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© 1963 – J F KRAKBERB José Alberto Gueiros Título original: O Crime Sagrado Digitalização: JVS 450111/450112 Publicado no Brasil pela Editora Monterrey DA ESPIÃ NUA Tantas vezes o mistério da mulher que se despe! Homens de olhar em brasa. Segredos revelados. Jamais alguém poderia esquecer Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Seu corpo de linhas esculturais, despido, oferecido aos apetites sórdidos dos nazistas de Hitler, durante a ocupação de Paris. O sacrifício da própria honra, por uma tão sonhada hora de libertação. A heroína da Resistência, a deusa dos maquis, vivendo acontecimentos dramáticos em 1941, na França humilhada pelos leões louros da SS e da SA. Tudo isso contado, em linguagem violentamente realista. Aos quais, seguiram-se os outros relatos sobre a vida, não menos trepidante, de Brigitte Montfort, filha de Giselle, surgindo vinte anos depois, nos Estados Unidos, bonita, elegante, inteligente e — admirável coincidência! — dotada da mesma ousadia que tomou famosa a Espiã da Resistência Francesa. Brigitte, uma versão aprimorada de Giselle, também sedenta do aventuras; Brigitte, um desafio constante ao perigo e uma perigosa tentação aos homens de boa vontade! Por que se despe uma espiã? — perguntaria alguém, intrigado talvez com esta reincidência da nudez na segunda geração Montfort. E teríamos um milhão de respostas, que não seriam melhores do que a simples leitura desta narrativa. Brigitte Montfort, estrela do jornalismo norte- americano. Só os que a amam a entendem. Brigitte sem preconceitos. Revolucionária do método jornalístico. Desprezando todo convencionalismo antiprogressista. Usando monoquínis. Apaixonando-se pelo amor do momento. Cedendo suas prerrogativas de recato feminino a qualquer nova emoção crepitante. Trabalhando, com dinamismo e inteligência, para o seu jornal, o “Morning News”, o matutino de maior tiragem de Nova Iorque. Entrando em acordo com inspetores do FBI e da CIA, fazendo trabalho de detetives e agentes secretos, sempre em busca de uma reportagem sensacional. Obedecendo ao seu chefe (e eterno apaixonado) Miky Grogan, diretor do “Morning News”. Mantendo em constante ansiedade seu colega de redação, Frank Minello, uma espécie de curinga das suas escapadas românticas... enfim, Brigitte Montfort vivendo uma vida agitada de mulher moderna, interessada na emoção. CAPÍTULO PRIMEIRO Onde o leitor, pela primeira vez, assiste à geração de um mistério Impossível toque de sobrenatural na experiência realista de um incêndio A esperança nua e a nudez que espera A viagem e um simpático piloto com uma 45 debaixo do braço Explosões! Incêndio violento! O maior depósito de óleo cru da Refinaria de Abadan, na Pérsia, transforma-se, em poucos minutos, numa tocha gigantesca! Labaredas monumentais, arrasadoras! Prenúncio do inferno! Em torno a confusão própria dos incêndios. O terror! Cheiro de carne humana queimada. Gritos lancinantes. Sirenas de bombeiros e ambulâncias, num ritmo alucinante. Um muezim, a dois passos das chamas, vergado, a testa contra o solo, numa prece desesperada, invocando a misericórdia de Alá: — Allahur Akbar! Allahur Akbar! Incêndio! A face cruel de Ahriman, o espírito mau, iluminada pelo fogo do deus Ormuzd! O improvisado policiamento, numa tentativa de reduzir o caos. Ordens confusas, em árabe e inglês. Correrias. Alguns gestos isolados de heroísmo: O guarda, vestido de asbesto, indo buscar o companheiro torturado pelo fogo, entre as estruturas rubras de aço retorcido. Centro e vinte mortos. Duzentos e quarenta feridos. Os hospitais e ambulatórios em vigília, atulhados de corpos deformados. A cidade em suspense. E uma revelação apavorante: — O guarda falou, antes de morrer! Disse que foi sabotagem! Não de gente! Ele viu... ele viu! Seres misteriosos, formas grotescas, inumanas, arrastando-se como criaturas de outro mundo! Ele viu! Monstros, coisas, entrarem embaixo do depósito e jogarem as bombas incendiárias! Não era gente! Por Deus! Não era gente! * * * O mundo é, hoje, um ridículo pedaço de minério superpovoado, sem fronteiras muito nítidas e sem grandes segredos. As distâncias foram reduzidas pelos vôos supersônicos, pelos telegramas mais velozes do que o som. O incêndio da Refinaria de Abadan, na Pérsia misteriosa e sagrada, transforma-se em notícia, antes mesmo que as labaredas se extingam. Os jornais de Londres, Paris e Nova Iorque fazem manchetes simultâneas, iguais às dos matutinos de Teerã. O Xá, Sua Majestade Reza Pahlevi, lê o mesmo noticiário que Miky Grogan, diretor do “Morning News” de Manhattan. UM MISTERIOSO INCÊNDIO NA REFINARIA DE ABADAN, PROVOCADO POR FANTASMAS! — diz o telegrama da United Press. Sabotagem no Oriente Médio, com fumaças de sobrenatural! Petróleo e assombração! Miky Grogan, na redação do “Morning News”, diante do telex, emocionado, sente dentro do peito o tumulto das coronárias. É com as mãos crispadas que agarra o telefone, para chamar sua repórter favorita, Brigitte Montfort das tarefas impossíveis. Duas horas da madrugada. O tilintar monótono fere os ouvidos da filha de Giselle, que, sobre o leito de vicunha dourada, dorme vestida apenas com o seu perfume. Uma voz de homem gordo, aguda, excitada: — Alô? Sou eu, Miky! Para avisar que você tem apenas o tempo de arrumar duas valises, e viajar, dentro de algumas horas... para bem longe! Brigitte, ainda mal desperta, gagueja: — Você está louco! Isto são horas? Mas... viajar para onde? Que história é essa? — Uma história das mil e uma noites! Você verá! Prepare-se! Seu destino é Teerã, capital da Pérsia! O próximo avião para Roma levanta vôo às seis... já me informei... e você vai nele, menina! — Mas... quer ter a gentileza de me fornecer alguns detalhes, antes de me despachar assim, como um foguete para a Lua? — É claro! Vou levá-la ao aeroporto. No caminho conversaremos. Vista-se depressa! Sei que está nua, a estas horas... — Tem televisão, para me ver daí? — Ainda não. Sou um homem primário. E TV de troglodita é a imaginação... — Miky, você é incorrigível! Pode passar dentro de hora e meia. Estarei pronta. * * * Acionava-se, agora, o mecanismo de reportagem do “Morning News”, matutino de maior tiragem de Nova Iorque, um dos melhores e mais modernos jornais do mundo. Enquanto, no começo da madrugada, preparava-se a viagem surpreendente da jovem Brigitte Montfort, dezenas de pessoas (dentro e fora da redação) cuidavam dos detalhes, com requintes de precisão suíça. Arquivos consultados. Relatórios redigidos, para suprir a pasta de informações da repórter. Passagens requisitadas. Prioridades conseguidas. Telegramas enviados às autoridades iranianas. Cartas de apresentação datilografadas em tempo recorde. Miky Grogan chegou à residência de Brigitte, na Quinta Avenida, precisamente às quatro da manhã. Encontrou a garota de malas prontas, na portaria do edifício. Fez uma curiosa mesura (de mordomo inglês) ao abrir-lhe a porta do carro, elogiou-lhe a beleza cada vez mais tentadora das pernas, e entrou logo no assunto: — Veja, menina! Isto é “Organização Morning News”! Trouxe esta pasta com tudo, mas tudo mesmo, sobre a Pérsia! Recortes. Relatórios. Mapas e instruções que você deve seguir. Leia tudo no avião. A missão é arriscada! Tive que acordar o embaixador iraniano, em Washington, para saber de detalhes não divulgados pelas agências. O homem ficou danado, mas cooperou. Nosso jornal tem muita força; defende a política do Xá na ONU. Mas, o que interessa, é o seguinte: a explosão da Refinaria de Abadan... que será motivo da sua reportagem... é um ato típico de terrorismo. Estão dizendo, por lá, que os sabotadores são fantasmas, seres estranhos, almas do outro mundo.Investigue. Este ato terrorista não é o primeiro. Há uma seqüência deles, sempre no setor do petróleo. E sempre com os tais fantasmas pelo meio... Fantasmas que adoram refinarias, petroleiros, depósitos de gasolina etc. Serão fantasmas incombustíveis, certamente. Veja que história é essa. Depois das últimas ocorrências de agosto, a Pérsia (ou Irã, como queira) andava em relativa calma 1 . O povo só quer saber do Xá, do herdeiro do Xá que não aparece porque a rainha Soraya é estéril. Mas, agora, tudo indica que há um personagem misterioso movimentando os cordéis. Um chefe, um coordenador dessas sabotagens. Um fantasmão qualquer, dirigindo fantasminhas. Investigue! Chegando a Teerã, vá direto às autoridades. Apresente esta carta de recomendação e procure uma entrevista com o monarca, pessoalmente. Ele não será insensível ao seu charme. Aliás, dizem que está para se divorciar da rainha. Investigue isso também. — Tudo bonito, chefe — falou, afinal, Brigitte, afogada naquele mar de instruções. — Mas, diga: qual é o meu roteiro? — Dacar, Roma, Bagdá e Teerã... Parece, até, viagem de Sherazade em tapete mágico, bem? Você devia estar orgulhosa! — E quanto vamos gastar nesse servicinho? — O mínimo possível. Não estamos em época de esbanjamentos. — Mas o meu mínimo é diferente, você sabe... 1 Esta história foi escrita pouco depois dos acontecimentos de 16 de agosto de 1953, no Irã, quando o Premier Mohamed Mossadeg já havia sido deposto pelo General Fazlolak Zahedi e o Xá voltara do exílio para tomar as rédeas do poder, no seu país. NA — Infelizmente sei, e concordo com ele. No envelope você encontrará um livro de “travellers checks”. Confira no avião. Se precisar de mais, peça ao nosso correspondente, em Teerã. Não sei como tenho coragem de mandá-la para tão longe! Sou mesmo um desalmado atiçador de almas e recolhe- dor de notícias! As despedidas foram simples, fraternais. Brigitte beijou o chefe na testa larga, fabricou uma adorável carinha de namorada triste em véspera de partida, prometeu as promessas de sempre e dispôs-se a embarcar. O avião esperava a sua última passageira. Nisso, um rapaz risonho foi ao encontro da linda turista, alcançando-a na subida da escadinha. — Miss Montfort? Um momento, por favor! — Sim? — Sou Turner, do FBI. O Inspetor Pitzer deseja-lhe boa viagem. Ele me pediu que lhe entregasse este bilhete. Brigitte suspirou, mas recebeu o envelope lacrado, sorrindo para o jovem federal. Depois, subiu para bordo. Aí, abriu o envelope, pescou um bilhete (e um cheque verde) e leu: “Também estamos interessados nos atos de terrorismo em Abadan. O “Inteligence Service” pediu a cooperação da CIA, pois o caso afeta a segurança do Ocidente. Envie-me seus relatórios, à medida que for progredindo na solução do mistério, e não publique nada no seu jornal sem receber ordens oficiais. Nosso homem no Irã fará contato com você. Anexo, um cheque de mil dólares, para ser descontado no New York City Bank do Teerã. Destrua esta mensagem. Felicidades e breve regresso. Pitzer.” Já em pleno vôo, mal iniciada a primeira etapa da viagem, a jovem repórter tratou de aproveitar o tempo para informar-se do conteúdo do seu dossiê, tão diligentemente preparado, por Miky. Era ama obra-prima de concisão. Toda a história da Pérsia milenar e profana, resumida em trinta linhas datilografadas. Outra nota sobre costumes locais, hotéis, padrão de vida, endereços úteis. Duas cartas de apresentação, dirigidas a nomes complicados, de gente importante. Um livro de “travellers checks” com mais dinheiro do que esperava; talvez não precisasse dos mil dólares do Serviço Secreto... — Miky é um “pão”! — pensou Brigitte, radiante, enquanto examinava o resto do conteúdo da pasta. Havia, ainda, uma série de recortes de jornais, falando do problema político do petróleo no Irã, as investidas russas contra o domínio britânico etc. Um desses recortes, particularmente, chamou-lhe a atenção. Começou a ler: ONDE HÁ PETROLEO. por Victor Crawford (enviado especial do “Morning News”) Teerã (setembro, 18) — Ao pôr do sol, as cúpulas prateadas da refinaria de Abadan brilham Inquietas. São enormes globos metálicos, ao lado de cilindros descomunais, reluzentes, acrescentando um novo mistério à cidade exótico. O solo é o mesmo que, há quarenta anos passados, sustentava raquíticos varais de palhoças humildes, malcheirosas, habitadas pelos taciturnos pescadores da aldeola. Hoje, Abadan é uma das melhores cidades da Pérsia, e tudo se deve ao fabuloso tesouro de seu chão: o petróleo. Em outros tempos, os adoradores de Zoroastro iam construir seus templos em cima dos “respiradouros”. O gás saía à superfície por meios aparentemente milagrosos, e assim dispunham de uma fonte inesgotável para alimentar seu “fogo sagrado”. Hoje, os ingleses edificaram outros templos no lugar. São templos de alumínio e aço, de prateadas esferas e tubulações levantadas para o céu, num esforço pagão: a Refinaria de Abadan, propriedade da “Anglo-Iranian Oil Company”, para onde aflui todo o ouro negro dos riquíssimos poços iranianos. Lá, entre nuvens azuladas, entre roncos de monstros mecânicos, o óleo cru se transforma em dezenas de produtos refinados, que fazem girar as rodas do planeta. Abadan! Á cobiça do mundo! Um centro vital de energia! Ponto estratégico, vizinho da União Soviética e no limiar do Ocidente livre. Nos seus fantásticos campos de petróleo fervilham setenta mil trabalhadores persas, coordenados pelos ingleses, que os ensinam a manipular os instrumentos da civilização. O ardente sol do deserto cai sobre este forte núcleo de progresso, como uma advertência. As águas do Golfo Pérsico dormem de uma banda; a planície interminável estende-se, da outra. Abadan fica entre duas vastidões solitárias, recordando os tempos em que d’Arcy, inspirado pelas esbranquiçadas chamas de Ormuzd (o deus do fogo da religião Mazda) arrancava do subsolo as primeiras toneladas do ouro negro. Hoje, diante do espanto dos humildes persas, estas refinarias lançam, diàriamente, no mercado ocidental, cerca de vinte milhões de galões de petróleo! Constituem riqueza maior do que a de todos os potentados do Oriente, dos tempos românticos das mil e uma noites. Por isso... Brigitte foi interrompida pela voz jovial do piloto que se acercava: — Alô! Desculpe se atrapalho... — Pode se sentar — admitiu ela, fechando a pasta do dossiê e sorrindo com toda a claridade azul de seus olhos mediterrâneos. — Não quero ser importuno — disse o piloto, fingindo timidez. — Vim apenas saber se está sendo bem tratada, se deseja alguma coisa de especial. Recebemos instruções da Diretoria a seu respeito. É a mais bela passageira VIP que temos a sorte de transportar! — Ora, comandante! É um prazer tê-lo ao meu lado por alguns instantes. Se o co-piloto é bom, não me preocupo. — O avião voa sozinho — gracejou ele, completando a frase com o lugar-comum de sempre; — Aliás, todos os caminhos levam a Roma... Riram-se e apresentaram-se. Comissários pressurosos trouxeram o drink favorito de miss Montfort. “old fashioned” com cereja fresca. O comandante explicou: — Sou William Forster, com três mil horas de vôo, sem jamais atropelar um anjo no meio das nuvens. Você é o primeiro. Chame-me de Bill, por favor. Brigitte respondeu, no mesmo tom: — Sou jornalista há seis anos. Atropelada, muitas vezes, por rapagões do seu tipo. Jamais tão delicadamente. Chame- me de Brigitte Bardot, se quiser. Houve a confraternização natural das pessoas inteligentes (e experimentadas) nos encontros de circunstância. A conversa brotou, espontânea, os temperamentos foram reciprocamente sondados, e,ao fim de cinco minutos, ambos já sabiam que na escala em Roma haveria uma escapada noturna, sem maiores problemas filosóficos... O comandante teve de voltar à cabina, envolvido numa dúvida brumosíssima. Aquela mulher seria uma experiência fascinante, um mistério novo a desvendar! Mas, como? Se tinha métodos inteiramente diversos, fora do seu alcance ordinário de conquistador aéreo... Brigitte, novamente entregue a si mesma (alerta da pelo que observara), voltou à leitura atenta do artigo sobre Abadan: ... várias potências internacionais espreitam, àvidamente, estas terras de onde brotam as maiores riquezas do mundo, e até contra o Governo do Xá Reza Pahlevi chegaram a soprar ventos agitados do exterior. No dia 16 de agosto de 1953, depois de uma série de atos violentos entre a Guarda Imperial e as forças populares, obedientes ao Primeiro-Ministro Mohamed Mossadeg, praticamente perdia o trono Sua Majestade o Soberano Pahlevi, amigo dos ingleses. Teve de exilar-se e todos os seus supostos colaboradores foram presas. Manifestantes extremados chegaram a pedir a cabeça do Xá, acusa. do de inepto e traidor, atrelado aos Interesses de Londres. Mas Sua Majestade já se encontrava, então, bem seguro e distante do Teerã. Enquanto isso, o Premier Mossadeg fez-se dono absoluto da situação e parecia apoiado firmemente pelo povo. Sucederam-se os clássicos discursos patrióticos, carros blindados desfilaram pelas ruas, foram dados vivas e morras e proclamada a República, com um Conselho de Regência. Mas a reviravolta não tardou, O monarca persa, depois de uma breve estada em Bagdá e Roma, voltou a Teerã, onde o General Zahedi depusera o líder nacionalista. E tudo se transformou, como num passe de mágica oriental, O povo veio recebê-lo triunfalmente nas ruas, exaltá-lo em comícios disciplinados e exigir sua permanência à frente do Governo. Serenamente, Sua Majestade recolheu- se à segurança do seu “Palácio das Portas de Ferro”, nas encostas das montanhas de Shimrack, para daí dirigir, com firmeza, os destinos da velha Pérsia legendária. O traidor Mossadeg seguiu o destino de todos os nacionalistas extremados: fugiu e, mais tarde, reconhecido, foi preso pela polícia do General Zahedi, sendo encarcerado por sua ousadia. E, em agosto de 1954, os ingleses voltavam a explorar o petróleo do Irã, pagando um excelente royalty ao Xá. Mas a luta não estaria terminada. Os agitadores vermelhos continuariam a açular as camadas subdesenvolvidas da população, provocando protestos contra os ingleses, agressões à magnífica e progressista política ultramarina do Reino Unido, atos de terrorismo contra as dispendiosas Instalações da Anglo-Iranian.. Ia lendo, com atenção de repórter esclarecida, todos os dados que seu redator-chefe Miky Grogan havia reunido no precioso dossiê sobre a questão persa. Assuntos passados. Episódios, já repetidos, da crônica ocidental. O novo mistério apenas sugerido. A ela competia investigar. A ela competia esclarecer o caso atual das sabotagens fantasmas. Um mergulho na aventura... e no Oriente, terra de véus e de segredos milenares. Terra dos Daevas, os fantasmas do demônio Ahriman... Ah! os fantasmas... Brigitte recordou-se de suas passagens na infância. O medo das almas do outro mundo, dos seres do terror. Existiriam, de verdade, as vampiros, os morto-vivos, os zumbis, as bruxas de vassoura, além da literatura e da imaginação infantil? Seria normal admiti-lo? Ela fora educada na escola do raciocínio puro, em um mundo novo, de ciência e de técnica. Os fantasmas estavam banidos da sua memória. Fantasmas eram, para Brigitte, os fenômenos inexplicáveis da Antiguidade. Um simples choque elétrico — pensava ela — experimentado por qualquer arqueiro das legiões de Ciro, o Grande, na velha Babilônia, teria significado bruxaria da mais terrível, arte do demônio! Mas, agora, na era do jato e das viagens espaciais, a existência dos fantasmas parecia-lhe um contra-senso. Era preciso investigar. Gente sensata, gente moderna, gente da Polícia da Pérsia de hoje havia declarado ter visto os fantasmas. E fantasmas sabotadores. Seres estranhos, desfigurados, repelentes, sem forma humana, manipulando bombas e artefatos incendiários. Fantasmas à luz do dia. E agindo de um só lado. Do lado político contrário aos interesses do Xá, dos ingleses, do mundo livre. Dava para desconfiar! Todos esses pensamentos tumultuavam a mente da repórter, a três mil metros de altitude, num vôo intercontinental. Seria ela também uma bruxa, cavalgando a moderna vassoura mágica de quatro motores, acima das