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FORMAÇÃO 
SOCIAL, 
ECONÔMICA E 
POLÍTICA DO 
BRASIL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Caracterizar os novos excluídos do Brasil.
 > Analisar os impactos sociais dessa nova classe de excluídos no Brasil.
 > Avaliar o papel do Estado com as políticas inclusivas.
Introdução
Uma das principais temáticas acerca da dinâmica de funcionamento da sociedade 
é a exclusão social, que faz referência ao processo de distinção e/ou segregação 
em relação a um indivíduo ou grupo. A exclusão social pode assumir características 
distintas dependendo do contexto em que é praticada, tendo variadas motivações 
para isso, como a desigualdade econômica e a diversidade cultural, por exemplo. A 
exclusão social está relacionada ao processo sócio-histórico de formação de cada 
região territorial, por isso a análise desse aspecto se torna um fator fundamental 
para a contextualização desse tema. 
Neste capítulo, você vai ver algumas considerações iniciais acerca do conceito 
de exclusão social e sua utilização teórica, abordando também as variadas formas 
que a exclusão pode assumir. Por fim, vai ver algumas referências ao desenvol-
vimento de políticas públicas e ao papel do Estado em relação à inclusão social.
Os novos excluídos 
do Brasil
Alana Milcheski
Exclusão social
Ao abordarmos a temática referente às discussões acerca do processo de 
exclusão que ocorre a nível de sociedade, inicialmente é necessário traçar-
mos algumas considerações sobre as possíveis acepções do termo “exclusão 
social”. Nesse sentido, serão destacadas reflexões elaboradas de acordo com 
a perspectiva sociológica do conceito de exclusão social, a fim de entender 
os fenômenos aos quais esse termo faz referência, tendo como delimitação 
temporal o contexto contemporâneo. 
A sociologia, enquanto área de estudo, se dedica à análise de complexos 
e intricados fenômenos sociais, que fazem referência a dinâmicas que se 
desenvolvem em nível individual ou coletivo e que frequentemente têm for-
mas de funcionamento próprias. Assim, a exclusão social se configura como 
um desses fenômenos que se insere no desenrolar cotidiano das relações 
humanas, constituindo-se enquanto uma temática de análise cujas menções 
iniciais podem ser identificadas a partir da metade do século XX.
No que se refere ao contexto geográfico, a França é apontada como o 
local de surgimento do termo de “exclusão social”, onde ele era utilizado 
para fazer referência aos indivíduos que se encontravam fora do mundo do 
trabalho, sendo categorizados de acordo com o processo de empobrecimento 
decorrente da condição em que se encontravam. Apesar de o surgimento do 
conceito de exclusão social ser atribuído ao contexto mencionado, é somente 
ao final da década de 1980 que podemos identificar uma expansão conside-
rável em relação ao uso desse termo em âmbito internacional.
A partir do final dos anos 1980, o termo exclusão social adquiriu uma grande 
visibilidade no debate político e teórico internacional. Essa visibilidade pode ser 
explicada pela necessidade de explicar e entender um fenômeno geral de empo-
brecimento e carências, mesmo para os países europeus que, desde o pós-guerra, 
teriam estendido à maioria de sua população condições de vida e de integração 
social bastante positivas. Mais recentemente, essa noção passou a ser criticada 
tanto pelos alegados limites em sua capacidade explicativa como em função do 
uso abusivo do termo (ZIONI, 2006, documento on-line).
Entre as motivações para a disseminação do termo, está a necessidade 
demandada pelas transformações sociais que acarretaram um aumento ex-
pressivo do empobrecimento de parcelas populacionais em diversos países. 
Recentemente, alguns problemas acerca da utilização do termo de ex-
clusão social têm sido identificados por especialistas de áreas diversas, e 
entre tais críticas podemos citar a objeção ao uso excessivo do termo, o que 
pode acarretar a polissemia do significado, bem como esvaziar o conceito 
Os novos excluídos do Brasil2
de seu sentido inicial. Entretanto, cabe destacarmos que algumas expansões 
do termo de exclusão social foram decorrentes da própria dinâmica social, 
assim como da elaboração e formulação de estudos acadêmicos e científicos 
que buscaram compreender a complexidade desse fenômeno.
Nesse sentido, outros aspectos, como a precarização do trabalho, podem 
ser relacionados ao conceito de exclusão social, pois estão diretamente 
associados às diferentes formas de exclusão contemporâneas.
Enquanto a pobreza é um desdobramento das relações históricas e estruturais de 
oposição entre os interesses de classes, portanto, um fenômeno econômico que 
se configura na questão social derivada das relações capital x trabalho, a “exclu-
são social” se caracteriza por um conjunto de fenômenos que se configuram no 
campo alargado das relações sociais contemporâneas: o desemprego estrutural, 
a precarização do trabalho, a desqualificação social, a desagregação identitária, a 
desumanização do outro, a anulação da alteridade, a população de rua, a fome, a 
violência, a falta de acesso a bens e serviços, à segurança, à justiça e à cidadania, 
entre outras (LOPES, 2006, documento on-line). 
Esses fenômenos podem ser entendidos como processos que se desen-
volveram de forma concomitante com o empobrecimento de parte da popu-
lação em nível mundial e, em alguns contextos, são considerados causa ou 
consequência dessa condição, reflexo de um intricado complexo de relações. 
Dessa forma, existem diferentes grupos e indivíduos que são excluídos em 
nível social, e as formas de exclusão podem variar, como por meio do processo 
de desumanização causado por inúmeros fatores, por exemplo.
Em relação aos debates teóricos realizados pela perspectiva sociológica, 
podemos destacar os estudos do sociólogo Norbert Elias, que cunhou o termo 
outsiders, que tem a intenção de caracterizar especificamente indivíduos que 
são mantidos à margem de um determinado grupo ou sociedade. 
A semelhança do padrão de estigmatização usado pelos grupos de poder elevado 
em relação a seus grupos outsiders no mundo inteiro – a semelhança desse padrão 
a despeito de todas as diferenças culturais – pode afigurar-se meio inesperada a 
princípio. Mas os sintomas de inferioridade humana que os grupos estabelecidos 
muito poderosos mais tendem a identificar nos grupos outsiders de baixo poder e 
que servem a seus membros como justificação de seu status elevados e prova de 
seu valor superior costumam ser gerados nos membros do grupo inferior – inferior 
em termos de sua relação de forças – pelas próprias condições de sua posição de 
outsiders e pela humilhação e opressão que lhe são concomitantes. Sob alguns 
aspectos, eles são iguais no mundo inteiro (ELIAS; SCOTSON, 2000, p. 32).
Assim, o teórico aponta para a existência da categoria considerada como 
outsider ao redor do mundo como um todo, e o estabelecimento de relações 
Os novos excluídos do Brasil 3
desiguais tanto em nível simbólico quanto material se constitui enquanto 
uma marca indelével dessa condição. Pode-se perceber que o processo de 
exclusão social também é composto por aspectos relacionados ao status 
estabelecido entre grupo e/ou indivíduos, fazendo com que pessoas tidas 
como “diferentes” sejam relegadas a uma condição considerada como inferior.
Ainda no que se refere aos estudos de Norbert Elias, podemos destacar que:
A teoria apresentada pelo autor defende a existência de relações de interde-
pendência e equilíbrio de poder entre dois grupos, sendo essa uma condição 
fundamental para a estigmatização de um grupo de “outsiders” por um grupo 
“estabelecido”. Ele constatou o processo no qual um grupo estigmatiza o outro 
quando está bem instalado em posições de poder das quais um deles é excluído 
(PEREIRA; LOURENÇO, 2018, documento on-line).
As contribuições do sociólogo são inúmeras e fazem referência, entre 
outros tópicos, à abordagem das dinâmicas estabelecidas acerca da distinção 
entre os indivíduos e grupos considerados como estabelecidos e osque são 
considerados outsiders.
Em relação ao contexto brasileiro especificamente, pode-se destacar 
alguns aspectos relacionados aos processos de exclusão social existentes, 
começando pela distinção acerca da perspectiva econômica, que inclui uma 
parte expressiva da população. 
Assim, para a conjuntura brasileira, exclusão social implica em várias discussões. 
Pensar em critérios econômicos significaria considerar que cerca de 30% ou 40% da 
população estariam desligados da sociedade nacional. O mesmo raciocínio poderia 
ser aplicado aos mecanismos de proteção social e para os direitos de cidadania. 
No entanto, a partir da discussão sobre as diferentes abordagens desenvolvidas 
sobre exclusão social, entende-se que ela pode ser classificada como uma noção de 
caráter metodológico, visto que agrega elementos de um processo de conhecimento 
usados como imagens para explicação do real (ZIONI, 2006, documento on-line).
Considerando também questões relacionadas a garantias legais, como 
a proteção social que deve ser função da estrutura estatal, o número de 
indivíduos que não têm acesso também é expressivo, sendo característica 
de um gravíssimo problema humanitário. Cabe considerarmos também que o 
termo exclusão social se constitui enquanto uma elaboração teórica que tem 
a intenção de traçar abordagens sobre um fenômeno inserido na realidade 
material. 
Os novos excluídos do Brasil4
O processo de exclusão social está presente em diversos países, e em 
cada lugar pode apresentar características próprias. No entanto, é 
necessário reconhecer o problema e promover a desnaturalização dessa prática.
Para aprofundar seu conhecimento sobre o assunto, leia o artigo Da Exclusão 
à Inclusão: Concepções e Práticas, de Maria Odete Emygdio da Silva.
Formas de exclusão social
Os processos de exclusão social se modificam de acordo com as mudanças 
que ocorrem na sociedade, podendo ser superados ou adaptados ao novo 
contexto, além de haver a possibilidade de surgir formas inéditas de exclusão. 
Dessa forma, em âmbito nacional, temos presenciado a consolidação de 
algumas formas de exclusão que já existiam em outros períodos históricos 
e que se adequaram ao contexto atual, assim como o surgimento de novos 
tipos de distinção social associados a diversas mudanças que estão em voga. 
O conceito de exclusão social pode abranger diversas formas de distinção 
para além da questão econômica, como, por exemplo, por meio da segregação 
por aspectos culturais, religiosos, políticas, sanitárias e étnicas, culminando 
na expulsão ou marginalização de indivíduos. Nesse sentido, o processo de 
estipulação de identidades sociais e culturais ao longo do tempo foi marcado 
por práticas de distinção e exclusão em relação ao que era considerado 
diferente da norma estabelecida. 
Apesar disso, cabe destacarmos que há características específicas acerca 
dos processos de exclusão social que ocorrem em diversas perspectivas, como 
no caso da inclusão e adaptação às mudanças tecnológicas, por exemplo. 
Se compararmos as últimas três décadas, tendo como marco cronológico 
meados da década de 1980 e o início da expansão da internet, veremos que 
o desenvolvimento tecnológico tem sido notadamente acelerado, tanto em 
relação à inovação dos aparelhos, como a popularização dos notebooks e dos 
smartphones, quanto à inserção da tecnologia digital no cotidiano das pessoas.
Atualmente, diversas tarefas feitas com frequência, como o pagamento 
de contas e a assinatura de contratos, podem ser feitas de forma on-line, 
facilitando a realização de diversas atividades diárias ao tornar os processos 
mais ágeis. Outras demandas já têm se tornado exclusivamente digitais, 
como o envio de arquivos por e-mail e a atualização cadastral em algu-
mas instituições. A tendência apontada por especialistas das mais variadas 
áreas identifica uma intensificação ainda maior em relação à utilização das 
Os novos excluídos do Brasil 5
tecnologias digitais e da internet, aumentando a dependência dos aparelhos 
eletrônicos e do conhecimento acerca dessas ferramentas. 
