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ICONOGRAFIA RELACIONADA A PESTE ENTRE OS SÉCULOS XIV E XVI: PENSANDO A MORTE A PARTIR DAS IMAGENS Marina Barbosa do Rego Silva Universidade Federal Fluminense marinabarbosa.rs@gmail.com Resumo O seguinte artigo tem como objetivo apresentar os esforços iniciais da minha pesquisa de doutorado, voltada para analisar as relações entre as representações da morte e o medo construído a partir do contexto da crise de Peste negra que se iniciou no século XIV. As fontes utilizadas para análises partem das imagens religiosas com a temática da morte pintadas pelo pintor Rafael Sanzio, contudo a proposta do artigo é ampliar o espectro de obras com a temática da morte. Não concentrar a escolha das fontes nas obras de Rafael é uma decisão para que a partir de uma abordagem comparativa seja analisada as imagens que se propõem a representar a morte por diferentes escolhas compositivas, pictóricas e abordagens de como construir os símbolos relacionados à morte. Neste trabalho também é discutido as relações do homem com a morte, sobretudo centralizando o debate no contexto das epidemias de peste bubônica e de quais maneiras é possível dimensionar e analisar os efeitos psicológicos nos homens que conviveram por longos anos com a presença da doença. Neste sentido é apresentado uma inicial proposta de análise sobre as causas da morte do pintor Rafael Sanzio e os possíveis contatos que ele teve com a peste. Palavras-chave: Peste negra; Iconografia; Morte Introdução A morte é fiel companheira do homem. O mistério que toda sociedade busca lidar. Em determinados períodos ela se torna iminente, uma constante, presente no imaginário humano em maior frequência. Em um contexto de fragilidade da vida, como em guerras ou epidemias, a presença da morte se torna regular, por vezes até naturalizada. Desenvolvi o projeto de pesquisa de doutorado com o propósito de pesquisar as relações entre imagem e morte no contexto da crise epidêmica da Peste negra entre os séculos XIV e XVI. Os surtos de doença, epidemias e pandemias possuem uma notável presença na história da humanidade. No período medieval, a temática da morte pode ser encontrada em diversas esferas da sociedade. Ela passa a ser presente nas expressões artísticas, na literatura, nas cantigas, e nas imagens. O contexto de proeminência da morte que proponho analisar é da crise Dinopc Realce que se inicia no século XIV e que impulsionou o desenvolvimento de imagens com a temática da morte. O conjunto documental levantado compreende as imagens produzidas entre os séculos XIV e XVI, chegando ao Renascimento, movimento artístico, literário e científico que se desenvolveu no cenário de tentativa de recuperação da epidemia de Peste bubônica. As imagens elencadas como corpus documental são representações da morte a partir de diferentes pontos de vista, neste artigo pretende-se analisar e estabelecer uma comparação entre os diversos meios de se retratar o mesmo tema. O objetivo deste artigo é trazer uma reflexão inicial sobre os caminhos que minha pesquisa de doutorado poderá percorrer. Quais caminhos a crise de peste negra percorreu para resultar no renascimento italiano? Como se desenvolveu a relação da peste com o Renascimento? Relações entre a epidemia de Peste negra e o desenvolvimento do Renascimento A doença chegou na região da península itálica pela cidade de Pisa, vinda do Oriente. A Peste negra possuía uma alta letalidade e rapidez na evolução da doença, o número de mortos foi muito grande. A doença tinha igual potência de atingir os indivíduos, dessa forma não fazia muita diferença a qual categoria social pertenciam os homens e mulheres, todos estavam sob o risco constante da morte pela peste. Camponeses, nobres e o clero, todos estavam diante do medo da peste. A constante presença da morte é um fator que intensifica as práticas religiosas neste período. Na Idade Média o simbólico e o imaginário exerciam um grande poder sobre as pessoas. Muitas teorias foram desenvolvidas a fim de buscar uma justificativa e origem para a peste, tais teorias convergiam e divergiam das posturas adotadas pela Igreja sobre a epidemia. A