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31 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Unidade II 3 TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS A disciplina de Relações Internacionais é estruturada em torno de teorias e de grandes debates. As duas correntes teóricas mais tradicionais são o realismo e o liberalismo, que estão associadas às próprias origens do campo. Apesar de a área de estudos ser recente, os fundamentos das teorias podem ser encontrados em autores clássicos de outras áreas do conhecimento, sendo relevante lembrar o caráter interdisciplinar das relações internacionais. As teorias evoluem com o tempo e sofrem reedições de acordo com as novas temáticas e olhares empregados, enquanto outras correntes teóricas despontam e ganham espaço. Nesse momento, o foco é estudar as duas teorias fundacionais do campo, conhecendo bem seus aspectos centrais. Antes de prosseguir com o estudo do liberalismo e do realismo, é necessário compreender o papel e a importância de uma teoria. Uma teoria pode ser entendida como “um conjunto de proposta e conceitos tendentes a explicar fenômenos ao fazer relações explícitas entre os conceitos trabalhados” (MINGST, 2006, p. 111, tradução nossa). A teoria fornece o instrumental para se compreender o conjunto de questões a que a disciplina se propõe a abarcar, fornecendo uma espécie de mapa do caminho (PECEQUILO, 2016). A realidade é muito ampla e é difícil, senão impossível, considerar todas as variáveis que compõem um determinado problema de uma só vez. A teoria fornece um marco para o estudo dos fenômenos, baseado em um conjunto de conceitos e pressupostos. Aponta‑se que uma teoria não é capaz de explicar a totalidade de uma questão, mas fornece os instrumentos para identificar quais são os pontos centrais a serem analisados e o modo pelo qual o estudo deve ser feito. As teorias podem ser compreendidas como lentes analíticas. Assim, diferentes interpretações sobre um problema podem ser realizadas a partir da aplicação de lentes diversas, uma vez que cada teoria valoriza um conjunto de questões em detrimento de outro. Trata‑se de um modo de organizar o conhecimento e facilitar a aproximação do estudioso com a realidade. 3.1 O realismo O realismo é a primeira teoria das relações internacionais a se estruturar como tal, apesar de nascer como uma reação a ideias liberais que estavam em voga depois da Primeira Guerra Mundial. Para o realismo, o poder é a variável central para analisar e compreender a política internacional, sendo que os Estados são os atores relevantes do cenário internacional. Há perspectivas realistas que se voltam apenas ao estudo dos Estados que detêm grandes capacidades, as potências. Para os realistas, os atores são egoístas e há uma tendência ao conflito no Sistema Internacional, sendo a segurança uma preocupação central para os Estados. 32 Unidade II Uma primeira base clássica para a teoria realista pode ser encontrada no pensamento de Tucídides, mais especificamente na sua obra História da Guerra do Peloponeso (2001). Ao tratar do conflito entre Atenas e Esparta, o autor fornece bases para conceitos que seriam utilizados pelo realismo clássico muito tempo depois (DUNNE; SCHMIDT, 2001; NYE JR., 2009; PECEQUILO, 2016). A guerra entre as cidades‑Estado gregas é entendida pela disputa de poder, havendo preocupações mútuas. Nesse sentido, Esparta avaliava que Atenas estava conquistando mais poder e que tal dinâmica seria prejudicial aos seus interesses, enquanto Atenas se preocupava com a oposição de Esparta a seu fortalecimento, sendo um poder oposto. Desse modo, já há em Tucídides uma visão de que o poder pauta as relações sociais de acordo com uma lógica própria. Enquanto havia uma certa igualdade de poder entre Esparta e Atenas, existia estabilidade nas relações. Porém, quando começa a se desenhar uma assimetria em favor de Atenas, produzindo um desequilíbrio, Esparta deveria resistir. O conflito seria parte normal da política diante dessas circunstâncias. Nessa situação, desenha‑se o conceito de equilíbrio – ou balança – de poder que se tornará central para o realismo, referindo‑se a uma forma de contenção mútua entre as unidades políticas soberanas, ou “um cenário onde a distribuição de poder restringe a preponderância absoluta de um Estado em relação a outros” (OTAVIO, 2018, p. 79). É uma situação em que a competição entre Estados soberanos em um Sistema Internacional anárquico gera uma contenção mútua entre os envolvidos, produzindo um equilíbrio e uma forma de estabilidade no cenário internacional. Trata‑se de uma situação sensível, sujeita a ser afetada com a mudança de capacidades dos atores. Além disso, também está presente em Tucídides a concepção da autoajuda, o entendimento de que um ator só pode contar consigo mesmo para garantir sua sobrevivência. Lembrete Equilíbrio de poder refere‑se a uma situação de contenção mútua entre os Estados. O realismo nas relações internacionais também encontra suas bases nas proposições de Niccolò dei Maquiavel, um pensador florentino que causou escândalo para sua época, ao quebrar a tradição clássica sobre a política e o bom governo. De acordo com a visão clássica, a política é uma atividade com fim em si mesma, ou seja, é autotélica. É marcada pelo diálogo e constituiu a realização plena do ser humano como um animal que fala. Assim, não é uma técnica e está associada à liberdade e à igualdade entre as pessoas, pois na política são todos livres e iguais, enquanto o âmbito privado, da família, é caracterizado como autoritário e desigual. Além disso, a política é marcada por um senso de justiça nessa formulação, existindo uma série de normas que devem ser seguidas pelo governante, e pela perspectiva que deve corresponder a critérios de virtude, sendo boa e eficaz e visando o bem comum. 33 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Observação Autotélico, de acordo com o dicionário Michaelis (2019), é “o que não apresenta qualquer finalidade ou objetivo fora ou para além de si mesmo”. A polêmica de Maquiavel é justamente romper com essa tradição da política relacionada ao bom governo, ao justo e ao virtuoso e entendê‑la como a arte do poder, a arte de conquistar e manter o poder. O florentino propõe analisar a realidade assim como é, rompendo com a utopia, como fica claro em sua obra mais conhecida, O príncipe (2006). Nesse sentido, o conflito é parte natural da política e a guerra é ordinária, uma vez que é um instrumento do poder. Assim, Maquiavel coloca a questão do poder como central e aproxima a política de uma técnica. Para Maquiavel, o bom governante não é aquele justo e virtuoso, mas sim aquele que consegue cumprir seus objetivos. O governante que tem a virtù consegue subjugar a fortuna, ou, em outros termos, o bom governante consegue utilizar as circunstâncias, a sorte, o acaso a seu favor. Além disso, utiliza tanto a astúcia da raposa como a força do leão. A prudência pode ser identificada como uma característica central do bom governante. Maquiavel separa a moral da política, promovendo a concepção de que ações políticas devem ser julgadas por critérios próprios. A língua portuguesa reconhece a existência do adjetivo “maquiavélico”, significando o que é ardiloso, astuto, velhaco, falso e desleal. Tal associação negativa ao nome do pensador florentino reside justamente no distanciamento entre moral e política e na preocupação com a eficácia da ação política, justificando a utilização de diversos meios pelo governante. A máxima de que os fins justificam os meios é atribuída a Maquiavel, apesar de nunca ter sido realmente escrita por ele. De todo modo, simboliza essa concepção. Está presente no pensamento do autor a questão da realização de um cálculo racional no sentido de que os governantes tomam suas decisões a partir da realização de um cálculo estratégico entre custos e benefícios, entre meios e fins. Nesse sentido, é possível identificar um caráter trágico no pensamento de Maquiavel, pois uma decisão sempre tem um custo e há efeitos imprevistos, não existindo uma fronteiraclara entre o bem e mal. É um dilema contemporâneo sempre ter que tomar decisões, sem saber se a decisão tomada foi realmente a correta. Cabe apontar que Maquiavel apresenta uma visão negativa da natureza humana. Para entender melhor a perspectiva do autor, é relevante apontar que Maquiavel vivia no contexto das cidades‑Estado italianas, marcadas por uma forte instabilidade política, com uma institucionalização muito frágil, significativo conflito social e utilização de exércitos mercenários. Assim, a preocupação com a manutenção do poder pelo governo era essencial e a política poderia ser aproximada de uma técnica, sendo que o pensador assume a função de conselheiro a partir da avaliação das relações sociais como elas são, e não como deveriam ser. 34 Unidade II Como sintetiza Vallespín (2013, p. 2‑3, tradução nossa), O príncipe […] é um manual perfeito das técnicas de poder, e de como toda ação política deve ser avaliada em função de sua capacidade de obtê‑lo e mantê‑lo, não de seu ajuste mais ou menos cabal aos imperativos da moralidade. O que importa é o êxito na hora de buscar este objetivo, e aquele condiciona a natureza dos meios que sejam necessários para alcançá‑lo […]. Ninguém soube distinguir com tanta nitidez a distância que se abre entre como funciona de fato a política e como gostaríamos que fosse. Sua mensagem não pode ser mais clara, a política é sempre estratégia, sempre se deve vê‑la com atores que tratam de maximizar seus interesses com todos os meios a seu alcance […]. De todo modo, a visão negativa da natureza humana, a naturalidade do conflito, o uso do cálculo racional, a separação entre moral e política e, especialmente, o poder como aspecto central são pontos que o realismo nas relações internacionais recupera do pensamento de Maquiavel para construir suas bases. Outro pensador importante para a compreensão do realismo é Thomas Hobbes, com sua obra O Leviatã. O autor viveu em um período de grandes agitações e transformações políticas na Inglaterra, o que se reflete na sensação de medo e na busca por algum tipo de estabilidade política que marcam seu pensamento. De fato, os biógrafos de Hobbes citam que o inglês declarava que sua mãe pariu gêmeos: ele e o medo (VALLESPÍN, 2011, p. 46). O ponto de partida básico do pensamento hobbesiano é o estado de natureza, que não é uma etapa histórica que realmente ocorreu, mas sim uma hipótese intelectual destinada a trabalhar as condições em que o Estado ainda não existe, em que não há uma autoridade central, um poder legitimamente estabelecido com capacidade de regular as relações entre os homens. Nesse quadro, Hobbes insere outro elemento: as paixões naturais dos seres humanos, que incitam um desejo descontrolado de poder, entendido pelo autor como os meios de que alguém dispõe no presente para conseguir algum bem no futuro. Tal busca incansável por poder dá origem às três causas da guerra: a rivalidade, a desconfiança e a glória. A primeira impulsiona o conflito com a perspectiva de ganhar algum bem; a segunda com a ambição por segurança; e a terceira com o fim de conquistar uma reputação forte. Para Hobbes, o estado de natureza é caracterizado como um estado de guerra civil permanente, de luta de todos contra todos. Isso não significa que os atos de violência sejam ininterruptos, mas sim que a ameaça do conflito é constante. Assim, a guerra “não consiste somente em batalhar, no ato de lutar, mas se dá no lapso de tempo em que a vontade de lutar se manifesta de modo suficiente” (HOBBES, s.d., p. 52, tradução nossa). Tal situação é agravada porque na ausência de uma autoridade comum, cada um é detentor do direito sobre todas as coisas, pois há “a liberdade que cada homem tem de usar seu próprio poder como queira, para a conservação da sua própria natureza […] e, por conseguinte, pode fazer tudo aquilo que seu próprio juízo e razão considere como os meios mais aptos para lograr seus fins” (HOBBES, s.d., p. 54, tradução nossa). 