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UNIVERSIDADE FEDERAL DO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA CURSO DE LICENCIATURA EM MÚSICA ANA CLARA DA SILVA PONCIANO JUVENTUDES E MÚSICA NA PERIFERIA: a relação entre hip-hop e formação sociocultural e política na perspectiva de um jovem rapper da cena de Natal-RN NATAL/RN 2022 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA CURSO DE LICENCIATURA EM MÚSICA JUVENTUDES E MÚSICA NA PERIFERIA: a relação entre hip-hop e formação sociocultural e política na perspectiva de um jovem rapper da cena de Natal-RN Trabalho de conclusão do Curso de Licenciatura em Música apresentado à coordenação do Curso de Licenciatura em Música da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de licenciada em Música. Orientador: Dr. Mário André Wanderley Oliveira NATAL/RN 2022 Mário André Wanderley Oliveira 2 Mário André Wanderley Oliveira 3 Mário André Wanderley Oliveira 4 ANA CLARA DA SILVA PONCIANO JUVENTUDES E MÚSICA NA PERIFERIA: a relação entre hip-hop e formação sociocultural e política na perspectiva de um jovem rapper da cena de Natal-RN Aprovada em: ___/___/_____ BANCA EXAMINADORA: ________________________________________________ Prof. Dr. Mário André Wanderley Oliveira Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Orientador ________________________________________________ Profa. Ma. Yanaêh Vasconcelos Mota Universidade Federal do Ceará - Sobral (UFC-Sobral) Membra da Banca (Externa) ________________________________________________ Profa. Ma. Camila Larissa Firmino de Luna Furtado Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Membra da Banca (Interna) Mário André Wanderley Oliveira 5 AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, à minha mãe, Dona Débora, que nunca mediu forças para permitir que nada faltasse para nós, garantindo a nossa permanência nos estudos e na busca de nossos sonhos. Se hoje estou aqui, foi ela a principal incentivadora de todos os meus planos. Às minhas irmãs, Eloyze e Dayane, que sempre foram a minha fortaleza, juntamente à mainha: a casa das quatro mulheres! Obrigada pelo apoio de sempre, pelos conselhos, a ajuda e a parceria. Nós três sabemos que não foi fácil e agora, mais do que nunca, nossa vida tem passado por uma metamorfose, e para enfrentar todas essas dificuldades, têm sido preciso muita força e união nossa. Aos meus irmãos de coração, Lígia, Thiago e Thalita, que sempre se fizeram presentes em minha vida. Não sei o que seria de mim sem vocês, que foram muito mais família sem precisar de um laço de sangue. É a irmandade! Aos meus amigos, de todos os espaços que faço parte, que me deram todo apoio para seguir com os meus sonhos. Aos que chegaram e me deram fôlego no período inicial da pandemia: Pablo e Ruan, mugiwaras. Obrigada pelas nossas conversas e partilhas! Ao meu lugar de fala, o bairro Bom Pastor, o querido BomPa, em especial para a região do Mereto, onde constitui as melhores amizades, estudei e finquei relações que se mantém até hoje. À Pastoral da Juventude (PJ), meu lugar de felicidade, ao grupo Geração Assis, a minha Betânia, fundamental para o que sou hoje e como me encontro no mundo. Com a PJ descobri o universo das juventudes e a sua importância para a sociedade. Foi por meio dela que pude me inserir nos espaços de formação sócio-política e eclesiais, construindo uma fé cristã que luta pela justiça social. Ao Partido dos Trabalhadores (PT), minha base de formação política e esperança por uma mudança de sociedade na defesa dos direitos e da vida da classe trabalhadora, em especial, às companheiras e companheiros da tendência Articulação de Esquerda, que dividem as trincheiras da luta comigo por uma sociedade socialista. Mário André Wanderley Oliveira 6 Aos meus companheiros de luta, em especial: David, Márcia, Marcela, Ronnan, Flamínio e Dani. À ONG Atitude Cooperação, onde me encontrei com a música, em especial a alguns profissionais que fazem esse projeto acontecer ou que já fizeram parte dessa história: Ronyely Sanderson - meu primeiro professor; Henrique de Menezes; Angelita Kleis; Diego Paixão; Silvana; Pedro Zarqueu; Edmarcos Costa; Adriano Praxedes; Marília; Janaina; Cris e demais colegas. À Orquestra Infanto Juvenil da UFRN, meu primeiro contato com a Escola de Música, por meio da Extensão, fundamental para a minha escolha pelo curso de licenciatura. Ao Jean Mermoz e todos os profissionais que resistem nessa escola, na defesa da educação pública. Agradeço em especial aos professores e gestores: Laís Moura, Cláudio Nascimento, grande incentivador no meu estudo com a música, Seu Francisco, Rita, Fátima Fernandes, Fernanda Faustino, Fernanda Moura, Luzia e Terezinha, Herbert, Araken, Wilson e demais profissionais. Ao Grupo de Estudos e Pesquisa em Música - GRUMUS, um laboratório de experiências na minha relação com a pesquisa, em especial à professora Tamar Genz Gaulke e ao professor Mário André. Agradeço por todos os momentos de estudos e discussão, propondo uma Educação Musical que encare os dias atuais. Ao professor Agostinho, pelas suas aulas muito enriquecedoras que me fizeram despertar um outro olhar sobre a Educação Musical, com um destaque especial pela Etnomusicologia. Obrigada por todo o incentivo em seus trabalhos com a escrita, oratória e capacidade de análise e discussão. À professora Tamar, responsável pelos meus primeiros passos com a pesquisa. A senhora foi fundamental para o meu desenvolvimento acadêmico-científico e conexão com o tema deste estudo. Obrigada pela oportunidade! Ao meu orientador, Mário André, por todo apoio e confiança neste processo de pesquisa. Obrigada pelas contribuições e por acreditar no propósito deste trabalho. Ao meu companheiro, Felipe Ramos, que se fez presente nos momentos mais difíceis na elaboração deste trabalho. Obrigada por ser apoio, carinho e conforto! Mário André Wanderley Oliveira 7 A todos os que se propõe a fazer uma Educação Musical não hegemônica conectada com a realidade. A todos que contribuíram de alguma maneira para o êxito deste trabalho. Ao colaborador desta pesquisa, aqui intitulado como KL, pelo interesse e disponibilidade em relatar a sua vivência com o hip-hop. A todos os que fazem a cena do hip-hop natalense acontecer, vocês são exemplos de luta e resistência através da arte. Me admira a garra de todos esses jovens e os que já compõem a cena há mais tempo, que se propõe a fazer uma música contra-hegemônica, que denuncia todas as injustiças e valoriza a quebrada. À todas as quebradas de Natal, as periferias que resistem e existem, em meio ao descaso do poder público. Aos meus amores, não-humanos, que sempre me esperam no final da noite quando chego cansada do dia a dia, Totó e Pretinha (em memória). Ao divino, meu bom Deus, que me deu forças para continuar nessa trajetória, mesmo diante de todas as dificuldades. Mário André Wanderley Oliveira 8 É muito fácil fugir, mas eu não vou Não vou trair quem eu fui, quem eu sou Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim Ensinamento da favela foi muito bom pra mim. (Fórmula Mágica da Paz - Racionais MC’S) Mário André Wanderley Oliveira 9 RESUMO PONCIANO, Ana Clara da Silva. JUVENTUDES E MÚSICA NA PERIFERIA: a relação entre hip-hop e formação sociocultural e política na perspectiva de jovens rappers da cena de Natal-RN. 2022. 87 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação). Escola de Música. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2022. Este trabalho tem como tema a dinâmica identitária de juventudes periféricas a partir de suas relações com movimentos artístico-culturais contemporâneos. Para tanto, toma como objeto de estudo a perspectiva de um jovem da cena hip-hop natalense, a fim de compreender o papel da música no processo de construção de sua identidade sociopolítica e cultural. A pesquisa tem abordagem qualitativa, configurando-se como um estudo de caso com a adoção de duas técnicas de coleta de dados: levantamento documental eentrevistas semiestruturadas. Os resultados evidenciam uma forte inter-relação entre o engajamento do colaborador com o hip-hop e sua formação sociopolítica e cultural, indicando uma indissociabilidade entre a formação musical no âmbito desse movimento e outros aspectos da formação geral do colaborador. É esperado que este estudo contribua com a produção de conhecimento sobre hip-hop no âmbito da música, bem como com políticas institucionais que contemplem esse movimento na formação inicial de professores de música. Palavras-chave: Juventude; Hip-Hop; Formação sociopolítica. Mário André Wanderley Oliveira 10 ABSTRACT PONCIANO, Ana Clara da Silva. JUVENTUDES E MÚSICA NA PERIFERIA: a relação entre hip-hop e formação sociocultural e política na perspectiva de jovens rappers da cena de Natal-RN. 2022. 87 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação). Escola de Música. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2022. This work has as its theme the identity dynamics of peripheral youth stem from their relations with contemporary artistic-cultural movements. For this, it takes as its object of study the perspective of a young man from the hip-hop scene in Natal, to understand the role of music in the process of building his sociopolitical and cultural identity. The research has a qualitative approach, being configured as a case study with the adoption of two data collection techniques: documental survey and semi-structured interviews. The results show a strong interrelation between the collaborator's engagement with hip-hop and his sociopolitical and cultural background, indicating an inseparability between musical education within this movement and other aspects of the collaborator's general education. It is expected that this study will contribute to the production of knowledge about hip-hop in the field of music, as well as to institutional policies that contemplate this movement in the initial formation of music teachers. Keywords: Youth; Hip-Hop; Sociopolitical background. Mário André Wanderley Oliveira 11 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 11 2. JUVENTUDE(S), PERIFERIA(S) E EDUCAÇÃO(ÕES) MUSICAL(IS) 15 2.1. Conceitos de juventude(s) 15 2.2. As juventudes nas periferias de grandes centros urbanos 23 2.3. A pluralidade da/na Educação Musical e o seu papel na construção de identidades 40 3. METODOLOGIA 50 3.1. Escolha da abordagem, do método e do campo empírico 50 3.2. Instrumentos e técnicas de produção e análise de dados 51 3.3. Princípios, procedimentos e decisões de natureza ética 53 4. CARACTERIZAÇÃO DO COLABORADOR E DO SEU CONTEXTO DE ATUAÇÃO 56 4.1. Caracterização do contexto de atuação do colaborador 56 4.2. Caracterização do colaborador 60 5. A PERSPECTIVA DO COLABORADOR SOBRE A MÚSICA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE SUA IDENTIDADE 62 5.1. KL: “a batalha, querendo ou não, foi uma mãe pra mim no hip-hop” 62 5.1.1. A relação com a periferia 62 5.1.2. A relação com o hip-hop 65 5.1.3. Rap, trabalho e renda 70 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 76 REFERÊNCIAS 81 APÊNDICE 87 Apêndice A – Termo de consentimento livre e esclarecido 87 Apêndice B - Roteiro de entrevista 88 Mário André Wanderley Oliveira 12 1. INTRODUÇÃO Este trabalho tem como tema a dinâmica identitária de juventudes periféricas a partir de suas relações com o movimento Hip-Hop. Para tanto, toma como objeto de estudo o caso de um jovem da cena hip-hop natalense, a fim de compreender o papel da música no processo de construção de sua identidade sociopolítica e cultural. Partindo desta perspectiva, pretendo discutir a relação que um jovem tem com o seu local de moradia e de que maneira a sua música influencia no sentimento de pertencer a esse lugar - periferia - e nele existir e resistir. A motivação para realizar este estudo surgiu durante a disciplina de Pesquisa em Música, no terceiro semestre da graduação de licenciatura, no qual elaborei um projeto a respeito da música de periferia e a construção da identidade dos jovens, com enfoque para os gêneros do rap e reggae. No entanto, o interesse pelo tema das juventudes é anterior ao meu ingresso na licenciatura, sob influência da minha trajetória pessoal e das relações que construí dentro de alguns espaços, que costumo tratá-los como “lugares de felicidade”. Esses lugares também se interligam ao tema, como a Pastoral da Juventude (PJ), na Igreja Católica, os projetos sociais de que faço parte, como a ONG Atitude Cooperação, e nos movimentos sociais como o Partido dos Trabalhadores (PT). Além do mais, elenco de modo especial nessa rememoração, o bairro Bom Pastor, “BomPa”, localizado na zona oeste de Natal-RN, lugar onde resido. Dentro desses espaços, pude conceber a ideia de juventude e o que a envolve de diversas formas, por meio das experiências política, social, cultural, econômica, religiosa e, sobretudo, na minha condição enquanto jovem. Trago comigo algumas memórias recentes que me auxiliam na compreensão do objeto que pesquiso. Durante a adolescência, o meu processo identitário começou a se formar dentro dos espaços que integrei, seja na igreja, no partido, no bairro ou dentro do projeto social com a minha iniciação musical. Foram nesses lugares que pude desenvolver a comunicação, os laços afetivos, a autonomia, o protagonismo e, principalmente, o meu modo de ser e estar no mundo. Considero as juventudes como parcela importante na construção da sociedade em que vivemos, uma vez que possuem a energia necessária para a realização das mudanças sociais demandadas pelo mundo contemporâneo. É dentro da garra e do protagonismo das juventudes Mário André Wanderley Oliveira 13 que podemos vislumbrar novas alternativas para os dias hodiernos. Desse modo, defender esse público, falar do jovem como sujeito de direitos e valorizá-lo são uma das funções primárias quando me proponho a discutir sobre o tema das juventudes do nosso país. A escolha pelo hip-hop e sua música vem como apoio para a minha inquietação com a realidade das nossas juventudes hoje. Já dizia Criolo: “Rap, rap, que energia é essa? Um dom, um karma, uma dívida, uma prece?”. É com apoio dessa força que o rap carrega que tenho me dedicado a estudar as juventudes, pois o rap traz consigo a capacidade de denunciar fatos e apontar questões que são esquecidas pela sociedade. A minha relação com o rap no cenário musical natalense decorre do acompanhamento e admiração de artistas que compõem esse cenário. Nesse sentido, entendo que essa arte pode servir para os jovens como um potencial de acolher seus medos, seus sonhos, suas reivindicações e tudo que possa ser expressado no que se escreve/escuta. Compreendo que, para as juventudes, a principal questão que permeia o início de sua trajetória é: “Quem sou eu?”. Nessa busca pelo reconhecimento de sua personalidade, seus gostos, sua opinião sobre o mundo e seu modo de ser, etc., o jovem passeia por inúmeras questões para chegar à sua identidade. Uma delas, sem dúvidas, é a música. Mediante o exposto, como centro desta pesquisa, pretendo responder ao problema: de que modo as vivências com a música podem contribuir no processo de construção da identidade sociocultural e política de um jovem da cena do hip-hop natalense. Diante disso, trago as contribuições da literatura para embasar os capítulos deste estudo. Ao contextualizar a temática das juventudes, periferias e o movimento hip-hop, busquei autores e campos de estudo que pudessem responder às questões implicadas nestes temas. Menciono a literatura utilizada a partir dos pontos abordados neste trabalho. Durante a revisão bibliográfica, encontrei produções que tratavam da “Concepção de Juventudes”, dentro da perspectiva plural, bem como a discutiam considerando aspectos históricos e de desenvolvimento da sociedade. Também tratavam dos aspectos particulares e individuais no processo de construção social do sujeito, além das discussões no que concerne ao papel do ensino-aprendizagem, no âmbito das Ciências Sociais (ABRAMO, 2005; GROPPO, 2004; 2010; ESTEVES, ABRAMOVAY,2008; MACHADO PAIS, 1990); da Psicologia (SOUZA, 14 PAIVA, 2012; SILVA, 2015) e da Educação, com foco na/para Educação Musical (PEREIRA, 2021; SOUZA, FREITAS, 2014; SILVA, 2014). Na discussão conceitual sobre “As juventudes nas periferias de grandes centros urbanos”, utilizei como referenciais os trabalhos de Gonçalves (2013), Trotta (2016), Villaça (2011), Maricato (2001; 2008), Carrenho (2019), Tanaka (2000), Alencar (2008), Simionatto (2009), Barros (2015), Valle (2017), Santos (2009), Gohn (2011) e quando pontuada a aparição de movimentos sociais e urbanos e iniciativas/projetos dentro das comunidades periféricas, me amparei das análises de Kater (2004), Müller (2004), Weiland (2010), como também da inserção do hip-hop a partir de Moassab (2008); Gonçalves (2013); Oliveira (2017); Souza, Fialho e Araldi (2008). No tópico sobre “A pluralidade da/na Educação Musical e o seu papel na construção de identidades” apoiei-me da literatura da área de música que dialogasse também com a temática juvenil, dessa maneira, cito Green (1997); Silva (2002; 2004; 2014); Ilari (2006; 2007); Arroyo (2002; 2009); Costa (2018); Queiroz (2017). Dentro dos princípios teórico-metodológicos que aportam este trabalho, me apoio nas contribuições de alguns autores para compreensão da pesquisa qualitativa (FONSECA, 2002; SILVEIRA; CÓRDOVA, 2009) e seu uso na educação musical (BRESLER, 2007), sobre o método do estudo de caso (GIL, 2007; FONSECA, 2002), e das entrevistas semiestruturadas como técnica de coleta (TRIVIÑOS, 1987; RESENDE, 2016; GUAZI, 2021; BONI; QUARESMA, 2005). No que concerne aos “princípios e procedimentos de natureza ética”, um dos tópicos da metodologia, utilizei como referência o trabalho de Rocha (2021). No tópico da caracterização do espaço de atuação (FREITAS, 2021; ARAÚJO, 2019; SILVA, 2015; GONÇALVES, 2013; MORAIS, 2012; SILVA, 2011) serviram como base para a análise do diagnóstico, contexto social e cultural que permeiam as periferias natalenses. A fim de apresentar de modo sistemático os resultados da investigação orientada por esta questão de pesquisa, esta monografia foi estruturada em seis capítulos, sendo o primeiro esta Introdução. O segundo capítulo, apresenta os trabalhos que compuseram a revisão bibliográfica deste estudo. Inicialmente, discuto as bases teóricas na concepção da(s) juventude(s), considerando perspectivas que, nas discussões ao longo dos anos, envolvem o conceito tornando-o plural. No tópico seguinte, apresento os jovens nas periferias dos grandes centros 15 urbanos, com enfoque para o papel das manifestações culturais, sobretudo o hip-hop, nesse contexto. Ao final, discorro sobre a pluralidade das juventudes e a construção de identidades sob a ótica da Educação Musical, propondo reflexões acerca da importância do ensino de música para os jovens e seu contexto de subalternidade. O terceiro capítulo discute as bases teórico-metodológicas que assentam todas as fases desta pesquisa. De início, exponho as principais características adotadas nesta investigação, da pesquisa qualitativa como abordagem e do estudo de caso, como método. Dando continuidade, relato quais os procedimentos, instrumentos e técnicas de coleta, organização e análise de dados foram escolhidos, quais sejam: entrevistas semiestruturadas e análise documental. Por último, abordo os cuidados e procedimentos éticos norteadores da execução deste estudo, estando em conformidade com um dos princípios fundamentais da pesquisa em ciências humanas. O quarto capítulo apresenta a caracterização do contexto de atuação do colaborador deste estudo, destacando seus aspectos sócio-históricos, econômicos e culturais. Em seguida, faço a caracterização dele com ênfase para o seu perfil e trajetória, de modo a apresentar ao leitor, um parâmetro das vivências contadas pelo participante e sua discussão. O quinto e último capítulo refere-se à perspectiva do colaborador desta pesquisa, em que discutirei os resultados extraídos de seu relato, que se conectam ao tema sobre as juventudes e o processo de construção de identidades. Nele, farei a interlocução entre a vivência do entrevistado com o que diz a literatura sobre hip-hop, jovens e identidades, destacando qual o papel da Educação Musical nessa construção. Por fim, nas considerações finais, retomo o que foi discutido ao longo deste estudo, com ênfase para os resultados que puderam ser encontrados, bem como, dos desafios no que concerne às juventudes, hodiernamente. Destaco, ao final, a Educação Musical e seus desafios na discussão das juventudes e fazeres musicais, de modo a instigar novas produções no campo que insiram não somente o ensino de música na escola, mas sim, além-muros desse espaço formal, integrando outras perspectivas juvenis. 16 2. JUVENTUDE(S), PERIFERIA(S) E EDUCAÇÃO(ÕES) MUSICAL(IS) Neste segundo capítulo, serão abordados, discutidos e analisados os trabalhos que compuseram a revisão bibliográfica deste estudo. Abordo, inicialmente, as bases teóricas que concernem à(s) juventude(s), contemplando diferentes perspectivas que, atualmente, complexificam esse conceito, tornando-o plural. Na sequência, atenho-me à participação de jovens no âmbito sociocultural das periferias dos grandes centros urbanos na contemporaneidade, destacando o papel das manifestações culturais, principalmente o hip-hop, nesse contexto. Por fim, apresento, neste capítulo, com base em revisão de literatura na Educação Musical, perspectivas e reflexões sobre o lugar da música e do seu ensino na construção de identidades juvenis na contemporaneidade, sobretudo no contexto das periferias urbanas. 