Prévia do material em texto
•̂
•̂
•̂
A
.
.m
^m
W
co «p
«
s//. A
n
teced
en
tes, d
esen
vo
lvim
en
to
e extin
ção
d
e u
m
fen
ó
m
en
o
a
tlâ
n
tico
A
n
tó
n
io
V
a
sco
n
celo
s d
e S
a
ld
a
n
h
a
^
g
*
^
"̂
S
.
§
-S3
'
3
$
, p
•g
i
1-
5
K
•p\
f* fr..5'
c>
o
t^
O
5
"""*
1
ik
.
í h
/
[/ q
n•
û.
í'
É
"St -
G
*~
^
'
'"•f-
of
).r\
AS CAPITANIAS DO BRASIL
ANTECEDENTES, DESENVOLVIMENTO
E EXTINÇÃO DE UM FENÓMENO ATLÂNTICO
K*
ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA
AS CAPITANIAS DO BRASIL
ANTECEDENTES, DESENVOLVIMENTO
E EXTINÇÃO DE UM
FENÓMENO ATLÂNTICO
Prefácio de Frédéric Mauro
Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses
LISBOA 2001
C o l e c ç ã o O u t r a s M a r g e n s
Título: As capitanias do Brasil. Antecedentes, desenvolvimento
e extinção de um fenómeno atlântico
Autor: António Vasconcelos de Saldanha
© Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor
Revisão: Francisco Paiva Boléo
Capa: Fernando Felgueiras
Paginação: Jorge M. Belo
Fotolitos: Multitipo - Artes Gráficas, Lda.
Impressão e acabamento: Gráfica Maiadouro, S. A.
1.* edição: Centro de Estudos de História do Atlântico - 1992
1" edição: CNCDP - Fev. 2001
ISBN: 972-787-030-9
Depósito legal: 161 626/01
CNCDP - Catalogação na Fonte
SALDANHA, António Vasconcelos de, 1956-
As capitanias do Brasil: antecedentes, desenvolvimento e
extinção de um fenómeno atlântico / António Vasconcelos
de Saldanha. - Lisboa: Comissão Nacional para as
Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001.
- 469p; 24cm. - (Outras Margens). - ISBN-972-787-030-9
l - SALDANHA. António Vasconcelos At
N O T A P R É V I A
Dez anos passados sobre a redacção, oito sobre a edição original,
e no ano preciso em que se comemora o 5.° centenário da descoberta
do Brasil, quis a Comissão Nacional para as Comemorações dos Des-
cobrimentos Portugueses dar novamente à estampa a obra a que origi-
nalmente demos o título As Capitanias. O Regime Senhorial na Expansão
Ultramarina Portuguesa, editada em 1992 pelo Centro de Estudos de
História do Atlântico, na Madeira.
Sai agora a mesma obra - ainda que desprovida dos apêndices
originais - com o título As capitanias do Brasil. Antecedentes, desenvolvi-
mento e extinção de um fenómeno atlântico.
Aqui, como então, haverá a necessidade de formular algumas
advertências que permitam ao leitor uma melhor compreensão das
linhas que se irão seguir. De facto, este estudo - vinculado a um tema
de História do Direito Português -não pretende fazer de modo algum
a história das capitanias atlânticas, mas tão-somente proporcionar al-
gumas chaves de compreensão do processo de génese e desenvolvi-
mento de um quadro jurídico e político, quadro esse que permitiu à
administração portuguesa o que Paulo Merêa definiu muito justa-
mente como «uma inteligente e fecunda adaptação das doações de
bens da Coroa» à realidade e às necessidades da Expansão e estabele-
cimento dos portugueses nos territórios de África, do Brasil e das
Ilhas do Atlântico durante os séculos XV, xvi, xvii e XVIII. O autor con-
tinua hoje a ter a consciência plena de que - independentemente da
justeza e do rigor que pretendeu fazer imprimir às suas conclusões -
muito haverá que colher ainda da investigação de importantes fundos
documentais, não só do Arquivo Nacional mas também dos arquivos
madeirenses e açorianos, do que, porventura, restar dos brasileiros e,
quem sabe até, dos antigos territórios portugueses da África Ocidental.
Diremos também que não houve pejo em - segundo um critério
de rigorosa actualização - transcrever tantas vezes quanto foi consi-
derado necessário o registo documental que melhor fundasse a com-
N O T A P R É V I A
preensão dos pontos de questões sucessivamente tratadas. Aconse-
lhava-o o carácter de um estudo que não é nem pretende ser de di-
vulgação, mas, essencialmente, um instrumento de trabalho para os
investigadores da História e do antigo Direito português.
Cabe também aqui referir a grande dívida de gratidão que o au-
tor contraiu ao longo deste percurso. Recordamos a preciosa colabo-
ração tantas vezes recebida nas Bibliotecas e Arquivos do país, nas di-
ferentes fases de uma pesquisa muitas vezes árdua. A hombridade e
o rigor com que os ilustres Mestres das Universidades de Lisboa e de
Coimbra apreciaram esta obra enquanto dissertação apresentada à
Academia. A generosidade e o interesse com que o Centro de Estudos
de História do Atlântico, nas pessoas dos Senhores Professor Luís de
Albuquerque e Doutor Alberto Vieira, acolheram a primeira edição
deste estudo. O modo muito particular com que o Senhor Professor
Frédéric Mauro quis na altura honrar o autor desta obra, redigindo o
prefácio da mesma.
E porque de dívidas falamos, notemos uma outra, esta para com
a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos
Portugueses. Em primeiro lugar, porque - sendo Comissário-Geral o
Senhor Dr. Vasco Graça Moura - foi em 1993 esta mesma obra galar-
doada por essa Comissão com o Prémio Nacional «D. João de Castro».
Em segundo lugar, porque agora - sendo Comissário o Senhor Professor
Joaquim Romero Magalhães - quis a mesma Comissão continuar a
honrar o autor com o patrocínio desta reedição, cabendo um particular
agradecimento ao Vogal da mesma Comissão, Senhor Dr. João Paulo
Salvado, pelo empenho que a isso notoriamente dedicou.
Finalmente, em relação aos Senhores Professores Martim de Albu-
querque e Ruy de Albuquerque, da Faculdade de Direito de Lisboa,
depois de arguirem e orientarem esta obra como sempre arguiram e
orientaram o seu autor durante os anos que com eles teve o privilégio
de trabalhar - com rigor, com disciplina, com saber e com seriedade
- permanece a dívida de gratidão, e, consequentemente, a dedicató-
ria original deste estudo.
Lisboa, Outubro de 2000
Amónio Vasconcelos de Saldanha
P R E F Á C I O À l * E D I Ç Ã O
Je suis heureux de présenter ia une oeuvre qui, je l'espère, ne será pás
réservée au public portugais - lê portugais esí devenu Ia troisième langue
européenne parlée dans lê monde, après l'anglais et l'espagnol - et qui
touche à rhistoire dês pays atlantiques: Portugal et sés tles adjacentes, Bré-
sil mais aussi Afrique lusophone. Une histoire qui commence au tnoins en
•1440, date de Ia création de Ia première capitainerie-donation, si nous
négligeons lê problème dês antécédents et dês origines, et se termine en
i 770 si nous oublions Ia marque laissée par cette institution sur lê statut et
Ia vie d'un certain nombre d'États et de régions. Nous avons été trop obnu-
bilés par Ia période 1532-1548 ou fui installé lê système dês capitaineries
brésiliennes. Lê thème ici aborde esí, à juste titre, plus large: il s'agit de
prendre toute l'institution dans toute sã durée et dans toute son extension
géographíque. C'est au bénéfice de tout lê monde y compris dês «brésilia-
nistes» qui ainsi comprennent mieux une institution qui a tant marque rhis-
toire du Brésil.
Une institution, écrivons nous, mais est-ce seulement une institution?
Au-delà de Ia façade institutionnelle, du formalisme juridique, n'y a-t-il pás
une structure, une réalíté humaine, politique, administraúve, économique
vivante qu'il convient de mettre en valeur? Malgré lês avertissements de sés
historiens du droit, l'Ecole Historique Française, depuis Ia dernière guerre
mondiale, a peut-être trop méprisé cette «façade institutionnelle», par réac-
tion contre l'oubli que certains juristes avaíení commis à l' égard de cê que
cache Ia façade. Mais Ia façade ne cache pás forcément Ia structure et dans
l'architecture classique elle exprime mime cette structure et elle est en mime
une partie. H en est de même dans lê droit ou lron connait trop bien Ia résis-
tance dês structures juridiques et institutionnelles. Nous sommes arrivés
aujourd'hui à un juste equilibre, fruit du bon sens et d'une conception plus
globale et complete de l'histoire. Lê droit et l'institution, sans être toute l'his-
toire,en sont une dês profondeurs, qui ne peut être évacuée.
António de Saldanha nous montre bien, dês son introduction, 1'ampleur
du problème qu'il aborde. U comprend três bien, en juriste ouvert, qu'il faut
P R E F Á C I O À 1.' E D I Ç Ã O
préciser Vencadrement politique, économique et social du processus généra-
teur de l'institution et Ia façon dont a été appliqué lê droit existam lors de
cette création. De lá, Ia necessite «d'éplucher» lês sources juridiques qui
étaient applicables, cê qui permettait ensuite de mieux caraaériser lês
diverses composantes de l'instituiion. Dans quelle mesure lê droit nouveau
ainsi defini était-il appliqué dans Ia pratique? Voilà une question qui
montre que lês historiens du droit ne se contentem pás d'étudier Ia société
telle qu'elle aurait du être été en fait. Enfm notre auteur n'oublie pás l'ana-
lyse dês courants d'idées subjacents à Ia création, 1'application, Ia survi-
vance et l'extinction de cês institutions. Ce sont dês príncipes généraux
qu'António de Saldanha s'efforce de suivre en s'adaptant au sujet qu'il
traite.
L'ouvrage que nous avons devant lês yeux est une véritable «somme»
sur lê sujet. D'abord par l'ampleur de Ia documentation dont il est fait, au
début, un tableau magistral et dont certains éléments sont reproduits à Ia ftn
du volume*. Et nous ne parlons pás de Ia bibliographie três complete qui se
trouve en tête du même volume. De même un inventaire três complet est
donné de Ia discussion érudite - qui n'y a pás participe? - sur lê «féoda-
lisme» ou lê «capitalisme» dês capitaineries. Tout lê monde est d'accord
aujourd'hui pour affirmer que sous lês apparences juridiques et sémantiques
d'un regime féodal - à peu prês inexistant au Portugal même - se cache une
entreprise agro-commerciale capitaliste tournée vers lê marche international.
Par contre Saldanha rappelle que lê système «seigneurial» existait au Por-
tugal continental et qu'en fait c'est lui plutôt qui sen de modele à Ia consti-
tution dês capitaineries, qui sont dês donations de biens de Ia Couronne
régies par dês règles qui relêvent de cê système.
Nous ne pouvons descendre dans lê détaildes analyses, remarquables de
dane et de précision, faites par l'auteur sur Ia création, Ia transmission et l'ex-
tinction dês capitaineries, sur leur gouvemement, sur l'organisation, qui y est
prévue, de Ia justice. Notons ensuite Ia présence d'un imponant chapitre sur
Ia sesmaria, cette concession de terre faite au cólon, au nom du Rói, par lê ca-
pitaine donataire. Lê système durera jusqu'en 1822. II y ala un prolongement
du système seigneurial, lê titulaire de Ia sesmaria étant soumis à cenaines
obligations envers lê donataire et envers lê rói, en échange dês avantages qu'il
reçoit.
Dans lê chapitre consacré à Ia propriété et aux revenus dês capitaines-
donataires, António de Saldanha nous rappelle qu'à cote dês pouvoirs dont
il jouissait, lê titulaire de Ia capitainerie percevait dês revenus dont certains
provenaient du fait qu'il était par délégation du Rói, propriétaire de Ia capi-
' Na 1.* edição.
] O
P R E F Á C I O À 1.' E D I Ç Ã O
tainerie, dont Íl distribuait à son tour une panie dês terres sous forme de ses-
marias. Selon Ia règle de 1'Ancien Regime Ia souveraineté n'était pás nette-
ment séparée de Ia propriété et celle-ci était diffuse à travers Ia hiérarchie
seigneuriale contrairement à Ia propriété bourgeoise du Code Napoléon.
Lês deux derniers chapitres sont consacrés aux relations entre lê Pouvoir
Royal et lês Capitaines Donataires et au processus d'incorporation dês Ca-
pitaineries à Ia Couronne, processus qui devait, au xviu siêcle, en finir avec
l'institution même dês capitaines-donataires. Lê lecteur dévorera cês pages
à"histoire, d'une histoire riche et techniquement remarquable. Venons en à Ia
conclusion, ou plutôt aux six conclusions qui dans leur dépouillement et leur
netteté vérifient encore une fois Ia vigueur de l'analyse. En resume:
1) Lês capitaineries sont dês manifestations du regime seigneurial;
2) Lê contenu de cês capitaineries est entièrement forme par dês biens et
dês droits de Ia Couronne qui restent sujets au regime qui leur est propre-,
3) Lê recours de Ia Couronne à cette institutton s'explique par trois mo-
tifs: Ia recompense de services rendus, l'évangélisation, Ia colonisation de ter-
ritoires atlantiques inhospitaliers;
4) La confiance dans cê système a dure du début du XVe à Ia fin du
XVUe siède;
5) Cette longue durée peut se diviser en trois phases: celle ou l'institution
est un facteur déterminant de Ia colonisation; celle ou elle est une formule
d'administration locale; celle enfm ou elle n'est qu'un moyen de percevoir dês
revenus et de poner dês titres nobiliaires;
6) Toutes lês prérogatives exercées par lês Capitaines Donataires lê sont
par délégation du Rói et conformément aux orares du Rói qui garde toujours
lê pouvoir suprime.
Nous livrant aux audaces de l'histoire comparative, nous avons pu na-
guère comparer l'institution dês Capitaines Donataires à celle dês Adelanta-
dos de l'Empire Espagnol. Si cela est vrai du point de vue du role économique
qu'ils ont pu jouer, Saldanha nous montre que du point de vue juridique, po-
litique, social et culturel, l'Adelantado est un petit personnage à cote du Ca-
pítaine Donataire qui, recrute dans une elite, était, avant Ia lettre, une espèce
de vice-roi dans sã province. Ce qui nous fait voir que l'élaboration juridique
dês institutions ponugaises était três solide. Ce qui ne devrait pás nous éton-
ner d'un peuple latin.
Nous souhaitons encore quelques granas livres d'histoire du droit ponu-
gais comme celui de Saldanha.
Frédéric Mauro
í i
A B R E V I A T U R A S U T I L I Z A D A S
AÃ - Archivo dos Açores
AM - Arquivo Histórico da Madeira
AP - Anais Pernambucanos, de F. Pereira da Costa
CD - Collecção de Documentos, de M. Velho Arruda
DBN - Documentos Históricos, Biblioteca Nacional
DF - Descobrimentos Portugueses, de J. Silva Marques
GTT - As Gavetas da Torre do Tombo
HCP - História da Colonização Portuguesa do Brasil, ed. de Carlos Ma-
Iheiro Dias
ID - Inventário dos Documentos, de E. de Castro e Almeida
MM - Monumema Missionaria Africana
OA - Ordenações Afonsinas
OF - Ordenações Filipinas
OM - Ordenações Manuelinas
PP - Processo relativo ao pleito sucessório sobre a Capitania
de Pernambuco, no Arquivo Nacional
RSP - Registo da Câmara de S. Paulo
SGC - Subsídios para a História da Guiné e Cabo Verde, de Senna Bar-
celos
13
I N T R O D U C Ã O
Objecto, Premissas e Considerações
Metodológicas
«Ainda está por ser escrita a história das capitanias hereditárias»,
escreveu há não muitos anos Hélio Viana1.
E ainda que o historiador brasileiro se referisse expressamente às
Terras de Vera Cruz, a afirmação mantém-se válida e não menos per-
tinente para a totalidade daqueles territórios do antigo Império Por-
tuguês onde o regime se firmou e, em grande parte, perdurou até à se-
gunda metade do século xvin.
É, no entanto, muito difícil levara cabo um estudo honesto e pro-
fundo da expansão e estabelecimento dos portugueses no Ultramar,
ignorando o que Paulo Merêa muito justamente considerou uma «so-\o tradicional da colonização». E mesmo a própria, ainda que es-
quecida, questão da estruturação e existência de um regime senhorial
em Portugal é indissociável de uma das suas mais fecundas manifes-J
tacões, como o são as capitanias ultramarinas.
Contudo, não cremos incorrer em exageros, afirmando que o es-\o do estabelecimento e evolução histórico-jurídica de uma institui- ;
cão como a das capitanias está eivado das dificuldades inerentes à gê- l
neralidade dos estudos que tenham como objecto a administração das !
antigas possessões portuguesas do Ultramar, e nas quais, em nosso en- i
tender, avulta sobre todas a penúria de bibliografia de pendor jurídico^-1
Daí que o investigador tenha que se confrontar à partida com a neces-
sidade de proceder a aturadas pesquisas nos mais diversos fundos do-
cumentais, o que não é emsi aterrorizante, não fora ter o passo cons-
tantemente atravessado por duas ordens de problemas: a enorme
dimensão de um campo de investigação que se espraia ao longo de
três séculos, em áreas geográficas muito distintas, e o razoável mau es-
tado dos arquivos próprios, não apenas desfalcados pelo tempo -
«roedor com dente brando, e o rato, a traça e os insectos com dente
1 HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil (1685)», in Estudos de
História Colonial, S. Paulo, 1948.
l 7
l\O
agudo» - mas frequentemente primitivos no que respeita à cataloga-
ção racional dos fundos remanescentes.
Não surpreende, pois, que o grande historiador brasileiro Capris-
tano de Abreu, confuso pela vastidão e complexidade do tema, o re-
putasse como «o assunto mais incapaz de receber uma forma apre-
sentável que eu conheço». Também Hélio Viana, encarregado em
1936 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de estudar o
tema das capitanias com o fim de o expor em tese no III Congresso
de História Nacional a realizar em 1938, ano centenário da Institui-
ção, se apercebeu amargamente das dificuldades inerentes à desme-
dida tarefa:
«Desde então o estudamos - escrevia ainda em 1963 - sem ter até
agora chegado à elaboração de trabalho de conjunto a seu respeito.
Isto porque concluímos que não pode o mesmo ser realizado sem lon-
gas pesquisas em Portugal, inclusive pela perda de vários arquivos
particulares de antigos donatários em consequência dos incêndios re-
sultantes do terremoto de Lisboa, de 1755.»
Não podemos negar e somos solidários com as dificuldades sen-
tidas e pressentidas por Hélio Viana. Mas elas não são suficientes, em
nosso entender, para justificar o considerável descuido ou pobreza a
que este ramo da história ultramarina tem sido votado. Porque as ra-
zões não são apenas formais ou instrumentais, mas, essencialmente,
metodológicas, e é nesse campo que há que combater uma situação
cujas causas estão à vista e não são difíceis de definir: um estudo que
tenha como alvo o regime das capitanias não poderá ser de modo al-
gum extrapolado da análise de uma ou poucas situações m concreto, tal
como é igualmente improfícuo fazê-lo através da história avassalado-
ramente pormenorizada de cada uma das que a História inventaria.
Pelo contrário, defendemos que a compreensão desse complexo
institucional que está na base de toda a série das capitanias atlânticas
- e sobretudo as do Brasil - só poderá ser atingido pela abstracção das
particularidades de cada, em proveito do inventário e da reconstrução
de todas as lihhas-mestras de um sistema que, com raízes antigas e
com fins determinados, se fez estender a áreas diversificadas da ex-
são dos portugueses.
As capitanias, para lá das vicissitudes da sua existência e das dos
seus donatários, são essencialmente complexos políticos, jurídicos e
institucionais que há que definir com precisão em proveito da com-
preensão de fenómenos não exclusivamente jurídicos, mas também
sociais, políticos e económicos inerentes à evolução da sociedade
portuguesa. Como o fez Gonzalez Alonso em relação ao regime se-
I N T R O D U Ç À O
nhorial espanhol, é-nos lícito interrogarmo-nos quanto à possibili-
dade de entender a economia das capitanias desconhecendo o con-
teúdo jurídico do domínio sobre a terra, dos direitos exclusivos ou
das próprias cartas de foral; também nos é vedada a noção exacta das
relações sociais estabelecidas na área das capitanias, se prescindirmos
do conhecimento do estatuto jurídico dos seus habitantes ou da ex-
tensão precisa dos poderes dos órgãos de administração donatarial.
Fazê-lo é correr o risco de extrair conclusões erróneas ou, pelo me-
nos, bizarras quando postas em confronto com a realidade histórica
e jurídica portuguesa, o que, infelizmente, tem sido frequente neste
tipo de estudos.
A metodologia que defendemos e procuraremos seguir, impe-
dir-nos-á, porventura, de incorrer nos quatro vícios básicos por que,
em nosso entender, tem sido prejudicado seriamente o tratamento
proveitoso do assunto. Em primeiro lugar, a monopolização da tema- '
tica pelos estudos dedicados à história das capitanias brasileiras, do
que resulta infalivelmente a malformação ou a pura frustração de
uma visão global do fenómeno institucional. Em segundo lugar, a vin- ?
culação da história das capitanias às vicissitudes biográficas dos seus
donatários, com os mesmos resultados que acima se apontam. Em ?
terceiro lugar a desconfiança, indiferença ou pura e simples ignorân-
cia do peso da realidade jurídica subjacente à questão, de que resul-
tam em estudos globalmente válidos lacunas ou desvios de muito di-
fícil admissão. Em quarto e último lugar, as investigações feitas, ainda 4
que algumas abarcando outras matrizes que não exclusivamente a
brasileira, cristalizam-se na sua maioria em redor do título constitu-
tivo das doações, decompondo-o com maior ou menor pormenor^!
mas ignorando quase por completo o facto de que o fenómeno júri- \o não é estático e que cerca de três séculos de existência, fecundos j
em vicissitudes políticas, económicas e sociais, foram mais do que su-
ficientes para transtornar substancialmente não apenas a regulamen- \o jurídica interna como até o posicionamento jurídico-político ;
das capitanias quatrocentistas e quinhentistas.
Tudo presente, e atendendo a que este estudo se vincula prima-
cialmente à área da história das Instituições e do Direito, há que fixar
marcos orientadores que constituirão outros tantos objectivos meto-
dológicos geralmente aceites como indissociáveis de um trabalho
com estas características:
O traçado do enquadramento político, económico e social do
processo gerador e de aplicação do Direito em análise, a destrinça das
fontes do Direito aplicável, a caracterização e exame das componen-
I N T R O D U Ç Ã O
tes da instituição em causa, a verificação da aplicação prática do Di-
reito definido e, finalmente, a detecção das correntes de ideias subja-
centes à criação, aplicação, sobrevivência e extinção dessas institui-
ções. Na prática, houve, sequentemente, que moldar estas linhas de
rumo às particularidades do tema, levando em conta que nas capita-
nias ultramarinas - tal qual nos senhorios metropolitanos - são per-
ceptíveis quatro realidades condicionantes: o conjunto diversificado
dos fins que presidem à sua criação, o desenvolvimento de relações
peculiares e distintas dos vigentes noutros âmbitos, a constatação rei-
terada de determinadas práticas económicas e o facto de cada cir-
cunscrição donatarial se constituir numa área de exercício de um sis-
tema específico de governo.
Advirta-se, porém e desde já, que esta investigação sofre de uma
condicionante de peso, como é a da inexistência de um estudo global
sobre o regime senhorial português, do que vimos a incorrer na in-
versão de uma estratégia de estudo que, obviamente, haveria que par-
tir de um tema daquela natureza para outro, como o presente, sua
mera componente ou manifestação peculiar. Houve, pois, que tocar
em pontos que poderiam ser dados como pressupostos, desenvol-
vendo outros com o fim preciso de vincar, comparando, especificida-
des no quadro vasto do senhorio português.
Assim, delimitado o âmbito da questão, perspectivámos as capi-
tanias na sua vera natureza de doações régias de bens e direitos da
Coroa, com as inerentes obrigações que daí decorreram para os seus
detentores. Definido o enquadramento exterior da matéria e indica-
das não apenas as fontes úteis para o seu estudo, como também as
grandes linhas por onde correu a sua consideração nos últimos anos,
passámos a destrinçar e a caracterizar as variadas formas de criação,
transmissão e extinção das capitanias. A administração destas - quer
na perspectiva dos vários cargos e delegados dos donatários quer no
dos poderes que efectivamente lhes competiam - mereceram-nos es-
pecial atenção, e, na sequência, abordámos a própria jurisdição e o
exercício da Justiça pelos capitães. Não foi esquecida também a ca-
racterização dos réditos e dos monopólios senhoriais, e atendemosdevidamente à importante questão das sesmarias. Entrámos, final-
mente, no problema do relacionamento dos capitães e do poder real,
no que essa ligação poderá ter implicado em autonomia e subordina-
ção, e concluímos o nosso estudo debruçando-nos sobre o mal escla-
recido processo de incorporação das capitanias na Coroa.
Presente a tudo, o princípio de que esta investigação se desenro-
lou em função de matéria de Direito, valendo a incursão em outras or-
20
I N T R O D U Ç Ã O
dens, como a económica ou a política, como amparos à melhor defi-
nição de fenómenos jurídicos próprios e a levar em conta na caracte-
rização do contexto da Expansão Portuguesa. No seu termo, o leitor
ajuizará do sucesso do objectivo que pretendemos atingir: o enun-
ciado da disciplina jurídica que caracterizou o sistema das capitanias
como manifestação do fenómeno mais vasto do regime senhorial
português, e, no âmbito da colonização ultramarina, o seu posiciona-
mento face à Coroa, que lhe deu e retirou o ser.
Como última observação, é desnecessário reiterar a vastidão do
tema proposto: se por um lado, cronologicamente, se estende da data
da criação da primeira Capitania, em 1440, à data da extinção da úl-
tima, em 1770, geograficamente abarca toda a zona atlântica de ex-
pansão dos portugueses - o Brasil, a Madeira, os Açores, Cabo Verde,
S. Tomé, Angola e a Serra Leoa.
As oportunidades, condições e momentos da sua criação nessas
várias zonas são do conhecimento geral e não há obra dedicada à ex-
pansão ultramarina que as não cite. Ao fim que nos interessa - e sem
prejuízo dos aprofundamentos pontuais de que a matéria será alvo no
decurso deste estudo -, se quiséssemos sintetizar em linhas de dinâ-
mica o período de existência das capitanias atlânticas, poderíamos di-j
zer que há duas que são marcantes e que condicionam o desenrolar!
de dois processos que chegam a ser simultâneos.
No decurso do primeiro, é patente a crença na virtualidade do re-
curso à criação de capitanias como expediente de colonização de ter-
ritórios a desbravar. Tem, como vimos, o seu período áureo nos sé-
culos XV e xvi, chegando-se até ao fim dessa última centúria a impor
o sistema em todas as zonas da expansão atlântica. É o período dos
que - em consonância com velha prática - chamaremos Grandes-Do-;
natários, irmãos ou sobrinhos dos monarcas de Avis, a quem estes,
concedem amplas porções dos territórios recém-descobertos ao fim:
determinado da sua colonização e aproveitamento, doações essas a
que acompanham proventos consideráveis e relativamente amplos
poderes na administração e no exercício da justiça. Como não menor
dessas faculdades, incluiu-se o poder criar capitanias, concedendo-se
aos capitães, com o carrego de as manter «em justiça e direito», im-
portantes direitos no campo do exercício da administração, arrecada-
ção de proventos e distribuição de terras, em muito semelhantes aosj
da primeira doação feita ao Grande-Dona tá ri o.
Esse período, iniciado em 1433 com a doação que o Rei
D. Duarte fez a seu irmão D. Henrique da ilha da Madeira, terminará
em 1495 com a subida ao trono do derradeiro Grande-Donatário, o
2 l
I N T R O D U Ç Ã O
Duque de Beja, com o nome de D. Manuel I. Sob a acção conjunta
desses príncipes e do Rei Africano, a criação de capitanias - iniciada
no Machico, em 1440 - aíargar-se-á ao resto da Madeira e ao Porto
Santo, às ilhas de S. Miguel, Faial, Pico, S. Jorge, Graciosa e Terceira,
esta dividida nas duas jurisdições da Praia e Angra, todas nos Açores,
às de Santiago, Fogo, S. Nicoíau, Brava, Boavista, Maio e Sto. Antão,
em Cabo-Verde, a S. Tomé e à própria ilha do Príncipe. Mesmo aque-
les territórios vagos - ilhas míticas ou esperanças dos Cortes-Reais,
que a ambição dos nautas portugueses não desarmava de procurar-
chegou-os a conceder adiantadamente o Rei, segundo o mesmo tipo
de concessões de características senhoriais que vinha fazendo aos po-
voadores de terras já descobertas.
A necessidade de ocupar efectivamente as terras do Brasil, susci-
tará um incremento do sistema de colonização por capitanias, re-
vendo-se o esquema de doações anteriormente usado no sentido de
conceder aos capitães maior exuberância nos poderes e proventos
enunciados. Nascem assim, no período que decorre de 1534 a 1536,
as célebres capitanias «primárias» do Rio Grande, Maranhão, Juru-
cuará, Ceará, Itamaracá, Santo Amaro, Pernambuco, Baía, Ilhéus,
Porto Seguro, São Vicente, Cabo Frio e, posteriormente, em 1556,
criar-se-á a de Itaparica e em 1557 a de Peroaçu.
Nos termos do modelo brasileiro, o Rei D. Sebastião estenderá,
í em 1571, o sistema a Angola e, em 1606, o Rei Filipe fá-lo-á alargar à
Serra Leoa. Serão também os Filipes a dar início a um novo ímpeto de
criação de capitanias no Brasil, que, independentemente da turbulên-
cia da Restauração, se irá prolongar até ao reinado de D. Pedro: só no
século XVII poderemos contar a criação de nada menos que dez novas
capitanias - Rio Grande, Cabo Frio, Campos de Goitacazes, Rio da
Prata, Ilha de Sta. Catarina, Cumá, Caeté, Cabo do Norte, Ilha
Grande de Joanes e Xingu, a derradeira, em 1685.
Porém, no decurso de um segundo e simultâneo processo, ainda
nos primórdios do século XVI, são patentes as limitações impostas ao
poder dos donatários da Madeira, Açores, e, especialmente, aos do
Brasil, que - provado o seu fracasso - vêem violentamente abalados
os seus privilégios originais com a instituição de um Governo-Geral
em 1549. Os reis Filipes iniciarão um processo organizado de con-
trolo de eficácia da acção dos donatários, pela imposição de condi-
ções, revogação de privilégios - como em Pernambuco - e até puras
e simples renúncias de carácter compulsivo, como sucede à Capitania
de Cabo Frio, de Gil de Gois, em 1619. O entendimento parece ser o
de restringir ao máximo a existência ou autonomia dos capitães em
22
I N T R O D U Ç Ã O
zonas de crescente interesse para a Coroa, fomentando a sua criação,
como vimos, em zonas de colonização inexistente ou incipiente.
Os reis da nova dinastia de Bragança, mantendo embora a polí-
tica de concessão de capitanias limitadas às zonas mais primitivas do
Brasil, aproveitar-se-ão das profundas mutações proporcionadas pelo
estado de guerra constante, para lançar mão de antigos senhorios
como Pernambuco e sujeitar ainda mais os restantes ao controlo cres-
cente dos governantes de nomeação régia. O descrédito acaba por en-
volver totalmente o sistema de capitanias, tornado patente já no deal-
bar do século XVHI, criando-se, como dissemos, a derradeira, no Brasil,
em 1685.
À administração do Rei D. João V preside, em relação às capita-
nias, uma só preocupação: a tentativa da sua absorção, atingida em
vários pontos com sucesso - Sto. Amaro (1709), Pernambuco (1716)
e Espírito Santo (1718), todas no Brasil, e em 1736 algumas das capi-
tanias remanescentes em Cabo Verde são também definitivamente
incorporadas na Coroa, o que, acrescendo ao processo natural do de-
sinteresse ou falta de sucessão dos capitães-donatários, leva a que o
número dos senhorios ultramarinos vá substancialmente diminuindo.
Efectivamente, quando D. José sobe ao trono em 1750, esses se-
nhorios ultramarinos estão reduzidos ao escasso número de nove no
Brasil, ao de Sto. Antão em Cabo Verde, ao da Ilha do Príncipe e às ve-
lhas capitanias de Porto Santo, Machico e Funchal, na Madeira, e
S. Miguel e Santa Maria, nos Açores. Neste mesmo reinado, num pro-
cesso que se desenrola de 1753 a 1770, acabarão por desaparecer
definitivamente2.
2 A fim de facilitar uma visão global da inserção das capitanias no enquadra-
mento histórico da Expansão portuguesa, poder-se-á consultar, para o que toca ao
ritmo das concessões, em toda a área atlântica, nos séculos XV e XVI, CHARLES VERLIN-
DEN, «Portugese en Spaanse Feodale en Domaniael Kolonisatievormen in de Atlantis-
che Ruimte», in Mededelingen van de Koninkli/ke Academie voar Wetenschappen, Leneren
en Schone Kunsie van Belgie. Klasse dês Letteren. Academias Analecta, Jaargang 45, Nr. 3,
Bruxelas, 1983. Do mesmo autor, masrestrito às doações na Madeira e nos Açores,
veja-se «Formes Féodales et domaniales de Ia Colonisation Portugaise dans Ia Zone
Atlantique aux XIV et XV siècles et spécialement sous Henri lê Navigateur», in Revista
Portuguesa de História, vol. IX, Coimbra, 1960, pp. 1-44. Para o mesmo Em, veja-se
também HENRIQUE GALVÃO e CARLOS SELVAGEM, O Império Ultramarino Português. Mono-
grafia do Império, Lisboa, 1950-1952 (4 voís.) e CRJSTTANO DE SENNA BARCELOS, Subsídios
para a História da Guiné e Cabo-Verde, Lisboa, 1899. Para o caso específico do Brasil
veja-se, naturalmente, a História da Colonização Portuguesa do Brasil. Edição Monumental
Comemorativa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, editada e organizada
I N T R O D U Ç Ã O
por CARLOS MALHEIRO DIAS, Porto, 1921-1924 (3 vols.J, e, complementarmente, e a
fim de prolongar no tempo a visão do processo de concessão das capitanias brasilei-
ras, veja-se também HÉLIO VIANA, História do Brasil - Períocío Colonial. Monarquia e
República, 14.1 ed., Edições Melhoramentos, S. Paulo, 1980. O caso específico das
capitanias de Angola e da Serra Leoa pode ser analisado, respectivamente, em
ALÍREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a ocupação e início do esta-
belecimento dos portugueses no Congo, Angola e Benguela, Coimbra, Imprensa da Univer-
sidade, 1933; VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século
xvm», in Ias Ciências, Ano XI, num. 3, Madrid, s.i.d., e P. E. H. HAJR, «The Abortive
Portuguese Settlement of Sierra Leone 1570-1625», in Vice-Almirante A. Teixeira da
Mota. In Metnoriam, Volume I, Lisboa, Academia de Marinha, Instituto de Investiga-
ção Científica Tropical, 1987, pp. 171-208. Outra questão afim, como a dos prece-
dentes medievais das concessões senhoriais como expediente de colonização, pode
ser apreciada em PAULO MERÊA, «A solução tradicional da Colonização do Brasil», na
citada História da Colonização Portuguesa do Brasil, voí. m, Porto, 1924, pp. 167-168, e
especialmente CHARLES VERLINDEN, Précédents médiévaux de Ia colonie en Amériaue, Ins-
tituto Panamericano de Geografia e História, México, 1954. Veja-se também M. JEN-
SEN e R. REYNOLDS, «European colonial experience. A plea for comparativa studies», in
Studi in onore di Cino Luzatío, t. rv, Milão, 1950, e HAROLD B. JOHNSON JR., «The Dona-
tary Captaincy in,Perspective: Portuguese Backgrounds to The Settlement of Brazil»,
in The Hispanic American Hisloncal Review, 52:2 (Maio de 1972), pp. 203-214. Sobre a
administração dos grandes-donatários há que consultar, para os Açores, o ensaio crí-
tico de MANUEL MONTEIRO VELHO ARRUDA, na sua Colecção de Documentos relativos ao
descobrimento e povoamento dos Açores, Ponta Delgada, 1932, e para a Madeira é de uti-
lidade o estudo de DAMIÃO PERES, A Madeira sob os Donatários, Funchal, 1914, bem
como JOEL SERRÀO, «Na Alvorada do Mundo Atlântico - I - Primórdios da Coloniza-
ção da Ilha da Madeira (1425-1470)», in Das Artes e da História da Madeira, vol. jv, n.°
l, Funchal, 1961, e FERNANDO JASMINS PEREIRA, «A Ilha da Madeira no período henri-
quino (1433-1460)», in Ultramar, n.° 3, Lisboa, 1961, pp. 24-47. A concessão de ilhas
ou territórios de localização incerta pode ser analisada através dos vários diplomas
2 4
I N T R O D U Ç Ã O
transcritos por MANUEL MONTEIRO VELHO ARRUDA, Os Cortes-Reais. Memória Histórica
Acompanhada de Aluitos Documentos Inéditos, Ponta Delgada, 1883, e em W. H- BAB-
COCK, Legendary islands ofthe Atlantic, Nova Iorque, 1922. Questão a merecer também
alguma atenção é a das afinidades e eventuais derivações de outros sistemas de colo-
nização fundados em concessões de cunho senhorial por outras nações, matéria refe-
rida em PAULO MERÊA, oy. cit., e JEAN-PIERRE WALLOT, «Lê Regime Seigneurial et son
abolition au Canada», in LfAbolition de Ia Féodalité dans lê monde ocddental. Colloaues
Intemattonaux du Centre national de Ia Recherche Scientifique Sciences Humaines, Actas,
Toulouse, 12-16, Novembro de 1968, tomo i, Paris, 1971, pp. 357 e 384. Vide também
a discussão desta comunicação no tomo II das citadas Actas.
No que toca à extinção das várias capitanias não conhecemos nenhum estudo
global, salvo o que deixamos feito no Capítulo IX desta obra. Infelizmente, por con-
veniência editorial, não nos foi possível incluir o corpo de 11 apêndices que na 1.*
edição reputámos de consulta essencial para o estudo das capitanias, uns inéditos ou
desconhecidos, ou já publicados mas geralmente ignorados, esquecidos ou de difícil
consulta. A saber: Carta de doação de duas capitanias no Brasil a João de Barros e
Aires da Cunha (8 de Março de 1535); Carta de doação das minas de ouro e prata das
respectivas capitanias a João de Barros, Aires da Cunha e outro (18 de Junho de
1535); Alvará por que se limita a jurisdição dos Capitães-Donatáríos do Brasil (5 de
Março de 1557); Diploma sobre a alçada dos capitães das Ilhas, colhido das Ordena-
ções Extravagantes do Dr. Heitor de Pina (23 de Março de 1549); Carta de Doação da
Capitania de Camutá a Feliciano Coelho de Carvalho (14 de Dezembro de 1633);
Parecer do Dr. Tomé Pinheiro da Veiga sobre as alterações a introduzir nas cartas de
confirmação das capitanias (15 de Junho de 1649); Acórdão respeitante à causa que
correu entre os Condes de Vimioso e a Coroa sobre a Capitania de Pernambuco (31
de Agosto de 1677); Carta de Doação da Capitania de Xingu a Luís de Abreu de Frei-
tas (31 de Janeiro de 1685); Anúncio da Gazeta de Lisboa respeitante à incorporação
da Capitania de Caeté (15 de Novembro de 1753); Diploma de extinção das capita-
nias dos Açores (2 de Agosto de 1766); Parecer do Dr. José de Seabra da Silva sobre a
Capitania de S. Vicente (30 de Junho de 1781).
25
l . O T E M A
1. O Estudo da Temática das Capitanias
1.1. Introdução
i
Apesar de constituir-se como um dos temas fundamentais da his-
tória da administração ultramarina, não é largo ou sequer satisfatório
o número dos estudos que especificamente se dedicam à análise da
construção jurídica própria do sistema das capitanias. Podemos con-
tar, naturalmente, com a sua menção em grandes obras de síntese
j como as histórias gerais ou as histórias do Direito; são conhecidos
também estudos que se debruçaram especificamente sobre uma ou
grupos de poucas capitanias, como são as obras clássicas de Alberto
Lamego, Pedro Tacques, Faria e Maia, Damião Peres ou Pedro de Aze-
vedo, vinculando-as na generalidade aos percalços das biografias dos
seus donatários.
Todavia - e ainda que especificamente dirigido ao caso brasileiro
- mantém-se pertinente o comentário de Dauril Alden (1973) de que
«apart from studies on the founding fathers and an occasional article
on the Iate captaincies granted in the seventeenth century, there are
no comprehensive studies of the donatarial regime»1.
No mesmo sentido poderia Harold Johnson concluir que
«Luso-Brazilian historiography hás never managed to achieve a very
satisfactory understanding of the donatary captaincy, the institution
above ali others that provided the framework for the initial settle-
ment of Brazil»2.
Verdade que, aliás, não é nova pois já o velho historiador brasi-
leiro Rocha Pombo advertira que «não é possível ter uma ideia do que
1 DAURJL ALDEN, Royal Government in Colonial Brazil, with special reference to the.
admínistration of the Marquis of Lavradio, Vice-Roy, 1769-1774, Berkeley, University of
Califórnia Press, 1968, pp. 31 ss. 8.
2 HAROLD B. JOHNSON JR., «The Donatary Captaincy in perspective: Portuguesa
Backgrounds to the Setdement of Brazil», ín The Hispanic American Historical Review,
52:2 (Maio de 1972), p. 197.
29
O TEMA
eram as donatárias sem uma notícia completa do regimen político,
económico e civil, que por elas se criava. Por falta de semelhante no-
tícia, nem sempre se tem uma noção perfeita do que foi aquele pro-
cesso a que recorreu D. João III no intuito de apressar a ocupação e
povoamento da terra»3.
Mas, mau grado as advertências, a falta de vitalidade deste tipo
de estudos é patente, e ressente-se,já o dissemos, da ausência la-
mentável de um estudo aprofundado sobre o regime senhorial
português, de que as capitanias são uma das manifestações mais
notáveis.
Vamhagen e Rocha Pombo deixaram-nos nos volumes das obras
que dedicaram à História do Brasil, análises cuidadas dos diplomas
constitutivos, dos forais e regimentos que fundamentaram a vida ini-
cial das capitanias brasileiras. Histórias especificamente dedicadas ao
Direito brasileiro, como as de Max Fleiuss4, ou os detalhados estudos
de Waldemar Martins Ferreira5 ou de Isidoro Martins Júnior6, dedica-
ram páginas sérias ao mesmo objectivo.
Aliás, o enunciado jurídico do regime das capitanias tomou-se
elemento essencial mas repetitivo em quase todas as obras dedicadas
à Expansão, nomeadamente as respeitantes ao Brasil e, em muito me-
nor grau, às das ilhas da Madeira e Açores.
1.2. A Questão do «Feudalismo»
O ano de 1924 e a edição da monumental História da Colonização
Portuguesa do Brasil7, pareceram marcar decisivamente um rumo novo
à consideração do problema das capitanias, nomeadamente às do Bra-
sil, que assim faziam passar a uma imerecida sombra instituições con-
géneres de outras áreas do Atlântico. Se o Professor Paulo Merêa lhes
dedicava um primoroso estudo de cunho jurídico, encimado pela epí-
3 JOSÉ FRANCISCO DA ROCHA POMBO, História do Brasil, Rio de Janeiro, Tipographia
da Empresa Literária e de Tipographia, 1905, vol. III, p. 221.
4 MAX FLEIUSS, História Administrativa do Brasil, 2.* ed., S. Paulo, Companhia
Melhoramentos de S. Paulo, s.i.d.
5 WALDEMAR MARTINS FERREIRA, História do Direito Brasileiro, S. Paulo, 1951-1958.
6 ISIDORO MARTINS JÚNIOR, História do Direito Nacional, Colecção Memória Jurí-
dica Nacional, vol. l, Brasília, Departamento de Imprensa Nacional, 1979.
7 C. MALHEIRO DIAS, História da Colonização Portuguesa do Brasil. Edição Monumen-
tal Comemorativa do 1." Centenário da Independência do Brasil, Porto, 1921-1924, Edição
de (...).
30
O T E M A
grafe A Solução Tradicional da Colonização do Brasifi, noutros capítulos
biografavam-se os primeiros capitães-donatários9, exaltando-lhes os
feitos e aureolando-lhes a acção sob a luz romântica do que Malheiro
Dias, promotor e organizador da edição, chamou no volume m, O Re-
gime feudal das Donatárias.
Há, todavia, que ponderar. Escreveu há vários anos o Professor
Mário de Albuquerque que a «expansão ultramarina tem sido ava-
liada por critérios diferentes mas sempre filhos de preocupações dou-
trinárias»; e exemplificava enunciando a «história cavalheiresca», os
românticos, os nacionalistas e mesmo os que «estrangulam o pro-
blema frequentemente numa estreita visão agrária»10. E tinha razão o
ilustre Mestre, bastando recordar o condicionamento a que tem es-
tado sujeito o tratamento da questão das capitanias no sentido de a
priori o integrar em esquemas de feudalismo. Relembrem-se, por exem-
plo, as palavras do Professor Ruy UIrich:
«As capitanias são um tipo perfeito do regimen feudal - facto estu-
pendo este, pois o feudalismo rigorosamente caracterizado nunca exis-
tiu no Portugal europeu. O que aqui não existira julgou-se, porém, ade-
quado para as Colónias e lá se usou [...] Os donatários das capitanias
eram autênticos senhores feudais, com direitos de propriedade e de so-
berania, que se transmitiam hereditariamente, e tributários perpétuos da
Coroa suserana...11»
Numa linha em que o facto ou rotulação é dada como consu-
mada, o Padre Serafim Leite fala em «regime feudal dos donatários»12,
Contreiras Rodrigues num «período feudal da colonização»13, A. Am-
brósio de Pina em «privilégios feudais»14, Charles Boxer num «dona-
8 PAULO MERÊA, «A Solução Tradicional da Colonização do Brasil», ín HCP,
vol. li, pp. 167 ss.
9 PEDRO DE AZEVEDO, «Os Primeiros Donatários», in HCP, vol. n, pp. 194 ss.
10 MÁRIO DE ALBUQUERQUE, O Significado das Navegações e Outros Ensaios, Lisboa,
Sociedade Nacional de Tipografia, 1930, p. 17.
11 RUY ULRICH, «Colonizações Ibéricas», in A Questão Ibérica, Lisboa, Typografia
do Anuário Comercial, 1916, pp. 207-208.
12 SERAPIM LEITE, História da Companhia de Jesus no Brasil, Lisboa, Rio de Janeiro,
1938-1950, tomo n, p. 140.
13 F. CONTREIRAS RODRIGUES, Traços de Economia Social e Política do Brasil Colonial,
Rio de Janeiro, Aciel Editora, 1935, p. 106.
14 A. AMBRÓSIO DE PINA, «O feudalismo e os descobrimentos», ín Congresso Inter-
nacional de História dos Descobrimentos. Actas, Vol. IV, Lisboa, 1961.
O TEMA
tario system with its mixture of feudal and capitalistic elements»15,
Bailey Diffie referindo que «the powers granted to the Donatários
were much like those held by the feudal nobles of Portugal»16, ou
Henrique Galvão aludindo a um regime «semi-feudal de capitanias
hereditárias»17. Eulália Lobo, num estudo que dedicou à administra-
ção comparada das Américas espanhola e portuguesa, ainda acres-
centa que «a administração das colónias americanas destes países
apresentava um carácter predominantemente feudal. Empregamos
esta palavra para nos referirmos àquelas características feudais que
existiram na península Ibérica, e não ao sistema na sua forma mais
completa e típica como o encontramos, por exemplo, na França»18.
Também Vicente Tapajós, num estudo recentemente publicado pela
Universidade de Brasília, chega ao ponto de afirmar que «se levarmos
em consideração que o regime das sesmarias era caracterizadamente
feudal, seremos forçados a admitir certa vinculação entre os dois re-
gimes, o feudal e o das capitanias hereditárias, de que as sesmarias se
constituíam pilares»19.
Em termos não muito diferentes e sem grande expressão de fun-
damento, tinham-no já afirmado também Varnhagen, João Francisco
Lisboa, Oliveira Martins, Martins Júnior e Sílvio Romero, que, se-
gundo Queiroz Lima - num estudo que fez escola por destoar do ge-
ral coro dos propugnadores do feudalismo20 -, «têm procurado ver no
sistema de capitanias hereditárias a ressurreição do regimen feudal da
Idade Média»21.
Corno característica quase omnipresente nestas posições, anote-
-se uma total ou quase total falta de fundamentação, a que não será
estranha, porventura, a ausência de um conceito preciso de «feuda-
lismo». Casos típicos são os citados de Diffie, Eulália Lobo ou o próprio
15 CHARLES R. BOXER, The Portuguese Seabome Empire, 1415-18Z5, Londres, 1969.
16 BAYLEY DIFFIE, Latiu American Civilization - Colonial Períod, Hamburgo, 1947,
p. 739.
17 HENRIQUE GALVÃO e CARLOS SELVAGEM, Império Ultramarino Português. Monogra-
fia do Império, Lisboa, Imprensa Nacional de Publicidade, 1950-1952, vol. \\, p. 188.
18 EULÁLIA MARIA LOBO, Administração Colonial Luso-Espanhola nas Américas, Rio
de Janeiro, Editora Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1952, p. 75.
19 VICENTE DA COSTA TAPAJÓS, História Administrativa do Brasil. A política adminis-
trativa de D. João III - 2.* ed., Brasília, Universidade de Brasília, 1983, p. 29.
20 QUEIROZ LIMA, «Capitanias Hereditárias», in Revista de Estudos Jurídicos, n.° 2,
Agosto, Rio de Janeiro, 1930.
21 HÉLIO VIANA, História do Brasil. Período Colonial. Monarquia e República, S. Paulo,
Edições Melhoramentos, 1980.
32
O TEMA
Malheiro Dias no seu «Regime Feudal das Donatárias». Como comen-
tou Harold Johnson, «that nothing in his description remotely con-
formed to any viable definition of feudalism, or that medieval Portu-
gal never experienced an identifiable "feudal" tradition, seems not to
have perturbed him at ali»22.
1.3. Orientações Recentes
Mas, sintomaticamente, não foram juristas ou historiadores do
Direito a vir à liça a fim de procurar a precisão de uma questão que se
tornava emblemática e monopolizadora das atenções de quem se de-
bruçasse sobre este aspecto da antiga administração portuguesa.
A tese de Malheiro Dias encontraria um dos mais acérrimos im-
pugnadores no campo dos historiadores económicos, na pessoa do
Professor Roberto Simonsen, autor de uma clássica História Económica
do Brasil, pouco mais de uma dúzia de anos mais recente do que a
obra dirigida por Malheiro Dias23. No capítuloque submeteu preci-
samente ao título «Capitalismo ou regimen feudal?», Simonsen afir-
mou categoricamente não lhe parecer razoável «que a quase totali-
dade dos historiadores pátrios acentuem em demasia o aspecto feudal
do sistema das donatárias, chegando alguns a classificá-lo como um
retrocesso em relação às conquistas políticas da época»24.
Além de vários considerandos sobre o peculiar regime jurídico
das donatárias brasileiras e as motivações que terão presidido à sua
criação, suficientes no entender de Simonsen para lhes subtrair o cunho
feudal, acrescenta:
«Os nossos historiadores não têm encarado o caso sob esse aspecto.
Quando se referem a donatarismo, o consideram como se estivessem
diante de um regimen feudal. O facto se explica pela falta de conheci-
mento das características da vida medieval que somente os recentes
estudos da história económica têm esclarecido suficientemente. Na ver-
dade, Portugal, em 1500, já não vivia sob o regime feudal. D. Manuel,
com sua política de navegação, com seu regimen de monopólios interna-
cionais, com suas manobras económicas de desbancamento do comércio
22 HAROLD B. JOHNSON, op>. cif, p. 203.
23 ROBERTO SIMONSEN, História Económica do Brasil. 4500-1820, S. Paulo, Rio de
Janeiro, Recife, Companhia Editora Nacional, 1937.
24 Uem, p. 124.
33
O T E M A
de especiarias de Veneza, é um autêntico capitalista. Os seus "vassalos"
não ficam atrás. Não fazem a conquista como os cavaleiros da Idade Mé-
dia. Procuram engrandecer e enriquecer o país. Querem que Portugal seja
uma potência. Conquistaram as índias com o mesmo espírito com que,
mais tarde, os ingleses vieram a constituir o grande Império Britânico. Tal
estado de coisas é tão acentuado, que, mostram os historiadores, as con-
cessões aos donatários vão de encontro à lei mental, ou seja, aquela que
o Mestre de Avis tinha "em mente" para desfazer o poderio dos feudos.
