Prévia do material em texto
Exercícios para Libertação do Trauma David Berceli Tradução: Amadise “Tai” Silveira Apresentação A criação é um mérito que beneficia pessoas que estão atentas ao processo da evolução do ser humano.David Berceli, ao criar a série de atividades que fundamentam os Exercícios para Libertação do Trauma, inspira-se na natureza e transpira benefícios para as pessoas em suas dores mais profundas. Da primeira edição até esta, três aspectos imprimem mudanças no trabalho de David Berceli, influindo em sua vida e na de muitas pessoas em diversos países. Primeiro, o convite oficial pelo governo chinês para ele desenvolver um programa para trabalhar com aproximadamente hum milhão de pessoas, sobreviventes de dois terremotos ocorridos na região de Sichuan, China, no final de 2008. Segundo, a rede internacional de Centros de Formação em Trauma começa a se originar dando espaço à difusão dessas atividades, a fim de trazer alívio para um número cada vez maior de pessoas lesionadas em seus corações e mentes. Terceiro, a chegada da Formação em TER, Exercicios para Libertação do Trauma, ao Brasil, buscando entregar a profissionais da saúde a arte de lidar com indivíduos, grupos e comunidades que tenham sido atingidos por eventos traumáticos e dolorosos. Iniciando por Recife, a chegada desta Formação profissional busca atingir camadas da população que, expostas pelo ritmo da vida atual a situações de extrema fragilidade e vulnerabilidade e pelas condições de violência, necessitam, urgentemente, de cuidados no que é mais precioso no ser humano, sua integridade psíquica e emocional. Os exercícios do Trauma, TRE, objetivam dissolver o trauma que ficou retido na mente e que foi congelado pelo medo e pânico. Entregar-se ao corpo significa abandonar os sentimentos e permitir que o fluxo da vida siga naturalmente. David Berceli tem levado às pessoas esta possibilidade, por isso, honradamente a Libertas Editora introduz esta segunda publicação com a intenção de facilitar o acesso de um número cada vez maior de pessoas, por esse caminho do resgate da alegria de viver. Jayme Panerai Alves ÍNDICE “A recuperação do trauma precisa de um novo paradigma.” HOMEM FEITO DE BARRO “Ajude-me a curar-me” LIBERTANDO DO TRAUMA “Eu não quero perdoar” IDENTIFICANDO O TRAUMA “Estou ficando doido?” EFEITOS RESIDUAIS DO TRAUMA “Eu não sei porque não consigo me controlar.” OS MÚSCULOS DE DEFESA PSOAS “A dor na minha lombar é insuportável.” MECANISMO DE LIBERTAÇÃO DO TRAUMA “Eu tremia incontrolavelmente três dias depois.” MUDANÇAS NA ADRENALINA “Meu corpo estava indo a mil por hora.” NARCÓTICOS E A SENSAÇÃO DO ÓPIO “Era como se eu estivesse em câmera lenta” INTUIÇÃO E O CÉREBRO ABDOMINAL-PÉLVICO “Eu sabia que alguma coisa estava errada.” NEUROLOGIA DO TRAUMA “Por que não posso controlar meu modo de pensar?” TRAUMA DA INFÂNCIA “Eu não consigo me concentrar ou lembrar.” SÍNDROME DA IMAGEM DO INIMIGO “Eu desconfiava de todo mundo ao ponto da paranoia.” IMAGINAÇÃO DO TRAUMA “Eu estava mais aterrorizado e zangado do que a minha família.” SUICÍDIO: UMA AUTOSSABOTAGEM DO ORGANISMO VIVO “Até a morte era melhor do que essa dormência interna.” NEGAR O PTSD “Coisas assim não acontecem conosco.” TRAUMA – A NOVA EPIDEMIA NO MUNDO CORPORATIVO “Por que nossas técnicas de gestão de crise não estão funcionando?” RENTABILIDADE FINANCEIRA COM FOCO HUMANITÁRIO “O que eu posso fazer para recuperar meu pessoal?” LIDERANÇA TRAUMATIZADA “A sua objetividade parece estar prejudicada.” RESOLUÇÃO INTERNACIONAL DE CONFLITO E TRAUMA “Por que não podemos alcançar a paz?” TRAUMA E O SISTEMA HUMANO DE CRENÇAS “Eu já não acredito em nada.” O TRAUMA É UM DEGRAU NA ESCADA DA SABEDORIA “Eu vivo totalmente cada dia.” EXERCÍCIOS DE LIBERTAÇÃO DO TRAUMA Exercício 1 Exercício 2 Exercício 3 Exercício 4 Exercício 5 Exercício 6 Exercício 7 PERGUNTAS E RESPOSTAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SOBRE O LIVRO INTRODUÇÃO “A recuperação do trauma precisa de um novo paradigma.” Durante uma das minhas visitas à Etiópia, eu tive a oportunidade de participar de vários rituais de café com os etiopianos. De manhã, o costume é que várias famílias, que vivem perto umas das outras, se juntem para tomar café. Elas começam esse processo torrando os grãos, moendo e depois fervendo. Esse processo leva mais ou menos duas horas do começo ao fim. No entanto, durante aquelas duas horas, as pessoas conversam sobre o que aconteceu no dia anterior. Por estarem morando em uma zona de guerra, era comum discutir as tragédias que tinham sofrido ou que tinham escutado. Ao compartilharem sua dor, eles recebiam apoio e encorajamento para continuar. Através dessa e de muitas outras experiências semelhantes que eu tive trabalhando com pessoas traumatizadas em famílias e culturas baseadas em comunidades da África e do Oriente Médio, eu comecei a reconhecer que muitos países devastados por guerras desenvolvem métodos naturais de recuperação de trauma dentro das suas próprias tradições. Eles não precisavam de sessões individuais de psicoterapia. Eles não precisavam de um “profissional” para guiá-los no seu processo de cura. Eles simplesmente conheciam dor, sofrimento e a necessidade do apoio da família nesse processo. Como terapeuta de recuperação de trauma trabalhando em países em guerra, frequentemente vinha um membro da família falar comigo sobre um problema específico. No entanto, ele vinha acompanhado de amigos ou outros membros da família. Eles não tinham o conceito de que deveriam vir sozinhos para a sessão terapêutica. Eles diziam, “Nós somos seus amigos, por que não deveríamos vir para a sua sessão terapêutica? Somos nós quem vai ajudá-lo a sarar.” Muitas experiências como essa, nas várias culturas da África e do Oriente Médio, me fizeram repensar minhas ideias sobre o processo de cura. Eu comecei a notar que a recuperação do trauma pode e acontece muito frequentemente sem a ajuda de terapeutas profissionais. Eu também comecei a questionar a necessidade e utilidade das sessões individuais da terapia privada como o principal método de recuperação de trauma. Eu então comecei a me perguntar sobre a recuperação do trauma em nossa própria cultura. É possível desenvolver um método seguro e eficiente de recuperação de trauma que as pessoas possam usar com sua família, amigos, comunidade ou grupos de apoio? Os sobreviventes do trauma sempre precisam de psicoterapia individual para sarar ou pode o seu processo de cura ser feito dentro do seu próprio relacionamento com aqueles que o amam? Outra experiência que aconteceu em um local inesperado fez com que eu questionasse mais uma vez o processo de cura em nível mais profundo. Uma tarde, na remota cidade de Demibolo, Etiópia, eu parei para um descanso em um workshop sobre trauma que eu estava dando, para visitar uma igreja católica numa estrada de barro. A simples igreja de barro estava iluminada apenas por alguns raios de sol que mal entravam pela porta e janelas. Eu estava sentado em silêncio e me chamou a atenção quando um homem muito velho entrou na igreja. Ele caminhou lentamente, segurando os bancos para equilibrar-se. O banco que ele escolheu para sentar-se ficava um pouco na minha frente. Ele sentou-se e depois se ajoelhou no chão de barro. A camisa de algodão que ele estava usando estava tão desgastada que era possível ver a sua pele por baixo dela. Quando ele se ajoelhou na minha frente, as solas dos seus pés ficaram expostas. Por causa do barro vermelho da terra e da pouca luz, eu não conseguia enxergar onde terminava os pés do homem e começava a terra. Imediatamente, a imagem de Deus fazendo seres humanos de barro veio à mente. Essa experiência, juntamente com os refugiados de guerra, pobres, sem escolaridade e desesperados, para quem eu estava dando o workshop, me forçaram a pensar mais profundamente sobre o processo de cura do trauma. As perguntas que vieram à minha mente naquele momento foram: como é que nós indivíduos, como pessoas, como nações e como uma comunidade global planejamos cuidar e resolverexperiências traumáticas e Desordem de Tensão Pós-Traumática (PTSD) para populações em larga escala? Pode um método de cura de trauma ser desenvolvido que seja imediatamente efetivo, fácil de ensinar e que pode ser usado sem o acompanhamento de um terapeuta profissional? À medida que eu continuava a observar este homem humilde rezando, não pude deixar de pensar que se o trauma pode ocorrer em qualquer ser humano, então, o processo de cura do trauma deve ser inerente a todo ser humano. Eu também passei a acreditar que a cura do trauma pode ocorrer em qualquer lugar mesmo em populações inteiras nas partes mais remotas e pobres do mundo. Esta é uma distância muito clara do treinamento que eu recebi de que a recuperação do trauma deve ser facilitada no consultório do terapeuta, sob supervisão e primariamente sob a compreensão do ego e da Psicologia ocidental. O que eu estava começando a entender era que o campo da traumatologia precisa de um novo paradigma para a recuperação do trauma que possa tratar níveis multiculturais e nacionais de trauma e PTSD. A traumatologia precisa de métodos alternativos de recuperação que possam ser auto- aplicados, usados em populações em larga escala e que não estejam restritos ao ego e aos conceitos psicológicos ocidentais. Já que experiências traumáticas estão acontecendo em escala nacional, internacional e até mesmo global, os pesquisadores estão começando a se conscientizar da seriedade desse novo fenômeno que está sendo conhecido como “A Epidemia Invisível” (Bremmer, 2002). Com nossa crescente conscientização dos desastres naturais e daqueles provocados pelo homem, assim como eventos recentes, guerras e terrorismo, o trabalho da recuperação de traumas está em grande demanda. Pesquisas sobre trauma e programas de recuperação são urgentemente necessários em inúmeros canais públicos, comunitários e sociais. No entanto, com o crescente fenômeno do trauma e o crescente conhecimento sobre seus efeitos prejudiciais ao indivíduo, os profissionais de saúde estão vendo que estão despreparados, mal- equipados e com poucas habilidades para lidar adequadamente com o problema em larga escala. Além disso, simplesmente não há profissionais, terapeutas e médicos treinados em número suficiente para atender à enorme necessidade de recuperação de trauma. Esse processo de questionamento sobre o campo de recuperação do trauma durou vários anos e me levou a muitos países destruídos por guerras na África e Oriente Médio. O resultado tem sido o desenvolvimento de um revolucionário novo processo para recuperação do trauma chamado de Exercícios de Libertação do Trauma (TRE). O TRE é baseado na premissa de que os seres humanos possuem uma capacidade de restauração orgânica dentro dos recessos do corpo humano de modo que eles podem curar-se de muitas experiências traumáticas. Esse livro explica a teoria por trás desse método e a maneira de usar essa nova técnica em casa, dentro de seus relacionamentos naturais de cura com família, amigos e a comunidade. HOMEM FEITO DE BARRO “Ajude-me a curar-me” A partir das minhas extensas experiências trabalhando em diferentes países com culturas traumatizadas, isto é, povos da Etiópia, Eritreia, Sudão do Norte e do Sul, Israel e Palestina, muçulmanos e cristãos, eu aprendi que não importa qual seja a cultura, idioma ou histórico psíquico- social, todos os seres humanos têm a capacidade de se curar de experiências traumáticas. Se não possuíssemos essa capacidade, nossa espécie teria-se tornado extinta logo após nascermos. Não somente podemos sarar nossas experiências traumáticas, mas o próprio trauma tem sido parte do processo evolucionário da nossa espécie e todos os indivíduos traumatizados têm acesso a esse método natural de cura que está geneticamente codificado neles. Muitos campos da ciência estão continuamente pesquisando o trauma, PTSD e as intensas e esmagadoras emoções que eles causam. Ao longo do tempo, cada um desses campos científicos tem cultivado e desenvolvido o seu próprio entendimento de como a espécie humana experimenta essas emoções. Os psicólogos acreditam que as emoções são controladas pelo ego e pelo inconsciente. Os neurologistas acreditam que as emoções são controladas por certas partes do cérebro. Os fisiologistas acreditam que as emoções são controladas pelo sistema nervoso. Os psico-biólogos acreditam que as emoções são controladas pelos neuropeptides (produtos químicos) que são criados e transmitidos através de várias partes do cérebro e do corpo. O que está sendo revelado é que as reações traumáticas e comportamentos são uma combinação da extraordinária interdependência mútua desses sistemas trabalhando juntos com um único objetivo – como mecanismos de sobrevivência garantindo a evolução da nossa espécie. O insight que esses campos de estudo tem fornecido é digno da nossa admiração e gratidão. No entanto, é interessante notar que, apesar de termos essa dificuldade no estudo e compreensão de quão misteriosamente o corpo funciona, o próprio corpo humano trabalha com sua própria precisão e simplicidade quando nos protege contra perigos. Da mesma maneira, o seu processo de recuperação de experiências traumáticas, apesar de complexo para nosso estudo científico, é também um processo complicado e preciso para o corpo humano. À medida que esses vários campos científicos continuam a compartilhar informações, eles estão desenvolvendo várias ferramentas e métodos de pesquisa que nos fornecem maior insight sobre como o corpo funciona. Enquanto isso, o corpo humano continua a trabalhar na sua própria maneira perfeita, fazendo o melhor possível, sem muita preocupação com nossas pesquisas e metodologias. Ele simplesmente continua a usar seus próprios métodos de recuperação, como tem feito por milhares de anos. Da mesma maneira que todas as estradas levavam a Roma, estamos descobrindo que todas as estradas emocionais, eventualmente, levam ao contínuo corpo-mente. O contínuo corpo-mente é a simples realização de que o que afeta o corpo afeta a mente e o que afeta a mente afeta o corpo. Não há nenhuma possibilidade de mudar o pensamento sem que o corpo não seja afetado. Da mesma maneira, não há nenhuma maneira de mudar o corpo sem ter efeito correspondente na mente. Este contínuo corpo-mente é precisamente o que precisa ser considerado quando se lida com o processo de recuperação do trauma. Assim, como esse contínuo corpo-mente é um mecanismo natural que tem protegido os seres humanos durante a sua evolução, esses mesmos mecanismos naturais continuam a restaurar a nossa saúde. O que é importante lembrar é que, na recuperação do trauma, todos os nossos processos corporais estão trabalhando juntos com um só objetivo. Durante o trauma, ele nos protege e após o trauma nos alivia e nos restaura. Ao estudar o complexo corpo-mente, somos eventualmente levados a seguir essa simples realidade durante o processo de cura do trauma. Os Exercícios de Libertação de Trauma (TRE)™, explicados neste livro, tem o único propósito de dar ao indivíduo o poder de curar-se do trauma por suas próprias mãos. Um cliente uma vez me disse, desesperado: Durante duas horas por semana eu tenho o seu apoio no meu processo de cura. Mas, nas outras 166 horas da semana eu tenho que me curar sozinho. Por favor, dê-me algo que possa me ajudar quando você não estiver por perto. Esse método de recuperação do trauma, apesar de não ter a intenção de substituir a necessidade de algumas pessoas de ter ajuda profissional, é uma metodologia projetada para ser usada por grupos de autoajuda como: grupos de ajuda a pessoas estupradas, grupos de mulheres que sofrem abuso, outros grupos de apoio autoguiados, famílias, organizações, polícia, bombeiros, militares, pessoal que trabalha em ambulâncias e outras profissões e estilos de vida expostos a traumas. Os exercícios explicados neste livro dão ao leitor uma metodologia para usar por toda vida. Eles ajudam a manter o equilíbrio psicofísico que ajuda o indivíduo a lidar com experiências difíceis da vida. Minha esperançaé que este livro faça com que as pessoas mudem a maneira como veem o trauma e o processo de recuperação do trauma. Tanto quanto possível, viável e seguro, eu gostaria de ajudar pessoas a tirar o processo de recuperação do trauma do domínio de terapeutas profissionais e levá-lo para a casa das pessoas. Para essa finalidade, eu incluí algumas explicações não-técnicas e sim simples dos processos biológicos, psicológicos e neurológicos do trauma e do processo de recuperação. Este livro e a metodologia incluída nele ainda estão em processo de pesquisa. No entanto, durante os últimos 15 anos eu desenvolvi e tenho usado essa metodologia com segurança. Eu já a ensinei a milhares de pessoas de culturas e religiões diversas. Ela tem sido comprovadamente eficiente, além de tranquilizante e que dá mais poder àqueles que estão sofrendo ou se recuperando de traumas ou, em alguns casos, divórcios debilitantes. Recentemente, eu estava no aeroporto de Phoenix, estado do Arizona, esperando um voo que me levaria para a África. Eu visitei um pequeno museu aeroespacial no aeroporto e fiquei surpreso quando eu li uma frase dita por um astronauta. A frase era mais ou menos assim: no primeiro dia, no espaço, nós estávamos apontando para nossos países. No segundo dia, no espaço, estávamos apontando para nossos continentes. No terceiro dia, no espaço, estávamos apontando para nosso planeta. Que maravilhoso não seria se todos pudéssemos ter a experiência de olhar para nosso planeta à distância e ver que todos os seres humanos são uma única espécie que depende um do outro para a sua sobrevivência e contínua evolução. *** Benefícios especí�cos do uso dos Exercícios de Libertação de Trauma™ .. Fáceis de aprender: esses exercícios são fáceis de aprender e em muitos casos são imediatamente efetivos. .. Impedimento natural: sob certas circunstâncias, esses exercícios podem ser usados como um impedimento natural e redutor de sintomas de PTSD, diminuindo, assim o efeito de traumas subsequentes. .. Autoaplicado e autodiagnóstico: eles podem ser usados para autodiagnosticar o grau e a gravidade da tensão causada por episódios traumáticos. .. Integrado na rotina diária: eles podem ser integrados à rotina de exercícios diários com uma simples prevenção e processo de recuperação. .. Restaura a cura mais rapidamente: ajudam a restaurar o senso de segurança do corpo mais rapidamente, facilitando um processo de cura mais rápido e mais integrado. .. Adição a sessões terapêuticas: em certas circunstâncias, esse método pode ser uma alternativa e/ou suplemento à intervenção psicológica. LIBERTANDO DO TRAUMA “Eu não quero perdoar” Libertar-se do trauma não tem o propósito de esquecer ou perdoar o passado; é liberar energia do passado para devolver nossas vidas no presente, algo que é necessário para nos levar a um novo futuro. Trauma e tragédias entram nas nossas vidas apesar das nossas grandes tentativas de nos proteger contra o sofrimento e a dor que elas infringem em nós, nossos amigos e nossas famílias. Como organismos vivos, nossos corpos sabem que somos capazes de sofrer, suportar e recuperar até mesmo das maiores tragédias. É o nosso ego quem tenta negar e quem evita e recusa o perdão para que nos livremos de nossas tragédias passadas e assim impede que tenhamos a oportunidade de ter um novo futuro. O que está sendo reconhecido na psicoterapia, no entanto, é que é precisamente a nossa incapacidade de perdoar e esquecer que contribui para a dor e a tragédia da perda. Essa