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ISBN 978850262379-8 Considera, Carlos Alexandre Política internacional I : a política externa brasileira e os novos padrões de inserção no sistema internacional do século XXI / Carlos Alexandre Considera. - São Paulo : Saraiva, 2016. - (Coleção diplomata / coordenador Fabiano Távora) 1. Brasil - Relações exteriores 2. Direito internacional 3. Política internacional 4. Política internacional - Concursos 5. Relações internacionais I. Távora, Fabiano. II. Título. III. Série. 14-13094 CDU-341(079) Índices para catálogo sistemático: 1. Direito internacional : Concursos 341(079) Diretor editorial Luiz Roberto Curia Gerente editorial Thaís de Camargo Rodrigues Gerência de concursos Roberto Navarro Editoria de conteúdo Iris Ferrão Assistente editorial Thiago Fraga | Verônica Pivisan Reis Coordenação geral Clarissa Boraschi Maria Preparação de originais Maria Izabel Barreiros Bitencourt Bressan e Ana Cristina Garcia (coords.) | Carolina Massanhi | Luciana Cordeiro Shirakawa Projeto gráfico Isabela Teles Veras Arte e diagramação Know-how editorial Revisão de provas Amélia Kassis Ward e Ana Beatriz Fraga Moreira (coords.) | Elaine Aparecida Costa Pires Conversão para E-pub Guilherme Henrique Martins Salvador Serviços editoriais Elaine Cristina da Silva | Kelli Priscila Pinto | Marília Cordeiro Capa Aero Comunicação / Danilo Zanott Data de fechamento da edição: 1-10-2015 Dúvidas? Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. http://www.editorasaraiva.com.br/direito SUMÁRIO AGRADECIMENTOS PREFÁCIO APRESENTAÇÃO EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO 1 - Relações Internacionais: conceitos basilares e principais debates teóricos 1.1. A que se propõe uma teoria das Relações Internacionais? 1.2. O Idealismo Wilsoniano e o Realismo Político nas Relações Internacionais 1.2.1. Origem da crítica Realista nas Relações Internacionais 1.3. O Realismo nas Relações Internacionais 1.3.1. Principais contribuições analíticas ao Realismo Clássico 1.3.2. Neorrealismo (Realismo Estrutural) 1.4. O Liberalismo nas Relações Internacionais 1.4.1. Bases analíticas do Liberalismo nas Relações Internacionais 1.4.2. Funcionalismo 1.4.2.1. Neofuncionalismo 1.4.3. Interdependência complexa 1.4.4. Crítica neorrealista à Interdependência e o institucionalismo liberal 1.5. Economia Política Internacional (EPI) 1.6. Correntes teóricas contemporâneas 2 - A Política Externa Brasileira de 1945 aos Nossos Dias 2.1. Política Externa Brasileira de 1946-1964 2.2. Política Externa Brasileira de 1964-1985 2.3. Política Externa Brasileira de 1985-2002 2.4. A inserção internacional do Brasil: de Collor a Dilma 3 - Integração Regional na América do Sul: as origens do processo e a perspectiva contemporânea 3.1. Da Geopolítica de Enfrentamento às Primeiras Iniciativas de Integração na América do Sul 3.1.1. Origens do processo de integração do Cone Sul 3.1.1.1. A Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) 3.1.1.2. Primeiros passos da integração comercial nas Américas: a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (ALALC) 3.1.1.3. Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) 3.2. Mercado Comum do Sul (Mercosul): das origens ao contexto atual 3.3. Iniciativa para a Integração Regional Sul-Americana (IIRSA) 3.4. União das Nações Sul-Americanas (Unasul) 4 - O Brasil e a Cooperação Sul-Sul Multilateral: Entre parcerias estratégicas e coalizões 4.1. Origens e desenvolvimento do conceito de cooperação Sul-Sul 4.1.1. Descolonização, decepções e tomada de consciência entre os povos do Sul 4.1.2. Crise de Bretton Woods e a Nova Ordem Econômica Internacional 4.1.3. Fim da Guerra Fria e surgimento dos “arranjos de geometria variável” e das “parcerias estratégicas” 4.2. As “economias emergentes” e As novas estruturas da Cooperação Sul- Sul no século XXI 4.2.1. O Brasil “emergente” e as rupturas de política externa nos anos 2000 4.2.2. Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul (IBAS) 4.2.3. Grupo BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul 4.2.3.1. As cúpulas do BRICS - institucionalização e aprofundamento 4.2.4. G-20 Agrícola 4.2.4.1. Antecedentes do G-20: o Grupo de Cairns e o Acordo Agrícola na Rodada Uruguai 4.2.4.2. A Rodada Doha da OMC e o surgimento do G-20 Referências Bibliográficas 1. RELAÇÕES INTERNACIONAIS: CONCEITOS BASILARES E PRINCIPAIS DEBATES TEÓRICOS 2. A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA DE 1945 AOS NOSSOS DIAS 3. INTEGRAÇÃO REGIONAL NA AMÉRICA DO SUL: AS ORIGENS DO PROCESSO E A PERSPECTIVA CONTEMPORÂNEA 4. O BRASIL E A COOPERAÇÃO SUL-SUL MULTILATERAL: ENTRE PARCERIAS ESTRATÉGICAS E COALIZÕES Questões 1. relações internacionais: conceitos basilares e principais debates teóricos 2. A Política Externa Brasileira de 1945 aos nossos dias 3. Integração Regional na América do Sul: as origens do processo e a perspectiva contemporÂnea 4. O Brasil e a Cooperação Sul-Sul Multilateral: entre parcerias estratégicas e coalizão AUTOR Carlos Alexandre Considera Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense. É Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, atualmente lotado no Instituto Rio Branco. Atuou como Gerente de Projetos de Cooperação Internacional na Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Foi Coordenador Nacional do Projeto PNUD BRA/12/018 da Secretaria-Geral da Presidência da República. No biênio 2012-2014, desempenhou a função de Chefe-Adjunto da Assessoria de Relações Internacionais do Gabinete da Presidência do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Coordenador Fabiano Távora Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) - Turma do Centenário - 2003. Especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV) - 2005. Mestre em Direito dos Negócios pelo Ilustre Colégio de Advogados de Madri (ICAM) e pela Universidade Francisco de Vitória (UFV) - 2008. Mestre em Direito Constitucional aplicado às Relações Econômicas pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) - 2012. Advogado. Diretor-geral do Curso Diplomata - Fortaleza/CE. Foi Coordenador do único curso de graduação em Relações Internacionais do Estado do Ceará, pertencente à Faculdade Stella Maris. Professor de Direito Internacional para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Professor de Direito Internacional Público, Direito Internacional Privado, Direito do Comércio Exterior e Direito Constitucional em cursos de graduação e pós-graduação. AGRADECIMENTOS À Cely e à pequena Isabela pela compreensão e pelo carinho necessários à elaboração desta obra.Agradeço aos meus pais e irmãos os grandes ensinamentos e a confiança no sucesso do trabalho. PREFÁCIO* Dez anos atrás, recebi a notícia de que havia sido aprovado no concurso do Instituto Rio Branco para a carreira diplomática. Era difícil acreditar que meu nome estava na lista de aprovados, que o meu antigo sonho tornara-se realidade. Aquele momento deu-me a impressão de ser um divisor de águas, o primeiro passo da carreira que por tantos anos me fascinara. Hoje, percebo que o primeiro passo para a carreira diplomática havia sido dado em um momento anterior, quando comecei meus estudos de preparação para o concurso. A preparação para a carreira diplomática exige o desenvolvimento da capacidade de analisar politicamente a combinação de diferentes fatores da sociedade. Essa capacidade pode ser adquirida pela leitura atenta de diferentes pensadores e exposição a diferentes manifestações artísticas, o que requer uma caminhada de constantes descobertas. Essa caminhada é feita em direção às mais profundas e fundamentais características da sociedade brasileira, percorrendo a longa estrada que lentamente mostra as cores que delineiam o multifacetado cenário que é o Brasil. A preparação para a carreira diplomática requer este (re)encontro com o Brasil, este momento em que o futuro diplomata reflete sobre seu país e sobreseu povo. Eu diria que o processo de preparação é uma caminhada para dentro. Ao caminhar em direção às profundezas do Brasil, o futuro diplomata se defrontará com perspectivas históricas, geopolíticas, econômicas e jurídicas da realidade brasileira que lhe proporcionarão o arcabouço intelectual para sua contínua defesa dos interesses do Brasil e do povo brasileiro no exterior. Essa observação de quem somos como povo e como país é fundamental para o trabalho cotidiano dos diplomatas brasileiros, principalmente porque também pressupõe as relações do Brasil com outros países. Ao compreender a história política externa brasileira, o candidato poderá perceber características do Brasil que explicam como o país percebe sua inserção no mundo. É interessante notar que essa caminhada para dentro é o início de uma carreira feita para fora, em contato com o mundo. Os diplomatas são os emissários que também contam para o mundo o que é o Brasil e o que é ser brasileiro. A aprovação no concurso do Instituto Rio Branco não é, portanto, o primeiro passo da carreira. É o momento em que a caminhada para dentro do Brasil se completou e passa a ser uma viagem para fora, para relatar ao mundo o que nós somos e o que pensamos. Devo confessar que a minha caminhada foi bem difícil. Quando comecei a me preparar para o concurso, poucas cidades brasileiras tinham estruturas que guiassem os estudos dos candidatos para o concurso. Apesar de ter certeza de que nunca nenhuma leitura é inútil, estou certo de que a imensidão de pensadores e artistas que conformam o pensamento brasileiro é difícil de ser abordada no momento de preparação para o concurso. Lembro-me de que sempre busquei obras que me guiassem os estudos, mas não tive a sorte de naquele momento haver publicações neste sentido. Foi com muita alegria que recebi o convite para escrever sobre minha experiência pessoal como jovem diplomata brasileiro em uma coleção que ajudará na caminhada preparatória dos futuros diplomatas. Esta coleção ajudará meus futuros colegas a seguir por caminhos mais rápidos e seguros para encontrar o sentido da brasilidade e a essência do Brasil. Congratulo- me com a Editora Saraiva, com os autores e com o organizador da coleção, Fabiano Távora, pela brilhante iniciativa e pelo excelente trabalho. Aos meus futuros colegas diplomatas, desejo boa sorte nessa caminhada. Espero que se aventurem a descobrir cada sabor deste vasto banquete que é a brasilidade e que se permitam vivenciar cada nota da sinfonia que é o Brasil. Espero também que possamos um dia sentar para tomar um café e conversar sobre o que vimos e, juntos, contar aos nossos amigos de outros países o que é o Brasil. Pequim, novembro de 2014. Romero Maia APRESENTAÇÃO** Indubitavelmente, o concurso para o Instituto Rio Branco, uma das escolas de formação de Diplomatas mais respeitadas do mundo, é o mais tradicional e difícil do Brasil. Todos os anos, milhares de candidatos, muito bem preparados, disputam as poucas vagas que são disponibilizadas. Passar nessa seleção não é só uma questão de quem estuda mais, envolve muitos outros fatores. Depois de muito observar essa seleção, nasceu a ideia de desenvolver um projeto ímpar, pioneiro, que possibilitasse aos candidatos o acesso a uma ferramenta que os ajudasse a entender melhor a banca examinadora, o histórico dos exames, o contexto das provas, o grau de dificuldade e aprofundamento teórico das disciplinas, de forma mais prática. Um grupo de professores com bastante experiência no concurso do IRBr formataria uma coleção para atender a esse objetivo. Os livros foram escritos com base nos editais e nas questões dos últimos 13 anos. Uma análise quantitativa e qualitativa do que foi abordado em prova foi realizada detalhadamente. Cada autor tinha a missão de construir uma obra que o aluno pudesse ler, estudar e ter como alicerce de sua preparação. Sabemos, e somos claros, que nenhum livro consegue abordar todo o conteúdo programático do IRBr, mas, nesta coleção, o candidato encontrará a melhor base disponível e pública para os seus estudos. A Coleção Diplomata é composta dos seguintes volumes: Direito internacional público; Direito interno I - Constituição, organização e responsabilidade do Estado brasileiro; Direito interno II - Estado, poder e direitos e garantias fundamentais (no prelo); Economia internacional e brasileira (no prelo); Espanhol (no prelo); Francês (no prelo); Geografia I - Epistemologia, política e meio ambiente; Geografia II - Geografia econômica; História do Brasil I - O tempo das Monarquias; História do Brasil II - O tempo das Repúblicas; História geral; Inglês; Macroeconomia; Microeconomia; Política internacional I - A política externa brasileira e os novos padrões de inserção no sistema internacional do século XXI; Política internacional II - Relações do Brasil com as economias emergentes e o diálogo com os países desenvolvidos; Português. Todos os livros, excetuando os de língua portuguesa e inglesa, são separados por capítulos de acordo com o edital do concurso. Todos os itens do edital foram abordados, fundamentados numa doutrina ampla e atualizada, de acordo com as indicações do IRBr. Os doutrinadores que mais influenciam a banca do exame foram utilizados como base de cada obra. Juntem-se a isso a vivência e a sensibilidade de cada autor, que acumula experiências em sala de aula de vários locais (Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Teresina...). Cada livro, antes da parte teórica, apresenta os estudos qualitativos e quantitativos das provas de seleção de 2003 até 2014. Por meio de gráficos, os candidatos têm acesso fácil aos temas mais e menos cobrados para o concurso de Diplomata. Acreditamos que esse instrumento é uma maneira inteligente de entender a banca examinadora, composta por doutrinadores renomados, bastante conceituados em suas áreas. No final de cada livro, os autores apresentam uma bibliografia completa e separada por assunto. Assim, o candidato pode ampliar seus conhecimentos com a segurança de que parte de uma boa base e sem o percalço de ler textos ou obras que são de menor importância para o concurso. As questões são separadas por assunto, tudo em conformidade com o edital. Se desejar, o aluno pode fazer todas as questões dos últimos anos, de determinado assunto, logo após estudar a respectiva matéria. Dessa forma, poderá mensurar seu aprendizado. Portanto, apresentamos aos candidatos do IRBr, além de uma coleção que apresenta um conteúdo teórico muito rico, bastante pesquisado, uma verdadeira e forte estratégia para enfrentar o concurso mais difícil do Brasil. Seguindo esses passos, acreditamos, seguramente, que você poderá ser um DIPLOMATA. Fortaleza, 29 de julho de 2015. Fabiano Távora EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO*** 1. Relações Internacionais: conceitos basilares e principais debates teóricos Este capítulo tem por objetivo apresentar os principais pontos que compõem as diferentes abordagens analíticas das Relações Internacionais. Esta apresentação, por razões didáticas, será realizada por meio de abordagem cronológica e sequencial da inauguração dos debates na comunidade acadêmica, a partir da segunda década do século XX até os dias atuais. O uso desta metodologia de apresentação da disciplina em torno dos “grandes debates”, no entanto, não é unânime entre a comunidade acadêmica, sendo, inclusive, objeto de críticas quanto à sua utilidade. A primeira dessas críticas visa a alertar para o risco de que uma abordagem cronológica acabe conduzindo o leitor ao entendimento de que uma nova teoria supere a anterior, e que as Relações Internacionais passem, doravante, a ser explicadas pelo novo paradigma da análise, até que seja este superado por outra teoria ainda mais nova, e assim sucessivamente. Essa perspectiva temporal não deve, portanto, ser confundida com uma evolução qualitativa das teorias. A respeito dessa crítica, Daniel Jatobá (2013, p. 14) destaca que, “embora a exposição cronológica tenha um aspectoatraente e conveniente para a mente humana, a sucessão de debates produz uma imagem do processo de desenvolvimento teórico das RI como sendo mais exato do que realmente foi”. O referido autor, ao citar a obra de Steve Smith, recorda que “a teoria internacional não se moveu de uma fase à outra como um automóvel que trocamos de marcha”. Outra crítica, igualmente relevante, está contida na obra dos autores João Pontes Nogueira e Nizar Messari (2005, p. 14), na qual ressaltam que a teoria das Relações Internacionais deve ser construída a partir da “desmistificação de seus mitos fundadores e da tradição inventada pelas teorias dominantes de modo a conferir-lhes uma linhagem nobre, conquistada em sucessivas ‘batalhas’ contra paradigmas adversários”. Malgrado essas ressalvas quanto às limitações do método escolhido para apresentação das teorias das Relações Internacionais, o autor deste livro entende que, devido ao escopo da obra, esta abordagem é “um mal necessário”, que permitirá condensar em poucas páginas os aspectos mais relevantes dos principais paradigmas teóricos. 1.1. A que se propõe uma teoria das Relações Internacionais? O estudo sistemático das relações entre os Estados foi, desde seu nascimento, marcado pelo embate entre modos de compreensão do sistema internacional. Diferentes autores em seus respectivos tempos, e partindo de suas distintas realidades nacionais, propuseram diferentes entendimentos que contribuíram para o enriquecimento da análise dos fatos que figuram como objeto de estudo das Relações Internacionais. Os resultados desses estudos foram, por diversas vezes, denominados teoria, revelando certa ansiedade dos estudiosos da disciplina em encontrar relações de causa/efeito capazes de elucidar a gênese dos conflitos e o fenômeno da cooperação em meio à anarquia internacional. O acadêmico francês Raymond Aron em sua obra Estudos Políticos (ARON, 1980) analisa de forma crítica a real possibilidade de existência de uma teoria das Relações Internacionais. De início, Aron propõe uma crítica ao próprio uso do conceito de teoria: segundo o autor, a academia, por vezes, confunde conceitualizações com teorias, gerando distorção no uso da palavra, muito provavelmente, porque tenta conferir às ciências sociais um caráter postulatório mais perceptível. De fato, a expressão teoria enseja dois significados. Primeiro, um sentido próximo à enunciação filosófica que, quanto mais distante for do emprego prático, menos permite a manipulação de seu objeto; essa concepção é talvez a mais adotada no senso comum, quando se denomina “teórico” tudo aquilo que não apresenta aplicabilidade prática, que parece inobservável no plano quotidiano. Segundo, o entendimento do vocábulo remete às teorias científicas que nascem de observações empíricas e dados quantitativos, como, por exemplo, a teoria heliocêntrica, de Galileu. No âmbito das ciências sociais, a economia política, conforme Raymond Aron, foi o ramo de estudo que mais evoluiu em direção a formulações hipotético-dedutivas. Ao citar os trabalhos de Walras e Pareto, o autor sublinha que suas equações eram simplificações da dinâmica real que isolavam o fenômeno em estudo das influências das variáveis que se impunham sobre aquele. Essa constatação conduziu Aron a afirmar que “os teóricos não têm direito de extrair dos seus esquemas uma doutrina de ação”, uma vez que os planos teórico e empírico são distintos entre si. De fato, os postulados teóricos são aperfeiçoados pelo empirismo. Diante desse pensamento, o referido autor extrai concepções que considera válidas para a construção de uma teoria: a) é necessário delimitar, com precisão, o relacionamento social em estudo (o objeto a ser trabalhado); b) o progresso do conhecimento caminha com as contribuições recíprocas entre teoria e prática; c) o estudo do objeto pressupõe a determinação de situações fictícias “ideais”; d) ao mesmo tempo em que a estatística e o empirismo auxiliam na construção da teoria, não podem ser tomados como suas bases pois, sobretudo na esfera internacional, a imprevisibilidade se manifesta na maioria dos fatos; e) em virtude da própria gênese, não é possível tomar a teoria como fundamento único da ação. Em seguida, Aron busca determinar as especificidades que compõem o campo de estudo das Relações Internacionais. Assim, verifica que as relações entre os Estados ocorrem em ambiente onde não há poder soberano capaz de deter o monopólio legítimo da força. Porém, o autor observa que quando um Estado (ou conjunto de Estados) está em posição hegemônica, é entendido como garantidor da ordem, assim como a autoridade estatal em relação ao plano interno. Tal fato, entretanto, não anula a concepção inicial do vácuo de poder coercitivo no sistema internacional. Pelo contrário, se admitimos a hipótese de uma sociedade sem monopólio legítimo da força, percebemos o motivo que conduz os Estados a formarem alianças e a cooperarem. O autor questiona, então, se uma análise desse tipo deve ser considerada como uma teoria ou mera conceituação. Como exemplo, contesta a “teoria do interesse nacional”, na qual observa que, a despeito de os Estados atuarem externamente em consonância com suas demandas internas, o “interesse nacional” é moldado por uma série de fatores que se modificam em cada situação específica. Ceder em relação a alguns objetivos de “interesse nacional”, para alcançar outros, seria uma contradição a essa “teoria”. O autor trabalha mais adiante em sua obra o fato de que “uma teoria das relações internacionais não comporta, mesmo em abstrato, uma distinção entre variáveis endógenas e exógenas”. Essa afirmação remete ao entendimento de que, diferentemente da economia política, as Relações Internacionais não são suscetíveis de separação entre o objeto a ser estudado e as condições que nele interferem, pois nestas estão a própria gênese das relações entre os Estados. O historiador, ao tratar das Relações Internacionais, não deve se limitar a contar a história sem analisar o contexto que a originou. Enfim, Aron busca demonstrar a inutilidade em criar uma teoria que, baseada em dados estatísticos, quantitativos e específicos de cada momento histórico, tentam identificar as causas dos conflitos na ânsia de criar um antídoto que permita prevenir a guerra. Assim, a prática demonstra que se basear em situações históricas para prevenir-se do futuro pode ser um exercício frustrante e mesmo perigoso. O teórico das relações internacionais deve elucidar a pluralidade de objetivos dos atores internacionais e adaptar as conceitualizações de cada momento histórico ao caso específico a ser estudado; a análise final da citada obra de Aron traz à luz a hipótese de que a rigidez de uma “teoria” pode torná-la abstrata e incapaz de prover subsídios à definição das condutas a serem adotadas diante de uma “crise” internacional. As ideias de Raymond Aron encontram paralelo nas análises feitas por Kenneth Waltz no artigo “Realist Thought and Neorealist Theory” (WALTZ, 2000). No estudo, Waltz ressalta que, sendo a teoria uma forma de lidar com a complexidade dos fatos que compõem um fenômeno, sua característica mais relevante é a extrema simplificação com a qual elucida determinado mecanismo-chave de um todo. Não pode, jamais, ser confundida com a tentativa de explicar todo o fenômeno sob o risco de ser incompleta e distorcida. Dessa forma, compreende-se que uma teoria das Relações Internacionais deve servir à identificação das principais peças que compõem o fenômeno final. Construir rígidas relações de causa/efeito diante das quais atribui-se a gênese, tanto do conflito, quanto da cooperação, resulta na criação de estereótipos comportamentais maléficos ao verdadeiro entendimento das interações entre Estados. Diferente das ciências naturais e exatas, a imprevisibilidade, contida na ação humana, reflete-se na ciência política, tirando do analista a capacidade de “prescrever” condutas que levem com precisão a determinado resultado final em uma relação entre Estados. 1.2. O Idealismo Wilsoniano eo Realismo Político nas Relações Internacionais O nascimento da disciplina Relações Internacionais coincide com a necessidade de acadêmicos e estadistas de conhecer as razões que conduziram os países europeus à Primeira Grande Guerra que foi, de fato, o primeiro conflito em que a destruição, até então restrita aos campos de batalha, ingressou nas cidades e nas áreas rurais, atingindo diretamente a população civil e a atividade econômica dos cidadãos. Ainda que a interação entre os Estados tenha sido contemplada nos estudos de pensadores da Grécia Antiga (Tucídides), renascentistas e iluministas, tais como Maquiavel, Kant, Rousseau e Hobbes, foi somente em 1919 que surgiu, na Inglaterra (Universidade de Aberyswyth), a primeira cátedra de Relações Internacionais, a qual levou o nome do Presidente norte- americano Woodrow Wilson. No ano seguinte, em 1920, foram criados, no Reino Unido, o Royal Institute of International Afrairs e, nos Estados Unidos, o Council on Foreign Relations (GONÇALVES, 2004). A ascensão política e econômica dos EUA combinada ao fim do isolacionismo norte- americano após a Primeira Guerra fez com que as Relações Internacionais tivessem, nos seus primeiros anos, expressivo desenvolvimento naquele país. Em seus primeiros anos, as Relações Internacionais apresentaram caráter mais propositivo que analítico. Na obra que é tida como “inaugural” dessa disciplina, Vinte Anos de Crise (CARR, 2001), o historiador britânico Edward Hallett Carr observa que, nas primeiras décadas do século XX, os governos nacionais, atentos à prevenção de novos conflitos, imaginaram que os seres humanos deveriam encontrar, assim como nas ciências físicas, leis morais universalmente válidas para as relações sociais. A crença no racionalismo apoiava-se na democracia e na opinião pública para conformar a criação de uma espécie de “controle social” capaz de censurar e legitimar as ações dos Estados. O autor refere-se às análises de Rousseau e Kant para demonstrar que a principal ideia à época era a de que a forma republicana de governo, baseada no regime democrático, tornaria o povo capaz de impor limites à ação estatal, até então restrita às vontades e interesses dos príncipes soberanos. As ideias positivistas de Augusto Comte foram enfatizadas na obra de Carr para demonstrar que a evolução intelectual da sociedade a tornaria apta a discernir as melhores condutas nacionais. A opinião pública intelectualizada, a qual, desde meados do século XIX, suscitava reações dos diversos filósofos acerca dos riscos da geração de uma “tirania de maioria”, renascia após a Primeira Guerra Mundial como os pilares do pensamento utópico que dominava o entendimento das Relações Internacionais. A criação da Liga das Nações, em 1919, por meio do Tratado de Versalhes, refletia os princípios do liberalismo político (inspirados nas ideias de contrato social de John Locke) para a construção de uma “ordem” internacional. A influência norte-americana marca bastante essa organização internacional, pois os EUA, antes da crise de 1929, experimentavam um modelo de desenvolvimento compatível com a expansão do comércio e promoção da democracia. Os dirigentes da Liga utilizaram o pensamento utópico para reforçar que o racionalismo tornaria a organização eficaz. Pensavam os estadistas reunidos em Versalhes que, ao erigirem conjunto de leis, convenções e tratados - enfim, fórmulas racionais abstratas - que restringissem os conflitos e estimulassem o liberalismo internacional, a opinião pública esclarecida tomaria, automaticamente, a função de guardiã da paz mundial. Carr sintetiza seu pensamento ao afirmar que “a crença no poder coator da razão, expressa através da voz do povo, era particularmente inerente a (Thomas Woodrow) Wilson”1. Autoridades britânicas chegaram a afirmar, em pronunciamentos na Liga, que qualquer outra tentativa de criar um mecanismo de segurança coletiva que não a opinião pública tenderia a malograr. Contudo, a primeira “falha” da opinião pública internacional se verifica com a postura passiva diante da invasão japonesa da Manchúria em 1931, ou mesmo do silêncio das sociedades diante do aumento do protecionismo e acirramento da competitividade internacional após o início da crise econômica de 1929. No capítulo IV de sua obra, Edward Carr aponta o que considera serem as fraquezas do idealismo, tornando nítidos os principais motivos que geraram a “falha” da opinião pública internacional em conter a escalada militar que levava a Europa à beira da guerra. Para o autor britânico, as causas da então iminente Segunda Guerra Mundial não deveriam ser buscadas apenas na crise que assolara a economia mundial após 1929 ou na inexequibilidade do Tratado de Versalhes. Ele trabalha, inicialmente, a inviabilidade prática da harmonia de interesses. Ao propor a primazia da ética sobre a política, os idealistas afirmam que a opinião pública identifica na realização do bem comum à coletividade uma forma de promover o bem a si próprio. Por sua vez, na década de 1930, começa a surgir considerável parcela de críticos realistas que se mostram céticos à existência de “bem coletivo” e alegam que a ética subordina-se à política, ou seja, os mais fracos obedecem aos mais fortes porque o não cumprimento das normas lhes traz mais sofrimento que a submissão. De acordo com Edward Carr (2001, p. 62): O que se nos defronta na política internacional de hoje é, portanto, nada menos do que a completa falência da concepção de moral que dominou o pensamento político e econômico durante um século e meio. Internacionalmente, não é mais possível deduzir a virtude através do raciocínio correto, porque não se pode mais seriamente crer que todo estado, ao buscar o maior bem para o mundo inteiro, esteja visando ao maior bem para seus próprios cidadãos, e vice-versa. A prática de atrelar o idealizado “bem comum” às políticas nacionais dos países é bastante recorrente na doutrina idealista do início do século XX. Os Estados buscavam demonstrar que suas concepções ideológicas coincidiam com o que viria a ser o bem da coletividade, influindo decisivamente na construção da opinião pública. Ironicamente, o idealismo contribuía para a validação da máxima de Maquiavel na qual afirma que a moral é produto do poder. Foi nesse contexto que os países europeus se conduziram para a Segunda Guerra Mundial, respaldados em suas opiniões públicas e “em defesa do interesse coletivo” que nada mais era a expressão oportunista dos grupos que lutavam pela manutenção do status quo do sistema internacional. 1.2.1. Origem da crítica Realista nas Relações Internacionais A eclosão da Segunda Grande Guerra, em 1939, culminou com a crise da argumentação em torno da capacidade “regulatória” da opinião pública mundial, ao mesmo tempo que suscitou controvérsias quanto à possibilidade de serem as Relações Internacionais reguladas por mecanismos de cooperação política internacional nos moldes da Liga das Nações. O caráter anárquico do sistema em que os Estados interagiam e a discrepância de poderes entre estes gerou na comunidade acadêmica, de meados do século XX, a percepção de que uma teoria das Relações Internacionais não poderia ser baseada nas expectativas de comportamento social do liberalismo político. A anarquia internacional proporcionava aos Estados (ou conjunto de Estados) mais fortes o cenário ideal para otimizar a busca de seus interesses e, assim, era impossível prever com exatidão a conduta de cada ator. A ação estatal passa a ser entendida como fruto da luta pelo poder que, uma vez conquistado, proporcionará ao Estado maximizar seus interesses nacionais. O contexto de criação da Organização das Nações Unidas, com a hierarquização entre os países detentores de poder de veto no Conselho de Segurança e os demais membros da ONU, ilustra a percepção pós-Segunda Guerra de que a discrepância de poder entre os atores e a estrutura anárquica do sistema internacional tornavam inviável a “harmonia de interesses” proposta pelos idealistas do início do século passado, aos quais, comovimos anteriormente, são dirigidas as críticas da obra de Edward Carr. O Realismo, no entanto, não deve ser visto como a antítese do Idealismo, ou mesmo como teoria originada dos escombros da Segunda Guerra Mundial. De fato, o Realismo não é uma doutrina única e, ao longo do século XX, sua evolução se deu em face de vários fenômenos observados das Relações Internacionais, o que originou diferentes vertentes dessa teoria, como veremos adiante: Realismo Clássico, Escola Inglesa, Neorrealismo (ou Realismo Estrutural) e Realismo Neoclássico (PONTES; MESSARI, 2004). No processo de refinamento do Realismo, buscou-se nos pensadores clássicos da antiguidade, do Renascimento e do Iluminismo, as origens dos conceitos de sobrevivência, poder, autoajuda e estado de natureza que compõem as análises do Realismo. Assim, de Tucídides, destaca-se a anarquia nas relações entre os Estados e o risco de não sobrevivência; de Maquiavel, extrai-se a ênfase na sobrevivência do Estado como ator do cenário internacional; e de Hobbes, guarda-se a noção de “estado de natureza” que caracteriza a sociedade internacional, na qual a ausência de uma autoridade central (um Leviatã) sobre os demais Estados soberanos marca contexto de disputa pela sobrevivência. Conforme destacado na já citada obra de João Pontes Nogueira e Nizar Messari (2004), a definição de uma corrente analítica deve ser feita com base em premissas comuns, as quais devem conferir certa uniformidade lógica ao pensamento. Nesse sentido, seriam as seguintes as premissas comuns aos diversos estudiosos do Realismo, em suas diferentes vertentes: a) O Estado como ator central das Relações Internacionais: caberia ao Estado as funções de manter a paz dentro das fronteiras e a segurança dos cidadãos em relação às agressões externas. O Estado no estudo do Realismo é visto como uma “bola de bilhar”: a complexidade de seu processo decisório no nível da política interna não é relevante, tendo-se em conta apenas a inter-relação dos Estados no plano internacional; b) Sistema Internacional anárquico: o estado de natureza é tomado como realidade permanente. A existência da cooperação nas relações internacionais não reduz a importância da condição anárquica: a decisão de cooperar, seja no campo da segurança, ou da economia, por exemplo, se dá nos momentos em que o ganho conjunto é muito superior às vantagens de atuar de maneira separada; c) Sobrevivência como meta da ação estatal: o papel fundamental do Estado deve ser a garantia da paz doméstica e a segurança dos indivíduos em relação às ameaças externas. Ao garantir a estabilidade dentro e fora das fronteiras, o Estado “sobrevive”, ainda que, para tanto, seja necessário diferenciar a “ética da convicção” da “ética da responsabilidade”, sendo esta última típica do tomador de decisões nas Relações Internacionais; d) Busca permanente pelo acúmulo de Poder: voltado à garantia da sobrevivência nas Relações Internacionais, o Estado busca no acúmulo de poder uma forma de promover o interesse nacional. Ligado ao conceito de poder está o de “balança de poder”, do qual surgem as alianças e o estímulo à cooperação como forma de criar condições de evitar a submissão do Estado em relação a outros com maiores capacidades (mais poderosos) no sistema internacional; e) Autoajuda: embora a cooperação seja evidente nas relações internacionais como forma de garantir a sobrevivência (principal interesse nacional) por meio da balança de poder, é evidente, para os realistas, a fragilidade das alianças, uma vez que estas são frutos de uma dada conjuntura que pode ser modificada a qualquer tempo. Diante da insegurança causada pelo caráter anárquico do sistema internacional, a criação de condições para a autodefesa do Estado é papel primordial do governante. 1.3. O Realismo nas Relações Internacionais No item anterior deste capítulo, afirmamos que Vinte Anos de Crise, de Edward Carr, pode ser considerada obra inaugural das Relações Internacionais como disciplina acadêmica a partir do século XX. Da mesma maneira, arriscamo-nos a afirmar que a principal obra Realista das Relações Internacionais, a qual foi publicada em 1948, é A Política entre as Nações: a luta pelo poder e pela paz, de Hans Morgenthau, acadêmico de origem alemã que havia deixado a Europa em meio ao crescente antissemitismo alemão dos anos 1930 na busca por crescimento profissional nas universidades norte-americanas. Na primeira parte de seu trabalho, Morgenthau tem por objetivo analisar a relação entre teoria e sua aplicabilidade prática na política internacional, tomando por base a natureza humana e os eventos passados que compuseram as relações interestatais. Por razões de espaço, nesta obra, limitaremos a brevíssima análise de A Política entre as Nações apenas aos seus dois primeiros capítulos, nos quais o autor busca assentar os princípios pelos quais são regidos o Realismo, bem como analisar a aplicabilidade prática da teoria. Logo no início de seu trabalho, Morgenthau estabelece seis princípios norteadores do Realismo político, os quais podem ser resumidos da seguinte forma: 1 - A política é governada por leis objetivas que deitam suas raízes na natureza humana. Todo pensamento sobre política deve separar a razão da opinião, ou seja, os fatos que passam por uma análise racional daquilo que é somente um julgamento subjetivo. Ademais, a teoria política não perece com o passar dos anos de sua elaboração pois sua finalidade é construir um modelo de pensamento adaptável às diversas situações pelas quais passa a humanidade. Tal teoria deve refletir os atos políticos realizados e a consequência daqueles atos. Assim, somente a avaliação da conduta adotada pelo político diante de um ato concreto em contraste com a reação racional esperada para a situação poderá conferir caráter teórico ao pensamento político. As motivações humanas não partem exclusivamente da razão. 2 - A principal sinalização que ajuda o realismo político a situar-se em meio à paisagem da política internacional é conceito de interesse definido em termos de poder. É o interesse que permite compreender a distância entre a solução racional e o fato concreto. O político utiliza-se sempre do interesse para garantir o poder. A teoria Realista considera que o pensamento político deve ser divorciado da motivação sem interesse e das preferências ideológicas. De fato, Morgenthau fornece exemplos em que a motivação dos estadistas muitas vezes resultou em atos políticos desastrosos, por vezes contrários ao objetivo inicial. O pensador realista deve distinguir entre aquilo que é desejável e o que é possível em cada momento; na busca pela elaboração de uma política externa realista, o policy maker deve trabalhar a racionalidade e a experiência prática simultaneamente. O autor de A Política entre as Nações afirma que alguns vícios afetam o pensamento humano quando da tomada de uma decisão: a obsolescência, as interpretações demonológicas, a covardia diante de situação ameaçadora e a crença no fato de que as realidades são maleáveis. Morgenthau sustenta que as instituições internacionais, permeadas por visões que pouco prezam a racionalidade e experiência constituem uma das muitas causas da anarquia internacional; qualquer organização internacional que envolva os Estados soberanos deve estar em consonância com o fato de que as relações de poder no sistema internacional são a base das decisões de política externa dos países. Mais adiante em sua obra, Morgenthau trabalha os efeitos da demonização de pessoas e regimes políticos que nos passa a falsa percepção de que neles estão contidos os males dos problemas verificados nas relações entre os Estados. Um paralelo com esse pensamento pode ser estabelecido, na atualidade, com a recente guerra dos EUA contra Saddam Hussein, como se este fosse a fonte do terror e da instabilidade internacional. O contexto pós-guerra nos tem revelado que, naquele conflito, os EUA desviaram-se da real ameaça terrorista, pouco contribuindo para o efetivo combate ao terror. 3 - O realismo partedo princípio de que seu conceito-chave de interesse definido como poder constitui uma categoria objetiva que é universalmente válida, mas não outorga a esse conceito um significado fixo e permanente. A ação política entre os Estados é ditada por relações de interesse. Ao citar Max Weber, Hans Morgenthau afirma que são os interesses (materiais e ideais) e não as ideias que conduzem a ação humana. Os fatores que determinam a ação política em um determinado período da história dependem do contexto político e cultural dentro do qual é formulada a política externa. A partir do momento em que o conceito de interesse passa a determinar a ação de política externa dos países, cada ato passa a ter uma razão própria de sua época, de seu contexto. 4 - Os princípios morais universais não podem ser aplicados às ações dos Estados de forma abstrata. Moralidade política vinculada à prudência: a ação política vitoriosa não pode ser sacrificada por causa de princípios morais abstratos, pois sobre estes estão os princípios morais da sobrevivência nacional. Morgenthau conclui que “a ética política julga uma ação tendo em vista suas consequências políticas”; dessa forma, a prudência deve ser base da ação política. 5 - O realismo político recusa-se a identificar as aspirações morais de uma determinada nação com as leis morais que governam o universo. O teórico realista não admite que verdades absolutas e supremas indiquem a ação política. Assim, a crença religiosa e a idolatria não servem para justificar medidas políticas. Uma vez que o interesse está no cerne da ação política, a melhor forma de compreender a provável ação do outro é colocar-se em sua posição, calculando quais seriam os possíveis interesses, pois assim evita-se tanto o excesso moral (e o dogmatismo) quanto o perigo da ação política puramente racional (desprovida de prudência). 6 - O realista político sustenta a autonomia da esfera política em relação às demais esferas (jurídica e religiosa) na análise dos fatos. Assim como os demais ramos do pensamento foram emancipados, o realismo busca conferir à política uma autonomia de análise. Por outro lado, reconhece-se que é impossível desvincular a decisão política de seu caráter jurídico ou econômico até mesmo pelo fato de que ambos compõem diretamente a noção de interesse. No âmbito da política internacional, esse fenômeno é verificado ainda com mais relevância. No segundo capítulo de sua obra, Hans Morgenthau verifica que a corrente realista das Relações Internacionais inaugura, no estudo dessa disciplina, a busca e a análise das forças atuantes no processo de formulação da política externa. Diferente dos historiadores e dos legalistas, o autor observa que “a política internacional não pode ser reduzida a regras e instituições legais. Ela opera dentro da moldura de tais regras e por meio de tais instituições”. A análise dos fatos que dão origem à teoria enseja, nas Relações Internacionais, especial dificuldade à tentativa de elaborar qualquer relação perene, duradoura, de causa e efeito entre eles. De fato, quando uma situação ocorre, as circunstâncias que a compõem são únicas e verificadas somente naquele momento específico. Uma vez que os eventos ocorridos na esfera internacional são movidos por relações de interesse entre as partes, as alianças internacionais não são estáticas e podem alcançar impressionante mutabilidade. Assim, o analista internacional não detém, como afirma Morgenthau, capacidade de elaborar “leis” científicas que prevejam o relacionamento entre os Estados. Contudo, tal imprevisibilidade não significa que a história nada tenha a contribuir para a elucidação das medidas indicadas para a decisão do policy maker. A análise dos fatos passados permite assinalar as diferentes condições que tornam uma tendência mais suscetível de ocorrer nas Relações Internacionais. A compreensão do sistema internacional para o Realismo é ponto de grande relevância no estudo dessa teoria. A concepção realista vê na ausência do Leviatan de Hobbes uma das causa da disputa pelo poder como forma de garantir a integridade física e política dos atores internacionais. Dessa forma, a anarquia do sistema influencia o comportamento estatal e molda a decisão a ser tomada pelo estadista. Os teóricos adeptos do Idealismo, no início do século XX, haviam sustentado que o sistema internacional aumentaria o risco de conflitos, uma vez que não possuía meios de evitá- los. O aperfeiçoamento do referido sistema, por meio da cooperação em torno de instrumentos legais (como na concepção de contrato social de John Locke), reduziria a disputa de poder entre os entes estatais. Como pode ser percebido, ambas as teorias contemplavam a importância da anarquia internacional para a ocorrência de conflitos internacionais; enquanto para os idealistas o sistema atuava como facilitador dos conflitos, para os realistas a estrutura desse sistema seria uma das principais causas da disputa pelo poder. Assim, o Realismo se aproxima do que viria a ser denominado, alguns anos mais tarde, visão sistêmica das Relações Internacionais. 