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Apresentação
O livro é fruto de uma tese de doutorado defendida na USP, orientada pela professora Ruth
Cardoso, a autoria é de Gilberto Velho. A tese é de 1975, Gilberto Velho foi muito
incentivado a publicar a tese em forma de livro, porém não o fez porque naquela época de
Ditadura Militar seria arriscado correr o risco de publicar e ter algum de seus entrevistados
com privacidade ameaçada ou perseguido pelos militares, então ele recuou, muitos de seus
alunos e amigos leram a tese enquanto isso, ela ficou ela ficou disponível para consulta na
biblioteca da USP e também no Museu Nacional. Vinte e três anos depois, Incitado por
alguns amigos a publicá-la, retirou-a da estante, releu e resolveu publicar assim como
estava, sem alterações no texto - porque assim os leitores podem encontrar referências
sobre os anos 70 e reflexões que são atemporais.
Ele afirma que seu texto é pioneiro nos estudos antropológicos do meio urbano e da
sociedade contemporânea, a questão do uso de drogas é abordada como um estilo de vida
e visão de mundo, procurando compreendê-la no contexto sociocultural, afirma também que
espera que possa contribuir para uma reflexão sobre as políticas públicas específicas e
sobre questões ético-políticas amplas- como liberdade e responsabilidade individuais,
cidadania e democracia.
O texto é resultado de pesquisas ainda feitas na graduação, onde começa o seu interesse
em aprofundar estudos sobre as camadas médias brasileiras, área de estudo importante e
meio desprezada. Na pós graduação, com foco na área urbana, decidiu estudar então o
“white collar” copacabanense - grupos do Rio de Janeiro, zona sul. Depois de um estadia de
um ano na Universidade do Texas, foi levado cada vez mais a considerar como relevantes
os problemas ligados a teoria do desvio e então chega ao tema da dissertação - desvio e
camadas médias, utiliza métodos da tradição antropológica no desvendamento de
problemas e grupos sociais.
INTRODUÇÃO
Objetivo do trabalho: ampliar o conhecimento sobre camadas médias urbanas
Grupo pesquisado: habitantes da Zona sul do Rio que fazem utilização regular de tóxicos.
O uso de tóxicos foi um ponto de partida para tentar fazer uma análise sistemática de certos
estilos de vida e visão de mundo que estariam ligados a esse comportamento considerado
pela sociedade como transgressor, anormal.
O trabalho de pesquisa como uma atividade que é mal vista por vários setores sociais,
considerada ilegal, criminosa e sujeita a perseguição policial, traz uma série de problemas
particulares para tal - (ex.: os pesquisados demonstram resistência, desconfiança), como
pesquisador experimenta a sensação desconfortável de estar invadindo a privacidade do
outro, ameaçando sua segurança. O autor afirma que tentou ao máximo proteger as
identidades das pessoas, e o seu consolo é pensar que está contribuindo para uma visão
menos preconceituosa sobre este modo de vida.
O grupo pesquisado é peculiar, uma vez que vive na clandestinidade, é um grupo que está
suscetível a julgamentos e punições por parte da sociedade, existem órgãos sociais,
pessoas e autoridades que podem interferir em seu modo de vida, impondo padrões,
proibindo de que façam o que gostam e desejam. Esse grupo é então obrigado a
desenvolver estratégias para poder obter os tóxicos e utilizá-los, desenvolvem uma
linguagem própria do grupo, tem suas gírias, seu modo de se comportar, suas vestimentas,
isso ajuda a compor um mapa de pessoas e lugares para que possam se proteger, se
resguardar- CAMPO DE COMUNICAÇÃO E INTERAÇÃO. Embora existam diferenças entre
os variados subgrupos (por ex. grupo que faz uso de uma droga “x” e grupo que faz uso de
uma droga “y”), todos têm um denominador comum que é a infração da lei, o desvio. De
acordo com Becker (1963: 8-9) o comportamento desviante pode ser entendido como:
(...) os grupos sociais criam o desvio ao estabelecer as regras cuja infração constitui
desvio e ao aplicá-las a pessoas particulares, marcando-as como outsiders. Sob tal
ponto de vista, o desvio não é uma qualidade do ato que a pessoa faz, mas sim a
consequência da aplicação por outrem de regras e sanções ao ‘transgressor’. O
desviante é aquele a quem tal marca foi aplicada com sucesso, o comportamento
desviante é comportamento assim definido por pessoas concretas.”
