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APOL Questão 1/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Vimos que um novo tipo de Estado começou a ser forjado. No entanto, somente após as críticas iluministas a partir do século XVIII e com a consolidação do capitalismo como sistema econômico é que o chamado Estado Moderno se tornou preponderante”. Fonte: Rota de aprendizagem 2, p. 2. Tendo como base os ensinamentos do professor Carlos Alberto Simioni e a contextualização acima, analise as afirmativas abaixo assinalando V para verdadeiro ou F para falso. Após, assinale a alternativa correta acerca dos princípios iluministas desenvolvidos por Kant. I. Desenvolveu o conceito de Estado-Nação, no qual representava a atuação do Estado enquanto ator no cenário internacional. II. Apresenta fatores que poderiam evitar a guerra entre as nações, como a não intervenção, a formulação de tratados sem ressalvas, o republicanismo, o fim do patrimonialismo e o fim dos exércitos permanentes. III. Elaborou a proposta de uma espécie de “direito internacional” que deixou uma herança no campo das relações internacionais. IV. Para Kant, os Estados deveriam entrar em acordo e criar uma federação de nações, o que de fato se tentou no século XX, com a Liga das Nações e com a Organização das Nações Unidas (ONU). Você não pontuou essa questão A V, F, V, V B V, V, F, F Você assinalou essa alternativa (B) C F, V, V, V D F, V, F, V E F, F, V, V Questão 2/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “No século XIX, o capitalismo, com sua específica forma de relação de trabalho (assalariado), estava se consolidando na Europa. A Inglaterra era o país no qual o processo estava mais avançado; havia centenas de fábricas e milhares de operários. As condições de trabalho, no entanto, eram precárias. No livro O Capital, escrito em meados daquele século, Marx analisa como as próprias instituições britânicas, ao longo de décadas, criaram uma legislação trabalhista que, na visão desse autor, era insuficiente. O parlamento inglês, por exemplo, paulatinamente reduziu a jornada de trabalho após várias denúncias de médicos, religiosos, jornais e de comissões do próprio Parlamento (Marx, 1987)”. Fonte: Rota de aprendizagem 3, p. 3. Tendo como base os ensinamentos do professor Carlos Alberto Simioni e a contextualização acima, analise as opções abaixo e assinale a alternativa que faz uma análise correta da concepção de Estado para Karl Marx. A O Estado é um instrumento: o grande partido da classe economicamente dominante. Você assinalou essa alternativa (A) B O Estado é o grande guardião da propriedade privada, a base da liberdade e da igualdade. C O Estado é uma instituição que, em determinado território, de forma legítima monopoliza o instrumental de coação física (a violência legítima). D O Estado é aparelho de dominação tradicional do proletariado e do lumpemproletariado. E O Estado é um estado hipotético em que cada um é completamente livre para fazer o que quer. Questão 3/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Se assumirmos a formação do Estado como parte do processo de modernização que começou com o Renascimento, então os primeiros Estados nacionais surgiram em territórios que hoje correspondem a França, Inglaterra, Portugal e Espanha durante os séculos XV e XVI. Esse processo ocorreu simultaneamente ao mercantilismo, e esses Estados eram marcados pelas feições do absolutismo (Bresser-Pereira, 2009)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 46 e 47. Tendo como base os ensinamentos do professor Carlos Alberto Simioni e a contextualização acima, analise os enunciados abaixo e responda a seguinte questão: o que podemos compreender por mercantilismo? A Foi um conjunto de práticas econômicas que pregava que o Estado deveria estar no controle do comércio internacional, bem como se responsabilizar pela prosperidade econômica. Você assinalou essa alternativa (A) B Foi um sistema econômico, político e social que se fundamenta especialmente sobre a propriedade da terra, cedida pelo senhor feudal ao vassalo em troca de serviços mútuos. C Sistema de governo baseado nas relações de dependência que se criam ao redor do poder dos caciques políticos locais. D Subsistema de relação política, com uma pessoa recebendo de outra a proteção em troca do apoio político. Também é chamado política do favor. E É a característica de um Estado que não possui distinções entre os limites do público e os limites do privado. Foi comum em praticamente todos os absolutismos. Questão 4/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Hobbes fala de uma natureza imutável dos homens em relação ao tempo e a história, o que os coloca em condição de igualdade plena entre si e faz com que nenhum possa se sobrepor integralmente aos demais. Para o autor, essa situação leva a uma instabilidade, na qual ninguém consegue saber o que os outros pensam ou desejam. O mais prudente sempre seria atacar, com vistas a evitar ser atacado em algum momento. Assim, o homem estaria em um permanente estado de guerra de todos contra todos”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 36. Tendo como referência o conteúdo abordado no livro base da disciplina e seus conhecimentos sobre Hobbes, analise as afirmativas abaixo e selecione a alternativa que descreve corretamente o que podemos compreender por estado de natureza. A O estado de natureza é um estado hipotético em que cada um é completamente livre para fazer o que quer. É um estado sem normas reconhecidas por todos, sem contrato, em que aflora a natureza humana. Você assinalou essa alternativa (A) B O estado de natureza é um estado formado por normas e regras obedecidas por todos. C O estado de natureza é uma referência ao governo de muitos, principalmente, ao modelo democrático. D Estado de natureza é um conceito desenvolvido por Kant onde não existe distinção entre política e religião. E Estado de natureza é um conceito desenvolvido por Karl Marx que trata, principalmente, da questão da exploração do proletariado. Questão 5/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Podemos considerar Marshall como um dos autores que lançou as bases teóricas do Estado de bem-estar social por meio de sua teoria da cidadania. Kerstenetzky (2012, p. 27) afirma que o referido autor foi um “fundador do campo teórico do welfare state" e desenvolveu uma justificativa pública e argumentos convincentes para a construção do Estado de bem-estar social, em uma concepção universal da fruição de direitos sociais como base para o acesso a cidadania”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 127 e 128. Com base nos seus conhecimentos sobre a teoria de Marshall, analise as opções abaixo e assinale a alternativa que faz uma análise correta. I. Marshall mostrou com maestria a existência de conexões dinâmicas entre as lutas por direitos e a construção do Estado-nação, especialmente no que se refere a implementação de políticas sociais dentro de uma ordem econômica capitalista. II. Marshall desenvolveu o conceito de cidadania, que perpassa a interação que se dá entre os cidadãos e entre estes e o Estado-nação. III. De acordo com Marshall, os direitos políticos têm como princípio básico a participação no poder por parte dos cidadãos, ou seja, o direito de estar no governo da sociedade. Em suma, é o direto de poder votar e ser votado. IV. Marshall elaborou a proposta de uma espécie de “direito internacional”que deixou uma herança no campo das relações internacionais. A Apenas as afirmativas I e III estão corretas B Apenas as afirmativas II e IV estão corretas C Apenas as afirmativas III e IV estão corretas D Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas Você assinalou essa alternativa (D) E Apenas as afirmativas II, III e IV estão corretas Questão 6/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “O terceiro autor do rol dos contratualistas é Jean Jacques Rousseau. Como já ressaltado, os contratualistas objetivavam reconstruir a história da humanidade por meio do método lógico-dedutivo e da construção de modelos hipotéticos. Entre eles, Rousseau foi o que mais se apossou desse método”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 41. Com base nos seus conhecimentos sobre os contratualistas, analise as afirmativas abaixo, assinalando V para verdadeiro e F para falso. Após, assinale a assertiva que faz a análise correta da filosofia política de Rousseau. ( ) Para Rousseau, a humanidade é boa por natureza, e é a sociedade que a corrompe. ( ) Rousseau acreditava na existência da vontade coletiva. Essa não é a vontade expressa pelos políticos na Assembleia, mas uma vontade comum a todos os membros de uma sociedade. ( ) Rousseau tinha uma concepção elitista da política, já que desconfiava das capacidades de que muitos pudessem exercer um governo racional. ( ) Para Rousseau, o contrato social foi uma espécie de "mal necessário", tendo em vista a impossibilidade de retorno ao estado de natureza. A V, F, V, V B V, V, F, F C V, V, F, V Você assinalou essa alternativa (C) D F, V, F, V E V, F, V, F Questão 7/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Max Weber (1864-1920) foi o autor que mais bem conceituou a transição do Estado absolutista para o moderno. Ele também soube delinear com grande precisão a economia capitalista e todas as transformações estruturais decorridas do processo de modernização e racionalização. Seus principais conceitos são, sobretudo, em relação ao Estado moderno e a emergência da administração do tipo burocrática” (Adaptado). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 52. Tendo como referência seus conhecimentos sobre a teoria weberiana, analise as afirmativas abaixo e selecione a alternativa que faz a análise correta. I. Na abordagem weberiana, os indivíduos calculam a forma mais eficaz para atingir seus objetivos. Sua teoria é chamada de Teoria da Escolha Racional. II. Para Weber Estado é o lócus onde poder e dominação se encontram; é a arena política por excelência. III. Para Weber, existiram três tipos ideais de dominação: tradicional, carismática e racional. IV. A Teoria weberiana lança mão de uma abordagem oriunda da economia e postula que o comportamento dos indivíduos é irracional. A Está correta apenas a afirmativa II B Estão corretas apenas as afirmativas I e III C Estão corretas apenas as afirmativas II e III Você assinalou essa alternativa (C) D Estão corretas apenas as afirmativas I, II e IV E Estão corretas apenas as afirmativas I, III e IV Questão 8/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “A visão liberal da economia é a de que o mercado é capaz de assegurar o bem-estar de toda a sociedade, reservando ao Estado o menor espaço possível. A justificação normativa para tanto foi definida pelos economistas David Ricardo (1772-1823) e, especialmente, Adam Smith (Silva; Souza, 2010), entre o final do século XVIII e o início do século XIX”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 63. Com base nos conhecimentos da disciplina sobre o período Iluminista, analise as opções abaixo, assinalando V para verdadeiro ou F para falso. Após, assinale a alternativa que faz uma análise correta acerca das contribuições de Adam Smith para a formação do Estado Moderno: I. O principal aspecto do pensamento de Smith é o fato de ele defender um mercado livre das garras do Estado. II. Adam Smith foi um dos primeiros a propor a visão hoje conhecida como Estado mínimo, pouco intervencionista. III. Adam Smith apresentou uma ideia moderna de Estado. Analisou o Estado e o poder político como tendo natureza própria e sendo ponto central da política moderna. O Estado como realidade própria. IV. Adam Smith propôs três atribuições para o Estado: proteção contra ameaças ou invasão externa; proteção contra ameaças na própria sociedade; criação de instituições e obras públicas que não gerem interesse da iniciativa privada. A V, F, V, V B V, V, F, F C V, V, F, V Você assinalou essa alternativa (C) D F, V, F, V E V, F, V, F Questão 9/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Dominação significa encontrar obediência de acordo com o conteúdo da ordem mandada, fato que pressupõe disciplina e obediência imediata e a noção de treino (socialização). Portanto, demanda uma associação de dominação, ou seja, um aparato, um quadro administrativo, uma estrutura de dominação cuja peculiaridade é determinada pelo caráter do círculo de pessoas que exercem sua administração e seu alcance. Mais que isso, a dominação é sempre validada e atribui-se sentido a ela envolvendo as noções de autoridade e legitimidade”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 55. Tendo como base a teoria weberiana, analise as opções abaixo e assinale a alternativa que faz uma análise correta do tipo de dominação racional. I. A dominação racional é aquela que se calca na validade de regras racionalmente estatuídas. II. Na dominação racional, o poder é legitimado por um sistema de regras racionais, ou seja, obedecem-se às regras, e não às pessoas; daí que ela é impessoal e aponta para competências objetivas. III. Weber resume a dominação racional como “a autoridade do ‘passado eterno’, ou seja, dos costumes santificados pela validez imemorial e pelo hábito, enraizado nos homens, de respeitá-los. IV. Na dominação racional há autoridade institucional, hierarquia oficial e qualificação profissional. No que se refere ao quadro administrativo, há separação absoluta em relação aos meios administrativos. A Apenas as afirmativas I e III estão corretas B Apenas as afirmativas I e IV estão corretas C Apenas as afirmativas III e IV estão corretas D Apenas as afirmativas I, II e IV estão corretas Você assinalou essa alternativa (D) E Apenas as afirmativas II, III e IV estão corretas Questão 10/10 - Estado Moderno e Contemporâneo Leia o texto abaixo e depois responda à questão: “Keynesianismo é o termo utilizado para designar o conjunto de políticas econômicas que foram influenciadas pela teoria do inglês John Maynard Keynes e que, com o enfraquecimento do ideário liberal, constituíram a alternativa principal a ortodoxia do laissez-faire após o termino da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Curitiba: InterSaberes, 2017, p. 103. Com base nos seus conhecimentos sobre o Keynesianismo, analise as afirmativas abaixo e selecione a alternativa que faz uma análise correta. I. Keynes defendeu, de forma pioneira, o mais drástico programa neoliberal, enfatizando a necessidade de os países industrializados aumentarem a taxa de desemprego como parte da estratégia para combater os sindicatos. II. Keynes acreditava que, apesarde suas limitações, o capitalismo ainda era o modo mais eficiente de promover o progresso nas sociedades e, por isso, precisava ser mais bem administrado. III. Em sua obra, A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, Keynes não apenas apontou as deficiências, mas também propôs uma nova compreensão do funcionamento do sistema capitalista. Assim, oferecia uma saída para a crise baseada na intervenção do Estado. IV. O Estado voltou a ter um papel importante nos assuntos econômicos, não como condutor do desenvolvimento dos países (como no mercantilismo ou no Estado socialista), mas como regulador das relações que se estabelecem no mercado. A Apenas as afirmativas I e II estão corretas B Apenas as afirmativas II e IV estão corretas C Apenas as afirmativas III e IV estão corretas D Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas E Apenas as afirmativas II, III e IV estão corretas Você assinalou essa alternativa (E) ESTADO MODERNO E CONTEMPORÂNEO AULA 1 Prof. Carlos Alberto Simioni 2 CONVERSA INICIAL Embora a ideia de nação ou império seja conhecida desde a Antiguidade, o conceito de nação ou país (Estado-Nação), tal qual conhecemos hoje, tem sua origem no início da Era Moderna, mais especificamente ao final da Idade Média (final do século XV e século XVI, período conhecido como Renascimento, quando ocorreram extraordinárias transformações sociais, econômicas, artísticas, religiosas e políticas). A partir desse momento, um sistema político denominado absolutismo (ou Antigo Regime) paulatinamente foi se fortalecendo na Europa e perdurou por quase três séculos, dando início a um processo de institucionalização do Estado. Assim, o chamado Estado nacional moderno passou a se constituir como uma das mais sólidas instituições da modernidade, a partir da sua aceitação (legitimidade) enquanto força militar específica e ator por excelência do cenário internacional, e também a partir de sua estrutura burocrática cada vez mais eficiente e poderosa. Nesta aula, analisaremos a origem remota do chamado Estado nacional moderno, procurando relacioná-la com o contexto social e político no qual surgiu; vamos analisar alguns casos específicos de nações absolutistas, diferenciando- as e elencando fatores comuns a todas elas. Se, por um lado, essa instituição nasceu durante o período absolutista, teve seu marco inicial com a Revolução Francesa (1789) e sua efetiva instauração nos séculos XIX e XX, quando se alastrou pelo mundo como um modelo cada vez mais padronizado de organização estatal, por outro, apesar de conter uma série de elementos que caracterizariam o Estado moderno, o Estado absolutista ainda possuía fortes vínculos com a lógica de dominação feudal. Isso o tornou uma espécie de Estado híbrido. Neste sentido, é importante analisarmos em que aspectos ele foi fundamental para superar a lógica feudal, e também em que aspectos ele se aproximou do atual Estado moderno. Esse contraponto é essencial para entendermos o quanto as ideias iluministas e liberais foram importantes para forjar tal instituição, assim como para entendermos a lógica de dominação moderna e os princípios gerais das relações internacionais baseados no Estado-Nação. Sou Carlos Alberto Simioni, sociólogo, mestre em Sociologia, doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Acompanharei vocês na disciplina de Estado Moderno e Contemporâneo. Espero que aprendamos muito nesta jornada. 3 TEMA 1 – DO ESTADO ABSOLUTISTA AO ESTADO NACIONAL MODERNO O absolutismo pode ser entendido como um sistema político que perdurou na Europa entre o século XVI e o final do século XVIII. Foi um período de transição entre o feudalismo e o capitalismo. Diferenciou-se do modelo feudal na medida em que se organizou a partir de uma forte centralização administrativa e política. Ao longo do século XVI foi se estabelecendo na Europa a ideia de um Estado forte, que se personifica na figura do monarca. Mas foi no século XVII que este modelo se consolidou, de forma que se criou uma instituição com poder absoluto, distanciando-se da interferência da nobreza e da igreja. A ideia de nação ou nacionalidade passa a basear-se no território e na noção de povo (todos os que habitam o território), e não tanto na etnia ou religião, como foi, por exemplo, em boa parte do Império Romano e no feudalismo. A partir dessa nova ideia de nação traçavam-se os objetivos do Estado absolutista, fossem comerciais, fosse a proteção aos súditos. De fato, o comércio internacional passou a crescer a partir da lógica do mercantilismo, ou seja, um comércio acima de tudo estatal, ainda que existissem companhias privadas, bancos e empreendedores individuais. Em relação à segurança, o Estado era agora o grande protetor, com a criação dos exércitos nacionais compostos por cidadãos, e não mais por mercenários ou indivíduos de outras nacionalidades. Mas o que produziu tão profundas transformações? Quando se analisa determinado período da história, é fundamental que compreender o contexto social, político e econômico da época. Duas mudanças se iniciavam sem, no entanto, se aprofundar – o fim da servidão, aquela forma medieval de relação entre o senhor e o trabalhador, e o fortalecimento da classe burguesa. O Estado absolutista assumia, ainda, uma função muito mais de proteção à nobreza do que de fortalecimento da burguesia ou dos camponeses. De acordo com Perry Anderson, o absolutismo não significou melhores condições de vida aos camponeses. Antes disso, o temor de uma revolta geral desta classe, agora livre da servidão, fez com que a nascente burguesia fosse cooptada juntamente à nobreza pelas monarquias absolutas. Essa aliança teria sido fundamental para pacificar a sociedade e garantir o apoio político daquelas classes sociais que, na verdade, tinham interesses opostos (a burguesia e a nobreza). Assim, o Estado absolutista, apesar de alguns traços modernos, foi, na verdade, um instrumento 4 de domínio da classe social que dominava desde o feudalismo. De acordo com o autor, “Essencialmente, o absolutismo era apenas isso. Um aparelho de dominação feudal recolocado e reforçado, destinado a sujeitar as massas camponesas [...]. Era a carapaça política de uma nobreza atemorizada” (Anderson, 2004, p. 18). Por outro lado, ocorreu naquele período um intenso processo de urbanização, a partir de dois elementos. A expulsão dos camponeses, forçando- os a migrar para as cidades, e o nascimento da indústria moderna, ainda em seus primeiros passos, com novas formas de produção (o tear mecânico foi o maior exemplo). Outros fatores também contribuíram, como o desenvolvimento técnico, em especial no que diz respeito à navegação, permitindo o domínio dos mares e, consequentemente, das novas terras então descobertas (América, África e o Extremo Oriente). Em conjunto, tais fatores induziram uma nova mentalidade, principalmente em relação ao comércio, que deixa de ser centrado em pequenas localidades e passa a se concentrar em amplos mercados, basicamente mercados europeus, mas com um sistema de produção já global (as colônias espalhadas pelo mundo). É neste contexto que a moderna ideia de Estado-Nação começa a ser forjada, mas não sem variados conflitos. Inglaterra, França, Holanda, Áustria, Suécia, Rússia, Portugal e Espanha estão se organizando como nações. Há disputas por mercados e por colônias, além de disputas religiosas que acabaram por contribuir para a formação desta nova instituição, como veremos a seguir. TEMA 2 – ESTADO BUROCRÁTICO E ESTADO-NAÇÃO Ao falar em Estado, temos duas abordagens distintas. Uma se refere à organização interna de um país; outra, ao Estado como ator internacional. A primeira se refere à Administração Pública, ao sistema político, às regras constitucionais, aos direitos e deveresdos cidadãos. De acordo com Bresser Pereira (2008), em termos administrativos, “o Estado é o sistema constitucional- legal e a organização que o garante”. Já o Estado Nação “é a unidade político- territorial soberana” e se caracteriza pelo papel exercido no cenário internacional. O autor arremata: “Em cada Estado-Nação ou estado nacional existe uma nação ou uma sociedade civil, um estado e um território (Bresser Pereira, 2008). Vejamos a seguir alguns detalhes dessas duas formas de Estado durante o período absolutista. 5 2.1 O Estado burocrático As amplas transformações sociais e econômicas ocorridas a partir do século XVI tiveram forte impacto sobre a organização política das sociedades europeias de então. Dessas transformações, algumas foram essenciais para que a instituição estatal fosse aos poucos sendo fortalecida, em especial para conduzir a economia mercantilista. O mercantilismo foi o modelo econômico predominante durante o absolutismo europeu. Consistia basicamente em uma política de acúmulo de riquezas – metais preciosos provenientes da América. A nobreza e a burguesia comercial, tanto como o Estado, assumiam esse papel de acúmulo, sendo o Estado o grande indutor e protetor desse sistema. Mas o poder estatal tinha já interesses próprios e, para isso, precisava de um estado forte, que protegesse a produção, o território, os meios de transporte e os cidadãos. Internamente, deveria gerar ordem social em uma sociedade que passava por mudanças radicais. Na Europa, em vez do trabalho servil, prevalecia o cada vez mais comum trabalho assalariado. Nas colônias, o predominante era o trabalho escravo. O Estado torna-se, então, o agente de controle das massas camponesas, dos trabalhadores urbanos, dos escravos e dos povos conquistados. Outra característica é a centralização: todas as decisões passavam pelo monarca e seus conselheiros a partir de uma rígida estrutura hierárquica. Mas a principal ferramenta da centralização foi a arrecadação de impostos. Em vez de cada nobre cobrar impostos, como ocorria na Idade Média, no absolutismo o Estado centraliza a arrecadação, de forma que isso o alimenta e o torna cada vez mais forte. Neste contexto, os negócios de Estado se ampliam e surgem os primeiros rudimentos da organização burocrática moderna, com os chamados ‘juristas’, os funcionários encarregados de redigir as leis. De acordo com Anderson (2004, p. 28), esses eram indivíduos com formação em princípios do direito romano, retomado desde a Renascença. No entanto, tais princípios acabaram em um cenário muitas vezes contraditório, misturando modernos instrumentos de administração e formas arcaicas, como o patrimonialismo, forma de organização estatal – ou mesmo social – na qual o público e o privado se confundem ou, antes, na qual o público está submetido ao privado. 