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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS DA TERRA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO DE CIÊNCIAS E MATEMÁTICA UM OLHAR DA FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA: A PERSPECTIVA FEYERABENDIANA DA ASTRONOMIA DE GALILEU JOSÉ RICARDO PEREIRA DA SILVA NATAL – RN 2020 JOSÉ RICARDO PEREIRA DA SILVA UM OLHAR DA FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA: A PERSPECTIVA FEYERABENDIANA DA ASTRONOMIA DE GALILEU Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Ensino de Ciências e Matemática. Orientador: Prof. Dr. André Ferrer Pinto Martins. NATAL – RN 2020 JOSÉ RICARDO PEREIRA DA SILVA UM OLHAR DA FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA: A PERSPECTIVA FEYERABENDIANA DA ASTRONOMIA DE GALILEU Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Ensino de Ciências e Matemática. Aprovada em 29 de Setembro de 2020. BANCA EXAMINADORA _____________________________________________________________ Prof. Dr. André Ferrer Pinto Martins – Orientador Universidade Federal do Rio Grande do Norte ___________________________________________________________________ Prof. Dr. José Claudio Reis – Examinador Externo (Titular) Universidade do Estado do Rio de Janeiro ___________________________________________________________________ Profa. Dra. Flávia Polati Ferreira – Examinadora Interna (Titular) Universidade Federal do Rio Grande do Norte ___________________________________________________________________ Profa. Dra. Cibelle Celestino Silva – Examinadora Externa (Suplente) Universidade de São Paulo - São Carlos ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Milton Thiago Schivani Alves – Examinador Interno (Suplente) Universidade Federal do Rio Grande do Norte Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e de pesquisa, desde que citada a fonte. Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Central Zila Mamede Silva, José Ricardo Pereira da. Um olhar da filosofia da ciência no ensino de física: a perspectiva feyerabendiana da astronomia de Galileu / José Ricardo Pereira da Silva. - 2020. 166f.: il. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Exatas da Terra, Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática , Natal, 2020. Orientador: Dr. André Ferrer Pinto Martins. 1. Ensino de Física - Dissertação. 2. Filosofia da Ciência - Dissertação. 3. Paul Feyerabend - Dissertação. 4. Astronomia - Dissertação. 5. Galileu Galilei - Dissertação. I. Martins, André Ferrer Pinto. II. Título. RN/UF/BCZM CDU 51:37.016 Elaborado por Raimundo Muniz de Oliveira - CRB-15/429 Ao meu pai Severino Ramos, a minha mãe Maria Silvana, e a todos que caminharam comigo durante este tempo solitário. Espero eu que, assim como disse certo filósofo da ciência, vocês também possam dizer: Adeus à razão. AGRADECIMENTOS Ao professor André Ferrer Pinto Martins pela oportunidade e pela excelente orientação fornecida durante a elaboração deste trabalho; A minha amiga e companheira de graduação, encontros de discussão, caronas e festas aleatórias Laura Dell Orto pelas sugestões, livros e desabafos; Aos professores e colegas da pós-graduação pelos desafios, debates e conquistas; A Escola Estadual Professor Pedro Alexandrino e ao Clube de Astronomia São Pedro pelos céus limpos e estrelados; E por fim, mas não menos importante, a minha namorada e amigos “maravilhosos” pelo comprometimento. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Foto de Paul Feyerabend 30 Figura 2 – Foto da Torre Inclinada de Pisa, na Itália, presente no catálogo da Detroit Publishing Company de 1905 65 Figura 3 – O Julgamento de Galileu, Roma, 1633 67 Figura 4 – Galileu e o telescópio 68 Figura 5 – As luas de Júpiter no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610 69 Figura 6 – Ilustração de Galileu Galilei publicada no livro Saggiatore (O Ensaísta), dedicado ao papa Urbano VIII, Roma, 1623 70 Figura 7 – O modelo geocêntrico de Ptolomeu 71 Figura 8 – Equante, epiciclos e excêntrico adotados pela astronomia grega 72 Figura 9 – Representação dos epiciclos de Copérnico, publicada em sua obra De Revolutionibus Orbium Coelestium, Polônia, 1543 73 Figura 10 – Representação do sistema heliocêntrico de Copérnico, publicada em sua obra De Revolutionibus Orbium Coelestium, Polônia, 1543 75 Figura 11 – Rascunhos do movimento circular no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610 82 Figura 12 – Representação contendo a explicação do movimento aparente dos planetas a partir da perspectiva heliocêntrica, contida no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610 84 Figura 13 – Retrato de São Roberto Bellarmino, óleo sobre tela, feita em 1923 por G. Francisi, Roma, Palácio do Santo Ofício, sala de recepção, lado norte 87 Figura 14 – Quadro de Galileu perante o Santo Ofício, pintado pelo francês Joseph Fleury no século XIX 91 Figura 15 – Galileu mostra o telescópio para o Senado veneziano do Campanário de São Marcos em 1609, quadro de Giuseppe Bertini, Varese, Itália, 1858 95 Figura 16 – Desenhos dos Planetas vistos por Galileu através do telescópio, publicado no livro Saggiatore (O Ensaísta), dedicado ao papa Urbano VIII, Roma, 1623 97 Figura 17 – Representação das fases de Vênus nos dois sistemas de mundo 99 Figura 18 – Desenho da Lua vista por Galileu através do telescópio, publicado no livro Sidereus Nuncius (O Mensageiro das Estrelas), Veneza, 1610 100 Figura 19 – Desenho da Lua feito por Thomas Harriot em 1609 100 Figura 20 – Galileu apresenta o telescópio ao público 102 Figura 21 – Galileo, pintura a óleo de Jean-Leon Huens 103 Figura 22 – Rascunhos das distâncias dos planetas durante a revolução anual no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610 105 RESUMO Este trabalho relaciona a área da História e Filosofia da Ciência às suas implicações para o ensino de ciências, evidenciando a importância e a potencialidade pedagógica dessa área. Partimos da análise da epistemologia do filósofo da ciência Paul Feyerabend para propormos a utilização da abordagem histórico-filosófica como estratégia didática para o ensino de física, especificamente, nos conteúdos de astronomia que envolvem o personagem histórico Galileu Galilei. Para isso, foram identificados três temas de astronomia que tradicionalmente são ensinados pelos professores de física do primeiro ano do Ensino Médio e que, de forma articulada, compõem um quadro dos trabalhos de Galileu e possuem grande relevância histórica para as críticas epistemológicas de Feyerabend. Fazemos, em seguida, uma releitura feyerabendiana da astronomia de Galileu com vistas à sua utilização no ensino de física. E, por fim, propomos uma unidade didática composta por três momentos– um encontro de observação astronômica, uma atividade de construção teórica e uma aula júri simulado – como subsídio para se trabalhar os sistemas de mundo de Galileu Galilei nas aulas de física do Ensino Médio. Palavras-chave: ensino de física; Filosofia da Ciência; Paul Feyerabend; astronomia; Galileu Galilei. ABSTRACT This paper connects the field of History and Philosophy of Science to its implications to the teaching of sciences, pointing the importance and pedagogical potentiality of this field. We base it on the analysis of the epistemology of the philosopher of science Paul Feyerabend to propose the historical-philosophical approach as a didactic strategy for the teaching of physics, specifically, astronomy topics involving the historic figure Galileo Galilei. In order to do that, we identified some astronomy topics traditionally taught by physics teachers on the first year of High School and, in an articulated fashion, compose a picture of Galileo’s works and hold great historic relevance to Feyerabend epistemological criticism. Afterwards, we have a feyerabendian reread of Galileo’s astronomy aiming for its use in the teaching of physics. At last, we propose a didactic unit composed of three moments – a meeting for astronomic observation, a theoretical construction activity and a mock trial class – as basis to the work with Galileo Galilei’s world systems in high school physics classes. Key-words: physics teaching; philosophy of science; Paul Feyerabend; astronomy; Galileo Galilei. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 12 2. HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA 18 3. O ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO DE PAUL FEYERABEND 30 4. O ENSINO DA ASTRONOMIA DE GALILEU NUMA PERSPECTIVA FEYERABENDIANA 57 5. GALILEU GALILEI: OS SISTEMAS DE MUNDO GEOCÊNTRICO E HELIOCÊNTRICO 106 CONSIDERAÇÕES FINAIS 124 REFERÊNCIAS 126 APÊNDICE 130 12 1. INTRODUÇÃO A física, como área do conhecimento científico, é de crucial importância para os alunos da Educação Básica. O entendimento dos fenômenos físicos, tanto terrestres, quanto celestes1, o conhecimento por trás da utilização dos aparelhos eletroeletrônicos, a criticidade quanto ao uso das tecnologias, em suma, a formação científica proporcionada pela escola, faz parte dos conhecimentos necessários para o desenvolvimento integral do educando, incorporado à cultura da vida em sociedade. A julgar tal importância, acreditamos que esforços precisam ser realizados a fim de vencer os desafios da sua prática pedagógica. A partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN e PCN+)2 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 20 de dezembro de 1996, espera-se que o ensino de Física, na escola média, contribua para a formação de uma cultura científica efetiva, que permita ao indivíduo a interpretação dos fatos, fenômenos e processos naturais, situando e dimensionando a interação do ser humano com a natureza como parte da própria natureza em transformação. Para tanto, é essencial que o conhecimento físico seja explicitado como um processo histórico, objeto de contínua transformação e associado às outras formas de expressão e produção humanas. É necessário também que essa cultura em Física inclua a compreensão do conjunto de equipamentos e procedimentos, técnicos ou tecnológicos, do cotidiano doméstico, social e profissional (BRASIL, 2000, p. 22). Além disso, a astronomia, que comumente desperta fascínio e curiosidade em públicos de todas as idades (MARQUES, 2014, p. 83), tem um valor cultural importante em nosso cotidiano: o dia e a noite, os intervalos de tempo que duram as semanas, os meses e os anos, a cor do céu, o brilho das estrelas, o calor do Sol, as fases da Lua, a maré alta, a passagem de um cometa, o riscar de uma “estrela cadente”, a comunicação por satélite, as viagens espaciais, a possibilidade de vida extraterrestre... Entretanto, é comum em uma noite de Lua cheia, nos depararmos com pessoas encantadas com a beleza do luar. A maior parte delas não 1 Esses termos também são citados como uma analogia a dicotomia terrestre/celeste das físicas sublunar e supralunar, que foram predominantes até o século XVII. 2 Esta é uma justificativa histórica importante para área de pesquisa em ensino de ciências. Apesar disso, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (BRASIL, 2018) não dá destaque à importância dos processos históricos para o ensino de ciências, como veremos no próximo capítulo. 13 acompanharam as fases da Lua (e nem a celebraram3 como o espírito sagrado da Avó Lua Cheia), mas foram pegas de surpresa ao saírem de casa e perceberem aquele acontecimento magnífico. Da mesma forma, estamos tão acostumados com a regularidade dos dias e das noites que, geralmente, não nos questionamos sobre como isso acontece e nem notamos como muda a posição do nascer e do pôr do Sol durante o ano. É nesse sentido que os PCNs, ao apresentarem o desenvolvimento das competências e habilidades em física, apontando Universo, Terra e Vida como tema estruturador para o ensino de física, afirmam: Será indispensável uma compreensão de natureza cosmológica, permitindo ao jovem refletir sobre sua presença e seu “lugar” na história do universo, tanto no tempo como no espaço, do ponto de vista da ciência. Espera-se que ele, ao final da educação básica, adquira uma compreensão atualizada das hipóteses, modelos e formas de investigação sobre a origem e evolução do Universo em que vive, com que sonha e que pretende transformar (BRASIL, 2002, p. 19). Além do mais, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao se referir à etapa do Ensino Fundamental, aponta, dentre outras coisas, na unidade temática Terra e Universo, a compreensão das características dos astros, suas dimensões, localizações e movimentos, além de “salientar que a construção dos conhecimentos sobre a Terra e o céu se deu de diferentes formas e em distintas culturas ao longo da história da humanidade”, de modo também a “fundamentar a compreensão da controvérsia histórica entre as visões geocêntrica e heliocêntrica”, de forma que os estudantes “possam refletir sobre a posição da Terra e da espécie humana no Universo” (BRASIL, 2018, p. 328). No que diz respeito à etapa do Ensino Médio, a segunda competência específica de Ciências da Natureza propõe Analisar e utilizar interpretações sobre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cosmo para elaborar argumentos, realizar previsões sobre o funcionamento e a evolução dos seres vivos e do Universo, e fundamentar e defender decisões éticas e responsáveis (ibidem, p. 553). 3 Em todas as noites de Lua Cheia as aldeias e as pequenas comunidades indígenas urbanas do Rio Grande do Norte celebram o Ritual Sagrado da Avó Lua Cheia com cânticos, danças e orações à Lua. 14 Afirma, ainda, que os estudantes devem ter a “oportunidade de elaborar reflexões que situem a humanidade e o planeta Terra na história do Universo, bem como inteirar-se da evolução histórica dos conceitos e das diferentes interpretações e controvérsias envolvidas nessa construção” (BRASIL, 2018, p. 556). Para isso, a Base indica a “história e a filosofia da ciência” como um dos conhecimentos conceituais que podem ser relacionados a essa competência específica. Dessa maneira, o ensino de física (e de astronomia) pode: promover o melhor entendimento dos conceitos físicos envolvidos; apresentar o conteúdo de física de forma integrada com seu desenvolvimento histórico-filosófico (VALADARES, 2012, p. 33); e compreender a física como parte da cultura humana (ZANETIC, 1989). Para isso, defendemos a utilização da abordagem da História e Filosofiada Ciência (HFC)4 no ensino de física. Utilizando essa estratégia, os processos pedagógicos possibilitarão que os estudantes não só aprendam algumas concepções científicas, mas, também, construam uma ideia menos caricata e a-histórica acerca do desenvolvimento científico (VALADARES, 2012, p. 92). Ao discutir sobre as tentativas de aproximação das áreas da história e da filosofia da ciência com a área de Ensino de Ciências, Matthews (1995), ao se referir a outro trabalho de sua autoria, de 1988, afirma que essas iniciativas são essenciais, uma vez que consideramos a, já bem conhecida, crise na educação científica, acentuada pelo desinteresse de professores e alunos nas matérias científicas, e pelos altíssimos índices de analfabetismo em ciências no Brasil. Nas últimas décadas, a pesquisa em ensino de ciências tem discutido sobre o papel pedagógico da HFC e recomendado sua utilização no ensino e aprendizagem das ciências (MARTINS, 2007, p. 114). Há um número grande de artigos publicados em revistas especializadas da área que, nos eventos e congressos, destina espaços específicos para essa temática. (...) Do ponto de vista mais prático e aplicado, a HFC pode ser pensada tanto como conteúdo (em si) das disciplinas científicas quanto como estratégia didática facilitadora na compreensão de conceitos, modelos e teorias. Diversos autores convergem nessa direção, defendendo e expondo razões para a presença da HFC nas salas de aula dos diversos níveis de ensino (p. ex: 4 Por tradição na área, vamos utilizar o termo História e Filosofia da Ciência (HFC), entretanto, mais recentemente, há um grande número de publicações que apresentam as discussões sociológicas da ciência. Assim, poderíamos utilizar também o termo História, Filosofia e Sociologia da Ciência (HFSC). 15 ZANETIC, 1989; GIL-PÉREZ, 1993; MATTHEWS, 1994; VANNUCCHI, 1996; PEDUZZI, 2001; EL-HANI, 2006; MARTINS, 2006) (MARTINS, 2007, p. 115, grifos do autor). Entretanto, a importância do caráter histórico-filosófico da ciência na formação de professores, nos livros didáticos e nos documentos oficiais, não garante que ele será utilizado em sala de aula, e nem que as abordagens histórica e filosófica da ciência serão ensinadas com qualidade (MARTINS, 2007, p. 115). É nesse sentido que aponta esta pesquisa. Ao relacionar a área da Filosofia da Ciência às implicações didáticas no ensino, o nosso objetivo é analisar a epistemologia do filósofo da ciência Paul Feyerabend (1924-1994) para propor a utilização da abordagem histórico- filosófica no ensino de física a partir desse referencial. Para isso, foram identificados três temas de astronomia que, de forma articulada, compõem um quadro dos trabalhos de Galileu (que denominamos de astronomia de Galileu) e possuem grande relevância histórica para as críticas epistemológicas de Feyerabend. Assim, na busca por um recorte, propomos o seguinte problema de investigação: Como a abordagem da Filosofia da Ciência, numa perspectiva feyerabendiana, pode contribuir para o ensino de física, ao ser utilizada como estratégia didática nas aulas de física do Ensino Médio, nos conteúdos que envolvem as discussões da astronomia de Galileu? Somos convidados, então, a mergulhar no ensino de física sob o olhar da história e da filosofia. E, para irmos cada vez mais fundo, vamos refletir sobre a abordagem didática da HFC no ensino de ciências, dialogando, no capítulo 2, com diversos educadores, historiadores e filósofos da ciência. Vamos defender a utilização pedagógica da HFC, apontando suas potencialidades e limitações, com objetivo de construir uma base teórica para intervenções didáticas com seu uso nas aulas de física do Ensino Médio. No capítulo 3, voltamos o nosso olhar à Filosofia da Ciência ao apresentarmos o filósofo da ciência Paul Feyerabend e as suas principais contribuições no que chamamos de uma concepção anarquista do desenvolvimento científico, ideia esta, que também pode ser traduzida pelo pluralismo metodológico com que o cientista deve proceder, ou seja, uma oposição radical a um princípio único, imutável e absolutamente obrigatório, capaz de envolver os eventos e processos científicos numa estrutura comum. A escolha desse autor não foi por um acaso – me identifiquei, particularmente, por sua defesa ao anarquismo científico e seu ataque à Razão e à 16 Racionalidade, além de apreciar sua linguagem irônica e suas provocações, onde, por vezes, tenho alguns ataques momentâneos de risos, o que me levou, inevitavelmente, a sorrir bastante ao escrever minha pesquisa. Além disso, compartilho com Feyerabend o interesse no período histórico, entre o final do século XVI e início do século XVII, que representa um recorte da chamada Revolução Copernicana, onde o personagem Galileu Galilei aparece como um dos protagonistas desse processo. Discutimos, neste capítulo, alguns bordões que envolvem este autor: o anarquismo epistemológico, a afirmação de que tudo vale, a questão da incomensurabilidade, a relação da ciência com a sociedade e com outras formas de conhecimento e os títulos das suas principais obras5: Contra o Método (FEYERABEND, 1977; 2011b), Adeus à razão (FEYERABEND, 2010) e A Ciência em uma sociedade livre (FEYERABEND, 2011a). Já no capítulo 4, intitulado O ensino da astronomia de Galileu numa perspectiva feyerabendiana, apresentamos as contribuições de Feyerabend para o ensino de ciências, e utilizamos os seus escritos para inserir recortes da história da ciência que envolvem o personagem histórico Galileu Galilei, propondo subsídio teórico para que professores de física possam utilizar a Filosofia da Ciência como estratégia didática em situações reais de ensino. Tratamos, especificamente, de três temas de astronomia que são normalmente adotados pelos professores de física no primeiro ano do Ensino Médio e que, de forma articulada, compõem um quadro do trabalho de Galileu e que possuem grande relevância histórica para as críticas de Paul Feyerabend: i) Corpos em queda livre; ii) Geocentrismo x Heliocentrismo; e iii) O telescópio como prova definitiva do céu. Juntos, esses temas formam a base para as discussões feitas por Galileu Galilei, no início do século XVII, a respeito da relação entre sua física terrestre e celeste. Esses temas, entretanto, não foram escolhidos arbitrariamente – minha formação em Licenciatura em Física com foco em astronomia e minha prática como astrônomo amador na criação de Clubes de Astronomia Escolares e na promoção de eventos de divulgação científica em astronomia, me fizeram sustentar uma imagem caricata do desenvolvimento científico, sobretudo em astronomia, que foi sendo criticada durante minha formação acadêmica através das disciplinas específicas de HFC na graduação e no início da pós-graduação, 5 A primeira edição de Contra o Método foi publicada no ano de 1975 com o título original Against Method (com versão traduzida para português em 1977). A Ciência em uma sociedade livre (Science in a Free Society) foi publicada em 1978 e a obra Adeus à razão teve sua primeira edição no ano de 1987 com o título original Farewell to Reason e reúne diversos ensaios que tratam da diversidade e da mudança na cultura, incluindo o famoso capítulo de Galileu e a tirania da verdade. Estas obras de Feyerabend, em suas traduções para o português e em suas versões mais recentes, serão as fontes primárias que utilizaremos em nossa pesquisa. 17 principalmente pela apresentação de diversos filósofos da ciência, em especial, Paul Feyerabend. Em suas obras, esse autor apresenta uma visão, baseada na História e na Filosofia da Ciência, que permite a transmutação6 desses três temas já citados em: i) A interpretação contra-indutiva de Galileu a respeito da queda dos corpos; ii)A Palavra de Deus como argumento contra a frágil teoria copernicana; e iii) O telescópio fornece um retrato verdadeiro do céu? No capítulo 5, fazemos uma releitura feyerabendiana da astronomia de Galileu, com vistas a sua utilização no ensino de física. Após uma ampla pesquisa bibliográfica nos periódicos da área de Ensino de Ciências, constatamos que, apesar de haver muitos trabalhos referentes ao personagem histórico Galileu Galilei, outros com diversas contribuições pedagógicas para a educação em astronomia, e outros, ainda, discutindo a possível contribuição de Feyerabend para o ensino, poucos são os trabalhos da literatura que tratam, especificamente, das discussões da astronomia de Galileu usadas como estratégia didática a partir de uma leitura feyerabendiana. Assim, dentro dessa problemática, propomos uma unidade didática composta por três momentos – um encontro de observação astronômica, uma atividade de construção teórica e uma aula júri simulado – como subsídio para se trabalhar os sistemas de mundo de Galileu Galilei nas aulas de física do Ensino Médio. Após isso, chegamos às considerações finais de nossa dissertação, recomendando a utilização da abordagem histórico-filosófica da ciência e, em especial, a epistemologia feyerabendiana, como estratégia didática no ensino de física. Além disso, destacamos que essa proposta deve ser refinada e ampliada, objetivando uma educação de qualidade e uma construção crítica do saber científico por nossos estudantes. Finalmente, apresentamos o Apêndice como uma das etapas da unidade didática proposta na pesquisa. Trata-se de um texto didático a respeito das discussões feitas por Galileu sobre os sistemas de mundo, a partir da análise das obras de Feyerabend, e que tem por objetivo contribuir para aprendizagem do conteúdo curricular de mecânica, sendo dedicado, preferencialmente, aos alunos de física do 1° ano do Ensino Médio. 6 O termo transmutação não foi empregado casualmente. Esses temas sofrem uma mudança tão radical, após serem analisados numa perspectiva da HFC, que se pode até dizer que eles têm sentidos opostos. 18 2. HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA No que diz respeito ao ensino de ciências, defendemos que o conhecimento a ser ensinado abranja não apenas os produtos científicos (como leis, teorias e aplicações), mas, também, os processos que envolvem a Ciência (seus métodos, estruturas e mecanismos de transformação), e a inclusão da HFC no ensino apresenta-se como um bom caminho a ser percorrido (VANNUCCHI, 1996, p. 14). Segundo Matthews (1995, p. 165), a aproximação entre os campos da História e Filosofia da Ciência com o ensino de ciências se deve, principalmente, à inclusão dos elementos históricos e filosóficos nos currículos nacionais de vários países, como, por exemplo, na Inglaterra, no País de Gales e nos EUA, além de conferências europeias (Pávia – 1983; Murique – 1986; Paris – 1988; Cambridge – 1990), britânicas (Oxford – 1987) e internacionais (Flórida – 1989), sobre História, Filosofia, Sociologia e o Ensino de Ciências. O autor afirma que os episódios da história da ciência e os aspectos da filosofia da ciência devem ser parte integrante dos currículos escolares (MATTHEWS, 1995, p. 189). Aqui no Brasil, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino Médio, desde o final da década de 90, indicam a inserção de elementos histórico-filosóficos no ensino das matérias científicas, contemplados através da categoria contextualização sócio-cultural da ciência e da tecnologia (BRASIL, 2000, p. 11), como uma dimensão das competências e habilidades a serem desenvolvidas no ensino-aprendizagem de ciências. Seguem alguns trechos deste documento oficial: Reconhecer o sentido histórico da ciência e da tecnologia, percebendo seu papel na vida humana em diferentes épocas; (...) compreender as ciências como construções humanas, entendendo como elas se desenvolveram por acumulação, continuidade ou ruptura de paradigmas (ibidem, p. 13). Reconhecer a Biologia como um fazer humano e, portanto, histórico, fruto da conjunção de fatores sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e tecnológicos (ibidem, p. 21). A Física percebida enquanto construção histórica, como atividade social humana, emerge da cultura e leva à compreensão de que modelos explicativos não são únicos nem finais. (...) O surgimento de teorias físicas mantém uma relação complexa com o contexto social em que ocorreram (ibidem, p. 27). 19 Reconhecer as relações entre o desenvolvimento científico e tecnológico da Química e aspectos sócio-político-culturais (ibidem, p. 39). Nessa medida, a história das Ciências é um importante recurso (...) tem uma relevância para o aprendizado que transcende a relação social, pois ilustra também o desenvolvimento e a evolução dos conceitos a serem aprendidos (ibidem, p. 54). Os PCN+ também reforçam essa dimensão sócio-cultural e histórica ao destacar como uma competência geral a compreensão do “conhecimento científico e o tecnológico como resultados de uma construção humana, inseridos em um processo histórico e social” (BRASIL, 2002, p. 32). Entretanto, mais recentemente, o Brasil enfrenta um cenário de disputas político- econômicas que vem causando instabilidade institucional e influenciando diretamente alguns aspectos da educação nacional (MARTINS, 2019, p. 254). A chamada Base Nacional Comum Curricular7 (BNCC), ao organizar as matérias científicas de modo integrado (isto é, sem discriminar as disciplinas de química, física e biologia), introduz na Área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias que a contextualização histórica não [deve] se ocupa[r] apenas da menção a nomes de cientistas e a datas da história da Ciência, mas de apresentar os conhecimentos científicos como construções socialmente produzidas, com seus impasses e contradições, influenciando e sendo influenciadas por condições políticas, econômicas, tecnológicas, ambientais e sociais de cada local, época e cultura. (...) Propõe-se, por exemplo, a comparação de distintas explicações científicas propostas em diferentes épocas e culturas e o reconhecimento dos limites explicativos das ciências, criando oportunidade para que os estudantes compreendam a dinâmica da construção do conhecimento científico (BRASIL, 2018, p. 550). E aponta, na primeira habilidade da competência específica 2, que o ensino de ciências deve analisar e discutir modelos, teorias e leis propostos em diferentes épocas e culturas para comparar distintas explicações sobre o surgimento e a evolução 7 Martins (2019, p. 256-261) constrói uma análise a respeito das mudanças nas versões da BNCC e desenvolve uma crítica sobre esse processo. 20 da Vida, da Terra e do Universo com as teorias científicas aceitas atualmente (BRASIL, 2018, p. 557). Apesar disso, a BNCC não apresenta a dimensão histórico-filosófica em suas competências específicas para o ensino médio, o que caracteriza, segundo Martins (2019, p. 260), uma diminuição da relevância da perspectiva histórico-filosófica na versão final deste documento. Podemos, ainda, apontar diversos autores que defendem a utilização didática da HFC com base nos seguintes argumentos: ela humaniza o conhecimento científico evidenciando os interesses pessoais, além das questões éticas, culturais e políticas que o envolvem; motiva e atrai os estudantes, podendo construir o pensamento crítico a partir de aulas científicas mais desafiadoras e reflexivas; contribui para um melhor entendimento dos conceitos científicos, visto que, nas salas de aula de ciências, fórmulas, conceitos e equações são memorizadas mas geralmente não são compreendidas; auxilia na formaçãode professores8 ao construir um conteúdo científico baseado no seu desenvolvimento histórico e filosófico, evidenciando que a ciência é mutável e que, por isso, as teorias contemporâneas estão sujeitas a transformações; permite uma melhor compreensão dos métodos científicos e demonstra como ocorrem as mudanças na metodologia vigente (MATTHEWS, 1995, p. 165, 172); abraça não apenas as concepções científicas do mundo físico, mas também como elas surgiram, evoluíram e até onde são válidas, e como se relacionam com outras partes da cultura e da sociedade (VALADARES, 2012, p. 96); melhora a compreensão dos conteúdos científicos e favorece a apropriação de atitudes e valores que estão presentes na ciência, por parte dos educandos (BASTOS FILHO, 2012, p. 65); pode oferecer exemplos de casos históricos de investigação e experimentação científica, bem como de hipóteses inesperadas ou contra-indutivas, e como ocorreram a consolidação e a substituição de teorias e modelos na ciência (VANNUCCHI, 1996, p. 14); e 8 Matthews (1995), ao citar o trabalho de Harre (1983), afirma que “Michael Polanyi defendeu o ponto de vista óbvio de que HFS deveria ser parte da educação em ciências tanto quanto a crítica literária e musical fazem parte da educação literária e musical. Seria, no mínimo, esquisito imaginar um bom professor de literatura que não tivesse conhecimento dos elementos da crítica literária: a tradição que discute o que tem, ou não, valor literário, como a literatura se relaciona com a sociedade, a história dos gêneros literários, etc. Da mesma forma, também deve ser estranho imaginar um bom professor de ciências que não tenha um conhecimento razoavelmente sólido da terminologia de sua própria disciplina (...) ou nenhum conhecimento dos objetivos muitas vezes conflitantes de sua própria disciplina” (MATTHEWS, 1995, p. 188). 21 promove uma compreensão da ciência como parte da cultura e da sociedade (ZANETIC, 1989, p. 24). Martins (2019, p. 249-250), ao dialogar com Zanetic (1989, p. 126-127) e com Vannucchi (1996, p. 19-22), manifesta algumas razões para utilização da HFC no ensino: proporciona a interação entre tópicos e disciplinas, permitindo a construção de uma abordagem interdisciplinar; relaciona as dificuldades de aprendizagem dos estudantes a concepções científicas controversas que historicamente estiveram em confronto; possui uma importância em si mesmo, uma vez que a ciência é patrimônio cultural da humanidade; concede significado às fórmulas e equações científicas; auxilia na compreensão da natureza da atividade científica, evidenciando seu processo de construção; colabora com a formação integral do cidadão contemporâneo; promove uma visão da ciência que também traz os insucessos históricos e que desmistifica e humaniza a prática científica; dentre outras. Delizoicov (1996, p. 182), ao discutir sobre o conhecimento científico e criticar o que chama de uma produção de conhecimento linear e cumulativa, que é obtido através de um método único e bem definido, afirma que, utilizando a Filosofia da Ciência, o “status do conhecimento científico passa a ser percebido como uma verdade histórica e não mais como a verdade extraída dos fatos”, desmitificando, assim, a visão consolidada e imutável que a ciência recebeu recentemente. Afirma ainda que, “a apropriação de conhecimentos científicos pelos alunos não ocorre por simples transmissão de conceitos, modelos e teorias”, mas a partir de uma construção alicerçada nas “interações não neutras com [os] objetos de conhecimento” (ibidem, p. 183, grifos do autor). Segundo Fonseca (2015, p. 7, 11), o ensino de ciências deve ser apresentado como um processo de construção histórica e não como o resultado acabado de anos de desenvolvimento, ou ainda, reproduções matemáticas e resoluções algébricas de problemas que não se articulam com a conjuntura do estudante. Ele deve, então, proporcionar uma formação que correlacione o conhecimento às especificidades sociais, culturais, políticas, econômicas, etc., em que se inserem, evidenciando os processos complexos do qual surge e se desenvolve a ciência. Forato et al. (2012, p. 126) afirmam que um olhar atento pode identificar discrepâncias entre uma concepção de ciência como uma construção humana, social, influenciada por fatores culturais, e um relato histórico que traz, implicitamente, uma ciência puramente empírica e neutra, produtora de verdades absolutas que desconsidera debates, controvérsias e rupturas em sua história. Desse modo, é importante confrontar 22 os objetivos formativos e epistemológicos que se buscam, com as visões transmitidas pelas narrativas históricas utilizadas (grifo do autor). Bastos Filho (2012, p. 65) afirma, ainda, que a incorporação e o entrelaçamento da história e da filosofia com o Ensino de Ciências há algumas décadas é recomendado, dado seu rico potencial, pela maioria dos educadores e professores das disciplinas científicas. Fazemos, então, o seguinte questionamento: se o emprego da HFC como estratégia didática / metodológica é amplamente recomendado pelos especialistas da área, por que, geralmente, não a vemos sendo utilizada em salas de aula? “A resposta é, certamente, simples: não é fácil fazer. (...) Dados reforçam a ideia de que há um abismo entre o valor atribuído à História e Filosofia da Ciência e a sua utilização com qualidade como conteúdo e estratégia didática nas salas de aula do nível médio” (MARTINS, 2007, p. 127). Segundo Valadares (2012, p. 18), são vários os argumentos em favor do uso da HFC no ensino. (...) Por outro lado, há poucos trabalhos que fornecem corroboração empírica para esses argumentos. (...) Portanto, essa área de pesquisa deve estar alerta para a necessidade de que sejam feitos maiores esforços para a realização de intervenções didáticas com uso de HFC no Ensino de Ciências e que tais intervenções sejam objetos de investigação, a fim de que se possa compreender melhor em situações reais de sala de aula qual a real contribuição que a HFC pode oferecer ao ensino e aprendizagem das ciências. Entretanto, Teixeira et al. (2012, p. 9) realizam uma revisão das pesquisas publicadas no Brasil desde a década de 1980 a meados de 2011 que fazem uso da HFC no ensino, e apontam que ainda há poucos trabalhos que analisam o uso da HFC como estratégia didática. Fonseca (2015), ao se referir a este mesmo trabalho, afirma que “apesar de haverem currículos que já contemplam elementos de HFC e [um] aumento significativo de publicações sobre o uso dessa abordagem, poucas são as revisões sobre a potencialidade de seu uso” (FONSECA, 2015, p. 2484). Assim, em meio às dificuldades no ensino-aprendizagem de ciências, e em especial o de física, “é bastante relevante a preocupação voltada para as narrativas históricas, presentes no ambiente escolar, e as visões que elas podem promover sobre os processos de construção da ciência” (VALADARES, 2012, p. 47). 23 Além disso, no ponto de vista didático, a HFC geralmente é apresentada como algo periférico e ilustrativo, que é mostrado nos livros e citado no início das aulas como uma introdução aos conteúdos que realmente importam, limitando-se ao aspecto motivacional, que visa despertar o interesse dos alunos e contextualizar o conteúdo que será ensinado. Mas, dessa forma, “sabemos que ela dificilmente cumpre o seu papel” (MARTINS, 2007, p. 128). Vannucchi (1996, p.19) disserta a respeito das contribuições da HFC para a educação científica. A autora afirma que essa aproximação apresenta contribuições significativas para o ensino e aprendizado de ciências, apontando diversos autores da área que defendem essa aproximação e outros, inclusive, que fazem oposição. A partir da década de 1970, muitos debates foram travados na área a respeito dos problemas nas reconstruçõeshistóricas. É nesse sentido que Rozentalski (2018, p. 38-39) nos questiona sobre qual perspectiva historiográfica da ciência deve ser levada ao ensino. Ele cita a necessidade da formação histórica/filosófica dos professores que desejam levar essas abordagens para a sala de aula e aponta razões contrárias à utilização da história da ciência: de maneira anacrônica, da quasi-história9 (apresentação da história em termos lógicos e ordenados) e da pseudo-história10 (uma reconstrução parcial negligenciando aspectos importantes, romantizando o cientista e apresentando-o como um herói, ao enfatizar suas virtudes e ocultar seus erros). Assim, ele defende o que chama de interpretação do passado em termos diacrônicos, de forma que tais eventos sejam avaliados de acordo com o contexto de sua própria época. É isso que já defendia Lilian Martins (2005), ao discutir sobre os objetos, métodos e problemas da área da historiografia da ciência, apontando alguns questionamentos ao se trabalhar narrativas históricas. Segundo ela, “a história da ciência é feita por seres humanos e se constitui em uma reconstrução de fatos e contribuições científicas que ocorreram, muitas vezes, em épocas distantes da nossa, [por isso,] é comum encontrarmos alguns problemas nessas reconstruções” (ibidem, p. 314). Um deles é uma história puramente descritiva, caracterizada por datas e acontecimentos que não tem relevância e que, geralmente, apresenta a figura de um grande cientista (homem, velho e, por vezes, louco), estereotipado como um gênio isolado, que foi responsável por uma grande descoberta que mudou o mundo em sua época ao concluir algo que ninguém havia tido capacidade de pensar – Galileu, Newton, Darwin, Lavoisier, Einstein, são alguns desses exemplos. Outro problema é a interpretação whig da história – ou seja, uma 9 Rozentalski (2018, p. 39) faz referência aos trabalhos de Whitaker (1979a, 1979b). 10 Citando o trabalho de Allchin (2004). 24 história da ciência anacrônica. O anacronismo consiste em “procurar no passado somente o que se aceita atualmente, ignorando completamente o contexto da época” (ibidem, p. 314), buscando precursores de uma determinada teoria ou conceito que só foram desenvolvidos posteriormente. A autora defende a importância de familiarizar-se com o que chama de atmosfera da época em que se está estudando, mantendo sempre a atenção ao que se produziu posteriormente, tentando entender quais foram os motivos11 que levaram determinadas teorias a ascensão e outras a serem descartadas. Um terceiro problema é a utilização da história da ciência de forma ideológica, privilegiando um determinado grupo social (de forma nacionalista, étnica, política, religiosa, etc.) em detrimento de outros, cujo conhecimento, valores ou ações seriam inferiores. A autora ainda chama atenção para que os recortes da história sejam feitos de forma fiel, sem omitir aspectos importantes ou ideias e fatos que entrem em conflito com o ponto de vista do historiador, gerando assim uma narração falsa da história da ciência (MARTINS, L., 2005, p. 314-315). Roberto Martins (2006, p. xxxi) chama a atenção para alguns equívocos a respeito do uso didático da história da ciência: a redução a nomes, datas e anedotas, baseado em concepções falsas a respeito da história da ciência (a ciência é feita por grandes personagens, que de forma isolada realizam “descobertas” numa determinada data); concepções errôneas sobre o método científico (a crença de que os cientistas usaram o método indutivista de investigação para “provar” as descobertas científicas); e o uso de argumentos de autoridade para justificar a aceitação dos conhecimentos científicos (ao afirmar que a ciência provou a teoria e, por isso, ela não pode ser questionada – o que, obviamente, não é verdade – gerando assim uma crença na ciência, um tipo de superstição moderna). Estas discussões a respeito das áreas da História e da Filosofia da Ciência são de crucial importância para o ensino, mesmo que nem sempre (quase nunca!) os filósofos e historiadores da ciência estejam diretamente preocupados com o ensino de ciências. Segundo Martins (2012, p. 261), a relação entre concepção epistemológica e processo de ensino-aprendizagem não é trivial e requer um olhar especial sobre como ensinar ciências, cabendo, então, aos professores 11 Nem sempre esses motivos são racionais ou objetivos. Há diversos exemplos na História da Ciência (como veremos nos próximos capítulos) que teorias melhor formuladas e consensualmente comprovadas foram abandonadas porque suas rivais (novas teorias) estavam melhor adaptadas ao contexto da época (influências religiosas, sociais, políticas, econômicas, propaganda, etc.) ou porque estavam de acordo com novas observações empíricas, mesmo baseando-se em suposições contra indutivas ou em afirmações refutadas. 