2.1. Conceitos de juventude(s) As juventudes configuram uma importante parcela da população brasileira e falar delas compreende um amplo universo, acionando relevantes campos de estudo que se dedicam a pensar a realidade destas e seus lugares dentro da sociedade. São esses jovens que enfrentam inúmeros desafios no mundo contemporâneo, que perpassam desde o preconceito geracional até a invisibilidade e negação de direitos e oportunidades a esse público. É nesta etapa da vida que o sujeito juvenil volta-se para algumas questões. O processo de afirmação do seu modo ser, ou seja, de sua identidade, se inicia com grande ênfase. Essa atribuição de sua personalidade é uma construção contínua que passa pelas relações de gostos, afeições, amizades, afetividade, sexualidade, etc., bem como dos contextos sociais, de acesso à educação, moradia, saúde, cultura e outros direitos básicos. Nesse contexto, importa pensar o papel da educação musical ou das educações musicais para a vida das juventudes. O que a área da música tem feito a esses jovens? Quais desafios para os educadores musicais no que concerne ao ensino para a juventude? E, principalmente, qual sentido e que contribuições esses modos de ensinar música estão chegando às juventudes, sobretudo àquelas que se encontram nas periferias do país? Essas 17 questões provocam a reflexão acerca deste estudo e impulsionam a discussão de possíveis caminhos/alternativas. Assim sendo, com o intuito de delinear uma discussão acerca do perfil da juventude atual e sua relação com a música, neste estudo trago contribuições de aporte teórico para pensar a trajetória e identificação do sujeito jovem dentro da sociedade contemporânea. Para tal, como ponto de partida, se define um primeiro conceito: o que é juventude? A concepção do que se entende por juventudes ganhou corpo ao longo da história em um processo de amadurecimento e de metamorfose, seguindo as mudanças histórico-sociais de cada época. Os termos juventude e jovem são discutidos dentro de vários contextos desde o estabelecimento das civilizações. Cassab (2011) traça uma trajetória desses conceitos durante a história, indicando que no império romano já havia uma ideia do que seria o jovem, ainda que com certa disparidade etária. Um exemplo disso consiste em estabelecer a etapa da adolescência dos 15 aos 30 anose da juventude entre 35 e 40 anos, o que “explica-se pela instituição do pátrio poder, pilar da sociedade romana” (CASSAB, 2011, p. 147). Durante a Idade Média, por exemplo, a percepção do que seria juventude se modifica. Vale salientar que ainda que houvesse uma perspectiva juvenil pensada somente pela transição das fases - sem uma análise mais aprofundada como se tem atualmente - nesse período começam a aparecer relatos dessa geração acompanhados da noção de uma juventude imoral e ameaçadora da ordem social. Cassab (2011) reforça: Num caso ou noutro, a juventude, na Idade Média, era frequentemente associada à desordem. Os escritos pintam uma juventude turbulenta, ruidosa, violenta e perigosa. Jovens que não respeitam nada e transgridem a ordem social e moral, desprezando os valores estabelecidos e os mais velhos (CASSAB, 2011, p. 149). Conforme a autora, por volta dos séculos XVIII e XIX em diante, foi se construindo a ideia das juventudes como uma etapa de vida, fomentando o caráter de uma fase passageira com suas particularidades (CASSAB, 2011). Avançando nessa perspectiva, a concepção do jovem é entendida como período de formação e preparação para a vida profissional. 18 Esse é o momento de pensar e se preparar para o futuro, enfrentar as necessidades, manter a vida, poupar recursos, sacrificar os momentos de lazer, tão comuns entre os jovens da Idade Média, em prol dos estudos e do trabalho (CASSAB, 2011, p. 152). Essa discussão acerca das juventudes passa por um processo que surge bem anteriormente. No entanto, como não se trata de uma concepção estática, existem contribuições mais atualizadas para a compreensão do jovem. Dessa forma, serão considerados os estudos no campo da Sociologia, Psicologia e Educação, bem como no que prevê a legislação para abraçar a discussão que abrange as juventudes, pois à luz dessas áreas, é possível vislumbrar os caminhos pelo qual perpassa a temática deste estudo. Para Abramo (2005), na teorização sobre a imagem que se tem das juventudes, é destacado, inicialmente, o discurso desse público como uma etapa problemática. A autora utiliza o termo “Comportamentos de risco e transgressão" para dissertar sobre a ênfase das políticas públicas e iniciativas para os jovens, que consideram um perfil já desenhado com “características de vulnerabilidade, risco ou transgressão (normalmente os grupos visados se encontram na juventude urbana popular)” (ABRAMO, 2005, p. 21). De acordo com Groppo (2004), com o avanço do capitalismo industrial, se propagou o discurso de uma juventude “desregrada, viciada, promiscua, indisciplinada, deliqüente, formadora de bandos criminosos, etc.” (GROPPO, 2004, p. 10). O autor discute sobre os “problemas da juventude” em suas múltiplas situações, revelando, sobretudo, uma preocupação no que concerne à visão do jovem e o mercado de trabalho. Este último ponto, se destaca, por influenciar demasiadamente nos rumos das juventudes, ou de suas concepções. A relação do jovem com o mercado de trabalho aprofunda e traz para o centro das discussões o papel do jovem dentro desse espaço e da sociedade. Ao alimentar a ideia de uma juventude que precisa transitar para a vida adulta e o emprego se configura como essa analogia - de amadurecimento -, se fomenta a estereotipação da juventude como uma fase de preparação para o “futuro”. Ainda que a leitura das juventudes seja enquanto figuras associadas à irresponsabilidade e despreparo, se observa também um movimento em contraponto, que visa 19 acelerar essa fase e dar outras condições e “sérios compromissos” para esse sujeito juvenil, como já mencionada, a emergência pelo ingresso do jovem no mercado de trabalho. Essa discussão trazida envolve uma das questões que permeiam a conceituação de juventudes, para tanto, alguns autores também vêm contribuir com uma análise mais aprofundada e que apresentam uma outra perspectiva do sujeito jovem. José Machado Pais (1990) fala sobre a construção da juventude como categoria, que para ele, é preciso considerar não somente as similaridades desse grupo, mas sim as suas diferenças. Nisso cabe pensar como os diferentes grupos e setores em que as juventudes contemporâneas se inserem, colaboram para a construção empírica desse conceito. O autor reflete essas questões e elenca como “Os Paradoxos da Juventude” os comportamentos dessas diferentes culturas juvenis, que rege os gostos, comportamentos, crenças, perspectivas do futuro, etc. (MACHADO PAIS, 1990, p. 140-141). Ainda nessa perspectiva, Esteves e Abramovay (2008) contribuem para o pensamento sociológico das juventudes, corroborando com a noção de que estas são formadas por distintos grupos juvenis, que constituem um “conjunto heterogêneo, com diferentes parcelas de oportunidades, dificuldades, facilidades e poder nas sociedades” (ESTEVES; ABRAMOVAY, 2008, p. 21). Tê-lo como uma construção social, permite discuti-lo a partir de nuances que a sociedade enfrenta. Em suma, conforme a sociedade passa por mudanças, a categoria juvenil também se move, tendo em vista que se vive em um país que enfrentou duros contextos históricos, econômicos e sociais que influenciaram diretamente na realidade dos jovens brasileiros, que em sua pluralidade, vivenciaram esses períodos de diferentes modos, principalmente considerando as questões de classe, raça, gênero, sexualidade, dentre outras categorias. Groppo (2004) comenta que “na análise social e histórica, é preciso correlacionar a juventude com outras categorias sociais, como classe social, nacionalidade, região, etnia, gênero, religião, condição urbana ou rural, momento histórico, grau de ‘desenvolvimento’ econômico etc.” (GROPPO, 2004, p. 12). Avançando nessa discussão, Souza e Paiva (2012) falam das juventudes com múltiplas faces, que permitem afirmar a pluralidade que essa categoria carrega. Para elas, a seguinte conceituação pode definir o que seria o jovem: 20 Não existe uma concepção social única que caracterize e delimite o grupo geracional no qual os jovens estão inseridos, visto que se trata de uma categoria em permanente construção social e histórica. Assim, cabe falar em diferentes juventudes, que possuem a construção da identidade como questão central, mas que se destacam no imaginário social a partir de múltiplas referências da sociedade. (SOUZA, PAIVA, 2012, p. 353-354). As autoras colocam a construção da identidade como centro da ideia de juventudes, e é nesta perspectiva que se pretende avançar neste estudo. Pois, na formação identitária, o jovem atravessa importantes questões individuais e coletivas - da sociedade - no processo de se encontrar. Contudo, esse caminho não deve ser pensado sem considerar um panorama maior, seguido de uma ordem de fatores que influenciam diretamente nessa formação, como ressaltam as autoras: “percebe-se uma remodelação da representação juvenil, a partir da dicotomia que emerge nas classes sociais; aqui considerado o principal fator que define a pluralidade das juventudes” (SOUZA, PAIVA, 2012, p. 354). De fato, se percebem inúmeras concepções do que seriam as juventudes, que trazem sentidos diferentes, de acordo com os períodos históricos e diferentes opiniões dentro dessa temática. Todavia, há semelhanças nessa conceituação, das quais se destacam a presença de grupos sociais e de relações entre os jovens, as influências desses espaços que fazem parte e principalmente a construção de uma identidade e seu processo na afirmação enquanto sujeito juvenil. Groppo (2010) complementa: Entre as muitas conclusões advindas destas novas concepções, destaca-se a idéia de que as categorias etárias se tornam cada vez mais «estilos de vida». A juventude torna-se uma parte da vida humana que constitui uma identidade cultural própria, muito mais que uma «fase» passageira (GROPPO, 2010, p. 14). Cabe ressaltar, ao passo que essas discussões avançaram na sociedade, as conquistas almejadas, entraram no âmbito das políticas públicas e garantia de direitos para a categoriajuvenil. Na legislação, se tem um marco na história e luta das juventudes, que foi o seu reconhecimento mediante um documento próprio que compreendesse as particularidades e necessidades individuais a serem amparadas. 21 O Estatuto da Juventude (2013) define como jovens os indivíduos entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade. O documento assegura que: “O jovem tem direito à participação social e política e na formulação, execução e avaliação das políticas públicas de juventude" (BRASIL, 2013). Além de garantir direitos básicos de promoção à saúde, educação, segurança, trabalho, cultura, moradia, igualdade, dentre outros. Dentro dessa classificação etária, se atenta para algumas questões, uma vez que dos 15 aos 18 anos, o jovem encontra-se no período da adolescência, a qual é prevista dos 12 aos 18 anos não completos. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA (1990), como reforça Silva (2015): “Cabe ainda fazer distinção entre os adolescentes e os jovens, considerando que os indivíduos entre 15 e 18 anos possuem demandas específicas, principalmente da ordem da proteção integral” (SILVA, 2015, p. 24). Portanto, existem necessidades direcionadas para cada público de idade dentro do que se determina como jovem. É função do âmbito político pensar, elaborar e promover políticas públicas, medidas de incentivo e garantia de direitos para a população juvenil. Sobretudo, com a presença dos jovens dentro desses processos, que lhes dizem respeito. Juventudes que sempre foram deslegitimadas em sua condição, mas que por outro lado assumiram postura autônoma e com certo protagonismo em determinadas situações, puderam influenciar no curso da história e na trajetória de sua categoria, alcançando assim o reconhecimento pleno e com a garantia como sujeitos que precisam ser tidos imbuídos de direitos e oportunidades. A educação musical, no que concerne ao conceito de juventudes, apresenta algumas noções, pensadas a partir da sala de aula e de outros espaços formais e não formais de ensino, que auxiliam no entendimento dessa questão geral. Em consonância com o exposto neste texto de outros campos de estudo, se chega à conclusão de que “a juventude não se constitui por uma identidade universal própria” (PEREIRA, 2021, p. 69). No entanto, não foram encontradas, na área, conceituações evidentes acerca das juventudes, e em muitas produções essa temática aparecem dentro do contexto da sala de aula, mas com pouco aprofundamento epistemológico. Ainda, há a presença de textos de cunho antropológicos dentro da educação musical, mas que não se chegam a uma discussão adensada sobre a questão juvenil. 22 É reforçado o termo “juventudes” no plural com o propósito de abarcar as diferentes formas de ser jovem para então poder discutir o que envolve esses sujeitos e se tratando do ensino de música, este não pode se desmembrar dessa ideia, mas sim, conectar essa perspectiva juvenil dentro da proposta educacional. Souza e Freitas (2014) discutem que as juventudes não devem ser tratadas no singular, sobretudo em seus modos de ser e viver, pois “são práticas construídas socialmente e relativas ao tempo e cenário históricos nos quais acontecem” (SOUZA; FREITAS, 2014, p. 59). Essa ideia dá aporte para afirmar a juventude enquanto categoria sócio-histórica, compreendendo que a música tem um papel fundamental dentro do processo de reconhecimento desse conceito, pois ela age, juntamente a outros campos, dentro da construção dos jovens. Como uma definição do termo “juventudes”, Souza e Freitas (2014) traçam um entendimento. Para elas: Na concepção das abordagens socioculturais juventude deve ser entendido no plural, visto que os jovens travam relações em espaços sóciohistóricos diferentes, constroem percursos identitários que são embasados por diferentes valores, crenças e concepções que mudam constantemente, o que permite dizer que eles vivenciam uma pluralidade de trajetórias individuais e sociais, que não são nem universais e nem padronizadas (SOUZA; FREITAS, 2014, p. 64). A música, desse modo, detém certa importância para o percurso dos jovens, pois, assim como ela atribui sentido na vida de qualquer indivíduo, em suas múltiplas formas de se manifestar, para as juventudes, é significativa em muitos de seus processos, sobretudo identitários e de relações grupais. As autoras também destacam a presença de alguns critérios como “geração, gênero, raça e classe social” (SOUZA; FREITAS, 2014, p. 60) nessa classificação. Elas falam dessas categorias como determinantes para o tipo de jovem que se pode encontrar, haja vista, que essas questões influenciam demasiadamente na construção de um perfil juvenil, assim como, permitem uma análise das semelhanças, diferenças, de grupos e de como as relações se constituem por intermédio desses fatores. 23 Nessa discussão, Pereira (2021) reforça como são vistos os jovens e aponta para uma reflexão acerca da afirmação do termo juventude: Além de invisibilizados na palavra juventude, há outras pré-noções que dificultam a compreensão dos jovens, em especial a visão do jovem como “o futuro”, como “uma fase de transição”, roubando-lhe o direito de ser no presente (PEREIRA, 2021, p. 70). Com apoio das considerações do autor, é reforçada a necessidade do jovem no presente, compreendendo que o pensamento desse período como uma fase passageira, deslegitima a capacidade das juventudes comporem o hoje, como agentes ativas em todos os âmbitos da sociedade. Assim, condicionam esses sujeitos a não se colocarem em lugares de protagonismo e autonomia, mas a viverem um papel social de invisibilidade e dependência do que é posto para a sua condição. Dentro dessa perspectiva da identidade, a música pode ser entendida como um elo que une algumas questões que perpassam os processos pelo qual os jovens vivenciam. Souza e Freitas (2014) dissertam sobre a importante relevância da música na construção de relações sociais pelos jovens. Entendendo a música como uma espécie de mídia, em conformidade, as autoras falam: Constitui-se assim um cenário fundamental para que sejam criadas identidades através destas similitudes compartilhadas. Dessa forma, o “jovem” passa a identificar-se com outros, e um dos aspectos que daria esta visibilidade para haver a identificação seria o ter e saber usar bem os artefatos tecnológicos. Derivado disto, então, os conteúdos veiculados por tais artefatos que têm uma importância crucial. Esta importância manifesta-se, por exemplo, no caso da música, ao ser veiculada e partilhada via mídia, revelar seu significado emocional, em especial se ela for positivamente percebida e sentida. Esse processo acaba por potencializar o sentimento de pertença e o efeito de agregação e de referência de pares, mesmo que isso se dê no mundo virtual, o que contribui para um “mundo em comum” que passa a ser vivido e compartilhado [...] (SOUZA; FREITAS, 2014, p. 72). Ainda como contribuição da educação musical para discutir as juventudes, Helena Lopes da Silva (2014) em seu texto relaciona a questão juvenil com a escola básica e fala da 24 “importância das práticas e dos saberes musicais não formais protagonizados pelos jovens e para a urgência da compreensão, valorização e inclusão desses na escola regular” (SILVA, 2014, p. 127). Importa reforçar a figura dos jovens como protagonistas nos espaços em que estão inseridos e torná-los participativos, especialmente no que se refere ao ensino de música, pois, ela tem a capacidade de despertar o potencial artístico e criativo do sujeito jovem e esse processo importa na análise dos comportamentos e das características juvenis. Em síntese, se compreende que para a educação musical, a concepção sobre juventudes dialoga com o que as outras áreas, têm discutido de juventudes referenciadas no plural, com particularidades e necessidades bem específicas, com grupos e relações sociais, que constroem seus perfis e identidades. Entretanto, se propõe um desafio no papel do professorde música, que precisa voltar-se para os jovens com uma nova perspectiva, que inclua, ouça e dê liberdade para que essa categoria possa participar ativamente do que envolve o ensino-aprendizagem em música e isso se concretiza quando se dá a oportunidade e se auxilia na construção da autonomia desses sujeitos. Acrescenta-se ainda o desafio de pensar as juventudes de modo mais aprofundado, entendendo como, na contemporaneidade, assim como, no decorrer da história, a música deteve função em suas trajetórias. Dessa maneira, a educação musical precisa avançar e ampliar os estudos acerca dos jovens e sua relação com a música para então entender e propor uma relação da educação musical com a ótica das juventudes. 