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Brasília-DF. Medicina de anfíbios e Peixes Elaboração Lina Crespo Bilhalva Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 6 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 8 UNIDADE I ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES ............................................................................................................ 11 CAPÍTULO 1 CLASSIFICAÇÃO .................................................................................................................... 11 CAPÍTULO 2 ANATOMIA E FISIOLOGIA ........................................................................................................ 14 CAPÍTULO 3 CONSERVAÇÃO E ZOONOSES ............................................................................................... 27 UNIDADE II CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO ..................................................................................................... 29 CAPÍTULO 1 RECINTOS .............................................................................................................................. 30 CAPÍTULO 2 QUALIDADE DA ÁGUA ............................................................................................................ 33 CAPÍTULO 3 NUTRIÇÃO ............................................................................................................................. 39 UNIDADE III MEDICINA DE PEIXES ........................................................................................................................... 42 CAPÍTULO 1 MEDICINA PREVENTIVA ........................................................................................................... 42 CAPÍTULO 2 CLÍNICA DE PEIXES ................................................................................................................. 52 UNIDADE IV ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS ........................................................................................................ 81 CAPÍTULO 1 CLASSIFICAÇÃO ................................................................................................................... 81 CAPÍTULO 2 ANATOMIA E FISIOLOGIA ........................................................................................................ 85 CAPÍTULO 3 CONSERVAÇÃO E ZOONOSES ............................................................................................... 96 UNIDADE V CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO ................................................................................................. 98 CAPÍTULO 1 RECINTOS ............................................................................................................................. 99 CAPÍTULO 2 QUALIDADE DA ÁGUA .......................................................................................................... 103 CAPÍTULO 3 NUTRIÇÃO ........................................................................................................................... 106 UNIDADE VI MEDICINA DE ANFÍBIOS ..................................................................................................................... 109 CAPÍTULO 1 MEDICINA PREVENTIVA ......................................................................................................... 109 CAPÍTULO 2 CLÍNICA DE ANFÍBIOS ........................................................................................................... 118 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 144 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução Dentro do filo Chordata, podemos encontrar o diverso subfilo Craniata – composto pelos animais que possuem crânio, representado pelos animais vertebrados e os Myxini (conhecidos pelo nome popular de feiticeira), os únicos peixes sem vértebras propriamente ditas. Acredita-se que o esqueleto dos vertebrados mais primitivos tenha sido formado por cartilagem, provavelmente devido ao seu desenvolvimento mais acelerado, como o observado em peixes sem mandíbula e nos atuais cartilaginosos. Posteriormente, esqueletos, de maioria óssea, foram surgindo, como o observado na maior parte dos vertebrados, oferecendo reservatório de fosfato e maior resistência. Os animais chamados peixes compreendem diversos indivíduos de hábitos essencialmente aquáticos dotados de brânquias e nadadeiras, assim como uma pele geralmente coberta por escamas. Esses animais, embora frequentemente reunidos em um único grupo, diferem muito entre si em diversos aspectos biológicos. Os registos fósseis mais antigos de peixes datam de períodos anteriores a 500 milhões de anos atrás, considerados os vertebrados mais antigos já descritos. Esse fator, somado à grandeextensão do planeta em água, resultou no conjunto mais diverso entre os vertebrados, com mais de 24 mil espécies conhecidas, superando, em número, todas as espécies de anfíbios, répteis, aves e mamíferos somadas. Atualmente, quando em cativeiro, peixes costumam ser criados com fins de consumo ou ornamentação. Devido aos diversos aspectos culturais e à existência de medicamentos de fácil aquisição, médicos veterinários frequentemente são solicitados somente em quadros mais graves, exigindo rápida tomada de decisão por parte desses profissionais. Anfíbios, por outro lado, foram os primeiros vertebrados capazes de habitar a terra firme, com os mais antigos registros datando de 350 a 400 milhões de anos atrás, época de grandes secas e diminuição do oxigênio nos corpos d’água. A classe Amphibia possui grande diversidade de formatos, cores e tamanhos, com mais de 6.000 espécies descritas no mundo, capazes de suportar os mais diversos climas e ambientes e de preencher diferentes nichos. Essa elevada variabilidade pode ser um desafio para a manutenção desses animais em cativeiro. Para dificultar ainda mais, o manejo inadequado é considerado o maior causador de problemas nesses animais. Por exemplo, doenças provocadas por fungos e bactérias podem estar relacionadas à temperatura e ao pH incorretos e o tratamento inadequado de determinadas enfermidades pode levar um animal a óbito. Esses animais também podem atuar como indicadores ambientais, devido à alta permeabilidade da pele e sua sensibilidade à qualidade da água e do ar. Algumas espécies podem embasar pesquisas farmacológicas, ser utilizadas como 9 animais de estimação e, ainda, como alimento. Portanto, é importante que médicos veterinários conheçam as diversas características de anfíbios e peixes para serem considerados aptos ao manejo e à clínica desses animais. Objetivos › Discutir os principais aspectos relacionados à biologia e medicina de anfíbios e peixes. › Capacitar o aluno a exercer a clínica de anfíbios e peixes. 11 UNIDADE IASPECTOS GERAIS DOS PEIXES CAPÍTULO 1 Classificação Classificação e nomenclatura Peixes compreendem um grupo de animais de hábitos aquáticos pertencentes, em sua maioria, aos vertebrados, os quais realizam trocas gasosas nesses ambientes por meio de brânquias. Esses animais são o grupo mais antigo e diverso dos vertebrados, com aproximadamente metade das espécies existentes. Entre as complexas classificações dos peixes, podemos primeiramente dividi-los de acordo com a presença ou ausência de mandíbula. Os agnatos (Agnatha) são considerados mais primitivos, com mandíbula ausente e esqueleto cartilaginoso, representados pelas lampreias (Figura 1) e feiticeiras, enquanto os gnatostomados (Gnathostomata) são caracterizados pelos peixes mandibulados e os tetrápodes (Tetrapoda), que incluem os anfíbios, os répteis, as aves e os mamíferos. Figura 1. Peixe sem mandíbula, a lampreia-marinha (Petromyzon marinus). Fonte: https://www.flickr.com/photos/43788330@N05/8740460349/. 12 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES Dentro do grupo dos peixes com mandíbula, podemos encontrar ainda duas grandes ramificações existentes: 1. Peixes cartilaginosos: os condrictes (Chondrichthyes), dotados de um endoesqueleto cartilaginoso, representados por duas subclasses: a. elasmobrânquios (Elasmobranchii), representada por tubarões, cações e raias (Figura 2); e b. Holocephalii, que tem como únicos representantes as quimeras. 2. Peixes ósseos: os osteíctes (Osteichthyes), que possuem esqueleto ósseo, retratados pelos: a. Sarcopterygii, peixes de nadadeiras lobadas, como os celacantos; e b. Actinopterygii (Figura 3), peixes de nadadeiras raiadas representando a maior parte das espécies encontradas atualmente, como as trutas, bagres e carpas. Figura 2. Peixe mandibulado da classe Chondrichthyes, a raia-prego (Dasyatis centroura). Fonte: http://www.trilhasemergulho.com.br/mergulho/abc2/slides/006-Raia-Prego.html. 13 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I Figura 3. Peixe mandibulado da classe Osteichthyes, o xerelete (Caranx latus). Fonte: http://www.trilhasemergulho.com.br/mergulho/abc2/slides/010-Xerelete.html. Habitat Todas essas classificações entre os peixes podem compreender animais de água doce e salgada. Estima-se que, atualmente, mais da metade das espécies de peixes seja de ambientes marinhos, principalmente devido a sua extensão. Deve-se considerar que a fauna marinha é proporcionalmente muito menos conhecida do que a dulcícola, especialmente ao considerarmos as espécies bentônicas (aquelas que têm como habitat as profundezes do mar), embora estudos de taxonomia e sistemática sejam necessários em todos os ambientes. Os peixes são capazes de habitar lagos, rios, mares e oceanos por todo o mundo. Esses animais podem apreciar quase toda a coleção de água, desde os mares gelados dos polos, das regiões tropicais, cavernas subterrâneas, regiões abissais ou, até mesmo, todos de montanhas. Existem animais que podem inclusive sobreviver por certos períodos fora da água. Entretanto, possuem grande dificuldade em resistir em ambientes com elevada salinidade, como o mar Morto, no vale do rio Jordão no Oriente Médio, e o Great Salt Lake, no Estado de Utah nos Estados Unidos. Devido às limitações, como as tecnológicas e financeiras, a maioria das espécies que vive no fundo dos nossos oceanos ainda não foi descoberta. No caso dos peixes, acredita-se que aproximadamente um terço das espécies (ou mais) ainda seja desconhecido ao homem. Você consegue imaginar como são as espécies de peixes que habitam regiões abissais, as quais podem ultrapassar os 10.000 m de profundidade? 14 CAPÍTULO 2 Anatomia e fisiologia Assim como para a medicina de outros animais silvestres, o conhecimento a respeito da anatomia básica de peixes (Figura 4) é extremamente importante para exercer a clínica desses animais. Entretanto, devido à vasta diversidade de espécies e morfologias de peixes existentes, um breve apanhado do tema será discutido a seguir. Figura 4. Anatomia básica geral dos peixes ósseos. Cérebro Rim Medula espinhal Nadadeira dorsal Bexiga natatória Nadadeira caudal Nadadeira pélvica Baço Estômago Gônada Nadadeira anal Brânquias Fígado Coração Vesícula biliar Bexiga urinária Fonte: elaborado pelo o autor. Pele e estruturas anexas A pele de peixes é um órgão complexo que está em contato direto com o ambiente aquático, atuando em diversas funções, como a manutenção de uma barreira osmótica, proteção contra doenças e camuflagem. É composta por quatro principais camadas: » Cutícula: camada mais externa, bastante fina, recoberta por células descamativas e muco, o qual tem a função de facilitar a movimentação do animal na água ao reduzir o atrito. » Epiderme: dotada de um fino epitélio estratificado escamoso, que possui glândulas secretoras de muco, formando uma barreira contra a água. 15 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I » Derme: camada mais espessa, onde formam-se as escamas na maioria dos animais, além de albergar células especializadas como os cromatóforos. » Hipoderme: localizada adjunta à musculatura e aos ossos, dotada de um tecido conectivo frouxo, com vascularização, podendo conter tecido adiposo. Cromatóforos são células de aspecto dendrítico capazes de sintetizar e armazenar pigmentos. Dessa forma, podem conferir cores aos peixes, assim como auxiliar no dimorfismo sexual e mimetismo. Entre essas células, podemos citar os melanóforos, xantóforos e iridóforos, cada uma responsável por fornecer ceras, cores e aspectos à pele (STOSKOPF, 1993). Ao contrário dos répteis, nos quais as escamas iniciam na epiderme, peixes possuem essas estruturas queratinizadas originadas na derme, projetando-se pela epiderme. São também cobertas por uma camada de muco, além de serem capazes de proteger o corpo do animal no ambiente. Danos às escamas podem causar graves problemas relacionadosao equilíbrio osmótico do animal, isso é, relativo à distribuição da água em locais com diferentes gradientes de concentração de solutos. As escamas possuem diversos formatos, dos quais, os quatro principais são chamados de ganoide, ctenoide, cicloide e placoide, o que pode causar algum impacto na clínica desses animais. Peixes dotados de poucas escamas – ou que estas sejam finas e frágeis – podem ser mais sensíveis a drogas e tóxicos presentes na água de um viveiro, assim como ser facilmente lesionados durante um exame clínico. Por outro lado, animais com escamas placoides, como condrictes, são mais robustos e possuem aspecto de “lixa”. Ainda, há alguns animais como o bagre (vários indivíduos da ordem Siluriformes) que não possuem escamas, sendo revestidos por uma pele firme chamada de couro. Nadadeiras, também chamadas de barbatanas, são grandes dobras presentes na pele de peixes, as quais são cobertas por um epitélio escamoso estratificado contínuo com a epiderme, geralmente sustentadas por estruturas chamadas de raios. Em geral, esses animais possuem três ímpares (dorsal, anal e caudal) e duas encontradas na forma de pares (pélvicas e peitorais). A nadadeira dorsal também pode ser dupla e, junto com as nadadeiras anal, peitorais e pélvicas, auxilia na manutenção da estabilidade do animal durante os movimentos. A nadadeira caudal possui função ativa na natação, principalmente para a mudança de direções e propulsão, podendo ser classificada de acordo com o formato e com os lobos simétricos ou assimétricos. Outros animais, como os caracídeos, podem apresentar uma nadadeira adiposa, localizada entre as nadadeiras dorsal e caudal. Eventualmente, são encontradas nadadeiras bastante adaptadas, como em peixes-voadores, nos quais as peitorais são propícias para planar 16 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES fora da água. As nadadeiras pares são ausentes na maioria dos agnatos. Acredita-se que as pélvicas e peitorais tenham atuado como precursores evolutivos dos membros dos atuais tetrápodes. Sistema musculoesquelético Diversos formatos corporais podem ser observados entre os peixes, variando de acordo com o nicho pertencente à espécie. A maioria dos peixes descritos atualmente possui formato fusiforme, que fornece melhor hidrodinâmica, principalmente em ambiente de fluxo intenso de água, como riachos. Outros podem ser achatados lateralmente, como o acará-disco, o que os favorece para realizar manobras em movimentos curtos, principalmente em águas mais paradas, como lagos. Outras formas incluem os peixes achatados dorsoventralmente, como as raias, alongados, como as enguias, ou até mesmo com formatos bastante singulares, assim como o observado em cavalos-marinhos. Peixes com esqueleto majoritariamente ósseo representam a maioria dos peixes conhecidos, embora algumas espécies sejam dotadas de esqueletos cartilaginosos. Inclusive, diversos osteíctes, quando jovens, são constituídos por um endoesqueleto de cartilagem, que mineraliza ao avançar da idade. De uma forma geral, esses animais possuem uma coluna vertebral bastante flexível para permitir as contrações ondulatórias. Peixes ósseos frequentemente possuem esqueleto com estruturas equivalentes aos mamíferos (Figura 5). Figura 5. Esquema representando o esqueleto de um peixe ósseo. Nadadeira caudal Vértebras Órbita Pré-maxila Dentário (mandíbula) Raios das nadadeiras dorsais Nadadeira anal Costelas Nadadeira peitoral Opérculo Cintura pélvica Nadadeira pélvica Maxila Fonte: Klemm et al. (1995). 17 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I A musculatura axial, utilizada principalmente para a natação em peixes, pode compor grande parte da massa do animal. Ela é composta majoritariamente por uma musculatura branca e, em menor parte, por músculo vermelho, separados por um tecido de aspecto intermediário. A coloração indica o nível de vascularização da fibra, já que o vermelho possui grandes quantidades de mioglobina, capilares e uma alta densidade mitocondrial, que estão em menor parte na porção branca. As fibras da musculatura vermelha (metabolismo oxidativo) são menores e participam primariamente da realização de movimentos lentos e de sustentação, ao contrário das brancas (metabolismo glicolítico), utilizadas em movimentos mais ágeis (SANTOS, 2007). Essa particularidade pode ser importante quando relacionarmos à cinética dos fármacos injetados de forma intramuscular, os quais podem ser distribuídos diferentemente de acordo com o músculo atingido. Alguns peixes, como a enguia elétrica (Electrophorus sp.) e a raia-elétrica (Torpedo sp.) possuem uma adaptação muscular para auxiliar à captura de presas, assim como para afastar predadores. Esses animais são dotados de eletrócitos, células em formato de discos dispostas ao longo do corpo, capazes de gerar descargas elétricas quando estimuladas (GOTTER et al., 2012). Respiração Peixes são animais aeróbios, portanto, dependem do oxigênio para seu metabolismo, o qual é transportado pelo sangue por meio da hemoglobina presente em eritrócitos. A principal forma de respiração observada nesses animais é a branquial, na qual é possível absorver o oxigênio dissolvido na água. As brânquias, ou guelras, são tecidos altamente vascularizados por onde ocorrem as trocas gasosas em peixes. Elas são formadas pelos arcos branquiais (Figura 6), suportados por osso ou cartilagem, e possuem um epitélio contínuo com a faringe e cavidade bucal. Os arcos branquiais são formados por diversos filamentos preenchidos por vasos sanguíneos, possuindo inúmeras lamelas transversais. As brânquias são consideradas órgãos extremamente efetivos para a extração de oxigênio, já que ambientes aquáticos possuem aproximadamente 1/20 da quantidade de oxigênio dissolvido no ar, além de serem capazes de excretar compostos nitrogenados. De uma forma geral, as brânquias podem ser boas indicadoras da saúde do animal, visto que mudanças em seu epitélio costumam ocorrer precocemente com a instalação de doenças infecciosas ou outros problemas ambientais. Elas também são o principal local onde albergam diversos ectoparasitos. Em peixes ósseos esses órgãos são protegidos por uma placa óssea 18 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES chamada opérculo, enquanto em elasmobrânquios elas se abrem diretamente para o exterior em fendas branquiais e em agnatos em poros branquiais. Figura 6. Representação anatômica da estrutura branquial da tilápia (Oreochromis mossambicus). Cada arco branquial possui duas fileiras de filamentos, que foi simplificada para facilitar a visualização. Arco branquial Lamelas Filamento Figura 3. A r c o b r a n q u i a l Figura 2. F i l a m e n t o Figura 1. L a m e l a s Fonte: adaptado de Ribeiro (2017). São descritos dois métodos básicos de passagem de água pelas brânquias, a ativa e a passiva. A ativa ocorre com a realização de movimentos com a musculatura da mandíbula, o que causa pressão negativa forçando a entrada da água pelos arcos branquiais. Esse método é considerado vantajoso por possibilitar melhor adaptação em condições de cativeiro. Por outro lado, na passiva, é necessária natação contínua com a boca e o opérculo do animal abertos, com movimentos mínimos de mandíbula e brânquias, mas que obrigam o indivíduo a realizar constante movimento para promover a passagem da água e possibilitar as trocas gasosas. Algumas espécies de peixes são capazes de realizar ambas as formas de ventilação. Algumas espécies (por exemplo Protopterus sp.) possuem um mecanismo de defesa contra épocas de seca ou para lidar com ambientes com baixas concentrações de oxigênio que é um órgão considerado um pulmão primitivo. Esse tecido parece ter a mesma origem evolutiva da bexiga natatória, presente de forma singular ou em par, projetando-se como bolsas nas laterais do esôfago. Acredita-se que o surgimento de um pulmão possa ter sido um “impulso” para a invasão de ambientes terrestres pelostetrápodes primitivos (HICKMAN et al., 2000). Outras exceções podem ser observadas, como é o caso da enguia elétrica (Electrophorus electricus), que necessita obrigatoriamente da respiração do oxigênio dissolvido no 19 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I ar. Tais animais possuem brânquias pouco desenvolvidas e dependem de um tecido intensamente vascularizado presente na mucosa oral. Por esse motivo, eles dependem de subir à superfície para capturar ar atmosférico e realizar trocas gasosas (JOHANSEN et al., 1968). Sistema cardiovascular Peixes possuem sistema circulatório relativamente simples. O coração deles é o órgão responsável por bombear o sangue pelo corpo. É constituído por duas câmaras principais (Figura 7): átrio, com parede mais fina, e um ventrículo, com grossa parede muscular. Outras duas cavidades podem ser encontradas, o seio venoso, considerado um marca- passo, e o bulbo arterioso, uma simples cavidade elástica. Em condrictes, na região que seria do bulbo arterioso, ocorre o cone arterioso, câmara ativamente responsável por contrações. Válvulas localizadas entre as câmaras, assim como as contrações, permitem um fluxo unidirecional do sangue. Figura 7. Esquema representando as cavidades do coração de peixes ósseos. Bulbo arterioso Ventrículo Átrio Seio venoso Figura 1. B u l b o a r t e r i o s o Figura 2. S e i o v e n o s o Figura 3. V e n t r í c u l o Fonte: o próprio autor. A circulação desses animais é considerada fechada, já que o sangue flui somente no interior dos vasos sanguíneos, além de ser chamada de simples, já que para a conclusão de um ciclo completo o sangue passa somente uma vez pelo coração. O ventrículo bombeia sangue venoso, rico em gás carbônico, por intermédio do bulbo arterioso (Figura 8) para as brânquias, onde é oxigenado e segue pela aorta dorsal para a distribuição sistêmica, de onde retorna ao coração, passando pelo seio venoso, que direciona para o átrio, seguido pelo ventrículo, continuando o ciclo. Portanto, no coração de peixes, somente é bombeado sangue desoxigenado. Esse órgão se 20 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES encontra separado do resto da cavidade pelo septo transverso, localizado na cavidade pericárdica. Figura 8. Esquema geral do sistema circulatório de peixes. Em azul, sangue desprovido de oxigênio e, em vermelho, oxigenado. Capilares sistêmicos Coração Capilares branquiais Figura 1. C a p i l a r e s b r a n q u i a i s Figura 2. C a p i l a r e s s i s t ê m i c o s Figura 3. C o r a ç ã o Fonte: elaborado pelo o autor. O sistema porta-renal é uma rota circulatória acessória na qual parte do sangue drenado da região posterior do corpo passa pelos rins antes de retornar ao coração. Esse sistema está presente em quase todos os peixes, assim como em anfíbios, répteis e aves. Em osteíctes essa microcirculação é totalmente derivada da veia porta-renal, enquanto em condrictes ocorre uma união desses vasos com as arteríolas renais eferentes (SEBBEN et al., 2019). Mesmo com a carência de estudos, é recomendada que a aplicação de medicações na musculatura mais caudal seja realizada com cautela, principalmente quando utilizados fármacos potencialmente nefrotóxicos, além destes poderem ter sua cinética alterada. O sistema linfático de peixes é constituído por vasos linfáticos paralelos ao sistema venoso que, quando comparados aos vasos sanguíneos, são consideravelmente menores. Em alguns animais, pode ser encontrado um coração linfático (um alargamento do vaso linfático) próximo à bifurcação da veia caudal, com duas câmaras. Peixes não possuem linfonodos, entretanto certas porções de tecidos linfomieloides podem ser encontrados distribuídos pelos órgãos, como nos rins e mesentério. Sistema digestório e órgãos anexos A conversão do alimento em energia ocorre no tubo digestivo, o qual inicia na cavidade bucal. Os agnatos, ausentes de mandíbula, possuem boca redonda repleta de dentes 21 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I córneos, utilizada para se fixar no alimento. Peixes mandibulados, por outro lado, podem ser predadores de indivíduos maiores e de forma ativa. A boca desses animais pode ser terminal, superior ou inferior, dependendo dos hábitos alimentares da espécie, com dentes de crescimento contínuo localizados na boca ou, até mesmo, faringe, além de ser ausente de glândulas salivares verdadeiras. O esôfago de peixes é curto, repleto de botões gustativos, desembocando diretamente no estômago, geralmente sem uma separação verdadeira como o cárdia em mamíferos. No estômago, é iniciado o processo de digestão química, e, em algumas espécies, é seguido por uma digestão mecânica no ventrículo (também chamado de moela). Em seguida, ocorre a passagem do alimento para o intestino, o qual varia em dimensões de acordo com os hábitos alimentares do animal, sendo mais curto em carnívoros e mais longo em herbívoros. A maioria desses animais possui tubos cegos e delgados na porção anterior do intestino, os chamados de cecos pilóricos, responsáveis por secretar enzimas digestivas. O intestino de alguns peixes, principalmente os cartilaginosos, possui uma porção adaptada chamada de válvula espiral, responsável por aumentar a superfície de contato com o alimento. O restante do conteúdo, quando não digerido, pode ser excretado pelo ânus, em peixes ósseos, ou pela cloaca, em peixes cartilaginosos. O fígado pode ou não possuir lobulações e geralmente é bastante pigmentado, próximo de uma proeminente vesícula biliar que serve como um reservatório de bile, enzima responsável principalmente pela quebra de gordura. Em tubarões, o fígado é um órgão bastante grande, com grandes concentrações de lipídeos. Na maioria dos animais, o pâncreas, responsável pela secreção de outras enzimas digestivas, costuma estar distribuído de forma difusa ao redor do duodeno ou no tecido hepático. É comum em algumas espécies que exista certa aderência entre órgãos, não sendo necessariamente resultado de processos inflamatórios (como a peritonite), além da presença de quantidades variáveis de gordura na cavidade. Sistema excretor O sistema excretor é responsável pelo controle do equilíbrio osmótico, assim como pela eliminação dos compostos nitrogenados resultantes do catabolismo proteico. É composto pelo tradicional sistema urinário caracterizado pelos rins, ureteres e bexiga urinária, mas também pelas brânquias. Os rins de peixes geralmente ocorrem em par, localizados no dorso da cavidade celomática, variando morfologicamente de acordo com a espécie trabalhada. Histologicamente, podem ser divididos em duas porções: a cranial, envolvida principalmente na hematopoiese e na função imunológica; e a caudal, a qual é responsável pela excreção 22 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES propriamente dita. Os rins desses animais são mais simples que os dos mamíferos, não possuindo alça de Henle e, em alguns peixes marinhos, ausentes de glomérulos em seus néfrons. O conteúdo filtrado pelos rins passa pelos ureteres, desembocando na bexiga ou diretamente no poro excretor. A bexiga urinária pode estar presente em algumas espécies, entretanto, é uma região bastante simples e pouco expansiva quando comparada com a de outros animais, não chegando a acumular grandes quantidades de urina. O sistema urinário de peixes ósseos geralmente termina no orifício urogenital, localizado cranialmente à nadadeira anal. Algumas espécies de osteíctes, no entanto, podem apresentar dois orifícios, separando a porção final dos sistemas urinário e genital. Em peixes cartilaginosos, por outro lado, há a presença de uma cloaca devido à junção dessas aberturas com o ânus. Para a compreensão do mecanismo osmorregulatório em peixes é necessário que animais de água doce sejam estudados separadamente dos de água salgada. Peixes dulcícolas são considerados hipertônicos em relação ao meio. Dessa forma, seus rins atuam retendo íons e excretando água na formade uma urina bastante diluída. Por outro lado, osteíctes marinhos são considerados hipotônicos devido à elevada concentração de sais presente no meio aquático. Por esse motivo, esses animais geralmente possuem rins com menor quantidade de glomérulos, excretando uma urina bem mais concentrada, auxiliados pelas brânquias, que atuam eliminando uma grande quantidade de íons do organismo. A perda de água por osmose ocorre de forma constante nesses animais, que necessitam ingerir grandes quantidades de água. Elasmobrânquios marinhos diferem, no entanto, ao concentrar elevadas quantidades de ureia no seu organismo. Dessa forma, acabam se mantendo discretamente hipertônicos, absorvendo líquidos por osmose, não necessitando beber água. Esses animais também contam com outro mecanismo para essa função: um órgão tubular chamado de glândula de sal, localizado próximo ao reto, por onde desemboca. A principal forma de excreção de compostos nitrogenados em peixes de água doce é a amônia, enquanto a ureia é a forma mais eliminada pelos animais de água salgada. Como a amônia é muito tóxica, deve ser excretada à medida que é formada no peixe. Os principais órgãos envolvidos com a excreção são as brânquias, seguidos pelos rins (BOMBARDELLI et al., 2004). A excreção de compostos nitrogenados em peixes é um assunto bastante importante e complexo. Para aprofundar seus conhecimentos, leia o artigo Metabolismo Proteico em Peixes, de Bombardelli et al. (2004), disponível em: https://www.revistas.unipar.br/index.php/veterinaria/article/view/546/485. 23 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I Reprodução Os hábitos reprodutivos são variados nas diversas espécies de peixes. Esses animais podem ser dioicos, apresentando indivíduos machos e fêmeas separadamente, ou hermafroditas, em que ambos os sexos ocorrem no mesmo espécime. O formato das gônadas pode variar de acordo com a espécie. Em machos, os testículos costumam ser um órgão em par, alongados, produtores de espermatozoides que são lançados por um curto ducto deferente ao poro genital. Nas fêmeas, podem ser observados os ovários, também em par, alongados e posicionados dorsalmente ao intestino, assim como um curto oviduto que se comunica com o poro genital. Tanto os testículos quanto os ovários variam de tamanho de acordo com a época do ano, aumentando ao se aproximar do período reprodutivo. Inicialmente, quando alevinos, não há diferenciação entre as gônadas, ocorrendo somente após certo tempo de desenvolvimento. O dimorfismo sexual pode ocorrer em algumas espécies, seja de forma transitória (como em machos de Arapaima gigas que ficam com a borda das escamas avermelhadas) ou permanentes (machos de Oreochromis niloticus são maiores que fêmeas). Tubarões machos possuem um par de estruturas tubulares chamadas clásperes (Figura 9) entre as nadadeiras pélvicas, utilizadas para realizar a fecundação da fêmea. Figura 9. A – Clásperes de macho de cação-frango (Rizoprionodon lalandii); B – Ausência de clásperes em fêmea de cação-frango (R. lalandii). Fonte: Maranho e Baldassin, 2014. Na maioria das espécies de peixes, assim como em anfíbios, a fecundação dos ovócitos é realizada externamente ao corpo da fêmea, entretanto, em alguns animais como os elasmobrânquios e eventuais osteíctes a fecundação é interna, ocorrendo cópula. O principal modo reprodutivo nesses animais é a oviparidade, na qual o embrião se desenvolve em um ovo totalmente externo ao corpo da fêmea. A superfície dessas estruturas pode ser adesiva ou não adesiva devido à presença de determinadas 24 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES características. Destes ovos são originadas as larvas, também chamadas de alevinos, as quais carregam um saco vitelino, que serve como suporte energético até a completa formação do trato digestivo, que geralmente ocorre em algumas semanas após o nascimento. Peixes cartilaginosos, no entanto, apresentam desenvolvimento direto, sem passar pela fase larval. Outros mecanismos reprodutivos ocorrem entre peixes, os quais também podem ser ovovivíparos, nos quais o embrião se desenvolve recebendo nutrientes de um ovo dentro da fêmea ou vivíparos, em que o embrião se desenvolve e se alimenta diretamente do corpo da mãe. Alguns peixes podem apresentar certo nível de cuidado parental, como animais dos gêneros Tilapia, Sarotherodon e Oreochromis. Sistema sensorial Um dos principais mecanismos responsáveis pela percepção dos peixes com o ambiente é a chamada linha lateral. Essa estrutura é composta por diversos poros ligados por um canal e distribuídos de forma linear da região do opérculo até a cauda do animal, formando uma região mais escura. Nesses poros, são encontradas células ciliadas que atuam como receptores capazes de captar mínimas alterações de corrente e vibrações na água. Dessa forma, podem conceder ao peixe o sentido do tato, bem como fornecer parâmetros de distância e participar na recepção de sons de baixa frequência. Podem ainda compensar, em partes, a ausência de visão em animais cegos. A bexiga natatória, também chamada de vesícula gasosa, é um órgão longo, com um fino epitélio de revestimento, originalmente derivado do trato digestivo. Esse órgão hidrostático está presente somente em peixes ósseos e é capaz de auxiliar no processo de flutuação (preenchendo-se ou liberando gases), na produção de sons (atuando como um amplificador acústico) ou, até mesmo, na respiração, em algumas espécies. Em algumas espécies, ainda, pode ocorrer uma comunicação com o esôfago, podendo inclusive resultar na passagem errática de restos de comida para a bexiga natatória. Em condrictes, a manutenção da flutuabilidade é auxiliada pela presença de um grande fígado nesses animais, o qual armazena uma elevada quantidade de lipídios. Algumas espécies, como os tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier) podem também ingerir ar propositalmente para que o estômago fique tomado por gases. Ampolas de Lorenzini são células espalhadas pela cabeça de algumas espécies de peixes cartilaginosos capazes de perceber pequenas mudanças de temperatura, salinidade ou correntes elétricas. Devido a isso, elasmobrânquios são considerados animais muito sensíveis aos campos magnéticos. Em aquários com escapes de corrente elétrica os indivíduos podem manifestar desorientação e comportamento agressivo. Dessa forma, 25 ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES │ UNIDADE I componentes elétricos utilizados em viveiros, principalmente destes animais, devem estar em constante manutenção. A visão pode ser mais importante para algumas espécies do que outras. Geralmente animais de ambientes mais profundos e escuros são menos dependentes de estímulos visuais do que animais de águas claras. Peixes não possuem pálpebras propriamente ditas, mas eventualmente contam com tecidos com funcionalidade semelhante. A sensibilidade auditiva varia de acordo com a espécie de peixe. Embora costume ser aguçada devido à transmissão de vibrações sonoras ocorrer com facilidade no ambiente aquático. Nesses animais, não estão presentes os ouvidos médio e externo, existindo somente o interno, capaz de captar as vibrações sonoras a partir de órgãos como a bexiga natatória e linha lateral. De uma forma geral, esses animais possuem excelente olfato devido à existência de quimiorreceptores altamente especializados. Assim, podem se orientar na busca por alimento, detectar alterações químicas na água e identificar feromônios dissolvidos nela. Sistema hematopoiético Os peixes não possuem medula óssea e linfonodos, entretanto, costumam dispor de timo, baço e outros tecidos linfomieloides. Em peixes cartilaginosos, a hematopoiese ocorre principalmente no baço, onde são desenvolvidos os eritrócitos, trombócitos e linfócitos. A granulopoiese, por outro lado, aparenta estar associada ao órgão epigonal e ao órgão de Leydig. Nos peixes ósseos, os principais tecidos linfomieloides são o timo, baço e rim. O rim é onde são desenvolvidos eritrócitos, granulócitos, linfócitos,monócitos e, possivelmente, trombócitos. O timo é o principal local pelo desenvolvimento dos linfócitos. O baço normalmente tem um papel secundário na hematopoiese, exceto em espécies que possuem somente ele com essa função. O sangue periférico aparenta ser um sitio extra da eritropoiese nesses animais, já que vários estágios do desenvolvimento eritrocitário podem ser encontrados em amostras de rotina de animais saudáveis. Regulação da temperatura Peixes são animais ectotérmicos, o que significa que suas temperaturas corporais variam de acordo com a temperatura da água em que se encontram. Os processos fisiológicos e bioquímicos do organismo deles são intimamente associados com a temperatura ambiental. Dessa forma, reações relacionadas à homeostase, trocas gasosas, consumo 26 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES energético, taxa de crescimento, entre outros, são influenciadas por este fator. O sistema imune e a capacidade de metabolização de drogas são especialmente afetados por quedas na temperatura. Algumas espécies de peixes são capazes de tolerar maiores flutuações na temperatura corporal do que outras. Curiosamente, determinadas espécies de peixes cartilaginosos ainda possuem a capacidade de produzir calor em certa quantidade, como o tubarão azul (Prionace glauca). 