nuvens? Ah! Os feitiços e os feiticeiros de todos os tempos! Associações de idéias a se multiplicarem no seu veloz pensamento de repórter. Em busca de um dado concreto, de um ponto de partida para o raciocínio esclarecedor... Afinal, o primeiro pouso, em Dacar, a porta escaldante da África. No aeroporto, durante um autêntico refresco de pitanga (fruta nativa), Brigitte pôde trocar palavras amistosas com os outros companheiros de viagem, que lhe cobiçavam a figura. Ficou cercada de cavalheiros gentis, ouvindo frases sobre o calor e o tempo de vôo, as mesmas que se pronunciam, eternamente, nos aeroportos tropicais de escala. De longe, do balcão da Companhia, o comandante Forster vigiava-a, preocupado. Ela sorria, com alma, perturbando-lhe ainda mais o juízo. Seria uma temeridade agitar os nervos do piloto, antes da decolagem. Mas Brigitte amava o perigo. Uma feiticeira dos tempos modernos... Além disso, sabia agora, coma certeza, que Bill Forster usava uma pistola 45 escondida sob o braço esquerdo. Não poderia deixar de fazê-lo despir a roupa (e descobrir quem ele era, realmente) num hotelzinho discreto de Roma. O prazer (e o dever) de uma espiã do século XX.... CAPITULO SEGUNDO Noite romana Na trilha da aventura O coronel não acredita em fantasmas Outro homem com uma 45 debaixo do braço Mais seis horas de vôo e Roma surgia, vibrante, atingida por uma luz profana. Seu rio Tibre de tantas histórias violentas! Suas colinas sulcadas de passes de Césares! Seu Coliseu belo e sinistro! O Quirinal! O Templo de Júpiter! A etapa suave, antes do mistério denso de Teerã. Roma por uma noite. Com bons prenúncios de Bill Forster e vinho... Talvez uma canção... “Adormentarsi cosi”... Do aeroporto de Fiumicino ao Hotel Excelsior, poucos minutos no belo conversível Lincoln oferecido pelo correspondente do seu jornal na Cidade Eterna. Apartamento de luxo, como sempre. Chuveiro rápido e um pouco de exercício, para manter a forma, tão importante em sua carreira. Afinal, nua sobre a cama, num relaxamento igual ao das melhores figuras da Renascença, ela pôs-se a pensar: “Como farei para fingir um encontro casual com Bill Forster? Ou será que ele, armado com a 45, se encarregará de tudo?” Teria sido um desejo de Sherazade? Mal acabara de formular o pensamento, ouviu o telefone tilintar. Fez voz neutra, ao atender: — Sim? Era mesmo o farejador emérito. Já descobrira seu paradeiro e articulava o encontro; mas, cauteloso, como quem vai à caça de narcejas ariscas... Brigitte deixou-o armar todo um esquema tático de aproximação. Divertia-se com o estudo e a comparação dos vários métodos de avanço masculino. Ali estava mais um espécime, tentando o romance a curto prazo... E com uma pistola debaixo do braço. Bill Forster encenava um ato de simpatia intelectual, com toda a humildade: — Escute, meu bem... Não estou bancando o lobo para cima de você. Sinceramente, quero jantar, conversar, viver uma noite ao seu lado, admirar a sua inteligência... — Viver uma noite romana, ou simplesmente uma noite em Roma, comigo? — Ora, Brigitte! Não faça “blagues”! Quero estar ao seu lado, dojeito que você quiser! Andar pelas ruas. Fazer o roteiro comum da Via Venetto, ou ir a um restaurante típico, longe do centro. Dite as condições e escolha o programa. Mas não me deixe sozinho nesta cidade imensa! Ela pensou um pouco, deixou que um silêncio angustiante interrompesse a conversa e, afinal, decidiu-se pelo óbvio: — Bem, meu caro tenho pouco tempo para dormir... e você também. Minhas obrigações são muito severas e começam amanhã cedo. Se formos jantar fora e percorrer lugares românticos, voltaremos muito cansados de caminhar, muito saciados de pratos italianos, muito entorpecidos de bebidas fortes, você não acha? Bill Forster ouvia tudo, pálido de emoção, do outro lado do fio. Brigitte prosseguia raciocinando: — Assim, em nome da Lógica, venha até meu apartamento, aqui no hotel, entre sem bater... pois o trinco vai ficar aberto... e estabeleça o acaso do nosso encontro com a maior brevidade possível. É provável que, afinal de contas, tenhamos fome para jantar, e ânimo tranqüilo para ver um pouco da noite romana lá fora. O Comandante Forster jamais havia escutado, em toda a sua vida de homem experiente, palavras de tão contundente bom senso. Um milagre de concisão! Um exemplo de espírito prático, diante da urgência do amor, na breve escala da viagem, quando as regras tradicionais do jogo de negaças femininas precisam ser racionalmente encurtadas. Ali estava uma solução brilhante para o caso aparentemente difícil de resolver. E tudo porque Brigitte estabelecia princípios cartesianos para determinar sua norma de conduta em situações especiais como aquela. Era, mesmo, uma situação muito especial. — Viva a Lógica! — gritou Bill Forster, do outro lado do fio. A porta do quarto foi deixada estratègicamente aberta, conforme o combinado, e o ansioso Romeu aéreo não demorou nem quinze minutos a chegar. * * * Ele acordou durante a noite e sentou-se instantaneamente na cama. A forma nua e voluptuosa de Brigitte estava inclinada sobre as suas roupas, que ele atirara em cima de uma cadeira. — Não se assuste — sussurrou a repórter. — Quis apenas verificar seus papéis de identidade. Você usava uma pistola debaixo do braço... e isso me deixou intrigada. Agora, já sei que você é amigo do inspetor Pitzer. O rapagão louro sorriu, sonolento. — Eu ia lhe dizer, colega. Mas no tenho nenhuma instrução para lhe dar. E também não sei quem será o seu contato, no Irã. — Você é do FBI? — quis saber Brigitte, voltando para a cama. — Não. Da CIA. Nossa agência também está interessada nas sabotagens contra o petróleo de Abadan. Recebi ordens para não perder você de vista e protegê-la, no caso de algum contratempo, durante a viagem. Mas não sabia que você era tão bonita e carinhosa... Vamos esquecer a política e voltar ao amor? — Boa idéia — aprovou Brigitte, aninhando-se, outra vez, nos braços dele. — Eu me sinto mais protegida se você me vigiar de perto... * * * O Comandante Forster foi-se embora às primeiras horas da manhã. Não sem alguma preguiça, Brigitte levantou-se (uma hora depois) para retomar a sua viagem, no rumo da aventura. Afinal, a noite romana, bem vivida é invariavelmente extenuante... A próxima escala seria Bagdá, sem acontecimentos de maior monta. Uma parada de meia hora, dois martinis no bar do aeroporto, e novamente o vôo tranqüilo de céu azul Três horas mais e Teerã surgiria no horizonte, com seu raro colorido de ametista, seu ar de mistério envolvendo palácios e mesquitas, suas velhas ruas de pedra, gastas pelas passadas dos séculos... A bordo, ainda com uma cadeira vaga a seu lado. Brigitte recebeu nova visita cavalheiresca. Já no era o piloto Bill Forster, mas um gentleman simpático, de olhar brilhante e arguto, rosto afilado, expressivo, marcado de sol. Tinha embarcado na capital do Iraque. — Não quero incomodar, miss Montfort, mas creio que uma estada de duas horas ao seu lado, nesta poltrona, me faria um enorme bem à vista e ao espírito. A jovem sorriu: — Como sabe o meu nome? — Vi na lista de passageiros, em Bagdá. Sei que é jornalista do “Morning News”, de Nova Iorque, com destino a Teerã... o que é uma penal. — Por quê? — Porque Abadan seria mais sugestivo para o seu trabalho... Brigitte ficou alerta. — O senhor será, por acaso, algum agente da polícia iraniana? — Não. Simples funcionário itinerante da Anglo-Iranian Ou Company. Chamo-me John Delancey e não vou ficar em Teerã. Devo seguir imediatamente para Abadan, a fim de internar-me no hospital da companhia. — Coisa grave? — Nada. Pequeno transtorno traumático na perna direita. Um acidente sofrido no Kuwait, a que não dei maior importância. Agora, preciso tratar-me... mas não há de ser por muito tempo. Gostaria de ser-lhe útil na Pérsia, miss Montfort. — Brigitte, por favor, Mr. Delancey. — John, por favor, Brigitte. E John Delancey foi mais eficiente que a pasta de recortes. A repórter soube conduzir a palestra para os assuntos que a interessavam, sem se incomodar com as duas ou três investidas impertinentes do Comandante Bill Forster, que não parava na cabina, nervoso, tentando cortejá-la a despeito da presença do novo admirador. Delancey era altamente informativo; Bill Forster, apenas sedutor. Brigitte preferiu dedicar-se ao que lhe renderia material para o noticiário. Descartou-se do homem da CIA e fez charme para o funcionário da Anglo-Iranian: — Diga, John... Estou interessadíssima na sua conversa... Delancey, todo sorridente, prosseguiu (não sem arriscar um olhar aceso para as pernas esculturais, de sua notável companheira de viagem): — O ambiente, em Abadan, está muito perturbado. Atos de sabotagem se sucedem, contra a Anglo-Iranian Oil Company. E o curioso de tudo isso é que andam falando de uma estranha legião de seres fantásticos, criaturas disformes, do outro mundo, como sendo os autores desses atos de terrorismo. Falam de uma força oculta, imensamente poderosa, que os estaria comandando. Naturalmente, ninguém de bom senso vai acreditar em fantasmas sabotadores... mas esta é a velha Pérsia, onde a lenda se mistura com a realidade. Abadan é uma cidade moderna, com todos os atrativos que o dinheiro pode dar. Mas está encravada neste país milenar, onde o mistério oriental ainda persiste, apesar da bomba atômica o da televisão. A Polícia Militar, criada especialmente para velar pela segurança da Companhia, recebeu ordens de revolver a terra, em busca de um personagem fantasioso, apelidado de Cafar. Dizem que este “ser”, “bruxo”, ou “daeva”, conduz os monstros e é por eles cegamente obedecido. Cafar é, na opinião do povo — e da própria Polícia — uma criatura onipresente. Já foi visto em dois lugares ao mesmo tempo e suas impressões digitais foram colhidas num reduto vasculhado pelos soldados, mas inexplicàvelmente encontrado vazio. As impressões digitais são quadradas, inteiramente diferentes das impressões normais dos seres humanos! É de deixar todo mundo maluco! Brigitte ouvia a narrativa de olhos fixos no rosto de seu interlocutor. Ali estava o primeiro parágrafo de sua reportagem! Sim, apenas o primeiro parágrafo, talvez a primeira linha! Havia, decerto, ainda milito que investigar! Ah! A velha Pérsia e os seus segredos! Um súbito Mr. John Delancey, surgindo ao seu lado para atiçar-lhe a curiosidade com um esboço da história, em pleno vôo, ainda antes de pôr o pé em terra! A voz, gentilmente inflexionada, da comissária de bordo (através dos alto-falantes) veio como um sinal de alerta: — Passageiros com destino a Teerã, queiram manter em mãos seus passaportes e atestado de vacina! Aterrissaremos dentro de 15 minutos! A temperatura local é de 28 graus centígrados. Haverá condução da Companhia para os principais hotéis do centroda cidade. Agradecemos a preferência que nos dispensaram e esperamos encontrá-los, brevemente, noutro vôo desta aeronave. Afivelem os cintos, obedeçam ao aviso de “não fumar” e até breve! Ali estava, afinal, Teerã, o ponto de partida da missão de Brigitte Montfort! Um pouso tranqüilo, vinte minutos de Alfândega, e eis a nossa heroína entregue ao mistério de uma cidade quase to velha quanto a civilização. Do Hotel Palace a jovem repórter saiu, minutos depois de instalada, para a filial do New York City Bank, onde recolheu mais mil dólares para a sua bolsa; em seguida, tocou para os endereços escritos nas cartas de recomendação que lhe preparara Miky Grogan. Havia uma carta que a fez penetrar no inexpugnável Palácio das Portas de Ferro, nas encostas de Shimrock. Sua Majestade o Imperador Reza Pahlevi (descendente de sete gerações de reis), o Xá, em pessoa, concedeu a Brigitte uma entrevista de duas horas. Ninguém jamais pôde conhecer o resultado dessa conversa (em sala reservada), mas a repórter deixou o palácio com um sorriso nos lábios. Trazia na bolsa determinado papel, com o selo de Sua Majestade, que lhe serviria de salvo-conduto, de passe livre para qualquer lugar do Irã. Uma ordem do próprio punho do soberano, para que a repórter fosse recebida, como figura VIP, nos hotéis, nas repartições do Estado, nos Ministérios e, até mesmo, nas reservadas salas onde se tratam dos maiores negócios de petróleo do mundo. Alguns maledicentes andaram dizendo que o Xá se teria pronunciado, posteriormente, sobre os encantos fora do comum de sua formosa visitante... Pura intriga da oposição! O Xá é um verdadeiro gentleman. * * * Depois de uma noite reconfortante no seu apartamento (refrigerado) do Hotel Palace, Brigitte partiu para a cidade do petróleo, a moderna Abadan. Vestida com um Chanel de oitocentos dólares, foi diretamente ao Posto da Companhia, procurar o Coronel Cadman, encarregado das investigações sobre as últimas sabotagens e atos de terrorismo da refinaria. À entrada, o tenente ajudante barrou-lhe a passagem, mas foi convencido pelo precioso “passe livre” que Brigitte lhe exibiu, além de um sorriso de 40 graus. O rapaz ficou vermelho como um tomate. — Perdão, miss, mas, mesmo dispondo desta ordem, terá de esperar alguns instantes. Nosso comandante, o Coronel Cadman, está tratando de um assunto urgentíssimo com o Capitão O’Brien. E a coisa não está boa para o lado do capitão... De dentro do gabinete vinham gritos exasperados, que pareciam pontilhar uma discussão violenta, O tenente, à porta, nervoso, sem saber o que fazer para cumprir à risca a ordem soberana assinada no ‘passe livre” da jornalista, resolveu dar-lhe ingresso a um gabinete contíguo ao do coronel. Com mesuras e monossílabos, indicou-lhe uma poltrona e retirou-se, não sem antes garantir-lhe que o coronel a receberia dentro de poucos minutos. Vendo-se só, Brigitte procedeu como qualquer mulher curiosa, ou como qualquer boa repSrter procederia: encostou o Ouvido à porta, para escutar a discussão. O diálogo áspero decorria nestes termos: — Não sei, capitão, como diabo o senhor levou tanto tempo para atender ao meu chamado! Onde estava metido, seu imbecil? — Meu coronel, antes de mais nada peço permissão para eximir-me do qualificativo “imbecil”... — Nego a permissão, seu imbecil! Onde estava metido? — Só há poucos minutos recebi a sua ordem, meu coronel. — E de quantos minutos precisaria para vir ao meu gabinete, seu...? Mas vamos ao caso, porque os meus miolos já estão prestes a estourar! Estou revoltado com a sua falta de iniciativa, Capitão O’Brien! Nossa corporação foi enviada a Abadan para zelar pela segurança e pelos interesses da Anglo-Iranian Oil Company que, de certa forma, são os próprios interesses do Ocidente! Não lhe tenho reiterado a importância desta missão? Contudo, nem o senhor, nem os seus homens, fizeram qualquer esforço visível para deter esta onda de sabotagens que vêm nos atingindo! Afinal de contas, o que é que o senhor anda fazendo, Capitão O’Brien? — Tais assuntos secretos não podem ser debati... — Estupidez, capitão! Estupidez, inércia, burrice! Fizeram voar pelos ares os oleodutos de Haft -Kel Afundaram o petroleiro “Cavalier”! Danificaram as bombas de Masjid-Suleiman! E tanta coisa mais! Que fizeram vocês? Uma pausa. Brigitte de ouvido colado à porta, sem perder palavra. Depois, a mesma voz do coronel: — Saiba, Capitão O’Brien, que já são duzentos mortos, fora os de hoje! Soldados, sentinelas, funcionários, que perderam a vida no cumprimento do dever! E ainda tivemos sorte com o fato do petroleiro “Cavalier” estar ancorado, sem tripulantes a bordo! Já imaginou se a explosão fosse em alto-mar? Nova pausa, sem qualquer contestação do oficial acusado. — Veja este comunicado — prosseguiu o coronel. — Acaba de chegar. Diz .que, em vista de próxima visita ao Irã de uma missão econômica soviética, as investigações, daqui por diante, serão entregues ao Intelligence Service. Considero uma medida acertada, já que fracassamos... mas que vergonha para nós! Em todo caso, como última esperança, veja se consegue trazer-me um plano viável de combate a esta horda de monstros, de capetas, sei lá do quê! Não me venha dizer que acredita nas histórias dos nativos, nos demônios da religião Mazda, nos Daevas, nas bruxas Drujes, nos Yatus, nos Satars, nos Karapans... Não há fantasmas que possam colocar bananas de dinamite em oleodutos! Não há demônios que afundem petroleiros! Deve ser gente de carne e osso, como todos nós! Investigue! Seja homem! Faça alguma coisa! Novo silêncio. Depois, outra vez a voz irada do coronel: — Agora, veja isto! Repare neste papel azul, ensebado, sujo, enrugado, com estas garatujas indecifráveis... O capitão, afinal, falou: — É uma mensagem... sobre os pontos em que foram atingidos os soldados de Haft-Kel. Está assinada por um tal de “Cafar”, que quer dizer “infiel”. — Muito bem! Vejo que entende bem o idioma da terra. Já é alguma coisa! Mas não é tudo! Este papel foi encontrado no cadáver de um dos sabotadores, talvez um chefe! Pode alcançar sua utilidade? — Bem... Pode ser que, com isso, consigamos descobrir o tal Cafar... — Exatamente! Revire a Pérsia de pernas para o ar, examine mesquitas, casas, lojas, mas descubra o paradeiro deste criminoso! E não pense que ele seja, necessàriamente, um persa, só porque escreveu a mensagem em persa! Pode ser um estrangeiro hábil, mascarando-se de nativo, de bruxo, de fantasma, para despistar! Pode retirar-se, capitão! Veja se consegue provar que os nossos soldados não são apenas imbecis de espingarda na mão! E o senhor, procure livrar-se da pecha de incompetente! Brigitte deixou que os passos do Capitão O’Brien soassem afastados e abriu a porta do gabinete, dando de cara com o afogueado Coronel Cadman. O tenente-ajudante já vinha entrando, pelo outro lado, cheio de explicações. O “passe-livre” foi novamente exibido e o coronel aquietou- se. — Queira sentar-se, miss Montfort... Sua presença é uma festa para os meus olhos, cansados de olhar caras de oficiais imbecis neste destacamento! Estou às suas ordens. A repórter, já que tinha escutado o melhor do Outro lado da porta, achou que o coronel nada mais teria de interessante para lhe dizer. E resolveu entrar num bate-papo informal de jornalista, aguardando o meio-dia e, certamente, um convite para o almoço. Almoço de coronel sempre seria melhor do que o de qualquer restaurante da cidade... Cruzou as pernas no ponto exato onde a virtude desmaia, O sazonado Coronel Cadman merecia uma folga daqueles assuntos de dinamite, sabotagem, Cafar e O’Brien. O tema da entrevista foi deliberadamente alterado para uma conversa agradável, de ocidentais inteligentes.E o convite não tardou. Almoçariam. Não como o agitado Coronel de Lanceiros teria preferido, num “tête-à-tête” ameno, ela e ele sem testemunhas; havia, já, um inevitável convidado, o Comandante do petroleiro “Cavalier”, recém-afundado pelos sabotadores. Foram três à mesa. Brigitte gostou de conhecer o novo personagem, Comandante Bernard Curtis, ainda jovem, louro espigado, cara ingênua, mãos fortes de lobo do mar. Via-se, na sua pele tostada, na sua postura elegante, que teria aproveitado as rotas do petroleiro para desenvolver o físico, em suarentas manhãs de ginástica, ao longo do tombadilho. Houve boa conversa e bom vinho. Da palestra, Brigitte deduziu que o coronel, na verdade, confiava quase nada em seus homens; tampouco tinha qualquer pista concreta que pudesse levar a alguma solução imediata dos casos dos sabotadores fantasmas. Observou, ainda, que o louro comandante do petroleiro pouco ou nada teria podido adiantar sobre o sinistro; estivera ausente de bordo com quase toda a tripulação desobrigada. Era curiosa a coincidência: o petroleiro só fora pelos ares depois que seu capitão se ausentara... — Conheci, em viagem, um simpático funcionário da Anglo-Iranian — disse a repórter, para animar a conversa. — Embarcou em Bagdá. Não creio que o conheçam. Chama-se John Delancey. — Ora, miss Montfort! — exclamou o comandante Curtis. — Conheço-o muitíssimo! Foi meu companheiro de tripulação