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Caso Eloá Pimentel - Analise

Relatório crítico do Caso Eloá Pimentel: narra o sequestro de outubro de 2008, a ação da polícia e da imprensa, a morte de Eloá, os crimes atribuídos a Lindemberg Alves e os desdobramentos judiciais, incluindo condenação, redução de pena e concessão de regime semiaberto.

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UNIVERSIDADE PAULISTA- UNIP
CENTRO UNIVERSITÁRIO DO PIAUÍ - UNIFAPI
LUANDA NÁDIA AMARAL IBIAPINA
RELATÓRIO CRITICO: CASO ELOÁ PIMENTEL
TERESINA/PI JUNHO 2023
LUANDA NADIA AMARAL IBIAPINA 
CASO ELOÁ PIMENTEL 
Trabalho apresentado ao Centro Universitário do Piauí – UNIFAPI, para obtenção de créditos na Disciplina ATIVIDADES PRÁTICAS SUPERVISIONADAS do curso de Bacharelado em Direito.
TERESINA/PI JUNHO 2023
CASO ELOÁ PIMENTEL
Em 13 de outubro de 2008, por volta das 13h, Lindemberg Alves Fernandes, de 22 anos, inconformado com o fim do relacionamento, invadiu o apartamento da ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, onde a jovem estudava na companhia de três amigos – Nayara Rodrigues da Silva, Iago Vilera e Victor Campos. Após fazer ameaças, o sequestrador libertou os dois rapazes naquela mesma noite. No dia seguinte, Nayara chegou a deixar o local, mas, numa atitude inesperada, retornou ao cativeiro para ajudar nas negociações.
O sequestro se arrastou até o início da noite de 17 de outubro, quando a polícia invadiu o apartamento. Acuado, Lindemberg disparou contra as meninas. Eloá morreu com um tiro na cabeça e outro na virilha. Nayara foi atingida no rosto, mas sobreviveu. O crime aconteceu em Santo André, no ABC paulista. 
A ação da Polícia de São Paulo foi questionada. Enquanto o comandante da operação afirmava que invadira o local apenas após ouvir o primeiro disparo do sequestrador, imagens mostravam que Lindemberg só havia atirado depois da entrada dos policiais.
Em 16 de fevereiro de 2012, Lindemberg Alves foi condenado a 98 anos e dez meses de prisão pelos 12 crimes pelos quais foi julgado.
O sequestro começou no início da tarde do dia 13 de outubro, mas apenas à noite a polícia foi informada sobre o crime. Na manhã do dia seguinte o GATE – Grupamento de Ações Táticas Especiais da PM de São Paulo – já tentava negociar com Lindemberg Alves.
Na manhã de 15 de outubro, a pedido da polícia e por questões de segurança, a impressa teve que se afastar. Os policiais evitavam passar informações para não atrapalhar as negociações, e os parentes de Eloá e de Lindemberg também foram orientados a não dar entrevistas.
O cerco montado pela polícia, no entanto, não impediu que jornalistas tivessem acesso a Lindemberg. Numa conversa por telefone com a repórter Zelda Mello, exibida pelo Jornal Nacional naquela noite, o sequestrador disse que libertaria a ex-namorada, mas não informou quando isso aconteceria. Após 55 horas, a polícia e o criminoso ainda não haviam chegado a um acordo. O rapaz permanecia irredutível, mesmo diante dos apelos de sua mãe.
Após 100 horas, um desfecho trágico. No final da tarde de sexta-feira, 17 de outubro, a polícia, após ouvir um tiro no interior do apartamento, explodiu a porta e entrou no local. Eloá e Nayara, atingidas pelos disparos de Lindemberg, foram levadas para o hospital. Nayara fora atingida no rosto e não corria risco de morte. Já o estado de Eloá, que levara um tiro na cabeça e outro na virilha, era grave. O sequestrador saiu ileso após a invasão da polícia. 
A adolescente tivera uma parada cardíaca, mas fora reanimada e seguia em coma induzido. A morte cerebral de Eloá foi confirmada na madrugada de domingo.
CRIMES COMETIDOS POR LINDEMBRG
Lindemberg foi condenado a mais de 90 anos de prisão pelo assassinato da ex-namorada, e por mais 12 crimes cometidos durante o sequestro.
Ele confessou ter atirado nas reféns, mas alegou que disparou após se assustar com a explosão da bomba pelo Gate.