Mas a verdade é que a lei mental não foi contrariada. Pelo facto dos acor-
dos entre o Rei e os donatários serem feitos mediante o "Foral dos direi-
tos, foros e tributos e coisas que na dita terra haviam os colonos de
pagar", não se há de fechar os olhos à realidade económica...»25
Escassos três anos passados sobre a publicação da obra de Si-
monsen, em 1940, no III Congresso Sulriograndense de História e
Geografia sai à liça o Dr. Raul de Andrade e Silva, e, na mesma rota
de argumentação de Simonsen, alinha factos de ordem económica, ju-
rídica e política, tendentes uns e outros a rebater as teses dos «feuda-
listas»26. Já no ano anterior o Dr. J. F. de Almeida Prado impugnara na
sua História da formação da sociedade brasileira as conclusões de Ma-
Iheiro Dias27. Um crítico, o Professor Alexander Marchant, sintetizou
a tese deste historiador brasileiro nos seguintes termos:
«Dr. Almeida Prado accepts Professor Simonsen;s opinion that the
grants made by the king were not feudal, that only in the forais did any
element remain that might be called feudal, and that the grants should
be placed against the pattems of capitalism that were in full develop-
ment in the Renaissance. Later he characterizes simply as capitalists
some of the noble and powerful men who were consídering building
sugar mills in Pernambuco. But, unhappily, he does not consider that the
demands of his volumes permit him to dwell on the subject and, conse-
quendy, he does not specify the patterns of capitalism that were fol-
lowed.»28
25 Idem, pp. 126-127.
26 RAUL DE ANDRADE E SILVA, «O Regime feudal e as capitanias hereditárias {Breve
estudo comparativo)», in Anais do III Congresso Suiriograndense de história e geografia, III,
1940.
27 J. ALMEIDA PRADO, Pernambuco e as capitanias do Norte do Brasil, 1530-1630,
S. Paulo, 1939-42.
28 ALEXANDER MARCHANT, "Feudal and Capitalistic Elements in the Portuguese
Settlement ofBrazil», in The Hispanic American Revicw, Agosto de 1942.
34
O T E M A
Essa apontada lacuna propôs-se o próprio Marchant preenchê-la
num estudo clássico, Feudal and Capitalistic Elements in the Portuguese
Settlement ofBrazil (1942)29. Fazendo aí contrastar os elementos inclu-
sos nas cartas de doação com três conceitos básicos de feudalismo,
Marchant funda a sua tese num postulado central:
«An economic meaning, aside from its general inaccuracy, is entirely
inapplicable, for it implies comparison of the self-sufficient househoíd
economy of medieval France with the plantatíon and trading economy
ofBrazil.»30
Tal como Simonsen, Almeida Prado ou Andrade e Silva - que,
negando o carácter feudal do regime, ele próprio o afirma, «ali accept
capitaíism as the alternative, as if none other could exist once feuda-
lism had been rejected»31 - o historiador americano não segue dife-
rente rumo, propondo-se unicamente especificar ou aprofundar o
mesmo trilho tomado por aqueles outros autores: «But if capitalism is
accepted, what is needed next is a differentiation of the kind of capi-
talism practiced by the donatários from the many other kinds that
were being practiced then or have been practiced since.»32
Passará então a especificar os três tipos «of capitalistic enterprise
that had become usual, each one fitted to particular circumstances of
trade that the Portuguese had found in pushing along the African
coast and to índia»33. Isto é,
a) O recurso inicial a companhias de investidores alicerçados num com-
plexo de feitorias costeiras, acumuladoras de bens, depois canaliza-
das para a metrópole nos próprios navios dos investidores3"1;
{?} O expediente de apropriação por parte da Coroa, numa fase seguinte,
da estrutura de exploração comercial fundada pelas companhias,
método empregado na índia depois de 1500, e também no Brasil no
período que mediou entre a descoberta e a criação das donatárias35;
c) A solução empregada em regiões desabitadas como as próprias ilhas
do Atlântico, «that combined commerce with colonizatíon»36. As
29 Idem, ibidem.
30 Idem, p. 500.
31 íãem, p. 502.
32 Idem, p. 502.
33 Idem, p. 503.
34 Idem com a bibliografia indicada a pp. 503-504.
35 Idem, p. 504.
36 Idem, ibidem.
35
O TEMA
ilhas eram concedidas em parte ou no seu total a donatários, que as
colonizavam à sua própria custa, fomentando o plantio do açúcar e
outras culturas, recebendo como contrapartida certos tributos e mo-
nopólios que lhes facultavam um rendimento e um controlo sobre os
colonos. Solidificada a fixação humana e a produção agrícola, comer-
ciantes da metrópole organizavam-se em companhias destinadas ao
tráfico com as ilhas, nos termos precedentemente empregados nas fei-
torias africanas37.
Será precisamente esta última modalidade que Marchant esten-
derá à caracterização do regime donatarial brasileiro38.
É evidente que a essas amplas doações acompanharam-nas todo
um conjunto de regalias jurídicas e políticas, aqui omitidas por Mar-
chant, altamente prestigiantes no enquadramento social do tempo.
«Mas - notou-o Lúcio de Azevedo - essas vantagens, a serem aufe-
ridas pelos donatários, pressupõem povoações, lavouras, comércios, tra-
balho organizado e capital acumulado, o que rinha de ser obra do tempo
longo e do imediato dinheiro.»39
O regime poderia, assim, ser obviamente caracterizado, não
como feudal mas decididamente capitalista no puro sentido do in-
vestimento de dinheiro para lucro40:
«They were planter capitalists and not primarily traders, and their
investment was in land and slaves. Only after the donatários had begin
plantation economy in Brazil did merchants, organised in trading com-
panies and investing not in land and slaves but in buying, selling, and
transporting sugar bring to Brazil another and more obvíousíy recog-
nised type of capitalism.»41
Mas nem esta nova progressão do problema contentou os estu-
diosos da administração portuguesa. A esta discussão que opôs os de-
fensores do feudalismo e do capitalismo eventualmente caracteriza-
dor das donatárias, apodou-a justamente Francis Dutra de «sterile
37 Idetn, ibidem.
38 Idem, p. 512.
39 SIMONSEN, of. aí., p. 125.
40 MARCHANT, op. cii, p. 512.
41 Idem, p. 512.
OT E M A
controversy»42. Foi, porém, Harold B. Johnson que com maior acuti-
lância denunciou o prejuízo que o estudo das capitanias tem sofrido
pela vinculação excessiva a discussões que desvirtuam o interesse
central da questão:
«Robert Simonsen further built on Dias misinterpretation when he
cast the question in terms of capitalism vs. feudalism. This pervasive in-
terpretative dichotomy, from which few subsequent commentators
have been able to escape, makes litde sense except in a Marxist frame-
work. Only for historians of the latter persuasion do feudalism and cap-
italism describe the same order of things - social systems based upon a
certain type of economic exploitation. But Simonsen, whose inspiration
seems to have derived from Gustav Schmoeller, not Marx, failed to give
feudalism an economic definition; and when Alexander Marchant fol-
lowing in Simonsen's footsteps adopted a radically juridical definition of
feudalism, he failed to note that this step makes any further attempt at
comparison or contrast with capitalism entirely pointless. To continue
along these lines was simply to confuse the issue further.
«Indeed, such arguments continued as long as they did due to the
failure of these pioneers to see the essentially emotional roots underly-
ing the feudal - vs. - capitalism dichotomy. For these thinkers feudalism
implied backwardness and capitalism progress; and the real question
they were só insatiably posing was "under what star was Brazil bom?"
Did it begin its life history with a head start or under a handicap? Only
in the light of such strong emotive significance can one explain the ob-
sessive fixation of historians with the question in spite of the fact no sat-
isfactory answer in these terms is or ever was possible. As long as the so-
cio-psychological roots of the problem went unperceived, however,
historiography was fated compulsively to repeat it. The only way of this
interpreta ti vê treadmill was for someone knowledgeable but emotion-
ally uninvolved to step off and point the way to an approach both more
objective and less charged with unspoken, half-unconscious wishes.»43
Assim, para Johnson, o passo decisivo teria sido dado em 1954
pelo historiador belga Charles Verlinden, quando defendera que o
modo mais adequado de compreender o sistema de colonização por
capitanias haveria necessariamente que passar pelo estudo dos senho-
í2 FRANGIS A. DUTRA, A Cuide to lhe History of Brazil, 1500-1822. The Liíerature in
Engiish, ABC, Ohio, Santa Barbara, Califórnia, Oxford, Inglaterra, 1980, p. 89.
1(3 HAROLD B. JOHNSON, op. cit., pp. 203-204.
O T E M A
tios medievais portugueses44. A essa obra clássica - Precedente médié-
vaux de lacohnieenAmérique (1954)45- acrescentou desde então o ilus-
tre medievalista belga outros estudos, avultando sobre todos as For-
mes Féodales et Domaniales de Ia. Cohnisatíon Portugaise (1960)46 e um
dos mais recentes, Portugese en Syaanse Feodale en Dominiael Kolonisa-
tievormen in de Atlantische Ruimte (1983)47.
Não será este o local mais próprio para comentar e necessaria-
mente contestar várias das posições tomadas por Verlinden na consi-
deração de questões que envolvem diferente conhecimento da reali-
dade, das fontes e da tradição jurídica portuguesa; fá-lo-emos
pontualmente noutro capítulo em relação a aspectos que nos parecem
mais delicados48. Como característica geral e sensivelmente crescente
na obra de Verlinden dir-se-á, todavia, que detectámos uma ênfase
excessiva na vinculação da tradição senhorial portuguesa a esquemas
de «feudalismo» ou «laços vassaláticos» que lhe são totalmente
alheios. Aliás, foi já Joel Serrão, em 1950, a propósito dos poderes dos
primeiros capitães da Madeira, que comentou que «é uma das muitas
balelas que ainda são consideradas moeda corrente a de que o dona-
tário teve atribuições feudais»49.
Um comunicação apresentada pelo Professor Frédéric Mauro no
Colóquio de Toulouse de 1968 dedicado à abolição do feudalismo,
subordinada ao título Existence et persistente d'un regime féodai ou seig-
neurial au Brésil50, encara o problema de modo bem mais moderado,
44 Idem, p. 204.
45 CHARLES VERLINDEN, Précédents médiévaux de Ia cohnie en Amérique, Comisión
Panamericana de Historia, México, 1954.
46 CHARLES VERLINDEN, «Formes Féodales et Domaniales de Ia Colonisation Por-
tugaise dans Ia Zone Adantique aux XIV et XV siècles et spécialement sous Henri le
navigateur», in Revista de História, Coimbra, IX, 1960.
47 CHARLES VERLINDEN, «Portugese en Spaanse Feodale en Domaniael Kolonisa-
tievormen in de Adantische Ruimte», in Mededelingen van de Koninklre Academie voor
Wetenschappen, Letieren ert Schnone Kiinste van Belgie. Masse der letteren. Academiae Ana-
leda, Jaargang 45, 1983, nr. 3, Bruxelas, 1983.
48 Vide o nosso Capítulo V.
49 JOEL SERRÃO, «O Infante D. Fernando e a Madeira (1461-1470). Elementos para
a formulação de um problema», in Das Aries e da História da Madeira, n.° 4, 1950,
p. 12, n. 22.
50 FRÉDÉRIC MAURO, «Existence et persistance d'un regime féodai ou seigneurial
au Brésií», in 1'Abolition de Ia Féodalité dans le monde occidental. Cottoques Intemationaux
du Centre National de Ia Recherche Scientifique. Sciences Humames, Toulouse, 12-16 de
Novembro de 1968, Editions du Centre National de Ia Recherche Scientifique, Paris,
1971, tomo 1.
38
O T E M A
mas ainda vinculado à questão feudalismo V5. capitalismo. O referido
estudo de Johnson parece-nos beneficiado por um maior desprendi-
mento, denotando um bastante razoável conhecimento da realidade
jurídico-institucional portuguesa e estabelecendo com senso o que
passível é de ligação entre os antigos senhorios metropolitanos e o
que de novo se procurou implantar nas terras adquiridas pelo efeito
da Expansão, acrescendo sobre tudo a desmistificação da velha dis-
cussão capitalismo vs. feudalismo que durante tanto tempo desviou
as atenções dos atractivos reais do problema. Em obras modernas
como The Camhridge History of South America (1985), o pequeno estudo
de Johnson merece do Professor Frédéric Mauro as honras do que de
mais recente se fez com seriedade no campo51, e também Lyle McA-
lister (1984) se lhe refere como «the best analysis of the donatary or
captaincy System»52.
Mas, sem prejuízo do inegável mérito de uns e outros historia-
dores citados, sempre diremos que essas teses, veiculadas com outro
impacto e em âmbito diverso, as deixou já formuladas com maestria
o Professor Paulo Merêa em A Solução Tradicional da Colonização do
Brasil, estudo já citado53, de escassas trinta páginas, que em 1924 se
incluiu no volume III da História da Colonização Portuguesa do Brasil. Já
aí- e, repetimo-lo, em 1924 - escrevia o Mestre:
«... Sendo assim, o sistema de colonização por donatárias apresen-
tava-se como uma inteligente e fecunda adaptação das doações de bens
da Coroa, que entre nós eram tão frequentes e representavam até certo
ponto um equivalente das concessões feudais. Com efeito, na altura em
que D. Henrique iniciou os descobrimentos, os chefes dos diversos esta-
dos europeus enfeudavam a cada passo bens, rendas e direitos da Coroa
aos seus parentes e servidores, não obstante o sistema político assumir
de dia para dia uma feição mais acentuadamente monárquica e centrali-
zadora. Entre nós, sem embargo dos progressos do poder real, os mo-
narcas continuavam a fazer frequentes e importantes doações de direi-
tos reais e de jurisdição civil e criminal [...] Ora, nunca esta cedência de
direitos reais e poderes soberanos fora tanto de aconselhar como no pre-
51 The Camhridge History of Latin America, Vol. I, Colonial Latin America, Editado
por Leslie Bethel, Cambridge University Press, 1985.
52 LYLE N. McAiiSTER, Spain anã Portugal in lhe New World. 1942-1700, Oxford
University Press, 1984, p. 535.
53 PAULO MEREA, «A Solução Tradicional da Colonização do Brasil», in HCP, vol.
n, pp. 167 ss.
39
O T E M A
sente caso em que ao Rei e ao Infante convinha interessar alguém direc-
tamente no povoamento e desenvolvimento das novas possessões,sem
aliás abdicar do seu senhorio eminente e suprema jurisdição.»54
Mais adiante alude ao «sistema senhorial das capitanias que se
adoptou no Brasil na primeira fase da sua colonização»55, e conclui
que se aplicavam, «adaptando-se às circunstâncias, duas peças tradi-
cionais do nosso sistema político-administrativo: por um lado as doa-
ções de bens da Coroa e direitos reais, por outro as cartas de foral»56.
As palavras que acabamos de reproduzir não deixam dúvidas
quanto à sensibilidade de Merêa a uma realidade cujo mérito do
anúncio tem sido atribuído a outros que só posteriormente a referem,
e em seu prejuízo, ao ponto de Stuart Schwartz, um dos mais citados
historiadores do Brasil colonial, na sua aliás interessante e geralmente
bem documentada obra Sovereignities and Society in Colonial Brasil
(1973)57, não contente em deturpar-lhe o nome, lhe amputar o título
do estudo citado, envolvendo erroneamente na discussão do feuda-
lismo ou capitalismo das capitanias, e apresentando refutado por Ale-
xander Marchant em obra em que este o cita perfunctoriamente e
sem qualquer conotação com a matéria58.
É para lamentar, mas, valha a verdade, este ramo de estudos tem
sido assim indesculpavelmente descurado pelos historiadores e pelos
juristas nacionais, a quem primeiro que todos competia neles avançar.
O panorama visível é, efectivamente, escasso. O Arquivo da Madeira
publicou um estudo subordinado ao título «Ensaio sobre a natureza
jurídica das capitanias»59. Pertinente e bem elaborado, ficou, todavia,
incompleto e desprovido de notícia de autor. Do melhor que até à
data se tem feito, merecem também especial referência os artigos de
Maria Emília Cordeiro Ferreira no Dicionário de História de Portugal, sub
S4Mcm,pp. 167-168.
5SIdem, p. 171.
56 Idem, p. 174.
57 STUART B. SCHWARTZ, Sovereignitíes and Society in Colonial Braztl. The High Court
of Bahia and itsjudges, 1609-1571, Berkeley, Los Angeles, Londres, University of Cali-
fórnia Press, 1973.
58 Idem, p. 24, n. 3.
59 «Ensaio sobre a natureza jurídica das capitanias», in Arquivo da Madeira,
T. II-III, s.i. de autor.
40
O TEMA
você «Capitães-Donatários» e «Donatárias»60, e podemos, é certo, re-
correr aos elementos carreados no Elucidário Madeirense do Padre
Francisco da Silva e Azevedo de Menezes61, à obra A Madeira sob os
Donatários, de Damião Feres62 (1914), a alguns estudos de Fernando
Jasmins Pereira63 ou aos Capitães dos Donatários de Faria e Maia
(1972)64. São, contudo, como alguns outros que aqui não há que citar,
estudos resumidos, utilitários ou mais voltados para a história social
ou para a biografia dos capitães.
Também, sob títulos que se poderiam considerar auspiciosos -
A Condição Jurídica das Capitanias Brasileiras, comunicação de Oliveira
Guimarães apresentada no Congresso do Mundo Português (1940)65,
as «Capitanias Hereditárias» de Jacobina Lacombe, na Revista Portu-
guesa de História (1978)66 e «O Sistema das Capitanias do Brasil», de
Manuel Nunes Dias, no Boletim da Biblioteca da Universidade de Coim-
bra (1980)67 - nada ou pouco de útil se colhe para o avanço da análise
da questão, para além de um recurso mais ou menos transiatício ao
que Waldemar Ferreira e Paulo Merêa muitos anos antes deixaram
escrito.
O Professor Marcello Caetano, na sua História do Direito Português,
deixou mais recentemente (1981) dedicadas algumas páginas ao es-
tudo do regime jurídico das primeiras capitanias quatrocentistas, co-
locando-as sob a epígrafe significativa de «Utilização do regime se-
nhorial na colonização das terras descobertas»68. As páginas desse
historiador do Direito são, porém, breves, e infelizmente interrompi-
60 MARIA EMÍLIA CORDEIRO FERREIRA, sub você «Capitães-Donatários» e «Donatá-
rias», in Dicionário de História de Portugal, Lisboa, vol. l, 1963.
61 PADRE FRANCISCO AUGUSTO DA SILVA e CARLOS AZEVEDO DE MENEZES, Elucidário
Madeirense, Funchal, 1965.
62 DAMIÃO FERES, A Madeira sob os Donatários, Funchal, 1914.
63 FERNANDO JASMINS PEREIRA, «A Ilha da Madeira no período henriquino
(1433-1460)», in Ultramar, n.° 3, 1961, pp. 21-47.
64 FRANCISCO DE ATHAYDE M. DE FARIA E MAIA, Subsídios para a história de S.
Miguel- Capitães dos Donatários (1439-1766), Lisboa, 1972.
65 Luís DE OLIVEIRA GUIMARÃES, «A Condição Jurídica das Capitanias Brasileiras»,
in Congresso do Mundo Português - vol. IX - Memórias e Comunicações apresentadas ao
Congresso Luso-Brasileiro de História (VII Congresso), Lisboa, tomo I, l.1 Secção, 1940.
66 AMÉRICO JACOBINA LACOMBE, «Capitanias Hereditárias», in Revista Portuguesa de
História, Tomo XVI, Homenagem ao Doutor Torauaio de Sousa Soares, Coimbra, 1978.
67 MANUEL NUNES DIAS, «O Sistema das Capitanias do Brasil», in Boletim da
Biblioteca da Universidade de Coimbra, XXXIV- S.' parte, Coimbra, 1980.
68 MARCELLO CAETANO, História do Direito Português (1140-149$) - I, Lisboa, Edi-
torial Verbo, 1981, pp. 524-527.
41
O T E M A
das pela sua morte. No entanto, é sintomático do interesse que a ma-
téria vem suscitando que o Professor Ruy de Albuquerque, no Pro-
grama do curso de História do Direito Português que se fez publicar
em 1985 na Revista da faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,
apresente precisamente como pontos de destaque ou «aspectos mais
relevantes» da matéria da Administração Ultramarina, na Madeira e
nos Açores, o «regime senhorial» e a «extinção das donatárias», e, no
Brasil, «organização por capitanias: causa do insucesso»69.
Quanto saibamos, os últimos estudos que encararam as capita-
nias sob um prisma jurídico e institucional, fizemo-lo nós, despreten-
siosamente, em linhas breves que apresentámos no 1.° Colóquio In-
ternacional de História da Madeira (Funchal, 1986) sob o título «As
Capitanias à luz da História e do Direito», e num artigo publicado
numa revista histórica em 199070.
No primeiro desses escritos tivemos a oportunidade de global-
mente notar que «a quase totalidade desses e outros poucos estudos
afins brotam da pena de historiadores, particularmente de medieva-
listas, tendencialmente limitados pela análise da letra dos títulos
constitutivos, sem que até ao momento se chegasse a ensaiar um es-
tudo de conjunto, quer do ponto de vista cronológico, geográfico e,
sobretudo, institucional. E impõem-se fazê-lo. É displicente de-
termo-nos sobre o peso e a extensão atingida pelo sistema de coloni-
zação por capitanias: na Madeira, nos Açores, em Cabo Verde e
S. Tomé alargou-se a toda ou quase toda a extensão das ilhas. No Bra-
sil é bem conhecida a repartição quinhentista que se estende aos fi-
nais do século XVII, e poderíamos referir ainda as aflorações que nos
surgem em Angola e até na Serra Leoa. O que não cabe esquecer é
que as capitanias não foram criadas simultaneamente, decorrendo
mais de duzentos anos entre a doação da primeira, na Madeira, em
1440, e a da última, no Brasil, em 1685, e mais quase cem até ao de-
saparecimento da derradeira, a de Porto Santo, em 1770. O investiga-
dor é, pois, confrontado com um processo longo e irregular, fundado
em motivações diversas e enquadrado por legislação mutável, em que
69 RUY DE ALBUQUERQUE, «História do Direito Português», in Revista da faculdade
de Direito da Universidade de Lisboa, Lisboa, XXVT, 1985.
70 Vide ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, «As Capitanias à Luz da História e
do Direito (Perspectivas e Metodologia}», in Actas do 1." Colóquio Internacional de His-
tória da Madeira, 1986. Vol. I, Funchal, Governo Regional da Madeira, 1989, e «Con-
siderações sobre o estudo das capitanias ultramarinas portuguesas», in Ler História.
Descobrimentos e Expansão, n.° 19, 1990.
42
O T E M A
as capitanias na sua maioria acabam por perder por inteiro a função
primária de povoamento, para se tornarem autênticas circunscrições
administrativas ou puras e simples prebendas económicas»71.
2. As Capitanias como Doações Régias
2.1. Questões Prévias
Vimos assim que a questão das capitanias do antigo império por-
tuguês tem sido perspectivada dos mais diversos modos, e, se é certo
- como escreve Orlando Ribeiro - «quemuitos aspectos da nossa ex-
pansão são bem conhecidos, se é facto que a erudição portuguesa dos
últimos cinquenta anos se aplicou a esclarecer alguns deles, especial-
mente os problemas relativos às minúcias dos descobrimentos, à arte
náutica, ao desenvolvimento da cartografia, ao raconto da história he-
róica dos portugueses no Brasil, na África e no Oriente, que podem
considerar-se relativamente bem estudados, é verdade também que
outros aspectos permanecem obscuros, que a muitas interrogações
não se sabe o que se há de responder e algumas dúvidas nem sequer
se podem pôr de uma maneira correcta que permita vislumbrar-lhes
próxima solução»72.
Assim sucede no plano do jurídico onde continuam em aberto
importantes questões, constituindo outras tantas lacunas, só contra-
riadas por estudos pontuais ou capítulos isolados de obras mais vas-
tas, uns e outros insuficientes para enquadrar devida e globalmente o
sistema sob um prisma fundamentalmente jurídico. E isto porque al-
guns autores, deixando-se ofuscar pelas peculiaridades formais das
cartas de doação e pelas inevitáveis adaptações que no meio ultrama-
rino quer elas quer os respectivos forais houveram de sofrer, desloca-
ram a questão das capitanias do seu meio próprio, dando-lhe foros de
autonomia enquanto a desenraizavam do meio de onde brotavam e
do qual retiravam o próprio e único significado.
Ora, em rigor, toda a questão das capitanias respeita fundamen-
talmente a uma dispersão de bens da Coroa, de direitos inerentes à
71 ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, As capitanias à Luz da História e do Direito
(Perspectivas e Metodologia), comunicação apresentada no 1.° Colóquio Internacional
de História da Madeira, Funchal, 1986.
72 ORLANDO RIBEIRO, Aspectos e problemas da Expansão Portuguesa, Fundação da
Casa de Bragança, 1955, p. 16.
O T E M A
soberania real, dispersão essa excepcionalmente aceite e processada
em função de objectivos precisos, segundo um ritmo peculiar e com
um enquadramento jurídico e doutrinário determinado. Viu-o bem o
Professor Paulo Merêa, notando que «o sistema de colonização por do-
natárias apresentava-se como uma inteligente e fecunda adaptação das
doações de bens da Coroa, que entre nós eram tão frequentes e repre-
sentavam até certo ponto um equivalente das concessões feudais»73.
Estamos, pois, perante a figura genérica de actos graciosos de dis-
posição, que, pressupondo a ideia e existência de um domínio, to-
mam por objecto poderes ou direitos nestes contidos. Fazendo-nos
avançar um passo mais na determinação do processo de atribuição
desses direitos, uma análise atenta do nomen iurís utilizado quer pelas
partes a quem coube a iniciativa do acto quer pela própria jurispru-
dência e pela doutrina, revela-nos a adopção da fórmula da donatio74.
Disse-o recentemente, como vimos, o Professor Paulo Merêa, e tam-
bém o escreveu muito antes o ilustre jurisconsulto seiscentista que foi
o Dr. Manuel Álvares Pegas, afirmando que «os capitães desta quali-
dade sejam donatários da Coroa e se devam reputar por tais e as suas
doações se hajam de regular como as dos outros donatários, está jul-
gado muitas vezes...»75.
Um pouco mais tarde, o próprio Pascoal José de Melo Freire re-
conheceu também que
«os capitães perpétuos das Ilhas (que cumpre distinguir totalmente dos
Governadores temporários e oficiais militares), aos quais foi concedido
o direito e império como Capitania, isto é, obrigação de defender as ter-
ras atribuídas, são verdadeiros donatários, e, por isso, sujeitos à nossa
Se quisermos, porém, avançar ainda mais no juízo desta questão,
facilmente se constata que os argumentos de carácter documental,
encarados solitariamente, apenas podem sustentar uma presunção de
correspondência entre a designação doação e a vontade das partes, a
73 PAULO MERÊA, op. cit., n. 53.
74 Sobre a questão da configuração da concessão e da doação no antigo Direito
Português, vide P.UY DE ALBUQUERQUE, Os títulos de Aquisição territorial, Lisboa, 1960
(tese dact. e polic.), pp. 153-159.
75 PP, foi. 569.
76 PASCOAL JOSÉ DE MELO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português, tanto
público como particular», Livro II, reed. in Boletim do Ministério da Justiça, n.° 163,
Fevereiro, 1967.
O T E M A
presunção da licitude da utilização do termo doação, aplicado ao con-
teúdo jurídico do acto visado pelas partes. O que, podendo sugerir
uma insuficiência de elementos qualificativos do acto, nos não deixa
necessariamente com a certeza da realização desse tipo negociai, não
excluindo, portanto, um error in nomine negotii77.
Estando em causa, como dissemos, o processo através do qual se
teria feito a transferência de direitos suscitada por um acto gracioso
de disposição, só teremos a ganhar com a valorização dos elementos
existentes, comparando-os com a fattisyecie típica da doação78. Ele-
mentos como, por exemplo, a existência de fórmulas simples em que
transparece a ideia de transferência e de consequente perda de direi-
tos, «fazemos doação», «faço mercê e irrevogável doação», «hei por
bem fazer-lhe irrevogável doação», etc., todo um naipe de fórmulas
que documentos adiante citados poderão de algum modo melhor re-
velar. E o caso, também, do modo como o apossamento do.
pelp^adcjuirejite o_u pelo seu mandatário^seguiíclõ fórmulas e em cir-
cunstâncias pré-estabelecidas, traduz o modus adquirendi, manifesto
em autos ou instrumentos de tomada de posse que complementam,
por assim dizer, os instrumentos relativos à declaração da vontade de
transmitir .direitos79. É, enfim, a natureza do própriõ~õbjêcto da cTõlî
cão, na sua vertente essencial do direito ou direitos transferidos.
2.2. Os Fundamentos do Domínio Régio
De facto (e aludimos a tema que iremos posteriormente desen-
volver) os monarcas doadores, reservando para si um domínio emi-
nente, transferem para o Donatário um domínio útil, preenchido por
direitos relativos a uma bem determinada área territorial do reino, en-
globada na genérica categoria dos bens da Coroa.
Concentrando-se os suportes, ou melhor dizendo, as determi-
nantes territoriais desses direitos na zona atlântica das possessões
portuguesas - as ilhas do Atlântico, a África Ocidental, o Brasil - qual,
pois, o título jurídico em que se fundou a Coroa para fazer doações,
para se arrogar de uma summa potestas e da faculdade de dispor daque-
les direitos?
77 Sobre este problema no âmbito definido, vide RUY DE ALBUQUERQUE, op. dl.,
p. 160.
78 Idem, p. 167.
79 Vide RUY DE ALBUQUERQUE, op. cit., pp. 172-173.
45
O T E M A
O assunto foi já proficientemente escalpelizado por Ruy de Albu-
querque, em trabalho que dedicou precisamente aos títulos de aquisi-
ção territorial na Expansão portuguesa80. Seja-nos assim permitido
apontar somente que nas áreas que foram alvo da atribuição e criação
de capitanias, independentemente de grandes especulações doutriná-
rias, os dois grandes sustentos jurídicos do domínio da Coroa de Portu-
gal eram considerados estarem invariavelmente fundados ou numa
aquisição originária de territórios (Ilhas dos Açores ou da Madeira,
p. ex.) ou, no caso de outros habitados, na força e virtude dos diplomas
pontifícios de doação81. Verdade que nem sequer cabia discutir, como
escreveu o cronista quinhentista João de Barros em páginas célebres que
dedicou ao ditado ou título real do Rei D. Manuel, considerando que
«... posto que estes três títulos, Conquista, navegação e comércio sejam
actos em tempo não determinados e finitos e em lugar tão grandes que
compreendem tudo o que jaz do Cabo Bojador até ao fim da terra orien-
tal, etc., e neste ano de quinhentos e um El-Rei D. Manuel se intitulou
deles, não podia tomar outros mais próprios à justiça e aução que tinha
naquela Oriental propriedade ao presente salvos eles, bem se pode a
Coroa deste reino intitular destes reinos que tem conquistado. Na Etió-
pia, Sofala, Quíloa e Mombaça, e na Arábia e Pérsia do grande Reino de
Ormuz, cujo estado com muitas vias e lugares está nestas duas partes de
terra. E na índia, dos Reinos de Goa, Maíaca e Maluco,como todolos
mais senhorios que nestas quatro províncias tem navegado e conquis-
tado, e assim na Província de Santa Cruz ocidental a estas, a qual ao pre-
sente El-Rei D. João o Terceiro Nosso Senhor repartiu em doze capita-
nias dadas de juro e herdade às pessoas que as têm...»82.
2.3. O Conteúdo das Doações
Se esses territórios eram considerados pertencer, assim, à Coroa,
e se na doação de «bens régios» se centra o nosso estudo, impõe-
-se-nos destrinçar já o que jurídica e politicamente se entendeu sob
80 RUY DE ALBUQUERQUE, op. cit.
81 Sobre esta questão, vide ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, lustum Imperium.
Dos Tratados como fundamento do Império dos Portugueses no Oriente.. Estudo de História do
Direito Internacional e do Direito Português, Macau, Instituto Português do Oriente, 1996,
R II, Cap. II.
82 JOÃO DE BARKOS, Da Ásia, Lisboa, Régia Officina Typografia, 1777, Década l,
Livro VI, Cap. I.
i
O T E M A
essa genérica categoria, discutida por tantos tratadistas quantos se
dedicaram a defini-la83.
Se quisermos desde já excluir do nosso estudo os bens patrimo-
niais do Rei, «como homem contemplado particularmente, sem So-
berania e Majestade ou Principado Régio»84, necessário se nos torna
estabelecer uma delimitação clara que distinga os bens constituintes
do que o oitocentista Alberto Carlos de Menezes chamou «o Grande
Morgado da majestade, em que lhe devem suceder os sucessores da
Coroa, substituindo uns aos outros na propriedade daqueles vincula-
dos, perpetuamente proibido o seu comércio e alienação»85, dos bens
da Real Fazenda. E se nesse «Grande Morgado da Coroa» o mesmo
autor distinguiu bens das «grandes Regalias»86 - i.e., «todas as produ-
ções de Direitos Majestáticos»87 - dos bens de «pequenas Regalias»88
- próprios do Rei, como «Rei, mas que podem estar em poder de um
particular por título régio»89, aos bens da Real Fazenda Alberto Me-
nezes remeteu os «bens fiscais e alienáveis à vontade do Soberano
para as despesas da nação», como os «rendimentos, rendas, tributos,
bens confiscados», etc.
Ora, se decompusermos o conteúdo da generalidade das doações
de senhorios que em Portugal se fizeram, qual o tipo de bens régios
doados em causa? Na categoria de bens das ^rãndeTregalIàs^, ina-
lienáveis pelojvionarca e unicamente susceptíveis de delegação ou
doaçã^com reversão àCoro^ «quando forne cessa rio e o Rei qui-
ser»0"»90, ostiEuIÕs de Senhores de Terras, Capitães e Governadores, as
faculdades de administração de justiça, nomeação de magistrados e
oficiais, criação e concessão de privilégios de vila, etc. Na categoria
de bens de «pequenas regalias», próprias do Rei como tal, «mas que
83 Vide A. HESPANHA, op. cit., pp. 291 ss., bem como a bibliografia aí referenciada.
54 Vide ALBERTO CARLOS DE MENEZES, Classificação dos bens Nacionais para ordenar
a Administração, Tombo, e Reconhecimento da fazenda Fiscal por Superintendências. Almoxa-
rifados, ou Contadorias em Comarcas e territórios Municipais, etc., Lisboa, Imprensa
Nacional, 1823, p. 108.
85 Idem, ibidem.
86 Castillo de Bovadílla na sua Política para Corrigidores (I, 11, 16, 218), definiu
como «regalias», aquele conjunto de coisas que «no se pueden dar ni apartar de Ia per-
sona y corona real, que aunque expresamente se huvieren dado o vendido a algún
senor com juramento podrá el sucesor en el Reyno (resultando de Ia concesión grave
perjuizio) revocar Ia tal concesión y recuperar Ias dietas preeminências reales».
87 A. C. MENEM, op cit., p. 108.
88 Idem, p. 109.
89 Idem, ibidem.
90 Idem, pp. 108-109.
O T E M A
podem estar em poder de um particular por título régio», o tipo de ter-
ras vagas mencionadas no título de doação91. Na categoria de bens
«da Real Fazenda» ou bens fiscais, os anexos às faculdades de governo
ou administração de justiça (v.g. portagens ou pensões de cargos de
nomeação donatarial) ou os puros e simples rendimentos dos bens da
Coroa, como as dízimas ou as redízimas cobradas por donatários92.
Estamos, em suma, perante o que Salvador de Moxó, para o caso
espanhol, considerou uma «cascada» de faculdades diversas e de dis-
tinta natureza, «administrativa, económica, tributária, judicial y aun
eclesiástica, que constituyen el aspecto mas representativo y dinâ-
mico dei regimen senorial desde Ia baja Edad Media»93.
Para a precisarmos, é mister recuarmos aos alvores da nacionali-
dade portuguesa, constatando a clara confrontação travada entre mo-
narcas e donatários, para progredirmos a uma fase em que o poder do
príncipe, num processo, aliás, familiar às monarquias hispânicas da
baixa Idade Média, «de mera missión de dirección vá - segundo o
mesmo historiador espanhol - transformando su función en una mis-
sión de império e gobierno»94. Culminará ainda na nossa primeira di-
nastia em medidas legislativas restritivas do arbítrio senhorial, como
as de D. Diniz, em cujo tempo se nota uma preocupação patente no
vincar os direitos da Coroa, as de D. Afonso IV, e, principalmente, as
de D. Fernando, com especial destaque para uma lei de 1379 em que
se deixam já consagradas as ideias basilares que as Ordenações de
modo mais ou menos translatício recolheram sucessivamente no de-
curso de um processo de uniformização do âmbito da jurisdição se-
nhorial, processo que se poderá considerar concluso à data da elabo-
ração da primeira daquelas compilações. Até tarde esse quadro ficará
então aí definido, quer através do conteúdo dos títulos versando
a matéria dos «direitos reais» quer daqueles que se dedicam aos
«Senhores de Terras», extensíveis aos capitães-governadores das Ilhas
e do Brasil.
Se procurarmos concretizar o tipo de doações feitas, decom-
pondo em planos constitutivos o núcleo comum às várias modalida-
des de capitanias existentes na área atlântica, teremos:
91 lâtm, ibidem.
92Mem,pp. 109-110.
93 SALVADOR DE Moxó, «Los Senorios: cuestiones metodológicas que plantea su
estúdio», in Anuário de Historia dei Derecho Es f anal, Madrid, XLIII, 1973, p. 292.
94 S. DE Moxó, «Los Senorios. En tomo a una problemática...», p. 197.
48
O T E M A
a) A base territorial de propriedade e jurisdição;
b} A autoridade investida nos capitães;
c} O rendimento económico dos capitães.
Quanto ao primeiro, escrevemo-lo já, há que fazer distinções. Em
primeiro lugar, a do território como área delimitada de exercício de
jurisdição ou faculdades donatariais, perfeitamente identificada nas
cartas constitutivas, e com maior facilidade quando as capitanias têm
sede em ilhas ou parte de ilhas, como na Madeira, ou com maior
complexidade, como no Brasil, em que para a delimitação de territó-
rios vastíssimos se conjugam ficções técnicas como a linha de Torde-
silhas e o parcelamento da costa por «lotes» desiguais. Em segundo lu-
gar entender-se-á o território como propriedade pessoal do Capitão,
resquício último do senhorio medieval por si só gerador de todas as
faculdades jurisdicionais, que nas capitanias encontramos autonoma-
mente concedidas e separadas da concessão da terra95.
Como veremos em capítulo próprio, foi este um dos pontos que
mais se têm prestado a equívocos, consubstanciados na ideia de que
concedida a Capitania, concedida estava a terra correspondente. Ora,
nada de mais errado: as capitanias são senhorios eminentemente ju-
risdicionais, a que anda potencialmente agregada uma parcela fun-
diária, destacada do património do Grande-Donatário ou do Rei, e
angariada para o Capitão através quer de uma auto-aplicação do sis-
tema das «dadas de sesmaria» (caso da Madeira e dos Açores), quer
através de um pré-estabelecimento de apropriação por parte do Ca-
pitão (caso do Brasil) modalidade esta a que parece ter presidido o in-
tuito de corrigir em terra vasta os eventuais abusos verificados pela
prática da primeira96.
Em segundo lugar, havemos, pois, de referir a autoridade inves-
tida no Capitão, na sua dupla vertente de mero governo, chamemos-
-Ihe «civil» - e retomamos o que já escrevemos - cometido ao Capitão
quando presente na Capitania, ou, quando ausente, ao seu Loco-Te-
nente, englobava, para além de funçõesde mera administração da
propriedade particular, a arrecadação das rendas, a nomeação ou con-
firmação - quando concedida - de funcionários concelhios, o servir
de elo máximo de contacto com o monarca, e, num período primário,
específicas funções de comando militar97. No somatório destas atri-
95 A. VASCONCELOS DE SALDANHA, op. ar., nota 71.
96 lâem,
97 Idem, ibidtm.
49
O TEMA
bulcões tem também um inegável peso a faculdade de distribuir ter-
ras em «sesmaria», razão por que no decurso deste estudo lhes dedi-
camos um capítulo por inteiro.
Quanto à administração da justiça, há que recordar que, excep-
cionalmente, a cometerem os reis a alguns dos seus súbditos como
galardão desejado, núcleo nobre não apenas das capitanias, mas de
qualquer senhorio jurisdicional doado e nascido à sombra da legisla-
ção portuguesa. Se nos recordarmos, também nas primeiras cartas de
doação das capitanias madeirenses, o fito de essas terras manter «em
justiça e em direito» vem logo à testa de qualquer outro objectivo ou
concessão. A tradição portuguesa, como referimos, permitia-o, re-
montando à 2.a metade da dinastia de Borgonha as primeiras tentati-
vas de regulamentação da jurisdição senhorial; e, mau grado a rígida
legislação de D. Afonso IV e D. Fernando, passada às Ordenações, e as
limitações que indirectamente se lançaram no tempo de D. João I e
seus sucessores através do dispositivo da Lei Mental, nunca, na prá-
tica, se pôs totalmente em causa a concessão de faculdades tendentes
ao exercício da administração da justiça por particulares, assim inves-
tidos da qualidade de juizes perpétuos na área de jurisdição, nas suas
duas vertentes cível e crime98.
Em terceiro e último lugar, mencionadas as questões do território
e da autoridade, resta aludir às rendas auferidas pelos capitães, de
montante tão variável desde a extrema insignificância à opulência cé-
lebre dos capitães quinhentistas do Funchal, S. Miguel ou Pernam-
buco. Segundo análise também já por nós anteriormente feita, se con-
siderarmos globalmente o conjunto das capitanias existentes
verificamos com facilidade a correlação de três classes de rendimen-
tos: as rendas derivadas do próprio exercício da autoridade ou facul-
dades dos capitães (como as pensões dos tabeliães, p. ex.) e as pen-
sões fixas cobradas sobre actividade de serras de água, e os chamados
direitos exclusivos, como o dos fornos ou da venda do sal; as rendas
directamente calculadas e cobradas em função dos réditos reais,
como a «reçlízima»; as rendas de carácter meramente territorial, de-
correntes da exploração das terras próprias dos capitães". Todas elas
serão caracterizadas em capítulo próprio.
É patente que este tipo de ligação que se estabelece entre mo-
narca e donatários tem a fisionomia própria que lhe concede a básica
dualidade de relações que se estabelecem entre um senhor e um vos-
98 Idetn, ibidem.
99 Idem, ibidem.
50
O T E M A
saio: as que por parte do primeiro em relação ao segundo implicam
uma concessão, a título precário ou perpétuo, de bens ou proventos
acompanhados da concessão de poderes públicos, nomeadamente a
administração de justiça, a cobrança de impostos e a organização mi-
litar. As que por parte do segundo em relação ao primeiro obrigam
não apenas aos laços de obediência ou dependência a que se sujeita
qualquer vassalo, entendida a palavra no seu sentido lato, mas tam-
bém a específicos serviços ou obrigações que os títulos constitutivos
da relação prefixam.
Sabemos e vimos já ser este âmbito vasto o campo ideal sobre o
qual se construíram e constróem algumas teses tendentes a estender
o conceito de «feudalismo» ao processo de compreensão das capita-
nias. Não iremos, todavia, incorrer em especulações estéreis, caracte-
rizadas até pela impotência em assentar ou definir um conceito claro
de feudalismo™'. No plano em que nos interessa movimentar, esse e o
outro conceito fulcral de senhorio, impuseram-se com uma natureza
específica, «a partir da necessidade de se distinguir - no plano da his-
tória exclusivamente jurídico-política - os regimes feudais típicos -
i.e., aqueles em que a organização política é dominada pelo laço vas-
salático e pela outorga dos grandes senhores de extensos poderes ma-
jestáticos - e os regimes em que, tendo-se verificado também uma
extensa vigência de laços de subordinação político-jurídica dos indi-
víduos, aquela pulverização, no topo, do poder político não se verifi-
cou em alto grau».
Quem assim o refere é António Hespanha101. Mas esta tese é con-
sonante com o que já Paulo Merêa, alguns anos antes, constatara, ad-
vertindo que para se «afirmar que o nosso País e os demais estados
ocidentais da Península conheceram o feudalismo é preciso ligar a
esta palavra um sentido demasiado vago. Mas se por país feudal en-
tendermos aquele cuja organização política tem como elemento es-
sencial o contrato de feudo - com esse ou com outro nome - então
cremos bem poder afirmar que Portugal não pertenceu nunca a esse
tipo histórico de estado. Uma coisa, com efeito, é o feudo, outra o se-
nhorio, onde a necessidade, antes de mais nada, de distinguir os dois
regimes: o feudal e o senhorial, embora nos países chamados corren-
temente feudais os dois sistemas apareçam amalgamados e numa
100 Vide, p. ex., as Actas do Colóquio «UAbolition de Ia Féodalité», referido
supra,
101 ANTÓNIO MANUEL HESPANHA, História das Instituições. Épocas medieval e
moderna, Coimbra, Livraria Almedina, 1982, pp. 85-86.
O TEMA
estreita interdependência. Posto isto, o que um estudo desprevenido
das fontes nos habilita a concluir é que destes dois regimes Portugal,
como Leão, apenas conheceu o segundo, cumprindo ainda assim não
esquecer que ele não atingiu aqui o mesmo grau que na França, onde
a realeza chegou a ser apenas, na frase de um escritor ilustre, um
nome e uma tradição. Relações do Rei com os súbditos, importância
da cavalaria vilã, remuneração do serviço militar pelo sistema da sol-
dada, supremacia do monarca em relação aos maiores privilegiados,
carácter amovível dos cargos públicos - eis, para não nos referirmos
senão ao que mais avulta, outros tantos traços mais do que suficien-
tes para emprestar à nossa constituição política medieval uma fisio-
nomia e uma essência que profundamente a diferenciam, indepen-
dentemente das influências estranhas que num ou noutro ponto se
tenham produzido»102. Mais adiante especificará o mestre coimbrão
que o regime senhorial consiste essencialmente «numa disseminação
dos direitos próprios da soberania, numa fragmentação do conteúdo
desta e sua distribuição por diversos indivíduos, em cujo património
passam a fundir-se, misturando-se com os direitos de índole privada
e ingressando com estes no comércio jurídico»103.
Poderemos concluir assim que ao senhorio subjaz uma delegação
de poderes normalmente inerentes ao Soberano, cujo detentor os
exerce não como uma função, mas como um direito pessoal e geral-
mente hereditário ainda que termo seja passível de ser interpretado
como um conjunto de direitos específicos, ou no sentido de «área de
jurisdição» ou território determinado onde esses direitos são exercidos.
2.4. A Questão da «Imunidade»
Mas se podemos definir assim as linha s-m e s trás do que caracte-
rizámos como regime senhorial, importa também deixar explicitado o
contexto histórico que directamente o justifica, nomeadamente o
processo de formação e desenvolvimento da imunidade, inerente a um
território isento ou alheado à jurisdição da Coroa por uma auto-limi-
tação desta, que aí se vê substituída no exercício das faculdades que
lhe são próprias por um senhor determinado.
102 PAULO MERÊA, in História de Portugal. Edição Comemorativa do 8." Centenário da
Fundação da Nacionalidade, Direcção Literária de Damião Feres, Barcelos, 1929-1935,
vol. II, pp. 469-470.
103 Idem, p. 502.
52
O T E M A
Os primórdios hão-de ser buscados em épocas anteriores à na-
cionalidade, ao seio da própria monarquia asturo-leonesa. Foi San-
chez Albornoz quem, porventura, melhor patenteou a origem das
imunidades peninsulares104,documentando-as nas Astúrias no século
ix, ainda que as suponha já existentes no século anterior, no período
inicial da Reconquista105. É esta, aliás, quem directamente as justifica;
efectivamente - escreve Afonso Guilarte - «a ello contribuyó en gran
manera Ia situación especialíssima en que se encontraba el nuevo
Reino. En efecto, Ia guerra continuada, Ias invasiones frecuentes de
los árabes, etc., crearon un estado de inseguridad que reflejándose en
Ia economia de Ia propriedad territorial, hacia necesario Ia atribución
de Ia soberania ai proprietário; solo de este modo, correspondi e ndole
los poderes públicos y jurisdiccionales sobre los habitantes de sus
tierras, se garantizaba Ia producción y el cultivo de Ias mismas, ya
que Ia potestad domínica no se extendia más que a los siervos y no
abarco nunca aquelles derechos»106.
Por outro lado, e no esteio de Albornoz, o mesmo autor nota que
a imunidade medieval acarretava ainda para a Coroa a vantagem sem
preço de lhe libertar a incipiente máquina administrativa da tarefa pe-
sada de administrar territórios instáveis107. Significativamente, as
«Partidas» - acrescenta - «razonan Ia existência de senorios como
uma mejor fórmula para Ia administración, de Ia cosa publica, ya que
el poder dei Rey no puede llegar a todos los lugares»108.
Reportando-nos a Albornoz, a imunidade haverá também que ser
encarada como uma via de supressão dos intermediários colocados
entre o Rei e o senhor da terra isenta, e a libertar os seus povoadores
de toda a ingerência dos delegados régios através da proibição da sua
entrada no domínio isento109. Em consequência - notou-o também
Hinojosa -, furtada a terra à autoridade dos delegados da Coroa e
deste modo alheios aos litígios suscitados entre os habitantes, a isen-
Ção da terra acarretava também furtar-se aos mesmos oficiais o exer-
cício da jurisdição ordinária110. Com justiça poderia afirmar Salvador
WA Sobre o tratamento desta questão vide ALFONSO MARIA GUILARTE, El Regimen
Senorial en el siglo XVI, Madrid, Instituto de Estudos Políticos, 1962, in yrinc.
105 Vide GUILARTE, op>. cif., p. 4.
106 Idem, ibidem.
107 Idem, pp. 4-5.
108 Idem, p. 5, n. 9.
109W««, p. 7, n. 12.
110 Idem, ibidem.
O T E M A
de Moxó que os privilégios da imunidade continham em si o «gérmen
dei senorio jurisdicional». E iremos ver de que modo.
Ainda segundo Albornoz, a transição do século XI para o século
XII acarretará à estrutura dos senhorios remotos ou «primitivos» - se
quisermos usar da terminologia empregada pelo ilustre historiador
espanhol - uma substancial alteração que se manifesta não já na sim-
ples fórmula de imunidade, mas na concessão explícita de, a par das
terras, «todo el domínio y sehorio, com cuanto a Ia regia voz perte-
nece, según Ia potestad real pertenece, etc.»111. Isto é, se na generali-
dade dos senhorios anteriores ao século xm as faculdades de exercício
do poder público são disputados pelos senhores, no lógico decurso da
própria proibição de ingresso dos oficiais reais nas suas terras «couta-
das», daquela data em diante processar-se-ão verdadeiras e bem ex-
pressas transferências de competências públicas, agora como ante-
riormente, em proveito próprio de um particular, ainda que sujeitos
com maior incremento à fiscalização dos oficiais régios112.
Também, se nos senhorios «primitivos» o privilégio da imuni-
dade florescera num ambiente de debilitação do poder real face ao da
nobreza surgida da Reconquista, desenvolvendo-se quer por via de
pura e simples usurpação quer pela própria concessão do monarca
(indiscutivelmente interessado em consolidar lealdades e granjear de-
pendências), ao crescimento dos senhorios posteriores ao século XII
preside o crescente reforço e centralização do poder real. Nesse con-
texto, acentua A. Hespanha, «o progressivo conhecimento do direito
justinianeu e da legislação dos imperadores do Sacro-Império incluída
no "Corpus iuris" medieval modificou a política real em relação aos
poderes dos senhores. Começa a ganhar corpo - provavelmente por
influência do cap. "Quae sint regalia" dos Libri feodortttn - a ideia de
que o Rei é o titular natural de certos poderes ("regalia", direitos
reais)113 e que a sua detenção pelos senhores ou comunidades subor-
dinadas (i.e., qui superiorem recognoscent) só se explica em termos de
uma sua concessão pelo Rei (...) Toda a actividade dos nossos reis, a
partir da primeira metade do século xni, no sentido de obrigarem à
exibição e confirmação dos títulos dos direitos senhoriais ("inquiri-
ções" e "confirmações") pressupõe já esta ideia de que os direitos dos
senhores não são seus direitos naturais, mas direitos reais cuja dele-
gação (ou, pelo menos, o longo uso) têm que ser provadas.»114
111 Idem, p. 2, n. 3.
112 W<«, p. 3.
113 Vide A. HESPANHA, op. cii., p. HO, n. 240.
114 Idem, p. 163.
54
O T E M A
É também no século XII que se generaliza o tipo de senhorios que,
nalguma parte, lograrão subsistir e imprimir muitas das características
que persistirão até ao advento do Antigo Regime das monarquias his-
pânicas. Salvador de Moxó definiu quatro ordens de factores a que
atribuiu o incremento da constituição dos senhorios do século XII:
a) O avanço da reconquista, acentuado desde os finais do anterior sé-
culo, e a sequente necessidade de repovoamento da meseta sul e do
vale do Ebro;
b} A criação das Ordens Militares;
c} O estabelecimento da ordem de Cister na Península, criadora, devido
ao seu impulso colonizador, de importantes senhorios abadais;
d} O influxo feudal ultrapirenaico canalizado através da Casa de Borgo-
nha, com membros reinantes em Portugal e Castela115.
