Prévia do material em texto
SUMÁRIO Capa Folha de Rosto PARTE 1 PARTE 2 PARTE 3 PARTE 4 POSFÁCIO NOTA DO TRADUTOR NOTAS CRÉDITOS clbr://internal.invalid/book/text/text/capa.xhtml PARTE 1 Este romance psicológico poderia também ser eventualmente chamado biografia, porque as observações são em grande parte tiradas da vida real. – Quem conhece o curso das coisas humanas e sabe que, no desenrolar da vida, aquilo que inicialmente parecia pequeno e insignificante pode muitas vezes se tornar bastante importante não se incomodará com a aparente insignificância de certas situações narradas aqui. Também não se deve esperar uma variedade de personagens num livro que conta sobretudo a história interior do homem: pois o livro não deve dispersar a força de representação, mas concentrá-la, aguçando o olhar da alma para si mesma. – Essa questão, sem dúvida, não é assim tão simples para que toda tentativa nesse sentido resulte necessariamente em êxito – mas sobretudo, ao menos do ponto de vista pedagógico, nunca será completamente inútil o empenho de fixar a atenção do homem mais sobre si mesmo e tornar a sua existência individual mais importante para ele. Em P., lugar famoso por suas fontes termais, vivia em sua quinta, ainda no ano de 1756, um fidalgo, líder na Alemanha de uma seita conhecida pelo nome Quietistas ou Separatistas, cujas doutrinas estão contidas sobretudo nos escritos de Madame Guyon, célebre fanática que viveu na França nos tempos de Fénelon e com quem também manteve relações. O sr. de F., assim se chamava o fidalgo, morava ali tão isolado de todos os outros moradores, tão isolado da religião, dos costumes e hábitos do lugar quanto sua casa era separada deles por um muro alto que a cercava por todos os lados. Aquela casa era como uma pequena república fechada em si, regida decerto por uma constituição completamente diferente da que havia por todo o país. Toda a criadagem da casa, até o mais humilde serviçal, era composta de pessoas cujo empenho se dirigia, ou parecia se dirigir, unicamente a entrar de novo em seu nada (como Madame Guyon o denominava), a mortificar todas as paixões e a extirpar toda singularidade. Todas aquelas pessoas tinham de se reunir uma vez por dia num enorme cômodo da casa para uma espécie de culto, introduzido pelo próprio sr. de F., que consistia, sentados todos em torno de uma mesa, de olhos fechados e com a cabeça apoiada sobre ela, em esperar cerca de meia hora a fim de ouvir talvez a voz de Deus ou a palavra interior dentro de si. Aquele que ouvia algo anunciava então aos demais. O sr. de F. também estipulava as leituras de seu pessoal, e quem entre os criados e criadas tivesse um quarto de hora ocioso era visto sentado e lendo em posição meditativa, tendo nas mãos os escritos de Madame Guyon sobre a prece interior, ou algo semelhante. Tudo naquela casa, até a menor ocupação doméstica, tinha um aspecto grave, severo e solene. Em todos os rostos, podia-se ler mortificação e abnegação; e em todos os atos, saída de si e entrada no nada. O sr. de F. não voltou a se casar após a morte de sua primeira esposa, mas vivia recolhido com a irmã, a sra. de P., para poder se dedicar total e tranquilamente a uma tarefa maior, a de divulgar as doutrinas de Madame Guyon. O administrador, de nome H., e a governanta com sua filha formavam, por assim dizer, o estrato médio da casa, e, em seguida, vinha a criadagem inferior. – Essas pessoas eram de fato muito ligadas e todas tinham ilimitada veneração pelo sr. de F., cuja conduta era realmente irrepreensível, se bem que os moradores do lugar andassem às voltas com histórias as mais desagradáveis a seu respeito. Toda noite, ele se levantava três vezes em horas marcadas para rezar e passava a maior parte do tempo, durante o dia, traduzindo do francês os escritos de Madame Guyon, uma grande quantidade de volumes, que ele então mandava imprimir a sua custa e distribuir de graça entre seus seguidores. As doutrinas contidas nesses escritos tratam em sua grande maioria da já mencionada saída completa de si mesmo e da entrada no bem- aventurado nada, daquela mortificação completa de toda assim chamada singularidade ou amor-próprio, e de um amor completo e desinteressado por Deus, ao qual, para ser puro, não se pode mesclar fagulha alguma de amor- próprio, de onde surge por fim uma quietude perfeita e bem-aventurada, objetivo mais alto de todo esse empenho. Como Madame Guyon quase não teve outra ocupação ao longo da vida a não ser escrever, a quantidade de seus livros é tão espantosa que mesmo Martinho Lutero dificilmente pode ter escrito mais. Entre os escritos, apenas uma explicação mística de toda a Bíblia perfaz uns vinte volumes. Madame Guyon parece ter sido muito perseguida e, como suas doutrinas eram consideradas perigosas, acabou sendo presa na Bastilha, onde faleceu após dez anos de cativeiro. Quando, depois de sua morte, lhe abriram a cabeça, encontraram seu cérebro praticamente seco. Por tudo isso, ela ainda hoje é venerada por seus seguidores como uma santa de primeira grandeza, quase uma divindade, e suas máximas são consideradas como estando à mesma altura que as da Bíblia; porque se admite que ela, pela completa mortificação de toda singularidade, estava certamente tão unida a Deus que todos os seus pensamentos também tinham de ser necessariamente pensamentos divinos. O sr. de F. conhecera os escritos de Madame Guyon em sua viagem à França, e o árido fanatismo metafísico que neles reinava exerceu tanta atração em sua disposição de ânimo que se dedicou a eles com o mesmo zelo com o qual provavelmente, em outras circunstâncias, teria se dedicado ao mais elevado estoicismo, com o qual as doutrinas de Madame Guyon, levando-se em conta a completa mortificação de todos os desejos etc., tinham por vezes uma semelhança evidente. Ele também era igualmente venerado como um santo por seus seguidores, e realmente julgavam que era capaz de ver o íntimo da alma de uma pessoa à primeira vista. Peregrinos de todos os cantos acorriam a sua casa, e entre os que a visitavam ao menos uma vez por ano estava também o pai de Anton. Esse homem, que crescera sem uma educação formal, casara-se muito cedo com a primeira esposa e levara sempre uma vida bastante desregrada e errante. Ainda que tenha experimentado por vezes alguns arrebatamentos religiosos, não lhes deu a devida atenção. Até que, após a morte de sua primeira mulher, caiu de repente em si, tornando-se subitamente pensativo e, como se diz, um homem completamente diferente; durante sua permanência em P., conheceu primeiro por acaso o administrador do sr. de F. e em seguida, por meio deste, o próprio sr. de F. Pouco a pouco, este foi lhe dando a ler os escritos de Madame Guyon, pelos quais ele tomou gosto, logo se tornando um seguidor declarado do sr. de F. Não obstante, teve a ideia de se casar outra vez, e conheceu a mãe de Anton, que logo consentiu em se casar, o que jamais teria feito se tivesse pressentido o inferno de infortúnio que viria a ameaçá-la no casamento. Ela esperava de seu marido ainda mais amor e cuidado do que tinha até então desfrutado entre seus parentes, mas que terrível engano ela sofreu. Quanto mais a doutrina de Madame Guyon a respeito da total mortificação e do aniquilamento de todas as paixões, inclusive as ternas e meigas, concordava com a alma dura e insensível de seu marido, menor era a possibilidade de algum dia ela se entender com essas ideias, contra as quais seu coração se insurgia. Esse foi o primeiro embrião de todas as posteriores desavenças conjugais. O marido começou a desprezar suas convicções, porque ela não queria aprender os elevados mistérios que Madame Guyon ensinava. O desprezo alcançou posteriormente também suas demais convicções, e quanto mais ela o sentia tanto mais o amor conjugal inevitavelmente diminuía, e a insatisfação recíproca aumentava a cada dia. A mãe de Anton era profundamente versada na Bíblia e tinha um conhecimento bastante claro de seu sistema religioso; ela sabia, por exemplo, falar de modo bastante edificantesobre como a fé sem obras é morta etc. De fato, ela lia a Bíblia por horas e horas com profunda satisfação, mas, assim que seu marido tentava ler para ela em voz alta os escritos de Madame Guyon, ela sentia uma espécie de receio, nascido supostamente da ideia de que dessa maneira se desviaria da verdadeira fé. Ela então procurou de todos os modos se libertar. – Ademais, atribuía muito da natureza fria e insensível do marido à doutrina de Madame Guyon, que ela começou a amaldiçoar cada vez mais em seu coração, e amaldiçoava em voz alta quando irrompeu de vez a discórdia conjugal. Assim a paz doméstica, a tranquilidade e o bem-estar de uma família foram abalados durante anos por esses livros desastrosos, que provavelmente nem um nem outro eram capazes de entender. Nessas circunstâncias nasceu Anton, e dele se pode dizer verdadeiramente que foi oprimido desde o berço. Os primeiros sons que seu ouvido escutou e que seu entendimento nascente compreendeu foram insultos e maldições recíprocos do casal, que se achava ligado por laços indissolúveis. Embora tivesse pai e mãe, ele foi abandonado pelos dois já na infância, pois não sabia a quem deveria se unir, a quem se agarrar, já que ambos se odiavam e ele estava tão próximo de um quanto do outro. Na infância, jamais recebeu os afagos de pais carinhosos, nem mesmo o sorriso recompensador deles após um pequeno esforço de sua parte. Quando entrava na casa dos pais, entrava numa casa de insatisfação, ira, lágrimas e lamentos. Durante toda a vida, essas primeiras impressões jamais foram apagadas de sua alma, convertendo-se muitas vezes em ponto de encontro de pensamentos sombrios que ele não conseguiu remover com nenhuma filosofia. Quando seu pai foi para a frente de batalha na Guerra dos Sete Anos, sua mãe e ele foram viver durante dois anos numa pequena aldeia. Lá ele teve bastante liberdade e algumas compensações pelos sofrimentos de sua infância. As imagens dos primeiros prados que viu – o trigal que subia por uma leve colina e era coroado no alto por bosques verdes, a montanha azul, alguns arbustos e árvores que lançavam suas sombras sobre a relva verdejante ao sopé da montanha e tornavam-se cada vez mais densos à medida que subiam –, essas imagens continuam a se misturar entre seus pensamentos mais agradáveis e constituem, por assim dizer, a base de todas as imagens ilusórias que sua fantasia costuma pintar. Mas como aqueles dois anos felizes passaram voando! Restabelecida a paz, a mãe de Anton se mudou com ele para a cidade, a fim de morar com o marido. A longa separação do pai provocou uma breve ilusão de harmonia conjugal, mas uma tempestade muito mais terrível se seguiu à calmaria enganosa. O coração de Anton se desfazia em tristeza ao ter de dar razão a um de seus pais, e isso ocorria muitas vezes quando seu pai, a quem ele simplesmente temia, tinha mais razão que sua mãe, a quem ele amava. Assim, com relação aos pais, sua alma de menino oscilava constantemente entre ódio e amor, entre medo e confiança. Pouco antes de Anton completar 8 anos, sua mãe deu à luz o segundo filho, sobre quem recaiu inteiramente o pouco do amor paterno e materno restante, de tal modo que ele foi quase completamente abandonado, e, sempre que se falava dele, ouvia-se designá-lo com uma espécie de desdém e desprezo que lhe atravessavam a alma. Como poderia, pois, nascer nele o desejo veemente de ser tratado afetuosamente se ele mesmo jamais havia sido habituado a isso e, portanto, mal podia ter a mais vaga ideia a respeito? É claro que esse sentimento acabou perdendo bastante seu vigor; para ele era quase como se precisasse ser constantemente repreendido, e o olhar amigo que certa vez recebeu foi algo completamente estranho para ele, pois não se ajustava muito bem às reprimendas que geralmente recebia. Sentia intensamente a necessidade da amizade de seus semelhantes: e, com frequência, quando via um garoto de sua idade, sua alma inteira se apegava, e teria dado tudo em troca da amizade do garoto; mas o sentimento humilhante de desprezo que recebia dos pais e a vergonha por causa de suas roupas pobres, sujas e rasgadas o detinham de tal modo que ele não se atrevia a falar com nenhum garoto mais afortunado. Assim, ele andava quase sempre triste e solitário, porque a maioria da garotada da vizinhança, mais ordeira, asseada e bem-vestida, não queria contato com ele, e com os demais era ele que não queria ter nenhum contato por causa do desleixo deles e quem sabe também por certo orgulho. Ele não tinha ninguém a quem pudesse se unir, nenhum colega de infância, nenhum amigo, quer entre os grandes, quer entre os pequenos. Apesar de tudo, aos 8 anos, seu pai começou a ensiná-lo a ler aos poucos e acabou lhe comprando dois pequenos livros, um contendo instruções sobre como soletrar e o outro, um tratado contra o soletrar. No primeiro, Anton tinha de soletrar sobretudo complicados nomes bíblicos, tais como Nabucodonosor, Abdênago etc., que ele não tinha a menor ideia de quem poderiam ter sido, de modo que o aprendizado caminhou um pouco lento. Mas, tão logo percebeu que ideias sensatas eram realmente expressas pela combinação das letras, sua curiosidade para aprender a ler se tornou dia a dia mais forte. Seu pai mal lhe dera algumas horas de instrução, e ele aprendeu a ler sozinho em poucas semanas, para o espanto de todos. Com profunda satisfação, ele ainda agora se lembra da intensa alegria que então sentiu quando proferiu pela primeira vez, com muito custo, soletrando bastante, algumas linhas nas quais podia entender alguma coisa. Mas não conseguia compreender como era possível que os outros pudessem ler tão rápido quanto falavam; nessa época, ficou completamente desesperado com a possibilidade de não conseguir. Tanto maiores foram sua surpresa e sua alegria quando também o conseguiu, depois de algumas semanas. Ao que parece, isso também fez com que recebesse alguma consideração dos pais, e ainda mais dos parentes, algo que não lhe passou despercebido, mas que jamais se tornou a causa real que o estimulava a estudar. Sua curiosidade de ler era insaciável. Por sorte, no livro de instrução para soletrar havia também, além das máximas bíblicas, algumas narrativas sobre crianças devotas, lidas por ele mais de cem vezes, embora não tivessem tanto atrativo. Uma delas era sobre um garoto de 6 anos que, na época das perseguições, não quis renegar a religião cristã, preferindo passar pelas mais terríveis torturas e morrer ao lado da mãe como um mártir da religião; a outra era sobre um garoto malvado de 20 anos que se converteu e faleceu logo em seguida. Agora era a vez do outro pequeno livro, o do tratado contra o soletrar, no qual ele, para grande espanto seu, leu que era prejudicial, e mesmo nocivo à alma, ensinar as crianças a ler soletrando. Nesse livro encontrou também um método para professores ensinarem as crianças a ler e um tratado sobre como proferir cada sílaba pelos órgãos da fala: por mais árido que lhe parecesse, leu o livro de cabo a rabo com máxima perseverança, na falta de algo melhor para fazer. A leitura lhe abriu subitamente um mundo novo cujo deleite lhe permitiu compensar de certo modo todas as coisas desagradáveis de seu mundo real. Quando ao seu redor só havia barulhos, repreensões e desavença doméstica, quando não encontrava ninguém com quem brincar, ele corria para seu livro. Assim, desde muito cedo foi deslocado de um mundo infantil natural para um mundo idealista antinatural, o que indispôs seu espírito para milhares de alegrias da vida, as quais outras pessoas eram capazes de desfrutar de alma plena. Aos 8 anos, ele contraiu uma doença debilitante. Não lhe deram esperança de vida, e ouvia falar constantemente de si como de alguém já considerado morto. Isso sempre lhe pareceu ridículo, ou melhor, morrer, como então imaginava, era algo mais ridículo do que grave. Sua prima, que parecia gostar um pouco mais dele do que os pais, levou-o enfim ao médico, e o tratamento de alguns meses o restabeleceu. Fazia apenas poucassemanas que havia se recuperado, quando, num passeio pelo campo com os pais, o que era algo muito raro e por isso mesmo tanto mais atraente, seu pé esquerdo começou a doer. Depois de ter se recuperado da doença, aquele tinha sido seu primeiro passeio e durante um bom tempo seria o último. No terceiro dia, o inchaço e a inflamação do pé tinham se agravado tanto que no quarto dia começaram a pensar numa amputação. A mãe de Anton ficou abatida e chorou, e seu pai lhe deu 2 centavos. Essas foram as primeiras demonstrações de compaixão de seus pais de que Anton se lembrava, e, por sua raridade, deixaram uma impressão ainda mais forte nele. Na véspera do dia marcado para a amputação, um sapateiro misericordioso veio ter com a mãe de Anton, trazendo-lhe uma pomada cuja aplicação amainou em poucas horas o inchaço e a inflamação no pé. Ainda que se tenha evitado a amputação, a lesão levou quatro anos para ser curada, tempo em que nosso Anton, sofrendo frequentemente dores indizíveis, teve de renunciar outra vez a todas as alegrias da infância. Em função da ferida, Anton não pôde sair de casa por um trimestre inteiro, pois ela melhorava um pouco e voltava a se abrir. Muitas vezes, teve de gemer e se queixar durante noites inteiras, suportando quase diariamente as mais terríveis dores por causa das ataduras. Naturalmente, isso o afastava mais do mundo e do contato com seus semelhantes, prendendo-o cada vez mais à leitura e aos livros. No mais das vezes, ele lia enquanto embalava o irmão mais novo, e, se naquela época lhe faltava um livro, era como se lhe faltasse um amigo: pois, para ele, o livro tinha de ser amigo e consolador e tudo o mais. Aos 9 anos, ele já tinha lido do começo ao fim tudo o que havia de história na Bíblia; e quando morria um dos personagens principais, como Moisés, Samuel ou Davi, ele era capaz de passar o dia todo entristecido, sentindo-se como se tivesse morrido um amigo, pois as pessoas que tinham feito algo admirável no mundo e adquirido renome se tornavam sempre muito caras para ele. Assim, Joab era seu herói, e lhe dava pena sempre que era levado a pensar algo ruim sobre ele. Os traços de generosidade nas histórias de Davi, quando este poupava o pior inimigo mesmo tendo-o em seu poder, comoviam-no particularmente até as lágrimas. Caiu-lhe então nas mãos a Vida dos padres do deserto, que seu pai tinha em alto apreço, citando os padres como autoridades em qualquer situação. Seus discursos morais começavam habitualmente assim: Madame Guyon afirma, ou Santo Macário ou Santo Antônio disse etc. Os padres, por mais absurdas e excêntricas que suas histórias muitas vezes pudessem ser, foram para Anton os modelos mais dignos de imitação, e durante algum tempo o único desejo que conheceu foi tornar- se parecido com Santo Antônio, seu maior homônimo, e, como ele, abandonar pai e mãe e fugir para o deserto que esperava encontrar não muito longe da entrada da cidade e para onde certa vez empreendeu realmente uma viagem, quando se afastou mais de cem passos da casa dos pais, e talvez tivesse ido mais longe ainda se as dores do pé não o tivessem obrigado a retornar. Ele começou até mesmo a se espetar de vez em quando com agulhas, ou a se torturar, para se assemelhar de certo modo aos padres santos, já que dores eram o que não lhe faltava. Durante aquelas leituras, ganhou de presente um pequeno livro de cujo título não se lembra, mas que tratava de um temor primordial a Deus, e nele havia instruções de como se poderia, dos 6 aos 14 anos, crescer na devoção. Os tratados nesse livrinho eram assim intitulados: “Para crianças de 6 anos”, “Para crianças de 7 anos” etc. Anton leu então a parte “Para crianças de 9 anos” e achou que ainda tinha tempo de ser tornar um homem religioso, pois só tinha perdido três anos. Isso comoveu sua alma inteira, e a decisão de converter-se foi muito firme, como raramente acontece mesmo entre os adultos. Daquele momento em diante, seguiu à risca tudo o que estava escrito no livro sobre oração, obediência, paciência, ordem etc., e qualquer passo precipitado ele transformava quase num pecado. A que distância, pensou, já não estarei em cinco anos se eu persistir assim? Pois no livrinho o avanço na devoção havia se transformado, por assim dizer, numa questão de ambição, assim como nos alegramos ao subir de uma classe para outra cada vez mais elevada. Às vezes, como era natural, ele se esquecia de si e, sentindo alívio no pé, saía correndo ou pulando por aí, pelo que sofria então os mais violentos remorsos, e para ele era sempre como se tivesse de voltar a descer alguns degraus. O livrinho exerceu forte influência sobre suas ações e convicções, pois ele procurava também pôr imediatamente em prática aquilo que lia. Com muito escrúpulo, lia a cada dia da semana as bênçãos matutinas e vespertinas, porque no catecismo se dizia que era obrigatório lê-las; tampouco se esquecia de fazer, como era prescrito no catecismo, o sinal da cruz e dizer Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém. No mais, ele via pouca gente devota, apesar de quase sempre ouvir falar muito dela e de sua mãe o abençoar toda noite e jamais se esquecer, antes que ele dormisse, de fazer o sinal da cruz sobre ele. O sr. de F. traduzira para o alemão, entre outras coisas, os cânticos espirituais de Madame Guyon, e o pai de Anton, que conhecia música, adaptou para eles melodias que tinham sobretudo um andamento rápido e alegre. Se porventura ocorresse de ele voltar para casa após uma longa separação, a esposa se deixava persuadir a cantar, acompanhada por ele à cítara, alguns desses cânticos. Em geral, isso acontecia logo após a alegria do reencontro, e essas horas seriam provavelmente ainda as mais felizes do casal. Anton ficava felicíssimo e com frequência juntava, tanto quanto podia, sua voz aos cânticos, que eram um sinal da raríssima harmonia e concórdia recíproca entre seus pais. Seu pai lhe deu os cânticos porque já o considerava maduro o bastante para essa leitura e obrigou-o a decorar uma parte deles. A despeito da tradução dura, os cânticos ainda tinham realmente tanta ternura de alma, uma doçura tão inimitável na expressão, um claro-escuro tão suave na apresentação e tanta atração irresistível para uma alma delicada que a impressão deixada no coração de Anton permaneceu indelével. Muitas vezes, nas horas solitárias em que pensava ter sido abandonado por tudo e por todos, ele se consolava com o cântico da feliz saída de si mesmo e da doce aniquilação na fonte primordial da existência. Assim, já naquele tempo suas ideias infantis lhe reservavam frequentemente uma espécie de tranquilidade celestial. Certa vez, seus pais foram convidados pelo dono da casa em que moravam para uma pequena festa de família à noite. Anton foi obrigado a assistir da janela às crianças da vizinhança chegando bem-vestidas para a festa, enquanto ele tinha de permanecer sozinho no quarto, porque seus pais tinham vergonha de seus péssimos trajes. Anoiteceu e ele começou a sentir fome; e seus pais não lhe haviam deixado nem um pedacinho de pão. Enquanto permanecia lá em cima, sozinho e chorando, o barulho do alegre tumulto lá embaixo subia até ele. – Abandonado por todos, sentiu primeiramente certo desprezo amargo de si mesmo, que logo se transformou numa melancolia indizível, quando abriu ao acaso os cânticos de Madame Guyon e encontrou um que parecia convir ao seu estado. – Uma tal aniquilação, como estava sentindo naquele momento, tinha de anteceder, conforme o cântico de Madame Guyon, a perda de si no abismo do amor eterno, assim como uma gota se perde no oceano. – Mas, como sua fome começou a se tornar insuportável, nem mesmo os consolos de Madame Guyon puderam mais ajudar, e ele arriscou descer até onde seus pais comiam e bebiam em grande companhia, abriu um pouco a porta e pediu a sua mãe a chave da despensa e a permissão para pegar um pouco de pão, porque estava com muita fome. Isso primeiro provocou gargalhadas e, depois, compaixão no grupo, junto a certa indignação para com os pais.Ele foi levado à mesa, onde lhe serviram as melhores iguarias, que certamente lhe deram uma alegria bastante diferente daquela que lhe havia sido dada pelo cântico de consolo de Madame Guyon. Mas mesmo aquela alegria taciturna e lacrimosa sempre lhe reservava algo de atraente, e ele se entregava a ela lendo os cânticos de Madame Guyon todas as vezes que um desejo não se realizava, ou algo triste estava na iminência de acontecer, como quando soube antecipadamente que seu pé deveria ser enfaixado e a ferida, untada com pedra-infernal. O segundo livro que seu pai o deixou ler, além dos cânticos de Guyon, foi a Instrução para oração interior, da mesma autora. Nele era demonstrado como se pode aos poucos chegar a conversar verdadeiramente com Deus, escutar nitidamente sua voz no coração ou mais precisamente a palavra interior; ou seja, era preciso primeiro se desprender tanto quanto possível dos sentidos e procurar se ocupar de si mesmo e dos seus próprios pensamentos, ou aprender a meditar, mas isso também tinha de cessar e era preciso se esquecer de si mesmo antes de ser capaz de escutar a voz de Deus dentro de si. Anton seguiu a instrução com grande fervor, porque estava realmente ávido para ouvir dentro de si algo assim tão maravilhoso como a voz de Deus. Passou então a se sentar durante meia hora de olhos fechados para se afastar da sensibilidade. Para enorme pesar de sua mãe, o pai fazia a mesma coisa. Ela, no entanto, não estava preocupada com Anton, porque não pensava que ele pudesse ter algum propósito com aquilo. Anton logo esteve a ponto de acreditar estar razoavelmente afastado dos sentidos e começou então a conversar realmente com Deus, com quem logo estabeleceu relações bastante íntimas. Ele conversava com Deus durante o dia todo, em seus passeios solitários, em seus trabalhos e até nas brincadeiras, sempre com uma espécie de amor e confiança, mas também como se fala com um semelhante com quem não se tem muita cerimônia, e para ele era realmente como se Deus respondesse isso ou aquilo. Certamente não foram poucas as vezes em que se sentiu insatisfeito, quando porventura uma brincadeira inocente ou então um desejo era frustrado. Nessas ocasiões ele dizia a si mesmo: “Mas nem mesmo essa ninharia me foi concedida!” ou: “Você poderia ter deixado isso acontecer se ao menos fosse possível!”. E Anton não se recriminava por às vezes se zangar um pouco com Deus do seu jeito; pois, embora nos escritos de Madame Guyon não constasse nada a esse respeito, ele acreditava que isso fazia parte do convívio familiar. Todas essas mudanças lhe aconteceram dos 9 para os 10 anos. Nesse período, seu pai também o levava, por causa do pé machucado, até as fontes termais em P. Que alegria ele não sentiu ao conhecer pessoalmente o sr. de F., de quem seu pai lhe falava constantemente com veneração por ser uma pessoa sobre-humana, e que alegria não sentiu ao poder prestar contas ali de seus grandes progressos na devoção interior: sua imaginação pintou o lugar como uma espécie de templo, onde ele se iniciaria como sacerdote e aonde retornaria como um, para a surpresa de todos que o conheciam. Ele fez sua primeira viagem com o pai, e durante o trajeto este também foi mais bondoso com o menino, ocupando-se dele mais do que em casa. Anton viu a natureza em sua inefável beleza. Distantes e próximos, as montanhas circunvizinhas e os lindos vales encantavam sua alma e a desmanchavam em nostalgia, em parte nascida da expectativa de que grandes coisas poderiam lhe acontecer. O primeiro passeio foi à casa do sr. de F., onde seu pai primeiro falou com o administrador, o sr. H., abraçou-o e beijou-o, sendo recebido por ele da maneira mais amigável. Apesar das fortes dores no pé durante a viagem, Anton estava fora de si de alegria ao entrar na casa do sr. de F. Naquele dia, ele permaneceu no quarto do sr. H., com quem a partir de então teve de jantar todas as noites. Aliás, na casa, não se preocuparam muito com ele como havia esperado. Ele continuava bem dedicado aos seus exercícios de oração interior; claro que estes às vezes não podiam deixar de receber uma inflexão bastante infantil. Havia um enorme pomar atrás da casa onde seu pai estava hospedado em P.: ali ele encontrou por acaso uma carriola e se divertia empurrando-a por todo o pomar. Mas, como começou a considerar a brincadeira um pecado, teve uma ideia bem extravagante para justificá-la. Nos escritos de Madame Guyon, e em outros lugares, ele tinha lido muito sobre o Menino Jesus, de quem se dizia que poderia estar por toda parte e que se poderia conviver permanentemente com ele em todos os lugares. Aquele tratamento infantil – Menino Jesus – levou-o a imaginar um menino ainda menor que ele, e, como já tinha familiaridade com o próprio Deus, por que não teria ainda mais com Seu filho, a quem julgava ser incapaz de se recusar a brincar com ele e que, por isso, não se oporia se Anton quisesse levá-lo para passear um pouco de carriola. Ele, no entanto, estimava como uma tremenda sorte poder levar uma pessoa tão nobre sobre a carriola e ainda lhe proporcionar diversão; e, como essa pessoa era uma criação de sua imaginação, ele também fazia dela o que queria, fazia com que tomasse gosto, ora por pouco tempo, ora por muito, em passear de carriola, dizendo por vezes com todo o respeito, quando ficava cansado de empurrá-la: “Por mais que queira, agora me é impossível continuar empurrando a carriola”. Assim, ao final, ele via aquilo como uma espécie de cerimônia religiosa e não considerava mais um pecado passar metade do dia entretido com a carriola. Mas então teve em mãos, com a anuência do próprio sr. de F., um livro que o introduziu num mundo completamente diferente e novo. Era a Acerra philologica[1]. Nele leu a história de Troia, de Ulisses, de Circe, de Tártaro e Elísio, e logo conheceu todos os deuses e deusas pagãos. Em seguida, deram-lhe para ler também o Telêmaco, igualmente com a anuência do sr. de F., talvez porque o autor fosse o mesmo sr. Fénelon que tivera relações com Madame Guyon. A Acerra philologica havia sido para ele uma ótima preparação para a leitura de Telêmaco, porque por meio dela ficou conhecendo bastante a mitologia e se interessou pela maioria dos heróis que encontrou novamente no Telêmaco. Um após o outro, com grande apetite e verdadeiro encanto, esses livros foram lidos várias vezes por ele, especialmente o Telêmaco, no qual pela primeira vez experimentou a atração de uma bela narrativa concatenada. Em todo o Telêmaco, a passagem que o tocou com mais vivacidade foi a fala comovente do velho Mentor ao jovem Telêmaco, quando este, na ilha de Chipre, estava a ponto de confundir a virtude com o vício, e de repente lhe apareceu novamente seu fiel Mentor, que para ele já estava perdido havia muito tempo e cujo olhar triste o abalou até o mais íntimo da alma. Certamente para a alma de Anton aquelas histórias foram muito mais atraentes do que as bíblicas e do que tudo o que lera antes na Vida dos padres do deserto ou nos escritos de Madame Guyon; e, como jamais lhe tinha sido dito realmente o que era verdadeiro e o que era falso, ele não achou de modo algum inadequado acreditar realmente nas histórias dos deuses pagãos, com tudo o que pulsava dentro delas. Mas tampouco podia rejeitar o que estava na Bíblia, ainda mais porque aquilo afinal havia constituído as primeiras impressões de sua alma. Buscou então a única coisa que lhe restava, unir os diferentes sistemas tão bem quanto pudesse em sua cabeça e assim fundir a Bíblia com o Telêmaco, a Vida dos padres do deserto com a Acerra philologica, e o mundo pagão com o cristão. A primeira pessoa da divindade e Júpiter, Calipso e Madame Guyon, o céu e o Elísio, o inferno e o Tártaro, Plutão e o diabo faziam nele a mais esquisita combinação de ideias que jamais existiu em algum cérebro humano. Isso provocou uma impressão tão forte em seu ânimo que ainda muito tempo depois ele manteve uma inegável veneração pelas divindades pagãs. Era um caminho bastante longo da casa na qual o paide Anton estava hospedado até as fontes termais e sua alameda. Anton mesmo assim se arrastava dali para fora com o pé dolorido, o livro embaixo do braço, e se sentava num banco na alameda, onde ia aos poucos esquecendo sua dor na leitura, e de repente se encontrava não no banco em P., mas numa ilha qualquer com castelos e torres altas, ou no meio do tumulto de uma guerra violenta. Lia com uma espécie de alegria melancólica e, quando os heróis tombavam, sofria com isso, mas, pensava Anton, parecia que eles tinham mesmo de tombar. Isso provavelmente teve também grande influência em suas brincadeiras infantis. Um terreno cheio de urtigas e cardos bem crescidos significara para ele muitas cabeças inimigas, entre as quais às vezes se enfurecia barbaramente, derrubando uma após a outra com seu bastão. Quando passeava pelo campo, fazia uma divisão e em pensamento punha cara a cara dois exércitos de flores amarelas e brancas. As maiores entre elas recebiam os nomes de seus heróis, e uma recebia seu próprio nome. Depois, imaginava uma espécie de fatalidade cega, fechava os olhos e golpeava com seu bastão, atingindo qualquer coisa. Quando abria novamente os olhos, via a terrível destruição, aqui um herói e lá outro esticado no chão, e com frequência se via entre os caídos, com uma sensação esquisita e melancólica, mas agradável. Depois, chorava um pouco por seus heróis e abandonava o horrível campo de batalha. Em casa, não tão longe da residência dos pais, havia um cemitério onde ele reinava com cetro de ferro sobre toda uma geração de flores e plantas, e não havia um dia sequer em que não as passava em revista. Quando viajou de P. de volta para casa, esculpiu em papel todos os heróis do Telêmaco, pintou-os com capacete e armadura conforme as gravuras e deixou-os alguns dias em posição de batalha, até que finalmente decidiu o destino deles e dizimou-os com facadas terríveis, arrancando o capacete de uns, o crânio de outros, e viu à sua volta tão somente morte e estrago. Do mesmo modo, todas as suas brincadeiras com sementes de cereja e ameixa acabavam em estrago e destruição. Estas também eram governadas por um destino cego, quando ele punha cara a cara dois tipos diferentes de exército e, de olhos fechados, batia o martelo de aço neles, e onde atingia, destruía. Quando exterminava insetos com um mata-moscas, fazia-o com certa solenidade, segurando nas mãos um pedaço de latão e para cada um deles tocava antes o sino da morte. Seu maior prazer era quando podia queimar uma cidade construída com casinhas de papel e em seguida observar com solene gravidade e melancolia as cinzas que restavam. Quando uma casa realmente pegou fogo à noite na cidade onde seus pais moravam, ele sentiu, apesar de todo o sobressalto, certo desejo secreto de que o fogo não se apagasse tão rápido. Esse desejo não se fundava de modo algum numa satisfação com a desgraça alheia, mas tinha origem num obscuro pressentimento de grandes mudanças, migrações e revoluções, nas quais todas as coisas adquiririam uma forma completamente diferente e poriam fim àquela uniformidade. Mesmo o pensamento de sua própria destruição não só lhe era agradável como também lhe causava uma sensação de volúpia, quando à noite, antes de dormir, muitas vezes pensava intensamente na dissolução e dilaceração de seu corpo. Os três meses de estada de Anton em P. lhe foram muito vantajosos sob vários aspectos, porque ele quase sempre estava entregue a si mesmo e teve a sorte de estar por um tempo novamente longe dos pais, já que sua mãe permanecera em casa e seu pai tinha outros negócios em P. e não se preocupava tanto com ele; no entanto, quando às vezes o via, o pai era muito mais amoroso do que em casa. Na casa em que o pai de Anton estava hospedado havia também um inglês que falava bem alemão e se ocupou de Anton muito mais que qualquer outra pessoa até então, pois começou a ensinar inglês a Anton simplesmente falando e se alegrava com seus progressos. Eles conversavam, passeavam, e por fim o inglês já não conseguia fazer nada sem ele. Este foi o primeiro amigo que Anton encontrou na terra: dele se despediu com melancolia. Ao partir, o inglês pôs na mão de Anton um medalhão de prata, que ele deveria guardar como lembrança até quando fosse alguma vez à Inglaterra, onde sua casa lhe estaria sempre aberta: quinze anos depois, Anton foi realmente para a Inglaterra e ainda tinha consigo o medalhão, mas o primeiro amigo de sua infância estava morto. Certa vez Anton deveria dizer a um estrangeiro que queria visitar o inglês que este não estava em casa. Não houve jeito de convencê-lo porque não queria mentir. Naquela época, essa atitude fez crescer bastante a estima por ele, e foi apenas uma das ocasiões em que Anton quis parecer mais virtuoso do que realmente era, pois não fazia muito caso de uma mentirinha; mas ninguém notava sua verdadeira luta interna, na qual muitas vezes sacrificava seus desejos mais inocentes em razão de um suposto desagrado a um ser divino. Nesse meio-tempo, em P., o modo amoroso com que o tratavam foi bastante animador e elevou um pouco seu espírito deprimido. Mostravam compaixão por ele em atenção à dor no pé, tratavam-no com afabilidade na casa do sr. de F., e este lhe dava um beijo na testa todas as vezes que o encontrava na rua. Esses tratamentos eram algo um tanto incomum e comovente para Anton, sua testa ficava de novo mais relaxada, seus olhos, mais abertos e sua alma, mais alegre. Começou então a se dedicar também à poesia, celebrando o que via e ouvia. Ele tinha dois meios-irmãos que aprendiam o ofício de alfaiate em P., e o mestre deles também era adepto da doutrina do sr. de F. Anton se despediu deles bem comovido, assim como da casa do sr. de F., em versos que havia composto e decorado. É claro que não retornou de P. para casa como esperara, mas também tinha se tornado uma pessoa completamente diferente num curto espaço de tempo, e seu mundo de ideias havia se ampliado e enriquecido. Mas em casa, com o recomeço da desavença entre os pais, para a qual provavelmente contribuiu a chegada de seus dois meios-irmãos, e das incessantes broncas e censuras de sua mãe, logo se extinguiram as boas impressões que recebera em P., sobretudo na casa do sr. de F., e ele de novo se viu em sua odiosa situação anterior, o que tornava sua alma mais sombria e misantropa. Como os meios-irmãos de Anton logo partiram em viagem, a paz doméstica voltou a imperar, e, em vez dos escritos de Madame Guyon, o pai de Anton lia de vez em quando um pouco do Telêmaco em voz alta, ou contava parte de uma história antiga ou moderna, nas quais era bastante versado, pois além da música, em cuja prática havia avançado muito, sempre se dedicava à leitura de livros profícuos, até que finalmente os escritos de Madame Guyon suplantaram todo o resto. Por isso falava uma espécie de língua livresca, e Anton ainda se lembra exatamente de que, aos 7 ou 8 anos, ouvia frequentemente com muita atenção quando seu pai falava, e se admirava de que, embora conseguisse entender o que se falava, ele não entedia nenhuma sílaba de todas as palavras que terminavam em “heit”, “keit” e “ung”[2]. Fora de casa, o pai de Anton era um homem muito sociável e conseguia conversar agradavelmente com qualquer pessoa sobre qualquer assunto. Talvez as coisas pudessem ter ido melhor no casamento se a mãe de Anton não tivesse tido a infelicidade de se sentir muitas vezes ofendida, e gostar de ser ofendida mesmo quando não o fora realmente, apenas para ter motivo de ficar doente e magoada, e sentir certa compaixão de si mesma, encontrando nisso uma espécie de contentamento. Infelizmente ela parece ter legado essa doença ao filho, que mesmo agora tem de lutar muitas vezes em vão contra ela. Ainda criança, quando, durante a distribuição de algo, todos recebiam seu quinhão, e o de Anton era colocado diante dele sem que dissessem que era seu, ele preferia deixá-lo ali mesmo sabendo que lhe era destinado só para sentir a doçura do sofrimento da injustiça e poder dizer que todosos outros tinham recebido algo e ele, nada! Se sentia já tão fortemente a injustiça inventada, quão mais forte não teria de sentir a verdadeira! E de fato para ninguém o sentimento de injustiça é mais forte do que para as crianças, e a ninguém é mais fácil de cometer injustiça; afirmação que todos os pedagogos deveriam levar em consideração todo dia e toda hora. Anton conseguia muitas vezes refletir durante horas e ponderar da maneira mais precisa, razão por razão, sobre se um castigo recebido de seu pai era justo ou injusto. Agora, aos 11 anos, ele usufruía pela primeira vez o indizível prazer das leituras proibidas. Seu pai era um inimigo ferrenho de todos os romances e ameaçava queimar esse tipo de livro se o encontrasse em casa. Mesmo assim, Anton recebia A bela Banise, As mil e uma noites e A ilha de Felsenburg de sua prima, que ele lia secreta e furtivamente na alcova, com o consentimento da mãe, devorando-os, por assim dizer, com insaciável curiosidade. Aquelas foram algumas das horas mais doces de sua vida. Por mais que sua mãe o interrompesse, era apenas para adverti-lo da chegada do pai, sem lhe proibir a leitura daqueles livros em que ela havia encontrado outrora o mesmo prazer e encanto. A narrativa de A ilha de Felsenburg teve um efeito muito forte sobre Anton, pois durante algum tempo suas ideias diziam respeito tão somente a ter um papel de destaque no mundo e atrair ao redor de si primeiro um pequeno círculo de pessoas, do qual ele seria o centro, e depois outro cada vez maior: este se ampliava cada vez mais e sua imaginação extravagante finalmente arrastava para dentro da esfera de sua existência até animais, plantas e criaturas inanimadas, enfim, tudo aquilo que o rodeava, e tudo tinha de girar ao seu redor, como o único centro, até deixá-lo tonto. Naquela época, esse jogo de sua imaginação muitas vezes lhe deu horas de completo deleite, algo que depois ele jamais voltou a desfrutar. Assim sua imaginação produzia a maioria dos sofrimentos e alegrias de sua infância. Quantas vezes, encerrado em seu quarto naqueles dias sombrios de tédio e asco, uma ponta de raio de sol entrava pela vidraça