durante a guerra! Muito meu amigo! — Que bom! Assim, já temos um amigo em comum! Brigitte sorriu e completou: — Vejam como o mundo é pequeno! John Delancey tem qualquer coisa numa perna, um ferimento antigo. Disse-me que viria internar-se no hospital da Companhia, aqui em Abadan. Suponho que não seja nada grave. — Seja como for — disse o comandante — iremos visitá-lo! Tenho uma grande notícia para lhe dar! Brigitte fez seu charme: — Talvez nos encontremos no hospital, então. Estarei lá às quatro horas. — Acentuou o sorriso sedutor e acrescentou: — A propósito, comandante: O senhor conhece o meu amigo Pitzer? — Pitzer? — O louro pestanejou. — Não, miss Montfort. Nunca ouvi esse nome. Tenho poucos amigos norte-americanos. Aquilo era estranho. O jovem comandante Bernard Curtis (que estava à paisana) também tinha uma pistola escondida debaixo do braço! Brigitte podia jurar que era um 45, igual à de Bill Forster, o homem da CIA. CAPITULO TERCEIRO Por que uma enfermeira estremece Jantar com truta e desconfiança Brigitte tem um palpite feliz No hospital, de perna estirada, alheio a tudo o que não fosse a sua bela e loura enfermeira, John Delancey repousava. A tarde não estivera agradável. Mas havia o que ver nas linhas do corpo de sua nurse, Virginia Seigel, um anjo de abnegação e desvelo, saudável na sua bata branca, generosa no arfar do busto firme, reconfortante no ondular das ancas perfeitas. Uma enfermeira capaz de curar um cardíaco! E ele doente da perna... Que azar! Veio a hora do termômetro, e a conversa foi prolongada, estratègicamente. John Delancey fazendo pose de mártir, procurando despertar os instintos maternais da jovem. Ela, maliciosa, enveredando por outros caminhos. Afinal, lhe disse: — Mr. Delancey, o senhor me mentiu! Meia hora atrás, lamentou-se, dizendo que era sozinho no mundo, que ninguém o visitaria aqui. Agora, fui informada de que há alguém à sua procura, na portaria do hospital! — Impossível! — Então, vamos fazer uma aposta. O senhor me pagará um belo jantar, no melhor restaurante da cidade, de alguém aparecer aqui, dentro de dois minutos para visitá-lo! Certo? Delancey não titubeou: — Certíssimo! Mas não seria preciso uma aposta para que eu a convidasse a jantar. Basta que me dê alta especial, hoje a noite, e iremos comer uma truta azul, com vinho do Reno, no “Treze Dinares”. — Está combinado! Esta noite, às nove. — Mas não sei o seu endereço! — Não se preocupe. Vou chamar a sua visita, que espera na portaria. Depois, verei se já pode fazer esforço com a perna. Garanto que... A jovem enfermeira mudou de expressão. A visita já vinha vindo, sem pedir licença, entrando pelo quarto adentro, surpreendendo a todos. Delancey pulou em pé, como se tivesse ficado completamente bom. — Brigitte Montfort! Mas é uma visão das “Mil e Uma Noites”! A estonteante repórter, sorrindo um sorriso azul, de olhar azul, irresistível no seu vestido colante (Emilio Puci, legítimo) ignorou os gestos da enfermeira e aproximou-se da cama do feliz funcionário da Anglo-Iranian. — Como vê, meu caro John, aceitei sua sugestão Abadan, é, realmente, meu campo de experiências. — Que alegria! — fez ele, já agora um tanto tímido, no seu pijama branco de paciente. — Acredito que fará um trabalho do maior interesse para o seu jornal. Mas... gostaria de apresentar-lhe minha adorável “tirana”, miss Virginia Seigel. Houve uma saudação cortês, sem muito entusiasmo. E Brigitte revelou: — Ainda hoje conheci um amigo seu, meu caro John. Coincidência agradável. O comandante do petroleiro “Cavalier”, disse-me que vocês foram camaradas de guerra. Almoçamos, ele e eu, com o coronel Cadman. — Ah! Já sei! Bernard Curtis! Já está na cidade, então? Um súbito estremecimento abalou, nesse instante, o corpo de Virginia Seigel. A jovem enfermeira deixou cair o termômetro. Brigitte e John notaram a sua estranha atitude. — Que aconteceu, miss Seigel? — perguntou o rapaz. — Oh, nada... — a moça se desculpou, nervosamente. — Creio que estou cansada... Talvez precise de repousar um pouco... Com licença. Foi saindo, sem jeito. John acudiu: — E o nosso jantar? — Depende do senhor. — Tudo certo! Não esqueça! Trutas e vinho do Reno! A loura saiu. E Brigitte retomou o assunto interrompido: — Pois seu amigo Curtia prometeu vir visitá-lo, ainda hoje. Já soube que o navio dele foi afundado? Ele teve sorte de não estar a bordo! A carga de dinamite dava para matar um regimento! — Quer dizer que a onda continua? E ninguém ainda tem uma pista? A repórter observou: — Sua bonita enfermeira parece também conhecer o Comandante Curtis... Não reparou? É estranho! Será que...? Bem... você viu. Ela estremeceu quando falei em Bernard Curtis. — Fale baixo! Eu também notei. Há qualquer coisa no ar! Já começo a ficar interessado. E, a propósito, tenho um encontro com ela, para jantarmos esta noite. No quer vir conosco? — Não. Não iria estragar seu programa com essa bela loura. Mas... —Mas...? — Acho que você deveria ir além do simples... idílio. Deveria investigar: saber o motivo daquele estremecimento. É muito suspeito. — Ora! A garota é tão ingênua... tão boazinha! Você tem alma de repórter; em tudo vê uma possível pista. — Bem, é um palpite. Mas, agora, tenho de sair, voltar ao hotel e escrever o meu primeiro despacho para o jornal. Contarei detalhes sabre a sabotagem do petroleiro “Cavalier”, desse seu amigo Curtis. Nesse momento, deu entrada a segunda visita, Bernard Curtis em pessoa. — Ora vejam, quanta gente boa junta! — foi dizendo, enquanto estendia a mão a Delancey, que já voltara para a cama, mas estava longe de parecer um doente. Brigitte cumprimentou-o com um aceno de cabeça, enquanto John se iluminava em exclamações: — Que satisfação! Jamais contava rever este Vicking dos mares modernos! Não tinha ido à América do Sul? — Não cheguei até lá. Despejei tudo em Marselha e voltei. Antes não tivesse voltado! Perdi o navio... Já soube da sabotagem? — Brigitte acabou de me dizer. Uma pena! Mas, não há mesmo nenhuma pista que nos leve a esses malditos sabotadores? — Nada! É um mistério! Ninguém sabe de coisa alguma! Por enquanto, a única notícia agradável, nesta terra, é a chegada de miss Montfort. Uma beleza de presença nacidade! — Ora, ora! — fez a repórter, evitando a seqüência de elogios comuns. — Vocês, homens, são uns bobos! Não podem ver mulher de perna bonita! O Comandante Curtis interveio: — Brilha quem pode, não adianta negar. Aliás, até mesmo para um velho marinheiro como eu, recém casado com uma garota adorável, sua presença é desnorteante. — Você casou? — indagou John Delancey, curioso. — Sim, meu velho. Pensava em conservar meu celibato, como uma carta de alforria, mas encontrei Pat, um amor de garota, e cá estou devidamente argolado. Delancey acompanhou o sorriso de Brigitte e ajuntou: — Há aqui, neste hospital, uma enfermeira muito loura e bonita que anda pensando em me ferrar também com uma argola no dedo... Mas, diante da beleza de Brigitte, recobro os sentidos e desisto! Sorriram. E nada disseram sobre o nome da enfermeira, ficando acertado um almoço em família, para o dia seguinte, quando iriam conhecer a jovem esposa de Bernard Curtis. — Já que os médicos recomendam exercícios para a sua perna — disse o comandante — não haverá problema se tivermos de fazer uma pequena viagem. É que Pat está em Lingahacha, com seus parentes, aguardando o meu regresso. Com o problema da sabotagem do navio, fui obrigado a ficar aqui hoje e amanhã. Mas, depois, irei vê-la, com vocês. Combinado? — Não seríamos importunos? — observou Brigitte. — De modo algum! Pat gostará de conhecer meus amigos... meu velho amigo e minha linda nova amiga. Terá certo problema ao enfrentar a sua elegância... mas até é bom, um contraste. Pat se julga imbatível... Brincadeira! Pat é um amor de pequena, vocês verão! — A mais bela mulher do mundo — sentenciou Brigitte — é aquela que a imaginação do homem constrói, quando ama! — Além do mais, esta garota é uma fazedora de frases! — concluiu John Delancey, vestindo o robe-de-chambre que, até então, estivera abandonado aos pés da cama. Acertaram o plano da viagem a Lingahacha para daí a dois dias e despediram-se. * * * A bela jornalista voltou para o hotel, onde escreveu a sua primeira reportagem, com cópia para o inspetor Pitzer, do FBI. Mais tarde, por volta das oito horas da noite, desceu para os aperitivos do jantar, no cocktail lounge. Ali estavam as personalidades da terra, atraídas pela atmosfera cosmopolita do bar. Brigitte fez sua entrada triunfal, exibindo um vestido de gaze de Jean Desses, com os drapeados geniais das estátuas gregas. Era uma obra-prima de mármore. Todos os freqüentadores do cocktail lounge voltaram os olhos para ela, num silêncio deslumbrado. De um canto, à esquerda, surgiu o rubicundo Coronel Cadman, perfilando-se à inglesa, para cumprimentar a ilustre visitante. — Boa-noite, miss Montfort... Por que não janta Conosco? Seria uma honra e uma alegria para mim! Estou naquela mesa, com alguns amigos. .. — O oficial britânico tomava o braço da linda garota, envaidecido por conduzi-la sob os olhares cobiçosos de tanta gente. Brigitte sorria, feliz, enquanto se faziam as apresentações. Gente importante do lugar, inclusive o simpático engenheiro Henry Lovett, de vastos bigodes bretões, que lhe fez a corte imediatamente. Era viúvo, rico e sozinho no mundo. Sua filha, Alice, falecera alguns anos antes (num desastre de automóvel) deixando-lhe funda amargura. Parecia um bom partido. Mas não chegava a entusiasmar uma deusa internacional, como Brigitte Montfort. Houve o jantar animado, com cinco fortes cavalheiros em torno da admirável repórter. As conversas recaindo, inevitàvelmente, sobre sua beleza e seus efeitos diretos no espírito daquela noite. O ajudante de ordens do Coronel Cadman (um latagão de quase dois metros de altura) tirou a jovem para a primeira dança, precipitando os acontecimentos. O próprio coronel, logo em seguida, animou-se e bailou, entusiasticamente, tecendo elogios diretos à leveza de seu par. Brigitte juntou o rosto ao do velho lanceiro e permitiu que ele se envaidecesse um pouco do seu próprio charme de cavalheiro. Foi uma noite memorável, a daqueles cinco cavalheiros solitários. O coronel, principalmente, sentiu-se um ousado capitão... Enquanto isso, longe dali, ocorria outro jantar mais íntimo. Abadan é uma cidade inglesa, encravada na Pérsia milenarmente muçulmana. As preces a Alá se misturam, em alguns de seus bairros, com o ruído dos telex, transmitindo as últimas cotações da Bolsa de Nova Iorque. Ao lado das refinarias imensas, templos da seita de Maomé projetam os seus minaretes contra o céu imenso. A noite encontrou Virginia Seigel e John Delancey unidos no assento dianteiro de um velho Oldsmobile, trafegando pelas ruas bem asfaltadas, a caminho do restaurante “Treze Dinares”, recanto grã-fino da zona sul. A moça não conversava muito. Dava a impressão de estar vivendo um súbito drama íntimo. Isso deixava John Delancey profundamente intrigado. O “Treze Dinares”, num pequeno edifício de dois andares, é um recanto de bom gosto, freqüentado por oficiais ingleses, altos funcionários da Companhia de Petróleo e eventuais turistas. John e Virginia ali chegaram discretamente, serviram-se da admirável truta azul com vinho Traminer (sem muita animação) e retiraram-se cedo. Delancey dirigiu o carro pela orla do Grande Golfo e, afinal, quebrou o silêncio: — Há quanto tempo você conhece Bernard Curtis? Foi encostando ao meio-fio, à espera da resposta. A loura fingiu-se admirada: — Por que supõe que eu o conheça? — Ora, Virginia! Você não pode me enganar! Conte logo tudo, vamos! Ela escondeu o rosto entre as mãos, soluçando. — É horrível! Horrível! — conseguiu, afinal, dizer. Delancey insistiu, cauteloso: — Não entendo! O que é horrível? A enfermeira estava visivelmente transtornada, indagou: — Você falou a ele a meu respeito? Diga! Falou? — Não. Não pronunciamos o seu nome. A loura dominou-se. Enxugou as lágrimas e articulou: — Agradeço-lhe a discrição. Você foi prudente e fez bem. Se falasse a Bernard... — Voltou a comover-se. — Oh! Por que havia de acontecer isto? Por quê? Delancey impacientou-se: — Ora, vamos! Que aconteceu? Onde está a gravidade do caso? Virginia olhou para ele, surpresa. — Você não chegou a conhecer Pat Michell, a mulher de Curtis? Delancey não esperava ouvir aquele nome. — Jamais a vi — assegurou. — Mas Bernard me falou sobre ela, esta tarde. — E nada lhe disse sobre Sarah Barrow? — Não. Quem é Sarah Barrow? A enfermeira suspirou, angustiada. — Creio que você é, realmente, um bom amigo de Bernard. Tudo faria para ajudá-lo, não é mesmo? Sim, mas... Agora, é tarde! Muito tarde! Sarah Barrow já conseguiu o que queria! John Delancey exasperou-se: — Agora, moça, faça o favor de falar claramente! Nada de mistérios e choros! Não entendi bulhufas, até agora, e quero saber de que se trata! Quem é Sarah Barrow? Virgínia procurou as palavras e, afinal, murmurou: — Pat e Bernard nunca mais se encontrarão! O rapaz explodiu: — Que diz você, criatura?! Está ficando maluca?! Por que não iriam se encontrar? — Pat está morta! Ao dizer isto, Virginia baixou a vista. Delancey ficou um minuto em silêncio. Depois, perguntou com voz rouca: — Quando foi que ela morreu? — Faz duas semanas. —De quê? — Síncope cardíaca. — E você, onde estava? — Na casa dela, em Lingahacha, passando uns dias. Éramos boas amigas. Mas nada pude fazer! Nada! John Delancey percebeu estranha inflexão nas palavras da enfermeira. Como se ela, por último, falasse maquinalmente, tentando ocultar alguma coisa. Resolveu insistir: — Por que mencionou o nome de Sarah Barrow? — Bem... Queria saber se você conhecia o passado de Bernard. — Que tem a ver essa mulher com a morte de Pat? — Nada, absolutamente! Nenhuma relação! Pat morreu, eis tudo. — Vocênão parece segura do que afirma — insistiu Delancey, com voz pausada. — Não alcanço o motivo por que me oculta alguma coisa, possivelmente grave! Só quero ajudar meu amigo, e a você também, se for o caso. Esta tarde ele me disse que ia a Lingahacha, rever a esposa. — Não a encontrará, John! Nunca mais! Acredite-me! Pat está morta! Delancey alongou a vista para as águas do Golfo Pérsico, agora prateadas pela lua. Queria fugir à tristeza que sua companheira lhe anunciava, febril- mente. Não se podia conformar. A verdade era Outra. E insistiu: — Você ainda vai me dizer tudo o que esconde, Virginia! Muito mais cedo do que imagina! Nesse momento, um velho Chevrolet preto passou lentamente por eles, conduzindo dois árabes, vestidos com albornozes azuis; os homens olhavam ardentemente para o Oldsmobile e seus ocupantes. Virginia fitou Delancey com imensa tristeza no olhar. E pediu com voz cansada: — Leve-me para casa, John. É muito tarde... e já não lhe posso dar qualquer alegria. Você não imagina o quanto estou me arriscando, ao falar com você! * * * Preocupado, cheio de pensamentos desconexos sobre os fatos que se precipitavam à sua volta (e ainda sentindo algumas dores na perna acidentada) John Delancey regressou ao hospital. Antes de jogar-se no leito, pediu uma ligação telefônica (urgente) com o hotel onde se hospedava Brigitte. Era, então, uma hora da madrugada. Após o agradável jantar, a repórter já sé encontrava no seu quarto, lendo um jornal. Nenhuma notícia alarmante; apenas um comentário, anunciando a visita de Sua Majestade, o Xá, a Lingahacha na tarde do dia seguinte. A chegada a Teerã, da missão econômica soviética estava marcada para daí a três dias. Nisso o telefone tocou. Brigitte largou o jornal e atendeu. Era a voz excitada de John Delancey, com as informações sobre Virginia Seigel. — Como?! — exclamou Brigitte, surpresa. — A mulher do Comandante Curtis está morta? — Foi o que me disse a enfermeira — esganiçou-se Delancey, através do fio. — Também estou preocupado com as suas alusões a essa misteriosa Sarah Barrow! Agora, preciso que você me faça um grande favor, Brigitte. Não sei até que ponto esta confusão poderá interessá-la, como assunto jornalístico, mas seria fundamental conseguir a verdade verdadeira de Virginia Seigel! Fazê-la falar! Talvez você, como mulher — e mulher inteligente — consiga isto melhor do que eu. Poderíamos, assim, esclarecer o assunto para o pobre Bernard. A repórter concordou. — Fique tranqüilo, John. Irei visitá-lo, amanhã de manhã, às nove horas. Veremos se sua misteriosa enfermeira me atende melhor. Estudarei uma maneira hábil de fazê-la falar. Tenho um palpite feliz, sabe? Acho que a sua loura me levará aos terroristas que sabotaram a refinaria e destruíram o petroleiro “Cavalier”! E desligou maciamente, deixando John Delancey de boca aberta, com o fone na mão. CAPITULO QUARTO Sentido de tragédia Onde estará a enfermeira loura? Dois bilhetes de Cafar — Os árabes de albornoz azul Pontualmente as nove, no dia seguinte, Brigitte empurrava a porta do quarto de John Delancey, no hospital da Anglo-Iranian. O rapaz estava já bem desperto, lendo jornais. — Muito obrigado por ter vindo — disse à guisa de saudação. — Mas Virginia Seigel não compareceu hoje ao trabalho. Informei-me na portaria. Ela até conseguiu licença para repouso. Não está em casa, nem seu telefone responde. Brigitte ampliou seu grande olhar azul, numa expressão de assombro. E concluiu: — Estamos, então, diante de um mistério profundo! A coisa começa a me interessar... E Bernard Curtis? Já foi avisado? — Infelizmente, creio que ainda não sabe de nada. Sou, talvez, seu único amigo nestas bandas; terei de dar-lhe a notícia. Brigitte meditou alguns instantes e prosseguiu, já dentro de um raciocínio mais frio: — Temos de perguntar a Bernard alguma coisa sobre essa tal Sarah Barrow, mencionada pela enfermeira. Seria uma boa pista, você sabe. Nesse momento, chegou Bernard Curtis, risonho e tranqüilo. Saudou a jovem repórter com os elogios de sempre e foi dando explicações sobre o serviço: — Quase não pude chegar aqui! O Coronel Cadman acordou, hoje, com toda a corda e, apesar de haver chegado à Refinaria com meia hora de atraso — fato inédito na sua vida de militar — apareceu bem-humorado, querendo conversa com todo mundo, fazendo questão de dizer que passara uma noite maravilhosa. Pegou-me para um “papo” demoradíssimo e quase não me solta. Creio que passou, mesmo, uma noite de general. — Eu faço idéia — comentou Brigitte. Curtis prosseguiu discorrendo sobre os problemas do seu serviço, resultantes do afundamento do petroleiro: — Estão dizendo que a sabotagem foi planejada por um tal de Cafar. E o nosso robusto coronel insiste em não querer admitir a versão dos nativos, de que Cafar é um daeva, um demônio a serviço de Ahriman, o gênio do mal, O coronel acha que Cafar é tão de carne e osso quanto qualquer oficial inglês, embora — diz ele — alguns oficiais do seu regimento insistam em parecer tão tapados como uma porta. É uma indireta contra o Capitão O’Brien... Eu, por mim, já nem sei o que pensar! Estou louco para que esse inquérito termine e eu possa ir a Lingahacha, para rever a minha mulher! Conto com vocês, amanhã, conforme prometeram. Vamos fazer uma bela surpresa a Pat! John e Brigitte entreolharam-se, sérios. — Há quanto tempo você está casado? — perguntou a repórter. — Há seis meses, precisamente — respondeu Curtis, sorrindo. — Mas nem conto seis meses, pois passei quatro em viagem. Da última vez que estivemos juntos, foi por algumas horas. Mas espero, desta feita, ficar meio ano por aqui! Neste ponto, John Delancey resolveu atacar o assunto, com habilidade: — Creio que você conhece minha enfermeira Virginia Seigel... não? — Conheço demais! — exclamou Curtis. — a melhor amiga de Pat! Não sabia que vocês... Onde está ela? Deve ter notícias lá de casa! Delancey informou: — Não veio hoje, Bernard. Está de licença. — E, com voz resoluta: — Você não admitiria, por acaso, que, na sua ausência, pudesse ter havido algo desagradável com