Posteriormente, a Justiça reduziu sua pena para 39 anos.
Ele foi acusado de cometer 12 crimes, incluindo homicídio qualificado de Eloá, tentativa de homicídio de Nayara Rodrigues da Silva e o sargento da Polícia Militar Atos Valeriano, sequestro e cárcere privado e disparo de arma de fogo.
A Justiça concedeu o regime semiaberto a Lindemberg Alves, condenado a 39 anos de prisão pela morte da ex-namorada Eloá Cristina.
Ele cumpre pena na Penitenciária Doutor José Augusto Salgado, a P2 de Tremembé (SP), desde 2008.
A decisão é da juíza Sueli Zeraik de Oliveira Armani, da 1ª Vara das Execuções Criminais (VEC) de Taubaté. A defesa de Lindemberg fez o pedido em setembro de 2020, levando em consideração o tempo de pena cumprido e a remição.
Por trabalhar na unidade, ele teve 313 dias da pena perdoados. No semiaberto os detentos têm direito a cinco saídas temporárias no ano, entre elas Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal.
No texto, a magistrada ressaltou que o preso "obteve resultado positivo no exame criminológico realizado, pela unanimidade dos avaliadores participantes, que o consideraram apto à usufruir do regime intermediário".
A decisão é do dia 11 de maio e o comunicado de transferência de regime foi enviado à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) nesta terça-feira (8).
O relatório de avaliação psicológica considerou que Lindemberg tem "agressividade e impulsividade dentro dos padrões normais" e que "arrepende-se profundamente, lamenta perda irreversível à família da vítima".
Quatro meses após conseguir o regime semiaberto, a Justiça voltou a revogar o benefício, pois segundo laudos psiquiátricos, Lindemberg apresenta descontrole emocional e agressividade. Hoje, ele está em regime semiaberto novamente, no entanto, o Ministério Público recorreu e a decisão final do Ministério da Justiça ainda é esperada.
DESMONTANDO A TESE DA POLÍCIA – PARTICIPAÇÃO DA MÍDIA
Saber se havia tido ou não um tiro antes da invasão da polícia no apartamento onde Eloá e Nayara eram mantidas reféns era um ponto crucial da investigação. Segundo o comandante da operação, Eduardo Félix de Oliveira, o local foi invadido somente após terem sido ouvidos disparos no interior. 
O perito particular Ricardo Molina avaliou uma gravação que começava um minuto e dez segundos antes da explosão da porta do apartamento. Ele identificou tiros apenas após essa explosão que antecedeu a invasão policial, e não antes, como afirmava a Polícia Militar.
Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro), também avaliou a ação da polícia e apontou possíveis falhas da operação. Segundo ele, os 15 segundos entre a explosão da porta e a entrada efetiva da polícia no apartamento foram cruciais, pois permitiu que o sequestrador disparasse contra as adolescentes.
Após nova análise feita por Ricardo Molina, não foi identificado nenhum som que pudesse ser associado a um disparo de arma antes da explosão da porta do apartamento, mostrou uma linha de tempo com base na gravação bruta, na qual o perito comprovava que todos os tiros eram sequenciais à invasão do apartamento. 
Os policiais estavam proibidos de darem qualquer declaração pública. Uma equipe de TV que teve acesso aos depoimentos dos agentes que participaram da ação, verificaram que de cinco policiais, quatro afirmaram terem ouvido um disparo antes da invasão, mas nenhum foi preciso sobre o momento exato. 
A reportagem de César Tralli, da TV Globo, mostrou uma linha de tempo com base na gravação bruta, na qual o perito comprovava que todos os tiros eram sequenciais à invasão do apartamento. “Quer dizer, quando invadiram o apartamento, o rapaz teve tempo de matar a Eloá, de atirar na outra garota e, ainda, de atirar contra os policiais. Então, nós recontamos o caso, demolindo a tese da polícia”, conclui Tralli.
No Jornal da Globo, Arnaldo Jabor fez um resumo do caso e, com um projétil na mão, criticou a operação policial: “Agora lançam a dúvida: o tiro foi antes ou depois da invasão? Nas gravações existentes, não se ouve tiro antes. Mas os policiais não podem falar. Esta bala não foi deflagrada só pelo assassino. O que disparou essa bala foi também o gatilho da falta de dinheiro, da falta de treinamento, de equipamento, e da falta de inteligência. Esta bala selou o último ato de mais uma evitável tragédia brasileira.”.