e de repente despertava nele imagens do paraíso, do Elísio ou da ilha de Calipso, que o encantavam durante horas inteiras. Mas ele também se lembra dos tormentos infernais que, a partir dos 2 ou 3 anos, os contos de fadas de sua mãe e de sua prima provocavam nele, acordado ou dormindo: se em sonho via só conhecidos à sua volta, eles de repente lhe arreganhavam os dentes com o rosto monstruosamente transfigurado, ou então ele subia uma escada alta e escura, e uma figura medonha o impedia de voltar, ou ainda era o diabo que lhe aparecia, ora como uma galinha pintada, ora como um pano preto na parede. Quando sua mãe e ele ainda viviam na aldeia, qualquer senhora idosa lhe metia medo e horror, de tanto que ouvia falar de bruxas e feitiçarias; e, quando o vento soprava muitas vezes com um som estranho através da choupana, sua mãe chamava isso, em sentido alegórico, de o homem sem mão, sem querer dizer nada de mais com essa expressão. Mas ela não teria feito o que fez se soubesse quantas horas tenebrosas e quantas noites sem dormir esse homem sem mão veio a causar ao seu filho. Em especial, as últimas quatro semanas que antecediam o Natal eram sempre um purgatório para Anton, e para evitá-lo ele poderia passar sem a árvore de Natal iluminada com velas e enfeitada com maçãs e nozes prateadas. Como não havia dia em que não ouvisse um estrondo esquisito aparentemente vindo de sinos, um escarafunchar diante da porta ou uma voz abafada anunciando Ruprecht[3], o precursor do Menino Jesus que Anton, com total seriedade, considerava um espírito ou um ser sobre- humano, também em toda essa época não havia noite que passasse sem acordar assustado e com a testa suando frio. Isso perdurou até seus 8 anos, quando só então sua crença na existência de Ruprecht começou a vacilar, assim como na do Menino Jesus. Sua mãe lhe transmitiu também o medo infantil dos trovões. Seu único refúgio era juntar bem as mãos tão firmemente quanto conseguisse e não deixar que se soltassem até a trovoada passar; isso, além do sinal da cruz, era também seu refúgio e, por assim dizer, um forte apoio nas vezes que dormia sozinho, porque assim acreditava que nem diabo nem fantasma podiam lhe fazer algum mal. Sua mãe dizia uma frase esquisita: “Quem quer fugir de um fantasma, os calcanhares espicham”; e isso ele sentia literalmente, assim que acreditava ver algo parecido com um fantasma na escuridão. Ela costumava dizer também de um moribundo que a morte já havia pousado na sua língua; Anton também a levou ao pé da letra, e, quando o marido da prima morreu, ele se postou ao lado da cama olhando muito incisivamente dentro da boca para descobrir se a morte aparecia na língua do morto, por exemplo, como uma figurinha preta. Por volta dos 5 anos teve a primeira ideia que ia além de seu horizonte infantil, quando a mãe ainda vivia com Anton na aldeia e estava sentada certa noite na sala com uma vizinha idosa, com ele e seus meios-irmãos. A conversa girava em torno da irmãzinha de Anton, que falecera havia pouco, aos 2 anos, e por cuja perda sua mãe permaneceu inconsolável durante quase um ano. “Onde Julinha poderia estar agora?”, disse ela após uma longa pausa e ficou em silêncio de novo. Anton olhou pela janela, através da qual não se via luz alguma na noite escura, e pela primeira vez sentiu a extraordinária limitação que tornava aquela vida tão diferente da atual, como a existência diferindo do não existente. “Onde Julinha poderia estar agora?”, pensou ele seguindo sua mãe, e proximidade e distância, estreiteza e largueza, presente e futuro raiaram em sua alma. Mas essa sensação não deixou nenhuma marca; milhares de vezes ela é despertada em sua alma de novo, mas nunca com a força inicial. Quão grande é a alegria da limitação, de que no entanto procuramos fugir com todas as forças! Ela é como uma ilhota feliz num mar tempestuoso: afortunado é aquele que pode tirar uma soneca em seu colo: nenhum perigo o desperta, nenhuma tempestade o ameaça. Mas ai daquele que, impelido por uma curiosidade infeliz, ousa subir a serra crepuscular que delimita beneficamente seu horizonte. Num mar violento e tempestuoso de intranquilidade e dúvida, ele é lançado para lá e para cá, procura regiões desconhecidas a uma distância inalcançável, e a ilhota em que vivia com tanta segurança perde todos os seus atrativos. Uma das lembranças mais venturosas que Anton tem dos primeiros anos de sua infância é sua mãe enrolando-o no casaco dela e carregando-o pela tempestade e pela chuva. O mundo era belo para ele na pequena aldeia, mas atrás da montanha azul, para onde sempre olhava nostalgicamente, já esperavam por ele os sofrimentos que estragariam os anos de sua infância. Ora, uma vez que já retrocedi em minha história para recuperar as primeiras sensações e imagens do mundo de Anton, tenho ainda de mencionar aqui duas lembranças de seus primeiros anos no que diz respeito ao seu sentimento de injustiça. Anton tem nítida consciência de que, aos 2 anos, quando sua mãe ainda não morava com ele na aldeia, atravessou vez ou outra a rua, correndo de sua casa a outra que ficava em frente, e impediu o caminho de um homem bem-vestido, a quem esmurrou violentamente, porque procurava persuadir a si mesmo e a outras pessoas de que haviam cometido uma injustiça contra ele, embora sentisse internamente que era ele a parte ofensora. Tal lembrança é admirável por sua raridade e nitidez; também é autêntica porque a circunstância em si era por demais insignificante para que pudesse lhe ter sido contada posteriormente por alguém. A segunda lembrança é dos 4 anos, quando a mãe ralhou com ele por causa de uma verdadeira falta de modos; enquanto ele estava se despindo, calhou de uma das peças de roupa cair na cadeira, fazendo algum barulho: a mãe achou que ele fizera aquilo por birra e lhe deu umas fortes palmadas. Essa foi a primeira verdadeira injustiçaque ele sentiu profundamente e que jamais abandonou sua alma; desde então considerava também a mãe injusta e a cada nova palmada ele se lembrava desse episódio. Já mencionei como ele via a morte na infância. Isso durou até os seus 10 anos, quando certa vez uma vizinha visitou seus pais e contou como o primo dela, que era mineiro, caíra da escada dentro da mina e despedaçara o crânio. Anton escutava com atenção e, ao ouvir falar em despedaçamento do crânio, de repente imaginou que cessava completamente de pensar e sentir, encontrando-se numa espécie de aniquilação e falta de si mesmo que o enchia de pavor e sobressalto todas as vezes que voltava a pensar intensamente nisso. Desde então, teve um forte medo da morte, o qual lhe causou muitas horas tristes. Ainda tenho de dizer algo sobre suas primeiras ideias acerca de Deus e do mundo por volta de seus 10 anos. Sempre que o céu estava encoberto e o horizonte ficava mais estreito, ele sentia certo receio de que o mundo inteiro também estivesse envolto por um teto como o do quarto em que morava, e, quando ultrapassava com seus pensamentos esse teto de nuvens, o mundo em si mesmo lhe parecia muitíssimo menor, como se estivesse novamente encerrado num outro e assim por diante. Sentia algo semelhante com a imagem de Deus quando queria pensar Nele como o ser supremo. Certa vez, sentado sozinho diante da porta de casa num entardecer encoberto, refletia sobre isso enquanto olhava ora para o céu, ora para a terra, quando notou que esta estava mais negra e sombria em comparação com o céu nublado. Além do céu, ele imaginou que Deus, mas qualquer Deus, mesmo o Deus supremo que seu pensamento inventava, era para ele muito pequeno, e tinha de haver sempre ainda um ser maior acima deste, diante do qual ele desaparecia completamente e assim ao infinito. Mas jamais havia lido ou ouvido algo a respeito. O mais estranho era que, pela reflexão constante e pela introspecção, Anton incorreu num solipsismo que poderia tê-lo deixado praticamente louco. Isso porque, como a maioria de seus sonhos era extremamente viva e parecia quase confinar com a realidade, ocorreu-lhe também que poderia sonhar durante o dia, e que as pessoas ao seu redor, sobretudo as que ele via, poderiam ser criações de sua imaginação. Essa ideia lhe era assustadora, fazendo-o temer por si mesmo, e, todas as vezes que lhe vinha à cabeça, ele tentava se livrar dela distraindo-se realmente. Após essa digressão, retomemos a sequência temporal da história de Anton, a quem havíamos abandonado aos 11 anos lendo A bela Banise e A ilha de Felsenburg. Ganhou também o Diálogo dos mortos, de Fénelon, com seus contos, e seu professor de caligrafia mandou-o fazer algumas cartas e composições. Anton jamais havia sentido uma alegria como aquela. Começou então a aproveitar suas leituras, e vez ou outra a apresentar-lhe imitações do que lia, merecendo o aplauso e o respeito de seu professor. Seu pai, tendo tocado num concerto em que foi executada A morte de Jesus, de Ramler, trouxe para casa um texto impresso da peça. Para Anton, era tão arrebatadora e superava de tão longe toda a poesia por ele lida até então que a leu inúmeras vezes e com tal encanto até sabê-la quase de cor. Graças a essa leitura casual e única, tantas vezes repetida, seu gosto pela poesia recebeu certa formação e solidez, as quais ele nunca mais perdeu desde então; o mesmo ocorreu com o gosto pela prosa graças ao Telêmaco; pois, apesar do prazer que encontrara em A bela Banise e em A ilha de Felsenburg, percebia nitidamente o caráter escancarado e vulgar daquela maneira de escrever. De prosa poética caiu-lhe nas mãos o Daniel na cova dos leões, de Karl von Moser, que Anton leu diversas vezes de cabo a rabo; seu pai também costumava ler para ele trechos desse autor em voz alta. Chegou novamente a época das fontes termais, e o pai de Anton decidiu levá-lo consigo novamente para P., mas dessa vez Anton não desfrutaria tanta alegria como no ano anterior, pois a mãe viajou com eles. Sua incessante proibição de coisas insignificantes e as frequentes broncas e castigos fora de hora fizeram Anton perder o gosto por todas as sensações mais nobres que ali tivera um ano antes; seu sentimento do que era elogio e aprovação ficou de tal modo oprimido que ele, quase contra a sua natureza, acabou por encontrar uma espécie de prazer em se meter com os meninos de rua mais imundos e se entrosar com eles, simplesmente porque se desesperava por conquistar novamente em P. o amor e o respeito que a mãe o fizera perder; ela não falava de outra coisa, não só com o pai, mas também com pessoas totalmente estranhas, senão de seu péssimo comportamento, que assim começava realmente a piorar, enquanto seu coração também parecia se degradar. Anton também ia raramente à casa do sr. de F., e dessa vez o tempo de sua estada em P. transcorria para ele com tal desconforto e tristeza que muitas vezes ainda relembrava com nostalgia a alegria dos anos anteriores, por mais que agora não tivesse de suportar tantas dores no pé, que começou a melhorar depois da extração do osso lesionado. Logo após o retorno de seus pais a H., Anton completou 12 anos, idade em que lhe estavam reservadas muitas mudanças: naquele mesmo ano ele deveria se separar dos pais. Mas antes uma grande alegria estava prestes a surpreendê-lo. Seguindo o conselho de conhecidos, o pai de Anton o deixou frequentar um curso particular de latim na escola pública da cidade, para que ele pudesse ao menos aprender uma declinação, como se dizia. Mas, para grande desgosto da mãe e dos parentes, seu pai não queria enviá-lo de jeito nenhum aos demais cursos da escola pública, em que o principal era a aula de religião. Mas um dos desejos mais ardentes de Anton, poder ir a uma escola pública, fora em parte realizado. Já no primeiro dia de aula, as paredes grossas, as escuras salas abobadadas, os bancos centenários e as cátedras perfuradas por carunchos não lhe causaram outra impressão senão a de santuários, que lhe encheram a alma de veneração. O vice-reitor, um homenzinho espevitado, infundiu nele profundo respeito por causa da sobrecasaca preta e da peruca curta, apesar de seu ar não ser lá muito grave. Esse homem também tratava seus alunos de modo bastante amistoso, de igual para igual: tinha o hábito de chamar cada um deles por vós, mas os quatro mais adiantados, que em tom de brincadeira chamava de veteranos, preferia tratá-los por senhor. Embora fosse muito rígido, Anton jamais recebeu censura dele, muito menos palmada, e assim acreditava encontrar até na escola muito mais justiça do que na casa de seus pais. Era a hora de começar a aprender de cor o Donato[4], mas ele tinha uma acentuação estranha, que se revelou logo na segunda lição, ao ter de recitar mensa de cor, e quando dizia singulariter e pluraliter punha o acento na penúltima sílaba porque, ao decorar essa lição, imaginou, por causa do parentesco das palavras Amoriter, Jebusiter etc., que os singulariter eram um povo que dizia mensa, e os pluraliter eram outro povo, que dizia mensae.[5] Quantas vezes tais equívocos não são originados quando o professor se deixa satisfazer com as primeiras palavras dos alunos, sem penetrar no significado delas! E assim ele continuava decorando. O amo, amem, amas, ames foi logo recitado de cor no compasso certo, e nas primeiras seis semanas já sabia o oportet[6] de cor e salteado; assim, decorava vocábulos diariamente e, como nunca errava um, subiu em pouco tempo de um nível a outro, aproximando-se cada vez mais dos veteranos. Mas que situação de sorte, que carreira feliz para Anton, que pela primeira vez na vida via se abrir diante de si uma vereda para a fama, algo que havia tanto tempo ele em vão desejara! Mesmo o breve tempo que passava em casa, ele desfrutava com bastante prazer, porque toda manhã, enquanto seus pais tomavam café, ele era obrigado a ler em voz alta A imitação de Cristo, de Thomas de Kempis, o que adorava fazer. Em seguida, falavam a respeito do livro, e às vezes ele também tinhapermissão para dar sua palavra. Aliás, tinha a sorte de não ficar muito em casa, porque na mesma época ele também frequentava as aulas de seu antigo professor de caligrafia, a quem Anton amava tão sinceramente que se sacrificaria por ele, apesar das pancadas na cabeça que dele recebera. Pois esse homem tinha frequentemente conversas amistosas e proveitosas com ele e seus colegas de escola, e, como ele parecia ser por natureza muito mais duro, sua amizade e bondade tinham algo de ainda mais comovente, que conquistava corações. Assim, pelo menos por algumas semanas, Anton foi feliz em duas situações diferentes: mas quão rápido essa felicidade foi destruída! Para que sua felicidade não lhe subisse à cabeça, duras humilhações já estavam preparadas para ele! Pois, embora estudasse em companhia de crianças bem-educadas, sua mãe o mandava fazer o serviço da criada mais humilde. Ele tinha de levar água, pegar manteiga e queijo na mercearia e ir à feira para comprar os alimentos, como uma mulher com o cesto no braço. Nem preciso dizer o quão profundamente isso o magoava quando um de seus afortunados colegas de escola passava por ele rindo com sarcasmo. Mas Anton se consolava com a alegria de poder frequentar uma escola de latim, onde, após dois meses, ele progredira tanto que já podia participar das atividades da mesa mais alta, a dos assim chamados quatro veteranos. Por essa época seu pai também o levou pela primeira vez para conhecer em H. um homem bastante singular que era objeto de suas conversas já havia muito tempo. O homem se chamava Tischer e tinha 105 anos. Estudara teologia e por fim tinha sido preceptor das crianças de um rico comerciante em H., em cuja casa ainda vivia, recebendo seu sustento do atual proprietário, que fora seu aluno e já era agora praticamente um ancião. Era surdo desde os 15 anos, e quem quisesse conversar com ele precisava ter sempre tinta e pena à mão para lhe escrever os pensamentos, que ele respondia oralmente de maneira bem audível e clara. Além disso, aos 105 anos, ele ainda conseguia ler sem óculos as miúdas letrinhas de seu Testamento grego[7] e falar continuamente de modo muito verdadeiro e coerente, embora às vezes mais baixo ou mais alto do que o necessário, porque não podia ouvir a si mesmo. Ele não era conhecido por outro nome em casa a não ser o homem velho. Levavam-lhe comida e outros regalos, mas de resto não se preocupavam muito com ele. Eis que uma noite, quando Anton estava estudando o Donato, seu pai o pegou pela mão e disse: “Venha, vou levá-lo até um homem em quem você vai ver de novo Santo Antônio, São Paulo e o patriarca Abraão”. E, conforme caminhavam, seu pai o preparava para o que ele em breve iria ver. Entraram na casa. O coração de Anton palpitava. Atravessaram um longo pátio e subiram uma pequena escada caracol que dava num corredor comprido e escuro, no fim do qual subiram outra escada e em seguida desceram novamente alguns degraus: as passagens pareciam labirínticas para Anton. Finalmente havia um pequeno compartimento à esquerda, por onde a luz, que vinha de outra janela, passava pelas vidraças. Já era inverno, e as portas eram guarnecidas com panos do lado de fora; o pai de Anton as abriu: entardecia, o cômodo, espaçoso e grande, era decorado com tapeçarias escuras, e o ancião estava sentado numa poltrona ao centro, diante de uma mesa sobre a qual livros estavam espalhados. Ele veio de cabeça descoberta ao encontro deles. A velhice não o curvara, era um homem comprido, de aparência grande e majestosa. Os cachos brancos de neve enfeitavam-lhe as têmporas, e dos olhos brotava uma amizade indizivelmente delicada. Sentaram-se. O pai de Anton escreveu alguma coisa para ele. “Vamos rezar”, começou o ancião após uma pausa, “e que meu pequeno amigo faça parte”. Em seguida, ele se ajoelhou, com a cabeça descoberta, tendo o pai à direita e Anton à esquerda. É claro que Anton achou mais que verdadeiro tudo aquilo que o pai lhe dissera. Ele realmente acreditou que se ajoelhara ao lado de um dos Apóstolos de Cristo, e seu coração se ergueu a uma elevada devoção quando o ancião abriu as mãos e começou a rezar com verdadeiro fervor, prosseguindo ora em voz alta, ora em voz baixa. Suas palavras eram as de alguém que já está com todos os pensamentos e desejos além-túmulo, a quem somente um acaso ainda concede uma permanência um pouco maior do que a esperada deste lado de cá. Desse modo todos os pensamentos também eram, por assim dizer, trazidos da outra vida para esta, e, enquanto rezava, os olhos e a testa pareciam se transfigurar. Terminada a oração, eles se levantaram e em seu coração Anton já considerava o homem velho quase uma criatura superior e sobre-humana. E, quando voltou para casa à noitinha, não quis de jeito nenhum passear na neve num pequeno trenó com alguns de seus colegas de escola, porque aquilo lhe parecia algo muito sacrílego e ele acreditava que assim profanaria o dia. Seu pai o deixava ir com maior frequência à casa do homem velho, e ele, quando não estava na escola, passava praticamente o dia inteiro com o ancião. Passou então a se servir da sua biblioteca, formada em sua maior parte por livros místicos, tendo lido muitos deles atentamente do começo ao fim. Também prestava contas com frequência ao homem velho dos seus progressos no latim e das composições que fazia para o professor de caligrafia. Assim Anton passou alguns meses numa felicidade muito rara. Mas que choque não foi para ele quando, quase na mesma época, ocorreu o terrível anúncio de que seu professor particular de latim ia parar com as aulas ainda naquele mês, e ele também deveria ser enviado a outra escola de caligrafia. De nada adiantaram lágrimas e pedidos, a decisão já estava tomada. Catorze dias antes, Anton soube que deveria deixar a escola de latim, e quanto maior o seu progresso maior a sua dor. Para tornar mais leve a despedida da escola, ele recorreu a um expediente do qual um garoto de sua idade raramente seria capaz. Em vez de se esforçar para continuar progredindo, fez o contrário: ou não dizia de propósito o que sabia, ou então tratava de descer de algum modo um degrau diariamente, algo que o vice-reitor e os colegas de escola não puderam entender, e muitas vezes lhe testemunhavam surpresa com isso. Só Anton sabia o motivo e levava consigo sua mágoa secreta para casa e para a escola. Cada degrau que descia assim espontaneamente custava- lhe milhares de lágrimas, que derramava secretamente em casa; mas o remédio que ele mesmo se prescreveu, por mais amargo que fosse, fez efeito. Ele próprio havia se organizado para que no último dia já fosse necessariamente o pior aluno. Mas isso era muito duro para ele. Com lágrimas nos olhos, pediu para permanecer em seu lugar apenas naquele dia, e no dia seguinte aceitaria de bom grado o último lugar. Todos tiveram compaixão por ele e o deixaram permanecer no mesmo lugar. No dia seguinte, o mês já estava terminado e ele não viria mais. O quanto tinha lhe custado esse sacrifício espontâneo pode ser deduzido do zelo e do esforço com que ele havia procurado galgar cada posto mais alto. Por vezes, quando o vice-reitor em seu roupão olhava da janela e ele passava por ali, pensava: “você poderia abrir seu coração a este homem”, mas a distância entre ele e seu professor parecia grande demais. Logo em seguida, apesar de todas as súplicas e pedidos, também foi separado do adorado professor de caligrafia. Este, sem dúvida, tinha deixado passar algumas negligências nos livros de caligrafia e aritmética de Anton, o que irritara seu pai. Anton assumiu inteira culpa com todo o empenho, prometendo e jurando em nome de todas as suas forças, mas tudo isso de nada serviu; teve de largar seu velho e fiel professor e começar no fim do mês a estudar caligrafia na escola pública da cidade. Os dois golpes de uma vez foram muito duros para Anton. Quis ainda se segurar num último apoio e pediu aos antigos colegas de escola cada tarefa escolar passada para estudá-la em casa e, dessa maneira, avançarjunto com eles, mas, como isso não deu certo, a virtude e a devoção que mantivera até então não resistiram e durante um tempo ele se transformou, por uma espécie de desânimo e desespero, naquilo que se pode chamar um garoto mau. Na escola, procurava arranjar um jeito de levar umas bofetadas e depois as aguentava com desafiante firmeza, impassível, o que, além disso, lhe dava algum prazer que por muito tempo permaneceu agradavelmente em sua memória. Brigava com os garotos da rua e batia neles, faltava à aula na escola e maltratava o cão de seus pais, como e onde pudesse. Na igreja, onde antes fora um modelo de devoção, tagarelava com seus companheiros durante toda a missa. Com frequência lhe ocorria pensar que estava no mau caminho: ele se lembrava com nostalgia de seus antigos esforços para se tornar um homem devoto, mas muitas vezes, prestes a voltar atrás, certo desprezo por si mesmo e um corrosivo desânimo derrubavam suas melhores intenções, fazendo com que procurasse esquecer-se novamente de si em todo tipo de distração rebelde. O pensamento de que seus mais adorados desejos e esperanças haviam malogrado e de que a iniciada carreira rumo à fama estava para sempre fechada o corroía incessantemente, sem que tivesse sempre clara consciência disso, impelindo-o a todo tipo de excesso. Ele se tornara um hipócrita perante Deus, perante os outros e perante si mesmo. Lia pontualmente como antes suas orações matutinas e vespertinas, mas sem nenhum sentimento. Quando visitava o homem velho, fazia-o fingindo tudo o que antes havia feito com sinceridade no coração, trapaceando nas feições devotas e nas palavras escritas, nas quais fingia certa sede e anseio de Deus, de modo a preservar a estima daquele homem. Às vezes ria às escondidas enquanto o homem velho lia o que ele tinha escrito. Começou também a enganar seu pai. Certa vez este teria dito como ele havia sido um menino completamente diferente três anos antes, quando, em P., se recusou a contar uma mentirinha inocente, negando que o inglês estivesse em casa. Como Anton estava ciente de que o que acontecera na época era mais uma espécie de afetação do que realmente uma aversão à mentira, ele pensou consigo: se basta tão pouco para ser querido, isso não deve me custar muito esforço; e assim, em pouco tempo, graças a certa hipocrisia que procurava dissimular para si mesmo, ele soube levar aquilo tão longe que seu pai trocou cartas sobre ele com o sr. de F., informando-o do estado de alma de Anton a fim de ouvir seus conselhos. Vendo que a coisa se tornava séria, Anton também se tornou mais sério ainda e algumas vezes decidiu seriamente largar sua vida má, porque não conseguiria encobrir sozinho para si mesmo por muito mais tempo a hipocrisia vivida até então. Lembrou-se, porém, dos anos que perdera desde o tempo de sua antiga e verdadeira conversão, e de como já poderia estar bem longe se não tivesse feito aquilo. Isso o deixava extremamente insatisfeito e triste. Além do mais, leu na casa do homem velho um livro em que se descrevia minuciosamente, com todos os sinais e sintomas, o processo de salvação pela penitência, pela fé e pela vida piedosa. Na penitência era preciso haver lágrimas, arrependimento, tristeza e insatisfação: tudo isso ele tinha. Na fé era preciso ter na alma uma serenidade incomum e confiança em Deus: isso também se fez presente. E era preciso, em terceiro lugar, que a vida piedosa se manifestasse por si mesma: já isso não era tão fácil assim. Anton acreditava que, se um dia quiséssemos viver devota e piedosamente, tínhamos de ser assim também por todo o tempo e em cada momento, em todas as feições, gestos e até mesmo em nossos pensamentos; também não deveríamos esquecer em momento algum que desejamos ser devotos. Mas com muita frequência ele naturalmente se esquecia disso: seu rosto não permanecia sério, seu andar não era respeitável e seus pensamentos vagavam pelas coisas do mundo terreno. Agora ele acreditava que tudo acabara, que não fizera praticamente nada e teria de começar novamente do princípio. Assim acontecia muitas e diversas vezes numa hora, e essa era uma situação penosa e angustiante para Anton. Novamente se entregou a suas antigas distrações, mas sempre com medo e o coração palpitante. Ele começou então a obra de conversão novamente desde o princípio e oscilava constantemente para lá e para cá, não encontrando nem tranquilidade nem satisfação, amargando em vão a mais inocente alegria de sua infância, sem no entanto jamais ir longe em outras obras. Essa constante oscilação é, ao mesmo tempo, a imagem de todo o percurso de vida de seu pai, que ainda não chegara aos 50 anos e ainda esperava encontrar o caminho certo pelo qual tinha por tanto tempo se esforçado em vão. Com Anton, inicialmente, tudo correra bastante bem: mas desde que não pôde mais estudar latim, sua devoção sofreu um grande golpe; por ser de natureza receosa, forçada, ela nunca avançava direito. Ele leu em algum lugar que o autoaprimoramento é inútil e prejudicial, e que precisamos nos comportar simplesmente sofrendo e deixar que a compaixão divina aja em nós: por isso ele rezava frequentemente com muita sinceridade: “Senhor, converte-me, que serei convertido!”. Mas tudo foi em vão. Naquele verão, seu pai viajou de novo para P., e Anton lhe escreveu contando que tinha progredido pouco no autoaprimoramento, e que nisso ele errara, porque a compaixão divina tinha de fazer tudo. Sua mãe considerou que a carta inteira era uma hipocrisia, que de fato ele não conseguia se libertar totalmente dela, e escreveu embaixo, de punho próprio: “Anton se comporta como qualquer garoto ímpio”. Ora, ele tinha consciência de estar travando uma verdadeira luta consigo mesmo e, portanto, deve ter sido extremamente humilhante para ele ser jogado na categoria dos garotos ímpios. Ficou tão abatido que durante algum tempo realmente voltou a levar uma vida desregrada e passou a conviver deliberadamente com garotos rebeldes, no que ainda era cada vez mais encorajado pelas repreensões e pelos pretensos sermões da mãe: pois eles o abatiam cada vez mais, tanto que por fim julgou não passar de um menino de rua comum e por isso logo voltou a se juntar a eles. Isso durou até seu pai retornar de P. Então de repente se abriram perspectivas totalmente novas para Anton. Já no começo do ano sua mãe deu à luz dois gêmeos, e apenas um sobreviveu, do qual um chapeleiro em B., de nome L., se tornou padrinho. Ele era um dos seguidores do sr. de F., por intermédio de quem o pai de Anton o conhecia já havia alguns anos. Como, em algum momento, Anton deveria ficar sob os cuidados de um mestre de ofício (pois seus dois meios-irmãos já tinham terminado os estudos e cada qual estava insatisfeito com o ofício que a autoridade paterna os obrigara a aceitar), e como o chapeleiro L. queria um rapaz que temporariamente o ajudasse, o pai de Anton imaginou a esplêndida oportunidade que surgia: assim como os dois meios-irmãos, ele seria colocado sob os cuidados de um homem extremamente devoto, além de ardoroso seguidor do sr. de F., pelas mãos de quem seria exortado à verdadeira bem-aventurança divina e à devoção. Isso já devia ter sido tramado havia tempos e supostamente foi a causa de o pai de Anton tê-lo tirado da escola de latim. Mas, desde que aprendeu latim, Anton pôs firmemente na cabeça que também iria frequentar a universidade; pois tinha um respeito tão grande por todos os que haviam cursado a universidade e vestiam sobrecasaca preta que considerava essas pessoas seres quase sobre-humanos. O que era mais natural do que aspirar àquilo que lhe parecia ser o mais desejável no mundo? Agora se dizia que o chapeleiro L. de Braunschweig cuidaria de Anton como um amigo, ele seria tratado como uma criança, encarregando-se apenas de trabalhos leves e convenientes, como anotar algumas contas, tirar pedidos e outras coisas semelhantes; além disso, deveria ir à escola por mais dois anos, até que fosse confirmado e pudesse então se decidir por algo. Isso soavaextremamente agradável aos ouvidos de Anton, sobretudo o último ponto referente à escola; pois, acreditava ele, assim que tivesse alcançado essa meta, nada lhe faltaria para se distinguir com tal excelência que encontraria facilmente meios e caminhos para cursar a universidade. Imediatamente ele mesmo escreveu, com o pai, ao chapeleiro L., de quem já tinha gostado muito de antemão, e se alegrava com os dias felizes que desfrutaria em sua companhia. Que encanto era para ele mudar de lugar! A estada em H., a eterna e monótona vista das mesmas ruas e casas, se tornou insuportável: novas torres, portas da cidade, baluartes e castelos se erguiam incessantemente em sua alma, e uma imagem suplantava a outra. Estava inquieto e contava as horas e os minutos até sua partida. O dia tão esperado finalmente chegou. Anton se despediu da mãe e dos dois irmãos: Christian, o mais velho, com 5 anos; e Simon, o mais novo, que recebera o nome do chapeleiro L. e tinha apenas 1 ano. O pai viajou com ele, metade a pé e metade de carruagem, quando aparecia uma oportunidade a preço módico. Anton agora desfrutava pela primeira vez em sua vida o prazer de viajar a pé, um prazer que lhe estaria reservado ainda com muito mais frequência no futuro. Quanto mais se aproximavam de Braunschweig, mais o coração de Anton se enchia de expectativas. A torre da igreja de Santo André sobressaía majestosa com suas cúpulas vermelhas. Anoitecia. A distância, Anton viu a sentinela indo e vindo sobre o baluarte. Milhares de imagens de como seria a aparência de seu futuro benfeitor, da sua idade, andar e feições, nele surgiam e logo em seguida desapareciam. Compôs por fim uma imagem tão bela dele que já o adorava antecipadamente. Em sua infância, Anton, provocado pelo som de alguns nomes próprios de pessoas ou cidades, tinha em geral o costume de formar imagens e noções particulares dos objetos designados pelos nomes. O tom agudo ou grave das vogais num nome desses era o que mais contribuía para a definição da imagem. Assim, o nome Hannover soava constantemente suntuoso ao seu ouvido, e, mesmo antes de vê-la, a cidade era para ele um lugar de casas altas e torres, de aparência clara e iluminada. Braunschweig parecia ter uma aparência mais sombria, alongada e maior, e imaginava Paris bem cheia de casas brancas e claras, conforme um desses obscuros sentimentos evocados pelo nome. O que também é muito natural: pois a alma trabalha, mesmo por meio da mais remota semelhança, para esboçar uma imagem de algo sobre o qual nada conhecemos a não ser o nome, e, na falta de todas as outras comparações, ela tem de buscar seu refúgio no nome arbitrário das coisas, no qual nota o som que soa forte ou fraco, grave ou agudo, alto ou baixo, abafado ou nítido, e, entre eles e os objetos visíveis, estipula uma espécie de comparação que por vezes, casualmente, é certeira. Pelo nome L., Anton imaginou mais ou menos um homem um pouco alto, franco e íntegro, com uma fronte livre e aberta etc. Mas dessa vez sua interpretação do nome o enganou bastante. Já começava a escurecer quando Anton e seu pai atravessaram as imensas pontes levadiças e entraram pelas portas da cidade de B. Passaram por muitas vielas estreitas, diante do castelo, e finalmente, através de uma ponte longa, chegaram a uma rua escura onde morava o chapeleiro L., em frente a um comprido edifício público. Pararam diante da casa. A fachada enegrecida tinha uma grande porta preta com muitos pregos. Do alto, pendia uma tabuleta com um chapéu, na qual se podia ler o nome de L. Uma velha senhorinha, governanta da casa, abriu-lhes a porta e os conduziu pelo lado direito a um grande aposento revestido de madeira envernizada de marrom-escuro, sobre a qual ainda se podia distinguir, com muito custo, uma representação semiapagada dos cinco sentidos. Ali foram recebidos pelo dono da casa. Um homem de meia-idade, mais baixo que alto, de rosto ainda bastante juvenil embora pálido e melancólico, que raramente tomava outra feição a não ser um tipo de sorriso agridoce, de cabelos negros, olhos razoavelmente exaltados, um pouco fino e delicado em sua conversa, movimentos e trejeitos, coisa rara de encontrar em artesãos, e uma fala límpida mas extremamente lenta, preguiçosa e arrastada, que alongava não se sabe quanto as palavras, sobretudo quando o diálogo era sobre assuntos religiosos: tinha também um olhar insuportavelmente intolerante, quando suas sobrancelhas pretas franziam diante da perversidade e maldade dos homens, em especial de seus vizinhos ou dos seus próprios empregados. A primeira vez que Anton o viu, ele vestia um gorro verde de pele, lenço azul no pescoço e camisa marrom, junto com um avental preto, sua roupa doméstica habitual, e à primeira vista era como se tivesse encontrado nele um senhor e mestre severo em vez de um futuro amigo e benfeitor. O amor profundo que por ele antecipadamente concebera se apagou como uma centelha de fogo em que se derrama água, quando a primeira cara fria, seca, imperiosa de seu suposto benfeitor o fez suspeitar de que não seria nada mais que seu aprendiz. Nos poucos dias que seu pai passou ali, ainda foi tratado com alguma consideração; mas, logo que o pai partiu, ele teve de trabalhar na oficina tanto quanto o outro aprendiz. Ele foi usado para fazer os trabalhos mais ordinários; tinha de rachar lenha, buscar água e varrer a oficina. Por mais que isso contrastasse com suas expectativas, o desagrado foi até certo ponto substituído pela atração da novidade. E de fato encontrou certo prazer em varrer, rachar lenha e buscar água. Sua imaginação, por meio da qual fantasiava tudo aquilo, também lhe era muito propícia. – Muitas vezes, a ampla oficina, com suas paredes pretas e uma escuridão horripilante, iluminada à tarde e à noite apenas pelo brilho de alguns candeeiros, era para Anton um templo onde ele servia. De manhã, acendia o intenso fogo sagrado embaixo das grandes caldeiras, que mantinha todos em trabalho e atividade durante o dia inteiro, e desse modo muitas mãos permaneciam ocupadas. Considerava essa atividade um tipo de ofício que a seus olhos lhe conferia certa dignidade. Logo atrás da oficina corria o rio Oker, sobre o qual havia sido construída uma armação ou um ressalto de tábuas para pegar água. Ele considerava de certo modo tudo isso seu território, e, quando às vezes limpava a oficina, enchia as grandes caldeiras muradas e acendia o fogo embaixo delas, podia se alegrar, satisfeito, com sua obra – como se tivesse dado a cada coisa aquilo que lhe era de direito –, sua sempre ocupada imaginação vivificava o inanimado à sua volta, tornando-os seres reais, com os quais convivia e conversava. Além disso, o curso regular dos negócios, que percebia ali, dava-lhe certa sensação agradável de que ele era uma roda dessa máquina que se movimentava tão regularmente: pois em casa jamais conheceu algo parecido. O chapeleiro L. prezava realmente a ordem em sua casa, e tudo ali era feito com rigorosa pontualidade: trabalhar, comer, dormir. Se havia alguma exceção, era em relação ao sono, que de fato tinha de ser suspenso quando se trabalhava à noite, o que ocorria ao menos uma vez na semana. Do contrário, a hora do almoço era sempre pontualmente ao meio-dia; o café da manhã, às oito da manhã; e o jantar, às oito da noite em ponto. Também se contava com a mesma pontualidade no trabalho – e assim corria naquele tempo a vida de Anton: de manhã, a partir das seis, enquanto trabalhava, já contava com o café da manhã, que sempre saboreava na imaginação, e, quando chegava a hora, ele o devorava com o apetite mais saudável que um homem pode ter, embora não passasse de uma borra de café com um pouco de leite e um pãozinho de 2 vinténs. O trabalho era então retomado com ânimo renovado, e a expectativa do almoço trazia novo interesse às horas da manhã, quando a monotonia do trabalho era fastidiosa demais. Entrava ano, saía ano, à tardinha se servia uma caneca gelada de cerveja forte. Suficientemente estimulante para adoçar os trabalhosda tarde. E, depois do jantar até a hora de dormir, era o pensamento do descanso iminente e ansiado que espalhava novamente seu brilho consolador sobre o desconforto e o cansaço do trabalho. É claro que se sabia que o curso da vida recomeçaria tal qual no dia seguinte. Mas por fim também essa monotonia fastidiosa na vida era quebrada novamente de maneira agradável pela expectativa do domingo. Quando o atrativo do café da manhã, do almoço e do jantar não era mais suficiente para manter o prazer de viver e de trabalhar, contava-se quanto tempo ainda faltava até o domingo, quando se podia comemorar um dia inteiro longe do trabalho, deixar uma vez a oficina escura, sair pela porta da cidade para o campo aberto e desfrutar a vista da natureza livre e aberta. Ah, quantos atrativos o domingo não tinha para o artesão que eram desconhecidos das classes mais altas dos homens, os quais podiam descansar de suas atividades quando quisessem. – “Para que se alegre o filho de tua escrava!”