Apesar dos inúmeros benefícios relacionados com o desenvolvimento 
tecnológico, temos presenciado um fenômeno de exclusão social específico 
denominado “exclusão digital”, sendo basicamente composto por pessoas 
que não têm acesso ao universo on-line, seja por questões econômicas ou 
por diferença geracional.
Exclusão digital pode ser vista por diferentes ângulos, tanto pelo fato de não ter 
um computador, ou por não saber utilizá-lo (saber ler) ou ainda por falta de um 
conhecimento mínimo para manipular a tecnologia com a qual convive-se no 
dia-a-dia. De forma mais abrangente, podem ser consideradas como excluídas 
digitalmente as pessoas que têm dificuldade até mesmo em utilizar as funções do 
telefone celular ou ajustar o relógio do videocassete, observando-se assim que a 
exclusão digital depende das tecnologias e dos dispositivos utilizados. Contudo, 
no contexto deste trabalho, a exclusão digital estará sendo conceituada como um 
estado no qual um indivíduo é privado da utilização das tecnologias de informação, 
seja pela insuficiência de meios de acesso, seja pela carência de conhecimento ou 
por falta de interesse (ALMEIDA et al., 2005, documento on-line).
A partir do momento em que uma parte considerável e essencial do fun-
cionamento da sociedade ocorre em nível on-line, é necessário que o acesso 
a esse espaço virtual ocorra de forma democrática para todas as pessoas 
que assim quiserem. Dada a crescente complexidade da tecnologia digi-
tal, é fundamental que existam aparelhos capacitados para se adequar às 
mudanças que ocorrem, assim como formas disponíveis para que pessoas 
interessadas possam desenvolver a habilidade de operar as ferramentas 
necessárias. Nesse caso, ao pensarmos em inclusão, questões como o acesso 
a aparelhos eletrônicos e a cursos voltados para a alfabetização digital se 
tornam indispensáveis. 
Outro aspecto relacionado à exclusão digital se refere ao processo de 
globalização associado com a consolidação da internet, o qual é caracteri-
zado pelo estabelecimento e pela intensificação das relações econômicas e 
culturais em nível mundial.
A mundialização dos mercados, que é encoberta pela ideologia da globalização, 
gerou a exclusão daqueles que não participam do jogo promovido e estruturado na 
idéia de que quanto menos controle, melhor, ou de que não há o que fazer frente 
à globalização, como fato inexorável. Em países desenvolvidos, essa população 
está entre 13 a 15%. Em países emergentes, como Brasil e México, está em torno 
de 50% (LOPES, 2006, documento on-line).
Os novos excluídos do Brasil6
Assim, pode-se perceber que a atual dinâmica de funcionamento social, 
nitidamente demarcada pelos aspectos mencionados, ocasiona um processo 
de exclusão que impossibilita a participação de grande parte da população 
em países como o Brasil.
Cabe destacarmos ainda a prática da exclusão contra as denominadas 
“minorias sociais”, compreendidas aqui como grupos que se diferenciam 
do padrão estabelecido de forma normativa, como, por exemplo, os povos 
indígenas e os agrupamentos étnicos.
Embora a exclusão recrie e até reforce certas formas de desigualdade, ela própria 
é, antes de mais, um produto, um corolário do próprio sistema de desigualdades 
sociais. É este que não só provoca integração subordinada mas também situações 
de exclusão por afastamento, expulsão ou eliminação do grupo minoritário, do 
diferente, apresentando-se amiúde as situações de desigualdade com maior grau 
de sofisticada subtileza e as de exclusão com eventual maior grau de crueldade 
(v.g. o massacre de índios, o nazismo, o apartheid) (SILVA, 2009, documento on-line).
Pode-se considerar, então, que a exclusão social está inserida em um 
sistema que produz e reforça as desigualdades, ocasionando aprofundamento 
dos problemas sociais e da situação de vulnerabilidade dos indivíduos. No que 
se refere especificamente às formas de exclusão social instituídas porconta 
de diferenciações culturais, inclusos nessa definição os aspectos étnicos e 
raciais, destacam-se em âmbito nacional a distinção contra os indígenas e os 
negros, o que torna o racismo um problema endêmico e institucionalizado. 
A Organização das Nações Unidas estipulou através da Agenda 2030 
os objetivos de desenvolvimento sustentável, composto de 17 tópicos. 
Acesse o site da ONU no Brasil para saber mais.
As políticas públicas e a inclusão social
Uma das temáticas mais recorrentes em relação ao conceito de exclusão social 
se refere às formas de ação adotadas pela estrutura estatal em questões 
como a aplicação das políticas públicas, por exemplo. A intenção acerca da 
promoção de ações voltadas para o combate às diversas formas de exclusão 
social deve ser voltada principalmente para a inclusão dos indivíduos e/ou 
grupos afetados pela distinção social. 
Os novos excluídos do Brasil 7
Nesse sentido, a criação de políticas afirmativas para as minorias deve ser 
uma prioridade no que se refere à busca pela construção de uma sociedade 
efetivamente mais igualitária, tanto em questão de oportunidade como de 
acesso. Dessa forma, devemos inicialmente compreender que a formulação 
de ações e políticas públicas voltadas para esse aspecto devem levar em 
consideração a perspectiva histórica, pois tanto o processo de exclusão 
como o de desigualdade social foram originados em contextos específicos. 
Testemunha a história que as mais graves violações aos direitos humanos tiveram 
como fundamento a dicotomia do "eu versus o outro", em que a diversidade era 
captada como elemento para aniquilar direitos. Vale dizer, a diferença era visibili-
zada para conceber o "outro" como um ser menor em dignidade e direitos, ou, em 
situações limites, um ser esvaziado mesmo de qualquer dignidade, um ser descar-
tável, objeto de compra e venda (vide a escravidão) ou de campos de extermínio 
(vide o nazismo). Nesse sentido, merecem destaque as violações da escravidão, 
do nazismo, do sexismo, do racismo, da homofobia, da xenofobia e outras práticas 
de intolerância (PIOVESAN, 2008, documento on-line).
As diversas formas de exclusão existentes ao longo do tempo foram le-
gitimadas pelo argumento da intolerância frente às diversidades sociais e 
culturais, que tinham como intenção desumanizar pessoas consideradas 
diferentes. Assim, os problemas sociais que se apresentam atualmente devem 
ser compreendidos a partir da perspectiva sócio-histórica, a fim de que as 
ações realizadas possam efetivamente promover a inclusão social.
Um dos fatores que contribuem para a importância da contextualização 
desse tema é o fato de que parte do senso comum se coloca de forma contrária 
à existência e à aplicação de práticas inclusivas, justamente por considerar 
apenas o contexto atual, desconsiderando todo o processo histórico. Em 
relação ao contexto nacional, especificamente, podemos destacar que as 
contradições sociais são decorrentes da manutenção de um sistema que 
reproduz as desigualdades, considerando que:
Devido à peculiar aliança de classes do país, que representa um arranjo entre os 
interesses dos latifundiários e a burguesia industrial (a qual deslocou-se de uma 
estratégia nacionalista para a atual aliança com o capital estrangeiro), as massas 
urbanas, para não mencionar as rurais, nunca foram plenamente incorporadas 
econômica e politicamente no sistema. Assim politicamente as tentativas de de-
mocracia liberal que foram empreendidas principalmente de 1946 e 1964 falharam. 
Houve um movimento pendular entre “aberturas” democráticas e “fechamentos” 
autoritários. É de se observar que relações clientelísticas existiram em ambas as 
formas de governar. Na esfera econômica, embora o capitalismo brasileiro tenha 
mostrado uma natureza bem dinâmica, ele não é capaz de incorporar ao sistema 
produtivo toda a população urbana em idade de trabalho (OLIVEN, 2010, p. 109).
Os novos excluídos do Brasil8
Assim, pode-se destacar que o processo de desenvolvimento histórico 
do Brasil foi permeado pela defesa dos interesses das camadas sociais con-
sideradas como elite, composta pelos latifundiários e pela burguesia indus-
trial. Essa condição faz com que grande parte da população seja mantida à 
margem do sistema social, inserindo-se quando possível de forma pontual, 
porém sem conseguir modificar de forma efetiva a estrutura que mantém a 
organização nacional. 
Resquícios de práticas como a escravidão e o clientelismo se mantêm 
presentes na sociedade brasileira, seja por meio do preconceito racial em 
relação ao primeiro aspecto, seja por meio do processo de privilegiamento 
em relação ao segundo. Esses apontamentos são necessários ao abordar-
mos as ações realizadas pelo aparato estatal, pois as políticas públicas são 
amparadas legalmente por meio da Constituição Federal, que representa um 
marco em termos legislativos. 
A Constituição Federal de 1988, marco jurídico da transição democrática e da 
institucionalização dos direitos humanos no Brasil, estabelece importantes dispo-
sitivos que traduzem a busca da igualdade material. Como princípio fundamental, 
consagra, entre os objetivos do Brasil, construir uma sociedade livre, justa e 
solidária, mediante a redução das desigualdades sociais e a promoção do bem 
de todos, sem quaisquer formas de discriminação (artigo 3º, I, III e IV) (PIOVESAN, 
2008, documento on-line).
Além de se configurar como um marco legal, a Constituição Federal também 
simbolizou a consolidação da democracia após a ditadura militar, abordando 
temáticas como a desigualdade social. Entretanto, apesar de teoricamente a 
constituição ser referenciada por seu caráter progressista, a aplicabilidade 
das leis encontra diversos impedimentos para sua execução, a começar pelo 
próprio ordenamento jurídico.
Considerando as dinâmicas sociais mencionadas anteriormente sobre o 
processo de construção sócio-histórica do país, com as elites controlando 
grande parte da estrutura estatal, pode-se considerar que o sistema judiciário 
também esteve atrelado aos interesses dessa classe em específico.
As lutas entre grupos sociais, sejam de classe ou estatutárias, bem como as di-
versas estratégias para tornar eficaz o fechamento social têm lugar no seio da 
dita sociedade civil. Se bem que o Estado aparentemente se alheie destas lutas, 
ele não é indiferente às polarizações sociais, quer de modo activo, através das 
funções legislativa e judicial, na defesa de pré-requisitos e pressupostos – que, 
independentemente da vontade dos indivíduos, conduzem à assimetria de recur sos 
entre os grupos -, quer de modo omisso, ao não intervir em defesa de grupos ou 
categorias sociais desfavorecidas (SILVA, 2009, documento on-line).
Os novos excluídos do Brasil 9
Nesse sentido, em muitos casos, o aparato estatal intensifica a desi-
gualdade social, como, por exemplo, quando não intervém de maneira ativa 
em situações de vulnerabilidade para grupos que se localizam à parte do 
sistema social.
Ao abordarmos a necessidade da emergência de novos parâmetros acerca 
do convívio social, que realmente permitam a inclusão, deve-se considerar 
que somente com esforços conjuntos será possível uma transformação social.
É importante prestar atenção às diferentes formas de exclusão social para, poste-
riormente, seguir com a aplicação de políticas públicas com maior nível de sucesso. 
É particularmente importante adotar-se uma abordagem adequada no âmbito da 
identificação do problema que viabilize uma investigação completa e detalhada 
(ALVINO-BORBA; MATA-LIMA, 2011, documento on-line).
Para que sejam feitas alterações substanciais em relação à exclusão social, 
é fundamental que questões como o investimento em educação, a instituição 
de políticas públicas de combate ao preconceito e a capacitação digital se 
tornem realidades no cotidiano da população como um todo. 
Por fim, pode-se concluir que a exclusão se configura enquanto uma 
prática inserida na dinâmica da sociedade, sendo alvo de inúmeros estudose pesquisas que buscam contextualizar esse problema e possibilitar a pro-
posição de alternativas para as consequências decorrentes dessa situação.