incapacidade de perdoar e esquecer nos leva a um terrível dilema. Nossa recusa em esquecer o passado nos aprisiona na nossa própria resistência a nossos instintos naturais e evolucionários e, portanto, tem o poder de nos negar um movimento saudável em direção ao nosso futuro. (Arendt, 2000). A pergunta então é, como superamos essa recusa dolorosa e egoísta de esquecer e seguir em frente? Por que isso é tão difícil? Mais uma vez nos deparamos com o paradoxo de ser parte “ser humano reflexivo” e parte “animal instintivo.” Por um lado, o ego recusa-se a esquecer o passado porque é o equivalente a uma segunda lesão ou experiência de morte. A principal pancada contra a nossa existência veio do trauma inicial e a segunda ameaça à nossa existência vem do medo de relembrar as dolorosas cicatrizes e memória deixadas para trás a fim de sarar. Esse processo terapêutico de lembrar nos força a enfrentar as lembranças residuais do trauma que mostram nossa fragilidade, vulnerabilidade e lugar precário nesse planeta. Essa experiência frequentemente destrói nossa autoidentidade e prejudica nossa fé ou crença no sistema. Por outro lado, o ser humano, como todos os organismos vivos, é biologicamente impelido a livrar-se de qualquer coisa que esteja obstruindo seu processo de crescimento. Para existir e evoluir, temos um mecanismo (tipo natureza) instintivo codificado em nós de modo que podemos completar nosso processo de esquecer o passado e começar algo novo. (Esse mecanismo será explicado em detalhe no capítulo sobre Exercícios para a Libertação do Trauma). Esse processo nada mais é do que parte do nosso contínuo ciclo de evolução. Essa capacidade de esquecer somente parece acontecer quando diminuímos a resistência do ego e aumentamos os instintos biológicos naturais do corpo. Aumentar a nossa capacidade de sentir a vontade biológica de sarar permite que a vida-força trabalhe em nós com menos limitações. Nesse aspecto, perdoar e esquecer são como mecanismos naturais de controle e que asseguram esse processo evolucionário sem fim. Existe uma frase de Friedrich Nietszche no livro Untimely Meditations (1997) que diz que possuímos ...o poder de crescer unicamente por dentro, transformar e incorporar o passado e o desconhecido para sarar feridas, substituir o que foi perdido e duplicar estruturas partidas internamente. Inevitavelmente, quer gostemos ou não, quer queiramos ou não, nosso processo de recuperação de trauma nos forçará a entrar mais profundamente em nosso corpo e mais ainda nas reflexões da nossa mente do que teríamos coragem de fazer. Apesar dessa exploração ser dolorosa, temos que nos resignar com o fato de que ...esta é a maneira de ser das coisas e elas foram feitas dessa maneira por fatores que não estão sob controle da pessoa. (Holloway, 2002). Recusar-se a esquecer o passado somente nos forçará em um círculo de feedback neural que faz com que o trauma seja revivido inúmeras vezes em nossas mentes em um círculo sem fim de loucura. Eventualmente, o processo neurológico dos nossos cérebros transformará esse caos em sentimentos de ódio, vingança, vergonha, suicídio ou depressão. Quando entramos nessa arena podemos ser vítimas presas para sempre na compulsão e na vingança de vítima ou ser sobrevivente, com liberdade e perdão. Esquecer o passado é a responsabilidade individual de cada sobrevivente de trauma. É responsabilidade de cada pessoa garantir que vingança não entre mais no seu futuro desse momento em diante. Somente essa experiência radical de esquecer pode restaurar o processo biológico natural do indivíduo. Essa restauração dos nossos instintos naturais de sobrevivência e evolução é tão poderosa que até mesmo esquecemos a nossa necessidade passada de vingança e ódio. Com a recuperação do episódio traumático em nossas vidas, nós nos rendemos e aceitamos mais facilmente a maneira como o universo nos tem tratado. O paradoxo é que quanto mais entramos na vida, mais nós descobrimos que podemos retomar o controle das nossas vidas e participar da precariedade de ser um ser humano. Somente esquecendo podemos nos livrar do passado, entrar no futuro e nos preparar para nossa próxima experiência evolucionária ou transformacional. O trauma, nessa visão, torna-se não somente parte do nosso processo evolucionário, mas é também o nosso processo de aprendizado para nos tornarmos uma humanidade mais madura e de mais sabedoria. *** Sumário Paradoxo: os seres humanos possuem um imperativo biológico de esquecer! Há uma recusa egoísta de esquecer nosseres humanos. Esquecer: está geneticamente codificado no homem para completar um processo e começar algo novo como parte do nosso ciclo de evolução sem fim. Recusa: de esquecer o passado é a resistência no nosso instinto evolucionário natural. Resistência: ao nosso processo evolucionário natural limita a força da vida e inibe nossa capacidade de crescer, amadurecer e desenvolver sabedoria. Transformar e incorporar o passado em nossa experiência presente. Substituir estruturas partidas por estruturas saudáveis. IDENTIFICANDO O TRAUMA “Estou ficando doido?” Nós mergulhamos pela porta antes que um morteiro atingisse o local preciso onde estávamos sentados alguns segundos antes. Sujeira, lama e pedras nos atingiram nas costas. Agachados, corremos rapidamente por um pequeno corredor e procuramos a segurança de uma esquina desse corredor. Protegendo nossas cabeças com as mãos e sentados na posição fetal, esperamos até que o bombardeio parasse. Esses 15 minutos pareceram uma eternidade. Foi somente dois anos depois que me dei conta de que as várias experiências, como essa, estavam criando reações traumáticas em mim que mais tarde seriam manifestadas como PTSD. Infelizmente, o trauma e PTSD têm-se tornado fatos no cenário global, nas vidas das pessoas e na psique dessa geração. Devido ao aumento em conflitos armados, violência, terrorismo, extrema pobreza, desastres naturais e desastres provocados pelo homem, trauma e PTSD são termos que começaram a dominar essa era da história da humanidade. Como resultado da maior conscientização do trauma e seus efeitos prejudiciais à psique de indivíduos, de instituições e até de sociedades inteiras, a ciência médica tem, mais do que nunca antes, começado a explorar esse fenômeno de maneira mais profunda e ampla. Quando eu retornei aos Estados Unidos depois de ter vivido no Líbano durante um ano, no final da década de 1970, quando a violência estava no auge, eu comecei a ter graves reações físicas e psicológicas que apareceram primeiro inexplicavelmente. Constantemente, eu tinha problemas gastrointestinais, muita fadiga, leve depressão com relação à vida e dores no corpo sem nenhuma causa “médica” ou cura. Eu sentia como se estivesse enlouquecendo porque esses sintomas eram reais para mim, mas não reconhecidos ou confirmados por profissionais da medicina. Tudo isso contribuiu para um crescente senso de impaciência e incontrolável irritabilidade com a vida. Um bom exemplo disso ocorreu um dia quando eu fui a uma loja com a minha cunhada. Na entrada da loja, alguém nos cumprimentou imediatamente e entregou um carrinho de compras, dando-nos as boas-vindas à loja. Ao mesmo tempo, eu notei que o balcão de devoluções tinha 12 pessoas na fila e somente uma para ajudá-las. Imediatamente, eu fiquei enfurecido com a injustiça de alguém nos dar as boas-vindas, mas depois nos fazer esperar para ser atendidos. Eu comecei a falar gritando com a minha cunhada sobre as injustiças do mundo. Eu senti como se uma raiva estivesse se soltando dentro de mim, por causa dessa simples experiência que, ao mesmo tempo, possuía uma intensidade incontrolável. Minha cunhada me agarrou pelo braço e gritou, “Dave! Estamos apenas em uma loja!” Quando eu me dei conta das violentas emoções que tinham aflorado, eu saí da loja e fui para a segurança e solidão da minha casa. Na década de 1970, PTSD não era um tópico muito conhecido entre os terapeutas, então eu me sentia incompreendido e isolado na minha busca sobre o que havia de “errado” comigo. Eventualmente eu encontrei um terapeuta que conhecia a teoria do PTSD, mas não tinha muita experiência em nenhuma metodologia específica para ajudar a resolver os sintomas e sarar as causas. Depois de vários anos de busca interna, eu descobri vários assuntos que estavam me afligindo. Esses assuntos são comuns na sociedade de hoje, especialmente entre profissionais que trabalham em profissões possíveis de trauma como polícia, bombeiros, equipes de resposta à emergência, militares, pessoas que trabalham com vítimas de violência doméstica, médicos, enfermeiras e pessoal que atende a emergências em hospitais. Explorar o tópico do trauma abriu uma Caixa de Pandora com várias outras experiências debilitantes. Eu gostaria de identificar algumas dessas experiências porque várias pessoas que estão se recuperando de traumas continuam a sofrer complicações psíquico-emocionais. Identificar esses sintomas de traumas no início do livro poderá ajudar pessoas a reconhecer e a identificar suas próprias experiências no seu processo de recuperação. Trauma é qualquer experiência que traz uma sobrecarga ao mecanismo normal de suportar dificuldades. É por isso que o trauma é tão difícil de identificar. Uma experiência que possa sobrecarregar um indivíduo pode não ser para outro. Portanto, reações traumáticas nunca devem ser julgadas como fraqueza de uma pessoa ou incapacidade de lidar com o evento. Uma reação traumática é simplesmente uma resposta básica de emergência do organismo humano sendo ativado para promover a sobrevivência. Com frequência, ela depende de várias circunstâncias como idade, grau de ameaça ao indivíduo, possibilidade de escape ou grau de dano físico que ele possa sofrer. Devido à própria história da sua vida, um soldado poderia ficar gravemente traumatizado em batalha, enquanto que outro ficaria apenas levemente traumatizado. Uma pessoa, em um acidente de automóvel, pode ficar gravemente perturbada durante anos enquanto que outra, no mesmo incidente, se recuperaria em alguns meses. O que é importante reconhecer é que nossas reações são instintivas e, portanto, não estão sob controle consciente. Não é nossa reação consciente sofrer, reagir a uma situação e ficar traumatizado. É um instinto animal que nos força a responder dessa maneira. Exemplos de traumas comuns, que são sofridos por grandes populações, são desastres naturais como terremotos, tempestades, tornados e inundações. Trauma induzido pelo homem seriam experiências como: acidentes de transporte, perda súbita de vida de uma pessoa amada, violência doméstica e/ou violência na família, ataques físicos ou sexuais, explosões e guerra. Quando as pessoas leem uma lista como essa, elas com frequência veem que tiveram inúmeras experiências em suas vidas que podem ser identificadas como traumáticas, mas nunca prestam muito atenção a isso porque “todo mundo passa por isso.” O que está acontecendo, em nossa sociedade hoje em dia, é que as pessoas estão começando a se conscientizar de que essas experiências lhes afetam muito e que podem até mesmo alterar o curso das suas vidas. As pessoas estão agora reconhecendo que elas sofreram e sobreviveram episódios traumáticos, mas que não curaram, necessariamente, os seus efeitos prejudiciais. Essa falta de atenção a essas experiências e a subsequente falta de cura resulta em sintomas, reações e comportamentos pós-traumáticos. Esses sintomas pós- traumáticos são conhecidos como Desordem de Tensão Pós- Traumática (PTSD). PTSD é qualquer desordem de ansiedade física, psicológica ou emocional após um evento estressante ou que sobrecarregue o organismo. Essa ansiedade pode se manifestar de várias maneiras. Os indivíduos podem sofrer flashbacks (isto é, reviver o evento), perturbações do sono, perda de memória, falta de concentração, pesadelos e evitar simbolicamente pessoas, coisas ou eventos. Já que essas experiências nem sempre são óbvias, muitas pessoas sofrem sintomas de PTSD em isolamento e silêncio, enquanto a família e amigos se perguntam, “Por que ele (ou ela) não supera isso e continua a sua vida?” Um exemplo disso aconteceu quando eu recebi um telefonema urgente de professoras de uma escola na África que tinha 200 meninos refugiados de guerra. O comportamento extremo desses estudantes, com eventos de raiva incontrolável, hiperatividade, depressão e absenteísmo endêmico, estavam causando extrema tensão nos professores. Meu primeiro passo foi juntar todos os alunos da escola e fazer perguntas. Minha primeira pergunta foi, “Quantos de vocêsdormem a noite toda?” Nenhum estudante levantou a mão. Quando eu perguntei por que eles não estavam dormindo bem, muitos deles revelaram que sofriam de pesadelos crônicos e/ou tinham lembranças intrusivas. Nenhum estudante conseguia dormir uma noite inteira sem se acordar. E quando eles estavam dormindo, se eles escutassem outro estudante no dormitório com pesadelos, aqueles que estivessem dormindo mais perto dele acordariam para ajudar a se acalmar. Após continuar o questionamento, tanto a estudantes quanto a professores, descobrimos que eles sofriam de outros sintomas de PTSD como falta de concentração e memória em curto prazo. Os professores ficaram chocados. Nenhum deles conhecia a tensão pós-traumática que esses estudantes estavam sofrendo e que estava lhes causando uma agonia sem fim. Esses rapazes não conseguiam esquecer. Eles não conseguiam superar e continuar suas vidas. Apesar de estarem seguros e longe da zona de guerra, a batalha interna psicológica e emocional ainda estava sendo travada. Traumatização vicariante é outra experiência psicossomática que pode ser muito prejudicial. Esta é a mudança de pensamento devido a exposição a histórias traumáticas de outra pessoa. Isso foi primeiro estudado entre conselheiros, líderes religiosos e profissionais médicos trabalhando em países em guerra. Foi reconhecido que, apesar de um bombardeio, tiros ou ataque militar ter acontecido apenas uma vez, os profissionais talvez escutem a mesma história várias vezes de seus clientes, pacientes ou membros da igreja. Eventualmente, isso pode ter um efeito cumulativo causando medo, raiva ou sofrimento emocional no indivíduo que escutou a mesma história várias vezes, apesar de, talvez, ele não ter sofrido o trauma inicial. Exemplos comuns disso na cultura americana são: testemunhar um acidente de automóvel, ouvir um sobrevivente contar sua história de sobrevivência a um desastre natural ou assistir a eventos horripilantes na televisão. Em nenhuma dessas experiências a pessoa que está escutando ou assistindo está em perigo, mas mesmo assim, após ouvir ou assistir as experiências traumáticas de alguém elas ficam assustadas, têm lembranças perturbadoras ou pesadelos sobre o evento. Um exemplo contemporâneo para muitos americanos é a queda das torres gêmeas. Cada torre caiu apenas uma vez, mas nós assistimos a elas caírem inúmeras vezes na televisão, multiplicando assim o impacto vicariante do trauma. Ao final, as pessoas de toda uma nação estavam sentindo medo e terror, como se elas fossem as próximas a serem atacadas e possivelmente aniquiladas. As pessoas ficaram com medo de voar, muitas sofreram pesadelos e reportaram que tinham pensamentos ruins durante vários dias e semanas após a queda das torres. O medo aumentou a discriminação contra pessoas que tinham “cara de árabe” e que, repentinamente, ficaram sendo vistas como potencialmente perigosas, apesar de nada terem a ver com os eventos traumáticos daquele dia. Muitos americanos, até mesmo em cidades a milhares de quilômetros de distância de New York e Washington, D.C., agiam como se suas vidas estivessem em perigo iminente. Esse estado de profundo medo desenvolveu-se, vicariantemente, por causa das experiências traumáticas de outras pessoas e não delas próprias. Fadiga de compaixão é outra experiência comum para pessoas que trabalham em profissões passíveis de trauma ou que vivem em ambientes violentos. Fadiga de compaixão é qualquer experiência intensa onde as emoções da pessoa são reprimidas ou suprimidas. O tiroteio na escola Columbine oferece um exemplo perfeito. Muitos estudantes foram mortos e as famílias dos outros estudantes foram a vários funerais e fizeram inúmeras visitas a hospitais, para ficar com seus filhos ou filhos de amigos. Elas visitaram as famílias e amigos, que viviam na área, para dar consolo. Na sua tentativa de oferecer apoio à dor dos outros, eles tiveram que reprimir suas próprias emoções e suas lágrimas ou tentavam controlar o tremor involuntário que, geralmente, acontece quando o corpo está extremamente tenso e cansado. Após fazer isso por várias semanas, é natural começar a sentir-se fisicamente exausto e emocionalmente drenado. Isso é porque o corpo contrai a musculatura na face, pescoço e peito, como uma maneira de segurar as lágrimas e controlar as expressões de emoção. Se fizermos isso durante um dia inteiro, uma semana ou um mês, nosso corpo fica fadigado. O que é necessário para aliviar essa fadiga é, simplesmente, permitir expressar as emoções que precisavam passar pelo corpo no momento do evento emocional. Quando então choramos bastante ou temos um período prolongado de descanso, o corpo começa a se restaurar lentamente. Com a ocorrência de um evento traumático, é possível sofrer muitos bloqueios psíquico-emocionais que podem deixar o corpo exausto fazendo com que a pessoa sinta-se deprimida, letárgica e emocionalmente desconectada. *** Sumário Estresse: uma experiência que requer mudanças no mecanismo normal de lidar com certos eventos. Trauma: qualquer experiência que sobrecarregue o mecanismo normal de lidar com certos eventos. Desordem de tensão pós-traumática (PTSD): qualquer ansiedade incontrolável após uma experiência traumática. Funcionamento diário prejudicado Irritabilidade Resposta exagerada Dificuldade para dormir Lembranças perturbadoras Perda de memória Pesadelos Desconexão Flashbacks Dificuldade de concentração Traumatização vicariante: uma mudança inconsciente no pensamento devido à exposição a experiências traumáticas de outras pessoas. Fadiga de compaixão: uma intensa experiência onde as emoções são suprimidas ou reprimidas. EFEITOS RESIDUAIS DO TRAUMA “Eu não sei porque não consigo me controlar.” Até recentemente, a maior parte dos programas de pesquisa sobre trauma e desordem de tensão pós-traumática era conduzida dentro do campo da Psicologia, assim, consequentemente, a maior parte dos programas de recuperação eram projetados para aliviar os sintomas do trauma e o PSTD tratava primariamente das dimensões psicológicas e emocionais do indivíduo. No entanto, pesquisas mais recentes no campo de estudos do trauma estão ajudando a expandir e a desenvolver essa visão limitada. A transfertilização de campos de estudo como Psicobiologia e Neurofisiologia estão revelando novos níveis de entendimento dos efeitos do trauma no corpo. Isso está trazendo maior conscientização sobre as interações críticas e interdependência mútua das respostas autonômas do corpo e processos neurológicos. Ocorra o trauma de forma psicológica, física, emocional ou interpessoal, ela inevitavelmente se expressa no corpo. Evidências históricas estão mostrando que o campo do trauma, mais do que qualquer outro campo de estudo, está demonstrando o elo entre o corpo e a mente. Essa mudança em conscientização está aumentando o reconhecimento de que o trauma é primariamente uma reação instintiva do corpo. A Neurologia, Biologia e anatomia do corpo mudam durante a exposição a experiências traumáticas. A personalidade do indivíduo