2.2. As juventudes nas periferias de grandes centros urbanos Enquanto isso, o cidadão comum se sente ridículo Não encontra paz no versículo Batendo de porta em porta, debaixo do braço, um currículo [...] (Black Alien - From Hell do Céu) Longos debates são travados quando se trata de uma conceituação sobre as juventudes brasileiras, que perpassam pela compreensão de suas pluralidades, pelos perfis 25 desses sujeitos juvenis, seus direitos e o seu potencial transformador da sociedade, além do papel dos jovens dentro do curso da história. No entanto, interessa neste estudo aprofundar em uma discussão sobre questões ainda mais delicadas, que condiz ao contexto das juventudes inseridas dentro das periferias do país. As juventudes dentro das periferias dos centros urbanos compreendem mais que uma categoria a ser analisada socialmente de modo específico. Elas são uma parcela da população juvenil no geral, com um perfil de grande relevância para entender os jovens e sua concepção majoritária, tendo em vista as condições de vulnerabilidade e risco em que se encontram, além de particularidades do seu cotidiano e localidade. Para tanto, se traz algumas provocações a este debate, a autora Julimar da Silva Gonçalves (2013) em sua tese de doutorado aborda o rap dentro das juventudes periféricas da cidade de Natal-RN. Ela traça uma reflexão sobre o que se tem falado dos jovens e da periferia e questiona algumas faltas por parte da sociedade no que se refere aos direitos e garantia da promoção de vida e a ineficiência destes quando se fala da realidade de jovens periféricos. Por exemplo, se a juventude é uma fase entre a infância e a vida adulta (a fase definida para o trabalho), que exige investimentos em educação, o que se diz da precariedade das instituições educacionais, das periferias urbanas, que não alcançam as necessidades dos jovens estudantes porque os conteúdos não são contextualizados com o vivido de cada especificidade juvenil? Ou ainda da criança que realiza um trabalho, fato que não condiz com a sua condição biopsicossocial, para ajudar na renda familiar? Sendo a juventude vista como etapa problemática e, por isso, formuladas políticas públicas e sociais para resolver seus problemas, o que dizer sobre os jovens pertencentes aos centros urbanos que são vítimas de mortes devido às “causas externas”, ou seja, homicídios, de acordo com diagnóstico apresentado pelo Mapa da Violência de 2012? Ainda, se a juventude é vista como ator estratégico para o desenvolvimento, quais as ações geradoras de canais efetivos de participação dos jovens estão sendo efetivamente constituídas? Quais e por quem são apresentadas as propostas para o desenvolvimento social? E quais atores possuem voz ativa na construção desse desenvolvimento? (GONÇALVES, 2013, p. 36-37). Essas reflexões da autora impulsionam essa discussão, enfatizando principalmente o papel das juventudes e sua participação dentro da sociedade. Todavia, antes de focar em uma 26 discussão mais analítica sobre a condição das juventudes periféricas, se questiona, de início, o que se entende por periferia, qual a sua conceituação e o que a define no geral. Desse modo, algumas autoras e autores vêm contribuir para este saber. Aparecem algumas ideias no discurso sobre as periferias que se cruzam com o seu concebimento, como a noção dessa realidade como um espaço de “falta” (TROTTA, 2016), dentro de uma perspectiva da escassez, da pobreza, da ausência de algo - políticas, oportunidades, direitos, etc. Trotta (2016) descreve um conceito para as periferias. Para ele: Periferia é uma metáfora geográfica que se refere a todo um conjunto de práticas e valores que circundam o universo popular. Incorpora tanto os habitantes de áreas marginalizadas das grandes cidades quanto suas práticas de consumo, seus produtos, gostos e estilos de vida. Fortemente atravessada por uma interpretação do popular e do periférico como construções operadas a partir da “falta” (TROTTA, 2016, p. 89). A constituição das periferias também pode ser entendida a partir de uma análise histórica e social, considerando questões que implicam diretamente na formação das cidades brasileiras. Villaça (2011) aborda, no campo da geografia, a questão da segregação urbana e a desigualdade e como esta influi na concepção do espaço social. Ele reforça que: No caso das metrópoles brasileiras, a segregação urbana tem uma outra característica, condizente com nossa desigualdade: o enorme desnível que existe entre o espaço urbano dos mais ricos e o dos mais pobres. Transferido para o campo do urbano, a premissa dada passa a ter o seguinte enunciado: nenhum aspecto do espaço urbano brasileiro poderá ser jamais explicado/compreendido se não forem consideradas as especificidades da segregação social e econômica que caracteriza nossas metrópoles, cidades grandes e médias (VILLAÇA, 2011, p. 37). A reflexão que o autor traz, ressalta um ponto crucial na discussão sobre o contexto das periferias, que é a desigualdade social. Grande parte da população periférica é formada por pessoas de condições socioeconômicas mais baixas e um estudo feito pela parceria do Instituto Locomotiva com a Central Única de Favelas - CUFA e a UNESCO, apresentou alguns dados sobre a população periférica do Brasil. Segundo a pesquisa, realizada no ano de 27 2020, dos 210 milhões de brasileiros, cerca de 165 milhões são das periferias e das classes mais baixas “C”, “D” e “E” .1 Esses dados vão além quando se discute o contexto brasileiro no geral, de um país formado com base na desigualdade, como afirma Maricato (2008): “A desigualdade trazida pela globalização aprofunda e diversifica a desigualdade numa sociedade historicamente e tradicionalmente desigual” (MARICATO, 2008, p. 188). Compreende-se então que a história do país foi marcada por forte dominação e exploração, tornando esta nação um território com pouco desenvolvimento e grande dependência. No entanto, não somente o Brasil, como todo o continente latinoamericano, foi alvo de uma colonização forçada que extraiu toda a riqueza material e, sobretudo, histórica e cultural dos países. Maricato (2008) reforça: Na América Latina a desigualdade social é resultado de uma herança de cinco séculos de dominação externa que se combina, internamente, a elites que têm forte acento patrimonialista. As características do patrimonialismo poderiam ser sucintamente descritas como as seguintes: a) a relação de favor ou de troca é central no exercício do poder; b) a esfera pública é tratada como coisa privada e pessoal; c) existe correspondência entre detenção de patrimônio e poder político e econômico (MARICATO, 2008, p. 190). Destarte, essa trajetória de subordinação deixou inúmeros estigmas para a população pobre brasileira, como a legitimação da pobreza e a naturalização da vida em condições degradantes; o crescimento da segregação, afastando as periferias de todo o “avanço” propiciado pelo mundo globalizado e de todo um contexto de distanciamento no geral que impediu o acesso dos moradores das comunidades às condições básicas para uma dignidade de vida. Carrenho (2019) discute: A realidade de vulnerabilidades e desigualdades sociais, anteriormente apresentada, apesar de estar diretamente relacionada ao tipo de atuação do Estado,é, de modo inverso, associada enfaticamente aos próprios moradores das periferias enquanto responsáveis pela própria condição de precariedade, seja pela compreensão comum, seja pelo discurso das grandes mídias e 1 O MERCADO DA MAIORIA, PERIFERIA E DIVERSIDADE COMO ESTRATÉGIA DE NEGÓCIO. Instituto Locomotiva. Disponível em: <https://ilocomotiva.com.br/estudos/> . Acesso em 28. Abr. 2022. https://ilocomotiva.com.br/estudos/ 28 meios de comunicação de massa, seja até pela produção do conhecimento científico (CARRENHO, 2019, p. 66). A figura do Estado é conhecida pelos moradores das periferias justamente pela sua ineficácia, pois não produz resultados concretos e edificantes para as comunidades. A não garantia de serviços básicos como educação, saúde, moradia, trabalho e renda, segurança, etc., formam uma população desassistida, que busca soluções na informalidade, nas condições precárias de trabalho ou em casos ainda mais agravantes de pessoas que passam a habitar as ruas por falta de moradia ou pedem alimentos de casa em casa em busca de algo que lhes possa servir de sustento. Giselle Tanaka (2000) discute os processos que levaram à esse entendimento e disserta sobre a relação Periferia e Estado e como este atua. Tanaka (2000) comenta: A ação do Estado aparece em dois níveis neste processo. Na regulamentação o Estado define exigências legais para o loteamento regular. Quanto maiores as exigências, maior o custo do empreendimento regular e menor a parcela da população capaz de pagar por ele, e é portanto impulsionado o processo de produção do loteamento clandestino, voltado para as camadas de menor renda da população, nos termos descritos (TANAKA, 2000, p. 59). E historicamente, as periferias se constituíram dessa maneira, com a construção de casas em locais inadequados e de forma irregular, sobretudo em regiões de alto risco estrutural, sem a supervisão e o apoio por parte do poder público. Segundo Maricato (2001): As localizações das favelas se dão mais freqüentemente em áreas ambientalmente frágeis: beira de córregos, fundos de vales inundáveis, áreas de mangues, encostas íngremes, áreas de proteção ambiental, entre outras. De fato há uma aparentemente estranha coincidência entre a localização das favelas e os recursos hídricos, que são, em geral, protegidos por lei (MARICATO, 2001, p. 2). E quando se tem uma parcela da população vivendo em condições degradantes e sem exercício pleno do Estado, são acentuadas algumas questões que merecem destaque. Crescem, em contrapartida, inúmeras problemáticas que desencadeiam questões estruturais de difícil reversão, como a falta de acesso à educação e os seus efeitos para o desenvolvimento de 29 crianças e jovens, assim como as configurações familiares existentes nas periferias, haja vista a realidade de muitas mães e pais, avôs e avós, etc., que não aprenderam a ler e escrever, e alguns sequer frequentaram a escola ou ainda contextos de abandono escolar e outros déficits educacionais. A questão da família merece um destaque, considerando a importância desse núcleo para o desenvolvimento dos jovens, em qualquer dos aspectos de sua formação, pois este detém grande papel social, econômico e moral dentro da sociedade. Alencar (2008) contribui para esse pensamento, abordando a família e os impactos socioeconômicos para sua manutenção. A autora comenta que: A família põe em evidência a multiplicidade de possibilidades e experiências de vida, organizadas pelos indivíduos com vistas à reprodução biológica e social. Se o desemprego, o trabalho desqualificado e as remunerações insuficientes estruturam o cenário potencial de precariedade de vida, é na família que essas condições adquirem materialidade e são transformadas, delineando o modo como as situações adversas, relacionadas à pobreza, se inscrevem no cotidiano familiar (ALENCAR, 2008. p. 63). O aumento da evasão e abandono escolar, assim como o descaso das condições da escola básica, acompanha uma realidade cruel no dia a dia das periferias, sobretudo entre o público infantojuvenil. De acordo com dados da UNICEF , cerca de 820.706 crianças e2 adolescentes entre 4 e 17 anos estão fora da escola e boa parte desse número são moradores das periferias (UNICEF, 2021, p. 24).3 Conforme a “Síntese de Indicadores Sociais 2019” realizada pelo IBGE, a não frequência e abandono escolar são provenientes da questão de renda entre as famílias mais pobres, sendo entre os jovens o número mais expressivo. São 11,8% de jovens de 15 a 17, equivalente a um total de 1,2 milhões de pessoas que não tem mais acesso à escola devido a desistência (IBGE, 2019, p. 79). 3 CENÁRIO DA EXCLUSÃO ESCOLAR NO BRASIL UM ALERTA SOBRE OS IMPACTOS DA PANDEMIA DA COVID-19 NA EDUCAÇÃO. Unicef. Abril, 2021. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/media/14026/file/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil.pdf>. Acesso em: 04. maio. 2022. 2 FUNDO DE EMERGÊNCIA INTERNACIONAL DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA. https://www.unicef.org/brazil/media/14026/file/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil.pdf 30 Percebe-se a urgência do direito básico da educação e de como ela ultrapassa a vida das juventudes. Os jovens estão mais propensos à desistência escolar, uma vez que inúmeras outras questões permeiam as suas trajetórias, como a urgência pela entrada no mercado de trabalho com a noção do jovem com capacidade para complementar muitas vezes a renda mensal de sua família. No avançar da discussão, Carrenho (2019) aborda o modo com que as comunidades periféricas são vistas e sua concepção reproduzida tanto por veículos da mídia, como pela construção do discurso na sociedade. A estereotipação do sujeito periférico atrelado aos contextos de vulnerabilidade forma uma concepção enviesada pelo preconceito e discriminação dos moradores das periferias. As comuns perspectivas sociais estereotipadas acerca das periferias estruturam-se por estigmas que se têm sobre essas comunidades: pela estética da pobreza, pela estética da fome, pela estética da violência urbana, pela estética da falta de higiene, pela estética dos barracões e das “barraqueiras” (referência às mulheres das periferias). As quais se reproduzem pelo modo como as periferias são retratadas no discurso das mídias dominantes, nos filmes, nos programas televisivos, nas novelas e, por fim, no senso comum e até mesmo no discurso de muitos representantes políticos brasileiros e nos sentidos que orientam determinados tipos de intervenção policial, missionária religiosa, e também de projetos sociais nessas áreas (CARRENHO, 2019, p. 67-68). O diagnóstico do perfil dos habitantes das periferias das grandes metrópoles, evidencia pessoas de classes subalternas, pobres, em sua grande maioria negras e negros, em contextos familiares de alta vulnerabilidade, em situações de risco com crescimento e influência da criminalidade na região. Em contrapartida, há uma busca pela fuga de um imaginário estereotipado, propagado pela sociedade sobre os moradores de periferia, como sendo “‘bandidos’, ‘criminosos’, ‘ladrões’, ‘traficantes’, ‘sem cultura’ ou ‘sem acesso à informação’” (CARRENHO, 2019, p. 70). Assim, os jovens assumem uma posição contra-hegemônica na busca da legitimação de seus direitos e trajetórias. Eles reconhecem a sua condição de subalternidade e lutam para “superar o silenciamento e o ensurdecimento, socialmente determinados, de suas vozes, de 31 suas estéticas, de suas histórias, memórias e realidades cotidianas: por uma nova ideia de estética periférica” (CARRENHO, 2019, p. 68). Em suma, o contexto subalterno passa da dominação para a afirmação e o sujeito periférico assume sua condição e a defende, então, as juventudes que moram nas periferias, se reconhecem nessa perspectiva e desse movimento surge o pertencimento social. A medida que aumenta o grau de vulnerabilidade, se percebe que algumas questões são aprofundadas, como aponta Silva (2015): Para toda a juventude de 15 a 29 anos, temas gerais como o enfrentamento à violência, aoracismo, ao preconceito geracional, ao abuso e exploração sexual e as condições de trabalho não decentes são questões que perpassam, independentemente de sua idade, em maior ou menor intensidade, a depender das condições socioeconômicas de cada jovem (SILVA, 2015, p. 26). Para entender a importância da quebra desse discurso estereotipado veiculado na sociedade sobre a população periférica, sobretudo, no que se refere às juventudes, dados estatísticos podem explicar como isso tem efeitos reais sobre a vida dos jovens. Cita-se o aumento dos casos de violência contra a população juvenil, tendo como alvo principal os jovens negros na periferia e esta é uma das principais causas de morte entre jovens no Brasil. Conforme dados do Atlas da Violência 2021, em estudo feito no ano de 2019 pela UNODC ,4 foi confirmado que a mortalidade por violência no mundo têm sido causadas, a maioria por decorrência do aumento da criminalidade e da morte por armas de fogo. Com efeito, no Brasil a violência é a principal causa de morte dos jovens. Em 2019, de cada 100 jovens entre 15 e 19 anos que morreram no país por qualquer causa, 39 foram vítimas da violência letal. Entre aqueles que possuíam de 20 a 24, foram 38 vítimas de homicídios a cada 100 óbitos e, entre aqueles de 25 a 29 anos, foram 31. Dos 45.503 homicídios ocorridos no Brasil em 2019, 51,3% vitimaram jovens entre 15 e 29 anos. São 23.327 jovens que tiveram suas vidas ceifadas prematuramente, em uma média de 64 jovens assassinados por dia no país (IPEA, 2021, p. 27). 4 Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime - uma das agências especializadas da ONU, criada em 1997. 32 Esses acontecimentos, ditos, isolados têm sido cada vez mais recorrentes, gerando uma rotina imersa pelo medo e aflição no dia a dia das periferias e não só o contexto da criminalidade tem responsabilidade sobre essas fatalidades, como também a ação repressiva por parte dos policiais mostra-se como uma das principais causas do genocídio de jovens na periferia, diante da atuação da polícia com pouca cautela e alto teor de violência. Barros (2015) em seu artigo “A formação da barbárie e a barbárie da formação: a lógica por trás do treinamento da PM” traz falas de profissionais da segurança pública, assim como de estudiosos no que concerne ao tema da polícia e desmilitarização e reflete para como a formação de policiais carrega inúmeras problemáticas, promovendo uma atuação violenta e repressiva. A polícia quando entra nas periferias, segue um protocolo violento que não considera o respeito e cuidado para com a vida da população, e muitas vezes com a intenção evidente de cometer tal violência, a qual já ocasionou em grandes tragédias e vítimas da mão da polícia. Conforme Valle (2017): “No caso dos homicídios, a inclusão do termo ‘crimes com características de execução’ caberia em muitos dos relatos policiais, o que ajudaria a desmistificar a ideia de que tal violência é aleatória e não fruto da intenção prévia de matar” (VALLE, 2017, p. 25). Dessa maneira, tal mecanismo de Estado que deveria promover a segurança e bem estar da população acaba por se tornar uma das ameaças para a manutenção da vida, perdendo assim a referência de proteção dentro da sociedade, sobretudo nas periferias. Essa atuação truculenta partindo das polícias são um dos principais efeitos de uma questão ainda mais agravante que confere na dizimação da vida das juventudes, principalmente para a juventude negra. O genocídio da população negra é fruto de um processo histórico-racista que sempre colocou negras e negros enquanto minorias e sinônimos de termos pejorativos; que inferiorizou sua condição e lhes negou oportunidades de ingresso dentro da sociedade. Conforme dados da pesquisa da CUFA em conjunto com o Instituto Locomotiva (2020), 52% dos brasileiros respondentes acreditam que a polícia é muito racista. Acolhendo o relato de pessoas negras e brancas no estudo, 42% de homens negros de baixa renda afirmam terem sido desrespeitados pela polícia durante alguma abordagem, enquanto 34% de homens brancos de classe baixa relatam o mesmo. Os dados também chamam atenção mais 33 uma vez para, além da questão racial explícita, a pobreza dentro desse contexto, sendo grande maioria moradores das periferias. É evidente que a maioria dos negros e negras compõe a população periférica brasileira. “Em geral eles são mais pobres, o número de negros e de mães solteiras é maior do que a média da cidade” (MARICATO, 2001, p. 1). Ou seja, delineando um perfil majoritário dos habitantes das periferias, as relações econômicas, raciais e territoriais são enfatizadas. Disso, compreende-se que a segregação das periferias não ocorre somente pelos aspectos territoriais, como também pelo preconceito e rejeição criados sobre essa população (MARICATO, 2001, p. 1). É nesse preconceito enraizado que se manifestam inúmeras ações, sobretudo por parte do poder público, que não compreendem a realidade da juventude negra e pelo contrário, reforçam a discriminação e desigualdade de acesso e oportunidades. Essa questão já é fruto de debates há alguns anos e acarretou, inclusive, em ações com o propósito de denunciar e trazer a importância para a defesa da vida das juventudes. A Pastoral da Juventude (PJ), da Igreja Católica, no ano de 2008, lançou uma campanha intitulada “Chega de Violência e Extermínio de Jovens” . Diante dos altos índices5 de violência contra a população juvenil, se viu a necessidade de manifestar e denunciar os constantes ataques às juventudes, evidenciando o contexto de violência contra os jovens. A campanha contou com apoio de inúmeras instituições e grupos que discutem e defendem a questão das juventudes. Essas condições surgem em contrapartida, ao passo que dentro das periferias é vivenciado o descaso diário e fruto de anos da história, no tocante à formação das cidades brasileiras. O abandono por parte do poder público é percebido na falta de direitos básicos para que se tenha uma vida plena e com dignidade. Falta educação de qualidade, corroborando para altos índices de analfabetismo e evasão escolar; os bairros vivem em condições extremas de insalubridade e a saúde pública não garante o acesso da população para serviços básicos. E como já dito, a criminalidade está presente com grande força, 5 CHEGA DE VIOLÊNCIA E EXTERMÍNIO DE JOVENS. Pastoral da Juventude, 2008. Disponível em: <https://www.pj.org.br/chega-de-violncia-e-exterminio-de-jovens/>. Acesso em: 06. Maio. 2022. https://www.pj.org.br/chega-de-violncia-e-exterminio-de-jovens/ 34 atuando, inclusive, com o papel de um segundo Estado, haja vista a ineficácia do que se entende pelo primeiro. Dessa forma, surgem alguns movimentos que partem em defesa das periferias se propondo a discutir e reivindicar esse contexto de “falta”, assim como contribuem para a desmistificação do discurso discriminatório e preconceituoso propagado na sociedade. Estes são conhecidos por movimentos populares urbanos, e têm por objetivo e funcionalidade algumas questões, que compreendem no geral a perspectiva do território, como explica Santos (2009): Os movimentos sociais urbanos em geral atuam sobre uma problemática urbana relacionada com o uso do solo, com a apropriação e a distribuição da terra urbana e dos equipamentos coletivos. Portanto, movimentos por moradia, pela implantação ou melhoria dos serviços públicos, como transporte público da qualidade, saúde ou educação são exemplos de movimentos reivindicatórios urbanos de caráter popular, relacionados ao direito à cidade e ao exercício da cidadania (SANTOS, 2009, p. 2). Os movimentos sociais em si trazem essa característica de reivindicação e de uma luta organizada em defesa de direitos. Glória Gohn (2011) disserta: Os movimentos realizam diagnósticos sobre a realidade social, constroem propostas. Atuando em redes, constroem ações coletivas que agem como resistência à exclusão e lutam pela inclusão social. Constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atoresda sociedade civil organizada à medida que criam sujeitos sociais para essa atuação em rede (GOHN, 2011, p. 336). O objetivo desses movimentos/grupos/organizações une o processo formativo e de reconhecimento do seu local de moradia e condições de vulnerabilidade com a tomada de postura ativa na luta, se organizando e passando a reivindicar uma mudança de realidade. É o que a autora aborda como empoderamento. Um exemplo de movimento atuante na defesa das periferias e favelas dos grandes centros urbanos é a Central Única das Favelas - CUFA, que realiza um trabalho não só de acompanhamento das comunidades em toda a região do país, como também promove ações que tendem a minimizar os impactos da falta do Estado. 