Referências
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Os novos excluídos do Brasil10
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Leituras recomendadas
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lidade dos moradores da cidade do Rio de Janeiro ao mercado de trabalho. EURE, v. 
45, n. 136, 2019. Disponível em: https://scielo.conicyt.cl/scielo.php?script=sci_arttext
&pid=S0250-71612019000300051. Acesso em: 8 dez. 2020.
NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Brasília: Casa ONU Brasil, 2020. Disponível em: https://brasil.
un.org/. Acesso em: 8 dez. 2020.
PUSSETTI, C.; BRAZZABENI, M. Sofrimento social: idiomas da exclusão e políticas do 
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RIBEIRO, M. Exclusão: problematizando o conceito.  Educação e Pesquisa,  v. 
25,  n. 1,  1999. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-
-97021999000100004&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 8 dez. 2020.
SILVA, M. O. E. Da exclusão à inclusão: concepções e práticas. Lusófona de Educação, 
n. 132009. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pi
d=S1645-72502009000100009. Acesso em: 8 dez. 2020.
WARPECHOWSKI, M. B.; CONTI, L. Adolescer em contextos de vulnerabilidade e exclusão 
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scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282018000200008. Acesso em: 8 dez. 2020.
Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos 
testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da 
publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas 
páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores 
declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou 
integralidade das informações referidas em tais links.
Os novos excluídos do Brasil 11
FORMAÇÃO 
SOCIAL, 
ECONÔMICA E 
POLÍTICA DO 
BRASIL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Identificar o contexto social que levou o povo brasileiro às manifestações 
da última década.
 > Analisar o impacto das manifestações na política brasileira.
 > Avaliar os resultados políticos e sociais das manifestações e seus desdo-
bramentos no tempo presente.
Introdução
Na última década, o Brasil foi marcado por diversas manifestações, como os 
protestos que ocorreram em 2013 e se constituíram como um marco social. Assim, 
torna-se fundamental a compreensão das motivações que contribuíram para um 
cenário de efervescência política e participação popular.
As manifestações de 2013 tiveram algumas características particulares em 
comparação com outros processos de contestação social, como, por exemplo, a 
utilização da internet e a ampla e massiva participação popular. 
Neste capítulo, você conhecerá os principais fatores que contribuíram para a 
eclosão das manifestações sociais no Brasil. Além disso, verá que, em virtude da 
proximidade temporal, as análises acerca desses fenômenos devem ser cuida-
dosas e atentas aos possíveis desdobramentos das manifestações no contexto 
contemporâneo. 
As manifestações 
de rua no Brasil
Alana Milcheski
Contexto histórico das manifestações de 
2013
Uma das falácias mais recorrentes em relação ao processo de construção 
sócio histórico do Brasil é a ideia de que o povo brasileiro sempre foi “pacato 
e ordeiro” e que as revoltas sociais foram acontecimentos isolados na história 
nacional. Na verdade, para um observador atento, é possível perceber que 
mesmo antes da criação da nação brasileira, em 1822, com a Proclamação 
da Independência, já havia diversos conflitos sociais. Após o contexto da 
Independência, diversas lutas foram travadas contra governos, empresas 
e elites financeiras, tornando a história do País marcada por inúmeros e 
constantes movimentos sociais.
Feita essa reflexão inicial, cabe destacar que essa ideia — de que a popu-
lação brasileira é pacata —, com o passar do tempo, se consolidou em alguns 
setores da sociedade, principalmente nos mais conservadores, que utilizam 
esse discurso para tentar manter a ordem social e o status quo. No que se 
refere às manifestações de 2013, há uma ruptura significativa em relação à 
participação popular nas manifestações que eclodiram naquele contexto, pois 
a mobilização foi massiva, levando, inclusive, indivíduos e grupos adeptos de 
pautas conservadoras a participarem de centenas de protestos. 
No entanto, antes de adentrar a análise específica das manifestações 
mencionadas, cabe destacar o primeiro fator a ser considerado como causa 
da mobilização popular em 2013: a disseminação da internet e a popularização 
dos aparelhos telefônicos móveis. Segundo Espírito Santo, Diniz e Ribeiro 
(2016, p. 142):
Já nos anos 2000, alguns movimentos ganharam projeção internacional por terem 
conseguido mobilizar um grande número de pessoas, todos com um ponto em co-
mum: a utilização das mídias eletrônicas descentralizadas como instrumento para 
articulação e divulgação de informações e materiais, como fotos, vídeos e textos. 
Castells e colaboradores (2005) relatam como o uso dos telefones celulares teve 
importante papel na organização de movimentos sociais nas Filipinas em 2001, 
na Coreia do Sul em 2002 e na Espanha em 2004. Mais recentemente, a série de 
manifestações conhecidas como Primavera Árabe, o movimento Occupy Wall Street 
e movimento dos Indignados, na Espanha, são os exemplos mais emblemáticos que 
acabaram por influenciar diversos movimentos de contestação em vários países.
Dessa forma, pode-se considerar que os acontecimentos no Brasil em 
2013 não foram eventos isolados do contexto mundial, pelo contrário, esta-
vam alinhados com uma tendência global, caracterizada pela aproximação 
da internet e das manifestações sociais. Com a disseminação da internet e, 
As manifestações de rua no Brasil2
consequentemente, deferramentas que permitem o compartilhamento de 
textos e imagens, iniciou-se um marco histórico no que se refere à forma de 
produção e circulação da informação, possibilitando que qualquer indivíduo 
ou grupo divulgue o conteúdo que quiser.
Antes da consolidação do uso dos celulares, a transmissão das informa-
ções era feita quase que de forma hegemônica pelas empresas de mídias, 
frequentemente integradas a grandes conglomerados. Essa alteração em 
relação ao fluxo da informação se constitui como um processo de democrati-
zação social, pois, ao possibilitar que os indivíduos tenham voz ativa, permite 
que os interesses destes ganhem visibilidade. Nesse sentido, é fundamental 
considerar que, apesar de todas essas mudanças, as empresas de mídias 
continuam a deter uma grande parcela da veiculação de informações, isso 
porque contam com diversos tipos de estruturas, as quais contribuem para 
a manutenção da influência desses grupos empresariais. 
No caso do Brasil, as manifestações de 2013 se configuraram como um 
marco, sendo crucial entender de que forma surgiram e se desenvolveram 
esses eventos. Para tanto, primeiro, cabe a análise do Movimento do Passe 
Livre (MPL):
O Movimento do Passe Livre (MPL) se tornou o ícone das manifestações e dos 
protestos de junho de 2013, como a expressão de uma nova forma política de 
agir. Porém temos que lembrar que o MPL já tinha uma articulação nacional desde 
meados dos anos 2000, em várias cidades, com ideários políticos coletivamente 
definidos por seus participantes. Suas pautas não se reduziam ao preço da passa-
gem dos ônibus, ainda que essa tem sido uma estratégia política relevante. Esse 
movimento tem se referido mais amplamente aos direitos do cidadão no que diz 
respeito à mobilidade urbana de uma forma geral, a qual deveria ser conside-
rada como um direito fundamental, tal como o direito à educação, à saúde, etc. 
(SCHERER-WARREN, 2014, p. 418).
Certamente, o MPL se configura como um símbolo em relação às moti-
vações iniciais que levaram às manifestações subsequentes, uma vez que 
o histórico de lutas desse movimento demonstra a profundidade política 
que o MPL conseguiu atingir ao longo dos anos. Para além da abordagem 
específica das pautas políticas relacionadas com o transporte público, o MPL 
faz referência a uma perspectiva mais ampla acerca da noção de cidadania 
e direitos sociais, politizando o debate acerca do tema.
Todavia, apesar da inegável importância do MPL para o surgimento e 
desenvolvimento das manifestações de 2013, atribuir somente a esse movi-
mento a eclosão desses eventos seria uma visão bastante reducionista. Dessa 
forma, compreende-se que o MPL foi uma espécie de estopim para outros 
As manifestações de rua no Brasil 3
processos que já vinham se desenrolando em âmbito nacional, culminando 
na participação massiva nos protestos sociais que ocorreram nesse contexto.
Para entender de forma mais contextualizada essa questão, faz-se ne-
cessário considerar a composição populacional das manifestações sociais 
que se desenrolaram após esse momento inicial, estimulado pelas pautas 
relacionadas com o transporte público. De acordo com Singer (2013, p. 27):
Houve dois pontos de vista sobre a composição social dos acontecimentos de 
junho. O primeiro identificou neles uma extração predominante de classe média, 
enquanto o segundo tendeu a enxergar uma forte presença do precariado: “a 
massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que entram 
e saem rapidamente do mercado de trabalho”. Analisando as pesquisas dispo-
níveis, gostaria de sugerir uma terceira hipótese: a de que elas possam ter sido 
simultaneamente as duas coisas, a saber, tanto expressão de uma classe média 
tradicional inconformada com diferentes aspectos da realidade nacional quanto 
um reflexo daquilo que prefiro denominar de novo proletariado, mas cujas carac-
terísticas se aproximam, no caso, daquelas atribuídas ao precariado pelos autores 
que preferem tal denominação: trata-se dos trabalhadores, em geral jovens, que 
conseguiram emprego com carteira assinada na década lulista (2003-2013), mas que 
padecem com baixa remuneração, alta rotatividade e más condições de trabalho.
Sendo assim, parte-se do pressuposto de que as manifestações foram 
marcadas por uma característica plural no que se refere à composição po-
pulacional, considerando que parcelas da sociedade, como a classe média 
e o novo proletariado, foram os principais grupos sociais presentes nas ma-
nifestações. Cabe destacar que cada parcela social teve interesses próprios 
que as levaram à mobilização popular, mesmo que, em alguns momentos, 
tenham sido levantadas bandeiras e pautas de tendência nacional. 
Essa composição populacional serve como indicativo da heterogenei-
dade existente em relação às propostas levantadas e defendidas durante 
as manifestações, de modo que, em termos políticos, a identificação de uma 
linha ideológica dominante é muito imprecisa. Conforme Singer (2013, p. 32):
Socialmente heterogêneos, os acontecimentos de junho foram também tão mul-
tifacetados no plano das propostas que não espanta haja todo tipo de imputa-
ção ao seu sentido ideológico: desde o ecossocialismo até impulsos fascistas, 
passando por diversas gradações de reformismo e liberalismo. Acabaram por ser 
uma espécie de “Jornadas de Juno”, cada um vendo nas nuvens levantadas nas 
ruas a forma de uma deusa diferente. Os extremos do espectro foram, natural-
mente, mais visíveis que os pontos intermediários. Apareceu de imediato o viés 
progressista das manifestações, que poderiam prenunciar novo ciclo de lutas 
dos trabalhadores, como o que tendo se iniciado em 1978 vigorou até o final da 
década de 1980. Surgiu também com clareza a vertente à direita, que pretendeu 
desencadear uma pressão regressiva em relação ao campo popular que está no 
As manifestações de rua no Brasil4
governo com o lulismo desde 2003. Mas, na verdade, quiçá junho de 2013 seja mais 
bem compreendido se olharmos para o centro.
Nesse sentido, é possível encontrar, nas manifestações de 2013, tanto 
tendências localizadas na definição de extrema esquerda (como na menção 
às pautas do ecossocialismo) como na de extrema direita (viés fascista), 
perpassando por diversas outras definições da política tradicional. Entre 
as pautas localizadas na definição de progressistas, pode-se identificar, 
por exemplo, as propostas relacionadas com o meio ambiente e a defesa 
dos direitos trabalhistas. Já que em relação às propostas conservadoras, é 
possível identificar tendências relacionadas com um reforço do nacionalismo. 