simplesmente se reajusta para habitar esse novo corpo. Em outras palavras, a reação defensiva primária do corpo ao trauma cria uma resposta secundária psicológica e adaptativa. Um exemplo disso acontece quando soldados retornam de uma zona de guerra. Eles, com frequência, ficam distraídos com as lembranças do combate, a resposta da adrenalina pode ainda ser altamente ativada e seus corpos ficam tensos e contraídos. Devido ao fato que o corpo ainda está energeticamente carregado e preparado para o perigo, a personalidade do indivíduo pode ainda estar muito volátil, defensiva e emocionalmente distante. As suas reações a pequenas tensões podem ser exageradas. Isto é, possivelmente, o que contribui para que os soldados retornem da guerra e, em questões de meses, ocorram divórcios ou abusem suas esposas ou repentinamente vejam as suas personalidades sequestradas por reações instintivas e incontroláveis no seus corpos. As mudanças neurológicas, biológicas eanatômicas causaram uma dramática mudança na sua personalidade. Reconhecer que o corpo tem um sistema automático de respostas instintivas, que tornam-se ativas durante o tempo do trauma, nos permite estudar essas respostas inconscientes. Quando essas respostas instintivas primárias voltam ao normal, as mudanças na personalidade secundária podem ser restauradas também para o normal. *** Sumário .. O trauma é primariamente uma resposta autônoma, inconsciente e instintiva de um organismo vivo. .. Mudanças neurológicas, biológicas e anatômicas ocorrem sem a decisão consciente do indivíduo. .. Neurológica + biológica + anatômica = psicológica. .. Essa reação somática de proteção cria uma resposta fisiológica secundária para adaptar e ajustar à nova fisiologia. .. Psicologia = confrontar o ego antes de lidar com o trauma. .. Trabalho de corpo = trabalhar ao redor do ego para fornecer alívio antes do insight. .. Ao trabalhar diretamente com as respostas primárias, as defesas do ego podem ser minimizadas no processo de recuperação. OS MÚSCULOS DE DEFESA PSOAS “A dor na minha lombar é insuportável.” Para entender como o corpo protege-se contra o trauma é importante entender a anatomia básica do corpo. Os músculos do corpo foram projetados para se contrair em tempos de perigo e relaxar em tempos seguros. Durante o perigo, os músculos contraem-se a fim de dobrar o corpo em uma bola, protegendo a região inferior do estômago contra danos ou possivelmente morte. Quando o perigo passa, o corpo está projetado para liberar a tensão muscular em excesso, que foi necessária ser usada durante o episódio traumático. Um conjunto de músculos muito importantes que nos protegem durante o trauma são os músculos psoas. Os músculos psoas são considerados os músculos de resposta lutar/fugir da espécie humana. Esses músculos primitivos ficam de guarda, como uma sentinela, protegendo o centro de gravidade do corpo humano. Eles estão localizados bem em frente da terceira vértebra do sacro (S3). Esses músculos se conectam nas costas com a pélvis e as pernas. Durante qualquer experiência traumática, os músculos psoas se contraem. Para sarar de quaisquer contrações de trauma físico, esse profundo conjunto de músculos solta sua tensão protetora e retorna ao estado relaxado. Tem sido geralmente aceito que, após experiências bem estressantes ou traumáticas, as pessoas podem fazer uma massagem, tomar um banho quente ou fazer alguns exercícios e isso resolve o seu trauma e restaura o seu corpo a um estado saudável. No entanto, esse não é o caso quando se trata de tensão traumática nos músculos psoas. A capacidade do corpo de relaxar a tensão nesses músculos tem sido diminuída devido ao nosso processo de socialização. (Isso será explicado mais a fundo no capítulo sobre Exercícios de Libertação de Trauma). Com frequência, a causa de terríveis dores lombares são os músculos psoas contraídos ou danificados. Isso é muito comum em sobreviventes de abuso sexual. Quando os músculos psoas se contraem e empurram o corpo para frente, isso causa uma contração muscular secundária quando o corpo tenta compensar esse empurrão para a frente. Os músculos eretos da espinha também puxam o corpo para trás numa tentativa de mantê-lo ereto. Essas duas tensões opostas na verdade começam a comprimir a espinha lombar, à medida que empurram as vértebras juntas, criando uma compressão na espinha que pode danificá-la ao longo do tempo. Se a tensão for mantida por tempo suficiente, esse empurrão eventualmente causará dores secundárias nos ombros e pescoço também. Os músculos do diafragma também adicionam tensão a essa área. Os músculos psoas sobrepõem-se sobre o ilíaco e músculos do diafragma na espinha. Juntos, eles formam um sistema de ligação do torso, pélvis e pernas. Já que esta é uma área estratégica de proteção, o grande número de nervos simpáticos (nervos lutar/fugir) também é encontrado nessa área do corpo. Ver figura a seguir. MECANISMO DE LIBERTAÇÃO DO TRAUMA “Eu tremia incontrolavelmente três dias depois.” Como uma sociedade não mais aceitamos demonstrar sinais de medo. Uma voz trêmula, pernas bambas, joelhos e mãos que tremem revelam no corpo o medo que é interpretado como sinal de fraqueza. Fraqueza é inaceitável em nossa cultura. No entanto, essa experiência natural do corpo de tremer durante ou após um evento aterrorizante é muito comum entre os seres humanos. Um amigo me contou sobre um evento traumático em sua vida, que ajuda a demonstrar a experiência que todos temos de tremer o corpo. Um dia, ele e alguns amigos estavam sentados junto de um grupo de carros perto de uma rodovia. Os automóveis passavam em alta velocidade e um deles, acidentalmente, bateu em outro, capotou e veio na direção deles. Todos os rapazes correram em direções diferentes quando esse automóvel começou a vir na sua direção. Esse carro finalmente parou de cabeça para baixo. Eles puxaram os ocupantes de dentro do carro e administraram primeiros socorros até que chegassem os profissionais de saúde. A cena era violenta, caótica e cheia de sangue. Mais tarde, eles conversaram sobre suas diferentes reações. Um dos rapazes foi para um bar e bebeu vários drinks para acalmar seus nervos porque ele estava tremendo muito. Outro foi para casa e foi dormir sem conversar sobre o incidente; ele disse que tomou pílulas para dormir, para se acalmar. Dois outros disseram que tremiam tanto na cena do acidente que a polícia ofereceu-se para levá-los até as suas casas. O que todos tinham em comum era que todos estavam tremendo. Um lidou com isso bebendo e anestesiando seu corpo com a bebida para fazer o corpo parar de tremer. O outro foi para casa dormir, mas dois dias depois, quando ele estava sozinho em casa, ele disse que começou a tremer incontrolavelmente. Os dois que foram levados para casa pela polícia disseram que, mesmo horas depois do acidente, eles ainda tremiam. Todos nós conhecemos essa experiência de tremer involuntariamente que acontece quando estamos nervosos, com medo e até mesmo quando temos uma raiva. Temos até mesmo expressões próprias da cultura que refletem essa experiência. “Eu estava tremendo de raiva.” “Eu estava tão nervoso que meus joelhos tremiam.” “Eu estava com tanto medo que meus dentes começaram batendo um no outro.” Até mesmo em ocasiões alegres como casamentos podemos ficar tão nervosos que as mãos tremem incontrolavelmente. Então, de onde vêm os tremores? Por que o nosso corpo faz isso? Essencialmente, esses tremores é um método natural que o corpo tem de descarregar os altos níveis de tensão e os produtos químicos que sobrecarregam o corpo no momento de um incidente. Através dos tremores, o corpo descarrega excesso de excitação e retorna para o estado de descanso e relaxamento. Na verdade, uma das mais primitivas respostas no animal humano é a capacidade de tremer para liberar o trauma. A fim de entender a necessidade natural humana de tremer é necessário entender como todos os mamíferos lidam com experiências traumáticas. As espécies animais, que ainda vivem nos seus habitats naturais, sofrem trauma com frequência. Ao contrário dos seres humanos, eles ainda não insensibilizaram nem reprimiram sua capacidade natural de descarregar o excesso de energia gerada durante o trauma. Os animais ainda permitem que os seus corpos tremam para aliviar a tensão e a experiência traumática e depois continuam a sua vida sem carregar o trauma. Se um antílope for atacado por um leão, mas consegue escapar, quando ele sentir-se seguro todo o seu corpo tremerá até ter descarregado o excesso de carga; ele retornará para o seu bando e beberá água como se nada tivesse acontecido. Até mesmo nossos animais domésticos, que vivem em ambientes artificiais ou construídos, tremem se estiverem com medo de raios e trovões. Quando isso acontece, eles veem para perto de nós e tremem. A tremedeira é um processo natural do corpo descarregando a energia que está sendo criada, simultaneamente, no corpo. Nós, seres humanos, possuímos esse mesmo mecanismo,mas, infelizmente, nós o inibimos ou amortecemos. Por exemplo, quando ficamos nervosos ou muito excitados nós, deliberadamente, tentamos não tremer para não aparentar fraqueza ou medo. Esse controle do ego coloca o corpo e a mente em conflito. O corpo quer tremer para descarregar o excesso de energia, mas a mente não permite. A mente geralmente ganha e o corpo então tem que procurar outra maneira de lidar com esse aumento de carga. A maneira de lidar com isso é contraindo o músculo e impedindo o excesso de descarga. Os músculos no corpo contraem-se e seguram o excesso de carga até que ela possa ser liberada algum tempo mais tarde. Se não houver essa oportunidade, os músculos contraídos então produzem um estado de tensão crônica no corpo. E aqui está uma das causas raízes do PTSD. Se os músculos contraídos, durante o trauma, não liberarem essa alta carga logo após o trauma, eles continuarão a tentar mais tarde como uma maneira de restaurar o corpo a um estado de descanso. As reações pós-trauma são causadas por excitação residual não descarregada, gerada no momento do evento. Se esse alto estado de energia excitada não puder ser descarregado do corpo, ele permanecerá preso em um círculo bio-neuro-físico que causará a repetição desse padrão de tensão crônico de proteção e defesa. Um principal componente para uma recuperação bem sucedida de um trauma é ativar o mecanismo natural de liberação, que envia um sinal ao corpo para retornar a um estado de descanso e recuperação. Para todos os seres humanos, depois que o trauma termina, o sistema nervoso deveria naturalmente acionar a si e começar a tremer para descarregar produtos químicos ou tensões residuais que permanecem após o episódio traumático. Esse tremor envia um sinal ao cérebro informando que o perigo passou e que ele deve desligar seu estado de alerta. Se o sistema nervoso não ativar a si, o corpo continuará a permanecer em um tipo de círculo de curto- circuito com o corpo continuando a acreditar que ainda está em perigo e, portanto, continuando a comandar o corpo para permanecer em prontidão e alerta. Os Exercícios para Libertação de Trauma (TRE)™, criados exclusivamente e mostrados no final desse livro, foram especificamente projetados para induzir artificialmente o tremor no corpo. Ao induzir os tremores, através dessa técnica simples e indolor, será possível liberar as contrações profundas dos músculos criadas por grave choque ou trauma. Os exercícios usam apenas o mecanismo natural do corpo. No entanto, a chave para o TRE é que eles induzem os tremores a partir do centro de gravidade do corpo localizado na pélvis. Quando os tremores são induzidos nesse poderoso centro do corpo, ele reverbera por todo o corpo procurando por tensões profundas e dissolvendo-as naturalmente. Ao seguir os exercícios mostrados no final do livro, você poderá começar a liberar as tensões crônicas do seu corpo a partir do centro de gravidade para fora. O seu corpo começará a tremer involuntariamente, procurando por áreas de tensão e descarregando-as lentamente e relaxando esses músculos. Os tremores começam inicialmente na parte superior das coxas e continuam até os músculos psoas. Os tremores então viajam através da pélvis e lombar e, finalmente, espinha acima até o pescoço, braços e mãos. Esse tremor pode produzir um sentimento de exaustão semelhante àquele que se sente depois de intensa musculação, ou pode produzir muita energia fazendo-o sentir cheio de vigor. Cada vez que você fizer os exercícios, o padrão dos tremores pode mudar e vários tipos de tremores podem ocorrer. Antes de fazer esses exercícios ou qualquer outro, você deve consultar o seu médico, terapeuta ou outro profissional. Apesar de simples e fáceis, esses exercícios podem ter um efeito imediato e profundo no estado físico e/ou psicológico do indivíduo. Eles podem reduzir rapidamente a pressão arterial, provocar tremores fortes e uma liberação profunda de emoções. Eles podem também invocar traumas passados para os quais talvez você queira ter ajuda de um profissional ou apoio pessoal. Como sempre, a chave é respeitar o seu corpo, as suas emoções e a sua psique. Se, por qualquer motivo você achar que precisa parar os exercícios ou os tremores, simplesmente estique as pernas no chão, relaxe deitado no chão de barriga para cima ou assuma a posição fetal. Você pode continuar os exercícios quando se sentir calmo, seguro e confortável. Esses tremores podem ser usados simplesmente com o propósito de aliviar tensões criadas pelo estresse diário da vida. Apesar de ter incluído essa precaução, eu quero também assegurar que se você não tiver nenhuma conexão psíquico- emocional, isso não significa que algo está errado. Simplesmente, aproveite as vibrações causadas pelos exercícios e continue a repeti-los. Eles têm o efeito cumulativo de relaxar o corpo em níveis cada vez mais profundos. Muitas pessoas que têm feito extenso trabalho de corpo e de recuperação de trauma acham que esses exercícios e os tremores são uma ferramenta de profunda integração para o trabalho psicossomático, que elas já completaram. Para o propósito de aprender os exercícios é melhor fazê- los na sequência mostrada no livro. Eles começam a partir dos dedos do pé e sobem para o pé, tornozelo, pernas e finalmente a pélvis. Trabalhar de baixo para cima ajuda a estabelecer a forte conexão com as pernas antes de trabalhar nas áreas superiores do corpo. A diferença entre esses exercícios e outras formas de exercício como correr, levantar pesos e aeróbica é que a maior parte das rotinas de exercícios são para liberar tensões em nível de superfície do corpo. No entanto, isso é insuficiente quando se lida com as profundas tensões crônicas criadas em uma experiência traumática. Com frequência, quando essas formas mais leves de exercícios são usadas para tentar aliviar as tensões criadas durante o trauma, elas não entram profundamente no músculo para aliviar a tensão. Isso pode fazer com que o indivíduo sinta-se frustrado e sem esperança, se não liberarem as tensões do trauma. MUDANÇAS NA ADRENALINA “Meu corpo estava indo a mil por hora.” Violência doméstica em famílias de soldados que retornaram recentemente da guerra é maior do que em outras populações. Inúmeros estudos têm demonstrado que os níveis químicos da adrenalina, cortisol e serotonina no corpo tornam-se significativamente alterados quando os indivíduos são expostos a experiências repetidas ou prolongadas de trauma. Um soldado explicou bem quando ele disse: “É como se estivesse a mil por hora e todo mundo a 30. Eu sinto-me todo energizado por dentro e não tenho onde descarregar essa energia.” A descrição dele é muito precisa. Na verdade, ele estava quimicamente alterado por excesso de adrenalina. Apesar do pessoal da área de saúde conhecer bem esse estado, que é criado durante experiências traumáticas, pouca atenção é dada para reduzir os níveis de adrenalina e cortisona de indivíduos traumatizados. Não somente soldados, mas também policiais, bombeiros, pessoal que trabalha em ambulâncias, vítimas de violência doméstica e crianças que sofreram abuso e todos que ainda vivem e trabalham em ambientes traumatizantes. Essa é apenas uma amostra de uma crescente lista de pessoas, que precisam de uma metodologia para estabilizar essas significativas mudanças bioquímicas no corpo, causadas por experiências e ambientes traumatizantes. Todos nós já sentimos esse surto de adrenalina antes. No entanto, a maior parte das pessoas se acalma e retorna à vida normal. Infelizmente, esse não é o caso com indivíduos que passam por experiências repetidas e prolongadas de estresse e trauma. Depois de uma repetida e/ou contínua exposição a situações perigosas, o corpo fica tão acostumado a produzir altos níveis de adrenalina e cortisona que, automaticamente, níveis altos começam a parecer algo normal. Em outras palavras, todos nós temos um certo nível natural de adrenalina em nosso corpo. Se continuarmos a produzir altos níveis de adrenalina regularmente, nosso corpo se ajusta a produziradrenalina nesses níveis mais altos, mesmo quando não mais precisamos deles. Essencialmente, nós nos tornamos viciados em nossos próprios produtos químicos. Acompanhando essa produção de adrenalina está uma redução de serotonina. A serotonina é uma droga boa que nos faz sentir bem. Esse é o produto químico que nos inibe e impede de agir com nossos impulsos agressivos. A redução da serotonina em seres humanos tem sido repetidamente correlacionada à impulsividade e agressão. Em animais, uma redução na serotonina produz uma excitação emocional exagerada e/ou agressividade (van der Kolk, 1994). A combinação de maior adrenalina com redução de serotonina é precisamente o que faz um indivíduo calmo e controlado agir nas suas emoções agressivas. Em tempos de guerra, perigo ou trauma, queremos altos níveis de adrenalina e baixos níveis de serotonina. Essa combinação de químicos garantirá que tenhamos reações agressivas e que iremos agir agressivamente. É precisamente esse comportamento que nos mantém vivos quando estamos em perigo. A dificuldade aparece quando a pessoa sai do ambiente perigoso e imediatamente retorna ao ambiente normal. As suas respostas bioquímicas ainda estão altamente ativadas apesar de já não serem necessárias. Isso é o que faz com que o indivíduo tenha uma reação exagerada às tensões normais do dia-a-dia. *** Sumário .. O trauma cria novos níveis biológicos para a produção de produtos químicos no corpo (adrenalina/narcótico) .. O corpo não consegue seguir seu ritmo natural de excitação/descanso. .. As glândulas da adrenalina tornam-se exaustas e entram em estado forçado de recuperação. .. A resposta às tensões do dia-a-dia é exagerada. .. O trauma/estresse torna-se um estado de preocupação em vez de uma experiência passageira. .. Essa reação química torna-o vulnerável à hipertensão ou à depressão. NARCÓTICOS E A SENSAÇÃO DO ÓPIO “Era como se eu estivesse em câmera lenta” Apesar de estarmos familiarizados com a excitação da adrenalina existem outras mudanças químicas importantes, mas menos conhecidas, que podem acontecer no corpo durante episódios traumáticos. Esses químicos pertencem a um grupo chamado de narcóticos. Durante o ataque às torres gêmeas em New York, muitas pessoas que estavam próximas reportaram suas experiências assim: “Eu vi acontecer, mas era como se não fosse real.” “Era como se estivesse em câmera lenta.” “Eu corri, mas não parecia que era o meu corpo.” “Era como se outra pessoa estivesse correndo.” “Eu ouvi gritos, mas era surrealista.” “Eu recebi um corte feio, mas não senti nenhuma dor