1.3.1. Principais contribuições analíticas ao Realismo Clássico Nos anos seguintes à publicação de A Política entre as Nações, a obra de Hans Morgenthau tornou-se cerne dos principais debates acadêmicos relativos às análises do sistema internacional e, sobretudo, à efetiva capacidade que uma construção teórica poderia oferecer para prever e evitar novos conflitos. Naqueles anos, o cenário internacional era caracterizado pelo acirramento da Guerra Fria, na qual o conflito bipolar entre EUA e URSS era fator decisivo na construção de alianças e na definição dos posicionamentos a serem adotados na política externa. A corrida armamentista entre as duas principais potências era acompanhada pelo armamento estratégico de seus principais aliados, sobretudo aqueles localizados nas zonas fronteiriças entre as influências do capitalismo liberal norte-americano e do socialismo soviético. O efeito da militarização dos principais aliados de cada potência do conflito bipolar era, na maioria das vezes, disseminado entre seus vizinhos que, ao observarem a escalada do poder militar de um Estado da sua região, tomavam a decisão de, igualmente, investir na aquisição de armamentos que pudessem reequilibrar a balança de poder regional. A corrida armamentista atraiu a atenção de diversos analistas nas primeiras duas décadas da Guerra Fria, dentre os quais destaca-se John Herz, acadêmico de origem alemã que trabalhara, entre 1943 e 1948, no Escritório de Serviços Estratégicos e no Departamento de Estado dos EUA. Em 1950, Herz publicou artigo na revista World Politics, editada pela Universidade de Princeton, intitulado Idealist Internationalism and the Security Dilemma, no qual tratava do fenômeno da corrida armamentista, explicitando-a nos seguintes termos (HERZ, 1950, p. 157): Wherever such anarchic society has existed — and it has existed in most periods of known history on some level — there has arisen what may be called the “security dilemma” of men, or groups, or their leaders. Groups or individuals living in such a constellation must be, and usually are, concerned about their security from being attacked, subjected, dominated, or annihilated by other groups and individuals. Striving to attain security from such attack, they are driven to acquire more and more power in order to escape the impact of the power of others. This, in turn, renders the others more insecure and compels them to prepare for the worst. Since none can ever feel entirely secure in such a world of competing units, power competition ensues, and the vicious circle of security and power accumulation is on. O artigo de John Herz chama a atenção para o fenômeno que ficou conhecido nos meios acadêmicos como o Dilema da Segurança. Percebe-se que o autor retoma o conceito de autoajuda do Realismo clássico, o qual, como vimos, parte da suposição que a sobrevivência do Estado deve ser garantida pelos próprios meios, dada a instabilidade das alianças no planointernacional. A consequência da constante busca pela sobrevivência por meio do aumento do número de forças militares é o aumento da insegurança estatal, devido ao fato de que seus potenciais rivais no plano externo, e seus vizinhos em especial, ao sentirem-se ameaçados pelo desequilíbrio de forças, darão início à espiral da corrida armamentista. Outra contribuição de considerável importância para o desenvolvimento do Realismo, originada durante os anos da Guerra Fria, foi o surgimento dos estudos de caráter estatístico e matemático, os quais tinham por objetivo encontrar, segundo os métodos das ciências exatas, pressupostos que permitissem explicar as causas das guerras. Essas abordagens ficaram conhecidas como behavioristas (neologismo derivado de behaviour, que quer dizer comportamento em inglês), devido à intenção de buscarem razões exatas para os diferentes comportamentos internacionais. As interpretações dos teóricos realistas até o início da Guerra Fria eram baseadas na análise histórico-sociológica, desenvolvida por autores como Edward Carr, George Kennan e Hans Morgenthau (OLIVEIRA, 2002). Nesse contexto, o Behaviorismo propunha dotar aquelas análises de medidas empíricas de verificação baseadas na análise das ciências exatas. A respeito, é importante ressaltar que a análise quantitativa não é exclusiva dos teóricos do Realismo e nem mesmo restrita ao período da Guerra Fria, sendo ainda muito utilizada nos dias atuais. De acordo com James Dougherty e Robert Pfaltzgraff Jr. (2003, p. 366): [...] a análise quantitativa é frequentemente associada a uma abordagem behaviourista da teoria internacional mais do que às abordagens clássicas ou pós-modernas. Aliás, realistas e neorrealistas estão, normalmente, associados ao tradicional paradigma estatocêntrico e centrado no estudo do poder. Estas categorizações não são inteiramente corretas. Nem os tradicionalistas nem os behaviouristas, nem realistas nem idealistas, nem os teorizadores dedutivos nem os teorizadores indutivos podem reclamar o monopólio da metodologia científica. Dentre as principais iniciativas dos estudiosos adeptos do behaviorismo destaca-se o projeto acadêmico Correlates of War (COW), iniciado em 1963, na Universidade de Michigan, sob a coordenação do cientista político David Singer. O projeto COW tem por objetivo a coleta e a análise de dados sobre conflitos internacionais desde 1816, segundo uma série de parâmetros que tornam possíveis a realização de análises quantitativas acerca do fenômeno da guerra, da cooperação e das alianças no plano internacional. Ao longo dos anos, o projeto tem permitido reunir, organizar e disseminar dados sobre os mais variados conflitos. Em oposição aos métodos quantitativos de análise das Relações Internacionais, destacam-se os estudos desenvolvidos, a partir do final da década de 1950, por Martin Wight, os quais seriam ampliados, anos mais tarde, por Hedley Bull: para esses autores, o estudo da história e das correntes filosóficas inauguradas no Iluminismo trazem as bases analíticas das Relações Internacionais. A respeito das limitações que Martin Wight apontava às análise behavioristas, Henrique Altemani de Oliveira (2002, p. 13) afirma que: [...] o tipo de teoria que ele almejava era completamente diferente da ambicionada pelos behavioristas. Considerava a Teoria das Relações Internacionais, ou como ele chamava - a Teoria Internacional - como um estudo da filosofia política ou de especulação política direcionado para o exame das principais tradições do pensamento sobre Relações Internacionais no passado. Enquanto os behavioristas buscavam desenvolver uma teoria que os aproximasse da ciência, rejeitando a literatura do passado, até mesmo a do passado imediato, Wight visava uma aproximação com a filosofia, começando por pesquisar, organizar e categorizar tudo o que tinha sido dito e pensado sobre o assunto através dos tempos. Os trabalhos de Martin Wight, que era pesquisador da London School of Economics, foram desenvolvidos no âmbito do Comitê Britânico sobre a Teoria da Política Internacional, fundado na capital britânica, em 1958, com o objetivo de estudar as razões que conduzem os Estados a adotarem diferentes posicionamentos em suas políticas externas. Os estudos promovidos por Martin Wight deram origem à chamada Escola Inglesa das Relações Internacionais, a qual afirma a existência de três paradigmas clássicos de análise do relacionamento entre os Estados: • Realismo: visão marcada pela anarquia do sistema internacional, que não deve ser confundida com caos no sistema, mas interpretada a partir da ausência de ente superior à soberania dos Estados. Nesse cenário anárquico, a sobrevivência é fruto quase exclusivo da autoajuda, tendo em vista a insegurança e a fragilidade das alianças; • Racionalismo: igualmente baseada na anarquia internacional, a corrente racionalista vê no Direito Internacional uma tentativa de construção pelos Estados soberanos de regras de convivência capazes de aprimorar as condições de sobrevivência e permitir algum grau de desenvolvimento social na comunidade internacional. A cooperação, antes restrita às alianças, passa a ser mais sólida e perene, uma vez que doravante é regulada pelo imperativo da ética; e • Revolucionismo: em oposição ao Realismo, os revolucionistas negam a soberania estatal, a qual é entendida como obstáculo à formação de uma única civilização humana. Para eles, a soberania é uma construção fictícia que deve estar subordinada à vontade humana de estabelecimento da paz universal. De acordo com Oliveira (2002, p. 15), esses paradigmas são algumas vezes representados por Wight como “realismo, racionalismo e revolucionismo”, e outras vezes como “maquiavélico, grociano e kantiano”, respectivamente. O aprofundamento das análises de Martin Wight será realizada por um de seus principais seguidores acadêmicos, Hedley Bull, o qual privilegiará nos seus estudos a ênfase na visão Racionalista como a forma mais adequada de buscar a compreensão das relações entre os Estados. Em artigo escrito no início da década de 1960 (Society and Anarchy in International Relations), Bull desenvolve as primeiras ideias que o conduziram à elaboração, alguns anos mais tarde, de sua obra maior, A Sociedade Anárquica. No ensaio anterior à obra, esse representante da Escola Inglesa analisa a concepção de anarquia nas relações internacionais e a suposta incompatibilidade desse conceito com a existência de uma sociedade internacional. Bull investiga os limites da comparação entre as sociedades nacionais (domésticas) e o possível modelo de sociedade internacional, buscando enfatizar as diferenças fundamentais à compreensão entre as duas referidas formações sociais. A percepção de que a anarquia entre os Estados inviabiliza a formação de uma sociedade entre estes nasceu no contexto pós-Primeira Grande Guerra, quando a Liga das Nações foi criada com o intuito de evoluir até certa espécie de “governo mundial”. A falência da Liga contribuiu para a divisão do debate em três principais doutrinas. A primeira descreve o relacionamento internacional a partir do estado de natureza definido por Thomas Hobbes. Por estado de natureza compreende- se a situação em que todos os indivíduos estão em guerra (ou na iminência de iniciá-la) entre si, inexistindo princípios morais ou jurídicos. A prudência é recomendada, mas o objetivo final a ser alcançado é a sobrevivência não importando, nesse contexto, os meios utilizados para preservá-la. A segunda doutrina também evidencia a anarquia como característica inerente ao relacionamento interestatal e prossegue na argumentação propondo que, diante do estado de natureza hobbesiano, os países tendem a elaborar contrato social capaz de extinguir a constante iminência de guerra. A terceira doutrina, por outro lado, discorda, tanto da existência de um conflito permanente entre os Estados quanto da possibilidade destes alcançarem o contrato social, em analogia às relações indivíduo/governo. A par dessas três visões, Hedley Bull conclui queo Realismo em sua vertente hobbesiana, típica das análises de Morgenthau, falhava ao explicar o fenômeno da cooperação por meio do Direito Internacional. A cooperação por meio do Direito Internacional parece ser para os racionalistas a base das relações entre Estados, definidas em termos de interesse e pautadas por análises de conveniência. Em resumo, é possível afirmar que entre o estado de natureza de Hobbes e o contrato social de Kant está posicionada, na concepção intermediária de Hugo Grotius, a dinâmica de anarquia internacional defendida pela corrente racionalista de Hedley Bull. Assim, os Estados, embora dotados de soberania, conseguem manter nível de relacionamento que não é baseado apenas nas relações de força, na luta de todos contra todos: há espaço para a diplomacia, as conferências e o comércio, por exemplo. Na concepção racionalista, o sistema internacional é governado mais por regras estabelecidas pelos próprios Estados, do que por relações de força. 1.3.2. Neorrealismo (Realismo Estrutural) A década de 1970 pode ser caracterizada como momento desafiador para os postulados basilares do Realismo Clássico. De fato, naqueles anos, completava-se o processo de reconstrução econômica da Europa, após a Segunda Guerra Mundial, e assistia-se ao fortalecimento da Comunidade Econômica Europeia que passava a contar, a partir de 1973, com o ingresso da Inglaterra, fato que inaugurava dinâmica de cooperação comercial entre grandes potências europeias de magnitude até então inédita. Ademais, o crescimento econômico japonês impulsionava o processo de descentralização da produção industrial, o qual era, ainda, decisivamente beneficiado pelos avanços tecnológicos nos transportes e nas comunicações. Tal processo de descentralização produtiva ensejou críticas à vulnerabilidade das análises estadocêntricas, as quais foram agravadas com a eclosão, em 1973, da Guerra do Yom Kippur e a consequente resposta por parte dos países produtores de petróleo, que resultou na “Crise do Petróleo”. A mútua dependência econômica entre os Estados passava a moldar as decisões de política externa, uma vez que o desenvolvimento nacional passava a estar, doravante, afetado diretamente pela saúde econômica de outros Estados do sistema internacional. Todos esses fatores, somados à diminuição das tensões entre Estados Unidos e União Soviética (détente), pareciam pôr em dúvida os pressupostos teóricos do Realismo político, tendo a disputa pelo poder como o elemento chave das Relações Internacionais. Nesse contexto, surgia a corrente teórica que foi denominada Neorrealismo, que identificava na estrutura do sistema internacional a principal variável a determinar o relacionamento entre os Estados. O Neorrealismo não negava o Realismo Clássico: pelo contrário, visava propor revisão à teoria original, a fim de harmonizar nos seus postulados a percepção de que o sistema internacional limita e constrange as escolhas dos Estados no relacionamento com seus pares. A revisão teórica proposta pelo Neorrealismo, que possui o norte-americano Kenneth Waltz, professor da Universidade de Columbia, como seu principal expoente, tem por objetivo clarificar as relações de causa e a origem do comportamento belicista dos Estados no relacionamento com os demais. A estrutura do sistema internacional passa a dispor de nova significação no entendimento das Relações Internacionais, e a disputa pelo poder deixa de ser objetivo último da ação estatal para tornar-se útil ferramenta na busca da segurança humana. Assim, Waltz lança crítica à tentativa de Morgenthau em elaborar uma “teoria racional” das Relações Internacionais; segundo o teórico neorrealista, Morgenthau se limitara a explicar o fenômeno de construção da política externa e falhara ao separar a política das dimensões sociais e econômicas das relações entre os Estados. Sendo a teoria uma forma de lidar com a complexidade dos fatos que compõem um fenômeno, sua característica mais relevante é a extrema simplificação com a qual elucida determinado mecanismo chave de um todo. Não pode, jamais, ser confundida com a tentativa de explicar todo o fenômeno sob o risco de ser incompleta e distorcida. Na sua obra mais conhecida, Theory of International Politics, Kenneth Waltz discorre sobre a função da estrutura do sistema internacional para a compreensão das relações entre os Estados. A falta de ente jurídico capaz de impor regras e limites à ação dos Estados determina a situação de anarquia em que a segurança dos atores não pode ser garantida senão por eles próprios - retoma a ideia da autoajuda defendida pelos realistas clássicos. A estrutura do sistema internacional passa a ser, portanto, a causa da disputa pelo poder e o determinante da índole belicosa dos Estados. A interação entre os Estados só pode ser entendida se levado em conta o meio em que vivem, o qual, por sua vez, é determinado pelas potências dominantes de um determinado período histórico. Segundo Waltz (2002, p. 105): Em relações internacionais, como em qualquer sistema baseado no interesse próprio (autoajuda), as unidades de maior capacidade estabelecem o cenário da acção para os outros, assim como para si mesmos. Em teoria sistémica, a estrutura é uma noção generativa; e a estrutura de um sistema é gerada pelas interacções de suas principais partes. As teorias que se aplicam ao sistema de autoajuda são escritas em termos das principais partes nos sistemas. Será tão ridículo construir uma teoria das relações internacionais baseada na Malásia e na Costa Rica, como construir uma teoria económica de competição oligopolista baseadas nas firmas menores de um sector da economia [...] Focarmo-nos nas grandes potências não é perder de vista as mais pequenas. A preocupação com o destino das últimas requer dar mais atenção às primeiras. Dessa forma, Waltz afirma que, diante da necessidade de o Estado garantir a segurança e a integridade institucional, o poder passa a ser buscado como ferramenta de defesa. Assim, o autor estabelece distinção entre a doutrina realista, que vê na luta pelo poder o objetivo dos Estados, e o Neorrealismo, que, por sua vez, entende a luta pelo poder como a busca pela ferramenta capaz de lhe prover segurança e estabilidade no cenário de anarquia internacional. Outra distinção contida na obra neorrealista é a de que, enquanto Morgenthau afirma em sua obra principal, A Política entre as Nações, que a busca pelo poder está contida na gênese humana, Waltz crê que tal busca se deve à estrutura social em que o homem está envolvido. Por fim, Waltz ressalta que o Realismo entende a anarquia como condição geral da estrutura do sistema internacional. Em sua visão, a anarquia seria a própria estrutura na qual os Estados interagem. Outra diferença entre as correntes teóricas, identificada por Kenneth Waltz, se refere à percepção de que os realistas veem os Estados como unidades diferentes entre si que, diante da condição anárquica em que estão inseridos, apresentam comportamentos heterogêneos em face da ganância pelo poder. Já os neorrealistas entendem que os Estados são, diante da estrutura anárquica, unidades autônomas iguais entre si; suas interações no sistema estão limitadas às suas capacidades de garantir a segurança por meio da acumulação de poder. As conclusões de Waltz revelam, portanto, a disposição do autor em redefinir conceitos do Realismo Clássico na tentativa de tornar a teoria das Relações Internacionais instrumento de análise do sistema internacional sem, contudo, almejar explicar a dinâmica do referido sistema em sua totalidade. 1.4. O Liberalismo nas Relações Internacionais Ao lado do Realismo, a matriz teórica denominada Liberalismo oferece importantes subsídios para ampliar as opções analíticas das Relações Internacionais. Se em algum momento da construção da disciplina houve, de fato, um “grande debate,” pode-se afirmar que este, com certeza, e ao longo da história, foi o dos teóricos realistas com seus pares liberais, divididos em suas respectivas vertentes. O Liberalismo está, igualmente,na origem que neste trabalho atribuímos à disciplina, ou seja, o início do século XX. Essa corrente teórica visa a identificar modos de relacionamento entre os Estados que lhes permitam romper com a relação conflituosa determinada pela anarquia2 do sistema internacional. De fato, realistas e liberais reconhecem que o sistema internacional é anárquico e que a soberania dos Estados é fator determinante dessa anarquia. As marcadas divergências entre as duas correntes teóricas vêm à tona quando analisamos as funções e a centralidade dos Estados, bem como suas formas de interação nesse sistema. Para os realistas, a interação no plano internacional é baseada na autoajuda, a qual requer constante movimento de busca do interesse nacional definido em termos da acumulação de poder; qualquer tentativa de cooperação é considerada utópica, dadas as vantagens em não cooperar, a fim de maximizar suas possibilidades de obtenção de poder. Para os liberais, a sociedade internacional é passível de ser aperfeiçoada e pode evoluir em direção a formas de relacionamento mais cooperativas e harmoniosas. A autoajuda, portanto, não seria uma postura inevitável dos Estados no sistema anárquico. Nesta parte do texto, concentraremos nossa análise nas principais vertentes do Liberalismo, as quais podemos afirmar que são o Funcionalismo, sua autocrítica, o Neofuncionalismo e a Interdependência Complexa. Buscaremos, ainda, apontar as contribuições críticas àquelas vertentes do Liberalismo sem querer fazer deste debate um rally teórico que, se de fato tivesse ocorrido, seria bem mais amplo e diversificado do que esta breve reunião de ideias. 1.4.1. Bases analíticas do Liberalismo nas Relações Internacionais As análises liberais buscam apontar alternativas empíricas, baseadas na observação objetiva e por vezes quantitativa dos fatos - como afirmamos anteriormente, o behaviorismo também está presente nesta corrente teórica -, que sejam capazes de mitigar a autoajuda como padrão do relacionamento entre Estados. Na já citada obra de João Pontes Nogueira e Nizar Messari (2005, p. 62), aqueles autores apontam mecanismos de cooperação privilegiados na teoria liberal, sobre os quais dedicaremos breve análise: A pergunta que vem à mente, neste ponto, é como o sistema internacional pode ser mudado de forma a se tornar menos conflituoso e mais cooperativo? Os diferentes pensadores liberais oferecem uma grande quantidade de respostas a essa pergunta, mas acreditamos que três delas são as mais representativas do liberalismo na teoria das relações internacionais: o livre-comércio, a democracia e as instituições internacionais. a) Livre-comércio: desde a Revolução Industrial e a consequente redução do artesanato em detrimento da manufatura, o comércio passou a ser essencial para que o capitalista maximizasse seus ganhos por meio da escala de produção. Quanto mais estável fosse o sistema internacional, melhores seriam as condições de comércio e melhor o retorno do investimento capitalista. Seria o livre-comércio, portanto, uma forma de convergência até mesmo entre as elites industriais e os operários do “chão de fábrica” em torno dos altos custos da guerra. O mercantilismo, e sua lógica de guerras de conquista, era, igualmente, alvo dos liberais. Assim, o livre-comércio seria estimulado pelas diferentes sociedade capitalistas, as quais teriam a guerra como um extremo incômodo a ser de todo modo evitado. b) Democracia: a relação entre democracia e paz remonta à obra de Immanuel Kant (A Paz Perpétua), na qual o pensador prussiano atribuía à opinião pública o racionalismo necessário à preservação da vida e das riquezas acumuladas. Quanto maiores as chances de elevar a opinião pública às esferas de decisão estatal, mais estável e menos conflituosa seriam as interações estatais. O ideal kantiano e sua promoção pelos liberais foram alvo de muitas críticas, sobretudo aquelas que apontavam o apoio de expressiva parcela dos povos europeus às políticas de confrontação externa desenvolvidas por governos fascistas e nazistas. No plano mais recente, Michael Doyle (2011, p. 55) lança críticas à alegada relação entre democracia e paz: War and conquest have thus characterized the careers of many authoritarian rulers and ruling parties, from Louis XIV and Napoleon to Mussolini´s fascists, Hitler´s Nazis, and Stalin´s communists. Yet we cannot simply blame warfare on the authoritarian or totalitarians, as many of our more enthusiastic politicians would have us do. Most wars arise out of calculations and miscalculations of interest, misunderstandings, and mutual suspicions, such as those that characterized the origins of World War I. However, aggression by the liberal state has also characterized a large number of wars. c) Instituições: a base conceitual adotada pelos liberais para alegar a importância do Direito Internacional para a estabilização do sistema remonta às ideias de Hugo Grotius, para o qual todas as pessoas estariam submetidas ao Direito Natural, que lhes garantiria por meio da razão humana a convivência pacífica. Ao contrário do que se poderia pensar, Grotius, assim como os teóricos liberais, entendia serem os Estados os principais sujeitos do Direito Natural. Portanto, é incorreto afirmarmos que os liberais desejavam criar um poder supranacional, tal como uma federação, acima dos Estados. Mas, afinal, qual seria a contribuição das instituições internacionais para a estabilidade do sistema internacional? Primeiro, são aquelas instituições o locus ideal para o intercâmbio de pontos de vista e realização de alianças, o que torna o sistema mais transparente e reduz a desconfiança mútua entre os Estados; segundo, veremos adiante como podem as instituições aprofundarem seus mecanismos de integração, inicialmente restrito a determinadas áreas técnicas, para uma variada gama de temas das relações entre os Estados, o que cria múltiplos vínculos de interesse entre os Estados e, portanto, torna o custo da não cooperação muito maior que entre Estados que apresentam escasso relacionamento bilateral. As bases analíticas acima mencionadas encontram-se no já mencionado Discurso dos 14 Pontos, realizado pelo Presidente Woodrow Wilson, em 1918. Tais bases seriam amplamente debatidas, sobretudo diante do fracasso da Liga das Nações em evitar a ocorrência de novo conflito de escala mundial. No imediato pós-Segunda Guerra, o Liberalismo como corrente teórica encontrava-se ofuscado diante do crescimento da argumentação em torno dos pressupostos realistas, sobretudo diante do recrudescimento da Guerra Fria nos anos 1950, fato que levou os teóricos liberais a aprofundarem suas análises a fim de revitalizar seus pressupostos. 1.4.2. Funcionalismo O Funcionalismo é uma das vertentes teóricas do Liberalismo, a qual busca empreender, a partir das décadas de 1950 e 1960, estudos sobre as dinâmicas de criação das organizações internacionais. As razões que conduziram à Segunda Guerra Mundial levaram ao descrédito a argumentação liberal clássica de que a cooperação por meio das instituições internacionais e da democracia regida pelo Direito Natural, somados ao fortalecimento do comércio, mitigariam os riscos de um conflito militar generalizado. Assim, a partir do Funcionalismo, os liberais buscavam retomar seus argumentos não mais com a intenção de negar a dinâmica de autoajuda vigente nas relações entre os Estados, mas sim com o objetivo de encontrar possibilidades de cooperação no âmbito do sistema internacional que reduzisse os custos inerentes às condutas individualistas dos Estados. O principal expoente do Funcionalismo é Ernest Haas, acadêmico de origem alemã, que construiu sua carreira na Universidade de Berkeley (EUA). Em meio ao predomínio das análises estadocêntricas baseadas nos conceitos de poder, anarquia e autoajuda, os estudos de Ernest Haas, expressos na sua obra The Uniting of Europe, publicada em 1958, divergem da maioria dos teóricos de sua época e são dirigidos à análise do processo de integração regional europeu, iniciado por meio da cooperaçãono âmbito da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951), e consideravelmente ampliado para outras áreas do relacionamento multilateral por meio do Tratado de Roma (1957), que deu origem à Comunidade Econômica Europeia (CEE). Para Haas, as organizações internacionais continham demonstrações de que a cooperação interestatal era iniciada no nível técnico, em torno de temas nos quais a gestão conjunta dos problemas conduzia a ganhos para todas as partes. Assim, temas como o tráfego aéreo internacional, o envio de correspondências para destinatários de diferentes países, dentre outros, seriam assuntos cuja gestão compartilhada seria mutuamente benéfica e, em alguns casos, até mesmo necessária para garantir a segurança nacional. Essa cooperação de caráter técnico tenderia a expandir e a exigir coordenação cada vez maior das esferas decisórias (burocracias) dos países envolvidos na cooperação. Essa expansão geraria um “transbordamento” do escopo inicial da cooperação, ao qual Ernest Haas denominou spill over effect, cuja evolução explicaria os fenômenos de integração regional verificados na Europa. Para melhor explicar, de maneira prática, a importância do spill over, façamos uma brevíssima análise sobre o nascimento da CEE. No início dos anos 1950, o carvão era uma das principais matérias-primas utilizadas na geração de energia na Europa, e o aço, o insumo necessário à produção de armamentos. Após a Segunda Guerra, a fim de reduzir a desconfiança de que a Alemanha e seus aliados pudessem recorrer a uma nova corrida armamentista na Europa, as principais potências europeias decidiram cooperar em torno do destino dado à exploração das jazidas minerais presentes no Vale do Rio Ruhr, localizado no Oeste da Alemanha. Assim, por meio do Tratado de Paris, firmado entre Alemanha, França, Itália, e os países da BENELUX - Bélgica, Holanda e Luxemburgo -, foi estabelecida a CECA, em 1951, com o objetivo de facilitar a exploração e a circulação do carvão e do aço, bem como proporcionar livre acesso às fontes de produção. O Tratado foi além ao prever no texto firmado o estabelecimento de um futuro Mercado Comum. Percebe-se, portanto, que, caso os países europeus decidissem adotar uma postura individualista baseada na autoajuda, deveriam expender vultosos recursos na produção de armas, o que, pelo já mencionado “Dilema do Prisioneiro”, conduziria a uma nova corrida armamentista e sua consequente deterioração da segurança nacional. A solução menos custosa e mais eficiente na busca pelo atingimento do interesse nacional daqueles países, portanto, passaria pela cooperação no nível técnico de âmbito comercial, que lhes permitiria identificar o destino dado à produção siderúrgica de região, o que reduzia a insegurança. Como sabemos, essa cooperação evoluiu para a criação da CEE e, décadas depois, para a União Europeia, uma união econômica que “transborda” em muito a área de livre-comércio inicialmente estabelecida pela CECA. Os teóricos funcionalistas, entre os quais podemos somar Karl Deutsch e David Mitrany, podem ser considerados, portanto, os fundadores dos estudos sobre a integração regional. Contudo, suas análises não ficaram isentas de críticas, sendo a principal delas acerca do “otimismo” exacerbado que determinados autores, como Joseph Nye, atribuíam quanto à capacidade de que a cooperação no nível técnico pudesse evoluir e, de fato, “transbordar” sem que decisões de cunho político dessem respaldo à maior integração (MESSARI; NOGUEIRA, 2005). 1.4.2.1. Neofuncionalismo Na autocrítica de seu livro inicial, cujas ideias estão em parte expressas em Beyond the Nation State, publicado em 1964, Ernest Haas reconhece o potencial limitado da cooperação no nível técnico, a qual, diante de impasses em seu rito de evolução, requer a decisão política superior dos Estados envolvidos a fim de que possam efetivamente alcançar o esperado spill over. No que tange aos organismos internacionais, Haas acrescenta que dificuldades nos avanços em temas da agenda bilateral poderiam ser objeto de consenso no âmbito multilateral, o que contribuiria para reduzir as desconfianças e aumentar a estabilidade do sistema internacional. Exemplo atual dessa contribuição pode ser visto na questão nuclear iraniana, que será estudada em outro capítulo desta obra: em novembro de 2013, negociações entre os membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha (grupo conhecido como P5+1) chegaram a um acordo provisório com o Irã, intermediado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o qual permitiu retomar as inspeções sobre o programa nuclear iraniano, algo que seria praticamente inviável de ser executado diretamente por uma daquelas potências. 1.4.3. Interdependência complexa Ao estudarmos anteriormente nesta obra os fatores que levaram ao surgimento do Neorrealismo (Realismo Estrutural) no campo das teorias das Relações Internacionais, afirmamos as razões para a crise que se abatia sobre as correntes teóricas baseadas nas análises estadocêntricas. Àqueles fatores, devemos incluir, a partir da década de 1970: a) a conclusão do processo de descolonização africano e asiático, o qual levou ao considerável incremento da representatividade dos países do então denominado “Terceiro Mundo” nos organismos internacionais; b) surgimento dos conglomerados produtivos transnacionais, os quais tornavam não somente o comércio, mas também a produção manufatureira objeto de cooperação entre os Estados; e c) emergência dos temas da agenda internacional cuja gestão obrigatoriamente requer estratégias cooperativas transnacionais, tais como a preservação do meio ambiente (destaca-se a Conferência de Estocolmo, em 1972), o combate ao narcotráfico e o combate às epidemias (descoberta do vírus HIV/AIDS em 1981). Os novos fenômenos relacionais no sistema internacional apontavam para a relativa diminuição do papel do Estado como ator principal ao mesmo tempo que atores não estatais, como os organismos internacionais, as corporações econômicas multinacionais e mesmo as organizações não governamentais (ONGs) cresciam em importância. Essa situação é resumida por João Pontes Nogueira e Nizar Messari (2005, p. 81) da seguinte maneira: A característica mais nova dessa política mundial “em transição” era a emergência de atores não estatais desempenhando papéis às vezes mais relevantes que os Estados em decisões sobre investimentos, tecnologia, mídia, etc. Keohane e Nye acreditavam que não era mais possível estudar as relações internacionais olhando apenas para o comportamento dos Estados; era imprescindível incorporar os novos atores nos modelos de análise. Por outro lado, era importante não cair na armadilha do idealismo e desconsiderar a dimensão do poder na política mundial, como alguns estudiosos da interdependência pareciam fazer. Nesse contexto, os acadêmicos norte-americanos Robert Keohane e Joseph Nye lançam em uma de suas obras principais, Power and Interdependence, e no artigo Realism and Complex Interdepence ideias para aperfeiçoar a teoria construída pelos teóricos neorrealistas, a fim de incorporar novos atores e formas de relacionamento à análise do sistema internacional. Keohane e Nye comparam o entendimento do relacionamento entre os atores internacionais no Realismo com a nova dinâmica de relações proposta pela Interdependência. Para os realistas, os Estados são os únicos atores de relevância na política internacional que, por meio da força, impõem seus interesses, que se resumem à maximização do poder e da capacidade de garantir a sobrevivência estatal. Dessa forma, as questões militares estão no topo da hierarquia dos assuntos internacionais. A essa concepção, para os adeptos da Interdependência Complexa, as relações no plano externo podem ocorrer por meio de fluxos interestatais, transgovernamentais ou mesmo transnacionais; a agenda internacional, anteriormente dominada por questões militares, passa a incorporar múltiplos temas sem que haja a referida hierarquia entre eles. Surgia a percepção de que não mais seria possível separaros interesses dos entes privados nacionais das decisões tomadas no plano externo das políticas dos Estados. Sendo assim, o relacionamento entre os países não poderia mais obedecer à lógica do equilíbrio de forças militares pois toda ação bélica compreenderia uma série de consequências (custos) para empresários, exportadores e outros segmentos de apoio político das economias domésticas. A concepção de segurança internacional deixava de ser uma questão ligada unicamente à disposição de armamentos ou à realização de alianças militares. Talvez a détente fosse um fenômeno determinante no cenário internacional da época, o qual contribuía para afirmar a relativização da hierarquia dos temas militares-estratégicos sobre os demais da agenda internacional. Os mencionados autores apontam para o fato de que, mesmo nas relações entre países de discrepantes capacidades militares, como no relacionamento Norte-Sul, a opção pela ação militar torna-se cada vez mais improvável. As democracias ocidentais não forneceriam apoio político a esse tipo de ação, pois o desgaste (econômico, moral e político) resultante do conflito poderia pôr em risco a estabilidade financeira nacional e, mesmo nos países controlados por ditaduras, a opção militar ensejaria reação imediata de amplo número de atores interessados no fim das hostilidades. Assim, Keohane e Nye evidenciam a redução do poder de barganha nas negociações internacionais, por parte das potências, ocasionada em detrimento do declínio do uso da força como instrumento político. Uma vez que a hierarquia de temas que compõem a agenda internacional caminha para uma equivalência temática, torna-se mais difícil tomar a disparidade de força como meio de flexibilização de posições nas rodas de negociação. Contudo, os autores advertem que devido ao maior peso de certos países em determinados assuntos negociados, tais Estados poderão utilizar a “interdependência assimétrica” como forma de pressão sobre o adversário. Ou seja, a disparidade econômica entre os países e a capacidade que estes possuem de formar alianças em torno de assuntos específicos da agenda reacende as possibilidades de poder de barganha, não mais determinadas pela força militar. Este é outro fator interessante trazido pela Interdependência complexa: as alianças internacionais começam a ocorrer com base em assuntos específicos levando os Estados a cooperarem em torno de certos temas e a divergirem em outros. Mais adiante nesta obra, estudaremos como, a partir da segunda metade do século XX, a evolução do conceito de aliança caminha em direção à formação das parcerias estratégicas. Por fim, os autores sustentam a crescente importância das organizações internacionais. A maior interseção de interesses entre os atores das relações internacionais requer aumento dos mecanismos de governança e regulação global. A democratização das instituições no plano externo, que em sua maioria se baseiam no sistema de “um país, um voto”, parece constituir um desafio à supremacia econômica e militar das grandes potências. A essa nova configuração de forças trazida pela dependência política e econômica mútua entre os Estados Keohane e Nye atribuíram um padrão de relacionamento o qual denominaram Interdependência Complexa. Segundo Nogueira e Messari (2005, p. 85), seriam três suas características centrais: • Existência de múltiplos canais de negociação: a política externa deixa de ser tarefa exclusiva das Chancelarias (diplomacia estatal) e passa a ser desempenhada pelos vários entes estatais ou privados, que tenham fundamental relevância para o interesse nacional. O Estado é tido como unidade fragmentada, ou seja, composto por agências burocráticas “imperfeitamente coordenadas por um governo central” (ROCHA, 2001, p. 114), e não se caracteriza como unitário e racional, como querem os realistas; • Agenda múltipla e interconectada: torna-se comum que avanços em determinadas negociações estejam condicionadas a avanços em outras searas do relacionamento. Por exemplo, o apoio político nos organismos internacionais pode ter como contrapartida concessões em setores comerciais; e • Utilidade decrescente e, por vezes, inviabilidade do uso da força: a depender do nível de alianças ou da importância geopolítica e econômica que um Estado tem em relação a terceiros, uma eventual retaliação por meio do uso da força poderia ensejar a reação de terceiras partes no conflito. Ademais, os novos temas da agenda internacional não são, em sua maioria, passíveis de soluções por meio da adoção de soluções de força - em outras palavras, dada a atual estrutura da economia internacional, o uso da máquina militar não tem efeito prático para solução dos conflitos de interesse. Nesse sentido, acredita-se em uma sociedade internacional em que múltiplos atores interagem no desenvolvimento da agenda internacional. As regras internacionais “são estabelecidas, nem sempre por iniciativa dos Estados-nacionais ou sequer por seu intermédio, e, por assim dizer, interferem no processo de socialização dos diferentes atores” (ROCHA, 2001, p. 91). Para finalizarmos esta breve análise sobre a Interdependência, resta-nos apenas salientar que, no que tange à noção de interesse nacional, verifica-se, na Interdependência, que esse conceito se torna mais amplo: passa-se a uma verdadeira composição de interesses, no qual, muitas vezes, a melhor estratégia da busca pela maximização do interesse nacional está na cooperação com o parceiro. Os meios de promover essa cooperação ensejarão, justamente, a crítica dos neorrealistas em relação à Teoria da Interdependência. 1.4.4. Crítica neorrealista à Interdependência e o institucionalismo liberal No final dos anos 1970, verifica-se novo recrudescimento do conflito bipolar da Guerra Fria, o qual seria, nos primeiros anos de década de 1980, agravado pelo contexto de crise econômica pelo qual passaram os países em desenvolvimento, com suas respectivas medidas protecionistas. Os assuntos relativos à segurança nacional sobem, novamente, ao mais alto nível da hierarquia temática do relacionamento entre os Estados. Nesse contexto, as teses neorrealistas de Kenneth Waltz pareciam guiar com maior facilidade a análise do sistema internacional, o que tornava a Interdependência Complexa de Keohane e Nye objeto de críticas no que tange aos reais limites e contribuições da política de cooperação entre os Estados. Para os neorrealistas, os teóricos da interdependência haviam falhado ao minimizarem a falta de informação por parte dos Estados em relação às decisões de política externa de seus pares, o que deveria levá-los, pelo princípio da prudência, a adotar estratégias de autoajuda, e não de cooperação. Assim, a crítica neorrealista aos teóricos liberais está centrada no Dilema do Prisioneiro3, o qual nos traz a ideia de que a estrutura do sistema internacional não permite aos Estados utilizar estratégias cooperativas, uma vez que os riscos de sua adoção para o interesse nacional são superiores aos seus possíveis ganhos. Essa crítica é rebatida pelos teóricos liberais; em contrapartida, estes afirmam ser possível aprimorar a estratégia de interação dos Estados por meio do fortalecimento das instituições, dos seus mecanismos de interação e do número de países nelas representados. Tais ideias são desenvolvidas por Robert Keohane em After Hegemony: cooperation and discord in the world political economy, obra publicada em 1984, na qual são estabelecidas as bases do Institucionalismo Neoliberal. De acordo com Keohane (2005, p. 69-70): Single-play Prisioner´s Dilemma is often taken as a paradigma for international politics, showing why discord is prevalent and cooperation rare. It is sometimes used also to support arguments that international institutions are doomed to futility. Such is not my argument [...] The apparently compelling conclusion referred above - that defecting is a dominant estrategy - depends on the assumption that the game is only played once, or at most a small number of times. If the game is played repeatedly, by the sameplayers - that is, in “iterated” Prisioner´s Dilemma - is it generally agreed that players may rationally cooperate. [...] Assim, os teóricos institucionalistas faziam crítica aos postulados neorrealistas, segundo os quais as formas de interação no sistema internacional eram imutáveis. Diante do fenômeno da interdependência, o aumento da cooperação por meio dos foros internacionais acabaria por mitigar a estrutura do Dilema, uma vez que as instituições internacionais passariam a desempenhar as seguintes funções em benefício da estabilidade do sistema internacional: • Aumento do fluxo de comunicação entre os Estados, por meio de seus agentes, e de seus representantes da sociedade civil, o que contribuía para a previsão das estratégias de seus parceiros; • Disponibilidade de meios punitivos multilaterais para aqueles que adotam posição não cooperativa. O custo da postura não cooperativa é, muitas vezes, a maior punição, sobretudo se esta for praticada pelo conjunto dos demais membros da instituição. Por exemplo, pode-se citar a adoção de sanções econômicas adotadas pela ONU contra países que não cooperam com os esforços de controle de armas nucleares por parte da AIEA; e • Maior densidade das estruturas cooperativas, as quais tendem a perdurar por período maior de tempo e se aprofundar: o já mencionado efeito de “transbordamento”, que é potencializado pela cooperação no âmbito das instituições, aliado à decisão política fundamental dos dirigentes estatais em aprofundar a cooperação, tenderia a transformar as alianças em parcerias estratégicas, as quais contemplam agenda mais diversificada. Ao final desta análise, é possível afirmar que o Institucionalismo Neoliberal4 fornece as bases analíticas do que viria a ser a noção de “regimes internacionais”. Por regime, denominamos o conjunto de normas e instituições que, como frutos do Direito Internacional, passam a reger as ações dos Estados em relação aos temas da agenda internacional. Por exemplo, ao discutirmos o regime internacional de Direitos Humanos, estamos nos referindo às convenções, tratados e declarações que regem o assunto, assim como às instituições nas quais se dá o debate internacional, tais como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a ONG Human Rights Watch, por exemplo. Tais regimes tendem, igualmente, a conferir estabilidade ao sistema internacional, uma vez que se tornam mais claros os custos e as reações da comunidade internacional a serem suportados pelo Estado transgressor do regime. Os regimes internacionais podem surgir de forma espontânea, podem originar-se de negociações e “podem ser impostos ao sistema quanto da existência de atores hegemônicos no plano internacional” (ROCHA, 2001, p. 96). O conceito de regime internacional auxilia na avaliação do comportamento de cada ator no que tange ao padrão de comportamento esperado de cada um. 1.5. Economia Política Internacional (EPI) Na Economia Política Internacional (EPI), parte-se da premissa de que as decisões econômicas afetam os processos políticos e vice-versa. Atores econômicos, como as empresas transnacionais e os fundos de investimento, têm forte influência nos regimes internacionais. Como regra geral, a Economia Política Internacional associa a evolução do sistema internacional à redistribuição de poder entre os Estados-nacionais e à percepção destes em relação à estrutura internacional. Na década de 1980, por exemplo, o tema mais debatido no âmbito dessa teoria era a hegemonia norte-americana e a reconfiguração do equilíbrio político internacional. Para os adeptos da EPI, os Estados soberanos são considerados atores unitários, que formulam políticas e coordenam ações, objetivando concretizar interesses. As empresas transnacionais também agem com racionalidade e podem interagir com os Estados. De fato, segundo a EPI, as negociações e os processos mais significativos são aqueles que englobam Estados e empresas transnacionais, os quais acabam por culminar em regimes internacionais. 1.6. Correntes teóricas contemporâneas No plano contemporâneo da discussão sobre as relações internacionais, destacam-se, a partir do final dos anos 1980, as contribuições do Construtivismo, baseadas nas análises sobre a estrutura do sistema internacional. De acordo com os construtivistas, dentre os quais se destaca Alexander Wendt, autor de Anarchy is what States makes of it, a anarquia não é uma constante nas relações internacionais, por serem estas claramente regidas pelo Direito Internacional e pelos regimes. Outro debate de grande importância para as Relações Internacionais é trazido pela Teoria Crítica, a qual rejeita a ideia realista do sistema de Estados que funciona segundo leis imutáveis - para essa corrente analítica, o Realismo “não passa de um discurso formulado pelas grandes potências para eternizar a dominação que exercem em nível mundial” (GONÇALVES, 2004, p. 35). Ao negar que a ciência seja livre de valores incutidos pelos entes mais fortes da sociedade, os estudiosos da Teoria Crítica, dentre os quais se destaca Robert Cox, afirmam que o Realismo, como teoria, é limitado pela incapacidade, ou desinteresse - daí sua severa crítica -, de admitir mudanças na estrutura do sistema internacional. De acordo com Nogueira e Messari (2004, p. 141- 142): Na verdade, a falta de interesse do realismo por processos de mudança reflete seu conservadorismo e sua preferência por uma ordem mundial dominada por um pequeno número de estados poderosos. Esse interesse não é evidente porque o realismo apresenta o sistema internacional como sendo, por natureza, governado por uma lógica que privilegia as unidades mais poderosas e limita as possibilidades de mudanças em sua estrutura anárquica. [...] Para Cox, o realismo não pode ser considerado neutro. Ao contrário, ao tratar o mundo da anarquia e da política de poder como natural, tem papel decisivo na reprodução das estruturas da política mundial tal como elas existem e na exclusão de alternativas que visem a transformá-las. Destacamos, ainda, a contribuição da crítica pós-modernista, segundo a qual o conjunto das teorias das Relações Internacionais é, de fato, análise derivada da matriz do Realismo. O Realismo, por sua vez, é combatido por conter um anacrônico resíduo do Iluminismo europeu, que não mais seria passível de prover um modelo analítico de relevo na estrutura das relações internacionais atuais. De acordo com Williams Gonçalves (2004, p. 36): Para os pós-modernistas, o Estado como realidade objetiva simplesmente não existe, trata-se de mera ficção construída por acadêmicos e cidadãos com a finalidade de dar sentido às ações sociais que desenvolvem entre si. Desse modo, a ação do Estado no sistema internacional de Estados não passa de uma forma de construir uma narrativa sobre a relação entre indivíduos, uma história, que, na verdade, pode ser construída e contada de várias formas, as quais dependerão da posição e dos interesses do indivíduo ou dos grupos que se proponham a construí-la. Como afirmamos no início do capítulo, esta obra não tem a pretensão de abordar de forma completa a ampla discussão teórica promovida, ao longo do século XX, pelos mais proeminentes acadêmicos das Relações Internacionais. A essa pretensão, inclusive, sobrepõem-se críticas sobre o fato de serem as Relações Internacionais analisadas do ponto de vista dos teóricos estadunidenses - a respeito dessa crítica, destaca-se o trabalho de Stanley Hoffman, intitulado An American Social Science: International Relations. O objetivo deste capítulo foi tão somente o de apresentar as principais correntes teóricas originadas no contexto das duas grandes guerras mundiais que marcaram o século XX, bem como as instituições e os atores em discussão por aquelas teorias. 