25 de ciências construírem essa ponte com a área da HFC, edificando, assim, novas metodologias educacionais. Isso se dá não apenas por uma questão de conteúdo (...) mas também, principalmente, porque existem paralelos entre a evolução das ideias científicas e o desenvolvimento cognitivo dos alunos. Dessa forma, o aprender e ensinar ciência tem muito a ganhar com a epistemologia, que não precisa fornecer o modelo ou paradigma a partir do qual o processo de ensino- aprendizagem deva ser pensado, mas pode, sem dúvida, informar esse processo, dialogar com ele (MARTINS, 2012, p. 261, grifo do autor). Diante disso, a aproximação entre epistemologia12 e o ensino de ciências poderia desenvolver nos professores e alunos uma reflexão mais profunda sobre os conteúdos científicos que estão estudando. Dessa forma, o conteúdo da disciplina não seria mostrado, exibido, mas, surgiria como uma resposta a uma determinada situação-problema, que fora discutida em uma determinada época, evidenciando os métodos utilizados pelos cientistas, que foram influenciados por fatores sociais, econômicos, políticos e até religiosos, dentre outros. Assim, os estudantes se deparariam com uma ciência mais humana e mais real (no sentido de uma visão menos distorcida dos procedimentos científicos), levando-os, inclusive, a se perceberem como agentes participantes desse processo, com capacidade efetiva (e afetiva) de ser tornarem grandes cientistas, construindo, assim, um novo sentido ao processo de ensino- aprendizagem. A vasta literatura da área apresenta uma grande discussão a respeito da Natureza da Ciência13, que tem sobreposição com o que aqui discutimos. Entretanto, não temos por intenção desenvolver essa discussão, visto que esta é uma subárea de pesquisa bastante ampla e consolidada e, por razões de tempo e espaço, o nosso objetivo não é discutir esse tema com 12 “O termo epistemologia abrange discussões em torno de teorias do conhecimento [não necessariamente científicas] e sua justificação, de modo que o conhecimento científico é um de seus objetos – o que muitas vezes é especificado pelo termo epistemologia da ciência [ou Filosofia da Ciência, como, particularmente, preferimos]. (...) Assim, a epistemologia distingue-se da Filosofia da Ciência por sua amplitude. Contudo, na França, [por exemplo,] o termo epistémologie tradicionalmente se referiu ao que compreendemos como Filosofia da Ciência. Assim, dependendo de sua formação, um autor pode estar se referindo às discussões da Filosofia da Ciência quando emprega o termo epistemologia” (DUTRA, 2010 apud ROZENTALSKI, 2018, p. 59, grifos do autor). 13 Não há consenso na tentativa de estabelecer (por definitivo) uma caracterização da ciência e do desenvolvimento científico. Moura & Guerra (2016, p. 726) apresentam uma discussão sobre os que defendem e os que criticam esse modelo.Rozentalski (2018, p. 129-152) tece críticas à abordagem consensual, contra-argumentos, e ainda apresenta algumas abordagens alternativas. 26 profundidade, mas apenas relacioná-lo com o Ensino de Ciências, a fim de propor uma mudança na imagem empírico-indutivista, carregada de linguagem matemática e caracterizada por um método bem estabelecido, ainda predominante no âmbito escolar. Mas qual Filosofia da Ciência ensinar? Uma ciência neutra, linear e progressiva, feita por grandes gênios isolados, através de um método bem definido, é a visão de senso comum da ciência. Rozentalski (2018, p. 54), ao citar Hodson (1985), afirma que a ausência de uma Filosofia da Ciência evidente e respaldada nos currículos, na formação de professores e nas aulas de ciências do ensino médio, podem resultar nas seguintes compreensões sobre a ciência: (i) a prática científica permite uma compreensão da Verdade e da Realidade; (ii) o conhecimento científico é derivado de observações imparciais dos fenômenos da natureza; (iii) os experimentos desenvolvidos pelos cientistas são confiáveis e tem finalidade de testar racionalmente suas teorias; e (iv) a ciência é um conhecimento objetivo, livre de valores e preconceitos, e não é (e nem deve ser) influenciada por fatores subjetivos como questões sociais, históricas, religiosas ou econômicas. Essas características da ciência, por vezes chamada de ideologia cientificista, estão, geralmente14, presentes em diversas partes da sociedade: na mídia, no comércio, nas praças, nos livros didáticos e nas aulas de ciências do Ensino Médio e até mesmo no Ensino Superior, gerando uma visão distorcida dos processos que envolvem a ciência. De maneira oposta, Silveira (1992), afirma que a observação e a experimentação por si sós não produzem conhecimento. O “método indutivo” é um mito; o conhecimento científico é uma construção humana que tem como objetivo compreender, explicar e também agir sobre a realidade. Não podendo ser dado como indubitavelmente verdadeiro, é provisório e sujeito a reconstruções; na construção de novos conhecimentos participam a imaginação, a intuição, a criação e a razão. A inspiração para produzir um novo conhecimento pode vir inclusive da metafísica; a aquisição de um novo conhecimento é sempre difícil e problemática. Os cientistas são relutantes em abandonar as teorias de suas preferências mesmo quando parecem conflitar com a realidade. O abandono de uma teoria implica em reconhecer outra como melhor (SILVEIRA, 1992, p. 38). Assim, analisando esses temas, notamos uma discrepância entre os elementos da ciência do senso comum e a Ciência que é legitimada pela HFC. 14 Apesar de não ser habitual, hoje já é possível encontrar diversas sequências didáticas, artigos e até mesmo livros didáticos, que fazem uso, com qualidade, da HFC no ensino. 27 Segundo Roberto Martins (2006), estudar de maneira adequada os episódios históricos pode contribuir para que os alunos percebam o processo social (coletivo) e gradativo de construção do conhecimento, permitindo formar uma visão mais concreta e correta da real natureza da ciência, seus procedimentos e suas limitações – o que contribui para a formação de um espírito crítico e desmitificação do conhecimento científico, sem no entanto negar seu valor. A ciência não brota pronta, na cabeça de “grandes gênios”. Muitas vezes, as teorias que aceitamos hoje foram propostas de forma confusa, com muitas falhas, sem possuir uma base observacional e experimental. Apenas gradualmente as ideias vão sendo aperfeiçoadas, através de debates e críticas, que muitas vezes transformam totalmente os conceitos iniciais (MARTINS, R., 2006, p. xxii). Além disso, esse estudo evidencia que a ciência não surge de um método científico que leva a um acesso à verdade por trás da natureza, mas que os cientistas trazem consigo ideias pré-concebidas, que muitas vezes formulam hipóteses sem fundamento ou análise experimental, explicações contraditórias ou consideradas irracionais, fazendo da ciência uma construção extremamente complexa que não possui nenhuma fórmula infalível (MARTINS, R., 2006, p. xxiii). De forma que, considerando a epistemologia fundamental para a formação científica dos estudantes, Forato et al. (2012, p. 123-124) chamam atenção para as dificuldades existentes ao tentar produzir materiais didáticos e metodologias educacionais adequadas que fazem uso da HFC, uma vez que os professores das ciências (química, física, biologia) já enfrentam os desafios específicos de suas disciplinas científicas. Como estes poderiam fazer uso, com qualidade, da HFC em sua prática pedagógica, sem comprometer os conteúdos científicos? Eles, então, discutem sobre “o enfrentamento de dificuldades e obstáculos para a inserção de conteúdos selecionados de HFC na escola básica” (ibidem, p. 124). Segundo os autores, não basta inserir esses conteúdos, é necessário perceber que as concepções que os professores15 têm a respeito da ciência refletem na sua prática educativa em sala de aula. Além do mais, a 15 “Gil Perez e colaboradores (2001) analisaram as visões sobre a natureza da ciência em um grande grupo de professores e encontraram concepções dissonantes com essas recomendadas pela literatura. (...) Eles relatam concepções empírico-indutivistas e ateóricas, a-históricas, dogmáticas, elitistas, exclusivamente analíticas, acumulativas e lineares dos processos de construção do conhecimento científico, em geral protagonizadas por insights individuais de grandes pensadores. Os autores discutem como o Ensino de Ciências vem reforçando e propagando tais concepções indesejadas sobre a construção da ciência” (FORATO et al., 2012, p.125-126). 28 transformação das narrativas históricas em conteúdos adequados à escola básica requer uma mudança de nicho epistemológico (ibidem, p. 125, 127). Assim, tais obras devem ser interpretadas à luz de seu tempo, (...) mediante um olhar contextualizado para os conteúdos científicos. Desse modo, é importante entender tais conceitos a partir de sua formulação original (fontes primárias), confrontando-as com narrativas especializadas (fontes secundárias), e considerando perspectivas sociais e culturais na construção da ciência. É necessário, portanto, transitar em diferentes campos do saber. Mais do que isso, é necessário construir conhecimentos que inscrevem em si próprios aspectos de diversas especialidades (FORATO et al., 2012, p.127). Os autores desenvolveram uma pesquisa empírica e analisaram dezessete obstáculos (propostos), objetivando a construção dos saberes da HFC no ensino-aprendizagem de ciências. Dentre eles, destacamos a seleção dos aspectos histórico-filosóficos a serem enfatizados em cada episódio; o nível de detalhamento/aprofundamento; quando e como se utilizar trechos de fontes primárias; a superação de concepções ingênuas sobre história e epistemologia da ciência; a falta de preparo do professor, de textos especializados e pré-requisitos dos alunos (em relação ao conhecimento matemático, físico, histórico, filosófico); e a quantidade de informações na forma de textos que são apresentados. Monteiro (2014), por sua vez, ao realizar uma pesquisa que analisa os obstáculos enfrentados por professores de ciências na elaboração e aplicação de materiais didáticos que fazem uso da HFC no ensino de física, a fim de propor uma mudança em sua forma já consolidada, em que “prevalece o formalismo geométrico, a matematização, a ausência de significado e, consequentemente, os índices de baixo desempenho” (ibidem, p. 46), apresenta as estratégias didáticas que mais foram utilizadas a fim de evitar a mera transmissão oral de conteúdos (ver gráfico 1). Além disso, o autor salienta a importância dautilização de fontes primárias e secundárias na elaboração de textos e materiais didáticos com enfoques histórico- filosóficos. Gráfico 1 – Estratégias didáticas utilizadas para alcançar os objetivos propostos. 29 Fonte: MONTEIRO, 2014, p. 46. Para estendermos a discussão do que compete à Filosofia da Ciência em estabelecer um olhar a respeito do empreendimento humano chamado ciência, procurando entender a natureza desse conhecimento e sua contribuição para o ensino, vamos, no próximo capítulo, discutir sobre o desenvolvimento científico na perspectiva do filósofo da ciência Paul Feyerabend e as suas consequências na sociedade. Mais adiante, iremos apresentar o caso histórico da astronomia de Galileu à luz da perspectiva feyerabendiana. Tal perspectiva pode servir como subsídio teórico para que professores das matérias científicas possam fazer uso da HFC, a fim de que reflitam sobre o desenvolvimento científico e as características que são próprias do fazer ciência, promovendo, assim, a inserção de conteúdos do campo do saber da Filosofia e da História da Ciência para o ensino. 30 3. O ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO DE PAUL FEYERABEND A área da Filosofia da Ciência é construída por diversos autores que discutem acerca desse empreendimento humano chamado ciência, tentando estabelecer suas fronteiras, metodologias, práticas cotidianas, limites e valores intrínsecos e fundamentais do desenvolvimento científico. As ideias de um deles, em especial, nos chamam a atenção. Figura 1 – Foto de Paul Feyerabend. Fonte: Medium Brasil. Disponível em: <medium.com/brasil/carta-a-paul-feyerabend-18f8da84eb76>. Acesso em: 29 out. 2019. O austríaco Paul Karl Feyerabend nasceu em Viena em 13 de janeiro de 1924 e faleceu em sua casa em Zurique, em 11 de fevereiro de 1994, vítima de um tumor cerebral. Filósofo, com doutorado em física pela Universidade de Viena, especialização em teatro e doutor honoris causa em letras e humanidades pela Universidade de Chicago, Feyerabend desenvolveu uma filosofia da ciência bastante peculiar. Em suas reflexões epistemológicas, sempre deixou evidente sua postura radical a respeito da natureza da ciência e foi julgado como terrorista epistemológico e, mais recentemente, chamado de o pior inimigo da ciência por aqueles que 31 pareceram se ofender com suas críticas e provocações. Ele participou de diversos debates na área, como o grupo da London School of Economics, liderado por Karl Popper nos anos 50; o wittgensteineanos; o grupo de Herbert Feigl nos EUA; e de discussões com Imre Lakatos e Thomas Kuhn, dentre outros, além de ter lecionado na Universidade da Califórnia e no Instituto Federal de Tecnologia de Zurich (REGNER, 1996, p. 231-232). Chalmers (1993, p. 173) cita que um dos relatos do desenvolvimento científico “mais estimulantes e provocadores é aquele que foi pitorescamente apresentado e defendido por Paul Feyerabend; nenhuma avaliação da natureza e do status da ciência estaria completa sem alguma tentativa de entrar em acordo com ele” (grifo do autor). Neste capítulo, fazemos uso de suas principais obras: a primeira e a segunda edição de Contra o método (FEYERABEND, 1977; 2011b) – que se diferenciam nos prefácios, introduções e em alguns de seus últimos capítulos – onde Feyerabend desenvolve suas principais ideias a respeito do anarquismo científico e sua crítica à Razão e à Racionalidade; sua obra Adeus à razão (FEYERABEND, 2010), onde focaremos nas discussões a respeito da expansão do “progresso científico” e do desenvolvimento tecnológico no Ocidente, em que Feyerabend critica a premissa de que existe uma maneira certa de se viver que requer intervenção; e A Ciência em uma sociedade livre (FEYERABEND, 2011a), onde o status da superioridade científica é questionado e a ciência é colocada lado a lado com outras formas de conhecimento, inclusive os mitos, a feitiçaria e o vodu. Além disso, reunimos no próximo capítulo as discussões feitas por Feyerabend nessas obras, para tratarmos de Galileu Galilei no recorte histórico de um amplo período que ficou conhecido como Revolução Copernicana. Feyerabend apresenta uma epistemologia anárquica, em contraste com os procedimentos racionalistas: “a ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teórico é mais humanitário e mais apto a estimular o progresso do que suas alternativas que apregoam lei e ordem” (FEYERABEND, 2011b, p. 31). Ele critica o empirismo16 e o racionalismo17 por serem inadequados para elucidar o desenvolvimento 16 Feyerabend (1977, p. 39) afirma que a essência do empirismo é a regra segundo a qual o êxito das teorias científicas se deve aos fatos ou resultados experimentais estarem de acordo com o conhecimento teórico. 17 “Feyerabend (2010) identifica o racionalismo com uma tradição que nasceu na Grécia e inicialmente ‘substituiu os conceitos ricos e dependentes da situação (...) por umas poucas ideias abstratas e independentes da situação’, gerando, numa segunda etapa, ‘estórias especiais, logo chamadas de provas ou argumentos’. (...) Desenvolveu-se, assim, igualmente, a ideia de que ‘são as próprias coisas que produzem a estória e a dizem objetivamente, isto é, independentemente das opiniões e das compulsões históricas’” (REGNER, 1996, p. 234, grifo nosso). Surgindo, assim, o critério de que o conhecimento científico é único, verdadeiro e objetivo. 32 científico e, destaca ainda, que não há fatos experimentais neutros e que as observações dos fenômenos naturais dependem de nossas pré-concepções. De maneira geral, ele afirma que nenhuma das explicações propostas até agora pelos epistemólogos são totalmente bem-sucedidas em fornecer regras adequadas para orientar as atividades dos cientistas, e que todas as regras apresentadas até agora foram violadas em algum momento da história: A ideia de um método que contenha princípios firmes, imutáveis e absolutamente obrigatórios para conduzir os negócios da ciência depara com consideráveis dificuldades quando confrontada com os resultados da pesquisa histórica. Descobrimos, então, que não há uma regra única, ainda que plausível e solidamente fundada na epistemologia, que não seja violada em algum momento. (...) A invenção do atomismo na Antiguidade, a Revolução Copernicana, o surgimento do atomismo moderno [e] a emergência gradual da teoria ondulatória da luz, ocorreram apenas porque alguns pensadores decidiram não se deixar limitar por certas regras metodológicas “óbvias”, ou porque as violaram inadvertidamente. (...) Dada qualquer regra, não importa quão “fundamental” ou “racional”, sempre há circunstância em que é aconselhável não apenas ignorá-la, mas adotar a regra oposta. Por exemplo, há circunstâncias em que é aconselhável introduzir, elaborar e defender hipóteses ad hoc, ou hipóteses que contradizem resultados experimentais bem estabelecidos e em geral aceitos, ou hipóteses inconsistentes. (...) Há mesmos circunstâncias em que a argumentação perde seu aspecto antecipador e torna- se um obstáculo ao progresso (FEYERABEND, 2011b, p. 37-38, grifo do autor). Feyerabend construiu suas “ideias estranhas” dialogando com diversos filósofos da ciência, dentre eles, seu amigo e companheiro anarquista, Imre Lakatos18. Este desenvolveu uma epistemologia que situava a prática científica dentro de um programa de pesquisa, o que foi chamado por Feyerabend de anarquismo disfarçado, pois serviria de “Cavalo de Tróia, capaz de infiltrar o anarquismo real, direto, ‘honesto’ nos espíritos de nossos mais encarniçados racionalistas” (FEYERABEND, 1977, p. 305). Eles concordam que a metodologia científica deve permitir um espaço livre para que as ideias dos cientistas possam ser exploradas sem impedimentos. E, também,que os padrões das metodologias não são permanentes, mas podem, a partir de um exame de dados históricos, serem substituídos por padrões melhores (ibidem, p. 18 Cita Feyerabend (2011b, p. 7): “Em 1970, durante uma festa, Imre Lakatos, um dos melhores amigos que já tive, colocou-me contra a parede. ‘Paul’, disse ele, ‘você tem umas ideias tão estranhas. Por que não as põe por escrito? Eu escrevo uma réplica, publicamos a coisa toda, e eu prometo a você – vamos nos divertir muito’”. 33 287). Dessa forma, “a metodologia dos programas de pesquisa fornecem padrões que ajudam o cientista a avaliar a situação histórica em que ele toma suas decisões; não contém regras que lhe digam o que fazer” diferindo radicalmente de outras filosofias, como o indutivismo e o falseamentismo científico (ibidem, p. 289). Ele ataca, sobretudo, a ideia de que a ciência possui um Método (com “M” maiúsculo) único capaz de envolver os eventos e processos científicos numa estrutura comum; e que há elementos intrínsecos às investigações científicas que estão ausentes em outros lugares: o sucesso científico não pode ser explicado de maneira simples. Não podemos dizer: “a estrutura do núcleo atômico foi descoberta porque as pessoas fizeram A, B, C ...”, em que A, B e C são procedimentos que podem ser compreendidos independentemente de seu uso na física nuclear. Tudo o que podemos fazer é dar uma explicação histórica dos detalhes, incluindo circunstâncias sociais, acidentes e idiossincrasias pessoais. (...) A pesquisa bem-sucedida não obedece a padrões gerais; depende, em um momento, de certo truque e, em outro, de outro; os procedimentos que a fazem progredir e os padrões que definem o que conta como progresso nem sempre são conhecidos por aqueles que aplicam tais procedimentos. Mudanças de perspectiva de longo alcance, como assim chamadas “Revolução Copernicana” ou “Revolução Darwiniana”, afetam diferentes áreas de pesquisa de maneiras distintas e recebem delas impulsos diferentes. Uma teoria da ciência que delineia padrões e elementos estruturais para todas as atividades científicas e os autoriza por referência à “Razão” ou “Racionalidade” pode impressionar os observadores externos – mas é um instrumento grosseiro demais para as pessoas envolvidas, isto é, para os cientistas enfrentando algum problema de pesquisa concreto (FEYERABEND, 2011b, p. 19-20, grifo do autor). Para Feyerabend, a pesquisa científica não deve ser limitada por regras metodológicas. Ele não nega que haja rigor científico, mas afirma que não há nenhuma regra que tenha sido sempre seguida historicamente. Além disso, a atribuição das regras, por si só, para consolidar o status científico se depara com problemas, quando comparada com o rico e complexo conjunto de regras que os pajés utilizam para desenvolver seus rituais de cura e de orientação e com os padrões rígidos e os juízos de valor empregados pela medicina astrológica – o que seria rapidamente descartado por qualquer racionalista sério (FEYERABEND, 1977, p. 310). De forma que, segundo o autor, a única regra que pode ser defendida é o princípio de que tudo vale, uma vez que a ciência é muito complexa para ser explicada com base em um conjunto de passos metódicos simples. Assim, o anarquismo epistemológico pode ser traduzido pelo 34 pluralismo metodológico (ou talvez pela liberdade metodológica) em que o cientista pode proceder. Etimologicamente, anarquismo tem raiz na palavra grega anarkhia, (sem topo, sem poder) e representa uma filosofia política que defende os elementos da inexistência de qualquer forma de hierarquia e dominação, seja ela política de governo, econômica, social ou cultural, tendo como princípios a liberdade individual e coletiva, a igualdade e a solidariedade. Para nós, utilizada em seu termo epistemológico, significa, antes, oposição a um princípio único, absoluto, imutável de ordem, do que oposição a toda e qualquer organização. (...) Não significa, portanto, ser contra todo e qualquer procedimento metodológico, mas contra a instituição de um conjunto único, fixo, restrito de regras que se pretenda universalmente válido, para toda e qualquer situação – ou seja, contra algo que se pretenda erigir como “o” método, como “a” característica distintiva, demarcadora do que seja ciência (REGNER, 1996, p. 233). Na introdução de sua obra Contra o método, Feyerabend (2011b, p. 31) afirma estar convicto “de que o anarquismo, ainda que talvez não seja a mais atraente filosofia política, é, com certeza, um excelente remédio para a epistemologia e para a filosofia da ciência” (grifos do autor). Para ele, a história da ciência está cheia de interações complexas de eventos – acidentes, interesses, etc. – e tentar explicar essas circunstâncias peculiares por meio de regras metodológicas ingênuas e simplórias só seria conveniente para um oportunista impiedoso. Assim, ainda segundo Feyerabend, a história da ciência não se fundamenta somente em fatos e conclusões extraída de fatos, mas também está sujeita a “ideias, interpretações de fatos, problemas criados por interpretações conflitantes, erros e assim por diante” (ibidem, p 33). Pode-se dizer então que, em nenhuma circunstância, a ciência conhece fatos nus ou fatos objetivos, mas que todos os dados, percepções sensoriais e resultados, que são extraídos de uma observação científica, são essencialmente ideacionais. Feyerabend (ibidem, p. 13-14) cita que termos como “experimentação” e “observação” abrangem complexos processos contendo muitos elementos. “Fatos” surgem de negociações entre grupos diferentes, e o produto final – o relatório publicado – é influenciado por eventos físicos, processadores de dados, soluções conciliatórias, exaustão, falta de dinheiro, orgulho nacional e assim por diante. (...) Estamos bem longe da velha ideia (platônica) de ciência como um sistema de enunciados desenvolvendo-se por meio de experimentação e observação e mantido em ordem por padrões racionais duradouros. 35 Sendo assim, “a história da ciência será tão complexa, caótica, repleta de enganos e interesses quanto às ideias que encerra, e essas ideias serão tão complexas, caóticas, repletas de enganos e interesses quanto a mente daqueles que as inventaram” (FEYERABEND, 2011b, p. 33). Dessa forma, o anarquista epistemológico não sente receio em apoiar ou refutar o mais banal ou o mais afrontoso enunciado, pois não tem lealdade perante qualquer instituição (como os anarquistas religiosos), nem permanente aversão contra ele (como os anarquistas políticos). Não há método algum visto como indispensável e nem concepções absurdas ou imorais que o anarquista epistemológico se recuse a examinar. Comportam-se de maneira contrária aos que defendem os “padrões universais, as leis universais, as ideias universais, como ‘Verdade’, ‘Razão’, ‘Justiça’, ‘Amor’, e o comportamento que essas ideias acarretam” (FEYERABEND, 1977, p. 292-293). Feyerabend, paulatinamente, faz uso da história da ciência. Ele trata, dentre outras coisas, da controvérsia acerca da Revolução Copernicana e da física de Galileu, evidenciando uma ciência fruto de uma construção histórica, com pressão social, interesses, propagandas, influência religiosa, ideológica, e até mesmo a busca por felicidade. Afirma que Galileu, no início do século XVII, agiu de forma anarquista quando passou a conhecer a obra principal de Copérnico (a respeito do Heliocentrismo) e estudou o potencial ideológico de sua doutrina, em dissonância com o ideal de estabilidade que inspirava o ponto de vista aristotélico (aceito por grandes grupos da população e defendido pela Igreja) e os experimentos de queda-livre (o argumento da torre), usados pelos aristotélicos para refutar o suposto movimento da Terra. Parte do que estava em jogo era a paz socialdo povo comum, coisa que Galileu pareceu não se preocupar. O cardeal Bellarmino temia que as pessoas perdessem a fé, caso descobrissem que a Terra não estava em repouso, mas se movia a uma velocidade de 29 quilômetros por segundo ao redor do Sol. Galileu, com uma atitude que Feyerabend chama de esnobe e precipitada, exigia que todos aceitassem um ponto de vista que poderia perturbar a fé dos simples, o que deu direito ao cardeal a exigir alguma prova (científica) mais concreta, uma vez que as luas de Júpiter, as fases de Vênus e as manchas do Sol ainda se acomodavam ao sistema de Tycho Brahe, permitindo que a Terra continuasse imóvel no centro do Universo (FEYERABEND, 1977, p. 295-296). 36 O chamando argumento da torre19 estava baseado na interpretação natural, afirmada pelos nossos sentidos, de que quando corpos massivos são abandonados eles caem, de cima para baixo, em direção ao chão. Esse movimento, caso o corpo não tenha sido empurrado para uma direção privilegiada ou levado pelo vento, será, inevitavelmente, uma linha reta e perpendicular à superfície da Terra. Feyerabend (2011b, p. 88) afirma que essa sugestão é tão forte que baseou sistemas inteiros de crenças e rituais, além de moldar a base de nossa vivência cotidiana desde as experiências de queda que começam na infância. E que Galileu desenvolveu uma discussão crítica a respeito de quais interpretações naturais deveriam ser substituídas para acomodar a ideia de Copérnico a respeito da mobilidade da Terra. Assim, se a Terra estivesse em movimento e uma pedra fosse abandonada do alto de uma torre, ela deveria afasta-se da torre ao cair, uma vez que a torre estaria junto à Terra em movimento, mas a pedra não (GALILEI, 2011, p. 208). Esse argumento envolve interpretações naturais de que a realidade sempre nos fornece informações confiáveis que nos levam a interpretações diretas da natureza, logo, o movimento da pedra é sempre notado por nossos sentidos. Galileu, entretanto, “identifica as interpretações naturais inconsistentes com a teoria de Copérnico (...) – ideias tão estreitamente ligadas a observação que é necessário um esforço especial para perceber sua existência e determinar seu conteúdo” (FEYERABEND, 2011b, p. 85) – e as substituem por outras interpretações contra-indutivas e altamente abstratas. Assim, podemos notar que não estavam em jogo apenas as questões racionais e que os métodos utilizados por Galileu muitas vezes envolveram propaganda20 e um forte apelo social para sustentar uma teoria que, como veremos mais adiante, estava em contradição com aquilo que era visto e evidenciado pelo conhecimento científico da época. Para Feyerabend, ignorar os processos históricos donde surge e se desenvolve uma teoria reflete na natureza dos “fatos” científicos, experienciados como independentes de opinião, crença e formação cultural. É possível assim, criar uma tradição que é mantida coesa por regras estreitas e, até certo ponto, que também é bem-sucedida. Mas será que é desejável dar apoio a tal tradição a ponto de excluir tudo o mais? (...) Será que os cientistas invariavelmente permanecem nos limites das tradições que definiram dessa maneira estreita? 19 Daremos ênfase a essa discussão no próximo capítulo. 20 O termo propaganda foi acentuado por Feyerabend – interpretação que, inclusive, concordamos e a defenderemos mais adiante – entretanto, não é consensual, entre os filósofos e historiadores da ciência, que Galileu tenha utilizado, propositalmente, uma tática propagandista. 37 (...) [A] minha resposta a essas perguntas, [é] um firme e sonoro NÃO. (...) Os anarquistas profissionais opõem-se a qualquer tipo de restrição e exigem que ao indivíduo seja permitido desenvolver-se livremente, não estorvado por leis, deveres ou obrigações (FEYERABEND, 2011b, p. 34-35, grifo do autor). A ausência de restrições epistemológicas faz Feyerabend entoar que tudo vale quando são analisados, de forma séria, os eventos que aconteceram na história da ciência, e essa é, com toda certeza, uma de suas declarações mais polêmicas e conflitantes21. Na história da humanidade, o conhecimento foi construído das mais diversas formas possíveis, e não há nenhuma “categoria metodológica”, no qual, podemos caracterizar quais os elementos são, necessariamente, intrínsecos à ciência. Além do mais, quando tentamos caracterizar o desenvolvimento científico em regras metodológicas, nos é demonstrado, “tanto por um exame de episódios históricos quanto por uma análise abstrata da relação entre ideia e ação, [que] o único princípio que não inibe o progresso” é o mesmo princípio que sobrevive às limitações epistemológicas da história da ciência: o princípio que tudo vale (FEYERABEND, 2011b, p. 37). Se quiséssemos encontrar um método que fosse capaz de explicar todos os conhecimentos construídos pela ciência, teríamos como resultado a afirmação de Feyerabend de que tudo é válido, pois não seria possível extrair um múltiplo comum entre todos os métodos que foram utilizados na história do conhecimento, “sendo a única saída determinar, então, que tudo vale, que nada mais é do que a consideração de uma categoria virtual, digamos, a única que daria conta da diversidade metodológica da ciência” (LOPES, 2016, p. 26, grifos do autor). Está claro, então, que a ideia de um método fixo ou de uma teoria fixa da racionalidade baseia-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de suas circunstâncias sociais. Para os que examinam o rico material fornecido pela história22 e não têm a intenção de empobrecê-lo a fim de agradar a seus baixos instintos, a seu anseio por segurança intelectual na forma de clareza, 21 O termo tudo vale também aparece na literatura como vale tudo. A diferença semântica é que o primeiro termo pode ser destrinchado como “tudo é válido”, o que significa dizer também que “tudo tem valor”. Já o segundo dá a ideia de que “vale qualquer coisa” de forma que “qualquer coisa serve”. Logo, no sentido epistemológico, proposto por Feyerabend, o termo correto é, de fato, tudo vale. 22 Para exemplificar, Feyerabend (2011b, p. 108) afirma que a física clássica adota uma filosofia que contém os princípios pelos quais recorre a uma experiência fluida e mutável, que não insistem num “julgamento assimétrico das teorias pela experiência. (...) pelo menos procedem dessa maneira seus grandes e independentes pensadores, como Newton, Faraday e Boltzmann. Sua doutrina oficial, contudo, ainda agarra-se à ideia de uma base firme e imutável. O conflito entre essa doutrina e o procedimento real é ocultado por uma apresentação tendenciosa dos resultados da pesquisa que esconde sua origem” (grifos do autor). 38 precisão, “objetividade” e “verdade”, ficará claro que há apenas um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio de que tudo vale (FEYERABEND, 2011b, p. 42, grifo do autor)23. Mas será que poderíamos encontrar algum caso da história da ciência que não seria totalmente explicado por um Método que se apresente como racional, objetivo ou universal? Se encontrássemos, provaríamos a falibilidade do Método? Então façamos algo melhor: existe algum caso que seja absolutamente explicado por esse Método? Ou seja, na história da humanidade, alguma vez, em algum lugar, o desenvolvimento científico pôde ser explicado pelo que Feyerabend (2011b, p. 37) chamou de “um método que contenha princípios firmes, imutáveis e absolutamente obrigatórios para conduzir os negócios da ciência”? A resposta para essa última pergunta é: provavelmente não. Entretanto, podemos proceder com a negação do método: a contrarregra, que corresponde a elaborar e introduzir hipóteses contraditórias comas teorias aceitas e/ou fatos bem estabelecidos, mas que façam avançar a ciência, o que nos levaria a proceder contraindutivamente. Feyerabend (ibidem, p. 44) afirma que, quando um cientista deseja sustentar uma concepção, ele precisa comparar ideias antes com outras ideias do que com a “experiência” e tem de tentar aperfeiçoar, em vez de descartar, as concepções que fracassaram nessa competição. (...) Concebido dessa maneira, o conhecimento não é uma série de teorias autoconsistentes que convergem para uma concepção ideal; não é uma aproximação gradual à verdade. É, antes, um sempre crescente oceano de alternativas mutuamente incompatíveis, no qual cada teoria, cada conto de fadas e cada mito que faz parte da coleção força os outros a uma articulação maior, todos contribuindo, mediante esse processo de competição, para o desenvolvimento de nossa consciência. [Assim,] nenhuma concepção pode jamais ser omitida de uma explicação abrangente (grifo do autor). Ademais, segundo Feyerabend (ibidem, p. 67) não existe teoria alguma que concorde com todos os fatos conhecidos que estão em seu domínio: 23 Ao citar a transição das teorias de Ptolomeu/Aristóteles para Copérnico/Galileu, Feyerabend (2011a, p. 58-62) analisa as explicações epistemológicas, do empirismo ingênuo aos programas de pesquisa, e as criticam, a partir de suas premissas, por não corresponderem à realidade histórica, deixando claro a sua posição de que tudo vale. 39 De acordo com nossos resultados atuais, praticamente nenhuma teoria é consistente com os fatos. A exigência de admitir apenas as teorias que sejam consistentes com os fatos disponíveis e aceitos deixa-nos, mais uma vez, sem teoria alguma. (Repito: sem teoria alguma, pois não há uma única teoria que não se encontre em algum tipo de dificuldade.) (ibidem, p. 80, grifos do autor). “A questão, portanto, não é se teorias contraindutivas deveriam ser admitidas na ciência; a questão é, antes, se as discrepâncias existentes entre teoria e fato devem ser aumentadas ou diminuídas” (FEYERABEND, 2011b, p. 45, grifos de do autor). Entretanto, ele chama atenção que não está recomendando que uma nova metodologia (a contraindução) substitua a indução e “utilize uma multiplicidade de teorias, concepções metafísicas e contos de fadas em vez do costumeiro par teoria/observação, (...) [substituindo] um conjunto de regras gerais por outro conjunto da mesma espécie” (ibidem, p. 46-47). Ao contrário, sua intenção é mostrar que todas as metodologias têm os seus limites. Outro ponto importante da análise de Paul Feyerabend é a questão da incomensurabilidade. Ele defende a incomensurabilidade24 entre teorias rivais, sem negar, contudo, que haja possibilidade de discutir ambas as visões, cada qual em seus próprios termos. Para ele, as mecânicas de Aristóteles e Newton, bem como a Física Clássica e a Relatividade são exemplos de teorias incomensuráveis. Como as teorias não compartilham dos mesmos princípios universais, não se pode expressar os enunciados de uma nos termos da outra, sem modificar, fundamentalmente, o que a teoria representa. Em suas palavras: É certo que esquemas incomensuráveis e conceitos incomensuráveis podem apresentar muitas similaridades estruturais – isso, porém, não afasta o fato de que os princípios universais, próprios de um esquema, são sustados pelo outro. É esse o fato que define a incomensurabilidade, a despeito de todas as similaridades que seja possível descobrir (FEYERABEND, 1977, p. 404-405, grifo do autor). Chalmers (1993), ao dialogar com Feyerabend e relacionar o conceito de incomensurabilidade à dependência que a observação tem da teoria, destaca que, na Física Clássica, a forma, a massa e o volume são propriedades intrínsecas aos objetos físicos, que só 24 Etimologicamente, incomensurabilidade pode ser definida como a característica ou condição daquilo que não se pode e nem se consegue medir; cuja medida não pode ser comparada. 