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PRIMEIROS SOCORROS AULA 3 Prof. Pedro Henrique de Almeida CONVERSA INICIAL Abordagem às urgências comuns – parte 1 Como visto anteriormente, a maneira mais prática, rápida e segura de fazer um atendimento de urgência é seguir a abordagem sistematizada com seus cinco passos: 1) avaliação primária, 2) primeira tomada de decisão, 3) avaliação secundária, 4) segunda tomada de decisão e 5) reavaliação contínua. Cada um desses passos tem suas respectivas etapas e estas com seus próprios quesitos a serem avaliados. Para facilitar o aprendizado, nesta aula as urgências mais comuns serão abordadas por sistemas vitais. TEMA 1 – SISTEMA NEUROLÓGICO Caso Clínico 1 “Você é plantonista do SBV - Suporte Básico de Vida do SAMU e foi acionado para atender em domicílio um senhor de 70 anos cuja cuidadora percebeu que parou de falar no momento que iria começar a almoçar, há 30 minutos, não conseguindo segurar o talher com a mão direita. Ao chegar na casa você percebe agulhas de insulina e vários outros medicamentos para hipertensão na cabeceira da cama. A cuidadora lhe recebe bem, apesar de um pouco aflita. A casa está limpa e organizada, bem como o paciente parece estar bem cuidado”. Resolução do Caso Clínico 1 Passo 1 - Avaliação primária Etapa 1 – Avaliar a cena Quesito 1 - Segurança: a cena está segura? Resposta: sim, cuidadora que aparenta estar ansiosa, mas sem agressividade. Equipe usando Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para precaução padrão. Quesito 2 – Ambiente: o que o ambiente nos dá de informação? Resposta: medicamentos presentes na cena podem indicar paciente com comorbidades (diabetes mellitus e hipertensão arterial?). Casa limpa indica bons cuidados gerais. 3 Etapa 2 – Avaliar o paciente Quesito 1 – Estado geral: como o paciente se apresenta visualmente? Resposta: aparentando a idade, com vestes limpas e com boa aparência geral. Ao entrar no quarto, fixa o olhar em você, tentando balbuciar algumas palavras e apontando com a mão esquerda para a boca e para o braço direito, demonstrando certa ansiedade. Quesito 2 – Queixa principal. Qual é o problema relatado pelo paciente ou seu acompanhante? Resposta: a acompanhante confirma que há cerca de 30 min, enquanto ele iniciava o almoço, ouviu o garfo da mão direita cair, além da incapacidade de falar. Quesito 3 – Sistemas vitais (NABC) N: paciente está alerta, mas você percebe que há alterações na fala e no braço direito. A/B: sem alteração, exceto pela babação excessiva, pois não consegue engolir a saliva adequadamente. C: a pele está quente, com TEC – Tempo de Enchimento Capilar menor que dois segundos (alterado quando maior que três segundos). Passo 2 – Primeira tomada de decisão Estou diante de uma emergência, isto é, há a necessidade de parar a abordagem sistematizada para realizar uma intervenção imediata sob risco de haver morte se não o fizer imediatamente? Resposta: apesar de haver comprometimento do sistema neurológico, as funções vitais da sequência ABC (A: Airways/ Vias aéreas pérveas; B: Breathing/Ventilação; e C: Circulação) estão normais, logo, não há necessidade de suporte nem de via aérea, de ventilação ou de circulação que precise ser instituída neste momento, descaracterizando uma emergência, e passando a ser considerada uma urgência, podendo avançar nos passos da Abordagem Sistematizada. Neste momento o avaliador deve elaborar o diagnóstico sindrômico que melhor se encaixa no caso, tentando ser o mais abrangente e descritivo possível, evitando usar o nome de doenças. Neste caso seria adequado colocar como diagnóstico sindrômico: déficit neurológico focal (mão e fala) súbito com início há 30 minutos. Então deve-se listar as possíveis causas para isso, do mais para o menos provável: 1) AVC – Acidente Vascular Cerebral em curso, 2) hipoglicemia, 3) intoxicação medicamentosa, 4) Crise convulsiva em estado pós-ictal1 e 5) infecções. 