35 RELAÇÕES INTERNACIONAIS O medo, ou mais especificamente a busca pela preservação da própria vida que é inerente ao ser humano, faz com que se procure uma forma de sair dessa situação em que o homem é o lobo do próprio homem e a vida não pode ser outra que não solitária, desagradável, brutal e breve, como diria o pensador inglês. A saída do estado de natureza para Hobbes é a passagem ao Estado civil, um artifício demandado pela razão humana para fugir da insegurança constante, de ameaça à sobrevivência. A transição ocorre por meio de um pacto social, em que as pessoas se despojam de seu poder político, que é depositado no Estado, estabelecendo assim uma autoridade central, que é representada pelo soberano. O pacto implica uma situação em que as pessoas se comprometem a submeter suas vontades e juízos às vontades e aos juízos do depositário do poder, o soberano. Pode‑se concluir que o Estado é um corpo artificial criado pelo cálculo racional dos homens que vivem em constante temor pela própria vida e desejam assegurar a própria existência. O Estado apresenta‑se então como um Leviatã, uma força toda‑poderosa acima da sociedade civil, um deus mortal. Ressalta‑se que o soberano não faz parte do pacto, é o depositário do poder dos homens. Há fortes repercussões do pensamento de Hobbes, que não se preocupa com a questão dos direitos dos cidadãos, submetidos a essa força que é o Estado. Por essa razão, Hobbes muitas vezes é entendido como autoritário, um instrutor de tiranos, um pensador maldito; Hobbes não se preocupa realmente com a questão dos direitos e defenderia que ainda é uma situação melhor a submissão ao soberano que a guerra de todos contra todos. O realismo utiliza a concepção de Hobbes para compreender o Sistema Internacional, entendendo o estado de natureza como uma analogia, já que em ambos não há uma autoridade central estabelecida. O próprio Hobbes admite que apesar do estado de natureza não ser um acontecimento histórico, o contexto das relações entre diferentes unidades políticas soberanas se aproxima do exercício mental. Assim, o pensamento hobbesiano focado no processo de construção do Estado é apropriado para entender as relações entre os diferentes Estados em um sistema anárquico. Desse modo, há uma visão negativa da natureza humana que é passada para os Estados, entendidos como atores egoístas que procuram maximizar seus próprios ganhos e defender seus interesses, sendo a sobrevivência o interesse primordial. Com a inexistência de um ente superior aos Estados, tais atores não têm sua própria existência assegurada e, tal qual no estado de natureza hobbesiano, o conflito é sempre latente, ou seja, sua possibilidade está sempre presente e é considerada no cálculo estratégico dos atores. Há uma situação de desconfianças entre os Estados, que buscam aumentar seu poder e operam em um sistema de autoajuda considerando as relações internacionais como um jogo de soma zero, ou seja, o ganho de um ator representa a perda de outro. Enfatiza‑se assim a dinâmica do conflito no cenário internacional e a necessidade de se encontrar mecanismos de estabilidade, mas sempre considerando a possibilidade da guerra. Em meados do século XX, as bases estabelecidas pelos autores citados são recuperadas para a formulação de uma teoria das relações internacionais, o realismo. Essa corrente teórica é a primeira que se estrutura no campo e surge como uma reação aos ideais que foram difundidos com o fim da Primeira 36 Unidade II Guerra Mundial, em 1919, sobre as possibilidades de construção de uma nova ordem internacional que evitasse um novo conflito, pautando um clima de otimismo. Tais perspectivas foram frustradas, como evidencia a ocorrência da Segunda Guerra Mundial (1939‑1945). O realismo surge como uma reação às bases das proposições do período entreguerras. Um primeiro autor de destaque é o historiador inglês Edward Carr. Apesar de não se propor a criar uma teoria sobre política internacional, Carr apresentapontos centrais do realismo na sua obra Vinte anos de crise (1919‑1939): uma introdução ao estudo das relações internacionais (2001). O autor recupera a centralidade do poder nas relações internacionais, configurando tanto um meio como um fim para a ação. Ou seja, os atores buscam poder como um meio para atingirem seus objetivos e promoverem seus interesses, ao mesmo tempo que conquistar e manter poder é uma finalidade. Assim, poder é um elemento essencial da política. Apesar de considerar o poder como um todo indivisível na prática, Carr aponta que, para fins analíticos, é possível separar o poder em militar, econômico e sobre a opinião. A respeito do primeiro, o autor considera que o instrumento militar tem uma importância suprema, pois o último recurso nas relações internacionais é a guerra e sua possibilidade está sempre presente, não porque seja desejável, mas como uma possível necessidade. Por sua vez, o poder econômico sempre esteve associado ao poder político, existindo uma associação entre poder econômico e poder militar. Por fim, o historiador argumenta que o crescimento da importância do poder sobre a opinião pública no início do século XX representa um alargamento das bases da política, uma vez que aumenta o número de pessoas cuja opinião é politicamente relevante. Desse modo, há a relevância da propaganda. Carr defende que uma filosofia realista encontra suas bases em três princípios implícitos na obra de Maquiavel. São eles: • História é sequência de causa e efeito. • Prática cria a teoria. • A ética é uma função da política e a moral é produto do poder. O primeiro princípio aponta que a realidade faz parte de uma evolução histórica, não existindo uma realidade fora do processo histórico que é marcado por uma sequência de causa e efeito. Nesse sentido, o estudioso da política internacional deve analisar tal processo para identificar padrões e leis no curso dos acontecimentos, entendendo que não devem ser feitos julgamentos de cunho moral. A moral e a ética são historicamente condicionadas, isto é, dependem das circunstâncias e dos interesses dos atores mais poderosos. Dessa forma, Carr aponta que acentuar o caráter relativo e pragmático do pensamento é uma contribuição do realismo. Desse modo, o pensamento não só apresenta variações de acordo com as circunstâncias, mas também se dirige à execução de objetivos. A compreensão da história é essencial para que se possa analisar as relações sociais e, consequentemente, as relações internacionais sem a armadilha de supor que princípios morais são absolutos e imutáveis. 37 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Por sua vez, o segundo ponto refere‑se ao entendimento de que as teorias devem ser construídas a partir dos fatos, da prática, de modo a constituir uma explicação para o que acontece. Há uma visão contrária a tentativas de se criar uma teoria e distorcer os fatos para que eles se encaixem na formulação teórica. Ou seja, está em pauta analisar o mundo como ele é, e não a partir de como ele deveria ser. Por fim, o terceiro princípio retoma a questão da moral, salientando que as políticas não são deduzidas a partir de princípios éticos. Pelo contrário, os princípios éticos são deduzidos das políticas a depender do contexto e dos interesses envolvidos, de modo que muitas vezes não passam de justificativa para as ações tomadas. Desse modo, retoma‑se a separação entre moral e política defendida por Maquiavel. Ainda que Carr não negue totalmente a existência de uma moral na política internacional, o historiador defende que não é a mesma moral do homem comum e que no cenário internacional o poder costuma ter primazia em relação à moral. Os valores morais promovidos no cenário internacional são, muitas vezes, reflexos dos interesses dos atores mais poderosos. Hans Morgenthau apresenta o objetivo de desenvolver uma teoria das relações internacionais na obra A política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz (2003). Morgenthau argumenta que uma teoria sobre política internacional deve ser pragmática e ter bases empíricas, sendo coerente com os fatos e com seus próprios elementos constitutivos. Assim como Carr, o autor considera um erro tentar reduzir a política internacional a valores morais, marginalizando a questão do poder (PECEQUILO, 2016). Morgenthau formula os seis princípios do realismo político, a saber: • A política, assim como a sociedade em geral, é governada por leis objetivas que têm suas origens na natureza humana. • O interesse é definido em termos de poder. • O interesse definido como poder é uma categoria universalmente válida, mas não tem significado fixo e permanente. • Princípios morais universais não podem ser aplicados de modo abstrato às ações dos Estados. • Não se deve identificar aspirações morais de um Estado com leis morais que governam o universo. • Autonomia da política diante de outras esferas. O primeiro princípio estabelece que existem leis objetivas e é necessário desenvolver uma teoria racional que as reflita. Segundo o autor, a teoria está baseada em verificar os fatos e dar a eles um sentido por meio do uso da razão. Para Morgenthau, o mundo é imperfeito como resultado de forças inerentes à natureza humana, sendo necessário identificá‑las para trabalhar com elas. Há uma lógica que tende ao conflito na natureza humana. O segundo princípio estabelece o poder como conceito central para o realismo, sendo o elo entre a razão e os fatos, o que permite organizar o pensamento para compreender os fatos. O interesse definido 38 Unidade II em termos de poder como categoria central também implica consolidar a política como uma esfera autônoma de ação e entendimento. Sendo assim, a política é diferente de outros campos – como a economia –, justamente por ter na variável do poder seu foco de análise. Por sua vez, o terceiro princípio indica que tal interesse definido em termos de poder se reproduz por meio do tempo, sendo sempre válido. Porém, seu significado específico pode variar de acordo com o contexto político e cultural de sua formulação. Segundo Morgenthau, o poder abarca tudo que permita o domínio do homem sobre homem. O primeiro interesse de um Estado é garantir a sua própria sobrevivência. Porém, a forma como outros interesses e a busca por poder são compreendidos depende do contexto em que se está inserido. O quarto e o quinto princípios dedicam‑se ao papel da moral na política internacional. Para o realismo, as ações políticas não devem ser julgadas por critérios morais. Não significa negar totalmente a existência da moral, mas postular que os valores morais devem ser considerados de acordo com o contexto existente, e não em termos abstratos e universais, e que a política responde a critérios próprios. A prudência é apontada como virtude suprema na política, assim como indicado por Maquiavel. Além disso, é negada a possibilidade de imposição de uma verdade absoluta em termos morais, pois nenhum Estado é superior aos demais em termos morais, nem deve tentar impor seus valores a outros. Como lembra o autor, todos os Estados são entidades políticas que buscam seus próprios interesses, e estes são entendidos a partir do conceito‑chave do poder, e não de um padrão moral absoluto. O último princípio estabelece que o raciocínio do interesse definido em termos de poder possibilita conceber a política como uma esfera autônoma, conferindo uma lógica própria ao pensamento que o torna distinto de outras áreas que partem de conceitos e princípios distintos. Assim, Morgenthau propõe‑se a pensar “uma teoria que busca entender a política internacional como ela é, e como deve ser, face à sua natureza intrínseca, e não como as pessoas gostariam que ela fosse” (2003, p. 28). Central para o autor é também a perspectiva do equilíbrio de poder, relacionada a três aspectos importantes do realismo: a centralidade do Estado, a anarquia do Sistema Internacional e o foco no poder. Como citado, o poder para o autor refere‑se à uma relação de dominaçãoentre homens ou grupos. No cenário internacional anárquico, o equilíbrio de poder se daria entre Estados refletindo a disputa entre os que são favoráveis e contrários ao status quo, configurando então essa situação de contenção mútua gerada a partir da perseguição de interesses de cada ator (OTAVIO, 2018). Observação Status quo significa “o estado atual das coisas”. Nas relações internacionais, costuma se referir a políticas de manutenção do poder. 