40 podem ser modificadas por interferências físicas. Mas, na Relatividade, essas propriedades podem ser modificadas sem interação física nenhuma, mudando-se apenas o quadro de referência. Assim essas teorias são incomensuráveis, uma vez que se referir “a objetos físicos dentro da mecânica clássica terá um sentido diferente de uma referência semelhante na teoria da relatividade” (ibidem, p. 177-178). E cita ainda que em alguns casos, os princípios fundamentais de duas teorias rivais são tão radicalmente diferentes que não é nem mesmo possível formular os conceitos básicos de uma teoria nos termos da outra, com a consequência que as duas rivais não compartilham das preposições de observação. [Assim,] não será possível deduzir logicamente algumas das consequências de uma teoria dos princípios de sua rival para propósito de comparação. [Logo,] as duas teorias são incomensuráveis e não podem ser comparadas através de suas consequências lógicas (CHALMERS, 1993, p. 176-178). Feyerabend (1977, p. 351-354) destaca que a incomensurabilidade ocorre já no domínio da percepção. Segundo ele, imagens que são usadas para explicar objetos materiais dependem das imagens que surgem na mente dos que as veem, e estão ausentes na mente daqueles que ainda não os reconhecem, assim, o campo de percepção jamais contém, ao mesmo tempo, um mesmo tipo de base observacional. Essa discussão feita por Feyerabend a respeito da incomensurabilidade dialoga, até certo ponto, com o seu contemporâneo Thomas Kuhn. O filósofo da ciência estadunidense, entretanto, ao construir sua análise científica a partir da estrutura das revoluções científicas, caracteriza a incomensurabilidade como vinculada as “razões pelas quais os proponentes de paradigmas competidores fracassam necessariamente na tentativa de estabelecer um contato completo entre seus pontos de vista divergentes” (KUHN, 1998, p. 188). Segundo o autor, isso acontece por três motivos: primeiro, os proponentes de paradigmas rivais discordam quanto à lista de problemas que devem resolver; seus padrões ou definições de ciência podem ser equivalentes, mas não são os mesmos; e os proponentes dos paradigmas rivais praticam seus ofícios em mundos diferentes. Assim, os dois grupos de cientistas veem coisas diferentes quando olham para um mesmo fenômeno (ibidem, p. 189-190). Consideremos, por exemplo, aqueles que chamaram Copérnico de louco porque este proclamou que a Terra se movia. Não estavam, nem pouco, nem completamente errados. Parte do que entendiam pela expressão “Terra” referia-se a uma posição fixa. Pelo menos, tal terra não podia mover-se. Do 41 mesmo modo, a inovação de Copérnico não consistiu simplesmente em movimentar a Terra. Era antes uma maneira completamente nova de encarar os problemas da Física e da Astronomia, que necessariamente modificava o sentido das expressões “Terra” e “movimento”. Sem tais modificações, o conceito de Terra em movimento era, [de fato,] uma loucura (KUHN, 1998, p. 189-190, grifo nosso). Regner (1996) nos chama a atenção sobre a (falsa) alegação que a tese da incomensurabilidade poderia impedir a escolha entre teorias científicas por razões empíricas. Ao dialogar com Feyerabend, ela cita que a comparação entre teorias incomensuráveis obedece a leis e padrões específicos, e que “há comparação, mesmo comparação objetiva, mas que essa comparação é um procedimento muito mais complexo e delicado do que os racionalistas supõem” (REGNER, 1996, p. 244, grifo da autora). De forma que, se pretendemos escolher entre duas (ou mais) teorias incomensuráveis, devemos analisá-las através de seus próprios termos, em seus respectivos tipos de experiências e contradições internas. Não podemos, entretanto, comparar os seus conteúdose nem formular juízo de verossimilitude entra elas. O que fica, então, após retirarmos os fatores internos, são “os juízos estéticos, os juízos de gosto, os preconceitos metafísicos, as aspirações religiosas; em suma, o que resta são nossos desejos subjetivos” (FEYERABEND, 1977, p. 411-412, grifo do autor). Feyerabend também tece relações entre ciência, sociedade e outras formas de conhecimento. Ele defende a separação ciência-Estado, assim como hoje é defendido a separação religião-Estado; afirma que a ciência é apenas uma das muitas formas de conhecimento, mas não é, necessariamente, a melhor; e que “a ciência aproxima-se do mito, muito mais do que uma filosofia científica se inclinaria a admitir” (FEYERABEND, 1977, p. 447). Ele afirma que devemos “reexaminar nossa atitude em face do mito, da religião, da magia, da feitiçaria e em face de todas aquelas ideias que os racionalistas gostariam de ver para sempre afastadas da superfície da Terra” (ibidem, p. 453). Assim, apesar de um cidadão poder escolher a religião de seu agrado, “não lhe é permitido pedir que, na escola, seus filhos aprendam mágica e não a ciência. Existe separação entre Estado e Igreja, [mas] não existe separação entre Estado e ciência” (ibidem, p. 453). Feyerabend (ibidem, p. 457) mostra que o tratamento especial recebido pela ciência se deve ao nosso pequeno conto de fadas de crermos que a ciência é regida por um método ideologicamente neutro que produz teorias verdadeiras e úteis, sendo a ciência uma medida objetiva acima de todas as ideologias. 42 Contudo, a ciência não tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida. Seus objetivos não são, por certo, mais importantes que os propósitos orientadores de uma comunidade religiosa ou de uma tribo que se mantém unida graças a um mito. De qualquer modo, não há por que esses objetivos possam restringir as vidas, os pensamentos, a educação dos integrantes de uma sociedade livre, onde cada qual deve ter a possibilidade de decidir por si próprio e de viver de acordo com as crenças sociais que tenha por mais aceitáveis. A separação entre Estado e Igreja deve, portanto, ser complementada pela separação entre Estado e ciência (ibidem, p. 454). Além disso, ele afirma que o conto de fadas é falso, e cita dois argumentos principais. O primeiro deles se refere ao fato de não haver um método especial que garanta o êxito do empreendimento científico. Os cientistas resolvem problemas porque os estudam com profundidade, embora cometam diversos erros. Frequentemente, os cientistas (especialmente os médicos) chegam a resultados (objetivos) diferentes a respeito da enfermidade de uma pessoa (mas isso também pode ser aplicado à utilização de um agrotóxico25 ou de um supercondutor, por exemplo). Como, então, decidir qual o procedimento que será adotado pelos médicos? “Nenhum cientista admitirá que votar tenha sentido [nessa decisão]. Só os fatos, a lógica e a metodologia decidem – é o que nos diz o conto de fadas” (FEYERABEND, 1977, p. 458, grifo nosso). Na prática, o que seria chamado de erro médico, por exemplo, ao se referir a não capacidade de se chegar a um resultado objetivo único – no que se refere a uma decisão entre cientistas – abre as portas para as influências não-científicas: dogmatismo religioso, ideologia política, influência metafísica, interesse econômico, etc. Esse é o ponto “em que o conto de fadas do método especial assume sua função decisiva. [Ocultando] a liberdade de decisão que os cientistas criadores e o público em geral têm (...) antepondo-lhes a repetição dos critérios objetivos” (ibidem, p. 458-459, grifos do autor). Assim, os cidadãos sucumbem às pressões que foram expostos (desde o processo de educação escolar) e agora estão firmemente convencidos da verdade do conto de fadas. Dessa maneira os cientistas se iludiram a si próprios e aos demais com respeito à tarefa a que se dedicam, sem, contudo, [vir] a sofrer qualquer real desvantagem: dispõem de mais dinheiro, mais autoridade e exercem maior atração do que merecem – e os mais estúpidos processos e mais risíveis resultados que alcançam em sua esfera de atuação vêm rodeados de uma aura de excelência. É tempo de reduzi- 25 Abreu et al. (2015) apresentam um estudo de caso no ensino de ciências sobre o uso ou não de agrotóxicos, que ilustra essa afirmação. 43 los às devidas proporções e de atribuir-lhes [a] mais modesta posição na sociedade (ibidem, p. 459). Um segundo argumento de Feyerabend (ibidem, p. 455) diz respeito à imagem que a ciência do século XX adquiriu, em decorrência dos “milagres tecnológicos, tais como a televisão em cores, as viagens à Lua, o forno a raios infravermelhos e, [ironiza Feyerabend,] de informações vagas mas nem por isso de menor força – algo como histórias fantasiosas – a propósito de como surgem tais milagres”. Ao adquirimos uma enfermidade grave, é certo que logo iremos procurar um médico ao invés de um leigo ou um feiticeiro. É certo também que a medicina moderna nos livrou de diversas epidemias e pragas e que a física, a química, a computação e a engenharia nos serviram de numerosos artefatos quase mágicos – a tecnologia – que praticamente não vivemos mais sem eles. Sem contar, é claro, com o nosso entendimento cosmológico, nossas viagens a Lua e demais viagens interplanetárias (com sondas espaciais) e até intergalácticas (através das imagens dos telescópios espaciais). Nesse contexto, é de se esperar que determinadas pessoas se perguntem: como não acreditar no poder da ciência moderna? Como não ter absoluta certeza que ela é superior a (todas as) outras formas de conhecimento? Como se atrever a colocar a ciência no mesmo patamar que a religião, a mágica, o vodu ou a feitiçaria? Segundo Feyerabend (ibidem, p. 459), esses são alguns dos ataques feitos a quem ousa criticar a especial posição das ciências no mundo moderno. Feyerabend (1977, p. 460-461), entretanto, cita que nenhum dos grandes resultados científicos surgiram sem interferência e recursos de elementos não-científicos. Ainda hoje, a ciência pode tirar vantagem da consideração de elementos não- científicos. Exemplo [disso] é a revivescência da medicina tradicional na China comunista. Quando os comunistas, na década de 1950, forçaram os hospitais e escolas de medicina a transmitir as ideias e métodos registrados no Manual de Medicina interna do imperador Amarelo e a aplicá-las no tratamento dos pacientes, muitos especialistas ocidentais (entre eles, Eccles, um dos ‘Cavaleiros de Popper’) se horrorizaram e predisseram a derrocada da medicina chinesa. Ocorreu exatamente o oposto. A acupuntura, a moxa, o diagnóstico pelo pulso conduziram a novas percepções, novos métodos de tratamento e colocaram novos problemas, tanto para o médico ocidental quanto para o chinês (grifos do autor). 44 Além disso, o conhecimento de ervas medicinais usadas por pajés, feiticeiros e curandeiros; a psicologia, o conhecimento dos boticários; o estudo do movimento celeste pelos astrólogos e o amor pelos círculos perfeitos da Platão; a necessidade econômico-social para a construção de instrumentos de localização nas grandes navegações (e nas viagens espaciais); as tentativas de Copérnico de adaptar as ideias antediluvianas de Filolau26 às necessidades de predições astronômicas; a influência teológica para uma cosmologia de criação (Big Bang); e até mesmo o desenvolvimento tecnológico das ciências e engenharias espaciais (a corrida espacial) que se deve muito (se não tudo) à necessidade de poder político na segunda metade do século XX (a Guerra Fria), são alguns dos exemplos citados por Feyerabend que enfatizam essa afirmação. De forma que, métodos, resultados e processos essenciais que fazem parte da construção e do fortalecimento da ciência por toda parte,foram silenciosamente suspensos ou evitados como procedimentos não-científicos (FEYERABEND, 2011a, p. 131). A asserção de que não há conhecimento fora da ciência – extra scientiam nulla salus – nada mais é que outro e convenientíssimo conto de fadas. As tribos primitivas faziam classificações de animais e plantas mais minuciosas que as da zoologia e da botânica de nosso tempo; conheciam remédios cuja eficácia espanta os médicos (e a indústria farmacêutica já aqui fareja uma nova fonte de lucros); dispunham de meios de influir sobre os membros do grupo que a ciência por longo tempo considerou inexistentes (vodu); resolviam difíceis problemas por meios ainda não perfeitamente entendidos (construção de pirâmides, viagem dos polinésios); [e] havia, [ainda] na Idade da Pedra, uma astronomia altamente desenvolvida e internacionalmente conhecida, astronomia que era factualmente adequada e emocionalmente satisfatória, dando solução a problemas tanto sociais quanto físicos (o [que] não se pode dizer a respeito da astronomia moderna) (FEYERABEND, 1977, p. 462, grifos do autor). Assim, segundo o autor, a ciência moderna muito se beneficiou com os métodos e resultados não-científicos. Esses processos essenciais, entretanto, foram abandonados ou 26 “Filolau não era um cientista preocupado com a precisão; era um pitagórico desorientado e as consequências de suas doutrinas foram consideradas ‘incrivelmente ridículas’ por um astrônomo profissional como Ptolomeu. Mesmo Galileu, que se defrontou com a aperfeiçoada versão copernicana da doutrina de Filolau, diz: ‘Não tem limites meu espanto quanto percebo que Aristarco e Copérnico foram capazes de fazer com que a razão dominasse os sentidos, de sorte que, em detrimento destes, a razão se tornasse a orientadora de suas convicções’ (Dialogue, 328). ‘Sentidos’, aqui, refere-se às experiências a que recorreram Aristóteles e outros, para mostrar que a Terra se encontrava em repouso. A ‘razão’, oposta por Copérnico a tais argumentos, é a mística razão de Filolau, associada a uma fé igualmente mística (‘mística’ do ponto de vista dos racionalistas de hoje) no caráter fundamental do movimento circular” (ibidem, p. 460). 45 contornados a fim de extrair deles todos os elementos subjetivos e rodeá-los com uma aura de excelência que emana um método correto, resultados objetivos e uma ideologia neutra, o que, como diria Feyerabend, não passa de um lindo conto de fadas (FEYERABEND, 1977, p. 459, 461). Combinando esses dois argumentos, Feyerabend (ibidem, p. 462) chega à conclusão que “a separação entre ciência e não-ciência não é apenas artificial, mas perniciosa para o avanço do saber”. Ele diz que se desejamos compreender verdadeiramente a natureza “devemos recorrer a todas as ideias, todos os métodos e não apenas a reduzido número deles” (ibidem, p. 462, grifos do autor). Dessa forma livraremos “a sociedade do aperto estrangulador de uma ciência ideologicamente petrificada, assim como nossos ancestrais nos livraram do aperto estrangulador da Religião Verdadeira e Única” (ibidem, p. 464). Feyerabend (ibidem, p. 464-465) afirma que, numa sociedade livre, um cidadão maduro não é uma pessoa que foi profundamente instruída em uma ideologia especial, mas é um homem ou uma mulher que entendeu como se toma uma decisão e decidiu em favor daquilo que considerou ser melhor para si, que estudou a ciência como um fenômeno histórico (e não como a única forma correta de resolver um problema) e que, com sorte, possui discernimento para se chegar a uma decisão livre. Admitindo que a decisão seja em favor da ciência, esta será muito mais racional do que as decisões que geralmente são tomadas. Em uma sociedade democrática, instituições, programas de pesquisa e sugestões têm, portanto, de estar sujeitos ao controle público; é preciso que haja separação entre Estado e ciência da mesma forma que há uma separação entre Estado e instituições religiosas, e a ciência deveria ser ensinada como uma concepção entre muitas e não como o único caminho para a verdade e a realidade (FEYERABEND, 2011b, p. 8, grifo nosso). Ademais, parece-me injusto que a comparação entre a ciência e outras formas de conhecimento (“não comensuráveis com ela”27) seja feita apenas sob o olhar da própria ciência. Para exemplificar, podemos notar que, na Idade Média, um religioso exercia uma posição social muito superior a de um filósofo natural e, consequentemente, o conhecimento que estava a sua 27 “À luz de sua tese sobre a incomensurabilidade, ele [Feyerabend] rejeita a ideia de que poderá existir um argumento decisivo a favor da ciência sobre outras formas de conhecimento não comensuráveis com ela. Caso queira comprar, será necessário investigar a natureza, objetivos e métodos da ciência e dessas outras formas de conhecimento, cada qual a luz do respectivo conhecimento” (CHALMERS, 1993, p. 180-181). 46 disposição (e sob sua conduta) era muito melhor ou mais importante. E ainda que, à época, a explicação de Aristóteles (do Lugar Natural) sobre a queda dos corpos fazia muito mais sentido que um movimento acelerado inversamente proporcional à distância ao quadrado do objeto ao centro da Terra (como proposto por Newton). E, se ainda não estivermos convencidos, mesmo levando em consideração o aspecto da incomensurabilidade, vamos citar dois últimos exemplos. É sabido que a mecânica newtoniana é superior28 à mecânica aristotélica. Da mesma forma, a mecânica relativística é igualmente superior à mecânica newtoniana. Se cada uma dessas mecânicas representou, em sua época, a descrição fiel da Realidade, e se, ao passar do tempo, essa descrição foi melhorada, podemos concluir duas coisas: a primeira é que a Realidade mudou (algo que, a priori, não faz sentido); e a segunda é que a nossa descrição da Realidade mudou, e logo, chegaremos à conclusão de que ela não descreve a Realidade, mas, no máximo (e talvez) alguns aspectos dela. Além disso, quando pretendemos analisar a velocidade média ou o consumo do combustível numa viagem para outra cidade, ou quando desejamos calcular o tempo e a posição da queda de uma telha solta do telhado, ou, ainda, quando almejamos determinar o movimento da Lua para prever um eclipse, somos levados a crer que a descrição da mecânica relativística não nos é útil, e que a mecânica newtoniana, apesar de ser dito inferior, nos serve com excelência. Em suma, não julgamos uma teoria científica (e mesmo a ciência em si) por ser melhor ou superior, mas sim por ser mais útil29 para determinada situação histórica, cultural, social, etc. Feyerabend (2011b, p. 20) argumenta que procedimentos não científicos não podem ser excluídos por argumentação. “Dizer ‘o procedimento que você usou não é científico, portanto não podemos confiar em seus resultados nem lhe dar dinheiro para pesquisa’ pressupõe que a ‘ciência’ seja bem-sucedida e é bem-sucedida por que usa procedimentos uniformes” (grifo nosso). Segundo ele, a primeira parte da asserção (“a ciência é sempre bem-sucedida”) não é verdadeira, caso por “ciência” queiramos nos referir a coisas feitas pelos cientistas – há também muitos fracassos. A segunda parte – que os sucessos devem-se a procedimentos uniformes – não é verdadeira, porque não há tais procedimentos. (...) [Assim,] as realizações científicas podem ser avaliadas apenas depois de o evento ter ocorrido, e se não há uma forma abstrata de garantir de antemão o êxito, então também não existe nenhuma maneira 28 Os termos superior/inferior estão ironicamente sendo utilizados no sentido racionalista. 29 Sendo esse – a utilidade das teorias científicas – apenas um critério de julgamento, dentre muitos outros possíveis.47 especial de sopesar promessas científicas – os cientistas não são melhores que ninguém nesses assuntos, eles apenas conhecem mais detalhes. Isso significa que o público pode participar das discussões [científicas]. (...) Nos casos em que o trabalho dos cientistas afeta o público, este até teria obrigação de participar: primeiro, porque é parte interessada (muitas decisões científicas afetam a vida pública); segundo, porque tal participação é a melhor educação científica que o público pode obter – uma democratização completa da ciência não está em conflito com a ciência. Está em conflito com uma filosofia, com frequência denominada “racionalismo”, que usa uma imagem congelada da ciência para aterrorizar as pessoas não familiarizadas com sua prática (FEYERABEND, 2011b, p. 20-21, grifo do autor). Chalmers (1993, p. 182-184) afirma que Feyerabend defende uma atitude humanitária, segundo a qual, os seres humanos devem ser livres, num sentido de promover a remoção de todas as restrições metodológicas, de forma a encorajar que os indivíduos possam escolher entre a ciência ou outras formas do conhecimento. Assim, a institucionalização da ciência em nossa sociedade é contraditória com essa atitude humanitária. De forma que, para Feyerabend, em uma sociedade verdadeiramente livre, a ciência não terá prioridade sobre outros conhecimentos ou tradições, mas será estudada igualmente como uma tradição histórica. Feyerabend trilha um caminho na contramão dos pesados vagões filosóficos. Tem como norte a qualidade de vida das pessoas. Ele deixa claro que sua “preocupação não é nem a racionalidade, nem a ciência, nem a liberdade – [pois] abstrações como essas causam mais mal do que bem – e sim a qualidade das vidas dos indivíduos” (FEYERABEND, 2010, p. 25, grifo nosso). Ele discute sobre a fragmentação em que se encontra a cultura contemporânea (já no final do século XX) – as crises, as doenças, as contradições profundas, os conflitos entre as ciências e as humanidades – e sobre a expansão constante do progresso e do desenvolvimento no Ocidente, que, em suas palavras, “corresponde à disseminação do comércio, da ciência e da tecnologia ocidentais” (ibidem, p. 8). Cita ainda que “esse é um fenômeno internacional: ele caracteriza tanto sociedades capitalistas quanto as socialistas; ele é independente das diferenças ideológicas, raciais e políticas e influencia um número cada vez maior de povos e culturas” (ibidem, p. 8). Mas será mesmo que o “progresso” e o desenvolvimento tornam melhor a vida das pessoas? Agora que sabemos mais, aprendemos mais e conhecemos mais, nos tornamos pessoas melhores, que cuidam melhor dos nossos semelhantes, de nossa sociedade e de nosso planeta? Não acredito que haja repostas simples a essas perguntas. Mas esse incômodo que nos dá ao tentarmos respondê-las já coloca em xeque as nossas certezas. 48 Hoje, formas de vida ocidentais já são encontradas nos cantos mais remotos do mundo, mudando os hábitos de pessoas que há umas poucas décadas não estavam sequer cientes de sua existência. As diferenças culturais desaparecem e artesanatos, costumes e instituições nativas vão sendo substituídos por objetos, costumes e formas organizacionais ocidentais (FEYERABEND, 2010, p. 9). Os problemas ecológicos, chamados por Feyerabend (ibidem, p. 10) de problemas do Terceiro Mundo, são, segundo ele, uma marca do progresso e do desenvolvimento: a poluição30 dos rios e oceanos, dos reservatórios de água potável, do ar; o desmatamento das reservas naturais, da Floresta Amazônica (mas também de diversas outras áreas de reservas indígenas); a extinção de espécies animais e vegetais; a redução da camada de ozônio; a fome (mas também a “solução” para resolvê-la: os agrotóxicos); as doenças físicas e psicológicas (obesidade, depressão, ansiedade, diabetes, câncer, etc.); parecem ter sido causados pelo avanço constante da Civilização Ocidental31. Sem contar com o menos óbvio, mas não menos doloroso, impacto espiritual suportado por muitas sociedades que sofreram imposição de conhecimentos objetivos desconectados com a vida em sociedade, com os problemas locais, e características ambientais, místicas, etc., aqui, ainda segundo Feyerabend (ibidem, p. 11), o Ocidente abriu o seu caminho. Feyerabend é um pensador controverso. Como ele mesmo assume em seus escritos, ele busca ser algo como um provocador, de forma que suas colocações possibilitem tomadas de decisões. (...) É nesse sentido que [ele] problematiza acerca de dar adeus à razão, por considerar que concepções de natureza extremamente objetiva têm se mostrado como edificadoras de monstros (LOPES, 2016, p. 59-60, grifo nosso). Sua crítica atinge as duas ideias que desempenham um papel importante na expansão intelectual ocidental: as ideias da Objetividade e da Razão: Dizer que um procedimento ou um ponto de vista é objetivo (ou objetivamente verdadeiro) é afirmar que ele é válido independentemente das expectativas, 30 Destacamos a utilização de metais pesados (como o mercúrio) na prática do garimpo nos rios da América do Sul e da África; os casos recentes de baleias encontradas mortas nas praias do Brasil, com dezenas de quilos de plásticos no estômago; e a redução drástica e a mudança de coloração dos corais (por todo o mundo) devido ao aumento das temperaturas globais. 31 Não julgamos, entretanto, que estes problemas sejam inerentes à existência material ou conceitual dos artefatos científicos/tecnológicos, mas sim à forma pelo qual estes são impostos/utilizados em nossa sociedade. 49 ideias, atitudes e desejos humanos. Essa é uma das reivindicações básicas que os cientistas e intelectuais de hoje fazem a respeito de seu trabalho (FEYERABEND, 2010, p. 12). À medida que a ciência progrediu e produziu um depósito de informações que ia aumentando constantemente, as noções formais de objetividade foram usadas não só para criar conhecimento, mas também para legitimá-lo, isto é, para mostrar a validade objetiva dos corpos de informação já existentes (ibidem, p. 16, grifos do autor). Entretanto, como não existe um conjunto finito de regras bem definidas que delimite o trabalho dos cientistas e “seja compatível com todos os eventos que levaram à ascensão e ao progresso da ciência moderna, descobriu-se que exigências formais defendidas por cientistas e filósofos estavam em conflito” com seu próprio desenvolvimento. Assim, “para solucionar o conflito, as exigências foram gradativamente enfraquecidas, até que evaporaram totalmente” (FEYERABEND, 2010, p. 16). A história da ciência está repleta de casos32 onde cientistas ignoraram completamente os princípios universais da pesquisa (a Objetividade), mostrando que a ideia de uma ciência que caminha graças à argumentação logicamente rigorosa nada mais é que um sonho. É claro que há rigor em todos esses procedimentos, (...) mas é um rigor que se encaixa na situação, que é complexo, que muda e difere muito do rigor “objetivo” de nossos lógicos epistemólogos menos talentosos (ibidem, p. 17). Feyerabend (ibidem, p. 17) também critica a ideia da Razão (com “R” maiúsculo), que há certo tempo empreende a defesa da cultura contemporânea ocidental. Segundo ele, essa ideia tem uma variante material e uma formal. Ser racional no sentido material significa evitar certas ideias e aceitar outras. (...) Ser racional no sentido formal significa seguir certo procedimento. Empiristas renitentes acham que manter ideias plenamente em conflito com o experimento é irracional, enquanto que teóricos empedernidos sorriem com a irracionalidade daqueles que reveem princípios básicos a cada tremor momentâneo da evidência. Esses exemplos já demonstraram que não seria lá muito produtivo deixar que afirmações tais como “isso é racional” ou“isso é irracional” influenciassem a pesquisa. As noções são ambíguas e nunca explicadas 32 Os estudos fisiológicos de Maturana e Varela; a noção estranha e teológica de Eddington e Hoyle de um começo do Universo (Big Bang), mais tarde descoberto pelos cálculos de Friedmann e pelas observações de Hubble; a verificação de poucos efeitos (a Teoria da Relatividade Geral) de Einstein, observada alguns anos depois por Eddington e Dyson; a teoria quântica antiga; ou o estudo que precedeu a descoberta da estrutura de dupla hélice do DNA, dentre muitos outros (ibidem, p. 17). 50 claramente, e tentar segui-las ao pé da letra seria contraproducente: procedimentos “irracionais” muitas vezes levam ao sucesso (no sentido daqueles que os chamam de “irracional”) enquanto [que] procedimentos “racionais” podem causar problemas terríveis. Rigorosamente falando, temos aqui duas palavras, “Razão” e “Racionalidade”, que podem ser conectadas com quase qualquer ideia de procedimento e depois rodeá-las com uma aura de excelência (ibidem, p. 18, grifo do autor). A premissa, segundo Feyerabend (ibidem, p. 18), de que há valores, conhecimentos e ações universalmente válidas vai além do debate epistemológico, mas está associada à crença de que existe uma maneira certa de viver: valores morais, princípios religiosos, organização social, política, etc. Essa crença, segundo ele, edificou o Império Romano; as conquistas muçulmanas; acompanhou os cruzados em suas batalhas sangrentas; orientou os descobridores de novos continentes; lubrificou a guilhotina e agora promove debates sem fim dos defensores da liberdade – a ideia de que há um conteúdo que justifique a intervenção, sempre fundamentou o motivo pelo qual coisas absurdas podem ser feitas. Além disso, podemos admitir que a Razão esteja rodeada pela mesma aura que rodeava deuses, reis, [faraós, conquistadores,] tiranos e suas leis impiedosas. O conteúdo evaporou-se; a aura permanece e faz com que os poderes sobrevivam. A ausência de conteúdo é uma tremenda vantagem; ela permite que grupos especiais se denominem “racionalistas”, afirmem que sucessos amplamente conhecidos foram obra da Razão e usem a força assim obtida para suprimir desenvolvimentos contrários a seus interesses (ibidem, p. 18-19). Feyerabend (ibidem, p. 19) ironiza afirmando que “há, e sempre houve, razão (com “r” minúsculo) para termos esperança. Sempre existem pessoas que lutam contra a uniformidade e defendem o direito que indivíduos têm de viver, pensar e agir como lhes pareça conveniente”. Cita que “sociedades inteiras, dentre elas tribos ‘primitivas’, ensinaram-nos que o progresso da Razão não é inevitável, que ele pode ser atrasado e que as coisas podem melhorar como resultado disso” (FEYERABEND, 2010, p. 19-20). E ainda que os insights obtidos pelos cientistas que estudam as conquistas materiais e espirituais dos povos nativos, [apontam] que não há nada na natureza da ciência que exclua a variedade cultural. A variedade cultural não está em conflito com a ciência vista como uma investigação livre e irrestrita; ela está 51 em conflito com filosofias como o “racionalismo” ou o “humanismo científico” e com uma força, às vezes chamada de Razão, que usa uma imagem congelada e distorcida da ciência para obter aceitação para suas próprias crenças antediluvianas (ibidem, p. 20, grifo do autor). “É hora de desprender a Razão desse impulso e, como ela já ficou totalmente comprometida pela associação, dar-lhes adeus” (ibidem, p. 21). Feyerabend afirma que tudo isso é apenas parte da história, que muitas coisas foram feitas apesar da Razão e não por causa dela. Segundo ele, o outro lado da história é que a Razão realmente deixou sua marca – as mesmas que estabelecem o senso comum (a respeito da ciência); que respaldam os discursos (políticos) de poder; e que legitimam as ideias inventadas pelos autores33 cientistas – “ela deformou as conquistas, esticou-as além de seus limites e é, portanto, pelo menos em parte, responsável pelos excessos que estão sendo propagados sob seu nome”. Por fim, Feyerabend destaca que a Razão (com “R” maiúsculo) “foi um grade sucesso entre filósofos que não gostam de complexidade e entre políticos (tecnólogos, banqueiros, etc.) que não se importaram em acrescentar um pouco de classe a sua luta pela dominação do mundo”, entretanto ela – a Razão – “é um desastre para o resto, isto é, para praticamente todos nós. É hora de lhe dizer adeus”! (ibidem, p. 25-26, grifo nosso). Apesar disso, ser Contra o método ou dar Adeus à razão pode ser uma “faca de dois gumes” quando sonhamos com A Ciência em uma sociedade livre. O trocadilho foi proposital, mas ficar conhecido como “o pior inimigo da ciência”34 provavelmente não. As críticas a Feyerabend são extensas. Muitas delas foram consideradas frutos de más interpretações de sua epistemologia, o que Feyerabend chamou de incompetência profissionalizada. Por isso, alguns autores buscam desconstruir alguns mitos que são repetidos. Entre estas desconstruções estão a de que o anarquismo epistemológico leva ao caos na ciência, que a tese central da epistemologia de Feyerabend é o vale tudo, que a defesa da irracionalidade na ciência descaracteriza o empreendimento científico e de que o relativismo não explica o progresso na ciência (DAMASIO & PEDUZZI, 2017, p. 330). 33 Autor aqui, tem o sentido medieval de autoridade utilizado por Stengers (2002, p. 112). 34 Expressão usada pelos autores Theocharis e Psimopoulos no artigo Where science was gone wrong, publicado na revista Nature em 1987 (DAMASIO & PEDUZZI, 2017, p. 330). 52 Para Roberto Martins (1999), por exemplo, Feyerabend é um relativista extremo ao negar uma demarcação entre ciência e não-ciência, e não fazer uma distinção entre astronomia e astrologia ou entre medicina e curandeirismo. Ele afirma que “é possível dispor de uma concepção de ciência que não estabeleça um critério de demarcação, mas que permita orientar e avaliar a pesquisa” (ibidem, p. 15). Lopes (2016), entretanto, ao analisar as críticas de Roberto Martins afirma que ele está equivocado ao considerar que Feyerabend trata esses conhecimentos da mesma forma: O que ele defende é que essas produções humanas, conhecimentos validados por comunidades para quem esses entendimentos fazem sentido e funcionam, comportam sempre uma certa ambiguidade e inter-relações. Isso é muito diferente de dizer que todos os conhecimentos são iguais. E, além disso, se a ciência também está repleta de saberes de cunho simbólico e de base não racional desde a sua estruturação até às teorias e posições mais recentes, por que não oportunizar outras formas de conhecimento? Ou, ainda, se a ciência se constrói mediante saberes de outros conhecimentos que não são ciência, como se pode separar ciência do que não é ciência, como pretende Martins? (LOPES, 2016, p. 80). Nós concordamos com Lopes (2016) e consideramos que os contrapontos à filosofia feyerabendiana reúne o que muitas vezes é interpretado erroneamente como um ataque à ciência, como citado por Stengers (2002, p. 48): Em sua obra Contra o método, Feyerabend feriu os sentimentos estabelecidos ao comparar a atividade científica à astrologia, ao vudu, ou mesmo à máfia, e ele pagou o preço por essa estratégia: aqueles a quem feriu reduziram o problema que ele punha a esta comparação escandalosa. Ora, o alvo da posição “relativista” de Feyerabend não era assemelhar Einstein a um astrólogo, ou Galileu a um mafioso. Ele procurava demonstrar que (...) um cientista não pode se ater àquilo que os filósofos consideram “objetivo”, [que] a construção da objetividade não tem nada de objetivo: ela envolve uma maneira singular, mas não exemplarde se relacionar com as coisas e com outros, como a atividade mafiosa. O que não quer dizer que ela se origine do mesmo tipo de envolvimento que a atividade mafiosa. A tese de Feyerabend não é, portanto, dirigida contra a prática científica, mas contra a identificação da objetividade com o produto de uma conduta objetiva. 53 Apesar disso, Stengers (2002) disserta uma crítica a respeito do relativismo de Feyerabend, comparando-o a um racionalista, quando ele afirma que a ciência é somente uma tradição histórica entre muitas tradições, e que as únicas diferenças dizem respeito a fatos externos a ciência: Nada se deve às próprias ciências? Não seria o relativista Feyerabend ainda demasiado racionalista quando apresenta “uma competição imparcial e controlada” como a única arena onde as ciências poderiam fazer valer o papel apropriado que desempenharam no triunfo sobre outras tradições? Em outras palavras, a tese segundo a qual a ciência constitui uma tradição histórica entre outras tradições é vulnerável com relação à sua expressão reducionista: a ciência é somente uma tradição histórica entre outras, as únicas “verdadeiras” diferenças dizem respeito a fatores externos, políticos, militares, econômicos (STENGERS, 2002, p. 50). Terra (2002, p. 209) também desenvolve uma análise a respeito das críticas à Feyerabend. Segundo ele, as ideias do filósofo austríaco causam “sensível desconforto aos admiradores e defensores da ciência, [havendo] a tendência de considerar suas ideias como desprovidas de relação com a realidade, e até mesmo, como perigosas”. Um dos receios dos adversários do anarquismo epistemológico é o de que ele favoreça os movimentos anti-racionalistas. Tal temor, no entanto, é totalmente injustificável. Se os anarquistas epistemológicos amam, acima de tudo, a liberdade e trabalham pela autonomia do indivíduo, não irão se agregar aos inimigos da liberdade. Ora, onde impera o irracionalismo desaparecem as condições para o desenvolvimento do pensamento, e por isso, o anarquista epistemológico, na sua luta pela liberdade intelectual, acabará sempre se aliando aos racionalistas (TERRA, 2002, p. 215). Todavia, quando analisamos o contexto atual do Brasil e nos defrontamos com o Novo Ensino Médio, com o movimento denominado de “Escola Sem Partido”, com a expansão das ideias do terraplanismo, antievolucionismo, antivacinas, etc., além da crescente incorporação das ideias cristãs nos meios sócio-políticos (sim, em 2020!), concordamos com Martins (2019, p. 268) a respeito de defendermos a ciências como cultura, mais do que nunca! E é, exatamente aí, que o anarquista epistemológico pode se encontrar em maus lençóis ao utilizar a filosofia feyerabendiana. Essas ideias, vistas de maneira isolada e sem a devida discussão epistemológica, provavelmente serão utilizadas para respaldar ideias consideradas 54 anticientíficas, como a não-validade da ciência [“a asserção a ciência é sempre bem-sucedida não é verdadeira” (FEYERABEND, 2011b, p. 20)]; a negação de sua autoridade [“a ciência não tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida. Seus objetivos não são, por certo, mais importantes que os propósitos orientadores de uma comunidade religiosa ou de uma tribo que se mantém unida graças a um mito” (FEYERABEND, 1977, p. 454)]; a equivalência entre a ciência e a mágica [“não lhe é permitido pedir que, na escola, seus filhos aprendam mágica e não a ciência (FEYERABEND, 1977, p. 453)]; e o terraplanismo, por exemplo [“não dizemos: algumas pessoas acreditam que a Terra gira ao redor do Sol, enquanto outros acham que a Terra é uma esfera oca que contém o Sol, os planetas e as estrelas fixas. Dizemos: a Terra gira ao redor do Sol – [e] dizer qualquer outra coisa é absurdo” (FEYERABEND, 2011a, p. 93)]. Defendemos as ideias de Feyerabend aqui apresentadas, inclusive sua alegação de que um cidadão não pode escolher que seus filhos aprendam mágica (e não a ciência) na escola35. Entretanto, destacamos: será que estamos preparados para esse grau de liberdade? Será que essa posição anarco-epistemológica não pode reforçar o anticientificismo radical? Até que ponto as ideias feyerabendianas estão num terreno abstrato e até onde elas podem ser aplicadas, sobretudo numa realidade do Brasil contemporâneo? Por falar em realidade, a partir de janeiro de 2020, o mundo vem enfrentando um inimigo em comum – a doença causada pelo novo coronavírus – a COVID 19. Até agosto, já haviam sido confirmados mais de 23,5 milhões de infectados e mais de 810 mil mortes em todo o mundo36. Apesar de, nem de longe, se comparar com a Peste Bubônica ou com a Gripe Espanhola, a COVID 19 já mostra uma realidade assustadora e dolorosa, e isso em um mundo apenas sem uma vacina. O que fazer, por exemplo, se os apoiadores dos movimentos antivacinas37, por motivos religiosos, ideológicos ou qualquer outro, utilizarem-se das ideias de Feyerabend para respaldar 35 Silva (2016, p. 88) destaca que “a concepção epistemológica de Feyerabend não propõe a desvalorização da ciência, mas, ao contrário, que a possibilidade de julgar e escolher entre as tradições nativas de um povo (ou uma metafísica particular) e o conhecimento científico seja concedida aos sujeitos em questão e não impostas dogmaticamente através da educação básica, pelo Estado”. 36 Informação referente ao dia 25 de agosto de 2020, extraída do site oficial da Organização Pan-Americana da Saúde – OPAS, em 26 de agosto de 2020. 37 Destacamos as alegações religiosas como motivo para não se vacinar, o que pode ocasionar a volta de doenças praticamente erradicadas, como o sarampo, por exemplo (Como o fundamentalismo religioso contra vacinas trouxe o sarampo de volta aos EUA, 2020; Nova York proíbe uso de religião como motivo para não se vacinar, 2020). 55 epistemologicamente as suas decisões de não se vacinarem, colocando em risco, inclusive, a saúde de outras pessoas? E se, por qualquer razão que seja, um cidadão escolher levar seu filho recém-nascido apenas a uma benzedeira para lhe trazer sorte e livrar de todas as doenças futuras, ao invés de receber as vacinas determinadas pelo Ministério da Saúde? Ou, ainda, se uma mãe ou um filho manifestar uma leucemia, a família optará por qual tratamento médico: pelo rito de cura da Medicina Sagrada de um pajé ou pela sessão de quimioterapia oferecida pela medicina científica? Engana-se quem acredita que Feyerabend afirma que todas as formas de conhecimento são essencialmente iguais. O que ele faz, todavia, é propor uma equivalência política entre elas: a ciência não tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida; (...) não há por que esses objetivos possam restringir as vidas, os pensamentos, a educação dos integrantes de uma sociedade livre; (...) cada qual deve ter a possibilidade de decidir por si próprio e de viver de acordo com as crenças sociais que tenha por mais aceitáveis (FEYERABEND, 1977, p. 454). Assim, segundo Feyerabend, em uma sociedade livre, o cidadão deve conhecer a linguagem da ciência como um fenômeno histórico (oferecida pela escola por questões socioculturais, e mesmo democráticas); esta linguagem deve ser ensinada como “uma concepção entre muitas e não como o único caminho para a verdade e a realidade” (FEYERABEND, 2011b, p. 8); e este deve ter a liberdade de escolher entre a ciência e outras formas de conhecimento. De forma que, se a decisão tomada for em favor da ciência, esta “será muito mais ‘racional’ do que é, hoje, qualquer decisão em favor da ciência” (FEYERABEND, 1977, p. 465). Entretanto, voltando à pergunta que nos levou a essa esteira argumentativa – será que estamos preparados para esse grau de liberdade? – afirmamos que mesmo o anarquismo epistemológico tem seus limites. Existem diversascondições de contorno (ou seja, “alertas”, sobretudo para um leitor que não tenha formação na área) que Feyerabend não destaca em seus escritos e que, ao nosso ver, são fundamentais para que suas ideias sejam realmente aplicáveis e que não reforcem o anticientificismo radical. A primeira delas consiste em entender as consequências de nossas escolhas. Ora, se alguém decidir-se por não se vacinar (ou não vacinar seus filhos, ou ainda quaisquer outras questões equivalentes) mesmo conhecendo as consequências de suas escolhas, o estado deve 56 permitir se, e somente se, isso não gerar riscos a outras pessoas. Ou seja, caso a família queira viver (até literalmente) “isolada em uma ilha” ela pode fazê-lo, tendo, inclusive, uma penalidade por descumprimento ao gerar riscos a terceiros, cuja escolha foi diferente da sua, uma vez que a individualidade não pode estar acima do coletivo. E isso nos leva à segunda condição: a nossa vida em sociedade é decidida por regras socialmente escolhidas que visam o bem-estar da própria sociedade. Logo, as minhas escolhas religiosas, ideológicas, anticientíficas, etc., podem ser exploradas contanto que elas não interfiram em questões gerais da sociedade democraticamente acordadas (como uma ideia religiosa ou ideológica que pode levar a cometer um crime: racismo ou extorsão, por exemplo). Por fim, destacamos que, sobretudo no campo da ciência médica, o Estado toma algumas decisões que, em forma de regras ou até mesmo leis, balizam algumas ações de nossa sociedade – como a adequação de fuso-horários, exploração de energias renováveis, controle de qualidade da água potável, etc. e, em especial, as vacinas. Faz-se necessário, então, certo cuidado ao utilizar as ideias feyerabendianas. Apesar de defendermos sua epistemologia anarquista e concordarmos que sua análise é fundamental para a construção de uma ciência como parte da cultura humana, suas ideias devem ser bem explicadas e trazer consigo o rico material que a História da Ciência nos concede. Para isso, dedicamos os próximos capítulos a um recorte histórico que envolve o personagem Galileu Galilei e sua astronomia, a fim de propormos questões que podem ser levadas para a Educação Básica a partir de uma leitura feyerabendiana. 