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SEGURANÇA PÚBLICA CONTEMPORÂNEA AULA 5 Prof. Alex Erno Breunig 2 CONVERSA INICIAL Saudações a todos! Nesta aula, trataremos das relações entre a segurança pública contemporânea e a garantia do exercício dos direitos humanos, da equivocada relação feita entre a pobreza e a criminalidade, sobre as origens dos fenômenos criminais e da gestão dos delitos de maior recorrência em nossa sociedade. Bons estudos! TEMA 1 – DIREITOS HUMANOS A segurança pública contemporânea é indissociável do acatamento e respeito aos direitos humanos, especialmente sob a égide de nossa atual Constituição Federal, que determina nos arts. 4º e 5º que em suas relações internacionais, o Brasil será regido pelo princípio da prevalência dos direitos humanos, bem como que os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos aprovados pelo Congresso Nacional serão equivalentes às emendas constitucionais, ou seja, terão força normativa constitucional. Nesse ponto, entendemos necessário delimitar a expressão direitos humanos, para o que utilizamos as lições de Correia (citado por Henkin, 2005, p. 99): Os direitos humanos constituem um termo de uso comum, mas não categoricamente definido. Esses direitos são concebidos de forma a incluir aquelas reivindicações morais e políticas que, no consenso contemporâneo, todo ser humanos têm ou devem ter perante sua sociedade ou governo; reivindicações estas reconhecidas como de direito e não apenas por amor, graça ou caridade. Sob essa ótica, os direitos humanos são aqueles direitos fundamentais que o homem possui pelo fato de ser humano, por sua própria natureza e pela dignidade que a ela é inerente. Atinente à relação entre a segurança pública e direitos humanos, já nos manifestamos em outras oportunidades (Breunig, 2020, p. 85), assentando que as polícias são vitais para a garantia do exercício dos direitos humanos, especialmente para os cidadãos de poder aquisitivo mais baixo, que possuem sérias dificuldades de acesso a serviços públicos. Nesse ponto, ressaltamos que as polícias, especialmente as polícias militares, são “os mais acessíveis de todos os setores e repartições públicas, não havendo tipo algum de burocracia, prazo ou horário para seu acionamento”. 3 Ainda na mesma obra (Breunig, 2020, p. 85), escrevemos que “entre as populações de baixo poder aquisitivo, uma que possui grande interação com as polícias é a que vive em situação de rua, pois é constantemente exposta a situações de desabrigo e incertezas, necessitando da proteção policial para preservação de seus direitos. Essa polícia precisa também ter clareza sobre o seu papel enquanto defensores, guardiões e promotores dos direitos humanos de todas as pessoas, independentemente de estarem ou não em situação de rua. Ao mesmo tempo que as polícias são grandes promotoras dos direitos humanos, também são acusadas de cometer recorrentes desrespeitos. Deve ser atentado para o fato de que o trabalho policial é desempenhado em regra em ambiente hostil, desgastante, física e psicologicamente. Assim, as informações sobre possíveis desrespeitos devem levar em consideração que esses fatores provocam influências perceptivas tanto na população quanto nos policiais. Dessa forma, para que ocorra uma pacífica convivência em sociedade, há necessidade de que sejam garantidos tanto a segurança pública quanto a preservação dos direitos humanos. Uma atividade ligada à segurança pública e que gera grandes reflexos no exercício dos direitos humanos e na preservação dos direitos fundamentais é a defesa civil. Essa atividade é constitucionalmente atribuída aos corpos de bombeiros militares, contando com a participação de diversos órgãos públicos e da população, com a finalidade de atuar na prevenção de desastres, socorrimentos e reconstrução de área afetadas por catástrofes. Para que tenhamos uma sociedade justa e democrática, devemos buscar de todas as formas que os direitos humanos de todos os cidadãos sejam respeitados. Para isso, é imprescindível que os policiais sejam bem selecionados, formados, instruídos e fiscalizados. TEMA 2 – CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA Antecipamos nossa convicção, conforme já nos manifestamos em outras oportunidades (Breunig. 