De comum com os anteriores, tais senhorios mantinham a base
territorial, através de cuja imunidade e segundo um processo condi-
cionado por factores já enunciados, acrescerão nesta última centúria
de xn as apetecidas prerrogativas de carácter público que os reis vo-
luntariamente destacam da própria soberania116.
Ao senhorio territorial - como tal considerado tendo inerente um
conjunto de direitos desfrutados pelo seu senhor enquanto mero pro-
prietário - soma-se agora e por via de expressa doação régia117, um se-
nhorio juri$diciona!m, preenchido por faculdades de natureza pública,
em que se avantaja a do exercício da justiça nas suas duas facetas civil
e criminal e com um largo espectro de faculdades inerentes, como seja
a nomeação de magistrados e oficiais, bem como a percepção de uma
série de réditos derivados do exercício daquela mesma jurisdição. Eram
privilégios ambicionados, sublinha-o Moxó, «no solo por su rendi-
miento económico y poder coativo que llevaba aparejadas, sino también
por el prestigio que lês otorgaba el ejercício de tan destacada función»119.
115 SALVADOR DE Moxó, «Los Senorios. En tomo a una problemática para el estú-
dio dei regimen senorial», in Hispania, 24, Madrid, 1964, p. 188.
116 Vide S. DE Moxó, op. dl, pp. 190-191.
117 Segundo Hinojosa (Lãs Insiituioties Ptudalts en Espana, cit. in Moxó op. cit.,
p. 181) a «jurisdictio» surge-nos «como concepción especial dei Príncipe, en quien se
entende residir Ia plenitud de Ia jurisdicción y ai cual quedaba reservado el conoci-
miento de cíertas causas».
118 Veja-se em A. HESPANHA, oy. cit., p. 138 n. 216 a bibliografia mais relevante
em termos do estabelecimento do conceito.
119 SALVADOR DE Moxó, La Disolución dei regimen senorial en Espana, Madrid,
Escuela de Historia Moderna, 1965, p. 44.
55
O T E M A
Já na Baixa Idade Média podemos, pois, constatar da existência
desses senhorios simultaneamente territoriais e jurisdicionais - tão
diversos quanto atinentes a conceitos não miscíveis como os de pro-
priedade e autoridade -, enformados de uma «plenitude» senhorial,
de vastidão directamente proporcional ao poder político desfrutado
pelas casas senhoriais que dela beneficiaram.
Veremos que a tradição jurídica portuguesa irá manter quase inal-
terável esse quadro legal onde se desenvolve o processo de criação de
capitanias, entendidas assim, escreveu Merêa, «como uma inteligente
e fecunda adaptaçãodas doações de bens da Coroa, que entre nós
eram tão frequentes e representavam até certo ponto um equivalente
das concessões feudais».
2.5. Princípios Gerais
Há que mostrar, finalmente, que ao contrário das doações de
bens de particulares, que têm como uma das características essenciais
a transferência e aquisição perfeitas do domínio, as doações de bens
da Coroa se regiam por princípios específicos consignados nas Orde-
nações que diferenciavam o seu regime.
Em primeiro lugar, a própria natureza das doações feitas. Já Pas-
coaí de Melo Freire notava no § xxvin do tít. in do L. 2 das suas Insti-
tutiones que «a doação destes bens não se fez por mera liberalidade,
mas sob certo modo, e para certo fim; por isso a sua natureza é sem-
pre remuneratona, e atende, para todo o sempre, aos bons serviços do
Donatário e seus sucessores. Não sendo o Rei senhor mas adminis-
trador dos bens públicos, segue-se que não os pode doar arbitraria-
mente. Logo, para que esta doação seja justa, importa que em todo o
tempo concorram bons serviços»120. Já no § XX, loc. cit., o mesmo au-
tor, caracterizando esse especial tipo de doações «remuneratórias»,
afirmava respeitarem elas em absoluto ao ofício real, «e os bens pú-
blicos, se não estão em seu domínio e propriedade, estão certamente
em seu império e administração; eis por que bem poderá dispor deles
para o bem comum da nação, que resulta da justa e necessária distri-
buição dos prémios»121.
Em segundo lugar, que a cada mercê deste tipo haveria assim que
corresponder um título concreto, disse-o também Pascoal:
120 PASCOAL DE Mão FREIRE, op. cit., p. 59.
121 ídem, p. 50.
56
O T E M A
«A jurisdição concedida aos donatários apenas recebe a interpreta-
ção literal, por isso não se deduz de argumentos e conjecturas, ainda que
veementes.»122
Em terceiro lugar que as doações de bens deste tipo estavam su-
jeitos ao enquadramento da Lei Mental^, do que decorriam princí-
pios importantes como:
a) Que da doação de bens reais não aproveitava ao Donatário um ver-
dadeiro domínio, pois aqueles jamais perdiam a sua natureza, impe-
dindo sempre o direito de reversão, com patentes inibições no to-
cante a matéria de alienação, penhora ou sucessão;
V) Que o Donatário não sucedia por mero direito de sangue, mas tão-so-
mente por especial direito expresso em título de doação;
c) Que qualquer doação de bens reais se entende sempre feita por vida
do Donatário, se o contrário não fosse estabelecido;
d) Que das excepcionais doações chamadas de juro e herdade, se não po-
dia inferir um direito perpétuo pois que sempre sujeitas à necessidade
de confirmação124.
Em quarto lugar - e em correlação com a alínea anterior -, a lei
estabelecia a necessidade da confirmação das doações feitas segundo
duas modalidades bem distintas: a confirmação «por sucessão», que
obrigava o filho do Donatário ou qualquer seu sucessor nos bens da
Coroa, e a confirmação chamada «de Rei a Rei», solicitada a todo o
Rei vindo de suceder no reino. Para ambas se fixavam prazos certos
de pedido, sem prejuízo para os chamados alvarás «de manter em
posse» do Desembargo do Paço, tendentes a conceder ao Donatário,
por um ou dois anos, o uso da jurisdição de bens que já possuía, ou,
em caso de sucessão, prorrogar-lhes com justa causa o tempo prefixo
para pedir a referida confirmação125.
Em quinto e último lugar, admitia-se que ao príncipe era lícito
dispensar da própria lei: «sem embargo do que estabelecem as mi-
nhas Ordenações e as dos senhores reis meus antecessores» - era a fór-
122 Vide OF, L. 2, t. 45, § l, e MELO FREIRE, op. cit., p. 70.
123 Sobre a «Lei Mental», veja-se (além de MELO FREIRE, op. cit., e OM, L. 2, t. 17,
e OF, L. 2, t. 35) o essencial comentário de MANUEL ÁLVARES PEGAS, «Tractatus de lege
Mentali Regni Portugalliae», m cit. Commentaría aã Ordinationes..., T. X., e PAULO
MERÊA, «Génese da Lei Mental», in Novos Estudos de Direito, Barcelos, 1937.
124 MELO FREIRE, op. loc. cit.
125 Vide MELO FREIRE, op. cit., pp. 63-68.
O T E M A
mula, notou-o Costa Ferreira, «que garantia a legitimidade da nova
decisão. De modo que, quando lhe aprazia derrogar uma ou mais re-
soluções anteriores, o fazia livremente, baseado em razões de estado,
afirmando a sua vontade soberana, o poder de império sobre todas as
pessoas, bens e coisas do seu reino. Em verdade, essas derrogações
consubstanciavam-se em documentos escritos, determinados e assi-
nados pelo Rei: cartas régias, alvarás, forais, doações...»126
Todos estes velhos princípios do Direito português, além do de-
senvolvimento doutrinário que encontram em obras clássicas de tra-
tadistas como Domingos Antunes Portugal ou Manuel Alvares Pegas,
serão apresentadas no seu reflexo prático ao longo deste estudo, com
particular incidência no Capítulo que dedicámos precisamente à cria-
ção, transmissão e extinção das capitanias.
126 JOÃO DA COSTA FERREIRA, «A Cidade do Rio de Janeiro e seu termo. Ensaio
Urbanológico», in Revista de Direito da Procuradoria Geral, n.° 5, Rio, 1956.
58
2 . A S F O N T E S Ú T E I S P A R A
O E S T U D O DO R E G I M E
D A S C A P I T A N I A S
1. Documentação Oficial
1.1. Introdução
Num estudo desta natureza torna-se indispensável antes de
adiantar qualquer conclusão, proceder à exposição das fontes de in-
formação que consideramos mais proveitosas para a investigação le-
vada a cabo, dando especial realce àquelas que por pouco citadas,
desconhecidas ou inéditas apresentam um maior interesse para o his-
toriador. Fontes de informação entendemo-las aqui, não como clássi-
cas fontes de Direito, mas como fontes de História do Direito, nos
termos em que as definiu Marcello Caetano, i.e., «tudo quanto traga
ao conhecimento actual qualquer facto passado que tenha interesse à
reconstrução de um facto ou sistema jurídico»1.
Tendo o regime de colonização por capitanias vigorado por mais
de três séculos, torna-se patente a multiplicidade de fontes que, em
princípio, seriam susceptíveis de nos fornecer dados importantes para
o seu estudo aprofundado. Infelizmente, a acção destruidora do
tempo e dos homens, por um lado, e a má ou deficiente organização
dos elementos subsistentes, por outro, dificultam um extremo um es-
tudo deste tipo pelas lacunas ou brechas que se abrem nas várias fren-
tes por onde a questão poderia ser inicialmente abordada. Obvia-
mente, um estudo do teor do que intentamos proceder - não tendo
por objecto uma Capitania ou Capitanias determinadas - tende a su-
perar ou a esbater o impacto das omissões detectadas na história de
cada uma, pois que visa primacialmente não as particularidades mas
a essência, todo o esquema das linhas de força de um regime tornado
extensível às mais diversas zonas do Atlântico.
Sem uma descabida e impraticável preocupação de exaustivi-
dade, iremos, assim, proceder à enumeração dos tipos, de fontes ou
1 MARCELLO CAETANO, História do Direito Português - 1140-149$ - l, Editorial
Verbo, Lisboa, 1981, p. 19.
6 l
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
fontes concretas que a priori entendemos poderem e deverem ser uti-
lizadas, pelos investigadores que a este campo se dediquem. Deste
modo, consideraremos vários grandes grupos de fontes informativas:
o conjunto das disposições legais destinadas a regulamentar genérica
ou pontualmente a existência das capitanias; os títulos constitutivos,
os forais e instrumentos variados de transmissão ou extinção de capi-
tanias; os documentos próprios da administração senhorial nas suas
três facetas fundamentais da administração da justiça, da distribuição
das terras ou concessão de poderes a representantes do Capitão; os
documentos remanescentes da actividade, quer dos procuradores da
Coroa quer do Conselho Ultramarino, o órgão da administração régia
que mais de perto lidou, tratou e decidiu em matéria de capitanias. Fi-
nalmente, os rastos dos pleitos travados quer entre os capitães e a Co-
roa quer entre os capitães e os povos das suas capitanias; de uns e
doutros ficaram-nos não só as decisões jurisprudenciais, comoa ma-
nifestação de várias posições que a doutrina adoptou na consideração
das questões controvertidas.
1.2. Legislação
Obviamente, o quadro mais amplo que se nos depara para o es-
tudo desta matéria é o da própria legislação vigente no período de
existência das capitanias. E nesta ressalta com evidência a legislação
geral das Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, nos títulos que
especialmente respeitam à jurisdição dos Senhores de Terras, às ses-
marias, à nomeação de funcionários ou ao direito processual; nas se-
des próprias deste estudo discutiremos em profundidade cada uma
dessas molduras legais, começando pela própria questão da aplicabi-
lidade do regime jurídico característico dos chamados Senhores de
Terras aos Capitães-Donatários2.
Mas subsistem algumas questões que a mera análise das Ordena-
ções do Reino não supre: em primeiro lugar a data da oficialização do
texto das Ordenações Afonsinas terá sido posterior à da criação da pri-
meira ou primeiras capitanias madeirenses; em segundo lugar, o
conteúdo dessas compilações não cobriu de modo algum toda a pro-
blemática respeitante à vida das antigas donatárias, pelo que o inves-
tigador depara com uma imensidade de material jurídico extrava-
gante, disperso pelas mais diversas colecções ou locais. Se o legislador
: Vide o que sobre isto dissemos no capítulo anterior.
62
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
procurava transpor originalmente as instituições metropolitanas para
os novos territórios a colonizar, a verdade é que também essas novas
realidades geográficas e humanas cedo impuseram adaptações, ajus-
tes, modificações, revogações e acréscimos. Vê-lo-emos no lugar pró-
prio3. O resultado é desconcertante e desanimador para quem se aba-
lance à tarefa de desbravar essa selva legislativa. Caio Prado Júnior-
ainda que referindo-se tão-somente ao caso brasileiro - diagnosticou
expressivamente as dificuldades inerentes a este tipo de pesquisa em
toda a área da administração ultramarina portuguesa:
«Percorra-se a legislação administrativa da Colónia: encontrar-se-á
um amontoado que nos parecerá inteiramente desconexo, de determi-
nações particulares e casuístícas, de regras que se acrescentam umas às
outras sem obedecerem a plano algum de conjunto. Um cipoal em que o
nosso entendimento jurídico moderno, habituado à clareza e nitidez de
princípios gerais, de que decorrem com uma lógica "aristoteliana" todas
as regras especiais e aplicações concretas com um rigor absoluto, se con-
funde e se perde [...]. É todo este caos imenso de leis que constitui o di-
reito administrativo da colónia. Órgãos e funções que existem num lu-
gar faltam noutros, ou neles aparecem sob forma e designação
diferentes; os delegados do poder recebem muitas vezes instruções es-
peciais, incluídas em simples correspondência epistolar, que fazem lei e
frequentemente estabelecem normas originais, distribuição de funções e
competências diferentes da anteriormente em vigor. Quando se cria um
novo órgão ou função, a lei não cogita nunca de entrosá-los harmonica-
mente no que já se acha estabelecido: regula minuciosa e casuistica-
mente a matéria presente, tendo em vista unicamente as necessidades
imediatas. Mesmo quando um destes órgãos ou funções, ou coisa seme-
lhante, já se encontra noutro lugar, a nova regulamentação não se preo-
cupa com isto, e estabelece novas e especiais determinações. E tudo isto
com a prática de acrescentar o revigoramento, de um modo geral, de to-
das as ordens anteriores, ou apelar para "o que se pratica no Reino",
como é frequente, gera uma confusão tão inextricável que os próprios
contemporâneos mais versados em leis nunca sabiam ao certo em que pé
se achavam. Como resultado, as leis não só não eram uniformemente
aplicadas no tempo e no espaço, como frequentemente se desprezavam
inteiramente, havendo sempre, caso fosse necessário, um ou outro mo-
tivo justificado para a desobediência. E daí, a relação que encontramos
entre aquilo que lemos nos textos legais e o que efectivamente se pratica,
Vide o capítulo dedicado à Justiça.
6 3
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
é muitas vezes remota e vaga, se não redondamente contraditória.
Sendo assim, e como é esta prática que mais nos interessa aqui, e não a
teoria, temos que recorrer com a maior cautela àqueles textos legais, e
procurar de preferência outras fontes para fixarmos a vida administrativa
da Colónia, tal como realmente ela se apresentava. [...] Por todas estas ra-
zões, devemos abordar a análise da administração colonial com o espí-
rito preparado para toda sorte de incongruências. E sobretudo, não pro-
curar nela esta ordem e harmonia arquitectónica das instituições que
observamos na administração moderna, e que era vão se tentará projec-
tar num passado caótico por natureza.»4
Não iremos enunciar exaustivamente as fontes de legislação ex-
travagante directamente aplicável às capitanias; no correr deste es-
tudo daremos, na medida do possível, notícia e descrição das que
considerámos mais relevantes5. Convém, todavia, que refiramos al-
gumas das fontes que mais profícuas se revelaram.
Em primeiro lugar, os próprios livros dos tribunais superiores
onde o antigo sistema de publicitação das leis forçava ao registo. Foi
precisamente no Livro 3 da Casa da Suplicação, chamado também Li-
vro Roxo ou Livro Morado - recolhido hoje no Arquivo Nacional da
Torre do Tombo*5 - que encontrámos o nunca citado mas importante
alvará de 5 de Março de 1550 por que se limitou a jurisdição dos ca-
pitães-donatários do Brasil; reproduzida na colectânea manuscrita de
Duarte Nunes do Leão, é esta a versão que transcrevemos em apên-
dice à l.a edição deste estudo7. Num dos antigos livros chamados das
esferas da Casa do Cível, esteve também registado outro importante
documento quinhentista respeitante à alçada dos capitães-donatários.
O livro original do Tribunal desapareceu8, mas felizmente o diploma
deixou-o copiado o desembargador Heitor de Pina nas suas Ordena-
ções Extravagantes; dado que se trata de um documento nunca citado
e desconhecido na sua versão íntegra, transcrevemo-lo nos apêndices
4 CAIO PRADO JÚNIOR, Formação ao Brasil Contemporâneo. Colónia, Editora Brasilei-
rense, 3.' ed., S. Paulo, 1948, pp. 298-299.
5 Vide o Capítulo V.
6 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Códice 28 da Casa Fone.
7 Veja-se o que sobre este diploma dizemos no Capítulo V.
8 Vide MARTIM DE ALBUQUERQUE, «Para a História da Legislação e jurisprudência
em Portugal. Os livros de registos de leis e assentos dos antigos tribunais superiores»,
in Boletim da faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Estudos em honra dos Profs.
Doutores M. Paulo Merêa e Guilherme Braga da Cruz, Vol. LVJII, tomo n, Lisboa, 1982,
pp. 623-653 [pp. 640-646].
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
finais da l.a edição deste estudo, sem prejuízo de análise mais apro-
fundada que adiante será feita.
Outro dos pontos de registo obrigatório de legislação foram os li-
vros ou tombos das câmaras das capitanias. Capítulos, provisões, al-
varás, doações, instruções, autos, de tudo contêm um pouco esses va-
liosíssimos repositórios. Aí - forçando o registo - o monarca facultava
às populações o conhecimento de tudo quanto de decisivo para a vida
da comunidade contava. O excelente trabalho de Sousa e Melo, pu-
blicando no Arquivo da Madeira o «Livro Primeiro do Tombo da Câ-
mara do Funchal»9, demonstra à saciedade a riqueza dos documentos
jurídicos que se arquivam em monumentos do mesmo tipo. O Registo
da Câmara de S. Paulo é outro repositório impresso inestimável para o
estudo das capitanias do Brasil, baseado em documentos a que já no
século XVIII Tacques de Almeida recorreu para a elaboração da sua
História da capitania de S. Vicente10. Recentemente também José Gui-
lherme Reis Leite promoveu a publicação de um importante registo
de correspondência e legislação pombalina relativa ao arquipélago
dos Açores, fonte preciosa de informações sobre a fase final da vida
das capitaniasaçorianas11.
As próprias cartas de confirmação das mercês de capitanias cons-
tituem também uma fonte de informação decisiva: por um lado con-
signam - em teoria obrigatoriamente - todas as alterações que a le-
gislação veio a impor aos títulos originais de constituição; por outro,
andam-lhes geralmente anexas canas de jurisdição ou documentos em
que se fixou a obrigatoriedade de conformação a medidas já consig-
nadas em legislação de carácter geral. Também sobre esta matéria nos
debruçamos adiante com pormenor.
Fora já de qualquer enquadramento próprio ou acessível, fica-nos
ainda determinado tipo de legislação extravagante, não menos im-
portante e de bem mais dificultada busca. Referimo-nos aos diplomas
9 «Tombo 1.° do registo Geral da Câmara Municipal do Funchal», introdução e
leitura de Luís Francisco Cardoso de Sousa e Melo, in Arquivo Histórico da Madeira,
vols. xv (1972), xvi (1973), xvii (1973) e xvm (1974).
10 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA PAES LEME, «História da capitania de S. Vicente
desde a sua fundação por Martim Afonso de Souza em 1531 escrita por...», in Revista
Trirnensal de História e Geographía ou Jornal do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro,
N.° 6 - 2.° Trimestre de 1847, pp. 137-178 e pp. 293-476.
11 JOSÉ GUILHERME REIS LEITE, O Códice $29 - Açores do Arquivo Histórico Ultrama-
rino. A Capitania-Geral dos Açores durante o Consulado Pombalino, Introdução e fixação
do texto por..., Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Secretaria Regional da
Educação e Cultura dos Açores, s.i.d.
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
que na 2.a metade do século XVIII consignaram os actos que levaram à
extinção das últimas capitanias. Já uma vez tivemos oportunidade de
escrever que são documentos que têm permanecido num imerecido
esquecimento12. No entanto, importa conhecer e analisar esses tex-
tos, onde, para além da enunciação precisa dos termos dos acordos
firmados, se inserem preambularmente importantes declarações.
O decreto que extingue a Capitania de Porto Santo em 1770 encon-
trámo-lo numa colectânea de legislação avulsa manuscrita da Biblio-
teca Nacional de Lisboa; também manuscritos e esquecidos em dois
locais diferentes do fundo de Reservados da mesma Biblioteca, locali-
zámos diplomas da mesma natureza, respeitantes às capitanias do
Funchal e de S. Miguel13. Mesmo a célebre carta de 2 de Agosto de
1766 - que acompanhou a criação de um governo central para os Aço-
res e onde se alinham pormenorizadamente as causas de agravo con-
tra os donatários, extinguindo-se genericamente as capitanias do ar-
quipélago - publicou-a Delgado da Silva, referindo que a colhera da
colecção manuscrita de Salter de Mendonça14.
Finalmente, resta-nos referir as colectâneas de legislação mais pro-
veitosas para o nosso estudo. Acabámos de citar a obra de Delgado da
Silva, ainda que possamos referir outras bem mais antigas. Citaremos
em primeiro lugar as Leis Extravagantes de Duarte Nunes de Leão, que
contém diplomas tão relevantes como a Lei i do tít. 1. O da II parte, re-
ferente aos feitos das ilhas (1524)15, as Leis III e IV sobre as apelações
dos feitos cíveis (1529-1559)16, a Lei II do tít. vi da mesma II parte «por
que se limita a jurisdição dos Capitães do Brasil» (1557)17 ou a Lei III
que respeita à jurisdição do Ouvidor da Capitania do Machico
(1566)18. Há que notar, porém, que não é esta a única das compilações
do Dr. Duarte Nunes. Se é mais conhecida a edição impressa de 1569,
existe outra, manuscrita, no Arquivo Nacional. Sobre as duas e o seu
valor, pronunciou-se já o Professor Martim de Albuquerque:
12 Vide ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, As Capitanias à Luz da História e ao
Direito (perspectivas e metodologia), Comunicação cit. apresentada no 1.° Colóquio
Internacional de História da Madeira, Funchal, 1986.
13 Sobre estes diplomas, veja-se o que dizemos no Capítulo IX in fine.
14 Vide o Suplemento à Colecção de Legislação Portuguesa do Desembargador António
Delgado da Silva, Anno 1750-1762, Lisboa, 1842, p. 108.
15 DUARTE NUNES DE LEÃO, Leis Extravagantes Collegidas e Relatadas pelo licen-
ciado..., Lisboa, António Gonçalves, 1619, pp. 73 ss.
16 Idem, pp. 74 ss.
17 Idem, p. 90.
18 Idem, pp. 90-91.
66
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
«A que corre impressa é, aliás, mais abreviada e apresenta sistemá-
tica distinta. José Anastácio de Figueiredo chamou precisamente a aten-
ção para o facto de a Compilação l ser, como fonte histórica, superior à
outra, e de que por ela se poderiam "emendar vários lugares, que tanto
na [...] Ord. (Manuelina), como na Compilação ou Relatório de 1569, se
convencem de menos exactos, e algumas vezes defeituosos". É que
Duarte Nunes procedeu, de início, a uma recolha de textos, seguindo
certa ordem, e só mais tarde realizou o trabalho de abreviatura das íeis
que viu a luz editorial e adquiriu força normativa e vinculatória.»19
Daqui que, para consulta do citado alvará de 1557 «por que se li-
mita a jurisdição dos Capitães do Brasil» tenhamos recorrido não à
versão impressa de Nunes de Leão (que o resume) mas ao exemplar
manuscrito que o transcreve na íntegra - e que reproduzimos em
apêndice à l.a edição deste estudo - se bem que o ilustre jurista de
Seiscentos se equivoque ao remeter o leitor para o fól. 168 do Livro 3
da Casa da Suplicação, de onde o transcreve, quando na verdade este
se encontra a fl. 164 e 164v desse dito livro, chamado também Roxo
ou Morado.
Também aludimos atrás a outra importante colectânea de legis-
lação extravagante que se revelou do maior interesse e proveito para
o nosso estudo. Referimo-nos às Ordenações Extravagantes, coligidas
pelo Dr. Heitor de Pina, Desembargador dos Agravos da Casa do Cí-
vel, e dedicadas nas últimas décadas do século xvi a Diogo Lopes de
Sousa, Governador do mesmo Tribunal20. Este manuscrito in folio de
366 folhas, é o Livro I de quatro que o jurista anunciou (e que desco-
nhecemos se concluiu) onde se coligiriam as múltiplas disposições ex-
travagantes posteriores às Ordenações Manuelinas:
«... Como as leis não possam ser tantas quantos são os negócios, e a
natureza humana seja tão fértil de novidades que a cada hora sucedem
entre os homens novos casos, a que são necessárias novas provisões, de
muitos que depois daquelas reais ordenações sucederam se fizeram no-
vas leis, muitas das quais se registaram no livro desta relação que se
chama o da Esfera. E vendo eu o quão dificultoso era a memória humana
ter delas inteira lembrança, e posto que fosse lembrada, achar-se o lugar
certo de cada uma delas quando se buscasse por a grande desordem e
confusão em que estão escritas, e quão indigna coisa era de um tão ilus-
19 MARTIM DE ALBUQUERQUE, op. cit., pp. 635-636.
20 Biblioteca do Palácio da Ajuda, cód. 51-IX-42 (23), Idem, fólios 2-3.
67
í AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAStre e grave Senado, sofrer ante si andarem suas leis em um tão feio e des-
concertado volume (o que se podia presumir que procedia do desprezo
das mesmas leis e pouco desejo de as saber ou de não haver entre nós
quem esta falta pudesse suprir e emendar) quis lançar mão deste cuidado
e trabalhar por restituir todas estas leis a outra disposição e ordem...»21
Sobre esta obra, que reputamos de fundamental- principalmente
por permitir reconstituir algum do conteúdo dos três primeiros Livros
das Esferas da Casa do Cível hoje desaparecidos, e que tem sido inex-
plicavelmente omitida pelos historiadores do Direito português -, te-
mos preparado um estudo que contamos apresentar brevemente. To-
davia, o que de momento nos interessa é que aí colhemos, como se
disse, a versão íntegra do diploma fundamental que regulamentou no
século XVi a jurisdição dos capitães das Ilhas, extraído do Livro 2 da
Esfera da Casa do Cível. Essa versão - que corrige alguns excertos da
lei já algumas vezes publicada colhida de outras fontes - foi, como
dissemos, transcrita em apêndice à 1.* edição deste estudo.
1.3. As Cartas de Doação
Para além dos simples textos legislativos, importareferir também
outros documentos da mais fundamental importância, como são os
próprios diplomas constitutivos das capitanias, nos quais se consig-
naram com maior ou menor pormenor e tecnicismo jurídico o con-
junto dos direitos transmitidos pela Coroa aos donatários, antecedi-
dos por declaração onde é manifesta a vontade de transferir e
voluntariamente abdicar de bem determinado número de direitos, se-
gundo uma fórmula de amplitude e consonância variável22.
Nas três primeiras capitanias de Machico (1440), Porto Santo
(1446) e Funchal (1450), a transmissão é evocada de forma sumarís-
sima, pelas palavras «dou carrego»23. Em 1468, no Faial fala-se já em
«fazer graça e mercê»24, «lhe faço mercê» no Pico (1482)25, «faço-lhe
21 Idem, fls. 2-3.
22 RUY DE ALBUQUERQUE, Os Títulos de Aquisição Territorial na Expansão Portuguesa
(Sécs. XV e XVI), Dissertação apresentada no Curso Complementar de Ciências Jurí-
dicas da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 1960 (exemplar dactilografado), pp.
133-136.
23 DP, vol. !, pp. 403, 449 e 483.
24 CD, p. 153.
25 Idem, p. 155.
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
mercê» em S. Jorge (1483)26, «lhe fazemos doação e mercê» na Gra-
ciosa (1510)27 ou «lhe faço mercê para ele» em nova doação da Capi-
tania do Machico em 153628. O formulário último e mais bem elabo-
rado é o que se fez para e que será sucessivamente copiado das cartas
das capitanias brasileiras:
«... e por folgar de lhe fazer mercê de meu próprio moto, certa ciên-
cia, Poder Real e absoluto sem mo ele pedir nem outrem por ele, hei por
bem e me praz de lhe fazer, como defeito por esta presente carta faço
mercê irrevogável doação entre vivos valedora deste dia para todo o
sempre, de juro e herdade para ele...»29
Por outro lado, decorrendo também daquela precisa natureza dos
bens doados, notemos a circunstância da necessidade de confirmação
expressa e escrita do acto de doação pelos sucessores do monarca por
recurso ao dispositivo da chamada confirmação de. Rei a Rei; daqui vem
o investigador a beneficiar directamente de registos das chancelarias
reais tão recentes como os do século xviii, em que se incorporam em
cadeia ininterrupta toda a série de confirmações, acréscimos ou redu-
ções sofridas por uma doação desde o seu acto constitutivo. Ao longo
do nosso estudo iremos dando conta das numerosas cartas de confir-
mação que ainda hoje são o repositório único de diplomas inteiros ou
assentos de confirmação entretanto desaparecidos30.
Refira-se que a importância dos títulos constitutivos ou de con-
firmação decorre basicamente da circunstância de os bens doados se-
rem régios, presidindo, pois, à sua alienação a necessidade de um acto
expresso31. Bem o vincou Pascoal José de Melo Freire, notando que
«a jurisdição concedida aos donatários apenas recebe a interpretação
literal; por isso não se deduz de argumentos e conjecturas, ainda que
26 làem, p. 183.
27 ídem, CD, p. 216.
28 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
2.1 ed., Coimbra Atlântida, 1953, Provas, V, p. 344.
29 DBN, vol. 13, p. 137.
30 Vide p. ex. a larga série de documentos contidos em «Doações e Confirmações
à Condessa da Ribeira-Grande» (1548-1761), in AÃ, vol. xii (1882), pp. 105-121, ou
em Doação âa capitania de Itamaracá, que pertence ao Marauez de Cascaes, D. Luiz Álva-
res de. Castro, por sentença, publicada por D. António Caetano de Sousa nas Provas da
História Genealógica da Casa Real, tomo vi, I parte, pp. 396-420.
31 Vide OF, L. 2, tít. 45, §§ l, 2, 3, 6, 9, e tít. 27, § 2.
69
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
veementes; Ord., L. 2, tít. 45, § l, nas palavras: expressamente lhes for
outorgado»32.
Em consonância, um acórdão da Relação de 1681 atinente a uma
questão de ordem jurisdicional da Capitania do Funchal, referirá a
impossibilidade de considerar situações «aonde se não acha conce-
dida expressamente a jurisdição, termos em que conforme os da Lei
se não pode considerar concedida por argumentos extensivos ou in-
terpreta tivos...»33
Assim, os sucessivos diplomas de doação de capitanias não po-
dem ser encarados como casos isolados, mas, pelo contrário, como
construções estruturadas e definidas em função do princípio que re-
ferimos. Os tipos variaram como se compreende: encontramos por
um lado a família das cartas de doação do séc. XV e princípios do sé-
culo XVI, madeirenses, açorianas ou das ilhas africanas; a estrutura do
texto é simples - referência à concessão do carrego, regra sucessória,
hipóteses de colocação de regedor por incapacidade do Capitão, con-
cessão da jurisdição, ressalva do supremo senhorio real, concessão de
direitos banais, faculdade de dar terras de sesmaria. Com maior ou
menor variação, principalmente no que toca aos privilégios económi-
cos dos capitães das ilhas africanas, são estas as linha s-me s trás das
primeiras doações de Capitanias, modeladas segundo o figurino ma-
deirense. Aliás, basta analisar o texto dos múltiplos documentos deste
tipo para o confirmar: a carta da Capitania da Terceira (1450) remete
para o regime dos capitães da Madeira e Porto Santo34, e o mesmo se
passa em S. Maria (1474)35, em S. Jorge (1483)36 e no Faial (1468)37, re-
metendo também para esta última a da Ilha do Pico (1482)38. Os di-
plomas das capitanias cabo-verdianas têm a mesma característica: a
da Ribeira Grande (Santiago 1497)39 e a do Fogo (1528)40, ambas se re-
portam às mesmas cartas madeirenses, e também a da ilha Brava
32 PASCOAL JOSÉ DE M£LO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português tanto
público como particular» - Livro II, reed. in Boletim ao Ministério da justiça, n.° 163,
Fevereiro de 1967, pp. 5-123 [p. 70).
33 DP, I, p. 228.
34 DP, p. 471.
35 CD, p. 177.
36 Idem, p. 183.
37 Idem, p. 153.
38 Idem, ibidem.
39 SGC, p. 52.
40 Idem, p. 52.
70
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
(1545)41, pois que remete para a do Fogo. A uma segunda família de
textos preside o modelo das capitanias brasileiras, inegavelmente
bem pensado, pormenorizadamente construído, modelo esse que no
continente americano será usado até à última doação de 168542, e que
com alterações pontuais devidas às peculiaridades do meio e dos ob-
jectivos, se aplicará também nas doações de Angola e Serra Leoa.
Como já observara nos finais do século xvni o jurista José de Seabra
da Silva,
«as cláusulas de umas e outras são as mesmas porque o Conde de Cas-
tanheira ou quem quer que foi o partidor da América, compôs um for-
mulário de chavão que inseriu em todas, só com a diferença de que nas
cartas dos Fidalgos se acrescentou a cláusula que falta na doação do Tou-
rinho e em mais alguma. Fora disto tudo, é o mesmo redundante for-
mulário acomodado ao Fidalgo ou não Fidalgo, sem outra diferença do
que ser Baía ou Pernambuco, Francisco ou Duarte»43.
Nestas, efectivamente o conteúdo obedece geralmente à seguinte
ordem: declaração dos objectivos da divisão do território em capita-
nias, seguido de um mais ou menos desenvolvido enunciado dos ser-
viços do Donatário. Delimitação geográfica da Capitania, concessão
do título de Capitão e Governador e das faculdades de exercer justiça
e conceder terras em sesmaria, enunciado dos proventos económicos
(meia dízima do pescado, redízima das rendas reais, vintena do pau-
brasil, escravos, isenções tributárias) e do esquema de sucessão, proi-
bição de alienação, privilégio de isenção de correição, previsão de ca-
sos de necessidade de punição do Capitão, e, eventualmente, a
fixação da obrigação do uso de apelidos pelos sucessores do 1.° Ca-
pitão-Donatário44.
Mas se, como dissemos, dada a própria circunstância de os bens
doados serem bens régios, vigorou o princípio de que a sua alienação
haveria que ser feita por acto expresso (tendencialmente oposto ao
uso de fórmulas latas ou genéricas e materializado em documentos
escritos), a esse mesmo princípio acompanhou-o cedo a obrigação do
registo em sedes próprias, consideradas as ideais para o melhor efeito
41 Idem, p. 121.
42 Vide o texto destacarta de doação no apêndice documentai da l.a ed. deste
estudo.
43 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, M. 642 (2.° parecer).
44 Vide a c. de doação da Capitania de S. Vicente (1534) in DBN, vof. 13, pp. 136 ss.
7 l
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
da sua publicidade. No tempo dos grandes-donatários é certo que
cada um possuiria uma chancelaria e livros de registo próprios. O in-
fante D. Fernando, Grande-Donatário da Madeira, nos célebres capí-
tulos que em 1461 enviou aos povos das Ilhas, anuncia que
«ao que me pedis por mercê que vos mandasse dar o treslado da carta da
mercê que tenho feito ao Capitão da Capitania dessa ilha para a terdes
registada no livro da Câmara e saberdes a mercê que lhe tenho feita, por
tal que o dito Capitão se não possa entender além dela em pôr outros
foros e costumes, a mim praz de vo-la mandar dar e mando-vos que a
registeis no dito livro da Câmara, e por esta mando ao dito Capitão que
tanto que lá tiver a dita carta vos dê o treslado dela em público forma.
E não vo-la querendo ele dar tomai um instrumento com sua resposta e
rno enviai para eu tomar a elo como pôr meu serviço»45.
Os livros da Chancelaria Real - sendo este órgão capacitado para
a emissão e registo das cartas - são, naturalmente, a sede primeira do
registo das doações régias, como se constata ainda hoje nos fundos
que se conservam no Arquivo Nacional, cobrindo o inteiro período de
existência das capitanias46. Há, porém, lacunas; atente-se à listagem
feita por Merêa47 demonstrativa das cinco falhas de registo na Chan-
celaria régia das primitivas doações do Brasil, que no entanto vamos
encontrar supridas, no caso da de Martim Afonso de Sousa (S. Vi-
cente) e Jorge de Figueiredo Correia (Ilhéus) pelos registos recolhidos
no volume n.° 13 da colectânea de Documentos âa Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro48. A tripla doação feita a João de Barras, Ayres da Cunha
e Fernando Álvares de Andrade, também andou esquecida numa
colectânea manuscrita da Torre do Tombo, até que António Baião a
publicou em anexo à sua edição da Ásia de João de Barros; pelo seu
interesse e reduzidíssima divulgação foi por nós reproduzida em
45 VrroRJNO DE MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre a Expansão Portuguesa,
Prefácio e notas de..,, Colecção de Estudos Portugueses, Lisboa, 1956, vol. m, p. 259.
46 Recentemente, MARJA JOSÉ BIGOTTE CHORÃO (apres., transe, paleográfica e
notas) publicou as Doações e Forais das Capitanias do Brasil (Lisboa, Instituto dos
Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, 1999). Apesar do carácter abrangente do
título, esta edição nada adianta a outras edições destes documentos e, de resto - para
não falar da muito débif dissertação sobre o sistema donatária! que constitui a «Apre-
sentação» - ignora completamente o registo das outras cartas de doação e forais das
capitanias do período que se propõe tratar.
47 In M. PAULO MEREA, «A Solução Tradicional da Colonização Portuguesa do
Brasil», m HCP, III, p. 174.
48 DBN, vol. 13, respectivamente pp. 136 ss. e 157 ss.
72
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
apêndice à l.a edição deste estudo. Mas nem só os livros da Chance-
laria régia serviram de local de registo; foram-no também os livros da
Casa da índia, de onde, ainda em 1676, se tiravam treslados das car-
tas quinhentistas do Brasil. Precisamente de 1742 data também um
treslado da carta da Capitania doada em 1533 a João de Barros, regis-
tada no Livro das Doações que se acham na casa da índia49, que parece
não ter sobrevivido à catástrofe de 1755.
Note-se, aliás, que este tipo de cartas sofria um duplo processo de
registo. Numa primeira fase de emissão, como dissemos, na própria
Chancelaria Real e livros de departamentos da administração central.
Em 1675, por exemplo, a carta de confirmação da Capitania do Espí-
rito Santo feita a Francisco Gil de Araújo é copiada simultaneamente
nos Livros da Chancelaria-Mor, no livro de «registos e doações e mer-
cês da [Casa da] Mina» e nos «livros de ofícios» da Secretaria do Con-
selho Ultramarino50. Mas existe também uma segunda fase de registo
que atende não já aos interesses directos da administração central, mas
aos da administração chamemos-lhe «local», se assim quisermos de-
signar a própria área administrativa onde se insere a jurisdição se-
nhorial. Elemento que simboliza solenemente a jurisdição ou poderes
concedidos aos capitães, a carta de confirmação da Capitania da Ilha
de S. Miguel, em 1568, é presente solenemente aos oficiais da Câ-
mara de Ponta Delgada e
«vista e lida por eles lhe obedeceram em tudo e por tudo e a tomaram
e a beijaram e a puseram na cabeça como coisa de seu Rei e senhor [...]
e pelos ditos oficiais foi mandado a requerimento do dito João Prado que
o requereu que se registasse e trasladasse a dita procuração e doação no
livro do tombo da dita Câmara...»51
Nos primeiros anos da década de 40 do século xvil, no Brasil, a
doação, autos de posse, bem como outros documentos considerados
importantes para a administração da Capitania de Caeté, eram regis-
tados no Livro da fazenda da Donatária52. Também com relação ao
Brasil, em 1564, a própria carta de doação da Capitania da Ilha de Sta.
Catarina, feita a Agostinho Barbalho, consigna que se registe «nos li-
49 Vide o seu texto em apêndice à 1.* ed. deste estudo.
50 DBN, vol. 79, p. 186.
51 CD, p. 172.
52 Livro da fazenda da Capitania do Cayeté, Cód. l da Colecção Vídigueira da Socie-
dade de Geografia, Lisboa.
73
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
vros dos Contos da Cidade do Salvador, nos da Câmara da dita Ilha e
nas mais partes onde for necessário»53. A carta da última Capitania
doada pela Coroa, a de Xingu (1685), é mandada registar, no Brasil,
nos livros da Câmara da Cidade de S. Luís do Maranhão «e nas mais
partes aonde for necessário», e, na Corte, nos Livros de Ofícios do
Conselho Ultramarino, nos livros da Chancelaria-Mor do reino e nos
Livros das Mercês5*.
Com o correr dos tempos e a par do reforço dos poderes dos de-
legados do Rei, o processo - sob o intuito nítido de vincar a subordi-
nação dos poderes dos donatários - vai-se tomando mais complexo.
A carta de confirmação da Capitania da Paraíba ao Visconde de As-
seca (23-3-1727), por exemplo, foi presente ao Governador do Rio de
Janeiro, que por despacho de 17 de Junho de 1728 ordenou: «Cum-
pra-se como S.M., que Deus guarde, manda e registe-se nos livros da
Secretaria e nos mais que tocar.»55 E assim, além do registo feito nos
livros da Secretaria do Governo, proceder-se-ia à mesma operação
nos da Ou vido ria-Geral, nos da Provedoria da Fazenda, e nos dos re-
gistos da Câmara56.
Que saibamos, até há pouco tempo era conhecida uma única
carta original de doação de Capitania, se assim considerarmos o do-
cumento que era entregue ao Donatário para certificação da doação.
Tratava-se da carta de doação daquela Capitania de Xingu, no Brasil,
que, vendida num livreiro de Lisboa nas primeiras décadas do nosso
século ao historiador Celso Ribeiro de Lessa, outro historiador, o bra-
sileiro Hélio Viana, pôde utilizar e publicar57. Estará a razão desta es-
cassez no facto de, revogada a doação, se proceder obrigatoriamente
à destruição ou «rompimento» do seu símbolo mais patente, como
o era a carta? Em 1549, confirmada a Capitania do Machico a
D. Afonso de Portugal, que a houvera por mercê nupcial de sua mu-
lher, D. Ana de Gusmão (filha do comprador da mesma Capitania a
António da Silveira, primitivo Capitão), adverte-se que a carta ante-
riormente passada ao vendedor
53 DBN, vol. 79, p. 87.
54 Vide HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil {1685)», in Estudos
de História Colonial, S. Paulo, 1948, pp. 313-314.
55 ALBERTO LAMEGO, A Terra Gohacá à luz de documentos inéditos, Rio, 1913
(3 vols.).
56 Idem, ibidem.
57 In HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil (1685)», in Estudos de
História Colonial, S. Paulo, 1948.
74
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
«nesta vai trasladada, e se houverade romper ao assinar dela, se não
rompeu por o dito António da Silveira dizer que a tinha na dita Capita-
nia de Machico e que mandara já por ela, e se obrigou de a dar e entre-
gar tanto que lhe viesse para se haver de romper»58.
Restam-nos, todavia, descrições desses solenes documentos,
semelhantes, aliás, a tantos outros emitidos pela burocracia real.
A mencionada carta da Capitania de Xingu estava escrita em quatro
folhas de pergaminho. A doação quinhentista da Capitania de Pe-
roaçu a D. Álvaro da Costa estava «escrita em pergaminho e assinada
pelo Cardeal Infante Governador destes Reinos passada pela Chan-
celaria e com o selo pendente das Armas Reais em chumbo posto em
cordões de seda branca»59.
Outra carta, esta da Capitania de S. Vicente, doação feita em
1535 a Martim Afonso de Sousa, tinha a régia assinatura «e selada de
meu selo de chumbo a qual vai escrita em três folhas e são todas as-
sinadas ao pé de cada lauda por D. Miguel da Silva, Bispo de Viseu do
meu Conselho e meu escrivão da Puridade»60.
A carta de confirmação da Capitania de S. Miguel, passada a Ma-
nuel da Câmara, segundo um relato de 1568 vertido para os registos
da Câmara de Ponta Delgada, «era assinada ao pé por El-Rei Nosso
Senhor, e ao pé de cada folha assinada pelos Desembargadores do
Paço, passada pela Chancelaria e selada de selo pendente de chumbo
com as quinas d'el-Rei Nosso Senhor, com seda de retrós branca e
verde...»61
1.4. Os Forais
Mas nem só as cartas de doação são importantes para o nosso es-
tudo, avultando ainda a necessidade de conhecer os «forais» concedi-
dos no Brasil em simultâneo com aquelas. Como ensinou Paulo Me-
rêa, «as cartas de doação e os forais das capitanias constituem, como
é sabido, a principal fonte para o conhecimento do regime jurídico do
Brasil no período anterior ao governo-geral [...] Aplicavam-se deste
58 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real, Provas, V,
pp. 350-351.
59 DBN, vol. 13, p. 224.
60 Idem, p. 149.
61 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, V, p. 258.
75
«̂ AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
modo ao território brasílico, adaptando-as às circunstâncias, duas pe-
ças tradicionais do nosso sistema político-administrativo: por um
lado as doações de bens da Coroa e direitos reais, por outro as cartas
de foral. O foral supunha, como se vê, a existência prévia da carta de
doação, à qual servia de complemento, constituindo os dois diplomas
o estatuto fundamental da respectiva capitania»62.
Também o historiador e economista Simonsen foi sensível ao in-
teresse próprio dos forais das Capitanias, aludindo aos Donatários a
quem concedeu
«outrossim, o Rei vários de seus direitos políticos indispensáveis ao for-
talecimento da autoridade de quem lá correr tão graves riscos. Mas para
estimular a colonização, conservando, para si, o dízima das colheitas
e do pescado, o monopólio do comércio de pau-brasil, das especiarias
e das drogas e o quinto das pedras e dos metais preciosos, o Soberano
regulou, nos forais, os direitos políticos e a percepção de rendas dos
donatários e definiu-lhes também as responsabilidades perante a
Coroa»63.
Obviamente, quando aqui aludimos a forais, não nos referimos
nem aos documentos que sob essa designação têm sido erronea-
mente apresentados como tal - caso do célebre «foral de Olinda»64 -
nem às cartas constitutivas de municípios com que Herculano, menos
exacto, fazia esgotar o conteúdo da figura. Na realidade, o conjunto
único dos forais das primeiras capitanias brasileiras resulta de uma sé-
rie de actos unilaterais do monarca, imperativos e destinados essen-
cialmente a definir desse momento para o futuro as condições não
apenas de assentamento mas de exploração dos recursos naturais de
toda a Capitania, quer pela generalidade dos moradores quer por um,
em particular, o próprio Ca pita o-Governado r.
Têm, no entanto, sido múltiplas as caracterizações feitas destes
diplomas. Vamhagen, por exemplo, define o foral como um «pacto»
que fixava os direitos do Capitão quer para com a Coroa quer para
com os moradores da Capitania65. O brasileiro Diogo de Vasconcelos
62 PAULO MERÉA, op. cit., p. 174.
63 ROBERTO SIMONSEN, História Económica do Brasil. 1500-1820, Companhia Edi-
tora Nacional, S. Paulo, 1937 (2 tomos).
64 Vide no Capítulo que dedicamos às «Sesmarias» o ponto 12 do § 2.
65 E A. DE VARNHAGEN, História gera! do Brasil, ed. e anotada por Rodolfo Garcia,
S. Paulo, s.i.d., vol. i, p. 146.
76
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
não hesitou em considerá-los como verdadeiros pactos entre a Coroa
e os donatários66 e o anónimo autor do Ensaio sobre a natureza jurídica
das capitanias, define o foral como «pacto que assim se forma entre ele
(Rei) e os seus súbditos, por cima da autoridade do C apita o-Donatá-
rio»67. Outras opiniões se poderiam recolher, no sentido de concluir
com Harold B. Johnson que «the foral seems to have been particularly
troublesome to commentators»68. E os escritores de língua inglesa não
são excepção: AlexanderMarchant, num dos mais conhecidos estudos
dedicados às capitanias, afirma que «the foral gave in detail the obli-
gation of the donatário to the King»69. Bradford Burns, no prefácio à
sua tradução do foral de Pernambuco, afirma que «in general, the land
grants were set forth in a carta de doação and the obligations of the
donee to the monarch in an accompanying foral»70. Na opinião do ci-
tado H. B. Johnson, «the genealogy of this misinterpretation is not
hard to trace. Burns would appear to have taken it from Marchant
who, in totum, got it from Malheiro Dias»71. E contrapõe a sua inter-
pretação, no sentido de considerar consignados no foral «the mutual
obligations of the donatary captain to the settlers of his captaincy and
vice-versa, as well as the oversiding obligations of both to the King»72.
A precisão de Johnson é pertinente e, analisados esses forais, fa-
cilmente se constata que se o Capitão é obrigado a conceder terra a
quem lha demande, também o morador está forçado a prestações de
serviço militar junto do Capitão «se lhe necessário for»; ambos estão,
por outro lado, sujeitos ao preenchimento de precisas obrigações para
com a Coroa. Aliás, os destinatários do acto régio que subjaz ao foral
e os termos em que se relacionavam com a Coroa estão patentes no
inciyit desses textos:
66 DIOGO DE VASCONCELOS, «Linhas Gerais da Administração Colonial», in Revista
do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Tomo Especial de 1914 - Parte III, pp. 281-298
[p. 292].
67 «Ensaio sobre a natureza jurídica das capitanias», in Arquivo Histórico da
Madeira, tomo II, p. 59.
68 HAROLD B. JOHNSON, «The Donatary Captaincy in Perspective: Portuguese
Background to the Setdement of Brazil», in The Hispanic American Histórica! Review,
52-2 (Maio de 1972) p. 209.
69 ALEXANDER MARCHANT, «Feudal and Capitalistic Elements in the Portuguese
Setdement of Brazil», in The Hispanic American Histórica! Review, 22:3 (Agosto de
1942), pp. 493-512 [p. 501].
70 BRADFORD BURNS, A Documentary History of Brazil, editado por..., Nova Iorque,
1966, pp. 33-34.
71 H. B. JOHNSON, op. cit., p. 209, n. 17.
73 Idem, ihidem.
77
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
«... por ser muito necessário haver aí foral dos direitos, foros ou tri-
butos e coisas que se na dita terra hão de pagar assim do que a mim e à
Coroa de meus reinos pertencer, como do que pertencer ao dito Capitão
por bem da dita sua doação, e eu havendo respeito à qualidade da dita
terra, e a se ora novamente ir morar, povoar e aproveitar, e porque se isto
melhor e mais cedo faça, sentindo-o assim por serviço de Deus e meu e
bem do dito Capitão e moradores da dita terra e por folgar de lhes fazer
mercê houve por bem de mandar ordenar e fazer o dito foral na forma e
na maneira seguinte...»73
Depois, o que se segue é bem conhecido: a confirmação da obri-
gação que assiste ao capitão de dar e repartir as terras aos moradores
e a proibição de as tomar para si, o direito do quinto régio e dadízima
contada sobre este e que cabe ao Capitão na exploração de metais,
pedras ou pérolas, a afirmação do monopólio real do pau-brasil,
especiarias e drogas, a definição do dízimo do pescado, as rendas
percebidas pelos alcaides-mores e as pensões devidas aos capitães,
quer pelos tabeliães quer por direitos de passagens taxados pelas
Câmaras, e o próprio serviço de guerra devido aos capitães pelos mo-
'radores74.