57 4. O ENSINO DA ASTRONOMIA DE GALILEU NUMA PERSPECTIVA FEYERABENDIANA Não foi intenção de Feyerabend fazer um exame completo sobre as consequências de sua filosofia científica para o ensino de ciências. Entretanto, cabe a nós, professores instruídos de sua análise, buscar tais elementos e encontrar as pistas que ele deixou para que os educadores científicos possam percorrer esse caminho. Lopes (2016) afirma que a visão social da ciência, enfatizada por Feyerabend, precisa ser difundida aos educadores e estudantes, pois a crença de que a ciência possui um método único e de que as teorias (...) são algo desconectado do contexto do qual emergem, serve à estruturação da ciência enquanto forma hegemônica, contribuindo, inclusive, para subjugar as demais formas de conhecimento. Embora algo nesse sentido venha sendo feito já há um tempo por estudiosos em educação e educação científica, muito pouco tem chegado aos manuais, aos livros textos e à sala de aula propriamente dita (ibidem, p. 24). A visão de Feyerabend – de que no processo educacional de uma sociedade livre a ciência não deve ter preferência em relação à astrologia, a magia, as lendas ou o vodu – parece- nos dizer, em um primeiro momento, que a ciência, a astrologia, a magia, as lendas e o vodu são (ou deveriam ser) igualmente importantes em nossa sociedade e que deveriam ter espaços iguais nos processos educacionais. Entretanto, quando analisamos com cuidado o rico material por ele deixado, sem termos a pretensão de nos armarmos para defender uma ciência racionalista, vemos que sua intenção é mostrar que a ciência moderna exerce o mesmo papel opressor que a religião exerceu outrora (suas teorias podendo, inclusive, serem tratadas igualmente como dogmas). De forma que, qualquer ensinamento que fuja da racionalidade científica e de seus métodos (ou seja, sua doutrina) é considerado um absurdo pagão. Em uma sociedade livre [deveria existir] espaço para muitas crenças, doutrinas e instituições estranhas. Mas a premissa da superioridade inerente a Ciência foi além da própria Ciência e passou a ser um artigo de fé para quase todo mundo. Além disso, a Ciência já não é uma instituição particular; ela agora é parte do tecido básico da sociedade. É claro, a Igreja e o Estado agora 58 estão cuidadosamente separados38. O Estado e a Ciência, no entanto, trabalham rigorosamente juntos (FEYERABEND, 2011a, p. 92). Feyerabend (ibidem, p. 92) cita ainda que enquanto os pais podem escolher qual a educação religiosa que os seus filhos devam ter na escola; ou escolher que os filhos não tenham educação religiosa; ou ainda optar por colocá-los numa escola religiosa que siga estritamente uma religião; eles não têm a liberdade de exigir que seus filhos aprendam astrologia ao invés de astronomia ou pelo menos que a astronomia seja apresentada como um fato histórico. A preocupação de Feyerabend por uma educação científica livre está associada à livre escolha feita pela educação científica. Essa escolha só poderá ser concretizada se a ciência não for, desde os primeiros anos do processo educacional, caracterizada como absolutamente verdadeira, livre de erros e detentora da única forma de acessar a Realidade (com “R” maiúsculo). Separar estado e ciência significa regular a exagerada ênfase dada ao conhecimento científico e abandonar o mito da racionalidade científica como medida de todas as coisas e, portanto, possibilitar que o ser humano se desenvolva plenamente, sem a imposição de uma única forma de se apreciar o real. Assim, o indivíduo, em sua plenitude, poderá adotar uma única ideologia para interpretar o real manifesto (seja ela a metafísica, a religião, a ciência, etc.) ou poderá adotar várias ideologias como possíveis formas de apreciar as manifestações do real, mesmo que incomensuráveis entre si ou contraditórias segundo a lógica e a razão habituais (SILVA, 2016, p. 89). Assim, os professores de ciências devem apresentá-la como uma construção histórica de fatos e princípios (FEYERABEND, 2011a, p. 93), como uma tradição entre muitas possíveis tradições, e não deve colocá-la a cima de outras formas de conhecimento, mas sim, dialogar com elas, reconhecendo a importância e os limites de cada uma (FEYERABEND, 2011a, p. 14), sobretudo porque a ciência as deve muito39. 38 A afirmação de Feyerabend de que a Igreja e o Estado agora estão cuidadosamente separados, dita no contexto europeu da década de 1970, é uma realidade que começa a ser mudada no cenário sócio-político brasileiro. Há um número cada vez maior de políticos que se elegem em nome de Deus e intensificam as influências cristãs, sobretudo pentecostais evangélicas, no cenário político do Brasil, apesar da Constituição de 1988 enfatizar a laicidade do Estado. 39 A construção das teorias científicas deve-se muito a outras formas de conhecimento, como já discutido no capítulo anterior. 59 Entretanto, os nossos educadores, ano após ano, são jogados sobre a geração mais jovem para enchê-la de “conhecimento” sem consideração pelo passado e pelo contexto dos alunos. Culturas inteiras foram mortas, seus sistemas imunológicos destruídos, seu conhecimento passou a ser uma raridade – e tudo isso em nome do progresso (e do dinheiro, é claro) (FEYERABEND, 2010, p. 369). Um bom exemplo disso são as comunidades indígenas que desenvolveram (e ainda desenvolvem) sua própria forma40 de entender a natureza, de buscar alimentos e remédios, de estudar o movimento dos céus, o significado da vida ede construir sua espiritualidade ancestral sem a necessidade da fórmula mágica da científica. Alguns tipos de medicina tribal, por exemplo, podem ter melhores meios de diagnosticar e tratar doenças (mentais e físicas) que a medicina científica atual, e algumas cosmologias primitivas podem nos ajudar a ver, em perspectiva, as ideias predominantes. Portanto, dar igualdade às tradições não é apenas correto, mas também extremamente útil (FEYERABEND, 2011a, p. 14, grifos do autor). Não que estejamos defendendo que o conhecimento dos povos tradicionais é superior (ou inferior) à ciência, mas que este conhecimento é muito mais importante para eles do que a ciência moderna ocidental, e que esta última deve ser apresentada como uma possível visão, e não como a única (e verdadeira). Dessa forma, os professores de ciências devem apresentá-la “em pé de igualdade” com outras formas de conhecimento, buscando dialogar com elas e citar a importância que elas tiveram (e ainda têm) em outros contextos históricos, étnicos, culturais, etc., deixando claro os motivos pelos quais a Ciência (com “C” maiúsculo) desenvolveu (e como desenvolveu41) o papel que hoje tem em nossa sociedade. 40 “Pesquisas mais recentes na Antropologia (...) demonstram que nossos ancestrais e contemporâneos ‘primitivos’ tinham cosmologias, teorias médicas e doutrinas biológicas altamente desenvolvidas, que muitas vezes são mais adequadas e têm resultados melhores que os de seus rivais ocidentais” (FEYERABEND, 2011a, p. 128-129). 41 “Há o antigo argumento de que as tradições não-científicas já tiveram sua chance, que elas não sobreviveram à confrontação com a ciência e com o racionalismo e que tentativas de revivê-las são, por tanto, irracionais e desnecessárias. Aqui a pergunta óbvia é: elas foram eliminadas por justificativas racionais, deixando que competissem com a ciência de uma maneira imparcial e controlada, ou seu desaparecimento foi resultado de pressões militares (políticas, econômicas, etc.)? E a resposta é quase sempre: a última. Nunca pediram aos índios americanos que apresentassem suas ideias, eles foram primeiro cristianizados, depois forçados a sair de suas terras, 60 No que diz respeito às apropriações da epistemologia feyerabendiana pela área de Ensino de Ciências no Brasil, Silva (2016, p. 66) afirma que apenas “alguns poucos pesquisadores brasileiros (...) propuseram relações entre o anarquismo epistemológico e o ensino de ciências, a saber: Regner (1996)42, Laburú & Carvalho (2001), Terra (2002), Laburú et al. (2003) e Siqueira-Batista et al. (2005)”, e que, apesar de numericamente escassas, sublinham o potencial de suas reflexões para o ensino de ciências. De forma que, reconhecendo a complexidade das situações reais de ensino- aprendizagem, o que esses autores têm em comum é recomendar uma estratégia pluralista para o ensino de ciências, inspirada no pensamento feyerabendiano. Assim, nessa perspectiva, um mestre pluralista não se limitaria em escolher dogmaticamente uma única proposta pedagógica, ao contrário, estaria disposto a experimentar diversas metodologias, pois sua meta e seu comprometimento é com a aprendizagem dos alunos e não com uma fidelidade pedagógica (SILVA, 2016, p. 68). Laburú et al. (2003) afirmam que os sentimentos, motivações e preferências ao modo de aprender variam de estudante para estudante. Além disso, fatores como: habilidades mentais, ritmos de aprendizagem, níveis de motivação e interesse, experiências vividas, etc., certamente influenciam a aprendizagem e, consequentemente, a estratégia metodológica. “Portanto”, destaca o autor, “é questionável uma ação educacional baseada num único estilo didático, que só daria conta das necessidades de um tipo particular de aluno ou alunos e não de outros” (LABURÚ et al., 2003, p. 251). De modo que, o professor, a partir das situações reais que o contexto exige, “poderá valer-se de qualquer outra metodologia ou de uma inter-relação de muitas, poderá adaptá-las, distorcê-las desde que se satisfaça as complexas exigências da situação real de trabalho” (SILVA, 2016, p. 70). Logo, tendo vista a educação sob a lógica de Feyerabend, e finalmente arrebanhados em reservas no meio de uma cultura científico-tecnológica em crescimento. Os remédios dos índios (que eram usados normalmente pelos praticantes da medicina do século XIX) não foram testados para compará-los com os novos produtos farmacêuticos que invadiram o mercado, foram simplesmente proibidos, como se pertencessem a uma era antediluviana em termos de cura. E assim por diante” (FEYERABEND, 2010, p. 360). 42 “O primeiro artigo publicado em revistas brasileiras especializadas da área de educação em/ensino de ciências, que carregam em seu bojo a representação feyerabendiana, data de 1996 e foi escrito pela filósofa Anna Regner. O artigo em questão discute os elementos fundamentais da crítica empreendida por Feyerabend ao racionalismo, tendo como referência para a reflexão o livro Contra o Método” (SILVA, 2016, p. 66). 61 apenas um pluralismo de concepções poderia oferecer a possibilidade de formar cidadãos bem desenvolvidos, capazes de escolher, dentre uma gama de representações a que acreditar a maneira de ver o mundo e de nele atuar. (...) Assim, a imposição ideológica da ciência seria substituída pelo encorajamento dos alunos a aprenderem “o jogo” da ciência sem, porém, perderem de vista a possibilidade de jogar outros jogos. Após essa etapa, a da educação básica, o jovem poderá escolher a profissão de seu gosto e, assim, assumir os compromissos dessa comunidade particular, submetendo-se voluntaria e conscientemente às respectivas imposições institucionais e ideológicas da mesma (SILVA, 2016, p. 91-92). Segundo Terra (2002, p. 208), todas as filosofias da ciência têm implicações pedagógicas com reflexos importantes nos procedimentos de ensino de ciências. O professor de ciências adepto ao anarquismo epistemológico43, proposto por Paul Karl Feyerabend, também adotará estratégias próprias. Guiar-se-á, primeiramente, pelo preceito de que as decisões dos alunos devem ser autônomas; abdicará, pois, de impor a visão científica aos alunos. Apresentará a ciência como sendo formada por uma comunidade na qual se discutem ideias antagônicas e a adesão a uma delas se faz por convencimento, após livre exame das argumentações apresentadas. Dessa forma, o professor anarquista epistemológico deve oferecer as circunstâncias necessárias para que os seus alunos consigam chegar a uma decisão livre, sem excluir, inclusive, as visões não científicas e até mesmo as anticientíficas (TERRA, 2002). Mas, o que temer de um professor anarquista-epistemológico? “Certamente”, responde Terra (2002), que ele não adote alguns enfoques habituais, como, por exemplo, o de apresentar Galileu Galilei como o mocinho da ciência contra os bandidos da Inquisição. Se o professor resolver falar aos seus alunos sobre o insigne matemático, físico e filósofo toscano, nos termos propostos por Feyerabend, não o apresentará como herói puro da racionalidade, mas como hábil polemista, mestre na arte de tergiversar, que usou, com rara e exemplar competência, técnicas de persuasão e propaganda, recursos que muitos 43 “As ideias anarquistas sobre educação têm em comum o fato de postularem a total desvinculação entre o ensino e as formas de poder, sobretudo a separação entre escola e estado, e escola e religião. A educação orientada pelos princípios anarquistas visa, também, conduzir o estudante à plena autonomia, incentivando-o a torna-se o principal responsável por sua própria formação” (TERRA, 2002, p. 210). 62 defensores da ciênciaconsideram inadmissíveis na prática científica. (...) Tal imagem de Galileu é difícil de se apresentar, pois requer, pelo menos, muito tempo, e pode antipatizar muito com o grande cientista e filósofo – narrativa (...) mais fácil de ser contada e entendida (ibidem, p. 216). Entretanto, como cita Martins (2019, p. 266), ainda nos dias atuais, os conteúdos científicos são ensinados de forma objetiva: leis, regras, informações, dados comprovados, datas dos acontecimentos e nomes dos grandes cientistas, o que ele chama de “uma visão de ciência neutra, objetiva, metódica, enfim, uma visão de senso comum da ciência e de seu desenvolvimento (...) uma ideologia conhecida como cientificismo” (ibidem, p. 267, grifo do autor), o que diverge, claramente, de uma epistemologia anarquista. E isso nos leva ao ensino sobre ciências e seu valor epistemológico, uma vez que a abordagem racionalista da História da Ciência, com seu método universal, não irá promover um cidadão consciente e atuante (...). É exatamente neste sentido que uma abordagem do ensino sobre ciência, à luz da epistemologia feyerabendiana, pode trazer contribuições significativas para a sala de aula. Ao reconhecer a limitação de toda e qualquer regra, método, ao valorizar as circunstâncias e principalmente todas as formas de conhecimento44, pode-se criar um ambiente mais propício para a formação de pessoas críticas, ativas, flexíveis, [inovadoras, tolerantes] e sujeitas a mudanças (DAMASIO & PEDUZZI, 2015, p. 123-124). Assim, dentre muitas possibilidades de recortes, das diversas áreas da ciência ao longo do tempo e dos numerosos referenciais teóricos, nosso interesse reside nas discussões que giram em torno da figura de Galileu Galilei e das concepções astronômicas presentes no século XVII, a partir da perspectiva do filósofo da ciência Paul Feyerabend. Entretanto, este é só um exemplo de muitos outros recortes que podem e devem ser feitos por professores das matérias científicas que pesquisam na área da História, Filosofia e Sociologia da Ciência e que têm a intenção de propor subsídio teórico para que essa estratégia didática seja utilizada nas salas de aula do Ensino Médio. 44 “Em nome da ‘racionalidade’ científica, o educando é obrigado a despojar-se do senso comum, da intuição, de suas crenças mais profundas, de sua visão de mundo, das múltiplas possibilidades de apreciar o real em troca de uma visão unilateral do mundo, a científica” (SILVA, 2016, p. 89). 63 Diante disso, vamos utilizar três temas envolvendo o que chamamos de astronomia de Galileu e que, geralmente, fazem parte dos conteúdos que são tradicionalmente45 ensinados na disciplina de física no Ensino Médio e que, ao mesmo tempo, tem relevância histórica nos trabalhos de Galileu e nas análises epistemológicas de Paul Feyerabend. Apesar de aparecerem com diferentes níveis de aprofundamento nos materiais didáticos, esses três temas juntos promovem as discussões a respeito da física terrestre e celeste de Galileu46, sendo parte essencial do período, do final do século XVI e início do século XVII, que representa um recorte de um período mais amplo de mudança de pensamento cosmológico, que ficou conhecido como Revolução Copernicana. Inicialmente vamos apresentá-los em suas versões47 de caráter ahistórico, onde Galileu é tradicionalmente mostrado de forma caricata, e, em seguida, vamos utilizar a Filosofia da Ciência, a partir de uma perspectiva feyerabendiana, e a obra de Galileu Galilei – Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano48, para mostrar uma visão menos distorcida do desenvolvimento científico que pode e deve ser suscitada na sala de aula, na comunidade escolar e, por consequência, na sociedade como um todo. Ademais, uma pesquisa publicada recentemente por Schivani et al. (2020), a respeito da escolha dos livros didáticos nas escolas do Brasil (e em especial os de física), chama a atenção que a coleção mais adotada (Bonjorno, Casemiro, Clinton e Prado – Editora FTD) em vinte e um estados brasileiros para o triênio 2018-2020, com mais de 1,5 milhões de exemplares, possui um enfoque tradicional com ênfase no formalismo matemático e é, inclusive, pobre em 45 O ensino de astronomia aos poucos vem sendo inserido nos conteúdos de física do ensino básico. Entretanto, ainda predomina nas salas de aula uma ciência apresentada de forma linear e objetiva, com ênfase na reprodução sistemática de resoluções algébricas, no protagonismo de nomes tradicionalmente difundidos na comunidade científica, na ausência dos conflitos históricos e nos métodos científicos universais (FONSECA, 2015, p. 1). 46 Vale destacar que essa diferenciação entre as físicas “terrestre” e “celeste” de Galileu (se referindo as tentativas de descrever e explicar os fenômenos físicos) é feita a posteriori. Na época, não seria possível fazer tal separação. 47 Como exemplo, iremos utilizar fontes do cotidiano dos professores e alunos da rede pública estadual: o livro “Conexões com a Física” (MARTINI et al., 2016) disponível para escolha no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) entre 2018 a 2020, e as páginas da internet “Brasil Escola” (SANTOS, 2018; FERNANDES, 2018) e “Mundo Educação” (HELERBROCK, 2018; CERQUEIRA, 2018), que disponibilizam informação educacional e que foram comumente visitadas nos sites de busca entre 2018 e 2019. Vale ressaltar que essas fontes foram escolhidas como exemplos e que elas não correspondem à totalidade dos materiais didáticos disponível no PNLD e na internet. O livro citado foi o material fornecido para mim e para os outros professores das matérias científicas da escola em que leciono durante o período em que essa dissertação foi escrita, e as páginas de internet correspondem às fontes mais buscadas pelos nossos alunos quando foram solicitados trabalhos de pesquisas, durante este mesmo período. 48 Em sua obra mais famosa, publicada na Itália em 1632, Galileu utiliza três personagens – Salviati, Simplício e Sagredo – que debatem a respeito dos sistemas de mundo, em defesa do Heliocentrismo. Nesta pesquisa, utilizamos a tradução para o português de 2011. 64 discussões de HFC. Os autores citam que, no próprio Guia do Livro Didático de 2018, a coleção de Bonjorno e colaboradores apresenta que, dentre todo o rol de atividades propostas, a principal ênfase está atribuída aos exercícios quantitativos (...) [e que] questões socioambientais e de sustentabilidade não ocupam lugar de destaque na coleção, já que são escassas as propostas voltadas a discussões sociocientíficas. Essa característica limita a exploração das relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Meio Ambiente, principalmente quanto ao desenvolvimento do posicionamento crítico dos estudantes e suas ações socioambientais (BRASIL, 2017, p. 76, 79 apud SCHIVANI et al., 2020, p. 8). Assim, sendo o livro didático um dos principais recursos utilizados na Educação Básica, fica-nos evidente o déficit provocado pela ausência das discussões da HFC na sala de aula. Corpos em queda livre O tema da queda livre é usualmente discutido no primeiro ano do Ensino Médio como parte do conteúdo de mecânica. Apesar de se referir à física terrestre, ele está intimamente ligado às discussões astronômicas, uma vez que, para o Heliocentrismo, era necessário construir uma física terrestre compatível com uma Terra em movimento. Assim, é geralmente apresentado nos livros didáticos, que a análise do movimento de corpos abandonados é uma evidência da força gravitacional da Terra: Todos os corpos próximos à superfície da Terra são atraídos por ela e, se nada os impedir, cairão em sua direção. Dizemos que é a atração gravitacional da Terra que “puxa” toda a matéria em direçãoao centro do planeta (MARTINI et al., 2016, p. 53). Muitas vezes, também, o professor é instruído a fazer o seguinte experimento: abandonar, ao mesmo tempo, uma borracha e uma folha de papel de uma mesma altura, e questionar os alunos sobre quem chegou primeiro ao chão. Posteriormente, amassar bem a folha de papel e repetir o experimento, questionando novamente os alunos sobre a diferença no tempo entre as quedas dos dois objetos. 65 A partir disso, é apresentado o filósofo grego Aristóteles e o seu estudo pioneiro a respeito da queda dos corpos: Por volta de 300 anos antes de Cristo, existiu um filósofo grego chamado Aristóteles que acreditava que se abandonássemos dois corpos de massas diferentes, de uma mesma altura, o corpo mais pesado tocaria o solo primeiro, ou seja, o tempo de queda desses corpos seriam diferentes. Essa crença perdurou por muitos anos sem que ninguém procurasse verificar se realmente o que o filósofo dizia era mesmo verdade (SANTOS, 2018). Figura 2 – Foto da Torre Inclinada de Pisa, na Itália, presente no catálogo da Detroit Publishing Company de 1905. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4240/>. Acesso em: 29 out. 19. Entretanto, no 66 século XVII, o físico Galileu Galilei, ao introduzir o método experimental, chegou à conclusão de que quando dois corpos de massas diferentes, desprezando a resistência do ar, são abandonados da mesma altura, ambos alcançam o solo no mesmo instante. Conta a história que Galileu foi até o topo da Torre de Pisa, na Itália, e de lá realizou experimentos para comprovar sua afirmativa sobre o movimento de queda dos corpos. Ele abandonou várias esferas de massas diferentes e percebeu que elas atingiam o solo no mesmo instante. Mesmo após as evidências de suas experiências, muitos dos seguidores de Aristóteles não se convenceram, e Galileu foi alvo de perseguições em razão de suas ideias revolucionárias (SANTOS, 2018). A conclusão que fica evidente é que Galileu lançou a hipótese de que o ar exerce grande influência sobre a queda de corpos, e, não havendo essa resistência, todos os corpos levariam o mesmo tempo para atingir o solo, uma vez que o tempo de queda não dependeria da massa ou do volume, mas, unicamente, da altura de onde foram abandonados os objetos (HELERBROCK, 2018). Além disso, também é apresentada uma prova empírica: Séculos mais tarde, em 1971, quando a missão norte-americana Apollo 15 chegou à Lua, um dos astronautas foi filmado soltando um martelo de uma das mãos e uma pena da outra, para que todos, pela televisão, pudessem acompanhar a verificação da teoria de Galileu sobre a queda dos corpos (MARTINI et al., 2016, p. 54). Alguns materiais didáticos, entretanto, destacam que os experimentos de queda-livre não foram, de fato, realizados por Galileu no alto da Torre de Pisa, e que se tratava apenas de um “argumento”, uma vez que ele sabia que os corpos em queda sofriam influência da resistência do ar (SILVEIRA, 2015). Geocentrismo x Heliocentrismo Outro tema, ligeiramente menos trabalhado que o primeiro, discute a controvérsia histórica entre as visões geocêntrica e heliocêntrica do Universo. O Geocentrismo é apresentado como sendo o modelo base para a maioria das concepções de Universo criadas na Antiguidade, representando a Terra imóvel no centro do 67 Universo e esferas celestes que delimitavam as órbitas dos astros que giravam em torno dela (MARTINI et al., 2016, p. 147). A discussão principal reside na defesa desse modelo pela Igreja Católica, por mais de 1.400 anos, por se basear em aspectos de passagens bíblicas, quando, no século XVI, um diácono chamado Nicolau Copérnico sistematiza uma nova teoria que se contrapunha ao modelo geocêntrico: Nicolau Copérnico (1473 - 1543), considerado o fundador da astronomia moderna, (...) afirmava que a Terra e os demais planetas se moviam ao redor de um ponto vizinho ao Sol, sendo, este, o verdadeiro centro do Sistema Solar. A alternância entre dias e noites é uma consequência do movimento que a Terra realiza sobre seu próprio eixo, denominado movimento de rotação. Rapidamente, a Igreja Católica se opôs à teoria heliocêntrica, e Copérnico só autorizou a divulgação de seus dados matemáticos que comprovavam a teoria após sua morte, pois temia ser condenado por heresia pela Igreja Católica (CERQUEIRA, 2018). Figura 3 – O Julgamento de Galileu, Roma, 1633. Fonte: Blog Pensar Refletir e Sentir. Disponível em: <pensarreflectiresentir.blogspot.com/2016/06/efemerides.html>. Acesso em: 29 out. 19. 68 A Igreja, então, é tomada (equivocadamente, como veremos) como vilã, como símbolo da autoridade da época que exerce opressão contra os cientistas que trazem a Verdade. E, assim, outro personagem surge para contrariá-la: Posteriormente, Galileu Galilei, durante o século XVII, reforçou a teoria heliocêntrica através de observações com lunetas holandesas. Como consequência de seu “atrevimento”, Galileu foi julgado pelo tribunal da Inquisição, tendo como opção negar sua teoria ou ser queimado na fogueira da Inquisição. Sem muitas alternativas, sua teoria foi negada (CERQUEIRA, 2018). O telescópio como prova definitiva do céu O terceiro e último tema de nossa análise não é um conteúdo disposto no currículo de física, mas uma afirmação implícita neles que supostamente levou Galileu à vitória. É bastante comum encontramos nos livros didáticos que, ao fazer uma viagem a Veneza, Galileu conheceu um instrumento óptico que possuía o poder de aproximar objetos que estavam distantes e o utilizou para observar o céu, o que levou a uma verdadeira revolução científica e cosmológica: Figura 4 – Galileu e o telescópio Fonte: Made for minds. Disponível em: <dw.com/pt-br/nascido-h%C3%A1-450-anos-galileu-galilei- transformou-o-conceito-de-mundo/a-17438676>. Acesso em: 29 out. 19. 69 Ele pôde observar características dos planetas que nunca haviam sido vistas. Galileu percebeu que havia satélites girando em torno de Júpiter, tal qual a Lua em torno da Terra. Verificou também que Vênus apresentava fases em razão dos seus movimentos, supondo que esse planeta girava ao redor do Sol. Observou que a superfície da Lua era cheia de buracos, planícies, vales e montanhas, mostrando que os corpos celestes não eram esferas perfeitas, como supunha Aristóteles; enfim, trouxe grandes contribuições aos conhecimentos astronômicos da época, apesar da oposição da Igreja Católica, que passou a persegui-lo (MARTINI et al., 2016, p. 148-149). Figura 5 – As luas de Júpiter no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4183/#q=galileu>. Acesso em: 29 out. 19. E, ainda, há nessas discussões uma premissa supostamente verdadeira – a veracidade das imagens produzidas pelo telescópio: 70 Essas e outras constatações só foram possíveis em virtude do uso que Galileu fez do telescópio (...). [Estes objetos] revolucionaram a ciência porque possibilitaram potencializar a observação do olho humano. Os primeiros resultados das pesquisas de Galileu com o uso do telescópio foram publicados já em 1610 com o título de “O mensageiro estelar”. Em 1613, ele publicou a “Carta sobre manchas solares”, onde deixou explícitas as primeiras considerações propriamente científicas a favor da teoria heliocêntrica de Copérnico. Além disso, um ponto importante a ser notado é que, com o uso do telescópio por Galileu, a ciência também passou a existir intimamente conectada com a “técnica”, isto é, com a capacidade do ser humano de ampliar os seus sentidos por meio de inventos, de instrumentos e, com eles, descrever e intervir na natureza (FERNANDES, 2018). Figura 6 – Ilustraçãode Galileu Galilei publicada no livro Saggiatore (O Ensaísta), dedicado ao papa Urbano VIII, Roma, 1623. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4184/>. Acesso em: 29 out. 19. O italiano Galileu Galilei é provavelmente o astrônomo mais famoso de todos os tempos. Suas “descobertas” são associadas principalmente à defesa de um sistema cosmológico 71 heliocêntrico, à liberdade de pensamento em contraposição ao domínio social (e científico) da Igreja e à utilização do telescópio como ferramenta de “comprovação” científico-astronômica. Como vimos anteriormente, os embates entre Galileu e seus adversários geralmente representaram a luta de um “pensamento revolucionário de um gênio” contra o “pensamento conservador dos ignorantes membros da Igreja”. Mas será que a chamada Revolução Copernicana pode ser resumida de forma tão simplória? E será que a concepção milenar da Terra como centro do Universo (o Geocentrismo) não tinha bons argumentos em seu favor? (SILVA, 2006, p. 20). Para Paul Feyerabend (2011a, p. 52-53), a Revolução Copernicana é uma sequência de eventos complexos que não envolvem apenas Galileu, mas a situação na Cosmologia, na Física, na Astronomia, nas leis, na Óptica e na Teologia. Em suas palavras: (...) Muitas diferentes personalidades, profissões e grupos guiados por crenças diferentes e sujeitos a restrições diferentes contribuíram para o processo que está agora sendo descrito, um tanto sumariamente, como a “Revolução Copernicana” (FEYERABEND, 2011b, p. 182). Figura 7 – O modelo geocêntrico de Ptolomeu. Fonte: Essas e Outras. Disponível em: <essaseoutras.com.br/geocentrismo-heliocentrismo-e-big-bang-teorias- sobre-o-universo/>. Acesso em: 25 mai. 2020. 72 Segundo o Geocentrismo, uma visão de mundo predominante na Antiguidade que foi defendida pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), o Universo era dividido em duas partes: o mundo sublunar (do centro da Terra até antes da órbita da Lua) e o mundo supralunar (que envolvia a Lua e tudo que havia após ela). A Terra estava no centro de tudo, imóvel, e rodeada pelas esferas celestes, incluindo as estrelas fixas. Essas duas partes do Universo eram regidas por leis diferentes: a primeira era composta pelos elementos terra, água, ar e fogo (nessa ordem), local de mudança, pecado, destruição e morte; e a segunda parte era uma região perfeita e eterna, delimitada pelas estrelas fixas, donde giravam os planetas (incluindo a Lua e o Sol), além da qual não havia nada, nem lugar, nem vazio, movida pelo motor primário que criou tudo que existe e gerou o movimento circular e uniforme de todos os astros49. Esse movimento aproxima-se do deslocamento aparente dos astros. As estrelas parecem transitar uniformemente em círculos ao redor da Terra. O Sol também possui uma trajetória circular, embora sua translação não seja uniforme. O trânsito dos planetas é cíclico, porém mais complexo. Para contornar essas “anomalias”, os astrônomos antigos conceberam uma solução engenhosa: decompor os movimentos complexos, observados no céu, em movimentos mais simples, de natureza circular e uniforme. Nasceram assim os sistemas de ciclos e epiciclos [de Hiparco de Nicéia (190-120 a.C.) e de Ptolomeu (90-168 d.C.)] (SILVA, 2006, p. 22-23). Figura 8 – Equante, epiciclos e excêntrico adotados pela astronomia grega Fonte: DAMASIO, 2011, p. 3602-3. 49 “A origem dessa concepção é atribuída a Platão. Para ele os corpos celestes e seus movimentos eram perfeitos. E só o movimento circular uniforme teria o atributo da perfeição, uma vez que é sempre igual a si mesmo, fechado sobre si mesmo, sem início nem fim” (SILVA, 2006, p. 22). 73 No século XVI, o presbítero polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) propôs um modelo que retirava a Terra do centro do Universo e a substituía pelo Sol. Em seu livro De Revolutionibus Orbium Coelestium (Sobre as Revoluções das Esferas Celestes), publicado no ano de sua morte, Copérnico elaborou uma teoria matemática que tentava resolver as anomalias da cosmovisão aristotélica, afirmando que apesar dos movimentos dos astros serem circulares, uniformes e eternos, eles não giram em torno da Terra, mas em relação a um ponto próximo ao Sol; que a Terra possuía um movimento de rotação diária (responsável por causar os dias e as noites) e um movimento de translação anual. Copérnico fazia uma distinção entre movimento aparente e movimento real e, para ele, a função da astronomia era explicar o movimento real a partir do movimento aparente. Ele acreditava que o movimento celestial real era um movimento circular uniforme ao redor de um centro. Inicialmente, ele tentou explicar essas desigualdades (entre os movimentos aparente e real) eliminando excêntricos e equantes, e os substituindo por dois epiciclos para cada planeta (Figura 8). Faltava a ele, então, explicar a anomalia sinódica (das estações do ano e do movimento retrógrado planetário). Ao tentar fazer isso, Copérnico percebeu que essa anomalia sempre concordava com a posição do Sol e poderia ser eliminada caso fosse o Sol, e não a Terra, o centro do Universo (FEYERABEND, 2011a, p. 62-64). Figura 9 – Representação dos epiciclos de Copérnico, publicada em sua obra De Revolutionibus Orbium Coelestium, Polônia, 1543. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/3164/>. Acesso em: 29 out. 19. 74 “Copérnico era um cristão fiel e um bom aristotélico; tentou restaurar o movimento circular centrado à proeminência que certa vez tinha tido, postulou uma Terra em movimento, rearranjou as órbitas planetárias e deu valores absolutos para seus diâmetros” (FEYERABEND, 2011b, p. 181). Ele caracterizou o movimento retrógrado dos planetas (que se moviam para frente e então invertiam a sua direção) como um movimento aparente, e “auxiliado pelo fato de que [isso estava] em concordância com a posição do Sol”, interpretou que esse movimento aparente era “criado por um movimento real (e, é claro, circular) por parte da Terra” (ibidem, p. 187). Assim, ele afirma o movimento da Terra mesmo em conflito com a Cosmologia, com a Física e com a Teologia. (...) Eliminava o conflito com a Teologia por meio de um artifício familiar: a palavra da Escritura nem sempre é entendida literalmente. [E] com a Física, ele solucionava o conflito, propondo sua própria teoria do movimento. (...) [Seu] argumento é rodeado de referências a crenças antigas, tais como o Hermetismo e a ideia do papel excepcional do Sol, (...) ele é convincente apenas para aqueles que preferem a harmonia matemática a um acordo com os aspectos qualitativos da natureza, ou [seja, para] aqueles que tendem mais para uma interpretação platônica do que para uma interpretação aristotélica da natureza. (...) E como essas expectativas variam de um grupo para o outro, o argumento inteiro estava engastado de um contexto que só pode ser chamado de “subjetivo” (FEYERABEND, 2011a, p. 64-65). Apesar de belo, pela simplicidade50, o modelo heliocêntrico era contraditório com a teoria aristotélica dos movimentos naturais do universo, pois não explicava o movimento dos corpos aqui na Terra, contrariando, inclusive, os experimentos de queda-livre (o argumento da torre), o que era satisfatoriamente51 explicado pela teoria do lugar natural (SILVA, 2006, p. 50 Feyerabend (2011a, p. 60-61), ao discutir sobre as teorias do conhecimento que dialogam sobre a transição de Ptolomeu/Aristóteles para Copérnico/Galileu, afirma que o argumento da simplicidade nem foi importante na época e nem é, na prática, também hoje em dia: “(...) apenas poucas pessoas aceitariam uma teoria em conflito com a conservação de energia apenas por sua simplicidade. Por que os astrônomosdo século XVI aceitariam uma teoria física e teologicamente impossível apenas em virtude de sua simplicidade?”. 51 Oliveira (2011, p. 45), baseado no que disse Feyerabend (2011b, p. 108-109), enfatiza que: “Tradicionalmente, o comportamento da pedra em relação à torre, tal como é observado, era para [os] geostáticos uma prova da imobilidade da Terra. A explicação geostática estava baseada na ideia de que a pedra se comportava do modo dito por dois princípios básicos: o pressuposto epistemológico do movimento absoluto, no qual o movimento é sempre percebido; e o princípio dinâmico aristotélico de que objetos que não sofrem interferência assumem seu movimento natural e, assim, buscam seu lugar de origem (...) [como] uma pedra que após ter sido laçada para cima, busca retornar para o centro da Terra. Desta maneira, (...) é correto afirmar que [a pedra], ao iniciar seu movimento de descida (após o lançamento), tem uma propensão natural a ir para baixo, mas não tem a mesma propensão para mover-se circularmente em volta da Terra” (grifos do autor). 75 23); e ainda assemelhava a Terra aos outros planetas (causando tanto um problema físico quanto antropocêntrico). Figura 10 – Representação do sistema heliocêntrico de Copérnico, publicada em sua obra De Revolutionibus Orbium Coelestium, Polônia, 1543. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/3164/>. Acesso em: 29 out. 19. Feyerabend (2011a, p. 58) discute sobre os três principais argumentos contrários ao movimento da Terra: i) o argumento da torre, baseado na teoria do movimento aristotélico, foi confirmado pela experiência de queda livre; ii) a paralaxe, proposta por Aristóteles, afirmava que se a Terra girasse ao redor do Sol haveria vestígios desse movimento pelas estrelas, entretanto nunca foi encontrado nada; e iii) o movimento da Terra estava em conflito com o que era interpretado pela Sagrada Escritura. Entretanto, a partir do final do século XVI, as certezas acerca do universo supralunar começaram a ser questionadas pelas observações astronômicas. Nesse período, vários cometas52 puderam ser vistos no céu. Os aristotélicos acreditavam que se tratava de um 52 Silva (2006) apresenta uma discussão completa a respeito da importância da observação dos cometas nesse período. Ela explica, com uma grande riqueza de detalhes históricos, como Galileu, sem realizar qualquer observação astronômica, se opôs as “provas científicas” que afirmavam a natureza supralunar dos cometas, se mantendo fiel a ideia aristotélica da perfeição do movimento circular. 