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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA A “NOVA MULHER” ARIANA: O lugar das alemãs nas páginas da NS-FrauenWarte Yasmin Trindade Machado NITERÓI 2020 2 Universidade Federal Fluminense Instituto de História Programa de Pós-Graduação em História Yasmin Trindade Machado A “NOVA MULHER” ARIANA: O lugar das alemãs nas páginas da NS-FrauenWarte Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, como requisito para a obtenção do grau de mestre em História Social. NITERÓI 2020 3 4 AGRADECIMENTOS Gostaria primeiramente de agradecer minha orientadora, Denise Rollemberg, pela atenção e dedicação desde o início deste processo. Agradeço também a todos os professores com os quais tive contato, seja nos colégios São Marcelo e Interativo como na UFF. Sem sua dedicação constante ao seu ofício, mesmo com os múltiplos desafios que se apresentam aos professores no Brasil, não teria chegado a esta etapa. Agradeço a meus pais e irmãos, por sua presença em minha vida, seu apoio e sua força. Também a meus amigos, em especial Diana, Fabiane, Ursula, Meyre e Matheus, que fizeram a estadia em Niterói tão mais fácil, e se fizeram em família quando estava longe da minha. Sasha, Robert, Armando, Jay, Meghan, Kane, Tom, David, Lucy e Aaron, que estiveram lá nos momentos mais complicados, vocês sabem que esta dissertação não seria a mesma sem vocês. Um agradecimento especial a todos os trabalhadores da Universidade Federal Fluminense, cujo trabalho possibilitou que eu concluísse minha graduação em História e o subsequente mestrado em História Social. A UFF foi e será sempre de extrema importância para minha jornada pessoal, e para a de milhares de outros estudantes, pelo que sou muito grata. 5 RESUMO A dissertação trata das representações do nacional socialismo acerca da mulher por meio da análise da NS FrauenWarte, revista feminina quinzenal do partido nazista (NSDAP). Para tal, apresenta o contexto no qual foi publicada, sua forma e seu conteúdo. Uma vez que o ideal feminino do regime se contrapunha à questão das mulheres na República de Weimar, aborda inicialmente essa temática nesse período (1919-1933). Como veículo de propaganda política, a NS FrauenWarte centrou-se no tema da maternidade, definidor da posição social da mulher alemã como “mãe do Volk”. Apesar do seu caráter substantivo, essa percepção do papel feminino no regime mostrou-se de certa forma flexível, conforme mudavam as necessidades do Terceiro Reich. Para tratar do tópico, será feito o uso do conceito de “representações” a partir de Bourdieu. Palavras-chave: nazismo; propaganda política; gênero; periódico; representação. ABSTRACT The dissertation deals with the representations of national socialism when it comes to women, through the analysis of the NS FrauenWarte, the Nazi Party’s biweekly women’s magazine. For that purpose, it presents the context in which the magazine was published, its form and content. Once the regime’s female ideal is defined in opposition to the issue of women in the Weimar Republic, it initially deals with this period (1919-1933). As a tool of nazi political propaganda, the NS FrauenWarte centered around the theme of maternity, which defined the german woman’s position as “mother of the Volk”. Despite its substantive character, this perception of the female role within the regime showed itself to be flexible, to a certain extent, as the needs of the Third Reich changed. The topic of the female role within the pages of the magazine will be addressed through Bourdieu’s concept of “representations”. Keywords: nazism; political propaganda; gender; magazine; representation. 6 SUMÁRIO Introdução ......................................................................................................................7 Capítulo Um I.I A NS Frauen Warte: estrutura, conteúdos e seus usos como fonte histórica............29 I. II Propaganda e representações da mulher na NS-FW................................................37 I. III Entre o cultural e o social......................................................................................40 Capítulo Dois II.I O nacionalismo e a “crise da degeneração”.............................................................44 II.II Como vive a “Nova Mulher”? Idealizações e nostalgia na imagem de Weimar..................................................................................................................................53 II. III A mulher alemã e sua liberdade...........................................................................59 II. IV As condições da mulher de Weimar....................................................................67 Capítulo Três III. I A maternidade como base......................................................................................75 II. II O sacrifício da mãe.................................................................................................82 III. III A maternidade como trabalho e o trabalho como maternidade..........................87 Conclusão......................................................................................................................95 Bibliografia................................................................................................................... 7 INTRODUÇÃO O fim do século XIX foi um período de grandes mudanças na Europa. Os avanços tecnológicos e científicos impressionavam, trazendo novidades que antes podiam parecer impossíveis. O progresso parecia inevitável. O impacto de tais mudanças atinge a Alemanha de uma forma particular. Em um Estado-nação ainda tão jovem, as dinâmicas de poder foram inevitavelmente alteradas pelos grandes avanços do período. A chegada de tal modernidade parecia entrar em conflito direto com as tradições alemãs e a complexificação das relações abalou a estrutura que ainda buscava se consolidar. As mudanças crescentes tiveram múltiplos efeitos na Europa no geral, e adicionaram nova dimensão ao comércio externo, facilitando trocas internacionais e trazendo uma nova dinâmica entre as elites alemãs. O acesso mais fácil ao comércio internacional trouxe prosperidade e um crescimento de certa forma acelerado às burguesias alemãs. Ao mesmo tempo, a entrada maior de produtos estrangeiros, por menores custos, ameaçou os lucros das mais tradicionais elites prussianas, proprietárias de grandes terras. Este cenário, em um primeiro olhar, pode parecer fértil para uma mudança até mesmo revolucionária, como ocorrera na França, no século anterior. Mas é necessário um olhar mais demorado. As elites agrárias alemãs ainda detinham grande importância cultural e social, e se utilizaram disso para proteger-se de maiores danos, e para obter para si uma vantajosa posição de negociação. As elites burguesas tiveram também um papel na forma com que as coisas se desenrolariam na Alemanha. Em rápida ascensão, a burguesia alemã viu seu prestígio econômico crescer de forma inesperada. Esta ascensão econômica, porém, não significou 8 um crescimento significativo em seu papel social e cultural. A rapidez de sua subida é também um aspecto a impedir que se forme em uma classe dominante de fato. Não houve tempo para construir e consolidar laços que transformassem seus próprios códigos em valores compartilhados pela coletividade formada - ou em formação - pelo povo alemão. Isso não significa, porém, que os então recentes “anos dourados” do liberalismo não tenham deixado marcas na sociedade alemã que estava então se formando. Estes chamados “anos dourados” haviam levado a uma ascensão econômica da burguesia alemã, que agora detinha um poder econômico relevante, e a que buscava defender. Tal ascensão, porém, não se consolida em uma consequente hegemonia política e social dos valores liberais. E isso não só pela força considerável que detinham as elites tradicionais, mas também pelasdivergências e fragilidades internas dos liberais, que acabam por não permitir que sua ideologia se enraíze muito profundamente na Alemanha. A burguesia alemã e seu frágil liberalismo viam com medo as ideias de ampliação da participação política popular que também passavam a circular pela Alemanha. Também necessitavam de um apoio, uma base mais sólida sobre a qual repousar sua recente relevância econômica. Esta necessidade fez com que a burguesia, ao contrário do que ocorrera no cenário francês, buscasse uma aliança com as elites aristocráticas. Esta aliança se configurou, portanto, em uma união entre o poderio econômico despontante da burguesia e a solidez do domínio sociocultural e político já exercido pela elite aristrocrática. Esta união implicou não apenas em uma adesão da burguesia ao projeto político da aristocracia, mas também, em grande parte, aos seus valores, passando por uma certa “aristocratização”. O liberalismo frágil da burguesia não é, porém, completamente 9 abandonado, mas imprime também seus traços no que se tornaria o conjunto de normas e valores dominante na Alemanha1. Ainda assim, preservou-se em muito a essência tradicionalista dos valores aristocráticos. Mesmo participando em conjunto da construção do projeto político da aristocracia, é a burguesia, portanto, que faz a maior parte das concessões. A necessidade de proteção de seu emergente poderio econômico e o medo do que uma ascensão das massas poderia significar - medo este compartilhado pelas elites agrárias - fizeram mesmo a necessidade de abrir mão de um projeto político próprio, não só aceitável, mas até mesmo atraente. Desta forma, ainda que o rápido desenvolvimento representado pela Segunda Revolução Industrial tenha suscitado incertezas quanto ao futuro político da Europa, a aristocracia alemã conseguiu manter sua influência sobre a então jovem nação. Os ideais de progresso científico e tecnológico (e em certa parte até econômico) deixam, na Alemanha, de ser necessariamente conectados a um suposto progresso político. As tradições do Antigo Regime permanecem vivas, suas elites permanecem fortes e no controle. Ao contrário de uma mudança política em direção ao progresso, o que muitos acreditavam ser inevitável naquele cenário de constante e acelerado progresso tecnológico e científico, viu-se na Alemanha uma modernização conservadora2. O caráter conservador da modernização alemã tem também grande impacto nas organizações de trabalhadores que florescem no período. O medo que as elites alemãs nutriam com relação ao “perigo vermelho” não era um medo completamente infundado. Este medo, porém, levou as elites a tomar medidas cada vez mais autoritárias com relação 1 Sobre esta contextualização acerca do Segundo Reich, ver ANDRADE, 2007; ELIAS, 1996 e MAYER, 1987. 2 Sobre a questão da modernização conservadora, a ser explorada mais profundamente no decorrer desta dissertação, ver também: MOORE, Barrington. Social origins of dictatorship and democracy: Lord and peasant in the making of the modern world. Vol. 268. Beacon Press, 1993. 10 aos trabalhadores e suas formas de organização, fazendo com que tais trabalhadores sentissem a necessidade ainda maior de se organizar e lutar por direitos. Este crescimento no engajamento político dos trabalhadores - sendo este em especial, mas não somente, entre os trabalhadores urbanos mais qualificados - resultou em um aumento no número de eleitores dos partidos de esquerda, em especial o Partido Social-Democrata. A maior popularidade de tais organizações nas cidades se dava por múltiplos motivos. Os trabalhadores rurais tendiam a ser mais próximos aos valores tradicionais das elites agrárias, o que os distanciou do campo socialista, visto por estas como anticristão e, principalmente, antinacional3. A questão nacional era, neste sentido, bastante relevante justamente pelo papel que passava a assumir o nacionalismo. A então jovem Alemanha continha em seu território uma população que provinha dos mais diversos lugares, tendo tradições, valores e histórias bastante diferentes. Desta forma, torna-se necessário algo que os una ao redor de sua pátria, que crie entre estes diferentes elementos uma certa coesão. É neste momento que o Estado alemão passa a fazer um esforço para alimentar ou criar tradições, associando-as a uma ideia de nação e de povo4. O nacionalismo cresce então em importância não só no código das elites, como também entre as massas. Na Alemanha de Bismarck, esta tentativa de unificar seu povo veio comumente em forma de construção de monumentos buscando resgatar ou celebrar uma “gloriosa tradição alemã” de uma população que, em grande parte, não se via como una. Desta forma, muitos de tais monumentos e tradições acabavam por se definir pela negação, ou seja, define-se pela exclusão de outros povos, por personagens e eventos que 3 GEARY, Dick. European Labour Politics from 1900 to the Depression. Macmillan International Higher Education, 1991. 4 HOBSBAWM, Eric. A invenção das tradições, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997. 11 punham a frágil unidade alemã em contraposição tanto a outros povos como aos “inimigos internos”, que buscariam acabar com os valores desta Alemanha. Para Eric Hobsbawm, as tradições surgiram “com uma frequência excepcional” na Europa no período que compreende do fim do século XIX até o início da Primeira Guerra Mundial5. Hobsbawm define o conceito de “tradição inventada” como algo que “inclui tanto as “tradições realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinado de tempo – às vezes coisas de poucos anos apenas – e se estabeleceram com enorme rapidez”6. As grandes mudanças sociais do período, levando à necessidade de uma coesão social em torno do recém-criado Estado-nação, têm grande relação com o boom de tradições inventadas. Para Hobsbawm, tais mudanças criaram um momento de instabilidade para as elites, que não conseguiam mais controlar as massas como antes. O aumento dos movimentos populares, discutidos anteriormente, demonstra uma parte deste cenário. A necessidade, por parte das elites dominantes, de conter os movimentos populares, estes alavancados pela nova definição das massas como cidadãos, tem muito a ver com este impulso que tomam as tradições inventadas no fim do século XIX. Como mencionado anteriormente, a popularidade crescente das tendências socialistas e, em especial, o número cada vez maior de votos do SPD, servem para aumentar a preocupação das elites com o “perigo vermelho”. Neste momento, as tradições eram criadas em torno da ideia de nação, visando a criar a identidade do povo com seu recém-unificado Estado, com a respectiva nacionalidade. Hobsbawm aponta que, Após a década de 1870, portanto, quase que certamente junto com o surgimento da política de massas, os governantes e observadores da classe 5 HOBSBAWM, 1997, p. 9. 6 Op. cit. 12 média redescobriram a importância dos elementos “irracionais” na manutenção da estrutura e da ordem social.7 É nesta redescoberta dos “elementos irracionais”, que movem a sociedade, que a burguesia encontra a necessidade de criar alternativas ao papel “unificador”, por assim dizer, antes desempenhado pela monarquia e pela igreja, de se criar o que Hobsbawm chama uma “religião cívica”. Na Alemanha de Bismarck, isso se configura, devido às particularidades da unificação daquele país, principalmente na tentativa de estabelecer, ainda de acordo com a interpretação do historiador, uma continuidade entre o Império construído em 1871 e o Sacro Império Romano Germânico. O estabelecimento desta continuidade só foi alcançado, por meio das “tradições inventadas”. Na Alemanha bismarckiana, esta tentativa de inventar tradições veio comumente em forma de construção de monumentos lembrando momentos e pessoas ligados à “gloriosa tradição alemã”. Ou seja, prédios e estátuas eram construídos em grande númeropara celebrar, enfim, a nação e o povo alemães: Como o “povo alemão” antes de 1871 não tinha definição nem unidade política, e sua relação com o novo Império (que excluía grande parte do povo) era vaga, simbólica ou ideológica, a identificação teve que ser mais complexa e [...] menos definida. Daí a variedade de referências, indo desde a mitologia e o folclore[...], passando pelos estereótipos simplificados das charges, até a definição da nação em termos de seus inimigos. Como muitos outros “povos” liberados, a “Alemanha” definia-se mais facilmente por aquilo a que se opunha do que de outras formas.8 Por falta de elementos significativos que unissem naturalmente a população que ocupava o que agora era Alemanha, buscou-se definir pela negação. As tradições, portanto, sendo inventadas, aparecem por diversas vezes como elementos em oposição a um elemento ou 7 HOBSBAWM, Op. cit. 8 HOBSBAWM, 1997, p. 286. 13 povo. Neste sentido, Hobsbawm afirma terem sido os socialdemocratas – como também os judeus – os escolhidos como “inimigos internos” da nação. Os socialdemocratas, cuja popularidade subia com o efeito da política de massas, não podiam ser assimilados à ideia de nacionalidade, e, portanto, tornaram-se os inimigos de tal nação. A idealização deste povo alemão unido e heroico vinha aliada aos pressupostos de superioridade das teorias do evolucionismo social e do já mencionado medo, do pessimismo que havia substituído, no imaginário alemão, a ideologia liberal do progresso9. Esta congregação de ideias propõe a visão de uma Alemanha unida, enquanto povo, ao redor da preservação de seus valores – preservação esta que significava a segurança da continuidade do próprio país. Desta forma, uma parte importante do nacionalismo que começa a se consolidar é ideia de uma nação em risco, que precisa proteger não só seu território ou seu povo, mas seu modo de vida, pois este é a essência de sua nacionalidade. Para Norbert Elias, é justamente a queda da ideia de “progresso” que faz ascender o nacionalismo, a ideia de pertencimento à nação alemã, popularizando a “religião cívica” da germanidade10. Para ele, a ascensão deste nacionalismo condicionado à urgência da preservação dos valores alemães representa uma mudança de um foco individualista para a maior valorização da coletividade. Esta também tem o efeito de distanciar uma camada dos trabalhadores das tendências políticas ligadas ao socialismo. Isto se dava pelo fato de que uma das bases do socialismo se encontrava no internacionalismo. Não lutavam por seu povo, mas por sua classe; isto os fazia inimigos da unidade do povo alemão. Esta identificação do indivíduo com a coletividade tem ecos na ideologia nazista que , por sua vez, tentou estabelecer uma continuidade com a heroica história alemã que o 9 ELIAS, Norbert. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Zahar, 1996. 10 ELIAS, 1996, p. 142 14 Segundo Reich buscou, por sua vez, consolidar. O nacionalismo nazista, bebendo da tradição da Alemanha pré-Weimar, se ancora na necessidade de que haja “sacrifício pessoal e esforço coletivo” de seu povo, para que se preserve o modo de vida do povo alemão, e assim da nação em si11. A ideia de uma luta perpétua entre os homens até a extinção e, portanto, de um eterno estado de perigo iminente em que se encontrava a nação, alimenta a necessidade do sacrifício do povo alemão. A tentativa do Segundo Reich de, como coloca Hobsbawm, “estabelecer o novo Império como a realização das aspirações seculares do povo alemão” é algo que o crescente número de nazistas na Alemanha virá resgatar, mesmo que de uma forma diferente. Os nazistas buscaram, na construção de seu regime, estabelecer uma continuidade entre seu próprio projeto de nação e o que viam como o glorioso passado alemão: o Primeiro e o Segundo Reich. Ainda assim, a escolha dos social-democratas e, menos formalmente, dos judeus como inimigos internos tinha uma vantagem a mais, embora o nacionalismo do [Segundo] Império fosse incapaz de explorá-la ao fundo. Oferecia um apelo demagógico tanto contra o liberalismo capitalista quanto contra o socialismo proletário, apelo esse capaz de mobilizar as grandes massas da classe média baixa, artesãos e camponeses que se sentiam ameaçados por ambos, sob a bandeira “da nação”.12 Ainda que o Segundo Reich de Bismarck não tivesse conseguido articular e explorar em sua vantagem o “apelo demagógico” que o apontamento dos socialdemocratas, e de todo o socialismo, como “antinacional” tinha, este não passou despercebido e viria, anos depois, a dar frutos não às elites tradicionais bismarckianas, mas aos nazistas em ascensão. Desta forma, enquanto víamos a radicalização das forças de esquerda alemã, a direita 11 KOONZ, Claudia. The Nazi Conscience. Cambridge, MA: Belknap Press, 2003. 12 HOBSBAWM, 1997, p. 287. 15 mais extrema também tomava espaço. Os anos que se seguem são anos de grande conflito entre estas duas forças, culminando, como já sabemos, com a ascensão do nazismo. Este embate entre o internacionalismo dos socialistas e do nacionalismo impulsionado, mas não restringido, pelas elites alemãs encontra um clímax na eclosão da Primeira Guerra Mundial. Quando a Alemanha vai à guerra, muitos dos trabalhadores se voluntariam a defendê-la, mesmo entre os socialistas. Alguns dos próprios sindicatos alemães estabeleceram acordos que auxiliavam o esforço de guerra, em troca de benefícios que facilitassem sua organização política. A guerra, porém, fica cada vez mais impopular, e a derrota tem um grande impacto moral e material no país. E, das cinzas de uma Alemanha derrotada, surge a República de Weimar. Impopular entre os seus em muitos sentidos, e já marcada pela assinatura do Tratado de Versalhes, em 1919. É mais cedo, neste mesmo ano, na Alemanha recém tornada República, que as mulheres alemãs votam - e podem ser votadas - pela primeira vez. 16 (Figura 1) Capa do jornal Das Illustrierte Blatt, de Frankfurt, do ano de 1919 comenta o voto feminino em Weimar. Na Alemanha de Weimar, a política se tornou, ao menos neste sentido, local feminino. É neste clima de conquista de direitos e participação política que surgiu a imagem da “nova mulher” de Weimar, associada por alguns à independência e à liberdade, à mulher trabalhadora que buscava construir uma carreira, que é sexualmente livre e politicamente ativa13. Essa realidade estava diretamente ligada às transformações sociais provocadas pela 13 Enquanto existem divergências quanto a quão comum era de fato esta mulher, o ideal que ela representava é bastante conhecido. Pode-se encontrar referências a ele, por exemplo, nos trabalhos de Gellately (2002), Koonz (2013), Kostas (2006), Walle (1993), entre outros citados na bibliografia deste trabalho. 