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FORMAÇÃO SOCIAL, ECONÔMICA E POLÍTICA DO BRASIL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Caracterizar os novos excluídos do Brasil. > Analisar os impactos sociais dessa nova classe de excluídos no Brasil. > Avaliar o papel do Estado com as políticas inclusivas. Introdução Uma das principais temáticas acerca da dinâmica de funcionamento da sociedade é a exclusão social, que faz referência ao processo de distinção e/ou segregação em relação a um indivíduo ou grupo. A exclusão social pode assumir características distintas dependendo do contexto em que é praticada, tendo variadas motivações para isso, como a desigualdade econômica e a diversidade cultural, por exemplo. A exclusão social está relacionada ao processo sócio-histórico de formação de cada região territorial, por isso a análise desse aspecto se torna um fator fundamental para a contextualização desse tema. Neste capítulo, você vai ver algumas considerações iniciais acerca do conceito de exclusão social e sua utilização teórica, abordando também as variadas formas que a exclusão pode assumir. Por fim, vai ver algumas referências ao desenvol- vimento de políticas públicas e ao papel do Estado em relação à inclusão social. Os novos excluídos do Brasil Alana Milcheski Exclusão social Ao abordarmos a temática referente às discussões acerca do processo de exclusão que ocorre a nível de sociedade, inicialmente é necessário traçar- mos algumas considerações sobre as possíveis acepções do termo “exclusão social”. Nesse sentido, serão destacadas reflexões elaboradas de acordo com a perspectiva sociológica do conceito de exclusão social, a fim de entender os fenômenos aos quais esse termo faz referência, tendo como delimitação temporal o contexto contemporâneo. A sociologia, enquanto área de estudo, se dedica à análise de complexos e intricados fenômenos sociais, que fazem referência a dinâmicas que se desenvolvem em nível individual ou coletivo e que frequentemente têm for- mas de funcionamento próprias. Assim, a exclusão social se configura como um desses fenômenos que se insere no desenrolar cotidiano das relações humanas, constituindo-se enquanto uma temática de análise cujas menções iniciais podem ser identificadas a partir da metade do século XX. No que se refere ao contexto geográfico, a França é apontada como o local de surgimento do termo de “exclusão social”, onde ele era utilizado para fazer referência aos indivíduos que se encontravam fora do mundo do trabalho, sendo categorizados de acordo com o processo de empobrecimento decorrente da condição em que se encontravam. Apesar de o surgimento do conceito de exclusão social ser atribuído ao contexto mencionado, é somente ao final da década de 1980 que podemos identificar uma expansão conside- rável em relação ao uso desse termo em âmbito internacional. A partir do final dos anos 1980, o termo exclusão social adquiriu uma grande visibilidade no debate político e teórico internacional. Essa visibilidade pode ser explicada pela necessidade de explicar e entender um fenômeno geral de empo- brecimento e carências, mesmo para os países europeus que, desde o pós-guerra, teriam estendido à maioria de sua população condições de vida e de integração social bastante positivas. Mais recentemente, essa noção passou a ser criticada tanto pelos alegados limites em sua capacidade explicativa como em função do uso abusivo do termo (ZIONI, 2006, documento on-line). Entre as motivações para a disseminação do termo, está a necessidade demandada pelas transformações sociais que acarretaram um aumento ex- pressivo do empobrecimento de parcelas populacionais em diversos países. Recentemente, alguns problemas acerca da utilização do termo de ex- clusão social têm sido identificados por especialistas de áreas diversas, e entre tais críticas podemos citar a objeção ao uso excessivo do termo, o que pode acarretar a polissemia do significado, bem como esvaziar o conceito Os novos excluídos do Brasil2 de seu sentido inicial. Entretanto, cabe destacarmos que algumas expansões do termo de exclusão social foram decorrentes da própria dinâmica social, assim como da elaboração e formulação de estudos acadêmicos e científicos que buscaram compreender a complexidade desse fenômeno. Nesse sentido, outros aspectos, como a precarização do trabalho, podem ser relacionados ao conceito de exclusão social, pois estão diretamente associados às diferentes formas de exclusão contemporâneas. Enquanto a pobreza é um desdobramento das relações históricas e estruturais de oposição entre os interesses de classes, portanto, um fenômeno econômico que se configura na questão social derivada das relações capital x trabalho, a “exclu- são social” se caracteriza por um conjunto de fenômenos que se configuram no campo alargado das relações sociais contemporâneas: o desemprego estrutural, a precarização do trabalho, a desqualificação social, a desagregação identitária, a desumanização do outro, a anulação da alteridade, a população de rua, a fome, a violência, a falta de acesso a bens e serviços, à segurança, à justiça e à cidadania, entre outras (LOPES, 2006, documento on-line). Esses fenômenos podem ser entendidos como processos que se desen- volveram de forma concomitante com o empobrecimento de parte da popu- lação em nível mundial e, em alguns contextos, são considerados causa ou consequência dessa condição, reflexo de um intricado complexo de relações. Dessa forma, existem diferentes grupos e indivíduos que são excluídos em nível social, e as formas de exclusão podem variar, como por meio do processo de desumanização causado por inúmeros fatores, por exemplo. Em relação aos debates teóricos realizados pela perspectiva sociológica, podemos destacar os estudos do sociólogo Norbert Elias, que cunhou o termo outsiders, que tem a intenção de caracterizar especificamente indivíduos que são mantidos à margem de um determinado grupo ou sociedade. A semelhança do padrão de estigmatização usado pelos grupos de poder elevado em relação a seus grupos outsiders no mundo inteiro – a semelhança desse padrão a despeito de todas as diferenças culturais – pode afigurar-se meio inesperada a princípio. Mas os sintomas de inferioridade humana que os grupos estabelecidos muito poderosos mais tendem a identificar nos grupos outsiders de baixo poder e que servem a seus membros como justificação de seu status elevados e prova de seu valor superior costumam ser gerados nos membros do grupo inferior – inferior em termos de sua relação de forças – pelas próprias condições de sua posição de outsiders e pela humilhação e opressão que lhe são concomitantes. Sob alguns aspectos, eles são iguais no mundo inteiro (ELIAS; SCOTSON, 2000, p. 32). Assim, o teórico aponta para a existência da categoria considerada como outsider ao redor do mundo como um todo, e o estabelecimento de relações Os novos excluídos do Brasil 3 desiguais tanto em nível simbólico quanto material se constitui enquanto uma marca indelével dessa condição. Pode-se perceber que o processo de exclusão social também é composto por aspectos relacionados ao status estabelecido entre grupo e/ou indivíduos, fazendo com que pessoas tidas como “diferentes” sejam relegadas a uma condição considerada como inferior. Ainda no que se refere aos estudos de Norbert Elias, podemos destacar que: A teoria apresentada pelo autor defende a existência de relações de interde- pendência e equilíbrio de poder entre dois grupos, sendo essa uma condição fundamental para a estigmatização de um grupo de “outsiders” por um grupo “estabelecido”. Ele constatou o processo no qual um grupo estigmatiza o outro quando está bem instalado em posições de poder das quais um deles é excluído (PEREIRA; LOURENÇO, 2018, documento on-line). As contribuições do sociólogo são inúmeras e fazem referência, entre outros tópicos, à abordagem das dinâmicas estabelecidas acerca da distinção entre os indivíduos e grupos considerados como estabelecidos e osque são considerados outsiders. Em relação ao contexto brasileiro especificamente, pode-se destacar alguns aspectos relacionados aos processos de exclusão social existentes, começando pela distinção acerca da perspectiva econômica, que inclui uma parte expressiva da população. Assim, para a conjuntura brasileira, exclusão social implica em várias discussões. Pensar em critérios econômicos significaria considerar que cerca de 30% ou 40% da população estariam desligados da sociedade nacional. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado aos mecanismos de proteção social e para os direitos de cidadania. No entanto, a partir da discussão sobre as diferentes abordagens desenvolvidas sobre exclusão social, entende-se que ela pode ser classificada como uma noção de caráter metodológico, visto que agrega elementos de um processo de conhecimento usados como imagens para explicação do real (ZIONI, 2006, documento on-line). Considerando também questões relacionadas a garantias legais, como a proteção social que deve ser função da estrutura estatal, o número de indivíduos que não têm acesso também é expressivo, sendo característica de um gravíssimo problema humanitário. Cabe considerarmos também que o termo exclusão social se constitui enquanto uma elaboração teórica que tem a intenção de traçar abordagens sobre um fenômeno inserido na realidade material. Os novos excluídos do Brasil4 O processo de exclusão social está presente em diversos países, e em cada lugar pode apresentar características próprias. No entanto, é necessário reconhecer o problema e promover a desnaturalização dessa prática. Para aprofundar seu conhecimento sobre o assunto, leia o artigo Da Exclusão à Inclusão: Concepções e Práticas, de Maria Odete Emygdio da Silva. Formas de exclusão social Os processos de exclusão social se modificam de acordo com as mudanças que ocorrem na sociedade, podendo ser superados ou adaptados ao novo contexto, além de haver a possibilidade de surgir formas inéditas de exclusão. Dessa forma, em âmbito nacional, temos presenciado a consolidação de algumas formas de exclusão que já existiam em outros períodos históricos e que se adequaram ao contexto atual, assim como o surgimento de novos tipos de distinção social associados a diversas mudanças que estão em voga. O conceito de exclusão social pode abranger diversas formas de distinção para além da questão econômica, como, por exemplo, por meio da segregação por aspectos culturais, religiosos, políticas, sanitárias e étnicas, culminando na expulsão ou marginalização de indivíduos. Nesse sentido, o processo de estipulação de identidades sociais e culturais ao longo do tempo foi marcado por práticas de distinção e exclusão em relação ao que era considerado diferente da norma estabelecida. Apesar disso, cabe destacarmos que há características específicas acerca dos processos de exclusão social que ocorrem em diversas perspectivas, como no caso da inclusão e adaptação às mudanças tecnológicas, por exemplo. Se compararmos as últimas três décadas, tendo como marco cronológico meados da década de 1980 e o início da expansão da internet, veremos que o desenvolvimento tecnológico tem sido notadamente acelerado, tanto em relação à inovação dos aparelhos, como a popularização dos notebooks e dos smartphones, quanto à inserção da tecnologia digital no cotidiano das pessoas. Atualmente, diversas tarefas feitas com frequência, como o pagamento de contas e a assinatura de contratos, podem ser feitas de forma on-line, facilitando a realização de diversas atividades diárias ao tornar os processos mais ágeis. Outras demandas já têm se tornado exclusivamente digitais, como o envio de arquivos por e-mail e a atualização cadastral em algu- mas instituições. A tendência apontada por especialistas das mais