Em virtude da diversidade de pautas políticas e, consequentemente, da au-
sência de uma organização e de uma linha política definida, as manifestações, 
como eventos específicos, tiveram desdobramentos variados. Dessa forma, 
para compreender o desenvolvimento das manifestações, faz-se necessário 
considerar as diversas consequências dos fatores mencionados até então, 
a fim de estabelecer um entendimento mais apurado desse contexto social.
A partir dos anos 2000, inúmeras manifestações sociais eclodiram 
ao redor do mundo, as quais reacenderam, em diversos casos, a 
mobilização popular pela luta por sociedades mais justas e humanitárias. Desse 
modo, o caso do Brasil faz parte de um contexto amplo e interligado. Para saber 
mais sobre esse assunto, leia o artigo “Manifestações sociais e novas mídias: a 
construção de uma cultura contra-hegemônica”, do pesquisador Paulo Rodrigues 
Gajanigo e Rogério Ferreira de Souza. 
Participação política e mobilização popular
Ao se abordar um fenômeno tão expressivo como as manifestações de 2013, 
é compreensível que apareçam questionamentos acerca dos desdobramen-
tos e das consequências decorrentes dos eventos mencionados. Em alguns 
aspectos, a relação entre causa e efeito pode parecer simples e direta, como, 
por exemplo, ao se tentar associar as modificações na política tradicional 
aos acontecimentos decorrentes das manifestações. Entretanto, deve-seobservar, de forma cuidadosa, cada uma das possíveis consequências do 
contexto abordado, sendo que afirmações categóricas devem ser embasadas 
por pesquisas que possam comprovar os pressupostos defendidos.
As manifestações de rua no Brasil 5
Dessa forma, no que se refere aos desdobramentos das manifestações 
de 2013, uma temática que tem sido analisada é a formação de grupos e 
coletivos que surgiram durante esse contexto ou que ganharam visibilidade 
após a participação nos protestos. De acordo com Abreu e Leite (2016, p. 14):
Houve a sensibilização de outros coletivos sociais e culturais de formação recente 
e com pequeno número de participantes, formando uma rede heterogênea de 
atores sociais: mídias ativistas como o grupo Anonymous, Midia Ninja, anarquis-
tas, associações de bairros da periferia, entre outros grupos e coletivos de menor 
expressão nacional. Curiosamente, as Jornadas de Junho não foram convocadas 
diretamente pelos movimentos tradicionalmente ativos, esses agregaram forças 
em um segundo momento.
Entre os grupos mencionados, o Anonymous e o Mídia Ninja surgiram 
inicialmente como páginas em redes sociais, como uma forma de organiza-
ção para os manifestantes que se identificavam com as pautas defendidas 
por esses perfis. Posteriormente, esses grupos ultrapassaram os limites da 
realidade virtual e se fizeram efetivamente presentes nos protestos, sendo 
que o Mídia Ninja existe até a atualidade, como um portal de notícias.
A compreensão de que a política vai muito além da relação estrita com as 
instituições estatais foi expressa pela ação desses grupos. Assim, é possível 
considerar a recuperação da dimensão política em âmbito social como um 
desdobramento das manifestações. Outro aspecto decorrente das mani-
festações, que também esteve associado com a criação e a expansão dos 
grupos políticos autônomos, foi a utilização dos aparelhos eletrônicos e das 
redes sociais, que foram ferramentas fundamentais para o desenvolvimento 
dos protestos. 
A adesão popular tão expressiva pode, em parte, ser creditada à facilidade 
proporcionada pelas redes sociais, que contribuíram para a divulgação de 
atos e protestos em diversos lugares do País e intensificaram a comunicação 
entre os participantes. Além disso, pode-se destacar que a utilização das redes 
sociais possibilitou a percepção do poder de alcance das postagens virtuais, 
estimulando dois movimentos: o primeiro foi a ocupação desses espaços 
por diversos políticos, sejam eles governantes ou candidatos, que viram a 
demanda eminente de divulgarem os seus posicionamentos; o segundo foi 
o engajamento de indivíduos que até então haviam tido pouca ou nenhuma 
participação em eventos de âmbito político, mas se sentiram compelidos a 
compartilhar as suas opiniões. 
Certamente, as tendências políticas observadas a partir desse momento 
foram abordadas com certo estranhamento por parte de grupos que já tinham 
As manifestações de rua no Brasil6
um histórico de engajamento político mais longo, pois perspectivas ideológicas 
que até então tinham sido pouco manifestadas haviam encontrado novas 
formas de expressão. Cabe destacar que equipamentos como câmeras, já 
acopladas aos celulares, possibilitaram o registro de ações inesperadas, ser-
vindo como provas circunstanciais e como uma espécie de vigilância coletiva. 
Um dos questionamentos trazidos pelo uso massivo das tecnologias 
digitais, compreendidas nesse contexto como espaço de expressão política, 
faz referência ao que essa prática revela: a ineficiência estatal e dos seus 
mecanismos de participação social. Segundo Mehanna Khamis (2016, p. 52):
[...] o ponto central é que as novas tecnologias servem de instrumento para viabilizar 
a participação política da população numa atuação realizada totalmente à margem 
do Estado. Aliás, o objeto do reclamo popular era justamente o Estado, seja por 
sua ineficiência ou por ignorar solenemente o interesse público, não tendo sido 
poupada da crítica uma única instituição pública estatal, e nem mesmo um único 
gestor público. Em suma, ao sair às ruas para manifestar a sua insatisfação com 
a gestão da coisa pública no Brasil, a população escancarou a crise política que 
vive o Estado Constitucional brasileiro.
Nesse contexto, ocorre um encontro entre as motivações e as conse-
quências das manifestações de 2013, sendo que ambas fazem referência a 
um contexto de descontentamento generalizado e de crise instituída nos 
aparatos estatais. Essa crise é reflexo de um problema estrutural que tem 
sido amplamente desconsiderado de forma continuada: o fato de que o 
sistema político brasileiro mantém a sua lógica de funcionamento desde 
os primórdios da fundação do País, contribuindo para que sejam sempre os 
mesmos grupos no poder. 
O processo de construção socio-histórico do estado brasileiro contribui 
para o entendimento dessa questão, pois permite identificar o deslocamento 
constante dos interesses coletivos para os interesses de grupos específicos. 
Para Mehanna Khamis (2016, p. 60):
Diante disso, parece claro que as manifestações de junho de 2013 demonstraram 
que o aparato estatal institucionalizado pela Constituição brasileira se presta à 
dominação da população pela classe política − formada majoritariamente pelas 
velhas oligarquias −, e não à gestão dos assuntos políticos de forma participativa, 
visando a atender aos reais anseios da sociedade, como deveria ser. E não poderia 
ser diferente, na medida em que o Estado, enquanto fonte única e independente 
de produção do direito, converteu-se em centro único do poder, pois enquanto 
detentor do monopólio do direito afastou a população do seu processo de criação, 
gerando, assim, um abismo entre ele e a sociedade.
As manifestações de rua no Brasil 7
Nesse sentido, o espaço não disponibilizado pela estrutura estatal se 
converteu na ocupação das ruas por parte da população, lugar público por 
direito, que, entre outras pautas, clamava por uma mudança no sistema de 
funcionamento do Estado brasileiro, porém ser ter propostas ativas de como 
realizar essa alteração.
Apesar dos aspectos comentados, em termos de reinvindicações das 
manifestações, uma parte considerável delas se mantiveram restritas so-
mente aos protestos, condição decorrente, entre outros motivos, do cará-
ter predominantemente espontâneo das movimentações, da ausência de 
dispositivos organizacionais e da imprevisibilidade do alcance que teriam 
esses eventos.
Análise de alguns desdobramentos das 
manifestações
Um dos principais desafios ao se analisar fenômenos sociais contemporâ-
neos é a proximidade temporal do pesquisador com seu objeto de pesquisa, 
considerando que são eventos que fazem parte da atualidade. Em muitos 
casos, o pesquisador pode ter tido uma participação como agente ativo no 
desenvolvimento do fenômeno analisado, o que não se configura como um 
impedimento para a pesquisa, mas deve ser levado em consideração durante 
a análise. 
Então, pode-se considerar que, “[...] vista dessa maneira, a história do 
presente alivia pouco a pouco o autismo da atualidade, ainda que padeça com 
alguns obstáculos que podem prejudicar sua confecção, como a proximidade 
do fato, o envolvimento com o objeto ou o apego a processos históricos não 
terminados” (FIORUCCI, 2011, p. 115). Portanto, o pressuposto de que deveria 
haver uma pretensa neutralidade do pesquisador acerca do tema escolhido 
se configura como um resquício de uma perspectiva teórica positivista 
que já tem sido amplamente problematizada. Hoje, compreende-se que 
uma postura de neutralidade diante de um tema de pesquisa é inviável 
na prática, pois a própria seleção do assunto já denota uma escolha por 
parte do pesquisador. Entretanto, ao se abordar temáticas relacionadas 
com o desdobramento de um determinado conjunto de acontecimentos, 
um distanciamento temporal pode contribuir para uma interpretação mais 
apurada das prováveis consequências.
Sendo assim, neste capítulo, serão abordados alguns desdobramentos 
das manifestaçõesde 2013 no aspecto político, iniciando pela inserção de 
As manifestações de rua no Brasil8
táticas que tensionaram a relação com os aparelhos de repressão estatal, 
as quais ficaram conhecidas pelo termo “Black Bloc”:
Nesse momento, surgem os militantes Black Bloc que respondem à ação da polícia. 
De acordo com Judensnaider (2013), a origem dos Black Blocs remete ao movimento 
autonomista da Alemanha nos anos 1980, com manifestantes mascarados e vestidos 
de negro (der schwarze Block ou “o bloco negro”) para dificultar a identificação da 
polícia. O “bloco negro” no seu modelo alemão se propunha a oferecer proteção 
às passeatas, limitando a infiltração de agentes provocadores e defendendo os 
manifestantes dos ataques da polícia. Os Black Blocs reaparecem nos Estados 
Unidos, uma década mais tarde, nos protestos contra a Organização Mundial do 
Comércio (OMC) em Seattle, dessa vez orientados à destruição de propriedade 
privada como forma de protesto. Essa nova postura do grupo gera muita contro-
vérsia entre os ativistas alinhados com a estratégia de não violência (ESPÍRITO 
SANTO; DINIZ; RIBEIRO, 2016, p. 147).
Apesar de o Black Block ser, inicialmente, compreendido como uma tática 
durante as manifestações de 2013, ele passou a ser identificado como um 
grupo de pessoas em específico. Nesse sentido, cabe destacar o fato de essa 
tática ter surgido na Alemanha da década de 1980, pois a adaptação de ações 
e/ou a referência existentes em outros contextos sociais foram uma das 
marcas dos protestos brasileiros. De acordo com essa perspectiva, pode-se 
identificar a inserção de outro elemento que cumpriu um papel fundamental 
na questão da mobilização popular, ao mesmo tempo que possibilitou o 
anonimato para os participantes das manifestações: o grupo Anonymous. 
De acordo com Albuquerque, Pedro e Carvalho (2016, p. 49):
Atento ao monitoramento digital, o Anonymous, em suas páginas na internet, coloca 
explicações e dicas para proteção da privacidade na rede e tem como símbolo 
uma máscara inspirada no personagem Guy Fawkes do filme V de vingança, que 
é usada pelos seus integrantes durante as manifestações das quais participam 
para, entre outras razões, manter o anonimato. O outro grupo, os Black Blocs, 
surgiu com força durante as manifestações de junho de 2013, antes disso não há 
registro de sua atuação no Brasil. Não possuem uma máscara símbolo, mas se 
vestem totalmente de preto cobrindo o rosto. Não parecem estar tão preocupados 
com o monitoramento digital.