35 Também se destacam outros movimentos nas periferias, que desenvolvem seu trabalho juntamente às artes. Estas, por sua vez, estão presentes, na maioria das vezes, dentro de movimentos artísticos autônomos e em Organizações Não Governamentais (ONGs) e projetos sociais. O potencial que carregam as artes é construtivo-formativo do indivíduo, assim sendo, compreende-se a capacidade delas de serem transformadoras de vivências e enriquecedoras nas trajetórias de sujeitos juvenis, que ainda se apegam na esperança de mudarem suas realidades. Carrenho (2019) fala da importância de movimentos e coletivos dentro das periferias como modo de consciência através da arte. Conforme a autora: [...] tanto os coletivos e movimentos culturais como essas produções musicais buscam por meio da arte e da cultura criar espaços para a socialização, para a democratização dos bens culturais, para a exultação do próprio repertório local, para a construção da auto estima comunitária e individual; também, buscam desconstruir preconceitos e estereótipos sociais, prover condições para a expressividade e criatividade, para a denúncia, reflexão e crítica social, para garantia dos direitos universais não garantidos às populações das periferias (CARRENHO, 2019, p. 102). A respeito dos movimentos e coletivos culturais que desenvolvem o trabalho com a música, se encontram projetos de ação social que desempenham um importante papel de formação e incentivo às artes. Carlos Kater (2004) disserta sobre a educação musical inserida nesses contextos: [...] o destinar-se a indivíduos em situação de risco pessoal e social, localizados na periferia dos benefícios oferecidos pela sociedade – e em níveis acentuados de distanciamento senão exclusão – a educação musical representa uma alternativa prazerosa e especialmente eficaz de desenvolvimento individual e de socialização (KATER, 2004, p. 46). Compreende-se, portanto, que, por meio do acesso à música, crianças e jovens podem encontrar uma alternativa que lhes traga esperanças de uma nova perspectiva de vida. No entanto, ainda que esses espaços proporcionem determinada atuação, é importante considerar algumas questões. A primeira, de que esse papel ainda é delegação do Estado e tais iniciativas deveriam ser promovidas pelo poder público. Em segundo lugar, há muitos 36 projetos sociais que trazem uma perspectiva salvacionista em seu discurso, se desviando da lógica de atuação em prol do desenvolvimento e processos formativo-educativos infanto-juvenil. Müller (2004) complementa: Minha preocupação, nesse sentido, é com os “assistencialismos” que podem estar envolvendo educadores musicais, oficineiros, trabalhadores em música em geral que, ingenuamente, podem estar colaborando com a fixidez do sistema; naqueles trabalhos em música movidos pelas promessas de salvar das drogas, tirar da rua, tirar do mundo do crime, trocar o “trabalho” com tráfico de drogas pelo “trabalho” com música, dar um futuro, etc. (MÜLLER, 2004, p. 56). Os projetos sociais e organizações não governamentais (ONGs) que realizam trabalhos voltados para as artes e acesso à cultura são, em sua maioria, financiados pelo setor privado, e este se vê com autonomia para interferir até nos processos pedagógicos, ressaltando a imagem assistencialista e de salvação no local de atuação. Weiland (2010) traz mais elementos para essa discussão: Desta maneira delega-se ao setor privado, através das renúncias fiscais, a responsabilidade de decisões importantes, como em relação ao local da execução dos projetos, definição do público alvo, definição das atividades realizadas e da própria condução dos projetos. Fala-se em inclusão social, democratização do ensino musical, mas esta ainda é oferecida a um grupo restrito, determinado pelas agências mantenedoras, e que contam com o marketing social decorrente de seus investimentos nesta área (WEILAND, 2010, p. 67). Deve-se haver um equilíbrio entre a atuação de tais iniciativas sem que se retire o compromisso do Estado com a formação de crianças e jovens de regiões de risco. É compreendida a importância desses espaços para a população periférica, pois oportunizam o acesso à educação e cultura que não encontram muitas vezes na escola ou em seus momentos de lazer, dentre outros. Dentre os movimentos oriundos da periferia, se destaca o movimento hip-hop que norteia as questões apresentadas neste trabalho. Compreende-se esses movimentos como um lugar de protagonismo para esses sujeitos periféricos e por meio deles é possível propor uma 37 reflexão sobre que espaço a periferia ocupa na sociedade. Que valor as comunidades têm para a vida de seus moradores? Quais vivências ela já proporcionou? Por que defender o seu local de moradia? Questões como essas envolvem a discussão sobre o pertencimento social e surge um movimento ao longo da história que terá papel principal nessa luta e defesa do seu território: o Hip-Hop. Oriundo dos guetos e vielas, o movimento hip-hop é a cultura das ruas, que acolhe a arte do povo negro. Surge da diáspora da cultura africana e se une à construção artístico-cultural dos Estados Unidos. Seu caráter de denúncia advém do contexto de violências e discriminação do povo. E não há como abordar essa expressão sem relacioná-la às negras e negros, às favelas, às classes populares, a todos os povos segregados. Consequentemente, essas categorias unem-se às lutas contra o racismo e toda forma de opressão, na defesa dos direitos básicos para manutenção da vida, bem como para que haja um olhar voltado para as necessidades das periferias. O hip-hop surge dentro da perspectiva do direito à cidade, em um contexto, na região dos EUA de formação e desenvolvimento das cidades, com consequente globalização desenfreada, que seguiu um dos pilares do sistema capitalista, o da exploração. Moassab (2008) acrescenta: A criação do hip-hop constituiu numa resposta à violência urbana à qual as populações afro-descendentes e hispânicas foram submetidas com as transformações urbanas das cidades estadunidenses das décadas anteriores. O planejamento urbano estadunidense do período criou bolsões de pobreza nos interstícios da ampla malha viária de fluxo intenso que conectava diversos pólos econômicos regionais (MOASSAB, 2008, p. 48). Esse planejamento urbano citado pela autora optou pelo desenvolvimento das cidades voltado às parcelas da sociedade com maior poder aquisitivo, restando à população pobre e sem condições de ascensão, os considerados hispânicos e afrodescendentes, espaços segregados da sociedade, “foram realojados em conjuntos habitacionais South e East Bronx” (MOASSAB, 2008, p. 49). O hip-hop surge como proposta cultural que potencializa voz à população das vielas dos EUA. E se desenvolve em alguns elementos e com seu caráter de resistência e denúncia. 38 Alguns propagadores se destacam no início do movimento: DJ Kool Herc, DJ Holywood, DJ Grand Master Flash, DJ Grand Wizard Theodor e DJ África Bambaataa (ARAÚJO, 2019, p. 11). São quatro elementos principais que compõem o movimento do hip-hop: Rap, DJ, Grafite e o Break. A música do hip-hop é representada pelo rap (rhythm and poetry), o ritmo e poesia. O Rap é um dos quatro elementos da cultura hip-hop produzido pelo MC, sujeito dessa modalidade que tem a dominaçãode Mestre de Cerimônia (master of ceremony) ou Rapper. Lembrando que essa terminologia é utilizada e dependendo da região, o Mc e o Rapper podem cumprir funções sociais distintas. Dentro desse mesmo gênero (rap) existem inúmeros subgêneros diferenciados pela batida, sendo os mais populares o Trap e o Boom bap (ARAÚJO, 2019, p. 11). Gonçalves (2013) aborda o rap em suas características estilísticas: “A música do hip-hop é composta pela apropriação musical, um tipo de remontagem originando novas músicas, realizada por um disc-jockey (DJ) que em uma mesa de múltiplos canais, cria o fundo musical desejado para as letras denominado sampling” (GONÇALVES, 2013, p. 67). Conforme Souza; Fialho e Araldi (2008): “O hip-hop tem sua filosofia própria, com valores construídos pela condição das experiências vividas nas periferias de muitas cidades” (SOUZA; FIALHO; ARALDI, 2008, p. 13). Segundo Gonçalves (2013), o movimento se constrói com bases na crítica social, “a cultura hip-hop teve como elemento condutor os questionamentos sobre as desigualdades sociais que assolavam uma grande parcela da população negra que vivia em uma condição de pobreza material e exclusão social” (GONÇALVES, 2013, p. 66). Dayrell (2002) discute o surgimento do rap e do funk dentro dos gêneros urbanos e “possuem uma mesma origem – a música negra americana –, que incorporou a sonoridade africana, baseada no ritmo e na tradição orais” (DAYRELL, 2002, p. 125). Com ênfase para o rap, o autor o define como a crônica da realidade da periferia e também como “uma reação da tradição black” (DAYRELL, 2002, p. 125). Dessa forma, a relação que determinados estilos atribuem à vivência de jovens pobres, se dá, sobretudo, pelo conteúdo que carregam de denúncia social e retrato do cotidiano deles. 39 No Brasil, o movimento hip-hop chega por volta da década de 1970, com sua abrangência dentro das comunidades, nos conhecidos “bailes black” (DAYRELL, 2002). O rap surgiu como uma alternativa para os jovens, principalmente dentro da possibilidade de torná-los artistas e produtores, “não tendo como pré-requisito a utilização de instrumentos musicais [...]” (DAYRELL, 2002, p. 126). Ainda que o funk e o rap cheguem juntamente ao Brasil, os dois estilos foram ganhando características estilístico-musicais particulares em suas letras, ritmo e significados, bem como construindo novos grupos e espaços de sociabilidade, mantendo a sua representação e atuação dentro das periferias (DAYRELL, 2002). A música do hip-hop vai aparecer de modo maior na década de 90, com alguns grupos de rappers que se destacam na cena. “Muita pobreza, estoura violência! Nossa raça está morrendo. Não me diga que está tudo bem!” (RACIONAIS MC’S, 1997). A música “Periferia é Periferia” do grupo Racionais MC's, fala sobre o cotidiano das periferias atentando para a dizimação da população, sobretudo negra, e o descaso em que se encontram as comunidades. Os Racionais MC's surgem no ano de 1988, composto pelos rappers: Mano Brown, Kl Jay, Edi Rock e Ice Blue. O nome do grupo foi inspirado no álbum Racional, do Tim Maia, grande influência da propagação do soul music no Brasil. As primeiras músicas de destaque foram Pânico na Zona Sul e Tempos difíceis. Contudo, foi no álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), que o grupo alcançou reconhecimento e grande repercussão (incômodo) diante das suas letras retratando a realidade das periferias e denunciando as injustiças contra o povo negro e pobre. Oliveira (2017) comenta: [...] como era possível para aqueles não-sujeitos pretos pobres de periferia, com baixa ou nenhuma escolaridade, criar um conteúdo tão complexo, radical, e esteticamente relevante, na contramão não apenas do sistema fonográfico brasileiro mas daquilo mesmo que se entendia por música popular brasileira até então? Ninguém esperava esse impacto generalizado, sobretudo vindo de um grupo que se opunha frontalmente ao jogo da indústria fonográfica (OLIVEIRA, 2017, p. 115-116). A influência dos Racionais mudou os rumos do cenário do hip-hop brasileiro, gerando um aumento de grupos e da escuta do rap que relata a realidade que assola as 40 periferias brasileiras. Também se propagou como modo de diversificação da juventude pobre e periférica, que passou a criar seus próprios grupos, seja como pura diversão ou com viés profissional, sendo o rap assim como o funk um dos poucos estilos a permitir a inserção no cenário artístico (DAYRELL, 2002). Hoje, o movimento hip-hop vem ganhando importante reconhecimento na indústria fonográfica brasileira, dentro do consumo musical das massas, na indústria musical, com novos expoentes e novas características estilísticas do rap. No entanto, a representação das periferias e de seu cotidiano permanece na ótica de muitos rappers, assim como a abrangência do movimento segue influenciando a continuação de grupos e de espaços como as batalhas de break dance e de rimas. As batalhas de rap, por sua vez, se difundem com maior alcance nas periferias dos grandes centros urbanos (ARAÚJO, 2019). Neste estudo, foi analisado o contexto das periferias dentro da perspectiva de afirmação do sujeito na localidade em que reside. Dessa forma, há manifestações que se inserem dentro das periferias ou que surgem deste espaço, que são fundamentais nesse processo de identidade, como é o caso do hip-hop. Reconhecer-se enquanto periférico(a) decorre de um movimento de se sentir pertencente a este local e o seu papel de resistência. Assim sendo, entendendo as juventudes enquanto sujeitos de direitos e a importância da sua formação cultural e sociopolítica, se compreende o papel da arte, sobretudo da música como forma de expressão, seja do contexto em que estão situados, como de suas vivências enquanto jovens da periferia. E dentro dessa perspectiva, o movimento hip-hop atua envolvendo todos os âmbitos, cultural, crítico-social e político, sendo um agente transformador e mobilizador de trajetórias e histórias de vida. Compete então incluir a discussão no que concerne à temática juvenil e a música na periferia à Educação Musical, a fim de delinear um parâmetro do que a literatura da área se dedica a debater. 2.3. A pluralidade da/na Educação Musical e o seu papel na construção de identidades No âmbito da Educação Musical, alguns autores têm contribuído, ao longo dos anos, na discussão acerca das juventudes e o processo de construção identitária por meio da música. Inúmeras contribuições são percebidas quando se abrange a temática juvenil e músicas, 41 portanto, neste estudo se pretende elencar algumas delas, a fim de vislumbrar como a discussão tem sido feita na área. Algumas questões podem ser consideradas para entender as relações que envolvem as juventudes, sua socialização e construção de seu espaço e modo de vida dentro das contribuições da educação musical, como a influência das tecnologias e novas mídias (SOUZA e FREITAS, 2014), a formação de grupos e questões de gênero (GREEN, 1997; SILVA, 2002; 2004; 2014), analisar o comportamento e as relações humanas por meio da música (ILARI, 2006; 2007), bem como outras perspectivas que envolvem jovens, identidades e a música. Arroyo (2009) realizou um mapeamento das produções sobre juventudes e como a temática vinha sendo discutida pela educação musical. A partir desta pesquisa, foi percebido o pouco aprofundamento nas discussões e quantidade de trabalhos sobre os jovens, porém, se destaca a predominância da subtemática do hip-hop, sendo abordada sobretudo em teses e dissertações, com média de 20 estudos encontrados. Ainda assim, diante do cenário geral da pesquisa em música, em que se tem outras temáticas com acentuadas produções, se vê a necessidade de ampliar pesquisas no âmbito dos gêneros urbanos, a fim de que ganhe acúmulo notório contribuindo para pensar o ensino de música. Silva (2004) argumenta, a partir de dados de um estudo realizado com crianças e adolescentes de uma escola, que: “As escolhas musicais podem ser comparadas com as roupasque escolhem para vestir, com a linguagem que escolhem para falar, com as atitudes que tomam” (SILVA, 2004, p. 82). Essas analogias feitas pela autora todas se interligam, ao passo que o jovem constrói sua identidade como um modo de ser/viver e estar na sociedade, e isso está implicado diretamente em como ele se coloca em suas atitudes, em sua aparência, em sua comunicação e em sua fala, etc. Pode-se entender esse processo analisando um importante ponto para discussão que condiz ao comportamento social. Ilari (2006), em uma pesquisa com jovens e adultos na faixa dos 27 anos, sobre a relação da música com a atração, chama atenção para o modo como a música pode influenciar dentro de relações interpessoais. A autora descreve a atração por alguém ou algo envolvendo relações de sentimento, ainda disserta que “[...] a atração interpessoal depende do contexto social, que forma atitudes, crenças pessoais e valores. 42 Coincidentemente, o mesmo pode ser dito a respeito da formação do gosto musical” (ILARI, 2006, p. 192). Dessa maneira, a relação entre música e atração pode ser trazida para discutir as identidades juvenis. Jovens são atraídos por determinados aspectos, desde um estilo até toda uma constituição de uma personalidade e a música entra nesse trajeto, evidentemente considerando as diferenças das juventudes e seus contextos. A respeito do gosto musical, como também disserta a autora, se faz importante analisar a realidade social das categorias juvenis para entender esse processo de afeição por determinada música. As influências musicais dos jovens são fundamentais em seus processos identitários, bem como auxiliam na compreensão de parcelas das juventudes que têm acesso ou escutam determinado gênero e estilo de música. Ainda, o que esses repertórios tem a dizer sobre o cotidiano e a formação de personalidades juvenis, os seus grupos, os seus afetos - relações humanas - suas atitudes? Pereira (2021) discorre sobre as demandas da formação para as juventudes no campo da educação musical. Logo de início, diz que “os conhecimentos em música todos os brasileiros têm o direito de acessar” (PEREIRA, 2021, p. 67). Essa universalidade do direito não somente à educação, mas ao ensino de música deve ser garantida a todo indivíduo, sobretudo quando o histórico de acesso e propagação da música foi tido como um privilégio de poucos, excluindo a população de classe baixa dos espaços de promoção à arte. Ilari (2007) abrange essa questão para o continente latinoamericano, ainda que, vasto de uma cultura musical, há pouca democratização de acesso à educação musical. Apesar de a América Latina ser freqüentemente tipificada como um continente extremamente musical, nem todas as crianças e jovens que ali vivem têm acesso àquilo que a maioria das pessoas comuns define como educação musical, isto é, instrução formal na escola regular ou em instituição especializada, de preferência por um professor especialista (ILARI, 2007, p. 36). Percebem-se alguns desafios para a educação musical, condizentes à sua abrangência e democratização para todos os indivíduos. Entretanto, vale ressaltar os espaços onde já se atua com o ensino de música. Como estes podem propiciar uma aprendizagem cada vez mais 43 próxima do aluno e de sua realidade? Que tipo de abordagem em música se quer levar para crianças e jovens? É considerando esses pontos que Pereira (2021) propõe a reflexão sobre o ensino de música para as juventudes. E sua relação com a construção desses sujeitos está diretamente relacionada com a sua formação identitária, uma vez que “a música está abundantemente presente na vida do jovem e é constitutiva de suas identidades, revestindo-se de um significado simbólico” (PEREIRA, 2021, p. 72) Esses símbolos detêm certa importância para a vida dos jovens e a música como um deles, carrega uma gama de sensações e sentidos para a vida e relações humanas traçadas pelas juventudes. Uma música que os identificam, que pode simbolizar um momento especial, que narra o seu jeito de viver, que traz bons sentimentos, etc. A função da música pode variar na perspectiva dos jovens ou até mesmo significar cada um desses exemplos, Melo (2019), comenta que “a música acompanha o desenvolvimento e as relações interpessoais em suas comunidades, bairros e cidades” (MELO, 2019, p. 21). Dentro dessas possibilidades se discute a noção de diferentes músicas e os grupos juvenis, que compreendem categorias de análise social. Green (1997a), sob a ótica da Sociologia da Música analisa que distintos grupos sociais têm relações diferentes com a música. Assim sendo, é comum que se “definam” determinados tipos de músicas e/ou instrumentos partindo da questão de gênero. O que seria um instrumento “de mulher” e o que define essas classificações (imposições)? A autora comenta: Em relação ao gênero: meninas são mais receptivas à ideia de cantar em coro e tocar música clássica em teclados, violão e instrumentos de orquestra que meninos; meninos são mais interessados nos domínios da tecnologia e música popular; garotas demonstram menos confiança em composição, enquanto garotos destacam-se (GREEN, 1997, p. 33). A dualidade de gênero expressa na área de música é um efeito de um preconceito sistêmico, do crescimento do patriarcado, guiando os rumos da sociedade para relações sexistas em todos