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Universidade Federal de Viçosa Centro de Ciências Humanas Departamento de Economia 1 Material de estudo IDENTIFICAÇÃO Disciplina: Introdução à economia Código: ECO - 270 Créditos: 04 Professora: Michelle Márcia Viana Martins (michelle.viana@ufv.br) Pensando como um economista Introdução Cada campo de estudos tem sua própria linguagem e maneira de pensar. Os matemáticos falam de axiomas, integrais e espaços vetoriais. Os psicólogos falam de ego, identidade e dissonância cognitiva. Os advogados falam de leis, contratos e burocracias. Na economia não é diferente, oferta, demanda, equilíbrio, elasticidade, vantagem comparativa, bem-estar social e trade offs são alguns dos termos que fazem parte da linguagem dos economistas. Seriam esses os termos técnicos que, à primeira vista, pode parecer desnecessariamente enigmática, mas, tem valor por proporcionar uma maneira nova e útil de pensar sobre o mundo em que vivemos. O principal objetivo desta disciplina é ajudar você a aprender a maneira de pensar do economista. Assim como ninguém se toma um matemático, psicólogo ou advogado da noite para o dia, aprender a pensar como um economista leva algum tempo. Mas uma combinação de teoria, estudos de caso e exemplos de economia nas notícias, oferece uma oportunidade para o desenvolvimento e para a prática dessa habilidade. Antes de entrar na substância e nos detalhes da teoria econômica, é pertinente ter uma visão geral de como os economistas encaram o mundo. Nesta aula são discutidas algumas metodologias utilizadas no campo da economia. O que distingue a maneira como os economistas enfrentam um problema qualquer? O que significa pensar como um economista? O economista como cientista Os economistas procuram abordar seu campo de estudo com a objetividade dos cientistas, ou seja, estudam a economia da mesma forma como um físico estuda a matéria e um biólogo estuda a vida: eles desenvolvem teorias, colhem dados e os analisam na tentativa de confirmar ou refutar suas teorias. Para os iniciantes, pode parecer estranho afirmar que a economia é uma ciência, afinal de contas os economistas não trabalham com tubos de ensaio nem telescópios. Mas a essência da ciência é o método científico - o desenvolvimento e o teste imparcial de teorias sobre como funciona o mundo. Esse método de investigação aplica-se tanto ao estudo da economia de um país quanto ao estudo da gravidade da Terra ou da evolução das espécies. Como disse Albert Einstein, "A ciência nada mais é do que o refinamento do pensamento cotidiano". Embora o comentário de Einstein seja verdadeiro tanto para as ciências sociais, como a economia, quanto para as ciências naturais, como a física, a maioria das pessoas não está habituada a enxergar a sociedade com os olhos de um cientista. Assim, aqui é discutido como os economistas aplicam a lógica da ciência com o objetivo de examinar o funcionamento de uma economia. O método científico: observação, teoria e mais observação Isaac Newton, reconhecido cientista e matemático do século XVII, ficou intrigado um dia ao ver uma maçã cair da árvore. Essa observação o levou a desenvolver uma teoria da gravidade que se aplica não só a uma maçã que cai no chão, mas também a qualquer objeto no universo. Testes 2 posteriores da teoria de Newton demonstraram que ela funciona muito bem em diversas circunstâncias (embora, como mais tarde observaria Einstein, não em todas). Por ter sido muito bem-sucedida para explicar observações, a teoria de Newton é até hoje ensinada em cursos de física em todo o mundo. Essa interação entre teoria e observação também ocorre no campo da economia. Um economista poderia viver em um país que passa por rápidos aumentos de preços e ser levado por essa observação a desenvolver uma teoria da inflação. A teoria poderia afirmar que a inflação elevada surge quando o governo emite muita moeda. Para testar essa teoria, o economista poderia coletar e analisar dados sobre preços e moedas em diferentes países. Se o aumento na quantidade de moeda não estiver relacionado com a taxa de crescimento dos preços, o economista começaria a duvidar da validade de sua teoria da inflação. Se o aumento na quantidade de moeda e a inflação estiverem fortemente correlacionados nos dados internacionais, como de fato ocorre, o economista passaria a confiar mais em sua