas. Entre o processo e o produto: música e/enquanto performance. Per!Musi.
Tradução de Fausto Borém. Belo Horizonte, n. 14, p. 5-22, 2006.
GODLOVITCH, Stan. Musical! Performance:! a philosophical study. 1ª Ed. London:
Routledge. 1998.
OLIVEIRA, Rosedalia Carlos de. O timbre e a relação musica-texto na construção da
performance nos 4 Poemas de Manuel Bandeira para canto e piano, de Almeida Prado (1943-
2010). Goiânia, 2019. 167f. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal de
Goiás (UFG). Goiânia, 2019.
SADIE, Stanley (edit.). Dicionário!Grove!de!Música. Tradução de Eduardo Francisco Alves.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
SCHAFER, Murray. O!ouvido!pensante. Tradução de Marisa Fonterrada, Magda R. Gomes
da Silva e Maria Lúcia Pascoal. São Paulo: Editora Unesp, 1991.!
Notas
1 No tocante a como o timbre é concebido pelo compositor, em uma entrevista sobre seus Poesilúdios!para piano,
concedida a Júnia Canton Rocha (2005), Almeida Prado nos diz sobre o que considerava como característica
primordial em suas composições. Em sua fala, está presente parte de seu pensamento composicional, em que cor!
e forma!estão interligadas,!mas!uma!delas!predomina!sobre!a!outra,!como!se!pode!observar:!�a!minha!estética!é!
uma estética da cor e da forma, lógico. Mas eu não sou um compositor que pensa a forma; eu penso [em]
timbres, eu penso em cores, ataques, ressonâncias e a forma virá submetida a esses estímulos de timbres; ela não
vem!em!primeiro!lugar.![...].!O!timbre!é!o!�rei�!da!minha!música�!(Ibidem,!p.!131).!Muito!de!sua!concepção!a!
respeito do timbre proveio de um de seus mestres, o compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992). Em Ilhas!
(1973) e Savanas! (1988), compostas para piano solo, a exploração tímbrica chega a um ponto consolidado na
carreira! de!Almeida! Prado:! aqui,! �estabelece-se [...] dois objetos sonoros com timbres bastantes distintos em
função do registro, dinâmica! e! ataque�! (ASSIS,! 1997: 63). A autora difere esses dois objetos sonoros como
elemento!invasor, que seria uma espécie de som fundamental � com tonalidade escura, submersa e ondulante � e,
acorde!fixo, com caráter ígneo, intenso e estático (Ibidem). Tais objetos são traduzidos no que Prado intitularia
de!�Sistema!Organizado!de!Ressonâncias�!em!que!�este!procedimento!corresponde!à!Zona!de!Não-Ressonância�!
(Ibidem, p. 65). Almeida Prado, em consonância com as palavras de Assis (1997), diz que seu objetivo era lidar
com elementos contrastantes de forma racional e intencionada �através das texturas, dos timbres, do toque, do
ataque no piano, das dinâmicas. Sou um compositor muito tímbrico. Você não pode tocar minha música sem
pensar no timbre, sem procurar efeitos de ataque, pesquisar se você põe o pedal logo ou não põe. Você tem
realmente que pesquisar, porque não está na partitura� (PRADO apud MOREIRA, 2004: 76-77). Os trabalhos
aqui citados poderão ser conferidos conforme as seguintes referências: ASSIS, Ana Cláudia de. O!Timbre!em!
Ilhas! e! Savanas! de! Almeida! Prado:! Uma!Contribuição! às! Práticas! Interpretativas. 1997. 177 f. Dissertação
(Mestrado em Música Brasileira) - Centro de Letras e Artes da UNI-RIO, Rio de Janeiro, 1997; MOREIRA,
Adriana Lopes da Cunha. Flashes!de!Almeida!Prado!por!ele!mesmo. OPUS - Revista Eletrônica da ANPPOM,
Editora: MariaLúcia Pascoal, Campinas, v. 10: 73-80, 2004; e ROCHA, Júnia Canton. Entrevista! com! o!
VI Seminário da Canção Brasileira � Escola de Música da UFMG
162
compositor!Almeida!Prado!sobre!sua!coleção!de!Poesilúdios!para!piano!solo. Per Musi - Revista Acadêmica de
Música, Belo Horizonte, n. 11: 130-136, 2005.
2 De acordo com Almeida Prado, no tocante ao termo tonal!livre,!ele!nos!deixa!as!seguintes!palavras:!�Eu!seria!
um [compositor de linguagem] tonal livre e o que eu chamo de harmonia peregrina, que é uma harmonia em que
eu estando, por exemplo, em Dó Maior, para Sol # Maior, para Si Maior, para Fá menor, para Ré Maior, para Mi
menor, para Sol b e Dó. Quer dizer, eu não penso em dominante, tônica clichê, posso fazer dominante abaixada
em Sol b ir para Dó Maior. Então eu chamo de harmonia peregrina, que ela vai andando, mas ela começa e
termina em Dó, ou qualquer outro tom. O tonal livre não obedece nem mesmo esse sentido do peregrino, ele
pode começar como um cluster e terminar em Mi Maior.! Ele! é! bem! livre!mesmo�! � a citação aqui pode ser
conferida na p. 195 na dissertação de Régis Gomide Costa: Os Momentos de Almeida Prado: laborat�rio de
experimentos!composicionais. Porto Alegre, 1998. Dissertação (Mestrado em música). UFRGS.
3 A quem interessar, a edição da partitura de Belo!belo poderá ser compartilhada através do email da autora.
4 No! tocante! à!metrificação!da!poesia,! é! a! �estrofe!mínima! formada!por!um!grupo!de!dois!versos;! parelha�! �
colhido do dicionário Michaelis Online: < http://michaelis.uol.com.br/busca?id=EN0j > Consultado em 19 de
janeiro de 2021.
5 Termo proveniente do chiaro-oscuro!muito utilizado no período barroco.
6 O gerúndio, em língua portuguesa, é usado para indicar uma ação prolongada no tempo ou uma ação que ainda
está em desenvolvimento, não estando terminada. Assim, através do gerúndio é possível transmitir a duração e a
continuidade da ação verbal.
7 De acordo com Stanley Sadie (1994: 181):!�instrumento!de!teclado,!na!forma!de!um!pequeno!piano!de!armário,!
inventado por Auguste Mustel em 1866, no qual placas metálicas, suspensas sobre caixas de ressonância, são
percutidas por martelos e sustentadas seguindo o princípio da ação do piano. Sua extensão é de cinco 8ªs a partir
de dó�; a música para celesta é notada uma 8ª abaixo do que soa. Tchaikovsky inclui a celesta no Quebra-nozes!