2. A Política Externa Brasileira de 1945 aos Nossos Dias 2.1. Política Externa Brasileira de 1946-1964 Como explicita Amado Cervo, de 1945 ao final da década de 1980, a política exterior do Brasil pautou-se por duas tendências de política externa, tendo o desenvolvimento como vetor (1994,p. 28-30): i) o desenvolvimento liberal associado: sentido dado pelos governos Dutra, Castelo Branco e Collor, esse viés desenvolvimentista trouxe conceitos e ideologias vinculados ao ocidentalismo, às relações especiais com os EUA, à valorização da segurança coletiva regional e à associação ao capitalismo internacional; ii) o modelo do nacional-desenvolvimentismo: alicerçado pelo pragmatismo, buscou as rédeas dos setores estratégicos da economia nacional pelo Estado, o universalismo, a nacionalização da segurança. Os dois governos Vargas, a Política Externa Independente (PEI), os governos militares - a partir de Costa e Silva - e o governo Sarney encaixam-se nesse modelo. Deve-se atentar para o fato de ambas as tendências supracitadas darem a unidade à política exterior. Essas tendências explicam as oscilações e a continuidade, haja vista a incapacidade de um governo liquidar totalmente a herança de governos pretéritos, o que demonstra que a política externa brasileira constitui política de Estado e não de governo. Existe simbiose entre essas tendências e mesmo a possibilidade de síntese, como transparece no governo Juscelino Kubitschek (CERVO, 1994, p. 30). O governo Gaspar Dutra iniciou-se pela diretriz da bipolaridade, coincidindo com a crise de Berlim e com o acirramento das tensões entre as potências da Guerra Fria. O Partido Comunista foi proscrito e as manifestações nacionalistas de esquerda foram confundidas com as ideias subversivas de comunistas. A Escola Superior de Guerra foi o bastião dos cânones da defesa ocidental, contra o “perigo comunista” (SARAIVA, 2008, p. 208). O Brasil ocidentalizou a sua atuação externa e, em troca, aguardou recompensas pelo alinhamento em relação aos EUA. O governo do General Eurico Gaspar Dutra, inserido no desenvolvimentismo liberal associado, considerava a relação especial com os EUA nas questões políticas multilaterais, de segurança ou de doutrina ideológica. O Brasil, todavia, tornou-se ator secundário na estratégia de segurança norte-americana, no quadro da rivalidade bipolar da Guerra Fria (DORATIOTO, 2006, p. 46). Havia, contudo, respeito das potências mundiais em relação ao Brasil, evidenciado na I Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), em 1946, quando o impasse entre EUA e URSS fez o Brasil ser escolhido como o primeiro orador, “iniciando a tradição de ser sempre o primeiro país a abrir o debate geral” nesse órgão (GARCIA, 2005, p. 162). O respeito pelo Brasil também foi ilustrado pela escolha do brasileiro José Philadelpho de Barros Azevedo como um dos juízes da recém-criada Corte Internacional de Justiça (CIJ), em substituição à Corte Permanente de Justiça Internacional (CPJI). Na II Assembleia Geral, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, sob a presidência de Oswaldo Aranha, o plano de divisão da Palestina: decidiu-se pela criação de dois Estados, um judeu e um palestino, bem como pelo reconhecimento de Jerusalém com status especial (GARCIA, 2005, p. 165). Após a aprovação do Plano de Partilha, fixou-se data para o fim do mandato britânico na Palestina, abrindo caminho para a declaração de independência de Israel, em 14 de maio de 1948. Tal Plano e a declaração de independência foram rechaçados pelos países árabes, o que desencadeou o primeiro conflito entre árabes e israelenses na região. No ano seguinte, o Brasil reconheceu a independência do novo país, seguindo a posição norte-americana. O espaço de manobra brasileiro restringiu-se frente ao novo contexto internacional. Os chanceleres João Neves da Fontoura e Raul Fernandes contribuíram para a suposição de que o alinhamento aos EUA renderia frutos para o Brasil. Dessa forma, estabeleceu-se “como fim o que antes era o meio, o alinhamento” (CERVO, 1994, p. 34). O alinhamento político e ideológico brasileiro convergiu na Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança (1947) do continente, momento de nascimento do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). No mesmo ano, o governo brasileiro cassou o registro do Partido Comunista do Brasil e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética (DORATIOTO, 2006, p. 47). Na seara política, o Brasil seguiu os EUA e votou contra a China Popular na ONU. O representante brasileiro na ONU, Oswaldo Aranha, embora contrariado por achar que a China de Chang Kai-Chek era uma ficção diplomática norte- americana, votou contra os comunistas (CERVO, 2008), a favor do reconhecimento de Taiwan. O Brasil de Dutra apoiou as ações dos EUA na Coreia do Norte, inclusive a “Resolução Unidos pela Paz” (1950), na Assembleia Geral da ONU. Essa resolução permite intervenção coletiva, aprovada pela AGNU em casos de ameaça à paz e à segurança internacionais nas situações em que se verifique paralisia do Conselho de Segurança, via de regra, devido ao poder de veto conferido aos cinco membros permanentes. O governo do Brasil, todavia, não enviou tropas para o campo de batalha coreano. Na área econômica, o Brasil adotou a “diplomacia do liberalismo econômico”, a qual era pouco liberal na práxis, ressaltando o pragmatismo brasileiro em Conferências Interamericanas, como a de Bogotá (1948), na qual se assinou o Tratado Americano de Soluções Pacíficas (Pacto de Bogotá), e em Conferências Multilaterais, como a de Havana (1947-1948). Nesta, o Brasil sustentou a adoção de tratamento especial para as nações em desenvolvimento e a implementação de dispositivos que fomentassem a industrialização desses países (DORATIOTO, 2006, p. 47). Manteve-se, no entanto, a ilusão quanto à “relação especial” com os EUA como meio de obter ajuda para o desenvolvimento. Os únicos resultados concretos foram duas comissões bilaterais que visavam a debater os desafios econômicos brasileiros: i) a Comissão Técnica Brasil-Estados Unidos (1947-1948), chamada de Missão Abbink; e ii) a Comissão Mista Brasil Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico - CMBEU (1950-1953). Em ambas as Comissões, os representantes brasileiros solicitaram ajuda do governo dos EUA para projetos de cunho industrial, enquanto a potência capitalista enfatizava que a cooperação econômica bilateral deveria criar quadro favorável para o ingresso de capitais privados (DORATIOTO, 2006, p. 47). Além disso, convém salientar que os EUA vislumbravam, com a criação da Comissão Mista, apoio brasileiro na Guerra da Coreia. Vale ressaltar que Dutra percebeu que a ilusão do liberalismo econômico prejudicara o Balanço de Pagamentos do Brasil. Por isso, adotou medidas que foram seguidas pelo seu sucessor, Vargas: em 1947, implantou-se o sistema de controle de importações e, em 1949, o regime de câmbio com licença prévia. Essas medidas tiveram relevância para o processo de substituição de importações (CERVO, 1994, p. 35). No campo do planejamento econômico, o Plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia) também é desse período. Convém mencionar que a participação brasileira na já citada Conferência de Havana (1948), “pautada pela defesa de medidas especiais em favor do desenvolvimento dos países de economia jovem” (GARCIA, 2005, p. 165), mostrou que a perspectiva de inserção internacional do país não se coadunava com todas as posições estadunidenses, em especial no que tange à busca do desenvolvimento, mormente a partir de 1947. A criação, em 1948, da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), vinculada à ONU, expressa o descontentamento dos países latino-americanos, uma vez que os EUA enfatizavam a instrumentalização do Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES), na OEA, gerando prejuízos para a demanda dos países latino- americanos. A CEPAL, como veremos em maior detalhe em outro capítulo desta obra, teve papel fundamental nos processos regionais de desenvolvimento por meio da teoria da deterioração dos termos de troca, que pregava a adoção do processo de industrialização por substituição de importações (CERVO, 2008). O Brasil percebia paulatinamente que a relação especial com os EUA não rendia os frutos necessários para maior reciprocidade econômicae desenvolvimento (“alinhamento sem recompensa”). As reivindicações brasileiras para o desenvolvimento lograram influenciar, contudo, uma atitude norte-americana: Harry Truman, presidente norte-americano, iniciou o Ponto IV (1949), programa de assistência técnica a países periféricos, incluindo o Brasil entre os beneficiários da medida (GARCIA, 2005, p. 167). Recorde-se de que a Comissão Mista, conhecida como CMBEU, surgiu sob a égide do Ponto IV, e que, contudo, “se os dois países tinham óticas diferentes na maneira de encaminhar a cooperação econômica, nos aspectos político e militar houve completo alinhamento na gestão do Presidente Dutra” (CERVO, 2008). Em 1951, Getúlio Vargas voltou à Presidência da República e definiu a política externa de seu governo sobre dois pilares: i) a manutenção do alinhamento político e militar com o Ocidente; e ii) a simbiose que deveria ocorrer entre as relações econômicas externas e o desenvolvimento econômico nacional. Houve, de acordo com Vizentini (1999, p. 142), a ilusão brasileira de que conseguiria por meio de uma barganha nacionalista restabelecer aliança privilegiada com os EUA. Essa “barganha” consistia, de fato, em posicionar o Brasil ao lado dos interesses norte-americanos e, ao mesmo tempo, em evidenciar para o Governo de Washington a existência de forças internas no País que clamavam por adoção de medidas de cunho nacionalista e antiestrangeiro. A limitação dessas forças exigia do governante brasileiro apoio externo para contorná-las, a fim de garantir o atendimento dos interesses dos EUA no País e, por isso, deveria o Brasil ser “recompensado” por não ceder às forças nacionalistas que, no contexto da Guerra Fria, eram assimiladas ao “perigo comunista”. Essa “recompensa” deveria vir em forma de créditos subsidiados e doações para projetos de desenvolvimento do parque produtivo brasileiro. Como veremos adiante, a ilusão do Governo brasileiro quanto à capacidade de utilizar a política de barganhas como forma de alavancar o desenvolvimento nacional prosseguiu pelo governo Juscelino Kubitschek, embora a situação ao final da década de 1950 fosse bastante distinta daquela verificada nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial: o desenvolvimento econômico, a industrialização, a urbanização, o crescimento dos segmentos médios urbanos e a jovem classe média levaram o Governo brasileiro a ter que responder à maior participação popular na vida pública, “enquanto as contradições da sociedade brasileira constituíam um terreno fértil para os conflitos sociais” (VIZENTINI, 1999, p. 143). Exemplo da política de barganhas pode ser visto na atuação do chanceler João Neves da Fontoura, por ocasião da IV Reunião de Consultas dos Ministros das Relações Exteriores do Continente Americano (1951), na qual sustentou a necessidade da promoção do desenvolvimento econômico como meio de obstruir a penetração comunista (DORATIOTO, 2006, p. 48), antecipando-se à Operação Pan-Americana (OPA). O Brasil, mesmo pressionado pelos EUA, recusou-se a enviar tropas para a Coreia. Houve forte oposição interna ao alinhamento com os EUA, principalmente de nacionalistas e de militares. Estes também se opuseram veementemente ao Acordo de Cooperação Militar Brasil-EUA (1952), cuja execução se pautou basicamente pelo fornecimento às Forças Armadas brasileiras de equipamentos e de materiais usados pelas Forças Armadas norte- americanas, “sem vinculação com as reivindicações econômicas levantadas pelo lado brasileiro” (GARCIA, 2005, p. 170). Havia significativo influxo de capital direto privado norte-americano para o Brasil, que recebia cerca de 53% desse capital na América Latina. O mesmo não ocorria, todavia, com os fluxos capitais públicos (ajuda oficial para o desenvolvimento - AOD), previstos pela CMBEU. Naquele período, os EUA orientavam sua ajuda econômica para a recuperação dos países europeus, a fim de fazer frente ao inimigo comunista com o qual disputava zonas de influência no Velho Continente. Conforme sintetiza Amado Cervo (1994, p. 35), “tanto Truman quanto Eisenhower, este último de forma mais clara, não se dispunham a apoiar investimentos públicos e sim o combate ao comunismo na América Latina e no mundo”. Em 1953, os EUA extinguiram a CMBEU, a qual não chegou a realizar expressivo volume de projetos, ainda que tenha sido essa Comissão Mista responsável por estudos que levaram à criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e à definição de parte do conteúdo programático do Plano de Metas, implementado pelo governo Juscelino Kubitschek. Vargas tentou a aproximação com países periféricos, mas evitou a aproximação estreita com a Argentina de Perón, que defendia uma “terceira posição” entre a autonomia externa e o alinhamento em relação aos EUA (CERVO, 1994, p. 36). O Governo argentino, tendo como Presidente Domingos Perón, propôs novo Pacto ABC, o qual resgatava política de integração regional cogitada desde a época do Barão do Rio Branco. O projeto, contudo, não prosperou, conforme será estudado mais adiante nesta obra. Vargas sofreu forte oposição, que identificava o governo dele com o regime peronista e “o acusa de pretender estabelecer no Brasil uma ‘república sindicalista’ - havia suspeitas de que existia uma ‘aliança secreta’ entre os presidentes brasileiro e argentino” (GARCIA, 2005, p. 173). As forças nacionalistas e ocidentalistas no âmbito do Governo brasileiro chocavam-se e, de certa forma, culminaram no suicídio de Vargas, em 1954. De Dutra a Juscelino Kubitschek (1956-1961), a política externa brasileira almejou dos EUA e da Europa Ocidental os “recursos financeiros e técnicos para executar projetos de desenvolvimento” (DORATIOTO, 2006, p. 48). Nesse período, o Brasil desiludiu-se quanto à falta de ajuda governamental norte-americana para o desenvolvimento, sendo este definido em bases do nacional-desenvolvimentismo, que teve como um de seus principais resultados a criação da Petrobras. O governo Café Filho (1954-1955) representou a volta ao liberalismo econômico ortodoxo, desaparecendo a barganha nacionalista. A posição externa do Brasil coadunava-se com a Escola Superior de Guerra (ESG) e a sua ideia de segurança e desenvolvimento (VIZENTINI, 1999, p. 144). O Brasil enviou à Conferência de Bandung, como observador, o diplomata Adolpho Justo Bezerra de Menezes, que defendia reorientação afro-asiática da política externa brasileira (SARAIVA, 2008, p. 227). O governo Kubitschek (1956-1961) lançou o Plano de Metas, abrangendo cinco áreas: energia, transportes, alimentação, indústrias de base e educação. A meta síntese era a construção da nova capital, Brasília - uma promessa de campanha. “Em contraste com o que ocorrera com Vargas, o Plano de Metas estimulava investimentos privados nacionais e estrangeiros na indústria de base”, configurando o chamado desenvolvimento-associado (DORATIOTO, 2006, p. 49). Como meio de “reivindicar” a ajuda norte-americana ao desenvolvimento continental, Kubitschek lançou a Operação Pan-Americana (OPA), em 1958, que reativava, em novas bases, a barganha nacionalista brasileira. A OPA foi expressão de um movimento autônomo nas relações internacionais, cuja intensidade cresceu com a Política Externa Independente (PEI). A criação da Comunidade Econômica Europeia (CEE), a reeleição de Eisenhower, o descontentamento latino-americano em relação aos EUA e as pressões do FMI podem ser resumidas como as variáveis que deram base à concepção da OPA (VIZENTINI, 1999, p. 144). A política externa do Presidente Juscelino Kubitschek tornava a adesão ao pan-americanismo como meio de garantir o auxílio externo necessário ao desenvolvimento e ao atendimento das necessidades sociais, cujo agravamento poderia fazer aflorar a “ameaça comunista” no maior país da América Latina. A OPA seria apresentada, portanto, como instrumento para garantir a democracia no continente. Até a Revolução Cubana (1959), contudo, os EUA prosseguiram no propósito já evidente, desde a Presidência de Vargas, de limitar o auxílio externo ao Brasil à ofertade capitais privados, sendo a tão esperada ajuda ao desenvolvimento restrita ao auxílio técnico para a realização de políticas de planejamento econômico e para a elaboração de planos de crescimento. Dessa forma, a OPA produziu resultados indiretos, como a criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e, anos mais tarde, em 1961, já no Governo Jânio Quadros, resulta na Aliança para o Progresso. Essa Aliança, embora não inove no que tange à oferta de capitais para a região, torna claro, a partir de então, a tomada de consciência dos EUA acerca dos reais riscos à democracia capitalista na América Latina, tendo em conta a ascensão de Fidel Castro em Cuba (1959). Aspecto não menos importante de se ressaltar é o fato de que a OPA inseriu no pensamento e na linguagem diplomática brasileira os conceitos de centro-periferia, desenvolvimento desigual, deterioração dos termos de troca, entre outros, além de ter resultado na ação da diplomacia brasileira, que levou à criação do Comitê dos 21, no seio da OEA, para negociar com os EUA mecanismos para o desenvolvimento regional. A diplomacia do governo Kubitschek passou por percalços nas relações com os organismos internacionais, dada a necessidade de obter empréstimos externos para viabilizar o Plano de Metas. Essa necessidade punha em xeque a regularidade das contas públicas nacionais e tornava difícil o relacionamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o qual exigia medidas de austeridade econômica. As divergências com o FMI levaram o Brasil a romper com o organismo internacional em 1959 e recorrer à Europa para trazer recursos que possibilitassem os projetos de desenvolvimento (CERVO, 1994, p. 37). O governo de JK implementou mudanças sutis no conjunto da política externa, os quais permitiram ao Brasil dar início a contexto de relações mais diversificadas do que as verificadas nos governos anteriores. Exemplo dessa incipiente universalização da política externa pode ser identificada no restabelecimento das relações comerciais com a URSS (Missão comercial brasileira à URSS), com o propósito de aumentar a venda de produtos agrícolas para a potência comunista. Com a ascensão do Japão e o reerguimento da Europa Ocidental como polos de poder econômico, o Brasil conseguiu financiamentos para as indústrias automobilística, naval, entre outras. Em relação ao Mercado Comum Europeu (1957), o Brasil receava desvio de comércio em benefício dos membros e das ex-colônias europeias, o que prejudicaria ainda mais as exportações brasileiras, já afetadas pela queda dos preços internacionais dos produtos agrícolas na década de 1950 (CERVO, 1994, p. 37). No entanto, o fortalecimento econômico dos países do Mercado Comum levou ao aumento dos investimentos diretos europeus no sistema produtivo brasileiro, fato que levou o Brasil a estabelecer relações diplomáticas com a Comunidade Econômica Europeia (CEE). Em que pese as dificuldades de relacionamento com o FMI, há que se destacar que os EUA também incrementaram seus investimentos no Brasil durante a Presidência de JK, o que, consequentemente, tornou o movimento de capitais superavitário para o Brasil, de 1956 a 1959, “compensando as dificuldades da balança de comércio e a suspensão dos empréstimos e financiamentos oficiais externos” (CERVO, 1994, p. 38). Além disso, a visita do presidente norte-americano Eisenhower ao Brasil, em 1960, permitiu a retomada de negociações com o FMI, que, naquele ano, concedeu ao país empréstimo de quase US$ 50 milhões (CERVO, 2008). No plano das relações regionais, Brasil e Bolívia celebraram os Acordos do Roboré (1958), acerca da exploração do petróleo boliviano, ligações ferroviárias e intercâmbio econômico, embora tenha sido o tratado duramente criticado por parlamentares brasileiros, que acusaram o Poder Executivo de haver passado por cima do Congresso. Com o intuito também comercial, o Brasil aproximou-se dos países latino-americanos para formar a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (ALALC). No plano das relações com os países do chamado “Terceiro Mundo”, destacam-se avanços nas relações com Estados africanos e asiáticos. Quanto à África, a diretriz externa do governo Kubitschek pautou-se pelo alinhamento à política colonialista portuguesa no continente, tendo votado a ONU a favor da ex-metrópole em prol da luso afetividade (IGLÉSIAS, 1993, p. 273) - diferentemente do posicionamento em relação a outras potências colonialistas, o Brasil outorgava às colônias portuguesas o título de “possessões ultramarinas”, conforme o Tratado de Amizade e Consulta entre o Brasil e Portugal, firmado em 1953. Na crise de Suez, o Brasil participou da I Força de Emergência da ONU, que manteve tropas na região até 1967 (GARCIA, 2005, p. 176). O processo de descolonização africana ganhou ímpeto em 1960, com a independência de 16 países. Então, o Brasil acabou por apoiar “a Resolução da XV Assembleia Geral da ONU, a Declaração de Garantia de Independência dos Países Coloniais, reafirmando o princípio da autodeterminação dos povos” (GARCIA, 2005, p. 183). Na Ásia, a Operação Brasil-Ásia e a missão Hugo Gouthier resultaram no estabelecimento de relações diplomáticas com Vietnã do Sul, Tailândia, Malásia, Coreia do Sul, Ceilão e Sri Lanka. Em 1959, “o presidente da Indonésia, Sukarno, realizou visita oficial ao Brasil, a primeira de um chefe de Estado asiático ao país” (GARCIA, 2005, p. 180). No início da década de 1960, o Brasil flexibilizou o conceito de fronteiras ideológicas com a Política Externa Independente (PEI). O Presidente Jânio Quadros e o chanceler Afonso Arinos iniciaram a PEI, em 1961, mudando a posição brasileira frente ao colonialismo, aproximando comercialmente o país do bloco socialista, engajando negociações para o restabelecimento de relações diplomáticas com a URSS e negociando a dívida externa herdada do governo anterior (DORATIOTO, 2006, p. 50). Para Werneck da Silva (apud VIZENTINI, 1999, p. 145), a PEI foi a primeira oportunidade de horizontalizar (Sul-Sul) ou diagonalizar (Sul- Leste) a política externa, sem relegar a verticalização, consubstanciada no eixo Norte-Sul. Os princípios fundamentais da PEI eram: i) expandir o comércio com outros países, inclusive socialistas; ii) defesa do direito internacional; iii) autodeterminação dos povos e não intervenção; iv) defesa da paz, do desarmamento e da coexistência pacífica; v) apoio à descolonização. O alicerce dessa política encontrava-se nas necessidades do desenvolvimento brasileiro, guiando-se pela universalização da política externa e almejando autonomia frente aos EUA (VIZENTINI, 1999, p. 146). As iniciativas para estabelecer relações diplomático-comerciais com os países socialistas (vide Missão Dantas), a defesa da não ingerência em relação à Revolução Cubana, a maior aproximação e cooperação com a Argentina (Acordos de Uruguaiana) e a retórica nacionalista foram vistos com preocupação pelos EUA e pelas Forças Armadas brasileiras (VIZENTINI, 1999, p. 146). O chanceler Afonso Arinos visitou o Senegal no contexto das comemorações da independência desse país. O primeiro embaixador negro do Brasil, Raimundo de Souza Dantas, foi enviado para Acra, Gana. Novas embaixadas brasileiras foram abertas, em países como Senegal, Costa do Marfim, Nigéria e Etiópia. O presidente Jânio Quadros gostava de ressaltar que o Brasil era a ponte entre a África e o Ocidente (GARCIA, 2005, p. 184). A PEI ilustrou postura de condenação ao colonialismo, como provou posteriormente o discurso dos três D’s, mas, na prática, não votou favoravelmente à descolonização, na ONU (IGLÉSIAS, 1993, p. 280), devido à manutenção da postura de apoio a Portugal, como será visto adiante nesta obra. Pode-se afirmar que o Brasil também tentou ser uma ponte com a Europa do Leste, haja vista o restabelecimento de relações diplomáticas com a Hungria e a Romênia. A missão Dantas foi enviada aos países do Leste Europeu, inclusive à República Democrática Alemã (RDA), o que causou desagrado à República Federal Alemã (RFA), que reconhecia apenasuma Alemanha com base na Doutrina Hallstein. Outra missão foi à URSS. Legações foram criadas na Bulgária e na Albânia (GARCIA, 2005, p. 184). A autonomia e a independência da PEI ficaram patentes na declaração brasileira de “profunda apreensão” em relação ao ataque à Baía dos Porcos (Cuba), patrocinado pelos EUA (GARCIA, 2005, p. 184). Além disso, Quadros condecorou Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul (CERVO, 2008). Outro ponto importante na América Latina foi o Encontro de Uruguaiana (1961), entre Quadros e o presidente argentino Arturo Frondizi, quando foi assinado o Convênio de Amizade e Consulta entre ambos os países, “aberto à adesão de outros países do continente” (GARCIA, 2005, p. 185). Ainda no governo Quadros, os EUA lançaram a Aliança para o Progresso (1961) para a promoção do desenvolvimento latino-americano. De fato, a Revolução Cubana determinou mudança de política dos EUA em relação à América Latina (IGLÉSIAS, 1993, p. 281). O projeto previa investimentos de US$ 20 bilhões na região, mas teve poucos efeitos práticos, visto que a deterioração dos termos de troca, derivada das exportações de produtos primários, continuou a prejudicar as economias latino-americanas (DORATIOTO, 2006, p. 51). A respeito da reação norte-americana àquela Revolução e do respectivo combate à “ameaça comunista”, destaca-se, ainda, a instalação, no Panamá, da Escola das Américas, no mesmo ano da inauguração da Aliança. A Escola tinha por objetivo treinar militares dos países da região em métodos de combate antiguerrilha. Com a renúncia de Quadros, implantou-se o parlamentarismo no país. Assim, o Presidente João Goulart teve poderes esvaziados, principalmente pelo receio de setores conservadores em relação a ele. O Chanceler San Tiago Dantas moldou a PEI a partir de visão de um país emergente, baseando-se na universalização dos parceiros externos e na maximização do interesse nacional. “A nova política externa do Brasil deveria buscar o desenvolvimento econômico, a reforma social, novos mercados e considerar exclusivamente o interesse nacional” (DORATIOTO, 2006, p. 51). Segundo Iglésias (1993, p. 288), O ministro do Exterior, San Tiago Dantas, assumiu posições ousadas na ONU e na OEA, sobretudo na defesa de Cuba. Havia outros problemas ainda com os Estados Unidos, por causa da nacionalização de empresas norte-americanas, como Brizola fizera no Rio Grande do Sul. O próprio Goulart foi aos Estados Unidos negociar, mas não obteve resultados apreciáveis, pois aquele governo não acreditava nas suas intenções. Com o endividamento externo e a tendência inflacionária, agrava-se a situação do trabalhador urbano ou rural. Em 1961, por ocasião da VIII Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores Americanos, em Punta del Este, o Brasil restabeleceu relações diplomáticas com a URSS e absteve-se na votação a respeito da expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA). Os outer six (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Equador e México) defenderam o princípio da não intervenção. A posição brasileira sofreu oposição de setores conservadores na política interna. O Chanceler Santiago Dantas asseverou, como já mencionado, que a política externa deveria pautar-se “no desenvolvimento econômico, na reforma social, na busca de novos mercados e na ‘consideração exclusiva do interesse nacional’” (GARCIA, 2005, p. 186). Sustentou, ainda, que o Brasil não integrava blocos (neutralismo), pregava a autonomia e a independência, sem restrições ideológicas - pragmatismo (GARCIA, 2005, p. 187). Outro fator que desagradou aos conservadores foi a presença brasileira, como observador, da I Conferência dos Países não Alinhados, na Iugoslávia (1961). Além disso, o Brasil assinou um acordo de comércio com a China comunista (1962). O fim do parlamentarismo, em janeiro de 1963, levou o embaixador Araújo Castro à Chancelaria - o mesmo que proferiu o Discurso dos Três D’s na ONU. Manteve-se a política de abertura comercial aos países socialistas. O Brasil celebrou acordo comercial com a URSS para exportar commodities em troca de máquinas e equipamentos. Ademais, o Brasil contribuiu nas reuniões preparatórias da I Conferência de Comércio e Desenvolvimento das Nações Unidas, como meio de construir uma nova ordem econômica (DORATIOTO, 2006, p. 53). A polarização na política interna atrapalhou a política externa. A ação de grupos conservadores, erros do presidente e medidas nacionalistas resultaram em dicotomia que acabou por levar ao Golpe de 1964. O cenário internacional, com a questão cubana e a política externa beligerante de Lyndon Johnson - no Vietnã, na Indonésia e na Grécia -, contribuiu para a derrocada do governo (DORATIOTO, 2006, p. 53). Em última análise, o Golpe de 1964 foi triunfo da ordem internacional e das forças conservadoras. No Brasil, a Escola Superior de Guerra (ESG), o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, entre outros, colaboravam com instituições congêneres nos EUA, como o Council on Foreign Relations e com a própria CIA (CERVO, 1994, p. 41). A soma de forças opositoras logrou derrubar o governo Goulart. 2.2. Política Externa Brasileira de 1964-1985 O início do regime militar marca o abandono da PEI, “rompendo com ela, em prejuízo do multilateralismo” (DORATIOTO, 2006, p. 53). De fato, o governo do Marechal Castelo Branco alinhou o país ao Ocidente, restringindo a atuação externa às fronteiras ideológicas do mundo bipolar, na defesa do mundo livre e na atuação alicerçada nos círculos concêntricos, “a começar pelo sistema interamericano, liderado pelos EUA” (GARCIA, 2005, p. 192). A Escola Superior de Guerra (ESG) dava suporte à geopolítica defendida pelo país, tendo por base as ideias do então Coronel Golbery do Couto e Silva - autor de Geopolítica do Brasil -, que assumiu a direção do Serviço Nacional de Informação (SNI). Em troca do alinhamento em relação aos EUA, o Brasil esperava receber benefícios econômicos dos EUA em prol do desenvolvimento nacional. O segundo chanceler do governo Castelo Branco, Juracy Magalhães, chegou a afirmar que “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil” (VIZENTINI, 1999, p. 147), o que demonstra a retomada do alinhamento automático brasileiro frente às posições políticas norte-americanas. Visualizou-se nitidamente esse alinhamento na participação brasileira na Força Interamericana de Paz (FIP), na qual o Brasil liderou e enviou 1.100 homens, dando origem ao contingente chamado de Faibrás, sob a égide da OEA, para combater o que era visto como uma possível “cubanização” da República Dominicana. Castelo Branco chegou a sugerir que a FIP fosse uma força permanente, um mecanismo militar da OEA para resguardar a segurança coletiva do hemisfério (DORATIOTO, 2006, p. 53). Os pontos de atrito com os EUA remanescentes do início dos anos 1960 foram eliminados por meio do pagamento de indenizações às empresas norte-americanas nacionalizadas durante o governo Goulart, como a American & Foreign Power Company (AMFORP). O Brasil conseguiu, em contrapartida, linhas de financiamento da agência de cooperação internacional dos EUA (USAID) e do Banco Mundial que haviam sido interrompidas no governo Goulart (CERVO, 2008). Contudo, na política externa de Castelo Branco, nem tudo foi alinhamento em relação aos EUA, como atestam a recusa brasileira de enviar tropas para o Vietnã e a participação brasileira na I Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), na qual o representante brasileiro, Araújo Castro, “reafirmou a necessidade de reformas no comércio internacional” (GARCIA, 2005, p. 191). Em paralelo, criou-se o G-77 para coordenar posições de países em desenvolvimento em fóruns multilaterais, reivindicando, entre outros pontos, uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI). No escopo do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), o G-77 conseguiu a inclusão da Parte IV, sobre comércio e desenvolvimento (GARCIA, 2005, p. 191), em que se estipula que “As Partes Contratantesdesenvolvidas não esperam obter reciprocidade com relação aos compromissos assumidos em negociações comerciais destinadas a reduzir ou suprimir tarifas ou remover barreiras ao comércio das Partes Contratantes menos desenvolvidas” (art. XXXVI, 2, do GATT). A missão de Roberto Campos à URSS, em 1965, também exemplifica o realismo ocidentalista do governo brasileiro (CERVO; BUENO, 2008). Na América do Sul, Brasil e Paraguai concluíram a Ata das Cataratas (Ata de Iguaçu), em 1966, “relativa às pretensões territoriais recíprocas no Salto das Sete Quedas e ao aproveitamento comum dos recursos hidroelétricos do Rio Paraná”. Foi o início da diplomacia das cachoeiras no Prata (GARCIA, 2005, p. 194). Na Argentina, o Brasil reconheceu o golpe militar, a Revolución Argentina, do General Onganía. O binômio segurança-desenvolvimento dominou a agenda do governo Castelo Branco, sendo que o desenvolvimento era visto como uma variável dependente da segurança (CERVO; BUENO, 2008). Pode-se notar, então, que a segurança, compreendida como o combate ao comunismo, figurava em hierarquia superior nas prioridades governamentais. Na área do desarmamento e da não proliferação, o Brasil assinou o Tratado de Tlatelolco sobre proscrição das armas nucleares na América Latina e Caribe, “o primeiro tratado de criação de uma zona livre de armas nucleares em região densamente povoada” (GARCIA, 2005, p. 196). Estabeleceu-se, também, a Organização para a Proscrição de Armas Nucleares na região (Opanal), responsável pelo Tratado de Tlatelolco. Ressalta-se que esse Tratado não foi ratificado pelo Brasil de imediato. Após o governo Castelo Branco, de 1967 a 1989, a meta do desenvolvimento dilucida a hierarquia das prioridades entabuladas pela política externa brasileira no período: “universalismo político e geográfico, novo esquema de relações com os Estados Unidos [...], captação de recursos e abertura de mercado para produtos industrializados no Norte, penetração comercial e transição para cooperação econômica com o Leste” (CERVO, 1994, p. 42-43). Para substituir Castelo Branco, Costa e Silva foi o escolhido pelo Alto Comando Militar. O General Costa e Silva retomou o modelo econômico alicerçado no processo de substituição de importações. Retomaram-se diretrizes da PEI, refutando-se o alinhamento automático. Explicitava-se que a détente entre os EUA e a URSS incentivava o antagonismo Norte-Sul e, por isso, o Brasil definiu-se explicitamente como país do Terceiro Mundo, objetivando promover alianças com os países periféricos para combater as injustiças provenientes da hierarquia internacional. Esse foi o discurso brasileiro na II Unctad (1968), o que rendeu ao Brasil aplausos do recém-criado G-77 (VIZENTINI, 1999, p. 147). Nesse contexto, o Presidente Costa e Silva e o Chanceler Magalhães Pinto denominaram a política externa do governo “diplomacia da prosperidade”, denunciando a divisão internacional do trabalho desigual e hierárquica. (CERVO; BUENO, 2008). O Norte não poderia “congelar” a sua hegemonia em detrimento do Sul. Para o Brasil, o Tratado de não Proliferação Nuclear e o comércio internacional eram injustos e discriminatórios, perpetuando desigualdades sistêmicas. O governo Costa e Silva abandonou os conceitos de bipolaridade, interdependência, segurança coletiva e ocidentalismo. A política externa teve caráter supletivo, tornando-se estratégica para o comércio, o capital e as tecnologias. Não houve, todavia, ilusões quanto ao setor externo, visto que o Brasil desconfiava do mecanismo de perpetuação da hierarquia internacional via o congelamento do poder mundial (CERVO, 1994, p. 44). As relações com a Europa Ocidental e o Japão ganharam intensidade, simbolizada pela visita do presidente Costa e Silva a países europeus e ao Oriente (DORATIOTO, 2006, p. 55). No sistema interamericano, o Brasil incentivou a reunião extraordinária da Comissão Especial de Coordenação Latino-Americana (CECLA) com o objetivo de reforçar a unidade dos países latino-americanos. Dessa reunião derivou o “Consenso de Viña del Mar”, que continha reivindicações dos países para o desenvolvimento, que, expresso em um documento, foi entregue ao presidente norte-americano Nixon (GARCIA, 2005, p. 200). Na bacia do Prata, Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai celebraram o Tratado da Bacia do Prata, cujo objetivo maior é “promover a integração física da região platina por meio de programas concretos de cooperação” (GARCIA, 2005, p. 200). Para incentivar as relações comerciais com os países árabes, o Itamaraty estabeleceu a Comissão de Coordenação do Comércio com os Países Árabes (Coarabe). As relações do Brasil com a África, de 1964 a 1969, foram geralmente oscilantes se comparadas ao período da Política Externa Independente (PEI). Houve retrocesso, mas sem abandono da África. A ênfase nos elementos políticos e econômicos das relações com os africanos foram substituídas por perspectiva geopolítica, em consonância com os padrões liberais do governo Castelo Branco e com a preocupação da cúpula militar brasileira com a ameaça comunista (SARAIVA, 2010, p. 175). Sinais de reaproximação foram vistos no governo Costa e Silva, mas a reanimação do relacionamento bilateral foi tópico do governo Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). O governo do General Médici (1969-1974) atenuou a ênfase no terceiro- mundismo e na interdependência, priorizando as relações bilaterais, sem relegar o apoio aos países periféricos no contexto multilateral, no qual, inclusive, exerceu, por vezes, posição de liderança. Para o Presidente Médici e o Chanceler Gibson Barboza, a interdependência continha elementos ideológicos de estratificação do poder no sistema internacional. Explique-se, contudo, que o Brasil não abandonou os fóruns multilaterais. Pelo contrário, o Brasil respaldou as reivindicações do mundo periférico, mas agiu com realismo e enfatizou a cooperação bilateral (CERVO; BUENO, 2008). A Chancelaria de Gibson Barboza deixou legado de pragmatismo e de nacionalismo na atuação externa do Brasil: a) recusou-se a celebrar o Tratado de não Proliferação Nuclear; b) estabeleceu-se o mar territorial brasileiro em 200 milhas náuticas, mesmo sob protestos internacionais; c) fez frente ao Novo Diálogo de Kissinger com o pragmatismo das relações bilaterais para a concretização de interesses nacionais; d) abriram-se fronteiras na África para os produtos brasileiros, como prova a missão de Gibson Barboza ao continente (1972); e) manteve-se a equidistância no conflito Israel-Palestina; f) “não libertou o Brasil da hipoteca colonialista que representava seu apoio a Portugal, mas introduziu a polêmica sobre sua conveniência” (CERVO, 1994, p. 450). Ao realizar ajustes pontuais na política externa em relação ao seu antecessor, a “diplomacia do interesse nacional” gerou receio entre vizinhos latino-americanos, mormente pela declaração do presidente Nixon, “para onde for o Brasil, irá o resto da América Latina”, proferida durante visita oficial de Médici aos EUA, em 1971, em pleito pela cognição do Brasil como potência emergente. No plano multilateral, destaca-se o voto brasileiro contrário ao ingresso na ONU da República Popular da China no lugar de Taiwan, ainda que o posicionamento brasileiro não tenha evitado a entrada da China comunista no diretório dos P5 - países com assento permanente no Conselho de Segurança (GARCIA, 2005, p. 204). Na América do Sul, projetos de cooperação para o desenvolvimento energético eram prioridades e, nesse contexto, Brasil e Paraguai celebraram o Tratado de Itaipu (1973) para a construção de uma hidrelétrica no rio Paraná (GARCIA, 2005, p. 207). O apoio brasileiro a golpes militares na Bolívia e no Uruguai evidenciou uma diplomacia militar paralela com o intuito de resguardar e de alicerçar governos militares em países sul- americanos (GARCIA, 2005, p. 203). A coordenação de posições dos regimes militares do Cone Sul acabou por ser denominada Operação Condor. Havia, ainda, descontentamento de governos vizinhos acerca da postura de relativo“imperialismo” do Brasil em face de sua função de “satélite privilegiado” dos EUA (GARCIA, 2005, p. 204), embora, do ponto de vista nacional, a aproximação com Washington não rendera os frutos que se esperava, como, por exemplo, o insucesso de se obter tecnologia de produção de energia nuclear com apoio da empresa norte-americana Westinghouse. Com Portugal, o Brasil celebrou a Convenção sobre Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e Portugueses. Essa aproximação não obstou um turning point na política externa brasileira: a fronteira leste brasileira, a África, presenciou, no decorrer do governo Médici, a diminuição da posição brasileira “lusotropicalista” pró-Portugal no continente negro, mormente após o Primeiro Choque do Petróleo (1973). O périplo africano de Gibson Barboza (1972) a nove países da África Ocidental resguarda essa aproximação com os países ribeirinhos do outro lado do Atlântico Sul (GARCIA, 2005, p. 205-206). A maior atenção à África derivou da crescente complexidade sistêmica, que variava da polarização rígida da bipolaridade ao declínio relativo do poder norte-americano. As incertezas do sistema internacional demandaram mais flexibilidade e pragmatismo da diplomacia brasileira. Sendo assim, a África passou a ter relevância mais funcional e suplementar para a política externa brasileira, tanto para diversificar parceiros quanto para obter apoio para o diálogo Norte-Sul (SARAIVA, 2010, p. 177). O governo Médici rejeitou a divisão internacional do trabalho, prejudicial aos países em desenvolvimento, e aprofundou relações com países árabes, latino-americanos e africanos. Como meio de não comprometer o diálogo com o G-77 e com o Grupo dos não Alinhados, o Brasil ausentou-se do Conselho de Segurança da ONU, mas continuou a ser eleito para o Conselho Econômico e Social (Ecosoc), no qual podia desenvolver relações com os países periféricos (DORATIOTO, 2006, p. 55), mantendo política de autonomia pela distância, que duraria até a redemocratização. O embaixador brasileiro na ONU sustentou a necessidade de maior poder de decisão para o Brasil no sistema internacional, sob o argumento da tese do congelamento do poder mundial. O governo brasileiro recusava-se a vincular o país a acordos internacionais que compõem o regime internacional de direitos humanos. O Brasil não aderiu, por exemplo, à Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), inaugurada em 1969. Em 1966, o Brasil já havia se recusado a obrigar-se pelos Pactos de Direitos Civis e Políticos e de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), no escopo da ONU (CERVO; BUENO, 2008). A situação interna de desrespeito aos direitos humanos refletia-se claramente na atuação externa do país. Com a Europa, o Brasil assinou acordo comercial com a Comunidade Econômica Europeia (CEE). Seguindo resultado da Ostpolitik do governo Willy Brandt na República Federal Alemã, o Brasil estabeleceu relações diplomáticas com a vizinha Alemanha Oriental (RDA) (GARCIA, 2005, p. 208). O governo do General Ernesto Geisel retomou e aprofundou as diretrizes da PEI, apesar de adotar postura menos politizada e mais conservadora - não enfatizava as reformas sociais. “Tratava-se do apogeu da multilateralização e da mundialização da política externa brasileira” (VIZENTINI, 1999, p. 148). A política externa do período, chamada de “pragmatismo responsável e ecumênico”, seguiu concepção autonomista e desenvolvimentista. A ação externa brasileira pautou-se pelo relacionamento externo sem restrições ideológicas, aberto a todos os países, com “ênfase na promoção de interesses comerciais e na abertura de novos mercados” (GARCIA, 2005, p. 208). Ademais, sustentou, na ONU, uma Nova Ordem Econômica Internacional mais justa e igualitária, com transferência de tecnologia e ajuda econômica para a periferia (CERVO; BUENO, 2008). Sombra Saraiva (2008, p. 242-243) lembra que [...] nenhum país da América Latina teve, na década de 1970, um desempenho tão exemplar na busca de autonomia como o Brasil. O complexo e confuso reordenamento do sistema internacional exigiu uma ação declaradamente pragmática e flexível da política exterior do Brasil. O projeto do nacional-desenvolvimentismo correria riscos se não fosse bem entendido pelos formadores de opinião e tomadores de decisão na área externa. Araújo Castro, diplomata que tivera papel importante na formulação da política exterior no início dos anos 1960, afirmou que o Brasil era “chamado a viver” em um novo mundo, com regras próprias e inéditas. O pragmatismo nos anos 1970 não postulou a destruição dessas regras do jogo. Ele procurava alterar a posição relativa do Brasil na hierarquia dos poderes. Daí o Brasil ter representado, para o sistema internacional da época, um papel especial que levou vários especialistas a qualificar o país como “potência média” ou “poder ascendente”. O Brasil reconheceu, com base no princípio de uma só China, a República Popular da China, votou a favor de resolução da Assembleia Geral da ONU sobre sionismo como forma de racismo e mudou a política sobre o colonialismo: o reconhecimento de ex-colônias portuguesas, como Angola e Moçambique, ilustrou a superação dos laços lusoafetivos na África, sendo que o Brasil foi o primeiro país do ocidente a reconhecer a independência de Guiné Bissau e de Angola. O Brasil precisava diversificar os seus fornecedores de petróleo e encontrou na Nigéria e em Angola parceiros para superar a vulnerabilidade proveniente de restrições sistêmicas advindas do Choque do Petróleo de 1973 (SARAIVA, 2008, p. 177). Geisel adotou na política externa análise estrutural do país como meio de estabelecer objetivos de longo prazo. Segundo Amado Cervo (1994, p. 43): Foi necessário esperar por Ernesto Geisel (1974-79) para se assistir à tomada de decisões verdadeiramente autônomas em áreas vitais como as relações com os Estados Unidos (denúncia dos acordos militares), a aproximação com a Europa (acordo nuclear alemão), as desvinculações com a Guerra Fria (reatamento com a China continental), a desideologização da política externa (apoio aos regimes socialistas das ex- colônias portuguesas na África), a aproximação com o mundo árabe (voto antissionista na ONU e reconhecimento dos direitos do povo palestino). No plano econômico e técnico-científico, o governo do Brasil ensejou aprofundar relações com os países europeus e o Japão. O Brasil e a República Federal Alemã celebraram, em 1975, o Acordo Nuclear, que objetivava a instalação de oito centrais nucleares no Brasil até 1990, e que permitiria a transferência de tecnologia para enriquecimento de urânio pelo Brasil. Geisel visitou oficialmente a França e a Grã-Bretanha. A troca de visitas entre Geisel e o primeiro-ministro japonês resultou na criação da Albrás, para a produção de alumínio no Pará. Houve investimentos nipônicos na siderurgia, na agricultura e em outras áreas estratégicas, consubstanciados no Programa de Desenvolvimento do Cerrado e em outros projetos. Nesse cenário, a promoção comercial ganhou importância no Itamaraty (DORATIOTO, 2006, p. 56). Com os EUA, as críticas do presidente Jimmy Carter ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil e as pressões contra o Acordo Nuclear Brasil- RFA (1975) tiveram como resposta a denúncia pelo Brasil do Acordo Militar de 1952, finalizando a ideia da aliança especial ou aliança não escrita. Segundo Vargas Garcia (2005, p. 215), “a decisão reforça tendência à busca de maior autonomia estratégica para o país, amparada na expectativa de desenvolvimento de uma indústria bélica nacional”. A posição brasileira foi possível graças ao contexto internacional caracterizado pelas seguintes variáveis sistêmicas: i) a derrota dos EUA no Vietnã; ii) a entrada da China comunista na ONU; e iii) o fortalecimento econômico alemão e japonês (DORATIOTO, 2006, p. 57). Ampliou-se, assim, o poder de barganha de potências médias como o Brasil. Durante a visita do secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger (1976), firmou-se o memorando de Entendimentoentre o Brasil e os EUA para Consultas Mútuas. Posteriormente, Kissinger asseverou que o Brasil era um “país-chave no mundo ocidental”, segundo a doutrina dos key-countries (GARCIA, 2005, p. 213). Interessante notar que Geisel não foi aos EUA, conquanto tivesse sido convidado. Em 1977, o presidente dos EUA, Jimmy Carter, visitou o Brasil com o objetivo de resolver divergências bilaterais na área nuclear e de direitos humanos (GARCIA, 2005, p. 216). O Choque do Petróleo (1973) aumentou a dificuldade de se fomentar o desenvolvimento brasileiro mediante fontes externas de investimento, mas propiciou liquidez internacional para empréstimos, mesmo que a taxas variáveis, o que contribuiu para o aumento da dívida externa, a partir de 1979, devido ao aumento dos juros norte-americanos. Como meio de apoiar o desenvolvimento, o Brasil respaldou avanços no que tange ao Sistema Geral de Preferências e à adoção, no Gatt, da Cláusula de Habilitação, que permite a existência do Sistema Global de Preferências Comerciais (CERVO; BUENO, 2008). O Brasil do governo Geisel percebeu a falta de instrumentos de poder do Sul nas negociações com o Norte. Para atenuar a dependência estrutural com o exterior, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) encetou a independência por meio da produção interna de insumos básicos. Os recorrentes déficits na balança comercial eram supridos pela grande liquidez internacional proveniente do Choque do Petróleo de 1973 (CERVO, 1994, p. 48). A consequência foi o aumento substancial da dívida externa brasileira, herança maldita para os governos da década de 1980. Em contexto internacional de aumento do preço do petróleo, o Brasil não poderia abrir mão do projeto da usina de Itaipu, que possibilitaria maior produção de energia elétrica, mas, em contrapartida, rendeu divergências com a Argentina, a ponto de Brasil e Argentina fecharem suas fronteiras (1977) (CERVO; BUENO, 2008). Ainda durante o governo Geisel, iniciaram-se conversações tripartites (Argentina, Brasil e Paraguai) sobre o aproveitamento energético do rio Paraná em relação à “disputa causada pelos possíveis efeitos de Itaipu sobre as projetadas hidrelétricas argentinas de Corpus e Yaciretá” (GARCIA, 2005, p. 215). A rivalidade Brasil- Argentina no Prata contrapôs-se à cooperação na região Amazônica, por meio do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), iniciativa brasileira que pretendeu impulsionar a cooperação e o desenvolvimento de recursos na região, “salvaguardando a soberania dos Estados sobre seus territórios amazônicos” (GARCIA, 2005, p. 216). A ascensão do General João Figueiredo (1979-1985) ocorreu em período delicado, com o Segundo Choque do Petróleo (1979) e o aumento dos juros norte-americanos. A vulnerabilidade externa aumentou, e a crise do México (1982) foi a gota d’água para deflagrar a crise da dívida. A margem de manobra brasileira no sistema internacional foi comprometida, mesmo com ações de reafirmação da autonomia por meio da chamada “diplomacia do universalismo” (CERVO; BUENO, 2008). O Brasil rompeu relações com o governo de Somoza na Nicarágua, não aderiu ao embargo à URSS proposto pelos EUA pela invasão do Afeganistão, participou das Olimpíadas de Moscou (1980) e recusou a proposta dos EUA de criar a Organização do Tratado do Atlântico Sul (OTAS), projeto apoiado por Argentina e África do Sul. A invasão de Granada pelos EUA foi criticada pelo Brasil (DORATIOTO, 2006, p. 58). O Brasil manteve a posição de reconhecer os direitos argentinos nas Malvinas, adotada desde 1833. O Brasil não queria destruir, todavia, as relações com o país vizinho e não desejava dano às relações com os britânicos (DORATIOTO, 2006, p. 58). O apoio norte-americano aos britânicos na questão das Malvinas fez o Presidente Figueiredo encurtar a visita que fez aos EUA (1981), o que ilustrou forma de protesto. A “neutralidade imperfeita” do Brasil na guerra, segundo Moniz Bandeira, associou-se à condenação do país ao uso da força, mas o país reconheceu o direito soberano da Argentina sobre as ilhas e proibiu que aeronaves britânicas com destino às Malvinas utilizassem o território nacional. O Brasil representou os interesses argentinos na Grã- Bretanha até 1990. No relacionamento com os EUA, a visita do presidente norte-americano Ronald Reagan ao Brasil, em 1982, mostrou que as relações bilaterais não foram prejudicadas como um todo, como demonstra a assinatura do Memorando sobre Cooperação Industrial-Militar entre o Brasil e os EUA, de 1984, a qual relançou a cooperação militar bilateral, interrompida desde a denúncia do Acordo Militar Brasil-EUA, em 1977. Na área comercial, por outro lado, ocorreu ponto de fricção no relacionamento bilateral: os norte- americanos acusaram o Brasil de protecionismo, com a entrada em vigor da Lei de Informática brasileira (1984). Na região sul-americana, Argentina, Brasil e Paraguai firmaram, no Paraguai, o acordo tripartite sobre o aproveitamento hidrelétrico de Itaipu e Corpus, que pôs fim à lide concernente ao aproveitamento dos recursos hídricos do rio Paraná (GARCIA, 2005, p. 216). As visitas de Figueiredo ao Peru e ao Equador significaram o desejo brasileiro de aproximar-se dos países andinos, o que denotava continuação do processo iniciado com a assinatura do TCA (1978). Na região andina, o Brasil coordenou as negociações de paz entre Peru e Equador acerca de questão fronteiriça (GARCIA, 2005, p. 222). Na América Latina como um todo, a diplomacia brasileira preocupou-se com conflitos e com a possível “cubanização” de países, como o Suriname (CERVO; BUENO, 2008). Destaca-se que, a despeito de o Brasil ter reatado, ao longo dos anos 1970, relações com países de governo socialista, a exemplo da República Popular da China e de Angola, o relacionamento com Cuba somente seria reestabelecido após o final do regime militar. Tal fato deveu-se à alegada postura cubana de “exportar” os ideais revolucionários para a região latino-americana. Quanto à África, o Chanceler Saraiva Guerreiro visitou cinco países africanos, em 1980: Angola, Moçambique, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue (GARCIA, 2005, p. 220). Em 1983, Figueiredo realizou a primeira visita de um presidente brasileiro à África: Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau, Argélia e Nigéria (GARCIA, 2005, p. 227). Houve redução do comércio com a África do Sul devido à condenação brasileira ao apartheid (CERVO; BUENO, 2008). Segundo Sombra Saraiva (2010, p. 177), nas décadas de 1970 e 1980, The new objectives designed by Brazil towards Africa turned out to be better defined: a) to protect the image of a tropical industrial power and b) to convince African States that the liaisons established between Brazil and Portugal should not inhibit the development of an intense relationship with the now independent Black Africa. Nos governos Geisel e Figueiredo, a importância geopolítica e estratégica do Atlântico Sul continuou, porém com a conscientização de que a região era vital para o fornecimento do petróleo e para o comércio exterior brasileiro: mais de 90% dos bens brasileiros eram transportados, como hoje, pelo mar, mormente pela rota do Cabo da Boa Esperança, que circunda a África do Sul (SARAIVA, 2010, p. 177). O estreitamento com a China fortaleceu-se com Figueiredo para atingir uma densidade só comparável às relações entre Brasil e Alemanha, Japão e EUA. As etapas desse incremento de relações sucederam-se com realismo e determinação, coroadas pela visita oficial de Figueiredo à República Popular da China (CERVO; BUENO, 2008). Houve esforços hercúleos para o aumento das exportações, como as maxidesvalorizações cambiais no governo Figueiredo, e “afrontou-se o protecionismo do Norte e usou-se o terceiro-mundismo para penetrar o Sul” (CERVO, 1994, p. 49). A balança comercial da década de 1980 recuperou a tradição histórica que vinha, grosso modo, desde 1860: o Brasil teve o terceiro maior saldo comercial do mundo, só perdendo para o Japão e a Alemanha. Para fortalecer as relações comerciais com os latino-americanos, o Brasil apoiou o surgimentoda Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), a qual substituiu a ALALC, com a assinatura do Tratado de Montevidéu de 1980 (CERVO; BUENO, 2008). A ALADI abandonou as chamadas “listas comuns”, adotou a flexibilidade, não estipulou prazos definidos e permitiu acordos bilaterais e sub-regionais (GARCIA, 2005, p. 220). O arcabouço jurídico da Aladi seria fundamental para a posterior criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul). Nas negociações sobre a dívida externa, o Ministério da Fazenda e o Banco Central do Brasil conduziram as negociações em viés monetarista, o qual prevaleceu sobre o lado político do Itamaraty (CERVO, 1994, p. 49). O aumento dos juros internacionais pela moratória mexicana aprofundou a crise da dívida latino-americana, a partir de 1982 (GARCIA, 2005, p. 224). O próprio presidente Figueiredo em discurso na Assembleia Geral da ONU, em 1982, criticou as distorções do sistema financeiro internacional que prejudicavam os países em desenvolvimento. Na reunião do G-77, em 1983, Saraiva Guerreiro aproximou o Brasil da posição do Terceiro Mundo com discurso crítico contra a crise da dívida. O Brasil e outros países latino- americanos, no Consenso de Cartagena, celebrado na Colômbia (1984), declararam “necessária uma ação concertada na questão da dívida externa” (GARCIA, 2005, p. 228). A política externa dos governos militares, com exceção do hiato Castelo Branco, foi meio de alicerçar o desenvolvimento econômico e de se construir status de potência média, “representando o ponto alto de uma estratégia iniciada com Vargas, mas cujas origens mais remotas se encontram na ideologia tenentista” (VIZENTINI, 1999, p. 148). Como o Brasil precisava exportar seus produtos, inclusive manufaturados, e importar matérias-primas, mormente petróleo, a aproximação com a América Latina, o Oriente Médio e a Ásia foi crucial. A necessidade de importar máquinas, tecnologia e capital levou o Brasil a aprofundar relações com polos emergentes, como Japão e Europa, sem descuidar das relações com o campo socialista. Nesse contexto, o uso da política externa como propulsor do vetor desenvolvimentista e a reconfiguração da balança de poder internacional culminou na redefinição de relações com os EUA, “imprimindo maior autonomia à diplomacia brasileira frente ao ‘aliado privilegiado’” (VIZENTINI, 1999, p. 149). Paulatinamente, a horizontalidade Sul-Sul e a diagonalidade Sul-Leste foram convivendo com a verticalidade Norte-Sul, construindo-se, assim, o processo de multilateralização da política externa brasileira, estruturado na busca pelo desenvolvimento. 