teoria. Embora os economistas usem a teoria e a observação da mesma maneira que os outros cientistas, eles enfrentam um obstáculo que torna sua tarefa especialmente difícil: na economia, conduzir experimentos é difícil e, às vezes, impossível. Os físicos que estudam a gravidade podem deixar cair quantos objetos quiserem para gerar dados a fim de testar suas teorias. Em comparação, os economistas que estudam a inflação não podem manipular a política monetária de um país (ou seja, a emissão de moeda) simplesmente para gerar dados úteis. Os economistas, assim como os astrônomos e biólogos que estudam a evolução, em geral têm de se satisfazer com quaisquer dados que o mundo possa lhes dar. Para encontrar um substituto para os experimentos em laboratório, os economistas prestam muita atenção aos experimentos naturais que a história oferece. Por exemplo, quando uma guerra entre Rússia e Ucrânia interrompe os fluxos de petróleo, gás natural, fertilizantes, milho e trigo, os preços dessas mercadorias “explodem” em todo o mundo. Para os consumidores desses bens, o cenário de guerra reduz o padrão de vida, pois pagarão mais para consumirem a mesma quantidade de bens, você deve lembrar do caos gerado pelo aumento do preço dos combustíveis em 2022, certo? Para os formuladores de políticas econômicas, os efeitos da guerra representam uma escolha difícil quanto à melhor forma de reagir para amenizar os desdobramentos negativos do desabastecimento de certos produtos e seu consequente aumento de preço. Para os cientistas econômicos, por outro lado, o episódio de guerra oferece uma oportunidade para estudar os impactos da falta de certos produtos essenciais (como os combustíveis) sobre as economias do mundo. Na disciplina serão tratados muitos episódios históricos, os quais são importantes para o estudo da economia, porque permitem verificar como as economias funcionaram no passado e, o que é mais importante, ilustrar e avaliar as teorias econômicas do presente e futuro. O papel das hipóteses Se você perguntar a um físico quanto tempo levaria para uma bolinha de gude cair do alto de um edifício de dez andares, ela provavelmente responderá à questão supondo que a bolinha cai no vácuo. Naturalmente, essa suposição é falsa. Na verdade, o edifício está cercado de ar, cujo atrito sobre a bolinha em queda reduz sua velocidade. Mas a física esclarecerá, corretamente, que o atrito sobre a bolinha é tão pequeno que seu efeito é insignificante. Admitir que a bolinha cai no vácuo simplifica em muito o problema sem afetar substancialmente a resposta. De forma similar, os economistas adotam hipóteses pelo mesmo motivo: elas podem simplificar o mundo complexo em que vivemos e torná-lo mais fácil de entender. Para estudarmos os efeitos do comércio internacional, por exemplo, podemos supor que o mundo consiste em apenas dois países e que cada um produz apenas dois bens. É claro que o mundo real é composto de vários países, e cada um deles produz milhares de diferentes tipos de bens. Entretanto, quando adotamos a hipótese de dois países e dois bens, é possível concentrar na essência do problema. Uma vez que entendido o comércio internacional em um mundo imaginário com dois países e dois bens, tem-se melhores condições de entender o comércio internacional no mundo mais complexo. 3 A arte do pensamento científico - em física, biologia ou economia - está em decidir quais hipóteses adotar. Vamos supor que deixaremos cair uma bola de praia do alto do edifício em vez de uma bolinhade gude. Os físicos perceberiam que a suposição de não fricção é menos precisa nesse caso: a fricção exerce uma força maior sobre a bola de praia do que sobre a bolinha de gude pelo fato de a bola ser muito maior. A hipótese de que a gravidade opera no vácuo é razoável para estudar a queda de uma bolinha de gude, mas não de uma bola de praia. Da mesma forma, os economistas usam diferentes hipóteses para responder a diferentes questões. Vamos supor que queremos estudar o que acontece com a economia quando o governo muda a quantidade de moeda em circulação. Uma parte importante dessa análise, como veremos, é a maneira como os preços reagem quando o governo “imprime dinheiro”. Alguns preços mudam de forma mais lenta, por exemplo, os preços dos aluguéis, que são definidos em contratos com validade de um ano, normalmente. O preço da carne, no entanto, pode ser