6 2.2 O Estado-Nação Em termos do que hoje definimos como “relações internacionais”, o cenário a partir do século XVI estava se ampliando com a formação de nações e a colonização das terras recém-descobertas que, em muitos casos, gerava conflitos por posse, pela busca de metais preciosos e pelo domínio de mercados. Até então, os mediadores no cenário internacional eram a Igreja Católica e o Sacro Império Romano1, que submetiam direta ou indiretamente as nações europeias. É neste momento que um novo ator internacional começa a emergir, o Estado-Nação, com seus interesses políticos e econômicos específicos e com uma lógica própria de existência. Mas é um fator conjuntural que selará o fortalecimento deste novo ator: as guerras religiosas. O avanço do protestantismo acabou por gerar uma das mais sangrentas guerras da história europeia: a Guerra dos 30 anos (1618-1648). Não cabe aqui entrar em detalhes sobre esse conflito, mas importa saber que, nele, culminou o Tratado de Westfalia (1648), conhecido como um ponto de virada (embora simbólico naquele momento) nas relações internacionais. O tratado estabelecia que nenhum Estado poderia interferir em outro e, mais que isso, todo Estado é soberano, isto é, não está sujeito a nenhuma autoridade humana ou institucional maior. A partir deste tratado, o Estado-Nação paulatinamente se tornou independente na medida em que a igreja foi perdendo seu poder; primeiramente, com o enfraquecimento do argumento do direito divino e, em segundo lugar, com a Igreja deixando de ser um árbitro internacional, possibilitando um sistema laico – não ligado à igreja – de relações internacionais, prevalecente até os dias atuais. TEMA 3 – O ESTADO ABSOLUTISTA E SUA IDEOLOGIA Transformações tão amplas ou profundas em uma sociedade exigem novas formas de interpretação e de justificativas para a sua efetiva aceitação e legitimação. Nesse sentido, as ideologias são essenciais. Se na Idade Média europeia a Igreja Católica era a principal criadora e disseminadora de justificativas para explicar a realidade, nos períodos Renascentista e Absolutista 1 Não confundir com o Império Romano da Antiguidade. O Sacro Império Romano foi uma tentativa medieval, a partir do século XI, de reviver aquele império, mas sem muito sucesso. No entanto, não deixou de ser uma instituição a interferir nos assuntos internacionais e internos das nações europeias. Foi extinto por Napoleão Bonaparte. 7 outras explicações são necessárias. A religião católica ainda era dominante, mas tinha concorrência, fosse do protestantismo ou das ideias cada vez mais frequentes de que a política, assim como o Estado, tinha uma realidade própria. O absolutismo, então, caracteriza-se em termos ideológicos como uma mescla de valores religiosos tradicionais e valores modernos laicos. A ideia moderna de Estado foi apresentada por Maquiavel no Livro O Príncipe (1532), no qual ele analisa o Estado e o poder político como tendo natureza própria e sendo ponto central da política moderna. Já Hobbes é um dos principais defensores do absolutismo monárquico. Na obra Leviatã (1651), com base em uma visão pessimista da natureza humana, ele defende um Estado o mais forte possível para evitar que “o homem seja lobo do homem”, dando segurança aos súditos; no plano externo, a ideia é impedir que um Estado invada ou interfira em outro. Assim, o estado absoluto seria o garantidor da paz interna e da segurança externa. No absolutismo, a soberania se confunde com o poder pessoal do rei, ideia celebrizada pela famosa frase do regente francês Luís XIV, “O Estado sou eu”. Tal princípio é fundamentado pela ideia do Direito Divino, no qual o poder seria uma concessão a determinados indivíduos, mas também pela proposta laica do cardeal francês Richelieu (1585-1642), a expressão “Razão de Estado”. Por outro lado, o surgimento do protestantismo no século XVI acabou por gerar diversas mudanças no plano ideológico, seja como facilitador da aceitação de diversos valores do nascente capitalismo (tese de Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo), seja por fomentar conflitos entre as nações daquele período. Diferentes ideologias prevaleceram durante o absolutismo, o que trouxe implicações no modelo de Estado que certos países adotaram. É o caso da recusa de Portugal e da Espanha em aceitar os novos valores econômicos. Se em meados do século XVI eram nações de vanguarda, a partir da adoção dos princípios da Contrarreforma recusaram inovações, gerando um tipo de Estado que sufocou o nascente capitalismo. Enquanto a Inquisição findava em outros países, Portugal e Espanha resgataram-na como prática religiosa e de Estado. Assim, o Estado absolutista, nesses países, antes de se modernizar, desperdiçou tempo e grande parte das riquezas obtidas na América. 8 TEMA 4 – MODELOS DE ESTADO ABSOLUTISTA A França foi a nação com o mais perfeito modelo de Estado Absolutista, principalmentesob reinado de Luís XIV (1638-1715), consolidando o mercantilismo e criando uma forte centralização política e administrativa. O maior teórico deste momento foi o Cardeal Richelieu, que criou a expressão “Razão de Estado”, ou seja, o uso de ações ou leis ilegais, incluindo o autoritarismo e a aplicação da violência nos planos interno e externo, para supostos benefícios do Estado, mas também o uso da razão para conduzir as questões desta instituição. A França controlou a influência dos nobres nas questões políticas e administrativas, fortalecendo os funcionários e criando uma forte burocracia controlada pelo rei. Se a França foi um modelo clássico de Estado absolutista, outras potências europeias seguiram caminhos um tanto diferentes. A Inglaterra é o caso mais notório. Ainda no Século XIII, bem antes do absolutismo, os ingleses estabeleceram certos controles ao poder dos monarcas. Em 1688, a Revolução Gloriosa acarretou, entre outras coisas, uma monarquia com poderes limitados pelo Parlamento, instituição que, naquela época, já se dividia em dois partidos e governava o vencedor das eleições parlamentares, o qual tinha o poder, inclusive, de nomear os ministros. A maior parte do sistema político britânico atual tem sua origem neste período. A Revolução Inglesa foi uma revolução burguesa, a primeira da história, e o Estado britânico incorporou uma série de exigências desta classe social, o que em outras nações só ocorreria dois séculos depois. A Rússia do início do século XVIII começava a se transformar em um império, mas com um tipo de Estado Absolutista mais aberto à modernização. Era o chamado despotismo esclarecido, primeiramente com Pedro, o Grande (1672-1715), e posteriormente com Catarina II (1725-1796). Valores absolutistas conviveram com ideais de modernização, incluindo a ênfase à indústria, ao aparelhamento da marinha e abertura de portos e à ciência, aceitando-se muitas das ideias iluministas em vigor na Europa Ocidental neste período. Portugal também seguiu o modelo político das demais potências europeias, mas por vias diferentes. De um lado, assim como a Espanha, foi profundamente influenciado pela Igreja Católica, enquanto as demais potências paulatinamente se distanciavam. Os portugueses, ainda, fecharam-se para os 9 valores capitalistas burgueses, aceitando tão somente o chamado capitalismo de Estado. Isso acabou por influenciar um tipo de Estado cheio de contradições, conforme constata R. Faoro (2001), para quem o Estado colonial português transformou os altos funcionários públicos praticamente em elementos da nobreza, sufocando a burguesia e privilegiando os funcionários de Estado. Em meados do século XVIII, em Portugal, ainda prevalecia uma organização estatal arcaica, cheia de superstições, fraca hierarquia e excesso de funcionários (Faoro, 2001, p. 204). Neste período, nem mesmo o “déspota esclarecido” Marquês de Pombal conseguiu efetivamente modernizar o país. TEMA 5 – CRISE E DECADÊNCIA DO ESTADO ABSOLUTISTA Ao final do século XVIII, apesar do despotismo esclarecido, uma tentativa de coexistência com o novo cenário moderno e com os novos valores propagados pelo Iluminismo, era notório que o Estado absolutista era uma forma anacrônica de governo. A ascensão da burguesia era cada vez mais evidente, demandando mais espaço político e econômico e menos controle do Estado. O capitalismo superou de vez o mercantilismo e o Estado-Nação tornou-se a principal instituição internacional – notadamente, a potência da época era a Inglaterra. A ciência prosperava e a religião perdia o espaço que ocupava como ator político. É neste cenário que as ideias iluministas encontram terreno fértil para prosperar (cf. Aula 2). O pensamento de Locke, Smith, Rousseau, Montesquieu, Kant circulou não apenas pela Europa, mas também pelas colônias americanas. O ideal de liberdade individual ou nacional influenciaria processos de luta por independência em vários lugares, principalmente na América, culminando, poucas décadas depois, no surgimento de diversas nações. Neste ínterim, em 1789, explode aquela que é considerada o marco da passagem do absolutismo para a modernidade: a Revolução Francesa. Mesmo considerando que a França só se tornou efetivamente republicana e capitalista, no sentido moderno do termo, quase 100 anos depois, aquela Revolução mostrou ao mundo que mudanças estruturais estavam ocorrendo, inclusive induzindo a que um novo tipo de Estado fosse pensado e organizado, pautado em princípios distintos daqueles apregoados pelo absolutismo. Entretanto, além da França, outro processo revolucionário ocorria do outro lado do Atlântico, onde os ideais de modernização tinham mais liberdade 10 para prosperar. Foi a independência dos Estados Unidos da América, a primeira experiência mundial de um Estado formado a partir dos ideais iluministas. É o que veremos na próxima aula, com o chamado Estado liberal. NA PRÁTICA Nem toda a Europa se transformou em Estado absolutista. A Holanda era uma república2 dominada pela burguesia comercial. A Suíça era uma república quase que isolada, com muitas instituições democráticas. Itália e Alemanha ainda não estavam unificadas, divididas em vários estados com características distintas. Em termos globais, existiam outras forças políticas, como o Império Otomano e a China, cujos Estados eram muito parecidos com o feudal europeu. FINALIZANDO Vimos, nesta aula, o Estado absolutista e sua influência no surgimento e consolidação dos modernos Estados nacionais. Foram cerca de três séculos durante os quais o atual Estado-Nação germinou e o chamado Estado burocrático moderno encontrou um solo fértil para se desenvolver, seja do ponto de vista econômico e político, seja a partir de mudanças no plano ideológico. Contudo, o Estado absolutista ainda era essencialmente feudal ao garantir o domínio da nobreza, fato que só seria superado com o advento do Estado liberal. 2 A Holanda se transformou em Monarquia Constitucional em 1815. 11 REFERÊNCIAS ANDERSON, P. Linhagens do estado absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004. BRESSER PEREIRA, L. C. Nação, Estado e Estado-Nação. Disponível em <http://www.bresserpereira.org.br/papers/2008/08.21.Na%C3%A7%C3%A3o.E stado.Estado-Na%C3%A7%C3%A3o-Mar%C3%A7o18.pdf>. Acesso: 16 jan. 2018. FAORO, R. Os donos do poder. São Paulo: Globo, 2001. HOBBES, T. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1997. (Os Pensadores) MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Porto Alegre: L&PM Editores, 2011. WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia da Letras, 2004. WEFFORT, F. Formação do pensamento político brasileiro. São Paulo: Ática, 2006. http://www.bresserpereira.org.br/papers/2008/08.21.Na%C3%A7%C3%A3o.Estado.Estado-Na%C3%A7%C3%A3o-Mar%C3%A7o18.pdf http://www.bresserpereira.org.br/papers/2008/08.21.Na%C3%A7%C3%A3o.Estado.Estado-Na%C3%A7%C3%A3o-Mar%C3%A7o18.pdf ESTADO MODERNO E CONTEMPORÂNEO AULA 2 Prof. Carlos Alberto Simioni 2 CONVERSA INICIAL Na primeira aula, vimos como o absolutismo se caracterizou como um período de transição: entre outros aspectos, um novo tipo de Estado começou a ser forjado. No entanto, somente após as críticas iluministas a partir do século XVIII e com a consolidação do capitalismo como sistema econômico é que o chamado Estado Moderno se tornou preponderante. Entre o final daquele século e o ano da grande crise econômica capitalista, 1929, as principais nações do mundo ocidental organizaram um Estado caracterizado por princípios liberais, fossem repúblicas, monarquias constitucionais, parlamentarismos ou presidencialismos na sua forma de governo. Desde o Tratado de Westfália, a instituição Estado-Nação foipaulatinamente se libertando da interferência religiosa, e o pressuposto de não interferência passou a predominar, ainda que nem sempre observado na prática. Esta consolidação não se deu sem conflitos, a começar pela Revolução Francesa em 1789, símbolo de uma mudança de era, mas também em outras nações europeias, onde a antiga nobreza tentava manter seu poder. No início do século XIX, três modelos de Estado liberal surgiram: na Inglaterra e nos EUA, como veremos adiante, e o Estado napoleônico, mais centralizado, hierárquico e autoritário, no entanto, com curta duração (apesar disso, deixou heranças, como, por exemplo, o Código Napoleônico, código civil que, em parte, dura até os dias de hoje). Outros modelos de Estado existiam, incluindo países europeus, como a Suíça e a Rússia (Itália e Alemanha iniciavam o processo de unificação), além das jovens nações independentes no continente americano. Na Ásia, em 1900, o Império Otomano continuava forte, mas com sinais de decadência. A Índia era colônia britânica. A China estava cada vez mais fraca; Japão e Pérsia (Irã) começavam a surgir como nações modernas. Na África, somente dois países eram independentes: Libéria e Abissínia (Etiópia). Acima de tudo, aos poucos a burocracia passa a ser o grande condutor das coisas de Estado e uma grande fonte de poder. O Estado burocrático, cada vez mais racional (científico) e laico, passou a ser o grande “gerente” da administração do Estado-Nação. Em todos os países, uma forma cada vez mais uniforme de administração do Estado foi tomando forma, esticando seus tentáculos, mesmo que o discurso liberal fosse contrário a esse fortalecimento. Este era o Estado burocrático moderno. 3 TEMA 1 – A CRÍTICA ILUMINISTA O Iluminismo, séculos XVII e XVIII, foi um conjunto de obras e ideias que questionava o absolutismo e os valores medievais que ainda vigoravam na sociedade europeia – por exemplo, o teocentrismo, que deveria ser substituído pelo domínio da razão (ciência). O termo “Iluminismo” contrapõe-se à ideia de “trevas” que obscureciam o conhecimento, típico do período medieval, de forma a iluminar o mundo com um novo tipo de conhecimento, que certamente seria usado para os assuntos da política e do Estado. Os princípios iluministas regem, em maior ou menor grau, a maioria das democracias modernas – assim como uma parte do cenário internacional – a partir da lógica do Estado-Nação, da mediação das organizações internacionais e dos tratados internacionais. A seguir, as ideias de alguns iluministas sobre o Estado. 1.1 John Locke (1632-1704) É considerado um dos precursores do Iluminismo e um dos principais disseminadores do pensamento liberal, em especial no que tange à defesa da propriedade privada como garantia da liberdade. Suas ideias estão expostas na obra Segundo tratado sobre o governo (1681), na qual defende valores típicos do Iluminismo: um Estado não autoritário, contrariando o pensamento hobbesiano, comum naquele período, e o uso da razão para explicar a realidade (e não do pensamento religioso ou da fé). Ainda, criticou a ideia do “Direito divino”, em voga durante sua vida (auge do absolutismo). Para Locke, o Estado deve estar sujeito à lei. Defendeu a divisão do poder, sendo o Legislativo o mais importante, pois representa o povo, a fonte real de poder. Mas o Estado, acima de tudo, seria o grande guardião da propriedade privada, base da liberdade. 1.2 Adam Smith (1723 -1790) O principal aspecto do pensamento de Smith para esta aula é o fato de ele defender um mercado livre das garras do Estado. Portanto, é um dos primeiros a propor a visão hoje conhecida como Estado mínimo, pouco intervencionista. Lembremos que o Estado absolutista era extremamente intervencionista. No livro A riqueza das nações (1776), Smith defende as bases do capitalismo moderno, como a livre concorrência privada, o crescimento 4 econômico, o acúmulo de capital e a divisão do trabalho, e também propõe três atribuições básicas para o Estado: 1) proteção contra ameaças ou invasão externa (defesa); 2) proteção contra ameaças na própria sociedade; 3) criação de instituições e obras públicas que não gerem interesse da iniciativa privada (indivíduos ou empresas). Em conjunto, tais fatores formariam um “Estado guardião”, protetor da iniciativa privada, assim como garantidor da soberania do Estado-Nação, além de um investidor naquilo que atualmente se denomina “obras de infraestrutura”, pelo menos aquelas que não atraem interesse privado, por serem muito caras ou por não gerarem lucro. É neste prisma que o papel institucional do Estado se coloca para Smith, pois seria o garantidor da justiça, em termos de liberdade individual, do comércio, da garantia à propriedade privada e de segurança. 1.3 Charles de Montesquieu (1689-1755) Na obra O espírito das leis (1748), este pensador propõe ideias que impeçam a tirania ou o governo despótico, evitando a violência e a arbitrariedade, tão comuns durante o Absolutismo. Baseando-se no modelo inglês, Montesquieu faz o contraponto monarquia constitucional e república versus despotismo. O Estado seria estruturado em função de três poderes independentes: 1) o Executivo dirigiria as coisas públicas em função das leis, no entanto, teria o poder de veto; 2) a Magistratura seria um poder impessoal e independente, com leis criadas pelos representantes do povo, 3) o Legislativo (Parlamento). As atribuições do Estado seriam racionalmente divididas, e um poder só interferiria em outro em situações especiais. Seria o que ele designou de “sistema de contrapesos”, no qual o poder controla o poder. 1.4 Jean Jacques Rousseau (1712-1778) Rousseau defende a soberania popular em um Estado que mantenha o interesse geral, garantindo o direito à propriedade. O que o diferencia dos demais é o argumento de que o direito à propriedade seria a grande causa da desigualdade entre os homens e dos conflitos existentes nas sociedades humanas. Na obra O contrato social (1762), propõe um Estado republicano, cuja função seria evitar a guerra ou os conflitos, garantindo a vontade geral, ou seja, 5 a vontade da maioria. A educação seria o meio por excelência para garantir a igualdade entre todos os cidadãos, sendo função do Estado garanti-la. 1.5 Immanuel Kant (1724-1804) Defensor das ideias iluministas, escreveu o tratado A paz perpétua, no qual apresenta princípios que poderiam evitar a guerra entre as nações, como a não intervenção, a formulação de tratados sem ressalvas, o republicanismo, o fim do patrimonialismo (o Estado pertencendo ao monarca) e o fim dos exércitos permanentes. Mas foi a proposta de uma espécie de “direito internacional” que deixou uma herança no campo das relações internacionais. O princípio deste direito seria o fato de que os Estados viviam na iminência de guerra entre si e, para evitar tal situação, deveriam entrar em acordo e criar uma federação de nações, o que de fato se tentou no século XX, com a Liga das Nações e com a Organização das Nações Unidas (ONU). TEMA 2 – A INGLATERRA COMO POTÊNCIA O Tratado de Westfalia em 1648 foi um marco a partir do qual o Estado- Nação passou, paulatinamente, a ser a instituição predominante no cenário internacional. Inglaterra e Holanda eram, naquele momento, as potências que despontavam, embora França e Espanha fossem nações poderosas. Mas a França só se fortaleceu efetivamente décadas depois, enquanto a Espanha entrava em decadência – em boa medida, por não se desligar totalmente dos valores medievais, mas também por sucessivas derrotas militares. Assim, ainda no período absolutista, a Inglaterra supera o poderio dos concorrentes e entra no século XIX como potência maior, principalmente após vencer a França bonapartista. Há várias explicações para o fato de a Inglaterra tornar-se a potência predominante. Apesar de seu territóriorelativamente pobre, três fatores foram essenciais para possibilitar sua hegemonia: o domínio dos mares, a Revolução Industrial e a abertura para a mentalidade capitalista. Para Mello (1994), a esquadra de guerra, a marinha mercante e as inúmeras bases espalhadas pelo mundo seriam a garantia de segurança às Ilhas Britânicas e ao domínio do comércio internacional. Isso seria confirmado mais tarde por uma teoria geopolítica – o almirante norte-americano Alfred Mahan criou a Teoria do Poder Marítimo (1890): a nação que dominasse as principais 6 vias de navegação dominaria o mundo. A teoria, inclusive, instigou os EUA a seguirem os mesmos passos da Inglaterra no início do século XX. A Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial, o que possibilitou um aumento em escala sem precedentes na produção de mercadorias. O que lhe deu amplas vantagens comerciais na concorrência com outras nações, oferecendo produtos baratos e em abundância. A Inglaterra possuía amplas jazidas de carvão, produto essencial para a energia a vapor, ampliando o poder britânico e consolidando o capitalismo como forma hegemônica da economia mundial. Com este poderio, a Inglaterra dominou o cenário internacional. Desde o século XVIII, período absolutista, influenciava certos países, como Portugal. Posteriormente, influenciou diretamente na independência de países latino- americanos. Após a vitória sobre Napoleão Bonaparte, a Inglaterra reinou quase isoladamente como Estado-Nação hegemônico, consolidando o chamado Império Britânico. 2.1 O modelo político-econômico liberal Com uma economia francamente capitalista, os ingleses consolidaram, no século XIX, o modelo político que vinha sendo gestado dois séculos antes. Em termos de Estado-Nação, a Inglaterra foi a potência hegemônica, conduzindo uma política imperialista, ou seja, uma política de expansão territorial pelo mundo, conquistando regiões e países – ou, pelo menos, conquistando-os cultural e economicamente. Neste momento, os ingleses iniciaram o “colonialismo”, isto é, a colonização na Ásia e na África, além de manter territórios no Caribe. Internamente, o Estado Britânico era liberal em todos os aspectos, econômica e politicamente. Mas não era um liberalismo como o atual. Era altamente protecionista e intervencionista, garantindo pela força o domínio comercial e industrial britânico. Politicamente, era uma monarquia constitucional parlamentarista, ou seja, quem realmente dominava o cenário político era o Parlamento, inclusive os assuntos externos. O poder é limitado, sendo o Executivo conduzido pelo Primeiro Ministro, escolhido pelo partido vencedor das eleições. O parlamento é dividido em Câmara Alta (dos lordes, equivalente ao Senado) e Câmara Baixa (dos comuns, equivalente à câmara dos deputados). 7 O Império Britânico começa a perder seu poder após a I Guerra Mundial e se desmantela, de fato, após a II Guerra Mundial. TEMA 3 – OS EUA E O ESTADO LIBERAL REPUBLICANO Se a Inglaterra construiu um modelo de Estado diferente da maioria dos países europeus, predominantemente liberal, foram os EUA que mais radicalizaram essa proposta. Lembremos que defender ideias liberais no final do século XVIII era ser “revolucionário”. Os EUA tiveram uma colonização distinta da latino-americana e, desde seus primórdios, no século XVII, colonos chegaram ao território norte-americano pautados em um ideal religioso protestante baseado no mito da terra prometida. No entanto, também tinham uma mentalidade aberta a uma democracia de base, ou seja, altamente participativa nas menores instâncias de poder, desde a Igreja até o espaço comunitário local. É o que analisa um dos primeiros pensadores a procurar entender o fenômeno, o liberal Alexis de Tocqueville, na obra Da democracia na América, escrita após visita aos EUA em 1831, quando ainda era basicamente um país agrícola, com 25 estados. Após a independência em 1776, os EUA tiveram certas facilidades em relação à Europa para que a democracia avançasse quase sem limites: ausência de uma aristocracia; cultura aberta à participação de base (soberania local); fim do voto censitário e Lei de Sucessões, que acabou com os privilégios hereditários do período colonial. A partir de então, Tocqueville, 50 anos depois da independência, analisa os efeitos deste processo nos EUA, cultural e politicamente. Argumenta que as implicações daquela experiência se alastrariam pelo mundo, pois este não era um fenômeno somente norte-americano; antes, indicava algo bem mais profundo das sociedades modernas: o avanço da democracia e o predomínio de sociedades que hoje chamaríamos de padrão classe média. Saliente-se que tal situação não significa que os EUA eram uma nação “maravilhosa”. O fato de ser democrática não significava ausência de injustiças. Existiam fatores conjunturais ou típicos da época (que hoje chamaríamos de não democráticos, injustos e violentos). É o caso da escravidão, do extermínio de nações indígenas e da usurpação de territórios do México em 1848. 