39 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Como Halliday (2007, p. 24) aponta, os realistas [...] tomam como ponto de partida a busca do poder dos Estados, a centralidade da força militar dentro deste poder e a inevitabilidade duradoura do conflito em um mundo de múltipla soberania. Mesmo não negando inteiramente o papel da moralidade, do direito e da diplomacia, os realistas dão maior peso à força militar como instrumento de manutenção da paz. Eles acreditavam que o mecanismo central para regular o conflito era o equilíbrio de poder através do qual a força de um Estado seria compensada pelo aumento da força ou pela expansão das alianças dos outros: esta situação era dada no sistema, mas também poderia ser promovida conscientemente. Assim, o poder é a categoria central de análise para o realismo e a possibilidade do conflito está sempre colocada no Sistema Internacional. A abordagem realista tornou‑se predominante na área de relações internacionais após a Segunda Guerra Mundial, sendo desafiado a partir do fim dos anos 1960 e ficando sob pressão desde então (HALLIDAY, 2007). 3.2 O liberalismo O liberalismo é uma vertente teórica que enfatiza a possibilidade de cooperação e promoção da paz no cenário internacional, partindo da racionalidade dos atores e da crença da possibilidade de progresso nas relações sociais, incluindo as relações internacionais. Tal abordagem valoriza o princípio da liberdade e incentiva formas de compromisso entre os Estados, entendendo que a balança de poder não é suficiente para garantir a estabilidade do Sistema Internacional. O liberalismo inclui perspectivas que valorizam o papel de uma moralidade, que se inclinam a discussões sobre regimes políticos mais apropriados e que salientam como o comércio pode promover relações mais pacíficas entre os Estados, aprofundando os laços entre eles e os interesses comuns, de modo que a guerra se torne disfuncional. Um autor importante para as bases da perspectiva liberal é John Locke, teórico burguês da sociedade comercial pacifista. Seu pensamento é orientado ao contexto de constituição e aprimoramento do Estado moderno, buscando elaborar mecanismos para que o Estado não se torne um monstro, um deus todo‑poderoso. Assim como Hobbes, Locke constrói suas formulações a partir da passagem de um estado de natureza – marcado pela inexistência de uma autoridade central – à constituição do Estado e de sua sociedade. Para Locke, há um contrato social que representa essa passagem. Contudo, ao contrário de Hobbes, Locke não apresenta uma caracterização negativa do estado de natureza, que não é por princípio conflituoso. Há uma visão positiva da natureza humana. Como os homens são naturalmente bons e racionais, podem conviver de forma pacífica em condições naturais, sem a presença de um ente regulador. Assim, pode‑se promover o entendimento de que um meio social pacífico e dinâmicas de cooperação podem promover mais prosperidade e oportunidades, sendo preferível a um quadro de conflitos e tensões. 40 Unidade II Porém, apesar de a natureza humana ser boa e as relações pacíficas serem possíveis, essa situação é frágil e pode ser prejudicada por inconveniências, que podem ser associadas a preconceito, ignorância, parcialidade, negligência, fraqueza e medo (DOYLE, 1997). O Estado surge como um mediador necessário e um ente restaurador do equilíbrio, constituindo um “mal necessário” (PECEQUILO, 2016). Desse modo, o Estado é constituído para evitar os desvios da racionalidade que podem perturbar um contexto de relações sociais pacíficas e deve respeitar e garantir a liberdade e a propriedade dos cidadãos. Devem então existir limites à atuação desse Estado, que é só justificado se cumpre sua função, e não deve haver nenhum poder ilimitado. Para Locke, a liberdade das pessoas é um direito inalienável, sendo que o Estado deve resguardá‑la, e não a ameaçar. A propriedade privada também é importante nessa perspectiva, sendo entendida como bens que são resultado do trabalho, havendo uma união entre o recurso natural e o artifício (o trabalho) que gera a propriedade privada, a qual deve também ser garantida. O contrato social em Locke representa o depósito do poder político em um Estado de direito que respeite e garanta os direitos e as liberdades dos indivíduos. Tanto Locke como Hobbes são considerados autores contratualistas, uma vez que fundamentam seu pensamento na passagem do estado de natureza para o Estado e sociedade civil por meio de um contrato social. Apesar de esse raciocínio estar correto, argumenta‑se que em Hobbes o mecanismo de passagem é melhor entendido como um pacto de submissão, uma vez que não implica partes que têm direitos e deveres recíprocos, como para Locke. De qualquer forma, o Estado na concepção de Locke é limitado e surge para salvaguardar a liberdade e a propriedade, sendo baseado na confiança, uma vez que, se esta não existe, não há legitimidade. É proposta uma forma de governo por representação, funcionando pelo princípio da maioria. Ademais, é fundamental uma divisão dos poderes do Estado. Locke propõe a divisão entre Poder Legislativo, Executivo e Federativo. O Legislativo era responsável por aprovar as leis; o Executivo compreendia a esfera executiva propriamente dita, de execução das leis; e o Federativo era responsável por fazer a guerra e a paz, por fazer alianças e conduzir negócios no plano exterior (SUANZES, 2002). De todo modo, pode‑se apontar que há uma proeminência do poder legislativo para Locke, mas que este também não é ilimitado: está submetido às leis e à Constituição e há um Executivo com certa autonomia. Dessa forma, Locke apresenta um pensamento com mais foco nos direitos dos cidadãos e na limitação dos poderes dos Estados. O ambiente externo dos Estados pode ser visto, em uma perspectiva liberal, como um espelho da concepção lockeana do estado de natureza (PECEQUILO, 2016). Assim, mesmo em um sistema anárquico, a cooperação e as relações pacíficas podem ser promovidas pelos Estados, que são atores racionais e capazes de impulsionar uma legitimidade para o relacionamento, realizando tratados a partir do entendimento que a paz é mais interessante aos seus interesses, uma vez que contribui para a prosperidade e para o aumento das oportunidades encontradas. Tal proposição não significa que a possibilidade de conflitos e desequilíbrios esteja eliminada, mas há a visão de que não se trata de um sistema pautado pelo conflito constante. A cooperação pode ser estimulada e a política internacional pode ser vista como um jogo de soma positiva, em que todos os atores podem obter ganhos. 41 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Outro autor relevante para a perspectiva liberal é o filósofo Immanuel Kant, que faz parte de um grupo de autores que reagem à barbárie das relações internacionais e buscam refletir sobre a possibilidades pacíficas para as relações humanas (DUNNE, 2001), com uma visão pautada pelo humanismo. Pensar as condições para que uma paz duradoura seja estabelecida nas relações interestatais é justamente o objetivo da obra A paz perpétua e outros opúsculos, datada de 1795. O autor parte do pressuposto de que é possível conter a guerra a partir da razão, sendo este um movimento não só possível, como necessário. Kant busca então estabelecer as condições para que essa paz seja obtida, apresentando de forma central artigos preliminares e definitivos, que podem ser entendidos como regularidades que devem ser encontradas nas relações entre os Estados (PECEQUILO, 2016). De modo geral, pode‑seindicar que os artigos preliminares se referem a condições que acabam com a preparação constante para a guerra e com causas para o conflito, enquanto os artigos definitivos tratam de questões mais amplas para fundamentar a paz, incluindo ideais democráticos. Os artigos preliminares são os seguintes: • Nenhum tratado de paz é válido se feito com reservas para guerra futura. • Nenhum Estado independente pode ser adquirido por outro. • Os exércitos permanentes devem desaparecer progressivamente. • Não se deve emitir dívidas públicas relacionadas a assuntos de política externa. • Nenhum Estado deve, pela força, intervir no governo de outro Estado. • Nenhum Estado em guerra deve permitir que as hostilidades tornem impossível a confiança na paz futura. O primeiro artigo coloca‑se contra a realização de tréguas, uma vez que a paz significa o fim de todas as hostilidades, e não somente uma pausa em um conflito que será retomado posteriormente. O tratado de paz não deve ser um cessar provisório da violência para que os envolvidos possam se reorganizar e obter meios para prosseguir com o conflito. Por sua vez, o segundo artigo é baseado no entendimento de que o Estado não é um patrimônio, mas uma sociedade de homens que não dever ser vendida ou trocada. Já o terceiro artigo busca acabar com a mobilização para a guerra contínua, que é representada de forma mais clara pela existência de exércitos permanentes, treinados e equipados para entrar em conflito a qualquer momento. Além disso, há a perspectiva que homens não são máquinas de guerra e não devem ser tratados como tal. O quarto artigo procura acabar com uma facilidade de levantar recursos para financiar as guerras e com a utilização de pressões econômicas por alguns Estados, o que pode gerar tensões no cenário internacional. O quinto artigo recupera os princípios de soberania e não intervenção das relações internacionais, ressaltando que um povo tem o direito de resolver seus problemas internos por si só. Por fim, o sexto artigo estabelece que deve ser preservada a confiança em uma paz futura. Assim, não devem ser feitas guerras de extermínio, pois a paz seria fundada em um 42 Unidade II grande cemitério nesse caso. Pecequilo (2016) aponta que esse artigo poderia ser entendido hoje como uma proibição à prática de crimes de guerra. Pode‑se notar um caráter paulatino para a implementação dos artigos preliminares, que estabelecem condições para situações de conflitos e após o fim destes, sempre com a perspectiva de se construir uma paz duradoura. Por sua vez, os artigos definitivos de Kant são os seguintes: • A constituição civil de cada Estado deve ser republicana; • Deve‑se fundar uma federação de Estados livres; • O direito cosmopolita deve se limitar a condições de hospitalidade universal. O primeiro artigo definitivo estabelece um princípio de liberdade das pessoas, um princípio de dependência com relação a uma legislação comum e uma lei de igualdade entre os cidadãos. Atualmente, esse artigo pode ser entendido como defesa de valores democráticos, com condições de participação e representação política, liberdade e igualdades dos cidadãos e defesa dos direitos humanos. Há uma concepção de que o risco de um Estado entrar em um conflito seria minimizado se o consentimento do cidadão fosse necessário, uma vez que se trata das pessoas que realmente colocariam sua vida em risco em uma guerra. O segundo artigo fundamenta o princípio de não agressão (PECEQUILO, 2016), dizendo respeito a um pacto entre os povos para promover uma federação da paz e colocar um fim às guerras. Não é uma proposta de se obter o poder dos Estados ou criar um Estado universal, mas sim de garantir a paz por meio de compromissos entre os Estados. Tal federação de Estados livres deve se estender paulatinamente a todos os Estados, e só assim pode cumprir a sua função. O último artigo definitivo trata do direito cosmopolita, termo que se refere aos cidadãos do mundo, pessoas que transitam com facilidade entre grandes centros de diferentes países e que recebem influências de outros lugares. Pois bem, a hospitalidade universal diz respeito ao direito do estrangeiro não ser tratado com hostilidade devido ao fato de ser estrangeiro. Tal perspectiva contribuiria para o avanço de uma comunidade entre os povos, com lugares distantes mantendo relações pacíficas e aproximando a humanidade. Observação Cosmopolita, conforme o dicionário Michaelis (2019), é um adjetivo que se refere a algo que apresenta aspectos que são comuns a vários grandes centros urbanos do mundo, ou a alguém que procede como cidadão do mundo. Como substantivo, diz respeito ao indivíduo que procede como cidadão do mundo e transita com facilidade nos grandes centros urbanos dos diferentes países. 