Prévia do material em texto
SEGURANÇA PÚBLICA MUNICIPAL AULA 2 Prof. Claudio Frederico de Carvalho 2 CONVERSA INICIAL Em meios acadêmicos e debates políticos, muito se fala sobre segurança pública, “sensação de segurança” e mitigação dos fatores que geram a violência. Entretanto, no momento de se colocar em prática, percebemos, muitas vezes, uma carência técnica muito grande acerca do assunto por parte dos governantes. Um dos principais equívocos que comumente ocorre é acreditar que segurança pública é coisa “somente de polícia” e que defesa social é um ramo da segurança pública. Na verdade, segurança pública é um dos ramos de ações da Defesa Social, ou seja, segurança pública nada mais é que um gênero da defesa social. Assim, fica mais fácil compreender que uma ação isolada, somente focada na área de segurança pública, certamente estará fadada ao fracasso ou a repetição sucessiva do mesmo ato, quase que perpétuo, pois sempre estará combatendo apenas o crime, ignorando a necessidade da implantação de medidas de Defesa Social, tanto preventivas quanto ressocializantes. Nesta aula, vamos analisar a definição de defesa social, de segurança pública e de polícia, distinguindo o exercício da ação policial, da denominação da instituição que atua nessa área. Também vamos estudar o policiamento ostensivo preventivo, suas características e peculiaridades, além dos órgãos de segurança pública que atuam nos municípios. TEMA 1 – DEFINIÇÃO DE DEFESA SOCIAL A Defesa Social são ações realizadas pelo poder público com o objetivo de coibir a prática de crimes e garantir o direito à dignidade do cidadão. À medida que a sociedade se desenvolve e evolui, são criados mecanismos e leis a fim de preservar e estimular o convívio em grupo. Desse modo, algumas condutas, com o passar dos tempos e com a evolução do convívio social de determinado grupo, acabam sendo consideradas nocivas e/ou não mais aceitas, surgindo, assim, normas de caráter proibitivo para tais ações. As ações governamentais devem seguir a mesma evolução, sempre visando ao bem comum e ao convívio harmonioso em sociedade. 3 Um sistema de defesa social é muito complexo, abrange ações de segurança pública, defesa civil, trânsito, entre outras, tendo, na maioria das vezes, um caráter de prevenção e de mitigação dos crimes e delitos. TEMA 2 – CONCEITUAÇÃO DE SEGURANÇA PÚBLICA Segundo Plácido e Silva (1975, p. 1417), segurança pública “É o afastamento, por meio de organizações próprias, de todo perigo ou de todo mal que possa afetar a ordem pública, em prejuízo da vida, da liberdade ou dos direitos de propriedade do cidadão [...]”. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu art. 144, ampliou o conceito sobre segurança pública: A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I - polícia federal; II - polícia rodoviária federal; III - polícia ferroviária federal; IV - polícias civis; V - polícias militares e corpos de bombeiros militares. [...] Assim, o conceito de segurança pública pode e deve ser organizado em dois momentos: um que trata sobre o dever do Estado, e outro que se refere à responsabilidade de todos. Diante dessa definição de segurança pública, temos como órgãos executores, do Sistema de Segurança Pública, as forças federais, estaduais, distritais e municipais de segurança pública, sendo elas: Municipal – guarda municipal e agente de trânsito; Estadual – polícias civil e militar; Distrito Federal – polícias civil e militar e agente de trânsito; União – polícias federal, rodoviária federal e ferroviária federal. Essas forças de segurança exercem a atividade de policiamento, ou seja, policiam o cidadão. O termo policiar, originariamente foi empregado no ano de 1791, na França, ao ser criada lá a força policial. Essa força de segurança pública foi organizada em duas esferas de atuação: administrativa, para efetuar o policiamento preventivo; judiciária, a fim de auxiliar o poder judiciário. 4 TEMA 3 – DISTINÇÃO ENTRE FUNÇÃO E DENOMINAÇÃO O termo polícia referente à função é muito confundido com o termo polícia referente à denominação. A diferença entre ambos é que o primeiro trata do poder de polícia inerente ao Estado, já o segundo, por sua vez, trata do nome da instituição que executa a atividade inerente a esse poder de polícia. A função da polícia é organizada em duas esferas: administrativa – atua no patrulhamento, tendo maior ênfase na prevenção e menor incidência na repressão; judiciária – consiste na atividade de investigação, da persecução criminal, tem, na sua essência, o caráter de repressão, inexistindo uma ação de prevenção na execução da missão. O conceito do termo polícia em relação à sua função e poder, é responsabilidade do Poder Executivo na esfera da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Além disso, executa a função de polícia judiciária, na fase investigatória (exceto os municípios); e a função de polícia administrativa, por meio do policiamento ostensivo/preventivo. Em relação à denominação da instituição que exerce o policiamento, o conceito técnico do termo polícia se refere ao serviço do Estado, encarregado de manter a ordem pública. Esse poder de polícia é exercido por meio das diversas “espécies de polícia”, de acordo com sua esfera governamental – conceituamos espécies de polícia ou órgãos policiais as instituições públicas que exercem a atividade de polícia judiciária ou de polícia administrativa, na União, nos estados, no Distrito Federal e nos municípios: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Ferroviária Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Guarda Municipal e Agente de Trânsito. No Brasil, temos a divisão do poder de polícia na área da segurança pública, sendo uma polícia de prevenção e outra que atua na repressão e na investigação. Para essa divisão, damos o nome de dicotomia policial. Atualmente, nos países da Europa, da América do Sul e da América do Norte, o modelo adotado é o chamado ciclo completo de polícia, sendo caracterizado pela atuação do órgão policial de forma plena, inglobando as ações de prevenção e de repressão. 