Pat? O comandante titubeou: — Ora, John! Por que seríamos tão pessimistas? Por que isso, agora? Acho que ela deve estar bem, mas... Será que Virginia lhe contou alguma coisa má? Fale! Explique-se! Brigitte saiu em auxílio de John: — Curtis, você deve preparar-se para uma surpresa desagradável. O comandante levantou-se, sobressaltado. — Por favor! Digam depressa! Que houve? John Delancey pigarreou e foi falando, sem ter coragem de fitar os olhos do amigo: — Bem... até aqui, sabemos o que me disse Virginia Seigel... ontem, quando jantamos juntos. Virginia falou-me de Pat. Você não calcula, Bernard, quanto me custa... Bem, ela me disse que Pat está morta! Curtis ficou lívido. Fez um esgar estranho e explodiu: — Morta? Como? Pat está morta? Mentira! Vocês estão loucos! Meu Deus! Como poderia Pat estar morta? Como? John, com voz pausada, explicou: — Virginia não me deu outros detalhes. Disse, apenas que sua esposa faleceu, há algum tempo, de um ataque cardíaco. É só. Bernard abateu-se na poltrona, com o rosto entre as mãos. Afinal, depois de alguns segundos de silêncio, John resolveu perguntar: — Quem é Sarah Barrow? Ao ouvir este nome, Curtis pareceu transfigurar-se. Ergueu-se bruscamente, os olhos faiscantes. — Quem lhe falou em Sarah Barrow? John, ainda calmo, completou: — Virginia me perguntou se você me dissera algo sobre essa mulher. Nada mais. Não me quis explicar coisa alguma. Bernard Curtis, sem outra palavra, abriu a porta do quarto e saiu correndo, como um alucinado. Brigitte, sem perder a calma, sugeriu ao outro rapaz: — Vamosà casa da “sua” Virginia, John. Creio que, já, conseguiremos alguma coisa. — Boa idéia — aprovou Delancey. — Só que não a considero, de modo algum “minha”! E, agora, muito menos! Saíram, apressados, John esforçando-se para caminhar o melhor que podia, com a perna dolorida. * * * Na casa de Virgínia, uma senhora idosa, grandalhona, muito pintada, veio atender à porta. O prédio era pequeno, baixo e quadrado, e tinha um jardim nos fundos. — Miss Seigel saiu — informou a mulher, numa voz de cocotte aposentada. — Sabe para onde ela foi? — indagou Brigitte. — Infelizmente, não. Saiu sem me comunicar nada. Querem deixar recado? John interveio, enérgico: — Escute aqui, minha senhora! Precisamos falar com Virginia, pessoalmente! É da maior urgência! Miss Montfort e eu somos amigos dela! — Queiram entrar, por favor. Acomodem-se aqui... Desculpem a desordem. Acabei de chegar da rua e não tive tempo de arrumar nada. Esperem um pouco. Já volto. John e Brigitte aguardaram o tempo de um cigarro, na sala de visitas. A velhota reapareceu, de vestido trocado, com um envelope na mão. — O senhor, por acaso, se chama — leu o nome, na carta — ... John Delancey? — Isso mesmo — concordou o rapaz, pressuroso. A carta foi entregue, aberta e lida por John e Brigitte. Dizia: John: Bernard sabe de tudo. Sei que você é amigo dele e procurará ajudá-lo. De minha parte, também farei o que puder. Precisamos impedi-la de chegar a Lingahacha. Lá, ele seria assassinado. Se você puder ir antes de mim, procure a mulher chamada Sarah Barrow e veja se consegue impedi-la de matar Bernard. Sarah Barrow está louca! Até breve. Virginia. P.S. — Hospede-se no Hotel Sadrabad. É para lá que eu sempre vou. A velha senhora grandalhona, defronte de Brigitte e John que liam nervosamente a carta, aguardava uma explicação. O rapaz fabricou sua desculpa, para não ter que entrar em detalhes: — Virginia teve que ausentar-se, com urgência. Saiu de Abadan e deve demorar-se. — Bem me parecia — comentou a mulher. — Não me disse nada. E ela não costuma sair assim! Minha empregada falou que estiveram aqui dois árabes, de albornoz azul, à procura dela. Deve ter havido alguma desgraça! Brigitte interveio: — Quero pedir-lhe um favor, minha senhora. Deixe-me entrar no quarto de Virginia. Já que ela vai demorar, preciso ver se deixou uma encomenda para mim. — Lamento muito — retrucou a mulher, fechando a cara. — Virginia me pediu, diversas vezes, que não deixasse ninguém entrar no seu quarto! E ela levou a chave da porta. — De qualquer maneira, obrigada — sorriu Brigitte. — Voltarei noutra ocasião. Essa ocasião não tardou. Logo que se despediram da mulher e cruzaram a calçada, a linda repórter sussurrou para o seu companheiro: — Espere-me na esquina, John. Se eu não voltar dentro de dez minutos, avise a polícia. Vou dar uma espiada no quarto de Virginia! Delancey acenou, suspirando. Ela regressou à casa da enfermeira (cuja porta e janela da frente estavam fechadas) e deu volta ao prédio, até encontrar a janela do quarto dos fundos. Espiou pela vidraça e comprovou que era uma alcova feminina. Com gestos rápidos e silenciosos, tirou um arame da bolsa e enfiou-o por um interstício da janela, pescando o trinco, pelo lado de dentro. Em poucos segundos a vidraça estava aberta. Saltou por cima do peitoril e deixou-se cair, maciamente, no assoalho do quarto. Não se ouvia nenhum som, em toda a casa. A jovem repórter, trabalhando com perícia de verdadeira agente secreta, revolveu, em minutos, todos os pertences de Virginia, sem fazer barulho. Encontrou papéis sem importância, pequenas jóias baratas, talões de cheques, cápsulas vazias de remédios e algumas fotografias. Entre estas, uma onde aparecia Bernard, com uma bela jovem, de mãos dadas. Seria Pat, sem dúvida. E outra, de outra mulher bonita, esta ainda mais expressiva, cabelos pretos, rosto excessivamente maquilado, olhar cintilante. Do lado, uma dedicatória: “Á minha querida amiga Virginia, Sarah.” Guardou as duas fotos na bolsa e olhou, mais uma vez, ao redor. Esquecera de examinar uma gavetinha do armário. Ali, encontrou mais papéis e um bilhete, amarrotado, que lhe deu o que pensar. Dizia: Anexo, o cheque, 5 mil dólares combinado. Continue mantendo contato com Sarah. Cafar. Também guardou o bilhete na bolsa, arrumou tudo ràpidamente (o melhor que pôde) e voltou a sair pela janela. E, para sua grande surpresa, caiu nos braços de dois árabes musculosos, vestidos com albornozes azuis! Eles já deviam estar ali há algum tempo, esperando a sua saída. — Quietinha! — rosnou o mais forte. — Você não pode escapar! Depois trataremos do outro, que está esperando na esquina! Brigitte deixou que ele a segurasse firme, pelas costas; em seguida, usando-o como ponto de apoio, ergueu as duas pernas e atingiu o segundo agressor com um pontapé duplo, que lhe destroncou o maxilar. O homem caiu de costas, na grama, e ficou imóvel. Imediatamente, o segundo árabe meteu a mão num bolso interno do albornoz, à procura de uma arma. Brigitte aproveitou a circunstância de estar sendo agarrada apenas por uma das mãos do captor, e desvencilhou-se, com uma quebra de corpo, batendo-lhe com a bolsa na cara. O árabe grunhiu e recuou, exibindo um punhal na mão direita. Mas a repórter não lhe deu trégua, agredindo-o outra vez com o bolsa. Pam... pam... pam... Cada pancada fazia um lanho, na bochecha do árabe. Cego de dor, ele cortou o espaço (com o punhal) em várias direções, sem alcançar a sua ágil antagonista. Brigitte saltou para um lado, uniu os dedos da mo direita e descarregou uma terrível cutilada de caratê na nuca do adversário, fazendo-o cambalear. — Mal-hun! — grasnou o árabe, segurando-a por um braço. — Tarak — respondeu a garota, ordenando-lhe que a largasse. E aplicou-lhe outra cutilada na testa, sobre os olhos. O homem gemeu e caiu de costas, largando o punhal. Mas ainda não tinha perdido os sentidos. Brigitte deu-lhe um tremendo pontapé na cara, fazendo o sangue espirrar de seu nariz aquilino. Aí, sim, o árabe entortou os olhos e desmaiou. A valente repórter revistou os albornozes dos inimigos desacordados, mas não encontrou nenhum documento de identidade. Apenas outro bilhete, escrito com os mesmos garranchos do primeiro: Vigiem Virginia Seigel. Ela não pode falar. Cafar Brigitte guardou o novo bilhete na bolsa e voltou, correndo, para a esquina da rua, onde John Delancey continuava à sua espera. — Que aconteceu? — perguntou o rapaz, apreensivo. — Você está bem? Tem o casaco rasgado! — Nada de grave. Tive que me descartar de dois “campanas”, pertencentes ao bando de Cafar. Esses não eram fantasmas... Eu não lhe disse que a “sua” enfermeira poderia me pôr na pista certa? Agora, quero que você me faça um favor. — Até dois — disse o rapaz, pálido e contrariado. — Quando nos separarmos, telefone para a polícia e avise que há dois ladrões, adormecidos, no quintal da casa de Virginia. Pode ser que as autoridades iranianas consigam fazê-los falar. Mas acho difícil. Eles me parecem muito bem organizados. — Vamos indo — disse John, apreensivo. — Vejo que uma repórter tem muito de detetive... Seguiram ao longo da rua deserta. — Uma coisa puxa outra — concluiu Brigitte. — Quanto a mim, vejo que estamos de partida para Lingahacha, não é mesmo? — Certo. Não há outra coisa a fazer, no momento. Mas juro que não esperava tê-la por companheira nesta viagem, que se prenuncia um tanto perigosa. Você é bonita demais para morrer por acaso... — Ora, meu caro! Uma jornalista, como eu, só começa a se entusiasmar na vizinhança do perigo. Afinal de contas, em qualquer parte do mundo onde haja homens, uma mulher bonita estáem perigo... não acha? — Nem tanto. Toda mulher é um “querer que venha”, enquanto que o homem é um “querer ir”... As precipitações são naturais. Não vejo maiores perigos na experiência. Brigitte sorriu, altiva, e respondeu: — Você finge que não me entende, mas é melhor assim. Vamos ao nosso assunto: Virginia Seigel e Sarah Barrow. Veja as fotos que encontrei no quarto da loura. São, naturalmente, de Pat e Bernard, em lua-de-mel, e de Sarah Barrow, com dedicatória, O rosto de Sarah é uma máscara de pintura abstrata. — Por que teria de ser Sarah, necessàriamente, uma criminosa? — perguntou John, como se o fizesse a si mesmo. — Por que teria de ser sempre o crime um assunto interessante? — murmurou Brigitte. — Até mesmo para as mulheres bonitas... Despediram-se pouco adiante e, enquanto Delancey entrava numa delegacia de polícia, Brigitte continuava o caminho, à procura de um táxi. Estava ansiosa por tomar um banho morno e perfumado. CAPITULO QUINTO Mais um bilhete de Calar Um empregado curioso O antro dos viciados A aventura do Comandante Curtis Delancey deixou a sua queixa registrada, na delegacia de polícia, e voltou ao hospital, enquanto Brigitte tomava banho no hotel. Antes de se separarem, tinham combinado novo encontro, quando acertariam os detalhes da viagem a Lingahacha, ou qualquer outra providência referente à sorte de Bernard Curtis. Delancey telefonou a uma agência de automóveis e conseguiu alugar um Austin capaz de vencer a estrada lamacenta que separa Abadan de Lingahacha. Tinha intenções muito definidas. Achava, porém que, antes de empreender a viagem, deveria visitar o endereço de Curtis, ali em Abadan. Brigitte, outra vez só, no hotel, fazia conjeturas. Pensava no bilhete da enfermeira Virginia Seigel, a possível relação de tudo aquilo com a saída abrupta de Bernard Curtis do quarto de John, no hospital, e a menção a Sarah Barrow, que estaria interessada em eliminar o comandante. Tudo muito confuso ainda. A ameaça contra Bernard Curtis teria algo a ver com os atentados terroristas? E por que os sabotadores agiam justamente nas vésperas da chegada, ao Irã, de uma missão econômica soviética? Nisso, o telefone tocou. Era a voz alegre do piloto Bill Forster, o homem da CIA: — Alô? Brigitte? Seu contato, em Lingahacha, é um persa, que lhe falará de passarinhos. Você pode lhe entregar seus relatórios, para o amigo Pitzer. Felicidades, tesouro! Estou voltando para Roma! A repórter desligou, pensativa. Então, a CIA já estava na jogada? Isso a decidiu: iria sozinha a Lingahacha! Por coincidência, noutra parte da cidade, John Delancey teve a mesma idéia. Antes de partir, porém, informou-se sobre a pousada de Curtis, em Abadan, e foi até lá. O bangalô do Comandante estava deserto. Nem um criado para atender ao chamado da campainha. Intrigado, John resolveu forçar uma das janelas o penetrar no interior da casa. Assim fez, cautelosamente. Revistou todos os aposentos, sem notar nada de anormal. Já ia saindo, quando seu olhar foi atraído por um cartão, atirado sobre a pequena mesa de trabalho. Destacava-se entre outros papéis, até porque estava rabiscado no estranho idioma persa. John traduziu, admirado: Encontro normal, no lugar do costume Cafar Um impacto violento nos seus nervos! Que espécie de ligações poderia existir entre o misterioso Cafar e seu amigo Bernardo Curtis? Não se demorou muito fazendo conjeturas. Saiu da casa (como entrara) e arrancou, no seu Austin alugado, rumo a Lingahacha. * * * O Irã (a Pérsia moderna) é cheio de contrastes. Nem todo o ouro negro, refinado nas engrenagens caríssimas de Abadan, consegue acelerar o progresso de certas regiões vizinhas das cidades mais ricas. Assim, o sistema de comunicações é precário. As rodovias são pobres e estreitas. Uma velha e obsoleta estrada de ferro (construída no tempo dos avós do Xá) atravessa o país desde Sari, no Mar Cáspio, até o Golfo Pérsico. Fora do seu traçado, nada mais existe de bom. Precárias estradas carroçáveis, aqui e ali, são as únicas vias de acesso transitáveis por automóveis resistentes, de carroçaria alta. Brigitte Montfort fora informada destas dificuldades, graças ao oportuno dossiê sobre a Pérsia que lhe preparara Miky Grogan. Assim, com vistas a economizar etapas, telefonou a um oficial (ajudante do Coronel Cadman) falou- lhe sobre seu “passe livre”, assinado pelo monarca, e obteve um jipe, com chofer, para levá-la a Lingahacha. Afinal, para alguma coisa valia o seu documento de VIP... A viagem se fez sem maiores problemas. No fim de três horas, depois de passarem em frente a uma curiosa casa de azulejos azuis e brancos, avistavam o exótico povoado, com suas mesquitas negras envolvendo a silhueta moderna de alguns edifícios recém construídos. Ainda com o pensamento fixo no bilhete de Virginia Seigel, Brigitte escolheu o Hotel Sadrabad para hospedar-se. Na portaria, soube que a enfermeira tinha, realmente, chegado de Abadan, e ocupava o quarto n.° 30. Ligou para lá, mas ninguém respondeu; a loura devia ter saído. A repórter instalou-se numa suíte do último andar e resolveu meter-se num banho reconfortante. Ah, o calor do Irá, sua umidade opressiva! Abriu as imensas janelas, de frente para o golfo, e deixou que o vento do generoso Pérsico lhe acariciasse o corpo livre, desnudo e puro como o das estátuas. Sorria para si mesma, executava passos de balé dentro do quarto, observava os próprios seios firmes, trepidando com sua ginástica rítmica improvisada. Seria uma sílfide moderna, com um pouco de twist no bamboleio das ancas perfeitas... De repente, seus olhos caíram sobre determinado ponto escuro, na porta de entrada. Que seria aquilo? Simples mancha na pintura? Uma falha na superfície da madeira? No segundo exame, pôde perceber que se tratava de um pequeno orifício, possivelmente usado pelos maliciosos funcionários do hotel. E ela, ali, naquele instante, estaria sendo observada? Toda nua, como se tinha posto, era um espetáculo digno de qualquer gerente! Teve uma idéia engraçada. Correu até a porta e abriu-a de supetão. As suspeitas se confirmaram: um jovem nativo, com o uniforme de empregado do hotel, projetou-se, de cabeça, para dentro do quarto. Ao recuperar o equilíbrio, ainda encabuladíssimo, o rapaz viu Brigitte à sua frente, despida, maravilhosa, as mãos nos quadris, sorrindo do episódio houve um minuto de perplexidade e, logo, a voz musical de Brigitte, concertando o vexame: — O orifício da porta é muito pequeno... Você não teria conseguido me ver assim, de corpo inteiro, não é mesmo? — a fazia uma pose torturantemente bela, diante do abobalhado iraniano. Ele esbugalhava os olhos famintos, crispando as mãos, sem saber o que fazer. Brigitte prosseguiu: — Por favor, acalme-se, menino! Afinal de contas, ver uma mulher nua, de vez em quando, não faz mal a ninguém... Mas o rapaz, apavorado, deu um salto e desapareceu no corredor, Brigitte deu uma risada e fechou a porta, pensando: “Certos rapazes são engraçados! Capazes de toda a ousadia, quando não se julgam observados, tornam-se tímidos e covardes na hora de assumirem a responsabilidade de seus desejos... Esse bobão, afinal, também não me falou em passarinhes... * * * Pouco antes do jantar, resolveu sair à rua, buscando uma idéia qualquer, um princípio de orientação. O quarto do Virginia Seigel, no hotel, continuava mudo; Brigitte soube, porém, que a loura mandara descer uma grande mala, para o porão, sinal de que contava ficar alguns dias em Lingahacha. A bela repórter andou pelas estreitas ruas do centro, perscrutando a multidão, quase toda composta de árabes morenos, de nariz adunco, sem alegria no rosto. Procurava avistar uma cara de estrangeiro. Queriaencontrar Bernard Curtis. Mas era como procurar agulha em palheiro. Foi andando, sem pressa, até que se viu na parte mais velha da cidade, num aglomerado de casas toscas, separadas por vielas escuras e tortuosas, um bairro típico do Oriente lendário, fervilhante mercado de especiarias e objetos regionais, tecidos de estranho colorido, cerâmicas, vasos de cobre, alfanjes e punhais reluzentes, frutas e pratos de comida, beberagens malcheirosas. De repente, sentiu-se temerosa. Afagou, na bolsa, a pequena pistola de coronha de madrepérola, mortífera jóia que costumava levar, colada com esparadrapo, à coxa esquerda. Prosseguiu, resoluta, já agora censurando-se, intimamente, pelo fugaz instante de temor. Aventurou-se pela rua maior do mercado, fascinada pela algaravia dos pregões, à sua volta. Escureceu, repentinamente, e um violento temporal desabou sobre aquele trecho da cidade. A repórter correu para o primeiro portal, buscando abrigo, e viu-se envolvida por uma quantidade de homens escuros, malcheirosos, na promiscuidade de uma loja de secos e molhados. Não se sentia à vontade, entre aqueles estranhos de olhar bovino, que a observavam, cúpidos, sem dizer palavra. Rezou para que a chuva passasse. E ficou a observar as caras dos raros transeuntes, até que uma face conhecida surgiu de entre as sombras: — Que surpresa, miss Montfort! Por aqui, sozinha, a estas horas? Era o simpático engenheiro Henry Lovett, o viúvo de meia-idade que, na noite anterior (no grupo do Coronel Cadman, em Abadan) fizera-lhe a corte, durante o jantar e a dança. — Que prazer! — exclamou Brigitte, sincera- mente aliviada. — Estou mesmo precisando de alguém que me oriente neste terrível formigueiro humano! O engenheiro foi solícito: — Estou às suas ordens, mis Montfort. Conheço bem este inferno, aqui em Lingahacha; só acho uma temeridade a sua vinda, sozinha, a este lugar! Não sabe como se arriscou! Os árabes não podem ver mulher branca e bonita! Ficam loucos, tarados! Aliás, no seu caso, não seria de admirar que ele$ perdessem a cabeça... — Muito obrigada, Mr. Lovett. Sou jornalista o tenho que ir buscar meus assuntos na origem. Os leitores amam o pitoresco e o misterioso. — Concordo — fez Lovett. — Mas, por favor, não saia sozinha! Use-me como guia. Conheço os lugares onde as andorinhas dormem. Aliás, tenho uma pequena propriedade nas imediações, e ando sempre por aqui. Este bairro, precisamente, chama-se Tarut. É um dos mais velhos recantos de Lingahacha e de toda a Pérsia. Fascinante, não acha? Brigitte fez que sim, com a cabeça, mas pôs o dedo no nariz, indicando que o cheiro não era lá muito bom. Lovett entendeu e convidou-a a sair. — Já jantou, miss Montfort? — Ainda não. Estava pensando nisso mesmo... — Então, vou levá-la a um lugar curioso, talvez não muito simpático à primeira vista, mas famoso pela sua boa comida. Andaram alguns quarteirões sob a chuva (já agora esparsa, e, em pouco, deram com uma porta de aspecto sombrio, encimada por letreiros ininteligíveis. Dali passaram para um corredor