Como dissemos, este tipo de forais é característico das capitanias
do Brasil, talvez pela especial razão da sua extensão, condições natu-
rais e potencialidades económicas envolvidas. Ainda em 1646-na au-
sência de um documento específico -, os donatários da Capitania de
Caeté faziam registar no seu Livro da fazenda como texto orientador o
foral da Capitania originária de Duarte Coelho, aí apodado de Foral que
se concedeu ao Estado do Brasil e que se pratica em todas as Capitanias dele
e do Maranhão75. Nas outras capitanias atlânticas a essa'junção preen-
chiam-na os forais das próprias localidades e alfândegas. Dos primei-
ros, da longa série dos doze que entre Agosto de 1534 e Fevereiro de
1536 são concedidos acompanhando a criação das primeiras capita-
nias do Brasil, só se desconhece o texto do que respeita à Donatária
de Fernando Álvares de Andrade; os restantes referencio u-os a todos
Paulo Merêa nas Chancelarias Reais do Arquivo Nacional da Torre do
Tombo76. As cartas de doação das capitanias de Angola (1575) e Serra
73 C. de doação da Capitania de S. Vicente, in DBN, vol. 13, p. 150.
74 Idetn.
75 Vide o Livro ãa fazenda da capitania do Cayeté, Cód. l da Colecção Vidigiietra da
Sociedade de Geografia, Lisboa, ff. 71-74.
76 PAULO MERÊA, oy, cit., p. 174, n.° 20.
78
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
Leoa (1606) aludem também aos correspondentes forais, mais duvi-
damos que chegassem algum dia a ser emitidos77.
1.5. Os Pleitos
Pela densidade de informação deles decorrente não podemos es-
quecer os vários pleitos de que nos chegaram, como ecos, as peças es-
critas. Como dissemos, umas vezes travados entre os capitães e a Co-
roa, outras entre os povos e os capitães, são da mais variada sorte as
causas dos litígios.
A extensão da jurisdição dos capitães foi uma delas. Recorde-se a
causa que nos meados do séc. xvi correu entre os povos da Capitania
de S. Miguel e o Donatário Conde de Vila Franca, acusado de exceder
os poderes originalmente concedidos, questão a que respeita uma in-
teressante sentença que Pinheiro da Veiga reproduziu78. De um pleito
de igual teor, este já setecentista, na Capitania brasileira da Paraíba,
dos Viscondes de Asseca, colhem-se igualmente importantes elemen-
tos para a compreensão da administração senhorial no Brasil79. Umas
vezes, a questão prende-se ao problema da determinação da linha da
sucessão dos Donatários, como em 1571, nas capitanias do Faial e do
Pico80, outras vezes o problema reside na vexata quaestio dos direitos
banais, questão das mais debatidas e levadas à apreciação dos tribu-
• RInais reais .
Alvo de debate directo com a Coroa foi a do uso e extensão das
jurisdições senhoriais - tipo de pleito que em caso extremo, como o
do Capitão de S. Tomé, leva à perda da Capitania em 152282 - a da su-
cessão nas donatárias83 ou das pretensões de índole económica84.
77 Vide VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século
XVII», in Lãs Ciências, Ano XI, n.° 3, Madrid, s.i.d., pp. 607-631 [p. 627].
78 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, cód. 7627, fól. 186-186v.
79 Vide ALBERTO LAMEGO, oy. cit., e o nosso Capítulo IX.
80 Vide a Sentença dada em Lisboa em 1571 contra Jerónimo Corte-Real a res-
peito das Capitanias do Faial e do Pico, publicada em As Gavetas da Torre do Tombo,
V, pp. 5-15.
81 JORGE DE CABEDO, Praticarum ohservationum seu Decisionum Supremt Lusítaniae
Senatus, Lisboa, 1610.
82 Vide GTT, II, pp. 441-449, e III, pp. 9-13.
83 Vide em PEDRO TACQUES, op. cit., os documentos relativos ao pleito entre a
Condessa do Virnieiro e o Conde de Monsanto sobre a sucessão da Capitania de
S. Vicente.
84 Vide GTT, II, pp. 582 ss. e 612 ss.
79
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
O corpo das Gavetas do Arquivo Nacional da Torre do Tombo é, neste
campo, um dos mais privilegiados repositórios deste tipo de do-
cumentos, quase todos em invulgar bom estado de conservação85.
Núcleo documental a merecer especialíssima menção é o pro-
cesso relativo à causa que durante dezenas de anos se arrastou entre
a Coroa e os herdeiros dos Albuquerques Coelhos, donatários de Per-
nambuco. Conquistada a Capitania no século xvii pelos holandeses,
recuperada posteriormente pelo esforço dos moradores, e das arma-
das reais, entendeu a Coroa chamá-la a si, invocando a inépcia dos
antigos donatários para a sua defesa. Os herdeiros destes, inconfor-
mados, moveram àquela um processo que, iniciado em 1670, só viria
a encontrar o seu termo em 1716, por acordo amigável, como tudo
mais detidamente tratamos noutro ponto deste estudo86.
Cremos poder anunciar que no decurso desta investigação locali-
zámos os autos originais de causa tão falada, nunca até agora utiliza-
dos. Pertencentes a uma colecção particular, recolheram-se recente-
mente no Arquivo Nacional87, constituindo nas suas setecentas e
muitas folhas de petições, alegações, sentenças e documentos ane-
xos, um repositório de informação histórica de primeira classe. Além
de variada e precisa documentação para a história económica e mili-
tar de Pernambuco88, acumulam-se lá os vários acórdãos de que a
questão foi alvo e também as alegações, réplicas e tréplicas dos re-
presentantes das partes em litígio, os Procuradores da Coroa e os ad-
vogados dos sucessores dos Albuquerques. E de ainda mais interesse
se reveste esta fonte se atentarmos que o primeiro dos advogados que
a questão teve em mãos foi o talvez mais célebre causídico do seu
tempo, o Dr. Manuel Alvares Pegas. Da sua pena era já conhecida a
Allegaçam de Deretto por parte dos Senhores Condes de Vimiozo sobre a suc-
cessam da Capitania de Pernambuco (ié?!)89, pequena parte do seu la-
bor nesta causa; mas a consulta dos autos traz à luz novas peças da
85 As .Gavetas da Torre do Tombo, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos.
Junta de Investigação Científica do Ultramar, Lisboa, 1960-1975 (11 vols.).
86 Vide o Capítulo IX deste estudo.
07 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Colecção Eng. Raul Contreíras, Maço 1.
88 Veja-se p. ex. a certidão seiscentista do Foral da Capitania de Pernambuco, no
Maço referido na nota anterior.
89 MANUEL ÁLVARES PECAS, Allegaçam de Dereito por parte dos Senhores Condes de
Vimiozo sobre a sucessam da Capitania de Pernambuco, composta pelo licenciado Manoel
Alvares Pegas seu Advogado, e da Coza da Supplicaçam, Évora, Oficina na Universidade,
1671. Veja-se também no apêndice documental à 1." edição deste estudo a sentença
de 1677 nesta mesma questão, transcrita pelo mesmo Pegas nos seus Commentaria.
80
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
sua autoria, desconhecidas, de inegável interesse doutrinário directo
para a questão das capitanias. Outra sentença dada em importante
pleito da mesma natureza, mas relativo à Capitania de Itamaracá, no
Brasil, dos Marqueses de Cascais, está publicado na História Genealó-
gica da Casa Real Portuguesa graças ao cuidado do erudito teatino
D. António Caetano de Sousa, e suscita sem qualquer dúvida um
grande interesse, dadas as achegas para a mesma questão das obriga-
ções militares dos capitães-donatários90.
Também além da questão que opôs, sem sucesso, no séc. xvii os
herdeiros de Paulo Dias de Novais à Coroa a propósito da Capitania
de Angola91, outro pleito que, embora não tenha chegado a tela de
juízo, obrigou a Coroa a confrontar-se com as pretensões de um par-
ticular, foi o que nas últimas décadas do século xvin se suscitou a pro-
pósito da Capitania de S. Vicente, no Brasil. Sumariamente, em finais
do século XVIII, o Conde do Vimieiro conseguira no juízo das Justifi-
cações do Reino a confirmaçãodo seu direito como sucessor dos úl-
timos donatários de uma Capitania já esquecida desde as grandes in-
corporações pombalinas. Fiado na solidez de uma posição conseguida
em juízo, viria a requerer à Rainha D. Maria I a satisfação dos seus in-
teresses, isto é, a renovação da mercê da Capitania e, enquanto o pro-
cesso se desenrolasse, a atribuição de uma avultada soma de «ali-
mentos provisionais».
As duas pormenorizadas alegações do advogado do Conde e os
dois pareceres escritos para sustento das razões da Coroa, são peças
fundamentais para a compreensão global da questão das capitanias.
Tanto quanto saibamos desconhecidas e nunca citadas, trazemo-las
também aqui à luz92. Enobrecem-nas o facto de as duas últimas terem
sido redigidas pelo punho de um dos maiores jurisconsultos do seu
tempo, o Dr. José de Seabra da Silva, que foi Procurador da Coroa, Se-
90 Vide Doação [da Capitania] de Itamaracá, que pertence ao Marauez de Cascaes
D. Luiz Alvares de Castro, por sentença, publicada por D. António Caetano de Sousa nas
Provas da sua História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo vi, i parte,
pp. 336-420.
91 D. ANTÓNIO XAVIER DA GAMA PEREIRA COUTINHO, Os Representantes de Bartolo-
meu Dias e de seu neto Paulo Dias de Novais. Breves notas sobre sua Família e representa-
ção, devidamente documentadas e acrescidas duma minuta inédita para doação da Capitania
de Angola, Matosinhos, 1933 (Sobre os reparos feitos ao documento transcrito por
Pereira Coutinho, veja-se MM, vol. IV, pp. 510-511).
92 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, Maço 642. Contém
duas petições do advogado do Conde do Vimieiro e dois pareceres de Seabra da
Silva; o 1.° deles está transcrito em apêndice à l.a ed. deste estudo.
81
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
cretário de Estado adjunto de Pombal e seu apontado delfim até à des-
graça política que o afastou da cena governamental93. Do que se en-
tende, a intervenção de Seabra da Silva nesta causa, retirado já da vida
pública, deve-se ao empenho do Ministro Arcebispo de Tessalonica.
Acedendo, o velho jurista redige então em 30 de Junho de 1781 a pri-
meira de duas respostas à petição do advogado do Conde do Vi-
mieiro, vincando a insubsistência e a inconveniência das pretensões e
das razões invocadas94. O advogado replica, rebatendo a argumenta-
ção do antigo Procurador, que, por seu lado, num texto tão incisivo
quanto violento, acaba por demolir as últimas veleidades do procura-
dor do conde:
«Um advogado douto, bom jurisconsulto, não se intromete facil-
mente nestas questões que excedem os limites da sua profissão. Um ad-
vogado mero e simples causídico a tudo se atreve. Tudo acha no Pegas e
no Cabedo. Mede uma doação de uma Capitania do Brasil com a mesma
vara com que mediu a doação de uma aldeia de juro e herdade. Aí acha
tudo: povoação, agricultura, indústria, fortificação, política, comércio,
navegação, interesses particulares, públicos e da Coroa! Nada o emba-
raça, em tudo o que arrazoa acha harmonia porque o acha no Pegas. To-
das as vezes que a natureza e índole da causa obriga a discorrer por ou-
tros princípios que ou se não acham ou se encontram com o do Pegas,
decide sem hesitar que tudo vai errado, e que a justiça é atropelada pela
ignorância ou pela violência...»95
Seabra da Silva não esconde o conceito que fez desse advogado
«inventor das ignorâncias, equivocações, confusões e temeridades
Histórico-Jurídico-Políticas com que encheu tanto papel...», tornando
o documento uma das peças mais interessantes que nos foi dado ler
sobre a posição de um governante em relação à questão das capita-
nias na sua fase final.
93 Sobre José Seabra da Silva, veja-se MARQUÊS DE RESENDE, «Elogio Histórico de
José Seabra da Silva», in Memórias da Academia, t. Ill, parte I, nova série, Segunda
Classe, Lisboa, 1861.
94 Vide o 1." dos pareceres citados em apêndice na 1.* ed. deste estudo.
95 Seabra da Silva procurou encobrir no 2.° parecer a sua identidade, dando a
entender ser personagem diversa do autor do 1." Todavia, no maço referido, além do
texto oficial desse parecer, conserva-se a minuta, que é indubitavelmente do punho
do jurisconsulto.
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
1.6. Os Pareceres do Conselho Ultramarino
e do Procurador da Coroa
Outras fontes de informação que não podem ser esquecidas são
os documentos resultantes da actividade do Conselho Ultramarino e
do Procurador da Coroa. Quer um, pelas específicas funções de aná-
lise de todas as questões que à administração ultramarina pertences-
sem96, quer o segundo pela obrigação de se pronunciar em situações
em que se jogasse a disponibilidade de bens régios, tiveram assim,
frequentemente, que se debruçar ex offtcio sobre questões directa-
mente respeitantes ao sistema das capitanias.
Quanto àquele primeiro órgão, não nos iremos sequer deter so-
bre a sua interferência directa em actos da vida normal das capitanias,
como seja, por exemplo, o da consulta sobre as listas de propostas dos
donatários para o cargo de Loco-Tenente; vê-lo-emos com pormenor
noutro local97. Merecem, todavia, especial menção as mais importan-
tes decisões, precedidas geralmente do parecer de um membro do
Conselho encarregado da análise primeira do assunto, e dos votos,
nem sempre unânimes dos restantes, em sessão final. Lembremos a
abundante documentação relativa à licença requerida em 1709 pelo
Marquês de Cascais para vender a Capitania de S. Vicente a José de
Gois de Morais, processo que seria encerrado com a incorporação do
território na Coroa98, os pareceres relativos ao sequestro da Capitania
da Paraíba em 1733-1749", e, mais tarde, as decisões tomadas em
1750-1751, aquando dos graves distúrbios e representações dos mo-
radores da mesma Capitania contra o seu Donatário100.
Como também dissemos, os pareceres dos Procuradores da Co-
roa revestem-se de não menos valor como fonte de informação sobre
esta matéria. Muitos andam anexos aos dossiers elaborados para
juízo do Conselho Ultramarino, como sucede nos casos que anterior-
mente citámos. Outros acontece estarem dispersos ou reunidos em
colectâneas de muito difícil acesso. Atente-se ao caso dos pareceres
do notável jurisconsulto Dr. Tomé Pinheiro da Veiga, que durante
96 MARCELLO CAETANO, O Conselho Ultramarino. Esboço da sua história, Agència-
-Geral do Ultramar, Lisboa, 1967.
97 Vide o nosso Capítulo IV.
98 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Rio de Janeiro, does. 3.162, 3.226 e 3.227.
Veja-se tb. o nosso Capítulo IX.
99 Arquivo cit, loc. cit., does. 14.984-87 e 14.999. Veja-se tb. o Capítulo IX.
100 Arquivo cit, loc. cit., doe. 14.976, e ALBERTO LAMEGO, A Tetra Goitacá..., vol. II,
p assim.
83
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
bastantes anos ocupou o cargo de Procurador da Coroa. São peças de
consulta fundamental, não apenas porque o magistrado no desempe-
nho de tais funções teve uma palavra a dizer na frequentemente con-
turbada matéria das confirmações das doações de capitanias101, mas
também porque o autor da Fastigímia deixou fama de bom jurista102,
ressaltando ainda hoje dos seus textos um profundo bom senso e um
inegável «sentido de Estado».
Nascido em 1571 e falecido com 85 anos em 1656, Pinheiro da
Veiga foi Desembargador e Chanceler da Casa da Suplicação (1617),
Procurador da Coroa, Vedor da Fazenda da Rainha e Chanceler-Mor
do Reino, e, a crer em Barbosa Machado, «os seus votos foram sem-
pre regulados pelas máximas do Evangelho e não pelos aforismos de
Tácito»103. Urge proceder ao levantamento da sua vida e de uma obra
que ainda hoje se encontra esparsa por arquivos variados; e, se bem
que algo tenha sido feito sobre a faceta puramente literária do magis-
trado, é indispensável estudá-lo também sob a faceta fundamental do
jurista que tanto influenciou a vida pública portuguesa da primeira
metade do século xvii. Como contributo a esse estudo, preparámos
algumas notas bibliográficas sobre o ilustre jurisconsulto, acompa-
nhadas do inventário completo do espólio jurídico deixadoà morte.
Deste, utilizámos já directamente nesta investigação o interessantís-
simo caderno de pareceres autógrafos que se conserva na Biblioteca
Nacional de Lisboa104. Nunca o vimos citado ou sequer referenciado
por autores nacionais105; contudo o seu conteúdo é rico: o projecto de
limitações a introduzir nas cartas de confirmação de capitanias106 e
01 Note-se, por ex., a ordem régia exarada num parecer sobre a Capitania de
Cumá de António de Albuquerque Coelho de Carvalho, a p. 141 do referido cód.
7627 da B. Nacional de Lisboa: «Com a Doação passada a seu antecessor e provisão
da administração, manda El-Reí nosso Senhor que o Doutor Tomé Pinheiro da Veiga,
Procurador da Coroa, faça vista a este requerimento. Em Lisboa, a 20 de Julho de
1652.»
102 «Na jurisprudência especulativa e prática foi oráculo em cujas profundas
decisões e maduros conselhos se admiravam renascidos os Bártolos, Baldos, Sempró-
nios e Papinianos» - m Dioco BARBOSA MACHADO, Biblioteca Lusitana, 3.1 ed., Coim-
bra, 1965, vol. m, pp. 758-760.
103 BARBOSA MACHADO, op. loc. cit.
1W B.N.L., Reservados, cód. 7627.
105 E mesmo nos estrangeiros, só uma ligeira referência em STUART SCHWARTZ,
Soveretgniiies anã Society in Colonial Brazil. The High Court of Bahia and tis Judges,
1609-1751, Berkeley, Los Angeles, Londres, University of Califórnia Press, 1973,
p. 230, n. 32.
06 Vide o parecer reproduzido em apêndice à 1.* ed. deste estudo.
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
uma grande variedade de pareceres sobre matérias como as obriga-
ções militares e de povoamento dos capitães, faculdade de nomeação
de Loco-Tenentes ou criação de ofícios novos além de documentação
anexa que inclui cartas de D. João IV, do Procurador da Coroa, do Ou-
vidor-Geral do Brasil, acórdãos da Relação, os regimentos anotados dos
ouvidores-gerais do Brasil (1630) e do Rio de Janeiro (1643) e -a carta
de doação da Capitania de Pernambuco, também anotada por
Pinheiro da Veiga são por si suficientes para que o códice em causa se
possa considerar como um elemento de consulta indispensável em
qualquer estudo dedicado à administração ultramarina portuguesa da
primeira metade do século XVll.
2. Documentação Particular
2.1. A Documentação Senhorial
Tarefa desanimadora, mas que também se impõe, é o da análise
dos fundos documentais pertencentes às famílias dos antigos capi-
tães-donatários.
As dificuldades apresentam-se desde o momento em que nos
apercebemos do fatídico destino de muitos dos arquivos das casas se-
nhoriais portuguesas. Na súmula de algumas diligências que pude-
mos fazer, constatámos que os arquivos dos Viscondes de Asseca e
Condes da Ribeira - antigos donatários, respectivamente, da Paraíba,
no Brasil, e S. Miguel, nos Açores - estão depauperados e o pouco que
resta disperso por várias mãos e de difícil consulta. Do cartório dos
Condes de Vimieiro, Senhores da Ilha do Príncipe, o paradeiro é pura
e simplesmente desconhecido. O arquivo dos Condes de Vimioso,
donatários de Machico, terá ardido em 1755. O da Casa Casteío-Me-
Ihor, dos antigos capitães do Funchal e S. Maria, foi, como é bem sa-
bido, quase totalmente vendido e disperso. Do certamente riquíssimo
cartório dos Duques de Aveiro, capitães de Porto-Seguro, no Brasil, e
Senhores de Sto. Antao, Flores e Corvo, pouco se sabe, para além das
poucas pastas que se conservam na Biblioteca do Palácio da Ajuda.
Do arquivo dos Condes de Resende, senhores da Capitania brasileira
de Ilhéus, sobreviveram ainda núcleos importantes, conservados hoje
sob a designação de «Cartório Resende», na divisão de Reservados da
Biblioteca Nacional de Lisboa; nada contém, todavia, com proveito
para o estudo da Capitania que possuíram. Assim, à excepção de um
S 5
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
importante Tombo dos bens da Casa dos Condes da Ribeira Grande,
Donatários de S. Miguel, nos Açores107, e do Livro da Fazenda da ca-
pitania de Caeté, no Brasil108, é pouquíssimo, pois, o proveito que se
pode extrair da documentação senhorial, e esse ainda decorrente de
registos, não propriamente dos capitães, mas daqueles onde a sua ac-
tividade haveria obrigatoriamente que deixar rasto. Referimo-nos,
por exemplo, aos registos dos actos de concessão de sesmaria, entre-
gues aos funcionários régios encarregados da administração da Fa-
zenda, e de que, por exemplo, Pais Leme, profundamente beneficiou.
Os registos notariais ou camarários perpetuaram também muitos dos
instrumentos pelos quais os capitães escolheram procuradores, con-
cedendo-lhes e definindo-lhes poderes. O funcionalismo senhorial,
ainda que mal definido, o pouco que conhecemos - e à excepção de
um documento do cartório dos Duques de Aveiro109- devemo-lo a
listagens elaboradas por iniciativa oficial110.
Finalmente, a grande lacuna sentimo-la em tudo o que toca à ad-
ministração da justiça pelos capitães e seus ouvidores. Onde estarão
hoje autos, decisões, sentenças, ou registos? Desconhecemo-lo por
completo e para qualquer das capitanias atlânticas; a abrir uma ex-
cepção o Arquivo dos Açores publicou no século passado, na íntegra,
uma sentença de 1510 do Capitão da Ilha de S. Miguel, segundo o ori-
ginal manuscrito pertencente a um particular açoriano.
2.2. Literatura da Doutrina
Há também que tratar da literatura especificamente jurídica, téc-
nica, eventualmente dedicada ao tema. Infelizmente - ao contrário de
Espanha que possui pelo menos uma obra extensa, dedicada em pro-
fundidade aos múltiplos problemas da administração senhorial, a Po-
lítica para Corregidores y Senores de Vasallos (1597)111, de Castillo de Bo-
vadilla - Portugal é falho de obras deste teor, e as únicas laborações
doutrinárias encontramo-las dispersas em obras como o tratado De
107 Códice 10,729 da Biblioteca Nacional de Lisboa.
108 Livro da fazenda âa Capitania do Cayeté, Cód. l da Colecção Vtdigueira da
Sociedade de Geografia, Lisboa.
109 Biblioteca do Palácio da Ajuda, Cód. 54-111-15, n." 122.
110 Veja-se a bibliografia cit. no Capítulo V.
111 JERÓNIMO CASTILLO DE BOVADILLA, Política para Corregidores y Senores de Vasal-
los en tiempo de Paz e de Guerra, etc., Barcelona, 1624.
8 ti
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
Danationibus de Antunes Portugal112, os Comentaria de Alvares Pe-
gas113, as Decisiones de Cabedo114 ou o De Regime Reipublicae de Bap-
tista Fragoso115.
Sobre a problemática concreta das capitanias o campo é ainda
mais reduzido. Se exceptuarmos as várias especulações, já citadas, de
autores como Pinheiro da Veiga ou Álvares Pegas, este no decurso do
processo Vimioso, e a tão citada Decisio XXIX de Cabedo, que distin-
guiu, destrinçando, as características dos Capitães Donatários dos
simples capitães militares, o panorama é desértico116. Aflorando mais,
qual ilhas, só do tipo das que fez o Dr. Vanguerve Cabral, antigo Ou-
vidor da Capitania de Itaparica, na sua Prática Judicial muito útil, em
que rememora ocasionalmente um episódio ilustrativo da realidade
jurisdicional daquela Capitania117 ou diversos aresta senatus, também
reproduzidos por Cabedo a título de ilustração jurisprudencial e re-
ferentes a assuntos tão diversos como as demandas do Capitão de
S. Miguel com os moradores sobre direitos banais (1557 e 1558)118,
sobre a arrecadação de direitos donatariais (1577)119, sobre os pode-
res dos ouvidores (séc. XVII)120 ou sobre a jurisdição do Ouvidor de
Angra (1550)121.
São também de manifesta utilidade os pareceres jurídicos elabo-
rados em função de questões directamente respeitantes às capitanias
sem o pressuposto de um pleito judicial concreto ou sem o recurso
aos órgãos usualmente consultados. Na Colecção Pombalina da Biblio-
teca Nacional de Lisboa122, por exemplo, conserva-se uma colecção
de pareceres da autoria dos doutores Jorge de Cabedo, Lourenço Cor-
112 DOMINGOS ANTUNES PORTUGAL, Tractatus de Donationibus Jtiríum et Bonorum
Regias. Coronae, Lião, 1757.
113 MANUEL ÁLVARES PEGAS, Commentaría ad Ordinationes Regni Portugaliae. Tracta-
tio Sãentifica, Utruque Foro Perutitis acNecessária, ex Jure Naturati, Ecclesiastico, Civili,
Romano, Hispano & Lusitano, Lisboa, 1670-1729 (14 tomos).
114 JORGE DE CABEDO, Praticaram observationum seu Dedsionum Supremi Lusitaniae
Senatus, Lisboa, 1610.
115 BAPTISTA FRAGOSO, De Regimine Republicas, Colónia, 1641.
116 CABEDO, op. cit.
117 ANTÓNIO VANGUERVE CABRAL, Prática indiciai muito útil, e necessária para os que
principiamos officios de julgar e advogar, e para todos os que solicitam causas nos Auditórios
de hum e outro foro, Lisboa Occidental, 1715, p. 49.
118 CABEDO, op. cit., pp. 219 e 198.
mldem, p. 199.
120 Idem, p. 208.
121 Idem, p. 209.
122 B.N.L, Colecção Pombalina, n.° 644, p. 130v., e MM, III, pp. 383-388.
87
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
reia e de um corpo de Desembargadores do Paço, solicitados em 1590
com o fim de determinar com clareza o âmbito de determinados di-
reitos régios após a doação da Capitania de Angola, feita em 1575 a
Paulo Dias de Novais. Respeitante também à mesma Capitania,
guarda-se na biblioteca do British Museum, em Londres, outro pare-
cer solicitado com o objectivo de esclarecer os eventuais direitos dos
sucessores de Paulo Dias à mesma Donatária após a sua morte123.
Não que propriamente constitua um parecer, mas interessante por
se apresentar como uma formulação de questão preparada para a
emissão de um parecer, é outro documento, da referida Colecção Pom-
balina, redigido no decurso de uma controvérsia que opôs D. Gonçalo
da Costa e o Visitador e mais religiosos jesuítas do Colégio de Sto.
Antão sobre a Capitania brasileira de Peroaçu, texto onde curiosa-
mente os intervenientes do dissídio foram mascarados sob os nomes
de Tício, Cota ou Semprónio, ao modo e vincando o tecnicismo das
velhas questões do Direito Romano124.
2.3. Colectâneas Documentais
Pinalizaremos este Capítulo com uma referência breve às mais
importantes colectâneas documentais que nos foi dado utilizar.
É evidente que as grandes colectâneas documentais não são de
hoje; têm precedentes de peso, em que ocupa um lugar indisputável o
grande D. António Caetano de Sousa. Nas Provas que fez anexar à sua
monumental História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1753), pode
o estudioso das capitanias colher elementos que de outro modo se jul-
gariam, decerto, como perdidas. É o caso de documentos do cartório
da Casa dos Condes de Vimioso, capitães de Machíco, destruído nos
incêndios sequentes ao grande sismo de 1755. Felizmente, se folhear-
mos o tomo V das Provas, lá encontramos o instrumento da venda da-
quela Capitania por D. António da Silveira a Francisco de Gusmão, em
1548,, com-a anotação do erudito historiador de que «está no Cartório
da Casa de Vimioso, maço 11, num. 121, donde o copiei»125. Do mesmo
arquivo - maço 19, num. 847, e maço 75 num. 444, respectivamente -
123 Publicado em MM, IV, pp. 528-532.
124 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, Cód. 475, fóls. 394-395v. - «Per-
gunta sobre algumas terras do Brazil para se saber se se hão de julgar por de sesma-
ria ou por de Capitania».
125 ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cã., Provas, V, pp. 337-42.
88
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
provêm os treslados da doação primeira da Capitania de Machico
(1440) e da «portaria de mercê» da mesma Capitania ao Conde D. Luís
de Portugal (1605)126. No tomo vi das mesmas Provas é a Doação [da Ca-
pitania] «de Itamaracá, que pertenceo ao Marquez de Cascaes D. Luiz
Alvares de Castro, por sentença, que se nos depara».127
Notável repositório setecentista de documentação utilíssima para
o estudo das Donatárias brasileiras, é também a História da Capitania
de S. Vicente desde a sua fundação porMartim Afonso de Sousa em 1531,
escrita em 1772 por Pedro Tacques de Almeida Pais Leme. Os ante-
cedentes da obra são conhecidos128: em 1754 os Condes de Vimieiro,
a fim de averiguar certos factos respeitantes à fundação da Capitania
de S. Vicente, que até 1653 andara na sua Casa, viram-se forçados a
recorrer ao erudito paulista, para esse preciso efeito solicitado a vir do
Brasil. E quando, na presença dos mesmos factos, os ditos Condes se
decidiram a pleitear a posse da Capitania aos Condes de Lumiares e
a contestar à Coroa uma incorporação alegadamente viciada129, o re-
curso ao arquivo familiar não foi decerto suficiente dado que o Prin-
cipal D. João de Faro, tio do conde, cometeria de novo ao infatigável
Pedro Tacques a missão insana de no Brasil reunir a documentação
necessária à instrução da causa, tarefa de que este só se considerou
desobrigado anos passados, já depois de 1768!
«Carecendo, porém, V. Ex.a, de maior informação a fundamentis
desde o princípio da fundação desta Capitania até o ano de 1714, que se
incorporou à Coroa (por conceito errado e contra toda a verdadeira in-
teligência), me foi preciso sacrificar ao indispensável trabalho de passar
aos olhos o copioso cartório da provedoria da fazenda. ApHquei-me a es-
tes exames com tanta fadiga, quanta não cabe na expressão do maior en-
carecimento, porque as letras dos livros de registos são totalmente de di-
versa figura dos caracteres do presente alfabeto, obrigando-me esta
dessemelhança a gastar muitas horas de aplicação para verter uma só
lauda; contudo a veneração respeitosa que a V. Ex.a consagro fez suave
todo aquele excessivo desvelo, muito à vista dos meus anos e achaque
, pp. 343-351 e 366.
127 Doação [da Capitania] de Itamaracá, que pertenceo ao Marquez de Cascaes
D. Luiz Alvares de Castro, por sentença, publicada por D. António Caetano de Sousa nas
Provas da sua História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo Vi, i parte,
pp. 396-420.
128 PEDRO TACQUES, oy. dt, pp. 137-139.
129 Veja-se o que referimos no ponto 1.5 deste Capítulo.
89
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
inveterado da enxaqueca, cujas dores fazem pôr em desprezo o uso de
ler e escrever...»
Dessas «muitas horas de desvelo» nasceria um dos primeiros clás-
sicos da literatura histórica brasileira inteiramente dedicado ao estudo
das capitanias, que em manuscrito permaneceu até ser dado beneme-
ritamente à estampa em 1847 pela entidade detentora, o Instituto
Histórico Geográfico Brasileiro. Abarcando um longo período que de-
corre do século xvi ao século XVlii, a obra de Pais Leme inclui docu-
mentação tão variada como a que respeita às dadas de sesmaria130, os
pagamentos das redízimas131, às tomadas de posse dos donatários132,
às procurações passadas aos loco-tenentes e procuradores133, a pleitos
de demarcação e disputa de sucessão da Capitania, e às iniciativas ré-
gias de incorporação134.
Sem prejuízo das conclusões que o leitor possa retirar do inte-
resse das grandes colectâneas de documentação citadas ao longo
deste estudo, sempre se referirão as que de mais proveitosas conside-
ramos para este tipo de investigação. A Colecção de Documentos de
Monteiro Velho de Arruda135 os Documentos de Ramos Coelho136 e os
Descobrimentos Portugueses de Silva Marques137 são de bem conhecida
utilidade por reproduzirem largo número de diplomas de constituição
ou confirmação das primeiras capitanias madeirenses, açorianas e
africanas, estas últimas recebendo, aliás, um tratamento especial, na
magna obra de Senna Barcelos138. Os Documentos Históricos da Biblio-
teca Nacional do Rio de Janeiro139 e a Monumenta Missionaria Africana140,
130 PEDRO TACQUES, op. cit., pp. 159-162.
131 Idem, pp. 473-477.
132 Idem, pp. 300-303.
133 Idem, pp. 156, 158, 163-165, 299 e 300.
134 Idem, pp. 305-317.
135 MANUEL MONTEIRO VELHO ARRUDA, Colecção de documentos relativos ao descobri-
mento e fovoajnento dos Açores, Ponta Delgada, 1932.
136 Alguns Documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das Navegações
e Conquistas Portuguesas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892.
137 Descobrimentos Portugueses. Documentos fará a sua História publicados e prefacia-
dos por José da Silva Marques, Lisboa, 1944 (2 vols.).
138 CRJSTTANO DE SENA BARCELOS, Subsídios para a História da Guiné e Cabo Verde,
Lisboa, 1899.
139 Documentos Históricos, Publicados pelaBiblioteca Nacional e Arquivo Nacio-
nal, Rio de Janeiro, 1928-1949 (84 vols.).
140 Monumenta Missionaria Africana, coligida e anotada pelo Padre António Brá-
sio, C.S.S.P., Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, 1952-1956 (7 vols.).
90
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
completam a série de colectâneas de fontes para o estudo das capita-
nias, publicando diplomas fundamentais que acabam por cobrir toda
a área atlântica.
Além das obras citadas e como riquíssimos repositórios da mais
variada documentação - cartas de sesmaria, capítulos, pareceres, pro-
curações, correições, provisões régias, escrituras de compra e venda,
sentenças, etc. -, cabe ainda citar a série do Archivo dos Açores, o Ar-
quivo histórico da Madeira, os Documentos de Magalhães Godinho141,
o Inventário dos Documentos142 de Castro e Almeida, os Anais Pernam-
bucanos de Pereira da Costa143 a Pauliceae Lusitana, organizada por
Jaime Cortesão144 os vários volumes de Actas e Registo da Câmara de
S. Paulo145 ou a muito proveitosa e vasta recolha documental que Men-
donça Dias fez nos Tombos da Câmara de Vila Franca do Campo146.
Ml VTTORINO MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre a Expansão Portuguesa, Lis-
boa, 1956.
142 EDUARDO DE CASTRO E ALMEIDA, Inventário dos documentos relativos ao Brasil
existentes no Arquivo da Marinha e Ultramar de Lisboa, Rio de Janeiro, 1616-1725, Rio de
Janeiro, 1914 (6 vols.).
143 E A. PEREIRA DA COSTA, Anais Pernambucanos, Arquivo Público Estadual,
Recife-Pemambuco, 1951-1952 (4 vols.).
144 Pauliceae Lusitana Monumenta Histórica, Publicações do Real Gabinete Portu-
guês de Leitura do Rio de Janeiro, Edição Comemorativa do IV Centenário da Fun-
dação da Cidade de S. Paulo, Organizado e prefaciado por Jaime Cortesão, Lisboa,
1956-1961 (2 vols.).
145 Actas da Câmara da Vila de S. Paulo, Publicação oficial do Archivo Municipal
de S. Paulo, Duprat & Cia., S. Paulo, 1914-1915 (7 vols.).
146 URBANO DE MENDONÇA DIAS, A vida de nossos Avós. Estudo Etnográfico da vida
açoreana através das suas leis, usos e costumes, Vila Franca do Campo, 1944-1948
(9 vols.).
9 I
3 . C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O
E E X T I N Ç Ã O D A S C A P I T A N I A S
1. A Criação das Capitanias
1.1. Introdução
Referimos anteriormente que às capitanias subjaz a figura jurí-
dica da doação, caracterizando-a, notando, com particular incidência,
as circunstâncias que ao monarca permitiu contrair ou abrir excep-
ções ao princípio da inalienabilidade dos bens da Coroa1. Aludimos
especialmente às doações genericamente classificadas de remunerató-
rías e podemos recordar que, na lição de Pascoal de Melo Freire, «a
doação destes bens não se faz por mera liberalidade, mas sob certo
modo e para certo fim; por isso, a sua natureza é sempre remunera-
tória, e atende, para todo o sempre, aos bons serviços do donatário e
seus sucessores»2. Noutro passo, adiantará o mesmo autor que se os
bens públicos, em relação ao Rei, «não estão em seu domínio e pro-
priedade, estão certamente em seu império e administração; eis por
que bem poderá dispor deles para o bem comum da Nação, que re-
sulta da justa e necessária distribuição dos prémios»3. E se as palavras
de Pascoal datam dos finais do século xviii, a verdade é que remon-
tam a uma construção doutrinária mais antiga, de que o não menor
dos princípios correlativos era o de que à alienação de direitos reais
tinha que corresponder acto expresso4, no qual, tão cedo quanto o
governo dos nossos primeiros monarcas, se atendeu à necessidade de
com maior ou menor pormenor enunciar as causas justificativas da
1 Vide o Cap. I, § 2.
2 PASCOAL JOSÉ DE MELO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português tanto
público como particular», (j XXVIII, tít. m, L. 2, in Boletim do Ministério da Justiça, n.°
163, Fevereiro de 1967.
3Mem, 5 XX, tít. m, L. 2.
4 Cf. p. ex. OF, 1.2, tít. 4, §§ l, 2, 3, 6, 9, 11.
95
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
1.2. Os Intuitos de Povoamento e Colonização
Ora, se atentarmos nas motivações que subjazem à concessão de
capitanias, haverá a notar que - em confronto com outras doações ré-
gias, inclusive as de senhorios metropolitanos - estas, de capitanias,
não se reportam a uma única causa donandi, específica ou determi-
nada, mas a um jogo de causas articuladas e afins a três tipos de desi-
derato: a recompensa do mérito próprio ou herdado do súbdito be-
neficiado, a prossecução de estratégias oficiais de ordem política e
económica, e a satisfação de obrigações inerentes à defesa e progresso
da Fé in yanibus infidellium.
Na Introdução a este estudo tivemos a oportunidade de discorrer
sobre a oportunidade e as condições da criação de capitanias em toda
a área atlântica do Império, segundo critérios bem determinados em
função de projectos de povoamento e colonização, suficientemente
convincentes para levar os monarcas portugueses a recorrer à tradição
das concessões senhoriais e para os prosseguir em termos aceites
como úteis até ao ano de 1685. Nessa base, um espírito prático, caput
scholíae, como foi o Procurador da Coroa, Tomé Pinheiro da Veiga,
não hesitará em afirmar nas primeiras décadas do século XVII que
«o fim principal a que são destinadas [as capitanias] é a povoação da costa
e terra firme delas com obrigação de levarem cada ano certos casais e
moradores que as povoem e cultivem, e para isso se lhes concedem as
terras com direitos e rendas e amplíssima jurisdição...»5
Bem mais tarde, em 1781, outro homem de estado como foi José
de Seabra da Silva fará notar que
«o espírito e o fim destas divisões e destas exorbitantes doações foi pro-
mover a povoação e cultura daquele continente, inflamando com tanta
coisa grande a vaidade dos donatários poderosos ou pela autoridade que
tinham ou pelas riquezas que se lhes supunham»6.
É, de resto, a generalizada - e correcta - convicção de muitos dos
autores que sobre a matéria e até à presente data têm discorrido.
5 Biblioteca Nacional de Lisboa, divisão de Reservados, Cód. 7627, fól. 41.
6 Vide o apêndice (Parecer de 1781) que consta da 1." ed. deste estudo.
96
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
1.3. O Estímulo da Fé
Mas, cabe interrogarmo-nos se se não tem caído no equívoco de
minimizar ou ignorar liminarmente uma faceta indissociável da ques-
tão, num processo que faz perigar ou falsear a compreensão do hack-
ground ideológico dos actos régios de concessão em benefício de uma
visão puramente material ou mecanicista. Referimo-nos ao offiàum
missionandi e à motivação religiosa que sempre os monarcas fizeram
por imprimir de modo explícito nos mais diversos actos da Expansão.
Estudos de cunho acentuadamente económico ou jurídico, como
os de Frédéric Mauro7 e de Ruy de Albuquerque8 não ignoraram esse
elemento fundamental, e Femandez Castilejo em La ilusión de Ia Con-
quista deixou manifesta a realidade da conceptualização dos desco-
brimentos e da evangelização das terras pagãs como «continuação de
uma cruzada de sete séculos»9. Também Luís Filipe Thomaz (ainda
que aludindo especificamente à expansão oriental) notou pertinente-
mente que à empresa indiática presidiu já no século xvi «um ideal de
guerra santa, uma como que racionalização da ideia de cruzada - des-
pida da coloração internacionalista que lhes conferia a sua relação
com o conceito medieval de RespuHica Christiana, porque colocada
agora ao serviço da política expansionista de um estado nacional,
quiçá o primeiro a emergir como tal nos alvores modernos. Essa ideo-
logia - que impregna a historiografia coeva, em especial a obra de
João de Barros, para ter n'Os Lusíadas um último eco audível - se fre-
quentemente inibiu o desenvolvimento do pragmatismo que exigi-
ram as conveniências comerciais, conferiu, no entanto, à expansão
portuguesa no Oriente uma força moral e uma coesão intrínseca que,
em parte, explicam o seu sucesso»10.
7 FRÍDÉRJC MAURO, Lê Portugal, k Brésil et 1'Attantique au XVIII siècle (1570-1670) -
Elude Éeonomique, Paris, FundaçãoCalouste Gulbenkian - Centro Cultural Português,
1983, pp. 6-7.
8 RUY DE ALBUQUERQUE, Os Títulos de Aquisição Territorial na Expansão Portuguesa
(Sécs. XV e XVI), Dissertação apresentada no Curso Complementar de Ciências Jurí-
dicas da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 1960 (exemplar dactilografado ama-
velmente cedido pelo Autor), p. 95-
9 Cit in RUY DE ALBUQUERQUE, op>. dt., p. 95, n. 3. Veja-se aí abundante desen-
volvimento e bibliografia sobre a concepção de cruzada, sua origem ou utilização nos
reinos e expansão ibérica.
10 Luís FILIPE FERREIRA REIS THOMAZ, «Estrutura Política e Administrativa do
Estado da índia no séc. XVI», in // Seminário Internacional de História Indo-Poriuguesa -
Actas. Estudos de História e Cartografia Antiga - Memória n.° 25, Instituto de Inves-
tigação Científica e Tropical, Lisboa, 1985, pp. 515-540 (pp. 518-519).
97
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
Poderemos, pois, dizer que se essa mesma expansão teve uma in-
questionável componente material directa e prioritariamente vincu-
lada aos interesses da Coroa, também, como com justeza acentuou
Mário de Albuquerque, «o Estado que interpretou e orientou o sen-
tido comercial das navegações, interpretou e orientou igualmente o
sentido religioso; os regimentos e as cartas dos monarcas estão cheios
de recomendações com esse fim, considerando como serviço seu a
evangelização»11.
O cronista Zurara, introduzindo o leitor à narração da descoberta
e povoação da Madeira, alude expressamente às «coisas especiais que
o Infante fez por serviço de Deus e honra do mesmo, entre as outras
que ele tinha feitas assim era a povoação das ilhas...»12. E o texto é in-
teressante por deixar manifesta a inseparabilidade dos dois conceitos
de «serviço de Deus» e de «bem comum», simbiose desejada da feli-
cidade terrena acompanhada pela esperança da felicidade eterna,
união que a própria teologia promove e justifica como garante da har-
monia que nas sociedades puramente civis cabe ao Monarca, pri-
meiro que todos, promover13. O invariável texto quinhentista das
pormenorizadas cartas de doação das capitanias brasileiras, manifesta
bem o entrosamento desses dois desideratos, fazendo saber o mo-
narca, logo no incipii do diploma
«que considerando enquanto serviço de Deus, e bem de meus Reinos e
Senhorios, e dos naturais e súbditos deles e ser a minha costa e terra do
Brasil mais povoada do que até agora foi, assim para se nela haver de ce-
lebrar o culto e ofícios divinos, e se exaltar a nossa Santa Fé Católica em
trazer e provocar a ela os naturais da dita terra, infiéis, idólatras, como
pelo muito proveito que se seguirá a meus Reinos e Senhorios e aos na-
turais e súbditos deles de se a dita terra povoar e aproveitar, houve por
bem de a mandar repartir e ordenar em Capitanias»14.
1' MÁRIO DE ALBUQUERQUE, O Significado das Navegações e Outros Ensaios, Lisboa,
Sociedade Nacional de Tipografia, 1930, p. 97. Veja-se também a Parte I, passim.
12 VITORINO DE MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre a Expansão Portuguesa.
Prefácio e notas de..., Colecção Estudos Portugueses (3 vols.), Lisboa, 1945-1946.
13 Sobre esta matéria veja-se, por todos, MARTIM DE ALBUQUERQUE, O Poder Polí-
tico no Renascimento Português, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política
Ultramarina, 1968, e JOSÉ ANTÓNIO MARAVALL, Teoria Espanola dei Estado en e! Sigh
XVII, Instituto de Estúdios Políticos, Madrid, 1944.
14 C. de doação da Capitania de S. Vicente a Martim Afonso de Sousa, in DBN,
vol. 13, p. 136.
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
Noutro texto eminentemente pragmático e de acentuadas tonali-
dades económicas e militares, como é o Regimento do 1.° governa-
dor-geral do Brasil, Tomé de Sousa (1548), o Monarca, antes de tudo
o mais declara reconhecer
«quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobrecer as capitanias e
povoações das terras do Brasil e das ordem e maneira com que melhor e
mais seguramente se possam ir povoando para exaltação da nossa Santa
Fé e proveito dos meus reinos e senhorios e dos naturais deles...»15
Mesmo num diploma mais recente como a carta de doação da
Capitania da Serra Leoa a Pedro Alvares Pereira (1606) é manifesta a
preocupação em salvaguardar e deixar explícitos os objectivos prima-
ciais do acto:
«D. Filipe [...] faço saber aos que esta minha carta virem que sendo
eu informado que convinha muito ao serviço de Deus e meu mandar
que na Serra Leoa e na costa da Guiné, em que ela está [...] se façam po-
voações e se contrate e resgate nos portos e rios da dita costa, e que se
conquistem e sujeitem, assim para nas ditas terras (em que são mui gran-
des e povoadas de gentios idólatras) se celebrarem os ofícios divinos e se
promulgar o Santo Evangelho e acrescentar a nossa Fé Católica redu-
zindo a ela a dita gentilidade, como pelo muito proveito que se seguiria
a minha Fazenda Real de as ditas povoações, resgates e conquistas se fa-
zerem, e que seria também em benefício comum de meus Reinos e Se-
nhorios e dos naturais deles...»16
É ainda esse o mesmo tom com que o célebre Bento Maciel Pa-
rente, antigo Capitão-Mor do Maranhão, abre solenemente o Memo-
rial que apresenta em Madrid ao Rei Filipe II, cerca de 1627, advo-
gando a criação de novas capitanias no Brasil:
«... díze que habiendo descobierto y conquistado más de cuatro-
cientas léguas de tierra, con muchas províncias de índios en que aos in-
15 HCP, vol. m, p. 345.
16 VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século XVii», in
Lãs Ciências, Ano XI, n.° 3, Madrid, s.i.d. (pp. 607-631), pp. 620-621. Também na c.
de doação da Capitania do Cabo do Norte a Bento Maciel Parente (14.6.1637), a
declaração é sensivelmente igual à das cartas da 1.' geração. Veja-se CÂNDIDO MENDES
DE ALMEIDA, Memórias do Estado do Maranhão, cujo território comprehende hoje as provin-
das do Maranhão, Píauhy, Grão-Pará e Amazonas, colligidas e annotadas por..., Rio, 1884,
vol. 2, pp. 47 ss.
v 9
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
finitos problacíones lê incumbe como Conquistador y Procurador de
aquele Estado, acordar a V.M. Ia grande e principal obligación con que
aquellas tierras fueron a los Senores Reyes pasados y para tratar de Ia re-
dución y catequizar estas gentílicas naciones a nuestra Santa Fé...»17
1.4. A Doutrina dos Prémios
Em função de objectivos mais particularizados, cabe ainda, dis-
semo-lo, mencionar como causa âonandi a recompensa concedida e
justificada pela obrigação que à Coroa assistia de premiar o vassalo
merecedor. Ainda que subsumido aos intentos mais elevados do po-
voamento e da evangelização, nas cartas quinhentistas de doações
das primeiras capitanias brasileiras segue-se logo à declaração régia
dos objectivos primeiros, o anúncio previdente de que se houve por
bem «repartir e ordenar [a costa] em capitanias de certas léguas para
delas prover aquelas pessoas que me bem parecer...»18.
Assim o impunha e permitia doutrina antiga, presa ao próprio
cerne do sistema das doações régias, i.e., o dever de premiar, que se
fazia aqui entrançar sabiamente com os intentos expansionistas e co-
lonizadores. É oportuno recordar que ainda em 1657, Fr. Cristóvão de
Lisboa, Bispo de Angola e homem experiente nas questões brasílicas,
solicitado a dar o seu parecer sobre uma eventual concessão de capi-
tania a Salvador Correia de Sá, observa que
«parece justa, acertada e conveniente a doação da nova Capitania, além
de que na presente conjuntura é bom que se busque por todas as vias coi-
sas de que V. Majestade possa fazer doações, sem detrimento de sua fa-
zenda, para ter com que pagar serviços e animar os homens até fazer
muitos outros. A mercê das doações tira dois fins, um enriquecer a pes-
soa particular que recebe tal benefício pelos seus serviços, outro a utili-
dade que daí resulta ao Reino, porque quantas mais capitanias povoadas,
tantos mais navios virão carregados de açúcar e outros frutos»19.
O dever de premiar ou galardoar,além de se centrar, como disse-
mos, na própria construção das doações régias, era uma componente
indissociável da prática genérica da justiça, entendida como um dos
17 CÂNDIDO MENDES, op. cit., p. 35.
18 Carta de doação da Capitania de S. Vicente (1536), m DBN, voí. 13, pp. 136-137.
19 ALBERTO LAMEGO, A Terra Goitacá à luz de documentos inéditos, Rio, 1913, vol. n,
pp. 63-64.
100
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
atributos régios fundamentais. Referindo-se aos primórdios da nacio-
nalidade, escreveu o Professor Paulo Merêa que se «havia ideia gene-
ralizada nestes tempos e que por certo a ninguém ocorreria pôr em
dúvida, embora se protestasse muitas vezes contra os abusos a que
dava ensejo, era a de que os reis tinham não só o direito, mas o dever
de distribuir mercês, premiando os serviços dos seus vassalos e fiéis e
assegurando-lhes a condição e estado que os seus deveres exigiam.
Por isso os moralistas dessas eras, se por um lado enalteciam a justiça
do Rei como virtude capital, logo a par colocavam a sua liberalidade,
predicado por igual inerente a um príncipe digno desse nome»20.
Efectivamente, o dever régio de premiar tem uma genealogia an-
tiga e o sólido amparo da doutrina. No quadro dual em que a filoso-
fia escolástica decompôs o conceito estrito de justiça, a justiça distri-
butiva contra p unha-s e àquela outra que se denominara comutativa. E
se esta tinha como enquadramento a relação de laços estabelecidos
entre pessoas privadas, a primeira respeitava às relações do todo da
comunidade com cada membro seu em particular, harmonizando en-
cargos e prémios segundo a capacidade e mérito de cada um.
Vincando equanimemente a transcendência dos dois conceitos,
castigo e prémio, José António Maravall sublinhou, todavia, a relevân-
cia política do segundo, referindo-se-lhe no âmbito de «cuestión im-
portante en relación con Ia justicia: Ia repartición de honras y cargos.
La distribución de los prémios es uno de los puntaíes dei princi-
pado»21. Também entre nós Martim de Albuquerque notou que para
os tratadistas antigos, «mais alta que a função de punir é a função de
galardoar»22. Manuel Alvares Pegas, o célebre causídico seiscentista
que, contra as pretensões da Coroa, defendeu os direitos dos Condes
de Vimioso à Capitania de Pernambuco, apresentou precisamente
como ponto primeiro da sua Alegação de Direito o postulado de que «é
regalia do Príncipe, própria natureza do Rei premiar os vassalos que
o servem e remunerar os serviços que se fazem»23. Além da autori-
dade de Santo Isidoro, Valenzuela, Cassiodoro e outros mais, Pegas
não esquece a letra das Partidas, para concluir adiante que «não há
20 PAULO MER£A, ín História de Portugal. Edição Monumental Comemorativa do $.°
Centenário da Fundação da Nacionalidade. Direcção Literária de Damião Feres, Barcelos,
1938-1954, voí. n, p. 468.
