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A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 1 A PREPARAÇÃO DO PROCESSO CIVIL: PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS, DILIGÊNCIAS PRELIMINARES, PRETRIAL DISCOVERY E OS PRE-ACTION PROTOCOLS La preparación del proceso civil: produción anticipada de pruebas, diligencias preliminares, pretrial discovery y los pre-action protocols Revista de Processo | vol. 290/2019 | p. 413 - 438 | Abr / 2019 DTR\2019\27389 ___________________________________________________________________________ Marco Antonio Rodrigues Pós-Doutor pela Universidade de Coimbra. Doutor em Direito Processual e Mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor Adjunto de Direito Processual Civil da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual, do Instituto Ibero-americano de Direito Processual, da International Association of Procedural Law e do Instituto Português de Processo Civil. Procurador do Estado do Rio de Janeiro. Advogado. marcoadsrodrigues@gmail.com João Ricardo Ferreira Fortini Pimentel Mestrando em Direito – Ciências Jurídico-Civilísticas: Menção em Direito Processual Civil pela Universidade de Coimbra. LL.M em Direito: Litigation – Os novos desafios dos contenciosos pela FGV Direito Rio. Advogado. joaoricardo.pimentel@gmail.com. Área do Direito: Civil; Processual Resumo: O presente trabalho objetiva fornecer, sob a perspectiva legislativa e doutrinária à luz do direito estrangeiro, subsídios para a análise dos mecanismos existentes na processualística civil brasileira, espanhola e anglo-saxônica, referentes a um procedimento anterior ao processo principal que têm em vista assegurar e produzir de imediato provas capazes de fundamentar o convencimento judicial. Apresentando as possibilidades de aplicação da “produção antecipada de provas” brasileira, das “diligencias preliminares” espanholas, bem como analisando alguns aspectos referentes à “pretrial discovery” norte-americana e os “pre-action protocols” ingleses, reafirma-se o caráter de direito autônomo à prova, fornecendo uma visão mais crítica e ampliativa da aplicação do instituto da produção antecipada de prova no Brasil, o qual em muito pode beber das águas de modelos internacionais mais antigos e consagrados para que atinja o máximo de suas potencialidades e tenhamos um processo completamente instruído e capaz de produzir uma decisão mais próxima da verdade dos fatos. Palavras-chave: Produção – Antecipada – Prova – Diligência – Preliminar Discovery Resumen: El presente trabajo intenta fornecer en una perspectiva legislativa y doctrinaria, bajo la luce del derecho extranjero, subsidios para el análisis de los mecanismos existentes en el derecho procesal brasileño, español y estadunidense, referentes a un procedimiento de carácter previo al proceso principal que objetiva asegurar A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 2 y producir, de inmediato, probas capaces de fundamentar el convencimiento judicial. Realizando una comparación de la aplicación de la “produção antecipada de provas” brasileñas, las “diligencias preliminares” españolas, la “pretrial discovery” estadunidense y los pre-action protocols ingleses, reafirmase el carácter de derecho autónomo a la prueba, forneciendo una visión más crítica y ampliativa de la aplicación de la “produção antecipada de prova” en Brasil, que mucho puede aprovechar de modelos internacionales más antiguos y consagrados para que pueda producir el máximo de sus potencialidades e se tenga un proceso más bien instruido y que sea capaz de producir una decisión más próxima de la verdad de los hechos. Palabras claves: Producción – Anticipada – Pruebas – Diligencias – Preliminares – Discovery Sumário: Introdução - 1.Produção antecipada de provas - 2.Diligências preliminares - 3.Pretrial discovery e pre-action protocols - Conclusões - Bibliografia Introdução Partindo da concepção moderna de a visão correta da processualística civil perpassar a efetividade processual, bem como de uma concepção mais correta de “função social do processo”1, um afastamento de qualquer atividade judicial que possa ser considerada prescindível e que constitua óbice para a justa composição do litígio em um prazo razoável de forma a privar os litigantes em juízo da resolução do mérito da demanda acima de decisões por incorreções processuais, é de suma importância. A Constituição da República, em seu artigo 5º, inciso XXXV, consagra o direito fundamental de acesso à justiça, que se traduz no direito de acesso a uma prestação jurisdicional justa2. Ademais, de tal dispositivo é extraída a inafastabilidade da jurisdição, o que significa dizer que o legislador não pode afastar o jurisdicionado de levar seus conflitos ao Poder Judiciário. De fato, a necessidade de acesso a um Poder estatal que possa solucionar confrontos de interesses, pacificando com justiça, revela-se essencial para a vida em sociedade. Os conflitos são inerentes à vida em sociedade, na qual a multiplicidade de relações jurídicas entre seus membros pode acarretar litígios das mais variadas ordens. Note-se, porém, que as formas de solução de conflitos podem variar, a partir de uma sociedade para outra. Existem sociedades em que uma determinada lide pode ser comumente solucionada por meio de mecanismo externo ao uso do Judiciário, enquanto em outras este se revela instituição fundamental para a justiça3. No entanto, nem sempre o Poder Judiciário será o meio mais adequado para a obtenção de uma solução justa4. Isso porque os órgãos jurisdicionais possuem atualmente uma quantidade enorme de processos, que os impede frequentemente de proferir uma decisão final em prazo razoável. Ademais, por vezes, a demanda em jogo envolve questões técnicas que os órgãos jurisdicionais não possuem conhecimento suficiente para resolver da maneira mais adequada, o que põe em risco a própria pacificação. A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 3 Em tal contexto, o legislador brasileiro inovou em 2015, ao prever no artigo 381 e seguintes do Código de Processo Civil (LGL\2015\1656) (CPC (LGL\2015\1656)) brasileiro a possibilidade de Produção Antecipada de Provas, mesmo ausente o seu caráter de urgência, servindo, pois, como um instrumento do qual a parte poderá se valer para analisar a conveniência ou não de ajuizar uma demanda ou buscar um outro método que seja mais adequado, ou mesmo mais econômico, a atender da melhor forma seus objetivos. Reforça, portanto, a noção de busca, pelo processo civil, por uma decisão mais justa5, e pela efetivação de direitos fundamentais tanto referentes ao processo como relativos aos protegidos por meio deste e aos valores constitucionalmente assegurados6. É nesse contexto, todavia, que já no ano de 1981, com o objetivo de organizar o processo judicial posterior, evitando assim o ajuizamento de demandas desnecessárias e que poderiam se findar sem ser resolvidas por uma decisão meritória, o legislador espanhol, atento a tais preocupações, trouxe em seu âmago, o instituto das diligencias preliminares, pouco explorado pela doutrina brasileira, mas que em muito pode lhe ser útil, seja por se aproximar em alguns pontos do sistema de produção antecipada de provas, seja por inclusive ser, como será posteriormente abordado, um instituto muito mais amplo, o qual confere às partes possibilidades muito mais numerosas do que somente a questão probatória. Diante do panorama proposto, cumpre salientar que o estudo do Direitoestrangeiro, principalmente no âmbito do direito processual, é de grande importância prática, uma vez que: [...] la conoscenza approfondita di altri sistemi non è solo interessante in sé sotto il profilo culturale, ma è anche il miglior modo per conoscere il proprio sistema. Tanto meno egli è sfiorato dal sospetto che la conoscenza di altri sistemi, e dei modi com cui in essi vengono affrontati i problemi fondamentali dela giustizia civile, sai uno strumento indispensabile per progettare riforme del nostro ordenamento che abbiano qualche speranza di essere efficaci.7 Sob essa perspectiva, buscar-se-á, depois de uma comparação entre os institutos brasileiro e espanhol, compreender qual deve ser a leitura ideal a ser dada, bem como quais são os