2.3. Política Externa Brasileira de 1985-2002 De 1930 a 1980, o Brasil se pautou pelo paradigma desenvolvimentista, focado no processo de industrialização por substituição de importações, o qual chegou ao limite, na década de 1980, por muitos fatores, como alto grau de protecionismo, baixa produtividade industrial, instabilidade monetária e estagnação econômica (CERVO, 2012, p. 37). Na década de 1990, os governos neoliberais, a começar pelo do Presidente Collor de Melo, desconstruíram o núcleo duro do desenvolvimento com a adoção de preceitos neoliberais presentes no chamado Consenso de Washington (1989). O Colégio Eleitoral elegeu, em 1985, Tancredo Neves para a presidência da República. Com a morte do presidente eleito, José Sarney assumiu o cargo. O Chanceler Olavo Setúbal, que iniciou o governo, defendeu uma “diplomacia para resultados” (GARCIA, 2005, p. 230), determinada a romper com o pragmatismo responsável e o universalismo, visto que Setúbal considerava o Brasil um país ocidental, que obteria mais resultados com uma nova aproximação em relação aos EUA (LAZAROU; FONSECA, 2013, p. 95). A política externa do período “teve que saber jogar com o período de transição (democrática) que caracterizava o país, e com momentos de instabilidade econômica e política” (LAZAROU; FONSECA, 2013, p. 94). No setor econômico, a crise da dívida assolou o desenvolvimento de países latino-americanos, como o Brasil, e foi agravada pelo aumento dos juros norte-americanos e pela crise mexicana. A visão de Setúbal pautava-se pelo contexto internacional: crise do socialismo (ascensão de Gorbachev na URSS) e dificuldades no Terceiro Mundo - na Reunião de Cúpula do G-7, em Cancun, abandonou-se o diálogo Norte-Sul (VIZENTINI, 1999, p. 150). O Itamaraty resistiu a essa retomada da política de Castelo Branco e, em 1986, Abreu Sodré substituiu Setúbal, sendo uma das primeiras medidas do novo chanceler o reatamento de relações diplomáticas com Cuba (CERVO; BUENO, 2008). O ponto de partida da explicitação dos interesses concretos brasileiros estava na “retomada do crescimento” e na redução da “vulnerabilidade externa nos campos financeiro, tecnológico e comercial”, segundo Setúbal. A democracia dava “legitimidade e autoridade moral” ao país, sendo que a redemocratização, de acordo com Seixas Corrêa (BARRETO, 2012, p. 25), fornecia a “linha inicial de atuação externa do governo”. Seixas Corrêa estatui, ainda, que os valores democráticos contribuíram para a superação da “desconfiança dos anos de preeminência militar, e, bem assim, desimpedir alguns canais de comunicação com o mundo desenvolvido” (BARRETO, 2012, p. 25). De fato, a adoção de preceitos democráticos foi crucial para o “diálogo com as chamadas democracias ocidentais” (BARRETO, 2012, p. 25). Segundo Fernando de Mello Barreto (2012, p. 24), o governo da redemocratização não trouxe modificações relevantes para a política externa do último governo militar, uma vez que Setúbal foi logo substituído por Abreu Sodré, o qual compartilhava das ideias provenientes da PEI e do pragmatismo responsável e ecumênico. O Chanceler Abreu Sodré seguiu os objetivos de inserção externa determinados pelo Presidente Sarney (BARRETO, 2012, p. 57), quais sejam: i) estabelecer uma ordem internacional mais justa e equitativa; ii) priorizar as relações com os países latino-americanos; iii) intensificar as relações com a África, sem se esquecer do problema do apartheid; iv) fomentar relações com as nações asiáticas; v) aperfeiçoar a cooperação com os países socialistas; vi) fortalecer as organizações multilaterais e regionais; e vii) aprimorar as relações com os EUA e outros países ocidentais. Para tanto, Sodré asseriu que aos sucessores de Rio Branco cabia ajustar o acumulado histórico da diplomacia brasileira a “uma conjuntura internacional também sempre em mudança” (BARRETO, 2012, p. 57). O chanceler brasileiro enfatizou “a necessidade de diversificação das relações externas, embora ainda se mantivessem algumas das linhas discursivas que marcaram o período de Guerra Fria” (LAZAROU; FONSECA, 2013, p. 95): o Brasil aproximou-se da Argentina - no início do que seria chamado de relações em eixo entre os dois maiores países sul- americanos -, da Europa, da União Soviética e de países afro-asiáticos. O “choque de interesses” com os EUA, devido a temas relacionados ao comércio e à dívida externa, foi epicentro para o Brasil explorar o “potencial de oportunidade e diversificação com os europeus” (LAZAROU; FONSECA, 2013, p. 95). Sodré declarou que o Brasil praticava o “entendimento igual, franco e aberto”, repudiando “as atitudes unilaterais de força e confrontação” e respeitando a “busca perseverante de soluções pacíficas e negociadas, apurada na sensibilidade para o prático e o possível nas relações entre as nações soberanas” (BARRETO, 2012, p. 57). Recorde-se de que o art. 4º da Constituição Federal de 1988 expressa o comprometimento brasileiro com a paz e com a solução pacífica de controvérsias. Em relação aos Estados Unidos, o governo herdou a pressão norte- americana na seara comercial, com retaliações respaldadas pelo American Trade Act (Seção 301), principalmente por desrespeito a patentes na área farmacêutica. A Lei de Informática (1984) também era criticada pelos EUA, os quais criaram restrições para a venda de equipamentos de alta tecnologia para que o Brasil pudesse desenvolver a indústria nacional. Mesmo assim, o Brasil produziaarmamentos de relativa sofisticação tecnológica, exportando para países do Oriente Médio, da África e da América Latina (DORATIOTO, 2006, p. 59). Em 1985, os EUA decidiram “investigar o setor de informática brasileiro” e ameaçaram “promover retaliações a propósito de direitos de propriedade intelectual, patentes de produtos farmacêuticos e ‘pirataria’ de software” (GARCIA, 2005, p. 230- 231). Na visita oficial que fez aos EUA, Sarney, em encontro com o presidente Reagan, defendeu a Lei de Informática como ato soberano e que não feria o sistema multilateral de comércio, consubstanciado no GATT (GARCIA, 2005, p. 233). Mesmo assim, os EUA anunciaram a aplicação de sanções comerciais contra o Brasil a partir de 1988 por causa da Lei de Informática, com base na Seção 301 do American Trade Act. O governo Sarney declarou moratória da dívida externa (1987), mas assinou, depois, acordos de intenções com o FMI. “O tratamento da questão da dívida externa, durante a administração Sarney, levou ao alheamento entre os governos brasileiro e norte-americano” (DORATIOTO, 2006, p. 60). Na Rodada Uruguai (1986-1993) do General Agreement on Tariffs And Trade (GATT), os EUA pressionaram o Brasil para aceitar as negociações em propriedade intelectual e investimentos: Brasil e Índia opunham-se a debater esses temas enquanto não fosse a pauta de liberalização do comércio de produtos primários discutida na organização e, nesse sentido, integraram o Grupo de Cairns, constituído por países exportadores agrícolas. No plano político, o Brasil voltou ao Conselho de Segurança (CSNU) da ONU depois de vinte anos, em 1988. A eleição do Brasil para ser membro não permanente do CSNU, 1988-1989, diferiu da prioridade antes atribuída ao Conselho Econômico e Social da ONU (CERVO; BUENO, 2008). A volta do Brasil ao CSNU insere-se no que o embaixador Gelson Fonseca Jr. chamou de “autonomia pela participação”, contrapondo-se aos vinte anos de adoção da denominada “autonomia pela distância”, recurso do governo brasileiro para evitar a exposição do país em relação às hipotecas nacionais, como direitos humanos e meio ambiente. Por certo, a redemocratização brasileira teve de enfrentar a ascensão de “novos temas” na agenda internacional, ligados aos direitos humanos, ao meio ambiente e à não proliferação, entre outros. A busca por maior participação levou o Brasil a reforçar os laços Sul-Sul, apoiando, por exemplo, a concepção do Sistema Global de Preferências Comerciais (SGPC), entre países em desenvolvimento (GARCIA, 2005, p. 236). Pelo SGPC, os países em desenvolvimento poderiam outorgar benefícios comerciais para outros países em desenvolvimento sem a necessidade de cumprir a Cláusula da Nação mais Favorecida do Gatt, ou seja, não haveria a necessidade de estender os benefícios concedidos a outros membros da atual Organização Mundial do Comércio (OMC). Sarney foi o primeiro presidente brasileiro a visitar a URSS, em 1988, assinando, na oportunidade, acordos comerciais e de cooperação científico- tecnológica, além da declaração de princípios da integração em prol da paz e da cooperação internacional. Com a República Popular da China, outro país comunista, a visita de Sarney (1988) propiciou a assinatura de dois acordos “para a construção em conjunto de satélites espaciais” por meio do programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellites), “destinado ao monitoramento de recursos terrestres” (GARCIA, 2005, p. 237). Em relação à África, ao Oriente Médio e à Ásia, a política externa foi similar à de Figueiredo. No Oriente Médio, o Brasil reconheceu a declaração de independência da Palestina, mas não o Estado palestino “proclamado em Argel” (GARCIA, 2005, p. 237). Com a África do Sul, o Brasil proibiu o intercâmbio cultural, artístico e desportivo, respeitando decisão do Conselho de Segurança da ONU (GARCIA, 2005, p. 230). Quanto à América Latina e o Caribe, a política centro-americana do Brasil foi proativa, apoiando-se o Grupo de Contadora e criticando-se a posição dos EUA na região (VIZENTINI, 1999, p. 151; GARCIA, 2005, p. 235). O Brasil mostrou autonomia em sua inserção internacional ao reatar relações diplomáticas com Cuba, rompidas desde a presidência de Castelo Branco, e ao criticar a intervenção norte-americana no Panamá. Especial atenção foi dada à Argentina, com a inauguração da Ponte Tancredo Neves, ligando ambos os países, e com a assinatura da Declaração de Iguaçu (1985) acerca da cooperação para fins pacíficos de energia nuclear, o que corrobora a cooperação na área nuclear como importante motor da aproximação bilateral (GARCIA, 2005, p. 231; DORATIOTO, 2006, p. 61). A Declaração de Iguaçu foi a responsável pelo lançamento da ideia de integração política e econômica do Cone Sul. A diplomacia presidencial de Sarney e Alfonsín resultou na Ata de Integração Brasileiro-Argentina, que materializou o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE). Lembre-se, ainda, de que se assinou o Protocolo de Cooperação Nuclear, que trouxe “os propósitos pacíficos da cooperação bilateral nessa área” (GARCIA, 2005, p. 232). Fato significativo foi o aviso antecipado à Argentina, por meio de missão do embaixador Rubens Ricupero, de que o Brasil já detinha a tecnologia de enriquecimento de urânio pela ultracentrifugação. Avançando no processo de integração Brasil-Argentina, firmou-se o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento (1988) entre ambos os países, “estabelecendo mecanismos para a criação de um espaço econômico comum no prazo máximo de dez anos” (GARCIA, 2005, p. 237). Passava- se a ter, no relacionamento Brasil-Argentina, “um acercamento sistemático e institucionalizado” (VIZENTINI, 1999, p. 151). Os dois países convidaram oficialmente o Uruguai para aderir ao processo de integração em curso. A aproximação Brasil-Argentina tinha como escopo a marginalização da América Latina da política internacional, a necessidade de adoção de políticas comuns ante os desafios internacionais, o anseio por complementaridade econômica, a implementação de “fluxos de desvio de comércio e um esforço conjunto no campo tecnológico (particularmente nuclear)” (VIZENTINI, 1999, p. 151). Na seara dos direitos humanos, o Brasil deu início a processo de adesão ao regime internacional de direitos humanos, com base na não seletividade e na prevalência da dignidade da pessoa humana. A assinatura brasileira da Convenção contra a Tortura da ONU (1985) retrata o início do pagamento de “hipotecas” ligadas aos “novos temas” globais, como direitos humanos, meio ambiente e desarmamento. No âmbito regional, na OEA, aprovou-se, com apoio brasileiro, a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (CERVO; BUENO, 2008). No plano multilateral, na Assembleia Geral da ONU, proposta brasileira resultou na Declaração da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), em 1986, com o intuito de “implementar, a longo prazo, um sistema de cooperação horizontal que assegure o uso pacífico do mar entre os Estados ribeirinhos”, de acordo com o interesse e as responsabilidades de todos esses Estados com o “hidroespaço atlântico” (GARCIA, 2005, p. 233). Ainda em 1986, o Brasil manifesta, na ONU, seu apoio ao plano de paz elaborado pelo Grupo de Contadora e, em agosto daquele ano, será criado o Grupo de Apoio à Contadora, composto por Brasil, Peru, Uruguai e Argentina. Em dezembro do mesmo ano, os oito países integrantes do Grupo de Contadora, somados ao Grupo de Apoio à Contadora, decidem criar um mecanismo permanente de concertação política, que passou a ser chamado de Grupo do Rio. Embora o processo de Contadora tenha sido comprometido pela negativa dos EUA em reduzir sua atuação na região, o mecanismo de concertação política nascido no final da Guerra Fria proporcionou a criação de instância regional de discussão e estabelecimento de posições comuns dos países do continente sul-americano. O Brasil se projetava como parceiro privilegiado da América Central. Na I Cúpula do Grupo do Rio (1987), assinou-se o Compromisso de Acapulco para a Paz,o Desenvolvimento e a Democracia. Pela primeira vez, chefes de Estado e de governo latino-americanos reuniram-se sem a presença dos EUA (GARCIA, 2005, p. 235). Na esfera do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), ocorreu, em Manaus (1989), a I Reunião de Presidentes dos Países Amazônicos, na qual foi anunciada a Declaração da Amazônia, fortalecendo os vínculos de cooperação para o desenvolvimento e reafirmando a soberania sobre a floresta (GARCIA, 2005, p. 239). Com os países de língua portuguesa, o Brasil reuniu, em São Luís do Maranhão, a I Cúpula dos Países Lusófonos, criando o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), cuja sede seria construída em Cabo Verde (GARCIA, 2005, p. 240). Em 1990, Fernando Collor de Mello ascendeu à presidência da República. O governo Collor foi fortemente influenciado pelo Consenso de Washington e pela iniciativa norte-americana de lançar a Iniciativa para as Américas, que pretendia criar uma zona de livre-comércio continental, projeto que fez parte do que seria chamado posteriormente de Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA), a qual nunca saiu do papel. O Brasil, assim, recorreu à mudança de postura, mormente a partir do governo Collor, optando pela chamada “autonomia pela participação”, novamente na feliz expressão de Gelson Fonseca Jr. Segundo este, as três principais hipotecas ligadas ao Brasil, as quais a diplomacia brasileira tratava de saldá-las desde o governo Sarney, vinculavam-se aos direitos humanos, ao meio ambiente e à não proliferação (XAVIER, 2012, p. 6) O sistema internacional não era o mesmo desde a queda do Muro de Berlim (1989). Modificações sistêmicas embasaram-se no neoliberalismo, nas regras do livre mercado, do Estado-mínimo e na superioridade do hard power dos EUA. A globalização passou a conviver com a formação de blocos econômicos, como o Mercosul, e com a assimetria entre o centro do capitalismo e a periferia, assentada agora em bases não ideológicas. Amado Cervo (2002) explica que a década de 1990 presenciou a coexistência de paradigmas distintos na política externa brasileira, a “dança dos paradigmas”. Devido a contingências internas e externas, como o impeachment do ex- Presidente Fernando Collor e as indefinições no plano internacional, a ação externa brasileira indicou “instabilidade de pensamento e de estratégia externa”, para o que concorreu a constante troca de ministros das relações exteriores de 1990 a 1995 - cinco ministros ocuparam a pasta das Relações Exteriores no período (CERVO, 2002, p. 5). Ainda para Amado Cervo (2002, p. 6-7), Em virtude de tais contingências, o Brasil imprimiu desde 1990 orientações confusas, até mesmo contraditórias, à política exterior. Identificamos três linhas de força da ação externa que definimos com auxílio do conceito de paradigma: o Estado desenvolvimentista, o Estado normal e o Estado logístico. [...] O Estado desenvolvimentista, de caraterísticas tradicionais, reforça o aspecto nacional e autônomo da política exterior. Trata-se do Estado empresário que arrasta a sociedade no caminho do desenvolvimento nacional mediante a superação de dependências econômicas estruturais e a autonomia de segurança. O Estado normal, invenção latino-americana dos anos noventa, foi assim denominado pelo expoente da comunidade epistêmica argentina, Domingo Cavallo, em 1991, quando era Ministro das Relações Exteriores do Governo de Menem. Aspiraram ser normais os governos latino-americanos que se instalaram em 1989-1990 na Argentina, Brasil, Peru, Venezuela, México e outros países menores. A experiência de mais de uma década revela que esse paradigma envolve três parâmetros de conduta: como Estado subserviente, submete-se às coerções do centro hegemônico do capitalismo; como Estado destrutivo, dissolve e aliena o núcleo central robusto da economia nacional e transfere renda ao exterior; como Estado regressivo, reserva para a nação as funções da infância social. O terceiro é o paradigma do Estado logístico que fortalece o núcleo nacional, transferindo à sociedade responsabilidades empreendedoras e ajudando-a a operar no exterior, por modo a equilibrar os benefícios da interdependência mediante um tipo de inserção madura no mundo globalizado. Torna-se fundamental salientar que o paradigma desenvolvimentista, que dominou a racionalidade da política exterior brasileira de 1930 a 1989, não desapareceu com a presidência de Fernando Collor, mas deixou de ser a rationale da inserção externa do país. O ex-Chanceler Celso Amorim afirma que o desenvolvimentismo esteve presente na atuação do Brasil nos fóruns multilaterais e regionais, como nas negociações da Rodada Uruguai do Gatt e na criação do Mercosul (CERVO, 2002, p. 7). O Brasil quis inserir-se no primeiro mundo, mas sem relegar o mundo em desenvolvimento, como expôs a participação brasileira na I Cúpula do Grupo dos 15, que visa “a promover maior cooperação Sul-Sul, atuando ainda como foro de consulta e coordenação política de grupo selecionado de países em desenvolvimento” (GARCIA, 2005, p. 241). Ao discursar no Instituto Rio Branco, em 1990, Collor declarou os “indicadores de uma nova era”: a “distensão entre os blocos bipolares de poder, a derrubada do muro de Berlim, a recuperação da vontade popular no Leste Europeu, o recuo de crises regionais, o início do desmantelamento do regime de apartheid na África do Sul”. Nesse contexto, o Brasil precisava ter “participação mais ativa” nas grandes conferências internacionais. O Presidente da República queria privilegiar a integração na América Latina, sem se esquecer da dimensão universalista da política externa (BARRETO, 2012, p. 130). Nesse sentido, na década de 1990, fortaleceram-se os blocos econômicos, com o surgimento de importantes processos de integração regional, como o Mercosul. Outra característica residiu na maior institucionalização de relações políticas e econômicas, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o G-20 financeiro, o que outorga maior “previsibilidade às ações dos atores internacionais” e reduz os chamados “custos de transação” no relacionamento entre esses atores. Acompanhando essa maior institucionalização está a jurisdicionalização, visando à “maior eficácia” dos regimes internacionais (XAVIER, 2012, p. 5). Francisco Rezek, que foi o primeiro ministro das Relações Exteriores de Collor, afirmou que o Brasil seria “um país vocacionado para posições de equilíbrio” (BARRETO, 2012, p. 131). Para o segundo ministro das relações exteriores do governo Collor, Celso Lafer, a “associação positiva entre a democracia no plano interno e uma visão de mundo traduz-se num internacionalismo de vocação pacífica, guiado pelos princípios da coexistência e da cooperação”. A diplomacia seria “reflexo de diálogo e de negociação que reflete externamente a convivência democrática no plano interno” (BARRETO, 2012a, p. 197). Sendo assim, a diplomacia deveria “traduzir as necessidades internas em possibilidades externas” (BARRETO, 2012, p. 198). Os governos neoliberais dos presidentes Collor e Menem não significaram retrocesso na integração. Pelo contrário, Brasil e Argentina decidiram estabelecer um mercado comum bilateral até 31 de dezembro de 1994, por meio da Ata de Buenos Aires (1990). Firmou-se, também, o Tratado para Estabelecimento de um Estatuto das Empresas Binacionais Brasileiro- Argentinas. Os dois países utilizaram o arcabouço jurídico da ALADI para materializar o Acordo de Complementação Econômica n. 14 (ACE-14), concernente à liberalização do comércio bilateral (GARCIA, 2005, p. 241). Em 1991, Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai subscreveram o Tratado de Assunção, constituindo o Mercosul. O acordo englobou tratados anteriores firmados por Brasil e Argentina, formando a seguinte estrutura institucional: o Conselho do Mercado Comum (CMC) e o Grupo Mercado Comum (GMC), que coordenava dez subgrupos de trabalho. No mesmo ano, os países do Mercosul e os EUA celebraram o chamado Acordo do Jardim das Rosas (Acordo 4+1), relativo a comércio e a investimentos (GARCIA,2005, p. 243-244). Em 1992, o Mercosul aprovou o Cronograma de Las Leñas, estabelecendo prazos para a execução dos compromissos inscritos no Tratado de Assunção. Em diversos momentos ao longo da década de 1990, as posições externas do Brasil foram convergentes com as dos Estados Unidos. O governo brasileiro condenou a invasão do Kuwait pelo Iraque, aceitou dialogar sobre os “novos temas” na Rodada do Uruguai (GATT), aprovou o fim da reserva de mercado para os produtos de informática brasileiros. O Brasil continuou a negociar, também, os novos temas da agenda internacional, resolvendo hipotecas importantes que prejudicavam a imagem do país no exterior. O Brasil, consequentemente, aderiu aos Pactos de Direitos Humanos da ONU, de 1966. Ademais, o Brasil hospedou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), no Rio de Janeiro (1992). A chamada ECO-92 aprovou a Declaração do Rio, a Agenda 21, a Convenção sobre Mudanças do Clima, a Convenção sobre Diversidade Biológica e a Declaração de Princípios sobre Florestas. A Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU estava responsável por acompanhar as decisões dessa Cúpula (GARCIA, 2005, p. 247), o que também seria feito por reuniões das partes signatárias dos acordos. O desenvolvimento era uma preocupação do governo brasileiro, pois, inspirando-se na Agenda para a Paz do Secretário-Geral da ONU, Boutros- Ghali, o Brasil sugeriu o lançamento da “Agenda para o Desenvolvimento” (GARCIA, 2005, p. 247). Na área de cooperação nuclear, Brasil e Argentina aproveitaram a I Cúpula Ibero-Americana (1991) para celebrarem o Acordo de Guadalajara, que estatui o uso de energia nuclear exclusivamente para fins pacíficos. Esse acordo criou a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC). Posteriormente, assinou-se o acordo quadripartite para a aplicação de salvaguardas nucleares entre o Brasil, a Argentina, a ABACC e a AIEA (GARCIA, 2005, p. 245). Além disso, Argentina, Brasil e Chile subscreveram o Compromisso de Mendoza, pelo qual esses três países abriam reciprocamente mão de armas químicas e biológicas. No governo Itamar Franco, houve preocupação com a integração regional, principalmente no que tange à Iniciativa Amazônica, na qual o Brasil propôs “a negociação de acordos de livre-comércio com outros países sul- americanos, em especial o Grupo Andino” (GARCIA, 2005, p. 248), tendo, ainda, dado origem à proposta da Área de Livre-Comércio Sul-Americana (ALCSA), em contraposição aos interesses econômicos regionais dos EUA, que pressionavam o continente a negociar uma “área de livre-comércio do Alasca à Terra do Fogo”, baseada no projeto da Alca. Ademais, o Brasil, eleito membro não permanente do CSNU (1993-1994), foi proativo “nas discussões sobre a ampliação do quadro permanente do CSNU” (GARCIA, 2005, p. 249). Ainda no escopo do desarmamento e da não proliferação, o terceiro encontro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas) aprovou a Declaração de Desnuclearização do Atlântico Sul. A Zopacas fora criada, em 1986, pela Resolução 41/11, da Assembleia Geral da ONU, por iniciativa brasileira. São quatro as áreas de ação dessa zona: meio ambiente, desnuclearização, economia e comércio. O Governo brasileiro ensejou participar dos regimes internacionais em várias áreas. O país, por exemplo, assinou a Convenção para a Proibição das Armas Químicas (CPAQ), pois a reputava como “abrangente, não discriminatória e verificável” (GARCIA, 2005, p. 249). O Brasil também participou da II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (1993), em Viena, que estatuiu a universalidade, a interdependência e a indivisibilidade dos direitos humanos, inclusive em nível global. No comércio internacional, o Brasil acabou por aderir às negociações multilaterais sobre comércio de serviços e sobre propriedade intelectual, o que permitiu ao país ser membro fundador da Organização Mundial do Comércio (OMC), instituída pelas negociações decorrentes da Rodada Uruguai (1986-1993). Por outro lado, o Brasil juntou-se ao G-77 para aceitar discussões sobre cláusulas trabalhistas somente na Organização Internacional do Trabalho (OIT) ou na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, atual Conselho de Direitos Humanos. Os países centrais exigiam a abertura dos mercados dos países mais pobres, mas recorriam com frequência a barreiras não tarifárias. Passou-se a resolver as pendências comerciais sob os auspícios do sistema de solução de controvérsias da OMC, em que o Brasil conseguiu vitórias importantes nos casos de “exportação de gasolina para os Estados Unidos, de coco para as Filipinas, de café solúvel para a Europa e dos subsídios canadenses à indústria aeronáutica” (CERVO, 2002, p. 18). O Ministro Celso Amorim expôs, na Sessão Ordinária de 1993, atualização do famoso discurso dos três D’s (Desarmamento, Desenvolvimento Econômico e Descolonização) para a atual práxis internacional do Brasil: o trinômio contemporâneo a embasar a agenda internacional do país seria formado pela democracia, pelo desenvolvimento e pelo desarmamento, com corolários nas áreas do meio ambiente, da segurança internacional e dos direitos humanos (FERREIRA; MARTINEZ, 2013, p. 147). A presidência de Fernando Henrique Cardoso tentou apresentar ao exterior um novo país, calcado na democracia e na estabilidade econômica. A política externa apostou na integração sul-americana e na valorização do Mercosul, bem como na “adoção das regras e dos regimes internacionais” e na “intensificação de relações com o Sul (especialmente no segundo mandato)” (LAZAROU; FONSECA, 2013, p. 99). O governo Fernando Henrique Cardoso denunciou a ausência do tema “desenvolvimento” nos fóruns multilaterais, como consequência do diálogo Norte-Sul. O Estado normal, todavia, deu a tônica das políticas públicas a partir de 1995, respaldando-se nas diretrizes do Consenso de Washington (1989), mas não deixou de coexistir com o paradigma logístico, principalmente a partir do segundo mandato de Fernando Henrique como Presidente da República: ao longo do governo, as privatizações foram controladas para que o empresariado local pudesse adaptar-se, e foram criadas grandes empresas de matrizes nacionais em setores estratégicos: mineração, siderurgia, indústria aeronáutica e espacial. Nesse contexto, forjou-se “o conceito de América do Sul como área de fortalecimento prévio das economias regionais sob a liderança brasileira” (CERVO, 2002, p. 9). A diplomacia presidencial contribuiu também para que o Brasil pleiteasse nos foros multilaterais e regionais insumos para o desenvolvimento. O Estado logístico brasileiro, consequentemente, deu contornos mais assertivos à política exterior, que procurou “o reforço da capacidade empresarial do país”, “a aplicação da ciência e da tecnologia assimiladas”, “mecanismos de proteção diante de capitais especulativos” e “uma política de defesa nacional” (CERVO, 2002, p. 10). A democracia e a estabilidade na economia beneficiaram a imagem do Brasil. O país tinha credenciais para atuar proativamente em temas da agenda global. A entrada em vigor de leis brasileiras sobre biossegurança (1995), patentes (1996), cultivares (1997) e sobre acesso aos recursos genéticos brasileiros estruturam o arcabouço jurídico nacional que reflete o maior comprometimento brasileiro com a temática relacionada ao meio ambiente. Esse arcabouço contribuiu para projetos de preservação do meio ambiente com ajuda de outros países e de organizações internacionais: o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PP-G7), por exemplo, conta com a participação do G-7, da União Europeia e do Banco Mundial (CERVO, 2002, p. 12). Quanto às patentes, Brasil e Índia lideraram pleito (2001), na Organização Mundial da Saúde, para licenciamento compulsório de medicamentos em situações graves de saúde pública, como a AIDS. No quadro dos direitos humanos, a política exterior do Brasil foi influenciada pelas conclusões da Conferência Mundial sobre DireitosHumanos, realizada em Viena (1993), na qual “a delegação brasileira presidiu o comitê plenário encarregado da redação da Declaração Final” (CERVO, 2002, p. 14). No governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil reconheceu a jurisdição obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos (1997). No plano doméstico, aprovou-se a moderna lei sobre refugiados. Criou-se a Secretaria de Direitos Humanos pelo governo federal (CERVO, 2002, p. 13), vinculada diretamente à Presidência da República. O Brasil refletiu para o plano interno as obrigações assumidas desde 1992, quando da adesão brasileira ao Pacto sobre Direitos Civis e Políticos (1966), ao Pacto sobre Direitos Sociais, Culturais e Econômicos (1966) e à Convenção sobre Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Na década de 1990, o Brasil corroborou o pacifismo expresso na Constituição de 1988 ao aderir a acordos multilaterais e regionais sobre desarmamento e não proliferação, como o Tratado de não Proliferação Nuclear (TNP), em 1998. No Cone Sul, Brasil e Argentina construíram mecanismos de confiança mútua a partir da constituição da já mencionada Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), em 1991. De acordo com Amado Cervo (2002, p. 15), Na segunda metade dos anos noventa, esse ambiente propício à construção da zona de paz no Cone Sul da América foi perturbado pela obstrução argentina à pretensão brasileira de ocupar um posto como membro permanente no Conselho de Segurança e por sua insistência em integrar a OTAN com explícita intenção de secundar a ação dos Estados Unidos na América do Sul. Repugnava à diplomacia brasileira aquela subserviência, como também as propostas norte-americanas de criar instituições regionais de segurança e de confinar as Forças Armadas dos países da América do Sul no combate ao narcotráfico. Desconfiou, por isso, do Plano Colômbia de assistência militar norte-americano ao combate às drogas e empenhou-se vivamente para chegar à solução diplomática do conflito de fronteira entre Equador e Peru. Nas tratativas sub-regionais, os resultados da integração do Cone Sul foram concretos. O comércio intrazonal mercosulino cresceu substancialmente: o regionalismo aberto culminou em desvio de comércio, “extremamente oportuno para economias incapazes de elevar-se à competitividade sistêmica global” (CERVO, 2002, p. 25). Além disso, o Protocolo de Ouro Preto (1994) expressou a personalidade jurídica do Mercosul, tornando-se sujeito de direito internacional. O processo de desenvolvimento desse bloco estimulou propostas vinculadas à unidade sul-americana, que tomaram forma na Cúpula de Brasília (2000), nas negociações entre Mercosul e Comunidade Andina e na liderança brasileira nas negociações da ALCA. Da Cúpula de Presidentes Sul-Americanos (2000), em Brasília, surgiu a ideia da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Sul-Americana (IIRSA), que alicerçou projetos de integração como os corredores rodoviários bioceânicos. No Mercosul, contudo, desafios não faltaram. Apegos à soberania atrapalharam negociações coletivas. Faltou coordenação de políticas macroeconômicas. Assimetrias impediram maior cooperação entre os membros (CERVO, 2000, p. 26). O presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) lançou o conceito de “globalização assimétrica” para contestar os rumos neoliberais que dominavam a América Latina. De fato, Amado Cervo (2012, p. 37) afirma que o Brasil foi o único país latino-americano a contestar os resultados da reforma neoliberal. Sendo assim, o governo FHC iniciou o paradigma logístico do Estado, que se define por duas variáveis: a) retoma a estratégia de desenvolvimento desenvolvimentista; e b) auxilia outros atores econômicos e sociais, para os quais transfere responsabilidade e poder (CERVO, 2012, p. 37). As portas abriram-se para a consolidação e o aprofundamento do paradigma logístico no governo Lula. 2.4. A inserção internacional do Brasil: de Collor a Dilma O fim da Guerra Fria deu início ao realinhamento de forças nas relações internacionais e ensejou uma nova ordem multipolar, na qual os grandes países em desenvolvimento apareceram como a maior mudança sistêmica, o que se tornou visível principalmente após a crise econômica de 2008. Essa mudança, contudo, não foi acompanhada da democratização das instituições multilaterais, fato que trouxe ao discurso diplomático brasileiro retórica de descontentamento com a arquitetura anacrônica dos regimes internacionais, sobretudo aqueles relativos aos temas de segurança, liberalização do comércio e financiamento externo. A época do governo Lula coincidiu com a transformação estrutural caracterizada pela ascensão do mundo emergente. A diplomacia pátria encetou processo de aproximação aprofundada com outros países emergentes, tanto em coalizões de geometria variável, quanto em parcerias estratégicas bilaterais, com o objetivo de alinhar posições e dialogar sobre mudanças estruturais que se coadunassem com a ascensão hierárquica baseada no novo perfil internacional desses países. Paralelamente, o contexto doméstico brasileiro - pautado pela consolidação da democracia, pela redução da pobreza, pela internacionalização de empresas brasileiras e pela estabilidade econômica - concorreu para reforçar o prestígio internacional do País. Houve certo continuísmo entre os governos FHC e Lula, exemplificado pela relevância do Mercosul e da integração sul-americana, pela substancialidade do multilateralismo e pelas relações cordiais com os países desenvolvidos. Houve, contudo, diferenças relativas entre esses dois governos. Essas diferenças relativas embasaram-se em três variáveis que pretenderam a “interdependência real da era da globalização” (CERVO, 2008, p. 56): 1) a substituição do multilateralismo utópico pelo multilateralismo de reciprocidade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento; 2) ações brasileiras para diminuir a dependência estrutural do país; 3) o uso da América do Sul como plataforma de concertação política e de diálogo, bem como de “expansão dos interesses estrangeiros no exterior”, como se comprovou empiricamente pela internacionalização de empresas brasileiras que atuam em diversas áreas, da construção civil (Odebrecht) à energia (Petrobras). Segundo Amado Cervo, a inserção internacional do Brasil, no século XXI, estreitou e enfatizou a aliança entre Estado e sociedade, denotando maior maturidade na atuação externa do país (CERVO, 2012, p. 36). A diplomacia brasileira age em conformidade com o princípio da reciprocidade de benefícios. Este almeja penetrar na ordem internacional, em questões variadas como segurança e comércio internacionais, com o intuito de “promover mais igualdade entre as nações”. Na verdade, a própria credibilidade internacional do Brasil, pautada pelo acumulado histórico da diplomacia nacional, deriva de princípios e de valores que direcionam a inserção internacional do país. Esses princípios e axiomas vinculam-se aos princípios inscritos no art. 4º da Carta Magna de 1988, entre eles, a defesa da paz, a não ingerência em assuntos internos de outros Estados e a autodeterminação dos povos. Ainda assim, o Pragmatismo não é preterido, pelo contrário, o Realismo convive com vertentes utópicas da política exterior do Brasil, agregando, grosso modo, de questões pragmáticas do comércio a ações filantrópicas de auxílio humanitário. Como o mundo não é uma ilha utópica idealizada por Thomas Morus, a práxis internacional do país não pode relegar o pragmatismo em face às contingências e aos constrangimentos do sistema internacional. De acordo com Mateus Fernandez Xavier (2012, p. 3), os atores internacionais, como Estados e organizações internacionais, relacionam-se com base nas “contingências existentes em cada momento histórico”, sendo essas constrições “os principais fatores que compõem as características do sistema internacional”. Os Estados, portanto, ainda necessitam da realpolitik para transporem as constrições inerentes à anarquia internacional - característicaoriunda da falta de um governo central em âmbito mundial que possa controlar as “paixões” dos Estados, isto é, da ausência de um Leviatã mundial. Tal realpolitik, no entanto, não deve ser confundida com aquela desenvolvida por Bismarck, chanceler alemão da segunda metade do século XIX, mas, sim, compreendida como a ação estatal que visa a alcançar resultados sem desrespeitar as normas emanadas dos regimes internacionais, mormente dos princípios basilares da convivência interestatal harmônica, insculpidos na Carta das Nações Unidas (art. 2º). As relações internacionais do Brasil seguem esses princípios e os mais diversos regimes internacionais, como se depreende do Acumulado Histórico da Diplomacia Brasileira, pautado pelos seguintes princípios: i) autodeterminação, não intervenção e solução pacífica de controvérsias; ii) jurisdicismo; iii) multilateralismo normativo; iv) ação externa cooperativa e não confrontacionista; v) parcerias estratégicas; vi) Realismo e Pragmatismo; vii) cordialidade oficial em relação aos vizinhos; viii) desenvolvimento como vetor; e ix) independência (XAVIER, 2012, p. 4). Esses princípios possuem duas funções básicas: a) criam maior previsibilidade à inserção do país, tanto para agentes domésticos, quanto para agentes externos; b) permitem que as ações externas brasileiras se pautem por política de Estado e não por mera política de governo. Nesse sentido, a solidariedade e o universalismo foram pressupostos fundamentais da política exterior do governo Lula. Desde então, o Estado brasileiro não tem sido indiferente às necessidades de países assolados pela pobreza, por conflitos armados e por desastres naturais. Essa não indiferença não contradiz o Pragmatismo da diplomacia nacional: no longo prazo, ações estruturadas no senso de humanidade favorecem não apenas a promoção do desenvolvimento - o que contribui para a paz e a prosperidade internacionais -, mas beneficia o Brasil política e economicamente. A relação dialética entre o interesse nacional e o exercício da solidariedade tem sido essencial para fundamentar ações de assistência humanitária. Doações a fundos de emergência administrados por organismos e agências internacionais (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Food and Agriculture Organization - FAO etc.) visam a promover ações de não indiferença junto aos países necessitados. O Brasil incentivou a cooperação Sul-Sul também pela cooperação internacional, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), com projetos de cooperação técnica na África, na América Latina, no Caribe e na Ásia. Marco dessa cooperação apresenta-se na África e no Haiti. Na África, o Estado brasileiro apoia o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Setor Algodoeiro dos países do grupo intitulado Cotton 4 (Benin, Burkina Faso, Chade e Mali), coordenado pela ABC e implementado pela Embrapa para desenvolver a agricultura algodoeira nesses países5. No Haiti, desde 2004, o Brasil chefia o componente militar da United Nations Mission in Haiti (Minustah), comprometendo-se com a estabilização do país caribenho depois de período de profunda instabilidade política. O Brasil desenvolve, paralelamente à Minustah, uma série de atividades voltadas para amenizar problemas relacionados à pobreza, à infraestrutura e ao desenvolvimento. Especialmente após o terremoto de 2010, o Brasil contribui de forma relevante para os esforços de reconstrução e para o desenvolvimento do Haiti nos âmbitos econômico, social e político-institucional6. Além da solidariedade, o universalismo teceu a rede de relações bilaterais, as quais foram expandidas. No que tange ao regionalismo, aqui entendido como faceta do universalismo e da autonomia da política exterior do Brasil, enfatizaram-se as relações econômicas e políticas mais estreitas para lograr a estabilidade e o crescimento. A integração regional fortalece o Brasil nas negociações globais. O Mercosul, assim, ganhou força relativa ao passar dos anos. A diplomacia brasileira, no entanto, tem atuado com flexibilidade e com tolerância frente a parceiros, como a Argentina, na seara comercial. O episódio conhecido como “guerra das geladeiras” (2004), que resultou na adoção do Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC) entre os dois países, mostra disposição do Brasil em ceder frente a dificuldades enfrentadas pela Argentina no que tange à capacidade da importação de eletrodomésticos produzidos no País. Para reduzir as assimetrias entre os países do bloco, estabeleceu-se, em 2005, o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) de modo a mitigar as disparidades socioeconômicas entre os membros do bloco, mormente após declarações do então governo uruguaio de que negociaria um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos. O FOCEM deve ser tido como instrumento prático de promoção do desenvolvimento produtivo com equidade social no Cone Sul americano por proporcionar fonte de financiamento com juros subsidiados, obtidos a partir de aportes financeiros entre os países do Mercosul que levam em conta a capacidade econômica de cada país e o tamanho de suas economias: Brasil e Argentina contribuem com a maior parte dos recursos, os quais destinam-se, majoritariamente ao Paraguai e ao Uruguai. Na América do Sul como um todo, a diplomacia presidencial de Lula foi substancial para o surgimento da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), em 2004, que propiciou a criação da União Sul-Americana de Nações (Unasul), a partir de 2008, durante Cúpula em Brasília. As comissões temáticas da Unasul, como a Comissão sobre o Problema Mundial das Drogas e a Comissão sobre Infraestrutura (Cosiplan), ilustram os objetivos organizacionais da Unasul em relação a desafios presentes na esfera sul-americana. A política externa do governo Lula adensou a construção das bases de uma comunidade política sul-americana que pudesse forjar uma identidade sub-regional, que facilitaria ainda mais a integração entre os vizinhos brasileiros. A ótica da integração sul-americana do governo Lula retoma, em maior ou menor medida, projetos e iniciativas de governos pretéritos, especificamente os de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso: o primeiro lançou a ideia de uma Área de Livre- Comércio Sul-Americana; e o segundo organizou a Primeira Cúpula de Presidentes Sul-Americanos (2000), primeira reunião de alto nível a ter a concepção de restringir o escopo para o subcontinente sul-americano. Nessa perspectiva, visualiza-se a continuidade da diplomacia brasileira, que, conquanto opere a política exterior com ênfases distintas, dependendo do governo, mantém as diretrizes básicas responsáveis pela inserção internacional do país. Em que pese a ênfase dada às relações no âmbito do Mercosul, a política externa brasileira não se relegou a segundo plano o relacionamento com os demais países da América Latina e do Caribe. Pelo contrário, as dimensões latino-americana e sul-americana coexistem no discurso e na ação diplomática brasileira, o que não significa hierarquização ou prevalência de uma dimensão sobre a outra. Em publicação do ano de 2010, ex-chanceler Celso Amorim aborda com propriedade a visão expressa: The consolidation of South America as a political actor is an important step toward the broader integration of Latin America and the Caribbean. In December 2008, President Lula convened a “multisummit” in Costa do Sauípe, in the state of Bahia. The gathering included a Mercosul Summit, a Unasul Summit, a Rio Group Summit, and, finally, a Summit of all 34 Latin American and Caribbean States - the first ever to take place in 200 hundred years of independent life of most countries. Indeed, the “CALC” (the acronym by which it became known) was the first occasion on which the Heads of State and Government of Latin America and Caribbean nations met without the sponsorship or tutelage of Europe or North America. Consolidating the integrationist drive, a second edition of CALC was organized in Cancun in February 2010. The most important decision taken in Mexico was to institute theLatin American and Caribbean Organisation- CELAC, in the Portuguese/Spanish