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1 MODAIS DE TRANSPORTE AULA 3 Profa. Alessandra de Paula 2 CONVERSA INICIAL Quando analisamos o sistema de transporte de uma organização que adquire e distribui seus produtos e matérias-primas apenas no mercado brasileiro, a solução para seus problemas logísticos e de transportes pode ser encontrada em apenas um modal, como o rodoviário. Quando encontramos esse tipo de situação, estamos falando de transporte unimodal. Contudo, nem todas as organizações se enquadram nessa categoria. A forma mais fácil de entender isso é analisarmos uma empresa que exporta seus produtos para o mercado europeu, por exemplo. Obrigatoriamente, ela terá que usar mais de um modal, combinando possibilidades tais como rodoviário e aéreo, rodoviário e marítimo, ferroviário e marítimo, entre outros. Quando esse tipo de situação acontece é que verificamos a importância da integração entre os diferentes modais e, daí, surgem duas possibilidades, de acordo com Razzolini Filho (2012, p. 184): Intermodalidade: na intermodalidade temos vários modais atuando de forma integrada, porém, em cada modal teremos um conhecimento de frete emitido, com custos, seguros e responsabilidades individuais. Multimodalidade: neste caso também teremos vários modais atuando em uma determinada cadeia de abastecimento, porém teremos um único conhecimento de transporte emitido pelo Operador de Transporte Multimodal (OTM), que irá assumir total responsabilidade pela operação como um transportador principal e não apenas como um agente. Mesmo com a possibilidade de haver estes dois tipos de operação em transportes e logística prevista pela legislação brasileira, a dificuldade de operacionalização é grande. Isso se deve ao fato de que, principalmente na multimodalidade, apenas um estado arrecadaria impostos sobre atividade de transporte, o que não é bem aceito pelos estados prejudicados com a operação. Esse é mais um dos desafios a serem superados pelas empresas brasileiras. 3 TEMA 1: DEFINIÇÃO DE TRANSPORTES Durante muito tempo as atividades logísticas foram tratadas de forma fragmentada, sendo batizadas como “distribuição”, “distribuição física” ou “logística de distribuição”. Em todas elas, o foco principal na verdade envolvia pura e simplesmente o transporte das mercadorias. As transformações ocorridas nos negócios, a partir da década de 1980, fizeram surgir o conceito de logística e cadeia de suprimentos, no qual se vai além do transporte, preocupando-se com aspectos relacionados ao planejamento, implantação e controle de estoques, transporte, fluxo reverso de bens e informações que estejam relacionadas com o atendimento de uma demanda em um determinado mercado por um grupo de empresas. Já o transporte representa um meio de translação de pessoas, bens e mercadorias de um lugar para outro. Quando nos referimos ao transporte de pessoas nos referimos ao serviço de passageiros, que pode ser realizado via transporte rodoviário, ferroviário, aéreo e marítimo. Quanto ao transporte de bens e mercadorias, estamos falando em transporte comercial de produtos regido por fatores de competitividade, pressões pela redução de custos, aumento de margens e lucro, retorno e sustentabilidade. Enquanto fator competitivo, os sistemas de transportes passaram a incorporar os conceitos de entrega do produto certo, no local certo, na hora certa, na quantidade certa e na condição combinada inerentes aos sistemas logísticos. O transporte não é mais visto como uma função isolada, mas como um elemento que agrega valor ao produto e aos serviços da organização. Para Fleury (2002), administrar transportes significa tomar decisões sobre um contexto de grande complexidade. Entre as decisões estratégicas destacam- se: Definição da rede; A escolha de modais; Decisões sobre propriedade da frota; 4 Seleção e negociação com transportadores; Política de consolidação de cargas. (FLEURY, 2002). Entre as decisões táticas e operacionais, Fleury (2002) destaca: Planejamento de embarques; Programação de veículos; Roteirização; Auditoria de fretes; Gerenciamento de avarias. Um plano de transportes pode ser de longo, médio ou curto prazo, e sua duração depende dos recursos disponíveis e dos objetivos que se deseja alcançar e, muitas vezes, da urgência do problema que se deseja resolver. De uma forma geral, um plano de transporte compreende as seguintes etapas: 1. Definição dos objetivos e prazos; 2. Diagnóstico dos sistemas de transportes; 3. Coleta de Dados; 4. Escolha dos modelos a serem utilizados para avaliação da demanda futura; 5. Alternativas de oferta de transporte; 6. Avaliação das alternativas (custos e impactos); 7. Escolha da alternativa; 8. Desenvolvimento do plano de transporte acompanhado de um programa de financiamento; 9. Implementação das alternativas de acordo com um cronograma de desembolso de recursos; 10. Atualização dos procedimentos. 