objetivos sociais e as hipóteses de cabimento do instituto brasileiro. Almeja-se, ainda, perceber se estaria este ligado somente à produção de prova acerca do objeto central de um eventual processo futuro, ou se este poderia ser utilizado, além das possibilidades normativas previstas nos incisos do art. 381 do CPC (LGL\2015\1656), para preparar e colher elementos, de modo a se obter uma completa apreciação do mérito da demanda e se alcançar uma justa composição do litígio. Posteriormente, a título de elucidação, serão abordados ainda, de forma mais breve, os modelos norte-americano da pretrial discovery e inglês dos pre-action protocols, a fim de fornecer um panorama mais amplo de como o assunto é tratado no âmbito da doutrina de common law. 1.Produção antecipada de provas Um dos pontos de grande destaque no Código de Processo Civil (LGL\2015\1656) brasileiro de 2015, no que se refere às provas, diz respeito ao instituto da “produção antecipada de A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 4 provas”, previsto nos artigos 381 a 383 da legislação processual, nomeadamente a possibilidade de sua ocorrência tout court, ou seja, sem natureza cautelar. A repercussão de tal inovação evidencia uma característica que vem se fortalecendo na doutrina processual mais moderna, referente ao destinatário das provas judiciais e a autonomia do direito a estas. A nova processualística brasileira, ao adotar a possibilidade de produção da prova como garantia da proteção de sua própria existência, servindo de base para uma análise e satisfação de um direito à prova em si, das partes, reconhece que o magistrado não é o único destinatário da prova judicial, atestando seu caráter de corolário do direito de ação e defesa e, consequentemente, atribuindo aos jurisdicionados a possibilidade de valorar a providência a ser adotada com o conhecimento de seu conteúdo8. Percebe-se, portanto, se tratar de uma opção que privilegia e amplia as possibilidades e os deveres tanto das partes quanto de seus advogados, os quais em posse de todas as informações podem propor uma demanda a ser julgada com maior rigor pelo Judiciário9. Ao reconhecer o direito autônomo à prova10, além do seu caráter antecipatório, deve ser reconhecida igualmente a possibilidade de produção da prova de forma autônoma, todavia, não de forma antecipada, mas durante o próprio processo em curso11 e mesmo paralela a este12. Graças ao fato de não haver a necessidade de afirmação do conflito sobre o qual a prova está relacionada, parcela dominante da doutrina entende se tratar de um procedimento de natureza jurídica voluntária13, havendo, contudo, quem enxergue que os procedimentos probatórios de jurisdição voluntária “terão natureza contenciosa ou voluntária conforme o processo principal a que sirvam tenha uma natureza ou outra natureza”14. Em realidade, entendemos que, caso o objetivo seja somente a simples documentação do requerente, possuirá natureza voluntária. No entanto, se cair em algumas das hipóteses do art. 381, analisadas a seguir, estar-se-á diante da natureza contenciosa do instituto. Cientes de tais considerações, passa-se a analisar alguns contornos que dizem respeito ao instituto. 1.1.Cabimento, objeto e objetivos Nessa toada, estamos diante de um instituto que visa assegurar o direito à produção da prova, para evitar que esta seja perdida (art. 381, I, do CPC (LGL\2015\1656)), e mesmo para que a pessoa possuidora do direito da produção possa realizar um juízo de valor acerca da necessidade de ajuizamento de uma demanda judicial (art. 381, III, do CPC (LGL\2015\1656)), ou mesmo para viabilizar a autocomposição ou escolha de outro método mais adequado para que se possa solucionar o conflito (art. 381, II, do CPC (LGL\2015\1656)). Ao analisarmos o art. 381 do Código de Processo Civil (LGL\2015\1656) brasileiro, podemos observar que não há o objetivo inicial de se produzir de imediato a prova, mas apenas assegurar a possibilidade de esta vir a ser utilizada futuramente15. Este, aliás, é um dos motivos pelos quais parcela da doutrina entendesse tratar igualmente de “direito à investigação”, nos moldes daquele exercido pelo Ministério Público no âmbito do inquérito A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 5 civil16. Sua utilidade, portanto, é diversa, pois, servindo para assegurar e auxiliar na compreensão da matéria de direito do processo, pode-se considerar instrumento adequado ainda para se aferir questões atinentes à legitimidade processual, evitando de tal forma a participação de partes, assistentes e litisconsortes ilegítimos e assim uma atividade judicante mais morosa ou incapaz de produzir resultados úteis aos litigantes17. Na ação de asseguração de provas, imperioso afirmar, ainda, a possibilidade de cumulação de mais de um meio de prova dentro de uma mesma ação, bem como a produção de mais de uma prova, desde que baseada num mesmo fato que deu ensejo à demanda, contanto que não provoque um retardamento excessivo no processamento. Assim, a produção antecipada de prova pode ser referente a provas orais, compreendendo interrogatórios e inquirição de testemunhas, provas periciais ou qualquer outro meio de prova, observando a amplitude prevista no art. 381 do CPC (LGL\2015\1656). No entanto, consoante os termos da Súmula 154 do STF18, pode-se concluir que o ajuizamento de uma ação de produção antecipada de provas não possui o condão de interromper o prazo prescricional, justamente tendo em vista que “nada se exige para além da conservação de prova”19. 1.2.Processamento Partindo de uma análise do art. 381 do diploma processual brasileiro, entende-se que, para o ingresso com a demanda, basta que o autor do pedido demonstre que possui o interesse direto na segurança e na produção probatória, seja este de natureza contenciosa, o que viabilizaria uma ação futura ou, ainda, com a “finalidade simples de documentação”20. Por se tratar de uma demanda judicial, mesmo que somente atinente à produção da prova, imperioso mencionar que a parte deve estar acompanhada por um advogado, o qual dará início à demanda. Ressalta-se que, para tanto, consoante o art. 382 do CPC (LGL\2015\1656), a demanda deve ainda “mencionar com precisão os fatos sobre os quais a prova há de recair”, e, sendo o caso, quais perigos encaram as provas, caso não produzidas naquele momento, requisito previsto no art. 381, I, do CPC (LGL\2015\1656). Saliente-se que não há caráter contencioso na proteção e na produção da prova nesse momento prévio de modo que “deve-se observar o procedimento reservado para os atos de jurisdição voluntária (arts. 720 a 724, CPC (LGL\2015\1656)), sendo eventuais interessados citados por edital (art. 259, III, CPC (LGL\2015\1656)) para se manifestar no prazo de quinze dias”21. No tocante à cognição, ressalta-se que a função do magistrado em tal procedimento é apenas aquela atinente a assegurarque a prova seja efetivamente produzida, de modo que não lhe cabe valorar a relação que a prova possui com o direito que pretende embasar e os efeitos jurídicos dos fatos a se provar, mesmo porque não necessariamente será o juízo que a produz aquele que irá conhecê-la quando do ajuizamento da ação principal. Nesse sentido, inexiste prevenção do juízo22, obedecendo à regra de competência prevista no § 2º do art. 381 do CPC (LGL\2015\1656), pela qual o pedido deve correr no foro em A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 6 que a prova deva ser produzida, ou naquele de domicílio do futuro réu da demanda principal a ser ajuizada, cabendo destaque ainda ao § 3º segundo o qual a demanda probatória antecipada não gera prevenção do juízo para efeitos do ajuizamento futuro da ação principal. Não obstante, sendo o caso da realização de audiência para a colheita de prova oral, todos aqueles que possam se interessar na sua produção devem ser regularmente citados para comparecer em juízo e poder participar, bem como requerer certidões (art. 383 do CPC (LGL\2015\1656)). Sobre o exercício do direito de defesa relativo à produção antecipada, de forma a privilegiar um contraditório efetivo entre todos os sujeitos processuais, este indubitavelmente deve ocorrer, em que pese não da mesma forma como exercido no âmbito de um processo de conhecimento. Nesse