8 3.1 Democracia como princípio A soberania é um dos primeiros aspectos ressaltados por Tocqueville (2000) ao afirmar que, na comuna (localidade, a township, algo como um município), havia grande autonomia desde o período colonial em relação aos habitantes, que decidiam a maior parte dos seus problemas locais. Após a independência, essa cultura democrática facilitou ou mesmo forçou que a nação se organizasse a partir desses princípios. É neste aspecto que o Estado norte- americano foi uma novidade naquele momento, distinto inclusive do modelo inglês, também diferente dos demais países europeus. Esse tipo de democracia era inimaginável para a maioria dos países daquele período. Por exemplo, quase todos os cidadãos votavam1. Grande parte dos funcionários públicos locais era eleita, e havia pouca burocracia. Muitas decisões locais eram tomadas em assembleias. O que se denomina hoje de associativismo era uma prática constante em 1831. Ainda hoje, restam elementos daquela experiência, como a eleição do xerife (responsável pela aplicação da lei nos condados), de certos agentes públicos e de juízes de primeira instância; há também grande variação na legislação de cada estado ou município. 3.2 Uma nação republicana e liberal Os chamados pais fundadores da nação norte-americana foram fortemente influenciados pelo Iluminismo; tal influência resultou em um modelo de Estado distinto: republicano, tendo desde o início um presidente eleito; três poderes, com um judiciário fortalecido; uma federação de estados altamente descentralizados nos aspectos administrativos. A própria discussão sobre a estruturação do Estado norte-americano foi diferenciada, com as proposições defendidas por cada parte expondo suas ideias em jornais. Havia ampla liberdade para criação de jornais, fossem grandes ou simplesmente panfletos locais. Vários desses textos estão atualmente reunidos na coletânea O federalista, na qual se debate teses contrapostas, como, por exemplo: federação ou confederação; centralização ou 1 Lembremos que mesmo onde não havia escravidão, como nos estados do Norte, poucos cidadãos negros votavam, fato descrito por Tocqueville. As mulheres só tiveram o direito de votar em 1920. 9 descentralização (um Estado central forte ou autonomia local); monarquia constitucional ou república; a divisão dos poderes. Prevaleceu um modelo de federação, mas com várias características de confederação. Tocqueville afirma que, em termos de administração, os EUA eram altamente descentralizados, restando ao Estado Nacional cuidar dos assuntos externos e promover a justiça, mas com poder de submeter a legislação estadual, caso necessário, embora raro – como foi, posteriormente, o caso da luta por direitos civis no séculoXX. TEMA 4 – O APORTE WEBERIANO O sociólogo Max Weber é considerado um dos maiores teóricos ou intérpretes do Estado Moderno. Em sua vasta obra, analisou inúmeros temas, incluindo o advento do chamado Estado racional legal, fruto de um lento processo histórico, com raízes na Idade Média, mas que só se consolidou na Modernidade, e primeiramente no mundo ocidental, com o predomínio do capitalismo e do Estado-Nação. Antes de ser uma espécie de exaltação do Estado, o liberal Weber estava preocupado com o risco de que esta instituição se transformasse em uma moderna forma de dominação. 4.1 O Estado monopólio do uso da violência Uma das mais conhecidas frases de Weber é a que define o Estado moderno como a instituição que, em determinado território, de forma legítima (de acordo com as regras socialmente aceitas), monopoliza o instrumental de coação física (a violência legítima), reunindo para esse fim meios organizacionais, dirigentes e funcionários, desapropriando os líderes autônomos que antes detinham aquele poder (Weber, 2004). Tal fato se realiza no poder de coagir e, se for o caso, de forçar, por exemplo, a ação da polícia, de fiscais, de oficiais de justiça, das forças armadas e de variadas instituições estatais ou por elas designadas. 4.2 A burocracia estatal como forma de dominação No absolutismo e no mundo antigo, o poder se encarnava na figura do soberano ou da nobreza, de forma que as leis eram muitas vezes aplicadas de maneira pessoal, ou seja, variavam de acordo com as circunstâncias ou com a preferência da autoridade. Para Weber, uma peculiaridade da modernidade é o 10 predomínio de uma dada forma de dominação, a institucional ou legal, que se manifesta de maneira impessoal na forma de leis e de uma administração científica, isto é, baseada no cálculo racional, usando os modernos meios técnicos e organizacionais. Seus principais agentes não são indivíduos, mas organizações diversas. Os indivíduos são, antes de tudo, representantes ou agentes dessas instituições. Nessa perspectiva, o poder político é também institucional, ou seja, não se encontra nos indivíduos, ainda que sejam agentes. Dessa forma, Weber (2004) afirma que “o futuro pertence à burocratização”, ou seja, no mundo moderno, seria impossível fugir desta nova e poderosa forma de dominação, pois ela seria imperceptível e até mesmo agradável. O resultado seria uma servidão diferente de todas as formas precedentes, pois agora está atrelada a um gigantesco organismo, o Estado administrado cientificamente. TEMA 5 – A CRISE DO ESTADO LIBERAL Até a II Grande Guerra, a Inglaterra dominou o cenário internacional, embora outras nações europeias estivessem fortalecidas, e também os EUA. Nessas nações, o modelo capitalista reinou soberano, com variações de país para país. Mas as duas guerras mundiais e a grande crise econômica de 1929 abalaram a fé no liberalismo como modelo a conduzir o mundo. A crise de 1929 foi um grande golpe em relação à fé incondicional nas teses liberais, tão comum até então nas principais nações ocidentais. Embora exista um debate sobre as reais causas desta crise, ela resultou posteriormente em um Estado mais intervencionista, seja de modelo autoritário, seja de modelo socialdemocrata. Tanto é que nos anos 30 – período entre guerras – predominou no Ocidente um Estado autoritário e nacionalista (antiliberal e anticomunista), como foi o caso do nazifascismo. Após a II Guerra, predominou o chamado welfare state (Estado do bem-estar social, tema da Aula 4). Além disso, velhos problemas persistiam, em especial a pobreza e a miséria. A crise de 1929 só piorou tal situação, expondo ainda mais o velho dilema europeu (e também global) de populações vivendo na pobreza. Até aquele momento, os Estados Nacionais não tinham resposta para tal problema. 11 NA PRÁTICA O chamado Estado liberal, típico do século XIX e início do século XX, era bastante excludente. O consumo de mercadorias diversas era restrito às reduzidas classes alta e média. Em termos políticos, na maioria dos países uma pequena parcela da população efetivamente participava das eleições. No entanto, após a Primeira Guerra Mundial, houve uma progressiva ampliação da democracia, com grandes parcelas da população passando a participar das decisões: pobres, mulheres, população negra e indígena, analfabetos, dentre outras. Mais recentemente, tem ocorrido uma democratização do consumo em todos os lugares do globo, ainda que exista pobreza e miséria. FINALIZANDO Vimos nesta aula o advento e o fortalecimento do Estado moderno liberal a partir das críticas elaboradas por autores iluministas. No século XIX, algumas nações levaram adiante o modelo de Estado liberal, principalmente Inglaterra e EUA. Aliado ao predominante modo de produção capitalista, o Estado liberal permitiu que valores da Modernidade, tais como democracia, liberdade, livre mercado e empreendedorismo, se alastrassem pelo mundo. É verdade que isso muitas vezes foi apenas simbólico, contraditório. Mas é inegável que tais valores fazem parte dos projetos da maioria das sociedades contemporâneas. 12 REFERÊNCIAS MELLO, L. L. I. A geopolítica do poder terrestre revisitada. Revista Lua Nova, n. 34. São Paulo: dez. 1994. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?sc ript=sci_arttext&pid=S0102-64451994000300005>. Acesso: 16 jan. 2018. TOCQUEVILLE, A. Da democracia na América. São Paulo: Martins Fontes, 1998. vol. 1. WEBER, M. Economia e sociedade. Brasília: Ed. UNB, 2004. vol. 2. ESTADO MODERNO E CONTEMPORÂNEO AULA 3 Prof. Carlos Alberto Simioni CONVERSA INICIAL Dentre os pensadores modernos, o primeiro a criticar os fundamentos do liberalismo foi Rousseau, em 1754, quando afirmou que a origem da desigualdade se encontrava na posse da propriedade (Rousseau, 2008). Para os liberais, inversamente, a propriedade privada era o maior fundamento de liberdade, e o Estado seria seu guardião. Este é um dos principais contrapontos entre liberalismo e socialismo. Poucas décadas depois do texto de Rousseau, com a Revolução Industrial e o capitalismo, as primeiras indústrias, no sentido moderno do termo, iniciaram um processo de exploração do trabalho que hoje seria considerado desumano ou análogo à escravidão. Jornadas de trabalho de 14 horas ou mais. Fábricas com ambiente insalubre. Baixíssimos salários. Ausência de legislação trabalhista e uma multidão de desempregados, expulsos do campo e prontos a substituir quem não aceitasse aquelas condições. O discurso de liberdade, igualdade e fraternidade, na prática, não estava ocorrendo para a maioria; antes, havia desigualdade e sofrimento, muito maiores que no período feudal. É neste contexto que as primeiras ideias socialistas surgiram. Inicialmente, as propostas consistiram em experimentos individuais – não em revoluções ou reformulações no Estado –, posteriormente chamadas de socialismo utópico. Mas, em meados do século XIX, surge o socialismo científico, com o projeto de tomada do poder pelos trabalhadores; o socialismo se torna um ideal revolucionário. Marx e Engels disseminaram o termo comunismo, uma proposta de mudança radical na sociedade. A classe trabalhadora tomaria o poder, incluindo o Estado Burguês. Depois, seria construída a nova sociedade e um novo tipo de Estado (ou sua extinção). Assim, há um debate não apenas em relação ao tipo de sociedade (capitalista ou comunista), mas também em relação a uma suposta sociedade comunista, sobre que tipo de Estado deveria existir. Nesta aula, veremos as críticas marxistas ao Estado Capitalista e as primeiras experiências de Estados Comunistas a partir da Revolução Russa em 1917. TEMA 1 – CRÍTICA AO ESTADO CAPITALISTA Qualquer abordagem marxista parte de um princípio básico:todas as sociedades, em todas as épocas, sempre estiveram divididas em classes sociais diferentes – a dominante e a(s) explorada(s). Ao longo da história, em um 3 processo lento e natural, elas entram em conflito. Na sociedade capitalista não seria diferente. Outras teorias, como a das elites, ou mesmo o liberalismo, concordam com esse pressuposto (divisão entre classes), considerando-o normal. O marxismo, porém, considera tal divisão como injusta e passível de ser mudada cientificamente, desde que um processo racional e revolucionário conduzido pela classe explorada construa uma sociedade sem distinções de classes. 1.1 Crítica ao Estado Capitalista No século XIX, o capitalismo, com sua específica forma de relação de trabalho (assalariado), estava se consolidando na Europa. A Inglaterra era o país no qual o processo estava mais avançado; havia centenas de fábricas e milhares de operários. As condições de trabalho, no entanto, eram precárias. No livro O Capital, escrito em meados daquele século, Marx analisa como as próprias instituições britânicas, ao longo de décadas, criaram uma legislação trabalhista que, na visão desse autor, era insuficiente. O parlamento inglês, por exemplo, paulatinamente reduziu a jornada de trabalho após várias denúncias de médicos, religiosos, jornais e de comissões do próprio Parlamento (Marx, 1987). Dessa forma, qual era o papel do Estado? Lembremos que o Estado Britânico se fundamentava em princípios liberais, procurando interferir minimamente em assuntos privados. No entanto, no início do século XIX, iniciaram-se as primeiras revoltas dos trabalhadores – por exemplo, o Ludismo (1819, revolta contra a substituição de homens por máquinas, quando os trabalhadores as quebravam ou destruíam as fábricas). Diversas revoltas ocorreram pela Europa durante aquele século e, em geral, os governos tomavam partido da classe burguesa, enviando a polícia e o exército para conter os operários. Procurar o governo (Poder Executivo) não surtia efeito, pois este era composto muitas vezes pelos próprios burgueses ou por seus representantes. Esta é a razão que levou Marx e Engels a afirmar no Manifesto Comunista, publicado em 1848, que a burguesia, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, conquistou, finalmente, a soberania política exclusiva no Estado representativo moderno. O governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa. (Marx & Engels, 1986) 4 Contudo, tal análise não pode ser tomada ao pé da letra, afinal, são escritos de um manifesto, e não de uma obra acadêmica mais elaborada. Na obra de Marx é possível verificar outras abordagens sobre o Estado, como veremos a seguir. TEMA 2 – ANÁLISE ESTRUTURAL E CONJUNTURAL DO ESTADO A teoria marxista é considerada como estruturalista, ou seja, parte do princípio de que, independentemente do período histórico, em todas as sociedades há estruturas ou fatores que as sustentem. Seria o caso do fator econômico ou da maneira como os homens, na luta pela sobrevivência, se organizam, geram e distribuem bens e riquezas. Todas as instituições sociais estariam condicionadas, em última instância, por este fator. Com o Estado e suas variações ao longo da história não seria diferente. A ideia vista anteriormente do Estado como gerente da burguesia está atrelada a este princípio. No entanto, ao lado das estruturas existem fatores conjunturais, ou seja, aqueles que, em dado momento, talvez não estejam ligados à estrutura, podendo ser explicados por variáveis diferentes e múltiplas, mas que, no conjunto, podem sustentar determinadas situações e aparentar que são estruturais. No marxismo, tal diferença é definida como infra e superestrutura. A política e o Estado seriam elementos da superestrutura, isto é, condicionados pela economia (mercado, produção e distribuição da riqueza). Mas a superestrutura também tem importância, como argumentam Codato e Perissinoto (2001), afirmando que o próprio Marx analisou determinadas conjunturas políticas em suas – relativamente – pouco conhecidas obras históricas. Nestas obras seria possível observar a visão do pensador sobre o Estado, mais do que é possível no Manifesto. 2.1 A análise de Marx sobre o Estado enquanto instituição política Para os autores, há críticas à visão estrutural de Estado decorrentes de ela impedir uma análise de “sua configuração interna, seus níveis decisórios e as funções que os diversos centros de poder cumprem, seja como produtores de decisões, seja como organizadores políticos dos interesses das classes e frações dominantes” (2001, p. 10). No entanto, argumentam que nem o próprio Marx menosprezou tal fato, exemplificando como ele analisou os fatores 5 conjunturais do Estado durante os tumultuados anos entre 1848 e 1851 na França. Diversas crises políticas culminaram no golpe de Estado de Luís Bonaparte (sobrinho de N. Bonaparte). Nesse contexto, o Estado foi disputado por diferentes classes ou frações de classe (diferentes tipos de burguesia – comercial, industrial, financeira etc.). Outro ponto analisado é a diferença entre aparelho de Estado e poder de Estado. A pergunta central é: Nas sociedades modernas, o Estado é efetivamente controlado pela classe dominante? Em sentido geral, os autores afirmam que Marx percebe o Estado como atrelado ao fator classe social. Mas em certas ocasiões a instituição é mais autônoma. A diferença básica seria entre os grupos economicamente dominantes – frações da classe burguesa – e os grupos politicamente dominantes – que poderiam ser uma daquelas frações, ou mesmo um período de dominação política por uma classe subalterna sem, no entanto, interferir no domínio da classe economicamente dominante. Esta seria a diferença básica entre aparelho de Estado, que pode ser governado por diferentes grupos, classes ou frações de classe, e o poder de Estado, quando sempre o poder da classe domina os meios de produção. Portanto, mesmo que em certo momento uma classe subalterna comande o Estado, na verdade ela se ilude, pois não possui o poder real daquela sociedade. O aparelho de Estado possui diferentes instâncias de poder. Tomando exemplos atuais, uma coisa seria controlar (vamos supor) o Ministério da Fazenda ou de Infraestrutura; outra coisa seria dominar o Ministério da Cultura. Para Codato e Perissinoto, somente alguns ramos de Estado possuem poder efetivo: Concretamente, o poder político concentra-se em núcleos específicos do aparelho do Estado; estes, por sua vez, podem ser ocupados diretamente (ou controlados, ou influenciados) por diferentes classes sociais; nesse caso, o poder relativo de cada uma delas será determinado pela proximidade ou distância que mantiver em relação ao centro decisório mais importante. (p. 20) Os autores concluem analisando que Marx percebeu a complexidade do Estado com suas diferentes esferas de poder e o fato de ser dirigido por diferentes classes sociais. Mas, a partir de certo limite, o poder real se dá pela classe que controla os principais centros de poder, a mesma classe que controla os meios de produção. TEMA 3 – MODELOS DE ESTADO COMUNISTA: URSS 6 O primeiro Estado Comunista surgiu após a Revolução Russa, em 1917. Com a criação da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), tinha-se de pensar em como gerir aquela imensa nação com um novo sistema econômico e princípios políticos diferentes daqueles que regiam o Estado Liberal. Mas, na verdade, isso não iria se diferir muito dos princípios do Estado-Nação e daqueles elencados por Weber (violência, moderna administração e burocracia). Os novos princípios eram: abolição da propriedade privada, substituição do capitalismo como modo de produção e erradicação da miséria, socializando (distribuindo) os meios de produção. Então, que papel teria o Estadoneste processo, se ele era anteriormente visto como instrumento de opressão das classes dominantes? Não demorou muito e o Estado soviético se transformou em um dos maiores e mais poderosos Estados da modernidade. Mas, internamente, a lógica do Estado não era muito diferente da lógica dos demais países. 3.1 A estrutura política A URSS tinha um sistema político baseado em Soviets, os conselhos de representação de operários e camponeses – instituídos, na verdade, em 1905, mas sem muito poder. Com a Revolução, pelo menos na teoria, tais conselhos seriam a base do poder político (Reed, 1918). Posteriormente, a nação implantou o regime de partido único, o Partido Comunista (PC), e formou-se um complexo sistema de representação popular, semelhante ao parlamentarismo ocidental. Na prática, contudo, a URSS era uma nação autoritária; o poder era altamente centralizado pelo Poder Executivo (Presidium). O Politburo, Comitê Central do PC, decidia os principais temas e o parlamento os ratificava, principalmente nos períodos de maior autoritarismo, como no stalinismo (1924-1953). O Soviet Supremo era o parlamento nacional e, seu Secretário-Geral, o Chefe de Estado. 3.2 Administração e economia A URSS também possuía uma moderna administração burocrática, conhecida como nomenklatura, formada principalmente pelos altos dirigentes do PC e por trabalhadores de vários setores, quase todos pertencentes ao partido. É interessante lembrar que a URSS, ainda nos anos de 1920, implantou um sistema de produção baseado no fordismo, procurando equiparar-se à alta 7 produtividade dos países ocidentais. Com o tempo, o Estado transformou-se em um imenso aparato repressivo e, para muitos comunistas, foi um desvirtuamento da Revolução substituir o poder dos soviets pela burocracia. A economia soviética era altamente planificada, ou seja, planejada em detalhes pelo Estado. Desde os anos de 1930, foram implantados vários planos de metas. A cada 5 anos, determinadas áreas eram priorizadas. Não havia mercado financeiro. O comércio e o trabalho eram controlados minuciosamente. A burocracia e o partido efetivamente controlavam a economia. TEMA 4 – MODELOS DE ESTADO COMUNISTA: CHINA E CUBA Ainda que não diferindo muito do Estado Soviético, as nações aliadas à URSS procuraram encontrar caminhos próprios. Vejamos dois exemplos: China e Cuba, nações que tiveram uma história própria e contextos diferentes de formação do Estado, mas nem por isso muito diferentes entre si. 4.1 China Em 1949, a Revolução comandada por Mao Tse Tung reforçou o poderio do bloco soviético, condicionado, àquela altura, pela Guerra Fria. As primeiras medidas foram: centralizar a economia, nacionalizar a indústria (ainda pequena) e promover a reforma agrária, com sistema de cooperativas no campo. Politicamente, havia um sistema de partido único, o Comunista (PC), que realmente comandava o país, o qual esteve nas mãos de Mao até sua morte, em 1976. Havia, ainda, a grande meta política de formar uma sociedade camponesa igualitária. O Estado comandou a chamada Revolução Cultural no final dos anos de 1960, perseguindo supostos inimigos ou reacionários. Foi um sistema quase fechado para o comércio mundial até os anos de 1980, quando uma nova orientação do PC permitiu maior abertura econômica e certos princípios capitalistas, resultando na China que hoje conhecemos, um poderoso ator internacional e grande produtor e consumidor de mercadorias em um sistema que pouco tem de comunista, pois aderiu à economia de mercado há décadas. Por outro lado, o Estado chinês, altamente centralizador, continua controlando as terras e várias empresas1. Muitos empresários são filiados ao PC. 1 Ver https://www.epochtimes.com.br/a-china-continua-comunista/#.Wa3NKdR97Mx. https://www.epochtimes.com.br/a-china-continua-comunista/#.Wa3NKdR97Mx 8 4.2 Cuba Cuba, após a Revolução de 1959, organizou sua economia e Estado de acordo com o padrão comunista mundial: Partido Único, o PC; economia planificada a partir da burocracia que centraliza as principais decisões; sistema representativo unicameral, com eleição dos representantes que, na verdade, cumprem as decisões do poder centralizado (Coelho, 2013), pelo menos quanto aos principais temas. Na prática, o Poder Executivo comandou efetivamente o país, liderado por Fidel Castro, que governou Cuba por mais de 40 anos. TEMA 5 – CRISE DO ESTADO COMUNISTA Os Estados comunistas tiveram um padrão comum de formação e funcionamento. Tal modelo de Estado foi muito criticado pelas nações capitalistas, basicamente por ser burocrático demais, pouco produtivo e antidemocrático. O fato de a URSS, no contexto da Guerra Fria, ter influenciado a tomada do poder pelos comunistas fez com que quase todos aqueles países tivessem pouca autonomia. Eram considerados como satélites da URSS, tanto política como economicamente. Assim, quando a URSS colapsou, ao final dos anos de 1980, praticamente todo o bloco comunista seguiu o mesmo rumo, excetuando-se China, Vietnã, Coreia do Norte, Laos e Cuba. O Estado soviético colapsou por duas razões complementares. Economicamente, não era um modelo eficiente, considerado burocrático demais, pouco inovador e sem liberdade. A economia russa como um todo não conseguiu acompanhar o altíssimo custo da Guerra Fria, sempre exigindo inovação e enormes gastos com a indústria militar. O Estado Comunista era altamente repressor, cerceando as liberdades mínimas. Cada país poderia ter maior ou menor grau de repressão interna, mas as diferenças não eram tão grandes assim. A consequência é que a população destes países estava insatisfeita e, a partir de 1989, o modelo de Estado Comunista começa a ruir. NA PRÁTICA O Bloco Comunista, durante a Guerra Fria, teve seus membros rebeldes. Além da China, que se distanciou da URSS já nos anos de 1950, dois outros países escolheram modelos de Estado um tanto alternativos. Albânia e Iugoslávia, cada um à sua maneira, enfrentaram o poderoso Estado Soviético, 9 pelo menos até certo ponto. No plano geral, eram aliados, mas, em termos de modelo de Estado e de economia, se distanciaram. A Albânia, um dos países mais pobres da Europa, permaneceu como uma nação stalinista, mesmo após a morte de Stalin em 1953 e uma série de mudanças na URSS (como a inserção no mercado internacional, o capitalismo de Estado). A Albânia permaneceu controlada de forma autoritária e com uma economia extremamente fechada, liderada na lógica do culto à personalidade por Enver Hoxha, o grande líder – algo semelhante ao que ocorre atualmente na Coreia do Norte. Já a Iugoslávia (hoje dividida em seis países, nos Bálcãs) escolheu um modelo mais light, ou seja, além de um distanciamento dos soviéticos, tentou implantar um modelo cooperativo de economia, com a criação de empresas geridas pelos trabalhadores, e não pelo Estado. Tal modelo ficou conhecido como Autogestão Iugoslava. FINALIZANDO Vimos nesta aula as críticas marxistas ao Estado Moderno (Liberal). Também estudamos o debate em relação à concepção de Estado na Teoria Marxista – se determinado pela infraestrutura econômica ou com autonomia relativa, isto é, ser dominado por uma classe social não detentora dos meios de produção. Vimos, ainda, as primeiras experiências históricas de Estados Comunistas – inicialmente, a URSS; posteriormente, outros países. Tais experiências foram marcadas por transformações sociais de vulto, mas também por forte centralização e burocratização, conformando um Estado autoritário e repressivo, até o colapso da URSS, restando hoje poucos países efetivamente com um Estado Comunista. 