acronym. Resumindo o exposto até aqui sobre a política externa do governo Lula, o seu principal objetivo foi encontrar lugar de destaque para o Brasil no sistema internacional. Para tanto, a diplomacia brasileira fomentou relações com potências regionais por meio da cooperação Sul-Sul e de agrupamentos políticos. O Presidente Lula guiou a política externa pelo pragmatismo e pela autonomia, bem como difundiu a percepção da capacidade brasileira para influenciar decisões globais. Sendo assim, a política externa brasileira apostou nas relações Sul-Sul e na integração regional, sem relegar os parceiros tradicionais do Brasil (LAZAROU; FONSECA, 2013, p. 102). Nas negociações sobre mudanças climáticas, o Brasil defendeu, como ainda defende, o princípio das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, que leva em consideração o histórico da poluição por parte dos países e reconhece o direito dos mais pobres ao desenvolvimento. Assim como o Brasil sustentou o estabelecimento do G-20 agrícola na seara do comércio internacional, o país juntou-se à China, à África do Sul e à Índia para formar o agrupamento BASIC, que almeja a convergência de posições, dentro do possível, e o diálogo entre os emergentes em temas ligados à mudança climática. Quanto ao desarmamento e à não proliferação, segundo Celso Amorim (2012, p. 220), Brazil has renewed her engagement with the struggle for the total elimination of nuclear weapons. Brazil chaired the 2005 Review Conference of the Nuclear Non-Proliferation Treaty and gave a strong push for the positive outcome of the 2010 Review Conference, which reaffirmed the “thirteen steps to disarmament”, adopted in 2000, but which had fallen into oblivion. These steps were based on the proposals made by the New Agenda Coalition, a group composed by developed and developing countries of different regions, committed to a world free of nuclear weapons. No que se refere à reforma da ONU, o governo Lula reforçou a primordialidade de se atualizar a organização, de forma a preservar sua legitimidade. O pleito brasileiro por um assento permanente no CSNU, por exemplo, figura em reivindicação histórica da diplomacia brasileira, defendida desde a época da Liga das Nações. Essa reivindicação levou mesmo a retirada do Brasil da Liga, em 1926, pois a busca de prestígio internacional do governo Arthur Bernardes não poderia aceitar a preterição brasileira e a obtenção de assento permanente pela Alemanha no Conselho da Liga. Voltando à ONU, esta reflete a realidade do pós-Segunda Guerra e precisa ser renovada para configurar a balança de poder contemporânea, a distribuição de poder em favor dos países emergentes. Por isso, o CSNU, principal órgão responsável pela manutenção da paz e da segurança internacionais, deve ter países emergentes de diferentes regiões entre os membros com assento permanente no órgão. Brasil e Índia juntaram-se à Alemanha e ao Japão para formar o G-4, que reivindica a inclusão de novos membros permanentes e não permanentes no CSNU. A reforma do CSNU não é tarefa fácil, todavia: a mudança precisa da aprovação de 2/3 dos membros da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) e dos P5, ou seja, dos cinco membros permanentes do CSNU. Mais uma vez, percebe-se que a ênfase do governo Lula em ponto específico da política externa, no caso a reivindicação por assento permanente no diretório da ONU, fundamenta-se na continuidade de ações pretéritas. Além do engajamento para a reforma do principal órgão a cuidar da manutenção da paz e da segurança internacionais, o Brasil uniu-se à Turquia em empreitada para solucionar a questão nuclear iraniana. Como resultado da intensa ação diplomática brasileira e turca, a Declaração de Teerã, de maio de 2010, estabeleceu os termos para a troca de urânio enriquecido iraniano por combustível nuclear para o Reator de Pesquisa de Teerã. A Declaração, contudo, foi rechaçada pelos Estados Unidos. Essa Declaração ilustra a participação ativa do Brasil nas principais questões da agenda internacional, o que condiz com a elevação do perfil internacional do país em contexto de multipolaridades indefinidas, segundo o ex- Chanceler Celso Lafer, em sistema internacional ainda estribado na concepção antiquada de que as antigas potências deveriam ditar as regras sistêmicas. A participação do Brasil e de outros emergentes em negociações e fóruns internacionais antes fechados a países desenvolvidos corrobora nova configuração de poder global em favor do mundo emergente. O Brasil do governo Lula, país amante do multilateralismo, perseguiu meios de tornar a ordem internacional mais benéfica e justa para os países em desenvolvimento (CERVO, 2012). A diplomacia brasileira, assim, predispôs-se a desenhar o adensamento da Cooperação Sul-Sul por intermédio das chamadas coalizões de geometria variável, associando o país a outros países emergentes. Nas negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), a diplomacia brasileira apoiou a criação do G-20 agrícola, com o objetivo de trazer efetivamente a dimensão do desenvolvimento por meio da maior abertura do mercado e do fim dos subsídios relacionados à agricultura por parte dos países desenvolvidos. No domínio do sistema financeiro internacional, o G-20 financeiro ganhou relevância ao tornar-se o principal fórum de coordenação macroeconômica. O G-20 financeiro substituiu o G-7 como principal fórum de coordenação e de concertação de posições relacionadas ao sistema financeiro global, como estipulado pela Cúpula de Pittsburgh (2009). Quanto ao BRICS e ao IBAS, Vizentini (2012, p. 28-29) afirma que At global level, Brazil has been trying to act like a member of BRICS (the giants Brazil, Russia, India, China and after South Africa, classified by Goldman-Sachs consultancy), providing content to the strategic partnership and promoting South-South Cooperation. Accused by the opposition of ideological initiative based on the experience of the Movement of Non- Aligned Countries in 1970, the actions are focus in common points, without the creation of an anti-hegemonic or anti-OCDE front. The first step was the constitution of IBAS or G-3, The India-Brazil-South Africa Trilateral Cooperation Forum, a South African initiative, not supported by FHC. The Foreign Ministers Celso Amorim, Yashwant Sinhá and Nkosazana Dlamini-Zuma announced that G-3 would seek to promote trilateral cooperation, mutual commercial liberalization and unification and strengthening of positions in multilateral fora. Negotiations will involve Mercosur, Southern African Customs Union and possibly, South Asian Association for Regional Cooperation (SAARC). The three countries expressed, equally, the desire of approaching Russia and China turning in G-5 (if that occurs, the Group would host almost half of the total world population and a considerable amount of total production, which may influence significantly the multilateral negotiations. Creation of G-3 was an important initiative, when the South countries need to act in order to protect their interests and to change important subjects of the current global agenda. It is a contribution for construction of a multipolar world system, without hegemonies and leaded by multilateral organizations. Ainda sob a perspectiva da cooperação Sul-Sul, a diplomacia pátria participou de mecanismos inter-regionais de cooperação e de diálogo, visando à aproximação da América do Sul com os países árabes e africanos. A Cúpula América do Sul-Países Árabes e a Cúpula América do Sul-África estão em consonância com uma realidade que se configura e que significa a ascensão paulatina do mundo em desenvolvimento no sistema internacional. O Ministério das Relações Exteriores (MRE, 2013) explicita que “por meio de fóruns de formatos diversos - inter-regionais e multilaterais -, os países em desenvolvimento procuram contribuir para uma reforma da estrutura do poder mundial e para o estabelecimento de uma ordem menos centralizada, maismultipolar e mais democrática”. Os dez anos de governo Lula reforçaram a posição política e econômica do Brasil como potência emergente, mesmo em meio à crise econômica internacional iniciada em 2008. Ao mesmo tempo, os índices sociais melhoraram exponencialmente, o que levou o ex-Presidente Lula a assegurar a vitória de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais de 2010. Paulo Vizentini (2012, p. 32-33) assere que Rousseff, apesar de alguns ajustes de estilo, mantém os principais aspectos da diplomacia de Lula. O Brasil, por exemplo, instrumentaliza o G-20 financeiro e o BRICS para lidar com crescente desequilíbrio entre a ordem econômica - cada vez mais multipolar - e a ordem político-militar, a qual continua tributária do hard power norte-americano e do anacronismo do CSNU. Segundo Pecequilo, a ascensão de Dilma Rousseff à Presidência do Brasil mudou o estilo da inserção internacional do país, mas sem modificar a sua essência (OPERA MUNDI 2013a). Pecequilo (2013, p. 86) assevera que os ajustes táticos provenientes da troca de governo não afetaram a “permanência da validação da presença global do Brasil” (PECEQUILO, 2013, p. 86). A política externa do governo Dilma estrutura-se, como a de seu antecessor, no combate à fome e à pobreza, nas parcerias Sul-Sul e, com parceiros tradicionais, nas alianças de geometria variável, como prova a relevância de ações no âmbito do BRICS (PECEQUILO, 2013, p. 86). O Brasil ocupa espaço no sistema internacional recorrendo ao soft power, com o peso da economia nacional, com a capacidade dos diplomatas brasileiros e com mecanismos sociais engendrados em sociedade multiétnica e multicultural. O Brasil, assim, é ator que consegue defender interesses de modo pragmático, porém sem se esquecer do acumulado de princípios e conceitos que perpassam o desenvolvimento da diplomacia nacional, em que o soft power sempre prevaleceu pela falta de recursos de poder do país. Em contexto internacional de “unipolaridade irreal”, mas de multipolaridade ainda indefinida, a diplomacia brasileira continua a demonstrar “busca de espaços novos regionais e globais”, em meio a alterações das posições relativas dos atores no tabuleiro da política internacional. Por isso, o Brasil constitui poder global com interesses regionais e responsabilidades internacionais, como disse Thomas Shannon, ex-Embaixador dos Estados Unidos no Brasil (PECEQUILO, 2013, p. 88). Logo no início do governo Dilma, a diplomacia brasileira votou favoravelmente no Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU para o envio de relator especial da organização para o Irã, o que ilustrou sutil mudança no padrão de votações do país no CDH. Contudo, é incorreto afirmarmos que, durante o governo Lula, a diplomacia nacional tenha negligenciado o princípio da não seletividade nas votações de condenação por violações de direitos humanos. De fato, a análise da política externa do governo Dilma até o momento revela que o País não alterou a orientação diplomática da não seletividade (OPERA MUNDI, 2013a), mas limitou-se a se abster na votação de resoluções que criticassem duramente supostas violações de Direitos Humanos em países não ocidentais, como, por exemplo, em novembro de 2011, por ocasião da votação de resolução sobre a questão dos direitos humanos no Irã. Acrescente-se, ainda, a abstenção brasileira na votação da Resolução 1973 do Conselho de Segurança sobre a questão Líbia, no contexto da Primavera Árabe. O governo brasileiro segue a tradição de contrapor-se a qualquer intervenção que vise a desestabilizar governos ou regimes políticos, com base no princípio da autodeterminação dos povos. Cristina Pecequilo percebe, no entanto, menor intensidade e baixo perfil da atual política externa, mas continuidades significativas, como ênfase na cooperação Sul-Sul (OPERA MUNDI, 2013a). O baixo perfil da política externa do governo Dilma contrasta com a ação externa “ativa e altiva” que caracterizou o governo Lula, expressão de Celso Amorim. Amado Cervo (2012) assevera que o governo Dilma continua, no geral, com o Estado logístico, herança do governo pretérito, e dá como exemplo as relações Brasil-EUA. No que tange ao conjunto do relacionamento Brasil-EUA, a diplomacia de Dilma Rousseff não logrou, durante seu primeiro mandato, avançar de forma substancial, com exceção de temas específicos, como, por exemplo, o aumento do número de estudantes brasileiros na América do Norte, no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras. Da visita do presidente norte- americano Barack Obama ao Brasil, em março de 2011, surgiu a ideia de se criar a Comissão Brasil-EUA para Relações Econômicas e Comerciais, com o intuito de promover a cooperação em áreas diversas, como energia e investimentos. A visita de Dilma aos EUA, em abril de 2012, revelou que o relacionamento bilateral continha claros limites à sua expansão. Na ocasião, a despeito de terem sido firmados acordos bilaterais (CERVO, 2012, p. 38), os dois países expressaram divergências quanto às intervenções da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) nos países da África e do Oriente Médio convusionados por revoltas políticas, além de terem sido evitados temas como a questão dos direitos humanos em Cuba, nos quais não se estima alcançar consenso em futuro próximo. É possível afirmar que, entre 2011 e 2014, o Brasil buscou a tática de “encapsular” as fricções com os EUA, recorrendo às palavras do embaixador Seixas Corrêa. Tanto é assim que as divergências bilaterais não impediram acordos em diversas áreas, como o já citado intercâmbio educacional no âmbito do “Ciência sem Fronteiras”, o reconhecimento da cachaça e do Bourbon como bebidas típicas dos respectivos países, a cooperação entre a Embraer e a Boeing. A partir de 2013, Brasil e Estados Unidos concentram-se no desafio de remover obstáculos comerciais e a promover oportunidades de ação de agentes não estatais (CERVO, 2012, p. 38). Em face das revelações de espionagem da mandatária brasileira por parte dos órgãos de inteligência norte-americana, a Visita de Estado que Dilma faria naquele ano a Washington foi cancelada, em meio ao completo esfriamento das iniciativas de aproximação política que vinham sendo realizadas pelo ex-Chanceler Antonio Patriota desde o início do governo Dilma Roussef. Deve-se, a partir deste ponto, estudar de forma mais enfática as três variáveis que fundamentam a análise da atual inserção internacional do Brasil: os instrumentos de integração, as coalizões de poder e as parcerias bilaterais. A formação dos blocos e a integração regional permanecem tendências presentes, mas sem a força da década de 1990. No atual relacionamento com os países da América do Sul, a política externa brasileira recorre aos processos integracionistas como meio de “establish or consolidate the cooperation and power network in the South, starting from South America and progressing to alliances with other regions in order to perform as a globalist country” (CERVO, 2012, p. 41). No subcontinente sul-americano, críticos afirmam que o Brasil e a Argentina se tornaram mais protecionistas, utilizando o Mercosul como uma fortaleza e não como uma ponte (THE ECONOMIST, 2012). O único acordo de livre-comércio celebrado pelo Mercosul fora da região, que está em vigor, é aquele com Israel. As negociações Mercosul-União Europeia, iniciadas em 1999, ainda não terminaram. Conquanto o comércio intraMercosul continue a crescer em termos absolutos, esse comércio representa fatia menor do total exportado pelos membros se comparado ao pico anual de 1997. A revista The Economist (2012) apresenta dois argumentos para essa fatia menor: i) o boom do comércio de commodities aumentou a venda dos países-membros do Mercosul para terceiros países; e ii) o Mercosul não evoluiu para um mercado comum. O bloco continua a ser uma união aduaneira imperfeita, com muitas perfurações na Tarifa Externa Comum (TEC). Os desafios na integração regional trazem um dilema para a inserção internacional do Brasil: equilibrar o projeto de desenvolvimento integracionistae regional do País com a reivindicação deste de ser uma potência emergente com alcance global. Enquanto os presidentes Fernando Henrique e Lula administraram esse equilíbrio, Dilma tende a privilegiar a construção de um poder global (CERVO, 2012, p. 41). Essa inflexão não relega a integração regional, mas reconhece a estratégia globalista como variável crucial para a inserção internacional do País. Isso se dá pela percepção de que as instâncias globais contribuem mais significativamente para alcançar os interesses nacionais e pelos desafios presentes pela ação de países sul-americanos. Dois instrumentos internacionais estão a serviço do propósito globalista: o multilateralismo da reciprocidade e a crescente internacionalização de empresas brasileiras, impulsionada pelo paradigma logístico. Alguns analistas reconhecem que, apesar da estratégia globalista do governo Dilma, o Mercosul foi fortalecido, como comprova a entrada da Venezuela como membro pleno ao bloco. A Unasul e o Mercosul permanecem como pilares da liderança regional brasileira e como “os arranjos de integração pelos quais o Brasil tem maiores interesses e nos quais procura atuar de forma mais decisiva”, asseverou Cristina Pecequilo (OPERA MUNDI, 2013a). No que tange à Unasul, o Brasil fomenta o Conselho de Defesa Sul-Americano, que serve de base de concertação política e diplomática para assuntos relacionados à defesa dos países sul- americanos. Em relação aos arranjos de geometria variável, o Brasil participa de alguns acrônimos, como o BRICS, o IBAS, o BASIC, o G-20 comercial e o G-4 (reforma do Conselho de Segurança da ONU) (XAVIER, 2012, p. 6), os quais serão analisados detalhadamente em capítulos específicos desta obra. O BRICS significa agrupamento político, iniciado em 2006, movido por dois objetivos: “facilitate and strengthen relationships between members and coordinate positions on international in the global sphere” (CERVO, 2012, p. 42). O primeiro objetivo sustenta a promoção de setores econômicos, enquanto o segundo se direciona para maior influência na ordem internacional. Segundo Cervo (2012, p. 44), a heterogeneidade do BRICS não é empecilho para promover a concertação e o diálogo entre emergentes, com importância ímpar para o Brasil. Justamente pelas diferenças de poder, o BRICS é importante para os interesses brasileiros: os recursos de poder dos países do BRICS são distintos, mas, quando integrados, possibilitam maior poder de barganha para a obtenção de interesses nacionais. O fato de China e Rússia serem membros do Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, reforça o pleito brasileiro por um assento permanente nesse órgão. O BRICS é instrumento que possibilita transpor a assimetria rumo à igualdade entre as nações. Esse agrupamento participa da mudança de rumos das estratégias de segurança internacional e da redistribuição de poder nas organizações responsáveis pela governança financeira global (CERVO, 2012, p. 44). Outra coalizão é o G-20 agrícola, criada, em 2003, por países em desenvolvimento durante a Conferência de Cancun da Organização Mundial do Comércio (OMC). A partir do G-20, o multilateralismo da reciprocidade passou a ser um conceito operacional na política exterior brasileira. A reciprocidade resulta de regras internacionais que beneficiam todos os países. O multilateralismo da reciprocidade baseia-se em duas hipóteses: i) necessidade de regras internacionais que favoreçam a igualdade entre os Estados, como consta da Carta de São Francisco (1945); e ii) o desenvolvimento conjunto dessas regras para evitar a supremacia de alguns países sobre outros (CERVO, 2012, p. 46-47). Com a influência do multilateralismo da reciprocidade, a política externa brasileira engloba cinco diferentes linhas de ação (CERVO, 2012, p. 48): i) o Brasil foi ator importante para a substituição do G-8 pelo G-20 financeiro no trato dos temas econômico-financeiros internacionais; ii) o Brasil tenta salvar o multilateralismo comercial frente à retomada do bilateralismo; iii) na área da segurança internacional, o Brasil, no âmbito do BRICS, busca substituir a estratégia intervencionista da OTAN pela estratégia de solução negociada, no escopo da “responsabilidade ao proteger”; iv) em termos de meio ambiente, a posição brasileira avança em direção à corresponsabilidade, evitando, ao mesmo tempo, ser tido como refratário à assunção de compromissos em prol do desenvolvimento econômico nacional, e assumir nível de obrigações incondizentes com as possbilidades do País e com as necessidades de seu parque industrial; v) nos direitos humanos, o país exige o respeito aos valores internacionais, descartando a lógica do “choque de civilizações” de Samuel Huntington. Percebe-se, portanto, que o multilateralismo da reciprocidade contribui para alterar a ordem internacional, tornando-a mais igualitária e justa. Além dos processos de integração e das coalizões de poder, existe um terceiro eixo da inserção internacional do Brasil: o bilateralismo, o qual ganha importância, inclusive por meio do soft power, como ressalta o portal Opera Mundi (2013b). A ascensão do Brasil como potência regional, sobretudo nos últimos dez anos, deve-se muito à sua expansão econômica, apontam especialistas. Mas não só a isso. Cristina Pecequilo ressalta a busca do país pela afirmação de uma presença internacional não só na América Latina, como também no continente africano. Segundo ela, seria uma forma de elevar seu poder. “Para isso, o Brasil tem como foco instrumentos de soft power, com perfil cooperativo, que se somam a essa reafirmação de liderança”, diz. Soft power, ou poder brando, é o tipo de influência exercida por um Estado especialmente por meios culturais ou ideológicos. As relações bilaterais e a interdependência possuem um limite claro, a autonomia. O Brasil prioriza a autonomia nas tomadas de decisão, inclusive frente aos hegemons, não apenas nas relações bilaterais, mas também na instrumentalização da integração e nas coalizões de geometria variável, o que contribui para aclarar a emergência internacional do País. No plano da inserção internacional, a projeção da economia brasileira no exterior se apoia na maturidade econômica e na capacidade de internacionalização das empresas nacionais, fatos que justificam o aumento dos investimentos brasileiros no exterior. A reorientação da inserção externa da economia brasileira para países emergentes, como a China, demonstra que a economia nacional ramifica-se não apenas para o entorno estratégico sul-americano. Por isso, a atuação internacional do Brasil recebe cada vez mais reconhecimento da comunidade internacional, o que se relaciona à elevação do perfil internacional do país como potência emergente. 3. Integração Regional na América do Sul: as origens do processo e a perspectiva contemporânea “Eu não quereria passar para a história sem haver demonstrado, pelo menos fidedignamente, que colocamos toda nossa vontade real, efetiva, leal e sincera para que esta união possa realizar-se no continente. Eu acredito que o ano 2000 nos surpreenderá unidos ou dominados.” (General Juan Domingo Perón, em discurso proferido no ano de 1953, diante de oficiais da Escola Nacional de Guerra ao referir-se à proposta argentina de reformulação do Tratado do ABC, firmado entre Argentina, Brasil e Chile.) A análise sobre a evolução dos mecanismos de integração regional desenvolvidos pelos Estados sul-americanos, desde inícios do século XX, revela a constante busca dos governos da região pelo desenvolvimento socioeconômico por meio da inserção nos ciclos dinâmicos da economia internacional. No presente, o regionalismo sul-americano é definido como estratégia de inserção internacional de economias que necessitam alcançar escalas produtivas e mercados consumidores como meio de otimizarem seu ingresso no concorrido comércio internacional. O passado dos países sul- americanos reserva-lhes trajetória por vezes conflituosa e competitiva, seja em termos comerciais, seja no âmbito da geopolítica, conquanto as tentativasde integrar o continente fossem, desde a primeira década do século passado, consideradas necessárias para livrar a região de estrita dependência das economias europeias e norte-americana. O histórico da região revela, assim, que, embora o atual estágio avançado das iniciativas de integração seja, em parte, fruto das variáveis do sistema internacional configurado a partir do final dos anos setenta, o esforço de concertação política entre países sul-americanos fez-se presente antes mesmo do advento da industrialização no continente, com a criação do Pacto ABC, já em 1915. Faz-se mister reconhecer, no entanto, que foi o desenvolvimento industrial das principais economias do continente que tornaram nítida a necessidade de integrar os mercados da região, fazendo com que as divergências geopolíticas dessem lugar à concertação política necessária à complementariedade comercial que traria prosperidade às economias em crescimento. Malgrado o recuo na articulação regional ocorrido nos anos dos governos militares, que perseguiram, em sua maioria, estratégias de desenvolvimento autocentrado, o século XX fez nascer entre os países sul-americanos uma sólida percepção de que a concertação política, aliada às iniciativas concretas de integração física, trariam aos Estados da região estabilidade institucional e desenvolvimento mútuo. As teses cepalinas e a ação diplomática coordenada nas negociações junto à Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) revelam importantes avanços na base teórica que viria explicar a iniciativa regionalista que renasce de forma pragmática diante das estruturas do sistema internacional dos anos 1980. Em síntese, da rivalidade geopolítica do início do século XX passou-se à concepção de uma ação política comum que desencadeará, a partir dos anos 1990, com o Mercosul, e a partir dos anos 2000, com iniciativas de âmbito regional não mais restritas ao Cone Sul, estruturas de concertação política e intercâmbio comercial essenciais para os países da região. Este capítulo, portanto, terá como objetivo realizar análise dos mecanismos de integração regional na América do Sul. Assim, primeiro realizaremos estudo sobre o histórico da integração na América do Sul, com especial ênfase no processo de aproximação política e comercial desenvolvido pelos países do Cone Sul. Nesta parte, serão privilegiadas as análises relativas ao processo de formação do Mercosul. Em seguida, buscaremos analisar o atual estágio de integração do Mercosul e seus principais desafios, bem como determinar os avanços alcançados em outras esferas da integração regional, tais como a Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), a União de Nações Sul-Americana de Nações (Unasul), o Conselho de Defesa Sul-Americano e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC). Ao final do capítulo, buscaremos analisar as perspectivas da integração regional na América do Sul no atual contexto da economia internacional, tendo em conta os desafios trazidos para o debate desde a crise financeira iniciada em 2008. 3.1. Da Geopolítica de Enfrentamento às Primeiras Iniciativas de Integração na América do Sul O cenário político da América do Sul no início dos anos 1900 revelava um continente fragmentado por múltiplas ameaças de intervenção armada. A política externa brasileira nesses anos, sob a influência da diplomacia de Rio Branco, objetivava reduzir o belicismo e a instabilidade institucional do Brasil, estimulando, dessa forma, os primeiros movimentos de concertação política da República. Ainda na gestão de Quintino Bocaiúva, o Brasil chegara à solução do litígio com a Argentina pelo território das Missões (Palmas). Embora o Tratado de Montevidéu, firmado em novembro de 1890, não fosse aprovado pela Câmara dos Deputados do Brasil, a Argentina aceitou a decisão arbitral do presidente norte-americano Grover Cleveland que, em 1895, determinou que o referido território deveria permanecer sob jurisdição brasileira. Os países sul-americanos iniciavam uma gradual reversão da situação que Moniz Bandeira (2003, p. 56) definia como “tabuleiro de xadrez” geopolítico. [...] a paz até então decorrera, em certa medida, das divergências generalizadas sobre limites, que antagonizavam entre si quase todos os países da região e, encadeando-se, inibiam as tentativas de tentar resolvê-las pelas armas. A América do Sul era como um tabuleiro de xadrez, em que não se podia movimentar qualquer peça contra outra, sem o risco de sofrer um ataque pela retaguarda, dada a cobertura com que quase todos os países contavam. Na primeira década do século XX, a influência das indústrias bélicas europeias contribuía para fomentar as rivalidades sul-americanas. Estaleiros ingleses, franceses e construtores de canhões alemães disputavam de forma acirrada as encomendas por novos armamentos, promovendo intensa corrida armamentista no continente americano. A influência europeia, no entanto, ocorria de forma arquitetada de modo a fazer com que Chile, Argentina e Brasil convivessem em constante rivalidade e, ao mesmo tempo, manipulava as ações dos Estados fazendo com que após cada compra de armamentos as partes chegassem a um relaxamento das tensões. O que as companhias europeias objetivavam, de fato, era fomentar uma ideologia belicista na região e, em seguida, evitar a guerra, garantindo, dessa forma, o pagamento das armas adquiridas. O Barão do Rio Branco, nos primeiros anos de sua gestão à frente do Itamaraty, percebera a engrenagem usada pelos europeus para estimular suas crescentes indústrias bélicas e logo concluíra que, para o Brasil, era importante investir na criação de um pacto com Argentina e Chile que assegurasse a estabilidade e soberania política dos Estados sul-americanos. Na Argentina, o presidente Julio Roca compartilhava da visão de Rio Branco, embora Estanislau Zeballos, ministro argentino dos Negócios Estrangeiros, estivesse comprometido em garantir a supremacia bélica portenha. Coube ao Barão provar sua diretriz estratégica exercitando um dos primeiros atos de concertação política do Brasil República ao condicionar o reconhecimento do governo independente do Panamá, em 1903, à anuência conjunta de chilenos e argentinos. De acordo com Moniz Bandeira (2003, p. 101): Também Rio Branco [...] percebia a conveniência de um entendimento com a Argentina e o Chile, e tanto isto é certo que, em fins de 1903, quando o Panamá se separou da Colômbia, por influência direta do presidente Theodore Roosevelt, Rio Branco lamentou o acontecimento e, embora não quisesse interferir, decidiu que só reconheceria a nova república de acordo com a Argentina e o Chile, pois as três primeiras nações da América do Sul, segundo ele, deveriam agir, simultaneamente, fortalecidas pela unidade de pontos de vista e de procedimento. A concertação política proposta pelo patrono da diplomacia brasileira deve ser entendida no âmbito do contexto internacional no qual inseria-se a América do Sul no início do século XX. Em 1901, Theodore Roosevelt fora eleito presidente dos EUA e, tendo como desafio superar a crise de produção norte-americana vivenciada na última década do século XIX, optou por consolidar o engajamento norte-americano na política internacional. Embora sejam nítidas as diferenças entre as políticas estadunidenses de inserção internacional, comparadas com as políticas colonialistas europeias, os EUA se preparavam naqueles anos para assumir a capacidade que dispunham de garantir posição de destaque na definição do sistema internacional. Por meio de ação política que objetivava retomar princípios inicialmente sustentados por James Monroe em 1823, Roosevelt propunha, na virada do século, garantir a América do Sul como área prioritária de interesse dos EUA, facultando-lhes a possibilidade de intervenções quando estas fossem necessárias à manutenção da estabilidade política e econômica do continente. Iniciava-se, assim, nova fase da política externa norte- americana, na qual a América Latina passavaa ser influenciada pelas diretrizes conhecidas por “Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe”. Segundo Cristina Pecequilo, O Corolário não trazia implícitas quaisquer reivindicações territoriais sobre a América Latina, mas assegurava aos Estados Unidos o direito de intervenção e interferência nos assuntos hemisféricos. [...] Para Roosevelt, a ação norte-americana no sistema deveria orientar-se segundo dois princípios básicos: a ordem e a estabilidade, dos quais derivavam temas correlatos que estabeleciam prioridades estratégicas e visões específicas de mundo. Entre as prioridades destacam-se a necessidade de não incentivar e de eliminar movimentos de caráter revolucionário (somente o caos resulta deste tipo de comportamento), a importância de policiar e conduzir a política dos demais Estados principalmente os da América Latina, para impedir a tendência diruptiva e, como crença, podemos arrolar a centralidade e a responsabilidade especial do papel norte-americano nesta tarefa. No que concerne à política externa brasileira, o pragmatismo de Rio Branco viu no apoio ao Corolário Roosevelt a possibilidade de evitar intransigências europeias nas negociações sobre fronteiras que pretendia finalizar. Ao reconhecer a preponderância dos EUA sobre a América Latina, o Brasil não passara a ser mero caudatário da postura estadunidense, embora o Itamaraty reconhecesse que o Corolário trazia estabilidade ao continente e permitia ao Brasil negociar mais facilmente as fronteiras com os vizinhos. Quanto aos demais países da região, estes observavam com receio o endosso brasileiro ao ideário norte-americano, sobretudo quando em 1904 o Brasil decidiu revitalizar sua esquadra e retomar o equilíbrio geopolítico sul-americano. A reação argentina, segundo a qual deveria haver uma hegemonia dual no continente, levara o embaixador portenho no Brasil, Ramón Cárcano, a procurar Rio Branco para propô-lo um pacto de contenção da corrida armamentista e de coordenação política e econômica que visasse garantir a estabilidade continental. Tal aproximação desagradara aos Estados Unidos que via a possibilidade de nascimento de protecionismo entre as maiores economias de sua zona de influência. Foram necessários, portanto, alguns anos até que, em 1914, a intervenção norte-americana no México, motivada pelo pretexto de interceptar armamentos alemães cedidos a revolucionários opostos ao governo pró- Estados Unidos, despertasse entre Argentina, Brasil e Chile a urgência de firmar instrumento jurídico que garantisse o comprometimento das principais economias latinas com a solução pacífica de controvérsias, rechaçando a ingerência externa de assuntos concernentes à política interna e à soberania de cada Estado. O Tratado para Facilitar a Solução Pacífica de Controvérsias Internacionais (conhecido como Pacto do ABC), firmado pelos chanceleres do Brasil, da Argentina e do Chile, em 1915, foi o primeiro instrumento internacional sul-americano concebido no contexto da influência norte-americana sobre o continente e motivado pela percepção dos países latinos de que por meio da minimização de rivalidades regionais podia-se conviver em situação de parceria em vez de submissão aos desígnios da nova potência mundial. Segundo Amado Cervo e Clodoaldo Bueno (2002, p. 195-196), Convém observar que a aproximação Argentina-Brasil-Chile, no termos em que Rio Branco concebia, não significava criar um contrapeso à influência norte-americana. O ABC seria para atuar de acordo com o governo de Washington, numa espécie de condomínio oligárquico de nações. Ressalta-se que o Pacto do ABC não chegou a ser “ratificado pelo Congresso brasileiro, por se acreditar que a solidariedade pan-americana não deveria dar lugar a acordos sub-regionais, que seriam malvistos pelos demais países do continente” (GARCIA, 2005, p. 125). Para as economias sul-americanas, a exportação de produtos primários dependia da demanda dos países do Norte - dentre os quais os EUA representava um dos maiores compradores -, sobretudo no que concerne ao café brasileiro, principal ícone da pauta de exportação nacional. A eclosão da Primeira Grande Guerra trouxe implicações econômicas que viriam a marcar a tradição agroexportadora dos países latinos, sobretudo o Brasil. Embora a análise do processo de industrialização da economia brasileira não faça parte do objeto de estudo deste livro, faz-se mister evidenciar que a modernização das economias latinas promoverá um redimensionamento das questões de política externa no continente, levando a integração regional para posição de relevância nos debates sobre estratégias de desenvolvimento a partir do final da década de 1940. 3.1.1. Origens do processo de integração do Cone Sul O processo de industrialização no continente sul-americano, empreendido com maior vigor no primeiro quartel do século XX, foi o insumo necessário para o nascimento das primeiras propostas de integração comercial da região. Tomando por base a economia brasileira, percebe-se que foi a partir da Primeira Grande Guerra que as indústrias passaram a influir consideravelmente na composição da produção nacional. Em meados da década de 1910, a forte recessão provocada pelo conflito europeu restringiu a capacidade brasileira de importar, haja vista que a exportação de café fora potencialmente abalada pela conjuntura internacional. Malgrado as políticas de proteção dos preços do café engendradas pelo Estado após a Convenção de Taubaté, em 1906, a monocultura exportadora que caracterizava a inserção brasileira no mercado internacional apresentava nítidos sinais de insustentabilidade. Ao mesmo tempo, a demanda interna por manufaturados aumentava em face da impossibilidade de importar, seja pela desvalorização cambial, seja pela própria paralisação momentânea da produção devido às hostilidades na Europa. Daí surgiu a base da industrialização substitutiva de importações a que se refere Caio Prado Jr. (1988, p. 261-262): A Grande Guerra de 1914-18 dará grande impulso à indústria brasileira. No primeiro senso posterior à guerra, realizado em 1920, os estabelecimentos industriais arrolados somarão 13.336, com 1.815.156 contos de capital e 275.512 operários. Destes estabelecimentos, 5.936 tinham sido fundados no quinquênio 1915-19, o que revela a grande influência da guerra. [...] Chegado a este ponto de desenvolvimento a indústria passara já a ocupar um lugar de grande relevo na economia do país. Uma boa parcela dos artigos manufaturados do seu consumo era de produção interna, dispensando assim importações correspondentes de artigos estrangeiros”. A maioria das empresas que iniciaram suas atividades no Brasil após 1914 eram subsidiárias de grandes corporações europeias e norte-americanas. De fato, a incipiente elite empresarial brasileira era ligada a agro-exportação do café e, a despeito de existirem imigrantes empreendedores como os Matarazzo, Crespi, Pereira Ignácio, entre outros, a parcela da população que detinha o capital beneficiava-se à época dos subsídios estatais à produção cafeeira e, com raras exceções, investiam na produção manufatureira. É importante ressaltar que a industrialização brasileira do início do século era majoritariamente composta por plantas de montagem e assimilação de peças importadas ou semibeneficiamento de matérias-primas (como os frigoríficos Swift, Armour etc.), visto que não havia indústria de base instalada no País, fato que só ocorreria cerca de trinta anos mais tarde7. O advento da industrialização, na década de 1940, gerou reflexão no pensamento político e acadêmico das principais economias da América Latina sobre as causas do subdesenvolvimento econômico regional, a necessidade em atrair investimentos produtivos externos e o papel a ser desempenhado pelo Estado na tarefa de promover a modernização das estruturas produtivas nacionais. 3.1.1.1. A Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) Criada pela Resolução 106 (art. IV) do Conselho Econômico e Social da ONU, no ano de 1948, a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) caracterizou-sepor ser um dos centros de maior reflexão e representatividade nas discussões sobre os rumos a serem tomados pelas Américas na busca pela inserção positiva no comércio internacional. Com sede na cidade de Santiago do Chile, a CEPAL tem por missão estudar os principais desafios econômicos e sociais da América Latina, subsidiando o secretariado da ONU e os países da região com índices econométricos, estatísticas e percepções sobre a conjuntura e as principais linhas de ação a serem adotadas pelos governos latinos como forma de promover atração de investimentos produtivos e gerar desenvolvimento econômico com equidade. As análises, estudos e reflexões nascidas no âmbito da CEPAL representam os primeiros diagnósticos traçados por um corpo analítico baseado nas condições históricas próprias da América Latina. O grande mérito do pensamento cepalino refere-se ao fato de que este possui caráter permanentemente evolutivo, sendo capaz de analisar a conjuntura contemporânea a partir da realidade própria dos países da região, em vez de importar conceitos e receitas concebidas em realidade muito distinta da “condição periférica” na qual se insere a América Latina. Quatro traços analíticos são verificáveis na maioria dos trabalhos da Comissão, ao longo dos seus quase setenta anos de existência: i) Enfoque histórico-estuturalista (em que o pivô central é a relação centro-periferia); ii) Preocupação com a inserção internacional do continente; iii) Grande relevância conferida às estruturas internas dos Estados, como perfil educacional da população e capacidade de atrair IDEs; e iv) Análise das reais possibilidades de ação dos Estados em face das situações impostas pelo sistema internacional. A CEPAL inaugurou, portanto, a reflexão do sistema internacional a partir do ponto de vista latino-americano, o que não significa, contudo, que não fossem consideradas ideias anglo-saxônicas derivadas, nos anos pós-Guerra Fria, das ideias keynesianas. Ao contrário, a Comissão buscava proporcionar um debate da teoria do desenvolvimento a partir das experiências vivenciadas pela periferia do sistema capitalista internacional, em exercício que contribuiria para aperfeiçoar o campo das ideias da economia mundial. Nos anos 1950, a ênfase na necessidade urgente que teriam os países latinos de industrializarem-se, proposta pela CEPAL, tinha por base o argumento de que o investimento na produção de bens primários perpetuaria a deterioração dos termos de intercâmbio (troca comercial), agravando o desequilíbrio na balança de pagamentos das já combalidas economias periféricas. A tendência potencial a essa deterioração encontrava-se no excesso de mão de obra camponesa nos países latinos, que combinada à inelasticidade de preços dos produtos agrícolas, inviabilizava o crescimento econômico necessário ao rompimento da miséria naqueles países. Desde o início dos trabalhos, a Comissão percebera que a industrialização como substituição de importações não reduzia a vulnerabilidade externa e tampouco solucionava desequilíbrios nas balanças de pagamentos dos países subdesenvolvidos. O modelo substitutivo amenizava a demanda por importados mas, por outro lado, apenas modificava a composição das importações, mantendo os países em desenvolvimento dependentes da produção exterior. Nascia, nessas análises, a percepção de que a ação estatal seria fundamental para o verdadeiro desenvolvimento da América Latina, afinal, o esforço de industrialização estaria limitado pelas seguintes condições estruturais: i) escassez de mão de obra qualificada, o que requeria vultosos investimentos em capacitação; ii) escassa poupança interna para alavancar investimentos em plantas industriais; iii) baixa complementação entre setores da produção, provocando dependência em importações; iv) incapacidade de importar maquinário sofisticado devido ao baixo valor das exportações agrícolas. A CEPAL verificara que todo esforço de desenvolvimento industrial, em face das condições estruturais dos Estados sul-americanos, requeria ação pragmática dos governos por meio de políticas orientadas ao financiamento da produção, atração e distribuição de investimentos diretos estrangeiros e planejamento da atividade produtiva por meio da mensuração dos índices macroeconômicos que permitiria direcionar com precisão os recursos estatais. Aliás, a Comissão foi a primeira entidade a sinalizar a necessidade urgente dos países latinos em possuir tais índices - haja vista que até o início dos anos 1960 havia enorme escassez destes dados - e promover a formação de quadros de funcionários em técnicas de planejamento macroeconômico. Como assinala Bielschowsky (1998, p.8), El autor principal de la parte conceptual de esos documentos sobre programación fue Celso Furtado. Se iniciaba entonces uma tradición que difundirían Jorge Ahumada, Pedro Vuscovic y otros economistas que a princípios de los años sesenta ayudaron Prebisch a crear, bajo la égide de la CEPAL, el Instituto Latinoamericano de Planificación Económica y Social (ILPES) y que tendrían um papel central en la influyente trayectoria de esa entidad en la formación de cuadros técnicos gubernamentales en toda América Latina. No Brasil, desde o final da Segunda Grande Guerra, foi sendo estruturado um pensamento econômico avesso à compreensão de que o subdesenvolvimento nacional é resultado da divisão internacional do trabalho. Tal corrente de pensamento propunha contestar os princípios do liberalismo econômico clássico com vistas a projetar o desenvolvimento a partir da ação estatal planejada na economia. Em 1953, os principais ícones desse pensamento, tais como Hélio Jaguaribe, Nelson Werneck Sodré e Guerreiro Ramos, entre outros, reuniram-se no Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP), formando a base teórica que originou o “Plano de Metas” executado por Juscelino Kubitscheck. Dois anos mais tarde, em 1955, a necessidade de planejamento estatal para o desenvolvimento brasileiro levou à criação do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) que, vinculado ao Ministério da Educação, tinha por objetivo analisar as diferentes realidades nacionais e diagnosticar linhas de ação estatal para pôr em marcha processos de desenvolvimento sustentado. O pensamento cepalino, ao enfatizar a importância do planejamento estatal nas economias latinas, tornou-se alvo de críticas por parte de autores adeptos da ortodoxia liberal. Chegara-se a afirmar que a CEPAL propunha modelo de crescimento nacional contrário à expansão do comércio exterior, crítica que, como veremos, demonstra-se equivocada uma vez que a Comissão foi uma dos maiores apoiadoras do processo de criação da Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (ALALC), em 1960. A CEPAL fora uma das principais bases teóricas que recomendaram aos Estados americanos promoverem o aumento e diversificação das exportações, seja por meio do alargamento de mercados regionais, que contribuíam para a gradual redução tarifária nos países da região, seja mediante o aumento da escala de produção. Malgrado os insucessos da ALALC, que serão examinados mais adiante nesta obra, por ora faz-se mister ressaltar que a Associação contribuiu para a liberalização do comércio latino com o restante do mundo pois em 1960, já no contexto das rodadas do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), a cláusula da nação mais favorecida tornava universal a redução tarifária alcançada dentro da área de livre-comércio. O estímulo da CEPAL ao aumento da inserção internacional dos países americanos esteve sempre vinculado à busca por práticas comerciais justas, que estabelecessem regras diferenciadas para o comércio entre países desenvolvidos (“centro”) e subdesenvolvidos (“periferia”). A participação ativa de Raúl Prebisch na proposição de ideias que levaram a ONU a criar a Conferência das Nações para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), em 1964, simboliza a preocupação da CEPAL com o crescimento da região e eleva ao debate internacional as “condições estruturais” que determinam linhas de açãoa serem adotadas pelos governos latinos em busca do crescimento sustentado. 