1 Estado pós-ictal: período de recuperação tipicamente encontrado após crise convulsiva, caracterizado por recuperação lenta e progressiva das funções neurológicas. 4 Passo 3 – Avaliação secundária Etapa 1 - Anamnese estruturada Quesito 1 - Doença atual (OPQRST): O início: aconteceu enquanto almoçava. Piora/Melhora: está igual desde o início. Qualidades dos sintomas: perda do controle de movimentos musculares e de fala, sem dor. Região: membro superior direito e boca. Severidade: perda total da capacidade nesses locais. Tempo/Duração: há cerca de 30 minutos. Quesito 2 – Doença pregressa (SAMPLER): Sintomas anteriores: batedeira e palpitação esporádicas. Alergias: nega. Medicamentos: Enalapril, Carvedilol (parou de tomar por conta há 30 dias), Metformina XR 500 12/12 e insulina NPH 10u noite. Passado de saúde: fez avaliação de uma arritmia cardíaca há seis meses, quando foi prescrito o carvedilol. Lanches: ingeriu apenas uma garfada de comida. Eventos de saúde importantes: nega ser epilético ou internamentos. Riscos (fatores de): diabetes, hipertensão e arritmia cardíaca não tratada. Etapa 2 – Exame físico Quesito 1 – Sinais Vitais (colhidos enquanto faz as perguntas da etapa anterior): pressão arterial (PA): 190x110, pulso variando entre 60 e 80 no oxímetro, saturação (Sat) 95%, frequência respiratória (FR) 16, Temp. 36 ºC, glicemia capilar de 100 mg/dl. Quesito 2 – Exame segmentar: Glasgow estimado em 15 (apesar de não conseguir falar, é por uma questão motora e não de consciência!), incapacidade de abraçar, de sorrir e de falar corretamente, demais segmentos do copo normal. Etapa 3 – Exame complementar: Quesito 1 – Laboratório: exceto a glicemia capilar, não há outros disponíveis na sua maleta. Quesito 2 – Imagem: não há na ambulância. Quesito 3 – Outros: Escala de Cincinnati2 com três pontos (não abraça, não sorri e nem fala corretamente). Tem laudos de eletrocardiografia (ECG) antigos com a descrição de fibrilação atrial paroxística. 2 Escala utilizada para avalição de probabilidade de um Acidente Vascular Cerebral estar acontecendo. 5 Passo 4 – Segunda tomada de decisão Há risco à vida imediata? Resposta: não, pois apesar de haver o comprometimento do sistema neurológico, as funções vitais ABC (via aérea, ventilação e circulação) estão preservadas, porém, o paciente ainda é considerado com risco potencial, portanto, devendo continuar no atendimento de urgência. Neste momento o profissional de saúde deve reconsultar a sua hipótese sindrômica formulada no Passo 2 e revisar qual a principal etiologia para o quadro. A avaliação secundária sustenta a hipótese de AVC. Passo 5 – Reavaliação periódica Como é uma lesão potencialmente grave, está indicada a remoção. Para tanto, deve-se realizar a MOV (Monitorização/Oxigênio/Veia), colocar a cabeceira elevada para não engasgar com a saliva e acionar a regulação do SAMU para indicar qual a unidade de AVC mais próxima, com reavaliação do quadro a cada cinco minutos. TEMA 2 – SISTEMA VENTILATÓRIO Caso Clínico 2 “Masculino, 46 anos, com vestes em mau estado de conservação e visivelmente emagrecido, aparentando mais envelhecido que a idade faria supor, chega ao Pronto Atendimento (PA) em que você trabalha andando com ajuda de familiares, contando de maneira ofegante, porém, de forma organizada, que está com falta de ar, tosse com catarro, fraqueza, febre intermitente e perda de peso, com um mês de evolução. Refere ser etilista 100 ml pinga/dia e 40 cigarros/dia desde os 16 anos. Você sente o cheiro de cigarro assim que se aproxima dele e os acompanhantes disseram que tiveram que trazê-lo à força, pois não gosta de ir ao médico”. Resolução do Caso Clínico 2 Passo 1 - Avaliação primária Etapa 1– Avaliar a cena Quesito 1- Segurança: a cena está segura? Resposta: sim, você está num local de trabalho seguro, o paciente e os acompanhantes estão calmos e você está usando os EPIs para precaução-padrão. Quesito 2 – Ambiente: o que o ambiente nos dá de informação? Resposta: quesito prejudicado, pois não conhecemos o ambiente do paciente. 