Depois de muito negociar, Renata Ceribelli convenceu Nayara Rodrigues da Silva a dar uma entrevista exclusiva ao Fantástico, exibida em 2 de novembro de2008. “Ela não queria falar de jeito nenhum. Passei duas semanas em São Paulo, indo à casa dela sem câmera, conversando, explicando a importância daquela entrevista. E no fim eu consegui. Nayara deu um depoimento importantíssimo, no qual deixava claro que, quando a polícia entrou, Lindemberg ainda não tinha atirado”, conta a jornalista.
Além de comentar o desfecho do caso, Nayara falou sobre um dos momentos mais criticados da operação policial – seu retorno ao cativeiro após ter sido libertada pelo sequestrador. Segundo a jovem, ela fora pressionada pela polícia a voltar ao apartamento e, em momento algum, recebera orientações de como deveria reagir diante de Lindemberg.
Em 18 de outubro de 2009, o Fantástico exibiu imagens inéditas da negociação com Lindemberg Alves Fernandes, registradas pelos próprios policiais. A reportagem de Valmir Salaro mostrou ainda que a Polícia Militar de São Paulo continuava afirmando que houve sim um disparo antes da invasão do apartamento, apesar do depoimento de Nayara, a principal testemunha do caso, contradizer essa versão. Segundo a PM, a ação foi legítima e sem falhas. Lindemberg foi apontado pelo Ministério Público como o único responsável pela morte de Eloá Cristina Pimentel.
BENS JURIDICOS E DIREITO A VIDA
Enquanto o STF decidia o “futuro do país” em julgamento da Lei da Ficha Limpa, a imprensa de um modo geral acompanhava de perto o Júri marcado pelo mais longo cárcere privado (quase 100 horas) do estado de São Paulo e pelo homicídio de Eloá Pimentel, sendo o acusado Lindemberg Alves condenado pelo Conselho de Sentença pela prática de 12 crimes, a uma pena total de 98 anos e 10 meses de reclusão.
Em síntese, os delitos foram os seguintes: homicídio qualificado pelo motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima (Eloá Pimentel), homicídio tentado qualificado pelo motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima (Nayara), homicídio qualificado tentado (vítima Atos Valeriano), cinco crimes de cárcere privado e quatro crimes de disparo de arma de fogo.
De acordo com o Ministério Público tratou-se de crime passional (e não premeditado). 
São 11 mulheres vitimadas por dia em nosso país, e a máxima é sempre a mesma: “se não for minha não será de mais ninguém”, por isso o fim do relacionamento levou o acusado ao desespero e a consequente perda do senso de controle sobre suas atitudes. Aliás, é exatamente isso que leva muitas pessoas ao cárcere: a influência do álcool, drogas, ou alguma forte emoção faz as pessoas perderem a razão, o controle e, como se sabe, o homem é naturalmente mau, sendo-lhe ínsito o animus necandi.
A condenação com certeza foi justa, merecida. Analisando a teoria eclética (art. 59, parte final, do CP) quanto às finalidades da pena, é possível afirmar que houve a retribuição pelo mal causado e foi mostrado para a sociedade que o Estado tem o monopólio do direito de punir, de modo que se outro agressor portar-se da mesma forma receberá tratamento penal similar ao de Lindemberg. Todavia, será que haverá a ressocialização desse condenado?
Apenas para ressaltar, não teve o menor cabimento a alegação de que o homicídio de Eloá Pimentel foi culposo, como tentou sustentar a advogada, em tese desclassificatória. Ora, o réu ficou com a vítima em cárcere privado, apontando uma arma para sua cabeça, durante quase 100 horas, com certeza ele assumiu o risco do resultado, ou não?
Todavia, “nem tanto a terra, nem tanto ao mar”. Com o devido respeito, a juíza exagerou na aplicação da pena, pois aplicar a pena máxima para todos os crimes, sem o reconhecimento da continuidade delitiva, pelo menos entre os crimes de cárcere privado e os disparos de armas de fogo, apresenta-se como algo totalmente desproporcional (vedação ao excesso).
Os delitos foram praticados no mesmo local, mesmo tempo, e modo de agir. Assim, a pena não deveria ter sido somada em cúmulo material, mas poderia ter sido fixada de acordo com o delito tipificado e aumentada até dois terços, como manda o art. 71, caput, parte final, do Código Penal. Seria, diga-se, uma solução pelo bom senso.