[8] – Apenas o trabalhador manual pode sentir completamente o grande e esplêndido sentido humano contido nessa lei! – Se ao longo de seis dias já ficavam na expectativa de um dia de descanso, valia a pena contar com os três ou quatro feriados sucessivos, o que dava um terço do ano. Quando muitas vezes até mesmo pensar no domingo já não era suficiente para evitar o fastio da monotonia, o estímulo de vida era renovado pela proximidade da Páscoa, do Pentecostes ou do Natal. E se tudo isso era muito fraco, vinha então a doce esperança do encerramento dos anos de aprendizado, do tornar-se um oficial, que ultrapassava tudo o mais e trazia uma nova e grande época para a vida. Mas as perspectivas do colega de aprendizado de Anton não iam além disso – e seu estado certamente não era pior por isso. Por um benevolente e sábio arranjo das coisas, até a exaustiva e monótona vida de trabalhador manual tem suas fases e períodos, que impõem certo ritmo e harmonia à vida, de sorte que esta corre despercebida, sem que seu proprietário também venha a sentir tédio. Mas a alma de Anton, por causa de suas ideias romanescas, destoava daquele ritmo. Logo em frente à casa do chapeleiro havia uma escola de latim que Anton tivera a vã expectativa de frequentar – todas as vezes que via os alunos saindo e entrando, voltava a pensar com nostalgia na escola de latim e no vice-reitor em H. –, e ao passar algumas vezes diante da grande escola São Martinho, ao ver os alunos mais velhos saindo, teria dado tudo para poder observar uma única vez o interior daquele santuário. Em sua situação atual, julgava impossível poder um dia frequentar aquela escola; mesmo assim, não conseguiu se privar inteiramente de um fraco brilho de esperança em relação a isso. Até mesmo o coro de alunos lhe parecia ser de uma esfera superior; e, se os ouvia cantando na rua, não conseguia deixar de ir atrás deles, deleitar-se em contemplá-los e invejar-lhes o destino grandioso. Quando estava sozinho na oficina com seu colega de aprendizado, procurava compartilhar com ele todos os pequenos conhecimentos que adquirira, em parte por suas leituras, em parte pelas aulas que tivera. Contava-lhe sobre Júpiter e Juno, procurava esclarecer a diferença entre adjetivo e substantivo para ensinar-lhe onde deveria colocar corretamente uma letra maiúscula ou minúscula. O colega o ouvia com atenção, e ambos com frequência discorriam sobre temas morais e religiosos. Nessas ocasiões, o colega de aprendizado era excelente em inventar novas palavras com as quais designava seus conceitos. Assim ele nomeou, por exemplo, a obediência ao mandamento divino de a satisfatibilidade de Deus. – E, quando procurava imitar principalmente as expressões religiosas do sr. L. sobre a mortificação etc., ele caía em galimatias singulares. Quando acreditava estar sendo depreciado ou caluniado pela governanta ou por qualquer outra pessoa, ele sabia se servir com especial ênfase de algumas passagens dos Salmos de Davi em que as opiniões a respeito dos inimigos não eram exatamente brandas. Assim, exceto o seu colega, todos os inquilinos da casa eram mais ou menos contagiados pelos delírios religiosos do sr. L. Quando este tagarelava demais sobre mortificação e aniquilação, o colega lançava-lhe um tal olhar de mortificação e aniquilação que o sr. L. se virava de repulsa e se calava. Se isso não ocorria, o sr. L. podia às vezes passar sermões contra todo o gênero humano por horas e horas. Com um movimento suave da mão direita, distribuía bênção e danação. Nessas ocasiões, por mais que seu semblante estivesse cheio de compaixão, a intolerância e o ódio humano se alojavam entre suas sobrancelhas negras. O objetivo prático do sermão, bastante político, era sempre exortar seus empregados à dedicação e à lealdade no trabalho – se não quisessem arder eternamente no fogo do inferno. Achava que os empregados nunca trabalhavam o suficiente – ao sair, fazia o sinal da cruz sobre o pão e a manteiga. Talvez por Anton não conseguir trabalhar o bastante, ele lhe azedava o almoço repetindo milhares de vezes lições de como segurar a faca e o garfo, de como levar a comida à boca, de modo que com frequência ele perdia a vontade de comer; até que uma vez o colega interveio energicamente a seu favor e Anton pôde comer em paz. – Aliás, ele não podia sequer ousar abrir a boca, pois L. encontrava sempre alguma coisa para criticar em tudo o que dizia, nas suas expressões faciais e nos seus menores gestos; nada que Anton fizesse lhe agradava, e por fim temia até caminhar na sua presença, porque ele podia encontrar algo a censurar em qualquer passo que desse. – Sua intolerância se estendia a cada sorriso e a cada manifestação inocente de prazer que surgissem nas expressões faciais e nos movimentos de Anton: ali ele podia descarregar sua intolerância realmente à vontade, porque sabia que não seria contrariado. Durante essa época, os cinco sentidos que decoravam o lambril preto e estavam completamente desbotados ganharam uma demão de verniz – a recordação desse cheiro, que durou algumas semanas, foi posteriormente quase sempre associada por Anton à ideia de seu estado naquela época. Toda vez que sentia involuntariamente um cheiro de verniz, erguiam-se em sua alma todas as desagradáveis imagens daquele tempo, e vice-versa, quando às vezes estava numa situação que tinha uma semelhança casual com aquilo, também achava que sentia um cheiro de verniz. Um acaso melhorou um pouco a situação de Anton. O chapeleiro L. era um fanático extremamente hipocondríaco; acreditava em pressentimentos e tinha visões que lhe despertavam com frequência medo e pavor. Uma senhora idosa, antiga inquilina da casa, morreu e lhe aparecia em sonho à noite, de modo que ele muitas vezes acordava com calafrios e pavor, e como desperto ainda continuava sonhando com ela, acreditava também ver a sombra dela em algum canto de sua alcova. Daí em diante, Anton teve de lhe fazer companhia e dormir numa cama ao lado dele. Desse modo ele se tornou até certo ponto imprescindível para o chapeleiro, e este passou a ser um pouco mais amável com Anton. Muitas vezes, o chapeleiro entabulava conversas com ele, perguntando como estava com Deus em seu coração, e lhe ensinava que bastava se entregar a Deus: se por sorte fosse escolhido como um de Seus filhos, o próprio Deus começaria e completaria a obra de conversão nele etc. – À noite, antes de ir para cama, Anton tinha de ficar em pé à parte e rezar baixinho, e a oração também não podia ser muito curta – senão L. perguntava se ele já havia terminado e se não tinha mais nada a dizer a Deus. – Para Anton, isso era uma nova ocasião para a hipocrisia e a simulação totalmente contrárias à sua natureza. – Embora rezasse baixinho, procurava pronunciar suas palavras de modo muito claro para que L. pudesse entendê-lo muito bem – e assim, durante sua oração, predominava não tanto o pensamento em Deus, mas o modo como ele, por alguma expressão de arrependimento, remorso, nostalgia de Deus e outras coisas semelhantes, conseguiriao melhor jeito de cair nas graças do sr. L. – Esse foi o esplêndido benefício que a oração forçada teve sobre o coração e a personalidade de Anton. Mas às vezes Anton encontrava também nas orações solitárias um tipo de satisfação secreta, quando se ajoelhava em algum canto da oficina e pedia a Deus que produzisse em sua alma uma única das grandes mudanças sobre as quais ele tinha lido e ouvido muito desde a infância. E a ilusão de sua imaginação ia tão longe que por vezes era realmente como se acontecesse algo totalmente especial no mais fundo de sua alma; e logo a seguir estava ali presente também o pensamento de como ele poderia vestir esse seu estado de alma numa carta a seu pai ou ao sr. de F., ou então como contaria isso ao sr. L. Esses sentimentos interiores imaginários eram sempre um doce alimento para sua vaidade, e a satisfação interna que experimentava era sobretudo despertada pelo pensamento de que ainda podia dizer que tinha sentido essas satisfações divinas e celestiais em sua alma – sempre se sentia lisonjeado quando pessoas adultas e idosas julgavam muito importante o estado da sua alma, a ponto de se preocuparem com ele. Foi essa a razão pela qual supôs ter muitas vezes um estado de alma mutante, para assim poder se queixar um pouco ao sr. L. de que se encontrava numa situação de vazio, de secura, e que não notava em si anseio algum por Deus etc., e assim podia solicitar o conselho do sr. L. sobre seu estado de alma, conselho que também lhe era dado com uma importância que para ele era lisonjeira. Certa vez isso foi tão longe que chegaram a trocar correspondência com o sr. de F. sobre o estado de alma de Anton, e lhe foi mostrado um trecho da carta do sr. de F. que se referia a ele. Não era de estranhar então que ele se visse levado a manter essa sua importância, tanto a seus olhos como aos dos outros, graças a todo tipo de mudanças imaginárias do seu estado de alma, pois era considerado um ser no qual se revelava inteiramente uma direção própria e especial de Deus. Também recebeu então um avental preto como o outro aprendiz, e, em vez de tê-lo deixado abatido, ao contrário, essa situação contribuiu ainda mais para sua satisfação. Ele se via como um homem que já tinha começado a ocupar certa posição. O avental o colocava, por assim dizer, no mesmo nível de seus semelhantes, pois antes ele estava isolado e abandonado – por um tempo o avental o fez esquecer sua inclinação para os estudos; começou também a encontrar uma espécie de prazer em outras atividades manuais e não desejava nada mais fervorosamente do que poder participar delas. Alegrava-se interiormente todas as vezes que ouvia a saudação de um oficial que de passagem vinha exigir a oferenda habitual; e não podia imaginar maior felicidade do que também imigrar assim um dia como oficial e recitar as palavras de saudação prescritas pelo costume do ofício. Assim, o ânimo juvenil sempre se apega mais aos sinais do que às coisas, e pouco ou quase nada se pode concluir das tenras declarações das crianças sobre a escolha de suas futuras profissões. – Logo que aprendeu a ler, Anton sentia um prazer indescritível em ir à igreja, para não pouco contentamento de sua mãe e de sua prima. No entanto, o que o impelia a ir à igreja era o triunfo que desfrutava toda vez que olhava para o quadro- negro no qual estavam escritos os números dos cânticos e conseguia dizer que número era aquele ao adulto que por acaso estivesse perto, ou quando conseguia encontrar esse número no livro de cantos tão ou ainda mais rápido que os adultos, e podia cantar com eles. A afeição do sr. L. por Anton agora parecia crescer cada vez mais, conforme este demonstrasse desejo por sua condução espiritual. – Ele deixava Anton participar com frequência, até por volta da meia-noite, dos diálogos com seus amigos mais próximos, com os quais costumava conversar sobre suas visões e as dos outros, por vezes tão horripilantes que Anton ouvia atento e de cabelo em pé. Em geral, ia para cama muito tarde. E, quando a noite tinha transcorrido com esses diálogos, L. costumava perguntar de manhã, assim que acordava, se Anton não tinha percebido nada à noite, se não tinha ouvido nada da alcova. L. muitas vezes conversava à noite só com Anton, e juntos liam um pouco os escritos de Tauler, de São João da Cruz e livros semelhantes. Era como se brotasse uma duradoura amizade entre eles. Anton também foi realmente tomado de uma espécie de amor por L., mas essa sensação estava sempre misturada com certa amargura, com certo sentimento de mortificação e aniquilação, causado pelo sorriso agridoce de L. Anton, porém, permanecia, mais do que antes, poupado de trabalhos pesados e baixos. Muitas vezes, L. saía para passear em sua companhia; chegou até a admitir um professor de piano para ele – Anton estava encantado com sua situação e escreveu uma carta ao pai na qual lhe dava as provas mais vivas de sua satisfação. Mas, agora que a sorte de Anton na casa de L. alcançara o mais alto cume, sua queda estava próxima. Desde que lhe arranjaram um professor de piano, todos o olhavam com inveja. Formaram-se conluios como se estivessem numa pequena corte; difamavam-no, procuravam derrubá-lo. Enquanto L. procedeu de modo duro e exigente para com Anton, ele desfrutava a compaixão e a amizade de todos os outros moradores da casa; mas a inimizade e a desconfiança deles aumentavam na mesma medida em que L. parecia lhe dedicar sua amizade e confiança. E, tão logo lograram rebaixá-lo de novo e conseguiram que o professor de piano se demitisse, não tinham mais nada contra Anton: eram seus amigos como antes. Mas não era difícil privá-lo do favor de um homem desconfiado e suspeitoso como L.; bastava contar algumas declarações animadas dele, bastava chamar a atenção do sr. L. para os variados e efetivos erros de negligência e desordem que Anton tinha cometido a cada ocasião para logo dar outra direção a suas intenções. Isso foi realizado com muito zelo pela governanta e pelos demais empregados. – Mesmo assim, ainda demorou alguns meses para conseguirem alcançar completamente seu objetivo. Nessa época, L. até se esforçou para converter o professor de piano de Anton, um homem muito reto e religioso, mas que, segundo a opinião do sr. L., não se entregara ainda completamente a Deus nem era submisso o bastante a Ele. O professor também precisava comer frequentemente na casa do sr. L., mas acabou estragando tudo porque passava muita manteiga no pão; a governanta chamou a atenção do sr. L. para aquele fato, de modo a alcançar seu objetivo de dar um fim às aulas de piano de Anton e assim impedir que ele ficasse acima dos outros inquilinos da casa. Anton, além do mais, não tinha muito gênio para a música e consequentemente não aprendeu muito em suas aulas. Algumas árias e coros foram tudo o que conseguiu dominar com muito esforço. E para ele as aulas de piano eram sempre uma hora muito desagradável. Até o dedilhado era muito difícil para ele, e L. sempre encontrava algo a criticar em seus dedos escanchados. Certa vez ele conseguiu expulsar o espírito do mal do sr. L. graças à força da música, assim como Davi fizera com Saul. Anton cometera um pequeno descuido, e, como a afeição por ele já começara a se transformar em ódio, o sr. L. tinha pensado em lhe dar um duro castigo antes de dormir. Anton percebia isso muito bem em tudo. E, quando o momento parecia se aproximar, ele tomou coragem para tocar um coro ao piano, o primeiro que aprendera, e começou a cantá-lo. Isso surpreendeu o sr. L., o qual confessou que estava justo naquele momento decidido a aplicar-lhe uma rigorosa punição, mas que agora o perdoaria. Anton até se atreveu a fazer algumas reprimendas ao sr. L. por causa da visível diminuição da amizade e do amor para com ele, e L. lhe confessou que sua afeição certamente já não era tão forte assim, e que isso se devia necessariamente à deterioração do estado de alma de Anton, o que interpôs, por assim dizer, um muro entre ele e seu antigo amor. Disse que tinha exposto o assunto em oração a Deuse recebido essa explicação. Isso foi muito triste para Anton, e ele se perguntou o que teria de fazer para melhorar seu estado de alma deteriorado. A resposta, a única maneira de salvar sua alma, era percorrer seu caminho na simplicidade e entregar-se completamente a Deus. Não foram dadas outras instruções além dessa. O sr. L. não achou bom se antecipar a Deus, que, por assim dizer, parecia ter se afastado de Anton. – Mas as enfáticas palavras percorrer seu caminho na simplicidade tinham relação com o fato de que, para o sr. L., Anton desde algum tempo começara a ficar esperto, eloquente e sutil demais, e excessivamente vivo, sobretudo por causa da satisfação com seu estado. – Para ele, essa vivacidade era o caminho direto para a perdição de Anton, que, a julgar pela jovialidade em seu rosto, tinha necessariamente de se tornar um homem inescrupuloso e mundano, de quem não se poderia supor outra coisa a não ser que Deus mesmo o abandonaria em seus pecados. – Tivesse percebido melhor sua vantagem, Anton teria podido colocar tudo em ordem outra vez com um comportamento abatido e misantropo, com inquietações e angústias fingidas. Pois assim L. teria acreditado que Deus estava prestes a trazer novamente a alma perdida para junto Dele. – Mas como L. sustentava o princípio de que aquele que Deus quer converter será convertido sem sua participação; e de que Deus escolhe quem Ele quer, rejeita quem Ele quer e endurece com quem Ele quer só para revelar sua magnificência – parecia-lhe, por assim dizer, perigoso se misturar nos assuntos divinos quando alguém tem a aparência de ter sido realmente rejeitado por Deus. Por sua conduta vivaz e mundana, Anton realmente tinha quase essa aparência para o sr. L. – o assunto motivou uma correspondência com o sr. de F. E mostrou então a Anton que mais uma vez a carta do sr. de F. o mencionava; ali, afirmava que, segundo todas as evidências, a construção do templo do diabo no coração de Anton estava tão avançada que dificilmente poderia ser destruído de novo. Isso atingiu Anton como um raio – mas ele se examinou atentamente e comparou seu atual estado com o anterior, e foi impossível encontrar qualquer diferença entre os dois; ele frequentemente ainda tinha, como antes, comoções e sentimentos imaginários e divinos; não conseguia se convencer de que tinha sido totalmente alijado da graça e de que fora rejeitado por Deus. Começou a duvidar da verdade da sentença oracular do sr. de F. Com isso, o seu abatimento voltou a desaparecer, abatimento que talvez tivesse podido abrir-lhe de novo o caminho para o favorecimento do sr. L., cuja amizade a satisfação constante de seu rosto pôs inteiramente a perder. A primeira consequência disso foi que L. o afastou de sua alcova, e ele teve de dormir novamente com o outro jovem aprendiz, que voltou a ser seu amigo porque já não o invejava; a segunda foi ter de voltar a fazer, mais do que nunca, os trabalhos mais difíceis e ordinários, o que o obrigava a permanecer sempre na oficina, e apenas raramente tinha permissão para ir ao quarto do sr. L. O professor de piano ainda foi mantido somente porque L. queria completar a obra de conversão que havia iniciado, e portanto, no lugar de uma alma perdida, ele pretendia conduzir uma outra a Deus. O inverno chegou, e a situação de Anton começava a ficar então realmente difícil: ele tinha de executar trabalhos que excediam, e muito, sua idade e suas forças. L. parecia crer que, como agora já não era possível esperar nada da alma de Anton, era preciso ao menos fazer todo o uso possível do seu corpo. Ele considerava o corpo de Anton como uma ferramenta que se joga fora depois de usar. Em pouco tempo, por causa do frio e do trabalho, as mãos de Anton ficaram completamente imprestáveis para tocar piano. – Quase toda semana, ele tinha de ficar acordado algumas noites junto com os outros aprendizes para tirar os chapéus tingidos de preto da fervura da caldeira e em seguida lavá-los imediatamente no rio Oker, que passava por ali, e para tal fim era preciso abrir um buraco no gelo. Essa passagem frequentemente repetida do calor para o frio provocou rachaduras nas mãos de Anton, pelas quais o sangue brotava. Mas, em vez de abatê-lo, isso elevou seu ânimo. Olhou com certo orgulho para as mãos, observando as marcas de sangue como muitas insígnias de honra de seu trabalho; e, enquanto ainda traziam o atrativo da novidade, esses trabalhos difíceis lhe davam certo prazer, que consistia principalmente em sentir suas forças corporais; ao mesmo tempo, lhe davam uma espécie de doce sentimento de liberdade, que até então ainda não conhecera. Era como se ele agora pudesse também ser mais indulgente consigo mesmo, depois de ter trabalhado tanto quanto os outros e ter suportado o fardo e o calor do dia como eles. Mesmo sob os trabalhos mais penosos, ele experimentava uma espécie de apreço interior que o emprego de suas forças lhe proporcionava; e muitas vezes dificilmente teria trocado essa situação pela desagradável condição em que se encontrava quando desfrutava a amizade de L., amizade severa e exterminadora de qualquer liberdade. Este, porém, começou a pressioná-lo cada vez mais: no frio intenso, durante o dia inteiro, tinha frequentemente de cardar lã numa sala sem aquecimento. Era um modo matreiro, concebido pelo sr. L., de aumentar a laboriosidade de Anton: pois, se não quisesse morrer de frio, precisaria se mexer tanto quanto suas forças aguentassem, de forma que à noite seus braços muitas vezes ficavam como que paralisados, e mesmo assim as mãos e pés congelavam. Por causa da eterna monotonia, o trabalho tornava a sorte de Anton mais dura. Principalmente quando por vezes sua fantasia não queria entrar em funcionamento; quando, ao contrário, ele entrava em movimento graças à circulação sanguínea mais rápida, as horas do dia fluíam frequentemente sem que percebesse. Muitas vezes, ele se perdia em visões encantadoras. Outras, cantava seus sentimentos, recitando-os com melodias próprias. Quando então ficava particularmente cansado do trabalho, com as forças esgotadas, sentindo-se pressionado por sua condição, ele preferia mesmo se perder em exaltações religiosas de sacrifício, entrega total etc., e a expressão altar do sacrifício era a que mais o comovia, de modo que a incluía em todas as pequenas canções e recitativos de sua criação. As conversas com o colega aprendiz (que se chamava August) começaram a ser de novo estimulantes, e seus diálogos se tornaram íntimos, pois um e outro eram novamente iguais. A amizade deles se tornou mais intensa nas noites em que por vezes precisavam ficar juntos em vigília. Mas a intimidade crescia ainda mais quando se sentavam juntos na sala de secagem. Esta consistia em um buraco emparedado na terra, encimada por arcos de tijolos, onde cabia apenas um homem em pé e não mais que dois sentados. Nesse buraco havia um grande braseiro, e nas paredes ao redor estavam penduradas peles de coelhos pintadas com água-forte, cujo pelo recebia uma leve decapagem a fim de ser usado depois como matéria-prima para os chapéus mais finos. Anton e August se sentavam à frente do braseiro em meio àquela fumaça no buraco quase subterrâneo, onde entravam mais rastejando que andando, e, por causa da estreiteza do lugar e do isolamento, do silêncio e da ameaça dessa abóbada escura, eles se sentiam tão unidos que o coração de ambos por vezes transbordava em manifestações de amizade recíproca. Ali revelavam os mais íntimos pensamentos de sua alma; ali passavam as horas mais venturosas. Como o sr. de F. e todos os seus seguidores, L. era um separatista que não frequentava a igreja nem comungava. Enquanto sua amizade com Anton durou, este praticamente nunca foi à igreja em B. Agora August o levava aos domingos e sempre iam a outras, porque Anton gostava de ouvir os diferentes sermões, um depois do outro. Certa vez, Anton e August estavam sentados por volta da meia-noite na sala de secagem, conversando sobre distintas pregações que tinham ouvido, quando este último prometeu a Antonque iria levá-lo à igreja B. no domingo seguinte, onde ouviria um pregador que superava todos os que ele pudesse pensar e imaginar. Esse pregador se chamava P., e August não parava de contar quantas vezes fora abalado e comovido pelas pregações do homem. Nada parecia mais estimulante para Anton do que a visão de um orador público capaz de conquistar o coração de milhares de pessoas. Ele ouvia atentamente aquilo que August lhe contava. Via em pensamento o pastor P. no púlpito, já o ouvia pregando. Seu único desejo era que já fosse domingo! O domingo chegou. Anton se levantou bem cedo, como de hábito, e se vestiu. Quando badalaram os sinos, teve uma espécie de pressentimento agradável daquilo que iria ouvir. Foram à igreja. As ruas que conduziam à igreja B. estavam tomadas por uma multidão de gente apressada. O pastor P. estivera doente por algum tempo, e era a primeira vez que pregava desde então: esse foi também o motivo pelo qual August não havia, antes, ido diretamente a essa igreja com Anton. Quando entraram, tiveram dificuldade de encontrar um lugarzinho diante do púlpito. Todos os bancos, corredores e coros estavam cheios, e as pessoas se esforçavam para enxergar umas por cima das outras. A igreja era um edifício gótico antigo, de pilares grossos que sustentavam a alta abóbada e descomunais janelas longas e curvas, cujos vitrais eram pintados de tal modo que apenas uma luz fraca podia passar por eles. A igreja já estava cheia de gente antes do início do culto. Imperava um silêncio solene. De repente, o grande órgão soou com toda a força, e o canto de louvor que saía da boca daquela multidão parecia sacudir as abóbadas. Quando o último canto chegou ao fim, todos cravaram o olhar no púlpito, e não se notava outro desejo senão o de ver e ouvir aquele pregador quase idolatrado. Finalmente, ele entrou e se ajoelhou no último degrau do púlpito, antes de subir. Ergueu-se de novo em seguida e se postou diante do povo reunido. Um homem ainda em plena força da idade – o semblante era pálido, a boca parecia se contorcer num sorriso suave, os olhos irradiavam celeste devoção – foi logo pregando do jeito que estava, com essas expressões faciais, as mãos suavemente unidas. E, quando começou, que voz, que expressão! – No início lento e solene, e depois fluindo cada vez mais rápido: assim que entrava intimamente na matéria, o fogo da eloquência começava a brilhar em seus olhos, a respirar em seu peito, a faiscar até na pontinha de seus dedos. Tudo nele se movimentava; graças ao semblante, à atitude e aos gestos, sua expressão ultrapassava todas as regras da arte e mesmo assim era natural, bela, arrebatadora. Não havia pausa no jorro poderoso de seus sentimentos e ideias; a palavra seguinte sempre pronta a irromper antes que a anterior estivesse completamente dita; como uma onda traga a seguinte na preamar, cada nova sensação se perdia imediatamente naquela que a seguia, mas esta representava sempre apenas a evocação viva da anterior. Sua voz assemelhava-se à de um claro tenor que conservava o volume mesmo nos tons mais altos; o tom de um metal puro que vibrava por todos os nervos. Guiando-se pelo Evangelho, falava contra a injustiça e a opressão, contra a opulência e o esbanjamento; e, no mais alto fogo de entusiasmo, por fim, chamando-a pelo nome, se dirigia à cidade voluptuosa e luxuriosa, cujos moradores em sua maior parte reuniam-se naquela igreja; revelava seus pecados e delitos; recordava-lhes os tempos da guerra, o cerco da cidade, o perigo geral pelo qual a necessidade havia transformado todos em iguais, em que havia imperado a harmonia fraterna; em que os moradores opulentos, em lugar de suas mesas agora gementes sob o peso das iguarias, eram ameaçados pela fome e a carestia, e, em vez das pulseiras e joias, viviam sob a ameaça dos grilhões – Anton acreditava estar ouvindo um dos profetas que puniam com fervor santo o povo de Israel e invectivava contra os crimes da cidade de Jerusalém. Anton saiu da igreja e foi para casa sem dizer uma palavra a August; mas a partir daí, por onde fosse e onde estivesse, não pensava em nada a não ser no pastor P. De noite ele sonhava com o pastor e de dia falava sobre ele; sua imagem, seu rosto e cada um dos seus movimentos tinham se impregnado bem fundo na alma de Anton. – Cardando lã na oficina e lavando chapéus, ele se ocupou durante toda a semana com os encantadores pensamentos da pregação do pastor P., repetindo milhares de vezes para si cada expressão que o comovera ou que o levara às lágrimas. Sua imaginação criou então a antiga igreja majestosa e a multidão atenta e a voz do pregador, que agora soava ainda mais celestialmente em sua fantasia. – Ele contava as horas e os minutos até o domingo seguinte. E o domingo chegou; e se houve algo que causou uma impressão inextinguível na alma de Anton foi a pregação que ouviu naquele dia. – O número de pessoas era, tanto quanto possível, maior do que no domingo anterior. – Antes da pregação, cantou-se um breve cântico que continha as palavras do Salmo: Quem, Senhor, habitará na Tua tenda? quem morará no Teu santo monte? Aquele que anda irrepreensivelmente e pratica a justiça, e do coração fala a verdade; que não difama com a sua língua, nem faz mal ao seu próximo, nem contra ele aceita nenhuma afronta; aquele a cujos olhos o réprobo é desprezado, mas que honra os que temem ao Senhor; aquele que, embora jure com dano seu, não muda; que não empresta o seu dinheiro a juros, nem recebe peitas contra o inocente. Aquele que assim procede nunca será abalado.[9] O cântico breve e emocionante deixou todos como que cheios de expectativas pelo que estava por vir. O coração estava preparado para impressões grandes e sublimes quando o pastor P. entrou com seriedade solene no rosto, completamente mergulhado em si, e, sem prece ou introdução, começou a discursar com os braços abertos, dizendo: “Quem não oprime viúvas e órfãos; quem não tem delitos secretos na consciência; quem não lesou seu próximo com usura; a quem nenhum perjúrio incrimina a alma; este erga comigo suas mãos cheias de confiança para Deus e ore: Pai nosso! etc.”. E então leu o Evangelho de Domingo de João Batista, em que lhe perguntam se é Cristo “e ele reconheceu e não mentiu, e ele anunciou, eu não sou Cristo!”. – Dessas palavras ele viu a oportunidade de pregar sobre o perjúrio, e depois de ter lido a palavra do Evangelho com uma voz um pouco abafada e solene, após uma pausa, começou: Ai de ti que, sem escrúpulos, Renegas Deus, teu senhor! O que traz tua fronte, Além do sinal do perjúrio? – Com ela mentiste a Deus, Seu nome sagrado era escárnio para ti, Como tu caíste fundo! Ai de ti, apareces Diante de Deus – ele não te conhece – O mais miserável de todos Que sugaram um seio materno – Não te desesperes – talvez, talvez, Um dia as tuas muitas lágrimas Apagarão a chama em teu peito, E o arrependimento, com o passar dos anos, Lavará a culpa de tua alma. Tu, que cometeste sacrilégios, Oh, não deixes, quando ainda puderes chorar, A esperança se perder – Deus te oferece ainda Sua face, Ele não quer a morte do pecador, Sua boca o prometeu. Essas palavras, ditas com pausas mais frequentes e com o páthos mais sublime, tiveram um efeito incrível. Quando o pastor terminou, todos respiraram aliviados; limparam o suor da testa. – E então a natureza do perjúrio foi investigada, suas consequências postas sob uma luz terrível, cada vez mais terrível. O trovão caiu sobre a cabeça do perjuro, a perdição se aproximou dele como um homem armado, o pecador estremeceu no mais fundo de sua alma – ele gritou: “Que suas montanhas caiam sobre mim, e que suas colinas me cubram!”. – O perjuro não merecia compaixão, ele fora aniquilado perante a ira do Eterno. – Nesse ponto silenciou, exaurido – um terror pânico dominou todos os ouvintes. – Anton percorreu num rápido cálculo os anos de sua vida para saber se não era culpado de algum perjúrio. Mas então teve início o consolo – seriam anunciados a graça e o perdão ao desesperado – desde que pagasse dez vezes oque arrancou de viúvas e órfãos; desde que, ao longo da vida, procurasse lavar de novo sua culpa com lágrimas de arrependimento e boas ações. A graça não era simplesmente dada ao criminoso; era preciso alcançá- la com prece e lágrimas. E agora era como se ele quisesse alcançá-la pela própria prece e lágrimas diante de todos, diante de Deus, colocando-se ele mesmo no lugar do pecador de alma arrependida. – Ao desesperado, é dito: “Ajoelha-te no pó e nas cinzas, até que teus joelhos fiquem feridos, e fala: ‘Eu pequei no céu diante de Ti!’” – cada período começava com um “Eu pequei no céu diante de Ti!”, e depois vinha a confissão nesta ordem: oprimi viúvas e órfãos; tomei dos fracos seu único esteio, dos famintos, seu pão – e assim se passava o registro completo dos sacrilégios. – E cada período se encerrava assim: “Senhor, é possível que eu ainda encontre a graça!”. – Todos os presentes se esvaíram em lágrimas e melancolia. O refrão dito a cada período teve um efeito incrível – era como se a cada vez a emoção recebesse uma nova descarga elétrica, reforçando-a até o mais alto grau. – Por fim, até mesmo a exaustão resultante, a rouquidão do orador (era como se gritasse a Deus pelos pecados do povo), contribuiu para a comoção geral contagiante que a pregação causou; não havia ali criança que não tivesse suspirado e chorado junto. Três terços de hora já tinham se passado como minutos – de repente, ele se deteve e, após uma pausa, concluiu com o mesmo verso que havia começado. – Com voz cansada e abafada, leu então a confissão pública, a confissão dos pecados e o subsequente anúncio do perdão dos pecados; a seguir, orou pelos que quisessem comungar, ele mesmo também comungou, e deu em seguida a bênção de mãos abertas. – Nessa leitura, a voz mais baixa, em comparação ao tom dominante da pregação, soava muito mais solene e comovente. Anton não saiu da igreja, primeiro precisava ver o pastor P. comungar. – Cada passo dele lhe era sagrado. Com uma espécie de veneração, pisou o lugar por onde sabia que o pastor P. tinha passado. O que não teria dado para estar com o pastor na comunhão! Viu então o pastor P. ir para casa junto com o filho, um garoto de 9 anos – Anton teria dado sua existência inteira para ser esse filho felizardo. – Quando via o pastor P. caminhar pela rua com os paroquianos que o rodeavam por todos os lados, e agradecer cordialmente aos que o cumprimentavam, era como se distinguisse certo brilho em torno de sua cabeça e avistasse um ser sobre- humano caminhando por entre os mortais – seu maior desejo era, tirando seu chapéu, atrair para si um olhar do pastor. – E, quando conseguiu isso, voltou correndo para casa a fim de guardar, por assim dizer, aquele olhar em seu coração. Na tarde do domingo seguinte, o pastor P. pregou sobre o amor ao próximo, e, se sua pregação contra o perjúrio comovera bastante a alma, esta tocou-a com mais suavidade; as palavras fluíam de seus lábios como mel, cada movimento era diferente, todo o seu ser parecia transformado conforme o tema que pregava. E não havia ali a menor afetação. Era-lhe natural se envolver com todos os pensamentos e sentimentos que o tema do discurso suscitava. Naquela manhã, Anton ouvira, com espantoso tédio, o outro pregador dessa igreja – algumas vezes sentia raiva dele, quando tudo sugeria que iria dizer amém e em seguida começava de novo no mesmo tom. Mas agora mais do que nunca o martírio de Anton era maior do que quando ouvia uma daquelas pregações entediantes, pois não podia evitar estabelecer constantemente comparações com a pregação do pastor P. depois que as imaginara como o ideal supremo, inatingível por qualquer outra pessoa. Quando a pregação da manhã terminou, era a vez de o pastor P. celebrar a consagração da comunhão, que Anton ouviu pela primeira vez dele – e que figura venerável! Estava em pé no fundo da igreja, diante do grande altar, e cantou as palavras: “Agradeçam ao Senhor, pois Ele é atencioso e Sua bondade dura eternamente” – com uma voz que se erguia ao céu e uma expressão tão poderosa que Anton acreditou por um momento estar alçado a regiões elevadas – para ele era como se tudo acontecesse atrás de uma cortina, num santuário, onde seus pés não tinham permissão para se aproximar – como ele invejava os fiéis que pisavam o altar e podiam receber a comunhão das mãos do pastor P.! – Uma moça bem jovem, vestida de preto, de face pálida e fisionomia repleta de devoção celeste, subiu ao altar, deixando no coração de Anton uma impressão que ele até então desconhecia. Nunca mais voltou a vê-la, mas a imagem dela jamais se apagou de sua alma. Agora sua imaginação se divertia de outra forma. – A ideia da comunhão o acompanhava de quando ia dormir à hora em que se levantava, ocupando todo o seu dia quando se encontrava só no trabalho; assim, o pastor P. pairava sempre em sua mente com sua voz suave e encorpada e seus olhos erguidos ao céu, que pareciam iluminar mais do que uma devoção terrena. Às vezes, a imagem da jovem vestida de preto, de face pálida e fisionomia repleta de devoção, também se impunha em sua imaginação. Essas coisas todas deixavam sua imaginação tão entusiasmada que ele se consideraria a pessoa mais feliz do mundo se pudesse comungar no domingo seguinte. Prometia a si mesmo uma consolação tão celestial e sobrenatural ao desfrutar a comunhão que antecipadamente já vertia lágrimas de alegria; ao mesmo tempo sentia certa compaixão suave e tranquilizante para consigo mesmo, que lhe atenuava todas as coisas amargas e desagradáveis de sua situação, quando refletia que, mesmo como aprendiz de chapeleiro, ninguém poderia lhe roubar essa consolação. Ele se propôs a comungar no mínimo a cada catorze dias, assim que estivesse preparado – e nesse desejo se insinuava muito discretamente a esperança de que, ao comungar com certa frequência, talvez o pastor P. pudesse finalmente reparar nele: era sobretudo esse pensamento que trazia uma doçura indizível a essas imagens. Assim, aqui também a vaidade lhe tramava uma cilada onde talvez menos se suspeitava. Ele não podia acreditar que permaneceria desconhecido e ignorado como era agora. Segundo certas ideias romanescas que pusera na cabeça, haveria de calhar que um dia algum homem nobre o encontraria na rua e perceberia nele algo que lhe chamaria atenção, e então tomaria Anton sob seus cuidados. Para ele, a primeira coisa que despertaria a atenção era certo semblante taciturno e melancólico, que assumiu com esse propósito. Por isso, muitas vezes ainda fingia possuí-lo no mais alto grau, como se lhe fosse natural. Quando a fisionomia de algum homem distinto lhe inspirava confiança, ele frequentemente estava já quase a ponto de abordá-lo, de dirigir-lhe a palavra e lhe revelar sua situação – mas sempre o intimidava o pensamento de que esse homem distinto pudesse talvez tomá-lo por um tolo. Quando caminhava pela rua, por vezes também cantava, com certa voz de lamento, alguns cânticos de Madame Guyon que sabia de cor e nos quais acreditava encontrar alusões ao seu destino; pensava que, como nos romances às vezes uma música de lamento entoada por alguém realiza prodígios, talvez ele também conseguisse dar outro rumo ao seu destino, atraindo para si a atenção de algum filantropo. Quanto ao pastor P., sua admiração por ele era tão grande que não teria se atrevido a lhe dirigir a palavra. Quando ele se aproximava, Anton estremecia como se estivesse ao lado de um anjo. Não conseguia imaginar, ou então procurava intencionalmente evitar o pensamento, que o pastor P. se levantava, ia dormir, realizava todas as ações naturais como os demais seres humanos. Visualizar o pastor de pijama e touca de dormir lhe era completamente impossível – ou, antes, ele fugia desse pensamento como se uma fissura se produzisse em sua alma. Em especial a imagem da touca de dormir era para ele algo completamente insuportável, sempre que lhe ocorria pensar nela associada ao pastor P. era como se entrassem em desarmonia em todas as imagens restantes. Certa vez, porém, calhou de Anton seencontrar em pé na porta da igreja quando o pastor P. entrava e disse em baixo-alemão para o sacristão que mais tarde ainda teriam de batizar uma criança. Se alguma vez um contraste provocou um efeito intenso na alma de Anton, foi esse – aquele homem, que ele jamais imaginara senão com aquela maneira solene e desconcertante de se dirigir à assembleia do povo, ele o ouvia agora falando em baixo-alemão com o sacristão, como se fosse um simples artesão, sobre um assunto tão solene como o de um batismo; e falava num tom nada solene, com o qual se diria a alguém para não se esquecer de trazer a bacia. Esse único incidente acarretou de certo modo a diminuição da idolatria de Anton pelo pastor P. Ele passou a idolatrá-lo menos e a amá-lo mais. No entanto, ele havia retirado totalmente do pastor P. seu ideal de bem-aventurança. Não conseguia pensar em nada mais sublime ou estimulante que poder falar em público diante do povo tal como o pastor P. e, em seguida, como ele, tratar às vezes a cidade pelo nome. Em especial, esse último tratamento significava para ele algo de grande e patético – de modo que com frequência, durante o dia todo, ocupava incessantemente seu pensamento com isso –, e até mesmo quando por acaso precisava atravessar a rua para pegar uma cerveja, e via alguns jovens brigando, não conseguia se abster de repetir na mente as palavras do pastor P. e de alertar a cidade inescrupulosa de sua perdição, ao mesmo tempo que erguia o braço, ameaçando. – Por onde passava e parava, arengava em pensamento a si mesmo e, quando ficava impulsivo, fazia a pregação contra o perjúrio. Assim, durante algum tempo ele pairou nesses agradáveis devaneios, que o faziam praticamente se esquecer por completo de que estava a cardar lã na sala gelada, a lavar chapéus no gelo, e da falta de sono, quando muitas vezes tinha de varar noites em vigília. Enquanto trabalhava, as horas muitas vezes fugiam dele, como minutos, contanto que conseguisse se imaginar dentro do caráter de um orador público. Mas ou a tensão não natural de suas forças anímicas ou o grande esforço, para sua idade, de seu corpo no trabalho acabou por derrubá-lo – ele ficou gravemente doente. Seu tratamento não foi o melhor. Com febre, delirava e permanecia deitado sozinho por dias inteiros, sem que alguém cuidasse dele. Mas, por fim, sua natureza sadia triunfou: ele se restabeleceu. Mesmo assim, restaram ainda certa indolência e desânimo da doença – e o filantrópico sr. L. quase provocou nele uma recaída mortal com uma de suas leves advertências. Certo dia, ao entardecer, L. tomava um banho quente de ervas num aposento escuro e isolado, e Anton deveria ficar à sua disposição. Como estava suando no banho e sentindo muito medo, disse a Anton com uma voz que penetrava até os ossos: “Anton! Anton! Tome cuidado com o inferno!” – e então olhou petrificado para um canto. Anton tremeu ao ouvir essas palavras, e um arrepio instantâneo lhe percorreu o corpo inteiro. Todo o terror da morte o invadiu – pois não duvidou nem um pouquinho de que L., naquele momento, tivera uma visão que lhe indicava a morte de Anton; e foi o que o levou a soltar o temido grito: “Tome cuidado, hein! Tome cuidado com o inferno!”