27 CAPÍTULO 3 Conservação e zoonoses Conservação Peixes participam de diversos níveis na teia alimentar, seja como presa ou predador. Esses animais são capazes, inclusive, de se alimentar de artrópodes vetores, ajudando no controle da disseminação de patógenos. Ainda, por meio de mecanismos de filtração, algumas espécies podem auxiliar na limpeza de determinados micro-organismos e toxinas (PANOSSO et al., 2007). Ações antrópicas são bastante documentadas como fatores capazes de levar peixes à extinção. A introdução de espécies exóticas é uma dessas causas, tendo como exemplo a carpa-comum (Cyprinus carpio), espécie invasora nas américas e consagrada devido a sua robustez e menor quantidade de predadores, sendo capaz de causar alterações nas propriedades físico-químicas da água, como pH e quantidade de oxigênio dissolvido. A liberação de efluentes tóxicos também é capaz de ser responsável por degradar grandes quantidades de água, principalmente em ambientes mais sensíveis, como riachos. O desmatamento da vegetação próxima aos corpos d’água e uso inadequado do solo também contribuem para a perda do habitat. Outro problema é a pesca predatória, tanto da indústria pesqueira quanto a pesca em pequena escala, já que boa parte de peixes capturados de ambientes naturais sofre algum risco de extinção. Dessa forma, políticas públicas para a manutenção da biodiversidade dulcícola e marinha são essenciais. Para saber mais sobre as espécies de peixes e anfíbios (assim como outros vertebrados e invertebrados) que sofrem algum risco de extinção no Brasil, o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, organizado pelo ICMBio em 2018, reúne informações detalhadas e de acesso livre, disponível em: https://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/comunicacao/publicacoes/ publicacoes-diversas/livro_vermelho_2018_vol1.pdf. Zoonoses O consumo crescente no Brasil de alimentos com base em peixes crus, como os de influência da culinária oriental, assim como outras formas de ingestão de carnes pouco cozidas, pode ser responsável pela transmissão e pelo aumento na taxa de doenças 28 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DOS PEIXES zoonóticas originadas em peixes. Uma das doenças mais reconhecidas é a difilobotríase causada pelo gênero Diphyllobothrium sp., conhecido como a “tênia dos peixes”. Este é considerado o maior cestódeo capaz de parasitar o homem, podendo causar diversos sintomas na pessoa afetada. A anisaquíase pode ser causada por algumas espécies da família Anisakidae, nematódeos transmitidos por diversas espécies de pescados, na qual o homem acaba se tornando um hospedeiro acidental. A eustrongilidíase é causada pelo gênero Eustrongylides, na qual as larvas deste nematódeo geralmente contaminam o homem após a ingestão de sushi, podendo gerar quadros de desconforto abdominal. A capilaríase é causada por nematódeos do gênero Capillaria, afetando o trato gastrointestinal de pacientes, podendo inclusive levar a óbito. Diversos trematódeos digenéticos também podem afetar o homem, causando doenças como a clonorquíase (Clonorchis sinensis), fagicolose (Phagicola longa) e opistoquíase (Opisthorchis sp.), um grande problema de saúde pública, principalmente na Ásia (OKUMURA et al., 1999). Maiores descrições sobre essas doenças estão disponíveis no artigo Principais zoonoses parasitárias transmitidas por pescado – revisão, de Okumura et al. (1999), disponível em: https://www.revistamvez-crmvsp.com.br/index.php/recmvz/ article/viewFile/3386/2591. 29 UNIDADE II CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO Existem dois ramos principais para a criação de peixes em cativeiro, o que pode influenciar na forma com a qual lidamos com as doenças e seus tratamentos. » A piscicultura, integrante da aquicultura, visa a produção comercial de peixes com fins de consumo, principalmente da carne. » O aquarismo (ou aquariofilia), por outro lado, busca a manutenção destes animais de forma ornamental. Atualmente, dentro do aquarismo, há uma crescente vertente do uso de peixes como animais de estimação. Muitas espécies de peixes são mantidas em cativeiro, variando de aquários internos de diversos tamanhos a lagoas ao ar livre. Ao contrário da maioria dos outros vertebrados, muitas vezes, é necessário tratar todos os habitantes de um recinto como um único indivíduo, mesmo que nem todos os animais apresentem sinais clínicos. Alguns dos peixes de água doce mais comuns em cativeiro incluem o peixe-dourado (Carassius auratus), carpa-comum (Cyprinus carpio), guppy (Poecilia reticulata), tetras (Paracheirodon spp.) e peixes betta (Betta splendens). Espécies de água salobra são incomuns e de difícil criação, mas alguns exemplos incluem o peixe vidro indiano (Chanda ranga), os saltadores (Periophthalmus spp.) e gobies (Stigmatogobius spp.). Os peixes marinhos tropicais mais comuns em cativeiro, geralmente capturados da natureza, são os peixes-anjo (Pomacanthus spp.), peixes-porco (Balistoides spp.), limpadores (Labroides dimidiatus), cavalos-marinhos (Hippocampus spp.), assim como os peixes-cirurgiões e tangs (Acanthurus spp., Paracanthurus spp. e Zebrasoma spp.). Ainda mais difíceis e incomuns, as criações de animais marinhos de águas frias podem incluir espécies como o peixe-rei (Coris julis) e o peixe-lula (Parablennius gattorugine). 30 CAPÍTULO 1 Recintos Dimensões O tamanho do recinto para peixes, em especial para animais maiores (como elasmobrânquios) deve respeitar a biologia do animal, para que ele mantenha o padrão de nado e outros aspectos fisiológicos sem alterações. Dessa forma, é importante estar atento quanto à densidade populacional de um recinto, bem como a interação entre as espécies que ali habitarem. Certas espécies, como os peixes betta (Betta splendens) são conhecidas pelo seu comportamento territorialista, podendo gerar brigas capazes de causar a morte de outros animais do mesmo aquário. De forma geral, esses ambientes possuem variações extremas de tamanho – de pequenos aquários a lagoas. A manutenção em grandes reservatórios de água, confeccionados em terreno natural, requer menos custos. Geralmente são utilizados para a manutenção de grandes quantidades de animais com finalidades comerciais, entretanto, ainda assim devem reproduzir um habitat similar ao original para as espécies que ali estiverem. Devem ser construídos próximos a uma entrada de água, com a possibilidade de saída por um dreno. Outro recinto comercialmente utilizado é chamado de tanque-rede. É caracterizado por estruturas que flutuam na água, geralmente por galões, isopor ou canos de PVC, confinando os peixes em seu interior. Embora menos controlados, permitem fluxocontínuo de água, que auxilia na manutenção da sua qualidade, podendo ser cobertos para prevenir predadores. Aquários, por outro lado, são recintos transparentes feitos de vidro ou de plástico, nos quais podem ser albergados peixes e outros animais de hábitos aquáticos. Tais recipientes podem ser de vários formatos e tamanhos, mas devem fornecer ambiente adequado com o uso de filtros e aeradores. A manutenção de coleções mistas de espécies, embora frequentemente contraindicadas, é uma prática comum, principalmente no aquarismo. Em comunidades mantidas em um mesmo local, é essencial que as espécies utilizadas cumpram os mesmos requisitos ambientais. O controle sanitário do recinto é indispensável para a manutenção de qualquer animal em cativeiro. A qualidade da água ideal e suas variáveis devem obrigatoriamente ser buscadas para melhorar a qualidade de vida do animal, de modo que não tenham a saúde comprometida, principalmente por doenças ocasionadas por erros de manejo. 31 CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO │ UNIDADE II Durante períodos de tratamento de enfermidades ou recuperação de determinados procedimentos, os peixes devem, se possível, ser mantidos em recintos controlados chamados de aquário hospital. Nesse local, o animal deve ser preferencialmente mantido isolado de outros contactantes. Deve ser composto por um tanque bastante básico, constituído principalmente por água, aquecedores e aeradores, além de ser pequeno, para que seja utilizado o mínimo necessário de medicação dissolvida na água. Também deve atender às mesmas condições relacionadas à qualidade da água do local de origem, especialmente em relação aos níveis de compostos nitrogenados, visto que a formação do filtro biológico pode ser afetada na presença de diversos fármacos. A água de animais mantidos durante tratamento medicamentoso deve ser obrigatoriamente filtrada. Após o término do tratamento de cada paciente, o recipiente e todos os utensílios utilizados devem ser cuidadosamente desmontados e higienizados para promover a correta desinfecção. Iluminação A luz contínua pode ser maléfica para algumas espécies de peixes. Em tubarões-limão (Negaprion brevirostris), por exemplo, é relatada a perda da resposta pupilar devido ao excesso de luminosidade (GRUBER; KEYES, 1981). Dessa maneira, o animal deve ser mantido preferencialmente mantendo o fotoperíodo natural das épocas do ano do ambiente de origem para cada espécie. Enriquecimento ambiental Mecanismos para o enriquecimento ambiental (Figura 10) podem ser utilizados para peixes visando à manutenção do bem-estar animal. Diferentes substratos, abrigos, plantas, assim como variadas formas de oferta de alimento podem ser úteis para alcançar esses ideais. A escolha dos fômites deve ser feita levando diversos aspectos em consideração. As plantas vivas, por exemplo, são úteis em aquários por diversas razões. Podem fornecer abrigo para alguns indivíduos, servir como fonte de alimento e são capazes de melhorar a qualidade da água ao absorver parte do nitrato formado no ciclo da amônia. Por outro lado, podem servir como transmissores de alguns patógenos infecciosos. Em geral, os materiais utilizados devem ser de fácil desinfecção, como materiais não orgânicos e não porosos. Peixes vivos também podem ser utilizados como enriquecimento ambiental de alguns animais carnívoros, como peixes cartilaginosos, mas essa presa também deve passar por um período de quarentena, incluindo a vermifugação. 32 UNIDADE II │ CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO Figura 10. Exemplo de recinto enriquecido para peixes. Fonte: https://www.myaquariumclub.com/parameter-neutral-aquarium-enrichment-19108.html. 33 CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO │ UNIDADE II CAPÍTULO 2 Qualidade da água É dito que o principal fator para o sucesso na criação de peixes é a manutenção da qualidade água. Este fluido se encontra em constante contato com a pele e brânquias de peixes e diversos problemas de saúde podem ocorrer devido ao estresse da manutenção dos animais em um ambiente inadequado. Dessa forma, devem ser preconizados excelentes valores de parâmetros de qualidade, os quais podem variar de acordo com a espécie trabalhada. Para isso, análises periódicas (no mínimo semanais) devem ser realizadas. Atualmente, estão disponíveis no mercado kits colorimétricos comerciais, úteis para pequenos aquários domésticos, os quais são relativamente baratos e úteis. Entretanto, para grandes recintos, ou com uma maior diversidade de espécies, é recomendado o uso de equipamentos eletrônicos para obter maior precisão dos níveis detectados. Parâmetros inadequados, ou próximos aos limites, podem ser bastante estressantes aos peixes e induzir à manifestação de determinadas doenças. Outro fator que deve ser levado em consideração para a manutenção desse controle é o fato de que trocas abruptas da água de um recinto podem ser fatais. Essas trocas devem ser realizadas de forma gradual, no máximo de 10 a 20% por semana, o que pode ser muito tempo para a correção de algumas enfermidades. Alguns valores estão exibidos na Tabela 1, entretanto, devem ser utilizados com cautela devido às diversas particularidades entre as espécies. Tabela 1. Parâmetros gerais de qualidade da água para algumas populações. Parâmetro Aquário comunitário de água doce Aquário comunitário de peixes marinhos tropicais Temperatura (°C) 22-26 22-26 pH 6,8-7,5 8,0-8,3 Salinidade (gravidade específica) – 1,020-1,027 Dureza de carbonato (mg de CaCO3) 50-100 – Amônia (mg/L) <0,02 <0,02 Nitrito (mg/L) <0.02 <0,02 Nitrato (mg/L) <40 <40 Oxigênio (mg/L) 5,0-8,0 5,0-8,0 Cloro (mg/L) <0,002 – Fonte: Jepson (2011). 34 UNIDADE II │ CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO Temperatura Peixes variam sua temperatura corporal de acordo com a do ambiente. A manutenção da temperatura da água em faixas ótimas é o ideal para o correto funcionamento do organismo desses animais, melhorando a conversão alimentar e o correto funcionamento do sistema imune. Portanto, o fornecimento de fontes de aquecimento artificiais é extremamente importante. Este parâmetro pode ser aferido com termômetros, digitais ou de mercúrio. A temperatura da água pode ser mantida com a utilização adequada de aquecedores de aquário comerciais ou, no caso de recintos internos, com o aquecimento do ambiente como um todo. Peixes de águas tropicais geralmente são mais sensíveis e necessitam estar entre temperaturas mais elevadas do que peixes de regiões subtropicais. Variações nessa temperatura podem ser relativamente bem toleradas para algumas espécies, como peixes dourados e carpas, que acabam sendo frequentemente utilizados em viveiros externos. Oxigênio Peixes são animais conhecidamente aeróbios, portanto, necessitam do oxigênio na água para a respiração. Este gás pode estar naturalmente dissolvido na água de forma mecânica ou por meio da produção por parte de organismos fotossintetizantes. As algas são fontes comuns de oxigênio na aquicultura, aumentando sua produção durante o dia e diminuindo durante a noite. Mortalidades por baixos níveis de oxigênio em lagos são frequentemente observadas no início da manhã, quando o nível desse gás é mais baixo, afetando mais peixes de maior porte do que os menores. É importante saber que outros parâmetros podem afetar a disponibilidade do oxigênio. Temperatura e salinidade elevadas diminuem a solubilidade desse elemento na água. Em água salgada, portanto, densidades populacionais são mais críticas. Em situações de diminuição dos níveis de oxigênio, peixes podem ser observados próximos à superfície da água, onde os níveis desse gás costumam estar mais altos. Em lagos, podemos ter uma diminuição dos níveis de oxigênio em épocas nubladas que levem à morte das algas. Níveis recomendados de oxigênio geralmente estão acima de 6mg/L a 25°C para peixes de água doce tropical. Algumas espécies são particularmente mais sensíveis que outras em ambientes pouco aerados, dependendo do seu sucessonas trocas gasosas branquiais ou a presença de outros mecanismos respiratórios. A aeração e trocas regulares da água, bem como uma redução de superpopulações devem fornecer níveis adequados. 35 CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO │ UNIDADE II A avaliação da quantidade de oxigênio dissolvido pode ser feita quimicamente pelo método de Winkler ou por medidores portáteis de oxigênio. Pressão de gás Na água, os gases atmosféricos também estão presentes em algum nível. O equilíbro ocorre quando a pressão desses gases é igual à pressão atmosférica. A supersaturação da água com gases pode causar a Doença da Bolha de Gás. A água de poços profundos pode ter altos níveis de gás carbônico e nitrogênio, portanto, deve ser arejada antes de ser usada em tanques para aquicultura por meio da agitação vigorosa para volatilizar o excesso desses gases. O dióxido de carbono é um subproduto da respiração de organismos não fotossintetizantes, como peixes e zooplâncton. Em elevadas concentrações também apresenta outro ponto negativo para um aquário, sendo capaz de baixar o pH, acidificando o meio. Este gás pode ser facilmente estimado com medidores eletrônicos. pH O pH indica a característica ácida ou básica de uma solução, variando de 0 a 14, sendo acima de 7 considerado básico e abaixo de 7 ácido. Em grandes viveiros aquáticos com organismos fotossintetizantes, esse indicativo pode variar entre dia e noite devido às diferentes concentrações de dióxido de carbono, entretanto, diversos outros fatores são capazes de alterar o pH da água de um recinto. A faixa ideal para a manutenção de peixes geralmente é entre pH 7,0 e 8,0, entretanto, para animais de água doce, entre 6,0 e 9,0 também são obtidos bons resultados. Animais de água salgada costumam tolerar faixas mais estreitas. Em meios muito ácidos, os animais podem sofrer intenso estresse, levando a imunossupressão, dificuldades reprodutivas, crescimento deficitário e inclusive a morte. Em um ambiente muito básico, o crescimento desses animais também é prejudicando, podendo levar a morte. Outros fatores podem ser afetados pelo pH da água. A amônia costuma estar disponível em uma forma mais tóxica em pH alto, enquanto zinco, cobre e alumínio são mais tóxicos em pH baixo. Existem algumas formas para a avaliação, como papéis e líquidos que variam a cor de acordo com o pH, entretanto equipamentos medidores de pH digital podem fornecer valores mais reais. Diversos kits comerciais são disponíveis para o ajuste desses valores. 36 UNIDADE II │ CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO Alcalinidade A alcalinidade mede a capacidade da água em neutralizar ácidos fortes. Em viveiros, pode ser medida avaliando a presença de bicarbonato e carbonato. Em águas naturais, estes valores podem variar muito, entre 5 e 500mg/L, devido principalmente à dissolução de pedras calcárias. A maioria das espécies tropicais tem como ideal valores entre 50 e 60mg/L, mas estes números podem variar sem necessariamente causar algo ao animal. Uma baixa alcalinidade significa uma água menos capaz de tamponar o pH, podendo gerar flutuações bruscas de ácidos ou bases. Métodos laboratoriais podem ser utilizados para avaliar a concentração desses componentes. Amônia, nitrato e nitrito Compostos nitrogenados são normalmente produzidos a partir do metabolismo proteico de alimentos de peixes e da decomposição de compostos orgânicos. Em peixes, o nitrogênio é principalmente eliminado na forma de amônia, a qual pode ser fatal em quantidades elevadas. Em um ambiente com o filtro biológico (Figura 11) bem estabelecido, bactérias, principalmente do gênero Nitrosomas, realizam a transformação da amônia em nitrito, outro composto ainda bastante tóxico. Em seguida, outras bactérias, principalmente do gênero Nitrobacter, transformam este composto em nitrato, o qual é bem menos tóxico aos peixes. Originalmente, o nitrato serve de nutriente para as plantas e algas de ambientes aquáticos. Figura 11. Esquema representando o ciclo do nitrogênio em um ambiente aquático. Nitrosomas sp. Nitrobacter sp. NO2- Nitrito NO3- Nitrato NH3 Amônia Fonte: Stoskopf (1988). 37 CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO │ UNIDADE II Estas bactérias que participam do filtro biológico demoram algum tempo para seu estabelecimento em um novo recinto, portanto, picos indesejados de compostos nitrogenados na água podem ocorrer durante esse período. A amônia é um composto extremamente perigoso, capaz de causar diversas doenças e diminuir a taxa de crescimento devido ao estresse, com sua toxicidade relacionada diretamente ao pH elevado e temperatura inadequada. A superalimentação também pode levar à produção excessiva de amônia. O nitrato também é capaz de causar enfermidades, mesmo em baixas quantidades, ao contrário do nitrito, o qual peixes podem tolerar em taxas mais elevadas. Medidas corretivas imediatas incluem a redução da alimentação, troca parcial da água e a utilização de removedores comerciais de amônia e nitrato. Kits comerciais são disponíveis para aferir estes compostos, embora valores mais adequados sejam obtidos geralmente em aparelhos laboratoriais, como o espectrofotômetro. É sempre esperado que o clínico analise uma amostra de água para quantificar resíduos nitrogenados, já que a absorção desses compostos pelos animais é capaz de gerar condições fatais. A zeolita pode ser utilizada para absorver níveis excessivos de amônia ao custo de diminuir a dureza da água. Esse composto, no entanto, é ineficiente em ambientes de água salgada, devido ao seu tropismo por cálcio e magnésio, compostos em grande quantidade nestes ambientes. Salinidade A salinidade da água doce geralmente se encontra em aproximadamente 0,5ppm enquanto a de água salgada ente 33 a 37ppm. Essa medida é intimamente conectada ao ambiente de origem do animal. Nos sistemas aquáticos marinhos, os sais presentes contribuem com muitos micronutrientes. Os sais encontrados na água do mar são uma complexa mistura, portanto, a simples adição de cloreto de sódio não deve ser realizada. A adição de sal comum é útil apenas em sistemas de água doce para ajustar a osmolaridade e atuar como ectoparasiticida. A salinidade é frequentemente medida usando um refratômetro de salinidade ou um hidrômetro. Existem preparações comerciais de sais marinhos que podem ser utilizadas em pequenas instalações contendo peixes marinhos. Dureza A dureza da água reflete a soma de cátions dissolvidos, principalmente cálcio e magnésio. A maioria dos animais se desenvolve bem em ambientes com níveis baixos de dureza, entretanto, pode ser mais suscetível a algumas condições. Amônia, assim 38 UNIDADE II │ CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO como cobre e zinco, pode ter sua toxicidade diminuída na presença de níveis adequados de dureza. Em ambientes marinhos, esses cátions são abundantes e não aparentam causar problemas em níveis elevados, podendo chegar a 10.000mg/L. A determinação da dureza da água pode ser feita por métodos químicos ou equipamentos eletrônicos. Transparência A transparência da água mede a capacidade de penetração da luz. Esse fator é mais avaliado em grandes viveiros de criações comerciais, já que um dos principais fatores envolvidos é a quantidade de matéria orgânica na forma de plâncton. A transparência pode ser medida por meio da metodologia do disco de Secchi, um disco preto e branco com diâmetro de 25cm, preso por um peso metálico e uma corda graduada. A visibilidade do disco deve ser medida de acordo com a distância percorrida. Valores abaixo de 40cm podem necessitar medidas, como a diminuição do fornecimento de alimento. Cloro O cloro é comumente adicionado nos sistemas de água de saúde pública. Esse elemento químico pode ser prejudicial à saúde do peixe, podendo levar a morte em concentrações acima de 0,01mg/L. Salmonídeos são especialmente mais sensíveis. A água do recinto pode ser declorada por meio de aeradores ou permitindo a sua evaporação natural. O tiossulfatode sódio pode ser utilizado como um composto declorante na proporção de 7,4mg para cada 1mg Cl/L de água. 39 CAPÍTULO 3 Nutrição Entre os peixes, podemos encontrar hábitos alimentares bastante distintos. Esses animais participam de diversos níveis tróficos em ambientes aquáticos, o que os fornece uma gama de formas de alimentação, sejam estes animais carnívoros, onívoros ou herbívoros. Mecanismo A posição e o formato da boca dos peixes podem indicar muito sobre o hábito alimentar do animal. Por exemplo, animais com boca superior, isso é, com a mandíbula maior que a maxila, alimentam-se principalmente de organismos presentes na superfície da água, ao contrário dos peixes com boca inferior (também chamada de subterminal). Dentro do grupo dos teleósteos podemos encontrar uma modificação que permite uma facilidade na aquisição do alimento. Nesses animais a existência de uma pré-maxila móvel, assim como uma musculatura adequada para projetar essa porção para fora da boca, facilita a apreensão do alimento. Algumas espécies mordem ativamente suas presas, como carnívoros com longos e afiados dentes e frugívoros com largas coroas. Outras são consideradas filtradoras por possuírem modificações nas brânquias que permitem o fluxo de filtração de pequenos organismos, como o zooplâncton e fitoplâncton. Peixes raspadores, por sua vez, possuem dentes alinhados, que, juntos com uma boca sugadora, podem se fixar diretamente ao alimento. Outras táticas incluem os peixes de capacidade eletrogênica, como enguias do gênero Electrophorus, que são capazes de disparar cargas elétricas para atordoar ou matar os peixes destinados à sua alimentação. O peixe-arqueiro (Toxotes jaculatrix), por outro lado, dispõe de uma incrível habilidade de ejetar água em artrópodes pousados na vegetação, o que provoca sua queda na água, onde são abocanhados. Dieta Peixes necessitam manter uma nutrição adequada para o crescimento, a reprodução e a manutenção das funções fisiológicas. Isso pode ser obtido por meio de alimentos naturais ou rações comerciais. Entretanto, para o estabelecimento de qualquer 40 UNIDADE II │ CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO protocolo, é necessário conhecer a fisiologia e hábitos originais da espécie. No ambiente natural, esses animais são capazes de optar por diversas fontes de alimento a fim de suprir as suas necessidades, portanto, quando rações forem confeccionadas, estas devem ser cuidadosamente preparadas para evitar deficiências nutricionais. De uma forma geral, a alimentação dos peixes costuma necessitar de altos níveis de proteínas, mas essas taxas podem variar de acordo com a espécie. Existem diferentes rações disponíveis para animais de aquário ou criações comerciais para suprir vários dos padrões de alimentação observados entre as espécies de peixes, embora sejam frequentemente compostas principalmente por farinha de peixe. Alimentos vivos que podem ser utilizados incluem rotíferos, paramecium, dáfnias, copépodes, artêmias, tubifex e larvas. Animais constipados também podem ser alimentados com alimentos ricos em fibra. Em peixes cartilaginosos, a alimentação pode ser baseada em outros peixes, entretanto, estes devem ser pré-congelados a fim de evitar a transmissão de parasitos. Esse pescado também deve ser corretamente transportado, armazenado e manuseado visando uma maior qualidade do alimento. A frequência da alimentação depende de muitos fatores, como o metabolismo, idade e status hormonal. É importante estimular o comportamento alimentar normal nestes animais para minimizar a competição entre os indivíduos de um recinto. Durante a fase de crescimento, para a maioria dos animais, pode ser fornecido de 3 a 5% do peso corporal diariamente, e, para a manutenção, de 1 a 3%, procurando não ultrapassar 7% do peso vivo semanalmente. Peixes menores devem receber uma menor quantidade de ração, porém em intervalos mais curtos, ao contrário de animais maiores. O animal deve ser observado durante o período da alimentação, a qual deve se manter ativa, visto que qualquer perda repentina de apetite pode indicar a presença de alguma enfermidade. O alimento deve ser distribuído em diversos pontos pelo recinto, a fim de evitar a concorrência entre os animais, caso o ambiente seja compartilhado. Algumas espécies possuem um comportamento de “pedir” por comida exaustivamente, o que, se atendido, pode levar à superalimentação: grande vilão quando o assunto é qualidade de água. Larvas de peixes, por conterem uma fonte própria nutricional, não necessitam receber alimentação até a total involução do saco vitelino. Por outro lado, em indivíduos recém-nascidos de algumas espécies de peixes cartilaginosos (os quais não possuem essa reserva) pode ser necessária a suplementação ou estimulação alimentar via sonda estomacal. Nesse caso, é importante que o conteúdo respeite o volume máximo comportado pelo animal para evitar regurgitação, e que seja composto por elementos presentes em sua alimentação natural. 41 CRIAÇÃO DE PEIXES EM CATIVEIRO │ UNIDADE II Suplementação Devido à dificuldade na manutenção de uma dieta equilibrada para peixes, é frequente a ausência ou deficiência de certos compostos, principalmente vitaminas, mas também macro e microminerais. Essas deficiências podem desencadear diversos quadros patológicos caracterizados por sinais clínicos inespecíficos. Devido ao diagnóstico, muitas vezes ausente ou tardio, bem como na demora pela resolução do problema instaurado, a suplementação alimentar com esses compostos pode auxiliar na prevenção de determinadas doenças (ver Doenças Não Infecciosas – Nutricionais, na página 54). 42 UNIDADE IIIMEDICINA DE PEIXES CAPÍTULO 1 Medicina preventiva Quarentena Quando novos animais forem inseridos em um recinto é importante respeitar um período de quarentena com o isolamento do indivíduo. Dessa forma, doenças previamente incubadas ou assintomáticas de origem parasitária, viral, bacteriana ou fúngica podem ter seus sinais clínicos exacerbados, de forma que possa ser indicado um tratamento antes da inserção de animais em um plantel. Normalmente é indicado que este período seja superior a 21 dias, mas o tempo pode variar de acordo com a espécie envolvida. O período é frequentemente negligenciado em criações comerciais, o que pode causar mortalidades em massa devido à inserção de novos patógenos. A realização de exames complementares preventivamente durante esse período ainda não é uma prática comum na medicina de peixes, portanto, protocolos são raros ou até mesmo inexistentes. Entretanto, espera-se que futuramente sejam mais empregados na rotina, principalmente se realizados evitando um maior estresse ao animal. Higienização Devido à grande quantidade de sinais clínicos inespecíficos, o diagnóstico da maioria das doenças em peixes é difícil de ser realizado. O tratamento também costuma ser bastante dificultado devido aos poucos dados relacionados a doses e potencial tóxico de fármacos em determinadas espécies de peixes. Sendo assim, a prevenção das doenças infecciosas, aderindo a rigorosas práticas de higiene, é ideal. Entre os passos para a limpeza adequada do viveiro, podemos citar a remoção do material orgânico, limpeza das superfícies com detergentes neutros, enxágue com 43 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III água e administração de desinfetantes com as doses recomendadas pelo fabricante. O acúmulo de matéria orgânica também pode ser evitado não inserindo altas densidades populacionais em um recinto e impedindo a superalimentação. Também deve ser realizada a desinfecção de redes, baldes e outros fômites utilizados, principalmente quando compartilhados entre diferentes recintos. Vacinação A criação intensiva, devido a elevada densidade populacional, assim como ambientes estressantes ajudam a propagação de doenças infecciosas entre esses animais. Por esse motivo, somado a outras técnicas de prevenção, a vacinação vem conquistando o mercado a fim de evitara propagação de doenças, principalmente virais e bacterianas. A imunização desses animais pode ser feita tanto por injeção individual quanto por banhos ou na ração de grupos maiores com diferentes tipos de vacinas, como a inativada, viva atenuada, entre outras. Algumas das vacinas comercialmente disponíveis atuam contra Vibrio spp., Aeromonas salmonocida, Yersinia ruckeri, Piscirickettsia salmonis, Flavobacterium sp., Edwardsiella ictaluri, Lactococcus garvieae e Streptococcus sp (SOMMERSET et al., 2005). O tema ainda não é muito discutido, porém, mais informações estão disponíveis em Vaccines for fish in aquaculture de Sommerset et al. (2005), disponível em: https://www.researchgate.net/publication/7977876. Exames complementares Assim como em outros animais não domésticos, frequentemente são utilizados somente o histórico e os sinais clínicos para a elaboração de um diagnóstico. Entretanto, muitas vezes, são necessários exames complementares para a compreensão do quadro clínico do agente causal. O exame direto de pele e brânquias é um dos mais praticados na clínica de peixes. Biópsias, exames hematológicos, coproparasitológicos e microbiológicos podem ser utilizados também. Após a morte de animais, principalmente em grandes mortalidades, deve sempre ser realizada necrópsia. Também é importante fazer uma coleta da água do recinto para que esta seja analisada e avaliada junto com outras alterações. 