ponto, o exercício do contraditório se dá não por uma contestação ao pedido formulado, mas no acompanhamento e questionamento de pontos específicos, os quais dizem respeito à produção da prova, podendo versar desde a incompatibilidade da prova com o objetivo exposto até a ilicitude da prova e, ainda, até a inexistência dos riscos e perigos que motivam sua produção. Cumpre mencionar que o Enunciado 32 das Jornadas de Direito Processual Civil do Conselho da Justiça Federal estabelece que a vedação não impede ao réu as alegações das matérias cognoscíveis de ofício pelo magistrado. Destaca-se neste ponto a possibilidade de realização de um pedido contraposto pelo requerido, quando se pretenda a produção de qualquer prova relacionada com o mesmo fato (art. 382, § 3º, do CPC (LGL\2015\1656)), a qual pode incorrer em uma ampliação subjetiva do processo envolvendo terceiro que não fora inicialmente mencionado na causa. Tratar-se-ia, portanto, de um “pedido contraposto subjetivamente ampliativo, que implica litisconsórcio de uma das partes originárias com terceiro”23. Finda a produção da prova, como claramente previsto no artigo 383 do ordenamento processual brasileiro, os autos devem permanecer em cartório pelo prazo de 30 (trinta) dias a fim de que todos os interessados possam fazer as cópias que entenderem necessárias e, ao cabo, os autos do processo serão entregues ao autor do processo. Tal dispositivo não deve ser lido da mesma maneira no caso de processos que tramitam sob a forma eletrônica, mas, sendo esta tramitação na forma física ou devendo a prova ser produzida em meio físico, deve-se sempre observar o espírito do texto legal. A sentença constitutiva e homologatória da produção da prova deverá ainda conter uma parte destinada à condenação ao pagamento das despesas processuais, que a princípio irão recair sobre o requerente da produção das provas, e, no caso mencionado de pedido contraposto de produção de prova, sobre o mesmo fato do requerente; cada parte será responsável pelo custeio da medida que requereu. Destaca-se também que, havendo ajuizamento posterior da ação principal, os valores pagos deverão ser somados ao do processo cognitivo a ser desembolsado ao final pelo vencido24. No que se refere à possibilidade recursal, tendo em vista não haver apreciação do conteúdo, bem como valoração pelo magistrado, não é cabível recurso acerca da colheita requerida. Já que não há a necessária vinculação do juízo que produz a prova para conhecer da eventual demanda futura, isso fragiliza ainda mais os argumentos tendentes a considerar que deva haver algum tipo de recurso cabível. Nesses termos, somente A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 7 pode-se conceber como cabível recurso contra decisão que inadmite por completo a produção antecipada das provas25. 2.Diligências preliminares Originário no direito romano por meio de uma mescla entre os institutos da interrogatio in iure e a actio ad exhibendum, o instituto das “diligencias preliminares” espanhol possui atualmente sua regulamentação jurídica prevista do artigo 256 ao artigo 262 da Ley de Enjuiciamiento Civil (LECiv), e ainda em algumas legislações esparsas específicas26, conforme consta do art. 263 da LECiv, sendo muito interessante estudar os seus contornos e suas peculiaridades. Segundo a doutrina espanhola, podem ser definidas como aquelas atuações prévias ao processo principal, pelas quais o futuro demandante solicita ao tribunal para lhe auxiliar na preparação dos fatos, dados e decisão sobre contra quem se irá propor uma futura demanda judicial27 para facilitá-lo28. Podemos, portanto, atribuir seu fundamento ao direito das partes de reunirem os pressupostos e requisitos necessários a fim de ingressar com uma demanda no Judiciário, capaz de propiciar uma sentença meritória. Seu objetivo claramente é o de se construírem bases mais sólidas para o início de uma demanda judicial, quando se quiser solucionar dúvidas acerca da legitimidade das partes processuais (sendo, todavia, mais comum sua aplicação relativamente ao sujeito passivo da relação jurídico-processual) ou, ainda, preparar um processo futuro, aclarando algum elemento desconhecido, que será fundamental na demanda posterior. Este é o motivo que embasa afirmações no sentido de terem sido concebidas com o fim de que o autor obtenha a totalidade de dados necessários para manejar corretamente o processo seja no tocante à legitimação passiva do juiz competente ou mesmo do procedimento adequado.29 No que toca à natureza jurídica do instituto30, parte da doutrina entende que, em que pese estarmos diante de atos de jurisdição voluntária, o que deve continuar sendo sustentado, trata-se de um instituto “cuya naturaleza jurídica es discutible”31, pois não obstante o magistrado ainda não ditar uma resolução judicial, assim como na LEC/188132, o resultado da diligência, ainda que implícito, pode produzir efeitos no processo futuro. De um lado, parcela da doutrina entende, tendo em vista não se realizar qualquer tipo de pretensão, que não a produção da prova e suas decisões não produzem efeitos de coisa julgada33, trata-se de um procedimento de jurisdição voluntária. Nesse sentido, inclusive Álvarez Alarcón atribui a possibilidade de consideração da natureza voluntária das diligências preliminares ao fato de estarmos diante da “ausencia de demanda y por la falta de controversia entre las partes, es decir, por ausencia de litigio”34. Em sentido contrário, o retromencionado autor recorda ainda Jaime Guasp, o qual “ha calificado a las preliminares como contenciosas, incluso como un proceso completo”35, uma vez estarmos diante de um procedimento preparatório do processo principal futuro e ainda por causa do fato de, ao seu termo, o magistrado proferir uma decisão final exclusivamente para este procedimento. 2.1.Cabimento A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 8 O art. 256 da LECiv prevê dez hipóteses nas quais pode-se valer do instituto das diligências preliminares, a saber: a) declaração acerca de algum fato relativo à capacidade processual, representação ou legitimação, inclusive, caso seja necessário, com a apresentação dadocumentação comprovativa de tal situação; b) exibição de coisa sobre a qual se queira demandar em ação posterior (devendo ser invocada em face daquele que se pretenda demandar); c) exibição, por quem o possua, do ato de última vontade que se considera ser herdeiro, co-erdeiro ou legatário; d) exibição, por parte de sócio ou coproprietário que as possua, dos documentos e contas da sociedade que possuem; e) exibição do contrato de seguro ou de responsabilidade civil quando o contratante sinta-se prejudicado por fato que pudesse estar coberto; f) exibição de histórico clínico perante a clínica de saúde (ou profissional da saúde); g) a tomada das medidas oportunas para a averiguação e identificação de usuários e consumidores, quando se queira despoletar uma ação para defesa de interesses coletivos; h) exibição de documentos bancários, financeiros, comerciais e aduaneiros, quando se pretenda ajuizar uma ação por infração de direitos de propriedade intelectual ou propriedade industrial; i) realização de atos em defesa de direitos protegidos por legislação especial; e j) correta identificação do prestador de serviços que possua indícios de que esteja colocando à disposição ou difundindo de forma direta ou indireta conteúdos, obras ou prestações cobertas por direitos de propriedade industrial ou de propriedade intelectual. Existe, todavia, na doutrina espanhola, forte debate acerca de o rol previsto nesse dispositivo ser taxativo (numerus clausus) ou exemplificativo (numerus apertus)36. Parcela majoritária, mais tradicional e conservadora, entende no sentido do exposto no item X da “Exposición de Motivos” da Ley de Enjuiciamiento Civil que, por meio da LECiv, “se amplían las diligencias que cabe solicitar, aunque sin llegar al extremo de que sean indeterminadas”. Defendem, assim, por não poderem ser indeterminadas, tratar-se de um rol taxativo, não sendo admitidas as que possuam caráter indeterminado. Nesse sentido solo pueden pedirse y decretarse las diligencias previstas expresamente en alguna ley37, seja ela a própria Ley de Enjuiciamiento Civil ou outra legislação especial qualquer, não podendo, assim, tratar-se de medida sem previsão legal. Deveria haver, portanto, uma interpretação restritiva dos pressupostos de admissibilidade e verificação criteriosa da existência de uma justa causa e interés legítimo38. Por outro lado, a nosso ver, parece mais acertado o entendimento no sentido de que deva tratar-se de um rol exemplificativo. Isso, pois, se trata de um instituto de extrema importância para se alcançar uma decisão de mérito, mais efetiva e de forma mais célere – tendo em vista sua capacidade de diminuir sobremaneira embaraços processuais futuros que podem submergir o mérito a questões procedimentais –, fatores estes que devem compor o feixe de luz que ilumina o processo civil moderno. 