alterado em dias, bem como o gás de cozinha ou a passagem de ônibus. O conhecimento desse fato pode levar os economistas a formularem diferentes hipóteses sobre os efeitos da mudança da política em diferentes horizontes de tempo. Para estudar os efeitos de curto prazo, pode-se supor que alguns preços mudam pouco. Pode-se até formular uma hipótese extrema e artificial de que todos os preços são completamente constantes em um curto período de tempo. Os efeitos de longo prazo, entretanto, pode pautar na hipótese de que todos os preços são completamente variáveis. Assim como um físico usa diferentes hipóteses para estudar a queda de bolinhas de gude e de bolas de praia, os economistas utilizam diferentes hipóteses para estudar os efeitos de curto e longo prazo de uma mudança na quantidade de moeda. Modelos econômicos Os professores de biologia do ensino médio ensinam anatomia básica com réplicas plásticas do corpo humano. Esses modelos apresentam apenas os principais órgãos - o coração, o fígado, os rins, e assim por diante, omitindo as artérias, veias, músculos, etc. Essa simplificação permite que os professores mostrem para seus alunos, de uma maneira mais fácil, como as principais partes do corpo encaixam-se umas nas outras. Como esses modelos de plástico são estilizados e omitem muitos detalhes, ninguém os confundiria com uma pessoa. Mas, apesar dessa falta de realismo - e, na verdade, por causa dessa falta de realismo - estudar os modelos é útil para aprender como funciona o corpo humano. Os economistas também usam modelos para aprender sobre o mundo, mas, em vez de serem feitos de plástico, os modelos econômicos são compostos de diagramas e equações. Como o modelo de plástico dos professores de biologia, os modelos econômicos omitem muitos detalhes para permitir que vejamos o que realmente importa. Assim como o modelo do professor de biologia não mostra todos os músculos e vasos capilares do corpo, os modelos dos economistas não incluem todas as características da economia. Ao usarmos modelos para examinar diversas questões econômicas ao longo da disciplina, você verá que todos eles são construídos com hipóteses. Da mesma maneira que um físico inicia a análise de uma bolinha de gude em queda supondo que não haja atrito, os economistas adotam hipóteses para muitos dos detalhes da economia que são irrelevantes para o estudo da questão analisada. Todos os modelos - em física, biologia ou economia - simplificam a realidade para que possamos compreendê-la melhor. Divisão do estudo econômico Muitos assuntos são estudados em diferentes níveis. Vamos considerar a biologia, por exemplo. Os biólogos moleculares estudam os compostos químicos que compõem os seres vivos. Os biólogos celulares estudam as células que são feitas de muitos compostos químicos e são, ao mesmo tempo, os elementos que compõem os organismos vivos. Os biólogos evolutivos estudam as muitas variedades de plantas e animais e como as espécies mudam gradualmente com o passar dos séculos. A economia também é estudada em diversos níveis. Podemos estudar as decisões de famílias ou empresas, tomadas individualmente. Ou a interação entre famílias e empresas nos mercados de bens e serviços específicos. Ou a operação da economia como um todo, que é a soma das atividades de todos os tomadores de decisões em todos os mercados. 4 A teoria econômica representa um só corpo de conhecimento, mas os objetivos e métodos de abordagem podem diferir, de acordo com a área de interesse do estudo. Por isso, o campo da economia divide-se tradicionalmente em dois amplos subcampos: ▪ Microeconomia ou Teoria microeconômica: estuda o comportamento das unidades econômicas básicas: consumidores e produtores e o mercado no qual interagem. Preocupa-se com a determinação dos preços e quantidades em mercados específicos. ▪ Macroeconomia ou Teoria macroeconômica: estuda a determinação e o comportamento dos grandes agregados, como PIB, consumo nacional, investimento agregado, exportação, nível geral dos preços (inflação), etc., com o objetivo de delinear uma política econômica. A macroeconomia, por um lado, tem um enfoque conjuntural, isto é, preocupa-se com a resolução de questões como inflação e desemprego, a curto prazo. Por outro, trata de questões estruturais, de longo prazo, estudando modelos de desenvolvimento que levam à elevação do padrão de vida (bem-estar) da