17 Grande Guerra, que impôs novos desafios às mulheres no espaço público. Porém, mais comumente, como apontado por Robert Gellately14 e Claudia Koonz15, esta mulher se via ligada à percepção de degeneração dos valores tradicionais que seriam, para esta camada da sociedade, a verdadeira base da cultura e da civilização alemãs. A própria ideia de povo, de civilização alemã é essencial na interpretação das tensões no entre-guerras. A crise econômica veio acompanhada de uma crise social, levando muitos a associarem os problemas econômicos que enfrentavam ao sistema republicano em si. Neste contexto se dava também a disputa quanto à função feminina na sociedade. Ainda durante a República de Weimar, em face do retorno dos veteranos de guerra e da impopularidade do trabalho feminino, são aprovadas medidas restritivas à participação feminina no mercado de trabalho16. Estas não são as únicas. Como explica Walle, uma intensa luta pelo direito ao aborto foi travada na República de Weimar, até quase seu fim. Enquanto os movimentos pelo aborto cresciam, as sentenças continuavam pesadas e os jornais denunciavam a “vida sexual desregrada” das mulheres. Foi somente em 1927 que ocorreu alegalização em casos que ameaçavam a vida das mulheres, já sob a sombra de cerca de 50 mil mulheres mortas por ano, vítimas de abortos clandestinos17. A ascensão dos nazistas ao poder significa a destruição de órgãos públicos de planejamento familiar, até então responsáveis por questões como o aborto e contraceptivos, entre outras medidas restritivas às liberdades individuais das mulheres. Não surpreende, então, que muitas mulheres, tanto as de classe média - que viam sua estrutura familiar e segurança econômica em risco - quanto as mulheres que no período de guerra tiveram que trabalhar e cuidar de seus filhos sozinhas, encontrassem no discurso nazista quanto ao 14 GELLATELY, Robert. Backing Hitler: consent and coercion in Nazi Germany. OUP Oxford, p. 10, 2002. 15 KOONZ, Claudia. Mothers in the fatherland: Women, the family and Nazi politics. Routledge, p. 282, 2013 16 WALLE, Marianne. As berlinenses e seus combates. In: RICHARD, Lionel, ed. Berlim, 1919-1933: a encarnação extrema da modernidade. Zahar, 1993, p. 94. 17 Ibidem, p. 100. 18 “papel natural da mulher” um eco de seus próprios desejos18. Afinal, muitas se encontravam de tal forma exaustas pela dupla jornada entre seu emprego e o trabalho doméstico, que a ideia de permanecer em casa era recebida com alívio19. Dito isso, o objeto a ser investigado nesta pesquisa é o lugar da mulher ariana na sociedade nazista, situando-a no campo de estudos das identidades nacionais, autoritarismos e conservadorismo. Busca entender os elementos de apelo ao tradicionalismo existentes na ideologia nazista. Pretende, ainda, investigar em que medida estes influenciariam o apoio feminino ao regime. Esta pesquisa é uma tentativa, então, de entender o que há de tradicional ou conservador, e, portanto, também o que há de novo, no papel dado à mulher ariana no Terceiro Reich, e de que forma o resgate dos modos de vida vistos como tradicionais20 poderia levar esta mulher ariana a se identificar com a ideologia nazista. Para tal, utilizaremos como fonte principal a revista NS FrauenWarte, publicação quinzenal do partido nazista (NSDAP). O periódico, direcionado ao público feminino, começa a ser publicada com a ascensão do NSDAP e desaparece somente em 1945, apesar de as edições serem cada vez menos constantes a partir de 1944. A NS-FW, como publicação do partido nazista, visa a estabelecer a reforçar a visão ideal do papel feminino no Terceiro Reich. Para esta pesquisa, analisaremos seus editoriais, assim como alguns artigos e imagens que contribuem para o tópico. O lugar da mulher no regime nazista está muito ligado à ideia desta como mãe do Reich, como aquela que nutre a nação e seu povo21, com valores ligados à noção tradicional de família. Isso fica evidenciado, por exemplo, quando uma destas mulheres escreve, na 18 GELLATELY, 2002. 19 WALLE, 1993, p. 103. 20 Resgate esse que era, para Arno J. Mayer, um dos elementos que unia as diversas tendências conservadoras que começam a surgir na Europa no fim do século XIX, e ganham força no início do século XX. In: MAYER, Arno J. A força da tradição. Companhia das letras, 1987. Interessa a esta pesquisa também, ainda que de forma secundária, a exploração da origem deste tradicionalismo que encontra expressão no regime nazista. 21 Povo aqui é restrito à racializada definição do Volk alemão nazista. 19 segunda edição de fevereiro da NS-Frauen Warte22 que “a face de um povo é formada pela família” e reforça suas intenções ao dizer que “o espírito materno é a origem de tudo o que é eterno”. O próprio Hitler, em discurso à Nationalsozialistische Frauenschaft [Associação/Liga das Mulheres Nacionais Socialistas], define o chamado “mundo feminino”: Pode-se dizer que o mundo do homem é o Estado, seu esforço, sua prontidão de devotar seus poderes a serviço da comunidade, então, pode talvez ser dito que o [mundo] da mulher é um mundo menor. Para ela, o mundo é seu marido, sua família, seus filhos e seu lar. Mas o que seria do mundo grande se não tivesse ninguém para cuidar do menor? Como pode o mundo maior sobreviver se não tivesse ninguém para fazer do cuidado do mundo menor o conteúdo de suas vidas? Não, o mundo maior é construído na fundação do mundo menor. Este mundo maior não pode sobreviver se o mundo menor não for estável. A providência confiou à mulher o cuidado daquele mundo que é seu próprio, e somente na base deste mundo menor pode o mundo dos homens ser formado e construído.23 A partir de tais evidências, pode-se analisar as ideias que informavam a percepção nazista do papel social feminino. Para isso, é preciso identificar não só no conteúdo deste discurso, mas também a estratégia específica por parte do partido nazista para a articulação e engajamento das mulheres arianas. É esta análise, bem como a reflexão acerca da ideia nazista do papel feminino e sua representação nas páginas da NS FrauenWarte, o ponto central de reflexão desta pesquisa. Esta última é especialmente importante quando se considera de que maneira as mídias e a propaganda nazista se comportam com relação à mulher ariana. Os elementos conservadores, embora sejam parte importante do que compõe a visão nazista da mulher, 22O artigo aqui citado, escrito em 1934 por Erna Günther, é intitulado Wir Frauen im Kampf um Deutschlands Erneuerung, ou, em tradução livre, Nós Mulheres em Luta pela Renovação da Alemanha e está disponível em < http://research.calvin.edu/german-propaganda-archive/fw2-17.htm>. Último acesso em 29 de setembro de 2017. 23 Este discurso é proferido por Adolf Hitler à Nazionalsozialistische Frauenschaft, à Liga das Mulheres Nacional-Socialistas, em 1934, e está disponível em: NOAKES, Jeremy e PRIDHAM, Geoffrey, eds., Nazism, 1919-1945, Vol. 2: State, Economy and Society 1933-1939. Exeter: University of Exeter Press, 2000, pp. 255-56. A tradução aqui presente é minha. 20 não aparecem no discurso como ancorados na submissão feminina. Pelo contrário, tanto nos discursos de Hitler, quanto nos artigos da NS-Frauen Warte que servem como fontes para esta pesquisa, é frequente a exaltação da figura feminina e de seu papel para o Reich. Em um artigo intitulado Todesbereitschaft/Lebensbereitschaft [Vontade para morrer/vontade para viver] presente na primeira edição de junho de 1940 da NS-Frauen Warte, Alwine Schreiber compara a função materna e de esposa com a de um soldado em tempo de guerra. Essa temática se repete em outros artigos. Erna Günther, em texto de 1934 citado anteriormente nesta dissertação, chegou a afirmar que, ao se deparar com o discurso nacional-socialista, "[as mulheres] sentiram ter encontrado [na ideia nazista de] Estado (...) seu papel natural como ‘preservadoras’ da raça, professoras da juventude. Uma vez capturadas por este pensamento, elas se tornaram lutadoras ativas da batalha dos últimos anos".24 Em 1939, a Alemanha entrava em uma guerra de dimensões mundiais. O que inicialmente se projetava, entre o povo alemão, como um conflito curto e com a certeza da vitória, se estendeu, trazendo mais e mais restrições, bem como fazer uso do espaço dado pelo que Leila Rupp chama de flexibilidade retórica25 presente na ideologia nazista para acomodar as necessidades do esforço de guerra da nação. Uma das manifestações mais claras destas acomodações está justamente na questão feminina. Ligada, sob o regime nazista, à concepção da maternidade pela necessidade do Reich de novos arianos, a figura da mulher estava, como mencionamos, em uma esfera distinta da do homem. O mundo da mulher era, portanto, o do lar, o da criação dos filhos. Como coloca Claudia Koonz em The Nazi Conscience, a “consciência nacional” a que se atinham os 24 Tradução minha. 25A questão da flexibilidade retórica, a ser abordada mais profundamente nos capítulos desta dissertação, se refere à forma como o discurso nazista se configurava de forma a, conforme as necessidades de cada momento, poder justificar e dar sentido a coisas que podiam até, para um observador neutro, parecer contraditórias.Sobre isso, ver RUPP, 1977. 21 nazistas está ligada às teorias do evolucionismo social26. Esta faceta da “consciência nacional alemã”, já presente desde a unificação da nação27, tomou nova forma sob o nazismo, quando se encontrou com as teorias raciais que são a base da ideologia que ascende ao poder com Hitler. A presença de tal evolucionismo, combinado, como argumenta Elias28, com versões simplistas das ideias de Nietzsche, e alimentado pelo pessimismo característico do nazismo, levou a um nacionalismo ancorado num constante medo da proximidade de uma extinção. O nacionalismo nazista se alimentava, portanto, da necessidade de sobrevivência de uma população que via qualquer desvio dos valores que entendem como nacionais como uma ameaça à continuação da Alemanha em si, e de seu povo. Este medo toca na questão feminina de duas formas importantes. A primeira é como a anteriormente mencionada associação da figura da mulher com, necessariamente, a figura da mãe. Isto porque assegurar o futuro do povo alemão, do Volk exige que se assegure sua perpetuação. Esta só era possível, é claro, através da maternidade. Relacionada a esta, é a forma como a necessidade da maternidade a torna parte primordial do sacrifício da parcela feminina da sociedade. É neste sentido, situando a mulher como mãe – e aí mãe não só de seus filhos, mas do próprio futuro da nação – que a ideologia nazista se coloca, sobretudo nos primeiros anos no poder. São a maternidade e o lar, portanto, o lugar a que pertence a mulher nazista. Apesar disso, é justamente a visão da maternidade como também um sacrifício pelo povo, que se encontra o fator que a “flexibilidade teórica” nazista virá, com o início da guerra, a explorar. É aí que está o grande potencial do sacrifício da mulher nazista. Aquilo de que pode - e, de fato, deve - se orgulhar. Quando se fala de guerra, a imagem que vem à mente tem mais a 26 KOONZ, 2003. 27 Sobre isso, ver: MAYER, Arno. A força da tradição. 1987, e ELIAS, Norbert. Os Alemães. 1996. 28 ELIAS, 1996. 22 ver com o conflito armado em si, com o front de batalha, do que com as formas como este é sustentado pelo front doméstico. Esta dissertação, porém, se preocupará, no que diz respeito a esse período, a analisar as condições das mulheres no front doméstico. Busca-se entender como o esforço de guerra afetou seu dia-a-dia, reescreveu as noções de normalidade e mudou a forma como a própria retórica nazista se aplicava ao papel da mulher. Para isto, nos dedicaremos à análise das mudanças e permanências na representação do ideal feminino do NSDAP, demonstrado nas páginas da NS-FW. É especialmente em tempos de guerra que o dever da mãe alemã cresce. Esta mãe, a quem cabe parir e educar os filhos que darão continuidade ao Volk, serve como âncora para os “bravos soldados no front”. A maternidade é, assim, vista como um exercício de dedicação ao bem comum da raça ariana. O filho, como afirmou o próprio Goebbels29, é um presente da mulher ariana para o Reich. Desta forma, a própria mulher enquanto mãe existe como serviço e sacrifício a sua nação e seu povo. Não só isso, mas a comparação da função materna com a do front – já presente mesmo nos primeiros anos do regime – parece se tornar mais frequente. Para Samantha Schuring30, o efeito desejado desta comparação era o de manter definida a própria mulher como mãe. Ou seja, o de, mesmo em tempos de guerra, e conforme mudassem as necessidades do trabalho feminino, manter a figura da mulher firmemente ancorada à ideia da maternidade. Este “sacrifício feminino”, porém, não ficara restrito somente à maternidade em si31. A definição deste poderia ser estendida para até mesmo funções ligadas ao mercado de 29 Sobre isso, ver o discurso: “Deutsches Frauentum,” Signale der neuen Zeit. 25 ausgewählte Reden von Dr. Joseph Goebbels in Zentralverlag der NSDAP. Munique, 1934, pp. 118-126. 30 SCHURING, Samantha. Mothers of the Nation: The Ambiguous Role of Women in the Third Reich. 2014. Tese de Mestrado. 31 BOCK, Gisela. Racism and sexism in Nazi Germany: motherhood, compulsory sterilization, and the state. In: Signs: journal of Women in Culture and Society, v. 8, n. 3, p. 400-421, 1983. 23 trabalho, e o foi, principalmente durante o esforço de guerra nazista. Podemos assim entender por que, quando os racionamentos e as campanhas internas de arrecadação e conscientização sobre a guerra mudam, e passa a ser necessária a maior participação feminina, muda também a forma como o sacrifício da mulher é mostrado. A mulher ariana é vista como “mulher-mãe” mesmo enquanto produz comida para alimentar seus soldados, ou mesmo material bélico. É “mulher-mãe” mesmo que não tenha filhos. E seu trabalho, em qualquer uma de suas manifestações, é sacrifício pelos filhos da nação, pelo futuro de seu povo. Este tipo de “reversão ideológica”, como classifica Rupp, é possível pela mesma flexibilidade que permite que a ideologia nazista permeie o dia a dia de sua população. Esta, por sua vez, se adapta de acordo com as necessidades do Reich, alterando o papel imediato destinado à mulher, mas não a sua essência. Desta forma, as necessidades da guerra alteraram o dia a dia destas mulheres e a dificuldade crescente encontrada pelas forças armadas nazistas nos anos 1940 fizeram com que a própria definição de “esfera feminina” nazista fosse alterada perceptivelmente, apesar de não levar a um questionamento da doutrina nazista em si. Procurarei analisar justamente como se deu este processo de mudança, e as alterações nas vidas das mulheres nazistas que compuseram o front doméstico da Segunda Guerra Mundial, através de suas representações e da forma com que estas foram se alterando em diferentes momentos. Enquanto o tema da mulher nazista tem se centrado na discussão da condição feminina em relação a dos homens e de que forma esta condição as implicava nos crimes cometidos pelo regime em que viviam, a problemática desta pesquisa se aproxima mais da questão de como este papel é idealizado pelo Terceiro Reich, e como a realidade deste é construída pelo regime em diálogo com estas mulheres, se utilizando de veículos como a NS FrauenWarte para fazê-lo. 24 Até que ponto, então, poderiam estes elementos ser considerados conservadores? É importante compreender de que modo estas mulheres percebiam seu lugar social para além das qualidades atribuídas ao discurso nazista. Se acreditarmos que o nazismo pretende dar às mulheres novamente seu local de mãe e esposa somente, como interpretar a existência das escolas de esposa e mãe em fábricas nazistas, citadas frequentemente nas revistas femininas nazistas?32 Se o local da mulher nazista não era no trabalho, como explicar as milhares de mulheres alemãs que, ao mesmo tempo em que estavam no mercado de trabalho, se identificavam com o Reich e sua ideologia, muitas trabalhando mesmo para o Estado nazista? Norbert Elias observa algo semelhante, no que diz respeito ao nacionalismo alemão crescente. Para o autor, os valores conservadores, ou os “credos retrógrados”, como menciona, São usados em sociedades [altamente desenvolvidas] com o objetivo de preservar a ordem estabelecida, mesmo quando o movimento social organizado em nome da herança nacional e de suas virtudes pretende, de fato, derrubar a ordem vigente. Se isso é feito, é usualmente em nome da restauração do passado, da herança imutável da nação.”33 Ou seja, os discursos da época, mesmo que por vezes carregados de elementos associados às visões conservadoras, traziam em si algo de novo, fazendo o que Elias chama de uma simbiose entre os valores das elites tradicionais e as novas expressões sociais que vinham justamente desafiá-los. Seria este o propósito da presença deste discurso conservador entre os nazistas? Ou veríamos aí a situação oposta, em que se existe um apelo 32 Sobre estas escolas, de um modo geral, podemos citar em especial a edição de maio de 1940 da NS Frauen Warte. Esta edição, dedicada ao Dia das Mães, traz múltiplasmenções para as escolas de formação esposa e mãe do Reich, comentando sobre sua acessibilidade, incluindo aí as iniciativas de escolas itinerantes e escolas inseridas nas fábricas, onde as mulheres tinham acesso a elas depois do expediente de trabalho. 33 ELIAS, Norbert. Os Alemães. 1997, p. 141. 25 ao conservadorismo, mas sem haver uma pretensão a voltar ao passado, e sim a construir um homem e uma nação pretensamente novos? Voltaremos a esta questão mais tarde. Considerando estas situações, pode-se então se perguntar acerca do caráter do discurso aparentemente conservador do regime nazista. A pesquisa da norte-americana Wendy Lower, que resultou na publicação de As Mulheres do Nazismo34, demonstra a forma como a experiência destas mulheres muitas vezes se diferenciava dos termos conservadores a que, supostamente, deveriam aderir. Assim, se existiam estes elementos aparentemente conservadores na ideologia nazista, a que propósito serviam? Seria a linguagem tradicionalista realmente uma busca ao retorno ao passado, ou, como sugere o historiador Johann Chapoutot, uma forma de alcançar o “homem novo”, a nação nova, não do futuro, mas sim de sua origem, o homem original? Para Chapoutot, o projeto nazista era revolucionário na medida em que pretendia trazer de volta o “homem antigo”, não simplesmente criar um novo homem. O novo homem nazista era fruto de uma operação de resgate, ou, como define Chapoutot, uma busca pela “verdade do ser germânico, tal como ele se exprime nas tribos descritas por Tácito, mas também na Grécia e em Roma, aquelas tribos das origens, de antes, evidentemente, das alienações e das mestiçagens”35. Ou seja, o projeto nazista era de eliminar as degenerações que haviam se acumulado sob os homens e mulheres alemães, levando-os de volta a suas honradas origens germânicas. Neste sentido, o ideal da mulher nazista também não era visto como uma representação de uma mulher completamente nova. Pelo contrário, voltava-se para o que era descrito como a essência da feminilidade germânica. Uma feminilidade com a qual muitas mulheres alemãs, como veremos, se identificavam. 34 LOWER, Wendy. As Mulheres do Nazismo. Rio de Janeiro. Rocco, 2014. 35 CHAPOUTOT, Johann apud ROLLEMBERG, Denise. Revoluções de direita na Europa do entre-guerras: o fascismo e o nazismo. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 30, n. 61, p. 355-378, 2017. 26 As primeiras análises que buscam entender a adesão das mulheres ao nazismo, escritas ainda durante o regime, tendem a ver esta adesão à ideologia nazista como paradoxal, enxergando a Alemanha de Weimar como bastião da liberação feminina, e a Alemanha nazista como um Estado que trataria de exterminar os direitos conquistados pelas mulheres nos anos anteriores36. Esta visão possibilitou a estes analistas imediatos relegar a aproximação destas mulheres do nacional-socialismo à uma suposta “irracionalidade feminina”, e mesmo, em certos casos, a uma paixão pela figura de Adolf Hitler. Neste sentido, Richard Evans cita desde o “simpatizante nazista” Hermann Rauschning até o conhecido historiador Joachim Fest e o jornalista William Shirer, demonstrando as mais diversas ocasiões em que esta explicação foi utilizada, e explicitando seu largo alcance na historiografia do tema37. Enquanto é possível considerar a personalidade de Hitler como fator influente, utilizando-se, por exemplo, do conceito weberiano de “dominação carismática”38, reduzir a participação feminina no regime nazista a tal influência seria demasiadamente simplista, e desconsidera a possibilidade, que este trabalho pretende explorar, de que estas mulheres poderiam se identificar com a ideologia nazista. No que diz respeito a uma perspectiva teórica, este trabalho se alimenta da tradição historiográfica que propõe investigar as possíveis nuances da sociedade nazista, suas contradições, e de que formas esta rompe com os binarismos. Busca também entender as motivações e complexidades dos alemães inseridos nesta lógica, para além de uma simplificação maniqueísta. Para isso, alguns historiadores trataram primeiro de desmistificar 36 EVANS, Richard J. German Women and the Triumph of Hitler. In: The Journal of Modern History, v. 48, n. S1, p. 123-175, 1976. 37 EVANS, Richard. Ibidem, p. 125-126. 38 A figura de Adolf Hitler e sua influência é explorada neste sentido em REES, Laurence. O carisma de Adolf Hitler: o homem que conduziu milhões ao abismo”. Leya, 2013; e KERSHAW, Ian. Hitler: um perfil do poder. Zahar, 1993. 27 a figura do oficial nazista ou mesmo do alemão comum, como uma figura monstruosa e desumana. Não, é importante ressaltar, em uma tentativa de absolvição desses personagens históricos, mas de complexificação da análise, de entendimento mais profundo e completo desta sociedade que ainda hoje traz à tona muitos questionamentos. Desde Raul Hilberg, em sua obra clássica sobre o holocausto até o conhecido trabalho do historiador Christopher Browning acerca do sanguinário Reserve-Polizei-Bataillon 101 [Batalhão de Reserva 101], aptamente intitulado “Ordinary Men”, ou “Homens Comuns” em tradução livre, em que o historiador defende que os homens deste violento batalhão não eram particularmente fervorosos em sua ideologia, mas sim homens comuns executando suas funções; podemos acompanhar essa tentativa de nuançar e problematizar as visões demasiado simplistas da sociedade alemã sob o Terceiro Reich. A ideia ou conceito de zona cinzenta, de Primo Levi, desenvolvida ao longo de sua obra, nos serve de referência neste sentido. Em sua análise mais madura sobre o tema, presente em seu livro Os afogados e os sobreviventes, concluído em 1986, o autor critica a tendência, mesmo entre historiadores, de reproduzir uma história baseada em conflitos, em dividir seus atores em dois grandes e bem definidos grupos antagônicos. Também semelhante é a simplificação pela qual passa a questão feminina na historiografia da Alemanha nazista. Relegadas geralmente ao simples papel de algoz ou de vítima, resta pouco espaço para considerar as interseções possíveis entre as identidades e papéis sociais e políticos destas mulheres arianas. Em seu artigo sobre a pró-natalidade no Terceiro Reich39, Katherine Rossy expõe a questão como um embate entre as posições das historiadoras Claudia Koonz e Gisela Bock, que divergem na própria posição do Reich em relação às mulheres. Enquanto para Koonz a 39 In: ROSSY, Katherine M. Politicizing Pronatalism: Exploring the Nazi Ideology of Women through the Lens of Visual Propaganda, 1933-1939. The Graduate History Review, v. 3, n. 1, 2011. 