10 REFERÊNCIAS CODATO, A. N. & PERISSINOTTO, R. M. O Estado como instituição: uma leitura das obras históricas de Marx. Crítica Marxista, n. 13. Campinas:Boitempo, 2001. COELHO, T. Representação política em Cuba: um Estado dos trabalhadores? 2013. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/leviathan/article/view/132325/128467>. Acesso: 17 jan. 2018. MARX, K. O capital. vol. 1. São Paulo: Bertrand Brasil, 1987. MARX, K. & ENGELS, F. O manifesto comunista. Rio de Janeiro: Global Editora, 1986. REED, J. A estrutura do sistema soviético. In: The Liberator (Soviets in Action), out./1918. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/reed/1918/10/estrutura.htm>. Acesso: 17 jan. 2018. ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a desigualdade entre os homens. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008. https://www.revistas.usp.br/leviathan/article/view/132325/128467 https://www.marxists.org/portugues/reed/1918/10/estrutura.htm ESTADO MODERNO E CONTEMPORÂNEO AULA 4 Prof. Carlos Alberto Simioni 2 CONVERSA INICIAL Na segunda metade do século XX, consolidou-se nos países capitalistas desenvolvidos, principalmente na Europa, um determinado tipo de Estado, conhecido como Welfare State, ou Estado do Bem-Estar Social. Sua característica principal, de acordo com Arretche, era a ação do Estado no tocante à “provisão de serviços sociais, cobrindo as mais variadas formas de risco da vida individual e coletiva” (1995). As nações que radicalizaram tal modelo foram, principalmente, as que tiveram governos socialdemocratas ou coalizões socialistas e liberais. Até hoje, Suécia e Finlândia, por exemplo, são países conhecidos pelos excelentes e diversos serviços sociais, como saúde, educação e assistência na velhice, oferecidos a toda a população. Mas existem diferentes modelos de Welfare State, inclusive em países liberais. Embora a pobreza e a miséria sempre fizessem parte da história europeia, houve uma intensificação a partir do surgimento e consolidação do capitalismo, conforme vimos na Aula 3. Nas sociedades industriais do século XIX, diversos problemas sociais estavam em evidência, concentrados nas grandes e médias cidades, conhecidos como a questão social – miséria, fome, analfabetismo, criminalidade, desemprego, falta de assistência hospitalar, população sem residência, tudo isso colocou em xeque as promessas que a sociedade capitalista e liberal apregoava. Foi então que atores sociais diversos (políticos, religiosos, trabalhadores, filantropos) começaram a propor ações para acabar com tais problemas, ou menos diminui-los. Mas quem deveria agir? Antes vistas com resignação, a igreja e a filantropia (caridade, ajuda ao próximo, em sentido individual) é que cuidavam de tais temas, pelo menos até onde podiam. No entanto, as sociedades modernas possuíam novas noções de direitos, como os direitos civis (à vida, à liberdade, à propriedade privada e à igualdade perante a lei) e os direitos políticos (votar ou ser votado, participar do governo, fundar partidos e associações; participar ou organizar manifestações). Contudo, reivindicava-se uma nova gama de direitos sociais. Além disso, havia um grande temor de que aquela precária situação social resultasse em revolta popular, pois a Revolução Francesa ainda estava na memória daquelas sociedades. Dessa forma, no final do século XIX e início do século XX, algumas nações iniciaram um processo em que o Estado assumia a responsabilidade de assistir à população, sendo o embrião do Welafare State – mas isso apenas se consolidaria após a II Guerra mundial. É o que veremos a seguir. 3 TEMA 1 – A QUESTÃO SOCIAL E O PAPEL DO ESTADO Embora o tema questão social esteja inserido em um amplo debate teórico (se os problemas sociais são efeitos naturais da industrialização e urbanização ou de fatores individuais, ou se são decorrência da exploração de uma classe social sobre outra) e político (se é uma abordagem conservadora ou progressista), não é objetivo desta aula entrar nestes debates. Antes, pretende- se pensar sobre como, nas sociedades modernas, o Estado foi progressivamente incumbido de agir neste campo. É importante frisar que uma característica do Estado Moderno é justamente a de assumir funções que antes eram de esfera privada ou de certas instituições sociais, como a Igreja Católica na Europa. O Estado Moderno passa a se responsabilizar diretamente pela proteção interna e externa da nação, pela justiça e, direta ou indiretamente, por educação, saúde, economia e ações de infraestrutura. Dessa forma, em relação à questão social, as nações modernas iniciam um processo de discussão política, ou seja, um debate sobre os chamados “novos direitos”, incluindo os direitos sociais. A partir disso, pensa-se o que fazer, quem realiza as ações e de que forma. Tal debate já vinha acontecendo séculos antes. A Inglaterra, berço da Revolução Industrial, foi um dos primeiros países a propor ações relativas aos chamados “problemas sociais”, típicos das grandes cidades que se formaram a partir do século XVI. Em 1601, é promulgada a Lei dos Pobres que, entre outros, propunha ações assistencialistas (na lógica da caridade) realizadas pela Igreja e com financiamento do Estado. Tal lei perdurou até o século XIX, quando foi substituída por ações repressivas, ou mesmo violentas, no início das primeiras lutas trabalhistas e do movimento operário. Por outro lado, ao final daquele século – Era Vitoriana (Governo da Rainha Vitória) – o Estado começou a interferir mais diretamente, com outra forma de ação. De acordo com Arretche (1995), Era de prosperidade e confiança, teria marcado o início da adoção de medidas de política social: leis de assistência aos indigentes, leis de proteção aos trabalhadores da indústria, medidas contra a pobreza etc. Em tais medidas, estaria o embrião daquilo que, mais tarde, após a Segunda Grande Guerra, seria conhecido como Welfare State. 4 Neste mesmo período, a Alemanha também implantou medidas de assistência e de seguro social. Mesmo os EUA, país de forte tradição liberal, implantou, após a crise econômica de 1929, medidas de proteção e assistência social. No entanto, as duas grandes guerras, além da depressão econômica dos anos de 1930, forçaram o estabelecimento de políticas sociais, levadas a cabo após 1945. TEMA 2 – WELFARE STATE SOCIALDEMOCRATA Em meados do século XIX, na Europa, surgem o movimento operário, os sindicatos, os partidos políticos ligados ao marxismo e um movimento socialista denominado Socialdemocracia – incialmente com ideais revolucionários, apesar de participar da luta política institucional. No entanto, com novas propostas do alemão Eduard Bernstein (1850-1932), a socialdemocracia dividiu os socialistas, pois se afastou de algumas das principais teses marxistas, em especial aquelas que pressupunham a inevitabilidade de uma revolução, a progressiva pauperização das classes médias e a piora das condições de trabalho do operariado1. Antes disso, Bernstein afirmava que uma série de reformas, dentro do sistema capitalista, permitiu a melhoria das condições de vida dos trabalhadores, a concessão de certos direitos e a ampliação do consumo. Tais ideias geraram duas distintas opções políticas: Reforma ou revolução? A social democracia optou em 1918 pelas reformas, embora ainda pretendesse atingir o objetivo marxista de uma sociedade mais equitativa e sem exploração de uma classe social sobre outra (Przeworsk, 1988). O Estado seria o grande agente para realizar as reformas necessárias. Logo após a II Guerra Mundial, alguns países tiveram um amplo domínio socialdemocrata ou coalizões destes com socialistas e liberais. É o caso dos países nórdicos (escandinavos). Arrecthe (1995), baseada na obra de Esping Andersen, aponta os países escandinavos como os principais modelos de Welfare State socialdemocrata. Nestes [países], o movimento operário foi capaz de traduzir seus objetivoshistóricos em políticas sociais de um certo tipo, dado que foi capaz de expressar-se politicamente através de partidos sociais democratas, os quais mantiveram o controle parlamentar por significativos períodos de tempo. 1 No pós-guerra, inclusive, a socialdemocracia rejeitou a tese marxista da luta de classes. 5 Neste modelo, o princípio básico é o da equidade, e não o do mérito (modelo liberal, do tipo quem contribui tem direito). Assim, os serviços sociais são amplos e universais, independentemente de contribuição ou do valor da contribuição. Outro princípio importante é o de que tais políticas não são custos, mas investimentos, na medida em que a sociedade é beneficiada com padrões mínimos de educação, saúde, habitação, renda e erradicação da miséria. A Suécia é um exemplo do modelo socialdemocrata, o qual foi preponderante no país entre 1932 e 1986, mesmo que liberais ou conservadores estivessem no governo em certos períodos. Desde o início do século XX, a nação vinha implantando políticas sociais, como pensões, seguros e leis de proteção ao trabalhador. O Estado era o principal agente dessas políticas. Em 1932, o Partido Socialdemocrata chega ao poder e, embasado nas ideias de Gunnar Myrdal, inicia um processo mais radical de políticas sociais, o que facilitou o predomínio das teses reformistas da social democracia no pós-guerra. TEMA 3 – WELFARE STATE CONSERVADOR Até o final do século XIX, a Igreja Católica pouco interferia na questão social, pelo menos em termos políticos. Não se fazia críticas às possíveis causas de tais problemas, nem se apontava as soluções. Certamente, a Igreja agia na lógica da caridade e da filantropia – como, por exemplo, mantendo orfanatos. Foi então que, em 1891, alarmado com o avanço do socialismo, do movimento operário e do modelo capitalista predominante, o Papa Leão XIII lançou uma Encíclica2 na qual discute situação e condições de trabalho dos operários. A partir daí, é lançada uma proposta de acordo entre as classes sociais (contrapondo-se à tese da luta de classes). O documento modificou a forma de ação católica em relação aos problemas sociais e foi a base da chamada Doutrina Social da Igreja. Uma das consequências desse fato foram as propostas de ação do Estado, principalmente como condutor de processos de melhoria das condições de vida e de trabalho. A igreja seria mediadora, junto aos sindicatos, mas na lógica da cooperação e harmonia entre as classes sociais. Arretche (1995) afirma que este posicionamento da igreja favoreceu um determinado modelo de Welfare State, predominante na Europa católica, em 2 Carta enviada a todos os bispos expondo um ponto de vista ou forma de ação da Igreja, orientando a ação e a tomada de decisão em relação a fatos concretos da vida e da realidade. 6 especial na Alemanha, Áustria, Itália e França, além de países onde o papel do Estado era forte, como o caso do Japão. Seriam basicamente países nos quais a Igreja teve um poderoso papel nas reformas sociais e onde o absolutismo era forte, sendo, portanto, lentamente abolido; países nos quais a revolução burguesa foi fraca, incompleta ou mesmo ausente. Marcado pela iniciativa estatal, este modelo favoreceu um ativo intervencionismo estatal destinado a promover lealdade e subordinação ao Estado e deter a marcha do socialismo e do capitalismo. Neste modelo, considerado por Esping Andersen (1991) como corporativo ou Welafare state monárquico, estaria garantido o bem-estar social e a harmonia entre as classes, lealdade e produtividade. Segundo este modelo, um sistema eficiente de produção não derivaria da competição, mas da disciplina. Um Estado autoritário seria muito superior ao caos dos mercados no sentido de harmonizar o bem do Estado, da comunidade e do indivíduo. Os serviços sociais, então, não são tão amplos como nos países escandinavos, e os benefícios variam de acordo com a classe social do beneficiário. Por outro lado, a Alemanha investiu maciçamente em uma educação pública universal, fato que elevou o padrão dos trabalhadores e da própria indústria alemã, desde o começo do século XX. TEMA 4 – WELFARE STATE LIBERAL O Welfare State avançou mesmo nos países de tradição liberal, onde há resistência à interferência e à participação do Estado na economia ou em temas sociais. Em tal tradição, pressupõe-se que os indivíduos seriam os maiores responsáveis pela sua situação social – princípio do mérito. Em países como os anglo-saxões (EUA, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia), o papel do Estado é mínimo, e este incentiva o mercado a oferecer, por exemplo, planos privados de aposentadorias. De acordo com Esping Andersen (1991), neste modelo, a atuação do Estado se baseia em assistência “aos comprovadamente pobres, reduzidas transferências universais ou planos modestos de previdência social. Os benefícios atingem principalmente uma clientela de baixa renda, em geral da classe trabalhadora ou dependentes do Estado”. Os EUA formam um exemplo básico deste modelo com o chamado New Deal (1933-1945), programa governamental criado para amenizar os efeitos da crise econômica dos anos de 1930, quando foi criada a Previdência Social e “um sistema de seguro-desemprego, além de fornecimento de auxílio financeiro às 7 famílias menos abastadas e com filhos em idade de dependência” (Gomes, 2006). Ressalte-se ainda que, mesmo neste modelo, há muita disparidade. A Inglaterra, por exemplo, possui serviços sociais bem mais amplos que os EUA. No caso norte-americano, altamente descentralizado, há muita variedade de políticas sociais em cada Estado da federação, ou mesmo nos municípios. TEMA 5 – A CRISE DO WELFARE STATE Nos anos de 1970, ocorreu uma forte crise financeira global: inflação, estagnação econômica, juros altos, desemprego – problemas decorrentes, dentre outros fatores, da crise do petróleo e de uma crise fiscal. Neste segundo aspecto, o Welfare State foi apontado pelos críticos neoliberais como um dos principais responsáveis da crise, na medida em que os gastos estatais eram enormes e a altíssima carga de impostos não dava conta de atender à crescente demanda. Outros fatores intensificaram a crise, como, por exemplo, a diminuição da taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida, ou seja, o número de aposentados cada vez maior e, o de contribuintes para financiar o sistema, cada vez menor. Ao mesmo tempo, a Teoria Neoliberal se fortalece e aponta algumas hipóteses para as falhas do modelo, conforme indica Draibe (1984) a respeito das críticas ao Welfare State, quando os gastos sociais do Estado só aumentavam, gerando. desequilíbrio orçamentário, provocando deficits públicos recorrentes, que penalizam a atividade produtiva e provocam inflação e desemprego. [...] Em resumo, os gastos sociais e sua forma de financiamento são responsáveis pela inflação, declínio dos investimentos e, portanto, pelo desemprego. Outros pontos indicados pela crítica neoliberal eram o excessivo paternalismo, o comodismo, a pouca eficiência/produtividade, além de uma ampla burocracia, inchando o Estado com muitos funcionários, aumentando os gastos. Por outro lado, os chamados progressistas também faziam críticas, afirmando que o tradicional padrão de acordo entre classes sociais predominante após a II Guerra estaria esgotado, forçando o conflito entre elas. Nessa perspectiva, o Welfare State teria sido apenas uma forma de amenizar o conflito entre classes, contribuindo para manter a ordem social capitalista. 8 Em função dessas críticas, principalmente a dos neoliberais, a partir dos anos de 1980 vários países passaram a rever seus programas sociais, ou os gastos com eles, e a enfatizar soluções típicas de mercado, privatizando empresas e fomentandoa previdência privada. Ainda assim, em termos comparativos, os programas sociais da maioria das nações europeias ocidentais são amplos e de boa qualidade, porém, os princípios são outros. Moser (2011) aponta uma nova geração de políticas e programas sociais na Europa unificada, definidas como políticas sociais ativas, ao invés de passivas Tais políticas fazem parte do processo de desestruturação de um modelo de provisão – o welfare – para a construção de um novo modelo de regulação estatal – o workfare – partidário de uma racionalidade de retribuição expressa na obrigatoriedade de participação dos cidadãos em medidas de ativação voltadas ao mercado de trabalho. Portanto, ao mesmo tempo em que há um questionamento da universalização dos programas sociais (por exemplo, se seria justo alguém ser beneficiário sem ter contribuído), atualmente as políticas sociais possuem outras características, fundamentadas em novas demandas, como a criação de empregos, inserção dos migrantes e adaptação das economias nacionais aos padrões globais. NA PRÁTICA Nos antigos países comunistas, foi estabelecido um amplo sistema de proteção social. Um Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) de 1999 comparava a situação de tais países antes e após o fim do comunismo: “Se a renda monetária era baixa, era estável e segura. [...] O acesso à educação e à saúde era gratuito. A aposentadoria estava assegurada e as pessoas podiam desfrutar de outras formas de proteção social” (apud Realismo Político, 2014). De acordo com Esping Andersen (1995), tais nações tinham um modelo de serviços sociais parecido com o dos países escandinavos, e se caracterizava por três pilares básicos: [...] pleno, e quase obrigatório, emprego; seguridade social ampla e universalista e um sistema de benefícios altamente desenvolvido, tipicamente baseado nas empresas e em salários indiretos. De fato, e de modo bastante semelhante à Escandinávia, a estratégia de maximização do emprego foi a condição sine qua non de equilíbrio do sistema, uma vez que minimizava a carga de dependência do welfare state. 9 Cuba é o modelo mais conhecido aqui no Brasil. Apesar da relativa pobreza, ainda hoje os serviços sociais e a assistência médica cubana possuem um padrão superior à maioria dos países latino-americanos. Contudo, é inegável que, desde que a maioria daquelas nações abandonou o regime comunista, muitas das políticas também cessaram, em especial a do pleno emprego. FINALIZANDO Nesta aula foram expostos os principais aspectos do chamado “Estado do Bem-Estar Social” – Welfare State -, um tipo de ação do Estado que predominou na maioria das nações desenvolvidas entre o final da II Guerra e o final dos anos de 1970. Os diversos problemas sociais intensificados pela industrialização e pelo capitalismo foram combatidos por ações pontuais na esfera da assistência social, da previdência e de serviços de saúde e educação. Três modelos básicos de Welfare State foram criados. O Socialdemocrata, o Conservador e o Liberal – com grau de universalização e de participação do Estado como principal diferencial entre eles. A partir dos anos de 1970, uma grave crise internacional fez com que o modelo se esgotasse, impulsionando uma busca por alternativas de sobrevivência, permitindo que propostas típicas de mercado fossem incorporadas. Apesar disso, ainda hoje a maioria das nações europeias possui serviços sociais públicos e gratuitos, que atendem a maior parte da população. 10 REFERÊNCIAS ARRETCHE, M. T. S. Emergência e desenvolvimento do Welfare State: teorias explicativas. In: Boletim informativo e bibliográfico. Rio de Janeiro, n. 39, 1º semestre, p. 3-40. Disponível em: <http://docs11.minhateca.com.br/396431177,BR,0,0,Emerg%C3%AAncia-e- Desenvolvimento-do-Welfare-State---Teorias-Explicativas---Marta- Arretche.pdf>. Acesso: 17 jan. 2018. DRAIBE, S. & HENRIQUE, W. Welfare state, crise e gestão da crise: um balanço da literatura internacional. Revista Brasileira de Ciências Sociais – ANPOCS, v. 3, n. 6, p. 5.378, 1988. Disponível em: <http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_06/rbcs06_04.htm>. Acesso: 17 jan. 2018. ESPING-ANDERSEN, G. As três economias políticas do Welfare State. Lua Nova, 1991, n. 24, p. 85-116. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 64451991000200006>. Acesso: 17 jan. 2018. ______. O futuro do Welfare State na nova ordem mundial. Lua Nova, 1995, n. 35, p. 73-111. GOMES, F. G. Conflito social e Welfare State: Estado e desenvolvimento social no Brasil. Rev. Adm. Pública, 2006, v. 40, n. 2, p. 201-234. 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O texto de Friedrich August von Hayek, O caminho da servidão, lançado em 1944, é considerado o momento de fundação do neoliberalismo, equivalente ao Manifesto comunista para o socialismo. Em 1947, na Suíça (Mont Pèlerin), ocorre um encontro de vários intelectuais liberais, como Milton Friedman, Hayek, Lipmann, Ludwig von Mises, Karl Popper. Todos comungavam as críticas de Hayek e criaram uma associação para divulgar suas ideias (Anderson, 1996). Na verdade, o economista Von Mises já havia escrito antes vários textos com o mesmo conteúdo, inclusive propondo a diferenciação entre o velho liberalismo e um liberalismo renovado, mais tarde conhecido como neoliberalismo. É importante salientar algumas diferenças entre o liberalismo clássico – típico dos séculos XVIII e XIX – e a nova proposta. Em termos gerais, as ideias são muito semelhantes, pautadas em liberdade individual, direito à propriedade privada e defesa da economia de mercado (concorrência e livre iniciativa). Mas uma primeira diferença é o adversário a ser combatido. Os liberais clássicos combatiam o Absolutismo e a decadente sociedade feudal. Já os neoliberais têm o socialismo e o Estado do Bem-Estar Social como seus maiores adversários. Outra diferença histórica é que, nos séculos XVIII e XIX, o Estado-nação estava se consolidando, de forma que o discurso liberal, ainda que enfatizando o livre mercado, precisava de um Estado forte para dar garantias às empresas nacionais e à própria burguesia, classe social que estava se consolidando. Nesse sentido, o Estado contribuiu para a formação de oligopólios, ou do protecionismo econômico. A Inglaterra Vitoriana é um bom exemplo deste fato. Já os neoliberais não admitem protecionismos, monopólios ou oligopólios, nem mesmo a ideia de um Estado economicamente forte, pois defendem um comércio sem fronteiras. Assim, a globalização é vista por alguns como um fenômeno, se não gerado, pelo menos incentivado pelo neoliberalismo. Contudo, durante duas décadas, as ideias neoliberais não tiveram muito espaço nos meios governamentais e acadêmicos, até que, em meados dos anos de 1960, as universidades começaram a acatar tais ideias e, em termos políticos, na década de 1970, foram implementados os primeiros programas neoliberais, reorientando a ação do Estado em diversospaíses. É o que veremos nesta aula. 3 TEMA 1 – ESTADO E NEOLIBERALISMO Para os neoliberais, a ideia geral de Estado pode ser resumida no conhecido jargão Estado mínimo. O liberalismo clássico já apregoava tal ideia, combatendo os princípios da altamente centralizada economia mercantilista. Mas, após a II Guerra e principalmente a partir dos anos de 1970, a crítica se volta para o Estado do Bem-Estar Social e para os princípios keynesianos de condução da economia pelo Estado, vistos como um germe de socialismo e totalitarismo, dada a excessiva ação do Estado na vida dos cidadãos. De acordo com M. Friedman (1984), a liberdade econômica fundamentaria a liberdade política permitindo aos indivíduos cooperarem, sem coerção ou direção centralizada, reduzindo a área sobre a qual é exercido o poder político. Além disso, dispersando o poder, o mercado livre proporciona um contrapeso a qualquer concentração do poder político que porventura venha a surgir. A combinação de poder político e econômico nas mesmas mãos constitui receita certa de tirania. As principais atribuições do Estado mínimo seriam: manutenção e garantia da ordem (justiça e polícia); zelo pelo bom funcionamento do mercado; segurança externa; infraestrutura – investir só em casos de falta de interesse ou de capital privado. Além disso, o Estado deveria ser “enxuto”. Neste prisma, algumas medidas monetaristas seriam fundamentais para sanear o Estado, tais como: Diminuição dos gastos, reduzindo a inflação e o descontrole orçamentário; Privatização; Juros e câmbio desvinculados do Estado; Abertura comercial; Mercado desregulamentado; Livre circulação de capitais; Reforma fiscal, diminuindo os impostos dos mais ricos e das empresas, pois teriam mais poder de investimento; Combate ao alto poder dos sindicatos e suas excessivas reivindicações; Redução da dívida externa, no caso de países em desenvolvimento; Crítica a subsídios e a incentivos de créditos ou fiscais, pois resultariam em maiores gastos públicos; Serviços públicos pagos; 4 Redução dos programas assistenciais (seguro social, renda mínima, programas de habitação, salário mínimo, assistência médica gratuita), indicados apenas aos mais carentes. A desigualdade não seria um problema, pois, antes disso, seria indutora da competição e da concorrência. Haveria o combate ao pleno emprego artificial, ou seja, aquele fomentado pelo Estado (um certo grau de desemprego é bem visto, pois incentiva a competição). Os indivíduos seriam os maiores responsáveis pela sua situação futura (por exemplo, formando poupança ou