A utilização da máscara do personagem do filme V de Vingança foi ampla-
mente difundida durante o desenvolvimento dos protestos, sendo, inclusive, 
caracterizada como símbolo dos integrantes de um dos grupos que con-
quistou mais visibilidade nesse contexto: o Anonymous. Pode-se destacar o 
caráter de internacionalização das referências a essa produção em diversas 
manifestações ao redor do mundo, sendo que, além do Brasil, a máscara do 
As manifestações de rua no Brasil 9
personagem Guy Fawkes já foi registrada em variados protestos ao redor do 
mundo. Esse caráter de internacionalização pode ser destacado como um 
dos desdobramentos das manifestações de 2013, considerando-se o contexto 
marcado por aspectos como a internet e a globalização.
O filme V de Vingança é uma adaptação da série de quadrinhos 
britânica que tem o mesmo nome. Para saber mais sobre a história 
que inspirou a criação do filme V de Vingança, leia o artigo “A construção his-
tórica na graphic novel V for Vendetta: aspectos políticos, sociais e culturais na 
Inglaterra (1982-1988)” do pesquisador Felipe Radunz Kruger. 
Além dos tópicos relacionados ao anonimato e à referência cultural, pode-
-se destacar que tanto a utilização da máscara quanto a das roupas pretas 
se configuram como ações individuais que tem por finalidade aparente a 
colaboração com as causas sociais e coletivas. No que se refere ao contato 
e ao estabelecimento de relações com as instituições políticas tradicionais, 
pode-se afirmar que as tentativas não foram efetivamente bem-sucedidas, 
em parte devido às características específicas das manifestações. Segundo 
Ricci (2018, p. 94):
Em 2013, nos meses que se seguiram às mobilizações de junho, alguns governos 
estaduais (como o mineiro) procuraram estabelecer diálogos com comitês temá-
ticos que permaneceram atuantes, como foi o caso dos comitês de mobilidade 
urbana ou de educação. As negociações, contudo, revelaram-se infrutíferas na 
medida em que os participantes-ativistas se recusavam a se apresentar como 
representantes, gerando um rodízio permanente de pautas e ativistas presentes 
nas mesas de negociação.
Certamente, a falta de uma estrutura organizada e de representantes 
legitimados contribuiu para que a abertura de um diálogo entre manifestan-
tes e governos se mantivesse para além dos momentos iniciais. Entretanto, 
deve-se considerar outros aspectos que contribuíram para a recusa por parte 
popular de estabelecer vínculos com as instituições políticas tradicionais, 
como, por exemplo, uma forte rejeição ao institucionalismo:
O anti-institucionalismo gerou, nos anos 1980, grande rejeição às negociações e 
participações em fóruns institucionalizados, tema explorado em muitos estudos 
especializados. Contudo, na medida em que houve convergência entre movimentos 
sociais, estruturas sindicais e a construção de novos partidos políticos, o campo 
institucional foi gradualmente sendo ocupado por eleições de representações 
delegadas — aquelas em que o representante possui um viés nitidamente corpo-
As manifestações de rua no Brasil10
rativo, representando exclusivamente a base social que o elegeu —, algo que não 
se repetiu neste início de século XXI. Ao contrário, a rejeição ao campo institucional 
foi ainda mais forte, e o valor político da horizontalidade e desconfiança em relação 
às lideranças impediu qualquer negociação com a esfera institucional pública que 
fosse estável ou duradoura. As mobilizações eram valores em si, “utopias realizadas 
no presente”, projetos imediatos de tomada dos espaços públicos fundados em 
profundo desprezo às instâncias formais e institucionalizadas das práticas sociais 
e políticas (RICCI, 2018, p. 96).
Por fim, entre as principais motivações identificadas em relação à eclosão 
das manifestações, destaca-se uma postura generalizada de afastamento 
das instituições tradicionais, dada a sua incapacidade crônica de sanar os 
problemas sociais e de cumprir a sua função enquanto representante instituída 
da população. Assim, as manifestações de 2013, e uma parte considerável 
dos movimentos que se seguiram a elas, demonstraram a inconformidade 
popular em relação à estrutura estatal por meio da ocupação das ruas, o 
espaço público que é de todos por direito. 
No ano seguinte, várias das tendências mencionadas, como a ampla utiliza-
ção da internet no âmbito político, se consolidaram no processo de conquista 
da reeleição da então presidenta Dilma Rousseff. Conforme Rocha (2019, p. 20):
[...] foi apenas a partir de mudanças ocorridas na estrutura de oportunidades polí-
ticas, relacionadas à eclosão das manifestações de Junho de 2013 e à reeleição de 
Dilma Rousseff em 2014, que os membros do contrapúblico ultraliberal puderam 
ter sucesso em alcançar setores mais amplos da população e, a partir daí, dirigir 
os primeiros protestos pró-impeachment ainda em 2014.
Nesse sentido, cabe destacar que a análise da reeleição de Dilma deve, 
necessariamente, levar em consideração as manifestações de junho de 2013, 
por diversos aspectos, a começar pela intensificação dos questionamentos 
populares ao governo. Outro aspecto que alcançou uma repercussão consi-
derável foi o processo de disseminação de ideias e opiniões relacionadas a 
posições ultraliberais, que culminou em uma postura antagônica ao governo 
que estava em vigência. 
Dessa forma, as oscilações acerca da popularidade do governo federal, 
materializado na figura da presidenta Dilma, estiveram diretamente atreladas 
às movimentaçõespopulares nos espaços públicos e às manifestações sociais. 
Pinto (2017, p. 137) destaca que:
Em 2013, a popularidade da Presidenta Dilma caiu de 65% de ótimo e bom em março, 
mês do início das manifestações, para 30% em junho. De julho de 2013 a dezembro 
de 2014, a popularidade não oscilou abruptamente, ficando sempre entre 30% e 
As manifestações de rua no Brasil 11
40% (fonte: <http://datafolha.folha. uol.com.br>; acesso em: 20 jan. 2016). Esses 
são dados importantes a considerar, mostram que as manifestações ocorreram 
não porque havia um governo com baixa popularidade, mas o contrário, a baixa 
popularidade foi consequência das manifestações, ou, melhor ainda, da incapaci-
dade do governo de reagir a elas através de um discurso popular (historicamente 
o discurso do PT) que desse sentido ao próprio governo.
É importante ressaltar que as manifestações não foram motivadas, ini-
cialmente, por um descontentamento generalizado em relação ao governo, 
porém acabaram canalizando as reivindicações para esse âmbito. Dessa forma, 
pode-se considerar que o descontentamento mencionado foi aumentando 
de forma gradativa, baseado, em parte, no convencimento de parcelas da 
população acerca das críticas feitas ao governo Dilma.
A inabilidade dessa gestão de lidar com as manifestações e incorporar 
as reivindicações feitas, combinada com a disseminação de informações por 
meio das redes sociais, intensificou o desenrolar do processo que culminaria 
no impeachment da presidenta. Conforme Bullow e Dias (2019, p. 5):
No dia 31 de agosto de 2016, quando Dilma Rousseff foi afastada definitivamente 
do cargo de Presidente do Brasil, a hashtag #impeachmentday figurou entre os 
temas mais comentados (trending topics) no Twitter, tanto no Brasil como a nível 
mundial. Nos meses anteriores, outras hashtags, a favor e contra sua destituição, 
dividiram os internautas, especialmente nos momentos mais dramáticos do longo 
e polêmico processo de julgamento da Presidente. 
Portanto, pode-se perceber a repercussão virtual dos acontecimentos 
políticos nesse contexto, ressaltando o papel desempenhado pelos recursos 
tecnológicos no processo que encurtou o mandato de Dilma. Nesse sentido, 
cabe ressaltar que a consolidação do uso da internet e a crescente ascensão 
de propostas e posições alinhadas com um pensamento ultraliberal estão rela-
cionadas entre si, sendo importante analisar esses aspectos em consonância:
"Imposto é roubo!”. “Menos Marx mais Mises”. “Não existe almoço grátis”. “Esquerda 
caviar”. Essas e outras palavras de ordem tornaram-se mais conhecidas nos últimos 
tempos por conta de um novo fenômeno que teve início em fóruns e comunidades 
virtuais há mais de dez anos: a formação de um contrapúblico ultraliberal. A defesa 
do estado mínimo e do direito de propriedade normalmente é associada a grupos 
de interesse e partidos políticos que dispensam militantes de base. No entanto, 
à medida que o Partido dos Trabalhadores prolongou sua permanência na Presi-
dência, e a internet se popularizou entre as classes média e alta, uma militância 
organizada para defender tais pautas passou a se constituir. Jovens universitários e 
profissionais liberais passaram a se reunir em fóruns e comunidades virtuais para 
traduzir e compartilhar textos, discutir conceitos e teorias abstratas, formar grupos 
de estudo, e criar laços e uma identidade comum em torno da defesa radical da 
As manifestações de rua no Brasil12
liberdade de mercado como fundamento último para a organização da economia 
e da sociedade (BULOW; DIAS, 2019, p. 1).
Portanto, diversos fatores devem ser considerados na elaboração de 
considerações que busquem abordar o contexto político que culminou no 
processo de impeachment da presidenta Dilma e nas mudanças políticas desse 
período. Dessa forma, a longa permanência do Partido dos Trabalhadores 
(PT) na presidência e o crescente sentimento de antipetismo disseminado nas 
camadas sociais devem ser levados em consideração, visando a identificar 
os principais agentes ativos nesse processo. 
Outro fator fundamental para a compreensão desse contexto político é 
o denominado “fenômeno das fake news”, o qual se constitui como um dos 
principais aspectos a serem considerados na análise da contemporaneidade. 
O termo fake news é originário da língua inglesa e, em livre tradução, significa 
"notícias falsas". Contudo, a menção a ele é feita invariavelmente em inglês, 
principalmente para enfatizar o fato de que o fenômeno referido é a propa-
gação da desinformação na realidade virtual. Sendo assim, é um aspecto 
que está inserido na linguagem da internet, pois descreve acontecimentos 
que ocorrem nesse âmbito e que podem ser caracterizados como uma ação 
de divulgar informações sem procedência e/ou a criação de notícias falsas, 
feita de forma intencional. De acordo com Gomes, Pena e Arroio (2020, p. 2):
Na atual conjuntura, a circulação de discursos não é de exclusividade da mídia 
jornalística ou dos meios oficiais de divulgação científica. Hoje, os próprios usuários 
das redes sociais “curtem” as mais diversas informações e compartilham-nas com 
os mais diversos públicos. Essa talvez fosse uma grande oportunidade de demo-
cratização da informação, entretanto esse território virtual se manifesta repleto 
de disputas discursivas entre o real e a ficção.
Desse modo, com a consolidação e a disseminação da internet, ocorreu um 
processo amplo e complexo, que, ao mesmo tempo que permite uma relativa 
democratização da produção e da circulação de informações, intensifica a 
criação e a divulgação das fake news. Por se tratar de um fenômeno inédito 
historicamente, os desdobramentos e as implicações das fake news têm 
sido identificados de forma lenta e gradativa. As principais consequências 
percebidas em virtude das fake news se referem às temáticas políticas: 
A polarização partidária registrada nas eleições brasileiras de 2014 vai ceder lugar, 
no pleito de 2018, a uma forte batalha de narrativas envolvendo um potente ator: 
a engrenagem de produção e distribuição de notícias falsas ou, em inglês, fake 
news. Criados e distribuídos de forma capilar e com a velocidade do ambiente 
digital, esses boatos e mentiras podem influenciar eleitores e têm sido alvo de 
As manifestações de rua no Brasil 13
várias mobilizações para tentar minimizar seus efeitos nas eleições de outubro 
(ALMEIDA, 2018, p. 9).