variadas áreas identifica uma intensificação ainda maior em relação à utilização das Os novos excluídos do Brasil 5 tecnologias digitais e da internet, aumentando a dependência dos aparelhos eletrônicos e do conhecimento acerca dessas ferramentas. Apesar dos inúmeros benefícios relacionados com o desenvolvimento tecnológico, temos presenciado um fenômeno de exclusão social específico denominado “exclusão digital”, sendo basicamente composto por pessoas que não têm acesso ao universo on-line, seja por questões econômicas ou por diferença geracional. Exclusão digital pode ser vista por diferentes ângulos, tanto pelo fato de não ter um computador, ou por não saber utilizá-lo (saber ler) ou ainda por falta de um conhecimento mínimo para manipular a tecnologia com a qual convive-se no dia-a-dia. De forma mais abrangente, podem ser consideradas como excluídas digitalmente as pessoas que têm dificuldade até mesmo em utilizar as funções do telefone celular ou ajustar o relógio do videocassete, observando-se assim que a exclusão digital depende das tecnologias e dos dispositivos utilizados. Contudo, no contexto deste trabalho, a exclusão digital estará sendo conceituada como um estado no qual um indivíduo é privado da utilização das tecnologias de informação, seja pela insuficiência de meios de acesso, seja pela carência de conhecimento ou por falta de interesse (ALMEIDA et al., 2005, documento on-line). A partir do momento em que uma parte considerável e essencial do fun- cionamento da sociedade ocorre em nível on-line, é necessário que o acesso a esse espaço virtual ocorra de forma democrática para todas as pessoas que assim quiserem. Dada a crescente complexidade da tecnologia digi- tal, é fundamental que existam aparelhos capacitados para se adequar às mudanças que ocorrem, assim como formas disponíveis para que pessoas interessadas possam desenvolver a habilidade de operar as ferramentas necessárias. Nesse caso, ao pensarmos em inclusão, questões como o acesso a aparelhos eletrônicos e a cursos voltados para a alfabetização digital se tornam indispensáveis. Outro aspecto relacionado à exclusão digital se refere ao processo de globalização associado com a consolidação da internet, o qual é caracteri- zado pelo estabelecimento e pela intensificação das relações econômicas e culturais em nível mundial. A mundialização dos mercados, que é encoberta pela ideologia da globalização, gerou a exclusão daqueles que não participam do jogo promovido e estruturado na idéia de que quanto menos controle, melhor, ou de que não há o que fazer frente à globalização, como fato inexorável. Em países desenvolvidos, essa população está entre 13 a 15%. Em países emergentes, como Brasil e México, está em torno de 50% (LOPES, 2006, documento on-line). Os novos excluídos do Brasil6 Assim, pode-se perceber que a atual dinâmica de funcionamento social, nitidamente demarcada pelos aspectos mencionados, ocasiona um processo de exclusão que impossibilita a participação de grande parte da população em países como o Brasil. Cabe destacarmos ainda a prática da exclusão contra as denominadas “minorias sociais”, compreendidas aqui como grupos que se diferenciam do padrão estabelecido de forma normativa, como, por exemplo, os povos indígenas e os agrupamentos étnicos. Embora a exclusão recrie e até reforce certas formas de desigualdade, ela própria é, antes de mais, um produto, um corolário do próprio sistema de desigualdades sociais. É este que não só provoca integração subordinada mas também situações de exclusão por afastamento, expulsão ou eliminação do grupo minoritário, do diferente, apresentando-se amiúde as situações de desigualdade com maior grau de sofisticada subtileza e as de exclusão com eventual maior grau de crueldade (v.g. o massacre de índios, o nazismo, o apartheid) (SILVA, 2009, documento on-line). Pode-se considerar, então, que a exclusão social está inserida em um sistema que produz e reforça as desigualdades, ocasionando aprofundamento dos problemas sociais e da situação de vulnerabilidade dos indivíduos. No que se refere especificamente às formas de exclusão social instituídas porconta de diferenciações culturais, inclusos nessa definição os aspectos étnicos e raciais, destacam-se em âmbito nacional a distinção contra os indígenas e os negros, o que torna o racismo um problema endêmico e institucionalizado. A Organização das Nações Unidas estipulou através da Agenda 2030 os objetivos de desenvolvimento sustentável, composto de 17 tópicos. Acesse o site da ONU no Brasil para saber mais. As políticas públicas e a inclusão social Uma das temáticas mais recorrentes em relação ao conceito de exclusão social se refere às formas de ação adotadas pela estrutura estatal em questões como a aplicação das políticas públicas, por exemplo. A intenção acerca da promoção de ações voltadas para o combate às diversas formas de exclusão social deve ser voltada principalmente para a inclusão dos indivíduos e/ou grupos afetados pela distinção social. Os novos excluídos do Brasil 7 Nesse sentido, a criação de políticas afirmativas para as minorias deve ser uma prioridade no que se refere à busca pela construção de uma sociedade efetivamente mais igualitária, tanto em questão de oportunidade como de acesso. Dessa forma, devemos inicialmente compreender que a formulação de ações e políticas públicas voltadas para esse aspecto devem levar em consideração a perspectiva histórica, pois tanto o processo de exclusão como o de desigualdade social foram originados em contextos específicos. Testemunha a história que as mais graves violações aos direitos humanos tiveram como fundamento a dicotomia do "eu versus o outro", em que a diversidade era captada como elemento para aniquilar direitos. Vale dizer, a diferença era visibili- zada para conceber o "outro" como um ser menor em dignidade e direitos, ou, em situações limites, um ser esvaziado mesmo de qualquer dignidade, um ser descar- tável, objeto de compra e venda (vide a escravidão) ou de campos de extermínio (vide o nazismo). Nesse sentido, merecem destaque as violações da escravidão, do nazismo, do sexismo, do racismo, da homofobia, da xenofobia e outras práticas de intolerância (PIOVESAN, 2008, documento on-line). As diversas formas de exclusão existentes ao longo do tempo foram le- gitimadas pelo argumento da intolerância frente às diversidades sociais e culturais, que tinham como intenção desumanizar pessoas consideradas diferentes. Assim, os problemas sociais que se apresentam atualmente devem ser compreendidos a partir da perspectiva sócio-histórica, a fim de que as ações realizadas possam efetivamente promover a inclusão social. Um dos fatores que contribuem para a importância da contextualização desse tema é o fato de que parte do senso comum se coloca de forma contrária à existência e à aplicação de práticas inclusivas, justamente por considerar apenas o contexto atual, desconsiderando todo o processo histórico. Em relação ao contexto nacional, especificamente, podemos destacar que as contradições sociais são decorrentes da manutenção de um sistema que reproduz as desigualdades, considerando que: Devido à peculiar aliança de classes do país, que representa um arranjo entre os interesses dos latifundiários e a burguesia industrial (a qual deslocou-se de uma estratégia nacionalista para a atual aliança com o capital estrangeiro), as massas urbanas, para não mencionar as rurais, nunca foram plenamente incorporadas econômica e politicamente no sistema. Assim politicamente as tentativas de de- mocracia liberal que foram empreendidas principalmente de 1946 e 1964 falharam. Houve um movimento pendular entre “aberturas” democráticas e “fechamentos” autoritários. É de se observar que relações clientelísticas existiram em ambas as formas de governar. Na esfera econômica, embora o capitalismo brasileiro tenha mostrado uma natureza bem dinâmica, ele não é capaz de incorporar ao sistema produtivo toda a população urbana em idade de trabalho (OLIVEN, 2010, p. 109). Os novos excluídos do Brasil8 Assim, pode-se destacar que o processo de desenvolvimento histórico do Brasil foi permeado pela defesa dos interesses das camadas sociais con- sideradas como elite, composta pelos latifundiários e pela burguesia indus- trial. Essa condição faz com que grande parte da população seja mantida à margem do sistema social, inserindo-se quando possível de forma pontual, porém sem conseguir modificar de forma efetiva a estrutura que mantém a organização nacional. Resquícios de práticas como a escravidão e o clientelismo se mantêm presentes na sociedade brasileira, seja por meio do preconceito racial em relação ao primeiro aspecto, seja por meio do processo de privilegiamento em relação ao segundo. Esses apontamentos são necessários ao abordar- mos as ações realizadas pelo aparato estatal, pois as políticas públicas são amparadas legalmente por meio da Constituição Federal, que representa um marco em termos legislativos. A Constituição Federal de 1988, marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil, estabelece importantes dispo- sitivos que traduzem a busca da igualdade material. Como princípio fundamental, consagra, entre os objetivos do Brasil, construir uma sociedade livre, justa e solidária, mediante a redução das desigualdades sociais e a promoção do bem de todos, sem quaisquer formas de discriminação (artigo 3º, I, III e IV) (PIOVESAN, 2008, documento on-line). Além de se configurar como um marco legal, a Constituição Federal também simbolizou a consolidação da democracia após a ditadura militar, abordando temáticas como a desigualdade social. Entretanto, apesar de teoricamente a constituição ser referenciada por seu caráter progressista, a aplicabilidade das leis encontra diversos impedimentos para sua execução, a começar pelo próprio ordenamento jurídico. Considerando as dinâmicas sociais mencionadas anteriormente sobre o processo de construção sócio-histórica do país, com as elites controlando grande parte da estrutura estatal, pode-se considerar que o sistema judiciário também esteve atrelado aos interesses dessa classe em específico. As lutas entre grupos sociais, sejam de classe ou estatutárias, bem como as di- versas estratégias para tornar eficaz o fechamento social têm lugar no seio da dita sociedade civil. Se bem que o Estado aparentemente se alheie destas lutas, ele não é indiferente às polarizações sociais, quer de modo activo, através das funções legislativa e judicial, na defesa de pré-requisitos e pressupostos – que, independentemente da vontade dos indivíduos, conduzem à assimetria de recur sos entre os grupos -, quer de modo omisso, ao não intervir em defesa de grupos ou categorias sociais desfavorecidas (SILVA, 2009, documento on-line). Os novos excluídos do Brasil 9 Nesse sentido, em muitos casos, o aparato estatal intensifica a desi- gualdade social, como, por exemplo, quando não intervém de maneira ativa em situações de vulnerabilidade para grupos que se localizam à parte do sistema social. Ao abordarmos a necessidade da emergência de novos parâmetros acerca do convívio social, que realmente permitam a inclusão, deve-se considerar que somente com esforços conjuntos será possível uma transformação social. É importante prestar atenção às diferentes formas de exclusão social para, poste- riormente, seguir com a aplicação de políticas públicas com maior nível de sucesso. É particularmente importante adotar-se uma abordagem adequada no âmbito da identificação do problema que viabilize uma investigação completa e detalhada (ALVINO-BORBA; MATA-LIMA, 2011, documento on-line). Para que sejam feitas alterações substanciais em relação à exclusão social, é fundamental que questões como o investimento em educação, a instituição de políticas públicas de combate ao preconceito e a capacitação digital se tornem realidades no cotidiano da população como um todo. Por fim, pode-se concluir que a exclusão se configura enquanto uma prática inserida na dinâmica da sociedade, sendo alvo de inúmeros estudose pesquisas que buscam contextualizar esse problema e possibilitar a pro- posição de alternativas para as consequências decorrentes dessa situação. Referências ALMEIDA, L. B. et al. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Os novos excluídos do Brasil 11 FORMAÇÃO SOCIAL, ECONÔMICA E POLÍTICA DO BRASIL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar o contexto social que levou o povo brasileiro às manifestações da última década. > Analisar o impacto das manifestações na política brasileira. > Avaliar os resultados políticos e sociais das manifestações e seus desdo- bramentos no tempo presente. Introdução Na última década, o Brasil foi marcado por diversas manifestações, como os protestos que ocorreram em 2013 e se constituíram como um marco social. Assim, torna-se fundamental a compreensão das motivações que contribuíram para um cenário de efervescência política e participação popular. As manifestações de 2013 tiveram algumas características particulares em comparação com outros processos de contestação social, como, por exemplo, a utilização da internet e a ampla e massiva participação popular. Neste capítulo, você conhecerá os principais fatores que contribuíram para a eclosão das manifestações sociais no Brasil. Além disso, verá que, em virtude da proximidade temporal, as análises acerca desses fenômenos devem ser cuida- dosas e atentas aos possíveis desdobramentos das manifestações no contexto contemporâneo. As manifestações de rua no Brasil Alana Milcheski Contexto histórico das manifestações de 2013 Uma das falácias mais recorrentes em relação ao processo de construção sócio histórico do Brasil é a ideia de que o povo brasileiro sempre foi “pacato e ordeiro” e que as revoltas sociais foram acontecimentos isolados na história nacional. Na verdade, para um observador atento, é possível perceber que mesmo antes da criação da nação brasileira, em 1822, com a Proclamação da Independência, já havia diversos conflitos sociais. Após o contexto da Independência, diversas lutas foram travadas contra governos, empresas e elites financeiras, tornando a história do País marcada por inúmeros e constantes movimentos sociais. Feita essa reflexão inicial, cabe destacar que essa ideia — de que a popu- lação brasileira é pacata —, com o passar do tempo, se consolidou em alguns setores da sociedade, principalmente nos mais conservadores, que utilizam esse discurso para tentar manter a ordem social e o status quo. No que se refere às manifestações de 2013, há uma ruptura significativa em relação à participação popular nas manifestações que eclodiram naquele contexto, pois a mobilização foi massiva, levando, inclusive, indivíduos e grupos adeptos de pautas conservadoras a participarem de centenas de protestos. No entanto, antes de adentrar a análise específica das manifestações mencionadas, cabe destacar o primeiro fator a ser considerado como causa da mobilização popular em 2013: a disseminação da internet e a popularização dos aparelhos telefônicos móveis. Segundo Espírito Santo, Diniz e Ribeiro (2016, p. 142): Já nos anos 2000, alguns movimentos ganharam projeção internacional por terem conseguido mobilizar um grande número de pessoas, todos com um ponto em co- mum: a utilização das mídias eletrônicas descentralizadas como instrumento para articulação e divulgação de informações e materiais, como fotos, vídeos e textos. Castells e colaboradores (2005) relatam como o uso dos telefones celulares teve importante papel na organização de movimentos sociais nas Filipinas em 2001, na Coreia do Sul em 2002 e na Espanha em 2004. Mais recentemente, a série de manifestações conhecidas como Primavera Árabe, o movimento Occupy Wall Street e movimento dos Indignados, na Espanha, são os exemplos mais emblemáticos que acabaram por influenciar diversos movimentos de contestação em vários países. Dessa forma, pode-se considerar que os acontecimentos no Brasil em 2013 não foram eventos isolados do contexto mundial, pelo contrário, esta- vam alinhados com uma tendência global, caracterizada pela aproximação da internet e das manifestações sociais. Com a disseminação da internet e, As manifestações de rua no Brasil2 consequentemente, deferramentas que permitem o compartilhamento de textos e imagens, iniciou-se um marco histórico no que se refere à forma de produção e circulação da informação, possibilitando que qualquer indivíduo ou grupo divulgue o conteúdo que quiser. Antes da consolidação do uso dos celulares, a transmissão das informa- ções era feita quase que de forma hegemônica pelas empresas de mídias, frequentemente integradas a grandes conglomerados. Essa alteração em relação ao fluxo da informação se constitui como um processo de democrati- zação social, pois, ao possibilitar que os indivíduos tenham voz ativa, permite que os interesses destes ganhem visibilidade. Nesse sentido, é fundamental considerar que, apesar de todas essas mudanças, as empresas de mídias continuam a deter uma grande parcela da veiculação de informações, isso porque contam com diversos tipos de estruturas, as quais contribuem para a manutenção da influência desses grupos empresariais. No caso do Brasil, as manifestações de 2013 se configuraram como um marco, sendo crucial entender de que forma surgiram e se desenvolveram esses eventos. Para tanto, primeiro, cabe a análise do Movimento do Passe Livre (MPL): O Movimento do Passe Livre (MPL) se tornou o ícone das manifestações e dos protestos de junho de 2013, como a expressão de uma nova forma política de agir. Porém temos que lembrar que o MPL já tinha uma articulação nacional desde meados dos anos 2000, em várias cidades, com ideários políticos coletivamente definidos por seus participantes. Suas pautas não se reduziam ao preço da passa- gem dos ônibus, ainda que essa tem sido uma estratégia política relevante. Esse movimento tem se referido mais amplamente aos direitos do cidadão no que diz respeito à mobilidade urbana de uma forma geral, a qual deveria ser conside- rada como um direito fundamental, tal como o direito à educação, à saúde, etc. (SCHERER-WARREN, 2014, p. 418). Certamente, o MPL se configura como um símbolo em relação às moti- vações iniciais que levaram às manifestações subsequentes, uma vez que o histórico de lutas desse movimento demonstra a profundidade política que o MPL conseguiu atingir ao longo dos anos. Para além da abordagem específica das pautas políticas relacionadas com o transporte público, o MPL faz referência a uma perspectiva mais ampla acerca da noção de cidadania e direitos sociais, politizando o debate acerca do tema. Todavia, apesar da inegável importância do MPL para o surgimento e desenvolvimento das manifestações de 2013, atribuir somente a esse movi- mento a eclosão desses eventos seria uma visão bastante reducionista. Dessa forma, compreende-se que o MPL foi uma espécie de estopim para outros As manifestações de rua no Brasil 3 processos que já vinham se desenrolando em âmbito nacional, culminando na participação massiva nos protestos sociais que ocorreram nesse contexto. Para entender de forma mais contextualizada essa questão, faz-se ne- cessário considerar a composição populacional das manifestações sociais que se desenrolaram após esse momento inicial, estimulado pelas pautas relacionadas com o transporte público. De acordo com Singer (2013, p. 27): Houve dois pontos de vista sobre a composição social dos acontecimentos de junho. O primeiro identificou neles uma extração predominante de classe média, enquanto o segundo tendeu a enxergar uma forte presença do precariado: “a massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que entram e saem rapidamente do mercado de trabalho”. Analisando as pesquisas dispo- níveis, gostaria de sugerir uma terceira hipótese: a de que elas possam ter sido simultaneamente as duas coisas, a saber, tanto expressão de uma classe média tradicional inconformada com diferentes aspectos da realidade nacional quanto um reflexo daquilo que prefiro denominar de novo proletariado, mas cujas carac- terísticas se aproximam, no caso, daquelas atribuídas ao precariado pelos autores que preferem tal denominação: trata-se dos trabalhadores, em geral jovens, que conseguiram emprego com carteira assinada na década lulista (2003-2013), mas que padecem com baixa remuneração, alta rotatividade e más condições de trabalho. Sendo assim, parte-se do pressuposto de que as manifestações foram marcadas por uma característica plural no que se refere à composição po- pulacional, considerando que parcelas da sociedade, como a classe média e o novo proletariado, foram os principais grupos sociais presentes nas ma- nifestações. Cabe destacar que cada parcela social teve interesses próprios que as levaram à mobilização popular, mesmo que, em alguns momentos, tenham sido levantadas bandeiras e pautas de tendência nacional. Essa composição populacional serve como indicativo da heterogenei- dade existente em relação às propostas levantadas e defendidas durante as manifestações, de modo que, em termos políticos, a identificação de uma linha ideológica dominante é muito imprecisa. Conforme Singer (2013, p. 32): Socialmente heterogêneos, os acontecimentos de junho foram também tão mul- tifacetados no plano das propostas que não espanta haja todo tipo de imputa- ção ao seu sentido ideológico: desde o ecossocialismo até impulsos fascistas, passando por diversas gradações de reformismo e liberalismo. Acabaram por ser uma espécie de “Jornadas de Juno”, cada um vendo nas nuvens levantadas nas ruas a forma de uma deusa diferente. Os extremos do espectro foram, natural- mente, mais visíveis que os pontos intermediários. Apareceu de imediato o viés progressista das manifestações, que poderiam prenunciar novo ciclo de lutas dos trabalhadores, como o que tendo se iniciado em 1978 vigorou até o final da década de 1980. Surgiu também com clareza a vertente à direita, que pretendeu desencadear uma pressão regressiva em relação ao campo popular que está no As manifestações de rua no Brasil4 governo com o lulismo desde 2003. Mas, na verdade, quiçá junho de 2013 seja mais bem compreendido se olharmos para o centro. Nesse sentido, é possível encontrar, nas manifestações de 2013, tanto tendências localizadas na definição de extrema esquerda (como na menção às pautas do ecossocialismo) como na de extrema direita (viés fascista), perpassando por diversas outras definições da política tradicional. Entre as pautas localizadas na definição de progressistas, pode-se identificar, por exemplo, as propostas relacionadas com o meio ambiente e a defesa dos direitos trabalhistas. Já que em relação às propostas conservadoras, é possível identificar tendências relacionadas com um reforço do nacionalismo. Em virtude da diversidade de pautas políticas e, consequentemente, da au- sência de uma organização e de uma linha política definida, as manifestações, como eventos específicos, tiveram desdobramentos variados. Dessa forma, para compreender o desenvolvimento das manifestações, faz-se necessário considerar as diversas consequências dos fatores mencionados até então, a fim de estabelecer um entendimento mais apurado desse contexto social. A partir dos anos 2000, inúmeras manifestações sociais eclodiram ao redor do mundo, as quais reacenderam, em diversos casos, a mobilização popular pela luta por sociedades mais justas e humanitárias. Desse modo, o caso do Brasil faz parte de um contexto amplo e interligado. Para saber mais sobre esse assunto, leia o artigo “Manifestações sociais e novas mídias: a construção de uma cultura