coletividade. Esse enfoque de longo prazo é denominado de Teoria de Desenvolvimento Econômico. A micro e a macroeconomia estão intimamente ligadas. Como as mudanças na economia como um todo resultam das decisões de milhões de pessoas, é impossível entender os desdobramentos macroeconômicos sem considerar as decisões microeconômicas a eles associadas. Por exemplo, um macroeconomista pode estudar os efeitos de um corte no imposto de renda sobre a produção geral de bens e serviços. Para analisar a questão, ele precisa levar em consideração de que maneira o corte de impostos afeta as decisões das famílias sobre quanto gastar em bens e serviços. Apesar da ligação inerente entre micro e macroeconomia, os dois campos são distintos. Como tratam de questões diferentes, cada um deles tem seu próprio campo de atuação e frequentemente são ensinadas em cursos separados. Além disso, o instrumental básico desenvolvido na micro e na macroeconomia permite analisar as grandes questões econômicas de nosso tempo, como, por exemplo, os fluxos comerciais e financeiros entre os países (Economia Internacional), as relações entre capital e trabalho (Economia do Trabalho), o comportamento dos vários setores de atividade, etc. Microeconomia: o estudo de como famílias e empresas tomam decisões e de como interagem nos mercados. Macroeconomia: o estudo dos fenômenos da economia como um todo, incluindo inflação, desemprego e crescimento econômico O economista como conselheiro de políticas Muitas vezes pede-se que os economistas expliquem as causas de acontecimentos econômicos. Por que, por exemplo, o desemprego entre jovens é maior do que entre trabalhadores mais velhos? Às vezes solicita-se que os economistas recomendem políticas que melhorem os resultados da economia para os trabalhadores jovens. O que o governo deveria fazer para melhorar o bem-estar econômico Teste rápido! ▪ Em que sentido a economia é uma ciência? ▪ Defina microeconomia e macroeconomia. 5 destes jovens? Quando tentam explicar o mundo, os economistas são cientistas. Quando tentam ajudar a melhorar a situação, são conselheiros políticos. Análise positiva versus análise normativa Para ajudar a esclarecer os dois papéis que os economistas desempenham, vamos começar examinando o uso da linguagem. Como cientistas e conselheiros políticos têm objetivos diferentes, usam a linguagem de maneiras diferentes. Por exemplo, suponhamos que duas pessoas estejam discutindo a respeito do salário mínimo. Seguem duas afirmativas que poderíamos ouvir delas: Henrique:As leis do salário mínimo causam desemprego. Melissa: O governo deveria aumentar o salário mínimo. Ignorando, por enquanto, se você concorda com essas afirmações ou discorda delas, observe que Henrique e Melissa diferem quanto ao que estão tentando dizer. Henrique fala como cientista: ele está fazendo uma afirmação de como o mundo funciona. Melissa fala como uma assessora de política: ela está fazendo uma declaração sobre como gostaria de mudar o mundo. Em geral, as declarações a respeito do mundo são de dois tipos. O tipo de afirmação de Henrique é positivo. Declarações positivas são descritivas e referem-se a como o mundo é. A declaração de Melissa é normativa. Declarações normativas são prescritivas e referem- se a como o mundo deveria ser. Uma diferença fundamental entre as declarações positivas e as normativas está em como é julgada sua validade. Em princípio, pode-se confirmar ou refutar as afirmações positivas por meio do exame de evidências. Um economista poderia avaliar a declaração de Henrique analisando dados sobre as variações no salário mínimo e no desemprego ao longo do tempo. Em comparação, avaliar declarações normativas envolve tanto valores quanto fatos. A declaração de Melissa não pode ser julgada apenas com a utilização de dados. Decidir o que é política boa ou ruim não é apenas uma questão de ciência, envolve também nossa visão sobre ética, religião e filosofia política. Embora declarações positivas e normativas sejam diferentes, estão intimamente interligadas no conjunto de crenças de um indivíduo. Declarações positivas: Descritivas, tentam descrever o mundo como ele é. Declarações normativas: Prescritivas, tentam prescrever como o mundo deveria ser. Em particular, uma visão positiva do mundo afeta a visão normativa sobre quais políticas são necessárias. A afirmação de Henrique de