44 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Coleta de sangue A coleta de sangue de peixes deve ser realizada com segurança em animais com comprimento maior que 8cm e 25 gramas. O procedimento deve ser realizado de forma rápida, em períodos máximos de até 30 segundos, já que animais fora da água sofrem com o estresse respiratório e desequilíbrio eletrolítico. A punção pode ser realizada com o animal sedado ou não, mas é importante ter noção que fármacos anestésicos podem alterar os valores obtidos nas análises hematológicas e bioquímicas. O principal sítio de acesso venoso é por meio da artéria ou veia caudal (Figura 12), a qual pode ser acessada ventral ou lateralmente à linha média, próxima às vértebras caudais. O sangue também pode ser coletado das câmaras do coração ou bulbo arterioso, acessando do ponto de encontro entre o opérculo e o istmo, direcionando a agulha caudalmente. Entretanto, ao realizar a cardiocentese é importante ter em mente os riscos de causar danos ao animal, como endocardite ou o rompimento de estruturas. Tubarões também podem ser coletados por uma veia ventrocaudal às nadadeiras dorsais. Novamente, pode ser coletado com segurança até 1% do peso corporal (por exemplo, 1ml de um animal de 100g) de um animal sadio. Figura 12. Esquema representando o acesso ventral e lateral da veia caudal em peixes. Fonte: Stoskopf, 1993. O sangue destinado à realização do hemograma pode ser coletado em tubos contendo heparina lítica ou EDTA. A escolha do anticoagulante depende da espécie trabalhada, embora exista pouca literatura disponível. De forma geral, heparina promove a agregação trombocitária e a coloração azulada dos eritrócitos, enquanto o EDTA é capaz de causar hemólise em algumas espécies (como em salmonídeos, por exemplo). Alguns autores ainda recomendam a coleta do material em seringa 45 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III heparinizada, entretanto, esse método pode resultar na diluição inadequada da amostra, principalmente se destinada para a realização de hemograma. Para a realização de bioquímicos, pode ser usado plasma centrifugado de tubo heparinizado (dependendo do kit comercial utilizado) ou soro centrifugado de tubo seco ou com gel separador. Amostras destinadas a análises moleculares devem ser coletadas em tubos de EDTA obrigatoriamente, já que a heparina pode impedir a amplificação do DNA. Hematologia e bioquímica Embora não seja utilizada rotineiramente, a avaliação hematológica de peixes pode ser útil para avaliar e detectar doenças que afetam os componentes celulares sanguíneos. A realização do hemograma pode ser útil para acompanhar o progresso de enfermidades, bem como a resposta às terapias. Por outro lado, também pode ser utilizado para a avaliação de ecossistemas impactados, já que, assim como anfíbios, muitas vezes peixes podem atuar como biomarcadores. A análise hematológica de peixes, assim como de outros animais com eritrócitos nucleados, deve ser realizada por metodologias manuais por um profissional capacitado, já que contadores automáticos não são capazes de computar e diferenciar corretamente eritrócitos, trombócitos e leucócitos. Lâminas de esfregaço sanguíneo devem ser confeccionadas com uma gota de sangue em uma lâmina de vidro limpa, as quais podem ser coradas com diversos corantes comerciais, como Wright e Panótico Rápido. Os eritrócitos (hemácias) dos peixes são células ovais (Figura 13), com citoplasma claro e abundante e um núcleo com cromatina densa, central e de mesmo formato. Em determinadas situações, podem ser observados vacúolos citoplasmáticos que aparentam estar relacionados à degeneração de organelas. O tamanho dessas células varia de acordo com a espécie, mas, de forma geral, os de peixes cartilaginosos são maiores do que os de peixes ósseos. Já que a eritropoiese também ocorre na circulação periférica, eritroblastos podem ser encontrados facilmente em esfregaços sanguíneos. Eventualmente, figuras de mitose também podem ser observadas. Peixes de ambientes impactados com componentes tóxicos frequentemente apresentam micronúcleos que se desprendem do núcleo principal. 46 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Figura 13. Células encontradas no sangue de alguns peixes ósseos. A – Eritrócitos de Gnathanodon speciosus; B – Eritrócitos de Mola mola; C – Eosinófilo de Upeneus sp.; D – Neutrófilo de Upeneus sp.; E – Trombócito de M. mola; F – Monócito de Osteoglossum bicirrhosum; G – Linfócito (seta) e eritroblasto (seta pontilhada) de G. speciosus; H – Heterófilos de Aruanã (família Osteoglossidae). Fonte: Clauss, 2008. A manipulação e o estresse excessivos podem afetar de forma significativa o hemograma de peixes, podendo aumentar o hematócrito em até 25% devido à liberação de catecolaminas, que tendem a causar hemoconcentração e inchaço dos eritrócitos. Em geral, o hematócrito desses animais é menor que o de mamíferos e aves, podendo estar relacionados com o nível de atividade do animal (peixes menos ativos tendem a possuir hematócritos mais baixos, enquanto os mais ativos costumam obter valores mais altos), afetado também pelo sexo, ciclo biológico, temperatura, fotoperíodo, época do ano, entre outros fatores intrínsecos e extrínsecos. Estes fatores também podem influenciar diversos outros valores, como o leucograma e parâmetros bioquímicos. Por esse motivo, a morfologia celular por muitas vezes se torna o ponto chave em exames hematológicos de peixes. Peixes com anemia regenerativa geralmente têm um aumento na concentração de eritrócitos policromatófilos e imaturos na circulação, logo, na sua ausência, mas com 47 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III diminuição do hematócrito, sugere-se anemia não regenerativa. Como eritrócitos imaturos de peixes são menores que os maduros, a microcitose está frequentemente associada com anemias regenerativas, geralmente de origem hemorrágica ou hemolítica. Hemorragias podem ocorrer por traumas, parasitos, deficiência de vitamina K, infecções virais e bacterianas. Anemias hemolíticas, por outro lado, podem estar associadas a toxinas (bacterianas ou ambientais), infecções virais, certas deficiências nutricionais e hemoparasitos. Os leucócitos, especialmente os granulócitos, possuem uma grande variação morfológica entre as espécies de peixes. Em peixes ósseos os principais tipos celulares são os heterófilos ou neutrófilos, linfócitos e monócitos, sendo que basófilos e eosinófilos podem estar presentes em quantidades reduzidas na maioria das espécies. Nos peixes cartilaginosos podemos separar estascélulas entre os granulócitos (classificados em tipo 1, tipo 2 e tipo 3), linfócitos e monócitos, assim como eventuais basófilos. Neutrófilos e heterófilos aparentam participar da resposta inflamatória, especialmente em doenças infecciosas, entretanto, nem sempre são fagocíticos. Já que essas funções não são bem esclarecidas, interpretar como análogos aos dos outros vertebrados pode ser complicado. Neutrofilia ou heterofilia relativa aparentemente está associada à linfopenia, que podem ser interpretadas como resposta ao estresse em peixes. Os eosinófilos também participam de respostas inflamatórias, com uma capacidade fagocítica limitada, além do controle de infecções parasitas e de resposta imune à estimulação antigênica. Monócitos são células ativamente fagocíticas e participam de respostas inflamatórias agudas. Linfócitos são os leucócitos geralmente mais observados, principalmente em peixes ósseos, desempenhando um papel importante na imunidade humoral e celular. Portanto, a linfocitose é sugestiva de estimulação imunogênica, enquanto a linfopenia é sugestiva de condições imunossupressoras, como estresse ou excesso de glicocorticoides exógenos. Curiosamente, os linfócitos B de peixes ósseos também demonstram certo grau de fagocitose e atividade microbicida. A coagulação sanguínea também ocorre em peixes, assim como em outros vertebrados, sendo mais rápida em peixes ósseos (aproximadamente 5 minutos) quando comparados a cartilaginosos (20 minutos ou mais). Um dos fatores envolvidos no processo de coagulação são os trombócitos, células análogas às plaquetas de mamíferos. Estas células são menores que eritrócitos, com formato arredondado a ovalado, citoplasma pálido, eventualmente granular e núcleo com cromatina densa. Assim como em aves, répteis e anfíbios, podem ser confundidos com pequenos linfócitos durante o diferencial leucocitário. O excesso de glicocorticoides tende a diminuir a quantidade de trombócitos e aumentar o tempo de coagulação. Tempos de coagulação prolongados 48 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES também ocorrem com deficiência de vitamina K. Por outro lado, a trombocitose e hipercoagulabilidade já foram associados à exposição a níveis tóxicos de cádmio. Algumas alterações morfológicas podem ser observadas na microscopia e auxiliar na interpretação do hemograma. Neutrófilos ou heterofilos tóxicos podem possuir um citoplasma mais basofílico, degranulação, granulação grosseira e basofílica ou até mesmo vacuolizações, ocorrendo devido à liberação acelerada em processos inflamatórios. Monócitos ativados podem ser encontrados principalmente em infecções bacterianas ou outras situações que estimulem o processo fagocítico. Alterações no formato ou na organização dos eritrócitos também são frequentes. Rouleax é caracterizado por eritrócitos empilhados, como uma “pilha de moedas”, frequente em processos inflamatórios com aumento de globulinas. Ainda podemos observar hemoparasitos, livres no plasma como Trypanosoma spp. e Trypanoplasma (Cryptobia) sp. ou em inclusões eritrocitárias, como Enterocytozoon sp., piroplasmas e hemogregarinas, assim como inclusões de diversas enfermidades virais. A avaliação de valores obtidos na bioquímica pode ser difícil. Valores plasmáticos de ureia, creatinina e ácido úrico não costumam serem bons indicadores da função renal. O aumento nas concentrações de ureia pode indicar lesão às brânquias (visto que são o principal órgão pela sua excreção) e a diminuição deste analito pode indicar lesão hepática. Aumentos nos valores de AST também parecem indicar lesão hepática. Aumentos da enzima creatina quinase (CK) podem refletir danos à musculatura (ALMOSNY, 2014). Os valores normais de parâmetros hematológicos e bioquímicos são difíceis de obter na literatura. Além de escassos, podem ser facilmente influenciados por diversos fatores intrínsecos e extrínsecos. Na ausência destes, os valores podem ser comparados com parâmetros de animais taxonomicamente próximos. Outra opção é realizar a mesma análise em outro animal, porém saudável, da mesma espécie e recinto e comparar. Interessado sobre o tema? Mais informações podem ser obtidas em Hematologic Disorders of Fish de Clauss et al. (2008), disponível em: https://www.researchgate. net/publication/230801423_Hematologic_disorders_of_fish. Efusões cavitárias e citológicos Amostras de líquido celomático podem ser coletadas e analisadas se houver acúmulo. Nelas podemos evidenciar a presença de bactérias ou elementos anormais, como um aumento da quantidade de células inflamatórias. 49 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III Análises citológicas podem ser realizadas em qualquer aumento de volume ou lesão de pele. Estas amostras podem ser coletadas por métodos aspirativos ou não aspirativos, assim como por imprint. O máximo possível de lâminas deve ser coletado, já que podem ser necessárias colorações especiais. Lesões granulomatosas, por exemplo, devem ser coradas pelo método de Ziehl-Neelsen para descartar a infecção por Mycobacterium sp. Exame direto de pele, brânquias e nadadeiras O “raspado” de pele, que é um exame direto do muco da pele, é um dos exames complementares mais acessíveis e utilizados na medicina de peixes. Nesses animais, entretanto, não deve ser realizado de forma análoga ao raspado de pele de mamíferos. Em peixes, podem ocorrer graves lesões de pele, se ela for manipulada de uma forma muito vigorosa. O exame pode ser realizado com uma impressão direta de uma lâmina para microscopia limpa sob a lesão. Deve ser dada a preferência para lesões aparentemente mais recentes, nas quais há uma maior chance de encontrar o agente causal. Para facilitar a observação, pode ser utilizada uma gota da água do próprio tanque diretamente sobre a lâmina. Um fragmento de filamento branquial pode ser obtido mediante utilização de pequena tesoura cirúrgica oftálmica por meio do opérculo. Não é necessário realizar um grande corte até a base do arco branquial. O sangramento e o tempo despendido para a coleta devem ser mínimos. De forma semelhante, um pequeno fragmento de tecido da nadadeira caudal pode ser coletado, com o mesmo aparato cirúrgico. Essa amostra deve ser coletada entre os raios, visto que não há necessidade de lesioná-los. Estes materiais podem ser analisados sob uma lâmina e lamínula com uma gota de água do próprio recinto. A análise das amostras deve ser realizada o mais breve possível, de forma que, caso organismos estejam presentes, estes sejam preservados, já que a movimentação de alguns agentes pode auxiliar na sua observação. A pesquisa pode ser facilmente realizada em microscópio óptico nos aumentos de 100x e 400x. Os tecidos e muco devem ser examinados quanto à presença de parasitas, fungos, lesões bacterianas e outras alterações morfológicas. Coproparasitológicos Exames parasitológicos de fezes (EPF) devem fazer parte da rotina de exames de um recinto de peixes. Durante o exame clínico amostras podem ser coletadas diretamente 50 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES do reto por meio da introdução do canhão de um cateter em animais menores ou por sondas retais em indivíduos maiores. Geralmente, devido ao pouco material obtido, somente são realizadas preparações úmidas para o exame direto. Como vantagem, se realizado imediatamente (ou em até poucas horas), parasitos frequentemente estarão vivos e podem ser detectados devido a sua motilidade (se presente). Em situações que uma maior quantidade de material for coletada, deve-se dar a preferência para, além do exame direto, realizar técnicas de flutuação, como a técnica de Faust. Microbiologia Amostras de lesões podem ser enviadas para cultura microbiológica, entretanto, deve- se ter em mente a possibilidade do crescimento de contaminantes ambientais. Amostras que forem semeadas em placa em até 24 horas podem ser coletadas e enviadas em swabs secos, mas, se este tempo for ultrapassado, podem ser utilizados swabs contendo meios de transporte, como o Stuart.Diagnóstico por imagem Radiografia Em alguns casos, exames de imagem como radiografias podem ser valiosas. Infelizmente, para o correto posicionamento do animal, este procedimento requer que o peixe esteja anestesiado. Projeções laterolaterais são mais fáceis de serem executadas nas espécies comprimidas lateralmente, entretanto, sempre é ideal adotar, no mínimo, duas projeções a fim de auxiliar na interpretação de alterações. Deformidades ósseas podem ser facilmente observadas em exames radiográficos. Eventualmente, processos inflamatórios da bexiga natatória, corpos estranhos e impactações também podem ser detectados. Ultrassonografia A ultrassonografia pode ser realizada em animais maiores submersos. Entretanto, a interpretação das imagens pode ser difícil devido à falta de imagens para referência. Nesse caso, pode ser utilizado outro animal, saudável e da mesma espécie para comparação (possível também para imagens radiográficas). 51 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III Necrópsia A necrópsia pode ser muito útil em situações com mortalidades elevadas em que não seja conhecida a etiologia. Corpos destinados à realização de necrópsia não devem ser congelados, mas sim refrigerados, a fim de evitar artefatos post mortem. A realização do exame deve ser feita o mais breve possível, preferencialmente em até 6 horas após o óbito. O animal deve ser posicionado em decúbito dorsal e a abertura pode ser feita em direção caudocranial em animais achatados lateralmente e em formato de U em animais achatados dorsoventralmente, visando um melhor acesso aos órgãos. O médico veterinário responsável deve ter conhecimento a respeito da anatomia normal para diferenciar da patológica nas diversas espécies de peixes. Um protocolo para este procedimento deve ser estabelecido e seguido de forma estrita. O exame externo deve ser detalhado, com detalhamento de todas as lesões e alterações presentes na pele, assim como o interno, o qual deve conter toda e qualquer informação importante. Devem ser coletados fragmentos de todos os órgãos para a realização de exame histopatológico. Amostras para exames microbiológicos podem ser coletadas, embora frequentemente ocorra contaminação com micro-organismos saprófitas, principalmente se o animal não tiver vindo a óbito recentemente. Fezes, raspados de pele e fragmentos de brânquias e nadadeiras também devem ser analisados. É importante que também seja coletada a água do recinto do animal que veio a óbito para analisar a qualidade da mesma. Em casos de mortalidades massivas, pode ser interessante realizar a eutanásia de um indivíduo para realizar uma necrópsia imediata e pesquisar por bactérias ou vírus patogênicos. Nesse caso, todas as precauções assépticas devem ser reforçadas. Quando forem observados sinais clínicos neurológicos (como nado desordenado), pode ser indicada a cultura do tecido cerebral. 52 CAPÍTULO 2 Clínica de peixes Contenção Contenção física Tanto o estresse da captura no recinto como a contenção física podem resultar na morte do animal. Portanto, tais procedimentos devem ser realizados com cuidado e por um profissional habilitado. Dessa forma, o período no qual um peixe ficará contido fisicamente deve ser o mínimo possível. Para a captura diretamente no recinto de animais pequenos, podem ser utilizadas uma ou duas redes de malha fina, contendo-o rapidamente a fim de minimizar danos e estresse. É necessária a utilização de luvas sem talco nesse processo, tanto para evitar a transmissão de patógenos zoonóticos a quem estiver contendo quanto para impedir a disseminação de transmissão de agentes infecciosos e tóxicos ao paciente, devendo estar molhadas para reduzir o atrito e danos à sua pele. O animal pode ser posicionado sob uma toalha úmida durante essa contenção. Em alguns peixes (como diversas espécies de tubarões), é possível realizar uma imobilização tônica. Esta é uma resposta comportamental natural, caracterizada por um relaxamento muscular com imobilidade, bem como uma diminuição no ritmo respiratório. É possível alcançar esse quadro virando o animal com o ventre para cima, o que pode durar um tempo considerável para a realização do exame clínico e exames complementares. Dessa forma, podem ser evitados traumas e estresse desnecessários em alguns animais. Após uma captura difícil, o peixe pode apresentar incoordenação e fraqueza ou até vir a óbito. Essa condição costuma ocorrer alguns dias após a contenção, associada a uma acidose metabólica. Devido ao difícil tratamento e diagnóstico, é recomendada a sua prevenção realizando uma captura e contenção adequadas. Contenção química e anestesia Antes de realizar qualquer procedimento anestésico, o máximo de estressores em um ambiente devem ser removidos. O jejum deve ser realizado por um ciclo de alimentação, geralmente 24 horas antes, já que conteúdos regurgitados podem obstruir as brânquias e sujar a água. 53 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III Para promover uma indução e recuperação tranquilas, ambos os tanques de anestesia e recuperação devem estar preparados antecipadamente. Medicações pré-anestésicas raramente são utilizadas, pois necessitam de uma manipulação extra para sua administração, o que pode ser bastante estressante ao animal. As soluções contendo o fármaco anestésico devem estar em concentrações adequadas e corretamente tamponadas a fim de evitar mudanças bruscas no pH. A indução é realizada por meio da adição do fármaco anestésico gradualmente à água com o peixe já no local ou pela inserção do animal no recipiente contendo a solução anestésica diretamente. De forma geral, uma dose mais alta do anestésico deve ser utilizada para induzir a anestesia, e uma dose mais baixa para sua manutenção. Para procedimentos longos, um sistema de recirculação de água pode ser utilizado para administrar o anestésico. A água contendo o anestésico pode ser aplicada sobre as brânquias por meio da cavidade oral utilizando um sistema composto por uma bomba com um tubo ou simplesmente com uma seringa. Durante todo o período anestésico a qualidade da água deve ser ótima para a espécie trabalhada. Peixes sob estresse consomem mais oxigênio, o que deve ser levado em consideração. O animal pode ser mantido emerso para o período necessário para o exame ou, até mesmo, por períodos prolongados, como para cirurgias, entretanto, as brânquias devem ser constantemente banhadas com água corretamente oxigenada, devido ao risco de hipóxia. Para isso, pode ser derramada água, por meio de uma seringa, diretamente na boca do peixe, de forma que flua até as brânquias e saia pelo opérculo ou utilizar de um tubo introduzido na cavidade oral no qual é bombeado água continuamente. Os sistemas de manutenção podem ser recirculantes (onde a água é coletada do peixe e reinserida no sistema) ou não (onde a água não é reutilizada). Para manter a oxigenação da água, podem ser usados dispositivos como pedras de ar ou até mesmo pelo próprio aparelho de anestesia. Temperaturas elevadas aceleram a indução e a recuperação, porém, é importante lembrar que a água em elevadas temperaturas retém menos oxigênio. Durante a anestesia o peixe também deve ser mantido úmido para evitar desidratação e danos à pele e os olhos devem ser cobertos para evitar danos à retina, já que estes animais não possuem pálpebras. Após o procedimento, é importante que a recuperação permita a água fresca fluir por meio das brânquias na direção fisiológica. O animal deve ser monitorado constantemente por até 24 horas, principalmente até que o movimento voluntário coordenado seja presente, para garantir a correta recuperação do animal. Agentes anestésicos à base de água estão entre os mais utilizados para anestesiar peixes devido à segurança que eles promovem, embora necessitem de grandes quantidades, principalmente em grandes recintos. Entre inúmeras preparações anestésicas e protocolos descritos, alguns autores consideram o MS-222 e a benzocaína como as mais54 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES eficientes. Embora seja de difícil aquisição, MS-222 (tricaína metanosulfato) é o mais utilizado. Quando reconstituído, é capaz de formar uma solução bastante ácida, que deve ser neutralizado antes do uso. Para evitar isto, pode ser dissolvido em 10g/L de bicarbonato de sódio a fim de tamponar a solução. Uma concentração de 15 a 50mg/L costuma resultar em sedação, enquanto a indução da anestesia é alcançada com uma concentração de 100 a 200mg/L, e a manutenção geralmente requer 50 a 100mg/L. A recuperação de procedimentos de curta duração costuma ser rápida, em menos de 10 minutos, mas, após procedimentos longos, especialmente em peixes grandes, pode ser demorada, com períodos superando 6 horas. Benzocaína é considerada uma segunda opção e deve ser dissolvida em etanol ou acetona, em uma solução padrão de 100g/L, bastante instável em contato com a luz (LONGLEY, 2010). Outros agentes que podem ser utilizados diluídos na água incluem eugenol (óleo de cravo) em doses de 2,5 a 15mg/L para uma leve sedação e 25 a 30mg/L para o procedimento anestésico (MARANHO; BALDASSIN, 2014). Isoflurano e etanol também são citados como fármacos usados em soluções líquidas (LONGLEY, 2010). Agentes injetáveis podem gerar procedimentos mais econômicos em peixes maiores, mas as margens de segurança geralmente são estreitas e a recuperação é prolongada. Em peixes cartilaginosos, pode ser utilizada uma combinação de cetamina e xilazina. Foram relatadas também combinações de cetamina e propofol. A lidocaína pode ser usada para anestesia local. Monitoramento À medida que o peixe é anestesiado ele perde o reflexo de endireitamento, assim como as respostas aos estímulos táteis e cirúrgicos. A frequência respiratória pode ser monitorada por meio da visualização de movimentos pelas brânquias. O batimento cardíaco pode ser visível em alguns animais, mas geralmente é indicado um monitor de fluxo Doppler. Exame clínico De forma ideal, peixes deveriam ser avaliados dentro de seu recinto original. Isso permite ao médico veterinário avaliar a interação do animal com o ambiente, bem como as condições oferecidas. Geralmente isso não é possível devido ao tamanho dos aquários e a necessidade de conduzir o indivíduo até o clínico. Para isso, o animal deve ser transportado em um recipiente menor, mas resistente, e com características semelhantes ao aquário de origem, o que inclui a mesma água do viveiro original. Durante o transporte, também deve ser reduzida a incidência luminosa a fim de reduzir 55 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III o estresse. Para viagens mais longas, pode ser necessário um jejum de 24 horas para minimizar a produção de compostos nitrogenados no recipiente volante. O exame clínico deve sempre iniciar à distância, observando o comportamento do animal, incluindo a sua posição no recinto e atitudes anormais. A restrição física deve ser rápida, principalmente se não for realizada a sedação do animal. Devem ser observadas quaisquer alterações externas, como mudanças de coloração e morfologia das brânquias, lesões oculares ou orais, aumento de volume da cavidade celomática, aparência das nadadeiras, entre outros. A pele e as nadadeiras devem ser cuidadosamente examinadas, tanto pela superfície dorsal quanto pela ventral. A cabeça também deve ser avaliada, incluindo cavidade oral, olhos, opérculos e brânquias. A cloaca também deve ser examinada. O corpo inteiro do animal pode ser palpado, mas os achados são geralmente de difícil interpretação. Os sinais clínicos observados em peixes frequentemente são inespecíficos, entretanto, alguns podem indicar qual sistema está comprometido. O animal com o trato respiratório afetado pode apresentar esforço respiratório, demonstrado por apresentação ofegante nas regiões mais superficiais do recinto, bem como uma movimentação acelerada das brânquias, fraqueza e letargia. As brânquias podem também apresentar alterações como coloração inadequada, hemorragias ou manchas. Quando o trato gastrointestinal estiver afetado frequentemente pode ser observada anorexia, bem como emagrecimento, olhos fundos, diarreia ou, até mesmo, disfagia. Sinais clínicos neurológicos incluem movimentos súbitos, perda do equilíbrio, alterações na natação ou movimentos erráticos. Em afecções hepáticas, frequentemente podemos observar anorexia associada ao aumento de volume celomático cursando com ascite. Doenças Infecciosas Diversas doenças infecciosas de peixes devem ser comunicadas a órgãos oficiais, seja devido a sua elevada mortalidade ou por causarem grandes perdas econômicas. A notificação obrigatória à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) deve ser feita a fim de promover o controle e rastreamento desses agentes. As notificações, no Brasil, podem ser feitas diretamente ao Serviço Veterinário Oficial (SVO). 56 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Bacterianas Em peixes, as doenças causadas por bactérias geralmente ocorrem na forma de surtos, favorecidas principalmente por fatores como a degradação ambiental, baixa qualidade de água, carga orgânica elevada e temperatura e salinidade fora do ideal. De uma forma geral, estresse e outras comorbidades podem tornar o peixe suscetível a outros patógenos. A maioria dos agentes bacterianos nesses animais são bastonetes Gram- negativos. O tratamento para bactérias deve ser instituído após a realização de cultura e antibiograma a fim de evitar o surgimento de resistência bacteriana. Ao contrário do observado em peixes ósseos, frequentemente hemoculturas de elasmobrânquios saudáveis, como tubarões, podem estar positivas. Isso indica que a simples presença de bactérias do sangue, sem a presença de sinais clínicos, não indica necessariamente uma septicemia (MYLNICZENKO, 2007). Gram-negativas Entre as Gram-negativas, o gênero mais comum encontrado causando enfermidades em peixes é Aeromonas, o qual pode causar lesões de pele, como furunculose, assim como inapetência, letargia, hemorragias na pele e sinais clínicos respiratórios. Espécies de Vibrio podem causar fezes hemorrágicas e vermelhidão ao redor da cloaca, bem como lesões cutâneas eritematosas e septicemia. Nestes casos é recomendada a remoção dos peixes infectados do recinto. Também são relatados casos de meningite por essa bactéria em algumas espécies de tubarões (MARANHO; BALDASSIN, 2014). Columnariose ocorre em animais afetados por Flavobacterium sp., os quais podem apresentar áreas erosivas esbranquiçadas semelhantes a tufos brancos, especialmente ao longo do dorso, causando também sinais clínicos neurológicos (nado sem rumo e perda de equilíbrio), podendo levar à morte. Afeta principalmente animais de águas frias, podendo ser tratado com antibioticoterapia, medicamentos à base de cobre e cloreto de benzalcônio. Cytophaga psychrophila é uma bactéria isolada de salmonídeos, a qual geralmente não sobrevive a temperaturas mais baixas. Costuma infectar a nadadeira dorsal e se propagar para a base, onde se formam grandes ulcerações. Edwardsiella spp. podem causar letargia, anorexia, áreas avermelhadas na pele, abscessos, prolapso anal e exoftalmia. Algumas espécies podem ser consideradas zoonóticas. 57 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III Outras espécies também podem ser encontradas. Pseudomonas spp. e Yersinia spp. podem causar afecções sistêmicas. Pasteurella spp. e mixobactérias podem causar danos à pele e olhos. Haemophilus piscium é o agente causal da Doença da Úlcera em peixes. Gram-positivas Gram-positivos incluem o gênero Corynebacterium, causador da doença renal bacteriana em peixes, de importância econômica em criações comerciais. As fêmeas infectadas devem ser tratadas com eritromicina de 14 a 60 dias antes da desova para a contenção de surtos. Espécies de Streptococcus podem causar úlceras e escurecimento de pele, bem como hemorragias, áreas sem escamas e exoftalmia, podendo levar a mortalidade em larga escala. O tratamento deve ser realizado após culturae antibiograma, mas eritromicina parece ser efetiva. Nocardia spp. são bactérias filamentosas que podem causar perda de peso, inflamação, ulceração e necrose de pele. A eutanásia deve ser considerada devido a risco zoonótico e tratamento ineficiente. Outras bactérias incluem Renibacterium sp., responsável pela doença bacteriana do rim, podendo causar ascite, exoftalmia, hemorragias e lesões granulomatosas no rim e baço. Eubacterium tarantellus é capaz de ocasionar meningite, levando a problemas de natação. Lactococcus garvieae é responsável por hemorragias, podendo levar o indivíduo à morte. Clostridium difficile também pode ser detectado, causando infecções sistêmicas. Micobactérias Micobactérias são bactérias bastonetes álcool-ácido resistentes, ou seja, não corados pela coloração de Gram, sendo necessária a técnica de Ziehl-Neelsen para sua visualização. O gênero Mycobacterium pode causar hepatopatia, perda de peso, exoftalmia e escoliose, bem como lesões granulomatosas, úlceras e escurecimento da pele. Embora canamicina seja um candidato ao tratamento, este não costuma ser muito efetivo e a eutanásia deve ser considerada devido ao potencial zoonótico. Fúngicas Uma das mais importantes doenças de origem fúngica é a Saprolegniose, causada pelo gênero oportunista Saprolegnia. Animais afetados podem desenvolver tufos brancos na superfície da pele, principalmente nas narinas, as quais podem lembrar algodão, 58 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES facilmente identificada na microscopia. Como tratamento é instituída a utilização de verde-malaquita, bem como limpeza diária com solução a 10% de iodo e manter o animal em solução salina (1 a 3g/L de NaCl) para controlar a infecção e corrigir o desequilíbrio osmótico. Outros fungos incluem Branchiomyces sp., o qual pode causar a branquiomicose, capaz de afetar o trato respiratório. Dermocystidium sp. pode causar cistos na pele e musculatura. Aphanomyces invadens pode levar à Síndrome Ulcerativa Epizoótica (doença de notificação obrigatória à OIE), a qual é dependente de baixas temperaturas, já que não ocorre em ambientes a 32°C. Pleistophora sp. é transmitido pelo consumo de cadáveres ou alimentos infectados e pode causar curvatura espinhal, perda da coloração da pele e emaciação. A Glugea spp., principalmente em cavalos-marinhos, parece ser pruriginosa e induzir à escoriações graves pela fricção das áreas afetadas. Fusarium spp. também podem causar erosões na pele. Outros gêneros menos importantes compreendem Achlya, Basidiobolus, Phoma, Candida, Cladosporium, Penicillium e Ichthyochytrium. De forma geral, não há tratamento para esses gêneros, mas fármacos como itraconazol, fumagilina e toltrazuril podem ser considerados. Infecções fúngicas persistentes indicam condições ambientais inadequadas com altas cargas de resíduos orgânicos. Virais Vírus são parasitos intracelulares obrigatórios, já que necessitam da arquitetura celular do hospedeiro para a sua multiplicação. Com a evolução da aquicultura como atividade econômica, a qual implica grandes densidades de animais em um recinto, doenças virais de peixes vêm ganhando destaque. Muitas destas doenças são específicas de determinadas espécies e regiões, podendo ser controladas. Os peixes jovens, de uma forma geral, são particularmente mais suscetíveis, mas os adultos possuem um importante papel ao poder carrear estes agentes de forma assintomática. O diagnóstico geralmente é difícil, necessitando de testes específicos, como o isolamento do vírus em cultivos celulares, vírus-neutralização, ELISA, imunofluorescência e técnicas de biologia molecular, disponíveis em poucos laboratórios. Existem vacinas para algumas etiologias, mas nem sempre são comercialmente viáveis e, em geral, não há tratamento específico. Antibióticos podem ser utilizados em algumas situações para controlar infecções secundárias. 