Na verdade, percebe-se que a juíza foi nitidamente comovida pelo populismo penal e insuflada pela voracidade da mídia que igualmente permeou o caso Nardoni. Disse a magistrada que “a sociedade, atualmente, espera que o juiz se liberte do fetichismo da pena mínima” e, logo após, justificou a aplicação da pena no máximo legal, para cada crime, alegando, em síntese, que “os crimes praticados atingiram o grau máximo de censurabilidade que a violação da lei penal pode atingir”.
De fato, deve-se criticar veementemente a “cultura da pena mínima” em nosso país, como se o Direito fosse uma ciência exata e as pessoas, fantoches. Todavia, não se justifica a pena máxima para este caso uma vez que a censurabilidade não foi “em seu grau máximo”. Ora, o homicídio por si só não tem justificativa, mas pode ao menos ser compreendido conforme as peculiaridades do caso concreto, muito embora a “emoção ou paixão” não tenham o condão de excluir a imputabilidade penal (art. 28, inciso I, do CP).
Apenas como exemplo, no caso Tim Lopes, o réu foi condenado a 28 anos de reclusão por um crime bárbaro, após torturar, esquartejar e atear fogo ao corpo da vítima. Na mesma senda, Suzane von Richthofen foi condenada a 19 anos e 6 meses (cada vítima) por arquitetar a morte de seus próprios pais a pauladas, enquanto eles dormiam, para simplesmente ficar com a herança, como se o mundo fosse movido exclusivamente pelo dinheiro, e não pelas relações humanas em uma sociedade civilizada.
Sem contar, ainda, que a juíza sopesou a mesma circunstância duas vezes (bis in idem) contra o réu, pois ela considerou “os egoísticos e abjetos motivos” para qualificar o homicídio (pena em abstrato de 12 a 30 anos de reclusão) e, depois, utilizou a mesma circunstância para fixar a pena em seu patamar máximo, muito embora tenha alertado momentos antes: “evitando-se, assim, repetições desnecessárias”.
Outra questão interessante: o réu foi condenado a 98 anos e 10 meses de prisão, mas quanto efetivamente ele irá cumprir? Em síntese, a progressão de regime para crimes hediondos (no caso, homicídio qualificado, tentado ou consumado) ocorre com 2/5 da pena cumprida, para crimes comuns (porte ilegal de arma e cárcere privado, no caso) essa progressão ocorre com 1/6 da pena cumprida; o que significa, em conclusão, que Lindemberg teria de cumprir mais de 30 anos no regime fechado, para só depois ter direito à progressão de regime.
Portanto, para efeito do cálculo da progressão de regime é levada em consideração a quantidade total da pena aplicada na sentença (no caso, os 98 anos e 10 meses), nesse sentido, inclusive, há a Súmula 715 do STF, que diz: “A pena unificada para atender ao limite de trinta anos de cumprimento, determinado pelo art. 75 do Código Penal, não é considerada para a concessão de outros benefícios, como o livramento condicional ou regime mais favorável de execução”.
Destarte, considerando que o limite temporal máximo em nosso país é de 30 anos conforme o art. 75 do Código Penal, pela pena imposta na sentença o réu simplesmente teria de cumprir tudo em regime fechado, o que na prática configuraria pena de prisão perpétua, sobretudo se consideradas as condições do cárcere em nosso país.
Vale destacar, ademais, que apesar de o STF já ter julgado inconstitucional a vedação abstrata à progressão de regime por violar o princípio da individualização da pena e a dignidade humana (por retirar do preso a esperança da recuperação); é perfeitamente possível que o condenado fique preso, efetivamente, mais de 30 anos de reclusão em nosso sistema penal quando, por exemplo, após o início do cumprimento da pena cometa outro crime dentro do presídio, ocasião em que se procederá a nova unificação, “desprezando-se o período de pena já cumprido” (art. 75, § 2º do Código Penal).
Sob outro prisma, no que se refere ao suposto crime contra a honra em tese praticado pela advogada, que “de forma jocosa, irônica e desrespeitosa”, aconselhou a Magistrada a “voltara estudar”, salvo melhor entendimento, não constitui injúria a ofensa irrogada em juízo, na discussão da causa, por parte do procurador. Desse modo, a referida imunidade apenas não abrange a calúnia, segundo entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal.