Ao mesmo tempo é problemática afirmar a existência de solidariedade entre esses grupos,
já que são muito diversos, há diferenças internas como tipo de tóxico utilizado, idade, classe
social, isso marca fronteiras nítidas entre eles. Por isso que ele chama de estilo de vida, é
um universo diversificado.
Apesar da existência a parte desses grupos na sociedade, o autor prefere não utilizar os
termos subcultura ou contracultura para descrevê-los, porque para ele esses termos estão
ligados a uma perspectiva preocupada em traçar limites entre o “normal” e o “anormal”,
ajustado e desviante. Ele prefere perceber a realidade de uma forma dinâmica, estes termos
trazem um bloqueio no sentido de se fechar os grupos neles mesmos e não perceber que
esses grupos coexistem com outros grupos sociais e dentro de uma sociedade como um
todo e com ela compartilham símbolos, valores comuns, interagem com ela.
Objetivo central do trabalho: perceber até que ponto o uso de tóxicos estabelece fronteiras
dentro da sociedade, a que visões de mundo e estilo de vida está associado, analisar as
relações entre os grupos estudados com outros grupos com o qual convivem, coexistem ou
entram em conflito.
CAPÍTULO 1 - GRUPO 1- Mudança e ansiedade
- Grupo composto por pessoas de diferentes afinidades e ocupações, mas possível
encontrar certas semelhanças. A grande maioria tem ensino superior, embora não
trabalhem na área. (artistas, cineastas, escritores) Em termos brasileiros, é um
grupo bastante privilegiado - artistas e intelectuais em sua maioria
- Habitantes da Zona Sul do Rio, a maioria carioca, apenas 3 membros nascidos em
MG, Bahia e RS
- Pessoas da roda intelectual artística boêmia do RJ
- São 25 pessoas.
- Selecionou 5 situações que parecem importantes para compreender o grupo: dois
passeios de fim de semana, duas festas e um programa de praia num sábado de
verão.
- Observou o grupo entre 1972 e 1974
- Alguns foram colegas de faculdade, alguns estudaram na mesma escola secundária,
há amigos e conhecidos de mais de 10 anos, as famílias de alguns também são
conhecidas. Há também relações de parentesco entre alguns (cunhados, primos,
irmãos,casais)
- Autor ressalta a importância dessas relações de parentesco para a formação e
continuidade do grupo
- Disparidades entre o grupo: alguns membros com profissões mais técnicas e salários
fixos (por exemplo: engenheiros) podiam fazer um programa de domingo como jantar
em restaurantes caros e membros com profissões mais instáveis, como artistas, não
podiam fazer isso sempre. Isso tb influenciava no acesso aos tóxicos.
- Uma característica marcante do grupo é o alto padrão de consumo em que essas
pessoas viviam, faziam várias viagens a Europa e aos Estados Unidos, altos
rendimentos, havia no grupo uma necessidade de manutenção desse estilo de vida a
todo custo, uma pressão entre eles. Clima de competição em torno de maior renda,
mais beleza, qualidade das roupas.
- Eles tinham necessidade de buscar atividades de trabalho criadoras, por exemplo,
fotografia, cinema, literatura. Alguns mantinham empregos burocráticos de meio
período para poderem sustentar seu alto padrão de vida.
- A maioria abandonara profissões mais seguras e com rendas fixas e altas para se
dedicarem a profissões em que consideravam ter mais liberdade. Esse tipo de
atitude estava ligado a um discurso psicanalítico, 14 desses 25 faziam análise.
- Muito se falava no grupo sobre a importância da análise e observa-se as mudanças
que as pessoas apresentavam, por ex. corte de cabelo, mudança de estilo ou outras
mais intensas como término de casamento, nova relação, isso era altamente
valorizado pelo grupo e sempre aparecia associado a utilização de tóxicos, que
teriam uma importânciacrucial nas transformações existenciais.
- Todos se definiam como ateus convictos
- Oriundos de famílias tradicionais, filhos de políticos, militares, profissionais liberais
- Reclamavam que tinha sido oprimidos pela família, obrigados a se dedicar a
atividades que não tinham interesse autêntico
- A categoria “autenticidade” era muito importante e puxava vários assuntos no grupo,
o uso dos tóxicos era importante na busca de autenticidade e espontaneidade. Os
pais eram taxados de inautênticos, reprimidos.
- Haviam grandes tensões entre esses membros com suas famílias, mas mantinham
os laços em prol de receber mesadas, auxílios financeiros, heranças e também ajuda
para cuidar de filhos pequenos.