escuro, onde Brigitte sentiu-se oprimida pela violenta onda de calor que vinha lá de dentro, misturada com o aroma de ervas adocicadas e temperos fortes. O engenheiros Henry Lovett, solícito, fê-la atravessar uma sala em meia penumbra, onde punhados de homens magros, de raças diferentes, fumavam enormes cachimbos, sentados em tamboretes, recostados na parede, os olhos vidrados a contemplar o vazio. Áditos do ópio! Tinham entrado num fumatório! Cruzaram outra sala maior, por entre viciados quase desnudos. Só mais adiante, após filas intermináveis de fumantes, deram num salão cheio de mesas desocupadas. Ao fundo, um velho árabe, enrugado e solene, mascava sementes de betel com a mesma abstração com que elevava suas preces a Alá. Nem pareceu notar os recém-chegados. Usava um grosso albornoz azul, que lhe ocultava metade do rosto. Lovett escolheu uma das mesas do centro. Brigitte sentou-se e deu um olhar em volta, procurando surpreender o mistério do lugar. Não demorou muito a aparecer o garçom, velho persa de barbas negras, usando seu clássico camisolão listrado que lhe ia até aos tornozelos. Ao ver Lovett, alegrou-se. — Miss Montfort é minha amiga — o engenheiro fez questão de dizer. — Mande seu filho vir nos servir as especialidades da casa. O árabe fez uma curvatura e retirou-se. O engenheiro explicou: — Nagdi é o dono desta espelunca, onde se come excepcionalmente bem. É uma homenagem que lhe presto, pedindo que o filho nos sirva. Assim, livro-o de trabalhar. Aliás, o garoto é um nativo muito inteligente. Também trabalha, durante o dia, no hotel em que você está hospedada. Vem aqui toda noite, para ajudar o pai. Da cozinha veio vindo, afinal, o filho de Nagdi. Todo paramentado em roupas típicas, com o albornoz dos beduínos, chamava-se Noiso e tinha 19 anos. Brigitte reconheceu-o imediatamente. Era o empregado do hotel que a havia contemplado nua, poucas horas antes! O jovem procedeu, ali, como se não a reconhecesse. Que senso profissional tinha aquele adolescente! A repórter apreciou a comida de Nagdi, delicada e cheia de tradição. Henry Lovett sentiu-se também homenageado, vendo-a comer com apetite. Afinal, a escolha fora sua. Na mesa do fundo, o mesmo ancião do albornoz azul continuava mastigando nozes de betel, distante do mundo. Ao lado da mesa, Noiso, braços cruzados sobre o peito largo, aguardando ordens. Mais ninguém no salão. Foi já no fim do jantar que o velho Nagdi surgiu, atarantado, quase correndo, fazendo urna rápida reverência a Brigitte e chegando-se ao ouvido de Lovett para lhe dar um recado, incompreensível para a repórter. Lovett empalideceu e levantou-se bruscamente. — Que houve? — ela quis saber. O engenheiro deu explicações vagas: — Desculpe-me, Brigitte. Tenho que retirar-me. Não há perigo. Mas não espere por mim. Está tudo pago. O rapaz, Noiso, vai acompanhá-la ao hotel. Mais uma vez, peço o seu perdão! Retirou-se, veloz, acompanhado pelo velho Nagdi, sem esperar qualquer palavra da convidada. Brigitte tratou de sondar o ambiente e observou que o ancião do albornoz azul também desaparecera, como que por encanto. Fez sinal a Noiso, levantou-se e saiu, guiada por ele, através das inúmeras salas atulhadas de fumadores de ópio. Ninguém pareceu notar a sua passagem. Na rua, o nativo explicou: — Temos que caminhar até a próxima esquina, miss Montfort. E lá tomar um táxi para o hotel. Não tenha medo, sou muito respeitador... A repórter seguiu, calma, mas, ao chegar à esquina (quase deserta àquela hora da noite) estacou, de repente, pondo a mão direita na bolsa onde tinha a pistola. Indagou do nativo, com voz severa: — Sabes por que Mr. Lovett se retirou, assim, tão depressa? — Não sei — gaguejou Noiso. — Re... recebeu um cha... chamado! — De quem? — Não sei, miss! Não sei do nada! Brigitte tirou a arma da bolsa e apontou-a para o peito do rapaz. — Sei que sabes, pois teu pai foi o portador do recado! Se não me contares tudo, agora mesmo, puxo o gatilho! Noiso ficou cinzento. Gaguejou ainda mais: — Não, miss! Por favor! Não posso lhe dizer! Não posso! — Tens medo de quem? O jovem nativo olhou ao redor e murmurou, apavorado: — De Sarah Barrow! Ela é muito má! É igual a Naçu, a mais terrível das Péris! Sarah Barrow é o próprio demônio! — Quem é ela? Onde mora? Vamos, responde! Onde mora Sarah Barrow? — Eu sei, mas não passo nunca por lá! É o covil de Ahriman! — Pois vais agora lá, comigo! Vamos! Adiante! Noiso obedeceu, relutante, andando devagar. Brigitte foi atrás, de pistola em punho. De repente, o jovem nativo deu um salto e saiu correndo, dobrando na primeira esquina e desaparecendo dentro da noite.E Brigitte não teve coragem de atirar. * * * Sem se fazer notado, Bernard Curtis chegara a Lingahacha, com a alma cheia de ódio. A idéia da morte de Pat ainda não se tinha firmado no seu espírito. Precisava investigar. Demorou-se pelas ruas e, afinal, partiu para uma localidade próxima (chamada Nishkan), onde ficou o resto do dia, só regressando às dez e meia da noite. De volta a Lingahacha, foi andando na direção do certo endereço misterioso, até uma casa de tijolos nus que se disfarçava entre as choças de mendigos daquele submundo sinistro. Perscrutou o interior, por uma fresta da primeira janela. Sombra e quietude. De um salto, alcançou a porta fechada e abriu-a violentamente. E viu, afinal, o horror! À luz de um toco de vela de sebo, faces medonhas, de criaturas mutiladas, mostravam esgares demoníacos. Deitadas em colchões imundos, estranhas mulheres de olhar de serpente, como que se contorciam em movimentos espasmódicos. Bernard fixou aqueles vultos e arrepiou-se. Seriam seres humanos? Seriam bichos? Com a vista já mais adaptada à penumbra, pôde observar detalhes das figuras grotescas. Eram mulheres. Farrapos de mulheres! Fêmeas esquálidas, com cicatrizes, feridas nojentas, tatuagens, corcundas. Muitas aleijadas, com braços raquíticos e pernas disformes, outras sem lábios, sem orelhas, mostrando cavidades hediondas na face, em vez de narizes. O odor que se desprendia de seus corpos era nauseabundo, sufocante. Algumas tinham chagas abertas em todo o corpo e de suas feridas escorria sangue negro, supurado. Mas todas, sem exceção, seguravam, àvidamente, seus cachimbos de ópio. Bernard Curtis, apenas recobrado do impacto nauseante, falou, com a voz de quem chegou para ajustar contas: — Onde está Sarah Barrow? Nenhum monstro lhe respondeu. Dos olhos vidrados daquelas harpias brotava uma luz macabra. Ao fim de alguns segundos, uma ergueu-se lenta- mente e veio vindo na direção de Curtis. Seria jovem ou velha, como as demais? Ninguém lhe adivinharia a idade. Trazia o rosto inteiramente desfigurado por cicatrizes de ácidos. Em vez de boca, um buraco sangrento, nauseabundo, emitindo sons de grilo. Conseguiu formular palavras guturais: — Vai-te embora, Curtis! Ninguém te chamou aqui! — Perguntei onde está Sarah! — rugiu o comandante. Fez-se, de novo, um silêncio de túmulo. Bernard Curtis aproximou-se do monstro e falou: — Queres que esta seja a tua última tragada de ópio? — E foi lhe arrancando o cachimbo das garras crispadas. A resposta veio, violenta: — Desaparece daqui, idiota! Sarah não quer te ver e tu não a verás! Curtis só então percebeu que os outros monstros se levantavam dos seus colchões e vinham cercá-lo, como hienas famintas. Sacou da pistola 45 que trazia debaixo do braço. A primeira que der um passo, leva chumbo! E foi-se afastando, de costas, arma em punho, até a porta do fundo, coberta por uma cortina velha e enegrecida. A mesma voz gutural advertiu-o: — Não podes passar dessa porta, Curtis! Não podes entrar no templo! O comandante encostou-se ao pano sujo da cortina, insistindo: — Quem se mexer, leva bala! E, de costas, atravessou o umbral. Foi quando violenta pancada prostrou-o por terra. Caiu de joelhos, zonzo, e ainda notou que o vulto (que o atingira por trás) estava agora à sua frente, ameaçador. Era outra das mulheres- monstros, que o enfrentava, de barra de ferro em punho. Bernard ainda teve forças para dar ao gatilho de sua arma. A figura grotesca soltou um uivo e caiu ao chão, em estertores, numa poça de sangue. Bernard viu que estava em perigo. A casa fervilhava de opiômanas assassinas! Em poucos minutos, seis delas marcharam na sua direção, possessas, babando ódio! Houve uma luta dramática. A mais forte conseguiu tomar o revólver da mão de Curtis, mesmo à custa da vida de outra de suas companheiras, que tombou com o segundo balaço. Envolvido pelas harpias, Curtis acabou de atravessar a porta velada pela cortina. Encontrou-se numa ampla sala, que mais parecia o templo de um deus pagão. No centro, ardia uma fogueira, cujas chamas lambiam a figura (talhada em pedra) de Ahriman, o gênio do mal da religião Mazda, oposto a Ormuzd, o deus da luz e da bondade. — Somos as Péris de Naçu! — guinchavam as dementes. — Ahriman é o nosso guia. Morte ao infiel! Agora, o comandante estava cercado e tolhido por garras e pernas horríveis de mulheres fanáticas. Num último esforço, conseguiu desvencilhar-se, agarrando urna delas pelos tornozelos e brandindo-a, como um porrete humano, contra as outras, abrindo um claro à sua volta. Por sorte, seu pé direito bateu na pistola, no chão. Num segundo, abaixou- se, apanhou-a e começou a fazer fogo, desordenada- mente. Nova leva de monstros cercou-o, na semi-escuridão, e a pistola foi outra vez jogada longe. Curtis sentia se exaurirem suas forças. Uma das fanáticas vinha brandindo a barra de ferro novamente contra ele, quando, súbito, uma voz clara, bem nítida, ecoou na sala: — Parem com isso! No umbral da porta recortava-se uma figura linda de mulher, contraste impressionante com a legião de monstros. Seria uma deusa, surgida das sombras, empunhando duas pistolas (uma pequena, de coronha de madrepérola e uma enorme negra, pesada) ambas firmes em seus dedos afilados. Bernard Curtis, tolhido como numa cruz (tendo um monstro a agarrá-lo em cada perna e cada braço) não conteve uma exclamação de júbilo: — Brigitte Montfort! É um milagre! Mas a bela repórter estava sozinha. E isto não era muito tranqüilizador. CAPITULO SEXTO Encontro com a enfermeira loura Entra em cena o Inspetor Maraghesi Brigitte chega a tempo E Noiso também. John Delancey, com o seu Austin alugado recoberto de lama, só conseguira chegar a Lingahacha com muitas horas de atraso. Ficara atolado na estrada, tivera problemas com o motor e recorrera, até, aos moradores de uma casa à beira da rodovia, à entrada da cidade. O prédio, todo de azulejos azuis e brancos, era habitado por um grupo de homens estranhos, vestidos com albornozes azuis, que não o deixaram passar do pátio. Enquanto pedia que lhe alugassem uma junta de bois, John alongara um olhar para uma das janelas da casa e vira outro homem, também vestido com um albornoz azul, o rosto encoberto e uma pistola na mão. Desviar os olhos, perturbado, e tratara de sair dali. Felizmente, os homens dos albornozes azuis não tinham criado dificuldades em ajudá-lo a desatolar o carro; também pareciam ansiosos de se verem livres dele. Afinal, depois de todos estes percalços e já na portaria do Hotel Sadrabad, ao registrar-se, recebera do chefe da recepção um envelope, com este comentário: — A moça que deixou esta carta garantiu que O senhor chegaria, mais cedo ou mais tarde. John subiu ao apartamento quase a se arrastar. A perna lhe doía horrivelmente, depois da extensa e acidentada viagem. Deu uma boa gorjeta ao empregado do hotel que lhe transportava a valise e deixou que ele se retirasse, para abrir o envelope. Continha um cartão de visitas de Virginia Seigel. No verso, esta mensagem: Estou aqui, no apartamento n° 30, mas não atendo o telefone. Tenho que tomar precauções. Depois explicarei. Venha ver-me, sem despertar suspeitas, depois das dez da noite. Virginia. Delancey olhou para o relógio de pulso. Uma hora da madrugada. Gostaria de tomar um banho, estirar-se na cama, descansar a perna dolorida. Mas era preciso agir, recuperar o tempo perdido! Nem abriu a valise; saiu, direto, para o n o 30. Esgueirou-se cautelosamente pelos corredores, sem encontrar vivalma. Deu com a porta do apartamento e tocou a campainha. Nada. Tentou, outra vez. Nenhuma resposta. Experimentou a fechadura. A porta estava apenas fechada como trinco. Ele a abriu e foi entrando. — Virginia? — chamou, no escuro. Ainda nenhum sinal de vida. Tateou, em busca de um interruptor de luz. Acendeu. O quarto estava vazio. Mas... era estranho! A cama desfeita; a cortina da janela, em frente, balançando ao vento; um cheiro adocicado de desinfetante... Delancey aproximou-se da cama e examinou os lençóis. Sangue! Havia manchas de sangue por toda parte! Sangue nas roupas de cama, na parede, no assoalho! Dir-se-ia que aquela alcova tinha servido de palco a uma carnificina! Pálido de espanto, o rapaz revistou todos os móveis, à procura de um cadáver. Não o encontrou em parte alguma. Contudo, agora tinha a certeza: Virginia Seigel fora assassinada! Onde estaria o corpo? Só a polícia poderia responder a essa pergunta. O funcionário da Anglo-Iranian compreendeu que teria de apelar para as autoridades persas, se quisesse solucionar o mistério. Não perdeu tempo com maiores divagações e apanhou o telefone. Meia hora depois, aparecia no Hotel Sadrabad um pitoresco inspetor da polícia, baixinho, redondo, vestido à européia, ostentando uma pêra negra no queixo volumoso, e olhando para todos os lados com um olhar penetrante. — Salahmalick! Inspetor Maraghesi. Que é que há? Ao entrar no apartamento 30, foi logo encarando Delancey, antes mesmo de se interessar pelas manchas de sangue. — Quem é você? — inquiriu, balançando a pêra. — John Delancey. — Que tem a ver com o crime? O rapaz titubeou: — Ainda não sei se Virginia... — Você me disse, pelo telefone, que houve um crime! A primeira impressão é sempre a mais correta! Houve um crime! — Sim, tem razão. Veja o aspecto deste quarto. Houve um crime. — E que tem você a ver com ele? Fui amigo da vítima. Isto é, suponho que a vítima seja Virginia Seigel, a hóspede deste apartamento. Ela era minha enfermeira, num hospital de Abadan. — Ah! Quer dizer que é uma mulher... Uma senhora de idade, presumo? — Não. Moça, loura e muito bonita. — Naham, compreendo! Vamos, conte-me tudo! Você é inglês? — Sou. — Nota-se, pela pronúncia. Eu já estive nos Estados Unidos e, lá, falam de outra maneira... E ela? Também era inglesa? — Era. — Conte-me tudo, tudo mesmo! — Infelizmente, no lhe posso ser muito útil. — Como sabe que espero que me seja útil, meu rapaz? — Pela insistência das suas perguntas. Acabei de chegar e... — Por que chegou a Lingahacha tão tarde da noite? — Tive problemas, na estrada de Abadan. Se não fosse o auxilio daquele grupo de árabes de albornozes azuis... — Ithamma! — O inspetor tinha arregalado os olhos. — Onde encontrou um grupo de homens com albornozes azuis? — Na entrada da cidade — explicou John. — Numa casa de azulejos azuis e brancos. Eles me ajudaram a desatolar o carro. O inspetor tomou nota das informações, como se elas tivessem muita importância, o continuou: — Vamos, Conte o resto! Foi você quem comunicou o crime. Onde está o cadáver da enfermeira? Isso, Delancey não sabia responder. O pitoresco inspetor de polícia fez sinal aos seus auxiliares (outros três detetives, de aspecto ameaçador) e eles farejaram o quarto, examinando todos os indícios. Delancey esperava, tenso, enquanto o inspetor olhava para ele de esguelha. — Devia haver uma grande mala — disse um dos detetives. — Os pingos de sangue acabam neste canto, onde ela estaria pousada. Temos que procurar o túmulo improvisado. Talvez ainda esteja no hotel. — Naham — rosnou o inspetor Maraghesi, mal- humorado. — Ou talvez tenha sido levada para longe! Sigam a pista da mala! Interroguem a arrumadeira deste andar! Saibam se não apareceram carregadores de alguma empresa de transportes. Os três agentes saíram correndo. Alguns minutos depois, voltaram a aparecer, arrastando uma iraniana gorda e aterrorizada. A mulher usava o uniforme das arrumadeiras do hotel. — Repita ao inspetor o que nos disse — ordenou-lhe um dos detetives. A mulher balbuciou: — Miss Virginia pediu, pelo telefone interno, que levassem a sua mala para o porão. Dois funcionários da casa atenderam ao pedido. A mala já estava no corredor, quando eles chegaram, e foi só baixá-la pelas escadas. Nenhum de nós voltou a entrar no quarto. — A que horas foi isso? — Às dez da noite, sahib. O inspetor Maraghesi acenou. — Tayyib! Vamos ao porão! John Delancey viu os olhos do gordo pousados no seu rosto e estremeceu. — Eu também? — O senhor também! Preciso de testemunhas. Não há dúvida de que o cadáver de sua amiga está dentro da mala! Desceram ao porão do hotel e localizaram a mala de camarote de Virginia Seigel. Estava depositada perto do grande incinerador do prédio. Atendendo a uma ordem do inspetor, seus auxiliares arrombaram a fechadura da mala e puseram à mostra o seu macabro conteúdo. John Delancey recuou, soltando um gemido do horror. O corpo da bela enfermeira loura ali estava, encolhido, retorcido, as vestes em frangalhos e o rosto deformado por profundas lanhaduras! Sangue coagulado de um ferimento no peito, sobre o coração. — Usaram uma sikkin — comentou um dos detetives. O inspetor anuiu. — Naham, uma faca afiada! — Voltou-se para Delancey e cravou nele seus olhos penetrantes. — Reconhece-a, meu rapaz? — Sim — murmurou John, lábios trêmulos. — É Virginia Seigel! Mas não sei quem a matou! — Provàvelmente — insinuou outro detetive — os assassinos pretendiam voltar ao hotel, para queimar o corpo na fornalha. Agora, não voltam mais. — Provàvelmente — admitiu o inspetor, fazendo uma careta. — Isso, se o assassino já não estiver entre nós! — Voltou a encarar, severamente, John Delancey. — Vamos, moço! Vá contando tudo o que sabe! O rapaz suspirou. — Só lhe posso dizer que a vítima se chamava Virginia Seigel, era inglesa, enfermeira do Hospital Central de Abadan, onde estive internado, O Hospital Central pertence à Anglo-Iranian Oil Company. — Por que esteve internado no hospital? Ferido? — Sim. Uma queda. E mostrou-lhe a perna inchada. O rotundo inspetor, prendendo nos dentes uma imensa piteira, acendeu seu cigarro turco, trançou as mãos atrás das costas e pôs-se a andar de cá para lá, os olhos no chão, fazendo o “sherlock”. Parou, de repente, no meio do porão, e sentenciou: — É tudo muito claro e simples. O enfermo que se apaixona pela enfermeira bonita... A jovem foge ao assédio do importuno... O passional, enfurecido, persegue a sua dama indócil... Torna conhecimento de sua viagem a uma cidade vizinha. Não titubeia. Corre ao seu encontro e, não conseguindo convencê-la, mata-a num ímpeto furioso de paixão! O inspetor fez uma pausa, empostou a voz e prosseguiu: — Considere-se preso, em nome da lei, Mr. John Delancey! É acusado do assassínio de Virginia Seigel o da tentativa de destruir o seu corpo, no incinerador deste hotel! John sorriu, incrédulo. O senhor está brincando, inspetor! Mas os três policiais já o algemavam, inapelàvelmente. Ao saírem do porão, o inspetor ainda olhou para John, com curiosidade. — A propósito, meu rapaz. Você gosta de passarinhos? Pardais, pombos e andorinhas? Mas o funcionário da Anglo-Iranian estava tão abatido que não respondeu. Seu silêncio era uma resposta, para o inspetor Maraghesi: o prisioneiro não entendia nada de passarinhes. * * * Algumas horas antes, quando o jovem nativo Noiso fugira pelo beco, desaparecendo na escuridão da noite e deixando Brigitte sozinha, numa rua deserta do bairro de Tarut, a bela repórter resolvera ir adiante, por conta própria, contando apenas com sua coragem, seu faro e sua determinação de decifrar o mistério. Assim, marchou firme, por aquelas ruas estreitas, a mão dentro da bolsa, segurando a pistola. Depois de muito caminhar, a valente filha de Giselle estacou, de súbito,ante um vulto que lhe