76 fenômeno atmosférico (sublunar), uma vez que os cometas apareciam, aumentavam, diminuíam de tamanho e depois desapareciam do céu. Vários astrônomos tentaram entender a natureza desses astros, buscando determinar a distância entre eles e a Terra, dentre eles o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), que projetou vários instrumentos para calcular com precisão as órbitas planetárias e concluiu (utilizando as medidas da paralaxe dos cometas e comparando-as com as da Lua) que os cometas provavelmente se movimentavam pelo universo supralunar (SILVA, 2006, p. 25). Além disso, o século XVI envolveu a todos (da Europa) com a magnífica recente descoberta das Américas. Essa descoberta colocou em xeque as fronteiras da cosmologia e da teologia, e “fez suspeitar da existência também de uma América do conhecimento e eles interpretaram cada dificuldade como evidência para esse novo continente” (FEYERABEND, 2011a, p. 66, grifo nosso), sobretudo com a descoberta de Tycho Brahe de uma nova estrela em 1572, e do movimento dos cometas “através das esferas celestiais, [que] ganhou uma importância que não teria tido se isso não tivesse ocorrido” (ibidem, p. 67). Assim, como fruto dessa grande revolução (no sentido literal da palavra), surge o personagem histórico Galileu Galilei... A interpretação contra-indutiva de Galileu a respeito da queda dos corpos Os sentidos nos mostram que corpos pesados caem do alto para baixo por uma linha reta e perpendicular à superfície da Terra; argumento considerado incontestável de que a Terra esteja imóvel: porque, quando ela tivesse a rotação diurna [como proposto por Copérnico no século XVI], uma torre, de cujo cimo se deixasse cair uma pedra, sendo transportada pela rotação da Terra, no tempo em que a pedra gasta para a sua descida, afastar-se-ia muitas centenas de braças para o oriente, e por tanto espaço deveria a pedra percutir na Terra afastada da base da torre (GALILEI, 2011, p. 208). Segundo Feyerabend (2011b, p. 86, 90), Galileu desarmou este argumento afirmando que os sentidos isolados, sem o auxílio da razão, podem não nos dar uma descrição verdadeira da natureza: 77 Salviati – (...) acerca daquilo que nos é primeiramente representado pelos [nossos] sentidos, que nos podem facilmente enganar; (...) esse movimento dos graves descendentes é simplesmente reto e não de outro tipo, (...) porque, desse modo, dá sinal de acreditar que aqueles que dizem que tal movimento não é de outro modo reto mas, ao contrário, circular, parecem ver sensivelmente aquela pedra mover-se em arco, já que ele convida mais seus sentidos que sua razão para elucidar esse efeito; o que não é verdade, Sr. Simplício, porque, assim como eu, (...) jamais vi, nem me aconteceu de ver, cair aquela pedra de outro modo que perpendicularmente, assim também acredito que, aos olhos de todos os outros, se represente o mesmo. Será melhor, portanto, que, deixada de lado a aparência, com a qual todos estamos de acordo, esforcemo-nos com o raciocínio, ou para confirmar a realidade daquela, ou para descobrir a sua falácia (GALILEI, 2011, p. 335). A ideia de Galileu consiste em substituir a verdade apreciada pelos sentidos53 por uma nova linguagem observacional, altamente abstrata e contra-indutiva54, e, até então, parcialmente não natural: É [também] verdadeiro que estando em movimento a Terra, o movimento da pedra, ao cair, terá sido realmente um traço comprido com muitas centenas e até mesmo com muitos milhares de braças, e se tivesse podido traçar numa área estável ou outra superfície o traço do seu curso, teria deixado uma linha transversal compridíssima; mas aquela parte de todo esse movimento, que é comum à pedra, à torre e a nós, fica para nós insensível e como se não fosse, e somente é observável aquela parte da qual nem a torre nem nós somos partícipes, que é afinal aquele movimento com o qual a pedra, caindo, mede a torre (GALILEI, 2011, p. 253, grifo nosso). 53 “(...) de acordo com o pensamento da época, a imobilidade terrestre conseguia corroboração e força por meio de: o argumento da torre e o deslocamento da pedra; ou então do visível deslocamento do Sol; ou até mesmo porque as pessoas não saíam voando da superfície terrestre em direção ao espaço como consequência de qualquer movimento rotatório que, no caso de que existisse, acarretaria” (OLIVEIRA, 2011, p. 47-48). 54 Apesar de aparentar num primeiro momento, “Feyerabend não critica Galileu por este usar a contra-indução. Critica-o, no entanto, por este, segundo ele, ter escolhido tal procedimento contra indutivo e ainda considerar suas concepções como verdade absoluta” (LOPES, 2016, p. 32); Feyerabend “está preocupado (...) em expor as falhas do racionalismo e suas consequências para a ciência; está preocupado em mostrar o papel da história no processo concreto da atividade científica e, portanto, [evidenciar] uma metodologia que não desconsidere a importância da contra-indução enquanto uma necessidade ao progresso da ciência e do conhecimento” (OLIVEIRA, 2011, p. 52). Nas palavras do próprio Feyerabend (2010, p. 339): “Deixe-me repetir que não critico os procedimentosde Galileu (...), mas sim aquelas teorias filosóficas que, se aplicadas com um melhor conhecimento da história, teriam que rejeitar esses procedimentos como ‘irracionais’. Galileu era irracional em termos dessas teorias – mas foi também um dos maiores cientistas-filósofos que já existiu” (grifo nosso). 78 Feyerabend cita que a concepção copernicana não estava de acordo com “os fatos”. Do ponto de vista desses “fatos”, a ideia do movimento da Terra é bizarra, absurda e obviamente falsa, para mencionar apenas algumas das expressões que foram frequentemente usadas na época e as quais ainda são ouvidas sempre que profissionais retrógrados se defrontam com uma teoria nova e contrária aos fatos (FEYERABEND, 2011b, p. 93). Uma vez que os argumentos de Galileu podem não ser suficientes, ele faz uso da propaganda e de truques psicológicos (com sucesso!) para convencer a todos do movimento da Terra55. “A experiência na qual Galileu deseja fundamentar a concepção copernicana não passa do resultado de sua própria imaginação fértil: ela foi inventada” (FEYERABEND, 2011b, p. 99, grifo do autor). Galileu, entretanto, anseia que essas ideias sejam “admitid[a]s por todos e que precisam apenas ser trazid[a]s à nossa atenção para que apareçam como a mais óbvia expressão da verdade” (ibidem, p. 99). Notemos como Galileu argumenta a respeito das ilusões fornecidas pelos nossos sentidos: Salviati – Imaginai agora estar num navio e ter fixado o olho na ponta do mastro: acreditais que, porque o navio se movesse também velocissimamente, ser-vos-ia necessário mover o olho para manter a vista sempre na ponta do mastro e seguir o seu movimento? Simplício – Tenho certeza de que não seria preciso fazer nenhuma mudança, e que não somente a vista, mas, quando eu tivesse ajustado a mira de um arcabuz, qualquer que fosse o movimento do navio, jamais seria preciso movê- la um só fio de cabelo para mantê-la ajustada. Salviati – E isso acontece porque o movimento que o navio confere ao mastro confere-o também a vós e a vosso olho, de modo que não vos convém movê- lo para olhar a ponta do mastro; e, consequentemente, ela aparece-vos imóvel56 (GALILEI, 2011, p. 328-329). (...) outros podem facilmente enganar-se com a simples aparência, ou queremos dizer, representação dos sentidos. E o fenômeno é o de dar a 55 “Segundo a epistemologia feyerabendiana, a cosmologia e razão aristotélicas estavam intactas, conseguiam explicar perfeitamente o mundo. A defesa da cosmologia copernicana era desarrazoada, pois se defrontava diretamente com uma gama de fatos bem estabelecidos, provenientes da razão vigente. A revolução copernicana só ocorreu devido à persistência e paixão de Galileu pelo copernicanismo e devido aos incansáveis esforços empreendidos por ele, através da propaganda, em defendê-lo” (SILVA, 2016, p. 42-43). 56 A inspiração de Galileu para o que hoje chamamos de argumento da torre provavelmente surgiu da observação do mastro dos navios. Entretanto, não se sabe se esses experimentos foram realmente feitos por Galileu ou seus contemporâneos, tanto o do mastro quanto o da torre (GALILEI, 2011, p. 643, nota 77). 79 impressão àqueles que de noite caminham por uma estrada de estarem sendo seguidos pela Lua com idêntico passo, enquanto a veem rasar as ponteiras dos telhados sobre os quais ela lhes aparece, exatamente daquela maneira que faria uma gata que, realmente caminhando sobre as telhas, se mantivesse atrás deles: aparência de que, quando não interviesse o raciocínio, muito manifestamente enganar-se-ia a visão (ibidem, p. 336). Como diria Feyerabend (2011b, p. 102): “Isso é, de fato, uma forte persuasão”. Galileu argumentava que, tanto do ponto de vista aristotélico quanto do copernicano, a pedra poderia ser vista cair ao pé da torre, de forma que a experiência observacional, confirmada pelos nossos sentidos, por si só, não demonstrava nada (OLIVEIRA, 2011, p. 44). Logo, fica claro que “o problema não se presta facilmente a uma solução experimental. Experimentos foram realizados, mas ficaram longe de ser concludentes” (FEYERABEND, 1977, p. 137). Essa explicação, a respeito da percepção do movimento, baseia-se na afirmação de que os “nossos sentidos só notam o movimento relativo57 e são insensíveis a um movimento que os objetos tenham em comum” (FEYERABEND, 2011b, p. 108, grifo do autor). Assim, argumenta Salviati: Fechai-vos com algum amigo no maior compartimento existente sob a coberta de algum grande navio, e fazei que aí existam moscas, borboletas e semelhantes animaizinhos voadores; seja também colocado aí um grande recipiente com água, contendo pequenos peixes; suspenda-se ainda um balde, que gota a gota verse água em outro recipiente de boca estreita, que esteja colocado por baixo: e, estando em repouso o navio, observai diligentemente como aqueles animaizinhos voadores com igual velocidade vão para todas as partes do ambiente; ver-se-ão os peixes nadar indiferentemente para todos os lados; as gotas cadentes entrarem todas no vaso posto embaixo; e vós, lançando alguma coisa para o amigo, não a deveis lançar com mais força para esta que para aquela parte, quando as distâncias sejam iguais. [Então,] fazei mover o navio com quanta velocidade (uniforme) desejardes: não reconhecereis uma mínima mudança em todos os mencionados efeitos, nem de nenhum deles podereis compreender se o navio caminha ou está parado: (...) jogando alguma coisa ao companheiro, não será necessário atirá-la com mais força para alcançá-lo, se ele estiver para a proa e vós para a popa, que se estivésseis colocados ao contrário; e as gotas continuarão a cair como antes no recipiente inferior, sem que nenhuma caia em direção à popa, ainda que, enquanto a gota está no ar, o navio navegue muitos palmos; os peixes na sua água nadarão sem maior esforço tanto para a parte precedente quanto para a parte subsequente do vaso, e com a mesma facilidade chegarão ao alimento colocado em qualquer lugar da borda do recipiente; e finalmente as borboletas e as moscas continuarão seus voos indiferentemente para todas as partes, e 57 Para Feyerabend (2011b, p. 103), o princípio da relatividade do movimento é a essência do artifício de Galileu. 80 nunca acontecerá que se concentrem na parte endereçada para a popa, como se estivessem cansadas de acompanhar o curso veloz do navio, do qual seriam separadas, por manterem-se no ar por longo tempo; e se queimando alguma lágrima de incenso produzísseis um pouco de fumaça, veríeis que ela se eleva para o alto e como uma pequena nuvem aí se mantém, movendo-se indiferentemente não mais para esta que para aquela parte (GALILEI, 2011, p. 267-268). Resta a ele, então, explicar por que a pedra acompanha a torre e não é deixada para trás. Desde a época de Aristóteles, acreditava-se que os corpos que não sofriam interação física permaneceriam em repouso, isto é, manteriam sua posição. Assim, seria necessário empurrar um objeto para que ele pudesse se mover. Dessa forma, o fato da pedra tocar o solo na base da torre (sem ter sofrido interferência durante a queda) significava/provava que a Terra não estava em movimento (FEYERABEND, 2011b, p. 109). Então, era necessário supor algo contra-indutivo que não se baseasse exclusivamente em nossos sentidos, mas também, e principalmente, na razão, de maneira tal que o movimento da Terra possa continuar a ser afirmado. (...) O princípio na inércia circular fornece a solução requerida: um objeto que se move ao redor do centro da Terra com certa velocidade angular em uma esfera livre de atrito continuará a mover-se para sempre com essa mesma velocidade angular (FEYERABEND, 2011b, p. 109, grifo do autor). Logo, tanto a pedra quanto a torreestão se movendo junto com a Terra, e ela, a pedra, chegará ao solo sem se deslocar da torre. Simplício – Por meio dos sentidos, que nos asseguram que aquela torre é reta e perpendicular e mostram que aquela pedra, ao cair, vem rasando a torre, sem inclinar-se um só cabelo para esta ou para aquela parte, e bater exatamente ao pé do lugar de onde foi largada. Salviati – Mas se por acaso o globo terrestre se movesse circularmente, e, consequentemente, levasse consigo também a torre, e que, de qualquer modo, se visse a pedra ao cair vir rasando o fio da torre, qual deveria ser o seu movimento? Simplício – Seria preciso dizer nesse caso antes “os seus movimentos”; porque um seria aquele com o qual viria do alto para baixo, e deveria possuir um outro para acompanhar o curso da torre. Salviati – Seu movimento seria, portanto, composto de dois, ou seja, daquele com o qual ela mede a torre, e do outro com o qual ela a segue: (movimento) 81 composto do qual resultaria que a pedra não mais descreveria aquela simples linha reta e perpendicular, mas uma transversal, e talvez não reta (GALILEI, 2011, p. 221). Feyerabend (FEYERABEND, 2011b, p. 106, 109) afirma que o movimento aparente da pedra em queda-livre, combinado com o princípio da relatividade e com o princípio da inércia circular transforma o argumento que contradiz Copérnico em argumento que o confirma: A explicação de Galileu do movimento transforma o argumento da torre de uma refutação de Copérnico em um exemplo confirmador. (...) A teoria do movimento de Aristóteles é coerente e foi confirmada em alto grau. [E] o que foi que Galileu fez? Ele substituiu essa teoria complexa e sofisticada, que já continha a distinção entre as leis da inércia (elas descrevem o que ocorre quando nenhuma força está atuando) e as leis das forças (elas descrevem como as forças influenciam o movimento) por sua própria lei da inércia, à qual faltava [apenas] corroboração (FEYERABEND, 2010, p. 339-341). Nas palavras do próprio Galileu: O mesmo experimento que, à primeira vista, parecia mostrar uma coisa, ao ser examinado mais cuidadosamente, assegura-nos do contrário (GALILEI, 1958, p. 164 apud FEYERABEND, 2011b, p. 103, nota 2). Sua principal alegação consiste na defesa de Salviati do argumento pelo qual uma pedra abandonada do alto do mastro de um navio, que se move com velocidade constante, não ficaria para trás (como acreditara Simplício), mas tocaria o chão do barco junto ao pé do mastro, da mesma forma que o faria caso o navio estivesse parado: Salviati – (…) Afirma, portanto, Aristóteles, que um argumento certíssimo da imobilidade da Terra é vermos os projécteis subirem perpendicularmente e retornarem, pela mesma linha, ao mesmo lugar de onde foram atirados, e isso, ainda que o movimento fosse altíssimo; o que não poderia acontecer quando a Terra se movesse, porque no tempo em que o projéctil se movesse para cima e para baixo, separado da Terra, o lugar onde teve início o movimento do projéctil afastar-se-ia, devido à rotação da Terra (GALILEI, 2011, p. 220). Simplício – [Assim,] existe a experiência tão apropriada da pedra que se deixa cair do alto do mastro do navio, a qual, quando o navio está parado, cai ao pé do mastro, mas, quando o navio se move, cai tão longe desse mesmo término, 82 quanto é o espaço que o navio percorreu durante o tempo da queda da pedra; o que não são poucas braças, se o movimento do navio é veloz (ibidem, p. 223). Salviati – Pois é evidentíssimo que o movimento do navio, assim como não é o seu movimento natural, assim também é acidental para todas as coisas que estão nele, pelo que não causa espanto que aquela pedra, que era mantida no cimo do mastro, deixada em liberdade, caia para baixo [junto ao pé do mastro. Além do mais,] a rotação diurna é posta como movimento próprio e natural do globo terrestre e, consequentemente, de todas as suas partes; (...) e, por isso, aquela pedra que está no alto da torre tem, como um instinto primário, de girar em torno do centro de seu todo em vinte e quatro horas, e este talento natural ela o exercita eternamente, em qualquer estado em que esteja posta (ibidem, p. 223-224). Figura 11 – Rascunhos do movimento circular no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4183/#q=galileu>. Acesso em: 29 out. 19. Galileu generaliza suas ideias contra-indutivas, a respeito da queda dos corpos, tanto para assuntos terrestres quanto para os celestes, a fim de confirmar o movimento da Terra. Apesar disso, a sua dinâmica não se ajustava aos epiciclos, que ainda ocorriam na teoria de 83 Copérnico, e nem às elipses propostas por Kepler58. Mas, segundo Feyerabend (2011b, p. 113, nota 1), é refutada pelas duas teorias. Ademais, “Galileu considera essa lei um ingrediente essencial do ponto de vista copernicano e tenta remover do espaço interplanetário corpos como cometas, cujo movimento, obviamente, não é circular”. Simplício – Então, não fizestes cem provas e nem mesmo uma, e afirmais tão francamente que ela é certa? Retorno à minha incredulidade e à mesma certeza de que a experiência tenha sido feita pelos principais autores que dela se servem, e que ela mostre o que eles afirmam. Salviati – Eu, sem experiência, estou certo de que o efeito seguir-se-á como vos digo, porque assim é necessário que siga; e acrescento que vós mesmos sabeis muito bem que não pode acontecer diferentemente, ainda que finjais, ou simuleis fingir não o saber (GALILEI, 2011, p. 226, grifo nosso). Assim, Galileu introduz o princípio da inércia circular não por referência a um experimento ou uma observação, mas por uma afirmação muito mais especulativa, e é por meio disso que é alcançada a transição de uma cosmologia geostática para o ponto de vista copernicano (FEYERABEND, 2011b, p. 110-111). A Palavra de Deus como argumento contra a frágil teoria copernicana Segundo Galileu, todos os fenômenos terrenos, pelos quais se mantêm comumente a estabilidade da Terra e a mobilidade do Sol e do firmamento, devem aparecer- nos feitos sob as mesmas aparências, quando se supõe a mobilidade da Terra e a estabilidade daqueles (GALILEI, 2011, p. 493). 58 Kepler tentava justificar as incompreensões sob o plano científico de Galileu, no tocante à astronomia, as razões defensivas e polêmicas a respeito de seu livro, o Saggiarore, pelo fato de que Galileu precisava se defender a qualquer custo de seus adversários. Para Kepler, independente das fraquezas e dos argumentos, a importância de sua obra estava em novos raciocínios e experiências, a respeito do movimento dos corpos, inclusive dos cometas. Galileu se envolve na polêmica sobre a natureza e o movimento dos cometas por uma boa razão: o movimento não-circular dos cometas desacreditaria Copérnico. “Um corpo celeste dotado de movimento não circular era uma ameaça para o sistema copernicano, uma hipótese não prevista e por demais perigosa. Assim, sem observações e sem cálculos” – Galileu não vira os cometas – ele sustenta uma teoria alternativa (a de que os cometas eram fenômenos atmosféricos, negando sua realidade física e comparando-os aos arco-íris ou reflexos de um pôr-do-sol sobre a superfície do mar) daquela teoria mais moderna e sofisticada de Tycho Brahe e do padre Grassi (jesuíta e matemático do Colégio Romano) (REDONDI, 1991, p. 38-39). 84 Desde a época de Platão (aproximadamente 400 anos a.C.) já havia expectativa que as estrelas seriam divinas e, assim, deveriam se comportar de maneira ordenada59 no céu (FEYERABEND, 2011b, p. 200). No entanto, no final do século XVI, embasados com o Heliocentrismo, astrônomos descobriram “que os cometas se movimentavamlivremente através do espaço anteriormente reservado às estrelas e planetas imutáveis” (KUHN, 1998, p. 151-152). A teoria copernicana não era a única e nem a mais geral visão cosmológica de sua época, seu sucesso e coerência não significavam, por si só, uma correspondência à realidade (FEYERABEND, 2010, p. 299). Figura 12 – Representação contendo a explicação do movimento aparente dos planetas a partir da perspectiva heliocêntrica, contida no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4183/#q=galileu>. Acesso em: 29 out. 19. 59 “Por outro [lado], não se encontra nenhuma regularidade facilmente discernível. Os planetas, para todos os efeitos, movem-se de maneira bastante caótica” (FEYERABEND, 2011b, p. 200-201). 85 Isso fica claro quando analisamos os escritos de Galileu, e ele mesmo afirma que os argumentos a respeito da imobilidade da Terra são muito coerentes e eficazes, enquanto que, os argumentos contrários, e com poucos adeptos, não estão de acordo com os sentidos: Salviati – (...) Mas o meu espanto, Sr. Sagredo, é muito diferente do vosso: vós vos espantais que tão poucos sejam seguidores da opinião dos pitagóricos [a respeito do movimento da Terra]; e eu fico estupefato de que se tenha até aqui encontrado quem a tenha abraçado e seguido, nem posso admirar suficientemente a eminência do engenho daqueles que a receberam e a consideraram verdadeira, e com a vivacidade de seu intelecto fizeram tal força aos próprios sentidos, que tenham podido antepor o que lhes ditava o discurso ao que lhes mostravam as experiências sensíveis abertamente contrárias. Que as razões contra a revolução diurna da Terra, já examinadas por vós, tenham grandíssima aparência, já o vimos, e terem sido consideradas como concludentíssimas pelos ptolomaicos, aristotélicos e todos os seus seguidores, é um argumento muito forte de sua eficácia (GALILEI, 2011, p. 410). Apesar disso, Galileu exigia que as ideias dos astrônomos fizessem parte do conhecimento público. (...) Galileu não pedia simplesmente a liberdade para publicar seus resultados; ele queria impô-los aos demais60. (...) [pois] presumia que os métodos especiais e muito restritos dos astrônomos (...) eram a maneira correta de acessar a Verdade e a Realidade (FEYERABEND, 2010, p. 297). Feyerabend argumenta que, nesse período e até o século XIX, os cientistas utilizavam a bíblia para respaldar as ideias científicas: No século XVI, a concordância com a palavra de Deus como estava contida na Escritura Sagrada era uma condição-limite importante e aceita universalmente da pesquisa física. Era um padrão comparável com o padrão “moderno” da precisão experimental (FEYERABEND, 2011a, p. 57). Esse pressuposto, defendido por grandes cientistas como Copérnico, Kepler e Newton, é baseado no fato das Escrituras serem “uma importante condição delimitadora da existência 60 O argumento de Feyerabend (2010, p. 297) segue afirmando que nesse aspecto Galileu “era tão atrevido e totalitário quanto muitos dos profetas modernos da ciência – e tão desinformado quanto eles”. 86 humana e, por tanto, da pesquisa” (FEYERABEND, 2011b, p. 174). Segundo Isaac Newton, por exemplo, a pesquisa científica deve se basear em duas fontes: as Obras de Deus (o magnífico Universo) e a Palavra de Deus (a Bíblia). Como acontece até os dias de hoje, a Igreja tem a Palavra de Deus como fonte para as discussões dos interesses humanos, e faz dela uma condição-limite da Realidade e da Verdade (FEYERABEND, 2010, p. 302-303). Em resposta ao monge carmelita Paolo Foscarini, o Cardeal Roberto Bellarmino, do Colégio Romano, discute sobre a ideia hipotética de Galileu: Parece-me que Vossa Reverendíssima e o Senhor Galileu agem com prudência quando se satisfazem em falar hipotética e não absolutamente... Dizer que, na suposição do movimento da Terra e da quiescência do Sol, todas as aparências celestiais são mais bem explicadas que pela teoria dos excêntricos e epiciclos é falar com um excelente bom-senso e não correr qualquer risco. Essa maneira de falar é suficiente para um matemático. Mas querer afirmar que o Sol, verdadeiramente, está no centro do universo e só gira em torno de seu próprio eixo sem ir do leste para o oeste é uma atitude muito perigosa e calculada não só para provocar todos os filósofos e teólogos escolásticos como também para ferir nossa fé sagrada ao contradizer as Escrituras (FEYERABEND, 2010, p. 298). A posição da Igreja era de que o conhecimento astronômico servia apenas para explicar e prever, mas não poderia ser relacionado com a realidade, ou seja, o fato de um modelo funcionar dentro de um campo estrito não mostrava, necessariamente, que ele tinha acesso à verdade61 (ibidem, p. 298). Além disso, a Igreja também usava a Bíblia para impor medidas administrativas: em sua carta enviada a Galileu, o cardeal Bellarmino enfatiza esta condição: “Como vocês estão cientes, o Concílio de Trento proíbe a interpretação das Escrituras de uma maneira contrária à opinião comum dos papas” (ibidem, p. 303, grifo nosso). A Igreja Católica Romana (...) afirmava ter os direitos exclusivos de exploração, interpretação e aplicação das Sagradas Escrituras. Os leigos, de 61 “Para usar os termos modernos: os astrônomos [e demais cientistas] estão totalmente seguros quando dizem que um modelo tem vantagens preditivas sobre outro modelo, mas se complicam quando afirmam que essa é, portanto, uma imagem fiel da realidade. (...) Essa ideia sensata é um ingrediente elementar da prática científica. (...) Tomemos as melhores teorias da física moderna: a relatividade geral em sua forma mais recente e a mecânica quântica geral. Até aqui ficou provado que seria impossível fundi-las em um todo coerente – uma das teorias faz afirmações que são terminantemente contraditas pela outra. Podemos ainda assim afirmar que obteremos uma descrição correta da realidade de alguma delas? É claro que não. Podemos [apenas] dizer que ambas as teorias são aproximações úteis, mas que não temos a menor ideia de como é a realidade da qual elas se aproximam” (FEYERABEND, 2010, p. 298-299). 87 acordo com os ensinamentos da Igreja, não tinham nem o conhecimento nem a autoridade para mexer com as Escrituras e eram proibidos de fazê-lo. [Isso] não deveria causar surpresa a ninguém familiarizado com os hábitos de instituições poderosas. A atitude da Associação Médica Americana [por exemplo,] com relação a praticantes leigos é tão rígida como o era a atitude da Igreja para com intérpretes leigos – e tem as bênçãos da lei. Especialistas, ou ignorantes que tenham adquirido as insígnias formais de uma especialidade, sempre tentaram – e com frequência tiveram êxito nisso – assegurar para si mesmos direitos exclusivos em domínios especiais. Qualquer crítica da rigidez da Igreja Católica Romana também aplica-se a seus sucessores modernos, tanto científico quanto ligados à ciência (FEYERABEND, 2011b, p. 175). Figura 13 – Retrato de São Roberto Bellarmino, óleo sobre tela, feito em 1923 por G. Francisi, Roma, Palácio do Santo Ofício, sala de recepção, lado norte. Fonte: REDONDI, 1991, p. 152. 88 Ciente das consequências, Galileu foi instruído a ensinar a teoria copernicana como uma hipótese, sendo proibido62, portanto, de ensiná-la como uma verdade. Além disso, Segundo Feyerabend (2011b, p. 177), a Igreja, “era muito mais modesta que isso”, não dizia: aquilo que contradiga a Bíblia tal como por nós interpretada deve desaparecer, não importa quão fortes sejam as razões científicas a seu favor. Umaverdade apoiada por argumentação científica não era posta de lado. Era usada para revisar a interpretação de passagens da Bíblia aparentemente inconsistentes com ela. Há muitas passagens na Bíblia que parecem sugerir uma Terra plana. Ainda assim, a doutrina da Igreja aceitava a Terra esférica, [flutuando no espaço,] como coisa evidente. No entanto, a Igreja não estava disposta a mudar somente porque alguém havia produzido algumas conjecturas vagas. Queria prova – uma prova científica em assuntos científicos63. (...) Mas não havia ainda nenhuma prova convincente da doutrina copernicana (grifo do autor). Os especialistas da Igreja concluíram que a teoria de Galileu, a respeito da mobilidade da Terra, era “insensata e absurda em sua filosofia”, o que, segundo Feyerabend, equivaleria dizer nos dias de hoje, que a teoria não era científica. Essa análise “foi feita sem referência à fé ou à doutrina da Igreja, sendo baseada exclusivamente na situação científica da época” (ibidem, p. 173). Tycho Brahe64 e outros cientistas concordavam com a opinião da Igreja, uma vez que ela estava baseada com os fatos e padrões da época. Além disso, os especialistas da Igreja pronunciaram que a doutrina copernicana era “formalmente herética”, no que diz respeito às implicações éticas/sociais. Assim, ao ser associada à Realidade, ela contradizia a Palavra de Deus, e não era feita de maneira inadvertida, mas com plena consciência da situação (ibidem, p. 174). 62 Redondi (1991, p. 39) afirma que Galileu tinha “muitas observações e ideias novas a favor do copernicanismo e do movimento da Terra, mas disso não poderia falar porque em 1616 o cardeal Bellarmino o prevenira de que deveria abster-se para o futuro. A única coisa que podia fazer, então, era defender o copernicanismo de seus possíveis adversários: destruir a astronomia e a cosmologia não copernicanas. Em outras palavras, não podendo demonstrar o sistema copernicano [como uma correspondência da verdade], Galileu tinha como única escolha eliminar as possíveis desvirtuações”. 63 “Aqui, ela não atuava de maneira diferente de muitas instituições científicas modernas: universidades, escolas e mesmo institutos de pesquisa em vários países usualmente esperam por um longo tempo antes de incorporar novas ideias em seus currículos” (FEYERABEND, 2011b, p. 177). 64 Tycho Brahe, segundo Feyerabend (ibidem, p. 181), “foi um astrônomo notável; suas observações contribuíram para a queda de concepções geralmente aceitas. Ele notou a importância da cosmologia de Copérnico – contudo, manteve a Terra imóvel, por razões tanto físicas quanto teológicas”. 89 As descobertas de Galileu Galilei sobre as manchas solares, as fases de Vênus, as luas de Júpiter e a modificação do tamanho de Marte ao longo de seu movimento anual, que começaram a ser divulgadas no início do século XVII, principalmente por meio de trocas de cartas, confirmavam a doutrina copernicana, que afirmava que o Sol ocupava o centro do universo. Tais ideias não eram bem aceitas, principalmente pelos teólogos da época, que tinham a justificativa (...) de ser uma concepção contrária aos escritos bíblicos (LINO, 2020, p. 220). O suposto movimento da Terra defendido por Galileu, sem sombra de dúvidas, contradizia a Palavra de Deus, uma vez que no capítulo 10, versículo 12, do livro de Josué (Antigo Testamento) ele ordena “Sol, pare sobre Gibeom!” e “o Sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs”. Ora, se o Sol parou, então é ele quem se movimenta e, consequentemente, a Terra se encontra em repouso (tal qual podemos perceber com nossos sentidos). Há, ainda, outras passagens com referências astronômicas na Bíblia, como, por exemplo, o salmo 93, 1 “O mundo jamais será movido”; e o salmo 19, 1-6, “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. (...) Nos céus ele armou uma tenda para o sol, que é como um noivo que sai de seu aposento e se lança em sua carreira com a alegria de um herói. Sai de uma extremidade dos céus e faz o seu trajeto até a outra”. Essas linhas são enunciados claros das crenças astronômicas dos antigos. Mas seriam elas suficientes para fazer Copérnico hesitar e para criar toda espécie de problemas para Galileu? Não em nossa época, mas, nos séculos XV e XVI, com toda a certeza (HELLMAN, 1991, p. 27). Galileu, entretanto, reivindicava a liberdade e autonomia da pesquisa no domínio da natureza. Sua crítica não era contra a Bíblia, mas contra a interpretação literal dela. Ele defende “a justificativa de que não existe contradição entre o texto sagrado e as leis da natureza”, mas que as pessoas erram em fazer interpretações literais. Suas ideias, logo começam “a ganhar repercussão e, aos olhos da maioria dos teólogos, se torna[m] uma ameaça às suas doutrinas” (LINO, 2020, p. 223). Segundo Redondi (1991, p. 46), o Santo Ofício se ocupava em questões de ortodoxia católica e não de astronomia. Entretanto, a tentativa de um manifesto político-intelectual de Galileu fez a Igreja examinar as expressões geocêntricas da Bíblia. A reinterpretação de Galileu 90 da Escritura com novas interpretações naturais obrigou o Santo Ofício a intervir65. Não havia provas do Heliocentrismo – apesar dos pedidos irônicos do cardeal Bellarmino por elas. Os especialistas da Igreja demonstraram que a imobilidade da Terra estava de acordo com as leis do movimento de Aristóteles e se, por uma hipótese absurda, a Terra estivesse em movimento, isso seria contraditório com a experiência. Feyerabend (2011b, p. 178) afirma que a igreja exigiu de Galileu, tanto por razões científicas quanto éticas, que ele aceitasse a interpretação da hipótese. Isso não aconteceu e ele foi julgado por reinterpretar a Bíblia sem a autorização da Igreja. Além do mais, levando em conta as dificuldades com que o modelo copernicano “se defrontava quando considerado uma descrição da realidade, temos de admitir que ‘a lógica estava do lado de... Bellarmino e não do lado de Galileu’, como o historiador da ciência e físico- químico Pierre Duhem escreveu (ibidem, p. 178-179). O primeiro julgamento de Galileu ocorreu em 1616, após a doutrina copernicana ser analisada e criticada. Galileu não foi preso e nem condenado, porém recebeu ordens proibindo- o de ensinar Copérnico como uma verdade. Entre 1632 e 1633 ele foi julgado novamente66, mas, dessa vez, foi considerada a não obediência de Galileu a respeito da ordem dada no primeiro julgamento, pelo fato dele ter “enganado os inquisidores, fazendo-os acreditar que a ordem nunca tinha sido dada” (ibidem, p. 172). Lino (2020), ao apresentar a famosa carta que Galileu envio a seu discípulo Benedetto Castelli em 1613, e as discussões a respeito da recentemente descoberta da versão modificada desta carta pelo historiador Salvatore Ricciardo, aponta que foi o próprio Galileu quem alterou, 65 “No início de dezembro de 1615 Galileu vai à Roma com a esperança de se autodefender melhor das acusações que lhe vinham sendo impostas, no entanto, sem muito sucesso. Esse insucesso certamente foi ocasionado pela repercussão que o conflito adquiriu, os teólogos não poderiam simplesmente retirar as acusações contra Galileu; aos olhos dos fiéis isso seria um ponto negativo em relação à força que os processos de inquisição tinham naquela época” (LINO, 2020, p. 227). 66 A segunda condenação de Galileu parece ter tido outros motivos, além de sua defesa pelo Heliocentrismo. Citam Damasio & Peduzzi (2018, p. 11) que a abordagem de seu segundo julgamento “inicia com os conflitos entre ele e os jesuítas, que oferecem denúncias ao estudioso italiano que foram aceitas e culminaram no julgamento de 1633. No entanto, o teor das denúncias não se tornou público, e apenas umacomissão nomeada pelo papa (aliado e defensor de Galileu) soube de seu conteúdo. Da comissão, surgiram instruções rígidas, no sentido de que o tribunal deveria julgar Galileu por desobediência, além de determinar que o corpo de delito fosse o Diálogo. No entanto, Pietro Redondi encontrou documentos que permitem interpretar de maneira diferente este episódio. Segundo o entendimento deste renomado historiador, as acusações feitas pelos jesuítas eram muito mais graves e foram abafadas pelo papa para proteger Galileu. Os documentos, que sustentam a tese de Redondi, referem-se à denúncia como tendo corpo de delito II Saggiatore, e a acusação era a defesa do atomismo – filosofia incompatível com o dogma da transubstanciação da Eucaristia. Neste último caso, tratava-se de heresia doutrinal, muito mais grave na época que a inquisitorial, que foi a acusação oferecida a Galileu pelo comitê instituído pelo papa”. 91 deliberadamente, o texto da carta, na tentativa de amenizar as suas duras críticas aos teólogos da época que eram contra o Heliocentrismo. Até essa recente descoberta, os historiadores acreditavam que haviam sido alguns clérigos rivais a Galileu quem teriam adulterado a carta, a fim de que ele fosse mais facilmente acusado pelo Tribunal da Inquisição. Entretanto, a descoberta sugere que, após ter sido acusado, “Galileu tentou espalhar uma nova versão atenuada de suas afirmações”, na tentativa de desmentir a versão que foi entregue ao Santo Ofício, carta que, de fato, Galileu escrevera (LINO, 2020, p. 229). Figura 14 – Quadro de Galileu perante o Santo Ofício, pintado pelo francês Joseph Fleury no século XIX. Fonte: Josse / Leemage Getty Images. Disponível em: <quo.es/ser-humano/a26301943/juicios-importantes- proces/>. Acesso em: 29 out. 19. Em 1623, um cardeal florentino de 55 anos chamado Maffeo Barberini foi eleito Papa Urbano VIII. Assim como Galileu, ele havia nascido e se criado em Florença e frequentado a Universidade de Pisa, onde Galileu estudara medicina e Urbano, direito. Urbano havia, inclusive, intercedido em favor de Galileu durante seu primeiro julgamento, e advertido Galileu que sua defesa do Universo heliocêntrico poderia lhe trazer problemas – e que não deveria apresentá-la como uma realidade, nem mesmo em pensamento. O Papa se considerava amigo e admirador de Galileu, que teve o privilégio de ser recebido em seis audiências papais, cada uma durando mais de uma hora. Essa relação, quase íntima, com o Papa, fez Galileu pensar que poderia escrever o Diálogo com segurança – e assim o fez. Em sua obra de 1632, Galileu 92 apresenta um diálogo entre três participantes: Salviati, Sagredo e Simplício. Os dois primeiros homenageiam amigos falecidos de Galileu, sendo Salviati seu porta-voz e Sagredo um moderador inteligente e imparcial, uma pessoa de alta classe e homem do mundo. Já Simplício representa uma mistura dos argumentos de todos os oponentes que Galileu havia enfrentado na construção de suas ideias (HELLMAN, 1991, p. 23, 32-33). Para tornar seus argumentos sólidos e eficientes, Galileu usa os argumentos “tolos” de Simplício como contraste. E isso funciona bem, mas, ao final de sua obra, “ele faz Simplício resumir a posição da Igreja Católica acerca da impossibilidade de se obter genuíno conhecimento do mundo físico”, ao passo de que seria “uma ousadia extravagante para qualquer um limitar e confinar o poder e sabedoria divinos a uma particular conjetura pessoal” (ibidem, p. 36), se referindo ao sistema copernicano. Este argumento de Simplício fora originalmente entoado pelo próprio Papa, e os inimigos de Galileu conseguiram convencer Urbano que o seu objetivo era de ridicularizar a Igreja, e pior, ridicularizar e humilhar o Papa em pessoa. Urbano ficou furioso quando viu o resultado. Tanto é que, mesmo após a morte de Galileu em 1642, ele recusou-se a permitir que o grão-duque de Toscana realizasse um funeral adequado para Galileu e construísse um monumento sobre sua tumba na Igreja da Santa Cruz, em Florença (ibidem, p. 36). Foi, então, que, No dia 22 de junho de 1633, Galileu Galilei foi levado a julgamento no quartel general da Inquisição em Roma. Todo o magnificente poderio da Igreja Católica Romana tinha sido aparentemente perfilado contra ele (...). Sob ameaça de tortura, encarceramento e mesmo morte na fogueira, ele foi forçado, de joelhos, a "abjurar, amaldiçoar e detestar" toda uma vida de brilhante e devotado labor intelectual. Confrontado com uma "veemente suspeita de heresia", ele teve de renunciar, "com um coração sincero e fé genuína" à sua crença de que o Sol, e não a Terra, é o centro do universo, e que a Terra move-se em torno do Sol, e não vice-versa67. Como Galileu concordou com tudo isso - pelo menos verbalmente -, as ameaças mais sérias de Urbano não precisaram ir adiante. Como uma de suas punições, por exemplo, ele deveria recitar os sete salmos penitenciais uma vez por semana durante três anos. Mas foi também posto em prisão domiciliar pelo resto de sua vida. E, finalmente, seu livro Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano (1632), que tinha estado no centro do julgamento, foi proibido. Isto é, foi acrescentado à lista de livros banidos, o 67 BAIARDI et al. (2012, p. 202) afirmam que Galileu foi humilhado, ameaçado de ser torturado e terminou por ceder, representando, teatralmente, o papel que o Santo Ofício lhe propôs. E, em seguida, os autores apresentam as traduções dos textos da sua Sentença e Abjuração. 93 Index librorum prohibitorum, mantido pela Inquisição da Igreja Católica (HELLMAN, 1999, p. 21, grifos do autor). Suponha, agora, que um Galileu moderno usasse alguns argumentos contra-indutivos, sem provas, e sem conformidade com o pensamento científico atual: o que aconteceria se ele quisesse testar medicamentos alternativos usando um grupo de voluntários sem autorização legal? É bastante provável que ele receberia a visita da polícia, da mídia e do Ministério Público, exatamente como aconteceu (FEYERABEND, 2010, p. 303). É bem verdade que o controle não é tão rígido quando era à época de Galileu e [nem] tão universal, mas isso é resultado de uma atitude mais tolerante com relação a certos crimes (os ladrões, por exemplo, já não são mais enforcados ou mutilados), e não de uma mudança de atitude quanto à natureza dos próprios crimes (ibidem, p. 304). Esse procedimento68 “mais direto, mais honesto e certamente mais racional” da Igreja não era imutável. Foi isso que disse o cardeal Bellarmino: Se houvesse alguma prova real que o Sol está no centro do Universo e de que a Terra está no terceiro céu girando ao redor do Sol, então teríamos de agir com grande prudência ao explicar as passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário e de preferência admitir que não as tínhamos entendido em vez de declarar como falsa uma opinião comprovadamente verdadeira. (...) quanto a mim, não acreditarei que essas provas existem até que elas me sejam mostradas. Tampouco é uma prova dizer que, se supusermos que o Sol está no centro do Universo e a Terra no terceiro céu, tudo funciona da mesma maneira como se tudo fosse o inverso. No caso de dúvida não devemos abandonar a interpretação do texto sagrado como dada pelos Papas (FEYERABEND, 2010, p. 305, grifo nosso). “A doutrina da Igreja, diz Bellarmino aqui, é uma condição-limite para a interpretação de resultados científicos. Mas não é uma condição-limite absoluta. A pesquisa pode movimentá-la” (ibidem, p. 305, grifo nosso). 68 As restrições administrativas feitas a um cientista moderno são certamente comparáveis àquelas em vigor na época de Galileu. Mas, enquanto aquelas restrições antigas que eram emitidas pela Igrejaestavam disponíveis na forma de regras explícitas, tais como as regras do Concílio Tridentino, as restrições modernas muitas vezes são implícitas, e não explicadas detalhadamente (ibidem, p. 304). 94 É provável que muitos de nós tivéssemos apoiado a decisão69 da Igreja e concordado com o cardeal Bellarmino a respeito da fragilidade do ponto de vista copernicano. Seu argumento mais poderoso era a harmonia criada pelo ponto de vista heliocêntrico, ou seja, “pela primeira vez havia um sistema astronômico, e não apenas um conjunto de instrumentos de cálculo” (ibidem, p. 306-307). O telescópio fornece um retrato verdadeiro do céu? A harmonia copernicana é refutada por meio da observação. O argumento da torre é invertido e as interpretações naturais são substituídas por interpretações contra-indutivas. Propagandas e truques psicológicos substituem argumentos empíricos70. Hipóteses ad hoc são inseridas para afirmar o movimento da Terra e hipóteses auxiliares adversárias são excluídas por não concordarem com a nova teoria. Até então, nenhuma evidência independente surge em defesa da nova cosmologia. Os argumentos contrários a ela são cientificamente e teologicamente corretos. Há uma tentativa de substituir uma teoria muito abrangente por outra restrita que possui, inclusive, elementos especulativos. Não é apontada nenhuma prova do movimento da Terra e não há nada que refutaria o ponto de vista geocêntrico, mas que seria explicado pelo ponto de vista copernicano (FEYERABEND, 2011b, p. 113-117, 163). Galileu tenta construir uma visão de mundo inteiramente nova, mas não consegue fazê-lo só, ele precisa do auxílio de um sentido superior e mais eficaz. Além das interpretações naturais, Galileu altera também as sensações que parecem ameaçar a teoria de Copérnico. Ele admite que haja tais sensações, louva Copérnico por tê-las ignorado e afirma tê-las eliminado com o auxílio do telescópio. Contudo, não oferece razões teóricas pelas quais se deveria esperar que o telescópio fornecesse um retrato verdadeiro do céu (ibidem, p. 113). 69 “A avaliação dos peritos da Igreja estava cientificamente correta e tinha a intenção social certa, a saber, proteger as pessoas das maquinações dos especialistas (...) [e] preservar importantes valores humanos e sobre-humanos. (...) Desejava proteger as pessoas de serem corrompidas por uma ideologia estreita que podia funcionar em domínios restritos, mas [que] era incapaz de sustentar uma vida harmoniosa” (FEYERABEND, 2011b, p. 179). 70 Redondi (1991, p. 40) afirma que Galileu não apresenta nem observações e nem teses originais para a astronomia, mas “somente argumentos polêmicos geniais, tão geniais quanto eram paradoxais, destinados mais a desacreditar, com uma lógica irreprochável e provocatória, a segurança dos raciocínios de seus adversários”. 95 Feyerabend (ibidem, p. 118) argumenta que Galileu faz uso do telescópio (refrator) para transformar seu argumento contra-indutivo em uma indução baseada em uma experiência melhor. Entretanto, afirma que o conhecimento de Galileu sobre a teoria da refração não é correto e nem é suficiente: “(...) há sérias dúvidas quanto ao conhecimento de Galileu daquelas partes da óptica física de sua época que eram relevantes para o entendimento de fenômenos telescópicos”. Figura 15 – Galileu mostra o telescópio para o Senado veneziano do Campanário de São Marcos em 1609, quadro de Giuseppe Bertini, Varese, Itália, 1858. Fonte: Gabriele Vanin. Disponível em: <gabrielevanin.it/S.%20Marco%201609.htm>. Acesso em: 29 out. 19. Há vários relatos da época71, inclusive do próprio Galileu, evidenciando a importância e os benefícios desse novo instrumento quando usado em terra ou mar. “Sua aplicação às 71 Galileu reconstrói uma versão melhor da luneta holandesa e afirma em seus escritos que isso se deu por meio de cálculos matemáticos. Entretanto, não há cálculos em seus relatórios, mas um esboço que mais se assemelha à tentativa e erro. “(...) foi a experiência e não a matemática que levou Galileu a uma fé serena na confiabilidade de seu aparelho” (GEYMONAT, 1965, p. 39 apud FEYERABEND, 2011b, p. 120). 96 estrelas, contudo, era uma questão inteiramente distinta” (FEYERABEND, 2011b, p. 121, grifo do autor). “As primeiras observações telescópicas do céu são indistintas, indeterminadas, contraditórias e entram em conflito com o que qualquer pessoa pode ver a olho nu” (ibidem, p. 123). É sabido que as observações telescópicas terrestres indicavam, até certo ponto, propriedades estáveis e objetivas das coisas vistas. Como os nossos sentidos estão familiarizados com a aparência dos objetos terrestres, fica fácil distinguir o que é verdadeiro e o que é distorcido ou desfigurado por franjas coloridas, e até mesmo outros elementos como plano de fundo, superposição, tamanho relativo, etc. Entretanto, não conhecemos de perto as estrelas e os planetas. Até mesmo a aparência da Lua nos dá uma ideia falsa de sua distância e seu tamanho. Logo, não podemos usar a nossa memória para separar o que provêm do próprio objeto (celeste) das contribuições do telescópio (ibidem, p. 123-124). O telescópio produz fenômenos estranhos e novos, alguns dos quais podem ser revelados como ilusórios por meio da observação a olho nu, alguns contraditórios, alguns tento até a aparência de ilusórios ao passo que a única teoria que poderia ter posto ordem nesse caos, a teoria da visão devida a Kepler, é refutada por evidência da mais clara espécie possível (ibidem, p. 141). O conhecimento óptico de Galileu é descrito por Feyerabend como superficial. É bem verdade que o telescópio produzia resultados fantásticos na Terra, entretanto, ele se deparava com dificuldades quando utilizado para observações celestes. “O telescópio produziu fenômenos espúrios e contraditórios, e alguns de seus resultados podiam ser refutados por um simples olhar a olho desarmado. Apenas uma nova teoria da visão telescópica podia trazer ordem ao caos (...) e separar aparência de realidade” (FEYERABEND, 2011b, p. 138). Segundo a teoria de Kepler, a imagem de um objeto é recebida pelos nossos olhos através das leis de reflexão e refração (tal como ainda hoje é ensinado na escola), pela intersecção retrógrada da trajetória dos raios que emergem/refletem do objeto até nossos olhos, cabendo à mente do observador utilizar somente a parte final dessa luz. Essa ideia, que até certo ponto está correta, não é válida para lentes (como as do telescópio) e nem leva em consideração os efeitos atmosféricos. Assim, a teoria kepleriana da visão, que é refutada pelo telescópio (ou 97 que o refuta), obviamente, não pode ser utilizada como argumento por Galileu, e a visão telescópica do céu permanece um mistério72 (ibidem, p.138-139). Figura 16 – Desenhos dos Planetas vistos por Galileu através do telescópio, publicado no livro II Saggiatore (O Ensaísta), dedicado ao papa Urbano VIII, Roma, 1623. Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4184/>. Acesso em: 29 out. 19. A ausência de observações satisfatórias mostravam dois objetos acompanhantes de Saturno (foi assim que os anéis foram vistos na época); duplicação de imagens dos astros; mudança da posição lateral da imagem de acordo com a posição do olho; franjas coloridas; presença ou ausência das estrelas que acompanham Júpiter (suas quatro luas, hoje chamadas de “luas galileanas”); uma Lua repleta “de montanhas na parte interna, mas perfeitamente lisa na periferia, e isso a despeito do fato de que a periferia” da Lua mudava com a sua rotação; além de algumas crateras que não existem e a observação de uma atmosfera lunar; o que revela a72 Apenas um século depois, em 1704, a teoria óptica do telescópio pôde ser explicada pelo inglês Isaac Newton (1642-1727). 98 pobreza73 do que poderia ser visualizado pelo telescópio, agravado ainda pela velocidade com que novos fenômenos foram descobertos e divulgados (FEYERABEND, 2011b, p. 125-130). “As observações telescópicas de Galileu (...) se contradiziam, nem todas as pessoas podiam repeti-las, aqueles que as repetiam (Kepler) conseguiram resultados confusos e não existia qualquer teoria para separar ‘fantasmas’ de fenômenos verídicos” (FEYERABEND, 2010, p. 341). Sagredo – Portanto, devemos ainda esperar outras objeções vigorosas contra este movimento anual [da Terra]? Salviati – Sim; e tão evidentes e sensíveis que, se um sentido superior e mais excelente que os comuns e naturais não estivesse acompanhado da razão, duvido grandemente de que eu mesmo não tivesse sido ainda mais reticente acerca do sistema copernicano, do que o sou, depois de ter sido iluminado por uma luz mais clara que a habitual. Sagredo – Agora, portanto, Sr. Salviati, vamos, como se diz, direto ao ponto, porque cada palavra que se gasta em outro argumento parece-me desperdiçada. Salviati – Aqui estou para servir-vos (GALILEI, 2011, p. 410-411, grifos nosso). Apesar das objeções, Galileu utiliza seu instrumento como “prova” de seus argumentos: em resposta aos escolásticos que afirmavam que um corpo não poderia ter dois movimentos ao mesmo tempo, ele exibiu os satélites de Júpiter (que orbitavam o planeta enquanto ele fazia sua revolução anual); quanto à tradicional alegação de que os corpos celestes seriam perfeitos, ele utiliza o telescópio para afirmar que o Sol tem manchas e que a Lua não e perfeitamente lisa. Quanto à objeção de que a teoria copernicana requereria que Vênus exibisse fases (o que não poderia ser detectada a olho nu), Galileu as confirmou com as observações telescópicas das fases de Vênus (HELLMAN, 1999, p. 29). Figura 17 – Representação das fases de Vênus nos dois sistemas de mundo 73 Apesar disso, o dispositivo aperfeiçoado por Galileu era considerado moderno, e provavelmente o melhor de sua época (1609). Inicialmente, seu interesse estava voltado para as questões militares e não astronômicas. Quando Galileu ouviu falar nas lunetas holandesas, apressou-se para estudá-las e melhorá-las, a fim de obter vantagem para Veneza sobre os turcos, podendo observar os navios inimigos cerca de duas horas antes de serem vistos a olho nu (VANNUCCHI, 1996, p. 48). 99 Fonte: Instituto de Física - UFRGS. Disponível em: <if.ufrgs.br/fis02001/aulas/aula_tykega.htm>. Acesso em: 30 mai. 20. Além disso, ao olhar Júpiter pelo telescópio, podia-se ver uma espécie de sistema solar em miniatura. Suas luas recém-descobertas inspiram um certo desconforto, uma vez que elas contrariavam o argumento geocêntrico de que a Terra não poderia orbitar o Sol sem perder a Lua. Segundo Vannucchi (1996, p. 56-57), isso tornava a concepção copernicana do sistema solar cada vez mais plausível, e que, talvez por isso, muitos preferiram não rever tal argumento, mas, simplesmente, desconsiderar a possibilidade da existência dos satélites de Júpiter. Figura 18 – Desenho da Lua vista por Galileu através do telescópio, publicado no livro Sidereus Nuncius (O Mensageiro das Estrelas), Veneza, 1610. 100 Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4170/#q=Sidereus+nuncius+Veneza+1610>. Acesso em: 29 out. 19. Figura 19 – Desenho da Lua feito por Thomas Harriot em 160974. Fonte: The Galileo Project. Disponível em: <galileo.rice.edu/sci/harriot_moon1610_717.gif>. Acesso em: 02 jan. 20. 74 O desenho da Lua feito pelo contemporâneo de Galileu, Thomas Harriot, evidencia que a ferramenta astronômica que Galileu possuía era, de fato, considerada mais moderna e mais eficaz para a época. Ao melhorar seu telescópio (refrator), Galileu conseguia uma ampliação de quase dez vezes (o que é bem abaixo se comparado aos telescópios comuns de hoje – cuja ampliação é de 90 a 120 vezes para os refratores e de 200 a 250 vezes para os refletores). Apesar disso, ao olhar pelo telescópio, as pessoas viam coisas diferentes e tiravam conclusões diferentes a respeito do que era visto, ainda que utilizassem o mesmo instrumento. 101 Assim, certo que pode convencer seus adversários a desfrutarem do sentido superior e mais eficaz do telescópio, Galileu se reúne com eles para mostrar seu aparelho: Por meio desse instrumento, vimos tão distintamente o palácio do ilustríssimo duque Altemps, nas Colinas Toscanas, que facilmente contamos todas as suas janelas, mesmo as menores; e a distância é de 16 milhas italianas (apud FEYERABEND, 2011b, p. 120-121)75. Na quinta-feira à noite, na propriedade de monsignor Malvasia, do lado de fora do portão de São Pancrácio, lugar alto e aberto, foi-lhe oferecido um banquete por Frederico Cesi, o marquês de Monticelli. (...) Na reunião76 estiveram Galileu, [cardeais, professores da universidade, matemáticos, e outras pessoas cultas]. Alguns deles foram até lá expressamente para realizar essa observação (de “quatro outras estrelas, ou planetas, que são satélites de Júpiter ... bem como dois acompanhantes de Saturno”); porém, mesmo tendo permanecido até uma hora da manhã, não chegaram a um acordo em suas opiniões (ROSEN, 1947, p. 31 apud FEYERABEND, 2011b, p. 121 (nota 12), 125). Não dormi nada nos dias 24 e 25 de abril, nem de dia nem de noite, mas testei de mil maneiras o instrumento de Galileu, tanto em coisas aqui de baixo quanto naquelas lá em cima. Aqui embaixo, ele funciona maravilhosamente; nos céus, ele nos engana, pois algumas estrelas fixas são vistas duplicadamente. Tenho como testemunhas homens eminentes e nobres doutores ... e todos admitiram que o instrumento engana. Isso silenciou Galileu e, no dia 26, ele partiu tristemente, de manhã cedo ... nem mesmo tendo agradecido a Magini por seu esplêndido banquete (GALILEI, Opere, X, p. 342 apud FEYERABEND, 2011b, p. 125, grifo nosso)77. Os relatos acima, citados por Feyerabend, dispostos em diferentes épocas e com diferentes pessoas, evidenciam que a tarefa de Galileu não foi fácil e estava longe de ser cumprida. A doutrina copernicana precisaria de “certo tempo para reunir fatos em favor de uma nova cosmologia. Com efeito, o que se faz necessária é uma nova dinâmica que explique tanto os movimentos terrestres quanto os celestes (...) mas todas essas ciências estão ainda ocultas no futuro” (ibidem, p. 113). 75 Rosen (1947, p. 54) cita a descrição de Julius Caesar Lagalla (1612, p. 8), professor de filosofia em Roma, da reunião realizada na cidade de Espirito Santo, em 16 de abril de 1611. 76 “É preciso levar em conta que a ocasião estava formada por membros da Igreja Católica e por cientistas adversários e que, ademais, muitos desses homens se recusaram inclusive a olhar no telescópio. Porém, a confiança de Galileu em seu telescópio acerca de assuntos celestes era muito alta, tanto que aceitou o convite para expor o funcionamento de seu instrumento em situações não-familiares (assuntos celestes) para pessoas que muito possivelmente seriam contra” (OLIVEIRA, 2011, p. 56, nota 130). 77 Escrito por Horky, discípulo de Kepler, em 1610, na cidade romana de Bolonha. 102 Figura 20 – Galileu apresenta o telescópio ao público. Fonte: GETTY IMAGES / PHOTOS.COM / THINKSTOCK. Disponível em: <vix.com/es/btg/curiosidades/2011/09/26/vida-de-galileo-galilei-un-genio-reprimido>. Acesso em: 29 out. 19. E, como disse Henrique et al. (2010, p. 26), as críticas contra Galileu não se deram porque seus rivais eram teimosose relutavam em aceitar os dados experimentais, mas do contrário, eram bem embasadas na sua visão de mundo. Restava, então, convencê-los de que as observações telescópicas eram confiáveis e que poderiam comprovar aquilo que a observação olho nu era incapaz. Ele não alcançou nada, pois mais de vinte homens cultos estavam presentes e, contudo, ninguém viu distintamente os novos planetas (...); ele dificilmente será capaz de continuar afirmando sua existência (GALILEI, Opere, III apud FEYERABEND, 2011b, p. 125)78. 78 Magini escreve carta a Kepler em 26 de maio de 1610. 103 Figura 21 – Galileo, pintura a óleo de Jean-Leon Huens. Fonte: Christie's. Disponível em: <christies.com/lotfinder/Lot/jean-leon-huens-1981-1984-galileo-5636151- details.aspx>. Acesso em: 29 out. 19. Galileu, entretanto, não desistiu. [Ele] acreditara por anos na verdade do copernicanismo, mas nunca tinha sido capaz de demonstrá-lo a despeito de suas declarações excessivamente otimistas a amigos e colegas. Deveria a prova direta ser, afinal, buscada aí? Quanto mais essa convicção afirmou raízes em sua mente, mais clara tornou- se para ele a importância do novo instrumento. Na mente do próprio Galileu, a confiança na fidedignidade do telescópio e o reconhecimento de sua importância não eram dois atos separados; ao contrário, eram dois aspectos do mesmo processo (GEYMONAT, 1965, p. 38 apud FEYERABEND, 2011b, p. 142). As medidas da variação do brilho aparente de Vênus e Marte, vistos à olho nu, contradizem a teoria copernicana no que diz respeito ao suposto movimento de translação da 104 Terra. De fato, no caso da Terra estar no centro do sistema planetário, pouca deveria ser a mudança, vista no brilho desses planetas, ao realizarem suas órbitas ao redor da Terra, bem como era visto e comprovado por muitos astrônomos da época, inclusive o próprio Galileu. “Em contrapartida”, afirma Feyerabend (FEYERABEND, 2011b, p. 141), há alguns fenômenos telescópicos que são claramente copernicanos: (...) a variação telescópica no brilho dos planetas [está] mais estreitamente de acordo com Copérnico do que com os resultados da observação a olho nu. Visto através do telescópio, Marte [e Vênus] de fato muda[m] como deveria[m] mudar segundo a perspectiva copernicana (grifo nosso). Ou seja, visto através do telescópio, os brilhos de Vênus e Marte mudavam bastante, como de fato deveriam mudar, de acordo com o modelo heliocêntrico. Note que, durante a revolução anual da Terra (e dos demais planetas), há um determinado momento em que ela estará mais próxima de Vênus e/ou de Marte79; e há, no outro extremo, um momento caracterizado pela maior distância possível desses planetas. De forma que, numa perspectiva heliocêntrica, quando os planetas estivessem mais próximos à Terra o brilho deles seria maior, e quando estivessem mais distantes da Terra (ou seja, do outro lado do Sol), o brilho seria menor. E isso era, de fato, o visto pelo telescópio. Sagredo – Oh! Nicolau Copérnico, que prazer terias sentido ao ver confirmada com experiências tão evidentes esta parte do teu sistema! Salviati – Sim; (...) [o vemos ter] continuado a afirmar, guiado pelas razões, aquilo que as experiências sensíveis mostravam o contrário: porque eu não posso deixar de surpreender-me que ele tenha constantemente persistido em dizer que Vênus gira em torno do Sol e está afastado de nós mais de seis vezes num caso que noutro, embora se mostre igual a si mesmo, quando deveria mostrar-se quarenta vezes maior. Sagredo – Acredito que em Júpiter, Saturno e Mercúrio devem ver-se também as diferenças de seus tamanhos aparentes corresponderem exatamente às variações de suas distâncias (GALILEI, 2011, p. 421). Figura 22 – Rascunhos das distâncias dos planetas durante a revolução anual no manuscrito de Galileu sobre os Planetas Medicianos, Pádua, Itália, 1610. 79 Como pode ser notado no tradicional alinhamento dos planetas. 105 Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/4183/#q=galileu>. Acesso em: 29 out. 19. Assim, o distanciamento desses planetas à Terra, devido à translação dos mesmos ao redor do Sol, causariam, como de fato causam, uma grande mudança em seus brilhos, vistos através do telescópio. Galileu introduz esses fenômenos como evidência independente80 para Copérnico, embora a situação seja antes a de uma concepção refutada (...) – a ideia de que fenômenos telescópicos são retratos fiéis do céu. (...) Mas essa mudança está em harmonia com as predições de Copérnico. É essa harmonia e não um profundo conhecimento de cosmologia e óptica que, para Galileu, comprova Copérnico e a veracidade do telescópio em assuntos terrestres tanto quanto em assuntos celestes. E é sobre essa harmonia que ele constrói uma concepção inteiramente nova do universo (FEYERABEND, 2011b, p. 141- 142, grifos do autor). 80 “A tática usada por Galileu, aponta Feyerabend, foi a de apresentar essas observações telescópicas como evidência independente em favor da teoria copernicana, ao mesmo tempo em que (...) sustentava a confiabilidade do telescópio para as observações celestes. Assim, ao utilizar, de forma conjunta, uma teoria refutada empiricamente e um instrumento sem confiabilidade, Galileu conseguiu aumentar a credibilidade tanto da teoria quanto do instrumento” (ZYLBERSZTAJN, 1988, p. 45). 106 5. GALILEU GALILEI: OS SISTEMAS DE MUNDO GEOCÊNTRICO E HELIOCÊNTRICO Após dissertarmos sobre a importância da HFC para o ensino de ciências e construirmos a base epistemológica da leitura feyerabendiana dos conteúdos que chamamos de astronomia de Galileu, vamos, neste capítulo, produzir uma unidade didática que pode ser levada para a Educação Básica, contendo material didático para o aluno e orientação para o professor a partir de uma leitura feyerabendiana da astronomia de Galileu. Converter estratégias pedagógicas, ferramentas educacionais e projetos de currículos em realidade nas salas de aula do Ensino Médio “requer novas orientações para a prática e a avaliação, novos materiais didáticos e, acima de tudo, a inclusão de cursos adequados” sobre História, Filosofia e Sociologia da Ciência no ensino (MATTHEWS, 1995, p. 168). E a perspectiva feyerabendiana tem um papel central em nossa construção. As ideias do filósofo austríaco hora aparecem de forma explícita, hora nos concede uma ferramenta de análise, ou ainda influenciam a nossa visão a respeito dos processos de construção da ciência moderna, sobretudo quando analisamos o caso de Galileu Galilei. Assim, com vistas às possíveis implicações didáticas, esse material é composto por três momentos: um encontro de observação astronômica, uma atividade de construção teórica e uma aula júri simulado, trazendo como título “Galileu Galilei: os sistemas de mundo geocêntrico e heliocêntrico”. Apesar disso, essa construção é apenas um olhar, dentre muitos possíveis olhares. O professor deve ter clareza que esta unidade didática é uma proposta que pode (e deve!) ser adaptada ao seu contexto escolar, ou seja, a ordem dos momentos pode ser trocada, pode-se adicionar ou excluir elementos, ferramentas computacionais ou dinâmicas de grupo podem ser inseridas, e assim por diante. Encontro de observação astronômica Na primeira seção, apresentamos a proposta (ao professor) de uma aula de campo onde os alunos farão uma observação sistemática dos céus (o exercício que os astrônomos costumam 107 chamar de redescoberta); discutirão as concepções acerca dos sistemas de mundo de forma prática; serão apresentadas a eles algumas indagações histórico-filosóficas (propostas porFeyerabend) da Revolução Copernicana; e, provavelmente, terão o primeiro contato com o telescópio. Assim, nosso objetivo é levantar questões e oferecer ferramentas práticas para reconstruir algumas das discussões da física terrestre e celeste em que Galileu esteve envolvido no início do século XVII. A fim de que seja alcançado esse objetivo, propomos uma aula (dupla) de campo noturna em um espaço aberto, alto e seguro (o mais distante possível da poluição luminosa)81, sob um céu estrelado (sem nuvens) com planetas visíveis e, preferencialmente, uma Lua Crescente. Existe uma noção clara entre os astrônomos amadores de que nós não controlamos a natureza quando se refere a questões ambientais para uma observação astronômica. Quase sempre se faz necessária uma consulta meteorológica para tentar prever fenômenos atmosféricos, especialmente a chuva. Às vezes, é necessário, ainda, um plano alternativo, como o cancelamento repentino da aula de campo e a mudança da data. Destacamos, também, que o conhecimento do céu noturno pode ser um grande aliado do professor. Nem sempre a Lua e os planetas estão visíveis no início da noite. No que diz respeito ao nosso satélite, o brilho intenso da Lua Cheia pode ofuscar os outros astros, em outra circunstância, a Lua Minguante só será visível no final da noite e a Lua Nova não será visível. Por este motivo, aconselhamos que a aula de campo seja feita em uma noite de Lua Crescente (informação que pode ser facilmente encontrada ao analisar um calendário ou através de uma consulta à internet). A observação dos planetas requer um olhar mais treinado. Para os menos familiarizados com a astronomia amadora, nem sempre é possível identificar os planetas e saber se esses estarão visíveis no horário que a aula de campo será marcada. Por esse motivo, aconselhamos a consulta às 81 Em meio aos problemas de violência enfrentados em nossas cidades, sobretudo nos centros urbanos, se faz necessário certo cuidado ao desenvolver uma aula de campo como esta. A proposta deve ser levada à equipe gestora da escola e precisa do seu apoio para evitar complicações. Como citado, um local aberto, alto e distante da poluição luminosa quase sempre será um local perigoso para ir com dezenas de alunos. A carência do controle no fluxo de alunos; os convites (por parte dos alunos) sem autorização a terceiros; o deslocamento (da ida, mas também – e principalmente – o da volta) até o local da aula de campo; as condições ambientais adversas, como chuva, frio, animais, etc.; e as poucas ferramentas de organização da turma, são alguns exemplos dos problemas que uma aula de campo, como tal, pode acarretar. Isso, entretanto, não deve ser empecilho para não a fazer. Propomos algumas dicas ao professor: solicitar a equipe gestora ao menos um coordenador para acompanhar; enviar ofício pedindo policiamento ou apoio dos bombeiros, selecionar monitores (dentre os alunos) para delegar funções de apoio, solicitar autorização dos pais/responsáveis, etc. 108 ferramentas digitais de astronomia, como, por exemplo, o Stellarium ou Carta Celeste (Star Chart)82. Outro fator primordial será o uso do telescópio. Apesar dessa ferramenta astronômica ter diversas formas e características, nos deteremos a apresentar as mais importantes. Existem três tipos de telescópio: os refratores, também conhecidos como lunetas (possuem duas lentes – a objetiva por onde a luz entra e a ocular por onde se olha – como o de Galileu); os refletores ou newtonianos (cujo principal elemento óptico é um espelho côncavo); e os catadióptricos (que possuem uma combinação de lentes e espelhos e concilia as melhores características dos dois primeiros). A abertura de um telescópio (geralmente apresentada em milímetros) é o fator que mais influencia na quantidade de luz captada e na nitidez da imagem. Os telescópios refratores são ideais para observação da Lua e dos planetas visíveis, praticamente não precisam de manutenção e tem um custo relativamente baixo. Entretanto, normalmente apresentam aberrações cromáticas e, caso tenham uma grande objetiva (ou seja, uma maior abertura para alcançar maior nitidez), serão muito compridos, pesados e bem mais caros. Os refletores, por outro lado, ideais para observação do céu profundo, de galáxias, nebulosas e aglomerados estelares, possuem maior nitidez e são bem mais leves, porém, necessitam de mais cuidado e algumas manutenções, possuindo um preço intermediário. Por fim, os catadióptricos são menores, mais leves, possuem maior abertura e nitidez. Eles têm baixa manutenção e servem para qualquer tipo de observação astronômica, sendo, com toda certeza, a melhor opção entre os telescópios modernos. Entretanto, o seu preço é bem mais elevado, chegando a custar de cinco a dez vezes o valor dos primeiros. Levando em consideração a realidade de nossas escolas, sabemos que poucas têm laboratórios de ciências e menos ainda telescópios. Aquelas que possuem, ou cujos professores de ciências tenham acesso, geralmente serão do tipo refratores. Entretanto, para os nossos fins, isso não será problema, pois esse é, exatamente, o tipo de instrumento utilizado por Galileu há quatro séculos atrás83. 82 Esse recurso (que pode ser acessado pelo Play Store dos smartphones) aumenta o repertório didático do professor, uma vez que cada aluno pode baixar os programas com antecedência e fazer uso deles até mesmo durante a aula. 83 Apesar disso, as lunetas modernas são bem mais eficientes que as produzidas por Galileu. Vannucchi (1996, p. 93) afirma que “embora os telescópios de Galileu fossem os melhores existentes na época, tratavam-se ainda de instrumentos rudimentares, sem montagem fixa, e com campo visual [extremamente] pequeno”. 109 Mas, se as condições forem oportunas, sugerimos um processo bastante didático e que trará, na prática, a perspectiva histórica vivenciada por Galileu Galilei: o desenvolvimento de uma prática de construção de lunetas de baixo custo pelos próprios estudantes – instrumento que eles utilizarão para observar o céu durante a aula de campo84. Neste caso, propomos que seja realizada uma aula extra, anteriormente ao encontro de observação astronômica, e que o professor utilize o procedimento “Simplificando a luneta com lente de óculos”, desenvolvido por Nogueira (2009, p. 193-202)85. O professor, então, tomando as medidas de precauções necessárias, poderá utilizar o quadro abaixo (Tabela 1) para desenvolver o encontro de observação astronômica. Cabe ressaltar que esta sequência é sugestiva, e o professor deve ficar à vontade para alterá-la ou mesmo retirar ou incluir elementos86. 84 Apesar disso, a visualização através das lunetas fabricadas pelos estudantes terá melhor eficiência para observação lunar. Assim, caso o professor tenha acesso a um telescópio profissional, sugerimos que ele o utilize posteriormente às lunetas, o que pode, inclusive, enriquecer as discussões sobre a qualidade das imagens telescópicas visualizadas por Galileu. 85 Sugerimos, ainda, uma pequena alteração da proposta de Nogueira (2009): substituir as lentes de óculos por lupas (importadas) e o monóculo de fotografia pela lente (removível) das pequenas lanternas táticas Led Cree, ambas dispostas no mercado com preços acessíveis, o que trará uma melhora significativa na nitidez das imagens. 86 Reiteramos que, caso o professor não tenha oportunidade de aplicar toda a unidade didática, ele pode fazer uso de suas partes isoladas ao decorrer das aulas; pode desenvolver mais de um encontro de observação astronômica, por exemplo; ou ainda, caso haja impossibilidade para tal, pode incluir uma prática com realidade virtual através de vídeos em 360° (utilizando a plataforma do YouTubee digitando "astronomia 360° view”) ou do simulador de gravidade interativo Universe Sandbox (cuja primeira versão pode ser baixada gratuitamente pelo site <pt.freedownloadmanager.org/Windows-PC/Universe-Sandbox.html> ou, a segunda versão, comprada no site oficial <universesandbox.com/>). 110 Tabela 1 – Etapas do encontro de observação astronômica. Objetivo Procedimento Elementos histórico-filosóficos • Desenvolver o processo de redescoberta do céu; • Perceber, a partir de uma perspectiva geocêntrica, que os astros completam uma volta ao redor da Terra em 24 horas (movimento diurno); • E situar a Terra em uma posição privilegiada – o centro do Universo – caracterizando-a como estática. • Convidar os alunos a observarem o céu por alguns minutos em silêncio; e pedir que eles comentem sobre os sentimentos que brotam dessa contemplação; • Solicitar que identifiquem (apontem no céu) a Lua, planetas e constelações; • Perguntar se alguém sabe o que são os pontos cardeais e como localizá-los; • Questioná-los sobre o movimento dos astros (onde nascem, onde se põem, quanto tempo dura esse movimento, etc.); • Perguntar onde está o Sol e relacionar sua posição à fase da Lua; • Solicitar que alguém explique, a partir do que foi aprendido até o momento, como é a posição da Terra no Universo observável e quais as características dela comparadas com “o todo” (tamanho, posição, movimento, etc.). Essas ideias estavam fixas nos sistemas mentais das pessoas do passado. Historicamente, a ideia de uma Terra em movimento era (e ainda é) contrária à percepção dos sentidos (Feyerabend87 cita que a ideia do movimento da Terra é “bizarra, absurda e obviamente falsa”, mencionando algumas expressões que foram frequentemente usadas nos séculos passados e que ainda são ouvidas sempre que cientistas retrógrados se defrontam com uma teoria nova e contrária aos fatos). De forma que, é possível notar como culturas inteiras da antiguidade se organizaram em torno de modelos geocêntricos do Universo. Um desses modelos foi defendido pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), e nele o Universo era dividido em duas partes: o mundo sublunar (do centro da Terra até antes da órbita da Lua) e o mundo supralunar (que envolvia a Lua e tudo que havia após ela). A Terra estava no centro de tudo, imóvel, e rodeada pelas esferas celestes, incluindo a esfera das estrelas fixas. Essas duas partes do Universo eram regidas por leis diferentes: a primeira era composta pelos elementos terra, água, ar e fogo (nessa ordem), local de mudança, pecado, destruição e morte; e a segunda parte era uma região perfeita e eterna, delimitada pelas estrelas fixas, donde giravam os planetas (incluindo a Lua e o Sol), além da qual não havia nada, nem lugar, nem vazio, movida pelo motor primário que criou tudo que existe e gerou o movimento circular e uniforme de todos os astros. 87 FEYERABEND, 2011b, p. 93. 111 • Reconhecer diferentes mitos cosmogônicos (modelos que explicam a origem do Universo em determinada cultura), sobretudo os indígenas e africanos; • Relacioná-los uns com os outros, buscando elementos semelhantes e distintos; • E refletir sobre suas possíveis influências nas explicações tradicionais. • Solicitar aos alunos que contem (resumidamente) diferentes mitos que explicam a criação das coisas do céu ou a origem do Universo; • Colaborar, ao término de suas falas, contando-lhes outros mitos cosmogônicos88; • E, por fim, instigá-los a discutir sobre a relação entre esses mitos e a refletir sobre as suas possíveis influências nas explicações tradicionais (sobretudo a cristã). Podemos estender as críticas que Paul Feyerabend faz à ciência (que é geralmente vista como uma ideologia neutra, objetiva, racional, acima de outras formas de conhecimento, etc.) às explicações míticas unilaterais da criação das coisas do céu e da origem do Universo. Ele deixa claro que defende a separação religião-Estado; que um cidadão deve poder escolher a religião que é de seu agrado; e que, em uma sociedade livre, um cidadão maduro não é uma pessoa que foi profundamente instruída em uma ideologia especial, mas aquele que conheceu as possibilidades e decidiu em favor daquilo que considerou ser melhor para si89. Além disso, compreendendo a ciência como fruto de uma construção histórica, que se aproxima dos mitos, muito mais do que se pode admitir90, e reconhecendo a importância que os métodos e elementos não-científicos tiveram nos grandes resultados da ciência moderna91, Feyerabend afirma que devemos reexaminar nossa atitude em face do mito, da religião, da magia e da feitiçaria92; e que, para termos esperança, sempre existem pessoas que lutam contra a uniformidade e defendem o direito que indivíduos têm de viver, pensar e agir como lhes pareça conveniente93. 88 Indicamos alguns materiais que podem aumentar o repertório cosmogônico do professor: o trabalho de Roberto Martins O Universo – Teorias sobre sua origem e evolução, de 1994, disponível no site <ghtc.usp.br/Universo/>; o vídeo “3 mitos de criação Cristão, Tupi Guarani e Yorubá”, disponível no YouTube pelo site <youtube.com/watch?v=ctACniyQKjU>; o conto indígena da lenda do dia e da noite <youtube.com/watch?v=v4LERka3bOY>; “a criação do Mundo Iorubá” (mitologia africana) <youtube.com/watch?v=xqrxAA_OKFk> e outros vídeos que podem ser acessados buscando por “mitos cosmogônicos” na plataforma online. 89 FEYERABEND, 1977, p. 464. 90 Ibidem, p. 447. 91 Ibidem, p. 460. 92 Ibidem, p. 453. 93 FEYERABEND, 2010, p. 19. 112 • Desenvolver as discussões referentes à queda dos corpos e o suposto movimento de rotação da Terra; • Compreender o chamado “argumento da torre”; • E relacionar o argumento da torre a um helicóptero. • Discutir com os alunos a respeito de uma teoria do século XVI (o Heliocentrismo), que afirmava que a Terra supostamente se movia em torno de seu próprio eixo e realizava uma translação ao redor do Sol; • Questioná-los se é possível notar tais movimentos; • Apresentar o argumento da torre como “prova” da imobilidade da Terra (evidência do modelo geocêntrico); • E questioná-los sobre o que deveria acontecer a um helicóptero, ao levantar voo e ficar parado a alguns centímetros do chão, caso a Terra estivesse realizando um movimento de rotação. O modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) apresentava uma solução para o movimento retrógrado dos planetas, entretanto, ele era contraditório com a teoria aristotélica dos movimentos naturais do universo; não explicava o movimento dos corpos aqui na Terra; era contrário àquilo que mostravam os nossos sentidos (o visível deslocamento do Sol); não se via nada saindo da Terra como consequência de seu rodopio; retirava a Terra de uma posição privilegiada do Universo; e poderia ser facilmente refutado pelos experimentos de queda-livre (o argumento da torre). Apesar disso, Copérnico postula uma Terra em movimento e caracteriza os epiciclos planetários (que se moviam para frente e então invertiam a sua direção) como um movimento aparente e, auxiliado pelo fato de que isso estava em concordância com a posição do Sol, interpreta esse movimento aparente como sendo criado por um movimento real e circular por parte da Terra94. • Perceber, a partir de uma perspectiva geocêntrica, como o brilho dos planetas deve permanecer constante pelo período em que eles orbitam a Terra; • E discutir sobre como, de fato, podemos notar a uniformidade do brilho planetário, ao observá- los a olho nu, como fizeram os estudiosos do céu até o final do século XVI. • Convidar os alunos a olhar mais atentamente para os planetas visíveis eperguntar se costumam contemplá- los durante o ano; • Questionar se é possível notar uma grande mudança no brilho desses planetas (ou seja, se ao decorrer do ano eles passam a brilhar mais ou menos em determinados meses); • Concluir que, estando a Terra no centro do sistema planetário, pouca deveria ser a mudança vista no brilho anual desses planetas; • Afirmar que, de fato, olhando os planetas ao decorrer do ano, praticamente não se pode notar mudança em seus brilhos (evidência do modelo geocêntrico). Outro argumento em defesa da Terra estacionária é a uniformidade do brilho planetário. De fato, estando a Terra no centro do Universo e os planetas girando-a em círculos concêntricos, pouca deveria ser a mudança vista no brilho desses planetas ao realizarem suas órbitas ao redor da Terra, bem como pode ser comprovado através da observação a olho nu. 94 FEYERABEND, 2011b, p. 181, 187. 113 • Ter contato com o telescópio; • Utilizá-lo para observar objetos (terrestres) distantes; • Perceber como a imagem obtida pelo instrumento óptico “aproxima” os objetos distantes e revela características antes invisíveis; • Notar algumas distorções produzidas pelo telescópio ao se observar objetos conhecidos; • E refletir sobre a confiabilidade das observações telescópicas, sobretudo quando se trata de objetos desconhecidos. • Apresentar o instrumento óptico aos alunos: origem, tipos/modelos, as partes que o compõe, o funcionamento e os cuidados com o manuseio; • Apontar o telescópio para uma árvore, prédio ou torre distante e solicitar aos alunos que possam, um a um, olhar através do instrumento; • Perguntar aos alunos sobre como parecem ser os objetos visualizados, questionando-os sobre as diferenças entre o objeto real e a imagem obtida pelo telescópio; • Perguntá-los se há algum tipo de distorção na imagem: manchas coloridas, borrões, ausência de foco, duplicação do objeto, etc., ou até se a imagem não pode ser vista; • Construir uma conclusão a respeito da confiabilidade das imagens produzidas pelo instrumento óptico. Na época de Galileu, não existia nenhuma teoria que explicasse a formação das imagens produzidas pelo telescópio95. Na maioria das vezes, essas imagens possuíam aberrações e distorções que podiam ser identificadas ao observar objetos (terrestres) conhecidos. Feyerabend afirma que o conhecimento de Galileu sobre a teoria óptica da refração não é correto e nem é suficiente para o entendimento de fenômenos telescópicos96, e que ele reconstrói uma versão melhor da luneta holandesa e afirma em seus escritos que isso se deu por meio de cálculos matemáticos. Entretanto, não há cálculos em seus relatórios, mas um esboço que mais se assemelha à tentativa e erro (ou seja, à experiência)97. Apesar disso, o dispositivo aperfeiçoado por Galileu era considerado moderno, e provavelmente o melhor de sua época. Inicialmente, seu interesse estava voltado para as questões militares e não astronômicas. Quando Galileu ouviu falar nas lunetas holandesas, apressou-se para estudá-las e melhorá-las, a fim de obter vantagem para Veneza sobre os turcos, podendo observar os navios inimigos cerca de duas horas antes de serem vistos a olho nu98. Há vários relatos da época, inclusive do próprio Galileu, evidenciando a importância e os benefícios desse novo instrumento quando usado em terra ou mar. Sua aplicação às estrelas, contudo, era uma questão inteiramente distinta99. 