2018, p. 184), de que a falta de oportunidades, a dificuldade de acesso a bens materiais e ao consumo ou, ainda, a privação material, por si sós, não dão ensejo ao crime. A privação somada ao contexto cultural de consumismo desenfreado e de culto ao sucesso individual, pode facilitar a adesão a 4 meios ilícitos para a obtenção de bens de consumo desejados e êxito pessoal. A facilidade ou fartura de consumo, no entanto, não afastam as pessoas do crime. Não é correto entender o cometimento de crimes como consequência direta da pobreza. Esse raciocínio equivocado se deve, em grande parte, pela natureza dos crimes perpetrados por agentes de menor poder aquisitivo, normalmente com o uso de força física e armas e com resultado naturalístico. Ressaltamos a existência dos conhecidos “crimes do colarinho branco”, os quais são cometidos, em regra, por agentes de alto poder aquisitivo, com bom nível cultural e vastos relacionamentos sociais, sendo a sua existência a comprovação de que a fartura material não inibe o cometimento de crimes. O fenômeno criminal está presente em todas as sociedades, em maior ou menor intensidade, podendo ser considerado como um “fato social” não patológico, nos parece inevitável, “onde houver ser humano, haverá violência, que deve, no entanto, que ser controlada por mecanismos sociais ou legais concebidos para permitir a convivência das pessoas em sociedade” (Breunig, 2018, p. 187). O relacionamento indevido ou mal intencionado da pobreza ou de grupos raciais, religiosos ou étnicos com a criminalidade pode gerar reflexos negativos na segurança pública, influenciando psicologicamente na relação entre a população e as forças policiais, levando à descrença na sua atuação e na falta de proatividade, seja por desestímulo, seja por receio de novas manifestações desfavoráveis. Em nosso sentir, as análises, críticas ou comentários permeados de ideologia e preconceitos ou cunhados por pessoas com temperamento sempre irascível contra os menos favorecidos ou contra as forças de segurança, especialmente contra as polícias militares, que são os órgãos públicos de maior capilaridade e exposição no Estado brasileiro, bem como os que apresentam menor burocracia a seu acesso — basta um aceno de mão para requerer seus serviços —, em nada contribuem para a compreensão de fatos relacionados ao tema ou para a busca de respostas para os problemas relatados. Muito distante disso, somente constroem muros que impedem a visão e distanciam as soluções. (Breunig, 2018, p. 189) Por fim, atentamos para um tema fortemente relacionado com a criminalização da pobreza, que é a questão carcerária, que em nosso país é preponderantemente destinada a pessoas de baixo poder aquisitivo, em face da 5 dificuldade em contratar bons advogados e percorrer todos os recursos legais existentes. TEMA 3 – A SEGURANÇA PÚBLICA: ATUALIDADE E INOVAÇÕES Para tratar da situação atual da segurança pública e projetar as inovações que devam ser introduzidas para melhorar a prestação do serviço, é imprescindível estudar o contexto histórico, bem como ter em mente que “os governos não criam recursos, e sim arrecadam da sociedade e os aplicam em suas políticas públicas. Esses recursos são, naturalmente, escassos e devem ser utilizados da maneira mais eficiente possível” (Brasil, 2018, p. 2). Tratando-se de recursos públicos, necessário que seja viabilizada a toda a sociedade participação nas decisões, bem como ter ciência a respeito dos gastos e dos resultados obtidos. Essa é uma das diretrizes da política de governança da administraçãopública federal direta, autárquica e fundacional (Brasil, 2017), das quais destacamos: I - direcionar ações para a busca de resultados para a sociedade, encontrando soluções tempestivas e inovadoras para lidar com a limitação de recursos e com as mudanças de prioridades; III - monitorar o desempenho e avaliar a concepção, a implementação e os resultados das políticas e das ações prioritárias para assegurar que as diretrizes estratégicas sejam observadas; VIII - manter processo decisório orientado pelas evidências, pela conformidade legal, pela qualidade regulatória, pela desburocratização e pelo apoio à participação da sociedade; XI - promover a comunicação aberta, voluntária e transparente das atividades e dos resultados da organização, de maneira a fortalecer o acesso público à informação. Ressaltamos que o serviço de segurança pública não pode prescindir do uso intensivo de mão de obra altamente qualificada. No entanto, é impossível falar em atualidade e inovações sem tratar de soluções tecnológicas, que otimizam e agilizam a atuação do ser humano, contribuindo sobremaneira para a efetividade da prestação do serviço. Além da consciência de que a tecnologia não tem o condão de substituir o policial, ao introduzir um nova tecnologia, deve-se atentar para riscos de uso político, de atendimento apenas ao senso comum ou para uso político eleitoral. 