cortava os passos, de braços no ar. — Por Alá, miss Montfort! Não fique mais aqui! É muito tarde! Volte para o seu hotel! Isto não é lugar para uma môça... Brigitte comoveu-se com os cuidados de Noiso. O rapaz não suportara a idéia de abandoná-la à sua própria sorte e viera seguindo-lhe os passos, oculto nas sombras. Brigitte, vendo-o fraquejar, resolveu fazer a proposta: — Voltarei ao hotel com você, mas depois que me disser onde é a casa de Sarah Barrow! O nativo olhou para o outro lado da pequena praça deserta. Só havia mesmo uma casa ali, entre as choças de mendigos. Uma casa velha, à beira do rio que cruzava o Tarut. A esperta jornalista compreendeu e apressou o passo naquela direção. Chegando, encontrou a porta encostada e ouviu ruídos lá dentro. Entrou e, à luz da vela de sebo, pôde notar o brilho de uma pistola, no chão do vestíbulo imundo. Era uma 45 negra. Brigitte empunhou-a com a mão esquerda (pois já levava a de coronha de madrepérola, firme, na mão direita) e afinal, penetrou na segunda sala, onde Bernard Curtis se debatia com as fanáticas opiômanas. — Parem com isso! — gritara, para a horda de monstros. E Bernard Curtis exclamara: Brigitte Montfort! E um milagre! E as megeras foram largando o comandante, virando-se para a nova invasora. Todas de olhos fuzilantes, grunhindo histèricamente. Agitaram-se, frenéticas, dispostas a enfrentar a jovem armada. A primeira que o tentou tombou ferida com um disparo da 45. Magnetizadas pela presença de Brigitte, as outras não perceberam que Bernard Curtis se esgueirava, até alcançar a porta. De braços estendidos, em grupos de quatro, babando como cães hidrófobos, as monstrengas investiram. E tantas tombaram quantas foram as balas das armas de Brigitte. Caíam as da frente, mas as de trás vinham por cima, como hordas de demônios invencíveis. Somos as Péris de Ahriman! Queremos o Grande Sacrifício! Quando os pinos das armas da jovem repórter bateram nas cápsulas já deflagradas, os monstros ululantes conseguiram cercá-la e atirá-la ao solo. À luz vacilante da fogueira, a batalha tomou um aspecto ainda mais selvagem. Frenéticas, arquejantes, fazendo ruídos de pesadelo, as sacerdotisas do mal levantaram Brigitte e principiaram a carregá-la, como um troféu magnífico. — Xucran, Ahriman! Vamos para o Grande Sacrifício! Entretanto, na rua, Curtis procurava desesperadamente uma idéia salvadora. Foi quando Noiso se acercou, trazendo duas preciosas Winchester automáticas. — Vamos, mister! — foi dizendo o nativo, aflito. — Eu sei o que elas vão fazer com miss Montfort! São sacerdotisas de Angro Maimys, o espírito do mal, e farão um sacrifício diante da Atar, o fogo sagrado! Arranjei estas armas na casa de meu primo, ali na Sharia Kubbet! Por Alá, foi uma sorte! Mas vamos lutar! O senhor, agora, tem de me ajudar a salvar a moça dessas taradas! Pegue numa arma que eu pego na outra! As desgraçadas vão abusar de miss Montfort... queimar-lhe o rosto com ácidos... É um horror! Vão estragá-la, para que ela se torne, também, uma sacerdotisa de Angro Maimys! Miss Montfort é muito bonita! Não posso permitir que essa desgraça lhe aconteça. Posso morrer, posso morrer fulminado... mas vou lutar! O senhor me ajude, mister! Vamos livrá-la da maldição de Sarah Barrow! Curtis entendeu tudo. Junto com Noiso, penetrou outra vez na casa sinistra, já agora com a Winchester engatilhada. As salas da frente estavam vazias. Um rumor, mais para o fundo, os atraiu. — É ali! — gritou o Comandante. — Atrás daquela cortina! Atravessaram a porta e viram a cena dantesca: diante da pira que iluminava a imagem de Ahriman, estava Brigitte, completamente despida, subjugada pelas megeras loucas, em cima de um estrado negro. Cinco a contê-la, com uma força de mil demônios, e as outras, mutiladas, disformes, numa fila terrível, esperando a vez de morder o corpo maravilhoso da jovem repórter! Brigitte se debatendo, gritando desesperada. E a primeira megera levantando uma tigela de ácido nas mãos esqueléticas, para queimar-lhe o rosto! Somos as Péris de Ahriman! Queremos o Grande Sacrifício! Nisso, o tiroteio começou. Bernard Curtis e Noiso, fazendo funcionar as armas automáticas, empreenderam a devastação das figuras hediondas. Brigitte aproveitou a confusão e saltou do estrado, ganhando o corredor, agora seguida por Noiso, enquanto Curtis tentava fazer a cobertura, atirando e afastando-se de costas. As monstrengas tombavam, umas após as outras, como trapos, sobre poças de sangue. Em poucos minutos, Brigitte e Noiso estavam a salvo, já fora da casa sinistra. Mas o comandante não aparecia na porta. Aguardaram alguns minutos... e nada. — Espere aqui — ordenou a repórter, tomando a Winchester das mãos do nativo. — Bernard deve ter sofrido algum contratempo! Vou buscá-lo! Voltou a entrar na casa maldita, onde só se ouviam gemidos de agonia, mas não viu mais o comandante. Uma das mulheres-monstros, moribunda, caída aos pés da fogueira, gemeu: — Ele se foi! Nosso inimigo morreu! Caiu no Nahr e morreu! Só então Brigitte reparou que uma porta lateral do pardieiro dava diretamente para um estreito rio subterrâneo, quase um canal. Ali havia uma trilha de sangue, que desaparecia bruscamente nas águas negras e movediças. Brigitte chamou várias vezes pelo nome do comandante, mas ninguém respondeu. Certamente, ele tentara sair por ali e tombara nas águas putrefatas. Ameaçada por três ou quatro harpias (sobreviventes da carnificina), a garota recuou precipitadamente e voltou a sair, pela porta principal, reunindo-se a Noiso, que esperava na praça. Inteiramente nua, arranhada, mas sem grandes ferimentos, a bela repórter exibia os seios lindos, tremendo como pombinhas assustadas. Noiso emprestou-lhe o seu manto árabe e a estátua velou-se, sob o luar, numa cena digna de velhos poemas orientais. Afinal, decidiram correr para longe daquele antro infernal. * * * Brigitte e Noiso continuaram andando, pelas ruelas do estranho bairro de Tarut. Seguiram ao longo do rio e, mais adiante, onde este aflorava à superfície da terra, Noiso soltou uma exclamação de alegria: — Veja, miss Montfort! Nosso amigo escapou! Na beira do rio, entre duas pedras, via-se uma Winchester abandonada. O nativo recolheu a arma e continuou a andar, ao lado de sua bela companheira. Agora, mais calmos, pois o encontro da arma dera-lhes a certeza de que o comandante Curtis atravessara o rio, a nado, e saíra ali. Não devia estar muito ferido, pois não havia sinais de sangue nas pedras. A repórter queria obter dó nativo outras revelações. E foi conversando, com o maior charme possível: — Obrigado, Noiso. Você me salvou a vida, com a idéia de trazer essas duas Winchesters. Do contrário, eu e Bernard estaríamos perdidos. — Só cumpri o meu dever — disse o jovem persa, encabulado. — E foi muita sorte nossa que a terrível Sarah Barrow não estivesse na casa, dirigindo as fanáticas. Ela se julga Naçu, a mais terrível das Péris! Se Sarah Barrow estivesse no templo, teria sido uma desgraça! Com ela, as Péris combatem como verdadeiros demônios! E dispõem de armas e tudo! Mas, quando Naçu se ausenta, deixa fechado o arsenal. Não confia nas bruxas, quando estão sozinhas; sabe que elas se destruiriam até mesmo umas às outras! — E ninguém aqui toma providências contra esse bando de fanáticas? Nem as autoridades? Noiso não parecia, agora, temer o efeito de suas respostas. E explicou: — A coisa toda é bem difícil. Primeiro, elas variam muito de lugar. Têm vários redutos e aparecem onde menos se espera. Conseguem fugir, quase que por milagre. Depois, são bastante numerosas. Ainda há muitos partidários da religião de Zoroastro na Pérsia e, com medo dos demônios deAbriman, eles traem a Ormuzd, protegendo as sacerdotisas do fogo sagrado. E quem as dirige tem muito poder. As bruxas são informadas de tudo com antecedência. Quando a polícia ataca um lugar, esse lugar está vazio! Minutos antes da batida, elas debandam! Parece, até, que são informadas por algum antena, ou algum espião... E lutam até do metralhadora! Armas tchecas, miss Montfort... Por outro lado, como lhe disse, existe o medo dos nativos, que ainda crêem em Ahriman e seus poderes infernais. Ninguém quer atiçar o ódio das fanáticas de Sarah Barrow. — E esta Sarah Barrow? Ninguém põe a mão nela? — Essa mulher parece um fantasma! Ninguém conhece a sua cara, nem sabe onde ela anda! Dizem que tem vários rostos, como as sedutoras Drujes, e vários esconderijos, com subterrâneos e passagens secretas, para fugir na hora do aperto. Só os mais velhos da seita a conhecem de perto... só os mais velhos crentes, que procuram a bênção de Ahura Mazda. — Seu pai a conhece? — Certamente. Mas nunca dirá uma palavra sobre o assunto. Não é doido de dizer! Se falar, pode amanhecer morto, por aí, com uma facada no coração e a cara toda roída de ácido! Alá nos livre! Sarah Barrow está ligada aos fanáticos da seita dos Albornozes Azuis! — Que seita é essa? — Não sei lhe dizer, miss. Sei, apenas, que os homens dos albornozes azuis são seguidores de Cafar e trabalham para que os poços de petróleo do Irã não sejam explorados pelos ingleses. — Nacionalistas? — Talvez sim e talvez não. Alguns velhos persas dizem que Cafar é um agente comunista. Não sei de mais nada. — Nesse caso — concluiu Brigitte, experimentando a coragem de seu jovem companheiro — só há um jeito: teremos de descobrir tudo por nós mesmos! Noiso reagiu: — Por favor, miss Montfort, não se meta nisto! Não esqueça que já quase ia morrendo... e ainda quer se arriscar? Vá-se embora desta terra, enquanto é tempo! Olhe, daqui a pouco tenho que voltar para o hotel. Deve ir comigo e, de lá, embarcar para Abadan! Por que tem tanto empenho em saber destas coisas? Brigitte não lhe deu ouvidos. Limitou-se a afagar ternamente no rosto escuro do nativo num carinho perturbador de mulher que conhece o seu próprio poder de sedução. O pobre rapaz não teria meios de resistir a tamanha voltagem de charme. E com voz meiga, ela falou: — Preciso investigar outro assunto e você vai-me ajudar, direitinho, como um bom rapaz! Prometo que, no fim de tudo, lhe darei uma boa recompensa. De acordo? O jovem fez que sim, pensando ninguém sabe em que maravilhas... Brigitte pediu-lhe, então, o endereço de Henry Lovett, o engenheiro que, horas antes, deixara-a no restaurante para sair com Nagdi, o pai de Noiso. O rapaz, inteiramente hipnotizado deu as explicações: — Esse Mr. Lovett mora aqui mesmo, desde que se aposentou da Companhia. Sua mulher e sua filha perderam a vida num desastre de automóvel. Parece que tem um filho estudando em Londres, mas esse, nunca veio por aqui. Mr. Lovett vive numa chácara, do outro lado da cidade. Se saiu apressado daquele jeito, com meu pai, não tenha dúvidas: foi por artes de Sarah Barrow! O velho deve tê-lo prevenido de alguma coisa. Ele gosta de Mr. Lovett. E tem muita pena dele. Nessa altura, já estavam chegando perto do hotel. Noiso entristeceu subitamente. A repórter quis saber por quê. — Já amanheceu, miss — queixou-se o rapaz. — Com toda esta trapalhada, sou capaz de perder o meu emprego! Eu devia ter-me apresentado às cinco horas, para pegar às cinco e meia! Brigitte consolou-o com um afago maternal. Depois, abriu a bolsa (que Noiso não esquecera de recuperar, durante a luta) e de lá retirou o famoso papel, assinado pelo Xá. Ao vê-lo, o nativo esbugalhou os olhos. — Mas... será obedecida como uma rainha, com esse papel! Pode ter o que desejar, aqui no Irã! Brigitte foi sucinta: — Você, estando às minhas ordens, não perderá seu emprego. Fique tranqüilo, pois, e faça o que eu mandar. Noiso fez uma saudação muçulmana, curvando-se até o chão. Brigitte retomou o fio de suas atividades detetivescas: — Não percamos tempo. Faltam poucos minutos para as seis. Precisamos visitar o engenheiro Lovett, enquanto o sol não nasce de todo! Vamos pegar meu jipe, estacionado na travessa ao lado do hotel, e façamos uma viagem rápida à chácara desse inglês. Passando em frente ao hotel, ainda pensou em entrar e perguntar pelo seu amigo Delancey. Teria chegado? A urgência do tempo não lhe deixou margem a outras especulações. Embarcou no jipe, com seu fiel Noiso, e seguiu no rumo da cidade nova. Atrás deles, também seguiu um pequeno carro Triumph, dirigido por um velho árabe, embuçado num albornoz azul, mascando sementes de betel. Era o mesmo sujeito sonolento que fora atrás de Nagdi e Henry Lovett, quando eles tinham saído do restaurante do pai de Noiso. CAPÍTULO SÉTIMO A mulher que não ria Outro retrato de Alice Tiroteio na casa azul e branca Revelações do inspetor Maraghesi Brigitte fala em passarinhos Em quarenta minutos chegaram ao local, graças às indicações de Noiso, que encurtaram o caminho. Brigitte parou o jipe a uma boa distância da chácara e manobrou, para escondê-lo atrás de uma providencial moita de capim. O dia amanhecera de todo. Ela saltou e acenou para o companheiro. — Você ficará aqui, Noiso, esperando por mim. Se eu me demorar mais de meia hora, então sim, vá ver o que terá acontecido. Vestida com a túnica árabe do nativo, Brigitte era um vulto familiar na paisagem oriental. Aproximou-se da cerca e conseguiu introduzir-se por uma abertura. Atravessou um campo de golfe e uma quadra de tênis, chegando, afinal, a uma pérgula com piscina, atrás de cujos pilares tratou de se esconder. Um carro, estacionado na frente da casa entre o jardim e uma faixa de seixos rolados, chamou-lhe a atenção. Foi-se esgueirando sem ruído e logo se encontrou ao lado do automóvel, protegida por uma touceira de fícus. De repente, iluminou-se o vestíbulo do palacete. A porta da frente se abriu para o pórtico, deixando passar um casal, que parou no topo da pequena escada de mármore. Brigitte olhou, prendeu a respiração e apurou o ouvido. Era Mr. Henry Lovett, sem dúvida. E a mulher, alta, esguia, envolta num elegante manto branco, parecia unia figura grega, de um baixo-relevo de Corinto. Seu rosto, excessivamente pintado, era uma máscara de cosméticos; as palavras saíam de seus lábios sem que suas feições se movessem. Ao contrário do “homem que ri” de Vitor Hugo, aquela mulher não devia rir nunca! E, o que era mais extraordinário, seu rosto não se parecia com o do retrato de Sarah Barrow, que Brigitte encontrara na casa de Virgínia Seigel. — Veja, minha filha — dizia Mr. Lovett à moça, fazendo um gesto largo que abrangia toda a propriedade. — Sempre que contemplo esta chácara lastimo a sorte! Aqui seria o seu refúgio. Mas o destino não quis que fosse assim. Talvez apenas seu irmão queira aproveitar esta chácara, esses jardins, essa piscina, esse campo tão bonito que tanta gente desejaria possuir. A moça de branco murmurou alguma coisa que Brigitte não pôde ouvir. Seus lábios se moveram, mas a face permaneceu impassível. Henry Lovett continuou falando, em voz alta e clara: — Ora, minha filha! Já era tempo de você ter aplacado esse ódio, esse desejo de vingança tão feroz! Por que odiar seu antigo noivo? Aquele idiota nem merece sua atenção, seu tempo perdido! Mas, enfim... A mulher do branco falou novamente. Lovett contestou: — Sim, foi afundado, no porto. Ninguém a bordo. Mas deixei na casa dele um bilhete, como se fosse do tal Cafar. A polícia investigará, tenho certeza. E ele será detido. Pagará pelo que não fez... Interveio novamente a mulher de branco, e o engenheiro continuou: —Mas viu como seu irmão está um bonito rapaz? Pena que você não tenha querido se revelar a ele. Robert a julga morta, mas isso não seria uma razão tão forte. Você poderia contar-lhe a história do acidente. O rapaz é um artista... Passa o dia inteiro a ler, a pintar. .. Não aproveita, como devia, esta piscina, estes campos de esporte. Você, sim, saberia aproveitá-los bem, alegrá-los... Mas fica fechada no seu ódio, só por causa do acidente! Que bobagem, minha filha! Hoje, a cirurgia plástica faz milagres! Você poderia ir a Londres, ou Nova ler- que, e voltaria perfeita, como antes! E, quem sabe, curada do vício... Bem, o dia ralou. Vou levá- la de volta à sua “fortaleza”... Quando é que vocês terão o novo encontro com Cafar, nas cavernas? — Outra pausa; não se ouviu a voz da moça, mas o engenheiro acrescentou: À meia-noite? Está bem, minha filha. Você talvez gostasse de conhecer essa jornalista americana, a tal Brigitte Montfort, que eu larguei, no restaurante de Nagdi, mal recebi o seu chamado... Desceram as escadas e tomaram o carro, conversando. Lovett saiu de marcha à ré, saltou para abrir o portão, parou, fechou e saiu de arrancada, pela rodovia. Brigitte correu até o palacete, abrigando-se nas sombras. Encostou-se à parede e deslizou até a porta principal. Mas, quando a atingiu, ouviu um baque surdo. Imobilizada contra a parede, soltou um gemido de surpresa. A manga direita de seu albornoz fora traspassada por uma faca atirada com perícia e estava presa à parede, onde a lâmina se espetara! Antes que abrisse a bolsa com a mão esquerda, um vulto largo surgiu do jardim e avançou para ela. Era um árabe de meia-idade, sonolento, ruminando como um boi. Vestia um albornoz azul. — Apanhei-te! — rosnou o estranho, no qual Brigitte reconheceu o freguês do restaurante de Nagdi. — Sou Ali Ben Kasadan, um dos daevas de Ahriman! Você é muito curiosa, ainda mesmo para uma repórter... E parece que descobriu a pista de Sarah Barrow! Brigitte não disse nada, atenta aos gestos do árabe. Súbito, ele sacou um punhal de dentro do albornoz, e deu um golpe. A repórter furtou o corpo e a lâmina apenas lhe rasgou a outra manga da túnica. Era evidente que o bandido queria matá-la, sem mais delongas! Desesperada, sem poder retirar a manga presa à parede, despiu ràpidamente o albornoz e atirou-se ao chão. A segunda punhalada apenas atingiu a roupa, pendurada no primeiro punhal. Brigitte rodopiou e puxou, com força, as canelas do adversário, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de costas. Rolaram pelo pórtico, abraçados, trocando socos. Ela completamente nua e o beduíno do deserto armado com um punhal recurvo, afiado, que voltou a descer, faiscante, errando o rosto de Brigitte por um centímetro. Ela conseguiu agarrar o pulso do agressor e, girando espetacularmente, montou a cavalo em cima dele, mantendo-o de costas contra o solo. — É você o carrasco de Sarah Barrow? — perguntou, apertando-lhe o pescoço, sem lhe largar o pulso armado. — Nahan — confirmou ele, lutando por livrar a mão. — Matei a enfermeira, no hotel, porque ela ia falar... e, agora, vou matar você! Todos os que sabem demais precisam morrer! São as ordens de Cafar! O gangster oriental era muito mais forte do que ela e, dando um safanão, conseguiu soltar o pulso. No mesmo momento, tinha girado e invertido as posições, cavalgando o corpo branco e nu de sua gentil adversária. Debalde Brigitte contorceu-se tentando escapar como pudesse ao golpe que inevitàvelmente aquele perigoso assassino ia lhe desferir. Ele ergueu o braço, armado com o punhal, e preparou-se para tirar-lhe a vida. A filha de Giselle viu chegada a sua última hora. Porém, de repente, ouviu-se uma detonação e o velho árabe ficou estático, o punhal no ar e o rosto contorcido pela surpresa. Depois, estranhamente, uma expressão de beatitude tomou conta de sua fisionomia bestial e ele tombou de lado, hirto como uma estátua. Brigitte desvencilhou-se e pôs-se de pé, olhando para o cadáver. Agora, o homem do albornoz azul tinha o buraco de uma bala no meio das costas. Uma bala que lhe atingira o coração. Noiso saiu das sombras, sem ruído, empunhando uma de suas Winchesters. — É Ali Ben, o matador — anunciou a meia voz. — Eu o reconheci logo... e, por isso, atirei! Ele trabalhava para Sarah Barrow e Cafar! Agora, não matará mais ninguém! Brigitte revistou o albornoz azul cio morto e não encontrou nenhum papel. Então, encarou Noiso: — Esse bandido deve ter vindo para aqui em algum veículo. Talvez possua automóvel. Dê uma busca pelas cercanias e veja se descobre