95 HENRIQUE, 2010, p. 26. 96 FEYERABEND, 2011b, p. 118. 97 FEYERABEND, 2011b, p. 120. 98 VANNUCCHI, 1996, p. 48. 99 FEYERABEND, 2011b, p. 121. 114 • Utilizar o telescópio para visualizar a Lua, as fases de Vênus, os satélites de Júpiter e os anéis de Saturno; • Notar o poder de ampliação do telescópio; • Perceber a discordância sobre o que é visualizado (pelos alunos); • Buscar elementos que refutem o Geocentrismo e, consequentemente, apoiem o Heliocentrismo. • Convidar os alunos a observarem os astros pelo telescópio: as crateras e montanhas da Lua; a fase em que Vênus se encontra, as quatro outras estrelas que são satélites de Júpiter; e os dois acompanhantes de Saturno (evidências do modelo heliocêntrico); • Perguntá-los sobre o que pode ser visualizado com o auxílio do instrumento óptico; • Destacar a percepção das irregularidades geográficas da Lua: montanhas, vales, crateras, manchas, etc.; • Destacar a percepção da fase de Vênus e ampliar a discussão para as outras fases ao longo de seu período de translação; • Destacar a percepção dos satélites de Júpiter (e refletir sobre como objetos podem orbitar outros astros que não a Terra); • Destacar a percepção dos anéis de Saturno (como objetos estranhos – “orelhas” – que parecem acompanhar o planeta); • Questionar os alunos se essas características contribuem para refutar o Geocentrismo e, consequentemente, apoiar o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico; • Discutir sobre como Galileu utilizou esses argumentos para defender o Heliocentrismo, mesmo partindo da falsa premissa de que o telescópio produzia um retrato verdadeiro do céu. Além das interpretações naturais, Galileu altera as sensações que ameaçam a teoria de Copérnico. Ele admite que haja tais sensações, louva Copérnico por tê-las ignorado e afirma tê-las eliminado com o auxílio do telescópio. Contudo, não oferece razões teóricas pelas quais se deveria esperar que o telescópio fornecesse um retrato verdadeiro do céu100. É bem verdade que o telescópio produzia resultados fantásticos na Terra, entretanto, ele se deparava com dificuldades quando utilizado para observações celestes, onde as imagens eram indistintas, indeterminadas, contraditórias e entravam em conflito com o que qualquer pessoa pudesse ver a olho nu. Assim, cita Feyerabend, apenas uma nova teoria da visão telescópica podia trazer ordem ao caos e separar aparência de realidade101. É sabido que as observações telescópicas terrestres indicavam, até certo ponto, propriedades estáveis e objetivas das coisas vistas. Como os nossos sentidos estão familiarizados com a aparência dos objetos, fica fácil distinguir o que é verdadeiro e o que é distorcido pelo instrumento. Entretanto, não conhecemos de perto as estrelas e os planetas. Até mesmo a aparência da Lua nos dá uma ideia falsa de sua distância e seu tamanho. Logo, não podemos usar a nossa memória para separar o que provêm do próprio objeto (celeste) das contribuições do telescópio102. A ausência de observações satisfatórias mostravam dois objetos acompanhantes de Saturno; duplicação de imagens dos astros; mudança da posição lateral da imagem de acordo com a posição do olho; franjas coloridas; presença ou ausência das estrelas que acompanham Júpiter; uma Lua repleta de montanhas na parte interna, mas perfeitamente lisa na periferia, e isso a despeito do fato de que a periferia da Lua mudava com a sua rotação; além de algumas crateras que não existem e a observação de uma atmosfera lunar; o que revela a 100 FEYERABEND, 2011b, p. 113. 101 Ibidem, p. 123, 138. 102 Ibidem, p. 124. 115 pobreza do que poderia ser visualizado pelo telescópio. Mas Galileu confiava em seu instrumento. Por diversas vezes apresentou seu telescópio em público, inclusive a membros da Igreja e cientistas adversários, que, ademais, muitos desses homens se recusaram inclusive a olhar no telescópio103. Após um desses encontros, um de seus contemporâneos relata: Galileu não alcançou nada, pois mais de vinte homens cultos estavam presentes e, contudo, ninguém viu distintamente os novos planetas; ele dificilmente será capaz de continuar afirmando sua existência104.Mesmo assim, apesar das objeções, Galileu utiliza seu instrumento como “prova” de seus argumentos: em resposta aos escolásticos que afirmavam que um corpo não poderia ter dois movimentos ao mesmo tempo, ele exibiu os satélites de Júpiter (que orbitavam o planeta enquanto ele fazia sua revolução anual); quanto à tradicional alegação de que os corpos celestes seriam perfeitos, ele utiliza o telescópio para afirmar que o Sol tem manchas e que a Lua não é perfeitamente lisa. Quanto à objeção de que a teoria copernicana requereria que Vênus exibisse fases (o que não poderia ser detectada a olho nu), Galileu as confirmou com as observações telescópicas das fases de Vênus105. • Perceber, a partir de uma perspectiva heliocêntrica, como o brilho dos planetas varia pelo período em que eles orbitam o Sol, estando hora mais próximos • Convidar os alunos a olhar mais atentamente para os planetas Vênus e Marte pelo telescópio; • Discutir com eles que, estando o Sol no centro do Universo, hora esses planetas estariam mais próximos da Terra (perigeu) – como pode ser visualizado no tradicional alinhamento dos planetas – e hora estariam mais distantes (apogeu), o que configuraria uma Galileu, entretanto, não desistiu. As medidas da variação do brilho aparente de Vênus e Marte, vistos à olho nu, contradizem a teoria copernicana no que diz respeito ao suposto movimento de translação da Terra. De fato, no caso da Terra estar no centro do sistema planetário, pouca deveria ser a mudança vista no brilho desses planetas ao realizarem suas órbitas ao redor da Terra, bem como era visto e comprovado por muitos astrônomos da época, inclusive o próprio Galileu. Em contrapartida, afirma Feyerabend, 103 OLIVEIRA, 2011, p. 56, nota 130. 104 GALILEI, Opere, III apud FEYERABEND, 2011b, p. 125. 105 HELLMAN, 1999, p. 29. 116 da Terra (perigeu) e hora mais distantes (apogeu); • Discutir sobre como, de fato, podemos notar a variação do brilho planetário, ao observar Vênus e Marte pelo telescópio, como fizera Galileu no início do século XVII. grande mudança no brilho desses planetas (diferentemente do que poderia ser percebido a olho nu); • Afirmar que, de fato, olhando os planetas ao decorrer do ano pelo telescópio, pode-se notar uma mudança significativa em seus brilhos (evidência do modelo heliocêntrico). há alguns fenômenos telescópicos que são claramente copernicanos: a variação telescópica no brilho dos planetas está mais estreitamente de acordo com Copérnico do que com os resultados da observação a olho nu. Visto através do telescópio, Marte e Vênus de fato mudam como deveriam mudar segundo a perspectiva copernicana106. Assim, os distanciamentos desses planetas à Terra, devido à translação dos mesmos ao redor do Sol, causariam, como de fato causam, uma grande mudança em seus brilhos, vistos através do telescópio. Galileu introduz esses fenômenos como evidência independente para Copérnico, embora a situação seja antes a de uma concepção refutada (...) – a ideia de que fenômenos telescópicos são retratos fiéis do céu. (...) Mas essa mudança está em harmonia com as predições de Copérnico. É essa harmonia e não um profundo conhecimento de cosmologia e óptica que, para Galileu, comprova Copérnico e a veracidade do telescópio em assuntos terrestres tanto quanto em assuntos celestes. E é sobre essa harmonia que ele constrói uma concepção inteiramente nova do universo107. 106 FEYERABEND, 2011b, p. 141. 107 Ibidem, p. 141-142. 117 O professor deve seguir a coluna de procedimentos tendo em vista os objetivos propostos. Destacamos que, nesse momento, não será necessário tratar das questões histórico- filosóficas de maneira independente (elas estão dispostas, sobretudo, para colaborar com o professor); mas que tais elementos aparecerão, naturalmente, nas etapas do encontro e, posteriormente, nos momentos que se seguem. Por fim, esperamos que questões da astronomia de Galileu venham à tona e sejam discutidas pelos alunos – sem, necessariamente, serem respondidas pelo professor – e sugerimos que a avaliação deste primeiro momento se dê pela participação dos alunos no encontro. Atividade de construção teórica Posteriormente ao encontro de observação astronômica, sugerimos uma roda de conversa entre os alunos, para que seja feita uma discussão em sala de aula a respeito das observações realizadas anteriormente; o professor poderá, ainda, apresentar imagens e simuladores computacionais de astronomia; passando, por fim, como tarefa para casa, uma atividade de construção teórica. Após a aula de campo, as cadeiras da sala de aula podem estar dispostas em círculo para facilitar a dinâmica de grupo, em que os alunos discutirão a respeito das observações feitas anteriormente. O professor deve deixá-los à vontade para fazer comentários pessoais, juízos de valor, declarações sobre aquilo que foi visualizado no céu a olho nu e pelo telescópio, externar sentimentos que surgiram com as observações astronômicas e fazer críticas construtivas a respeito do encontro de observação. Quando o professor achar conveniente, poderá enriquecer a discussão com vídeos e imagens108, a respeito das observações que foram feitas e dos comentários que surgiram a partir delas. Além disso, os alunos poderão fazer uso do simulador computacional Stellarium109 para observar e “controlar” o movimento dos planetas, inclusive movendo o tempo para simular o céu que estava visível durante a aula de campo. 108 Como exemplo, pode-se utilizar as imagens disponíveis nesta pesquisa, que podem ser impressas ou apresentadas em slides. 109 O Stellarium é um software livre de astronomia para visualização do céu, que pode ser acessado e baixado pelo site www.stellarium.org. 118 Após isso, o professor passará como tarefa para casa um material textual, a ser lido, respondido, e entregue ao término da aula júri simulado. Apresentada no Apêndice desta dissertação, a atividade de construção teórica terá por título: “Galileu Galilei: os sistemas de mundo geocêntrico e heliocêntrico”, e pode ser impressa e entregue aos alunos ou disponibilizada em uma plataforma digital a que eles tenham acesso. Trata-se de uma construção que terá por base a leitura feyerabendiana da astronomia de Galileu e que buscará as características do desenvolvimento científico evidenciadas por Paul Feyerabend. A leitura contará com questionamentos e perguntas que orientarão os estudantes a construírem os respectivos argumentos e contra-argumentos que irão utilizar na última etapa desta unidade didática – a aula júri simulado. A avaliação pedagógica, por parte do professor, será feita ao acessar o material respondido pelos alunos e contará com a participação dos mesmos na roda de conversa. Por fim, o professor apresentará aos alunos a proposta do júri simulado (que será descrita na próxima seção), marcará o dia da aula e discutirá com eles as “regras do jogo”, podendo, inclusive, pedir sugestões sobre a dinâmica. Aula júri simulado Após a construção teórica dos argumentos e contra-argumentos dos sistemas de mundo de Galileu, a partir de uma leitura feyerabendiana, a unidade didática tem desfecho com a estratégia de ensino-aprendizagem do júri simulado. O júri simulado é uma ferramenta didática que possibilita a interpretação de papéis ao simular um tribunal judiciário, onde os estudantes exercem funções de argumentação, contra- argumentação e julgamento de uma determinada questão. Segundo Anastasiou & Alves (2005, p. 92): A estratégia de um júri simulado leva em consideração a possibilidade da realização de inúmeras operações de pensamento, como: defesade ideias, argumentação, julgamento, tomada de decisão, etc. Sua preparação é de intensa mobilização, pois, além de ativar a busca do conteúdo em si, (...) oportunizam um envolvimento de todos para além da sala de aula. A estratégia pode ainda ser regrada de espírito de dramaturgia, o que deixa a atividade interessante para todos, independentes da função que irão desenvolver na apresentação final. Essa estratégia envolve todos os momentos de construção 119 do conhecimento, da mobilização à síntese, pela sua característica de possibilitar o envolvimento de um número elevado de estudantes. Ainda segundo os autores, as operações de pensamento predominantes na estratégia do júri simulado, são: imaginação, interpretação, crítica, comparação, análise, levantamento de hipóteses, busca de suposições e decisão; quanto a avaliação da atividade pedagógica – por parte do professor – este deve considerar a apresentação concisa e lógica das ideias, a profundidade dos conhecimentos e a argumentação desenvolvida pelos estudantes a respeito da questão proposta (ANASTASIOU & ALVES, 2005, p. 92). Silva & Martins (2009), ao discutirem sobre a estrutura e a prática do júri simulado nas aulas de física do ensino médio, afirmam que a dinâmica necessita de um tema problematizador que envolva polêmicas e divergência de opiniões entre o grupo. Segundo os autores, esta é uma “ótima estratégia didática para investigar a pertinência e as contribuições de uma abordagem que priorize as dimensões históricas e filosóficas da ciência”, bem como a construção dos conceitos científicos envolvidos (ibidem, p. 18). Caberá ao professor – e em especial o de física – preparar essa ferramenta didática desde seu plano de ensino. Entretanto, esta não será uma tarefa difícil. Segue uma descrição detalhada de uma proposta (que, naturalmente, pode – e deve – conter mudanças de acordo com a realidade local) sobre como o professor pode proceder. Inicialmente, orientamos que o professor possa fazer a leitura do capítulo 4 desta pesquisa: o ensino da astronomia de Galileu numa perspectiva feyerabendiana; pois sabemos que nem sempre a nossa formação acadêmica propicia a inclusão de elementos da HFC em nossas práticas pedagógicas, além do mais, se faz necessário que o professor tenha domínio do conteúdo tratado. A temática do júri simulado será: Galileu Galilei: os sistemas de mundo geocêntrico e heliocêntrico. O objetivo do professor será promover uma grande discussão (assumindo o papel de mediador e se isentando da interpretação de papéis) a respeito dos temas110 da astronomia de Galileu, a partir de uma perspectiva feyerabendiana. Ele dividirá a turma em três grupos: os defensores do sistema de mundo geocêntrico, os defensores do sistema de mundo heliocêntrico 110 Temas supracitados no capítulo anterior: a interpretação contra-indutiva de Galileu a respeito da queda dos corpos; a Palavra de Deus como argumento contra a frágil teoria copernicana; o telescópio fornece um retrato verdadeiro do céu? 120 e os juízes. A divisão dos alunos pode ser feita de livre escolha pelos mesmos, deixando quatro vagas para os juízes e o restante sendo divididas igualmente entre os defensores, que formarão os dois grupos maiores e que vão, cada qual, defender o seu sistema de mundo. É interessante destacar que o que os alunos acreditam “ser verdade” pouco importa nesse processo. O professor deve instigá-los a assumir o papel no qual escolheram e construir uma argumentação a respeito dele. A aula em questão deverá ser composta por uma aula dupla (ou seja, duas aulas de 50 minutos). O professor poderá, ainda, dividir o espaço físico da sala111 da seguinte maneira: os juízes ficarão em um dos cantos da sala e os dois grupos maiores serão divididos um de cada lado do espaço dedicado aos juízes, ficando um grupo de frente para o outro. Tabela 2 – Quadro com a divisão dos alunos. Função Quantidade de alunos presentes Simulação com 30 alunos (por exemplo) Juízes 4 4 Defensores do sistema de mundo geocêntrico A metade dos alunos (sem incluir os juízes) 13 Defensores do sistema de mundo heliocêntrico A outra metade dos alunos (sem incluir o juízes) 13 No início da aula, o professor irá explicar como acontecerá o júri simulado, enfatizando que os alunos devem interpretar os papéis ao qual estão divididos e que devem se envolver no espírito da dramaturgia. Após isso, ele irá tirar as dúvidas sobre a dinâmica e informará o seu papel de mediador, não se envolvendo, por tanto, no debate (nem mesmo para tirar dúvidas sobre os conteúdos). O professor, então, fará a divisão da sala e dará um tempo de 15 minutos para que cada grupo possa se reunir e discutir sobre os respectivos argumentos e contra- 111 Caso a escola possua estrutura, o professor pode usar a criatividade para enriquecer o ambiente com roupas, mobília, etc., ou até se deslocando para outro espaço físico que julgue mais apropriado. Entretanto, se não for possível, as próprias cadeiras dos estudantes serão suficientes para promover uma divisão na sala de aula. Deve- se, também, delimitar o espaço onde haverá a arguição (um para cada grupo, numa posição à frente dos seus companheiros, e de frente para o júri). 121 argumentos (material que fora produzido pelos alunos na atividade de construção teórica) que eles irão utilizar para convencer os juízes acerca do sistema de mundo que defendem. Enquanto isso, o professor se reunirá com os juízes para explicar como estes devem conduzir a dinâmica do júri simulado: os juízes serão as autoridades e coordenarão a discussão, dando direito a fala (intercalada) dos grupos, sendo responsáveis, inclusive, pela organização da sala de aula. Eles anotarão as falas que acharem interessante e, individualmente, poderão fazer algumas perguntas aos defensores dos argumentos e dos contra-argumentos dos dois grupos (vale lembrar que estas perguntas não devem ser para confrontar os defensores, mas apenas para conduzi-los a argumentação). Espera-se que todos os defensores possam atuar ao menos uma vez, indo a frente e defendendo seu ponto de vista aos juízes e demais colegas. O outro grupo deve argumentar sobre o ponto de vista contrário e, inclusive contra-argumentar o ponto de vista adversário (neste último caso, o defensor poderá construir um contra- argumento que confronte um ou mais de seus adversários). Quando todas as arguições forem feitas, cada juiz decidirá sobre qual sistema de mundo foi melhor explicado e qual deles deve corresponder a realidade (de acordo com a argumentação dos grupos). Entretanto, antes do veredito, os juízes coordenarão uma votação para que todos os defensores possam decidir por um sistema de mundo (vale ressaltar que esta decisão não deve, necessariamente, se prender ao grupo do qual o estudante faz parte, a ideia é, realmente, que eles possam mudar livremente de opinião, assumindo ter sido convencido pelos seus adversários). Neste momento, cada grupo deve escolher um representante para fazer uma última arguição, mas aqui haverá uma surpresa: de última hora o professor informará que eles devem trocar de papéis, ou seja, eles terão que argumentar contra o sistema de mundo que estavam defendendo e tentar convencer os demais a respeito do sistema de mundo que, outrora, estavam atacando. Isso, provavelmente, causará um pouco de confusão, mas, afinal, é necessário conhecer os argumentos de seus adversários para se fazer uma boa defesa. Tabela 3 – Quadro com a organização do tempo da aula júri simulado. Cronograma Tempo total 100 minutos Tempo para explicação do professor, dúvidas e divisão física da sala 10 minutos 122 Tempo para os alunos se reunirem para discutir os argumentos e contra-argumentosdo seu sistema de mundo 15 minutos Tempo para as arguições (intercalada) dos defensores 30 minutos Tempo para as últimas arguições e votação dos defensores 10 minutos Tempo total de fala para os juízes 15 minutos Tempo para os questionamentos, discussões e conclusões do professor 20 minutos O professor, então, entregará um pequeno pedaço de papel a todos os defensores. Estes votarão (em segredo) por um sistema de mundo e depositarão a resposta em uma urna (uma caixa de papelão pequena, por exemplo). Após isso, cada um dos quatro juízes terá um momento de fala e tomará uma decisão. Entretanto, antes que eles revelem a decisão final do júri, farão a contagem da votação dos defensores na urna e dirão o resultado (este resultado irá mostrar que algumas pessoas mudaram de concepção durante o processo argumentativo e servirá para desempatar a decisão do júri, caso aconteça). Por fim, os juízes darão o veredito final em favor de um dos sistemas de mundo, encerrando o júri simulado. “Na sua essência,” cita Silva & Martins (2009, p. 19), a prática apresentada objetiva a realização de reflexões em torno do fazer científico, ao colocar em confronto [teses] distintas (...). Espera-se, assim, que os alunos possam perceber a pluralidade de ideias existentes na formação dos conceitos, descaracterizando a visão de uma ciência “linear” e ideia do “gênio”, muito difundidas nas práticas mais tradicionais. Ainda nessa direção, o júri simulado poderá dar um maior significado ao estudo da física, (...) pois os alunos terão a possibilidade de vivenciar as dificuldades encontradas pelos cientistas na formulação e defesa dos modelos, diante de colegas defensores de outro ponto de vista. Neste cenário, a capacidade de argumentação por parte dos alunos torna-se fundamental, devido à própria natureza da atividade, em que o trabalho com hipóteses e a explicação são habilidades importantes na defesa de cada uma das teses. 123 Assim, esperamos que este júri simulado favoreça, por parte dos alunos, as operações de pensamento citadas por Anastasiou & Alves (2005), principalmente a argumentação e a tomada de decisão, e dê ao professor uma ferramenta e um aporte teórico para que este possa desenvolver uma aula de física estimulante, diferenciada, interdisciplinar, e que, sobretudo, contribua para vencer os desafios de sua prática pedagógica. Finalmente, tendo desenvolvido as três etapas da unidade didática, o professor deverá dedicar a aula seguinte para questionamentos, discussões e conclusões a respeito do que foi realizado: questionará os alunos a respeito da dinâmica do júri (como foi a interpretação do papel, como foi a defesa de um modelo que não acreditava, se houve mudança de concepção durante ou após a dinâmica, etc.); construirá as conclusões a respeito dos temas da astronomia de Galileu; formulará algumas questões que servirão de síntese para os conteúdos disciplinares; e discutirá sobre os aspectos sócio-histórico-filosóficos do desenvolvimento científico que chamaram a atenção dos alunos. O objetivo desse último momento será desenvolver questões sobre o saber científico. Para dinamizar, o professor pode recortar as perguntas que seguem (Tabela 4) em pedaços de papel e sortear os alunos que irão respondê-las, antes de abrir a discussão para os demais. Tabela 4 – Quadro com exemplos de questões aos alunos sobre o saber científico. O que você aprendeu nessas aulas está de acordo com o que já tinha ouvido falar do personagem Galileu Galilei? É correto dizer que Galileu comprovou a teoria copernicana? Como você julga a posição da Igreja, à época, em exigir de Galileu evidências mais concretas do Heliocentrismo? O que você aprendeu sobre o funcionamento da ciência com toda essa discussão? O telescópio de Galileu foi, realmente, um argumento decisivo para refutar o Geocentrismo? Argumentos contra-indutivos, propagandas e truques psicológicos foram alguns dos artifícios utilizados por Galileu para convencer a todos a respeito do copernicanismo. Você acha que esses elementos fazem parte da ciência? Existem elementos da cultura e da sociedade que podem influenciar na construção das teorias científicas? Se sim, quais? 124 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo buscou relacionar a área da História e Filosofia da Ciência às suas contribuições pedagógicas, sobretudo no ensino de física. Dada a importância da educação científica em nossa sociedade, evidenciamos os aspectos sobre ciência, embasados nas discussões de diversos historiadores e filósofos da ciência, apresentando suas potencialidades e limitações. É nesse sentido que foi destacada a análise do filósofo da ciência Paul Feyerabend – suas ideias anarquistas que vão de encontro às concepções racionalistas do desenvolvimento científico. De modo que a ciência é caracterizada como uma forma de produção de conhecimento humano equivalente a outras formas de conhecimento. Além disso, concordamos com o autor que a premissa da superioridade científica foi além do debate epistemológico e passou a ser artigo de fé, fazendo parte do tecido básico da própria sociedade, sendo associada à crença de que existe uma maneira certa de se viver, o que é prejudicial para a qualidade de vidas das pessoas em uma sociedade livre. A partir disso, recomendamos a utilização da epistemologia feyerabendiana no ensino de física, nos conteúdos temáticos que envolvem um famoso personagem da história da ciência: Galileu Galilei. O homem que agiu de forma anarquista (e pagou o preço por sua rebeldia e subversão) ao romper com os padrões do pensamento filosófico, científico e teológico de sua época, utilizando procedimentos contra-indutivos e irracionais, argumentos contraditórios com a experiência, propagandas e truques psicológicos, para propor uma nova interpretação do Universo, se tornando, assim, um dos maiores cientistas que já existiu e deixando seu legado para a história da humanidade. Ao relacionar o contexto histórico-filosófico em que surgem as teorias científicas ao processo de ensino-aprendizagem dos estudantes, buscamos contribuir para uma compreensão mais elaborada dos modelos científicos e evidenciamos as circunstâncias em que eles surgem e se desenvolvem. Para isso, defendemos uma releitura feyerabendiana do caso histórico de Galileu, com vistas à sua utilização no ensino de física, por professores e estudantes do nível médio, fazendo um contraponto à forma pela qual tais conteúdos são tradicionalmente ensinados. 125 A unidade didática desenvolvida pela pesquisa buscou propor um subsídio didático para se discutir os conteúdos de mecânica e de astronomia, a partir do olhar da filosofia da ciência evidenciado por Feyerabend. As orientações ao professor incluem o trabalho de diversos autores da área e a nossa prática cotidiana como uma proposta para as aulas de física do primeiro ano do Ensino Médio. Finalmente, o Apêndice representa uma transposição didática das obras de Paul Feyerabend e do Diálogo de Galileu Galilei, trazendo, inclusive, imagens e citações diretas contidas nas fontes primárias. Entretanto, este é apenas um olhar, dentre muitos, para buscarmos uma educação de qualidade e uma construção do saber científico por nossos estudantes. Mas ainda há muito a ser feito. Outras perspectivas e metodologias podem (e devem!) refinar e integrar essa abordagem, de forma, ainda, a aplicar e avaliar tais propostas pedagógicas. Sonhando em dar adeus à razão, nossa compreensão caminha numa estrada sem fim em busca de uma ciência que também é cultura. E como bem disse, certa vez, Galileu Galilei: “a verdade é filha do tempo, (...) mas a dúvida é o começo da sabedoria”. 126 REFERÊNCIAS ABREU, J. B.; STAUDT, M.; RIBEIRO, E. O. R.; FREITAS, N. M. S. Agrotóxicos: usá-losou não? Um estudo de caso no ensino de ciências. Ensino de Ciências e Tecnologia em Revista, v. 5, n. 2, jul/dez, 2015, p. 19-34. ANASTASIOU, L. G. C.; ALVES, L. P. Processo de Ensinagem na Universidade: pressupostos para estratégias de trabalho em aula. 5. ed. Joinville, SC: Univille, 2005. BAIARDI, A.; SANTOS A. 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Galileu – um cientista e várias versões. Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v. 5, n. Especial: p. 36-48, 1988. APÊNDICE GALILEU GALILEI: OS SISTEMAS DE MUNDO GEOCÊNTRICO E HELIOCÊNTRICO Por: JOSÉ RICARDO PEREIRA DA SILVA NATAL – RN 2020 APRESENTAÇÃO Este material compõe uma das etapas da Unidade Didática proposta pela pesquisa de dissertação de mestrado do professor José Ricardo Pereira da Silva, intitulada: Um olhar da Filosofia da Ciência no ensino de física: a perspectiva feyerabendiana da astronomia de Galileu. Tal atividade é dedicada aos alunos da disciplina de física do 1° ano do Ensino Médio, e tem por objetivo contribuir para aprendizagem do conteúdo curricular de mecânica. Com o título: Galileu Galilei: os sistemas de mundo geocêntrico e heliocêntrico, este material didático contém um estudo histórico e filosófico de um conhecido personagem do mundo da ciência – Galileu Galilei – o filósofo natural, comumente chamado de “astrônomo” ou “físico”, que contribuiu, de forma significativa, para a mudança na percepção de nossa posição no Universo entre os séculos XVI e XVII. Para essa construção histórica utilizamos os escritos do austríaco Paul Karl Feyerabend (1924-1994). Filósofo, com doutorado em física pela Universidade de Viena, especialização em teatro e doutor honoris causa em letras e humanidades pela Universidade de Chicago, Feyerabend foi um grande crítico da ciência e um profundo admirador de Galileu. Em suas obras, ele apresenta uma visão anarquista do desenvolvimento científico e promove uma ampla discussão a respeito da física terrestre e celeste de Galileu, sendo parte essencial do período de mudança de pensamento cosmológico que ficou conhecido como Revolução Copernicana. Universidade Federal do Rio Grande do Norte Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática – CCET Dissertação de Mestrado – Um olhar da Filosofia da Ciência no ensino de física: a perspectiva feyerabendiana da astronomia de Galileu. Unidade Didática (apêndice), sob orientação do Prof. Dr. André F. P. Martins. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 04 UNIDADE I – A interpretação contra-indutiva de Galileu a respeito da queda dos corpos 09 UNIDADE II – A Palavra de Deus como argumento contra a frágil teoria copernicana 16 UNIDADE III – O telescópio fornece um retrato verdadeiro do céu? 24 4 INTRODUÇÃO Esse material textual a ser lido, respondido e entregue ao professor, como parte fundamental dessa Unidade Didática, possui as reflexões sobre o desenvolvimento científico, a partir da perspectiva do filósofo da Ciência Paul Feyerabend. Feyerabend volta o seu olhar para o período histórico entre o final do século XVI e início do século XVII, que representa um recorte de um período mais amplo de mudança de pensamento cosmológico, conhecido como Revolução Copernicana, onde o personagem Galileu Galilei aparece como um dos protagonistas desse processo. Em vista disso, foram identificados três temas de astronomia que, de forma articulada, compõem um quadro dos trabalhos de Galileu, da relação entre sua física terrestre e celeste e que, ao mesmo tempo, possuem grande relevância histórica para as críticas epistemológicas112 de Paul Feyerabend: A interpretação contra-indutiva de Galileu a respeito da queda dos corpos A Palavra de Deus como argumento contra a frágil teoria copernicana O telescópio fornece um retrato verdadeiro do céu? Esses temas juntos formam o que chamamos de astronomia de Galileu. Então, serão utilizadas as principais obras de Feyerabend e o famoso livro de Galileu Galilei – Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano113 – na construção que se segue. 112 Do grego episteme (conhecimento, ciência) + logos (discurso, estudo), a epistemologia é o ramo da filosofia que se dedica ao estudo do conhecimento humano. Ela abrange discussões em torno de teorias do conhecimento e sua justificação, de modo que o conhecimento científico é um de seus objetos, o que muitas vezes é chamado de Epistemologia da Ciência ou Filosofia da Ciência [2]. 113 Em sua obra mais famosa, publicada na Itália em 1632, Galileu utiliza três personagens – Salviati, Simplício e Sagredo – que debatem a respeito dos sistemas de mundo, em defesa do Heliocentrismo [3]. Figura 1 – Foto de Paul Feyerabend [1]. 5 Figura 2 – Ilustração de Galileu Galilei, 1623 [4]. O italiano Galileu Galilei é provavelmente oastrônomo mais famoso de todos os tempos. Suas “descobertas” são associadas principalmente à defesa de um sistema cosmológico heliocêntrico, à liberdade de pensamento em contraposição ao domínio social e científico da Igreja e à utilização do telescópio como ferramenta de “comprovação” científica e astronômica. Os embates entre ele e seus adversários geralmente representaram a luta de um “pensamento revolucionário de um gênio” contra o “pensamento conservador dos ignorantes membros da Igreja”. Mas será que a Revolução Copernicana pode ser resumida de forma tão simplória? E será que a concepção milenar da Terra como centro do Universo (o Geocentrismo) não tinha bons argumentos em seu favor? [5] Agora uma pequena pausa na leitura! 1 – Antes dessas aulas, você já tinha ouvido falar em Galileu Galilei? Comente um pouco... ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 2 – Quais foram as principais “descobertas” desse importante personagem histórico? Quais foram as suas maiores dificuldades? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 6 A chamada Revolução Copernicana é uma sequência de eventos complexos que não envolvem apenas Galileu, mas a situação na Cosmologia, na Física, na Astronomia, nas leis, na Óptica e na Teologia. Segundo o Geocentrismo, a visão de mundo predominante na Antiguidade que foi defendida pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) e pelo matemático grego Ptolomeu (90-168 d.C.), o Universo era dividido em duas partes: o mundo sublunar (do centro da Terra até antes da órbita da Lua) e o mundo supralunar (que envolvia a Lua e tudo que havia após ela). A Terra estava no centro de tudo, imóvel, e rodeada pelas esferas celestes, incluindo a esfera das estrelas fixas. Essas duas partes do Universo eram regidas por leis diferentes: a primeira era composta pelos elementos terra, água, ar e fogo, local de mudança, pecado, destruição e morte; e a segunda parte era uma região perfeita e eterna, delimitada pelas estrelas fixas, donde giravam os planetas (incluindo a Lua e o Sol), além da qual não havia nada, nem lugar, nem vazio, movida pelo motor primário que criou tudo que existe e gerou o movimento circular e uniforme de todos os astros. Esse é o movimento que os astros aparentam fazer no céu. As estrelas, o Sol e a Lua parecem orbitar em círculos ao redor da Terra, mas os planetas (“estrelas errantes”) executam um movimento um pouco mais complexo: fazem laçadas no céu, movem-se para frente e então invertem sua direção. Para explicar essas anomalias, os astrônomos Hiparco de Nicéia (190-120 a.C.) e Ptolomeu conceberam uma solução engenhosa: decompor os movimentos complexos, observados no céu, por um movimento onde os planetas giravam ao redor de um círculo – o epiciclo – e o centro desse círculo girava ao redor de um ponto próximo a Terra – o equante [8]. Figura 3 – O modelo geocêntrico de Ptolomeu [7]. 7 Entretanto, no século XVI, um diácono polonês chamado Nicolau Copérnico (1473-1543) propôs um modelo que retirava a Terra do centro do Universo e a substituía pelo Sol. Em seu livro De Revolutionibus Orbium Coelestium114, publicado no ano de sua morte, ele elaborou uma teoria matemática que tentava resolver as anomalias da cosmovisão aristotélica, afirmando que, apesar dos movimentos dos astros serem circulares, uniformes e eternos, eles não giram em torno da Terra, mas sim em torno do Sol; e afirmava também que a Terra possuía um movimento de rotação diária (responsável por causar os dias e as noites) e um movimento de translação anual (que gera as estações do ano). Copérnico era um cristão fiel e chegou a defender as ideias aristotélicas. Apesar disso, ele postulou uma Terra em movimento e caracterizou os epiciclos planetários como um movimento aparente e, auxiliado pelo fato de que isso estava em concordância com a posição do Sol, interpretou esse movimento aparente como sendo criado por um movimento real, e circular, por parte da Terra [10]. 114 Do latim: Sobre as Revoluções das Esferas Celestes. Figura 4 – Epiciclos adotados pela astronomia grega [9]. Figura 5 – Sistema heliocêntrico de Copérnico, De Revolutionibus Orbium Coelestium, 1543 [11]. 8 Apesar de belo pela simplicidade, o modelo heliocêntrico era incompatível com a teoria aristotélica dos movimentos naturais, pois não explicava o movimento dos corpos aqui na Terra; contrariava àquilo que mostravam os nossos sentidos (o visível deslocamento do Sol); não explicava o porquê não víamos as consequências do suposto movimento da Terra; e, além disso, estava em conflito com a Teologia, pois era contraditório com o que era interpretado pelas Sagradas Escrituras. Contudo, as certezas sobre o universo supralunar começaram a ser questionadas pelas observações astronômicas a partir do final do século XVI. Nesse período vários cometas puderam ser vistos no céu e diversos astrônomos, dentre eles, o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), concluíram que os cometas provavelmente se movimentavam pelo universo supralunar [12]. Além disso, o século XVI envolveu a todos (da Europa) com a magnífica descoberta das Américas. Essa descoberta colocou em xeque as fronteiras da cosmologia e da teologia e, fez suspeitar da existência também de uma “américa do conhecimento” e eles interpretaram cada dificuldade como evidência para esse novo continente, o que ganhou uma importância que não teria tido se isso não tivesse ocorrido [13]. Assim, como fruto dessa grande revolução (no sentido literal da palavra), surge o personagem histórico Galileu Galilei... Antes de continuar, reflita e anote. 3 – Quais as principais características do modelo geocêntrico do Universo apresentado por Aristóteles e Ptolomeu? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4 – Explique quais são os movimentos que os astros aparentam realizar pelo céu. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 9 UNIDADE I A interpretação contra-indutiva de Galileu a respeito da queda dos corpos Segundo Galileu, os sentidos nos mostram que corpos pesados caem do alto para baixo por uma linha reta e perpendicular à superfície da Terra. Argumento considerado incontestável de que a Terra esteja imóvel: porque, se ela tivesse a rotação diurna, como proposto por Nicolau Copérnico, uma torre, sendo transportada pela rotação da Terra, que de cima deixasse cair uma pedra, afastar-se-ia muitas centenas de braças para o oriente no tempo em que a pedra gastaria para a sua descida, e por tanto espaço deveria a pedra afastar-se da base da torre [14]. De acordo com o pensamento da época,a imobilidade da Terra era provada principalmente por esta ideia, chamada de “argumento da torre”. Mas ela também conseguia corroboração pelo visível deslocamento do Sol, ou porque as pessoas não saíam por aí, voando em direção ao espaço, como consequência de um rodopio da Terra [16]. Galileu desarma esse argumento, afirmando que os nossos sentidos isolados, sem o auxílio da razão, podem nos dar uma descrição falsa da natureza: Figura 6 – Torre Inclinada de Pisa, Itália [15]. 