43 RELAÇÕES INTERNACIONAIS No século XX, as concepções liberais sobre possibilidade de cooperação e valores democráticos ganham espaço nas formulações das relações internacionais, embasando formas de se pensar o Sistema Internacional e o relacionamento entre os atores. Uma perspectiva que ganhou destaque com o fim da Primeira Guerra Mundial foi promovida pelo então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, e ficou conhecida como idealismo. As propostas do mandatário foram apresentadas originalmente em janeiro de 1918, antes do fim do conflito mundial, ao Congresso dos EUA em um discurso lembrado como Os Quatorze Pontos de Wilson. Tratavam‑se de propostas para estruturar a ordem internacional após o fim do conflito, contando com o forte intuito de se evitar a eclosão de um novo conflito de grandes proporções. Figura 6 – Woodrow Wilson Disponível em: https://bit.ly/3wGKhN7. Acesso em: 20 maio 2022. Segundo Dunne (2001), os Quatorze Pontos de Wilson podem ser resumidos do seguinte modo: 1) Diplomacia aberta. 2) Liberdade de navegação dos mares na paz e na guerra. 3) Remoção das barreiras econômicas ao comércio. 4) Desarmamento. 5) Reajuste das demandas coloniais. 44 Unidade II 6) Evacuação do território da Rússia e determinação própria russa de seu desenvolvimento e de sua política nacional. 7) Evacuação e restauração da Bélgica. 8) Evacuação e restauração da França e retorno da Alsácia‑Lorena. 9) Reajuste das fronteiras da Itália. 10) Autodeterminação para os povos da Áustria‑Hungria. 11) Redefinição das fronteiras dos Estados balcânicos de acordo com linhas historicamente estabelecidas de nacionalidades. 12) Autodeterminação para os povos sob domínio turco. 13) Independência da Polônia com livre acesso ao mar. 14) Formação de uma associação geral de nações sob tratados específicos com o objetivo de oferecer garantias mútuas de independência política e integridade territorial para Estados grandes e pequenos. Pode‑se observar que alguns dos pontos se referem à redefinição do mapa europeu após o fim das hostilidades. São enfatizadas outras questões, como importância da transparência, da liberdade comercial e do desarmamento para um novo padrão de relações entre os Estados. A transparência encontra‑se ligada à defesa do que se popularizou como diplomacia aberta. O entendimento de que a realização de acordos secretos foi uma condição facilitadora para a Primeira Guerra Mundial levou à defesa de que os tratados deveriam se tornar públicos, de modo que todos tenham conhecimento e a população possa exercer maior controle e influência no que tange às decisões do governo. Pecequilo (2016) aponta que Wilson propunha que a nova ordem deveria ser fundada com base em três princípios: democracia, autodeterminação dos povos e segurança coletiva. A primeira está relacionada à questão da transparência já citada, sendo impulsionada a ideia de participação popular, debate, liberdade e igualdade como propulsores da cooperação e da paz. Por sua vez, a autodeterminação dos povos diz respeito ao direito dos povos de determinar seu estatuto político e conduzir livremente seu desenvolvimento econômico e social, sem tutela estrangeira (SILVA, 2013).Já a segurança coletiva trata‑se de uma articulação com a finalidade de evitar a guerra de conflito e agressão. Não é seu foco acabar com qualquer tipo de conflito, mas sim frear posturas expansionistas e desrespeito às fronteiras estabelecidas. A premissa da segurança coletiva reside no entendimento de que as guerras são prováveis, mas podem ser prevenidas pela união dos esforços de vários Estados, de forma a dissuadir ou impor sanções a agressores (THAKUR, 2006). A perspectiva é a criação de um sentido de solidariedade e responsabilidade coletiva dos Estados na defesa da paz (YOST, 1998), atenuando a lógica da 45 RELAÇÕES INTERNACIONAIS autoajuda (KUPCHAN; KUPCHAN, 1995). Assim, todos os Estados que se comprometessem com determinadas regras e estivessem interessados na preservação de uma determinada configuração do Sistema Internacional enfrentariam um agressor, e não somente os Estados que estivessem ameaçados pela postura expansionista do Estado agressor. Tal perspectiva seria promovida segundo a proposta de Wilson, com a criação de organismo cujo objetivo central era evitar uma nova grande guerra. Lembrete Segurança coletiva refere‑se a um mecanismo de cooperação entre os Estados com o objetivo de promover a segurança de todos, banindo a guerra de conquista e agressão por meio de ações coordenadas. A proposição do presidente estadunidense serviu de inspiração para a criação de uma Organização Internacional, a Liga das Nações. Criada por unanimidade no seio da conferência de paz que coloca fim à Primeira Guerra Mundial, a organização era baseada justamente nos princípios de segurança coletiva e igualdade soberana entre os Estados (SEITENFUS, 2005). Desse modo, pela primeira vez há uma organização com o intuito de manter a paz por meio de mecanismos jurídicos. Seitenfus (2005) aponta que suas funções centrais eram três: segurança; cooperação econômica, social e humanitária; e execução de alguns pontos do Tratado de Versalhes (1919), que é o tratado de paz que põe fim à Primeira Guerra Mundial. Assim, há uma perspectiva liberal de estimular o diálogo e o contato constante entre os Estados para promover entendimentos e cooperação. Observação O termo “liberalista” é incorreto. Deve‑se referir ao liberalismo ou a perspectivas liberais. De modo geral, a perspectiva liberal […] vê as relações internacionais como um reino de progresso e mudança intencional. [Os liberais] valorizam a liberdade individual acima de tudo […] Domesticamente, o poder do Estado liberal constitucional é limitado pela prestação de contas democrática aos cidadãos, pela necessidade de respeitar as demandas do mercado econômico e pela lei. Liberais acreditam que, apesar das dificuldades para se replicar esses constrangimentos no nível internacional, eles devem ser estabelecidos para promover estabilidade entre, bem como dentro, os Estados soberanos (GRIFFITHS; ROACH; SOLOMON, 2009, p. 65, tradução nossa). 46 Unidade II 3.3 O Primeiro Grande Debate Os grandes debates são constitutivos das relações internacionais. Assim, há uma forma de simplificar as vertentes analíticas da área para o melhor entendimento, ressaltando os pontos‑chave delas e promovendo um diálogo a partir de seus contrapontos, de modo que os estudiosos da política internacional possam se situar e aproximar da lente que consideram mais apropriada para avaliar uma questão. O Primeiro Grande Debate, também conhecido como um debate clássico, é entre realismo e liberalismo, o qual estrutura a disciplina e tem como ponto de partida o cenário pós‑Primeira Guerra Mundial. Pecequilo (2016, p. 16‑17) apresenta o Primeiro Grande Debate da seguinte forma: […] este debate pode ser resumido à contraposição das visões idealistas de construção da ordem internacional implementadas pelo Presidente norte‑americano Woodrow Wilson, em 1918, e à crítica realista de E. H. Carr. De acordo com Carr, o estudo e a prática das relações internacionais não poderiam ser realizados por meio de construções utópicas, que ignorassem o principal elemento da política, o poder […] Ambos os lados se confrontavam com referência a como explicar o internacional, e como organizar as interações sociais entre os Estados e os demais agentes do cenário internacional. Além disso, ambas correntes procuravam definir a partir de sua percepção o que é o ‘internacional’ e quais os valores e princípios organizadores que a ele se aplicam, opondo temas como: poder e paz, cooperação e conflito, equilíbrio de poder e segurança coletiva, dentre outros. Para cada uma das correntes prevalece uma forma de ver o mundo, ou pelo viés do poder, ou pelo viés da paz e da cooperação. Assim, o Primeiro Grande Debate é fundado nas proposições de Wilson sobre a ordem mundial após a Primeira Grande Guerra, sendo sua perspectiva voltada à promoção da cooperação e do diálogo, estabelecendo a segurança coletiva como um mecanismo de garantia da paz que se concretizaria por meio de uma associação voluntária de Estados, uma Organização Internacional. Wilson coloca‑se de forma contrária ao equilíbrio de poder, considerando nociva essa lógica, pois em sua perspectiva constituía a causa de guerras e encorajaria “os estadistas a tratar as nações como queijos a serem cortados de acordo com a conveniência política independentemente dos interesses de seu povo” (NYE JR., 2009, p. 74). Como citado, o plano de Wilson nesse ponto ganhou vida na criação da Liga das Nações. Porém, o organismo enfrentou diversos desafios e foi marcado por fortes déficits desde sua criação. Um primeiro ponto de destaque é a ausência de atores importantes na sua constituição. Apesar de Wilson ser o grande impulsionador da iniciativa, os EUA não entraram na Liga. Tal questão é relevante porque o país norte‑americano saiu do conflito mundial em uma situação de destaque, como um poder ascendente. A ausência estadunidense ocorreu pela recusa do Congresso do país em aderir à organização. Recorda‑se que um aspecto importante do liberalismo é justamente, no plano interno, a necessidade de pesos e contrapesos entre os poderes estatais. Nesse caso, tal mecanismo democrático funcionou de forma 47 RELAÇÕES INTERNACIONAIS contrário ao plano de Wilson. Os EUA voltam‑se a uma postura conhecida como isolacionismo, buscando fortalecer sua base continental e não se envolver nas tensões e nos problemas europeus, usufruindo dos benefícios da ordem internacional sem arcar com os seus custos (CERVO, 2007). Isso faz com que a Liga seja vista por alguns especialistas como natimorta. A Rússia também não participava da iniciativa. Ainda no ponto de ausência de atores importantes, a Alemanha não fazia parte inicialmente da Organização, tornando difícil pensar na paz europeia. Tal questão está relacionada a outro aspecto frágil da Liga: sua apresentação junto ao Tratado de Versalhes, em que os vencidos da guerra foram excluídos das negociações, marcado por uma perspectiva de revanchismo francês contra os alemães, decorrente das perdas sofridas pelos primeiros durante o processo de unificação da Alemanha (1870). Dessa forma, o Tratado de Versalhes impunha uma severa humilhação à Alemanha, que foi responsabilizada pelo conflito, sofrendo ocupação militar e devendo pagar severas reparações de guerra. Outro ponto fraco da Liga das Nações é que ela não apresentava, de fato, os mecanismos concretos para administrar a nova ordem proposta. Não estava estipulado de forma clara como colocar na prática seus ideais. Além disso, sua estrutura era dividida em três órgãos centrais: Conselho, Assembleia e Secretariado. O Conselho era o órgão central, destinado a discutir as questões de segurança. Composto por membros permanentes e provisórios, seu processo decisório era por unanimidade, o que na prática significa que todos os seus membros tinham poder de veto. Ou seja, qualquer país, tanto os mais poderosos como os periféricos, podiam travar as decisões, o que significava uma constante paralisação, decorrentedos diversos interesses representados. Uma situação que ilustra esse ponto ocorreu em 1926, quando o Brasil vetou a entrada da Alemanha na Liga das Nações. Nesse momento, já era claro que a humilhação e o isolamento alemão eram fatores complicados em termos de estabilidade internacional, sendo necessário incorporar o país nas iniciativas de ordenamento pós‑Guerra. O governo brasileiro não era contrário à participação alemã na Organização, mas reivindicava um assento permanente no Conselho. Com o seu pleito negado, o governo brasileiro negou o ingresso alemão, alegando defender a dignidade nacional (DORATIOTO; VIDIGAL, 2014). Assim, a participação de um Estado central para as discussões em um contexto em que as falhas da iniciativa já estavam claras foi vetada por um Estado que não era uma das potências da época. O caso demostra um voluntarismo brasileiro, superestimando sua importância no cenário internacional, o que levou ao isolamento e retirada do Brasil da Liga das Nações (DORATIOTO; VIDIGAL, 2014). De qualquer modo, o quadro demonstra as dificuldades do seu modo de funcionamento. Por esses pontos, pode‑se notar que a Liga das Nações apresentava falhas graves em seu funcionamento. Cervo (2007) afirma que a Paz de Versalhes se trata de uma paz ilusória ou frustrada. Essa primeira tentativa de regulamentação de uma sociedade global, a ordem de Versalhes […], era incoerente, defeituosa e