. Após o grito, L. saiu de repente do banho, e Anton teve de iluminar o caminho até sua alcova. Caminhava à frente com os joelhos tremendo: e, quando o deixou, L. parecia estar mais pálido que a morte. Se alguma vez houve alguém que rezou para Deus com verdadeira devoção e veemência, foi Anton; assim que se encontrava sozinho, ele se jogava num barracão encostado à oficina, não de joelhos, mas de cara voltada para o chão, e suplicava a Deus por sua vida, pedia-lhe, como um desgraçado já condenado, apenas um prazo de conversão, se tivesse de morrer – pois ele se lembrou de que percorrera mais de vinte vezes as ruas, pulara e sorrira maldosamente – e todos os martírios do inferno estavam sobre ele, martírios que eternamente haveria de suportar. – “Tome cuidado, hein! Tome cuidado com o inferno!”, zumbia ainda em seus ouvidos como se um espírito saído do túmulo tivesse lhe gritado essas palavras – e continuou rezando hora após hora, só pararia no meio da noite ao perceber um alívio de sua angústia – mas como seu peito expelisse um suspiro angustiado após outro, até que enfim lhe vieram as lágrimas, era como se Deus tivesse atendido a seu pedido – e Deus preferia, como antes com os ninivitas, desonrar um profeta a deixar sua alma se perder. – Anton tinha afastado sua febre com reza, mas ela provavelmente voltaria se espíritos irritados não encontrassem essa saída. Muitas vezes uma exaltação, um delírio, cura o outro – os diabos são exorcizados por Belzebu. Após esse esgotamento, Anton acordou na manhã seguinte revigorado pelo sono tranquilo – mas o pensamento da morte também despertou. Acreditou que, quando muito, lhe seria dado um pequeno prazo para a conversão, e por isso teria de se apressar bastante se ainda quisesse salvar sua alma. Fez o mais que pôde; rezava durante o dia inumeráveis vezes, ajoelhado num canto, e conseguiu assim se imbuir de tal convicção da graça divina e de tamanha alegria da alma que muitas vezes acreditou já estar no céu, e de vez em quando desejava a morte antes que pudesse ser afastado novamente desse bom caminho. Mas, apesar de todas essas extravagâncias de sua fantasia, a natureza não deixou de observar o momento certo de regressar – e o amor natural pela vida, o amor pela vida mesma, despertou de novo na alma de Anton. – É claro que nessa circunstância o pensamento de sua morte iminente era muito triste e desagradável, e ele considerava esses momentos como aqueles em que novamente era afastado da graça divina, caindo em novo medo, porque não lhe era possível reprimir a voz da natureza dentro de si. Ele sentia agora em dobro todas as tristes consequências da superstição que lhe tinham incutido desde sua mais tenra infância – os seus sofrimentos podem ser chamados literalmente de sofrimentos da imaginação – para ele, de fato, foram sofrimentos reais, que lhe roubaram a alegria de sua juventude. – Sabia por sua mãe que um sinal certo da proximidade da morte ocorre quando alguém lava as mãos e elas não soltam mais vapor – então ele sempre se via morrendo ao lavar as mãos. – Tinha escutado que, quando um cão uiva na casa com o focinho virado para a terra, está farejando a morte de um ser humano – assim cada uivo de um cão profetizava sua morte. Quando uma galinha cantava como galo, era um sinal inequívoco de que em breve alguém morreria na casa – e justo naquele momento uma dessas galinhas que pressagiavam infortúnios andava em volta do quintal, cantando artificialmente, sem parar, como um galo. Para Anton, nenhum sino da morte soava tão amedrontador como esse canto; e essa galinha lhe deu mais horas sombrias em sua vida do que qualquer adversidade que já sofrera. Quando a galinha ficava quieta alguns dias, ele muitas vezes recuperava o consolo e a esperança na vida – tão logo se podia ouvi-la novamente, todas as suas lindas esperanças e projetos de repente fracassavam. Quando ele andava às voltas com puros pensamentos de morte, coincidiu, pela primeira vez após sua doença, de retornar à igreja onde o pastor P. pregava. Este já estava no púlpito pregando – sobre a morte. Aquilo caiu como um raio sobre Anton; pois certa vez aprendera, conforme o que lhe havia sido posto na cabeça por uma especial conduta divina, a relacionar tudo a si mesmo – a quem mais a pregação sobre a morte se dirigia senão a ele? Um criminoso não poderia ouvir sua sentença de morte com pavor maior do que Anton sentia ao ouvir aquela pregação. Certamente o pastor P. aduziu razões de consolação suficientes contra os terrores da morte, mas qual a serventia disso contra o amor natural pela vida que prevalecia nele, apesar dos delírios que atulhavam sua cabeça? Foi para casa com o coração abatido e entristecido, e a pregação o deixou melancólico por catorze dias, e, se o pastor P. soubesse que ela surtiria o mesmo efeito sentido em Anton emmais duas pessoas, ele provavelmente não a teria feito. Assim, seguindo a direção peculiar dada pelos instrumentos escolhidos pela graça divina, Anton se tornara, aos 13 anos, um completo hipocondríaco, de quem se podia dizer literalmente que a cada momento morria vivendo. O gozo da juventude lhe foi vergonhosamente roubado – a graça obsequiosa lhe enlouqueceu a cabeça. Mas a primavera chegou novamente, e a natureza, que a tudo cura, começou também aos poucos a melhorar mais uma vez o que a graça tinha estragado. Anton sentiu em si mesmo uma nova força de vida; ele se lavava, e suas mãos voltaram a soltar vapor – nenhum cão uivava mais – a galinha parou de cantar – e o pastor P. não fez mais pregações sobre a morte. – Anton voltou a passear sozinho aos domingos, e certa vez, sem se dar conta, calhou de estar diante da porta da cidade na qual mais ou menos um ano e meio antes entrara com o pai, vindo de H. Não se pôde conter e saiu a percorrer a larga estrada real ladeada por salgueiros, por onde outrora passara. Estranhas sensações se manifestavam em sua alma. Ao avistar a sentinela indo e vindo lá em cima do baluarte, sua vida inteira desde aquela época surgiu de repente em sua memória – e começou a ter diversas ideias de como seria a aparência da cidade lá dentro, de como fora construída a casinha de L. Era como se despertasse de um sonho – e estivesse novamente no local onde o sonho começara –, todas as cambiantes cenas vividas nesse um ano e meio em B. se comprimiam umas nas outras, e as imagens isoladas pareciam diminuir segundo a maior medida adquirida repentinamente por sua alma. Como é poderoso o efeito da ideia do lugar à qual atamos todas as outras. As ruas e casas isoladas, que Anton via diariamente, eram o imutável de suas representações, às quais sempre se unia o mutável de sua vida, e, por meio do imutável, a vida adquiria coerência e verdade e ele diferenciava a vigília do sonho. Na infância, é especialmente necessário que todas as outras ideias se juntem às de lugar, pois elas, por assim dizer, têm em si mesmas ainda pouca consistência e não conseguem ainda se manter firmes em si mesmas. Por isso, com frequência é realmente difícil diferenciar a vigília do sonho na infância; e lembro que um de nossos maiores filósofos vivos me fez sobre esse assunto uma observação bastante notável a respeito dos anos de sua infância. Em razão de certo péssimo hábito, bastante comum entre as crianças, ele tinha sido castigado muitas vezes com vara. Mas sempre lhe ocorrera um sonho bem vivo, como também é comum, em que se apoiava na parede e… Se às vezes, durante o dia, estava realmente apoiado na parede para esse fim, ele se lembrava então do castigo pesado sofrido tantas vezes – e aguardava durante algum tempo antes de ousar satisfazer uma necessidade premente da natureza, porque temia ser novamente um sonho do qual teria mais uma vez de esperar um castigo severo – até olhar para os lados e em seguida calcular o quanto de tempo se passara antes de poder se convencer completamente de que não estava sonhando. Ao despertar pela manhã, temos também o costume de por vezes sonhar ainda um pouco, e a passagem para a vigília é feita gradualmente, de modo que começamos primeiro a nos orientar e, quando de repente sentimos o raio da manhã pela janela, todo o resto se organiza pouco a pouco por si mesmo. Por isso era tão evidente que Anton, mesmo depois de estar já havia algumas semanas em B., na casa de L., acreditasse pela manhã que ainda estava sonhando, quando já tinha realmente acordado, porque o prego no qual, ao despertar de manhã, ele sempre atava tanto as ideias dos dias anteriores como as de sua vida pregressa, por meio do qual elas adquiriam coerência e verdade, tinha, por assim dizer, se deslocado; porque a ideia de lugar não era mais a mesma. Devemos nos espantar se a mudança de lugar frequentemente contribui bastante para nos fazer esquecer, como se fosse um sonho, daquilo que não gostamos de pensar ser real? Em anos posteriores, especialmente quando já viajamos muito, esse vínculo das ideias ao lugar se perde em outra coisa. Aonde se vai, ou vemos tetos, janelas, portas, calçamento, igrejas e torres, ou vemos campo, floresta, plantações ou charneca. – As diferenças salientes desaparecem; a terra se torna igual por toda parte. – Quando Anton caminhava pela rua em B., sobretudo à tarde, no começo do crepúsculo, muitas vezes era como se de repente estivesse sonhando. Além do mais, era comum isso acontecer quando caminhava por uma rua qualquer, que lhe parecia ter uma semelhança distante com uma rua de H. Então, por um momento, seu estado em H. novamente se fazia presente; as cenas de sua vida se emaranhavam umas nas outras. Em seus passeios, sempre sentia uma atração especial para conhecer os arredores da cidade que ainda não visitara. Sua alma se alargava cada vez mais, era como se tivesse ousado dar um pulo para fora do estreito círculo de sua existência; as ideias cotidianas se perdiam, e perspectivas grandes e agradáveis, os labirintos do futuro, se abriam diante dele. Mas ele ainda não conseguira reunir num único e completo olhar sua vida inteira em B., com todas as diversas mudanças. Todas as vezes, o lugar onde se encontrava lhe recordava com muita força alguma parte isolada da vida, para deixar ainda lugar para o todo em seu pensamento; ele sempre girava com as ideias num círculo estreito de sua existência. E para ter uma imagem clara do todo de sua vida naquele lugar era preciso praticamente cortar todos os fios, fios que sempre prendiam sua atenção ao aspecto momentâneo, cotidiano e despedaçado da vida; e que ele, ao mesmo tempo, se deslocasse para o lugar de onde observava sua vida em B., antes de seu início, quando ela ainda aparecia diante dele como um futuro nascente. Agora ele se encontrava na porta da cidade, o mesmo lugar por onde havia saído casualmente e por onde havia entrado mais ou menos um ano e meio antes, passando pela larga estrada real ladeada por salgueiros, e avistara a sentinela indo e vindo em cima do baluarte. Esse lugar tinha de ser exatamente aquele que, por meio da repentina recordação de milhares de ninharias, parecia deslocá-lo outra vez justamente para o estado em que se encontrava imediatamente antes do começo de sua vida ali. Tudo o que estava entre os dois momentos tinha agora de se condensar em sua imaginação como sombras misturadas umas às outras, tornando-se semelhantes a um sonho. Pois seu atual estar ali na ponte e olhar para o alto do baluarte, onde a sentinela estava, associavam-se estreitamente ao seu estar ali e olhar para o alto do baluarte de um ano e meio antes. Anton imaginava agora o passado e todas as cenas da vida que levara em B. como, naquela época, um ano e meio antes, ele as havia pensado como futuro, e a imagem muito viva e a rememoração do lugar fizeram a lembrança do tempo transcorrido entre os dois momentos se extinguir ou se atenuar – de qualquer forma, é difícil explicar de outro modo o fenômeno daquela estranha sensação que Anton teve então, e que cada um ao menos algumas vezes se lembrará de ter tido na vida. Mais de dez vezes Anton esteve a ponto de não retornar à cidade, mas de pegar o caminho à sua frente e voltar para H., se o pensamento de fome e frio não o tivesse intimidado. Mas daquele dia em diante ele manteve o firme propósito de não permanecer muito mais tempo na casa de L., custasse o que custasse. Por isso ficou mais indiferente a tudo, porque imaginava que aquilo não duraria muito. O próprio L. começou a ficar tão farto de Anton que finalmente escreveu para seu pai em H., dizendo-lhe que poderia vir buscar o filho, pois não seria possível fazer mais nada com ele. Para Anton, nada poderia ter sido tão bem-vindo quanto a notícia de que nos dias seguintes seu pai o levaria de volta para casa. Concluiu que seria enviado de qualquer maneira a uma escola em H. antes que o deixassem fazer a comunhão, e nesse caso ia querer se destacar para que prestassem mais atenção nele. Antes ele ambicionavatanto ir para B., agora queria voltar para H., e de novo ele se embalava em agradáveis sonhos do futuro. Apesar de sua difícil situação, acabou adorando tantas coisas em B. que muitas vezes certo pesar se misturava a suas agradáveis esperanças, mergulhando-o numa leve melancolia. – Ficava frequentemente sozinho às margens do Oker, seguindo com o olhar, até onde sua vista pudesse acompanhar, algum barquinho que passasse por ali – em seguida, muitas vezes inesperadamente, era como se tivesse uma visão do futuro sombrio, mas, quando pensava ter agarrado firme essa agradável ilusão, ela num instante desaparecia. Procurou então se divertir ainda uma vez em todos os arredores da cidade, que até então tinha visitado em seus passeios dominicais, despedindo-se com pesar deles um após outro, já esperando jamais voltar a vê-los. Ouviu ainda várias pregações do pastor P., das quais algumas passagens isoladas jamais sairiam de sua memória. Ficou extremamente comovido numa pregação sobre a paixão de Jesus na qual o pastor P. dizia as seguintes palavras, com afeto sempre crescente: “Pleno de compaixão, ele olha para baixo, para os seus assassinos, e reza, e reza, e reza – Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem!”. E numa pregação sobre a confissão, feita com os versículos do evangelho sobre a cura do leproso que deveria se mostrar ao sacerdote, as palavras dirigidas aos hipócritas que observavam minuciosamente todas as práticas aparentes da religião, mas carregavam no peito um coração hostil, ele iniciava cada período com: “Vinde ao confessionário e vos mostrai ao sacerdote, mas ele não pode olhar dentro de vossos corações etc.”. Logo também se repetia com bastante frequência uma frase na pregação, que para Anton era excepcionalmente comovente e lhe soava assim: Subireis às alturas. – A última palavra, a que era sempre engolida, de modo que não conseguia entendê-la direito, soava-lhe como o alto, e essa palavra ou esse som o comovia até as lágrimas toda vez que pensava novamente nela. Igualmente atraente era a expressão que ocorria muitas vezes na pregação do pastor P. – os cumes da razão –, mas essa tinha suas causas específicas, cuja explanação não será inútil. O coro da igreja, onde o órgão estava e os alunos cantavam, lhe pareceu sempre algo inalcançável; ansioso, ele olhava muitas vezes naquela direção e não desejava bem- aventurança maior do que poder observar uma única vez a maravilhosa estrutura do órgão e o que mais estivesse ali próximo, pois essas coisas todas ele só podia admirar a distância. – Essa fantasia tinha parentesco com outra que trouxera de H. – lá havia certa torre que sempre fora um objeto de atração incomum para ele; observava-a com encanto e muitas vezes invejava os músicos da cidade que ficavam lá em cima na galeria, tocando de manhã e de tarde para os que estavam lá embaixo. Podia ficar observando horas e horas essa galeria que, lá de baixo, lhe parecia tão pequena que não alcançaria nem seus joelhos e da qual mal sobressaía a cabeça dos músicos da cidade que ali tocavam; mas se destacava por completo o mostrador do relógio, que, segundo várias pessoas que haviam estado lá em cima, devia ser tão grande quanto uma roda de carroça, mas que para ele lá embaixo não era maior que a roda de uma carriola. – Tudo isso estimulava sua curiosidade no mais alto grau, de modo que por dias inteiros ele muitas vezes não lidava com nada a não ser com o pensamento e o desejo de poder observar uma vez de perto essa galeria e o mostrador do relógio. Agora, na torre em H., podia-se ver, pelas sineiras abertas sobre a galeria, o balanço dos sinos; e Anton quase devorava com os olhos esse espetáculo, para ele totalmente novo, pois via a grande máquina de metal, a qual produzia o som que fazia vibrar tudo, subir e descer alternadamente sob os pés de pessoas aparentemente bem pequenas que estavam lá em cima e acionavam os sinos pisando os pedais. Era como se ele olhasse no mais íntimo das entranhas da torre e se lhe revelasse, mesmo a distância, a misteriosa engrenagem dos sons maravilhosos que tantas vezes ouvira emocionado. Mas por causa disso, em vez de se apaziguar, sua curiosidade era ainda mais estimulada – ele tinha visto apenas metade do sino, que se erguia com sua abóbada descomunal, e não toda a sua extensão – desde criança ouvira sobre a grandeza do sino, e a imaginação ainda aumentava consideravelmente a imagem em sua alma, produzindo assim as ideias mais romanescas e exageradas. Com a dor que sentia nos pés, com a opressão que sofria dos pais, qual era seu consolo? Qual era o sonho mais agradável de sua infância? Qual era seu mais ansiado desejo, que muitas vezes o fazia esquecer tudo? – O que, senão observar de perto o mostrador do relógio e a galeria na torre da parte nova da cidade de H., com seus sinos? Por mais de um ano esse jogo de fantasia atenuou as horas mais sombrias de sua vida – mas, ah, ele teve de abandonar H. sem que seu mais ansiado desejo fosse realizado. A imagem da torre da parte nova da cidade, porém, jamais lhe saiu do pensamento, perseguindo-o até B., e em sonhos noturnos frequentemente lhe vinha a ideia de estar no alto da escada de milhares de curvas labirínticas, por onde subia na torre, chegava à galeria e apalpava com prazer indizível o mostrador, e depois não só via, próximo de seus olhos, interiormente o grande sino como também outros incontáveis pequenos sinos, ao lado de mais coisas maravilhosas, até esbarrar a cabeça na borda imensa do grande sino e despertar. Agora todas as vezes que o pastor P. falava sobre os cumes da razão Anton pensava encantado na altura de sua querida torre, no sino dentro dela e no mostrador do relógio – e depois no coro superior onde se situava o órgão da igreja em B. –, depois de repente despertavam todos os seus anseios novamente, e a expressão os cumes da razão lhe arrancava lágrimas de melancolia. A parte propriamente expositiva das pregações do pastor P., na qual ele falava com velocidade espantosa, Anton a perdia porque não conseguia acompanhá-lo de modo algum com o pensamento. Mas, depositando a esperança na parte exortativa, ele o ouvia com prazer – como se primeiro as nuvens se aglomerassem para em seguida irromper numa tempestade benéfica ou numa chuva leve. Certa vez, porém, foi à igreja com o propósito de anotar em casa a pregação do pastor P., e de repente era como se, à medida que ouvia, sua alma se iluminasse, sua atenção tomasse uma nova direção – antes escutara com o coração, agora pela primeira vez escutava com o entendimento. Ele não queria apenas ficar comovido com passagens isoladas, mas abarcar toda a pregação, e começou então a achar a parte expositiva tão interessante quanto a exortativa. A pregação abordava o amor ao próximo, como os homens seriam felizes se cada um procurasse promover o bem de todos os outros, e todos os outros, o bem de cada um. Essa pregação, com todas as suas partes e subpartes, jamais lhe saiu da memória, e ele a ouviu com o propósito de anotá-la, o que fez assim que chegou em casa, e August, para quem ele a leu, ficou completamente admirado. A anotação dessa pregação provocara certo desenvolvimento de sua capacidade de compreensão. Pois desde então suas ideias aos poucos começaram a se ordenar umas às outras – aprendeu sozinho a refletir sobre um tema –; procurava novamente expor a ordem de seus pensamentos, e, já que não conseguia dizê-la a ninguém, escrevia dissertações, que sem dúvida eram com frequência demasiado estranhas. Como antes falara com Deus pessoalmente, começou então a se corresponder com Ele e Lhe escreveu longas preces nas quais Lhe contava sobre seu estado. Sentiu-se impelido a escrever mais dissertações, porque lhe fazia muita falta todo tipo de leitura – e já fazia muito tempo que L. não lhe dava mais nenhum livro, exceto a Descrição do céu e do inferno, de Engelbrecht, um artesão de tecidos em Winser, às margens do rio Aller, com que o havia presenteado. Não é possível que tenha havido pior fanfarrão no mundo do que esse Engelbrecht,que havia realmente sido considerado morto, e que, após o restabelecimento, fez sua velha avó crer que estivera de fato no céu e no inferno; ela continuou contando a história e assim nasceu o divertido livro. O sujeito não tinha vergonha de afirmar que flutuara no mais fundo do céu com Cristo e os anjos de Deus, e lá pegou o Sol com uma das mãos e a Lua com a outra, e contou as estrelas do céu. Não obstante, suas comparações por vezes eram bastante ingênuas – ele comparou, por exemplo, o céu a uma deliciosa sopa de vinho, da qual se provaram na terra apenas algumas poucas gotas e que se podia tomar com colher – e afirmava que a música celestial era superior à terrestre assim como um lindo concerto comparado à monotonia de uma gaita de foles ou ao apito de uma corneta de guarda-noturno. E prosseguia assim, se vangloriando das inúmeras honras recebidas no céu. Por falta de alimento melhor, a alma de Anton teve de se contentar com essa refeição rala, ao menos assim sua imaginação ficava ocupada – seu entendimento permanecia, por assim dizer, neutro –, ele nem acreditava nem duvidava daquilo; apenas imaginava tudo com vivacidade. Enquanto isso, o desdém e o ódio de L. direcionados a Anton frequentemente acabavam em reprimendas e sovas; ele atormentou a vida de Anton da maneira mais cruel; delegava-lhe os trabalhos mais baixos e humilhantes. – Mas nada foi mais ofensivo para Anton do que quando teve de carregar um peso em suas costas pela primeira vez na vida, um cesto com chapéus empacotados, pela rua pública, enquanto L. ia à sua frente – para ele, era como se todas as pessoas na rua o estivessem observando. Todo o peso que conseguia levar diante de si, ou sob os braços, ou nas mãos, lhe parecia muito honroso para acreditar que o desonrava. – Mas ter de caminhar curvo, com a nuca vergada ao jugo como um animal de carga, enquanto seu dono orgulhoso caminhava à sua frente, isso ao mesmo tempo abatia todo o seu ânimo e tornava o peso milhares de vezes mais pesado. Acreditava que tinha de afundar na terra tanto de cansaço como de vergonha, antes de chegar com seu fardo a determinado lugar. Esse lugar era o arsenal onde eram entregues os chapéus solicitados pelo serviço militar. – Anton não desejara ver os sinos e o mostrador do relógio da torre da parte nova da cidade em H. mais ardentemente do que ver esse arsenal por dentro, diante do qual passara tantas vezes sem poder saciar essa vontade. Mas ter conseguido ver o arsenal nesse estado estragou seu prazer. Carregar aquele peso nas costas debilitou seu ânimo mais do que qualquer humilhação que já sofrera e mais do que as reprimendas e as sovas de L. Era como se ele não pudesse se rebaixar mais; olhava a si mesmo quase como uma criatura desprezível e descartável: era uma das situações mais cruéis de toda a sua vida, da qual se recordava de modo intenso sempre que posteriormente via um arsenal, cuja imagem de novo crescia logo que ouvia a palavra subjugar. Quando algo assim acontecia, ele procurava se esconder de todas as pessoas; cada som de alegria o repugnava; corria para o lugarzinho atrás da casa, às margens do rio Oker, e muitas vezes olhava melancólico por horas e horas a correnteza do rio. – Se alguma voz humana o alcançava ali, vinda de uma das casas vizinhas, ou ele ouvia cantar, sorrir ou falar, era como se o mundo lhe desse uma risada sardônica, de tão desprezível e aniquilado ele se achava desde que curvara sua nuca sob o jugo de um cesto. Para ele, era uma espécie de deleite soltar junto uma gargalhada sarcástica quando, em sua lúgubre fantasia, ouvia os outros gargalhando dele – numa dessas horas terríveis em que, cheio de desespero, desatou numa risada sarcástica, o desgosto pela vida se tornou tão forte que a fraca tábua em que estava começou a tremer e a balançar. Seus joelhos não o sustentavam mais; ele caiu na correnteza do rio – August foi seu anjo da guarda; havia já algum tempo ele estava atrás dele sem ser percebido e o puxou pelo braço, tirando-o dali. Entretanto, mais pessoas haviam chegado – a casa inteira acorreu ao local, e daquele momento em diante Anton foi considerado uma pessoa perigosa que precisava ser arredada da casa assim que possível. L. imediatamente escreveu relatando o ocorrido para o pai de Anton, que chegou a B. catorze dias depois, com a alma completamente desanimada, a fim de levar de volta a H. seu filho desnaturado, em cujo coração, segundo julgamento do sr. de F., Satã construíra um templo indestrutível. Anton ainda permaneceu alguns dias com o chapeleiro L., e durante esse tempo, na companhia do pai, resolveu, ainda com zelo redobrado, todos os seus negócios e procurou nisso tranquilidade para finalizar tudo o que estava ao alcance de suas forças. Em pensamento, ele se despediu da oficina, da sala de secagem, do chão de madeira e da igreja de B. – e sua ideia mais agradável era poder contar à mãe sobre o pastor P. quando chegasse a H. Quanto mais se aproximava a hora da despedida, mais leve ficava seu coração. Em breve sairia de sua situação estreita e opressiva. O amplo mundo se abria novamente diante dele. Com August, a despedida foi terna, com L., gélida – era uma tarde de domingo, com céu nublado, e Anton saiu da casa de L. novamente acompanhado pelo pai – contemplou mais uma vez a porta preta com grandes pregos e, confiante, lhe deu as costas para sair mais uma vez caminhando pela porta da cidade, diante da qual fizera havia pouco tempo um passeio interessante. Os altos baluartes da cidade e a torre da igreja de Santo André sumiram rapidamente de seu campo de visão, e ao longe viu, no escuro entardecer, apenas o Brocken coberto de neve desaparecendo por entre densas nuvens que pairavam sobre ele. O coração de seu pai estava frio e fechado para ele; pois o observava totalmente com os olhos do chapeleiro L. e do sr. de F., como aquele em cujo coração Satã ergueu seu templo – no caminho, falou-se pouco, mas continuaram caminhando sempre mais silenciosos, e Anton mal se deu conta da extensão do caminho, de tão agradável era a conversa com os próprios pensamentos – quando revisse a mãe e os irmãos, poderia contar a eles sua sina. As quatro lindas torres de H. enfim sobressaíram – e, como um amigo que revemos após uma longa separação, Anton observou a torre da parte nova da cidade e de repente despertou novamente seu amor pelo sino. Ele se viu outra vez do lado de dentro das muralhas de H. e tudo lhe era novo – seus pais haviam se instalado em outra residência, pequena e escura, numa rua isolada, e enquanto subia as escadas aquilo tudo lhe era estranho como se fosse impossível fazer parte daquela família. Mas, se o comportamento do pai com ele fora tão frio e desanimador, a alegria da mãe e dos irmãos foi tão ruidosa e explosiva que eles correram em sua direção, olhando atentamente suas mãos rachadas de frio, e pela primeira vez sentiram pena dele. Quando, no dia seguinte, ele visitou todos os lugares conhecidos em que costumava brincar – era como se tivesse envelhecido nesse meio- tempo e quisesse agora recordar os anos de sua juventude –, topou com uma trupe de antigos colegas de escola e companheiros de brincadeira, que lhe apertaram a mão e se alegraram com seu retorno. Assim que ficou sozinho com sua mãe, o que ele poderia ter feito senão lhe contar sobre o pastor P.? – De qualquer modo, ela tinha uma veneração ilimitada por aquilo que dizia respeito aos sacerdotes e pôde muito bem simpatizar com Anton em seu sentimento pelo pastor P. – Ah!, mas que horas bem-aventuradas não foram aquelas em que Anton pôde verter seu coração e falar horas a fio sobre o homem por quem, de todos os homens da terra, tinha o maior amor e respeito. Ouviu então os pregadores de H., mas que distância! Entre todos não encontrou nenhum pastor P., exceto um de nome N., que, quando falava com intensa emoção, assemelhava-se um pouco. – Nenhum pregador podia receber a aprovação de Anton se não falasse ao menos tão rápido quanto o pastor P. – e se o pregador é considerado orador, tenho minhas dúvidasse Anton estaria totalmente errado. – O professor tem de falar devagar, o orador, rápido. O professor deve iluminar gradualmente o entendimento, o orador, penetrar irresistivelmente o coração. Com o entendimento é preciso proceder devagar, com o coração, rápido, quando se quer não errar a finalidade – é claro que ele sempre será um péssimo professor se não for às vezes um orador, e será um péssimo orador se não for às vezes professor – mas, quando Fox[10] fala no Parlamento inglês, sobrevém uma velocidade que não há igual, e nessa impetuosa corrente ele leva tudo consigo, comovendo a alma de seus ouvintes como o pastor P. fez em sua pregação sobre o perjúrio. Num domingo, Anton ouviu com a maior má vontade um pregador de nome M. pregar na igreja G., em H., porque, não tendo também a menor semelhança com o pastor P., era praticamente o contrário dele no que concerne à fala, um pouco lenta e acomodada. Ao chegar em casa, Anton não conseguiu se conter e desabafou com a mãe o ódio que nutria por esse pregador – mas que espanto não sentiu quando sua mãe lhe disse que teria de ir às aulas de religião, confessar e comungar justamente com ele, porque era seu confessor e ela pertencia à sua paróquia. Quem diria que Anton um dia poderia amar esse homem pelo qual ele antes experimentara uma aversão irresistível, que um dia esse homem se tornaria seu amigo e benfeitor? Ocorreu, no entanto, um incidente que deixou a alma de Anton, já inclinada à melancolia, num humor ainda mais soturno: sua mãe estava com uma doença mortal e durante catorze dias correu perigo de vida. – Não é possível descrever o que Anton sentiu nessa situação. – Era como se ele mesmo morresse em sua mãe, tão intimamente sua existência estava entrelaçada à dela. – Muitas vezes, chorava noites inteiras quando ouvia o médico dizer que perdera a esperança na recuperação. – Era como se não lhe fosse verdadeiramente possível suportar a perda da mãe. – O que era evidente, pois fora abandonado por todos, e só se encontrou novamente no amor e na confiança dela. O pastor M. chegou e administrou a comunhão à mãe de Anton – agora ele acreditava que não havia mais esperança e estava inconsolável – suplicou a Deus pela vida dela e lhe ocorreu pensar no rei Ezequias, que recebeu um sinal de Deus de que seu pedido tinha sido atendido e sua vida, prolongada. Anton agora procurava também por um sinal desses; será que a sombra não recuaria no muro do jardim? – e a sombra finalmente pareceu recuar, pois uma fina nuvem passara diante do sol. Ou sua fantasia fez essa sombra recuar – mas daquele momento em diante teve uma nova esperança; e sua mãe começou realmente a se recuperar. Ele também voltou a viver – e fez de tudo para ser amado pelos pais. Mas com seu pai não deu certo; este, desde que fora buscar Anton em B., dispensava-lhe um ódio amargo e implacável, que ele o fazia sentir a cada ocasião – cada refeição lhe era cobrada, e Anton teve muitas vezes de comer seu pão literalmente com lágrimas. Seu único consolo nessa situação eram os passeios só com seus dois irmãos, com os quais fazia verdadeiras caminhadas pelos baluartes da cidade, fixando sempre um destino, o que tornava o passeio, por assim dizer, uma viagem. Essa era sua atividade preferida desde a mais tenra infância e, quando ainda mal conseguia andar, já fixava como tal destino a esquina da rua onde seus pais moravam, limite de suas pequenas caminhadas. Transformava em montanha o baluarte que escalava, em floresta os arbustos através dos quais abria trilhas, e em ilha um morrinho de terra nas valas da cidade; e assim ele e os irmãos, num perímetro de menos de cem passos, empreendiam frequentemente várias viagens de muitas léguas – eles se perdiam e erravam na floresta, escalavam penhascos altos e chegavam a uma ilha inabitada – em suma, com os irmãos, ele realizava seu mundo romanesco da melhor forma que podia. Em casa, inventava todo tipo de brincadeiras com os irmãos, muitas vezes arriscadas – cercou cidades, conquistou as fortalezas construídas com os livros de Madame Guyon, atirando nelas castanhas selvagens como bombas. Por vezes, também pregava, e seus irmãos eram obrigados a ouvi- lo. Na primeira vez, ele construíra um púlpito com as cadeiras, e os irmãos se sentavam no escabelo diante dele; ficou muito emocionado – o púlpito desabou, e ele caiu com a cadeira em que estava sobre a cabeça de seus irmãos. A gritaria e a confusão foram gerais – nisso seu pai entrou e começou a repreendê-lo energicamente pela pregação. A mãe de Anton chegou e quis arrancá-lo das mãos do pai; como não conseguiu, sua ira tomou direção totalmente contrária, e ela começou também a bater com todas as suas forças em Anton, a quem todas as súplicas e pedidos de nada ajudaram. Jamais uma pregação ocorreria de maneira tão desastrada como essa primeira que Anton fez em sua vida. Mesmo em sonho, as lembranças desse acontecimento frequentemente o deixavam aterrorizado. Mas isso não o desencorajou, passou a subir com ainda mais frequência em seu púlpito e lia toda a pregação escrita, com evangelho, tema e divisões. Pois, desde que começara a copiar pela primeira vez a pregação do pastor P., havia ficado ainda mais fácil ordenar seus pensamentos e estabelecer certa ligação entre eles. Agora não passava um domingo sem copiar uma pregação, e com isso logo adquiriu tal destreza que era capaz de completar de memória o que estava faltando, conseguindo passar inteira para o papel uma pregação que ouvira e da qual copiara o principal. Anton estava com 14 anos nessa época; e era necessário que, para ser confirmado ou aceito no seio da Igreja cristã, frequentasse por um tempo alguma escola na qual fossem ministradas aulas de religião. Havia então em H. um instituto no qual jovens eram formados como futuros mestres-escola de pequenos povoados, associado também a uma escola livre que auxiliava os futuros professores na prática de aulas. Essa escola, portanto, existia realmente mais em função dos professores do que os professores em função dela – como os alunos não precisavam pagar nada, esse estabelecimento era um abrigo para os pobres que lá podiam levar suas crianças para ter aulas sem pagar nada; e, como não estava tão disposto a gastar muito com o filho arruinado e excluído da graça divina, o pai de Anton o levou enfim até lá, onde ele viu de repente se abrir diante de si uma carreira inteiramente nova. Foi uma visão solene para Anton, pois logo na primeira aula da manhã viu todos os futuros professores reunidos com alunos e alunas numa classe. – O padre que era inspetor dessa instituição catequizava os alunos todas as manhãs, e a catequese devia servir de modelo aos professores. – Estes ficavam todos sentados às mesas para anotar as perguntas e as respostas, enquanto o inspetor ia de um lado para outro, perguntando. Numa das aulas da tarde, um dos professores tinha de repetir com os alunos, na presença do inspetor, a catequese que este havia proferido de manhã. Copiar tinha já se tornado uma coisa muito fácil para Anton, e, quando à tarde o professor repetiu a lição da manhã, Anton, mesmo em pé, a tinha copiado muito melhor em sua lousa do que o professor e, assim, conseguiu naturalmente responder mais do que este lhe perguntava, o que pareceu despertar um pouco a atenção do inspetor, deixando Anton extremamente lisonjeado. Mas, para que não ficasse envaidecido de seu êxito, o dia seguinte lhe preparava uma humilhação que praticamente superava aquela em B., quando pela primeira vez teve de caminhar com o cesto nas costas. Na segunda aula da manhã seguinte, havia um exercício de soletração em que um dos meninos tinha de soletrar uma sílaba sozinho e gritar, e depois todos os outros, feito uma só boca, tinham de repetir em voz alta. Essa gritaria zumbindo nos ouvidos e o exercício inteiro pareciam algo maluco e vertiginoso a Anton, e ele muito se envergonhava de ter de recomeçar a aprender a soletrar, pois se gabava de já conseguir ler com estilo – mas logo chegou sua vez de gritar, pois aquilo corria rápidocomo um rastilho; e ele ficou sentado e estacou, e de repente toda a bela música saiu do compasso. – “Agora continue!”, disse o inspetor e, como não houve prosseguimento, olhou para Anton com um olhar de extremo desprezo, dizendo: “Garoto idiota!”, e mandou o seguinte continuar soletrando. Naquele momento Anton acreditou estar aniquilado; de repente, se viu profundamente rebaixado na opinião de um homem com cuja aprovação havia contado muito, e que presumia agora que ele não era nem mesmo capaz de soletrar. Se em B. seu corpo havia sido subjugado pelo peso que teve de carregar, muito mais o era agora seu espírito, abatido pelo peso com que as palavras do inspetor caíram sobre ele: Garoto idiota!. Mas dessa vez valeu para ele o que se conta sobre Temístocles, que certa vez em sua juventude também passou por uma reprimenda pública: non fregit eum, sed erexit [11]. – Desde o dia em que sofreu essa humilhação, ele se esforçou dez vezes mais do que antes para angariar o respeito de seus professores, a fim de que o inspetor, que o havia julgado mal, viesse a se envergonhar e se arrepender da injustiça que havia cometido. Todas as manhãs, na primeira aula, o inspetor expunha dogmaticamente os conceitos doutrinais da Igreja Luterana, com todas as contestações, tanto dos papistas quanto dos reformistas, baseando sua exposição na interpretação de Gesenius do Catecismo menor de Lutero – a cabeça de Anton obviamente se encheu de coisas inúteis, mas ele aprendeu a separar o principal do secundário, aprendeu a proceder sistematicamente. Seus cadernos de cópia aumentavam cada vez mais, e em menos de um ano ele possuía uma dogmática completa com todas as provas tiradas da Bíblia, juntamente com a polêmica completa contra pagãos, turcos, judeus, gregos, papistas e reformistas – sabia discorrer, como um livro, sobre a transubstanciação na eucaristia, sobre os cinco passos da exaltação e humilhação de Cristo, sobre as principais lições do Alcorão e sobre as principais provas da existência de Deus contra os espíritos livres. E então discorria realmente sobre todas essas coisas como um livro. O material de pregação era farto, e seus irmãos tiveram de ouvi-lo repetir de novo, do púlpito ameaçador instalado no quarto, todos aqueles cadernos de anotações. De quando em quando, aos domingos, ele era convidado para ir à casa de um primo, onde havia uma reunião de artesãos, e, nessa reunião, tinha de ficar em pé diante da mesa e fazer uma pregação segundo todos os conformes, com texto, tema e divisões, na qual refutava em geral a doutrina papista da transubstanciação, ou os contestadores de Deus, e enumerava, com muita ênfase, uma após outra, as provas da existência de Deus, e expunha todos os pontos fracos da doutrina do acaso. O instituto em que Anton recebia sua instrução estava de tal maneira organizado que, aos domingos, os adultos, que estudavam para se tornar mestres-escola, tinham de se dividir em todas as igrejas e copiar as pregações, as quais eram depois levadas para o inspetor examinar. – Anton mais uma vez encontrou muito prazer em copiá-las, pois viu que exercia a mesma ocupação de seus professores, aos quais ele as apresentava, e eles demonstravam cada vez mais respeito por ele, tratando-o quase como um igual. Ao fim e ao cabo, reuniu um grosso volume de pregações copiadas, que ele considerava um grande tesouro, e duas delas em particular lhe pareciam verdadeiras preciosidades: a do pastor U., que tinha a maior semelhança com o pastor P. por causa da velocidade da fala, fora apresentada na igreja de A. e tratava do Juízo Final. – Com verdadeiro entusiasmo, Anton expunha amiúde novamente essa pregação a sua mãe, em que a destruição dos elementos, o desmoronamento da estrutura do universo, o estremecimento e o receio do pecador, o alegre despertar dos devotos eram apresentados num contraste que excitava a fantasia até o mais alto grau – e isso tinha a ver com Anton. Ele não gostava da fria pregação da razão. A segunda pregação, que ele julgava entre todas a principal, era a pregação de despedida do pastor L., que ele fez na igreja de C., e na qual ele mesmo foi interrompido quase do começo ao fim por lágrimas e soluços, tão querido era por sua paróquia. O páthos comovente, com o qual esse discurso foi efetivamente proferido, deixou uma impressão indelével no coração de Anton, e ele não desejou maior bem- aventurança do que um dia poder também proferir um discurso de despedida como aquele perante uma quantidade de pessoas que, como aquelas, choravam com ele. Em situações assim ele se encontrava em seu elemento e sentia um prazer indizível na melancólica sensação em que afundara. Ninguém, em tais ocasiões, sentiu mais o deleite das lágrimas (the joy of grief) do que ele. Um daqueles abalos que a alma sentia com a pregação tinha mais valor para ele do que todos os outros prazeres da vida, e em troca dele teria dado o sono e a comida. Seu sentimento de amizade também conseguiu novo alimento. Ele adorava realmente alguns de seus professores e ansiava por se relacionar com eles – expressou, em especial, sua amizade com um de nome R., que parecia um homem muito duro e severo, mas na verdade possuía o mais nobre coração, o que só pode ser encontrado num futuro mestre-escola de pequenos povoados. Anton tinha com ele aulas de aritmética e caligrafia pagas por seu pai – pois aritmética e caligrafia eram ainda as únicas coisas que ele considerava valer a pena Anton aprender. – Como já grafava as letras corretamente, R. o mandou logo fazer algumas composições, que obtiveram sua aprovação, o que para Anton era tão adulador que ele ousou finalmente abrir seu coração a esse professor e lhe falar aberta e sinceramente, como durante muito tempo ele jamais pôde falar com alguém. Confiou assim ao professor sua insuperável inclinação para o estudo, e a severidade de seu pai, que o impedia de estudar e queria que ele não aprendesse nada a não ser um ofício. O rude R. pareceu comovido com essa confiança e encorajou Anton a se abrir com o inspetor, que talvez pudesse ainda ser útil para o seu objetivo. Mas o inspetor era o mesmo que tinha dito a Anton com cara de maior desprezo “garoto idiota!”, quando este não quis gritar durante o exercício de soletração, algo que Anton ainda não conseguira esquecer e por isso ainda carregava muitas dúvidas se deveria revelar sua inclinação aos estudos para o homem que havia duvidado de que ele fosse capaz de soletrar. No entanto, o respeito que depositavam em Anton na escola crescia dia a dia, e ele realizava seu desejo de ser o primeiro e de ter a maior parte das atenções dirigida a si. Sem dúvida, isso era um alimento para sua vaidade, de modo que muitas vezes já se via em pensamento como pregador, em particular quando vestia calça preta – caminhava então com passos dignos e mais sérios do que o normal. Nos fins de semana, aos sábados, depois de terem cantado o hino “Deus me trouxe até aqui”, um dos alunos sempre lia uma longa prece – quando chegava sua vez, era uma verdadeira festa para Anton. Ele se imaginava no púlpito, onde organizava suas ideias ainda durante os últimos versos do hino, e de repente, como o pastor P., com toda a riqueza da eloquência, começava uma prece fervorosa. Para um menino em idade escolar, sua declamação ganhava obviamente um páthos muito grande para deixar de ser notada. O professor, portanto, muito raramente o mandava ler a prece. Os professores começaram mesmo a ter certa inveja de Anton. Um deles passou um exercício em que um dos alunos tinha de recontar com as próprias palavras uma das histórias bíblicas de Hübner. Com toda a sua fantasia, Anton enfeitou poeticamente essa história e a reproduziu com adornos de oratória – isso ofendeu o professor, que ao final fez a observação de que Anton deveria narrar com mais brevidade. Da vez seguinte, ele resumiu então toda a história em algumas palavras e não passou de dois minutos para acabar. – Para o professor, foi breve demais, e mais uma vez ficou aborrecido – e não o deixou mais de modo algumcontar uma história com as próprias palavras. De tarde, os professores que repetiam a catequese sentiam-se temerosos de lhe fazer perguntas, porque ele sempre copiara muito mais que eles – ele não conseguiu mais ter a oportunidade de mostrar suas capacidades a fim de atrair a atenção para si, seu maior desejo. Completamente contrariado, pois tinha sempre de ficar sentado mudo e sem que lhe fizessem perguntas, com os olhos marejados, finalmente se dirigiu ao inspetor, que reiteradas vezes lhe havia feito perguntas durante as aulas da manhã e