algum carro... e, dentro dele, algum documento com o endereço do proprietário. Noiso acenou e tornou a desaparecer, silenciosamente, no jardim, com a mesma discrição com que tinha aparecido. Brigitte recuperou-se, retirou o albornoz da parede (soltando o punhal que o prendia) e vestiu-o, transformando-se outra vez, numa jovem árabe. Em seguida, voltou a aproximar-se da porta do palacete. Aí, abriu a bolsa e retirou o arame retorcido que sempre carregava quando em missão. Forçou o trinco, fàcilmente. A casa era ampla e rica. Pé ante pé, subiu lanços de escada até o andar superior. Os criados, em alojamentos do fundo, não foram despertados. Avançou com sua lanterninha de pilha e escolheu a porta de um dos quartos. Vazio. Mas, no seguinte, alguém ressonava. Com muita suavidade, aproximou-se do leito e ficou a contemplar, na penumbra, o rosto da pessoa que dormia. Era um rapaz de feições belíssimas; Brigitte notou imediatamente sua semelhança com a moça da fotografia retirada do quarto de Virginia Seigel. Seria o irmão de Sarah Barrow, sem dúvida. O mistério começava a se esclarecer. Sarah Barrow, jovem misteriosa de rosto impassível, que saíra minutos antes levada pelo engenheiro Lovett, possivelmente seu pai, tinha aquele irmão, recém-chegado de Londres, vivendo no palacete. E, pelo que deduzira da conversa, esse irmão não a havia visto... julgava-a morta. Mas, por que o rosto da moça de branco não era igual ao do retrato? Tudo muito estranho! Brigitte dirigiu o foco da sua lanterninha para o rosto do jovem, querendo examiná-lo melhor. Ele abriu os olhos, espantado, e sentou-se na cama. — Quem está aí? —Estirou o braço, para acender a lâmpada de cabeceira, e estarreceu-se, ante a visão de Brigitte. — Quem é você? E levantou-se abruptamente, abotoando o pijama de cetim. Brigitte mentiu: — Não se assuste. Sou amiga de seu pai. Vim visitá-lo, esta madrugada, porque terei de viajar em seguida. Não o encontrando, vim ter aqui, por acaso, e vi você, o filho de que tanto me falava. Chegou de Londres, não é mesmo? O rapaz sorriu, ingênuo, tranqüilizado, e convidou-a a sentar-se. — Perdoe-me, mas fico sem jeito de recebê-la nesta intimidade... É amiga de meu pai, então? De Lingahacha ou Abadan? — De Abadan. E você, quando chegou? — Há três dias. Vim de Londres, para este lugar ermo. Papai mantém-me aqui recluso, como um castelão medieval! Não quer me levar ao centro da cidade, nem permite que eu fique em Abadan, pelo menos. Diz que eu tenho de repousar aqui. Que aqui é o meu paraíso... coisas assim... O velho tem lá as suas manias. Aliás, esta é a primeira vez que venho ao Irã. Desde pequeno, estive internado no colégio, em Londres. Nem quando minha mãe e minha irmã morreram, papai consentiu que eu viesse ao Oriente. Brigitte animou a conversa: — Você O artista da família, não é? — Sim. Vejo que papai andou lhe contando... Quero dedicar minha vida a fazer qualquer coisa de bonito. Gosto de tecer tapetes. Talvez não me realize, mas me esforço muito. Aqui, já estou rabiscando uns croquis, com motivos persas. Creio que realizarei algo de novo, usando velhos temas. Só que agora, diante de você, penso em tornar-meum retratista. Você, que eu não conheço, é um modelo raro! Como fica fascinante em vestes nativas! Deve ser americana, não é? Por que fez questão do albornoz iraniano? Brigitte não se atrapalhou: — Sou americana, sim, e talvez um tanto inclinada ao turismo colorido. Resolvi andar por aí fantasiada de persa... — Você me parece um tanto maluca, mas é simpática, sem dúvida. — Acha mesmo? Então, fale-me de sua irmã, que também devia ser muito simpática. — Ah, não me lembro com detalhes! Era ainda muito garoto, quando a vi pela última vez. Papai não quer que haja retratos de Alice pela casa. Gostava tanto dela que lhe fazia mal vê-la, a todo instante, nas fotografias. Mas ainda guardo um antigo retrato de minha pobre irmã. Foi até uma cômoda e de lá voltou com uma fotografia. Brigitte examinou-a demoradamente. Não se parecia com a mulher de branco. Leu a dedicatória: Ao meu querido irmão Robert um instantâneo da sua Alice, num dia muito feliz. Robert Lovett explicou: — Foi batido no dia de seu noivado com Bernard Curtis, um sujeito muito legal. Na semana seguinte, Alice sofreu um desastre de automóvel e morreu. — Que horror! E você nunca soube de detalhes? Nunca indagou? — Bem... Meu pai me escreveu uma longa carta, na época, narrando o fato. Eles moravam, minha mãe e ele, na cidade de Lingahacha — não nesta chácara, que ainda não lhes pertencia — e mamãe e Alice seguiam, de automóvel, para Abadan, para comprar o enxoval de minha irmã, O carro tombou num despenhadeiro e ambas morreram carbonizadas. O pobre Bernard Curtis desesperou-se. Dizem que se alistou na Legião Estrangeira e por lá mesmo se acabou, nas mãos dos marroquinos. Tudo muito triste, como vê. Brigitte sentiu que as informações estavam se arrumando em seu cérebro, para revelar uma ponta do mistério. Alice, ao que tudo indicava, deveria ser o verdadeiro nome de Sarah Barrow. Alice Lovett. A jovem repórter começou a raciocinar. Alice Lovett e Sarah Barrow eram a mesma pessoa. O pseudônimo acobertando os crimes. Mas... por que o rosto de uma não era igual ao da outra? E por que a necessidade de cometer crimes? Por que o comando sobre as megeras fanáticas, a organização daquela verdadeira sociedade diabólica para fazer o mal? Brigitte preferiu continuar as suas investigações noutro lugar. Ainda lhe restava ligar Sarah Barrow a Cafar e, este, à Liga dos Albornozes Azuis. Despediu-se do jovem Robert Lovett e saiu do palacete. Lá fora, o fiel Noiso estava impaciente, sua espera. — Encontrei um pequeno carro Triumph escondido no mato — informou ele. — O nome do condutor é Ali Ben Kasadan. E o endereço fica na estrada de Abadan, na esquina da Sharia Kuwait. — Onde é isso? — Na entrada de Lingahacha. Conheço a casa de Ali Ben. É a única, de azulejos azuis e brancos que existe naquela rua. * * * O dia nascera de todo. Apesar dos protestos de Noiso, tomaram o jipe o dirigiram-se para a tal casa de azulejos azuis e brancos. Pelo caminho, Brigitte prendeu a pistolinha com esparadrapo à coxa esquerda e recarregou as duas Winchesters. Não confiava na polícia local e tinha o pressentimento de que precisava agir ràpidamente, se quisesse evitar outra tragédia tão grave quanto o incêndio da Refinaria de Abadan. Pensava na notícia, que lera no jornal, sobre a visita que Sua Majestade, o Xá, faria naquela tarde a Lingahacha. Pouco a pouco, a inteligente repórter formava a sua teoria... Deixaram o jipe na Sharia Kuwait e seguiram, a pé, para a estrada real, levando as Winchesters na mão. Era muito cedo e metade da população ainda não se levantara. A grande casa de azulejos azuis e brancos estava tão silenciosa que parecia deserta. — Ou muito me engano — sussurrou Brigitte ao ouvido de Noiso —, ou esta é a sede da Liga dos Albornozes Azuis! Temos que investigar com cautela! O nativo estava pálido e trêmulo. Ele sabia que era ali o reduto dos agentes comunistas de Cafar; por isso, tentava demover sua companheira do intento de enfrentá-los. Mas Brigitte estava decidida a colher os últimos dados para a sua reportagem. Cautelosamente, entraram no quintal da casa. Tudo deserto e silencioso. Súbito, dois vultos azuis surgiram por trás das árvores e encostaram duas facas à garganta da repórter e seu acompanhante. Noiso deixou cair logo a espingarda, mas Brigitte só soltou a sua quando um dos árabes a arrancou das mãos. — Venham — ordenaram os homens dos albornozes azuis. — Não façam barulho! Entrem pela porta da frente! Falavam em persa e a repórter no os entendeu; mas o empurrão que lhe deram era bastante eloqüente. A porta principal da casa acabara de se abrir; caminharam para lá, subiram uma pequena escada o entraram numa sala enorme, com as paredes cobertas de valiosas tapeçarias. Os dois guardas reuniram-se a outros dez árabes, todos com albornozes azuis, que esperavam na sala. Um deles, que parecia ser o chefe, usava um lenço no rosto, que lhe ocultava as feições; apenas se viam os seus olhos. Ao encará-los, Brigitte sentiu-se, outra vez, no Palácio das Portas de Ferro; isso lhe causou um tremendo choque. Erguia-se outra ponta do véu que ocultava o mistério! — Cafar? — perguntou a repórter, na dúvida. O homem embuçado não respondeu. Tinha uma pistola na mão, que engatilhou cuidadosamente. Outro árabe falou, em inglês: — Fizemos mal em deixar escapar o seu amigo, que esteve aqui procurando desatolar o carro! Foi ele, certamente, que aos denunciou! Mas, depois da morte destes dois espiões, e da chegada do Xá, não precisaremos mais ‘desta casa. Cafar será avisado de tudo. Então, o homem que escondia tão cuidadosamente o rosto não era o chefe do bando. E, depois de ter visto os seus olhos, Brigitte já imaginava como seria o seu rosto... Era um complô extraordinário, com efeito! Um golpe de mestre! Esse Cafar devia ser um demônio em figura de gente! Mas não teve tempo para novas reflexões: o embuçado agarrou sua túnica com a mão esquerda e abriu-a violentamente. A filha de Giselle surgiu quase inteiramente nua aos olhos assombrados dos árabes. Estes ainda não tinham voltado a si do espanto, quando a repórter arrancou a pequena pistola da coxa o disparou-a, certeiramente, contra a testa do homem do rosto velado, que emitiu um gorgolejo e caiu de costas, ficando imóvel, O lenço saltou de seu rosto e todos puderam ver as feições aristocráticas de Sua Majestade, Reza Pahlevi, o Xá da Pérsia! Era inacreditável! Ouviu-se um “oh” de surpresa e, depois, um “uh” de indignação; ato contínuo, todos os homens de albornozes azuis tiraram punhais da cintura. Mas, nesse momento, estrondaram tiros e rajadas de metralhadoras, no quintal. As vidraças da casa voaram em estilhas. Outro árabe entrou correndo pela porta aberta, exibindo o rosto coberto de sangue. — Fujamos! — gritou, em persa. — É a polícia! Ninguém mais se lembrou de Brigitte ou Noiso. Os homens dos albornozes azuis começaram a correr de um lado para o outro, como baratas assustadas. Dois deles tinham revólveres e puseram-se a atirar pela porta e pela janela. Mas logo a casa foi invadida por uma dúzia de policiais uniformizados. Brigitte agarrou na mão de Noiso e arrastou-o para os fundos. Não lhe agradava ser presa, para ter que dar explicações antes da hora. Na cozinha, um dos árabes acabara de suspender a tampa de um alçapão e preparava-se para fugir por ele: Brigitte voltou a disparar a pistolinha e liquidou-o; depois, sempre arrastando Noiso, desceu pelo alçapão e fechou-o, com o trinco, pelo lado de baixo. Estavam num corredor subterrâneo, que ia dar noutra casa velha e desabitada, do lado oposto da Sharia Kuwait. Saíram para a rua e puderam ver alguns carros da polícia, parados junto da calçada. Na casa de azulejos azuis e brancoso tiroteio continuava. Um policial, gordo e prazenteiro, estava encostado a uma das viaturas oficiais. — Que aconteceu? — perguntou Noiso, na sua língua natal. — Não se meta! — rosnou o agente da lei. — Vão-se embora daqui! Depressa! Era isso mesmo o que eles queriam. De braço dado, tomaram o jipe (que esperava pouco adiante) e voltaram, tranqüilamente, para o Hotel Sadrabad. A bela o astuta filha de Giselle dormiu apenas algumas horas, para refazer-se dos sucessos da noite. Os impactos de emoção eram, para ela, verdadeiramente tranqüilizantes. Qualquer mulher, depois do todos aqueles acontecimentos, teria necessitado uma internação em clínica de repouso, por prescrição médica. Brigitte sentiu-se nova em folha, às onze horas da manhã, como se os episódios da noite anterior não tivessem sido mais do que pequeninas doses de excitantes. Antes de pedir o café, ligou para a recepção. — Não terá chegado a este hotel, procedente de Abadan, um senhor chamado John Delancey? O funcionário confirmou: — Sim, miss Montfort... e já há algum tempo. — Obrigada. Quer ter a bondade de passar esta ligação para o quarto dele? — Ele não está — respondeu o funcionário, com voz grave. — Acontece que Mr. Delancey foi preso! — Como? — Isso mesmo. Foi preso, esta madrugada, acusado de assassinato da hóspede do quarto n.° 30! A repórter não perdeu tempo com novas perguntas. Já sabia que a hóspede do quarto n.° 30 era Virginia Seigel, e fora morta por Ali Ben Kasadan. Apressou a toalete, desceu, chamou o seu fiel “escudeiro” Noiso, já firme junto à entrada e embarcou no jipe, rumo à Delegacia. A prisão de Delancey precipitara os acontecimentos; agora, ela precisava se explicar com a polícia. * * * O rotundo inspetor da barbicha negra perdeu-se em salamaleques, quando Brigitte deu entrada no seu exíguo gabinete de “sherlock” subdesenvolvido. — Sou Ali Maraghesi, miss. Um criado às suas ordens... Brigitte apresentou-se discretamente, com suas credenciais de jornalista do “Morning News” de Nova Iorque. Perguntou, em seguida, pelo seu amigo John Delancey, funcionário da Anglo-Iranian. O inspetor encarou-a suspicazmente. — Conhece o acusado, miss Montfort? De onde? — É meu amigo. Tínhamos combinado visitar juntos a cidade, que mostra aspectos interessantes para o meu trabalho de repórter. Agora, sou surpreendida com esta notícia absurda, de que John foi detido e indiciado, e que sua prisão é inafiançável! Que loucura é esta? Estaremos assim tão longe da civilização que um cavalheiro como Mr. Delancey possa ser trancafiado sem provas, da noite para o dia? Falava energicamente e conseguia impressionar. O inspetor Maraghesi fez sinal aos guardas para que se retirassem e dirigiu-se, com voz mansa à repórter: — Presto-lhe uma homenagem, miss. Ao seu encanto pessoal e à sua condição de jornalista americana. Devo explicar-lhe que exorbitei das minhas funções, ontem, quando dei ordem de prisão a Mr. Delancey. Fingi-me de imbecil, banquei o “sherlock” de novela, mas com um objetivo: guardar imediatamente seu amigo atrás das grades, para protegê-lo, evitando assim mais um crime. Ele poderia ter visto alguma coisa especial no caminho de Lingahacha e... Além disso, a vítima era sua enfermeira... e foi morta de maneira muito cruel! — Eu sei. Virginia Seigel morreu porque ia falar. O inspetor arregalou os olhos empapuçados. — Então, também conheceu Virginia Seigel? Houve uma conversa prolongada, em que Brigitte fez ver ao inspetor que nem ela nem Delancey poderiam ter qualquer relação com o crime, praticado por um profissional. Mas o detetive iraniano não cogitava disto e já formulara suas suspeitas em torno de outro personagem. — Eu sei, miss — explicou ele, em voz baixa. — Observei as lanhaduras na face da vítima e compreendi, de pronto, do que se tratava. Não lhe posso dar maiores explicações. Brigitte teve de mostrar a Ali Maraghesi o documento assinado pelo Xá. O homem quase se desmanchou em reverências. Então ela explicou: — Colaboro, nisto tudo, com o Intelligence Service e quero ver resolvido este mistério, que apavora o país, dos atos de terrorismo contra a Anglo-Iranian. Venho seguindo uma pista segura, há algum tempo. Não estou em Lingahacha por acaso. Creio que descobri o roteiro dos tais “fantasmas” comandados por Cafar. Suponho que o senhor já ouviu falar nesse Cafar, não? — O assunto é motivo de comentário geral por aqui — disse o inspetor, cauteloso. — Pois é. Mas os tais “fantasmas” não são levados a sério, ou são levados a sério demais, isto 6, ou duvidam de sua existência, ou acreditam na organização terrível que eles constituem... e calam o bico! — Tem razão — assentiu o inspetor, sacudindo a barbicha. — E há de compreender que, com essa confusão, a polícia não sabe por onde começar a agir. Pessoalmente lhe digo... e peço-lhe toda a reserva... que já agarrei metade dos cúmplices de Cafar e estou na pista dos seus “fantasmas”. Há uma mulher que comanda, aqui, certas fanáticas fumadoras de ópio. Seu nome é Sarah Barrow. Já ouviu falar nela? Brigitte assentiu, O inspetor continuou: — É uma estranha mulher, que tem várias caras e chefia um bando de loucas viciadas. Ela as induz a cometer crimes e atos de terror, sob o efeito de entorpecentes. Estou me aproximando de toda a verdade. É difícil conseguir delatores. Ninguém quer falar, no bairro de Tarut, onde sei que existem redutos dessas megeras. Elas desfiguram o rosto dos informantes e os profanam terrivelmente. Mas os mais velhos do lugar sofrem com a onda de crimes, e talvez cheguem a me fornecer algum dado precioso sobre os pontos-chave dos encontros sinistros. A repórter ouvia tudo em silêncio. Ali Maraghesi prosseguiu: — O mais importante é que dois terroristas, que acabam de ser presos em Abadan... dois árabes vestidos com os albornozes azuis da seita de fanáticos do “fogo sagrado”... confessaram que há ligações entre esta Sarah Barrow e Cafar, além de darem a entender que há pessoas influentes, disfarçadas, metidas no caso. Por isso, temos que agir com cautela. Ainda agora, graças a uma indicação de Mr. Delancey, acabei de aprisionar metade dos cúmplices de Cafar, numa casa isolada da rodovia de Abadan. Mas nenhum deles falou. E o chefe escapou, outra vez! — O senhor julga que Cafar é algum nativo? — Acho que não. Suponho... e tenho razões para fundamentar minhas hipóteses... que Cafar seja um arguto agitador, funcionando para uma potência estrangeira interessada no petróleo do Irã. O próprio Partido Tudé, de tendências comunistas, não deve estar alheio ao caso! As mulheres desfiguradas de Sarah, encarnando os “fantasmas” de Cafar, servem para excitar a imaginação dos nativos supersticiosos e com isso estabelecem confusões que dificultam o trabalho da polícia e do serviço secreto. Há três quadrilhas criminosas trabalhando para Cafar: os comunistas dos albornozes azuis, os sabotadores nacionalistas e as mulheres-monstros de Sarah Barrow. — Bem pensado — aprovou Brigitte, contente de encontrar alguém com as suas mesmas conclusões. — E, na sua opinião, por que Sarah Barrow mandaria matar Virginia? Ali Maraghesi cofiou a barbicha e raciocinou em voz alta: — As mulheres de Sarah são viciadas em tóxicos. A própria Sarah é morfinômana. Para sustentar seu “exército” de bruxas, precisa de entorpecentes. E as drogas são cada vez mais caras. A ligação com uma enfermeira de hospital de grandes recursos é essencial para os contatos com fornecedores. São Cafar e os seus seguidores que dão o dinheiro a Sarah Barrow. A morte de Virginia talvez se prenda ao tráfico de drogas. Algum fornecimento gorado, algum atraso nas entregas... — Não — sorriu Brigitte. — Nesse ponto o senhor se engana.Virginia Seigel, estava arrependida e disposta a falar. Por isso, foi apunhalada pelo carrasco da seita dos Albornozes Azuis. Agora, solte Mr. Delancey e prometo-lhe a maior ajuda. Traga-me John e vamos, juntos, para o hotel. Tenho urna revelação estarrecedora a fazer-lhe. Mas só no hotel. O inspetor curvou-se quase até ao chão. E logo arregalou os olhos, quando a bela repórter acrescentou: — A propósito o carrasco de Sarah Barrow, um árabe chamado Ali Ben Kasadan, morreu misteriosamente no pórtico da casa de campo do engenheiro Henry Lovett. Outro persa, sósia do Xá, também morreu, noutro local... Porventura, o senhor não devia me falar em passarinhos? — Por Alá! — exclamou o policial, batendo na testa. — Então, estou falando com a amiga do inspetor Pitzer?! E eu que pensava que fosse Mr. Delancey! Nesse caso, foi quem fez o diabo na casa de azulejos azuis e brancos? — Sim — respondeu Brigitte, modestamente. — Fui eu. CAPITULO OITAVO Um bilhete do Comandante Os “comandos” do Inspetor Maraghesi Encontro dramático Revelação final John Delancey apareceu e juntou-se a eles. Ao saírem da Delegacia, o inspetor ainda insistiu, segurando no braço de Brigitte: — Desculpe, miss Montfort. Recebi ordens para ser o seu contato no Irã. Deverá entregar-me o seu relatório, antes de enviar a sua reportagem para o “Morning News”. — Agora é tarde — obtemperou ela, sem