(1892), tal como fez Bartók em sua Música!para!cordas,!percussão!e!celesta!(1936)�.!!
8 Almeida Prado, em suas Cartas Celestes utiliza muito o som metálico, em Oré-Jacytatá, a exemplo, na
percussão, além dos tímpanos, encontramos marimba, vibrafone, sinos tubulares, bombo, pratos, tam-tam e
celesta. De acordo com Brucher (2006: 2),! �a! predominância! dos! instrumentos! de! sonoridade!metálica! neste!
naipe aponta para a influência do compositor Olivier Messiaen que orientou Almeida Prado em seus estudos na
França e que também nutria uma forte preferência por estes timbres, empregando-os extensamente em obras
como Couleurs! de! la! cité! celeste! (1963) e Et! exspecto! resurrectionem! mortuorum! (1964). Por outro lado, a
temática dos corpos celestes permite-nos estabelecer também um paralelo com a suíte The!Planets! (1914) do
compositor inglês Gustav Holst. A utilização dos instrumentos de percussão metálicos nesta obra, sobretudo da
celesta no último movimento, é bastante semelhante a determinados trechos de Oré-Jacytatá�.!As! informações!
aqui apresentadas encontram-se no artigo de Nikolai A. Brucher; Timbre! e! textura! na! escrita! sinfônica! de!
Almeida!Prado:!Cartas!Celestes!No.8!-!Oré-Jacytatá. XI Colóquio do Programa de Pós-Graduação em Música
da UNIRIO. V. 8, n. 1. 2006: 1 - 11
9 �Vênus é por vezes o objeto mais brilhante no céu noturno sendo muitas vezes designado por estrela!da!manhã!
ou por estrela da tarde. Na sua elongação máxima!Vênus! atinge!47�! acima!da! linha!do!horizonte�.!Fonte:!Os!
Planetas! do! Sistema! Solar: <
http://www3.uma.pt/Investigacao/Astro/Ensino/RUMOS2014/IaA2014/planetas.pdf > Consultado em 19 de
janeiro de 2021.
10 Prosódia: Ajuste das palavras à música e vice-versa, a fim de que o encadeamento e a sucessão de sílabas
fortes e fracas coincidam, respectivamente, com os tempos fortes e fracos dos compassos. Consultado no livro
Novo!Dicionário!Eletrônico!Aurélio!versão!5.11a, de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira - Curitiba: Editora
Positivo, 2004.
11 Stanley Sadie (1994: 166)! afirma! que! �o! canto! monofônico! e! em! uníssono,! originalmente! sem!
acompanhamento, [fora] empregado em liturgias cristãs. A palavra refere-se particularmente aos repertórios com
textos latinos, i.!e., os das principais liturgias cristãs ocidentais (Ambrosiano, Galicano, Moçárabe e Gregoriano),
e, num sentido mais restrito, ao repertório do canto gregoriano, o canto oficial da Igreja Católica Romana�.!!
12 Esse �tratamento!prosódico-rítmico pode ser creditado tanto à tradição oriunda do Canto Gregoriano de auferir
o ritmo a partir das palavras, quanto à formação nacionalista que seguia os preceitos de Mario de Andrade no
que! diz! respeito! à! atenção! à! prosódia�! � p. 197 do artigo A! Missa! de! São! Nicolau,! de! Almeida! Prado! na!
Confluência!das!Opções!Estéticas!dos!Anos!80,!de Carole Gubernikoff.!Revista Música, São Paulo, v. 9/10: 183-
209, 1999.
13 �Hedonismo! consiste! em! uma! doutrina!moral! em! que! a! busca! pelo! prazer! é! o! único! propósito! da! vida.! A!
palavra hedonismo vem do grego hedonikos, que significa !prazeroso!, já que hedon!significa prazer. Como uma
filosofia, o hedonismo surgiu na Grécia e teve Epicuro e Aristipo de Cirene como alguns dos nomes mais
importantes. Esta doutrina moral teve a sua origem nos cirenaicos (fundada por Aristipo de Cirene), epicuristas
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163
antigos. O hedonismo determina que o bem supremo, ou seja, o fim último da ação, é o prazer. Neste caso,
!prazer! significa algo mais que o mero prazer sensual. Os utilitaristas ingleses (Bentham e Stuart Mill) foram os
continuadores! do! hedonismo! antigo�.! Fonte:! <! www.significados.com.br/hedonismo! >! Consultado! em! 19 de
janeiro de 2021.
14 Como se sabe, a sociedade pós Revolução Franceça (1789) esteve cada vez mais envolta em movimentos
sociais, políticos e de especulações psicanalíticas, como é o caso da conjuntura social no século XIX. No final do
período houve ainda a repercussão das ideias e estudos de Sigmund Freud (1856-1939) que influenciaram (e
ainda influenciam) boa parte do pensamento dos séculos XX e XXI � o que, eminentemente, repercute nas artes.
15 De acordo com Stanley Sadie (1994: 890):!�uma!indicação!de!que!determinada!passagem!deve!ser!executada!a!
meia-voz,!ou!seja,!sem!ênfase�.
Sobre a autora
Rosedalia Carlos de Oliveira, Graduada em Canto Erudito e Mestre em Performance pela
Universidade Federal de Goiás, defendeu sua Dissertação na linha de Análise Musical tendo
como objeto de pesquisa um ciclo de canções do compositor Almeida Prado com poemas de
Manuel Bandeira. Foi bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior, CAPES, Brasil. Como soprano lírico, tem atuado como solista sob a batuta de
diversos regentes e em seu repertório solo constam obras camerísticas, oratórios, cantatas,
missas e personagens de ópera. Na área pedagógica atuou no Instituto Federal de Goiás no
curso de Licenciatura em Música onde ministrou as disciplinas de Canto Coral,
Instrumento/Voz e Musicalização Coletiva através do canto. Realizou ainda master classes no
Brasil e em Portugal. Foi integrante do naipe de sopranos do Coro Sinfônico Jovem de Goiás
no qual atuou como Monitoradesde sua fundação até 2018. Também integrou o Coro da
Orquestra Sinfônica de Goiânia de 2008 a 2017. Atualmente, além de continuar a aperfeiçoar-
se como intérprete, atua como vocal coach e professora, leciona Canto Lírico no
Conservatório Carlos Gomes, integra o naipe de sopranos do Coro Contemporâneo de
Campinas e o Ópera Studio da Unicamp, e desenvolve sua pesquisa sobre o timbre na música
de câmara vocal do compositor Almeida Prado, tendo ingressado no curso de Doutorado em
Performance Musical pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (IA -
UNICAMP) no início do ano de 2020 sob a orientação do prof. Dr. Angelo José Fernandes.