pouco realista. Essas falhas advinham da imposição de conceitos europeus pelos vitoriosos. Wilson via nisso e na balança do poder caminhos para o desastre […]. Mas a Liga não saiu segundo seu projeto. Abandonou o concerto e a balança, que eram os elementos europeus de estabilidade internacional […]. Proclamou 48 Unidade II uma nova legitimidade, a segurança coletiva, e ficou sem forças para administrá‑la […]. Uma de suas falhas de base era precisamente a de não considerar, nos cálculos estratégicos que a inspiravam, certas mudanças que estavam em curso na composição de forças no Sistema Internacional (CERVO, 2007, p. 135). Desse modo, é apontado como se buscou uma solução alternativa ao equilíbrio de poder, tido como insuficiente ou até mesmo inadequado para garantir a estabilidade no Sistema Internacional, mas não foram criados os mecanismos necessários para dar força à nova proposta. Carr (2001) dirige sua crítica ao fato de que foi ignorado o elemento central da política internacional: o poder. Configura‑se então o Primeiro Grande Debate. Figura 7 – Woodrow Wilson, o idealismo e a Liga das Nações Disponível em: https://bit.ly/3wLQ8j0. Acesso em: 20 maio 2022. Carr critica o que considera o fundamento das propostas idealistas, caracterizadas como utópicas em sua visão: a doutrina da harmonia de interesses. Inicialmente, trata‑se do entendimento de que o mais elevado interesse do indivíduo e o mais alto interesse da comunidade naturalmente coincidem, de 49 RELAÇÕES INTERNACIONAIS modo que leis morais possam ser estabelecidas pelo raciocínio correto. Aplicada à política internacional no século XX, a harmonia de interesses toma forma do pressuposto de que as nações possuem interesse idêntico na paz, sendo qualquer perturbação da paz vista como irracional e imoral. O historiador inglês denuncia que não é possível aplicar aspirações morais abstratas dessa forma na política internacional, sendo que a harmonia de interesses na verdade é reflexo dos interesses dos Estados dominantes. Assim, a doutrina da harmonia de interesses desde suas origens é um pressuposto natural de classe dominante, cujos membros são propensos a identificar seus interesses com os da comunidade, servindo como um artifício invocado por grupos dominantes para justificar e manter sua posição. De fato, Carr (2001, p. 105) afirma que as teorias da moral social são sempre produto de um grupo dominante, que se identifica com a comunidade como um todo, e que possui facilidades, negadas aos grupos ou indivíduos subordinados, para impor sua visão da vida na comunidade. As teorias da moral internacional são, pela mesma razão e em virtude do mesmo processo, o produto das nações ou grupo de nações dominantes. Nesse sentido, os princípios supostamente universais são, na verdade, reflexos inconscientes da política internacional, representando uma interpretação específica do interesse nacional em uma determinada época. Em certo sentido, é possível afirmar que paz, cooperação e manutenção da ordem são fins comuns e universais. Porém, à medida que se aplicam esses princípios abstratos a uma situação concreta, eles são disfarces para interesses egoístas dos atores. Assim, a “falência da visão utópica não reside em seu fracasso em viver segundo seus princípios, mas no desmascaramento de sua inabilidade em criar qualquer padrão absoluto e desinteressado para a condução dos problemas internacionais” (CARR, 2001, p. 115). A falha da Liga das Nações estava então em seus pressupostos. O autor cita o próprio Tratado de Versalhes como evidência de que se deve rejeitar a tentativa de basear a moral internacional na harmonia de interesses, sendo que o tratado de paz é dotado de um caráter vingativo e é destinado a sufocar uma concorrente, a Alemanha. Está, desse modo, muito distante de concepções de solidariedade internacional e interesses comuns entre os Estados. Há a denúncia de que os padrões éticos dos utópicos são historicamente condicionados, sendo frutos dos interesses e circunstâncias e constituindo armas forjadas para a defesa de interesses. Retoma‑se assim um dos pontos da essência do realismo, central para o pensamento de Maquiavel e que é traduzido nos princípios do realismo de Morgenthau: a separação entre moral e política. A Liga das Nações encerrou formalmente suas atividades em 1946, mas anteriormente já se encontrava paralisada e desacreditada. Não obteve sucesso em seu objetivo principal, como a ocorrência da Segunda Guerra Mundial deixa claro. Enquanto o realismo pode ser uma atitude cínica, da impossibilidade de resistir a tendências e procurar o progresso nas relações internacionais, o que o contexto entreguerras e o segundo conflito mundial parecem apontar é que não considerar as preocupações realistas pode ter um custo alto demais (ELIAS; SUTCH, 2007). De qualquer forma, após a Segunda Guerra Mundial, 50 Unidade II o realismo torna‑se a abordagem dominante, sendo que do fim da guerra até 1970, estima‑se que 90% dos estudos baseados em dados sobre política internacional continham pressupostos realistas (VASQUES, 1983 apud ELIAS; SUTCH, 2007). Apesar das fraquezas da organização e seu fracasso apontados pelos realistas, não se deve desconsiderar a importância da iniciativa para as relações internacionais, pois se trata da primeira grande organização destinada a promover a segurança. Foi predecessora da ONU, sendo que os Estados tiraram lições dos equívocos cometidos. Desse modo, a Liga das Nações [...] nasceu com a guerra e pela guerra foi morta. Contudo, o seu fracasso não pressupõe que as relações internacionais possam prescindir de uma Organização Internacional. Ao contrário, os vencedores da Segunda Guerra Mundial extraíram lições da derrota da SDN [Sociedade ou Liga das Nações] para a construção de uma nova Organização Internacional. Sobre os escombros de um mundo devastado, nascerá a Organização das Nações Unidas. Em que pese serem as duas organizações obra dos vencedores das guerras mundiais, a ONU será levada a desenvolver atividades em outros campos, distintos da manutenção da paz, e por vezes empregará a força para alcançar seus objetivos (SEITENFUS, 2005, p. 25). Saiba mais Sugestões de filmes, séries e vídeos: O SENHOR das moscas. Direção: Harry Hook. EUA: Castle Rock, 1990. 90 min. WILSON. Direção: Henry King. EUA: 20th Century Fox, 1944. 154 min. Assista ao episódio a seguir inteiro, dando especial atenção à cena “Poder é poder”, ocorrida entre os minutos 36 e 40: GAME of Thrones – 2ª Temporada, Episódio 1. Direção: Alan Taylor.EUA: HBO, 2012. 53 min. 4 CONFLITO E COOPERAÇÃO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS O Sistema Internacional é anárquico, caracterizado pela inexistência de um ente superior aos Estados com capacidade de regular as relações entre eles e com outros atores. Nesse quadro, dinâmicas de conflito e cooperação tomam forma. A política internacional é justamente caracterizada por tal sistema de Estados, por ser a política na ausência de uma soberania comum (NYE JR., 2009). A forma como analisamos as possibilidades do sistema depende das lentes utilizadas, conforme evidenciado pelo debate entre realismo e liberalismo. 51 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Recorda‑se que o sistema de Estados é uma construção histórica, com seu início marcado pelo Tratado de Vestfália. Isso significa que o Estado não é a única forma de organização possível – por exemplo, o feudalismo já foi o modelo dominante – e um dia pode desaparecer, ainda que seja difícil identificar essa possibilidade no mundo atual. Ao longo dos anos, o Sistema Internacional sofreu transformações, como atesta a emergência de atores não estatais com importância cada vez maior. Desse modo, empresas multinacionais e transnacionais, Organizações Internacionais, Organizações Não Governamentais, redes de crime organizado transnacionais e outros atores ganham cada vez mais destaque. Ainda assim, o Estado continua sendo o referente central da política internacional e algumas lógicas apresentam continuidade ao longo do tempo. Nesse sentido, os problemas atuais apontam que nem todas as questões podem ser resolvidas pelo uso da força, mas isso não significa que poder militar esteja ultrapassado. Só haveria uma verdadeira transformação da política internacional se o sistema estatal fosse dissolvido (NYE JR., 2009). Os dilemas do conflito e da cooperação entre os Estados fazem parte da linha de continuidade da política internacional. A seguir, serão apresentados mais elementos sobre essas dinâmicas, sempre a fim de complementar o que já foi abordado anteriormente. Além disso, propõe‑se também uma discussão sobre o papel da moral na política internacional, buscando esclarecer as dificuldades em pensar a questão que ficam implícitas na discussão sobre liberalismo e realismo. 4.1 A lógica do conflito Uma primeira questão a ser abordada ao discutir a lógica do conflito é a definição de guerra, sendo necessária uma aproximação inicial a esse tópico que perpassa a área das relações internacionais, estando ligado às suas próprias origens. Em termos gerais, a guerra é “o confronto violento entre grupos politicamente organizados” (MEI, 2018, p. 451). Assim, destaca‑se o caráter do uso da força e do envolvimento de unidades políticas. Como costuma acontecer nas ciências sociais, não há uma única definição consensual. Porém, o pensamento de Carl von Clausewitz sobre a guerra, em livro publicado originalmente em 1832, influenciou grande parte da reflexão posterior sobre o tema e apresenta pontos em comum com concepções da Antiguidade que continuam a ter destaque no mundo contemporâneo. Para Clausewitz (s.d., p. 75, grifo do autor), a guerra é “um ato de força para obrigar o nosso inimigo a fazer a nossa vontade”, sendo que a força é um meio da guerra que se utiliza das invenções da arte e da ciência. Ademais, é essencial para esse pensamento o propósito político da guerra, que é a razão inicial para se entrar no conflito e determina tanto o propósito militar quanto o esforço a ser empregado. Cabe notar que esse propósito político não pode ser alheio aos meios materiais de que se dispõe, sendo necessária assim uma convergência do que se demanda da força e o que ela pode oferecer. O ponto central é o caráter de imposição da vontade da guerra, o que expressa um fim político, sendo que a política ainda é responsável pela conduta da guerra. Como coloca Raymond Aron (2002, p. 71), “a guerra é um ato político, surge de uma situação política e resulta de uma razão política”. 52 Unidade II Assim, guerra e política são indissociáveis, não havendo uma separação clara entre elas, pois a guerra é política, já que “o propósito político é a meta, a guerra é o meio de atingi‑lo, e o meio nunca deve ser considerado isoladamente de seu propósito” (CLAUSEWITZ, s.d., p. 91). É importante esclarecer que há o fim político e o objetivo militar da guerra, sendo que o segundo reside em desarmar o inimigo, tanto no sentido de privá‑lo de suas armas quanto no de retirar sua vontade de resistência. O objetivo militar visa então criar as condições para que o primeiro possa ser alcançado. Nesse quadro, não é necessário destruir totalmente o adversário no sentido de aniquilá‑lo, de eliminar sua existência. Dessa forma, os termos destruição e aniquilamento do inimigo dizem respeito à retirada de suas armas e de sua resistência. Cabe à política decidir até que ponto a guerra deve ser travada e sob quais condições pode‑se chegar à paz, considerando as pretensões que se tem para quando o conflito tiver chegado ao seu término. Desse modo, “a guerra não é meramente um ato de política, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas realizada por outros meios” (CLAUSEWITZ, s.d., p. 91). Lembrete A guerra é um confronto violento entre unidades políticas que tem origens e fins políticos. A guerra é um padrão de comportamento contínuo ao longo da história, mas apresenta grandes variações em termos de frequência e gravidade (CARLSNAES, 2002). Mei (2018) defende que a guerra é um fenômeno histórico‑social, o que significa que sua compreensão está relacionada à análise dos mais variados aspectos da vida em sociedade, como o econômico, o político, o cultural, o técnico‑científico, o religioso e o jurídico. Desse modo, [...] de uma perspectiva jurídica, ela [a guerra] inicia‑se com a declaração de guerra e encerra‑se com o tratado de paz. De uma perspectiva militar, ela é antecipada pela preparação das Forças Armadas para o conflito bélico e sucedida pelos impactos destes na corporação. Contudo, a sua compreensão envolve a vida em sociedade nos seus mais variados aspectos […] (MEI, 2018, p. 460). A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, é uma obra importante para entender a lógica do conflito para o realismo. Além das implicações já discutidas para essa vertente teórica, há outros aspectos que despontam com sua análise. 