5 Essa demanda constante por otimização dos sistemas de transporte fez com que surgisse o conceito de transporte colaborativo. O Subcomitê de Transporte Colaborativo do VICS (CTM Sub-Committee – Collaborative Transportation Management) conceitua essa prática como “um processo holístico que une parceiros de uma cadeia de suprimentos e provedores de serviços logísticos no intuito de eliminar as ineficiências do planejamento e da execução do transporte”, sendo seu objetivo “otimizar a performance operacional de todas as partes envolvidas na relação”. TEMA 2: CARACTERÍSTICAS DOS MODAIS DE TRANSPORTE Para entendermos as características dos modais de transporte, primeiro vamos classificá-los: Quanto à modalidade: terrestre (rodoviário, ferroviário, oleodutos); aquático (marítimo, fluvial); aéreo. Quanto à forma: modal ou unimodal (envolve apenas uma modalidade); multimodal (envolve mais do que uma modalidade, regido por um único contrato); intermodal (envolve mais do que uma modalidade, regido por um contrato para cada modalidade); sucessivo (envolve transbordos para veículos da mesma modalidade, regido por um único contrato). Uma vez que relembramos as classificações dos modais de transporte, precisamos compreender também como funcionam os sistemas de transporte. Considerando que um sistema deve ser entendido como um conjunto de partes que interagem de modo a atingir um determinado fim de acordo com um plano. No caso do sistema de transportes, as partes que o compõe são as vias, os veículos, os terminais que interagem de modo a promover deslocamento espacial de pessoas e mercadorias (Figura 1). 6 Figura 1: O fluxo no sistema de transporte Fonte: Kawamoto (2002). Já para Razzolini Filho (2012), os modais podem ser analisados por cinco características comuns aos diferentes modais de transporte (Quadro 1), que envolvem: 1. Velocidade: refere-se ao tempo decorrido de movimentação em dada rota, sendo conhecido também como transit time; 2. Disponibilidade: é a capacidade que o modal possui de atender diretamente para os pontos de origem e destino; 3. Confiabilidade: refere-se à variabilidade potencial das programações de entrega esperadas e divulgadas; 4. Capacidade: refere-se à possibilidade que um modal possui de atender os requisitos de transporte, como tamanho e tipos de carga; 5. Frequência: está relacionada à quantidade de movimentações programadas que o modal possui. 7 Quadro 1: Características dos modais Fonte: Fleury, Wanke e Figueiredo (2000, p. 130). Pela tabela elaborada por Fleury, Wanke e Figueiredo (2000), o modal rodoviário é o menos eficiente dentre modais, porém é o mais utilizado no Brasil. Isso se deve ao fato de que historicamente, por razões de políticaeconômica, o país investiu pesado nesse modal como forma de estimular a indústria automotiva quando de sua instalação aqui. Outro motivo envolvia as grandes dimensões do Estado brasileiro, bem como a baixa densidade populacional e o desenvolvimento das regiões interioranas do país. TEMA 3: A ESCOLHA DO MODAL A escolha do modal de transporte não se dá apenas por critérios qualitativos, como visto no item anterior. Na maior parte das vezes o que determina o uso de um ou outro modal de transporte envolve critérios quantitativos, como o preço e o custo do transporte. Somado ao custo é importante que tenhamos consciência das características operacionais dos 8 diferentes modais de transporte (Quadro 2), que envolvem capacidade de carga, velocidade e capacidade de resposta do sistema. Quadro 2: Características operacionais dos modais de transporte Considerando-se distâncias médias e longas, as características operacionais dos modais apontam para o modal dutoviário como o mais eficiente. Já o modal rodoviário apresenta-se como sendo o que tem maiores limitações. Quando acrescentadas as questões econômicas à caracterização dos modais no longo prazo, o modal dutoviário apresenta-se como o melhor modal, e o rodoviário como o que tem menores indicadores de efetividade (Quadro 3). As análises que envolvem as características dos transportes devem contemplar critérios qualitativos e quantitativos, bem como a capacidade de investimento da cadeia de suprimentos e o impacto em termos de custos no valor total do sistema. Quando analisamos as características dos modais separadamente, como estamos fazendo aqui, essa forma é utilizada para chamar a atenção de cada característica e demonstrar que ela não pode deixar de ser levada em consideração, pois pode impactar na competividade empresarial. 