até que tudo acabou e alguém me disse que eu estava ferido.” Todos esses comentários em qualquer outra circunstância pareceriam suspeitos, como se as pessoas estivessem drogadas. “Câmera lenta, surreal, fora do meu corpo, sem sentir dor ...” Comentários como esses são geralmente feitos por pessoas que estão em algum tipo de medicação que altera a mente. Isso é exatamente a verdade. O corpo tem a capacidade de fabricar drogas que alteram a mente e as sensações durante um período de trauma. Esse processo é uma resposta primitiva do animal humano. Um exemplo seria encontrar um leão na floresta e ficar sem rota de escape a não ser lutar contra o leão. Teríamos um surto de adrenalina para melhorar o tônus muscular e torná-lo mais resistente. Mas, se durante a luta com o leão nosso braço ficar ferido, nosso corpo, imediatamente, bombearia narcóticos no braço para que não sentíssemos dor. Depois que o leão estivesse morto ou tivesse ido embora e estivéssemos em segurança, o corpo pararia de injetar os narcóticos no braço e então sentiríamos a dor e procuraríamos assistência médica. Outro exemplo contemporâneo da ativação do sistema de narcóticos passa-se durante o abuso físico. Muitos indivíduos dizem “...era como se eu estivesse fora do meu corpo observando acontecer.” “Eu gritei, mas parecia que era outra pessoa gritando.” “Eu lutei e lutei, mas chegou ao ponto onde os meus músculos pararam e o meu corpo caiu.” Todas essas experiências são induzidas pelos narcóticos. É necessário saber que o corpo não está preocupado em como você vai sobreviver ao trauma e sim que você sobreviva ao trauma. Em outras palavras, o corpo não se incomoda de se render e sofrer o abuso. Ele quer apenas que você sobreviva ao abuso. Se tornar-se dormente e dissociado parecer vantajoso ao sistema do corpo, ele para de bombear adrenalina que faz com que você lute e começará a bombear narcóticos, que produzirá defesas mais passivas. Para entender melhor as mudanças químicas que acontecem no corpo, compare a resposta da adrenalina conhecida como “superexcitação contínua” com as resposta narcótica conhecida como “dissociação contínua” no seguinte sumário: Superexcitação contínua Dissociação contínua Alarme – Vigilante Amortecida, obediente Medo – Terror Dissociação O sistema de adrenalina é ativado Sistema de narcóticos é ativado Excitamento induzido Euforia induzida A serotonina diminui Os sentidos são alterados (impulsividade e agressão são alteradas) (local, tempo, realidade com emoções exageradas) Batimentos do coração (aumentam) Batimentos do coração (diminuem) Pressão arterial (aumenta) Pressão arterial (diminui) Respiração (aumenta) Respiração (diminui) Tônus muscular intensificam Tônus muscular torna-se flácido/adormecido Processamento cognitivo aumenta Diminuição do processo cognitivo Resposta agressiva Resposta passiva Outra experiência que é muito comum entre pessoas traumatizadas é chamada de experiência bifásica ou bimodal. Isso acontece quando ambos, adrenalina e narcóticos, estão trabalhando simultaneamente ou em rápida sucessão. Aqui está um exemplo: Um queniano que estava na embaixada americana quando essa foi bombardeada em Nairobi, em 2000, reagiu entrando em um estado de lutar/fugir e dissociação ao mesmo tempo. Ele literalmente correu um quilômetro sem saber o que estava fazendo e sem saber para onde estava indo. Quando as pessoas finalmente o pararam, ele sentou no chão e perguntou, “Onde estou?” É interessante que ele tinha um grande corte na parte superior da perna, que estava sangrando muito. Em circunstâncias normais, esse tipo de lesão não permitiria que a pessoa caminhasse, muito menos corresse um quilômetro. Quando lhe mostraram o corte, ele começou a gritar de dor. Até aquele momento, ele não tinha sentido a dor. O seu sistema estava bombeando adrenalina e narcóticos, simultaneamente, no seu corpo para salvá-lo de uma possível morte. Uma experiência semelhante, que é comum entre pessoas traumatizadas, é que elas vão e voltam de um estado de dissociação ou de estado de depressão para um estado altamente carregado de hiperexcitação. O indivíduo vive calmamente e então alguém faz uma pequena crítica e ele perde a calma, expressando emoções de raiva e até mesmo de ódio, gritando que as pessoas sempre abusam dele. Em alguns minutos ou algumas horas depois você vai encontrar o mesmo indivíduo deprimido, incapaz de responder até mesmo aos comentários mais positivos. Este vai e vem entre extremos é muito comum entre indivíduos traumatizados. Pessoas traumatizadas têm um desequilíbrio químico no corpo que faz com que reajam dessa maneira imprevisível. Com frequência, elas são confundidas como sendo maníaco/depressivas, desordem bipolar ou até mesmo desordem de déficit de atenção. Elas estão, na verdade, balançando entre um polo e outro. Essa é uma reação pós- traumática em vez da maneira de ser do indivíduo. Pessoas traumatizadas, com frequência, reagem exageradamente a comentários ou experiências negativas. No entanto, se estiverem sentindo-se deprimidas, a resposta a comentários ou experiências positivas será depressiva ou negativa. Elas podem se tornar demasiadamente apegadas a pessoas ou causas ou ficarem obcecadas ou excessivamente sociais. Se estiverem se sentindo deprimidas, elas se isolam socialmente e separam-se de relacionamentos importantes e quelhes dão suporte. Elas podem se mostrar emocionalmente expressivas um momento e emocionalmente mortas no próximo. Essa mudança rápida entre personalidades extremas faz com que o indivíduo aparente ser hiperativo ou depressivo. O sumário a seguir explica alguns dos comportamentos que essa mudança pode causar na personalidade do indivíduo. Personalidade do trauma. Mudanças no tônus muscular, nos produtos químicos do corpo e nos pensamentos podem criar mudanças na personalidade e na atitude do indivíduo. HIPERALERTA DEPRESSÃO Resposta agressiva a comentários negativos Não responde a comentários positivos Muito apego (excesso de socialização) Esquivo (Isolamento social) Emoções explosivas (hostilidade/chorar) Emoçõe s reduzidas (não sente nada/dormente) Comportamentos hiperativos Cansaço/insônia Neste sumário, você pode ver como a personalidade de um indivíduo pode mudar de um extremo para outro. Com mudanças químicas no corpo, uma pessoa pode ser bem social e engajada de manhã e sentir-se deprimida e isolada na hora do almoço. Sem conhecer o histórico de trauma do indivíduo é fácil pensar que ele tenha alguma desordem de personalidade. Já que os comportamentos traumáticos ficam embutidos nas características naturais da pessoa, um indivíduo ativo pode simplesmente tornar-se mais ativo e um que seja mais quieto pode tornar-se mais isolado. O que eu normalmente escuto de pessoas da família é: “João sempre foi uma pessoa voltada para si mesmo, mas desde o acidente ele tem-se tornado mais introspectivo.” Esta é uma frase chave para se reconhecer o trauma: “... um pouco mais.” Eu quero saber porque ele está “um pouco mais.” Se esse pouco mais tem-se manifestado após um episódio traumático, a probabilidade é que é uma manifestação de PTSD. INTUIÇÃO E O CÉREBRO ABDOMINAL- PÉLVICO “Eu sabia que alguma coisa estava errada.” Antes de falar sobre o cérebro e como este funciona de modo diferente durante o trauma, é importante dar reconhecimento a uma parte menos estudada do corpo humano chamada de cérebro abdominal-pélvico. Uma mulher estava caminhando por uma rua escura e sentiu que alguma coisa não estava certa. Não havia nenhum sinal óbvio, imagens ou pessoas para confirmar a sua “intuição.” Na verdade, tudo parecia calmo. No entanto, um diálogo interno começou entre o cérebro abdominal-pélvico que é acionado pela sensação e o cérebro do crânio que é acionado por sinais e imagens óbvias. Já que a nossa cultura tem desencorajado e, até mesmo diminuído, a nossa dependência na nossa intuição, preferindo a lógica, a sua batalha interna intensificou-se. “Eu estou imaginando coisas. Não há nada errado aqui. Eu não vejo nada perigoso, mas eu não me sinto segura.” Nesse momento, ela viu uma sombra perto dela saindo de um beco. Ela ficou surpresa e gritou. Felizmente, com os gritos, a “sombra” foi embora. Depois que ela chegou a casa, continuou a argumentar consigo mesma. “Por que eu não dei atenção a minha intuição? Meus sentimentos eram muito fortes. Por que eu não os respeitei?” O cérebro abdominal-pélvico é um conjunto de nervos localizado na parte inferior do abdômen e pélvis. Ele está diretamente conectado ao sistema nervoso autônomo. Esse conjunto de nervos contém mais nervos simpáticos (lutar/fugir) do que qualquer outra parte do corpo. Durante o trauma, o corpo prioriza o cérebro abdominal- pélvico em vez do cérebro cranial. Isto é porque a intuição das pessoas começa a “sentir” o perigo antes de “saber” que o perigo realmente existe. O que ocorre naturalmente é que o cérebro abdominal-pélvico começa a sentir que algo está errado e envia sinais para o cérebro cranial para ficar alerta. Já que colocamos tanta prioridade na lógica do cérebro cranial, se não houver evidência para dar suporte à sensação intuitiva do cérebro abdominal-pélvico, o cérebro cranial anulará a sensação. Este processo fisiológico é o que produz as dúvidas e os questionamentos internos que temos quando não há um motivo “lógico” para nossas sensações, mas, em nosso corpo, estamos claramente experimentando sensações de perigo ou alerta. É interessante notar que a sociedade diminui essa experiência sensorial em nossas vidas do dia-a-dia. Mas, soldados que estão na guerra, são encorajados a ficarem alerta a qualquer sensação de perigo, que eles possam sentir, mesmo não havendo dados lógicos para confirmar o perigo. Mais uma vez, esse mecanismo acionado pelo trauma ou pelo perigo tem-nos protegido durante situações perigosas na vida, mas tem recebido pouca importância da sociedade fazendo com que a preferência seja dada à lógica e não à intuição. *** Sumário Cérebro abdominal-pélvico Os seres humanos possuem a capacidade de comunicar- se e de receber comunicação de nossos sistemas fisiológicos internos. O cérebro é um aparato capaz de: 1. Receber informações 2. Reorganizar essas informações 3. Emitir impulsos dos nervos como resposta Cérebro cranial: preside os nossos processos mentais. Cérebro abdominal: preside nossa vida orgânica. É um centro de reflexos autônomos do corpo. No trauma: o corpo dá prioridade ao cérebro abdominal em vez do cérebro cranial por causa da sua significativa importância nas forças vitais da vida. 1. O cérebro abdominal-pélvico está totalmente formado e funcionando antes do cérebro cranial. 2. O cérebro abdominal-pélvico pode viver sem o cérebro cranial, mas este não pode sobreviver sem o cérebro abdominal-pélvico. 3. Existe uma singular dependência mútua entre o cérebro abdominal-pélvico e o cérebro cranial. NEUROLOGIA DO TRAUMA “Por que não posso controlar meu modo de pensar?” A maior parte do material escrito sobre a neurologia do trauma é, logicamente, de natureza técnica e muitas vezes confuso. Mas o trauma afeta a maneira como os indivíduos pensam e processam informações, então é importante que esse assunto seja explicado em linguagem simples para o entendimento de todos. Portanto, apresentarei esse assunto com terminologia e conceitos descomplicados a fim de ajudar o leitor entender como e porque memórias traumáticas são codificadas diferentemente das memórias do dia-a-dia. O cérebro pode ser dividido em três seções principais. A primeira é o tronco encefálico que controla nossas funções humanas básicas como respirar, batimentos cardíacos, pressão arterial, etc. A segunda é o sistema límbico que se desenvolve mais tarde e que controla nossos comportamentos lutar/fugir e ação/reação. Essa é a parte do nosso cérebro mais guiada pelas emoções. Uma terceira parte é o neocórtex que é a última parte do cérebro a se desenvolver. Ela controla nossa lógica e raciocínio. Neocórtex Lógica/Raciocínio Sistema Límbico Lutar/Fugir – Ação/Reação Tronco Cerebral Pressão Arterial, Batimentos Cardíacos, Respiração. Em circunstâncias normais, nosso cérebro recebe a informação, processa através das emoções do sistema límbico e envia para o neocórtex para análise, lógica e uma razoável resposta. O processo para este tipo de comportamento é de... AÇÃO REFLEXÃO RESPOSTA No entanto, esse processo muda durante um evento traumático. No trauma o indivíduo precisa agir rápida e instintivamente. Para isso, o cérebro coloca mais ênfase nas partes mais primitivas do cérebro (tronco encefálico e sistema límbico), de modo que a ação produza uma reação imediata sem o laborioso e potencialmente perigoso processo de reflexão e resposta lógica. Um bom exemplo disso é quando soldados estão sentados conversando e, repentinamente, um morteiro cai perto. Todos pulam e correm em direções diferentes. Alguns procuram abrigo, outros pulam atrás de alguma coisa e ainda outros simplesmente correm. Nenhum desses soldados tomou uma decisão consciente sobre o que fariam. Foi puramente uma resposta instintiva. Depois de passado o perigo imediato, eles podem até criticar uns aos outros ou fazer piadas ou dar risadas sobre a sua resposta, mas todos dirão, “Não sei porque reagi daquela maneira. Eu simplesmente reagi.” Essa ameaça repentina de morte fazcom que o cérebro reaja de acordo com o instinto animal em vez de pensar e responder logicamente. O processo para esse tipo de comportamento é de... AÇÃO REAÇÃO Esse processo de ação e reação ocorre com o propósito de nos proteger durante tempos de perigo. Se vivermos experiências repetidas ou prolongadas de perigo, podemos reforçar isso através de um padrão. Quanto mais usamos esse padrão, mais o nosso cérebro o usará, mesmo quando não mais estamos em perigo. Em outras palavras, quanto mais essa rede neurológica for ativada, mais esse “estado temporário” se desenvolverá como uma “característica permanente.” O que eventualmente acontece é que essa rede neural de ação/reação será ativada até para pequenos estresses e o indivíduo começará a viver a sua vida usando essa resposta neurológica traumática. O trauma não é mais um estado passageiro para esse indivíduo e sim uma realidade permanente na sua vida. Isso traz sérias implicações para pessoas que vivem em situações de violência na comunidade ou violência doméstica, que tem sofrido regularmente abuso físico ou sexual ou que testemunham ou sofrem crimes violentos ou têm estilo de vida violento. Outro elemento da Neurologia é como o cérebro codifica e processa experiências traumáticas de maneira diferente de experiências comuns. Durante eventos comuns, o cérebro funciona da seguinte maneira: Certas áreas do cérebro (áreas somato-sensoriais) recebem milhões de dados ou informações todos os dias. Quando elas recebem essas informações, elas são enviadas para outra área do cérebro (área de associação) onde as memórias e emoções de experiências passadas semelhantes são conectadas a essas novas sensações. Agora, essas informações são enviadas a uma terceira seção do cérebro (área gnóstica) onde uma “história” é composta sobre a experiência. Quando essa estória é terminada, o cérebro está satisfeito e continua a processar mais dados. Um simples exemplo disso é quando você encontra alguém pela primeira vez. Vocês apertam as mãos, você se sente seguro, a outra pessoa pode sorrir para você e fazer contato com o olhar. O seu cérebro somato-sensorial recebe a sensação do apertar de mãos, do sorriso e contato do olhar e envia essas informações para a área de associação, que agrega memórias passadas a esses tipos de encontros como sendo seguro e agradável e depois a área gnóstica concebe a história de que esse novo indivíduo, que você acabou de conhecer, é uma pessoa boa. Experiências traumáticas são processadas de maneira diferente. A diferença essencial é que, devido ao fato que as experiências traumáticas são recebidas como uma grande e intrusiva excitação do nosso sistema, elas são recebidas mais como fragmentos de uma experiência do que uma experiência completa. Em vez de serem processadas imediatamente, elas são guardadas na parte somato-sensorial do cérebro até que possam ser processadas em um outro momento. Essencialmente, o cérebro não processa todas as sensações do trauma porque essas são fisicamente ou psíquico- emocionalmente devastadoras. O cérebro agora tem bilhões de dados guardados na área somato-sensorial que precisam ser processados. Até que essas informações, nessa área do cérebro, estejam associadas a sentimentos, memórias e emoções e depois enviadas para a área gnóstica, para serem ditas como uma história, elas permanecerão sem processamento e, portanto, como memórias sem cura até que apareçam mais tarde com a finalidade de serem totalmente processadas. Essas sensações, guardadas sem processamento, são precisamente o que causam os flash backs, as más lembranças e os pesadelos. Estímulos que são muito semelhantes ao evento traumático, com frequência, chamam essas memórias não integradas. Se, recentemente, você esteve em um acidente de automóvel com um forte odor de gasolina, você pode não ter sentido o odor durante o incidente. Mas, na próxima vez que você parasse em um posto de gasolina, você poderia ter um flashback do incidente e começar a tremer ou ficar com medo, apesar de estar simplesmente comprando gasolina. O odor de gás está sendo enviado da área somato-sensorial para a área de associação onde os sentimentos e as emoções estavam sendo conectadas. Ao sair do posto, você pode ir para casa, contar a história a sua esposa, chorar, sentir o seu apoio e ser capaz de sarar essa parte da memória traumática. Um dos milagres do funcionamento do cérebro é que, à medida que passamos dos estágios de maturação como adolescência, meia-idade e velhice, nosso cérebro procurará automaticamente livrar-se das memórias somato-sensoriais não resolvidas. O cérebro será ativado naturalmente para enviar essas memórias guardadas para a área de associação para serem processadas como uma história. É por isso que muitas pessoas começam a lembrar-se de experiências traumáticas da infância, especialmente abuso sexual, durante esses estágios naturais de desenvolvimento da vida. O cérebro está tentando livrar-se de bagagem desnecessária, de modo que possa preparar-se para o próximo novo estímulo ao passar de um estágio de desenvolvimento para o próximo. TRAUMA DA INFÂNCIA “Eu não consigo me concentrar ou lembrar.” “É uma grande ironia o fato de que, quando o ser humano é mais vulnerável aos efeitos do trauma – durante a infância e a adolescência – os adultos geralmente presumem serem estes os mais resilientes.” (Perry, 1996). Estimativas conservadoras do número de crianças nos Estados Unidos expostos a eventos traumáticos no período de um ano excedem 4 milhões. Essas experiências incluem crianças que vivem em zonas de violência doméstica ou violência na comunidade, que sofreram abuso sexual ou físico, que testemunharam ou sofreram crimes violentos ou que foram expostas a outras violências súbitas ou inesperadas que provocam trauma como acidentes de automóvel, queimaduras, sequestros, etc. Pelo menos metade de todas as crianças expostas a experiências traumáticas pode desenvolver uma variedade de sintomas psíquico- emocionais na adolescência e já adultos. Dependendo da gravidade, frequência, natureza e padrão do evento ou eventos traumáticos, essas crianças sofrem o risco de desenvolver profundos problemas emocionais, comportamentais, fisiológicos, cognitivos e sociais. Quando um adulto sofre um evento traumático, o seu