6 Devem ocorrer inovações também na gestão dos serviços de segurança pública, buscando a diminuição de atividades burocráticas e dispensáveis, acabando com retrabalhos e repassando trabalhos administrativos que não tenham cunho decisório ou estratégico para mão de obra alheia às carreiras de Estado. Dentre as experiências e estudos que entendemos interessantes, podemos citar a execução de Boletins de Ocorrência e Termos Circunstanciados de Infração Penal (TCIP) por meio eletrônico, as mediações criminais e o ciclo completo de polícia. TEMA 4 – ORIGENS DA CRIMINALIDADE Inicialmente, convidamos você a refletir acerca dos pensamentos a seguir: • “o homem é lobo do homem” (Hobbes, 1651); • “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”( Rousseau, 1762); • “o crime é um ‘fato social, não patológico’, normal e funcional” (Durkheim, 1895). A origem da criminalidade é estudada por diversas ciências, em especial pelo direito, filosofia, antropologia, sociologia e, mais modernamente, pelas ciências policiais. Para o nosso estudo, importa especialmente refletir com diversos enfoques a respeito das origens como caminho para o seu enfrentamento. Aqui se encaixa muito bem o apanágio “prevenir é melhor do que remediar”. Alguns estudiosos procuraram conectar o cometimento de crimes com características físicas dos serem humanos, com destaque para: Cesare Lombroso, com sua obra clássica L’uomo 4 delinquente, em que, baseado em estudos anatômicos de presos, bem como em algumas características da população carcerária, intentou identificar características físicas e comportamentais que indicassem que o sujeito teria propensão às práticas criminosas, especialmente aos crimes violentos. (Oliveira, 2021, p. 3) Outros autores procuraram identificar as causas da criminalidade nos fenômenos sociais ou em causas patológicas. Conforme lições de Oliveira (2021, p. 3): Houve também teorias que procuraram identificar os fenômenos sociais como causas da criminalidade. Alguns estudos procuraram 7 identificar nas causas sociais, o entorno social do indivíduo como causa da criminalidade. Outras teorias, ainda, reuniram todos os estudos anteriores para indicar que muitas são as causas do fenômeno criminal, sejam endógenas, patológicas, sociais etc., e que o crime é um fenômeno criminal complexo e de múltiplas variantes. Essas teorias ecléticas são as que permanecem na atualidade. O Professor Farias Junior, 1995, resume os fatores causadores de criminalidade, os endógenos e os exógenos: Endógenos: são fatores constitucionais ou mentais manifestados no próprio ser humano e revelados através de desvios de conduta definida como anômala ou anormal em relação aos padrões socialmente aceitáveis. Estes fatores podem ser de origem genética, endócrina ou psico-orgânica. Exógenos: são os fatores sociais, como sociofamiliares, socioeconômicos, socioeducacionais, socioambientais e outros concorrentes, como adensamento populacional, as migrações etc. (Farias Junior, 1995, p. 31) Mais modernamente, contudo, as ciências criminais, notadamente a criminologia, têm paulatinamente abandonado a ideia de explicação do fenômeno criminal a partir da explicação de suas causas (paradigma etiológico), evoluindo para um paradigma crítico, procurando “criticar” o sistema penal como um todo. A preocupação metodológica desloca- se da causa, para estudar o fenômeno em si, não mais o que provocou a ocorrência de um crime, mas porque esta ou aquela conduta e não outras tão lesivas quanto são criminosas, enfim, preocupa-se com o processo de criminalização. Independentemente da preocupação atual que prevalece entre os cientistas criminais, fato é que nos órgãos de defesa social, especialmente órgãos policiais (Polícia Criminal), a preocupação com a causa da criminalidade é — e deve ser — uma preocupação constante. O reconhecimento da complexidade e multiplicidade do fenômeno criminal não impede o mister dos estudos das diversas variantes e fatores que influenciam nas causas de ocorrências criminais, como caminho de estudo para práticas que materializem as políticas públicas na área. É nesse sentido que o profissional de segurança pública, na medida em que amplia seus horizontes cognitivos com conhecimentos provenientes da criminologia crítica, nunca poderá descurar do estudo, aprofundado e movediço, das causas da criminalidade, como objeto de constante estudo e preocupação. TEMA 5 – CRIMINALIDADE RECORRENTE A legislação criminal brasileira é bastante extensa, incluindo uma gama bastante variada de naturezas. Para verificar se determinada conduta configura algum ilícito, é necessário escrutinar diversas legislações, como o código penal, lei de contravenções penais, código penal militar e diversas legislações esparsas. No entanto, há ilícitos que afligem de maneira mais direta à população, seja por sua gravidade ou recorrência e que exigem que o poder público como um todo envidem esforços para preservar a ordem pública e garantir a incolumidade das pessoas e do patrimônio. Se for questionado às pessoas quais são os delitos que mais lhes preocupa, é provável que a maioria das respostas seja relacionada à violência física provocada por roubos, homicídios e ao tráfico de drogas. 