9 Quadro 3: Características Econômicas dos Modais Para Slater (1998), a escolha do modal de transporte consiste em um processo de coleta de informações sobre as características do sistema que queremos planejar (Figura 2), o qual envolve quatro níveis de informação: região abrangida pelo sistema de transporte, caracterização do sistema logístico, análise das opções de modais de transporte e tomada de decisão. Figura 2: Modelo de Escolha de Modais Fonte: adaptado de Slater (1998). 10 A escolha do modal de transporte deve levar em consideração, como primeiro item de análise, a região abrangida pelo sistema de transporte: se regional, nacional ou internacional, bem como a existência de estruturas físicas instaladas para os diferentes modais de transporte, permitindo, dessa forma, a opção por um modal ou pela combinação de modais em sistemas unimodais, multimodais ou intermodais. O segundo item de análise envolve a caracterização do sistema logístico dentro da cadeia de abastecimento a ser operacionalizada, com os seguintes itens de análise: 1. Características do cliente: localização geográfica, acesso aos pontos de entrega, restrições de tempo, tamanho da encomenda, conhecimento do produto, equipamento mecânico para manuseio do produto, nível de serviço, tempo de resposta requerido, tipo de venda e serviço de pós- venda. 2. Características ambientais: outros utilizadores rodoviários, infraestrutura, tecnologia (veículo e equipamento), clima, considerações legais, tendências rodoviárias – pois são mais danosas ao ambiente – e tendências ambientais. 3. Características dos produtos: peso, forma e volume, natureza frágil, obsolescência e deterioração, perigo e/ou toxidade e valor. 4. Características da empresa: política de nível de serviço, política de lead time, vendas territoriais, localização de depósitos/C.D., localização de instalações fabris, políticas financeiras e performance da concorrência. O terceiro passo envolve comparar as informações obtidas na caracterização do sistema logístico da cadeia de abastecimento, com as características dos diferentes modais, gerando informações a respeito de custos, desempenho e vantagens de sua utilização. O quarto passo da metodologia envolve a determinação do nível de serviço desejado e o tempo de resposta esperado para o sistema, em contrapartida ao seu custo e às fontes de financiamento para seu funcionamento. 11 A tomada de decisão dentro do modelo proposto pelo autor envolve a análise articulada de todo o sistema a ser planejado, com a identificação de fatores que impactam na escolha do modal de transporte mais adequado. Para chegar a uma decisão mais acertada, é importante que os fatores sejam medidos e ponderados, que sejam identificados os principais riscos e a necessidade de mudança potencial do sistema, determinando-se assim uma rede de captação e distribuição de produtos e serviços ajustada às necessidades da cadeia. TEMA 4: MAS, QUAL É O MELHOR MODAL? Talvez a melhor resposta a esta pergunta seja “depende”: da distância; do produto a ser transportado; da velocidade de resposta; do nível de serviço; do peso/volume; do custo; do investimento; das opções de infraestrutura; do valor para o cliente; de outras opções/características. Para cada sistema logístico, existem uma ou mais possibilidades de escolha, que devem ser feitas mediante uma análise profunda de custos, serviços, velocidade, eficiência, indo muito além de uma simples análise do custo baseada em peso por quilometragem (Kg/Km). Gerir o transporte em um sistema significa tomar decisões sobre um amplo conjunto de aspectos, e essas decisões podem ser classificadas em dois grandes grupos: Decisões estratégicas e Decisões operacionais. As decisões estratégicas se caracterizam pelos impactos de longo prazo 12 e se referem basicamente a aspectos estruturais: Escolha de modais; decisões de custo – próprio ou terceirizado? Decisões sobre propriedade da frota; Seleção e negociação com transportadores; Política de consolidação de cargas. As decisões operacionais são geralmente de curto prazo e se referem às tarefas do dia a dia: Planejamento de embarques; Programação de veículos; Roteirização; Auditoria de fretes; Gerenciamento de avarias; Negociações de custo. O que podemos afirmar em relação aos modais é que nos leva a algumas possibilidades: 1. Transporte marítimo: para transporte intercontinental de grandes volumes de materiais (minérios, contêineres, grãos, máquinas); 2. Transporte dutoviário: para volumes constantes de produto, durante longos períodos de tempo que permitam a absorção do custo inicial de implantação. Apropriado para o transporte de gás, óleo diesel, gasolina, entre outros. 3. Transporte aéreo: ideal para entregas que exijam rapidez e velocidade, para produtos de alto valor agregado e quando há longas distâncias a serem percorridas em pouco tempo. Envolve peças de reposição, remédios, computadores, órgãos para transplante. 4. Transporte ferroviário: ideal para grandes volumes e grandes distâncias, em que a velocidade não é fator determinante no nível de serviços. Exige alto investimento na instalação, apresentando pouca 13 flexibilidade de rotas. Ideal para minérios, grãos, máquinas e cimento, sempre que o transporte deva ser feito por via terrestre. 5. Transporte rodoviário: é o mais flexível de todos eles, atende pequenas, médias e longas distâncias, propicia a combinação de várias mercadorias diferentes, para diferentes destinos. Quando bem planejado pode ser eficiente, de custo compatível, com altos níveis de serviços. É a base do sistema de transportes no Brasil. NA PRÁTICA Para esta aula, você deve realizar uma pesquisa, na internet ou na biblioteca virtual, visando responder as três perguntas sugeridas abaixo: 1. Qual o maior obstáculo à reestruturação da matriz de transporte e ao desenvolvimentoeconômico do Brasil? 2. Para que as empresas possam se sustentar no mercado, reduzir seus custos e melhorar os serviços oferecidos, é necessário que sejam tomadas diversas iniciativas para o aumento da eficiência do transporte rodoviário. Quais são? 3. São vários os processos relacionados à gestão de terceiros, que afetam o desempenho dos serviços e os custos. Cite alguns. SÍNTESE Como afirma Ballou (1998), o transporte representa um dos elementos mais importantes na composição dos custos logísticos de uma empresa. Segundo o autor, o transporte é capaz de absorver entre 33,3 e 66,6% dos custos logísticos totais. Dessa forma, a decisão sobre que modal de transporte utilizar envolve caracterizar os sistemas logístico e de transporte a serem utilizados para a cadeia de abastecimento em análise. Não existem soluções únicas e nem mesmo permanentes que sejam eficientes o tempo todo e a todo custo. A tendência é a de que, com a criação de 14 infraestrutura, pontes, estradas, ferrovias, aeroportos, portos, canais marítimos, novos modais se tornem atrativos e outros percam a atratividade. Cabe ao especialista em logística acompanhar a evolução dos sistemas, verificar novas possibilidades e tecnologias, compreender as mudanças de comportamento dos clientes e consumidores, adequando o tempo de resposta da empresa à nova realidade do mercado. REFERÊNCIAS BREMER, C. F.; LENZA, R. P. Um modelo de referência para gestão da produção em sistemas de produção assembly to order – ato e suas múltiplas aplicações. Gestão & produção. v. 7, n. 3, p. 269-282, dez. 2000. FLEURY, P. F.; WANKE, P.; FIGUEIREDO, K. F. Logística empresarial: a perspectiva brasileira. São Paulo: Atlas, 2000. HANDABAKA, A. R. Gestão logística da distribuição física internacional. São Paulo: Maltese, 1994. KAWAMOTO, E. Análise de sistemas de transportes. 2. ed. São Paulo, 2002. RAZZOLINI FILHO, E. Transporte e modais: com suporte de TI e SI. Curitiba: InterSaberes, 2012. TAYLOR, D. A. Logística na cadeia de suprimentos: uma perspectiva gerencial. São Paulo: Pearson Addison-Wesley, 2005. SILVA, C. R. L.; FLEURY, P. F. A avaliação da organização logística em empresas da cadeia de suprimentos de alimentos: indústria e comércio. RAC, v. 4, n. 1, jan./abr. 2000: 47-67. SLATER, A. How to prepare an example contract for third-party logistics services. 2. ed., Chesire: Added Value Logistics Publications, (1998). 15 SLACK, N. et al. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 1997. ______. et al. Gerenciamento de operações e de processos: princípios e práticas de impacto estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2013.