contra-hegemônica”, do pesquisador Paulo Rodrigues Gajanigo e Rogério Ferreira de Souza. Participação política e mobilização popular Ao se abordar um fenômeno tão expressivo como as manifestações de 2013, é compreensível que apareçam questionamentos acerca dos desdobramen- tos e das consequências decorrentes dos eventos mencionados. Em alguns aspectos, a relação entre causa e efeito pode parecer simples e direta, como, por exemplo, ao se tentar associar as modificações na política tradicional aos acontecimentos decorrentes das manifestações. Entretanto, deve-seobservar, de forma cuidadosa, cada uma das possíveis consequências do contexto abordado, sendo que afirmações categóricas devem ser embasadas por pesquisas que possam comprovar os pressupostos defendidos. As manifestações de rua no Brasil 5 Dessa forma, no que se refere aos desdobramentos das manifestações de 2013, uma temática que tem sido analisada é a formação de grupos e coletivos que surgiram durante esse contexto ou que ganharam visibilidade após a participação nos protestos. De acordo com Abreu e Leite (2016, p. 14): Houve a sensibilização de outros coletivos sociais e culturais de formação recente e com pequeno número de participantes, formando uma rede heterogênea de atores sociais: mídias ativistas como o grupo Anonymous, Midia Ninja, anarquis- tas, associações de bairros da periferia, entre outros grupos e coletivos de menor expressão nacional. Curiosamente, as Jornadas de Junho não foram convocadas diretamente pelos movimentos tradicionalmente ativos, esses agregaram forças em um segundo momento. Entre os grupos mencionados, o Anonymous e o Mídia Ninja surgiram inicialmente como páginas em redes sociais, como uma forma de organiza- ção para os manifestantes que se identificavam com as pautas defendidas por esses perfis. Posteriormente, esses grupos ultrapassaram os limites da realidade virtual e se fizeram efetivamente presentes nos protestos, sendo que o Mídia Ninja existe até a atualidade, como um portal de notícias. A compreensão de que a política vai muito além da relação estrita com as instituições estatais foi expressa pela ação desses grupos. Assim, é possível considerar a recuperação da dimensão política em âmbito social como um desdobramento das manifestações. Outro aspecto decorrente das mani- festações, que também esteve associado com a criação e a expansão dos grupos políticos autônomos, foi a utilização dos aparelhos eletrônicos e das redes sociais, que foram ferramentas fundamentais para o desenvolvimento dos protestos. A adesão popular tão expressiva pode, em parte, ser creditada à facilidade proporcionada pelas redes sociais, que contribuíram para a divulgação de atos e protestos em diversos lugares do País e intensificaram a comunicação entre os participantes. Além disso, pode-se destacar que a utilização das redes sociais possibilitou a percepção do poder de alcance das postagens virtuais, estimulando dois movimentos: o primeiro foi a ocupação desses espaços por diversos políticos, sejam eles governantes ou candidatos, que viram a demanda eminente de divulgarem os seus posicionamentos; o segundo foi o engajamento de indivíduos que até então haviam tido pouca ou nenhuma participação em eventos de âmbito político, mas se sentiram compelidos a compartilhar as suas opiniões. Certamente, as tendências políticas observadas a partir desse momento foram abordadas com certo estranhamento por parte de grupos que já tinham As manifestações de rua no Brasil6 um histórico de engajamento político mais longo, pois perspectivas ideológicas que até então tinham sido pouco manifestadas haviam encontrado novas formas de expressão. Cabe destacar que equipamentos como câmeras, já acopladas aos celulares, possibilitaram o registro de ações inesperadas, ser- vindo como provas circunstanciais e como uma espécie de vigilância coletiva. Um dos questionamentos trazidos pelo uso massivo das tecnologias digitais, compreendidas nesse contexto como espaço de expressão política, faz referência ao que essa prática revela: a ineficiência estatal e dos seus mecanismos de participação social. Segundo Mehanna Khamis (2016, p. 52): [...] o ponto central é que as novas tecnologias servem de instrumento para viabilizar a participação política da população numa atuação realizada totalmente à margem do Estado. Aliás, o objeto do reclamo popular era justamente o Estado, seja por sua ineficiência ou por ignorar solenemente o interesse público, não tendo sido poupada da crítica uma única instituição pública estatal, e nem mesmo um único gestor público. Em suma, ao sair às ruas para manifestar a sua insatisfação com a gestão da coisa pública no Brasil, a população escancarou a crise política que vive o Estado Constitucional brasileiro. Nesse contexto, ocorre um encontro entre as motivações e as conse- quências das manifestações de 2013, sendo que ambas fazem referência a um contexto de descontentamento generalizado e de crise instituída nos aparatos estatais. Essa crise é reflexo de um problema estrutural que tem sido amplamente desconsiderado de forma continuada: o fato de que o sistema político brasileiro mantém a sua lógica de funcionamento desde os primórdios da fundação do País, contribuindo para que sejam sempre os mesmos grupos no poder. O processo de construção socio-histórico do estado brasileiro contribui para o entendimento dessa questão, pois permite identificar o deslocamento constante dos interesses coletivos para os interesses de grupos específicos. Para Mehanna Khamis (2016, p. 60): Diante disso, parece claro que as manifestações de junho de 2013 demonstraram que o aparato estatal institucionalizado pela Constituição brasileira se presta à dominação da população pela classe política − formada majoritariamente pelas velhas oligarquias −, e não à gestão dos assuntos políticos de forma participativa, visando a atender aos reais anseios da sociedade, como deveria ser. E não poderia ser diferente, na medida em que o Estado, enquanto fonte única e independente de produção do direito, converteu-se em centro único do poder, pois enquanto detentor do monopólio do direito afastou a população do seu processo de criação, gerando, assim, um abismo entre ele e a sociedade. As manifestações de rua no Brasil 7 Nesse sentido, o espaço não disponibilizado pela estrutura estatal se converteu na ocupação das ruas por parte da população, lugar público por direito, que, entre outras pautas, clamava por uma mudança no sistema de funcionamento do Estado brasileiro, porém ser ter propostas ativas de como realizar essa alteração. Apesar dos aspectos comentados, em termos de reinvindicações das manifestações, uma parte considerável delas se mantiveram restritas so- mente aos protestos, condição decorrente, entre outros motivos, do cará- ter predominantemente espontâneo das movimentações, da ausência de dispositivos organizacionais e da imprevisibilidade do alcance que teriam esses eventos. Análise de alguns desdobramentos das manifestações Um dos principais desafios ao se analisar fenômenos sociais contemporâ- neos é a proximidade temporal do pesquisador com seu objeto de pesquisa, considerando que são eventos que fazem parte da atualidade. Em muitos casos, o pesquisador pode ter tido uma participação como agente ativo no desenvolvimento do fenômeno analisado, o que não se configura como um impedimento para a pesquisa, mas deve ser levado em consideração durante a análise. Então, pode-se considerar que, “[...] vista dessa maneira, a história do presente alivia pouco a pouco o autismo da atualidade, ainda que padeça com alguns obstáculos que podem prejudicar sua confecção, como a proximidade do fato, o envolvimento com o objeto ou o apego a processos históricos não terminados” (FIORUCCI, 2011, p. 115). Portanto, o pressuposto de que deveria haver uma pretensa neutralidade do pesquisador acerca do tema escolhido se configura como um resquício de uma perspectiva teórica positivista que já tem sido amplamente problematizada. Hoje, compreende-se que uma postura de neutralidade diante de um tema de pesquisa é inviável na prática, pois a própria seleção do assunto já denota uma escolha por parte do pesquisador. Entretanto, ao se abordar temáticas relacionadas com o desdobramento de um determinado conjunto de acontecimentos, um distanciamento temporal pode contribuir para uma interpretação mais apurada das prováveis consequências. Sendo assim, neste capítulo, serão abordados alguns desdobramentos das manifestaçõesde 2013 no aspecto político, iniciando pela inserção de As manifestações de rua no Brasil8 táticas que tensionaram a relação com os aparelhos de repressão estatal, as quais ficaram conhecidas pelo termo “Black Bloc”: Nesse momento, surgem os militantes Black Bloc que respondem à ação da polícia. De acordo com Judensnaider (2013), a origem dos Black Blocs remete ao movimento autonomista da Alemanha nos anos 1980, com manifestantes mascarados e vestidos de negro (der schwarze Block ou “o bloco negro”) para dificultar a identificação da polícia. O “bloco negro” no seu modelo alemão se propunha a oferecer proteção às passeatas, limitando a infiltração de agentes provocadores e defendendo os manifestantes dos ataques da polícia. Os Black Blocs reaparecem nos Estados Unidos, uma década mais tarde, nos protestos contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) em Seattle, dessa vez orientados à destruição de propriedade privada como forma de protesto. Essa nova postura do grupo gera muita contro- vérsia entre os ativistas alinhados com a estratégia de não violência (ESPÍRITO SANTO; DINIZ; RIBEIRO, 2016, p. 147). Apesar de o Black Block ser, inicialmente, compreendido como uma tática durante as manifestações de 2013, ele passou a ser identificado como um grupo de pessoas em específico. Nesse sentido, cabe destacar o fato de essa tática ter surgido na Alemanha da década de 1980, pois a adaptação de ações e/ou a referência existentes em outros contextos sociais foram uma das marcas dos protestos brasileiros. De acordo com essa perspectiva, pode-se identificar a inserção de outro elemento que cumpriu um papel fundamental na questão da mobilização popular, ao mesmo tempo que possibilitou o anonimato para os participantes das manifestações: o grupo Anonymous. De acordo com Albuquerque, Pedro e Carvalho (2016, p. 49): Atento ao monitoramento digital, o Anonymous, em suas páginas na internet, coloca explicações e dicas para proteção da privacidade na rede e tem como símbolo uma máscara inspirada no personagem Guy Fawkes do filme V de vingança, que é usada pelos seus integrantes durante as manifestações das quais participam para, entre outras razões, manter o anonimato. O outro grupo, os Black Blocs, surgiu com força durante as manifestações de junho de 2013, antes disso não há registro de sua atuação no Brasil. Não possuem uma máscara símbolo, mas se vestem totalmente de preto cobrindo o rosto. Não parecem estar tão preocupados com o monitoramento digital. A utilização da máscara do personagem do filme V de Vingança foi ampla- mente difundida durante o desenvolvimento dos protestos, sendo, inclusive, caracterizada como símbolo dos integrantes de um dos grupos que con- quistou mais visibilidade nesse contexto: o Anonymous. Pode-se destacar o caráter de internacionalização das referências a essa produção em diversas manifestações ao redor do mundo, sendo que, além do Brasil, a máscara do As manifestações de rua no Brasil 9 personagem Guy Fawkes já foi registrada em variados protestos ao redor do mundo. Esse caráter de internacionalização pode ser destacado como um dos desdobramentos das manifestações de 2013, considerando-se o contexto marcado por aspectos como a internet e a globalização. O filme V de Vingança é uma adaptação da série de quadrinhos