parecia ter mudado seu julgamento sobre ele – o inspetor perguntou o que lhe faltava, se havia ocorrido alguma coisa errada com seus colegas de escola, e Anton respondeu: não com seus colegas de escola, mas com seus professores, sim, estava ocorrendo algo errado, eles o desprezavam, e ninguém mais lhe fazia perguntas, embora soubesse mais da matéria do que os outros. Sobre esse ponto, seria preciso garantir seu direito! O inspetor tentou dissuadi-lo e justificou os professores por causa da quantidade de alunos, mas dali em diante começou a prestar mais atenção nele, a perguntar-lhe de manhã cedinho mais do que era seu costume. Uma aula por semana era dedicada a exercícios com salmos, dos quais cada aluno tinha de extrair lições; estas eram escritas numa folha de papel ou numa lousa e depois lidas em voz alta; muitos acabavam suando bastante ao fazer isso. – O inspetor estava presente. Anton não anotou nada. Mas, quando chegou a sua vez, ele leu o salmo inteiro e fez um discurso meticuloso, ou uma pregação, que durou quase meia hora, de modo que o próprio inspetor no fim disse: “Basta – não era para explicar o salmo, mas extrair apenas algumas lições morais”. Assim se passou quase um ano, e nesse período Anton fez progressos extraordinários em sua dedicação aos estudos, comportando-se tão irrepreensivelmente que alcançou seu objetivo de atrair o máximo de atenção para si, o que acabou provocando também a inveja dos professores. Ele se encontrava agora num momento decisivo, em que deveria escolher uma maneira de viver, e a rigidez de seu pai, que fazia de tudo para se livrar logo dele, crescia dia a dia, de tal modo que a escola, por assim dizer, era um refúgio seguro da pressão e da perseguição em sua casa. Seu querido professor R. foi promovido a mestre-escola num pequeno povoado e agora ele não tinha mais um verdadeiro amigo entre os professores. – Na despedida, ele aconselhou Anton mais uma vez a falar diretamente com o inspetor – e, como ele não tinha mais tempo algum para tomar uma decisão, ousou certo dia, com o coração disparado, pedir ao inspetor que o escutasse, porque tinha algo importante a dizer. – O inspetor o levou até sua sala, e ali Anton, com uma franqueza muito maior, abriu todo o seu coração e lhe contou suas sinas – o inspetor lhe descreveu as dificuldades, os custos do estudo, sem lhe tirar toda a esperança, prometendo-lhe, no entanto, que faria o que estivesse ao seu alcance para que Anton pudesse frequentar uma escola de latim sem pagar – mas tudo isso lhe parecia muito distante, porque não poderia esperar nenhuma ajuda de seus pais, nem mesmo casa e comida, já que o pai tinha conseguido um pequeno emprego a quase 10 quilômetros de H., e assim teria de se mudar dali em bem pouco tempo. Entretanto, o inspetor falara a favor de Anton com G., o conselheiro consistorial, sob cuja direção ficava o instituto de pedagogia, e este o chamou para conversar. Ao ver aquele venerável ancião, de início a coragem de Anton e seus joelhos tremeram por estar diante dele – mas, quando o ancião apertou afavelmente sua mão e falou com voz suave, ele começou a falar com franqueza e revelar sua inclinação para o estudo. – O conselheiro consistorial G. ordenou que ele lesse em voz alta uma das odes espirituais de Gellert a fim de ouvir como eram a fala e a voz daquele que queria se dedicar ao ministério da pregação. Prometeu-lhe arrumar aulas gratuitas e financiá-lo com livros; mas isso era tudo o que poderia fazer. – Anton estava tão alegre com essas ofertas que seu agradecimento não teve limite, e pensou ter escalado num instante todas as montanhas. Pois ainda não tinha se dado conta de que, além de aulas gratuitas e livros, ele ainda precisaria de comida, casa e roupa. Triunfante, correu para casa e anunciou sua sorte aos pais – mas o quão abatida não ficou sua alegria quando seu pai lhe disse a sangue-frio: se quisesse estudar, Anton não poderia contar com seu dinheiro – se fosse capaz de arrumar pão e roupa por conta própria, ele não teria objeções a fazer contra seus estudos. – Em algumas semanas, ele partiria de H., e se até lá Anton não estivesse trabalhando com um mestre de ofício, onde é que ele iria encontrar abrigo? Ou por acaso iria esperar sentado até que uma das pessoas que o aconselharam com tanto empenho aos estudos também se importasse com seu sustento? Triste e pensativo, Anton saiu para passear e refletiu sobre sua sina – a ideia de estudar estava arraigada em sua alma e deveria impor ainda mais dificuldades no caminho – vários projetos cruzavam sua cabeça. Ele se lembrou de ter lido que antigamente, na Grécia, houve um rapazote com vontade de aprender que cortava lenha e carregava água para o próprio sustento, a fim de que pudesse se dedicar aos estudos no tempo que sobrasse. – Ele gostaria de seguir esse exemplo e muitas vezes esteve decidido a trabalhar por jornada em horas determinadas para ter o tempo restante ao seu dispor – mas assim ele não poderia se dedicar regularmente às aulas – todas as suas meditações e reflexões o tornaram cada vez mais pensativo e indeciso. Enquanto isso, aproximava-se o momento em que teria de tomar uma decisão. – Ele deveria abandonar a escola que frequentara até então para ir ainda por um tempo à escola da guarnição, porque deveria ser confirmado pelo capelão da guarnição M., cujas aulas de preparação e de catequese Anton já começava a frequentar, e de quem chamara atenção por causa de suas respostas. Mas ele mesmo jamais teria ousado revelar a mágoa de sua alma a esse homem em quem ainda mal confiava. Como nenhuma firme perspectiva de estudos se abria para Anton, ele provavelmente teria tomado enfim a decisão de aprender algum ofício se, contra as expectativas, uma circunstância aparentemente muito insignificante não tivesse dado outro rumo ao destino de toda a sua vida vindoura. PARTE 2 Para evitar outros juízos errôneos, como alguns que já recaíram sobre este livro, vejo-me obrigado a esclarecer que aquilo que chamei, por motivos que considerei fáceis de adivinhar, um romance psicológico é, no sentido mais próprio da palavra, uma biografia e, até em suas mínimas nuances, uma das mais verdadeiras e fiéis representações de uma vida humana, como talvez jamais tenha existido. – Aquele que tiver algum interesse nessa representação fiel não se incomodará com aquilo que de início é insignificante e parece ser irrelevante, mas ponderará que esse tecido de vida humana, artisticamente trançado, é composto de uma quantidade infinita de ninharias, as quais se tornam extremamente importantes nessa trama, por mais que pareçam insignificantes em si mesmas. Aquele que começa a prestar atenção em sua vida passada muitas vezes acredita ver primeiramente apenas inutilidade, fios soltos, confusão, noite e escuridão; no entanto, quanto mais fixa seu olhar, mais a escuridão desaparece, mais a inutilidade se esvai, os fios soltos voltam a se atar, o amontoado e o confuso se ajeitam – e o dissonante imperceptivelmente se resolve em consonância e harmonia. A circunstância que provocou inesperadamente uma feliz mudança no destino de Anton Reiser foi a seguinte: ele se engalfinhou na rua com uma dupla de jovens que caçoaram dele na saída da escola, algo que não queria mais tolerar; quando eles estavam se pegando pelos cabelos, o pastor M. passava de repente por ali – e que tamanha vergonha e embaraço não passou Reiser quando os dois jovens chamaram sua atenção para a chegada do pastor e lhe exibiram,com certa alegria maliciosa, a ira que o pastor M. lançaria sobre ele. Quê?! – Quero me tornar um dia um homem respeitável, como este que se aproxima – gostaria que neste momento cada um perceba isso em mim, para encontrar alguém que me aceite e me tire do pó, mas justo agora que teria a oportunidade de mostrar o que tenho de melhor, sou surpreendido nessa atitude pelo homem que deverá me dar a confirmação. O que pensará esse homem de mim, por quem me tomará? Esses pensamentos atravessavam a cabeça de Reiser, assediando-o subitamente com tanta vergonha, confusão e desprezo de si que quase quis enfiar a cabeça na terra. Mas reuniu forças, e a autoconfiança, sob a vergonha asfixiante, abriu caminho novamente, insuflando-lhe ao mesmo tempo coragem e confiança no pastor M. – rápido, tomou coragem, aproximou-se sem rodeios dele e lhe dirigiu a palavra na rua pública, dizendo-lhe que era um dos garotos que frequentaram seu catecismo, e que o pastor M. não deveria ficar bravo com ele por ter brigado com os dois jovens, aquilo não fazia absolutamente parte de sua índole; os jovens não lhe davam trégua; e isso nunca mais voltaria a acontecer. O pastor M. estava muito surpreso por ser tratado na rua daquela maneira por um garoto que havia brigado com uma dupla de jovens – após breve pausa, ele respondeu que, sem dúvida, é muito incorreto e indecente se engalfinhar, mas não teria mais nada a dizer se ele deixasse de fazer isso no futuro; a seguir, quis saber também seu nome e o de seus pais, perguntou-lhe em que escola havia estudado etc., e com muita amabilidade se despediu dele – quem poderia estar mais contente que Reiser? E como seu coração estava aliviado por se acreditar novamente livre daquela situação perigosa. E teria ficado ainda muito mais feliz se soubesse que aquele caso fortuito poria fim a todas as suas receosas preocupações e seria o primeiro alicerce de sua felicidade futura. – Pois desde aquele momento o pastor M. tinha tomado a decisão de se inteirar mais sobre aquele jovem ser humano e se encarregar pessoalmente dele, porque supôs, não sem motivo, que o comportamento do jovem Reiser em relação a ele não era fingimento – isso pressupunha um modo de pensar pouco comum num garoto daquela idade – e o semblante dele parecia garantir que não era fingimento. Na tarde do domingo seguinte, durante o catecismo, o pastor M. lhe fez muito mais perguntas que de costume; de certo modo, Reiser já alcançara um de seus desejos, o de poder ao menos falar de alguma forma publicamente na igreja diante do povo reunido, uma vez que respondia às perguntas do catecismo do pastor em alto e bom som, de modo que se destacava bastante de todos os outros, pois acentuava corretamente as palavras, ao passo que as respostas dos outros eram recitadas num tom escolar comum e cantado. Encerrado o catecismo, o pastor M. lhe acenou à parte, ordenando-lhe que viesse até ele na manhã seguinte – uma alegre inquietude se apoderou de repente de seu pensamento, já que alguém parecia querer ter um cuidado maior com ele. Ficou sem dúvida lisonjeado com o fato de o pastor M. começar a prestar mais atenção nele por suas respostas; e então se propôs a confiar nesse homem e a lhe revelar todos os seus desejos. Quando, na manhã seguinte, após uma noite quase insone, ele foi se encontrar com o pastor M., este primeiro lhe perguntou a que tipo de vida pensaria em se dedicar, abrindo-lhe caminho para aquilo que ele mesmo já planejara. – Reiser lhe revelou seus planos. – O pastor M. mostrou-lhe as dificuldades, mas ao mesmo tempo também o encorajou, e começou a estimulá-lo efetivamente, prometendo-lhe que seu único filho, que estava na primeira série do liceu em H., lhe daria aulas de latim, as quais começariam ainda naquela mesma semana. Mesmo assim, Reiser acreditava ler nas feições e no comportamento do pastor M. que este ainda guardava alguma coisa importante a lhe ser dita a seu tempo: essa suposição foi reforçada pelas misteriosas frases do sacristão da guarnição, cujas aulas ele também frequentava, e que lhe oferecia sempre uma cadeira quando chegava, ao passo que os outros se sentavam nos bancos. – Quando a aula acabava, o sacristão costumava então lhe dizer: esteja muito vigilante, e pense, estão sempre atentos em você. – Grandes coisas estão sendo tramadas para você! E outras coisas mais; Reiser com isso começou sem dúvida a acreditar ser uma pessoa mais importante do que era até então, e sua pequena vaidade recebeu muito mais alimento, manifestando-se amiúde de maneira bastante tonta em seu andar e em suas feições, quando por vezes caminhava pela rua concentrado em seus pensamentos, com toda a seriedade e dignidade de um professor do povo, como já havia feito em B., sobretudo quando estava vestido de colete e calças pretos. Em sua caminhada, havia adotado como modelo o andar de um jovem religioso que outrora foi pregador na casa de misericórdia em H. e vice-reitor no liceu, porque este tinha algo no modo de portar o queixo que agradava muito especialmente a Reiser. Ninguém jamais foi mais feliz desfrutando qualquer coisa do que Reiser naquele tempo à espera das grandes coisas que deveriam lhe acontecer. Essa expectativa excitava demasiadamente sua imaginação. E agora que se aproximava cada vez mais o momento em que deveria receber a eucaristia despertavam novamente todas as ideias exaltadas sobre esse assunto que ele já havia enfiado na cabeça em B., alimentadas pelas aulas do sacristão da guarnição, que, ao preparar os que iam receber a eucaristia, lhes descrevia o céu e o inferno de maneira tão medonha que seus ouvintes eram tomados de sobressalto e pavor, aos quais, porém, vinha se associar aquela agradável sensação com a qual estamos em geral habituados a ouvir algo que assusta e aterroriza, e ele sentia novamente a satisfação de ter tocado seus ouvintes, o que o fazia verter lágrimas de deleite, tornando ainda mais solene toda a cena daquele anoitecer em que ele se encontrava entre os seus ouvintes na sala iluminada da escola. O pastor M. também dava semanalmente algumas aulas em que preparava aqueles que deveriam receber a eucaristia, mas o que dizia não chegava perto dos discursos emocionantes de seu sacristão, embora, para Reiser, parecessem mais bem proferidas e muito mais coerentes. – Nada deixou Anton mais lisonjeado do que a ocasião em que o pastor M. explicou a ideia de que os crentes são os filhos de Deus, citando o exemplo de como iria tratar com mais esmero um de seus muitos jovens ouvintes, convidando-o especialmente para vir a sua casa e conversando com ele – este, sim, seria também mais próximo dele do que todos os outros, assim como os filhos de Deus também estariam mais próximos do Senhor do que o restante dos homens. Reiser acreditou então ser o único, entre seus companheiros de escola, ao qual o pastor M. prestaria mais atenção – mas, por mais que isso alimentasse sua vaidade, logo em seguida o enchia outra vez de uma melancolia indescritível, já que todos os outros não fariam parte dessa alegria que somente a ele fora dada, e ficariam, por assim dizer, sempre excluídos do convívio mais íntimo com o pastor M. Melancolia que ele recordou já ter tido uma vez nos primeiros anos de sua infância, quando sua prima lhe comprara um brinquedo numa loja, e ele, ao sair de casa, o carregava nas mãos; diante da porta da casa estava sentada uma menina vestindo uma roupa esfarrapada, mais ou menos da sua idade, que, completamente admirada, exclamou diante do belo brinquedo: “Ah, Senhor Deus, como isso é lindo!”. Reiser deveria ter naquela época 6 ou 7 anos – apesar da enorme admiração, o tom de paciente privação com o qual a menina esfarrapada disse as palavras “Ah, Senhor Deus, como isso é lindo!” invadiu a alma de Reiser. A pobre menina era obrigada a ver toda aquela beleza exposta diante de si e não podia nem ao menos pensar em ter sequer um pedaço dela. Estava excluída, por assim dizer, para sempre do prazer dessas coisas preciosas – como seria bom se ele tivesse voltado e presenteado a menina esfarrapadacom o precioso brinquedo, se sua prima o tivesse admitido! – depois, todas as vezes que pensava nisso, sentia um remorso amargo de não tê-lo dado imediatamente à menina. Era esse tipo de melancolia piedosa que Reiser sentia ao acreditar ser o único agraciado com os favores do pastor M., o que punha seus companheiros de escola, sem que tivessem merecido, numa posição bem abaixo da sua. Era exatamente essa sensação que mais tarde se despertava em sua alma sempre que chegava às palavras da primeira écloga de Virgílio: nec invideo[12] etc. Quando ele se colocava no lugar do pastor feliz, que pode tranquilamente se sentar à sombra de sua árvore, ao passo que o outro tem de virar as costas para sua casa e seu campo, ele sempre se sentia, com o nec invideo deste último, como a menina esfarrapada quando disse: “Ah, Senhor Deus, como isso é lindo!”. Para relacionar aquilo que, segundo o meu entendimento, está ligado, serei obrigado aqui a retomar algumas coisas na vida de Reiser e antecipar outras. Farei isso com muito mais frequência; e a quem compreendeu meu propósito não preciso pedir desculpas por esses saltos aparentes. Vê-se facilmente que a vaidade de Anton Reiser foi alimentada em exagero pelas circunstâncias que agora conjuravam para tornar sua pessoa importante para ele mesmo. Ele precisava novamente de uma pequena humilhação, e esta não tardou em vir. Gabava-se, não sem motivo, de ser o primeiro entre todos os que foram confirmados pelo pastor M. Sentava-se também à frente e estava certo de que ninguém iria disputar esse lugar com ele. Mas de repente um jovem bem-vestido, de sua idade e nível de instrução, que também frequentava as aulas do pastor M., o relegou à sombra tanto por seus modos refinados como pela especial atenção com que o pastor M. o tratava, passando imediatamente a ocupar o primeiro lugar. O doce sonho de Reiser de ser o primeiro entre os seus colegas de escola havia de repente desaparecido. Ele se sentiu humilhado, rebaixado e igual a todos os outros. – Inteirou-se sobre seu temível rival com o criado do pastor M., constatando que era filho de um alto funcionário público e estava hospedado na casa do pastor M., e que também seria confirmado juntamente com todos os outros. A mais negra inveja se apoderou durante um tempo da alma de Anton; a sobrecasaca azul com o colarinho de veludo que o filho do alto funcionário público vestia, os modos refinados, o belo cabelo o abateram e o deixaram mais insatisfeito consigo mesmo; mas logo se reacendeu nele o sentimento de que aquilo era errado, e ficou ainda mais insatisfeito com sua insatisfação. Ah, ele não precisaria ter invejado o pobre rapaz, cujo sol da sorte em pouco tempo não brilharia mais. Dentro de catorze dias, chegou a notícia de que o pai fora demitido por deslealdade em serviço. Assim, não pôde mais continuar pagando a hospedagem para o jovem; o pastor o enviou de volta a sua família, e Reiser recuperou o primeiro lugar. Não pôde reprimir sua alegria pelas consequências que esse acontecimento tinha para ele, e ele próprio se censurou por isso – procurou obrigar-se a ter compaixão, porque considerava isso certo – e a reprimir a alegria, porque a considerava errada; mas, apesar de tudo, ela predominou, e, no fim, viu que de nada adiantava ir contra o destino que quis fazer o jovem infeliz. Aqui a pergunta é: se o destino do jovem de repente tivesse mudado de novo, Reiser espontaneamente deixaria, sorridente e simpático, que o jovem ocupasse o primeiro lugar, ou seria preciso se esforçar para ter esse sentimento, porque o considerava correto e nobre? – A sequência da história talvez responda a essa questão! Todo fim de tarde Reiser tinha aula de latim com o filho do pastor M., e ele realmente avançou muito, de sorte que em quatro semanas já era capaz de interpretar e traduzir Cornélio Nepos muito bem. Foi delicioso para ele quando, por exemplo, o sacristão se aproximou e perguntou o que os dois senhores estudantes faziam – e quando, à época, o pastor M. casou sua filha mais velha com um jovem pregador, e este ensinou o catecismo a Anton numa tarde de domingo, e parecia prestar cada vez mais atenção em Reiser conforme o ouvia responder. Que momento encantador para Reiser quando ele mesmo se dirigiu ao pastor M. após o culto, e o genro do pastor o tratou com o maior respeito, dizendo-lhe que ainda na igreja, quando Reiser foi o primeiro a lhe responder, ele já sabia que aquele bem poderia ser o jovem de quem o sogro lhe falara muito bem, e estava contente de não ter errado. Anton jamais tivera em sua vida sensação semelhante à causada por tal tratamento respeitoso. – Como não aprendera o linguajar do modo de vida refinado, e como também não queria se expressar rudemente, ele usava naquelas ocasiões o linguajar dos livros, que, em seu caso, vinha do Telêmaco, da Bíblia e do catecismo, o que dava muitas vezes às suas respostas um raro traço de originalidade, pois nessas ocasiões costumava dizer, por exemplo, que não conseguia resistir ao impulso de estudar que o arrebatava incessantemente, e que era seu desejo, de todos os modos possíveis, ser digno do amparo que lhe tinham proporcionado, conduzindo sua vida até o fim em completa bem-aventurança e honradez. Nesse meio-tempo, o conselheiro consistorial G., ao qual Reiser já havia se dirigido previamente, tinha lhe conseguido a possibilidade de frequentar de graça a Escola Básica da Cidade Nova, como era chamada. – No entanto, o pastor M. disse que isso não poderia acontecer agora; Reiser deveria continuar tendo aulas com seu filho até ser confirmado, para poder então ir diretamente à Escola Superior da Cidade Velha, onde o diretor se encarregaria dele; e, pela rivalidade que costumava reinar entre as duas escolas, seria melhor que não frequentasse inicialmente a primeira. – O próprio Reiser teria de dizer isso ao conselheiro consistorial G., recusando o curso gratuito que ele lhe oferecera, o que acabou por melindrar o conselheiro, que primeiro tratou Reiser de modo duro e por fim o dispensou, dizendo-lhe, como forma de incentivo, que cuidaria dele de outro modo. Parecia então que de repente todos estavam interessados no destino de Reiser, com o qual antes ninguém se preocupara. Ouviu falar da rivalidade entre as escolas por sua causa. – O conselheiro consistorial G. e o pastor M. pareciam de certa forma disputá-lo a fim de saber quem cuidaria mais dele. O pastor M. saiu-se com a seguinte ideia: ele deveria dizer apenas ao conselheiro consistorial G. que, em seu nome, as providências já haviam sido tomadas, e providências ainda seriam tomadas de modo que Anton estivesse suficientemente preparado para a Escola Superior da Cidade Velha, sem antes frequentar a Escola Básica da Cidade Nova. – Portanto, as providências deveriam ser tomadas por causa de um garoto cujos próprios pais não o tinham considerado sequer digno de atenção. Por enquanto não posso dizer com que sonhos e perspectivas radiantes de futuro isso preencheu a fantasia de Reiser. Sobretudo quando ainda persistiam as misteriosas alusões do sacristão e a reserva do pastor M., por meio da qual este parecia silenciar algo importante a Reiser. – Finalmente veio a saber-se que, por recomendação do pastor M., o príncipe… se encarregaria do jovem Reiser e lhe prometia uma soma mensal de x táleres reais[13] para seu sustento. De uma hora para outra, Reiser se viu livre de todas as suas preocupações quanto ao futuro; o doce sonho de uma felicidade ardentemente almejada, mas que jamais esperaria encontrar, havia sido realizado quando menos esperava, e ele podia agora se entregar a suas mais agradáveis fantasias sem temer ser perturbado pela carência e pela miséria. Seu coração realmente se derramava em agradecimentos à Providência. – Nenhuma noite se passou sem que tivesse incluído o príncipe e o pastor M. em suas preces noturnas – e muitas vezes verteu, em silêncio, lágrimas de alegria e de gratidão ao refletir sobre essa feliz mudança de seu destino. O pai de Reiser não fez mais nenhuma objeção aos estudosdo filho, tão logo ouviu que não lhe iriam custar nada. Além disso, chegou o momento em que teve de assumir seu pequeno posto num lugar a quase 10 quilômetros de H., e seu filho já não lhe seria um peso. Após a partida dos pais, restou uma dúvida: na casa de quem Reiser moraria e comeria? O pastor M. não parecia estar inclinado a levá-lo para sua casa. Era preciso pensar então em outro lugar de pessoas respeitáveis para hospedá-lo. E um oboísta do regimento do príncipe…, chamado F., se ofereceu espontaneamente para que Reiser viesse morar com ele sem pagar nada. Um sapateiro em cuja casa seus pais certa vez moraram, outro oboísta, um músico da corte, um cozinheiro e um bordador de seda, cada qual lhe ofereceu uma refeição por semana. Isso de certo modo diminuiu a alegria de Reiser; ele pensou que aquilo que o príncipe lhe daria seria suficiente para seu sustento sem que precisasse comer o pão em mesa estranha. Mas também não diminuiu a sua alegria sem motivo, pois, como veremos a seguir, muitas vezes esteve exposto a uma situação extremamente penosa e preocupante, de modo que teve de comer muitas vezes seu pão literalmente com lágrimas. – Pois, se todos se apressavam em prestar-lhe favores, cada um acreditava por isso mesmo ter conquistado o direito de vigiar sua conduta e dar-lhe conselhos sobre o seu comportamento, conselhos que ele deveria aceitar cegamente se não quisesse irritar seu benfeitor. Agora Reiser dependia de tantas pessoas, de tão distintos modos de pensar, que cada um, ao lhe dar uma refeição, ameaçava abandoná-lo se ele não seguisse o conselho, que muitas vezes contradizia diretamente o conselho de outro benfeitor. Para um, seu cabelo estava muito bem cortado, para outro, estava mal; para um, andava malvestido, para outro, muito bem-vestido para um garoto que vivia da ajuda de um benfeitor – e havia ainda outras humilhações e menosprezos afins, aos quais Reiser estava mais ou menos exposto por desfrutar a refeição, e aos quais certamente está mais ou menos exposto todo jovem em idade escolar que tem a infelicidade de buscar seu sustento nessas refeições gratuitas e de comer ao longo da semana ora na casa de um, ora na de outro. Tudo isso foi obscuramente pressentido por Reiser quando aceitou todas aquelas refeições gratuitas em seu nome e não recusou nenhum favor de quem quisesse lhe oferecer. Mas jamais costuma faltar boa vontade quando as pessoas se julgam úteis para o estudo de um jovem – o que desperta um entusiasmo bastante especial. Cada um pensa obscuramente: quando um dia esse homem estiver no púlpito, isso também será obra minha. Surgiu assim uma verdadeira disputa por Reiser, e qualquer um, até o mais pobre, queria se tornar seu benfeitor de uma hora para outra, como um pobre sapateiro que se destacou ao lhe oferecer o que comer todas as tardes de domingo – tudo isso foi aceito com alegria em seu nome, e pelos cálculos de seus pais, junto com o oboísta e a esposa, Reiser iria ficar muito contente por ter o que comer todos os dias da semana, e eles poderiam economizar o dinheiro que o príncipe dava a ele. Ah! – as brilhantes expectativas que Reiser havia construído sobre sua felicidade futura voltaram a se eclipsar. Mas a agradável vertigem inicial, na qual o cuidado ativo e a participação de tantas pessoas em seu destino o haviam mergulhado, ainda durou um bom tempo. O imenso campo da ciência se abria diante dele – durante todo o dia, o seu único pensamento era o seu futuro empenho, como empregar bem cada hora de seus futuros estudos, e o deleite que aí encontraria, os admiráveis progressos que faria, por meio dos quais ganharia fama e aprovação: ele se levantava e ia dormir com essas doces ideias – mas não sabia que a asfixia e o rebaixamento de sua situação externa estragariam tanto seu prazer. Estar sempre alimentado e vestido era simplesmente necessário a um jovem que deve ter coragem para se dedicar aos estudos. Não era o caso de Reiser. Queriam economizar em seu nome, mas enquanto isso o largaram realmente na miséria. Seus pais também partiram, e ele se mudou, com seus poucos objetos pessoais, para a casa do oboísta F., cuja mulher ajudara a cuidar dele desde a infância. – O modo de vida que imperava na casa desse casal sem filhos obedecia à maior disciplina que talvez jamais tenha existido em qualquer outra parte. Não havia nada ali, nem escova nem tesoura, que não tivesse seu lugar corretamente determinado havia anos. Não havia irromper da manhã em que o café não fosse tomado às oito horas e a oração matinal lida às nove, sempre de joelhos; enquanto a sra. F. lia Benjamin Schmolke[14] em voz alta, Reiser também tinha de ficar de joelhos. À noite, depois das nove, cada um igualmente se ajoelhava diante de sua cadeira, e a oração noturna era lida também dos textos de Schmolke, e em seguida iam para cama. Essa era a ordem inviolável que vinha sendo observada por essas pessoas havia já quase vinte anos em que viviam naquele mesmo aposento. E certamente estavam muito felizes com ela, mas não poderiam ser perturbados por absolutamente nada, sem que ao mesmo tempo sua paz interior, em grande parte baseada nessa ordem inviolável, sofresse com isso. Não haviam ponderado direito quando decidiram colocar naquele seu aposento mais uma pessoa que de maneira alguma podia se adaptar inteiramente, da noite para o dia, à ordem que tinham estabelecido havia vinte anos e que se transformara numa segunda natureza. Não demorou muito, portanto, para começarem a se arrepender – eles mesmos haviam se impingido um fardo que se tornou mais pesado do que haviam imaginado. Como só tinham uma sala e uma alcova, Reiser teve de dormir na sala, e toda manhã, assim que nela entravam, tinham uma inesperada visão de desordem, com a qual não estavam acostumados e que realmente incomodava a paz deles. – Anton logo se deu conta disso, e a ideia de ser um incômodo lhe era tão assustadora e penosa que raramente ousava tossir quando via no olhar de seus benfeitores que, no fim das contas, era um peso para eles. – Pois era obrigado a guardar suas poucas coisas em algum canto, e onde quer que as pusesse elas perturbavam de algum modo a ordem, porque cada canto já estava destinado a alguma outra coisa. Era-lhe impossível, porém, desvencilhar-se novamente dessa situação penosa. Tudo isso o mergulhava muitas vezes por horas a fio numa melancolia indescritível, que ele não conseguia explicar para si mesmo, atribuindo-a inicialmente apenas à falta de hábito com sua nova moradia. Mas o que o abatia era tão somente a ideia humilhante de ser um incômodo. Se não tivera muita alegria nem com os pais nem com o chapeleiro L., tinha certo direito de estar lá. Com os primeiros, porque eram seus pais; com o segundo, porque trabalhava. Mas aqui a cadeira em que se sentava era um favor. Seria bom que todos aqueles que querem realizar boas ações a alguém considerassem isso e antes examinassem bem se vão se comportar de um modo que sua decisão jamais chegue a ser um tormento para o necessitado. O ano em que Reiser passou nessa situação, embora todos o julgassem feliz, foi, em certas horas e em certos momentos, um dos mais dolorosos de sua vida. Talvez pudesse ter tornado seu estado mais agradável se tivesse tido apenas o que se denomina em muitos jovens de índole insinuante. Mas faz parte também de uma índole insinuante certa autoconfiança, algo que desde criança lhe fora tirado; para nos tornarmos agradáveis, temos antes de ter a ideia de que também podemos ser agradáveis. – A autoconfiança de Reiser tinha de ser primeiro despertada por bondade atenciosa, antes de ele ousar se tornar querido. – E logo que notava nos outros uma aparência de insatisfação com ele tinha então grande tendência a duvidar da possibilidade de alguma vez se tornar objeto do amor ou do respeito deles. É certo, portanto, que fazia parte disso um imenso esforço seu para se mostrar como objeto de atenção, sem saber como as pessoas reagiriam à sua impertinência. Sua prima muitas vezes lhe profetizara como a falta daquela índoleinsinuante iria prejudicá-lo em seu progresso no mundo. Ensinou-lhe como deveria falar com a sra. F. e dizer: “Querida sra. F., seja a senhora por ora minha mãe, pois eu estou sem pai nem mãe e quero também gostar da senhora como a uma mãe”. – Mas, quando Reiser foi dizer essa frase, era como se as palavras tivessem morrido em sua boca; o resultado teria sido extremamente desajeitado se quisesse dizer algo assim. Nenhum comportamento atencioso ou bondoso de qualquer pessoa para com ele jamais havia conseguido tirar frases tão ternas de sua boca; sua língua não tinha nenhuma maleabilidade para tanto – e foi impossível seguir os conselhos da prima. Quando seu coração se inflamava, ele procurava frases por todos os lugares onde as pudesse encontrar. Mas ele não aprendera a falar a língua do modo de vida refinado. – O que se denomina índole insinuante teria sido bajulação rastejante para ele. À medida que foi chegando o tempo em que deveria ser confirmado e sua profissão de fé ser feita publicamente na igreja – um grande alimento para sua vaidade –, Reiser imaginou as pessoas reunidas, ele como o primeiro entre seus colegas de escola que, por meio da voz, dos movimentos e dos gestos, atrairia toda a atenção para si com suas respostas. – O dia amanheceu e Reiser acordou como um general romano acordaria no dia em que um triunfo estaria prestes a acontecer. – Ele foi muito bem penteado por seu primo, um peruqueiro, e vestiu uma sobrecasaca azulada e calças pretas, traje que se assemelhava mais ao dos religiosos. Mas assim como o triunfo do maior general foi por vezes estragado por inesperada humilhação, de modo que só podia desfrutar parte dele, assim também aconteceu com Reiser no dia de sua fama e esplendor. – Nesse dia, tiveram início suas refeições – a primeira, o almoço, com o sacristão da guarnição, e a segunda, o jantar, com o pobre sapateiro – e embora o sacristão tivesse o coração de uma generosidade sem igual e contasse o percurso de sua vida a Reiser – como ele, um estudante pobre, participara também do coro pela primeira vez, mas já com seus 17 anos trocara o sobretudo azul pelo preto –, sua esposa era a própria inveja e má vontade, e cada olhar dela envenenava o pedaço de comida que Reiser punha na boca. No primeiro dia, ela não deixou transparecer, mas isso se tornou bastante claro, de modo que Reiser, com o coração abatido sem bem saber por quê, foi à igreja e sentiu apenas em parte a alegria que ele fantasiara ansiosamente para esse dia tão desejado. – Ele devia ir até lá para pronunciar, por assim dizer, sua profissão de fé. – Pensando sobre isso, veio-lhe a lembrança de que algum tempo antes seu pai tinha contado em casa como prestara juramento em razão do novo serviço, tendo sentido tudo menos indiferença – e, a caminho da igreja, Reiser parecia estar indiferente ao juramento que deveria prestar. – A partir do ensinamento recebido na religião, ele tinha uma ideia muito elevada de juramento e considerava sua indiferença altamente punível. Ele então se obrigava a não ser indiferente, mas a ser comovido e sério nesse passo importante, e estava insatisfeito consigo por não se sentir mais comovido; mas os olhares da mulher do sacristão continuavam afugentando todas as sensações suaves e agradáveis de seu coração. Não pôde se alegrar realmente, porque ninguém tinha o menor interesse em sua alegria e porque pensou que naquele mesmo dia teria de comer em mesa estranha. Assim que entrou na igreja e se aproximou do altar, ocupando o primeiro lugar da fila, tudo isso aqueceu novamente sua fantasia – mas ainda estava longe de ser o que havia esperado. – E justamente não lhe coube o que havia de mais importante e solene, ser aquele que devia fazer a profissão de fé em nome dos outros, ele que já havia se exercitado na fisionomia, no movimento e no tom com que pretendia pronunciar a profissão de fé. Anton pensou que o pastor M. lhe pediria que fosse à tarde a sua casa, mas ele não o fez – e enquanto seus colegas de escola iam para casa, ao encontro da recepção carinhosa de seus pais, Reiser vagou sozinho e abandonado pela rua onde o diretor do liceu o encontrou, lhe dirigiu a palavra e perguntou se ele não se chamava Reiserus. – E, quando Reiser respondeu que sim, o diretor lhe apertou amigavelmente a mão; e disse que já havia escutado muitas coisas boas a seu respeito vindas do pastor M., e que logo mais eles se conheceriam melhor. Foi um inesperado incentivo esse homem, o qual já havia observado tantas vezes com profundo respeito, honrá-lo na rua cumprimentando-o e chamá-lo Reiserus! O diretor B. era realmente um homem capaz de inspirar respeito e amor a qualquer um que o visse. Vestia-se com elegância, mas com decência, portava nobreza, era bem instruído, tinha uma cara alegríssima, mas disposta a mostrar a mais rigorosa seriedade quando quisesse. Era um pedagogo exatamente como deveria ser a fim de afastar dessa profissão, marcada pelo pedantismo habitual, o desprezo do mundo refinado. Só Deus sabe como ele chegou a chamar Reiser de Reiserus, mas bastava-lhe que assim o chamasse, e Reiser ficava não pouco lisonjeado de ver seu nome rebatizado pela primeira vez com us. – Ele sempre havia associado a ideia de dignidade e de espantosa erudição a essa terminação do nome e, em pensamento, já se ouvia sendo chamado de o sábio e famoso Reiserus. Essa denominação, com a qual o diretor B. o honrara de maneira tão casual, lhe voltou muitas vezes à mente, e era por vezes também uma espora para seu empenho; pois o us em seu nome despertou de repente toda uma série de ideias – tornar-se um dia um sábio famoso, como Erasmus de Roterdã – e outros, cujas biografias lera parcialmente e cujos retratos vira gravados em cobre. À noitinha, ele foi à casa do sapateiro pobre e ao menos ali foi acolhido com um olhar mais amistoso que o da esposa do sacristão. O sapateiro Heidorn, assim se chamava seu benfeitor, tinha lido os escritos de Tauler e outros semelhantes, e por isso falava certo tipo de língua culta com a qual ele muitas vezes assumia certo tom de pregação. Normalmente citava um tal Periandro, quando fazia afirmações como: “o homem tem de entregar- se apenas a Deus”, diz Periandro – e assim tudo o que o sapateiro Heidorn dizia, também havia dito Periandro, que de fato não passava de um personagem alegórico, o qual aparece na Viagem de um cristão de Bunyan ou em qualquer outro lugar. Mas o nome Periandro soava bem doce aos ouvidos de Reiser. Ele imaginava algo sublime, misterioso, e sempre gostava de ouvir o sapateiro Heidorn falar de Periandro. Mas o bom Heidorn o segurara até um pouco mais tarde, e, quando ele chegou em casa, seu anfitrião e sua anfitriã já tinham lido a oração noturna, e não puderam ir imediatamente para cama, fato que provavelmente não acontecia havia muitos anos. Essa foi a causa de Reiser ter sido recebido de modo bastante frio e sombrio, e de ter ido dormir com o coração triste nesse dia em que por tanto tempo depositara ansiosas expectativas. Nessa semana, pela primeira vez, Anton teve de comer cada dia num lugar, e, na segunda-feira, começou pelo taberneiro, em que fez sua refeição com outras pessoas que pagavam por ela e não se preocupavam nem um pouco com ele. – Isso era o que ele desejava e sempre ia lá com o coração mais leve. Para o almoço de terça-feira, ele ia à casa do sapateiro S., onde seus pais haviam morado, e era acolhido da maneira mais carinhosa e amistosa. Aquelas boas pessoas o haviam conhecido ainda criancinha, e a mãe idosa do sapateiro S. sempre dizia que o jovem ainda se tornaria alguém – e ela se alegrava de que sua profecia parecia se confirmar. E se alguma vez Reiser não sentiu que estava comendo pão alheio foi àquela mesa hospitaleira, em que amiúde se esquecia de sua aflição e saía de cara alegre, quando havia chegado triste. Pois ele se aprofundava cada vez mais em diálogos filosóficos com o sapateiro S., até a mãe idosa dizer: “Agora, meninos, parem com isso e não deixem essa boa refeição esfriar!”