cérebro, maduro e desenvolvido, é capaz de criar um processo de pensamento traumático temporário para lhe ajudar a lidar com o trauma. Quando o trauma é sarado, o adulto pode dissolver essa característica e retornar a um estado integrado dentro do seu cérebro maduro. Isso não acontece com crianças. Se a criança sofre um trauma enquanto o cérebro está no seu estágio de desenvolvimento, a característica traumática temporária necessária para sobreviver ao trauma será construída no cérebro como uma característica permanente. Portanto, se a criança cresce em um ambiente traumático, quanto mais ela é forçada a usar seus padrões de pensamento de trauma, mais esses padrões se tornarão embutidos nos seus processos naturais de pensamento. Crianças traumatizadas começarão a processar todos os eventos graves, com os quais não estão familiarizados como se fossem potencialmente traumas perigosos. As suas reações a eventos normais serão naturalmente excessivas, causando hiperexcitação ou sintomas e comportamentos dissociativos. Pais, juntamente com professores de escola, administradores e outras pessoas importantes na vida da criança, geralmente, lidam sozinhos não somente com os comportamentos de mal-adaptação de crianças traumatizadas, mas também desenvolvem trauma vicariante por estarem expostos diariamente aos sintomas do PTSD dessa criança. Dadas as estatísticas dos traumas infantis, pais, educadores e pessoal de escolas deveriam ser educados quanto aos sintomas e efeitos de trauma, assim como métodos para lidar com o PTSD. Eu tive oportunidade de trabalhar com toda uma escola depois que as crianças sofreram uma experiência traumática. Inicialmente, eu ajudei os professores a refletir sobre suas próprias experiências de traumavicariante ao lidar com as graves emoções das crianças. Quando eu expliquei que elas também eram vítimas da situação, a culpa, a vergonha, a raiva e a dor que experimentaram devido às suas reações às crianças foram substituídas por um senso de renovação, entendimento e autoaceitação. Após várias discussões, o que concluímos foi que precisaríamos usar um processo de recuperação em duas partes. Primeiro, precisaríamos resolver o trauma vicariante dos professores a fim de restaurar seus pensamentos e relacionamentos para um estado saudável. Segundo, decidimos mudar o currículo escolar e horário de aulas. Incluímos exercícios específicos nas aulas de educação física para liberar tensões crônicas profundas. Isso ajudaria a descarregar os altos níveis de adrenalina e de cortisona criados como resultado das suas experiências traumáticas. Diminuímos as aulas para introduzir paradas de 5 minutos a cada 20 minutos. Isso permitia que eles se concentrassem melhor em cada segmento. Eventualmente, a duração de cada aula seria gradualmente aumentada até que eles pudessem se concentrar durante toda a aula. Introduzimos pequenos grupos de estudo que permitiam que as crianças aprendessem dentro do seu próprio compasso algo que, eventualmente, as deixaram mais confiantes. Isso também deu às crianças um senso de unidade e coesão na sua luta para recuperar seus processos cognitivos naturais. A mudança final que fizemos foi incluir no currículo uma aula de contar estórias especificamente projetada para puxar com segurança as várias memórias traumáticas dessas crianças. Esses ajustes, ao longo do tempo, lentamente reduziram e até desmontaram muitas das defesas neurológicas, fisiológicas e psicológicas que essas crianças desenvolveram durante suas experiências traumáticas. Apesar dessas e muitas crianças traumatizadas como elas terem desenvolvido padrões de comportamento de trauma, esses padrões não precisam ser debilitantes ou prejudiciais às suas vidas. As características e comportamentos sensíveis, quando entendidos e integrados à personalidade, podem ser usados de maneira criativa para encorajar o desenvolvimento dessas crianças. SÍNDROME DA IMAGEM DO INIMIGO “Eu desconfiava de todo mundo ao ponto da paranoia.” Quando eu morava em Beirute, no Líbano do final da década de 1970 e início da década de 1980, eu vivi um fenômeno estranho. Eu estava morando no leste de Beirute, uma área que era predominantemente cristã. Eu já tinha visto e tinha ouvido falar dos tipos de danos causados àqueles que viviam no oeste de Beirute, que era predominantemente muçulmana. Naturalmente, eu desenvolvi uma raiva, um ódio, desconfiança por “aqueles muçulmanos”. Apesar de não querer pensar dessa maneira, pois eu sabia que era errado, inevitavelmente, esse pensamento tomou conta de mim e eu os discriminava como todas as outras pessoas. Um dia, minha casa foi bombardeada por uma facção muçulmana e eu fui obrigado a me mudar para o lado oeste da cidade. Eu aluguei um apartamento de uma maravilhosa família muçulmana e nos tornamos muito amigos. Durante o tempo que passei com eles, eu passei a sofrer a exata quantidade de bombardeios que eles, só que dessa vez eram os cristãos quem bombardeavam. Eu estava agora testemunhando os mesmos horrores da degradação humana e sofrimento dos muçulmanos, que eu tinha visto entre os cristãos. Eu fiquei surpreso em ver que minha raiva anterior, ódio e desconfiança, que eu tinha pelos muçulmanos, estavam agora sendo projetados contra os cristãos. Agora, eles eram meus inimigos. Eu me admirei como a minha mente podia, tão facilmente, transferir meus sentimentos de um grupo para outro. Eu tive a mesma experiência quando eu pessoalmente encontrei conflitos entre os israelitas e palestinos, sudaneses do norte e do sul, eritreanos e etiopianos. Esse mesmo processo discriminatório poderia ser contra qualquer grupo que me deixasse ameaçado. Eu comecei a refletir como e porque a mente pode, tão facilmente, transferir comportamentos como discriminação de um grupo de pessoas para outro. O que eu descobri é que a discriminação é um comportamento protetor instintivo animal. Todos os animais possuem esse instinto como uma maneira de proteger e, portanto, preservar a espécie. Funciona assim: como criaturas de um tempo mais primitivo, quando víamos um leão, aprendíamos que esse era um animal que potencialmente ameaçava a vida. Para que nós não aprendêssemos essa lição através de repetidas experiências, a mente então pegava esse medo e aplicava a todos os animais semelhantes como tigres, panteras, etc. Agora, podíamos discriminar com sucesso entre categorias de animais perigosos e não perigosos. Um exemplo contemporâneo disso é quando uma cliente que está se recuperando de um ataque sexual vem ao consultório. Com frequência, a sua primeira reação é dizer: “Eu odeio todos os homens.” “Não se deve confiar em nenhum homem.” Esta é uma reação perfeitamente natural porque a sua vida foi ameaçada por um homem. O cérebro simplesmente aplica seu comportamento natural de proteção e ideologia a qualquer pessoa semelhante à pessoa perigosa que ela encontrou – um homem. À medida que a cliente progride no seu processo de recuperação, essa crença lentamente começa a identificar certos homens como potencialmente perigosos e outros como seguros. Todo esse processo de discriminação pode ser reconhecido como o processo natural de “imaginação seletiva do inimigo.” Esse processo neurológico estabelece certas crenças projetadas para nos ajudar a discriminar com o intuito de autopreservação. Como uma espécie primitiva vivendo nos perigos da selva, esse é um grande mecanismo de proteção que possuímos e utilizamos. Esse mecanismo ajudou a manter a nossa espécie viva. Esse mesmo sistema neurológico de exclusividade e de discriminação ainda serve de proteção, quando soldados devem identificar rapidamente o “inimigo” de modo que eles não sejam mortos. No entanto, é esse mesmo mecanismo primal que, quando solto, sem limites na sociedade, produz discriminação baseada em raça, etnia, sexo, orientação sexual, etc. Esses não são grupos que ameaçam a vida, mas categorias de pessoas que ameaçam o ego. Nossa atmosfera atual de sentimento antiárabe é um exemplo. A mente americana assume que todas as pessoas de origem árabe são terroristas em potencial. Os americanos, portanto, discriminam com a desculpa de proteger a nação. Essencialmente, o nosso cérebro mais primitivo está sendo usado por uma sociedade sofisticada onde não é mais apropriado. Que irônico, um mecanismo que um dia ajudou a proteger a espécie humana e assegurou a sua sobrevivência está agora na verdade destruindo e dividindo nossa espécie. Esse mecanismo discriminatório ainda está sendo usado e continua a nos proteger, quando estamos em perigo real como, por exemplo, em tempo de guerra, mas ele pode ser igualmente perigoso quando o perigo é apenas imaginado e/ou baseado no ego. Retornando para o nosso retrato do cérebro, podemos ver como isso funciona. Sob circunstâncias normais, usamos a lógica do nosso neocórtex para nos ajudar a tomar decisões. No entanto, sempre que nos sentimos ameaçados, a lógica do neocórtex é sequestrada pelo Sistema Límbico instintivo para nos proteger contra o perigo. Isso, como podemos ver, é útil quando o perigo é real. No entanto, na sociedade de hoje, o perigo é mais imaginado e ameaça apenas o nosso ego em vez de nossas vidas. O sumário a seguir fornece um insight no processo de imaginação seletiva do inimigo, conhecido como Síndrome da Imagem do Inimigo. 1. DESCONFIANÇA de tudo, originando-se com o inimigo percebido. 2. Vendo o inimigo percebido como CULPADO e RESPONSÁVEL por toda dor e tensão que existe na minha vida. 3. Acreditar que tudo que o inimigo percebido faz tem INTENÇÃO DE ME FAZER MAL. 4. Pensar que tudo que beneficia o inimigo percebido ME FERE e vice-versa. 5. Desindividualização = Todos do grupo do inimigo percebido SÃO IGUAIS A ELE, não importa a idade, as ações,crenças, etc. 6. RECUSAR EMPATIA, negando que os dois grupos tenham algo em comum. IMAGINAÇÃO DO TRAUMA “Eu estava mais aterrorizado e zangado do que a minha família.” Eu estava trabalhando com um grupo de refugiados da Eritreia na Etiópia. Esses refugiados não tinham conseguido entrar em contato com suas famílias durante vários meses devido a intensos combates. Eles não sabiam se seus familiares estavam vivos e em quais condições poderiam estar vivendo. Com cada notícia dada pelo rádio ou televisão, eles apenas podiam pensar no pior. Finalmente, os combates cessaram e eles puderam visitar suas famílias. Quando chegaram lá, ficaram surpresos ao ouvir as histórias de dureza que eles contaram e as inúmeras experiências de quase morte que passaram durante a intensidade dos bombardeios. No entanto, as pessoas que estiveram no meio das batalhas estavam menos perturbadas emocionalmente do que aquelas que apenas puderam imaginar o que as suas famílias tinham sofrido. Os que estiveram na guerra estavam mais resignados com a perda dos seus bens e ao mesmo tempo contentes por terem passado com sucesso por tantas batalhas e sobrevivido. Qual a diferença entre esses dois grupos que poderia explicar porque aqueles que apenas imaginaram o sofrimento sentiam-se mais amargos e ressentidos e com menos aceitação do que aqueles que realmente sofreram? Por que aqueles que sofreram com a guerra eram pessoas mais positivas, menos fatalistas e mais capazes de aceitar o que tinha acontecido a elas? A principal diferença entre esses dois grupos é que a experiência de um grupo estava baseada na realidade, enquanto que a experiência do outro estava baseada na ilusão ou imaginação. O grupo que realmente tinha sentido a guerra tinha sensações corporais de estar vivo, alegria, conforto e a segurança de ter sobrevivido. Essas sensações físicas ajudaram a reduzir a imaginação e a colocar suas experiências na perspectiva apropriada. A imaginação do outro grupo gerou uma ilusão horrível que estava completamente separada dos sentidos do corpo. Assim, estavam apenas parcialmente informados da realidade e lhes faltava o componente corporal de sentir a sobrevivência para lhes ajudar a colocar uma perspectiva apropriada na experiência traumática. É muito comum em pessoas que não passaram pelo mesmo trauma, que os seus parentes serem ainda mais amargas, vingativas e zangadas do que a pessoa que realmente passou e sobreviveu à experiência traumática. A imaginação é algo poderoso inerente da espécie humana. No entanto, a imaginação pode ser uma arma perigosa e poderosa se não estiver conectada a experiência da realidade do corpo. É por isso que aqueles que sofrem, perdoam com mais facilidade do que aqueles que apenas imaginam o sofrimento do outro. Aqueles que apenas imaginam o sofrimento do outro têm mais raiva, sede de vingança e são mais amargos do que a vítima. Como vítima, muitas vezes é mais fácil perdoar porque o seu sofrimento e dor são informados pela realidade da sobrevivência do corpo. SUICÍDIO: UMA AUTOSSABOTAGEM DO ORGANISMO VIVO “Até a morte era melhor do que essa dormência interna.” Uma das experiências mais tristes e emocionalmente dolorosas é ter alguém de quem gostamos cometer suicídio. A pergunta que fica, é: “O que eu poderia ter feito para ajudar? Por que não vi que isso ia acontecer? Por que isso aconteceu?” Essas perguntas podem ficar conosco a vida inteira. O suicídio é um assunto muito sensível e complicado. Eu não proponho ter a solução para um tópico tão difícil. No entanto, depois de ter trabalhado e conversado com inúmeras pessoas que já contemplaram o suicídio, eu comecei a notar que indivíduos suicidas exibem um padrão em comum de comportamento no corpo que vale a pena mencionar aqui. Um jovem soldado, com o qual eu estava trabalhando, tinha visto coisas horríveis e desumanas nos campos de batalha. Eu o encontrei um ano depois que tinha saído das forças armadas e estava contemplando o suicídio. Ele não aguentava mais viver com aquelas horríveis memórias. Apesar de ter visto realmente apenas uma vez (o que já não deixa de ser ruim) ele tinha visto aquelas cenas na sua cabeça. Ele me disse, “Eu já vi aquelas cenas 1000 vezes.” Quando eu lhe perguntei como o seu corpo estava experienciando a memória, ele me deu um insight profundo: “Eu fico dormente. Eu não sinto nada por dentro. Eu não sinto a mim nem qualquer conexão com outras pessoas. Eu estou completamente só por dentro e por fora.” Eu perguntei a ele se tinha sentimentos, quais eram e como lidava com esses sentimentos. A sua resposta foi igualmente reveladora. Ele disse: “Oh, sim, ocasionalmente eu tenho sentimentos, mas eles são sempre de raiva, tristeza, ódio. Quando eu tenho esses sentimentos, eu fico dormente. Se os sentimentos são fortes demais, eu me drogo ou fico bêbado para garantir que eles desapareçam.” Foi o insight com esse soldado que me levou à pergunta: “Que função o corpo tem na idealização de um suicídio?” Com meu histórico de sensibilidade ao corpo, eu comecei a dar mais credibilidade à sensação fisiológica que parece aumentar a idealização do suicídio. Se o organismo humano é um reflexo de outros organismos vivos no planeta, parece razoável pensar que o corpo humano pulsa com o desejo natural de viver a vida na sua totalidade. A pergunta que se faz naturalmente é: “O que acontece quando um individuo adormece a sua capacidade de sentir o impulso natural de viver?” A dormência do corpo, durante o período do evento traumático, é um mecanismo natural de proteção do corpo. No entanto, o perigo está na continuação dessa dormência, terminada a fase de perigo. Se o indivíduo continuar a usar substâncias para deliberadamente adormecer o corpo da dor psíquico-emocional, ele estará também adormecendo a sua capacidade natural de sentir a vida no corpo. O que ocorre é que o que a mente idealiza (ego) torna-se mais forte do que a pulsação do organismo vivo e a mente pode desarmar a codificação do corpo de “procurar a vida.” Em outras palavras, o aumento na idealização do suicídio pode estar diretamente conectado à diminuição da sensação física e esta contribui para o aumento na idealização do suicídio. Mais uma vez, nos encontramos em um círculo vicioso de conflito corpo/mente. Está claro que o cérebro deve receber uma quantidade apropriada de estímulo do corpo para funcionar adequadamente. Se faltar ao cérebro estímulo do corpo, ele produz o seu próprio. Isso tem o potencial de tornar a imaginação uma coisa real. Se aquela imaginação for aterrorizante, grotesca ou horrível, o corpo continuará adormecido para escapar dessa idealização produzida pela mente. Entendendo a capacidade da mente de desconectar-se do corpo, eu decidi começar a incluir o trabalho de corpo (inclusive os Exercícios de Libertação do Trauma – TRE) no aconselhamento a clientes suicidas. O que eu descobri é quanto mais profundo e intenso o trabalho de corpo, mais conectados os clientes sentiram-se aos seus corpos e, subsequentemente, a mim. A conexão, como descrita por eles é, “um sentimento bom.” Muitos disseram que, “...lá dentro, debaixo da dor e da dormência, eu ainda estou vivo.” Eles não acreditavam que alguém fosse capaz de se conectar com eles apesar do seu grande sentimento de solidão. Com cada sessão, eu continuava trabalhando profundamente no corpo do cliente e lhes dava atividades para realizar em casa, para continuar a estimular as sensações positivas. Gradualmente, a capacidade do cliente de sentir a codificação genética natural do corpo de “viver” tornava-se mais forte do que a ideação confusa do ego de “morrer.” O que eu descobri, com o insight desse soldado, foi que quando intenso trabalho de corpo foi acompanhado do processo de aconselhamento, ele pareceu ser capaz de aumentar as pulsações naturais de viver do corpo e diminuir a imaginação do ego de querer morrer. Essa observação tem sido verificada inúmeras vezes na minha clínica. A pesquisa tem demonstrado que os indivíduos possuem a capacidade inconsciente de comunicar-se com,e receber comunicação, dos nossos sistemas fisiológicos internos. A mente inconsciente tem um centro fisiológico que é uma extensão do nosso sistema nervoso. Eu acredito que é, não somente possível, mas também vantajoso capitalizar e usar essa conexão psíquico-física quando trabalhar com ideação do suicídio. A ideia de uma intervenção física, juntamente com o aconselhamento psicológico, oferece uma explicação mais holística e a resolução da ideação do suicídio do que o conceito psicológico mais tradicional. Ela incorpora os aspectos fisiológicos e os aspectos psicológicos do ser humano. Maior exploração desse conceito, certamente adicionaria mais conhecimentos às possíveis bases psíquico- fisiológicas da ideação do suicídio. Identificar os aspectos fisiológicos correlacionados a ideação do suicídio é outra direção que pesquisadores podem tomar para desenvolver maior insight aos métodos bem sucedidos de prevenção de suicídio. Sumário Músculos que não se movem (que estão adormecidos, congelados, dissociados) são músculos que não são sentidos. A dormência, congelamento e dissociação interrompem a unidade sensorial/motora. A mente precisa de movimentos físicos e sensações concretas para informá-la diretamente. A ausência ou supressão de entradas sensoriais periféricas específicas faz com que a mente se torne ansiosa. Os pensamentos tornam-se confusos e a distinção básica entre pensamentos internos e a realidade externa torna-se distorcida. A imaginação torna-se uma realidade mais palpável do que qualquer outra coisa que estamos experimentando no momento. NEGAR O PTSD “Coisas assim não acontecem conosco.” Milhares de soldados foram mortos durante a Guerra do Vietnam. Por outro lado, milhares de outros se suicidaram desde o final daquela guerra. Essa é uma realidade triste e vergonhosa que a nossa sociedade