5 Esse modelo de distribuição da função policial, contrário à dicotomia policial, tem se mostrado mais eficaz, diminuindo a redundância e a sobreposição de funções, além de se mostrar mais produtivo e econômico. Além do Brasil, a divisão da atuação das forças policiais também ocorre na República de Cabo Verde e na República Guiné-Bissau. TEMA 4 – DEFINIÇÃO DE POLICIAMENTO OSTENSIVO PREVENTIVO O tema policiamento ostensivo preventivo, após a promulgação da Constituição de 1988, passou a ter mudanças significativas para a estruturação e a ação das instituições policiais atuais no Brasil. Anterior à Carta Constitucional, estava em vigor no Brasil o Decreto-Lei n. 667, de 2 de julho de 1969, o qual outorgava com exclusividade apenas o policiamento ostensivo para as polícias militares, inexistindo a noção de prevenção. Com a revogação tácita, em razão do art. 144 da CF, o conceito de polícia ostensiva evoluiu, não mais sendo limitado apenas a uma instituição e com uma única missão em específico: a manutenção da ordem pública e a segurança interna nos estados. Por conseguinte, o policiamento preventivo que anteriomente era ignorado passou a fazer parte do ordenamento jurídico, conferindo às instituições policiais atribuições mais claras, incluindo a efetivação da função de policiamento ostensivo preventivo. O policiamento preventivo é uma das melhores formas de se garantir a diminuição e o controle da criminalidade. Ser visto e reconhecido como profissional da segurança públicaé uma das principais características do agente que exerce o policiamento ostensivo. O policiamento ostensivo preventivo tem sua origem e seus princípios amparados no art. 144 da CF, sendo composto das ações de fiscalização de polícia sobre a matéria de segurança pública. Sua função principal é a prevenção de crimes e violações de normas administrativas, em especial no trânsito e no meio ambiente, e a correta aplicação das posturas municipais. Tratam-se de medidas preventivas de segurança, as quais miniminizam a possibilidade do cometimento dos delitos. 6 TEMA 5 – ÓRGÃOS DE SEGURANÇA PÚBLICA QUE ATUAM NOS MUNICÍPIOS Os órgãos de segurança pública e suas respectivas atribuições estão descritos no art. 144 da CF, sendo eles: Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I - polícia federal; II - polícia rodoviária federal; III - polícia ferroviária federal; IV - polícias civis; V - polícias militares e corpos de bombeiros militares. § 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a: I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei; II - prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência; III - exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras; IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União. § 2º A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das rodovias federais. § 3º A polícia ferroviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das ferrovias federais. § 4º Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares. § 5º Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil. § 6º As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as polícias civis, aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. § 7º A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades. § 8º Os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei. 7 § 9º A remuneração dos servidores policiais integrantes dos órgãos relacionados neste artigo será fixada na forma do § 4º do art. 39. NA PRÁTICA Após a Constituição de 1988, os municípios, assumindo a condição de protagonistas da segurança pública municipal, aos poucos, começaram a investir em ações voltadas à defesa social, entre elas a de implantar suas guardas municipais, atuando no controle de trânsito local, na proteção do patrimônio, na segurança dos usuários e dos prestadores de serviços públicos, nas ações de defesa civil, entre outras. Hoje, nos grandes centros urbanos, podemos nos deparar com profissionais da guarda municipal, trabalhando, via de regra, de forma harmoniosa e integrada com os outros órgãos de segurança pública que atuam no município. FINALIZANDO Compreender o que é defesa social e colocar em prática suas ações de forma equilibrada, tanto no aspecto preventivo quanto no combate efetivo à criminalidade, além da reinserção do cidadão ao convívio social, são fatores preponderantes para que possamos ter não apenas “uma sensação” de segurança, mas, sim, efetivamente segurança pública com qualidade e respeito. 8 REFERÊNCIAS AMARAL, L. O. de O. Direito e segurança pública: a juridicidade operacional da polícia. Brasília: Consulex, 2003. AMENDOLA, P. A administração municipal e a segurança pública. Rio de Janeiro, 2002. ARISTÓTELES. Política. 5. ed. São Paulo: M. Claret, 2008. CERQUEIRA, C. M. N. Do patrulhamento ao policiamento comunitário. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2001a. (Coleção Polícia Amanhã, v. 2). ______. Polícia e gênero. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2001b. (Coleção Polícia Amanhã, v. 4). MELLO, C. A. B. de. Prestação de serviços públicos e administração indireta. 2. ed. São Paulo: RT, 1987. MELLO, K. S. S. Cidade e conflito: guardar municipais e camelôs. Rio de Janeiro: Eduff, 2011.