. Mas que homem era o sapateiro S.!Dele com certeza poderíamos dizer que deveria instruir, da cátedra, o espírito daqueles para os quais fazia sapatos. – Em suas conversas, ele e Reiser chegavam muitas vezes sem nenhuma orientação a coisas que Reiser veio depois a ouvir novamente como a mais profunda sabedoria nas aulas de metafísica, e sobre isso já havia conversado horas a fio com o sapateiro S. – pois, sozinhos, haviam alcançado completamente o desenvolvimento dos conceitos de espaço e tempo, do mundo subjetivo e objetivo etc.; sem conhecerem a terminologia escolástica, eles se serviam da língua comum das pessoas tão bem quanto podiam, o que muitas vezes resultava em algo bastante original – em suma, na casa do sapateiro S., Reiser logo se esquecia de todas as coisas desagradáveis de sua situação, ali ele se sentia, por assim dizer, transportado para o elevado mundo espiritual, e seu ser era novamente enobrecido, porque encontrou alguém com quem se entendia e com quem trocava ideias. As horas que passou ali com os amigos de sua infância e juventude foram naquela época, sem dúvida alguma, as mais agradáveis de sua vida. Foi somente ali que sentiu algo como uma plena confiança, como se estivesse em casa. Na quarta-feira, comia na casa de seu anfitrião, onde o pouco que saboreava, mesmo que as pessoas pudessem ter a melhor das intenções para com ele, quase sempre o afligia, de modo que temia esse dia muito mais que os outros. Pois no almoço sua benfeitora, a sra. F., não costumava discorrer diretamente sobre o comportamento de Reiser, mas o fazia por alusões, falando ao marido sobre a gratidão que ele deveria ter para com seu benfeitor ou mencionando de passagem coisas a respeito de pessoas que teriam adquirido o hábito de comer demais e que por fim não conseguiam mais se satisfazer. – Nessa época, Reiser estava em pleno crescimento e tinha realmente bom apetite, mas, quando ouvia uma daquelas indiretas, enfiava tremendo cada bocado de comida na boca. As indiretas que a sra. F. dava não eram causadas tanto por avareza ou inveja, mas pelo sentimento refinado de ordem, ofendido quando, segundo sua opinião, alguém comia demais. – Ela costumava falar então sobre pequenas nascentes ou fontes de bênção que secam quando não são aproveitadas com moderação. A esposa do músico da corte, que às quintas-feiras lhe dava de comer, era, nessas ocasiões, um pouco rude em seu comportamento, mas não o atormentava tanto quanto a sra. F. com toda a sua fineza. – Às sextas- feiras, porém, ele voltava a ter um dia ruim, porque comia na companhia de pessoas que não lhe davam indiretas, mas que o faziam sentir, de maneira bastante grosseira, que eram seus benfeitores. Elas também o haviam conhecido criança e, mesmo tendo ele começado a fazer parte do mundo adulto, ainda o chamavam, não de modo carinhoso, mas desprezível, pelo seu primeiro nome, Anton. Em suma, essas pessoas o tratavam de tal modo que ele costumava passar a sexta-feira toda mal- humorado e triste, sem vontade de fazer nada, e muitas vezes sem saber por quê, mas o motivo era estar exposto no almoço ao encontro humilhante com essas pessoas, cuja boa ação era obrigado a aceitar de bom grado, caso contrário seu comportamento poderia ser interpretado como o mais imperdoável orgulho. – Aos sábados, ele comia na casa de seu primo, o peruqueiro, onde pagava uma ninharia e comia com o coração alegre; aos domingos, comia novamente na casa do sacristão. Essa lista de refeições de Reiser, e das pessoas que as forneciam, certamente não é tão sem importância como talvez possa parecer à primeira vista para muitas pessoas – tais circunstâncias aparentemente pequenas são também aquilo que compõe a vida e deixam a mais forte impressão na constituição do temperamento de um ser humano. Para a dedicação e os progressos que Reiser deveria fazer diariamente, era muito importante que tivesse uma perspectiva dos dias seguintes – se, por exemplo, teria de comer na casa do sapateiro S., ou na da sra. F., ou na do sacristão. Seu comportamento subsequente podia, em grande parte, ser esclarecido por essa sua situação diária, comportamento que, além do mais, parecia muitas vezes estar em contradição com seu caráter. Para Reiser teria sido uma grande vantagem se o pastor M. o tivesse deixado comer uma vez por semana em sua casa. Em vez disso, no entanto, dava-lhe a chamada mesada, assim como também fazia o bordador de seda; com esses poucos trocados, Reiser tinha de custear semanalmente seu café da manhã e o jantar. Assim a sra. F. ordenara. Pois tudo o que o príncipe lhe dava deveria ser poupado. Seu café da manhã consistia em um pouco de chá e uma fatia de pão; e o jantar, em um pouco de pão com manteiga e sal. Depois, a sra. F. disse que ele teria de moderar no almoço, querendo dizer, no entanto, que teria de evitar se empanturrar. Assim foi então montada a economia doméstica no que diz respeito ao sustento de Reiser. Mas, em relação a sua roupa, não só não era tirado nada do dinheiro que o príncipe lhe dava como também lhe foi comprado um velho e rústico uniforme vermelho de soldado, que foi ajustado ao seu tamanho, e com o qual deveria frequentar a escola pública, onde o mais pobre estaria mais bem-vestido que ele, circunstância que contribuiu não pouco, já no início, para abater seu ânimo. Além disso, Anton ainda tinha de buscar o pão de munição que o oboísta F. recebia como parte de seu soldo e carregá-lo debaixo do braço pela cidade, o que na verdade fazia, quando possível, ao anoitecer, sem fazer notar que estava com vergonha para que seu ato não fosse interpretado como um orgulho imperdoável; pois desse pão vinha semanalmente um pouco de dinheiro com o qual ele tinha de custear seu café da manhã e seu jantar. Reiser não tinha a menor condição de se rebelar contra tudo isso, porque o pastor M. depositava confiança ilimitada no juízo que a sra. F. fazia da educação e da condução de seu modo de vida. Na mesma semana, ele visitou também essas mesmas pessoas, agradecendo-lhes por terem se encarregado de cuidar mais de perto de Reiser, que agora o pastor M. confiava à plena guarda deles. Durante a visita, Reiser se sentou um pouco triste próximo ao fogão, embora não quisesse ser ingrato com as precauções do pastor M. Mas, daquele momento em diante, ele dependia totalmente de pessoas em cuja casa já havia passado poucos dias numa situação bastante penosa. Ele nunca conseguia se alegrar com toda aquela bondade aparente que lhe era demonstrada, mas estava sempre receoso e constrangido, porque cada insatisfação, até as menores, que lhe demonstravam era ofensiva em dobro, quando pensava que o lugar próprio de sua existência, o teto que desfrutava, dependia simplesmente da bondade de pessoas tão sensíveis e facilmente melindrosas como F. e ainda mais sua esposa. Apesar disso, ele se animava com a ideia de que na semana seguinte deveria começar a frequentar a chamada escola superior. Durante muito tempo, esse havia sido seu mais ansiado desejo. Quantas vezes, ao atravessar o adro, não admirara com respeito o imenso edifício da escola com a alta escada de pedras. Muitas vezes, ficava horas a fio parado ali como se pudesse ver através da janela algo que se passava lá dentro. Cintilava então casualmente pela janela uma parte da grande cátedra do liceu – e como sua fantasia imaginava aquilo! Quantas vezes não sonhou à noite com essa cátedra e com a longa fileira de bancos em que se sentavam os venturosos alunos da sabedoria, em cuja companhia ele em breve deveria ser admitido. Desde a infância seus genuínos prazeres existiam em grande parte na imaginação, e por isso de certa forma passou incólume pela falta da verdadeira alegria juvenil que os outros desfrutavam plenamente. – Rente à escola, duas longas passagens levavam às casas dos sacerdotes, construídas uma ao lado da outra. Elas lhe davam uma vista tão venerável que sua imagem e a do edifício da escola eram dominantes dia e noite em sua alma – e o nome escola superior, que era usual entre pessoas comuns, e a expressão alunos da escola superior, quemuitas vezes ele ouvira também, faziam sua determinação de frequentar essa escola lhe parecer cada vez maior e mais importante. Chegou o momento em que isso deveria acontecer, e, com o coração palpitando, esperou a hora em que o diretor B. iria conduzi-lo a um desses auditórios de sabedoria. Ele foi examinado pelo diretor e considerado apto a frequentar o primeiro grau. A amizade, associada a uma dignidade natural, com a qual aquele homem o chamou primeiramente de “meu querido Reiser!”, penetrou sua alma e lhe inspirou a mais íntima confiança e um respeito ilimitado pelo diretor. Ah!, que poder não exerce um pedagogo sobre o coração dos jovens, quando ele, exatamente como o diretor B., sabe encontrar em sua conduta o tom correto de uma dignidade temperada pela afabilidade! No domingo posterior à confirmação, Reiser foi receber pela primeira vez a comunhão e procurou pôr em prática, da maneira mais escrupulosa, as lições que havia anotado e decorado, como o exame prévio segundo o catálogo da penitência e dos pecados e, em seguida, a subida ao altar com um estremecimento alegre. Procurou de todos os modos se entregar àquele tipo de estremecimento alegre: mas não conseguiu, e ele mesmo se censurou com rigor por seu coração estar muito enrijecido. Por fim, começou a tremer de frio, e isso de certo modo o acalmou. Mas a sensação celeste e o sentimento de bem-aventurança que esse alimento da alma lhe deveria conceder, tudo isso ele não experimentou – atribuiu, porém, a culpa simplesmente ao próprio coração teimoso e se torturou com o estado de indiferença no qual se encontrava. O que mais lhe doía era não poder chegar de fato a reconhecer seus miseráveis pecados, algo necessário para a edificação de uma vida. No dia anterior, teve de admitir no confessionário, numa confissão que havia aprendido de cor, que infelizmente havia cometido muitos e distintos pecados, em pensamento, palavras e obras, omitindo-se de praticar o bem e praticando o mal. Os pecados dos quais ele se sentia culpado eram sobretudo de omissão. Não rezava com bastante devoção, não amava a Deus com bastante fervor, não se sentia grato o bastante aos seus benfeitores e não tinha a sensação de estremecimento alegre quando comungava. – Todas essas coisas o abalavam, mas não conseguia remediá-las à força, e por essa razão foi bom quando o pastor M. absolveu suas faltas. Ainda assim, sempre permanecia insatisfeito consigo mesmo: pois considerava particularmente que a bem-aventurança divina e a religiosidade eram a atenção a cada um dos seus passos, a cada sorriso, a cada semblante, a cada palavra que falava, a cada pensamento que tinha. Essa atenção era muitas vezes interrompida naturalmente, e não podia durar numa pessoa mais que uma hora – assim que Reiser percebia sua distração, ficava insatisfeito consigo mesmo e considerava por fim impossível levar corretamente uma vida bem-aventurada e religiosa. A sra. F. lhe fez uma longa pregação, no dia em que ele foi à comunhão, sobre os maus prazeres e os desejos que costumavam nascer naquela idade, contra os quais ele tinha de lutar. Felizmente, Reiser não entendeu o que ela realmente queria dizer com aquilo e também não ousou lhe pedir explicações mais detalhadas, mas apenas decidiu que, quando os prazeres ruins pudessem nascer, fossem do tipo que fossem, lutaria nobremente contra eles. Nas aulas de religião no seminário, ele já tinha ouvido falar sobre pecados de todo tipo, dos quais jamais conseguira ter uma ideia clara, como o de sodomia, os pecados silenciosos e da masturbação, todos mencionados durante a explicação do sexto mandamento, os quais inclusive já havia anotado. Mas os nomes eram tudo o que ele sabia sobre aquilo; pois o inspetor felizmente pintara os pecados com cores tão assustadoras que Reiser já tinha medo só de imaginar esses pecados monstruosos e não ousava penetrar mais fundo com seus pensamentos nas trevas que os envolviam. Em geral, suas ideias sobre a origem dos bebês eram ainda muito mais obscuras e confusas, embora não acreditasse mais que a cegonha trouxesse as crianças. Naquele tempo, seus pensamentos eram provavelmente puros; pois certa sensação de pudor, que lhe parecia natural, era a causa de não deter muito seus pensamentos nesses objetos nem se atrever a conversar sobre isso com seus colegas de escola e conhecidos. Suas ideias religiosas sobre o pecado também o favoreceram nisso. Para ele, já era temível o bastante que tais vícios, os quais só conhecia pelo nome, realmente existissem no mundo; que dirá então ter tido o pensamento de conhecê-los mais de perto. Na segunda-feira pela manhã, o diretor B. o introduziu no primeiro grau do liceu onde o vice-reitor e o mestre de capela lecionavam. – O vice- reitor era também pregador, e Reiser já o havia escutado pregar várias vezes. – O jeito como ele se portava em seu hábito sacerdotal agradava especialmente a Reiser, de modo que este procurava imitá-lo frequentemente com certo movimento do queixo para cima e para baixo. O pastor G., como era chamado, era um homem ainda muito jovem; o mestre de capela, ao contrário, era um homem velho e meio hipocondríaco. No primeiro grau, havia jovens já bastante crescidos, e Reiser não se vangloriava pouco de ser um aluno do liceu. As aulas começaram: o vice-reitor ensinava teologia, história, estilística e o Novo Testamento. – O mestre da capela, catecismo, geografia e gramática latina. De manhã, as aulas começavam às sete horas, iam até as dez; à tarde, da uma às quatro. – Reiser teve de passar ali, junto com outros vinte ou trinta jovens, uma boa parte de sua vida de então. Não era, portanto, irrelevante o modo como as aulas estavam organizadas. Segundo a ordem prescrita, toda manhã logo cedo era lido primeiro um capítulo da Bíblia, respeitando a sequência, não importando se fosse longo ou curto. A seguir, duas vezes por semana se ensinava uma espécie de teologia segundo a ordem da salvação, na qual havia, por exemplo, a opera ad extra e a opera ad intra, que eram muito bem memorizadas. Entre as primeiras se incluíam as obras nas quais todas as três pessoas faziam parte da divindade, como a criação, a salvação etc., embora fossem imputadas principalmente a uma pessoa; e entre as segundas se incluíam as obras em que uma pessoa se diferenciava da outra, e o que condizia unicamente a ela, como a geração do Filho pelo Pai, a origem do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho etc. Reiser já havia aprendido essa diferença no seminário, mas ficava muito contente porque agora sabia também chamá-las pelo nome latino. Das aulas de teologia, a opera ad extra e a opera ad intra deixaram marcas muito profundas nele. Duas vezes por semana, o vice-reitor expunha uma espécie de história universal segundo Holberg, e o mestre de capela ensinava geografia segundo Hübner. Essas eram as aulas de ciência. Todo o tempo restante era empregado no aprendizado de língua latina. Isso também era o único modo de alguém conseguir ter fama e aprovação. Pois a posição dos alunos na classe era definida conforme o desempenho em latim. O método do mestre de capela era ditar semanalmente um pequeno texto sobre um número de regras tiradas da grande Grammatica Latina Marchica, que tinha de ser traduzido em latim e no qual as frases eram selecionadas de modo que sempre as respectivas regras gramaticais pudessem ser empregadas. Quem prestava mais atenção na explicação delas conseguia também fazer melhor o chamado exercitium e galgar, com isso, um lugar mais alto. Por mais que as frases alemãs, selecionadas em função do latim, soassem estranhas, aquele exercício era de fato muito útil e um forte incentivo à emulação. – Pois dentro de um ano Reiser progrediu tanto que escrevia em latim sem um único erro gramatical, expressando-se mais corretamente nessa língua do que em alemão. Pois em latim sabia onde tinha de usar o acusativo e o dativo. Mas em alemão ele nem imaginava que mich, por exemplo, era o acusativo, e mir o dativo, e que era preciso declinar e conjugar sua língua materna tanto quantoo latim. – Ele, no entanto, assimilou imperceptivelmente alguns conceitos gerais que mais tarde pôde usar em sua língua materna. – Começou aos poucos a ter noção clara do que se denomina substantivo e verbo, algo que ele frequentemente ainda confundia quando um se aproximava do outro, como, por exemplo, gehn (caminhar) e das Gehen (a caminhada). Mas, como esses lapsos costumavam ocasionar erros na redação de latim, ele passou a ficar muito mais atento e aprendeu também, sem perceber, a reconhecer as diferenças mais delicadas entre partes do discurso e suas alterações; de modo que, um tempo depois, ele mesmo às vezes se espantava de ter cometido recentemente erros tão evidentes. O mestre de capela costumava pôr seu vidi (visto) embaixo de cada composição de latim, depois de ter assinalado nas laterais em traços vermelhos o número de erros. Como Reiser via esse vidi embaixo de cada exercitium, acreditava que era uma palavra que ele também teria de escrever sempre no fim da redação, e cuja omissão o mestre de capela tinha lhe atribuído como um erro. Escreveu então de próprio punho vidi embaixo de seu segundo exercitium, e o mestre de capela e seu filho, que estava presente, riram alto dele e lhe explicaram o que aquilo significava. – De repente, Reiser viu seu erro e não pôde compreender como ele mesmo não tinha percebido a explicação correta do vidi, pois, além do mais, já sabia bem o que significava vidi. Era como se despertasse envergonhado de uma espécie de tolice que tomara conta dele. E por um momento ficou quase tão abatido como quando outrora o inspetor lhe disse no seminário “garoto idiota”, acreditando que ele nem sequer conseguiria soletrar. Esse tipo de tolice real ou aparente em determinados casos provém em parte de uma falta de presença de espírito, em parte de certa timidez ou indolência, pela qual durante algum tempo a capacidade natural do pensamento é impedida de agir livremente. Outra lição fundamental eram as biografias dos generais gregos, de Cornélio Nepos, de onde se retirava um capítulo da vida de um general para semanalmente ser recitado de cor. Esses exercícios de memória se tornaram muito fáceis para Reiser, porque ele procurava não só gravar as palavras como também as coisas, o que fazia toda vez à noite antes de dormir; e de manhã, ao acordar, as ideias estavam bem mais claras e ordenadas em sua memória do que na noite anterior, como se a alma continuasse, de certo modo, trabalhando durante o sono, e o que ela uma vez havia começado seria terminado vagarosamente durante o completo sossego do corpo. Tudo o que Reiser confiava a sua memória, ele costumava decorar dessa maneira. Começou também a se dedicar à poesia, o que já fizera na infância, quando seus versos costumavam abordar a natureza bela, a vida campestre e outros temas semelhantes. Pois a única coisa que em sua situação realmente lhe provocava um entusiasmo poético eram suas caminhadas solitárias e a vista da relva verde nas vezes que saía pela porta da cidade. Quando garoto, aos 10 anos, fez algumas estrofes que começavam assim: Nos lindos prados em floração As bondades de Deus estão… e que foram musicadas por seu pai. E o poema que ele acabara de compor era um “Convite ao campo”, em que pelo menos as palavras não foram mal escolhidas. – Entregou esse poeminha ao jovem M., que o fez chegar às mãos do pastor M. e do diretor, e os dois aprovaram o poema, de modo que Reiser começou a se considerar um poeta. Mas o mestre de capela o fez ver em seguida seu erro quando repassou o poema verso a verso com Reiser, mostrando-lhe não só os erros de métrica, mas também os de expressão e a falta de coerência nas ideias. Essa crítica aguda do mestre de capela era um verdadeiro benefício para Reiser, e ele jamais lhe pôde agradecer o bastante. De outra forma, a aprovação, que esse primeiro produto de sua musa recebeu imerecidamente, o teria prejudicado por toda a vida. Apesar disso, às vezes ainda era tomado pelo furor poeticus, e, como agora realmente o que mais o entusiasmava era o prazer de se dedicar ao estudo, ele se atreveu então a fazer um novo poema em louvor das ciências, que começava de maneira muito estranha: Em ti, formosa Ciência, Em ti, minha alma se atenha… O mestre de capela ensinava também a fazer versos latinos, e expunha as regras de prosódia, que depois ele empregava no Catonis disticha[15] ao escandir seus versos. Reiser encontrava imenso prazer nisso, porque lhe soava muito erudito poder escandir versos latinos e saber por que uma sílaba tinha de ser pronunciada longa e a outra breve; o mestre de capela marcava com as mãos o compasso enquanto escandia. Poder assistir e participar daquilo era uma verdadeira alegria para a alma de Reiser. – E finalmente quando o mestre de capela ditou uma quantidade de palavras latinas misturadas, que antes formavam versos, para que fossem colocadas novamente na ordem métrica, Reiser sentiu um grande prazer, pois, cometendo poucos erros, organizou novamente alguns hexâmetros, e, como prêmio, recebeu do mestre de capela uma velha edição do Curtius[16]. Ali imperava a chamada antiga rotina escolar, e mesmo assim Reiser avançou tanto em um ano que podia escrever em latim sem erro gramatical e escandir corretamente um verso latino. – Para isso o método mais simples era – repetição frequente do antigo com o novo, algo que os pedagogos dos novos tempos deveriam levar em consideração. Ainda que um tema seja apresentado de maneira magnífica, se não é repetido com frequência, não atinge absolutamente a alma dos jovens. Os antigos certamente não falaram em vão quando disseram que a repetição era a mãe do estudo. Das dez às onze horas, o vice-reitor dava ainda uma aula particular sobre declamação e estilística alemã, e na maioria das vezes Reiser a aguardava com grande expectativa, porque tinha a ocasião de se distinguir com as composições e, ao mesmo tempo, podia se fazer ouvir publicamente da cátedra, o que tinha alguma semelhança com o ato de fazer pregações, que foi sempre o mais elevado objeto de todos os seus desejos. Além dele só mais um aluno, chamado I., encontrava também tanto prazer nesse exercício de declamação. Esse I. viria a se tornar posteriormente um de nossos maiores atores e um de nossos dramaturgos preferidos; e o destino de Reiser tinha até certo ponto muita semelhança com o dele. – I. e Reiser eram os que sempre se destacavam mais no exercício de declamação. – I. superava bastante Reiser nas vivas expressões dos sentimentos. – Reiser, porém, sentia mais fundo. – I. pensava bem mais rápido e por isso mesmo tinha engenho e presença de espírito, mas nenhuma paciência para sustentar por muito tempo um assunto. – Assim Reiser logo o ultrapassou também em todas as outras coisas. – Ele sempre perdia para I. quando se tratava de humor e vivacidade, mas sempre ganhava de I. quando se tratava de exercitar a faculdade de pensar sobre algum assunto. – I. podia ser tocado com bastante intensidade por alguma coisa, mas esta não lhe dava uma impressão duradoura. Podia captar algo com muita facilidade e muita rapidez, mas em geral se lhe escapava também com muita rapidez. – I. nascera para ser ator. Já aos 12 anos, era capaz de controlar todas as suas expressões faciais e gestos – e podia representar todo tipo de coisas ridículas com a imitação mais perfeita. Não havia pregador em H. cuja pregação ele já não tivesse imitado da maneira mais natural. Era assim que costumava aproveitar o recreio, antes de o vice-reitor chegar para a aula particular. Portanto, todos temiam I., já que ele, se quisesse, sabia ridicularizar qualquer pessoa. – Reiser, porém, o adorava, e teria tido à época relações mais próximas se a diferença de condições causadas pelo destino não o tivesse impedido. Os pais de I. eram ricos e famosos, e Reiser era um garoto pobre, vivendo de caridade, apesar de odiar até a morte a ideia de importunar de alguma forma os ricos. Mas, da parte de seus colegas de escola mais ricos e mais bem-vestidos, ele gozava de muito mais respeito do que esperara,o que talvez em parte se desse porque sabiam que o príncipe possibilitara seus estudos, e por isso o tinham na mais alta conta; senão, não o teriam tratado assim. Isso também lhe abriu caminho para ter mais atenção e respeito de seus professores. Embora houvesse nessa classe jovens entre 17 e 18 anos, ainda imperavam nela castigos muito humilhantes. Tanto o vice-reitor como o mestre de capela distribuíam bofetadas, e para castigos mais severos se serviam do chicote, que estava sempre sobre a cátedra; aqueles que haviam cometido algum delito também tinham por vezes de ficar ajoelhados ao lado da cátedra para cumprir a pena. Reiser não suportava a ideia de receber alguma vez um castigo daqueles homens que ele adorava e venerava em alto grau como seus professores, e não desejava nada mais fervorosamente do que merecer por sua vez o amor e o respeito deles. Que efeito não deve ter tido sobre ele quando certa vez, sem que esperasse e sem culpa alguma, teve de participar do destino de alguns dos seus colegas de escola que, por causa de uma algazarra, foram castigados com o chicote pelo vice-reitor. “Se irmãos são, merecem igual punição”, disse o vice-reitor ao se aproximar dele e, sem querer ouvir as desculpas, ameaçou denunciá-lo ao pastor M. O sentimento de inocência inspirou uma nobre resistência em Reiser, e ele, sim, ameaçou denunciar o vice-reitor ao pastor M., por ser tratado de modo tão degradante, e não como um inocente. Reiser disse isso com um tom de voz de inocência reprimida, e o vice- reitor não lhe respondeu nenhuma palavra. Mas, daquele momento em diante, todo o sentimento de respeito e amor pelo vice-reitor tinha desaparecido por completo de seu coração. E, como o vice-reitor não media mais seus castigos, Reiser considerava tão pouco uma bofetada ou uma chicotada sua, como se fosse um animal irracional correndo em sua direção. E, desde que percebeu que não fazia a menor diferença se procurasse ou não merecer o respeito desses professores, ele seguiu sua inclinação e não prestava mais atenção por dever, mas apenas quando o assunto despertava seu interesse. Costumava bater papo horas a fio com seu amigo I., com quem vez ou outra tinha de se ajoelhar em sua companhia diante da cátedra. I. também encontrava nisso material para exercitar seu engenho, comparando a cátedra, sobre a qual o vice-reitor estava apoiado com os cotovelos, com o brasão de Mecklemburgo; e a si mesmo e a Reiser, com os dois escudeiros. – O jeito brincalhão de I. não era contido por nenhum castigo, exceto uma ocasião em que teve de ficar uma hora inteira com o rosto virado para a estufa, e por isso não pôde fazer suas brincadeiras nem qualquer pantomima para alguém. – Esse castigo lhe arrancou lágrimas pela primeira vez, e com seriedade ele ficou em posição de súplica, algo que jamais costumava fazer. – Era assim a disciplina do vice-reitor. – Certa vez, alguém colocara por engano na bolsa uma touca de dormir em vez do livro, e ele o mandou ficar ajoelhado durante uma hora com a touca na cabeça diante de toda a classe; I. então fez milhares de gracejos, e seus colegas, que não puderam conter por muito tempo o riso por sua pantomima e por suas ideias cômicas, receberam muitas bofetadas. Qual o efeito da disciplina do vice-reitor sobre o ânimo e o caráter de seus subordinados, que tipo de recordação louvável ele deixou no coração de seus alunos, e que prêmio mereceria receber por isso, é algo que deveria ser deixado ao critério de sua própria consciência. – Mostrava-se com frequência tal qual um herói, quando tinha o hábito de dizer: eu não sou um preguiçoso como alguns, indicando, para que todos pudessem notar, seu colega, o mestre de capela, que, apesar da disposição hipocondríaca e um pedantismo pegajoso, era um homem bem melhor do que o vice-reitor. Reiser jamais recebeu um bofetão do mestre de capela, embora este não economizasse bofetadas e fosse bastante generoso com o chicote. Percebendo que Reiser procurava seriamente evitar castigos, não o esbofeteava a torto e a direito. Reiser aprendeu muito mais com ele do que com o vice-reitor, porque, mesmo que o assunto não o interessasse, ele prestava atenção por dever. E, quando conseguiu alcançar o primeiro lugar graças às composições de latim, o elogio do mestre de capela o deixou bem animado, assim como foi convincente seu encorajamento para que procurasse se afirmar nesse lugar. Ora, o mestre de capela dava sempre ao primeiro da classe o posto de censor ou de vigia do comportamento dos outros, e, como Reiser sempre se mantinha em primeiro lugar, o mestre de capela lhe deu o respeitável título de um censor perpetuus ou vigia permanente. Ele ocupou esse cargo com a maior retidão e imparcialidade, e com frequência observava melancólico como os garotos azucrinavam o bom mestre de capela, que certamente nem sempre optava por um método disciplinar correto, e lhe amargavam a vida, de modo que ele mesmo frequentemente gritava, com desgosto no coração, quem dii odere, paedagogum fecere, aqueles que os deuses odeiam são transformados em pedagogos. Reiser faria qualquer coisa pelo mestre de capela, porque este jamais fora injusto com ele, embora seu comportamento não tivesse sido sempre o mais amigável. Quão comovente não era muitas vezes para ele quando na aula de catecismo todos ficavam à sua volta fazendo barulho e baderna, e o mestre de capela batia com força o livro, dizendo: Eu lhes trago a palavra de Deus! – Pena que o bom homem empregasse com tanta frequência tais expressões, que, aplicadas no momento oportuno, não perderiam seu efeito, e também dissesse a todo instante certos lugares-comuns, tais como a tolice se esconde no coração dos jovens, e outros mais, aos quais os alunos já estavam por fim tão habituados que ninguém mais lhes prestava atenção, e era daí que provinha a eterna bagunça nas aulas do mestre de capela. O vice-reitor falava menos quando castigava, e seus castigos provocavam mais silêncio e mais ordem. Quando havia começado a frequentar a escola, Reiser teve a ideia de participar do coral; não só para ganhar dinheiro, mas sobretudo para entrar num novo e respeitável patamar, que ele, já como aprendiz de chapeleiro em B., sempre teve em alta conta. Sua fantasia ganhou novamente liberdade de ação. Cantar em coro e publicamente cânticos de louvor à honra de Deus era para ele tudo o que havia de mais celestial e solene. O nome coral lhe soava muito agradável. Cantar em louvor a Deus com todas as vozes era uma expressão que sempre ressoava em sua mente. Mal podia esperar o momento em que seria acolhido naquele grupo ilustre! Um de seus colegas de escola, que já cantava havia um bom tempo no coral, lhe assegurou estar tão farto e cansado dele que preferiria se ver livre o quanto antes – Reiser não conseguia sequer imaginar aquilo. Frequentava com enorme zelo as aulas em que o mestre de capela ensinava canto e invejava todos aqueles que tinham uma voz melhor do que a sua. Não muito longe de H. havia uma cachoeira onde, por indicação do mestre de capela, ele passava muitas vezes horas a fio para realmente soltar e exercitar a voz. Mas jamais progrediu muito com o canto. Pois também lhe faltava aquilo que chamamos ouvido musical. Mas a teoria que o mestre de capela mencionava por alto na aula era cada vez mais bem recebida por Reiser, e ele dava muita satisfação ao mestre de capela pela atenção prestada. Reiser sentia verdadeiro amor pelo mestre de capela, não se cansando de elogiá-lo por toda parte, da mesma maneira que este o elogiava às outras pessoas. – Aconteceu certa vez de Reiser agradecer ao mestre de capela o bom testemunho que tinha dado a um de seus benfeitores, e o mestre de capela respondeu que Reiser também lhe dera um bom testemunho, pois lhe chegara aos ouvidos como falava bem dele por toda parte. Reiser não teria trocado a alegria daquele momento por nada deste mundo, tão agradável lhe foi o fato de seu professor saber o quanto ele o amava. – Se alguém lhe tivesse dito à primeira vista que o mestre de capela seria algum diatão amigo seu, ele não teria acreditado. Pois o vice- reitor ocupava o primeiro lugar de sua preferência; sua feição risonha e amigável, e a testa lisa, o cativavam, ao passo que a feição tenebrosa do mestre de capela e a testa enrugada o afugentavam. No início, ele tinha o hábito de dizer com frequência: Ah, mas que homem afável e amigável em comparação com o velho mestre de capela rabugento! Mas, com uma convivência mais intensa, as coisas rapidamente se modificaram. Reiser procurou de todos os modos consolidar cada vez mais o respeito que o mestre de capela mantinha por ele. Isso foi tão longe que chegou a caminhar para cima e para baixo num passeio público, aonde o mestre de capela costumava ir, com um livro aberto na mão apenas para atrair a atenção de seu professor e ser considerado um modelo de dedicação, já que estudava mesmo passeando. – Embora Reiser sentisse realmente prazer com o livro que lia, o prazer seria ainda maior se fosse notado pelo mestre de capela, e é possível ver nesse traço sua tendência para a vaidade. Importava-lhe mais a aparência do que a coisa, embora a coisa também não lhe fosse sem importância. Tinham uma espantosa opinião sobre sua dedicação aos estudos e costumavam sempre aconselhá-lo a cuidar da saúde; isso lhe era extremamente adulador, e ele deixava as pessoas terem essa opinião, embora sua dedicação não fosse tão grande como poderia ter sido se a pressão de sua situação, no que diz respeito à comida e à moradia, não o deixasse muitas vezes inerte e mal-humorado. Pois o tratamento indigno ao qual estava exposto subtraía-lhe com frequência grande parte do respeito por si mesmo, sentimento absolutamente necessário à dedicação aos estudos. – Ia frequentemente à escola de coração triste, e, uma vez estando lá, esquecia-se de suas aflições, e as horas na escola ainda eram de fato as suas horas mais felizes. Mas quando voltava para casa, e muitas vezes lhe davam a entender veladamente como sua presença era maçante, ele ficava horas a fio sentado e mal ousava respirar – seu estado era lastimável – e não teria condições de fazer nada na vida, pois esse tratamento estava dilacerando seu coração. – Depois que comia em sua casa, os olhares da senhora do sacristão da guarnição conseguiam humilhá-lo por alguns dias, tirando-lhe o ânimo para se dedicar aos estudos. Reiser, sem dúvida alguma, teria sido mais feliz e contente, e com toda a certeza mais aplicado, se o tivessem deixado comprar sal e pão para si mesmo com o dinheiro que o príncipe lhe dava, em vez de ter de comer seu pão em mesas estranhas. A que situação atroz ele chegou quando a senhora do sacristão começou a falar à mesa sobre os tempos ruins e sobre o inverno rigoroso, e depois sobre a falta de lenha, e finalmente, já irrompendo em lágrimas, sobre a preocupação de saber onde ainda conseguiriam pão; e quando Reiser, constrangido diante dessa fala, deixou cair de repente um pedaço de pão no chão, ela, sem dizer nada, o olhou com o olhar de uma Fúria. – Como Reiser não conseguiu conter as lágrimas diante desse tratamento indigno, ela se lançou contra ele, e com duras palavras o repreendeu por malcriação e comportamento impróprio, dando-lhe a entender que pessoas que demonstravam ingratidão não seriam bem-vindas em sua casa. – O bom sacristão, que intimamente teve pena de Reiser, mas não governava a casa, compadeceu-se dele e lhe disse para deixar a mesa imediatamente. – Bastante envergonhado, abatido e humilhado, Reiser foi obrigado a sair daquela casa e não ousaria deixar que em sua casa soubessem que havia perdido a refeição gratuita. Depois disso, quando topava às vezes com ele na rua, o sacristão introduzia meio florim em sua mão para indenizá-lo pela inveja e avareza de sua esposa. Havia também outra espécie de pessoas que, quando ofereciam refeição a Reiser, costumavam dizer a todo momento como era bom ele ter o que comer, e que deveria saboreá-lo bem, pois podia contar com uma refeição, e assim por diante, o que não o deixava menos constrangido, de modo que, em vez de lhe trazer satisfação como em geral sentimos, a comida era usualmente um verdadeiro tormento. Que alegria sentiu quando, no primeiro domingo depois de ter perdido a refeição na casa do sacristão, e ainda não ter tido vontade de contar isso em casa, comeu um pão de 3 centavos e fez um passeio em torno do baluarte! Era como se todos se unissem para que Reiser se exercitasse na humildade; foi sorte ele não ter se tornado vil – certamente teria ficado contente e satisfeito, mas perderia o nobre orgulho, sentimento que eleva o homem acima dos animais, os quais apenas procuram saciar a fome. A condição do mais reles aprendiz de artesão é mais honrosa que a de um jovem que vive de ajuda para poder estudar, caso essa ajuda lhe seja concedida de maneira degradante. Se um jovem desses se sente feliz, ele corre o risco de se tornar vil, e, se não tiver uma predisposição à vilania, acontecerá com ele o mesmo que ocorreu a Reiser; ele se tornará mal- humorado e misantropo como Reiser de fato ficou, pois já naquela época começou a encontrar seu maior prazer na solidão. Certa vez, a sra. F. o enviou à casa do príncipe com uma peça imensa de pano de linho, e ele deveria mostrá-la para que fosse vendida. – De nada adiantaria qualquer resistência a isso – pois o pastor M. tinha dado a ela um poder ilimitado sobre Reiser – e cada recusa dele teria sido interpretada como um orgulho imperdoável. Isso não iria manchar sua reputação, costumava dizer a sra. F. Tampouco podia se opor a pegar o pão que o oboísta recebia do regimento, e embora o fizesse na hora do crepúsculo, escolhendo as ruas mais afastadas para que nenhum dos seus colegas de escola pudessem vê-lo, certa vez, para grande espanto seu, um deles o viu, mas felizmente era de tão boa índole que lhe prometeu silêncio total, o que por fim cumpriu; quando porém eles às vezes se desentendiam na sala de aula, ele ameaçava tornar público aquele segredo. Como seu velho uniforme vermelho de soldado já não aguentava, finalmente arrumaram uma roupa nova para ele, muito embora, claro, com o dinheiro do príncipe; no entanto, como se visassem realmente a sua humilhação, o traje que escolheram era uma roupa cinza de serviçal, que o fazia mais uma vez se destacar quase tão esdruxulamente dos seus colegas de escola quanto o uniforme vermelho; e inicialmente ele só podia vestir a roupa em ocasiões solenes, quando havia algum exame na escola, ou para ir comungar. Mas de todas as humilhações sofridas a que mais o ofendeu, e da qual nunca perdoou a sra. F., foi uma injusta acusação, que lhe doeu fundo na alma e ele não conseguiu afastar de si por nenhuma prova. A sra. F. havia acolhido uma menina de 3 ou 4 anos, filha de uma parente sua. No Natal, ela pensou em oferecer uma alegre surpresa à criança e decorou uma árvore com luzes e nela pendurou uvas-passas e amêndoas. Reiser ficou sozinho na sala, enquanto a sra. F. foi à alcova pegar a criança. Aconteceu que, quando ela voltou, a árvore tombou com todas as luzes, supostamente por causa do movimento das portas, e Reiser no mesmo momento se atirou para segurá-la, mas, como não conseguiu, retirou de imediato sua mão, o que deu a impressão de que tivesse passado todo o tempo entretido com a árvore, e justo quando a sra. F. havia entrado na sala, ele, apavorado, deixou cair a árvore, a qual, na verdade, havia tombado. No pensamento da sra. F. não restava dúvida de que ele quis comer as guloseimas da árvore e havia assim estragado a alegria inocente dela e da criança. Ela deixou bem clara essa suspeita desonrosa para Reiser; e como ele poderia se livrar dela? Não tinha testemunha. E as aparências estavam contra Reiser. A mera possibilidade de que se pudesse nutrir tal suspeita contra ele já o humilhava perante si mesmo; ele estava naquele estado em que desejamos, por assim dizer, desaparecer ou ser completamente aniquilados num instante. Um estado que pode produzir uma espécie de paralisia da alma, do qual depois não se consegue sair com tanta facilidade.Sentimo-nos, nesses momentos, como que aniquilados e daríamos a vida para poder nos ocultar do mundo. A autoconfiança, que é essencial à atividade moral, assim como a respiração o é para o movimento corporal, recebe um golpe tão violento que dificilmente se recupera. Depois desse episódio, se Reiser estivesse num lugar onde as pessoas procurassem por uma ninharia qualquer, pensando que foi roubada, ele não conseguia não enrubescer e ficar confuso apenas porque imaginava vivamente a possibilidade de que poderiam considerá-lo um ladrão, mesmo que não dessem a entender diretamente. – Prova de como podemos errar quando costumamos interpretar a vergonha e a confusão de um acusado como confissão silenciosa de seu crime. – Por meio de milhares de humilhações imerecidas, alguém pode por fim ser levado a ver a si mesmo como um objeto do desprezo geral e não mais se atrever a abrir os olhos perante ninguém – ele pode, desse modo, na maior inocência de seu coração, deixar transparecer todos os sinais de uma consciência pesada, e coitado dele se cai nas mãos de um pretenso conhecedor da natureza humana, como existem tantos, que julga imediatamente seu caráter pela primeira impressão que sua expressão facial lhe causou. – De todos os sentimentos, um dos mais desagradáveis é provavelmente o mais alto grau de vergonha que alguém é levado a sentir. Reiser o sentiu mais de uma vez em sua vida, mais de uma vez teve momentos em que, por assim dizer, foi aniquilado diante de si mesmo – nas ocasiões em que, por exemplo, pensava que um cumprimento, um elogio, um convite, ou algo parecido, era para ele, quando não era. – A vergonha e a confusão que esse tipo de mal-entendido o fazia sentir eram indescritíveis. – Há também um sentimento bastante peculiar quando, por mal- entendido, atribuímo-nos uma deferência que é destinada a outra pessoa. A ideia de que podemos ser demasiado autoconfiantes é o que há de mais extraordinariamente humilhante. Acrescente-se ainda a isso o papel ridículo que cremos desempenhar. – Ou seja, Reiser não sentiu em sua vida nada mais horrível que esse estado de vergonha no qual muitas vezes uma ninharia o mergulhava. – Todas as outras coisas não atingiram tanto sua mais íntima natureza, seu verdadeiro si-mesmo. Em relação a essa espécie de sofrimento, ele sentia também a mais forte compaixão. Teria feito muito mais para evitar que alguém sentisse vergonha do que para salvar alguém de uma desgraça real: pois a vergonha lhe parecia a maior desgraça que pode acontecer a alguém. Certa vez, ele estava na casa de um comerciante em H., que geralmente, em vez de olhar a pessoa com quem estava falando, tinha o costume de olhar para outra. Enquanto fitava Reiser, o comerciante convidou para comer outra pessoa que também estava ali na sala, e como Reiser interpretou o convite como se fosse para ele, recusando-o educadamente, o homem disse então com cara ríspida: “não me refiro ao senhor!” – esse “não me refiro ao senhor!”, dito com cara ríspida, provocou em Reiser tal efeito que ele só pensava em se enfiar na terra; esse “não me refiro ao senhor!” o perseguiu posteriormente onde estivesse e aonde fosse, deixando sua voz entrecortada e trêmula quando tinha de falar com gente distinta, e seu orgulho jamais conseguiu superar inteiramente essa experiência. “Como pôde pensar que deveríamos convidá-lo para comer?” – Assim Reiser interpretou aquele “não me refiro ao senhor!”, e naquele momento ele se viu tão insignificante, tão descartado, tão ninguém, que seu rosto, suas mãos, seu ser inteiro tornaram-se um fardo para ele, e, enquanto esteve ali, fez papel do mais idiota e pateta dos personagens, e ao mesmo tempo sentiu em seu comportamento essa idiotice e patetice mais forte e mais viva do que qualquer outra pessoa. – Se Reiser tivesse encontrado alguém com verdadeiro interesse em seu destino, encontros como aquele talvez não tivessem produzido tanta mágoa. Mas seu destino estava preso apenas por fios muito tênues ao interesse genuíno de outras pessoas, de modo que o aparente desprendimento de um desses fios de repente o deixava receoso quanto ao rompimento de todos os outros, e ele se via então num estado em que não despertava mais a atenção de ninguém para si, julgando-se um ser que não era mais levado em consideração. – A vergonha é um afeto tão violento como qualquer outro, e é de espantar que suas consequências não sejam às vezes mortíferas. O temor de passar por ridículo era às vezes tão terrível para Reiser que teria sacrificado tudo, até mesmo sua vida, para evitá-lo. – Ninguém sentiu mais forte o Infelix paupertas, quia ridiculos miseros facit, Triste é o fardo da pobreza, porque torna ridículos os infelizes,[17] do