6 Etapa 2 – Avaliar o paciente Quesito 1 – Estado geral: como o paciente se apresenta visualmente? Resposta: paciente masculino adulto jovem, porém, aparentando estar envelhecido, emagrecido, ofegante e com vestes/ higiene corporal em mau estado de conservação, com pele acinzentada e forte cheiro de cigarro ao seu redor aparentando estar realmente adoecido. Quesito 2 – Queixa principal: qual é o problema relatado pelo paciente ou seu acompanhante? Resposta: falta de ar, tosse, perda de peso, fraqueza e febre. Quesito 3 – Sistemas vitais: (NABC) N: paciente está alerta e lúcido. A/B: ofegante, fala frases curtas. C: a pele está quente, com tempo de enchimento capilar (TEC) < 2s. Passo 2 – Primeira tomada de decisão Estou diante de uma emergência, isto é, há a necessidade de parar a abordagem sistematizada para realizar uma intervenção imediata sob risco haver morte se não o fizer imediatamente? Resposta: apesar de haver comprometimento do sistema ventilatório, as funções vitais da sequência ABC estão normais, logo, não há uma emergência, mas sim uma urgência. Neste momento o avaliador deve elaborar o diagnóstico sindrômico que melhor se encaixa no caso. Para este caso, seria adequado “sintomático respiratório febril crônico (mais de três semanas de evolução)”. Na lista das possíveis causas para o quadro sindrômico, do mais para o menos provável, temos: 1) tuberculose, 2) neoplasia de pulmão, 3) Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), 4) Pneumonias e 5) outras infecções. Observação: como a principal causa elencada é uma doença contagiosa, neste momento deve-se acrescentar a precaução condizente e colocar o paciente em isolamento. Passo 3 – Avaliação secundária Etapa 1 - Anamnese estruturada Quesito 1 - Doença atual (OPQRST): O início: piorando aos poucos, gradativamente. Piora/Melhora: falta de ar piora com o esforço físico. Qualidades dos sintomas: primeiro a tosse, depois a febre e sudorese noturna, depois a falta de ar e o emagrecimento. Refere um pouco de dor ao respirar. Região: lado direito do tórax. Severidade: fraca intensidade, mas aumenta quando tosse. Tempo/Duração: há aproximadamente 30 dias. 7 Quesito 2 – Doença pregressa (SAMPLER): Sintomas anteriores: sempre teve falta de ar quando tinha que fazer grande esforço físico, como correr ou subir escadas. Alergias: nega. Medicamentos: nega. Passado de saúde: nega, pois se recusa a ir à unidade básica de saúde (UBS). Lanches: não se alimenta desde ontem (>12 horas). Eventos de saúde importantes: nega. Riscos (fatores de): alta carga tabágica, etilismo, mau estado de higiene pessoal e provavelmente ambiental. Etapa 2 – Exame físico Quesito 1 – Sinais vitais: PA 110x70 mmHg, Pulso 100, Sat. 93%, FR 23 ipm, Temp. 38 ºC, glicemia capilar 79 mm/dl. Quesito 2 – Exame segmentar: Glasgow 15 (AO4, RV5, RM6) sem déficit neurológico focal, tórax simétrico, sem tiragem/ esforço, porém, expansão curta e rápida, com crepitantes no ápice direito, abdome escavado, membros com hipotrofia muscular generalizada. Etapa 3 – Exame complementar: Quesito 1 – Laboratório: ainda não solicitado. Quesito 2 – Imagem: ainda não solicitado. Quesito 3 – Outros exames: ainda não solicitados. Passo 4 – Segunda tomada de decisão Há risco à vida imediato? Resposta: não, pois, apesar de ter comprometimento do sistema ventilatório, no momento as funções vitais ABC estão estáveis, estando indicado no máximo iniciar oxigênio suplementar para manter a saturação acima de 95%. No entanto, o caso ainda é de risco em potencial e deve prosseguir em atendimento de urgência, com reconsulta à hipótese sindrômica elaborada no Passo 2, revendo qual a principal etiologia para o quadro. A melhor hipótese ainda está entre tuberculose ou neoplasia pulmonar, devendo ser solicitado os exames complementares para elucidação. Passo 5 – Reavaliação periódica Como é uma lesão potencialmente grave, está indicado solicitar os exames complementares e manter o paciente em observação para elucidação do caso. Para tanto, deve-se realizar a MOV (Monitorização/Oxigênio/Veia), colocar a cabeceira elevada para não broncoaspirar, com reavaliação do quadro a cada 15 minutos. 8 TEMA 3 – SISTEMA CARDÍACO Caso Clínico 3 “Masculino, 66 anos, chega à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) por meios próprios, contando que está com desconforto no peito e com palpitação desde ontem à noite, com piora hoje há cerca de duas horas, após discussão familiar. É caminhoneiro, obeso e tem bigode e dentes amarelados pelo tabaco, ao chegar para atendê-lo você o encontra gemente e ele tem expressão de alívio/felicidade ao lhe ver”. Resolução do Caso Clínico 3 Passo 1 - Avaliação primária Etapa 1 – Avaliar a cena Quesito 1- Segurança: a cena está segura? Resposta: sim, você está num local de trabalho seguro, o paciente não demostra agressividade e você está usando os EPIs para precaução-padrão. Quesito 2 – Ambiente: o que o ambiente nos dá de informação? Resposta: quesito prejudicado, pois não conhecemos o ambiente do paciente. Etapa 2 – Avaliar o paciente Quesito 1 – Estado geral. Como o paciente se apresenta visualmente? Resposta: paciente masculino adulto acima de 65 anos, obeso, com vestes/higiene corporal em bom estado, apresenta-se um pouco ansioso/gemente e expressa alívio ao ser atendido por você. Quesito 2 – Queixa principal. Qual é o problema relatado pelo paciente ou seu acompanhante? Resposta: desconforto no peito e palpitação. Quesito 3 – Sistemas vitais (NABC). N: está alerta e ansioso. A/B: fala frases longas sem esforço. C: a pele está quente, com TEC < 2s. Passo 2 – Primeira tomada de decisão Estou diante de uma emergência? Resposta: não, pois as funções vitais da sequência NABC estão normais, descaracterizando uma emergência e passando a ser considerada uma urgência. Neste momento o avaliador deve elaborar o diagnóstico sindrômico que melhor se encaixa no caso, como exemplo: “desconforto/dor torácica aguda”. Agora deve-se listar as possíveis causas para o quadro sindrômico sugerido, do mais para o menos provável: 1) 9 isquemia cardíaca, 2) arritmia, 3) crise de ansiedade, 4) uso de substâncias estimulantes e 5) pneumotórax. Passo 3 – Avaliação secundária Etapa 1 - Anamnese estruturada Quesito 1 - Doença atual (OPQRST). O início: início ontem à noite de maneira insidiosa com a palpitação. Piora/Melhora: piora com esforço físico. Qualidades dos sintomas: desconforto tipo aperto. Região: retro-esternal que irradia para mandíbula. Severidade: grau 8 em 10 na escala da dor. Tempo/Duração: início da palpitação há aproximadamente 12 horas, mas com piora importante da dor há duas horas após discussão familiar. Quesito 2 – Doença Pregressa (SAMPLER). Sintomas anteriores: já teve algumas vezes desconforto parecido, mas em menor intensidade e que passavam espontaneamente em até 30 minutos. Alergias: nega. Medicamentos: foi receitado medicamentos para hipertensão que ele não usa. Passado de saúde: disseram-lhe que a pressão arterial, o colesterol e o açúcar no sangue estavam