2.2.Partes No procedimento das diligências preliminares, as partes são denominadas “solicitante” e “solicitado”. Imperioso mencionar que este último não necessariamente se confunde com a pessoa que ocupará o polo passivo da eventual futura demanda, mas que pode sê-lo. Pode, portanto, a pessoa do solicitado ser um terceiro alheio à relação jurídica controvertida, bastando que consiga cumprir as diligências que lhe são requeridas pelo solicitante. A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 9 2.3.Competência Como consta no item 1, do art. 257, da LECiv, a competência para conhecer da solicitação de diligências pertence ao juiz de primeira instância ou mercantil, do domicílio da pessoa que deverá realizar, declarar ou exibir ou de algum modo intervir no cumprimento das diligências preliminares. Há, ainda, a possibilidade prevista de, em alguns casos específicos, previstos nos itens 6º, 7º, 8º e 9º do art. 256 da LECiv, ser competente o mesmo juiz que será competente para o processamento da futura ação principal. Caso o tribunal entenda ser o competente, deverá dar prosseguimento à realização da diligência. Por outro lado, caso assim não entenda, conforme o item 2 do art. 257 da LECiv, deverá este indicar o órgão competente que, por sua vez, poderá aceitar ou, ainda, considerar-se igualmente incompetente. Nesse caso de conflito negativo de competência, decidirá como competente o tribunal superior comum aos que declinaram competência, nos termos do art. 60 da legislação espanhola. 2.4.Processamento A solicitação de diligências ocorre de forma escrita, por meio de uma petição fundamentada, que expresse as diligências concretas que se pedem, bem como sua fundamentação, ou melhor, comprovando a adequação da medida, a ocorrência de justa causa e interesse legítimo, assim também a adequação da diligência para preparar o juízo posterior39. No que toca à necessidade de constituição de advogados para a realização das diligências, aqui reside um problema da legislação espanhola que não é completamente cristalina. Os preceitos que regulam a matéria aduzem que, quando se tratar de providências em que esteja presente o caráter de urgência da medida, de acordo com os arts 23.2.3º e 31.2.2º da LECiv, é desnecessária a presença do causídico, o que se considera bastante discutível40. Ortells Ramos e Bellido Penadés dão um passo além da legislação e entendem “además [...], en virtud de un Elemental criterio hermenéutico, tampoco parece que sea necesaria la intervención de aquellos profesionales en el procedimento cuando no lo sea el proceso principal que se persigue preparar”41. Em todo caso, nos parece mais acertado coadunar com os defensores da presença e intervenção dos advogados nos casos em que não exista a urgência da medida. Ato contínuo, apresentado o requerimento, o julgador encontra-se diante de duas opções, ambas regulamentadas pelo art. 258 da LECiv, devendo decidir entre estas, no prazo legal de cinco dias. Em primeiro lugar, entendendo ausentes os requisitos para seu processamento, decidirá no sentido de denegar seguimento às diligências, cabendo o recurso de Apelação (art. 258.2 da LECiv) contra essa decisão. Por outro lado, verificada a presença da justa causa e legítimo interesse, depois de fixar caução (art. 262 da LECiv), o magistrado ordenará, em decisão irrecorrível, a prática da diligência, com a consequente citação do solicitado. Depois de regularmente citada, a pessoa requerida pode se encontrar diante de três cenários distintos a guiar seu comportamento no procedimento. Num primeiro momento, poderá o solicitado se opor à prática das diligências, devendo, A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 10 para tanto, em até cinco dias depois de receber a citação, manifestar-se em juízo. Posteriormente ao envio de tal oposição ao solicitante, este disporá igualmente do prazo de cinco dias para impugnar a oposição, devendo, em seguida, decidir o tribunal sobre a oposição ora interposta. Considerada fundamentada a oposição, decidirá pelo fim do procedimento, em decisão apelável, conforme art. 260.4 da LECiv. Caso contrário, considerada sua injustificativa, dará prosseguimento à realização das diligências solicitadas, com a condenação do opoente (solicitado) ao pagamento das custas que o incidente porventura tenha causado. O segundo comportamento do solicitado é o de se negar a realizar as diligências, o que é digno de elogio por parte da doutrina, inclusive entendendo como uma das inovações mais acertadas. Diante da deficiente regulação anterior, a atual regulamentação “autoriza al tribunal para que adopte las medidas necesarias para obtener coactivamente la información solicitada, y para que ésta pueda utilizarse o surtir eficácia en el proceso posterior”42. Entre as medidas que o tribunal pode adotar,encontram-se as relativas ao procedimento referente à determinação de capacidade, legitimidade e representação. Neste, caso o fato seja pelo demandado admitido, não poderá no processo posterior negá-lo. Se, todavia, este negar o fato em sede de diligências, tal negação não produzirá efeitos vinculantes, podendo assim ser futuramente demandado, e aí se verificará sua capacidade em ser parte, representante ou legitimado. Contudo, caso este regularmente citado não compareça, ou comparecendo, conteste de forma incompleta ou evasiva, conforme art. 261.1 da LECiv, podem ser considerados como respondidos positivamente os questionamentos do solicitante acerca da declaração de fatos relativos à capacidade, legitimação e representação processual, a serem admitidos em processo posterior. Aparentemente, portanto, a LECiv nos leva a crer que adota nesse ponto a ficta confessio, o que no entender de Lorca Navarrete e parcela da doutrina espanhola não é a técnica mais correta, uma vez “la negativa a declarar sobre hechos relativos a la capacidad, representación o legitimación no provoca la ficta confessio”43. Esse, aliás, é assunto de grande debate sobre o qual não há posição pacífica44. Não obstante, podem ser ordenados a entrada, o registro e a apreensão dos documentos, títulos e coisas móveis45 solicitados, caso existam indícios suficientes de que possam ser considerados em determinado local, colocando-os à disposição do solicitante na sede do tribunal (art. 261.2 e 3 da LECiv)46. Caso se trate de documentos contábeis, poderão ser tidas como certas as contas e dados apresentados pelo solicitante, como determina o art. 261.4 da LECiv, para efeitos de um processo posterior. Ademais, se se tratar de medidas que visem identificar uma coletividade de pessoas (interesses coletivos), o tribunal poderá decretar medidas de intervenção necessárias para que se proceda à identificação destas pessoas, inclusive com acesso aos documentos e registros, sem prejuízo de vir o solicitado estorvador a responder penalmente por desobediência à autoridade judicial (art. 261.5). Nesses pontos, a LECiv também não é imune a críticas, mesmo havendo o Tribunal Constitucional Espanhol apontado em sentido contrário, continuando em sede doutrinária seu apontamento de “inconstitucionalidad por ausencia de proporcionalidad”47, por beirar a A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 11 intimidação e a chantagem profissional. No entanto, o solicitado poderá adotar um terceiro comportamento, efetivando a diligência preliminar requerida. Nesse caso, possuirá o prazo de dez dias para praticá-los, conforme prevê o art. 259.1 da LECiv, podendo ocorrer seja de forma física, seja de forma digital na sede do juízo ou em outro local convencionado. De se destacar que a (in)eficácia da medida como mecanismo capaz de efetivamente preparar um processo civil vem sendo discutida fortemente na academia processual internacional, sob o argumento de que “elas não apresentam efetividade para constituírem uma relação jurídica isenta das incertezas que pretendem solucionar através deste procedimento pré-processual”48 e inclusive podendo se converter em “ônus para os Tribunais, podendo gerar possíveis morosidades e desdobramentos dispensáveis no âmbito da produção da justiça”49. 