participando de fundos de pensão, tornando-os independentes das políticas sociais do Estado). Um dos maiores incentivos às políticas neoliberais foi o conjunto de diretrizes chamado de Consenso de Washington, a partir de uma reunião em 1989 encabeçada pelo FMI (Fundo Monetário internacional), por funcionários do governo norte-americano e agências de fomento internacionais, como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o Banco Mundial. Consistia em várias recomendações, primeiramente aos países latino-americanos, mas depois indicadas para todos os países. A receita era sempre a mesma, conforme exposto anteriormente. Com tal incentivo, diversos países implantaram políticas neoliberais em maior ou menor grau. É importante salientar que, nos anos de 1980, houve uma intensificação da Guerra Fria e o discurso fortemente anticomunista do neoliberalismo contribuiu para sua aceitação. Na Europa Ocidental, a partir daquela década, muitos países aderiram às suas propostas. TEMA 2 – MODELOS DE ESTADO NEOLIBERAL: INGLATERRA O Estado inglês foi o primeiro a adotar políticas neoliberais. Em 1979, Margareth Thatcher, do Partido Conservador, assume o poder e logo põe em prática diversas reformas sociais e de Estado, em um modelo considerado como o mais puro e profundo programa neoliberal (Anderson, 1995). Baseando-se neste programa, o Partido Conservador comanda a Inglaterra por quase 20 anos, permitindo a execução de um projeto de diminuição do tamanho do Estado, restringindo seu papel na economia e fomentando a ação do mercado, inclusive reduzindo os impostos sobre as rendas mais altas. Exemplos deste programa foram: a redução do número de funcionários públicos, um setor no qual havia forte sindicalização; privatização de empresas do setor 5 de energia, siderurgia, telecomunicações e distribuição de água. Fecharam-se minas de carvão deficitárias – lembrando que, àquela época, a mineração de carvão era uma das principais fontes de emprego para muitas cidades inglesas. Tudo isso gerou um forte embate com os sindicatos, que fomentaram uma greve geral em 1985, sendo duramente reprimidos, culminando na vitória de Thatcher: “Foi nas minas de carvão, mais do que em qualquer outro lugar, que uma visão socialista que valorizava o bem-estar das comunidades operárias mais do que o lucro finalmente teve de ceder para uma nova era de individualismo e empreendedorismo” (Burns, 2013). A maior parte das minas foi fechada e o carvão necessário para a indústria de energia passou a ser importado, mais barato que o inglês. Era o fim de um setor antes fundamental para a Inglaterra, desde os primórdios da Revolução Industrial, no final do século XVIII1. Outro programa básico foi a ideia de saneamento das finanças do Estado, em especial no combate à inflação e com redução de gastos, como o auxílio moradia, fomentando a ação do mercado para que os cidadãos pobres comprassem moradias populares. A maior parte das chamadas moradias sociais (casas alugadas junto ao Estado, em geral pertencentes aos municípios ou a entidades sem fins lucrativos ou, ainda, ao setor de locação privada) foi privatizada através do programa Right to buy (Direito de compra) durante o governo Thatcher, levando a uma grande redução do modelo de habitação social2. Ainda assim, não se eliminam certas ações do Estado, como, por exemplo quanto às crianças ricas ou pobres, que precisam de escolas adequadas para desenvolver seus talentos e habilidades. A partir daí se pode pensar em outra tarefa do governo: a criação de uma rede de proteção e benefícios para aquela parcela da população que, involuntariamente, não consegue manter-se no mercado de trabalho, por velhice ou doença. (Thatcher, citada por Rezende, 1994) A partir do Governo Thatcher não houve mais retorno ao padrão de Estado típico do pós-guerra. Mesmo os governos trabalhistas assumiram algumas teses neoliberais que, pode-se dizer, atualmente são modelo predominante. 1 Ver a este respeito <https://www.publico.pt/2015/08/22/economia/noticia/reino-unido-o-fim-de- uma-era-que-comecou-com-a-revolucao-industrial-1705619>. 2 Ver <https://www.theguardian.com/housing-network/2015/dec/07/housing-right-to-buy- margaret-thatcher-data>. 6 TEMA 3 – MODELOS DE ESTADO NEOLIBERAL: EUA O Presidente Ronald Reagan chega ao poder em 1981 eleito pelo Partido Republicano, que possuía uma nova estratégia de governo baseada nas ideias neoliberais disseminadas na década anterior. Seu slogan preferido era a famosa frase “O Estado não é a solução, é o problema”. Ele contribuiu para fomentar a ideia que mais tarde seria conhecida como “Consenso de Washington”, que vinha sendo transmitida, vigorosamente, a partir do começo da Administração Reagan nos Estados Unidos, com muita competência e fartos recursos, humanos e financeiros, por meio de agências internacionais e do governo norte-americano. Acabaria cabalmente absorvida por substancial parcela das elites políticas, empresariais e intelectuais da região, como sinônimo de modernidade, passando seu receituário a fazer parte do discurso e da ação dessas elites, como se de sua iniciativa e de seu interesse fosse. (Batista, 1994) Emboranão tenha realizado reformas tão drásticas quanto as promovidas por Thatcher, Reagan reduziu os impostos dos mais ricos, elevou as taxas de juros e esmagou a única greve de monta que marcou seu mandato, a dos controladores aéreos (Anderson, 1996). Por outro lado, o período de acirramento da Guerra Fria nos anos de 1980 aumentou enormemente os gastos militares, gerando certo descontrole orçamentário e aumentando a dívida externa. Embora os EUA nunca tenham formado um amplo sistema de bem-estar social, ainda assim existiam certas políticas sociais direcionadas aos mais carentes, como visto na Aula 3. O governo Reagan cortou parte desses gastos devido à redução dos impostos. Ao final dos anos de 1980, a inflação foi reduzida e a economia se estabilizou, mas o debate sobre o papel do Estado persiste ainda hoje, contrapondo os Democratas (defensores de uma relativa ação do Estado em certos assuntos) e os Republicanos (ferrenhos defensores das ideias neoliberais), como, por exemplo, em relação ao Obamacare, programa do Governo Obama (democrata) de subsídios federais ao sistema de saúde, ampliando os serviços para famílias mais pobres. Tal programa é vigorosamente criticado pelo Presidente D. Trump (republicano), que pretende derrubá-lo. TEMA 4 – UM MODELO AUTORITÁRIO DE ESTADO NEOLIBERAL: CHILE O pensamento neoliberal possui um claro aspecto político: o combate ao socialismo e ao intervencionismo estatal. Some-se a isso o contexto da Guerra Fria, quando não fazia muita diferença para os países hegemônicos, EUA e 7 URSS, se um país aliado era governado por um ditador ou por um democrata, fato corroborado em parte pela Teoria Neoliberal. Isso explica por que o Chile, governado entre 1973 e 1990 por Augusto Pinochet, um dos mais brutais ditadores militares latino-americanos, tenha implantado as primeiras políticas neoliberais conduzidas por Milton Friedman e apoiadas pelos EUA. Para os neoliberais, a liberdade econômica é que conduz à liberdade política, e não o contrário, o que certamente induziu Friedman a apoiar Pinochet, como o próprio teórico explicita (Friedman, citado por Leite, 2015): Não tenho nada de bom a dizer sobre o regime político imposto por Pinochet. […] Era um regime político terrível. O verdadeiro milagre chileno não tem a ver com o quão bom foi o desempenho econômico do Chile; o verdadeiro milagre esteve na disposição de uma junta militar em contrariar os seus princípios e apoiar reformas de livre mercado, deixando que elas fossem implantadas por defensores sinceros dos princípios de livre mercado. No Chile, o motor do novo regime de liberdades políticas foi gerado pela liberdade econômica, assim como pelo sucesso econômico resultante desta, dando origem ao referendo que introduziu um regime politicamente democrático. Portanto, apesar do discurso sobre liberdade, não importa muito se o regime é democrata, autoritário ou mesmo ditatorial. O regime político ideal é o que consegue neutralizar os sindicatos e diminuir a carga fiscal sobre os lucros e fortunas, ao mesmo tempo que desregula o máximo possível a economia. Pode conviver tanto com a democracia parlamentar inglesa, como durante o governo da Sra. M. Thatcher, como com a ditadura do Gen. A. Pinochet no Chile. Sua associação com regimes autoritários é tática e justificada dentro de uma situação de emergência (evitar uma revolução social ou a ascensão de um grupo revolucionário). A longo prazo, o regime autoritário, ao assegurar os direitos privados, mais tarde ou mais cedo, dará lugar a uma democracia. (Schilling, s.d.) No início do regime militar chileno, em 1973, a política econômica foi protecionista e nacionalista, mas os resultados não foram bons, o que levou Pinochet a buscar assessoria junto a economistas chilenos treinados na Universidade de Chicago, propagadora do neoliberalismo. A Universidade Católica do Chile também tinha programas de intercâmbio com a mesma universidade norte-americana. Aqueles economistas ficaram conhecidos como Chicago Boys (Leite, 2015), orientados por Friedman. Na América Latina, o Estado Chileno adotou de forma pioneira o mais drástico programa neoliberal, aumentando a taxa de desemprego, parte da estratégia de combater os sindicatos, criando um grande contingente de desempregados; liberalizou a economia; privatizou bens públicos, cujo exemplo maior são as universidades (públicas ou privadas – antes de Pinochet eram financiadas pelo Estado. Após, 8 a maioria dos cursos passou a ser pago. Hoje, apenas 15% dos recursos provêm do Estado3); diminuiu impostos sobre os mais ricos. O resultado foi a queda da inflação e uma relativa estabilidade da economia, pelo menos se compararmos com outros países do continente naquele período. Posteriormente, a Argentina (governo Menen), o Brasil (F. H. Cardoso) e o México implantaram modelos mais modestos de neoliberalismo, mas sem os mesmos resultados do Chile. TEMA 5 – CRÍTICAS AO ESTADO NEOLIBERAL As políticas neoliberais tiveram êxito no combate à inflação e na diminuição do deficit fiscal. Também diminuiu a visão paternalista de Estado, que induzia a comportamentos pouco competitivos ou ao comodismo. Por outro lado, as críticas são várias, dados os princípios frios, muitas vezes considerados desumanos. O aumento do desemprego, da desigualdade e a diminuição dos programas sociais são vistos como elementos de favorecimento dos mercados, em especial do financeiro. O equilíbrio das contas públicas e a diminuição de impostos não significou maiores investimentos produtivos, e sim especulativos, conforme indica um dos maiores críticos do neoliberalismo, Anderson (1996): podemos encontrar um elemento importante na desregulamentação dos mercados financeiros (liberdade de movimento dos capitais, das vendas e compras de obrigações, criação de novos produtos financeiros etc.). Essa desregulamentação liga-se intrinsecamente ao programa neoliberal, levando a que os investimentos financeiros ou especulativos sejam mais rentáveis que os produtivos. Um fator inesperado foi o crescimento das despesas sociais ligadas ao desemprego, ampliando enormemente os orçamentos sociais dos Estados, principalmente aqueles com amplos programas de bem-estar social. Outros fatores sociológicos contribuíram para aumentar o problema, por exemplo, do maior percentual de população idosa, aumentando o número de aposentados, ou seja, maiores despesas sociais com aposentadorias e pensões. O fator político relacionado ao tipo de democracia é criticado por diversos autores, como Thomas Picketty, Paul Krugman, Perry Anderson, Noam Chomski, a partir do fato de que os principais atores sociais a conduzir as decisões econômicas e políticas seriam as grandes corporações internacionais e o mercado financeiro, muitas vezes com mais poder que os estados nacionais. 3 Ver <https://www.terra.com.br/noticias/educacao/ensino-superior-pago-veja-os-casos-de-eua- franca-e-chile,7649b8abb04c6410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html>. 9 Em termos ideológicos, surge um novo tipo de comportamento social e político, como constatam Dardot e Chaval (2016), para quem um novo tipo de sujeito social passa a preponderar nas sociedades modernas. Esse sujeito conduz sua vida como se fosse uma empresa. O objetivo é o sucesso econômico (empresarial ou individual) acima de outros valores, com base em maior eficiência e cálculo constante. Os valores sociais passam a ser muito mais determinados em função do individualismo do que de fatores comunitários. E, como vimos, ao neoliberalismo não importa muito se um governo é democrático ou não, desde que introduza as mudanças propostas por aquela teoria. Foi o caso do apoio às diversas ditaduras ou regimes corruptos espalhados pelo mundo. NA PRÁTICA A partir dos anos de 1980, diversos países adotaram, se não o modeloneoliberal de Estado, ao menos alguns de seus princípios. Na Europa, alguns países tiveram governos socialistas ou sociais-democratas, como François Mitterrand na França, Felipe Gonzalez na Espanha, Mario Soares em Portugal, Bettino Craxi na Itália, Andreas Papandreou na Grécia. Todos adotaram políticas de cunho neoliberal, em especial Mitterrand (eleito em 1983) que, após dois anos de tentativas de levar a cabo um tradicional modelo socialdemocrata, acabou por priorizar “a estabilidade monetária e o controle dos deficits públicos e das concessões fiscais aos detentores de capitais. O objetivo de pleno emprego é abandonado” (Anderson, 1996). Nos anos de 1990, Tony Blair, na Inglaterra, foi um dos casos mais exemplares, pois, sendo representante do Partido Trabalhista (socialdemocrata), sua gestão incorporou diversos princípios neoliberais. Inclusive, foi um dos incentivadores da tese conhecida como “Terceira Via”, a mescla de princípios sociais-democratas e liberais. FINALIZANDO Nesta aula, vimos as principais características do Estado Neoliberal. Primeiramente, foi empreendida uma diferenciação entre a noção de estado para o liberalismo clássico e para o neoliberalismo, assim como suas principais características e fundamentos. Em seguida, foram analisados alguns exemplos 10 de Estado Neoliberal, como Inglaterra, EUA e Chile. Finalmente, foram apresentadas as principais críticas a este padrão de Estado. 11 REFERÊNCIAS ANDERSON, P. History and Lessons of Neo-Liberalism. The construction of a single track. Geneva, 1996. Disponível em: <http://page2.ch/EdPage2/p2_neolib_anderson>. Acesso: 5 jun. 2018. BATISTA, P. N. O Consenso de Washington. A visão neoliberal dos problemas latino-americanos. Disponível em: <http://www.consultapopular.org.br/sites/default/files/consenso%20de%20washi ngton.pdf>. Acesso: 5 jun. 2018. BURNS, J. F. Thatcher e os mineiros. O Estado de S.Paulo, 18 abr. 2013. Disponível em: <http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,thatcher-e-os- mineiros-imp-,1022398>. Acesso: 5 jun. 2018. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Rio de Janeiro: Boitempo, 2016. NEOLIBERALISMO: alguns princípios básicos. Educa Terra. 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ESTADO MODERNO E CONTEMPORÂNEO AULA 6 Prof. Carlos Alberto Simioni 2 CONVERSA INICIAL No mundo contemporâneo, a maioria dos Estados está configurada a partir de fundamentos neoliberais, ou pelo menos a partir de alguns de seus aspectos, ou então, de modelos moldados em algum grau por princípios sociais democratas ou socialistas, ainda que neste último caso em reduzido número. Por outro lado, há uma multiplicidade de formas de Estado que, em tese, fundamentam-se em algum desses modelos, mas incorporando outros aspectos que podem inclusive se tornar sua característica principal. É o caso de países nos quais a religião mantém forte laço com a política, em especial no Irã e no Afeganistão durante o Regime Talibã ou, ainda, a tentativa recente de estabelecer, na Síria e Iraque, o “Estado Islâmico” (Daesh), com sua proposta radical de teocracia. Além da religião, outras variáveis podem interferir na conformação de um Estado, como, por exemplo, a influência do populismo. Embora o populismo seja um fenômeno muito amplo e diverso, é inegável que, nos países em que é forte, como na Venezuela e nas Filipinas, o Estado assume feições diferenciadas. Há ainda outras variáveis, como o autoritarismo – ou mesmo o totalitarismo: um Estado antidemocrático e com poder exercido de forma extremamente autoritária e violenta, como, por exemplo, na Coreia do Norte ou em pequenos e exóticos países, como a Suazilândia. O fator geográfico pode dar uma característica diferente a certos países e influenciar a autonomia de certos Estados: por exemplo, o fato de ser um pequeno território com escassa população, ser uma ilha ou ser um território afastado. Em tais casos, há sempre algum tipo de dependência em relação a um país mais forte ou organização, como os países atrelados à Comunidade Britânica de Nações ou países antes colonizadores. Outros Estados são exóticos, possuindo funções diferenciadas, como o Vaticano. Finalmente, há na atualidade situações marcadas pela ausência ou desintegração do Estado, em especial em zonas de guerra civil. TEMA 1 – ESTADO NEOPOPULISTA A democracia típica do século XIX era elitista, com reduzida participação popular e, em muitos casos, como na América Latina, baseada em dominação de oligarquias regionais. Nos anos de 1930, no entanto, surgiram novos modos 3 de exercer o poder, em especial na relação entre governantes e povo. Não se tratava mais de uma política restrita à elite. É o caso do populismo. Tratava-se de uma forma de poder baseada na visão unitária do Estado, entendido como uma comunidade de interesses solidários no qual o líder faz a mediação entre as distintas classes sociais, com amplo apoio da classe trabalhadora, mas também da classe média, com relativa repressão à oposição (Ianni, 1975). O populismo pode ser democrático ou ditatorial. O líder populista possui peculiaridades: sua imagem se confunde com a do Estado, pois se enfatiza a identidade, que Ianni denomina de Estado-chefe-povo. Tal identidade é criada através do carisma pessoal do líder, de sua habilidade em se relacionar com o povo utilizando temas e formas de discursos típicos das massas, colocando-se de forma paternalista e heroica, como protetor do povo. O populismo prevaleceu na América Latina até os anos de 1950, mas voltou a aparecer nas últimas décadas com novas roupagens. De acordo com Fausto (2006), “as novas lideranças populistas se caracterizam pelo personalismo, pela difusão da crença no herói salvador, pelas práticas autoritárias”, mas também pelo discurso voltado aos efeitos da globalização e a problemas da Modernidade, tais como exclusão social, desemprego, combate à criminalidade e ao narcotráfico. O novo populismo possui uma base de apoio quase que somente de base popular, não caracterizada pela classe trabalhadora, mas pelas massas marginalizadas (id.). Atualmente, são exemplos deste processo a Venezuela e as Filipinas. 1.1 Venezuela O discurso populista pode ter características mais à esquerda ou mais à direita no espectro político. A Venezuela representa o primeiro caso, desde que o líder Hugo Chaves assumiu o poder em 1992 quando, paulatinamente, estabeleceu uma nova política de Estado mais intervencionista, centralizadora e nacionalista e também as conhecidas características baseadas no enaltecimento do líder e o apelo ou um discurso orientado para temas populares. A simbologia bolivariana (relativa ao herói da independência, Simon Bolívar) é um exemplo disso, ao reforçar a ideia do heroísmo quase mítico do presidente. Há no regime venezuelano uma boa dose de autoritarismo, em especial na repressão à oposição, fato já conhecido no velho populismo. “A democracia populista tem a singularidade de excluir, de modo nítido, as forças não populistas. Isto é, esta 4 democracia não abre a todas as classes e grupos da sociedadenacional as mesmas oportunidades de acesso ao poder” (Ianni, 1975). Na Venezuela, este fato é notório. Tanto Chávez como seu sucessor, Nicolas Maduro, possuem atributos considerados como neopopulistas, com a oposição sendo excluída direta ou indiretamente do acesso ao poder. Certamente, não é uma situação fácil de analisar, pois parte desta oposição tem profundas relações com a chamada economia transnacional e fortes imbricações com o discurso neoliberal predominante, além da influência norte-americana, inegável de observar no apoio à oposição venezuelana. 1.2 Filipinas Apesar de o populismo consistir em um fenômeno majoritariamente latino- americano, não é raro encontrar pelo mundo líderes com tais características, como, por exemplo, algumas lideranças de partidos de direita na Europa ou o ex-mandatário italiano Silvio Berlusconi. As Filipinas caracterizam um caso novo e curioso de populismo, considerada uma República Constitucionalista, na qual o presidente é chefe de governo e chefe de Estado; o Legislativo é bicameral. No entanto, o país viveu décadas de ditadura sob Ferdinand Marcos, que governou entre 1965 e 1986. Posteriormente, cinco outros presidentes governaram até que, em 2016, Rodrigo Duterte assumiu o poder. Trata-se de um político com características nítidas do populismo. Excelente na comunicação, usa um discurso popular voltado ao combate ao narcotráfico. Recursos e instituições de Estado são usados neste combate. Os discursos do presidente muitas vezes são considerados grosseiros, entremeados de palavrões, como quando afirma que vai matar ou prender os traficantes e viciados, xingando-os. Contudo, tal discurso cativa grande parte da população, e os índices de aprovação do presidente são maiores que 70%1. TEMA 2 – ESTADOS TEOCRÁTICOS No mundo antigo e medieval, era praxe considerar que um soberano possuía origem divina, e o Estado se confundia com aquele líder. A Modernidade trouxe a concepção de Estado Laico, separando religião e política. Ainda assim, 1 Ver Filipinas: reino do terror, política antidrogas já levou à execução de mais de 10 mil pessoas: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/03/eps/1499089617_332439.html> e <http://pt.euronews.com/2016/05/10/filipinas-populismo-leva-duterte-a-presidencia>. 5 é inegável que a religião exerça forte influência sobre o mundo moderno, mesmo no país mais poderoso, os EUA, ainda que de forma indireta. Um Estado Teocrático é aquele que possui leis e, por vezes, a própria organização submetida a uma doutrina religiosa considerada oficial. Contudo, não necessariamente tal relação indica um Estado Teocrático. Em alguns casos, como em muitos países islâmicos ou católicos, há leis cuja raiz está em certas leituras do livro considerado sagrado, o Alcorão ou a Bíblia, fundamentando alguns tipos de punições por crimes ou a proibição do aborto, mas nem por isso se pode dizer que o Estado naqueles países não possui fortes elementos da organização burocrática moderna. Um Estado efetivamente teocrático é aquele organizado na crença de que o faz de acordo com a vontade divina, submetendo as decisões, direta ou indiretamente, a clérigos da religião oficial. Há graus diferentes de influência religiosa. Ela pode ser extrema, como nos casos em que a Constituição é criada de acordo com determinada interpretação do livro sagrado (por exemplo: Afeganistão Talibã, em que se defendia a aplicação da Sharia, a lei islâmica). Em tais países, membros de outras religiões não possuem todos os direitos civis nem acesso aos melhores cargos de Estado. Os líderes políticos são também líderes religiosos, e há casos de países em que há grande influência religiosa, contudo, adaptada aos elementos do mundo moderno (como no Irã, onde há lideranças laicas, mas altamente influenciadas pelas lideranças religiosas). 2.1 Afeganistão “Talibã” Na década de 1990, este país foi dominado por um grupo islâmico denominado “Talibã”. Décadas antes, o país, apesar de pobre, procurava se adequar ao modelo ocidental de Estado. A Guerra Fria, contudo, o colocou entre as duas poderosas potências mundiais, EUA e URSS, como aponta Tariq Ali (2002). Para combater a invasão soviética em 1979, os norte-americanos financiaram grupos de religiosos radicais, até então muito pequenos em número, mas extremamente aguerridos – Osama Bin Laden é um exemplo. O resultado foi o famoso “Vietnã dos russos”, que durou até 1989. Com o fim da URSS, o Afeganistão foi esquecido, facilitando o domínio daqueles grupos radicais. O Talibã foi um movimento religioso extremamente radical que dominou o Afeganistão após a turbulenta guerra civil pós-Guerra Fria, quando este grupo tomou conta do Estado Afegão, entre 1996 e 2001. Foi liderado pelo Mulá Omar. 6 “Mulá” é a designação local dada aos especialistas na interpretação do Corão. O objetivo político era de que o país voltasse aos bons tempos do profeta Maomé, no século VII de nossa era. As regras sociais deveriam estar estritamente ligadas à interpretação literal do islã. Neste momento, o mundo conheceu, por exemplo, o rigoroso tratamento dado às mulheres e a perseguição a outras religiões, simbolizada pela destruição das milenares estátuas de Buda em função do combate à idolatria. Tudo com amparo ou ação direta do Estado. 