crise que a doença causou era vista como um castigo imposto por Deus, e relacionada com teorias escatológicas, como o Juízo final. A doença era entendida como um sinal da proximidade do fim do mundo, com isso o medo e a necessidade de estar preparado para esses eventos aumenta. A extrema unção era um dos sacramentos instituídos pela Igreja, trata-se de um rito coordenado pelo sacerdote a fim de melhor preparar o doente para a morte, perdoá- lo de seus pecados e assim ter sua alma pronta para o reino de Deus. A demanda por este Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce sacramento aumentou durante os períodos de crise da doença, levando os sacerdotes ao contato direto com doentes, muitos padres contraíam a doença e com isso contaminavam os demais clérigos do mosteiro. A contaminação de padres e monges, resultou em uma escassez de sacerdotes. Afetando as práticas religiosas, que nesse período, foram intensificadas. A historiadora da arte Tamara Quiríco1, em seu artigo sobre a peste negra e escatologia, aborda a questão da busca de uma justificativa para a epidemia. A ira de Deus, o antissemitismo, a xenofobia e a busca por mitos são apontadas como algumas das possíveis causas da peste. Alguns relatos bíblicos podem ter sido utilizados para fundamentar a ideia de que Deus havia mandado a peste como forma de castigo para os homens. A busca por uma explicação religiosa que fundamente a presença de uma epidemia demonstra o aumento da demanda da religião em tempos de crise, mostra o quanto o psicológico das pessoas que viviam aquele momento poderia estar afetado diante do cenário de horror e morte. A bibliografia sobre a peste evidencia que as práticas religiosas só aumentaram, contudo, a mortalidade de monges e padres também cresceu. Uma solução oferecida pela Igreja foi acelerar o treinamento de novos padres e monges para que a procura por sacerdotes fosse alcançada, a sociedade precisava dar continuidade às suas práticas religiosas. Porém a aceleração na formação de sacerdotes resultou no despreparo destes - segundo o artigo How did the Bubonic Plague make the Italian Renaissance possible?- aumentando os casos de corrupção, diminuindo a legitimidade da Igreja, abrindo espaço para uma educação menos dependente da religião. A descentralização da educação, deixando de ser exclusivamente um domínio da Igreja abriu caminhos para a valorização de experiências humanas, e o desenvolvimento dos ideais humanistas que foram fundamentais para o movimento do Renascimento. O contexto da Peste foi um dos fatores que contribuiu para o desenvolvimento do Renascimento, dado que a crise sanitária impactou na vida religiosa causando modificações nas estruturas da Igreja, na formação religiosa. Os impactos econômicos causados pela epidemia também influenciaram no movimento. A peste atingiu a todos sem distinção de categoria social. Desde os nobres aos camponeses, passando pelo clero, 1 QUÍRICO, Tamara. Peste Negra e escatologia: os efeitos da expectativa da morte sobre a religiosidade do século XIV. ROSSATTO, Noeli Dutra (org.). Mirabilia 14. Mística e Milenarismo na Idade Média. Jan- Jun 2012/ISSN 1676-5818. Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce todos poderiam ser atingidos pela doença. Tratando-se especificamente dos nobres, estes sofreram significativos impactos com a grande mortalidade da doença. A diminuição da população significava uma redução da arrecadação de impostose aluguéis das terras dos nobres, não desconsidero a complexidade que este tema exerce principalmente para as pesquisas que envolvem história econômica, porém não é viável para os objetivos deste artigo nos aprofundarmos neste tema. Em consequência, a diminuição de renda afetou muitos desses nobres, que tiveram suas terras compradas por comerciantes e trabalhadores urbanos. Nesse cenário ocorreu a ascensão de uma nova elite burguesa, formada por comerciantes, banqueiros e integrantes de outras categorias sociais que buscavam por posicionamento social mais elevado. Uma das atividades buscadas pela burguesia ascendente era o patrocínio de obras de artes. O movimento Renascentista trouxe às imagens o status de