28 participação ativa das mulheres arianas implicaria em uma certa igualdade com suas contrapartes masculinas, Gisela Bock defende que a estrutura patriarcal do regime significava que as mulheres, mesmo as arianas, eram marginalizadas na sociedade nazista, e sofriam uma perseguição baseada em seu gênero. Tendo esta discussão em perspectiva, esta pesquisa pretende analisar o papel das mulheres nazistas não como vítimas ou simplesmente algozes, prisioneiras de um sistema que as oprime ou agentes dele, mas como sujeitos complexos, ativos e com suas próprias contradições e conflitos internos e com seu meio. Isso não implica, contudo, ignorar completamente a existência da opressão feminina e os aspectos coercitivos existentes na sociedade nazista. 29 CAPÍTULO 1 A NS FRAUEN WARTE: ESTRUTURA, CONTEÚDOS E SEUS USOS COMO FONTE HISTÓRICA Este capítulo se dedicará a uma introdução à NS FrauenWarte, seus conteúdos, forma, estrutura etc., na medida em que é esse periódico a fonte primária. Nesse sentido, procuro também explicitar a metodologia que usarei na análise crítica da fonte. Por fim, tratarei da questão da propaganda nazista e das representações, e como poderemos utilizar destes conceitos para aprofundar as análises propostas. Este capítulo também busca explicitar por que este trabalho se localiza em uma interseção entre as histórias social e cultural. I. I: A NS FRAUENWARTE A NS-FrauenWarte, autodenominada “única revista feminina do partido”, era um periódico, a princípio quinzenal, dedicada às mulheres nazistas. A revista começa a ser publicada nos primeiros anos da década de 1930, em Munique, sendo os exemplares enviados a partir de Leipzig, e custando inicialmente cerca de 20 Pfenning, até, no fim, pouco menos de 30 Pfennig, um preço razoável e que visava a popularizar a revista, aumentando seu alcance para o mais variado público feminino. De acordo com Christine Syré do LVR-Industriemuseum [Museu da Indústria do Conselho Regional da Renânia], “Em meados da década de 1930, a revista tinha uma tiragem de cerca de 630.000 30 exemplares, um mês após o início da guerra em outubro de 1939, a tiragem era de 1,5 milhão. Depois disso, os números são desconhecidos - provavelmente devido à guerra.”40. Para comparação, esta era a mesma tiragem da mais popular publicação de variedades do Reich, o Berliner Illustrirte Zeitung, e significativamente maior do que a da mais popular revista de variedade feminina, a Das Blatt der Hausfrau [O folhetim da dona de casa], que reporta uma tiragem de 575 mil exemplares em 1938 e “mais que 600 mil” em 193941. O Berliner Illustrierte Zeitung, uma revista ilustrada de Berlim, era o periódico não-político mais popular da Alemanha, já em 1934, e sua circulação cresceu quase em uma constante, com uma pequena queda em 1936 - ainda assim não perdendo sua posição no ranking de popularidade. É bastante interessante o contraste com os números do Das Blatt der Hausfrau, periódico que tem um público-alvo semelhante ao da NS FrauenWarte, publicando também receitas, dicas de moda e maternidade etc. É importante, porém, considerar que, enquanto estas revistas de variedade não eram subsidiadas e suas tiragens dependiam do interesse do público das bancas de jornal, a NS FrauenWarte era órgão da NS Frauenschaft, a organização feminina do NSDAP, o que contribuía de fato para que sua circulação fosse maior. Esta também poderia ser entregue diretamente nas casas de seus assinantes, sem grande custo adicional. Ainda assim, são dados relevantes que demonstram a presença e relativa fácil circulação da publicação. Pode-se supor que sua conexão com o NSDAP tenha tido muita influência sobre o fato de que a NS-FW ter sido uma das últimas revistas femininas do Reich a desaparecer42. 40 Texto disponível, em alemão, em https://industriemuseum.lvr.de/de/sammlung/sammlung_entdecken/haushalt___freizeit/alltagsdinge/frauen_wart e/frauen_warte_1.html# (23/07/2020). Tradução minha. 41 FÜHRER, Karl Christian. Pleasure, Practicality and Propaganda: Popular Magazines in Nazi Germany, 1933–1939. In: Pleasure and Power in Nazi Germany. Palgrave Macmillan, London, p. 132-153, 2011. 42 CHRISTINE SYRE, sd. Disponível em: https://industriemuseum.lvr.de/de/sammlung/sammlung_entdecken/haushalt___freizeit/alltagsdinge/frauen_wart e/frauen_warte_1.html# (23/07/2020) 31 Como era uma publicação da Liga das Mulheres Nacional-Socialistas, a NS-FW tinha como editora oficial sempre a líder da Liga. Desta forma, não surpreende que vejamos por muitas vezes editoriais assinados pela bastante conhecida Gertrud Sholtz-Klink, que encabeçou a NS Frauenschaft entre 1934-1945. Apesar disso, a publicação não buscava apenas atender às mulheres já associadas à organização e ao partido. O objetivo da NS-FW, como parte das ferramentas de propaganda nazista, era ter um amplo alcance entre as mulheres que se identificavam - ou podiam vir a se identificar - com a ideia nazista de povo. Como coloca Christine Syré: A NS Frauen Warte dirigia-se às mulheres nacional-socialistas de todas as classes ou àquelas que ainda poderiam se tornar mulheres nazistas. Seu objetivo era familiarizar as mulheres com as ideias nacional-socialistas e a política feminina do NSDAP - sem polimento, mas com muito entusiasmo e pressão moral. Não havia nenhuma obrigatoriedade para que as integrantes da NS Frauenschaft assinassem a revista, nem ela era dirigida apenas às mulheres já na organização43. A revista, portanto, apesar de conter artigos direta e claramente ligados à política do Reich, não se resumia somente a isso. Na NS-FW podiam ser encontrados artigos sobre férias, leitura, celebrações, moda, instruções de costura, receitas, contos, músicas, poesia, entre muitos outros tópicos. Em uma análise dos conteúdos da NS-FW para esta pesquisa, pudemos subdivir os artigos nela contidos em 8 grandes tópicos e mais de 30 subtópicos, indo desde textos gerais sobre a visão de mundo a tópicos como economia doméstica e até contos infantis. A forma de organização interna da revista muda um pouco com o passar dos anos. Nos anos 1930 a revista conta com uma “sobrecapa”, por assim dizer, sempre bastante semelhante 43 SYRE, sd. 32 e que conta com as informações sobre preço, ano, volume, o nome da revista e um resumo dos conteúdos naquela edição. Abaixo, podemos ver (figura 11) uma destas capas: Figura 11: “Sobrecapa” de edição do biênio 1935/1936 Seguindo-se a estas capas, estas edições contavam também com uma página dedicada a pequenos e breves tópicos sobre a política do Reich e, em certas ocasiões, as notícias importantes da última quinzena. Esta página já não aparece nas edições da década de 1940, que contam somente com a capa principal e ilustrada, também presente nas edições dos anos 1930. Esta tinha sempre uma foto ou ilustração sobre o tema da quinzena. Nos números finais 33 da revista, já menos frequentes por conta do agravamento da guerra, esta capa passa a contar também com textos e inícios de artigos, fazendo-a assemelhar-se mais à primeira página de um jornal do que de uma revista propriamente dita. Abaixo, podemos comparar a segunda capa de uma edição de 1936 e as capas únicas de 1941 e 1944. Figuras 12, 13 e 14: Capas de edições dos anos 1935, 1941 e 1944, respectivamente, da NS-FW. 34 Enquanto a página de política e notícias se assemelha a um editorial em certas edições, em outras este não está presente, sendo substituído por artigos turísticos, de opinião e até contos e memoriais. Como coloca Rachel Century, em seu Female Administrators of the Reich, o papel das mulheres vai mudando conforme a sorte da Alemanha nazista flutua na guerra. Da mesma forma, o conteúdo da revista da NSF também se altera. É notável a grande mudança de tom entre os editoriais das edições dos biênios 1935/36 e 1941/4244. Como se pode ver nos gráficos a seguir, tópicos que podemos considera mais “leves”, como o turismo e a natureza, se tornam praticamente inexistentes. 44 O biênio de 1941/42 foi escolhido não somente pelas mudanças e reações causadas pela batalha de Moscou, mas também - e principalmente - por ser o primeiro biênio depois do início da guerra a que temos acesso aos dados completos sobre a NS-FW. Da mesma forma, 1935/36 foi escolhido por ser o último antes do início da guerra a que temos acesso a todas as edições publicadas. 35 Figuras 15 e 16: gráficos dos conteúdos dos editoriais da revista NS FrauenWarte nos biênios 1935/36 (figura 15) e 1941/42 (figura 16). 36 Vemos também como se tornam preponderantes os textos sobre política - incluídos aí os textos que se dedicassem a discursos específicos de Hitler, à visão de mundo nazista, à política externa do Reich e também a análises de seus inimigos. Este último passa a aparecer nas edições dos anos 1940 especificamente, servindo para demonstrar ainda mais a mudança de tom na revista, que antes não contava com propagandas negativas e se assemelhava neste ponto bastante às revistas de variedade alemãs não conectadas a organizações do NSDAP45. Apesar da queda do foco específico em assuntos sobre a feminilidade e a maternidade nos editoriais, estes não desaparecem. Pelo contrário, passam a aparecer fortemente conectados com as questões políticas do Reich e, principalmente, com a guerra. Nas edições de 1941, vemos títulos como “A mulher no hostil ‘paraíso soviético’”, assinado por Dra. AdelePetmecky, em que a autora detalha a visão nazista sobre o lugar da mulher soviética e da família em sua sociedade, definindo suas diferenças como uma falha social que o povo e o governo soviéticos não teriam pré-requisitos morais para mudar. Ao definir a experiência da mulher na URSS como hostil, e afirmar que o povo soviético não valoriza nem prioriza sua família como o deve fazer o povo alemão, Petmecky acaba por definir também o papel da mulher nazista, ainda que o faça pela oposição. Presentes, porém, durante toda a duração da NS-FW estavam conteúdos não explicitamente políticos. Mesmo nas inconstantes edições finais, a NS Frauen Warte ainda contava com receitas para toda a família, páginas de artigos sobre moda e modelos - completas com instruções de costura e moldes para que as mulheres fizessem em casa suas próprias roupas e as de seus filhos -, anúncios de produtos. As cartas das leitoras são 45 FÜHRER, 2011. 37 de especial interesse ao demonstrarem o engajamento da audiência com a revista e as experiências do dia-a-dia destas mulheres. Na década de 1940, estas cartas frequentemente aparecem com relação aos filhos e maridos na guerra, tomando um tom de apaixonada esperança que faz parecer que são mais uma busca por conforto, um ato de desespero, do que expressão de uma positividade genuína. Utilizaremos como fonte principal os textos principais e editoriais da revista NSFW, em especial os que se preocupam em explicar e aprofundar as ideias nazistas sobre o papel da mulher na sociedade. Outros textos, imagens e anúncios também poderão ser utilizados para fim de comparação ou contextualização de outros assuntos levantados nos capítulos que se seguem. I. II. PROPAGANDA E REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA NS-FW A propaganda nazista é um tópico popular não somente entre historiadores. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista, é figura importante na história do Terceiro Reich, sendo a estratégia da Grande Mentira algo que se tornou parte do conhecimento popular. De fato, a máquina de propaganda nazista foi eficiente e desperta interesse. Como outras revistas da época, incluindo revistas não afiliadas ao governo46 a NS-FW fazia parte deste esforço para promover a ideia do Volksgemeinschaft; a comunidade racial alemã, unida em torno das tradições germânicas e de sua “pureza racial”. Em seu papel como revista feminina, a NS FrauenWarte tinha suas especificidades quanto à propaganda. Parte da unidade do povo dentro do conceito do Volksgemeinschaft 46 FÜHRER, 2011. 38 exige que se entenda os diferentes lugares dados às mulheres e aos homens na sociedade nazista. Muito do esforço do NSDAP quanto à propaganda nazista busca assegurar-se de que as mulheres nazistas tomem um lugar secundário quanto ao homem em muitos aspectos47, “devolvendo” ao homem o que, de acordo com as ideias nazistas, era um lugar que a ele pertencia, e que havia sido tirado dele por décadas de uma cultura degenerada. Não só era esperado que a mulher nazista não ocupasse a “esfera masculina” da política, da liderança e, em certos pontos, do trabalho, como também que esta cuidasse de seu papel na comunidade germânica; o de mãe e esposa. O povo necessitava do homem em seu lugar tanto quanto da mulher no dela. Para fim de enfatizar este ponto, muito da propaganda nazista quanto à mulher e, portanto, também do conteúdo político e ideológico nas páginas da NS Frauen Warte, se dedica ao papel da mulher como mãe - não só de seus filhos, mas de todo o povo e, portanto, do Reich. Como muitas organizações nazistas, a NS Frauenschaft tinha seu próprio departamento focado na produção e divulgação da propaganda nazista48. A NS-FW fazia parte deste esforço, sendo esta uma das importantes formas de comunicação do partido com as mulheres nazistas, que, no contexto geral da máquina de propaganda nazista, não tendiam a ocupar posições de liderança. Porém, na NS-FW as mulheres falavam para seus pares, representavam o Reich e expunham a forma como o nazismo via o papel feminino, mas ainda assim tinham na revista uma chance rara de fazê-lo elas mesmas. Um dos desafios quanto ao tipo de fonte com a qual lidamos aqui, a NS-FW, está na forma de análise dos impressos. Com este tipo de fonte, corre-se o risco de ou descartá-las completamente como algo sem valor historiográfico, ou crer que seus conteúdos são 47 MOCH, Jonathan. Women in Nazi Propaganda. 2011 48 BYTWERK, Randall L. Grassroots propaganda in the Third Reich: The Reich ring for National Socialist propaganda and public enlightenment. German Studies Review, p. 93-118, 2010. 39 sempre verídicos e expressam observações factuais quanto a sua própria realidade49. Desta forma, esta dissertação enxerga as páginas da NS-FW como ferramenta deliberada da propaganda nazista, mostrando não necessariamente a realidade da vida da mulher alemã no período, mas idealizações de seu local no Reich, fazendo uso de representações da feminilidade germânica. A NS-FW busca “vender” uma visão que confirma uma estrutura da qual ela mesma faz parte. Como veículo de propaganda, a revista em si é parte de um todo que se estrutura com base no Volksgemeinschaft e que, ao mesmo tempo, tem função de propagá-lo. A análise de um texto e da forma como seus autores pretendiam que fosse lido não necessariamente esclarece pontos sobre como este foi recebido de fato, e sobre as múltiplas interpretações possíveis deste - portanto uma investigação da NS-FW não é o mesmo que uma investigação das múltiplas experiências da mulher nazista, ou até especificamente das leitoras da NS Frauen Warte. Nos capítulos seguintes, portanto, entenderemos as ideias contidas nas representações da mulher nazista em nossa fonte, as origens e objetivos de tais representações, e a forma em que mudam ao decorrer do tempo em decorrência das mudanças pelas quais passa o Terceiro Reich. 49 Sobre isso ver: WEBER, Daniela Maria. Metodologia para pesquisa em imprensa: experiências através d’o paladino. Revista Signos, ano 33, n. 1, p. 9-21, 2012 e LAPUENTE, Rafael Saraiva. A imprensa como fonte: apontamentos teórico-metodológicos iniciais acerca da utilização do periódico impresso na pesquisa histórica. Revista de História Bilros. História (s), Sociedade (s) e Cultura (s)., v. 4, n. 6, p. 11-29, 2016. 40 I. III. ENTRE O CULTURAL E O SOCIAL Interessada no lugar social das mulheres nazistas, na organização social do Terceiro Reich, e tendo como fonte um periódico e as representações do feminino nele contidas, esta pesquisa não se situa somente no campo da história social ou cultural. De fato, se alimenta de ambas as tradições historiográficas. Enquanto existem críticas aos limites da história econômico-social e das explicações que se detêm exclusivamente nas superestruturas, ela não pode - ou deve - ser inteiramente descartada. Existe muito dentro da história social que pode contribuir com e aprofundar uma abordagem ligada à cultura. Pode-se tentar ultrapassar os limites da história econômico-social, mas é importante não desprezar sua contribuição. Neste sentido, Antoine Prost alerta que, reduzir a história das ideias à de enunciados extraídos dos seus contextos, desligados das circunstâncias que os suscitaram, dos homens que os formularam e de toda a espessura do seu enraizamento social e humano, sem considerar os públicos concretos a que se dirigiam, é tomar esses enunciados em primeiro grau, correndo o risco de se deixar apanhar pelas intenções pouco inocentes dos seus autores e sair do real para construir com todas as peças um objecto imaginário.50 Desta forma, se mostra importante que, em uma análise das representações da mulher alemã na NS-FrauenWarte, haja preocupação em não simplesmente aceitar o que estas contêm como verdadeira expressão da realidade de seu tempo, mas também entender o contexto social de sua existência. Assim, pretende-se aproximar-se do que Prost chama a “história social das representações ou uma história das representações coletivas”, queo historiador define como uma história cultural que pretende para si objetivos mais globais. 50 PROST, Antoine. Social e cultural indissociavelmente. Para uma história cultural. Lisboa: Estampa, p. 123-137, 1998. 41 Para se reconstituir as representações que constituem um grupo social, privilegia-se a atenção em produções simbólicas de um grupo, ou seja, numa análise dos discursos feitos por tal grupo enquanto produções simbólicas, pois, como coloca o autor, “o grupo só existe na medida em que existe voz e representação, quer dizer cultura”51. Estas produções simbólicas têm também efeitos - e objetivos sociais. As ideologias, por oposição ao mito, produto colectivo e colectivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo. A cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções52. No caso da NS-FrauenWarte, os interesses defendidos são ao mesmo tempo explícitos - pela conexão da revista diretamente ao partido político no poder - como universalizados - pela característica intrinsecamente universalizante presente no conceito nazista de Volksgemeinschaft, que torna o indivíduo e o povo em uma criatura una e indissociável. Enquanto se pode analisar um texto, se preocupar com os fatores como o que o texto quis informar, o acontecimento nele descrito etc., também devem ser consideradas questões para além destas, como fatores culturais que explicam ou elucidam a função daquele texto e o impacto dele em seus interlocutores contemporâneos. É importante, porém, lembrar que existe uma diferença entre a história das recepções aos discursos e a história das produções culturais em si. Pierre Bourdieu insistiu muito na função performativa dos discursos: dizer, é fazer; dizer o grupo, nomeando-o, é dá-lo como existente na cena social. É por isso que o debate sobre a designação dos grupos sociais, seus limites e as suas condições de 51 PROST, 1998: 129. 52 BOURDIEU, Pierre et al. O poder simbólico. 1989. 42 pertença ou de exclusão são igualmente lutas sociais. A história das representações remete assim para os conflitos reais de que estas representações são o objeto. Mas ela permite além disso elucidar as bases destes conflitos e os significados que os agentes lhes dão53. Ou seja, através do estudo das representações presentes em um discurso ou em outra produção cultural, é possível compreender não só o conflito, o acontecimento, aquilo a que se dedica a produção em si, nem somente quem seriam os agentes de tal narrativa, mas também as bases dos conflitos nela presentes; como os locutores definem as categorias e os grupos apresentados; quais as qualificações dadas a cada um, se houver; a quem estas se aplicam de fato no discurso etc. Ao avaliar as representações dos grupos em nossa fonte, analisamos conjuntamente a forma como estes grupos são definidos e categorizados para os autores? A quem a NS-FW vê como mulher germânica? Como mãe do Reich? O que pertence à categoria “mulher” para a Liga das Mulheres Nacional-Socialistas? Esta pesquisa, portanto, é produto da interseção entre as histórias cultural e social, da história que, como coloca Prost, “é indissociavelmente social, dado que está ligada ao que diferencia um grupo do outro. É, pois, o raciocínio sobre as diferenças, sobre os desvios.”54. Chamamos cultura a todo conjunto etnográfico que, do ponto de vista da investigação apresenta, em relação a outras, desvio significativos. [...] O termo cultura é empregado para reagrupar um conjunto de desvios significativos cuja experiência prova que os limites coincidem aproximadamente.55 É necessário nesta abordagem, vendo a cultura como conjunto de desvios significativos, e, portanto, fator que divide os grupos sociais, que o historiador não parta da observação e estudo dos grupos sociais, mas sim de suas culturas. Desta forma, permite-se que se avaliem 53 PROST, 1998: 130. 54 PROST 1998: 134 55 STRAUSS, 1974 apud PROST, 1998. 43 “quais dos factores económicos, profissionais, sociais, ou factores culturais estão na base da sua identidade”56. Culturas mudam, às vezes de forma previsível e constante, às vezes de forma brusca. Com transformações menores e maiores. Muitas das vezes, explicar ou até perceber o início e o fim de tais evoluções apresenta grandes dificuldades. É necessário que a história cultural não somente seja a história das diferenças, mas também das evoluções. Que se preocupe com as mudanças na cultura, com seu quando, onde, por que; que interrogue as condições sociais em que ocorrem e como ocorrem, para que atinja objetivos mais profundos. Embora, como coloca Prost, as separações sejam por vezes necessárias de um ponto de vista metodológico, o autor ressalta a necessidade de que não se desista por completo de uma história que se preocupe com a totalidade, com compreender a realidade por via do entendimento dos “aspectos múltiplos e solidários de uma mesma realidade”, ou seja, daquilo que ordinariamente separaríamos entre as competências da história social, de um lado, e da história cultural, de outro. Esta pesquisa buscará fazer uso desta abordagem. 