2.2 Irã Em 1979, o Irã passa por uma revolução comandada por grupos religiosos Xiitas – Xiitas e Sunitas são variações do islamismo, tal qual protestantismo e catolicismo no cristianismo. A partir daí, o país implanta um regime teocrático, um pouco mais brando que o do Afeganistão. No Irã, há uma espécie de Poder Moderador que, entre outros poderes, controla as forças armadas e indica os responsáveis pelos veículos da mídia: o Chefe de Estado é um Aiatolá, um clérigo xiita escolhido por outros clérigos; estes, por sua vez, escolhidos por voto popular – para concorrerem, devem ter a permissão do Conselho dos Guardiões da Constituição, algo como uma Suprema Corte em democracias tradicionais. Tal órgão é composto de forma paritária por clérigos e juristas, e também possui a atribuição de verificar se as leis estão adequadas à Constituição e às leis islâmicas, além de ser responsável pela aprovação da lista de candidatos em eleições, excetuando-se as locais (Milani, 2009). Mas há também um presidente eleito pelo povo, responsável pelo Poder Executivo. Para concorrer, deve ser aprovado pelo Conselho de Guardiões e ser xiita. O poder legislativo segue as mesmas regras, excetuando-se que algumas minorias étnicas e religiosas têm direito a alguns poucos assentos no Parlamento (Souza, s.d.)2. Atualmente, o parlamento é dominado por reformistas, embora quem domine efetivamente o país sejam os conservadores. Há vários partidos políticos de cada tendência, mas, ainda assim, a diferença básica está no grau de influência religiosa sobre o Estado, e não na sua separação. 2 Ver ainda: Entenda o sistema político iraniano: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2001/010528_poderes.shtml>. 7 TEMA 3 – ESTADOS TOTALITÁRIOS E AUTORITÁRIOS O conceito de Estado (ou Regime) Totalitário possui divergências, principalmente na diferenciação com o Estado Autoritário. De acordo com o sociólogo Juan Linz, totalitarismo se diferencia de autoritarismo no que tange ao grau de repressão e de controle não democrático de uma sociedade. Seria uma dominação total, amparada pelas leis e pela força bruta. As principais características seriam: ideologia oficial, muitas vezes com aspectos místicos ou milenaristas (por exemplo, o líder visto como um grande herói, quase divino); um só partido político, propagador da ideologia; controle completo dos meios de comunicação e das forças armadas; controle policial de todos – criminosos,adversários ou simples cidadãos (Linz, 1979). Já o Estado Autoritário possui um pluralismo controlado, sufocado, que permite certas associações e alguma oposição. As leis e os demais poderes podem, eventualmente, interferir no combate ao arbítrio, como nas várias ditaduras latino-americanas nos anos de 1970. 3.1 Coreia do Norte A Coreia do Norte é um país fechado, com poucas informações sobre o que realmente ocorre3, fato que reforça a tese de que este é um regime totalitário, mas isso ainda não é uma prova cabal. Acima de tudo, é anti-imperialista, o que explica o antagonismo atual em relação aos EUA. No Ocidente, pouco se conhece sobre a magnitude da destruição gerada durante a Guerra da Coreia (1950-1953) e sua reconstrução praticamente por meios próprios. Em todo caso, algumas características podem ser elencadas no sentido de indicar um grau máximo de autoritarismo. A Coreia do Norte é governada por uma mesma família desde os anos de 1950, quando se tornou comunista. Há intensa propaganda oficial com o objetivo de reforçar o culto à personalidade, isto é, uma forte propaganda na forma de exaltação do líder máximo, atribuindo-lhe virtudes extraordinárias, como a realização de grandes façanhas na guerra ou na política, além de inteligência e bondade acimas da média, dentre outros fatores. Há uma Ideologia de Estado, 3 As principais fontes de informação sobre o país provêm de desertores, de diplomatas e de funcionários de agências internacionais que ali viveram por um tempo, além de profissionais que foram chamados a trabalhar, professores ou médicos, por exemplo, ou alguns jornalistas. 8 o socialismo Juche, criada pelo líder revolucionário Kim Il Sung, baseada em um forte nacionalismo, acompanhada de um ideal de não dependência de outros países, nem mesmo dos socialistas (Silva & Andrade, 2017). Os meios de comunicação são totalmente controlados, incluindo a internet e a telefonia, conforme relatório da Anistia Internacional (Fang, 2016), sendo uma arma fundamental nos esforços das autoridades para ocultar os detalhes sobre a terrível situação dos direitos humanos no país. Os norte-coreanos não são apenas privados da oportunidade de saber o que acontece no mundo, eles são impedidos de falar ao mundo sobre sua situação de privação quase total dos direitos humanos. 3.2 Suazilândia Suazilândia, um país pobre encravado entre África do Sul e Moçambique, é considerado como a última monarquia absolutista do planeta. Lá o Rei controla o Poder Executivo, interfere no Judiciário, nomeia o Primeiro Ministro, os juízes, indica parte dos membros do Legislativo, além de ter poder de veto sobre as leis. A família real controla os melhores negócios do país. Todas as terras pertencem ao Rei Mswati III, no poder desde 1986 (Santana, 2010)4. Além disso, a repressão e a violência fazem parte da rotina diária dos cidadãos. "O silêncio é parte da nossa cultura", descreve N. Twala, que trabalha num cassino on-line para clientes na África do Sul, onde o jogo é proibido. "Aprendemos na escola que temos de amar e respeitar o rei, assim como amamos nossos pais e respeitamos os mais velhos", explica Nqobizwe Shipanga, de 25 anos, que estuda Relações Públicas. Os trabalhos escolares incluem poesias de louvor ao rei, e ensina-se que seu poder emana de Deus, como ocorria com Luís XIV, o "Rei Sol" da França. (Id.) Não há quase nenhum espaço para a oposição. Zanini (2010) afirma que os partidos políticos são proibidos e, nas eleições, só concorrem os independentes, e correm o risco perene de o mandato ser cassado pelo monarca com uma canetada. Entidades que buscam autonomia são perseguidas com dureza. A última demonstração de força veio no Dia do Trabalho, quando um ativista de um partido banido foi preso por usar uma camiseta da agremiação. Dias depois, apareceu morto na cela. Suicídio, segundo a polícia. [...] A crítica ao soberano é punida severamente. 4 Ver também: <http://www.pordentrodaafrica.com/noticias/suazilandia-os-desafios-da-politica- na-ultima-monarquia-absolutista-da-africa>. 9 TEMA 4 – MICROESTADOS Há países espalhados pelo globo cujos territórios e população equivalem a um pequeno ou médio município brasileiro. Apesar disso, podem possuir as mesmas prerrogativas dos demais países, inclusive com assento na ONU e direito de voto na Assembleia Geral, o órgão deliberativo desta instituição. Há diversas especificidades em cada um destes países, podendo variar o grau de autonomia, a forma de governo e o papel do Estado. 4.1 Estados Federados da Micronésia Consiste em um conjunto de mais de 600 ilhas distribuídas em um território oceânico de mais de 2.900 km contíguos (ou cerca de 2,5 milhões de km² de oceano), mas com área efetiva de terras de pouco mais de 700 km². A população é de mais de 104 mil habitantes (2017). Trata-se de um Estado soberano, independente desde 1979, associado aos EUA, responsável por sua defesa. A Micronésia é dividida em 4 territórios autônomos, Chuuk, Kosrae, Pohnpei e Yap. É uma República Presidencialista, com parlamento unicameral, mas o governo central tem pouco poder efetivo. De acordo como o Departamento de Estado norte-americano, os EUA, além de protetores, são o principal parceiro comercial, tendo vários acordos bilaterais, inclusive no que tange ao direito de os cidadãos micronésios viverem ou estudarem nos EUA sem vistos5. Em contrapartida, os norte-americanos possuem bases navais na região. 4.3 Liechtenstein Pequeno país europeu com território pouco maior que 160 km² (a cidade de São Paulo tem 1.521 km²) e população de cerca de 35 mil habitantes. É considerado um principado, ou seja, quase uma cidade-estado cujo governo é exercido por um príncipe (Monarquia Constitucional), com parlamento e representação. Contudo, com população tão pequena, é comum que os cidadãos exerçam formas de democracia direta, tendo grandes poderes de destituir políticos ou de vetar ou aprovar leis. Principados não possuem 5 Departamento de Estado. Relações dos EUA com os Estados Federados da Micronésia. <https://www.state.gov/r/pa/ei/bgn/1839.htm>. 10 soberania total6. De acordo com um instituto propagador das ideias neoliberais, o principado se caracteriza por ser o país que mais se adequa aos princípios desta teoria (Instituto Von Mises, S.d.). O Príncipe Regente Hans Adam II é um disseminador dessas ideias, em especial as relativas ao risco de um excessivo crescimento do Estado. TEMA 5 – ESTADOS EXÓTICOS Alguns Estados fogem aos modelos tradicionais, seja porque têm uma finalidade distinta de outros Estados, seja porque são, digamos assim, semi- independentes. Um Estado Autônomo é aquele que, embora pertença a um país, possui grande autonomia política e econômica. Pode ser cultural e geograficamente distinto do país a que pertence, como é o caso de algumas ilhas caribenhas, mas também pode estar encravado no território nacional, como a Catalunha, na Espanha. Não é raro que fatores étnicos e religiosos resultem na maior autonomia de certas regiões (por exemplo, o Curdistão iraquiano e a ilha filipina de Mindanao (muçulmana)). Vejamos alguns outros exemplos. 5.1 Antilhas Holandesas Até 2010, este território holandês formado por cinco ilhas no Caribe, com cerca de 800 km² e população próxima de 200 mil habitantes, possuía grande autonomia, inclusive com Constituição própria, parlamento e governo local centralizado, além de governos específicos em cada ilha. O Reino dos Países Baixos (Holanda) tinha a responsabilidade de proteção. A partir daquele ano ocorreu a dissolução das Antilhas Holandesas. “As ilhas de Curaçao e São Martinho tornaram-se territórios autônomos do Reino dos Países Baixos.Aruba já tinha tal status desde 1986. Bonaire, Santo Eustáquio e Saba tornaram-se municípios especiais dos Países Baixos” (Paho, 2012). 5.2 Vaticano É considerado o menor país do mundo, com 0,44 km², encravado em Roma. Na realidade, é curioso que seja considerado um país. Sua população de 6 Andorra, por exemplo, é uma diarquia, isto é, possui dois chefes de Estado, o presidente francês e o bispo da comarca catalã de Urgel (Espanha). A França e a Espanha são protetoras de Andorra. 11 cerca de 800 habitantes é composta por religiosos e pela guarda suíça, tradicionais guardiães do Vaticano, os quais mantêm sua nacionalidade original. A quantidade de turistas é muito maior que a de residentes. A Santa Sé é responsável pelos assuntos eclesiásticos e o Estado do Vaticano é a sede temporal da Igreja Católica, tornando-se independente em 1929. Mas lembremos que, até o período absolutista, o papado interferia diretamente nos assuntos internacionais, sendo um mediador e, em certos casos, um ator internacional reconhecido. O Estado é chefiado pelo papa, um cargo vitalício, e o pontífice nomeia os auxiliares que exercerão funções administrativas e diplomáticas. NA PRÁTICA Situações de guerra civil geraram em alguns países contextos inusitados, como o fim ou quase ausência do Estado. É o caso da Somália, da República Democrática do Congo (antigo Zaire) e da Líbia, após a morte do ditador Khadafi. Em tais casos, diferentes grupos com distintas características políticas, étnicas e religiosas tentam assumir o poder, mas nenhum com efetivo poder de prevalecer sobre os demais. O caso mais notório é o da Somália, onde por alguns anos os chamados Senhores da Guerra, líderes de clãs locais, governaram pequenos territórios dentro do país. Nessas situações, há intervenção direta e indireta de países vizinhos, assim como das Nações Unidas (Missões de Paz) e de órgãos regionais, como a OUA (Organização da Unidade Africana). FINALIZANDO Vimos nesta aula que, no mundo contemporâneo, há outras variáveis para analisar o Estado, e não apenas os critérios ideológicos ou econômicos – liberal, comunista, socialdemocrata ou neoliberal. Fatores como o neopopulismo, a religião, as características geográficas e históricas, democracia ou autoritarismo e fatores geográficos interferem direta ou indiretamente no modelo de Estado assumido – ou mesmo a fragilização do Estado em alguns casos específicos. 12 REFERÊNCIAS ALI, T. Confronto de fundamentalismos. São Paulo: Record, 2002. CONTROLE absoluto do governo sobre comunicações com o resto do mundo deixa famílias desoladas. Anistia Internacional Brasil, 9 mar. 2016. Disponível em: <https://anistia.org.br/noticias/coreia-norte-controles-mais-rigorosos-sobre- comunicacao-com-o-mundo-exterior-deixam-familias-desoladas/>. Acesso: 5 jun. 2018. FAUSTO, B. O neopopulismo na América Latina. Folha de São Paulo, 17 fev. 2006. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1702200609. htm>. Acesso: 5 jun. 2018. IANNI, O. A formação do Estado populista na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. INSTITUTO VON MISES. Liberdade e economia austríaca no principado de Liechtenstein. Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1890>. Acesso: 5 jun. 2018. LINZ, J. Um regime autoritário: Espanha. In: CARDOSO, F. H. & MARTINS, C. E. Política e Sociedade. São Paulo: Nacional, 1979. MILANI, A. Iran: A Coup In Three Steps. Forbes, 15 jun. 2009. Disponível em: <https://www.forbes.com/2009/06/15/iran-elections-khamenei-mousavi- ahmadinejad-opinions-contributors-milani.html>. Acesso: 5 jun. 2018. PAHO – Pan American Health Organization. Saúde nas Américas, ed. 2012, v. regional. Disponível em: <http://www.paho.org/salud-en-las-americas- 2012/index.php?option=com_docman&view=download&category_slug=sna- 2012-capitulos-pais-28&alias=239-antilhas-holandesas- 239&Itemid=231&lang=pt>. Acesso: 5 jun. 2018. SANTANA, L. Absolutismo resiste na Suazilândia. O Estado de S.Paulo. Disponível em: <http://esportes.estadao.com.br/noticias/geral,absolutismo- resiste-na-suazilandia-imp-,574541>. Acesso: 5 jun. 2018. SILVA, D. L. S. & ANDRADE, C. A. O. Sobre a Coreia do Norte no ciberespaço: o Juche e o Grande Líder nas páginas do solidariedade à Coreia Popular. Boletim Historiar, n. 20, jul./set. 2017. Disponível em: 13 <https://seer.ufs.br/index.php/historiar/article/viewFile/7391/5948>. Acesso: 5 jun. 2018. SOUSA, R. G. Sistema político iraniano. Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/historia/sistema-politico-iraniano.htm>. Acesso: 5 jun. 2018. U.S. Department of State. Bureau of East Asian and Pacific Affairs. U.S. Relations With the Federated States of Micronesia, 9 out. 2017. Disponível em: <https://www.state.gov/r/pa/ei/bgn/1839.htm>. Acesso: 5 jun. 2018. ZANINI, F. País representa relíquia dos reinos absolutistas. Folha de S.Paulo, 24 maio 2010. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2405201002.htm>. Acesso: 5 jun. 2018. Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 1 Estado moderno e contempora neo – Estúdo dirigido Material de disciplina CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexões teóricas sobre sua trajetória. Cúritiba: Intersaberes, 2017 Ví deoaúlas 1 a 6. Rotas de Aprendizagem (Material para impressa o) 1 a 6. Neste breve resúmo, destacamos a importa ncia para seús estúdos de algúns temas diretamente relacionados ao contexto trabalhado nesta disciplina. Os temas súgeridos abrangem o conteú do programa tico da súa disciplina nesta fase e lhe proporcionara o maior fixaça o de tais assúntos, conseqúentemente, melhor preparo para o sistema avaliativo adotado pelo Grúpo Uninter. Esse e apenas úm material complementar, qúe júntamente com a Rota de Aprendizagem completa (livro-base, videoaúlas e material vincúlado) das aúlas compo em o referencial teo rico qúe ira embasar o seú aprendizado. Utilize-os da melhor maneira possí vel. Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 2 Bons estúdos! Atença o! Esse material e para úso exclúsivo dos estúdantes da Uninter, e na o deve ser públicado oú compartilhado em redes sociais, reposito rios de textos acade micos oú grúpos de mensagens. O seú compartilhamento infringe as polí ticas do Centro Universita rio UNINTER e podera implicar em sanço es disciplinares, com possibilidade de desligamento do qúadro de alúnos do Centro Universita rio, bem como responder aço es júdiciais no a mbito cí vel e criminal. Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 3 Sumário Tema: Do Estado Absolútista ao Estado Nacional Moderno ................................................................................................................ 4 Tema: Contratúalistas: Hobbes, Locke e Roússeaú .................................................................................................................................. 5 Tema: A crí tica Ilúminista ................................................................................................................................................................................... 7 Tema: Estado Búrocra tico e Estado-Naça o .................................................................................................................................................. 8 Tema: O aporte Weberiano .............................................................................................................................................................................. 10 Tema: Welfare State .............................................................................................................................................................................................13 Tema: Estado e Neoliberalismo ..................................................................................................................................................................... 15 Tema: Novas formas de organizaça o estatal (Neopopúlismo, Estados teocra ticos, Estados totalita rios e aútorita rios, MicroEstados, Estados exo ticos e Estados fra geis) .................................................................................................... 17 Tema: Globalizaça o e o Estado digital ......................................................................................................................................................... 20 Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 4 Tema: Do Estado Absolutista ao Estado Nacional Moderno “Hobbes e Locke, em particúlar, foram contempora neos a s Revolúço es Inglesas qúe ocorreram em qúase todo o se cúlo XVII, tendo como caracterí stica central o conflito entre a Coroa e o Parlamento. A Coroa representava o absolútismo e o Parlamento representava a búrgúesia liberal ascendente. Foi úm perí odo de crise polí tica, religiosa e econo mica. Foi nesse contexto de gúerra civil e de úma sociedade carente de úma aútoridade polí tica central qúe Thomas Hobbes e John Locke, ambos ingleses, viveram e escreveram súas teorias sobre o contrato social”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 35. De acordo com a rota de aprendizagem 1, “Ao longo do se cúlo XVI foi se estabelecendo na Eúropa a ideia de úm Estado forte, qúe se personifica na figúra do monarca. Mas foi no se cúlo XVII qúe este modelo se consolidoú, de forma qúe se crioú úma institúiça o com poder absolúto, distanciando-se da interfere ncia da nobreza e da igreja” (p.3). O Absolútismo pode ser definido como úm “sistema polí tico qúe predominoú na Eúropa entre o se cúlo XVI e o final do se cúlo XVIII” (04’48”). “As principais caracterí sticas do Estado Absolútista sa o: centralizaça o: Estado forte regido por úm ú nico individúo; primeiros passos da organizaça o búrocra tica moderna; Economia mercantilista; e Patrimonialismo” (06’50”). E ainda, “a ideia de naça o oú nacionalidade passa a basear-se no territo rio e na noça o de povo (todos os qúe habitam o territo rio), e na o tanto na etnia oú religia o, como foi, por exemplo, em boa parte do Impe rio Romano e no feúdalismo. Em relaça o a segúrança, o Estado era agora o grande protetor, com a criaça o dos exe rcitos nacionais compostos por cidada os, e na o mais por mercena rios oú indiví dúos de oútras nacionalidades”. Fonte: Rota de Aprendizagem 1, p. 3 e Ví deo Aúla 1 (04’48”) e (06’50”). --- “Se assúmirmos a formaça o do Estado como parte do processo de modernizaça o qúe começoú com o Renascimento, enta o os primeiros Estados nacionais súrgiram em territo rios qúe hoje correspondem a França, Inglaterra, Portúgal e Espanha dúrante os se cúlos XV e XVI. Esse processo ocorreú simúltaneamente ao mercantilismo, e esses Estados eram marcados pelas feiço es do absolútismo (Bresser-Pereira, 2009)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 46 e 47. De acordo com a rota de aprendizagem 1, “O mercantilismo foi o modelo econo mico predominante dúrante o absolútismo eúropeú. Consistia basicamente em úma polí tica de acú múlo de riqúezas – metais preciosos provenientes da Ame rica. A nobreza e a búrgúesia comercial, tanto como o Estado, assúmiam esse papel de acú múlo, sendo o Estado o grande indútor e protetor desse sistema”. Fonte: Rota de aprendizagem 1, p. 5. --- “O pensamento moderno, por súa vez, teve iní cio com o Renascimento italiano, do qúal se destaca Maqúiavel (1469-1527). Considera-se como perí odo moderno aqúele qúe vai do Ilúminismo ate o iní cio do se cúlo XX, e como contempora neo, o perí odo qúe se inicia na segúnda Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 5 metade do se cúlo XX” (Adaptado). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 14 e 15. Maqúiavel apresentoú úma ideia moderna de Estado. Analisoú o Estado e o poder polí tico como tendo natúreza pro pria e sendo ponto central da polí tica moderna. O Estado como realidade pro pria. Essa definiça o pode ser verificada na rota de aprendizagem 1, “A ideia moderna de Estado foi apresentada por Maqúiavel no Livro O Príncipe (1532), no qúal ele analisa o Estado e o poder polí tico como tendo natúreza pro pria e sendo ponto central da polí tica moderna”. Fonte: Rota de aprendizagem 1, p.7. Tema: Contratualistas: Hobbes, Locke e Rousseau “Hobbes fala de úma natúreza imúta vel dos homens em relaça o ao tempo e a histo ria, o qúe os coloca em condiça o de igúaldade plena entre si e faz com qúe nenhúm possa se sobrepor integralmente aos demais. Para o aútor, essa sitúaça o leva a úma instabilidade, na qúal ningúe m consegúe saber o qúe os oútros pensam oú desejam. O mais prúdente sempre seria atacar, com vistas a evitar ser atacado em algúm momento. Assim, o homem estaria em úm permanente estado de gúerra de todos contra todos”. O estado de natúreza e úm estado hipote tico em qúe cada úm e completamente livre para fazer o qúe qúer. E úm estado sem normas reconhecidas por todos, sem contrato, em qúe aflora a natúreza húmana. Essa ideia pode ser melhor compreendida na pa gina 35 do livro base da disciplina. “Os teo ricos do contratúalismo tinham como ponto de partida o estado de natúreza: a sitúaça o na qúal os indiví dúos viviam como proprieta rios livres e igúais de si mesmos e com úm leqúe irrestrito de aça o. Súas teorias giravam fúndamentalmente em torno da explicaça o do abandono, por parte dos indiví dúos, de úm estado de natúreza fictí cio para constitúir úma sociedade politicamente organizada. Essa passagem do estado de natúreza para úm estado civil teria acontecido por meio de úm pacto: úm contrato social qúe originaria o Estado” (p. 35). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p.35-36. --- “O objetivo capital e principal da únia o dos homens em comúnidades sociais e de súa súbmissa o a governos e a preservaça o de súa propriedade. O estado de natúreza e carente de múitas condiço es. Em primeiro lúgar, ele carece de úma lei estabelecida, fixada, conhecida, aceita e reconhecida pelo consentimento geral, para ser o padra o do certo e do errado e tambe m a medida comúm para decidir todas as controve rsias entre os homens. (Locke, 1994, p. 156)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 39. De acordo com a rota de aprendizagem 2, John Locke “E considerado úm dos precúrsores do Ilúminismo e úm dos principais disseminadores do pensamento liberal, em especial no qúe tange a defesa da propriedade privada como garantia da liberdade. Súas ideias esta o expostas na obra Segundo tratado sobre o governo (1681), na qúal defende valores tí picos do Ilúminismo: úm Estado na o aútorita rio, contrariando o pensamento hobbesiano, comúm naqúele perí odo, e o úso da raza o para explicar a realidade (e na o do pensamento religioso oú da fe ). Ainda, criticoú a ideia do Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 6 “Direito divino”, em voga dúrante súa vida (aúge do absolútismo). Para Locke, o Estado deve estar sújeito a lei. Defendeú a divisa o do poder, sendo o Legislativo o mais importante, pois representa o povo, a fonte real de poder. Maso Estado, acima de túdo, seria o grande gúardia o da propriedade privada, base da liberdade” (p. 3). Fonte: Rota de Aprendizagem 2, p. 3. --- “Oútro aútor fúndamental do pensamento polí tico moderno foi Montesqúieú (1689-1755). No seú modelo esta a ideia de pesos e contrapesos, oú seja, úma abordagem realista do feno meno polí tico institúcional sobre como somente úm poder pode impor limites a oútro poder” (Adaptado). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 39 – nota de rodape ). Montesqúieú propo s úma teoria mais so lida sobre a separaça o dos poderes, refinando a ideia aristote lica de constitúiça o mista, oú seja, de balanceamento entre as institúiço es democra ticas, aristocra ticas e mona rqúicas. De acordo com a rota de aprendizagem 2, “Na obra O espírito das leis (1748), Este pensador propo e ideias qúe impeçam a tirania oú o governo despo tico, evitando a viole ncia e a arbitrariedade, ta o comúns dúrante o Absolútismo. Baseando-se no modelo ingle s, Montesqúieú faz o contraponto monarqúia constitúcional e repú blica versus despotismo. O Estado seria estrútúrado em fúnça o de tre s poderes independentes: 1) o Execútivo dirigiria as coisas pú blicas em fúnça o das leis, no entanto, teria o poder de veto; 2) a Magistratúra seria úm poder impessoal e independente, com leis criadas pelos representantes do povo, 3) o Legislativo (Parlamento). As atribúiço es do Estado seriam racionalmente divididas, e úm poder so interferiria em oútro em sitúaço es especiais. Seria o qúe ele designoú de “sistema de contrapesos”, no qúal o poder controla o poder”. Fonte: Rota de Aprendizagem 2, p. 4. --- “Os filo sofos contratúalistas búscavam a fúndamentaça o racional do poder soberano para consegúir úma base de legitimidade qúe na o necessitasse das explicaço es divinas oú religiosas. Mais especificamente, os teo ricos do contratúalismo tinham como ponto de partida o estado de natúreza”. Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacqúes Roússeaú sa o os nomes dos mais importantes filo sofos contratúalistas. Essa afirmativa pode ser verificada no livro base da disciplina, “A melhor forma de compreender o Estado moderno e búscar as teorias mais inflúentes sobre ele. Por isso, na o ha como iniciar a discússa o sem apresentar os tre s teo ricos contratúalistas ico nicos: Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704) e Jean Jacqúes Roússeaú (1712-1778). Esses aútores sofreram inflúe ncia direta do contexto histo rico em qúe viviam, como as ditas descobertas de novos múndos considerados na o civilizados e a posterior colonizaça o do múndo na o eúropeú” (p. 34 e 35). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 34 e 35. Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 7 Tema: A crítica Iluminista “Os princí pios ilúministas regem, em maior oú menor graú, a maioria das democracias modernas – assim como úma parte do cena rio internacional – a partir da lo gica do Estado- Naça o, da mediaça o das organizaço es internacionais e dos tratados internacionais”. O ilúminismo foi úm conjúnto de obras e ideias qúe qúestionava o absolútismo e os valores medievais qúe ainda vigoravam na sociedade eúropeia. Essa definiça o pode ser verificada na pa gina 3 da rota de aprendizagem 2, “O Ilúminismo, se cúlos XVII e XVIII, foi úm conjúnto de obras e ideias qúe qúestionava o absolútismo e os valores medievais qúe ainda vigoravam na sociedade eúropeia – por exemplo, o teocentrismo, qúe deveria ser súbstitúí do pelo domí nio da raza o (cie ncia).O termo “Ilúminismo” contrapo e-se a ideia de “trevas” qúe obscúreciam o conhecimento, tí pico do perí odo medieval, de forma a ilúminar o múndo com úm novo tipo de conhecimento, qúe certamente seria úsado para os assúntos da polí tica e do Estado”. Fonte: Rota de Aprendizagem 2, p. 3. --- “A paz perpe túa trata qúe o direito cosmopolí tico deve circúnscrever-se a s condiço es de úma hospitalidade úniversal. Dessa forma, Kant traz no terceiro artigo definitivo de úm tratado de paz perpe túa, o fato de qúe existe úm direito cosmopolitano relacionado com os diferentes modos do conflito dos indiví dúos intervirem nas relaço es com oútros indiví dúos. A pessoa qúe esta em seú territo rio, no seú domí nio, pode repelir o visitante se este interfere em seú domí nio. No entanto, caso o visitante mantenha-se pací fico, na o seria possí vel hostiliza -lo. Tambe m, na o se trata de úm direito qúe obrigatoriamente o visitante poderia exigir daqúele qúe o tem assim, mas sim, de úm direito qúe persiste em todos os homens, o do direito de apresentar-se na sociedade. O direito de cada úm na súperfí cie terrestre pode ser limitado no sentido da súperfí cie. Ja o indiví dúo deve tolerar a presença do oútro, sem interferir nele, visto qúe tal direito persiste a toda espe cie húmana. Enta o, o direito da posse comúnita ria da súperfí cie terrestre pertence a todos aqúeles qúe gozam da condiça o húmana, existindo úma tolera ncia de todos a fim de qúe se alcance úma convive ncia plena. Veja qúe o ato de hostilidade esta presente no ato do direito de hospitalidade. Mesmo qúe o espaço seja limitado, os indiví dúos devem se comportar pacificamente com o intúito de se alcançar a paz de conví vio mú túo. O relacionamento entre as pessoas esta na constrúça o dos direitos de cada úm, sendo indispensa vel para a compreensa o do direito cosmopolí tico de modo a garantir as condiço es necessa rias para termos úma hospitalidade úniversal. Por fim, a na o violaça o do direito cosmopolitano e o direito pú blico da húmanidade criara condiço es para o favorecimento da paz perpe túa, proporcionando a esperança de úma possí vel aproximaça o do estado pací fico”. Fonte: Wikipe dia, 2018. Disponí vel em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanúel_Kant>. Acesso em: 04 abr. 2018. De acordo com a rota de aprendizagem 2, “Defensor das ideias ilúministas, Kant escreveú o tratado A paz perpétua, no qúal apresenta princí pios qúe poderiam evitar a gúerra entre as naço es, como a na o intervença o, a formúlaça o de tratados sem ressalvas, o repúblicanismo, o fim do patrimonialismo (o Estado pertencendo ao monarca) e o fim dos exe rcitos permanentes. Mas foi a proposta de úma espe cie de “direito internacional” qúe deixoú úma herança no campo das relaço es internacionais. O princí pio deste direito seria o fato de qúe os Estados viviam na imine ncia de gúerra entre si e, para evitar tal sitúaça o, deveriam entrar https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 8 em acordo e criar úma federaça o de naço es, o qúe de fato se tentoú no se cúlo XX, com a Liga das Naço es e com a Organizaça o das Naço es Unidas (ONU)”. Fonte: Rota de aprendizagem 2, p. 5. --- “A expansa o do capitalismo e seú aprofúndamento pela Revolúça o Indústrial reestrútúraram a sociedade eúropeia por meio da modernizaça o econo mica. Trata-se da era das ma qúinas a vapor, da invença o da eletricidade, das cidades cada vez mais popúlosas (trazendo consigo todos os problemas de úma úrbanizaça o acelerada) e do progresso indústrial marcado por úma desúmana e exacerbada exploraça o da ma o de obra da classe trabalhadora. Foi esse o contexto qúe Karl Marx (1818-1883) viveú e dúrante o qúal escreveú”. De acordo com o livro base da disciplina “O Estado na o teria úma útilidade em si mesmo; pelo contra rio, estaria sempre a serviço de úma classe economicamente dominante, úma vez qúe esta seria incapaz de alcançar por si so seús pro prios interesses. O Estado e úm instrúmento: o grande partido da classe economicamente dominante” (p. 72). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Modernoao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 71- 72. Tema: Estado Burocrático e Estado-Nação “O aparelho estatal como o conhecemos atúalmente teve seús contornos definidos pelo contratúalismo liberal, por meio dos regimes democra ticos representativos, qúe se consolidaram como ordem júrí dica e governamental. A ideia de Estado-naça o existiú primordialmente nas grandes pote ncias múndiais no se cúlo XIX e iní cio do se cúlo XX. Foram elas qúe impúseram o modelo a ser segúido e definiram o campo da atividade polí tica e do fúncionamento das engenharias institúcionais qúe daí súrgiram (Cha telet; Pisier-Koúchner, 1983). Ele e refere ncia para o poder polí tico organizado, a únidade polí tica mais relevante nos tempos posteriores a modernidade” (Adaptado). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 26. De acordo com a rota de aprendizagem 1, “Em termos do qúe hoje definimos como “relaço es internacionais”, o cena rio a partir do se cúlo XVI estava se ampliando com a formaça o de naço es e a colonizaça o das terras rece m-descobertas qúe, em múitos casos, gerava conflitos por posse, pela búsca de metais preciosos e pelo domí nio de mercados. Ate enta o, os mediadores no cena rio internacional eram a Igreja Cato lica e o Sacro Impe rio Romano, qúe súbmetiam direta oú indiretamente as naço es eúropeias. E neste momento qúe úm novo ator internacional começa a emergir, o Estado-Naça o, com seús interesses polí ticos e econo micos especí ficos e com úma lo gica pro pria de existe ncia...”“O Estado-Naça o paúlatinamente se tornoú independente na medida em qúe a igreja foi perdendo seú poder; primeiramente, com o enfraqúecimento do argúmento do direito divino e, em segúndo lúgar, com a Igreja deixando de ser úm a rbitro internacional, possibilitando úm sistema laico – na o ligado a igreja – de relaço es internacionais, prevalecente ate os dias atúais”. Em súma, e o Estado como ator internacional. Fonte: Rota de Aprendizagem 1, p. 6. --- Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 9 “O feno meno da búrocracia e caracterí stica central das administraço es modernas. A búrocracia e formada por pessoas igúais e livres em sitúaça o de nivelamento social, com obrigaço es objetivas e compete ncias fixas. Os contratos de trabalho ocorrem pela seleça o segúndo a qúalificaça o profissional, com sala rios fixos de acordo com a hierarqúia (meritocracia). A búrocracia se apresenta como úma forma de dominaça o rí gida, com alto graú de controle e disciplina. O ní vel de qúalificaça o cresce continúamente com a búrocracia” (Adaptado). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 58. De acordo com a ví deo aúla 1, “Vimos qúe ha distintas abordagens sobre o Estado: Estado Búrocra tico qúe se refere a administraça o interna do Estado-Naça o e Estado-Naça o qúe e entendido como ator internacional” (11’20”). “O estado búrocra tico se caracteriza, ja no perí odo absolútista, por úma administraça o interna centralizada. O Estado búrocra tico tambe m regúla e fornece proteça o interna aos sú ditos na forma de criaça o de institúiço es, exemplos: polí cia e forças armadas, institúiço es controladas por legislaça o. O estado tambe m controla e protege a economia e controla a arrecadaça o de impostos” (11’25”) (Adaptado). --- “O patrimonialismo e úma ideia essencial para a definiça o do Homem Cordial, conceito idealizado pelo socio logo Se rgio Búarqúe de Holanda em Raí zes do Brasil. Victor Núnes Leal, em seú cla ssico "Coronelismo: enxada e voto" trabalha de modo magistral o patrimonialismo no Brasil. Para este aútor, a medida qúe o poder pú blico ia se afirmando sobre o poder privado, e o Estado imperial ganhava força e podia prescindir da "múleta" dada pelos latifúndia rios e senhores de terras, este mesmo Estado teria extralegalmente tolerado qúe o fazendeiro (o chamado "coronel") embarcasse dentro da "canoa" do Estado moderno; em troca da "força moral" (dos votos) dos corone is fazendeiros, o Estado brasileiro continúoú, embora ilegalmente, homologando os poderes formais e informais destas figúras. Ja os fazendeiros, "perdendo os ane is para conservar os dedos", soúberam adaptar-se aos novos tempos, e embarcaram qúase inco lúmes na "canoa sem remo" da repú blica. O legado do poder privado, mesmo hoje, ainda sobrevive dentro da ma qúina governamental com o úso e presença do "jeitinho brasileiro", qúando a maioria dos polí ticos veem o cargo pú blico qúe ocúpam como úma "propriedade privada" súa, oú de súa famí lia, em detrimento dos interesses da coletividade”. Fonte: Wikipe dia, 2018. Disponí vel em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Patrimonialismo> Acesso em: 04 abr. 2018. De acordo com a ví deo aúla 1 “Dúrante o perí odo absolútista, na o havia distinça o entre o pú blico e o privado. Oú seja, o monarca (o rei) e as aútoridades podiam útilizar os recúrsos privados oú pú blicos de forma ambí gúa. Por exemplo: o rei poderia retirar o dinheiro do cofre e comprar presentes para pessoas pro ximas qúe ningúe m iria reclamar” (08’30”). Fonte: Ví deo Aúla 1 (08’30”). https://pt.wikipedia.org/wiki/Patrimonialismo Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 10 Tema: O aporte Weberiano “Max Weber (1864-1920) foi o aútor qúe mais bem conceitúoú a transiça o do Estado absolútista para o moderno. Ele tambe m soúbe delinear com grande precisa o a economia capitalista e todas as transformaço es estrútúrais decorridas do processo de modernizaça o e racionalizaça o. Seús principais conceitos sa o, sobretúdo em relaça o ao Estado moderno e a emerge ncia da administraça o do tipo búrocra tica” (Adaptado). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 52. De acordo com a rota de aprendizagem 2, “O socio logo Max Weber e considerado úm dos maiores teo ricos oú inte rpretes do Estado Moderno. Em súa vasta obra, analisoú inú meros temas, inclúindo o advento do chamado Estado racional legal, frúto de úm lento processo histo rico, com raí zes na Idade Me dia, mas qúe so se consolidoú na Modernidade, e primeiramente no múndo ocidental, com o predomí nio do capitalismo e do Estado-Naça o” (p. 9). “Uma das mais conhecidas frases de Weber e a qúe define o Estado moderno como a institúiça o qúe, em determinado territo rio, de forma legí tima (de acordo com as regras socialmente aceitas), monopoliza o instrúmental de coaça o fí sica (a viole ncia legí tima), reúnindo para esse fim meios organizacionais, dirigentes e fúnciona rios, desapropriando os lí deres aúto nomos qúe antes detinham aqúele poder (Weber, 2004).Tal fato se realiza no poder de coagir e, se for o caso, de forçar, por exemplo, a aça o da polí cia, de fiscais, de oficiais de jústiça, das forças armadas e de variadas institúiço es estatais oú por elas designadas” (p.9). E ainda, “No absolútismo e no múndo antigo, o poder se encarnava na figúra do soberano oú da nobreza, de forma qúe as leis eram múitas vezes aplicadas de maneira pessoal, oú seja, variavam de acordo com as circúnsta ncias oú com a prefere ncia da aútoridade. Para Weber, úma pecúliaridade da modernidade e o predomí nio de úma dada forma de dominaça o, a institúcional oú legal, qúe se manifesta de maneira impessoal na forma de leis e de úma administraça o cientí fica, isto e , baseada no ca lcúlo racional, úsando os modernos meios te cnicos e organizacionais”. Fonte: rota de aprendizagem 2, p. 9 e 10. --- “Oútra caracterí stica da dominaça o racional e a docúmentaça o dos processos. Trata-se do feno menoda búrocracia – caracterí stica central das administraço es modernas. A búrocracia e formada por pessoas igúais e livres em sitúaça o de nivelamento social, com obrigaço es objetivas e compete ncias fixas”. De acordo com o livro base da disciplina, “a dominaça o racional e aqúela qúe se calca na validade de regras racionalmente estatúí das. O poder e legitimado por úm sistema de regras racionais, oú seja, obedecem-se a s regras, e na o as pessoas; daí qúe ela e impessoal e aponta para compete ncias objetivas. Na dominaça o racional ha aútoridade institúcional, hierarqúia oficial e qúalificaça o profissional. No qúe se refere ao qúadro administrativo, ha separaça o absolúta em relaça o aos meios administrativos, e as atividades profissionais sa o realizadas em locais separados dos domicí lios dos fúnciona rios. O fúnciona rio na o possúi o cargo, apenas o direito ao cargo por úm ví ncúlo objetivo (Weber, 1984, 2011)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 58. Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 11 --- “Existe sempre a crença na validade da estrútúra de dominaça o qúe molda as aço es sociais, o qúe constitúi o primeiro impúlso a determinar súa orientaça o para úm objetivo (Weber, 1984, 2011). E importante ressaltar qúe dominaça o e poder na o ocorrem separadamente; ao contra rio, podem ocorrer júntos oú haver úma transiça o de úm para o oútro. O Estado e o lócus onde poder e dominaça o se encontram; e a arena polí tica por excele ncia”. De acordo com o livro base da disciplina, “A dominaça o carisma tica, por seú túrno, tem como fúndamento de legitimidade fatores “extracotidianos” das caracterí sticas “sobre-húmanas” do lí der. Nesse sentido, os dominados obedecem em virtúde de provas constantes (“milagres”) e súa crença no lí der nasce do entúsiasmo. Para continúar existindo, a dominaça o carisma tica precisa de provas constantes. Seú qúadro administrativo e a comúnidade, o se qúito, o agrúpamento de segúidores paútado por úm cara ter emocional. De acordo com as qúalidades carisma ticas do lí der, os dominados assúmem úma caracterí stica jústaposta: profeta e discí púlos, gúerreiro e seú se qúito, lí der e homens de confiança etc. Na o ha , portanto, hierarqúia, carreira, nomeaça o oú compete ncias fixas, o qúe existe e a “missa o” dos grúpos. Sem sala rio oú prebendas, apenas relaça o amorosa oú de camaradagem. Sem aútoridades fixas, apenas emissa rios. Sem regúlamentos, normas oú direito racional, somente o qúe “esta escrito”, aqúilo qúe “em verdade vos digo” (Weber, 1984, 2011). A dominaça o carisma tica e extracotidiana porqúe ocorre fora de formas cotidianas de dominaça o. Ela e irracional por na o haver regras oú tradiço es. Alheia a economia, vive de aqúisiço es ocasionais por meio de doaço es, gorjetas, extorsa o e viole ncia” (p. 57). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 55-57. --- “No qúe diz respeito a s formas de gesta o econo mica, a dominaça o tradicional emperra o desenvolvimento do capitalismo racional em raza o da vincúlaça o tradicional em relaça o a tribútaça o, a arbitrariedade da fixaça o de taxas, impostos, monopo lios etc. Esse contexto impossibilita ca lcúlos previsí veis de arrecadaça o, impedindo as atividades aqúisitivas (Weber, 1984, 2011)”. De acordo com o livro base da disciplina, “Weber resúme a dominaça o tradicional como “a aútoridade do ‘passado eterno’, oú seja, dos costúmes santificados pela validez imemorial e pelo ha bito, enraizado nos homens, de respeita -los. Assim se apresenta o ‘poder tradicional’, qúe o patriarca oú o senhor de terras exercia antigamente”. Ha , portanto, múito espaço para a arbitrariedade do senhor. Trata-se do reino do favoritismo e do clientelismo, em qúe faltam princí pios de compete ncia fixa segúndo regras objetivas, hierarqúia racional, contrato livre, nomeaça o, formaça o profissional (Weber, 1984, 2011)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 56-57. --- “Para entender o pensamento weberiano, precisamos fazer úma breve revisa o de súa metodologia de ana lise. O qúe o aútor procúra demonstrar e a possibilidade de generalizaço es Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 12 nas cie ncias húmanas e sociais. Para tanto, mobiliza a metodologia da sociologia compreensiva, qúe búsca interpretar as aço es húmanas visando identificar as caúsalidades nos eventos histo ricos. A abordagem weberiana apresenta o conceito-chave tipo ideal, qúe consegúe condensar os aspectos da súa matriz intelectúal”. De acordo com o livro base da disciplina “A abordagem weberiana apresenta o conceito-chave tipo ideal, qúe consegúe condensar os aspectos da súa matriz intelectúal: trata-se de úm recúrso heúrí stico qúe orienta os pesqúisadores na descoberta tanto dos motivos das aço es húmanas qúanto das relaço es de caúsalidade dos eventos histo ricos, qúe, por meio de comparaça o, possibilitam captar graús de generalizaço es (Weber, 2004).O tipo ideal e úma abstraça o conceitúai qúe procúra reter as semelhanças de casos tí picos gerais. Ao constrúir úma classificaça o como essa – púra, por ser impossí vel de existir na realidade procúra-se retirar as singúlaridades e preservar os aspectos gerais de determinado feno meno. Por ser úm constrúcto mental, tal conceito permite encontrar graús e ní veis de generalizaço es no múndo concreto. E úm modelo qúe se compara a úma lanterna qúe gúia o pesqúisador em úma realidade complexa de relaço es caúsais (Weber, 1984). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 52-53. --- “Weber foi úm aútor qúe consegúiú decifrar as transformaço es de seú tempo, úm múndo atravessado de contradiço es polí ticas e revolúço es tecnolo gicas e cientificas. Súa percepça o a respeito do feno meno búrocra tico na gesta o organizacional e dos desafios para a democracia liberal qúe daí derivaram e ainda contempora nea. O Estado qúe ele via se desenvolver era úma ma qúina perfeita de racionalidade administrativa sob a e gide normativa do espí rito liberal” Clemente & Júliano, p.62. “Oútra caracterí stica de Weber e o individúalismo metodolo gico, qúe consiste em entender e explicar os feno menos polí ticos e sociais tendo como base o indiví dúo. Jon Elster apresenta úma conceitúaça o bastante elúcidativa a respeito do individúalismo metodolo gico. Para o aútor, seria úma metodologia na qúal: todos os feno menos sociais – súa estrútúra e súa múdança – sa o, em princí pio, explica veis por fatores qúe envolvem apenas as pessoas, súas propriedades, seús objetivos, súas crenças e súas aço es. Passar das institúiço es sociais e dos padro es agregados de comportamento para os indiví dúos e úma operaça o semelhante a passagem do estúdo das ce lúlas a s mole cúlas. (Elster, 1985, p. 5, tradúça o nossa)”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 54-62. --- “Com o foco voltado para as condútas húmanas e múnido da abordagem dos tipos ideais, Weber constro i súa teoria com base nas “aço es sociais” dos agentes. Contúdo, na o e qúalqúer tipo de condúta qúe caracteriza úma aça o social, mas somente aqúela na qúal ha úma interaça o entre os agentes qúe se orientam reciprocamente”. A discússa o sobre o conceito de Poder ocúpa úm papel de destaqúe na obra de Max Weber. De acordo com o livro base da disciplina “poder significa a capacidadede impor súa pro pria vontade a oútros. Trata-se, no múndo moderno, da polí tica e do agir polí tico. O poder tomado isoladamente e úm conceito qúe na o diz múita coisa. Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 13 Torna-se necessa rio qúalifica -lo “em relaça o a qúe” e “sobre o qúe” úm agente possúi poder. Ele e sempre relacional, oú seja, súa releva ncia se da pelas circúnsta ncias em qúe ocorre úma relaça o de poder”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 54 e 55. --- “As relaço es de poder envolvem sempre úm ca lcúlo, no qúal adentram dimenso es estrate gicas das condútas húmanas, envolvendo o conhecimento pre vio do oútro e a tentativa de antecipar comportamentos fútúros. Assim, os atribútos do poder se orientam por úma aça o racional em relaça o aos fins (Weber, 1984; 2011). Em oútras palavras: polí tica [e ] o conjúnto de esforços feitos visando a participar do poder oú a inflúenciar a divisa o do poder, seja entre Estados, seja no interior de úm ú nico Estado” (Weber, 2011, p. 60)”. De acordo com o livro base da disciplina “Dominaça o, por súa vez, significa encontrar obedie ncia de acordo com o conteú do da ordem mandada, fato qúe pressúpo e disciplina e obedie ncia imediata e a noça o de treino (socializaça o). Portanto, demanda úma associaça o de dominaça o, oú seja, úm aparato, úm qúadro administrativo, úma estrútúra de dominaça o cúja pecúliaridade e determinada pelo cara ter do cí rcúlo de pessoas qúe exercem súa administraça o e seú alcance. Mais qúe isso, a dominaça o e sempre validada e atribúi-se sentido a ela envolvendo as noço es de aútoridade e legitimidade. Existe sempre a crença na validade da estrútúra de dominaça o qúe molda as aço es sociais, o qúe constitúi o primeiro impúlso a determinar súa orientaça o para úm objetivo (Weber, 1984, 2011). E importante ressaltar qúe dominaça o e poder na o ocorrem separadamente; ao contra rio, podem ocorrer júntos oú haver úma transiça o de úm para o oútro. O Estado e o lo cús onde poder e dominaça o se encontram; e a arena polí tica por excele ncia” (p. 55). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 55. Tema: Welfare State “No final do se cúlo XIX e iní cio do se cúlo XX, algúmas naço es iniciaram úm processo em qúe o Estado assúmia a responsabilidade de assistir a popúlaça o, sendo o embria o do Welfare State – mas isso apenas se consolidaria apo s a II Gúerra múndial”. De acordo com a rota de aprendizagem 4, “Na segúnda metade do se cúlo XX, consolidoú-se nos paí ses capitalistas desenvolvidos, principalmente na Eúropa, úm determinado tipo de Estado, conhecido como Welfare State, oú Estado do Bem-Estar Social. Súa caracterí stica principal, de acordo com Arretche, era a aça o do Estado no tocante a “provisa o de serviços sociais, cobrindo as mais variadas formas de risco da vida individúal e coletiva” (1995). As naço es qúe radicalizaram tal modelo foram, principalmente, as qúe tiveram governos socialdemocratas oú coalizo es socialistas e liberais. Ate hoje, Súe cia e Finla ndia, por exemplo, sa o paí ses conhecidos pelos excelentes e diversos serviços sociais, como saú de, edúcaça o e assiste ncia na velhice, oferecidos a toda a popúlaça o” (p.2) E ainda, “E importante frisar qúe úma caracterí stica do Estado Moderno e jústamente a de assúmir fúnço es qúe antes eram de esfera privada oú de certas institúiço es sociais, como a Igreja Cato lica na Eúropa. O Estado Moderno passa a se responsabilizar diretamente pela proteça o interna e externa da naça o, pela jústiça e, direta oú Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 14 indiretamente, por edúcaça o, saú de, economia e aço es de infraestrútúra. Dessa forma, em relaça o a qúesta o social, as naço es modernas iniciam úm processo de discússa o polí tica, oú seja, úm debate sobre os chamados “novos direitos”, inclúindo os direitos sociais. A partir disso, pensa-se o qúe fazer, qúem realiza as aço es e de qúe forma”. Fonte: Rota de aprendizagem 4, p. 2 e 3. --- Embora a pobreza e a mise ria sempre fizessem parte da histo ria eúropeia, hoúve úma intensificaça o a partir do súrgimento e consolidaça o do capitalismo. Nas sociedades indústriais do se cúlo XIX, diversos problemas sociais estavam em evide ncia, concentrados nas grandes e me dias cidades, conhecidos como a qúesta o social – mise ria, fome, analfabetismo, criminalidade, desemprego, falta de assiste ncia hospitalar, popúlaça o sem reside ncia, túdo isso colocoú em xeqúe as promessas qúe a sociedade capitalista e liberal apregoava. De acordo com a rota de aprendizagem 4, “No modelo de Welfare State socialdemocrata, o princí pio ba sico e o da eqúidade, e na o o do me rito (como ocorre no modelo liberal, do tipo em qúe qúem contribúi tem direito). Assim, os serviços sociais sa o amplos e úniversais, independentemente de contribúiça o oú do valor da contribúiça o. Oútro princí pio importante e o de qúe tais polí ticas na o sa o cústos, mas investimentos, na medida em qúe a sociedade e beneficiada com padro es mí nimos de edúcaça o, saú de, habitaça o, renda e erradicaça o da mise ria. Fonte: Rota de aprendizagem 4, p. 2-5. --- “O Welfare State avançoú mesmo nos paí ses de tradiça o liberal, onde ha resiste ncia a interfere ncia e a participaça o do Estado na economia oú em temas sociais. Em tal tradiça o, pressúpo e-se qúe os indiví dúos seriam os maiores responsa veis pela súa sitúaça o social”. De acordo com a rota de aprendizagem 4, “No modelo de Welfare State liberal, a atúaça o do Estado se baseia em assiste ncia “aos comprovadamente pobres, redúzidas transfere ncias úniversais oú planos modestos de previde ncia social. Os benefí cios atingem principalmente úma clientela de baixa renda, em geral da classe trabalhadora oú dependentes do Estado”. Os EUA formam úm exemplo ba sico deste modelo com o chamado New Deal (1933-1945), programa governamental criado para amenizar os efeitos da crise econo mica dos anos de 1930, qúando foi criada a Previde ncia Social e “úm sistema de segúro-desemprego, ale m de fornecimento de aúxí lio financeiro a s famí lias menos abastadas e com filhos em idade de depende ncia” (Gomes, 2006). Ressalte-se ainda qúe, mesmo neste modelo, ha múita disparidade. A Inglaterra, por exemplo, possúi serviços sociais bem mais amplos qúe os EUA. No caso norte-americano, altamente descentralizado, ha múita variedade de polí ticas sociais em cada Estado da federaça o, oú mesmo nos múnicí pios”. Fonte: Rota de aprendizagem 4, p. 6 e 7. --- “Ate o final do se cúlo XIX, a Igreja Cato lica poúco interferia na qúesta o social, pelo menos em termos polí ticos. Na o se fazia crí ticas a s possí veis caúsas de tais problemas, nem se apontava as Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 15 solúço es. Certamente, a Igreja agia na lo gica da caridade e da filantropia – como, por exemplo, mantendo orfanatos. Foi enta o qúe, em 1891, alarmado com o avanço do socialismo, do movimento opera rio e do modelo capitalista predominante, o Papa Lea o XIII lançoú úma Encí clica na qúal discúte sitúaça o e condiço es de trabalho dos opera rios. A partir daí , e lançada úma proposta de acordo entre as classes sociais (contrapondo-se a tese da lúta de classes). O docúmento modificoú a forma de aça o cato lica em relaça o aos problemas sociais e foi a base da chamada Doútrina Social da Igreja”. Fonte: Rota de aprendizagem 4, p. 5. De acordo com a rota de aprendizagem 4, “No modelo de Welfare State conservador, considerado por Esping Andersen (1991) como corporativo oú Welfare State mona rqúico, estariagarantido o bem-estar social e a “harmonia entre as classes, lealdade e produtividade. Segundo este modelo, um sistema eficiente de produção não derivaria da competição, mas da disciplina. Um Estado autoritário seria muito superior ao caos dos mercados no sentido de harmonizar o bem do Estado, da comunidade e do indivíduo”. Os serviços sociais, enta o, na o sa o ta o amplos como nos paí ses escandinavos, e os benefí cios variam de acordo com a classe social do beneficia rio”. Fonte: Rota de aprendizagem 4, p. 5-6. --- “Desde o iní cio da de cada de 1980 úma ideologia neoliberal espalhoú-se pelo múndo, simbolizada pelos anos de Thatcher e Reagan no poder. As investidas contra os Estados de Bem- Estar Social (oú regimes de polí ticas sociais) na Inglaterra e nos EUA foram anúnciadas como a prova de úma nova era”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p.151. De acordo com a rota de aprendizagem 4, “Nos anos de 1970, ocorreú úma forte crise financeira global: inflaça o, estagnaça o econo mica, júros altos, desemprego – problemas decorrentes, dentre oútros fatores, da crise do petro leo e de úma crise fiscal. Neste segúndo aspecto, o Welfare State foi apontado pelos crí ticos neoliberais como úm dos principais responsa veis da crise, na medida em qúe os gastos estatais eram enormes e a altí ssima carga de impostos na o dava conta de atender a crescente demanda. Ao mesmo tempo, a Teoria Neoliberal se fortalece e aponta algúmas hipo teses para as falhas do modelo, conforme indica Draibe (1984) a respeito das crí ticas ao Welfare State, qúando os gastos sociais do Estado so aúmentavam, gerando: desequilíbrio orçamentário, provocando déficits públicos recorrentes, que penalizam a atividade produtiva e provocam inflação e desemprego. [...] Em resumo, os gastos sociais e sua forma de financiamento são responsáveis pela inflação, declínio dos investimentos e, portanto, pelo desemprego. Oútros pontos indicados pela crí tica neoliberal eram o excessivo paternalismo, o comodismo, a poúca eficie ncia/prodútividade, ale m de úma ampla búrocracia, inchando o Estado com múitos fúnciona rios, aúmentando os gastos”. Fonte: Rota de aprendizagem 4, p. 7. Tema: Estado e Neoliberalismo “O texto de Friedrich Aúgúst von Hayek, O caminho da servidão, lançado em 1944, e considerado o momento de fúndaça o do neoliberalismo, eqúivalente ao Manifesto comúnista para o socialismo. Em 1947, na Súí ça (Mont Pe lerin), ocorre úm encontro de va rios intelectúais liberais, como Milton Friedman, Hayek, Lipmann, Lúdwig von Mises, Karl Popper. Todos Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 16 comúngavam as crí ticas de Hayek e criaram úma associaça o para divúlgar súas ideias (Anderson, 1996). Na verdade, o economista Von Mises ja havia escrito antes va rios textos com o mesmo conteú do, inclúsive propondo a diferenciaça o entre o velho liberalismo e úm liberalismo renovado, mais tarde conhecido como neoliberalismo”. Para discorrer sobre as semelhanças entre o liberalismo cla ssico e o neoliberalismo e preciso ter em mente qúe, de acordo com a rota de aprendizagem 5, “Em termos gerais, as ideias sa o múito semelhantes, paútadas em liberdade individúal, direito a propriedade privada e defesa da economia de mercado concorre ncia e livre iniciativa)”. Fonte: Rota de aprendizagem 5, p. 2. --- “Para evitar qúe o exercí cio da liberdade de úm indiví dúo constranja a liberdade de oútro, e necessa ria a proteça o das leis do Estado, desde qúe limitadas ao mí nimo aceita vel para garantir a ordem geral, o cúmprimento dos contratos e a proteça o da sociedade contra-ataqúes externos”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 18. Para responder sobre o qúe podemos compreender por Estado mí nimo, e importante ter claro qúe, de acordo com a rota de aprendizagem 5, “As principais atribúiço es do Estado mí nimo seriam: manútença o e garantia da ordem (jústiça e polí cia); zelo pelo bom fúncionamento do mercado; segúrança externa; infraestrútúra – investir so em casos de falta de interesse oú de capital privado. Ale m disso, o Estado deveria ser “enxúto”. Fonte: Rota de aprendizagem 5, p. 3. --- “Dúrante dúas de cadas, as ideias neoliberais na o tiveram múito espaço nos meios governamentais e acade micos, ate qúe, em meados dos anos de 1960, as úniversidades começaram a acatar tais ideias e, em termos polí ticos, na de cada de 1970, foram implementados os primeiros programas neoliberais, reorientando a aça o do Estado em diversos paí ses”. Sobre as diferenças entre o liberalismo cla ssico e o neoliberalismo, lemos na rota de aprendizagem 5 qúe “e importante salientar algúmas diferenças entre o liberalismo cla ssico – tí pico dos se cúlos XVIII e XIX – e a nova proposta. Os liberais cla ssicos combatiam o Absolútismo e a decadente sociedade feúdal. Ja os neoliberais te m o socialismo e o Estado do Bem-Estar Social como seús maiores adversa rios. Oútra diferença histo rica e qúe, nos se cúlos XVIII e XIX, o Estado-naça o estava se consolidando, de forma qúe o discúrso liberal, ainda qúe enfatizando o livre mercado, precisava de úm Estado forte para dar garantias a s empresas nacionais e a pro pria búrgúesia, classe social qúe estava se consolidando. Nesse sentido, o Estado contribúiú para a formaça o de oligopo lios, oú do protecionismo econo mico. A Inglaterra Vitoriana e úm bom exemplo deste fato. Ja os neoliberais na o admitem protecionismos, monopo lios oú oligopo lios, nem mesmo a ideia de úm Estado economicamente forte, pois defendem úm come rcio sem fronteiras. Assim, a globalizaça o e vista por algúns como úm feno meno, se na o gerado, pelo menos incentivado pelo neoliberalismo” (Adaptado). Fonte: Rota de aprendizagem 5, p. 2. --- Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 17 “Os primeiros Estados a implementar polí ticas neoliberais foram o Reino Unido e os Estados Unidos, onde os princí pios econo micos do livre mercado eram mais firmemente estabelecidos (Heywood, 2003). Nos anos 1980, para controlar a inflaça o, as administraço es de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e de Margareth Thatcher, no Reino Unido, redúziram os gastos pú blicos para controlar a oferta de dinheiro no mercado”. Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 162. De acordo com a rota de aprendizagem 5, “As polí ticas neoliberais tiveram e xito no combate a inflaça o e na diminúiça o do de ficit fiscal. Tambe m diminúiú a visa o paternalista de Estado, qúe indúzia a comportamentos poúco competitivos oú ao comodismo. Por oútro lado, as crí ticas sa o va rias, dados os princí pios frios, múitas vezes considerados desúmanos. O aúmento do desemprego, da desigúaldade e a diminúiça o dos programas sociais sa o vistos como elementos de favorecimento dos mercados, em especial do financeiro. O eqúilí brio das contas pú blicas e a diminúiça o de impostos na o significoú maiores investimentos prodútivos, e sim especúlativos”. Fonte: Rota de aprendizagem 5, p. 8. Tema: Novas formas de organização estatal (Neopopulismo, Estados teocráticos, Estados totalitários e autoritários, MicroEstados, Estados exóticos e Estados frágeis) “A democracia tí pica do se cúlo XIX era elitista, com redúzida participaça o popúlar e, em múitos casos, como na Ame rica Latina, baseada em dominaça o de oligarqúias regionais. Nos anos de 1930, no entanto, súrgiram novos modos de exercer o poder, em especial na relaça o entre governantes e povo. Na o se tratava mais de úma polí tica restrita a elite. E o caso do popúlismo”.De acordo com a rota de aprendizagem 6, sobre o popúlismo: “Tratava-se de úma forma de poder baseada na visa o únita ria do Estado, entendido como úma comúnidade de interesses solida rios no qúal o lí der faz a mediaça o entre as distintas classes sociais, com amplo apoio da classe trabalhadora, mas tambe m da classe me dia, com relativa repressa o a oposiça o (Ianni, 1975). O popúlismo pode ser democra tico oú ditatorial. O lí der popúlista possúi pecúliaridades: súa imagem se confúnde com a do Estado, pois se enfatiza a identidade, qúe Ianni denomina de Estado-chefe-povo. Tal identidade e criada atrave s do carisma pessoal do lí der, de súa habilidade em se relacionar com o povo útilizando temas e formas de discúrsos tí picos das massas, colocando-se de forma paternalista e heroica, como protetor do povo”. Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 2-3. --- “Fatores como o neopopúlismo, a religia o, as caracterí sticas geogra ficas e histo ricas, democracia oú aútoritarismo e fatores geogra ficos interferem direta oú indiretamente no modelo de Estado assúmido – oú mesmo a fragilizaça o do Estado em algúns casos especí ficos”. Fonte: Rota de aprendizagem 6, p.11. De acordo com a rota de aprendizagem 6, “O popúlismo prevaleceú na Ame rica Latina ate os anos de 1950, mas voltoú a aparecer nas ú ltimas de cadas com novas roúpagens. De acordo com Faústo (2006), “as novas lideranças popúlistas se caracterizam pelo personalismo, pela difúsa o da crença no hero i salvador, pelas pra ticas aútorita rias”, mas tambe m pelo discúrso voltado aos efeitos da globalizaça o e a problemas da Modernidade, tais como exclúsa o social, desemprego, combate a criminalidade e ao Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 18 narcotra fico. O novo popúlismo possúi úma base de apoio qúase qúe somente de base popúlar, na o caracterizada pela classe trabalhadora, mas pelas massas marginalizadas” (p. 3). Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 3. --- “No múndo antigo e medieval, era praxe considerar qúe úm soberano possúí a origem divina, e o Estado se confúndia com aqúele lí der. A Modernidade troúxe a concepça o de Estado Laico, separando religia o e polí tica”. Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 4. De acordo com a rota de aprendizagem 6, “Um Estado efetivamente teocra tico e aqúele organizado na crença de qúe o faz de acordo com a vontade divina, súbmetendo as deciso es, direta oú indiretamente, a cle rigos da religia o oficial. Ha graús diferentes de inflúe ncia religiosa” (p .5). Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 5. --- “A ideia de totalitarismo como poder polí tico “total” atrave s do estado foi formúlada em 1923 por Giovanni Amendola qúe criticoú o fascismo italiano como úm sistema fúndamentalmente diferente das ditadúras convencionais. O termo depois ganhoú conotaço es positivas nos escritos de Giovanni Gentile, o principal teo rico do fascismo. Ele úsoú o termo "totalita rio" para se referir a estrútúra e metas do novo estado. O novo estado deveria dispor sobre a "representaça o total da naça o e a orientaça o total das metas nacionais". Ele descreveú o totalitarismo como úma sociedade em qúe a ideologia do estado teria inflúe ncia, se na o poder, sobre a maioria de seús cidada os. Segúndo Benito Mússolini, este sistema politiza túdo qúe e espiritúal e húmano”. Fonte: Wikipe dia, 2018. Disponí vel em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Totalitarismo>. Acesso em: 22 ago. 2018. De acordo com o socio logo Júan Linz, totalitarismo se diferencia de aútoritarismo no qúe tange ao graú de repressa o e de controle na o democra tico de úma sociedade. Seria úma dominaça o total, amparada pelas leis e pela força brúta. As principais caracterí sticas seriam: ideologia oficial, múitas vezes com aspectos mí sticos oú milenaristas (por exemplo, o lí der visto como úm grande hero i, qúase divino); úm so partido polí tico, propagador da ideologia controle completo dos meios de comúnicaça o e das forças armadas; controle policial de todos – criminosos, adversa rios oú simples cidada os. Ja o Estado Aútorita rio possúi úm plúralismo controlado, súfocado, qúe permite certas associaço es e algúma oposiça o. As leis e os demais poderes podem, eventúalmente, interferir no combate ao arbí trio, como nas va rias ditadúras latino-americanas nos anos de 1970. Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 7. --- “Algúns Estados fogem aos modelos tradicionais, seja porqúe te m úma finalidade distinta de oútros Estados, seja porqúe sa o, digamos assim, semi-independentes. Um Estado Aúto nomo e aqúele qúe, embora pertença a úm paí s, possúi grande aútonomia polí tica e econo mica. Pode ser cúltúral e geograficamente distinto do paí s a qúe pertence, como e o caso de algúmas ilhas caribenhas, mas tambe m pode estar encravado no territo rio nacional, como a Catalúnha, na https://pt.wikipedia.org/wiki/Totalitarismo Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 19 Espanha. Na o e raro qúe fatores e tnicos e religiosos resúltem na maior aútonomia de certas regio es (por exemplo, o Cúrdista o iraqúiano e a ilha filipina de Mindanao (múçúlmana)”. Sa o modelos de estados exo ticos: Antilhas Holandesas - Ate 2010, este territo rio holande s formado por cinco ilhas no Caribe, com cerca de 800 km² e popúlaça o pro xima de 200 mil habitantes, possúí a grande aútonomia, inclúsive com Constitúiça o pro pria, parlamento e governo local centralizado, ale m de governos especí ficos em cada ilha. O Reino dos Paí ses Baixos (Holanda) tinha a responsabilidade de proteça o. A partir daqúele ano ocorreú a dissolúça o das Antilhas Holandesas. “As ilhas de Cúraçao e Sa o Martinho tornaram-se territo rios aúto nomos do Reino dos Paí ses Baixos. Arúba ja tinha tal statús desde 1986. Bonaire, Santo Eústa qúio e Saba tornaram-se múnicí pios especiais dos Paí ses Baixos” (Paho, 2012). Vaticano - E considerado o menor paí s do múndo, com 0,44 km², encravado em Roma. Na realidade, e cúrioso qúe seja considerado úm paí s. Súa popúlaça o de cerca de 800 habitantes e composta por religiosos e pela gúarda súí ça, tradicionais gúardia es do Vaticano, os qúais mante m súa nacionalidade original. A qúantidade de túristas e múito maior qúe a de residentes. A Santa Se e responsa vel pelos assúntos eclesia sticos e o Estado do Vaticano e a sede temporal da Igreja Cato lica, tornando-se independente em 1929. Mas lembremos qúe, ate o perí odo absolútista, o papado interferia diretamente nos assúntos internacionais, sendo úm mediador e, em certos casos, úm ator internacional reconhecido. O Estado e chefiado pelo papa, úm cargo vitalí cio, e o pontí fice nomeia os aúxiliares qúe exercera o fúnço es administrativas e diploma ticas”. Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 10 e 11. --- “Ha paí ses espalhados pelo globo cújos territo rios e popúlaça o eqúivalem a úm peqúeno oú me dio múnicí pio brasileiro. Apesar disso, podem possúir as mesmas prerrogativas dos demais paí ses, inclúsive com assento na ONU e direito de voto na Assembleia Geral, o o rga o deliberativo desta institúiça o. Ha diversas especificidades em cada úm destes paí ses, podendo variar o graú de aútonomia, a forma de governo e o papel do Estado”. Sa o exemplos de microestados: Liechtenstein - Peqúeno paí s eúropeú com territo rio poúco maior qúe 160 km² (a cidade de Sa o Paúlo tem 1.521 km²) e popúlaça o de cerca de 35 mil habitantes. E considerado úm principado, oú seja, qúase úma cidade-estado cújo governo e exercido por úm prí ncipe (Monarqúia Constitúcional), com parlamento e representaça o. Contúdo, com popúlaça o ta o peqúena, e comúm qúe os cidada os exerçam formas de democracia direta, tendo grandes poderes de destitúir polí ticos oú de vetar oú aprovar leis. Principados na o possúem soberania total. De acordo com úm institúto propagador das ideias neoliberais, o principado se caracterizapor ser o paí s qúe mais se adeqúa aos princí pios desta teoria (Institúto Von Mises, S.d.). O Prí ncipe Regente Hans Adam II e úm disseminador dessas ideias, em especial as relativas ao risco de úm excessivo crescimento do Estado; Estados Federados da Microne sia - Consiste em úm conjúnto de mais e 600 ilhas distribúí das em úm territo rio ocea nico de mais de 2.900 km contí gúos (oú cerca de 2,5 milho es de km² de oceano), mas com a rea efetiva de terras de poúco mais de 700 km². A popúlaça o e de mais de 104 mil habitantes (2017). Trata-se de úm Estado soberano, independente desde 1979, associado aos EUA, responsa vel por súa defesa. A Microne sia e dividida em 4 territo rios aúto nomos, Chúúk, Kosrae, Pohnpei e Yap. E úma Repú blica Presidencialista, com parlamento únicameral, mas o governo central tem poúco poder efetivo. De acordo como o Departamento de Estado norte-americano, os EUA, ale m de protetores, sa o o Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 20 principal parceiro comercial, tendo va rios acordos bilaterais, inclúsive no qúe tange ao direito de os cidada os microne sios viverem oú estúdarem nos EUA sem vistos. Em contrapartida, os norte-americanos possúem bases navais na regia o”. Fonte: Rota de aprendizagem 6, p. 9 e 10. Tema: Globalização e o Estado digital “O conceito de globalizaça o foi amplamente debatido nas dúas de cadas passadas. Ele diz respeito a úm feno meno ainda em marcha e qúe, em linhas gerais, representa o processo por meio do qúal o Estado-naça o se torna cada vez mais poroso e aberto as qúesto es qúe provem do contexto internacional. Mais especificamente, a globalizaça o se refere a “todos os atores – governos nacionais, organizaço es na o governamentais, empresas e cidada os – tornando-se mais abertos a inflúe ncias internacionais e relacionando-se e agindo sob tais inflúe ncias (Kúhnle, 2007, p. 89)”. De acordo com o livro base da disciplina, “Iniciamos pela dimensa o cúltúral da globalizaça o, qúe permeia as va rias a reas em qúe se estabelecem as relaço es sociais. A globalizaça o cúltúral e associada a maneira pela qúal a circúlaça o de informaço es e conhecimentos e difúndida pelo múndo, qúase instantaneamente, pelas mí dias digitais. O conteú do dessa circúlaça o se relaciona a distintos “tipos de vida”, propagados graças ao avanço de novas tecnologias os qúais, pore m, na o esta o dissociados dos processos histo ricos de desenvolvimento dos paí ses. Kúhnle (2007) chama a atença o para a ocidentalizaça o oú “americanizaça o” do múndo qúe freqúentemente acompanha essa difúsa o; úma vez qúe “os EUA e o ‘Ocidente’ tem tido úma vantagem te cnica e polí tica no qúe se refere a disseminaça o de informaço es, conhecimentos, ideias, institúiço es prodútos, em escala múndial [...] ela implica, no mí nimo, a homogeneizaça o das cúltúras múndiais” (Kúhnle, 2007, p. 94). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 171 e 172. --- “Nos ú ltimos 20 anos, as Tecnologias de Informaça o e Comúnicaça o (TICs) deram úm salto de qúalidade, possibilitando a abertúra ao múndo digital por interme dio da internet. Essa revolúça o tecnolo gica na comúnicaça o global constitúiú-se como úm dos principais pilares da globalizaça o no múndo contempora neo e impactoú va rias a reas da vida húmana, inclúindo principalmente a esfera econo mica, a cúltúral e a polí tica (Kúhnle, 2007)”. De acordo com o livro base da disciplina, “A globalizaça o econo mica, por súa vez, embora na o seja úm evento recente", apresenta algúmas caracterí sticas marcantes na contemporaneidade, a saber: a internacionalizaça o da prodúça o, do come rcio e dos investimentos estrangeiros; o aúmento das redes de corporaço es transnacionais; o abandono da regúlaça o dos flúxos financeiros, levando ao incremento da mobilidade do capital, das mercadorias e de oútros serviços; úm regime diferenciado de livre competitividade no come rcio exterior; a criaça o de úm mercado em escala global; os deslocamentos e as realocaço es de atividades econo micas no interior dos paí ses; e o aúmento do ní vel de competitividade entre as naço es (Kúhnle, 2007).Júntamente com a expansa o do neoliberalismo e a prepondera ncia do capitalismo financeiro, a globalizaça o foi responsa vel pela incorporaça o de economias nacionais em úma economia global, na qúal a Bacharelado em Administraça o Pú blica | Tútoria CST Gesta o Pú blica | Tútoria 21 prodúça o e internacionalizada e o capital flúi livremente entre paí ses” (p. 173).Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 170-173. --- “O Banco Múndial, o Fúndo Moneta rio Internacional (FMI), a Organizaça o para a Cooperaça o e o Desenvolvimento Econo mico (OCDE), a Unia o Eúropeia (UE) e a Organizaça o Internacional do Trabalho (OFF), entre oútras, exercem, de va rias formas, úm papel nas polí ticas de bem-estar em ní vel múndial”. Essas organizaço es existem em úm ní vel súpranacional, o qúe, de acordo com o livro base da disciplina, “nos leva a úm aspecto apontado por Kúhnle (2007), a globalizaça o polí tica. O aútor explica qúe ela diz respeito a ampliaça o das relaço es polí ticas transnacionais nos ní veis governamentais e entre organizaço es na o governamentais (ONGs). Na o apenas “podemos pensar em va rias qúesto es, ideias e institúiço es qúe se tornam globais - como a democracia, os direitos húmanos e a proteça o do meio ambiente’ (Kúhnle, 2007, p. 93) –como tambe m podemos constatar qúe a globalizaça o permitiú criar complexas institúiço es internacionais na tentativa de criar úma sociedade civil global” (p.176). Fonte: CLEMENTE, A. J.; JULIANO, M. C. Do Estado Moderno ao Contemporâneo: reflexo es teo ricas sobre súa trajeto ria. Cúritiba: Intersaberes, 2017, p. 176-177.