obra de arte e de representação de poder, de lugar exclusivo onde seu uso era feito apenas por quem possuía a possibilidade econômica de ter acesso a ela. Ter obras de arte ou fazer doação delas para a Igreja era uma demonstração de riqueza e de autoridade, era uma tentativa da burguesia se assemelhar com a aristocracia. O patrocínio das artes, ou mecenato era a prática de financiar o trabalho de artistas e intelectuais a fim de reafirmar o seu poder diante da sociedade. A família Medici em Florença é exemplo que representa a burguesia ascendente durante o pós-crise do século XIV. A família de banqueiros dominou Florença durante os séculos XV e XVI, estendendo também seu poder pela região da Toscana. O mecenato exercido por eles foi fundamental para impulsionar o Renascimento e aumentar o volume de obras de artes produzidas, e de reformas urbanas com o desenvolvimento da arquitetura das cidades, construção de igrejas e palácios. Discorrer sobre o mecenato é importante para pensarmos sobre as intencionalidades da produção de uma imagem. O artista não concentrava em si a liberdade de escolher os temas representados em suas obras, essas escolhas eram feitas pelo cliente previamente, cabendo ao artista a preocupação quanto a técnica, escolhas pictóricas e composição. A construção de imagens não estava na esfera de controle do artista. O que era pintado, esculpido ou construído pode ser entendido como reflexo das demandas sociais da época. Dinopc Realce Após a grande crise do século XIV, a recuperação italiana tem como produto o movimento renascentista. As modificações, como já dito, foram de âmbito social, cultural, econômico e religioso. A mobilidade social também influenciou no poder exercido pela Igreja. A burguesia patrocinou a construção de muitas igrejas e obras de arte com a temática religiosa. Tudo isso fortaleceu o Renascimento que, apesar de ter fundamentação humanista e valorização antropocêntrica, não rompeu com as tradições religiosas. Pelo contrário, o Renascimento fortaleceu relações da categoria social dos artistas, antes pouco valorizada, com o clero e toda a instituição. A arte renascentista aproximou o homem do divino, e a Igreja foi grande incentivadora do movimento. A historiografia evidencia que a epidemia de peste negra se iniciou no século XIV, mais precisamente em 1348. Apesar da grande crise da doença ter ocorrido neste século, a doença não foi erradicada e permaneceu no contexto sanitário da Europa pelo menos até o século XVII. Portanto, é possível que os artistas dos séculos XV e XVI tenham em algum momento de suas vidas enfrentando alguma cena relacionada à doença. O Renascimento não se insere em cenário pós-epidêmico, mas sim dentro de um contexto em que a epidemia acontecia em ciclos com picos na taxa de mortalidade, variando a cada 2 até 20 anos. A morte nas imagens dos séculos XIV ao XVI Uma vez que a morte pela peste não assombrava apenas os homens do século XIV, ela também continua sendo tema recorrente das produções artísticas nos séculos XV e XVI. O artista que tenho como principal referência de produção imagética é o pintor Rafael Sanzio. Selecionei as imagens com temática da morte produzidas por Rafael, contudo considerei a importância de ampliar o conjunto documental e não atribuir exclusividade para Rafael nesta pesquisa. A procura por imagens de outros autores e até mesmo de um período anterior ao de Rafael poderá fundamentar a minha análise sobre as relações construídas entre o medo da morte e as práticas religiosas por meio das imagens com esta temática. As imagens que selecionei foram elencadas para, a partir de uma análise iconográfica comparativa, refletir sobre a morte representada por Rafael. Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Há um grande volume de imagens com essa temática sendo produzidas neste período, tendo a Igreja ou burguesia como mecenas, cada imagem possui uma trajetória e conta uma história de quem a encomendou, onde ela seria exposta, qual seria sua temática principal, suas proporções. Rafael foi um artista que produziu para esses dois financiadores, sobretudo para a Igreja, a qual o pintor mantinha estreitas relações. A morte pode estar presente em uma imagem de diversas formas. Há a morte representada com o recurso do horror devido aos corpos decompostos, a morte podre e degradante, a morte como um personagem normalmente simbolizada por esqueletos que performam uma dança, que estão “vivos” e possuem movimento e a representação da morte de Cristo. A partir do século XII, junto com a crescente valorizaçaõ do homem, foi atribuída a Deus uma materialidade humana nas representações iconográficas. Os santos já possuíam essa materialidade, contudo sua produçaõ iconográfica foi intensificada. A temática e materialização do sagrado se tornaram recorrentes. Voltada para demonstrar o mistério, tanto de Deus como homem como dos homens santos que possuíam o poder de curar, de operar milagres e de repelir doenças. A partir de 1350, a morte passou a integrar os temas frequentemente representados na iconografia. O símbolo estabelece uma ligaçaõ entre o real e o transcendente, o significado desses símbolos tem relaçaõ com a sociedade que o produziu, eles refletem as estruturas sociais, culturais, econômicas de um período. A iconografia religiosa e seu culto saõ símbolos que podem representar o medo da morte. Segundo Ariès, os temas relacionados à morte estão intensamente presentes na iconografia do século XIV ao século XVII, mesmo período de presença da peste bubônica. Os elementos macabros, presentes na iconografia, estão inseridos num contexto e perspectiva de crise. As danças macabras, por exemplo, surgem no contexto da crise do século XIV e podem ser interpretadas como uma expressão dos cenários de horror vividos pela disseminação da doença no continente europeu. Para Jaqueline Pereira2, uma via de análise para as danças macabras é o caráter da dança como um meio de comunicação, de expressão de angústias, medos e os sofrimentos diante da morte. A iconografia macabra 2 PEREIRA, Jaqueline da Silva Nunes. Um estudo da dança macabra por meio de imagens. II Encontro Nacional de Estudos da Imagem. P. 801 - 810. Londrina, Paraná, 2009. Disponível em:http://www.uel.br/eventos/eneimagem/anais/trabalhos/pdf/Pereira,%20Jacqueline%20da%20silva.pdf. Acesso em: 23/11/2020 Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce possui um sentido voltado para o pessoal, para os sentimentos, ela alcança a esfera íntima do homem direcionada para a morte, fazendo questão de lembrar o que o espera. Figura 1 Hartmann Schedel. Dança Macabra Nuremberg Chronicle. Xilogravura, 1493. A representação da morte de forma mais macabra também se relaciona aos ritos fúnebres. As formas como o morto é tratado, posicionado, o quanto do seu corpo deve estar a mostra, por quantos dias esse corpo será velado, todas essas questões apresentam significados e importância e aparecem nasimagens. Um pouco diferente do século XIV e dos temas macabros, encontramos na iconografia dos séculos XV e XVI a temática do bem morrer. A morte passa a ser representada como algo aguardado, o homem se prepara para encontrá-la. E por preparo é preciso considerar as práticas religiosas como parte importante da organização do bem morrer. No painel “A morte do Avarento” de Bosch, a morte aparece se aproximando do leito do doente. Contudo, há também a figura de um anjo, elemento que reforça a importância da presença da religiosidade nos ritos pré e pós-morte. “O ‘enfermo que jaz no leito’ das artes moriendi, naõ demonstra estar nos últimos extremos.”3 Segundo o autor, a representação do doente não é necessariamente construída de forma debilitada ou sem qualquer vitalidade. Nesta imagem, a figura do homem que é surpreendido pela 3 ARIÉS, 2012, p. 136 Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce chegada da morte em seu quarto é representada com a energia e certa força que ainda possui, mostrando a consciência do momento que está posicionado. Figura 2 Hieronymus Bosch. A morte do Avarento. Óleo sobre madeira, 1494. National Gallery of Art, Washington, EUA A iconografia religiosa também pode conter simbologias da morte, e a partir delas é possível estabelecer análises de outra perspectiva diante do medo da morte, relacionada ao exercício da religiosidade, do