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164
Edmundo Villani-Côrtes (1930) e sua composição para canto e piano
Papagaio!azul: breve biografia e análise da obra
Andréa!Peliccioni!Sobreiro!
UEMG!-!peliccioniandrea@gmail.com!
!
Patrícia!Valadão!Almeida!de!Oliveira!!
UFMG!-!valadao.patricia@gmail.com!
!
Luciana!Monteiro!de!Castro!
UFMG!-!lumontecastro@hotmail.com!
Resumo: O presente artigo trata da obra para canto e piano intitulada Papagaio!azul de Edmundo
Villani-Côrtes (1930), versão de 1999. Musicista com relevante atuação no cenário musical
brasileiro, Villani-Côrtes compôs obras para as mais diversas formações instrumentais e vocais.
Pretendemos, com este trabalho, apresentar uma breve biografia do compositor, bem como análise
musical da canção Papagaio!azul. Acreditamos que tais informações trarão à luz alguns aspectos
relevantes de sua escrita musical, contribuindo também para sua interpretação e consequentemente
para difusão da obra.
Palavras-chave: Edmundo Villani-Côrtes. Canção Papagaio!azul. Música de câmara brasileira.
Edmundo Villani-Côrtes (1930) and his Composition for Singing and Piano Papagaio!azul:
brief biography and analysis of the work
Abstract: This article deals with the work for singing and piano entitled Papagaio! azul! by
Edmundo Villani-Côrtes (1930), 1999 version. A musician with a relevant performance in the
Brazilian musical scene, Villani has composed works for the most diverse instrumental and vocal
formations. With this work we intend to present a brief biography of the composer, as well as a
musical analysis of Papagaio! azul. We believe that such information will bring to light the
relevant aspects of his musical writing, also contributing to the dissemination of part of his work.
Keywords: Edmundo Villani-Côrtes. Papagaio!azul. Brazilian art song.
1. Uma biografia
O compositor, pianista, arranjador, regente, professor e letrista Edmundo Villani-
Côrtes (Figura 1) nasceu no dia 08 de novembro de 1930, na cidade mineira de Juiz de Fora.
Filho do flautista Augusto Castro Côrtes (1900-1984) e da pianista Cornélia Villani-Côrtes
(1909-1984), teve a infância cercada pela música (SOBREIRO, 2016). Ainda menino, Villani-
Côrtes se interessou pelo piano e aos 17 anos, passou a dedicar seus estudos ao instrumento.
No ano de 1952, Villani-Côrtes se mudou para o Rio de Janeiro para realizar
estudos de piano no Conservatório Brasileiro de Música, formando-se em 1954. Ainda no Rio
de Janeiro, Villani-Côrtes teve a oportunidade de iniciar sua carreira como pianista na
�Orquestra Tamoio�. No entanto, no ano de 1954, retornou a Juiz de Fora para estudar
Direito, formando-se em 1959. Embora tenha se graduado em Direito, Villani-Côrtes nunca
exerceu a profissão. (SOBREIRO, 2016).
VI Seminário da Canção Brasileira� Escola de Música da UFMG
165
Figura 1: Edmundo Villani-Côrtes1. Fonte: Internet
Aos 25 anos, Villani-Côrtes estreou sua composição �Concerto!nº!1!para!Piano!e!
Orquestra em três movimentos�, atuando também como intérprete solista. A obra foi
apresentada pela �Orquestra Sinfônica de Juiz de Fora, no Cine-Teatro Central�, cidade natal
do compositor, �sob a regência do maestro Max Gefter� (SOBREIRO, 2016: 14).
No ano de 1959, Villani-Côrtes casou-se com a soprano Efigênia Guimarães
Côrtes (1936), que se tornou a inspiração para muitas de suas composições e também a
principal intérprete de suas obras para canto e piano.
Em 1960, mudou-se para São Paulo e lá estabeleceu contatos com o pianista José
Kliass (1895-1970) e com o compositor Camargo Guarnieri (1907-1993). Nessa mesma
década, Villani-Côrtes começou a ser reconhecido como pianista, compositor e arranjador,
atuando principalmente como pianista junto a músicos da MPB, dentre eles Maysa Matarazzo
(1936-1977) e Altemar Dutra (1940-1983) (SOBREIRO, 2016).
Na década dos anos 1970, Villani-Côrtes �atuou como pianista e arranjador da TV
Tupi de São Paulo�, período em que elaborou diversos arranjos �destinados à música popular�
(SOBREIRO, 2016: 16). Ainda nessa década, Villani-Côrtes atuou como professor da
Academia Paulista de Música, lecionando: �harmonia funcional�, �arranjos e improvisação�.
Também nesse período estudou composição com Hans Joachim Koellreutter (1915-2005)
(SOBREIRO, 2016: 16).
Concluiu o mestrado em Composição pela Escola de Música da Universidade
Federal do Rio de Janeiro � UFRJ, sob a orientação do maestro Henrique Morelenbaum, e
atuou como professor de música do Instituto de Artes da UNESP, Universidade do Estado de
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166
São Paulo. Durante os anos 80 e 90, Villani-Côrtes recebeu diversos prêmios, sendo
reconhecido tanto em território nacional quanto fora dele por suas obras musicais. Dentre as
obras premiadas, destacam-se: Choro! Pretensioso (para violão); Ritmata! nº! 1 (piano solo);
Ciclo!Cecília!Meireles (canto e piano); Rua!Aurora (canto e piano); Postais!paulistanos (obra
sinfônica coral); Chorando! (contrabaixo e piano) e Concerto! para! Vibrafone! e! Orquestra.
Sobre seu processo composicional, Villani-Côrtes prefere dizer que compõe �intuitivamente�
(SANT�ANNA, 2006, p: 33) e que �costuma se orientar no sentido de uma linguagem tonal,
acessível e em constante diálogo com a música popular� (SOBREIRO, 2016: 41).
No ano de 1998, Villani-Côrtes concluiu o Doutorado em Música no Instituto de
Artes da UNESP, com a tese intitulada: A! utilidade! da! prática! da! improvisação! e! a! sua!
presença!no!trabalho!composicional!do!Concertante!Breve!para!quinteto!e!Banda!Sinfônica,!
de!Edmundo!Villani-Côrtes. Aos 69 anos, Villani-Côrtes aposentou-se, deixando a UNESP.
Passou então a se dedicar à carreira de compositor, pianista, regente e arranjador.