8 Ao que nos parece, essas preocupações são óbvias e justificáveis, em face do instinto de preservação do ser humano. Essas naturezas criminais são as que recebem a maior atenção do poder público no intuito de evitá-las e de buscar a responsabilização dos autores, No entanto, ainda há muito que a sociedade — poder público em geral mais a população — possa fazer para reduzir sua incidência. Dentre as políticas necessárias para atingir esse fim, está atacar um mal fortemente enraizado em nossa sociedade, que é a corrupção e o desvio de verbas públicas — em todos os níveis do serviço público, não apenas nas polícias —, que, além de reduzir os valores corretamente aplicados, reduz drasticamente a eficiência da prestação dos serviços. Atentamos para uma contravenção penal que é responsável por substancial quantitativo dos acionamento dos serviços de emergência policial e que, não raras vezes, é relegada a segundo plano. Estamos falando da “perturbação do sossego”. Esse é um ilícito de menor potencial ofensivo, portanto, tem penalidade prevista muito branda e consequências legais de pouca expressão. No entanto, para as pessoas que são afetadas, pode gerar forte estresse e transtornos com reflexos psicológicos e sociais. Em face dessesefeitos, esse ilícito pode involuir para delitos mais graves, como lesões corporais ou homicídios. A resolução do problema não está adstrita à atuação policial, devendo haver o envolvimento da comunidade e de diversos outros setores do poder público, como Ministério Público, Poder Judiciário, Poder Legislativo estadual e municipal e prefeituras. Esse é um exemplo de que a atuação estatal contra pequenos delitos pode prevenir delitos de maior gravidade, contribuindo para aumentar a segurança em geral. Expressiva parcela dos ilícitos são cometidos por menores de 18 anos de idade, que são considerados penalmente inimputáveis, o que é uma opção de política penal que presume que antes dessa idade o cidadão não possui o desenvolvimento biopsicológico e social necessário para entender o caráter ilícito de seus atos e de se conduzir de acordo com esse entendimento, bem como uma política penitenciária com foco em questões econômico-financeiras e na segregação de adultos e adolescentes. 9 A redução da incidência de ilícitos por essa parcela da população exige atuação de toda a sociedade, buscando prevenir o início da vida delitiva e cessar o seu cometimento, antes que a pessoa se torne um infrator contumaz, condição que dificulta ainda mais o retorno a uma vida de acatamento ao ordenamento jurídico e ao convívio pacífico em sociedade. Ter conhecimento a respeito da participação e responsabilidade da segurança pública na garantia do exercício dos direitos humanos possibilita que essa participação seja cada vez mais efetiva, assim como a desmistificação da relação entre pobreza e criminalidade pode contribuir para a evolução das política públicas. O estudo sobre a atualidade e as inovações, sobre as origens da criminalidade e sobre os delitos de maior recorrência auxilia na destinação de recursos e na melhoria dos serviços à sociedade. FINALIZANDO Nesta aula, tratamos a respeito dos direitos humanos e da criminalização da pobreza, sob o enfoque da segurança pública, bem como da situação atual e das evoluções que entendemos necessárias e, ainda, sobre os ilícitos criminais de maior incidência e que maior preocupação causam à população. 10 REFERÊNCIAS BRASIL. Casa Civil da Presidência da República. Avaliação de Políticas Públicas: Guia Prático de Análise Ex Ante. Brasilia: IPEA, 2018. Disponível em: <https://www.gov.br/casacivil/pt-br/assuntos/orgaos-vinculados/comite-interno- de-governanca-da-casa-civil/cartilha-avaliacao-de-politicas-publicas-guia- pratico-de-analise-ex-ante>. Acesso em: 15 out. 21. _____. Decreto n. 9.203, de 22 de novembro de 2017. Diário Oficial da União. Poder Executivo, Brasília, DF, 2017. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9203.htm>. Acesso em: 15 out. 21. BREUNIG, A. E. Gestão de Segurança Pública. Curitiba: IESDE, 2020. _____. SOUZA, V. Sociologia do crime e da violência. Curitiba: InterSaberes, 2018. CORREIA, T. R. C. Considerações iniciais sobre o conceito de direitos humanos. Ceará, UNIFOR. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5152312/mod_resource/content/1/Aul a%202.%20Leitura%20obrigat%C3%B3ria%20DH.pdf>. Acesso em: 8 out. 2021. OLIVEIRA, A. J. F. Segurança Pública Contemporânea. Aula 02. Disponível em: <http://ava.grupouninter.com.br/ccdd/producao/ccdd_grad/gstSegPublica/segP ublicaContemp/a2/includes/pdf/impressao.pdf>. Acesso em: 9 set. 2021. CONVERSA INICIAL TEMA 1 – DIREITOS HUMANOS TEMA 2 – CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA TEMA 3 – A SEGURANÇA PÚBLICA: ATUALIDADE E INOVAÇÕES TEMA 4 – ORIGENS DA CRIMINALIDADE TEMA 5 – CRIMINALIDADE RECORRENTE FINALIZANDO REFERÊNCIAS