2.5.Caução No que toca à caução prestada, prevê o art. 262 da LECiv que, cumpridas as diligências preliminares ou denegadas justificadamente por oposição do solicitado, no prazo de cinco dias, o tribunal decidirá sobre sua destinação, conforme petição de indenização e justificação de gastos que deverá apresentar o solicitado, da qual se concederá vista ao solicitado, observando, assim, o contraditório. Aplicada então a caução e ressarcido o solicitado das despesas em que incorreu, “el sobrante no se devolverá al solicitante hasta que transcurra el plazo de un mes desde la terminación de las diligencias, pues lo perderá si no presenta demanda en dicho plazo, sin que exista justificación suficiente”50, com fulcro no art. 256.3 da LECiv. Nesses termos, em que pese a norma processual espanhola não preveja a necessidade, tampouco prazo para o ajuizamento da demanda principal (no caso de as diligências preliminares não possuírem caráter satisfativo), havendo a determinação uma caução, pode-se observar que, nos termos do supramencionado artigo, existe um prazo impróprio de um mês, que, se não for respeitado e sem justificativa para tanto, incorrerá apenas na impossibilidade de levantamento do valor excedente. 3.Pretrial discovery e pre-action protocols Depois de tratarmos de dois modelos de tradição romano-germânica, é interessante tecermos algumas breves considerações acerca dos modelos anglo-saxônicos, em especial, o norte-americano e o inglês, principalmente por causa do fato de nestes haver uma maior convergência entre as atividades de elucidação das questões controvertidas e também das atividades coletoras de informações e materiais potencialmente úteis para a definição da controvérsia51. Nos Estados Unidos, tendo em vista uma transparência melhor na atuação de ambos os litigantes e diminuindo, por consequência, tanto as surpresas quanto as possibilidades de uma “emboscada” no decorrer do processo, a pretrial discovery corresponde a uma fase de conhecimento preventivo das questões de natureza puramente probatória52, com o objetivo de difusão das provas existentes a fim de que as partes tomem decisões com o máximo de informações possíveis, mas igualmente com o fito de aperfeiçoar o processo A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 12 judicial. Por meio de sua correta utilização, busca-se eliminar o fato de que, por vezes, a justiça da decisão é negada àqueles que agem honestamente, mas sem o completo conhecimento dos fatos relevantes53. Não obstante, é de se ressaltar que, para reforçar essa fase inicial e, principalmente, a integridade do instituto mediante sua utilização e fiel cumprimento, em princípio, nenhuma prova pode ser produzida no trial, a menos que tenha havido sua antecipação nesse momento do pretrial54. Das primeiras regulamentações acerca da matéria em nível de common law, a Federal Rule 26 impõe aos litigantes (e pretensos litigantes) um amplo dever de boa-fé processual consubstanciado no duty to disclose dos fatos e documentos que estão em sua posse, desde que não acobertado por alguma das exceções previstas em lei (por exemplo, o attorney-client privilegie). Em princípio, tal divulgação pode ocorrer de forma escrita por meio das requests for admission (Federal Rule 36), na qual uma parte requer à outra que admita como verdadeiras algumas das alegações que possui, para não ter a necessidade de produzir judicialmente a prova, evitando desgastes e minimizando riscos para ambos os lados; ou mesmo de forma oral, valendo-se tanto dos interrogatories (Federal Rule 33), os quais correspondem às perguntas feitas diretamente de uma parte à outra sobre pontos específicos da questão litigiosa, como das requests for production of documents (Federal Rule 34), pela qual uma parte requer à outra documentos que eventualmente possua e que possam ser utilizados no decorrer do debate judicial. O processo inglês, por sua vez, por meio das Civil Procedure Rules, utiliza-se desde 1999 da construção do Lord Woolf denominada pre-action protocols. Estes representam acordos entre as partes de forma prévia ao início de uma contenda judicial, os quais devem ser obedecidos pelos litigantes, e por meio de que um sujeito fornece ao seu ex adverso informações, documentos e ainda a possibilidade de inspecionar determinadas instalações55. Com os objetivos de focar a atenção dos litigantesna resolução da disputa para que se evite a litigância judicial, habilitar as partes a possuírem as informações de que necessitam para realizar ofertas apropriadas e eventualmente chegar a um acordo, ou pelo menos estabelecer uma base para que o processo judicial possa caminhar de forma facilitada, Lord Woolf entende que a abordagem pretendida com o instituto é a de que “disputes should, wherever possible, be resolved without litigation”, e “where litigation is unavoidable, it should be conducted with a view encouraging settlement at the earliest appropriate stage”56. Vê-se, portanto, que em que pese possuir o condão de eventualmente servir para a construção de bases mais sólidas para o ajuizamento de um processo posterior, na Inglaterra, o objetivo precípuo é propriamente o de se evitar que as demandas cheguem ao Judiciário a partir de transações extraprocessuais ou utilizando-se dos meios alternativos à judicatura. Conclusões Diante de toda a argumentação que precede, percebe-se existir uma tendência nos A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 13 ordenamentos jurídicos processuais no sentido de uma coordenação entre o judicial management com uma cooperação qualificada que inclui as partes e seus advogados, no sentido de buscar sempre soluções antecipadas da controvérsia e adotar uma lógica de “incisiva programación”57 das atividades do processo. Realizando uma comparação entre os objetivos que levaram à criação de cada um dos institutos mencionados, no âmbito da civil law, estes estão muito mais ligados à uma ideia de preparação de um processo judicial posterior, seja no âmbito da organização deste, seja na asseguração da prova. Entre estes, ressaltam-se a importância maior atribuída à asseguração da prova no ordenamento brasileiro e a preocupação com a organização e a configuração do processo no procedimento espanhol. No âmbito do common law, em que pesem os resultados (a constituição e a divulgação das provas) serem semelhantes aos de civil law, estes são encarados como molas propulsoras para um aumento na atividade negocial entre as partes, com o fito de se chegar a uma autocomposição, a qual pode se operar judicial ou extrajudicialmente. Um dos possíveis fatores para que cada sistema encare esses institutos com objetivos próximos de forma desigual pode ser atribuído, ainda, ao fato de toda essa atividade pré-processual se derivar de um acordo extraprocessual sem a invocação direta do Judiciário no caso do pretrial discovery e dos pre-action protocols, e o contrário ocorrer com a produção antecipada de provas e as diligencias preliminares, os quais em certa medida necessitam da judicatura como meio de coerção para que possam ser efetivadas as medidas probatórias, sendo irrelevante, portanto, a necessidade ou a desnecessidade da constituição de advogados para o início da causa. Em descompasso com os modelos apresentados, observamos no sistema espanhol a existência do pagamento de uma caução a fim de custear os gastos que a produção da prova pode acarretar à parte que deverá produzi-la, o que não ocorre no âmbito dos institutos de common law, em razão da natureza mais negocial, e igualmente não ocorre no Brasil. Ao mesmo tempo que é salutar sua não existência em terras