Aos 90 anos, comemorados no dia 8 de novembro de 2020, Villani-Côrtes tem em
seu acervo autoral cerca de 600 obras, que contempla música instrumental e vocal, música de
câmara, obras para Banda Sinfônica e Orquestra Sinfônica, um Te Deum, uma ópera
intitulada Poranduba e música eletroacústica (SOBREIRO, 2016). Dentre essas composições,
cerca de 60 foram compostas para canto e piano. Vale dizer que grande parte da obra de
Villani-Côrtes possui versões para formações variadas e com caráter musical diverso. Para
este artigo escolhemos a versão para canto e piano de 1999 da canção Papagaio! azul.
Originalmente, essa canção foi escrita entre 1964 e 1966 para duo de piano e canto e, no
mesmo período, o compositor elaborou uma versão para coro infantil. Segundo Barros (2017:
26-27), Villani-Côrtes escreveu cinco versões da canção Papagaio!azul: 1) �trio vocal, piano,
cifras e ritmo�; 2) �coro misto, piano e cordas�; 3) �coro infantil, piano, vibrafone, celesta,
bateria e quinteto de cordas�; 4) �voz e piano�; 5) �voz e coro�.
Papagaio! azul é, para Villani-Côrtes, frente ao evidente interesse demonstrado,
uma obra carregada de sentimentos. Em uma visita realizada à Escola de Música da
Universidade do Estado de Minas Gerais � UEMG, no dia 27 de outubro de 2019, na qual foi
homenageado por duas das autoras deste artigo, Villani-Côrtes revelou a história da obra.
Muito emocionado, contou que a canção teve origem em sua infância,entre seus quatro e
cinco anos de idade. Segundo Villani-Côrtes, na rua em que morava havia uma casa que
despertava sua atenção pela beleza de detalhes dos portões, varanda, jardim e chafariz.
Recorda-se que, ao passar em frente à casa, avistava a menina Regina2, de idade próxima à
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167
sua, sempre na varanda em uma cadeira de rodas, guiada por uma cuidadora. Os dois
cresceram, ele foi estudar piano, viajando para o Rio de Janeiro, e ela tornou-se poeta. Regina
é autora do livro Diário!do!Sol (Figura 2), publicado no ano de 1961:
Figura 2: capa do livro Diário!do!Sol , de Regina Hargreaves, com imagem das crianças brincando com
papagaios. Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
As palavras de Villani-Côrtes revelam como a história deste livro se tornou
inspiração para a composição da canção Papagaio!azul:
[...] nesse livro, Regina descreve o sol nos signos do zodíaco. No início do livro, ela
fala a respeito de alguns meninos que moravam em uma rua que tinha uma espécie
de terreno baldio, parecido com um campinho, chamado de pracinha, na qual os
meninos ficavam brincando. [...] em um dia qualquer lá na pracinha, uma das
crianças teve a ideia de fazer um concurso de papagaio. Marcaram um dia para esse
concurso, só que no dia do concurso deu uma ventania e destruiu todos os papagaios
dos meninos. Um deles que seria o protagonista, quando estava em sua casa,
chorando e xingando o vento que destruiu o seu papagaio... [...] o vento apareceu e
veio pedir desculpas para ele, e então disse: �minha função era ventar, eu não sabia
que isso era um concurso de papagaios�. [...] Então eles fizeram as pazes.
3
Villani-Côrtes conta ainda que esta canção o faz rememorar, de modo muito
especial, sua �meninice e juventude�, e o remete também à infância de Regina Paletta
Hargreaves. Para Villani-Côrtes, �é perceptível que ela tenha escrito exatamente o que ela
gostaria de fazer e nunca pôde fazer�. Essa breve história retrata, portanto, o que inspirou
Villani-Côrtes a compor a canção Papagaio!azul.
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168
2. O manuscrito de Papagaio!azul
O manuscrito autoral de Papagaio!azul!foi gentilmente enviado pelo compositor
Villani-Côrtes a estas intérpretes, por correio eletrônico. Suas cinco páginas estão
organizadas em capa e miolo, com texto musical. Para a capa, o compositor escolheu papel
pautado no qual registrou o nome da obra em letras grandes, sublinhadas e entre aspas; abaixo
e em letras menores, identificou-se como o compositor e letrista da obra; por fim, descreveu,
entre parênteses, a formação �para canto e piano�. Na partitura, Villani-Côrtes repetiu os
dados como título e identificação autoral no topo da página e, ao final da quinta página,
localizado no canto inferior direito, assinou e datou a obra. As Figuras 3 e 4 trazem excertos
da partitura com imagens dos registros supracitados:
Figura 3: excerto da primeira página de Papagaio!azul!,!capa, de E. Villani-Côrtes, 1999.
Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
Figura 4: excerto da quinta página de Papagaio!azul,!de Villani-Côrtes, com assinatura e data. 1999.
Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
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169
Ao analisarmos o manuscrito, verificamos que, tanto a escrita quanto a notação
musical registradas por Villani-Côrtes, são nítidas e legíveis. As claves, notas musicais,
armaduras de clave, barras, fórmulas de compasso, articulações, sinais de ritornelo,
indicações de dinâmicas, agógica e de andamento, bem como todos os elementos de texto,
estão distribuídos e organizados nas cinco páginas da obra tendo em vista sua boa
legibilidade, facilitando assim a leitura e a compreensão musical do intérprete.
3. Uma análise de Papagaio!azul
A seguir, propomos uma análise de Papagaio!azul que tem por objetivo agregar
informações acerca da linguagem musical empregada pelo compositor Villani-Côrtes. A
análise tem por base os pressupostos descritos no livro Guidelines! for!Style!Analysis de Jan
LaRue4 (1918-2004), em que o autor sugere um roteiro para a análise estilística por meio da
observação de cinco parâmetros musicais: o som, a harmonia, a melodia, o ritmo e a forma.
3.1 Som
Os timbres da voz e do piano foram os escolhidos por Villani-Côrtes para a
confecção de sua obra Papagaio!azul. Ocupando 76 compassos, escritos nas claves de Sol e
Fá, a obra musical se desenvolve dentro das extensões de Sol1 a Ré 6 para o piano e Ré 3 a
Fá# 4 para o canto. A seguir, na Figura 5, a transcrição musical da extensão:
Figura 5: extensão do piano e do canto empregada na obra Papagaio!azul, de Villani-Côrtes. Fonte: acervo
Andréa P. Sobreiro.