59 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III Herpesvírus Estes agentes pertencem à família Herpesviridae, que inclui diversos vírus DNA capazes de afetar grande parte das espécies de vertebrados. Podem causar infecções em diversas espécies de peixes. O herpesvírus dos ciprinídeos tipo 3 é responsável pela Herpesvirose da Carpa Koi, enfermidade altamente infecciosa e de notificação obrigatória à OIE, capaz de afetar diversas subespécies de carpas (Cyprinus carpio). A principal via de infecção nesses animais é por meio das brânquias, por onde se dissemina sistemicamente. Inicialmente, a enfermidade cursa com um aumento na quantidade de muco podendo causar elevadas mortalidades em uma população. O vírus pode ser excretado pelo muco e outros fluidos, como urina e fezes. O herpesvirus dos ciprinídeos 1, por outro lado, causa enfermidade mais branda, afetando as mesmas espécies de animais. Possui uma letalidade baixa (ocorrendo principalmente em animais jovens), podendo causar lesões na pele de animais afetados, bem como certo retardo no crescimento. O herpesvírus dos ciprinídeos tipo 2 aparenta afetar somente peixes-dourados (Carassius auratus) causando a Necrose Hematopoiética dos Dourados. Nessa doença podem ser observadas lesões na pele do animal, bem como internas, afetando órgãos como rins, fígado e baço com uma elevada mortalidade. A herpesvirose do salmão masu (Oncorhynchus masou) é uma enfermidade de que cursa com ulcerações de pele e hepatite. Embora seja mais descrito no salmão masu, a truta arco-íris e outras espécies de peixes também podem ser afetadas. Causa uma doença letal, cursando com letargia, perda de equilíbrio, desorientação, hemorragia e edema. O vírus pode ser excretado por fluídos sexuais, fezes e urina (YOSHIMIZU et al.,2011). Rabdovírus São os pertencentes à família Rhabdoviridae, capazes de afetar diversos seres vivos e dotados de um genoma de RNA. A necrose hematopoiética infecciosa é uma doença de notificação obrigatória à OIE que pode afetar a maioria das espécies de salmonídeos. Pode causar surtos com elevada mortalidade em populações de trutas arco-íris. O vírus é excretado em por meio da urina, fluídos sexuais e muco, principalmente de animais mais jovens. Os sinais clínicos observados são bastante inespecíficos, como letargia, escurecimento da pele, palidez nas 60 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES brânquias, distensão abdominal, exoftalmia e hemorragia puntiforme (BOOTLAND; LEONG, 1999). Vírus dessa família também pode causar a Viremia Primaveral das Carpas, outra doença de notificação obrigatória à OIE. Pode causar uma doença bastante contagiosa e hemorrágica em diversas espécies de peixes, principalmente ciprinídeos. O vírus pode ser excretado pelas fezes e urina dos animais infectados, embora também seja transmitido por alguns ectoparasitos. Os sinais são inespecíficos, com o escurecimento da pele, exoftalmia, palidez das brânquias, hemorragias, distensão abdominal e protusão do ânus, podendo levar à morte. A Septicemia Viral Hemorrágica pode ocorrer em algumas espécies de água doce e marinhas, entretanto, é especialmente preocupante em trutas arco-íris. Os sinais clínicos são amplos, incluindo inapetência, letargia, escurecimento da pele, exoftalmia, edema, anemia, natação irregular e hemorragias nas nadadeiras peitorais, com elevada mortalidade, podendo chegar a 100% em alevinos. Também é uma virose de notificação obrigatória à OIE. Iridovírus Pertence à família Iridoviridae, que compõe vírus de genoma DNA que afeta vertebrados e invertebrados, amplamente distribuído em ambientes aquáticos. São compostos em cinco gêneros: Iridovirus, Chloriridovirus, Lymphocystivirus, Megalocytivirus e Ranavirus (WHITTINGTON et al., 2010). A Necrose Hematopoiética Epizoótica é de notificação obrigatória à OIE, causada por um Ranavirus, o qual pode infectar células de vários tecidos, descrito na perca (Perca fluviatilis) e na truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss). Geralmente é assintomático, com os sinais clínicos sendo mais evidentes em animais jovens. Surtos com mortalidades costumamestar associados a práticas de manejo inadequadas. Acredita-se que este vírus seja capaz de sobreviver por longos períodos na água, sedimento, plantas e fômites de um recinto (WHITTINGTON et al., 1996). O Iridovirus do Pargo-japonês, também de notificação obrigatória à OIE, pode infectar diversas espécies de peixes marinhos, sendo especialmente importante para o pargo- japonês (Pagrus major). Animais afetados podem apresentar letargia, anemia, petéquias e esplenomegalia. A taxa de mortalidade é afetada por diversos fatores, como a idade dos animais, espécie, temperatura, entre outros. O gênero Lymphocystivirus é capaz de causar a doença linfocistica ou linfociste. Normalmente não infecta ciprinídeos, mas pode ser encontrado em outros peixes de 61 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III água doce ou de água salgada. Nos animais afetados podem surgir massas grandes, geralmente benignas, com aspecto verrucoso (com forma de couve-flor) nas nadadeiras e na pele, assim como eventualmente na cavidade celomática. Pode ser transmitida pelo contato direto, inclusive por meio da manipulação. Outros O gênero Alphavirus é composto por vírus de genoma RNA da família Togoviridae, o qual pode causar infecções em salmonídeos, causando a Doença Pancreática, ou Doença do Sono, em algumas espécies. Essa enfermidade é caracterizada por uma necrose do tecido pancreático e lesões em musculatura cardíaca e esquelética. A taxa de mortalidade é variável, mas pode atingir mais de 50% de uma população. O vírus pode sobreviver por longos períodos na água. Essa doença também é de notificação obrigatória à OIE (ALDRIN et al., 2010). Vírus RNA da família Orthomyxoviridae podem causar a Anemia infecciosa do Salmão, de notificação obrigatória à OIE. Pode ser bastante letal, cursando com anemia grave e hemorragias, assim como ascite, hepatomegalia, esplenomegalia e congestão cardíaca. A mortalidade pode chegar a 90% em casos graves (CHRISTIANSEN, et al., 2011). Em salmonídeos ainda podemos observar a Necrose Pancreática Infecciosa, causada por um vírus RNA da família Birnaviridae. É uma doença aguda e contagiosa, a qual afeta principalmente peixes em crescimento, causando altas mortalidades. Sinais clínicos envolvem escurecimento da pele, exoftalmia, distensão abdominal e hemorragias. A Necrose Nervosa Viral, ou Encefalopatia e Retinopatia virais, é causada por um Betanodavirus da família Nodaviridae, causador de importantes perdas econômicas, afetando o sistema nervoso central e retina de peixes marinhos. Embora a água seja o principal meio de transmissão, fômites, como redes, devem ser consideradas. É capaz de causar uma importante mortalidade nesses animais (BOVO et al., 2011). Parasitárias Peixes atuam como hospedeiros intermediários e definitivos de diversos parasitos (Figura 14). Assim como em anfíbios, estes agentes podem ser parasitários ou comensais, sendo comum encontrá-los na maioria dos animais sadios ou não. Aqueles considerados como ectoparasitos, de forma geral, podem causar irritação e ulceração de pele, bem como dificuldade respiratória quando afetando as brânquias. 62 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Figura 14. Representação de alguns gêneros de parasitos encontrados em peixes. Chilodonella Trichodina Ichthyobodo Ichthyophthirius Epistylis Oodinium Gyrodactylus Dactylogyrus Lernaea Ergasilus Livoneca Argulus Tetrahymena Fonte: Jepson (2011). Protozoários Ciliados Ciliados compõem o grupo mais comum de parasitos em peixes. Entre eles, umas das espécies mais importantes é a do protozoário Ichthyophthirius multifiliis, um grande parasito unicelular com núcleo em formato de ferradura, causador da Doença da Mancha Branca. Os estágios imaturos penetram no muco da epiderme, bem como nas brânquias, onde permanecem encistadas. Nos animais acometidos podem ser observadas pequenas manchas brancas na pele, dificuldade respiratória, nadadeiras aderidas, bem como afecções oftálmicas, podendo levar à morte principalmente em jovens. A elevação da temperatura em 1 ou 2°C acelera o ciclo de vida do parasito, promovendo a exposição do estágio infectante móvel, o qual é sensível a medicamentos, como sulfato de cobre. Associadas a estas infecções podemos encontrar organismos do gênero Tetrahymena, também predispostos em condições ambientais inadequadas. São capazes de se propagar pela musculatura do hospedeiro e gerar afecções dermatológicas e oftálmicas. O tratamento pode ser tentado com Cloramina T. Outra infecção semelhante, porém em peixes marinhos, é causada pelo gênero Cryptocaryon, parasitos grandes de formato oval e com um núcleo característico com quatro lóbulos. Sinais clínicos incluem manchas brancas na pele, dispneia e afecções oftálmicas. O tratamento também pode ser realizado com sulfato de cobre, assim como banhos de formalina ou mergulhos em água doce. Se a espécie acometida do peixe for resistente, este animal deve ser mantido em uma densidade menor ou igual a 1,015 por 63 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III no mínimo seis dias para o controle do parasito. Entretanto, é necessário cuidado, já que alguns animais podem ter dificuldades na osmorregulação em salinidades baixas e não sobreviver. Chilonodella possui cílios evidentes, é grande, achatado e ovalado, deslizando de forma lenta e circular. É capaz de causar alterações no aspecto da pele devido à produção excessiva de muco, bem como afecções do trato respiratório, depressão e morte súbita. Como tratamento pode ser tentado ácido acético glacial. Trichodina, Trichodonella e Tripartiella são gêneros de grandes parasitos rotativos e circulares, causadores de erosões de pele e aumento na produção de muco, podendo afetar o funcionamento das brânquias. Não são parasitos obrigatórios e geralmente ocorrem em situações com uma baixa qualidade de água, onde há um excesso de matéria orgânica, facilitando seu desenvolvimento. O tratamento pode ser realizado com praziquantel. Brooklynella, Uronema e Miamiensis são protozoários móveis, ovalados e ciliados presentes em ambientes marinhos capazes de causar desconforto respiratório e ulcerações de pele. São sensíveis a tratamentos com formalina, verde-malaquita e sulfato de cobre, bem como banhos de água doce. Epistylis são ciliados sésseis pedunculados em forma de campânula, encontrados em colônias. São causadores de uma “falsa doença fúngica”, semelhante à Saprolegniose, a qual cursa com dermatopatias. Flagelados Flagelados incluem diversos táxons de organismos dotados de apêndices chamados flagelos. Espécimes do gênero Icthyobodo são pequenos parasitos móveis em formato de vírgula relativamente comuns. São capazes de causar sinais clínicos respiratórios, lesões de pele com produção excessiva de muco, hemorragia, letargia, depressão e morte súbita. Para o seu controle no ambiente, devem ser removidos todos os peixes do aquário infectado por 24 a 48 horas, uma vez que o parasito somente é capaz de sobreviver na presença do seu hospedeiro e fármacos usuais parecem ser ineficazes. Por outro lado, podem sobreviver a temperaturas abaixo de 2°C e causar a mortalidade em algumas espécies durante a hibernação. Quando os peixes portadores são capazes de suportar, o aumento da temperatura acima de 30°C pode ser benéfico. Hexamita spp. podem afetar os sistemas gastrointestinal, hepático e renal, cursando com anorexia, letargia, perda de peso, emaciação, fezes brancas e viscosas, hidropisia, 64 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES anormalidades no nado e problemas reprodutivos. O tratamento pode ser realizado com metronidazol. Spironucleus sp. é um flagelado morfologicamente semelhante ao anterior, considerado um provável causador da Síndrome do Buraco na Cabeça e Linha Lateral. Nela é possível observar ulcerações em determinados locais do corpo do animal, bem como perda de peso e apetite. O tratamento é similar ao utilizado para o parasito anterior. Dinoflagelados dos gêneros Oodinium, Amyloodinium e Crepidoodiniumpodem causar a Doença do Veludo, caracterizada por um efeito de poeira sobre a superfície corporal, mas também capaz de causar afecções do trato respiratório. São parasitos realmente grandes e bastante escuros. O tratamento é difícil, já que o estágio encistado é bastante resistente aos medicamentos, mas pode ser tentado com metronidazol ou cloridrato de quinina, assim como antibioticoterapia se houver infecção secundária. A limpeza do ambiente pode ser feita retirando todos os peixes do viveiro, diminuindo os níveis de luz e elevando a temperatura para 30 a 32°C por um período de três semanas. Podem ainda ser afetados por alguns protozoários hemoparasitos, como os flagelados Trypanosoma spp. e Cryptobia spp., bem como e os apicomplexas Babesiosoma sp., Haemogregarina spp. e Cyrilia sp. Em geral, estes parasitos podem apresentar sinais clínicos amplos como anemia e emaciação. O tratamento costuma não ser efetivo, mas pode ser tentado com metronidazol ou azul de metileno. Cryptobia spp. ainda é capaz de afetar outros sistemas, como o urinário, cardiovascular e digestivo, causando ascite, fezes brancas e viscosas, perda de apetite, caquexia, exoftalmia e dificuldade de natação. É suspeito de ser o agente causal de uma doença em ciclídeos chamada Malawi bloat. Coccídios Coccídios podem ser encontrados afetando o trato gastrointestinal de peixes. Eimeria spp. e Crysptosporidium spp. podem causar regurgitação, anorexia, extrema perda de peso e massa muscular. O tratamento não costuma ser efetivo, mas sulfas podem fazer parte de um protocolo. Outros Ichthyophonus hoferi é um protozoário que ocupa uma posição filogenética controversa, já que possui uma parede com quitina, assim como hifas, além de possuir um estágio ameboide. Pode causar emagrecimento, exoftalmia, alterações reprodutivas, dermatológicas (escurecimento da pele, bolhas semelhantes a queimaduras e granulomas) e neurológicas (comportamento e padrão de natação anormais). O diagnóstico pode ser feito pelo exame direto, em preparações úmidas de macerações 65 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III de nódulos, nas quais podem ser observados esporos como corpos esféricos. Não existe tratamento efetivo descrito. Protopalina é um gênero de opalinideos muito grandes em forma de cápsula que afetam o trato digestório. Podem causar fezes viscosas e brancas Nematódeos Nematódeos são comuns em peixes de vida-livre e cativeiro com acesso aos seus hospedeiros intermediários. Por exemplo, crustáceos dos gêneros Cyclops e Daphnia são capazes de transmitir parasitos do gênero Philometra. Outros gêneros possíveis de serem encontrados em peixes incluem Atractis, Camallanus, Capillaria, Contracaecum, Cucullanus Raillietnema, Raphidascaris e Spirocamallanus. Infecções por esses agentes geralmente afetam o trato gastointestinal e são brandas, mas podem causar fezes esbranquiçadas e diarreicas, bem como perda de peso. Alguns fármacos podem ser utilizados para o tratamento, como levamisol, fenbendazol ou mebendazol. Platelmintos São vermes achatados dorsoventralmente, os quais podem ser observados frequentemente na pele e brânquias. Em geral, são classificados em quatro classes principais: a dos cestódeos, trematódeos, monogenéticos e turbelários. Cestódeos Diphyllobothrium latum é uma espécie de cestódeo conhecido como a “tênia do peixe”, causadora de uma importante zoonose, a difilobotriose. Outros cestódeos capazes de afetar peixes incluem os gêneros Amirthalingamia, Bothriocephalus, Corallobothrium, Cyclustera, Khawia e Proteocephalus, bem como as ordens Pseudophyllidea, Spathebothriidea, Tetraphyllidea e Trypanorhyncha. De uma forma geral, o tratamento pode ser realizado com praziquantel. Trematódeos O gênero Neascus pode causar pequenas manchas escuras na pele e músculos, causando a Doença da Mancha Negra. Os cistos podem ser particularmente evidentes em peixes de coloração clara. Devido ao ciclo de vida complexo, que exige diversos hospedeiros, dificilmente se tornam um problema em aquários. Sanguinicola inermis pode causar dano extremo nas brânquias e hemorragia. Diplostomum pode causar alterações 66 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES oftálmicas. Para o controle, deve ser feito necessariamente o controle de seus hospedeiros, que são caramujos aquáticos. Clinostomum spp, pode causar pequenas lesões císticas amareladas. Crassicutis cichlasomae afeta o trato gastrointestinal. O tratamento de trematódeos que infectam a pele geralmente pode ser feito com praziquantel. Monogenéticos Gyrodactylus salaris são ectoparasitos de notificação obrigatória à OIE, importantes principalmente para salmonídeos, nos quais pode gerar elevadas mortalidades em alevinos. Parasitos adultos e jovens possuem um característico gancho em forma de H (Figura 12). Animais parasitados geralmente são afetados nas nadadeiras, o que gera letargia e aumento na quantidade de muco, entretanto, eventualmente podem afetar as brânquias. A sobrevivência do agente fora do hospedeiro é estritamente conectada com a temperatura ambiental, sendo esta menor em temperaturas elevadas (acima de 19°C). O tratamento pode ser realizado com triclorfon. Parasitos do gênero Dactylogyrus são ectoparasitos que causam um aspecto esbranquiçado à pele pela produção excessiva de muco. Também podem afetar as brânquias, causando dificuldade respiratória e nado errático, sendo letal para animais jovens. Estes parasitos são grandes e geralmente apresentam quatro manchas escuras na extremidade caudal. O estágio de ovo é resistente ao tratamento e, portanto, infestações requerem múltiplos tratamentos com até quatro semanas de intervalo dependendo da temperatura da água. O tratamento pode ser feito com praziquantel e triclorfon. Enterogyrus spp. são capazes de afetar o trato digestivo, causando perda de peso e crescimento deficiente, podendo migrar por diversos órgãos. Cichlidogyrus, Microcotyle, Ancyrocephalus, Cleithrarticus, Pseudempleurosoma, Dermopthirius penneri e Haliotrema podem parasitar brânquias. O tratamento pode, de uma forma geral, ser feito com praziquantel. Turbelários O gênero Turbellaria causa uma condição caracterizada por pequenos pontos pretos pelo corpo, pele opaca e dificuldade respiratória. Banhos com formalina ou com água doce podem ser utilizados como tratamento. Crustáceos Copépodes compõem uma subclasse de crustáceos de água doce e salgada, os quais podem ser parasitários ou de vida-livre. Quando parasitos, possuem órgãos modificados especializados para a penetração na pele. Alguns possuem ventosas ou ganchos, 67 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III utilizados para a fixação no hospedeiro. Certos gêneros, como Cyclops e Diaptomus, são importantes por serem hospedeiros intermediários de agentes zoonóticos, como Diphyllobothrium latum e Dracunculus medinensis. Lernaea sp. pode causar erosões e ulcerações de pele. Ergasilus sp., por outro lado, são grandes, capazes de parasitar as branquias afetando a capacidade respiratória do animal. Animais da subclasse Branchiuria, gênero Argulus, são conhecidos como “piolhos de peixe”, comuns em animais de água doce. Animais afetados por este e outros ectoparasitos frequentemente desenvolvem o hábito de se rasparem contra a parede do aquário, dessa forma, podem causar ulcerações na pele. O tratamento inclui a remoção individual dos parasitos e tratamento com lufenuron e permanganato de potássio. Representantes parasitários da ordem Isopoda incluem o gênero Livoneca, capaz de chegar a 2,5 cm de comprimento. Adultos fixam-se nas brânquias e cavidade oral, bem como a pele, podendo causar úlceras e erosões. Como tratamento, pode ser feita a remoção individual dos parasitos, bem como a administração de lufenuron e banhos de permanganato de potássio. É importante que estes crustáceos sejam removidos do peixe e das plantas do recinto para evitar recidiva. Mixozoários Mixozoários são organismos relacionados aos cnidários que já foram classificados comoprotozoários. São principalmente representados pelos mixosporídeos, endoparasitos obrigatórios de peixes. Animais afetados podem apresentar nódulos evidentes, escurecimento da pele, perda de peso, nado errático, necrose das nadadeiras e alterações hepáticas, podendo levar a morte súbita ou ser um achado incidental, dependendo da espécie. Representantes incluem Henneguya sp., Myxosoma dujardini, Thelohanellus hovorkai. Chloromyxum sp., Hoferellus sp., Kudoa sp., Myxidium sp. e Mitaspora sp. Não existe tratamento realmente eficaz, mas pode ser tentado toltrazuril e fumagilina. Acantocéfalos Larvas de acantocéfalos costumam ser observadas nos tecidos enquanto adultos procuram se localizar no intestino. Em peixes podem ser encontrados Acanthocephalus sp., Neoechinorhynchus sp. e Polyacanthorhynchus kenyensis afetando o trato gastrointestinal com sinais clínicos brandos, como apatia e perda de peso. Artrópodes podem atuar como hospedeiros intermediários. O tratamento pode ser tentado com levamisol, fenbendazol e mebendazol. 68 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Outros Anodontites trapesialis é uma espécie de moluscos bivalves. Os estágios larvares já foram descritos parasitando a pele de algumas espécies de peixes no formato de pontos acinzentados em nadadeiras e brânquias. Sua infestação pode levar a uma leve resposta inflamatória, que pode predispor a infecções secundárias. Geralmente são autolimitantes. Pentastomídeos são endoparasitos de diversos vertebrados, os quais possuem uma classificação duvidosa, tendo sido considerados crustáceos por muitos anos. Não há tratamento efetivo descrito. A prevenção pode ser feita pela separação dos peixes de outros potenciais hospedeiros, como os répteis. Algumas algas também são capazes de afetar estes animais. Coccomyxa sp. pode causar lesões no trato respiratório. Chlorochytrium sp. e Scenedesmus sp, por outro lado, podem causar dermatites. Sanguessugas, como as do gênero Batracobdelloides, também podem ser ectoparasitos de peixes. Seu comportamento hematófago pode causar danos diretos ou ainda transmitir hemoparasitos, podendo levar a uma anemia grave. O tratamento com triclorfon é considerado eficaz. Não infecciosas Nutricionais A vitamina C (ácido ascórbico) participa de diversas reações no organismo. Uma das principais fontes na natureza é o fitoplâncton, composto por organismos que costumam estar ausentes ou em quantidades mínimas em cativeiros para peixes. A deficiência dessa vitamina pode levar a um quadro inespecífico, cursando com anorexia, letargia, redução na taxa de crescimento, exoftalmia, edema, hemorragias, erosão de nadadeiras, alterações operculares e branquiais, mas principalmente causando deformidades ósseas e imunossupressão. Isso torna sua suplementação necessária em algumas criações. Por ser um composto bastante lábil deve ser adicionado à alimentação na forma estabilizada, em quantidades específicas para cada espécie. A suplementação com algas também pode ser útil para fornecer maiores concentrações dessa vitamina. A vitamina E (tocoferol) é um composto lipossolúvel com uma atividade antioxidante. Sua deficiência pode causar anorexia, exoftalmia, ascite, anemia, distrofia muscular (especialmente em grandes peixes de crescimento rápido), imunossupressão e diminuição na taxa de crescimento. Pode ocorrer quando fornecidas dietas baseadas 69 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III exclusivamente em itens com pouco deste composto (como em dietas de larvas do bicho-da-seda). O animal acometido deve ser suplementado com vitamina E ou ração comercial completa. A vitamina A (retinol) desempenha várias atividades, participando da síntese de algumas glicoproteínas, regulação do crescimento e manutenção do sistema imune. Animais afetados pela deficiência dela podem apresentar crescimento deficitário, atrofia muscular e imunossupressão. Para a correção, pode ser fornecido suplemento comercial de vitamina A ou alimentos ricos neste composto, como folhas de alga Nori (utilizadas na confecção de sushi) e outros componentes vegetais. A vitamina D, ao contrário das anteriores, pode ser produzida pelo próprio indivíduo em exposição à luz solar. Como peixes geralmente não conseguem ter acesso aos raios solares por meio da coluna d’água, a suplementação desse hormônio pode ser necessária. As principais fontes são a ingestão de plâncton e outros alimentos comerciais e a adição de lipídios pode facilitar a sua absorção. Deficiências podem causar redução do ganho de peso, tetania, deformidades espinhais e perda de dentes. Esta também é uma das vitaminas mais tóxicas, a qual em altas quantidades pode levar a perda de apetite e problemas renais e cardíacos. A deficiência de ácidos graxos essenciais costuma ser observada em animais marinhos criados em cativeiro. A quantidade de lipídios necessários na dieta varia de acordo com a espécie trabalhada, assim como o estágio de desenvolvimento. A deficiência pode causar sinais como diminuição de crescimento, ulcerações nas nadadeiras, anemia e morte, principalmente em animais mais jovens. O excesso deles, por outro lado, pode causar um aumento na deposição de gordura, o que também pode afetar no rendimento do animal um problema comum atualmente com a superalimentação de animais. Alguns óleos vegetais ou animais como soja, milho e peixe podem ser utilizados, entretanto, para evitar a oxidação lipídica, podem ser administrados juntos com oxidantes, como vitamina E. Deficiências de vitaminas do complexo B também podem causar sinais clínicos. A deficiência de vitamina B1 (tiamina) pode causar deficiência no crescimento, edema, perda de equilíbrio, convulsões e levar à morte. A deficiência de vitamina B2 (riboflavina) pode causar catarata. As deficiências de vitamina B3 (niacina), vitamina B6 (piridoxina) e vitamina B7 (biotina) podem causar sinais clínicos neurológicos, como espasmos e convulsões. A deficiência de vitamina B9 (ácido fólico) pode causar deficiência de crescimento e anemia. A deficiência de vitamina B5 (ácido pantotênico) pode afetar o trato respiratório. 70 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Diversos outros componentes podem causar doenças em quantidades inadequadas no organismo de peixes. A deficiência de selênio (mineral) e triptofano (aminoácido), por exemplo, podem causar anormalidades musculoesqueléticas. Intoxicações A poluição ambiental, causada principalmente pelo homem, pode ser extremamente prejudicial aos peixes. Efluentes industriais, chuva ácida e metais pesados são apenas alguns deles. É possível que o grande número de tumores detectados em peixes ocorra devido aos compostos cancerígenos descartados juntos aos efluentes, embora mais estudos sejam necessários para compreender estas relações. Os peixes ornamentais, por outro lado, são frequentemente submetidos a intoxicações por alimentos, desinfetantes e medicamentos por erros de manejo. Amônia A intoxicação por amônia pode ocorrer não somente quando há um desequilíbrio na quantidade de matéria orgânica em relação ao filtro biológico de um viveiro, como também em ambientes com o pH elevado, no qual há uma maior disponibilidade da sua forma não ionizada, que é mais tóxica. Este composto é principalmente neurotóxico, podendo causar elevadas mortalidades em quantidades acima de 0,1mg/L. Animais afetados podem apresentar sinais como hiperventilação, hiperexcitabilidade, convulsões, nado errático e coma. É indicada a troca parcial da água para diluição dos níveis deste composto. Também pode ser adicionado zeólito, um conjunto de minerais capaz de absorver matéria orgânica, em taxas como 10 g/L (PEYGHAN; TAKAMY, 2002). Para seu controle, também pode ser feita a adição de cultura bacteriana de Nitrosomonas, correção do pH e diminuição na alimentação dos animais. Nitrito A intoxicação por nitrito, chamada de Doença do Sangue Marrom, pode ocorrer quando há um desequilíbrio no filtro biológico de um recinto, como em situações em que há a perdadesse filtro ou quando a demanda é muito elevada. Quantidades acima de 0,5mg/L são especialmente preocupantes. Animais afetados são induzidos à formação de metahemoglobina no sangue, reduzindo a capacidade de transporte de oxigênio e promovendo uma coloração marrom às brânquias. Estes indivíduos podem ser localizados nas partes mais elevadas do aquário, com a cabeça posicionada para cima devido à dificuldade respiratória. Peixes de água doce são naturalmente mais suscetíveis a essa condição. Imediatamente, a adição de sal na água em uma concentração de 0,3% pode ser benéfica, já que os íons de cloro competem na absorção pelos íons de 71 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III nitrito. Também deve ser feita a troca parcial da água, bem como a adição de culturas bacterianas extras do gênero Nitrobacter, as quais podem trazer algum benefício. Sulfeto de hidrogênio Sulfeto de hidrogênio é um composto que participa do ciclo de decomposição do enxofre, altamente tóxico para os animais, incluindo o homem, e as plantas. Pode ser formado por meio da decomposição anaeróbica de compostos orgânicos no fundo de lados e até mesmo aquários, detectado facilmente pelo odor pútrido característico que é liberado. A sua toxicidade é diretamente proporcional ao aumento da temperatura da água e inversamente proporcional ao pH. É capaz de causar um envenenamento agudo em peixes, cursando com dispneia, hiperventilação e parada respiratória, podendo levar à morte em várias espécies. Para a prevenção dessa condição devem ser realizadas limpezas e aeração regulares do substrato de viveiros, bem como a redução da quantidade de substrato (mantendo em níveis máximos de até 5 cm). Em aquários com camadas muito profundas, na qual sua limpeza se torna inviável, podem ser realizadas aplicações profundas de peróxido de hidrogênio a fim de aumentar a oxigenação destes locais. Outras Cobre pode ser tóxico para certos grupos de peixes, causando afecções do trato respiratório. Em aquários contendo invertebrados não devem ser realizados tratamentos a base de cobre, pois esses animais são especialmente sensíveis. Se necessário, deve ser realizado em um aquário separado. Intoxicação por cianeto pode ocorrer em regiões que recebam efluentes de indústrias e fundições. Costuma ser observado em peixes capturados de vida livre, podendo causar anorexia e morte ao animal afetado. Não há tratamento efetivo para essa condição, apenas terapia de suporte. Metais pesados são lançados à água como resíduos de minério. Estes compostos são bioacumulativos, se mantendo e acumulando nos diversos níveis da teia alimentar. Intoxicações podem causar principalmente afecções hepáticas e neurológicas, dependendo da afinidade do metal. Neoplasias Diversas neoplasias induzidas por agentes infecciosos já foram observadas em peixes. O herpesvírus tipo 1 das carpas é acusado de causar carcinoma de células escamosas. Linfociste é causada por um iridovirus, caracterizada por massas verrucosas na pele e 72 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES nadadeiras, podendo ocorrer dentro da cavidade celomática. Embora benigna, a tentativa de remoção cirúrgica é geralmente seguida por recorrência. Epiteliociste causa um quadro semelhante, entretanto é causada por organismos semelhantes à Chlamydophila spp. O tratamento com cloranfenicol parece ser efetivo. Melanomas e neuroblastomas parecem estar associados a algumas viroses e peixes do gênero Xiphophorus são bastante propensos a desenvolver. Relatos de fibroma em Pterophyllum sp. parecem estar associados à infecções por retrovírus. Outras neoplasias, entretanto, não possuem agentes etiológicos associados. Odontomas surgem como tumorações ao redor da boca. Eritroforomas podem afetar os olhos, cobrindo completamente a córnea. Em alguns casos pode ser necessária uma ceratotomia e tratar como úlcera de córnea. Linfossarcomas se apresentam inicialmente como nódulos na pele, entretanto, podem prosseguir com necrose deste tecido. Raramente lesões internas podem ocorrer. Outros relatos de neoplasias incluem fibroma, papilomas, adenoma, adenocarcinoma e mesotelioma Um tratamento disponível para tentar utilizar em tumores acessíveis à manipulação é o debridamento cirúrgico seguido pela injeção de cisplatina diretamente na massa tecidual, semanalmente. Outras doenças Alguns animais podem ser bastante sensíveis ao estresse causado pela captura e manejo, em especial os tubarões. A grande utilização do metabolismo anaeróbio nessas situações estressantes promove o acúmulo de ácido lático, que causa a diminuição do pH do animal, gerando um quadro de acidose metabólica. O bócio é uma condição caracterizada pelo aumento da glândula tireoide, normalmente visível, uma condição comum em tubarões e raias mantidos em cativeiro com sistemas de filtração fechados que utilizam ozônio. Pode levar a morte se não for tratado da forma correta. A etiologia dessa doença não é somente a deficiência de iodo, mas também envolve outros fatores ambientais, como parâmetros bioquímicos da água (alguns componentes, como o nitrato, quando em excesso podem inibir a absorção do iodo) e elevados níveis de ozônio (que alteram a quantidade de iodo disponível). O tratamento do animal afetado pode ser realizado com a suplementação de iodeto de potássio 10 a 30mg/kg por semana e correção de outros fatores ambientais. Eventualmente é necessária a realização da alimentação forçada. Para a prevenção, os níveis de iodo podem ser mantidos próximos a 0,06mg/L e o nitrato abaixo de 10mg/L (MARANHO; BALDASSIN, 2014). 