tupiniquins, tal fato ocorre pois por aqui se trata de uma derivação lógica do fato de o requerente ser aquele responsável pelo custeio de todas as despesas inerentes ao processo. Independentemente da doutrina observada e do instituto escolhido, percebemos um vasto campo de aplicação prática, de modo que todas as provas que possam ser licitamente produzidas podem ser objeto das medidas analisadas. Pode-se perceber, ainda, a inexistência no modelo brasileiro da produção antecipada de um sistema de ficta confessio, que é tão criticado por sua inconstitucionalidade no modelo espanhol, o qual ocorre nos caso de recusa da parte requerida em colaborar na produção da prova, e do pagamento de um valor como caução, tornando mais facilitado seu manejo, sendo talvez este o ponto no qual o legislador brasileiro tenha andado melhor. Já foi dito que não existem preconceitos jurídicos no Brasil, uma vez que “busca-se inspiração nos mais variados modelos estrangeiros, indistintamente”58. Assim, mediante uma visão global de todos os institutos analisados, pode-se observar ser uma tendência global no sentido de se conseguir um maior amadurecimento da questão tanto para que chegue às mãos do juiz como para que as próprias partes possam estar em melhores A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 14 condições de realizar uma negociação mais proveitosa e frutífera. Não se pode mais cogitar um sistema processual que somente regulamente e privilegie a produção e asseguração da prova no decorrer do processo principal. Cada vez mais reforça-se o direito às partes à informação completa e à prova, seja por meio de uma intervenção judicial ou por um processo negociado, o que permite uma maior qualidade na obtenção de uma solução justa para possíveis conflitos de interesses. Bibliografia ÁLVAREZ ALARCÓN, Arturo. Las Diligencias Preliminares en el Proceso Civil. Barcelona: Jose María Bosch Editor, 1997. ANSANELLI, Vincenzo. Cuestiones Preliminares y Tratamiento de las Controversias Civiles. In: DONDI, Angelo; ANSANELLI, Vincenzo; COMOGLIO, Paolo. Procesos Civiles en Evolución: Una Perspectiva Comparada. Trad. José Maria Salgado. Madrid: Marcial Pons, 2017. BENEDUZI, Renato Resende. Substantiierung, Notice-Pleading e Fact-Pleading – A Relação entre Escopo das Postulações e Função da Prova nos Processos Alemão, Americano e Inglês. In: Revista de Processo, São Paulo, v. 245, p. 445-472, 2015. Brazil, Wayne D. The Adversary Character of Civil Discovery: A Critique and Proposals for Change. 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JusPodivm, 2018. v. 1 – Introdução ao Direito Processual Civil, Parte Geral e Processo de Conhecimento. DIDIER JR., Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso deDireito Processual Civil. 13. ed. Salvador. JusPodivm, 2018. v. 2 – Teoria da prova, direito probatório, decisão, precedente, coisa julgada e tutela provisória GRECO, Leonardo. Jurisdição Voluntária Moderna. São Paulo: Dialética, 2003. JOLOWICZ, J. A. On Civil Procedure. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. LLORENTE CABRELLES, Luis-Ramon. Las Diligencias Preliminares en el Proceso Civil. 2014. Tesis Doctoral. Universidad de Valencia – Facultad de Derecho, Valencia, 2014. LORCA NAVARRETE. Artículo 261. In: APARICIO AUÑÓN, Eusebio et al Comentarios a la Nueva Ley de Enjuiciamiento Civil. 2. ed. Madrid: Lex Nova. 2000. t. II. Marinoni, Luiz Guilherme; Arenhart, Sérgio Cruz; Mitidiero, Daniel. Novo Código de Processo Civil (LGL\2015\1656) Comentado. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Ed. 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Breves Comentários ao Novo Código de Processo Civil (LGL\2015\1656). 2ª ed. rev. e atual. São Paulo: Ed. RT, 2016. 1 Sobre o conceito clássico, bem como o desenvolvimento do tema da “função social do processo”, ver CARRATA, Antonio. “La Funzione Sociale” del Processo Civile, fra XX e XXI Secolo. In: Rivista Trimestrale de Diritto e Procedura Civile, Milano, n. 2, p. 579-614, giugno 2017. 2 RODRIGUES, Marco Antonio dos Santos. A Modificação do Pedido e da Causa de Pedir no Processo Civil. Rio de Janeiro: GZ, 2014. p. 130. 3 Sobre como a cultura influencia os métodos de solução de conflitos, confira-se: CHASE, Oscar G. Direito, cultura e ritual: sistemas de resolução de conflitos no contexto da cultura comparada. Trad. Sérgio Arenhart e Gustavo Osna. São Paulo: Marcial Pons, 2014. 4 Analisando criticamente a utilização do Poder Judiciário enquanto meio principal para a solução dos conflitos, MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Acesso à justiça – Condicionantes legítimas e ilegítimas. 2. ed. São Paulo. Ed. RT, 2015. 5 Segundo Taruffo, somente si puó affermare che una decisione è giusta in senso próprio se è giusta sulla base di tutti e tre i criteri, os quais correspondem à correta escolha e interpretação das regras jurídicas aplicáveis, uma averiguação verdadeira dos fatos relevantes da causa e um procedimento justo. (TARUFFO, Michele. Idee per uma teoria della decisione giusta In: Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile, Milano, anno LI, n. 2, p. 320-321, giugno 1997.) 6 RODRIGUES, Marco Antonio dos Santos. Op. cit., 2014, p. 124. 7 TARUFFO, Michele. L’Insegnamento Accademico del Diritto Processuale Civile. In: Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile, Milano, anno L, n. 2, p. 555, giugno 1996. 8 Nesse mesmo sentido, Talamini reafirma o mesmo entendimento de caber às partes o direito, em determinados momentos, “à produção ou à aferição da veracidade da prova, antes e independentemente do processo”. (TALAMINI, Eduardo. Produção Antecipada de Prova no Código de Processo Civil de 2015. In: Revista de Processo, São Paulo, v. 260, p. 77, 2016.) 9 Conforme pontuou Yarshell, um dos precursores do tema no país: “[...] a inovação [...] A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 17 permite que as partes possam obter elementos que norteiem uma avaliação sobre as chances de êxito em um dado processo. Assim, os elementos colhidos antecipadamente podem e devem servir de ferramenta para a obtenção de soluções não adjudicadas de conflitos. Isso há de gerar maior responsabilidade dos advogados na orientação de seus constituintes. Será justo esperar do sistema, na medida em que se abre à antecipação da prova com maior largueza, maior rigor no julgamento do mérito desfavorável a quem insiste em pretensão desvinculada da evidência resultante do material colhido de forma antecipada.” (YARSHELL, Flávio Luiz. Antecipação da Prova sem o Requisito da Urgência: Presente e Futuro. In: ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa et al. O Processo em Perspectiva: Jornadas Brasileiras de Direito Processual – Homenagem a José Carlos Barbosa Moreira. São Paulo: Ed. RT, 2013. p. 165-172, esp. p. 170.) 10 “O art. 5º, XXXV, da Constituição Federal, estatui que ‘a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito’, texto este que foi referendado pelo NCPC no caput de seu artigo 3º. Por meio da atividade interpretativa, a garantia de acesso ao Poder Judiciário passando a compreender não só o acesso aos órgãos jurisdicionais, mas também a adequação prestação jurisdicional e a da efetividade da tutela. Passa-se a referir, pois, a um direito fundamental à tutela jurisdicional efetiva. Para que tal direito fundamental seja exercido de modo pleno é necessária a garantia à instrução adequada da causa, a qual passa, necessariamente, pelo direito à prova. Assim, tem-se que a prestação da tutela jurisdicional efetiva pressupõe o correto acertamento dos fatos sobre os quais irá pronunciar-se o juiz, razão pela qual resta evidenciado que o direito à prova é corolário do direito fundamental à tutela jurisdicional efetiva, elevando-se, igualmente à condição de direito fundamental, repousando, assim, sua legitimidade no modelo constitucional de processo eleito pela CF de 1988.” (CALDAS, Adriano; JOBIM, Marco Félix. A produção antecipada de prova e o novo CPC. In: DIDIER JR, Fredie et al. Grandes temas do Novo CPC: Direito Probatório. Salvador: JusPodivm, 2016. p. 541-556.) 