culto aos santos e a Deus. Tais imagens podem não simbolizar a morte por meio da decomposição, do horror ou dos elementos macabros, mas através da exaltação do corpo de Cristo morto, da construção do belo a fim de promover o escapismo das alegorias, símbolos macabros e de sofrimento. As imagens produzidas por Rafael estão mais dentro desse espectro. O pintor era reconhecido por seu poder de harmonizar, e pela composição voltada para o belo, a partir de escolha de cores vivas, da sutileza dos traços que formam os corpos humanos e do uso da luz. Segundo Eva-Bettina Krems4, há a possibilidade de Rafael ter sido acometido pela peste, ainda que não tenha consenso sobre a causa de sua morte. Na biografia escrita por 4 KREMS, Eva-Bettina. The plague as a transitory moment: Raphael and Raimondi. University of Münster Exzellenzcluster „Religion & Politik. Dinopc Realce Dinopc Realce Vasari, a morte do pintor é relacionada ao comportamento social de Rafael. O biógrafo do Renascimento destaca os envolvimentos amorosos do pintor e aponta que após dias de romance, Rafael retornou para Roma doente. Porém, Giorgio Vasari não define de qual doença se tratava, apenas relata o quanto o artista estava abatido e que não conseguiu se recuperar com os tratamentos que lhe foram dados, levando-o a óbito precocemente, aos 37 anos. Para Krems, as causas apontadas podem ser sífilis, malária ou a peste. Figura 3 Rafael Sanzio. Ressurreição de Cristo, 1499-1502. Óleo sobre madeira. MASP, São Paulo, Brasil. O artigo Epidemics in Renaissance Florence5 traz uma análise quantitativa sobre a epidemia de peste negra em Florença. No artigo, dados de uma tabela demonstram que nos anos da vida de Rafael, alguns deles foram anos de aumento do contágio da doença na cidade. Segundo Vasari, entre 1504 e 1508, Rafael permaneceu em Florença, e o ano de 1505 é destacado na tabela do artigo como um ano de alta na taxa de mortalidade, principalmente de pessoas na faixa etária entre os 20 e 59 anos. Tomando como base tais dados, conclui-se que Rafael esteve em contato com a epidemia, podendo ter pessoas acometidas pela doença em seu convívio. Entre 1508 e 1520, Rafael viveu em Roma. 5 KIRSHNER, Julius; MOLHO, Anthony; MORRISON, Alan S.; . Epidemics in Renaissance Florence. MJPH may 1985, vol. 75, no. 5 Um desenho datado de 1515 é atribuído a Rafael, ele foi transformado numa gravura em placa de cobre feita por Marcantonio Raimondi, gravador italiano. A peste é a temática desta obra, contudo não se trata da peste que atingiu a Europa a partir do século XIV. O desenho de Rafael representa uma narrativa da antiguidade. Trata-se da praga que atingiu Creta. A narrativa do pintor se baseia em um trecho do poema épico Eneida; nele, uma praga atinge a ilha grega, levando muitas pessoas à morte. No poema, Enéas – personagem da mitologia greco-romana – recebeu uma profecia de que Creta não era o lugar em que ele deveria se fixar, devendo ir para a Itália, e por isso foi avisado de seu erro por meio da doença que atingiu a ilha. Figura 4 Rafael Sanzio; Marcantonio Raimondi. A praga em Creta, 1515-1516. Gravura em placa de cobre. Ainda que a narrativa seja da antiguidade, a composição da cena muito se assemelha com as imagens da peste a partir do século XIV. Corpos amontoados, a falta de um destino para os mortos e o movimento de desespero que aqueles que ainda estão vivos demonstram passar. A presença da morte como temática das imagens é latente ainda no século XVI. Mesmo que não possamos afirmar a causa da morte de Rafael, é possível concluir que ele viu os horrores da peste e também retratou os efeitos da doença. Durante esse período, o tema ainda aparece através de outros símbolos, principalmente ligados a religiosidade católica. Os cultos marianos e a São Sebastião são também associados à morte. Maria, por exemplo, era vista como uma fonte muito poderosa de “reparação espiritual”. Rafael foi reconhecido por ter pintado um significativo número de madonas. A mãe de Jesus representava uma figura de grande compaixão, sem associação com ira ou punição. Para Louise Marshal6, as imagens da virgem também podem estar associadas ao cenário degradante