eventualmente terá que enfrentar. Apesar da Desordem de Tensão Pós- Traumática estar firmemente estabelecida e reconhecida há muitas décadas em ex-veteranos de guerra, nossa sociedade ainda não possui uma conscientização nacional saudável do plano de recuperação para, adequadamente, ajudar os nossos soldados em seu processo de recuperação e reintegração nos Estados Unidos. Os motivos são numerosos e complexos, mas ainda assim, a nação tem essa enorme tarefa de resolver os sintomas perturbadores do PTSD em escala nacional. Nos Estados Unidos, “...perde-se aproximadamente 3.6 dias de trabalho por mês associados ao PTSD a uma perda de produtividade anual de mais de US$ 3 bilhões (Kessler, 2000). Se levar-se em consideração todos os eventos traumáticos em potencial que acontecem em nosso país em apenas um ano como: tempestades, tornados, terremotos, incêndios florestais, acidentes de automóveis, mortes súbitas, violência doméstica e social, estupro, abuso sexual, pobreza, etc., é incrível não termos desenvolvido e instituído um plano de recuperação de PTSD. Qual poderia ser a resistência a oferecer um plano para escolas, hospitais, serviços de emergência e agências nacionais de ajuda? Existem várias suposições que mantém um sistema de crenças aceito inconscientemente e perpetuado pelo ser humano há vários séculos. Essa crença é um conjunto de “ilusões positivas” sobre a vida que não queremos perturbar. Essencialmente, todos os seres humanos acreditam que “se eles forem pessoas boas, boas coisas acontecem a eles.” Assim, pessoas boas não precisam estabelecer programas de recuperação de traumas porque elas não estão esperando que experiências traumáticas aconteçam a elas. Isso funciona bem até que acontece uma tragédia e as pessoas boas descobrem que essa ilusão positiva é falsa. Depois de um episódio traumático, muitas pessoas encontram-se mal preparadas para lidar com o fato que coisas ruins (trauma) acontecem a pessoas boas. A ilusão oposta também acontece. “As pessoas merecem o que a vida lhes dá.” Se elas forem ruins, elas terão experiências ruins. Isso dá conforto a muita gente porque nós consideramos os “outros” como ruins e nós como “bons.” Portanto, coisas ruins apenas acontecem a “eles.” O trauma destrói essas ilusões. O trauma pode acontecer a qualquer pessoa. Quando o trauma ocorre, ele destrói nossas ilusões positivas e as substitui com o terrível conhecimento que as ilusões positivas são falsas. Já que muitas das nossas crenças religiosas são baseadas nessa premissa, as pessoas com frequência perdem a fé na sua religião e no seu Deus quando o trauma invade as suas vidas. Nossas ilusões positivas sobre a vida são inocentes sob circunstâncias normais, mas nos deixam completamente despreparados para lidar com as tragédias da vida quando elas acontecem. Ao recusar aceitar a realidade de que o trauma e a tragédia podem nos atingir a qualquer momento, continuamos a perpetuar a ilusão irreal de segurança e de que somos indestrutíveis. Apesar de estarmos vendo uma mudança significativa na conscientização global sobre a possibilidade de trauma em grande escala, essa secreta aderência a ilusões positivas é precisamente o que historicamente nos tem impedido de estabelecer e implementar planos para tratar desse assunto. Deveríamos procurar dentro de nós mesmos para revelar nosso medo secreto da nossa precária realidade nesse planeta e aprender a viver com a imprevisibilidade, em vez de tentar controlar nossas vidas. Até que isso aconteça, continuaremos a evitar instituir planos de recuperação para o segmento traumatizado da nossa sociedade que precisa ser curado. Até reconhecermos que os custos sociais do PTSD são maiores do que os custos financeiros de sarar nossa sociedade, estaremos destinados a continuar a negar e a evitar programas de recuperação de trauma em larga escala. O trauma continua a afetar essa nação, cada vez mais, e estamos muito conscientes e informados sobre o trauma, tanto como uma comunidade quanto uma nação. Existem sinais encorajadores de que nossas escolas, hospitais, polícia, bombeiros e unidades de emergência estão começando a desenvolver planos para dar apoio uns aos outros ao tentar sarar suas experiências locais, nacionais e até mesmo internacionais com o trauma. Sumário A sociedade não quer reconhecer o trauma porque isso a força a explorar as esquinas mais escuras da mente e a enfrentar todo o espectro da glória à degradação humana. Nesse processo, o trauma destrói algumas crenças básicas que temos sobre nós mesmos, sobre o mundo e nosso Deus. A sociedade estabeleceu ILUSÕES POSITIVAS... .. O mundo é basicamente um lugar bom e justo. .. As pessoas recebem o que merecem da vida e, portanto, merecem o que a vida lhes dá. .. Nós próprios somos pessoas boas e merecemos coisas boas. .. Nós somos protegidos de perigo sério porque somos bons e pela justiça de Deus. Essas ilusões são benéficas em circunstâncias normais, mas nos deixam totalmente despreparados para enfrentar tragédias. As vítimas de trauma são banidas da nossa sociedade porque: .. Temos medo de ouvir suas terríveis histórias. .. As vítimas de trauma são portadoras do TERRÍVEL CONHECIMENTO de que as ilusões positivas são falsas. Expressões de negação do PTSD: .. Rejeitar as histórias do indivíduo e culpá-los por seu sofrimento. .. Existe um nível de interesse relativamente baixo no sofrimento da vítima. .. Existe uma persistente falta de planejamento organizacional para tratar o PTSD mesmo quando a sociedade, as organizações, os militares ou a comunidade sabem que está acontecendo. TRAUMA – A NOVA EPIDEMIA NO MUNDO CORPORATIVO “Por que nossas técnicas de gestão de crise não estão funcionando?” Um novo fenômeno está varrendo o mundo corporativo. Ele é chamado de “trauma organizacional.” Após o 11 de setembro, eu conversei com várias pessoas cujas companhias foram diretamente afetadas por esse evento. Eu perguntei a elas que tipo de suporte elas tinham recebido da sua companhia. Apesar de muitas estarem agradecidas pelo suporte que receberam, muitas sentiram que esse suporte tinha sido inadequado. Depois da sessão inicial, lhes disseram que, se tivessem problemas adicionais,elas deveriam procurar ajuda terapêutica privada ou ler alguns dos livros que lhes foram sugeridos. Apesar de ser um procedimento padrão, o que esse tipo de conselho e comportamento, efetivamente, faz é começar a dividir a mão de obra e criar um senso de isolamento e falta de comprometimento da organização. Eu vou explicar. Se os indivíduos continuarem a ter dificuldade com os seus sintomas de PTSD depois de terem recebido a ajuda “oficial” dos “profissionais” da companhia, eles terão relutância em falar sobre as dificuldades psíquico-emocionais que continuam a sofrer. Eles começarão a se sentir como se todos os demais estivessem sarando e, somente eles, tendo problemas adicionais. Isso iniciará o processo de isolamento. Eles se tornarão cada vez mais quietos sobre sua luta interna psíquico-emocional e, eventualmente, começarão a se afastar dos seus colegas e do seu comprometimento com a companhia. Como Diretor do Trauma Recovery Assessment and Prevention Services (TRAPS) (Serviços de Prevenção e Avaliação para Recuperação do Trauma), eu trabalho há 15 anos com pessoas de corporações, embaixadas e organizações não governamentais que vivem e trabalham em ambientes que induzem o trauma. O que eu aprendi é que o PTSD é uma condição altamente predominante e debilitante que não discrimina. Cada pessoa que sofre trauma sofre de alguns sintomas do PTSD – é simplesmente o grau de sintomas que separa uma das outras. O que eu reconheci, ao longo dos anos, é que o trauma e suas consequências atenuantes afetam todas as instituições que tem pessoal que vive e/ou trabalha em ambientes que ameaçam a vida. Somente agora, estamos começando a reconhecer os efeitos prejudiciais, em longo prazo, que o trauma tem sobre a fábrica institucional, estrutural e relacional de muitas corporações e instituições. Devido à gravidade medicalmente estabelecida e aos efeitos potencialmente debilitantes do trauma e do PTSD, a faixa convencional de técnicas de gestão de crises está-se revelando como insatisfatória e ineficiente. O pessoal de Recursos Humanos e Relações Públicas está vendo que lhe falta conhecimentos para tratar adequadamente as várias dimensões desse fenômeno tão grave e abrangente. A liderança corporativa precisa engajar-se em um exame mais profundo das opções disponíveis após o acontecimento de eventos traumáticos, já que os métodos atuais são insuficientes. Deixar de lado ou entender mal esse assunto fundamental de traumatização, em grande escala, é trivializar as complexidades psíquico-emocionais do pessoal de muitas corporações de hoje. Sem tratamento, os efeitos em longo prazo de sintomas de PTSD não resolvidos, darão vez a formas de comportamento e relacionamentos disfuncionais, que podem prejudicar seriamente qualquer equipe, estrutura ou parceria. O exemplo a seguir demonstra a extensão e natureza insidiosa de comportamentos pós-trauma em uma organização. Em 2000, me pediram para trabalhar com o pessoal de um dos consulados do Oriente Médio. O consulado tinha uma mão de obra multicultural consistindo de muçulmanos, cristãos e judeus. A tensão externa da situação política estava fragmentando o relacionamento do pessoal, antes coeso. Eles já tinham tentado programas tradicionais de gestão de crises, liderança multicultural e resolução de conflitos como uma maneira de resolver o relacionamento entre membros. No entanto, todas essas tentativas falharam na retificação da intensa divisão, que estava seriamente fraturando a sua equipe. Já que era aparente que todos os membros da mão de obra do consulado tinham sofrido trauma, diretamente ou vicariamente, eu sabia que essas técnicas seriam ineficientes, porque elas não levam em consideração algumas características únicas do comportamento induzido pelo trauma. Os comportamentos, ações e reações do indivíduo durante o trauma são, na sua maior parte instintivos ou inconscientes, em vez de calculados e conscientes. Assim, o reprocessamento traumático nem sempre pode ser lidado com métodos lógicos e sistemáticos, para alcançar uma resolução. É precisamente essa resolução lógica e consciente de uma crise versus a criação ilógica e inconsciente do trauma que evita que os modelos tradicionais de gerenciamento de crises funcionem efetivamente. A ineficiência das técnicas atuais e a subsequente necessidade de novas opções têm tremendas implicações, para corporações e organizações cujo pessoal vive e/ou trabalha em ambientes que induzem ao trauma. O efeito mais prejudicial do PTSD nessa equipe foi a quebra nos relacionamentos profissionais e a falta de confiança entre os membros da equipe. Havia crescentes sinais de isolamento, um senso de frustração, falta de esperança e de poder ao ponto que os membros da equipe começaram a perder o seu senso de carinho e preocupação uns com os outros. Tudo isso tem um efeito devastador nos relacionamentos corporativos internos e externos. A primeira das cinco disfunções explicadas no livro de Patrick Lencioni (2002), As Cinco Disfunções de uma Equipe, é a “falta de confiança.” Essa é uma experiência comum em muitas corporações. A liderança tem contratado inúmeros consultores para projetarem exercícios, que restauram a confiança, entre funcionários. No entanto, indivíduos traumatizados têm um impedimento neural de confiança que é prejudicado por um medo de vida ou morte. Eles estão neurologicamente codificados para não confiar, com medo de que se se abrirem, isso os exporá a uma possibilidade semelhante de vida ou morte. Já que isso é inconsciente e muitas pessoas não têm consciência desse mandato psíquico, elas não conseguem confiar mesmo quando querem conscientemente. A segunda das cinco disfunções é “medo de conflito.” O medo é algo natural e é possível superá-lo através de várias técnicas gerenciais. Aos indivíduos traumatizados, frequentemente falta uma graduação dos sentimentos, de modo que um simples medo pode traduzir-se imediatamente em terror e as suas reações serão supremamente defensivas, resultando em explosões de raiva, lágrimas ou colapso em isolamento ou depressão. Apesar de cada um desses comportamentos ter a finalidade de protegê-los contra experiências traumáticas adicionais, eles agora se tornam um impedimento à construção de relacionamentos na equipe ou na corporação. As outras três disfunções, “falta de compromisso,” “evitar responsabilidade” e a subsequente “falta de atenção aos resultados,” são consequências inevitáveis de indivíduos traumatizados. Nem mesmo as estratégias mais brilhantes, técnicas inspiracionais de gestão de crises e o melhor senso de negócio serão capazes de corrigir os danos psíquico- emocionais, que são o resultado da contaminação inconsciente do trauma dentro do domínio corporativo. No entanto, sensibilidade aos sinais da contaminação do trauma ajudará a sustentar o elo dos relacionamentos na corporação, mas se tratados adequadamente, agirão como o nexo para reconstruir relacionamentos mais profundos no futuro. O trauma pode, impiedosamente, fraturar a coesão até mesmo das melhores equipes e relacionamentos corporativos. Devido aos efeitos inconscientes que corroem lentamente as relações interpessoais, a corporação que terá os mais longos e sustentáveis relacionamentos será aquela que reconhece, respeita e resolve os comportamentos ativos do trauma e os relacionamentos do seu pessoal. Alguns dos comportamentos identificados do trauma institucional são: necessidade excessiva de controle, ter cada vez menos cuidado com os assuntos da companhia, tornar-se perfeccionista através de comportamentos compulsivos e isolar-se de outros funcionários. Qualquer corporação que não conhecer ou respeitar os efeitos potencialmente devastadores do trauma no seu pessoal, terá grande dificuldade em criar e sustentar relacionamentos de confiança em longo prazo entre seu pessoal. As companhias precisam ser mais pró-ativas com relação ao trauma na companhia. Não somente devem oferecer educação e informações aos seus funcionários, mas também devem fornecer técnicas e práticas eficientes pararesolver seus comportamentos de trauma dentro da companhia. É importante reconhecer que o PTSD não pode ser resolvido através de programas de gestão de tensão ou seminários de resolução de conflitos, porque essas são reações instintivas e padrões ilógicos de comportamento. A recuperação do PTSD pode ser extremamente complicada e um processo complexo. No entanto, para um traumatologista pode ser também um fenômeno metódico e previsível que possui a sua própria solução lógica. Um terapeuta experiente em recuperação de trauma não pode apenas facilitar a resolução do trauma institucional, mas também, ser capaz de usar os efeitos do trauma, para ajudar a restaurar uma coesão ainda mais forte entre colegas de trabalho, mão de obra e membros de equipes. RENTABILIDADE FINANCEIRA COM FOCO HUMANITÁRIO “O que eu posso fazer para recuperar meu pessoal?” Apesar da conscientização do trauma e PTSD estar apenas começando, eles já nos afetam há vários anos. O que está decididamente claro é que o PTSD é um processo inconscientemente destrutivo, muito real, contra o qual as corporações devem proteger a si e aos seus funcionários. Esse comportamento inconsciente pode, e isso acontece com frequência, continuar a afetar o indivíduo e instituições até depois do final do evento traumático. Intervenções que tentam resolver comportamentos induzidos pelo trauma não podem ser corrigidos com o uso de técnicas tradicionais de intervenção de crises porque elas dependem de processos lógicos, cognitivos, enquanto que, o comportamento traumático é uma resposta ilógica, instintiva que não está sob o controle do cérebro racional. Em um voo de Phoenix para Paris, eu me sentei perto de um homem, que tinha recebido da sua companhia a tarefa de ajudar os funcionários a lidar com uma experiência devastadora, que tinha afetado toda a companhia. Ele me disse: “Depois de ler vários livros sobre recuperação de trauma, eu entendo o problema. Mas, nenhum desses livros propôs uma metodologia de recuperação.” Tendo trabalhado sobre esse assunto específico com multinacionais, eu compartilhei com ele um plano, que eu tinha desenvolvido, que poderia ser implementado pelo próprio Departamento de Recursos Humanos. Eu expliquei que uma das maneiras mais eficientes de eliminar com sucesso os efeitos do trauma, em uma companhia, é fornecer seminários integrados curtos, mas também fornecer técnicas específicas para a recuperação. Todas as organizações, cujo pessoal está vivendo e/ou trabalhando em ambientes que induzem ao trauma, deveriam seguir um método compreensivo de recuperação. SEMINÁRIO PRÉ-TAREFA: se os funcionários forem ou são expostos a situações traumáticas, eles, o pessoal sênior e colegas devem receber treinamento de conscientização de trauma. Os indivíduos designados devem também ser treinados em como usar técnicas específicas, para reduzir os efeitos psíquico-neuro-biológico e físicos do trauma. Esse seminário educacional ajudará a todo o pessoal a reconhecer os efeitos adversos do trauma tanto em nível pessoal quanto institucional. Assim, um entendimento em comum e senso de coesão serão estabelecidos sobre o assunto de experiências traumáticas. VISITA NO LOCAL: após uma experiência traumática ou durante o seu trabalho em um ambiente traumático, os funcionários devem receber a visita do gerente de recursos humanos e do consultor em trauma, que podem dar apoio pessoal e fazer uma avaliação de maneira objetiva e profissional. Assim, eles serão capazes de avaliar o grau e a maneira como o funcionário ou funcionários estão pessoalmente sendo afetados pelo trauma. Eles podem idealizar um plano para sustentar ou até mesmo melhorar sua saúde, durante o seu tempo restante, na zona de trauma ou recomendar a remoção temporária ou definitiva do indivíduo daquela área. SEMINÁRIO PÓS-TAREFA: quando o funcionário ou funcionários deixam o ambiente do trauma eles devem passar por uma cuidadosa avaliação. O consultor em trauma ou gerente de recursos humanos deve administrar testes que ajudarão a avaliar o grau de trauma que eles sofreram e depois implementar um plano de recuperação. Se o plano for eficientemente implementado e seguido, o funcionário ou funcionários não exigirão nenhuma intervenção do consultor durante o período de recuperação. Essa prevenção em três passos e o processo de recuperação são não somente eficientes para a saúde do pessoal da companhia, mas também, eficientes quanto aos custos para a companhia. Seminários profissionais de conscientização podem ajudar a sustentar os funcionários durante o tempo de exposição traumática e assegurar sua saudável reintegração mais tarde na companhia. Esse é um investimento sábio e prudente considerando-se que o comportamento disfuncional do trauma pode inconscientemente afetar e seriamente prejudicar mesmo as equipes mais coesas. O custo de fornecer os seminários é bem menor do que os custos de tentar reparar um moral baixo e confusão entre os membros da equipe e a eventual redução da efetividade e da produtividade da equipe. Além dos comportamentos prejudiciais pessoais e institucionais, que são causados por pessoal traumatizado, existem crescentes considerações jurídicas. Já existe um precedente estabelecido, com vários processos, por pessoas que sofrem de PTSD. Alegam elas que as mudanças neurológicas no cérebro durante o trauma constituem lesão física. Multinacionais