que o salário mínimo provoca desemprego, se verdadeira, pode levá-la a rejeitar a conclusão de Melissa de que o governo deveria aumentar o salário mínimo. Além disso, as conclusões normativas não resultam apenas da análise positiva, pois também envolvem juízos de valor. À medida que estudar economia, tenha em mente a distinção entre declarações positivas e normativas, pois isso o ajudará a manter o foco na tarefa em mãos. Grande parte da economia é positiva: ela tenta apenas explicar seu funcionamento. No entanto, aqueles que usam a economia, muitas vezes, têm metas normativas: querem aprender a melhorar a economia. Quando ouvir economistas fazendo declarações normativas, você saberá que falam como consultores políticos, não como cientistas. O ex presidente norte-americano Harry Truman disse, uma vez, que gostaria de encontrar um economista que tivesse um só braço. Quando pedia conselhos a seus economistas, eles sempre respondiam: "Por um lado, ... Por outro, ... ". Truman estava certo ao perceber que os conselhos dos economistas nem sempre são diretos. Essa tendência está enraizada em um dos Dez Princípios de Economia: as pessoas enfrentam trade offs. Os economistas estão cientes de que trade offs estão incluídos na maioria das decisões políticas. Uma política pode aumentar a eficiência ao custo da igualdade. Pode ajudar gerações futuras em detrimento das gerações atuais. É por existir os trade offs que nem sempre os conselhos dos economistas são seguidos. Qualquer economista que atua como conselheiro de presidentes ou outros líderes sabe que nem sempre suas recomendações serão ouvidas. Embora seja frustrante, é fácil entender o motivo. O processo pelo 6 qual a política econômica é realmente feita é muito diferente do processo político idealizado, como apresentado nos livros de economia. Sempre que abordamos política econômica, o foco principal será uma questão: qual é a melhor política a ser seguida pelo governo? Os economistas agem como se as políticas fossem determinadas por um rei benevolente. Depois que esse rei determina as políticas corretas, não há problemas para colocá-las em prática. No mundo real, encontrar as políticas corretas é apenas parte do trabalho de um líder, às vezes, a mais fácil. Depois que o presidente ouve as ideias dos conselheiros econômicos sobre as melhores políticas, ele também ouve outros consultores. Os conselheiros o instruem como explicar as políticas ao público e tentam antecipar qualquer dificuldade que possa tomar o desafio mais difícil. Os conselheiros também informam como a mídia reproduzirá as propostas e que opiniões provavelmente serão divulgadas nos editoriais em toda a nação. Os conselheiros sobre assuntos legislativos mostram a visão do Congresso sobre as propostas, quais emendas serão sugeridas e a probabilidade de transformar uma versão das propostas em lei. Os conselheiros políticos apresentam os grupos que podem apoiar ou se opor a elas, como tais propostas afetarão sua imagem perante diferentes grupos de eleitores e se elas afetarão o apoio para quaisquer outras iniciativas do presidente. Após analisar todas as informações, o governo então decide como proceder. Fazer política econômica em uma democracia representativa é uma tarefa árdua - e sempre há boas razões pelas quais os presidentes (e outros políticos) não levam adiante as políticas que os economistas defendem. Os economistas apresentam informações cruciais ao processo político, mas suas considerações são apenas um dos ingredientes de uma receita complexa. Por que os economistas divergem "Se todos os economistas fossem colocados lado a lado, não chegariam a nenhuma conclusão". Esse gracejo de George Bernard Shaw é revelador. Os economistas, como um grupo, são criticados por dar conselhos conflitantes aos formuladores de políticas. O ex presidente dos EUA, Ronald Reagan, uma vez brincou ao dizer que, se o jogo Trivial Pursuit1 tivesse sido criado por economistas, teria cem perguntas e três mil respostas. Por que os economistas aparecem de modo tão frequente dando conselhos conflitantes aos formuladores de políticas? Há dois motivos básicos: o Os economistas podem discordar quanto à validade de teorias positivas alternativas sobre o funcionamento do mundo. o Os economistas podem ter valores diferentes e, portanto, visões normativas diferentes sobre que políticas devem ser