os âmbitos. A concepção do que seria feminino ou masculino foi introduzida dentro da música e de seu ensino, fomentando esses conflitos. Silva (2002), em entrevistas feitas com alunos de uma escola, analisa a identidade de gênero e música e se 44 debruça sobre essa problemática. Dentro do relato dos alunos, ela comenta: “Apreciar música através dos significados musicais delineados dos videoclipes parecia estar associado a uma condição feminina, embora os próprios meninos admitissem que a imagem ajudasse a eles gostarem mais das músicas” (SILVA, 2002, p. 81). Reconhece-se a existência de uma resistência dos alunos para a manutenção dessas relações de gênero, fundamentada pela dominação patriarcal. No entanto, compreende-se a função ainda maior da música agir diretamente influenciando garotas e garotos em suas identidades. Continua a autora: Embora houvesse uma necessidade por parte da maioria dos meninos em afirmar que escutavam música pelo seu significado musical inerente, os objetos simbólicos que tanto os meninos quanto as meninas traziam diariamente para a escola, como CDs, posters, e revistas de música, demonstravam que ambos possuíam a identidade de fã (SILVA, 2002, p. 81). É comum haver um apego dos jovens com os símbolos trazidos por determinado estilo ou gênero musical, que se configuram no modo com que externam o que essas músicas significam para eles. Em estudo realizado no Brasil, Pereira (2021) comenta dados dos jovens e seus gêneros de preferência: No que se refere aos gêneros mais ouvidos, a esmagadora maioria dos jovens entrevistados na escola em Juiz de Fora - 63% dos respondentes - prefere o funk. Os demais gêneros mais citados apresentaram índices bem menores: o sertanejo universitário, com 28%, o rock, com 26% e o rap, com 12%. Foram também citados: MPB, música internacional, reggae, pagode, música eletrônica, música gospel, música pop e K-pop (PEREIRA, 2021, p. 79). A identificação, o gosto, por específico gênero musical está associado de certa forma com a formação de grupos. É dentro da perspectiva coletiva que se constrói também a individualidade. Desse modo, se entendem os porquês das trajetórias das juventudes estarem imbuídas de coletividade e relações grupais. Costa (2018) fala da construção do gosto considerando a realidade social dos indivíduos: “[...] compreendo também que o meio que nos 45 cerca e as pessoas com quem mantemos contato nos possibilitam a construção do gostar e do não gostar” (COSTA, 2018, p. 43). Mesmo com o passar dos anos, a discussão sobre o gosto musical se mantém frequente, no que concerne ao gostar ou não gostar, à avaliação de determinada músicaa partir de preceitos e opiniões individuais. Costa (2018) define isso como uma falta de acesso a outros modos de se fazer música, que acaba por formar pré-julgamentos dentro da sociedade, sobretudo quando se tratam de produções musicais subalternas ou não hegemônicas, que muitas vezes carregam certo teor subversivo de uma vigente ordem musical - a “música boa”. Não é porque não se compreende aquela expressão artística que aquilo não é bom. Só se gosta daquilo que se conhece. É a partir do contato com as inúmeras produções musicais que se criam os juízos de valores sobre as músicas que se escutam. Então, quanto mais músicas os indivíduos tiverem acesso mais probabilidade de se aumentar o gosto musical deles (COSTA, 2018, p. 44). A concepção do que seria bom ou ruim, feio ou belo - que remetem à uma discussão ainda mais extensa no campo das artes - vêm à tona quando no centro da questão aparecem produtos musicais que subvertem a ideia de música de qualidade e esse processo é acompanhado de outros discursos que não competem apenas ao campo da música. Geralmente tal presunção se refere às músicas da indústria, que se propagam em um efeito de massificação. São consideradas sem qualidade ou conteúdo, muitas vezes não levando em conta as vivências de quem faz essa música, como exemplo do rap e funk. O autor discute: “Então, qualificar a música da indústria cultural como não ‘musical’ é um problema de percepção; pois há indivíduos que fruem e expressam-se através daquela manifestação sonora” (COSTA, 2018, p. 44). Fato é que a música de indústria tem ganhado notório reconhecimento e se propagado no cenário musical brasileiro e cada vez mais feito parte do cotidiano das juventudes, principalmente das periferias urbanas. O crescimento desse tipo de produção artística está diretamente relacionado ao avanço do sistema capitalista, tendo a arte como um produto dentro da sociedade mercadológica. “E a música, nesse contexto, passou a ser também mercadoria, o que gerou a necessidade de uma ‘educação’ para o consumo” (COSTA, 2018, p. 20). 46 A dominação sistêmica da produção musical tem influenciado cada vez mais a escuta dos sujeitos na atualidade. É comum que a “música do momento” esteja tocando em todos os lugares e a todo o momento, sobretudo com o avanço das mídias sociais, com destaque para as redes sociais e plataformas de streaming. Mas, ainda que haja tamanha propagação, determinadas músicas dessa indústria carregam opiniões divididas, como o rap e o funk, que hoje atendem a esse processo de massificação também dentro de estilos como o trap e o brega funk, dentre outros. Ou no caso do que antes se entendia enquanto funk ostentação, que o próprio mercado transformou esse estilo em particular, no conteúdo que basicamente se ouve nas letras dos funks atuais. Por este motivo, o juízo de valor sobre esses gêneros e estilos musicais são tão presentes, pois julgam como uma ofensa à moral dentro da sociedade, baseando-se em princípios normativos. Esse tipo de música é tido como imoral e promíscuo. Dentro dessa discussão Costa (2018) comenta: Muitas pessoas categorizam e associam tipos de música com alguns perfis e comportamentos “fora da lei”. Há um preconceito ainda estereotipado de que quem curte rock in roll é baderneiro e anarquista, sendo considerados por alguns, infratores de algumas normas morais do convívio social; outro exemplo se concentra na produção musical do funk – em sua maioria – se detém em apologias à violência, ostentação de bens e pornofonias, sendo consideradas como músicas imorais (COSTA, 2018, p. 105). O gancho desse debate volta para uma questão mais central, e como a educação musical se insere nesse processo? Nas escutas juvenis, se têm valorizado o que os próprios jovens trazem? As aulas de música estão conectadas com os diálogos das juventudes? Trata-se de um desafio emergencial para o campo. Costa (2018) comenta: “Interessante notar que de certo modo as músicas que são vivenciadas por eles na escola parecem ser diferentes das músicas massivas midiáticas que eles têm acesso” (COSTA, 2018, p. 105). O desafio para uma educação musical voltada para os jovens é evidente: aproximar o seu ensino e abordagem para as vivências do público em que se está inserido e isso se traduz no trabalho direto com o conteúdo dos cotidianos dos alunos. A música carrega um grande potencial de engajamento dos jovens em seu ensino, pois se trata de uma linguagem artística 47 que atrai os alunos, entretanto, se porventura, as estratégias pedagógico-musicais não despertam interesse para os jovens, ocasionará em um processo de desmotivação com esse espaço. Pereira (2021) comenta: Este panorama nos indica que corremos o risco de idealizar crianças, jovens e suas relações com música - quando não os ignoramos - na preparação de nossas aulas. Se assumirmos que a educação é um diálogo, como defendia Paulo Freire, não podemos ignorar com quem interagimos nesse processo. Ao mesmo tempo, não temos o direito de abandoná-los à sua própria sorte, aos seus próprios desejos, assim como não devemos moldá-los a partir de nós mesmos, impedindo que o novo se faça presente. Portanto, ouvir a(s) juventude(s) é fundamental - ainda que não seja suficiente. Descobrir as juventudes é um conhecimento muito poderoso para nós, professores, na nossa tarefa de mediar e aprofundar as relações dos jovens com as músicas (PEREIRA, 2021, p. 81-82). Nessa discussão, se reafirma a importância da educação musical para a formação do sujeito e sua necessidade de englobar questões emergentes da atualidade, como reforça Queiroz (2017): “Ao reconhecer a música como um elemento identitário do ser humano e, consequentemente, de grande significado na definição e expressão da cultura, fica explícito que as formas de transmissão musical têm grande relevância para a compreensão da sociedade [...]” (QUEIROZ, 2017, p. 168). O autor coloca a música dentro do processo da identidade, evidenciando seu papel na formação. Diante de reconhecida função, compreende-se que a educação musical detém uma capacidade formativa e metodológica que pode vir a auxiliar no protagonismo de jovens que se encontram nesse processo de suas personalidades. Ela, por si só, não envolve todas as nuances das vivências juvenis, mas atua como um dos pilares, por meio do significado que a música tem para essas pessoas. Nas periferias, o jovem se encontra a partir de seu cotidiano e a música subalterna que valoriza e enaltece esse lugar, tem um sentido especial para suas trajetórias, bem como narram suas vivências. Então, como não conceber tal música como pertencente a esse público juvenil? Como não considerar a importância e os valores presentes na poética e nos significados desses versos cantados? Arroyo (2000) fala da importância de um olhar 48 antropológico para a educação musical, para ela: “A relevância pedagógico-musical de ‘considerar os contextos socioculturais dos alunos’ significa antropologicamente reconhecer que esses alunos estão inseridos em redes particulares de significado [...]” (ARROYO, 2000, p. 17). O que a autora fala diz respeito ao reconhecimento das perspectivas de mundo e sociedade que os indivíduos têm. Considerar a música a partir do que dizem os alunos tende a somar no avanço do ensino e aprendizagem em música. Dessa maneira, a educação musical tem por compromisso trazer ao debate essas narrativas musicais, seja para a sala de aula, como para a academia, contribuindo para a reformulação do currículo aplicado em sala e aproximá-lo das crianças e jovens. Aparece nessa discussão outro ponto que se refere à influência das tecnologias no processo construtivo das juventudes. Cada vez mais, se torna presente nas narrativas juvenis, o cotidiano perpassado pelas novas mídias, como comentam Souza e Freitas (2014): “Hoje, o convívio com celulares, iPods, tablets, TV e computadores representam componentes importantes de suas vidas para a busca de identidade e a socialização” (SOUZA; FREITAS,2014, p. 59). Como as autoras bem dissertam, tal processo tecnológico tem sido responsável também pela socialização das/dos jovens. Destaca-se o quanto é comum se deparar com jovens retraídos ou pouco falantes, um processo que pode decorrer ainda do não reconhecimento de sua personalidade, como também elucidam para questões ainda mais profundas, como depressão, transtornos de ansiedade, bullying, etc. Desse modo, as tecnologias podem servir também como uma espécie de escudo ou alternativa para socializar em grupos. Estes, por sua vez, ganham maior predominância quando no meio cibernético, e podem se configurar a partir de diferenciadas temáticas e campos. Têm-se espaços - predominantemente as redes sociais - de noticiário, estudos, até com ênfase para as artes, em especial da música, como por exemplo, a criação de fã clubes de grupos musicais, que unem pessoas, com destaque para as juventudes, de todo o país e até mesmo de todo o mundo. A música passa a se apresentar “cada vez mais de uma forma interativa, na qual as pessoas 49 buscam maneiras de participação, compartilhamento e aprendizagem” (SOUZA; FREITAS, 2014, p. 60). A contribuição das novas tecnologias tem influenciado demasiadamente na formação musical dos jovens que hoje estão mais receptivos a variados gêneros e estilos, tornando o processo de grupos musicais restritos a determinado gênero ou estilo (a exemplo do rock), cada vez menos fortes. Para as autoras “[...] a tecnologia estaria permitindo uma mescla maior de gêneros musicais o que levaria a uma convivência e variedade maior de repertórios, especialmente para os jovens” (SOUZA; FREITAS, 2014, p. 66). Contudo, o processo de massificação das escutas juvenis é evidente na realidade atual, dado o crescimento de recursos de mídia que impulsionam cada vez mais uma música voltada para o mercado. Desse modo, a música que está fazendo sucesso se agrega aos repertórios de jovens. Por isso tudo, é compreendida a atuação das mídias para pensar a formação identitária das juventudes, que, nos dias hodiernos, carregam mais fortemente o seu caráter plural, desencadeando em análises mais aprofundadas sobre esse conceito geral. O reconhecimento do jovem com sua personalidade pode ser um caminho de muitas influências e atores, que influenciam no seu processo construtivo e a educação musical, com seu potencial auxilia significativamente para a formação dos sujeitos. Assim, um dos papéis do ensino de música na questão das identidades tem enfoque para os desafios em propiciar, como afirma Arroyo (2002) “a valorização da diversidade cultural, inclusão de diferentes culturas musicais na educação musical e a manutenção da música como uma experiência significativa também no contexto escolar” (ARROYO, 2002, p. 102). Esse olhar antropológico no campo da música aprofunda debates e permite uma análise melhor detalhada do contexto sócio-histórico em que os indivíduos estão imersos. Mediante o exposto, de modo a compreender a ação da educação musical para a construção de identidades juvenis, se buscou contribuições que elucidassem tal discussão, assim como viabilizassem a observância e reflexão sobre possíveis caminhos a se avançar nestes estudos. A temática das juventudes demanda aprofundamentos teórico-pedagógicos do ensino de música, pois, cada vez mais, essa categoria carece de reconhecimento dentro de seus fazeres, saberes e relações com a música. Trazer o sujeito jovem para o centro das 50 propostas educativo-musicais vem a fomentar o protagonismo dentro dos espaços escolares, bem como nas dinâmicas da sociedade atual. Para tanto, esta discussão até então abordada, prossegue apresentando novos sentidos apoiados na bagagem teórico-metodológica deste estudo, que irá propiciar o entendimento do que envolve as juventudes a partir das abordagens de trabalho e a inserção no campo de pesquisa. 51 3. METODOLOGIA Este capítulo apresenta as bases teórico-metodológicas sobre as quais se assentam todas as fases desta pesquisa. De início, apresento as principais características da pesquisa qualitativa e do estudo de caso, abordagem e método, respectivamente, adotados nesta investigação. Na sequência, enumero e descrevo os procedimentos, instrumentos e técnicas de coleta, organização e análise de dados empregados, quais sejam: entrevistas semiestruturadas e levantamento documental. No final deste terceiro capítulo, abordo os cuidados e procedimentos éticos que me nortearam na feitura deste trabalho, possibilitando-me realizá-lo em conformidade com princípios fundamentais da pesquisa em ciências humanas. Ressalto que durante a construção desta pesquisa, os caminhos metodológicos tinham outra configuração. Pretendia-se realizar um estudo ancorado nas entrevistas narrativas, bem como, tratava-se de dois estudos de caso, com dois jovens da cena do hip-hop natalense. Porém, questões como disponibilidade para realização das entrevistas, assim como o desenvolvimento dos objetivos ancorados no trabalho, foram determinantes para guiar esta monografia para outros rumos. Dessa maneira, apresento os procedimentos teórico-metodológicos que sustentaram a pesquisa. 3.1. Escolha da abordagem, do método e do campo empírico Esta pesquisa é de abordagem qualitativa, por considerar a presença da discussão de caráter descritivo e amparado nas dinâmicas sociais. Fonseca (2002) aborda que a pesquisa qualitativa tem como foco a “compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais” (FONSECA, 2002, p. 20). Assim, ela vem como um contraponto ao modelo positivista e a concepção de um só modo de se fazer pesquisa e pressupõe um estudo de panoramas que não se resumem aos dados quantitativos. Na Educação Musical, este tipo de abordagem, atribui um sentido específico, pois pressupõe “um entendimento aprofundado da educação musical em sua variedade de contextos culturais, institucionais e pessoais” (BRESLER, 2007, p. 15). Ainda, como principais características dessa abordagem, Silveira e Córdova (2009) dissertam: 52 As características da pesquisa qualitativa são: objetivação do fenômeno; hierarquização das ações de descrever, compreender, explicar, precisão das relações entre o global e o local em determinado fenômeno; observância das diferenças entre o mundo social e o mundo natural; respeito ao caráter interativo entre os objetivos buscados pelos investigadores, suas orientações teóricas e seus dados empíricos; busca de resultados os mais fidedignos possíveis; oposição ao pressuposto que defende um modelo único de pesquisa para todas as ciências (SILVEIRA; CÓRDOVA, 2009, p. 32) Para esta investigação, adotei como método de pesquisa o estudo de caso, que “consiste no estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira que permita seu amplo e detalhado conhecimento [...]” (GIL, 2007, p. 54). Neste tipo de pesquisa, “o pesquisador não pretende intervir sobre o objeto, mas revelá-la tal como ele o percebe. O estudo de caso apresenta, deste modo, uma forte tendência descritiva” (FONSECA, 2002, p. 34). Tal método de escolha tende a me auxiliar no desenvolvimento e análise do campo de pesquisa, mediante o seu caráter descritivo. A fim de compreender aspectos individuais e sociais do colaborador da pesquisa, escolhi o método que também age em sua dimensão interpretativa (FONSECA, 2002), auxiliando no entendimento do contexto em que ele se insere e na discussão dentro do campo do ensino de música e construção de identidades. 3.2. Instrumentos e técnicas de produção e análise de dados Como técnica investigativa me apoio na entrevista semiestruturada para compreender a trajetória do participante deste estudo. Saliento que a escolha desse instrumento de coleta se justifica pela capacidade de maior direcionamento às questões trazidas, com o intuito de que o entrevistado se mantenha centrado na temática da entrevista. No início deste estudo, pretendia trabalhar com o uso das entrevistas narrativas como técnica de coleta, no entanto, ainda quetal instrumento se baseie nas histórias de vida, observei que o meu papel enquanto entrevistadora seria de caráter questionador e condutor, de modo a impulsionar que o relato dos colaboradores viesse a atingir as questões desenvolvidas no roteiro. Pois, as narrativas configuram uma outra perspectiva metodológica, em que “ narrador conta suas vivências para que o ouvinte compreenda as suas histórias e significados [...] (GAULKE, 2017, p. 42). 53 Assim, compreendi que com as entrevistas semiestruturadas, poderia chegar a um melhor desenvolvimento do relato do entrevistado, permitindo uma participação mais direta enquanto entrevistadora, a fim de chegar às questões norteadoras. O enfoque desta técnica de coleta é a importância da informação, mas se desvinculando de uma estratégia de coleta dos dados uniformizada. Semiestruturadas, pois, se mantém o roteiro de perguntas como norte, contudo o percurso das entrevistas é guiado pelo entrevistador dispondo a ordem das questões e a condução da conversa a partir dos caminhos que ela toma (FONSECA, 2002). Triviños (1987) conceitua as entrevistas semiestruturadas como: [...] aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante (TRIVIÑOS, 1987, p. 146). O autor afirma que o participante/entrevistado se torna parte ativa da pesquisa, contribuindo para a sua elaboração e desenvolvimento a partir do momento em que concede o seu relato (TRIVIÑOS, 1987). Definida a técnica de coleta, elaborei um roteiro, contendo 10 questões norteadoras referentes à temática do estudo, atentando-me à delimitação de perguntas bem direcionadas ao tema deste estudo e que viessem a permitir o desenvolvimento de uma conversação com o colaborador. Nesse processo de elaboração do guia da entrevista, me ative ao objetivo desta pesquisa, de maneira a focalizar o interesse empírico e metodológico, bem como, optei pela construção de perguntas que pudessem ser mais descritivas na resposta do participante, evitando um relato muito diretivo e pouco esmiuçado. No que concerne à elaboração do roteiro, Resende (2016) comenta: As questões a ser colocadas devem evoluir de um nível mais genérico (Ex: Tem preocupação com a sua alimentação?), para um nível de concretização (Ex: De que forma é que se preocupa?) e por fim um nível de exemplificação (Ex: Pode dar-me exemplos concretos da forma como é que leva a cabo essa preocupação?) (RESENDE, 2016, p. 54). 