21 JOSÉ ANTÓNIO MARAVALL, op. cit., pp. 260-263.
22 MARTIM DE ALBUQUERQUE, op. cit., p. 719.
23 MANUEL ÁLVARES PEGAS, Allegaçam de Dereito por parte dos Senhores Condes de
Vimiozo sobre a svcessatn da Capitania de Pamambuco. Composta peio Licenciado.,., Évora,
Oficina da Universidade, 1671, pp, 5-10.
101
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
Reino sem Vassalos; seus serviços reais e pessoais são os que susten-
tam o peso da Coroa, e para a conservação das Monarquias é razão
de estado premiar os Vassalos e observar-lhes as mercês»24.
E, como este, muitos outros documentos se poderiam aduzir a
comprovar a firmeza com que a doutrina se incrustou na consciência
do tempo. Sublinhemos ainda somente, o exórdio da carta pela qual
o Rei D. Manuel fez Conde de Viana ao heróico D. Duarte de Mene-
zes - já publicada por Martim de Albuquerque - em que o Monarca
confessa que
«considerando nós como todo bom e virtuoso Príncipe deve aos bons e
grandes serviços que a ele e a seus Reinos são feitos e galardoar com
muitas e grandes mercês, liberdades e graças, por os bons, com espe-
rança do devido galardão, acrescentarem em sua bondade e os maus
com prémio dos bons cessarem suas maldades, e desejem ser bons...»25
1.5. A Concessão de Capitanias como Galardão
Nessa pressuposta relação prémio-serviço, não admira, pois, que,
como regra geral, nas cartas de doação dos monarcas das várias di-
nastias que em Portugal reinaram, se incluam introdutoriamente mais
ou menos amplos relatos das circunstâncias que justificaram tais ré-
gias benesses.
As cartas de doação das várias capitanias do Ultramar não são ex-
cepção, possuindo cada um dos capitães primários mais ou menos
avantajada folha de serviços prestados à Coroa, deixados manifestos
naqueles diplomas menos como vão alarde dos beneficiários, do que
necessária justificação da disposição dos bens reais e prova patente da
justiça activa e omnipresente do monarca munificente. Leia-se, por
exemplo, a carta pela qual D. João III fez doação das capitanias do Faial
e do Pico ao fidalgo D. Álvaro de Castro, remunerando-o pelos servi-
ços heróicos do pai, o grande D. João de Castro, pelos do irmão D. Fer-
nando e pelos do próprio D. Álvaro, diploma em que se declara que
«é coisa justa e devida aos Reis na satisfação dos serviços de tais vassa-
los perpetuarem a lembrança deles assim porque se segue disso ver-se
em todos tempos que cumpriram com o que eram obrigados no galardão
24 Idem, p. 24.
25 MARTIM DE ALBUQUERQUE, op. cii., p. 720.
102
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
dos serviços que lhe foram feitos como pelo exemplo que disso recebem
os mesmos vassalos para fazerem outros semelhantes»26.
Recordemos também que a letra das cartas de doação das capita-
nias da Madeira e Porto Santo feitos pelo Infante a João Gonçalves
Zarco (1451)27 e a Pêro Correia (1459)28 não aludem aos méritos dos
donatários; todavia, eles são presentes ao monarca pelo próprio In-
fante quando se torna essencial a confirmação régia das mercês.
Os serviços perpetuados nos diplomas são da mais variada índole,
predominando, compreensivelmente, os militares. A Rui Gonçalves
da Câmara (1473) e Fernão Telles (1479) é concedida a Capitania das
Ilhas que descubram «por serviço de paga e remuneração» dos feitos
praticados em África29. O esforço heróico de António da Silveira des-
pendido na defesa de Diu e os de D. Francisco Mascarenhas na de
Chá u I, valem-lhes, respectivamente, as capitanias de Machico
(1536)30 e a do Faial e Pico (1573)31. A Paulo Dias de Novais dá-se uma-
Capitania em Angola (1589) respeito «haver catorze anos que anda na
conquista do dito Reino de Angola e os muitos grandes trabalhos e
perigos de vida que tem padecido e as muitas despesas de sua fa-
zenda que na mesma conquista tem feito e às muito grandes vitórias
que Nosso Senhor na mesma empresa lhe tem dado»32.
Por várias vezes, os préstimos herdam-se, acumulam-se e repor-
tam-se a dois ou mesmo três indivíduos, como atrás na aludida carta
que concede a mesma Capitania do Faial a D. Álvaro de Castro, pe-
los serviços próprios, pelos do irmão D. Fernando e pelos do pai, o
grande D. João de Castro. A D. João de Menezes e Vasconcelos é dada
em 1566 a Capitania da ilha do Fogo pelos serviços patentes e pelos
da futura sogra, a C ama ré i rã-Mor33. Agostinho Barbalho Bezerra vê
recompensados em 1664 trinta e sete anos de carreira militar no Bra-
sil, bem como os préstimos do pai, Carlos Barbalho, com a Capitania
da Ilha de S. Catarina34. O 1.° Visconde de Asseca recebe em 1676 a
26 AÃ, vol. 4 (1882), PP. 220-226.
27 DP, I, p. 448.
28 Idtm, p. 557.
29 CD, respectivamente pp. 157 e 160.
30 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
2." ed., Coimbra Atlântida, Provas, V, pp. 343-344.
31 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 225-226.
32 MM, tomo IV, p. 498.
33 SGC, I, p. 145.
34 DBN, vol. 13, pp. 74 ss.
103
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
Capitania da Paraíba «por qualidade de serviços com mais partes que
nele concorrem muito merecedores de lhes fazer mercê eem memó-
ria dos muitos e honrados serviços que seu pai, Salvador Correia de
Sá e Benevides; tem feito a esta Coroa»35. Do mesmo modo recebe
Luís de Abreu de Freitas em 1685 a Capitania de Xingu, no Brasil, pe-
los serviços de seu pai, Gaspar de Abreu de Freitas, Embaixador em
Inglaterra36.
Contrastando, casos há - como o dos primeiros donatários do Bra-
sil - em que o peso dos méritos próprios é genericamente invocado; as-
sim sucede, por exemplo, nos diplomas respeitantes a Martim Afonso
de Sousa (1535)37, a Pêro do Campo Tourinho (1534)38; a Vasco Fer-
nandes Coutinho (1534) ou a Duarte Coelho (1534)39: o formulário em-
pregado assemelha-se, no essencial, ao contido na carta de doação da
Capitania de Itamaracá, ao célebre ministro Conde da Castanheira pe-
los «muitos e mui continuados serviços que dele tenho recebido e es-
pero que ao diante me fará e como por eles e pelos muitos mereci-
mentos da sua pessoa é razão que receba de mim ora mercê...»40
Mas nem só os préstimos bélicos são recompensados. João Vo-
gado - «cavaleiro da nossa casa e escrivão da nossa fazenda nos tem
mui bem servido e nós somos obrigados de o galardoar em todo o que
bem possamos» - recebe em 1642 da mão do Rei a Capitania de duas
ilhas não incertas41. Burocratas como Rodrigo Afonso, Vedor da Fa-
zenda da Infanta, António de Basto Pereira, Secretário Régio, e Pedro
Sanches Farinha, Secretário das Mercês, foram galardoados, respecti-
vamente, em 1488, 1715 e 1674 com as capitanias de Santiago de
Cabo Verde, da Praia e da Graciosa, estas duas nos Açores.
Fenómenos de especial valimento político e cortesão justificam
também a concessão de capitanias. Valha como exemplo o aludido
caso do Conde da Castanheira, ou do Conde de Penela, Vedor da Fa-
zenda de D. João III e capitão da Ilha do Fogo42. Um alvará de pro-
35 lâtm, p. 209, e ID, vol. 7, pp. 532 ss.
36 Vide HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil (1685)», ín Estudos
de História Colonial, S. Paulo, 1948, pp. 302-303.
37 DBN, vol. 80, p. 110.
38 D. ANTÓNIO CAETANO, op. ca., Provas, VI, p. 83.
39 Vide o treslado desta carta na certidão passada e subscrita por Gaspar Álvares
de Lousada e anotada por Tomé Pinheiro da Veiga ern 1629, no Códice 7627 da
Biblioteca Nacional de Lisboa, ff. 64-69v.
40 DBN, vol. 80, pp. 296-305.
41 CD, p. 147.
42 SGC, I, p. 94.
104
C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
messa da Capitania de Sta. Maria ao Conde de Castelo Melhor (1667)
justifica-se com significativo laconismo nos «merecimentos e quali-
dades» do ministro omnipotente43. É conhecida também a doação da
Capitania da Serra Leoa a Pedro Alvares Pereira, do Conselho de Es-
tado de Filipe II, pelos seus serviços e pelos do pai, o célebre político
e diplomata Nuno Álvares Pereira, elgran secretario, especialmente os
«muitos e particulares serviços que fez ao dito senhor Rei meu Pai na ma-
téria da sucessão do Reino de Portugal, sendo o primeiro homem que de-
pois da morte dei Rei D. Henrique se foi a Badajoz, onde sua Majestade
estava, como a seu Rei e senhor verdadeiro e natural para o servir...»44
Por outro diploma do mesmo tipo, ainda que anterior (1581), é Fi-
lipe I de Portugal quem concede a Capitania da Praia, atendendo aos
«muitos e mui continuados serviços que me tem feitos dom Cristóvão de
Moura meu gentil homem da câmara [...] e aos seus muitos merecimen-
tos em todas as coisas de que o encarreguei e especialmente nas que to-
cam a estes reinos, assim no tempo que foi meu embaixador neles, como
depois que tomei a posse deles fazendo e procurando tudo o que lhe
mandei para benefício dos mesmos Reinos de que me tem dado aquela
boa conta que eu dele esperava conforme a grande confiança que dele te-
nho e ao muito contentamento que sempre tive de sua pessoa e serviço
pelos quais é razão que receba de mim mercê»45.
2. A Transmissão
2.1. Generalidades
De tudo quanto vimos dizendo, se conclui que a constituição de
capitanias correspondia a uma mercê preenchida por bens régios de
vária natureza, concedidos ao levar em conta serviços passados e fu-
turos de um súbdito a quem se facultava o gozo de terras, rendas e ju-
risdições como contrapartida do desempenho adicional de tarefas de
administração pública, usual e directamente prosseguidas pela Coroa.
43 AÃ, voí. 15, p. 71.
44 VIRGÍNIA RAU, op. dt., p. 623.
45 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 168-169.
105
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
É certo que as liberdades régias estavam enquadradas firme-
mente pelo anteparo da Lei Mental, construída e fundada no princípio
básico de que os bens da Coroa, ainda que doados por especiais mo-
tivações, não perdiam essa natureza primária, inibitória de actos ten-
dentes à divisibilidade, à alienação inttr vivos ou disposição mortis
causa por parte do Donatário sem acto expresso de dispensa que a lei
facultava ao Rei poder conceder pontualmente.
Mas, se todas essas concessões vinham carregadas de um sentido
honorífico e nobilitante, universalmente reconhecido e tornado vul-
tuoso pela anexação de benesses de natureza patrimonial, as influên-
cias da tradição feudal e a ânsia natural de perpetuar numa estirpe
tanto honras como bens, conduziram a uma vulgarização daquele
tipo de dispensas, acentuando uma já sensível concepção patrimonial
do bem doado com a sequente generalização de - pressuposta a he-
reditariedade da mercê - situações de venalidade, penhorabilidade ou
pura transmissibilidade por dote ou mortis causa. Delas nos iremos
ocupar nos pontos seguintes.
2.2. A Transmissão lure Hereditário
Abordamos em primeiro lugar as situações de transmissão de ca-
pitanias iure hereditário, materializadas de modos tão diversificados
quanto o permitia a munificência régia ao condicionar a sucessão dos
bens a duas ou três vidas de donatários, ou tornando-as perpétuas
pela qualificação, que à mercê se dava de juro e herdade.
Numa e noutra modalidade são conhecidos variadíssimos exem-
plos, ainda que por tempo limitado à existência de dois ou três dona-
tários sejam poucos os casos detectados. As capitanias da Ilha de
S. Tomé e da Ribeira Grande, em Cabo Verde, concedidas respectiva-
mente em 1486 e 149746, são-no em três vidas - a do Capitão, filho e
neto varões legítimos -, situação excepcional à época, dado que as
raras capitanias concedidas em vidas constituem exemplos típicos e
extremos de uma mais tardia degradação da figura, encarada não já
como instrumento de colonização, mas como prebenda nobilitada
pela anexação temporária de poderes públicos. A Capitania da Ilha
Brava é concedida em 1545 por duas vidas47, e a das Ilhas do Faial e
46 Veja-se, respectivamente, DP, III, pp. 302-303, e SGC, I, p. 52.
4 7SGC,I, p. 121.
106
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
Pico em 1573, a D. Francisco Mascarenhas por outras três48. São
mesmo conhecidas algumas situações em que a hipótese de trans-
missibilidade por via hereditária é liminarmente excluída pela con-
cessão da Capitania numa simples vida. Tal o caso da mercê das mes-
mas capitanias do Faial e do Pico ao Conde de Lumiares em 1614,
«em uma vida somente»49, e, já no século XVIII, deparamos com as
igualmente raras doações das capitanias da Graciosa a dois membros
da família de burocratas Sanches de Baena, em 1674 e 170550, numa
só vida, e a da Praia, na Ilha Terceira, por duas, em 171551.
2.3. A Aplicação da Lei Alentai à Sucessão
das Capitanias
Referimos no ponto anterior que nas concessões de capitanias de
juro e herdade52, o número de transmissões era, em princípio, ilimi-
tado, dada a natureza perpétua da doação. E dizemos que em princí-
pio porque para todo o período de concessão de capitanias vigora in-
tegralmente o dispositivo condicionante que a Lei Mental impôs às
sucessões dos bens da Coroa, vinculados assim ao primado da pri-
mogenitura e masculinidade na sucessão, por um lado, e da ínaliena-
bilidade por outro, revertendo à Coroa pela falta dos primeiros ou
pelo desrespeito da segunda.
Écerto e sabido que a Lei Mental, apesar de remontar como prin-
cípio ao reinado do Rei da Boa Memória, foi só publicada pelo sucessor,
D. Duarte. Ainda que omissa nas Ordenações Afonsinas é acolhida nas
Manuelinas e, depois, nas Filipinas53. Umas vezes só patente no espí-
48 AÃ, vol. 4 (1882), p. 226.
49 Idem, p. 229.
50 Idem, pp. 377 e 380 ss.
51 AÃ, vol. 6 (1884), p. 342.
53 A utilização da expressão de. juro e herdade nas cartas de doação das capitanias
insulares é rara, mormente no séc. XV; encontramo-la excepcionalmente na de S. Tomé
(1486) - «lhe damos de juro e de herdade para ele e todos seus herdeiros» (DP,
pp. 302-303) - e, já no séc. xvi, na Capitania de S. Jorge (1538) (CD, p. 186). Nas do
Brasil, aí sim, a generalização do privilégio a todas elas, consagra nas respectivas car-
tas o uso da fórmula «de juro e herdade para todo o sempre».
53 Sobre a lei Mental veja-se (além de OM, 1.2, t. 17, e OF, 1.2, t. 35) o comen-
tário essencial de MANUEL ÁLVARES PEGAS, «Tratatus de Lege Mentalí Regni Portuga-
liae», in Cotnmentaria ad Ordinattones Regni Portugalliae, tomo 1.°, e PAULO MEREA,
«Génese da Lei Mentaí», in Novos Estudos de Direito, Barcelos, 1937. Vide tb. MARCELLO
CAETANO, História do Direito Português, I, Lisboa, Verbo, 1981, pp. 513-515, e ANTÓNIO
MANUEL HESPANHA, História das Instituições, Coimbra, Almedina, 1982, pp. 286-289.
107
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
rito que subjaz às cláusulas de sucessão dos diplomas constitutivos,
outras vezes é alvo de expressa menção, ainda que rara. Surge-nos,
por exemplo, em 1490 e em 1493 nas doações da Capitania de S. Tomé
sob as fórmulas variadas de «segundo forma da Lei Mental» ou «sem
embargo da Lei Mental»54. Na doação das terras a descobrir por Gas-
par Corte-Real, concedem-se-lhe em 1500 uma série de faculdades,
também «sem embargo da Lei Mental»55. Além de referências espo-
rádicas numa doação de Capitania ao Conde de Penela em 153656 e
em toda a série das capitanias brasileiras, parece que só a administra-
ção filipina curou de mencionar sistematicamente o diploma do Rei
Eloquente, como na carta de confirmação das capitanias do Faial e do
Pico a Jerónimo Dutra em 1582, em que o dispositivo sucessório se
declara expressamente «conforme à Lei Mental»57.
Não foi, porém, pacífica a sua aplicabilidade nalgumas capitanias,
suscitando-se uma questão que, levada a termo, acabaria por reforçar a
construção doutrinária que estendeu a estas doações o regime consa-
grado. Em duas ocasiões, pelo menos, a dúvida foi suscitada em juízo:
a primeira, nos finais do século XVI, após a morte de Manuel Dutra, Ca-
pitão das ilhas açorianas do Faial e do Pico. O filho, Jerónimo Dutra, re-
tomando a acção do primogénito entretanto também falecido, preten-
deu suceder na Capitania paterna, amparando-se do comum direito
sucessório, que entendia ser-lhe aplicável pela interpretação lata da carta
constitutiva de 1468, na qual o Grande-Dona tá rio, Infante D. Fernando,
concedera a Capitania a Jos Dutra, para si e «para filhos e netos e des-
cendentes por linha direita masculina»58. O pretendente afastava para
isso a Lei Mental, que, como transversal, o excluía automaticamente da
sucessão, argumentando que a doação tinha sido feita originalmente
pelo Infante, «a qual concessão se não pode regular pela Lei Mental, as-
sim por ser feita pelo dito Infante, que não era e reconhecia superior»59.
Quer a sentença de 1571, que negou a razão ao pretendente, quer
a outra, de 1582, que finalmente lha deu, nenhuma foi proferida levando
em conta este argumento, mas outros de espécie totalmente diversa60.
54 Cartas de 3-2-1490 a João Pereira e 29-7-1493 a Álvaro de Caminha, in, res-
pectivamente, DF, III, pp. 359-360 e 553-555.
55 CD, p. 206.
56 Idem, p. 111.
57 AÃ, vol. 4 (1882), p. 228, c. de 15.6.1582.
58 CD, pp. 152 ss.
59 GTT, III, pp. 6-7.
60 Idem, respectivamente GTT, pp. 5-15, e JORGE DE CABEDO, Pratícorum obsetvario-
num seu Decisionum Supremí Lusilaniae Senatus, Lisboa, 1610, II - Dec. XXXII, pp. 48-49.
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
Será só no século xvii que o problema é levado de novo a tela de
juízo. Desta feita, no decurso da lide que opôs a Camareira-Mor,
Marquesa de Castelo-Melhor, a Luís Gonçalves da Câmara Coutinho
sobre a sucessão da Capitania do Funchal, aberta pela morte do úl-
timo Capitão, Conde de Calheta61.
A primeira, irmã primogénita do Conde, não contestando a apli-
cabilidade da Lei Mental, amparava-se de uma dispensa concedida
pelo alvará de 2 de Outubro de 1539, nunca utilizada, para tornear a
falta do requisito da sucessão varonil. O segundo, primo por via pa-
terna do ultimo Capitão, invocava um muito mais radical argumento:
pretendendo arredar a Lei Mental para fazer valer a sua posição de
transversal à face do direito sucessório comum, contestava - em ter-
mos semelhantes aos que alguns anos antes invocara Jerónimo Dutra
- que à doação da Capitania feita pelo Grande-Dona tá rio fosse apli-
cável a Lei Mental, dado ser a data da doação das ilhas madeirenses ao
Infante D. Henrique (26-9-1433)62 anterior à da publicação da Lei
Mental, e assim «não ficar compreendida, nem sujeita à dita lei»63.
A sentença que deu por vencedora a Marquesa, atribuindo-lhe a
Capitania do Funchal, tem a data de 11 de Agosto de 1676, apresen-
tando-se fundamentada em dois factos que directamente frontaliza-
vam a argumentação da parte vencida:
a) A indiscutível natureza de bens da Coroa que possuíam as ilhas
doadas ao Infante, decorrente de - reza o acórdão - «as ditas
Ilhas, ainda depois de descobertas, se adquirirem à Coroa, e que
nela estavam incorporadas; e que o dito Sereníssimo Infante
D. Henrique as logrou como Donatário da mesma Coroa, da qual
se aceitou pela mercê que lhe fizeram o Senhor Rei D. Duarte seu
irmão, e o Senhor Rei D. Afonso V, seu sobrinho. E outrossim,
para delas ou de alguma parte poder o Sereníssimo Infante fazer
doação, foi necessário que os ditos Senhores Reis, para haver de
o fazer lhe dessem licença por serem bens da Coroa, que sem ela
não podem alhear-se...»64
h) Ora, «em todos os bens da Coroa tinha lugar a Lei Mental, e é re-
solução dos nossos Reinícolas que escreveram sobre esta matéria,
61 Reportamo-nos à sentença in MANUEL ÁLVARES PEGAS, Comme.nia.na..., t. xu,
pp. 46 ss.
62 Data cit PEGAS, op. cif., t. xii, pp. 46-47.
63 lâem, p. 47.
64 Idem, tbidem.
109
C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
que estas doações das Ilhas feitas pelo Sereníssimo Infante D. Hen-
rique se regulam como as dos mais bens da Coroa, por ele as fa-
zer com licença do Rei, e assim ficaram registadas como se o
mesmo Rei as fizera.»65
c) Isto - prossegue a sentença - sem que obstasse poder dizer-se
«que a concessão e doação da parte da Ilha da Madeira que o Se-
reníssimo Infante D. Henrique fez ao dito João Gonçalves Zarco
fora feita antes da Lei Mental, e assim não ficou compreendida
nem sujeita à dita Lei a tal doação, nem regular-se por ela, ao que
se responde que a dita Lei Menta! teria lugar nas doações feitas pe-
los Reis antecedentemente, como nas que se fizeram subsequen-
temente.»66
Assim o cominavam as Ordenações vigentes, em perfeita conso-
nância com o que já fixo andava nas Ordenações Manuelinas67, reco-
lhido do diploma do Rei D. Duarte, solucionando de vez todas as
questões suscitadas pela letra menos clara das doações, «por mais
exuberantes cláusulas e palavras que tenham»68.
«As quais declarações, assim por [D. Duarte] feitas havia por lei uni-
versal, e mandava que se cumprissem e guardassem, e houvesse lugar
geralmente em quaisquer casos dos sobreditos que ao diante de facto
acontecessem, assim nas doações feitas até então das terras da Coroa do
Reino pelos Reis que antes eles foram, ou por ele, como nas que se ao
diante fizessem pelos Reis que depois dele viessem, a quaisquer pessoas,
de qualquer condição que fossem...»69
A parte vencida ainda reclamou da sentença apresentando em-
bargos. Todavia, umasobre-sentença de 30 de Agosto de 1677 viria a
confirmar o peso indesmentível dos argumentos formulados por
parte da marquesa e a «conservação do seu direito e justiça»70.
65 Idem, ibidem.
66 Idem, ibidem.
67 OM, 1.2, t 17, §22.
68 PEGAS, oy. cit., t. xii, p. 48.
69 OF, 1.2, t. 35, § 26, e tb. § 6.
70 Vide. a Sentença e Sohre-sentença do Condado da Calheta, dada a favor de D.
Mariana d'Alencastro, Vasconcelhs, c# Camará, Marqueza de Castello-Mdhor, contra Luís
Gonçalves Cominho da Camará, eíc., Lisboa, Na Offícina de Joam da Costa, 1677, e tb.
NELSON VERÍSSIMO, «A Capitoa Donatária», in Islenha, n.° 3, Julho-Dezembro de 1988,
pp. 74-90.
l 10
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
São estes, pois, os princípios que enquadram os preceitos de na-
tureza sucessória contidos em muitas das mais antigas cartas de doa-
ção de capitanias. Aí, a expressão fulcral é que «morrendo ele, a mim
praz que o seu filho primeiro ou segundo, se tal for, que tenha este en-
carrego pela guisa suso dita e assim de descendente em descendente
por linha direita»71.
É o formulário que, ipsis verhis, ou com ligeiríssimas alterações, se
nos depara nas doações das capitanias da Madeira (Machico 144072,
Funchal 1450), de Porto Santo (1446)73, bem como nas de Santiago,
em Cabo Verde (1485)74, e na de S. Tomé (1486)75. Se bem que as das
ilhas de Sta. Maria e da Terceira (nas jurisdições da Praia e Angra) da-
tadas de 149776, tudo resumam à fórmula breve «e assim de descen-
dente em descendente por linha direita», a das Ilhas do Faial e do Pico,
nos Açores (1468)77, torna claro que a linha sucessória, além de direita
é masculina, precisão que por expressão própria ou remissão para a Lei
Mental se consignará também nas cartas de doação da Capitania de
S. Tomé em 1486, 1490, 1493 e 149978. Qualquer dúvida que se nos
colocasse à uniformidade do regime sucessório subjacente a estas fór-
mulas, dissipa-se pela leitura dos diplomas relativos às capitanias de
S. Jorge (1483) e Graciosa (1507), ambas nos Açores:
«... e assim depois do seu falecimento o seu filho maior varão lídimo
ou o segundo, se tal for, assim de descendente em descendente por linha
direita masculina, assim como os capitães da Ilha da Madeira as têm por
suas cartas»79.
A doação filipina das capitanias do Faial e do Pico a Jerónimo Du-
tra em 1582, corrobora-o também:
«Virão as ditas capitanias a seus descendentes que dele ficarem por
linha direita masculina e as não poderão haver os descendentes nem
71 C. de doação de Machico (1440), in DP, l, p. 404.
72 Idem, ibidem.
73 Idem, p. 449.
74 SGC, III, p. 42.
75 DP, III, pp. 302-303.
76 Respectivamente, CD, pp. 177, 163 e 175.
77 CD, p. 153.
78 DP, III, respectivamente pp. 302-303, 359-360, 404-405, 553-555.
79 CD, pp. 183 e 217.
l 11
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
transversais, que é conforme à Lei Mental e o que nas doações dos capi-
tães da Ilha da Madeira é declarado.»80
Uma excepção era aberta, porém, à regra geral da primogenitura:
o caso de incapacidade do filho naturalmente chamado à sucessão.
Algumas cartas consignam-na expressamente, v.g., a da doação da
Capitania de S. Tomé (1493) a Álvaro de Caminha, em que se admite
que «em caso que o tal herdeiro seja incapaz ou inábil e em tal dispo-
sição que não seja para herdar a dita Capitania, queremos e nos praz
que o outro sucessor após ele a haja pela dita guisa como dito é en-
quanto os aí houver e dito seja sem embargo da Lei Mental e de quais-
quer outras leis...»81.
Na confirmação da Capitania de S. Jorge, nos Açores, a João Vaz
Corte-Real (1497), também se adverte de que «sendo caso que o filho
primeiro não seja de tal siso e entendimento que deva governar a dita
capitania, então queremos e nos praz que a haja o filho segundo...»82.
E mesmo numa doação mais tardia, como a da Capitania do Faial
e do Pico a D. Francisco Mascarenhas (1573) ainda se estabelece que
«sendo o dito seu filho maior inábil que segundo forma de direito não
deva nem possa herdar as ditas nem ter o governo e administração delas,
em tal caso virá à sucessão e herdará as ditas capitanias, jurisdições e ren-
das delas o seu filho segundo»83.
Quanto à necessidade da legitimidade do nascimento do suces-
sor, a aplicável Lei Menta! ou letra das Ordenações que a acolheram,
deixavam claro que pela expressa ou implícita referência ao filho va-
rão ou macho «sempre se entendesse legítimo, porque esta fora a ten-
ção do dito Rei seu pai, e sua...»84.
Em resumo: o regime sucessório das capitanias funda-se, em
princípio, na existência de descendência directa, legítima, varonil,
sem admissão de transversais. A não verificação de qualquer destes
requisitos -tinha como pura e simples consequência a reversão dos
bens à Coroa, segundo o dispositivo da Lei Mental65.
«'AÃ, vol. 4(1882), p. 228.
81 DP, III, pp. 404-405.
82 CD, p. 185.
83 AÃ, vol. 4 (1882), p. 226.
84 OF, L. 2, t. 30, § 8, e OM, L. 2, t. 17, § 6.
85 Veja-se neste Cap. o que dizemos no § 3.
l 12
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
2.4. A Dispensa da Lei Alentai
Sabido é, porém, que a própria letra das Ordenações deixava claro
que o Rei podia dispensar a aplicação do dispositivo clássico. Na rea-
lidade, sem embargo dos intuitos que tinham levado à promulgação
da célebre Lei, «não era sua tenção tirar de si o poder de dispensar
com a dita lei em parte ou em todo nos casos em que lhe parecesse
justo e razoado ou fosse sua mercê»86.
A jurisprudência acolheu, aliás, limpidamente o preceito, como
bem se vê da já referida sentença de 1676, pronunciada na causa cé-
lebre que suscitou a sucessão da Capitania do Funchal:
«É permitido ao Príncipe doador alterar, limitar e modificar conces-
sões e doações semelhantes, com a justa causa que nele se presume [...]
o Príncipe reserva para si este poder, e é princípio certo e sabido em di-
reito, que se não ignora.»87
E frequentemente o fizeram os monarcas portugueses. Os dona-
tários de bens da Coroa foram até muito tarde beneficiados com mer-
cês desse tipo, que, elas próprias, se tornavam moeda de remunera-
ção apreciadíssima. Os títulos nobiliárquicos são, talvez, das doações
mais atingidas por benefícios dessa natureza. Mas são-no também os
senhorios de terras do Reino, valorizados muitas vezes, como aque-
les, com a mercê de uma ou duas dispensas da Lei Mental em matéria
de sucessão. O mesmo acontece com as capitanias ultramarinas,
como conjunto de direitos e jurisdições concedidas por mercê régia.
Originalmente doadas, uma com sujeição plena ao diploma, e outras
dele dispensadas ab initio, acabam por se avantajar as dispensas diri-
gidas aos requisitos, quer do sexo quer da própria proximidade ou le-
gitimidade do nascimento dos sucessores. Isto é, permitindo-s e, fal-
tando a descendência masculina ou legítima, o acesso das mulheres,
dos transversais e dos bastardos à sucessão das capitanias.
Em função dos tipos de dispensa concedida em matéria sucessó-
ria, será possível, assim, agrupar duas grandes famílias de capitanias:
a das ilhas atlânticas, sujeitas à Lei Mental, como princípio só pontual
e excepcionalmente dispensado por acto posterior à doação, e a das
capitanias do Brasil, Angola e Serra Leoa, exceptuadas ao jugo da Lei
citada por cláusula ínsita no próprio título constitutivo e justificada
85 OF, L. 2, t. 35, § 26 in fine, e OM, L. 2, t. 17, § 23.
87 DP, I, 146.
113
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
pelo carácter de excepção que se quis imprimir ao conjunto das fa-
culdades concedidas aos capitães dessas terras tão vastas quanto lon-
gínquas.
Na carta de doação da Capitania da Ilha Terceira a Jácome de Bru-
ges em 2 de Março de 1450, o Infante D. Henrique concede ao fla-
mengo que, não tendo filhos, pudesse herdar a filha mais velha ou,
por impossibilidade, a que se lhe seguisse por ordem de nascimento,
mercê excepcional só admitida em face da missão do Capitão de uma
ilha «tão longe da terra firmebem duzentas e sessenta léguas do mar
oceano, a qual ilha se nunca soube povoada de nenhuma gente que
no mundo fosse até agora»88. Em 1474 é a Infanta D. Beatriz, mãe e
tutora do Duque Grande-Dona tá rio dos Açores, que concede a Ruí
Gonçalves da Câmara, Capitão de S. Miguel, mercê de semelhante
teor, garantindo-lhe que não tendo
«filho lídimo e havendo filha lídima, que a dita sua filha herde por seu
falecimento a dita Capitania, contanto que ela case com homem que
viva com o dito senhor e por seu aprazimento, sendo pessoa que a bem
mereça e convenháveí à honra do dito Rui Gonçalves»89.
Este tipo de mercê era, sem dúvida, invulgar. Prova-o o não me-
nos invulgar comentário que o mesmo Duque, em 1483, fez inserir na
continuação da carta anteriormente extractada, declarando-se que
«posto que nela vão algumas cláusulas não costumadas nas cartas das
capitanias, porquanto a dita minha Senhora assim fez pelo sentir por
meu serviço e por conhecer os grandes serviços e merecimentos do dito
Rui Gonçalves, dos quais eu mui inteiramente sei»,
não seria ele, Duque, quem a deixaria de confirmar»90. Em 1500, a
carta de doação a Gaspar Corte-Real das terras que vai a descobrir,
é ainda mais lata, concedendo-se-lhe que «não havendo filho varão a
que tudo assim possa ficar, queremos que fique a seu parente mais
88 Cit. in CHARLES VERLINDEN, «Lê Peuplement flamand aux Açores au XVe. siè-
cle», in Os Açores e o Atlântico (Séculos XIV-XVII), Actas do Colóquio Internacional ern
Angra do Heroísmo de 8 a 13 de Agosto de 1983, Instituto Histórico da Ilha Terceira,
Angra do Heroísmo, 1984, pp. 293-308.
89 Carta de 10-3-1474 inclusa na c. de confirmação de D. João III a Manuel da
Câmara de 20-3-1536, in CD, p. 169.
™ldcm, p. 171.
l 14
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
chegado, macho ou fêmea, segundo em cima se contém» (i.e., preva-
lecendo depois os que «por linha direita masculina descendem»}91.
Com outro tipo de dispensas beneficia-se a descendência ilegí-
tima dos capitães, normal e liminarmente afastada pela observância
estrita da Lei Mental. É dos casos mais conhecidos a concessão feita
em 1474 a Rui Gonçalves da Câmara, Capitão de S. Miguel, na já
mencionada carta da Infanta D. Beatriz:
«... E aceitando caso ele não haver filho nem filha lídima e tendo fi-
lhos bastardos, me prazerá que herde a dita Capitania por seu faleci-
mento um dos ditos seus filhos bastardos, o que para isso for mais dis-
posto, contanto que viva com o dito Senhor. E isto somente por esta vez;
daí em diante ficará ao filho de uma filha lídima ou filho lídimo ou bas-
tardo, qual a herdar, com a condição das outras cartas das capitanias das
ilhas.»92
Como facilmente se constata, trata-se de um tipo de mercê de na-
tureza verdadeiramente excepcional, possivelmente concedida na
previsão de um caso concreto e já esperado, este o do último diploma
citado, pois garantiu eficazmente a sobrevivência do poderio das Câ-
maras de S. Miguel.
Mas também cedo as dispensas se transformaram de soluções
providenciais, em autênticos «salvos-condutos» familiares de aplicação
tão imprevisível quanto avidamente ambicionados. O Padre Gaspar
Frutuoso, a propósito desse tipo de mercê aos capitães de S. Miguel,
refere «que é das grandes e particulares mercês que os Reis fazem a
seus vassalos»93. A benesse a que alude o cronista açoriano exempli-
fica bem as motivações e as condições da sua concessão. A mercê é
de 21 de Março de 1548 e a carta régia invoca como motivos justifi-
cados não apenas a folha de serviços bélicos do Capitão Manuel da
Câmara, que chegara a ficar cativo em Sta. Cruz do Cabo de Gué, em
África, mas também o primacial e transcendental anseio sobre que
gira muito do destino de qualquer casa nobre do tempo:
«... para que por falta de varões descendentes dele por linha mascu-
lina se não perca seu nome e memória e daqueles de quem o dito Ma-
91 CD, p. 206
92 Uem, p. 169.
93 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da Terra. Livro IV (ilha de S. Miguel), Tipografia do
Diário dos Açores, Ponta Delgada, 1924-1931 (3 vols.), p. 182.
115
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
nuel da Câmara descende, hei por bem e me praz que vagando duas ve-
zes a Capitania da Ilha de S. Miguel e jurisdição e rendas e direitos dela,
que o dito Manuel da Câmara de mim tem por doação de juro e herdade
para sempre para a Coroa de meus reinos por falta de não haver descen-
dentes machos do dito Manuel da Câmara, que dele descendam por li-
nha direita masculina que segundo forma da Lei Mental de meus Reinos,
que é o segundo livro das minhas Ordenações, título 17, e segundo
forma da dita doação hajam de suceder em a dita Capitania, de ambas as
ditas duas vezes tornam a dita sucessão da dita Capitania e jurisdição e
rendas a dita sucessão da dita Capitania e jurisdição e rendas e direitos
dela à linha dos descendentes lídimos do dito Manuel da Câmara»9'1.
Como dissemos, muito do poderio dos Câmaras se terá fundado
em privilégios deste tipo. Privilégios perdidos só em meados do sé-
culo XVII, na sequência dos escabrosos eventos que levaram ao con-
fisco da Capitania de S. Miguel, nos Açores, ao seu Donatário, o
Conde de Vila Franca, e à sua incorporação na Coroa95. E ainda que o
Rei D. Afonso VI tornasse a conceder por alvará de 28 de Setembro
de 1662 a D. Manuel da Câmara, herdeiro da Casa, todos os bens va-
gos dos Vila Franca, esta doação ficava agora sujeita ao regime geral
das doações régias, isto é, «para ele e seus descendentes os terem de
juro e herdade, conforme a Lei Mental»96. Daí que tendo sido confir-
mada em 1760 a sucessão na Capitania à representante feminina da
Casa, a Condessa D. Joana Tomásia da Câmara, se tenham levantado
problemas que levaram a que o Tribunal do Desembargo do Paço
fosse chamado a pronunciar-se no que à aplicação da Lei Mental res-
peitava. De facto, consideravam os juizes da causa, a incorporação
dos bens do infeliz Conde da Ribeira na Coroa levara a que
«todas as Doações e Mercês devidas fora da Lei Mental, que haviam tido
os antigos donatários dá Capitania da Ilha de S. Miguel, desde a primeira
doação de dez de Maio de 1464 em diante, foram extintas pela superve-
niente-incorporação na minha Coroa da Capitania da mesma Ilha e de
94AA,voI. 12(1892), pp. 116-118.
95 Vide ANSELMO BRAAMCAMP FREIRE, O Conde de Vila Franca e a Inquisição, Lisboa,
Imprensa Nacional, 1899.
96 Vide o Decreto de 6 de Setembro de 1766 in JOSÉ GUILHERME RJ-IS LEITE,
O Códice 529 - Açores do Arquivo Histórico Ultramarino. A Capitanía-Gerat dos Açores
durante o Consulado Pombalino, Introdução e fixação do texto por..., Direcção Regional
dos Assuntos Culturais, Secretaria Regional da Educação e Cultura dos Açores, s.i.d.,
pp. 171-173.
116
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
todos seus direitos e jurisdições, como fora expressa e literalmente de-
clarado no Alvará de 28 de Setembro de 1662, pelo qual o Senhor Rei
Dom Afonso VI, em consideração dos serviços pessoais de Dom Manuel
de Câmara, lhe fez mercê por nova graça de todos os referidos bens va-
gos, para ele e seus descendentes os terem de juro e herdade, conforme
a Lei Mental...»97.
De facto, ainda que o Rei D. Afonso VI tivesse entendido por útil
doar em 1662 todos os bens da Casa dos donatários de S. Miguel ao
representante da Família, não se poderia depreender daí a aplicabili-
dade do antigo regime sucessório. Efectivamente, era por esse alvará
de 28 de Setembro
«que estabeleceu por nova graça a dita Capitania no referido Dom Ma-
nuel da Câmara e a sucessão dela nos seus descendentes, que somente
se devia ter regulado a sobredita e última confirmação, e de nenhuma
sorte pelas doações antecedentes ao referido D. Manuel da Câmara,
novo, singular e gratuito donatário, depois de haver sido a mesma Capi-
tania incorporada na Minha Coroa, e de haverem por isso ficado extin-
tas todas as antecedentes Doações, sem que por elas se pudesse mais re-
gular a dita sucessão, sem que ele e seus sucessorespudesse derivar
algum direito das mesmas antecedentes Doações, por não terem outro
título que não fosse o referido Alvará de 28 de Setembro de 1662...»98.
Consideravam-se, assim,
«obreptícios, sobreptícios, fundados com erro manifesto de facto, em
falsa causa e como tais nulos e de nenhum efeito, tanto o dito Alvará de
17 de Julho de 1760, como os despachos que o estabeleceram ou dele se
seguiram e a carta de Confirmação passada à referida Condessa»,
do que, rezava o Decreto real de 6 de Setembro de 1766, «veio a re-
ferida Capitania a ficar vaga para a Minha Coroa, onde se acha sem
dúvida alguma, para Eu gratificar com eia e seus bens, direitos e ju-
risdições às pessoas que bem me parecesse...»99.
Diga-se, finalmente, que mercês de idêntico teor às que referimos
para os Câmaras obtiveram também os Condes de Calheta, Capitães
97 Idem, p. 171.
98 Idem, p. 172.
99 Idem, pp. 172-173.
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
do Funchal, por cartas de 2 de Outubro de 1539100, e graças a esse tipo
de dispensas pôde, por exemplo, o senhorio das Ilhas de Sto. Antão,
Flores e Corvo, manter-se na Casa dos Condes de Sta. Cruz desde a
sua concessão, no século xvi, até aos meados do século XVIII, quando
foi incorporado na Coroa com os restantes bens do desditoso Duque
de Aveiro, herdeiro da mesma Casa101.
Adianta-se, porém, que estas dispensas não deverão ser confun-
didas com outra faculdade, consignada em formulários mais antigos,
dirigida a dispor a sucessão do Capitão falecido em seu filho «pri-
meiro ou segundo, se tal for». Como se lê em Cabedo, a doutrina in-
terpretava com relativa limpidez a cláusula: «per quae verba voluit
donatur, quod fillius secundus succederet filio primogénito premor-
tuo»102. O que não impediu que a simplicidade da expressão moti-
vasse a inclusão de esclarecimentos nas próprias cartas de doação -
como se vê nas confirmações das capitanias da Ilha de S. Jorge e de
Angra, na Terceira, aos Corte-Reais, em 1497103 - tendentes a negar a
opcionalidade e a esclarecer que, como sucessor, «se entenda aquele
que à hora da morte [do Capitão] ficar vivo», prevalecendo, natural-
mente, em caso de concurso, os direitos do primogénito.
Mas uma dúvida remanescia; derivada não da morte do primo-
génito em vida do pai, Donatário dos bens da Coroa - caso em que a
aplicação do dispositivo não apresentava dificuldade de maior, quod
extra dubium erat, nas palavras de Cabedo104 - mas decorrente de uma
situação em que o filho mais velho morresse após a morte do pai, auo
casu maius duhium erat*05.
O tipo de questões suscitadas num evento deste tipo, ficou bem
patente na questão que opôs Jerónimo Dutra ao Procurador da Coroa
no pleito da sucessão das capitanias do Faial e do Pico, tendo como
cenário a morte de Manuel Dutra, último Capitão, e quase de se-
guida, a do primogénito Gaspar. Em situações semelhantes, a Lei
Mental era concludente: segundo o princípio da não admissibilidade
Alvará concedido ao Capitão Simão Gonçalves da Câmara «para que sendo
caso que não tenha filho varão descendente, suceda em falta destes sua filha, etc.», in
MANUEL ÁLVARES PEGAS, Commentaria..., XII, p. 50.
01 Veja-se em AÃ, vol. V (1883), pp. 518-519, uma sentença de 1655 em que e
manifesta a aplicação do maquinismo das dispensas à quebra da linha de sucessão
desse senhorio.
102 JORGE DE CABEDO, op. tit., Dec. XXXIII.
103 Respectivamente, CD, p. 185, e AÃ, vol. 4 (1882), p. 161.
104 CABEDO, o?, loc. ãt.
105 Idtm, ibidem.
118
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
dos transversais à sucessão dos bens da Coroa, a quarta dúvida das
Ordenações Manuelinas, então vigentes, declarava que também ao ir-
mão segundo lhe ficava vedada aquela,
«porque somos certos que tal foi a tenção do dito Rei Meu Senhor e pa-
dre e assim o vimos por ele determinar em alguns casos semelhantes [...]
sem querer nunca consentir que fizesse trespassamento a eles ditos ir-
mãos por via de sucessão»106.
Porém, não sem habilidade, argumentava Jerónimo Dutra que
não seria com essa base que lhe prejudicavam o mérito da causa, pois,
pela mesma Lei Mental,
«na quarta dúvida não se exclui a filho segundo da sucessão dos bens
da Coroa senão quando o filho mais velho os houve e possuiu, o que
aqui não foi porque o dito Gaspar Dutra irmão dele suplicante faleceu
antes que houvesse a posse e que com efeito sucedesse nas ditas capita-
nias»107.
O argumento não colheu, declarando-se na sentença de 6 de Se-
tembro de 1571 que «o autor Jerónimo Dutra, posto que legítimo seja,
não pode nelas suceder, nem tem para isso acção por não ser descen-
dente do dito Gaspar Dutra, seu irmão e transversal»108.
Inconformado, o fidalgo ilhéu recorreu da sentença, e «in indicio
revisorio - refere Cabedo - lata fuit sententia in favorem dicti Hie-
ronymi de Utra armo 1582»109.
A decisão ficou célebre, não apenas porque fez restituir as capi-
tanias à custa de um cortesão influente do tempo, D. Francisco Mas-
carenhas, o defensor de Chaul, Vice-Rei da índia e Conde da Vila da
Horta, que as detinha desde 1573, mas porque, directa ou indirecta-
mente, contribuiu para a génese da lei filipina de 28 de Abril de 1587,
que Cabedo transcreveu na sequência da notícia do pleito de Jeró-
nimo Dutra110.
É fácil apercebermo-nos da importância de que se reveste o di-
ploma, principalmente se nos recordarmos que acabaria, finalmente,
106 OM, L. 2, t. 17, § 12.
107 GTT, III, p. 7.
108 Utm, p. 14.
109 CABEDO, op. cit., Dec. XXXIII.
" 0 W e m ( . 49.
119
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
por justificar uma das raras alterações que as Ordenações Filipinas admi-
tiram ao texto das Manuelinas, e precisamente em sede da Lei Mental:
«... e esta declaração haverá lugar - acrescentava-se - e se guardará,
posto que o filho ou outro qualquer sucessor do último possuidor não te-
nha tomado posse dos ditos bens e terras. Porque sem embargo disso,
seu irmão, nem outro transversal, não poderá suceder nelas, ainda que
seja filho legítimo descendente por linha masculina do último possuidor,
a quem sucedeu o irmão mais velho»111.
Em pólo significa ti vãmente oposto ao da tradição seguida até ao
dealbar do século XVI, está o regime sucessório estabelecido para as
capitanias brasileiras, acompanhado pontualmente pelo das duas úni-
cas capitanias do continente africano, a de Angola e a da Serra Leoa.
E a especialidade reside basicamente num único facto, tão importante
como é a conjunção generalizada de carácter perpétuo da doação -
«de juro e herdade para todo o sempre»112 - com a dispensa total do
regime da Lei Mental.
«E isto - refere-se no termo das cláusulas sucessórias destas cartas -
hei assim por bem sem embargo da Lei Mental, que diz que não suce-
dem fêmeas, nem bastardos, nem transversais, nem ascendentes.»113
Nessa contingência, o dispositivo usual era - segundo a lição de
Paulo Merêa - inteiramente substituído por «regras especiais de suces-
são dentro da família, que a aproximavam dos morgados»114. Assim,
na falta de descendente varão, primeiro, e, depois, mulher,
«seria chamado à sucessão um ascendente, e na falta de ascendentes
um transversal; em cada uma destas classes o legítimo preferia ao bas-
tardo, o grau mais próximo ao mais remoto, no mesmo grau o varão à
mulher, e, finalmente, entre os do mesmo sexo, o mais velho ao mais
moço; os ascendentes legítimos preferiam no entanto aos filhos ilegíti-
mos, e era mesmo lícito ao donatário deixar a Capitania a um transver-
111 OF, L. 2, T. 35, $ in fite, e OM, L. 17, § 12.
112 DBN, voí. 13, p. 145,
mMem,. 146.
114 PAULO MERÊA, «A Solução Tradicional da Colonização do Brasil», in História
da Colonização Portuguesa do Brasil, Edição Comemorativa Monumental do primeiro
centenário da Independência do Brasil, Porto, 1924, voí. ui, pp. 167-188.
120
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
sal legítimo excluindo um descendente bastardo, ou a um transversal ile-
gítimo degrau mais afastado de preferência a um bastardo de grau mais
próximo»115.
Usando desta faculdade, os donatários desprovidos de herdeiro
directo designavam por simples via testamentária o parente que, con-
forme a escala legal, poderia esperar suceder-lhes. Em meados do sé-
culo xvi, Fernão do Campo Tounnho, herdeiro de Pêro do Campo, 1.°
Capitão-Donatário de Porto Seguro, designou no testamento a única
irmã, Leonor do Campo, como sucessora da Capitania116. Nos pri-
meiros anos do século xvil, falecendo D. Isabel de Lima e Sousa, Do-
natária de S. Vicente, verificou-se ficar nomeado por sucessor no tes-
tamento seu primo Lopo de Sousa, que foi também Capitão117. Na
Capitania do Espírito Santo, ao capitão Vasco Fernandes Coutinho
sucedeu o sobrinho, Francisco de Aguiar Coutinho, por «em seu so-
lene testamento o nomear na sucessão da dita Capitania pelo poder
fazer conforme a dita doação em um parente transversal». Este, por
sua vez, haveria de nomear para Capitão um outro sobrinho, Am-
brósio de Aguiar Coutinho, confirmado por carta régia de 17 de Maio
de 1626118. Na doação da Capitania de Ilhéus a Jorge de Figueiredo
Correia (1534) chega-se ao ponto de, a todas as faculdades comuns à
generalidade dos donatários brasileiros, fazer-se acrescer o privilégio
excepcional «que ele possa nomear em sua vida ou por seu faleci-
mento a sucessão da dita Capitania a qualquer dos seus filhos ou
filhas que ele quiser»119. Em tom semelhante, no ano de 1560, na emi-
nência da compra da Capitania de Porto Seguro pelo Duque de Aveiro
à donatária, D. Leonor do Campo Tounnho, o Monarca teve por
bem «e me praz que comprando o dito Duque a dita Capitania, ele a
possa deixar por seu falecimento a Dom Pedro Diniz seu filho se-
gundo...»120.
115 Idem, ihidem,
116 Carta de confirmação da venda que fez ao Duque de Aveiro em 6-2-1560, in
D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, pp. 82-95.
117 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA, «História da Capitania de S. Vicente», in Revista
do Insiiiuto Histórico Geográfico Brasileiro, Ano 1847, pp. 137-178 e pp. 293-476.
118 Veja-se a c. de confirmação a António Luís Gonçalves da Câmara, de
23-11-1666, in DBN, voí. 79, pp. 93-109.
119 EDUARDO DE CASTRO E ALMEIDA, Inventário dos Documentos relativos ao Brasil
existentes no Arquivo da Marinha e Ultramar de Lisboa. Bahia 1613-1725, Rio, 1913-1914,
voí. II, p. 7.
120 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, of. cit., Provas, VI, p. 93.
121
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
Calcula-se bem quão largamente beneficiaram os herdeiros dos
donatários brasileiros da flexibilidade do regime sucessório estabele-
cido; se considerarmos as dez capitanias subsistentes à data das
incorporações pombalinas, verificar-se-á que só duas - e essas conce-
didas já no século xvn - se mantinham na linha directa de sucessão.
E mesmo as mais importantes capitanias incorporadas na Coroa na
primeira metade do século xvm - Pernambuco e Espírito Santo - tam-
bém qualquer delas se não mantinha já na linha natural da descen-
dência dos primeiros donatários.
2.5. A Transmissão por Venda
São cronológica e geograficamente muito variados os exemplos
de alienação de capitanias. Um dos mais célebres é talvez o da venda
feita em 1458 por Bartolomeu Perestrelo, 2.° Capitão-Donatário de
Porto Santo, a Pêro Correia121. A opulenta Capitania que os Câmaras
até aos finais do século xvm possuíam na Ilha de S. Miguel, tem ori-
gem na compra que um irmão segundo do Capitão do Funchal fez ao
Capitão de S. Miguel, desejoso «de possuir terras onde mandasse
como seu irmão»122. Num diploma manuelino de 1504 refere-se que
«João Baptista, que Deus perdoe, houve por compra de Rodrigo
Afonso a capitania da nossa Ilha de Maio», em Cabo Verde123. Nos
primeiros anos do século XVI, Afonso de Albuquerque compra a Ca-
pitania de Santiago de Cabo Verde ao Donatário Jorge Correia, para
a tomar a vender em 1533 a Belchior Correia, filho do primeiro ven-
dedor124. A Capitania do Machico, na Madeira, é vendida em 1548
por 35 000 cruzados pelo seu Donatário, António da Silveira, a Fran-
cisco de Gusmão, Mordomo-Mor da Infanta D. Maria para a dar
«para a pessoa que casar com D. Luísa de Gusmão sua filha»135.