realizadas. Divergências quanto ao julgamento científico Há muitos séculos, os astrônomos debatiam se a Terra ou o Sol seriam o centro do sistema solar. Mais recentemente, os meteorologistas têm discutido se a Terra está passando por um aquecimento global e, em caso positivo, discutem o porquê. A ciência é a busca pela compreensão do mundo que nos cerca. Não é de surpreender que, à medida que a busca continua, os cientistas podem divergir quanto à direção em que a verdade se encontra. Os economistas frequentemente divergem pelo mesmo motivo. Os economistas, às vezes, divergem porque têm palpites diferentes sobre a validade de teorias alternativas ou sobre o tamanho de parâmetros importantes, que avaliam como as variáveis econômicas estão relacionadas. Por exemplo, os economistas divergem quanto a se o governo deveria cobrar impostos sobre a renda das famílias ou sobre seu consumo (despesas). Os que defendem a mudança do atual imposto de renda para um imposto sobre o consumo acreditam que a mudança incentivará as famílias a poupar mais porque a renda poupada seria isenta de impostos. Poupanças maiores, por sua vez, liberariam os 1 Um jogo de perguntas e respostas. 7 recursos para o acúmulo de capital e levariam a um rápido crescimento da produtividade e dos padrões de vida. Os que defendem a tributação sobre a renda corrente acreditam que a poupança das famílias não responderia muito a mudanças nas leis tributárias. Esses dois grupos de economistas têm diferentes opiniões normativas sobre o sistema tributário porque têm diferentes opiniões positivas a respeito do grau de resposta da poupança aos incentivostributários. Divergências quanto a valores Vamos supor que Pedro e Paulo retirem a mesma quantidade de água do poço de sua cidade. Para pagar pela manutenção do poço, a cidade cobra um imposto de seus moradores. Pedro tem uma renda de R$100.000 e é taxado em R$10.000, ou 10% de sua renda. Paulo tem uma renda de R$20.000 e é taxado pelos mesmos R$10.000, ou 50% de sua renda. Essa política é justa? Se não é, quem paga muito e quem paga pouco? Faz alguma diferença se a baixa renda de Paulo decorre de algum problema médico ou da sua decisão de seguir a carreira de ator? Faz diferença se a alta renda de Pedro se deve a uma grande herança ou à sua disposição para trabalhar muitas horas em uma atividade fatigante? Essas são questões difíceis sobre as quais as pessoas provavelmente discordam. Se a cidade contratasse dois especialistas para estudar como deveria taxar os moradores para pagar pelo poço, não seria surpreendente que eles oferecessem conselhos conflitantes. Esse exemplo simples mostra por que os economistas às vezes divergem a respeito de políticas públicas. Como vimos anteriormente, durante a discussão sobre análise positiva e análise normativa, as políticas não podem ser julgadas somente com base na ciência. Algumas vezes, os economistas podem dar conselhos conflitantes porque têm valores diferentes. Aperfeiçoar a ciência econômica não vai nos dizer se é Pedro ou Paulo quem está pagando demais. Percepção e realidade Como existem diferenças de julgamento científico e de valores, é inevitável que haja divergência entre os economistas. Mas não devemos exagerar o grau dessa divergência. Os economistas concordam entre si com muito mais frequência do que se imagina. A Tabela 1 contém 20 proposições de política econômica. Em pesquisas com economistas profissionais, essas proposições foram endossadas pela esmagadora maioria dos entrevistados. A maior parte delas não receberia o mesmo apoio consensual do público em geral. A primeira proposição da tabela é sobre controle de aluguéis, uma política que estabelece o valor máximo legal no total que os proprietários podem cobrar. Proposições (e porcentagem de economistas que concordam com elas). Estatísticas levantadas nos EUA: 1. Estabelecer um teto para os aluguéis reduz a quantidade e a qualidade das moradias disponíveis. (93%) 2. Tarifas e cotas de importação costumam reduzir o bem-estar econômico geral. (93%) 3. Taxas de câmbio flexíveis e flutuantes permitem um arranjo monetário internacional eficaz. (90%) 4. A política fiscal (por exemplo, cortes de impostos e/ou aumento dos gastos do governo) tem efeitos estimulantes significativos sobre uma economia que esteja abaixo do pleno emprego. (90%) 5. Os Estados Unidos não deveriam restringir a terceirização