Em relação à dinâmica, o compositor registrou, detalhadamente, suas indicações
em língua portuguesa, bem como explorou as nuances que perpassam por: p, p! súbito,! vai!
crescendo e! f, além dos sinais gráficos de crescendo e decrescendo, sendo tais indicações
registradas quatro vezes na partitura musical. Tal procedimento enriquece as possibilidades de
nuanças sonoras da obra, contribuindo para um trabalho minucioso do performer em busca de
toques e sonoridades adequadas que traduzirão a obra ao ouvinte. A seguir, na Figura 6,
VI Seminário da Canção Brasileira� Escola de Música da UFMG
170
destacamos um excerto da partitura para melhor visualização dos registros de dinâmicas
anotadas pelo compositor:
Figura 6: indicações dos sinais de dinâmica em Papagaio!azul, c.42 a 46, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo
Andréa P. Sobreiro.
Em relação à textura, verificamos que a escolha para a confecção de Papagaio!
azul é bem diversificada transcorrendo desde momentos de melodia acompanhada e
contraponto até partes solistas. Em relação à textura de melodia acompanhada localizada
dentro dos c. 35 a 40, notamos que poucos são os momentos que ocupam este quesito.
Justifica-se, talvez, esta escolha, de uma escrita protagonista para o piano dentro da formação
de câmara, devido à formação do compositor como pianista, o qual trouxe para dentro de suas
obras, elementos musicais que exploraram as possibilidades técnicas e sonoras do
instrumento. A seguir, na Figura 7, destacamos os compassos com melodia acompanhada:
Figura 7: textura de melodia acompanhada na canção Papagaio!azul, c. 35 a 40, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte:
acervo Andréa P. Sobreiro.
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171
Em relação a momentos de contraponto presentes na obra, destacamos dois tipos.
O primeiro, localizado nos c. 11 a 24, c. 43 a 50 e c. 66 a 76, além de diálogo entre as vozes, o
piano pontua determinadas notas da melodia escrita para a linha vocal, contribuindo para uma
soma de timbres. No segundo momento, c. 43 a 46, o canto e o piano caminham por meio de
melodias independentes, porém atreladas às características harmônicas da passagem musical.
As Figuras 8 e 9 demonstram cada um dos dois tipos de contraponto:
Figura 8: textura contrapontística com notas pontuadas pelo piano na linha vocal da canção Papagaio!azul , c.10-
16, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
Figura 9: textura contrapontística com melodias independentes entre o canto e o piano em Papagaio!azul , c. 43 -
46, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
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172
Por fim, destacamos dois trechos localizados, respectivamente, nos c.1 - 9 e c. 51
- 65, nos quais o piano tem sua participação como solista na obra. O primeiro trecho realiza a
introdução de Papagaio!azul!e o segundo, um interlúdio, que prepara o ritornello para o c. 25.
Em se tratando do acompanhamento ao piano, uma escrita predominante transita
na partitura musical: oacompanhamento escrito na clave de Fá com figuras rítmicas de
valores longos e notas melódicas que compõem um baixo cantante. A seguir, na Figuras 10,
destacamos o exemplo:
Figura 10: acompanhamento melódico em Papagaio!azul, c. 43 a 46, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo
Andréa P. Sobreiro.
3.2 Harmonia
Papagaio! azul tem seu início e fim na tonalidade de Sol maior e apenas uma
modulação para Dó maior localizada na parte central da obra. A modulação se dá por meio
das funções V-I (dominante-tônica) da próxima tonalidade onde a nota Fá sustenido é alterada
para a nota Fá bequadro. A seguir, na Figura 11, demonstramos esta transição:
Fig. 11: modulação de Sol Maior para Dó Maior por meio da relação harmonia V/I em Papagaio!azul, c. 25 a 26
- Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
Digno de nota são as escolhas harmônicas com as quais o compositor colore,
sonoramente, a sua obra. Apesar de ser uma obra construída dentro do sistema musical tonal,
Villani-Côrtes nos surpreende com um número considerável de acordes que estão fora da
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escala da tonalidade principal, como, por exemplo, no c. 5 onde temos a presença de dois
acordes: Dó menor e Fá Maior com sétima menor. Outro emprego de harmonias não
pertencentes à escala da tonalidade está no c. 22 por meio do acorde de Mib Maior. A seguir,
na Figura 12, destacamos o primeiro exemplo:
Figura 12: harmonias em Papagaio!azul, c. 5, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
Outra particularidade da escrita de Villani-Côrtes nesta obra, além do uso de
acordes estranhos à tonalidade, está no emprego de intervalos paralelos de quarta justa, c. 54,
acordes perfeitos maiores e menores seguidos, c. 25 e 26, acordes aumentados, c. 17 e
harmonia cromática, c. 12 e 13. As Figuras 13, 14, 15 e 16 demonstram tais exemplos:
Figura 13: intervalos de quartas justas paralelas em Papagaio!azul, c. 54, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo
Andréa P. Sobreiro.
Figura 14: acordes perfeitos maiores e menores seguidos em Papagaio!azul, c. 54, de Villani-Côrtes, 1999.
Fonte: acervo Andréa P. Sobreiro.
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Figura 15: acorde aumentado em Papagaio!azul, c. 17, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa
P. Sobreiro.
Figura 16: harmonia cromática em Papagaio!azul, c. 17, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa P.
Sobreiro.
3.3 Melodia
Em se tratando da construção da linha melódica da obra Papagaio! azul,
verificamos que ela é formada tanto por grau conjunto quanto por grau disjunto e, além de
notas ornamentais, tanto no canto quanto no piano. O compositor emprega, frequentemente,
linhas em cromatismos.
3.4 Ritmo
Escrita em compassos ternário e quaternário simples, Papagaio!azul inicia-se de
modo tético e seus compassos apresentam métrica regular. Uma particularidade que nos
chamou a atenção encontra-se nos registros grafados pelo compositor para as mudanças de
andamento no decorrer de sua obra: todos têm a indicação de andamento escritas em italiano,
a marcação numérica metronômica e o sinal, logo à frente, de + ou � (mais ou menos).
Entendemos que o termo �mais ou menos� se refere à liberdade que o compositor concede ao
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175
performer! de sua obra, ou seja, Villani-Côrtes indica com esta escrita apenas o caráter do
andamento, e não propriamente fornece a indicação metronômica exata. A seguir, na Figura
17, destacamos dois andamentos com as indicações do compositor nos c. 1 e 10:
Figura 17: indicações de andamento em Papagaio!azul, c. 11 e 10 de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo
Andréa P. Sobreiro.
Em se tratando da agógica, Villani-Côrtes registra em sua partitura os termos
escritos tanto em português quanto em italiano: rallentando, menos, poco!piú e mais rápido.