que ele, para quem tornar-se ridículo parecia ser a maior infelicidade do mundo. Há uma espécie de ridículo que lhe era a mais suportável – a saber, quando as pessoas riem de algo simplesmente pela esquisitice, a qual elas mesmas não se atrevem a imitar, sem considerá-la por isso à luz do desprezo. Quando, por exemplo, ouvia dizer a seu respeito algo como “esse Reiser é uma pessoa esquisita, anda à noite, numa escuridão completa, três vezes em torno do baluarte, sem falar com ninguém, a não ser consigo mesmo, enquanto repete a lição do dia etc.” – não lhe era desagradável ouvir isso; tinha, ao contrário, até algo de lisonjeiro em ser considerado dotado de certa esquisitice. Mas quando I. ridicularizou seus versos Em ti, formosa Ciência, Em ti, minha alma se atenha… isso lhe causou muita mágoa e vergonha, e ele teria dado qualquer coisa para não ter composto esses versos. Depois de ter frequentado por um trimestre as aulas de canto do mestre de capela, Reiser alcançou sua tão ansiada e desejada felicidade de cantar no coro, no qual era contralto. A alegria com sua nova posição de corista durou algumas semanas, enquanto o clima esteve bom. Encontrou imenso prazer tanto nas árias e motetos que ouviu cantar como nas conversas amigáveis com seus colegas de escola, enquanto iam de uma casa a outra, de uma rua a outra. Esse tipo de coro tem muita semelhança com uma trupe de atores ambulantes, na qual de certo modo também compartilham entre si alegria e sofrimento, tempo bom e ruim etc., o que costuma sempre provocar uma união bastante estreita entre os participantes. Reiser esperou ansioso pelo sobretudo azul que seria seu futuro adorno. – Pois esse sobretudo já era algo parecido com a vestimenta de sacerdote. – Mas mesmo essa esperança o iludiu bastante; pois, a fim de economizar para Reiser, a sra. F. mandou fazer para ele um sobretudo com alguns velhos aventais azuis, com o qual ele não representava um papel de destaque entre os demais alunos do coro. Logo no primeiro dia, Reiser notou que um dentre esses alunos se destacava mais que os outros. – Percebia-se de imediato que era um forasteiro, ainda que não o ouvisse falar em sua língua. Pois qualquer expressão facial e gestos dele demonstravam mais vivacidade e desenvoltura que a aparência cerimoniosa e desengonçada dos moradores de H. – Reiser não se cansava de olhá-lo; e, ao ouvi-lo falar, não conseguia deixar de admirar suas frases bem formuladas em dialeto da Alta Saxônia; tudo o que os moradores de H. diziam lhe parecia deselegante e sem graça. – O líder do coro era um rapaz bêbado, com quem esse forasteiro sempre entrava num bate-boca e a quem costumava dar em geral respostas muito adequadas e certeiras quando o líder pretendia exercer certa supremacia sobre ele. E quando este certa vez lhe disse, entre outras coisas, que era líder havia muito tempo para permitir que um moleque o insultasse, o forasteiro respondeu então que sem dúvida não o honrava ser um rapaz mais velho e continuar apenas líder de coro. – Essa superioridade de astúcia com a qual o estrangeiro repentinamente humilhou o líder fez Reiser prestar mais atenção nele, e, quando se informou sobre o seu nome, ficou sabendo que se chamava Reiser e era de Erfurt. Para Reiser, era muito impressionante que esse jovem, a quem já estava afeiçoado, tivesseexatamente o sobrenome dele, embora, em razão da distância do local de nascimento, dificilmente poderia ser seu parente. Gostaria de fazer amizade imediatamente com ele, mas não ousou, porque seu homônimo era primeiranista e ele ainda era secundanista. Também tinha medo de sua astúcia, da qual não se sentia à altura, se alguma vez viesse a se dirigir a ele. No entanto, a aproximação entre os dois ocorreu naturalmente, porque Philipp Reiser se tornava cada vez mais atento ao modo silencioso e ensimesmado de Anton, enquanto este dava atenção ao modo vivaz do primeiro, e eles logo se encontraram em meio à multidão e ficaram amigos, apesar da diferença de temperamento. Esse Philipp Reiser era sem dúvida uma mente brilhante, mas, por circunstâncias nas quais o destino o havia posto, era também oprimido. – Além de uma sensibilidade refinada, era dotado de muita astúcia e humor, de verdadeiro talento musical e, ao mesmo tempo, de uma cabeça excelente para mecânica – mas era pobre e extremamente orgulhoso. Antes de aceitar qualquer favor, preferia passar fome, o que de fato frequentemente ocorria. – Porém, quando tinha dinheiro, era generoso e hospitaleiro como um rei – desfrutava mais aquilo que comia quando podia compartilhar em abundância com os outros – mas sem dúvida não aprendera muito bem a calcular receitas e despesas, e por isso teve muitas e frequentes ocasiões de praticar a grande arte da privação voluntária daquilo que gostaria de ter. – Sem jamais ter tido instrução, fabricava pianos muito bons, o que lhe proporcionava algumas vezes uma boa receita, mas que sem dúvida não o ajudava muito por causa de sua imensa generosidade. Ideias romanescas enchiam de modo constante sua cabeça, e sempre estava perdidamente apaixonado por alguma mulher; quando chegava a esse ponto, era como se ouvíssemos um amante dos tempos da cavalaria. – Sua fidelidade na amizade, seu desejo de ajudar os necessitados e mesmo sua hospitalidade tinham a mesma característica e se baseavam em parte nas ideias romanescas que nutriam sua fantasia, embora o verdadeiro fundamento fosse seu bom coração – pois esses exageros de virtudes romanescas só podem germinar e criar raízes no fundo de um bom coração. Numa alma egoísta e num coração atrofiado, a mais frequente leitura de romances jamais produzirá tais efeitos. – É fácil ver por que Philipp e Anton Reiser encontraram um ao outro no meio do caminho, e, com o convívio mais íntimo, pareciam feitos um para o outro. O primeiro tinha quase 20 anos quando Reiser o conheceu; os anos a mais o tornavam de certo modo líder e conselheiro, mas foi uma pena que, no ponto principal, no que se refere à organização da vida, Reiser não achou um líder e conselheiro melhor. Mas havia encontrado o primeiro verdadeiro amigo de sua juventude, cujo convívio e conversas tornavam de alguma forma suportáveis as horas que tinha de passar no coro. O bom tempo se fora, e a chuva, a neve e o frio chegaram – mesmo assim, o coro tinha de cantar na rua em horas determinadas. – Ah!, e como Reiser, congelado pelo frio, contava os minutos para acabar o canto maçante que antes parecia soar a seus ouvidos como uma música celestial. As quartas-feiras, os sábados à tarde e os domingos inteiros eram ocupados apenas pelo coral – pois todas as manhãs de domingo os coristas tinham de estar na igreja para cantar o Amém lá do alto do coro. – Também no sábado à tarde, durante a preparação da eucaristia, os jovens alunos do coro tinham de entoar uma canção com o mestre de capela, e um deles devia ler um salmo lá de cima do coro, o que era novamente uma imensa descoberta para Reiser – com essas leituras públicas e em voz alta dos salmos, ele se sentia recompensado por todo o incômodo de cantar no coro. – Já se via ali em pé como o pastor P. em B., falando com a voz comovida para o povo reunido. Aliás, o coro logo se tornou para ele a coisa mais desagradável do mundo. Roubava-lhe todas as horas de repouso que ainda lhe sobravam, deixando-o sem a perspectiva sequer de um único dia de sossego na semana. Como se dissiparam os sonhos dourados que nutrira! – E como teria sido bom, se fosse possível, ter se libertado daquela escravidão. – Mas o dinheiro do coro já fazia parte de seus rendimentos regulares, e ele não se permitia sequer pensar em largar o coral. Não acontecia nada melhor com a maior parte de seus companheiros de escravidão, que estavam fartos dessa vida tanto quanto ele. – E também é de fato muito triste a vida de um aluno de coro, obrigado a cantar pelo seu sustento de porta em porta. Se alguém não perde de todo o ânimo nessa situação, trata-se então de um caso raro. – A maioria das pessoas acaba por se tornar servil e, uma vez assim, jamais se livra desse traço. O chamado coral do Ano-Novo, que dura três dias seguidos, provocou em Reiser uma impressão estranha e que, por causa das muitas mudanças de cenas que nele ocorrem, tem muita semelhança com uma jornada de aventura. – Sob neve e frio, alunos ficam na rua, apinhados e encostados uns aos outros, até que um mensageiro, enviado de vez em quando, traz a notícia de que se deve cantar em uma das casas. – Em seguida, eles entram e são obrigados a cantar na sala, primeiro uma ária ou moteto apropriado à época do ano. – Depois que cantam, alguns donos das casas costumam fazer a gentileza de servir vinho, ou café, e bolo aos alunos do coro. Essa recepção numa sala quentinha depois de terem ficado longo tempo no frio, com as bebidas oferecidas, era um revigoramento, e a variedade de objetos, já que viam num único dia mais de vinte mobiliários domésticos distintos e famílias reunidas em suas salas de estar, provocava uma impressão tão agradável na alma que durante os três dias eles pairavam em certo encantamento e numa constante expectativa de novas cenas, tolerando de bom grado os rigores do clima. – O canto durava até a noite, e a iluminação noturna deixava a cena mais solene. Entre outros lugares, o coro de alunos cantou também o Ano-Novo num asilo de senhoras idosas, onde tiveram de formar um círculo com as mães idosas e cantar de mãos postas: “Até aqui Deus me trouxe” etc. – Nesse canto de Ano-Novo todos pareciam ser mais amigáveis uns com os outros. Não se atentava muito à hierarquia, os primeiranistas conversavam com os secundanistas, e uma alegria incomum tomava conta de todos os ânimos. Naquele Ano-Novo, Reiser também foi tomado por um furor surpreendente para fazer versos. – Os votos de Ano-Novo para os pais, para o irmão, para a sra. F. e sabe-se lá para quem mais foram escritos em versos, e neles falava dos riachos de prata serpenteando entre as flores, e dos delicados zéfiros, e de dias dourados, que eram de admirar – seu pai sentira um prazer maravilhoso com o riacho de prata; mas sua mãe ficou surpresa por ele chamar o pai de “o pai melhor”, pois ele só tinha um. Seu aprendizado de poesia consistia à época em quase nada, a não ser os escritos breves de Lessing, emprestados por Philipp Reiser e que sabia praticamente de cor de tanto que os havia lido. A propósito, via-se facilmente que, desde que tinha entrado para o coral, não sobrava mais tempo para os seus próprios trabalhos. Apesar disso, tinha grandes projetos de todo tipo; o estilo em Cornélio Nepos, por exemplo, não lhe era suficientemente elevado, e ele teve a ideia de dar uma roupagem completamente diferente à história dos generais; algo parecido à maneira como estava escrito Daniel na cova dos leões – que também deveria se tornar uma espécie de poema épico. Nas aulas particulares com o vice-reitor, foram lidas as comédias de Terêncio, e a mera ideia de que esse autor fosse considerado um dos mais difíceis levou-o a estudá-lo com mais afinco do que Fedro ou Eutrópio, e cada peça lida na escola, ele a traduzia imediatamente em casa. Quando realizou desse modo verdadeiros e imensos progressos em tão pouco tempo, fez uma nova visita ao homem velho e surdo, que já passara dos 100 anos e já havia um bom tempo voltara a ser criança, mas para o assombro de todos recuperara completamenteo juízo um ano antes de sua morte. Reiser sabia que seu quarto ficava no fim de um corredor escuro e sentiu um pequeno arrepio quando ouviu a distância os passos rastejantes do velho, que, assim que Reiser entrou, lhe deu as boas-vindas amigavelmente, acenando-lhe com a mão para que lhe escrevesse alguma coisa. Com verdadeiro arrebatamento Reiser escreveu que agora estava estudando e já traduzia Terêncio e o Novo Testamento! O ancião consentiu em participar de sua alegria infantil e ficou admirado de Reiser já poder entender Terêncio, que requer o domínio de um amplo vocabulário. Por fim, Reiser, para ostentar sua sabedoria, lhe escreveu alguma coisa em letras gregas – e o ancião o estimulou a continuar sua dedicação aos estudos, exortando-o a não se esquecer da oração, e ali mesmo se ajoelharam, e assim como cinco anos antes, quando Reiser o viu pela primeira vez, rezaram novamente juntos. Reiser foi para casa com o coração comovido e se propôs a voltar-se novamente para Deus, o que para ele significava pensar incessantemente em Deus – ele se recordou melancólico do estado no qual se encontrava na infância quando entabulava conversa com Deus, e cada vez mais tinha altas expectativas de que grandes coisas ocorreriam dentro dele. – Havia nessas recordações uma doçura indescritível, pois o romance encenado pela devota fantasia das almas crentes com o supremo ser, por quem se creem ora abandonadas, ora aceitas de novo, ora sentem nostalgia e avidez por ele, ora estão novamente num estado de secura e vazio no coração, tem algo de realmente sublime, de grandioso, e mantém a vida espiritual numa atividade incessante, de modo que os sonhos noturnos também se ocupam de coisas sobrenaturais, tal como Reiser uma vez sonhou que fora aceito na sociedade dos bem-aventurados que tomavam banho em rio cristalino – um sonho que muitas e frequentes vezes encantou sua imaginação. Reiser pegou novamente emprestados do velho Tischer os escritos de Madame Guyon e enquanto lia recordou aqueles tempos felizes em que, segundo sua opinião, estava ocupado com o caminho para a perfeição. – Quando muitas vezes ficava triste e mal-humorado em razão de circunstâncias externas, e nenhuma leitura era de seu gosto, a Bíblia e os cânticos de Madame Guyon eram seu único refúgio, por causa da atraente obscuridade que neles imperava. Através do véu de suas frases enigmáticas, brilhava uma luz desconhecida que revigorava sua fantasia mortificada – mas mesmo assim não conseguia progredir mais nem com verdadeira crença nem com o pensamento incessante em Deus. – Entre as pessoas de seu convívio, ninguém mais se preocupava com seu estado de alma, e ele tinha tantas distrações na escola e no coro que não conseguia sequer por uma semana manter-se fiel à tendência a voltar-se constantemente para dentro de si mesmo. No entanto, ele ainda visitou muitas vezes o ancião, até que certo dia em que quis visitá-lo soube que estava morto e enterrado – suas últimas palavras haviam sido: tudo! tudo! tudo!. Reiser se lembrou de ter ouvido muitas vezes dele essas palavras no meio da oração, ou então, após uma pausa, numa espécie de arrebatamento. – Às vezes parecia querer exalar, com essas palavras, seu espírito maduro para a eternidade, e se desfazer naquele instante de sua carcaça mortal. – Por isso Reiser ficou muito impressionado quando soube que o ancião morrera dizendo essas palavras e, no entanto, para ele era como se também não tivesse morrido, pois o religioso ancião sempre havia passado uma forte impressão de viver em outro mundo – das últimas vezes que Reiser falou com ele, morte e eternidade foram quase seu único pensamento. – Para Reiser, daquela vez que tentou visitar o ancião, era quase como se ele tivesse mudado de morada, e isso não se devia à indiferença, mas à íntima familiaridade daquele homem com a ideia da morte. Mas, por outro lado, perdera no ancião um amigo de sua juventude, cujo interesse em seu destino lhe dera alegria tantas vezes. Em muitos momentos, ele se sentia, sem saber o motivo, mais abandonado que antes. A sra. F. estava também cada vez mais farta com o peso de sua estada e finalmente lhe disse, após ter tido paciência ao longo de nove meses, que ele deveria deixar a casa, aconselhando-o, com a melhor das intenções, a procurar outro lugar. Nesse meio-tempo, o reitor do liceu partiu, e o novo reitor S., escolhido para ficar em seu lugar, era um bom amigo do pastor M.; este pensou então em levar Reiser para a casa do novo reitor e lhe chamou antecipadamente atenção para as grandes vantagens que assim o beneficiariam, se tivesse a sorte de ser acolhido por ele em sua casa. – Reiser deveria então se mudar para a casa do reitor – e isso deixou sua vaidade muito lisonjeada! Pois pensou que, se tivesse a sorte de se tornar querido pelo reitor, perspectivas radiantes se abririam para ele, pois, além do mais, o reitor seria seu professor, porque, após o fim de seu primeiro ano escolar na segunda série, ele seria transferido para a primeira série, onde só o diretor e o reitor davam aulas. No fim das contas, foi extremamente favorável para Reiser que a sra. F. o tivesse alertado para deixar a casa, porque ele jamais teria ousado mencionar uma palavra sobre querer se mudar dali. – Além disso, ainda tinha a maior expectativa de ser inquilino na casa do reitor, seu futuro professor. Mas, por volta dessa época, ele começou a formar em sua imaginação uma nova ideia extravagante, que teve grande influência em toda a sua vida futura. Já mencionei os exercícios de declamação ministrados pelo vice-reitor na segunda série. Isso era para Reiser e I. um estímulo tão extraordinário que tudo o mais ficava obscurecido, e ele não desejava mais nada a não ser a oportunidade de um dia representar uma peça de teatro com alguns dos seus colegas de escola, para que pudessem ouvi-lo declamar – isso era um estímulo tão infinito que durante um tempo ficava às voltas com esse pensamento, dia e noite, e fez até um esboço para uma peça na qual dois amigos seriam separados e por isso estavam inconsoláveis etc. – Encontrou também, num dos volumes da Biblioteca para crianças e jovens, de Leyding, que alguém lhe havia emprestado, o comovente drama em versos O eremita, que gostaria de montar com I. Desejava realmente um papel afetado em que falasse com o maior páthos e pudesse ter uma série de sensações almejadas, mas que não podia ter em seu mundo real, onde tudo acontecia de maneira tão fria e pobre. – Em Reiser, esse desejo era muito natural; era capaz de sentir amizade, gratidão, generosidade e nobre determinação, sentimentos que estavam adormecidos dentro dele sem nenhuma utilidade; pois seu coração estava contraído por sua situação exterior. Era de esperar que buscasse novamente se expandir num mundo ideal e se entregar aos seus sentimentos naturais! No teatro ele parecia, por assim dizer, se reencontrar, depois de quase se perder no mundo real. Por isso, como consequência, sua amizade com Philipp Reiser também se tornou praticamente uma amizade teatral, que muitas vezes foi tão longe a ponto de um estar decidido a morrer pelo outro. – A ideia extravagante do teatro adquiriu tanto valor para ele que a obsessão por pregar foi praticamente expulsa de sua alma – pois aqui sua imaginação encontrou um espaço muito maior de atuação, muito mais próximo da vida real e do seu interesse do que no eterno monólogo do pregador. Quando repassava as cenas de um drama que havia lido ou esboçado em pensamento, Reiser encarnava de fato um após o outro todos os papéis que representava, ora era generoso, ora grato, ora magoado e paciente, ora impetuoso, enfrentando corajosamente qualquer ataque. Nesse momento, ir para a primeira classe era uma perspectiva extraordinariamente atraente para ele – pois os primeiranistas do liceu em H. tinham sem dúvida muitas prerrogativas externas, como se encontram em poucas escolas. Todo Ano-Novo, eles faziam um desfile público com música e tochas diante de uma grande quantidade de espectadores, dando vivas ao diretor eao reitor. Na noite seguinte, eles espontaneamente entregavam, um ano ao diretor e outro ao reitor, um presente conjunto, que valia em geral mais de cem moedas de prata, e aquele que o entregava também fazia um pequeno discurso em latim – depois lhes eram servidos vinho e bolo, e podiam tomar a liberdade de gritar um alto e retumbante viva ao seu professor na casa deste. A organização daquele desfile sempre começava a ser discutida quase um trimestre antes. Todo verão, durante a canícula, os primeiranistas encenavam as peças, escolhidas por eles, e eram responsáveis por sua organização. Isso os ocupava quase todo o verão. Depois, em janeiro, era a festa de aniversário da rainha e, em maio, a do rei, em que sempre era proferido um discurso com grande solenidade, ao qual compareciam o príncipe, os ministros e quase todos os notáveis da cidade. A preparação de cada uma dessas celebrações tomava muito tempo. Além disso, anualmente eram realizados dois exames públicos, cada qual sempre seguido por um feriado. Perdia-se muito tempo com isso. Mas, para um jovem ambicioso, tudo significava metas muito atraentes, que sempre lhe revigoravam o encanto pelo ano letivo, tão logo este ameaçava se extinguir. Ser uma vez um dos comandantes no desfile com tochas, ou fazer um discurso em latim na entrega do presente, ou ter um papel principal numa das peças encenadas, ou até mesmo proferir um discurso no aniversário do rei ou da rainha eram os desejos e as perspectivas de um primeiranista do liceu em H. Acrescente-se ainda o elegante auditório da primeira classe, com uma cátedra dupla elegantemente construída de nogueira encerada, e cortinas verdes diante das janelas, tudo reunido para preencher de novo a fantasia de Reiser com imagens comoventes de sua situação futura e excitar ao mais alto grau sua expectativa quanto ao que lhe aconteceria. Tornar-se um primeiranista imediatamente após seu primeiro ano escolar era uma alegria com a qual mal teria podido sonhar. Repleto dessas esperanças e perspectivas, na semana de férias antes da Páscoa, Reiser viajou, com cocheiros que percorriam o mesmo caminho, para a casa dos pais a fim de lhes contar sua alegria. Nessa viagem, em que grande parte do caminho era pela floresta e pela charneca, sua fantasia, já entusiasmada, foi tomada por um impulso extraordinário: ele esboçou poemas épicos, tragédias, romances, e quem sabe o que mais – às vezes também lhe ocorria pensar em escrever sua vida; mas o começo que ele imaginava era sempre igual às robinsonadas que havia lido, a saber, tinha nascido em tal e tal ano, em H., de pais pobres, mas honrados, e assim por diante. Todas as outras vezes que viajou depois à casa dos pais, a pé ou de carroça, sua imaginação se mantinha sempre completamente ocupada durante o trajeto – todo o espaço de tempo de sua vida pregressa surgia diante dele assim que perdia de vista as quatro torres de H. – o horizonte de sua alma se ampliava com o horizonte diante de seus olhos. – Sentia-se transposto do limitado círculo de sua existência para o grande e amplo mundo, no qual eram possíveis todos os acontecimentos maravilhosos que já havia lido nos romances – por exemplo, daquela colina, de repente o pai e a mãe viriam ao seu encontro e ele alegremente se apressaria na direção deles – Reiser já pensava ouvir o tom de voz dos pais – e, quando fez pela primeira vez essa viagem, sentiu realmente o mais puro prazer da ansiada expectativa de estar com eles: que grandes coisas não teria para lhes contar! Quando ele chegou, ao meio-dia do dia seguinte, os pais e os dois irmãos o saudaram com alegria cordial em sua residência campestre. Eles tinham um pequeno jardim no fundo da casa. Até então, tudo parecia bem. Mas quanto à paz doméstica, como logo viu, tudo continuava infelizmente como antes. Ouviu, porém, seu pai tocar de novo a cítara e cantar os cânticos de Madame Guyon. Conversaram também sobre a doutrina de Madame Guyon, e Reiser, que já havia formado em sua cabeça uma espécie de metafísica, próxima do spinozismo, muitas vezes concordava milagrosamente com o pai quando falavam sobre o tudo da divindade e o nada da criatura, o que era ensinado por Madame Guyon. Eles acreditavam se entender, e Reiser sentiu um infinito prazer nessas conversas com o pai, que antes parecia julgá-lo apenas um garoto idiota; conversar agora sobre assuntos sublimes com ele era algo que o lisonjeava. Depois visitaram o pregador e os notáveis do lugar; Reiser foi convidado por todos para participar das conversas e, como esse tratamento também lhe inspirou autoconfiança, ele se comportou muito bem. – Os vizinhos de seus pais, e quem chegasse ali, estavam todos atentos ao filho do escrivão, cujos estudos em H. eram sustentados pelo príncipe. – A alegria pura e serena que Reiser desfrutou naqueles dias, junto com as esperanças mais agradáveis, compensou fartamente todos os desgostos e as humilhações imerecidos que sofrera durante todo o ano. Mas ninguém no mundo, nenhum familiar, esteve tão interessado em seu destino como sua mãe – à noite, quando Reiser ia se deitar, ela se curvava sobre ele e dizia em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém, fazendo o sinal da cruz sobre a testa dele, como antigamente, para que dormisse protegido, e não havia noite ou manhã em que ela, mesmo na ausência do filho, não o incluísse em sua prece. – Com melancolia, Reiser se despediu dos pais, e, ao ver de novo as torres de H., tristes pressentimentos apertaram seu coração. No dia seguinte ao de seu retorno, ele foi examinado pelo diretor para a transferência de grau escolar, e, como deveria traduzir um trecho de Dos deveres, de Cícero, do latim para o alemão, quis o acaso que ele infelizmente virasse uma página do exemplar que o diretor havia lhe dado com tal falta de jeito que quase a rasgou. Por causa disso, a sensibilidade do diretor, que sempre procurava ser extremamente delicado em tudo, só pôde ficar gravemente ofendida. – Reiser decaiu infinitamente aos olhos do diretor por esse gesto que aparentemente indicava falta de sentimento e de modo de vida refinados. O diretor repreendeu sua inabilidade de maneira muito severa, de tal modo que a confiança de Reiser nele recebeu um golpe violento do qual jamais conseguiu se recuperar, por causa da vergonha causada pela severa repreensão. Por esse motivo, o modo de ser acanhado que Reiser a partir daí demonstrava na presença do diretor acabou por depreciá-lo ainda mais. Em suma, de uma única página virada rapidamente no exemplar do diretor de Dos deveres, de Cícero, procederam em grande parte todos os sofrimentos que Reiser passaria a viver a partir de então em seus anos de aprendizado, e que se baseavam fundamentalmente na falta de respeito do diretor, cuja aprovação, que tanto lhe importava, ele perdera apenas por ter virado a página rápido demais. Além disso, apesar de já ter se mudado da casa da sra. F., ela ainda guardava trancada sua roupa nova, e Reiser era obrigado a frequentar a primeira classe, na qual se via cercado de jovens quase todos muito bem- vestidos, com a antiga sobrecasaca recebida pelo chapeleiro L. A sobrecasaca lhe dava um ar ridículo porque lhe ficara muito curta. Ele mesmo se sentia assim, e tal circunstância contribuiu muito para sua timidez, a qual demonstrou naquela classe como nunca. O mestre de capela e o vice-reitor também ficaram extremamente zangados com Reiser, pois ele não havia dito previamente nada sobre sua transferência para a primeira classe e dera esse passo sem o conselho deles. Ele se desculpou tanto quanto pôde, alegando que não havia pensado naquilo. O mestre de capela logo o perdoou, mas o vice-reitor jamais, e ainda o fez pagar por isso durante um bom tempo. Exigiu de Reiser um valor alto para as aulas particulares que haviam sido dadas, as quais todos achavam serem de graça – durante alguns anos, esse dinheiro saía do pagamento que Reiser recebia do coro, muitas vezes no momento em que dele mais necessitava – circunstância que também o deixou muito abatido. Ele conseguiu entãouma sala e uma alcova na casa do reitor, e nada mais, pois este ainda não estava totalmente instalado. Reiser ainda tinha uma manta de lã dos pais; além disso, para economizar o máximo possível, alugaram-lhe um travesseiro e um colchão; quando esfriava à noite, ele era obrigado a recorrer à sua roupa a fim de se cobrir bem. Seu velho piano servia-lhe de mesa; tinha também um banquinho do auditório do reitor, uma pequena prateleira pendurada com prego sobre a cama, e uma mala velha com algumas roupas usadas na alcova – era esse todo o seu mobiliário doméstico, mas ali ele se sentia muito mais feliz do que na sala da sra. F., mesmo havendo lá muito mais conforto. Ao ficar sozinho em sua sala, ele se sentia muito bem, mas ainda não se sentia confiante na presença do reitor. Quando o via de pijama e touca de dormir, parecia se espalhar ao seu redor uma aura de seriedade e dignidade que mantinha Reiser a grande distância – ele tinha de ajudá-lo a organizar sua biblioteca; às vezes, quando lhe passava os livros, chegava a ficar tão perto dele que Reiser podia ouvir sua respiração, e com frequência sentia então uma força dentro de si para estabelecer o vínculo – mas logo a seguir a timidez e o embaraço voltavam. – Apesar disso, ele amava o reitor – e sua cabeça cheia de ideias romanescas às vezes o fazia desejar ser transposto com o reitor para uma ilha inabitada qualquer, onde eles, igualados pelo destino, pudessem ter relações amistosas e familiares. O reitor fez de tudo para inspirar coragem e confiança em Reiser; várias vezes convidou-o para comer à sua mesa, só os dois, e conversavam – naquela época, Reiser já tinha o projeto de ser escritor: queria melhorar o estilo da antiga Acerra philologica, e o reitor teve a generosidade de sempre encorajá-lo a alimentar esses projetos futuros e a se ocupar de sua elaboração. Quando Reiser falava coisas assim com o reitor, faltavam-lhe sempre os termos corretos que deveria usar, o que acabava por quebrar bastante suas frases. – Pois ele preferia ficar em silêncio a escolher a palavra errada para o pensamento que queria expressar. – Nesses momentos, o reitor o acudia com muita indulgência. – Muitas vezes, pedia que ele viesse à noite até a sala e lesse em voz alta. – Às vezes, Reiser ousava lhe fazer perguntas: por exemplo, em que medida uma cadeira pode ser denominada um indivíduo, já que se pode dividi-la sempre mais e mais, dúvida que lhe ocorrera na aula de lógica do diretor – e o reitor solucionou sua dúvida com muita condescendência e o elogiou por suas reflexões sobre questões semelhantes; às vezes, brincava com Reiser, e, caso o encarregasse de buscar um livro ou outra coisa qualquer, jamais fazia isso em tom de ordem, mas de pedido. – Assim as coisas seguiam muito bem – mas para virar a página Reiser ainda parecia ter azar – certa vez, a pedido do reitor, teve de abrir, com uma faca de pena, páginas de livros encadernados, e as abriu com tamanha falta de jeito que fez cortes profundos a ponto de os livros ficarem praticamente estragados. O reitor ficou muito bravo e lhe fez uma dura reprimenda, como se Reiser tivesse feito os cortes nas páginas por maldade a fim de se livrar do trabalho. – Certamente não foi esse o motivo – a reprimenda feriu Reiser e muito contribuiu para abater novamente seu ânimo, que aos poucos se erguia. No entanto, ele ainda se recuperou mais uma vez, quando o reitor o levou numa pequena viagem a uma cidade católica vizinha a fim assistir à celebração do Corpus Christi. – O reitor, o vice-reitor, o mestre de capela e alguns alunos de teologia viajaram na mala-posta extra, na qual Reiser também conseguiu um lugar. Na ocasião, viu esses homens veneráveis, que haviam se tornado mais íntimos pelo laço mútuo que costuma ocorrer numa pequena viagem em grupo, brincarem uns com os outros com muita vivacidade; e isso teve um efeito bastante especial em Reiser. – A aura ao redor de suas cabeças foi desaparecendo pouco a pouco, e pela primeira vez ele os viu simplesmente como seres humanos – pois jamais havia visto um grupo de sacerdotes que debatessem descontraídos uns com os outros, despindo-se momentaneamente da postura rígida e cerimoniosa que normalmente lhes é atribuída em razão de sua posição. Somente o bom mestre de capela manteve certa postura rígida, e, ao longo do trajeto, quando um grande número de mendigos se aproximava da carruagem entoando canções espirituais, os companheiros troçavam do mestre de capela por essa cena, compadecendo-se dele afetuosamente por causa do horrível tom desafinado que estremecia por completo seus ouvidos. Era a primeira vez que Reiser via como aqueles homens veneráveis também podiam troçar uns dos outros, como qualquer outra pessoa. E essa experiência se tornou muito útil para ele; agora, quando via um pregador que ainda considerava de algum modo uma espécie de ser sobre-humano, ele o imaginava dentro daquele círculo de companheiros de viagem, e em sua imaginação desfazia com facilidade a aura que antes o rodeava. Apesar disso, tornou a sentir intensamente o quanto era insignificante no grupo; e enquanto admiravam todas as particularidades dos mosteiros e outras coisas na cidade católica, junto com certo número de pessoas, inclusive estrangeiros, ele percebeu, o que sempre foi evidente, que era o último em tudo e que tinha de encarar isso como uma grande honra – essa ideia fez com que tivesse um comportamento constrangido, tolo e estúpido no grupo, e sentiu esse seu comportamento de novo muito mais fortemente do que qualquer pessoa além dele; por isso, durante aquele momento em que pôde ouvir e ver tantas coisas novas, ele não foi nem um pouco feliz e desejou novamente estar em seu cantinho solitário, com o banco e o velho piano, e com a prateleira que estava pendurada no prego sobre sua cama. Mas o que começou fundamentalmente a amargar seu destino foi uma nova e imerecida humilhação, provocada pela atual situação em que se encontrava e que ele não conseguia modificar. As primeiras vezes que compareceu à primeira classe, ouviu um ou outro cochicho atrás de si: veja, este é o fâmulo do reitor! – Uma denominação à qual Reiser associava o mais baixo conceito; pois ainda não sabia nada sobre os comportamentos de um fâmulo na universidade. Para Reiser, fâmulo significava, talvez, ainda menos que um serviçal que engraxa os sapatos do patrão. E, para ele, era como se seus colegas em geral o considerassem com certo tipo de desprezo. Em seguida, ele se imaginou vestindo sua sobrecasaca curta, com a qual parecia sempre ter um aspecto ridículo – apesar de suas roupas velhas, na segunda série ainda era respeitado por seus colegas de escola, em virtude da elevada opinião que tinham dele, pois seus estudos eram custeados pelo príncipe. Na primeira série, sabia-se disso em parte, mas a ideia de que era o fâmulo do reitor parecia depreciá-lo perante os olhos de todos. Agora, na classe mais alta, era extremamente importante o lugar onde se sentava: os lugares mais altos só podiam ser alcançados por meio de prolongada e contínua dedicação aos estudos. Em geral, subia-se um banco apenas a cada meio ano. – Os primeiros quatro bancos formavam a seção inferior; e os últimos três, a seção superior. – Aquele que ao longo do semestre não avançava sofria com isso uma das maiores humilhações. Logo na manhã do terceiro dia, enquanto um primeiranista lia uma prece da cátedra inferior, Reiser dera um sorriso quando seu vizinho lhe disse algo; e nesse instante ele viu que o diretor havia percebido aquilo e imediatamente procurou fazer uma expressão séria – e a impressão da página virada que havia permanecido em sua alma fez com que a repentina mudança de fisionomia não ocorresse de modo a revelar um medo nobre, mas antes apenas um medo extremamente desconfiado, vulgar e servil, do qual o diretor, com um olhar de ira e desprezo lançado a Reiser durante a oração, parecia concluir que seu modo de pensar era inferior e vulgar. Um olhar assim do diretor já era algo que costumava chamar a atenção geral. Mas, uma vezterminada a oração, ele disse a Reiser algumas palavras sobre a vilania estampada em seu rosto, palavras que expuseram Reiser de vez ao desprezo da classe inteira, para a qual os ditos do diretor eram um oráculo. Daquele momento em diante, Reiser não mais ousou levantar os olhos para o diretor e, em suas aulas, foi obrigado a se ver como um ser a quem não se dava a menor consideração: pois o diretor nunca mais o chamou. Alguns jovens que chegaram à primeira classe depois de Reiser foram colocados à sua frente, e durante vários meses ele teve de permanecer no último lugar. O jovem R., uma mente primorosa, que viria a se tornar um famoso pintor, sentava-se ao seu lado e parecia querer se aproximar dele; mas um olhar do diretor, com o qual este certa vez o encarou quando falava com Reiser, abafou todas as fagulhas de respeito que ele parecia ter por Reiser, afastando seu coração dele. O comportamento do diretor para com ele era uma consequência de seu caráter tímido e desconfiado, que parecia revelar uma alma inferior; mas o diretor não considerava que esse caráter tímido e desconfiado era também a consequência de seu comportamento inicial em relação a ele. Reiser acabou perdendo o respeito de seus colegas de escola, e agora todos queriam montar em seu cangote, fazer brincadeiras com ele, e, caso reagisse de determinado modo com um, outros vinte disputavam uns com os outros para torná-lo alvo de escárnio; até mesmo sua bravura, quando às vezes brigava com aqueles que passavam dos limites, que teria feito qualquer outra pessoa ser respeitada, acabou ridicularizada. Não cochichavam mais nos ouvidos “olhem o fâmulo do reitor!”, mas de manhã, assim que ele entrava, diziam: lá vem o fâmulo!, e essa denominação honrosa lhe era lançada de todos os cantos. Era como se todos tivessem tramado para montar em seu cangote e ridicularizá-lo. Essa situação se tornou infernal para Reiser – ele berrava, se enfurecia e caía numa espécie de frenesi, e isso também era ridicularizado. Finalmente, uma espécie de embotamento dos sentidos tomava algumas vezes o lugar do furor e do frenesi de seu orgulho ferido – ele nem via mais o que se passava ao redor e permitia que os outros fizessem o que bem entendessem dele, de modo que, nesse estado, parecia ser um objeto digno de escárnio e desprezo. Não seria espantoso se ele por fim, se continuassem a tratá-lo desse modo, começasse realmente a pender para a vilania. Mas em certas horas ainda sentia força dentro de si para sair de seu mundo real. Era o que o mantinha de pé – quando em seu mundo real sua alma era diminuída por milhares de humilhações, ele exercitava os nobres sentimentos de generosidade, firmeza, altruísmo e persistência todas as vezes que lia com atenção algum romance ou algum drama épico, ou pensava com profundidade sobre eles. Desse modo, enquanto se enrijecia pelo frio que sentia cantando no coro, com frequência se transportava em sonho para cenas alegres que pairavam além de todas as aflições da terra, e assim fantasiava por muitas horas durante as quais certas melodias que ouvia e cantava o ajudavam frequentemente a propagar seu sonho. Nada lhe soava, por exemplo, mais comovente e sublime do que quando o líder do coro começava a cantar: Lãsi, ó admirável Sol, Teu brilho prazenteiro Sobre o obscuro nevoeiro[18] – Bastava o lãsi para levá-lo a regiões elevadas, dando todas as vezes um elã extraordinário a sua imaginação, porque tomava a palavra por alguma expressão oriental, que não entendia e por isso mesmo podia lhe atribuir ao seu bel-prazer um sentido tão sublime: até que certa vez viu o texto escrito entre notas e descobriu o que significava: Lance, ó admirável Sol… O líder do coro sempre cantava essas palavras conforme seu dialeto turíngio: Lãsi, ó admirável Sol – e de repente todo o encanto havia desaparecido, encanto que em tantos momentos havia alegrado Reiser. – Do mesmo modo ele sempre se comovia quando cantavam: Tu o escondes no teu ninho, ou eu me deito sob teu abrigo, e durmo bem tranquilo. Muitas vezes, ele se embalava de tal modo com a doce sensação de proteção de um ser supremo que esquecia a chuva, o frio e a neve, parecendo descansar no vento que o envolvia como numa cama macia. Mas de fora parecia que tudo se reunia para humilhá-lo e prostrá-lo. No verão, o reitor viajou por algumas semanas, e durante esse período Reiser permaneceu sozinho em sua casa, onde passava o tempo relativamente satisfeito, porque podia aproveitá-lo para ler alguns livros da biblioteca do reitor, tendo descoberto, entre outros, os Escritos de Moses Mendelssohn e as Cartas sobre literatura, dos quais fez inicialmente excertos. Anotou especialmente as partes que diziam respeito ao teatro, pois essa ideia já era então dominante em sua mente e uma espécie de semente de todas as suas adversidades futuras. Ela havia despertado vivamente em Reiser graças à declamação na segunda classe, e foi aos poucos removendo de sua cabeça a fantasia da pregação. – O diálogo no teatro o estimulava mais do que o ininterrupto monólogo no púlpito. – E, além disso, no teatro ele podia ser tudo o que não havia tido a oportunidade de ser no mundo real, e o que tantas vezes desejou ser – generoso, caridoso, nobre, persistente, superior a todas as coisas que o humilhavam e o diminuíam. Ah, como ele ansiava um dia, por meio de um breve jogo ilusório da imaginação, tornar reais esses sentimentos que lhe pareciam tão naturais e dos quais, no entanto, sempre precisava abrir mão. Era mais ou menos isso que, já naquela época, tanto o atraía na ideia do teatro. Ele reencontrava ali, de certo modo, todos os seus sentimentos e pensamentos que não se ajustavam ao mundo real. O teatro lhe parecia um mundo mais natural e adequado do que o mundo real ao seu redor. Chegaram as férias de verão, e os primeiranistas, como era costume ano a ano, encenavam publicamente diferentes peças. – Reiser não podia ter a menor esperança de conseguir um papel, por causa do desprezo geral a que estava exposto na condição de fâmulo do reitor; nem mesmo podia arranjar com seus colegas de escola uma entrada para assistir à encenação. Isso o humilhava acima de tudo até então – teve enfim a ideia de fazer com dois ou três colegas de escola, que também não tinham papel, uma peça, por assim dizer, dos descontentes, e encenar à parte, na casa deles, uma comédia diante de uma pequena plateia. – Para isso escolheram Filotas; Reiser comprou o papel principal de outro rapaz que representava muito mal, e desempenhou, assim, o papel de Filotas. Ele estava agora em seu elemento. Durante toda uma noite, pôde ser generoso, persistente e nobre – as horas de ensaio para o papel, e a noite da representação, foram das mais felizes de sua vida, apesar de o teatro ser apenas uma sala ruim com