Também no Brasil são conhecidos casos de venda, como o da
Capitania de Porto Seguro, em 1559, pela Donatária, D. Leonor do
Campo, ao Duque de Aveiro, o da Capitania de Ilhéus, em 1560, ao
121 DP, I, pp. 547 ss.
122 Cit. in FRANCISCO DE ATHAYDE MACHADO DE FARIA E MAIA, Subsídios para a his-
tória de S. Miguel ~ Capitães dos Donatários (1439-1766), Lisboa, 1972, pp. 18-19, com
indicação errada da data. Correctamente em CD, pp. 168-169.
123 SGC, I, pp. 61-62.
124 C. de confirmação da Capitania a João Correia de Sousa (16-8-1536), in SGC
pp. 112-115.
125 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, V, pp. 337-342.
122
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
comerciante Lucas Giraídi, por 4825 cruzados126, ou o da Capitania
do Espírito Santo vendida pelo Capitão António Gonçalves da Câ-
mara, em 1674, a Francisco Gil de Araújo. É, também, nas Terras de
Vera Cruz que já no século xvm se projectou outra célebre venda, a da
Capitania de S. Vicente:
«José de Gois de Morais, filho de Pedro Tacques de Almeida, cava-
leiro da Casa Real, intentou comprar ao Marquês de Cascais por qua-
renta e quatro mil cruzados cinquenta léguas que tinha por costa; porém,
El-Rei o Senhor D, João V resolveu que o dito Marquês recebesse da fa-
zenda real esse dinheiro, e ficassem as ditas cinquenta léguas de terra in-
corporadas à Coroa e património real»127.
É desnecessário especular sobre as motivações dos vendedores; é
certo e sabido que na maioria dos casos os pressionaria o estado las-
timoso de finanças, incompatíveis com as obrigações ou os proventos
magros de capitanias semi-abandonados. Narra Gaspar Frutuoso que
quando em Í530 morreu Simão Gonçalves da Câmara, 3.° Capitão do
Funchal, era tão pobre desta vida que «esteve a ilha em termo e ponto
de vender a Capitania, por dívidas que ele tinha»128. Bastante expres-
siva é também a descrição que em 1560 fez da Capitania de Ilhéus o
seu Donatário, Jerónimo de Figueiredo,
«muito danificada e inquieta dos gentios naturais dela que têm feito e
fazem muito dano, e os engenhos de açúcar que nela havia estão quei-
mados do dito gentio da terra. E para assentar a dita terra e se tomar a
restaurar para a poder vender o Capitão tem necessidade de fazer mui-
tas e mui grandes benfeitorias e despesas e gastos que ele suplicante não
pode fazer, assim por ser solteiro e muito pobre, como por a dita terra
ser tão longe deste Reino e em lugar remoto a que ele suplicante não
pode acudir. Por as quais causas todas e por não se poder sustentar a dita
Capitania nem manter e não poder governar, suster nem granjear e ser
cada dia rnais danificada e perdida, de sorte que virá a se perder de todo
e valer cada dia menos, está concertado para vender e trespassar a dita
Capitania e terras, assim e da maneira que as tem por sua doação, a Lu-
cas Geraldes por preço de quatro mil oitocentos e vinte e cinco cruzados,
126 DBN, voi. 80, p. 199.
127 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA, op. cit., p. 305. A escritura encontra-se
pp. 306-310.
128 AÃ, vol. 3 (1881), p. 195.
123
:
è
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
que é justo e honesto preço e portanto pouco mais ou menos vende ou-
tra tal Capitania a ele suplicante, porque com o dito dinheiro pode com-
prar tença ou rendas de juro em que se poderá melhor sustentar e go-
Quase cem anos passados, mantém-se o problema dos capi-
ta e s-dona tá ri os. O alvará régio de 1670, pelo qual se concedeu per-
missão a António Luís Gonçalves da Câmara para vender a sua Capi-
tania do Espírito Santo, alude às
«coisas que o obrigavam a se desfazer do senhorio da dita Capitania e
lhe não poder acudir com o benefício necessário, por cuja causa se ia per-
dendo e lhe não chegara a render cem mil réis cada ano e quer empregar
os vinte mil cruzados que por ela lhe dava Francisco Gil de Araújo, para
os empregar em juroneste Reino que fique na sua Casa e nos descen-
dentes dele...»130.
Em 1709, o Marquês de Cascais, Capitão-Donatário de S. Vi-
cente, suplicando a régia permissão para vender, não se coíbe de fa-
zer notar que a Capitania
«sem embargo de render em cada um ano 2000 cruzados, os cobra com
muita dificuldade pela distância e na inteligência dos seus procuradores (...)
a sua casa receberá grande conveniência e poderá ser maior quando ache
bens de raiz em que se empreguem os ditos 40 000 cruzados...»131.
O Rei, por seu tumo, ao autorizar este tipo de transmissões, para
além da conveniência pontual de favorecer vassalos, acabava por le-
var em conta razões de peso tão indesmentível como as do interesse
público ou da Coroa. Em 1474, não o Rei mas o próprio Grande-Do-
natário dos Açores, autoriza a venda da Capitania de S. Miguel,
«considerando como a dita Ilha desde o começo de uma povoação até ao
presente é muito mal aproveitada e pouco povoada, e considerando
quanto será serviço e proveito do dito Senhor e bem destes reinos e na-
turais deles a dita Ilha ser melhor aproveitada e povoada e pelas muitas
mercadorias que dela poderão vir...»132.
129 DBN, vol. 80, pp. 188-189.
130 DBN, vot. 79, p. 170.
131ID, vol. 6, p. 319.
132 CD, pp. 168-169.
124
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
E mesmo no Brasil, quando muitos anos depois, em 1709, ao Pro-
curador da Coroa foi pedido o parecer sobre a eventual venda da Ca-
pitania do Marquês de Cascais a José de Gois de Morais, não haveria
pejo em considerar que
«ainda que as terras percam um grande senhor, como era ausente pode-
ria o serviço de S. Majestade ter maior interesse no comprador que à vista
cuidaria mais no aumento e defesa das ditas terras...»133
A opinião tinha o seu fundamento, e, certamente, andaria na me-
mória de muitos o exemplo da Capitania do Espírito Santo, larga-
mente beneficiada pelo Capitão brasileiro Francisco Gil de Araújo,
que em 1674 a comprara ao Donatário absentista António Gonçalves
.da Câmara134.
Mas, como inicialmente se referiu, a sujeição dos bens régios
doados no quadro da Lei Mental trazia como não menor das conse-
quências o facto de esses mesmos bens jamais perderem a natureza
primária, pelo que sempre impendia sobre o Donatário a expectativa
da reversão e a sequente impossibilidade da livre administração dos
mesmos.
De facto, dos preceitos contidos nas Ordenações decorriam várias
consequências. Em primeiro lugar, que qualquer venda, neste caso de
capitanias, fosse precedida, mediante petição fundamentada, da es-
sencial autorização régia. Todas as vendas de capitanias a que vimos
aludindo, a de S. Miguel, nos Açores, a de Santiago de Cabo Verde, a
de Machico, na Madeira, as de Porto Seguro, Ilhéus e Espírito Santo,
no Brasil, todas elas, dizíamos, têm na base esse imprescindível alvará
de licença e consentimento135. Quando em 1709 o Marquês de Cascais,
Capitão de S. Vicente, pretendeu vender parte do seu senhorio a José
Gois de Morais, teve de requerer ao Rei que lhe fosse passado o alvará
em que se houvesse por bem
133 ID, vol. 6, p. 320.
134 Veja-se o atestado que em 27 de Julho de 1682 passou o Provedor da Fazenda
do Espírito Santo em proveito do Capitão Francisco Gil de Araújo e onde se particu-
larizam os benefícios que a nova administração acarretara para a Capitania: a cons-
trução e reforma das fortalezas, o aumento dos efectivos militares, o crescimento da
dízima real, a satisfação das dívidas da Capitania, a reforma dos edifícios religiosos e
civis, e, enfim, a fundação de novas vilas. ALBERTO LAMEGO, op. cit., II, p. 148.
135 Expressão contida em SGC, I, p. 113. Vejam-se para todos os casos aponta-
dos, os documentos citados em nota para cada, onde se referem ou transcrevem os
ditos alvarás.
125
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
«que as ditas 50 léguas de costa se possam dividir e separar das 80 con-
tidas na dita doação, para que as 30 resto das 80; e que começam no Rio
que cerca em redondo a Ilha de Itamaracá e acabam na Baía da Traição
que está em altura de 5 graus, que actualmente possui, fiquem a ele Mar-
quês como estão e a seus sucessores, sem embargo da cláusula de se não
poderem partir, escambar, nem em outro modo alhear as 80 léguas de
costa, que sempre andariam juntas, de que foi primeiro Donatário Pedro
Lopes de Sousa, dispensando V.M. e derrogando para esse efeito a Ord,
Liv. 2.1, n. 35, §§ 1.1 e 3.1 e todos os mais §§ da dita Lei Mental e quais-
quer outras leis e ordenações que proíbem a divisão, partilha e escambo
dos bens da Coroa...»136.
Como já escrevemos, seria a própria Coroa, neste caso particular,
a substituir-se ao comprador. Ainda assim, o Procurador da Coroa foi
do parecer
«que se devia primeiro de tudo passar alvará de licença que S.M. conce-
dia para se vender esta Capitania, e ao depois fizesse a escritura da venda
assim e da maneira que se havia de celebrar com outro comprador par-
ticular, incorporando-se nela o dito alvará»137.
Era a prática corrente. Na citada escritura da venda que fez Jeró-
nimo de Figueiredo da sua Capitania de Ilhéus a Lucas Giraldi em
1566, inclui-se o alvará de l de Outubro desse ano, pelo qual o Mo-
narca lhe
«quita a venda e alienação da dita Capitania por esta vez, e neste caso hei
por bem de derrogar, cassar e alienar e quero que não tenham força nem
vigor algum para impedir nem desfazer a dita venda»138.
Porque as Or4enaçÕe$ - nas dúvidas lá expressamente resolvidas a
bem da inteligência da letra da Lei Mental- eram claras:
«Se aquele a que a terra ou terras houve por doação Real ou por ou-
tra qualquer sucessão, houvesse filho legítimo varão e em seu prejuízo a
quisesse dar ou vender a alguma outra pessoa estranha, se o poderia fa-
zer? A qual declarou que a tal terra ou terras por nenhuma maneira pu-
IM ID, vol. 6, p. 323.
137 Idem, ihidem.
13BDBN,vol. 80, pp. 189-190.
126
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
dessem ser dadas ou vendidas a pessoa alguma, salvo a cada um dos ou-
tros filhos ou netos nascidos depois do primogénito [...] E no caso que
não tivesse filho varão legítimo que houvesse herdar a dita terra, não a
poderia vender, nem escambar, nem alhear por maneira alguma em pes-
soa alguma de qualquer estado ou condição que fosse, senão com sua ex-
pressa autoridade. E fazendo-se o contrário, a terra ou terras fossem logo
tornadas à Coroa do reino por assim serem vendidas, dadas ou escam-
badas contra a dita lei.»139
Em conformidade - e se bem que as doações de capitanias nas
Ilhas da Madeira, Açores, S. Tomé e Cabo Verde sejam omissas nesse
ponto -, nas bem construídas cartas de doação das capitanias brasi-
leiras de Quinhentos e nas de Angola e Serra Leoa, que por elas são
moldadas, o Monarca não deixa de declarar que,
«minha tenção e vontade é que a dita Capitania e governança e coisas ao
dito Capitão e Governador nesta doação dadas, andem sempre juntas e
se não partam nem alienem em tempo algum, e aquele que a partir, alie-
nar ou espedaçar ou der em casamento ou por outra coisa por onde haja
de ser partida, ainda que seja mais piedosa, por esse mesmo feito perca
a dita Capitania e governança e passe direitamente àquele a que houvera
de ir pela ordem de suceder sobredita, se o tal que isto assim não cum-
prir fosse morto»140.
Inobservada a cominação legal com desprezo da autorização real,
era nula a alienação dos bens, e aquele que a ela procedesse incorria
ipso facto na sua perda em favor da Coroa de onde eram originários,
ou - salvo caso de traição a essa mesma Coroa - em proveito do ime-
diato sucessor141. Por sucessos deste tipo ficou célebre a questão que,
nos meados do século XVIII, envolveu a venda da Capitania brasileira
da Paraíba dos Viscondes de Asseca. Segundo mais tarde relataria o
Donatário ao monarca,
«no ano de 1709, em que o Visconde Diogo Correia de Sá, que sucedeu
na casa por morte de seu irmão mais velho, parecendo-lhe reduzir o ren-
dimento certo em Portugal tudo oque tinham no Brasil, se resolveu a ven-
der ao Prior Duarte Teixeira Chaves todas as suas fazendas, assim livres,
139 OF, L. 2, t. 35, § 19, e OM, L. l, t. 17, § 16.
140 DBN, vol. 13, pp. 146-147.
''" Idem, ihidem.
127
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
como de morgado, ajustando também vender ao mesmo Prior a capita-
nia da Paraíba do Sul e a Alça ida ria-Mor do Rio de Janeiro, no caso de
conseguir a licença de V.M., que nunca houve; mas com semelhante con-
dição se resolveu Duarte Teixeira Chaves a passar ao Rio de Janeiro e da-
quela Cidade à Capitania da Paraíba do Sul, onde, sem ordem alguma de
V-M. e sem contradição da Câmara daquelas vilas, então menos zelosas
das regalias da Coroa, exercitou por alguns anos todas as jurisdições de
donatário, até que as desordens sucedidas naquela Capitania e a invasão
dos Franceses, em que também o culparam, fez que o Governador do
Rio de Janeiro Francisco de Távora o fizesse recolher a este Reino no ano
de 1714»142.
Como averiguara à época o Ouvidor do Rio de Janeiro, o Vis-
conde de Asseca obrigara-se por ocasião da venda a «alcançar de V.M.
em termos de oito anos licença para ter efeito a venda do que tocava
à Coroa, trespassando-lhe contudo o exercício e jurisdição»143.
Em Lisboa, o Procurador da Coroa opinaria que
«porque nem o Visconde de Asseca podia trespassar neste chamado do-
natário a jurisdição que tinha, como trespassou, nem o chamado dona-
tário usar dela por virtude daquele título, como usou, por isso quando a
não perdesse para a Coroa, o que por ora não discuto, ao menos incor-
reu na pena de se lhe sequestrar pelo abuso da jurisdição e assim re-
queiro que se mande passar ordem ao Ouvidor para que se sequestrem
todas as ditas jurisdições e as ponha na jurisdição da Coroa e não con-
sinta uso algum de jurisdição e mando dos donatários»144.
O parecer do Procurador viria a angariar a concordância do Con-
selho Ultramarino, que expediu entretanto as ordens régias visando
o sequestro da Capitania145, só devolvida aos donatários em 1727146.
Cabe ainda notar que, precedendo a alienação de capitanias, e
além da referida autorização régia, a lei não exceptuava este tipo de
bens ao preenchimento de outros requisitos inerentes à normal cele-
bração dós negócios jurídicos deste tipo; veja-se o caso do suprimento
régio da idade, isto no caso em que o Donatário vendedor não atin-
gisse o número de anos legalmente prefixo para ser considerado
2ID, vol. 8, p. 222. Sobre esta questão veja-se ALBERTO LAMEGO, op. dl.
3 Carta de 19-5-1711, in ALBERTO LAMEGO, op. cit., p. 1888, n. 59.
1 lâem, p. 189, n. 60.
' Idem, ibsdem,
s ID, vol. 8, p. 223.
128
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
maior. E não bastaria a confirmação ou a concessão genérica de auto-
rização para alienar: a venda que Bartolomeu Perestrelo, 2.° Capitão
de Porto Santo, fez a Pêro Correia, «como ao tempo era menor- narra
Gaspar Frutuoso - e El-Rei em prejuízo seu, sem uma outorga, dera
licença para se vender a Capitania, foi havida e julgada a venda por
nula e de nenhum vigor, e que se descontasse pelas rendas o que se
dera por ela»147.
Mais cautelosamente se procedeu aquando da venda da Capita-
nia de Ilhéus, em 1560, pois, sendo menor de 25 anos o Donatário
vendedor, houve o cuidado de apostilar o alvará de autorização nos
termos de que pudesse
«vender a Lucas Giraldes a dita Capitania pelo modo e maneira que no
meu alvará atrás escrito se contém e lhe supro para isso a idade e lhe dou
licença que ele por si só sem mais outorga, consentimento nem autori-
dade do seu curador nem alguma justiça, possa livremente fazer a dita
venda assim como se fora mais de vinte e cinco anos, e para a dita venda
ser mais valiosa supro quaisquer solenidades e defeitos de juro ou de
facto que nela haja ou possa haver e derrogo a ordenação do terceiro li-
vro, título oitenta e sete do órgão menor de vinte e cinco anos que im-
petrou graça para que fosse havido por maior...»148.
Resta aludir a outro aspecto da questão, que é o da garantia da es-
tabilidade do estatuto jurídico inerente a cada uma das capitanias alie-
nadas, inalterado já também em transmissões ocorridas por simples
via hereditária, salvo, é evidente, os ajustes que por força da lei geral
do Reino tiveram que ser introduzidas nas doações originais149. De
facto, o Monarca, ao autorizar a alienação pretendida, concedia si-
multânea e invariavelmente ao Capitão vendedor a faculdade de
transmitir o bem doado na justa e exacta medida de todos os direitos
disputados por via da doação original. Nestes termos, cerca do ano de
1530, o Rei autorizará o Capitão de Santiago de Cabo Verde a «tres-
passar nele dito Afonso de Albuquerque a dita capitania assim e da
maneira que o dito Jorge Correia tinha»150. Em 1548 é António da Sil-
veira que vende a sua Capitania de Machico «com toda sua jurisdição,
147 AÃ, vol. 3(1881), p. 51.
148 DBN, vol. 80, pp. 191-192.
149 V.g. a proibição de trazida de escravos, a revogação das mercês de isenção de
correição ou as alterações estabelecidas para o valor das alçadas judiciais, como tudo
se refere neste estudo.
150 SGC, I, p. 113.
129
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
rendas e direitos como dito é e a tem por sua doação»151. E para pôr
termo a este sobejo enunciado, referimos ainda que, seis anos passa-
dos sobre aquela data, em 1554, cabe a vez a D. Leonor do Campo, de
alienar a sua Capitania de Porto Seguro ao Duque de Aveiro, com de-
claração que «vendia para todo o sempre a dita Capitania de Porto Se-
guro com toda sua jurisdição civil e crime mero e misto império, foros,
tributos, direitos, rendas e todas as mais coisas contidas na dita doa-
ção e da maneira que a ela tinha, possuía e de direito lhe pertencia»152.
2.6. Outras Formas de Transmissão
Dentro do campo das aquisições derivadas de direitos, cabe ainda
referir alguns casos verificados no âmbito específico da matéria em
estudo.
Começaremos por aludir a uma situação em que a transmissão de
uma Capitania se processou por via dotal. Tratando D. Diogo de Faro,
Senhor da Casa de Vimieiro e Capitão-Donatário de S. Vicente, de
dotar uma irmã para casar com o Conde da Ilha do Príncipe - e sendo
a casa do primeiro «tão ilustre como pobre, e que sempre pelo seu
grande ser e pelo seu pouco ter esteve infelizmente na situação mais
de receber do que dar dotes avultados»153 - não encontrou melhor so-
lução o fidalgo do que desfazer-se do senhorio ultramarino em pro-
veito do brilho da aliança. Muito prosaicamente comentaria em 1781
José de Seabra da Silva que «tenho por sem dúvida que o Senhor do
Vimieiro dotou a Capitania por lhe ser mais duro dar 20 mil cruzados,
e que o Conde da Ilha, se pudesse escolher, escolheria antes os
vinte»154. Naturalmente não descurou D. Diogo de obter o régio as-
sentimento, a que corresponde o alvará de 17 de Setembro de 1635.
Lá se refere El-Rei
«à licença para dotar sua irmã Dona Mariana de Faro e Sousa, que está
contratada para casar com o Conde da Ilha do Príncipe, com as cem lé-
guas de terras que tem na costa do Brasil com suas povoações e títulos
de capitão e governador com suas jurisdições e rendimentos...»155.
151 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. dt., Provas, V, p. 338.
152 íâem, Provas, VI, pp. 93-94.
153 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, M. 642 (2,° pare-
cer de Seabra da Silva supra cit.).
154 Idem, ibidem.
iss Alvará incluso na c. de confirmação da Capitania de S. Vicente ao Conde da
130
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS C A P I T A N I A S
Aliás, o recurso à transmissão ou parcelamento de capitanias
como modo de satisfação de encargos em numerário não era inédito.
Segundo Gaspar Frutuoso, Simão Gonçalves da Câmara, 3.° Capitão
do Funchal, morreu tão pobre que
«esteve a ilha em termo e ponto de se vender a Capitania por dívidas que
ele tinha, das quais era uma a das arras que havia de tomar de sua se-
gunda mulher, D. Isabel da Silva, a Luís Gonçalvesde Ataíde, filho dela;
e por este respeito foi necessário desmembrar desta Capitania a Ilha
Deserta, que era de morgado»156.
Outro caso - inédito, quanto saibamos, na história das capitanias
ultramarinas - é o da penhora da Capitania de Ilhéus. Vimos já como,
por compra, o dito senhorio viera à mão do comerciante Lucas Giraldi
em 1560. Por sua morte sucedeu-lhe o filho Francisco Giraldes, confir-
mado como Capitão por carta de 19 de Agosto de 1566, passando de-
pois à herdeira deste, D. Maria Giraldes, casada já no dealbar do século
XVII com Francisco de Sá de Menezes. Na posse destes, o Almirante de
Portugal, D. João de Castro - em nome de sua mulher, D. Juliana de
Sousa e, por morte desta, no da filha D. Helena de Sousa, herdeiras de
Nicolau Giraldes -, exigem a Capitania por conta de 3895 mil réis na
herança de Lucas Giraldi. Obtida sentença favorável no juízo do Cível
da Corte, os demandantes tirariam a indispensável carta de penhora e,
de seguida, a licença para levar a lanços a Capitania, o que se fez em
Julho de 1615157. Arrematada pelo Almirante, saiu-lhe com embargos
o Donatário, alegando irregularidades processuais, nomeadamente a
falta de pregão na própria terra da Capitania:
«Provaria que se a penhora se fizera juridicamente e se apregoaram
nos lugares onde estavam os bens da dita Capitania houveram muitas
pessoas que fizeram nela lanços de vinte e seis e de trinta mil cruzados
e por ela ser muito grande e ter muitas terras e bens rendosos e muitas
pertenças, propriedades, engenhos e outras anexas, importavam de
renda em cada um ano cinco mil cruzados e por isso a comum e verda-
Ilha, in DBN, vol. 79, pp. 313-313. A escritura de dote de D. Mariana de Sousa tem a
data de 5-1-1654, in Memórias f ara a História da Capitania de S. Vicente, hoje chamada
de S. Paulo do Estado do Brazil publicada de ordem da Academia Real das Sciendas por Fr.
Gaspar da Madre de Deos Monge Beneditino, e Correspondente da mesma Academia, Lis-
boa, Tipografia da Academia, 1797, pp. 151-157.
t5SAA, vol. 3(1881), p. 195.
157 DBN, vol. 80, pp. 323 ss.
131
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
deira valia e justo preço que valia a dita Capitania ao tempo da arrema-
tação eram e são os ditos trinta mil cruzados e sendo arrematada em
nove mil trezentos e sessenta cruzados entreviera a lesão enormíssima e
ficava nula a arrematação...»158.
Um acórdão da Relação, de 4 de Junho de 1619, deferiria a pre-
tensão, ordenando-se nova arrematação. Feita esta, viriam a gorar-se
as expectativas do Donatário, se é que o expediente não fora pura-
mente dilatório, tal é o exagero da avaliação de uma terra que à época
sabemos semi-abandonada. Em Outubro de 1625 seria passada carta
de confirmação da Capitania a D. Helena de Castro, filha de D. Diogo
de Castro159, por cuja via entrou na casa dos Almirantes-More s do
Reino, depois Condes de Resende160.
Finalmente, não poderemos esquecer como modo de aquisição
derivada o acto expresso e autorizado de renúncia. Ainda que não se-
jam frequentes, há exemplos significativos deste tipo de transmissão,
como seja o de Antão Martins, Capitão da Praia, na Ilha Terceira - ci-
tado por Ferreira Drummond - que renunciou em seu filho do mesmo
nome a dita Capitania, acto confirmado por carta régia de 10 de Ou-
tubro de 1522161. Num diploma de confirmação da Capitania das De-
sertas a João Gonçalves da Câmara, Capitão do Funchal (1487), re-
fere-se que Luís de Atouguia «aprouve de renunciar à dita Capitania
em minhas mãos para eu a dar ao dito Capitão»162. E, enfim, num al-
vará de 19 de Novembro de 1554, o Rei D. João III adverte que
«Femão do Campo Tourinho me enviou dizer que eu lhe tinha feito
mercê da Capitania de Porto Seguro nas terras do Brasil por virtude
de uma renunciação que Pêro do Campo seu pai lhe tinha feito da dita
Capitania...»163
2.7. As Mercês Nupciais
Uma palavra ainda para as formas de aquisição de capitanias por
via nupcial; não que seja esta a sede ideal para enquadrar a questão
í5Bldem, p. 216.
159 CASTRO E ALMEIDA, op. til., Baía, II, p. 6.
160 Idem, pp. 104 ss.
161 AÃ, vol. 4 (1882), p. 217.
1152 DP, III, p. 338.
163 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, pp. 91-92.
132
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
- dado que vimos tratando de transmissões de Capitão a Capitão
sancionadas por mero beneplácito real - mas porque, efectivamente,
de uma aquisição se trata, e em termos que não podem ser igno-
rados.
Se são conhecidos em Portugal casos de mercês nupciais - con-
cedidas a mulheres para benefício directo de quem com elas casasse
- preenchidas com certa variedade de bens que vão da mercê do go-
verno temporário das fortalezas do Oriente aos simples títulos nobi-
liárquicos, outros casos há, também, em que a concessão real de ca-
pitanias obedeceu ao intuito prático de enobrecer uma aliança muitas
vezes pobre, ou permitir a continuação de determinados bens numa
casa desprovida de sucessão masculina. Logo em 1486 deparamos
com a mercê de metade da Capitania de S. Tomé a D. Mécia de Paiva,
filha do Capitão João de Paiva, «para ela e quem com ela casar»164. De
1497 data doação semelhante feita a D. Branca de Aguiar, filha de An-
tónio da Noli, Capitão de Santiago de Cabo Verde, falecido sem su-
cessor masculino:
«... porém, havendo nós consideração como o dito Mice António foi
o primeiro que a dita ilha achou e começou de povoar nos prouve de fa-
zer mercê da dita capitania a D. Branca de Aguiar, sua filha, para ser Ca-
pitão quem com ela casasse, o qual casamento ela há-se fazer com
aquela pessoa que lhe nós para isso escolhermos, e a dita Capitania lhe
damos para filhos e netos varões legítimos...»165.
Nos finais do século xvi, o Rei dota desse modo a filha do 4.° Ca-
pitão da Praia, de quem se extinguira a sucessão varonil166, e, já no sé-
culo XVII, por respeito aos serviços do Capitão de Porto Santo, Diogo
Taveira Perestrelo, e aos dos dois únicos filhos, mortos em combate
na índia, «e a qualidade e antiguidade de seus avós que descobriram
a Ilha de Porto Santo», o Rei concede em 1617 a Capitania em mercê
nupcial à filha mais velha
«para a pessoa com quem casar, a qual será a meu contentamento. E, não
tendo ela idade ou disposição para tomar estado de casada em tal caso
164 JOSÉ JOAQUIM LOPES DE LIMA, Ensaios sobre siatistiea das possessões portuguesas na
África Occidental e Oriental na Ásia Occidental e na China, e na Oceania, escritos de Ordem
do Governo de Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D. Maria II, vol. II, Parte II, p. 4.
165 SGC, I, p. 8.
166 GASPAR FRUTUOSO, Livro Sexto das Saudades da Terra, Edição do Instituto Cul-
tural de Ponta Delgada, 1963.
133
CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
faço mercê da dita Capitania a Dona Fé Perestrela, outra sua filha para
seu casamento, com a mesma obrigação de ser a pessoa com que casar a
meu contentamento»167.
3. A Extinção das Capitanias Hereditárias
3.1. Falta de Sucessão e Confisco
Entramos, finalmente, na matéria respeitante à extinção das ca-
pitanias. Advirta-se que se não trata em rigor de uma extinção de di-
reitos mas de pura e simples reversão à Coroa desses mesmos direi-
tos, pela verificação, quer de bem determinadas circunstâncias
justificativas da revogação da mercê feita ao Donatário, quer por -
âmago e fundamento básico da Lei Mental- falta de sucessão admis-
sível nos termos nela prefixos.
No que respeita a este caso, já a ele nos referimos neste capítulo,
quando tratámos da aplicação da Lei Mental à sucessão das capita-
nias168, e são muitos os exemplos demonstrativos da reversão por
causas dessa qualidade. Nas primeiras décadas do século xvi morre
Belchior Correia, capitão de Santiago de Cabo Verde, e, «por dele não
ficar legítimo herdeiro nem sucessor dele», a Capitania reverte para a
Coroa. Se bem que o Rei D. João III faça dela mercê nova ao irmão,
em cuja sucessão se mantém, incorporar-se-á definitivamente na Co-
roa por morte do CapitãoJoão Correia de Sousa em 1564169. Uma
carta de 1528 de doação da Capitania da Ilha do Fogo ao Conde de Pe-
nela, justifica que a «teve Fernão Gomes que ora faleceu por cujo fa-
lecimento a dita Capitania vagou»170. Uma sentença de 1571, pro-
nunciada após a morte de Manuel Dutra, capitão das Ilhas do Faial e
do Pico, na crença da falta de sucessão do fidalgo, declarou «as ditas
capitanias serem devolutas e pertencerem à Coroa do Reino»171. Doa-
das em 1573 a D. Francisco Mascarenhas e restituídas a Jerónimo Du-
tra em 1582, seriam doadas de novo em 1614 ao Conde de Lumiares,
aludindo-se na carta ao facto de as mesmas estarem «vagas para a
167 Arquivo de Simancas (Espanha) - Secretarias Provincíales, Portugal, Livro
1515, fól. 49v.
168 Veja-se neste Cap. o ponto 2.3.
169 SGC, I,pp. 112 ss,
170 SGC, I, p. 94.
171 GTT, III, pp. 5-15.
134
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS
Coroa por falecimento de Jerónimo Dutra Corte-Real, de que não fi-
caram filhos varões»172.
Em plano diferente há que atender às referidas circunstâncias sus-
ceptíveis de justificar uma punição aplicada com o efeito da perda ou
suspensão da jurisdição173. As Ordenações enunciavam-nas: obstrução
à execução de mandatos régios, impedimentos de correição, abuso da
jurisdição concedida, interferência na nomeação das justiças conce-
lhias, imposição de tributos ou contribuições indevidas, etc.174, tudo
quanto genericamente se considerava na lei nos termos seguintes:
«E se alguns Senhores de terras fizerem ou usarem das coisas a eles
aqui defesas ou de cada uma delas, não as tendo em suas doações, forais
e sentenças dadas em juízo competente, posto que possam dizer que por
costume tem mais do que em elas é conteúdo, queremos, que pelo
mesmo feito sejam suspensos da jurisdição da tal terra até nossa
* 17Smercê...»"3.
Já vimos que esta disposição teve plena aplicação no Brasil nos
primeiros anos do século XVIII, com o efeito do sequestro da Capita-
nia da Paraíba e suspensão da jurisdição do seu Donatário, Visconde
de Asseca, pelo abuso da venda a terceiro sem autorização real. A es-
tes casos - referimo-lo também - acresciam, com pena de perda da
Capitania, os actos de «partir, alienar, espedaçar, dar em casamento
ou por outra coisa por onde haja de ser partida, ainda que seja mais
piedosa», sem precedência de autorização régia, conforme a previsão
das cartas de doação das capitanias brasileiras e das de Angola e Serra
Leoa. Lá também, a globalidade das situações referidas ficara pre-
vista, no tocante ao destino dos bens:
«Outrossim me praz que por caso algum de qualquer qualidade que
seja, que o dito Capitão e Governador cometa, porque segundo direito e
leis destes reinos mereça perder a dita Capitania e governança, jurisdição
e rendas e bens dela a não perca seu sucessor, salvo se for traidor à Coroa
destes reinos, e, em todos os outros casos que cometer, será punido quanto
o crime o obrigar; e, porém, o seu sucessor não perderá por isso a dita
Capitania e Governança, jurisdição, rendas e bens dela como dito é.»176
173 AÃ, voí. 4 (1882), p. 229.
173 Entendida aqui como generalidade dos direitos concedidos na doação.
174 OF, L. 2, títs. 45-49.
175 OF, L. 2, tít. 45, § 55, e OM, L. 2, tít. 26 § 52.
176 DBN, vol- 13, p. 147.
135
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
Do que, a incorporação definitiva da Capitania na Coroa pela
ocorrência de falta grave do Donatário ficava reduzida ao caso ex-
presso da traição à Coroa destes Reinos. Assim sucedeu às capitanias de
Angra, S. Jorge, Faial e Pico (confiscadas ao seu Donatário, o 2.° Mar-
quês de Castelo-Rodrigo, filho do valido D. Cristóvão de Moura, por
ter escolhido ficar em Castela após a Restauração177), e aos senhorios
atlânticos das Ilhas de Sto. Antão, Flores e Corvo, confiscados todos
ao último Duque de Aveiro, culpado do crime de lesa-majestade na
pessoa do Rei D. José. Pela qualidade do crime, o sucessor do desdi-
toso Donatário nada logrou da Casa paterna e, segundo um alvará de
3 de Dezembro de 1814, tinham-se incorporado
«nos próprios da Coroa as terras que nas Ilhas da Flores e Corvo possuí-
ram em outro tempo os Condes de Santa Cruz, senhores donatários das
mesmas ilhas, e que passaram por sucessão da casa e do título aos Mar-
queses de Gouveia e ultimamente ao Duque de Aveiro infeliz foram con-
fiscadas e se julgariam perdidas para o fisco e câmara real, na generali-
dade de todos os bens que ele possuía e administrava com a efectiva
reversão e incorporação na mesma Coroa daqueles que dela tinham
saído...»178
3.2. Composições e Revogação de Mercê
Outra via de incorporação das capitanias no património real foi o
do simples negócio jurídico, formalizado entre a Coroa e os donatá-
rios, segundo modalidades que variaram conforme os tempos e as
vontades179. Uma das mais antigas referências que conhecemos, po-
demos lê-la numa carta do Governador Mem de Sá (1560) em que dá
notícia ao Rei de que Vasco Fernandes Coutinho, 1.° Capitão da Baía,
exausto pelas árduas exigências da colonização, escrevera ao Ouvidor
da Capitania «que em seu nome renunciasse à Capitania e lhe man-
dava para isso procuração bastante»180. Do século XVI datam também
177 Veja-se FRANCISCO FARIA E MAIA, op. cit., AÃ, vol. iv (1882), p. 177.
178 ANTÓNIO LOURENÇO DA SILVEIRA MACEDO, História das Quatro Ilhas que formam
o Distrito da Horta, Horta, 1881, vol. l, p. 567.
179 Sobre os antecedentes e o desenrolar do processo das incorporações veja-se
o Cap. IX deste estudo.
180 JAIME CORTESÃO, Pauliceae Lusitana Monumenta Histórica, Publicações do Real
Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, Edição Comemorativa do IV Centenário da
Fundação da Cidade de S. Paulo. Organizado t Prefaciado por..., Lisboa, 1956-1961, Vol. l,
p. 286.
136
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
algumas composições conseguidas no termo de processos litigiosos,
nas quais, em condições que desconhecemos, se compensam os su-
cessores dos donatários das capitanias incorporadas com rendas em
dinheiro. Assim sucede em S. Tomé com os descendentes do Capitão
João de Melo, e no Brasil com o filho do 1.° Donatário da Baía181. Em
1569 a incorporação das capitanias do Faial e do Pico fez-se mediante
uma simples permuta com o Donatário, D. Álvaro de Castro, que re-
cebe no Reino o senhorio da Vila de Fonte Arcada182. Já com relação
à Capitania de Cabo-Frio, a qual «se chama em a língua dos negros a
Paraíba e em nossa de São Tomé», alude-se expressamente a um «ins-
trumento de renunciação, deixação e aceitação», no qual o Capitão
Gil de Gois, em 1619, pela contrapartida da tença vitalícia de 200 mil
réis, «cede e trespassa nas mãos de Sua Majestade» o seu senhorio
brasileiro, considerando que «há como houve de hoje para sempre
por incorporado tudo que lhe pertencia por virtude das ditas doações
na fazenda e Coroa de S. Majestade»183.
Em 1709, a propósito da Capitania de S. Vicente, do Marquês de
Cascais, fala-se já de um «instrumento de venda e quitação», pela qual
o Capitão, pelo preço de 40 mil cruzados, cede «para a Coroa e Patri-
mónio real» a Donatária. Pelo mesmo preço, consignado em «instru-
mento de venda» de 1718, fica «unida e incorporada na Coroa e pa-
trimónio real» a Capitania do Espírito Santo. Finalmente, o acordo
feito em 1716 com o Conde de Vimioso concretiza-se mediante uma
escritura de «desistência e transacção», onde se concede ao fidalgo o
título de Marquês de Valença em duas vidas, outras duas no de Conde
de Vimioso, outra mais nas comendas possuídas, e a soma de 80 mil
cruzados, tudo pela desistência na causa em que contestava à Coroa
a absorvida Capitania de Pernambuco184.
O reinado de D. José, ao encerrar a história das últimas donatá-
rias ultramarinas, unidas e incorporadas no pleno, inteiro e Real Domí-
nio185, inaugura um novo estilo: lavram-se agora escrituras de «sub-ro-
181 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, p. 197.
182 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 220-225, e tb. 69-70.
83 «Escriptura de contrato entreos Procuradores de Sua Majestade e Gil de
Góes sobre a Capitania de Cabo Frio, Estado do Brasil», in Revista Trimestral do Insti-
tuto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo LVI, F. I, pp. 150-157. O documento é de 22
de Março de 1616, e está publicado no tomo XII de As Gavetas da Torre do Tombo, Lís-
boa, 1977, pp. 468-473.
164 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, V, pp. 394-395.
185 Arquivo Histórico Ultramarino, cód. 2 do Conselho Ultramarino, fól. 193,
decreto respeitante à sub-rogação da Capitania da Ilha Grande de Joanes.
137
:
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
gação e permuta», pelas quais os donatários, mediante cálculo oficial
do útil e do honorífico das suas capitanias, recebem satisfação equiva-
lente em rendas186, títulos nobiliárquicos e senhorio das terras do
Reino. Nalguns casos, a administração pombalina é ainda mais radi-
cal: antecipando-se a qualquer negociação prévia, revoga as antigas
doações de capitanias, sem prejuízo de compensações calculadas pelo
governo. Assim sucede com as capitanias de Porto Santo, S. Miguel e
Sta. Maria, declaradas perdidas pela inépcia administrativa dos dona-
tários, e if?so facto incorporadas na Coroa187.
4 . 0 G O V E R N O D A C A P I T A N I A
,íól 194-194v.
187 Todo este processo é tratado com maior desenvolvimento no Cap. IX deste
estudo.
138
1. O Capitão-Governador
1.1. Introdução
Ponto que parece subjazer de modo bem claro à criação e manu-
tenção dos senhorios portugueses, é o de que um dos escopos prima-
ciais da sua existência é o de aliviar ou auxiliar o Monarca na tarefa
da governação em regiões ou em condições para que a Coroa não es-
tava particularmente apta para administrar directamente. Foi, como
vimos, uma das razões da génese da imunidade dos territórios
alto-medievos, e a doutrina afirmava-o com ênfase: «Los Senores de
vasallos en sus estados y villas son vicários de los Reyes»1 - ou, como
ainda precisará noutro passo Castiílo de Bovadilla -
«son como los huesos y Ia firmeza de Estado, sin los quales seria como
un cuerpo compuesto de carne y pulpa, sin huesos, rd nervios, por Io
qual en una desgracia de guerra, o en una rota de un exército, o en una
muerte de Rey, facilmente caeria...»2.
Na base, pois, do governo dos capitães está um trespasse de com-
petências operado pela Coroa, de maior ou menor amplitude mas
sempre titulado, e tocante às três ordens fundamentais da adminis-
tração, jurisdição e rendimentos. De cada uma se dará conta neste e
nos Capítulos que se seguem. O que por ora importa vincar é essa
sub-rogação do titular da Capitania em poderes normalmente ineren-
tes à Coroa, bem vincado no comando que, com fórmulas variáveis,
se faz inserir nas cartas de doação de capitanias: uma carta de 1462
porque se doa a João Vogado a Capitania de duas ilhas que vai a des-
cobrir, é nisso bem expressiva, dando-lhe El-Rei
1 CASTILLO DE BOVADU.LA, Política para Corregedores y Senores de Vasallos, Barce-
lona, 1624, p. 613.
2 Idem, p. 596.
141
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
«autoridade que por si ou seu procurador possa delas filhar a posse cor-
poral, real e actual, cada que ele quiser e por bem tiver, sem lhe acerca
disso ser dado empacho ou torva com alguma pessoa que seja, porquanto
de agora para sempre tirarmos e abdicarmos de nós todo o senhorio, as-
sim de direito, como útil e proveitoso, e tudo pomos, trespassamos e mu-
damos no dito João Vogado e seus sucessores para todo o sempre...3»
«Manter em justiça e em direito» - fórmula inclusa logo na pri-
meira doação da Capitania, a do Machico em 14404 - resume bem a
globalidade das funções governativas dos capitães: administrar os po-
vos em tempo de paz e de guerra, ministrando a justiça tornada in-
dispensável à regência das sociedades humanas. Daqui que, sendo o
mando dos capitães efectivo, as regras, elogios e críticas que num
campo mais vasto se destinam a todos os que detêm o poder, se es-
tendam também à prática governativa destes donatários. A obra de
Gaspar Frutuoso é disso um bom exemplo: nas suas páginas abundam
as alusões à «prudência, justiça, paz e bom exemplo» com que gover-
nou Rui Gonçalves da Câmara, Capitão de S. Miguel5, a um caso de
governo dela «com grande saber, prudência e bom zelo»6, ou àquele
Capitão da Ilha de S. Maria,
«manso e colérico quando é necessário, e, ainda que alguns tenham ou-
tra opinião, a minha é que nenhum homem sem cólera medida com ra-
zão, prudência, verdade e saber, é para ser Capitão...»7
1.2. Os Títulos de Capitão e Governador
Mas, antes de qualquer desenvolvimento, importa saber do vero
conteúdo dos títulos de Capitão e Governador, e aferir - na consonância
simultaneamente militar e de largo império civil - da sua eventual coin-
cidência e ajuste às funções que, no essencial, ficaram já delineadas.
Ao contrário do que geralmente se crê, o título de Capitão não terá
surgido com a criação das capitanias pioneiras da Madeira. Segundo
3 CD, p. 162.
4 DP, l, pp. 403-404.
5 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da terra. Livro IV (ilha de S. Migue!), Ponta Delgada,
Tipografia do Diário de Notícias, 1924-1931, Vol. [V, p. 112.
6 Idcm, pp. 314-315.
7 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da terra, Livro III (Ilha de S. Maria), Ponta Delgada,
Tipografia do Diário de Notícias, 1922, p. 97.
142
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
vemos, assim são já chamados os primeiros delegados do Infante e do
Rei, no primeiro período de colonização do arquipélago, cerca de
vinte anos anterior à concessão da primeira Capitania do Machico.
Que entender de uma carta de mercê D. João I (c. 1433) não datada e
relativa à Madeira, na qual expressamente se refere que «as terras se-
rão dadas e repartidas pelos capitães»8?
O que não contraditaria a tese de Joel Serrão, segundo a qual as
doações das capitanias madeirenses constituiriam a consagração de
uma situação pré-existente, enquadrada pelos regimentos do Infante
de Sagres. O que há-a reter é que, desde a concessão da primeira Ca-
pitania em 1440, até aos meados da segunda metade do século XV, há
uma patente flutuabilidade dos termos empregados para designar a
especial concessão de direitos e governo encarregado a determinado
indivíduo em nome do Grande-Donatário: capitão e capitanias são, in-
desmentivelmente, conceitos primaciais, ainda que contemporâneos
dos de carrego ou regedor que os documentos também consagram.
Nas três primeiras cartas constitutivas das capitanias madeirenses
- Machico em 1440, Porto Santo em 1446 e Funchal em 1450 - o In-
fante Grande-Donatário não alude a capitães ou capitanias, mas, la-
conicamente, diz «dou carrego»9. No entanto, também de 1450 é a
carta de doação da Capitania da Ilha Terceira, nos Açores, ao fla-
mengo Jácome de Bruges, concedendo-lhe o Infante que
«tenha a Capitania e governança da dita Ilha como a tem por mim João
Gonçalves Zarco na Ilha da Madeira, na parte do Funchal e Tristão na
parte do Machico, e Perestrelo no Porto Santo»10.
Para maior confusão, Zarco, que numa carta de 1452 invoca o
único título de regedor pelo Infante11, usa, dois anos passados, o de
«Capitão por ele em sua Ilha da Madeira»12. Certo é que na carta de
doação das capitanias do Faial e do Pico a outro flamengo, Jos Dutra,
em 1468, afirma-se que os poderes usados serão os que desfrutam
«nas outras minhas ilhas os outros meus Capitães»13. Também, numa
8 VrroRiNO DE MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre, a Expansão Portuguesa, Lis-
boa, 1956.
9 DF, I, respectivamente, pp. 404, 449 e 483.
l°Idem, p. 471.
11 Idem, p. 499.
12 Idem, p. 514.
13 CD, pp. 152 ss.
143
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
carta de privilégio de 1466 concedida aos moradores de Santiago de
Cabo Verde, se refere «o que tiver cargo da governança e capitania da
dita Ilha»14.
Capitães, Capitanias e Governança, ou, mais raramente, Capitania
e carrego, são os termos que nos restantes anos do século se vão fi-
xando no formulário das cartas das ilhas da Madeira, Açores, Cabo
Verde e S. Tomé15. Parece mesmo pré s sentir-s e, sem que o possamos
afirmar com certeza,um intuito definido no emprego da palavra «Ca-
pitão». Nas ilhas - e desligada, no fundo, de qualquer consonância
militar - a palavra parece andar associada ao poder e à função de di-
vidir e distribuir a terra em sesmaria, à excepção das Flores, Corvo e
Sto. Antão, onde os seus Senhores gozavam de todos os privilégios de
qualquer Capitão, excepto o de dar terras naqueles moldes. Talvez
que por isso se lhes concedesse expressamente o chamarem-se Se-
nhores das ilhas e não Capitães delas. Note-se ademais que, com res-
peito aos primórdios da colonização do Brasil, narra Fr. Vicente do
Salvador que El-Rei
«ordenou que se povoasse esta província, repartindo as terras por pes-
soas que se lhe ofereceram para as povoarem e conquistarem à custa da
sua fazenda, e dando a cada um cinquenta léguas por costa com todo o
seu sertão, para que eles fossem não só Senhores mas capitães delas,
pelo que se chamam e se distinguem por Capitanias»16.
À entrada do século xvi, parece já estabilizado o título de Capitão
e Governador. No ano de 1499, Gaspar Corte-Real, Capitão da Terceira
na parte de Angra, intitula-se «fidalgo da Casa d'El-Rei nosso Senhor
e Capitão-Governador por seu especial mandado nas suas ilhas de S.
Jorge e Terceira»17.
Nas capitanias de S. Miguel em 150018, na do Funchal em 150519,
ou nas do Faial e do Pico em 150620, o título usado agora invariavel-
mente é o de Capitão e Governador da Justiça em nome do Rei, em cujas
mãos se recolherão directo domínio das Ilhas até então sujeitas aos
14 SGC, pp. 21-22.
15 Vide SGC e DP, III, passim.
16 FR. VICENTE DO SALVADOR, História do Brasil (1500-1627), 3.' ed. revista por
Capristano de Abreu e Rodolpho Garcia, S. Paulo, Rio de Janeiro, 1931, p. 87.
17 AÃ, vol. 12 (1982), p. 402.
18 Idem, p. 397.
19 AM, t. 17, pp. 457 e 465.
20 AÃ, vol. 12 (1892), p. 404.
144
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
Grandes-Donatários. Se esses títulos tendem assim a fixar-se, por um
paralelo e peculiar processo, à data da constituição das capitanias do
Brasil - isto é, na década de 30 do século XVI -, ele é já concedido e os-
tentado como mercê autónoma, honorífica, a que acompanham no
mesmo diploma de constituição, outras mercês, também autónomas,
de jurisdição. É o que se patenteia nessas cartas de doação das capi-
tanias brasileiras. Aí - inovação sensível em relação aos diplomas
constitutivos de quaisquer outras capitanias - declara o Monarca
«quero e me praz que o dito Martim Afonso e todos seus herdeiros e
sucessores que a dita terra herdarem e sucederem se possam chamar
e chamem capitães e Governadores delas»21. Aí também, o 1.° Dona-
tário de Pernambuco, no treslado do chamado Foral de Olinda (1550),
se intitula «Duarte Coelho, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor,
Capitão-Governador desta terra da Nova Lusitânia por El-Rei Nosso
Senhor»22.
Desse título de Capitão e Governador usou igualmente seu des-
cendente, Jorge de Albuquerque Coelho, como se vê em obras coevas
que se lhe dedicam23, mas seu filho Duarte, em 1654, intitula-se já
«Senhor de Pernambuco e das Vilas de Olinda, S. Francisco, Mada-
lena, Bom Sucesso, Vila Formosa e Iguaraçu»24.
Assim, com o correr dos tempos o velho título de Capitão e Go-
vernador parece mesmo ceder pontualmente o passo a fórmulas de
consonância reconhecidamente mais cortesã ou aristocrática. Numa
provisão de 1640, o Capitão-Mor e Ouvidor de S. Vicente chama-se
pelo Conde de Monsanto, «donatário perpétuo desta Capitania por
Sua Majestade»25. Seu sucessor, o Marquês de Cascais, D. Álvaro Pi-
res de Castro e Sousa, intitular-se-á «Senhor e Governador das Ilhas
de Itamáracá, S. Vicente e S. Paulo e terras de Santana»26. E não só no
21 DBN, vol. 13, p. 138, c. de doação de S. Vicente (1534).
22 AP, vol. I, p. 188.
23 Navfragio, ave passov lorge Dalhvqverqve Coelho, Capitão dl Governador de Per-
nambuco. Em Lishoa: Impresso com licença da Saneia Inquisição: Por António Aluarez. Anno
MCCCCCCl.
24 Memórias Diárias de Ia Gverra dei Brasil por discvrso de nveve anos, empeçando
desde el de MDCXXX. Escritas por Dvarte de Albvqverqve Coello, Marques de Basto,
Conde, i Senor de Pernambuco, i de Ias Villas de Olinda, San Francisco, Magdalena,
Buen-Sucesso, Villahermosa, i Igaraçú, Gentil-kombre de Ia Camará de su Magestad, i de su
Conse/o de Estado, en el de Portugal. En Madrid, por Diego Diaz de Ia Carrera, Impressor
dei Reyno, Ano 1654.
25 RSP, vol. II, p. 142.
26 Idem, p. 215.
145
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
Brasil: na setecentista História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
o autor refere-se a Pedro Alvares Pereira, não como Capitão, mas
como «Senhor da Serra Leoa, do Paul de Muja, das jugadas de Santa-
rém, etc.»27.
Mas, com maior ou menor pompa, os capitães inscrevem agora
os seus títulos em documentos de alarde. No mapa seiscentista da
Cidade de Angra, Linschoten insere a dedicatória ao Capitão da Ilha,
o poderoso-Marquês de Castelo-Rodrigo:
«lílustri et generoso Dno. Christophoro a Moura viro inter cubiculi
regii próceres primário, regnique ordinum Consilario, rerum lusítanico-
run, admnistratori Vigilantissimo, Alcantarae Commendatori et insula-
rum Tercerae et Scti. Georgi Praefecto digníssimo Dno suo multis nomi-
níbis colendo»28.
Na dedicatória da Insulana, poema de Manuel Thomaz (Antuér-
pia, 1635), alinham-se os títulos do Donatário do Funchal: «João Gon-
çalves da Câmara, do Conselho dei Rei Nosso Senhor, Conde de Vila
Nova da Calheta, Capitão-Geral da gente de guerra da Ilha da Ma-
deira, Governador perpétuo da Justiça, Vedor da fazenda da dita Ilha
e Porto Santo, e Senhor das Ilhas Desertas»29.