56 PROST, 1998; 135. 44 CAPÍTULO 2: A REAL MULHER DE WEIMAR E A “DEGENERAÇÃO” II.I: O NACIONALISMO E A “CRISE DA DEGENERAÇÃO” A Alemanha recém-unificada era uma Alemanha em busca da construção de sua própria identidade. É sob Bismarck que vemos os esforços no sentido de buscar criar uma identificação do povo sob o Império com um passado glorioso do povo alemão; uma narrativa da construção da identidade germânica. Hobsbawm define tais esforços como “tradições inventadas”, como visto anteriormente: “um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado”57. Neste período, podemos ver, portanto, o crescente nacionalismo alemão que, anos mais tarde, ganharia novos contornos sob o Terceiro Reich. O nacionalismo traz em si pressupostos como a busca por construir um “agente coletivo”58. Para tal, busca então reivindicar uma narrativa que trace uma história única de sua nação, de seu povo, correlacionando presente e uma ideia gloriosa e em grande parte idealizada do passado. Na Alemanha nazista, este “agente coletivo” se consolidou na identidade do povo alemão, a unidade do Volksgemeinschaft. Imagem que inspirou esta pesquisa, uma página dupla ilustrada da NS-FW suscita reflexões. A imagem contrapõe as mulheres de Weimar às mulheres arianas do Terceiro 57 HOBSBAWM, Eric. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. 58 CALHOUN, Craig. O nacionalismo importa. In: Nacionalismo no Novo Mundo. A formação dos Estados-Nação no século XIX. Rio de Janeiro: Record, 2008. 45 Reich, demonstrando as qualidades e os defeitos de tais grupos. Enquanto as mulheres nazistas são celebradas como “belas” e “saudáveis”, as mulheres de Weimar são apresentadas com adjetivos depreciativos, sendo descritas como “nojentas”. Figura 6: Imagem presente em edição de 1940 da NS-Frauen Warte. A contraposição entre a mulher de Weimar e a mulher nazista é feita, e estes papéis são definidos a partir de uma inversão um do outro, como se estas mulheres nada pudessem ter em comum. A mulher nazista só pode continuar existindo, afinal, na ausência da presença degeneradora trazida pelo espectro da modernidade da mulher de Weimar. Na imagem, podemos ver a exaltação de uma beleza “clássica” e “natural”, marcas da visãonazista sobre a mulher. As mulheres vistas como belas e saudáveis têm seus rostos sem maquiagem, suas fotos exibem tal naturalidade que as fazem parecer ter sido surpreendidas pelo fotógrafo. Em outra imagem, vemos danças e vestimentas tradicionais, 46 nos levando a pensar no resgate cultural que o nazismo se propunha a fazer, enquanto a última foto tem uma fila de mulheres correndo, exercitando seus corpos e mostrando sua habilidade física. É um contraste significativo com as mulheres representadas na página ao lado. As mulheres de quem as nazistas deveriam se distanciar têm seus rostos maquiados, cabelos feitos e feições sedutoras. Com pouca roupa, por vezes seminuas, estas mulheres representam não só a degeneração a que eram associadas, mas a forma como esta se faz tão sedutora, procura se tornar atraente e fazer com que se desvie do caminho germânico. Não deixa de se fazer perceber também sua associação com a música e as artes modernas. Tudo nesta mulher é uma ruptura com os valores do povo alemão, e uma ruptura que poderia fazer-se atraente, mas a qual não se poderia sucumbir. A presença desta imagem na revista feminina do partido nos demonstra não só a necessidade de definir o papel e as qualidades de uma mulher ariana, mas também a de colocá-la em oposição a outras características, a orientar a imagem nazista através da sua oposição ao que degenera. A “moderna mulher de Weimar” era não só a imagem de uma mulher; era uma ameaça. Esta mulher e suas práticas sendo tão fundamentalmente opostas à boa e digna mulher nazista, eram uma ameaça à Volksgemeischaft, e, portanto, incompatíveis com o regime nazista, devendo ser eliminadas. Esta mulher de Weimar, descrita mesmo em sua época como moderna, ligada às novas tendências da arte, à transgressão dos padrões de gênero, das normas sexuais, politicamente59, geralmente de tendência liberal, socialista ou comunista60, representava um 59 Para as observações quanto à associação das mulheres de Weimar com a participação política, ver STEPHENSON, Jill. Women in Nazi Society. Routledge, 2012; WALLE, Marianne. As berlinenses e seus combates. In: RICHARD, Lionel, ed. Berlim, 1919-1933: a encarnação extrema da modernidade. Zahar, p. 94, 1993; GEARY, Dick. European labour politics from 1900 to the depression. Macmillan International Higher Education, 1991. 47 risco à ideia nazista do lugar que cabia à mulher, sendo assim um perigo também para o povo alemão em si. Os nazistas, em crescente poder, viam a mulher de Weimar como uma mulher que havia tomado para si um lugar que pertencia ao homem. Era uma mulher fora de seu lugar e que impedia o homem de ocupar seu lugar natural. O homem, enfraquecido pela degeneração da modernidade, não podia tomá-lo de volta61. Em seu livro The Nazi Conscience62, Claudia Koonz relaciona o nascimento de uma consciência nacional e racial alemã a uma conexão do nacionalismo alemão com ideias evolucionistas. É esta conexão que, como explorado anteriormente, alimentava o medo, presente na sociedade alemã que se formava, de que seus valores e modo de vida - e com isso o próprio povo - estivessem ameaçados, a caminho da extinção. Assim, a “consciência nazista” analisada por Koonz fazia uso de tal medo, desta ameaça constante. Isto permitia que a ideologia nazista buscasse preservar o povo e seu coletivo Weltanschauung63, a todo custo. Esta ideia, expressa no conceito de Volksgemeinshaft, exigia dos alemães toda sua dedicação e imprimia neles a necessidade de um “sacrifício pessoal e esforço coletivo”, como coloca Koonz. O Volksgeimeinschaft não era somente sobre quem havia nascido na Alemanha. Estava baseado em uma ideia de um povo/comunidade compartilhando uma cultura e uma origem étnica vista como a verdadeira essência da germanidade, e dispostos a sacrificar-se para defendê-las. Também para Arno Mayer e Norbert Elias esta conexão se mostra presente. Ambos afirmam, como explorado 60 Todas as três ideologias poderiam, como afirma Jill Stephenson, ser vistos pelos nazistas como “bolchevismo”. Para esta autora, a categoria de “bolchevismo” era definida de forma muito ampla e flexível, podendo conter uma grande gama de ideologias de caráter progressista. 61 Também as fontes investigadas corroboram esta ideia, associando repetidamente (GÜNTHER, 1934; SCHREIBER, 1940; HABMANN, 1943) o homem alemão à ideia do bravo soldado no front. A força do homem, sua masculinidade, estão intimamente ligadas a uma adesão aos valores tradicionais, aos papéis de gênero a que se esperava que ocopasse. 62 CLAUDIA KOONZ. The Nazi Conscience. Harvard University Press, 2003. 63 Weltanschauung sendo aqui definido como a cosmovisão de um grupo, que englobava os valores, ideias e concepções de mundo em uma só lógica. 48 no primeiro capítulo, a importância das teorias e ideias de Darwin e Nietzsche no período. Os autores apontam para as popularidades das obras citadas como uma das chaves para que se possa compreender a transformação ideológica na Alemanha do final do século XIX. Uma das essências do darwinismo social a alimentar o nacionalismo alemão era justamente a ideia de que a humanidade existia em luta permanente. Esta luta permanente levaria, final e invariavelmente, à extinção de um dos grupos em conflito. Desta forma, toda tentativa de conservação e proteção de seu próprio modo de vida implicaria, portanto, em colocar-se em ativa oposição às outras formas de vida presentes. Isto porque estas formas diferentes não seriam simplesmente alternativas, mas sim inimigos à espreita, esperando e ativamente engajados na luta para defender seus próprios modos de viver. Outras culturas se tornavam, imediatamente, antagonistas do Volk na luta permanente em que se encontrava a humanidade64. Estes diferentes valores ou mesmo qualquer questionamento dos valores relacionados à Volksgemeinschaft eram tributários de tal mentalidade darwinista. Aqueles que representavam qualquer ruptura com os valores que sustentavam a comunidade racial alemã eram inimigos a ser vencidos, ameaças à sobrevivência do povo alemão. Assim, se o que pertence ao povo é imediatamente bom, saudável, imbuído de um valor intrínseco, tudo aquilo que a isto se opunha era, portanto, ruim, destrutivo, degenerado. A degeneração presente no que é diferente passa a ser associada à modernidade em si. Em sua análise da atuação do Kampfbund für deutsche Kultur [Liga de Combate para a Cultura Alemã]65 na República de Weimar, Alan Steinweis aponta para os efeitos de tal pensamento no que diz respeito às artes: 64 MAYER, Arno J. A força da tradição. Companhia das letras, 1987. 65 Criado em 1928 por Alfred Rosenberg, o Kampfbund für deutsche Kultur (KfdK) foi uma liga de caráter antissemita e nazista, resente nos últimos anos da República de Weimar e no Terceiro Reich. A função declarada do KfdK era assegurar-se da continuidade da cultura e valores alemães, querendo com isso dizer os valores a que seus membros se subscreviam. 49 O conflito entre tradição e experimentação na cena artística refletia as profundas divisões sociais e ideológicas da Alemanha de Weimar. O nascimento do modernismo artístico depois da Primeira Guerra Mundial havia coincidido com uma profunda mudança nas relações sociais e estruturas econômicas que haviam prevalecido antes da guerra. Assim, para muitos alemães, o modernismo artístico exacerbava uma desorientação essencial. Acreditando que a função da arte seria trazer a felicidade e paz de espírito através da ênfase na beleza e no heroísmo, os críticos do modernismo condenavam as formas de arte que haviam sido concebidas como maneiras de explorar novas perspectivas sobre a realidade e por focar nos defeitos da sociedade. Eles acreditavam que a Alemanha havia perdido seus valores tradicionais, e que a nova arte funcionava como uma força crítica e corrosiva, promovendo o desfazer da fábrica da sociedade ao questionar a legitimidade das atitudes e instituições prevalentes.66 A reação ao modernismo, observada pelo autorcomo opinião de “muitos alemães”, demonstra a tensão criada pela essência darwinista do nacionalismo alemão no período. O surgimento do modernismo alemão, enquanto tendência artística, não gerou apenas um desconforto aos que identificavam os modos de vida tradicionais com a essência de seu povo. Gerou, mais especificamente, uma repulsão advinda da crença de que o objetivo do modernismo era o de erodir os fundamentos da sociedade, de acabar com os valores que sustentavam o povo alemão. A esta, Steinweis nomeia “ansiedade cultural”. Para o autor, esta estava presente, em diferentes formas, entre múltiplos grupos em todo o espectro político: Na extrema direita, [a ansiedade cultural] frequentemente assumia a forma de teoria da conspiração: era dito que a ameaça à cultura alemã tradicional emanava de uma rede de movimentos artísticos e culturais racialmente, espiritualmente e até financeiramente interconectados, liderados por judeus e marxistas, promovido por feministas, e muito visivelmente simbolizado pela visibilidade crescente de negros no meio artístico.67 Assim, estes grupos ligados a ideologias como o nazismo - a exemplo do próprio KfdK, viam interligados, conectados pelo degenerado modernismo, os grupos a que consideravam 66 STEINWEIS, Alan E. Weimar culture and the rise of National Socialism: The Kampfbund für deutsche Kultur. Central European History, v. 24, n. 4, p. 402-423, 1991. O trecho apresentado é uma tradução minha. 67 Op cit; Tradução minha. 50 uma ameaça não só a seu projeto de nação, mas a sua ideia do que consistia o povo alemão em si. Ver avançar os projetos nazistas para a nação alemã não era uma questão de simples política, mas de sobrevivência. Tudo que não o sucesso significaria a morte de tudo a que se relacionavam, e, portanto, à sua própria morte. Para Elias, é significativo também que esta popularidade do nacionalismo venha justamente a, de certa forma, substituir a ideia de progresso. O autor explica esta ascensão nacionalista ao apontar que esta não significa só o aumento de popularidade de uma ideia, mas sim a de uma visão de mundo, de um projeto de futuro. Enquanto a ideia de progresso iluminava o horizonte buscado pelos liberais até aquele momento, o nacionalismo passou a ocupar tal espaço, colocando como objetivo a manutenção da sociedade - e aos valores - a que se relacionava. A projeção de um futuro tão ligado à constante defesa de um povo significou, também, a transição para um foco na coletividade, em detrimento do individualismo representado pelo liberalismo. Esta coletividade, porém, repousa sobre a valorização da identidade do povo alemão, do Volksgemeinschaft, a que cada indivíduo se associava - ou não - por virtude de seu nascimento e manutenção dos valores que o sustentavam. Desta forma, era uma coletividade que não estava, necessariamente, distinta do indivíduo. O indivíduo não só faz parte do povo, ele é este povo, em sua essência68. Tal identificação profunda com a coletividade denominada “povo” levava a interpretações pessoais do que ocorria com a nação. Assim, a ideia de uma nação em conflito com outra deixava o campo estritamente político e passava a ter delimitações pessoais. Estas interpretações pessoais acabam por acirrar ainda mais as tensões já existentes no período. Aquele que luta contra minha nação não é só um rival com interesses 68 ELIAS, Norbert. Op cit., p. 142. 51 conflitantes. Ele é meu inimigo e seu sucesso significa minha aniquilação. Isso porque as ameaças à cultura do povo - e, portanto, aos alicerces que sustentam sua existência - passaram a ser vistas como ameaças diretas à existência do próprio indivíduo que fazia parte desta coletividade, visto que coletividade e indivíduo eram um só. A força de um grupo dependia, portanto, das normas, ideias e características que os uniam, transformando-os em um povo forte, valoroso. Tal dependência implica então uma exclusão de tudo aquilo que pode fazê-los diferentes, de tudo que vai contra as bases da coletividade. Desta forma, os desvios da norma eram vistos e julgados a partir de uma potencialidade degeneradora, ou seja, da possibilidade de que pudesse agir para comprometer a unidade do povo, o que acabaria em seu fim. Podemos observar este medo em situações como a descrita por Friedrich Würzbach - filósofo alemão e estudioso de Nietzsche - em seu artigo na NS Frauen Warte. Buscando defender e apontar a importância da perpetuação do povo e do Volksgeimeinschaft, ele fala de seu encontro com o acadêmico e filósofo judeu Edmund Husserl, na Universidade de Freiburg, ainda nos anos 192069. Cerca de doze anos atrás, os alunos de Freiburg me chamaram para dar uma palestra. O professor judeu Edmund Husserl havia fundado uma grande e influente escola na Universidade de Freiburg. Eu falei contra ele, contra sua insolente e arrogante intelectualidade, contra aquele aleijado que odiava o pensamento e o sentimento claro e correto de seus estudantes, que queria deseducá-los e aleijá-los. A frase de Nietzsche é provada aqui: “o jovem perdeu seu lar e duvida de toda a moralidade, todas as ideias.” Uma vez que os oponentes covardes não queriam discutir, eu tentei alertar o Ministro da Educação para tal perigo para nossa juventude. Riram de mim, me disseram que não era tão ruim assim. Eu estava desesperado, pois não sabia que preparávamos algo que seria, em tempo, vitorioso, e isto graças a alguns de meus ouvintes que haviam aprendido com minhas palavras e se juntaram ao movimento, justificado este período de desesperada luta. Eu não sabia ainda nada sobre Nacional-Socialismo. Nietzsche era meu líder. Ele, apesar de tudo, representa aquilo 69 É interessante notar que Würzbach era um acadêmico que se dedicava ao estudo da obra de Nietzsche. De modo geral, um autor incomum para os moldes da revista. Ainda assim, o conteúdo de seu artigo ecoa os sentimentos encontrados em outras, menos acadêmicas ou eruditas, páginas da NS-FW. Em seu artigo podemos não apenas ver o medo trazido pelas “degenerações”, como também as formas em que leituras de Nietzsche foram instrumentalizadas para o propósito de reforçar noções previamente concebidas. 52 pelo que lutamos hoje: uma grande melhora em corpo e espírito, e um ódio àqueles aleijados intelectuais que traem a vida e que, estando eles próprios afundando, querem nos levar consigo.70 Para Würzbach, a influência - que via como indevida - do judeu Husserl sobre seus estudantes, sobre aquela parcela da juventude alemã, era não só preocupante, mas potencialmente catastrófica. Na visão de Würzbach, a juventude, que carregava consigo o potencial de assegurar a continuidade do povo, estava em perigo, tendo seus valores corrompidos pela interação com as ideias modernas de Husserl, a quem descrevia principalmente por seu judaísmo e uma suposta deficiência. Husserl iria, anos mais tarde, ter os direitos, que lhe asseguravam o cargo de professor universitário suprimidos sob as então novas leis raciais alemãs. É evidente no texto que a oposição de Würbach a Husserl não era uma discordância simplesmente acadêmica quanto às conclusões atingidas por um colega, mas sim uma profunda aversão à existência destas ideias contrastantes. Würbach via a popularidade de Husserl na Universidade de Freiburg como uma grande ameaça aos valores que, supunha, haviam sido incutidos naqueles estudantes por suas famílias, por sua formação na sociedade alemã. O contato destes jovens, figuras-chave para a perpetuação da essência da cultura alemã, com ideias modernas a florescer em sua universidade, poderia ter neles um impacto tão fundamental que chegaria a “aleijá-los”, conforme suas palavras. Para Eleanor Hancock, que estuda Ernst Röhm, importante figura no período de ascensão do nazismo, sendo também conhecido por sua homossexualidade71, “o Nacional-Socialismo tem raízes nas ‘virtudes masculinas’ do front”. Ou seja, que a adesão 70 WÜRZBACH, Friedrich. Von Geist der Rasse, NS Frauen Warte, v. 20, 1938, p. 625. Traduçãopara português é minha. 71 HANCOCK, Eleanor. "Only the Real, the True, the Masculine Held Its Value": Ernst Röhm, Masculinity, and Male Homosexuality. Journal of the History of Sexuality, p. 616-641, 1998. 53 da sociedade nazista aos papéis dados a seus gêneros, nas definições de feminilidade e masculinidade, era extremamente importante para como sustentavam seu regime. São estas também parte da essência única do Volksgemeinschaft. A solução para a degeneração social da modernidade era, para eles, a valorização e o resgate das originais características do homem alemão, que o remetiam a um passado germânico glorioso. Deste resgate nasceriam os “novos” homens e mulheres nazistas. Só a busca e então a vitória para trazer de volta este passado glorioso poderia fortalecer o homem germânico, dando a ele novamente a chance de ocupar o lugar que lhe cabia, e fazendo então com que a mulher pudesse voltar a sua função “natural”. O sucesso nesta incansável busca, portanto, viria libertar a mulher alemã, não aprisioná-la. Para a mulher nazista, a verdadeira prisão era estar fora de suas funções, habitando lugares aos que não pertencia, tomando para si responsabilidades que, outrora, couberam aos homens. A chance de não mais fazê-lo era apresentada como positiva. O alívio do fim da luta contra sua própria natureza e suas funções para com seu povo. II. II COMO VIVE A “NOVA MULHER”? IDEALIZAÇÕES E NOSTALGIA NA IMAGEM DEWEIMAR Em meio a um cenário de crise econômica e fragilidade das instituições políticas, a República de Weimar vê ascender em seu seio o nazismo. Com este, surge também uma definição do papel da mulher na sociedade que se apresenta e se constrói em oposição ao que fica conhecido como o papel da “moderna mulher de Weimar”. Mas até que ponto este ideal representa a forma como as mulheres alemãs viviam em tal período? 54 A menção à República de Weimar suscita imagens de modernidade, uma vibrante vida artística, ideais progressistas e de uma mulher que conta, como define Barbara Kostas em seu artigo Cigarettes, Advertising and the Weimar Republic’s Modern Woman72, com “um ar de liberação, erotismo, autoafirmação e independência”. Como explicar, portanto, que esta mulher independente e liberada que marcaria este período seria, em poucos anos, substituída pela mulher nazista, a “mãe do Reich”? 72 FINNEY, Gail (Ed.). Visual culture in twentieth-century Germany: text as spectacle. Indiana University Press, 2006. 55 Figura 7: Capa do Illustrierte Zeitung, de Berlim, comemora o início do ano de 1926. Capa traz a imagem da “moderna mulher de Weimar”. Como visto na capa desta edição do Berliner Illustrierte Zeitung [Jornal Ilustrado berlinense] dos anos 1920, a mulher que simbolizou seu tempo era uma mulher vista como livre, adepta das diversões noturnas que a Alemanha de Weimar tinha a oferecer. De 56 cabelos curtos e sempre a dançar, a mulher de Weimar aproveitava seu mundo e não estava contida ao lar. Enquanto isso, em discurso à Liga das Mulheres Nazistas, em 1934, Adolf Hitler define o núcleo familiar, a vida doméstica, como sendo pertencentes ao “universo das mulheres”. Esta associação não era incomum. Pelo contrário, demonstra o tom da ideia nazista do lugar a que pertencia a mulher. Boa parte da historiografia do período não se preocupa em entender o que levaria a moderna mulher de Weimar a não só aceitar, mas por vezes mesmo abraçar este lugar visto mesmo por críticos da época como um local subalternizado em relação ao homem. Em “German Women and the Triumph of Hitler”, Richard Evans reflete sobre a tendência historiográfica de relegar o engajamento político das mulheres que se alinharam ao nazismo a uma dita irracionalidade. As primeiras análises identificam esta posição das mulheres nazistas como um grande paradoxo73. Por que razão, afinal, utilizariam estas mulheres seu tão novo direito à participação política para dar poder a um grupo que, assumidamente, as colocava fora desta esfera? Desta forma, só poderia a participação feminina ser explicada, segundo tais análises, pela irracionalidade, ou até mesmo por sentimentos de paixão que algumas destas mulheres nutririam, na avaliação destes analistas, pelo próprio Adolf Hitler74. Isso porque, para muitos, um alinhamento feminino ao nazismo parecia ser uma aceitação de uma inferiorização a que, em tese, estas mulheres não estariam submetidas em Weimar. Mais que isso, seria abrir mão, alegre e entusiasmadamente, de sua liberdade. Existem muitas diferentes suposições embutidas nestas análises. A primeira delas diz respeito à condição das mulheres em Weimar. No geral, a ideia do período de Weimar como grande símbolo da libertação e modernidade vem carregada, como apontam Gerhard 73 EVANS, Richard J. Feminism and Female Emancipation in Germany 1870–1945: Sources, Methods, and Problems of Research. Central European History, v. 9, n. 4, p. 323-351, 1976. 