Discorrendo sobre o aspecto rítmico de Papagaio! azul observamos que o
compositor emprega as seguintes figuras: semibreve, mínima, semínima, colcheia e
semicolcheia. Ressaltamos uma particularidade na região central da obra quando o compasso
se torna um ternário simples, c.25 a 42. Villani-Côrtes, por meio do acúmulo de elementos
sonoros no segundo tempo do compasso, cria um apoio neste tempo, deslocando,
sensivelmente, o apoio do primeiro tempo. A seguir, na Figura 18, destacamos o exemplo:
Figura 18: apoio no segundo tempo em Papagaio!azul, c. 33 e 37, de Villani-Côrtes, 1999. Fonte: acervo Andréa
P. Sobreiro.
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176
3.5 Forma
O estudo da análise formal nos aponta que a obra de Villani-Côrtes possui três
partes: A � B - C e está organizada, considerando os ritornelos, em sete seções: A � B � A� �
C � B � A��. A divisão de cada seção foi pensada a partir das particularidades e semelhanças
dos materiais musicais empregados dentro de cada uma como temas, tonalidade e textura. A
seguir, apresentamos uma sequência dos acontecimentos e a indicação dos compassos em que
se encontram:
Introdução (c. 1 a 9)
Seção A (c. 10 a 24)
Seção B (c. 25 a 42)
Seção A� (c. 43 a 50)
Seção C (c. 51 a 65)
Seção B (c. 25 a 67)
Coda!(c. 67 a 76)
4. Considerações finais
Toda esta narrativa, biográfica e analítica, aproxima-se de uma homenagem ao
compositor Villani-Côrtes em seus 90 anos, artista cuja observação sensível e generosa do
outro revela-se a cada dia, não apenas no convívio pessoal, mas em sua obra. Estudos
biográficos, analíticos e do contexto, entretanto, avançam de modo inequívoco em direção ao
auxílio à tarefa do intérprete. Como, conhecendo tais circunstâncias, cantor e pianista
interpretariam a canção Papagaio!azul após deixarem-se envolver pela história revelada?
Nossa pesquisa constitui, a princípio, mais um passo em favor da difusão da obra
do compositor Villani-Côrtes, buscando contribuir na divulgação de seu trabalho no cenário
musical atual. Desta maneira, acredita-se estar também valorizando o repertório brasileiro e a
pesquisa musicológica, valiosos para reconhecimento de nossa ampla e produção musical e,
portanto, de nossa cultura.
Diríamos que a presente análise seguramente auxilia o pianista em aspectos
objetivos como: 1) definição do tipo de toque ao piano a fim de valorizar as harmonias que o
compositor escolheu; 2) sincronização do diálogo entre canto e piano, valorizando o
contraponto entre as vozes; 3) esclarece os momentos participativos do instrumento dentro da
obra: se acompanhador ou se solista; 4) contribui também para uma leitura da obra mais
dinâmica e efetiva, uma vez que se entende o aspecto formal da obra. Quanto às contribuições
ao cantor, a análise proposta: 1) colabora com a compreensão rápida e efetiva de cada seção
da obra após a identificação do aspecto formal; 2) elucida a extensão que o cantor precisará
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alcançar para sua interpretação; 3) determina as sonoridades dentro da obra; 4) contribui para
o planejamento das escolhas de andamento, uma vez que o compositor o sugere, mas dentro
de uma liberdade a critério do interprete. Além desses elementos, verifica-se que o compositor
concede em sua escrita, espaço para liberdade interpretativa.
Neste tipo de análise predomina a perspectiva do nível imanente (ou neutro),
enquanto na observação da contextualização da obra e de suas relações com a história do
compositor predomina a perspectiva do nível poiético, como aponta Jan Molino, em seu
modelo tripartite de análise, desenvolvido por Nattiez (2002). Os dois níveis citados são, a
nosso ver, importantes para a performance musical desta canção.
A história criativa e a análise da canção Papagaio!azul apresentadas neste artigo,
mais que narrativasaparentemente desconectadas, podem oferecer contribuições sensíveis à
performance da obra e ao seu êxito comunicativo, a partir da construção de narrativas próprias
e particulares pelos intérpretes, como sugere John Rink (2018). Familiarizar-se com o estilo e
a estruturação de uma obra, conhecer suas origens criativa se imaginar desdobramentos de sua
história podem provocar nos intérpretes expectativas e propósitos dialógicos inumeráveis,
sugestões imagéticas e evocação de sentimentos que naturalmente, e por vezes
desapercebidamente, se incorporam à interpretação da canção. E a narratividade pode levar o
intérprete mais além, à idealização, mental ou materializada, de cenários e efeitos, e ainda à
interlocução com outras obras e com o público.
Conhecer a história de vida de Villani-Côrtes e da criação da canção Papagaio!
azul oferece aos intérpretes as tintas para a pintura de espaços em branco, como em um
caderno de colorir onde se vê delineada uma imagem pronta para ser colorida. A análise
neutra da partitura reconhece o desenho, o estilo do traço, encontra nele informações sobre
como e se é possível pintá-lo. Por outro lado, pode-se considerar que a análise poiética sugere
cores que talvez o compositor tivesse escolhido, mas não assegura a escolha exata; faculta aos
intérpretes possibilidades criativas; permite que possam imaginar e escolher como irão dar
cores e texturas ao desenho, ao texto/imagem, por meio de sua performance musical.
Referências
BARROS, Francielle Amaral de. Três! canções! de! Edmundo! Villani-Côrtes! -! Valsinha! de!
roda, Para sempre e Papagaio azul: um olhar sobre a performance. Uberlândia, 2017. 60f.
Monografia. Escola de Música, Universidade Federal de Uberlândia � UFU, Uberlândia, 2017.
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LARUE, Jan - Guidelines! for! Style! Analysis. 2ª Edição. Michigan: Harmonie Park Press,
1992.
HANGREAVES, Regina Paletta. Diário!do!Sol.!Belo Horizonte: Vigília Ltda, 1961.
MARIZ, Vasco. A!canção!brasileira!de!câmara. 4.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002.
NATTIEZ, Jean-Jacques. O modelo tripartite de semiologia musical: o exemplo de �La
cathédrale engloutie�, de Debussy. In: Debates!� Revista do Programa de Pós-Graduação em
Música da Unirio, n.6, p.7-39, 2002.
RINK, John. The work of the performer.IN: ASSIS, Paulo de (org.). Virtual!Works!-!Actual!
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SANT�ANNA, Affonso Romano. Edmundo: simplesmente criativo. In: COELHO, Francisco
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Edição: Música contemporânea brasileira; v.3. São Paulo: Centro Cultural São Paulo.
Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. 27-33.