3.1.1.2. Primeiros passos da integração comercial nas Américas: a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (ALALC) A corrente de pensamento político-econômico inaugurada pela CEPAL gerou como fruto o impulso integracionista além do eixo Argentina-Brasil- Chile que havia caracterizado as incipientes tentativas de integração do início do século. Sob a égide da Comissão, sete países americanos8 aderiram, em fevereiro de 1960, na cidade de Montevidéu, ao tratado de constituição de uma zona de livre-comércio que se propunha a promover liberalização tarifária, aumento do comércio intrarregional e alargamento da escala produtiva dos sócios, capacitando-os a interagir com maior eficiência produtiva nos fluxos do mercado internacional, em expansão no contexto pós-Segunda Grande Guerra. Tendo por base as “condições estruturais” citadas pela CEPAL, verifica-se que, por mais de quatro séculos, os países americanos tiveram base produtiva voltada para o comércio ultramarino, fator que tornou a infraestrutura de integração intracontinental praticamente inexistente. Nos países membros da ALALC, a escassez de recursos para investimento em setores produtivos de alta tecnologia tornava a integração uma ferramenta à disposição dos interesses das empresas multinacionais que investiam no continente, fazendo com que o esforço integracionista, em vez de contribuir para a maturação de indústrias nacionais, fosse fonte de perpetuação da estrita dependência dos investimentos estrangeiros. Havia, ainda, baixa complementariedade comercial entre os sócios, que permaneciam exportadores de matérias-primas e montadores de produtos pré-concebidos no exterior cuja produção tinha como meta abastecer os mercados internos. À luz das análises de Celso Furtado, é possível inferir que a ALALC possuía deficiências institucionais que justificam o malogro de seus objetivos iniciais. Segundo o autor, as economias produtivas baseadas no beneficiamento de matérias-primas (industrialização de base) são mais vulneráveis às diferenças de escala de produção. De acordo com Celso Furtado (1983, p. 233): Os mesmos fatores que provocam a concentração das indústrias dentro de um país levariam à sua concentração dentro de uma região formada por um grupo de países. [...] O segundo caso é o da integração de economias em graus distintos de industrialização. Nesse caso, a integração deverá permitir reunir às economias de aglomeração às de escala, favorecendo o país mais industrializado. É mesmo concebível, neste caso, que ocorra uma regressão da economia menos desenvolvida, como ocorreu no Sul da Itália na segunda metade do século passado, e no Nordeste do Brasil a partir de 1930. [...] Se as economias que se integram possuem capacidade ociosa em indústrias complementares, ou possuem capacidade ociosa em indústrias que competem com importações provenientes de terceiros realizadas por uma delas, os benefícios da integração serão imediatos e rápidos. Por outro lado, se o setor com capacidade ociosa de uma das economias compete com a indústria semiartesanal do outro país, temos o caso extremo da concentração total dos benefícios em um país e redução da renda real no outro. O planejamento da integração, mesmo que em níveis de baixa institucionalização, como nas zonas de livre-comércio, é, portanto, fator fundamental para o sucesso do bloco regional. No caso da ALALC, percebe-se que durante os anos 1960, as economias menores recorreram constantemente a mecanismos de salvaguarda para proteger determinados setores de suas economias. Embora a sucessão de governos militares que tenha sido instaurada na América Latina tivesse determinado políticas de desenvolvimento autocentrado, que por si só já inviabilizariam grandes avanços na área de livre-comércio, o fracasso da ALALC proporcionou certo amadurecimento das teorias de integração, resultando na busca por mecanismos regionais que tivessem por base a promoção do crescimento com equidade entre seus membros. Conforme demonstrado no Gráfico 1, a acentuada diferença entre os níveis de exportação dos países da ALALC se dá majoritariamente entre os Estados andinos e os países do Cone Sul americano, mais especificamente, Brasil, Chile e Argentina9. Gráfico 1. Valor total de exportações - países membros ALALC. Fonte: UNCTAD. Handbook of International Trade and Development Statistics. Nova Iorque/Genebra: UNCTAD, 1995. Nesse contexto, sete anos após a criação da ALALC, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela10 iniciaram articulação política voltada a estabelecer mecanismo conjunto de atração de investimentos e chegaram a esboçar programas sub-regionais de industrialização. Tais mecanismos deram origem ao Acordo de Cartagena, em 1969, que viria a ser denominado Pacto Andino. Em face da ALALC, o Pacto Andino não fora, em momento algum, empecilho para o desenvolvimento da Área de Livre-Comércio. Ao contrário, ao fortalecer as economias andinas, o Pacto contribuía para o aumento do nível de participação dos seus membros na ALALC. O Pacto, contudo, esteve vulnerável às divergências políticas entre Peru e Equador na década de 1970 e à saída do Chile, em 1976. Malgrado seus insucessos, a iniciativa serviu de base para o amadurecimento das estratégias de integração regional sul-americanas que, mais tarde, viriam a ser consideradas quando da formação da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), nos anos 1980. Até meados da década de 1970, o crescimento industrial da América Latina foi bastante expressivo, tendo o volume do comércio internacional aumentado cerca de 20,8%, enquanto a média de evolução entre 1950 e 1970 fora de apenas 5,4%11. No entanto, deve-se observar que esse dinamismo econômico foi mantido, a partir de 1973, com a aquisição de empréstimos internacionais obtidos com facilidade devido ao excesso de petrodólares gerados pela crise internacional do petróleo. 3.1.1.3. Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) O processo de desenvolvimento da América do Sul durante os anos 1970, amplamente alavancado por meio de empréstimos internacionais, foi condenado pela CEPAL, durante os anos 1970. A Comissão previa ser insustentável garantir a sanidade das contas nacionais dos países sul- americanos no médio e longo prazo. Brasil e México constituíram exceções desse período, por terem seguido política de diversificação das exportações como forma de continuidade do esforço de industrialização. Outros países, como Argentina, Chile e Uruguai preferiram abandonar estratégias desenvolvimentistas e abrir suas economias com maior intensidade aos fluxos de comércio exterior. Os anos 1970 representaram momento de reflexão para a CEPAL, que passava a ter consciência do breve histórico de integração ao longo de seus vinte e cinco anos de estudos. As discussões sobre desenvolvimento estavam agora revestidas pela verificação de que o crescimento econômico não implica necessariamente progresso social. A ideia de desenvolvimento social (ou integral) dominou a discussão nas Nações Unidas desde que, em 1969, fora aprovada na Assembleia Geral a “Declaração sobre o Progresso e o Desenvolvimento Social”. Como órgão integrante da ONU, a CEPAL realizou a “Avaliação de Quito”, em 1975, na qual delimitou as necessidades do continente americano para a obtenção de melhores índices de desenvolvimento integral. Sobre este trabalho, Bielschowsky (1998, p. 15) afirma ser a gênese de uma série de critérios para o desenvolvimento humano da América, fortemente influenciados pela agenda reformista dos anos 60, nos quais o regime de propriedade da terra e a necessidade de planejamento estatal sobre o fluxo de investimento são ressaltados como contraponto às posturas de liberalização do comércio e redução do papel do Estado na economia, que começavam a ser testadas por países americanos. Ainda no contexto dessa avaliação, a CEPAL lança suas críticas ao crescente endividamento externo dos países sul-americanos. A utilização de petrodólarespara financiamento de importações em cenário no qual a recessão internacional comprometia o comércio dos países americanos é refutada pela Comissão como estratégia econômica. A tradição analítica cepalina, ao privilegiar resultados de médio e longo prazo, defendia a diversificação das exportações dos países da região como forma de contornar a estagnação do comércio internacional dos anos 1970. Defendia- se, assim, que a necessidade de atrair investimentos estrangeiros deveria caminhar em consonância com a modernização das estruturas produtivas nacionais. No que concerne à integração regional, a década de 1970 significou momento de revisão das estratégias até então adotadas12. As debilidades da ALALC e a decepção com os avanços realizados pelo Pacto Andino levaram os formuladores de política externa da América do Sul a identificar duas novas concepções para os esforços de integração. Primeiro, fazia-se necessário reformar as organizações, de modo que países de diferentes níveis de desenvolvimento socioeconômico participassem de acordo com suas possibilidades, evitando rigidez de regras tarifárias que resultariam em sucessivos pedidos de salvaguarda. Segundo, ressaltaram a importância das iniciativas bilaterais ou microrregionais de integração, que contribuíam para a solução de impasses pontuais, como questões relativas ao uso da fronteira, gestão de recursos naturais e integração física entre vizinhos, sendo a solução dessas questões o primeiro passo para a facilitação dos acordos de integração regional. Uma vez que a iniciativa de criação de uma área de livre-comércio entre os países sul-americanos havia malogrado em face da falta de flexibilidade dos mecanismos integradores, sobressaía, ao final dos anos 1970, a percepção de que era necessário criar um ente flexível capaz de fomentar ações bilaterais e micro-regionais de cooperação condizentes com as possibilidades de cada país americano. Assim, no pensamento cepalino, que condizia com a ideia brasileira, o futuro ente seria mais um foro regional para questões políticas e econômicas do que mero organismo executor de regulamentos tarifários. A integração deixava de ser unicamente instrumento de liberalização para constituir mecanismo de concepção e desenvolvimento de estratégias econômicas comuns. Conforme definido por Rubens Barbosa (1996), até 1980, a integração sul- americana pode ser definida, grosso modo, como inserida em sua fase “romântica”, na qual o discurso político não condizia com as iniciativas técnicas dos países e estava muito aquém das reais capacidades econômicas dos Estados em comprometerem-se com estruturas tarifárias demasiadamente ambiciosas, tendo em vista o modelo de desenvolvimento por meio de substituição de importações, vigente na maioria dos países americanos desde o fim da Segunda Grande Guerra. O “romantismo” tratado por Barbosa (1996, p. 139) é exemplificado com a própria iniciativa de assinatura e ratificação do Tratado de constituição da ALALC: Enquanto o Chanceler brasileiro, em pronunciamento ao final da Segunda Reunião da Conferência Intergovernamental para o estabelecimento de uma ZLC entre os países da América Latina, reafirmava a importância que o governo brasileiro atribuía ao (Tratado de Montevidéu, de 1960) TM-60 e ao que ele representava como “nova senda para o futuro da América Latina” e “tomada de consciência dos povos latino-americanos quanto a sua posição no cenário econômico mundial”, o próprio Horácio Lafer registrava ao público interno de todos os países membros as limitações consentidas do processo ao afirmar que dava garantias necessárias ao sucesso da ZLC sem qualquer ameaça à economia dos Estados-membros ou setores de produção tradicional. Na mesma linha contraditória, recomendava-se que a Exposição de Motivos que iria submeter o Tratado ao Congresso Nacional mencionasse explicitamente, entre as características principais, a flexibilidade das disposições do TM-60 e a reduzida magnitude dos compromissos nela envolvidos. A fim de corrigir as deficiências da ALALC, seus membros13 criaram a Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), em novembro de 1980, por meio de Tratado assinado em Montevidéu. A personalidade jurídica de sujeito de Direito Internacional da ALADI substitui a da ALALC, conforme seu art. 54: Art. 54: A personalidade jurídica da Associação Latino-Americana de Livre-Comércio, estabelecida pelo Tratado de Montevidéu, subscrito em 18 de fevereiro de 1960, continuará, para todos os efeitos, na Associação Latino-Americana de Integração. A partir, portanto, do momento em que entre em vigor o presente Tratado, caberão à Associação Latino-Americana de Integração os direitos e obrigações da Associação Latino-Americana de Livre-Comércio. O Tratado de Montevidéu (1980) visa ser um “tratado marco” que deve servir de base aos países signatários para a criação de mecanismos de liberalização comercial e de integração econômica. A respeito dos objetivos da ALADI, faz-se mister analisarmos os arts. 1º e 4º do referido Tratado: Art. 1º: Pelo presente Tratado, as Partes Contratantes dão prosseguimento ao processo de integração encaminhado a promover o desenvolvimento econômico-social, harmônico e equilibrado, da região e, para esse efeito, instituem a Associação Latino-Americana de Integração (doravante denominada “Associação”), cuja sede é a cidade de Montevidéu, República Oriental do Uruguai. Esse processo terá como objetivo a longo prazo o estabelecimento, em forma gradual e progressiva, de um mercado comum latino-americano. [...] Art. 4º: Para o cumprimento das funções básicas da Associação, estabelecidas pelo artigo 2º do presente Tratado, os países-membros estabelecem uma área de preferências econômicas, composta por uma preferência tarifária regional, por acordos de alcance regional e por acordos de alcance parcial. Especial atenção deve ser dada ao que, de fato, é estabelecido pelo Tratado de Montevidéu: uma área de preferências econômicas a serem aplicadas a todos os produtos originados nos países-membros frente às tarifas vigentes para não signatários. O estágio de mercado-comum é tido como objetivo de longo prazo a ser viabilizado por meio da área de preferência tarifárias objetivamente estabelecida pela ALADI. A maior inovação da ALADI em relação à sua antecessora foi a incorporação do tratamento diferenciado para os países do bloco nos seus diferentes estágios de desenvolvimento econômico. Assim, seu tratado constitutivo, no seu art. 3º faz referência à “adoção de três categorias de países, que se integrarão levando em conta suas características econômico- estruturais”. Para tanto, foram definidas três categorias: países de menor desenvolvimento econômico relativo; países de desenvolvimento médio; e países de maior desenvolvimento econômico relativo. De acordo com informação oficial contida na página virtual14 da Associação, os países do grupo são classificados da seguinte maneira: • países de menor desenvolvimento econômico relativo (PMDER): Bolívia, Equador e Paraguai; • países de desenvolvimento intermediário (PDI) Colômbia, Chile, Cuba, Peru, Uruguai e Venezuela; e • outros países-membros (OPM): Argentina, Brasil e México. A convergência dos diferentes mecanismos de integração regional sob o “guarda-chuva” jurídico da ALADI é, ao lado da tratamento diferenciado, um dos princípios previstos no art. 3º do Tratado, os quais tendem a fortalecer a aproximação entre os blocos sul-americanos. Faz-se mister ressaltar a importância do papel exercido pelos Acordos de Complementação Econômica (ACEs) e Regulamentos Técnicos originados pela ALADI. Tais instrumentos surgiram gradualmente ao longo da década de 1980, à medida em que os Estados sul-americanos tinham expressivo interesse em cooperar em determinada área. A estrutura adotada pelos criadores da ALADI advém da necessidade de dotar de maior flexibilidade os processos de integração regional, haja vista que Estados com menor participação no comércio internacional deverão apresentar interesses econômicos diversosde nações com maior diversificação produtiva. A primeira razão para a mudança no perfil meramente retórico das iniciativas de integração regional foi a nova conjuntura da economia internacional gerada pelas sucessivas crises petrolíferas nos anos 1970. Ao final do padrão de conversibilidade ouro-dólar, as discussões no âmbito do Fundo Monetário Internacional caminhavam para a adoção de novo padrão monetário até que, em 1979, o banco central norte-americano (Federal Reserve) promoveu acentuada elevação das taxas de juros. A análise do Gráfico 2 permite verificar os efeitos nocivos da elevação das taxas de juros norte-americanas sobre as economias da América do Sul no período 1980- 1985. Embora países como Brasil, Chile, Uruguai e mesmo a Argentina tenham retomado o crescimento na segunda metade da década de 1980, a recessão internacional obrigou formuladores de política internacional a elaborarem estratégias de inserção no comércio internacional capazes de minimizar a crise econômica da região. Gráfico 2. Média quinquenal de crescimento do PIB - América do Sul. Fonte: UNCTAD. Handbook of International Trade and Development Statistics. Nova Iorque/Genebra: UNCTAD, 1995. Além da conjuntura econômica que influía sobre a região, há que considerar-se o contexto político estratégico no qual se inseria o continente sul-americano. O início da década de 1980 foi caracterizado pelo final das ditaduras militares que conduziram a política regional por cerca de vinte anos. A redemocratização, sobretudo no Brasil e na Argentina, colocava fim às rivalidades geopolíticas que atrasavam a integração política da região. Brasil e Argentina reconheciam, naquele momento, convergências políticas e necessidades econômicas comuns que contribuíam para reforçar a hipótese de que, diante da crescente interdependência entre as decisões estatais de política externa, a cooperação tornara-se importante estratégia de desenvolvimento nacional. O amadurecimento das teorias de integração regional, durante a década de 1970, foi caracterizado pelo ressurgimento das discussões sobre o papel das organizações multilaterais para o ordenamento do sistema internacional. As bases teóricas das quais se originou a ALADI emergiram da discussão sobre o papel a ser desempenhado pelas organizações internacionais em cenário que, durante os anos de détente, apontavam para o declínio das estruturas bipolares da Guerra Fria e o aumento da interdependência política e econômica. O amadurecimento do conceito de regionalismo na América do Sul transformava a cooperação entre países vizinhos em estratégia de desenvolvimento econômico. Embora com objetivos e expectativas diversos, os países sul-americanos ingressavam na segunda metade da década de 1980 com disposição política para aprofundar iniciativas de integração que haviam sido travadas até então pelo modelo substitutivo de importações. Se o cenário econômico internacional influenciava as decisões políticas internas, como resultado da interdependência econômica dos Estados havia, por outro lado, nítida disposição política dos dirigentes nacionais recém-eleitos por concretizar a retomada da democracia no continente americano. As antigas rivalidades e desconfianças geopolíticas eram seguidamente superadas, e, assim, estabeleciam-se as condições para que a região pudesse prosseguir com pragmatismo em direção à complementação produtiva e à integração comercial. 3.2. Mercado Comum do Sul (Mercosul): das origens ao contexto atual As origens da dinâmica de integração regional que levaram à criação do Mercosul remontam ao contexto das relações bilaterais do Brasil com a Argentina no final da década de 1970 e início dos anos 1980. Ao longo dos anos 1970, os dois países do Cone Sul evoluíram de uma relação marcada pela desconfiança geopolítica em torno do aproveitamento dos recursos energéticos dos rios que compõem a Bacia do Rio da Prata para uma incipiente dinâmica de cooperação estimulada pelo Governo do General João Figueiredo que, em 1979, assinou com os Governos do Generais Jorge Videla (Argentina) e Alfredo Stroessner (Paraguai) acordo tripartite para o aproveitamento hidroelétrico das usinas de Itaipu e Corpus. O tema fora objeto de disputas entre Brasil e Argentina, as quais levaram os dois países a fechar as fronteiras, em 1977, por curto período de tempo, tendo em conta a disputa sobre os possíveis efeitos da construção da hidroelétrica de Itaipú sobre os projetos argentinos de instalação das usinas de Corpus e Yaciretá. Embora não seja o objeto deste capítulo, vale recordar que a disposição da Argentina em pôr fim às discussões sobre o aproveitamento energético do Bacia do Rio da Prata tinha relação com o iminente conflito que argentinos e chilenos estavam a ponto de travar pela posse do Canal de Beagle, localizado no extremo Sul do continente americano15. De fato, a situação entre os dois países atingira, em 1978, impasse que levava ao posicionamento de forças militares na Patagônia, até que, no final daquele ano, o caso foi levado à mediação pontifícia do Papa João Paulo II. Para acompanhar o processo de conciliação entre os dois países, o pontífice designou o Cardeal Antonio Samorè, o qual logrou obter compromisso de não agressão entre os dois países, firmado, em Montevidéu, em janeiro de 1979. A solução definitiva para a disputa pelo Canal foi alcançada somente em 1984, quando Argentina e Chile assinaram, no Vaticano, o Tratado de Paz e Amizade, que estabelecia a posse chilena sobre o território. Ainda no que tange à geopolítica sul-americana dos anos 1970, ressalta-se a assinatura, em 1978, do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), que se destinava a criar uma instância formal de cooperação entre os países da região para possibilitar a exploração racional dos recursos naturais e proporcionar os meios para sua preservação. Por trás de seus objetivos maiores, o TCA16 era, de fato, resposta do Governo do General Ernesto Geisel aos EUA e seus aliados, motivada pela necessidade de reafirmação da soberania dos países do continente sobre a região, em face das ideias de uma suposta internacionalização da Amazônia, que tinha como justificativa “messiânica” evitar a irreversível degradação da floresta. Em maio de 1980, o General Figueiredo realiza visita a Argentina, retomando uma diplomacia presidencial inexistente há mais de 40 anos - a última visita de mandatário brasileiro a Buenos Aires havia sido em 1935. Por ocasião do encontro, Brasil e Argentina assinaram o Acordo de Cooperação para o Desenvolvimento e a Aplicação dos Usos Pacíficos da Energia Nuclear, por meio do qual se buscou criar condições para que se tomasse reciprocamente conhecimento dos programas nucleares. Esse Acordo representou um importante passo em direção à extinção das desconfianças mútuas que distanciavam os dois países. Nesse contexto, a iniciativa dos presidentes brasileiro e argentino foi essencial para desencadear uma série de entendimentos e atos jurídicos internacionais que levaram à criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC)17, em julho de 1991. A Guerra das Malvinas (Falklands, na denominação dada pelos ingleses), representou outro ponto de convergência entre os governos de Brasília e Buenos Aires. Após o início das hostilidades, que se dera pela ocupação militar do arquipélago pelas tropas argentinas, o Brasil posicionou-se contra qualquer solução armada para o litígio, o que, na prática, era favorável à Argentina. Em seguida, o Brasil proibiu o uso de seu território para deslocamento de tropas ou mesmo pouso de aeronaves inglesas em combate no sul do continente. A mediação brasileira do conflito foi assim definida por Luiz Alberto Moniz Bandeira (2003, p. 447-448): [...] o respaldo do Brasil à Argentina, em meio da solidariedade prestada pelos demais países latino-americanos foi de crucial significance, na opinião do professor Richard Thornton. O Brasil, reiterando sua antiga posição, defendeu-lhe o direito sobre as Malvinas/Falklands, assumiua representação dos seus interesses em Londres e procurou evitar que a Grã- Bretanha empreendesse ataques a seu território continental, o que o levaria a dar ainda maior apoio à Argentina A conjuntura econômica internacional marcada pelo aumento das taxas de juros nas principais economias internacionais, resultava, para os países em desenvolvimento, em severas dificuldades de pagamento da dívida externa e, consequentemente, à desvalorização das moedas nacionais que, ao encarecer substancialmente as importações, pressionava ainda mais o aumento da inflação. A esse ciclo econômico vivenciado pelos países sul- americanos na década de 1980 deu-se o nome de Crise de Dívida que, no caso da Argentina, era agravada pela deterioração do parque industrial, resultante de políticas econômicas centradas na exportação de commodities (com ênfase para o trigo) adotadas nas décadas anteriores. A derrota na Guerra das Malvinas e as dificuldades financeiras daquele período contribuíram para o fim do regime militar na Argentina que, em outubro de 1983, retomou a democracia com a eleição do Presidente Raúl Alfonsín. No Brasil, ao mesmo tempo, promovia-se a abertura política que, embora diante da não aprovação da realização de eleições diretas já em 1984 (rejeição da Emenda Dante de Oliveira), chegou-se a solução de consenso que permitiu a eleição de Tancredo Neves, por meio do Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985. Impossibilitado de tomar posse devido a sérios problemas de saúde que o levaram à morte, Tancredo Neves cede então espaço para assunção de seu vice, José Sarney. Logo após a posse dos dois mandatários, verifica-se continuidade das grandes linhas da política externa bilateral desenvolvida pelos governos militares do Brasil e da Argentina desde 1979. Nesse sentido, em novembro de 1985, durante inauguração da Ponte Tancredo Neves, que liga Foz de Iguaçu (Brasil) a Puerto Iguazú (Argentina), os presidentes dos dois países assinaram a Declaração de Iguaçu sobre Cooperação Pacífica no Campo da Energia Nuclear, que colocava fim aos últimos resquícios da desconfiança mútua que inviabilizara avanços na região ao longo da década de 1970. A respeito do novo momento nas relações bilaterais, Carlos Eduardo Vidigal (2009, p. 269) assevera que: A nova densidade verificada no diálogo bilateral relacionava-se às negociações de 1980, 1981 e 1982, aos entendimentos durante e após a Guerra das Malvinas, às iniciativas de defesa regional no pós-Malvinas, à representação brasileira dos interesses argentinos em Londres. Sem relegar fatores econômicos e comerciais relacionados à cooperação bilateral, impunham-se outras variáveis no entendimento bilateral. A consciência dos dirigentes de ambos os países de que o desenvolvimento econômico não seria estimulado pelos países desenvolvidos e que as questões de segurança exigiam acordos sub-regionais consistentes, dados os acontecimentos da Guerra das Malvinas, instruía a ação diplomática de Brasil e Argentina [...]. O professor Vidigal proporciona, ainda, interessante análise sobre o quanto as mudanças no regime político da região teriam contribuído para essa nova fase do relacionamento; ao citar obra de Amado Cervo, Carlos Vidigal (2009, p. 272) destaca que, “para o caso brasileiro de 1985, teríamos um transição sem mudança, e a cooperação Brasil-Argentina, que conduziu ao processo de integração de Sarney e Alfonsín, foi essencialmente obra dos militares e não da democracia”. Em 1986, a concertação político-estratégica entre os dois países avança decididamente para o campo econômico, por meio da assinatura da Ata de Integração Argentino-Brasileira, que estabelece o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE). O referido Programa estabelecia ampla cooperação para o intercâmbio comercial de maquinário industrial (bens de capital), de trigo, além de outras medidas relativas à expansão do comércio e à segurança alimentar. Em linhas gerais, o PICE, se adotarmos uma ótica neofuncionalista sobre o acordo, representou a contribuição política aos entendimentos já mantidos entre empreendedores de ambos os países, relativos à venda de máquinas brasileiras para a Argentina e ao abastecimento regular de trigo ao Brasil por parte dos argentinos. No mesmo ano, merece destaque o apoio argentino à proposta de Resolução apresentada pelo Brasil, na XL Assembleia-Geral da ONU, relativa à declaração do Atlântico Sul como Zona de Paz e Cooperação (Zopacas). A referida Zona de Paz visa criar mecanismos de cooperação entre países sul- americanos e africanos a fim de que, juntos e sem ingerência das grandes potências, identifiquem soluções para os conflitos que ameaçam a paz e a estabilidade da região. O apoio da Argentina à Zopacas representa ruptura com o ideário de segurança continental perseguido pelo Governo de Buenos Aires até a Guerra das Malvinas. O desenvolvimento da estrutura de comércio estabelecida pelo PICE evoluiu para a assinatura, em novembro de 1988, do Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento entre o Brasil e a Argentina. Esse ato internacional explicitou, em seu art. 5º, a intenção de avançar “a harmonização gradual das demais políticas necessárias à formação do mercado comum entre os dois Estados-Parte”. Desde então, o processo de construção do Mercosul será guiado, de acordo com o art. 2º, pelos “princípios de gradualismo, flexibilidade, equilíbrio e simetria para permitir a progressiva adaptação dos habitantes e das empresas de cada Estado-Parte às novas condições de concorrência e de legislação econômica”. Para conclusão desse processo, estabeleceu-se um prazo máximo de 10 anos. A essencial importância que Brasil e Argentina conferiam a esse processo de integração é revelada no acordo ao prever-se que a Comissão de Execução do Tratado seria copresidida pelos presidentes de ambos os países. Em 1990, já nos mandatos de Fernando Collor, no Brasil, e de Carlos Menem, na Argentina, decidiu-se, conforme os termos da Ata de Buenos Aires, pela antecipação do estabelecimento do Mercado Comum para a data de 31 dezembro de 1994. Para a concretização do Mercado Comum, a referida Ata previa a constituição do “Grupo Mercado Comum” (GMC), presidido pelos representantes dos Ministérios das Relações Exteriores de ambos os países, e subordinado à Comissão de Execução do Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento. A função do GMC, segundo o anexo II da Ata de Buenos Aires era propor as “medidas concretas com vistas a coordenar e harmonizar políticas macroeconômicas, particularmente aquelas ligadas às políticas comercial e industrial, e um cronograma de tarefas que permitam avançar na conformação do Mercado Comum dentro dos prazos previstos”. O processo iniciado por Brasil e Argentina suscitou o interesse de adesão por parte do Uruguai e, em seguida do Paraguai. Aqueles países, cujas economias dependem amplamente da importação de produtos manufaturados e da exportação de matérias-primas, viam na aproximação argentino-brasileira risco de desvio de comércio. De fato, parte das importações argentinas dos produtos de Uruguai e Paraguai poderia ser suprida pela produção brasileira, caso esta estivesse disponível em condições de comércio mais favoráveis do que a dos pequenos países platinos. Para a região, o desenvolvimento de Paraguai e Uruguai contribuía para a estabilidade política e, consequentemente, tornaria o ambiente de negócios mais favorável à atração de investimentos estrangeiros. Nesse contexto, os mandatários de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai firmaram, em março de 1991, o Tratado de Assunção, que dá origem ao Mercosul, e reitera o compromisso de constituição de um Mercado Comum até 31 de dezembro de 1994, o qual contemplaria entre os países-membros: a) livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos; b) estabelecimento de tarifa externa comum (TEC), de política comercial comum e de mecanismo de concertação política em negociações extra-bloco; c) coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais; e d) harmonização das legislações pertinentesaos processos relativos à liberalização do comércio. Para a consecução desses objetivos, o Tratado previa estrutura orgânica enxuta, composta pelo Conselho do Mercado Comum e pelo Grupo do Mercado Comum. O Conselho é o órgão máximo do Mercosul, composto pelos Ministros das Relações Exteriores e da Economia dos países-membros, os quais se ocupam das decisões políticas acerca da condução do grupo. O Grupo, por sua vez, é instância executiva, coordenada pelas respectivas chancelarias, e voltado à condução dos trabalhos necessários à efetiva criação do mercado comum. O Tratado de Assunção, no seu art. 6º, deixa evidente que o Programa de Liberalização Comercial a ser adotado pelo bloco será pautado pelo princípio das obrigações comuns porém diferenciadas, a fim de contemplar “as diferenças pontuais de ritmo” do Paraguai e do Uruguai. Mais tarde, outros mecanismos de acomodação dos setores sensíveis da produção dos países membros seriam adotados, a exemplo do Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC)18, estabelecido entre Brasil e Argentina a partir de 2006. Os primeiros anos do Mercosul são marcados pela concentração nos seus aspectos comerciais, sobretudo durante os governos de cunho liberal liderados por Collor e Menem. Tal ênfase, no entanto, não inviabilizou que discussões fossem aprofundadas no sentido de garantir a Paraguai e Uruguai tratamento diferenciado no que tange ao ritmo de implementação dos compromissos assumidos no Tratado de Assunção. Devem ser destacados, ainda, a adoção do Protocolo de Brasília (1991) sobre solução de controvérsias no Mercosul, que foi derrogado pelo Protocolo de Olivos (2002), como veremos adiante, e o Protocolo de Cooperação e Assistência Jurisdicional em Matéria Civil, Comercial, Trabalhista e Administrativa, firmado entre os Estados-Partes do Mercosul no Valle de Las Leñas, na Argentina, em 1992. Esses documentos formam as bases pelas quais seriam erigidas os mecanismos de cooperação política e econômica do Mercosul. No final de 1992, o Brasil sofre ruptura política com o impeachment de Fernando Collor de Mello, que resultou no curto governo de Itamar Franco (set./1992-dez./1993). Nesse período, o Brasil, por ocasião da VII Cúpula do Grupo do Rio, realizada em Santiago do Chile, em 1993, somou ao seu comprometimento em torno do Mercosul o ideário de criação de uma Área de Livre-Comércio Sul-Americana (ALCSA), que consistira, em linhas gerais, na integração dos diferentes grupos econômicos regionais que coabitam no continente sul-americano, tais como o Mercosul e o Pacto Andino, somados à presença do Chile. Conforme estudaremos nas próximas páginas, os princípios da ALCSA serão retomados durante o governo do Presidente Lula, quando será estruturada a União das Nações Sul- Americanas (Unasul), em contexto político bastante diverso daquele dos anos 1990. Em meados dos anos 1990, porém, com a eleição do Fernando Henrique Cardoso, as políticas brasileiras de comércio exterior, voltadas a promover a confiança dos mercados externos em relação às possibilidades de sucesso do Plano Real, adiaram projetos políticos que ensejassem, de alguma maneira, confrontação com iniciativas das principais economias do planeta. Nesse contexto, há que se recordar que, em paralelo ao projeto da ALCSA, havia a expectativa por parte do Governo norte-americano de estabelecer uma “área de livre-comércio do Alasca à Terra do Fogo”, cujo projeto, inspirado no recém-criado Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês), denominava-se Área de Livre- Comércio das Américas (Alca). Em meados dos anos 1990, Brasil e Argentina possuíam, resguardadas as devidas proporções, convergência política favorável ao estabelecimento de compromissos comerciais com as principais economias do planeta, ainda que esses relacionamentos por vezes exigissem esforços sociais derivados da adoção de medidas econômicas ortodoxas, baseadas no que se convencionou chamar de “Consenso de Washington”. Se, para o Brasil, a meta maior do Governo Fernando Henrique Cardoso era consolidar a estabilidade econômica por meio do Plano Real, para a Argentina, tornava- se essencial romper com o isolamento político a que o país fora submetido até o início dos anos 1990. Em obra escrita em 1984, o cientista político Carlos Escudé (1984, p. 49), que cinco anos mais tarde fora considerado o principal defensor do “Realismo Periférico”, expressava os malefícios que tal isolacionismo provocava para o governo de Buenos Aires: En el plano de lo práctico, es necesario tomar medidas para mejorar la imagen internacional de la Argentina, como paso imprescindible para sacar al país de su peligroso aislamiento internacional. [...] También es necesario aún que se busque recomponer y mejorar las relaciones con los Estados Unidos evitando hacerse complice de ese país, en por ejemplo, América Central. Esa complicidad es totalmente contraproducente para nuestra imagen y inserción en el mundo, y aún para nuestras buenas relaciones de largo plazo con los Estados Unidos, donde vastos sectores de la opinón pública desaprueban el intervencionismo del gobierno republicano. Incluso para nuestra relación con los sectores conservadores de ese país en el largo plazo, es más importante la respeitabilidad que una complicidad coyuntural que puede dar - como fue demonstrado en la Guerra de las Malvinas - muy escasos réditos. Diante desse contexto político compartilhado pelas principais economias do Mercosul, o bloco avançou, nos primeiros anos de existência, com notável rapidez no que tange à sua institucionalização. Em 1994, foi firmado pelos países do bloco o Protocolo de Ouro Preto (Protocolo Adicional ao Tratado de Assunção sobre a Estrutura Institucional do Mercosul), cuja principal função foi dotar o bloco comercial de personalidade jurídica de Direito Internacional. Repita-se, portanto, que o Mercosul somente se torna sujeito de Direito Internacional, em 1994, com o Protocolo de Ouro Preto. Esse acordo origina, ainda, as seguintes instituições no âmbito do Mercosul: • Conselho do Mercado Comum (já existente desde o Tratado de Assunção); • Grupo Mercado Comum (já existente desde o Tratado de Assunção); • Comissão de Comércio do Mercosul; • Comissão Parlamentar Conjunta; • Fórum Consultivo Econômico-Social; • Secretaria Administrativa (já existente desde o Tratado de Assunção). Façamos uma rápida revisão das principais funções de cada um desses órgãos do bloco. O Conselho do Mercado Comum (CMC), constituído pelos chanceleres e ministros da Economia dos países-membros, é o órgão máximo do Mercosul, cuja principal atribuição é prover a condução política do processo de integração. O órgão manifesta-se por meio de Decisões relativas a toda ação política essencial para a conformação do Mercado Comum. O Grupo Mercado Comum (GMC) é a instância executiva do bloco, integrada por representantes dos ministérios das Relações Exteriores e da Economia, além do Banco Central. Por meio de Resoluções, cabe ao Grupo tomar as medidas necessárias ao cumprimento das Decisões do Conselho. A Comissão de Comércio (CCM) tem suas funções voltadas à gestão dos assuntos relativos ao funcionamento da união aduaneira, que é baseada na Tarifa Externa Comum (TEC). Assim, cabe à CCM, por exemplo, considerar as solicitações dos Estados-parte com respeito a salvaguardas em relação ao cumprimento da TEC. À Comissão Parlamentar Conjunta (CPC), conforme concebida no Protocolo de Ouro Preto, cabia a representação dos parlamentos dos Estados-parte e a função de acelerar os processos legislativos relativos à internalização das normas resultantes das Resoluções do GMC e das Decisões do CMC. Em dezembro de 2005, os países-membros do bloco firmaram o Protocolo Constitutivo do Parlamento do Mercosul, o qual foi ratificado pelo Brasil em 2006, e entrou em vigor em 2007. É importante destacar que o referido Parlamento substitui a Comissão Parlamentar Conjunta. O Parlasul, como ficou conhecido, é órgão unicameral com sede em Montevidéu. Dentre suas principais atribuições,destaca-se aquela prevista no inciso XII, do art. 4º, transcrita a seguir: 12. Com o objetivo de acelerar os correspondentes procedimentos internos para a entrada em vigor das normas nos Estados Partes, o Parlamento elaborará pareceres sobre todos os projetos de normas do MERCOSUL que requeiram aprovação legislativa em um ou vários Estados Partes, em um prazo de noventa dias (90) a contar da data da consulta. Tais projetos deverão ser encaminhados ao Parlamento pelo órgão decisório do MERCOSUL, antes de sua aprovação. Se o projeto de norma do MERCOSUL for aprovado pelo órgão decisório, de acordo com os termos do parecer do Parlamento, a norma deverá ser enviada pelo Poder Executivo nacional ao seu respectivo Parlamento, dentro do prazo de quarenta e cinco (45) dias, contados a partir da sua aprovação. Nos casos em que a norma aprovada não estiver de acordo com o parecer do Parlamento, ou se este não tiver se manifestado no prazo mencionado no primeiro parágrafo do presente inciso a mesma seguirá o trâmite ordinário de incorporação. Os Parlamentos nacionais, segundo os procedimentos internos correspondentes, deverão adotar as medidas necessárias para a instrumentalização ou criação de um procedimento preferencial para a consideração das normas do MERCOSUL que tenham sido adotadas de acordo com os termos do parecer do Parlamento mencionado no parágrafo anterior. O prazo máximo de duração do procedimento previsto no parágrafo precedente, não excederá cento oitenta (180) dias corridos, contados a partir do ingresso da norma no respectivo Parlamento nacional. Se dentro do prazo desse procedimento preferencial o Parlamento do Estado Parte não aprovar a norma, esta deverá ser reenviada ao Poder Executivo para que a encaminhe à reconsideração do órgão correspondente do MERCOSUL. O Protocolo de 2005 estabeleceu, desse modo, critério objetivo de aceleração dos procedimentos legislativos nacionais necessários à internalização das normas emanadas do Mercosul. No que tange à composição do Parlasul, adotou-se o critério da representação cidadã, o qual estabelece representatividade proporcional à população do país- membro. Esse critério substitui a regra original da CPC, que previa igual número de parlamentares (18) para os diferentes Estados. Assim, em outubro de 2010, o Conselho do Mercado Comum chegou a acordo relativo ao critério de representação cidadã do Parlamento do Mercosul: Paraguai e Uruguai contarão com um número de 18 parlamentares regionais, Argentina com uma representação de 43 membros, e o Brasil, com 75. A eleição desses parlamentares dar-se-á de modo gradual e mediante sufrágio universal. Atualmente, o Brasil conta com 37 parlamentares no Parlasul, os quais não foram eleitos por sufrágio universal - o único país do Mercosul que já realizou eleições diretas para o Parlamento foi o Paraguai. Desses 37 parlamentares, 10 são senadores e 27 são deputados - em fevereiro de 2014, a Presidência da Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul encontrava-se sob a responsabilidade do Deputado Newton Lima (PT). A eleição por sufrágio universal dos 75 parlamentares, inicialmente prevista para ser realizada em 2014, deverá ser adiada para 2018, tendo em conta os custos relativos ao aumento da representatividade naquele órgão. Retornando à análise das instituições originadas no Protocolo de Ouro Preto, destacamos, ainda, o Fórum Consultivo Econômico e Social (FCES), que contempla a representação no Mercosul de membros do setor produtivo privado, das confederações de trabalhadores e do “terceiro setor”, compreendido nesse caso como ONGs ou sociedade civil. Ao FCES cabe opinar, emitir pareceres consultivos, sobre os projetos discutidos no âmbito do GMC e do CMC que tenham impacto socioeconômico para a população do Mercosul. A adoção do Protocolo de Ouro Preto representou avanço essencial para dotar o Mercosul das estruturas necessárias ao avanço do processo de formação do mercado comum. Vale recordar que o mecanismo de solução de controvérsias do Mercosul não é fruto do Protocolo de Ouro Preto, como por vezes somos levados a pensar. De fato, as primeiras regras de solução dos litígios relativas à implementação dos acordos de liberalização comercial encontravam-se presentes no Protocolo de Brasília, firmado em 1991, por ocasião da 1ª Cúpula do CMC. Nesse Protocolo, encontravam-se estabelecidos três mecanismos extrajudiciários de solução das lides: negociação direta entre as partes; conciliação, por meio do GMC; e arbitragem por meio de Tribunal Ad Hoc (estabelecimento exclusivamente para julgamento de uma lide específica). No ano de 2002, no entanto, esse mecanismo foi aperfeiçoado com a adoção do Protocolo de Olivos para a Solução de Controvérsias no Mercosul, que entrou em vigor no ano de 2004, e derrogou o Protocolo de Brasília até então vigente. A nova normativa conservou, em grande parte, a estrutura de solução de controvérsias previstas no Protocolo de Brasília. A inovação essencial do Protocolo de Olivos foi o estabelecimento do Tribunal Permanente de Revisão (TPR), composto por cinco árbitros e com sede no Paraguai, cuja função principal é ser órgão jurisdicional de segunda instância, destinado a julgar pedidos de revisão dos laudos arbitrais. O novo mecanismo de solução de controvérsias estabelecido pode ser resumido da seguinte maneira: os Estados-parte em determinada controvérsia sobre a aplicação das normativas emanadas dos acordos do Mercosul deverão, incialmente, buscar resolvê-la mediante negociações diretas no prazo de 15 dias - esta é uma etapa obrigatória do processo. Caso as negociações não tenham resultado satisfatório, qualquer das partes da controvérsia poderá submetê- la à apreciação do GMC ou, alternativamente, poderá iniciar diretamente o procedimento arbitral, que se dará mediante composição de tribunal ad hoc constituído de 3 árbitros (um designado por cada país, e o terceiro designado de comum acordo entre as partes, todos com base em lista de árbitros mantida pela Secretaria Administrativa do Mercosul). O Tribunal Arbitral Ad Hoc deverá emitir laudo no prazo de 60 dias (prorrogáveis por, no máximo, mais 30 dias), o qual decidirá, definitivamente, acerca da substância da controvérsia. Qualquer das partes na controvérsia poderá apresentar recurso de revisão do laudo emitido pelo Tribunal Ad Hoc ao Tribunal Permanente de Revisão. Os incisos 2 e 3 do art. 17, do Protocolo de Olivos, no entanto, limitam o alcance da análise do TPR: Artigo 17. [...] ii. O recurso estará limitado a questões de direito tratadas na controvérsia e às interpretações jurídicas desenvolvidas no laudo do Tribunal Arbitral Ad Hoc. iii. Os laudos dos Tribunais Ad Hoc emitidos com base no princípio ex aequo et bono (equidade) não serão suscetíveis de recurso de revisão. Verifica-se, portanto, que a atuação do TPR visa corrigir eventuais vícios do processo de julgamento pelo Tribunal Ad Hoc que possam ter levado os árbitros a decidirem em determinada direção. Não se busca rediscutir no TPR o teor do laudo, mas sim analisar queixas das partes que se sintam preteridas no seu direito ao contraditório e à ampla defesa. Os laudos do TPR têm efeito de coisa julgada, são inapeláveis e obrigatórios, e acordados pela maioria dos cinco árbitros. Seu alcance poderá confirmar, modificar ou revogar a fundamentação jurídica e as decisões dos Tribunais Ad Hoc. No caso de inobservância da decisão do Tribunal Arbitral Ad Hoc, ou do TPR, a parte prejudicada poderá adotar, no prazo máximo de um ano após a publicação da decisão, medidas compensatórias temporárias. Tais medidas deverão obedecer a critérios de proporcionalidade com o dano causado e serão, preferencialmente, aplicadas mediante a suspensão de concessões ou obrigações no mesmo setor afetado pelo país transgressor. De acordo com o inciso ii, do art. 31 do Protocolo de Olivos, “caso considere impraticável ou ineficaz a suspensão no mesmo setor, poderá suspender concessões ou obrigações em outro setor, devendo indicar as razões que fundamentamessa decisão”. Ainda com relação ao TPR, vale recordar, por fim, que, o “sistema de solução de controvérsias do Mercosul também pode ser iniciado a partir de reclamações de particulares de um país-membro em relação a medidas adotadas por outro país-membro” (LUZ, 2011, p. 297). Ademais de seu caráter institucional, o Mercosul avançou, ainda nos anos 1990, no estabelecimento de parâmetros políticos essenciais a serem observados pelos países-membros como requisito para manterem sua representatividade no bloco. No ano de 1996, o Paraguai vivenciou grave crise institucional devido à suposta tentativa de golpe de Estado a qual o Presidente Juan Carlos Wasmosy atribui ao General Lino Oviedo. A fim de evitar o colapso da democracia naquele país, que se reerguia então de décadas de regime de exceção, os demais membros do Mercosul realizaram mediação que resultou na assinatura na Cláusula Democrática e na conformação de um Mecanismo de Consulta e Concertação Política do bloco (SARAIVA, 2012, p. 100). Tal mecanismo viria a se tornar parte efetiva do Mercosul por meio do Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático no Mercosul, na República da Bolívia e na República do Chile, assinado em 1998, o qual inaugura novo patamar da concertação política entre os países do bloco. Nos termos daquele Protocolo, “a plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração”. Dentre seus principais artigos, destacam-se os seguintes: Artigo 4 - No caso de ruptura da ordem democrática em um Estado Parte do presente Protocolo, os demais Estados Partes promoverão as consultas pertinentes entre si e com o Estado afetado. Artigo 5 - Quando as consultas mencionadas no artigo anterior resultarem infrutíferas, os demais Estados Partes do presente Protocolo, no âmbito específico dos Acordos de Integração vigentes entre eles, considerarão a natureza e o alcance das medidas a serem aplicadas, levando em conta a gravidade da situação existente. Tais medidas compreenderão desde a suspensão do direito de participar nos diferentes órgãos dos respectivos processes de integração até a suspensão dos direitos e obrigações resultantes destes processos. O Protocolo de Ushuaia visa a transmitir a parceiros externos do bloco a percepção de que há, por parte dos países-membros do Mercosul, compromisso pleno com relação à estabilidade política e à garantia do Estado de Direito na região. Assim, o bloco busca passar maior confiança aos seus principais investidores externos, garantindo o acesso a melhores condições de financiamento e comércio. No que tange às negociações do Mercosul com países não membros da bloco, vale destacar que, ainda em 1996, realizam-se os primeiros acordos com terceiros países, por meio da aprovação de áreas de livre-comércio com o Chile e a Bolívia. Caracterizado pelo seu caráter de regionalismo aberto, o Mercosul tem como um de seus objetivos servir de plataforma de promoção do comércio de seus países-membros com os demais vizinhos sul-americanos. Nesse contexto, são Estados Associados do Mercosul a Bolívia (desde 1996), o Chile (desde 1996), o Peru (desde 2003), a Colômbia e o Equador (desde 2004). A partir de julho de 2013, a Guiana e o Suriname passaram a dispor de participação nas reuniões do MERCOSUL, tendo em conta a assinatura de Acordo Marco de Associação, o qual se encontra ainda pendente de internalização e entrada em vigor. No que tange à adesão de novos membros ao Mercosul, destaca-se a recente entrada da Venezuela, efetuada no contexto da suspensão da participação do Paraguai no bloco. Sobre essa tema, faz-se necessária breve análise motivada pelos debates entre vertentes políticas favoráveis e contrárias à entrada do Estado bolivariano no Mercosul. Em dezembro de 2005, durante reunião de Cúpula do Mercosul, realizada em Montevidéu, os países do bloco tomaram decisão política favorável ao ingresso da Venezuela no Mercosul. Assim, em junho de 2006, foi assinado o Protocolo de Adesão da República Bolivariana da Venezuela ao Mercosul em contexto político do continente sul-americano em que