10 Salviati – Aquilo que é primeiramente representado pelos nossos sentidos pode facilmente nos enganar; esse movimento dos graves descendentes é reto e não de outro tipo. Porque, desse modo, dá sinal de acreditar que aqueles que dizem que tal movimento é circular, parecem ver sensivelmente aquela pedra mover-se em arco, já que ele convida mais seus sentidos que sua razão para elucidar esse efeito; o que não é verdade, Sr. Simplício, porque, assim como eu, jamais vi, nem espero ver, cair àquela pedra de outro modo que não reta. Será melhor, portanto, que, deixada de lado a aparência, com a qual todos estamos de acordo, esforcemo-nos com o raciocínio para confirmar a realidade [18]. Ou seja, a ideia de Galileu consiste em substituir a verdade apreciada pelos sentidos por uma nova linguagem observacional, altamente abstrata e contra-indutiva: É também verdadeiro que estando em movimento a Terra, o movimento da pedra, ao cair, terá sido realmente um traço transversal compridíssimo com muitas centenas de braças; mas aquela parte de todo esse movimento, que é comum à pedra, à torre e a nós, fica para nós insensível e como se não existisse, e somente é observável aquela parte da qual nem a torre nem nós somos participantes, que é, afinal, aquele movimento com o qual a pedra, caindo, mede a torre [19]. Entretanto, a concepção copernicana defendida por Galileu não estava de acordo com os fatos: Do ponto de vista desses “fatos”, a ideia do movimento da Terra é bizarra, absurda e obviamente falsa, para mencionar algumas das expressões que foram frequentemente usadas na época e as quais ainda são ouvidas sempre que cientistas retrógrados se defrontam com uma teoria nova e contrária aos fatos. A experiência na qual Galileu deseja fundamentar a concepção copernicana não passa do resultado de sua própria imaginação fértil: ela foi inventada! [20]. Uma vez que os argumentos de Galileu não são suficientes, ele faz uso da propaganda e de truques psicológicos (com sucesso!) para convencer a todos do movimento da Terra. Note como Galileu especula a respeito das ilusões fornecidas pelos nossos sentidos: 11 Outros podem facilmente enganar-se com a simples aparência ou representação dos sentidos. E o fenômeno é o de dar a impressão àqueles que de noite caminham por uma estrada de estarem sendo seguidos pela Lua com idêntico passo, enquanto a veem rasar as ponteiras dos telhados sobre os quais ela lhes aparece, exatamente da mesma maneira que faria uma gata que, realmente caminhando sobre as telhas, se mantivesse atrás deles: aparência de que, quando não interviesse o raciocínio, enganar-se-ia a visão. Salviati – Imaginai agora estar num navio e ter fixado o olho na ponta do mastro: acreditais que, porque o navio se movesse velocissimamente, ser-vos-ia necessário mover o olho para manter a vista sempre na ponta do mastro e seguir o seu movimento? Simplício – Tenho certeza de que não seria preciso fazer nenhuma mudança, e que não somente a vista, mas, quando eu tivesse ajustado a mira de um arcabuz, qualquer que fosse o movimento do navio, jamais seria preciso movê-la um só fio de cabelo para mantê-la ajustada. Salviati – E isso acontece porque o movimento que o navio confere ao mastro confere-o também a vós e a vosso olho, de modo que não vos convém movê-lo para olhar a ponta do mastro; e, consequentemente, ela aparece-vos imóvel [21]. Fica claro que isso é, de fato, uma forte persuasão. Galileu argumentava que, tanto do ponto de vista aristotélico quanto do copernicano, a pedra poderia ser vista cair ao pé da torre, de forma que a experiência observacional, confirmada pelos nossos sentidos por si só não demonstrava nada [22]. A essência do artifício de Galileu é o chamado princípio da relatividade do movimento. Essa explicação, a respeito da percepção do movimento, baseia-se na afirmação de que os nossos sentidos só notam o movimento relativo e são insensíveis a um movimento que os objetos tenham em comum [23]. Ou seja, nós não notamos o movimento circular da pedra, enquanto ela cai do alto da torre, porque tanto nós, quanto a torre e a pedra estamos girando juntamente com a Terra. Como todos esses movimentos são comuns, eles não são percebidos por nossos sentidos. O único movimento que percebemos é aquele movimento que não é comum a Terra, a torre e a nós mesmos – que é o movimento que a pedra mede a torre – caindo do alto até sua base. Explicado o porquê de não percebemos o movimento circular da pedra, resta a Galileu explicar por que a pedra acompanha a torre e não é deixada para trás. 12 Desde a época de Aristóteles, acreditava-se que os corpos que não sofriam interação física permaneceriam em repouso, isto é, manteriam sua posição. Assim, seria necessário empurrar um objeto para que ele pudesse se mover. Dessa forma, o fato da pedra tocar o solo na base da torre significava/provava que a Terra não estava em movimento [24]. Então era necessário supor algo contra-indutivo que não se baseasse exclusivamente em nossos sentidos, mas também, e principalmente, na razão, de maneira tal que o movimento da Terra possa continuar a ser afirmado. Para explicar o motivo da pedra acompanhar a torre, Galileu cria (inventa!) o chamado princípio na inércia circular: Um objeto que se move ao redor do centro da Terra com certa velocidade angular, em uma esfera livre de atrito, continuará a mover-se para sempre com essa mesma velocidade angular [24]. Argumente... 5 – Pelo que estudamos até aqui, quais são os principais argumentos em favor do modelo geocêntrico e da imobilidade da Terra? Você concorda com eles? Comente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 13 Logo, tanto a pedra quanto a torre estão se movendo junto com a Terra, e ela, a pedra, chegará ao solo sem se deslocar da torre. Ou seja, o movimento aparente da pedra em queda-livre, combinado com o princípio da relatividade e com o princípio da inércia circular transforma o argumento que contradiz Copérnico em argumento que o confirma! Assim, Galileu substitui a complexa e sofisticada teoria do movimento de Aristóteles por sua própria lei da inércia, à qual faltava apenas corroboração [26]. Sua principal alegação consiste na defesa de Salviati do argumento pelo qual uma pedra abandonada do alto do mastro de um navio, que move-se com velocidade constante, não ficaria para trás (como acreditara Simplício), mas tocaria o chão do barco junto ao pé do mastro, da mesma forma que o faria, caso o navio estivesse parado: Salviati – Afirma, portanto, Aristóteles, que um argumento certíssimo da imobilidade da Terra é vermos os projéteis subirem e retornarem, pela mesma linha, ao mesmo lugar de onde foram atirados,e isso, ainda que o movimento fosse altíssimo; o que não poderia acontecer quando a Terra se movesse, porque no tempo em que o projétil se movesse para cima e para baixo, separado da Terra, o lugar onde teve início o movimento do projétil afastar-se-ia, devido à rotação da Terra. Indução & Contra-Indução Para a filosofia, indução é o raciocínio lógico que, após considerar um número suficiente de casos particulares da experiência percebida por nossos sentidos, conclui-se uma verdade geral. A contra-indução é, portanto, o oposto: considerar poucas ou nenhuma experiência sensível, e contradizer hipóteses ou experimentos bem estabelecidas. Apesar de aparentar, não criticamos Galileu por usar a contra-indução. Criticamos por considerar suas concepções como verdade absoluta, mesmo tendo escolhido tal procedimento contra-indutivo [27]. 14 Simplício – Assim, existe a experiência tão apropriada da pedra que se deixa cair do alto do mastro do navio, a qual, quando o navio está parado, cai ao pé do mastro, mas, quando o navio se move, cai tão longe quanto o espaço que o navio percorreu durante o tempo da queda da pedra; o que não são poucas braças, se o movimento do navio é veloz. Salviati – Pois é evidentíssimo que o movimento do navio é acidental, bem como para todas as coisas que estão nele, pelo que não causa espanto que aquela pedra, que era mantida no cimo do mastro, deixada em liberdade, caia para baixo junto ao pé do mastro115. Além do mais, a rotação diurna é posta como movimento próprio e natural do globo terrestre e, consequentemente, de todas as suas partes; e, por isso, aquela pedra que está no alto da torre tem, como um instinto primário, de girar em torno do centro da Terra em vinte e quatro horas, e este talento natural ela o exercita eternamente, em qualquer estado em que esteja posta [30]. Galileu generaliza suas ideias contra- indutivas, a respeito da queda dos corpos, tanto para assuntos terrestres quanto para os celestes, a fim de confirmar o movimento da Terra. Simplício – Então, não fizestes cem provas e nem mesmo uma, e afirmais tão francamente que ela é certa? Salviati – Eu, sem experiência, estou certo de que o efeito seguir-se-á como vos digo, porque assim é necessário que siga; e acrescento que vós mesmos sabeis muito bem que não pode acontecer diferentemente, ainda que finjais, ou simuleis fingir não o saber [32]. 115 A inspiração de Galileu para o que hoje chamamos de argumento da torre provavelmente surgiu da observação do mastro dos navios. Entretanto, acredita-se que esses experimentos (tanto o do navio, quanto o da Torre de Pisa) não foram, de fato, realizados por Galileu ou seus contemporâneos, uma vez que se tratava apenas de um “argumento” teórico [33]. Figura 7 – Rascunhos do movimento circular no manuscrito de Galileu, Itália, 1610 [31]. 15 Assim, Galileu introduz o princípio da inércia circular não por referência a um experimento ou uma observação, mas por uma afirmação muito mais especulativa, e é por meio disso que é alcançada a transição de uma cosmologia geostática para o ponto de vista copernicano [34]. Questione e conclua... 6 – Quais foram os procedimentos contra-indutivos que Galileu utilizou na defesa do sistema copernicano? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 7 – Olhando para o passado e analisando os argumentos a favor e contra o Heliocentrismo, quem você julga que estava com a razão: Galileu ou os que utilizavam dos sentidos para negar que a Terra se movia? Comente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 16 UNIDADE II A Palavra de Deus como argumento contra a frágil teoria copernicana Segundo Galileu, todos os fenômenos terrestres, pelos quais se mantêm a estabilidade da Terra e a mobilidade do Sol e do firmamento, devem aparecer-nos sob as mesmas aparências, quando se supõe a mobilidade da Terra e a estabilidade do Sol [35]. Desde alguns séculos antes de Cristo, já havia a expectativa que as estrelas seriam divinas e, assim, deveriam se comportar de maneira ordenada no céu [36]. No entanto, a teoria copernicana não era a única e nem a mais geral visão cosmológica de sua época, seu sucesso e coerência não significavam, por si só, uma correspondência à realidade [37]. Isso fica claro quando analisamos os escritos de Galileu, e ele mesmo afirma que os argumentos a respeito da imobilidade da Terra são muito coerentes e eficazes, enquanto que os argumentos contrários, e com poucos adeptos, não estão de acordo com os sentidos: Salviati – Mas o meu espanto, Sr. Sagredo, é muito diferente do vosso: vós vos espantais que tão poucos sejam seguidores da opinião a respeito do movimento da Terra; e eu fico estupefato de que se tenha até aqui encontrado quem a tenha abraçado e seguido, nem posso admirar suficientemente a eminência do engenho daqueles que a receberam e a consideraram verdadeira, e com a vivacidade de seu intelecto fizeram tal força aos próprios sentidos, que tenham podido antepor o que lhes mostravam as experiências sensíveis abertamente contrárias. Que as razões contra a revolução diurna da Terra, já examinadas por vós, tenham grandíssima aparência, já o vimos, e terem sido consideradas como concludentíssimas pelos ptolomaicos, aristotélicos e todos os seus seguidores, é um argumento muito forte de sua eficácia [38]. 17 Apesar disso, Galileu exigia que as ideias dos astrônomos fizessem parte do conhecimento público. Ele não pedia simplesmente a liberdade para publicar seus resultados; ele queria impô-los aos demais, pois presumia que os métodos restritos dos astrônomos eram a maneira correta de acessar a Realidade [39]. Nesse período, e até o século XIX, os cientistas utilizavam a bíblia para respaldar as ideias científicas. A concordância com a palavra de Deus, como estava contida na Escritura Sagrada, era uma condição-limite importante e aceita universalmente da pesquisa física. Era um padrão comparável com o padrão “moderno” da precisão experimental [41]. Tal pressuposto, defendido por grandes cientistas como Copérnico, Kepler e Newton, é baseado no fato das Escrituras serem uma importante condição delimitadora da existência humana e, por tanto, da pesquisa [42]. Segundo Isaac Newton, por exemplo, a pesquisa científica deve se basear em duas fontes: as Obras de Deus (o magnífico Universo) e a Palavra de Deus (a Bíblia). Como acontece até os dias de hoje, a Igreja tem a Palavra de Deus como fonte para as discussões dos interesses humanos, e faz dela uma condição-limite da Realidade e da Verdade [43]. Em resposta ao monge carmelita Paolo Foscarini, o Cardeal Roberto Bellarmino, do Colégio Romano, discute sobre a ideia hipotética de Galileu: Figura 8 – Explicação do movimento aparente dos planetas a partir da perspectivaheliocêntrica, contida no manuscrito de Galileu, Itália, 1610 [40]. 18 Parece-me que Vossa Reverendíssima e o Senhor Galileu agem com prudência quando se satisfazem em falar hipotética e não absolutamente... Dizer que, na suposição do movimento da Terra e da quiescência do Sol, todas as aparências celestiais são mais bem explicadas que pela teoria dos excêntricos e epiciclos é falar com um excelente bom-senso e não correr qualquer risco. Essa maneira de falar é suficiente para um matemático. Mas querer afirmar que o Sol, verdadeiramente, está no centro do universo e só gira em torno de seu próprio eixo sem ir do leste para o oeste é uma atitude muito perigosa e calculada não só para provocar todos os filósofos e teólogos escolásticos como também para ferir nossa fé sagrada ao contradizer as Escrituras [45]. A posição da Igreja era de que o conhecimento astronômico servia apenas para explicar e prever, mas não poderia ser relacionado com a realidade, ou seja, o fato de um modelo funcionar dentro de um campo estrito não mostrava, necessariamente, que ele tinha acesso à verdade [46]. Além disso, a Igreja também usava a Bíblia para impor medidas administrativas: em sua carta enviada a Galileu, o cardeal Bellarmino enfatiza esta condição: “Como vocês estão cientes, o Concílio de Trento proíbe a interpretação das Escrituras de uma maneira contrária à opinião comum dos papas” [47]. A Igreja Católica Romana afirmava ter os direitos exclusivos de exploração, interpretação e aplicação das Sagradas Escrituras. Os leigos, de acordo com os ensinamentos da Igreja, não tinham nem o conhecimento nem a autoridade para mexer com as Escrituras e eram proibidos de fazê-lo. Isso não deveria causar surpresa a ninguém familiarizado com os hábitos de instituições poderosas. A atitude da Associação Médica Americana, por exemplo, com relação a praticantes leigos é tão rígida como o era a atitude da Igreja para com intérpretes leigos – e tem as bênçãos da lei. Especialistas, ou ignorantes que tenham adquirido as insígnias formais de uma especialidade, sempre tentaram – e com frequência tiveram êxito nisso – assegurar para si mesmos direitos exclusivos em domínios especiais. Qualquer crítica da rigidez da Igreja Católica Romana também aplica-se a seus sucessores modernos, tanto científico quanto ligados à ciência [48]. Figura 9 – Retrato de São Roberto Bellarmino, óleo sobre tela, 1923, Roma, Palácio do Santo Ofício, sala de recepção, lado norte [44]. 19 Galileu, ciente das consequências, foi instruído a ensinar a teoria copernicana como uma hipótese, sendo proibido, portanto, de ensiná-la como uma verdade. Pois a Igreja não estava disposta a mudar somente porque alguém havia produzido alguns argumentos vagos. Queria prova – uma prova científica em assuntos científicos. Mas ainda não havia nenhuma prova da doutrina copernicana [49]. Os especialistas da Igreja concluíram que a teoria de Galileu, a respeito da mobilidade da Terra, era “insensata e absurda em sua filosofia”, o que nos dias de hoje equivaleria dizer que a teoria não era científica. Essa análise foi feita sem referência à fé ou à doutrina da Igreja, sendo baseada exclusivamente na situação científica da época. Tycho Brahe e outros cientistas concordavam com a opinião da Igreja, uma vez que ela estava baseada com os fatos e padrões da época. Além disso, os especialistas da Igreja pronunciaram que a doutrina copernicana era “formalmente herética”, no que diz respeito às implicações éticas/sociais. Assim, ao ser associada à Realidade, ela contradizia a Palavra de Deus, e não era feita de maneira inadvertida, mas com plena consciência da situação [50]. O suposto movimento da Terra defendido por Galileu, sem sombra de dúvidas, contradizia a Palavra de Deus, uma vez que no capítulo 10 versículo 12 do livro de Josué (Antigo Testamento) este ordena “Sol, pare sobre Gibeom!” e “o Sol parou no meio do céu Questione e comente... 8 – Nessa época, vários cientistas utilizavam a bíblia e os ensinamentos da Igreja para estruturarem suas ideias. Galileu, apesar de ser um cristão devoto, contraria tudo isso, e mais: inventa uma nova mecânica terrestre e celeste contraditória com os “fatos”. Para você, o que representa um fato científico? Tais fatos são fixos / absolutos ou podem mudar em determinada época ou em diferentes contextos sociais? Comente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 20 e por quase um dia inteiro não se pôs”. Ora, se o Sol parou, então é ele quem se movimenta e, consequentemente, a Terra se encontra em repouso (tal qual podemos perceber com nossos sentidos). Entretanto, Galileu reivindicava a liberdade e autonomia da pesquisa no domínio da natureza. Sua crítica não era contra a bíblia, mas contra a interpretação literal dela. Ele defende a justificativa de que não existe contradição entre o texto sagrado e as leis da natureza, mas que as pessoas erram em fazer interpretações literais. Suas ideias, logo começam a ganhar repercussão e, aos olhos da maioria dos teólogos, se tornam uma ameaça às suas doutrinas [51]. A igreja exigiu de Galileu, tanto por razões científicas quanto éticas, que ele aceitasse a interpretação da hipótese. Isso não aconteceu e ele foi julgado por reinterpretar a Bíblia sem a autorização da Igreja. Considerando as dificuldades com que o modelo copernicano se defrontava quando considerado uma descrição da realidade, temos de admitir que a lógica estava do lado de... Bellarmino e não do lado de Galileu [52]. O primeiro julgamento de Galileu ocorreu em 1616, após a doutrina copernicana ser analisada e criticada. Galileu não foi preso e nem condenado, porém recebeu ordens proibindo-o de ensinar a doutrina de Copérnico como uma verdade. Entre 1632 e 1633 ele foi julgado novamente, mas, dessa vez, foi considerada a não obediência de Galileu a respeito da ordem dada no primeiro julgamento, pelo fato dele ter enganado os inquisidores, fazendo-os acreditar que a ordem nunca tinha sido dada [53]. Figura 10 – Galileu perante o Santo Ofício [54]. 21 Sete anos após o primeiro julgamento (em 1623), o cardeal italiano de 55 anos chamado Maffeo Barberini foi eleito o Papa Urbano VIII. Assim como Galileu, ele havia nascido e se criado em Florença e frequentado a Universidade de Pisa, onde Galileu estudara medicina e Urbano, direito. Urbano havia, inclusive, intercedido em favor de Galileu durante seu primeiro julgamento, e advertido Galileu que sua defesa ao Universo heliocêntrico poderia lhe trazer problemas – e que não deveria apresentá-la como uma realidade, nem mesmo em pensamento. O papa se considerava amigo e admirador de Galileu. Este teve o privilégio de ser recebido em seis audiências papais, cada uma durando mais de uma hora. Essa relação quase íntima com o papa fez Galileu pensar que poderia escrever o Diálogo com segurança – e assim o fez. Em sua obra de 1632, Galileu apresenta um diálogo entre três participantes: Salviati, Sagredo e Simplício. Os dois primeiros homenageiam amigos falecidos de Galileu, sendo Salviati seu porta-voz e Sagredo um moderador inteligente e imparcial, uma pessoa de alta classe e homem do mundo. Já Simplício representa uma mistura dos argumentos de todos os oponentes que Galileu havia enfrentado na construção de suas ideias [55]. Para tornar seus argumentossólidos e eficientes, Galileu usa os argumentos “tolos” de Simplício como contraste. E isso funciona bem, mas ao final de sua obra ele faz Simplício resumir a posição da Igreja Católica acerca da impossibilidade de se obter genuíno conhecimento do mundo físico, ao passo de que seria uma ousadia extravagante para qualquer um limitar e confinar o poder e sabedoria divinos a uma particular conjetura pessoal (se referindo ao sistema copernicano) [56]. Esse argumento de Simplício fora originalmente entoado pelo próprio papa, e os inimigos de Galileu conseguiram convencer Urbano que o seu objetivo era de ridicularizar a Igreja, e pior, ridicularizar e humilhar o próprio papa. Urbano ficou furioso quando viu o resultado. Tanto é que, mesmo após a morte de Galileu em 1642, ele recusou-se a permitir que o grão-duque de Toscana realizasse um funeral adequado para Galileu e construísse um monumento sobre sua tumba na Igreja da Santa Cruz em Florença. Foi, então, que No dia 22 de junho de 1633, Galileu Galilei foi levado a julgamento no quartel general da Inquisição em Roma. Todo o magnificente poderio da Igreja Católica Romana tinha sido aparentemente perfilado contra ele. Sob ameaça de tortura, encarceramento e mesmo morte na fogueira, ele foi forçado, de joelhos, a "abjurar, amaldiçoar e detestar" toda uma vida de brilhante e devotado labor intelectual. 22 Confrontado com uma "veemente suspeita de heresia", ele teve de renunciar, "com um coração sincero e fé genuína" à sua crença de que o Sol, e não a Terra, é o centro do universo, e que a Terra move-se em torno do Sol, e não vice-versa. Como Galileu concordou com tudo isso - pelo menos verbalmente - as ameaças de Urbano não precisaram ir adiante. Como uma de suas punições, por exemplo, ele deveria recitar os sete salmos penitenciais uma vez por semana durante três anos. Mas foi também posto em prisão domiciliar pelo resto de sua vida. E, finalmente, seu livro Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano (1632), que tinha estado no centro do julgamento, foi proibido. Isto é, foi acrescentado à lista de livros banidos, o Index librorum prohibitorum, mantido pela Inquisição da Igreja Católica [56]. Esse procedimento mais direto e racional da Igreja não era imutável. Foi isso que disse o cardeal Bellarmino: Se houvesse alguma prova real que o Sol está no centro do Universo e de que a Terra está no terceiro céu girando ao redor do Sol, então teríamos de agir com grande prudência ao explicar as passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário e de preferência admitir que não as tínhamos entendido em vez de declarar Figura 11 – O Julgamento de Galileu, Roma, 1633 [57]. 23 como falsa uma opinião comprovadamente verdadeira. Quanto a mim, não acreditarei que essas provas existem até que elas me sejam mostradas. Tampouco é uma prova dizer que, se supusermos que o Sol está no centro do Universo e a Terra no terceiro céu, tudo funciona da mesma maneira como se tudo fosse o inverso. No caso de dúvida não devemos abandonar a interpretação do texto sagrado como dada pelos Papas. A doutrina da Igreja, diz Bellarmino aqui, é uma condição-limite para a interpretação de resultados científicos. Mas não é uma condição-limite absoluta. A pesquisa pode movimentá-la [58]. É provável que muitos de nós tivéssemos apoiado a decisão da Igreja e concordado com o cardeal Bellarmino a respeito da fragilidade do ponto de vista copernicano, cujo argumento mais poderoso era a harmonia criada pelo ponto de vista heliocêntrico, ou seja, pela primeira vez havia um sistema astronômico, e não apenas um conjunto de instrumentos de cálculo [59]. Argumente... 9 – Como você julga a posição da Igreja, à época, envolvendo a discussão sobre os sistemas de mundo? Comente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 24 UNIDADE III O telescópio fornece um retrato verdadeiro do céu? A harmonia copernicana é refutada por meio da observação. O argumento da torre é invertido e as interpretações naturais são substituídas por interpretações contra-indutivas. Propagandas e truques psicológicos substituem argumentos frutos da experiência. Hipóteses auxiliares são inseridas para afirmar o movimento da Terra. Até então, nenhuma evidência independente surge em defesa da nova cosmologia. Os argumentos contrários a ela são cientificamente e teologicamente corretos. Há uma tentativa de substituir uma teoria muito abrangente por outra restrita que possui, inclusive, elementos especulativos. Não é apontada nenhuma prova do movimento da Terra e não há nada que refutaria o ponto de vista geocêntrico, mas que seria explicado pelo ponto de vista copernicano [60]. Galileu tenta construir uma visão de mundo inteiramente nova, mas não consegue fazê-lo só, ele precisa do auxílio de um “sentido superior e mais eficaz”. Além das interpretações naturais, Galileu altera também as sensações que parecem ameaçar a teoria de Copérnico. Ele admite que haja tais sensações, louva Copérnico por tê-las ignorado e afirma tê-las eliminado com o auxílio do telescópio. Contudo, não oferece razões teóricas pelas quais se deveria esperar que o telescópio fornecesse um retrato verdadeiro do céu [61]. 25 Há vários relatos da época, inclusive do próprio Galileu, evidenciando a importância e os benefícios desse instrumento quando usado em terra ou mar. Sua aplicação às estrelas, contudo, era uma questão inteiramente distinta [62] As primeiras observações telescópicas do céu são indistintas, indeterminadas, contraditórias e entram em conflito com o que qualquer pessoa pode ver a olho nu. É sabido que as observações telescópicas terrestres indicavam, até certo ponto, propriedades estáveis e objetivas das coisas vistas. Como os nossos sentidos estão familiarizados com a aparência dos objetos terrestres, fica fácil distinguir o que é verdadeiro e o que é distorcido ou desfigurado por franjas coloridas, e até mesmo outros elementos como plano de fundo, superposição, tamanho relativo, etc. Entretanto, não conhecemos de perto as estrelas e os planetas. Até mesmo a aparência da Lua nos dá uma ideia falsa de sua distância e seu tamanho. Logo, não podemos usar a nossa memória para separar o que provêm do próprio objeto (celeste) das contribuições do telescópio [64]. É bem verdade que o telescópio produzia resultados fantásticos na Terra, entretanto, ele se deparava com dificuldades quando utilizado para observações celestes. Ele exibia fenômenos hipotéticos e contraditórios, e alguns de seus resultados podiam ser refutados por um simples olhar a olho nu. Apenas uma nova teoria da visão telescópica podia trazer ordem ao caos e separar aparência de realidade [65]. Figura 12 – Galileu e o telescópio [63]. 26 De acordo com a teoria óptica predominante na época, proposta pelo alemão Johannes Kepler (1571-1630), a imagem de um objeto é recebida pelos nossos olhos através das leis de reflexão e refração, pela intersecção retrógrada da trajetória dos raios que emergem/refletem do objeto até nossos olhos, cabendo à mente do observador utilizar somente a parte final dessa luz. Essa ideia, que até certo ponto está correta, não é válida para lentes (como as do telescópio) e nem leva em consideraçãoos efeitos atmosféricos. Assim, a teoria kepleriana da visão, que é refutada pelo telescópio (ou que o refuta), não pode ser utilizada como argumento por Galileu, e a visão telescópica do céu permanece um mistério [66]. Agora uma pequena pausa na leitura! 10 – Quais características das imagens telescópicas você conseguiu perceber quando olhou para os objetos aqui na Terra? Existiam defeitos, manchas ou aberrações nessas imagens? E para os objetos no céu? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 11 – Ao apontar o telescópio para o céu, Galileu percebeu imagens contraditórias com o que era visto a olho nu e que não correspondiam as explicações teóricas de sua época. Você acha que ele agiu corretamente ao confiar nesse instrumento confuso? Você acha que isso acontece ainda hoje com os cientistas? Comente. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 27 A ausência de observações satisfatórias mostravam dois objetos acompanhantes de Saturno (foi assim que os anéis foram vistos na época); duplicação de imagens dos astros; mudança da posição lateral da imagem de acordo com a posição do olho; franjas coloridas; presença ou ausência das estrelas que acompanham Júpiter (suas quatro luas, hoje chamadas de “luas galileanas”); uma Lua repleta de montanhas na parte interna, mas perfeitamente lisa na periferia, e isso a despeito do fato de que a periferia da Lua mudava com a sua rotação; além de algumas crateras que não existem e a observação de uma atmosfera lunar; o que revela a pobreza do que poderia ser visualizado pelo telescópio, agravado ainda pela velocidade com que novos fenômenos foram descobertos e divulgados [68]. Entretanto, o dispositivo aperfeiçoado por Galileu era considerado moderno, e provavelmente o melhor de sua época (1610)116. Inicialmente, seu interesse estava voltado para as questões militares e não astronômicas. Quando Galileu ouviu falar nas lunetas holandesas, apressou-se para estudá-las e melhorá-las, a fim de obter vantagem para Veneza sobre os turcos, podendo observar os navios inimigos cerca 116 Vale destacar que o instrumento óptico de Galileu e as imagens telescópicas celestes não surgiram após as construções teóricas do Heliocentrismo feitas por ele, mas tiveram uma construção simultânea. Figura 13 – Desenhos dos Planetas vistos por Galileu através do telescópio, Roma, 1623 [67]. Figura 14 – Desenho da Lua vista por Galileu através do telescópio, 1610 [69]. 28 de duas horas antes de serem vistos a olho nu [70]. Ao melhorar seu telescópio (refrator), Galileu conseguia uma ampliação de quase dez vezes117. Apesar disso, ao olhar pelo instrumento óptico, as pessoas viam coisas diferentes e tiravam conclusões diferentes a respeito do que era visto, ainda que utilizassem o mesmo telescópio. As observações telescópicas de Galileu se contradiziam, nem todas as pessoas podiam repeti-las, aqueles que as repetiam (como Kepler, por exemplo) conseguiram resultados confusos e não existia qualquer teoria para separar “fantasmas” de fenômenos verdadeiros [71]. Sagredo – Portanto, devemos ainda esperar outras objeções vigorosas contra o movimento anual da Terra? Salviati – Sim; e tão evidentes e sensíveis que, se um sentido superior e mais excelente que os comuns e naturais não estivesse acompanhado da razão, duvido grandemente de que eu mesmo não tivesse sido ainda mais reticente acerca do sistema copernicano, do que o sou, depois de ter sido iluminado por uma luz mais clara que a habitual. Sagredo – Agora, portanto, Sr. Salviati, vamos, como se diz, direto ao ponto, porque cada palavra que se gasta em outro argumento parece-me desperdiçada. Salviati – Aqui estou para servir- vos [73]. 117 O que é bem abaixo se comparado aos telescópios comuns de hoje – cuja ampliação é de 90 a 120 vezes para os refratores e de 200 a 250 vezes para os refletores. Figura 15 – Galileu mostra o telescópio para o Senado veneziano em 1609 [72]. 29 Apesar das objeções, Galileu utiliza seu instrumento como “prova” de seus argumentos: em resposta aos escolásticos que afirmavam que um corpo não poderia ter dois movimentos ao mesmo tempo, ele exibiu os satélites de Júpiter (que orbitavam o planeta enquanto ele fazia sua revolução anual); quanto à tradicional alegação de que os corpos celestes seriam perfeitos, ele utiliza o telescópio para afirmar que o Sol tem manchas e que a Lua não é perfeitamente lisa. Quanto à objeção de que a teoria copernicana requereria que Vênus exibisse fases (o que não poderia ser detectada a olho nu), Galileu as confirmou com as observações telescópicas das fases de Vênus [74]. Além disso, ao olhar Júpiter pelo telescópio, podia-se ver uma espécie de sistema solar em miniatura. Suas luas recém- descobertas inspiram um certo desconforto aos aristotélicos, uma vez que elas contrariavam um argumento geocêntrico de que a Terra não poderia orbitar o Sol sem perder a Lua. Assim, essa descoberta tornava a concepção copernicana cada vez mais plausível, e, talvez por isso, muitos preferiram não rever tal argumento, mas, simplesmente, desconsideraram a possibilidade da existência dos satélites de Júpiter [76]. Figura 16 – Esquema das fases de Vênus nos sistemas de mundo [75]. Figura 17 – As luas de Júpiter no manuscrito de Galileu, Itália, 1610 [77]. 30 Galileu, então, certo de poder convencer seus adversários a desfrutarem do sentido superior e mais eficaz do telescópio, se reúne com eles para mostrar seu aparelho: Por meio desse instrumento, vimos tão distintamente o palácio do ilustríssimo duque Altemps, nas Colinas Toscanas, que facilmente contamos todas as suas janelas, mesmo as menores; e a distância é de 16 milhas118. Na quinta-feira à noite, na propriedade do monsenhor Malvasia, do lado de fora do portão, lugar alto e aberto, foi-lhe oferecido um banquete por Frederico Cesi, o marquês de Monticelli. Na reunião estiveram Galileu, cardeais da igreja, professores da universidade, matemáticos, e outras pessoas cultas. Alguns deles foram até lá expressamente para realizar essa observação de “quatro outras estrelas, ou planetas, que são satélites de Júpiter”, bem como “dois acompanhantes de Saturno”; porém, mesmo tendo permanecido até uma hora da manhã, não chegaram a um acordo em suas opiniões [79]. Não dormi nada nos dias 24 e 25 de abril, nem de dia nem de noite, mas testei de mil maneiras o instrumento de Galileu, tanto em coisas aqui de baixo quanto naquelas lá 118 Descrição de Julius Caesar Lagalla, professor de filosofia em Roma, da reunião realizada na cidade de Espirito Santo, em 16 de abril de 1611 [78]. Reflita e anote. 12 –Galileu confiava em seu instrumento e utilizou-o para investigar assuntos desconhecidos: as coisas do céu. Quais foram as características dos astros, percebidas pelas imagens telescópicas, que Galileu utilizou para refutar o Geocentrismo e, consequentemente, apoiar o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 31 em cima. Aqui embaixo, ele funciona maravilhosamente; nos céus, ele nos engana, pois algumas estrelas fixas são vistas duplicadamente. Tenho como testemunhas homens eminentes e nobres doutores, e todos admitiram que o instrumento engana. Isso silenciou Galileu e, no dia 26, ele partiu tristemente, de manhã cedo, nem mesmo tendo agradecido a Magini por seu esplêndido banquete119. Dispostos em diferentes épocas e com diferentes pessoas, os relatos acima evidenciam que a tarefa de Galileu não foi fácil e estava longe de ser cumprida. A doutrina copernicana precisaria de certo tempo para reunir fatos em favor de uma nova cosmologia, o que se fazia necessária era uma nova dinâmica que explicasse tanto os movimentos terrestres quanto os celestes... mas todas essas ciências ainda estavam ocultas no futuro [80]. Ele não alcançou nada, pois mais de vinte homens cultos estavam presentes e, contudo, ninguém viu distintamente os novos planetas; ele dificilmente será capaz de continuar afirmando sua existência120. 119 Escrito por Horky, discípulo de Kepler, em 1610, na cidade romana de Bolonha [82]. 120 Magini escreve carta a Kepler em 26 de maio de 1610 [83]. Figura 18 – Galileu apresenta o telescópio ao público [81]. 32 Galileu, entretanto, não desistiu. As medidas da variação do brilho aparente de Vênus e Marte, vistos à olho nu, contradizem a teoria copernicana no que diz respeito ao suposto movimento de translação da Terra. De fato, no caso da Terra estar no centro do sistema planetário, pouca deveria ser a mudança vista no brilho desses planetas ao realizarem suas órbitas ao redor da Terra. Bem como era visto e comprovado por muitos astrônomos da época, inclusive o próprio Galileu. Figura 19 – Galileo, pintura a óleo, Jean Huens, 1984 [84]. Reflita e argumente. 13 – Se o telescópio poderia não produzir um retrato verdadeiro do céu, e se as pessoas discordavam daquilo que era visualizado por ele, por que será que Galileu insistia em utilizá-lo em favor do Heliocentrismo? Você considera que essa atitude de Galileu é própria de um cientista? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 33 Em contrapartida, há alguns fenômenos telescópicos que são claramente copernicanos: a variação telescópica no brilho dos planetas está mais estreitamente de acordo com Copérnico do que com os resultados da observação a olho nu. Visto através do telescópio, Marte e Vênus de fato mudam como deveriam mudar segundo a perspectiva copernicana [85]. Ou seja, visto através do telescópio, os brilhos de Vênus e Marte mudavam bastante, como de fato deveriam mudar, de acordo com o modelo heliocêntrico. Note que, durante a revolução anual da Terra, há um determinado momento em que ela estará mais próxima de Vênus e/ou de Marte (como pode ser notado no tradicional alinhamento dos planetas); e há, no outro extremo, um momento caracterizado pela maior distância possível desses planetas. De forma que, numa perspectiva heliocêntrica, quando o planeta estivesse mais próximo à Terra, o seu brilho seria maior, e quando estivesse mais distante (ou seja, do outro lado do Sol), seu brilho seria menor. E isso era, de fato, o visto pelo telescópio. Sagredo – Oh! Nicolau Copérnico, que prazer terias sentido ao ver confirmada com experiências tão evidentes esta parte do teu sistema! Salviati – Sim, o vemos ter continuado a afirmar, guiado pela razão, aquilo que as experiências sensíveis mostravam o contrário: porque eu não posso deixar de surpreender-me que ele tenha constantemente persistido em dizer que Vênus gira em torno do Sol e está afastado de nós mais de seis vezes num caso que noutro, embora se mostre igual a si mesmo, quando deveria mostrar-se quarenta vezes maior. Sagredo – Acredito que em Júpiter, Saturno e Mercúrio devemos ver também as diferenças de seus tamanhos aparentes corresponderem exatamente às variações de suas distâncias [87]. Figura 20 – Rascunhos das distâncias dos planetas durante a revolução anual no manuscrito de Galileu, Itália, 1610 [86]. 34 Assim, os distanciamentos desses planetas à Terra, devido à translação dos mesmos ao redor do Sol, causariam, como de fato causam, uma grande mudança em seus brilhos vistos através do telescópio. Deste modo, a tática de Galileu é apresentar as observações telescópicas em favor da teoria copernicana para sustentar a confiabilidade de seu instrumento. Ao utilizar, de forma conjunta, uma teoria refutada pela experiência e um instrumento sem confiabilidade, Galileu consegue aumentar a credibilidade tanto da teoria quanto do instrumento [88]. Galileu introduz esses fenômenos como evidência independente para Copérnico, embora a situação seja antes a de uma concepção refutada – a ideia de que fenômenos telescópicos são retratos fiéis do céu. Mas essa mudança está em harmonia com as predições de Copérnico. É essa harmonia e não um profundo conhecimento de cosmologia e óptica que, para Galileu, comprova Copérnico e a veracidade do telescópio em assuntos terrestres tanto quanto em assuntos celestes. E é sobre essa harmonia que ele constrói uma concepção inteiramente nova do Universo [89]. Conclua e desenhe... 14 – Com base num esquema, explique como a variação do brilho planetário pode ser relacionada com as distâncias dos planetas à Terra, a partir dos dois sistemas de mundo. | | | | | | | | | | | | | | Sistema geocêntrico Sistema heliocêntrico 35 O estudo do personagem histórico Galileu Galilei buscou analisar as características do desenvolvimento científico evidenciadas pelo filósofo da ciência Paul Feyerabend. Notamos como Galileu, em sua busca por uma nova interpretação do Universo, age de forma anarquista ao romper com os padrões do pensamento filosófico, científico e teológico de sua época. Utilizando a contra-indução, procedimentos irracionais, argumentos contraditórios com a experiência, propagandas e truques psicológicos, Galileu cria uma nova cosmologia e se torna um dos maiores cientistasque já existiu. Ele também paga o preço por sua rebeldia e subversão, mas deixa o seu legado para a história da humanidade. Assim, nossa compreensão caminha numa estrada sem fim, buscando uma ciência que também é cultura. E como bem disse Galileu: “A verdade é filha do tempo, mas a dúvida é o começo da sabedoria”. 15 – A partir do estudo do caso histórico de Galileu, construa uma reflexão pessoal sobre o papel da ciência diante da natureza e as suas consequências para a sociedade. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 36 REFERÊNCIAS [1] Fonte: Medium Brasil <medium.com/brasil/carta-a-paul- feyerabend-18f8da84eb76>. [2] DUTRA, 2010 apud ROZENTALSKI, 2018, p. 59. [3] HELLMAN, Hal. Grandes debates da ciência. Dez das maiores contendas de todos os tempos. SP, Editora UNESP, 1999 (p. 32). [4] Fonte: Biblioteca Digital Mundial <wdl.org/pt/item/4184/>. [5] SILVA, Cibelle Celestino. A natureza dos cometas e o escorregão de Galíleu. Scientific American História, São Paulo, Duetto, n. 6, p. 20-25, 2006 (p. 20). [6] FEYERABEND, Paul K. A Ciência em uma sociedade livre. São Paulo: UNESP, 2011a (p. 52-53). [7] Fonte: Essas e Outras – O modelo geocêntrico de Ptolomeu <essaseoutras.com.br/geocentrismo- heliocentrismo-e-big-bang-teorias-sobre-o- universo/>. [8] SILVA, 2006, p. 22-23. [9] DAMASIO, Felipe. O início da revolução científica. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 33, n. 3, p. 3602-3, 2011 (p. 3602-3). [10] FEYERABEND, Paul K. Contra o método. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2011b (p. 181, 187). [11] Fonte: Biblioteca Digital Mundial. Disponível em: <wdl.org/pt/item/3164/>. [12] SILVA, 2006, p. 25. 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