SOBREIRO, Andréa Peliccioni. Edmundo! Villani-Côrtes: o mestre-educador. Frutal:
Prospectiva, 2010. Disponível em:
https://www.aacademica.org/repositorio.digital.uemg.frutal/57.pdf. Acessado em: 10 nov.
2020.
Notas
1Edmundo Villani-Côrtes. Disponível em:
https://painelsesc.sesc.com.br/Partituras.nsf/viewCompositores/762B00F29FE1890983257DD60068E6DC?Ope
nDocument.
2Regina Paletta Hargreaves nasceu em Juiz de Fora e, acometida por um ataque de poliomielite na sua tenra
infância, sofreu consequências que, de certa maneira, imobilizaram seu corpo. (HARGREAVES, 1961, orelha do
livro).
3 Relato de Villani sobre a canção Papagaio!Azul, concedido no dia 27 de outubro de 2019, na Escola de Música
da UEMG.
4Jan LaRue (1918-2004), musicólogo e professor emérito da New York University.
Sobre as autoras
Andréa Peliccioni Sobreiro, natural de Borda da Mata, Minas Gerais, Andréa Peliccioni
formou-se em canto no Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre e na Escola de
Música da UEMG. É Mestre em Educação Musical e doutoranda em Performance Musical
pela Escola de Música da UFMG. Foi vencedora do concurso Jovem Músico BDMG em
2008. Atuou como cantora dos corais Ars Nova (Coral da UFMG), Coral Lírico de Minas
Gerais e Coro Madrigale. Como solista, interpretou principalmente obras do repertório de
canções de câmara brasileira de compositores como Edmundo Villani-Côrtes, Heitor Villa-
Lobos, Francisco Mignone, Osvaldo Lacerda, Cláudio Santoro, Lorenzo Fernandes,
Waldemar Henrique entre outros. Ao longo de sua carreira vem se dedicando imensamente ao
estudo e à performance de obras para canto e piano do compositor, mineiro, Edmundo
Villani-Côrtes (1930). O contato com Villani-Côrtes, desde 2009, resultou em pesquisas sobre
sua vida e seu repertório para canto e piano. No ano de 2019, iniciou sua pesquisa de
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doutorado sobre �A!performance!musical!cantada!utilizando!a!Língua!Brasileira!de!Sinais!e!
canções!de!Edmundo!Villani-Côrtes�. Desde 2015, compõe a classe dos professores de canto
da Escola de Música da UEMG.
Patricia Valadão Almeida de Oliveira, natural de Ipatinga � MG é pianista e cravista.
Sua formação intelectual contempla os títulos de Bacharel e Mestre em Performance
Musical pela EMUFMG (Escola de Musica da Universidade Federal de Minas Gerais)
desde agosto de 2002 e Doutora em Performance Musical pela UNICAMP desde 2019.
Integra o quadro de professores efetivos na Escola de Música da Universida-
de Federal de Minas Gerais desde 2011. Como cravista atuou em importantes concertos
solo ou acompanhada pelas orquestras Sinfônica de Minas Gerias, Filarmônica de Minas
Gerias, Orquestra do Sesiminas e Filarmônica de Cuiabá, nas cidades de Belo
Horizonte, Mariana e Cuiabá. Como pianista solista, desenvolveu sua performance em
salas de concerto na cidade de Belo Horizonte (Juvenal Dias, ESMUFMG, ESMUEMG,
Fundação de Educação Artística, Conservatório de Música, Associação Médica de
Minas Gerais, Teatro Isabela Hendrix , Teatro da PUC Minas e Teatro Bradesco), Casa
da Ópera em Ouro Preto, Teatro de Mariana, no Salão Nobre do Teatro Nacional de São
Carlos (Lisboa-Portugal), Palácio de Mafra (Mafra-Portugal) e Teatro Nacional
Argentino (La Plata � Argentina).Como pianista camerista realiza um intenso trabalho
junto a cantores e instrumentistas de naipes diversificados em importantes salas de
concerto do Brasil e exterior. Atua como pianista preparadora (correpetidora), tendo em
seu repertório mais de quarenta títulos de oratórios e óperas , realizados junto a maestros
e cantores do Brasil e exterior. É pianista oficial dos concursos de canto Internacionais
Bidu Sayão (Brasil - desde 2000) e Luisa Todi (Setúbal/Lisboa - Portugal- desde 2007).
Em concertos sinfônicos trabalhou junto às orquestras Filarmônica de Cuiabá, Sinfônica
de João Pessoa, Sinfônica de Vitória, Orquestra da ESMUFMG-MG, Sinfônica de
Minas Gerais e Filarmônica de Minas Gerais.
Luciana Monteiro de Castro, graduada em Canto pela UFMG e Conservatório Nacional de
Lisboa. Mestre em Performance Musical e Doutora em Literatura comparada, é professora na
Escola de Música da UFMG desde 2002, onde leciona Canto e outras disciplinas na
graduação e pós-graduação. Tem se dedicado ao estudo e divulgação da canção brasileira de
câmara; coordena o Programa de Extensão Selo Minas de Som e atua como pesquisadora do
grupo Resgate da Canção Brasileira. Organiza Seminários da canção da UFMG desde 2003.
Cantora de experiência, além de concertos de câmara, atuou em obras sinfônicas e óperas sob
a regência de nomes como David Machado, Silvio Viegas, Isaac Karabtchevsky, Marcelo
Ramos, Roberto Tibiriçá, L. Fernando Malheiro, Emílio de César dentre outros.
180
A inteligibilidade da canção de câmera brasileira sob a ótica do não
músicos: um estudo pilotoCristina!de!Souza!Gusmão!
UFMG!-!tina_gusmao@yahoo.com.br!
!
Mônica!Pedrosa!de!Pádua!
UFMG!-!monicapedrosa@ufmg.br!
!
!
RESUMO: Este estudo teve como objetivo verificar quais parâmetros contribuem para a
inteligibilidade da canção, por meio da percepção do público não músico. Seis voluntários
ouviram um trecho da canção Alma! minha! gentil interpretada por duas sopranos distintas e
descreveram suas impressões. Apesar dos voluntários não compreenderem todo o texto,
entenderam um único áudio como sendo o mais inteligível. Diante dos resultados temos indícios
de que os ajustes vocais que contribuem para uma voz mais clara e articulada influenciaram a
compreensão do texto cantado.
Palavras-chave: Canção de câmera brasileira. Inteligibilidade do texto. Canto erudito. Dicção
lírica.