Já em relação ao aludido princípio da verdade real alegado pela defensora em Plenário, está corretíssima a Magistrada ao ressaltar que ele “não existe ou então tem outro nome”. Em singelas palavras e na esteira de autorizada doutrina, a verdade real em termos absolutos não existe no processo penal por simplesmente se revelar inatingível. O que existe é apenas a busca da verdade processualmente válida, pois não se pode atribuir o adjetivo de “real” a um fato passado, que só existe no imaginário.
CONCLUSÃO
O caso de Eloá talvez evidencie, de maneira espinhosa, o quanto a cultura televisiva está impregnada no cotidiano brasileiro. Não se trata de uma leitura elitista e legitimista dos capitais culturais, mas antes, de uma crítica ao lugar – cultural e politicamente falando – que a mídia televisiva ocupa na sociedade brasileira. Lugar esse que impacta também em como homens e mulheres aprendem e reproduzem visões, crenças e discursos sobre relacionamentos amorosos.
A violência impetrada por homens contra mulheres apresenta-se justificada pela passionalidade e pela “crise amorosa”. Também por razões culturais – nossas próprias noções de amor como objetos de questionamento, crítica e investigação.
Em contextos de violência, reduzir o discurso amoroso a mais uma expressão reiterativa de relações hierarquizadas de gênero corresponde a preservar a aura – romântica – intocável do ideal amoroso e, consequentemente, atribuir apenas àquilo que recusa o ideal, uma explicação política e/ou científica. E, ainda que pareça contraditório, acreditamos que a compreensão da significação cultural e histórica da violência, em casos como este, passe necessariamente por uma compreensão da significação cultural e histórica do amor, bem como das emoções de maneira geral. Deste modo, concordamos com a assertiva de Grossi (1994, p.483), de que “é só ‘desnaturalizando’ o conceito de violência, e tirando-o do polo do masculino, que teremos instrumentos mais eficazes de luta”.
Devemos buscar por importantes ações educativas de conscientização a respeito de temas como o feminicídio, violência contra a mulher e relacionamentos abusivos; bem como para o debate e esclarecimentos sobre os mesmos. Pois ainda há uma cultura machista, operando em diferentes instâncias – seja através do Estado, do sistema judiciário ou das mídias –, no sentido de reiterar como natural a subordinação de mulheres a homens, a ponto de conferir a estes, prerrogativas de propriedade e cerceamento do corpo e da vida daquelas.
É possível interpretar que, em uma sociedade onde persistem traços dessa cultura machista e onde crimes de violência contra a mulher ainda são recorrentes e constituem um fenômeno social nada desprezível, nem vítimas e nem agressores possuem rosto, cor ou classe definida. Aqueles que impetram tal forma de violência não têm nome, mas seu gênero – bem como sua posição social correspondente a ele – é mais do que subentendido.
REFERÊNCIAS
•	BLAY, Eva A. (2003), Violência contra a mulher e políticas públicas. Estudos Avançados, 17, 49:87-98.
•	GROSSI, Miriam. (1994), Novas/Velhas violências contra a mulher no Brasil, in Estudos Feministas. N.E.: 473-483. 
•	https://www.ibahia.com/brasil/caso-eloa-o-que-aconteceu-com-lindemberg-apos-o-crime-292594#:~:text=Ele%20foi%20acusado%20de%20cometer,disparo%20de%20arma%20de%20fogo. 
•	https://memoriaglobo.globo.com/jornalismo/coberturas/caso-eloa/noticia/caso-eloa.ghtml 
•	Depoimentos concedidos ao Memória Globo por: Ali Kamel (26/03/2012), Erick Brêtas (20/06/2011), Renata Ceribelli (27/02/2012), William Bonner (07/03/2012 e 19/03/2012); “Tragédia em Santo André – Após cem horas, reféns feridas” In O Globo, 18/10/2008; “Testemunhas: ex-namorado tinha a intenção de matar desde o início” In O Globo, 14/02/2012; “Lindemberg fala pela 1ª vez, admite ter atirado em Eloá e pede perdão” In O Estado de S. Paulo, 16/02/2012; Bom Dia Brasil, 13-17/10/2008, 20-22/10/2008, 13-16/02/2012; Fantástico, 19/10/2008, 02/11/2008, 18/10/2009; Jornal da Globo, 13-17/10/2008, 20-22/10/2008, 13-16/02/2012; Jornal Hoje, 13-18/10/2008, 20-22/10/2008, 13-16/02/2012; Jornal Nacional, 13-18/10/2008, 20-22/10/2008, 13-16/02/2012.

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