de outros países. (90%) 6. O crescimento econômico em países desenvolvidos como os Estados Unidos leva a níveis mais elevados de bem-estar. (88%) 7. Os Estados Unidos deveriam eliminar os subsídios agrícolas. (85%) 8. Uma política fiscal apropriadamente desenvolvida pode aumentar a taxa de formação de capital no longo prazo. (85%) 9. Os governos municipais e estaduais deveriam eliminar os subsídios para franquias de esportes profissionais. (85%) 10. O orçamento federal deve ser equilibrado durante o ciclo de negócios, não anualmente. (85%) 11. A diferença entre os fundos da Seguridade Social e os gastos se tornará insustentável nos próximos 50 anos se as políticas atuais permanecerem inalteradas. (85%) 8 12. Os pagamentos em dinheiro aumentam o bem-estar dos beneficiários mais do que as transferências em mercadorias de igual valor monetário. (84%) 13. Um grande déficit orçamentário federal tem efeitos adversos sobre a economia. (83%) 14. A redistribuição de renda nos Estados Unidos é um papel legítimo do governo. (83%) 15. A inflação é causada principalmente pelo crescimento excessivo da oferta de moeda. (83%) 16. Os Estados Unidos não devem banir safras geneticamente modificadas. (82%) 17. O salário mínimo aumenta o desemprego entre trabalhadores jovens e não qualificados. (79%) 18. O governo deveria reestruturar o sistema de assistência social nos moldes de um "imposto de renda negativo''. 19. Os impostos sobre efluentes e as permissões para poluição negociáveis são uma abordagem melhor no controle da poluição do que a imposição de tetos à poluição. (78%) 20. Os subsídios do governo sobre o etanol nos Estados Unidos devem ser reduzidos ou eliminados. (78%) Quase todos os economistas acreditam que o controle dos aluguéis afeta de modo negativo a disponibilidade e a qualidade da moradia e que essa é uma forma muito dispendiosa de ajudar os membros mais necessitados da sociedade. Ainda assim, muitos governos municipais optam por ignorar as advertências dos economistas e estabelecem tetos para os aluguéis que os proprietários podem cobrar de seus inquilinos. A segunda proposição da tabela refere-se a tarifas e cotas de importação, duas políticas que restringem o comércio entre as nações. Por motivos que discutiremos em outros capítulos, quase todos os economistas se opõem a essas barreiras ao livre comércio. Todavia, ao longo dos anos, o presidente e o Congresso optaram por restringir a importação de determinados bens para proteger a produção nacional (por que incentivar a entrada de notebooks Samsung se o Brasil produz notebooks Positivo?) Por que políticas como o controle de aluguéis e as barreiras comerciais persistem se os especialistas estão unidos contra elas? Talvez a realidade dos processos políticos permaneça sendo um obstáculo que não pode ser removido. Talvez porque os economistas ainda não tenham convencido o público em geral de que elas são indesejáveis. Um dos objetivos da disciplina é fazer com que você entenda a visão que os economistas têm destes e de outros temas e, talvez, convencê-lo de que essa é a visão correta. Referências MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. Cengage Learning. 8ª Edição. 2019. Pode ser útil que você tenha em mente um conselho do grande economista John Maynard Keynes: Economia não é um assunto fácil, se comparado com a filosofia ou a ciência pura. É uma disciplina fácil mas que bem poucos se sobressaem! O paradoxo pode ser explicado talvez pelo fato de que o especialista em economia deve possuir uma combinação rara de dons. Deve ser matemático, historiador, estatístico, filósofo - em certa medida. Deve compreender símbolos e falar por meio de palavras. Deve contemplar o particular em termos do geral e abordar o abstrato e o concreto em uma só linha de pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado, com a intenção de compreender o futuro. Nenhuma parte da natureza do homem ou das suas instituições deve ficar inteiramente fora de sua atenção. Deve ser ao mesmo tempo determinado e desinteressado, tão distante e incorruptível quanto um artista, mas, por vezes, tão próximo da terra quanto um político. É um grande encargo, mas, com prática, você se sentirá cada vez mais habituado a pensar como um economista. Teste rápido! ▪ Por que os conselheiros econômicos da presidência podem divergir quanto a questões de política econômica?