54 As perguntas foram pensadas considerando o tema deste estudo e a trajetória do colaborador. Desse modo, elaborei questões que pudessem conectar mais ainda o entrevistado com as suas vivências, como orienta Guazi (2021): No roteiro, evite o uso de linguagem técnica e priorize o uso de palavras e construções verbais que são rotineiras em nossas conversações; lembre-se que a linguagem deve ser adequada ao público-alvo para o qual a entrevista é dirigida (GUAZI, 2021, p. 4). Organizei-as seguindo alguns parâmetros, como: a relação com o hip-hop; a sua importância; o papel da música dentro do movimento e para as juventudes; a influência do hip-hop dentro da comunidade/periferia e a relação do entrevistado com seus locais de moradia; a função sociopolítica do hip-hop e os seus desafios atualmente; e finalizando, propus uma reflexão sobre como seria vivência do participante sem essa expressão. Busquei viabilizar uma aproximação durante a entrevista, a fim de propiciar um espaço de abertura e de confiança e compromisso, enquanto entrevistadora com o participante, segundo Boni e Quaresma (2005): “[...] a interação entre o entrevistador e o entrevistado favorece as respostas espontâneas” (BONI; QUARESMA, 2005, p. 75). Ou seja, também colabora para o processo de análise e desenvolvimento dos resultados, haja vista a maior conexão do respondente com a temática de suas vivências. A entrevista teve a duração de 33 minutos. 3.3. Princípios, procedimentos e decisões de natureza ética No processo de construção da etapa metodológica deste estudo, atentei para algumas questões que envolvessem os procedimentos de coleta e da relação com o colaborador da pesquisa. Embora o entrevistado tenha seu perfil de atuação público e seja relativamente conhecido na cena do hip-hop potiguar, optei por garantir o seu anonimato neste trabalho. A escolha do anonimato se deve ao fato de conferir ao entrevistado a segurança para responder às questões de maneira espontânea. 55 Rocha (2021) discute que o cuidado ao realizar pesquisas com o uso de entrevistas e dados do colaborador confere justamente “ao risco que uma dada pesquisa pode gerar aos(às) seus(suas) participantes” (ROCHA, 2021, p. 6). Vale salientar que por se tratar de uma temática que implica inúmeras problemáticas já trazidas no texto, requer uma atenção ainda maior na abordagem adotada. Entretanto, como comentam Boni e Quaresma (2005), deve se atentar, pois em alguns casos “por parte do entrevistado há insegurança em relação ao seu anonimato e por causa disto muitas vezes o entrevistado retém informações importantes” (BONI; QUARESMA, 2005, p. 76). Então, construir a confiança e propiciar um espaço de acolhimento da narrativa trazida tende a contribuir para o êxito desse processo metodológico. O anonimato também pode permitir seja para entrevistado, a sensação de maior segurança para contar o seu relato, seja para o pesquisador/entrevistador, a conexão e relação de compromisso e responsabilidade estabelecida com o colaborador, como para o leitor, a leitura do trabalho sem a construção de pré-valores ou com uma concepção formada sobre o participante. De todo modo, o anonimato deve ser assegurado ao entrevistado(a), como princípio ético da pesquisa (GUAZI, 2021). No que condiz aos cuidados com o processo de coleta do material empírico, a entrevista teve sua gravação em áudio, uma vez que o registro da fala do participante já cumpria o objetivo de compreender o seu relato. A permissão para gravação foi solicitada ao colaborador, bem como a utilização de seus direitos patrimoniais, por meio do documento formal do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE, necessário para continuidade da pesquisa. Ressalto que a adoção pelo anonimato do nome do entrevistado, não exime a intenção de se abordar a sua formação pessoal, pelo contrário, esta será ainda mais evidenciada, compreendendo que a garantia do sigilo pode permitir uma maior abertura durante a entrevista semiestruturada, por estabelecer uma relação de confiança entre o/a entrevistador (a) e entrevistado (a). “[...] o(a) pesquisador(a) deve sempre manter o respeito em relação aos indivíduos com quem interage” (ROCHA, 2021, p. 7). Assim, chamarei o entrevistado de KL. 56 4. CARACTERIZAÇÃO DO COLABORADOR E DO SEU CONTEXTO DE ATUAÇÃO A seguir, neste quarto capítulo, faço a caracterização do contexto de atuação do colaborador deste estudo, destacando seus aspectos sócio-históricos, econômicos e culturais. Essa caracterização permitirá a exposição do cenário de atuação e trajetória do participante deste estudo. Na sequência, realizo a caracterização do próprio entrevistado, apresentando dados gerais que o particulariza e que permitirão ao/à leitor/a uma perspectiva mais ampla sobre seu perfil e trajetórias antes de conhecerem elementos de sua vivência propriamente no capítulo seguinte. 4.1. Caracterização do contexto de atuação do colaborador Este tópico consiste em informações acerca das periferias da região metropolitana de Natal-RN, sua população e dados pertinentes sobre as dinâmicas sociais advindas desses locais e aspectos sócio-históricos e políticos que auxiliem no diagnóstico desse público. Para tanto, me aporto de algumas autoras e autores que discutem esse campo. De modo a delinear o perfil desses lugares e suas condições, trago contribuições de Freitas(2021); Araújo (2019); Silva (2015); Gonçalves (2013); Morais (2012) e Silva (2011), para dar respaldo às considerações sobre as comunidades do município, bem como documentos e estudos com recorte das periferias natalenses. De acordo com Morais (2012), o processo de construção da cidade no que condiz à formação das periferias está diretamente relacionado à segregação da população para áreas baixas da cidade, ocasionando na guetificação de alguns espaços. A autora alega que: [...] a aplicação dos planos urbanísticos a uma parte da cidade de Natal ignorou as condições de assentamento e as necessidades de uma considerável parcela da população Natalense, que foi relegada à ocupação ilegal e clandestina das encostas, dunas, morros e áreas periféricas, as quais apresentam problemas relacionados às questões de habitabilidade, em sua grande maioria (MORAIS, 2012, p. 1). 57 Na perspectiva higienista da cidade e de, literalmente, esconder a população pobre dos centros da cidade, o poder público e a influência da burguesia da época - década de 1920 - mobilizaram estratégias de eliminação das “habitações mais pobres do centro da cidade e a aplicação do ‘novo código’ urbanístico, no qual continha um projeto de teor elitista de reforma urbana e melhoramentos estéticos” (MORAIS, 2012, p. 2). Na década de 1960, a cidade passa por um crescimento e ocupação dos espaços, gerando “relações de identidade e diferença” (SILVA, 2011, p. 41). Tais relações podem ser explicadas pela existência dos chamados bairros suburbanos (SILVA, 2011), onde o contexto de falta de atenção básica, ocupação irregular e problemas estruturais, consequentemente, transformaram esses lugares como mais conturbados. No geral, a cidade foi “se reproduzindo de forma desigual, contraditória, como produto apropriado diferentemente pelos diversos sujeitos e grupos sociais” (SILVA, 2011, p. 86). Atualmente, a configuração da cidade compreende parte desse histórico, sobretudo no contexto das periferias que, com o passar dos anos, foi alvo de maiores descasos e abandono do poder público. Conforme dados da SEMURB - Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, a cidade possui 36 bairros divididos em quatro regiões administrativas, a saber: zonas norte, oeste, leste e sul (NATAL, 2009). De acordo com um estudo realizado pelo IBGE, em 2013, cerca de 10,06% da população natalense vive em favelas ou comunidades de risco, contabilizando um total de 80.774 habitantes . Os dados foram extraídos do Censo de 2010, que também apresenta a6 relação das favelas existentes no município, classificando-as como aglomerados subnormais. Em Natal, com base no censo, estes são: África, Alemão, Aliança, Alta Tensão, Alto da Colina, Alto dos Guarapes, Aparecida, Areado, Barreiros, Barro Duro, Beira Rio, Boa Sorte, Brasília, Camboim, Coqueiros, Cruzeiro, do Curtume, do Fio, Fio / Alemão, Formigueiro, Gramoré, José Sarney, Lagoinha, Lavadeiras, Mãe Luiza, Maré ou Salgadinho, Maruim, Mereto, Mosquito, Novo Horizonte, Ocidental de Baixo, Ocidental de Cima, Passo da Pátria, 6 MAIS DE 10% DA POPULAÇÃO DE NATAL VIVE EM FAVELAS, DIZ IBGE. G1 RN, Natal, 6 de novembro de 2013. Disponível em: <https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/11/mais-de-10-da-populacao-de-natal-vive-em-favela s-diz-ibge.html#:~:text=Um%20estudo%20divulgado%20pelo%20Instituto,do%20RN%20%C3%A9%20803.73 9%20habitantes>. Acesso em: 21. Maio. 2022. https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/11/mais-de-10-da-populacao-de-natal-vive-em-favelas-diz-ibge.html#:~:text=Um%20estudo%20divulgado%20pelo%20Instituto,do%20RN%20%C3%A9%20803.739%20habitantes https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/11/mais-de-10-da-populacao-de-natal-vive-em-favelas-diz-ibge.html#:~:text=Um%20estudo%20divulgado%20pelo%20Instituto,do%20RN%20%C3%A9%20803.739%20habitantes https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/11/mais-de-10-da-populacao-de-natal-vive-em-favelas-diz-ibge.html#:~:text=Um%20estudo%20divulgado%20pelo%20Instituto,do%20RN%20%C3%A9%20803.739%20habitantes 58 Planalto, Pompéia, Raio de Sol, São José do Jacó, Sopapo, Tenente Procópio, Treze de Maio e Vietnã. (IBGE, 2010). Diante desses dados, compreende-se que em Natal e região metropolitana, há uma presença notória das comunidades em condições de vulnerabilidade e favelas, que influenciam em toda a dinâmica sócio-espacial e de territorialidade na cidade, sobretudo quando se refere à atuação do Estado sob esses contextos. Araújo (2019) chama a atenção para uma importante reflexão que diferencia as periferias das demais localidades não-periféricas da cidade, para a autora “a quantidade de praças pode ser correlacionada com a violência presente no cotidiano urbano do município” (ARAÚJO, 2019, p. 21). As praças públicas enquanto espaços de convivência, lazer e socialização tanto fortalecem as relações e os vínculos com o território e consequentemente podem ser fatores de redução dos índices de violência e criminalidade nas periferias. A autora apresenta um gráfico, com base em dados da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos - SEMSUR, acerca do número de praças públicas por região administrativa, e atenta para o baixo número desses espaços nas zonas norte (64) e oeste (32), em comparação com zonas mais abastadas como leste (72) e sul (90) . Atualizando esse número, no Anuário7 Natal 2021 da SEMURB, constam um aumento de quatro praças para a zona norte (68), duas na zona sul (92) e a zona leste permanece com a mesma quantidade. Contudo, chama a atenção para a diminuição de uma praça pública (31) na região oeste. Considerando as áreas norte e oeste com maior presença de comunidades periféricas, a existência de poucos espaços de socialização, e sem fomento à promoção de cultura, formação e entretenimento da população, é notório que a violência tenha índices predominantes. De acordo com o Atlas da violência (2021), há cerca de 85 homicídios a cada 100 mil jovens no Rio Grande do Norte (IPEA, 2021). Em estudo realizado pelo Observatório da Violência do Rio Grande do Norte - OBVIO-RN, no ano de 2020 foi constatado que, no período entre 2015-2019, 5.376 jovens morreram no estado do RN, com destaque para o ano de 2017 como o mais violento, com 26% de taxa de incidência. (OBVIO, 2020). Acrescenta-se ainda, dados de pesquisadores em 7 A CIDADE DO NATAL POSSUI 258 PRAÇAS. Prefeitura do Natal. Disponível em: <https://www.natal.rn.gov.br/semsur/pracas>. Acesso em: 22. maio. 2022. https://www.natal.rn.gov.br/semsur/pracas 59 demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, que alertam para 10 bairros de Natal que concentraram 28% dos homicídios no ano de 2020. Os bairros citados foram: Igapó, Nossa Senhora da Apresentação, Redinha, Pajuçara, Potengi, Lagoa Azul, Quintas, Nordeste, Bom Pastor e Felipe Camarão .8 Esses dados estão presentes na dissertação do pesquisador Pedro Henrique Oliveira de Freitas (2021), que faz um parâmetro da violência no estado do RN em consequência dos efeitos da pandemia da Covid-19. O autor aponta as variantes nos índices de Crimes Violentos Letais Intencionais – CVLIs, destacando as regiões administrativas Norte e Oeste com “os níveis de CVLI elevados e concentrados” (FREITAS, 2021). Dessa maneira, se compreende que as condições de manutenção da vida como educação, moradia, trabalho e renda, saúde e outros serviços públicos estão diretamente relacionadas com a aparição e abrangência de casos de violência, bem como criminalidade e outros fatores, pois evidenciam a falta de ação estatal sob essas comunidades. Agora, com destaque para a atuação do movimento hip-hop dentro das periferias, de início, logo se justifica o seu caráter de denúncia. Sabotage cantava em “Um Bom Lugar”: “Três cara simples / Gostavam mais de ouvir e aprender / Até que fatalidades com certeza e é o seguinte / Sempre assim, maquiavélico, maldade se percebe aqui” (SABOTAGE, 2000). Cantava uma denúncia à repressão policial, que marca o cotidianodas comunidades periféricas. A letalidade contra negros nas ações policiais aumentou 152,5% no período de 2015-2019, de acordo com a pesquisa sobre letalidade e vitimização policial entre 2015 a 2019, do OBVIO (2020). Considerando o hip-hop na perspectiva de movimento e organização social, não somente como expressão artística, apoio-me no que afirma Silva (2014), pois na caracterização do perfil das juventudes periféricas natalenses, sexo, escolaridade, raça/cor, vulnerabilidade social, trabalho/emprego, mobilidade urbana e a violência “são questões que estão imbuídas nas questões sociais apresentadas pelos movimentos sociais juvenis da cidade 8 EM NATAL, 7 PONTOS CONCENTRAM 28% DOS HOMICÍDIOS. Tribuna do Norte, Natal, 22/08/2021. Disponível em: <http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/em-natal-7-pontos-concentram-28-dos-homica-dios/518807>. Acesso em: 22. maio. 2022. http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/em-natal-7-pontos-concentram-28-dos-homica-dios/518807 60 do Natal” (SILVA, 2015, p. 75). Ainda que o hip-hop não se apresente enquanto movimento social, partilha de muitos desejos similares quando se discute o jovem como sujeito de direito. Gonçalves (2013) aborda essa atuação à luz da análise micropolítica, e vai chamar de rap engajado a poética da música do hip-hop. Segundo a autora, o rap “demonstra possuir uma potência criativa que pode se constituir em um campo de experimentações para dar vazão às novas atitudes, afetos e, por conseguinte, novos modos de pensar e viver na pobreza” (GONÇALVES, 2013, p. 118). Assim sendo, o movimento age para as juventudes nas periferias como uma forma de engajamento e de reformulação das vivências dentro desse lugar. Em Natal, o hip-hop se manifesta com considerável presença, com destaque para a atuação de batalhas de rap pela cidade, como comenta Araújo (2019). A autora entende o rap enquanto cultura legítima das periferias e discorre sobre a influência das batalhas de MCs para a difusão do rap, principalmente na cidade de Natal. E elenca as principais batalhas presentes no município: 1- Batalha do Vinho (localizada na Zona Norte da cidade); 2 - Batalha do Arco (bairro de Mãe Luiza); 3 - Batalha do Disco (Bairro de Ponta Negra); 4 - Batalha do Ded (Ginásio do Ded, no bairro de Candelária); 5 - Batalha da Esperança (no bairro de Cidade da Esperança). A autora salienta que “há um consenso, que também é estratégico: fazer o possível para que os dias e horários das batalhas não se chocassem” (ARAÚJO, 2019, p. 12). Entendendo, brevemente, o contexto de vivência do colaborador e do tema proposto neste estudo, pode-se dizer que o hip-hop, sobretudo na poética do rap, mobiliza juventudes a transformarem o vínculo que têm dentro de suas comunidades para uma outra dimensão, que defendem, se sentem pertencidos, levam consigo esse lugar e encontram no hip-hop uma maneira de depositar seus sonhos e esperanças, como afirma Gonçalves (2013), a arte é o que aparece para eles - jovens -, que agarram essa oportunidade (GONÇALVES, 2013). 4.2. Caracterização do colaborador O colaborador deste estudo é um jovem negro de 17 anos de idade oriundo do bairro Bom Pastor, periferia localizada na região administrativa oeste de Natal-RN. Atua no movimento hip-hop há cerca de 2 anos, quando passou a escrever suas letras, mas sua relação 61 com ele começa anos antes, quando passa a frequentar as batalhas de rap do bairro vizinho. Hoje é um dos organizadores da batalha da esperança, situada no bairro de Cidade da Esperança, na zona oeste. Estuda em uma escola da rede pública de ensino localizada também no Bom Pastor, onde cursa o 1° ano do ensino médio e atualmente foi recém eleito presidente do grêmio estudantil. Também trabalha durante meio período, como jovem aprendiz na CBTU - Companhia Brasileira de Trens Urbanos. Durante o processo de escolha dos participantes, KL foi um dos nomes que pensei para contribuir com este estudo, uma vez que a sua trajetória chama atenção por se tratar de uma pessoa tão jovem e que inicia a sua relação com o hip-hop por volta de seus 13 anos de idade. A sua vivência dentro da Batalha da Esperança, berço de sua caminhada com o rap, mostra que os espaços das rodas de rima são potenciais em ensinamentos para o público jovem periférico. A cena do hip-hop em Natal/RN vem crescendo com o passar dos anos, sobretudo, com a presença de jovens, em sua maioria, vindos das periferias. A música feita pelos representantes locais é carregada de forte denúncia social e retrato da realidade da cidade e tem grande influência das batalhas de rima - considerada fundante na formação sociocultural, musical e política desses expoentes. A minha relação com o entrevistado decorre da convivência no mesmo local de moradia, o Bom Pastor. Atualmente, o bairro vivencia uma cena cultural enfraquecida e cada vez mais desvalorizada. Por isso, vi em KL uma figura que se destacava em meio ao contexto da localidade, sobretudo pelo seu apego e compromisso com a cultura de seu lugar. Dessa forma, fiz o convite para participar desta pesquisa e este foi prontamente aceito. Ressalto que na configuração inicial da metodologia, seriam dois entrevistados e KL estava entre os artistas pensados. Como critério, considerei a disponibilidade dos convidados, e assim, diante do curto tempo e da resposta dos convidados, realizei a entrevista apenas com um colaborador, o KL. 62 5. A PERSPECTIVA DO COLABORADOR SOBRE A MÚSICA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE SUA IDENTIDADE Neste quinto capítulo, apresento as análises do conteúdo obtido no relato do colaborador desta pesquisa, por meio da realização da entrevista semiestruturada, como técnica de coleta, assim como os resultados extraídos desse relato. Dando seguimento, faço um diálogo entre a vivência do participante e o que diz a literatura sobre suas contribuições. Por fim, elenco como seu relato corrobora com a temática deste estudo e serve para compreender o processo de construção de identidades juvenis sob a perspectiva da ação/atuação do movimento hip-hop. Como etapa analítica, extraí, a partir do que o colaborador trouxe nas entrevistas, três categorias que podem auxiliar na discussão desta pesquisa, sendo estas: “a relação com a periferia”; “a relação com o hip-hop” e “rap, trabalho e renda”. 5.1. KL: “a batalha, querendo ou não, foi uma mãe pra mim no hip-hop” O entrevistado relata a sua vivência com o movimento hip-hop partindo de uma perspectiva do início de sua juventude. Hoje, tem 17 anos e cursa o 1º ano do ensino médio em uma escola pública no bairro em que reside, Bom Pastor, além de integrar o cenário do rap natalense. Ele fala de como se inicia sua relação com o movimento e de que forma se mantém, ressaltando que vem tentando trabalhar profissionalmente com o gênero dentro da cena da cidade. A sua entrevista se encaminhou para inúmeras questões que serão esmiuçadas nas categorias seguintes, contudo, em sua fala, predomina a necessidade de se afirmar enquanto artista e de luta por reconhecimento dentro da cena natalense. Os aspectos de sua formação sociocultural e política se ressaltam diante de seu percurso dentro do movimento e apontam para questões de sua trajetória de grande importância para a discussão no âmbito do ensino de música em diferentes contextos. 63 5.1.1. A relação com a periferia KL traça uma relação muito próxima e vinculada à comunidade em que reside, trazendo um sentimento de forte pertencimento e defesa deste local. Quando perguntado sobre a conexão e sentido que as periferias onde moram têm para cada um, ele traz uma fala que externa o desejo de melhorias para o lugar e da falta de um olhar voltado para elas, sobretudo, no que se refere à cultura, como relata: Eu acho que falta música aqui ainda, falta cultura… bastante. Principalmente por aqui temos um polo muito grande da cultura aqui na praça, que já poderia estar com batalhas aí, shows de artistas locais por aqui. Mas infelizmente, os contratantes, o pessoalque contrata a música, não foca na cultura do próprio bairro, sempre quer as pessoas de fora, de outras cidades, de outros lugares. Então, acho que tá faltando um novo olhar do contratante para trazer a cultura do bairro para amenizar essa criminalidade que existe aqui dentro (KL, 2022). Ele fala dentro da perspectiva do que é trazido de cultura para dentro das periferias e que o movimento hip-hop não é valorizado, o que reflete para o atual cenário da música na indústria fonográfica brasileira. A falta de apoio da música local é reflexo também do não investimento nos artistas e no que vem sendo produzido na cena, tendo como foco o que está em alta nas mídias e nas paradas de sucesso, a música e o artista do momento. Vale salientar um outro ponto que KL traz, que confere na relação entre a promoção de cultura e a diminuição da criminalidade, que para ele, tem crescido cada vez mais nas periferias, sobretudo, no seu local de moradia, o bairro Bom Pastor. Quando indagado sobre sua relação com o seu local de moradia, KL responde que sua relação é de amor e ódio com o bairro: [...] o Bom Pastor é um bairro que eu não trocaria por nada. Já me chamaram pra morar em outros bairros, noutros lugares, mas... a cultura que o bom pastor trazia antigamente e que não tem, agora... eu quero reviver aquilo, quero trazer mais isso da cultura pra dentro, porque o bairro é bom, o bairro é grande. Um bairro central que tem centros lojistas aqui por perto e isso tem que ser cuidado pela política do Estado e município, principalmente. Então, acho que minha relação com Bom Pastor é uma relação de amor e ódio: o 64 amor pela parte da cultura que tinha antigamente e o ódio porque criminalizaram muito o bairro (KL, 2022). O apego com sua comunidade é manifestado no modo com que se preocupa com ela, principalmente no desejo de que o bairro tenha mais espaços de cultura. Aqui, vale ressaltar sua fala sobre a importância dos espaços de sociabilidade, como a praça de seu bairro, com grande espaço para realização de eventos que envolvam e engajem as juventudes, que corrobora com as reflexões de Araújo (2019, citada anteriormente, e de Gonçalves (2013), que comenta que um dos fatores que marcam significativamente a vida desses jovens é a falta de acesso ao lazer: “[...] faltam praças, cinemas, quadras de esporte, espaços voltados para a produção de arte e cultura” (GONÇALVES, 2013, p. 53). Sim. Cê vê... de quando tinha quadrilha aqui no beijoqueiros [nome da praça], não via muito o pessoal usando droga nas praças, brigando, matando um ao outro. Tinha aquele pessoal que ia para ver a cultura, para apreciar e para dançar. Só que agora não tem mais isso, porque no bairro... eles fogem para outros lugares (KL, 2022). Chama atenção essa “fuga” que KL relata. A população de seu bairro vai em busca de melhores condições em outros locais, haja vista que seu local de moradia não proporciona desde a segurança até mesmo espaços de entretenimento, o que decorre da falta de investimentos do Estado dentro das periferias no geral, desassistindo toda uma parcela da sociedade, que já vive em condição vulnerável por ineficácia deste. Então, o cotidiano do bairro, passa de agradável e de boa convivência para um espaço de insegurança com grande presença de agravantes sociais como a criminalidade, as drogas, a repressão policial, etc. KL, ainda assim, fala que a sua comunidade o representa de tal modo que, se distanciar dela não se torna uma opção, pelo contrário, esse sentimento se transforma na defesa que ele faz de seu local e como gostaria que ele estivesse. [...] porque eu sinto que poderia tá bem melhor o bairro... muitas pessoas jogam seus lixos aqui... não lixo de comida, material... lixo tipo.... traz a pessoa que vem roubando e joga para dentro do bairro, traz aquele cara que vem com drogas pro bairro. Tipo, isso vai matando o bairro pouco a pouco. Eu não quero sair do bom pastor porque, querendo ou não, é o centro da minha vida, das pessoas ligadas dentro. Então, morar noutro lugar seria ruim 65 pra mim. Mas eu conheço várias pessoas que trocaram Bom Pastor por outros bairros, porque não tem a segurança de morar aqui dentro, por conta disso. Eu acho que se trouxer mais visibilidade pro bairro com cultura, com música, com arte, com dança, com tudo, eu acho que isso melhoraria muito e traria as pessoas que saíram daqui de volta pra cá (KL, 2022). Apesar de sua forte conexão com o bairro e o sentido que ele tem para a sua atuação no rap, KL comenta sobre a falta de reconhecimento que o estilo tem em sua localidade, sendo um desafio construir essa relação. Ao ser perguntado sobre a relevância que o movimento tem no Bom Pastor, responde: Não. Infelizmente, o hip-hop não é reconhecido, embora tenha aqueles artistas daqui. Mas se você perguntar, acredito que vão saber mais quem canta outros ritmos, como... esses batidão que estão em bailes, e vão saber quem são esses caras, todos que moram no bairro vão saber. Mas se perguntar “e quem canta rap aqui? Você sabe?” No máximo vai falar o nome de uma pessoa porque é amigo, E se for aqui, porque muito... Tem muitos artistas que moram por aqui. Só na minha rua tem eu e mais três ou quatro por aí. Mas pra baixo tem mais cinco e assim vai. Então são grupos e solos que moram aqui, que não são reconhecidos, que precisam ir pra outros bairros para ter a oportunidade de cantar e viver de hip-hop, rap. Precisam ir pra outro bairro pra ter oportunidade de cantar, e mesmo assim nem são pagos. Tira a passagem do bolso, vai pra lá, chega lá, aí dizem “ah, a festa não foi boa”, não paga você, Então você vai com o seu dinheiro voltar pra casa, cantou de graça e não tem reconhecimento artístico do seu próprio bairro e nem do bairro de fora (KL, 2022). A sua fala aponta uma indignação com a falta de reconhecimento do movimento hip-hop dentro da periferia onde reside, que envolve, sobretudo, a busca que ele tem pelo percurso profissional com o rap, como também apresenta um descontentamento, ao passo que, em suas letras se defende e valoriza esse local. Contudo, esse sentimento não se restringe apenas ao seu local de moradia, mas acontece em outros espaços, que também não consideram os artistas que fazem o hip-hop, desvalorizando o seu trabalho com pouca ou nenhuma remuneração. Mas, como KL demonstra em sua fala, o sentimento de maior indignação se configura justamente ao não reconhecimento por parte de sua comunidade, enfatizando a existência de vários outros artistas que sequer são reconhecidos dentro de seu local. Em 66 contrapartida, os que fazem a cena em outros ritmos, muitas vezes sem um trabalho autoral, como no caso do “batidão”, que KL menciona, detém maior consideração pelos moradores do bairro. 5.1.2. A relação com o hip-hop Seu contato com o hip-hop se deu na primeira ida à Batalha da Esperança, em meados de 2017-2018, quando recebeu um convite para conhecer o espaço. Tinha por volta de 13 anos de idade e impressiona a sua fala: “não sei... não gostava muito porque nunca tinha visto, né?” (KL, 2022). Para ele, a primeira impressão com o rap não foi positiva, mas que com a rotina - persistência - de passar a frequentar as batalhas e o acolhimento que recebeu, começa a construir uma relação de apego com o local. “E tanto que agora eu sou um dos líderes da batalha” (KL, 2022). A sua relação com a escrita das letras de rap também decorre da influência da batalha da esperança. “Aí foi quando, na pandemia, ali em 2020, muito sem o que fazer, e também com vontade de expressar as coisas que eu sentia. Aí eu resolvi começar a cantar rap, inclusive fez 2 anos semana passada” (KL, 2022). Quando perguntei se havia relação direta com a batalha, ele responde que foi por meio dela que teve apoio e inclusão no espaço e a considera como uma mãe no hip-hop. Sobre o modo com que se reconhece, ele responde que o KL do dia a dia no trabalho e na escola, difere do KL MC que se apresenta nas rodas de rimas: Bom, eu acho que o KL que eu apresento na CBTU,na escola, é uma coisa bem diferente do que eu apresento na música, nas batalhas, porque assim... eu levo um lado muito formal comigo, tipo, na minha escola e trabalho eu sou muito formal. Tipo, quero conversar bastante sério com as pessoas. É tanto que a gente senta em roda de conversa, no trabalho, no trabalho a gente fica conversando sobre a vida, sobre o mundo, o que acontece... já nas rodas de rima, nos shows, na música, eu vou para... eu aparento ser mais agressivo do que eu sou. Tipo, o pessoal acha que eu quero meter medo quando passo na rua. Mas eu sou muito de boa... aí a pessoa passa por mim e nem olha na minha cara com medo do que eu falo na música… aí depois conversa comigo e vê que eu não tenho nada a ver com o que é… (KL, 2022). 67 Percebe-se uma construção de outro sujeito quando se refere a relação de KL com suas letras de rap, é o que ele chama de seu lado obscuro, que é despertado a partir do que escreve. “[...] então eu jogo tudo para fora, aí sai num tom um pouco meio agressivo” (KL, 2022). Essa agressividade na escrita pode explicar uma espécie de indignação e inquietação com questões que o afligem, como relata, a inquietação com preconceitos e questões sistêmicas que estão enraizadas na sociedade. Dentro dessa discussão, KL comenta que o movimento hip-hop serviu como um agente conscientizador em sua formação, principalmente, dentro dessas questões sociais que assolam a sociedade. Ele cita o machismo: [...] sobre o machismo... Por que assim, querendo ou não, todo homem tem um lado machista da criação. Então, o hip-hop me fez ver isso também porque comecei a acompanhar várias coisas e ver que boa parte do que eu fazia quando era menor, quando era criança que ainda não tem muita consciência do que fala, estava errado, que poderia afetar futuramente uma pessoa com problemas de pensamentos ruins, essas coisas. Então, eu acho que sobre isso o hip-hop também liberta você do pensamento, do eixo central do mundo, que você tem que fazer isso porque você é homem, que você só pode fazer isso por que você é mulher (KL, 2022). É interessante como KL fala do hip-hop como libertador dentro de sua formação pessoal, desvencilhando de práticas aprendidas no núcleo familiar ou de amigos, que reforçam determinados preconceitos. Ressalta-se, ainda, a capacidade do movimento de acompanhar as discussões no campo social e trazer tais questões para as letras de rap e o discurso do hip-hop, como exemplo dos Racionais MC’s que excluíram canções de cunho machista de seu repertório, por tomarem consciência de que certas letras não cabem mais à atualidade, afirmando que seria necessário mudar de acordo com as transformações da sociedade, relata Edi Rock em uma entrevista . Então, se percebe a dedicação do movimento hip-hop para9 atender às mudanças que a hodiernidade requer, diante das amarras das questões estruturantes 9 EDI ROCK EXPLICA O MOTIVO DA RETIRADA DE MÚSICAS DO REPERTÓRIO DOS RACIONAIS MC’S NOS SHOWS TRAZENDO UMA REFLEXÃO PARA O MACHISMO EM SUAS LETRAS. Gshow. 23 de novembro de 2019. Disponível em: <https://gshow.globo.com/programas/conversa-com-bial/noticia/edi-rock-explica-por-que-cortaram-musicas-mac histas-da-turne-dos-30-anos-dos-racionais-mcs.ghtml>. Acesso em: 03. abr. 2022. https://gshow.globo.com/programas/conversa-com-bial/noticia/edi-rock-explica-por-que-cortaram-musicas-machistas-da-turne-dos-30-anos-dos-racionais-mcs.ghtml https://gshow.globo.com/programas/conversa-com-bial/noticia/edi-rock-explica-por-que-cortaram-musicas-machistas-da-turne-dos-30-anos-dos-racionais-mcs.ghtml 68 que permeiam as relações cotidianas, sendo essa manifestação uma maneira de libertar e abrir o pensamento para outra ótica. Quando perguntado sobre a relação do hip-hop com a formação sociocultural e política, KL concorda que ambos estão relacionados, e suas falas apontam que, por meio do movimento, atingiu essa consciência/construção formativa. Ao responder a pergunta, KL fala primeiro em uma perspectiva da política eleitoral e partidária, em que o rap pode ser instrumento de posicionamento: “[...] o hip-hop me trouxe um estudo da política bastante bem maior do que eu estudava antes, porque antes eu nem ligava. “Minha familia vai votar nele, eu vou votar nele” (KL, 2022). Mas também reflete para o potencial que o rap tem nessa conscientização a partir de quem o escuta. Tem! Porque no hip-hop eu posso expressar meu lado político, como a gente já faz bastante, porque assim... Eu acho que não só eu, como outros artistas também aproveitam o espaço que tem no rap, o livre arbítrio de usar aquelas letras para dizer o que realmente está acontecendo. Tem muita gente que escuta, vê o que tem nas letras, mas não quer entender aquilo. E aquele som tocando no seu ouvido diariamente, várias vezes, você vai entender que aquele cara está errado, que aquele está certo, que precisa ser mudado isso e aquilo. Então, acho que tem muito a ver um com o outro (KL, 2022). A poética do rap carrega esse poder de denunciar e colocar determinadas questões em evidência, que cada rapper traz em suas letras, de acordo com suas vivências e subjetividades. A necessidade que KL encontra é de migrar suas letras para uma perspectiva sociopolítica ainda mais presente, sendo a sua música um meio de conscientização das pessoas. Gonçalves (2013) fala do rap engajado e discute o compromisso que o movimento hip-hop assume ao engajar-se politicamente e ativamente. Nesse sentido, ela ressalta que os rappers encontram esse espaço para expressarem seus sentimentos e inquietações. Eles descobriram nesse estilo musical e estético um modo inventivo para expressar e disseminar suas ideias e sentimentos: na escrita rap são percebidos mais facilmente a apropriação dos elementos da cultura local. A crítica e denúncia social é o elemento ‘condutor’ do ‘movimento hip-hop’ que, para além da produção artística e cultural, ele é comprometido com o engajamento ‘político’. Essa dimensão crítica, de engajamento e de ativismo 69 social é um traço marcante do ‘movimento hip-hop’ [...] (GONÇALVES, 2013, p. 135). A sua construção de identidade sociopolítica e cultural é demasiadamente influenciada pela sua atuação dentro do movimento. Percebe-se que a consciência de questões que envolvem a sociedade é atentada por meio de contribuições do hip-hop. A vivência de KL se assemelha à concepção que a autora traz, pois sua construção dentro do movimento lhe permitiu a tomada de uma nova postura e modo de estar no mundo. Nesse sentido, ele também reflete sobre a diferença do hip-hop em detrimento de outros gêneros que também se propagam dentro das periferias. Perguntei a KL qual a relação que ele via entre o rap e o funk, visto que são expressões surgidas dentro das comunidades. Ele responde: Sim, porque querendo ou não os dois vem de periferia, traz a realidade. O Funk em si ainda foge um pouco da visão da periferia porque quer trazer a ostentação para além da favela, quer trazer um olhar mais vivido de boniteza para as favelas, só que vemos que não têm. Então o hip-hop vem com aquela parte de que traz tudo de… não de mal, de realidade da favela e traz para o centro… o centro da mídia. Aí, na mistura do trap com o funk. Então dá um olhar maior ainda na periferia sobre isso (KL, 2022). Os dois gêneros são oriundos das periferias, mas o que KL relata, diz respeito às mudanças no percurso musical e histórico destes. Hoje, as razões pelas quais o funk está alinhado a um discurso de ostentação, sexualização, crime, etc., podem se relacionar com o que pede a indústria fonográfica como produto musical. Costa (2018) comenta esse processo e enfatiza a lógica de mercado implícita, apontando a construção de um fenômeno musical que envolve gravadoras, empresas, bandas, etc., nas relações artísticas (COSTA, 2018). Assim sendo, o funk vem cada vez mais condicionando o processo de criação às expectativas de mercado, cujas músicas atendem a um padrão artístico hegemônico. Em contrapartida, o hip-hop parece se manter firmena problematização do que envolve o cotidiano das periferias dos grandes centros urbanos. Pode-se ainda, acrescentar, as diferentes perspectivas através das quais ambos os gêneros retratam as periferias. O hip-hop com um olhar questionador como base, denunciando o que agrava as condições de vida da população periférica e valorizando o dia a dia nas comunidades ao mostrar um lado que é 70 esquecido e apagado pela mídia e pelo preconceito estigmatizado dessa parcela. O funk, por outro lado, ao mesmo que apresenta a periferia e seus dilemas, traz um discurso de glamourização da realidade em suas letras, como trouxe KL em sua fala. Quando perguntado quem seria KL sem o hip-hop, ele retoma a sua fala inicial do movimento como um agente de mudança de sua realidade, principalmente, no que condiz à sua formação humana, cultural e política. Ele responde: Acho que, como eu falei no início, eu acho que nem na escola eu estaria, nem trabalhando, eu estaria, digamos, igual ao pessoal que fica no meio do mundo, bagunçando, procurando algo para me distrair, só que não algo certo. Eu estaria fazendo, acho, tumultos na rua, não estaria estudando como realmente estudo agora, não voltaria ao trabalho, acho que nem emprego eu teria... estaria vegetando lá em casa, não teria o que fazer (KL, 2022). Ele enfatiza: “acho que eu estaria num estado vegetativo bem grande, se eu não tivesse o hip-hop minha vida” (KL, 2022). O hip-hop, de certa forma, atribuiu sentido para KL, que conta como ele foi importante para o ajudar a enfrentar a depressão: “a melhor parte do hip-hop foi ter vencido isso” (KL, 2022). E toma como foco que acompanhou seu processo de superação, o auxiliando a continuar com seu objetivo: “Então, escrevi várias músicas boas, e veio mais reconhecimento para mim, porque quando tudo isso aconteceu, eu não tinha feito nenhum show ainda e só nesse mês apareceram quatro ou cinco shows pra fazer” (KL, 2022). Dessa maneira, seu relato apresenta a importância que o hip-hop pode ter como construtor de trajetórias e que envolve identidades juvenis, lhes dando um caminho a se seguir e experimentar. 5.1.3. Rap, trabalho e renda Um dos assuntos mais pontuados por KL durante a entrevista condiz na atuação profissional com o hip-hop. Fica nítido em sua fala o desejo em viver do rap e promover a partir dele mais cultura para o seu bairro, bem como poder ser reconhecido dentro da cena natalense. Percebe-se que alguns passos já foram dados, ainda que KL tenha apenas seus 17 anos de idade, como a gravação de suas músicas, algumas parcerias e oportunidades de 71 mostrar o seu trabalho, além da sua atuação dentro da organização da batalha de rimas da Esperança. KL já se coloca nessa postura profissional ao refletir sobre o conteúdo que traz em suas letras com a preocupação do que abordar e do modo que as pessoas podem recepcionar sua música. Agora, se volta para uma perspectiva sociopolítica nas letras, não deixando de denunciar questões vigentes na sociedade, mas com prudência no discurso. Hoje eu tenho um lado mais profissional do que quando iniciei. Logo de início, eu não queria ligar muito pro que eu falava e... como eu me dirigia pra certos assuntos [em suas letras]. Agora passou uma letra, penso bastante de como isso pode afetar em outro lugar e outras pessoas. É tanto que a gente tá gravando um EP agora, e a gente está sempre querendo levar o lado mais politizado para isso, porque, querendo ou não, o mundo precisa saber da política [...] (KL, 2022). A preocupação estética e com o que fala em suas letras mostra o seu amadurecimento profissional com o hip-hop. KL avança na discussão sobre o trabalho com rap, relatando o cotidiano enquanto artista na cena da cidade. Ele demonstra sua indignação com a maneira com que os rappers são tratados pelos espaços de música, pelos produtores, por quem organiza determinados eventos, etc. Nos desdobramentos de sua fala sobre o reconhecimento do hip-hop no bairro, KL acrescenta: [...] eu queria que tivesse mais cultura hip-hop dentro do bairro. Mais festivais, que trouxesse os músicos de hip-hop, de rap para cantar, só que sem os artistas de fora, tendo em vista que ultimamente festas e bailes só tem artistas de fora, e quando vem de dentro não é o artista de hip-hop que realmente é de periferia... vem geralmente pessoas que são, que moram em Ponta Negra, bairro bem… [elitizado]… que vão cantar nesse festival que leva uma realidade nada a ver com o que ele vive e o artista que vive na periferia, que cresceu sabendo que aquilo era difícil pra ele e conseguiu ter um desvio daquilo ali pra uma coisa melhor, não chamam ele pra ter uma oportunidade (KL, 2022). É possível extrair de sua fala suas queixas com a falta de valorização do artista local, sobretudo, do artista do hip-hop que sente, de modo maior, esse esquecimento. Outro ponto que KL menciona chama atenção, para os rappers que estão dentro da cena do hip-hop, mas 72 não vivenciam uma realidade de pobreza e descaso, a qual vivem as periferias, contradizendo uma das bases fundamentais do movimento, ser a voz das ruas e vielas: do gueto. Araújo (2019) realizou entrevistas com MC’s da zona oeste de Natal, que relataram um contexto semelhante ao que KL expõe. Dentro desse percurso profissionalizante de sua arte, não lhes falta talento e essa nem é a questão que mais implica no desenvolvimento artístico dos MC’s, mas sim “se referiam principalmente a falta de financiamento, pois lançar uma música requer bem mais investimentos do que ser posta nas plataformas digitais [...]” (ARAÚJO, 2019). KL fala de outros desafios dentro da cena que confere à