da epidemia e a representação de elementos belos podem indicar uma fuga da maneira como a morte vinha sendo imageticamente construída há pelo menos dois séculos. Ainda segundo a autora, as imagens geradas pela experiência ou expectativa da doença e da morte são um recurso pouco explorado. Para ela, faltam estudos sobre os impactos psicológicos cumulativos devido às recorrentes epidemias. Mas de que maneira é possível dimensionar tal influência na esfera emocional dos homens do período baixo medieval? A partir do século XVI, a representação da morte assume uma característica menos degradante, até mesmo sedutora, onde morrer é um momento por vezes desejado pelo homem. Neste período, as imagens não representam somente a expressaõ do medo coletivo que envolvia a incógnita do fim da vida física, mas também simbolizavam a possibilidade de uma vida eterna, subjetiva e celeste. O século XIV marca o início de uma fase caracterizada pela falta de otimismo na vida, devido ao grande número de pessoas acometidas pela peste. Havia uma tensaõ entre as formas de vida ideal que se apresentavam até entaõ na cultura literária e a realidade, que passou a ser relacionada ao medo e à deterioraçaõ que a morte causada pela peste negra gerou nas pessoas. O materialismo, que exaltava o belo e que direcionava a arte na busca pela perfeiçaõ no movimento renascentista, lidou durante a crise da peste com o fim da beleza que deu lugar ao apodrecimento do corpo, à representaçaõ das doenças, da morte. Mas a morte não é abandonada pela iconografia, há uma diferente forma de representá-la. Em Rafael, por exemplo, encontramos a morte em suas obras, mas as 6 MARSHALL, Louise. Manipulating the Sacred: Image and Plague in Renaissance Italy. Renaissance Quarterly, Vol. 47, No. 3 (Autumn, 1994), pp. 485-532. The University of Chicago Press on behalf of the RenaissanceSociety of America Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce Dinopc Realce técnicas desenvolvidas e principalmente o uso da luz direciona a temática mais para o campo do belo do que do horror. Figura 5 Rafael Sanzio. A deposição, 1507. Óleo sobre madeira. Galleria Borghese, Roma, Itália. Ao analisar imagens com a temática religiosa, é indevido desconsiderar o caráter metafísico atravessado nelas; as obras possuem um apelo sentimental, afetam no sensível e promovem íntimas relações entre observador e observado. A imagem possui potência de afetaçaõ no sujeito, o entendimento de sua trajetória no imaginário carrega uma grande importância para a compreensaõ de seus efeitos na sociedade medieval. Elas representam relações de poder e de legitimaçaõ dos objetivos religiosos de tal sociedade. Mas, quais seriam os objetivos em representar a morte? Independentemente das formas pelas quais ela pode ser representada, seja com foco no macabro, na decomposição, nas alegorias, no belo ou no religioso, dentro de todas essas possibilidades se encontra a morte. Ela é familiar, é conhecida, temida e esperada, é uma das bases da narrativa da liturgia cristã. Por que representar o que é temido? Possivelmente, porque o Dinopc Realce Dinopc Realce medo não era o único sentimento que se relacionava com a morte. A iconografia representa um espectro de sentimentos que circulam em torno dela. Dinopc Realce Referências bibliográficas ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Da idade média aos nossos dias. [Ed. especial]. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2012. CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos avançados, vol.5, nr.11, jan/abr. 1991, p. 173 – 191. FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade média: nascimento do ocidente. São Paulo, Brasiliense, 2001. KIRSHNER, Julius; MOLHO, Anthony; MORRISON, Alan S.; Epidemics in Renaissance Florence. MJPH may 1985, vol. 75, no. 5 How did the Bubonic Plague make the Italian Renaissance possible? Disponível em: https://dailyhistory.org/index.php?title=How_did_the_Bubonic_Plague_make_the_Itali an_Renaissance_possible%3F&oldid=20345 Acesso em: 25/01/2021 KREMS, Eva-Bettina. The plague as a transitory moment: Raphael and Raimondi. 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