53 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Figura 8 – A Grécia clássica Fonte: Nye (2009, p. 50). Doyle (1997) resume os antecedentes da guerra. De acordo com o autor, o mundo grego estava dividido em dois polos, Atenas e Esparta, que representam dois estilos de vida e duas visões de mundo distintas. Atenas era voltada à atividade comercial e à navegação, com instituições democráticas. Já Esparta era agrária, oligárquica e contava com uma forte disciplina imposta pelo treinamento militar. As duas cidades‑Estado cooperaram para derrotar os persas, mas logo apresentaram interesses distintos, sendo que o receio de Esparta aumentou quando Atenas transformou a Liga de Delos, a aliança que comandava contra os persas, em um império em que os aliados eram taxados, financiando assim a frota ateniense. 54 Unidade II Nesse contexto, Doyle aponta que ocorreu a Primeira Guerra do Peloponeso (460 a.C.‑446 a.C.), finalizada com a Paz de Trinta Anos, que constituiu na verdade uma trégua. A continuidade da situação de tensão levou à Segunda Guerra do Peloponeso (431 a.C.‑404 a.C.), centro da narrativa de Tucídides. A cidade de Epidamnus, colônia da neutra Corcira, passava por uma crise, em que democratas buscavam derrubar aristocratas. Os democratas buscaram a ajuda de Corcira, que foi negada, então voltaram‑se ao fundador de Corcira, Corinto. A cidade‑estado de Corinto decidiu interferir. Esparta tentou moderar as ações de seu aliado, Corinto, ao declarar que não interferiria. Porém, os coríntios não estavam dispostos a negociar e contrataram uma frota, mas foram derrotados por Corcira. Doyle narra que Corintopassou os próximos dois anos se preparando para sua vingança, o que levantou alarme na Liga do Peloponeso, a aliança liderada por Esparta. Corcira foi buscar a ajuda de Atenas, argumentado com bases nas leis e na moral e depois utilizando o medo, afirmando que uma guerra com toda a Liga do Peloponeso estava a caminho e que se Corcira fosse vencida, Atenas (que era detentora da maior frota) seria confrontada com a segunda e a terceira maiores frotas do mundo grego (Corcira e Corinto, respectivamente), o que ameaçaria seu domínio naval. Atenas buscou então ter um envolvimento reduzido na questão, mandando uma pequena frota como auxílio a Corcira para o caso que a cidade‑estado estivesse próxima de perder. Porém, o envolvimento ateniense foi maior do que o esperado e a derrota de Corinto elevou as tensões. De acordo com Doyle, Atenas decidiu punir Megara, aliada de Corinto, impondo um embargo comercial e resolveu também aumentar o controle sobre seu império. Nesse sentido, incrementou as pressões sobre Potideia (aliado ateniense, mas com laços históricos com Corinto). Potideia e Megara buscaram apoio em Corinto, que demandaram que Esparta convocasse uma reunião da Liga do Peloponeso e declarasse guerra. Houve um debate na Assembleia espartana para decidir a questão, sendo que os representantes de Corinto levantaram alarme sobre o poder crescente de Atenas e defenderam que a aliança ruiria, a menos que Esparta agisse. A assembleia viu a guerra como inevitável e considerava o poder ateniense como um grave perigo. Foi decidido que a guerra aconteceria, mas foi estipulada uma espera para negociar, enquanto preparava suas forças. Porém, Atenas não aceitou as demandas espartanas, considerando que se tratava de um esforço para enfraquecê‑la diante da inevitável guerra. O conflito explodiu quando Tebas, aliada de Esparta, atacou Platea, aliada de Atenas, violando a Paz de Trinta Anos. Apesar da descrição minuciosa realizada em sua obra, Tucídides defende que a verdadeira causa da Guerra do Peloponeso foi o aumento do poder de Atenas e o temos produzido em Esparta por tal feito (NYE JR., 2009). O confronto ilustra como incidentes e preocupações em áreas periféricas do sistema acabam provando um efeito dominó, que leva a um conflito entre os atores mais poderosos, sendo que a causa real da guerra se encontra em uma disputa por poder. O que está em pauta é o equilíbrio de poder. Nye Jr. (2009) aponta que, na narrativa de Tucídides, a guerra aparece como inevitável devido à situação de desequilíbrio de poder a favor de uma parte causando temor na outra. Porém, o autor defende que não há guerras inevitáveis, existindo somente guerras altamente prováveis. Isso ocorre porque a crença de que algo é inevitável é extremamente corrosiva na política internacional. Assim, encarar um conflito como inevitável faz com que ele realmente aconteça, uma vez que há a preparação, 55 RELAÇÕES INTERNACIONAIS tanto em termos de ação como de pensamento, para a situação de confronto, o que promove seu desencadeamento. Outra questão a ser abordada é a formação de alianças, que são arranjos entre Estados para abordar juntos questões de segurança, visando a proteção diante de uma ameaça comum, com o entendimento de que juntando seus recursos podem melhorar sua posição de poder e sua segurança relativamente aos Estados de fora da aliança (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). Para perspectivas liberais, como de Kant e Wilson, as alianças estimulam e facilitam os conflitos. Para os realistas, refletem os interesses nacionais dos Estados, sendo arranjos flexíveis que ajudam a manter o equilíbrio de poder (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). Em uma visão alinhada a tal perspectiva realista, Aron (2002) aponta que muitas vezes há aliados permanentes e ocasionais nas coalizões, sendo que um inimigo comum extremamente hostil pode levar à aliança entre rivais potenciais. Por esse motivo, “a força de uma coalizão é sempre inferior à soma das forças que ela teoricamente dispõe” (ARON, 2002, p. 96), uma vez que cada Estado tentará parecer mais apto e mais forte que seus aliados. A Guerra do Peloponeso evidencia como as alianças são variáveis e podem envolver adversários potenciais, uma vez que Atenas e Esparta já haviam sido aliados no combate aos persas antes de se confrontarem na Guerra, sendo que Esparta busca recorrer aos persas durante o conflito com Atenas. Além disso, o sistema de alianças instituído na Grécia aumenta a complexidade do contexto político da época, estimulando confrontos e o envolvimento de outros atores na questão, aumentando suas proporções. Pode‑se considerar então o sistema de autoajuda, em que cada Estado só pode contar consigo mesmo para garantir seus interesses, sendo a sobrevivência o primeiro destes. Outra questão relevante ao se pensar sobre os conflitos internacionais é a situação conhecida como Dilema de Segurança. A ideia já se encontra na obra de Tucídides, mas o conceito só é realmente formulado em 1950 por John Herz, sendo um elemento relevante da teoria realista, especialmente na sua vertente neorrealista. O Dilema de Segurança é uma situação de soma zero em cada a segurança de um Estado é inversamente proporcional à segurança dos demais. Isto é, um Estado pode buscar melhorar suas capacidades almejando garantir uma maior segurança para si mesmo – com aquisição de equipamento bélicos e investimento no desenvolvimento de novas armas, por exemplo. Porém, essa iniciativa gera insegurança em outros Estados, que não sabem quais são as intenções do primeiro Estado e se sentem ameaçados e buscam incrementar a própria segurança. O resultado dessa dinâmica muitas vezes é uma corrida armamentista (CARDOSO, 2018; NYE JR., 2009). Lembrete O Dilema de Segurança refere‑se a uma situação em que a tentativa de um Estado de aumentar sua segurança gera insegurança em outros Estados, fazendo com que busquem incrementar sua própria segurança. 56 Unidade II Exemplo de aplicação Leia o trecho abaixo em que Nye Jr. (2009) aponta causas da Primeira Guerra Mundial: No nível estrutural, houve dois elementos: o aumento do poder de Alemanha e uma maior rigidez nos sistemas de alianças. O aumento do poderio da Alemanha foi verdadeiramente impressionante. A indústria pesada ultrapassou a da Grã‑Bretanha na década de 1890, e o crescimento do produto interno bruto alemão no início do século era o dobro da Grã‑Bretanha. Na década de 1860, os ingleses detinham 25% da produção industrial mundial, mas em 1913 sua participação se reduzira para 10%, e a participação da Alemanha subira para 15%. A Alemanha transformou parte de sua força industrial em capacidade militar, incluindo um enorme programa de armamentos navais. Um objetivo estratégico do “Plano Tirpitz” da Alemanha de 1911 era construir a segunda maior armada do mundo, dessa forma avançando no sentido de tornar‑se uma potência mundial. Essa expansão alarmou o primeiro‑lorde do almirantado britânico, Winston Churchill (1874‑1965). Os ingleses começaram a temer o fato de tornar‑se isolados e preocupavam‑se quanto à forma de defender seu extenso império […] A resposta britânica ao poder alemão crescente contribui para a segunda causa estrutural da guerra: a crescente rigidez dos sistemas de alianças na Europa. Fonte: Nye Jr. (2009, p. 87‑88). Utilizando o trecho anterior e seus conhecimentos como base, reflita se a Guerra do Peloponeso e as lições de Tucídides auxiliam a compreensão da Primeira Guerra Mundial, ponderando se paralelos podem ser traçados entre os dois conflitos. Mingst (2006) apresenta uma classificação das causas das guerras reunindo as lentes de análise – ou seja, as perspectivas teóricas – e três níveis de análise que podem ser considerados nas relações internacionais: o indivíduo, o Estado e a sociedade, e, por fim, o próprio Sistema Internacional. Não se tratam de explicações completas, sendo que muitas vezes a causa de um conflito envolve questões de diferentes níveis deanálise. Além disso, outras perspectivas teóricas podem enfatizar questões distintas. De qualquer modo, a classificação auxilia em uma primeira aproximação às causas das guerras. No primeiro nível, de acordo com a autora, podem ser encontradas explicações tanto realistas como liberais. Desse modo, guerras podem ter suas causas em características de personagens influentes, como um perfil agressivo do líder ou uma tentativa de impulsionar causas próprias. Para os liberais, um conflito pode ter início devido a percepções equivocadas de um líder, como exagerar a hostilidade de um adversário, bem como sua periculosidade. Já os realistas afirmam que as características das massas também poderiam desencadear um conflito, uma vez que todas as espécies adotam uma conduta agressiva para garantir a sobrevivência. Dessa forma, as guerras são, para os pessimistas, inevitáveis, pois são inerentes à natureza humana. Porém, as estruturas internas dos Estados também podem justificar a existência de um conflito segundo Mingst. Para os liberais, os regimes menos propensos a empreender uma ação bélica são os democráticos, uma vez que estes países, por meio de suas próprias normas essenciais, inibem práticas que 57 RELAÇÕES INTERNACIONAIS facilitariam um estado de guerra por parte das lideranças, uma vez que os indivíduos têm espaço para demonstrar diferentes pontos de vista. Além disso, regimes capitalistas também são menos propensos porque a guerra interrompe redes de comércio e provoca a inflação. Por fim, Mingst afirma que a própria característica anárquica do Sistema Internacional pode ser apontada, para os realistas, como causa para um conflito, quando está em pauta o nível sistêmico. Isso ocorre porque os próprios Estados são os árbitros de suas disputas, havendo uma aproximação com o estado de natureza hobbesiano e sendo a guerra uma ação lógica. Uma variação é a teoria da transação de poder, que defende que as mudanças nas capacidades dos Estados podem conduzir à guerra. De qualquer forma, fatores como ausência de uma autoridade central no cenário internacional, dificuldade em reconhecer intenções de outros Estados