que têm pessoal vivendo ou trabalhando em ambientes que induzem ao trauma são as mais vulneráveis ao litígio. Com o rápido avanço científico nos estudos sobre o trauma, torna-se cada vez mais evidente que o trauma é a nova epidemia do mundo corporativo internacional. Não somente as corporações devem oferecer programas de conscientização sobre o trauma, como parte da sua ética de trabalho, mas os funcionários, que se encontrarem em ambientes que possam ser violentos, vão exigir que sua saúde psíquico-emocional e física seja atendida às custas da corporação. Isso logo se tornará uma prática padrão. Tendo em vista tudo isso, as corporações devem ser mais pró-ativas na proteção dos seus funcionários e na sua própria proteção. Se for lidada de maneira pró-ativa, em vez de reativa, a experiência traumática dos funcionários pode melhorar, em vez de diminuir, os seus relacionamentos de trabalho, fazendo com que os relacionamentos sejam mais dinâmicos e fortes, produzindo gerentes mais sensíveis e, por fim, rentabilidade financeira com um foco humanitário. LIDERANÇA TRAUMATIZADA “A sua objetividade parece estar prejudicada.” Quando eu estava trabalhando em um centro de aconselhamento, uma missionária veio a mim sofrendo de depressão, ansiedade e extrema culpa. Ela me contou a história de como a luta interna com essas extremas emoções tinha começado. Ela fazia parte de uma comunidade missionária e era a superiora de um grupo de mulheres missionárias que viviam e trabalhavam em um país do Norte da África, há anos. A presença delas entre a população local era bem conhecida e respeitada. No entanto, a atmosfera política tinha-se tornado tensa e grupos de extremistas radicais estavam surgindo em toda parte. Houve inúmeros incidentes de violência inclusive sequestros, bombardeios e tiroteios entre as várias facções. Essa missionária tinha ido da Europa para o Norte da África para uma visita. A sua responsabilidade era avaliar a gravidade da situação e fornecer qualquer apoio que fosse necessário. Logo após sua chegada, ela reconheceu o perigo no qual as mulheres estavam vivendo. Ela mostrou a sua preocupação às mulheres, que lhe asseguraram que estavam seguras e que queriam permanecer no país para terminar o seu trabalho com a população local, durante aquele tempo de sofrimento. Contra o seu instinto, a superiora concordou que as missionárias poderiam ficar, mas que se a situação ficasse pior elas deixariam o país. As mulheres concordaram e a superiora voltou para a Europa. Duas semanas mais tarde, todas as mulheres foram mortas. Um grupo rebelde entrou na casa, ameaçou-as de ser espiãs e matou-as. A tensão psíquico-emocionaldesse incidente foi demais. A superiora ficou arrasada. Ela se culpava pelas mortes e ficava constantemente se perguntando como isso poderia ter acontecido e se havia algo que ela poderia ter feito para impedir que acontecesse. Depois de discutir o incidente com ela, eu expliquei como os efeitos neurológicos do trauma podem prejudicar decisões. As mulheres, que estavam vivendo nesse ambiente traumático, estavam lá há tanto tempo que a sua capacidade natural de objetividade sobre a sua própria saúde e segurança tinha sido obscurecida. Sem saber, elas na verdade precisavam de ajuda externa para tomar uma decisão responsável sobre a sua própria segurança. Essa é uma experiência comum entre pessoas que vivem prolongadas experiências de perigo. Elas simplesmente ficam acostumadas ao seu ambiente e ajustam-se a viver sobre perigo extremo. É natural a mente fazer esse ajuste a fim de viver sob as circunstâncias, mas esse estado alterado de consciência pode prejudicar gravemente os processos racionais de pensamento. O que acontece durante um trauma prolongado é que uma parte do cérebro, que normalmente deveria usar a lógica do neocórtex (veja o desenho do cérebro) para tomar decisões responsáveis, é sequestrada pelo Sistema Límbico do cérebro, que frequentemente toma decisões irracionais baseadas na emoção. O Sistema Límbico, apesar de proteger as mulheres enquanto estavam vivendo na violência, também obscureceu a sua capacidade de reconhecer o perigo e sair da situação para assegurar a sua segurança. O que a superiora não se deu conta foi que as suas observações, sobre o perigo da situação, foram mais precisas do que a do grupo de mulheres, cuja lógica tinha sido prejudicada por estarem vivendo com o perigo por tempo demais. Se a superiora soubesse como o trauma afeta o funcionamento neural, ela teria explicado a diferença entre a avaliação dela sobre o perigo e a avaliação das outras mulheres e, possivelmente, teria mudado a decisão do grupo. Um exemplo mais comum disso é quando alguém está em um acidente de automóvel. Apesar de ter saído ileso do acidente, é evidente que, na maioria das vezes, a pessoa está perturbada e possivelmente desorientada demais para continuar dirigindo até em casa. Apesar de dizer que está fisicamente bem – e na verdade está – você pode ver que ela está perturbada internamente. A sua capacidade natural de avaliar a sua própria segurança e saúde tornou-se temporariamente obscurecida e ela precisa de intervenção externa no seu processo de tomada de decisão. RESOLUÇÃO INTERNACIONAL DE CONFLITO E TRAUMA “Por que não podemos alcançar a paz?” Muitas vezes, a necessidade de resolver um conflito internacional resulta da incapacidade de dois grupos de se reconciliarem por causa de guerras de longa data, violência política ou conflitos armados. Já que todos os conflitos sérios produzem anos de experiências traumáticas, a maior parte, se não todos os participantes engajados no processo de resolução de conflitos terão sofrido alguma forma de trauma, direta ou vicariamente. É claro então que esses participantes também possam estar trazendo uma variedade de comportamentos de tensão pós-traumática e emoções para o processo de negociação. Essas expressões traumáticas não reconhecidas poderiam introduzir numerosos impedimentos a essas negociações ou até mesmo ser um sério perigo, que pode prejudicar todo o processo de reconciliação. Em um workshop com palestinos e israelitas que eu conduzi, decidi explorar como o pensamento e os comportamentos de trauma afetaram o seu relacionamento uns com os outros. Eu dividi o grupo grande em dois, um de palestinos e outro de israelitas. Eles receberam uma série de tarefas e perguntas para trabalharem. Eles todos fizeram isso com grande facilidade, conforto e segurança. Eu então dividi o grupo em pares de um palestino e um israelita. As mesmas tarefas e perguntas foram apresentadas a eles. À medida que tentavam trabalhar, eles notaram que era muito difícil. As mesmas palavras e frases que eles tinham previamente usado com alguém do seu próprio grupo já não eram seguras em um grupo misto. Um simples exercício de estabelecer fronteiras um com o outro deflagrou argumentos e intensas emoções. Estes dois grupos, apesar de muito dispostos e até mesmo desejosos de um saudável diálogo e relacionamento, descobriram que até mesmo a melhor das intenções não poderia anular os efeitos da divisão do pensamento traumático. Colocou-se então o grupo para fazer os Exercícios de Libertação do Trauma (TRE) e depois participar de uma oficina sobre comportamento e pensamento traumáticos. Através dos exercícios físicos e do entendimento psíquico- emocional dos princípios do comportamento traumático, esses dois grupos foram capazes, com surpreendente facilidade, de sentirem-se conectados, seguros e emocionalmente cuidadosos com a dor, uns dos outros. A mudança foi surpreendente. Os dois grupos não puderam acreditar o quanto eles foram capazes de mudar seu pensamento, suas emoções e seus comportamentos tratando do assunto de recuperação do trauma, antes de tentar um diálogo e resolver seus conflitos. O motivo para essa grande diferença foi que os exercícios ajudaram a descarregar os altos níveis de energia ansiosa que estavam aprisionados no corpo. Uma vez reduzida a grande carga energética no corpo, as partes lógica e emocional do cérebro não mais perceberam as questões e tarefas, como sendo perigosas. Broome (2002) nos diz que: “Para ser eficiente, (o negociador) deve ter extenso e preciso conhecimento substancial do contexto onde ele estará trabalhando.” O raciocínio é que para que o negociador forneça a melhor assistência possível aos indivíduos que estão vivendo em culturas que têm sofrido prolongada guerra e violência, ele deve estar familiarizado com os horríveis e prejudiciais efeitos do trauma e é um imperativo profissional familiarizar-se com o conhecimento substantivo da cultura: educar-se sobre os efeitos do trauma não é um luxo e sim uma necessidade dos profissionais de resolução de conflitos. Muitas vezes, os participantes no processo de negociação não entendem porque estão sofrendo sintomas de descargas emocionais. É útil para os grupos se os comportamentos forem explicados e reconhecidos como uma consequência do trauma. Ao reconhecer publicamente esse comportamento, o negociador fornecerá uma estrutura para entendimento e apoio a indivíduos que ainda estão sofrendo a perda de controle emocional. Também permite ao grupo ajudar uns aos outros para trabalhar ativamente no comportamento, em vez de vê-lo (e ao indivíduo) como um obstáculo ao processo do grupo. A experiência com trauma de cada pessoa no grupo pode precisar de algum tipo de apoio individual. Aqueles cujos parentes foram mortos em um bombardeio, por exemplo, podem precisar de mais tempo para resolver sua dor psíquico- emocional do que alguém, cujos conhecidos distantes foram feridos. É melhor lidar com todos esses assuntos com os membros do grupo, para que tenham melhor apreciação e entendimento da profundidade e diversidade das experiências dolorosas, que cada indivíduo sofreu. A não ser que os indivíduos no grupo tenham lidado com essas experiências dolorosas, a sua participação no grupo pode ser prematura. A não ser que isso seja reconhecido, o facilitador da resolução de conflitos passará muitas horas frustrantes tentando separar os vários problemas psíquico-emocionais, que estão por baixo da dinâmica do grupo. Se lidar primeiro com essa dinâmica emocional, ela pode ser usada como a fundação da construção do relacionamento entre os grupos. Inevitavelmente, os grupos descobrirão que têm muitas experiências em comum e que estão ambos no processo de sarar dores profundas e memórias emocionais. Essa pode ser uma experiência muito humana e de conexão entre os indivíduos do grupo. Essa identidade em comum pode ter um poderoso impacto nos indivíduos e ajudará a dissipar a imagem do “outro” como o “inimigo.” Isso não somente é essencial para sarar, mas também pode ser o próximo nexopara a criação de uma visão coletiva. Como resultado do meu trabalho como terapeuta de trauma e negociador, descobri que é seguro assumir que o grau no qual os participantes de cada grupo têm sofrido guerra e violência tem um grau concomitante de desordens de tensão pós-traumática, que precisarão de bastante atenção no processo de negociação e mediação. Portanto, eu descobri que é útil incluir material educacional sobre trauma e simples processos de recuperação de grupos para ajudar aos dois lados em negociação a entender as experiências uns dos outros. A combinação dessas duas modalidades tem ajudado imensamente a trazer um senso mais forte de unidade, entendimento e identificação da dor compartilhada entre os grupos em negociação. Isso, com frequência, tem sido a base de uma identificação mútua ao começarem a reconhecer e aceitar a dor humana e o sofrimento experimentado por todos durante conflitos violentos. É importante notar que a ineficiência de alguns programas de resolução de conflitos e técnicas de gestão de crises deve-se, em parte, à falta de conhecimento dos comportamentos e reações provocados pelo trauma entre os indivíduos envolvidos nesse processo. Estar consciente do trauma e do PTSD pode ajudar ao facilitador a dar respostas mais calculadas e corretas, nos momentos importantes do processo de negociação. Pessoas traumatizadas não devem ser excluídas dos processos de negociação, e sim assistir a reconhecer esses impedimentos inconscientes, de modo que possam ter maior conscientização de como lidar com esses sintomas traumáticos, quando eles surgirem. Devido a todos os obstáculos e impedimentos, a paz e a reconciliação, pode parecer impossível resolver um conflito de décadas. As pesquisas sobre o trauma e a espécie humana sugerem que o trauma tem sido, e permanecerá, um fato da vida humana. No entanto, também possuímos a capacidade de sarar até mesmo as mais debilitantes experiências traumáticas. Como Levine (2002) sugere, “Uma pessoa que renegociou com sucesso uma experiência traumática é transformada pela experiência e não sente nenhuma necessidade de vingança – vergonha e culpa dissolvem-se no poderoso despertar de renovação e autoaceitação.” Por causa disso, eu tenho visto que as reações de tensão pós-traumática e comportamentos podem ser usados para construir alianças entre lados opostos, em vez de fazer com que se partam em outras relações combatentes. Esse deve ser um fato inesquecível para todo negociador ao iniciar seu processo de, habilidosa e sensivelmente, assistir outras pessoas no labirinto da negociação e mediação. TRAUMA E O SISTEMA HUMANO DE CRENÇAS “Eu já não acredito em nada.” O trauma é uma experiência intensamente dolorosa. A realidade é que, até acontecer, ela está fora das nossas experiências de vida. No entanto, quando o trauma acontece, toda nossa visão da vida pode mudar para sempre. Nosso entendimento de nós mesmos, nossos amigos e família, nosso lugar no universo e até mesmo nosso sistema de crenças podem ser radicalmente alterados. Não importa se somos teístas, ateus ou agnósticos, o trauma nos faz questionar profundamente o nosso lugar no universo e a precariedade da nossa existência. Esse processo de questionamento e profunda busca interna por um significado não é uma questão da fé sendo testada. É mais complexo do que isso. Existe um processo neurológico natural criado por uma experiência traumática, que na verdade estimula a parte refletiva do cérebro (neocórtex) para ajudar o indivíduo a restabelecer seu novo sistema de crenças, tendo em vista esse evento traumático. Embutido no processo de desenvolvimento humano é a capacidade de sofrer um evento traumático e reestruturar o pensamento de modo a ser capaz de abraçar o evento, entendê-lo e, gradualmente, retornar ao abraço mais profundo da vida e um sistema de crenças mais rico e significativo. Qualquer pessoa, que tenha lutado para recuperar-se de um evento traumático, sabe que processou o evento inúmeras vezes, focando-se intensamente no trauma, tentando achar algum significado em algo tão sem sentido. Apesar da lógica nunca resolver o trauma, algum tipo de resolução eventualmente acontece e, mais uma vez, ajuda o indivíduo a reconstruir um novo sistema de crenças que o ajuda a aceitar a vida e a incorporar esse trauma, na sua história, de modo que possa ser redirecionado para uma nova vida. A maior parte das pessoas refere-se a esse processo como um aprofundamento da sua espiritualidade ou fé. Apesar de não me opor a estes termos, eu descobri que até mesmo pessoas que não têm uma fé específica, possuem algum entendimento, não importa quão vago ou indefinido, de como elas e a sua vida cabe no esquema do universo – uma cosmologia pessoal. Esse entendimento é precisamente algo a que não se dá importância e, com frequência é colocado em dúvida, sob o peso da experiência traumática. Por exemplo, uma mulher cristã devota, cuja filha foi morta a tiros, veio a mim logo depois da experiência e me disse que era importante não deixar de ter fé em Deus por causa dessa experiência. Ela disse, “Eu vou continuar firmemente na minha crença de que Jesus é o Senhor e Deus tinha um bom motivo para deixar isso acontecer.” Tendo trabalhado com tantas pessoas sobre o seu trauma e crenças, eu sabia que essa mulher ia ter dificuldades, se apegando a sua crença. Ela ia simplesmente tentar colocar essa tragédia na sua crença atual, sem permitir que o trauma destruísse a sua crença para reconstruir uma nova. Tem sido minha experiência, que as pessoas que tentam forçar o trauma na sua já estabelecida crença, inevitavelmente, tornam-se muito rígidas na sua fé ou deixam a sua fé inteiramente. Elas tentam rezar mais, ser pessoas melhores e seguir a “regra” fielmente. Na minha experiência, isso nunca deu certo. Traumas não curados geralmente produzem duas posições opostas. Pessoas tornam-se amargas, cheias de raiva e ressentimento, cuja raiva e dor expressam-se através de doutrinas rígidas ou faz com que elas tenham uma visão apática de todos os sistemas de crenças e abandonem a fé. O que as pessoas não se dão conta é que devido ao fato que o trauma é uma experiência que está fora da nossa visão do mundo, ele exige a expansão da nossa visão do mundo para incluir essa experiência traumática como parte do seu novo lugar no universo. Devido ao fato de que a experiência traumática está tão fora da nossa visão do mundo, se permitirmos, o processo de recuperação do trauma nos levará além da nossa visão prévia do mundo, abrindo-nos uma maneira inteiramente nova de ver e estar no universo. O trauma tem o potencial de fornecer uma sabedoria interna mais profunda sobre a humanidade que, de outra maneira, nunca teríamos escolhido explorar. O trauma e sua visão ética e moral mais profunda e resultantes comportamentos são, precisamente, o que tem o potencial de levar o indivíduo a um lugar de sabedoria interna e maturidade. Se usadas corretamente, as experiências traumáticas nos ajudam a expandir a nossa visão do mundo. Elas podem nos ajudar a aprofundar nossa empatia pelo sofrimento de outras pessoas. Elas nos enchem de gratidão pela vida, que ainda temos, apesar dos efeitos prejudiciais do evento traumático. Pessoas que têm sarado do trauma frequentemente se reengatam na vida com uma apreciação mais rica da humanidade tanto em nível pessoal quanto global. Esse fato tornou-se aparente depois do colapso das Torres Gêmeas em New York. Muitas pessoas mudaram-se de volta para suas cidades de origem, não porque tinham medo, mas porque se deram conta de que a família, o lar, brincar com os filhos e estar com outros membros da família era mais importante do que os salários que eles estavam acumulando em New York. O trauma de 11 de setembro abriu os seus corações, para uma apreciação mais profunda da vida e uma maneira mais importante de passar seus anos nesse planeta juntos. O TRAUMA É UM DEGRAU NA ESCADA DA SABEDORIA “Eu vivo totalmente cada dia.” “Eu não desejo uma tragédia a ninguém, mas desde o acidente, eu nuncadeixo de dizer a minha mulher que eu a amo. Eu beijo meus filhos todos os dias. A vida é mais rica, mais cheia e mais profunda do que eu jamais tive. Ela tem mais significado e mais profundidade do que nunca antes.” Essas declarações e este tipo de transformação na vida, depois de sofrer uma experiência traumática, são comuns. A questão é: “Como e por que uma experiência traumática nos faz viver uma vida mais profunda do que antes? Por que nós simplesmente, não escolhemos viver a vida em seu nível mais profundo antes de uma tragédia? Por que precisamos ter uma experiência traumática para nos acordar e apreciar a vida?” A resposta a estas perguntas não serão encontradas nos estudos tradicionais sobre trauma, e sim através de um profundo método de reflexão sobre experiências traumáticas e a espécie humana. Os seres humanos não são diferentes