73 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III A supersaturação da água com gases em pressões acima da atmosférica pode causar uma condição conhecida como a Doença da Bolha de Gás. Animais acometidos apresentam olhos protuberantes e pequenos êmbolos gasosos na pele e nadadeiras. Raramente causa a morte dos animais afetados se houver a correção do problema. A água de poços profundos pode ter altos níveis de gás carbônico e nitrogênio. O mau funcionamento de bombas de oxigenação em aquários também é capaz de causar um excesso de gás oxigênio. Doenças da bexiga natatória causam perdas de equilíbrio e alterações no nado. Se o animal flutuar acima do nível correto, podem surgir ulcerações de pele em regiões em contato com o ar. Procedimentos similares à pneumocentese são capazes de promover um alívio temporário nesses casos, embora ocorram recidivas. A utilização de contrapesos estéreis dentro da cavidade celomática também pode ser útil. Se a origem for bacteriana é necessária a administração de antibióticos. Se a causa for por torção de bexiga natatória, pode ser necessária correção cirúrgica. Enterites agudas, com formação de gás no intestino podem mimetizar essa doença. Neste caso, alimentar os animais com alimentos ricos em fibra parece ser útil. Algumas lesões traumáticas também ocorrem em peixes. Animais que possuem o hábito de saltar podem se lesionar batendo na tampa ou aparato de iluminação. Lesões de pele podem ocorrer pela manipulação de forma inadequada, bem como por períodos elevados fora da água. Brigas ocasionadas por animais territorialistas ou em densidade populacional elevada também tem potencial de causar abrasões na pele ou nadadeiras. Diversos materiais são atrativos visualmente aos peixes, podendo se tornar corpos estranhos. Em peixes dourados, é comum a ingestão de cascalho. O tratamento pode ser feito por remoção manual, mas frequentemente requer procedimentos cirúrgicos. A doença do rim policístico afeta principalmente peixes-dourados (Carassius auratus). Essa condição causa uma distensão abdominal, podendo causar dificuldades de natação. Aparenta possuir origem genética e não é descrito tratamento efetivo. Em alguns animais pode ocorrer retenção de ovos. Nesses casos, é observada pronunciada distensão abdominal de forma simétrica. Temperaturas inadequadas, assim como carência de machos de tamanho suficiente e sexualmente ativos, podem contribuir paraessa condição. Em baiacus, cangulos e peixes-papagaio existem relatos de crescimento excessivo de dentes incisivos. Esses animais podem ter perda de peso com apetite adequado e disfagia. Como tratamento inicial pode ser necessário desgaste desses dentes, obrigatoriamente 74 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES sob anestesia. Para a prevenção, devem ser oferecidos alimentos que aumentem o desgaste normal. A exposição prolongada em níveis elevados de gás carbônico (acima de 10-20mg/L) tem sido associada a nefrocalcinose em alguns animais. Nessa condição, ocorre a formação de depósitos minerais nos túbulos renais, ductos coletores e ureteres. A doença da cabeça e linha lateral acomete alguns animais, como peixe-anjo marinho, peixe-cirurgião e tangs. Quando afetados, apresentam erosões nas fossas sensoriais e ao longo das linhas laterais, podendo envolver os músculos ao redor. A etiologia dessa doença ainda não é bem explicada, porém, acredita-se que possa estar envolvida com protozoários, deficiência de vitamina A ou algum vírus. Terapêutica Muitos medicamentos podem ser administrados na forma de banhos, curtos ou longos, adicionados à água do animal. Em algumas situações, a medicação pode ser diluída diretamente no tanque, entretanto, frequentemente é necessário isolar o animal alvo em outro viveiro (essa manipulação extra, entretanto, é capaz de causar um maior estresse). Um dos pontos negativos desse método é uma possível inativação do filtro biológico do recinto, assim como a necessidade de utilização de grandes quantidades do fármaco, principalmente em grandes recintos. O carvão ativado, frequentemente utilizado como elemento de filtração, pode interferir na eficácia de fármacos devido a sua capacidade de adsorver diversos elementos. Portanto, esse material deve ser obrigatoriamente removido do viveiro antes da utilização dessa metodologia. É possível tratar animais em viveiros água doce ou salgada dessa forma, entretanto, alguns fármacos podem ter seu efeito reduzido, principalmente em água salgada, o que pode ocorrer com tetraciclinas e sulfato de Cobre. A via oral (VO) é comumente usada, principalmente para grandes grupos. A medicação pode ser administrada junto com a ração. Um problema ocasionado por esse método é que a quantidade de fármaco ingerida pelo animal não é realmente confiável, principalmente por que frequentemente animais doentes apresentam apetite reduzido. A sondagem estomacal também pode ser realizada em animais maiores, embora possa ser bastante estressante. Para garantir a inoculação da quantidade desejada, os medicamentos podem ser administrados por via parenteral, entretanto, para isso geralmente é necessária uma estressante contenção do paciente. A pele deve ser irrigada com solução salina antes da injeção, mas em hipótese alguma deve ser feita desinfecção com álcool para evitar lesão 75 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III à pele do animal. A agulha deve ser direcionada no espaço abaixo das escamas para que estas não sejam lesionadas. Injeções subcutâneas (SC) devem ser evitadas, devido ao pouco espaço disponível. Aplicações intramusculares (IM) são as mais realizadas entre essas vias, as quais podem ser facilmente realizadas lateral à nadadeira dorsal. No local da aplicação pode ocorrer uma perda de escamas e, se grandes quantidades necessitarem ser inoculadas, devem ser divididas em mais de um sítio. Injeções intravenosas (IV) podem ser administradas em animais anestesiados, inoculadas nos mesmos locais utilizados para a coleta de sangue, como a veia caudal. Aplicações intracelomáticas (ICe) podem ser realizadas na linha média entre o ventre e as nadadeiras pélvicas, devendo tomar cuidado com a proximidade com os órgãos. A farmacocinética das medicações pode variar bastante de acordo com algumas propriedades. Peixes de água doce são hipertônicos (possuem mais sais) em relação ao meio e podem acabar absorvendo menos medicamento, enquanto peixes de água salgada são hipotônicos (possuem menos sais) em relação ao meio, podendo absorver mais medicamento, quando diluídos na água. A temperatura corporal do animal também é responsável por grande influência na absorção e metabolismo de fármacos. Por isso, especialmente durante um tratamento, o peixe deve ser mantido em uma faixa de temperatura ideal para a espécie. Alterações nessa temperatura podem exigir um novo cálculo da dose ou intervalo de administração. Outras condições ambientais relacionadas à qualidade da água podem influenciar na disponibilidade do produto, logo, o ambiente deve ser constantemente monitorado. A utilização dos diversos fármacos deve sempre ser acompanhada de um diagnóstico e prescrição, respeitando a dose para determinada espécie. Todas as lesões de pele devem ser avaliadas quanto à profundidade e grau de contaminação. A higienização do local pode ser realizada com clorexidina diluída ou solução salina estéril e, se necessário, deve ser realizado debridamento de margens para a exposição de uma superfície limpa. Quando não for possível a sutura, lesões podem ser cobertas com curativos líquidos a base de cianoacrilato para ajudar a reduzir a contaminação secundária e formar uma barreira osmótica parcial. É importante o acompanhamento do paciente, visto que alguns animais podem desenvolver alergias a estes componentes. Antibióticos A seleção de antibióticos (Tabela 2) para um determinado tratamento deve seguir uma série de critérios a fim de evitar o uso descontrolado destes fármacos. Entre eles, podemos citar a necessidade de conhecer o patógeno e sua sensibilidade ao medicamento por meio de um antibiograma. O antibiótico também deve atingir somente o agente e matar 76 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES somente ele, sem afetar adversamente os outros indivíduos que compõem a fauna e flora do viveiro. É importante ter em mente que antibióticos utilizados na forma de banhos ou VO podem causar a inativação do filtro biológico do recinto. Tabela 2. Doses dos principais antibióticos utilizados na medicina de peixes ósseos (*) e elasmobrânquios (**). Fármaco Dose Via Frequência Amicacina 2,5-3mg/kg ** IM Cada 24h, por 5 dias ou a cada 72h, por 3 dias Ampicilina 10mg/kg ** VO, IM Cada 24h Canamicina 20mg/kg * VO Cada 24h, por 7 dias 50mg/L * Banhos Cada 48h, por 4 vezes 750mg/L * Banhos Cada 24h, por 7 dias Ceftazidima 20mg/kg ** IM, ICe Cada 72h, por 10-15 dias Cloranfenicol 50mg/kg ** IM Uma vez, depois dividir a dose e fazer cada 24h 20mg/kg ** IM Cada 48h, por 10 dias 50mg/kg ** VO Cada 48h, por 10 dias Enrofloxacino 5-20mg/kg * IM – 7,5mg/kg ** VO, IM, ICe Cada 24h 10mg/kg ** VO Cada 48h, por 5 dias 2,5mg/L * Banhos Por 5h, cada 24h 100mg/kg * VO Cada 24h, por 10 a 20 dias Eritromicina 100mg/kg *,** VO. IM Cada 24h, por 14 dias Marbofloxacina 5mg/kg * – Cada 24h, por 3 dias Neomicina 20mg/kg * VO Cada 24h Oxitetraciclina 55-75mg/kg *,** VO Cada 24h, por 10 dias 25mg/kg ** IM, ICe Cada 24h, por 5-7 dias Sulfadimetoxina + Ormetoprim 50mg/kg * VO Cada 24h, por 5 dias Sulfa + Trimetropima 2mg/kg ** Banhos Por 5-12h, cada 24 h, por 5-7 dias Fonte: Cheeran (2004); Jepson (2011); Maranho e Baldassin (2014). Antifúngicos Tabela 3. Doses dos principais antifúngicos utilizados na medicina de peixes ósseos (*) e elasmobrânquios (**). Fármaco Dose Via Frequência Cetoconazol 5mg/kg * VO cada 24h 2,5-10mg/kg ** VO, IM, ICe – Itraconazol 1-10mg/kg *,** VO cada 24h, por 1-7 dias Miconazol 10-20mg/kg ** VO, IM, ICe – Fonte: Jepson (2011); Maranho e Baldassin (2014). 77 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III Antiparasitários Alguns antiparasitários (Tabela 4) devem ser utilizados com cuidado na medicina de peixes, como ivermectina, cloridrato de quinina e praziquantel, os quais podem ser tóxicos para algumas espécies. Permanganato de potássio é capaz de danificar as brânquias de animais que receberem repetidas administrações. Ácido acético glacial pode ser fatal para animais mais fracos. Cloramina T deveser usada em doses menores em água mole (com baixos valores de dureza). Tabela 4. Doses dos principais antiparasitários utilizados na medicina de peixes ósseos (*) e elasmobrânquios (**). Fármaco Dose Via Frequência Ácido acético glacial 8ml/galão * Banhos Por 30 a 45 segundos Amprólio 10mg/L * Banhos Por 7 a 10 dias Azul de metileno 60mg/kg * VO Cada 24h, por 4 dias Cloramina T 5-10mg/L * Banhos – Cloridrato de quinina 10-20mg/L * Indefinidamente Fenbendazol 20-25mg/kg * VO Cada 24h, por 3 a 5 dias 35-125mg/kg * VO Cada 24h, por 3 dias 10mg/kg ** IM, VO Cada 24h, por 10 dias 1mg/L * Banhos Por 1h Formalina 2ml/l * Banhos Por até 1h 15-25mg/L * Banhos – Fumagilina 1g/kg de alimento * VO Por 10 a 14 dias Iefenuron 0,088mg/L * Banhos Dose única Itraconazol 1-5mg/kg * VO Por até 7 dias Levamisol 2mg/L * Banhos Por até 24h Mebendazol 20mg/kg * Por 3 vezes, em intervalos de 7 dias Metronidazol 50mg/kg *,** VO Cada 24h, por 5 dias * / cada 48h por 3 dias ** 5-7mg/L * Banhos Dias alternados, por 3 tratamentos Permanganato de potássio 10mg/L * Banhos Por 5 a 60 min Piperazina 2,5mg/g * VO – Praziquantel 10mg/kg * VO – 400mg/100 g alimento * VO Por 7 dias 15-20mg/L * Banhos Por 1 a 2h 10mg/L * Banhos Por 3h 2mg/L ** Banhos Sulfonamidas 30mg/kg * IM Cada 24h, por 7 a 10 dias 30mg/kg * VO Cada 24h, por 10 a 14 dias Toltrazuril 30mg/L * Banhos Por 60 minutos em 3 dias alternados Triclorfon 0,25mg/L * Banhos – Fonte: Cheeran (2004); Jepson (2011); Maranho e Baldassin (2014). 78 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Outros fármacos A analgesia deve ser fornecida se um procedimento doloroso for realizado. Acetazolamida pode afetar temporariamente a visão e o equilíbrio. Tabela 5. Doses de fármacos utilizados na medicina de peixes ósseos (*) e elasmobrânquios (**). Fármaco Dose Via Frequência Acetazolamida 2-3mg/kg * IM Cada 24h, por 5 a 7 dias 2-4mg/L * Banhos Por 3 dias Adrenalina (1:1000) 0,2-0,5ml ** IM, ICe, IV – Atropina 0,1mg/kg ** IM – Butorfanol 0,05-0,5mgkg * IM – Cetamina 12-16,5mg/kg ** IM – 66-88mg/kg ** IM – Cetoprofeno 2mg/kg ** IM, ICe – Dexametasona 1-2mg/kg ** IM, ICe, IV – Doxapram 5mg/kg ** ICe, IV – Eugenol 2,5-15mg/L ** Banhos – 25-30mg/L ** Banhos – Furosemida 2-3mg/kg ** IM, ICe – HCG 700-1000UI/kg * IM – Iodeto de Potássio 10-30mg/kg * VO Semanalmente Meloxicam 0,1mg/kg ** VO Cada 24h, por 7 dias MS-222 3-10mg/100 ml * Banhos – Prednisolona 1mg/kg ** IM, ICe, IV – Ranitidina 2mg/kg ** VO Cada 24h, por 10 dias Sal marinho 1-3g/L * Banhos – Xilazina 6-7,5mg/kg * IM – 0,1-1,25mg/kg ** IM – Fonte: Cheeran, 2004; Jepson, 2011; Maranho e Baldassin, 2014. Cirurgia Procedimentos cirúrgicos em peixes não são comuns, principalmente devido às poucas enfermidades que necessitam exclusivamente desses procedimentos, mas também às dificuldades que os acompanham. Consequentemente, poucos procedimentos já foram realizados e documentados. 79 MEDICINA DE PEIXES │ UNIDADE III A desinfecção do campo cirúrgico geralmente não é realizada devido à elevada fragilidade da pele desses animais, tanto pela manipulação vigorosa quanto pela utilização de desinfetantes tópicos. Dessa forma, geralmente a pele é preparada apenas com uma delicada remoção do muco da camada mais externa. Embora sejam possíveis, cirurgias realizadas dentro da água possuem uma série de limitações, como a maior propensão à infecção secundária ou a difícil visualização do campo cirúrgico. Dessa forma, os relatos se agrupam em procedimentos realizados fora da água. Devido ao tamanho diminuto da maioria das espécies, costuma ser necessária a utilização de equipamentos de cirurgias oftálmicas. Nos peixes que possuem escamas, estas devem ser cuidadosamente removidas do local de incisão com a utilização de pinças. Hemorragias geralmente não são um problema, mas, se necessário, pode ser utilizada adrenalina tópica. Diversos tumores já foram descritos em peixes, mas geralmente são removidos somente quando afetam o comportamento normal do animal, como em situações que causam dificuldades para comer, respirar, nadar ou quando ulcerados e hemorrágicos. Outros procedimentos mais realizados incluem o debridamento de úlceras, remoção de corpos estranhos e enucleação. Frequentemente as suturas podem não ser possíveis ou práticas, principalmente devido à falta de elasticidade na pele desses animais, sendo também comum a cicatrização por segunda intenção, com frequente utilização de curativos líquidos a base de cianoacrilato. Quando utilizadas, suturas devem ser realizadas com monofilamentos e agulhas não traumáticas devido ao tamanho reduzido dos pacientes e fragilidade do tecido. A escolha entre fios absorvíveis ou não absorvíveis geralmente é de cunho pessoal. É comum a perda de nós externos de suturas, o que pode ser evitado aplicando uma gota de adesivo também a base de cianoacrilato. Quando fios não absorvíveis são utilizados, a remoção pode variar de acordo com a velocidade da cicatrização da ferida, influenciada por diversos fatores, mas geralmente entre 4 a 8 semanas (WILDGOOSE, 2000). Após o procedimento cirúrgico é indicado o acompanhamento do animal em um recinto separado de outros, se possível. O isolamento permite a fácil visualização e acompanhamento do paciente. Como estes procedimentos não costumam ser estéreis pode ser necessária a utilização de antibióticos de forma profilática. A utilização de analgésicos pós cirúrgicos ainda é discutida nestes animais, entretanto, autores já relataram a utilização de butorfanol para este fim (LEWBART et al., 1998). 80 UNIDADE III │ MEDICINA DE PEIXES Cirurgias em peixes ainda são pouco exploradas, entretanto, mais informações podem ser obtidas no artigo Fish surgery: an overview de Wildgoose (2000), disponível em: researchgate.net/profile/Matt_ Longshaw/publication/224940876_Myxosporidiosis_of_fish_and_the_ bryozoan_link_with_proliferative_kidney_disease_PKD_of_salmonids/ links/0912f50b61c6fa228f000000.pdf#page=31. Eutanásia A eutanásia de peixes pode ser realizada com diversos agentes anestésicos, desde que em doses elevadas. MS-222 pode ser utilizado na forma de imersão, mas ainda devem ser tomados cuidados para tamponar essa solução e evitar a agonia do animal. Benzocaína e eugenol também podem ser utilizados da mesma forma. Anestésicos intravenosos como propofol, etomidato e metomidato também podem ser utilizados, assim como inalatórios, seguido de outro método para assegurar a eutanásia. Em alguns casos, a anestesia pode ser induzida com agentes à base de água e a eutanásia pode ser realizada por injeção ICe de pentobarbital. 81 UNIDADE IVASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS CAPÍTULO 1 Classificação Classificação, habitat e nomenclatura Os Tetrapodas são vertebrados invasores do meio terrestre, originados da linhagem de peixes ósseos Sarcopterygii. Atualmente, entre os tetrápodes podemos encontrar quatro classes, caracterizadas pelos anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Etimologicamente, a definição da palavra anfíbio é de origem grega, traduzida como “ambas vidas” ou “vida dupla”. É dito que estes animais não foram capazes de conquistar totalmente o ambiente terrestre devido à necessidade de água para a reprodução. A classe Amphibia possui mais de 6.000 espécies descritas, divididas em três ordens bastante distintas. A ordem Anura (Figura 15) é a maior e mais diversa, na qual encontramos os animais popularmente classificados como sapos, rãs e pererecas. Os sapos são animais com a pele de aspecto opaco, frequentemente com grandes glândulas parotoides localizadas atrás dos olhos. Rãs, por outro lado, possuem a pele brilhante e úmida. As pererecas são geralmente arborícolas, com membros mais alongados e discos aderentes nas extremidades dos dígitos. Todos os anuros são dotados de quatro patas bem desenvolvidas, principalmente as posteriores, devido às adaptações para o salto, além de uma cauda ausente quando adultos. Estes animais são frequentemente encontradosem locais úmidos, próximos à coleções de água como lagoas e riachos. É importante lembrar que estes nomes populares, podem ser falhos quanto à classificação filogenética ou ecologia do animal. 82 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS Figura 15. Alguns exemplos de anuros. A – Sapo-cururu (Rhinella icterica); B – Rã-manteiga (Leptodactylus latrans); C – Perereca-de-banheiro (Scinax fuscovarius). Fonte: https://www.flickr.com/photos/cdtimm/11672360794; http://ardobrasil.blogspot.com/2011/05/leptodactylus-latrans- steffen-1815.html; http://www.faunaparaguay.com/scinaxfuscovaria.html. Na ordem Caudata ou Urodela são encontradas as salamandras (Figura 16) e os tritões, os quais ocorrem principalmente na América do Norte. Indivíduos dessa ordem possuem um corpo e cauda alongados, assim como quatro membros de tamanhos similares, os quais podem ser reduzidos em algumas espécies. Estes animais podem ter hábitos completamente aquáticos ou terrestres. No Brasil existem poucas espécies, restritas a regiões de floresta Amazônica. Figura 16. Axolote (Ambystoma mexicanum), salamandra de hábitos aquáticos. Fonte: Mercader e Serras (2018). Por último, a ordem Gymnophiona ou Apoda é composta pelos animais chamados de cecílias ou cobras-cegas (Figura 17), os quais ocorrem principalmente em regiões tropicais. Estes animais possuem um corpo alongado e dividido em anéis, além de não possuírem membros e terem cauda e olhos reduzidos. O tamanho entre pode ser bastante variado, com espécies medindo menos de 10 centímetros e outras podendo chegar a incríveis 1,5 metro. Geralmente possuem hábitos fossoriais, o que contribui para a sua pouca visualização, porém, há espécies aquáticas. 83 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV Figura 17. Cecília (Siphonops annulatus), indivíduo da ordem Gymnophiona. Fonte: https://www.flickr.com/photos/renato_gaiga/6875900748. Como o ciclo destes animais é intimamente ligado a cursos d’água, principalmente durante a fase larval, a maioria das espécies é encontrada próxima a áreas úmidas e alagadas, com exceção de algumas capazes de sobreviver em desertos. Não são descritas espécies capazes de sobreviver à vida em água salgada. Anfíbios podem ocorrer em todos os continentes, com exceção da Antártida, embora ocorram preferencialmente em regiões tropicais. Fases do desenvolvimento De uma maneira geral, estes animais iniciam a vida na água e passam a fase adulta na terra. Da eclosão do ovo em meio aquático, são originadas as larvas (também chamadas de girinos), com um corpo alongado, sem membros e com cauda (Figura 18). Algum tempo após, é iniciado o processo de metamorfose, no qual ocorre primeiro com o surgimento dos membros posteriores, seguido pelos anteriores, reabsorção da cauda e brânquias, finalizando com o desenvolvimento de pulmões. Depois dessas etapas, é dito que o animal é adulto. Salamandras, por outro lado, podem realizar uma metamorfose incompleta, mantendo uma morfologia similar à larval durante toda vida adulta. Ainda, embora incomum, existem espécies de anfíbios em que não eclodem como girinos do ovo, mas sim como uma miniatura do animal adulto, como o gênero de anuros Pristimantis (HEDGES et al. 2008). Outras variações podem ocorrer na classe, logo, generalizações devem ser feitas com cautela. 84 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS Figura 18. Esquema geral do desenvolvimento de anfíbios anuros. 1: ovos; 2 e 3: girinos; 4: anuro adulto. Fonte: elaborado pelo autor.. Em geral, animais em fase larval são menores do que quando adultos, entretanto, existem exceções como a rã-paradoxal (Pseudis paradoxa), a qual recebe esse nome devido ao seu girino poder chegar a três ou quatro vezes o tamanho do anfíbio adulto. 85 CAPÍTULO 2 Anatomia e fisiologia Para a compreensão de diversas patologias, são essenciais conhecimentos a respeito da anatomia dos anfíbios (Figura 19). Figura 19. Esquema representando a anatomia básica de um anuro. Pâncreas Baço Coração Vesícula biliar Gônada Rim Intestino Estômago Pulmão Fígado Bexiga urinária Fonte: elaborado pelo autor. Pele e estruturas anexas A pele é considerada o órgão mais importante de anfíbios, principalmente devido a sua sensibilidade e permeabilidade. É ausente de escamas e composta pela epiderme e pela derme. Na camada mais externa, a epiderme, pode ser observada uma fina camada de queratina para promover uma maior proteção e estabilidade. Na derme, por outro lado, podemos encontrar as células chamadas de cromatóforos, que contém moléculas de determinados pigmentos, assim como as glândulas mucosas, responsáveis pela lubrificação e proteção com dessecação, e serosa (ou granular), as quais produzem um veneno utilizado para a proteção contra predadores. Em anuros existe uma significativa 86 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS camada subcutânea, capaz de reter uma grande quantidade de líquidos em situações fisiológicas e patológicas. Em caudatos e ápodes essa camada é praticamente inexistente, o que significa que possuem a derme fortemente aderida à musculatura. Devido à presença das glândulas serosas distribuídas pelo corpo, pode se dizer que todos os anfíbios produzem veneno. Estes compostos, no entanto, possuem diferentes níveis de toxicidade, sendo usualmente inofensivo para o homem, com algumas exceções como anuros da família Dendrobatidae. Em algumas regiões do corpo podem ocorrem um agrupamento dessas glândulas, formando uma macroglândula, estrategicamente localizadas a fim de proteger o animal contra predadores. As glândulas parotoides podem ser observadas em algumas espécies de anuros e salamandras, principalmente em bufonídeos, dispostas em par em uma região posterior aos olhos (Figura 20), liberando um conteúdo de aparência leitosa. As glândulas paracnêmis ou tibiais são observadas em bufonídeos, localizadas na região posterior da tíbia. As glândulas lombares e inguinais também ocorrem em par em uma região posterior ao sacro, observada em alguns anuros da família Leptodactylidae, frequentemente com um aspecto semelhante a olhos. Outras glândulas menos estudadas incluem as hedônicas, presentes em caudatos, e a peitoral encontradas em alguns anuros (TOLEDO; JARED, 1995). De uma forma geral, o animal deve ser comprimido ou mordido pelo predador para a liberação desse conteúdo, que pode ser rapidamente absorvido pela mucosa. Entretanto, uma espécie de bufonídeo chamada Rhaebo guttatus é conhecida por ser capaz de voluntariamente esguichar o veneno das suas glândulas parotoides ao se sentir ameaçado, o que pode ter sido a origem do mito que acusa todos os anuros de realizar esse comportamento (MAILHO-FONTANA et al., 2014). Figura 20. Aumento de volume na região posterior aos olhos em Rhinella icterica, caracterizada pela glândula parotóide. Fonte: elaborado pelo autor.. Nasal 87 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV camada subcutânea, capaz de reter uma grande quantidade de líquidos em situações fisiológicas e patológicas. Em caudatos e ápodes essa camada é praticamente inexistente, o que significa que possuem a derme fortemente aderida à musculatura. Devido à presença das glândulas serosas distribuídas pelo corpo, pode se dizer que todos os anfíbios produzem veneno. Estes compostos, no entanto, possuem diferentes níveis de toxicidade, sendo usualmente inofensivo para o homem, com algumas exceções como anuros da família Dendrobatidae. Em algumas regiões do corpo podem ocorrem um agrupamento dessas glândulas, formando uma macroglândula, estrategicamente localizadas a fim de proteger o animal contra predadores. As glândulas parotoides podem ser observadas em algumas espécies de anuros e salamandras, principalmente em bufonídeos, dispostas em par em uma região posterior aos olhos (Figura 20), liberando um conteúdo de aparência leitosa. As glândulas paracnêmis ou tibiais são observadas em bufonídeos, localizadas na região posterior da tíbia. As glândulas lombarese inguinais também ocorrem em par em uma região posterior ao sacro, observada em alguns anuros da família Leptodactylidae, frequentemente com um aspecto semelhante a olhos. Outras glândulas menos estudadas incluem as hedônicas, presentes em caudatos, e a peitoral encontradas em alguns anuros (TOLEDO; JARED, 1995). De uma forma geral, o animal deve ser comprimido ou mordido pelo predador para a liberação desse conteúdo, que pode ser rapidamente absorvido pela mucosa. Entretanto, uma espécie de bufonídeo chamada Rhaebo guttatus é conhecida por ser capaz de voluntariamente esguichar o veneno das suas glândulas parotoides ao se sentir ameaçado, o que pode ter sido a origem do mito que acusa todos os anuros de realizar esse comportamento (MAILHO-FONTANA et al., 2014). Figura 20. Aumento de volume na região posterior aos olhos em Rhinella icterica, caracterizada pela glândula parotóide. Fonte: elaborado pelo autor.. Nasal Você sabe a diferença entre um animal peçonhento e um venenoso? Peçonhentos são aqueles animais capazes de injetar a sua toxina por meio de aparatos especializados, como as presas das serpentes peçonhentas, enquanto venenosos não os possuem, liberando este conteúdo de forma passiva, como anfíbios e suas glândulas de veneno. Outras particularidades podem ser encontradas relacionadas à pele. O processo de ecdise (muda de pele) pode ocorrer em um animal saudável, entretanto, esse hábito não aparenta estar relacionado ao crescimento, como em répteis, e dificilmente é observado devido à queratofagia (ingestão de resquícios de pele). Existe também uma porção de pele na região ventral dos membros inferiores de anuros que possui uma alta capacidade de absorção de líquidos devido à alta vascularização, o que é útil ao administrarmos medicações na forma de banhos. Algumas particularidades podem ser observadas em alguns animais, como os pertencentes à família Centronelidae, que possuem uma maior transparência na pele, principalmente na porção ventral, pela qual é possível visualizar estruturas internas (Figura 21). Figura 21. Rã-de-vidro, Hyalinobatrachium bergeri. Fonte: Catenazzi et al. 2013. Sistema musculoesquelético Anfíbios possuem um endoesqueleto composto principalmente por ossos (Figura 22), mas também algumas estruturas de cartilagem. Com exceção dos ápodes, estes animais possuem quatro membros, com tamanhos similares em caudatos e com os posteriores maiores em anuros. Os ossos rádio e ulna são fundidos, conhecido como radioulna, assim como a tíbia e fíbula, chamado de tibiofibula. Os membros possuem quantidades variáveis de falanges dependendo da espécie, mas geralmente são quatro em cada membro anterior e cinco no membro posterior. Algumas espécies possuem um aparato 88 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS conectado ao osso hioide adaptado para ejetar a língua e capturar a presa. Anuros possuem coluna vertebral fundida, enquanto caudatos e cecílias têm as vértebras mais diferenciadas, podendo chegar a quase 300 nos ápodes. Alguns animais ainda possuem pigmentos que resultam em uma coloração azulada aos ossos, como Phrynohyas resinifictrix ou esverdeados, como algumas espécies da família Centrolenidae. Figura 22. Esquema representando o esqueleto da rã-touro, Lithobates catesbeianus. Nasal Pré-maxilares Narina Parasfenoide Exoccipital Proótico Cápsula auditiva Maxilar Pterigoide Supra-escápulas Frontoparietal Falanges Metacarpo Carpo Pré-pólux Rádioulna Úmero Esquamosal Coracoide Epicoracoide Mesosterno Fêmur Tibiofíbula Astrágalo Calcâneo Uróstilo Ílio Ísquio Tibiofíbula Xifisterno Pré-hálux Escápula Clavícula Vértebras sacrais Fonte: Hickman et al. 2000. Estes animais possuem somente uma cavidade, a celomática. Isso ocorre devido à ausência do músculo diafragma, responsável por dividir as cavidades abdominal e torácica nos mamíferos. Algumas salamandras e girinos possuem a capacidade de regenerar membros e cauda. Respiração De uma forma geral, anfíbios respiram por meio de pulmões na fase adulta e por brânquias na fase larval. Quando adultos, estes animais possuem uma traqueia curta e um par de pulmões bastante simples, sem dobras e geralmente sem alvéolos. Devido à ausência de diafragma, necessitam da pressão formada pela boca para a sucção do ar. Em situações em que a ventilação mecânica possa ser necessária nesses animais, ela deve ser conduzida com cuidado a fim de evitar ruptura deste tecido. Existem exceções, 89 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV em todas as classes nas quais não são observados pulmões, como é o caso a família de salamandras Plethodontidae. Na fase larval a via utilizada é a respiração branquial, com um sistema bastante similar ao realizado por peixes. Em algumas espécies de caudatos aquáticos esse órgão se mantém durante a vida adulta para realizar as trocas gasosas. A respiração cutânea existe em diferentes graus de importância em todos os membros da ordem. Dessa forma, a pele pode ser o órgão primário ou secundário para a respiração destes animais. Sistema cardiovascular Em comparação com os peixes, anfíbios possuem um sistema circulatório mais complexo. Esse sistema é considerado fechado, pois o sangue percorre por dentro de vasos sanguíneos, duplo, já que ocorrem duas passagens pelo coração para completar um ciclo e incompleto, visto que há a mistura de sangue venoso e arterial. O coração é dotado de três câmaras, o que inclui dois átrios (em anfíbios sem pulmão somente há um átrio) e um ventrículo. O sangue oxigenado vindo pulmões entra no átrio esquerdo pela veia pulmonar (Figura 23), enquanto o sangue com baixa tensão de oxigênio originado da pele e dos tecidos entra no átrio direito. Ambos os átrios bombeiam para o ventrículo, onde ocorre uma certa mistura. Em seguida o sangue é bombeado para o corpo por meio das artérias sistêmicas e pela artéria pulmocutânea para novas trocas gasosas. A frequência cardíaca de anfíbios tropicais no verão geralmente se situa entre 30 e 50 bpm (ICMBio, 2018). 90 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS Figura 23. Estrutura do coração de anfíbios pulmonados. Setas vermelhas representam o fluxo do sangue oxigenado e setas azuis do sangue desoxigenado. Artéria carótida Átrio direito Válvula espiral Artéria pulmocutânea Ventrículo Átrio esquerdo Arco aórtico Fonte: elaborado pelo autor. Estes animais, assim como os peixes, possuem um sistema venoso porta-renal, que garante a perfusão renal durante períodos em que o fluxo sanguíneo possa estar diminuído. Por esse mecanismo, pode ocorrer a drenagem do sangue da cauda (se presente) e dos membros inferiores diretamente aos rins antes de prosseguir para o coração. A forma como esse mecanismo atua ainda não se encontra bem elucidado e pode ser influenciado por diversos fatores, como o estado de hidratação do animal, temperatura, doenças e outros estressores. Mesmo assim, medicações injetadas em regiões caudais podem ter sua cinética alterada ou, se potencialmente nefrotóxicas, causar lesão renal. O sistema linfático destes animais é bastante desenvolvido. Além dos vasos linfáticos e linfonodos, possuem estruturas pulsáteis chamadas de corações linfáticos, que são alargamentos dos vasos linfáticos capazes de bater a aproximadamente 50 bpm, de forma independente do batimento cardíaco. O principal coração linfático de anfíbios é localizado dorsalmente à cloaca. Sistema digestório e órgãos anexos O trato digestivo destes animais é diretamente relacionado ao estágio biológico em que se encontram. Larvas geralmente possuem aparelhos filtradores, enquanto adultos apreendem o alimento com a língua e ingerem por inteiro. Quando adultos, estes animais podem apresentar dentes no formato de um fraco serrilhado (ausentes na família Bufonidae), porém, não possuem função de mastigação. A língua nestes animais 91 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV é uma estruturacom uma substância pegajosa, capaz de realizar movimentos ágeis e fixada normalmente na porção rostral da cavidade oral. Após a ingestão, o alimento é direcionado ao estômago e posteriormente ao intestino. Este órgão, nas larvas, é longo devido ao seu comportamento herbívoro. Nos anuros possui um tamanho característico de animais carnívoros, sendo bastante curto. Por fim, o intestino dos anfíbios termina em um compartimento único denominado cloaca. Não é incomum ver insetos não digeridos, ossos, ou fibras vegetais em fezes destes animais. Possuem um grande fígado, capaz de ocupar grande parte da cavidade, com uma coloração variável de acordo com a espécie, assim como vesícula biliar, capaz de armazenar bile. O pâncreas também é presente, produzindo hormônios como a insulina. Sistema excretor Em anfíbios esse sistema é principalmente responsável pela excreção de compostos nitrogenados e osmorregulação, caracterizado por um par de rins (dotados de néfrons com grandes glomérulos e ausentes de alças de Henle), assim como ureteres e bexiga urinária. Os rins desses animais não são capazes de concentrar os solutos da urina em concentrações acima das do plasma, o que ocorre na maioria das espécies de vertebrados. Por esse motivo, a bexiga urinária, que é o órgão responsável por armazenar o conteúdo drenado, se mantém constantemente reabsorvendo parte dos líquidos presentes nela. Este órgão pode apresentar diferentes formatos de acordo com a espécie, variando entre ovaladas a bilobadas, sempre desembocando na cloaca. De acordo com a espécie trabalhada, os compostos nitrogenados podem ser excretados por três produtos diferentes do catabolismo proteico: amônia, ácido úrico ou ureia. Usualmente, anfíbios aquáticos excretam amônia (amoniotélicos) por poderem liberar grandes quantidades de água em uma urina pouco concentrada, visto que esse composto possui elevada toxicidade. Estes animais também podem excretar ureia (ureotélicos), como a maior parte dos anuros, os quais possuem um frequente contato com a água. O ácido úrico (uricotélicos) pode ser a principal forma de excreção em algumas espécies de pererecas, geralmente quando a frequência de contato com a água é menor e há a necessidade de reter uma maior quantidade de líquidos. 