falta de reconhecimento do público que não apoia a cena local, resultado da influência da indústria fonográfica que não está interessada em propagar o hip-hop, sobretudo, pelo seu caráter crítico. [...] o último show que eu fiz foi no beco da lama. E são muito... ali é um centro de pessoas burguesas, digamos assim, e tipo, enquanto estava tocando só um som, que não era nem artista cantando um funk lá, só o som, tava todo mundo animado. Entrou eu, [nomes omitidos para preservar os anonimatos] pra tocar, o pessoal dispersou porque não queria ver a cultura de preto naquele lugar que é burguês, digamos assim (KL, 2022). Esse se mostra como um dos grandes desafios para o artista local: conseguir o reconhecimento do público. Para KL, estes espaços seriam uma grande oportunidade de conhecer quem está ali no palco e a sua música e lamenta que cada vez mais as pessoas estejam inclinadas para a apreciação de um produto musical. Na ocasião, KL relata que não houve remuneração e o objetivo dele e dos outros rappers era ter ao menos a atenção de quem estava lá. E que tava ali ao vivo pra ele, pra ele curtir, ter um corpo a corpo com o artista, Mas ele preferiu curtir um som de pendrive, de youtube, e dar as costas para quem estava ali trabalhando, ganhando o seu.... nem ganhando dinheiro, porque a gente não recebeu nesse dia. Só estava ali para mostrar sua arte. E ele não ligava para isso (KL, 2022). A lógica de mercado no mundo da música tem afetado, de modo recorrente, a vida profissional de muitos jovens artistas que procuram um espaço nesse universo. O relato de KL compreende queixas de inúmeros outros artistas, principalmente do hip-hop e carrega um 73 certo descontentamento ao se deparar com um cenário que não abre os caminhos para pequenos artistas. Quem não tem patrocínio, produtor ou gravadora, não tem portas abertas para prosseguir com sua arte e para que se tenha tais recursos é necessário ter dinheiro, o que se distancia da realidade de jovens periféricos. Nas palavras de Araújo (2019): “as grandes produtoras ainda não estão ao alcance dos jovens que produzem na periferia de Natal” (ARAÚJO, 2019, p. 41). KL externa seu desejo de se profissionalizar com o rap em vários momentos da entrevista. Ao ser perguntado sobre os desafios que ele percebe para um jovem que atua no hip-hop, sua resposta não foi diferente. Paraele, a falta de reconhecimento, seja na cena natalense ou em suas relações pessoais, se destaca como sendo uma das principais dificuldades. Primeiramente, é trabalhar com outros produtores que não ligam pra você. Ele, só quer que... só quer o seu dinheiro, não cuida da sua música, sua voz em si. Ele, tipo: “me pagou? só vou fazer aqui uma besteirinha, ele se vire com o resto”. Também tem contratantes que focam em outras pessoas, que conhecem você, você ali tentando uma forcinha, alguma coisa, mas nunca lhe chama nem pra dar uma palinha de cinco minutos num festival. Aí é uma luta bem grande, porque você tem que buscar reconhecimento de pessoas que já conhecem de você, mas que não acreditam em você. E quando você chegar ao ponto de um festival como o DoSol , que acontece todos os anos e10 todo mundo conhece, você chegar naquele ponto ali vão dizer: “Ah, aí eu conheço desde pequeno”... Mas quando você precisou do apoio daquela pessoa ela não ligou pra você (KL, 2022). KL sente dificuldades para se afirmar enquanto artista local do hip-hop natalense e relata que isso decorre do não reconhecimento do seu trabalho, afirmando que há um grande esforço para se destacar nos lugares. Parece demonstrar um sentimento de que essa identidade enquanto artista só irá se legitimar quando estiver há um certo tempo na caminhada profissional, pois, é o contexto de grande parte dos que já faziam o hip-hop na cidade. Assim como eu não tenho um produtor, produtora, então essas coisas, assim, sou eu por mim e quem canta comigo pela gente. a gente tem que buscar essa visão desses lugares. Então, assim, localmente eu não me vejo como um artista local. Eu só (inaudível) ter reconhecimento que eu queria ter, que eu 10 Festival de música realizado pela produtora DoSol. 74 acho que muitos como eu, não tem. Conheço alguns que têm porque já fazem quatro, cinco, seis e até dez anos que estão naquilo ali. E depois de dez anos só conseguiu essa visão quando está ali há cerca de oito, sete anos de carreira já, que foi quando começaram a abrir as portas da cultura para eles (KL, 2022). No entanto, vislumbra uma alternativa para sua inserção na cena, por intermédio de editais de incentivo à ações culturais: E também ela está um pouco mais fácil com nossas leis, que foram feitas para artistas que, você pode botar seu nome em festivais dentro do município, do estado, isso traz uma visão maior para você, tipo... essa liberdade que o município está dando para você se inscrever nos festivais pra ele não convidar pessoas de fora, como o São João, que agora vai ter, que trouxe artistas locais, artesãos que estão na Aldir Blanc , que vão colocar o11 seu nome na lista para ser sorteados para esses festivais. Por que assim, querendo ou não, a cultura de fora acaba ficando mais cara. E o que você vê lá fora você vê aqui dentro, só não tem o reconhecimento que precisa (KL, 2022). Um outro desafio que relata se refere à procura por produtores que acreditem no seu potencial, pois, muitas vezes, os artistas investem no trabalho desses profissionais que, em contrapartida, não retribuem a mesma confiança e valorização. E sugere que deveria haver uma articulação que favorecesse a cena do hip-hop em Natal e região metropolitana, bem como do trabalho conjunto no apoio entre os MCs. não somos tão vistos fora, nem dentro do mesmo. Teria que ter esse apoio de trazer a cena de Natal para fora do RN... às vezes até pra fora de Natal, que muitos cantos... Macaíba e Parnamirim tem muitos cantos que não conhecem os artistas daqui dentro. Então tem que ter esse apoio da cena em si, trazer a visão de fora pra dentro de Natal, que merece bastante (KL, 2022). KL, apesar das dificuldades, demonstra não querer desistir do seu sonho. O rap se apresenta para ele como uma alternativa que encontrou em meio a um processo de transformações, de um jovem que ainda vivencia o ambiente da escola, que está se inserindo no mercado de trabalho, mas que não tira de foco o seu compromisso com o hip-hop. Ele cita 11 LEI QUE DISPÕE AÇÕES EMERGENCIAIS DESTINADAS AO SETOR CULTURAL. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/L14017.htm>. Acesso em: 13. jul. 2022. 75 a falta de apoio dentro da família, em que já ouviu frases como “ah, isso é música de vagabundo, você não vai conseguir nada com isso”, mas que ao se depararem com suas conquistas, passam a acompanhar seu trabalho. E mesmo diante de tais falas que tendem a rebaixar a sua atuação como artista, KL reverte esse sentimento em capacidade para continuar no percurso com o rap e sem recuar do que lhe mantém firme no movimento: a crítica social e denúncia das desigualdades em que se encontram a população das periferias: “temos que querer ouvir o que está acontecendo” (KL, 2022). Foi possível reconhecer no relato de KL alguns traços de sua trajetória que perpassa pela sua relação com o bairro e os desafios que encontra enquanto artista que faz o hip-hop hoje. Por isto tudo, chamo atenção para algumas falas dele que denotam a importância do movimento em sua vida e o seu compromisso para com ele. KL tem sonhos e todos envolvem o hip-hop como primeira opção: Eu acho que, como todo artista, eu quero o reconhecimento da cena de onde eu moro, pelo menos no estado aqui que a gente vive, porque assim... só o estado daqui já é bastante populoso. Então, essa visão dentro do estado, das pessoas de fora que iriam ver. E acho que se com o hip-hop não der certo, acho que eu me entrego a uma faculdade de contabilidade por aí [ri] (KL, 2022). Percebe-se a sua compreensão com as implicações que envolvem a vida só da arte. Viver de hip-hop é o seu sonho e KL demonstra não querer abrir mão dele, contudo, sabe das dificuldades e pensa como segunda opção migrar para outro campo, que talvez, sequer traga sentido e significado maior que o rap tem para ele, por isso, essa “entrega” que ele emprega, parece carregar um peso de sujeição. Todo o relato de KL caminha no sentido de evidenciar o papel do movimento hip-hop na vida das juventudes e a partir do que ele traz, se pode relacionar o que a literatura discute no que concerne às juventudes, periferias e hip-hop e o que a vivência de quem está na cena tem a contribuir. Assim sendo, KL representa muitos que fazem o hip-hop acontecer hoje e seus sonhos enquanto jovem, preto e pobre, oriundo da comunidade do Bom Pastor, significam tanto quanto o de outros jovens e suas raízes o representam, de modo que, mostra a sua resistência pela afirmação do seu “lugar de felicidade”. 76 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A juventude se configura como uma importante parcela da sociedade. Apesar de constantemente ser compreendida como um grupo homogêneo, somente o termo “juventudes”, escrito no plural, dá conta de manifestar sua natureza múltipla nos modos de ser e estar no mundo. Muitas são as questões que atravessam a condição juvenil, e pensá-la tendo como pano de fundo a periferia é assumir um recorte que implica na discussão sobre a vivência dentro dessas comunidades, pensando em contextos de vulnerabilidade e nos agravantes sociais que permeiam esse cotidiano. Para tanto, este trabalho teve como objetivo discutir a relação que um jovem tem com o seu local de moradia e de que maneira a sua música influencia no sentimento de pertencer a esse lugar - periferia - e nele existir e resistir. Diante da discussão empreendida ao longo deste trabalho, se percebeu a importância que a atuação do movimento hip-hop tem no processo de construção de uma afirmação e reconhecimento com a sua comunidade. Com a vivência relatada por KL durante a entrevista, foi possível compreender que, para as juventudes das periferias dos grandes centros urbanos, a música cumpre um papel transformador de suas trajetórias, seja na perspectiva de quem está no processo artístico e criativo, como KL, ou de quem é alcançado pela sua música. Assim sendo, há uma dimensão formativo-musical e sócio-política que envolve o movimento hip-hop e as juventudes. Vale salientaros caminhos metodológicos adotados nesta pesquisa e como estes se desenvolveram a partir do que KL traz como contribuição. Um jovem, com apenas 17 anos, que busca uma trajetória profissional com o rap, que acolhe suas questões e o compreende e onde pode desabafar/denunciar o que está “engasgado” por meio de suas letras. Foi possível observar a sua conexão com a comunidade, sendo um grande defensor dela e buscando melhorias para ela. A cultura, para ele, é um dos principais agentes de transformação da realidade juvenil de seu bairro, e destaca que essa mudança pode vir por meio do hip-hop. KL fala do seu sonho: “viver como artista e viver da minha arte como muitos querem e poucos conseguem ultimamente” (KL, 2022). Ele sabe dos desafios que estão implícitos e explícitos nessa escolha, mas não desiste, como um jovem convicto de seus objetivos. KL expõe a sua disposição para lutar pelo que deseja: compor a cena do hip-hop natalense e 77 alcançar reconhecimento, sobretudo, do seu bairro, que representa as suas origens. O seu desejo é de transformar a realidade “da sua periferia através da arte e da cultura” (GONÇALVES, 2013, p. 41). O seu núcleo de atuação, a Batalha da Esperança, que funciona como um território de experimentações e também um espaço formativo-musical para ele, tem uma estrutura de organização consistente que permite com que KL tenha suas metas, de atuação profissional com o rap, bem delineadas, o que pode se explicar pelo seu papel enquanto um dos organizadores da batalha. Há uma espécie de rede de apoio entre a cena do hip-hop no âmbito nacional. Na Batalha... a gente tá participando da cooperativa de batalhas do RN que consiste em todas as batalhas da seletiva nacional, Congressos… No mês passado tivemos a Batalha com o Congresso da Cooperativa em Currais Novos. Em dezembro temos a Seletiva Nacional, que junta milhões de MC’s de cada região e Estado numa batalha só. Acho que vai ser em Minas esse ano (KL, 2022). Assim sendo, seu relato contribui na compreensão da atuação do hip-hop, que presume todo um formato de organização que o mantém firme em seu funcionamento, bem como, mostra a preocupação que os artistas têm no que concerne à aspectos da profissionalização com o movimento, sendo este uma fonte de grande potencial de produção artística para geração de renda (DAYRELL, 2002, p. 131). O movimento hip-hop detém grande importância para jovens pobres, viventes nas periferias, ao passo que estes se veem diante de uma situação que os condiciona a seguir trajetórias diferentes das que sonham alcançar. Não é culpa deles que desistam da escola ou não encontrem emprego, tampouco não se justifica a abordagem truculenta na atuação da polícia dentro das comunidades. Tratam-se de inúmeras violações de direitos e das condições de vida da população periférica, sobretudo, juvenil, como disserta Maricato (2001): “Essa marca de ilegalidade e a conseqüente ausência de direitos é que irão determinar grande parte o estigma que acompanha as áreas ocupadas por favelas” (MARICATO, 2001, p. 1). A fim de compreender os resultados deste estudo, se traz a perspectiva da Educação Musical em conexão com as outras áreas do conhecimento no que se refere às contribuições 78 que esta pesquisa pode trazer para a literatura. Entendeu-se o conceito de juventudes enquanto sujeitos plurais que estão inseridos nos mais distintos espaços, desagregando a noção desregrada, sem responsabilidades ou imoral dos jovens e trazendo o protagonismo, a autonomia, a diversidade, a participação e, principalmente, o jovem como o presente e não como uma fase passageira. Dessa maneira, quanto ao papel do ensino de música para as juventudes, este deve envolvê-las em sua dimensão pedagógico-musical ao acolher o que o jovem traz para a sala de aula, mas sem se distanciar do parâmetro formativo e curricular que música precisa cumprir nas escolas. Ou seja, conectar a educação musical com a realidade dos alunos compreende ir além do que o padrão de currículo prevê para a educação básica, mas também apresentar ao aluno as suas bases empíricas, pois, “o relacionamento com a música na escola não poderá ser o mesmo que ocorre nas vidas cotidianas” (PEREIRA, 2021, p. 82). E esse desafio se coloca para o professor, que precisa atentar para a sua prática e como ela atinge significativamente os processos de aprendizagem dos jovens alunos. Como discorre o autor, é preciso de exatidão sobre qual ensino de música se pensa para as escolas e afirma que é necessário considerar também a abordagem epistêmica e não somente a perspetiva pedagógica. Isso deve perpassar pela formação docente e capacitação de professores que saibam lidar com as juventudes, propiciando uma educação que envolva os alunos e acolha suas questões. “Ouvi-los nos auxilia a tirar as máscaras que colocamos nos jovens, escondendo suas idiossincrasias atrás do conceito neutralizante de ‘aluno’” (PEREIRA, 2021, p. 84). O movimento hip-hop fora do espaço da escola também cumpre um papel formativo dos jovens, mas acompanhado de sua abrangência sócio-cultural e política. A voz das ruas também ensina e exemplo disto está presente neste estudo a partir do relato do colaborador. Essa manifestação para os jovens propicia uma experiência de mudança de suas realidades, mas não no sentido de ascensão social e financeira, mas de saída de uma posição não reflexiva sobre sua condição subalterna, partindo para uma consciência política de seu contexto. Compreendendo a discussão desencadeada neste estudo, o ensino de música pode ir além em suas bases formativas e abarcar as perspectivas que vêm de fora do que está previsto nas em seu ensino formal-escolar. Essa mudança deve vir como contribuição para a literatura, 79 a fim de que se possa pensar a formação docente, seja na academia ou na prática profissional, mas para que isso ocorra, é necessário o ponto de partida por meio de pesquisas como esta, que se inserem dentro dos espaços que estão relacionados com o ensino de música hoje, seja em quaisquer contextos de ensino - formais ou não-formais. Considerar outros contextos de formação em música que não são contemplados pela literatura torna-se preciso quando se atenta para algumas faltas da educação musical no avanço das discussões à medida que muitas outras questões caminham em detrimento das mudanças que a sociedade passa. Portanto, quando se coloca a ótica do hip-hop enquanto agente formador, acolhe-se outras perspectivas de ensino, que não necessariamente precisam estar na escola. Nesse movimento de trazer o de fora para dentro, há uma maior tendência de abrangência para a atuação do campo da música para diferentes ambientes. Assim, compreendo que a produção de trabalhos como este, tendem a contribuir para as discussões na área de música, entendendo que a educação musical pode ampliar suas ênfases de pesquisa, bem como, observo que a temática das juventudes, há muito vem sendo tratada apenas pela ótica da escola regular, na elaboração de materiais curriculares e dinâmicas pedagógico-musicais adequados para o faixa etária, ou em discussões pouco aprofundadas sobre a importância dos jovens no âmbito da música, muitas vezes, presente em relatos de inserção destes em projetos de ação social e ONGs. Mas onde estão as produções que vão além dessa perspectiva? Todas as juventudes estão sendo contempladas nos trabalhos de música? Muitas questões me envolveram no processo de construção deste estudo e muitas ainda me inquietam e motivam para a continuidade neste tema, pois, observo que falar sobre as juventudes pode abrir novos caminhos de análise e discussão e atenho-me às juventudes periféricas, que precisam ser postas em evidência, como modo de reparar toda segregação e invisibilidade de sua condição. Nas periferias também moram sonhos, talentos, potenciais. O jovem que mora nas comunidades tem metas e considerá-las se faz emergente, sobretudo, para quem se propõe a discutir os processos de formação educacionalem música, pois, esta tem a capacidade de acolher esses sonhos, seja pela criação ou pelo reconhecimento em determinado estilo ou gênero musical, neste caso, o rap. E dentro da perspectiva do 80 hip-hop, fica uma procura, como cantam os Racionais (1997): Procure a sua, da minha eu vou atrás, até mais. 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O estudo tem como objetivo investigar narrativas de jovens da cena hip-hop natalense sobre a música no processo de construção desuas identidades sociopolíticas e culturais. A participação dos colaboradores deste estudo se dará por meio de uma sessão de entrevistas conduzida pela pesquisadora. O conteúdo gerado nas entrevistas será utilizado apenas para fins acadêmico-científicos. Os dados serão examinados e caracterizados, preservando-se o anonimato dos entrevistados, caso assim prefiram. De forma ética, as falas dos entrevistados serão transcritas, organizadas, analisadas e selecionadas pela pesquisadora, para que o conteúdo integre o seu Trabalho de Conclusão de Curso, bem como eventuais textos que podem vir a ser publicados em anais de eventos científicos, periódicos acadêmicos e/ou em livros e capítulos de livros. Você não terá nenhum custo ou compensação financeira pela participação na pesquisa. A sua contribuição, todavia, será importante para o fortalecimento da produção acadêmico-científica sobre o hip-hop e suas relações com a juventude e com educação musical. Você receberá uma cópia desse termo por e-mail. Pelo mesmo canal, você poderá recorrer à pesquisadora para sanar quaisquer dúvidas sobre o trabalho. Eu, _____________________________________________, declaro aceitar os termos acima descritos, estando ciente dos processos metodológicos e informações supracitados, permitindo o uso acordado neste termo de todos os dados fornecidos à pesquisadora para a feitura de seu trabalho. Natal, _____ de __________de 2022 ________________________________________ Assinatura do participante 88 Apêndice B - Roteiro de entrevista UNIVERSIDADE FEDERAL DO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA CURSO DE LICENCIATURA EM MÚSICA ROTEIRO DE ENTREVISTA 1. Para iniciarmos nossa entrevista, poderia me falar, quem é [nome do entrevistado]? e como você se reconhece/define no mundo? 2. Como foi o seu primeiro contato com o movimento hip-hop e como você se relaciona atualmente com ele? 3. Qual é a importância do hip-hop em sua vida? 4. Para você, qual o nível de importância da música na vida das juventudes periféricas e por quê? 5. Qual seria, para você, o papel da música no movimento hip-hop? 6. Como você se relaciona com a sua comunidade e qual sentido ela tem para você? 7. Na sua opinião, qual relevância o movimento hip-hop tem em sua comunidade? Ele é reconhecido? 8. Existe relação entre o seu perfil sociocultural, sociopolítico e o hip-hop? Qual? E por quê? 9. Quais são os desafios para um jovem que atua no hip-hop hoje? 10. Para finalizar, como seria o [nome do entrevistado] sem o hip-hop?