The intelligibility of Brazilian art song from the standpoint of non-musicians: a pilot study
ABSTRACT: This study aimed to verify which parameters contribute for the intelligibility of the
song through the perception of the non-musician public. Six volunteers were asked to hear an
excerpt from the song Alma!minha! gentil! performed by two different sopranos and to describe
their impressions. Even though the volunteers did not understand the entire text, they understood
that one of the audios was the most intelligible. In view of the results, we have evidence that the
vocal adjustments that contribute to a clearer and more articulated voice have influenced the
understanding of the sung text.
Keywords: Brazilian art song. Text intelligibility. Classical singing. Lyric diction.
!
1. Introdução
Dentre os vários estudos sobre a voz cantada, aqueles que se voltam para a
compreensão do texto cantado nos parecem particularmente instigantes. Nem sempre o texto,
em qualquer idioma que se cante, é algo claro ou inteligível. Seja por necessidades ou
preferências técnicas e musicais ou por questões acústicas ligadas ao aparelho ressonador,
entre outras possíveis razões, não raro fonemas são modificados, influenciando na
compreensão do texto cantado.
Este artigo apresenta um recorte dos estudos que vêm sendo realizados no
doutoramento da primeira autora em música/performance, sobre a inteligibilidade no canto,
especificamente na canção de câmera brasileira. Numerosas vezes ouvimos cantores
brasileiros executando a canção de câmera e percebemos que, em alguns trechos, o texto
cantado fica bastante ininteligível. Diante dessa observação, alguns questionamentos foram
levantados como: 1) Existe uma frequência específica para que haja perda da inteligibilidade
181
do texto cantado? Há uma supervalorização da técnica em detrimento do texto? Isso ocorreria
por influência de técnicas de países europeus, como a Itália ou a Alemanha, entre outros?
Sem qualquer tom de elogio ou crítica, partimos da percepção de que há, por parte
de muitos cantores brasileiros, a preocupação de tornar claro ao ouvinte o texto cantado.
Preferências técnicas e estéticas legítimas entram em jogo no processo de performance do
cantor, ligadas a vivências próprias, expectativas, contextos de performance etc. Escolhas
interpretativas podem ainda levar em conta o período da história da música e a adequação ao
gênero musical, assim como a pluralidade das técnicas vocais e a variedade estilística dentro
do universo musical.
Uma canção não é formada apenas pelo seu texto poético ou pela música, mas
pela inter-relação entre esses elementos. Assim sendo, em sua performance para o público,
em especial para o público falante do idioma em que está sendo cantada, essa inter-relação
deve ser considerada. Acreditamos, entretanto, que cabem aos cantores suas próprias escolhas
e não há, de nossa parte, qualquer intenção de prescrever normas, senão de apontar, de forma
mais objetiva, alguns fatores que possam interferir na inteligibilidade do texto cantado e que
possam servir de referência para essas escolhas. Assim sendo, este artigo apresenta um estudo
piloto de cunho qualitativo que verifica alguns parâmetros envolvidos na inteligibilidade de
uma canção em vernáculo.
Em estudos anteriores, foi possível observar que no Brasil são poucas as
pesquisas sobre a compreensão do texto na canção de câmera brasileira, portanto,
apresentaremos a seguir uma revisão da literatura sobre o tema, encontrada até o momento.
Medeiros (2003) analisou aspectos fonéticos e acústicos da canção brasileira
erudita e observou que após a comparação de vogais faladas e cantadas, as vogais cantadas
são mais longas em comparação às faladas. A autora concluiu, ainda, que 62% dos
avaliadores identificaram o texto cantado nos registros baixo-médio, 38% no registro médio e
somente 9% identificaram o texto cantado no registro agudo.
Estudos de McCrea e Morris (2005) apontam que as vogais no canto são
frequentemente alongadas e as consoantes encurtadas.
DiCarlo!(2007) discorre em seu artigo sobre a inteligibilidade do canto na ópera
francesa. A autora conclui que, em relação à fonética, as vogais sofrem distorção substancial,
principalmente devido à intensidade e à frequência com que são produzidos os sons. Em
relação à intensidade, DiCarlo afirma que quando esta se encontra entre 90 e 130 dB, restam
apenas três sons de vogais perceptíveis [ i ], [ a ] e [u]. A faixa de inteligibilidade do baixo é
clara, enquanto somente ¼ da faixa do soprano é inteligível. A compreensão das consoantes,
182
assim como das vogais, é inversamente proporcional à frequência em que são cantadas. Para
sopranos, a inteligibilidade das vogais e consoantes começa a diminuir no registro médio e
continua a cair com rapidez à medida em que o tom fica mais agudo. As consoantes
permanecem um pouco mais compreensíveis do que as vogais, sendo 40,3%, das consoantes
entendidas, contra 31,8% das vogais.
!!!!!!!!Gregg e Scherer (2007) realizaram um estudo com cantores clássicos americanos.
Os autores acreditavam que a inteligibilidade no canto clássico poderia estar associada à vogal
e/ou à falta de treinamento de algumas vogais nas aulas de canto, treino diário ou mesmo
durante o aquecimento vocal. Para avaliar sobre isso, os autores testaram grupos de cantores,
com um grupo vocalizando com quatro, cinco, seis ou sete vogais diferentes e outro grupo
vocalizando onze vogais, ambos do inglês americano cantado. Eles concluíram que cantar
todas as vogais ou somente algumas durante o treino vocal não fez diferença para deixar o
texto cantado mais nítido, sendo que o que influenciou foi a frequência das vogais executadas.
Os autores relataram que a identificação das vogais foi melhor para cantores do sexo
masculino e em frequências graves. Além disso, as vogais com posição de língua alta como
[i] e [u] foram as mais inteligíveis, atingindo de 80 a 90% de acertos avaliados. As vogais
com maior dificuldade de identificação nas frequências agudas foram as vogais próximas, ou
vizinhas, como no exemplo de bit!e!bead.
Uma informação importante, oferecida pelos autores supracitados, foi de que �as
frequências graves foram as mais bem identificadas ou mais inteligíveis porque a frequência
grave envolve mais harmônicos dentro do espectro acústico� (GREGG e SCHERER, 2007:
306). Percebeu-se que essas frequências garantem mais chance de definição do formante e
uma redução da necessidade de modificação para poder atingir a qualidade vocal desejada.
No estudo de Nolan e Sykes (2018-2019) os autores pesquisaram a compreensão
das vogais e das consoantes de sopranos, em altas frequências, e constataram que a qualidade
dos sons nas frequências agudas é perdida dramaticamente e que todas as vogais foram
percebidas como vogais abertas. Os tons mais agudos foram os mais difíceis para a
identificação da consoante /l/, bem como para a percepção da qualidade das vogais. Finalizou-