britânica que tem o mesmo nome. Para saber mais sobre a história que inspirou a criação do filme V de Vingança, leia o artigo “A construção his- tórica na graphic novel V for Vendetta: aspectos políticos, sociais e culturais na Inglaterra (1982-1988)” do pesquisador Felipe Radunz Kruger. Além dos tópicos relacionados ao anonimato e à referência cultural, pode- -se destacar que tanto a utilização da máscara quanto a das roupas pretas se configuram como ações individuais que tem por finalidade aparente a colaboração com as causas sociais e coletivas. No que se refere ao contato e ao estabelecimento de relações com as instituições políticas tradicionais, pode-se afirmar que as tentativas não foram efetivamente bem-sucedidas, em parte devido às características específicas das manifestações. Segundo Ricci (2018, p. 94): Em 2013, nos meses que se seguiram às mobilizações de junho, alguns governos estaduais (como o mineiro) procuraram estabelecer diálogos com comitês temá- ticos que permaneceram atuantes, como foi o caso dos comitês de mobilidade urbana ou de educação. As negociações, contudo, revelaram-se infrutíferas na medida em que os participantes-ativistas se recusavam a se apresentar como representantes, gerando um rodízio permanente de pautas e ativistas presentes nas mesas de negociação. Certamente, a falta de uma estrutura organizada e de representantes legitimados contribuiu para que a abertura de um diálogo entre manifestan- tes e governos se mantivesse para além dos momentos iniciais. Entretanto, deve-se considerar outros aspectos que contribuíram para a recusa por parte popular de estabelecer vínculos com as instituições políticas tradicionais, como, por exemplo, uma forte rejeição ao institucionalismo: O anti-institucionalismo gerou, nos anos 1980, grande rejeição às negociações e participações em fóruns institucionalizados, tema explorado em muitos estudos especializados. Contudo, na medida em que houve convergência entre movimentos sociais, estruturas sindicais e a construção de novos partidos políticos, o campo institucional foi gradualmente sendo ocupado por eleições de representações delegadas — aquelas em que o representante possui um viés nitidamente corpo- As manifestações de rua no Brasil10 rativo, representando exclusivamente a base social que o elegeu —, algo que não se repetiu neste início de século XXI. Ao contrário, a rejeição ao campo institucional foi ainda mais forte, e o valor político da horizontalidade e desconfiança em relação às lideranças impediu qualquer negociação com a esfera institucional pública que fosse estável ou duradoura. As mobilizações eram valores em si, “utopias realizadas no presente”, projetos imediatos de tomada dos espaços públicos fundados em profundo desprezo às instâncias formais e institucionalizadas das práticas sociais e políticas (RICCI, 2018, p. 96). Por fim, entre as principais motivações identificadas em relação à eclosão das manifestações, destaca-se uma postura generalizada de afastamento das instituições tradicionais, dada a sua incapacidade crônica de sanar os problemas sociais e de cumprir a sua função enquanto representante instituída da população. Assim, as manifestações de 2013, e uma parte considerável dos movimentos que se seguiram a elas, demonstraram a inconformidade popular em relação à estrutura estatal por meio da ocupação das ruas, o espaço público que é de todos por direito. No ano seguinte, várias das tendências mencionadas, como a ampla utiliza- ção da internet no âmbito político, se consolidaram no processo de conquista da reeleição da então presidenta Dilma Rousseff. Conforme Rocha (2019, p. 20): [...] foi apenas a partir de mudanças ocorridas na estrutura de oportunidades polí- ticas, relacionadas à eclosão das manifestações de Junho de 2013 e à reeleição de Dilma Rousseff em 2014, que os membros do contrapúblico ultraliberal puderam ter sucesso em alcançar setores mais amplos da população e, a partir daí, dirigir os primeiros protestos pró-impeachment ainda em 2014. Nesse sentido, cabe destacar que a análise da reeleição de Dilma deve, necessariamente, levar em consideração as manifestações de junho de 2013, por diversos aspectos, a começar pela intensificação dos questionamentos populares ao governo. Outro aspecto que alcançou uma repercussão consi- derável foi o processo de disseminação de ideias e opiniões relacionadas a posições ultraliberais, que culminou em uma postura antagônica ao governo que estava em vigência. Dessa forma, as oscilações acerca da popularidade do governo federal, materializado na figura da presidenta Dilma, estiveram diretamente atreladas às movimentaçõespopulares nos espaços públicos e às manifestações sociais. Pinto (2017, p. 137) destaca que: Em 2013, a popularidade da Presidenta Dilma caiu de 65% de ótimo e bom em março, mês do início das manifestações, para 30% em junho. De julho de 2013 a dezembro de 2014, a popularidade não oscilou abruptamente, ficando sempre entre 30% e As manifestações de rua no Brasil 11 40% (fonte: <http://datafolha.folha. uol.com.br>; acesso em: 20 jan. 2016). Esses são dados importantes a considerar, mostram que as manifestações ocorreram não porque havia um governo com baixa popularidade, mas o contrário, a baixa popularidade foi consequência das manifestações, ou, melhor ainda, da incapaci- dade do governo de reagir a elas através de um discurso popular (historicamente o discurso do PT) que desse sentido ao próprio governo. É importante ressaltar que as manifestações não foram motivadas, ini- cialmente, por um descontentamento generalizado em relação ao governo, porém acabaram canalizando as reivindicações para esse âmbito. Dessa forma, pode-se considerar que o descontentamento mencionado foi aumentando de forma gradativa, baseado, em parte, no convencimento de parcelas da população acerca das críticas feitas ao governo Dilma. A inabilidade dessa gestão de lidar com as manifestações e incorporar as reivindicações feitas, combinada com a disseminação de informações por meio das redes sociais, intensificou o desenrolar do processo que culminaria no impeachment da presidenta. Conforme Bullow e Dias (2019, p. 5): No dia 31 de agosto de 2016, quando Dilma Rousseff foi afastada definitivamente do cargo de Presidente do Brasil, a hashtag #impeachmentday figurou entre os temas mais comentados (trending topics) no Twitter, tanto no Brasil como a nível mundial. Nos meses anteriores, outras hashtags, a favor e contra sua destituição, dividiram os internautas, especialmente nos momentos mais dramáticos do longo e polêmico processo de julgamento da Presidente. Portanto, pode-se perceber a repercussão virtual dos acontecimentos políticos nesse contexto, ressaltando o papel desempenhado pelos recursos tecnológicos no processo que encurtou o mandato de Dilma. Nesse sentido, cabe ressaltar que a consolidação do uso da internet e a crescente ascensão de propostas e posições alinhadas com um pensamento ultraliberal estão rela- cionadas entre si, sendo importante analisar esses aspectos em consonância: "Imposto é roubo!”. “Menos Marx mais Mises”. “Não existe almoço grátis”. “Esquerda caviar”. Essas e outras palavras de ordem tornaram-se mais conhecidas nos últimos tempos por conta de um novo fenômeno que teve início em fóruns e comunidades virtuais há mais de dez anos: a formação de um contrapúblico ultraliberal. A defesa do estado mínimo e do direito de propriedade normalmente é associada a grupos de interesse e partidos políticos que dispensam militantes de base. No entanto, à medida que o Partido dos Trabalhadores prolongou sua permanência na Presi- dência, e a internet se popularizou entre as classes média e alta, uma militância organizada para defender tais pautas passou a se constituir. Jovens universitários e profissionais liberais passaram a se reunir em fóruns e comunidades virtuais para traduzir e compartilhar textos, discutir conceitos e teorias abstratas, formar grupos de estudo, e criar laços e uma identidade comum em torno da defesa radical da As manifestações de rua no Brasil12 liberdade de mercado como fundamento último para a organização da economia e da sociedade (BULOW; DIAS, 2019, p. 1). Portanto, diversos fatores devem ser considerados na elaboração de considerações que busquem abordar o contexto político que culminou no processo de impeachment da presidenta Dilma e nas mudanças políticas desse período. Dessa forma, a longa permanência do Partido dos Trabalhadores (PT) na presidência e o crescente sentimento de antipetismo disseminado nas camadas sociais devem ser levados em consideração, visando a identificar os principais agentes ativos nesse processo. Outro fator fundamental para a compreensão desse contexto político é o denominado “fenômeno das fake news”, o qual se constitui como um dos principais aspectos a serem considerados na análise da contemporaneidade. O termo fake news é originário da língua inglesa e, em livre tradução, significa "notícias falsas". Contudo, a menção a ele é feita invariavelmente em inglês, principalmente para enfatizar o fato de que o fenômeno referido é a propa- gação da desinformação na realidade virtual. Sendo assim, é um aspecto que está inserido na linguagem da internet, pois descreve acontecimentos que ocorrem nesse âmbito e que podem ser caracterizados como uma ação de divulgar informações sem procedência e/ou a criação de notícias falsas, feita de forma intencional. De acordo com Gomes, Pena e Arroio (2020, p. 2): Na atual conjuntura, a circulação de discursos não é de exclusividade da mídia jornalística ou dos meios oficiais de divulgação científica. Hoje, os próprios usuários das redes sociais “curtem” as mais diversas informações e compartilham-nas com os mais diversos públicos. Essa talvez fosse uma grande oportunidade de demo- cratização da informação, entretanto esse território virtual se manifesta repleto de disputas discursivas entre o real e a ficção. Desse modo, com a consolidação e a disseminação da internet, ocorreu um processo amplo e complexo, que, ao mesmo tempo que permite uma relativa democratização da produção e da circulação de informações, intensifica a criação e a divulgação das fake news. Por se tratar de um fenômeno inédito historicamente, os desdobramentos e as implicações das fake news têm sido identificados de forma lenta e gradativa. As principais consequências percebidas em virtude das fake news se referem às temáticas políticas: A polarização partidária registrada nas eleições brasileiras de 2014 vai ceder lugar, no pleito de 2018, a uma forte batalha de narrativas envolvendo um potente ator: a engrenagem de produção e distribuição de notícias falsas ou, em inglês, fake news. Criados e distribuídos de forma capilar e com a velocidade do ambiente digital, esses boatos e mentiras podem influenciar eleitores e têm sido alvo de As manifestações de rua no Brasil 13 várias mobilizações para tentar minimizar seus efeitos nas eleições de outubro (ALMEIDA, 2018, p. 9). A influência das fake news na decisão dos eleitores em relação à disputa presidencial de 2018 ainda está começando a ser compreendida, dado o im- pacto gigantesco que esse fator teve, o qual, inicialmente, não foi percebido de forma tão nítida. Com o uso das fake news, diversos agentes envolvidos no processo que culminou na eleição de Jair Messias Bolsonaro compartilharam informações inverídicas, com o intuito de divulgar mentiras e atacar a imagem de outros candidatos. Considerando que esse fenômeno tem sido cada vez mais diagnosticado e problematizado, algumas ações têm sido planejadas, a fim de tentar reverter os prejuízos sociais ocasionados pela disseminação das fake news: Da parte das plataformas, vê-se uma preocupação em mitigar possíveis questio- namentos sobre sua contribuição com o problema. Os media