92 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS Anuros, quando contidos, contam com um método de defesa caracterizado pela liberação de urina na forma de jatos. Esse líquido, entretanto, não possui nenhuma característica tóxica, ao contrário da crença popular que acusa a urina de anfíbios de causar cegueira em humanos. Reprodução Em ambos os sexos são encontrados órgãos reprodutivos pareados (dois ovários e dois testículos). No macho, o esperma percorre dos testículos até a cloaca por meio do ducto de Wolff e nas fêmeas os folículos formados no ovário liberam ovócitos que chegam ao oviduto e são liberados pelo mesmo local. Os machos do gênero Bufo possuem o órgão de Bidder, um ovário rudimentar aderido aos testículos, o que não deve ser interpretado como hermafroditismo (PIPREK et al., 2015). A atividade das gônadas varia de acordo com o estágio reprodutivo da espécie, relacionada com a temperatura, chuva e a quantidade de horas de luz no dia, mas, devido à ectotermia, as estações reprodutivas costumam ser nas épocas mais quentes. Anuros possuem cordas vocais, estruturas mais desenvolvidas nos machos, utilizadas para a vocalização. A passagem do ar pela laringe gera sons característicos para determinadas ocasiões. Um saco, localizado na região gular, é capaz de amplificar estes sons. A vocalização é principalmente utilizada com fins reprodutivos para a corte do parceiro sexual (canto de anúncio), mas também em outras situações, como as interações agonísticas, relacionadas à luta entre os machos. Algumas espécies podem contar com estímulos visuais para a corte, como danças, observado no gênero Pipa (FERNANDES et al., 2011) e similares. A próxima etapa do acasalamento inclui o abraço nupcial, conhecido como amplexo. Este ato pode demorar por curtos ou longos períodos, no qual geralmente é seguido pela postura dos ovos pela fêmea e liberação dos espermatozoides pelo macho, que se encontram geralmente fora da cavidade corporal da fêmea. Enquanto a fertilização externa é a principal estratégia reprodutiva dos anuros, a fertilização interna ocorre em várias espécies de salamandras e cecílias. Cecílias, por exemplo, evertem a cloaca do macho para formar o falodeu, órgão capaz de depositar o esperma diretamente na cloaca da fêmea. Machos de salamandras, por outro lado, liberam uma estrutura contendo seus gametas chamada de espermatóforo, o qual é absorvido pela cloaca da fêmea, sem a utilização de um órgão copulatório. Algumas fêmeas de espécies de salamandras possuem um órgão utilizado para o armazenamento de espermatozoides chamado de espermateca. A maioria das espécies de anfíbios é ovípara, colocando ovos com um revestimento externo gelatinoso para evitar a 93 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV ressecação, geralmente ancorado na vegetação ou em ninhos, mas algumas são consideradas ovovivíparas e vivíparas. O dimorfismo sexual é incomum nestes animais, mas pode ser observado em algumas espécies de anuros e é geralmente caracterizado por diferentes cores, tamanho e a presença de espinhos, tubérculos e presas. Machos de Lithobates catesbeianus, por exemplo, possuem membranas timpânicas maiores que das fêmeas, enquanto os machos de Agalychnis callidryas são menores que as fêmeas. Existem algumas estratégias reprodutivas não usuais em anfíbios. Fêmeas de rãs marsupiais, como as do gênero Flectonotus, carregam os ovos em desenvolvimento em uma única bolsa dorsal, semelhante às fêmeas do sapo do Suriname (Pipa pipa) (Figura 24), que carregam cada ovo em um compartimento único. Machos de Phyllobates bicolor carregam girinos aderidos ao dorso e juvenis de Rhinoderma darwinii se desenvolvem na bolsa vocal do animal adulto. É relatado ainda o incomum comportamento da espécie Hyperolius viridiflavus, na qual fêmeas em determinadas situações podem tornar-se machos completamente funcionais capazes de fecundar outras fêmeas (HICKMAN et al, 2000). Figura 24. Detalhe de juvenis de sapo do Suriname (Pipa pipa) em compartimentos no dorso da mãe. Fonte: Endeneon, 2011. 94 UNIDADE IV │ ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS Sistema sensorial O sistema sensorial é composto por órgãos capazes de captar estímulos internos e externos. Anfíbios não possuem ouvido externo. A membrana timpânica, órgão responsável pela transmissão de sons para o ouvido interno, é externa, bastante desenvolvida e visível. A visão da maioria dos anfíbios é bastante desenvolvida. A íris desses animais é controlada principalmente pela musculatura estriada voluntária, portanto, o reflexo pupilar à luz geralmente é ausente. Pupilas de anfíbios podem assumir várias formas dependendo da espécie, mas geralmente são circulares quando dilatadas. Cecílias, por outro lado, são os únicos anfíbios sem pálpebras e possuem olhos bastante pequenos, sendo cegas quando adultas. O olfato de anfíbios também é desenvolvido. Odores são detectados através de receptores especializados no epitélio nasal. Os sabores, no entanto, são identificados por meio de botões gustativos presentes na boxa, língua e palato. Cecílias ainda possuem o órgão de Jacobson, similar ao de outros animais, o qual é capaz de detectar uma grande variedade de substâncias dissolvidas no ar. Anfíbios larvais possuem linha lateral, similar ao já descrito em peixes. Da mesma forma, é utilizada para a detecção de movimento na água. Após a metamorfose, ocorre a involução deste órgão. Sistema hematopoiético O baço é o principal sítio da eritropoiese, podendo ocorrer também no fígado, rim e em menor parte na medula óssea (cecílias não possuem). Animais terrestres têm medula óssea funcional, mas nela são produzidos prioritariamente linfócitos e mielócitos. Em fases larvaisdo desenvolvimento, o fígado atua como um dos mais importantes órgãos hematopoiéticos. Regulação da temperatura Todos os anfíbios são ectotérmicos, ou seja, dependem de mecanismos externos para manter e regular a temperatura corporal. A manutenção destes animais em temperaturas elevadas pode causar agitação, alterações na cor da pele, inapetência, imunossupressão e perda de peso com bom apetite, sendo frequentemente fatal em anfíbios. A hipotermia, 95 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV por outro lado, pode resultar em letargia, inapetência, inchaço (devido à decomposição da ingesta), imunossupressão e crescimento inadequado. Algumas espécies possuem particularidades como a capacidade de hibernar. Outros animais, como a rã-da-floresta (Rana sylvatica), são capazes de sobreviver a invernos rigorosos, como o do Canadá e Alasca, permitindo seu congelamento e limitando o dano celular devido aos crioprotetores naturais (como altas taxas de glicose disseminada entre os tecidos) capazes de reduzir a formação de cristais de gelo e injúria aos eritrócitos (CONLON et al., 1998). Anfíbios possuem um metabolismo lento quando comparado ao de aves e mamíferos. Devido à ectotermia, anfíbios não precisam utilizar a energia ingerida para a produção de calor, convertendo grandes quantidades em biomassa. Balanço osmótico A pele dos anfíbios desempenha um papel fundamental na homeostase, já que pode ocorrer uma significante perda de água por esse órgão. Além disso, ela também deve ser mantida úmida para que ocorra a troca de gases, principalmente nos animais que mais dependem majoritariamente da respiração cutânea. Alguns anfíbios, como pererecas, possuem glândulas que liberam uma cera, que atua revestindo sua pele para evitar a dessecação. Anfíbios com pele mais espessa, como sapos, são mais resistentes à perda de água. O adesivo pélvico da pele de anfíbios no abdome ventral pode atuar captando até 80% de líquidos. Por esse motivo, é possível reidratar os animais embebendo-os em líquidos apropriados. 96 CAPÍTULO 3 Conservação e zoonoses Conservação Anfíbios possuem uma importante função no ecossistema que habitam. Por estarem localizados na base da cadeia alimentar, são extremamente importantes para o equilíbrio ambiental como um todo. Estes animais também atuam como bioindicadores, principalmente devido ao seu contato íntimo com a água associado a uma pele extremamente permeável, podendo refletir desequilíbrios e contaminações ambientais. Seus hábitos alimentares de predação de artrópodes, principalmente daqueles considerados vetores de patógenos, podem ajudar a conter pragas e as doenças associadas. Além disso, anfíbios têm sido utilizados como fonte de alimento (principalmente a rã-touro Lithobates catesbeianus) e como base de diversas pesquisas farmacológicas. Diversos estudos recentes têm detectado declínios populacionais entre anfíbios ao redor do mundo. Os principais fatores associados incluem a perda de habitat, que gera uma contração gradual e fragmentação de populações, e a quitridiomicose, doença fúngica relacionada a diversas mortes. Entretanto, também são suficientemente impactantes as mudanças climáticas, radiação UV-B, contaminantes ambientais, áreas restritas de distribuição, caça predatória, introdução de espécies exóticas e outras doenças infecciosas, além dos declínios enigmáticos (aqueles em que a causa não foi estabelecida). Apesar destes declínios das populações, muitas espécies novas ainda estão sendo descritas. Isso ocorre devido a alguns aspectos, como a exploração de ambientes antes pouco conhecidos, a utilização de ferramentas como a biologia molecular e a reclassificação de espécies. Portanto, embora o número absoluto de espécies esteja aumentando, é importante ter em mente que o número de indivíduos diminui de forma progressiva devido ao impacto, principalmente antrópico. É estimado que centenas de espécies de anfíbios tornem-se extintas nas próximas décadas caso não ocorra uma rápida compreensão e reversão dessas causas. Desde a década de 1980, diversos declínios populacionais de anfíbios vêm sendo detectados. Acredita-se que em um futuro próximo, aproximadamente 30% das espécies conhecidas hoje podem ser extintas. Que impactos diretos ao ambiente essa redução do número de espécies e indivíduos de anfíbios poderá causar? 97 ASPECTOS GERAIS DOS ANFÍBIOS │ UNIDADE IV Zoonoses Poucos casos de transmissão de doenças zoonóticas por anfíbios já foram relatados, no entanto, deve-se ter cautela porque muitos animais albergam organismos que podem ser patogênicos para humanos. Entre eles podemos citar principalmente bactérias do gênero Salmonella, mas também Leptospira spp., Listeria spp., Edwardsiella tarda, Yersinia spp., Spirometra spp. e Escherichia coli. As espécies de micobactérias que causam doenças em anfíbios também podem ser zoonóticas e causar uma forma atípica da doença em humanos. 98 UNIDADE V CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO Doenças em anfíbios cativos ocorrem principalmente por falhas no manejo. Estudar o habitat da espécie, bem como seu comportamento usual são de bastante utilidade para o desenvolvimento de boas práticas de manejo. Os gêneros Xenopus e Lithobates são frequentemente os anfíbios mais criados em condições de cativeiro devido a sua utilização em pesquisas. Rãs-touro (Lithobates catebeianus) ainda são muito utilizadas com fins de alimentação. A manutenção de anfíbios como animais de estimação é controversa. No Brasil, não há legislação que regulamente a criação desses animais, muito menos de criadouros comerciais. Em países que permitem a criação de anfíbios como pet, podemos frequentemente encontrar animais como os axolotes (Ambystoma mexicanum), tritões-de-barriga-de-fogo (Cynops sp.) sapos-de-barriga-de-fogo (Bombina sp.), sapo- de-chifre ou pacman (Ceratophrys sp.), rela-verde (Litoria caerulea), entre outros. De forma geral, esses animais são frequentemente utilizados como ornamento, assim como peixes, já que a sua manipulação excessiva pode ser perigosa tanto para o proprietário quanto para o animal. 99 CAPÍTULO 1 Recintos Material Aquários de vidro são bastante utilizados para abrigar anfíbios por permitirem boa visualização do animal, serem relativamente baratos e reterem umidade. A principal desvantagem associada a eles é a falta de ventilação, podendo ser realizada a adaptação de uma tampa segura (a fim de evitar fugas) e com orifícios que permitam a circulação do ar. Tanques de plástico também são adequados, embora possam desenvolver certa opacidade com o tempo, prejudicando a visualização do animal. Não existe consenso para o tamanho ideal de viveiro para cada espécie, mas, dependendo do enriquecimento ambiental desejado, é esperado que sejam utilizados ambientes maiores. Para espécies arborícolas, devem ser pensados viveiros em formações verticais, altos e com galhos e plantas, a fim de prover uma maior quantidade de esconderijos. Para animais aquáticos e fossoriais, deve ser fornecido recinto com grande superfície de área horizontal. Substrato Para a maioria das espécies, é essencial que seja ofertado acesso livre a um ambiente seco. Ao considerar diferentes tipos de substratos, é importante tentar mimetizar o habitat da espécie trabalhada. Materiais pequenos, como cascalho fino e vermiculita, podem ser utilizados, mas deve ser levado em consideração que podem se tornar um corpo estranho gastrointestinal, levando à impactação se ingeridos. Uma forma de evitar isso é utilizar cascalho mais grosso ou alimentar os animais em um local separado. É importante que o substrato do solo possua pH neutro. Para animais fossoriais, deve ser mantida uma profundidade maior, de 3 a 10 cm, com substrato solto o suficiente para permitir a formação de túneis. Em geral, a substituição total do material utilizado como substrato deve ser realizada a cada dois a três meses. Quando obtidos do ambiente, como serapilheira, devem seresterilizados para prevenir a introdução de patógenos. O musgo esfagno é outro substrato útil, capaz de reter umidade e ser macio, entretanto, deve ser substituído a cada duas a quatro semanas. 100 UNIDADE V │ CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO Água Anfíbios não bebem água diretamente. A absorção de líquidos nesses animais é feita por meio da pele e dos alimentos ingeridos. Por esse motivo, deve ser ofertado um local com acesso à água à vontade, mas sempre cuidando para que esteja em condições adequadas. Água deionizada não deve ser utilizada em viveiros de anfíbios, pois pode prejudicar o equilibro osmótico do animal. A água potável, diretamente do encanamento, também não é recomendada devido à presença de cloro dissolvido. O ideal é a utilização de água destilada ou potável declorada. A troca dessa água pode ser realizada, mas deve ser feita em, no máximo, 20% do conteúdo a cada uma ou duas semanas para a manutenção do filtro bacteriano e de outros parâmetros. A água também pode ser passada por meio do carvão vegetal para remover contaminantes. Temperatura Todos os anfíbios são ectotérmicos, e, quando mantidos acima ou abaixo da temperatura ideal para a espécie, podem apresentar sinais clínicos relacionados a enfermidades. A faixa de temperatura ambiental fornecida a um anfíbio deve ser baseada na que ocorre em seu habitat. Deve-se sempre procurar manter um gradiente de temperatura no interior do viveiro, variando entre 5° e 8°C entre a área quente e fria. Lâmpadas, aquecedores de cerâmica e outros equipamentos geralmente fornecem a temperatura adequada. Esses objetos devem ser mantidos a certa distância, visando não gerar queimaduras por calor. Para evitar isso, podem ser utilizadas barreiras (como grades) para impedir o contato direto com a pele do animal. A fim de ter maior controle sobre a temperatura do local é recomendada a utilização de dois termômetros (um na área mais quente e outro na área mais fria). Umidade Para a manutenção da umidade ambiental, pode ser pulverizada água declorada no viveiro de forma manual ou automatizada. Plantas vivas utilizadas como enriquecimento ambiental também auxiliam na manutenção dos níveis adequados. A maioria dos anfíbios necessita da umidade relativa do ar acima de 70%. Iluminação Deve ser oferecido um fotoperíodo respeitando ao máximo o habitat da espécie. Em geral, 12 horas de luz em meses mais quentes e 8 horas de luz em meses mais frios 101 CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO │ UNIDADE V são o suficiente para a manutenção desses animais em cativeiro. Se o propósito é a reprodução, pode ser mimetizado o fotoperíodo do local de origem no seu período reprodutivo. Lâmpadas de espectro total são recomendadas para anfíbios para a iluminação do viveiro. Entretanto, muitas vezes, não são capazes de fornecer radiação UVB, importante para a síntese da vitamina D3, necessitando outra fonte. É importante ter em mente que raios UVB não são capazes de penetrar por meio do vidro ou plástico, assim como não conseguem ultrapassar uma profundidade maior que 45 cm de distância da fonte. A reposição das lâmpadas deve ser realizada a cada nove meses a fim de garantir sua eficácia. Enriquecimento ambiental Além dos itens básicos para a manutenção de anfíbios, é importante a introdução de acessórios que possam ser utilizados para fins de enriquecimento ambiental, visando reduzir o estresse de animais mantidos em cativeiro. Plantas artificiais de plástico podem ser usadas para decorar um viveiro e são de fácil desinfecção. Plantas vivas também podem ser usadas e oferecem o benefício de aumentar a umidade relativa do ambiente, entretanto devem ser limpas e seu solo deve ser substituído a fim de reduzir a probabilidade de contaminação com patógenos indesejados. Nesse caso, também é importante conhecer as espécies e a origem das plantas que serão utilizadas para evitar aquelas com potencial tóxico ou, até mesmo, que possuíram contato com pesticidas, visto que eventualmente artrópodes utilizados como alimento podem ingerir essas vegetações e transferir toxinas para o anfíbio predador. Ainda, se a escolha for por grandes decorações, como rochas, galhos e abrigos, deve-se tomar cuidado para que os bordos desses objetos sejam lisos para evitar lesões traumáticas e que sejam capazes de desinfecção. Devido ao ascendente comércio de anfíbios como pet, exemplos e dicas de confecção de recintos funcionais e esteticamente agradáveis (Figura 25) são de fácil acesso na internet. 102 UNIDADE V │ CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO Figura 25. Exemplo de recinto para anfíbios enriquecido. Fonte: https://www.amphibiancare.com/frogs/articles/terrariummaintenance.html. 103 CAPÍTULO 2 Qualidade da água A qualidade da água tem grande impacto na saúde dos anfíbios, especialmente dos animais aquáticos. Como há livre troca de íons pela pele dos anfíbios, a presença desses componentes na água está intimamente envolvida com esses animais. Os tratamentos para os problemas de qualidade da água geralmente envolvem melhorar os níveis de oxigênio dissolvido aerando a água e realizando trocas de água periódicas. Sempre que vários animais de um único recinto apresentarem sinais clínicos semelhantes, a qualidade da água deve ser avaliada. Anfíbios aquáticos podem exigir diferentes parâmetros químicos de acordo com o tipo de corpo d’água do qual é originário. Animais de riachos, por exemplo, costumam necessitar de maiores taxas de oxigênio dissolvido na água. Existem alguns parâmetros básicos para a maioria dos anfíbios, os quais serão discutidos adiante. Em geral, a qualidade da água pode ser mantida com critérios semelhantes aos utilizados para peixes. Oxigênio Um baixo teor de oxigênio dissolvido, principalmente com a estagnação de águas evidentes, pode forçar o animal subir à superfície em busca desse gás. Aerar a água com pedras ou bombas de ar e fazer trocas regulares geralmente são suficientes para fornecer níveis adequados. A quantidade de oxigênio dissolvido deve ser igual ou maior que 5mg/L. A quantidade de oxigênio dissolvida pode ser avaliada pelo método de Winkler ou por medidores portáteis de oxigênio. Pressão de gás Gases dissolvidos em quantidades acima da atmosférica podem supersaturar a água, causando alguns sinais clínicos característicos. Nessas situações, o gás em excesso pode ser absorvido pelos anfíbios, que podem desenvolver bolhas sob a pele, levando à embolia aérea. Essa situação ocorre geralmente quando há vazamento em alguma conexão da bomba de ar. Para a resolução, deve ser fornecido terapia de suporte e a correção da origem do vazamento. 104 UNIDADE V │ CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO pH O pH da água de viveiros deve corresponder ao necessário para a espécie trabalhada, entretanto deve se aproximar de pH neutro. Quando esse pH se torna fortemente ácido (< 5,5) ou básico (> 8,5) a água se torna bastante irritante. Animais afetados podem produzir muco em excesso a fim de proteger a pele, assim como apresentar hiperemia. Alterações de pH a longo prazo também podem causar desequilíbrios ácidos-básicos no animal. Vários kits comerciais são disponíveis para aferir e ajustar o pH do aquário, que pode ser aferido por tiras ou líquidos indicados por cores ou aparelhos eletrônicos. Amônia, nitrato e nitrito Compostos nitrogenados são liberados na água principalmente devido ao catabolismo proteico dos nutrientes ingeridos pelos animais. A filtração biológica destes compostos ocorre por meio das nitrobactérias, que removem a amônia da água ao convertê-la em nitrito e então em nitrato, um processo dependente do oxigênio dissolvido para sua manutenção. É importante conhecer esse ciclo e entender que o filtro biológico leva aproximadamente seis semanas para se estabelecer em um novo sistema. A aferição de compostos nitrogenados pode ser feita por kits comerciais ou por espectrofotometria A amônia pode ser tóxica quando acumulada em concentrações acima de 0,01mg/L naforma não ionizada na água de um viveiro. Esse composto é especialmente tóxico para os estágios larvais por ser altamente irritante para as brânquias, embora também possa causar irritação à pele e desordens renais, hepáticas e neurológicas em animais adultos. A resposta do hospedeiro inclui a produção de muco que cria uma barreira entre a água e a brânquia, reduzindo a capacidade de absorção de oxigênio. Os animais afetados também podem ser observados se esfregando contra várias superfícies ásperas devido à irritação e ao prurido gerado pela amônia, mas outros sinais clínicos podem incluir hiperemia, eritema, dispneia e mudanças de cor, podendo levar a morte. O tratamento pode ser realizado simplesmente movendo o animal para um local livre de amônia, estabelecendo um filtro biológico no viveiro primário e reduzindo a carga de amônia (por exemplo, reduzindo a alimentação ou diminuindo a densidade animal). O nitrito, embora não seja tão crítico quanto a amônia, também pode ser problemático em anfíbios e deve estar abaixo de 0,1mg/L. Assim como a amônia, pode ser facilmente absorvido pela superfície das brânquias em animais jovens. Anfíbios afetados podem desenvolver metemoglobinemia, reduzindo a capacidade de transporte de oxigênio pelos eritrócitos. Os nitratos são bem menos tóxicos para anfíbios, mas podem causar anormalidades no desenvolvimento dos girinos. Esse composto pode estar em 105 CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO │ UNIDADE V quantidades até 5mg/L na água de um viveiro de forma segura. Os tratamentos para ambas as intoxicações são semelhantes aos descritos para a intoxicação por amônia. Dureza A dureza da água é uma medida relacionada à concentração de determinados cátions como cálcio e magnésio, a qual deve estar entre 75 e 150mg/L. Baixos níveis de dureza podem resultar em deficiências nutricionais (como a doença óssea metabólica e o hiperparatireoidismo nutricional secundário) em animais em crescimento. Por outro lado, níveis elevados podem ser irritantes para os anfíbios, especialmente as cecílias. A dureza da água pode ser medida por kits comerciais ou equipamentos eletrônicos e a correção pode ser realizada com a adição de minerais ou a diluição com água deionizada. Cloro O cloro é um produto químico adicionado à água tratada para a eliminação de agentes patogênicos, entretanto, é bastante irritativo para anfíbios, devendo estar em até 2 ppm. Este componente é mais tóxico para os girinos do que os adultos. Devido a sua elevada volatilidade, sua remoção é relativamente fácil. Para a decloração, a água pode ser mantida em repouso por no mínimo 72 horas em recipiente aberto. A água também pode ser aerada com bombas de ar para aquários, que auxiliam na evaporação desse composto, ficando apropriada para a utilização em períodos mais curtos de até uma hora. Também existem agentes declorantes específicos, vendidos em lojas especializadas, como o tiossulfato de sódio. Alcalinidade Por último, a alcalinidade quantifica as substâncias capazes de neutralizar ácidos. Tal parâmetro deve estar em quantidades elevadas (entre 20 e 100mg/L) a fim de evitar mudanças bruscas no pH. 106 CAPÍTULO 3 Nutrição Para a correta alimentação do animal, deve ser levado em consideração não somente o hábito diurno ou noturno, mas também seu estágio biológico. Girinos são tipicamente herbívoros, embora em algumas espécies ocorra o carnivorismo (como em anuros da família Dendrobatidae, caudatos e cecílias). Há também espécies cujos girinos não se alimentam e sobrevivem das reservas nutritivas do ovo. Após a metamorfose, os anfíbios se tornam majoritariamente carnívoros, alimentando-se principalmente de insetos, mas também de peixes, outros anfíbios, répteis, roedores e até pássaros (qualquer animal que tenha certa mobilidade e que possua tamanho compatível a ser ingerido). Presas mortas podem ser ofertadas, entretanto animais recentemente inseridos em ambiente de cativeiro podem ter dificuldades para aceitar alimentos imóveis. Quando presas vivas forem ofertadas e houver remanescentes no recinto após o período de alimentação, é orientada a remoção do restante para evitar ataques e lesões ao anfíbio. Mecanismo Larvas de anuros se alimentam por meio da filtração. Nesse sistema, a água é ingerida e algas planctônicas são capturadas por um filtro mucoso localizado na faringe. A maioria dos anfíbios terrestres adultos utiliza a língua, dotada de uma substância pegajosa, para capturar as presas. Alguns anuros podem moldar sua língua em um tubo para ajudar na alimentação de formigas, cupins e vermes. Entretanto anuros como Pipa pipa, que não a possuem, necessitam gerar uma pressão negativa na água para capturar seu alimento. Salamandras aquáticas também capturam as presas criando um fluxo de água para o interior da cavidade oral. Anfíbios, de uma forma geral, aparentam ser bastante dependentes da visão para a alimentação, já que anorexia é frequente em animais totalmente cegos. Dieta Em geral, os animais mais oferecidos a anfíbios terrestres são as minhocas, tenébrios, traças da cera, grilos, moscas-das-frutas, pequenos répteis (por exemplo, Anolis spp.), bem como ovos e larvas de outros anfíbios. Para espécies aquáticas, também podemos utilizar algumas espécies de anelídeos e crustáceos, como lagostins e artêmias, e peixes. 107 CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO │ UNIDADE V Alguns animais têm dietas muito específicas, como a cecília Boulengerula spp., que come cupins, podendo ser difícil de manter em cativeiro. Os invertebrados utilizados como presa podem ser colocados no congelador por 15 minutos para facilitar a apreensão pelo anfíbio. Animais capturados na natureza para alimentação devem ser utilizados com cautela, visto que podem estar contaminados com pesticidas, parasitos ou serem considerados naturalmente tóxicos. Rações para peixes ou répteis não devem ser utilizadas para anfíbios, pois essas dietas podem não atender à exigência de gordura, proteínas e vitaminas dos anfíbios. O suporte nutricional de animais enfermos deve fornecer um produto de alta digestibilidade, já que esses indivíduos podem não ser capazes de digerir alimentos da mesma forma de quando saudáveis. A quantidade energética a ser ofertada para um anfíbio deve respeitar a capacidade de digestão e conforto do animal (regurgitação pode ocorrer com alimentação forçada acima da suportada pelo indivíduo). A taxa metabólica basal (TMB), ou seja, a quantidade de energia necessária para a manutenção corpórea pode ser extrapolada com as seguintes fórmulas (MITCHELL; TULLY, 2008): TMB = 5 × PESO(kg)0,75 TMB = 10 × PESO(kg)0,75 Para a alimentação forçada de animais doentes, deve ser calculado de 1,25 a 2 vezes a TMB, com certas variações espécie-específicas e de acordo com a temperatura ambiente. O monitoramento do peso semanalmente é essencial para avaliar a eficácia da estratégia de alimentação. Se houver emagrecimento mesmo com a reposição, devem ser consideradas a quantidade e o tipo de calorias, bem como a frequência de alimentação, cuidando para não sobrecarregar o paciente. Insetos podem ter suas cabeças removidas e roedores serem esfolados para aumentar a digestibilidade. Alimentos congelados são mais fáceis de digerir do que não congelados devido à lise celular. Em cativeiro, também existe uma tendência à superalimentação, podendo gerar quadros de obesidade. Larvas e pequenos anfíbios adultos devem ser alimentados diariamente, enquanto animais maiores suportam intervalos mais longos. Animais noturnos devem ser alimentados à noite ou final do dia, enquanto diurnos devem ser alimentados pela manhã e início da tarde, a fim de respeitar a característica natural da espécie. Suplementação A suplementação de dietas de anfíbios com vitaminas e minerais é uma prática questionável, já que, com uma alimentação equilibrada, a suplementação deve ser desnecessária, podendo até causar problemas (por exemplo, hipervitaminoses A e D). Infelizmente,com 108 UNIDADE V │ CRIAÇÃO DE ANFÍBIOS EM CATIVEIRO o número limitado de alimentos disponíveis comercialmente, fornecer dieta adequada é difícil. A maioria dos suplementos são constituídos de cálcio e vitamina D3 na tentativa de equilibrar a relação Ca:P (deve-se buscar 1,5:1 ou 2:1), já que grande parte dos invertebrados, com exceção das minhocas, têm uma relação inversa desses minerais. As presas podem ser “alimentadas” com vitaminas e minerais nas 24 horas anteriores a serem ofertadas para os anfíbios (mais do que 24 horas pode resultar na morte da presa). Outra maneira de aumentar o valor nutricional dos invertebrados é “pulverizar” eles com o suplemento imediatamente antes da oferta. Ao alimentar anfíbios com peixes congelados é necessário suplementar a dieta com tiamina, já que estes animais produzem tiaminases naturais. 109 UNIDADE VIMEDICINA DE ANFÍBIOS CAPÍTULO 1 Medicina preventiva Quarentena Todos os novos animais devem ser colocados em um período de quarentena antes de serem adicionados a uma coleção preexistente, visto que o transporte para um novo ambiente é sempre considerado um evento estressante, podendo desencadear doenças antes assintomáticas. Durante esse período, podem ser utilizadas técnicas de enriquecimento ambiental, com acessórios de fácil desinfecção. Também deve ser evitada a superlotação dos viveiros. A cobertura parcial do recinto pode ajudar a evitar estímulos visuais e reduzir o estresse nesses animais. Fômites não devem ser compartilhados entre diferentes viveiros, principalmente durante o período de quarentena. A quarentena deve durar de 30 a 60 dias para animais oriundos de outros cativeiros, mas deve ser prorrogada para 90 dias se os espécimes forem capturados diretamente da natureza. Informações mínimas são necessárias para realizar uma avaliação inicial dos animais em quarentena, incluindo exames físico e parasitológico de fezes (EPF) e, se possível, exames de sangue e de imagem. Os EPFs podem ser realizados de forma individual ou como um pool dos viveiros. Alguns parasitos possuem ciclos complexos, necessitando de amostras seriadas para confirmar sua presença. Para isso, um protocolo padrão pode incluir três exames coproparasitários realizados com uma semana de intervalo entre eles. Higienização Fômites e viveiros previamente utilizados por animais enfermos por patógenos infecciosos devem ser desinfetados para evitar a propagação de doenças. É necessário 110 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS remover totalmente o substrato e os detritos orgânicos previamente à aplicação dos produtos, já que muitos têm seu potencial reduzido na presença de proteínas e outros materiais orgânicos. Água quente e detergentes podem ser usados para ajudar na decomposição de orgânicos durante o processo de limpeza. Inúmeras classes de desinfetantes estão disponíveis comercialmente, cada uma com eficácia variável contra certos organismos. Amônia e alvejantes com cloro são bons sanitizantes em geral. Para a maioria dos agentes, um tempo mínimo de contato de 10 minutos é recomendado, entretanto, para organismos mais exigentes, pode ser necessário período maior. Objetos porosos devem ser descartados em vez de reutilizados, não somente pelo risco de albergarem patógenos, mas também pela dificuldade em remover completamente os produtos químicos utilizados na limpeza. Iodopovidona, clorexidina, álcool isopropílico e compostos de amônio quaternário são conhecidos por, em altas concentrações, causarem lesões de pele e serem tóxicos para anfíbios, portanto, devem ser utilizados com cautela nessas situações. Exames complementares Coleta de sangue Animais terrestres e aquáticos possuem uma quantidade de fluidos diferente no corpo, entretanto, é seguro dizer que o volume aproximado de sangue que pode ser coletado com segurança de um anfíbio sadio é de 1% do seu peso corporal (300 µl para cada 30 g de peso corporal). Em animais doentes, essa quantidade deve ser reduzida pela metade. Entre os sítios de coleta conhecidos em anuros, destacam-se as veias abdominal, safena/ femoral (Figura 26) e o plexo venoso lingual. Caudatos podem ser coletados por meio da veia caudal ventral. Em cecílias, a cardiocentese é um dos poucos locais viáveis, sendo também uma possibilidade para os outros animais da classe, embora possa ser um risco ao tecido cardíaco do animal, podendo levar à assistolia e morte. Ferramentas como o Doppler podem facilitar a localização do coração quando o ápice não pode ser visualizado. É importante ter em mente, no momento da coleta e durante a interpretação do exame, que anfíbios possuem grandes vasos linfáticos muito próximos a vasos sanguíneos, o que pode levar a uma contaminação por linfa e consequente diluição da amostra. 