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CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS CASO: DAMIÃO XIMENES X BRASIL Damião era cearense, portador de deficiência mental, à época dos fatos com 30 anos de idade, que morava com sua mãe na cidade de Varjota, localizada a 70km de Sobral/Ceará. Infelizmente, tornou-se conhecido por ser o protagonista da primeira condenação brasileira pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. QUEM FOI DAMIÃO XIMENES LOPES ? Faleceu em 04 de outubro de 1999, na Casa de Repouso Guararapes, 03 dias após sua última internação. DOS FATOS Em 1º de outubro de 1999, a família de Damião Ximenes Lopes o internou na Casa de Repouso Guararapes, em Sobral (CE), um centro de atendimento psiquiátrico privado, que era ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Damião já havia sido internado anteriormente na mesma clínica em 1995 e 1998, relatando à sua mãe a violência física e psicológica que sofria no local. Sua última internação ocorreu devido ao fato de negar-se a ingerir os devidos remédios, bem como não aceitava comer ou dormir. No dia 03 de outubro de 1999, Damião Ximenes Lopes teve uma crise de agressividade e por estar desorientado, entrou em um banheiro da Casa de Repouso e se negou a sair, momento em que foi retirado a força do local por um auxiliar de enfermagem e outros dois pacientes. Damião, no momento em que foi dominado, sofreu um ferimento no supercílio e, em seguida, foi submetido a contenção física e medicamentosa. Já no dia 04 de outubro, a mãe de Damião Ximenes foi visita-lo e o encontrou sangrando, com hematomas, com suas roupas rasgadas, sujo e cheirando mal, com as mãos amarradas para trás, estando o mesmo com dificuldade para respirar, agonizando e pedindo socorro. • A senhora Albertina Ximenes Lopes, mãe de Damião Ximenes encontrou Francisco Ivo de Vasconcelos, à época diretor clínico e médico do local que, sem realizar nenhum exame físico no paciente, receitou-lhe alguns remédios e se retirou do hospital, não restando nenhum médico a cargo da instituição naquele momento. • Duas horas após a medicação, Damião faleceu sem ser assistido por nenhum profissional, momento em que ficou constatado a ausência de assistência adequada da Casa de Repouso Guararapes, em virtude da falta de cuidados, ficando a mercê de todo tipo de agressão e acidentes que poderiam e colocaram em risco sua vida. O médico Francisco Ivo de Vasconcelos, ao regressar à Casa de Repouso, examinou o corpo da vítima e confirmou sua morte, momento que declarou que o cadáver não apresentava lesões externas e que a causa da morte havia sido uma parada cardiorrespiratória,ou seja, morte natural. Revoltada com a situação, a família foi até a delegacia de polícia civil da cidade de Sobral, mas de nada adiantou pois o médico legista da delegacia era o mesmo que trabalhava na clínica e negou socorro a Damião. A família, indignada, resolveu enviar o corpo para o IML(Instituto Médico Legal) de Fortaleza, no entanto, claramente manipulado, o laudo declarou a causa da morte como indeterminada e sem elementos para responder. DOS DIREITOS No dia da morte de Damião Ximenes, sua irmã, Irene Ximenes foi a Delegacia de Policia da Sétima Região de Sobral, porem não deram a devida atenção ao caso, esta então, denunciou perante à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Em todas as instâncias o processo se encontrava estagnado, a demora na resolução e o descaso evidenciava a impunidade da morte de Damião Ximenes Lopes. Em 22 de novembro de 1999, Irene apresentou petição à Comissão Interamericana contra o Brasil, denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão Damião Ximenes Lopes. Em 14 de Dezembro de 1999, a Comissão iniciou a tramitação da petição sob n° 12.237 e solicitou que Estado informasse sobre qualquer elemento de juízo que permitisse a Comissão verificar se, no caso, foram esgotados os recursos da jurisdição interna, concedendo-lhe o prazo de 90 dias. Em 9 de Outubro de 2002, com a ausência de resposta do Estado, a Comissão aprovou o relatório de admissibilidade n° 38/02. A Corte é competente nos termos dos artigos 62.3 da Convenção para conhecer o caso, em virtude de que o Brasil é Estado Parte da Convenção Americana desde de 25 de setembro de 1992. DA DECISÃO Na sentença proferida em 4 de julho de 2006, a Corte reconheceu o senhor Damião Ximenes Lopes como vítima das violações dos direitos consagrados nos artigos 4.1 e 5.1 e 5.2 da Convenção Americana, ou seja, direito à vida e à integridade pessoal. Em relação a obrigaçao de respeitar os direitos, do mesmo instrument citado, sua mãe Albertina Viana Lopes e sua irmã Irene Ximenes Lopes Miranda foram reconhecidas como vítimas da violação dos direitos consagrados nos artigos 5, 8.1 e 25.1 da Convenção Americana e ainda Francisco Leopoldino Lopes (pai) e Cosme Ximenes Lopes (irmão), na qualidade de vítimas da violação à integridade pessoal, contido no artigo 5 da Convenção Americana, todos estes credores a título de dano material e imaterial. Assim, 80% da indenização respectiva foi dividida em partes iguais às senhoras Albertina Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes Miranda e 20% da indenização respectiva dividida em partes iguais entre os senhores Francisco Leopoldino Lopes e Cosme Ximenes Lopes. Em relação a ação civil de reparação de danos, a Corte considerou que os familiares de Damião Ximenes mantinham o direito a que fazem jus de reclamar perante a jurisdição interna uma indenização dos particulares para que pudessem ser responsabilizados pelo dano. •A Corte reconheceu por unanimidade que o Estado violou em detrimento ao senhor Damião Ximenes Lopes, como este o reconheceu, os direitos à vida e à integridade pessoal consagrados nos artigos 4.1 e 5.1 e 5.2 da Convenção Americana e, em relação a sua família, violou o direito à integridade pessoal consagrado no artigo 5 da Convenção Americana, bem como em detrimento à Albertina Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes à violação dos direitos a garantias judiciais e a proteção judicial consagrados nos artigos 8.1 e 25.1 da Convenção Americana.