tradicionais visam a estabelecer um contraponto e se afirmar como referências de informação de qualidade. Projetos de pesquisa listados buscam monitorar conteúdos falsos e realizar processos de verificação. Governos apontam reações diversas, incluindo medidas mais duras como a legislação aprovada na Alemanha. Chama atenção a declaração conjunta dos relatores para a liberdade de expressão de diversos organismos internacionais e multilaterais. O documento pontua o risco de reações e regulações que atentem contra a liberdade de expressão, como a instituição de mecanismos de censura ou remoção de conteúdos da web (DELMAZO; VALENTE, 2018, p. 161). Portanto, no combate as fake news, há desde ações de veículos de co- municação, que buscam ampliar a credibilidade da imprensa e investirno letramento midiático de leitores e usuários das redes sociais, passando por defensores de projetos, que preveem a tipificação criminal de quem gera e reproduz esses boatos, até parcerias firmadas entre as empresas donas das plataformas digitais utilizadas na disseminação desse conteúdo (Goo- gle, Facebook, Twitter, WhatsApp) e as agências de checagem de dados e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Juntamente à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal, o TSE criou um grupo de inteligência para estudar possíveis formas de atuação. De norte a sul do Páis, há especialistas em comunicação, em direito e em proteção de dados pesquisando e debatendo o tema, porém não há consenso sobre quais mecanismos são, de fato, eficazes no combate as fake news. No ano de 2016, o Oxford Dictionary elegeu pós-verdade como a pala- vra do ano. Naquele contexto, havia ocorrido dois eventos emblemáticos: a saída do Reino Unido da União Europeia e a vitória de Donald Trump para As manifestações de rua no Brasil14 a presidência dos Estados Unidos. Além de compartilhar o mesmo ano, os dois eventos tiveram em comum um alto índice de disseminação de fake news, principalmente por meio das mídias sociais. Por esse motivo, a palavra pós-verdade destacou-se naquele ano, sendo definida como “[...] o que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (POST-TRUTH , 2016, tradução nossa). Referências ABREU, D. L.; LEITE, J. F. Protestos de Junho 2013 no Brasil: novos repertórios de con- fronto. Rev. Polis Psique, Porto Alegre, v. 6, n. 3, p. 12-35, 2016. Disponível em: http:// pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-152X2016000300003. Acesso em: 28 dez. 2020. ALBUQUERQUE, L. S. G.; PEDRO, R.; CARVALHO, U. A. 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Introdução Os anos 1990 marcaram um novo momento na economia, na política e na socie- dade brasileiras. Após a promulgação da Constituição de 1988 e a realização de eleições diretas e livres, com a eleição do primeiro presidente civilapós mais de duas décadas de ditadura civil-militar, uma sucessão de governos implementou preceitos econômicos, políticos e sociais do neoliberalismo, transformando o País. Essas mudanças e suas consequências, como o agravamento das condições de subsistência da maior parte da população brasileira, fizeram diferentes movimentos O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade contemporânea Caroline Silveira Bauer políticos e sociais demandarem a interrupção de certas medidas e reivindicarem a manutenção de serviços públicos para áreas estratégicas, como a educação, a habitação, a renda e a saúde. A maior parte dessas políticas será incentivada apenas nos anos 2000, com a chegada de outro projeto social ao poder, promovendo medidas para a distribuição de renda e maior equidade social, ainda que certos preceitos do neoliberalismo não tenham sido abandonados durante as gestões progressistas do início do século XXI. Após a crise político-institucional iniciada em 2013, houve uma nova onda de ameaças aos direitos historicamente conquistados pela luta dos brasileiros, e uma nova situação de crise foi vivenciada pela população. Neste capítulo, você conhecerá alguns aspectos da história brasileira dos anos 1990 à atualidade, compreendendo a década de 1990 como um período de implementação do neoliberalismo. Além disso, conhecerá as lutas desenvolvidas nesse período para a garantia de direitos historicamente conquistados. Por fim, você verá quais foram as transformações ocorridas após 2013 e os novos projetos econômicos e sociais em pauta para a implementação no País. O Brasil nos anos 1990 As eleições para presidente em 1989 foram o primeiro pleito com voto di- reto desde 1960. Todo o processo eleitoral foi regido pelas novas normas, estabelecidas pela Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), aprovada após o trabalho de quase dois anos da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). A nova Constituição havia ampliado o direito ao voto e assegurado a liberdade partidária, além das eleições em dois turnos. A promulgação da Constituição de 1988 e a realização de eleições diretas e livres em 1989 são dois marcos importantes da história republicana do Brasil, por representarem a conclusão do processo de transição política e o fim da ditadura civil-militar, bem como a reafirmação de direitos civis, sociais e políticos. Nesse pleito, estiveram em disputa dois projetos bastante antagônicos para o futuro do Brasil, representados, no segundo turno, pelo confronto entre Fernando Collor de Mello, candidato pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN), e Luiz Inácio “Lula” da Silva, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Com o apoio da grande mídia e da elite industrial e empresarial brasileira, Collor conquistou a população em geral, e foi eleito com um programa que se propunha a: acabar com a corrupção; realizar um processo de moralização da política, dando fim aos chamados “marajás”; e conter a inflação, grande problema herdado do fim da ditadura e dos anos 1980, que impactava dire- tamente o cotidiano dos cidadãos. O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...2 De acordo com José Murilo de Carvalho (2002, p. 203–204): Seguindo a velha tradição nacional de esperar que a solução dos problemas ve- nha de figuras messiânicas, as expectativas populares se dirigiram para um dos candidatos à eleição presidencial de 1989 que exibia essa característica. Fernando Collor, embora vinculado às elites políticas mais tradicionais do país, apresentou-se como um messias salvador desvinculado dos vícios dos velhos políticos. Baseou sua campanha no combate aos políticos tradicionais e à corrupção do governo. Repre- sentou o papel de um campeão da moralidade e da renovação da política nacional. Um dia após a sua posse, ocorrida em 15 de março de 1990, Collor lançou o chamado Plano Collor para a recuperação da economia. Por meio desse plano, foram tomadas algumas medidas, como o confisco monetário, o con- gelamento de preços e salários e a reformulação dos índices de correção monetária. Collor promoveu ações para diminuir o tamanho do Estado e seus custos, exonerando servidores públicos e extinguindo autarquias, fundações e empresas estatais. Além disso, ele permitiu uma abertura da economia nacional ao capital estrangeiro, tanto por meio da entrada de mercadorias como por meio do financiamento externo. Essas medidas foram apoiadas pelas elites econômicas do País, que receberam positivamente a redução da intervenção do Estado na economia (MACIEL, 2011). O projeto econômico, político e social de Collor baseava-se nos preceitos neoliberais. O chamado “projeto neoliberal” refere-se às formas concretas de imple- mentação da doutrina econômica, política e social do neoliberalismo. Em ou- tras palavras, refere-se aos projetos, aos programas e às políticas elaboradas por aqueles governos que se identificaram com essa concepção de mundo. É importante destacar que o desenvolvimento de projetos neoliberais no norte global (Europa e Estados Unidos) será diferente do desenvolvimento destes no sul global (América, África e Ásia), em função da dinâmica centro-periferia do capitalismo e da lógica do desenvolvimento desigual e combinado. No Brasil, a transição para o neoliberalismo deu-se de forma lenta, gradual e se confundiu com a década perdida (década de 1980) e com a transição para a democracia no País. Por isso, o estudo dessa transição deve percorrer desde o início do processo de abertura democrática (1979) até a implantação do Plano Real (1994), momento de consolidação das políticas neoliberais no País. Nesse período de 15 anos, ocorreram mudanças que transformaram a face do capitalismo brasi- leiro, alteraram estruturalmente a vida política e ideológica do País, encerraram o longo ciclo de desenvolvimento (1930–1980) e, ao mesmo tempo, tornaram viável historicamente a fase neoliberalizante (MULLER, 2003). O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 3 O neoliberalismo fundamenta-se em uma ideia de Estado mínimo, ou seja, em uma intervenção estatal mínima no funcionamento da economia, que se regularia por leis próprias do mercado, como a da oferta e da procura. Além disso, a doutrina neoliberal apregoa uma estabilização financeira e monetária, com a adoção de políticas anti-inflacionárias e cambiais. Assim, ao Estado, compete apenas a garantia do bem comum e do equilíbrio social, com a prestação de serviços básicos e algumas medidas assistencialistas. No Brasil, o neoliberalismo apresentou-se como uma solução para a crise econômica dos anos 1980, decorrente do fracasso das políticas econômicas da ditadura e da democracia. Além das ações comuns aos preceitos neoliberais, relativas ao controle de preços, à estabilização financeira e monetária e às ações anti-inflacionárias e cambiais, ocorreu uma progressiva diminuição do tamanho do Estado no País, com as privatizações de estatais e a exoneração de funcionários públicos. Durante o governo Collor, houve uma ruptura com os padrões econômi- cos institucionalizados desde 1930, notadamente o modelo substitutivo de importações, que foi continuado, posteriormente, pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Contudo, no ano seguinte, as dificuldades do plano de estabilização apareceram, pois a inflação não foi extinta, e a economia se- guiu em recessão. Além disso, circulavam rumores sobre a existência de um esquema de corrupção com a participação de altos funcionários e ministros do governo Collor (MACIEL, 2011). As suspeitas foram confirmadas quando o irmão do presidente, Pedro Collor de Mello, deu uma entrevista à revista Veja, em abril de 1992, falando sobre esse esquema de corrupção, baseado em tráfico de influências e ir- regularidades financeiras, organizado pelo empresário Paulo César Farias, amigo de Collor e coordenador financeiro de sua campanha eleitoral. No dia 26 de maio do mesmo ano, o Congresso Nacionalinstalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as denúncias quanto ao presidente, e, a partir de então, outras tantas entrevistas e reportagens realizadas pela imprensa explicitaram a corrupção do governo (MACIEL, 2011). Com isso, setores da população passaram a exigir o “fora Collor”, prin- cipalmente os estudantes, que organizaram diversas passeatas exigindo o impeachment do presidente. Esse movimento ficaria conhecido como movimento dos caras pintadas. Pressionado pela população, o Congresso aprovou o impeachment do presidente em dois turnos: primeiro, na Câmara dos Deputados, em 29 de setembro de 1992, e, depois, no Senado Federal, em 29 de setembro de 1992. Assim, o Congresso destituiu o primeiro presidente O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...4 eleito por voto direto após a ditadura por corrupção, além de ter cassado os seus direitos políticos por oito anos (MACIEL, 2011). O impedimento foi sem dúvida uma vitória cívica importante. Na história do Brasil e da América Latina, a