111 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Figura 26. Coleta de sangue de Leptodactylus latrans realizada pela veia safena. Fonte: elaborado pelo autor. Hematologia e bioquímica O sangue coletado para realização de hemograma em anfíbios deve ser armazenado em meio contendo heparina de lítio, sempre respeitando a capacidade do tubo. O anticoagulante EDTA, frequentemente utilizado para mamíferos e aves, não deve ser empregado neste caso por poder levar à lise celular. Os microtubos são bastante utilizados por possuírem quantidade de anticoagulante adequada para volumes sanguíneos reduzidos. Uma pequena quantidade de sangue, mesmo que insuficiente para um hemograma completo (eritrograma, leucograma e contagem de trombócitos), pode fornecer informações úteis, como a morfologia celular, presença de hemoparasitos, hematócrito e proteínas plasmáticas totais. Resultados de exames hematológicos e bioquímicos de anfíbios podem ser difíceis de interpretar. Diversos fatores intrínsecos e extrínsecos podem resultar em um alto grau de variabilidade entre amostras, como estágio biológico, idade, estação do ano, temperatura ambiental, dieta, entre outros. Entretanto, mesmo na ausência de valores de referência preestabelecidos, podemos muitas vezes comparar resultados de animais enfermos com os de outros indivíduos da mesma espécie, sadios e sob circunstâncias semelhantes. Por esse motivo também a morfologia celular (Figura 27) se torna um dos aspectos mais importantes do hemograma de um anfíbio. Diversas colorações podem ser utilizadas para a leitura da lâmina, como Wright, Giemsa e Panótico Rápido. 112 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS Figura 27. Leucócitos e trombócito encontrados em Leptodactylus latrans, com um fundo composto por eritrócitos. A – Trombócito (seta) e linfócito (cabeça de seta); B – Monócito; C – Neutrófilo; D – Eosinófilo; E – Basófilo. Fonte: elaborado pelo autor. Os eritrócitos de anfíbios são grandes, ovalados e nucleados, embora algumas espécies possuam eritroplastídeos (eritrócitos anucleados) em grande quantidade (como salamandras do gênero Batrachoseps). O núcleo dessas células é central e também ovalado, dotado de uma densa cromatina. Diversas inclusões podem ser observadas nessas células (Figura 28), como as causadas por vírus (como o Vírus Eritrocitário de Anfíbios), bactérias (como Aegyptianella spp.) e parasitos (por exemplo, hemogregarinas e Lankesterella spp.), detectadas frequentemente em animais clinicamente saudáveis. Outros parasitos são comuns de serem observados livre no plasma de anfíbios, como Trypanosoma spp. e diversas espécies de microfilárias. O hematócrito é altamente variável, costumando se localizar entre 20% e 40% em animais saudáveis. 113 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Figura 28. Alguns hemoparasitos encontrados em Leptodactylus latrans. A – Trypanosoma spp.; B – Dactylosoma spp.; C – Microfilária de espécie desconhecida. Fonte: elaborado pelo autor. Os trombócitos de anfíbios também são nucleados e com formato variável. Em geral, parecem semelhantes a pequenos linfócitos, sendo diferenciados pela cromatina nuclear mais densa e citoplasma, em geral, mais claro, bem como uma menor relaçãonúcleo/ citoplasma. Quando ativados, podem apresentar grande quantidade de vacúolos no seu citoplasma. Granulócitos incluem neutrófilos ou heterófilos, basófilos e eosinófilos. A função dessas células nestes animais não está plenamente estabelecida, logo, deve-se tomar cautela ao interpretar resultados como de outras espécies. Os principais granulócitos geralmente são heterófilos ou neutrófilos, o que depende da espécie de anfíbio trabalhada. Podem possuir o citoplasma levemente granular, assim como um núcleo segmentado, bilobado ou arredondado e aparentam possuir elevada atividade fagocítica contra bactérias. Eosinófilos são células grandes, com citoplasma preenchido por grânulos eosinofílicos e um núcleo paracentral. Em anfíbios, assim como em outros vertebrados, aparentemente desempenham função contra parasitos. Os basófilos são células menores, com um citoplasma repleto de grânulos basofílicos que frequentemente ocultam o núcleo. Essas células podem ter um papel semelhante a eosinófilos, tendendo a degranular rapidamente, servindo para recrutar estes eosinófilos para infecções parasitárias. Linfócitos aparentam atuar no sistema imunológico assim como em mamíferos. Os linfócitos grandes podem ser facilmente distinguidos dos monócitos avaliando sua maior 114 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS relação núcleo/citoplasma. Monócitos são células com elevada atividade fagocítica e possuem maior quantidade de citoplasma, eventualmente vacuolizado. Contagens elevadas de leucócitos, principalmente neutrófilos/heterófilos, podem ter diversas causas, como estresse e processos inflamatórios. A manipulação crônica de um anfíbio pode causar um aumento na quantidade de monócitos devido a danos ocasionados na pele. Estresse e glicocorticoides podem resultar em linfopenia e neutrofilia. Assim como em análises hematológicas, grandes variabilidades podem ocorrer na bioquímica plasmática de anfíbios de acordo com as condições no momento da coleta. A glicemia é importante para avaliar o metabolismo dos carboidratos, entretanto, pode aumentar em até 25% por causa do estresse do manuseio. Diversas doenças podem levar a lesões hepáticas, entretanto, vários autores não consideram confiáveis os valores enzimáticos obtidos em testes bioquímicos, visto que a maioria dos distúrbios hepáticos diagnosticados na necrópsia sugere que uma biópsia hepática é mais valiosa para avaliar a função deste órgão. As enzimas utilizadas geralmente para avaliar essa função em outras espécies, como gama glutamiltranspeptidase (GGT), aspartato aminotransferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT) não parecem ser suficientemente específicas para os hepatócitos em anfíbios. Os parâmetros renais usualmente utilizados também não parecem ser tão significativos nos anfíbios para avaliar a doença renal, entretanto, a aferição da ureia em animais ureotélicos pode ser útil. A enzima creatina quinase (CK) pode ser utilizada para aferir danos musculares com certa segurança. A interpretação dos resultados hematológicos é muito importante e desafiante na clínica de anfíbios. Que tal aprender um pouco mais? Leia o artigo Amphibian Hematology, de Allender e Fry (2008), disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm. nih.gov/18675729/. Efusões cavitárias e citológicas O líquido celomático em anfíbios pode estar aumentado como resultando de doenças cardiovasculares, hepáticas ou renais, portanto, é importante submeter esse conteúdo à análise. Amostras podem ser coletadas ao colocar o animal em decúbito dorsal, higienizando a área e inserindo uma agulha 25G ou 26G perpendicular à linha média, evitando a veia abdominal. Essas amostras devem ser armazenadas em tubos com heparina lítica (para a análise citológica) e sem anticoagulante (para a análise bioquímica). A coloração de efusões coletadas da cavidade celomática de anfíbios pode variar, podendo chegar a tonalidades azul-esverdeadas. 115 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Outros líquidos, como linfático e articular também podem ser coletados e analisados. O líquido linfático é semelhante bioquimicamente ao plasma sanguíneo. Os corações linfáticos podem se tornar proeminentes com hidroceloma. Para coleta de fluidos das articulações, a região deve ser preparada assepticamente e uma agulha calibre de 25 a 27G acoplada a uma seringa de 1 a 3ml pode ser utilizada. Toda anormalidade observada na pele de anfíbios deve ser investigada. Exames citológicos podem ser realizados em diversos tipos de lesões, por imprint (toque suave com a lâmina diretamente sobre a lesão), coleta com swab e por Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF). Quando coletado por PAAF, é importante que a amostra seja colhida por movimentos em “leque”, buscando um conteúdo representativo da lesão. No entanto, se não fornecerem dados úteis, é indicada a coleta de material para exame histopatológico. Lavados podem ser ferramentas de diagnóstico muito valiosas. Lavados traqueais são indicados em casos de pneumonia e podem ser obtidos no animal anestesiado infundindo um pequeno volume de solução salina estéril a 0,9% com um cateter na traqueia e recolhendo o líquido por aspiração. Deve-se tomar cuidado extra em nestes animais para não perfurar os pulmões. Da mesma forma, amostras de conteúdo estomacal obtidas por lavagem gástrica podem oferecer dicas em determinadas causas de distúrbios gastrointestinais. Lavados cloacais podem ser feitos para coletar amostras fecais de forma invasiva ao administrar uma pequena quantidade de solução salina estéril a 0,9% (0,5 a 1,0ml para cada 100g). Exame direto de pele Assim como para peixes, amostras do muco cutâneo de anfíbios podem fornecer dados úteis quanto à presença de fungos ou ectoparasitos. Este conteúdo pode ser “raspado” de forma gentil e transferido a uma lâmina para avaliação em aumentos de 100x e 400x. Coproparasitológicos Exames parasitológicos de fezes devem ser realizados rotineiramente, mantendo uma frequência anual ou bianual. Diversos métodos podem ser empregados, mas devido à pequena quantidade, devem ser priorizados o exame direto (por meio da dissolução de uma pequena porção de fezes em solução salina diretamente na lâmina) e técnicas de flutuação, como Faust (solução de Sulfato de Zinco 33%) ou Willis-Mollay (solução supersaturada de NaCl). Nos casos em que a coleta das amostras é difícil, pode ser realizada uma lavagem cloacal. 116 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS A microflora parasitológica normal de anfíbios inclui diversos agentes, e a distinção entre organismos normais e patogênicos pode ser difícil. O tratamento deve sempre ser considerado quando forem observados sinais clínicos e fezes de aparência anormal associados com uma alta carga parasitária. Sempre que leucócitos ou eritrócitos forem vistos nas fezes deve haver preocupação quanto aos danos nas mucosas. Cryptosporidium spp. não é comumente encontrado em anfíbios, mas deve ser pesquisado durante a quarentena devido ao potencial risco zoonótico (para a sua detecção, pode ser usada a coloração de Ziehl Neelsen, entretanto, possui baixa sensibilidade). Microbiologia Para coleta de materiais a campo, ou que demorarão mais de 24 horas para a semeadura, swabs como meio de transporte podem ser úteis. Para garantir o crescimento de microrganismos de anfíbios, a incubação deve ocorrer a 37°C, apesar de se originarem de um animal ectotérmico, já que bactérias patogênicas costumam crescer mais rápido em altas temperaturas. As amostras para cultura podem ser coletadas de qualquer lesão cutânea (principalmente as de natureza crônica) ou de líquido, bem como do sangue. Culturas realizadas de material de lesões cutâneas podem levar ao isolamento de organismos contaminantes, o que pode ser de difícil interpretação. Uma segunda cultura, de pele normal, pode ser realizada para comparação, embora não seja algo muito prático. A cultura de fezes geralmente não traz muitos resultados, já que Salmonella sp., Aeromonas sp. e outrasbactérias podem ser consideradas patógenos oportunistas. No caso de infecções bacterianas massivas em uma coleção de animais, pode ser considerado cultivar o solo, a comida e a água para identificar o agente causal. Diagnóstico por imagem Radiografia Várias condições podem ser facilmente identificadas usando a radiografia, como fraturas e doenças ósseas, respiratórias e gastrointestinais. Com o auxílio da radiografia odontológica é possível produzir imagens mais detalhadas e com maior qualidade de pequenos animais do que com a radiografia padrão. A radiografia digital também é capaz de produzir imagens de alta qualidade. 117 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Os animais podem ser colocados diretamente nas placas, dentro de sacos plásticos ou em caixas plásticas. Como regra para qualquer exame radiológico, sempre devem ser tomadas, no mínimo, duas posições. Em caso de suspeitas de obstrução gastrointestinal, podem ser obtidas imagens contrastadas, utilizando compostos iodados ou bário, administrados por via oral ou cloacal. Técnicas avançadas de imagem, incluindo tomografia computadorizada e ressonância magnética podem ser usadas, mas existem poucas referências de imagens para comparações e avaliações. Ultrassonografia A ultrassonografia pode ser uma ótima ferramenta para avaliar órgãos, massas anormais e acúmulo de líquidos. O maior benefício desse procedimento é poder ser feito sem anestesia. A maioria dos pacientes pode ser colocado em um meio com água para facilitar as imagens. 118 CAPÍTULO 2 Clínica de anfíbios Contenção Contenção física A fragilidade, umidade e permeabilidade da pele são fatores que devem ser considerados, portanto, deve-se evitar a manipulação excessiva com mãos sem luvas, secas ou sujas. Ao manusear esses animais, podem ser utilizadas luvas sem pó, úmidas, a fim de minimizar as chances de lesionar a pele deles. As luvas devem ser trocadas com frequência por ocasião do manuseio de diferentes animais para diminuir as chances de transmissão de doenças e toxinas. Não é indicado o uso do látex, porque pode ser tóxico a anfíbios – principalmente girinos –, recomenda-se a troca por luvas de vinil. Se essas barreiras não forem utilizadas, as mãos devem ser abundantemente lavadas com água declorada. Fumantes devem ainda tomar cuidados extra, visto que o resíduo de nicotina nas mãos pode ser fatal ao animal. Após a manipulação desses indivíduos, é indicado lavar as mãos novamente, visto que muitas espécies produzem toxinas que podem irritar a pele e a mucosa humanas. Os animais devem ser colocados em recipientes transparentes (como caixas e sacos plásticos) para um exame visual minucioso antes de serem realmente tocados. A manipulação excessiva sempre deve ser realizada com cuidado, principalmente com animais debilitados, a fim de evitar a fadiga e o colapso. Alguns animais ainda são capazes de realizar tanatose, um comportamento de defesa no qual é simulada a morte, necessitando a diferenciação de exaustão. Para isso, é necessário deixar o animal em repouso no viveiro e observar. Larvas de anfíbios devem ser evitadas de manusear o máximo possível. Anuros maiores devem ser contidos segurando firmemente o animal em torno da região inguinal (Figura 29). Os animais menores podem ser colocados na palma da mão ou serem levemente pressionados pelos dedos médio ou indicador e polegar. Ao manusear um animal dessa maneira, é importante ter cuidado para não causar traumas. É comum que alguns anfíbios fiquem bastante agitados ou exibam comportamentos defensivos, como tanatose, inflar o corpo, vocalizar, morder ou urinar. 119 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Figura 29. Contenção física de Lithobates sphenocephalus. Fonte: https://www.herpmapper.org/record/218298. Caudatos devem ser manuseados inicialmente pelo peitoral, para depois os membros posteriores. É necessário cuidado para não segurar esses animais pela cauda pois algumas espécies podem realizar autotomia caudal. Cecílias são bastante difíceis de conter manualmente, podendo ser utilizados tubos transparentes (os mesmos para a contenção de serpentes) ou sacos plásticos. Contenção química e anestesia Antes de imobilizar quimicamente um anfíbio, é recomendado que o animal esteja em jejum para evitar pneumonia por aspiração. Entretanto, essa não é uma complicação comum devido ao fechamento da laringe em animais anestesiados. Em anfíbios menores de 20g, pode ser realizado jejum de apenas 4h; os de porte médio podem ser anestesiados com jejum de 48h; e animais maiores podem necessitar de períodos maiores, de até 7 dias. Quando o ambiente do viveiro se encontrar em temperaturas consideravelmente baixas, pode ser necessário um período maior. O anestésico mais utilizado para esses animais é a tricaína metanosulfato (MS-222), um pó que deve ser misturado à água declorada e administrado em banhos. Esse composto é bastante ácido e deve ser tamponado com um volume igual de bicarbonato de sódio para estabilizar o pH (entre 7 e 7,4). A administração de MS-222 em seu pH original leva a uma indução mais rápida, mas pode ser altamente irritante ao anfíbio, causando excitabilidade, taquicardia, eritema e hiperglicemia. Oxigênio pode ser aerado para dentro da solução anestésica para ajudar na oxigenação do animal. A indução pode ser realizada de forma segura com 100 a 200mg/L, mas pode levar mais de 25 minutos para 120 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS atingir a fase estacionária. Doses mais altas (1-5 g/L) podem induzir mais rapidamente, mas podem prolongar a recuperação e se tornarem potencialmente letais. As mortes anestésicas não são comuns com o MS-222, mas são possíveis. Sob efeito deste fármaco a ventilação pulmonar é diminuída ou ausente, entretanto, as narinas e boca devem ser mantidas fora da água para evitar afogamento. Os primeiros efeitos observados no animal incluem eritema no ventre e excitação. Após a entrada em um plano anestésico leve, são perdidos os reflexos corneal e de estação, seguidos de respiração gular. Devem ser mantidos constantes os batimentos cardíacos e, apesar de haver troca gasosa pela pele, pode ser necessária intubação e respiração forçada. Após aprofundado, o animal deve ser mantido em uma esponja ou gaze úmida. A anestesia pode ser mantida aspergindo o anestésico sob o animal, cuidando para evitar um prolongamento desnecessário para diminuir os riscos de morte. O uso de anestésicos inalados pode induzir à hipotermia e desidratação. A indução com o isoflurano pode ser feita com uma concentração de 5% em uma máscara diretamente no animal ou em uma câmara. Também pode ser feita uma solução de uso tópico com 3,5ml de gel lubrificante estéril, com 1,5ml de água e 3ml de isoflurano ou sevoflurano. É comum haver uma fase de excitação durante o período de indução, que, assim como a recuperação, podem demorar de 10 a 30 minutos. A exposição direta aos agentes parece ter mais sucesso em sapos do que rãs. Já foi relatado o uso de cetamina (75 a 100mg/kg), mas parece não agir da mesma forma em diferentes espécies. A administração de doses complementares deve ser feita com cuidado, avaliando, no mínimo, por 30 minutos a ação da dose inicial. Pode ser feito também cetamina (50mg/kg) associado com medetomidina (0,15-0,2mg/kg) por via IM. Óleo de cravo (eugenol) e propofol também têm sido usados na anestesia de alguns anfíbios. Monitoramento A frequência cardíaca de anfíbios pode ser facilmente monitorada utilizando Doppler ou visualizando o batimento apical. Por outro lado, a frequência respiratória pode ser difícil de monitorar. A suplementação com oxigênio é importante, pois o acúmulo de CO2 e falta de O2 são comuns durante a anestesia. Se houver bradicardia, atropina (IM ou IV) pode ser usada para aumentar a frequência cardíaca. Epinefrina pode ser administrado por via intratraqueal, intracardíaca ou intravenosa para iniciar a função cardíaca. Ao monitorar a profundidade da anestesia em anfíbios, é importanteseguir protocolos, sempre registrando todas as informações. Geralmente, os reflexos utilizados são 121 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI o postural, palpebral e resposta às dores superficial e profunda. Dada a diversidade de espécies de anfíbios, é importante aferir esses reflexos antes de iniciar o evento anestésico para fornecer um parâmetro de avaliação para esse animal. Estes reflexos são avaliados em uma escala de 0 a 2, sendo 0 a resposta total e 2 a perda total. Ao atingir o grau 2, a anestesia cirúrgica é alcançada. A recuperação de anfíbios anestesiados via fármacos diluídos em água (como MS- 222) pode ser realizada colocando o animal em água declorada livre de anestésicos ou enxaguando-o com essa água. Este animal deve ser acompanhado durante a recuperação para evitar afogamentos acidentais. Podemos considerar o paciente recuperado quando todos os reflexos estão presentes e as frequências cardíaca e respiratória são similares ao exame clínico pré-anestésico. Exame clínico Anfíbios adultos devem ser transportados ao consultório em caixas ventiladas e impermeáveis, com um local úmido para descanso (vegetação ou uma esponja). Girinos somente devem ser transportados submersos em água limpa. O exame clínico deve iniciar com a avaliação do animal à distância, dentro do próprio recinto. Dessa forma, podem ser avaliados previamente a postura corporal, comportamento, lesões corporais externas e frequência respiratória. Determinados achados, quando graves, podem contraindicar uma manipulação do animal. Antes de manusear um anfíbio, é importante considerar o papel da manipulação na produção de lactato, que pode levar muito tempo para que seja removido do corpo. Em casos graves, um anfíbio com níveis excessivos de lactato pode entrar em colapso ou desenvolver miopatias. Para evitar isso, é importante restringir os tempos de manuseio, o que pode ser feito ao estar preparado para todos os procedimentos e ter uma equipe treinada antes de pegar o animal. O peso dos anfíbios deve ser registrado no momento do exame, podendo variar devido à hidratação e preenchimento da bexiga urinária, mas estabelecer padrões é importante. A condição corporal também deve ser observada, avaliando a simetria, musculatura e postura do animal. A dor nestes animais pode ser reconhecida por sinais como imobilidade, letargia, olhos fechados, vocalização, mudança de cor, mover os pés de forma agitada na área afetada (“coçando”), agressividade, claudicação, respiração ofegante e outros comportamentos anormais. Algumas particularidades de anfíbios devem ser levadas em consideração para que determinados achados não sejam classificados como patológicos. A pele de anfíbios pode 122 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS se tornar hiperêmica (diferenciar da Síndrome da Perna Vermelha) com o manuseio. Desidratação também pode ocorrer durante um exame prolongado, sendo necessário manter o paciente úmido durante a avaliação. A pele é o ponto principal da avaliação clínica de um anfíbio. É importante avaliar com totalidade a pele para a presença de quaisquer lesões, como úlceras e lacerações. É como a ascensão de infecções oportunistas nesses casos. Anfíbios possuem um controle voluntário da íris, portanto, exames de reflexo pupilar não são possíveis. Devido a isso, a pupila destes animais não costuma estar totalmente dilatada (mesmo durante ação de drogas midriáticas), prejudicando exames de fundo de olho. Oftalmoscópios, entretanto, são úteis para avaliar a córnea, íris, câmara anterior e câmara posterior do olho. Diversos materiais podem servir como abridores de boca para um exame oral completo. A manipulação excessiva das mandíbulas de um anfíbio pode levar a fraturas, portanto, deve-se ter cuidado. A cavidade oral destes animais deve estar úmida e livre de muco espesso e amarelado, o que pode sugerir desidratação, bem como ausente de lesões como abscessos. A palpação celomática pode fornecer informações significativas em relação à condição animal. Alguns animais podem inflar o corpo quando estiverem no modo defensivo, o que pode tornar a palpação algo complicado. Em animais com más condições corporais, o clínico deve examinar o ambiente, bem como a ingestão calórica do animal e buscar diagnósticos para infecções e doenças parasitárias. Ossos longos devem ser palpados para recolher indícios de doença óssea metabólica. A determinação de gênero pode ser desafiadora, mas pode ser feita em algumas espécies no momento do exame físico. Dimorfismo sexual pode ocorrer, mas não está presente na maioria das espécies encontradas em cativeiro. Machos de salamandras costumam ter a base da cauda mais grossa. A transiluminação do abdômen pode revelar a presença de ovos. Sinais vitais como frequência e ritmo cardíacos podem ser avaliados utilizando um Doppler. A hipotensão pode ser reconhecida pela palidez das mucosas, colapso dos vasos intraorais e falta de definição da veia ventral abdominal. A auscultação dos pulmões pode ser possível com animais maiores. Exames neurológicos também devem ser realizados, embora costumem estar restritos à avaliação do reflexo postural, palpebral, resposta à dor superficial (por exemplo beliscando a pele sobre o dorso do pé) e à dor profunda (aplicando pressão em um dos dígitos). 123 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Doenças Infecciosas Algumas doenças infecciosas, devido a sua elevada mortalidade, perdas econômicas ou potencial zoonótico devem ser comunicadas a órgãos oficiais para que se tenha um maior conhecimento da sua epidemiologia, bem como a elaboração de normas para seu controle. Dessa forma, a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) lista alguns patógenos que devem ser notificados obrigatoriamente quando detectados. No Brasil, essa notificação pode ser feita diretamente para o Serviço Veterinário Oficial (SVO). Bacterianas Em geral, doenças bacterianas são mais comuns em animais mantidos em cativeiro, usualmente causadas por organismos Gram-negativos, podendo ser focais ou sistêmicas. Em anfíbios costumam estar correlacionadas por fatores ambientais, como temperatura inadequada, baixa qualidade da água, superlotação, transporte e outros fatores estressantes. Síndrome da Perna Vermelha (Red Leg) Red Leg é considerada uma síndrome por causar diversos sinais clínicos e estar associada com diferentes agentes bacterianos, como Aeromonas spp., Citrobacter sp., Flavobacterium sp., Klebsiella sp., Proteus sp. e Pseudomonas sp. Essa condição pode cursar com hiperemia de coxas (Figura 30) – que dá o nome à síndrome -, abdômen e dígitos, bem como edema de subcutâneo, úlceras cutâneas, petéquias, equimoses, hifema/hipópio, podendo evoluir para septicemia e morte. O diagnóstico pode ser feito por meio de cultura bacteriana positiva para alguns dos agentes conhecidos associada aos sinais clínicos, sempre cuidando com a possibilidade de contaminantes. O diagnóstico diferencial deve considerar as doenças causadas pelo Iridovírus, Ranavírus, Basidiobolus ranarum, Batrachochytrium dendrobatidis bem como outras bactérias. O tratamento inclui fluidoterapia, administração de antibióticos com base na cultura e sensibilidade e melhorar as condições do recinto. 124 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS Figura 30. Hiperemia de coxas em Síndrome da Perna Vermelha. Fonte: Mayer (2005). Clamidiose É causada pela Chlamydophila psittaci, uma bactéria com potencial zoonótico desconhecido. Causa sinais clínicos semelhantes à da Síndrome da Perna Vermelha. O diagnóstico pode ser feito pela presença de corpúsculos de inclusão intracitoplasmáticos no corte histológico, cultura ou PCR. Deve ser diferenciada de outras doenças sistêmicas bacterianas, virais e fúngicas. O tratamento pode ser realizado com doxiciclina e oxitetraciclina. Micobacteriose Diversas bactérias do gênero Mycobacterium podem causar doença em anfíbios, possuindo um elevado poder zoonótico e infeccioso. Manifestam-se na forma de lesões cutâneas não cicatrizantes,granulomatosas e eventualmente purulentas, bem como perda de peso ou granulomas nas vísceras e tecido subcutâneo. O diagnóstico pode ser realizado pela coloração de Ziehl-Neelsen da citologia das lesões, histologia e eventualmente cultura. Deve ser diferenciado de neoplasias. O quadro da doença sistêmica é de difícil reversão. A doença focal pode ser curada com a completa remoção cirúrgica da área infectada se não houver disseminação para outros tecidos.. Síndrome do Edema Essa síndrome pode ser ocasionada por uma septicemia bacteriana (especialmente por Flavobacterium sp.), insuficiências cardíaca, hepática ou renal, determinadas toxinas ou uma baixa qualidade da água. Sinais clínicos incluem hidroceloma (acúmulo de 125 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI líquidos na cavidade celomática), edema generalizado ou localizado. O diagnóstico costuma ser realizado por meio da detecção de excesso de líquido no subcutâneo ou celoma. Como tratamento podem ser realizado a administração de diuréticos, como furosemida, bem como solução hipertônica para anfíbios e correção da causa. Fúngicas Os substratos utilizados como solo em viveiros podem albergar diferentes espécies fúngicas, que não costumam representar um risco para o animal saudável. No entanto, em um indivíduo imunocomprometido, estes organismos podem se tornar patógenos oportunistas. Deve-se suspeitar de uma etiologia fúngica em anfíbios com dermatite ulcerativa. Infecções sistêmicas são raras, mas devem ser consideradas quando houver doenças não responsivas ao tratamento com antibióticos. Basidiobolomicose É causada pelo Basidiobolus ranarum, fungo zigomiceto encontrado no solo e trato gastrointestinal dos anfíbios assintomáticos. Sinais clínicos são variáveis, mas podem ser sutis como na palidez da pele, podendo ser similar à Sindrome da Perna Vermelha e levando a morte. O diagnóstico pode ser realizado por meio do exame direto das lesões ou histologia. Deve ser diferenciado da Síndrome da Perna Vermelha, outras dermatites micóticas e clamidiose. Banhos de cloreto de benzalcônio se mostraram efetivos em algumas espécies, como Hymenochirus curtipes (GROF et al., 1991). Mucormicose Doença ocasionada pelo fungo zigomiceto do solo Mucor amphibiorum, o qual geralmente não é considerado patogênico, mas pode causar uma doença incomum de evolução rápida. Os animais geralmente apresentam nódulos vermelhos multifocais na pele que podem ser ulcerados, com material branco e difuso principalmente no abdômen, letargia, incoordenação, emagrecimento e morte. O diagnóstico pode ser realizado por meio de histopatologia e cultura. Deve ser diferenciado de dermatite bacteriana ulcerativa e Síndrome da Perna Vermelha. Não há muitas descrições de tentativas de tratamento, mas pode ser tentado anfotericina, devendo ser investidos esforços na sua prevenção. Saprolegníase Condição causada por um oomiceto patógeno oportunista do gênero Saprolegnia presente na água, o qual pode afetar inclusive ovos de anfíbios. Animais afetados 126 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS apresentam geralmente lesões ulceradas com a presença de material esbranquiçado, semelhante a algodão, raramente causando infecções sistêmicas. O diagnóstico pode ser feito por meio do exame direto das lesões. A terapêutica geralmente envolve cloreto de benzalcônio ou cloreto de sódio, tratando lesões de pele e corrigindo as perdas osmóticas com fluidoterapia. Cromoblastomicose Enfermidade causada por fungos pigmentados dos gêneros Cladosporium sp., Phialophora sp., Exophiala sp. e Fonsecaea sp. São saprófitas presentes no solo e vegetação em decomposição, mas podem se tornar patógenos oportunistas. Causam uma dermatite nodular de crescimento lento, podendo gerar lesões escuras ulceradas. O diagnóstico pode ser realizado por exame histopatológico e cultura. Quanto ao tratamento, não há descrições bem-sucedidas, entretanto, considerar anfotericina B. Quitridiomicose Uma das doenças mais importantes a respeito da medicina de anfíbios devido ao seu impacto nas populações de anfíbios, e, portanto, de notificação obrigatória à OIE. É causada pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis e Batrachochytrium salamandrivorans, presente no solo e água. Os sinais clínicos são inespecíficos, envolvendo ecdise em excesso, eritema da pele no abdome e pernas, perda de musculatura e morte. O diagnóstico pode ser realizado por meio do exame histológico e PCR. O tratamento envolve banhos de itraconazol, sulfa-trimetoprima, tratamento de lesões cutâneas secundárias e a correção de perdas osmóticas com fluidoterapia. Algumas espécies se mostram mais susceptíveis à doença do que outras. Girinos são naturalmente mais resistentes, provavelmente devido à menor quantidade de quitina no tegumento. Virais O diagnóstico de doenças virais em anfíbios não é uma tarefa fácil. Acredita-se que as baixas prevalências relatadas possam ser uma subestimação devido à dificuldade em caracterizar estes organismos. O diagnóstico costuma ser feito em situações em que há um acometimento de uma maior quantidade de animais e o tratamento deve ser sintomático. O Vírus do Edema de Girinos (Tadpode Edema Virus) é causado pelo Ranavirus tipo 3, que resulta em edema e hemorragia cutânea, subcutânea e visceral. Inclusões intranucleares basofílicas podem estar presentes. O Ranavírus tipo 1 causa hemorragias 127 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI multifocais e inclusões intranucleares basofílicas. Infecções causadas por qualquer dos tipos de Ranavirus devem ser notificadas à OIE. O Iridovírus de Bohle (Bohle Iridovirus) é um vírus capaz de ser transmitido a peixes e causa septicemia hemorrágica em anfíbios, resultando em necrose multifocal do fígado, baço, estômago e pulmões. Hemorragias, úlceras, e gastroenterite podem ocorrer, bem como paralisia secundária à degeneração neuronal, podendo levar à morte. O Vírus Eritrocítico de Anfíbios (Frog Erythrocitic Virus) causa inclusões visíveis em eritrócitos, entretanto, está associado a poucos sinais clínicos, geralmente sem causar anemia. Inclusões podem ser observadas em eritrócitos (Figura 31) na circulação periférica. Figura 31. Inclusão do Vírus Eritrocítico de Anfíbios em eritrócito de Leptodactylus latrans, causando o deslocamento nuclear para a periferia da célula. Fonte: elaborado pelo autor. A Doença de Lucke (Lucke’s disease) é causada por um Herpesvirus que pode gerar um adenocarcinoma renal dependente de temperatura, já que animais hipotérmicos são mais propensos a contrair a doença. O vírus é extremamente letal em girinos, enquanto a maioria dos animais adultos parece não apresentar sinais clínicos. Um vírus semelhante a um Herpesvirus também já foi relatado causando pequenas vesículas cutâneas no dorso e hiperplasia epidérmica de alguns anfíbios. Um outro vírus, semelhante aos Poxvirus, foi encontrado em rãs na Europa. Estes animais apresentavam sinais clínicos similares à da Síndrome da Perna Vermelha e gastroenterite hemorrágica (CUNNINGHAM et al., 1996). Também acredita-se que um iridovírus pode ser o causador de linfossarcoma em alguns anfíbios, como Xenopus laevis (HIPOLITO et al., 2003). 