e o aumento de gastos com defesa podem ser relacionados com uma lógica de insegurança. Para lidar com tal quadro, são formuladas proposições, que são construídas a partir de determinadas visões de mundo. Como sintetiza Mingst (2006), os liberais acreditam que a comunidade internacional e as instituições multilaterais podem administrar o poder e defendem a segurança coletiva e o desarmamento. Por sua vez, os realistas têm foco no equilíbrio de poder e na dissuasão. A segurança coletiva está baseada na perspectiva de que as guerras podem ser prevenidas por meio do controle das ações militares, sendo que os Estados agressores podem ser detidos por meio de uma ação coordenada entre diversos Estados. Por sua vez, a lógica do desarmamento e controle de armas é que quanto menos armamentos, maior é a segurança. Porém, controle de armas e desarmamento não são sinônimos. O controle de armas apresenta caráter regulatório, não sendo destinado a promover uma nova ordem internacional, mas sim lidar com a existente (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). Normalmente, é realizado o banimento de certos tipos de armamentos, limitado o número de determinados armamentos que o Estado pode possuir e restringido o poder destrutivo de alguns armamentos. Já o desarmamento refere‑se a tentativas de eliminar ou reduzir drasticamente os armamentos, muitas vezes partindo do entendimento de que as armas são uma fonte de conflitos. O desarmamento pode ocorrer de dois modos distintos. Há o desarmamento que muitas vezes é imposto aos perdedores de uma guerra e o desarmamento voluntário. No segundo caso, os Estados buscam negociar um marco aceitável para que as partes reduzam seus arsenais. Três planos de desarmamento podem ser identificados: I) tentativa de reduzir o tamanho das Forças Armadas para o mínimo, como aconteceu com a Alemanha; II) desarmamento regional, destinado a reduzir ou eliminar armas em uma determinada área geográfica; III) desarmamento geral e total, voltado à eliminação de todas as armas (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). Contudo, cabe ressaltar que as políticas dos Estados nesse sentido não são firmes muitas vezes, e os esquemas de desarmamento total são utópicos, já que é difícil imaginar que os Estados possam abrir mão totalmente de sua capacidade militar (MINGST, 2006). 58 Unidade II Lembrete Formas de se lidar com a insegurança no Sistema Internacional: Controle de armas e desarmamento: quanto menos armamentos, maior a segurança. Controle de armas: banimento, limitação numérica e limitação de capacidade destrutiva de determinados tipos de armas. Desarmamento: eliminar ou reduzir drasticamente os armamentos. Por outro lado, os realistas defendem o equilíbrio de poder como uma forma de promover estabilidade no cenário internacional, conforme já abordado. Por sua vez, a dissuasão tem como pressupostos a racionalidade daqueles que detêm o poder de decisão, a enorme ameaça de destruição como produto de uma guerra e a existência de alternativas viáveis à guerra (MINGST, 2006). Como afirma Beaufre (1980, p. 23, grifos do autor, tradução nossa), [...] a dissuasão tende a impedir que uma potência armada adversa tome a decisão de empregar suas armas, ou, mais geralmente, que atue ou reaja frente a uma situação dada, mediante a existência de um conjunto de disposições que constituam uma ameaça suficiente. Assim, é resultado psicológico que se busca mediante uma ameaça. Assim, a dissuasão consiste em uma dinâmica de enfraquecer a vontade do adversário de iniciar um confronto, seja no sentido de impedir que ele tome uma ação (dissuasão defensiva) ou de que ele se oponha a uma iniciativa a ser promovida (dissuasão ofensiva), mediante a ameaça de represália. Lembrete Dissuasão: impedir a ação de outro Estado por meio da ameaça de represália. As propostas liberais e realistas são constituídas a partir de lógicas distintas. Dessa forma, “tanto o equilíbrio de poder como a dissuasão dependem do uso unilateral da força ou da ameaça de utilizar a violência a fim de tomar o controle do poder, enquanto os modelos liberais se baseiam nos esforços coletivos” (MINGST, 2006, p. 389, tradução nossa). 59 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Quadro 1 – Formas para se lidar com a insegurança no Sistema Internacional Liberais Realistas Segurança coletiva Controle de armas e desarmamento Equilíbrio de poder Dissuasão 4.2 Os dilemas da cooperação Apesar da existência de uma lógica do conflito nas relações internacionais, também há a possibilidade de cooperação, mesmo em um cenário internacional anárquico. Na verdade, os Estados cooperam na maior parte do tempo. Como apontam Jackson e Sorensen (2010, p. 29, tradução nossa), [...] os Estados cooperam entre si de forma mais ou menos rotineira, e sem muito drama político, para obter vantagens mútuas. Eles promovem relações diplomáticas, fazem comércio, dão suporte aos mercados internacionais, intercambiam conhecimento científico e tecnológico, e abrem as portas a investidores, homens de negócios, turistas e viajantes de outros países. Eles colaboram com o intuito de lidar com vários problemas comuns, do meio ambiente ao tráfico de drogas. Eles se comprometem com tratados bilaterais e multilaterais para esses propósitos. É necessário salientar que cooperação não é o mesmo que harmonia. A harmonia pode ser considerada uma situação em que as políticas dos atores facilitam que outros atores persigam seus objetivos, e isso ocorre de modo automático (KEOHANE, 1984). Por outro lado, a cooperação implica que os atores ajustam seus comportamentos devido a preferências de outros, ocorrendo uma forma de coordenação. Ou seja, ações de atores separados são encaminhadas a uma conformidade por meio de negociações, sendo que havia um conflito total ou parcial de interesses previamente (KEOHANE, 1984).Cabe apontar que a própria natureza do Sistema Internacional impõe dificuldades para a cooperação. O Dilema do Prisioneiro ajuda a entender as dificuldades para uma dinâmica cooperativa florescer e, assim, possibilita a reflexão acerca das formas de superá‑la. Trata‑se de uma abordagem dentro da teoria dos jogos, que por sua vez se refere a modelos matemáticos formais destinados ao estudo do processo de tomada de decisão. Os jogadores considerados podem ser indivíduos ou coletividades, bem como Estados. O jogo conhecido como Dilema do Prisioneiro apresenta a seguinte situação: a polícia apreende dois suspeitos de cometer conjuntamente um crime, mas nenhum dos dois confessou e não há provas suficientes. Os dois prisioneiros são mantidos em salas separadas, sem possibilidade de comunicação entre elas. Cada um é apresentado ao seguinte quadro: se nenhum confessar, os dois saem livres; se os dois confessarem, os dois serão presos; se só um confessar e der evidências contra o outro, o que confessou será recompensado e o outro servirá uma sentença longa (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). Como exemplo, suponha que se os dois confessarem, cada um será condenado a 10 anos de 60 Unidade II prisão e se só um confessar, esta pessoa será condenada a 5 anos e o outro prisioneiro, a 15. A situação é representada no quadro a seguir. Quadro 2 – O Dilema do Prisioneiro B – Não confessa B – Confessa A – Não confessa livre; livre 15 anos; 5 anos A – Confessa 5 anos; 15 anos 10 anos; 10 anos O resultado mais benéfico aos dois prisioneiros ocorre se nenhum deles confessar. Porém, o mais provável é que os dois confessem. Na ausência de comunicação, não há como os jogadores combinarem que não irão confessar. O raciocínio de A seria o seguinte: “é melhor eu confessar. Se B não confessar, a pena será pequena para mim, só 5. Se os dois confessarmos, serão 10 anos, o que ainda é melhor do que eu ficar quieto, pegar 15 e ser o otário”. E B pensa da mesma forma. Assim, com a falta de comunicação é difícil o melhor resultado ser alcançado. E ainda que fosse possível que os dois prisioneiros conversassem, há a dúvida sobre existir confiança o suficiente de que o outro cumprirá sua parte e não confessará, quando há a recompensa pela confissão. Trata‑se também de uma questão de credibilidade. No cenário internacional, o Dilema do Prisioneiro significa que a ausência de comunicação e confiança encoraja cada Estado a cuidar da sua própria segurança, levando os outros à insegurança (NYE JR., 2009). Ou, de forma mais geral, que a cooperação estatal é difícil de ser promovida com falta de comunicação e de meios para garantir o cumprimento de acordos (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). Esses autores apontam que três estratégias são comumente apontadas para superar tal quadro: jogo repetido, instituições e presença de outros fatores. O primeiro ponto diz respeito ao fato de que é mais difícil os jogadores cooperarem se estão jogando juntos apenas uma vez. É mais fácil promover a cooperação quando o jogo é repetido e tem várias rodadas. Assim, os mesmos atores envolvidos em várias negociações, sabendo que terão novamente contato no futuro, são mais propensos a cooperar. Um ator pode aceitar fazer concessões em uma negociação sobre um determinado tema quando sabe que poderá obter vantagens em outras negociações sobre um tema distinto com o mesmo parceiro. É o que Nye Jr. (2009) se refere como prolongamento da sombra do futuro. O segundo aspecto refere‑se à criação de instituições que promovam o contato e a confiança entre os Estados, aumentando os custos de se romper um acordo. É o caso da criação de Organizações Internacionais, que promovem a transparência e o diálogo regular entre seus membros, conferindo mais previsibilidade às relações. Por fim, há especialistas que afirmam que o grau com que o modelo se aplica à política internacional é muitas vezes superestimado, uma vez que há mais variáveis e fatores que escapam ao rigor formal do modelo. É o caso da existência de coalizões e participação de outros atores na negociação, por exemplo (GRIFFITHS; O’CALLAGHAN; ROACH, 2008). 61 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Exemplo de aplicação Apresentamos a definição básica de uma Organização Internacional (OI). Reflita sobre como tais atores podem ajudar a promover uma lógica cooperativa no cenário internacional. Refaça esse exercício após a leitura e a compreensão do tópico específico sobre as OIs. 4.3 O lugar da moral na política internacional Há diferentes concepções sobre o papel da moral na política internacional, dependendo da abordagem teórica a ser adotada. Os realistas não conferem à moral um lugar importante nas relações internacionais, embora sejam poucos aqueles que negariam totalmente a existência da moral. Na visão do realismo, o poder tem primazia sobre a moral, ou seja, importa mais e é o que realmente rege as relações. Os autores realistas advogam por uma separação entre moral e política, no sentido de que a ação política deve ser julgada por critérios específicos e não se pode identificar uma moral comum a todos os Estados. Tentativas de impor valores nesse sentido devem ser rechaçadas, a moral não passaria de uma máscara para a defesa dos interesses dos atores mais poderosos. Por sua vez, os liberais concedem maior espaço para a moral na política internacional. Elias e Sutch (2007) argumentam que, nas relações internacionais, o liberalismo é associado ao livre comércio, à segurança coletiva, à harmonia de interesses, enquanto na teoria política e na filosofia política, o liberalismo é apresentado como um conjunto de proposições morais sobre a importância de direitos e liberdades individuais. Trabalhos recentes sobre pobreza global e justiça econômica, intervenção humanitária, e direitos humanos e Direito Internacional estão emergindo com bases em argumentos liberais. De todo modo, o pensamento de Kant abordado e as concepções de Wilson têm bases em uma doutrina moral, vista como um elemento promotor do progresso nas relações sociais. Burchill (2005) ressalta que os desafios para as perspectivas liberais é desenvolver e promover consensos morais universais, mesmo que estes impliquem prejuízos aos interesses dos Estados. Exemplo de aplicação Leia o trecho do artigo “Pela democracia ou pelo petróleo?”, de Letícia Barbosa: John Bolton, Assessor de Segurança Nacional de Trump, admitiu que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem por objetivo assegurar o acesso ao petróleo venezuelano. Em entrevista ao programa Fox Business, em 24 de janeiro, Bolton afirmou que os Estados Unidos “tem muito em jogo” na crise política da Venezuela, citando especificamente o petróleo. Explicou ainda que haveria grande diferença para os Estados Unidos se as companhias petrolíferas americanas pudessem investir e refinar o produto diretamente na Venezuela. Bolton deixa claro que não se trata somente de derrubar um líder autoritário, e proteger a democracia e os direitos humanos. A força motriz da intervenção é o interesse nas imersas reservas de petróleo venezuelanas. […] 62 Unidade II Na Venezuela, não se considera a possibilidade de mudança de governo, muito menos acordos que beneficiem os interesses estadunidenses, como ocorreu no Equador. Aos Estados Unidos restaram outros caminhos, operações políticas e uma estratégia abrangente, que inclui certos tipos de diplomacia multilateral, apoio a partidos ou forças políticas estrangeiras e apoio ou trabalho com Organizações Internacionais. Fonte: Barbosa (2019). Utilizando o trecho como provocação e considerando que a crise política na Venezuela é uma questão complexa, reflita sobre o espaço para a moral e para os interesses dos atores no caso. Nye Jr. (2009) aponta que as consequências das ações importam e que os argumentos morais podem ser julgados pelos seus motivos e intenções, pelos seus meios e pelos seus objetivos. Um bom argumento moral leva em consideração esses três itens. Assim, os argumentosmorais não são todos iguais. Apesar de reconhecer sua importância, Nye Jr. (2009) defende que há limites à ética no cenário internacional devido a quatro razões, a saber: 1) Há um fraco consenso internacional sobre valores. 