já coabitavam duas visões de integração regional: o projeto do Mercosul, caracterizado pelo regionalismo aberto e centrado nos assuntos relativos à liberalização comercial, e o projeto bolivariano, que defendia modelo autonomista de desenvolvimento baseado na ação estatal e na limitação da presença de investimentos estrangeiros, o qual é defendido pelos governos adeptos do socialismo de esquerda na região, que, ao longo da primeira década dos anos 2000, chegaram às presidências da Venezuela, Equador e Bolívia, e contavam com o apoio do Governo de Fernando Lugo, no Paraguai, e de Cristina Kirchner, na Argentina. Após ser assinado em 2006, o Protocolo foi submetido aos ritos de internalização nos países-membros do Mercosul, onde encontrou rápida aprovação no Uruguai e na Argentina (ambos ratificaram o documento em 2007). No Brasil, o tema era objeto de forte apoio por parte do Executivo, sendo o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva adepto da percepção de que a aproximação com o Governo de Caracas era essencial para o aumento das trocas comerciais com país que importava montantes cada vez maiores de bens manufaturados brasileiros e que deveria ser aderido à proposta de integração mercosulina, a fim de evitar polarizações na geopolítica regional, as quais somente trariam dificuldades de crescimento para o Mercosul. No legislativo brasileiro, e mesmo no Itamaraty, a quem cabia promover os interesses do Poder Executivo sobre o assunto, havia visível polarização de opiniões. Tal situação pode ser definida, de acordo com Thiago Galvão (2012, p. 147), nos seguintes termos: Durante o governo Lula, cristalizou-se a noção de que o ingresso da Venezuela no Mercosul seria mais um simples “voto de confiança”, faria parte da aliança estratégica Venezuela-Brasil. A justificativa seria o crescimento binacional em termos de comércio, de investimentos e de cooperação energética; o fortalecimento do Mercosul como “espinha dorsal” da integração regional; e a possibilidade de sua expansão até o Caribe, aguçando as percepções estrangerias de conformação de um bloco continental [...] Mesmo sem fortes argumentos, a oposição fez muito barulho [...] De dentro do Itamaraty, também ecoaram vozes contrárias [...] o (então) Embaixador brasileiro nos EUA, Roberto Abdenur, chegou a afirmar que acreditava ser “inadequada, indesejável e contraproducente” a entrada da Venezuela, por razões econômicas, mas, sobretudo, porque ia contra a Cláusula Democrática do Mercosul. Após ampla articulação política do Presidente Lula junto ao Congresso Nacional e mesmo devido ao “esfriamento” do tema na imprensa e na opinião pública, o parlamento brasileiro ratificou o Protocolo no final de 2009, restando pendente a decisão do Governo paraguaio. Embora sob a Presidência de Fernando Lugo (político do partido Frente Guasú), o Congresso paraguaio apresentava forte presença política do principal partido da então oposição no país, a Associação Nacional Republicana (Partido Colorado). Os colorados, adeptos do modelo econômico neoliberal, rechaçavam a aprovação do Protocolo de Adesão da Venezuela, fato que parecia constituir um impedimento quase insolúvel enquanto fosse o Governo de Caracas liderado pelo Presidente Hugo Chávez e seus partidários. Em junho de 2012, no entanto, a polarização de forças políticas no Paraguai atingiu seu clímax e, em rápida decisão do Congresso daquele país, Fernando Lugo sofreu processo de impeachment, sendo substituído pelo vice-presidente Federico Franco. A abrupta saída de Lugo do Executivo paraguaio gerou críticas imediatas dos líderes do Mercosul. O processo de deposição do presidente durou cerca de 30 horas, sendo que ao então mandatário não lhe foi assegurado praticamente nenhuma possibilidade de defesa. Embora baseado em princípios da Constituição paraguaia, o rito do processo de impeachment teria sido deturpado, provocando grave ruptura dos princípios democráticos,o que levou os países do Mercosul a agendar reunião de emergência, em Mendoza (Argentina), entre os dias 28 e 29 de junho, na qual se decidiu pela suspensão do Paraguai do Mercosul com base nos artigos 4 e 5 do Protocolo de Ushuaia - ressalta-se que não foram adotadas medidas de supressão dos direitos do Paraguai em relação aos acordos firmados no âmbito do Mercosul como, por exemplo, a liberação de recursos do Fundo de Convergência Estrutural (FOCEM) para obras naquele país (YANAKIEW, 2012). A suspensão se deu, portanto, apenas no nível da participação política do país no bloco. Uma vez o Paraguai suspenso do Mercosul, o caminho para adesão da Venezuela estava aberto. Desse modo, um mês após a suspensão do Paraguai, em julho de 2012, teve lugar, em Brasília, Reunião Extraordinária do Mercosul na qual a Venezuela foi oficialmente aderida ao bloco. Segundo comunicado conjunto emitido no Encontro Informal de Chanceleres do Mercosul, realizada na véspera da Reunião Extraordinária (BRASIL, 2012): Os Chanceleres saudaram a adesão da Venezuela, que tem significado histórico para o MERCOSUL. O bloco ganha nova dimensão geopolítica, permitindo articular as porções amazônica, andina e caribenha da América do Sul, além de ganhos econômicos. O MERCOSUL passará a ser, ainda, ator importante em dois temas fundamentais para o futuro global: segurança energética e alimentar. Será convocado Grupo de Trabalho ad hoc, que terá sua primeira reunião em 13 de agosto, para deliberar sobre: a) incorporação das normas do bloco pela Venezuela; b) adesão do novo membro à Nomenclatura Comum do MERCOSUL (NCM); c) adoção da Tarifa Externa Comum (TEC); d) cronograma de desgravação tarifária intrabloco; e e) relacionamento externo do MERCOSUL. Esse grupo de trabalho deverá operar por um prazo de 180 dias, prorrogáveis por igual período. Com o ingresso da Venezuela, o MERCOSUL contará com uma população de 270 milhões de habitantes (70% da população da América do Sul), um PIB a preços correntes de US$ 3,3 trilhões (83,2% do PIB sul-americano) e um território de 12,7 milhões de km² (72% da área da América do Sul). A incorporação da Venezuela altera o posicionamento estratégico do bloco, que passa a estender-se do Caribe ao extremo sul do continente. O MERCOSUL se afirma, também, como potência energética global tanto em recursos renováveis quanto em não renováveis. O processo de adesão da Venezuela, portanto, foi concluído de forma inesperada e, do ponto de vista do autor desta obra, igualmente abrupta. Se o Paraguai, membro fundador do bloco, encontrava-se suspenso devido a uma ruptura democrática, talvez o mais coerente, do ponto de vista político, fosse aguardar que futuras eleições livres naquele país reestabelecessem, pelo poder das urnas, nova estrutura de Governo ao qual se submeteria novamente a aprovação do Protocolo de Adesão da Venezuela. No caso, o Brasil, imbuído do senso de oportunidade de garantir a adesão do país bolivariano ao bloco, e a Argentina e o Uruguai, desejosos de “dar o troco” à deposição de Lugo no Paraguai, a qual alegavam ser obra da influência norte-americana sobre o Partido Colorado, optaram por uma solução que, em grande medida, despertou a atenção dos parceiros externos do Mercosul quanto à possível aproximação deste bloco do “projeto bolivariano”. Feita esta breve análise de cunho pessoal, repete-se que a posição oficial do Governo brasileiro é aquela expressa na citação contida na página anterior desta obra. Em agosto de 2013, após a eleição de Horácio Cartes à Presidência do Paraguai, a suspensão daquele país do Mercosul foi revogada. Em dezembro daquele mesmo ano, o Congresso paraguaio aprovou o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul, dando fim à celeuma sobre o conturbado processo de ingresso da Venezuela no bloco. Segundo Miriam Gomes Saraiva (2012, p. 130), a partir do governo do Presidente Lula, a diplomacia brasileira enfatizou a “construção de uma liderança, combinando padrões de soft power, que se materializaram no reforço do multilateralismo na região, com maior presença econômica”. O Brasil posicionou-se gradualmente como paymaster do bloco e como formador de consensos entre países com ideologias díspares (SARAIVA, 2012, p. 131). O papel de paymaster, “pagador” em tradução livre, remete ao financiamento de projetos que diminuam as assimetrias entre os membros do Mercosul, como a preponderância do capital brasileiro no Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM). Essa ação desenvolvida pelo Governo brasileiro é ainda mais importante devido à constatação de Leandro Couto (2013, p. 202), segundo a qual: A iniciativa privada não segue a priorização da agenda diplomática. O fôlego e as apostas empresariais vão além das escolhas políticas do Estado. A América do Sul, apesar da prioridade explícita da diplomacia brasileira, não exerce a mesma força de atração dos agentes econômicos nacionais, que parecem não seguir fielmente a indução ou orientação estatal, nos moldes desginados pelo Estado logístico. [...] Amado Cervo argumenta que a intervenção do Estado brasileiro durante o governo Lula vai amadurecendo no sentido de dar suporte e apoio logístico às forças da sociedade na realização de seus próprios interesses. Evidencia-se, portanto, que o Brasil passou a assumir os custos da liderança de uma potência emergente e regional. O Brasil priorizou uma governança regional pautada por variáveis que transcendem o comércio, defendendo a integração regional também sob preceitos culturais, sociais, democráticos, entre outros. O FOCEM, criado em 2004, segundo informação contida em sua página oficial19, “destina-se a financiar programas para promover a convergência estrutural, desenvolver a competitividade e promover a coesão social, em particular das economias menores e regiões menos desenvolvidas; apoiar o funcionamento da estrutura institucional e o fortalecimento do processo de integração”. Os mecanismos de financiamento de projetos preveem aportes mais vultosos de recursos por parte dos países de maior renda média do Mercosul, os quais são, por sua vez, destinados às economias menores do bloco. Assim, o Brasil é o maior contribuinte do Fundo, aportando 70% dos recursos, enquanto a Argentina é responsável pela integralização de 27% do montante; o Uruguai, pela contribuição de 2%; e o Paraguai, de 1%. Quanto à destinação dos recursos, o Paraguai é o destinatário de 48% dos recursos e o Uruguai é contemplado com 32% do total. O FOCEM entrou em operação em janeiro de 2007, com a aprovação dos primeiros projetos a serem financiados com recursos comunitários. Em 2013, após seis anos de funcionamento, o Fundo totaliza 44 projetos aprovados, com uma carteira que ultrapassa a cifra de US$ 1,2 bilhão. Além dos projetos de cunho nacional, o Fundo financia projetos desenvolvidos de forma cooperativa entre os países do Mercosul, tais como o Programa de Ação Mercosul Livre de Febre Aftosa - PAMA, o Projeto Brasil-Paraguai de Construção da Linha de Transmissão Elétrica Itaipu-Villa Hayes, o Projeto de Pesquisa em tecnologias voltadas para a Medicina e o Projeto Brasil-Uruguai de saneamento integrado em Aceguá-Acegua. Para além das relações unicamente comerciais e de investimentos, o Brasil incentivou a criação de instituições mercosulinas, dando continuidade à política externa do governo Fernando Henrique Cardoso, o qual havia apoiado, por exemplo, o Mercosul Cultural (1995). Mesmo antes, algumas iniciativas já demonstravam que o Mercosul não se resumia a um bloco econômico-comercial: em 1991, meses depois da celebração do Tratado de Assunção, assinou-se o Protocolo de Intenções na área educacional, criando o chamado Sistema Educacional do Mercosul (SEM) ou Mercosul Educacional. O governo Lula adensou essa institucionalização de temas não exclusivamente comerciais no Mercosul: estruturou-se o Foro Especializado Migratório do Mercosul (2003); implementou-se a Secretaria Permanente do Mercosul Social (2005); e iniciou-se o funcionamento do Instituto Social do Mercosul (2009).Dessa forma, o Brasil embasou sua liderança na América do Sul no reforço do multilateralismo regional. Modernizou o princípio constitucional da não intervenção por meio do conceito de “não indiferença” - “termo cunhado pelo chanceler Celso Amorim para justificar o envolvimento brasileiro em questões internas a outros países da região sem abandonar formalmente a não intervenção” (SARAIVA, 2012, p. 130). O Brasil também não deixou de associar o desenvolvimento à integração regional. Desde 2003, o Mercosul vive a “fase de maturação da interdependência” (CERVO, 2008, p. 163). Nesse cenário, até os dias de hoje, o bloco logrou os seguintes êxitos: i) empatia das intelligentsias dos membros, com convergência de pensamento argentino e brasileiro, e, em menor escala, uruguaio e paraguaio; ii) as medidas de confiança mútua construídas desde a fase embrionária do Mercosul permitem caracterizar o bloco como zona de paz; iii) a integração comercial intrazona cresceu substancialmente; iv) a formação de um sujeito de direito internacional público, o Mercosul, com personalidade jurídica pelo Protocolo de Outo Preto (1994) permite que as negociações comerciais com outros países e blocos sejam feitas no esquema 4 + 1, o que fortalece a ação mercosulina. Ainda há, todavia, desafios importantes para o Mercosul: ausência de coordenação macroeconômica; conflitos comerciais entre sócios; assimetrias econômico-comerciais; divergências sobre questões de política interna, como verificado no episódio da suspensão do Paraguai do bloco, em 2012. A partir de 2011, o Mercosul passou a contar com o cargo de Alto Representante-Geral do Mercosul. Por meio Decisão n. 001/2011 do CMC, o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães foi eleito o primeiro ocupante do cargo, tendo prerrogativas de articulação política, formulação de propostas e representação das posições comuns do bloco. O mandato de tal representante é de três anos, renovável uma única vez por igual período. A adesão da Venezuela ao Mercosul, em 2012, significa “novo impulso ao sopro integracionista” como contraponto às assimetrias e às divergências no interior do bloco. A entrada da Venezuela no bloco como membro pleno ampliou “a dimensão geopolítica com projeção caribenha e centro- americana” do Mercosul (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2013, p. 294). A tríade (Brasil, Argentina e Venezuela) representa eixo estratégico que vincula os três grandes sul-americanos à integração, “um conserto tardio ao exclusivo eixo condutor argentino-brasileiro que ofuscou o potencial da Venezuela por duas décadas” (CERVO, 2008, p. 173). Na XLII Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em Montevidéu (Uruguai), em dezembro de 2011, celebraram-se dois importantes acordos: o Acordo de Livre-Comércio Mercosul-Palestina e o Protocolo de Montevidéu sobre Compromisso com a Democracia, que, quando internalizado por todos os membros do Mercosul, atualizará o Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático no Mercosul, de 1998. Quando internalizado pela Palestina e pelo Brasil, esse acordo de livre-comércio coexistirá com o já vigente acordo de igual natureza com Israel. O Protocolo chamado de Ushuaia II, que substituirá o Protocolo de Ushuaia de 1998 (Cláusula Democrática do Mercosul), abrange mecanismos extras de intermediação e de sanção para os casos de ruptura ou de ameaça de ruptura da ordem democrática. Lembre-se de que o Mercosul declarou, na referida Cúpula, o ano de 2012 como o “Ano da Erradicação da Pobreza Extrema e da Fome no Mercosul”, mostrando a preocupação dos dirigentes do Mercosul com o aspecto social. Na XLIII Cúpula do Mercosul e Estados Associados, em Mendoza (Argentina), em dezembro de 2012, houve duas decisões substanciais: i) foi oficializada a suspensão do Paraguai, no marco do Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático do Mercosul, como afirmado anteriormente; ii) a adesão da Venezuela como membro pleno do bloco, o que era aguardado desde a celebração do Protocolo sobre a Acessão da Venezuela (2006). Apesar do desafio trazido pela situação paraguaia, o Mercosul conseguiu avanço significativo ao constituir o Fundo de Promoção Cooperativa com vistas a fomentar projetos de cooperativas. Esse Fundo será semelhante ao FOCEM e terá aporte inicial de US$ 300 mil, sendo a maior parte patrocinada pelo Brasil - 70% do total. A XLIV Reunião Conjunta do Conselho do Mercado Comum, realizada em Brasília, em dezembro de 2012, logrou importante declaração conjunta emitida pelos Estados-Partes e pelos Estados Associados ao Mercosul. Houve compromisso com o fortalecimento da unidade regional e a preservação da América do Sul como zona de paz. Para o desenvolvimento social do subcontinente como um todo, a realização da Cúpula Social do Mercosul, em dezembro de 2012, e a decisão de tornar periódica tal Cúpula e de inseri-la na estrutura institucional do bloco, ressaltou a contribuição mercosulina para o diálogo e o intercâmbio entre a sociedade civil e os governos. Os Estados-Partes e os Estados Associados ao Mercosul reiteraram a importância de consolidar e ampliar, no âmbito de seu compromisso com a promoção e o respeito aos Direitos Humanos, a cooperação regional nessa matéria. Saudaram, em particular, a promulgação do Acordo Sede do Instituto de Políticas Públicas de Direitos Humanos do MERCOSUL (IPPDH), que representa um passo importante para a formalização do Instituto, o qual será sediado em Buenos Aires e contribuirá para a concepção e a implementação de políticas públicas e troca de informações. Os países reconheceram os resultados alcançados no âmbito do “Grupo Técnico de obtenção de dados, informações e levantamento de arquivos das Ações Repressivas coordenadas do Cone Sul e em particular da Operação Condor”, criado no âmbito da Comissão de Memória, Verdade e Justiça da Reunião de Altas Autoridades em Direito Humanos e Chancelarias do Mercosul (RAADH), consistentes no levantamento de arquivos relevantes para a matéria, o que possibilita maiores avanços na cooperação com vistas ao acesso à documentação relativa a graves violações de direitos humanos. Também destacaram a aprovação pela RAADH dos princípios fundamentais para as políticas públicas sobre lugares de memória, elaborado pelo Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH). No compromisso sul-americano com o processo de integração, o Suriname e a Guiana estabeleceram vínculos mais fortes com o bloco, sendo que esses dois países irão cooperar com o Mercosul no Fórum de Consulta e Cooperação Política (FCCP) e em outras instâncias institucionais. De acordo com a Decisão do Conselho Mercado Comum (CMC/DEC N. 23/2003), o FCCP compõe-se por Altos Funcionários das Chancelarias dos Estados-Partes e dos países Associados do MERCOSUL com vistas ao tratamento dos temas de interesse comum. Entre as atribuições do FCCP está a de “aprofundar o exame e a coordenação da agenda política do MERCOSUL, inclusive no que concerne às questões internacionais de natureza política e de interesse político comum relativas a terceiros países, grupos de países e organismos internacionais” (art. 3º, a, CMC/DEC N. 23/2003). Nessa perspectiva de integração regional, os países participantes saudaram a entrada em vigor do Banco do Sul, em abril de 2012, e reconheceram a importância desse banco para o fomento regional. À guisa de conclusão desta análise sobre o Mercosul, resumem-se ideias contidas no artigo publicado no sítio da internet da agência Carta Maior, em 27 de dezembro de 2012, no qual o embaixador Ruy Carlos Pereira escreveu acerca de áreas importantes para o Mercosul e os avanços logrados em cada uma nos últimos anos: i) Mercosul econômico-comercial Se os anos de 2008 e 2011 forem comparados, houve aumento de comércio intrabloco de 33%, o que comprova que, mesmo em cenário de crise econômica internacional, o comércio entre os sócios cresceu. Além disso, desde a criação do bloco, em 1991, o valor do comércio em seu interior aumentou dez vezes, e, em relação aos países extrazona, o comérciomultiplicou-se por sete. Dado notável é a constatação de que a maior parte das exportações brasileiras para os países do Mercosul é constituída por produtos industrializados. Vale destacar que a natureza do comércio entre os sócios do Mercosul se configura como comércio administrado pelos Estados ou por empresas. ii) Mercosul político e cidadão As esferas política e cidadã do bloco corroboram seu viés multidimensional. O Parlamento do Mercosul representa as populações dos respectivos países e deverá ter todos os representantes eleitos pelo voto direto, o que já acontece no caso do Paraguai. O Instituto de Políticas Públicas de Direitos Humanos e o Instituto Social, além do cargo de Alto Representante-Geral do Mercosul, devem ser lembrados. Em 2012, a Cúpula Social do bloco foi institucionalizada, o que demonstra a preocupação do Mercosul com o bloco. Ainda segundo o embaixador Ruy Nogueira (2012): No campo da conformação de uma “cidadania MERCOSUL”, foram alcançados importantes compromissos com a consolidação de direitos, no rumo da livre circulação de pessoas, os quais foram plasmados em instrumentos como o Acordo de Residência, o Acordo Multilateral de Seguridade Social e o Estatuto da Cidadania. O Plano de Ação para este último deverá estar implementado em 2021, quando se celebrará o 30º aniversário do MERCOSUL. No âmbito político, o Protocolo de Ushuaia (1998) garante o compromisso democrático do Mercosul, como demonstra sua adoção em face da ruptura política verificada no Paraguai. Em paralelo, a ampliação do bloco reitera o anseio do processo de integração do Cone Sul pela adesão de países vizinhos, como a Bolívia, a qual celebrou, em 2012, Protocolo de Adesão, e como o Equador, o qual já iniciou negociações para fazer parte do processo de integração como membro pleno. iii) Mercosul Social Segundo o Embaixador Ruy Nogueira (2012), A agenda social do MERCOSUL para o futuro próximo deverá incluir ações ao amparo do Plano Estratégico de Ação Social (PEAS), iniciativa que deverá contemplar dez eixos temáticos: (a) combate à fome e à pobreza; (b) garantia dos direitos humanos; (c) acesso universal à saúde pública; (d) acesso universal à educação; (e) valorização e promoção da diversidade cultural; (f) garantia da inclusão produtiva; (g) acesso ao trabalho decente e aos direitos previdenciários; (h) promoção da sustentabilidade ambiental; (i) promoção do diálogo social; e (j) cooperação regional para implementar e financiar políticas sociais. iv) Mercosul e combate às assimetrias O Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) ilustra o único instrumento para financiar projetos de desenvolvimento no Mercosul, com 40 projetos já aprovados. Os principais objetivos do FOCEM envolvem: a) a promoção da convergência estrutural; b) o desenvolvimento da competitividade; c) a promoção da coesão social; e d) o suporte ao funcionamento da estrutura institucional e o fortalecimento do processo de integração. Exemplo de projeto no âmbito do FOCEM é “a construção de um sistema de transmissão elétrica de 500 kV entre Itaipu e Villa Hayes”, visando o desenvolvimento paraguaio (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2013, p. 296). CRONOLOGIA DOS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS JURÍDICOS FIRMADOS NO ÂMBITO DO MERCOSUL (exceto Acordos Complementares firmados no âmbito da ALADI) Data de assinatura Nome do instrumento 30/11/1985 Declaração de Iguaçu 29/11/1986 Ata de Integração Argentino-Brasileira 29/11/1988 Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento entre Brasil e Argentina 6/7/1990 Ata de Buenos Aires 26/3/1991 Tratado para a Constituição de um Mercado Comum entre a República Federativa do Brasil, a República Argentina, a República do Paraguai e a República Oriental do Uruguai (Tratado de Assunção) 17/12/1991 Protocolo de Brasília para a solução de controvérsias (derrogado) 14/10/1992 Protocolo de Las Leñas sobre Cooperação Jurídica 17/12/1994 Protocolo Adicional ao Tratado de Assunção sobre a Estrutura Institucional do Mercosul - Protocolo de Ouro Preto 24/7/1998 Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático no Mercosul, Bolívia e Chile 18/2/2002 Protocolo de Olivos para a solução de controvérsias (Segundo o art. 55 do Protocolo de Olivos, este derroga, a partir de sua entrada em vigência, o Protocolo de Brasília para a Solução de Controvérsias, adotado em 17 de dezembro de 1991 e o Regulamento do Protocolo de Brasília) 3.3. Iniciativa para a Integração Regional Sul- Americana (IIRSA) Por iniciativa brasileira, foi realizada, em Brasília, no ano 2000, a I Reunião de Presidentes da América do Sul, que contou com a participação de todos os líderes sul-americanos. A despeito de a Declaração Final daquela Reunião conter compromissos regionais nas áreas de democracia, comércio, drogas ilícitas e crimes conexos, bem como informação, conhecimento e tecnologia, um dos principais resultados do encontro foi o estabelecimento da Iniciativa para a Integração Regional Sul-Americana (IIRSA), destinada a implementar projetos nas áreas de energia, transportes e comunicações (GARCIA, 2005, p. 268). A ideia de estabelecimento de uma instância de cooperação política e econômica para implementação de projetos de desenvolvimento da infraestrutura regional teve origem a partir do Plano de Ação para a Integração da Infraestrutura Regional na América do Sul, elaborado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Corporação Andina de Fomento (CAF). Tal Plano, conforme mencionado na Declaração de Brasília (2000), “contém sugestões e propostas, com horizonte de 10 anos, para ampliação e modernização da infraestrutura física da América do Sul, em especial nas áreas de energia, transportes e comunicações, com a finalidade de configurar eixos de integração e desenvolvimento econômico e social para o futuro espaço econômico ampliado na região, tendo em conta, em especial, a situação dos países que enfrentam barreiras geográficas para acessar por mar os mercados internacionais”. Três setores da infraestrutura foram, portanto, eleitos como prioritários para o desenvolvimento de projetos comuns: energia, transportes e comunicações. No setor energético, a Declaração de Brasília enfatiza a destinação integrada dos recursos, possibilitando que a demanda por fontes de energia dos países sul-americanos possa contar com uma oferta regional de combustíveis líquidos e gasosos e de eletricidade. A respeito vale recordar que o gás natural fornecido pela Bolívia e a energia produzida na Usina de Itaipu, cujo reservatório hidrológico se localiza no território paraguaio, constituem fontes energéticas essenciais para a produção industrial e o consumo doméstico de energia no Brasil. Quanto aos transportes, definiu-se como prioridade o estabelecimento de redes multimodais destinadas a melhor articular o uso de ligações terrestres, fluviais, marítimas e aéreas, com ênfase para a conexão de Bolívia e Paraguai com portos no Pacífico e no Atlântico capazes de possibilitar melhor escoamento de sua produção. O setor de telecomunicações foi identificado na Declaração de Brasília como essencial para o bom funcionamento dos sistemas logísticos e energéticos integrados que estimam estabelecer na América do Sul. A fim de estabelecer compromissos concretos de implementação dessas metas de integração, os 12 países reunidos em Brasília agendaram, para aquele mesmo ano, encontro para desenvolver um Plano de Ação capaz de guiar as várias iniciativas. Assim, os Ministros do Transporte, Energia e Comunicações dos países signatários da Declaração de Brasília se reuniram, em dezembro de 2000, em Montevidéu. Naquele encontro, definiram como “Princípios Orientadores” para o desenvolvimento dos trabalhos da Iniciativa (IIRSA, 2011, p. 16): • Regionalismo aberto; • Eixos de integração e desenvolvimento; • Sustentabilidade econômica, social, ambiental e político-institucional; • Aumento do valor agregado da produção; • Tecnologias da informação; • Convergência normativa; • Coordenação público-privada. Na reunião de Montevidéu,chegou-se a definição de um Plano de Ação, o qual guiaria os trabalhos da IIRSA, no período 2000-2010. O Plano definiu nove linhas de ação: 1. Desenhar visão integral da infraestrutura; 2. Enquadrar os projetos dentro de planejamento estratégico, a partir da identificação dos Investimentos Diretos Estrangeiros (IDEs) regionais; 3. Modernizar e atualizar os sistemas regulatórios e institucionais nacionais que regem o uso da infraestrutura; 4. Harmonizar as políticas e marcos regulatórios e institucionais entre os Estados; 5. Estimular a dimensão social e ambiental dos projetos; 6. Melhorar a qualidade de vida e as oportunidades das populações nos eixos de integração regional; 7. Incorporar mecanismos de participação e consulta (às populações envolvidas na execução e submetidas ao impacto dos projetos); 8. Desenvolver novos mecanismos regionais para a programação, execução e gestão de novos projetos; 9. Estruturar esquemas financeiros adaptados à configuração específica de riscos de cada projeto. As ações da IIRSA seriam, doravante, dirigidas, prioritariamente, aos 12 eixos de integração e desenvolvimento mencionados no Plano de Ação. Assim, o desenvolvimento de projetos, ainda que situados majoritariamente no território nacional de um único país da IIRSA, deve ser tido no contexto maior da importância que terá para a interconexão com seus vizinhos. No que tange à estrutura institucional, o Plano adotou um perfil de baixa institucionalização e de estímulo à coordenação das diferentes instâncias nacionais, tendo em conta os altos custos de uma possível criação e manutenção de staff permanente para a Iniciativa. Assim, foram criadas três instâncias de coordenação e execução dos projetos da IIRSA: Comitê de Direção Executiva (CDE - nível político-deliberativo); Comitê de Coordenação Técnica (CCT - nível técnico-executivo); Grupos Técnico- Executivos (GTEs - nível técnico-especializado). Ao CCT, estima-se uma atuação coordenada com as instância de fomento da IIRSA, como o BID e a CAF. Já nos GTEs, encontram-se as discussões sobre os assuntos específicos de cada projeto, as quais são mantidas por especialistas de cada país envolvido. No ano de 2004, o Comitê de Direção Executiva verificou a importância de definir uma lista de projetos prioritários sobre os quais foram concentrados os esforços e os recursos disponíveis na região. Essa lista, denominada “Agenda de Implementação Consensuada 2005-2010”, definiu 31 projetos principais que deveriam receber especial atenção. Essa medida do CDE foi essencial para o sucesso da IIRSA por dois motivos. Primeiro, reduziu-se consideravelmente o espaço para disputas políticas no âmbito do Comitê quanto à priorização de determinados projetos e, sobretudo, conferiu-lhes maior continuidade de execução mesmo diante das sucessões nos governos dos países envolvidos nos projetos. Segundo, como veremos adiante, em dezembro daquele ano foi realizada a III Reunião de Presidentes da América do Sul, a qual deu origem às declarações de Cuzco a Ayacucho, cuja primeira estabelece a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA). Conforme mencionado na Declaração de Ayacucho, os mandatários sul-americanos presentes na III Reunião “reafirmaram seu pleno respaldo à Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul- Americana (IIRSA) e os avanços registrados nessa iniciativa, em especial no que se refere à ‘Agenda de Implantação Consensuada 2005-2010’ e à lista de projetos de IIRSA. Nesse sentido, acolhendo proposta formulada na Sexta Reunião do Comitê Executivo, rubricam o mapa que contém os projetos incluídos incialmente na mencionada agenda”. De acordo com dados oficiais, contidos em IIRSA (2011, p. 108-109): Os 31 projetos que integram a Agenda significam um investimento total estimado de 14,023 bilhões de dólares nos setores de transporte, energia e comunicações. Quinze deles requerem investimentos provenientes de mais de um país. Os outros 16 são projetos nacionais com um vigoroso “efeito ponte” entre fronteiras nacionais e, geralmente, incrementam a rentabilidade de investimentos prévios no mesmo país ou em um país vizinho. No ano de 2010, a IIRSA realizou balanço sobre a implementação da “Agenda Consensuada”, a fim de constatar os avanços alcançados. Da previsão original, 2 projetos encontravam-se concluídos, representando um investimento estimado de USD 22 milhões. Outros 19 projetos encontravam- se em fase de execução, representando um investimento estimado de USD 7,6 bilhões. Havia, ainda, 8 projetos em fase de pré-execução, representando um investimento estimado de USD 6,3 bilhões, e 2 projetos em fase de perfil, representando um investimento estimado de USD 2,8 milhões (IIRSA, 2011, p. 109). A partir de 2011, os trabalhos da IIRSA passaram a fazer parte do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento da União das Nações Sul-Americanas. Segundo dados da XXIII Reunião de Coordenadores Nacionais da IIRSA, realizada em novembro de 2013, a carteira de projetos totalizava 583 ações, divididas da seguinte maneira: Fonte: Página virtual da IIRSA, disponível em: <http://iirsa.org/Event/Detail?Id=235>. Acesso em: 22 fev. 2014. Ademais dos aspectos quantitativos demonstrados acima, destacam-se os ganhos intangíveis da iniciativa, dentre os quais podemos destacar o conhecimento acumulado sobre as restrições e oportunidades da região, a cooperação entre países, os desenvolvimentos metodológicos e a capacitação, o capital institucional mobilizado e formado, tanto nos governos como nos órgãos regionais, e a considerável mobilização de recursos de cooperação técnica regional (IIRSA, 2011). Verifica-se, portanto, que a IIRSA se trata de uma ação de integração física que visa a “diluir” as fronteiras com os países regionais (COUTO, 2013). O empenho do Brasil na execução dos projetos da Iniciativa é uma forma de reduzir o peso das críticas associadas ao caráter majoritariamente superavitário de sua balança comercial com os demais países sul-americanos e vai ao encontro do discurso de redução das assimetrias no continente. Ressalta-se que os projetos desenvolvidos pela IIRSA são financiados diretamente pelos países interessados, bem como pelo BID e pela CAF. No caso brasileiro, a ação da IIRSA vem sendo complementada, nos últimos anos, pelo aporte de vultosos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para que governos vizinhos possam realizar obras de infraestrutura com a participação de empresas brasileiras, tais como a Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS, entre outras. Os financiamentos concedidos pelos BNDES aumentam a oferta de recursos com taxas de juros subsidiadas na região, o que torna o Brasil parceiro estratégico para os demais países sul-americanos. De acordo com Leandro Couto (2013, p. 207-209): Assim, a elevação das ações de integração física sul-americana, baseadas, em boa medida, em investimentos estatais em grandes obras de infraestrutura, responde aos objetivos estratégicos da política externa brasileira para a região. Ao mesmo tempo em que se mostra parceiro do desenvolvimento dos seus vizinhos, ajuda a superar as desconfianças, que eram recíprocas no passado, e amplia sua influência regional através de uma agenda concreta. [...] Nesse ponto, o Brasil acumula, desde 2003, cerca de USD 10 bilhões em desembolsos através do programa de incentivo às exportações do BNDES, mais de 70% do valor dos investimentos previstos na agenda prioritária da IIRSA. A infraestrutura pode ser elemento de efetivação de uma parceria estratégica entre o Brasil e a América do Sul. O desenvolvimento de projetos de infraestrutura com amplo impacto sobre desenvolvimento econômico e social dos países da região impõe ao Brasil desafios crescentes. A gestão dessas iniciativas, por vezes, atraem críticas, sobretudo dos setores da esquerda política de caráter mais radical dos países sul-americanos quanto a um possível “imperialismo” do Brasil; casos recentes, como a expulsão da Odebrecht do Equador, em2008, decorrente de litígio comercial envolvendo a construção da hidroelétrica de San Francisco, e da nacionalização das refinarias da Petrobras, na Bolívia, em 2006, corroboram o contexto de dificuldades que são enfrentados no processo de construção dessas parcerias. Como será analisado mais adiante neste capítulo, tais dificuldades resultam, de certa maneira, da existência de projetos de integração e concertação política divergentes no continente sul- americano. 3.4. União das Nações Sul-Americanas (Unasul) O final de década de 1990 e o início dos anos 2000 trouxeram importantes desafios para o Mercosul. Em 1997, tem início, na Tailândia, crise financeira internacional de grandes proporções, cuja disseminação levou os investidores externos a retirar das economias em desenvolvimento volume considerável de recursos. A crise de confiança nos países emergentes afetou o Brasil, que aguentou o quanto pôde a valorização do real em face do dólar. Ao mesmo tempo, a Argentina buscava manter seu Plano de Convertibilidade, que dependia, em grande parte, do comércio superavitário que realizava com o Brasil. Essa situação, contudo, tornou-se insustentável no final de 1998, até que, em janeiro de 1999, sem prévia consulta ao país vizinho, o Brasil decidiu pela rápida desvalorização de sua moeda em cerca de 100%. Essa medida comprometeu severamente a economia argentina, legando ao país uma profunda recessão. De acordo com Miriam Gomes Saraiva (2012, p. 111): Na Argentina, a desvalorização cambial brasileira gerou preocupações e provocou reações negativas; e os meios de comunicação popularizaram a expressão Brasil-dependência e especularam sobre o fim do Mercosul [...] Balze chama a atenção para os impactos da desvalorização do Real no processo de integração e destaca a crise de confiança resultante dos esforços brasileiros para solucionar a crise “a costa del país vecino”. No bojo das críticas, ele ressalta as debilidades do processo materializadas na incapacidade de se compor uma união aduaneira real; nas políticas de subsídios que distorceriam a concorrência e incentivariam o chamado “desvio de investimento”; na distribuição desigual de custos e benefícios do processo. A brusca redução no comércio intrabloco decorrente da crise cambial tornou evidente para o Governo brasileiro que as necessidades de desenvolvimento do país e de retomada da estabilidade monetária passavam pelo alargamento das iniciativas regionais de cooperação. A partir da metade do segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, verifica-se nova diretriz de política externa, pautada pela busca de novos parceiros no continente, que viriam a se somar àqueles do Mercosul. Nesse contexto, como vimos, anteriormente, explicam-se a realização, em 2000, da I Reunião de Presidentes da América do Sul e, em 2001, da I Reunião sobre Diálogo Político da Comunidade Andina-Mercosul e Chile, sendo esta última em nível de chanceleres. A partir da Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, verifica-se que o Brasil atua de forma decisiva na criação de instituições regionais não mais centradas no caráter comercial, mas sobretudo dedicadas a servir de: i) mecanismo de concertação política que tragam estabilidade à região; ii) estrutura de integração produtiva, que permita o desenvolvimento de projetos conjuntos de infraestrutura, energia e comunicações, tidos como fatores essenciais do progresso econômico. Há, portanto, uma mudança na própria gênese da integração regional: enquanto no Mercosul o processo de integração nasce nos aspectos comerciais e deles evoluem para a construção de uma agenda social a política, na Unasul, o que predomina nos primeiros anos é a integração política e de setores produtivos. No capítulo inicial desta obra, ao estudarmos as teorias de integração regional, destacamos o peso que os neofuncionalistas conferem às decisões políticas para o avanço das estratégias de integração regional; talvez seja a Unasul o reconhecimento tácito dessa dinâmica. As origens da Unasul remontam à III Cúpula Sul-Americana, realizada em 8 de dezembro de 2004, no Peru, onde os presidentes ou representantes de 12 países sul-americanos assinaram a Declaração de Cuzco, uma carta de intenções de duas páginas, anunciando a fundação da então Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA). O Panamá e o México estiveram presentes à cerimônia de assinatura, como observadores. Por meio da Declaração de Cuzco (2004): os Chefes de Estado presentes à III Reunião, decidem conformar espaço sul-americano que se desenvolverá por meio da “coordenação política” e “do aprofundamento da convergência entre o Mercosul, a Comunidade Andina das Nações (CAN) e o Chile, por meio da zona de livre-comércio”. Estimular-se-á “a integração física, energética e de comunicações na América do Sul sobre a base das experiências bilaterais, regionais e sub-regionais existentes, com a consideração de mecanismos financeiros inovadores”. A denominação da Comunidade Sul-Americana de Nações foi deixada de lado em 16 de abril de 2007, durante a I Reunião sobre Energia na América do Sul, realizada na Ilha de Margarita, Venezuela. Na ocasião, a designação “União de Nações Sul-Americanas” (UNASUL) foi aprovada por todos os Estados-membros. O Tratado Constitutivo da UNASUL foi assinado em 2008, em Brasília, durante Reunião Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo20. Dentre os principais pontos do Tratado Constitutivo destacam-se: Preâmbulo: Entendendo que a integração sul-americana deve ser alcançada através de um processo inovador, que inclua todas as conquistas e avanços obtidos pelo MERCOSUL e pela CAN, assim como a experiência de Chile, Guiana e Suriname, indo além da convergência desses processos. [...] Artigo 1: Os Estados Partes do presente Tratado decidem constituir a União de Nações Sul-americanas (UNASUL) como uma organização dotada de personalidade jurídica internacional. [...] Artigo 3: Objetivos Específicos [...] d) a integração energética para o aproveitamento integral, sustentável e solidário dos recursos da região; e) o desenvolvimento de uma infraestrutura para a interconexão da região e de nossos povos de acordo com critérios de desenvolvimento social e econômico sustentáveis; f) a integração financeira mediante a adoção de mecanismos compatíveis com as políticas econômicas e fiscais dos Estados-Membros; g) a proteção da biodiversidade, dos recursos hídricos e dos ecossistemas, assim como a cooperação na prevenção das catástrofes e na luta contra as causas e os efeitos da mudança climática; [...] i) a consolidação de uma identidade sul-americana através do reconhecimento progressivo de direitos a nacionais de um Estado-Membro residentes em qualquer outro Estado-Membro, com o objetivo de alcançar uma cidadania sul-americana; j) o acesso universal à seguridade social e aos serviços de saúde; [...] l) a cooperação econômica e comercial para avançar e consolidar um processo inovador, dinâmico, transparente, equitativo e equilibrado que contemple um acesso efetivo, promovendo o crescimento e o desenvolvimento econômico que supere as assimetrias mediante a complementação das economias dos países da América do Sul; p) a participação cidadã, por meio de mecanismos de interação e diálogo entre a UNASUL e os diversos atores sociais na formulação de políticas de integração sul-americana. No que tange à estrutura institucional do grupo, o Tratado Constitutivo da Unasul define a seguinte estrutura, e respectivas funções: • Conselho de Chefas e Chefes de Estado e de Governo: estabelecer as diretrizes políticas, os planos de ação, os programas e os projetos do processo de integração sul-americana e decidir as prioridades para sua implementação; decidir sobre as propostas apresentadas pelo Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores; • Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores: adotar Resoluções para implementar as Decisões do Conselho de Chefas e Chefes de Estado e de Governo; desenvolver e promover o diálogo político e a concertaçãosobre temas de interesse regional e internacional; • Conselho de Delegadas e Delegados: O Conselho de Delegadas e Delegados é formado por representante acreditado por cada Estado- Membro. Reúne-se com periodicidade preferencialmente bimestral, no território do Estado que exerce a Presidência Pro Tempore ou outro lugar que se acorde. Suas funções são: preparar as reuniões do Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores; elaborar projetos de Decisões, Resoluções e Regulamentos para a consideração do Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores; e compatibilizar e coordenar as iniciativas da UNASUL com outros processos de integração regional e sub-regional vigentes, com a finalidade de promover a complementaridade de esforços. • A Secretaria-Geral: tem sua sede em Quito, Equador. O Secretário Geral será designado pelo Conselho de Chefas e Chefes de Estado e de Governo com base em proposta do Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores, por um período de dois anos, renovável apenas uma vez. O Secretário-Geral não poderá ser sucedido por uma pessoa da mesma nacionalidade, e cabe a ele exercer a representação legal da Secretaria. O processo decisório da Unasul preserva o máximo de representatividade de seus membros ao prever que toda a normativa do grupo será adotada por consenso, sendo necessário quórum mínimo de 75% dos Estados-membros. Ademais, aquelas decisões que forem adotadas sem a presença de todos os integrantes da Unasul deverão ser objeto de consulta dirigida pelo Secretário-Geral da organização ao Estado ausente. O diálogo político é alçado à importância central dentro do bloco que, no art. 14 do Tratado Constitutivo, prevê claramente a construção de consenso e a promoção de iniciativas que afirmem a identidade comum da região. Para tanto, o Tratado vai além ao prever a formação de um Parlamento Sul-americano, a ser sediado na cidade de Cochabamba (Bolívia). Para o tratamento dos diversos temas componentes da agenda política comum aos seus países- membros, a Unasul dispõe, ainda, de oito conselhos ministeriais nas seguintes áreas: energia; saúde; defesa; infraestrutura e planejamento; desenvolvimento social; combate às drogas; educação, cultura, ciência, tecnologia e inovação; e economia e finanças. Ademais dos 8 grupos, a organização conta com dois Grupos de Trabalho: Integração Financeira; e Solução de Controvérsias em Matéria de Investimentos. Dentre esses Conselhos destaca-se o Conselho de Defesa Sul-Americano, estabelecido ainda no ano de 2008, a partir de proposta do então Ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim. As atividades tiveram início em meio a discussão sobre as ações de combate ao narcotráfico desenvolvidas nos países sul-americanos com financiamento e apoio logístico militar dos EUA. A respeito, recorda-se que, em meados de 2009, o Governo equatoriano solicitava dos EUA a devolução da Base Aérea Militar de Manta (localizada na porção Oeste do território do Equador), a qual havia sido cedida ao uso dos militares estadunidenses por meio de acordo firmado com o Governo de Quito em 1999. O referido acordo tinha validade de 10 anos e o Governo de Rafael Correa já havia, reiterada vezes, anunciado que, ao expirar esse prazo, tinha intenção de retomar o aeródromo para uso exclusivo das forças equatorianas. Com a perspectiva de devolução da Base de Manta, que foi efetivada em setembro de 2009, os EUA negociavam com o Governo da Colômbia a revitalização e a transferência das atividades de combate ao narcotráfico no continente para a Base de Palanquero (localizada na região central daquele país), mediante acordo que previa investimentos de USD 46 milhões na instalação militar (GOMIDE, 2009). Tal perspectiva provocou a primeira reação coordenada dos países-membros do Conselho, os quais reunidos na Argentina, em 28 de agosto de 2009, emitiram a Declaração de Bariloche, da qual se destaca a disposição de levar a cabo as seguintes ações: fortalecer a América do Sul como zona de paz, comprometendo-se a estabelecer um mecanismo de confiança mútua em matéria de defesa e segurança; reafirmar que a presença de forças militares estrangeiras não pode, com seus meios e recursos vinculados a objetivos próprios, ameaçar a soberania e integridade de qualquer nação sul-americana e em consequência a paz e segurança na região; e instruir o Conselho Sul-Americano de Luta contra o Narcotráfico a elaborar com urgência seu Estatuto e um Plano de Ação com o objetivo de definir uma estratégia sul-americana de luta contra o tráfico ilícito de drogas e de fortalecimento da cooperação entre os organismos especializados dos países da Unasul. Na linguagem diplomática, a Declaração de Bariloche representou um claro repúdio às mencionadas tratativas colombianas com os EUA. A ação coordenada pela Unasul, ao menos oficialmente, levou o Governo de Bogotá a rever sua posição em relação a Palanquero. Na sequência daquele encontro na Argentina, tiveram lugar, no Equador, em setembro de 2009, reuniões de Ministros das Relações Exteriores e da Defesa das quais resultou conjunto de medidas voltados ao aumento da transparência (sistemas de defesa e gastos de defesa) das atividades militares intra e extrarregionais. Os procedimentos a serem adotados na aplicação dessas medidas foram aprovados pelos Ministros de Defesa reunidos em Guaiaquil, em maio de 2010, e pelos Ministros de Relações Exteriores, em reunião realizada em Georgetown, em novembro do mesmo ano. Convém destacar que o Conselho de Defesa da Unasul não tem o formato, o objetivo e mesmo o mandato típico das tradicionais alianças de defesa militar, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Sua atuação, repita-se, está voltada para a concertação política, o estímulo à transparência e o desenvolvimento de ações conjuntas articuladas entre seus membros, respeitando sempre suas respectivas soberanias. Desde sua criação, a Unasul tem atuado como mecanismo essencial de concertação política em contexto de crises políticas no continente. A respeito, destaca-se a importância da convergência de posições demonstrada pelos países-membros da Unasul na solução da crise separatista do Pando (Bolívia), em 2008, e em 2010, quando o Presidente Rafael Correa sofreu tentativa de golpe no Equador. No contexto da crise equatoriana, os países da Unasul decidiram adotar, durante a Cúpula realizada em Georgetown (Guiana), em novembro de 2010, Protocolo Adicional ao Tratado Constitutivo da Unasul, o qual estabelece cláusula democrática obrigatória para os países que compõem a organização. O Protocolo possui aplicabilidade nos casos em que o poder legítimo (leia-se: eleito de forma democrática) for ameaçado ou sofrer ruptura. Em caso de golpe, o Conselho de Chefes de Estado, ou na impossibilidade deste, o de Ministros das Relações Exteriores, poderá adotar as seguintes medidas para o restabelecimento da normalidade constitucional e política: Artigo 4º a. - Suspensão do direito de participar nos diferentes órgãos e instâncias da UNASUL, bem como do gozo dos direitos e prerrogativas decorrentes do Tratado Constitutivo da UNASUL. b. - Fechamento parcial ou total das fronteiras terrestres, incluindo a suspensão e/ou limitação do comércio, transporte aéreo e marítimo, comunicações, fornecimento de energia, serviços e abastecimento. c. - Promover a suspensão do Estado afetado no âmbito de outras organizações regionais e internacionais. d. - Promover, ante terceiros países e/ou blocos regionais, a suspensão dos direitos e/ou prerrogativas do Estado afetado derivados dos acordos de cooperação em que seja parte. e. - Adoção de sanções políticas e diplomáticas adicionais. Medidas referentes aos bons ofícios - não confundir com mediação - e às gestões diplomáticas juntos aos grupos políticos em luta no país alvo da ruptura democrática deverão ser seguidas àquelas do artigo 4º. O Estado que se sinta na iminência da ruptura da institucionalidade político- democrática poderá recorrer, igualmente à Unasul, com base no artigo6º do Protocolo Adicional: Artigo 6º: Na hipótese de o governo constitucional de um Estado-Membro considerar que existe uma ameaça de ruptura ou alteração da ordem democrática que o afete severamente, este poderá recorrer ao Conselho de Chefes de Estado e de Governo ou ao Conselho de Ministros das Relações Exteriores, por intermédio da Presidência Pro Tempore e/ou da Secretaria- Geral, a fim de informar sobre a situação e requerer medidas concretas de cooperação concertadas e o pronunciamento da UNASUL para defender e preservar suas instituições democráticas. O mais recente encontro de alto nível da organização ocorreu em novembro de 2013, em Paramaribo (Suriname). De acordo com a Declaração de Paramaribo, aprovada na VII Reunião Ordinária do Conselho de Chefes de Estado e de Governo da União das Nações Sul-Americanas, a organização demonstrou, nos últimos meses, avanços no que tange a medidas conjuntas de aproveitamento dos recursos naturais e de promoção da participação cidadã no processo de integração. A respeito, a referida Declaração destaca a realização, em Caracas, da I Conferência da UNASUL sobre Recursos Naturais e Desenvolvimento Integral da Região e aprova as diretrizes para o estabelecimento do Fórum de Participação Cidadã, bem como para a realização do 1º Fórum na Cidade de Cochabamba, Bolívia. Quanto aos trabalhos desenvolvidos pelo Conselho da Defesa da Unasul, faz-se referência à iniciativa de criar uma Escola Sul-Americana de Defesa, concebida como um centro para estudos superiores e coordenação de redes entre as iniciativas nacionais dos países membros, para a formação e capacitação de civis e militares em matéria de defesa e segurança nacional. Em relação aos temas atuais da agenda internacional, a Declaração de Paramaribo promove a concertação de posições entre os países da região no que tange à “rejeição da revogação infundada das permissões de sobrevoo e aterrissagem anteriormente concedidas pelas autoridades de alguns países europeus ao avião que transportava Sua Excelência Evo Morales Ayma, presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, em suas viagens pelo referido continente”. Quanto aos escândalos de espionagem de autoridades estrangerias pelo Governo norte-americano, a Declaração assere que tal ato constitui “uma ameaça à segurança e graves violações dos direitos humanos, civis e políticos, do direito internacional e da nossa soberania e que prejudicam as relações entre as nações”. Como se pode depreender desta breve análise sobre a Unasul, a organização dispõe de potencial para promoção de singular mecanismo de concertação política no continente. O grau de comprometimento político de seus membros com o organismo, sobretudo daqueles que detêm maiores populações e capacidades econômicas, deverá determinar, nos próximos anos, o nível de evolução desta estrutura de cooperação sul-americana. Nascida em contexto no qual o continente luta para consolidar seus avanços socioeconômicos das últimas décadas e para criar uma verdadeira identidade sul-americana, pode-se afirmar que todo o escopo da ação desenvolvida no âmbito da Unasul está voltada à inserção autônoma e altiva da América do Sul no sistema internacional. 