altos em uma avaliação isolada em um posto de apoio ao caminhoneiro. Lanches: só jantou ontem. Eventos importantes de saúde: nega internamentos. Riscos (fatores de): alta carga tabágica, sedentário, obesidade, uso de rebites, estresse, dislipidemia e história familiar para IAM. Etapa 2 – Exame físico Quesito 1 – Sinais vitais: PA: 180x110 mmHg, Pulso 120, Sat. 94%, FR 20 ipm,Temp. 36 ºC, glicemia capilar 240 mg/dl. Quesito 2 – Exame segmentar: Glasgow 15 (AO4, RV5, RM6) sem déficit neurológico focal, tórax simétrico, sem tiragem/ esforço, bulas cardíacas rítmicas e normo-fonéticas (BCRNF), porém, taquicárdicas, abdome globoso, membros inferiores com edema +/4. Etapa 3 – Exame complementar: Quesito 1 – Laboratório: ainda não solicitado. Quesito 2 – Imagem: ainda não solicitado. Quesito 3 – outros exames: ECG apenas taquicardia sinusal. Passo 4 – Segunda tomada de decisão Há risco à vida imediato? Resposta: não, pois apesar de ter comprometimento do sistema cardíaco, no momento as funções vitais ABC estão estáveis. No entanto, o caso ainda é de risco em potencial e deve prosseguir em atendimento de urgência, com revisão à hipótese sindrômica elaborada no 10 Passo 2 e reavaliando qual a principal etiologia para o quadro. A melhor hipótese ainda é isquemia miocárdica sem supra de ST (ou infarto sem supra de ST ou angina). Passo 5 – Reavaliação periódica Como é uma situação potencialmente grave, está indicado realizar a MOV (Monitorização/Oxigênio/Veia) e as medidas para IAM sem Supra de ST, colocando o paciente na sala amarela, com a cabeceira elevada para não broncoaspirar, seriar ECG e enzimas cardíacas e acionar a regulação 192 para transferência para uma unidade de dor torácica (UDT), enquanto é reavaliado a cada 15 minutos. TEMA 4 – SISTEMA CIRCULATÓRIO Caso Clínico 4 “Feminino, 14 anos, comparece na UBS acompanhada dos pais que relatam sangramento intenso vaginal há oito dias com palidez progressiva. Hoje, tontura ao se levantar pela manhã. Pais relatam que começaram os ciclos menstruais recentemente e que ainda não iniciou acompanhamento com ginecologista”. Resolução do Caso Clínico 4 Passo 1 - Avaliação primária Etapa 1 – Avaliar a cena Quesito 1- Segurança. A cena está segura? Resposta: sim, você está num local de trabalho seguro, nem paciente nem acompanhantes demostram agressividade e você está usando os EPIs para precaução-padrão. Quesito 2 – Ambiente. O que o ambiente nos dá de informação? Resposta: quesito prejudicado, pois não conhecemos o ambiente do paciente. Etapa 2 – Avaliar o paciente Quesito 1 – Estado geral. Como o paciente se apresenta visualmente? Resposta: paciente feminino iniciando fase fértil, com vestes/higiene corporal em bom estado, apresenta-se calma, mas comunica-se pouco, com fala arrastada. Chama a atenção a palidez da pele. Quesito 2 – Queixa principal. Qual é o problema relatado pelo paciente ou seu acompanhante? Resposta: menstruação prolongada com grande fluxo associada à palidez e tontura. 11 Quesito 3 – Sistemas vitais (NABC) N: paciente alerta, mas lentificada. A/B: fala frases curtas, com respiração rápida. C: a pele está fria, com TEC > 4s, pulsos radiais finos. Passo 2 – Primeira tomada de decisão Estou diante de uma emergência? Resposta: Não, pois as funções vitais da sequência ABC estão presentes, logo, descaracterizando uma emergência, passando a ser considerada uma urgência, sendo seguro avançar para os passos seguintes da Abordagem Sistematizada. Neste momento o avaliador deve elaborar o diagnóstico sindrômico que melhor se encaixa no caso, como “fluxo menstrual anormalmente alto em pessoa em idade fértil”. Agora deve-se listar as possíveis causas para o quadro sindrômico sugerido, do mais para o menos provável: 1) metrorragia, 