regra para afastar presidentes indesejados tem sido revoluções e golpes de Estado. No sistema presidencialista que nos serviu de modelo, o dos Estados Unidos, o método foi muitas vezes o assassinato. Com exceção do Panamá, nenhum outro país presidencialista da América tinha levado antes até o fim um processo de impedimento. O fato de ele ter sido completado dentro da lei foi um avanço na prática democrática. Deu aos cidadãos a sensação inédita de que podiam exercer algum controle sobre os governantes (CARVALHO, 2002). Com o impeachment de Collor, quem assumiu a presidência da República para o término do mandato foi Itamar Franco, o vice-presidente, cujo governo também foi marcado por escândalos de corrupção, assim como o de seus antecessores. Uma nova CPI do Congresso Nacional, que funcionou entre 1993 e 1994, investigou e confirmou um esquema de corrupção que envolvia o orçamento da União, com desvios de dinheiro. Seis deputados tiveram os seus mandatos cassados, e outros quatro renunciaram para não perder os seus direitos políticos. Além dos escândalos de corrupção, no governo de Itamar Franco, foi anunciado, no final de 1993, o Plano Real, elaborado pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real, a ser implementado ao longo de 1994, previa a implantação dos preceitos do neoliberalismo no Brasil (MOTTA, 2018). O sucesso do Plano foi um dos motivos que impulsionaram a candidatura de Fernando Henrique Cardoso (FHC), que ganhou as eleições de 1994 à presidência da República ainda no primeiro turno, dando início à chamada era FHC. A era FHC Fernando Henrique Cardoso foi presidente da República por dois mandatos consecutivos, eleito sempre em primeiro turno, e o período entre 1995 e 2002 ficou conhecido como era FHC. O governo de FHC foi marcado por modificações nas políticas interna e externa do Brasil. Na política externa, destaca-se a criação do Mercosul. O acordo entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai previa a criação de uma área de livre- -comércio entre os países, o que foi efetivado não sem conflitos entre os países-membros. Posteriormente, Bolívia e Chile se tornaram membros as- sociados. A criação do Mercosul inseria-se em uma conjuntura de formação O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 5 de blocos econômicos, a exemplo da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) e do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta). Na política interna, por sua vez, FHC obteve apoio do Congresso Nacional para a aprovação de suas propostas de emendas constitucionais, dando prosseguimento aos seus planos econômicos neoliberais. A reforma consti- tucional proposta por FHC era justificada como necessária para a moderni- zação da economia e a retomada do crescimento econômico. Dessa forma, foram realizadas modificações na Constituição que permitiram a quebra dos monopólios do petróleo e das telecomunicações, entre outras medidas de caráter liberal. Segundo Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 194): O processo de desregulamentação — com a quebra dos monopólios estatais em vários setores da economia — juntamente com o processo de privatização das empresas públicas, reduziu bastante a presença do Estado nas atividades diretamente produtivas, fortalecendo grupos privados nacionais e estrangeiros — dando origem a oligopólios privados, redefinindo a força relativa dos diversos grupos econômicos e enfraquecendo grupos políticos regionais tradicionais; além de permitir demissões em massa e enfraquecer os sindicatos. Além disso, FHC deu continuidade ao Plano Real, realizando ajustes eco- nômicos nas taxas de juros e no câmbio, a fim de estimular as exportações e equilibrar a balança comercial. Embora o Plano tenha sido exitoso no controle à inflação, ele não impediu a queda no consumo e as demissões em massa, resultados da recessão econômica (MOTTA, 2018). Assim, esse foi um período em que o Brasil recorreu inúmeras vezes a empréstimos de organizações estrangeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). A dívida externa brasileira cresceu exponencialmente no período, e os contratos com o FMI exigiam contrapartidas, tais como medidas de austeridade e reajuste fiscal (desvalorização cambial, aumento de impostos e diminuição de gastos pú- blicos) (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007). Com a diminuição dos gastos públi- cos, áreas como educação e saúde foram bastante atingidas, bem como as condições de trabalho. De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 188): [...] junto com o desemprego e como produto de uma ampla desregulação do merca- do de trabalho — efetivada na prática pelas empresas e por diversos instrumentos jurídicos emanados dos sucessivos governos —, veio um processo generalizado de precarização das condições de trabalho — formas de contratação instáveis que contornam ou burlam a legislação trabalhista, prolongamento da jornada de trabalho, redução de rendimentos e demais benefícios, flexibilização de direitos trabalhistas e ampliação da informalidade — tudo isso, enfraquecendo e deslocando mais ainda a ação sindical para um comportamento defensivo. O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...6 No governo de FHC, foram realizadas reformas estatais, processos de privatização e ajustes fiscais, todos dos moldes do neoliberalismo. Assim, pode-se afirmar que as políticas econômicas e sociais dos dois mandatos de FHC seguiram o preconizado pelo chamado Consenso de Washington, que ditava as premissas para os governos neoliberais. Além disso, houve a abertura comercial e financeira, as privatizações e as reformas que previam austeridade, como a diminuição do Estado e sua interferência na economia, bem como a condução do País por meio de uma política econômica ortodoxa, com juros altos e contenção de gastos correntes (MOTTA, 2018). As lutas e as conquistas sociais Desde meados dos anos 1970, durante o processo de transição política e após o abrandamento das medidas repressivas da ditadura, houve a rearti- culação dos movimentos sociais e o surgimento de novos grupos, a partir de reivindicações colocadas nacional e internacionalmente naquele período. Os chamados novos movimentos sociais se colocavam no campo das demandas pelo acesso a diferentes políticas públicas (DURIGUETTO; SOUZA; SILVA; 2009), englobando campos tão diversos como os direitos básicos (educação, habi- tação, saúde) até temas mais contemporâneos, como a ecologia. De acordo com Duriguetto, Souza e Silva (2009, p. 14), “foram os movimentos sociais que transformaram a questão social, na realidade brasileira e em qualquer outra formação social capitalista, numa questão política e pública”. Nessa conjuntura, houve uma maior “autonomização” dos movimentos sociais da tutela do Estado, o crescimento das associações comunitárias, o fortalecimento de movimentos que demandavam as chamadas liberdades democráticas, incluindodireitos civis, políticos e sociais, além da rearticu- lação das organizações sindicais e o ressurgimento ou criação de partidos políticos, com o fim do bipartidarismo da ditadura. A conjuntura de transição política e de retomada dos movimentos sociais no final da década de 1970 também é um ponto de inflexão na história do Serviço Social. De acordo com Maria Beatriz Costa Abramides (2016, p. 463–464): [...] a categoria dos assistentes sociais, em 1978, realizou seu primeiro encontro com a presença de quatro entidades: as Apas (Associação Profissional dos Assistentes Sociais) de São Paulo, Bahia e Goiás e o Sindicato de Minas Gerais, que impulsionaram um amplo processo de rearticulação das entidades sindicais no país. Vincularam- -se à Anampos (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais), do O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 7 polo combativo de lutas dos trabalhadores que fundou a CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1983, e o MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra), em 1984. Por outro lado, as entidades sindicais da categoria profissional atuaram diretamente na organização dos trabalhadores em serviço público e junto a outros sindicatos de categorias, como médicos, enfermeiros, sociólogos, psicólogos. Participaram ativamente de campanhas salariais e greves nesse ramo de atividade. [...] No período da retomada das entidades sindicais de assistentes sociais, de 1977 a 1979, a categoria se reconheceu como parte da classe trabalhadora, em sua condição de assalariamento, por sua inserção na divisão sociotécnica do trabalho; participou da reorganização do movimento sindical classista e atuou junto aos movimentos populares sobre o custo de vida, contra a carestia, pelo SUS (Sistema Único de Saúde), feminista, de luta por creches, moradia, estudantil, negro unificado, além do apoio e solidariedade às lutas dos trabalhadores sem-terra, quilombolas e indígenas. A organização dessas forças políticas e sociais foi muito importante ao longo dos anos 80, principalmente durante os trabalhos da ANC, pois, a partir dessa organicidade, foi possível encaminhar emendas populares à Constituição e pressionar os constituintes para a aprovação e a garantia da ampliação da cidadania. De acordo com Duriguetto, Souza e Silva (2009, p. 14–15): Essa estratégia é, também, visualizada para a ampliação da democracia, que se daria pela criação de canais político-institucionais para a participação dos cidadãos nos processos de discussão e negociação de políticas públicas, especialmente pela criação dos conselhos de direitos. Neste cenário de redefinição das ações prático-políticas dos movimentos sociais, parece consensual a constatação do abandono de atitudes de confronto e de reivindicação pela valorização de con- dutas institucionais pragmáticas e propositivas na busca de diálogo, negociação, parcerias com o Estado e de formas alternativas de participação no sistema de representação de interesses. Essa redefinição das formas de luta dos movimentos sociais fomentou a elaboração de análises, nas quais emerge uma nova concepção de sociedade civil. Esta passa a ser entendida como a esfera, na qual se desenvolve uma articulação entre os movimentos sociais e as agências estatais por espaços democráticos de representação e interlocução pública para o reconhecimento, garantia e consolidação de direitos de cidadania. Entretanto, a década de 1990, com a implantação de um projeto neoliberal, representou uma mudança substancial na atuação desses movimentos, em função da reestruturação produtiva e do desmonte da regulação estatal e dos direitos sociais. É nessa conjuntura que se fortalece o chamado terceiro setor, em que muitas reinvindicações dos movimentos sociais foram englobadas e desenvolvidas por organizações não governamentais (ONG) ou organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP). Conforme Selma Costa (2005, documento on-line): O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...8 [...] o Terceiro Setor é formado por instituições (associações ou fundações privadas) não governamentais, que expressam a sociedade civil organizada, com participa- ção de voluntários, para atendimentos de interesse público em diferentes áreas e segmentos. Avança da perspectiva filantrópica e caritativa para uma atuação profissional e técnica, na qual os usuários são sujeitos de direitos, tendo em vista o alcance de um trabalho qualitativamente diferenciado daquele que sempre marcou a história dessas organizações: o assistencialismo e a filantropia. No início dos anos 2000, com as consequências econômicas, políticas e sociais dos governos neoliberais da América Latina, ganharam força os movimentos e os projetos políticos que se colocavam como contraponto a essas medidas. Ou seja, a persistência e o agravamento da desigualdade social, a redução dos