4. O Brasil e a Cooperação Sul-Sul Multilateral: Entre parcerias estratégicas e coalizões Para iniciarmos o estudo sobre as principais coalizões e parcerias estratégicas de caráter multilateral adotadas pela política externa brasileira atual nos diferentes foros internacionais, devemos retomar as origens e os princípios das ações de cooperação Sul-Sul, os quais remontam à década de 1950. Neste capítulo, dar-se-á especial ênfase às variáveis do sistema internacional que levaram o Brasil a privilegiar determinados foros de caráter multilateral nas suas relações exteriores no contexto pós-Segunda Grande Guerra. Ao analisar o contexto de inserção internacional dos países em desenvolvimento após a Guerra Fria, o texto deverá fornecer subsídios que permitam compreender as motivações que levaram o Brasil a avançar no adensamento de parcerias estratégicas com Estados cujo nível de desenvolvimento econômico mostrava-se similar ao do País, ainda que detentores de regimes políticos, condições sociais e contextos históricos diversos da conjuntura brasileira. Na análise do momento atual, torna-se imperativo o estudo mais detalhado sobre os princípios e o papel que representam o IBAS e o BRICS como instrumentos de política externa brasileira. De igual maneira, será realizada especial análise do processo negociador realizado no contexto do G-20, no que tange às discussões internacionais sobre o comércio de produtos agrícolas, mantidas na Organização Mundial do Comércio a partir de 2003. Por oportuno, destaca-se que, com vistas a uma apresentação mais didática do conteúdo, optou-se por discorrer em capítulo à parte sobre as parcerias estratégicas bilaterais, as quais serão estudadas de forma concomitante ao histórico das relações bilaterais entre o Brasil e seus principais parceiros internacionais. 4.1. Origens e desenvolvimento do conceito de cooperação Sul-Sul 4.1.1. Descolonização, decepções e tomada de consciência entre os povos do Sul Após a Segunda Grande Guerra, no período que vai de 1947 ao final dos anos 1970, os movimentos de descolonização que resultaram na independência das ex-colônias europeias na África e na Ásia propiciaram conjuntura inédita favorável ao surgimento de laços de cooperação e solidariedade no plano político. Naquele contexto, começava a se formar uma identidade própria dos países recém-independentes da Ásia e da África que conjugavam de estágios comuns de desenvolvimento com as nações latino-americanas: economias exportadoras de produtos agrícolas e minerais com baixo nível técnico de desenvolvimento da produção e estruturas sociais caracterizadas por níveis alarmantes de desigualdade, em muitos casos, derivados de centenas de anos de escravidão. A esse grupo peculiar, porém numeroso, de novos Estados, o economista e sociólogo francês Alfred Sauvy denominou Terceiro Mundo, em alusão ao conceito de Terceiro Estado, contido na obra de Abade Sieyès21. O desafio de inserção das ex-colônias africanas e asiáticas no cenário internacional pós-Guerra Fria era motivado pelo fato de que as estruturas econômicas do Sistema de Bretton Woods estavam voltadas ao financiamento da reconstrução europeia, à abertura comercial para a venda de produtos manufaturados (acesso a mercados) e à segurança do sistema financeiro internacional baseado no padrão dólar-ouro. Para aqueles países recém-independentes não havia outra estratégia de crescimento a não ser aliarem-se a suas antigas metrópoles e respectivos parceiros por meio de acordos comerciais que perpetuavam a condição de fornecedores de insumos básicos, alijando-os do acesso e das condições de desenvolvimento de novas tecnologias e, por consequência, do aumento do valor agregado da produção. Diante do domínio de poder estabelecido pelo recrudescimento do embate ideológico entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a situação dos países do Terceiro Mundo era ainda agravada pela instabilidade política provocada, muitas vezes, pelas intervenções, diretas ou por meio do fomento aos grupos opositores, nas frágeis instituições governamentais. Não tardou, porém, para que os países do Terceiro Mundo originassem instâncias de cooperação voltadas a criar nos regimes internacionais as condições necessárias ao desenvolvimento e à preservação da soberania e do direito de não intervenção nos assuntos domésticos dos Estados. A primeira dessas instâncias surge já no ano de 1955, quando tem lugar em Bandung, na Indonésia, a I Conferência Afro-Asiática (doravante denominada Conferência de Bandung), que contou com a liderança dos chefes de Estado do país anfitrião (Sukarno), da Índia (Nehru), da Iugoslávia (Tito) e do Egito (Nasser). Como resultado do encontro, surgia o primeiro documento a prever, dentre seus dez princípios, a promoção dos interesses mútuos pormeio da cooperação Sul-Sul, que seria refletida na adoção de posições comuns nos organismos internacionais. Segundo Patrícia Soares Leite (2011, p. 57-58): Em resumo, a Conferência de Bandung foi responsável pela formação de uma primeira identidade dos povos do Terceiro Mundo, que não se confundia com a plataforma ideológica quer do bloco capitalista quer do bloco socialista. Inaugurou correlação de forças no sistema internacional, que buscava interferir na agenda externa e flexibilizar a rigidez do poder do condomínio bipolar. Marcou a iniciativa de conjunto de países de se unirem e coordenarem suas ações em temas de interesse comum. Fundou, enfim, “a solidariedade dos povos do Sul”, nos termos de Samir Amin. Embora em estágio bastante distinto de desenvolvimento político, os países latino-americanos, cujos processos de independência haviam transcorrido há mais de um século, partilhavam com os países reunidos em Bandung dos mesmos desafios socioeconômicos. No caso brasileiro, como visto em capítulo anterior desta obra, havia frustração quanto aos benefícios que uma política de alinhamento com os EUA poderiam trazer em termos econômicos e, nesse contexto, encontram-se as razões que levaram o Governo de Jânio Quadros a dar origem à Política Externa Independente (PEI). O descontentamento brasileiro com as limitações impostas pelas estruturas do sistema internacional, que legavam aos países do Terceiro Mundo condições desiguais de comércio e desenvolvimento, traduzia-se no conceito de “deterioração dos termos de troca” cujo debate era estimulado, no âmbito das Nações Unidas, pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL). O pensamento cepalino, ao enfatizar a importância do planejamento estatal nas economias latinas, tornou-se alvo de críticas por parte de autores adeptos da ortodoxia liberal. Chegara-se a afirmar que a CEPAL propunha um modelo de crescimento nacional autárquico, retraído em relação ao comércio exterior. Tal afirmação demonstra-se equivocada em face do apoio da Comissão ao surgimento da Associação Latino-Americana de Livre- Comércio (ALALC), em 1960. Da CEPAL emanaram bases teóricas que recomendaram aos Estados americanos a promoção do aumento e da diversificação das exportações, seja por meio do alargamento de mercados regionais, que contribuíam para a gradual redução tarifária nos países da região, seja mediante o aumento da escala de produção. Malgrado os insucessos da ALALC, que serão examinados em outro capítulo desta obra, por ora faz-se mister ressaltar que a Associação contribuiu para a liberalização do comércio latino com o restante do mundo, pois, em 1960, já no contexto das rodadas do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), a cláusula da nação mais favorecida tornava universal a redução tarifária alcançada dentro da área de livre-comércio. O estímulo da CEPAL ao aumento da inserção internacional dos países americanos esteve sempre vinculado à busca por práticas comerciais justas que estabelecessem regras diferenciadas para o comércio entre países desenvolvidos (“centro”) e subdesenvolvidos (“periferia”). A participação ativa de Raúl Prebisch na proposição de ideias que levaram a ONU a criar no ano de 196422, em Genebra, a Conferência das Nações para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), evidencia a importância da CEPAL para o desenvolvimento do Terceiro Mundo e eleva ao debate internacional as “condições estruturais” que determinam linhas de ação a serem adotadas em busca do crescimento sustentado. É possível afirmar, portanto, que a UNCTAD foi um dos mais imediatos resultados práticos da estrutura de cooperação Sul-Sul. Na segunda metade dos anos 1960, o conflito ideológico Leste-Oeste passou a coexistir, em meio à détente, com o crescimento do debate Norte-Sul que, ao vincular comércio internacional ao desenvolvimento socioeconômico do Terceiro Mundo, possibilitou a aprovação, durante a 2ª Conferência da UNCTAD, em 1968, da estrutura que viria a originar o Sistema Geral de Preferências (SGP)23. O Embaixador Azeredo da Silveira, por ocasião da II UNCTAD (1968), asseriu que a solidariedade terceiro-mundista estava na identificação de estruturas sociais e econômicas similares, e nas necessidades do Terceiro Mundo. A aproximação com o mundo em desenvolvimento não pode ser implementada em detrimento da cooperação e diálogo com os países ricos: a intensificação do diálogo com o Sul seria alternativa ao diálogo desigual Norte-Sul, mas não um rompimento. “Daí então a percepção de um somatório de estratégias e não a exclusão de campos antagônicos” (OLIVEIRA, 2012, p. 89). A Conferência de Genebra de 1964, deu origem, ainda, ao Grupo dos 77 (G-77) no âmbito das Nações Unidas. A respeito do G-77, Maria Regina Soares de Lima (2005, p. 18) assevera que: Juntamente com países como a Índia e o México, o Brasil teve papel destacado na coordenação da coalizão terceiro-mundista, tendo liderado o G-77 nos anos 60. As questões de interesse destes países diziam respeito basicamente à constituição de um sistema de comércio e desenvolvimento que, levando em conta os interesses específicos daquele conjunto de economias, instituísse mecanismos especiais para fazer face à situação de desigualdade entre os países no sistema de comércio global. As reformas eram defendidas em nome da observância de um princípio de justiça distributiva, princípio este que um sistema liberal seria impermeável: desiguais não podem ser tratados como iguais. Em certo sentido, o custo da liderança da “coalizão dos fracos” era suportado, quase que exclusivamente, pelos grandes países em desenvolvimento que haviam adotado estratégias de crescimento para dentro. Da mesma forma, as pequenas economias exportadoras do sudeste asiático, os Newly Industrialized Countries (NICs) dos anos 70, eram os caronas deste esforço de liderança dos países em desenvolvimento, uma vez que foram amplamente beneficiados por alguns dos mecanismos introduzidos no regime de comércio, como o SGP, por exemplo. Segundo informações oficias, o G-77 é a maior organização intergovernamental de países em desenvolvimento estabelecida no âmbito das Nações Unidas, o qual proporciona os meios para que os países do Sul possam articular e promover os seus interesses econômicos coletivos, bem como aumentar a capacidade de negociação conjunta sobre todas as grandes questões econômicas internacionais no âmbito do sistema das Nações Unidas. A promoção da cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento é outro tema central do grupo, que detém, inclusive, fundo próprio para o financiamento de ações de cooperação técnica, mantido a partir de doações dos países-membros. Atualmente, 131 países fazem parte do Grupo, o qual mantém seu nome histórico em alusão ao contexto de sua criação. A estrutura, embora enxuta, é composta por secretariado, coordenado, em 2013, pela delegação das Ilhas Fiji. 4.1.2. Crise de Bretton Woods e a Nova Ordem Econômica Internacional A década de 1970 deve ser vista como o momento principal da consolidação das estratégias e das instâncias de cooperação Sul-Sul. Os movimentos iniciais dessa cooperação, vistos anteriormente, os quais originaram a UNCTAD, o SGP e o G-77 foram intensificados ao longo dos anos 70 à medida que o sistema internacional sofria consideráveis modificações resultantes de 4 fatores principais: crise do abastecimento de petróleo, em 1973, derivada do conflito árabe-israelense (Guerra do Yom Kippur); fim de conversibilidade dólar-ouro, base do sistema nascido em Bretton Woods; contexto de distensão e posterior recrudescimento do conflito ideológico bipolar da Guerra Fria; e evidenciação de grande poder em mãos de países do Terceiro Mundo devido à localização das jazidas de petróleo e de minerais utilizados nos processos de produção de energia dos países desenvolvidos - o chamado commodity power. Do ponto de vista dos países em desenvolvimento que possuíam relativa diversificação de seus parques de produção industrial, como o Brasil, é possível, ainda, acrescentar como quinto fator a buscapor novas tecnologias por meio da cooperação Sul-Sul. Nesse contexto, era inadiável a discussão de uma nova arquitetura para o modelo econômico e para os organismos internacionais originados ao final da Segunda Guerra Mundial. Por iniciativa do Movimento dos Países não Alinhados - do qual o Brasil não é membro efetivo, mas apenas observador - foi realizada, em 1974, a 6ª Sessão Extraordinária da Assembleia Geral da ONU, na qual os países firmaram uma Declaração e um “Programa de Ação sobre o Estabelecimento da Nova Ordem Econômica Internacional” (NOEI). Entretanto, torna-se importante destacar que alguns autores, dentre os quais se pode mencionar José Flavio Sombra Saraiva (2007, p. 247 e 248), consideram limitadas as conquistas efetivas dos países em desenvolvimento ao clamarem, no âmbito da ONU, por uma Nova Ordem: As frustrações resultantes das dificuldades de diálogo no contexto da Unctad e as limitadas conquistas das chamadas Décadas das Nações Unidas para o Desenvolvimento (1960 e 1970) levaram os países do Terceiro Mundo a propor a declaração e o programa de ação sobre o estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), convertida em Resolução da ONU em 1979. [...] Não resta dúvida de que os esforços convergiram para a ampliação de conceitos fundamentais para a nova organização dos espaços econômicos internacionais. Os resultados práticos, no entanto, foram menores. [...] Vale reforçar que os ganhos jurídicos resultantes das resoluções do Grupo dos 77, do Movimento dos Países Não Alinhados e da Unctad não podem ser de todo subestimados [...] O Brasil, que teve discreta e ativa participação na Unctad e no Grupo dos 77, obteve ganhos excepcionais tanto no norte quanto no sul. Em outras palavras, o discurso universalista da política exterior do Brasil, que situava o país entre o Primeiro e o Terceiro Mundo, utilizava o multilateralismo como uma boa estratégia para a obtenção de ganhos externos. Na sua análise crítica, Sombra Saraiva chama atenção para o fato de que, naquela época, a articulação desenvolvida pelos países do Terceiro Mundo em torno dos mecanismos de cooperação Sul-Sul se dá no nível multilateral, sobretudo no âmbito da ONU. As relações bilaterais entre os países integrantes das distintas esferas de cooperação eram, naquele contexto, secundárias, senão mesmo inexistentes, seja devido à simples inexistência de pautas políticas e comerciais comuns, seja por razões ideológicas derivadas do conflito bipolar da Guerra Fria. Como será visto mais adiante nesta obra, esta estrutura da cooperação, baseada em fóruns compostos por países de modelos políticos e econômicos heterogêneos, dotados de agendas amplas e ambiciosas, dará lugar, 20 anos mais tarde, a instâncias mais enxutas, tecnicamente concentradas e voltadas para a intervenção pontual nos diferentes fóruns de negociação internacional: são os chamados “arranjos de geometria variável”. Ainda na década de 1970, destaca-se a realização, em Buenos Aires, da Conferência da ONU sobre Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento. O encontro fora baseado no entendimento de que a cooperação técnica entre os países do Sul deveria ser explorada como forma de geração de inovações e no desenvolvimento de novas tecnologias de maneira autossuficiente por aquele grupo de países. Em capítulo à parte nesta obra, as ações de cooperação técnica serão analisadas à luz da importância conferida pelo Governo brasileiro como instrumento de solidariedade e construção de agendas positivas por parte do Brasil, sobretudo com os países da América Latina, da África e daqueles membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. 4.1.3. Fim da Guerra Fria e surgimento dos “arranjos de geometria variável” e das “parcerias estratégicas” A década de 1980 trouxe importantes desafios para as economias do Terceiro Mundo, cujo processo de desenvolvimento baseava-se na obtenção de empréstimos internacionais para realização da infraestrutura básica necessária à agregação de valor à produção. A partir do segundo Choque do Petróleo, em 1979, decorrente dos acontecimentos que levaram à Revolução Iraniana, observa-se a adoção, por parte dos principais credores internacionais, de políticas econômicas restritivas baseadas no aumento das taxas de juros e na redução da liquidez do sistema financeiro internacional. Iniciava-se, assim, uma década de estagnação econômica para os países em desenvolvimento, a qual seria, ainda, marcada pelo recrudescimento do embate ideológico entre EUA e URSS. Questões como a crise da dívida e a consequente pressão dos credores internacionais do G-7 levaram ao arrefecimento da cooperação Sul-Sul ao longo da década de 1980. Para o Brasil, a década de 1980 foi o momento de estabelecer relações de confiança no contexto da região sul-americana e de iniciar a busca pragmática por novas parcerias que se abriam em face do fim da Guerra Fria. Ainda que seja incorreto afirmar que o País tenha deixado de lado sua articulação no nível multilateral, as mudanças no sistema internacional nos anos 1980 exigiam uma atualização do conceito de Terceiro Mundo em face da sucumbência do bloco socialista soviético. Assim, o Brasil passa a conferir especial atenção para o processo de integração econômica regional, cujos avanços mais notáveis são a assinatura com a Argentina, em 1985, da Declaração de Iguaçu sobre cooperação pacífica no campo da energia nuclear, a qual impulsiona o acordo entre os governos democráticos de José Sarney e Raúl Alfonsín, no ano seguinte, para o estabelecimento da Ata de Integração Brasileiro-Argentina, que contém o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE). Outro movimento de caráter regional de elevada importância para o Brasil foi a criação, no âmbito da ONU, do Grupo de Apoio a Contadora24, que visava a expressar o apoio de Argentina, Brasil, Peru e Uruguai aos esforços dos países centro- americanos pela solução de seus problemas regionais sem a interferência dos EUA. A partir dessa aproximação entre os países da América do Sul e Central nasce o Mecanismo Permanente de Consulta e Concertação Política que viria a ser conhecido como Grupo do Rio. No plano das relações com outros países em desenvolvimento, tais como Índia, China e África do Sul, a década de 1980 reserva poucos avanços, com a notável exceção dos entendimentos sino-brasileiros para o desenvolvimento de satélites de sensoriamento remoto (China-Brazil Earth Resources Satellite - CBERS). Tal fato se deve, ademais da anteriormente mencionada crise do endividamento externo, à turbulência política internacional que caracterizou os últimos anos daquela década e resultou no desmantelamento do bloco soviético. Somente no pós-Guerra Fria, verifica-se a plena retomada da cooperação Sul-Sul, a partir de então, em alicerces seletivos e hierárquicos. Atores em desenvolvimento com maior poder relativo, chamados de “potências emergentes”, passaram a reunir-se em agrupamentos ou coalizões a fim de aumentar o poder de barganha individual e lutar por mudanças na estrutura do sistema internacional. Como destaca Henrique Altemani de Oliveira (2012, p. 98), “o principal objetivo desta ação coletiva é exatamente uma tomada de posição comum no processo de redefinição da ordem internacional”. Nesse contexto, a década de 1990 tem início com a percepção compartilhada por diversos países em desenvolvimento de que o modelo econômico baseado na industrialização por substituições de importações estava esgotado e que, a partir do final da Guerra Fria, a prosperidade econômica seria consequência direta da liberalização do comércio internacional (extinção de tarifas aduaneiras e desregulamentação dos limites ao fluxo de capitais). O Brasil do início da década de 1990, sob o governo de Fernando Collor de Mello, nutria expectativa de que o País mitigaria seus problemas econômicos a partir da rápida abertura comercial, a qual deveria ser capaz de aumentar a oferta interna de bens de consumo e possibilitar a modernização do parque industrial por meio da importaçãode bens de produção. O saneamento das contas públicas, essencial para garantir o cumprimento dos compromissos com os credores externos deveria se dar a partir da redução da Administração Pública e da venda das empresas estatais para a iniciativa privada. Estabelecia, assim, o Consenso de Washington como receituário de medidas a serem tomadas para garantir a confiança dos parceiros internacionais, sobretudo nas relações de comércio construídas pelo país. Embora durante o breve governo de Itamar Franco a política externa brasileira tenha vivenciado importantes movimentos de aproximação com os países em desenvolvimento, dentre os quais se destaca o estabelecimento da Parceria Estratégica Brasil-China, em 1993, a década seria pautada pela busca por parte do Brasil pela credibilidade dos países desenvolvidos quanto ao sucesso das mudanças empreendidas pelo País na economia e na adesão aos principais acordos internacionais na área de Direitos Humanos e de Desarmamento. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, percebe-se que o Brasil tem especial preocupação em alinhar o País às posições de consenso dos organismos internacionais e em desenvolver com vigor as relações com EUA e Europa além, é claro, do entorno geográfico do Mercosul. É evidente, portanto, que o País deixava de lado a cooperação Sul-Sul em torno de uma “Nova Ordem Econômica Internacional”, ou mesmo da tese do “congelamento do poder mundial”, e buscava inserir-se nos foros internacionais por meio do estabelecimento de relações de confiança com seus tradicionais parceiros. Esse viés da política externa brasileira só seria rompido após a eleição do Presidente Lula, embora nos últimos anos do mandato de Fernando Henrique Cardoso as limitações desse modelo estivessem evidentes. A respeito, é emblemático o impasse em torno da conclusão de acordo para o estabelecimento de uma Área de Livre- Comércio das Américas (ALCA). Ao citar estudo da professora Maria Regina Soares de Lima, João Genésio de Almeida Filho (2009, p. 71) traça importante diferenciação entre os paradigmas de política externa desenvolvidos por Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Para aquele autor seria, respectivamente, a dicotomia entre a estratégia da “credibilidade” e a da “autonomia”: De acordo com a Professora Soares de Lima, o modelo de credibilidade repousa sobre as seguintes premissas: aceitação da globalização; ajustamento da economia internamente aos requisitos estabelecidos nos centros de poder econômico mundial; reforço do multilateralismo; e percepção, no caso dos países médios, de que não têm um excedente de poder no cenário internacional. [...] Em contraste, a estratégia autonomista organiza-se em torno de uma ativa busca do desenvolvimento de maneira mais independente em relação às exigências de liberalização; de uma tentativa de associação com países que compartilham os mesmos interesses; e do entendimento de que os países médios têm um espaço para exercício de poder ainda que o mundo seja caracterizado por uma ordem hegemônica. O que difere, portanto, a política externa brasileira a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva é a concepção de que o País atingira grau de relevância política e econômica nas relações internacionais que o credenciaria a ter voz ativa nos organismos internacionais e capacidade de impulsionar as necessárias reformas dos regimes de comércio e segurança. Nascia, nesse contexto, a diplomacia “ativa e altiva” implementada pelo chanceler Celso Amorim, a qual, sem prejuízo da cooperação Sul-Sul no contexto multilateral, priorizava a construção de instâncias menores e mais especializadas de cooperação, nas quais se concentrava a atuação estratégica do Brasil e de seus parceiros nos foros internacionais. Essa dinâmica explica a formação dos arranjos de geometria variável formados, em geral, no contexto dos processos negociadores dos organismos internacionais, ou em face da postulação de mudanças nas regras daqueles organismos. Siglas e acrônimos, tais como G-20, G-4, G-33, IBAS e BRICS passaram a fazer parte do cotidiano dos negociadores internacionais e a significar uma nova dinâmica da cooperação Sul-Sul, a qual passava a conciliar antigas demandas dos países em desenvolvimento com as novas necessidades de tradicionais potências, tais como a Rússia (no BRICS) e a Alemanha (no G-4). Repita-se, porém, que não é correto afirmar que a cooperação Sul-Sul no nível multilateral foi negligenciada a partir dos anos 2000. De fato, naquele ano, 189 países-membros da ONU aprovaram a Declaração do Milênio das Nações Unidas, comprometendo-se com 8 metas - os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) - cujo alcance só será possível a partir da conjugação de esforços entre os povos do “Sul” e destes com as economias mais desenvolvidas do “Norte”. De forma complementar à Declaração do Milênio, teve lugar, no México, em 2002, a Conferência da ONU sobre Financiamento para o Desenvolvimento, que resultou no Consenso de Monterrey. Esse documento estabelece uma espécie de receituário de reformas que deveria ser adotado pelos países em desenvolvimento e seus provedores internacionais como meio de permitir a criação de um ambiente de confiança mútua capaz de reduzir as dívidas externas, aumentar o fluxo de capitais e otimizar a alocação do capital investido pelos países desenvolvidos. Em 2005, a Declaração de Paris sobre Eficácia da Ajuda ao Desenvolvimento visava, igualmente, a aperfeiçoar os mecanismos de cooperação técnica e financeira, a fim de evitar duplicidade de ações, e a permitir certo grau de coordenação entre os provedores de ajuda aos países do Sul e, em especial, àqueles menos desenvolvidos (least developed countries - LDCs). Ademais dos arranjos de geometria variável e do aperfeiçoamento dos tradicionais mecanismos multilaterais de cooperação Sul-Sul, verifica-se, a partir da segunda metade dos anos 2000, a retomada, dinamização e incremento das parcerias estratégicas desenvolvidas pelo Brasil com parceiros do “Sul” e do “Norte”, dentre as quais podemos destacar aquelas desenvolvidas com a China, a Rússia, a França e os EUA. A despeito das variadas críticas feitas a essas parcerias, verifica-se que não se trata de reduzir a diplomacia à obtenção de consensos mínimos capazes de alterar apenas pontualmente o sistema internacional pós-Guerra Fria, cada vez mais anacrônico e incapaz de prover respostas aos desafios de segurança e de desenvolvimento econômico. Essas parcerias são canais de discussão e resolução de variadas divergências do relacionamento bilateral, as quais, uma vez sanadas, abrem espaço para a construção de consensos nos foros internacionais. Ao analisar a importância e os objetivos das parcerias estratégias para as relações internacionais do Brasil, Antônio Carlos Lessa (1998, p. 31 e 40) destaca o caráter pragmático que elas conferem ao princípio da universalidade da política externa brasileira: O pragmatismo permitiu a compatibilização da universalidade em construção com a capacidade de articulação concreta, de modo a tornar operacional o impressionante acervo de relações bilaterais em vias de acumulação. Este movimento, recorrente na história da política exterior do Brasil, pode ser conceituado como construção de Parcerias Estratégicas, que são relações políticas e econômicas prioritárias reciprocamente remuneradoras, constituídas a partir de um patrimônio de relações bilaterais universalmente configurado. A construção de parcerias estratégicas é fruto da compatibilização da vocação histórica do Brasil para a universalidade com a necessidade de aproximações seletivas, o que abre a possibilidade para movimentos de adaptação aos nichos de oportunidade e aos constrangimentos internacionais que se apresentam conjunturalmente. [...] a seletividade não pode ser confundida como autolimitação da presença internacional, perda de lugares ou posições, mas como estratégia de racionalização dos contatos bilaterais que efetivamente permitirão minorar os custos políticos e econômicos necessários paracontornar os constrangimentos internacionais da hora e galgar posições de relativo conforto para a realização do interesse nacional. A seletividade, ao proporcionar instrumentalidade ao universalismo, renova-lhe a permanência no rol dos princípios e valores que orientam a Política Exterior, conferindo- lhe o revestimento de preponderância para a inserção internacional do país contemporâneo [...] Em recente estudo, no qual busca um marco conceitual para as parcerias estratégicas, Rogério de Souza Farias (2013) aponta importantes diferenças entre os conceitos de aliança e parceria estratégica. Para o referido autor, as alianças, instrumentos de política externa tradicionais entre os Estados, são geralmente temporárias, originadas em contexto de ameaça à soberania nacional, e majoritariamente relativas à cooperação militar. De outra maneira, as parcerias estratégicas tendem a ser duradouras, lastreadas em princípios objetivos e oportunidades comuns, principalmente na seara do desenvolvimento econômico. Assim, o termo denota que o relacionamento com o parceiro será pautado pela busca por soluções comuns em áreas na qual a atuação conjunta é essencial. Há ainda que se ressaltar que as parcerias estratégicas nascem, muitas vezes, centradas em aspectos pontuais do relacionamento sendo, ao longo dos anos, expandidas para outras vertentes, por meio de fenômeno conhecido nas Relações Internacionais como spill over. Como visto ao longo desta obra, a cooperação Sul-Sul nos dias atuais não deve ser vista como antagônica às relações desenvolvidas no contexto Norte-Sul. Ao contrário, ambos os movimentos são complementares. Há que se destacar, ainda, que a categorização “Sul-Sul” não resulta automaticamente em unidade absoluta de posições nos foros internacionais, mas em símbolo da coesão e da concertação em prol do enfrentamento de desafios comuns (RAMANZINI JÚNIOR; VIANA, 2012, p. 49). O “Sul” anseia por modificar elementos da estrutura internacional e participar de maneira proativa das decisões sobre os rumos da governança global. Quanto ao surgimento das parcerias estratégicas, a partir da década de 1990, parece- nos evidente que o fenômeno é devido ao contexto de liberalização política e econômica que colocou aos países em desenvolvimento a necessidade de inserirem-se na nova dinâmica do sistema internacional. Seriam, assim, seus principais objetivos: a busca de novas complementaridades econômicas; o rompimento com as limitações impostas pelas defasadas estruturas dos organismos internacionais; e a legitimação dos governos nacionais por seus pares diante de contextos de reformas políticas e econômicas. No contexto desta obra, dar-se-á especial atenção à análise de três foros de concertação política e econômica, institucionalizados ou não, cuja atuação representa especial importância para as relações internacionais do Brasil: o Fórum IBAS e os grupos BRICS e G-20 Comercial. No que tange às principais parcerias estratégicas desenvolvidas pelo Brasil, destaca-se que o tema será objeto de análise no próximo capítulo, ao se tratar das relações bilaterais do Brasil. 4.2. As “economias emergentes” e As novas estruturas da Cooperação Sul-Sul no século XXI Antes de iniciarmos a análise sobre os atuais arranjos de geometria variável por meio dos quais o Brasil busca implementar seus objetivos de política externa, será de especial importância refletirmos brevemente sobre o conceito de “economias emergentes”, o qual é constantemente utilizado por acadêmicos e pela imprensa para referirem-se a países com características econômicas similares, por exemplo, às de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Esta breve análise deverá permitir uma melhor compreensão dos motivos que levaram países distantes e de realidades políticas e históricas tão diversas a cooperarem em busca do fortalecimento de suas capacidades negociadoras nos foros internacionais. Durante a década de 2000, e sobretudo após a crise financeira de 2008, o peso dos países em desenvolvimento na geração do Produto Interno Bruto (PIB) mundial tem sido significativo, assim como chama a atenção o crescimento do mercado consumidor interno naqueles países. A tais fatos, somam-se, ainda, fatores demográficos de suas populações que, além de numerosas, comportam ainda por mais alguns anos perspectivas de crescimento, em contraste com os países da OCDE, cujos números de habitantes, senão decrescente, revelam, ao menos, amplo contingente de idosos e de indivíduos economicamente inativos. O conceito de “economias emergentes” é relativamente novo - remonta ao contexto pós-Guerra Fria - e não deve ser confundido com o conceito de “países em desenvolvimento” (PEDs), o qual se revela muito mais amplo e, por isso, permite a inclusão de número bastante superior de Estados, podendo-se mesmo afirmar que cerca de 80% da população mundial reside nos PEDs. O que torna as economias emergentes de fato especiais é um conjunto bastante específico de variáveis que, em face da conjuntura econômica internacional dos anos 1990, legou a determinados países crescente importância econômica. De acordo com estudo do Banco Central Europeu (BCE) 25, obtido a partir de dados do FMI atualizados até junho de 2011, as economias emergentes já são responsáveis por 45% do PIB mundial, segundo cálculo realizado com base na paridade do poder de compra, que mede a diferença nos custos de vida entre os países. O estudo ressalta que essa porcentagem é 13 pontos superior àquela registrada no ano 2000. De maneira resumida, é possível elencar 5 principais características comuns aos “emergentes”, as quais podem ser tidas, igualmente, como seus principais desafios a serem superados: • Economias que se encontram, desde meados dos anos 1990, em processo de abertura econômica e de desregulamentação, após décadas de elevada presença estatal como principal ente econômico. Apresentam contexto de ruptura com antigos modelos de industrialização por substituição de importações, o qual exige reformas fiscais e legislativas necessárias ao aumento da produtividade e à atração de investimentos externos; • Infraestrutura de transportes obsoleta ou precária e, no caso de alguns países, como o Brasil, déficit educacional e de formação técnica que prejudicam a produtividade da mão de obra; • Baixa atividade no mercado de capitais (bolsa de valores) em comparação com as economias desenvolvidas; • Desigualdades regionais e sociais, sendo comum a identificação, em um mesmo território, da convivência simultânea de “ilhas tecnológicas avançadas” e de regiões de extrema miséria. Tal situação tende a ser solucionada pelos governos por meio da adoção de políticas fiscais e de transferência unilateral de rendas, as quais fragilizam a estabilidade econômica dos orçamentos públicos e os torna mais vulneráveis às variações nos fluxos de capitais internacionais; e • Presença massiva de capitais especulativos, atraídos pelas altas taxas de juros oferecidas pelos papéis da dívida pública. A necessidade de financiar os déficits nas contas públicas, ou mesmo de promover superávits primários como forma de aumento da confiança internacional, leva as economias emergentes a dependerem da capacidade de atração de capitais de curto prazo, os quais migram ao menor sinal de instabilidade política e da possibilidade de frustração dos ganhos econômicos previstos. Diante deste conjunto de desafios, sobressai o questionamento acerca da capacidade de crescimento destes países. Contudo, será justamente nas políticas adotadas para superação destes problemas que, desde os anos 1990, aqueles países têm “emergido” de contextos de crise e superado expectativas de crescimento. Assim, nos últimos anos têm sido as políticas de desenvolvimento industrial dos países emergentes responsáveis pela promoção do crescimento no fluxo internacional de comércio e investimentos. Do mesmo modo, enquanto nas principais economias do mundo os mercados consumidores têm apresentado baixíssimos níveis de crescimento, são nas “economias emergentes” que residempopulações jovens, numerosas e que gradualmente ingressam no mercado de consumo, seja devido a políticas de transferência de renda, como no Brasil, seja devido à crescente urbanização, como visto na China e na Índia. Fonte: Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook Database, outubro de 2013. Fonte: Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook Database, outubro de 2013. A análise dos gráficos apresentados acima nos revela o potencial de crescimento das economias emergentes e a importância que representam hoje para o Produto Interno Bruto do conjunto da economia mundial. O analista internacional não deve, no entanto, deixar-se levar pela euforia com que a ascensão das economias emergentes na última década é, por vezes, tratada pela mídia ou mesmo por artigos pseudorreferenciados, voltados à promoção de interesses parciais. O potencial de crescimento expresso na última década deverá ser sustentado nos próximos anos por meio da ação governamental voltada à diversificação e à inovação da produção, além da implementação de reformas institucionais voltadas a garantir a permanência dos investidores por meio da criação de ambientes seguros e confiáveis para a atração de capitais. A concretização de melhorias na infraestrutura e nos níveis de educação e produtividade da mão de obra são, igualmente, desafios a ser superados por países como Brasil, Turquia e Índia, por exemplo. Embora não sejam temas atinentes ao escopo desta obra, torna-se importante mencionar o desafio que as economias emergentes enfrentam desde 2014 devido à redução dos atuais estímulos de liquidez do Banco Central Norte- americano (Federal Reserve), medida que acarreta migração de capitais de curto prazo para os EUA. Recentes análises e estimativas da equipe de análise econômica do FMI (2013, p. 3) apontam que a elevação das taxas de juros nos países emergentes, decorrente da redução dos estímulos para a economia estadunidense, contribui para reduções no crescimento do PIB entre 2,5% e 0,75% para o conjunto de países integrado pelo BRICS, mais Indonésia, México e Turquia. Tal fato poderá ser agravado caso a redução da demanda por commodities afete de forma ainda mais severa os preços já declinantes das matérias-primas cotadas internacionalmente. Os gráficos, extraídos do mencionado estudo, permitem visualizar os desafios atuais e futuros: Fonte: Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook, outubro de 2013. 4.2.1. O Brasil “emergente” e as rupturas de política externa nos anos 2000 Após esta rápida reflexão sobre o conceito e a importância atual dos países emergentes para a economia mundial, ficam evidentes os motivos que levaram à adequação dos objetivos e dos meios da política externa brasileira desde os anos finais da Guerra Fria aos novos desafios relativos à condição de “emergente” do País. Durante os primeiros anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil buscou relações de confiança com as principais economias internacionais por meio da aceitação dos regimes de comércio e de segurança; porém, a partir da crise econômica de 1999, estavam claros os limites do crescimento do País diante de uma inserção na economia internacional subordinada às dinâmicas de comércio e de financiamento externo até então vigente, as quais concediam às economias emergentes papel marginal nas principais discussões mantidas no âmbito do G-8. Essa percepção, já expressa no discurso de posse do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003), seria adotada como uma das principais linha de política externa desde 2003 até os dias atuais. As negociações comerciais são hoje de importância vital. Em relação à Alca, nos entendimentos entre o Mercosul e a União Europeia, e na Organização Mundial do Comércio, o Brasil combaterá o protecionismo, lutará pela eliminação e tratará de obter regras mais justas e adequadas à nossa condição de país em desenvolvimento. Buscaremos eliminar os escandalosos subsídios agrícolas dos países desenvolvidos que prejudicam os nossos produtores privando-os de suas vantagens comparativas. Com igual empenho, esforçar-nos-emos para remover os injustificáveis obstáculos às exportações de produtos industriais. Essencial em todos esses foros é preservar os espaços de flexibilidade para nossas políticas de desenvolvimento nos campos social e regional, de meio ambiente, agrícola, industrial e tecnológico. Procuraremos ter com os Estados Unidos da América uma parceria madura, com base no interesse recíproco e no respeito mútuo. Trataremos de fortalecer o entendimento e a cooperação com a União Europeia e os seus Estados-Membros, bem como com outros importantes países desenvolvidos, a exemplo do Japão. Aprofundaremos as relações com grandes nações em desenvolvimento: a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul, entre outros. Reafirmamos os laços profundos que nos unem a todo o continente africano e a nossa disposição de contribuir ativamente para que ele desenvolva as suas enormes potencialidades. Para a política externa brasileira, nos últimos 10 anos, a condição de país em desenvolvimento e de seu atual estágio de economia emergente é tida como condicionante das opções e das estratégias a serem adotadas. Nesse contexto, explica-se a formação, logo no primeiro ano do mandato do Presidente Lula, do Fórum IBAS e do G-20 comercial, no âmbito da Rodada de Doha da OMC. A partir do elevado crescimento econômico das economias emergentes, já na segunda metade dos anos 2000, o BRICS é institucionalizado - ainda que de forma incipiente até o presente momento - e elevado à condição de interlocutor essencial nas discussões do G-8, fato que resulta na legitimação do G-20 financeiro como o principal foro atual de concertação política sobre temas relativos ao sistema financeiro internacional. 4.2.2. Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul (IBAS) O Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul (IBAS) foi criado em junho de 2003, a partir da Declaração de Brasília, originada ao final do encontro entre os chanceleres dos três países, respectivamente, Yashwant Sinha, Celso Amorim e Nkosazana Dlamini-Zuma. A origem desse encontro partiu da ideia inicial de conformação do IBAS apresentada, naquele mesmo ano, pelo Presidente sul-africano Tabo Mbeki por ocasião da cerimônia de posse do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva26. A ideia do mandatário sul- africano previa, ademais do adensamento das relações políticas, econômicas e culturais entre Brasil, Índia e África do Sul, a construção de um foro de concertação política em torno dos principais debates da agenda internacional, sobretudo daqueles relativos à reforma dos organismos internacionais. Brasil, Índia e África do Sul, além da condição comum de países emergentes, desempenham lideranças regionais, que podem ser definidas pelo que Robert Keohane chamada de system-affecting countries: “[...] dispondo de recursos e capacidades relativamente limitadas, comparativamente às potências, mas com perfil internacional assertivo valorizam as arenas multilaterais e a ação coletiva entre países similares de forma a exercer alguma meta de poder e influenciar nos resultados internacionais” (LIMA, 2005, p. 1-2). Após o lançamento da mencionada ideia, durante a posse de Lula, os chefes de Estado e Governo dos 3 países voltaram a detalhar o tema e chegaram a consenso quanto ao formato e aos objetivos do grupo durante encontro mantido em paralelo à programação oficial da reunião ampliada do G-8, realizada em Evian (França) no final de maio de 2003. Poucos dias depois, em 6 de junho, os chanceleres daqueles países assinaram a mencionada Declaração de Brasília que, em linhas gerais, estabelece os seguintes compromissos (trechos extraídos da Declaração): • Parágrafo 4º: coincidiram na necessidade de reformar a Organização das Nações Unidas, em particular o Conselho de Segurança. A esse respeito, frisaram a necessidade de o Conselho ser expandido nas categorias de membros permanentes e não permanentes, com participação de países em desenvolvimento, em ambas categorias.