2) Os Estados são abstrações. 3) Complexidade da causalidade. 4) Instituições internacionais fracas e maior separação entre ordem e justiça. O primeiro ponto afirma justamente que é difícil identificar e promover valores morais iguais em todas as partes do mundo, sendo que muitas vezes diferenças culturais e religiosas acabam se impondo. Assim, no Sistema Internacional, os consensos sobre os valores compartilhados são mais frágeis que no plano interno dos Estados. O segundo aspecto refere‑se ao fato de que os Estados não são pessoas, mas abstrações e que os homens de Estado são julgados de forma diferente do indivíduo comum. O exemplo que Nye Jr. apresenta é que a maioria das pessoas preferem conviver com indivíduos que acreditam no mandamento de “não matarás”, mas as mesmas pessoas podem se recusar a votar em um candidato à presidência que afirma que nunca promoverá uma ação que resulte em uma morte. As expectativas em relação aos indivíduos e aos Estados são distintas, sendo o moral para um homem de Estado seria garantir a segurança de seu país, mesmo que implicasse entrar em uma guerra que certamente acarretará mortes e comprometerá seus princípios morais pessoais. O terceiro ponto é a complexidade da causalidade, ou seja, é muito difícil prever as consequências das ações no cenário internacional. Um exemplo banal que o autor usa para ilustrar esse ponto é o “argumento do hambúrguer”, cuja origem se dá na década de 1970, quando, preocupados com a escassez de alimentos no mundo, um grupo de estudantes estadunidenses decidiu parar de comer carne, pois 63 RELAÇÕES INTERNACIONAIS um quilo de carne equivale a oito quilos de cereais, que poderiam alimentar pessoas pobres. Por isso, deixaram de comer hambúrguer; porém, não contribuíram para acabar com a fome em nenhuma parte de mundo, já que as pessoas dos países pobres não tinham dinheiro para adquirir os cereais. O último aspecto está baseado nas diferenças existentes entre o plano interno e o plano externo dos Estados. No Sistema Internacional, as instituições não são tão fortes como no plano interno, não dispondo da mesma capacidade e da mesma legitimidade para garantir que regras e compromissos sejam obedecidos, fiscalizando seu cumprimento e impondo constrangimentos aos detratores. Além disso, a ordem é garantida no plano interno, pois há uma hierarquia, uma autoridade central com capacidade de regulação que garante a ordem e dá espaço para que se possam considerar questões de justiça. No Sistema Internacional, a ordem não está garantida como no cenário doméstico dos Estados, ainda que haja mecanismos para promovê‑la. Por esse motivo, considerações sobre a justiça costumam ficar em segundo plano. Desse modo, questões de moral e poder fazem parte da política internacional, representando constantes desafios para os internacionalistas. Saiba mais Sugerimos a leitura do Diálogo Meliano, trecho da obra História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides: TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Brasília: Editora UnB, 2001. Sugerimos também os seguintes filmes: SOB a névoa da guerra. Direção: Errol Morris. EUA: Sony Pictures, 2003. 100 min. TERRA de ninguém. Direção: Danis Tanovic. Bósnia: Fabrica, 2001. 98 min. 64 Unidade II Resumo As relações internacionais são formadas em torno de grandes debates teóricos. O primeiro de tais debates funda a disciplina, sendo um debate entre realistas e idealistas. Apesar do caráter recente da estruturação da disciplina, as bases das correntes teóricas podem ser encontradas em autores clássicos de outras áreas. O realismo foi a primeira teoria a se estruturar, sendo que seus fundamentos retomam pensadores como Tucídides, Maquiavel e Hobbes. Para o realismo a variável central para análise é o poder. Os atores são egoístas e agem em busca de seus próprios interesses, sendo que o primeiro destes é a segurança. Isso ocorre devido à anarquia do Sistema Internacional, que tende sempre ao conflito, sendo um ambiente em que nem mesmo a sobrevivência do Estado está assegurada. Para o realismo, o equilíbrio de poder é a principal forma de estabilidade do Sistema Internacional, e os realistas entendem que deve haver uma separação entre política e moral, devendo a primeira ser julgada por critérios próprios. No início da disciplina, Carr e Morgenthau são autores centrais. Por sua vez, o liberalismo, do qual o idealismo é uma vertente, enfatiza a possibilidade de cooperação, progresso nas relações sociais e paz. Perspectivas variadas são ligadas ao liberalismo, não constituindo uma única explicação. De modo geral, os liberais consideram que a racionalidade das pessoas pode levar à paz e à cooperação, incluindo no Sistema Internacional, pois podem entender que essas lógicas são benéficas, promovendo maior prosperidade e oportunidades. Locke e Kant são pensadores que ajudam a dar as bases à tal corrente teórica, que abre espaço para considerações de cunho moral na política internacional. No começo do século XX, Wilson apresenta uma perspectiva conhecida como idealista, visando pensar como seria a ordem internacional pós‑Primeira Guerra Mundial. Suas propostas centram na diplomacia aberta, na autodeterminação dos povos e na segurança coletiva, promovendo a criação de uma Organização Internacional destinada a promover a paz e a segurança mundiais. O Primeiro Grande Debate das Relações Internacionais é justamente o debate entre realismo e idealismo que começa a traçar seus contornos na primeira metade do século XX. Os liberais buscam promover essa nova ordem e os realistas denunciam que estava fadada ao fracasso devido aos seus princípios. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o realismo torna‑se a abordagem dominante. 65 RELAÇÕES INTERNACIONAIS De todo modo, dinâmicas de conflito e cooperação marcam a política internacional, sendo que o modo como suas possibilidades são entendidas depende da lente teórica adotada. A guerra constitui um fenômeno político, um choque entre duas vontades que se expressa de modo violento. Porém, há possibilidades de promoção de uma lógica cooperativa, ainda que devam ser consideradas dificuldades geradas pelo caráter anárquico do sistema. 66 Unidade II Exercícios Questão 1. Leia a tirinha, produzida por Quino ainda no contexto da Guerra Fria, e analise as asserções. Figura 9 Fonte: Quino (2003, p. 27, tira 2). I – A charge, ao comparar a cadeirinha da Mafalda à ONU e ao Vaticano, ironiza a eficiência dessas instituições na promoção da paz. porque II – No contexto da elaboração da tirinha, o mundo vivia a bipolaridade, e o Vaticano e a ONU não agiam na promoção da paz, pois defendiam os interesses da União Soviética. Assinale a alternativa correta. A) As duas asserções são verdadeiras, e a II justifica a I. B) As duas asserções são verdadeiras, e a II não justifica a I. C) A asserção I é verdadeira, e a II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a II é verdadeira. E) As duas asserções são falsas. Resposta correta: alternativa C. 67 RELAÇÕES INTERNACIONAIS Análise das asserções I – Asserção verdadeira. Justificativa: Mafalda afirma que ela, o Vaticano e a ONU têm o mesmo poder de persuasão, ou seja, nenhum. II – Asserção falsa. Justificativa: a ONU e o Vaticano não defendiam os interesses da União Soviética no período da Guerra Fria, que era, de fato, marcado pela bipolaridade. Questão 2. As teorias de Relações Internacionais buscam explicar os fenômenos da realidade internacional e seus principais processos e atores. As teorias científicas, inclusive aquelas produzidas no campo de Relações Internacionais, são modelos esquemáticos que escolhem recortes específicos de fenômenos da realidade a serem explicados. Assim, cada teoria funciona como uma lente,que permite ver um dado objeto por um ângulo específico. Com base no exposto e nos seus conhecimentos, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas. I – Segundo o realismo, a realidade internacional é marcada pela disputa de poder. Nenhuma entidade soberana superior aos Estados consegue garantir a paz, de maneira que a autoajuda é o único recurso que os Estados têm para promover sua própria sobrevivência. Assim, conflitos internacionais seriam inevitáveis. porque II – Segundo o liberalismo, existem fatores que podem ajudar os Estados a atingir a cooperação e a paz, como a difusão dos regimes ditatoriais, a extinção de tratados e de organizações internacionais e a moderação do comércio internacional. Assinale a alternativa correta: A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a I. B) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II não justifica a I. C) A asserção I é verdadeira, e a asserção II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a asserção II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa C. 68 Unidade II Análise das asserções I – Asserção verdadeira. Justificativa: o realismo considera o conflito internacional um fenômeno inescapável. Como não existe um soberano superior aos Estados capaz de impor sobre eles uma lei internacional, os realistas concluem que os Estados sempre poderão usar o poder uns contra os outros para perseguir seus próprios interesses e sua sobrevivência. Os realistas enfatizam que qualquer Estado que não busque sua segurança por meio de capacidade bélica particular (ou de alianças militares, se necessário) coloca em sério risco sua própria existência. II – Asserção falsa. Justificativa: os liberais, bem como os realistas, reconhecem que não existe um soberano acima dos Estados. Para eles, no entanto, isso não impossibilita que os Estados busquem a cooperação, uma vez que a paz internacional é um interesse dos Estados e de suas populações, que, na maioria das vezes, não querem sofrer os horrores da guerra. Os principais fatores elencados pelos liberais como favoráveis à paz são os explicados a seguir: • A difusão da democracia, na qual as decisões são sujeitas ao escrutínio da população, cuja maioria não deseja a guerra. A guerra é indesejável para as pessoas porque atrapalha seus negócios e coloca suas vidas e propriedades em risco. • A intensificação do comércio internacional, pois o comércio gera interdependência entre as nações. De maneira geral, a guerra prejudica as importações e exportações, pois gera insegurança e risco sobre os fluxos de bens e serviços. • A criação de tratados de cooperação internacional e de organizações internacionais (OIs). As OIs produzem informações técnicas para os Estados, que tornam a cooperação menos custosa e monitoram o cumprimento dos acordos internacionais.