direitos sociais, o desemprego e o aumento da miséria e da pobreza fortaleceram os projetos políticos destinados a mitigar as consequências do neoliberalismo. Com isso, foram eleitos diversos projetos do campo progressista, com diferentes matizes, e não somente no Brasil, mas também na Argentina, na Bolívia, no Equador, no Paraguai e na Venezuela. A vitória eleitoral desses projetos representou um novo ponto de inflexão na história dos movimentos sociais latino-americanos e brasileiros. No Brasil, embora houvesse uma maior disponibilidade dos agentes esta- tais para negociação com a sociedade civil em relação às políticas públicas a serem desenvolvidas, os pesquisadores afirmam que houve uma continuidade de certos preceitos neoliberais, como será abordado na próxima seção. Para conhecer mais sobre a organização das lutas sociais e do serviço social durante os anos 2000, leia o artigo “Lutas sociais e desafios da classe trabalhadora: reafirmar o projeto profissional do serviço social brasileiro”, de Maria Beatriz Costa Abramides (2017). O Brasil na atualidade A vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT nas eleições de 2002 representou um marco para a história brasileira. De acordo com o historiador Rodrigo Patto Sá Motta (2018, p. 415): [...] após as tentativas fracassadas de 1989, 1994 e 1998, finalmente o operário metalúrgico e sindicalista chegou ao poder. Pela primeira vez uma candidatura claramente de esquerda ganhava as eleições presidenciais no Brasil, com a novi- dade extra de ter no comando alguém com o perfil de Lula, retirante nordestino O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 9 e trabalhador braçal. As origens sociais e a imagem radical de Lula e do PT repre- sentavam uma parte do eleitorado e atraíam votos, porém, em outros segmentos, provocavam o medo que contribuiu para as derrotas anteriores. Ao contrário do que propalavam os seus adversários políticos, o PT, majo- ritariamente, não possuía um projeto político revolucionário, apenas algumas alas internas defendiam propostas mais radicais, mas a maioria de seus membros situava-se no espectro político da centro-esquerda (SÁ MOTTA, 2018). De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 186): [...] com o abandono do programa histórico do PT, de caráter social-democrata- -nacional-popular, e com a manutenção do programa e das políticas neoliberais, o Governo Lula evitou enfrentamentos com o bloco dominante, governando com e para ele. Portanto, nem de longe, está se vivendo uma fase de transição pós- -neoliberal, mas sim um ajustamento e consolidação do modelo neoliberal – que tem possibilitado uma maior unidade política do bloco dominante, isto é, tem reduzido o atrito no seu interior. Pode-se dizer que a vitória de Lula ocorreu devido ao esgotamento do projeto econômico e social da democracia-social, representada por FHC e pelo Plano Real, incapazes de manter a moeda valorizada e a inflação baixa. Além disso, houve uma aproximação com setores empresariais e industriais, além da ala mais moderadada política, como pode ser percebido pela composição de sua chapa, com José de Alencar como vice-presidente (SÁ MOTTA, 2018). Os governos de Lula foram marcados pelo cumprimento das promessas moderadas durante a campanha e pela negociação, por meio da formação de compromissos e coalisões, do ponto de vista político. Economicamente, para reverter a situação de desvalorização do real e a alta da inflação, Lula investiu em medidas ortodoxas, para estabilizar a situação econômica. De acordo com Filgueiras e Gonçalves (2007, p. 186): [...] o Governo Lula deu prosseguimento (radicalizando) à política econômica im- plementada pelo segundo Governo FHC, a partir da crise cambial de janeiro de 1999: metas de inflação reduzidas, perseguidas por meio da fixação de taxas de juros elevadíssimas; regime de câmbio flutuante e superávits fiscais acima de 4,25% do PIB nacional. Adicionalmente, recolocou na ordem do dia a continuação das reformas neoliberais — implementando uma reforma da previdência dos ser- vidores públicos e sinalizando para uma reforma sindical e das leis trabalhistas —, além de alterar a Constituição para facilitar o encaminhamento, posterior, da proposta de independência do Banco Central e dar sequência a uma nova fase das privatizações, com a aprovação das chamadas Parcerias Público-Privado (PPP), no intuito de melhorar a infraestrutura do país —uma vez que a política de superá- vits primários reduz drasticamente a capacidade de investir do Estado. Por fim, completando o quadro, reforçou as políticas sociais focalizadas (assistencialistas). O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...10 Ainda assim, não é possível dizer que houve uma manutenção sem modi- ficações das políticas neoliberais instituídas na década de 1990. A visão de Estado mínimo e privatista dos governos anteriores foi abandonada para uma ideia de um Estado como agente e planejador econômico (SÁ MOTTA, 2018). Sem dúvida, um dos principais destaques das duas gestões do governo Lula foram as políticas culturais e sociais, que permitiram um aumento da renda para os setores mais empobrecidos da população, bem como ampliaram o mercado para setores produtivos, criando oportunidades para investimento. Dos programas assistenciais desenvolvidos por Lula, destacam-se o Fome Zero, o Bolsa Família e as diferentes medidas culturais e educacionais para manter crianças e adolescentes nas escolas e os jovens nas universidades, cuja rede de unidades públicas foi aumentada. Durante os governos Lula, também houve denúncias de corrupção, no- tadamente o chamado “escândalo do mensalão”, a partir das denúncias do deputado Roberto Jefferson, que apontou o então deputado federal José Dirceu, do PT, como comandante de um esquema que envolvia outras lide- ranças do partido (SÁ MOTTA, 2018). Entretanto: [...] não houve denúncias diretas contra o presidente [Lula], apenas contra o segundo escalão do governo. Por outro lado, as forças de oposição parecem ter escolhido circunscrever o impacto da crise, talvez acreditando que o estrago já era suficiente para derrotar Lula nas eleições de 2006. Além disso, a situação econômica era positiva e tendia a melhorar, para muitos atores não fazia sentido aprofundar uma crise que poderia estragar o bom momento. (SÁ MOTTA, 2018, p. 429). Ainda assim, o PT sofreu uma perda importante de popularidade nas cidades, entre setores mais escolarizados e lideranças sociais, criando pro- blemas para a imagem do partido, embora isso não tenha impedido Lula de se reeleger em 2006. De acordo com a análise do historiador Rodrigo Patto Sá Motta (2018, p. 430): O segundo mandato foi a fase áurea de Lula, quando ele atuou com mais segurança e desenvoltura e obteve notável reconhecimento. A liderança e o carisma do ex- -operário metalúrgico se firmaram em várias dimensões, alcançando fama mundial. Para isso contribuíram os bons resultados econômicos e sociais, a estabilidade política interna, a maneira como o governo enfrentou a crise econômica mundial em 2008 e a ousada política externa. Os resultados das políticas sociais distribu- tivistas apareceram com mais destaque nessa fase, em que ocorreram também os mais importantes investimentos educacionais. Igualmente, foi na segunda gestão de Lula que se consolidou o seu modelo desenvolvimentista, com destaque para ações no campo da infraestrutura e da energia. O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade... 11 As vitórias políticas angariadas pelo PT durante o segundo mandato de Lula possibilitaram a vitória de Dilma Rousseff, apresentada como a “sucessora de Lula” na campanha presidencial de 2010. O novo governo manteve as políticas de Lula, dando continuidade ao desenvolvimentismo com investimento es- tatal e às políticas de transferência de renda. Dilma aprofundou as políticas de educação e de direitos humanos, principalmente no que diz respeito ao passado da ditadura civil-militar brasileira, com a criação da Comissão Nacional da Verdade. Sobre o governo Dilma, do ponto de vista econômico: [...] no primeiro momento, seu objetivo principal foi segurar a inflação e melhorar as contas públicas, já que o crescimento não parecia um problema, dado o ritmo expansionista no último ano de Lula. Por isso, Dilma concordou em reduzir o crédito e aumentar as taxas de juros, esperando provocar uma queda suave da atividade econômica. No entanto, a situação internacional se agravou, com novas baixas nos preços das commodities e queda nas exportações brasileiras. Além disso, o aumento da insegurança entre os empresários levou a que reduzissem investimentos na atividade produtiva. (SÁ MOTTA, 2018, p. 434–435). Em comparação com o governo Lula, a gestão de Dilma apresentou uma queda no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB): em 2011, o PIB cresceu 4%, porém, em 2012, ficou em 1,9%; em 2013, 3%; e, em 2014, apenas 0,5% (SÁ MOTTA, 2018). Mesmo com os problemas econômicos ainda em decorrência dos efeitos da crise de 2008, as maiores dificuldades do governo Dilma vieram do campo político, com as manifestações de 2013 e dos anos seguintes, que foram radicalizadas por setores conservadores e da direita, que passaram a exigir intervenção militar e a destituição da presidenta. Ainda assim, Dilma saiu vitoriosa nas eleições de 2014, embora por uma pequena margem de votos (SÁ MOTTA, 2018). Contudo, os partidos da oposição não aceitaram o resultado das eleições e passaram a questioná-lo na justiça. Iniciou-se, assim, um processo de desestabilização do governo, trancando pautas encaminhadas pelo Executivo para votação do Legislativo. Em adição às denúncias e às apurações da Operação Lava Jato, deu-se início, em 2016, ao processo de impeachment da presidenta, acusada de “crime de responsabilidade fiscal”. De acordo com Abramides (2017, p. 367): Desde 2013 a conjuntura do país apresenta um quadro de grandes mobilizações sociais frente aos ataques do capital, por meio do patronato e do Estado, com precarização das condições de vida dos trabalhadores imposta pela terceirização, O cenário político, econômico e social do Brasil: dos anos 90 à sociedade...12 desemprego estrutural crescente, desregulamentação das relações de trabalho e cortes orçamentários em políticas sociais que reduzem direitos sociais e traba- lhistas arduamente conquistados. Assistimos à criminalização dos movimentos sociais nos vários estados, com repressão contínua aos lutadores [...]. As lutas de resistência da classe trabalhadora e da juventude com greves, mobilizações de rua, ocupação de terras, fábricas e escolas têm sido intensa no processo contra a exploração econômica, dominação política e opressão social de classe, gênero, raça, etnia, geracional e de orientação sexual. Tais reivindicações se relacionam diretamente à direção social do projeto profissional do Serviço Social brasileiro articulado ao projeto societário emancipatório. Michel Temer, do Partido do MovimentoDemocrático Brasileiro (PMDB), então vice-presidente, assumiu a presidência para o término do mandato, dando uma guinada neoliberal nas políticas econômicas e sociais, o que resultou em uma estagnação econômica semelhante à vivenciada nos anos 1990. De acordo com Souza e Hoff (2019, p. 14): [...] a primeira reforma realizada foi a Proposta de Ementa Constitucional (PEC) nº 241/2016, a qual foi aprovada em 15 de dezembro de 2016 (Emenda Constitucional nº 95). Com o argumento de retomar o crescimento econômico, o Governo Temer limitou constitucionalmente os gastos públicos por 20 anos, diminuindo o Estado e impedindo que o sistema constitucional de proteção social (que inclui saúde, previdência e assistência sociais) funcionasse de maneira adequada às necessi- dades da população. 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