74 Op. cit. pg 215-216. 57 Brunn e Detlef Briesen em “Um arquipélago hierarquizado”, de uma nostalgia presente nos relatos pós-1945. O trauma da guerra e do impacto causado pelo regime nazista faziam com que se olhasse para o período da República de Weimar com lentes demasiadamente positivas e romantizadas75. O artigo, que centra sua análise na cidade de Berlim, a cidade que fica conhecida como o símbolo da modernidade de Weimar, demonstra a segregação não só social como econômica, presente na cidade. O berlinense que se tornou marca daquela época pode ser o moderno, liberado cidadão que se divertia nas noites movimentadas dos novos e escandalosos bares da cidade, mas este não era, de forma alguma, representativo da realidade da maioria dos habitantes de Berlim. A condição das mulheres também é representativa desta diferença entre o ideal da modernidade de Weimar e o dia a dia dos cidadãos da República. Em 1919, as mulheres alemãs adquiriram o direito ao voto e a serem eleitas - como muitas de fato o foram - tornando a República de Weimar em uma das pioneiras mundiais na questão do sufrágio feminino, sendo esta uma das principais marcas do discurso sobre o período. Mas a mulher fazia parte do discurso político da época, não só pelo ainda recente direito ao voto, quanto como o próprio objeto dos debates entre as diversas correntes políticas da época. Neste sentido, é justamente a mulher como mãe o centro do debate. Em seu artigo sobre as representações políticas da maternidade no período de Weimar, Michelle Vangen76 aponta para a presença significativa de questões socioeconômicas nestas representações, que demonstravam o caráter das disputas entre as diversas correntes e tendências políticas da República de Weimar. 75 BRUNN, Gerhard; BRIESEN, Detlef. Um arquipélago hierarquizado. In: RICHARD, Lionel (org.) Berlin, 1919-1933: a encarnação extrema da modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. 76 VANGEN, Michelle. Left and right: politics and images of motherhood in Weimar Germany. In: Woman's art journal, v. 30, n. 2, p. 25-30, 2009. 58 Figura 8: Cartaz do NSDAP chama as mulheres a votarem em Hitler. Para tal, são ressaltados os problemas com o desemprego entre os homens e a desolação quanto ao futuro das crianças. As mulheres eram chamadas ao voto através do apelo à família. No alto, o pôster afirma “Milhões de homens sem emprego. Milhões de crianças sem futuro”, completando com um chamado que lê: “Mulheres! Salvem a família alemã! Votem Adolf Hitler!” As tradições de esquerda tendiam a chamar a atenção, por exemplo, para as mães pobres de Weimar, geralmente pintadas com os corpos magros, olhares cansados e os filhos nos braços. Já nestas representações podemos ver um contraste com a visão da “mulher de Weimar”, dançando nas festas berlinenses até altas horas da noite. As mulheres da época, como aponta a autora, haviam não só recentemente conseguido o direito ao voto, como também adentrado em números significativos, devido à Primeira Guerra, ao mercado de trabalho, colocando em debate a ideia deque o papel da mulher seria no lar. Isso não 59 significava, porém, que todas estas mulheres vissem tais mudanças como necessariamente libertadoras. A propaganda do NSDAP, por exemplo, apelava a outra prioridade de sua audiência. Como podemos ver no cartaz (figura 8) apresentado, a mulher é chamada a votar em Hitler via apelo à função materna e de esposa. Na imagem, a mulher tem posição central e encara diretamente quem a observa. A mulher não só é o público, mas também locutora. A mulher retratada fala diretamente a seus pares e os chama a um propósito com que também compartilha, o de preservar sua família, que a rodeia com rostos derrotados, entristecidos. Enquanto a historiografia acerca das mulheres no período nazista tem se expandido um pouco nas últimas décadas, a questão do suporte feminino ao nazismo, suas razões e formas, ainda continua em grande parte ignorada. É para contribuir no entendimento dessas mulheres que esta dissertação procura fazer uma análise da condição feminina durante o período da República de Weimar, refletindo sobre as rupturas e continuidades com relação à posição assumida pelas mulheres sob o regime nazista. II.III A MULHER ALEMÃ E SUA LIBERDADE A República de Weimar é um período bastante conturbado, seja pelas crises econômicas do entre guerras, pela tensa atmosfera política ou pelos debates trazidos à tona pelas mudanças culturais do período. Entre estes, central para o nosso estudo é a questão feminina. O período imediatamente antecedente à ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha conta com um número crescente de mulheres participando ativamente do mercado de trabalho e da vida política do país. A ausência dos homens, causada pela Primeira Guerra Mundial, deixa um vácuo no mercado que passa a ser preenchido por mulheres que antes não trabalhavam formalmente. Nesta época podemos também observar um significativo número de movimentos ligados aos direitos das mulheres, em especial à pauta do direito reprodutivo77. Como entender, portanto, que as mulheres que nos anos 1920 viviam uma realidade progressista, 77 Sobre isso, ver: KOONZ, Claudia. Mothers in the fatherland: Women, the family and Nazi politics. Routledge, 2013; STEPHENSON, Jill. Women in Nazi society. Routledge, 2012; WALLE, Marianne. As berlinenses e seus combates. In: RICHARD, Lionel, ed. Berlim, 1919-1933: a encarnação extrema da modernidade. Zahar, p. 94, 1993; 60 mesmo que muitas não fossem particularmente politicamente ativas, passassem, em poucos anos, a não só aceitar como ativamente construir um regime que reservava a elas caber apenas o mundo doméstico, a função materna? Figura 9: Arte para o Dia das Mulheres de 1913, clamando pelos direitos das mulheres; “Às mulheres seu direito”. O movimento só viria a crescer sob a República de Weimar. Enquanto uma visão superficial de Weimar, carregada dos nostálgicos relatos do pós-Guerra, pode de fato reforçar a ideia de que as mulheres que se alinhavam ao nazismo estavam trocando voluntariamente a liberdade de Weimar pela repressão feminina sob o nazismo, uma análise mais aprofundada demonstra que a situação era mais complexa. Entre 61 as opositoras políticas, principalmente entre as mulheres do KPD [Partido Comunista da Alemanha] e do SPD [Partido Social-Democrata da Alemanha], as ideias do nazismo representavam uma ameaça clara, mas mesmo entre mulheres, que não eram ativas politicamente, havia a percepção de que a ascensão do nazismo ao poder poderia, sim, representar uma regressão no que diz respeito a seus direitos e seu lugar na estrutura da sociedade. A historiadora Katja Kosubek, em "Genauso konsequent sozialistisch wie national": alte Kämpferinnen der NSDAP vor 1933 [Tão socialista quanto nacional: antigas guerreiras do NSDAP pré-1933], analisa cartas que mulheres nazistas haviam enviado, em 1934, a um falso concurso criado pelo sociólogo americano Theodore Abel. O tema do “concurso” era “Por que me juntei ao NSDAP antes de 1933?” De posse de tais documentos, que incluíam cartas de mulheres entre 17 e 73 anos de idade, Kosubek destaca a forma como estas mulheres não só se envolveram com o partido por estarem conectadas aos homens do NSDAP, mas que muitas defendiam com convicção os ideais nazistas. Estas se mostraram, no decorrer dos anos 1930, muito importantes para a ascensão do NDSAP, trazendo muitos eleitores; principalmente outras mulheres. Com seu suporte e suas redes de influência, consequência do convívio próximo com outras famílias em seus arredores, elas tinham grande poder de alcançar audiências a que, muitas vezes, os homens não teriam tão amplo acesso. Mas até entre as mulheres que estavam dentro da estrutura do NSDAP havia dissenso sobre o local que o partido destinava a elas. Enquanto estas mulheres não formavam um grupo coeso ou numericamente significativo, sua presença foi mesmo assim notada. Isto porque estas se posicionavam abertamente contra algumas determinações e posições oficiais do partido, disputando internamente a validade de tais posições, e muitas 62 vezes tendo seus pontos de vista publicados em publicações oficiais do partido nazista, como demonstra Leila Rupp78. A existência e a atividade destas mulheres demonstram, para a autora, a flexibilidade exibida nos próprios valores nazistas, explorada pelos órgãos oficiais do regime conforme o esforço de guerra passa a necessitar da participação feminina. Pode-se dizer também que demonstra a agência com a qual estas mulheres contavam. Independentemente de como seu posicionamento fosse visto ou as consequências deste para as políticas a que se ateria o NSDAP, podemos ver que muitas das mulheres nazistas se viam como participantes ativas na construção do programa do partido, não se considerando excluídas de seu papel como agente ativo que expressa opiniões destoantes e até impopulares. Estas mulheres organizavam festas e eventos com a intenção de convencer novos possíveis eleitores – e eleitoras, em particular -, se dedicavam a trabalhos manuais de confecção de faixas e broches de campanha. Em suma, tinham ativa participação na construção política da ascensão do nazismo. Não só isso, como também mostra que a relação destas mulheres com o regime ia além da aceitação de um papel subalterno. Pelo contrário, muitas das mulheres nazistas defenderam em suas publicações que a igualdade entre homens e mulheres era parte integrante e fundamental dos princípios nazistas. Mas como enxergar igualdade quando o próprio Hitler defende que o mundo da mulher é “seu marido, sua família, seus filhos e seu lar”79, enquanto ao homem cabe o cenário político, o comando do Estado? Se estas mulheres fazem, efetivamente, parte do esforço político, como entender aquele como um plano masculino, de que devem se distanciar? É relevante, neste sentido, apontar a forma como os nazistas se opõem ao que chamam “bolchevismo”. Dra. Adele Petmecky aparece como autora de forma frequente, e grande parte de seus artigos tem por objetivo fazer uma análise nazista da URSS. De sua autoria é o editorial da terceira edição do biênio 1941/1942, em que se dedica às condições das mulheres na União Soviética, passando pelas questões da família e da juventude80. Mas 78 RUPP, 1977:364-367. 79 Trecho do discurso proferido por Adolf Hitler à Nazionalsozialistische Frauenschaft, à Liga das Mulheres Nacional-Socialistas, em 1934. Disponível em: NOAKES, Jeremy e PRIDHAM, Geoffrey, eds., Nazism, 1919-1945, Vol. 2: State, Economy and Society 1933-1939. Exeter: University of Exeter Press, 2000, pp. 255-56. A tradução aqui presente é minha. 80 PETMECKY, Adele. Die Frau im lebensfeindlichen "Sowjetparadies". [A mulher no hostil paraíso soviético]. In: NS FrauenWarte, v. 3, 1941. 63 não só nestes artigos especificamente conectados à URSS este tema se faz presente. Principalmente a partir de 1940, comentários aparecem nos mais diversos artigos. Erna Günther, em “Wir Frauen im Kampf für Deutschlands Erneuerung” [Nós mulheres na lutapela renovação da Alemanha]81, contrapõe a união racial do nazismo às ideias marxistas. Para os nazistas, se trata de colocar o povo contra si mesmo, quebrando a unidade proveniente do Volksgemeinschaft. As mulheres silenciosamente fizeram seu dever. Mães esperaram ansiosamente por muitas noites pelo som de passos retornando. Muitas mulheres examinaram as ruas escuras de Berlim, procurando seu marido ou seu filho, que arriscava seu sangue e sua vida na luta contra a subumanidade. Muitos panfletos foram dobrados para que homens das SA pudessem deixá-los em caixas de correio. Muitas valiosas horas foram passadas em salas e cozinhas das SA. Dinheiro estava sempre sendo coletado. A nova fé era passada de boca em boca. Nenhum caminho era longo demais, nenhum serviço para o partido era pequeno demais. Às vezes parecia cansativo ou desnecessário, mas não aprendemos muito nessas horas? Não aprendemos a nos sentir parte do todo? Não descobrimos como o alemão ao nosso lado fala, pensa e sente? No dia a dia e em nossos trabalhos nós também conhecemos pessoas de diferentes círculos. Mas nós só descobrimos suas necessidades externas e seus desejos internos quando trabalhamos com eles lado a lado, quando nossos pensamentos estão unidos por um grande objetivo em comum. Naqueles anos, o objetivo era: “Poder a Hitler!”. Todos sabíamos que a garantia da renovação da Alemanha estava na personalidade de nosso Führer. Este objetivo foi alcançado. Um novo Estado alemão cresceu diante de nossos próprios olhos. Nós naturalmente fizemos esta pergunta: “Será que este Estado, construído por fortes mãos masculinas, tem algum espaço para nós mulheres?”. Não podemos dizer: “A vitória foi alcançada. Tempos de paz chegaram. Nossa ajuda não é mais necessária. Podemos parar de nos preocupar com nosso povo e nos preocupar somente conosco mesmas”. Se tivéssemos apenas servido a um partido, é exatamente o que poderíamos dizer. Mas não viramos Nacional-Socialistas porque a Alemanha estava em risco? É verdade que nós [mulheres] não temos assentos no parlamento, e que os homens agora recuperaram as posições que as mulheres haviam tomado por ambição farsante. Mesmo assim, o Estado Nacional-Socialista precisa da ajuda das mulheres mais ainda hoje do que precisou nos tempos de luta. Os homens podem ser os que cuidam das necessidades do nosso povo. O Estado pode nos dar leis que devolvem às mulheres seus deveres naturais. Mas vai depender das mulheres que estas leis sejam entendidas pelos mais diversos círculos do povo. Nossa tarefa é a de traduzi-las para o dia a dia.82 Apesar de reconhecer a importância do papel das mulheres para o partido, Erna Günther - uma mulher nazista que era ligada ao partido desde antes de sua ascensão - reitera 81 GÜNTHER, Erna, Wir Frauen im Kampf um Deutschlands Erneuerung, In: NS Frauen Warte, v. 17, 1934, p. 507. 82 GÜNTHER, Erna. Wir Frauen im Kampf um Deutschlands Erneuerung, in: NS-FrauenWarten, v.17, 1934. Tradução minha. 64 múltiplas vezes a centralidade da figura masculina, deixando claro ser aos homens a quem pertence a esfera política. Para ela, o trabalho que as mulheres haviam feito na busca pela ascensão do nazismo era um sacrifício para seu povo, algo que estava acima de suas preocupações consigo mesmas. A mera ideia de voltar suas preocupações para o indivíduo era vista com escárnio, como algo que uma mulher verdadeiramente nazista não faria, pois, as preocupações desta sempre haviam sido a Alemanha e seu povo. Assim, a autora defende o fim da presença feminina no parlamento, declarando como farsantes e, pior ainda, ambiciosas as mulheres que antes haviam nele ocupado alguma posição. Não, o lugar da mulher como agente política é o de traduzir para o dia a dia as normas feitas pelos que agora ocupavam o parlamento. Sua função era doméstica até neste sentido. Sendo assim, a questão da igualdade é entendida e embasada na noção de raça, da defesa do povo alemão83. A mulher e o homem seriam vistos não por terem os mesmos direitos ou deveres, ou até por serem iguais, mas porque o povo os tornava um, porque cada um em seu lugar executava funções distintas, mas que igualmente serviam para assegurar a continuidade do Reich. Ou seja, esta definição de liberdade funciona ancorada no nacionalismo alemão que, como propõe Elias, não distingue o indivíduo de sua coletividade. A mulher só era livre em seu sacrifício pela continuidade do povo, pois não fazê-lo significava a extinção deste e, por consequência, dela própria. Também assim, movimentos feministas ou explicitamente aliados com os direitos das mulheres e outras minorias são vistos como uma tentativa de sobrepor as necessidades individuais às do povo alemão em si, se mostrando assim um perigo à nação, uma forma de degeneração. As funções políticas de que as mulheres participavam mais ativamente eram constantemente associadas ou descritas através de suas características mais femininas. Desta 83 Povo alemão aí entendido como todo aquele que se encaixaria na definição nazista de “ariano”. 65 forma, era possível às mulheres nazistas participar dos movimentos políticos sem ver ou defender sua contribuição como essencialmente política. Era possível flexibilizar o discurso, por assim dizer, para que pudesse ao mesmo tempo possibilitar que a mulher nazista fosse agente de mudança política e também alguém que buscasse se desconectar de associações com o “mundo masculino”. Muitas das mulheres, ao se alinharem com o nazismo, porém, aponta Leila Rupp, utilizaram-se das retóricas pró-natalidade do Reich em favor de seus próprios direitos. Isto porque, mesmo entre os altos oficiais do partido, a questão da natalidade era de vital importância e foi utilizada tanto para defender quanto atacar a relação entre o Reich e as mulheres alemãs. Mesmo Adolf Hitler se pronunciou a respeito, em um discurso a uma organização feminina do NSDAP, em 1935. Neste discurso, o Führer enfatizou o papel central que a maternidade teria sob o Reich, fator fundamental para assegurar a continuada existência do Volk. Neste sentido, podemos entender a afirmação de Rupp de que “para os principais autores da época, a aceitação de esferas separadas não significava que as mulheres estavam restritas ao lar, mas que a maioria de sua influência na sociedade era exercida através da família, a célula-base da sociedade”84. Podemos observar esta forma de influência feminina desde antes da ascensão nazista. As mulheres recrutavam para o partido a partir de sua influência social exercida principalmente sobre outras mães. Executavam tarefas para o partido que, apesar de influenciarem significativamente, pareciam pequenas. Usavam de sua posição como mães para buscar o objetivo político do partido. Esta participação ativa poderia então ser entendida e vista como mais um dos lados da maternidade. Uma mãe, uma esposa, zelando pelo futuro de sua família e seu povo. 84 RUPP, 1977:362-379. 66 Não só isto, mas cabe também refletir até que ponto as medidas defendidas pelos nazistas significaram uma regressão real na situação da maioria das mulheres alemãs da época. Para Robert Gellately85, A maioria [das mulheres] não sentiu como se a Era Nazista (mesmo em comparação aos anos liberais de Weimar) como uma forma de ‘regressão’ aos anos sombrios de discriminação. A ‘relativa raridade de atos deliberados de resistência política’, sugere Frevert, pode ser entendida como significando ‘que mulheres que satisfaziam os critérios políticos, raciais e sociais – e a grande maioria o fazia – não percebeu o Terceiro Reich como um inferno para as mulheres. Muito do que foi introduzido foi sem dúvidas convidativo, e o resto aprendiam a aceitar. Uma mulher alemã da época, entrevistada pelo autor, afirma em seguida que oitenta por cento da população alemã86 que vivera sob o Reich havia vivido estes anos como uma experiência positiva. Esta não é uma afirmação nova ou de todo surpreendente. Para o alemão que se adequava aos ideais da Volksgemeischaft, e que não representasseuma ameaça política ou social direta ao Reich, a certa estabilização econômica experimentada pela Alemanha, após anos de graves crises87 certamente inspirava um sentimento de esperança e otimismo, impulsionando a mensagem do nazismo, e a confiança no potencial do regime, mesmo entre os que não compartilhavam exatamente de seus objetivos. 85 GELLATELY, 2002:3 86 Números não oficiais. Supõe-se que venham de uma estimativa da própria entrevistada. Mantidos aqui por representar a forma como a mesma enxergava a sociedade alemã da época. 87 OVERY, Richard J.War and economy in the Third Reich. Oxford University Press, 1994.Pg. 65. 