de outros organismos vivos que habitam esse planeta. Nós somos geneticamente codificados para recuperar de traumas, como uma maneira de nos livrar de qualquer experiência que obstrui ou interfere com o processo evolucionário natural do corpo humano. O trauma não é algo estranho à nossa espécie. Ele é, na verdade, parte integrante do processo evolucionário. Não podemos e não nos livraremos de experiências traumáticas, não importa quanto tentarmos isolarmo-nos e protegermo-nos dessas experiências de vida potencialmente dolorosas e aparentemente insuportáveis. Através do ciclo sem fim de trauma e recuperação, a espécie humana aprende como adaptar-se a situações que ameaçam a vida. Esse processo de adaptação torna a espécie mais forte e mais sabida para protegê-la contra futuros episódios traumáticos. A recuperação do trauma é tão natural e comum quanto o próprio trauma. Aceitar o trauma como parte da vida permite-nos vê-lo sob uma nova luz. Com a recuperação de cada episódio traumático em nossas vidas, nós nos rendemos e aceitamos mais facilmente a maneira como o universo nos trata. O paradoxo é que, quanto mais nos rendemos à vida, mais descobrimos que podemos retomar o controle das nossas vidas e participar, uma vez mais, da precária natureza de ser humano. Somente nos rendendo, podemos nos separar do passado, entrar no futuro e nos preparar para a próxima experiência evolucionária. Quando experimentamos os eventos dolorosos da vida, parece que não vamos ser capazes de suportar. A experiência frequentemente pode anular todo o nosso senso de self. Nossas emoções, lógica e entendimento da vida podem ser despedaçados. Ficamos pensando: vamos ser capazes de recuperarmo-nos dessa dor. No entanto, o que não estamos sabendo reconhecer é que, é precisamente esse efeito de estar despedaçado que nos força a pensar em novas maneiras, sentir emoções em nível mais profundo e relacionarmo-nos com outras pessoas com mais compaixão. As pessoas que sararam com sucesso de um trauma descobrem que a sua vida é mais rica, mais cheia e com mais carinho do que nunca antes. Isto é que é a evolução da espécie humana. O desenvolvimento interno da compaixão, carinho e sensibilidade à dor da humanidade emerge como resultado da recuperação das nossas próprias experiências de vida. Essa autorrenovação que acontece no processo de recuperação, ocorre porque o indivíduo foi forçado a explorar as profundidades dolorosas da humanidade que ele preferia não ter que experimentar. Essa exploração cria um senso mais profundo de conectividade com a vida e laços com outras pessoas e até mesmo com o universo. Quando o trauma nos acontece somos forçados, quer queira quer não, quer gostemos ou não, a seguir esse caminho que altera a nossa vida. Às vezes, esse processo nos leva a episódios de frustração e falta de esperança. Isso pode nos aterrorizar por mostrar a nossa fragilidade, precariedade e vulnerabilidade de ser humano. Isso nos expõe à dureza da vida como uma espécie viva nesse planeta. Isso destrói a nossa identidade e, radicalmente, redefine nossa visão da vida. No entanto, é precisamente devido ao fato que essa experiência queimou as pontes da nossa antiga maneira de pensar que somos forçados a entrar em uma nova maneira de vida. A antiga maneira de pensar e relacionar-se já não são suficientes e uma nova maneira de ser começa a surgir. Descobrimos que, no outro lado dessa aterrorizante jornada, temos o potencial de emergir para uma nova vida de maturidade, compaixão e sabedoria. As pessoas que, conscientemente, viajam através dessa experiência de alteração de vida parecem se reintegrar de maneira que são mais receptivas a uma experiência cósmica ou expandida de vida que não estava disponível antes. Talvez o trauma seja a maneira que o universo tem de ajudar a humanidade a desenvolver-se e a maturar como uma espécie mais sábia e de maior compaixão. Essa era da história humana está testemunhando um tremendo trauma em escala global. Parece impossível parar essa tragédia, apesar do nosso grande desejo de que isso aconteça. Tendo em vista essa era irreversível e, aparentemente, autodestrutiva da nossa humanidade, precisamos perguntar: “O que de bom traz toda essa violência?” Mais uma vez, se virmos o trauma como parte da vida, precisamos considerar a possibilidade de que o trauma, em larga escala, que estamos experimentando tem o potencial de ajudar a nos desenvolver, em uma espécie mais ética, mais moral e de mais compaixão. Esse trauma global pode ser visto como a dor da espécie humana desenvolvendo uma maior sabedoria que pode, possivelmente, nos levar a uma nova era de conscientização humana. Foi Einstein quem primeiro reconheceu que, com a divisão do átomo, nossa tecnologia tinha avançado mais do que a nossa capacidade ética e moral de lidar com ela. O trauma, se usado corretamente, pode ser uma maneira de ajudar a nossa espécie a desenvolver as dimensões éticas e morais necessárias para, com responsabilidade, lidar com nossos avanços tecnológicos. EXERCÍCIOS DE LIBERTAÇÃO DO TRAUMA Prezado leitor: Na maioria dos casos e para a maioria das pessoas, os Exercícios de Libertação do Trauma (TRE) têm comprovado ser um processo autoadministrado, seguro para a recuperação do trauma. No entanto, as informações e exercícios apresentados nesse livro não têm a intenção de ser um substituto para a recuperação do trauma. Pessoas com histórico de limitações físicas, estresse psicológico ou emocional devem definitivamente consultar o profissional de saúde apropriado quanto a instruções específicas, antes de usar esses exercícios. O autor não é uma autoridade médica e não está qualificado para diagnosticar ou prescrever qualquer terapia. As informações desse livro são a opinião pessoal do autor e não devem ser consideradas como conselhos médicos ou psicológicos. Eu estou incluindo uma série de avisos sobre esses exercícios. Dadas essas precauções, o autor e os Serviços de Prevenção e Avaliação de Recuperação de Trauma (TRAPS) não devem ser considerados responsáveis por quaisquer danos diretos, indiretos, punitivos, incidentais, especiais ou consequenciais que surgirem ou que, de alguma maneira, estiverem conectados ao uso dos exercícios. Esperamos que esses avisos o ajudem a tomar uma decisão informada quando e como você deve proceder com os Exercícios de Libertação do Trauma. Minha primeira preocupação é com o seu processo de recuperação seguro, rápido e saudável. Respeitosamente, David Berceli Nota: Os Exercícios de Libertação do Trauma (TRE) usam a experiência e sabedoria de outras tradições como a Bioenergética, Tai Chi, Yoga e outras artes marciais e práticas orientais. Os tremores neurogênicos, no entanto, pertencem ao corpo humano e acontecem naturalmente. Exercício 1 1 Gire ambos os pés para dentro na mesma direção. Isso fará com que você se apoie na parte externa de um pé e na parte interna do outro pé. 2 Segure essa posição por 30 segundos depois vire na direção oposta e inverta os pés. 3 Continue girando para um lado e outro lentamente, cinco vezes em cada direção. Exercício 2 1. Tire os sapatos. 2. Coloque um péna cadeira como mostra a foto. 3. Com o pé que está no chão, suba e desça apoiando-se nos dedos do pé, levantando o calcanhar o máximo possível depois baixe todo o pé até o chão. 4. Suba e desça apoiando-se nos dedos dos pés 15-20 vezes. Isso pode fazer com que o músculo fique apertado, que haja dor ou sensação de queimor na panturrilha. Isso é normal, mas você deve parar se a dor for muito forte. 5. Agora, levante o calcanhar uns 2 centímetros acima do chão e segure lá por 30-60 segundos. 6. Fique agora apoiado em ambos os pés e balance vigorosamente a perna que você acabou de exercitar para eliminar a dor, sensação de queimor e desconforto. 7. Repita o mesmo exercício com o outro pé. Ao terminar, balance a perna vigorosamente para relaxar o músculo. Exercício 3 1. Segure um pé com a mão. 2. Dobre-se para a frente lentamente e toque no chão com a sua mão livre. 3. Ao tocar no chão, dobre o joelho da perna que não está dobrada o máximo possível e depois endireite o joelho outra vez. 4. Repita esse processo 15-20 vezes, dependendo da resistência da sua perna. Apesar desse exercício colocar mais tensão na perna e ser muito útil, muitas pessoas encontram dificuldades ou sentem dor no joelho. 5. Esse exercício pode ser modificado segurando-se a parte de trás de uma cadeira, em vez de dobrar-se até o chão. Quando fizer segurando a cadeira, simplesmente dobre o joelho da perna reta, confortavelmente, tanto quanto possível, e depois endireite. 6. Repita umas 5 vezes. Se esse exercício for muito difícil, mesmo usando a cadeira, considere-o apenas um opcional e siga para o próximo exercício. Exercício 4 1. Fique em pé com os pés separados de modo que haja alguma tensão nos músculos internos da perna. 2. Dobre-se para frente até tocar o chão. Ao fazer isso, você sentirá um esticamento no lado interno das coxas e na parte de trás das pernas. 3. Depois, ande lentamente com as mãos até um pé. Segure essa posição inspire e expire três vezes. 4. Depois, ande com as mãos até o outro pé. De novo, inspire e expire três vezes. 5. Depois, volte com as mãos até o meio e faça de conta que quer alcançar algo que está entre as suas pernas atrás de você. Segure essa posição enquanto inspira e expira três vezes. Você poderá começar a sentir um pequeno tremor nas pernas. Deixe que isso aconteça. 6. Para completar o exercício, volte lentamente para a posição em pé. As sequências acima podem ser vistas nas fotos a seguir. Exercício 5 1. Faça dois punhos e coloque-os no topo dos glúteos como mostra a figura. 2. Empurre a pélvis para a frente de modo que o corpo fique ligeiramente arqueado. Você deve sentir que a frente das coxas está esticada. 3. Depois, lentamente, gire os quadris olhando para trás, primeiro em uma direção depois a outra. 4. Para terminar, retorne para a posição ereta. Exercício 6 1. Sente com as costas contra a parede como se estivesse sentando numa cadeira. Isso colocará tensão nos músculos das coxas (quadríceps). Depois de alguns minutos, você poderá sentir uma leve dor, sensação de queimor, aperto ou tremor nesses músculos. 2. Quando ficar um pouco mais dolorido, suba as costas na parede uns 4 centímetros. O tremor pode ficar um pouco mais forte e a dor pode diminuir. 3. Mais uma vez, se essa posição tornar-se muito dolorida, suba outros 4 centímetros na parede. Você deve tentar achar uma posição onde as suas pernas estão tremendo sem doer. 4. Depois de tremer alguns minutos, saia da parede e dobre-se para frente. Mantenha os joelhos um pouco dobrados quando tocar no chão. Provavelmente o tremor vai aumentar. Fique nessa posição por uns 3-4 minutos. Exercício 7 1. Deite com os pés juntos e os joelhos relaxados e abertos tanto quanto possível. 2. Levante a pélvis do chão e deixe-a no ar por um minuto, mantendo os joelhos abertos. 3. Coloque a pélvis no chão e deixe os joelhos relaxados por um minuto. Talvez você comece a sentir as pernas começarem a tremer. 4. Feche os joelhos mais ou menos 3-4 centímetros. Fique nessa posição por dois minutos. O tremor pode ficar mais forte. Se os tremores forem agradáveis e se você estiver confortável, deixe que continuem. 5. Feche os joelhos de novo mais 3-4 centímetros e deixe que os tremores continuem. O tremor pode ficar mais forte. A qualquer momento, se você sentir-se desconfortável, estique as pernas e relaxe no chão. 6. Feche os joelhos mais uma vez 4 centímetros e deixe que os tremores continuem. Nesse ponto, você pode continuar tremendo até achar que é hora de parar. Não trema por mais de quinze minutos pois o seu corpo pode ficar fatigado. 7. Para terminar o exercício, coloque a sola dos pés no chão. Mantenha os joelhos um pouco abertos e os tremores continuarão. Permita que esse movimento vá até a sua pélvis e lombar. Para terminar o exercício, simplesmente deixe as pernas escorregarem até ficarem esticadas. Se você preferir, pode virar e curvar-se na posição fetal. PERGUNTAS E RESPOSTAS Com qual frequência devo fazer esses exercícios? Já que eles são naturais para o corpo, eles podem ser praticados todos os dias sem perigo. Algumas pessoas acham que os exercícios lhes acalmam e os fazem à noite como uma maneira de relaxar. Outras acham que eles são energizantes e os fazem de manhã ou à tarde, quando acham que precisam de um pouco mais de energia. É útil incorporar esses exercícios na sua rotina diária. Simplesmente adicione mais quinze minutos ao final dos seus exercícios regulares para terminar com os tremores. Isso aliviará o estresse criado nos músculos durante a sua musculação diária. No entanto, o ponto mais importante a lembrar é seguir o seu próprio corpo. Quando você se torna sensível ao seu corpo, ele lhe informa quando você precisa aliviar o estresse. Se você está apenas começando seus exercícios e não tem nenhuma reação física, psicológica ou emocional, você pode praticá-los dia sim, dia não, durante um mês. Isso lhe ajudará a orientar o seu corpo para os tremores e permitir que você, gradualmente, diminua a tensão no seu corpo. Depois disso, você pode reduzir o número de vezes que você os faz para três ou duas vezes na semana. Se você fizer menos do que isso, o seu corpo começará mais uma vez a acumular tensão. Os tremores param? Enquanto você estiver habitando o seu corpo, você deverá ser capaz de tremer. Lembre-se de que é um mecanismo natural para aliviar as tensões crônicas do corpo. Os tremores devem estar sempre disponíveis para você, quando precisar deles. Quando as tensões do corpo são liberadas e os traumas e tensões da vida tiverem diminuído, o seu corpo simplesmente produzirá um tremor leve, fraco e agradável. O que significam os tremores fortes ou leves? Se o tremor for obviamente muito forte, isso é um indicativo de que os músculos grandes do corpo estão partindo tensões como icebergs no corpo. Esses bloqueios de tensão criam um tremor forte até que se partem e a energia pode fluir com mais facilidade. Com frequência, tremores muito fortes diminuem para tremores leves e depois tornam- se fortes de novo. Isso é simplesmente a maneira do corpo de, sistematicamente, aliviar os estresses que estão profundamente embutidos no corpo. Apenas permita que os músculos tremam da maneira que precisarem. Eles sabem o que fazer para suavizar e relaxar os padrões de tensão que foram criados ao longo dos anos. Como eu devo estar tremendo? Já que cada pessoa tem suas próprias experiências da vida, cada um de nós tem seu próprio padrão de tensão. Por isso, não há uma maneira correta de tremer. Existem tantas maneiras quanto existem corpos. Pode-se observar padrões semelhantes de tremores porque a estrutura muscular do corpo humano é idêntica. É simplesmente o caso de deixar os tremores trabalharempelo seu corpo. O melhor conselho sobre essa pergunta é: NUNCA JULGUE O SEU CORPO – APENAS OBSERVE-O. Eu tenho muitos clientes que dizem: “Eu gostaria de estar tremendo de uma maneira diferente.” Ou, “Eu gostaria que as minhas costas tremessem.” Não é uma questão de desejar que o seu corpo trema de uma maneira diferente da que treme. É o corpo simplesmente tremendo do jeito que precisa tremer. O corpo sabe exatamente como e onde deve tremer para relaxar. Todo o diálogo da mente é simplesmente interferência e julgamento do ego. Tente evitar essa interferência, tanto quanto possível. Eu tremo mais quando estou de pé; devo permanecer lá? Pessoas diferentes tremem de maneira diferente. Isso depende muito dos padrões de tensão no corpo e da sua capacidade de liberação. Se você treme de pé e você se sente confortável assim, então continue de pé e trema. Apenas lembre-se de que você deve tremer numa posição diferente cada vez que fizer os exercícios. Eventualmente, você será capaz de tremer em posições diferentes. Cada um tem seu próprio valor para o corpo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Arendt, H. (2000). The Portable Hannah Arendt. Londres, Inglaterra: Penguin. Broome, B., Murray, J. (2002). Improving third party decisions at choice points: A Cyprus case study. Negotiation Journal, 1, 75-98. Holloway, R. (2002). On forgiveness. Edinburgh, Scotland: Canongate Books Ltd. Kessler, L. (2000). Relatório do Departmento de Política da Saúde, Harvard Medical School, Boston, MA. J. of Clinical Psychiatry, 61(5), 4-12. Lencioni, P. (2002). The Five Dysfunctions of a Team. California: Jossey- Bass Pub. Levine, P. (2002). Trauma – The vortex of violence. Foundation for Human Enrichement. P.O. Box 1872, Lyons, Co. 80540. Baixado do site www.traumahealing.com Perry, B. (1996). Childhood Trauma, the Neurobiology of Adaptation and Use-dependent Development of the Brain: How States Become Traits. Infant Mental Health Journal. Baixado do site http://www.traumapages. com/perry96.htm Van der Kolb, B. (1994). The Body Keeps the Score: Memory and the Emerging Psychobiology of Post Traumatic Stress. Harvard Review of Psychiatry, 1, 253-265. SOBRE O LIVRO Libertas Editora www.libertaseditora.com.br Rua Rodrigues Sete, 158 - Casa Amarela Fone: 3441.7462 / 3268.3596 Organização Grace Wanderley de Barros Correia Jayme Penerai Alves Tradução Amadise “Tai” Silveira Revisão Sineide Wanderley de Barros Correia Coordenação José Ricardo Paes Barreto Luciana Lyra Capa Liney Dias Diagramação Deusdedith Antônio da Silva Diagramação do Livro Digital André Gonçalves Benício de Almeida B484e Berceli, David Exercícios para libertação do trauma / David Berceli; tradução: Amadise “Tai” Silveira. – Recife: Libertas, 2010. 159p.: il. Inclui referências. ISBN 978-85-8268-015-5 1. EXERCÍCIOS FÍSICOS. 2. TRAUMA PSÍQUICO. 3. ESTRESSE (PSICOLOGIA). 4. MENTE E CORPO (TERA- PIA). 1. Silveira. Amadise “Tai”. II. Título Página de título “A recuperação do trauma precisa de um novo paradigma.” HOMEM FEITO DE BARRO “Ajude-me a curar-me” LIBERTANDO DO TRAUMA “Eu não quero perdoar” IDENTIFICANDO O TRAUMA “Estou ficando doido?” EFEITOS RESIDUAIS DO TRAUMA “Eu não sei porque não consigo me controlar.” OS MÚSCULOS DE DEFESA PSOAS “A dor na minha lombar é insuportável.” MECANISMO DE LIBERTAÇÃO DO TRAUMA “Eu tremia incontrolavelmente três dias depois.” MUDANÇAS NA ADRENALINA “Meu corpo estava indo a mil por hora.” NARCÓTICOS E A SENSAÇÃO DO ÓPIO “Era como se eu estivesse em câmera lenta” INTUIÇÃO E O CÉREBRO ABDOMINAL-PÉLVICO “Eu sabia que alguma coisa estava errada.” NEUROLOGIA DO TRAUMA “Por que não posso controlar meu modo de pensar?” TRAUMA DA INFÂNCIA “Eu não consigo me concentrar ou lembrar.” SÍNDROME DA IMAGEM DO INIMIGO “Eu desconfiava de todo mundo ao ponto da paranoia.” IMAGINAÇÃO DO TRAUMA “Eu estava mais aterrorizado e zangado do que a minha família.” SUICÍDIO: UMA AUTOSSABOTAGEM DO ORGANISMO VIVO “Até a morte era melhor do que essa dormência interna.” NEGAR O PTSD “Coisas assim não acontecem conosco.” TRAUMA - A NOVA EPIDEMIA NO MUNDO CORPORATIVO “Por que nossas técnicas de gestão de crise não estão funcionando?” RENTABILIDADE FINANCEIRA COM FOCO HUMANITÁRIO “O que eu posso fazer para recuperar meu pessoal?” LIDERANÇA TRAUMATIZADA “A sua objetividade parece estar prejudicada.” RESOLUÇÃO INTERNACIONAL DE CONFLITO E TRAUMA “Por que não podemos alcançar a paz?” TRAUMA E O SISTEMA HUMANO DE CRENÇAS “Eu já não acredito em nada.” O TRAUMA É UM DEGRAU NA ESCADA DA SABEDORIA “Eu vivo totalmente cada dia.” EXERCÍCIOS DE LIBERTAÇÃO DO TRAUMA Exercício 1 Exercício 2 Exercício 3 Exercício 4 Exercício 5 Exercício 6 Exercício 7 PERGUNTAS E RESPOSTAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SOBRE O LIVRO