Em 1703, o seu descendente, o omnipotente valido Castelo-Me-
Ihor, numa mera carta de nomeação do Ouvidor, intitula-se solene-
mente «Luís de Vasconcelos e Sousa, Conde de Castelo-Melhor, do
Conselho de Estado de S. Majestade e seu Re p os te iro-Mor, Comen-
dador das Comendas de Pombal, Redinha e Facha e Salvaterra da Es-
trema, Alcaide-Mor das Vilas de Penamacor, Pombal, Redinha, Se-
nhor das Notas de Castelo-Melhor, Almendra e Valhelhas e das
capitanias da Ilha da Madeira e da Ilha de S. Maria, Ilhas Desertas,
Governador das Justiças e Fazenda, como Vedor dela na Cidade do
Funchal e sua Capitania na Ilha da Madeira»30.
27 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
Coimbra, Atlântica Editora, 1953, IX, p. 352.
28 Navigatio Ac Itinerarium Johannis Hugonis Linscotani In Orientalem Síve Lusitano-
rum Indiam, etc., Hagae Comitis, 1599.
29 «A loam Gonçalves da Camará do Conselho dei Rey Nosso Senhor Conde de
Villa Noua da Calheta, Capitão Geral da gente de guerra da Ilha da madeira, Gouer-
nador perpetuo da Justiça, Veédor da fazenda da dita Ilha, & Porto Sancto, & Senhor
das Ilhas desertas», in Insulana dt Manoel Thomas. Em Amberes, Em Caza de loam
Mevrsio Impressor. Anno de 1635.
30 AÃ, vol. 15, p. 77.
146
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
Para maior honra dos donatários, cedo também os monarcas
criam títulos nobiliárquicos com designações geográficas pertencen-
tes à área das capitanias. Refere o Padre Gaspar Frutuoso que ao Do-
natário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, pelos seus serviços
«e pelos merecimentos, além dos que no decurso desta história tenho
dito de seu pai e avós, lhe fez D. Sebastião mercê de o fazer Conde de
Vila Nova da Calheta, da sua Ilha da Madeira, no ano do Senhor de 1576,
e lhe deu os ofícios do dito Condado, como se chamavam os oficiais
dele em todos os autos e escrituras, termos e mandatos, pelo Conde
Nosso Senhor...»31
E se Manuel da Câmara, Donatário de S. Miguel, resgatado de
um cativeiro africano, recusou do Rei D. João III o título do Conde da
Vila da Lagoa32, não o fez o filho, Rui Gonçalves da Câmara, quanto
ao Condado de Vila Franca, atribuído com denominação também per-
tencente à área da mesma Capitania33. Quando D. Francisco Masca-
renhas, Capitão das Ilhas do Faial e do Pico, nos Açores, recebe a no-
meação de Vice-Rei da índia, é amerceado em 1581 com o título de
Conde de Vila da Horta, na primeira daquelas capitanias34.De Filipe
II recebeu também o Duque de Aveiro, Capitão de Porto Seguro, no
Brasil, o marquesado do mesmo título, e, pela mesma época, se fize-
ram a Duarte de Albuquerque Coelho, Capitão de Pernambuco, as
mercês dos títulos de Marquês de Basto e Conde de Pernambuco.
Com eles e com os de Gentil-Homem da Câmara de Filipe IV de Es-
panha e membro do Conselho de Estado de Portugal, subscreve Coe-
lho as suas Memórias diárias de Ia guerra dei Brasil, publicadas em Ma-
drid em 165435.
Voltando um pouco atrás, o título de Capitão e Governador to-
mado estava, pois - com o título de Senhor de terra - como não mais
que uma simples fórmula de tratamento, de ostentação, ou nas pala-
31 GASPAR FRUTUOSO, As Saudades da Terra pelo Doutor Gaspar Frutuoso. História
das Ilhas do Peno Santo, Madeira, Desertas e Selvagens. Manuscrito do Século XVI anotado
por Álvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, 1873, p. 295.
32 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da Terra, Livro IV..., p. 182.
33 FRANCISCO DE ATHAYDE M. DE FARIA E MAIA, Subsídio para a História de S. Miguel
- Capitães dos Donatários (1439-1766), Lisboa, 1972, pp. 190-191.
34 GASPAR FRUTUOSO, Livro Sexto das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1963,
p. 277.
35 Memórias Diárias..., cit. supra. Vide tb. HÉLIO VIANA, «Matias de Albuquerque»,
in Estudos de História Colonial.
147
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
vras de Pegas, um mero «título honorífico que se lhe pode conceder
sem nenhuma administração nem exercício»36, ou «uma graça exte-
rior que se pode conceder sem exercício nem residência»37.
Era, aliás, a filosofia subjacente à legislação aplicável a esse tipo
de Mercês: se por um lado as Ordenações38 consideravam generica-
mente todos os Senhores de terras, usando de jurisdição que pelo Rei
lhes fosse doada, U., «Duques, Mestres das Ordens, Marqueses, Con-
des, e o Prior do Hospital de S. João, Prelados, Fidalgos e pessoas, que
de Nós tem terras com jurisdição...»39, por outro, no totalmente di-
verso plano do honorífico, a legislação e a praxe estabeleciam rígidas
diferenciações reflectidas nos assentamentos auferidos, na considera-
ção da grandeza, nos lugares da etiqueta ou nos tratamentos da corte-
sia. Não referindo já os títulos de Duque a Barão, as cartas régias
eram, pois, bem precisas na concessão do título de Senhor de Terra,
mercê puramente honorífica mas que geralmente se fazia acompa-
nhar da autónoma concessão de poderes jurisdicionais.
O título de Capitão e Governador deve, pois, repetimo-lo, conside-
rar-se como mais um título honorífico40, concedido a partir de 1534
no Brasil por mercê específica, alínea expressa do diploma constitu-
tivo da Capitania, equiparável ou passível de ser considerado como
uma especificidade ultramarina do título de Senhor de terra, que tam-
bém alguns donatários usaram publicamente em alternativa àquele
de Capitão-Governador.
1.3. Os Capitães Hereditários e os Capitães
de Nomeação Régia
O maior sinal de distinção que havemos de colher do carácter es-
tritamente honorífico destas mercês, é o que se estabelece em função
dos capitães de pura e periódica nomeação régia.
36 PP, £61. 563v.
37 lâtm, £61. 564.
36 OM, L. 2, t. 26, e OF, L. 2, t. 45, passim.
39 OM, L. 2, t. 26, § 8, e OF, L. 2, t. 45, § 45.
40 A honorabilidade do título chegava a admitir-se, socialmente, extensível ao
cônjuge do Capitão-Govemador. O Padre Gaspar Frutuoso, na obra cit. supra, escre-
vendo nos finais do séc. xvi, alude com frequência às «capitoas» das capitanias aço-
rianas (op. cit., pp. 109,115,117,119, 184 e 186). O padre Anchieta alude também em
1584 à morte da mulher do 1.° Capitão, D. Brites de Albuquerque, «governadora e
quase mãe deste povo».
148
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
Se vimos tratando de meros títulos honoríficos, próprios, especí-
ficos de um determinado grupo de donatários de bens da Coroa, num
plano totalmente diverso haveremos de colocar aquele conjunto de
cargos a que Eduardo Nunes chamou «capitanias-governadorias das
terras de conquista e dominação»41, como o eram as das praças e for-
talezas do Oriente, de Marrocos, das restantes costas africanas e do
próprio Brasil, para não falar já de províncias ou reinos inteiros como
o Algarve, Angola ou Cabo Verde. Essa importante distinção admite-a
Pascoaljosé de Melo nas suas Institutiones, aludindo aos «capitães per-
pétuos das Ilhas, que cumpre distinguir totalmente dos governadores
temporários e oficiais militares...»42.
À remuneração de serviços pessoais como causa donandi subja-
cente à existência dos primeiros, e o mero exercício de primaciais
obrigações de governo militar de directa competência da Coroa, ine-
rente aos segundos, corresponderiam duas situações sintetizadas res-
pectivamente noutras duas expressões - «pró vestris utilitatibus» e
«pró nostri utilitatibus» - que, como as próprias relações estabelecidas
entre duas esferas patrimoniais, como a da Coroa e a dos senhores,
remontam tão longe como a situações e expressões formais de con-
cessão de imunidade e de nomeação régia de governadores e lugar-te-
nentes43.
Assim, como características próprias das capitanias ordinárias se-
riam desde logo mais do que suficientes para as distinguir das capi-
tanias honoríficas a amovibilidade dos cargos, pagos e preenchidos
aã tempus, segundo um critério de capacidade individual, no quadro
vasto da administração militar do Reino e do Império, directamente
dependentes do Monarca44. Estes mesmos elementos de distinção os
notou o jurista seiscentista Álvares Pegas escrevendo que «capitães
de guerra que servem por tempo limitado, e servem e militam por
soldo, não têm direito real por doação, nem jurisdição doada, mas or-
dinária»45.
41 In Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira de. Cultura, IX, p. 915.
42 FASCOAL JOSÉ DE MELLO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português, tanto
público como particular», livro li, in Boletim do Ministério da Justiça, n. l, 163 - Feve-
reiro, 1967, p. 52.
43 SANCHEZ ALBORNOZ, La potestaã real y los sefioríos, p. 8, cit. in ALFONSO MARIA
GuiLARTí, E! Regimen Senoríal en e! siglo XVI, Madrid, 1962.
44 Em consonância - recordemos - os «Capitães de África», ao contrário dos
Capitães-Donatários, por força do alvará de 9 de Abril de 1612, estavam obrigados a
dar «residência», no termo dos seus governos.
45 PP, fóls. 121 e 567.
149
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
E maior autoridade daria às palavras de Pegas a decisione XXVIII de
Cabedo, em que, aludindo aos «Capitães dos lugares de África» de
que falam as Ordenações46, se refere que
«Capitaneí autem locarum África non sunt huiusmodi tirarguia ad tem-
pus serviunt, et sunt ut caeteri duces belli in arcibus positi, quos duces et
capitaneos belli Rex creat Ord. b. 2 tt.° 26 in princip. § l quae sint rega-
lia, ubi Affict. et expensis Regis serviunt, et militant, et salariu habent,
non autem habent iura aliqua ratione offici Capitanei bellici, ut sunt, os
quintos das presas et iurisdictio, quam habent, ut ordinária, et non do-
nata. Ord. tb. 2 tt.° 47»47.
Recordemos que a questão teve particular expressão na já várias
vezes referida causa que correu entre a Coroa e os sucessores dos do-
natários de Pernambuco. Efectivamente, entre a torrente de argumen-
tos invocados pelo Procurador da Coroa para fundamento do
incumprimento das cláusulas da doação por parte dos donatários, e,
sequentemente, legitimar a apropriação do território por parte da Co-
roa, contar-se-ia a falta de residência pessoal na Capitania, a que os
mesmos donatários por várias razões e, particularmente - defendia o
Procurador - pelo exercício do cargo de Capitães e Governadores, esta-
riam obrigados como todos os outros que pelos territórios ultramari-
nos se contavam.
Alvares Pegas, que defendia a causa pelos autores, os Condes de
Vimioso, demonstrou facilmente a debilidade da máquina de razões do
magistrado régio, quer destrinçando as supracitadas características de
amovibiíidade, remuneração e periodicidade dos capitães régios - ca-
racterísticas essas totalmente alheias ao exercício da jurisdição dona-tarial - quer vincando outras, conducentes à demonstração da in-
compatibilidade da natureza dos donatários com a dos capitães
ordinários. Ressaltemos por um lado a necessidade de residência pes-
soal, indissociável do exercício destes últimos cargos, contraposta ao
«uso e prática geral em todas estas capitanias, desde o princípio até ao
presente, que foi de não residirem os capitães»48. Anotemos, por ou-
tro, a incompatibilidade do regime de doações em vidas ou mesmo de
juro e herdade, frequente neste tipo de doações e incluindo o próprio
5 Idem, ibidem.
' Q't. idem, ibidem.
1 Idtm, ibidem.
150
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
título de Capitão e Governador, com a natureza e os fins da amovibiíi-
dade das capitanias ordinárias, onde seria requerida
«capacidade e experiência e suficiência pessoal - nas palavras de Pegas -
e esta não se considerar nem entender nos que ainda não existem, como
são os sucessores que podiam ser incapazes, como são mentecaptos e
outros sucessores que podem ter incapacidade [...]. A experiência uni-
versal do mundo prova esta verdade e de toda a história não consta que
algum Príncipe fizesse general ou entregasse o governo de suas armas à
^túnguém só por haver sido filho ou descendente de algum grande cabo
deXguerra, senão aquelas pessoas em que concorressem as qualidades
pessoais e requisitos necessários para esta ocupação [...]. E muito mais se
verifica com a vocação das fêmeas totalmente incapazes de exercitar
posto de milícia»49.
Ora, não sucedeu cair a sucessão de capitanias ultramarinas em
mulheres? Não refere o próprio Pegas o caso próximo da Camareira-
-Mor Marquesa de Castelo-Melhor a quem se confirmou por suces-
são a Capitania da Calheta50? Só, efectivamente, o regime donatarial
permitiria este maquinismo, pelo que muito justificadamente poderia
o causídico citar a seu benefício a decisione XXIX de Cabedo, referente
a esses próprios Capitães-Donatários da Madeira:
«... Lata tamen fuit sententía et pronunciatum quod is Capitanius et
símiles non erant duces belli, sed tanquam, Domini Terrarum iurisdic-
tionem habentes.»51
1.4. Sentido e Conteúdo dos Títulos de Capitão
e Governador
Se nos interrogarmos sobre quais os privilégios ou conteúdo con-
creto - não do carrego em si mas de tais títulos -, cedo deparamos com,
para além do mero carácter honorífico, um vazio quase absoluto.
Referimos atrás as formulas pomposas que aludem à «capitania
geral da gente de guerra» e ao «governo da Justiça». E se é certo que
49 Idem, ibidem.
50 Idem, fól. Ill, e «Sucessão da Casa da Calheta», in Arquivo Histórico da Madeira,
tomo l, s. indicação de autor.
51 PP, fl. 105, e MELLO FREIRE, op. cit., p. 75.
151
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
os títulos de Capitão e Governador puderam originar e habitualmente
corresponder a tal tipo de funções52, a verdade é que, nas capitanias,
a amplitude dos termos invocados está em nítida desconformidade
com os poderes efectivamente auferidos, superiormente conforma-
dos pela natureza dos altos cargos militares e judiciais que na própria
área das capitanias eram colocados pelos monarcas, v.g., Corregedo-
res, Governadores ou Ouvidores-Gerais.
No caso do título de Capitão, para além de factos que constante-
mente o asseveram53, concorre a letra da jurisprudência. Em todo o
pleito que com maior profundidade envolva o sistema das capitanias,
nunca é esquecida a já referida decisione de Cabedo: «... Capitanius et
símiles non erant duces belli...»54.
Também uma sentença de Fevereiro de 1596 no juízo dos Feitos
da Coroa da Casa da Suplicação, pronunciada em causa proposta pela
Condessa da Calheta, como tutora de seu filho Simão Gonçalves da
Câmara, declarara «que ele Suplicante não é capitão de guerra na Ilha
da Madeira de que é Donatário...»55.
Quanto ao título de Governador da Justiça, sistematicamente invo-
cado por alguns dos capitães, nomeadamente os das Ilhas dos Açores
e Madeira56, além das cartas de doação não referirem mais que o
termo Governador, o número e natureza das faculdades judiciais con-
cedidas aos capitães - limitadas quer por alçadas fixas, quer pelo po-
der inspectivo que aos Monarcas assistia e se exercia pela pessoa dos
corregedores, quer mesmo pelo raro princípio da maioria de justiça -
nada autorizaria, em princípio, que se invocasse um título de tão alto
significado. Recorde-se que quando na 2.a metade do século xvr o
Conde D. Rui Gonçalves da Câmara, \.° Conde de Vila Franca e Ca-
pitão de S. Miguel, é confrontado com graves acusações versando o
uso pervertido das faculdades judiciais concedidas, alegou caber-lhe
por si e seu Ouvidor «fazer a dita correição e mais autos dela e actos
que pertencem aos Corregedores na forma destas doações por ser
52 No seu célebre «Diário de navegação», Pêro Lopes de Sousa alude a Martim
Afonso de Sousa, «meu irmão, que ia por capitão de uma armada e governador das
terras do Brasil», cit. in VICENTE TAPAJÓS, História Administrativa ao Brasil, Brasília, 1982,
p. 62, n. 7.
53 Vide o que, neste Capítulo, dizemos a propósito das obrigações militares.
54 PP, fól. 105.
55 Biblioteca do Palácio da Ajuda, Consultas do Desembargo do Paço (1594-1596),
fl. 304-304v.
56 Além dos casos citados, vide AÃ, vol. 12 (1892), pp. 397, 402 e 404.
152
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
Governador da Justiça por mim [Rei] e não ser senhor de terras, a
quem as Ordenações proíbem os tais autos de correição»57.
A argumentação expendida não procedeu, e a decisão final foi ca-
tegórica em considerar que o diploma constitutivo da Capitania não
concedia de modo algum ao Capitão o ser Governador da Justiça da
ilha em nome do Rei, devendo, pelo contrário, sujeitar-se «à disposi-
ção da Ordenação, L. 2, t. 26, §§ 15, 16, 17, que defende aos Senho-
res usarem da tal correição e actos dela e de mais jurisdição da que por
Reis lhe foi dada»58.
O mesmo se poderá dizer a respeito dos títulos nobiliárquicos
concedidos com designações de localidades de capitanias, que, como
mercês régias autónomas das destas, em nada alteram as faculdades
ou privilégios nelas contidos. O que, aliás, estava na mais pura tradi-
ção do direito nobiliárquico português, desde que, já no século XVI,
perdendo os títulos um vero significado correspondente ao exercício
de cargos públicos, maioritariamente militares, se resumiam a puras
mercês honoríficas. Mercês, é certo, aureoladas pelo brilho das «hon-
ras, preeminências e liberdades»59 do formulário da concessão, mas
quase puramente ostentatório e, por si, desprovidos de qualquer sig-
nificado de domínio territorial ou senhorio jurisdicional, que, even-
/tualmente, só acresceria por mercê autónoma. Afirmou-o também
í nos finais do século xvii o jurista Pegas, ainda no curso do célebre
pleito de Pernambuco, vincando que
«nem em Portugal os títulos de Marqueses, Duques e Condes têm da Co-
roa mais que o honorífico e o assentamento, sem que haja terras da Coroa
que de sua natureza andem unidas a título ou divididas em Ducados, Mar-
quesados e Condados, e as terras que os tais têm da Coroa são pelo título
de donatários delas, separado dos de Duque, Marquês ou Conde, e por
esta razão há muitos títulos que não têm terras da Coroa, nem são dona-
tários dela»60.
Se bem que isto fosse ponto assente na doutrina, na mentalidade
popular a questão era considerada de modo diverso e a concessão de
título sobre determinada localidade apresentava-se deformadamente
57 Vide o acórdão no Cód. 762? da Biblioteca Nacional de Lisboa, Eóls. 186-187.
58 Idem, ibidem.
59 Vide p. ex. a carta de concessão do título de Conde de S. Cruz a D. João Mas-
carenhas (23-1-1714), in AÃ, vol. 5 (1883), pp. 524-525.
60 PP, Fóls. 115e568-568v.
153
é
è
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
como um atentado à autonomia dos povos ou uma intolerável intro-
missão de um particular na cadeia de relações que directa e livre-
mente se estabelecia entre os povos e o Monarca. É disso exemplo a
vigorosa reacção da Câmara de Vila Franca do Campo, na Capitania
de S. Miguel, nos Açores, traduzida nosembargos que em meados do
século xvi interpôs à mercê concedida ao Donatário do título de
Conde com a designação da mesma Vila. Segundo Faria e Maia, além
de se dizer nestes embargos que Rui Gonçalves da Câmara não era
merecedor do título de Conde de Vila Franca porque
«fazia muitas vexações aos homens principais da dita vila», alegava-se
ainda que a antiga capital da ilha possuía privilégios inconciliáveis com
a concessão de um título que importava dar-lhe outro Senhor que não
fosse o Rei e que só a este ela devia estar sujeita, desde que os bens dos
infantes haviam passado à posse da Coroa»61.
As alegações do Capitão-Donatário, elaboradas em resposta às
pretensões da Câmara, repõem de modo muito interessante e claro
a questão nos seus devidos termos; isto é, declarando o Capitão que-
rer usar
«tão-somente as preeminências e liberdades e privilégios, mercês e fran-
quezas que os Condes tinham, que são falar-lhes por Senhoria, trazer
pendão na guerra, poder-se cobrir perante Sua Majestade, ter assento de
Conde. E em Vila Franca não queria ter mais direitos, nem jurisdição da
que tinha por Capitão e somente queria ter por carta o título e nome de
Conde, como a carta dizia, sem por isso perder nada dos direitos e juris-
dição que tinha por Capitão e Governador da Justiça, que eram muito
mais do que podia ter por Senhor, e a dignidade era por acrescentamento
e não para perder o que tinha antes dela, e isto era o que dizia a carta que
muito claramente falava na dignidade de Conde e não na superioridade;
pelo que pedia lhe fosse feita justiça e que se entendesse que isto que lhe
requeriam os procuradores era mal requerido e mal inventado e proce-
dera rnais de outras causas do que requerer justiça»62.
A causa julgou-a o Rei em favor do Conde-Donatário, conde-
nando os embargantes nas custas do processo e apresentando como
fundamento da decisão a razão linear de que «com aquela concessão
61 FARJA E MAIA, op. ch., pp. 190-191.
62 Idem, ibidem.
154
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
de título não se dava ao embargado direito de vassalagem, nem outro
algum que tire da minha real Coroa, nem derrogue os privilégios e
honras que a dita vila tiver»63.
2. Os Substitutos e Delegados do Capitão
2.1. Situações de Incapacidade
Mas, se há uma realidade indissociável da história das capitanias,
é a de que muito frequentemente não foram governadas pela mão
dos seus capitães. Iremos debruçar-nos sobre duas causas desse tipo
de situações: a incapacidade dos donatários para administrarem di-
rectamente os seus senhorios, e a faculdade que lhes assistia para no-
mearem delegados que por eles exercessem os poderes concedidos no
título constitutivo da Capitania.
Quanto à primeira situação de incapacidade, não é, como disse-
mos, inédita na história destes senhorios, quer por razão da demên-
cia quer por menoridade do sucessor da Capitania. É Gaspar Frutuoso
que nos relata o caso do desditoso Diogo Teixeira, 4.° Capitão de
Machico:
«Por este Capitão não ter juízo para governar, El-Rei D. Manuel e
El-ReÍ D. João III do nome lhe quiseram tirar a Capitania, e sobre isso o
mesmo Diogo Teixeira trouxe demanda com El-Rei até o ano de 1536.»64
Na pendência do litígio a Capitania esteve entregue ao governo
de três corregedores de régia e sucessiva nomeação por mais de uma
dúzia de anos, até que em 1536 se deu por vencedor o esbulhado Do-
natário
«e lhe foram entregues a capitania e rendas dela, contanto que pusesse
El-Rei à custa das rendas do dito Diogo Teixeira a justiça, por ele não ser
capaz para mandar justiça, nem fazer ouvidor»65.
No que respeitava a situações de menoridade - consideradas de
patente incapacidade governativa - as cartas de doação eram bem
63 Idem, iHdem.
64 GASPAR FRUTUOSO, As Saudades da Terra..., p. 118.
05 Idem, ibidem.
155
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
mais positivas, pois que consignam invariavelmente a previsão e a
medida adequada a esse tipo de eventualidade. Lê-se na primeira doa-
ção de uma Capitania, a de Machico, em 1440:
«... e sendo em tal idade o dito seu filho que a não possa reger, eu
ou meu herdeiro poremos aí quem reja até que ele seja em idade para a
reger...»66.
Cláusulas de igual teor deparam-se-nos nas doações ma^eirenáes
de Porto Santo (1446), Funchal (1450), nos Açores, Terceira (1450)67,
S. Miguel (1474)68, Sta. Maria (1474)69, S. Jorge (1483)70, Graciosa
(1507), e até em Santiago de Cabo Verde (1485)71 e S. Tomé (1493). E
a medida tinha uma aplicação efectiva. Em meados do século XVTII,
tratando o Dr. Tomé Pinheiro da Veiga da questão dos loco-tenentes,
escreverá:
«... nas doações das capitanias das Ilhas (que o Doutor Jorge de Ca-
bedo equipara e regista pelas do Brasil) acho que na menoridade, põe du-
rante ela El-Rei governador em seu nome real. E da mesma maneira nas
ausências, sendo necessário, manda V. Majestade governadores em seu
nome fazendo preito e homenagem, como em Vila Franca, na Ilha de S.
Miguel, Terceira e Madeira, conforme as doações, e ainda até na capita-
nia de Ceuta da casa de Vila Real...»72.
Se bem que o fito do Procurador da Coroa fosse o de estender ao
Brasil a prática enunciada - sem sucesso, como adiante se verá -, a
verdade é que em nítido contraste com as antecedentes, as cartas de
doação de capitanias brasileiras e as idênticas de Angola e Serra Leoa,
não incluem já aquela cláusula e não nos consta que frequentemente
uma situação de menoridade se resolvesse daquele modo73; pelo con-
trário, são conhecidos casos de auto-suficiência na solução desses
problemas, como o do menor Capitão de S. Vicente, tutelado em
66 DP, I, p. 404.
67 lâtm, p. 471.
68 CD, p. 169.
69 Idem, p. 177.
70 CD, p. 183.
71 SGC, p. 42.
72 Biblioteca Nacional de Lisboa, Cód. 762?, p. 52.
73 Veja-se no ponto 8 deste Capítulo o caso da excepção de Pernambuco.
156
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
1557 por sua mãe «tutora e administradora do Senhor seu filho»74, ou
do Visconde de Asseca, Donatário da Paraíba do Sul, entregue aos
cuidados de seu avô, o célebre Salvador Correia de Sá75.
2.2. O Problema da Ausência dos Capitães
Outro facto que justificou a entrega do governo das capitanias
em mãos que não as dos seus donatários, foi o da «ausência» destes.
Não que fosse esse o princípio. Já na carta de doação da Capitania do
Faial a Jos Dutra, em 1468, se lê que ele a houvesse, tivesse e pos-
suísse «contanto que ele dito Jos Dutra viva na dita Ilha e esteja em
ela continuadamente, assim como vivem e estão nas outras minhas
ilhas os outros meus Capitães»76.
E assim foi, efectivamente, durante as primeiras gerações de ca-
pitães das Ilhas da Madeira, Açores e algumas de Cabo Verde. Mas a
verdade é que já desde os finais do século xvi, princípios do século
xvil, é praticamente nula a presença dos capitães no território dos seus
senhorios, efectivamente pouco apetecíveis - porque inóspitos e lon-
gínquos - para uma maioria de fidalgos com funções de responsabili-
dade na Corte e no governo da Metrópole. Já Gaspar Frutuoso refere
que Gonçalo Velho, 1.° Capitão de S. Miguel, regressou ao Reino «por
não se contentar de viver em terra erma, senão na Corte, onde se
criara às abas dos Príncipes»77. Daqui decorriam problemas, inerentes,
aliás, aos regimes senhoriais peninsulares. Já Castillo de Bovadilla em
meados de Quinhentos se lamentava que
«en los pueblos de Senores ay mal goviemo y poça justicia, porque los Se-
nõres se descuydan, en especial los Cortesanos que no residen en ellos, ni
los visitan como estar obligados, para poder en particular ver y entender de
mudar cosas que por sus ausências se causan y quedan sin remédio...»78.
As capitanias portuguesas não foram alheias a esse efeito perni-
cioso, e Frutuoso, escrevendo nos finais desse mesmo século, assaca
74 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA PAES LEME, «História da Capitania de S. Vicente»,
ín Revista do Instituto Histórico Geográfico Brazíleiro, 1847, p. 156.
75 Vide ALBERTO LAMEGO, A Terra Goitacá à luz de documentos inéditos, Rio de
Janeiro, 1913, passim.
76 CD, p. 153.
77 GASPAR FRUTUOSO, Saudadesda Terra, Livro IV..., p. 22.
73 CASTILLO DE BOVADILHA, op>. dt., pp. 597-598.
157
O G O V E R N O DA CAPITANIA
ao capitão de S. Miguel seu contemporâneo a ruína do opulento se-
nhorio dos seus maiores e «a causa disto é por nesta ilha, que é sua
morada, serem hóspedes e lá no Reino terem seu principal assento, de
que fazem mais cabedal»79.
Também no Brasil os prejuízos da ausência dos capitães foram
desde cedo sentidos: Duarte Coelho, Donatário de Pernambuco, es-
crevendo a El-Rei em 1548, recordava-lhe
«o que já tenho escrito, que proveja e mande a todas as pessoas a que deu
terras no Brasil, que venham a povoar e residir nelas, que assim cumpre
a seu serviço, pois essa foi a condição»80.
Os anos passados não trariam novas soluções, e ainda em 1553 o
Governa dor-Geral Tomé de Sousa expunha ao Monarca que «se um
homem não pode viver sem cabeça, Vossa Alteza deve mandar que os
capitães próprios residam nas suas capitanias»81. Baldadas queixas e
efeitos perniciosos. Referindo-se aos próprios capitães de Pernam-
buco e à conturbada história quinhentista do senhorio, Francis Dutra
fez notar que
«many difficulties might have been avoided if Duarte Coelho's two sons
and their successors had spent more of their time in Brazil than in Por-
tugal and North África. But during the seventy-six years following the
first donatário's death in 1554, only one of his successors resided in Per-
nambuco. The other two lord-proprietors were absentee landlords run-
ning the captaincy via substitutes (loco-tenente), most of whom were
rela ti vês»82.
Obviamente, as próprias populações dos senhorios eram as gran-
des vítimas dessa «decapitação» da autoridade e chegaram-nos alguns
ecos dos seus clamores: nos primeiros anos do século xvi, a Câmara
de Vila Franca, na Capitania de S. Miguel, confrontada com os graves
antagonismos do Ouvidor eclesiástico e do Corregedor, clamava ao
Monarca que mandasse para a Ilha o Capitão, ausente nas guerras de
79 FRUTUOSO, op. dt., n. 76, p. 118.
80 AP, vol. l, p. 237, carta de 20-12-1546.
81 JAIME CORTESÃO, Pauliceat Lusitana Monumenta Historiai, Lisboa, 1956-1961, I,
p. 268.
82 FRANGIS A. DUTRA, «Centraíization vs. Donatária! Privilege: Pernambuco,
1602-1630», in DAURIL ALDEN, Colonial Roots of Modern Brazil, Londres, 1973,
pp. 23-24.
158
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
África, onde prestaria melhor serviço «que nas partes de além»83.
Também a Câmara das Lages, na Capitania do Pico, escreve em 1586
ao Rei,
«nos faça mercê de mandar ao Capitão e Governador desta ilha Jerónimo
Duarte Corte-Real que nessa Corte reside, que venha cumprir com a
obrigação de seu cargo e resida nestas ilhas donde é capitão para nos re-
ger e governar porque com ele seremos conformes e estaremos prestes
para morrer em defensão desta ilha e em tudo mais no serviço de V. Ma-
jestade porque como não temos cabeça que nos reja e governe estamos
em muito perigo de sermos entrados dos luteranos»84.
Na realidade, já tempos antes, narra Gaspar Frutuoso, a propósito
da Ilha de S. Miguel,
«inspirado de Deus, El-Rei D. João III, ou vendo as coisas ao longe e te-
mendo que os luteranos corsários saqueassem esta ilha e outras, deter-
minou mandar fazer nelas alguns fortes, querendo que os capitães resi-
dissem em suas terras...»85.
Esforço baldado; mas ainda assim, a Coroa, sem que se prestasse
a tomar medidas concretas no sentido de forçar os donatários a uma
residência fixa nos seus domínios, não se coibia de lhes fazer pagar a
comodidade do afastamento. Em 1557, o Procurador da Coroa - em
pleito com Jorge de Figueiredo e Fernand'Álvares de Andrade, ambos
capitães no Brasil - para justificar a não aplicação de privilégios dos
forais aos donatários, invocava precisamente com o fundamento pri-
meiro a sua ausência do senhorio,
«... de maneira que eram moradores e povoadores desta cidade de Lisboa
e nela residiam pessoalmente e moram de dez, vinte e trinta anos a esta
parte com toda sua família, pelo que era errado dizer que eram morado-
res nem povoadores do Brasil, nem que podem gozar do foral dele e assim
fora já julgado...»86.
A administração filipina - aliás numa linha de coerente rigor para
com os donatários - procurará exigir-lhes assistência permanente e
1 FARIA E MAIA, op. dt., p. 42.
1 AÃ, vol. 4 (1882), p. 85.
1 Frutuoso, of. dt., p. 118.
[ GTT, vol. n, pp. 564-565.
159
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
efectivo contributo militar e de colonização, defendendo mesmo uma
interpretação condicente dos títulos originais de doação. Pinheiro da
Veiga, o douto Procurador da Coroa, consultado em meados de Seis-
centos sobre a validade da interpretação, não se lhe oporá mas con-
fessaria mais tarde que medidas radicais não se tomaram então
porque, chamado por duas vezes à presença do Conde de Basto, Go-
vernador de Portugal, este o procurou «persuadir a que não insistisse
em sustentar que tinham essa obrigação por razão de seu genro
Duarte de Albuquerque»87. E tão longe fora já o intento filipino que
na carta de doação da Capitania da Serra Leoa a Pedro Álvares Pereira
(1606), houve o cuidado de vincar, pela inclusão de cláusula apro-
priada, a excepcionalidade da dispensa de residência:
«... E outrossím hei por bem que o dito Pedro Álvares Pereira não
seja obrigado a ir em pessoa fazer a dita conquista e povoação, nem ele
nem seus sucessores poderão ser obrigados a residir por pouco nem por
muito tempo e somente eram obrigados a ter Capitão seu lugar-tenente
e ouvidor de partes, convenientes, que governem assim na paz como na
guerra as coisas da guerra e da justiça...»88.
Como em vários outros pontos desta matéria, a administração
pós-Restauração não se desvia da política filipina, e, aquando do
grave conflito que opôs os herdeiros dos Albuquerque Coelho à
Coroa, acusada de esbulhar indevidamente os donatários da sua Ca-
pitania89, é daquele preciso argumento que se socorre o Procurador
régio:
«... outrossim se vê das sobreditas e mais literais palavras e contextura da
mesma doação, assento e foral, nos quais se lêem multiplicadas palavras,
indutivas da obrigação da dita povoação, não só pelas pessoas dos do-
natários, mas com outros moradores seus estranhos, que para isso à sua
custa deviam pôr [...] muito mais obrigado ficou o dito Donatário ao seu
próprio facto, e a povoar e assistir por sua própria pessoa, para a qual e
as de seus sucessores aceitou...»90.
87 Biblioteca Nacional, Côa. 7627, fl. 140-140v.
88 VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século xvn», in
Lãs Ciências, Madrid, ano XI, n.° 3, s.i.d., p. 630.
89 Vide Q que sobre este pleito referimos no Capítulo II.
90 Vide a sentença (1689) que reproduzimos em apêndice na 1.* ed. deste estudo.
160
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
Por seu lado, os herdeiros dos donatários repudiavam a obrigação
da assistência pessoal
«por isso senão expressar na doação nem ser conforme às Leis deste reino
e envolver espécie de servidão contrária à liberdade natural que nas pes-
soas deles Condes AÃ. há, e ser facto notório que nem todos seus pre-
decessores donatários desta Capitania assistiram em todo o tempo nela,
vendo-o, sabendo-o, e não o contradizendo o mesmo Senhor e seus Mi-
nistros...»91.
Uma sentença de 31-8-1677 acabará por dar razão aos donatá-
rios, pois, demolindo por inteiro a argumentação tão acarinhada pela
Administração havia anos, declarará que
«parecendo-lhes (aos Autores) pedir ao dito Senhor declaração do como,
quando, e por que tempo e modo poderão deixar de por suas pessoas
assistirem, povoarem e governarem a dita Capitania, o poderão fazer...»92.
Ainda que embargada, a sentença seria confirmada por outra de
21 de Janeiro de 1712, onde expressamente se declarou que «os do-
natários da Capitania de Pernambuco não estavam obrigados a assis-
tir pessoalmente...»93.
O problema, que saibamos, não terá novamente reflexos de
maior, salvo evidentemente ao nível de uma convicção generalizada
da injustiça de uma situação que não pouco contribuirá para o acen-
tuar do processo de incorporaçãodas capitanias. A História Insulana
do Jesuíta António Cordeiro (1717), em determinadas passagens, é
disso um reflexo evidente:
«... cada Capitão Donatário é obrigado a assistir pessoalmente na
Ilha e Capitania de que é Capitão, assim como cada Castelão no seu Cas-
telo, e na sua Província cada Governador das armas dela, e que (se não
pode assistir nela) ou se lhe tife~a Capitania e se proveja em outrem que
lá assista, ou se lhe tire meia renda da dita Capitania, e esta se aplique às
mais e melhores fortalezas da Ilha, pois cada Ilha é uma perpétua fron-
91 lãem, p. 503.
92 Idem, p. 508.
93 Vide os autos do processo no Maço I da Colecção Ettg. Raul Contreiras, no
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.
161
t
O G O V E R N O DA CAPITANIA
teira que está sempre em viva guerra com quantas nações e corsários e
ainda mouros a acometem. E é contra a justiça que estando o seu Dona-
tário ausente e sem a defender, não só tenha ainda a Capitania (que a
muitos vimos tirar-se-lhe já por não residirem nela) e que, contudo,
ainda coma dela a renda...»94.
2.3. O Loco-Tenente
Assim, ausentes na generalidade os capitães dos seus territórios,
houve desde muito cedo que procurar suprir de modo eficaz essa la-
cuna que faria perigar a própria finalidade da doação. Logo, se proce-
dermos à análise da organização desses senhorios, haveremos de
constatar que na esmagadora maioria dos casos lhes preside um re-
presentante do Capitão, o «Loco-Tenente» ou «Capitão-Mor», no-
meado por ele para o preciso efeito do exercício das faculdades con-
tidas no título constitutivo.
Não é impossível que esses íoco-tenentes tenham na sua origem
remota qualquer tipo de procuradores ou meros feitores dos capitães;
pelo menos, numa carta régia de 9 de Abril de 1473 se diz que Ro-
drigo Afonso, Capitão de Santiago de Cabo Verde, «posto que por
pessoa não possa pela ocupação continuada que tem em servir o dito
meu sobrinho, ele espera de ter em a dita Ilha seu feitor e casa man-
teúda continuadamente»95.
Mas a verdade é que tão cedo quanto o ano de 1493, uma carta
de D. João II é dirigida «a vós Capitão da Ilha da Madeira ou a vossos
Loco-Tenentes, cada um em sua jurisdição»96. Também num regi-
mento manuelino sobre dadas de sesmaria se alude ao Capitão au-
sente e a «quem por ele tem o carrego»97, e, noutra doação de 1536
de uma ilha que se descobrisse ao sul da Ilha do Fogo, se referem ex-
pressamente os «capitães postos por eles», donatários. No Machico,
em 1541, pelo Capitão António da Silveira toma posse do senhorio
Diogo cíe Fragua, seu «lugar-tenente»98. No Brasil, logo em 1533, Mar-
tim Afonso de Sousa, Capitão de S. Vicente, nomeia por 1.° Loco-
94 ANTÓNIO CORDEYRO, História Insulana das Ilhas a Portugal Sugeyias no Occeano
Occidental, Lisboa Occidental, 1717.
95 SGC, I, p. 36.
96 Carta de 8-5-1493, in DP, III, p. 392.
97 AÃ, vol. 12 (1892).
98 AÃ, vol. 3 (1881).
162
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
-Tenente a Gonçalo Monteiro99, que, numa carta de sesmaria de
1536, se intitula precisamente
«Gonçalo Monteiro, Vigário e Capitão lugar-tenente pelo mui Ilustrís-
simo Senhor Martim Afonso de Sousa, Governador desta comarca e Ca-
pitania de S. Vicente, terras do Brasil, e seu procurador bastante de reger
e governar a dita Capitania»100.
Em 1596, também no Brasil, o Loco-Tenente de Pernambuco
apresenta-se solenemente como
«Pedro Homem de Castro, fidalgo da casa del-Rei nosso senhor, Capitão
e Governador Loco-Tenente nesta Capitania de Pernambuco da Nova
Lusitânia, nesta vila de Olinda, partes do Brasil, pelo muito ilustre Se-
nhor Jorge de Albuquerque Coelho, meu tio, Capitão e Governador
nesta dita Capitania por el-Rei nosso senhor, etc.»101.
A prática manter-se-á inalterada até aos últimos dias das últimas
capitanias, na obediência à realidade, manifesta em texto do século
xviii, de que «ausentando-se o Capitão-Donatário, então à sua custa
se põe seu lugar-tenente, a que chamam de Governador, e que posto
este pode o Capitão, sem prejuízo da ilha, estar ausente dela»102.
Assente a escolha e nomeação do Loco-Tenente - segundo um
processo que variou consoante as épocas e que detidamente se ana-
lisa em ponto sequente -, passava ele a exercer o seu mandato nos
termos de um autêntico negócio privado, ficando a amplitude dos po-
deres recebidos consignada desde logo no correspondente docu-
mento, outorgado com formalidades notariais, e de onde ressuma,
em termos mais ou menos extensos, a preocupação primacial de fa-
cultar ao Loco-Tenente os meios de administrar o senhorio sem re-
curso ao seu Capitão, salvo, evidentemente, aqueles casos onde o
agreement donatarial se tornava indispensável. As mais das vezes, o
Capitão nomeava um procurador com poderes latos para o represen-
tar, inclusive o encargo básico de tomar posse da Donatária, como o
fez o «procurador» Manuel da Mota Botelho perante os oficiais ré-
gios, «cavando a terra com a enxada e roçando com uma foice», em
99 TAPAJÓS, op. aí., pp. 57-58.
100 PEDRO TACQUES, op. cit., p. 160.
101 AP, vol. 2, p. 26.
102 FRUTUOSO, As Saudades da Terra..., p. 515.
163
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
Dezembro de 1646 na Capitania de Caeté, «em nome do seu consti-
tuinte, Álvaro de Sousa»103.
Este tipo de preocupações podia estender-se também à escolha
do Loco-Tenente e Ouvidor, cargos que esse mesmo procurador aca-
bava por chamar a si. Em 1557, por exemplo, D. Isabel de Gamboa,
tutora do Donatário de S. Vicente, no Brasil, nomeia em Lisboa como
«seu procurador bastante a António Rodrigues de Almeida, cavaíeiro-íi-
dalgo da Casa de El-Rei nosso Senhor, que ora volta para S. Vicente, o
amostrador deste instrumento, e lhe deu seu poder cumprido e mandado
especial para que por ela e em seu nome e do dito seu filho, possa lhe
aprouver que todas as pessoas que tenham e quaisquer coisas que as vão
povoar, beneficiar, aproveitar e reedificar conforme as ordens, ele Antó-
nio Rodrigues de Almeida possa dar as tais terras, águas e coisas sobre-
ditas de sesmaria a quem lhe aprouver isso mesmo; e lhe dá poder para
que possa dar quaisquer outras terras do dito seu filho em a dita Capita-
nia de Sto. Amaro de Guaibé, conforme as ordens das sesmarias, e das
terras que lhe aprouver comedidamente lhe fará cartas de sesmarias,
e possa pôr na dita Capitania Capitão Ouvidor, tais quais devam ser, e
querendo ele dito António Rodrigues de Almeida ser Capitão e Ouvidor,
por esta presente lhe dá poder de Capitão e Ouvidor para que em nome
do dito seu filho seja todo o tempo que lhe aprouver e a ela Senhora lhe
bem parecer; e manda que lhe obedeçam no alto e no baixo, e assim ao
Capitão-Ouvidor que ele António Rodrigues de Almeida ordenar, tirar a
um e pôr a outros quando justo e razão lhe parecer, e que possa receber
ele António Rodrigues de Almeida todas as redízimas e rendas que per-
tencerem ao dito seu filho por foral e doação [...] e possa citar e deman-
dar a quem lhe aprouver, em juízo e fora dele alegar, defender [...]. E as-
sim de outras quaisquer coisas, artilharias e munições, de tudo tomará
conta e razão, e dará conhecimento e quitações do que receber. E dá po-
der ao dito António Rodrigues de Almeida que como Capitão possa fa-
zer e faça tabeliães do público e do judicial e dos órfãos e da Câmara e
do Ouvidor, e lhe dará os seus assinados, com declaração de se virem
confirmar por ela Senhora em certo tempo que lhes será limitado, para
ela Senhora lhes mandar passar carta em forma, selada com o selo do
dito seu filho...»104.
103 O auto de posse da Capitania de Caeté, datado de 15- 12-1646, está no Livro
da fazenda da Capitania do Cayeté, Cod. l da Colecção Vidigueira da Sociedade de Geo-
grafia, Lisboa, a ff. 112-113.
M PEDRO TACQUES, op. cit., pp. 157-158.
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
Este António Rodrigues de Almeida viria efectivamente a ser Ca-
pitão e Ouvidor de S. Vicente305. O sistema de procurações deste tipo
generalizou-se e encontramo-lo, por exemplo, já no século xvill, na
Capitania da Paraíba do Sul106. Na Capitania de Caeté, tambémno
Brasil, a situação foi diferente. O Regimento dos Almoxarifes desse
senhorio, datado de meados do século XVII, dá-nos a entender que o
estabelecimento da máquina governativa da Capitania à data da sua
fundação foi entregue a um denominado «administrador» que tam-
bém acumulava o cargo de Almoxarife, e a quem, para lá dos múlti-
plos encargos de administração da fazenda senhorial, cabiam tam-
bém outras funções presas à nomeação de oficiais de justiça e
governo que poderíamos chamar «civil»107. Mas a natureza dos pró-
prios domínios acabaria por condicionar os intuitos e o âmbito dos
poderes delegados: o Conde de Sta. Cruz, Senhor das Ilhas de Sto.
Antão de Cabo Verde, subscreve em 1740 uma carta pela qual
«faço saber aos meus vassalos e escravos que tenho nomeado de Capi-
tão-Mor e Ouvidor da dita Ilha de Sto. Antão a Francisco da Lima e Melo
por concorrerem nele os requisitos necessários; hei por bem de declarar
que o dito Capitão-Mor possa administrar e significar minha fazenda que
tenho na dita minha ilha, assim de gado, escravos, como de tudo mais
que houver, embarcando e desembarcando na embarcação que por meu
mandado a ela for, como também em outras embarcações da mesma ilha
para onde tiver conveniência e utilidade da minha fazenda, e tudo mais
que eu lhe mandar por minha ordem ou da pessoa que meu poder tiver;
e ordeno a todos na dita ilha moradores, assim eclesiásticos como secu-
lares, conheçam e estimem ao dito Francisco de Lima como meu Ouvidor
e Capitão-Mor e administrador da dita Ilha...»108.
Situação curiosa e - ainda que rara - a merecer alguma atenção é
a da hipótese das livrps sub-delegações dos poderes por parte dos
164
105 Idem, ibidem.
106 ALBERTO LAMECO, vol. n, pp. 257-258.
107 Vide o Livro da fazenda da Capitania do Cayeté, Cod. l da Colecção Vidigueira
da Sociedade de Geografia, Lisboa, ff. 74-78: «Ordem que o Capitão João Vasco de
Mattos meu almoxarife e administrador na Capitania de Caeté, partes do Maranhão
ha-de seguir na cobrança e administração da minha fazenda e jurisdição de que ha-de
uzar conforme ao poder que feva, e aqui se lhe dá e na sua absencia observa o memo
o escrivão do almoxarifado João de Herrera da Fonseca e os mais almoxarifes e admi-
nistradores que eu mandar.»
108 SCC, II, p. 281.
165
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
loco-tenentes, num segundo tenente. As cartas de doação ou a legisla-
ção são omissas nesse ponto e Cabedo mostrou-se francamente hos-
til a essa hipótese: «Locuumtenens non potest alium in eius locuum
subrogare sine licentia Príncipis.»109 Mas a verdade é que já em Per-
nambuco notou Francis Dutra que os loco-tenentes, ausentes em
campanhas militares ou de expansão colonizadora, nomeavam e de-
legavam poderes noutros, sem que isso implicasse necessariamente a
escolha do Donatário, e, escreve, «às vezes estes Loco-Tenentes de
Loco-Tenentes serviram por curto período que variava de semanas ou
meses»110.
Outro aspecto a notar é o das remunerações: pela própria natu-
reza privada de cargo, a sua retribuição, em princípio, corria por conta
do Donatário. Mas a verdade é que os regimes terão variado muito de
Capitania para Capitania. Já na Capitania da Praia o cargo - que pe-
ríodos andou ora junto ora separado do de Ouvidor- «nem junto nem
afastado teve ordenado»111. E na Ilha do Príncipe, segundo Cunha
Matos, os capitães-tenentes dos donatários eram
«em tudo subordinados aos governadores de S. Tomé e por eles providos
quando vagavam os nomeados por Sua Majestade»112. Não tinham or-
denado, mas segundo o mesmo autor, eram obrigados «a pagar aos Con-
des Donatários uma pensão anual de 400 mil reis, e a administrar-lhes as
suas fazendas da mesma Ilha, e além disto ainda tinham cuidado de lhes
remeterem escravos para o seu serviço, e lenha quando se oferecia a
oportunidade»113.
Tudo visto, e como já o demonstrou Guilarte para os senhorios
castelhanos114, também nas capitanias a actividade dos loco-tenentes
se reportava, assim, a três objectivos essenciais: o exercício da juris-
109 JORGE DE CABEDO, Praticorum Observationum seu Dedsionem Supremt Lusitaniae
Senatus, Lisboa, 1604, p. 51.
110 FRANGIS A. DUTRA, «Notas sobre a vida e morte de Jorge de Albuquerque
Coelho e a tutela de seus filhos», in Studia, n.° 37, Dezembro de 1973, p. 273.
111 ANTÓNIO FERREIRA DE SERPA, Dois inéditos acerca das Ilhas do Faial, Pico, Flores e
Corvo: Saudades da Terra (Século XVI) por Gaspar Frutuoso e Espelho Cristalino ou jardim
de várias flores (Século XVII) por Frei Diogo das Chagas Com uma introdução e anotações
de(...), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921, p. 132.
113 RAYMUNDO JOSÉ DA CUNHA MATOS, Chorographia Histórica das Ilhas de S: Thomé
e Príncipe, Ano Bom e Fernando Pó, S. Tomé, Imprensa Nacional, 1905.
113 Idem, ibídem.
114 GUILARTE, op. cit., p. 84.
166
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
dição na justa medida em que fora transferida da Coroa para o Capi-
tão pelo título de doação, a manutenção da ordem pública, com po-
der de punir ou providenciar a punição dos contraventores da ordem
pública, e a supremacia sobre os órgãos concelhios, nos termos em
que o Donatário a pôde efectivamente invocar. Loco-Tenentes e Ou-
vidores preenchiam assim por completo o «imperium» dos capitães
nos seus senhorios, pelas duplas atribuições do governo «civil» e de
«justiça», numa fórmula muitas vezes reforçada pela acumulação dos
dois cargos na mesma pessoa, o que mais detidamente se verá
quando tratarmos da figura do Ouvidor. Num documento de 1540,
António de Oliveira intitula-se assim «Capitão Loco-Tenente pelo se-
nhor Martim Afonso de Sousa Governador desta Capitania de S. Vi-
cente em a Costa do Brasil e seu Ouvidor com alçada»115.
Calcula-se com facilidade a dimensão do poder alcançado nas ca-
pitanias pelo controlo destes cargos. Em termos tais que na causa cé-
lebre que nos finais do século xvil opôs a Marquesa de Castelo Me-
lhor ao Juiz de Fora do Funchal, este acusava o procurador da
Donatária e Tenente da Ilha que, «como o seu filho era o Ouvidor, que-
ria com largo império ocupar o tridente de dois mares, governar as ar-
mas e as letras»116. Em 1670, a própria Câmara de Itanhaem, no Bra-
sil, intimava o Capitão-Mor a desacumular o cargo de Ouvidor,
«considerando o seu poder excessivo uma ameaça às liberdades mu-
nicipais»117.
As crónicas e os documentos estão cheios, aliás, de referências às
inevitáveis prepotências praticadas pelos loco-tenentes: violência, ex-
torsões e incompetência são acusações frequentes. A correspondência
dos primeiros governado ré s-g e rã is do Brasil é pródiga em queixas
dessi teor; nos Açores e na Madeira os conflitos são permanentes,
comojse pode ver em Gaspar Frutuoso; a Razão do Estado do Brasil, na
primeira década do século XVII, assevera que nas capitanias de donatá-
rios «nunca se encontra pessoa respeitável no governo, o que não su-
cede donde servem capitães do dito Senhor»118, e no Espírito Santo,
em 1718, logo no início do seu governo do Brasil, o Conde de Vimieiro
é forçado a dirigir uma severa reprimenda ao Capitão-Mor, tendo no-
115 DBN, vol. 13, p. 202.
116 DP, I, pp. 229-230.
117 EULÁLIA LAHMEYER LOBO, Administração Colonial Luso-Espanhola nas Amérícas,
Rio de Janeiro, Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1952, p. 298.