A influência das fake news na decisão dos eleitores em relação à disputa 
presidencial de 2018 ainda está começando a ser compreendida, dado o im-
pacto gigantesco que esse fator teve, o qual, inicialmente, não foi percebido 
de forma tão nítida. Com o uso das fake news, diversos agentes envolvidos no 
processo que culminou na eleição de Jair Messias Bolsonaro compartilharam 
informações inverídicas, com o intuito de divulgar mentiras e atacar a imagem 
de outros candidatos. Considerando que esse fenômeno tem sido cada vez 
mais diagnosticado e problematizado, algumas ações têm sido planejadas, 
a fim de tentar reverter os prejuízos sociais ocasionados pela disseminação 
das fake news: 
Da parte das plataformas, vê-se uma preocupação em mitigar possíveis questio-
namentos sobre sua contribuição com o problema. Os media tradicionais visam 
a estabelecer um contraponto e se afirmar como referências de informação de 
qualidade. Projetos de pesquisa listados buscam monitorar conteúdos falsos e 
realizar processos de verificação. Governos apontam reações diversas, incluindo 
medidas mais duras como a legislação aprovada na Alemanha. Chama atenção 
a declaração conjunta dos relatores para a liberdade de expressão de diversos 
organismos internacionais e multilaterais. O documento pontua o risco de reações 
e regulações que atentem contra a liberdade de expressão, como a instituição de 
mecanismos de censura ou remoção de conteúdos da web (DELMAZO; VALENTE, 
2018, p. 161).
Portanto, no combate as fake news, há desde ações de veículos de co-
municação, que buscam ampliar a credibilidade da imprensa e investirno 
letramento midiático de leitores e usuários das redes sociais, passando por 
defensores de projetos, que preveem a tipificação criminal de quem gera 
e reproduz esses boatos, até parcerias firmadas entre as empresas donas 
das plataformas digitais utilizadas na disseminação desse conteúdo (Goo-
gle, Facebook, Twitter, WhatsApp) e as agências de checagem de dados e o 
Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Juntamente à Polícia Federal e ao Ministério 
Público Federal, o TSE criou um grupo de inteligência para estudar possíveis 
formas de atuação. De norte a sul do Páis, há especialistas em comunicação, 
em direito e em proteção de dados pesquisando e debatendo o tema, porém 
não há consenso sobre quais mecanismos são, de fato, eficazes no combate 
as fake news.
No ano de 2016, o Oxford Dictionary elegeu pós-verdade como a pala-
vra do ano. Naquele contexto, havia ocorrido dois eventos emblemáticos: 
a saída do Reino Unido da União Europeia e a vitória de Donald Trump para 
As manifestações de rua no Brasil14
a presidência dos Estados Unidos. Além de compartilhar o mesmo ano, os 
dois eventos tiveram em comum um alto índice de disseminação de fake 
news, principalmente por meio das mídias sociais. Por esse motivo, a palavra 
pós-verdade destacou-se naquele ano, sendo definida como “[...] o que se 
relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos 
influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças 
pessoais” (POST-TRUTH , 2016, tradução nossa). 
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As manifestações de rua no Brasil16
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As manifestações de rua no Brasil 17
FORMAÇÃO 
SOCIAL, 
ECONÔMICA E 
POLÍTICA DO 
BRASIL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Identificar o cenário social, político e econômico do País a partir dos anos 
1990.
 > Reconhecer o papel das lutas sociais no desenvolvimento e amadurecimento 
do País.
 > Analisar os efeitos desse cenário na sociedade brasileira da atualidade.
Introdução
Os anos 1990 marcaram um novo momento na economia, na política e na socie-
dade brasileiras. Após a promulgação da Constituição de 1988 e a realização de 
eleições diretas e livres, com a eleição do primeiro presidente civilapós mais de 
duas décadas de ditadura civil-militar, uma sucessão de governos implementou 
preceitos econômicos, políticos e sociais do neoliberalismo, transformando o País. 
Essas mudanças e suas consequências, como o agravamento das condições de 
subsistência da maior parte da população brasileira, fizeram diferentes movimentos 
O cenário político, 
econômico e social 
do Brasil: dos anos 
90 à sociedade 
contemporânea
Caroline Silveira Bauer
políticos e sociais demandarem a interrupção de certas medidas e reivindicarem 
a manutenção de serviços públicos para áreas estratégicas, como a educação, a 
habitação, a renda e a saúde. 
A maior parte dessas políticas será incentivada apenas nos anos 2000, com a 
chegada de outro projeto social ao poder, promovendo medidas para a distribuição 
de renda e maior equidade social, ainda que certos preceitos do neoliberalismo não 
tenham sido abandonados durante as gestões progressistas do início do século 
XXI. Após a crise político-institucional iniciada em 2013, houve uma nova onda de 
ameaças aos direitos historicamente conquistados pela luta dos brasileiros, e 
uma nova situação de crise foi vivenciada pela população.
Neste capítulo, você conhecerá alguns aspectos da história brasileira dos 
anos 1990 à atualidade, compreendendo a década de 1990 como um período de 
implementação do neoliberalismo. Além disso, conhecerá as lutas desenvolvidas 
nesse período para a garantia de direitos historicamente conquistados. Por fim, 
você verá quais foram as transformações ocorridas após 2013 e os novos projetos 
econômicos e sociais em pauta para a implementação no País.
O Brasil nos anos 1990
As eleições para presidente em 1989 foram o primeiro pleito com voto di-
reto desde 1960. Todo o processo eleitoral foi regido pelas novas normas, 
estabelecidas pela Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), aprovada após o 
trabalho de quase dois anos da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). A 
nova Constituição havia ampliado o direito ao voto e assegurado a liberdade 
partidária, além das eleições em dois turnos. A promulgação da Constituição 
de 1988 e a realização de eleições diretas e livres em 1989 são dois marcos 
importantes da história republicana do Brasil, por representarem a conclusão 
do processo de transição política e o fim da ditadura civil-militar, bem como 
a reafirmação de direitos civis, sociais e políticos.
Nesse pleito, estiveram em disputa dois projetos bastante antagônicos 
para o futuro do Brasil, representados, no segundo turno, pelo confronto 
entre Fernando Collor de Mello, candidato pelo Partido da Reconstrução 
Nacional (PRN), e Luiz Inácio “Lula” da Silva, pelo Partido dos Trabalhadores 
(PT). Com o apoio da grande mídia e da elite industrial e empresarial brasileira, 
Collor conquistou a população em geral, e foi eleito com um programa que 
se propunha a: acabar com a corrupção; realizar um processo de moralização 
da política, dando fim aos chamados “marajás”; e conter a inflação, grande 
problema herdado do fim da ditadura e dos anos 1980, que impactava dire-
tamente o cotidiano dos cidadãos. 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...2
De acordo com José Murilo de Carvalho (2002, p. 203–204):
Seguindo a velha tradição nacional de esperar que a solução dos problemas ve-
nha de figuras messiânicas, as expectativas populares se dirigiram para um dos 
candidatos à eleição presidencial de 1989 que exibia essa característica. Fernando 
Collor, embora vinculado às elites políticas mais tradicionais do país, apresentou-se 
como um messias salvador desvinculado dos vícios dos velhos políticos. Baseou sua 
campanha no combate aos políticos tradicionais e à corrupção do governo. Repre-
sentou o papel de um campeão da moralidade e da renovação da política nacional.
Um dia após a sua posse, ocorrida em 15 de março de 1990, Collor lançou 
o chamado Plano Collor para a recuperação da economia. Por meio desse 
plano, foram tomadas algumas medidas, como o confisco monetário, o con-
gelamento de preços e salários e a reformulação dos índices de correção 
monetária. Collor promoveu ações para diminuir o tamanho do Estado e seus 
custos, exonerando servidores públicos e extinguindo autarquias, fundações 
e empresas estatais. Além disso, ele permitiu uma abertura da economia 
nacional ao capital estrangeiro, tanto por meio da entrada de mercadorias 
como por meio do financiamento externo. Essas medidas foram apoiadas 
pelas elites econômicas do País, que receberam positivamente a redução 
da intervenção do Estado na economia (MACIEL, 2011). O projeto econômico, 
político e social de Collor baseava-se nos preceitos neoliberais.
O chamado “projeto neoliberal” refere-se às formas concretas de imple-
mentação da doutrina econômica, política e social do neoliberalismo. Em ou-
tras palavras, refere-se aos projetos, aos programas e às políticas elaboradas 
por aqueles governos que se identificaram com essa concepção de mundo. É 
importante destacar que o desenvolvimento de projetos neoliberais no norte 
global (Europa e Estados Unidos) será diferente do desenvolvimento destes 
no sul global (América, África e Ásia), em função da dinâmica centro-periferia 
do capitalismo e da lógica do desenvolvimento desigual e combinado.
No Brasil, a transição para o neoliberalismo deu-se de forma lenta, gradual e 
se confundiu com a década perdida (década de 1980) e com a transição para a 
democracia no País. Por isso, o estudo dessa transição deve percorrer desde o 
início do processo de abertura democrática (1979) até a implantação do Plano Real 
(1994), momento de consolidação das políticas neoliberais no País. Nesse período 
de 15 anos, ocorreram mudanças que transformaram a face do capitalismo brasi-
leiro, alteraram estruturalmente a vida política e ideológica do País, encerraram 
o longo ciclo de desenvolvimento (1930–1980) e, ao mesmo tempo, tornaram viável 
historicamente a fase neoliberalizante (MULLER, 2003).
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 3
O neoliberalismo fundamenta-se em uma ideia de Estado mínimo, ou 
seja, em uma intervenção estatal mínima no funcionamento da economia, 
que se regularia por leis próprias do mercado, como a da oferta e da procura. 
Além disso, a doutrina neoliberal apregoa uma estabilização financeira e 
monetária, com a adoção de políticas anti-inflacionárias e cambiais. Assim, 
ao Estado, compete apenas a garantia do bem comum e do equilíbrio social, 
com a prestação de serviços básicos e algumas medidas assistencialistas.
No Brasil, o neoliberalismo apresentou-se como uma solução para a crise 
econômica dos anos 1980, decorrente do fracasso das políticas econômicas da 
ditadura e da democracia. Além das ações comuns aos preceitos neoliberais, 
relativas ao controle de preços, à estabilização financeira e monetária e às 
ações anti-inflacionárias e cambiais, ocorreu uma progressiva diminuição do 
tamanho do Estado no País, com as privatizações de estatais e a exoneração 
de funcionários públicos.
Durante o governo Collor, houve uma ruptura com os padrões econômi-
cos institucionalizados desde 1930, notadamente o modelo substitutivo de 
importações, que foi continuado, posteriormente, pelo governo de Fernando 
Henrique Cardoso. Contudo, no ano seguinte, as dificuldades do plano de 
estabilização apareceram, pois a inflação não foi extinta, e a economia se-
guiu em recessão. Além disso, circulavam rumores sobre a existência de um 
esquema de corrupção com a participação de altos funcionários e ministros 
do governo Collor (MACIEL, 2011).
As suspeitas foram confirmadas quando o irmão do presidente, Pedro 
Collor de Mello, deu uma entrevista à revista Veja, em abril de 1992, falando 
sobre esse esquema de corrupção, baseado em tráfico de influências e ir-
regularidades financeiras, organizado pelo empresário Paulo César Farias, 
amigo de Collor e coordenador financeiro de sua campanha eleitoral. No dia 
26 de maio do mesmo ano, o Congresso Nacionalinstalou uma Comissão 
Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as denúncias quanto ao presidente, 
e, a partir de então, outras tantas entrevistas e reportagens realizadas pela 
imprensa explicitaram a corrupção do governo (MACIEL, 2011).