11 Consoante Theodoro Jr., “no curso da ação principal, a coleta antecipada de elemento de convicção é fruto de simples deliberação do juiz da causa, que importa apenas inversão de atos processuais e que integra a própria atividade instrutória do processo”. (THEODORO JR., Humberto. Curso deDireito Processual Civil. 59. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. v. I, p. 963.) 12 Em que pese parecer, à primeira vista, contraditória e de pouca aplicação prática, a produção antecipada pode ser justificada pela morosidade característica da realidade forense brasileira. Ao se cogitar um processo repleto de especificidades, e com uma quantidade considerável de provas a serem produzidas, a produção antecipada de provas pode ter o objetivo de agilizar o trâmite processual principal. É esse o caso, por exemplo, da oitiva de testemunha que esteja fora do juízo em que se encontra o processo. Nesse cenário, aguardar a determinação e a comunicação do juízo competente para realizar a produção da prova pode ser muito mais demorado que se ajuizar o pedido de produção diretamente ao juízo competente para realizar a diligência e, posteriormente, apresentar a prova produzida diretamente no juízo responsável por sua valoração. 13 DIDIER JR., Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de Direito Processual Civil. 13. ed. Salvador. JusPodivm, 2018. v. 2 – Teoria da prova, direito A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 18 probatório, decisão, precedente, coisa julgada e tutela provisória, p. 160-161. 14 GRECO, Leonardo. Jurisdição Voluntária Moderna. São Paulo: Dialética, 2003. p. 28. 15 Nesse sentido, expõem Marinoni, Arenhart e Mitidiero não ter o objetivo de produzir desde logo a prova “[...] Embora o Código de Processo Civil aluda à ‘produção antecipada de provas’, certo é que por esta via apenas se assegura a possibilidade de futuramente produzir prova. A asseguração de prova consiste em documentação de alegações de fato. E para a memória da coisa – ad perpetuam rei memoriam. Não há produção, mesmo porque sequer se sabe se o processo (em que a prova efetivamente será produzida) existirá, sequer cabendo ao juiz, neste procedimento, valorar a prova colhida”. (Marinoni, Luiz Guilherme; Arenhart, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Código de Processo Civil Comentado. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Ed. RT, 2017. p. 495.) 16 Cfr. DIDIER JUNIOR, Fredie; BRAGA, Paula Sarno. Ações Probatórias Autônomas: Produção Antecipada de Prova e Justificação In: Revista de Processo, São Paulo, v. 218, p. 13, abr. 2013. 17 Segundo Yarshell, “quanto melhor o interessado conhecer dados relativos à controvérsia, maior será a chance de propor uma demanda bem instruída; de deixar de fazê-lo; ou, de transigir”. (YARSHELL, Flávio Luiz. Comentário aos Arts. 381 a 383 do CPC/15. In: ARRUDA ALVIM Wambier, Teresa; Didier Jr., Fredie; Talamini, Eduardo; Dantas, Bruno. Breves Comentários ao Novo Código de Processo Civil. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Ed. RT, 2016.) 18 Súmula 154 do STF: “Simples vistoria não interrompe a prescrição.” 19 Marinoni, Luiz Guilherme; Arenhart, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Op. cit., p. 497. 20 Idem, ibidem, p. 496. 21 Idem, ibidem, p. 499. 22 Neste cenário, em que pese possibilidade legal, melhor doutrina é no sentido de ser mais conveniente que “o juízo da asseguração de prova seja o juízo em que a prova será eventualmente produzida e valorada, mormente se ainda pendente a asseguração de provas no momento da propositura da ação em que a prova assegurada será eventualmente produzida”. (Marinoni, Luiz Guilherme; Arenhart, Sérgio Cruz; Mitidiero, Daniel. Op. cit., p. 496). 23 DIDIER JR. et al. Op. cit., 2018, p. 170. 24 Nesse sentido, THEODORO JR., Humberto. Processo Cautelar. 22. ed. São Paulo: LEUD, 2005. p. 322. 25 Fredie Didier Jr. pondera que “[q]uanto ao recurso, cabe um esclarecimento. Se a decisão rejeitar totalmente a produção da prova, o caso é de sentença apelável – daí a A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 19 expressa previsão legal. Se, porém, o requerente cumular pedidos – produção de mais de uma prova – e o juiz não admitir, por decisão interlocutória, a produção de apenas uma delas, o caso é de agravo de instrumento – está-se diante de uma decisão interlocutória de mérito (art. 1.015, II, CPC)”. (DIDIER JR., Fredie. Produção Antecipada de Prova. In: DIDIER JR., Fredie et al. Grandes Temas do novo CPC: Direito Probatório. 2. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. p. 594.) 26 Tendo em vista o escopo do presente trabalho, abordaremos somente o regime geral das diligências preliminares, assim como previsto na Ley de Enjuiciamiento Civil. 27 Capilla Casco afirma que “las diligencias preliminares pueden definirse como las actuaciones previas al proceso cuya realización puede solicitarse a los tribunales para auxiliarles en su preparación, facilitándoles datos necesarios a los efectos de decidir presentar o no una demanda, o de decidir frente a quien debe dirigirse la demanda”. (CAPILLA CASCO, Agustín. Diligencias Preliminares y Medidas de Anticipación y Aseguramiento de Prueba In: Actualidad Jurídica (Úria & Menéndez), n. 12, p. 92, diciembre 2005.) Ortells Ramos e Bellido Penadés, a seu tempo, acrescentam que seriam “actividades previas al proceso mediante las que el futuro demandante solicita la intervención que necesita para preparar el posterior proceso que se pretende iniciar”. (ORTELLS RAMOS, Manuel; BELLIDO PENADÉS, Rafael. La Preparación del Proceso Civil: Las Diligencias Preliminares. In: ORTELLS RAMOS, Manuel (Dir.). Derecho Procesal Civil. Thomson Reuters Aranzadi, 2012. p. 305.) 28 Damián Moreno a seu turno afirma que “las diligencias preliminares constituyen una facultad atribuida exclusivamente a quien se proponga demandar con el objeto de obtener los datos necesarios para facilita un proceso posterior, condicionar su existencia o, en su caso, asegurar la eficacia de la sentencia que en su dia haya de dictarse. És más, a veces la oportunidad de incoar un determinado proceso depende de su resultado. Eso quiere decir que estas diligencias no sirven sólo para preparar propiamente el juicio sino que en algunos casos tienen otras finalidades, incluida la cautelar cuando lo que se trata es de asegurar lo que sea objeto del mismo”. (Damián Moreno, Juan. Capítulo II – De las Diligencias Preliminares. In: APARICIO AUÑÓN, Eusebio et. al. Comentarios a la Nueva Ley de Enjuiciamiento Civil. 2. ed. Madrid: Lex Nova, 2000. t. II, p. 1680-1702, esp. p. 1681-1682. 29 Este é o entendimento de Álvarez Alarcón, que afirma que “las diligencias preliminares han sido concebidas con el fin de que el actor obtenga los datos necesarios para entablar correctamente el proceso, relativos a la determinación ya de la legitimación activa o pasiva, ya del juez competente, ya del procedimiento adecuado”. (ALVAREZ ALARCÓN, Arturo. Las Diligencias Preliminares en el Proceso Civil. Barcelona: Jose Maria Bosch Editor, 1997. p. 37-38.) 30 Estudo mais aprofundado sobre a natureza jurídica do instituto, inclusive com análise da jurisprudência espanhola pode ser encontrado em BRAUN, Tiele Espanhol. Atividades Preparatórias de Uma Ação Civil: Análise Crítica das Diligências Preliminares da Ley de Enjuiciamiento Civil. 2018. Dissertação (Mestrado em Ciências Jurídico-Civilísticas: Menção em Direito Processual Civil) – Universidade de Coimbra, Coimbra, 2018. A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 20 31 MONTERO AROCA, Juan et al. El Nuevo Proceso Civil (Ley 1/2000). Valencia: Tirant lo Blanch, 2000. p. 224-225. 32 Montero Aroca afirma que nesse cenário “el resultado de la diligencia no surtía efecto alguno en el proceso posterior, en el que el demandado no quedaba vinculadopor aquél”. (MONTERO AROCA, Juan et al. El Nuevo Proceso Civil (Ley 1/2000). Valencia: Tirant lo Blanch, 2000. p. 225.) 33 Trata-se de ponto controvertido na doutrina espanhola, sobre o qual não nos aprofundaremos no presente estudo, a produção de coisa julgada no âmbito das diligências preliminares uma vez não haver um aprofundamento no litígio em si por meio de um contraditório pleno, mas antes um contraditório mínimo suficientemente necessário para a prova ser considerada como licitamente produzida. 34 Cfr. ÁLVAREZ ALARCÓN, Arturo. Op. cit., p. 50. 