118 Vide ENGEL SLUITER, «Report on the State of Brazil, 1612», in The Hisyanic
American Histórica! Review, Novembro de 1949, pp. 518-562.
167
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
tícia das «violentas opressões que padeciam os moradores»119. Os ca-
sos extremos dos distúrbios da Capitania da Paraíba do Sul ou do Se-
nhorio de Sto. Antão, deixam ver a que ponto chegavam, já nos mea-
dos do século XVIII, os arbítrios desses verdadeiros potentados em
terras longínquas120. Não admira assim que em 1709 o Conselho Ul-
tramarino aludisse à necessidade de nas capitanias recuperadas para a
Coroa se nomear para o posto de Capitão-Mor «pessoa, de maior su-
posição do que escolhem os donatários, que são uns feitores seus, sem
graduação de serviços para acudirem a suadefesa»121.
E finalmente, já em 1751, nas próprias vésperas das incorpora-
ções pombalinas, o mesmo órgão alude genericamente às «vexações
que este capitães propostos pelos donatários fazem aos povos, por
contemplação de quem os propõe»122.
A Coroa não era alheia a estes desmandos e são frequentes as pu-
nições, decorrentes dos mecanismos de controlo da sua actividade.
Uns, inerentes à normal actividade das «correições» régias; outros,
próprios ou adstritos à natureza do cargo e extensíveis, como vere-
mos, à figura do Ouvidor. Relembremos primeiro a fixação da dura-
ção do cargo em três anos, prática comummente aceite na generali-
dade das capitanias e que cremos estabelecida em função da mesma
duração do exercício do cargo de Ouvidor, este fixado por lei123. No-
temos depois que, também como esse, o Loco-Tenente estava sujeito
a um «juízo de residência», ou devassa à actuação finda124. No Brasil
impunha-o o Regimento da Relação (1609), ao ordenar que
«o Governador mandará tomar residência cada três anos aos Ouvidores
das capitanias e aos capitães e pessoas que servirem em seu lugar, por
um Desembargador da Relação que para isso escolher, de satisfação,
conforme à Ordenação e ao Regimento novo»125.
E que a prática era seguida e com algum sucesso prova-o a «re-
presentação» que os povos brasileiros, nos princípios do séc. xvii, fi-
119 Carta de 15 de Set. de 1718, in DBN, vol. 43, p. 133.
120 ALBERTO LAMECO, op. cit., yassim, e SGC, parte II.
121ID, vol. 6, p. 320 (consulta de 4-3-1709).
mlàem, p. 144.
123 Vide o nosso Capítulo V ponto 3.
124 lâtm, ibidem.
125 CÂNDIDO MENDES DE ALMEIDA, Auxiliar Jurídico servindo de Appendice à Décima
Quarta Edição do Código Philippino, etc., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkían, 1985,
Kl. l, p. 607.
168
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
zeram em Lisboa a propósito da proposta da extinção do Tribunal da
Relação da Baía, alegando que «se um Capitão-Mor com um pobre
ordenado ainda que receoso da residência de um Desembargador
ajunta em três anos 18 a 20 mil cruzados que fará esquecido
dela...»126.
A prática manteve-se e mesmo com carácter de excepcionali-
dade: em Outubro de 1618, com respeito às «entradas» e «resgates» de
gentios no interior das capitanias, o Governador-Geral Gaspar de
Sousa
«mandava, ao Desembargador Antão de Mesquita de Oliveira, Desem-
bargador dos Agravos da Relação do Sul, que na de S. Vicente tirasse re-
sidência aos capitães que haviam servido nos dez anos precedentes, per-
guntando especialmente sobre matérias do sertão pelo escândalo e
devassidão que delas tinham resultado..,»127.
Já também em 1719o Governador do Rio, Luís Vahia Monteiro,
expunha que
«tem este governo ordens particulares que, sem ofender as doações, lhe
mandam tirar residências aos Capitães-Mores nas terras dos donatários,
acabados os três anos que devem servir...»128.
Frequentemente nem se aguardava o termo de «residência» e há
notícia de vários loco-tenentes destituídos em pleno desempenho dos
seus cargos. O 1.° Governador-Geral do Brasil, Tomé de Sousa, escre-
via em Junho de 1553 ao Rei, clamando pela assistência pessoal dos
donatários,
«e quando isto não for por alguns justos respeitos, ponham pessoas de
que Vossa Alteza seja contente porque os que agora servem de capitães
não os conhece a mãe que os pariu e eu agora tirei um da Capitania de
Ilhéus...»129.
Em 1550, em Cabo Verde, a situação acarretaria consequências
ainda mais graves: lá, até ao século xvi, segundo Senna Barcelos, as
126 Biblioteca Nacional de Lisboa, Colecção Pombalina, n.° 647, foi. 70.
127 Documento sobre a Capitania de S. Vicente, pp. 183-184.
128 ALBERTO LAMEGO, op. ch., p. 304.
12!ljAJME CORTESÃO, op. cit., vol. l, pp. 268-269.
169
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
nomeações de capitães recaíam em indivíduos da escolha dos dona-
tários, como lhes prescrevia o regimento, tendo porém a confirmação
régia130. No entanto, dados os despotismos de João Correia de Sousa,
irmão e Loco-Tenente do Donatário, o Rei exonerou-o, retirando por
último «o privilégio ao Donatário da Ribeira Grande de nomear Ca-
pitão da sua confiança, e passou a nomeá-los com o simples título de
capitães, desempenhando ainda as funções de Corregedor, Contador
e Provedor dos defuntos e ausentes, dando-lhes regimento, exi-
gindo-lhes juramento, e estipulando-lhes o ordenado de 300$000 réis
anuais»131.
Noutros casos, entidades que não o Donatário impõem a no-
meação do Capitão: por um alvará de 18 de Março de 1566, e pre-
sentes razões de cunho eminentemente militar, o Rei nomeia Capitão
de Angra ao Corregedor dos Açores, dado o Capitão da Terceira «não
poder ir ao presente à dita Ilha»132, e na mesma época e na ausência
de Antão Homem, Capitão da Praia, é eleito pela Câmara para o subs-
tituir Francisco de Castro133. No termo de um processo mais violento,
nos finais do século xvi, o Governador, D. Francisco de Sousa, man-
dando devassar a conduta do Loco-Tenente Jorge Correia a pedido
das Câmaras de S. Vicente e de Santos, suspende-o das funções,
chama-o perante si e nomeia-lhe um substituto, Jorge Pereira de
Sousa134.
2.4. O Processo de Nomeação
dos Loco-Tenentes
Face ao que dito fica - nomeadamente a degradação administra-
tiva acarretada pelo sistema de governação indirecta dos capitães e a
progressiva centralização ou tendencial reforço do poder real no go-
verno ultramarino - importa tratar, enfim, uma questão indissociável
do âmbito das relações estabelecidas entre os donatários e a Coroa: a
da escolhia e nomeação dos lugar-tenentes, questão manifesta no con-
turbado processo de transição do sistema de pura «dada» de o/fícío
pelo Capitão, em vigor na generalidade e nos primórdios de cada Ca-
130 SGC, parte l, pp. 128-129.
131 Idem, p. 137.
133 FRANCISCO FERREIRA DRUMMOND, Annaes da Ilha Terceira, pp. 620-621.
133 Idem, ibiáem.
134 RSP, vol. i, p. 74.
170
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
pitania, para uma prática de simples «apresentação» donatarial, mera
designação sujeita a confirmação final do Rei. Se bem que devido a
um conjunto particular de circunstâncias a mudança de um para ou-
tro sistema seja só consagrado após a Restauração, a verdade é que re-
monta já à primeira geração dos donatários brasileiros o encoraja-
mento a que os monarcas tomassem em mãos - em caso de ausência
dos capitães - o controlo do processo de escolha e nomeação dos
loco-tenentes. Em 1533, o primeiro Governado r-Geral, Tomé de
Sousa, escrevia da Baía ao Rei, conjurando-o a que ordenasse
«que os Capitães próprios residam em suas capitanias. E quando isto não
for, por alguns justos respeitos, ponham pessoas de que Vossa Alteza
seja contente porque os que agora servem de capitães não os conhece a
mãe que os pariu...»135.
A queixa do Governador não era nova:
«Por muitas vezes tenho escrito a Vossa Alteza que mande a estas
partes até dez criados seus e que sejam homens que tenham alguma
obrigação à honra para servirem nas Capitanias de oficiais de sua fa-
zenda e de Capitães...»136
Também o Governador Mem de Sá, em carta de 1560 ao Mo-
narca, reiterava o que já dissera noutra do ano anterior:
«... o quão necessário era pôr nestas Capitanias Capitães honrados e
de boa consciência [...] Agora o vi quando corri a costa. Porto Seguro está
para se despovoar por causa do Capitão. Os Ilhéus se eu não lhe acudira
houvera-se de perder e haveriam de matar o Capitão. No Espírito Santo
estão três filhos de Vasco Fernandes Coutinho, moços sem barbas, e to-
dos são capitães. Os de S. Vicente estão quase levantados. Se Vossa Al-
teza quer o Brasil povoado é necessário ter outra ordem nos capi-
tães...»137
O problema só tarde, porém, teria a solução que, pelo menos ofi-
cialmente, tendia a colocar sob a alçada régia o sistema de nomeação
dos tenentes dos donatários. Efectivamente, reza certidão do Conse-
135 JAIME CORTESÃO, op. cit., vol. i, p. 286.
136 Idem, ibtdem.
137 ídem, ibidem.
171
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
lho Ultramarino de 23 de Outubro de 1677, pedida à Secretariadesse
órgão pelo Marquês de Cascais, Capitão de S. Vicente, que
«os Donatários das Capitanias das terras do Estado do Brasil antes da res-
tituição destes Reinos à Majestade do Senhor Rei D. João IV, que Santa
Glória haja, nomeavam em virtude de suas doações seus Loco-Tenentes
que por eles servissem nas ditas Capitanias. E por conveniência de ser-
viço e outras razões particulares que o moveram mandou por resolução
do 1.° de Fevereiro de 1649 que os ditos Donatários das tais Capitanias
nomeassem três sujeitos, apresentando a nomeação no Conselho Ultra-
marino donde por consulta subia a S. Majestade que aprovava um dos
ditos sujeitos e sempre era o que ia em primeiro lugar, por serem estes
os mais capazes, e em virtude da dita nomeação se lhe passava patente
assinada pela mão real e o Capitão nomeado dava homenagem na forma
do estilo, o que desde então até o presente se observa»138.
Afortunadamente, tivemos oportunidade de localizar a frequen-
temente invocada resolução régia de 1649, podendo reconstruir-se a
sequência dos factos que directamente a antecederam. Em 1647, D.
Filipa de Menezes, mãe e tutora de António Luís Gonçalves da Câ-
mara, menor herdeiro da Capitania do Espírito Santo, solicitou a
El-Rei, no estilo usado na Donatária, o reconhecimento do Loco-Te-
nente escolhido, Francisco de Barros139. Todavia, essa prática mera-
mente burocrática estava em vias de sofrer importantes alterações por
força das circunstâncias políticas e militares do reino recém-restau-
rado. Aliás, já em finais do ano de 1645, sob a tensão das hostilidades
dos holandeses no Brasil, o Monarca se viu forçado a limitar a capa-
cidade de provimento dos capitães, que era aceite competir por in-
teiro aos donatários. Em 22 de Novembro desse ano escrevia ao Mar-
quês de Cascais, Capitão de Itamaracá que
«pela pouca segurança que se pode ter dos inimigos desta-Coroa e ser
conveniente a meu serviço que nos portos de mar estejam pessoas de va-
lor e de experiência de guerra, vos encomendo muito pelas razões apon- /
tadas, não mandeis Capitão por esta vez à Capitania de S. Paulo e S. Vi- \e de que sois Donatário, sem primeiro me dardes conta da pessoa
que ocupar naquele posto, avisando-me também qual é a que de pre-
sente está nele»140.
138 PP, £61. 414.
139 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Rio de Janeiro, doe. de 26-11-1648.
140 PP, n.° 37.
172
Carta de igual teor fora também enviada sete dias antes a Antó-
nio de Aguiar Coutinho, Capitão do Espírito Santo141, deixando adi-
vinhar uma iniciativa que, cremos, se estendeu, pelo menos, a todos
os donatários brasileiros. Daí que, baixando o requerimento de D. Fi-
lipa de Menezes ao Conselho Ultramarino, este inovasse, exigindo da
requerente o fundamento daquela alegada fórmula de nomeação. In-
vocou, surpreendida, D. Filipa a prática inalterada dos antecessores, e,
«dando-se fé de suas doações, certidões e mais papéis vista ao Procura-
dor da Coroa, respondeu sem dúvida vendo serem largas e amplas de
juro e herdade, fora da Lei Mental, e como nomeavam sempre de tempo
imemorial até ao presente em sua ausência os donatários e S. Majestade
a muitos aprovou como fez ao Marquês de Cascais em 1637 para a Ca-
pitania de S. Vicente e S. Paulo de que é Donatário...».
O Conselho acabaria, em decisão de 16 de Outubro de 1648, por
aprovar a pretensão de D. Filipa,
«visto o dito exemplo e a posse em que o Donatário passado estava de
nomear Capitão e de V.M. lho aprovar, e a forma de suas doações que
são mui amplas e com grande jurisdição para muitas coisas».
Porém, dando-se de tudo vista ao jurisconsulto Dr. Tomé Pi-
nheiro da Veiga, seria ele de muito diverso parecer, pois, além de não
vislumbrar tal faculdade nas cartas de doação, relembrava que em ca-
sos de menoridade ou ausência do Donatário, era ao Monarca que
competia nomear Capitão que preenchesse o lugar até ser superado o
impedimento, casos já sucedidos na Ilha de S. Miguel, na Terceira, na
Madeira, na Capitania de Ceuta, e, como veremos, na própria Capi-
tania de Pernambuco, uma vintena de anos antes142.
Deste modo, dizia Veiga, se era indiscutível a admissibilidade da
nomeação donatarial de procuradores para
«cobrar seus direitos e rendas por seu procurador em seu lugar, e toda a
jurisdição de data de ofícios e a jurisdição contenciosa de justiça por seus
ouvidores que tem tido o poder do Donatário, como os mais do Reino e
Capitães das Ilhas»143,
MI PP, n.° 38.
142 Vide os pareceres de Pinheiro da Veiga, no Côa. 762J da Biblioteca Nacional
de Lisboa, fóls. 52-56.
143 Idetn, ibidem.
173
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
•
•
é
tal se não entendia em cargos de responsabilidade e essencial ca-
rácter militar. Os exemplos alegados pela requerente tinha-os o ilus-
tre jurista como puras e pontuais concessões, mais da régia benevo-
lência que de imperativas obrigações decorrentes de cartas de
privilégio, concessões essas que, excepcional e sem exemplo, se lhe
podiam repetir no caso vertente144. No Conselho Ultramarino, onde
o assunto retomou, considerar-se-ia salomonicamente ao Monarca
que os donatários
«devem propor e nomear a V. Majestade pessoa de satisfação, e que
vindo a V. Majestade notícia da tal pessoa lhe deve mandar passar carta
patente em que declare que a nomeação do Donatário prouve a VM. a
fulano e - que pela tal Capitania lhe fará preito a menagem na forma cos-
tumada, com que os Donatários ficam com o que lhes pode tocar, V. Ma-
jestade conservado na jurisdição e soberania, e a praça conveniente-
mente provida».
A resolução régia que aprovou esta última opinião é a supra, refe-
renciada do dia l de Fevereiro de 1649, consagrando-se sequente-
mente a forma da tríplice proposta nominal, acompanhado cada
nome do «serviços, partes e qualidades que para o tal cargo se reque-
rem»145, e acabando o Conselho por respeitar invariavelmente o
nome com que o Donatário fazia encabeçar a lista. Isto é - à parte a
exigibilidade de um mínimo de experiência militar que as circunstân-
cias pós-Restauração impunham -, mais do que colocar os territórios
sob o controlo de funcionários da Coroa, a decisão de 1649 constitui,
em nosso entender, uma medida de carácter mais «doutrinário» que
prático, visando deixar bem vincada na estrutura senhorial de go-
verno das capitanias a afirmação da soberania do recém-aclamado D.
João de Bragança.
Mas, mau grado a nada aludir a documentação que vimos ci-
tando, a verdade é que o sistema de apresentação de uma lista trino-
minal tinha antecedentes pontuais, e talvez de maior significado, pois
que a prática parece ter sido inaugurada precisamente na mais prós-
pera Capitania hereditária do Brasil, e, num período de guerra, a mais
merecedora do desvelo real: a de Pernambuco. Ao que depreende-
mos, o valor estratégico do senhorio forçava a administração filipína
a não descurar o provimento de um cargo tão importante como o de
144 Idem, ibidem.
145 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. S. Paulo, n. 18, doe. de 6-8-1653.
174
Capitão-Mor. E a fim de não violar abruptamente os privilégios dos
donatários terá invocado uma faculdade que ao Rei assistia noutras
capitanias, que não expressamente nas do Brasil: a já referida possibi-
lidade de, em casos de menoridade ou ausência do Donatário, poder
nomear a Coroa um Capitão que o impedimento suprisse. Relem-
bre-se que, com efeito, ainda em Outubro de 1636 o Rei Filipe III no-
mearia com esse cargo para os Açores Nuno Pereira Freire, presente
exposição da Vice-Rainha Duquesa de Mântua, a que fizera juntar
uma lista de pessoas «para escolher a que há de ficar governado a Ilha
de S. Miguel em ausência do Conde de Vila Franca», que antes solici-
tara régia licença para se ausentar da ilha «para se vir curar»146. Assim,
poderia o anónimo autor da Relação das Capitanias do Brasil - escrita
nos anos derradeiros do século XVI - referir que em Pernambuco
«o Capitão-Mor e Governador desta capitania é posto por Sua Majestade
em ausência do senhor dela que é um filho de Duarte Coelho de Albu-
querque [Jorgede Albuquerque] o qual apresenta e Sua Majestade esco-
lhe...»147.
Depois, quando este Jorge de Albuquerque Coelho morreu, dei-
xaria no testamento três nomes apontados para a escolha régia. Ape-
sar de o novo Donatário, Duarte de Albuquerque, ser menor e en-
contrar-se sob tutela, a vontade do Capitão antecedente seria
respeitada, provendo El-Rei no cargo, por carta de 9 de Outubro de
1602, a Alexandre de Moura, um dos nomes sugeridos, «enquanto
durar a menoridade e ausência do dito Capitão proprietário»148.
A Coroa, porém, não seria bastante este triunfo relevante sobre a
autonomia dcíS-donatários de Pernambuco. Esbatendo por completo
a faculdade que lhes assistia desde 1534, os Reis Áustrias acabariam
por chamar por inteiro a si a iniciativa de qualquer escolha. E assim,
quando em 1615 Filipe II, unilateralmente, escolhe e nomeia Vasco
Pacheco Capitão-Mor de Pernambuco149, o Donatário não deixou de
sentir a afronta, embargando a nomeação com o fundamento de que,
no mínimo, e como a seu pai, lhe assistia a faculdade «de haver de no-
mear pessoas das quais eu [Rei] escolha uma que sirva em sua ausên-
146 Biblioteca da Ajuda, Correspondência de El-Rei Filipe Hl, foi. 76.
47 «Relação das Capitanias do Brasil», in Relações do Descobrimento da Costa da
Guiné, Biblioteca da Ajuda, cód. 51-IX-25, fóls. 134-135v.
148 Arquivo Nacional, Chancelaria de Filipe III, L. 10, fóls. 196-197.
149 Vide FRANGIS A. DUTRA, Centralization..., p. 34.
175
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
cia»150. Sem sucesso, aliás, pois a nomeação de Pacheco iria avante,
sucedendo-lhe outra de Martim de Sousa de Sampaio (1616) «por
tempo de três anos na vagante da pessoa que está provido dela»151. Só
em 1627, a pedido expresso do Capitão-Donatário e invocação dos
seus serviços, o Rei anuiria a retomar o sistema de apresentação da
lista dos três nomes para o cargo, e ainda assim «com declaração que
querendo eu [Rei] prover de Capitão a mesma Capitania o poderei fa-
zer em todo o tempo que me parecer, ainda que a pessoa que estiver
naquele cargo seja dos nomeados por ele»152.
Nem mesmo a igualmente brasileira Capitania de S. Vicente se
furtaria ao amplexo da administração filipina: aí veremos que em
1630 foi necessário por ordem do Governador fazer presente ao Ou-
vidor-Geral uma provisão de nomeação do Capitão-Mor da Donatá-
ria Condessa do Vimieiro a fim de verificar se haveria «alguma dili-
gência que fazer nesta apresentação para conservação da jurisdição
real em seu parecer»153. A opinião do magistrado seria, porém, a con-
tradição nítida da interpretação fiíipina, entendendo categoricamente
«impor Capitão e Ouvidor e os mais Ministros e Oficiais de Justiça, sem
mais outra confirmação que a sua e que todos se nomearão pelo Dona-
tário com mais outros muitos privilégios e liberdades, em razão^do^que
parece não pode duvidar da dita nomeação»154.
Ficamos convictos de que mesmo a inovação imposta aos dona-
tários de Pernambuco não terá vingado pela debilidade intrínseca da
sua fundamentação. Haveria que esperar pela Restauração para, atra-
vés do sistema oficializado das listas de propostos, ver concretizado
com solidez o empenho centralizador. Podemos, efectivamente e sem
sombra de dúvida, afirmar que esta prática de nomeação imposta
pelo Gabinete do Rei Restaurador firmar-se-ia, até morrer com as úl-
timas capitanias, já na 2.a metade do século XVIII. Assim, se a provisão
régia tem a data de l de Fevereiro de 1649, logo em Agosto do mesmo
ano, Manuel Pereira Lobo, Loco-Tenente do Donatário de S. Vicente,
intitular-se-á num diploma
150 Arquivo de Simancas (Espanha), Secretarias Provinciales, L. 1511, foi. 282.
151 DUTRA, op. loc. dt.
152 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria dt Filipe III, foi. 20v. (c. de
22-8-1627).
153 DBN, voí. 15, p. 375 (provisão de 11-6-1630).
154 Idem, ibiâem.
176
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
«Capitão, Alcaide-Mor e Governador desta Capitania de S. Vicente por
apresentação do Conde de Monsanto Marquês de Cascais, Donatário
perpétuo dela por Sua Majestade, e confirmado pelo dito, Senhor»155.
Em 1653, o Marquês de Cascais remeteria ao Conselho Ultrama-
rino,
«na forma das ordens de S.M. a nomeação que fez do cargo de Capi-
tão-Mor da dita Capitania em Gonçalo Couraça de Mesquita, Martinho
da Silva e Filipe Jacques de Oliveira, por em todos dizer que concorrem
os serviços, partes e qualidades que para o tal cargo se requerem»156.
Ordenando o Conselho que os nomeados apresentassem os «pa-
péis de seus serviços para se poder acertar no provimento»157, só o
primeiro, Gonçalo de Mesquita, o faria. Em consulta de 6 de Agosto
de 1653 ao Conselho pareceria então
«dar conta a Vossa Majestade das pessoas que o Marquês de Cascais (na
forma das ordens de V. Majestade) propõe para a Capitania de que é Do-
natário. E que por no primeiro proposto (que somente ofereceu seus pa-
péis) concorrerem serviços, merecimento e valor, será justo que V.M. o
aprove e lhe mande passar patente na forma costumada»158.
E como não? O Marquês Donatário dera prova de tacto na esco-
lha do seu lugar-tenente: Couraça de Mesquita, militar de carreira,
servia a Coroa desde 1637 nos postos de soldado, alferes e ajudante,
quer no Rio de Janeiro quer sobretudo no Reino, em muitas das bata-
lhas da Restauração159. O acordo real seguiu com brevidade o parecer
do Conselho, e, uma escassa semana decorrida, em 28 do mesmo
mês, passou-se-lhe a carta patente. Finalmente, no dia 24 de Setem-
bro, no paço da Ribeira, perante o Monteiro-Mor, o Secretário de Es-
tado Pedro Vieira da Silva e D. Jorge de Almeida, o Capitão Gonçalo
Couraça, nas «reais mãos» de D. João IV, prestava «preito e homena-
gem, e juramento costumado que pela dita Capitania é costume des-
155 RSP, vol. n, p.
156 Vide JAIME CORTESÃO, Pauliceae..., vol. II, pp. 406-407.
157 Idem, p. 406.
158 Idem, p. 407.
159 Idem, ihidem.
177
l
é
4
í
l
í
i
i
i
<
l
é
ídH
i
H• '
c
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
tes Reinos»160. De partida para o Brasil, o Donatário Marquês de Cas-
cais, à patente de Mesquita Faria juntar uma importante procuração
tendente ao cabal desempenho do seu cargo, concedendo-lhe varia-
das faculdades, entre as quais cobrar «direitos, foros, pertenças, alca-
valas, quintos, passagens de barca e tudo mais que a mim pertence
por bem de minhas doações e forais», poder demandar todas e quais-
quer pessoas que fossem devedoras de direitos aos donatários, bem
como seguir-lhes a alçada «até mor alçada», podendo substabelecer
por procura livremente revogável. Além disso, cabendo-lhe avisar o
Donatário das vacaturas de ofícios da Capitania, permitia-se-lhe du-
rante a espera do provimento, preencher os ofícios vagos161.
Quase invariavelmente era este o necessário expediente a que os
capitães, na Corte, tinham agora que recorrer a fim de suprir de um
modo legal e eficaz as ausências quase gerais nos longínquos territó-
rios das capitanias ultramarinas. A prática imposta encontrá-la-emos
manifesta também nas petições de confirmação dos loco-tenentes,
como a do dito Marquês de Cascais para a da Capitania de S. Vicente
em 1664162, a da Condessa da Ilha (1660)163 ou a do Conde seu filho
em 1684164, ambas para a Capitania de Itanhaem, no Brasil165. Na Ca-
pitania da Paraíba, concedida aos herdeiros de Salvador Correia de Sá,
foi esse também o sistema seguido no final do próprio ano da con-
cessão (1674)166. Documentação por nós consultada prova-nos tam-
bém que em 1676 e 1677 assim se continuava a proceder nas capita-
nias brasileiras do Espírito Santo e Ilha\Grande de Joanes167. Num
códice do arquivo dos Duques de Cadavahpoéeremos ler, também,
uma proposta de três nomes, subscrita em 1720 pelo Marquês de Cas-
cais e apresentada ao Conselho Ultramarino para substituição do Ca-
pítão-Mor Henrique Henriques de Miranda que acabara de terminar
os três anos do seu governo da Capitania. Segundo o estilo, em con-
sulta de 17 de Janeiro de 1721 o Conselho não deixaria de se pronun-
ciar a favor do primeiro proposto168. Do recurso ao mesmo sistema"i!
>
»-
100 RSF, vol. n, pp. 406-409.
161 WÉW, p. 409.
162 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Rio de Janeiro, doe. de 17-1-1664.
lfi3 Wew, doe. 18-3-1660.
164 Wem, doe. 3 de Out. de 1684.
165 Vide tb. para o século xvill, no mesmo Arquivo Ultramarino, cx. S. Paulo,
does. 37 e 38.
166LAMEGO, op. dt., vol. H, pp. 123, n. 8, e 124.
167 PP, does. n.os 39, 40 e 42.
168 Vide VIRGÍNIA RAU E MARIA FERNANDA GOMES DA SILVA, Os Manuscritos da Casa
de Cadaval respeitantes ao Brasil, Coimbra, 1955-1958, vol. II, p. 291.
178
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
encontramos notícia na Capitania da Ilha do Príncipe, para a qual, por
consultas de 8 de Abril de 1698 e 20 de Outubro de 1694, o Conselho,
como de hábito, aponta os primeiros propostos na lista do Conde Ca-
pitão169. Segundo nos refere em 1717 o Padre António Cordeiro na
sua História Insulana, era esse também o expediente seguido nas capi-
tanias dos Açores, se bem que ele próprio opinasse que
«parece mais que, quando se fizer substituto do Capitão de uma ilha, o
ponha El-Rei, e não o Donatário Capitão, nem este nomeie dois ou três
para que El-Rei escolha deles um, porque desta sorte poderá o Capitão
nomear um seu criado que vá mais esfolar a ilha para o dito seu Amo e
para si, do que vá defendê-la e governá-la»170.
O sistema propugnado pelo jesuíta fundava-se em que El-Rei
«primeiro mande que o principal senado da ilha, com seu Capitão-Mor,
lhe propunham três dos naturais da mesma ilha, e muito em especial dos
que tiverem militado ou em Portugal ou na índia ou no Brasil, ou ainda
dos outros que lá nunca saíram, mas têm servido e são de lá naturais e
dos mais nobres e ricos, e dos três nomes nomeie S. Majestade o que me-
lhor julgar, porque este tratará com a devida cortesia aos da mesma Ilha,
será mais solícito de a conservar, e mais fiel a tudo como a coisa também
sua»171.
A proposta inovadora de Cordeyro não viria, porém, a ter qual-
quer seguimento. Mas vislumbra-se já neste século uma reacção
muito viva às antigas práticas donatariais. O geral desleixo a que os
capitães vinham votado os seus territórios ultramarinos e os abusos
infrenes e geralmente impunes dos seus delegados, criavam um am-
biente que, no reinado de D. João V, em pleno processo de concen-
tração de poderes, não lhes podia ser de modo algum favorável. Nou-
tro ponto deste estudo172 iremos debruçar-nos sobre aspecto mais
importante que é o da própria existência de uma corrente favorável à
absorção das capitanias pela Coroa, opinião florescente ao longo de
grande parte desse século XVTII, e de que esta questão da nomeação
169 Arquivo Histórico Ultramarino, Livro 6." de Consultas Mistas, fóls. 206v. e
383v.-384.
170 AKtÓNIQ^CORDEYRO, Of>. cit., p. 516.
171 Idem, ibidem,
172 Vide o Capítulo IX.
179
J
f '
fié
4i
?
i
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
cionários que os ocupassem, admitiu-se também que, com restrições,
mas como várias outras faculdades, esse poder fosse entregue a par-
ticulares no que respeitava à escolha ou à nomeação. Prerrogativa pre-
zada - já que colocava nas mãos dos donatários um mais ou menos
forte domínio sobre a estrutura governativa do seu senhorio -, não é
fácil determinar hoje com precisão o seu âmbito. Por um lado, de iní-
cio, as cartas de doação são omissas nesse ponto, admitido a posteriori
e segundo factos de variada espécie, normalmente presos ao mérito
ou prémio dos capitães179.
Em 1547, o Rei D. João III, atendendo aos feitos de Manuel da
Câmara, Capitão de S. Miguel, no heróico cerco de Sta. Cruz do Cabo
de Gué, em África, recompensou-o com a «data» dos ofícios de Ponta
Delgada, podendo nomear almoxarife, escrivães e oficiais, os tabe-
liães, os escrivães dos órfãos, da Câmara, almotaçaria, o inquiridor,
distribuidor e contadores dos feitos e custos, com dispensa de exames
régios e tudo para andar junto com a mercê da capitania180. Em 1584,
como paga dos seus muitos serviços, D. Cristóvão de Moura, Capi-
tão de Angra, Praia e S. Jorge, recebe para si e seus descendentes, a
mercê de,
«segundo forma das ordenações e doações que delas tem, possa dar e dê
daqui em diante para sempre nas tais Capitanias, os ditos ofícios de
tabeliães do público e judicial e escrivães de almotaçaria e contadores
dos feitos e custos e inquiridores, e assim poderão dar meirinhos dante
os seus ouvidores, que isto se até agora o costumou havernas-ditas Ilhas,
aos quais eles capitães delas pagarão à sua custa seu/mantimento e de
dois homens que os ditos meirinhos serão obrigados a ter para os acom-
panharemfãém para isso lhes ser dado de minha fazenda coisa alguma,
e també/n poderão dar escrivães, dante os ouvidores e assim alcaides da
dita cidade de Angra e vilas da praia e S. Jorge e alcaides do mar e meiri-
nhos da serra, e isto havendo-o já na terra e doutra maneira não; e ou-
trossim poderão pôr nos ditos lugares almoxarifes e escrivães e oficiais
que lhes arrecadem as rendas que eles Capitães tiverem de minha Coroa
nas ditas Capitanias...»181.
Ultrapassando, porém, essa discricionaridade, as cartas das capi-
tanias do Brasil, Serra Leoa e Angola vêm a fixar desde o início um
79 Vide o ponto 4 do Capítulo seguinte.
180 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, n. 642.
l A Ã ..-l "• /<nn-> \—
1 AÃ, vol. iv (1882), p. 173.
182
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
quadro preciso dos funcionários de nomeação donatarial. Nas pala-
vras do cronista seiscentista Fr. Vicente do Salvador, esse lote de mer-
cês veio a conceder aos capitães
«que assistam às eleições dos juizes e vereadores eles ou seu Ouvidor
que eles fazem, como também fazem escrivães do público, judicial e
notas, escrivão da câmara, escrivão da Ouvidoria, Juiz e escrivão dos ór-
fãos, meirinho da vila, alcaide do campo, porque o do cárcere provê o
alcaide-mor»182.
Naturalmente, as específicas condições de cada Capitania e do
tipo de mercês desfrutadas pelos seus donatários, dão a cada a sua to-
nalidade específica. Em 1724, a Condessa viúva da Ribeira Grande,
como tutora de seu filho, o Conde Capitão de S. Miguel, faz o ponto
dos seus privilégios na ilha e alude ainda à dada dos ofícios de Ponta
Delgada, dos tabeliães de notas, judicial, escrivães de almotaçaria,
contadores, distribuidores e inquiridores das vilas de Lagoa, Água
Nordeste, Vila Franca e Ribeira Grande, bem como a dada do ofício
de meirinho perante o Ouvidor da Ilha, mais as dadas dos ofícios de
Alcaide do Mar e meirinho da Serra de Ponta Delgada e Vila Franca183.
Uma relação manuscrita dos ofícios e postos que, cerca do ano de
1754, «são providos por patentes e provisões do Ex.mo Senhor Duque
de Aveiro e Conde de Sta. Cruz», nos seus senhorios das ilhas açoria-
nas das Flores e Corvo, dá-nos uma ideia precisa da articulação da ad-
ministração senhorial naqueles territórios. Sabemos assim que o Ou-
vidor do Duque, bem como o Juiz e o Escrivão dos órfãos, estendiam
a sua juriàdição às duas ilhas. Na das Flores, quer nas vilas de Sta.
Cruz e daii Lages quer nas freguesias dos Cedros, Lomba e Ponta Del-
gada, o^)onatário provia ainda em cada, um Tabelião do público, ju-
dicial e notas, Escrivão da Almotaceria e, só nas vilas, um Escrivão da
Câmara, um Alcaide e um Carcereiro. O Duque preenchia ainda os
cargos militares de capitães da companhia de infantaria de Sta. Cruz
e do de seis companhias de ordenanças da Vila das Lages e das fre-
guesias de Cedros e Ponta Delgada, e ainda a da Ilha do Corvo184.
Também no Brasil, a estrutura do funcionalismo é muito variável.
A regra geral - di-lo a seiscentista Relação de todos os ofícios da fazenda
e Justiça que há neste Estudo do Brasil- era clara:
182 FR. VICENTE DO SALVADOR, op. ai., p. 87.
183 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Açores, doe. 39.
184 Biblioteca do Palácio da Ajuda, pasta 54-11-15, doe. n. 22.
183
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
t:
«o provimento de todos os da Justiça, órfãos e das Câmaras nas ca-
pitanias dos Donatários são da sua apresentação por razão das suas doa-
ções, na conformidade dasquais somente podem prover em vida, por-
quanto as vagantes e serventias pertencem aos Governadores gerais do
Estado em nome de Vossa Majestade, até os Donatários proverem de
propriedade»185.
Na prática, a irregularidade do índice de funcionalismo era grande:
desde a complexa máquina administrativa da Capitania de Pernam-
buco186, a estruturas pobres ou incipientes como as de Espírito Santo,
Ilhéus ou Itamaracá187. Na Capitania da Paraíba do Sul, à altura da in-
corporação na Coroa, em 1753, o quadro dos funcionários era ainda
relativamente vigoroso, segundo expunha o seu Capitão aos funcio-
nários reais encarregados de proceder à avaliação do domínio, ale-
gando perder
«a nomeação de um Capitão-mor, a de dois Sargentos-mo rés, 8 compa-
nhias de ordenanças e 2 de cavalos, providos todos pelo Donatário, por-
que na sua Capitania observa o mesmo regimento porque se governam
os Governadores e Capitães Generais do Brasil. Perde também o provi-
mento das 2 Alcaídarias-mores das Vilas de S. Salvador e S. João da Barra
[...] perde o provimento de todos os ofícios da sua Capitania...»188.
Como excepção inflexível às nomeações donatariais de qualquer
área, há que registar as dos oficiais da fazenda real. Escreveu-o Fr. Vi-
cente do Salvador, dizendo que ao Rei, nas capitanias, cabiam os pro-
vimentos dos «ofícios da sua Real Fazenda, corno são os dos prove-
dores e seus meirinhos, almoxarifes porteiros da alfândega e guardas
dos navios»189, e não o esqueceu, tamhiém, o autor da Relação de iodos
os ofícios, notando «que todos os oficiais da Fazenda geralmente neste
Estudo [do Brasil] são do provírríento de Vossa Majestade posto que
sejam nas capitanias dos Donatários...»190.
135 In Documentação Ultramarina Portuguesa, Lisboa, Centro de Estudos Históricos
Ultramarinos, 1960, 1966, vol. li, p. 18.
186 Idem e Livro Primeiro 4o Governo do Brasil - Íé07-'té33, Ministério das Relações
Externas - Biblioteca - Secção de Publicações, do Serviço de Documentação - Rio de
Janeiro, 1958.
187 Idem, ibidem.
168 ID, vol. 8, pp. 164-165.
139 FR. VICENTE DO SALVADOR, op. aí., p. 87.
190 Vide a op. cit. a not. 189. Vide tb. os códs. 49-XII-l 1/12 da Biblioteca da Ajuda,
184
Estamos, note-se, falando dos oficiais da fazenda régia nos limi-
tes da Capitania. Circunstância que de modo algum parece ter ini-
bido a nomeação particular de oficiais da fazenda senhorial. Fica a
prová-lo a existência do regimento do Almoxarifado e Feitores da Fa-
zenda da Capitania de Caeté, documento detalhado e coevo da fun-
dação da mesma, onde naturalmente se acumulam disposições tão
variadas quanto as atinentes à demarcação da Capitania, nomeação
de oficiais, ordenados, registo de documentos administrativos, ren-
das, etc.191.
3.2. Sistemas da Apresentação e Confirmação
Se se proceder a uma análise, ainda que perfunctória, da variada
documentação a que vimos aludindo e outra mais, com facilidade se
conclui que muito do funcionalismo das capitanias está adstrito a fun-
ções próprias da administração da justiça: tabeliães, meirinhos,
inquiridores, contadores, distribuidores, escrivães de variada sorte,
carcereiros e, sobre todos, os Ouvidores. Será no Capítulo especifica-
mente dedicado à administração da Justiça que o leitor poderá en-
contrar um maior desenvolvimento da natureza e fins de tais ofícios.
Por agora, dedicaremos as derradeiras linhas do presente capítulo às
linhas gerais da «mecânica» do preenchimento dos cargos.
Se os quiséssemos sistematizar, poderíamos dizer que se regula-
ram por dois critérios únicos: o do livre arbítrio do Donatário, um, e
outro, o que mediatizou o processo de nomeação pela intervenção
quer do Monarca quer dos representantes dos povos. Quanto ao pri-
meiro, veremos adiante o caso do Ouvidor, livremente escolhido, o do
Tabelião, ou, até determinado momento, o do Loco-Tenente. Quanto
ao segundo, tem na base a distinção que se faz entre «apresentação» e
«confirmação» de cargos, i.e., entre a mera designação do funcionário
e o seu final provimento no ofício. Não coincidindo, vulgarmente, a ti-
longa e pormenorizada lista de avaliação de cargos portugueses de meados do séc.
XVll. Devemos ao Dr. António Hespanha a amabilidade desta referência.
" Vide o Livro da Fazenda da Capitania do Caytté, Cód. l da Colecção Vidigueira
da Sociedade de Geografia, Lisboa, ff. 74-78: «Ordem que o Capitão João Vasco de
Matos meu almoxarife e administrador na Capitania de Caeté, partes do Maranhão
há de seguir na cobrança e administração da minha fazenda e jurisdição de que hade
uzar conforme ao poder que leva, e aqui se lhe dá e na sua absencia observa o
mesmo o escrivão do almoxarifado João de Herrera da Fonseca e os mais almaxarifes
e administradores que eu mandar.»
185
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
s
•
•
í
tularidade desses dois poderes, temos que se por um lado a «apresen-
tação» cabe ao Capitão, por outro a «confirmação» recai no arbítrio
real ou nos poderes concelhios192. Caso típico de confirmação indivi-
dual é o que traz Mendonça Dias, sobre a nomeação de dois funcio-
nários de justiça na Capitania de S. Vicente no século XVI:
«Rui Gonçalves da Câmara, etc. Faço saber a vós Juizes da Vila de
Vila-Franca do Campo e seu termo e mais justiças e pessoas desta Ilha,
que confiando eu da bondade e saber de Manuel Fernandes e da sua boa
vida e costumes, lhe faço mercê de lhe dar e o apresentar nos ofícios de
Inquiridor e Contador e Distribuidor dessa Vila de Vila-Franca do
campo, que vagou por falecimento de Simão Roiz, e os poderá servir da
data deste em diante e haverá confirmação deles por El-Rei Nosso Se-
nhor dentro de um ano...»193
Na mesma Capitania, já para a nomeação do Alcaide o processo
era diverso; conta-o o mesmo autor: «A nomeação de Alcaide era
feita, a princípio, por El-Rei, mas por virtude da doação que fez a Rui
Gonçalves da Câmara, Capitão desta Ilha de São Miguel da apresen-
tação de certos ofícios desta Câmara, passou a nomeação a ser feita
por esta, da lista de três nomes de pessoas casadas, abonadas de bens
e naturais do lugar, que lhe apresentava o Capitão-Donatário; pres-
tava juramento em Câmara e dava fiança para o desempenho deste
cargo que durava três anos.
«Como procurador que sou do Senhor Conde de Vila Franca do
Campo, Governador Geral em toda esta ilha de S. Miguel e pelos pode-
res que tenho do dito senhor, nomeio para Alcaide ao Capitão João de
Melo d'Almeída, Sebastião da Costa Machado e a João Fagundes Pereiràx,
moradores em Vila Franca. Ponta Delgada, 28 de Maio de 1651.»
A Câmara na sua sessão nomeava um deles que era sempre quem
o Capitão queria, porquanto os outros dois nomes que indicava eram
sempre de pessoas que pela sua posição social «estavam muito acima
do ofício de Alcaide e tar/gedor do sino»194.
192 Vide ANTÓNIO MANUEL\HESPANHA, História das Instituições. Épocas Medieval e
Moderna, Coimbra, Livraria Almedina, 1982, p. 397.
193 URBANO DE MENDONÇA DIAS, A vida de nossos Avós. Estudo Etnográfico da vida
Açoreana através das suas leis, usos e costumes, Vila Franca do Campo, 1944-1948, vol. 2,
p. 119.
194 Idem, vol. 3, p. 115.
186
Mas para além destas práticas, acontecimentos fortuitos acaba-
vam por produzir alterações profundas nos normais sistemas de
nomeação. No Brasil, dando início a uma prática que se manteve, o
Governador-Geral, António Teles da Silva, por alvará datado da Baía
de 28 de Maio de 1643, impõe que
«porquanto tenho entendido que os Donatários das vilas da Capitania
de S. Vicente por informações sinistras que lhe fazem provêm muitos
ofícios públicos delas em pessoas que os não merecem passando algu-
mas provisões em branco de que se seguem grandes alterações nas
Câmaras sobre a eleição dos que as hão de exercitar e convém atalhar se-
dições em seu princípio e encaminhar tudo ao melhor acerto do serviço
de S.M., conveniência dos mesmos Donatários e utilidade dos mesmos
moradores a quem desejo toda a quietação, além de que Sua Majestade,
que Deus guarde, em consequência de se evitarem estasdúvidas e ser
benefício comum, teve entendido a suficiência e qualidade das pessoas
que se nomeiam, mando que nenhuma provisão ou alvará dos Donatá-
rios tenha efeito sem levar a confirmação dos Governadores Gerais do
Estado»,
ordenando em consequência ao Capitão-Mor, Ouvidor e oficiais da
Câmara da Capitania que não dessem posse alguma sem o cumpri-
mento da formalidade exigida195. Deste modo, por lata que fosse uma
procuração do Marquês de Cascais, Capitão de S. Vicente, passada
em 1652 ao seu Loco-Tenente, com poderes para, entre vários, prover
ofícios vagos, ninguém obstou à exigência camarária do «cumpra-se»
do Govemador-Geral para plena eficácia da mesma196.
Questão diversa era a da intervenção dos capitães nas nomeações
dos oficiais e justiças concelhias. Oficialmente - embora cabendo às
Câmaras a «eleição» dos magistrados concelhios - era ao Rei, através
do Desembargo do Paço, a quem cabia quer o «apuramento da pauta»
-i.e., a aprovação das listas dos candidatos-quer a «confirmação» da
escolha ou eleição, acto definitivo do provimento do funcionário197.
No entanto, desde cedo foi prática conceder a determinados senhores
esse direito, e, efectivamente - ainda que omisso nas cartas de doa-
ção - vemo-lo exercido pelos primeiros capitães das Ilhas. Num re-
querimento feito cerca do ano de 1529 por Bartolomeu Perestrelo,
195 RSP, vol. n, pp. 242-243.
196 Idem, pp. 409 e 449-450.
197 A. HESPANHA, oy. cit., pp. 256-258.
187
41
•
4
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
Capitão da Ilha de Porto Santo, neto do povoador do mesmo nome,
tendente a precisar alguns pontos da doação original, alegava que
«porquanto a dita doação era da própria maneira que era a Doação da
Capitania da Ilha da Madeira e das outras doações das outras ilhas e que
algumas delas era declarado por minha carta da alçada do cível até
quinze mil réis, me pedia [Rei] que também nisso como no dar cartas de
seguro nos casos crimes e no fazer das eleições e dar cartas de confirma-
ção dos juizes, que seus avós e pais dele sempre usavam, quisesse por
minha carta lhe declarar nos ditos casos a dita doação...»
O Rei acedeu, efectivamente, às pretensões, nomeadamente em
que pudesse
«fazer as eleições dos juizes e Vereadores e Procuradores e Almotacés e
lhes dará juramento em Câmara/para que bem e verdadeiramente sirvam
seus ofícios, e passar cartasae confirmações aos ditos juizes como até
aqui tudo fez...»198.
Que a prática era extensível a outras capitanias o parece indiciar
certa passagem da carta de doação da Capitania das ilhas do Faial e
do Pico (1573), em que se concede tal faculdade «assim no fazer das
eleições como em todo o mais que ao dito Capitão da Ilha da Madeira
pertence»199. Em 1593, o mesmo direito é estendido aos donatários
dos senhorios açorianos e cabo-verdianos das Flores, Corvo e Sto.
Antão, no sentido de poderem confirmar «os juizes que saírem por
eleições na maneira que se contém em minha ordenação...»200.
Já no Brasil não há qualquer dúvida, pois desde as primeiras con-
cessões de 1534 se estabelece que o Capitão «poderá por si ou por seu
Ouvidor estar à eleição dos juizes e oficiais e alimpar e apurar as pau-
tas e passar cartas de confirmação aos ditos juizes e oficiais, os quais
se chamarão pelo dito Capitão e Governador»201.
O processo era claro e manteve-se inalterado até ao termo da j
existência das capitanias. Um auto de eleição de 1730 na Câmara dp
S. Salvador, Capitania da Paraíba, deixa bem explícito os termos em
que se desenrolava:
198 Arquivo Nacional, Chancelaria de. D. João V (Próprios), L. 23, foi. 232.
199AA, vol. 4(1882), p. 226.
200 AÃ, vol. 5 (1883), p. 534.
201 DBN, vol. 13, p. 158 (c. de doação da Capitania de S. Vicente - 1534).
188
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
«Aos 21 dias do mês de Maio, nesta vila de S. Salvador-Paraíba do
Sul, em o Paço do Concelho dela, estando presente o Ex.mo Senhor Mar-
tim Correia de Sá e Benevides, se fez a nova eleição de Juizes e mais ofi-
ciais da Câmara que hão de servir este ano de 1730, em lugar dos que es-
tavam servindo, por terem sido remetidos para a Relação da Baía. E
apurada a pauta pelo dito Ex.mo. Governador e Ouvidor, saíram por jui-
zes Vicente João da Cruz e António Teixeira Nunes e vereadores, Ma-
nuel de Sousa Tavares, José Pires de Mendonça, Manuel Monteiro da
Cruz e Procurador do Concelho, José Ferreira Cardoso. E pelo Ouvidor
foi dado juramento aos Santos Evangelhos aos ditos juizes e vereadores,
encarregando-lhes fizessem todas as obrigações de seus cargos, na forma
que S. Majestade encomenda em suas reais leis, guardando em tudo as
suas ordens, o que prometeram fazer debaixo de juramento. De tudo se
fez este termo de juramento em que assinaram com o dito Ouvidor.»202
3.3. A Criação de Cargos Novos
Outra questão merecedora de especial atenção neste âmbito é a
da limitação da faculdade que assistia aos donatários para, arbitraria-
mente, criarem e proverem ofícios «novos» nas suas capitanias. Prin-
cípio sólido neste campo - fundado na particularizada enumeração
dos «direitos reais» consignada nas Ordenações™ - era o de que só ao
Rei competia o poder de criar e extinguir ofícios e aos donatários, em
casos expressamente previstos, o de os prover. Em 1648, sendo le-
vado o problema ao Dr. Tomé Pinheiro da Veiga, este não teria dúvida
em louvar-se da doutrina tradicionalmente aceite:
«Criar ofícios de novo é poder, jurisdição e preeminência tão parti-
cular e reservada ao supremo domínio do Príncipe soberano, que não en-
tra em nenhuma doação por longa e geral que seja, como as ordenações
Reais em tantas partes repetem.»20'1
Esta verdade revestia-se de particular relevância nas capitanias
brasileiras, mais ricas e em pleno processo de desenvolvimento. As-
sim, se por um lado as cartas de doação desses senhorios facultavam
aos seus donatários o porem
202 LAMEGO, oy. cit., vol. n, pp. 73-74, n. 292.
203 Vide OF, L. 2, t. 26 in princ. e t. 45, §§ 13 e 15.
204 Biblioteca Nacional de Lisboa, Cód. 7627, p. 75 (parecer de 24-3-1648).
189
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A
«quaisquer ofícios necessários e acostumados nestes Reinos, assim na
correição da Ouvidoria, como em todas as vilas e lugares da Capitania e
Governança»205,
as ditas cláusulas, notava o Procurador da Coroa, não concediam «a
criação de novos ofícios inventados de novo, senão os ordinários, e
esses necessários deste Reino, vilas e lugares e se entende necessários
dos acostumados nestes Reinos para as vilas e lugares daquela Capi-
tania»206.
O parecer de Pinheiro da Veiga fora motivado pela notícia da
criação e provimento em Pernambuco, «sem ordem e carta e criação
nova real», do cargo de Juiz e Casa do Peso, «com salários e obriga-
ção de pessoas nela». Em vias de quase total recuperação aos holan-
deses e, pelo menos teoricamente, colocada de novo sob a jurisdição
dos donatários, havia que averiguar nesse senhorio da licitude de
uma inovação feita à margem de toda a iniciativa e assentimento ré-
gio. O entendimento do Procurador Régio era um só: Juiz e Casa do
Peso, não era
«oficio e casa acostumada no Reino e vilas e lugares dele (como é notó-
rio) nem conhecido na ordenação e Regimento da Fazenda, nem Chan-
celaria-Mor onde estão todos os ofícios e regimentos acostumados no
Reino»207.
Na verdade, só em Lisboa, por
«empório da Europa, há o haver do peso e balança e é especial ordem
particular e não é ofício costumado no Reino de Portugal e é o comum
em todo ou a maior parte, e não particular de Lisboa ou Setúbal, da Ta-
bula, ou semelhante especialidade»208.
E, ainda que criado o ofício por El-Rei, notava Veiga que «ficará a
dúvida se nas vacantes terá lugar a doação». Certo era que as doações
facultavam ao Donatário o poder de criar e prover por suas cartas os/
tabeliães do público e judicial que consideravam necessários nas vá-
rias povoações colocadas sob a sua jurisdição. Do que, considerava
205 Idem, ibidem
206 Idem, ibidtm,
207 Idem, ibidtm.
™ Idem, ibidtm.
190
O G O V E R N O D A C A P I T A N I A
Pinheiro da Veiga, não era