Com isso, setores da população passaram a exigir o “fora Collor”, prin-
cipalmente os estudantes, que organizaram diversas passeatas exigindo 
o impeachment do presidente. Esse movimento ficaria conhecido como 
movimento dos caras pintadas. Pressionado pela população, o Congresso 
aprovou o impeachment do presidente em dois turnos: primeiro, na Câmara 
dos Deputados, em 29 de setembro de 1992, e, depois, no Senado Federal, em 
29 de setembro de 1992. Assim, o Congresso destituiu o primeiro presidente 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...4
eleito por voto direto após a ditadura por corrupção, além de ter cassado os 
seus direitos políticos por oito anos (MACIEL, 2011).
O impedimento foi sem dúvida uma vitória cívica importante. Na história do Brasil e 
da América Latina, a regra para afastar presidentes indesejados tem sido revoluções 
e golpes de Estado. No sistema presidencialista que nos serviu de modelo, o dos 
Estados Unidos, o método foi muitas vezes o assassinato. Com exceção do Panamá, 
nenhum outro país presidencialista da América tinha levado antes até o fim um 
processo de impedimento. O fato de ele ter sido completado dentro da lei foi um 
avanço na prática democrática. Deu aos cidadãos a sensação inédita de que podiam 
exercer algum controle sobre os governantes (CARVALHO, 2002).
Com o impeachment de Collor, quem assumiu a presidência da República 
para o término do mandato foi Itamar Franco, o vice-presidente, cujo governo 
também foi marcado por escândalos de corrupção, assim como o de seus 
antecessores. Uma nova CPI do Congresso Nacional, que funcionou entre 
1993 e 1994, investigou e confirmou um esquema de corrupção que envolvia 
o orçamento da União, com desvios de dinheiro. Seis deputados tiveram os 
seus mandatos cassados, e outros quatro renunciaram para não perder os 
seus direitos políticos.
Além dos escândalos de corrupção, no governo de Itamar Franco, foi 
anunciado, no final de 1993, o Plano Real, elaborado pelo então ministro da 
Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real, a ser implementado ao 
longo de 1994, previa a implantação dos preceitos do neoliberalismo no Brasil 
(MOTTA, 2018). O sucesso do Plano foi um dos motivos que impulsionaram a 
candidatura de Fernando Henrique Cardoso (FHC), que ganhou as eleições 
de 1994 à presidência da República ainda no primeiro turno, dando início à 
chamada era FHC.
A era FHC
Fernando Henrique Cardoso foi presidente da República por dois mandatos 
consecutivos, eleito sempre em primeiro turno, e o período entre 1995 e 2002 
ficou conhecido como era FHC. O governo de FHC foi marcado por modificações 
nas políticas interna e externa do Brasil.
Na política externa, destaca-se a criação do Mercosul. O acordo entre 
Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai previa a criação de uma área de livre-
-comércio entre os países, o que foi efetivado não sem conflitos entre os 
países-membros. Posteriormente, Bolívia e Chile se tornaram membros as-
sociados. A criação do Mercosul inseria-se em uma conjuntura de formação 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 5
de blocos econômicos, a exemplo da Área de Livre-Comércio das Américas 
(Alca) e do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta).
Na política interna, por sua vez, FHC obteve apoio do Congresso Nacional 
para a aprovação de suas propostas de emendas constitucionais, dando 
prosseguimento aos seus planos econômicos neoliberais. A reforma consti-
tucional proposta por FHC era justificada como necessária para a moderni-
zação da economia e a retomada do crescimento econômico. Dessa forma, 
foram realizadas modificações na Constituição que permitiram a quebra dos 
monopólios do petróleo e das telecomunicações, entre outras medidas de 
caráter liberal. Segundo Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 194): 
O processo de desregulamentação — com a quebra dos monopólios estatais 
em vários setores da economia — juntamente com o processo de privatização 
das empresas públicas, reduziu bastante a presença do Estado nas atividades 
diretamente produtivas, fortalecendo grupos privados nacionais e estrangeiros 
— dando origem a oligopólios privados, redefinindo a força relativa dos diversos 
grupos econômicos e enfraquecendo grupos políticos regionais tradicionais; além 
de permitir demissões em massa e enfraquecer os sindicatos.
Além disso, FHC deu continuidade ao Plano Real, realizando ajustes eco-
nômicos nas taxas de juros e no câmbio, a fim de estimular as exportações e 
equilibrar a balança comercial. Embora o Plano tenha sido exitoso no controle 
à inflação, ele não impediu a queda no consumo e as demissões em massa, 
resultados da recessão econômica (MOTTA, 2018). Assim, esse foi um período 
em que o Brasil recorreu inúmeras vezes a empréstimos de organizações 
estrangeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). A dívida externa 
brasileira cresceu exponencialmente no período, e os contratos com o FMI 
exigiam contrapartidas, tais como medidas de austeridade e reajuste fiscal 
(desvalorização cambial, aumento de impostos e diminuição de gastos pú-
blicos) (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007). Com a diminuição dos gastos públi-
cos, áreas como educação e saúde foram bastante atingidas, bem como as 
condições de trabalho. De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 188): 
[...] junto com o desemprego e como produto de uma ampla desregulação do merca-
do de trabalho — efetivada na prática pelas empresas e por diversos instrumentos 
jurídicos emanados dos sucessivos governos —, veio um processo generalizado 
de precarização das condições de trabalho — formas de contratação instáveis 
que contornam ou burlam a legislação trabalhista, prolongamento da jornada de 
trabalho, redução de rendimentos e demais benefícios, flexibilização de direitos 
trabalhistas e ampliação da informalidade — tudo isso, enfraquecendo e deslocando 
mais ainda a ação sindical para um comportamento defensivo.
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...6
No governo de FHC, foram realizadas reformas estatais, processos de 
privatização e ajustes fiscais, todos dos moldes do neoliberalismo. Assim, 
pode-se afirmar que as políticas econômicas e sociais dos dois mandatos 
de FHC seguiram o preconizado pelo chamado Consenso de Washington, 
que ditava as premissas para os governos neoliberais. Além disso, houve a 
abertura comercial e financeira, as privatizações e as reformas que previam 
austeridade, como a diminuição do Estado e sua interferência na economia, 
bem como a condução do País por meio de uma política econômica ortodoxa, 
com juros altos e contenção de gastos correntes (MOTTA, 2018).
As lutas e as conquistas sociais
Desde meados dos anos 1970, durante o processo de transição política e 
após o abrandamento das medidas repressivas da ditadura, houve a rearti-
culação dos movimentos sociais e o surgimento de novos grupos, a partir de 
reivindicações colocadas nacional e internacionalmente naquele período. Os 
chamados novos movimentos sociais se colocavam no campo das demandas 
pelo acesso a diferentes políticas públicas (DURIGUETTO; SOUZA; SILVA; 2009), 
englobando campos tão diversos como os direitos básicos (educação, habi-
tação, saúde) até temas mais contemporâneos, como a ecologia. De acordo 
com Duriguetto, Souza e Silva (2009, p. 14), “foram os movimentos sociais que 
transformaram a questão social, na realidade brasileira e em qualquer outra 
formação social capitalista, numa questão política e pública”.
Nessa conjuntura, houve uma maior “autonomização” dos movimentos 
sociais da tutela do Estado, o crescimento das associações comunitárias, o 
fortalecimento de movimentos que demandavam as chamadas liberdades 
democráticas, incluindodireitos civis, políticos e sociais, além da rearticu-
lação das organizações sindicais e o ressurgimento ou criação de partidos 
políticos, com o fim do bipartidarismo da ditadura.
A conjuntura de transição política e de retomada dos movimentos 
sociais no final da década de 1970 também é um ponto de inflexão 
na história do Serviço Social. De acordo com Maria Beatriz Costa Abramides 
(2016, p. 463–464): 
[...] a categoria dos assistentes sociais, em 1978, realizou seu primeiro encontro com 
a presença de quatro entidades: as Apas (Associação Profissional dos Assistentes 
Sociais) de São Paulo, Bahia e Goiás e o Sindicato de Minas Gerais, que impulsionaram 
um amplo processo de rearticulação das entidades sindicais no país. Vincularam-
-se à Anampos (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais), do 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 7
polo combativo de lutas dos trabalhadores que fundou a CUT (Central Única dos 
Trabalhadores), em 1983, e o MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra), em 
1984. Por outro lado, as entidades sindicais da categoria profissional atuaram 
diretamente na organização dos trabalhadores em serviço público e junto a outros 
sindicatos de categorias, como médicos, enfermeiros, sociólogos, psicólogos. 
Participaram ativamente de campanhas salariais e greves nesse ramo de atividade. 
[...] No período da retomada das entidades sindicais de assistentes sociais, de 1977 a 
1979, a categoria se reconheceu como parte da classe trabalhadora, em sua condição 
de assalariamento, por sua inserção na divisão sociotécnica do trabalho; participou 
da reorganização do movimento sindical classista e atuou junto aos movimentos 
populares sobre o custo de vida, contra a carestia, pelo SUS (Sistema Único de Saúde), 
feminista, de luta por creches, moradia, estudantil, negro unificado, além do apoio 
e solidariedade às lutas dos trabalhadores sem-terra, quilombolas e indígenas.
A organização dessas forças políticas e sociais foi muito importante ao 
longo dos anos 80, principalmente durante os trabalhos da ANC, pois, a 
partir dessa organicidade, foi possível encaminhar emendas populares à 
Constituição e pressionar os constituintes para a aprovação e a garantia da 
ampliação da cidadania.
De acordo com Duriguetto, Souza e Silva (2009, p. 14–15):
Essa estratégia é, também, visualizada para a ampliação da democracia, que se 
daria pela criação de canais político-institucionais para a participação dos cidadãos 
nos processos de discussão e negociação de políticas públicas, especialmente 
pela criação dos conselhos de direitos. Neste cenário de redefinição das ações 
prático-políticas dos movimentos sociais, parece consensual a constatação do 
abandono de atitudes de confronto e de reivindicação pela valorização de con-
dutas institucionais pragmáticas e propositivas na busca de diálogo, negociação, 
parcerias com o Estado e de formas alternativas de participação no sistema de 
representação de interesses. Essa redefinição das formas de luta dos movimentos 
sociais fomentou a elaboração de análises, nas quais emerge uma nova concepção 
de sociedade civil. Esta passa a ser entendida como a esfera, na qual se desenvolve 
uma articulação entre os movimentos sociais e as agências estatais por espaços 
democráticos de representação e interlocução pública para o reconhecimento, 
garantia e consolidação de direitos de cidadania.
Entretanto, a década de 1990, com a implantação de um projeto neoliberal, 
representou uma mudança substancial na atuação desses movimentos, em 
função da reestruturação produtiva e do desmonte da regulação estatal e dos 
direitos sociais. É nessa conjuntura que se fortalece o chamado terceiro setor, 
em que muitas reinvindicações dos movimentos sociais foram englobadas e 
desenvolvidas por organizações não governamentais (ONG) ou organizações 
da sociedade civil de interesse público (OSCIP).
Conforme Selma Costa (2005, documento on-line): 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...8
[...] o Terceiro Setor é formado por instituições (associações ou fundações privadas) 
não governamentais, que expressam a sociedade civil organizada, com participa-
ção de voluntários, para atendimentos de interesse público em diferentes áreas 
e segmentos. Avança da perspectiva filantrópica e caritativa para uma atuação 
profissional e técnica, na qual os usuários são sujeitos de direitos, tendo em vista o 
alcance de um trabalho qualitativamente diferenciado daquele que sempre marcou 
a história dessas organizações: o assistencialismo e a filantropia.