67 III. IV AS CONDIÇÕES DA MULHER DE WEIMAR A ideia de que muitas das mulheres que viveram a transição entre República de Weimar e o Terceiro Reich pudessem não a ter visto como especialmente regressiva nos faz, portanto, refletir sobre a situação da mulher em Weimar. Se era o período de Weimar mesmo um momento de libertação feminina até então sem paralelos, como poderia a mulher nazista, a quem cabia não a política, o Estado, mas sim o lar e a maternidade, não significar uma ruptura? Enquanto a diferença entre o ideal ou o modelo de mulher que representou a República de Weimar e a mulher “mãe do Reich” defendida pelos nazistas é bastante diferente, as realidades materiais da vida de boa parte das mulheres da época não foram afetadas da mesma forma. A Alemanha de Weimar, como foi dito anteriormente, está circundada de um mito nostálgico que dá a este tempo uma imagem progressista e libertadora que, embora não completamente falsa, é demasiado simplista. No que diz respeito à vida da mulher em Weimar, Marianne Walle aponta para as questões econômicas que envolviam as vidas especialmente das mulheres de classe trabalhadora. A pesquisadora afirma, por exemplo, que as mulheres – que como vimos passaram, neste período, a ocupar mais postos no mercado de trabalho – tinham salários bem mais baixos do que suas contrapartes masculinas. Não só isso, mas suas longas jornadas de trabalho – geralmente chegando a dez horas – não paravam quando estas chegavam à casa. Pelo contrário, era esperado que a estas mulheres também coubesse o trabalho doméstico, que criassem os filhos e, em alguns casos, os irmãos mais novos. Assim, 68 não espanta a afirmação de Walle de que “muitas operárias, esgotadas pelo duplo fardo doméstico e profissional, veem então com alívio a possibilidade de ficar em casa”88. O retorno da mulher ao mundo doméstico somente era então visto por muitas destas mulheres como a real forma de liberdade. Afinal, a ideia de que fossem livres tendo um dia de trabalho formal seguido das incansáveis e intermináveis tarefas domésticas não era algo que guardava muito apelo. Como poderia ser livre sem nenhum tempo para si? Com altas jornadas e baixos salários? Mas havia, mesmo nos anos que antecedem a República de Weimar, muitas mulheres que viam a questão com outros olhos. A aprovação, pelo governo de Weimar, de um decreto permitindo a demissão em massa de mulheres, principalmente as das áreas industriais, gera um grande impacto em uma camada de mulheres que não só necessitava financeiramente de tal posto, mas que também via e utilizava seu local de trabalho como local de organização política. Brian Peterson ressalta que muitas destas mulheres haviam se envolvido, nos anos da Grande Guerra, em sindicatos e outros órgãos de luta por direitos trabalhistas, bem como os partidos em si – em especial o SPD e o KPD. Ou seja, a ação dos governantes de Weimar, retira parte das mulheres do trabalho - trabalho este da qual muitas precisavam para manter a si próprias e a suas famílias - como também de seu principal local de articulação política. O local de trabalho não era só um local servindo a um propósito prático, mas adquiria importância social, ampliando as redes de influências de muitas destas mulheres. Não só isso, mas a entrada destas mulheres no mercado de trabalho, sobretudo o industrial, significa um grande aumento na participação delas em greves e protestos, como a greve geral de janeiro de 1918. A participação das mulheres nos sindicatos era, como 88 WALLE, 1993:103 69 aponta Peterson, bastante significativa, de forma que em sindicatos como o da indústria têxtil se tornaram majoritariamente femininos, e tiveram um crescimento de cerca de 400% no período entre 1913 e 192189. Assim, o decreto do governo da República de Weimar acaba por efetivamente retirar de muitas mulheres seu potencial de participação política, em especial, como ressalta Peterson, das áreas que mais as teriam conduzido à radicalização e dado aos comunistas a maioria da representação em múltiplos sindicatos. Porém a queda em apoio por partidos de esquerda entre as mulheres, em especial aos mais radicais, como o KPD, não é somente resultado deste decreto. As condições econômicas da Alemanha, que no período de guerra e na crise de 1923 aproximam as mulheres da esquerda, também acabam significando um afastamento das posições mais radicalizadas conforme se estabilizam. Não só isso, mas, aponta Brian Peterson, o banimento do KPD em 1923 e seu subsequente isolamento e maior radicalização também seriam fatores que levariam as mulheres, que já na época tendiam a votar mais à direita que suas contrapartes masculinas, a se afastar dos partidos de esquerda. Isso não significa que as preocupações que as levaram a se engajar com tais partidos desaparecessem completamente ou que não pudessem retornar. Também observar a arte sendo produzida em Weimar nos ajuda a ver mais claramente como as mulheres, em especial as mulheres menos abastadas, de fato viviam. A representação da mãe como representante da sociedade em si é uma tradição artística que vê um certo ressurgimento no período da República de Weimar – e prossegue, com diferentes especificidades, sob o regime nazista –, sendo uma estratégia utilizada na época tanto por figuras das esquerdas quanto das direitas. 89 PETERSON, Brian. The politics of working-class women in the Weimar Republic. In: Central European History, v. 10, n. 2, p. 87-111, 1977. 70 Nas pinturas de artistas como o conhecido Otto Dix (figura 10), a mãe aparece geralmente com o filho no colo e um olhar e postura exaustos. Estas mulheres serviam como representações da profunda desigualdade presente na Alemanha de Weimar e demonstram que a vida agitada dos bares não alcançava de fato uma camada significativa das mulheres do país. A mulher de Weimar não é só a jovem de cabelos à la garçonne, mas também, e disso os nazistas souberam se aproveitar bem, a mãe que, cansada de suas muitas horas em seu emprego, chegava ao lar para manter-se trabalhando. Figura 10: Frau mit Kind, Otto Dix, 1921 71 Não só nesta questão podemos ver as diferenças entre a realidade de Weimar e o mito construído ao redor desta. A historiadora Katherine Rossy, ao falar desta questão, aponta que, Apesar da atitude aparentemente liberal da “Nova Mulher”, a Alemanha de Weimar não aceitava promiscuidade e sexualidade, como a cultura popular frequentemente sugere. O aborto foi descriminalizado em 1927 somente sob a condição de que só poderia ser realizado se a gravidez representasse um risco à saúde da mulher90. Weimar, apesar da aparência, e de fato de certos fatores que podem ser vistos como apelos à liberação, à modernidade, ainda carregava traços dos valores conservadores a que parte de sua população se atinha. A presença de uma rica cultura artística, de experimentação e novidades que pareciam bradar liberdade convivia com leis que nem sempre destoam das medidas que o Terceiro Reich viria a tomar, especialmente no que diz respeito às mulheres. Assim, podemos ver as raízes de muitas das medidas pró-natalidade que vão se intensificar sob o Reich já na República de Weimar. Enquanto a questão da participação da mulher no mercado de trabalho é vista também por muitos como marca da identidade progressista presente na República de Weimar, poucosmeses depois de as mulheres alemãs terem podido votar pela primeira vez, entra em vigor em Weimar, como já vimos, um decreto que efetivamente desmobiliza, ou torna permitido que o governo desmobilize, grande parte da mão de obra feminina91. Que estas medidas entrassem em vigor em um governo que se propunha progressivo e que aparece, na memória popular, como libertador das minorias, parece um tanto curioso. Mas mesmo entre os socialistas na época, a questão dos direitos das mulheres parecia secundária. Neste sentido, Claudia Koonz cita a fala de uma mulher socialista, membro de partido e que 90 ROSSY, Katherine M. Politicizing Pronatalism: Exploring the Nazi Ideology of Women through the Lens of Visual Propaganda, 1933-1939. The Graduate History Review, v. 3, n. 1, 2011. Pg. 57; 91 WALLE, 1993:94 72 ocupava um cargo político em Weimar: Os homens estão satisfeitos se não pedirmos nem um pouco de seu tempo. Nas reuniões eles debatem por horas sobre os assuntos mais triviais. Mas se queremos discutir nossas preocupações, o tempo rapidamente acaba, e os camaradas têm que voltar para casa92. É possível que, apesar de não completamente infundada, a ideia de Weimar como um brilhante universo em busca da diversidade e igualdade tenha mais a ver com nossos olhos e nossas preocupações ao olhar para o passado do que com as preocupações de seus contemporâneos. É importante lembrar, por exemplo, que enquanto a figura da mulher-mãe aparece de forma constante em panfletos e na arte ligada às esquerdas na época, esta aparecia mais como forma de representar a sociedade por inteiro. Ela era símbolo da desigualdade social sofrida pelos trabalhadores em geral. Michelle Vangen esclarece que “ainda que ambas as obras [as duas pinturas que Otto Dix intitula “Mutter mit Kind”] tomem a maternidade como tema, o grande tópico sendo discutido é um exame crítico da desigualdade econômica sofrida por muitos durante os anos de Weimar”93. Pode-se supor, como o claro desconforto da mulher citada sugere, que a questão causava incômodo entre as mulheres do SPD e do KPD. A ideia da mãe tinha, para diversos grupos, por vezes antagonistas uns dos outros, um potencial universalizante. O ideal da mulher de Weimar, apesar de sua distância das realidades materiais de muitas das mulheres, tem mesmo assim seu impacto e serve, como explica Jill Stephenson94, uma impressão de que as mulheres alemãs da época se encontrassem em uma posição vantajosa com relação às outras europeias. Não só isso, mas a presença e força que ganha 92 KOONZ, 2013:70 93 Tradução minha. 94 STEPHENSON, Jill.Women in Nazi society. Routledge, 2012. Pg. 3-4. 73 este ideal também alimenta a oposição nazista, que o coloca como sinal da degeneração feminina dos valores alemães e, assim, significando um perigo ao povo alemão. Esta idealização, porém, não representa a totalidade nem ao menos a maioria das mulheres do período, criando nas mulheres que não se viam contempladas por ele uma sensação de não-pertencimento que, em alguns casos, as aproximou das ideias nazistas. O fato desta figura específica da mulher de Weimar ser conectada imediatamente aos movimentos de luta pelos direitos das mulheres pode ser observado, por exemplo, nas falas de Gertrud Scholtz-Klink. Conhecida líder da Liga das Mulheres Nacional Socialistas, Scholtz-Klink via o feminismo como uma expressão da degeneração destas mulheres, associando-o a um potencial fim da civilização alemã. Era para ela, como muitas das outras características associadas à “mulher de Weimar”, uma aberração anti-alemã. Esta mulher, de forte liderança política entre as outras mulheres do partido e que contava, pode-se argumentar, com uma influência maior do que muitos dos militantes homens do NSDAP, não via este papel como relacionado à luta feminista, por exemplo, nem mesmo tangencialmente. A essência racial da ideologia nazista, que buscava acima de tudo a preservação do Volksgemeinshaft, implicava na sua purificação, liberando-o do que lhes fora imposto através dos tempos, retornando o povo ao seu estado “natural”. Desta forma, assim como a ideologia nazista propunha a criação de um “novo homem nazista”, também isso cabia às mulheres. A “nova mulher” nazista seria a mulher em seu estado mais essencial, livre das influências “degeneradas” que se haviam se acumulado sobre a “mulher de Weimar”. Assim, o nazismo se propunha à real força pela liberação das mulheres. Eram as degenerações que as aprisionavam. As degenerações a seu papel e às raízes do povo alemão haviam enfraquecido o homem de tal maneira que a mulher agora necessitava tomar espaços 74 masculinos. Necessitava do trabalho para alimentar a família. O nazismo a libertaria de tal obrigação. Este tipo de retórica apelou não só para as mulheres que eram especialmente interessadas na preservação racial do povo alemão, mas também para muitas das mulheres que, nos anos da República, se viram excluídas ou não contempladas pelo ideal da “mulher de Weimar”. Estas mulheres, que tinham jornadas de trabalho exaustivas, que viviam em zonas empobrecidas e, em grande parte, se sentiam excluídas não só de um ideal de mulher, mas das preocupações de seu governo. Mas não só elas, como também qualquer mulher que sentia, apegada a seus ideais e valores identificados com tradições do Segundo Reich, não ser parte do ideal feminino de Weimar. Sob o Terceiro Reich, os nazistas insistiam, é que estas mulheres poderiam retornar à sua função essencial, alcançando uma libertação real. Esta libertação não ficou, para muitas, apenas no campo da retórica, como veremos nos próximos capítulos. O regime nazista contava com uma grande estrutura para oferecer apoio às mulheres que se buscassem se encaixar em seu ideal de “mulher nazista”. Boa parte das capas e artigos da revista feminina NS-FW se dedicavam ao tema da maternidade, destacando as múltiplas organizações femininas que se concentravam no tópico. As mulheres que se dedicassem à maternidade, por exemplo, poderiam ganhar a honraria da MutterKreuz, dada em homenagem às mulheres com pelo menos quatro filhos. Além disso, o Estado nazista dava apoio financeiro aos jovens casais arianos começando uma família95. Mesmo as mães solteiras tinham o apoio do Reich, como aponta Katherine Rossy96, desde que seus filhos fossem considerados “racialmente puros”. Assim, além do que simples discurso, a realidade da vida sob o Terceiro Reich significou, para muitas mulheres alemãs, a possibilidade de um considerável aumento em qualidade de vida. 95 KOONZ, 2013. 96 ROSSY, 2011:68 75 CAPÍTULO 3: MULHER, MÃE DO REICH III.I: A MATERNIDADE COMO BASE Por “pensar politicamente” quero dizer que ela [a mulher] se preocupa, apoia, sente e se sacrifica com todo seu povo, como a mais leal companheira de seu marido, que está pronta, com toda sua força de vontade, a fazer da vida dura que o destino nos dá, algo belo. A fazê-lo, pois, seu coração e seu amor não deixarão alternativa. Esta é apenas uma parte de nosso treinamento como mães; que aprendamos coisas práticas, a administrar o lar e todo o tipo de questões políticas e econômicas.97 Assim define Gertrud Scholtz-Klink o que chama de “pensamento político para mulheres”, em tradução livre. Na Alemanha nazista, o envolvimento político da mulher se dá, ao menos retoricamente, através da maternidade. Diversos líderes nazistas se pronunciaram sobre a importância do papel feminino enquanto mães, uma posição que gerou críticas tanto de opositores quanto de mulheres militantes nazistas, ainda que em menor número, levando Hitler a proclamar que “... não é degradante para uma mulher ser mãe. Pelo contrário, é sua maior honra. Não é nada mais nobre para uma mulher que ser a mãe dos filhos e filhas de seu povo.”98. Para entender a importância da maternidade para a retórica nazista, é preciso lembrar-se da centralidade da questão racial, e da insistência de líderes nazistas em um perigo constante de eliminação via degeneração da culturaalemã. Manter a Volksgemeinschaft era de máxima importância, sendo este conceito a base sobre a qual o Reich fora construído. Para assegurar a manutenção de sua comunidade racial, a reprodução era importantíssima, significava sacrificar-se para proteger o futuro do povo. Um sacrifício que se esperava da mulher alemã. Em um poema nazista, encontramos a seguinte descrição: Queremos que nossas mulheres sejam confiáveis Não decoradas como bonecas A esposa e a mãe alemãs Tem riquezas que nenhuma mulher estrangeira tem. 97 Editorial da segunda edição da NSFW do ano de 1935. NS FrauenWarte, v.2, 1935. Tradução minha. 98 RUPP, 1977. 76 A mulher alemã é vinho nobre Ela ama e enriquece a terra A mulher alemã é a luz do sol Para seu lar. Ela sempre deve ser vista como merecedora de respeito Não ser parte das paixões e jogos de raças estranhas O povo deve sempre permanecer puro e limpo Este é o maior objetivo do Führer -Curt Rosten ABC des Nationalsozialismus99 Podemos neste poema observar muitos dos diferentes elementos mencionados nesta pesquisa até aqui. A ideia da mulher alemã como pura, merecedora de respeito e a contraposição destes fatores com uma mulher “enfeitada como boneca”, nos fazendo lembrar da imagem que inspirou esta pesquisa (figura 1). Vemos também, mais importante, a associação direta entre a função da mulher e a capacidade do povo de permanecer puro e limpo. Richard Walter Darré, defensor árduo da política nazista do Blut und Boden, expressa em seu intitulado “Sobre as leis de casamento e a procriação” que [N]ós buscamos somente o crescimento populacional, não a procriação. Nos surpreendemos com o progressivo desaparecimento da cultura germânica. Mas o público na Alemanha já é covarde demais - pois é no fim uma questão de covardia! - para analisar estes fenòmenos e encontrar suas causas. [...] Crescimento populacional por si só é inútil; o que realmente importa é a hereditariedade das crianças.100 Darré demonstra, ainda que seu texto destoe da forma mais polida utilizada por alguns dos outros líderes nazistas, a preocupação entre os nazistas com a pureza das gerações seguintes e, não só isso, mas com a necessidade de que a população “racialmente pura” pudesse crescer e reverter o processo de desaparecimento pelo qual acreditavam estar 99 A versão aqui presente, que não buscou preservar a estrutura poética da original, é uma tradução da versão em inglês, encontrada no Mothers in Fatherland, da historiadora Claudia Koonz (2013). 100 O artigo foi encontrado, em inglês, em LANE, Barbara Miller; RUPP, Leila J. (Ed.). Nazi Ideology before 1933: A Documentation. Manchester University Press, 1978. 77 passando a cultura germânica. A degeneração só poderia ser parada e a real essência germânica só seria recuperada quando o povo ariano voltasse a tomar posse de sua Nação. Este objetivo não poderia ser alcançado, claro, sem a mulher ariana. Para que um povo racialmente puro reemerja e possa tomar para si de volta o lugar que lhe pertence, é necessário que seus fundadores, os pais e mães a dar origem a esta iniciativa, sejam eles mesmos “racialmente puros”. Quando, nas páginas da NS-FW, se declara que a função materna não é uma subalternização, pois é a base do Reich e, sem esta função o Volksgemeischaft não se sustentaria101, não é possível dizer que esta seja uma declaração completamente falsa. O Reich, e por extensão a comunidade racial que este buscava criar ao redor de seu povo, dependia das mulheres arianas e de sua disposição à maternidade. Figuras 16 e 17: Capa e primeira página da edição de Dia das Mães da NS-FW. 1936. A edição de Dia das Mães da NS-FW de 1936 tem em sua capa uma citação de Hitler, proclamando a grande nobreza do ato de ser mãe “dos filhos e filhas do povo”. A esta capa se segue uma página contendo a afirmação de Gertrud Scholtz-Klink de que a mãe é a 101 Podemos encontrar afirmações neste sentido em diversos artigos e editoriais. A exaltação da função materna e do lugar da mulher pode ser encontrada, por exemplo, nos artigos de Ellen Semmelholt, ed. 15, 1935, de Ludwig Finckh, vol. 23, 1936, e da própria Sholtz-Klink, em múltiplas edições, entre outros. 78 primeira trabalhadora de uma nação. A tarefa da maternidade era de suma importância para o Volksgemeinschaft e mesmo as figuras mais importantes no Reich se detinham neste tópico. A mãe garantia os filhos e filhas do povo alemão. Para que a perpetuação do Volksgemeinschaft fosse assegurada, portanto, era preciso que a mulher fosse não só mulher e esposa, como, mais importante, mãe. As mulheres que se encontravam do lado alemão da “barreira racial” eram vistas como “mães do volk” (povo alemão). No Mein Kampf, Adolf Hitler afirmara que a finalidade da educação feminina deveria ser, irrevogavelmente, formar a futura mãe. Mais tarde completaria dizendo que, da mesma maneira que o homem deve dar provas de heroísmo no campo de batalha, colocar filhos no mundo é a forma de a mulher batalhar pela sobrevivência de seu povo. Em 1938, o regime chegou a instituir condecorações para mães alemãs com mais de quatro filhos. As propagandas de contraceptivos foram proibidas. Mesmo as que não tinham marido eram encorajadas a engravidar em benefício do interesse público, o ideal da conservação da raça. Mais do que valorizar a maternidade, o que se fazia era ressaltar a obrigação das mulheres para com a “raça”; como dizia o slogan, elas deviam “dar um filho ao Führer”.102 Enquanto é discutível até que ponto a exaltação da função materna se materializou em qualquer forma de igualdade de importância - ainda que não de papéis - com suas contrapartes masculinas, o discurso nazista colocava esta função como uma grande honraria, algo que elevava a mulher ao lugar de Mãe do Volk. O Ministro R. W. Darré, por exemplo, defendia que as mulheres no passado nórdico a que queriam retornar e que exaltavam, não viam a função materna como degradante, mas sim como sua função primordial; tinham orgulho de ser o início - ou a continuidade - de um honrado clã, em suas próprias palavras103. E nesta disposição para a maternidade, e então para o papel social em que o próprio conceito de Volksgemeinschaft a tinha - e do qual este dependia - se ancorava o projeto social do Terceiro Reich. É interessante notar que esta ideia não era exclusividade dos nazistas. Ainda durante o período de Weimar, uma pesquisa de opinião demonstrou que, mesmo entre aqueles que tinham pontos de vista mais progressistas e tendência a votar em partidos de esquerda, havia grande preocupação com a “nova mulher” que representava os anos de Weimar104. Como 102 PINSKY, 2017. 103 DARRÉ, sd; apud LANE; RUPP, 1978. 104 A pesquisa foi publicada, com comentários, em 1936, por Erich Fromm (FROMM, Erich. Arbeiter und Angestelle am Vorabend des Dritten Reiches. Paris, 1936). Tive contato com seus resultados através do Mothers in the Fatherland, de Claudia Koonz. Sobre esta pesquisa, é interessante notar que 45% dos entrevistados (262) 79 coloca Claudia Koonz, Quer falassem da maquiagem, dos penteados, ou seu lugar na força de trabalho, aqueles que responderam à pesquisa apresentavam reações fortes. [...] Eles viam a modernidade para mulheres como “imoral” ou “não-germânica”, ou “indigna das mulheres”. Estes socialistas convictos podem ter votado com a esquerda, mas suas morais ecoavam as ansiedades da direita. [...] Quando a sociedade se quebrou, eles procuraram a causa e encontraram-na não muito longe de casa na Nova Mulher que, no pensamento popular, ganhava seu próprio dinheiro e se recusava a se contentar com um papel de esposa.105 Estas preocupações fazem ecoar a fala de Hitler, que afirma que “nenhum conflito entre os sexos pode ocorrer enquanto cada um fizer sua função de acordo com a natureza”106. Este sentimento encontrava lugar também entre as mulheres que, sentindo não fazer parte do mundo moderno a que associavam a mulher de Weimar, ansiavam pela valorização de uma visão mais tradicional dos papéis de cada sexo.Claudia Koonz aponta, por exemplo, para a líder conservadora Gertrud Bäumer que, na segunda metade dos anos 1920, defende que “ a grande força está não na conquista de novos territórios, mas sim na quieta expansão do território que já estabelecemos (como nosso)”, ou seja, que a verdadeira vitória seria não a expansão do papel feminino para englobar o lugar de trabalho, as posições de liderança, o mundo do Estado, mas sim em reforçar seu lar como um lugar que lhe pertence. Apesar disso, esta não era, como vimos, uma posição defendida por todas as nazistas. Entretanto, enquanto grupos militantes de mulheres nazistas resistiam à noção de que às mulheres pertencesse a esfera do lar e da família, não a do trabalho ou da política, chegando a expressar suas opiniões em publicações próprias como o periódico Die deutsche Kämpferin e até em cartas ao próprio Hitler107, a NS-FW contribuía em muito para a propagação destas ideias. Como publicação da NS Frauenschaft, e por extensão do NSDAP, a imagem da mulher na revista não pretendia refletir a realidade da experiência de cada uma das muitas mulheres nazistas. O objetivo da revista era justamente o de demonstrar o ideal de acordo com o entendimento das lideranças nazistas. A mulher na NS-FW era, portanto, não necessariamente uma imagem da mulher nazista como ela era, mas como, para o NSDAP, deveria ser. declaravam ter votado no Partido Social-Democrata, enquanto 150 dos entrevistados haviam votado nos comunistas. Apenas 17 declararam ter votado nos nazistas, quase a mesma quantidade de entrevistados que não haviam votado (11). 105 KOONZ, 2007. 106 Idem, Ibidem. Tradução minha. 