perder o seu sorriso. — O caso já está quase terminado. Levarei o meu relatório, pessoalmente, ao Inspetor Pitzer. Meia hora depois, já no apartamento da bela jornalista, o inspetor Maraghesi e Delancey ouviam o relato Completo dos episódios vividos por ela, na noite anterior. O tiroteio na casa das mulheres desfiguradas, a fuga de Bemard Curtia pelo rio, a visita à chácara de Henry Lovett, as conversas ouvi- das, o assalto à casa azul e branca, e tudo o mais. A repórter só teve o cuidado de omitir o nome do atirador que liquidara Ali Ben Kasadan, pois não queria complicar o seu amigo Noiso. John Delancey estava mais do que estupefato. O inspetor coçava a barbicha, frenèticamente. Noiso foi posto de sentinela, na portaria, aguardando a possível chegada de Bernard Curtis, agora uma peça-chave em todo aquele caso apaixonante. Ali Maraghesi arriscou um palpite: — Podemos deduzir, então, que Virginia Seigel viera a Lingahacha tentar entrevistar-se com Sarah Barrow, possivelmente para evitar a morte iminente de Bernard Curtis. Mas falhou e foi eliminada pelo carrasco, que já andava atrás dela. — Resolveu, então, expor o que sabia de mais interessante: — Em Abadan, consegui aprisionar um certo Kuhi, integrante do bando de sabotadores nacionalistas. Em vez de castigá-lo, enchi-o de presentes, cuidei de sua família, captei-lhe a confiança, enfim. Transformei-o num auxiliar precioso. Através de suas informações, pude seguir várias pistas. Até porque esse Kuhi, já devidamente instruído, continuou a encontrar-se com alguns dos membros do bando, colhendo informações. Tal como os homens dos albornozes azuis e as viciadas de Sarah Barrow, os sabotadores reuniam-se nos pontos ermos da cidade, ou nas cavernas de Yad-Morian, ao norte de Tarut. — Quem sabe essas cavernas não se comunicam, subterraneamente, com aquela casa onde encontrei as mulheres? — sugeriu Brigitte. — Noiso me informou que as megeras sempre desaparecem dos redutos, como que por milagre. Só se pode concluir que existam passagens secretas. Ora, a filha do engenheiro Lovett falou que, esta noite, haveria reunião da quadrilha numa caverna e... O inspetor assentiu e deu seqüência à sua narrativa: — Esse homem, Kuhi, assistiu, há três dias, a uma cena muito expressiva. Reunião do bando quase completo, dirigido por Salim Fasan, um agitador terrível. Esperavam a visita de Mut Sacha, outro líder nacionalista, e de um personagem embuçado. Mas foi Mut Sacha quem falou. Disse que iriam cessar os ataques à Companhia Anglo- Iranian, pois assim o determinara o chefe da missão que estavam cumprindo. O personagem embuçado, que depois se soube tratar-se do próprio Cafar, estranhou essa resolução. Mas Salim Fasan explicou. Obedeciam ao grande chefe religioso, Kashani, por graça de Alá. Kashani estava, agora, ao lado do Xá, e o soberano, “filho de sete reis”, não queria que se tocasse nos ingleses. Declarou, por fim, para dar uma medida da fidelidade fanática que os ligava ao seu chefe religioso, que, se Kashani resolvesse botar fogo no próprio Parlamento, eles o fariam de bom grado. Nesse ponto, Cafar exaltou-se. Retrucou com algumas palavras que não agradaram à assembléia. Alguns dos presentes se dispuseram a avançar contra o mascarado, mas este desapareceu, como que por encanto, protegido pelos homens dos albornozes azuis. — Deve ter usado o tal subterrâneo que dá na casa de Sarah Barrow — concluiu Brigitte. — Aliás, deve ser por isso que os nativos afirmam haver visto Cafar em dois lugares ao mesmo tempo. É óbvio que ele não se mostra em dois lugares no mesmo tempo, mas usa os subterrâneos, para confundir os asseclas e o próprio povo. É um prestidigitador hábil. Inclusive, deve produzir as tais impressões digitais quadradas, para causar espanto... — Naham — fez o inspetor. — Como lhes disse, acho que Cafar usa Sarah Barrow e suas mulheres disformes como uma espécie de horda auxiliar nas sabotagens e atos de terrorismo. Para dar a entender que controla seres do outro mundo... — O senhor sabe de muita coisa — interveio Brigitte. — Mas não sabe do principal. Investigou a origem daquele árabe, morto na casa azul e branca, que tinha as feições do Xá? — Nahan — afirmou o inspetor, piscando os olhos. — Ele veio de Quazvin e também trabalhava para Cafar. Só não compreendo, ainda, as intenções dos homens dos albornozes azuis, ao manterem aquele sósia de Sua Majestade, embuçado, na casa da Sharia Kuwait! Isso, eu não compreendo! — Posso lhe explicar o resto — disse Brigitte, triunfante. — Agora, possuo elementos para reconstituir todo o quebra-cabeças. Só me falta descobrir a verdadeira identidade de Cafar. Este líder comunista estava empenhado em entregar o petróleo do Irã às potências do leste. Seus “albornozes azuis” dirigiam os atos de sabotagem, executados pelos nacionalistas por patriotismo, e pelas viciadas de Sarah Barrow, para receberem os tóxicos fornecidos por Virginia Seigel. Mas as intenções de Cafar eram mais ambiciosas: Ele planejava raptar, ou assassinar, o Xá Reza Pahlevi, colocando um sósia no trono! O atentado teria lugar esta tarde, quando Sua Majestade visitasse Lingahacha; e o substituto do Xá, de volta ao Palácio das Portas de Ferro, receberia a missão econômica soviética, denunciando o acordo feito com os ingleses e assinando um novo contrato com os russos! Por sorte do soberano, seu sósia foi morto na casa da Sharia Kuwait e a conspiração fracassou. Agora, só nos resta esperar que Cafar compareça ao encontro, nas cavernas de Yad-Morian. — Ele vai comparecer — afirmou o inspetor, com voz grave. — Eu já sabia que as três quadrilhas iriam se reunir na caverna, pois fui eu quem deu ordem para essa reunião. — O senhor?! — exclamou Delancey, sobressaltado. — Eu. Meu auxiliar, Kuhi, conseguiu um papel assinado por Mut Sacha. Nossos peritos falsificaram sua letra, num convite forjado, para atrair Sarah Barrow e Cafar às cavernas. Diz o falso convite que haverá reunião geral, para deliberações importantes, quando serão conhecidas novas ordens de Kashani. Cafar decerto se sentirá atraído, pois seus “albornozes azuis” nada podem fazer sozinhos, sem a ajuda dos nacionalistas. Já informei a miss Montfort que tenho uma boa ligação com um árabe desta zona, um dos mais velhos, revoltado com os crimes da horda e interessado em colaborar com a polícia. Aliás,sei agora que miss Montfort já o conhece. Trata-se do pai de Noiso, o velho Nagdi. Pois bem: a esta hora, Nagdi já entregou uma mensagem a Sarah Barrow, que, por sua vez, a transmitirá a Cafar, esteja ele onde estiver. Resta-nos aguardar um pouco e partir para as cavernas, ao norte de Tarut. Nesse instante, Noiso bateu na porta e entrou com uma carta. Brigitte abriu ràpidamente o envelope e leu em voz alta: Cara Miss Montfort: Resolvi dar-lhe alguns esclarecimentos para a sua reportagem, em retribuição ao fato de haver-me salvo a vida, ontem, naquela casa sinistra. Perdoe-me se não vou ao seu encontro pessoalmente, mas estou a preparar-me para uma solução decisiva. Fui noivo de Sarah Barrow, aliás, Alice Lovett, filha do engenheiro aposentado Henry Lovett. Alice escapou de um desastre de automóvel, em que pereceu a mãe dela. Ficou horrivelmente queimada e mutilada. Padeceu como mártir. No hospital, teve que submeter-se a tratamentos cruéis e terminou viciada em morfina. Proibiu-me de voltar a vê-la. Desfez o noivado, mas declarou que não poderia jamais ver-me casado com outra. Dava mostras de loucura progressiva, revoltada contra a vida e a humanidade. Culpava o gênero humano, o destino, de havê-la privado de sua beleza. Deu para reunir-se com outras infelizes viciadas, míseros farrapos humanos. Desapareceu da circulação, isto é, deixou de ser comentada, quando seu pai, Henry Lovett, anunciou que havia morrido numa clínica americana. Por esse tempo, eu, veterano da guerra no mar, consegui o comando de um petroleiro da Anglo-Iranian, deixando o serviço de terra. Numa de minhas permanências em Lingahacha conheci Pat e casei-me com ela. Sabia, por rumores, que já existia o tal grupo de mulheres viciadas, chefiadas por uma tal Sarah Barrow, com jeito de sociedade secreta, amparada e temia pelos mais velhos. Jamais desconfiei, porém, que Alice estivesse viva e fosse a própria Sarah. Só fiz a ligação entre os dois nomes quando John Delancey mencionou a conversa de Virginia Seigel sobre Sarah. Virginia era amiga de Pat e aqui viveu muito tempo. A intuição me deu a chave do mistério. Corri até aqui e não encontrei minha esposa. Virginia deve saber de tudo, mas também desapareceu. Minha sogra, a única pessoa viva da família de Pat, está apavorada e nada me quis revelar. Apenas me informou que Pat desaparecera, levada por uma mulher muito pintada e vestida de branco. Tive que recorrer a um grupo de amigos de Nishkan, uma aldeia próxima, contrabandistas a quem tive oportunidade de servir, no passado. Disseram-me muitas coisas de Sarah Barrow, de sua legião de monstros na cruzada de vingança contra a Humanidade. Deram-me o endereço da casa apontada como sede da terrível sociedade. Fui lá, com um pressentimento, pois sentia que não era verdadeira a notícia da morte de Pat. Procurava arrancar minha mulher daquele antro tenebroso, O resto você sabe. Você viu o horror com seus próprios olhos. Eu acreditava que, sozinho, pudesse enfrentar as mulheres. Errei. Mas estou convencido de que Pat ainda vive, reclusa, seqüestrada por Sarah. Contei tudo aos meus amigos, depois que escapei pelo rio, ontem. Resolveram ajudar-me. Hoje, tentarei salvar minha mulher. Se não morrer, amanhã lhe darei notícias. Se John Delancey aparecer, mostre-lhe esta carta. Você estranhará por que procuro fazer justiça com minhas próprias mãos, mas é que a polícia local é lenta e inepta, e seus soldados têm medo das mulheres fantasmas, supersticiosos como são. Adeus. Bernard Curtir. O inspetor Maraghesi desfez o pesado silêncio que se seguiu: — Ele tem razão. Nossos soldados, alguns muito ignorantes, tremem com o nome de Sarah Barrow. Já pedi reforços ao Coronel Cadman, em Abadan, para o cerco de hoje. Não acredito que cheguem a tempo. É sempre um tal de Capitão O’Brien quem comanda a tropa, e parece-me um oficial inepto, descuidado, preguiçoso. Faz questão de chegar sempre atrasado, O coronel fica furioso, mas que adianta? Mal acabara de falar, o telefone tocou. Era da portaria. o inspetor ouviu um minuto e desligou, anunciando: — O Capitão O’Brien acaba de chegar de Abadan. Mas continua sendo um inepto! Sua tropa só chegará amanhã! Que adianta? A noite caiu. Tudo combinado, o inspetor Maraghesi não queria que Brigitte participasse da operação. Mulher bonita, dissera ele, não entrava em tiroteio! Mas não conhecia a força da repórter... Diante da ameaça de Bernard Curtis, de fazer justiça pelas próprias mãos, o inspetor resolveu partir mais cedo para o ataque. Mostraria que a polícia de Lingahacha não era assim tão medrosa! Além do mais, contava com.o auxílio do Capitão O’Brien, que se antecipara aos seus soldados e dos “comandos” nacionalistas de Salim Fasan e Mut Sacha, agora inclinados para o lado do Xá. — Esse bando de loucos me ajudará — afirmava, coçando a barbicha. — A gente tem que lutar com o material possível! Quem não tem cã caça com gato! Delancey juntou-se a ele na Delegacia e pediu para tomar parte na expedição. Brigitte e Noiso foram para o restaurante de Nagdi, aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Mas a repórter ficou indócil por se ver afastada do perigo e induziu Noiso a levá-la até a casa de seu primo, perto da praça, onde na noite anterior o nativo conseguira as Winchesters. — Tenho que ficar de olho — disse Brigitte. — Talvez só eu faça uma vaga idéia de quem é Cafar. E quero estar preparada para agarrá-lo! Ali, ao lado da casa de Sarah Barrow, poderiam observar de mais perto a operação. Viram quando a viatura de Ali Maraghesi deu uma volta pelo local, indo parar, por instante, numa das ruelas próximas do rio. O jipe de Brigitte ficara na frente do restaurante de Nagdi, garantindo a sua desculpa. Seguiu-se um silêncio expectante, de uma hora. Maraghesi já rumara para as cavernas de Yad-Morian. O Capitão O’Brien e Delancey esperavam. Dois carros pararam na praça e despejaram uma dezena de homens, armados com submetralhadoras. Fez-se um círculo, no estilo dos “comandos”, que se foi fechando cautelosamente em volta da casa de Sarah Barrow. Apenas o Capitão O’Brien resolveu ficar para trás e penetrar no reduto por outra entrada secreta, entre a casa e as cavernas. Brigitte e Noiso seguiram-no, já armados com duas novas Winchesters automáticas. Seguiram ao longo das choças dos nativos e atingiram a entrada de uma pequena gruta de pedra, na beira do rio. Aí, pararam. Nesse momento, o matraquear terrível das metralhadoras explodiu no silêncio, atingindo portas e janelas da casa de Sarah Barrow. Para surpresa dos “comandos”, o fogo foi respondido imediatamente. Seguiu- se um combate terrível. As mulheres mutiladas, secundadas por turmas de homens armados do bando de Cafar, todos vestidos com albornozes azuis, saíram da casa sinistra, cuspindo fogo. Ao clarão da metralha, Brigitte pôde vislumbrar, a distância, a figura loura de Bernard Curtis, também acompanhado por um grupo de combatentes, os seus amigos contrabandistas, O comandante queria mesmo entrar na casa, a ferro e fogo. Afinal, com os monstros acuados na grande sala do fundo onde estava a estátua de Ahriman, Bernard conseguiu penetrar, outra vez, no antro dos daevas. E teve uma grande surpresa! Uma voz, lá no fundo da terra, gritando por socorro! Era a voz do sua mulher, naturalmente presa num dos subterrâneos. Como alucinado, Curtis sapateava no assoalho e berrava: — Pat? Pat! Onde está você? Sou eu, Bernard! Vim salvá-la dessas taradas! Então, a voz chegou, como que das entranhas da terra, fanhosa mas reconhecível: — Bernard! Estou trancada aqui embaixo! Localizado o alçapão no assoalho imundo, junto ao altar do Ahriman, Curtis bradou: — Saia da frente, Pat! Vou abrir caminho a bala!Atirando na penumbra, abriu o alçapão e teve confirmadas suas terríveis suspeitas. Pat, sua querida Pat, tão bonita, tão suave, não passava agora de mais um monstro de Sarah Barrow! O rosto inteiramente desfigurado por ácidos! Cicatrizes, chagas terríveis! O nariz decepado! Um olho vazado! Aquele impacto quase o fez rugir de cólera. Avançou para o buraco, de pistola em punho, com um brilho assassino nos olhos. No subterrâneo, saiu em perseguição das megeras. Mas encontrou pela frente um vulto branco, de rosto excessivamente pintado, que se recortava contra a parede imunda. Não teve tempo de dar ao gatilho; a mulher de branco foi mais rápida e cobriu-o de metralha, numa rajada fatal. Também Pat, atingida, tombou inerte sobre o corpo ensangüentado de seu marido. Depois, silêncio e uma corrida vertiginosa da mulher de branco, para os fundos do subterrâneo. Súbito, uma explosão reboante, um tiro de Winchester. O vulto branco abateu-se como que fulminado. Das entranhas da terra tinham surgido Brigitte, Noiso e o Capitão O’Brien. E fora o jovem nativo quem matara Sarah Barrow. Pouco antes, nas grutas de Yad-Morian, o capitão guiara Brigitte e Noiso pelos complicados corredores subterrâneos, que iam dar na casa sinistra, O oficial marchava na frente, mantendo a pistola em riste, e Brigitte ia logo atrás, com a Winchester nas mãos. Noiso fechava a fila. — Cuidado com os pés, miss Montfort — avisou O’Brien. — Agora, vamos atravessar um charco de águas fétidas. Falta pouco para entrarmos, pelos fundos, no reduto dos monstros! Realmente, daí a pouco desembocavam no subterrâneo do pardieiro, justamente a tempo de assistir à morte de Bernard e Pat. E Noiso apertara o gatilho da sua Winchester, abatendo a mulher de branco. Brigitte debruçou-se sobre o cadáver de Alice Lovett, cujo rosto pintado era diferente daquele com que se apresentara na chácara, e arrancou-lhe a fina máscara de borracha que escondia suas verdadeiras feições. Estas eram horríveis, hediondas, deformadas pelo vício e pelas cicatrizes do desastre em que quase perdera a vida. — Ela usava uma pele pintada sobre o rosto — explicou a repórter. — Por isso, parecia ter muitas caras. Mas ainda não encontramos Cafar! O Capitão O’Brien assentiu. — Provàvelmente, escapou pelo rio. Ou, então, foi prevenido e não veio ao encontro. Nunca saberemos quem é Cafar! — Eu sei — retrucou Brigitte. — Cafar desconfiou da cilada, realmente, o preveniu-se, entrando aqui pelos fundos, numa tentativa de ajudar os seus asseclas. Fiquei muito admirada, capitão, ao ver que o senhor conhecia os meandros das cavernas de Yad-Morian. Só o próprio Cafar conheceria tão bem a topografia do local! O Capitão O’Brien ergueu a pistola, mas a reporter foi mais rápida e disparou sua Winchester, atingindo o militar na mão armada. A pistola caiu. * * * — Vá erguendo os braços, Cafar! — intimou Brigitte. — Sei que você é o tal que domina esses monstros! Não tente qualquer movimento em falso; puxo o gatilho em um segundo! E o KGB não está aqui para ajudá-lo! Já então os “comandos” de Ali Maraghesi entravam no subterrâneo, dominando a situação. O Capitão O’Brien não teve saída e entregou-se. Na outra extremidade da passagem subterrânea, o grupo foi encontrar John Delancey e outros “comandos”, responsáveis pela fuga de Sarah Barrow por aqu&le lado. Surpreenderam-se ao verem Brigitte surgir, armada de Winchester dominando o Capitão O’Brien, cuja mão pingava sangue. A repórter não comentou seu feito; apenas conferiu: — Não lhes disse que havia um subterrâneo? Ê um verdadeiro túnel natural. E aqui está o misterioso Cafar, ou seja, o Capitão O’Brien, sem máscara nem roupa preta! Ele está pronto para confessar a sua traição! O inspetor Maraghesi soltou um grunhido de espanto. Mas John Delancey foi mais calmo: — Imagine com que cara vai ficar o Coronel Cadman! Ele que é anticomunista ferrenho! Noiso interferiu, respeitosamente: — Seria melhor pedirmos a ajuda do povo. Há muitos cadáveres para serem enterrados. Mas foi o grupo de Salim Fasan e Mut Sacha que se encarregou da tarefa sinistra de transportar os cadáveres. Na praça, o povo se comprimia para ver a saída dos “fantasmas” de carne e osso. Tão de carne que sangravam. Na manhã seguinte, tudo serenado, a prisão do engenheiro Henry Lovett foi um ato de rotina. O velho chorava convulsivamente e pedia para ver o corpo de sua filha Alice, abatida no subterrâneo. Alice (ou Sarah Barrow) no esquife, sua cara medonha, repuxada por velhas queimaduras, parecia a encarnação do demônio, do próprio Buiti que perseguiu Zoroastro. Robert Lovett, informado dos fatos, pediu a Deus que tivesse misericórdia da alma de sua irmã. E derramou lágrimas quentes, sem mais palavras. O inspetor deu outras explicações sobre Henry Lovett, um homem alucinado pela filha, capaz de sujeitar-se a todos os seus caprichos, inclusive os do crime. Henry Lovett também não se poderia classificar como um homem normal; recolheram-no a um manicômio judiciário. * * * E a missão econômica soviética que esperava encontrar um Xá dócil aos interesses imperialistas do Kremlin, voltou para Moscou sem ter conseguido o controle do petróleo do Irã. No meio de tudo isto, só o jovem Noiso não parecia feliz. Afeiçoara-se à bela jornalista americana de tal modo, que a esta não custou pouco trabalho consolá-lo da mágoa que antecipadamente senti por sua ausência. John Delancey e o Coronel Cadman fizeram insistentes apelos a Brigitte para que permanecesse alguns dias mais em Abadan, embelezando a paisagem. Queriam ter uma chance, por certo. Até o inspetor Maraghesi- ficara de olho aceso. Mas a bela repórter já se comunicara com seu chefe Miky Grogan e recebera um telegrama com instruções sobre sua nova missão: — Atenas! Uma repórter bonita não se detém nas cidades conquistadas. E Abadan já era, para ela, uma praça vencida... A SEGUIR: