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© 1963 – J F KRAKBERB 
José Alberto Gueiros 
Título original: O Crime Sagrado 
Digitalização: JVS 450111/450112 
Publicado no Brasil pela Editora Monterrey 
 
 
 
 
 
 
DA ESPIÃ NUA 
 
Tantas vezes o mistério da mulher que se despe! Homens 
de olhar em brasa. Segredos revelados. Jamais alguém 
poderia esquecer Giselle, a espiã nua que abalou Paris. 
Seu corpo de linhas esculturais, despido, oferecido aos 
apetites sórdidos dos nazistas de Hitler, durante a 
ocupação de Paris. 
O sacrifício da própria honra, por uma tão sonhada 
hora de libertação. A heroína da Resistência, a deusa dos 
maquis, vivendo acontecimentos dramáticos em 1941, na 
França humilhada pelos leões louros da SS e da SA. 
Tudo isso contado, em linguagem violentamente 
realista. Aos quais, seguiram-se os outros relatos sobre a 
vida, não menos trepidante, de Brigitte Montfort, filha de 
Giselle, surgindo vinte anos depois, nos Estados Unidos, 
bonita, elegante, inteligente e — admirável coincidência! — 
dotada da mesma ousadia que tomou famosa a Espiã da 
Resistência Francesa. 
Brigitte, uma versão aprimorada de Giselle, também 
sedenta do aventuras; Brigitte, um desafio constante ao 
perigo e uma perigosa tentação aos homens de boa 
vontade! 
Por que se despe uma espiã? — perguntaria alguém, 
intrigado talvez com esta reincidência da nudez na segunda 
geração Montfort. E teríamos um milhão de respostas, que 
 
 
não seriam melhores do que a simples leitura desta 
narrativa. 
Brigitte Montfort, estrela do jornalismo norte-
americano. Só os que a amam a entendem. Brigitte sem 
preconceitos. Revolucionária do método jornalístico. 
Desprezando todo convencionalismo antiprogressista. 
Usando monoquínis. Apaixonando-se pelo amor do 
momento. Cedendo suas prerrogativas de recato feminino a 
qualquer nova emoção crepitante. Trabalhando, com 
dinamismo e inteligência, para o seu jornal, o “Morning 
News”, o matutino de maior tiragem de Nova Iorque. 
Entrando em acordo com inspetores do FBI e da CIA, 
fazendo trabalho de detetives e agentes secretos, sempre em 
busca de uma reportagem sensacional. Obedecendo ao seu 
chefe (e eterno apaixonado) Miky Grogan, diretor do 
“Morning News”. Mantendo em constante ansiedade seu 
colega de redação, Frank Minello, uma espécie de curinga 
das suas escapadas românticas... enfim, Brigitte Montfort 
vivendo uma vida agitada de mulher moderna, interessada 
na emoção. 
 
 
 
CAPÍTULO PRIMEIRO 
Onde o leitor, pela primeira vez, assiste à geração de um mistério 
 Impossível toque de sobrenatural na experiência realista de um incêndio 
A esperança nua e a nudez que espera 
A viagem e um simpático piloto com uma 45 debaixo do braço 
 
Explosões! Incêndio violento! O maior depósito de óleo 
cru da Refinaria de Abadan, na Pérsia, transforma-se, em 
poucos minutos, numa tocha gigantesca! Labaredas 
monumentais, arrasadoras! Prenúncio do inferno! 
Em torno a confusão própria dos incêndios. O terror! 
Cheiro de carne humana queimada. Gritos lancinantes. 
Sirenas de bombeiros e ambulâncias, num ritmo alucinante. 
Um muezim, a dois passos das chamas, vergado, a testa 
contra o solo, numa prece desesperada, invocando a 
misericórdia de Alá: — Allahur Akbar! Allahur Akbar! 
Incêndio! A face cruel de Ahriman, o espírito mau, 
iluminada pelo fogo do deus Ormuzd! O improvisado 
policiamento, numa tentativa de reduzir o caos. Ordens 
confusas, em árabe e inglês. Correrias. Alguns gestos 
isolados de heroísmo: O guarda, vestido de asbesto, indo 
buscar o companheiro torturado pelo fogo, entre as 
estruturas rubras de aço retorcido. 
Centro e vinte mortos. Duzentos e quarenta feridos. Os 
hospitais e ambulatórios em vigília, atulhados de corpos 
deformados. A cidade em suspense. E uma revelação 
apavorante: 
— O guarda falou, antes de morrer! Disse que foi 
sabotagem! Não de gente! Ele viu... ele viu! Seres 
 
 
misteriosos, formas grotescas, inumanas, arrastando-se 
como criaturas de outro mundo! Ele viu! Monstros, coisas, 
entrarem embaixo do depósito e jogarem as bombas 
incendiárias! Não era gente! Por Deus! Não era gente! 
* * * 
O mundo é, hoje, um ridículo pedaço de minério 
superpovoado, sem fronteiras muito nítidas e sem grandes 
segredos. As distâncias foram reduzidas pelos vôos 
supersônicos, pelos telegramas mais velozes do que o som. 
O incêndio da Refinaria de Abadan, na Pérsia misteriosa 
e sagrada, transforma-se em notícia, antes mesmo que as 
labaredas se extingam. Os jornais de Londres, Paris e Nova 
Iorque fazem manchetes simultâneas, iguais às dos 
matutinos de Teerã. O Xá, Sua Majestade Reza Pahlevi, lê o 
mesmo noticiário que Miky Grogan, diretor do “Morning 
News” de Manhattan. 
UM MISTERIOSO INCÊNDIO NA REFINARIA DE ABADAN, 
PROVOCADO POR FANTASMAS! — diz o telegrama da United 
Press. Sabotagem no Oriente Médio, com fumaças de 
sobrenatural! Petróleo e assombração! 
Miky Grogan, na redação do “Morning News”, diante do 
telex, emocionado, sente dentro do peito o tumulto das 
coronárias. É com as mãos crispadas que agarra o telefone, 
para chamar sua repórter favorita, Brigitte Montfort das 
tarefas impossíveis. 
Duas horas da madrugada. O tilintar monótono fere os 
ouvidos da filha de Giselle, que, sobre o leito de vicunha 
 
 
dourada, dorme vestida apenas com o seu perfume. Uma 
voz de homem gordo, aguda, excitada: 
— Alô? Sou eu, Miky! Para avisar que você tem apenas 
o tempo de arrumar duas valises, e viajar, dentro de 
algumas horas... para bem longe! 
Brigitte, ainda mal desperta, gagueja: — Você está 
louco! Isto são horas? Mas... viajar para onde? Que história 
é essa? 
— Uma história das mil e uma noites! Você verá! 
Prepare-se! Seu destino é Teerã, capital da Pérsia! O 
próximo avião para Roma levanta vôo às seis... já me 
informei... e você vai nele, menina! 
— Mas... quer ter a gentileza de me fornecer alguns 
detalhes, antes de me despachar assim, como um foguete 
para a Lua? 
— É claro! Vou levá-la ao aeroporto. No caminho 
conversaremos. Vista-se depressa! Sei que está nua, a estas 
horas... 
— Tem televisão, para me ver daí? 
— Ainda não. Sou um homem primário. E TV de 
troglodita é a imaginação... 
— Miky, você é incorrigível! Pode passar dentro de hora 
e meia. Estarei pronta. 
* * * 
Acionava-se, agora, o mecanismo de reportagem do 
“Morning News”, matutino de maior tiragem de Nova 
Iorque, um dos melhores e mais modernos jornais do 
mundo. Enquanto, no começo da madrugada, preparava-se a 
 
 
viagem surpreendente da jovem Brigitte Montfort, dezenas 
de pessoas (dentro e fora da redação) cuidavam dos 
detalhes, com requintes de precisão suíça. Arquivos 
consultados. Relatórios redigidos, para suprir a pasta de 
informações da repórter. Passagens requisitadas. 
Prioridades conseguidas. Telegramas enviados às 
autoridades iranianas. Cartas de apresentação datilografadas 
em tempo recorde. 
Miky Grogan chegou à residência de Brigitte, na Quinta 
Avenida, precisamente às quatro da manhã. Encontrou a 
garota de malas prontas, na portaria do edifício. Fez uma 
curiosa mesura (de mordomo inglês) ao abrir-lhe a porta do 
carro, elogiou-lhe a beleza cada vez mais tentadora das 
pernas, e entrou logo no assunto: 
— Veja, menina! Isto é “Organização Morning News”! 
Trouxe esta pasta com tudo, mas tudo mesmo, sobre a 
Pérsia! Recortes. Relatórios. Mapas e instruções que você 
deve seguir. Leia tudo no avião. A missão é arriscada! Tive 
que acordar o embaixador iraniano, em Washington, para 
saber de detalhes não divulgados pelas agências. O homem 
ficou danado, mas cooperou. Nosso jornal tem muita força; 
defende a política do Xá na ONU. Mas, o que interessa, é o 
seguinte: a explosão da Refinaria de Abadan... que será 
motivo da sua reportagem... é um ato típico de terrorismo. 
Estão dizendo, por lá, que os sabotadores são fantasmas, 
seres estranhos, almas do outro mundo.Investigue. Este ato 
terrorista não é o primeiro. Há uma seqüência deles, sempre 
no setor do petróleo. E sempre com os tais fantasmas pelo 
 
 
meio... Fantasmas que adoram refinarias, petroleiros, 
depósitos de gasolina etc. Serão fantasmas incombustíveis, 
certamente. Veja que história é essa. Depois das últimas 
ocorrências de agosto, a Pérsia (ou Irã, como queira) andava 
em relativa calma
1
. O povo só quer saber do Xá, do herdeiro 
do Xá que não aparece porque a rainha Soraya é estéril. 
Mas, agora, tudo indica que há um personagem misterioso 
movimentando os cordéis. Um chefe, um coordenador 
dessas sabotagens. Um fantasmão qualquer, dirigindo 
fantasminhas. Investigue! Chegando a Teerã, vá direto às 
autoridades. Apresente esta carta de recomendação e 
procure uma entrevista com o monarca, pessoalmente. Ele 
não será insensível ao seu charme. Aliás, dizem que está 
para se divorciar da rainha. Investigue isso também. 
— Tudo bonito, chefe — falou, afinal, Brigitte, afogada 
naquele mar de instruções. — Mas, diga: qual é o meu 
roteiro? 
— Dacar, Roma, Bagdá e Teerã... Parece, até, viagem de 
Sherazade em tapete mágico, bem? Você devia estar 
orgulhosa! 
— E quanto vamos gastar nesse servicinho? 
— O mínimo possível. Não estamos em época de 
esbanjamentos. 
— Mas o meu mínimo é diferente, você sabe... 
 
1
 Esta história foi escrita pouco depois dos acontecimentos de 16 de agosto de 
1953, no Irã, quando o Premier Mohamed Mossadeg já havia sido deposto pelo General 
Fazlolak Zahedi e o Xá voltara do exílio para tomar as rédeas do poder, no seu país. NA 
 
 
— Infelizmente sei, e concordo com ele. No envelope 
você encontrará um livro de “travellers checks”. Confira no 
avião. Se precisar de mais, peça ao nosso correspondente, 
em Teerã. Não sei como tenho coragem de mandá-la para 
tão longe! Sou mesmo um desalmado atiçador de almas e 
recolhe- dor de notícias! 
As despedidas foram simples, fraternais. Brigitte beijou 
o chefe na testa larga, fabricou uma adorável carinha de 
namorada triste em véspera de partida, prometeu as 
promessas de sempre e dispôs-se a embarcar. O avião 
esperava a sua última passageira. Nisso, um rapaz risonho 
foi ao encontro da linda turista, alcançando-a na subida da 
escadinha. 
— Miss Montfort? Um momento, por favor! 
— Sim? 
— Sou Turner, do FBI. O Inspetor Pitzer deseja-lhe boa 
viagem. Ele me pediu que lhe entregasse este bilhete. 
Brigitte suspirou, mas recebeu o envelope lacrado, 
sorrindo para o jovem federal. Depois, subiu para bordo. Aí, 
abriu o envelope, pescou um bilhete (e um cheque verde) e 
leu: 
“Também estamos interessados nos atos de 
terrorismo em Abadan. O “Inteligence Service” 
pediu a cooperação da CIA, pois o caso afeta a 
segurança do Ocidente. Envie-me seus relatórios, 
à medida que for progredindo na solução do 
mistério, e não publique nada no seu jornal sem 
receber ordens oficiais. Nosso homem no Irã fará 
 
 
contato com você. Anexo, um cheque de mil 
dólares, para ser descontado no New York City 
Bank do Teerã. Destrua esta mensagem. 
Felicidades e breve regresso. Pitzer.” 
 
Já em pleno vôo, mal iniciada a primeira etapa da 
viagem, a jovem repórter tratou de aproveitar o tempo para 
informar-se do conteúdo do seu dossiê, tão diligentemente 
preparado, por Miky. Era ama obra-prima de concisão. 
Toda a história da Pérsia milenar e profana, resumida em 
trinta linhas datilografadas. Outra nota sobre costumes 
locais, hotéis, padrão de vida, endereços úteis. Duas cartas 
de apresentação, dirigidas a nomes complicados, de gente 
importante. Um livro de “travellers checks” com mais 
dinheiro do que esperava; talvez não precisasse dos mil 
dólares do Serviço Secreto... 
— Miky é um “pão”! — pensou Brigitte, radiante, 
enquanto examinava o resto do conteúdo da pasta. 
Havia, ainda, uma série de recortes de jornais, falando 
do problema político do petróleo no Irã, as investidas russas 
contra o domínio britânico etc. Um desses recortes, 
particularmente, chamou-lhe a atenção. Começou a ler: 
 
ONDE HÁ PETROLEO. 
por Victor Crawford 
(enviado especial do “Morning News”) 
 
 
 
Teerã (setembro, 18) — Ao pôr do sol, as cúpulas 
prateadas da refinaria de Abadan brilham 
Inquietas. São enormes globos metálicos, ao lado 
de cilindros descomunais, reluzentes, 
acrescentando um novo mistério à cidade exótico. 
O solo é o mesmo que, há quarenta anos 
passados, sustentava raquíticos varais de 
palhoças humildes, malcheirosas, habitadas pelos 
taciturnos pescadores da aldeola. Hoje, Abadan é 
uma das melhores cidades da Pérsia, e tudo se 
deve ao fabuloso tesouro de seu chão: o petróleo. 
Em outros tempos, os adoradores de Zoroastro 
iam construir seus templos em cima dos 
“respiradouros”. O gás saía à superfície por 
meios aparentemente milagrosos, e assim 
dispunham de uma fonte inesgotável para 
alimentar seu “fogo sagrado”. Hoje, os ingleses 
edificaram outros templos no lugar. São templos 
de alumínio e aço, de prateadas esferas e 
tubulações levantadas para o céu, num esforço 
pagão: a Refinaria de Abadan, propriedade da 
“Anglo-Iranian Oil Company”, para onde aflui 
todo o ouro negro dos riquíssimos poços 
iranianos. Lá, entre nuvens azuladas, entre roncos 
de monstros mecânicos, o óleo cru se transforma 
em dezenas de produtos refinados, que fazem 
girar as rodas do planeta. Abadan! Á cobiça do 
mundo! Um centro vital de energia! Ponto 
 
 
estratégico, vizinho da União Soviética e no limiar 
do Ocidente livre. Nos seus fantásticos campos de 
petróleo fervilham setenta mil trabalhadores 
persas, coordenados pelos ingleses, que os 
ensinam a manipular os instrumentos da 
civilização. O ardente sol do deserto cai sobre 
este forte núcleo de progresso, como uma 
advertência. As águas do Golfo Pérsico dormem 
de uma banda; a planície interminável estende-se, 
da outra. Abadan fica entre duas vastidões 
solitárias, recordando os tempos em que d’Arcy, 
inspirado pelas esbranquiçadas chamas de 
Ormuzd (o deus do fogo da religião Mazda) 
arrancava do subsolo as primeiras toneladas do 
ouro negro. Hoje, diante do espanto dos humildes 
persas, estas refinarias lançam, diàriamente, no 
mercado ocidental, cerca de vinte milhões de 
galões de petróleo! Constituem riqueza maior do 
que a de todos os potentados do Oriente, dos 
tempos românticos das mil e uma noites. Por 
isso... 
 
Brigitte foi interrompida pela voz jovial do piloto que se 
acercava: — Alô! Desculpe se atrapalho... 
— Pode se sentar — admitiu ela, fechando a pasta do 
dossiê e sorrindo com toda a claridade azul de seus olhos 
mediterrâneos. 
 
 
— Não quero ser importuno — disse o piloto, fingindo 
timidez. — Vim apenas saber se está sendo bem tratada, se 
deseja alguma coisa de especial. Recebemos instruções da 
Diretoria a seu respeito. É a mais bela passageira VIP que 
temos a sorte de transportar! 
— Ora, comandante! É um prazer tê-lo ao meu lado por 
alguns instantes. Se o co-piloto é bom, não me preocupo. 
— O avião voa sozinho — gracejou ele, completando a 
frase com o lugar-comum de sempre; — Aliás, todos os 
caminhos levam a Roma... 
Riram-se e apresentaram-se. Comissários pressurosos 
trouxeram o drink favorito de miss Montfort. “old 
fashioned” com cereja fresca. O comandante explicou: 
— Sou William Forster, com três mil horas de vôo, sem 
jamais atropelar um anjo no meio das nuvens. Você é o 
primeiro. Chame-me de Bill, por favor. 
Brigitte respondeu, no mesmo tom: 
— Sou jornalista há seis anos. Atropelada, muitas vezes, 
por rapagões do seu tipo. Jamais tão delicadamente. Chame-
me de Brigitte Bardot, se quiser. 
Houve a confraternização natural das pessoas 
inteligentes (e experimentadas) nos encontros de 
circunstância. A conversa brotou, espontânea, os 
temperamentos foram reciprocamente sondados, e,ao fim 
de cinco minutos, ambos já sabiam que na escala em Roma 
haveria uma escapada noturna, sem maiores problemas 
filosóficos... 
 
 
O comandante teve de voltar à cabina, envolvido numa 
dúvida brumosíssima. Aquela mulher seria uma experiência 
fascinante, um mistério novo a desvendar! Mas, como? Se 
tinha métodos inteiramente diversos, fora do seu alcance 
ordinário de conquistador aéreo... 
Brigitte, novamente entregue a si mesma (alerta da pelo 
que observara), voltou à leitura atenta do artigo sobre 
Abadan: 
... várias potências internacionais espreitam, 
àvidamente, estas terras de onde brotam as 
maiores riquezas do mundo, e até contra o 
Governo do Xá Reza Pahlevi chegaram a soprar 
ventos agitados do exterior. No dia 16 de agosto 
de 1953, depois de uma série de atos violentos 
entre a Guarda Imperial e as forças populares, 
obedientes ao Primeiro-Ministro Mohamed 
Mossadeg, praticamente perdia o trono Sua 
Majestade o Soberano Pahlevi, amigo dos 
ingleses. Teve de exilar-se e todos os seus 
supostos colaboradores foram presas. 
Manifestantes extremados chegaram a pedir a 
cabeça do Xá, acusa. do de inepto e traidor, 
atrelado aos Interesses de Londres. Mas Sua 
Majestade já se encontrava, então, bem seguro e 
distante do Teerã. Enquanto isso, o Premier 
Mossadeg fez-se dono absoluto da situação e 
parecia apoiado firmemente pelo povo. 
Sucederam-se os clássicos discursos patrióticos, 
 
 
carros blindados desfilaram pelas ruas, foram 
dados vivas e morras e proclamada a República, 
com um Conselho de Regência. Mas a reviravolta 
não tardou, O monarca persa, depois de uma 
breve estada em Bagdá e Roma, voltou a Teerã, 
onde o General Zahedi depusera o líder 
nacionalista. E tudo se transformou, como num 
passe de mágica oriental, O povo veio recebê-lo 
triunfalmente nas ruas, exaltá-lo em comícios 
disciplinados e exigir sua permanência à frente do 
Governo. Serenamente, Sua Majestade recolheu-
se à segurança do seu “Palácio das Portas de 
Ferro”, nas encostas das montanhas de Shimrack, 
para daí dirigir, com firmeza, os destinos da velha 
Pérsia legendária. O traidor Mossadeg seguiu o 
destino de todos os nacionalistas extremados: 
fugiu e, mais tarde, reconhecido, foi preso pela 
polícia do General Zahedi, sendo encarcerado por 
sua ousadia. E, em agosto de 1954, os ingleses 
voltavam a explorar o petróleo do Irã, pagando 
um excelente royalty ao Xá. Mas a luta não 
estaria terminada. Os agitadores vermelhos 
continuariam a açular as camadas 
subdesenvolvidas da população, provocando 
protestos contra os ingleses, agressões à 
magnífica e progressista política ultramarina do 
Reino Unido, atos de terrorismo contra as 
dispendiosas Instalações da Anglo-Iranian.. 
 
 
 
Ia lendo, com atenção de repórter esclarecida, todos os 
dados que seu redator-chefe Miky Grogan havia reunido no 
precioso dossiê sobre a questão persa. Assuntos passados. 
Episódios, já repetidos, da crônica ocidental. O novo 
mistério apenas sugerido. A ela competia investigar. A ela 
competia esclarecer o caso atual das sabotagens fantasmas. 
Um mergulho na aventura... e no Oriente, terra de véus e de 
segredos milenares. Terra dos Daevas, os fantasmas do 
demônio Ahriman... 
Ah! os fantasmas... 
Brigitte recordou-se de suas passagens na infância. O 
medo das almas do outro mundo, dos seres do terror. 
Existiriam, de verdade, as vampiros, os morto-vivos, os 
zumbis, as bruxas de vassoura, além da literatura e da 
imaginação infantil? Seria normal admiti-lo? Ela fora 
educada na escola do raciocínio puro, em um mundo novo, 
de ciência e de técnica. Os fantasmas estavam banidos da 
sua memória. Fantasmas eram, para Brigitte, os fenômenos 
inexplicáveis da Antiguidade. Um simples choque elétrico 
— pensava ela — experimentado por qualquer arqueiro das 
legiões de Ciro, o Grande, na velha Babilônia, teria 
significado bruxaria da mais terrível, arte do demônio! Mas, 
agora, na era do jato e das viagens espaciais, a existência 
dos fantasmas parecia-lhe um contra-senso. Era preciso 
investigar. Gente sensata, gente moderna, gente da Polícia 
da Pérsia de hoje havia declarado ter visto os fantasmas. E 
fantasmas sabotadores. Seres estranhos, desfigurados, 
 
 
repelentes, sem forma humana, manipulando bombas e 
artefatos incendiários. Fantasmas à luz do dia. E agindo de 
um só lado. Do lado político contrário aos interesses do Xá, 
dos ingleses, do mundo livre. Dava para desconfiar! 
Todos esses pensamentos tumultuavam a mente da 
repórter, a três mil metros de altitude, num vôo 
intercontinental. Seria ela também uma bruxa, cavalgando a 
moderna vassoura mágica de quatro motores, acima das 
nuvens? Ah! Os feitiços e os feiticeiros de todos os tempos! 
Associações de idéias a se multiplicarem no seu veloz 
pensamento de repórter. Em busca de um dado concreto, de 
um ponto de partida para o raciocínio esclarecedor... 
Afinal, o primeiro pouso, em Dacar, a porta escaldante 
da África. No aeroporto, durante um autêntico refresco de 
pitanga (fruta nativa), Brigitte pôde trocar palavras 
amistosas com os outros companheiros de viagem, que lhe 
cobiçavam a figura. Ficou cercada de cavalheiros gentis, 
ouvindo frases sobre o calor e o tempo de vôo, as mesmas 
que se pronunciam, eternamente, nos aeroportos tropicais de 
escala. De longe, do balcão da Companhia, o comandante 
Forster vigiava-a, preocupado. Ela sorria, com alma, 
perturbando-lhe ainda mais o juízo. Seria uma temeridade 
agitar os nervos do piloto, antes da decolagem. Mas Brigitte 
amava o perigo. Uma feiticeira dos tempos modernos... 
Além disso, sabia agora, coma certeza, que Bill Forster 
usava uma pistola 45 escondida sob o braço esquerdo. Não 
poderia deixar de fazê-lo despir a roupa (e descobrir quem 
 
 
ele era, realmente) num hotelzinho discreto de Roma. O 
prazer (e o dever) de uma espiã do século XX.... 
 
CAPITULO SEGUNDO 
Noite romana 
 Na trilha da aventura 
 O coronel não acredita em fantasmas 
 Outro homem com uma 45 debaixo do braço 
 
Mais seis horas de vôo e Roma surgia, vibrante, atingida 
por uma luz profana. Seu rio Tibre de tantas histórias 
violentas! Suas colinas sulcadas de passes de Césares! Seu 
Coliseu belo e sinistro! O Quirinal! O Templo de Júpiter! 
A etapa suave, antes do mistério denso de Teerã. Roma 
por uma noite. Com bons prenúncios de Bill Forster e 
vinho... Talvez uma canção... “Adormentarsi cosi”... 
Do aeroporto de Fiumicino ao Hotel Excelsior, poucos 
minutos no belo conversível Lincoln oferecido pelo 
correspondente do seu jornal na Cidade Eterna. 
Apartamento de luxo, como sempre. Chuveiro rápido e um 
pouco de exercício, para manter a forma, tão importante em 
sua carreira. Afinal, nua sobre a cama, num relaxamento 
igual ao das melhores figuras da Renascença, ela pôs-se a 
pensar: 
“Como farei para fingir um encontro casual com Bill 
Forster? Ou será que ele, armado com a 45, se encarregará 
de tudo?” 
Teria sido um desejo de Sherazade? Mal acabara de 
formular o pensamento, ouviu o telefone tilintar. 
 
 
Fez voz neutra, ao atender: — Sim? 
Era mesmo o farejador emérito. Já descobrira seu 
paradeiro e articulava o encontro; mas, cauteloso, como 
quem vai à caça de narcejas ariscas... Brigitte deixou-o 
armar todo um esquema tático de aproximação. Divertia-se 
com o estudo e a comparação dos vários métodos de avanço 
masculino. Ali estava mais um espécime, tentando o 
romance a curto prazo... E com uma pistola debaixo do 
braço. 
Bill Forster encenava um ato de simpatia intelectual, 
com toda a humildade: 
— Escute, meu bem... Não estou bancando o lobo para 
cima de você. Sinceramente, quero jantar, conversar, viver 
uma noite ao seu lado, admirar a sua inteligência... 
— Viver uma noite romana, ou simplesmente uma noite 
em Roma, comigo? 
— Ora, Brigitte! Não faça “blagues”! Quero estar ao seu 
lado, dojeito que você quiser! Andar pelas ruas. Fazer o 
roteiro comum da Via Venetto, ou ir a um restaurante 
típico, longe do centro. Dite as condições e escolha o 
programa. Mas não me deixe sozinho nesta cidade imensa! 
Ela pensou um pouco, deixou que um silêncio 
angustiante interrompesse a conversa e, afinal, decidiu-se 
pelo óbvio: 
— Bem, meu caro tenho pouco tempo para dormir... e 
você também. Minhas obrigações são muito severas e 
começam amanhã cedo. Se formos jantar fora e percorrer 
lugares românticos, voltaremos muito cansados de 
 
 
caminhar, muito saciados de pratos italianos, muito 
entorpecidos de bebidas fortes, você não acha? 
Bill Forster ouvia tudo, pálido de emoção, do outro lado 
do fio. Brigitte prosseguia raciocinando: 
— Assim, em nome da Lógica, venha até meu 
apartamento, aqui no hotel, entre sem bater... pois o trinco 
vai ficar aberto... e estabeleça o acaso do nosso encontro 
com a maior brevidade possível. É provável que, afinal de 
contas, tenhamos fome para jantar, e ânimo tranqüilo para 
ver um pouco da noite romana lá fora. 
O Comandante Forster jamais havia escutado, em toda a 
sua vida de homem experiente, palavras de tão contundente 
bom senso. Um milagre de concisão! Um exemplo de 
espírito prático, diante da urgência do amor, na breve escala 
da viagem, quando as regras tradicionais do jogo de negaças 
femininas precisam ser racionalmente encurtadas. Ali estava 
uma solução brilhante para o caso aparentemente difícil de 
resolver. E tudo porque Brigitte estabelecia princípios 
cartesianos para determinar sua norma de conduta em 
situações especiais como aquela. Era, mesmo, uma situação 
muito especial. 
— Viva a Lógica! — gritou Bill Forster, do outro lado 
do fio. 
A porta do quarto foi deixada estratègicamente aberta, 
conforme o combinado, e o ansioso Romeu aéreo não 
demorou nem quinze minutos a chegar. 
* * * 
 
 
Ele acordou durante a noite e sentou-se 
instantaneamente na cama. A forma nua e voluptuosa de 
Brigitte estava inclinada sobre as suas roupas, que ele 
atirara em cima de uma cadeira. 
— Não se assuste — sussurrou a repórter. — Quis 
apenas verificar seus papéis de identidade. Você usava uma 
pistola debaixo do braço... e isso me deixou intrigada. 
Agora, já sei que você é amigo do inspetor Pitzer. 
O rapagão louro sorriu, sonolento. 
— Eu ia lhe dizer, colega. Mas no tenho nenhuma 
instrução para lhe dar. E também não sei quem será o seu 
contato, no Irã. 
— Você é do FBI? — quis saber Brigitte, voltando para 
a cama. 
— Não. Da CIA. Nossa agência também está interessada 
nas sabotagens contra o petróleo de Abadan. Recebi ordens 
para não perder você de vista e protegê-la, no caso de algum 
contratempo, durante a viagem. Mas não sabia que você era 
tão bonita e carinhosa... Vamos esquecer a política e voltar 
ao amor? 
— Boa idéia — aprovou Brigitte, aninhando-se, outra 
vez, nos braços dele. — Eu me sinto mais protegida se você 
me vigiar de perto... 
* * * 
O Comandante Forster foi-se embora às primeiras horas 
da manhã. Não sem alguma preguiça, Brigitte levantou-se 
(uma hora depois) para retomar a sua viagem, no rumo da 
 
 
aventura. Afinal, a noite romana, bem vivida é 
invariavelmente extenuante... 
A próxima escala seria Bagdá, sem acontecimentos de 
maior monta. Uma parada de meia hora, dois martinis no 
bar do aeroporto, e novamente o vôo tranqüilo de céu azul 
Três horas mais e Teerã surgiria no horizonte, com seu raro 
colorido de ametista, seu ar de mistério envolvendo palácios 
e mesquitas, suas velhas ruas de pedra, gastas pelas 
passadas dos séculos... 
A bordo, ainda com uma cadeira vaga a seu lado. 
Brigitte recebeu nova visita cavalheiresca. Já no era o piloto 
Bill Forster, mas um gentleman simpático, de olhar 
brilhante e arguto, rosto afilado, expressivo, marcado de sol. 
Tinha embarcado na capital do Iraque. 
— Não quero incomodar, miss Montfort, mas creio que 
uma estada de duas horas ao seu lado, nesta poltrona, me 
faria um enorme bem à vista e ao espírito. 
A jovem sorriu: — Como sabe o meu nome? 
— Vi na lista de passageiros, em Bagdá. Sei que é 
jornalista do “Morning News”, de Nova Iorque, com 
destino a Teerã... o que é uma penal. 
— Por quê? 
— Porque Abadan seria mais sugestivo para o seu 
trabalho... 
Brigitte ficou alerta. 
— O senhor será, por acaso, algum agente da polícia 
iraniana? 
 
 
— Não. Simples funcionário itinerante da Anglo-Iranian 
Ou Company. Chamo-me John Delancey e não vou ficar em 
Teerã. Devo seguir imediatamente para Abadan, a fim de 
internar-me no hospital da companhia. 
— Coisa grave? 
— Nada. Pequeno transtorno traumático na perna direita. 
Um acidente sofrido no Kuwait, a que não dei maior 
importância. Agora, preciso tratar-me... mas não há de ser 
por muito tempo. Gostaria de ser-lhe útil na Pérsia, miss 
Montfort. 
— Brigitte, por favor, Mr. Delancey. 
— John, por favor, Brigitte. 
E John Delancey foi mais eficiente que a pasta de 
recortes. A repórter soube conduzir a palestra para os 
assuntos que a interessavam, sem se incomodar com as duas 
ou três investidas impertinentes do Comandante Bill 
Forster, que não parava na cabina, nervoso, tentando 
cortejá-la a despeito da presença do novo admirador. 
Delancey era altamente informativo; Bill Forster, apenas 
sedutor. Brigitte preferiu dedicar-se ao que lhe renderia 
material para o noticiário. Descartou-se do homem da CIA e 
fez charme para o funcionário da Anglo-Iranian: 
— Diga, John... Estou interessadíssima na sua 
conversa... 
Delancey, todo sorridente, prosseguiu (não sem arriscar 
um olhar aceso para as pernas esculturais, de sua notável 
companheira de viagem): 
 
 
— O ambiente, em Abadan, está muito perturbado. Atos 
de sabotagem se sucedem, contra a Anglo-Iranian Oil 
Company. E o curioso de tudo isso é que andam falando de 
uma estranha legião de seres fantásticos, criaturas 
disformes, do outro mundo, como sendo os autores desses 
atos de terrorismo. Falam de uma força oculta, imensamente 
poderosa, que os estaria comandando. Naturalmente, 
ninguém de bom senso vai acreditar em fantasmas 
sabotadores... mas esta é a velha Pérsia, onde a lenda se 
mistura com a realidade. Abadan é uma cidade moderna, 
com todos os atrativos que o dinheiro pode dar. Mas está 
encravada neste país milenar, onde o mistério oriental ainda 
persiste, apesar da bomba atômica o da televisão. A Polícia 
Militar, criada especialmente para velar pela segurança da 
Companhia, recebeu ordens de revolver a terra, em busca de 
um personagem fantasioso, apelidado de Cafar. Dizem que 
este “ser”, “bruxo”, ou “daeva”, conduz os monstros e é por 
eles cegamente obedecido. Cafar é, na opinião do povo — e 
da própria Polícia — uma criatura onipresente. Já foi visto 
em dois lugares ao mesmo tempo e suas impressões digitais 
foram colhidas num reduto vasculhado pelos soldados, mas 
inexplicàvelmente encontrado vazio. As impressões digitais 
são quadradas, inteiramente diferentes das impressões 
normais dos seres humanos! É de deixar todo mundo 
maluco! 
Brigitte ouvia a narrativa de olhos fixos no rosto de seu 
interlocutor. Ali estava o primeiro parágrafo de sua 
reportagem! Sim, apenas o primeiro parágrafo, talvez a 
 
 
primeira linha! Havia, decerto, ainda milito que investigar! 
Ah! A velha Pérsia e os seus segredos! Um súbito Mr. John 
Delancey, surgindo ao seu lado para atiçar-lhe a curiosidade 
com um esboço da história, em pleno vôo, ainda antes de 
pôr o pé em terra! 
A voz, gentilmente inflexionada, da comissária de bordo 
(através dos alto-falantes) veio como um sinal de alerta: 
— Passageiros com destino a Teerã, queiram manter em 
mãos seus passaportes e atestado de vacina! Aterrissaremos 
dentro de 15 minutos! A temperatura local é de 28 graus 
centígrados. Haverá condução da Companhia para os 
principais hotéis do centroda cidade. Agradecemos a 
preferência que nos dispensaram e esperamos encontrá-los, 
brevemente, noutro vôo desta aeronave. Afivelem os cintos, 
obedeçam ao aviso de “não fumar” e até breve! 
Ali estava, afinal, Teerã, o ponto de partida da missão de 
Brigitte Montfort! Um pouso tranqüilo, vinte minutos de 
Alfândega, e eis a nossa heroína entregue ao mistério de 
uma cidade quase to velha quanto a civilização. 
Do Hotel Palace a jovem repórter saiu, minutos depois 
de instalada, para a filial do New York City Bank, onde 
recolheu mais mil dólares para a sua bolsa; em seguida, 
tocou para os endereços escritos nas cartas de 
recomendação que lhe preparara Miky Grogan. 
Havia uma carta que a fez penetrar no inexpugnável 
Palácio das Portas de Ferro, nas encostas de Shimrock. Sua 
Majestade o Imperador Reza Pahlevi (descendente de sete 
gerações de reis), o Xá, em pessoa, concedeu a Brigitte uma 
 
 
entrevista de duas horas. Ninguém jamais pôde conhecer o 
resultado dessa conversa (em sala reservada), mas a repórter 
deixou o palácio com um sorriso nos lábios. Trazia na bolsa 
determinado papel, com o selo de Sua Majestade, que lhe 
serviria de salvo-conduto, de passe livre para qualquer lugar 
do Irã. Uma ordem do próprio punho do soberano, para que 
a repórter fosse recebida, como figura VIP, nos hotéis, nas 
repartições do Estado, nos Ministérios e, até mesmo, nas 
reservadas salas onde se tratam dos maiores negócios de 
petróleo do mundo. Alguns maledicentes andaram dizendo 
que o Xá se teria pronunciado, posteriormente, sobre os 
encantos fora do comum de sua formosa visitante... Pura 
intriga da oposição! O Xá é um verdadeiro gentleman. 
* * * 
Depois de uma noite reconfortante no seu apartamento 
(refrigerado) do Hotel Palace, Brigitte partiu para a cidade 
do petróleo, a moderna Abadan. 
Vestida com um Chanel de oitocentos dólares, foi 
diretamente ao Posto da Companhia, procurar o Coronel 
Cadman, encarregado das investigações sobre as últimas 
sabotagens e atos de terrorismo da refinaria. À entrada, o 
tenente ajudante barrou-lhe a passagem, mas foi convencido 
pelo precioso “passe livre” que Brigitte lhe exibiu, além de 
um sorriso de 40 graus. O rapaz ficou vermelho como um 
tomate. 
— Perdão, miss, mas, mesmo dispondo desta ordem, terá 
de esperar alguns instantes. Nosso comandante, o Coronel 
Cadman, está tratando de um assunto urgentíssimo com o 
 
 
Capitão O’Brien. E a coisa não está boa para o lado do 
capitão... 
De dentro do gabinete vinham gritos exasperados, que 
pareciam pontilhar uma discussão violenta, O tenente, à 
porta, nervoso, sem saber o que fazer para cumprir à risca a 
ordem soberana assinada no ‘passe livre” da jornalista, 
resolveu dar-lhe ingresso a um gabinete contíguo ao do 
coronel. Com mesuras e monossílabos, indicou-lhe uma 
poltrona e retirou-se, não sem antes garantir-lhe que o 
coronel a receberia dentro de poucos minutos. 
Vendo-se só, Brigitte procedeu como qualquer mulher 
curiosa, ou como qualquer boa repSrter procederia: 
encostou o Ouvido à porta, para escutar a discussão. O 
diálogo áspero decorria nestes termos: 
— Não sei, capitão, como diabo o senhor levou tanto 
tempo para atender ao meu chamado! Onde estava metido, 
seu imbecil? 
— Meu coronel, antes de mais nada peço permissão para 
eximir-me do qualificativo “imbecil”... 
— Nego a permissão, seu imbecil! Onde estava metido? 
— Só há poucos minutos recebi a sua ordem, meu 
coronel. 
— E de quantos minutos precisaria para vir ao meu 
gabinete, seu...? Mas vamos ao caso, porque os meus 
miolos já estão prestes a estourar! Estou revoltado com a 
sua falta de iniciativa, Capitão O’Brien! Nossa corporação 
foi enviada a Abadan para zelar pela segurança e pelos 
interesses da Anglo-Iranian Oil Company que, de certa 
 
 
forma, são os próprios interesses do Ocidente! Não lhe 
tenho reiterado a importância desta missão? Contudo, nem 
o senhor, nem os seus homens, fizeram qualquer esforço 
visível para deter esta onda de sabotagens que vêm nos 
atingindo! Afinal de contas, o que é que o senhor anda 
fazendo, Capitão O’Brien? 
— Tais assuntos secretos não podem ser debati... 
— Estupidez, capitão! Estupidez, inércia, burrice! 
Fizeram voar pelos ares os oleodutos de Haft -Kel 
Afundaram o petroleiro “Cavalier”! Danificaram as bombas 
de Masjid-Suleiman! E tanta coisa mais! Que fizeram 
vocês? 
Uma pausa. Brigitte de ouvido colado à porta, sem 
perder palavra. Depois, a mesma voz do coronel: 
— Saiba, Capitão O’Brien, que já são duzentos mortos, 
fora os de hoje! Soldados, sentinelas, funcionários, que 
perderam a vida no cumprimento do dever! E ainda tivemos 
sorte com o fato do petroleiro “Cavalier” estar ancorado, 
sem tripulantes a bordo! Já imaginou se a explosão fosse em 
alto-mar? 
Nova pausa, sem qualquer contestação do oficial 
acusado. 
— Veja este comunicado — prosseguiu o coronel. — 
Acaba de chegar. Diz .que, em vista de próxima visita ao Irã 
de uma missão econômica soviética, as investigações, daqui 
por diante, serão entregues ao Intelligence Service. 
Considero uma medida acertada, já que fracassamos... mas 
que vergonha para nós! Em todo caso, como última 
 
 
esperança, veja se consegue trazer-me um plano viável de 
combate a esta horda de monstros, de capetas, sei lá do quê! 
Não me venha dizer que acredita nas histórias dos nativos, 
nos demônios da religião Mazda, nos Daevas, nas bruxas 
Drujes, nos Yatus, nos Satars, nos Karapans... Não há 
fantasmas que possam colocar bananas de dinamite em 
oleodutos! Não há demônios que afundem petroleiros! Deve 
ser gente de carne e osso, como todos nós! Investigue! Seja 
homem! Faça alguma coisa! 
Novo silêncio. Depois, outra vez a voz irada do coronel: 
— Agora, veja isto! Repare neste papel azul, ensebado, 
sujo, enrugado, com estas garatujas indecifráveis... 
O capitão, afinal, falou: 
— É uma mensagem... sobre os pontos em que foram 
atingidos os soldados de Haft-Kel. Está assinada por um tal 
de “Cafar”, que quer dizer “infiel”. 
— Muito bem! Vejo que entende bem o idioma da terra. 
Já é alguma coisa! Mas não é tudo! Este papel foi 
encontrado no cadáver de um dos sabotadores, talvez um 
chefe! Pode alcançar sua utilidade? 
— Bem... Pode ser que, com isso, consigamos descobrir 
o tal Cafar... 
— Exatamente! Revire a Pérsia de pernas para o ar, 
examine mesquitas, casas, lojas, mas descubra o paradeiro 
deste criminoso! E não pense que ele seja, necessàriamente, 
um persa, só porque escreveu a mensagem em persa! Pode 
ser um estrangeiro hábil, mascarando-se de nativo, de 
bruxo, de fantasma, para despistar! Pode retirar-se, capitão! 
 
 
Veja se consegue provar que os nossos soldados não são 
apenas imbecis de espingarda na mão! E o senhor, procure 
livrar-se da pecha de incompetente! 
Brigitte deixou que os passos do Capitão O’Brien 
soassem afastados e abriu a porta do gabinete, dando de 
cara com o afogueado Coronel Cadman. O tenente-ajudante 
já vinha entrando, pelo outro lado, cheio de explicações. O 
“passe-livre” foi novamente exibido e o coronel aquietou-
se. 
— Queira sentar-se, miss Montfort... Sua presença é 
uma festa para os meus olhos, cansados de olhar caras de 
oficiais imbecis neste destacamento! Estou às suas ordens. 
A repórter, já que tinha escutado o melhor do Outro lado 
da porta, achou que o coronel nada mais teria de 
interessante para lhe dizer. E resolveu entrar num bate-papo 
informal de jornalista, aguardando o meio-dia e, certamente, 
um convite para o almoço. Almoço de coronel sempre seria 
melhor do que o de qualquer restaurante da cidade... Cruzou 
as pernas no ponto exato onde a virtude desmaia, O 
sazonado Coronel Cadman merecia uma folga daqueles 
assuntos de dinamite, sabotagem, Cafar e O’Brien. O tema 
da entrevista foi deliberadamente alterado para uma 
conversa agradável, de ocidentais inteligentes.E o convite 
não tardou. Almoçariam. Não como o agitado Coronel de 
Lanceiros teria preferido, num “tête-à-tête” ameno, ela e ele 
sem testemunhas; havia, já, um inevitável convidado, o 
Comandante do petroleiro “Cavalier”, recém-afundado 
pelos sabotadores. Foram três à mesa. 
 
 
Brigitte gostou de conhecer o novo personagem, 
Comandante Bernard Curtis, ainda jovem, louro espigado, 
cara ingênua, mãos fortes de lobo do mar. Via-se, na sua 
pele tostada, na sua postura elegante, que teria aproveitado 
as rotas do petroleiro para desenvolver o físico, em 
suarentas manhãs de ginástica, ao longo do tombadilho. 
Houve boa conversa e bom vinho. Da palestra, Brigitte 
deduziu que o coronel, na verdade, confiava quase nada em 
seus homens; tampouco tinha qualquer pista concreta que 
pudesse levar a alguma solução imediata dos casos dos 
sabotadores fantasmas. Observou, ainda, que o louro 
comandante do petroleiro pouco ou nada teria podido 
adiantar sobre o sinistro; estivera ausente de bordo com 
quase toda a tripulação desobrigada. Era curiosa a 
coincidência: o petroleiro só fora pelos ares depois que seu 
capitão se ausentara... 
— Conheci, em viagem, um simpático funcionário da 
Anglo-Iranian — disse a repórter, para animar a conversa. 
— Embarcou em Bagdá. Não creio que o conheçam. 
Chama-se John Delancey. 
— Ora, miss Montfort! — exclamou o comandante 
Curtis. — Conheço-o muitíssimo! Foi meu companheiro de 
tripulação durante a guerra! Muito meu amigo! 
— Que bom! Assim, já temos um amigo em comum! 
Brigitte sorriu e completou: 
— Vejam como o mundo é pequeno! John Delancey tem 
qualquer coisa numa perna, um ferimento antigo. Disse-me 
 
 
que viria internar-se no hospital da Companhia, aqui em 
Abadan. Suponho que não seja nada grave. 
— Seja como for — disse o comandante — iremos 
visitá-lo! Tenho uma grande notícia para lhe dar! 
Brigitte fez seu charme: 
— Talvez nos encontremos no hospital, então. Estarei lá 
às quatro horas. — Acentuou o sorriso sedutor e 
acrescentou: — A propósito, comandante: O senhor 
conhece o meu amigo Pitzer? 
— Pitzer? — O louro pestanejou. — Não, miss 
Montfort. Nunca ouvi esse nome. Tenho poucos amigos 
norte-americanos. 
Aquilo era estranho. O jovem comandante Bernard 
Curtis (que estava à paisana) também tinha uma pistola 
escondida debaixo do braço! Brigitte podia jurar que era um 
45, igual à de Bill Forster, o homem da CIA. 
 
 
 
CAPITULO TERCEIRO 
Por que uma enfermeira estremece 
 Jantar com truta e desconfiança 
 Brigitte tem um palpite feliz 
 
No hospital, de perna estirada, alheio a tudo o que não 
fosse a sua bela e loura enfermeira, John Delancey 
repousava. A tarde não estivera agradável. Mas havia o que 
ver nas linhas do corpo de sua nurse, Virginia Seigel, um 
anjo de abnegação e desvelo, saudável na sua bata branca, 
generosa no arfar do busto firme, reconfortante no ondular 
das ancas perfeitas. Uma enfermeira capaz de curar um 
cardíaco! E ele doente da perna... Que azar! 
Veio a hora do termômetro, e a conversa foi prolongada, 
estratègicamente. John Delancey fazendo pose de mártir, 
procurando despertar os instintos maternais da jovem. Ela, 
maliciosa, enveredando por outros caminhos. Afinal, lhe 
disse: 
— Mr. Delancey, o senhor me mentiu! Meia hora atrás, 
lamentou-se, dizendo que era sozinho no mundo, que 
ninguém o visitaria aqui. Agora, fui informada de que há 
alguém à sua procura, na portaria do hospital! 
— Impossível! 
— Então, vamos fazer uma aposta. O senhor me pagará 
um belo jantar, no melhor restaurante da cidade, de alguém 
aparecer aqui, dentro de dois minutos para visitá-lo! Certo? 
Delancey não titubeou: 
 
 
— Certíssimo! Mas não seria preciso uma aposta para 
que eu a convidasse a jantar. Basta que me dê alta especial, 
hoje a noite, e iremos comer uma truta azul, com vinho do 
Reno, no “Treze Dinares”. 
— Está combinado! Esta noite, às nove. 
— Mas não sei o seu endereço! 
— Não se preocupe. Vou chamar a sua visita, que espera 
na portaria. Depois, verei se já pode fazer esforço com a 
perna. Garanto que... 
A jovem enfermeira mudou de expressão. A visita já 
vinha vindo, sem pedir licença, entrando pelo quarto 
adentro, surpreendendo a todos. Delancey pulou em pé, 
como se tivesse ficado completamente bom. 
— Brigitte Montfort! Mas é uma visão das “Mil e Uma 
Noites”! 
A estonteante repórter, sorrindo um sorriso azul, de 
olhar azul, irresistível no seu vestido colante (Emilio Puci, 
legítimo) ignorou os gestos da enfermeira e aproximou-se 
da cama do feliz funcionário da Anglo-Iranian. 
— Como vê, meu caro John, aceitei sua sugestão 
Abadan, é, realmente, meu campo de experiências. 
— Que alegria! — fez ele, já agora um tanto tímido, no 
seu pijama branco de paciente. — Acredito que fará um 
trabalho do maior interesse para o seu jornal. Mas... gostaria 
de apresentar-lhe minha adorável “tirana”, miss Virginia 
Seigel. 
Houve uma saudação cortês, sem muito entusiasmo. E 
Brigitte revelou: 
 
 
— Ainda hoje conheci um amigo seu, meu caro John. 
Coincidência agradável. O comandante do petroleiro 
“Cavalier”, disse-me que vocês foram camaradas de guerra. 
Almoçamos, ele e eu, com o coronel Cadman. 
— Ah! Já sei! Bernard Curtis! Já está na cidade, então? 
Um súbito estremecimento abalou, nesse instante, o 
corpo de Virginia Seigel. A jovem enfermeira deixou cair o 
termômetro. Brigitte e John notaram a sua estranha atitude. 
— Que aconteceu, miss Seigel? — perguntou o rapaz. 
— Oh, nada... — a moça se desculpou, nervosamente. 
— Creio que estou cansada... Talvez precise de repousar um 
pouco... Com licença. 
Foi saindo, sem jeito. John acudiu: 
— E o nosso jantar? 
— Depende do senhor. 
— Tudo certo! Não esqueça! Trutas e vinho do Reno! 
A loura saiu. E Brigitte retomou o assunto interrompido: 
— Pois seu amigo Curtia prometeu vir visitá-lo, ainda 
hoje. Já soube que o navio dele foi afundado? Ele teve sorte 
de não estar a bordo! A carga de dinamite dava para matar 
um regimento! 
— Quer dizer que a onda continua? E ninguém ainda 
tem uma pista? 
A repórter observou: 
— Sua bonita enfermeira parece também conhecer o 
Comandante Curtis... Não reparou? É estranho! Será que...? 
Bem... você viu. Ela estremeceu quando falei em Bernard 
Curtis. 
 
 
— Fale baixo! Eu também notei. Há qualquer coisa no 
ar! Já começo a ficar interessado. E, a propósito, tenho um 
encontro com ela, para jantarmos esta noite. No quer vir 
conosco? 
— Não. Não iria estragar seu programa com essa bela 
loura. Mas... 
—Mas...? 
— Acho que você deveria ir além do simples... idílio. 
Deveria investigar: saber o motivo daquele estremecimento. 
É muito suspeito. 
— Ora! A garota é tão ingênua... tão boazinha! Você 
tem alma de repórter; em tudo vê uma possível pista. 
— Bem, é um palpite. Mas, agora, tenho de sair, voltar 
ao hotel e escrever o meu primeiro despacho para o jornal. 
Contarei detalhes sabre a sabotagem do petroleiro 
“Cavalier”, desse seu amigo Curtis. 
Nesse momento, deu entrada a segunda visita, Bernard 
Curtis em pessoa. 
— Ora vejam, quanta gente boa junta! — foi dizendo, 
enquanto estendia a mão a Delancey, que já voltara para a 
cama, mas estava longe de parecer um doente. 
Brigitte cumprimentou-o com um aceno de cabeça, 
enquanto John se iluminava em exclamações: 
— Que satisfação! Jamais contava rever este Vicking 
dos mares modernos! Não tinha ido à América do Sul? 
— Não cheguei até lá. Despejei tudo em Marselha e 
voltei. Antes não tivesse voltado! Perdi o navio... Já soube 
da sabotagem? 
 
 
— Brigitte acabou de me dizer. Uma pena! Mas, não há 
mesmo nenhuma pista que nos leve a esses malditos 
sabotadores? 
— Nada! É um mistério! Ninguém sabe de coisa 
alguma! Por enquanto, a única notícia agradável, nesta terra, 
é a chegada de miss Montfort. Uma beleza de presença nacidade! 
— Ora, ora! — fez a repórter, evitando a seqüência de 
elogios comuns. — Vocês, homens, são uns bobos! Não 
podem ver mulher de perna bonita! 
O Comandante Curtis interveio: 
— Brilha quem pode, não adianta negar. Aliás, até 
mesmo para um velho marinheiro como eu, recém casado 
com uma garota adorável, sua presença é desnorteante. 
— Você casou? — indagou John Delancey, curioso. 
— Sim, meu velho. Pensava em conservar meu celibato, 
como uma carta de alforria, mas encontrei Pat, um amor de 
garota, e cá estou devidamente argolado. 
Delancey acompanhou o sorriso de Brigitte e ajuntou: 
— Há aqui, neste hospital, uma enfermeira muito loura e 
bonita que anda pensando em me ferrar também com uma 
argola no dedo... Mas, diante da beleza de Brigitte, recobro 
os sentidos e desisto! 
Sorriram. E nada disseram sobre o nome da enfermeira, 
ficando acertado um almoço em família, para o dia seguinte, 
quando iriam conhecer a jovem esposa de Bernard Curtis. 
— Já que os médicos recomendam exercícios para a sua 
perna — disse o comandante — não haverá problema se 
 
 
tivermos de fazer uma pequena viagem. É que Pat está em 
Lingahacha, com seus parentes, aguardando o meu regresso. 
Com o problema da sabotagem do navio, fui obrigado a 
ficar aqui hoje e amanhã. Mas, depois, irei vê-la, com 
vocês. Combinado? 
— Não seríamos importunos? — observou Brigitte. 
— De modo algum! Pat gostará de conhecer meus 
amigos... meu velho amigo e minha linda nova amiga. Terá 
certo problema ao enfrentar a sua elegância... mas até é 
bom, um contraste. Pat se julga imbatível... Brincadeira! Pat 
é um amor de pequena, vocês verão! 
— A mais bela mulher do mundo — sentenciou Brigitte 
— é aquela que a imaginação do homem constrói, quando 
ama! 
— Além do mais, esta garota é uma fazedora de frases! 
— concluiu John Delancey, vestindo o robe-de-chambre 
que, até então, estivera abandonado aos pés da cama. 
Acertaram o plano da viagem a Lingahacha para daí a 
dois dias e despediram-se. 
* * * 
A bela jornalista voltou para o hotel, onde escreveu a sua 
primeira reportagem, com cópia para o inspetor Pitzer, do 
FBI. Mais tarde, por volta das oito horas da noite, desceu 
para os aperitivos do jantar, no cocktail lounge. Ali estavam 
as personalidades da terra, atraídas pela atmosfera 
cosmopolita do bar. Brigitte fez sua entrada triunfal, 
exibindo um vestido de gaze de Jean Desses, com os 
drapeados geniais das estátuas gregas. Era uma obra-prima 
 
 
de mármore. Todos os freqüentadores do cocktail lounge 
voltaram os olhos para ela, num silêncio deslumbrado. De 
um canto, à esquerda, surgiu o rubicundo Coronel Cadman, 
perfilando-se à inglesa, para cumprimentar a ilustre 
visitante. 
— Boa-noite, miss Montfort... Por que não janta 
Conosco? Seria uma honra e uma alegria para mim! Estou 
naquela mesa, com alguns amigos. .. — O oficial britânico 
tomava o braço da linda garota, envaidecido por conduzi-la 
sob os olhares cobiçosos de tanta gente. 
Brigitte sorria, feliz, enquanto se faziam as 
apresentações. Gente importante do lugar, inclusive o 
simpático engenheiro Henry Lovett, de vastos bigodes 
bretões, que lhe fez a corte imediatamente. Era viúvo, rico e 
sozinho no mundo. Sua filha, Alice, falecera alguns anos 
antes (num desastre de automóvel) deixando-lhe funda 
amargura. Parecia um bom partido. Mas não chegava a 
entusiasmar uma deusa internacional, como Brigitte 
Montfort. 
Houve o jantar animado, com cinco fortes cavalheiros 
em torno da admirável repórter. As conversas recaindo, 
inevitàvelmente, sobre sua beleza e seus efeitos diretos no 
espírito daquela noite. O ajudante de ordens do Coronel 
Cadman (um latagão de quase dois metros de altura) tirou a 
jovem para a primeira dança, precipitando os 
acontecimentos. O próprio coronel, logo em seguida, 
animou-se e bailou, entusiasticamente, tecendo elogios 
diretos à leveza de seu par. Brigitte juntou o rosto ao do 
 
 
velho lanceiro e permitiu que ele se envaidecesse um pouco 
do seu próprio charme de cavalheiro. Foi uma noite 
memorável, a daqueles cinco cavalheiros solitários. O 
coronel, principalmente, sentiu-se um ousado capitão... 
Enquanto isso, longe dali, ocorria outro jantar mais 
íntimo. Abadan é uma cidade inglesa, encravada na Pérsia 
milenarmente muçulmana. As preces a Alá se misturam, em 
alguns de seus bairros, com o ruído dos telex, transmitindo 
as últimas cotações da Bolsa de Nova Iorque. Ao lado das 
refinarias imensas, templos da seita de Maomé projetam os 
seus minaretes contra o céu imenso. 
A noite encontrou Virginia Seigel e John Delancey 
unidos no assento dianteiro de um velho Oldsmobile, 
trafegando pelas ruas bem asfaltadas, a caminho do 
restaurante “Treze Dinares”, recanto grã-fino da zona sul. A 
moça não conversava muito. Dava a impressão de estar 
vivendo um súbito drama íntimo. Isso deixava John 
Delancey profundamente intrigado. 
O “Treze Dinares”, num pequeno edifício de dois 
andares, é um recanto de bom gosto, freqüentado por 
oficiais ingleses, altos funcionários da Companhia de 
Petróleo e eventuais turistas. John e Virginia ali chegaram 
discretamente, serviram-se da admirável truta azul com 
vinho Traminer (sem muita animação) e retiraram-se cedo. 
Delancey dirigiu o carro pela orla do Grande Golfo e, 
afinal, quebrou o silêncio: 
— Há quanto tempo você conhece Bernard Curtis? 
 
 
Foi encostando ao meio-fio, à espera da resposta. A 
loura fingiu-se admirada: 
— Por que supõe que eu o conheça? 
— Ora, Virginia! Você não pode me enganar! Conte 
logo tudo, vamos! 
Ela escondeu o rosto entre as mãos, soluçando. 
— É horrível! Horrível! — conseguiu, afinal, dizer. 
Delancey insistiu, cauteloso: 
— Não entendo! O que é horrível? 
A enfermeira estava visivelmente transtornada, indagou: 
— Você falou a ele a meu respeito? Diga! Falou? 
— Não. Não pronunciamos o seu nome. 
A loura dominou-se. Enxugou as lágrimas e articulou: 
— Agradeço-lhe a discrição. Você foi prudente e fez 
bem. Se falasse a Bernard... — Voltou a comover-se. — 
Oh! Por que havia de acontecer isto? Por quê? 
Delancey impacientou-se: 
— Ora, vamos! Que aconteceu? Onde está a gravidade 
do caso? 
Virginia olhou para ele, surpresa. 
— Você não chegou a conhecer Pat Michell, a mulher de 
Curtis? 
Delancey não esperava ouvir aquele nome. 
— Jamais a vi — assegurou. — Mas Bernard me falou 
sobre ela, esta tarde. 
— E nada lhe disse sobre Sarah Barrow? 
— Não. Quem é Sarah Barrow? 
A enfermeira suspirou, angustiada. 
 
 
— Creio que você é, realmente, um bom amigo de 
Bernard. Tudo faria para ajudá-lo, não é mesmo? Sim, 
mas... Agora, é tarde! Muito tarde! Sarah Barrow já 
conseguiu o que queria! 
John Delancey exasperou-se: 
— Agora, moça, faça o favor de falar claramente! Nada 
de mistérios e choros! Não entendi bulhufas, até agora, e 
quero saber de que se trata! Quem é Sarah Barrow? 
Virgínia procurou as palavras e, afinal, murmurou: 
— Pat e Bernard nunca mais se encontrarão! 
O rapaz explodiu: 
— Que diz você, criatura?! Está ficando maluca?! Por 
que não iriam se encontrar? 
— Pat está morta! 
Ao dizer isto, Virginia baixou a vista. Delancey ficou 
um minuto em silêncio. Depois, perguntou com voz rouca: 
— Quando foi que ela morreu? 
— Faz duas semanas. 
—De quê? 
— Síncope cardíaca. 
— E você, onde estava? 
— Na casa dela, em Lingahacha, passando uns dias. 
Éramos boas amigas. Mas nada pude fazer! Nada! 
John Delancey percebeu estranha inflexão nas palavras 
da enfermeira. Como se ela, por último, falasse 
maquinalmente, tentando ocultar alguma coisa. Resolveu 
insistir: 
— Por que mencionou o nome de Sarah Barrow? 
 
 
— Bem... Queria saber se você conhecia o passado de 
Bernard. 
— Que tem a ver essa mulher com a morte de Pat? 
— Nada, absolutamente! Nenhuma relação! Pat morreu, 
eis tudo. 
— Vocênão parece segura do que afirma — insistiu 
Delancey, com voz pausada. — Não alcanço o motivo por 
que me oculta alguma coisa, possivelmente grave! Só quero 
ajudar meu amigo, e a você também, se for o caso. Esta 
tarde ele me disse que ia a Lingahacha, rever a esposa. 
— Não a encontrará, John! Nunca mais! Acredite-me! 
Pat está morta! 
Delancey alongou a vista para as águas do Golfo 
Pérsico, agora prateadas pela lua. Queria fugir à tristeza que 
sua companheira lhe anunciava, febril- mente. Não se podia 
conformar. A verdade era Outra. E insistiu: 
— Você ainda vai me dizer tudo o que esconde, 
Virginia! Muito mais cedo do que imagina! 
Nesse momento, um velho Chevrolet preto passou 
lentamente por eles, conduzindo dois árabes, vestidos com 
albornozes azuis; os homens olhavam ardentemente para o 
Oldsmobile e seus ocupantes. Virginia fitou Delancey com 
imensa tristeza no olhar. E pediu com voz cansada: 
— Leve-me para casa, John. É muito tarde... e já não lhe 
posso dar qualquer alegria. Você não imagina o quanto 
estou me arriscando, ao falar com você! 
* * * 
 
 
Preocupado, cheio de pensamentos desconexos sobre os 
fatos que se precipitavam à sua volta (e ainda sentindo 
algumas dores na perna acidentada) John Delancey 
regressou ao hospital. Antes de jogar-se no leito, pediu uma 
ligação telefônica (urgente) com o hotel onde se hospedava 
Brigitte. 
Era, então, uma hora da madrugada. Após o agradável 
jantar, a repórter já sé encontrava no seu quarto, lendo um 
jornal. Nenhuma notícia alarmante; apenas um comentário, 
anunciando a visita de Sua Majestade, o Xá, a Lingahacha 
na tarde do dia seguinte. A chegada a Teerã, da missão 
econômica soviética estava marcada para daí a três dias. 
Nisso o telefone tocou. Brigitte largou o jornal e 
atendeu. Era a voz excitada de John Delancey, com as 
informações sobre Virginia Seigel. 
— Como?! — exclamou Brigitte, surpresa. — A mulher 
do Comandante Curtis está morta? 
— Foi o que me disse a enfermeira — esganiçou-se 
Delancey, através do fio. — Também estou preocupado 
com as suas alusões a essa misteriosa Sarah Barrow! Agora, 
preciso que você me faça um grande favor, Brigitte. Não sei 
até que ponto esta confusão poderá interessá-la, como 
assunto jornalístico, mas seria fundamental conseguir a 
verdade verdadeira de Virginia Seigel! Fazê-la falar! Talvez 
você, como mulher — e mulher inteligente — consiga isto 
melhor do que eu. Poderíamos, assim, esclarecer o assunto 
para o pobre Bernard. 
A repórter concordou. 
 
 
— Fique tranqüilo, John. Irei visitá-lo, amanhã de 
manhã, às nove horas. Veremos se sua misteriosa 
enfermeira me atende melhor. Estudarei uma maneira hábil 
de fazê-la falar. Tenho um palpite feliz, sabe? Acho que a 
sua loura me levará aos terroristas que sabotaram a refinaria 
e destruíram o petroleiro “Cavalier”! 
E desligou maciamente, deixando John Delancey de 
boca aberta, com o fone na mão. 
 
CAPITULO QUARTO 
Sentido de tragédia 
Onde estará a enfermeira loura? 
 Dois bilhetes de Cafar — Os árabes de albornoz azul 
 
Pontualmente as nove, no dia seguinte, Brigitte 
empurrava a porta do quarto de John Delancey, no hospital 
da Anglo-Iranian. O rapaz estava já bem desperto, lendo 
jornais. 
— Muito obrigado por ter vindo — disse à guisa de 
saudação. — Mas Virginia Seigel não compareceu hoje ao 
trabalho. Informei-me na portaria. Ela até conseguiu licença 
para repouso. Não está em casa, nem seu telefone responde. 
Brigitte ampliou seu grande olhar azul, numa expressão 
de assombro. E concluiu: 
— Estamos, então, diante de um mistério profundo! A 
coisa começa a me interessar... E Bernard Curtis? Já foi 
avisado? 
 
 
— Infelizmente, creio que ainda não sabe de nada. Sou, 
talvez, seu único amigo nestas bandas; terei de dar-lhe a 
notícia. 
Brigitte meditou alguns instantes e prosseguiu, já dentro 
de um raciocínio mais frio: 
— Temos de perguntar a Bernard alguma coisa sobre 
essa tal Sarah Barrow, mencionada pela enfermeira. Seria 
uma boa pista, você sabe. 
Nesse momento, chegou Bernard Curtis, risonho e 
tranqüilo. Saudou a jovem repórter com os elogios de 
sempre e foi dando explicações sobre o serviço: 
— Quase não pude chegar aqui! O Coronel Cadman 
acordou, hoje, com toda a corda e, apesar de haver chegado 
à Refinaria com meia hora de atraso — fato inédito na sua 
vida de militar — apareceu bem-humorado, querendo 
conversa com todo mundo, fazendo questão de dizer que 
passara uma noite maravilhosa. Pegou-me para um “papo” 
demoradíssimo e quase não me solta. Creio que passou, 
mesmo, uma noite de general. 
— Eu faço idéia — comentou Brigitte. 
Curtis prosseguiu discorrendo sobre os problemas do seu 
serviço, resultantes do afundamento do petroleiro: 
— Estão dizendo que a sabotagem foi planejada por um 
tal de Cafar. E o nosso robusto coronel insiste em não 
querer admitir a versão dos nativos, de que Cafar é um 
daeva, um demônio a serviço de Ahriman, o gênio do mal, 
O coronel acha que Cafar é tão de carne e osso quanto 
qualquer oficial inglês, embora — diz ele — alguns oficiais 
 
 
do seu regimento insistam em parecer tão tapados como 
uma porta. É uma indireta contra o Capitão O’Brien... Eu, 
por mim, já nem sei o que pensar! Estou louco para que 
esse inquérito termine e eu possa ir a Lingahacha, para rever 
a minha mulher! Conto com vocês, amanhã, conforme 
prometeram. Vamos fazer uma bela surpresa a Pat! 
John e Brigitte entreolharam-se, sérios. 
— Há quanto tempo você está casado? — perguntou a 
repórter. 
— Há seis meses, precisamente — respondeu Curtis, 
sorrindo. — Mas nem conto seis meses, pois passei quatro 
em viagem. Da última vez que estivemos juntos, foi por 
algumas horas. Mas espero, desta feita, ficar meio ano por 
aqui! 
Neste ponto, John Delancey resolveu atacar o assunto, 
com habilidade: 
— Creio que você conhece minha enfermeira Virginia 
Seigel... não? 
— Conheço demais! — exclamou Curtis. — a melhor 
amiga de Pat! Não sabia que vocês... Onde está ela? Deve 
ter notícias lá de casa! 
Delancey informou: 
— Não veio hoje, Bernard. Está de licença. — E, com 
voz resoluta: — Você não admitiria, por acaso, que, na sua 
ausência, pudesse ter havido algo desagradável com Pat? 
O comandante titubeou: 
 
 
— Ora, John! Por que seríamos tão pessimistas? Por que 
isso, agora? Acho que ela deve estar bem, mas... Será que 
Virginia lhe contou alguma coisa má? Fale! Explique-se! 
Brigitte saiu em auxílio de John: 
— Curtis, você deve preparar-se para uma surpresa 
desagradável. 
O comandante levantou-se, sobressaltado. 
— Por favor! Digam depressa! Que houve? 
John Delancey pigarreou e foi falando, sem ter coragem 
de fitar os olhos do amigo: 
— Bem... até aqui, sabemos o que me disse Virginia 
Seigel... ontem, quando jantamos juntos. Virginia falou-me 
de Pat. Você não calcula, Bernard, quanto me custa... Bem, 
ela me disse que Pat está morta! 
Curtis ficou lívido. Fez um esgar estranho e explodiu: 
— Morta? Como? Pat está morta? Mentira! Vocês estão 
loucos! Meu Deus! Como poderia Pat estar morta? Como? 
John, com voz pausada, explicou: 
— Virginia não me deu outros detalhes. Disse, apenas 
que sua esposa faleceu, há algum tempo, de um ataque 
cardíaco. É só. 
Bernard abateu-se na poltrona, com o rosto entre as 
mãos. Afinal, depois de alguns segundos de silêncio, John 
resolveu perguntar: 
— Quem é Sarah Barrow? 
Ao ouvir este nome, Curtis pareceu transfigurar-se. 
Ergueu-se bruscamente, os olhos faiscantes. 
— Quem lhe falou em Sarah Barrow? 
 
 
John, ainda calmo, completou: 
— Virginia me perguntou se você me dissera algo sobre 
essa mulher. Nada mais. Não me quis explicar coisa 
alguma. 
Bernard Curtis, sem outra palavra, abriu a porta do 
quarto e saiu correndo, como um alucinado. 
Brigitte, sem perder a calma, sugeriu ao outro rapaz: 
— Vamosà casa da “sua” Virginia, John. Creio que, já, 
conseguiremos alguma coisa. 
— Boa idéia — aprovou Delancey. — Só que não a 
considero, de modo algum “minha”! E, agora, muito 
menos! 
Saíram, apressados, John esforçando-se para caminhar o 
melhor que podia, com a perna dolorida. 
* * * 
Na casa de Virgínia, uma senhora idosa, grandalhona, 
muito pintada, veio atender à porta. O prédio era pequeno, 
baixo e quadrado, e tinha um jardim nos fundos. 
— Miss Seigel saiu — informou a mulher, numa voz de 
cocotte aposentada. 
— Sabe para onde ela foi? — indagou Brigitte. 
— Infelizmente, não. Saiu sem me comunicar nada. 
Querem deixar recado? 
John interveio, enérgico: 
— Escute aqui, minha senhora! Precisamos falar com 
Virginia, pessoalmente! É da maior urgência! Miss 
Montfort e eu somos amigos dela! 
 
 
— Queiram entrar, por favor. Acomodem-se aqui... 
Desculpem a desordem. Acabei de chegar da rua e não tive 
tempo de arrumar nada. Esperem um pouco. Já volto. 
John e Brigitte aguardaram o tempo de um cigarro, na 
sala de visitas. A velhota reapareceu, de vestido trocado, 
com um envelope na mão. 
— O senhor, por acaso, se chama — leu o nome, na 
carta — ... John Delancey? 
— Isso mesmo — concordou o rapaz, pressuroso. 
A carta foi entregue, aberta e lida por John e Brigitte. 
Dizia: 
John: Bernard sabe de tudo. Sei que você é amigo 
dele e procurará ajudá-lo. De minha parte, 
também farei o que puder. Precisamos impedi-la 
de chegar a Lingahacha. Lá, ele seria 
assassinado. Se você puder ir antes de mim, 
procure a mulher chamada Sarah Barrow e veja 
se consegue impedi-la de matar Bernard. Sarah 
Barrow está louca! 
Até breve. 
Virginia. 
P.S. — Hospede-se no Hotel Sadrabad. É para lá 
que eu sempre vou. 
 
A velha senhora grandalhona, defronte de Brigitte e John 
que liam nervosamente a carta, aguardava uma explicação. 
O rapaz fabricou sua desculpa, para não ter que entrar em 
detalhes: 
 
 
— Virginia teve que ausentar-se, com urgência. Saiu de 
Abadan e deve demorar-se. 
— Bem me parecia — comentou a mulher. — Não me 
disse nada. E ela não costuma sair assim! Minha empregada 
falou que estiveram aqui dois árabes, de albornoz azul, à 
procura dela. Deve ter havido alguma desgraça! 
Brigitte interveio: 
— Quero pedir-lhe um favor, minha senhora. Deixe-me 
entrar no quarto de Virginia. Já que ela vai demorar, preciso 
ver se deixou uma encomenda para mim. 
— Lamento muito — retrucou a mulher, fechando a 
cara. — Virginia me pediu, diversas vezes, que não 
deixasse ninguém entrar no seu quarto! E ela levou a chave 
da porta. 
— De qualquer maneira, obrigada — sorriu Brigitte. — 
Voltarei noutra ocasião. 
Essa ocasião não tardou. Logo que se despediram da 
mulher e cruzaram a calçada, a linda repórter sussurrou para 
o seu companheiro: 
— Espere-me na esquina, John. Se eu não voltar dentro 
de dez minutos, avise a polícia. Vou dar uma espiada no 
quarto de Virginia! 
Delancey acenou, suspirando. Ela regressou à casa da 
enfermeira (cuja porta e janela da frente estavam fechadas) 
e deu volta ao prédio, até encontrar a janela do quarto dos 
fundos. Espiou pela vidraça e comprovou que era uma 
alcova feminina. Com gestos rápidos e silenciosos, tirou um 
arame da bolsa e enfiou-o por um interstício da janela, 
 
 
pescando o trinco, pelo lado de dentro. Em poucos 
segundos a vidraça estava aberta. Saltou por cima do 
peitoril e deixou-se cair, maciamente, no assoalho do 
quarto. Não se ouvia nenhum som, em toda a casa. A jovem 
repórter, trabalhando com perícia de verdadeira agente 
secreta, revolveu, em minutos, todos os pertences de 
Virginia, sem fazer barulho. Encontrou papéis sem 
importância, pequenas jóias baratas, talões de cheques, 
cápsulas vazias de remédios e algumas fotografias. Entre 
estas, uma onde aparecia Bernard, com uma bela jovem, de 
mãos dadas. Seria Pat, sem dúvida. E outra, de outra mulher 
bonita, esta ainda mais expressiva, cabelos pretos, rosto 
excessivamente maquilado, olhar cintilante. Do lado, uma 
dedicatória: “Á minha querida amiga Virginia, Sarah.” 
Guardou as duas fotos na bolsa e olhou, mais uma vez, ao 
redor. Esquecera de examinar uma gavetinha do armário. 
Ali, encontrou mais papéis e um bilhete, amarrotado, que 
lhe deu o que pensar. Dizia: 
Anexo, o cheque, 5 mil dólares combinado. 
Continue mantendo contato com Sarah. 
Cafar. 
 
Também guardou o bilhete na bolsa, arrumou tudo 
ràpidamente (o melhor que pôde) e voltou a sair pela janela. 
E, para sua grande surpresa, caiu nos braços de dois árabes 
musculosos, vestidos com albornozes azuis! Eles já deviam 
estar ali há algum tempo, esperando a sua saída. 
 
 
— Quietinha! — rosnou o mais forte. — Você não pode 
escapar! Depois trataremos do outro, que está esperando na 
esquina! 
Brigitte deixou que ele a segurasse firme, pelas costas; 
em seguida, usando-o como ponto de apoio, ergueu as duas 
pernas e atingiu o segundo agressor com um pontapé duplo, 
que lhe destroncou o maxilar. O homem caiu de costas, na 
grama, e ficou imóvel. Imediatamente, o segundo árabe 
meteu a mão num bolso interno do albornoz, à procura de 
uma arma. Brigitte aproveitou a circunstância de estar sendo 
agarrada apenas por uma das mãos do captor, e 
desvencilhou-se, com uma quebra de corpo, batendo-lhe 
com a bolsa na cara. O árabe grunhiu e recuou, exibindo um 
punhal na mão direita. Mas a repórter não lhe deu trégua, 
agredindo-o outra vez com o bolsa. Pam... pam... pam... 
Cada pancada fazia um lanho, na bochecha do árabe. Cego 
de dor, ele cortou o espaço (com o punhal) em várias 
direções, sem alcançar a sua ágil antagonista. Brigitte saltou 
para um lado, uniu os dedos da mo direita e descarregou 
uma terrível cutilada de caratê na nuca do adversário, 
fazendo-o cambalear. 
— Mal-hun! — grasnou o árabe, segurando-a por um 
braço. 
— Tarak — respondeu a garota, ordenando-lhe que a 
largasse. 
E aplicou-lhe outra cutilada na testa, sobre os olhos. O 
homem gemeu e caiu de costas, largando o punhal. Mas 
ainda não tinha perdido os sentidos. Brigitte deu-lhe um 
 
 
tremendo pontapé na cara, fazendo o sangue espirrar de seu 
nariz aquilino. Aí, sim, o árabe entortou os olhos e 
desmaiou. 
A valente repórter revistou os albornozes dos inimigos 
desacordados, mas não encontrou nenhum documento de 
identidade. Apenas outro bilhete, escrito com os mesmos 
garranchos do primeiro: 
Vigiem Virginia Seigel. Ela não pode falar. 
Cafar 
 
Brigitte guardou o novo bilhete na bolsa e voltou, 
correndo, para a esquina da rua, onde John Delancey 
continuava à sua espera. 
— Que aconteceu? — perguntou o rapaz, apreensivo. — 
Você está bem? Tem o casaco rasgado! 
— Nada de grave. Tive que me descartar de dois 
“campanas”, pertencentes ao bando de Cafar. Esses não 
eram fantasmas... Eu não lhe disse que a “sua” enfermeira 
poderia me pôr na pista certa? Agora, quero que você me 
faça um favor. 
— Até dois — disse o rapaz, pálido e contrariado. 
— Quando nos separarmos, telefone para a polícia e 
avise que há dois ladrões, adormecidos, no quintal da casa 
de Virginia. Pode ser que as autoridades iranianas consigam 
fazê-los falar. Mas acho difícil. Eles me parecem muito bem 
organizados. 
— Vamos indo — disse John, apreensivo. — Vejo que 
uma repórter tem muito de detetive... 
 
 
Seguiram ao longo da rua deserta. 
— Uma coisa puxa outra — concluiu Brigitte. 
— Quanto a mim, vejo que estamos de partida para 
Lingahacha, não é mesmo? 
— Certo. Não há outra coisa a fazer, no momento. Mas 
juro que não esperava tê-la por companheira nesta viagem, 
que se prenuncia um tanto perigosa. Você é bonita demais 
para morrer por acaso... 
— Ora, meu caro! Uma jornalista, como eu, só começa a 
se entusiasmar na vizinhança do perigo. Afinal de contas, 
em qualquer parte do mundo onde haja homens, uma 
mulher bonita estáem perigo... não acha? 
— Nem tanto. Toda mulher é um “querer que venha”, 
enquanto que o homem é um “querer ir”... As precipitações 
são naturais. Não vejo maiores perigos na experiência. 
Brigitte sorriu, altiva, e respondeu: 
— Você finge que não me entende, mas é melhor assim. 
Vamos ao nosso assunto: Virginia Seigel e Sarah Barrow. 
Veja as fotos que encontrei no quarto da loura. São, 
naturalmente, de Pat e Bernard, em lua-de-mel, e de Sarah 
Barrow, com dedicatória, O rosto de Sarah é uma máscara 
de pintura abstrata. 
— Por que teria de ser Sarah, necessàriamente, uma 
criminosa? — perguntou John, como se o fizesse a si 
mesmo. 
— Por que teria de ser sempre o crime um assunto 
interessante? — murmurou Brigitte. — Até mesmo para as 
mulheres bonitas... 
 
 
Despediram-se pouco adiante e, enquanto Delancey 
entrava numa delegacia de polícia, Brigitte continuava o 
caminho, à procura de um táxi. Estava ansiosa por tomar 
um banho morno e perfumado. 
 
CAPITULO QUINTO 
Mais um bilhete de Calar 
 Um empregado curioso 
 O antro dos viciados 
A aventura do Comandante Curtis 
 
Delancey deixou a sua queixa registrada, na delegacia de 
polícia, e voltou ao hospital, enquanto Brigitte tomava 
banho no hotel. Antes de se separarem, tinham combinado 
novo encontro, quando acertariam os detalhes da viagem a 
Lingahacha, ou qualquer outra providência referente à sorte 
de Bernard Curtis. 
Delancey telefonou a uma agência de automóveis e 
conseguiu alugar um Austin capaz de vencer a estrada 
lamacenta que separa Abadan de Lingahacha. Tinha 
intenções muito definidas. Achava, porém que, antes de 
empreender a viagem, deveria visitar o endereço de Curtis, 
ali em Abadan. 
Brigitte, outra vez só, no hotel, fazia conjeturas. Pensava 
no bilhete da enfermeira Virginia Seigel, a possível relação 
de tudo aquilo com a saída abrupta de Bernard Curtis do 
quarto de John, no hospital, e a menção a Sarah Barrow, 
que estaria interessada em eliminar o comandante. Tudo 
 
 
muito confuso ainda. A ameaça contra Bernard Curtis teria 
algo a ver com os atentados terroristas? E por que os 
sabotadores agiam justamente nas vésperas da chegada, ao 
Irã, de uma missão econômica soviética? 
Nisso, o telefone tocou. Era a voz alegre do piloto Bill 
Forster, o homem da CIA: 
— Alô? Brigitte? Seu contato, em Lingahacha, é um 
persa, que lhe falará de passarinhos. Você pode lhe entregar 
seus relatórios, para o amigo Pitzer. Felicidades, tesouro! 
Estou voltando para Roma! 
A repórter desligou, pensativa. Então, a CIA já estava na 
jogada? Isso a decidiu: iria sozinha a Lingahacha! 
Por coincidência, noutra parte da cidade, John Delancey 
teve a mesma idéia. Antes de partir, porém, informou-se 
sobre a pousada de Curtis, em Abadan, e foi até lá. O 
bangalô do Comandante estava deserto. Nem um criado 
para atender ao chamado da campainha. Intrigado, John 
resolveu forçar uma das janelas o penetrar no interior da 
casa. Assim fez, cautelosamente. Revistou todos os 
aposentos, sem notar nada de anormal. Já ia saindo, quando 
seu olhar foi atraído por um cartão, atirado sobre a pequena 
mesa de trabalho. Destacava-se entre outros papéis, até 
porque estava rabiscado no estranho idioma persa. John 
traduziu, admirado: 
Encontro normal, no lugar do costume 
Cafar 
 
 
 
Um impacto violento nos seus nervos! Que espécie de 
ligações poderia existir entre o misterioso Cafar e seu amigo 
Bernardo Curtis? Não se demorou muito fazendo 
conjeturas. Saiu da casa (como entrara) e arrancou, no seu 
Austin alugado, rumo a Lingahacha. 
* * * 
O Irã (a Pérsia moderna) é cheio de contrastes. Nem todo o 
ouro negro, refinado nas engrenagens caríssimas de 
Abadan, consegue acelerar o progresso de certas regiões 
vizinhas das cidades mais ricas. Assim, o sistema de 
comunicações é precário. As rodovias são pobres e estreitas. 
Uma velha e obsoleta estrada de ferro (construída no tempo 
dos avós do Xá) atravessa o país desde Sari, no Mar Cáspio, 
até o Golfo Pérsico. Fora do seu traçado, nada mais existe 
de bom. Precárias estradas carroçáveis, aqui e ali, são as 
únicas vias de acesso transitáveis por automóveis 
resistentes, de carroçaria alta. 
Brigitte Montfort fora informada destas dificuldades, 
graças ao oportuno dossiê sobre a Pérsia que lhe preparara 
Miky Grogan. Assim, com vistas a economizar etapas, 
telefonou a um oficial (ajudante do Coronel Cadman) falou-
lhe sobre seu “passe livre”, assinado pelo monarca, e obteve 
um jipe, com chofer, para levá-la a Lingahacha. Afinal, para 
alguma coisa valia o seu documento de VIP... 
A viagem se fez sem maiores problemas. No fim de três 
horas, depois de passarem em frente a uma curiosa casa de 
azulejos azuis e brancos, avistavam o exótico povoado, com 
suas mesquitas negras envolvendo a silhueta moderna de 
 
 
alguns edifícios recém construídos. Ainda com o 
pensamento fixo no bilhete de Virginia Seigel, Brigitte 
escolheu o Hotel Sadrabad para hospedar-se. Na portaria, 
soube que a enfermeira tinha, realmente, chegado de 
Abadan, e ocupava o quarto n.° 30. Ligou para lá, mas 
ninguém respondeu; a loura devia ter saído. A repórter 
instalou-se numa suíte do último andar e resolveu meter-se 
num banho reconfortante. Ah, o calor do Irá, sua umidade 
opressiva! 
Abriu as imensas janelas, de frente para o golfo, e 
deixou que o vento do generoso Pérsico lhe acariciasse o 
corpo livre, desnudo e puro como o das estátuas. Sorria para 
si mesma, executava passos de balé dentro do quarto, 
observava os próprios seios firmes, trepidando com sua 
ginástica rítmica improvisada. Seria uma sílfide moderna, 
com um pouco de twist no bamboleio das ancas perfeitas... 
De repente, seus olhos caíram sobre determinado ponto 
escuro, na porta de entrada. Que seria aquilo? Simples 
mancha na pintura? Uma falha na superfície da madeira? 
No segundo exame, pôde perceber que se tratava de um 
pequeno orifício, possivelmente usado pelos maliciosos 
funcionários do hotel. E ela, ali, naquele instante, estaria 
sendo observada? Toda nua, como se tinha posto, era um 
espetáculo digno de qualquer gerente! 
Teve uma idéia engraçada. Correu até a porta e abriu-a 
de supetão. As suspeitas se confirmaram: um jovem nativo, 
com o uniforme de empregado do hotel, projetou-se, de 
cabeça, para dentro do quarto. Ao recuperar o equilíbrio, 
 
 
ainda encabuladíssimo, o rapaz viu Brigitte à sua frente, 
despida, maravilhosa, as mãos nos quadris, sorrindo do 
episódio houve um minuto de perplexidade e, logo, a voz 
musical de Brigitte, concertando o vexame: 
— O orifício da porta é muito pequeno... Você não teria 
conseguido me ver assim, de corpo inteiro, não é mesmo? 
— a fazia uma pose torturantemente bela, diante do 
abobalhado iraniano. Ele esbugalhava os olhos famintos, 
crispando as mãos, sem saber o que fazer. Brigitte 
prosseguiu: 
— Por favor, acalme-se, menino! Afinal de contas, ver 
uma mulher nua, de vez em quando, não faz mal a 
ninguém... 
Mas o rapaz, apavorado, deu um salto e desapareceu no 
corredor, Brigitte deu uma risada e fechou a porta, 
pensando: 
“Certos rapazes são engraçados! Capazes de toda a 
ousadia, quando não se julgam observados, tornam-se 
tímidos e covardes na hora de assumirem a responsabilidade 
de seus desejos... Esse bobão, afinal, também não me falou 
em passarinhes... 
* * * 
Pouco antes do jantar, resolveu sair à rua, buscando uma 
idéia qualquer, um princípio de orientação. O quarto do 
Virginia Seigel, no hotel, continuava mudo; Brigitte soube, 
porém, que a loura mandara descer uma grande mala, para o 
porão, sinal de que contava ficar alguns dias em 
Lingahacha. 
 
 
A bela repórter andou pelas estreitas ruas do centro, 
perscrutando a multidão, quase toda composta de árabes 
morenos, de nariz adunco, sem alegria no rosto. Procurava 
avistar uma cara de estrangeiro. Queriaencontrar Bernard 
Curtis. Mas era como procurar agulha em palheiro. 
Foi andando, sem pressa, até que se viu na parte mais 
velha da cidade, num aglomerado de casas toscas, separadas 
por vielas escuras e tortuosas, um bairro típico do Oriente 
lendário, fervilhante mercado de especiarias e objetos 
regionais, tecidos de estranho colorido, cerâmicas, vasos de 
cobre, alfanjes e punhais reluzentes, frutas e pratos de 
comida, beberagens malcheirosas. De repente, sentiu-se 
temerosa. Afagou, na bolsa, a pequena pistola de coronha 
de madrepérola, mortífera jóia que costumava levar, colada 
com esparadrapo, à coxa esquerda. Prosseguiu, resoluta, já 
agora censurando-se, intimamente, pelo fugaz instante de 
temor. Aventurou-se pela rua maior do mercado, fascinada 
pela algaravia dos pregões, à sua volta. 
Escureceu, repentinamente, e um violento temporal 
desabou sobre aquele trecho da cidade. A repórter correu 
para o primeiro portal, buscando abrigo, e viu-se envolvida 
por uma quantidade de homens escuros, malcheirosos, na 
promiscuidade de uma loja de secos e molhados. Não se 
sentia à vontade, entre aqueles estranhos de olhar bovino, 
que a observavam, cúpidos, sem dizer palavra. Rezou para 
que a chuva passasse. E ficou a observar as caras dos raros 
transeuntes, até que uma face conhecida surgiu de entre as 
sombras: 
 
 
— Que surpresa, miss Montfort! Por aqui, sozinha, a 
estas horas? 
Era o simpático engenheiro Henry Lovett, o viúvo de 
meia-idade que, na noite anterior (no grupo do Coronel 
Cadman, em Abadan) fizera-lhe a corte, durante o jantar e a 
dança. 
— Que prazer! — exclamou Brigitte, sincera- mente 
aliviada. — Estou mesmo precisando de alguém que me 
oriente neste terrível formigueiro humano! 
O engenheiro foi solícito: 
— Estou às suas ordens, mis Montfort. Conheço bem 
este inferno, aqui em Lingahacha; só acho uma temeridade 
a sua vinda, sozinha, a este lugar! Não sabe como se 
arriscou! Os árabes não podem ver mulher branca e bonita! 
Ficam loucos, tarados! Aliás, no seu caso, não seria de 
admirar que ele$ perdessem a cabeça... 
— Muito obrigada, Mr. Lovett. Sou jornalista o tenho 
que ir buscar meus assuntos na origem. Os leitores amam o 
pitoresco e o misterioso. 
— Concordo — fez Lovett. — Mas, por favor, não saia 
sozinha! Use-me como guia. Conheço os lugares onde as 
andorinhas dormem. Aliás, tenho uma pequena propriedade 
nas imediações, e ando sempre por aqui. Este bairro, 
precisamente, chama-se Tarut. É um dos mais velhos 
recantos de Lingahacha e de toda a Pérsia. Fascinante, não 
acha? 
 
 
Brigitte fez que sim, com a cabeça, mas pôs o dedo no 
nariz, indicando que o cheiro não era lá muito bom. Lovett 
entendeu e convidou-a a sair. 
— Já jantou, miss Montfort? 
— Ainda não. Estava pensando nisso mesmo... 
— Então, vou levá-la a um lugar curioso, talvez não 
muito simpático à primeira vista, mas famoso pela sua boa 
comida. 
Andaram alguns quarteirões sob a chuva (já agora 
esparsa, e, em pouco, deram com uma porta de aspecto 
sombrio, encimada por letreiros ininteligíveis. Dali 
passaram para um corredor escuro, onde Brigitte sentiu-se 
oprimida pela violenta onda de calor que vinha lá de dentro, 
misturada com o aroma de ervas adocicadas e temperos 
fortes. O engenheiros Henry Lovett, solícito, fê-la 
atravessar uma sala em meia penumbra, onde punhados de 
homens magros, de raças diferentes, fumavam enormes 
cachimbos, sentados em tamboretes, recostados na parede, 
os olhos vidrados a contemplar o vazio. Áditos do ópio! 
Tinham entrado num fumatório! 
Cruzaram outra sala maior, por entre viciados quase 
desnudos. Só mais adiante, após filas intermináveis de 
fumantes, deram num salão cheio de mesas desocupadas. 
Ao fundo, um velho árabe, enrugado e solene, mascava 
sementes de betel com a mesma abstração com que elevava 
suas preces a Alá. Nem pareceu notar os recém-chegados. 
Usava um grosso albornoz azul, que lhe ocultava metade do 
rosto. 
 
 
Lovett escolheu uma das mesas do centro. Brigitte 
sentou-se e deu um olhar em volta, procurando surpreender 
o mistério do lugar. Não demorou muito a aparecer o 
garçom, velho persa de barbas negras, usando seu clássico 
camisolão listrado que lhe ia até aos tornozelos. Ao ver 
Lovett, alegrou-se. 
— Miss Montfort é minha amiga — o engenheiro fez 
questão de dizer. — Mande seu filho vir nos servir as 
especialidades da casa. 
O árabe fez uma curvatura e retirou-se. O engenheiro 
explicou: 
— Nagdi é o dono desta espelunca, onde se come 
excepcionalmente bem. É uma homenagem que lhe presto, 
pedindo que o filho nos sirva. Assim, livro-o de trabalhar. 
Aliás, o garoto é um nativo muito inteligente. Também 
trabalha, durante o dia, no hotel em que você está 
hospedada. Vem aqui toda noite, para ajudar o pai. 
Da cozinha veio vindo, afinal, o filho de Nagdi. Todo 
paramentado em roupas típicas, com o albornoz dos 
beduínos, chamava-se Noiso e tinha 19 anos. 
Brigitte reconheceu-o imediatamente. Era o empregado 
do hotel que a havia contemplado nua, poucas horas antes! 
O jovem procedeu, ali, como se não a reconhecesse. Que 
senso profissional tinha aquele adolescente! 
A repórter apreciou a comida de Nagdi, delicada e cheia 
de tradição. Henry Lovett sentiu-se também homenageado, 
vendo-a comer com apetite. Afinal, a escolha fora sua. 
 
 
Na mesa do fundo, o mesmo ancião do albornoz azul 
continuava mastigando nozes de betel, distante do mundo. 
Ao lado da mesa, Noiso, braços cruzados sobre o peito 
largo, aguardando ordens. Mais ninguém no salão. 
Foi já no fim do jantar que o velho Nagdi surgiu, 
atarantado, quase correndo, fazendo urna rápida reverência 
a Brigitte e chegando-se ao ouvido de Lovett para lhe dar 
um recado, incompreensível para a repórter. Lovett 
empalideceu e levantou-se bruscamente. 
— Que houve? — ela quis saber. 
O engenheiro deu explicações vagas: 
— Desculpe-me, Brigitte. Tenho que retirar-me. Não há 
perigo. Mas não espere por mim. Está tudo pago. O rapaz, 
Noiso, vai acompanhá-la ao hotel. Mais uma vez, peço o 
seu perdão! 
Retirou-se, veloz, acompanhado pelo velho Nagdi, sem 
esperar qualquer palavra da convidada. Brigitte tratou de 
sondar o ambiente e observou que o ancião do albornoz azul 
também desaparecera, como que por encanto. Fez sinal a 
Noiso, levantou-se e saiu, guiada por ele, através das 
inúmeras salas atulhadas de fumadores de ópio. Ninguém 
pareceu notar a sua passagem. 
Na rua, o nativo explicou: 
— Temos que caminhar até a próxima esquina, miss 
Montfort. E lá tomar um táxi para o hotel. Não tenha medo, 
sou muito respeitador... 
A repórter seguiu, calma, mas, ao chegar à esquina 
(quase deserta àquela hora da noite) estacou, de repente, 
 
 
pondo a mão direita na bolsa onde tinha a pistola. Indagou 
do nativo, com voz severa: 
— Sabes por que Mr. Lovett se retirou, assim, tão 
depressa? 
— Não sei — gaguejou Noiso. — Re... recebeu um 
cha... chamado! 
— De quem? 
— Não sei, miss! Não sei do nada! 
Brigitte tirou a arma da bolsa e apontou-a para o peito do 
rapaz. 
— Sei que sabes, pois teu pai foi o portador do recado! 
Se não me contares tudo, agora mesmo, puxo o gatilho! 
Noiso ficou cinzento. Gaguejou ainda mais: 
— Não, miss! Por favor! Não posso lhe dizer! Não 
posso! 
— Tens medo de quem? 
O jovem nativo olhou ao redor e murmurou, apavorado: 
— De Sarah Barrow! Ela é muito má! É igual a Naçu, a 
mais terrível das Péris! Sarah Barrow é o próprio demônio! 
— Quem é ela? Onde mora? Vamos, responde! Onde 
mora Sarah Barrow? 
— Eu sei, mas não passo nunca por lá! É o covil de 
Ahriman! 
— Pois vais agora lá, comigo! Vamos! Adiante! Noiso 
obedeceu, relutante, andando devagar. Brigitte foi atrás, de 
pistola em punho. De repente, o jovem nativo deu um salto 
e saiu correndo, dobrando na primeira esquina e 
 
 
desaparecendo dentro da noite.E Brigitte não teve coragem 
de atirar. 
* * * 
Sem se fazer notado, Bernard Curtis chegara a 
Lingahacha, com a alma cheia de ódio. A idéia da morte de 
Pat ainda não se tinha firmado no seu espírito. Precisava 
investigar. 
Demorou-se pelas ruas e, afinal, partiu para uma 
localidade próxima (chamada Nishkan), onde ficou o resto 
do dia, só regressando às dez e meia da noite. De volta a 
Lingahacha, foi andando na direção do certo endereço 
misterioso, até uma casa de tijolos nus que se disfarçava 
entre as choças de mendigos daquele submundo sinistro. 
Perscrutou o interior, por uma fresta da primeira janela. 
Sombra e quietude. De um salto, alcançou a porta fechada e 
abriu-a violentamente. 
E viu, afinal, o horror! 
À luz de um toco de vela de sebo, faces medonhas, de 
criaturas mutiladas, mostravam esgares demoníacos. 
Deitadas em colchões imundos, estranhas mulheres de olhar 
de serpente, como que se contorciam em movimentos 
espasmódicos. 
Bernard fixou aqueles vultos e arrepiou-se. Seriam seres 
humanos? Seriam bichos? 
Com a vista já mais adaptada à penumbra, pôde observar 
detalhes das figuras grotescas. Eram mulheres. 
Farrapos de mulheres! Fêmeas esquálidas, com 
cicatrizes, feridas nojentas, tatuagens, corcundas. Muitas 
 
 
aleijadas, com braços raquíticos e pernas disformes, outras 
sem lábios, sem orelhas, mostrando cavidades hediondas na 
face, em vez de narizes. O odor que se desprendia de seus 
corpos era nauseabundo, sufocante. Algumas tinham chagas 
abertas em todo o corpo e de suas feridas escorria sangue 
negro, supurado. Mas todas, sem exceção, seguravam, 
àvidamente, seus cachimbos de ópio. 
Bernard Curtis, apenas recobrado do impacto nauseante, 
falou, com a voz de quem chegou para ajustar contas: 
— Onde está Sarah Barrow? 
Nenhum monstro lhe respondeu. Dos olhos vidrados 
daquelas harpias brotava uma luz macabra. Ao fim de 
alguns segundos, uma ergueu-se lenta- mente e veio vindo 
na direção de Curtis. Seria jovem ou velha, como as 
demais? Ninguém lhe adivinharia a idade. Trazia o rosto 
inteiramente desfigurado por cicatrizes de ácidos. Em vez 
de boca, um buraco sangrento, nauseabundo, emitindo sons 
de grilo. Conseguiu formular palavras guturais: 
— Vai-te embora, Curtis! Ninguém te chamou aqui! 
— Perguntei onde está Sarah! — rugiu o comandante. 
Fez-se, de novo, um silêncio de túmulo. Bernard Curtis 
aproximou-se do monstro e falou: 
— Queres que esta seja a tua última tragada de ópio? — 
E foi lhe arrancando o cachimbo das garras crispadas. 
A resposta veio, violenta: 
— Desaparece daqui, idiota! Sarah não quer te ver e tu 
não a verás! 
 
 
Curtis só então percebeu que os outros monstros se 
levantavam dos seus colchões e vinham cercá-lo, como 
hienas famintas. Sacou da pistola 45 que trazia debaixo do 
braço. 
A primeira que der um passo, leva chumbo! 
E foi-se afastando, de costas, arma em punho, até a porta 
do fundo, coberta por uma cortina velha e enegrecida. A 
mesma voz gutural advertiu-o: 
— Não podes passar dessa porta, Curtis! Não podes 
entrar no templo! 
O comandante encostou-se ao pano sujo da cortina, 
insistindo: 
— Quem se mexer, leva bala! 
E, de costas, atravessou o umbral. Foi quando violenta 
pancada prostrou-o por terra. Caiu de joelhos, zonzo, e 
ainda notou que o vulto (que o atingira por trás) estava 
agora à sua frente, ameaçador. Era outra das mulheres-
monstros, que o enfrentava, de barra de ferro em punho. 
Bernard ainda teve forças para dar ao gatilho de sua arma. 
A figura grotesca soltou um uivo e caiu ao chão, em 
estertores, numa poça de sangue. 
Bernard viu que estava em perigo. 
A casa fervilhava de opiômanas assassinas! Em poucos 
minutos, seis delas marcharam na sua direção, possessas, 
babando ódio! Houve uma luta dramática. A mais forte 
conseguiu tomar o revólver da mão de Curtis, mesmo à 
custa da vida de outra de suas companheiras, que tombou 
com o segundo balaço. 
 
 
Envolvido pelas harpias, Curtis acabou de atravessar a 
porta velada pela cortina. Encontrou-se numa ampla sala, 
que mais parecia o templo de um deus pagão. No centro, 
ardia uma fogueira, cujas chamas lambiam a figura (talhada 
em pedra) de 
Ahriman, o gênio do mal da religião Mazda, oposto a 
Ormuzd, o deus da luz e da bondade. 
— Somos as Péris de Naçu! — guinchavam as 
dementes. — Ahriman é o nosso guia. Morte ao infiel! 
Agora, o comandante estava cercado e tolhido por garras 
e pernas horríveis de mulheres fanáticas. Num último 
esforço, conseguiu desvencilhar-se, agarrando urna delas 
pelos tornozelos e brandindo-a, como um porrete humano, 
contra as outras, abrindo um claro à sua volta. Por sorte, seu 
pé direito bateu na pistola, no chão. Num segundo, abaixou-
se, apanhou-a e começou a fazer fogo, desordenada- mente. 
Nova leva de monstros cercou-o, na semi-escuridão, e a 
pistola foi outra vez jogada longe. 
Curtis sentia se exaurirem suas forças. Uma das 
fanáticas vinha brandindo a barra de ferro novamente contra 
ele, quando, súbito, uma voz clara, bem nítida, ecoou na 
sala: 
— Parem com isso! 
No umbral da porta recortava-se uma figura linda de 
mulher, contraste impressionante com a legião de monstros. 
Seria uma deusa, surgida das sombras, empunhando duas 
pistolas (uma pequena, de coronha de madrepérola e uma 
 
 
enorme negra, pesada) ambas firmes em seus dedos 
afilados. 
Bernard Curtis, tolhido como numa cruz (tendo um 
monstro a agarrá-lo em cada perna e cada braço) não 
conteve uma exclamação de júbilo: 
— Brigitte Montfort! É um milagre! 
Mas a bela repórter estava sozinha. E isto não era muito 
tranqüilizador. 
 
CAPITULO SEXTO 
Encontro com a enfermeira loura 
 Entra em cena o Inspetor Maraghesi 
 Brigitte chega a tempo 
 E Noiso também. 
 
John Delancey, com o seu Austin alugado recoberto de 
lama, só conseguira chegar a Lingahacha com muitas horas 
de atraso. Ficara atolado na estrada, tivera problemas com o 
motor e recorrera, até, aos moradores de uma casa à beira da 
rodovia, à entrada da cidade. O prédio, todo de azulejos 
azuis e brancos, era habitado por um grupo de homens 
estranhos, vestidos com albornozes azuis, que não o 
deixaram passar do pátio. Enquanto pedia que lhe 
alugassem uma junta de bois, John alongara um olhar para 
uma das janelas da casa e vira outro homem, também 
vestido com um albornoz azul, o rosto encoberto e uma 
pistola na mão. Desviar os olhos, perturbado, e tratara de 
sair dali. Felizmente, os homens dos albornozes azuis não 
 
 
tinham criado dificuldades em ajudá-lo a desatolar o carro; 
também pareciam ansiosos de se verem livres dele. 
Afinal, depois de todos estes percalços e já na portaria 
do Hotel Sadrabad, ao registrar-se, recebera do chefe da 
recepção um envelope, com este comentário: 
— A moça que deixou esta carta garantiu que O senhor 
chegaria, mais cedo ou mais tarde. 
John subiu ao apartamento quase a se arrastar. A perna 
lhe doía horrivelmente, depois da extensa e acidentada 
viagem. Deu uma boa gorjeta ao empregado do hotel que 
lhe transportava a valise e deixou que ele se retirasse, para 
abrir o envelope. Continha um cartão de visitas de Virginia 
Seigel. No verso, esta mensagem: 
Estou aqui, no apartamento n° 30, mas não atendo 
o telefone. Tenho que tomar precauções. Depois 
explicarei. Venha ver-me, sem despertar suspeitas, 
depois das dez da noite. 
Virginia. 
 
Delancey olhou para o relógio de pulso. Uma hora da 
madrugada. Gostaria de tomar um banho, estirar-se na 
cama, descansar a perna dolorida. Mas era preciso agir, 
recuperar o tempo perdido! Nem abriu a valise; saiu, direto, 
para o n
o
 30. 
Esgueirou-se cautelosamente pelos corredores, sem 
encontrar vivalma. Deu com a porta do apartamento e tocou 
a campainha. Nada. Tentou, outra vez. Nenhuma resposta. 
Experimentou a fechadura. 
 
 
A porta estava apenas fechada como trinco. Ele a abriu 
e foi entrando. 
— Virginia? — chamou, no escuro. 
Ainda nenhum sinal de vida. Tateou, em busca de um 
interruptor de luz. Acendeu. O quarto estava vazio. 
Mas... era estranho! A cama desfeita; a cortina da janela, 
em frente, balançando ao vento; um cheiro adocicado de 
desinfetante... Delancey aproximou-se da cama e examinou 
os lençóis. Sangue! Havia manchas de sangue por toda 
parte! Sangue nas roupas de cama, na parede, no assoalho! 
Dir-se-ia que aquela alcova tinha servido de palco a uma 
carnificina! Pálido de espanto, o rapaz revistou todos os 
móveis, à procura de um cadáver. Não o encontrou em parte 
alguma. Contudo, agora tinha a certeza: Virginia Seigel fora 
assassinada! Onde estaria o corpo? 
Só a polícia poderia responder a essa pergunta. O 
funcionário da Anglo-Iranian compreendeu que teria de 
apelar para as autoridades persas, se quisesse solucionar o 
mistério. Não perdeu tempo com maiores divagações e 
apanhou o telefone. 
Meia hora depois, aparecia no Hotel Sadrabad um 
pitoresco inspetor da polícia, baixinho, redondo, vestido à 
européia, ostentando uma pêra negra no queixo volumoso, e 
olhando para todos os lados com um olhar penetrante. 
— Salahmalick! Inspetor Maraghesi. Que é que há? 
Ao entrar no apartamento 30, foi logo encarando 
Delancey, antes mesmo de se interessar pelas manchas de 
sangue. 
 
 
— Quem é você? — inquiriu, balançando a pêra. 
— John Delancey. 
— Que tem a ver com o crime? 
O rapaz titubeou: 
— Ainda não sei se Virginia... 
— Você me disse, pelo telefone, que houve um crime! A 
primeira impressão é sempre a mais correta! Houve um 
crime! 
— Sim, tem razão. Veja o aspecto deste quarto. Houve 
um crime. 
— E que tem você a ver com ele? 
Fui amigo da vítima. Isto é, suponho que a vítima seja 
Virginia Seigel, a hóspede deste apartamento. Ela era minha 
enfermeira, num hospital de Abadan. 
— Ah! Quer dizer que é uma mulher... Uma senhora de 
idade, presumo? 
— Não. Moça, loura e muito bonita. 
— Naham, compreendo! Vamos, conte-me tudo! Você é 
inglês? 
— Sou. 
— Nota-se, pela pronúncia. Eu já estive nos Estados 
Unidos e, lá, falam de outra maneira... E ela? Também era 
inglesa? 
— Era. 
— Conte-me tudo, tudo mesmo! 
— Infelizmente, no lhe posso ser muito útil. 
— Como sabe que espero que me seja útil, meu rapaz? 
 
 
— Pela insistência das suas perguntas. Acabei de chegar 
e... 
— Por que chegou a Lingahacha tão tarde da noite? 
— Tive problemas, na estrada de Abadan. Se não fosse o 
auxilio daquele grupo de árabes de albornozes azuis... 
— Ithamma! — O inspetor tinha arregalado os olhos. — 
Onde encontrou um grupo de homens com albornozes 
azuis? 
— Na entrada da cidade — explicou John. — Numa 
casa de azulejos azuis e brancos. Eles me ajudaram a 
desatolar o carro. 
O inspetor tomou nota das informações, como se elas 
tivessem muita importância, o continuou: 
— Vamos, Conte o resto! Foi você quem comunicou o 
crime. Onde está o cadáver da enfermeira? 
Isso, Delancey não sabia responder. O pitoresco inspetor 
de polícia fez sinal aos seus auxiliares (outros três detetives, 
de aspecto ameaçador) e eles farejaram o quarto, 
examinando todos os indícios. Delancey esperava, tenso, 
enquanto o inspetor olhava para ele de esguelha. 
— Devia haver uma grande mala — disse um dos 
detetives. — Os pingos de sangue acabam neste canto, onde 
ela estaria pousada. Temos que procurar o túmulo 
improvisado. Talvez ainda esteja no hotel. 
— Naham — rosnou o inspetor Maraghesi, mal-
humorado. — Ou talvez tenha sido levada para longe! 
Sigam a pista da mala! Interroguem a arrumadeira deste 
 
 
andar! Saibam se não apareceram carregadores de alguma 
empresa de transportes. 
Os três agentes saíram correndo. Alguns minutos depois, 
voltaram a aparecer, arrastando uma iraniana gorda e 
aterrorizada. A mulher usava o uniforme das arrumadeiras 
do hotel. 
— Repita ao inspetor o que nos disse — ordenou-lhe um 
dos detetives. 
A mulher balbuciou: 
— Miss Virginia pediu, pelo telefone interno, que 
levassem a sua mala para o porão. Dois funcionários da casa 
atenderam ao pedido. A mala já estava no corredor, quando 
eles chegaram, e foi só baixá-la pelas escadas. Nenhum de 
nós voltou a entrar no quarto. 
— A que horas foi isso? 
— Às dez da noite, sahib. 
O inspetor Maraghesi acenou. 
— Tayyib! Vamos ao porão! 
John Delancey viu os olhos do gordo pousados no seu 
rosto e estremeceu. 
— Eu também? 
— O senhor também! Preciso de testemunhas. Não há 
dúvida de que o cadáver de sua amiga está dentro da mala! 
Desceram ao porão do hotel e localizaram a mala de 
camarote de Virginia Seigel. Estava depositada perto do 
grande incinerador do prédio. Atendendo a uma ordem do 
inspetor, seus auxiliares arrombaram a fechadura da mala e 
puseram à mostra o seu macabro conteúdo. 
 
 
John Delancey recuou, soltando um gemido do horror. O 
corpo da bela enfermeira loura ali estava, encolhido, 
retorcido, as vestes em frangalhos e o rosto deformado por 
profundas lanhaduras! Sangue coagulado de um ferimento 
no peito, sobre o coração. 
— Usaram uma sikkin — comentou um dos detetives. 
O inspetor anuiu. 
— Naham, uma faca afiada! — Voltou-se para Delancey 
e cravou nele seus olhos penetrantes. — Reconhece-a, meu 
rapaz? 
— Sim — murmurou John, lábios trêmulos. — É 
Virginia Seigel! Mas não sei quem a matou! 
— Provàvelmente — insinuou outro detetive — os 
assassinos pretendiam voltar ao hotel, para queimar o corpo 
na fornalha. Agora, não voltam mais. 
— Provàvelmente — admitiu o inspetor, fazendo uma 
careta. — Isso, se o assassino já não estiver entre nós! — 
Voltou a encarar, severamente, John Delancey. — Vamos, 
moço! Vá contando tudo o que sabe! 
O rapaz suspirou. 
— Só lhe posso dizer que a vítima se chamava Virginia 
Seigel, era inglesa, enfermeira do Hospital Central de 
Abadan, onde estive internado, O Hospital Central pertence 
à Anglo-Iranian Oil Company. 
— Por que esteve internado no hospital? Ferido? 
— Sim. Uma queda. 
E mostrou-lhe a perna inchada. O rotundo inspetor, 
prendendo nos dentes uma imensa piteira, acendeu seu 
 
 
cigarro turco, trançou as mãos atrás das costas e pôs-se a 
andar de cá para lá, os olhos no chão, fazendo o “sherlock”. 
Parou, de repente, no meio do porão, e sentenciou: 
— É tudo muito claro e simples. O enfermo que se 
apaixona pela enfermeira bonita... A jovem foge ao assédio 
do importuno... O passional, enfurecido, persegue a sua 
dama indócil... Torna conhecimento de sua viagem a uma 
cidade vizinha. Não titubeia. Corre ao seu encontro e, não 
conseguindo convencê-la, mata-a num ímpeto furioso de 
paixão! 
O inspetor fez uma pausa, empostou a voz e prosseguiu: 
— Considere-se preso, em nome da lei, Mr. John 
Delancey! É acusado do assassínio de Virginia Seigel o da 
tentativa de destruir o seu corpo, no incinerador deste hotel! 
John sorriu, incrédulo. 
O senhor está brincando, inspetor! 
Mas os três policiais já o algemavam, inapelàvelmente. 
Ao saírem do porão, o inspetor ainda olhou para John, com 
curiosidade. 
— A propósito, meu rapaz. Você gosta de passarinhos? 
Pardais, pombos e andorinhas? 
Mas o funcionário da Anglo-Iranian estava tão abatido 
que não respondeu. Seu silêncio era uma resposta, para o 
inspetor Maraghesi: o prisioneiro não entendia nada de 
passarinhes. 
* * * 
Algumas horas antes, quando o jovem nativo Noiso 
fugira pelo beco, desaparecendo na escuridão da noite e 
 
 
deixando Brigitte sozinha, numa rua deserta do bairro de 
Tarut, a bela repórter resolvera ir adiante, por conta própria, 
contando apenas com sua coragem, seu faro e sua 
determinação de decifrar o mistério. Assim, marchou firme, 
por aquelas ruas estreitas, a mão dentro da bolsa, segurando 
a pistola. Depois de muito caminhar, a valente filha de 
Giselle estacou, de súbito,ante um vulto que lhe cortava os 
passos, de braços no ar. 
— Por Alá, miss Montfort! Não fique mais aqui! É 
muito tarde! Volte para o seu hotel! Isto não é lugar para 
uma môça... 
Brigitte comoveu-se com os cuidados de Noiso. O rapaz 
não suportara a idéia de abandoná-la à sua própria sorte e 
viera seguindo-lhe os passos, oculto nas sombras. Brigitte, 
vendo-o fraquejar, resolveu fazer a proposta: 
— Voltarei ao hotel com você, mas depois que me disser 
onde é a casa de Sarah Barrow! 
O nativo olhou para o outro lado da pequena praça 
deserta. Só havia mesmo uma casa ali, entre as choças de 
mendigos. Uma casa velha, à beira do rio que cruzava o 
Tarut. A esperta jornalista compreendeu e apressou o passo 
naquela direção. 
Chegando, encontrou a porta encostada e ouviu ruídos lá 
dentro. Entrou e, à luz da vela de sebo, pôde notar o brilho 
de uma pistola, no chão do vestíbulo imundo. Era uma 45 
negra. Brigitte empunhou-a com a mão esquerda (pois já 
levava a de coronha de madrepérola, firme, na mão direita) 
 
 
e afinal, penetrou na segunda sala, onde Bernard Curtis se 
debatia com as fanáticas opiômanas. 
— Parem com isso! — gritara, para a horda de monstros. 
E Bernard Curtis exclamara: 
Brigitte Montfort! E um milagre! 
E as megeras foram largando o comandante, virando-se 
para a nova invasora. Todas de olhos fuzilantes, grunhindo 
histèricamente. Agitaram-se, frenéticas, dispostas a 
enfrentar a jovem armada. A primeira que o tentou tombou 
ferida com um disparo da 45. Magnetizadas pela presença 
de Brigitte, as outras não perceberam que Bernard Curtis se 
esgueirava, até alcançar a porta. De braços estendidos, em 
grupos de quatro, babando como cães hidrófobos, as 
monstrengas investiram. E tantas tombaram quantas foram 
as balas das armas de Brigitte. Caíam as da frente, mas as 
de trás vinham por cima, como hordas de demônios 
invencíveis. 
Somos as Péris de Ahriman! Queremos o Grande 
Sacrifício! 
Quando os pinos das armas da jovem repórter bateram 
nas cápsulas já deflagradas, os monstros ululantes 
conseguiram cercá-la e atirá-la ao solo. À luz vacilante da 
fogueira, a batalha tomou um aspecto ainda mais selvagem. 
Frenéticas, arquejantes, fazendo ruídos de pesadelo, as 
sacerdotisas do mal levantaram Brigitte e principiaram a 
carregá-la, como um troféu magnífico. 
— Xucran, Ahriman! Vamos para o Grande Sacrifício! 
 
 
Entretanto, na rua, Curtis procurava desesperadamente 
uma idéia salvadora. Foi quando Noiso se acercou, trazendo 
duas preciosas Winchester automáticas. 
— Vamos, mister! — foi dizendo o nativo, aflito. — Eu 
sei o que elas vão fazer com miss Montfort! São 
sacerdotisas de Angro Maimys, o espírito do mal, e farão 
um sacrifício diante da Atar, o fogo sagrado! Arranjei estas 
armas na casa de meu primo, ali na Sharia Kubbet! Por Alá, 
foi uma sorte! Mas vamos lutar! O senhor, agora, tem de me 
ajudar a salvar a moça dessas taradas! Pegue numa arma 
que eu pego na outra! As desgraçadas vão abusar de miss 
Montfort... queimar-lhe o rosto com ácidos... É um horror! 
Vão estragá-la, para que ela se torne, também, uma 
sacerdotisa de Angro Maimys! Miss Montfort é muito 
bonita! Não posso permitir que essa desgraça lhe aconteça. 
Posso morrer, posso morrer fulminado... mas vou lutar! O 
senhor me ajude, mister! Vamos livrá-la da maldição de 
Sarah Barrow! 
Curtis entendeu tudo. Junto com Noiso, penetrou outra 
vez na casa sinistra, já agora com a Winchester engatilhada. 
As salas da frente estavam vazias. Um rumor, mais para o 
fundo, os atraiu. 
— É ali! — gritou o Comandante. — Atrás daquela 
cortina! 
Atravessaram a porta e viram a cena dantesca: diante da 
pira que iluminava a imagem de Ahriman, estava Brigitte, 
completamente despida, subjugada pelas megeras loucas, 
em cima de um estrado negro. Cinco a contê-la, com uma 
 
 
força de mil demônios, e as outras, mutiladas, disformes, 
numa fila terrível, esperando a vez de morder o corpo 
maravilhoso da jovem repórter! Brigitte se debatendo, 
gritando desesperada. E a primeira megera levantando uma 
tigela de ácido nas mãos esqueléticas, para queimar-lhe o 
rosto! 
Somos as Péris de Ahriman! Queremos o Grande 
Sacrifício! 
Nisso, o tiroteio começou. Bernard Curtis e Noiso, 
fazendo funcionar as armas automáticas, empreenderam a 
devastação das figuras hediondas. Brigitte aproveitou a 
confusão e saltou do estrado, ganhando o corredor, agora 
seguida por Noiso, enquanto Curtis tentava fazer a 
cobertura, atirando e afastando-se de costas. 
As monstrengas tombavam, umas após as outras, como 
trapos, sobre poças de sangue. Em poucos minutos, Brigitte 
e Noiso estavam a salvo, já fora da casa sinistra. Mas o 
comandante não aparecia na porta. 
Aguardaram alguns minutos... e nada. 
— Espere aqui — ordenou a repórter, tomando a 
Winchester das mãos do nativo. — Bernard deve ter sofrido 
algum contratempo! Vou buscá-lo! 
Voltou a entrar na casa maldita, onde só se ouviam 
gemidos de agonia, mas não viu mais o comandante. Uma 
das mulheres-monstros, moribunda, caída aos pés da 
fogueira, gemeu: 
— Ele se foi! Nosso inimigo morreu! Caiu no Nahr e 
morreu! 
 
 
Só então Brigitte reparou que uma porta lateral do 
pardieiro dava diretamente para um estreito rio subterrâneo, 
quase um canal. Ali havia uma trilha de sangue, que 
desaparecia bruscamente nas águas negras e movediças. 
Brigitte chamou várias vezes pelo nome do comandante, 
mas ninguém respondeu. Certamente, ele tentara sair por ali 
e tombara nas águas putrefatas. Ameaçada por três ou 
quatro harpias (sobreviventes da carnificina), a garota 
recuou precipitadamente e voltou a sair, pela porta 
principal, reunindo-se a Noiso, que esperava na praça. 
Inteiramente nua, arranhada, mas sem grandes ferimentos, a 
bela repórter exibia os seios lindos, tremendo como 
pombinhas assustadas. Noiso emprestou-lhe o seu manto 
árabe e a estátua velou-se, sob o luar, numa cena digna de 
velhos poemas orientais. Afinal, decidiram correr para 
longe daquele antro infernal. 
* * * 
Brigitte e Noiso continuaram andando, pelas ruelas do 
estranho bairro de Tarut. Seguiram ao longo do rio e, mais 
adiante, onde este aflorava à superfície da terra, Noiso 
soltou uma exclamação de alegria: 
— Veja, miss Montfort! Nosso amigo escapou! 
Na beira do rio, entre duas pedras, via-se uma 
Winchester abandonada. O nativo recolheu a arma e 
continuou a andar, ao lado de sua bela companheira. Agora, 
mais calmos, pois o encontro da arma dera-lhes a certeza de 
que o comandante Curtis atravessara o rio, a nado, e saíra 
 
 
ali. Não devia estar muito ferido, pois não havia sinais de 
sangue nas pedras. 
A repórter queria obter dó nativo outras revelações. E foi 
conversando, com o maior charme possível: 
— Obrigado, Noiso. Você me salvou a vida, com a idéia 
de trazer essas duas Winchesters. Do contrário, eu e 
Bernard estaríamos perdidos. 
— Só cumpri o meu dever — disse o jovem persa, 
encabulado. — E foi muita sorte nossa que a terrível Sarah 
Barrow não estivesse na casa, dirigindo as fanáticas. Ela se 
julga Naçu, a mais terrível das Péris! Se Sarah Barrow 
estivesse no templo, teria sido uma desgraça! Com ela, as 
Péris combatem como verdadeiros demônios! E dispõem de 
armas e tudo! Mas, quando Naçu se ausenta, deixa fechado 
o arsenal. Não confia nas bruxas, quando estão sozinhas; 
sabe que elas se destruiriam até mesmo umas às outras! 
— E ninguém aqui toma providências contra esse bando 
de fanáticas? Nem as autoridades? 
Noiso não parecia, agora, temer o efeito de suas 
respostas. E explicou: 
— A coisa toda é bem difícil. Primeiro, elas variam 
muito de lugar. Têm vários redutos e aparecem onde menos 
se espera. Conseguem fugir, quase que por milagre. Depois, 
são bastante numerosas. Ainda há muitos partidários da 
religião de Zoroastro na Pérsia e, com medo dos demônios 
deAbriman, eles traem a Ormuzd, protegendo as 
sacerdotisas do fogo sagrado. E quem as dirige tem muito 
poder. As bruxas são informadas de tudo com antecedência. 
 
 
Quando a polícia ataca um lugar, esse lugar está vazio! 
Minutos antes da batida, elas debandam! Parece, até, que 
são informadas por algum antena, ou algum espião... E 
lutam até do metralhadora! Armas tchecas, miss Montfort... 
Por outro lado, como lhe disse, existe o medo dos nativos, 
que ainda crêem em Ahriman e seus poderes infernais. 
Ninguém quer atiçar o ódio das fanáticas de Sarah Barrow. 
— E esta Sarah Barrow? Ninguém põe a mão nela? 
— Essa mulher parece um fantasma! Ninguém conhece 
a sua cara, nem sabe onde ela anda! Dizem que tem vários 
rostos, como as sedutoras Drujes, e vários esconderijos, 
com subterrâneos e passagens secretas, para fugir na hora 
do aperto. Só os mais velhos da seita a conhecem de perto... 
só os mais velhos crentes, que procuram a bênção de Ahura 
Mazda. 
— Seu pai a conhece? 
— Certamente. Mas nunca dirá uma palavra sobre o 
assunto. Não é doido de dizer! Se falar, pode amanhecer 
morto, por aí, com uma facada no coração e a cara toda 
roída de ácido! Alá nos livre! Sarah Barrow está ligada aos 
fanáticos da seita dos Albornozes Azuis! 
— Que seita é essa? 
— Não sei lhe dizer, miss. Sei, apenas, que os homens 
dos albornozes azuis são seguidores de Cafar e trabalham 
para que os poços de petróleo do Irã não sejam explorados 
pelos ingleses. 
— Nacionalistas? 
 
 
— Talvez sim e talvez não. Alguns velhos persas dizem 
que Cafar é um agente comunista. Não sei de mais nada. 
— Nesse caso — concluiu Brigitte, experimentando a 
coragem de seu jovem companheiro — só há um jeito: 
teremos de descobrir tudo por nós mesmos! 
Noiso reagiu: 
— Por favor, miss Montfort, não se meta nisto! Não 
esqueça que já quase ia morrendo... e ainda quer se arriscar? 
Vá-se embora desta terra, enquanto é tempo! Olhe, daqui a 
pouco tenho que voltar para o hotel. Deve ir comigo e, de 
lá, embarcar para Abadan! Por que tem tanto empenho em 
saber destas coisas? 
Brigitte não lhe deu ouvidos. Limitou-se a afagar 
ternamente no rosto escuro do nativo num carinho 
perturbador de mulher que conhece o seu próprio poder de 
sedução. O pobre rapaz não teria meios de resistir a 
tamanha voltagem de charme. E com voz meiga, ela falou: 
— Preciso investigar outro assunto e você vai-me ajudar, 
direitinho, como um bom rapaz! Prometo que, no fim de 
tudo, lhe darei uma boa recompensa. De acordo? 
O jovem fez que sim, pensando ninguém sabe em que 
maravilhas... Brigitte pediu-lhe, então, o endereço de Henry 
Lovett, o engenheiro que, horas antes, deixara-a no 
restaurante para sair com Nagdi, o pai de Noiso. O rapaz, 
inteiramente hipnotizado deu as explicações: 
— Esse Mr. Lovett mora aqui mesmo, desde que se 
aposentou da Companhia. Sua mulher e sua filha perderam 
a vida num desastre de automóvel. Parece que tem um filho 
 
 
estudando em Londres, mas esse, nunca veio por aqui. Mr. 
Lovett vive numa chácara, do outro lado da cidade. Se saiu 
apressado daquele jeito, com meu pai, não tenha dúvidas: 
foi por artes de Sarah Barrow! O velho deve tê-lo prevenido 
de alguma coisa. Ele gosta de Mr. Lovett. E tem muita pena 
dele. 
Nessa altura, já estavam chegando perto do hotel. Noiso 
entristeceu subitamente. A repórter quis saber por quê. 
— Já amanheceu, miss — queixou-se o rapaz. — Com 
toda esta trapalhada, sou capaz de perder o meu emprego! 
Eu devia ter-me apresentado às cinco horas, para pegar às 
cinco e meia! 
Brigitte consolou-o com um afago maternal. Depois, 
abriu a bolsa (que Noiso não esquecera de recuperar, 
durante a luta) e de lá retirou o famoso papel, assinado pelo 
Xá. Ao vê-lo, o nativo esbugalhou os olhos. 
— Mas... será obedecida como uma rainha, com esse 
papel! Pode ter o que desejar, aqui no Irã! 
Brigitte foi sucinta: 
— Você, estando às minhas ordens, não perderá seu 
emprego. Fique tranqüilo, pois, e faça o que eu mandar. 
Noiso fez uma saudação muçulmana, curvando-se até o 
chão. Brigitte retomou o fio de suas atividades detetivescas: 
— Não percamos tempo. Faltam poucos minutos para as 
seis. Precisamos visitar o engenheiro Lovett, enquanto o sol 
não nasce de todo! Vamos pegar meu jipe, estacionado na 
travessa ao lado do hotel, e façamos uma viagem rápida à 
chácara desse inglês. 
 
 
Passando em frente ao hotel, ainda pensou em entrar e 
perguntar pelo seu amigo Delancey. Teria chegado? A 
urgência do tempo não lhe deixou margem a outras 
especulações. Embarcou no jipe, com seu fiel Noiso, e 
seguiu no rumo da cidade nova. 
Atrás deles, também seguiu um pequeno carro Triumph, 
dirigido por um velho árabe, embuçado num albornoz azul, 
mascando sementes de betel. Era o mesmo sujeito sonolento 
que fora atrás de Nagdi e Henry Lovett, quando eles tinham 
saído do restaurante do pai de Noiso. 
 
CAPÍTULO SÉTIMO 
A mulher que não ria 
Outro retrato de Alice 
Tiroteio na casa azul e branca 
Revelações do inspetor Maraghesi 
Brigitte fala em passarinhos 
 
Em quarenta minutos chegaram ao local, graças às 
indicações de Noiso, que encurtaram o caminho. Brigitte 
parou o jipe a uma boa distância da chácara e manobrou, 
para escondê-lo atrás de uma providencial moita de capim. 
O dia amanhecera de todo. Ela saltou e acenou para o 
companheiro. 
— Você ficará aqui, Noiso, esperando por mim. Se eu 
me demorar mais de meia hora, então sim, vá ver o que terá 
acontecido. 
Vestida com a túnica árabe do nativo, Brigitte era um 
vulto familiar na paisagem oriental. Aproximou-se da cerca 
 
 
e conseguiu introduzir-se por uma abertura. Atravessou um 
campo de golfe e uma quadra de tênis, chegando, afinal, a 
uma pérgula com piscina, atrás de cujos pilares tratou de se 
esconder. Um carro, estacionado na frente da casa entre o 
jardim e uma faixa de seixos rolados, chamou-lhe a atenção. 
Foi-se esgueirando sem ruído e logo se encontrou ao lado 
do automóvel, protegida por uma touceira de fícus. 
De repente, iluminou-se o vestíbulo do palacete. A porta 
da frente se abriu para o pórtico, deixando passar um casal, 
que parou no topo da pequena escada de mármore. Brigitte 
olhou, prendeu a respiração e apurou o ouvido. 
Era Mr. Henry Lovett, sem dúvida. E a mulher, alta, 
esguia, envolta num elegante manto branco, parecia unia 
figura grega, de um baixo-relevo de Corinto. Seu rosto, 
excessivamente pintado, era uma máscara de cosméticos; as 
palavras saíam de seus lábios sem que suas feições se 
movessem. Ao contrário do “homem que ri” de Vitor Hugo, 
aquela mulher não devia rir nunca! E, o que era mais 
extraordinário, seu rosto não se parecia com o do retrato de 
Sarah Barrow, que Brigitte encontrara na casa de Virgínia 
Seigel. 
— Veja, minha filha — dizia Mr. Lovett à moça, 
fazendo um gesto largo que abrangia toda a propriedade. — 
Sempre que contemplo esta chácara lastimo a sorte! Aqui 
seria o seu refúgio. Mas o destino não quis que fosse assim. 
Talvez apenas seu irmão queira aproveitar esta chácara, 
esses jardins, essa piscina, esse campo tão bonito que tanta 
gente desejaria possuir. 
 
 
A moça de branco murmurou alguma coisa que Brigitte 
não pôde ouvir. Seus lábios se moveram, mas a face 
permaneceu impassível. Henry Lovett continuou falando, 
em voz alta e clara: 
— Ora, minha filha! Já era tempo de você ter aplacado 
esse ódio, esse desejo de vingança tão feroz! Por que odiar 
seu antigo noivo? Aquele idiota nem merece sua atenção, 
seu tempo perdido! Mas, enfim... 
A mulher do branco falou novamente. Lovett contestou: 
— Sim, foi afundado, no porto. Ninguém a bordo. Mas 
deixei na casa dele um bilhete, como se fosse do tal Cafar. 
A polícia investigará, tenho certeza. E ele será detido. 
Pagará pelo que não fez... 
Interveio novamente a mulher de branco, e o engenheiro 
continuou: 
—Mas viu como seu irmão está um bonito rapaz? Pena 
que você não tenha querido se revelar a ele. Robert a julga 
morta, mas isso não seria uma razão tão forte. Você poderia 
contar-lhe a história do acidente. O rapaz é um artista... 
Passa o dia inteiro a ler, a pintar. .. Não aproveita, como 
devia, esta piscina, estes campos de esporte. Você, sim, 
saberia aproveitá-los bem, alegrá-los... Mas fica fechada no 
seu ódio, só por causa do acidente! Que bobagem, minha 
filha! Hoje, a cirurgia plástica faz milagres! Você poderia ir 
a Londres, ou Nova ler- que, e voltaria perfeita, como antes! 
E, quem sabe, curada do vício... Bem, o dia ralou. Vou levá-
la de volta à sua “fortaleza”... Quando é que vocês terão o 
novo encontro com Cafar, nas cavernas? — Outra pausa; 
 
 
não se ouviu a voz da moça, mas o engenheiro acrescentou: 
À meia-noite? Está bem, minha filha. Você talvez gostasse 
de conhecer essa jornalista americana, a tal Brigitte 
Montfort, que eu larguei, no restaurante de Nagdi, mal 
recebi o seu chamado... 
Desceram as escadas e tomaram o carro, conversando. 
Lovett saiu de marcha à ré, saltou para abrir o portão, parou, 
fechou e saiu de arrancada, pela rodovia. Brigitte correu até 
o palacete, abrigando-se nas sombras. Encostou-se à parede 
e deslizou até a porta principal. Mas, quando a atingiu, 
ouviu um baque surdo. Imobilizada contra a parede, soltou 
um gemido de surpresa. A manga direita de seu albornoz 
fora traspassada por uma faca atirada com perícia e estava 
presa à parede, onde a lâmina se espetara! Antes que abrisse 
a bolsa com a mão esquerda, um vulto largo surgiu do 
jardim e avançou para ela. Era um árabe de meia-idade, 
sonolento, ruminando como um boi. Vestia um albornoz 
azul. 
— Apanhei-te! — rosnou o estranho, no qual Brigitte 
reconheceu o freguês do restaurante de Nagdi. — Sou Ali 
Ben Kasadan, um dos daevas de Ahriman! Você é muito 
curiosa, ainda mesmo para uma repórter... E parece que 
descobriu a pista de Sarah Barrow! 
Brigitte não disse nada, atenta aos gestos do árabe. 
Súbito, ele sacou um punhal de dentro do albornoz, e deu 
um golpe. A repórter furtou o corpo e a lâmina apenas lhe 
rasgou a outra manga da túnica. Era evidente que o bandido 
queria matá-la, sem mais delongas! Desesperada, sem poder 
 
 
retirar a manga presa à parede, despiu ràpidamente o 
albornoz e atirou-se ao chão. A segunda punhalada apenas 
atingiu a roupa, pendurada no primeiro punhal. Brigitte 
rodopiou e puxou, com força, as canelas do adversário, 
fazendo-o perder o equilíbrio e cair de costas. Rolaram pelo 
pórtico, abraçados, trocando socos. Ela completamente nua 
e o beduíno do deserto armado com um punhal recurvo, 
afiado, que voltou a descer, faiscante, errando o rosto de 
Brigitte por um centímetro. Ela conseguiu agarrar o pulso 
do agressor e, girando espetacularmente, montou a cavalo 
em cima dele, mantendo-o de costas contra o solo. 
— É você o carrasco de Sarah Barrow? — perguntou, 
apertando-lhe o pescoço, sem lhe largar o pulso armado. 
— Nahan — confirmou ele, lutando por livrar a mão. — 
Matei a enfermeira, no hotel, porque ela ia falar... e, agora, 
vou matar você! Todos os que sabem demais precisam 
morrer! São as ordens de Cafar! 
O gangster oriental era muito mais forte do que ela e, 
dando um safanão, conseguiu soltar o pulso. No mesmo 
momento, tinha girado e invertido as posições, cavalgando 
o corpo branco e nu de sua gentil adversária. Debalde 
Brigitte contorceu-se tentando escapar como pudesse ao 
golpe que inevitàvelmente aquele perigoso assassino ia lhe 
desferir. Ele ergueu o braço, armado com o punhal, e 
preparou-se para tirar-lhe a vida. A filha de Giselle viu 
chegada a sua última hora. Porém, de repente, ouviu-se uma 
detonação e o velho árabe ficou estático, o punhal no ar e o 
rosto contorcido pela surpresa. Depois, estranhamente, uma 
 
 
expressão de beatitude tomou conta de sua fisionomia 
bestial e ele tombou de lado, hirto como uma estátua. 
Brigitte desvencilhou-se e pôs-se de pé, olhando para o 
cadáver. Agora, o homem do albornoz azul tinha o buraco 
de uma bala no meio das costas. Uma bala que lhe atingira o 
coração. 
Noiso saiu das sombras, sem ruído, empunhando uma de 
suas Winchesters. 
— É Ali Ben, o matador — anunciou a meia voz. — Eu 
o reconheci logo... e, por isso, atirei! Ele trabalhava para 
Sarah Barrow e Cafar! Agora, não matará mais ninguém! 
Brigitte revistou o albornoz azul cio morto e não 
encontrou nenhum papel. Então, encarou Noiso: 
— Esse bandido deve ter vindo para aqui em algum 
veículo. Talvez possua automóvel. Dê uma busca pelas 
cercanias e veja se descobre algum carro... e, dentro dele, 
algum documento com o endereço do proprietário. 
Noiso acenou e tornou a desaparecer, silenciosamente, 
no jardim, com a mesma discrição com que tinha aparecido. 
Brigitte recuperou-se, retirou o albornoz da parede 
(soltando o punhal que o prendia) e vestiu-o, 
transformando-se outra vez, numa jovem árabe. Em 
seguida, voltou a aproximar-se da porta do palacete. Aí, 
abriu a bolsa e retirou o arame retorcido que sempre 
carregava quando em missão. Forçou o trinco, fàcilmente. A 
casa era ampla e rica. Pé ante pé, subiu lanços de escada até 
o andar superior. Os criados, em alojamentos do fundo, não 
foram despertados. Avançou com sua lanterninha de pilha e 
 
 
escolheu a porta de um dos quartos. Vazio. Mas, no 
seguinte, alguém ressonava. Com muita suavidade, 
aproximou-se do leito e ficou a contemplar, na penumbra, o 
rosto da pessoa que dormia. Era um rapaz de feições 
belíssimas; Brigitte notou imediatamente sua semelhança 
com a moça da fotografia retirada do quarto de Virginia 
Seigel. Seria o irmão de Sarah Barrow, sem dúvida. O 
mistério começava a se esclarecer. Sarah Barrow, jovem 
misteriosa de rosto impassível, que saíra minutos antes 
levada pelo engenheiro Lovett, possivelmente seu pai, tinha 
aquele irmão, recém-chegado de Londres, vivendo no 
palacete. E, pelo que deduzira da conversa, esse irmão não a 
havia visto... julgava-a morta. Mas, por que o rosto da moça 
de branco não era igual ao do retrato? Tudo muito estranho! 
Brigitte dirigiu o foco da sua lanterninha para o rosto do 
jovem, querendo examiná-lo melhor. Ele abriu os olhos, 
espantado, e sentou-se na cama. 
— Quem está aí? —Estirou o braço, para acender a 
lâmpada de cabeceira, e estarreceu-se, ante a visão de 
Brigitte. — Quem é você? 
E levantou-se abruptamente, abotoando o pijama de 
cetim. Brigitte mentiu: 
— Não se assuste. Sou amiga de seu pai. Vim visitá-lo, 
esta madrugada, porque terei de viajar em seguida. Não o 
encontrando, vim ter aqui, por acaso, e vi você, o filho de 
que tanto me falava. Chegou de Londres, não é mesmo? 
O rapaz sorriu, ingênuo, tranqüilizado, e convidou-a a 
sentar-se. 
 
 
— Perdoe-me, mas fico sem jeito de recebê-la nesta 
intimidade... É amiga de meu pai, então? De Lingahacha ou 
Abadan? 
— De Abadan. E você, quando chegou? 
— Há três dias. Vim de Londres, para este lugar ermo. 
Papai mantém-me aqui recluso, como um castelão 
medieval! Não quer me levar ao centro da cidade, nem 
permite que eu fique em Abadan, pelo menos. Diz que eu 
tenho de repousar aqui. Que aqui é o meu paraíso... coisas 
assim... O velho tem lá as suas manias. Aliás, esta é a 
primeira vez que venho ao Irã. Desde pequeno, estive 
internado no colégio, em Londres. Nem quando minha mãe 
e minha irmã morreram, papai consentiu que eu viesse ao 
Oriente. 
Brigitte animou a conversa: 
— Você O artista da família, não é? 
— Sim. Vejo que papai andou lhe contando... Quero 
dedicar minha vida a fazer qualquer coisa de bonito. Gosto 
de tecer tapetes. Talvez não me realize, mas me esforço 
muito. Aqui, já estou rabiscando uns croquis, com motivos 
persas. Creio que realizarei algo de novo, usando velhos 
temas. Só que agora, diante de você, penso em tornar-meum retratista. Você, que eu não conheço, é um modelo raro! 
Como fica fascinante em vestes nativas! Deve ser 
americana, não é? Por que fez questão do albornoz 
iraniano? 
Brigitte não se atrapalhou: 
 
 
— Sou americana, sim, e talvez um tanto inclinada ao 
turismo colorido. Resolvi andar por aí fantasiada de persa... 
— Você me parece um tanto maluca, mas é simpática, 
sem dúvida. 
— Acha mesmo? Então, fale-me de sua irmã, que 
também devia ser muito simpática. 
— Ah, não me lembro com detalhes! Era ainda muito 
garoto, quando a vi pela última vez. Papai não quer que haja 
retratos de Alice pela casa. Gostava tanto dela que lhe fazia 
mal vê-la, a todo instante, nas fotografias. Mas ainda guardo 
um antigo retrato de minha pobre irmã. 
Foi até uma cômoda e de lá voltou com uma fotografia. 
Brigitte examinou-a demoradamente. Não se parecia com a 
mulher de branco. Leu a dedicatória: 
Ao meu querido irmão Robert um instantâneo da sua 
Alice, num dia muito feliz. 
Robert Lovett explicou: 
— Foi batido no dia de seu noivado com Bernard Curtis, 
um sujeito muito legal. Na semana seguinte, Alice sofreu 
um desastre de automóvel e morreu. 
— Que horror! E você nunca soube de detalhes? Nunca 
indagou? 
— Bem... Meu pai me escreveu uma longa carta, na 
época, narrando o fato. Eles moravam, minha mãe e ele, na 
cidade de Lingahacha — não nesta chácara, que ainda não 
lhes pertencia — e mamãe e Alice seguiam, de automóvel, 
para Abadan, para comprar o enxoval de minha irmã, O 
carro tombou num despenhadeiro e ambas morreram 
 
 
carbonizadas. O pobre Bernard Curtis desesperou-se. Dizem 
que se alistou na Legião Estrangeira e por lá mesmo se 
acabou, nas mãos dos marroquinos. Tudo muito triste, como 
vê. 
Brigitte sentiu que as informações estavam se arrumando 
em seu cérebro, para revelar uma ponta do mistério. Alice, 
ao que tudo indicava, deveria ser o verdadeiro nome de 
Sarah Barrow. Alice Lovett. 
A jovem repórter começou a raciocinar. Alice Lovett e 
Sarah Barrow eram a mesma pessoa. O pseudônimo 
acobertando os crimes. Mas... por que o rosto de uma não 
era igual ao da outra? E por que a necessidade de cometer 
crimes? Por que o comando sobre as megeras fanáticas, a 
organização daquela verdadeira sociedade diabólica para 
fazer o mal? 
Brigitte preferiu continuar as suas investigações noutro 
lugar. Ainda lhe restava ligar Sarah Barrow a Cafar e, este, 
à Liga dos Albornozes Azuis. Despediu-se do jovem Robert 
Lovett e saiu do palacete. Lá fora, o fiel Noiso estava 
impaciente, sua espera. 
— Encontrei um pequeno carro Triumph escondido no 
mato — informou ele. — O nome do condutor é Ali Ben 
Kasadan. E o endereço fica na estrada de Abadan, na 
esquina da Sharia Kuwait. 
— Onde é isso? 
— Na entrada de Lingahacha. Conheço a casa de Ali 
Ben. É a única, de azulejos azuis e brancos que existe 
naquela rua. 
 
 
* * * 
O dia nascera de todo. Apesar dos protestos de Noiso, 
tomaram o jipe o dirigiram-se para a tal casa de azulejos 
azuis e brancos. Pelo caminho, Brigitte prendeu a pistolinha 
com esparadrapo à coxa esquerda e recarregou as duas 
Winchesters. Não confiava na polícia local e tinha o 
pressentimento de que precisava agir ràpidamente, se 
quisesse evitar outra tragédia tão grave quanto o incêndio da 
Refinaria de Abadan. Pensava na notícia, que lera no jornal, 
sobre a visita que Sua Majestade, o Xá, faria naquela tarde a 
Lingahacha. Pouco a pouco, a inteligente repórter formava a 
sua teoria... 
Deixaram o jipe na Sharia Kuwait e seguiram, a pé, para 
a estrada real, levando as Winchesters na mão. Era muito 
cedo e metade da população ainda não se levantara. A 
grande casa de azulejos azuis e brancos estava tão silenciosa 
que parecia deserta. 
— Ou muito me engano — sussurrou Brigitte ao ouvido 
de Noiso —, ou esta é a sede da Liga dos Albornozes 
Azuis! Temos que investigar com cautela! 
O nativo estava pálido e trêmulo. Ele sabia que era ali o 
reduto dos agentes comunistas de Cafar; por isso, tentava 
demover sua companheira do intento de enfrentá-los. Mas 
Brigitte estava decidida a colher os últimos dados para a sua 
reportagem. Cautelosamente, entraram no quintal da casa. 
Tudo deserto e silencioso. Súbito, dois vultos azuis 
surgiram por trás das árvores e encostaram duas facas à 
garganta da repórter e seu acompanhante. Noiso deixou cair 
 
 
logo a espingarda, mas Brigitte só soltou a sua quando um 
dos árabes a arrancou das mãos. 
— Venham — ordenaram os homens dos albornozes 
azuis. — Não façam barulho! Entrem pela porta da frente! 
Falavam em persa e a repórter no os entendeu; mas o 
empurrão que lhe deram era bastante eloqüente. A porta 
principal da casa acabara de se abrir; caminharam para lá, 
subiram uma pequena escada o entraram numa sala enorme, 
com as paredes cobertas de valiosas tapeçarias. Os dois 
guardas reuniram-se a outros dez árabes, todos com 
albornozes azuis, que esperavam na sala. Um deles, que 
parecia ser o chefe, usava um lenço no rosto, que lhe 
ocultava as feições; apenas se viam os seus olhos. Ao 
encará-los, Brigitte sentiu-se, outra vez, no Palácio das 
Portas de Ferro; isso lhe causou um tremendo choque. 
Erguia-se outra ponta do véu que ocultava o mistério! 
— Cafar? — perguntou a repórter, na dúvida. 
O homem embuçado não respondeu. Tinha uma pistola 
na mão, que engatilhou cuidadosamente. Outro árabe falou, 
em inglês: 
— Fizemos mal em deixar escapar o seu amigo, que 
esteve aqui procurando desatolar o carro! Foi ele, 
certamente, que aos denunciou! Mas, depois da morte 
destes dois espiões, e da chegada do Xá, não precisaremos 
mais ‘desta casa. Cafar será avisado de tudo. 
Então, o homem que escondia tão cuidadosamente o 
rosto não era o chefe do bando. E, depois de ter visto os 
seus olhos, Brigitte já imaginava como seria o seu rosto... 
 
 
Era um complô extraordinário, com efeito! Um golpe de 
mestre! Esse Cafar devia ser um demônio em figura de 
gente! 
Mas não teve tempo para novas reflexões: o embuçado 
agarrou sua túnica com a mão esquerda e abriu-a 
violentamente. A filha de Giselle surgiu quase inteiramente 
nua aos olhos assombrados dos árabes. Estes ainda não 
tinham voltado a si do espanto, quando a repórter arrancou a 
pequena pistola da coxa o disparou-a, certeiramente, contra 
a testa do homem do rosto velado, que emitiu um gorgolejo 
e caiu de costas, ficando imóvel, O lenço saltou de seu rosto 
e todos puderam ver as feições aristocráticas de Sua 
Majestade, Reza Pahlevi, o Xá da Pérsia! Era inacreditável! 
Ouviu-se um “oh” de surpresa e, depois, um “uh” de 
indignação; ato contínuo, todos os homens de albornozes 
azuis tiraram punhais da cintura. Mas, nesse momento, 
estrondaram tiros e rajadas de metralhadoras, no quintal. As 
vidraças da casa voaram em estilhas. Outro árabe entrou 
correndo pela porta aberta, exibindo o rosto coberto de 
sangue. 
— Fujamos! — gritou, em persa. — É a polícia! 
Ninguém mais se lembrou de Brigitte ou Noiso. Os 
homens dos albornozes azuis começaram a correr de um 
lado para o outro, como baratas assustadas. Dois deles 
tinham revólveres e puseram-se a atirar pela porta e pela 
janela. Mas logo a casa foi invadida por uma dúzia de 
policiais uniformizados. Brigitte agarrou na mão de Noiso e 
 
 
arrastou-o para os fundos. Não lhe agradava ser presa, para 
ter que dar explicações antes da hora. 
Na cozinha, um dos árabes acabara de suspender a 
tampa de um alçapão e preparava-se para fugir por ele: 
Brigitte voltou a disparar a pistolinha e liquidou-o; depois, 
sempre arrastando Noiso, desceu pelo alçapão e fechou-o, 
com o trinco, pelo lado de baixo. Estavam num corredor 
subterrâneo, que ia dar noutra casa velha e desabitada, do 
lado oposto da Sharia Kuwait. Saíram para a rua e puderam 
ver alguns carros da polícia, parados junto da calçada. Na 
casa de azulejos azuis e brancoso tiroteio continuava. Um 
policial, gordo e prazenteiro, estava encostado a uma das 
viaturas oficiais. 
— Que aconteceu? — perguntou Noiso, na sua língua 
natal. 
— Não se meta! — rosnou o agente da lei. — Vão-se 
embora daqui! Depressa! 
Era isso mesmo o que eles queriam. De braço dado, 
tomaram o jipe (que esperava pouco adiante) e voltaram, 
tranqüilamente, para o Hotel Sadrabad. 
A bela o astuta filha de Giselle dormiu apenas algumas 
horas, para refazer-se dos sucessos da noite. Os impactos de 
emoção eram, para ela, verdadeiramente tranqüilizantes. 
Qualquer mulher, depois do todos aqueles acontecimentos, 
teria necessitado uma internação em clínica de repouso, por 
prescrição médica. Brigitte sentiu-se nova em folha, às onze 
horas da manhã, como se os episódios da noite anterior não 
 
 
tivessem sido mais do que pequeninas doses de excitantes. 
Antes de pedir o café, ligou para a recepção. 
— Não terá chegado a este hotel, procedente de Abadan, 
um senhor chamado John Delancey? 
O funcionário confirmou: 
— Sim, miss Montfort... e já há algum tempo. 
— Obrigada. Quer ter a bondade de passar esta ligação 
para o quarto dele? 
— Ele não está — respondeu o funcionário, com voz 
grave. — Acontece que Mr. Delancey foi preso! 
— Como? 
— Isso mesmo. Foi preso, esta madrugada, acusado de 
assassinato da hóspede do quarto n.° 30! 
A repórter não perdeu tempo com novas perguntas. Já 
sabia que a hóspede do quarto n.° 30 era Virginia Seigel, e 
fora morta por Ali Ben Kasadan. Apressou a toalete, 
desceu, chamou o seu fiel “escudeiro” Noiso, já firme junto 
à entrada e embarcou no jipe, rumo à Delegacia. A prisão de 
Delancey precipitara os acontecimentos; agora, ela 
precisava se explicar com a polícia. 
* * * 
O rotundo inspetor da barbicha negra perdeu-se em 
salamaleques, quando Brigitte deu entrada no seu exíguo 
gabinete de “sherlock” subdesenvolvido. 
— Sou Ali Maraghesi, miss. Um criado às suas ordens... 
Brigitte apresentou-se discretamente, com suas 
credenciais de jornalista do “Morning News” de Nova 
Iorque. Perguntou, em seguida, pelo seu amigo John 
 
 
Delancey, funcionário da Anglo-Iranian. O inspetor 
encarou-a suspicazmente. 
— Conhece o acusado, miss Montfort? De onde? 
— É meu amigo. Tínhamos combinado visitar juntos a 
cidade, que mostra aspectos interessantes para o meu 
trabalho de repórter. Agora, sou surpreendida com esta 
notícia absurda, de que John foi detido e indiciado, e que 
sua prisão é inafiançável! Que loucura é esta? Estaremos 
assim tão longe da civilização que um cavalheiro como Mr. 
Delancey possa ser trancafiado sem provas, da noite para o 
dia? 
Falava energicamente e conseguia impressionar. O 
inspetor Maraghesi fez sinal aos guardas para que se 
retirassem e dirigiu-se, com voz mansa à repórter: 
— Presto-lhe uma homenagem, miss. Ao seu encanto 
pessoal e à sua condição de jornalista americana. Devo 
explicar-lhe que exorbitei das minhas funções, ontem, 
quando dei ordem de prisão a Mr. Delancey. Fingi-me de 
imbecil, banquei o “sherlock” de novela, mas com um 
objetivo: guardar imediatamente seu amigo atrás das grades, 
para protegê-lo, evitando assim mais um crime. Ele poderia 
ter visto alguma coisa especial no caminho de Lingahacha 
e... Além disso, a vítima era sua enfermeira... e foi morta de 
maneira muito cruel! 
— Eu sei. Virginia Seigel morreu porque ia falar. 
O inspetor arregalou os olhos empapuçados. 
— Então, também conheceu Virginia Seigel? 
 
 
Houve uma conversa prolongada, em que Brigitte fez 
ver ao inspetor que nem ela nem Delancey poderiam ter 
qualquer relação com o crime, praticado por um 
profissional. Mas o detetive iraniano não cogitava disto e já 
formulara suas suspeitas em torno de outro personagem. 
— Eu sei, miss — explicou ele, em voz baixa. — 
Observei as lanhaduras na face da vítima e compreendi, de 
pronto, do que se tratava. Não lhe posso dar maiores 
explicações. 
Brigitte teve de mostrar a Ali Maraghesi o documento 
assinado pelo Xá. O homem quase se desmanchou em 
reverências. Então ela explicou: 
— Colaboro, nisto tudo, com o Intelligence Service e 
quero ver resolvido este mistério, que apavora o país, dos 
atos de terrorismo contra a Anglo-Iranian. Venho seguindo 
uma pista segura, há algum tempo. Não estou em 
Lingahacha por acaso. Creio que descobri o roteiro dos tais 
“fantasmas” comandados por Cafar. Suponho que o senhor 
já ouviu falar nesse Cafar, não? 
— O assunto é motivo de comentário geral por aqui — 
disse o inspetor, cauteloso. 
— Pois é. Mas os tais “fantasmas” não são levados a 
sério, ou são levados a sério demais, isto 6, ou duvidam de 
sua existência, ou acreditam na organização terrível que eles 
constituem... e calam o bico! 
— Tem razão — assentiu o inspetor, sacudindo a 
barbicha. — E há de compreender que, com essa confusão, 
a polícia não sabe por onde começar a agir. Pessoalmente 
 
 
lhe digo... e peço-lhe toda a reserva... que já agarrei metade 
dos cúmplices de Cafar e estou na pista dos seus 
“fantasmas”. Há uma mulher que comanda, aqui, certas 
fanáticas fumadoras de ópio. Seu nome é Sarah Barrow. Já 
ouviu falar nela? 
Brigitte assentiu, O inspetor continuou: 
— É uma estranha mulher, que tem várias caras e chefia 
um bando de loucas viciadas. Ela as induz a cometer crimes 
e atos de terror, sob o efeito de entorpecentes. Estou me 
aproximando de toda a verdade. É difícil conseguir 
delatores. Ninguém quer falar, no bairro de Tarut, onde sei 
que existem redutos dessas megeras. Elas desfiguram o 
rosto dos informantes e os profanam terrivelmente. Mas os 
mais velhos do lugar sofrem com a onda de crimes, e talvez 
cheguem a me fornecer algum dado precioso sobre os 
pontos-chave dos encontros sinistros. 
A repórter ouvia tudo em silêncio. Ali Maraghesi 
prosseguiu: 
— O mais importante é que dois terroristas, que acabam 
de ser presos em Abadan... dois árabes vestidos com os 
albornozes azuis da seita de fanáticos do “fogo sagrado”... 
confessaram que há ligações entre esta Sarah Barrow e 
Cafar, além de darem a entender que há pessoas influentes, 
disfarçadas, metidas no caso. Por isso, temos que agir com 
cautela. Ainda agora, graças a uma indicação de Mr. 
Delancey, acabei de aprisionar metade dos cúmplices de 
Cafar, numa casa isolada da rodovia de Abadan. Mas 
nenhum deles falou. E o chefe escapou, outra vez! 
 
 
— O senhor julga que Cafar é algum nativo? 
— Acho que não. Suponho... e tenho razões para 
fundamentar minhas hipóteses... que Cafar seja um arguto 
agitador, funcionando para uma potência estrangeira 
interessada no petróleo do Irã. O próprio Partido Tudé, de 
tendências comunistas, não deve estar alheio ao caso! As 
mulheres desfiguradas de Sarah, encarnando os “fantasmas” 
de Cafar, servem para excitar a imaginação dos nativos 
supersticiosos e com isso estabelecem confusões que 
dificultam o trabalho da polícia e do serviço secreto. Há três 
quadrilhas criminosas trabalhando para 
Cafar: os comunistas dos albornozes azuis, os 
sabotadores nacionalistas e as mulheres-monstros de Sarah 
Barrow. 
— Bem pensado — aprovou Brigitte, contente de 
encontrar alguém com as suas mesmas conclusões. 
— E, na sua opinião, por que Sarah Barrow mandaria 
matar Virginia? 
Ali Maraghesi cofiou a barbicha e raciocinou em voz 
alta: 
— As mulheres de Sarah são viciadas em tóxicos. A 
própria Sarah é morfinômana. Para sustentar seu “exército” 
de bruxas, precisa de entorpecentes. E as drogas são cada 
vez mais caras. A ligação com uma enfermeira de hospital 
de grandes recursos é essencial para os contatos com 
fornecedores. São Cafar e os seus seguidores que dão o 
dinheiro a Sarah Barrow. A morte de Virginia talvez se 
 
 
prenda ao tráfico de drogas. Algum fornecimento gorado, 
algum atraso nas entregas... 
— Não — sorriu Brigitte. — Nesse ponto o senhor se 
engana.Virginia Seigel, estava arrependida e disposta a 
falar. Por isso, foi apunhalada pelo carrasco da seita dos 
Albornozes Azuis. Agora, solte Mr. Delancey e prometo-lhe 
a maior ajuda. Traga-me John e vamos, juntos, para o hotel. 
Tenho urna revelação estarrecedora a fazer-lhe. Mas só no 
hotel. 
O inspetor curvou-se quase até ao chão. E logo arregalou 
os olhos, quando a bela repórter acrescentou: 
— A propósito o carrasco de Sarah Barrow, um árabe 
chamado Ali Ben Kasadan, morreu misteriosamente no 
pórtico da casa de campo do engenheiro Henry Lovett. 
Outro persa, sósia do Xá, também morreu, noutro local... 
Porventura, o senhor não devia me falar em passarinhos? 
— Por Alá! — exclamou o policial, batendo na testa. — 
Então, estou falando com a amiga do inspetor Pitzer?! E eu 
que pensava que fosse Mr. Delancey! Nesse caso, foi quem 
fez o diabo na casa de azulejos azuis e brancos? 
— Sim — respondeu Brigitte, modestamente. — Fui eu. 
 
 
 
CAPITULO OITAVO 
Um bilhete do Comandante 
Os “comandos” do Inspetor Maraghesi 
Encontro dramático 
Revelação final 
 
John Delancey apareceu e juntou-se a eles. Ao saírem da 
Delegacia, o inspetor ainda insistiu, segurando no braço de 
Brigitte: 
— Desculpe, miss Montfort. Recebi ordens para ser o 
seu contato no Irã. Deverá entregar-me o seu relatório, antes 
de enviar a sua reportagem para o “Morning News”. 
— Agora é tarde — obtemperou ela, sem perder o seu 
sorriso. — O caso já está quase terminado. Levarei o meu 
relatório, pessoalmente, ao Inspetor Pitzer. 
Meia hora depois, já no apartamento da bela jornalista, o 
inspetor Maraghesi e Delancey ouviam o relato Completo 
dos episódios vividos por ela, na noite anterior. O tiroteio 
na casa das mulheres desfiguradas, a fuga de Bemard Curtia 
pelo rio, a visita à chácara de Henry Lovett, as conversas 
ouvi- das, o assalto à casa azul e branca, e tudo o mais. A 
repórter só teve o cuidado de omitir o nome do atirador que 
liquidara Ali Ben Kasadan, pois não queria complicar o seu 
amigo Noiso. 
John Delancey estava mais do que estupefato. O inspetor 
coçava a barbicha, frenèticamente. Noiso foi posto de 
sentinela, na portaria, aguardando a possível chegada de 
 
 
Bernard Curtis, agora uma peça-chave em todo aquele caso 
apaixonante. Ali Maraghesi arriscou um palpite: 
— Podemos deduzir, então, que Virginia Seigel viera a 
Lingahacha tentar entrevistar-se com Sarah Barrow, 
possivelmente para evitar a morte iminente de Bernard 
Curtis. Mas falhou e foi eliminada pelo carrasco, que já 
andava atrás dela. — Resolveu, então, expor o que sabia de 
mais interessante: — Em Abadan, consegui aprisionar um 
certo Kuhi, integrante do bando de sabotadores 
nacionalistas. Em vez de castigá-lo, enchi-o de presentes, 
cuidei de sua família, captei-lhe a confiança, enfim. 
Transformei-o num auxiliar precioso. Através de suas 
informações, pude seguir várias pistas. Até porque esse 
Kuhi, já devidamente instruído, continuou a encontrar-se 
com alguns dos membros do bando, colhendo informações. 
Tal como os homens dos albornozes azuis e as viciadas de 
Sarah Barrow, os sabotadores reuniam-se nos pontos ermos 
da cidade, ou nas cavernas de Yad-Morian, ao norte de 
Tarut. 
— Quem sabe essas cavernas não se comunicam, 
subterraneamente, com aquela casa onde encontrei as 
mulheres? — sugeriu Brigitte. — Noiso me informou que 
as megeras sempre desaparecem dos redutos, como que por 
milagre. Só se pode concluir que existam passagens 
secretas. Ora, a filha do engenheiro Lovett falou que, esta 
noite, haveria reunião da quadrilha numa caverna e... 
O inspetor assentiu e deu seqüência à sua narrativa: 
 
 
— Esse homem, Kuhi, assistiu, há três dias, a uma cena 
muito expressiva. Reunião do bando quase completo, 
dirigido por Salim Fasan, um agitador terrível. Esperavam a 
visita de Mut Sacha, outro líder nacionalista, e de um 
personagem embuçado. Mas foi Mut Sacha quem falou. 
Disse que iriam cessar os ataques à Companhia Anglo-
Iranian, pois assim o determinara o chefe da missão que 
estavam cumprindo. O personagem embuçado, que depois 
se soube tratar-se do próprio Cafar, estranhou essa 
resolução. Mas Salim Fasan explicou. Obedeciam ao grande 
chefe religioso, Kashani, por graça de Alá. Kashani estava, 
agora, ao lado do Xá, e o soberano, “filho de sete reis”, não 
queria que se tocasse nos ingleses. Declarou, por fim, para 
dar uma medida da fidelidade fanática que os ligava ao seu 
chefe religioso, que, se Kashani resolvesse botar fogo no 
próprio Parlamento, eles o fariam de bom grado. Nesse 
ponto, Cafar exaltou-se. Retrucou com algumas palavras 
que não agradaram à assembléia. Alguns dos presentes se 
dispuseram a avançar contra o mascarado, mas este 
desapareceu, como que por encanto, protegido pelos 
homens dos albornozes azuis. 
— Deve ter usado o tal subterrâneo que dá na casa de 
Sarah Barrow — concluiu Brigitte. — Aliás, deve ser por 
isso que os nativos afirmam haver visto Cafar em dois 
lugares ao mesmo tempo. É óbvio que ele não se mostra em 
dois lugares no mesmo tempo, mas usa os subterrâneos, 
para confundir os asseclas e o próprio povo. É um 
 
 
prestidigitador hábil. Inclusive, deve produzir as tais 
impressões digitais quadradas, para causar espanto... 
— Naham — fez o inspetor. — Como lhes disse, acho 
que Cafar usa Sarah Barrow e suas mulheres disformes 
como uma espécie de horda auxiliar nas sabotagens e atos 
de terrorismo. Para dar a entender que controla seres do 
outro mundo... 
— O senhor sabe de muita coisa — interveio Brigitte. — 
Mas não sabe do principal. Investigou a origem daquele 
árabe, morto na casa azul e branca, que tinha as feições do 
Xá? 
— Nahan — afirmou o inspetor, piscando os olhos. — 
Ele veio de Quazvin e também trabalhava para Cafar. Só 
não compreendo, ainda, as intenções dos homens dos 
albornozes azuis, ao manterem aquele sósia de Sua 
Majestade, embuçado, na casa da Sharia Kuwait! Isso, eu 
não compreendo! 
— Posso lhe explicar o resto — disse Brigitte, 
triunfante. — Agora, possuo elementos para reconstituir 
todo o quebra-cabeças. Só me falta descobrir a verdadeira 
identidade de Cafar. Este líder comunista estava empenhado 
em entregar o petróleo do Irã às potências do leste. Seus 
“albornozes azuis” dirigiam os atos de sabotagem, 
executados pelos nacionalistas por patriotismo, e pelas 
viciadas de Sarah Barrow, para receberem os tóxicos 
fornecidos por Virginia Seigel. Mas as intenções de Cafar 
eram mais ambiciosas: Ele planejava raptar, ou assassinar, 
o Xá Reza Pahlevi, colocando um sósia no trono! O 
 
 
atentado teria lugar esta tarde, quando Sua Majestade 
visitasse Lingahacha; e o substituto do Xá, de volta ao 
Palácio das Portas de Ferro, receberia a missão econômica 
soviética, denunciando o acordo feito com os ingleses e 
assinando um novo contrato com os russos! Por sorte do 
soberano, seu sósia foi morto na casa da Sharia Kuwait e a 
conspiração fracassou. Agora, só nos resta esperar que 
Cafar compareça ao encontro, nas cavernas de Yad-Morian. 
— Ele vai comparecer — afirmou o inspetor, com voz 
grave. — Eu já sabia que as três quadrilhas iriam se reunir 
na caverna, pois fui eu quem deu ordem para essa reunião. 
— O senhor?! — exclamou Delancey, sobressaltado. 
— Eu. Meu auxiliar, Kuhi, conseguiu um papel assinado 
por Mut Sacha. Nossos peritos falsificaram sua letra, num 
convite forjado, para atrair Sarah Barrow e Cafar às 
cavernas. Diz o falso convite que haverá reunião geral, para 
deliberações importantes, quando serão conhecidas novas 
ordens de Kashani. Cafar decerto se sentirá atraído, pois 
seus “albornozes azuis” nada podem fazer sozinhos, sem a 
ajuda dos nacionalistas. Já informei a miss Montfort que 
tenho uma boa ligação com um árabe desta zona, um dos 
mais velhos, revoltado com os crimes da horda e 
interessado em colaborar com a polícia. Aliás,sei agora que 
miss Montfort já o conhece. Trata-se do pai de Noiso, o 
velho Nagdi. Pois bem: a esta hora, Nagdi já entregou uma 
mensagem a Sarah Barrow, que, por sua vez, a transmitirá a 
Cafar, esteja ele onde estiver. Resta-nos aguardar um pouco 
e partir para as cavernas, ao norte de Tarut. 
 
 
Nesse instante, Noiso bateu na porta e entrou com uma 
carta. Brigitte abriu ràpidamente o envelope e leu em voz 
alta: 
Cara Miss Montfort: Resolvi dar-lhe alguns 
esclarecimentos para a sua reportagem, em 
retribuição ao fato de haver-me salvo a vida, ontem, 
naquela casa sinistra. Perdoe-me se não vou ao seu 
encontro pessoalmente, mas estou a preparar-me 
para uma solução decisiva. Fui noivo de Sarah 
Barrow, aliás, Alice Lovett, filha do engenheiro 
aposentado Henry Lovett. Alice escapou de um 
desastre de automóvel, em que pereceu a mãe dela. 
Ficou horrivelmente queimada e mutilada. Padeceu 
como mártir. No hospital, teve que submeter-se a 
tratamentos cruéis e terminou viciada em morfina. 
Proibiu-me de voltar a vê-la. Desfez o noivado, mas 
declarou que não poderia jamais ver-me casado com 
outra. Dava mostras de loucura progressiva, 
revoltada contra a vida e a humanidade. Culpava o 
gênero humano, o destino, de havê-la privado de sua 
beleza. Deu para reunir-se com outras infelizes 
viciadas, míseros farrapos humanos. Desapareceu da 
circulação, isto é, deixou de ser comentada, quando 
seu pai, Henry Lovett, anunciou que havia morrido 
numa clínica americana. Por esse tempo, eu, veterano 
da guerra no mar, consegui o comando de um 
petroleiro da Anglo-Iranian, deixando o serviço de 
terra. Numa de minhas permanências em Lingahacha 
conheci Pat e casei-me com ela. Sabia, por rumores, 
que já existia o tal grupo de mulheres viciadas, 
 
 
chefiadas por uma tal Sarah Barrow, com jeito de 
sociedade secreta, amparada e temia pelos mais 
velhos. Jamais desconfiei, porém, que Alice estivesse 
viva e fosse a própria Sarah. Só fiz a ligação entre os 
dois nomes quando John Delancey mencionou a 
conversa de Virginia Seigel sobre Sarah. Virginia era 
amiga de Pat e aqui viveu muito tempo. A intuição me 
deu a chave do mistério. Corri até aqui e não 
encontrei minha esposa. Virginia deve saber de tudo, 
mas também desapareceu. Minha sogra, a única 
pessoa viva da família de Pat, está apavorada e nada 
me quis revelar. Apenas me informou que Pat 
desaparecera, levada por uma mulher muito pintada e 
vestida de branco. Tive que recorrer a um grupo de 
amigos de Nishkan, uma aldeia próxima, 
contrabandistas a quem tive oportunidade de servir, 
no passado. Disseram-me muitas coisas de Sarah 
Barrow, de sua legião de monstros na cruzada de 
vingança contra a Humanidade. Deram-me o 
endereço da casa apontada como sede da terrível 
sociedade. Fui lá, com um pressentimento, pois sentia 
que não era verdadeira a notícia da morte de Pat. 
Procurava arrancar minha mulher daquele antro 
tenebroso, O resto você sabe. Você viu o horror com 
seus próprios olhos. Eu acreditava que, sozinho, 
pudesse enfrentar as mulheres. Errei. Mas estou 
convencido de que Pat ainda vive, reclusa, 
seqüestrada por Sarah. Contei tudo aos meus amigos, 
depois que escapei pelo rio, ontem. Resolveram 
ajudar-me. Hoje, tentarei salvar minha mulher. Se 
 
 
não morrer, amanhã lhe darei notícias. Se John 
Delancey aparecer, mostre-lhe esta carta. Você 
estranhará por que procuro fazer justiça com minhas 
próprias mãos, mas é que a polícia local é lenta e 
inepta, e seus soldados têm medo das mulheres 
fantasmas, supersticiosos como são. Adeus. 
Bernard Curtir. 
 
O inspetor Maraghesi desfez o pesado silêncio que se 
seguiu: 
— Ele tem razão. Nossos soldados, alguns muito 
ignorantes, tremem com o nome de Sarah Barrow. Já pedi 
reforços ao Coronel Cadman, em Abadan, para o cerco de 
hoje. Não acredito que cheguem a tempo. É sempre um tal 
de Capitão O’Brien quem comanda a tropa, e parece-me um 
oficial inepto, descuidado, preguiçoso. Faz questão de 
chegar sempre atrasado, O coronel fica furioso, mas que 
adianta? 
Mal acabara de falar, o telefone tocou. Era da portaria. o 
inspetor ouviu um minuto e desligou, anunciando: 
— O Capitão O’Brien acaba de chegar de Abadan. Mas 
continua sendo um inepto! Sua tropa só chegará amanhã! 
Que adianta? 
A noite caiu. Tudo combinado, o inspetor Maraghesi não 
queria que Brigitte participasse da operação. Mulher bonita, 
dissera ele, não entrava em tiroteio! Mas não conhecia a 
força da repórter... 
Diante da ameaça de Bernard Curtis, de fazer justiça 
pelas próprias mãos, o inspetor resolveu partir mais cedo 
 
 
para o ataque. Mostraria que a polícia de Lingahacha não 
era assim tão medrosa! Além do mais, contava com.o 
auxílio do Capitão O’Brien, que se antecipara aos seus 
soldados e dos “comandos” nacionalistas de Salim Fasan e 
Mut Sacha, agora inclinados para o lado do Xá. 
— Esse bando de loucos me ajudará — afirmava, 
coçando a barbicha. — A gente tem que lutar com o 
material possível! Quem não tem cã caça com gato! 
Delancey juntou-se a ele na Delegacia e pediu para 
tomar parte na expedição. Brigitte e Noiso foram para o 
restaurante de Nagdi, aguardar o desenrolar dos 
acontecimentos. Mas a repórter ficou indócil por se ver 
afastada do perigo e induziu Noiso a levá-la até a casa de 
seu primo, perto da praça, onde na noite anterior o nativo 
conseguira as Winchesters. 
— Tenho que ficar de olho — disse Brigitte. — Talvez 
só eu faça uma vaga idéia de quem é Cafar. E quero estar 
preparada para agarrá-lo! 
Ali, ao lado da casa de Sarah Barrow, poderiam observar 
de mais perto a operação. Viram quando a viatura de Ali 
Maraghesi deu uma volta pelo local, indo parar, por 
instante, numa das ruelas próximas do rio. O jipe de Brigitte 
ficara na frente do restaurante de Nagdi, garantindo a sua 
desculpa. 
Seguiu-se um silêncio expectante, de uma hora. 
Maraghesi já rumara para as cavernas de Yad-Morian. O 
Capitão O’Brien e Delancey esperavam. Dois carros 
pararam na praça e despejaram uma dezena de homens, 
 
 
armados com submetralhadoras. Fez-se um círculo, no 
estilo dos “comandos”, que se foi fechando cautelosamente 
em volta da casa de Sarah Barrow. Apenas o Capitão 
O’Brien resolveu ficar para trás e penetrar no reduto por 
outra entrada secreta, entre a casa e as cavernas. Brigitte e 
Noiso seguiram-no, já armados com duas novas 
Winchesters automáticas. 
Seguiram ao longo das choças dos nativos e atingiram a 
entrada de uma pequena gruta de pedra, na beira do rio. Aí, 
pararam. Nesse momento, o matraquear terrível das 
metralhadoras explodiu no silêncio, atingindo portas e 
janelas da casa de Sarah Barrow. Para surpresa dos 
“comandos”, o fogo foi respondido imediatamente. Seguiu-
se um combate terrível. As mulheres mutiladas, secundadas 
por turmas de homens armados do bando de Cafar, todos 
vestidos com albornozes azuis, saíram da casa sinistra, 
cuspindo fogo. Ao clarão da metralha, Brigitte pôde 
vislumbrar, a distância, a figura loura de Bernard Curtis, 
também acompanhado por um grupo de combatentes, os 
seus amigos contrabandistas, O comandante queria mesmo 
entrar na casa, a ferro e fogo. Afinal, com os monstros 
acuados na grande sala do fundo onde estava a estátua de 
Ahriman, Bernard conseguiu penetrar, outra vez, no antro 
dos daevas. E teve uma grande surpresa! Uma voz, lá no 
fundo da terra, gritando por socorro! Era a voz do sua 
mulher, naturalmente presa num dos subterrâneos. Como 
alucinado, Curtis sapateava no assoalho e berrava: 
 
 
— Pat? Pat! Onde está você? Sou eu, Bernard! Vim 
salvá-la dessas taradas! 
Então, a voz chegou, como que das entranhas da terra, 
fanhosa mas reconhecível: 
— Bernard! Estou trancada aqui embaixo! 
Localizado o alçapão no assoalho imundo, junto ao altar 
do Ahriman, Curtis bradou: 
— Saia da frente, Pat! Vou abrir caminho a bala!Atirando na penumbra, abriu o alçapão e teve 
confirmadas suas terríveis suspeitas. Pat, sua querida Pat, 
tão bonita, tão suave, não passava agora de mais um 
monstro de Sarah Barrow! O rosto inteiramente desfigurado 
por ácidos! Cicatrizes, chagas terríveis! O nariz decepado! 
Um olho vazado! 
Aquele impacto quase o fez rugir de cólera. Avançou 
para o buraco, de pistola em punho, com um brilho 
assassino nos olhos. No subterrâneo, saiu em perseguição 
das megeras. Mas encontrou pela frente um vulto branco, de 
rosto excessivamente pintado, que se recortava contra a 
parede imunda. Não teve tempo de dar ao gatilho; a mulher 
de branco foi mais rápida e cobriu-o de metralha, numa 
rajada fatal. Também Pat, atingida, tombou inerte sobre o 
corpo ensangüentado de seu marido. 
Depois, silêncio e uma corrida vertiginosa da mulher de 
branco, para os fundos do subterrâneo. Súbito, uma 
explosão reboante, um tiro de Winchester. O vulto branco 
abateu-se como que fulminado. 
 
 
Das entranhas da terra tinham surgido Brigitte, Noiso e o 
Capitão O’Brien. E fora o jovem nativo quem matara Sarah 
Barrow. 
Pouco antes, nas grutas de Yad-Morian, o capitão guiara 
Brigitte e Noiso pelos complicados corredores subterrâneos, 
que iam dar na casa sinistra, O oficial marchava na frente, 
mantendo a pistola em riste, e Brigitte ia logo atrás, com a 
Winchester nas mãos. Noiso fechava a fila. 
— Cuidado com os pés, miss Montfort — avisou 
O’Brien. — Agora, vamos atravessar um charco de águas 
fétidas. Falta pouco para entrarmos, pelos fundos, no reduto 
dos monstros! 
Realmente, daí a pouco desembocavam no subterrâneo 
do pardieiro, justamente a tempo de assistir à morte de 
Bernard e Pat. E Noiso apertara o gatilho da sua 
Winchester, abatendo a mulher de branco. 
Brigitte debruçou-se sobre o cadáver de Alice Lovett, 
cujo rosto pintado era diferente daquele com que se 
apresentara na chácara, e arrancou-lhe a fina máscara de 
borracha que escondia suas verdadeiras feições. Estas eram 
horríveis, hediondas, deformadas pelo vício e pelas 
cicatrizes do desastre em que quase perdera a vida. 
— Ela usava uma pele pintada sobre o rosto — explicou 
a repórter. — Por isso, parecia ter muitas caras. Mas ainda 
não encontramos Cafar! 
O Capitão O’Brien assentiu. 
 
 
— Provàvelmente, escapou pelo rio. Ou, então, foi 
prevenido e não veio ao encontro. Nunca saberemos quem é 
Cafar! 
— Eu sei — retrucou Brigitte. — Cafar desconfiou da 
cilada, realmente, o preveniu-se, entrando aqui pelos 
fundos, numa tentativa de ajudar os seus asseclas. Fiquei 
muito admirada, capitão, ao ver que o senhor conhecia os 
meandros das cavernas de Yad-Morian. Só o próprio Cafar 
conheceria tão bem a topografia do local! 
O Capitão O’Brien ergueu a pistola, mas a reporter foi 
mais rápida e disparou sua Winchester, atingindo o militar 
na mão armada. A pistola caiu. 
* * * 
— Vá erguendo os braços, Cafar! — intimou Brigitte. — 
Sei que você é o tal que domina esses monstros! Não tente 
qualquer movimento em falso; puxo o gatilho em um 
segundo! E o KGB não está aqui para ajudá-lo! 
Já então os “comandos” de Ali Maraghesi entravam no 
subterrâneo, dominando a situação. O Capitão O’Brien não 
teve saída e entregou-se. 
Na outra extremidade da passagem subterrânea, o grupo 
foi encontrar John Delancey e outros “comandos”, 
responsáveis pela fuga de Sarah Barrow por aqu&le lado. 
Surpreenderam-se ao verem Brigitte surgir, armada de 
Winchester dominando o Capitão O’Brien, cuja mão 
pingava sangue. A repórter não comentou seu feito; apenas 
conferiu: 
 
 
— Não lhes disse que havia um subterrâneo? Ê um 
verdadeiro túnel natural. E aqui está o misterioso Cafar, ou 
seja, o Capitão O’Brien, sem máscara nem roupa preta! Ele 
está pronto para confessar a sua traição! 
O inspetor Maraghesi soltou um grunhido de espanto. 
Mas John Delancey foi mais calmo: 
— Imagine com que cara vai ficar o Coronel Cadman! 
Ele que é anticomunista ferrenho! 
Noiso interferiu, respeitosamente: 
— Seria melhor pedirmos a ajuda do povo. Há muitos 
cadáveres para serem enterrados. 
Mas foi o grupo de Salim Fasan e Mut Sacha que se 
encarregou da tarefa sinistra de transportar os cadáveres. Na 
praça, o povo se comprimia para ver a saída dos 
“fantasmas” de carne e osso. Tão de carne que sangravam. 
Na manhã seguinte, tudo serenado, a prisão do 
engenheiro Henry Lovett foi um ato de rotina. O velho 
chorava convulsivamente e pedia para ver o corpo de sua 
filha Alice, abatida no subterrâneo. Alice (ou Sarah Barrow) 
no esquife, sua cara medonha, repuxada por velhas 
queimaduras, parecia a encarnação do demônio, do próprio 
Buiti que perseguiu Zoroastro. 
Robert Lovett, informado dos fatos, pediu a Deus que 
tivesse misericórdia da alma de sua irmã. E derramou 
lágrimas quentes, sem mais palavras. 
O inspetor deu outras explicações sobre Henry Lovett, 
um homem alucinado pela filha, capaz de sujeitar-se a todos 
os seus caprichos, inclusive os do crime. Henry Lovett 
 
 
também não se poderia classificar como um homem normal; 
recolheram-no a um manicômio judiciário. 
* * * 
E a missão econômica soviética que esperava encontrar 
um Xá dócil aos interesses imperialistas do Kremlin, voltou 
para Moscou sem ter conseguido o controle do petróleo do 
Irã. 
No meio de tudo isto, só o jovem Noiso não parecia 
feliz. Afeiçoara-se à bela jornalista americana de tal modo, 
que a esta não custou pouco trabalho consolá-lo da mágoa 
que antecipadamente senti por sua ausência. 
John Delancey e o Coronel Cadman fizeram insistentes 
apelos a Brigitte para que permanecesse alguns dias mais 
em Abadan, embelezando a paisagem. Queriam ter uma 
chance, por certo. Até o inspetor Maraghesi- ficara de olho 
aceso. 
Mas a bela repórter já se comunicara com seu chefe 
Miky Grogan e recebera um telegrama com instruções sobre 
sua nova missão: — Atenas! 
Uma repórter bonita não se detém nas cidades 
conquistadas. E Abadan já era, para ela, uma praça 
vencida... 
 
 
 
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