107 RUPP 1977. 80 Um dos grandes exemplos desta idealização a que as mulheres nazistas deveriam aspirar é a própria Gertrud Sholtz-Klink. Apesar de seu papel político como líder da NS Frauenschaft por muitos anos, ela professava sempre a importância maior de seu papel como mãe de filhos arianos, de filhos do Volk. Figura 18: Gertrutg Sholtz-Klink com seus filhos. Nas edições do ano de 1935, início de sua liderança na NSF, podemos encontrar cartas e recados de Sholtz-Klink às leitoras da NS-FW. Porém, raramente, sua imagem aparecia na revista. Nesta imagem, vemos a líder cercada de seus filhos, todos sorridentes e vestidos de forma tradicional. A imagem vem junto de um breve recado imediatamente após o editorial da edição. Este editorial, focado na força da Alemanha e no suporte a ser dado aos alemães que vivem fora de sua pátria mãe, não se parece imediatamente se relacionar com a foto escolhida por Sholtz-Klink. Mas a Wera Behr termina seu texto afirmando, A maior tarefa é a de mostrar à juventude alemã crescendo lá [no exterior] o modo de vida alemão. Na ausência de instituições educacionais alemãs, esta juventude não tem oportunidades educacionais suficientes e é influenciada por estrangeiros. Mães alemãs frequentemente escrevem: “Ah, quão bom seria se meu filho pudesse se 81 juntar à Arbeitsdienst108! Nestas áreas o desejo por escritos e imagens sobre a nova Alemanha e história da Alemanha também são bastante grandes.109 Gertrud Sholtz-Klink então reafirma, abaixo de sua sorridente foto em família, o dever da leitora para com seu povo, e de que parte deste é ajudar todo o povo, ainda que este não esteja na Alemanha, a sentir-se parte da comunidade nacional. Esta era a vitória do Reich: reestabelecer o orgulho e o respeito de seu povo, onde quer que estivessem, a partir da educação de sua juventude. E esta educação era, acima de tudo, a tarefa da Mãe do Volk. Embora a escolha da foto possa parecer algo inocente ou sem maiores motivações, é importante lembrar a habilidade nazista com propaganda visual, e a quantidade exorbitante de material produzido para as mulheres nazistas, geralmente com o olhar na questão materna110. A importância do aspecto racial levou o Terceiro Reich a medidas que, ecoando a preocupação de Darré com a “hereditariedade” dos filhos do povo, mais do que com o aumento populacional em si, não aderiam firmemente a uma visão conservadora, como o projeto do Lebensborn111, um programa que buscava promover o nascimento de crianças “racialmente desejáveis” para o Reich, ainda que fora de unidades familiares tradicionais. O objetivo social do Reich era preservar a raça e para isso necessitava que mais crianças arianas nascessem e recuperassem a Alemanha e seu Volksgemeinschaft, ao impedir que outras raças se tornassem maioria. Qualquer que tenha sido a realidade histórica desta diferença em natalidade (entre diferentes raças), sua interpretação social foi condensada no que era definido como “degeneração racial” ou “suicídio racial”. O problema vinha de mulheres, mais ou menos associadas com o movimento das mulheres, que preferiam ter menos filhos que suas mães, e de mulheres ou casais que criavam seus filhos fora das normas prevalentes e ao custo do bem-estar da comunidade e do Estado. O remédio proposto era para reverter ambos: fazer com que as mulheres “superiores” tivessem mais filhos e as “inferiores” menos ou nenhum.112 108 Arbeitsdienst, no contexto da Alemanha nazista, se refere não só a uma organização trabalhista, mas também contava com esforços de educação ligada à propaganda nazista. Na edição em que este editorial é publicado, a Arbeitsdienst já era Reichsarbeitsdienst, uma organização com foco bastante militarizado e conectada diretamente à Wehrmacht. 109 BEHR, 1935. 110 ROSSY, 2013. 111 Sobre isso: BOCK, 1988; LANE, RUPP, 1978; KOONZ, 2007; PINSKY, 2017. 112 BOCK, 1983. 82 Desta forma, pode-se dizer que ainda que a propaganda nazista exaltasse a maternidade, esta era uma maternidade restrita racialmente, e não foram incomuns no Terceiro Reich os programas anti-natalidade focados naqueles que o nazismo considerava “indesejáveis”113. Que esta questão não aparecesse diretamente nas páginas a NS-FW não é de todo surpreendente. O objetivo da revista estava na exaltação da Alemanha e numa propaganda positiva e otimista quanto a sua nação. A propaganda negativa, quando aparece, tem muito mais frequentemente como foco o inimigo externo, em especial os soviéticos. Ainda assim, a própria ênfase no Volksgemeinschaft, e, portanto, na propagação de uma comunidade racial culturalmente unificada, pressupõe a exclusão de todo aquele que não se adequa a esta. Não só isto, mas a ideia de que esta comunidade estava em constante perigo transformava todo aquele que não fazia parte dela em um perigo em potencial e, portanto, em inimigo do povo. III.II: O SACRIFÍCIO DA MÃE O que significaria nossa fé em uma Alemanha eterna se mães não estivessem dispostas a ter filhos e a se sacrificar? - Alwine Schreiber, NS-Frauen Warte, 1940 Assim Alwine Schreiber termina seu artigo em uma das edições de 1940 da NS-FW. O tema do sacrifício da mulher alemã é recorrente e vêm associado quase exclusivamente à função da mulher como mãe. Isto ocorre de uma maneira curiosa. Visto que a função materna está na propaganda nazista tão intrinsecamente ligada à mulher, esta é tida como mãe ainda que não o seja de fato. Como afirma Samantha Schuring, As mulheres eram as cuidadoras da nação e era sua responsabilidade, ajudar os que estavam a sua volta. Todas as mulheres eram mães, de certa forma, mesmo que não tivessem filhos, pois o papel das mulheres era ajudar aqueles a seu redor. Era esperado que todas as mulheres tivessem filhos, mas, como Sholtz-Klink afirmou, a primeira coisa com a qual as mulheres deveriam se preocupar era o povo. Ideias como esta colocavam as mulheres no plano de fundo de suas próprias vidas. Diziam a elas constantemente para que cuidassem de outras pessoas e não havia qualquer palavra sobre se tornarem indivíduos e 113 BOCK, 1983; ROSSY, 2013. 83 buscarem sua própria alegria. A elas era dito que colocassem as necessidades de seus maridos e filhos acima dos seus e que seriam egoístas se não o fizessem114. De fato, devemos lembrar que a prioridade era sempre a manutenção do Volksgemeinschaft. Esteera o objetivo prioritário para o Reich e, portanto, para cada um daqueles que formava seu povo. Aos homens, cabia liderar, trabalhar, tomar as decisões em prol do bem-estar e da continuidade da comunidade racial ariana. Às crianças, cabia educar-se e crescer como bons cidadãos e cidadãs do Reich. E às mulheres, cabia o dever de cuidar para que todo o resto fosse feito. Assegurar-se-ia de cuidar de todos a seu redor, de prover sempre para seu povo, de qualquer forma que necessitassem. Também cabia a ela ter filhos, tendo certeza de que eram racialmente puros e contribuiriam para o Volksgemeinschaft. Tendo tido estes filhos, deveria fazer com que as crianças fossem educadas e crescessem dentro dos princípios do Reich. Para nenhum destes grupos, a prioridade deveria ser seus próprios objetivos e vontades. Para um bom alemão, seu objetivo era o objetivo do Volk, sua vontade era aquela que fosse a vontade do Volk. O bom alemão, o bom nazista, se ancorava em seu povo e era parte deste como este era parte de si. Eram indivisíveis. Imaginar, ao menos na propaganda nazista, em priorizar-se enquanto indivíduo não era apenas visto como egoísta, mas como uma traição fundamental dos princípios que regiam a comunidade germânica. Ruth Hildebrand, autora nazista, ao falar das diferentes formas como a mulher poderia servir o Reich, diz que sua dedicação e seu foco no serviço ao Volksgemeinschaft, [...] não significa que para ela [a mulher nazista] a livre escolha e o seu desenvolvimento como indivíduo estejam fora de questão. Mas sua vida, assim como a do homem, é de modo geral determinada pela lei irrevocável de que tudo deve estar subordinado ao benefício do povo.115 É esperado de cada alemão que esteja sempre disposto a sacrificar-se pelo povo, pois a sobrevivência do povo é a sua própria sobrevivência. Sem o Volksgemeinschaft, a construção de uma nova Alemanha falharia e a cultura germânica seria aniquilada juntamente com seu povo. Especialmente das mulheres, porém, era esperado que centrassem sua via ao redor das necessidades do povo, como mães amorosas e cuidadosas 114 SCHURING, 2015. 115 HILDEBAND, 1934; apud RUPP, 1983. 84 de cada um que as cercava, mesmo que não fossem de fato mães. Um artigo da revista do dia das mães de 1940 diz: Todo Dia das Mães, pensamos em todas as mães, particularmente aquelas que estão sozinhas e naquelas mães cujos maridos e pais estão no front, mas também toda trabalhadora alemã que serve sua família ou faz outro tipo de trabalho para seu povo. Assim como mães individuais recebem pequenos presentes de seus maridos e filhos, todas as mães da Alemanha recebem, como agradecimento por seu incansável trabalho, o Mütterdienst116, um trabalho da feminilidade alemã117. (Grifo meu.) Não só era a função da mãe não exclusivamente pertinente às mulheres que tivessem filhos, a função materna também se estendia para além do que se entende por cuidado familiar. A família e as crianças, como origens do futuro do Reich, guardavam em si o futuro da germanidade. Às mães, guardiãs da família e dos filhos, cabia qualquer tarefa que envolvesse a perpetuação do povo. Isso abria para as mulheres um leque de possibilidades dentro do que poderia ser visto como função materna e, portanto, parte da esfera feminina no Reich. Esta lacuna, por assim dizer, permitia também à maquina de propaganda nazista utilizar-se desta certa flexibilidade para, durante os anos de guerra, agrupar o trabalho ligado ao esforço militar alemão sob o guarda-chuva do trabalho materno, como veremos posteriormente neste capítulo. Madeline James, em seu estudo das mulheres alemãs no Leste, aponta para a centralidade que estas puderam tomar, devido à importância dada à “germanização” dos alemães étnicos118: “Germanização” é uma tarefa distintivamente feminina, por centrar-se na esfera doméstica como o lugar da cultura e costumes alemães. Mulheres do Reich deviam incultar cultura e valores alemães adequados nos alemães étnicos, indo desde limpeza pessoal e ordem até pureza racial e a língua alemã correta e obediência à ideologia e ao regime nazistas. Era visto como imprescindível que alemães étnicos aprendessem e assimilassem a cultura alemã, tendo em vista seu futuro papel como comandantes do Leste119. 116 Neste contexto, Reichsmütterdienst foi uma honraria dada às mães que participavam de serviços para outras mulheres e meninas no Reich por seu papel e seu sacrifício pelo povo. 117 LINHARDT-KÖPKER, 1940. 118 Parte do projeto de expansão territorial e étnica nazista, os alemães étnicos eram aqueles que, apesar de serem de outra nacionalidade por nascimento, eram considerados arianos e, portanto, pertencentes ao Volksgemeinschaft. 119 JAMES, 2020. 85 Podemos ver que a extensão do trabalho materno, e assim da “esfera feminina”, poderia expandir-se e retrair-se conforme se mostrasse necessário para o desenvolvimento do Reich e do Volksgemeinschaft. O trabalho das mulheres alemãs no Leste é também diversas vezes mencionado nas páginas da NS Frauenwarte. Mesmo no artigo em comemoração ao Dia das Mães mencionado anteriormente, podemos ver menções a este e a sua importância. Lindhart-Köpfer afirma em tom alegre que, Novos trabalhos começaram rapidamente nos Gaue de Wartheland, Danzig-Westpreußen, e nas recentemente conquistadas áreas da alta Silésia. O trabalho nos Sudetos e na Áustria se expandiu. Para construir uma base sólida e segura para o treinamento de maternidade nas novas áreas, uma ação especial trouxe novas professoras do Reich. Seu trabalho era o de treinar o staff que passaria a fazer este trabalho, apoiando-as neste difícil trabalho de pioneiras. As trabalhadoras do antigo Reich agora trabalhando no Leste têm bastante experiência em educação para maternidade120. O trabalho de pioneiros no Leste, fundamental como era para os planos de expansão nazistas, era também trabalho feminino. Como guardiãs da cultura germânica, cabia às mulheres do Reich passar com zelo este conhecimento, assim como os modos e regras do modo de vida nazista. Enquanto pode parecer um trabalho longe da dimensão do lar, por tratar-se de uma expansão de sua função para com seus filhos - a de assegurar sua educação e criação conforme a doutrina nazista - este trabalho é visto e promovido como um trabalho maternal. 120 LINDHARDT-KÖPFER, 1940. 86 Figura 19: Artigo do volume de junho de 1941 da NS FrauenWarte Em um artigo da NS-FW, já em 1941, Hilde Zimmermann detalha os procedimentos para a preparação das mulheres que vão ao Leste, trabalhar no esforço de “germanização”. Escolas eram estabelecidas tanto no antigo Reich quanto nos territórios ocupados, buscando ensinar às mulheres tudo que precisavam saber para que pudessem fazer seu melhor a serviço do povo121. Entre os temas a que estas escolas se dedicavam estavam não só iniciativas práticas como primeiros socorros, culinária e costura, como também aulas sobre a história e geografia de seus países de destino, e - de vital importância - aulas dedicadas à política do Reich e de seus inimigos externos122. Era importante que estas mulheres, a quem Zimmermann se refere como “representantes da germanidade”, de fato demonstrassem em todas as suas atitudes no Leste, a importância do modo de vida nazista e do Volksgemeinschaft. Estas eram as “pioneiras de uma nova ordem” e a elas cabia assegurar a influência nazista sob os “alemães étnicos”. Esperava-se, portanto, que estivessem dispostas ao sacrifício de seus confortos e sua segurança no antigo Reich em nome de algo maior e mais nobre para seu povo. 121 ZIMMERMANN, Hilde. “Bereit für den Einsatz im Ostraum”. In: NS-FrauenWarte, 06/1941. 122 JAMES, 2020. 87 O trabalho destas mulheres, longe de ser censurado ou visto como uma forma de tomar o lugar masculino, ainda que para o bem do Reich e do Volksgemeinschaft, era visto como mais uma das facetas da maternidade, era parte do sacrifício da mãe. Como coloca Leila Rupp, Apesar de a maternidade ser o papel mais importante para asmulheres, a ideologia nazista criava novas responsabilidades para as mulheres no lar. Lydia Gottschewski, outra das primeiras líderes femininas, argumentava que a tarefa feminina de proteger a família não podia ser confinado à casa, pois crianças iam para as ruas e eram submetidas a influências externas; uma mulher teria que se preocupar com o mundo além de sua casa e, através de suas funções para sua família, poderia apoiar políticas raciais, culturais e econômicas em nível nacional. As mulheres eram, na verdade, responsabilizadas pela preservação da pureza da raça ariana123. O sacrifício destas mulheres, como mães do Volk, em suas múltiplas formas, era, enfim, parte de sua função como aquelas a quem cabia proteger o futuro ariano pelo qual todo o povo lutava. III.III: A MATERNIDADE COMO TRABALHO E O TRABALHO COMO MATERNIDADE Enquanto em 1934 medidas nazistas buscam retirar mulheres da força de trabalho, com o objetivo de diminuir o desemprego entre os homens124, de forma semelhante ao que havia sido feito anteriormente ainda na República de Weimar125, as mulheres em grande número ainda trabalhavam, tornando necessário que este ato em si não fosse tomado como antinazista ou as isolasse de alguma forma. Desta forma, ainda que as medidas tomadas pelos nazistas pudessem prejudicar este grupo, a retórica nacional socialista nunca ignorou ou excluiu totalmente as trabalhadoras. Como coloca Rupp, 123 RUPP, 1983. 124 RUPP, 1997. 125 WALLE, 1993. 88 [U]m apelo em 1932 às mulheres empregadas para que votassem [no partido] Nacional Socialista indica que o partido tentou atrair trabalhadoras e profissionais mulheres. O apelo prometia que todas as mulheres - mulheres empregadas, donas de casa, e mães - seriam cidadãs do Terceiro Reich. Nenhuma mulher perderia seu emprego, mas o Nacional Socialismo não permitiria que mulheres fossem forçadas a arranjar empregos. [...] No início do Terceiro Reich o governo tomou medidas que buscavam eliminar mulheres do mercado de trabalho, mas mesmo durante a depressão os nazistas não queriam remover todas as mulheres de seus empregos. O programa de empréstimos para o casamento encorajou mulheres a deixarem seus trabalhos e se casarem, e o governo lançou uma campanha contra as “duplamente pagas”, mulheres empregadas cujos maridos ou pais trabalhavam. Mas mesmo nas profundezas da crise do desemprego, o governo nazista reconhecia que algumas mulheres eram forçadas a trabalhar por necessidade econômica e insistiam que alguns trabalhos eram melhores nas mães das mulheres. A visão extremista de que nenhuma mulher trabalharia fora de casa em uma sociedade ideal era rara. Como um escritor colocou, “O emprego feminino não pode ser ignorado na vida econômica de um grande país industrial.”126 Mesmo antes da ascensão nazista, não havia uma exclusão completa da mulher como trabalhadora, nem ao menos em sua visão de uma utopia racial ariana. O trabalho feminino fora do lar era entendido como uma necessidade para muitas mulheres e uma realidade inevitável em muitas áreas, mesmo quando o desemprego masculino ainda era um problema a ser resolvido. Apesar disso, medidas como os empréstimos concedidos aos jovens casais para que tivessem suas casas e seus filhos eram formas importantes de tentar controlar o emprego feminino de modo que, no geral, este se limitasse às situações em que não podia ser evitado. Muitos destes programas de empréstimo determinavam, por exemplo, que as mulheres deveriam ficar em casa, somente seus maridos trabalhando, para qualificar-se para receber a ajuda127. Com o início da guerra, e a quantidade cada vez maior de homens deixando seus empregos para servir sua nação no front, o discurso com relação às mulheres trabalhadoras vai mudando, como vai aumentando a frequência com que aparecem nas páginas da NS-FW. Enquanto a mulher camponesa aparece de fato com bastante frequência, mesmo na primeira metade dos anos 1930, talvez pela proximidade do trabalho desta com sua família, podemos ver nestas ilustrações da edição de Dia das Mães de 1936 (figura 20) como era visto o dia a dia ideal de uma mãe alemã: 126 RUPP, 1997, p.12. 127 KOONZ, 2007. 89 Figura 20: Na edição de Dia das Mães de 1936 da NS-FrauenWarte, quadrinhos ilustram o dia a dia de uma mãe alemã. Para a NS-FW destes primeiros anos do Reich, o trabalho feminino mais relevante e o que faria parte - em uma sociedade ideal - da jornada diária de uma mulher era o trabalho doméstico. A mulher ideal alemã representada na NS-FW era mãe, a mãe de seus filhos e do Volk e esta era a visão proeminente a se ter dela. Ainda que outras visões da mulher trabalhadora aparecessem na revista, era muito mais comum que envolvessem mulheres jovens que trabalhavam e, ao mesmo tempo, preparavam-se para ser mães e esposas ou, como mencionado anteriormente, trabalhassem no campo ou em uma área de trabalho ou profissão geralmente vistas como femininas. 90 É interessante notar a ausência da questão da mãe trabalhadora desta mesma edição da NS-FW ainda que, como edição do Dia das Mães, esta se dedicasse quase que inteiramente ao tópico. Na edição, a questão do trabalho é praticamente inexistente, aparecendo somente em um artigo que lida com o tópico das escolas de maternidade e o trabalho das mulheres nelas. Mesmo neste artigo, o foco não é nas mães que trabalham, mas sim nas mulheres que se preparam para serem esposas e para a maternidade. Em contraste, vemos a edição do Dia das Mães quatro anos depois, em 1940, que já em seu editorial se preocupa em citar as mulheres trabalhadoras a quem as escolas de maternidade também atendem, ressaltando que, Claro, o programa de treinamento também envolve cerca de 5 milhões de mães trabalhadoras. Os cursos de maternidade também são ensinados nas fábricas. As mulheres podem participar no fim do dia de trabalho e não precisam viajar por grandes distâncias até a escola mais próxima. Elas são agradecidas por isso e entusiasmadas para aprender como conciliar o emprego e o lar, apesar das dificuldades.128 Não só o grande número citado - cinco milhões de mães trabalhadoras - é de interesse, como também o foco atribuído ao interesse destas mães na escola. O objetivo não era que estas mulheres apenas aprendessem o suficiente para dedicarem-se completamente ao lar, abandonando seus empregos, mas sim fizessem as duas atividades ao mesmo tempo, da melhor forma possível. Em 1940 a guerra já se intensifica e, apesar de os grandes revezes contra os alemães ainda estarem por vir, a necessidade de homens no front faz com que o tom dedicado às mulheres trabalhadoras mudasse e a dimensão do que é considerado parte da função materna se ampliasse. Estas mudanças podem ser entendidas como uma flexibilização do discurso nazista com relação às mulheres. Não era necessário que se mudasse tudo o que havia sido dito ou que houvesse um momento em que as lideranças do NSDAP dissessem ter cometido um erro com relação à posição da mulher no mercado de trabalho. A ênfase no Volksgemeinschaft e no entendimento de que um bom cidadão alemão era aquele que se sacrificava pelo povo permitia que houvesse um espaço, uma lacuna, em que caberiam elementos antes rechaçados, se, em um novo entendimento, significassem um esforço pelo bem do povo. 128 LINHARDT-KÖPKER, 1940. 