- Buscavam identidade no trabalho artístico e a tal necessidade de autenticidade vinha
dessa relação com o trabalho artístico. O problema de vanguarda estava sempre
presente, eles tinham a necessidade de não fazer um trabalho comercial ou para a
“classe média”
- O interesse em arte, cinema, literatura, os hábitos de consumo, estilo de vida,
roupas e lugares frequentados dão uma unidade básica ao grupo, compondo um
código comum
- No início do período da pesquisa houve uma tendência progressiva do grupo em
frequentar locais públicos, se reunindo mais nas casas, isso por um lado era
resultado da frequente utilização dos tóxicos.
Encontros- Situações que ilustram a vida do grupo
Nessa parte do livro o autor descreve os encontros que os membros do grupo tiveram, seus
costumes, o que comiam, o que bebiam, os tóxicos que consumiam (maconha, LSD,
cocaína ) e a quantidade , as músicas que tocavam em suas festas, o que comiam, quando
comiam, quando dormiam, os assuntos sobre os quais falavam (viagens, cinema, arte em
geral, esportes, festas, psicanálise, discutir a relação, compra de maconha, cocaína e
ácido), nuances da forma como se relacionavam entre si, os jogos que faziam em suas
relações conjugais e de amizade, seus valores, exibir sua beleza e ver gente bonita, exibir
suas roupas, seu corpo magro e bronzeado, havia um forte consenso de que o aspecto
físico expressa o estado de espírito.
Características gerais:
- Discurso complexo para as ambiguidades e variações.
- Nota-se que é um grupo cujas fronteiras não são nítidas, porque eles se relacionam
com outros grupos sociais.
- O que define essas vinte e cinco pessoas como um grupo é a frequência de
encontros, dos mais diferentes tipos.
Relações entre homens e mulheres dentro do grupo
- Círculo de relações comum entre o casal
- Relacionamento de papel conjunto - Divisão de trabalho doméstico
- Atividades dos homens - jogar vôlei sábado a tarde na praia, futebol, Maracanã,
compra de tóxicos
- Atividade das mulheres- comprar roupas juntas, academia, salão
- Infidelidade masculina X infidelidade feminina - ambiguidade
- Festa- liberalidade conjugal X Vida real
- Homens e argumentos moralistas X Mulheres - “dominação masculina”
- Rotina - igualdade entre os sexos- Crise- discurso tradicional
Características afetivas e cognitivas do grupo estudado
1- O indivíduo como referência. Peculiaridades, biografia individual, psicanálise, busca de
autenticidade, expressar seus sentimentos
2- Competição - Vanguardismo, sucesso acadêmico ou financeiro
3- Hedonismo - busca de prazer sem culpa. Mas, os prazeres valorizados (viajar à Europa,
comer em bons restaurantes) exigem que se trabalhe em empregos fixos e burocráticos
para ter bom salário. Hedonismo com camisa de força, do mercado.
4. Papéis de gênero- tema constante- liberal x tradição
5. Mudança- tema que marca o grupo, são orientados para a mudança, seja ela de qual
categoria for, eles se definiam como artistas vanguardistas (da inovação do novo) e queriam
que suas vidas fossem coerentes com os seus trabalhos artísticos, ou seja, ser artista de
vanguarda implicava em não ser “careta”, “pequeno burguês”, rejeitavam os valores de suas
famílias de origem, hipócritas e repressivas, em contradição a isso, enfatizavam sempre
uma identificação com o passado da família, valorizando seu lado aristocrático.
“Num momento negava-se as escalas de valores através da qual tinham sido socializados,
para em outro momento preocupar-se em afirmar as origens e o passado como fonte de
legitimação”.
6. Ansiedade- preocupação com a competição velada que há entre eles, uso da ironia,
humor ácido, rusgas por ciúme, laços emocionais fortes e ambíguos, era importante ser
autêntico, mas ao mesmo tempo era preciso ser fino, ter um comportamento que era
considerado adequado. As festas são muito importantes para eles, porque nelas há um grau
de permissividade que não há no cotidiano.
CAPÍTULO 2 - O uso dos tóxicos
1969- primeiro uso de maconha, em meados de 1968/1969 esses homens e mulheres se
estabelecem como casais e tem suas próprias casas, ou seja, um lugar privado para fumar
maconha. A partir daí deixam de frequentar tanto os locais públicos e se reúnem em suas
casas para fumar, quem inicia os hábitos são os homens. Como se tratava de uma atividade
considerada perigosa, fumar maconha junto reforçava laços de solidariedade e servia para
demarcar fronteiras, fechar o grupo, entre os que gostavam - contorno nítido do grupo- os
homens e mulheres que permaneciam frequentando as reuniões, experimentaram
maconha - uns fumando regularmente, outros dando um tapa quando se encontram.