No início dos anos 2000, com as consequências econômicas, políticas 
e sociais dos governos neoliberais da América Latina, ganharam força os 
movimentos e os projetos políticos que se colocavam como contraponto 
a essas medidas. Ou seja, a persistência e o agravamento da desigualdade 
social, a redução dos direitos sociais, o desemprego e o aumento da miséria 
e da pobreza fortaleceram os projetos políticos destinados a mitigar as 
consequências do neoliberalismo. Com isso, foram eleitos diversos projetos 
do campo progressista, com diferentes matizes, e não somente no Brasil, mas 
também na Argentina, na Bolívia, no Equador, no Paraguai e na Venezuela. A 
vitória eleitoral desses projetos representou um novo ponto de inflexão na 
história dos movimentos sociais latino-americanos e brasileiros.
No Brasil, embora houvesse uma maior disponibilidade dos agentes esta-
tais para negociação com a sociedade civil em relação às políticas públicas a 
serem desenvolvidas, os pesquisadores afirmam que houve uma continuidade 
de certos preceitos neoliberais, como será abordado na próxima seção.
Para conhecer mais sobre a organização das lutas sociais e do serviço 
social durante os anos 2000, leia o artigo “Lutas sociais e desafios da 
classe trabalhadora: reafirmar o projeto profissional do serviço social brasileiro”, 
de Maria Beatriz Costa Abramides (2017).
O Brasil na atualidade
A vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT nas eleições de 2002 
representou um marco para a história brasileira. De acordo com o historiador 
Rodrigo Patto Sá Motta (2018, p. 415): 
[...] após as tentativas fracassadas de 1989, 1994 e 1998, finalmente o operário 
metalúrgico e sindicalista chegou ao poder. Pela primeira vez uma candidatura 
claramente de esquerda ganhava as eleições presidenciais no Brasil, com a novi-
dade extra de ter no comando alguém com o perfil de Lula, retirante nordestino 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 9
e trabalhador braçal. As origens sociais e a imagem radical de Lula e do PT repre-
sentavam uma parte do eleitorado e atraíam votos, porém, em outros segmentos, 
provocavam o medo que contribuiu para as derrotas anteriores.
Ao contrário do que propalavam os seus adversários políticos, o PT, majo-
ritariamente, não possuía um projeto político revolucionário, apenas algumas 
alas internas defendiam propostas mais radicais, mas a maioria de seus 
membros situava-se no espectro político da centro-esquerda (SÁ MOTTA, 
2018). De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 186):
[...] com o abandono do programa histórico do PT, de caráter social-democrata-
-nacional-popular, e com a manutenção do programa e das políticas neoliberais, 
o Governo Lula evitou enfrentamentos com o bloco dominante, governando com 
e para ele. Portanto, nem de longe, está se vivendo uma fase de transição pós-
-neoliberal, mas sim um ajustamento e consolidação do modelo neoliberal – que 
tem possibilitado uma maior unidade política do bloco dominante, isto é, tem 
reduzido o atrito no seu interior.
Pode-se dizer que a vitória de Lula ocorreu devido ao esgotamento do 
projeto econômico e social da democracia-social, representada por FHC e pelo 
Plano Real, incapazes de manter a moeda valorizada e a inflação baixa. Além 
disso, houve uma aproximação com setores empresariais e industriais, além 
da ala mais moderadada política, como pode ser percebido pela composição 
de sua chapa, com José de Alencar como vice-presidente (SÁ MOTTA, 2018).
Os governos de Lula foram marcados pelo cumprimento das promessas 
moderadas durante a campanha e pela negociação, por meio da formação 
de compromissos e coalisões, do ponto de vista político. Economicamente, 
para reverter a situação de desvalorização do real e a alta da inflação, Lula 
investiu em medidas ortodoxas, para estabilizar a situação econômica. 
De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 186):
[...] o Governo Lula deu prosseguimento (radicalizando) à política econômica im-
plementada pelo segundo Governo FHC, a partir da crise cambial de janeiro de 
1999: metas de inflação reduzidas, perseguidas por meio da fixação de taxas de 
juros elevadíssimas; regime de câmbio flutuante e superávits fiscais acima de 
4,25% do PIB nacional. Adicionalmente, recolocou na ordem do dia a continuação 
das reformas neoliberais — implementando uma reforma da previdência dos ser-
vidores públicos e sinalizando para uma reforma sindical e das leis trabalhistas 
—, além de alterar a Constituição para facilitar o encaminhamento, posterior, da 
proposta de independência do Banco Central e dar sequência a uma nova fase das 
privatizações, com a aprovação das chamadas Parcerias Público-Privado (PPP), no 
intuito de melhorar a infraestrutura do país —uma vez que a política de superá-
vits primários reduz drasticamente a capacidade de investir do Estado. Por fim, 
completando o quadro, reforçou as políticas sociais focalizadas (assistencialistas).
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...10
Ainda assim, não é possível dizer que houve uma manutenção sem modi-
ficações das políticas neoliberais instituídas na década de 1990. A visão de 
Estado mínimo e privatista dos governos anteriores foi abandonada para uma 
ideia de um Estado como agente e planejador econômico (SÁ MOTTA, 2018). 
Sem dúvida, um dos principais destaques das duas gestões do governo Lula 
foram as políticas culturais e sociais, que permitiram um aumento da renda 
para os setores mais empobrecidos da população, bem como ampliaram o 
mercado para setores produtivos, criando oportunidades para investimento. 
Dos programas assistenciais desenvolvidos por Lula, destacam-se o Fome 
Zero, o Bolsa Família e as diferentes medidas culturais e educacionais para 
manter crianças e adolescentes nas escolas e os jovens nas universidades, 
cuja rede de unidades públicas foi aumentada.
Durante os governos Lula, também houve denúncias de corrupção, no-
tadamente o chamado “escândalo do mensalão”, a partir das denúncias do 
deputado Roberto Jefferson, que apontou o então deputado federal José 
Dirceu, do PT, como comandante de um esquema que envolvia outras lide-
ranças do partido (SÁ MOTTA, 2018). Entretanto: 
[...] não houve denúncias diretas contra o presidente [Lula], apenas contra o segundo 
escalão do governo. Por outro lado, as forças de oposição parecem ter escolhido 
circunscrever o impacto da crise, talvez acreditando que o estrago já era suficiente 
para derrotar Lula nas eleições de 2006. Além disso, a situação econômica era 
positiva e tendia a melhorar, para muitos atores não fazia sentido aprofundar uma 
crise que poderia estragar o bom momento. (SÁ MOTTA, 2018, p. 429). 
Ainda assim, o PT sofreu uma perda importante de popularidade nas 
cidades, entre setores mais escolarizados e lideranças sociais, criando pro-
blemas para a imagem do partido, embora isso não tenha impedido Lula de 
se reeleger em 2006.
De acordo com a análise do historiador Rodrigo Patto Sá Motta (2018, p. 
430):
O segundo mandato foi a fase áurea de Lula, quando ele atuou com mais segurança 
e desenvoltura e obteve notável reconhecimento. A liderança e o carisma do ex-
-operário metalúrgico se firmaram em várias dimensões, alcançando fama mundial. 
Para isso contribuíram os bons resultados econômicos e sociais, a estabilidade 
política interna, a maneira como o governo enfrentou a crise econômica mundial 
em 2008 e a ousada política externa. Os resultados das políticas sociais distribu-
tivistas apareceram com mais destaque nessa fase, em que ocorreram também os 
mais importantes investimentos educacionais. Igualmente, foi na segunda gestão 
de Lula que se consolidou o seu modelo desenvolvimentista, com destaque para 
ações no campo da infraestrutura e da energia.
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 11
As vitórias políticas angariadas pelo PT durante o segundo mandato de Lula 
possibilitaram a vitória de Dilma Rousseff, apresentada como a “sucessora de 
Lula” na campanha presidencial de 2010. O novo governo manteve as políticas 
de Lula, dando continuidade ao desenvolvimentismo com investimento es-
tatal e às políticas de transferência de renda. Dilma aprofundou as políticas 
de educação e de direitos humanos, principalmente no que diz respeito 
ao passado da ditadura civil-militar brasileira, com a criação da Comissão 
Nacional da Verdade. Sobre o governo Dilma, do ponto de vista econômico: 
[...] no primeiro momento, seu objetivo principal foi segurar a inflação e melhorar 
as contas públicas, já que o crescimento não parecia um problema, dado o ritmo 
expansionista no último ano de Lula. Por isso, Dilma concordou em reduzir o 
crédito e aumentar as taxas de juros, esperando provocar uma queda suave da 
atividade econômica. No entanto, a situação internacional se agravou, com novas 
baixas nos preços das commodities e queda nas exportações brasileiras. Além 
disso, o aumento da insegurança entre os empresários levou a que reduzissem 
investimentos na atividade produtiva. (SÁ MOTTA, 2018, p. 434–435).
Em comparação com o governo Lula, a gestão de Dilma apresentou 
uma queda no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB): em 2011, o 
PIB cresceu 4%, porém, em 2012, ficou em 1,9%; em 2013, 3%; e, em 2014, apenas 
0,5% (SÁ MOTTA, 2018).
Mesmo com os problemas econômicos ainda em decorrência dos efeitos 
da crise de 2008, as maiores dificuldades do governo Dilma vieram do campo 
político, com as manifestações de 2013 e dos anos seguintes, que foram 
radicalizadas por setores conservadores e da direita, que passaram a exigir 
intervenção militar e a destituição da presidenta. Ainda assim, Dilma saiu 
vitoriosa nas eleições de 2014, embora por uma pequena margem de votos 
(SÁ MOTTA, 2018). Contudo, os partidos da oposição não aceitaram o resultado 
das eleições e passaram a questioná-lo na justiça. Iniciou-se, assim, um 
processo de desestabilização do governo, trancando pautas encaminhadas 
pelo Executivo para votação do Legislativo. Em adição às denúncias e às 
apurações da Operação Lava Jato, deu-se início, em 2016, ao processo de 
impeachment da presidenta, acusada de “crime de responsabilidade fiscal”.
De acordo com Abramides (2017, p. 367):
Desde 2013 a conjuntura do país apresenta um quadro de grandes mobilizações 
sociais frente aos ataques do capital, por meio do patronato e do Estado, com 
precarização das condições de vida dos trabalhadores imposta pela terceirização, 
O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...12
desemprego estrutural crescente, desregulamentação das relações de trabalho 
e cortes orçamentários em políticas sociais que reduzem direitos sociais e traba-
lhistas arduamente conquistados. Assistimos à criminalização dos movimentos 
sociais nos vários estados, com repressão contínua aos lutadores [...]. As lutas de 
resistência da classe trabalhadora e da juventude com greves, mobilizações de 
rua, ocupação de terras, fábricas e escolas têm sido intensa no processo contra 
a exploração econômica, dominação política e opressão social de classe, gênero, 
raça, etnia, geracional e de orientação sexual. Tais reivindicações se relacionam 
diretamente à direção social do projeto profissional do Serviço Social brasileiro 
articulado ao projeto societário emancipatório. 
Michel Temer, do Partido do MovimentoDemocrático Brasileiro (PMDB), 
então vice-presidente, assumiu a presidência para o término do mandato, 
dando uma guinada neoliberal nas políticas econômicas e sociais, o que 
resultou em uma estagnação econômica semelhante à vivenciada nos anos 
1990. De acordo com Souza e Hoff (2019, p. 14): 
[...] a primeira reforma realizada foi a Proposta de Ementa Constitucional (PEC) nº 
241/2016, a qual foi aprovada em 15 de dezembro de 2016 (Emenda Constitucional 
nº 95). Com o argumento de retomar o crescimento econômico, o Governo Temer 
limitou constitucionalmente os gastos públicos por 20 anos, diminuindo o Estado 
e impedindo que o sistema constitucional de proteção social (que inclui saúde, 
previdência e assistência sociais) funcionasse de maneira adequada às necessi-
dades da população. 
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