91 O ponto de vista [menos extremista quanto ao lugar da mulher no mercado de trabalho] não entrava em conflito com o de Hitler ou Rosenberg129: ele simplesmente atribuía à mulher uma função central na sociedade nazista. Enquanto a visão popular da mulher die deutsche Frau, mãe do Volk, desenvolveu-se de certa maneira da interação com os pontos de vista mais extremos e em resposta às realidades externas das demandas econômicas, esta se manteve relativamente estável durante o período entre guerras, enquanto a política nazista com relação às mulheres mudou em resposta às mudanças na situação econômica, particularmente, no que diz respeito à depressão. Estas mudanças encontraram justificativa no princípionacional socialista do bem comum antes do bem individual, expressado no slogan “Gemeinnutz vor Eigennutz”. A concepção popular nazista da mulher devia sua flexibilidade a este princípio, já que a mulher ideal nazista devia seu trabalho ao Estado acima de tudo. A mistura de ideias tradicionais e princípios nazistas, que caracterizava a imagem popular, dava [a esta imagem] não só a resiliência necessária para encarar as diferentes circunstâncias econômicas, mas também o potencial de atrair dois grupos muito diferentes - ambas as donas de casa conservadoras e tradicionalistas da classe média, que buscavam uma afirmação de seu lugar dentro do lar, e suas filhas rebeldes, que desejavam um papel ativo e rejeitavam o estilo de vida burguês de suas mães. Esta visão comum permeava a literatura sobre e para mulheres. A mera existência da grande quantidade de livros, panfletos, artigos - literatura de todos os tipos - lidando com as mulheres demonstra a importância do tópico. Neste extenso corpus estava delineado o ideal da mulher nazista.130 Em meio às constantes mudanças nas condições da Alemanha, desde o início do Terceiro Reich, mas que vão se intensificando conforme a guerra se prolonga, a ideia do que cabe à mulher vai sendo alterada e expandida, conforme necessário. Um dos fatores que torna possível que esta mudança não seja vista como uma ruptura na imagem da mulher nazista, é o apelo, desde sua origem, à maternidade como princípio de todo o sacrifício feminino. Madeline James aponta que, A família na Alemanha nazista era considerada a base da nação, a “célula mãe” do Volk, e a mãe, como guardiã da família, era, portanto, também a guardiã do Volk. Ao estender este dever feminino além do confinamento da família alemã individual, os nazistas na verdade concederam às mulheres maiores responsabilidades e oportunidade para terem mais atividades fora do lar do que historiadores e o público - que focaram sua atenção mais na imagem da mulher como mães na propaganda nazista - assumiram ser o caso por muito tempo.131 Enquanto, em seu sacrifício, a maternidade em si era vista como um trabalho, o trabalho feminino era entendido, por sua vez, como maternidade. Ou seja, o trabalho da mulher era percebido como uma das formas de exercer sua função de mãe, ainda que não tivesse imediatamente conectado a algo que, hoje em dia, veríamos como maternal. Mas a habilidade 129 Alfred Rosenberg, teórico nazista, é citado aqui por sua afirmação, em seu Mitos do Século XX (1930), de quão errado e perigoso seria para a mulher entrar no mundo dos homens ou na esfera masculina da sociedade. 130 RUPP, 1977. 131 JAMES, 2020. 92 e a possibilidade de subscrever as mais variadas tarefas à função materna possibilitava que a mulher “mãe do Volk” não fosse vista como o oposto da mulher que passava a trabalhar em funções antes vistas como masculinas, e até mesmo ir ao front - ainda que não para combate. Apesar de ser um elemento presente na retórica nazista desde o princípio, como podemos ver quando Erna Günther, ainda em edição de 1934 da NS-FrauenWarte afirma que as mulheres “não podiam continuar a se abster da luta [para a ascensão do nazismo e a defesa do Volksgemeinschaft], pois esta envolvia seu futuro também, e o de seus filhos”132, passa a ser cada vez mais evidente e urgente conforme a guerra vai se agravando. Quando o editorial de um das edições de maio de 1940 da NS-FW aponta para a necessidade do treinamento das mães ser ainda mais importante em tempos de guerra, algo, diz a autora “confirmado em toda parte pelo partido e pelo Estado”, pode-se entender esta frase não somente como referência ao treinamento doméstico, mas também ao treinamento ideológico destas mulheres. O front doméstico crescia em importância e as comparações entre a função das mães e a dos soldados cresciam. No artigo à NS-FW intitulado “Prontos para morrer/Prontas para viver”, em tradução livre, Alwine Schreiber justifica seu título ao citar o marido, um soldado alemão que teria dito a ela, antes de voltar ao front, que “a prontidão para viver de nossas mães deve estar lado a lado da vontade de viver de nossos soldados”. Todo sacrifício era válido, valioso e esperado em nome do Reich, do Führer e do Volk. Para muitos, era justamente a firmeza e a organização sob o Volksgemeinschaft que permitiam que os alemães passassem pelos piores momentos da guerra133. A função materna das mulheres, parte da cultura que mantinha a comunidade racial alemã em ordem, era, portanto, também importante para que seu povo pudesse seguir forte mesmo quando havia derrotas. A importância destas figuras fica muito clara em artigos como o editorial em edição do início de 1942, em que a pergunta “Poderíamos ter evitado a guerra?”, foi respondida em um entusiasmado e apaixonado discurso em lealdade ao Reich, assinado somente pelas iniciais R. K., concluindo que a culpa de todo sangue e lágrimas do povo alemão estão nas mãos daqueles que buscaram destruí-lo. Ou seja, só a vitória do Volksgemeinschaft, da qual as mulheres alemãs são guardiãs máximas, poderá acabar com a guerra e proteger o povo. A culpa pela guerra é dos seus inimigos. O Volk busca apenas, como sempre buscou, sua sobrevivência. 132 GÜNTHER, 1934. 133 SCHURING, 2015. 93 Principalmente a partir de 1941, as imagens e os artigos voltados para a guerra passam a aparecer em grande número. As homenagens aos mortos no front são múltiplas e, nas capas das revistas, frequentemente figuram soldados ou equipamentos militares. A revista, que antes se centrava em temas ilustrados positivamente, não pôde mais evitar os tópicos que, sem dúvida, já passam a gerar dúvidas quanto à vitória final do Reich. Figura 21: Artigo de edição de 1941 da NS-FrauenWarte dedicado ao papel da mulher durante a guerra. 94 Neste artigo, de uma das primeiras edições de 1941, dedicado à função das mulheres na guerra, a primeira ilustração é justamente a de uma estátua de uma mãe com o filho no colo. Na legenda, “Deutsche Mutter”, mãe alemã. Esta era a função primordial da mulher, mesmo na guerra. Seu trabalho, como vemos, está intimamente ligado à função materna, mesmo quando - como na imagem seguinte – a mulher se dedica a atividades industriais. O artigo, que acompanha o editorial de tema semelhante, chama a atenção para a importância da participação feminina na guerra, a ser conjugada com os cuidados com os filhos. Quando sua nação a chama, a mulher alemã deve atender. Este é o compromisso e o sacrifício devidos ao Reich. Ainda que a tarefa para a qual é chamada fosse, poucos anos antes, vista como parte da esfera masculina, cabe à mãe do Volk fazer o que é necessário para assegurar a continuidade do Volksgemeinschaft. Ela o faz porque uma mãe tudo faria por seus filhos e seu povo. A nação e a comunidade são seus filhos tanto quanto aqueles que ela gerou. Todo trabalho a que se dedica uma mulher ariana é, além de qualquer coisa, uma face de sua maternidade. 95 CONCLUSÃO Quase cem anos depois da ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha, o tópico da propaganda, que apoiou esta empreitada, ainda é muito discutido. Parte desta grande ferramenta do NSDAP e, depois, do regime nazista, a NS-FrauenWarte tem a peculiaridade de ter sido a única revista feminina diretamente ligada ao NSDAP e ter estado entre as mais populares publicações femininas do Reich. Ainda que tenhamos que considerar que os números dados possam não ser totalmente claros ou confiáveis, são substancialmente mais impressionantes que as demais revistas femininas da época134. Tendo tido início nos primeiros anos da década de 1930, a NS-FW é um dos veículos de propaganda nazista centrados inteiramente no público feminino. Como tal, grande parte do seu conteúdo, ao menos nos anos iniciais, tinha foco em atividades tidas como pertencentes à “esfera feminina”, ou seja, à dimensão doméstica. Mas, mesmo os conteúdos dedicados a romances, culinária, dicas de maternidade e moda eram parte do esforço nazista para promovera ideia do Volksgemeinschaft, parte fundamental da ideologia nazista. Como publicação ligada à NS Frauenschaft e, portanto, a Gertrud Sholtz-Klink, nazista dedicada e uma das poucas mulheres a conseguir títulos altos e relevância mesmo entre os homens, fazia sentido que a revista aderisse tão fielmente à ideia do lar como lugar social da mulher, ao menos em seus anos iniciais. A revista representava, não só para as mulheres já associadas ao partido, mas para todas as mulheres “racialmente adequadas”, o ideal a se seguir. A mulher nazista da NS FrauenWarte precisava ser o reflexo dos objetivos do Reich. Era a mulher alemã dedicada a seus filhos e povo, que buscava educar as novas gerações sob as quais pesava a responsabilidade de manter a Volksgemeinschaft viva. Este ideal era importante para a propaganda nazista por seu papel no conceito do Volksgemeinschaft. Tal conceito era extensivo a todo o modo de vida e à visão de mundo nazistas, ancorando-os em uma suposta superioridade racial e numa idealização de um passado glorioso a ser recuperado, despindo os alemães de todas as camadas de 134 FÜHRER, 2006. 96 degeneração a que haviam sido submetidos e possibilitando que alcançassem seu verdadeiro eu, o novo homem e a nova mulher nazistas135. Sobre isto, a própria Sholtz-Klink afirma: Os homens e as mulheres deste povo, em suas centenas e milhares por aí, em grupos locais e distritos, sabem que as forças de que se precisavam tão desesperadamente puderam crescer neles, pois o Führer acreditou na bondade e força dentro deles. Assim como seus seguidores, é nosso maior dever despertar e fortalecer esta fé naqueles por quem somos responsáveis e transformá-la em ação. Este comando é igualmente inescapável para homem e mulher, trabalhador de serviços ou de colarinho branco em nosso povo. O movimento nacional socialista vê os homens e as mulheres como igualmente responsáveis pelo futuro da Alemanha. Ele pede, porém, mais do que no passado, que cada um primeiro atinja completamente os objetivos próprios a sua própria natureza. A mulher, além de cuidar de seus próprios filhos, deve primeiro cuidar de todos que precisam de sua ajuda, como mães da nação136. Este tema, como vimos, era central nos artigos, editoriais e nas imagens da NS-FW, demonstrando o esforço do partido para que as mulheres entendessem o âmbito da família e do lar como seu lugar, tendo um lugar de certa forma subserviente ao que era dado ao homem137. Somente se a mulher ariana ocupasse este lugar e defendesse assim o futuro do Reich, através da educação e criação das gerações seguintes, o homem poderia estar seguro e forte novamente para assumir o papel de liderança que lhe cabia. Desta forma, a capacidade do homem de liderar dependia diretamente da disposição da mulher em tratar da esfera doméstica. A NS-FW procurou representar esta idealização da mulher ariana, expondo o modelo em que a mulher alemã comum deveria espelhar-se, mas não necessariamente aquele que correspondia à realidade de muitas ou até da maioria de suas leitoras. Entre as mulheres alemãs - e mesmo entre as nazistas, especificamente - havia discordância sobre o papel da mulher e sobre como este era delimitado sob o nazismo. As representações da mulher ideal nazista, porém, são pouco afetadas por estas discordâncias. Como veículo de propaganda, é parte do papel da NS FrauenWarte expor e compartilhar, com objetivos de convencimento, as partes estruturadoras do Terceiro Reich, no caso, as ideias que compunham o 135 KOONZ, 2003. 136 SHOLTZ-KLINK, Gertrud, “Deutsch sein — heißt stark sein. Rede der Reichsfrauenführerin Gertrud Scholtz-Klink zum Jahresbeginn,” NS-FrauenWarte, #4, 1936 137 MOCH, 2011; KOONZ, 2007, RUPP, 1977. 97 Volksgemeinschaft. A posição da mulher como “mãe do Volk” é uma destas importantes ideias. O Volksgemeinshaft necessitava da disposição de cada um para servir ao Reich e ao povo, esforçando-se e sacrificando seus objetivos pessoais em nome do coletivo a que agora pertenciam e que fazia parte de sua própria essência138. A função da mulher não só era servir ao povo, mas ao futuro da raça, e, portanto, a seu próprio futuro e ao de seus descendentes. O Volksgeimeinschaft, então, incluía todo aquele que pudesse ser considerado ariano e a este passava a pertencer também a responsabilidade na continuidade deste ideal e a luta para que se alcançasse o objetivo final do Reich. Por isso, era de vital importância que os valores e a educação germânica chegassem a todos os seus irmãos de raça, começando pela educação da juventude, mas estendendo-se também aos chamados “alemães étnicos”, não conectados à Alemanha por nascença, mas que o eram por raça e deveriam ser por cultura. Este era um trabalho árduo e, em grande parte, feminino. Desde o início da publicação da NS-FW, podemos ver constantes texto, fotos e anúncios relacionados às escolas de maternidade, em que a educação do futuro germânico era o mais importante. Conforme a expansão para o Leste ocorria, parte do foco da educação feminina no Reich passou a ser em educar as mulheres alemãs para que estas pudessem fazer seu trabalho de expandir o modo de vida germânico a todos os irmãos de raça139. Sendo a cultura germânica, o modo de vida e as normas sociais nazistas, parte integrante da ideia de Volksgemeinschaft, os modos de vida e visões de mundo que diferiam destes eram vistos como ameaças à permanência do povo. Afinal se o Volksgemeinschaft era uma comunidade racial com uma cultura em comum, o que seria deste se esta cultura desaparecesse? O que restaria ao Volk se sem sua cultura, ele não existia de fato? O diferente tinha um potencial de aniquilação completa. Era a degeneração inibidora da real liberdade. O perigo representado pela ascensão daquilo que diferia do que era visto como germânico era o de que esta presença corrompesse completamente a fábrica da sociedade que os nazistas buscavam criar, aprisionando-os, como colocavam. No que diz respeito à mulher, isto vai primeiro aparecer na NS-FW em forma de contraposições com relação à modernidade associada à mulher de Weirmar. Como figura representativa de seu tempo, esta era uma mulher que a mulher do Reich buscava evitar. 138 KOONZ, 2007 139 JAMES, 2020 98 Esta era uma mulher que se acreditava livre, mas não o era, pois a real liberdade estaria na função natural da mulher; o lar e a maternidade. A mulher germânica representada nas páginas da FrauenWarte neste primeiro momento era uma mulher forte, saudável, que apoiava dedicadamente seu Führer e lutava por sua comunidade nacional. Esta mulher, diferente da mulher de Weimar, não tomava para si o lugar que não a pertencia, mas sim buscava excelência dentro da “esfera feminina”140. A presença desta representação feminina não significava que esta fosse uma visão universal, mesmo entre os nazistas. Ainda antes da ascensão do nazismo, havia espaços em seu meio para que mulheres que não se adequassem ao ideal nazista fossem também consideradas parte do Volksgemeinschaft, ampliando assim o apelo eleitoral exercido pelo NSDAP141. De toda forma, era um ponto de vista popular o suficiente para que fosse sustentado como o pilar da sociedade nazista, e figurasse proeminentemente não só na NS-FW, como também nos pôsteres, discursos e outras publicações oficiais nazistas. Uma das formas de fazer desta representação idealizada algo que apelasse a um número maior de mulheres foi utilizar-se da flexibilidade presente nos discursos nazistas, nas lacunas naquilo que parecia extremamente rígido. Colocando a mulher como pilar central da unidade do Volksgemeinschaft, dava-se a elas um lugar - ao menos no discurso - de importância que não poderia ser rivalizado por ninguém. Como, sem a mulher, poderia o povo chegar a seu objetivo? A mulher, que geraria todas as gerações de crianças racialmente puras, se via então como elemento chave para o Volksgemeinschaft através da exaltação da maternidade. Esta era de extrema importância justamente pelaobsessão nazista com a pureza racial. Sua sociedade ideal incluía somente aqueles que fossem racialmente puros, e para que este objetivo fosse alcançado, as mulheres racialmente puras precisavam também dedicar-se a este objetivo, e trazer ao mundo crianças “desejáveis”. Delas portanto dependia a sobrevivência do Volksgemeinschaft e sua eternização na história da Alemanha. Para que houvesse um Terceiro Reich de sucesso onde os antecessores haviam falhado, sucumbido à degeneração. Tal exaltação da figura materna aparecia constantemente nas páginas da FrauenWarte. Para esta publicação propagandista, era mais uma das evidências do lugar privilegiado que a mulher tinha no Reich. Comparações surgiam com as mulheres de outras nações, com o 140 RUPP, 1977. 141 Idem. Ibidem. 99 lugar dado à família em outras sociedades, demonstrando a superioridade do papel feminino no Reich. Essa era, afirmavam os autores da revista, a verdadeira liberdade feminina, a maior igualdade possível. A flexibilidade discursiva nazista também possibilitava outro elemento importante; dava às mulheres a chance de articularem-se política e socialmente, fora do lar, sem que isto fosse visto como uma traição aos valores nazistas. O papel da mulher era o de mãe por natureza. Quer o fosse de fato ou não, a maternidade era a essência feminina, e fazia parte da mulher desde seu nascimento. Mesmo se não tivesse filhos, era mãe de todo seu povo, e por conseguinte mãe de sua nação. Como tal, cabia a ela proteger seus filhos, assegurar que sobrevivessem. Isto, como já vimos, só era possível se sobrevivesse também a cultura do povo, pois eram unos. O povo não existe sem a união cultural que o torna povo. Dentro desta função, tudo aquilo que fosse do interesse do Reich poderia ser visto como função materna e, portanto, pertinente às mulheres arianas, ainda que tradicionalmente pudesse ser parte da esfera masculina da sociedade142. Esta abertura às possibilidades fora do lar tomam uma proporção diferente conforme a guerra se aproxima e, mais ainda, quando se intensifica. Quando a guerra se prolonga e a vitória vai ficando mais distante, o esforço de guerra demanda mais da Alemanha. Os homens deixam seus postos de trabalho para reforçar o front de guerra, mas a Alemanha necessita que aquele trabalho ainda seja feito. Restam as mulheres. O que era uma possibilidade de maior liberdade dentro dos padrões sociais nazistas se torna em um dever143. As mulheres eram chamadas ao trabalho fabril, as agricultoras celebradas com frequência, a preocupação com os tópicos do front eram mais frequentes nas páginas da NS-FW. O que era necessário deveria ser feito, e a vitória, como única saída possível para a salvação do Volksgemeinschaft, era também algo que cabia às mulheres, e, portanto, estas deviam fazer no front doméstico o sacrifício que suas contrapartes masculinas faziam em combate. Não havia limites a ser postos para tudo aquilo que levasse o povo de encontro a seus objetivos. Todo o sacrifício era esperado de cada um no Volk. Mesmo como indivíduos, estes já haviam passado a ser parte integrante do Volksgemeinschaft. A 142 JAMES, 2020. 143 CENTURY, 2017. 100 destruição deste significava sua própria destruição e a de tudo que formava sua comunidade144. Objetivos individuais, dentro deste ideal, não existiam ou, quando existiam deveriam estar sempre submetidos aos interesses do povo. O bom alemão não era egoísta ou preocupado apenas consigo mesmo. Da mesma forma, a boa mãe estava disposta sempre a colocar as necessidades de seus filhos acima de sua própria. E os filhos da mãe nazista eram todo o Volk. Era esperado que cada alemão trabalhasse com o objetivo de preservar seu povo, mas para a mulher em especial, este sacrifício era exercido em nome da maternidade. Quer tivesse seus próprios filhos ou não, a mulher nazista era, em sua essência, mãe do povo, e deveria sempre agir de forma a manter-se sempre como exemplo para sua nação, cuidando dos filhos do Volk como seus próprios, ainda que não o fossem. A mulher nas páginas da FraenWarte passa então do lar às fábricas e até ao front, em funções de suporte secundárias ao combate, sem que nunca deixe de ser a dedicada mãe do Volk. Pelo contrário. Era por ser dedicada e disposta a sacrificar-se que trabalhava. O trabalho da mulher no esforço de guerra era a contraparte do trabalho do soldado. Esta assegurava que o Reich e o Volksgemeinschaft sobreviveriam da mesma forma que o fazia o homem no front, buscando a vitória que era sua única esperança. Neste sentido, o pessimismo da ideologia nazista145 e a visão da manutenção da Volksgemeinschaft como uma guerra constante entre diferentes culturas e suas degenerações, mesmo antes que a guerra de fato houvesse começado, dá suporte ao clamor por grandes sacrifícios. A guerra aparece como confirmação de seus grandes mados; A ameaça ao Volk agora se fazia clara. Armada das garantias e da fé trazidas por seu Führer, a mulher-mãe nazista daria até seu último momento para que o esforço germânico fosse bem-sucedido e seus filhos - todos eles, seus de fato ou não - pudessem alcançar a sociedade germânica a que tanto aspiravam. A representação da mulher na NS-FrauenWarte estava em uma constante de permanências e quase-rupturas que só não se tornam rupturas pela flexibilidade particular ao discurso nazista. Esta mulher podia mudar conforme as necessidades do Reich, expandindo ou retraindo seus deveres e responsabilidades, mudando seu foco e seus interesses, sem perder a essência germânica que a definia, e seguindo como o pilar da 144 KOONZ, 2007; JAMES, 2020. 145 ELIAS, 1991 101 estrutura que busca representar. A mulher nazista da FrauenWarte era uma idealização da figura maternal que sustentava todo o Reich. Era importante que a imagem da mulher germânica ideal chegasse, portanto, ao maior número de alemãs o possível. Que estas mulheres pudessem entender e se convencer de seu papel na luta pelo futuro do povo. O papel da NS-FW era então de grande importância para a propaganda nazista. Não só uma revista feminina, a NS-FrauenWarte fez parte de um esforço para que a mulher alemã visse seu trabalho como parte de um papel maior; o de mãe de seu povo. A mulher da NS-FW muito provavelmente nunca representou de forma completa qualquer mulher real, mas possibilitava que milhões se vissem nela refletidas e que a seguissem como um farol que as guiava à terra firme. Desta forma, a NS-FW pôde continuar seu papel político e se fazer parte relevante dos esforços propagandísticos do Terceiro Reich. 102 BIBLIOGRAFIA E FONTES BIBLIOGRAFIA E FONTES FONTES GÜNTHER, Erna. Wir Frauen im Kampf um Deutschlands Erneuerung. NS-Frauen Warte, #17, p. 507, 1934. HABMANN, Kurt. Kraft aus liebe und glauben. NS-Frauen Warte, #14, p. 185, 1943. HITLER, Adolf. Discurso à Nazionalsozialistische Frauenschaft. Frankfurter Zeitung, 9.ix.1934. LINHART-KÖPKER, Erna. Am Muttertag 1940. NS-Frauen Warte, #22, 1940. SCHREIBER, Alwine. Todesbereitschaft/Lebensbereitschaft. NS-Frauen Warte, #23, p.451, 1940. WÜRZBACH, Friedrich, Vom Geist der Rasse. NS Frauen Warte, #20, p. 625, 1938. 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