128 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS Parasitárias Protozoários e helmintos podem ser comensais e parasitários, dependendo da espécie do agente e condições do ambiente e hospedeiro. O monitoramento com exames parasitológicos de fezes é uma boa maneira de conhecer a fauna parasitária de anfíbios. Conhecer o ciclo de vida dos parasitos pode ajudar a avaliar a doença clínica, bem como ajudar a estabelecer planos de tratamento eficazes. A melhor época para tratar anfíbios contra parasitos é durante a quarentena, antes de serem introduzidos em uma coleção. A remoção de vetores, plantas vivas, determinados substratos e acessórios porosos é essencial para este controle. Protozoários Ciliados Protozoários ciliados podem ser localizados no trato gastrointestinal (Nyctotheroides spp.), pele, brânquiase vesícula urinária (Trichodina spp.). Animais afetados geralmente são assintomáticos, entretanto, podem estimular uma produção excessiva de muco. O tratamento geralmente não é necessário, mas pode ser utilizado metronidazol ou paromomicina quando parasitarem o trato gastrintestinal e banhos com Cloreto de Sódio e água destilada quando afetarem a pele. Flagelados Flagelados podem ser encontrados na pele/brânquias (dinoflagelados), no trato gastrointestinal (Giardia sp. e Trichomonas sp.) e sangue (Trypanosoma spp.). Animais afetados geralmente são assintomático, mas podem ocorrer sinais clínicos relacionados ao órgão afetado, como dermatite, podendo levar a um desequilíbrio osmorregulatório e anemia. O tratamento de espécies que afetam a pele incluem banhos com água destilada ou Cloreto de Sódio e quando no trato gastrointestinal, metronidazol. Tripanossomas não aparentam possuir um tratamento efetivo, entretanto, pode ser tentado com a administração de quinolonas. Apicomplexas Protozoários apicomplexas podem ser encontrados no sangue (por exemplo hemogregarinas) e tecidos (como Cystoisospora spp. e Eimeria spp.). Animais afetados geralmente são assintomáticos, podendo eventualmente cursar com perda de peso e 129 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI diarreia nas formas teciduais. Coccídios encontrados nas fezes podem ser destinados à esporulação em bicromato de potássio para a identificação da espécie. O tratamento não é necessário se não houver sinais clínicos, mas para coccídios pode ser feito sulfa- trimetoprim (não costuma ocorrer a cura parasitológica). Outros Amebas (como Entamoeba ranarum) não costumam ser patogênicas, mas podem eventualmente cursar com anorexia, perda de peso, diarreia, hemorragia, desidratação, anasarca e ascite. São localizadas principalmente no trato gastrointestinal, fígado e rim. O diagnóstico pode ser feito durante EPFs (associar com a presença de sinais clínicos ou eritrócitos/leucócitos) ou na histopatologia. Opalinídeos, como os Opalina sp. e Zelleria sp., se localizam no trato gastrointestinal e geralmente não necessitam de tratamento. Nematódeos Nematódeos podem se localizar em pulmões (Rhabdias sp.), trato gastrointestinal (Strongyloides spp.) e pele (Pseudocapillaroides spp.), bem como migrando entre os tecidos, celoma e sangue (como Foleyella sp. e outras filárias). Os sinais clínicos dependem do sistema afetado, incluindo aumento do esforço respiratório, lesões cutâneas ulcerativas, prolapso intestinal, perda de peso, diarreia e anemia. O tratamento é indicado quando os sinais clínicos coincidem com uma carga elevada de determinado parasito no organismo, com fármacos como fenbendazol, ivermectina e levamisol. Platelmintos Cestódeos Os cestódeos podem ser encontrados no músculo, pele, tecido conjuntivo, vísceras, livres no celoma e no intestino, podendo levar a obstrução intestinal (por exemplo, Nematotaenia sp.). O tratamento inclui banhos de praziquantel. Trematódeos Trematódeos digenéticos podem ser encontrados em tecido subcutâneo, pele, coração, rim, fígado, intestino e pulmões. É incomum a observação de sinais clínicos relacionados a eles, mas Gorgodera sp. e Gorgoderina sp. podem levar a danos renais se manifestados 130 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS intensamente. Halipegus spp. também podem ser encontrados na cavidade bucal de animais que se alimentam de libélulas. Monogenéticos Entre os vermes achatados podemos encontrar os da classe Monogenea, dotados de ganchos ou ventosas, como Gyrodactylus sp. Podem ser localizados na pele, brânquias, trato urinário e trato gastrointestinal, podendo levar a irritação, aumento da produção de muco e aumento da frequência respiratória. Poucos organismos em um indivíduo saudável não são geralmente considerados um problema. Acantocéfalos O filo Acanthocephala inclui alguns parasitos do trato gastrointestinal, que podem levar à perda de peso, letargia, lesões por migração, celomite, hidroceloma e sepse. Outros Também podemos encontrar diversas espécies de ectoparasitos, incluindo larvas de mosca, sanguessugas, carrapatos, ácaros trombidiformes (Figura 32), pequenos crustáceos e piolhos. Estes parasitos costumam ser relativamente grandes e facilmente identificáveis. Estratégias de tratamento incluem remoção manual de grandes organismos, banhos hipertônicos (em água salgada), anti-helmínticos e diflubenzuron para crustáceos. Além de tratar os anfíbios, o viveiro também deve ser desinfetado para evitar reinfecções. Figura 32. A - Aparência macroscópica dos membros inferiores de Leptodactylus latrans infestados por ácaros trombidiformes do gênero Hannemania. B – Visualização da larva em aumento de 100x. Fonte: elaborado pelo autor. 131 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Pentastomídeos, parasitos semelhantes a crustáceos, são comuns em répteis e podem ocorrer em anfíbios. As doenças que afetam a pele de anfíbios claramente afetam muito a vida desses animais. Mais informações podem ser encontradas no artigo An overview of amphibian skin disease de Pessier (2002), disponível em: https://www. sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1055937X0280007X. Não infecciosas Nutricionais Doença óssea metabólica Assim como em répteis, pode ocorrer em anfíbios devido a um desequilíbrio de cálcio e fósforo, assim como deficiência de vitamina D3 (responsável pela absorção do cálcio no intestino) e outros fatores. O papel da radiação UVB e a vitamina D3 não estão bem documentadas em anfíbios, mas possivelmente está associado em algumas espécies. Animais afetados apresentam deformidades esqueléticas, posturas anormais, fraturas, tetania, inchaço, hidropisia, edema subcutâneo, prolapso gastrointestinal. Os níveis plasmáticos de cálcio geralmente não são confiáveis apara a realização do diagnóstico, pois a tendência do corpo é manter quantidades adequadas no plasma às custas de remover dos ossos. As radiografias são úteis para o diagnóstico, já que animais afetados terão a região cortical óssea com densidade reduzida. O tratamento envolve a suplementação de cálcio, correção de dieta e luz UVB. Pode ser útil a suplementação de vitamina D3, entretanto, o excesso dessa vitamina pode causar mineralização de órgãos, o que pode ser um risco devido ao conhecimento sobre o metabolismo da vitamina D3 em anfíbios ser limitado. Hipervitaminose D3 Ocorre devido a alimentação inadequada, sais de cálcio se depositam nos órgãos, causando mineralização multifocal de tecidos moles. Sinais clínicos envolvem anasarca, anorexia, fraqueza muscular. O diagnóstico geralmente ocorre post-mortem e não há tratamento efetivo disponível. Hipervitaminose A Pode ocorrer em algumas situações, como o oferecimento exclusivo de roedores como presa. Essas situações podem causar um excesso de vitamina A, a qual interfere na absorção e utilização de vitamina D3. Sinais clínicos são semelhantes à doença óssea 132 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS metabólica. O diagnóstico é feito por meio da correlação entre os achados radiográficos e a dieta. Para o tratamento, sugere-se a correção da alimentação. Hipovitaminose A Outra condição decorrente de alimentação inadequada. Animais afetados podem apresentar xeroftalmia, lesões na córnea, ceratomalácia, incapacidade de usar a língua para a captura de presas, metaplasia escamosa queratinizante e hiperqueratose. O diagnóstico geralmente é feito pela correlação de sinais clínicos ou com exames histopatológicos. A suplementação com vitamina A pode ser realizada para a correção. Lipidose corneal Pode ocorrer devido a uma alimentação com presas com altos níveis de colesterol na dieta (invertebrados oferecidos como presa devem consumir apenas vegetais nas 48 horas anteriores). Pererecas e fêmeas de uma forma geral parecem ser mais afetadas. Animais afetados podem apresentar depósitos brancos no estroma da córnea. O diagnóstico pode ser feito por meio do exame visual dos olhos, mostrando lesões brancase opacas na córnea associado a um alto teor de colesterol sérico. O tratamento geralmente é cirúrgico (alguns animais podem ter dificuldade para se alimentar após enucleação). Deficiência de Tiamina Pode ocorrer devido a uma dieta composta por peixes que passaram por processo de congelamento e descongelamento, já que estes animais possuem tiaminases naturais que não são destruídas durante o processo, decompondo a tiamina. Devido a isso, são observadas neuropatia e cegueira. O diagnóstico geralmente é terapêutico por meio da suplementação de tiamina. Deficiência de Iodo Pode ocorrer devido a dietas deficientes em iodo ou consumo excessivo de goitrogênicos (por exemplo, couve e espinafre), que dificultam a sua absorção. Girinos afetados podem não completar a metamorfose. O tratamento pode ser realizado com a suplementação de iodo e tiroxina. Esteatite Ocorre devido à ingestão de peixe ou outras presas, armazenados de forma inadequada. Os animais atingidos podem apresentar dor abdominal. Recomenda-se a remoção 133 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI da gordura afetada. A administração de vitamina E e selênio pode ser útil por serem antioxidantes. Outras doenças Síndrome da má-adaptação É caracterizada pela falha em prosperar a um novo cativeiro, geralmente devido ao manejo e habitat inadequados, incluindo baixas temperatura e umidade ambientais, bem como uma má qualidade nutricional. Animais afetados geralmente apresentam perda de peso e massa muscular, bem como anorexia e letargia. O diagnóstico é complicado, envolvendo a exclusão de outros processos patológicos em um animal recentemente inserido em um novo viveiro. Deve ser fornecida terapia de suporte até que o animal possa ser climatizado e corrigir o manejo, bem como rastrear outras doenças que possam estar ocorrendo. Cálculos urinários Quando originários nos rins são geralmente causados por oxalato, o qual é disponível em itens alimentares, como plantas que as presas podem se alimentar. Quando criados na bexiga tendem a ocorrer em anuros uricotélicos desidratados. O anfíbio afetado pode apresentar letargia, perda de peso, hidroceloma e edema. Cálculos localizados na bexiga podem ser palpados eventualmente, mas também podem ser necessárias radiografias. O tratamento geralmente requer cistotomia, remoção de plantas com oxalato do terrário e terapia de suporte. Impactação Problema comum em sapos maiores pelo consumo de presas muito grandes, ingestão de corpos estranhos, bezoares (acúmulo de material não digerido, principalmente no estômago). Em animais afetados pode ocorrer diminuição da capacidade respiratória, com consequente hipóxia e hipercarbia, letargia e inchaço abdominal. A palpação, assim como exames de imagem – radiografia ou ultrassom, por exemplo –, podem ser úteis para o diagnóstico. A remoção do material do estômago pode ser relativamente simples e realizada manualmente ou por lavagens, pois é um grande órgão e anuros têm um esôfago curto. Para impactações intestinais com evidência de peristaltismo normal, pode ser tentado óleo mineral ou laxante, mas, se o animal não estiver defecando, a intervenção cirúrgica se faz necessária. 134 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS Prolapso O conhecimento da anatomia normal é necessário para diferenciar os tecidos quando houver um prolapso. O prolapso gástrico pode ocorrer de forma transitória em um animal saudável, já que não é incomum que os anuros evertam seus estômagos para expulsar itens nocivos de presas, embora também possa ocorrer secundário ao aumento da pressão intra-abdominal. Por outro lado, o prolapso cloacal pode ser causado por hipocalcemia (devido à diminuição do peristaltismo), impactação intestinal, parasitos, toxinas, dietas volumosas inadequadas ou corpos estranhos. Nele, podemos observar a exposição do tecido do reto, oviduto ou bexiga urinária. O tratamento depende do quanto o tecido estiver preservado, podendo ser realizada a reversão manualmente ou, se houver maiores comprometimentos, amputação cirúrgica de parte do tecido. O tratamento de um prolapso de vesícula urinária requer desinfecção com clorexidina a 0,5% e a sutura da bexiga à parede celomática. O prolapso retal ou de oviduto requer limpeza e redução do tecido inchado. Isso pode ser realizado fazendo pressão com um instrumento não traumático sob uma gaze com uma solução hipertônica (como açúcar ou mel) e, se necessário, sutura bolsa de tabaco ao redor da abertura. Intoxicações Podem ocorrer intoxicações devido a diversos agentes que podem ser tóxicos a anfíbios, como colas de PVC, nicotina, pesticidas, desinfetantes e anti-helmínticos. Os sinais clínicos dependem do tóxico, mas geralmente apresentam irritação na pele, hiperexcitabilidade, neuropatias, entre outros. O mais desafiador é a realização do diagnóstico, que necessita de uma detalhada anamnese. É possível realizar testes em urina, fezes, soro e sangue, bem como enviar cérebro, fígado, rim, conteúdo do trato digestivo, urina e pele para histopatologia. O animal deve ser removido do ambiente contendo o tóxico e enxaguado com água declorada. A frequência cardíaca deve ser avaliada constantemente e a utilização de atropina pode ser feita se necessária. Traumas Lesões e fraturas podem ocorrer devido à manipulação humana ou por manter os animais em ambientes inadequados. Traumas causados por presas vivas, como grilos, são comuns quando os anfíbios não se alimentam de todos os animais e estes não são removidos do viveiro. Podem ocorrer também queimaduras térmicas devido ao contato intenso com aquecedores. O diagnóstico exige um histórico detalhado, bem como 135 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI exame físico, radiografias, ultrassom. O tratamento deve ser sintomático, lembrando que anfíbios demoram algum tempo para a cicatrização. Neoplasias A metade dos tumores relatados em anfíbios é de origem tegumentar. Papilomas epidérmicos, também chamados de papilomas escamosos, verrugas infecciosas ou epiteliomas, são os mais descritos em caudatos. Papilomas são hipopigmentados e bem demarcados. Lesões solitárias costumam ser pouco preocupantes. Carcinomas de células escamosas também foram relatados em anfíbios e são caracterizados como regiões hipopigmentadas e elevadas ou pedunculares. Melanoma, melanocitoma e melanossarcoma são descritos em várias espécies de anfíbios, variando muito em comportamento e morfologia, manifestando-se como nódulos únicos e múltiplos, pouco ou muito pigmentados, não palpáveis e invasivos a massas nodulares. O mixoma é uma neoplasia proliferativa comum em pererecas, e a recorrência é frequente após a excisão, mas possui crescimento lento. Os linfomas de células T e leucemias já foram relatados em Xenopus laevis (PASQUIER; ROBERT, 1992). O herpesvírus tipo 1 de rãs é conhecido por causar o adenocarcinoma renal de Lucke em Lithobates pipiens mantidos em cativeiro sob temperaturas baixas. Outros tumores foram relatados esporadicamente. Em geral, os tratamentos publicados parecem depender exclusivamente de cirurgia. Outros Outras doenças como a gota articular e visceral podem ocorrer, mas a etiologia é desconhecida. Envenenamento por sal é comum em locais que sal é utilizado para derretimento de neve, afetando indivíduos que tentam realizar a travessia de rodovias. Os animais podem apresentar descoloração da pele, avermelhamento e desorientação. O tratamento envolve a limpeza dos animais, mas casos extremos podem levar à morte. Terapêutica Sempre deve ser fornecido a um anfíbio uma temperatura ambiental ideal durante o período do tratamento. Estes animais podem ser mantidos em ambientes aquecidos (20-23°C para animais de ambientes mais frios e 28-32°C para animais de regiões tropicais), a fim de estimular seu metabolismo e acelerar o processo de cicatrização. É importante também minimizar o estresse, pois isso pode levar à imunossupressão do indivíduo. Estudos de biodisponibilidade e farmacocinética em anfíbios ainda são poucos.Embora estes animais tenham baixas taxas metabólicas e se esperariam doses menores em 136 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS comparação a outros vertebrados, a alta rotatividade de fluidos afeta a distribuição de medicamentos, podendo ser necessário aumentar a dose do fármaco. A rota pela qual um medicamento é administrado também é importante. Por exemplo, a utilização da absorção cutânea por meio de banhos é eficaz, mas não tanto quanto a inoculação parenteral, que exige maiores manipulações. O clínico deve fazer escolhas com base no paciente, no diagnóstico e na capacidade de executar um tratamento. O tratamento por via oral (VO) é mais eficiente e menos estressante quando administrado com um item alimentar e engolido voluntariamente. Medicações podem também ser injetadas em invertebrados ofertados como presa, mas podem ser rejeitados pelo anfíbio se não se manterem ativos. Se necessária, também pode ser feita sondagem para a administração forçada de medicamentos. O trato gastrointestinal, na maioria dos anuros, é incapaz de reabsorver grandes quantidades de água, portanto, os fluidos administrados por VO provavelmente não são tão eficazes quanto os administrados por via intracelomática ou intradérmica. O tratamento tópico é um método muito eficaz e não invasivo em anfíbios. A permeabilidade cutânea elevada destes animais permite uma boa absorção por meio de banhos ou aplicação direta. É importante salientar que algumas drogas possuem coadjuvantes irritantes e seu pH deve ser avaliado, inclusive ao serem diluídas em solução salina 0,5% ou solução fisiológica para anfíbios. Ao tratar um anfíbio mediante banhos, deve-se imergir o ventre, cuidando para não afogar o animal. A adição de drogas direto na água do viveiro deve ser feita com cuidado para não perturbar o filtro biológico bacteriano. Entre vias parentéricas para a administração de medicamentos em anfíbios, podemos citar o acesso subcutâneo (SC), intramuscular (IM), intravenosa (IV), intraóssea (IO), intracelomática (ICe) e por meio do saco linfático dorsal. Entre elas, o acesso IM é um dos mais utilizados, o qual pode ser feito nos membros torácicos, a fim de evitar o sistema porta-renal. Injeções intravenosas podem ser difíceis de administrar em anfíbios e geralmente não são práticas, exceto na administração de medicamentos para eutanásia, que costumam ser realizados por via IC. Injeções ICe devem ser realizadas com o animal em decúbito dorsal, aplicadas no quadrante caudal. Medicações administradas por meio do saco linfático são rapidamente absorvidas. A nebulização, embora com potencial promissor, não é feita rotineiramente para tratar anfíbios. É possível que animais com pneumonia possam se beneficiar deste método. Deve ser levado em consideração que já foram relatadas mortes em animais nebulizados com levamisol, no entanto, não se sabe se foi a dose ou o próprio procedimento o responsável. 137 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Curativos com bandagens podem ser difíceis de executar nestes animais, entretanto, curativos líquidos temporários podem ser úteis para fornecer uma barreira contra perdas osmóticas e uma cobertura para lesões traumáticas. Existem alguns produtos no mercado internacional que podem ser utilizados, assim como produtos à base de cianoacrilato. Antibióticos A maioria das doses de antibióticos (Tabela 6) para anfíbios são extrapoladas das utilizadas para répteis devido à falta de estudos a respeito da farmacodinâmica nestes animais. Tetraciclinas, por exemplo, podem ser utilizadas por VO, visto que aparentemente não são eficazes quando utilizadas na forma de banhos e quando aplicadas via ICe podem causar inflamação local. Enrofloxacina pode causar descoloração, irritação e descamação da pele quando administrada de forma parenteral. Tabela 6. Doses dos principais antibióticos utilizados na medicina de anfíbios. Fármaco Dose Via Frequência Ácido Nalidíxico 10µg/ml Banhos Cada 24h Amicacina 5mg/kg IM, SC, ICe Cada 24 ou 48h Ceftazidima 30mg/kg IM Cada 72h Cloranfenicol 50mg/kg IM, SC, ICe, tópico Cada 8 ou 24h 10µg/ml Banhos Cada 24h Ciprofloxacino 10mg/kg VO Cada 24h 6,7mg/L Banhos De 6 a 8h, a cada 24h, por 7 dias Doxiciclina 5-10mg/kg VO Cada 12 ou 24h Enrofloxacino 5-10mg/kg IM, SC, VO, tópico Cada 24h por 7 a 10 dias Gentamicina 2 a 4mg/kg IM Cada 72h por 4 vezes 1mg/L Banhos Por 8h 2mg/mL Tópico – Metronidazol 50-60mg/kg VO, tópico Cada 24h por 3 dias NItrofurazona 10-20mg/L Banhos Cada 24h Oxitetraciclina 50-100mg/kg IM, VO Cada 48h 100mg/L Banhos Por 1h, a cada 24h Piperaciclina 100mg/kg IM Cada 24h Tetraciclina 50mg/kg VO Cada 12h Trimetroprima/Sulfadiazina 15 a 20mg/kg IM cada 48h Fonte: Mitchell e Tully, 2008; Paula e Toledo, 2014. 138 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS Antifúngicos Banhos de imersão com sais, como cloridrato de benzalcônio e corantes, como verde malaquita, são úteis no tratamento de infecções fúngicas tópicas (Tabela 7). É possível que cecílias sejam sensíveis ao azul de metileno. Cremes de miconazol ou cetoconazol podem ser aplicados em lesões focais. Uma terapia antifúngica sistêmica de longo prazo com anfotericina B pode ser útil na mucormicose, já que esse fármaco demonstra uma boa atividade in vitro contra espécies do gênero Mucor. Tabela 7. Doses dos principais antifúngicos utilizados na medicina de anfíbios. Fármaco Dose Via Frequência Anfotericina B 1mg/kg ICe Cada 24h, por 14 a 28 dias Cloridrato de Benzalcônio 2mg/L Banhos Por 30min, a cada 24h, por 3 dias e repetir após 5 dias Fluconazol 60mg/kg VO Cada 24h Itraconazol 2-10mg/kg VO Cada 24h, por 14 a 28 dias 10mg/kg VO Cada 24h 0,01% Banhos Por 5 min, a cada 24h, por 11 dias Cetoconazol 10 a 20mg/kg VO Cada 24h, por 14 a 28 dias Verde Malaquita 0,2mg/L Banhos Por 1h, a cada 24h Miconazol 5mg/kg ICe Cada 24h por 14 a 28 dias Nistatina 1% Tópico – Fonte: Mitchell e Tully, 2008; Paula e Toledo, 2014. Antiparasitários O ponto chave do tratamento antiparasitário (Tabela 8) em anfíbios é não objetivar a eliminação dos parasitos, mas sim a redução da carga parasitária, quando elevada. É importante ter isso em mente, visto que diversas espécies de parasitos compõem a fauna do trato gastrointestinal de animais sadios. O metronidazol é um medicamento eficaz para a maioria das infecções por protozoários. Medicações com sulfa podem ser eficazes contra coccídios. Levamisol tem sido usado topicamente em vários animais, no entanto existem relatos de paralisia flácida por esses fármacos em cecílias e Pipa pipa. Se utilizado, os animais devem ser lavados com água declorada 1h após o contato. Praziquantel pode causar reações no local de aplicação em alguns animais. Ivermectina pode ser usada para eliminar nematódeos e ectoparasitos, porém, algumas formulações possuem propilenoglicol, que pode irritar a pele de anfíbios. Fenbendazol é muito eficaz 139 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI contra nematódeos. Sempre, ao administrar um antiparasitário, é importante não deixar de limpar o recinto do animal, removendo e substituindo o substrato e quaisquer itens porosos. Tabela 8. Doses dos principais antiparasitários utilizados na medicina de anfíbios. Fármaco Dose Via Frequência Cloreto de Sódio 6g/L Banhos Por 5 a 10min Febendazol 100mg/kg VO 2 doses com intervalo de 14 dias 50mg/kg VO Cada 24h, por 3 a 5 dias, e repetir em 2 a 3 semanas Ivermectina 10mg/L Banhos Por 60 min, durante 7 dias 0,2-2mg/kg Tópico – 0,2 a 0,4mg/kg IM, VO 2 doses com intervalo de 14 dias Levamisol 10mg/kg IM, ICe ou tópico 2 doses com intervalo de 14 dias 100-300mg/L Banhos 3 doses com intervalo de 14 dias Metronidazol 10mg/kg VO Cada 24h, por 5 a 10 dias 100 a 150mg/kg VO 1 dose, a cada 14 dias 50mg/kg VO Cada 24h, por 3 dias Oxitetraciclina 25mg/kg SC, IM Cada 24h 50mg/kg VO Cada 24h 1g/kg VO Cada 24h, por 7 dias Permanganato de Potássio 7mg/L Banhos Por 5 min, cada 24h Piperazina 50mg/kg VO 1 dose e repetir em 14 dias Praziquantel 8-24mg/kgVO, SC, ICe 1 dose e repetir entre 7 a 21 dias 10mg/L Banhos Por 3h e repetir em 7 a 21 dias Sulfadiazina 132mg/kg Cada 24h Sulfametazina 1g/L Banhos – Tetraciclina 50mg/kg VO Cada 12h Tiabendazol 50-100mg/kg VO 1 dose e repetir em 14 dias 100mg/L Banhos 1 vez e repetir em 14 dias Tripetoprima/Sulfametoxazol 15mg/kg VO Cada 24h, por 21 dias Fonte: Mitchell e Tully, 2008; Paula e Toledo, 2014. Outros fármacos Relatos de uso de antivirais para tratar anfíbios são raros, devido ao subdiagnóstico e pouco acesso às medicações na medicina veterinária. Opioides, agonistas alfa-2- adrenérgicos e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) podem ser usados para aliviar a dor em anfíbios (Tabela 9). 140 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS Tabela 9. Doses de fármacos utilizados na medicina de anfíbios. Fármaco Dose Via Frequência Alopurinol 10mg/kg VO Cada 24h Atropina 0,03mg/kg IM – 0,1mg/kg IM, SC – Butorfanol 0,05-1mg/kg IM, SC, VO Cada 12h Cetoprofeno 2mg/kg IM, SC Cada 24h por 5 dias Doxapram 5mg/kg IM, IV – Epinefrina 1:1000 0,2 a 0,5ml IM, IV, ICe – Fentanil 0,5µg/g IM – Flunixina 1mg/kg IM, SC Cada 24h Furosemina 5mg/kg IM – Fosfato Sódico de Dexametasona 0,1 a 0,5mg/kg Tópico Cada 24h, por 3 a 5 dias 0,1-0,5mg/kg IM, ICe Cada 24h, por 3 a 5 dias Glubionato de Cálcio 1ml/kg VO Cada 24h, por 30 dias Gluconato de Cálcio 2,3% Banhos Por 1 a 2h, a cada 24h Gluconato de Cálcio 10% 100mg/kg IM, IV, SC, ICe Cada 4 ou 6h, por 24h Meperidina 200µg/g IM Cada 16h Morfina 20-160mg/kg IM, SC, tópico – Selênio 0,1mg/kg IM – Vitamina B1 (tiamina) 25-100mg/kg IM, ICe, VO – Vitamina B (complexo) 0,26ml/L Banhos – 0,1 ml/300g VO cada 24h, por 7 dias Vitamina D3 2 a 3IU/ml Banhos – 1000IU/kg – – 100-400UI/kg VO – Vitamina E 100-400 IU/kg VO – 1mg/kg VO, IM Cada 7 dias Fonte: Mitchell e Tully, 2008; Paula e Toledo, 2014. Fluidoterapia Manter a integridade da pele de anfíbios é de extrema importância, dada a sua participação na respiração e transporte de íons. Dessa forma, a desidratação nesses animais deve ser evitada a qualquer custo. Animais desidratados podem apresentar enoftalmia (afundamento do globo ocular), aumento de muco com coloração amarelada na cavidade oral e pele enrugada, descorada ou pegajosa. Perda de peso e falta de micção durante o manuseio também podem indicar uma possível desidratação. Quando a pele, 141 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI rins ou brânquias são danificadas podem ocorrer desequilíbrios fatais de eletrólitos. Fluidoterapia é essencial quando há lesões cutâneas ou uma suspeita de doença renal, tomando as devidas precauções com a sobrecarga de fluidos. Os anfíbios aquáticos dependem de seus rins para excreção de água e retenção de solutos. Caso esses órgãos falhem, o animal pode ter dificuldade em manter o balanço de íons, solutos ou líquidos. Nesses casos, a fluidoretapia pode ser um desafio. A terapia de reposição pode causar sobrecarga de volume circulante, superando a capacidade do coração e podendo resultar em morte. A chave é manter o balanço eletrolítico. A osmolaridade plasmática deve ser maior que 200mOsm/L. A água doce é um meio hipotônico, enquanto os fluídos para mamíferos são hipertônicos para estes animais. É possível produzir uma solução fisiológica (isotônica) para anfíbios (1L de água destilada para 6,6g NaCl, 0,15g KCl, 0,15g CaCl2 e 0,2g NaHCO3) diretamente na clínica. Quando houver uma sobrecarga de fluído, como no edema ou ascite, é possível administrar uma solução hipertônica para anfíbios (1L de água destilada para 7,3g NaCl, 0,17g KCl, 0,17g CaCl2 e 0,22g NaHCO3) (MITCHELL; TULLY, 2008). Terapia de emergência A fluidoterapia é essencial para um animal desidratado, podendo ser administrada em banhos com solução fisiológica para anfíbios, garantindo que a cabeça fique acima da linha de água para evitar afogamentos. O oxigênio suplementar também pode ser usado e administrado diretamente ou nebulizado, tomando o cuidado para não secar o animal. É importante manter o indivíduo em uma boa faixa de temperatura, a fim de elevar sua taxa metabólica e a consequente distribuição dos fármacos. Antibioticoterapia de amplo espectro prévia ao antibiograma deve ser focada no tratamento de organismos anaeróbicos. Em geral, os objetivos da terapia de emergência incluem isolar o animal, garantir uma faixa de temperatura adequada, fornecer oxigênio, corrigir déficits de líquidos e iniciar o tratamento apropriado. Cirurgia Os animais devem ser submetidos ao jejum de sólidos antes de procedimentos cirurgicos. Para pequenos anfíbios, um jejum de 4 horas é suficiente, enquanto que para anfíbios maiores (maiores que 20 g), jejum de 24 a 48 horas é mais apropriado. Analgesia deve ser obrigatoriamente administrada e antibioticoterapia profilática deve ser considerada. O paciente pode ser banhado em solução fisiológica de anfíbios por 60 minutos antes da cirurgia para garantir sua hidratação. É bastante difícil manter 142 UNIDADE VI │ MEDICINA DE ANFÍBIOS um animal úmido em um campo estéril. O paciente pode ser umedecido regularmente com água destilada ou declorada durante o procedimento. Uma solução de 0,5% a 1% de clorexidina pode ser usada para desinfetar suavemente o campo cirúrgico, evitando esfregar o animal. Instrumentais utilizados para procedimentos oftálmicos são preferíveis para cirurgias em anfíbios devido a sua delicadeza e por permitir ao cirurgião a manipulação de tecidos menores. Anfíbios toleram relativamente bem a perda de sangue e tendem a ter menos complicações pós-cirúrgicas do que vertebrados maiores. Após os procedimentos necessários, animais de vida livre devem retornar o mais rápido possível para seu ambiente natural, a partir de 2 dias, devido à possibilidade de não se adaptarem ao cativeiro. Antes de realizar uma amputação, deve ser considerado o comportamento natural de uma espécie. A amputação dos membros posteriores pode ser feita com sucesso e geralmente resulta no retorno a todas as funções, exceto a reprodutiva. Para isso, todo o fêmur deve ser removido. A amputação de um membro anterior também pode ser feita, mas alguns animais precisam de ambos os membros anteriores para postura, deambulação e manipulação de comida. Tritões podem regenerar membros ausentes. Amputações da cauda também podem ser feito em caudatos e algumas espécies realmente realizam autonomia. Fraturas podem ser imobilizadas com talas, fixadores externos ou pinos intramedulares. Ao realizar uma celiotomia, deve-se tomar cuidado para evitar a punção dos pulmões e trato gastrointestinal. Dependendo do sexo e estação, a presença de grande quantidade de gordura e ovários pode dificultar a visualização de outros órgãos. Uma incisão paramediana deve ser feita para evitar a veia abdominal. O fechamento de duas camadas como sugerido na medicina de pequenos animais, pode ser o ideal, mas muitas vezes não é possível. A laparoscopia é uma ferramenta minimamente invasiva usada para avaliação reprodutiva e para biópsias de órgãos internos. Uma cistotomia pode ser realizada para remover cálculos císticos. Ovariectomia pode ser realizada se for tomado cuidado para observar a vascularização. A enucleação é considerada um último recurso e é usada principalmente como uma ferramenta de controle da dor. Existe uma membrana entre a cavidade ocular e bucal, que não deve ser danificada. Embora tolerem uma maior perda de sangue, a hemostasia deve ser o foco principal, pois podem ocorrer hemorragias extensas, especialmente em anfíbios pequenos. É importante lembrar que são animais bastante escorregadios e difíceis de controlar. A pele pode ser suturada com fios 4.0 a 6.0. As suturas absorvíveis têm sua absorção acelerada em ambientes úmidos, portanto, podem ser usados monofilamentos não absorvíveis. Suturas interrompidas devem ser usadas para evitar o risco de deiscência. 143 MEDICINA DE ANFÍBIOS │ UNIDADE VI Os adesivos de cianoacrilato podem ser usados sobre incisões suturadaspara garantir uma barreira à prova de água e evitar a colonização bacteriana. Eutanásia É importante considerar o destino do corpo do animal após a eutanásia ao escolher por uma via de acesso, visto que a administração de medicações ICe pode gerar artefatos histológicos. Alguns métodos, anteriormente difundidos, já não são mais aceitos como métodos humanos de eutanásia em anfíbios, como a hipotermia e intoxicação por CO2, já que estes animais apresentam uma baixa frequência respiratória e toleram por bastante tempo baixas temperaturas, prolongando o procedimento e sofrimento. A eutanásia de animais ectotérmicos é particularmente difícil. A imersão de anfíbios em MS-222 em doses acima de 200mg/kg IC ou em banhos acima de 250mg/L age rapidamente, mas não deve ser utilizado quando estes animais foram destinados para alimentação. Pode ser usado Hidrocloreto de Benzocaína em doses acima de 250mg/L se for uma eutanásia em massa. A eutanásia de anfíbios com overdose de barbitúricos é particularmente difícil. Devido à natureza errática de barbitúricos em anfíbios, é preferível aprofundar com anestésicos voláteis e então promover a overdose por via intracardíaca ou intracelomática. O fenobarbital pode ser usado em 100mg/ kg ICe, causando morte em 30 minutos, sendo mais rápido quando administrado IC. Pentobarbital de sódio pode ser utilizado em doses de 100mg/kg. Ao final de qualquer método pode ser feita uma punção por meio do forame magno para assegurar a morte do animal. 144 Referências ALDRIN, M. et al. A stochastic model for the assessment of the transmission pathways of heart and skeleton muscle inflammation pancreas disease and infectious salmon anaemia in marine fish farms in Norway. Prev. Vet. Med., 93, 51-61, 2010. ALLENDER, M. C.; FRY, M. M. Amphibian hematology. Veterinary Clinics of North America: Exotic Animal Practice, 11(3), 463-480, 2008. ALMOSNY, N. R. P. Patologia clínica em vertebrados ectotérmicos. In: CUBAS et al. Tratado de Animais Selvagens: medicina veterinária. São Paulo: Roca, 2 ed., 1597- 1623, 2014. AMPHIBIAN CARE. Terrarium and Vivarium Maintenance. 2008. 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