2) abortamento espontâneo, 3) abortamento provocado, 4) distúrbio de coagulação, 5) neoplasia sanguínea. Passo 3 – Avaliação secundária Etapa 1 - Anamnese estruturada Quesito 1 - Doença atual (OPQRST). O início: há oito dias. Piora/Melhora: tontura piora ao se levantar, progressivamente ao longo da semana. Qualidades dos sintomas: parece que vai escurecer a vista. Região: não avaliado. Severidade: troca de dez absorventes íntimos ao dia. Tempo/Duração: ininterrupto há oito dias. Quesito 2 – Doença pregressa (SAMPLER). Sintomas anteriores: nega sangramentos anteriores. Última menstruação há 45 dias, ciclos são irregulares, nega ter vida sexual ativa. Alergias: nega. Medicamentos: nega, ainda não iniciou método anticoncepcional. Passado de saúde: nega outas doenças. Lanches: tomou leite com achocolatado antes de ir à UBS. Eventos importante de saúde: nega. Riscos (fatores de): primeiros ciclos menstruais, não ter feito a consulta com ginecologista, não usar método contraceptivo. Etapa 2 – Exame físico Quesito 1 – Sinais vitais PA 100x60 mmHg (deitada) e 80x50 mmHg (sentada), Pulso 130 bpm, Sat. 92%, FR 26 ipm, Temp. 35 ºC, glicemia capilar 80 mg/dl. Quesito 2 – Exame segmentar: Glasgow 15 (AO4, RV5, RM6) sem déficit neurológico focal, tórax simétrico, sem tiragem/ esforço, BCRNF porém taquicárdicas, abdome flácido e indolor, pele e mucosas hipocoradas +++/4. 12 Etapa 3 – Exame complementar: Quesito 1 – Laboratório: não tem na UBS. Quesito 2 – Imagem: não tem na UBS. Quesito 3 – outros exames: não tem na UBS. Passo 4 – Segunda tomada de decisão Há risco à vida imediato? Resposta: pode considerar que sim, pois apresenta quadro de choque circulatório, devendo imediatamente iniciar com monitorização + oxigênio + acesso venoso (MOV) e infusão de solução cristaloide3 20 ml/kg de peso em bolus para estabilizar a PA. Após estabilizar a PA e pulso, o caso ainda é de risco em potencial e deve prosseguir em atendimento de urgência, com revisão à hipótese sindrômica elaborada no Passo 2 e reavaliando qual a principal etiologia para o quadro. Neste caso, houve mudança da hipótese sindrômica, pois a paciente apresentou instabilidade hemodinâmica durante a avaliação secundária, que melhorou com expansão de volume intravenoso, então deve-se mudar para uma a hipótese de “choque hipovolêmico responsivo a volume por perda sanguínea via vaginal”, mantendo a lista das causas mais prováveis. Passo 5 – Reavaliação periódica Enquanto ocorre a estabilização do quadro, deve-se acionar a regulação 192 para transferência para uma unidade que tenha serviço de ginecologia/obstetrícia, enquanto é reavaliado a cada cinco minutos. TEMA 5 – SISTEMA GASTRO-INTESTINAL Caso Clínico 5 “É troca do plantão pela manhã, uma mulher de 55 anos comparece ao PS trazida pelo esposo, com queixa de dor abdominal intensa, tipo cólica abaixo das costelas à direita, que a acordou esta madrugada. Não consegue comer nada, pois tem muita ânsia, mas sem conseguir vomitar. Está pálida, com expressão de dor e curvada com a mão na barriga”. 3 São soluções isotônicas, como por exemplo o soro fisiológico, utilizadas para expansão volêmica. 13 Resolução do Caso Clínico 5 Passo 1 - Avaliação primária Etapa 1 – Avaliar a cena Quesito 1- Segurança. A cena está segura? Resposta: sim, você está num local de trabalho seguro, o paciente nem acompanhantes demostram agressividade e você está usando os EPIs para precaução-padrão. Quesito 2 – Ambiente. O que o ambiente nos dá de informação? Resposta: quesito prejudicado, pois não conhecemos o ambiente do paciente. Etapa 2 – Avaliar o paciente Quesito 1 – Estado geral. Como o paciente está visualmente? Resposta: paciente feminino fora da fase fértil, com vestes/higiene corporal em bom estado, apresenta-se