35 Idem, ibidem, p. 51. 36 Cfr. LLORENTE CABRELLES, Luis-Ramon. Las Diligencias Preliminares en el Proceso Civil. 2014. Tesis Doctoral. Universidad de Valencia. Facultad de Derecho, Valencia, 2014. 37 MONTERO AROCA, Juan et al. Op. cit., p. 225. 38 Cfr. Damián Moreno, Juan. Op. cit., p. 1682. 39 ORTELLS RAMOS, Manuel; BELLIDO PENADÉS, Rafael. Op. cit., p. 307. 40 Damián Moreno entende no sentido de que “Otro de los problemas reside en saber si las diligencias preliminares requieren la intervención de abogado y de procurador. Los preceptos que regulan esta materia no establecen nada al respecto, y salvo que las catalogue como medidas urgentes (artículos 23.2 y 31.2), lo cual es bastante discutible, las partes deberán comparecer por medio de abogado y procurador lo que no es muy razonable sobre todo teniendo en cuenta que el requerido puede ser condenado en costas (artículo 260.2)”. (Damián Moreno, Juan. Op. cit., p. 1687.) 41 ORTELLS RAMOS, Manuel; BELLIDO PENADÉS, Rafael. Op. cit., p. 307. 42 Idem, ibidem, p. 308. 43 LORCA NAVARRETE. Artículo 261. In: APARICIO AUÑÓN, Eusebio et al. Comentarios a la Nueva Ley de Enjuiciamiento Civil. 2. ed. Madrid: Lex Nova. 2000. t. II, p. 1695. 44 Sobre a discussão, Lorca Navarrete aduz “En definitiva ¿cómo és posible que sin que exista ficta confessio se puedan considerar admitidos los hechos correspondientes (a la capacidad, representación o legitimación) a los efectos del juicio (proceso declarativo)? Ciertamente la LEC merece el suspenso más rotundo en cuanto a la técnica procesal que A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 21 adopta. El compadecimiento del que se hace acreedora la LEC sólo sería evanescente si, al tiempo que se excluyó la ficta confessio del PLEC mediante la enmienda número 1188 del grupo parlamentario de CiU, se hubiera excluido se consecuencia más directa consistente en la admisión de hechos, que según el dictado del artículo 261.1ª de la LEC sólo tendría lugar (la admisión de hechos) cuando se tengan por respondidas (ficta confessio) por el juez de primera instancia las preguntas que el solicitante de la diligencia preliminar pretenda formular. Por tanto, según el dictado del artículo 261.1ª de la LEC existirá siempre admisión de hechos a los efectos del proceso declarativo posterior (artículo 261.1ª de la LEC ‘in fine’) aun cuando no exista ‘ficta confessio’. Pero esta opción sólo conduce al absurdo de la técnica procesal quizá debido a que el dictado del artículo 261.1ª de la LEC sea el resultado de lo absurdo.” (LORCA NAVARRETE. Op. cit., p. 1697.) 45 Utilizamos a determinação de coisas móveis, pois, conforme Montero Aroca, “No se dice en el art. 256.1.2º, que la cosa haya de ser mueble, pero así se desprende del art. 261.3ª, aparte de que sólo se exhiben las cosas muebles, que son las únicas que se ‘presentan’ y se ‘depositan’”. (MONTERO AROCA, Juan et al. Op. cit., p. 227.) 46 No que diz respeito a essa medida, importante assinalar a observação realizada por Ortells Ramos e Bellido Penadés (2012, p. 309), segundo os quais “No obstante, pese la ubicación sistemática de esta medida, ésta no constituye una verdadera diligencia preliminar, sino que presenta naturaleza de medida cautelar, razón pela cual su adopción requerirá que concurran los presupuestos establecidos en la LECiv para decretar esa clase de medidas”. (ORTELLS RAMOS, Manuel. Op. cit., p. 307.) 47 LORCA NAVARRETE. Op. cit., p. 1699. 48 BRAUN, Tiele Espanhol. Op. cit., p. 95. 49 BRAUN, Tiele Espanhol. Idem, p. 96. 50 ORTELLS RAMOS, Manuel. Op. cit.. p. 310. 51 Segundo Vincenzo Ansanelli, “Esta unión funcional, está ausente en los ordenamientos de civil law, donde la actividad de dilucidación o de recolección del material cognitivo detenta matices más o menos rígidos”. (ANSANELLI, Vincenzo. Cuestiones Preliminares y Tratamiento de las Controversias Civiles. In: DONDI, Angelo; ANSANELLI, Vincenzo; COMOGLIO, Paolo. Procesos Civiles en Evolución: Una Perspectiva Comparada. Trad. José Maria Salgado. Madrid: Marcial Pons, 2017. p. 147.) 52 Nesse sentido, Ansanelli pontua “se puede decir que la fuerza cognoscitiva del pretrial logra invalidar la utilidad del trial y se sustancia en un conocimiento preventivo de las cuestiones de naturaleza puramente probatoria tradicionalmente objeto de comprobación durante el debate”. (ANSANELLI, Vincenzo. Op. cit., p. 148.) 53 Nesse sentido, BUA, Nicholas J. Thoughts on Pretrial Discovery. In: The John Marshall Journal of Practice and Procedure, v. 3, n. 202, p. 203, 1970. Por sua vez, Wayne D. Brazil acrescenta que “[…] The purposes that modern civil discovery is designed to accomplish A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 22 are crucial to a system of dispute resolution committed to justice. In its seminal opinion about the scope of discovery, the United States Supreme Court declared that “[m]utual knowledge of all the relevant facts gathered by both parties is essential to proper litigation”.”’8 Discovery is designed to serve as the principal mechanism by which such “[m]utual knowledge of all the relevant facts” will be achieved.' As the Supreme Court of Illinois forthrightly stated, the overriding purpose of discovery is nothing less than to promote "the ascertainment of the truth and ultimate disposition of the lawsuit in accordance therewith […]”. Six years earlier Judge Irving R. Kaufman had articulated this same view in noting that “[t]he federal rules are designed to find the truth and to prepare for the disposition of the case in favor of the party who is justly deserving of a judgment”. (Brazil, Wayne D. The Adversary Character of Civil Discovery: A Critique and Proposals for Change. In: Vanderbilt Law Review, v. 31, p. 1298, 1978.) 54 Nessa toada, BENEDUZI, Renato Resende. Substantiierung, Notice-Pleading e Fact-Leasing – A Relação entre Escopo das Postulações e Função da Prova nos Processos Alemão, Americano e Inglês. In: Revista de Processo, São Paulo, v. 245, p. 445-472, 2015. Por sua vez, Jolowicz acrescenta que “In both England and the United States discovery became part of the procedure of the single court of combined jurisdiction in both law and equity, but in the United States both the role and the scope of discovery became much greater than in England. This is at least in part related to the decline in the importance of pleadings: as Morgan pointed out, the general pleading allowed by the Federal Rules would be unworkable without adequate discovery. It is, however, also due to other causes, foremost among which the following may be mentioned: the idea that each party should go to trial knowing, so far as possible, the evidence which his opponent will present; the idea that full interlocutory disclosure of evidence will eliminate unreal issues and, by revealing, in a way that pleadings cannot, the actual strengths and weaknesses of each party’s case, will encourage settlements; the idea that the risk of either party being taken by surprise at the trial should so faras possible be eliminated; and the idea that, to secure a just result at the trial, each party should be able to make use, both for attack and for defence, of any relevant information known to or perhaps only discoverable by the other”. (JOLOWICZ, J. A. On Civil Procedure. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. p. 41.) 55 Um estudo completo sobre os pre-action protocols pode ser encontrado em SILVEIRA, Susana Amaral. Acordos incentivados: uma contribuição britânica nos caminhos buscados pelo Judiciário brasileiro. 2010. Tese (Doutorado em Direito Processual) – Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010,. 56 Woolf, Lord. Access to Justice: Interim Report. Capítulo 19. 1995. Disponível em: [webarchive.nationalarchives.gov.uk/20060213223540/http://www.dca.gov.uk/civil/final /contents.htm]. Acesso em: 23.08.2018. 57 ANSANELLI, Vincenzo. Op. cit., p. 148. 58 DIDIER JR. Fredie. Curso de Direito Processual Civil. Vol. 1 – Introdução ao Direito Processual Civil, Parte Geral e Processo de Conhecimento. 20ª ed. Salvador. JusPodivm, 2018, p. 67. A preparação do processo civil: produção antecipada de provas, diligências preliminares, pretrial discovery e os pre-action protocols Página 23