Padrões de consumo elaborado dentro do grupo - geralmente só fumavam em grupo
1970- Vários membros vão para o exterior e ficam um tempo, outros tóxicos - LSD ( e
segundo eles, o LSD teve influência grande na mudança de visão de mundo deles), então
apresentam o LSD para os amigos quando retornam ao Brasil. Só 10 quiseram experimentar
a “viagem”, os outros diziam ter medo das consequências, por ex., surto esquizofrênico, bad
trip…
- 2 membros do grupo pregavam fortemente o uso do ácido como uma forma de
descoberta de si mesmo e do mundo, abridor de portas que permitia reavaliar a si
mesmo e as coisas - autenticidade
1972-Começa a aparecer a cocaína no grupo- consumida em festas, somente alguns
consumiam, alegavam que ela era mais pesada que a maconha e podia viciar, adoecer,
enfraquecer. Alguns cheiravam 2 ou 3 vezes por semana. A cocaína não tinha no grupo um
uso tão compartilhado como a maconha, porque era uma droga muito cara, por isso também
não tinha um uso tão frequente, porém alguns membros do grupo começaram a usar
cocaína regularmente, trocando a maconha pelo pó. Havia no grupo uma ideia de que cada
pessoa deveria descobrir qual sua droga.
Compravam maconha com amigos, chamados “transeiros” e repassavam no grupo,
raramente iam nas biqueiras e quando acontecia de ser preciso, eram sempre os homens
que iam, preferencialmente os de comportamento mais tranquilo, que não “dessem
bandeira”. Alguns tinham muito medo de ser pego com tóxicos no carro, tinham muito de ser
presos, uma vez foram pegos com LSD, cocaína e maconha no carro, mas a polícia os
liberou após olhar o documento e ver que um deles era filho de família poderosa.
Alguns homens do grupo gostavam de dirigir sob efeito de maconha ou de pó, porque isso
significava um autocontrole e aumentava seu prestígio no grupo.
Apesar da valorização dos tóxicos e da apreciação geral da maconha neste grupo, é preciso
perceber que não é algo monolítico e acabado, porque os membros que se recusam a fazer
uso regular da cocaína e do LSD, por exemplo, se apropriam do discurso da cultura
dominante, do medo da loucura e da decrepitude, o mesmo discurso que também condena o
uso da maconha.
Capítulo 3 - Formação cultural e visão política
-Um dos objetivos da pesquisa é saber como essas pessoas se posicionavam politicamente,
suas opiniões básicas.
-Quase todos os homens e algumas mulheres já tinham participado politicamente (diretório
estudantil, passeatas, manifestos)
- A maioria dizia “ter sido” de esquerda, “meio comunistas”
.Diziam concordar com protestos contra o governo, mas tinham medo de participar e às
vezes eram acomodados demais pra isso
- Diziam ter lido literatura marxista, literatura brasileira,sobre a realidade brasileira, caráter
social da arte, etc
- Em seus depoimentos, fica marcado que um dia se importaram com política, mas que
agora não há mais uma preocupação, por medo de repressão (porque conheciam pessoas
que tinham sido presas, torturadas), enfatizam também o fracasso da esquerda, sua
incompetência e incoerência, alguns sentiam que quando foram da Esquerda tinham sido
fantoches.
- O tema da liberdade de criação em suas obras também dificultava o relacionamento do
grupo com a Esquerda, porque não queriam ter obrigação de fazer obra com cunho político
e já haviam tido trabalhos desvalorizados e criticados por não tinha “suficiente conteúdo
político”
- No discurso do grupo aparece a descoberta de que por trás do Idealismo existe jogo de
poder, corrupção, egoísmo, interesse pessoal
- O tóxico aparece como enriquecedor, sendo por excelência anti-esquemático, a
Psicanálise e o autoconhecimento, que possibilitou essa descoberta. Há um consenso
sobre a importância do individual, da liberdade pessoal, da desrepressão e só vão em
direção ao que fortalece isso, coisa que não encontram em política
- O estilo de vida hedonista não combina com política
- O compromisso é individual e presente, não é coletivo, nem com o futuro

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