gemente, ansiosa por ajuda. Quesito 2 – Queixa principal. Qual é o problema relatado pelo paciente ou seu acompanhante? Resposta: dor tipo cólica abdominal e ânsia de vômitos. Quesito 3 – Sistemas vitais (NABC) N: paciente alerta. A/B: fala frases completas, mas gemente. C: a pele está quente e com TEC <2s. Passo 2 – Primeira tomada de decisão Estou diante de uma emergência? Resposta: não, pois as funções vitais da sequência NABC estão presentes, logo, descaracterizando uma emergência, passando a ser consideradauma urgência, podendo avançar para os passos seguintes da Abordagem Sistematizada. Neste momento o avaliador deve elaborar o diagnóstico sindrômico que melhor se encaixa no caso, como “dor abdominal alta em mulher fora da idade fértil”. Agora deve-se listar as possíveis causas para o quadro sindrômico sugerido, do mais para o menos provável: 1) cólica de vesícula, 2) cólica de rim, 3) úlcera gástrica, 4) distúrbio de coagulação, 5) neoplasia sanguínea. Passo 3 – Avaliação secundária Etapa 1 - Anamnese estruturada Quesito 1 - Doença atual (OPQRST). O início: a acordou esta madrugada. Piora/Melhora: cheiro de comida piora as náuseas. Qualidades dos sintomas: dor tipo cólica. Região: abaixo das costelas direita. Severidade: dor 9 em 10 pela escala visual de dor. Tempo/Duração: constante desde o início. 14 Quesito 2 – Doença Pregressa (SAMPLER). Sintomas anteriores: história de cálculos de vesícula. Alergias: nega. Medicamentos: nega. Passado de saúde: nega outras doenças. Lanches: jantou lasanha aos quatro queijos. Eventos importantes de saúde: três partos por cesariana. Riscos (fatores de): obesa, multípara, história de pedra na vesícula e refeição gordurosa. Etapa 2 – Exame físico Quesito 1 – Sinais vitais PA 130x90 mmHg, Pulso 90 bpm, Sat. 95%, FR 18 ipm, Temp. 36 ºC, glicemia capilar 90 mg/dl. Quesito 2 – Exame segmentar: Glasgow 15 (AO4, RV5, RM6) sem déficit neurológico focal, tórax simétrico, sem tiragem / esforço, bulhas cardíacas rítmicas e normo-fonéticas, abdome globoso, flácido, porém, doloroso em hipocôndrio a direita. Etapa 3 – Exame complementar: Quesito 1 – Laboratório: ainda não solicitado. Quesito 2 – Imagem: ainda não solicitada. Quesito 3 – Outros exames: não solicitado. Passo 4 – Segunda tomada de decisão Há risco à vida imediato? Resposta: não, pois apresenta estabilidade dos sistemas vitais. No entanto, o caso é muito sintomático para dor e deve prosseguir em atendimento de urgência, com revisão à hipótese sindrômica elaborada no Passo 2 e reavaliando qual a principal etiologia para o quadro. Neste caso, a hipótese de “dor abdominal alta por cólica de vesícula” permanece como o mais provável. Passo 5 – Reavaliação periódica Enquanto se medica a paciente para a cólica, deve-se manter a reavaliação a cada 15 minutos por estar com dados vitais estáveis. Exames de imagem e sangue podem confirmar o diagnóstico. NA PRÁTICA Ao final desta aula, esperamos que você se familiarize com a Abordagem Sistematizada em diferentes tipos de cenários de urgência, como nos casos neurológicos, ventilatórios, cárdio-circulatórios e abdominais, pois são os mais frequentes no dia a dia dos serviços de urgência, sendo capaz de, ao final da 15 sequência da Abordagem Sistematizada, identificar rapidamente os pacientes que estão efetivamente em emergência ou risco de vida dos que não estão. FINALIZANDO Nesta aula vimos a abordagem sistematizada para o atendimento às urgências em diferentes cenários, especialmente nos que atendem as urgências, pois, nestes casos, tempo é vida. 16 REFERÊNCIAS LIMA, L. B. et al. AMLS. 2. ed. São Paulo: Artmed, 2017. MARTINS, H. S. et al. ATLS. 9. ed. São Paulo: Manole, 2014. SALOMONE, J. P. et al. PHTLS. 9. ed. Rio de Janeiro: Mosby Elsevier, 2010.