paredes brancas, e a plateia, uma alcova rente à sala, onde, no lugar do vão da porta, foi pendurado um cobertor de lã servindo de cortina; apesar, também, de todo o público ser constituído apenas pelo proprietário da casa, um oleiro, sua esposa e seus artesãos, e de toda a iluminação ser gerada apenas por velas de poucos vinténs, que queimavam sobre pequenos estuques colados à parede com cola líquida. Como epílogo, foi encenado Sócrates moribundo, das narrativas histórico-morais de Miller, na qual Reiser fez apenas o papel de um amigo de Sócrates; e um de seus colegas de escola, chamado G., fez o papel de Sócrates moribundo, que esvaziou a taça com veneno e por fim faleceu estrebuchando numa cama colocada na sala. – Esse epílogo foi o que depois amargurou quase todos os anos escolares de Reiser. – Pois os primeiranistas tinham ficado sabendo que, além da peça deles, os que ficaram sem nenhum papel haviam encenado também uma comédia – e consideraram uma usurpação de seus direitos, realizada por certa teimosia e desprezo. Procuraram se vingar de todas as maneiras dessa ofensa, considerada imperdoável por eles, e daquele momento em diante os quatro que haviam encenado Filotas e Sócrates moribundo não puderam mais andar seguros narua à noite. – A partir daí, eles eram objeto de ódio, desprezo e escárnio, mas o mais atingido era Reiser, pois os outros raramente frequentavam as aulas. Antes demonstravam apenas desprezo por ele, cuja motivação, além de uma espécie inexplicável de antipatia geral a ele, poderia estar sobretudo em sua situação humilhante ou pelo menos supostamente humilhante, em sua cara de bobo e em sua sobrecasaca curta; agora a esse desprezo se acrescentava ainda uma exasperação geral que procurava tornar tão mordaz quanto possível o escárnio com que o cumulavam. Apesar de não ter feito o papel do Sócrates moribundo no epílogo, mas sim G., desde então, era chamado pelo apelido genérico de Sócrates moribundo, e não mais o perdeu até que toda essa geração deixasse gradativamente a escola; um ano antes de sair da escola, ele ficou um bom tempo adoentado e não saía de casa de jeito nenhum, quando então quis novamente assistir a uma comédia encenada pelos primeiranistas naquela época; deixaram-no entrar, mas lançaram-lhe um olhar de desprezo e sarcasmo, dizendo: aquele é o Sócrates moribundo; e assim Reiser deu rapidamente meia-volta e regressou triste para casa. É costume reinar certa bondade entre as pessoas, de modo que tornam objeto de escárnio apenas aqueles que são, por assim dizer, insensíveis ao escárnio; se, ao contrário, percebem que alguém fica realmente ofendido e magoado com o escárnio, eles ao menos deixam de exercê-lo, e a compaixão por fim prevalece sobre a mania de escarnecer. Mas esse não era o caso de Reiser – seu aspecto decaía dia a dia, ele cambaleava tal qual uma sombra; tudo lhe era praticamente indiferente; seu ânimo estava paralisado – procurava a solidão onde podia – mas tudo isso não despertou nele sequer uma fagulha de compaixão. – Todos os ânimos estavam completamente cheios de ódio e desprezo por ele. – Além dele, certo T. era também objeto de escárnio, motivado em parte por ser gago. – Mas T. era insensível ao escárnio tal como o animal de pele é insensível a pancadas. Justificavam o escárnio dizendo que ele não se ofendia. Quanto a Reiser, não tinham nenhum respeito – o escárnio enfim magoou seu coração, tornando-o um misantropo a olhos vistos. De onde nele poderia vir uma competitividade, uma dedicação, uma verdadeira vontade de estudar dignas de louvor? – Ele foi completamente marginalizado – estava sozinho e abandonado – e procurava somente aquilo que podia isolá-lo cada vez mais e que o fazia se recolher dentro de si; tudo o que trabalhava, lia e pensava sozinho no quarto lhe dava prazer, mas sentia-se apático e desgostoso com as coisas que deveria fazer nas aulas junto com os outros; era como se não fizesse parte daquilo. E pensar que a esplêndida satisfação de seus sonhos era ver os alunos da sabedoria sentados numa longa fileira de bancos e com arroubo se imaginar ali e ter a esperança de um dia disputar o prêmio com eles. – O reitor, em cuja casa Reiser morava, retornou de viagem, trazendo a mãe, que procurou organizar minuciosamente o lugar. – O inverno chegou, e não se pensou em aquecer o quarto de Reiser – ele aguentou o frio mais severo e achou que enfim também pensariam nele – até ouvir que deveria passar o dia no quarto da criadagem. – Ele começou então a não mais se preocupar com suas relações externas – desprezado e rejeitado tanto pelos professores como pelos colegas de escola – e não amado por ninguém por causa de seu aborrecimento permanente e sua índole acanhada, ele como que desistiu de si mesmo em relação ao convívio humano – e procurou voltar-se por completo para dentro de si. Reiser ia a um alfarrabista e pegava um romance atrás do outro, uma peça de teatro atrás da outra, e começou a ler com uma espécie de furor. – Todo o dinheiro que conseguia economizar com comida era usado para pegar livros emprestados; e como, passado algum tempo, o alfarrabista já o conhecesse e lhe emprestasse livros para ler sem exigir o pagamento à vista, Reiser, antes de se dar conta, se viu afundando em dívidas pelas suas leituras, dívidas que podiam até ser pequenas, mas na época eram exorbitantes para ele. Tentou quitar parte das dívidas mediante a venda de seus livros escolares, que o alfarrabista comprava dele por um preço irrisório – e ainda por cima lhe emprestara novos livros para ler, até ele tornar a cair em novas dívidas e, apreensivo, precisar pensar em como quitá-las. A leitura se tornara de repente uma necessidade para ele, como deve ser o ópio para os orientais, por meio do qual se produz uma agradável anestesia dos sentidos. Se lhe faltasse um livro, ele trocaria a sobrecasaca por uma bata de mendigo só para consegui-lo. O alfarrabista sabia se valer muito bem desse desejo e pouco a pouco tirou todos os livros de Reiser, vendendo-os, com frequência na presença do próprio, por um valor seis vezes mais alto do que lhe havia pagado. Nessas circunstâncias era compreensível que todos considerassem Reiser um jovem imoral, degenerado, que vendia seus livros escolares e, em vez de aumentar seu conhecimento e aproveitar as aulas de seus professores, só lia romances e peças de teatro, negligenciando completamente sua aparência; pois era muito natural que Reiser não tivesse nenhum prazer com seu corpo, já que não agradava a ninguém no mundo – e por isso todo o dinheiro que deveria ser destinado à lavadeira e ao alfaiate era entregue ao alfarrabista. – Pois, para ele, a necessidade de ler tinha prioridade em relação a comer, beber e vestir-se, e de fato uma noite leu o Ugolino depois de ter passado o dia inteiro sem comer nada, pois perdera a refeição gratuita lendo, e pelo dinheiro destinado ao pão que comia à noite ele havia tomado de empréstimo o Ugolino e comprado uma vela, junto à qual, enrolado num cobertor de algodão em seu quarto frio, passou a noite e pôde sentir muito intensamente as cenas de fome. No entanto, essas eram as horas mais felizes, nas quais, por assim dizer, ele se desprendia da confusão das outras – sua capacidade de pensar estava como que perfeitamente embriagada, e ele se esquecia de si e do mundo. – Dessa maneira, leu em sequência os doze ou catorze volumes do Teatro alemão publicados na época – e, porque havia lido integralmente duas ou três vezes com imenso prazer As viagens sentimentais de Yorik, pegou emprestado também do alfarrabista o livro Viagens sentimentais pela Alemanha de S. Naquele tempo, ele já começara a anotar num livro específico o título dos livros lidos e também sua opinião sobre eles, que muitas vezes resultava ser bastante acertada; por exemplo, escreveu a opinião sobre as Viagens sentimentais pela Alemanha de S.: um exerzitium extemporaneum[19], porque o próprio autor confessou que tinha simplesmente anotado no calhamaço os assuntos mais variados para que se pudesse julgar em que gênero literário ele se encaixaria melhor. O autor dessas Viagens sentimentais em seguida compensou suficientemente esse Exerzitium extemporaneum com seu Spitzbart. Mas Reiser não se sentiu tão arrependido do tempo dedicado à leitura de qualquer outro livro quanto aquele dedicado a essas Viagens sentimentais. – Assim ele aos poucos aprendeu sozinho a diferenciar cada vez melhor o medíocre e o ruim do bom. – Mas de tudo o que leu a ideia do teatro foi e permaneceu sempre dominante – ele vivia e se movia no mundo do drama, muitas vezes vertia lágrimas enquanto lia, deixava-se levar ora pela violenta e exasperada paixão da ira, da fúria e da vingança, ora pelos ternos sentimentos de generoso perdão, de gigantesca benevolência e de transbordante compaixão. O conjunto da sua situação externa e das condições em que vivia no mundo real lhe era tão odioso que procurava fechar os olhos perante aquilo. – Em casa, o reitor o chamava pelo nome, como se chama um serviçal; e certa vez ele teve de ir convidar um de seus colegas de escola, que era filho de um amigo do reitor, para vir comer com este; e, enquanto o convidado comia com o reitor à noite, Reiser teve de buscar vinho e ficar no quarto da criadagem, bem ao lado da sala onde comiam,ouvindo a conversa do colega de escola com o reitor, ao passo que ele permanecia no quarto com a criada. O reitor dava muitas aulas particulares, e, quando não podia ministrar uma, Reiser tinha de sair avisando um por um os colegas de escola que também participavam dessa aula com ele que a aula tinha sido cancelada, o que aumentava a arrogância deles em relação a Reiser. Esse menosprezo encontrava bons motivos em seu comportamento – ele não participava de nada que ocorresse à sua volta, ficando apático e aborrecido com qualquer coisa que o arrancasse de seu mundo ideal. Já que não se interessava por nada, não era de admirar que do mesmo modo ninguém se interessasse por ele, e que fosse desprezado, rejeitado e ignorado. Mas não se ponderou que mesmo esse comportamento, em razão do qual era menosprezado, era consequência do menosprezo anterior. Tal menosprezo, que estava fundamentado numa série de circunstâncias fortuitas, era a origem de seu comportamento, e não, ao contrário, como se acreditou, seu comportamento originou o menosprezo. Que isso possa tornar os professores e pedagogos mais atentos e cuidadosos em seus julgamentos sobre o desenvolvimento do caráter dos jovens, de modo que levem em conta a influência de inumeráveis circunstâncias fortuitas e procurem primeiro obter a mais precisa informação a esse respeito, antes de ousarem decidir com seu julgamento o destino de uma pessoa, que talvez necessite só um olhar encorajador para uma repentina transformação – porque o fundamento de seu caráter não é culpado de seu visível mau comportamento, mas, sim, uma singular cadeia de circunstâncias. A sina de Anton Reiser parecia ser receber favores acompanhados de tormentos. – Era um favor ter ficado durante um ano na casa da sra. F., mas que situações penosas e sufocantes ele viveu naquele ano! – Era um favor morar na casa do reitor, uma estada que tinham lhe descrito como encantadora, mas que incontáveis humilhações e desprezos de seus colegas de escola não suscitou! – Pela aparência exterior, ninguém podia julgar Reiser a não ser mal – e o próprio reitor disse ao pastor M. que “um dia ele se tornaria no máximo um mestre-escola de pequenos povoados”. – Depois, o pastor M. afirmou a mesma coisa novamente diante de Reiser, cujo ânimo ficou ainda mais abatido com a afirmação do reitor, a quem, naquela época, ele ainda não tinha altivez suficiente para responder. Como o reitor parecia estar certo de que Reiser não se tornaria nada, servia-se dele apenas para tarefas nas quais ainda lhe parecia útil, a saber, para qualquer tipo de pequenos serviços a serem executados dentro e fora da casa – e Reiser, embora fosse um primeiranista, na verdade não era considerado nada além de um empregado doméstico. Certa vez, ainda desfrutando os privilégios de um primeiranista, contribuiu para o presente de Ano-Novo do reitor com o dinheiro que recebia do coro, e participou do cortejo com tochas, quando, de acordo com o ritual, tocavam música e gritavam um viva ao diretor e ao reitor. – Apesar de ser o último ou um dos últimos na fila do cortejo, o fato de estar ali elevou extraordinariamente seu ânimo, pois, mesmo com as muitas depreciações e humilhações sofridas, ele se via, por assim dizer, em fila com os demais, podendo levar uma espada e a tocha, e gritar seu viva. A música, os espectadores, a iluminação das tochas, os comandantes com o chapéu de pena e as espadas desembainhadas – tudo aquilo o inspirava com novo ânimo, pois ele se encontrava nesse esplêndido cortejo. – E quando, no dia seguinte, ele se encontrava entre os primeiranistas, entregaram o presente de Ano-Novo do reitor, para o qual Reiser também havia contribuído, num prato de prata acompanhado por um discurso em latim, Reiser se sentiu novamente no mundo real e isso lhe deu certa satisfação. Não se viu ali totalmente excluído e deslocado – mas mesmo essa sua pequena reanimada foi azedada pelo ódio e pela arrogância dos seus colegas de escola! O reitor serviu bolo e vinho aos primeiranistas que tinham lhe trazido o presente. Eles beberam repetidas vezes à sua saúde, e, no final, quando o vinho lhes subiu à cabeça, ficaram um tanto barulhentos. – Reiser bebeu alguns copos de vinho sem se preocupar com as consequências – mas, por sua completa falta de hábito, poucos copos bastaram para embriagá-lo; seus magnânimos colegas de escola tiveram a ideia de deixá-lo completamente bêbado, o que conseguiram em parte através de astúcia, em parte através de ameaças, de modo que Reiser falou enrolado sobre toda espécie de coisas e teve de ser por fim levado para cama. Se antes Reiser já tinha decaído na confiança e no respeito de todos aqueles que o conheciam, esse incidente acabou por dar o último golpe em seu bom crédito. Antes ele era um ser humano apático, negligente e displicente; agora era também um ser humano descomedido e mau, porque ele, na casa de seu professor, que também era seu benfeitor, havia revelado com aquele comportamento instável ter também o coração mais ingrato. Reiser anteviu vagamente essas consequências quando acordou na manhã seguinte e, enquanto se vestia, preparou seu pedido de desculpas ao reitor pelo comportamento do dia anterior. Ele estudara sua fala muito bem, garantindo, entre outras coisas, que procuraria de todas as maneiras apagar aquela mancha, ao que o reitor não lhe respondeu de modo muito consolador, dizendo-lhe que, se o incidente viesse a se tornar público, seria muito difícil evitar as danosas consequências. O reitor estava com toda a razão – pois o caso logo se tornou público, e dizia-se: mas como! esse jovem vive de favor, até o príncipe gasta com ele, é acolhido na casa de seu professor, seu benfeitor, que lhe dá um teto, e se comporta assim – que infame, que ingrato! Embora Reiser pressentisse essas consequências e isso o deixasse extremamente triste, no dia seguinte sentiu uma espécie de orgulho esquisito quando chegou ao coro e seus colegas de escola riram de seu aspecto pálido e desnorteado, resultante ainda da bebedeira do dia anterior, como se, pela bebedeira, tivesse dado mostras de certa bravura, que chegou até a exagerar, como se seu cambaleio ainda perdurasse a fim de atrair assim a atenção para si. Pois a atenção dos outros com ele, atenção dessa vez muito mais vinculada a certo tipo de aprovação do que ao escárnio, o lisonjeava. Além disso, os outros o observavam do modo como se costuma observar alguém que esteja na mesma situação na qual também já se esteve uma vez – pois o líder do coro estava quase sempre bêbado. Essa secreta satisfação sentida por Reiser ao perceber que conseguiria ser notado pelo mau comportamento é o mais perigoso penhasco da sedução do qual a maioria dos jovens costuma despencar. Essa arrogância de Reiser, no entanto, foi imediatamente abafada, pois logo experimentou as danosas consequências profetizadas pelo reitor – por toda parte, ele era recebido com olhares de frieza e desprezo – o que o fez largar espontaneamente, uma após a outra, a maior parte das refeições, preferindo ficar com fome, ou comer sal e pão – a ter de ficar exposto àquele tipo de olhar. Apenas a casa do sapateiro S. ele ainda frequentava com satisfação, pois lá era recebido com olhar hospitaleiro e não precisava pagar por sua sina adversa. Naquela época, ele ainda estava muito longe de poder se perdoar – confiava mais na opinião que muitas pessoas tinham dele do que em sua própria. Ele se acusava com frequência, fazendo-se as mais amargas acusações sobre sua negligência nos estudos, sobre suas leituras e sobre suas dívidas no alfarrabista – pois naquela época não estava em condições de explicar tudo como consequência natural da limitadíssima situação na qual se encontrava. Nessa disposição da alma, em que se lançava contra si mesmo, e sua imaginação era ainda excitada pelo drama trágico que acabara de ler, escreveu certa vez uma carta muito desesperada ao pai, na qual se acusava de ser o maior criminoso, e a preenchera com numerosos travessões, de modo que seu pai não soube o quedeveria fazer com ela e começou a temer seriamente pelo juízo do autor – de fato, a carta inteira era um papel que Reiser estava representando. – Tinha prazer em se descrever com as cores mais negras, como às vezes fazem os heróis das tragédias, e em se enfurecer consigo mesmo bem à maneira trágica. Como não tinha ninguém no mundo nem era amigo de si mesmo, em que ele poderia se empenhar tanto e tantas vezes quanto possível senão em esquecer-se de si mesmo? Por isso o alfarrabista continuou sendo seu constante refúgio, sem o qual dificilmente teria suportado sua situação, a qual em muitas horas ele soube tornar não só suportável como agradável, quando, por exemplo, com seu primo peruqueiro reunia em torno de si um pequeno auditório, certamente não tão brilhante, e podia ler em voz alta, com toda a abundância de expressão e de declamação que lhe era possível, alguns de seus dramas trágicos preferidos, como Emília Galotti, Ugolino ou algo mais lacrimoso, como Morte de Abel, de Gessner, sentindo um encanto indescritível quando via ao seu redor todos os olhos cheios de lágrimas, e neles lia a prova de que alcançara o objetivo de comover com as coisas que havia lido. Aliás, nessa época, ele passou as horas mais prazerosas de sua vida quer consigo mesmo, quer naquele círculo com seu primo, o peruqueiro, no qual ele, por assim dizer, podia exercer o controle sobre os espíritos e se tornar o centro das atenções – pois ali era ouvido – ali podia ler em voz alta, declamar, contar e ensinar, e, às vezes, entrava realmente em disputa com os artesãos que ali se reuniam sobre questões muito relevantes como a natureza da alma, o surgimento das coisas, o espírito do mundo e outros assuntos semelhantes, com os quais ele desnorteava a cabeça das pessoas – ao dirigir a atenção delas para coisas nas quais jamais haviam pensado. Havia em especial um alfaiate que começou a ter prazer em suas ruminações, e com quem ele com frequência conversava horas a fio – sobre a possibilidade do surgimento do mundo a partir do nada. – Por fim, deparavam com o sistema de emanação e com o spinozismo – Deus e o mundo eram uma coisa só. Quando essas questões não estão embrulhadas em terminologia escolástica, são compreensíveis por qualquer cabeça e até mesmo por crianças. Durante esses diálogos, Reiser costumava esquecer todas as suas preocupações e aflições – o que o pressionava era muito pequeno para ocupar sua atenção –, por um tempo sentia-se deslocado do contexto das coisas que o cercavam na terra e desfrutava os privilégios do mundo espiritual. Ele procurava entabular diálogos filosóficos e exercitar sua capacidade de pensar com o primeiro que lhe aparecesse pela frente. Apesar da pouca animação que desfrutou nas aulas e das muitas humilhações que aguentou ali, elas não foram de todo inúteis – do diretor, ele anotou novas histórias, dogmática e lógica; do reitor, a descrição da Terra e algumas traduções de autores latinos, adquirindo, por meio deles, em paralelo às suas leituras de peças de teatro e de romances, ainda alguns conhecimentos científicos, além de ter feito alguns progressos em latim, sem ter exatamente a intenção de praticá-lo. – Mas tudo isso era meramente casual – nesse meio-tempo perdeu muitas aulas, e em muitas outras, enquanto liam Lívio ou outro autor latino, ele lia um romance às escondidas, porque já sabia que o diretor não mais se dignaria chamá-lo. – Pois estar nas aulas, sentado entre cerca de sessenta a setenta pessoas, das quais quase nenhuma era sua amiga, e para quase todas as quais ele era um objeto de escárnio e de desprezo, isso tinha de ser naturalmente uma situação permanente de muita angústia para ele, que na maior parte das vezes se sentia forçado a sonhar com outro mundo no qual se sentisse melhor. – Mas nem mesmo esse refúgio lhe foi concedido – certa vez, quando estava lendo um volume do Teatro alemão antes da aula, tiraram o livro dele assim que o reitor entrou e o puseram na cátedra deste, que, ao inquirir de onde teria vindo o livro, foi informado de que Reiser tinha o costume de ler durante as aulas. – Um olhar cheio de desprezo lançado a Reiser foi a resposta do reitor à acusação. – E mais uma vez esse olhar custou a Reiser uma parte da pouca autoconfiança que havia sobrado nele; pois, longe de se desculpar a si mesmo, ele, ao contrário, achava que merecia realmente o desprezo e naquele momento se considerou um ser muito desprezível e rebaixado, tal como o reitor sempre o havia considerado. – Esse incidente aumentou o desprezo do reitor por ele – sua situação externa piorava dia a dia; e, quando certa vez se esqueceu de transmitir ao reitor um pedido que um estranho lhe passara, o reitor empregou pela primeira vez palavras duras com Reiser, dizendo que essa negligência de um pedido feito a ele tinha sido realmente uma verdadeira idiotice. Essa expressão produziu durante um bom tempo uma espécie de paralisia em sua alma. Ele jamais conseguiu esquecer tais palavras, e o garoto idiota, do inspetor no seminário, e o não me refiro ao senhor, do comerciante S. – todas elas tinham se entrelaçado a seus pensamentos, e, ainda muito tempo depois, tiravam-lhe com frequência toda a presença de espírito nos momentos em que mais precisava dela. Um amigo do reitor que ficou hospedado algumas semanas em sua casa, e com quem Reiser teve de fazer alguns passeios, ao se despedir, deu alguns trocados à criada e a Reiser – que teve uma sensação estranha quando pegou o dinheiro; era como se tivesse recebido uma punhalada e subitamente a primeira dor logo sumisse – pois pensou no alfarrabista, e num instante tudo o mais estava esquecido. – Com o dinheiro ele podia ler mais de vintes livros – seu orgulho ferido ainda se rebelara uma última vez e fora agora vencido. Reiser, daquele momento em diante, não teve mais respeito algum por si mesmo – e em relação a suas condições externas ele se aviltou completamente. Suas roupas, cada vez mais gastas e desleixadas, não o incomodavam mais. Na escola, no coro, caminhando pela rua, Reiser se via sozinho entre os homens – pois não havia ninguém que se preocupasse com ele nem que por ele se interessasse – em vista disso, seu próprio destino exterior se tornara tão desprezível, baixo e insignificante que ele não se importava mais consigo. Em contrapartida, podia se interessar intensamente pelo destino da srta. Sara Sampson ou de Romeu e Julieta; e muitas vezes passava o dia inteiro absorvido nisso. Quando as aulas terminavam, nada lhe era mais insuportável que se encontrar na saída em meio ao bando de seus colegas de escola, todos mais bem-vestidos, mais animados e vivos, que não se dignavam mais andar ao seu lado – quantas vezes não desejou nesses momentos se libertar finalmente do fardo de seu corpo, e por uma morte brusca ser tirado daquele contexto torturante! Quando conseguia escapar dos olhares de seus colegas de escola por uma viela onde não havia ninguém andando a seu lado, ah, como ele corria alegre para os mais solitários e afastados bairros da cidade, a fim de se entregar por alguns momentos aos seus tristes pensamentos, sem ser perturbado! O mais imbecil de todos, que também era comumente desprezado, às vezes se juntava a Reiser, e este aceitava sua companhia com alegria; pois havia ainda um ser humano que se juntava a ele – quando caminhavam juntos, com frequência ele ouvia aqui e ali um dos colegas de escola dizer ao outro: Par nobile Fratrum! (Um nobre par de irmãos!)[20]. Foi assim imediatamente equiparado a esse verdadeiro imbecil. Como o reitor também havia dito que Reiser seria no máximo um mestre-escola de pequenos povoados, tudo isso se somou para roubar toda a sua autoconfiança, de modo que quase parou de confiar em suas próprias capacidades intelectuais e começou com frequência a se julgar de fato um imbecil, tal como era comumente reconhecido. Esse pensamento logo degenerava também numa espécie de amargura em relação à ordem das coisas – ele amaldiçoava naquele momento o mundo e a si, porque acreditava ter sido criado comoo ser mais desprezível para o escárnio do mundo. A extensão do preconceito de seus colegas de escola contra ele e a convicção deles de sua burrice inata podem ser provadas com o seguinte: O reitor o autorizara a frequentar as aulas particulares que dava em casa. O reitor também dava aulas de inglês. Reiser não tinha o livro adotado e, por isso, não podendo se exercitar em casa, precisava consultar o livro de outro aluno; apesar disso, em poucas semanas, compreendeu, só de ouvir, a maioria das regras de pronúncia do inglês; e, quando o reitor uma vez o chamou casualmente para ler, leu com muito mais jeito e muito melhor do que todos os outros que tinham o livro e haviam estudado em casa. Certa vez, ouviu então falarem dele na sala ao lado: Reiser não poderia ser tão burro assim, porque tinha aprendido rapidamente a complicada pronúncia do inglês; para não deixar que a opinião favorável sobre ele se espalhasse, alguém afirmou imediatamente que o pai de Reiser era inglês de nascimento, e portanto Reiser ainda se lembrava da pronúncia do inglês de sua infância; os outros estavam predispostos a acreditar nisso – e assim, aos olhos de seus colegas, Reiser havia voltado a sua prévia posição inferior. De tudo isso se vê que o respeito que um jovem adquire de seus colegas de escola é uma coisa extremamente importante em sua formação e educação, e até agora se deu pouca atenção a ela nas instituições de educação pública. Naquela época, o que poderia ter salvado Reiser de seu estado e o transformado de uma hora para outra num jovem aplicado e decente seria um único e bem empregado esforço de seus professores para que ele reconquistasse o respeito dos colegas. E teriam conseguido isso muito facilmente com um exame mais preciso de suas capacidades e com um pouco mais de atenção dispensada a ele. Aquele inverno transcorreu de modo extremamente triste para Reiser – suas pequenas economias estavam completamente arruinadas –, em seus péssimos trajes, ele não se atrevera a buscar seu dinheiro mensal com o príncipe. As dívidas com o alfarrabista eram altíssimas para os seus ganhos – ele não podia sequer custear suas necessidades mais básicas de roupa e sapatos com os poucos tostões que recebia semanalmente, nem com o dinheiro que ganhava do coro, pois entregava tudo para o alfarrabista. Nessas circunstâncias, ele viajou, na Páscoa, para a casa dos pais, onde portava a espada com que havia se apunhalado no Filotas – e agora representava diariamente esse papel para seus irmãos. Ele não deixou transparecer nenhum sinal de seu estado de abandono nem do desprezo que sofria por parte dos colegas de escola; antes, pelo contrário, selecionava de todos os modos as coisas agradáveis e de boa reputação que podia dizer de si – que o reitor o levara junto numa viagem de negócios, que aprendera inglês em aulas particulares do reitor, que estivera no cortejo com tochas e música, e como tudo havia transcorrido etc. Procurou, tanto quanto possível, banir de seus pensamentos tudo o que havia de desagradável e deprimente – pois queria se mostrar, ao menos uma vez, numa luz útil e honrosa, e seu estado deveria parecer invejável aos outros, por menos invejável que fosse. Nessa agradável autoilusão passou ali alguns dias muito contente – mas, na mesma medida em que daquela vez seu coração havia ficado mais leve quando saiu pelas portas da cidade de H. e ia perdendo de vista pouco a pouco as quatro torres da cidade, seu coração ficou mais pesado quando se aproximou novamente das portas da cidade e as quatro torres estavam ali diante dele, as quais lhe pareceram, por assim dizer, grandes pregos que sinalizavam o lugar de seus múltiplos sofrimentos. A torre do mercado, alta, angular e com uma pequena ponta no topo, adquiriu um aspecto aterrador quando ele a reviu – bem ao lado dela ficava a escola. – De repente, com a torre, o escárnio, o sorriso amarelo e os assobios de seus colegas de escola voltavam a estar presentes em sua alma – todas as vezes que ia à escola ele tinha o hábito de olhar o grande mostrador do relógio da torre, a fim de saber se não chegaria atrasado. Assim como a antiga igreja do mercado, ela tinha sido construída em estilo gótico com tijolos vermelhos, que com o passar do tempo haviam ficado pretos. Nesse mesmo local era lida em voz alta a sentença de morte dos malfeitores – em suma, a torre da igreja do mercado reunia, na fantasia de Reiser, tudo o que era capaz de repentinamente abatê-lo e precipitá-lo num profundo pesar. Com efeito, ele não estaria mais pesaroso do que estava agora se já soubesse de antemão tudo o que iria encontrar naquele lugar de sua estada. – Se, no entanto, um ano antes, ao retornar para H., vindo da casa de seus pais, sua tristeza já não havia sido sem causa, agora muito menos, pois estava prestes a viver um dos piores momentos de sua vida. – Mesmo sem suspeitar nele uma capacidade de pressentimento, seu pesar se explicou muito naturalmente – se considerarmos que sua imaginação percorreu depressa cada círculo estreito de sua própria existência real por onde agora voltaria a passar: a escola, o coro, a casa do reitor –, ele iria novamente girar a partir de então nesses círculos nos quais um sempre o restringia mais que o outro e inibia toda a força expansiva – – como seria bom nesse momento poder trocar toda a estada em H. pelo calabouço mais escuro, que certamente lhe teria sido bem menos pavoroso e terrível do que toda essa situação angustiante. À medida que afundava em pensamentos taciturnos, estando já perto das portas da cidade, de repente passou por sua alma um pensamento feito um raio, iluminando tudo e pintando tudo para ele com uma luz mais bonita – lembrou-se de ter escutado na casa de seus pais que chegaria uma companhia de atores a H. e lá se apresentaria durante o verão. – Era a trupe Ackermann, que reunia quase todas as estrelas espalhadas pelos palcos da Alemanha. – A passos largos, Reiser correu para a cidade que antes lhe era detestável e agora repentinamente tinha se tornado querida. Sem passar em casa (ainda era de manhã, pois, no caminho, passara a noite num local de onde teve de caminhar alguns quilômetros até H.), foi com pressa direto ao castelo, onde sabia que estaria afixado o cartaz da peça com o nome dos atores, e leu que Emília Galotti seria encenada ainda naquela noite. Ao ler aquilo, seu coração bateu de alegria: ele veria justamente a peça que lhe arrancara tantas lágrimas e tantas vezes o comovera no mais íntimo da alma realmente representada no palco com todas as ilusões possíveis, quando até agora havia sido encenada apenas em sua imaginação. Ele não faltaria à peça naquela noite, custasse o que custasse – ao chegar em casa, o quarto em que dormia estava caiado e algo havia sido construído ali dentro, o que o tornou totalmente inabitável. – Esse aspecto inconsolável do lugar que seria sua verdadeira moradia o impeliu ainda mais para fora do mundo real que o circundava – ansiava pela hora em que começaria a peça. Para onde quer que fosse, não conseguia esconder sua alegria; quando pisou a sala da casa da sra. F., sua primeira palavra foi teatro, palavra que ela muito tempo depois lhe censurou – e assim também quando foi ao seu primo, o peruqueiro, onde teve de dormir algumas noites no chão até que seu quarto na casa do reitor voltasse a ficar habitável. A distribuição de papéis pode dar uma vaga ideia do efeito que Emília Galotti, a primeira peça de teatro que Reiser viu com essa disposição de alma, deve ter tido sobre ele. A falecida Charlotte Ackermann representou Emília; sua irmã, Orsina; Reinicken, Klaudia; Borchers, Odoardo; Brockmann, o príncipe; Reinicke, Appeani; e Dauer, Conti – onde mais Emília Galotti poderia ter sido tão bem representada? Imaginem o impacto na alma de Reiser: encontrara o mundo de sua fantasia praticamente realizado! – Daquele momento em diante não tinha outro pensamento que não o do teatro e agora parecia estar completamente perdido para todas as suas perspectivas e esperanças na vida. – Qualquerdinheiro que conseguisse era aplicado no teatro; não pôde mais deixar de ir ao teatro sequer uma noite, mesmo que tivesse também de deixar de comer. – Por amor ao teatro, muitas vezes, durante o dia todo, não comia nada além de um pouco de sal e pão, exceto quando a mãe idosa do reitor mandava comida ao seu quarto, o que ela às vezes fazia por compaixão. – E, como era verão, desfrutou também a delícia de poder estar sozinho em seu quarto – o que tinha mais valor para ele do que a comida mais deliciosa que pudesse saborear. – A perspectiva da peça que seria encenada à noite o consolava quando de manhã acordava para um dia triste, já que sempre acordava assim. – Pois o desprezo e o escárnio de seus colegas, e o sentimento da própria indignidade, que carregava consigo por onde fosse, ainda perduravam, amargurando sua vida. – E tudo o que ele fazia para se desvencilhar disso era na verdade mera anestesia de sua dor interna, e não uma cura – ela acordava novamente todos os dias junto com ele, e, enquanto sua imaginação lhe forjava durante horas uma ilusão enganadora, Reiser no fundo amaldiçoava sua existência. As lágrimas que muitas vezes vertia com os livros e com o teatro eram na verdade tanto pelo seu próprio destino como pelo dos personagens pelos quais se interessava. Ele sempre se via, às vezes de modo mais próximo, às vezes mais distante, naquele que havia sido subjugado sem culpa, no insatisfeito consigo mesmo e com o mundo, no melancólico e naquele que odeia a si mesmo. No verão, o calor maçante o impelia muitas vezes a descer de seu quarto para a cozinha ou para o quintal, onde se sentava sobre um monte de madeira e lia, e muitas vezes tinha de esconder seu rosto quando alguém entrava e ele estava sentado ali com os olhos vermelhos de choro. Era de novo o joy of grief, o deleite das lágrimas, que lhe fora, em grande medida, concedido desde a infância, quando teve de prescindir de todas as outras alegrias da vida. Isso chegou a tal ponto que até mesmo em peças cômicas, quando estas incluíam apenas algumas cenas comoventes, como, por exemplo, em A caça, ele mais chorava que ria – mas o que uma peça dessas, naquela época, devia ter como efeito pode-se também depreender da distribuição de papéis, quando Charlotte Ackermann representava Rösschen; sua irmã, Hannchen; Reinicken, a mãe; Schröder, Töffel; Reinicke, o pai; e Dauer, Christel. Se é que alguma circunstância externa foi capaz de incutir em alguém um gosto decidido pelo teatro, descontadas a predileção de Reiser e as condições especiais em que se encontrava, essa foi o acaso que naquela época reuniu aqueles excelentes atores numa trupe só. Pode-se facilmente concluir então como essas peças devem ter sido encenadas – Romeu e Julieta, A vingança, de Young, a ópera Clarisse et Eugénie – as quais provocaram a mais forte impressão em Reiser. Isso havia absorvido tanto seus pensamentos que toda manhã, por assim dizer, ele devorava o cartaz das peças e lia tudo conscienciosamente, inclusive o horário – pontualmente às seis horas – e o local – a peça será encenada no teatro do castelo real. E sentiu por um ator primoroso, que provavelmente viu na rua, quase tanta veneração quanto antes em B. pelo pastor P. Tudo o que fazia parte do teatro merecia seu respeito e ele teria dado qualquer coisa para ter contato pelo menos com o homem que limpava as luminárias. Havia dois anos já tinha visto a encenação de Hércules no Eta, de O conde de Olsbach e de Pamela, em que Eckhof, Böck, Günther, Hensel, Brandes, ao lado de sua mulher, e a sra. Seyler representavam os papéis principais, e desde então as cenas mais comoventes dessas peças ainda estavam presentes em sua memória – Günther como Hércules, Böck como o conde de Olsbach e os Brandes em Pamela passavam quase todo dia alternadamente em seus pensamentos. – E com esses personagens ele representara em sua imaginação a maior parte das peças que lia, até a chegada da trupe de Ackermann. Se juntarmos aquela trupe com esta, Reiser teve a oportunidade de ver todos os mais extraordinários atores da Alemanha, que agora estavam espalhados pelo país. Assim, formou-se nele um ideal de arte dramática que posteriormente não foi satisfeito em nenhum outro lugar, e que não só o inquietava dia e noite como o impelia a perambular incessantemente, tornando sua vida inconstante e errante. Por ter visto naquela época Böck e agora Brockmannen representarem os papéis em que mais se chorava, eles eram seus atores preferidos, com os quais seu pensamento em geral estava sempre ocupado. Mas, apesar de todas as brilhantes cenas de teatro que tomavam constantemente sua imaginação, suas condições externas pioravam dia após dia. – Cada vez mais ia perdendo o respeito das pessoas, cada vez mais grave era seu desleixo – sua vestimenta, suas roupas de baixo ficavam cada vez piores, até que, por fim, passou a sentir vergonha de aparecer na frente das pessoas. Por isso, todas as vezes que podia, faltava à escola e ao coral, e preferia passar fome a ter de frequentar as casas em que ainda ganhava refeições, exceto a do sapateiro S., onde mesmo nessas circunstâncias desagradáveis ele ainda era bem acolhido e servido com os modos mais afáveis. Como para o reitor o incorrigível desleixo de Reiser finalmente se tornou insuportável, sobretudo o fato de chegar em casa sempre tarde depois de sair do teatro, ele disse a Reiser que deixasse sua residência. Reiser ouviu inteiramente impassível e calado o aviso do reitor para que se mudasse no dia de São João; até lá, ele deveria procurar outro lugar para morar – e, quando novamente ficou sozinho, não derramou sequer uma lágrima mais por sua sina, pois havia se tornado tão indiferente a si mesmo, conservando tão pouco respeito e compaixão para consigo que, se o respeito e o sentimento de compaixão, e todos os sofrimentos que inundavam seu coração, não tivessem sido extravasados nos personagens saídos de seu mundo poético, eles teriam necessariamente se voltado contra ele e destruído seu próprio ser. Como o reitor lhe havia dito que deixasse sua casa, disso Reiser tirou a clara conclusão de que também o pastor M. não iria se preocupar com ele, e de repente todas as suas perspectivas e esperanças cessaram. – As poucas semanas em que ainda permaneceu na casa do reitor, ele passou como de costume – depois se mudou para a casa de um fabricante de escovas; nela passou, do dia de São João ao de São Miguel, o trimestre mais terrível e pavoroso de toda a sua vida e ali esteve muitas vezes à beira do desespero. – Quando se mudou para lá, sentiu-se de repente excluído de qualquer vínculo que antes havia temerosamente buscado; e, na verdade, como ele mesmo pensava, tinha sido posto para fora por sua própria culpa. – O príncipe, o pastor M., o reitor, todas as pessoas das quais dependia seu futuro destino, não eram mais nada para ele, e com isso todas as suas perspectivas também desapareceram. – Não é nenhuma surpresa que, em virtude dessa situação, tivesse se engendrado em sua alma uma nova fantasia, na qual desde então buscou consolo, levando-a consigo dia e noite para todo lado, e que o salvou de todo desespero. Naquela época, ele assistira, entre outras peças, à opereta Clarissa ou a criada desconhecida, e dificilmente em sua situação qualquer outra peça poderia ter lhe despertado mais interesse do que essa. – A principal circunstância que despertou nele esse grande interesse foi a seguinte: um jovem fidalgo decide ser camponês e realmente leva adiante sua decisão. – Reiser não considerou o motivo que levara o jovem a fazer aquilo, a saber, ele amava uma criada desconhecida etc., mas, sim, a ideia atraente de que um jovem bem formado decide ser camponês e se torna um camponês tão refinado, educado e civilizado que se destaca de todos os outros. Reiser estava tão humilhado na condição a que se rebaixara que lhe parecia impossível voltar a ascender. – Mas seu espírito tinha alcançado muito mais instrução do que o necessário para a condição de camponês – como camponês, ele estava acimade sua condição; como jovem dedicado aos estudos, estava muito abaixo. A ideia de ser um camponês tornou-se dominante e durante um tempo afastou todas as outras. Naquela época, visitou a escola o filho de um camponês, chamado M., a quem ele às vezes dera algumas aulas de latim – Reiser lhe contou sua decisão de se tornar um camponês; este lhe fez então uma descrição detalhada do verdadeiro trabalho de um camponês, descrição que bem poderia ter estragado os lindos sonhos de Reiser se sua fantasia não tivesse reagido violentamente a isso, sempre exibindo com força uma sequência de imagens agradáveis. Além do mais, mesmo na opereta Clarissa há um trecho em que um camponês desaconselha o jovem fidalgo de seu intento de lhe comprar sua chácara – e no fim canta uma ária muito expressiva sobre o homem do campo visto em pleno trabalho, e de repente começa um temporal: Os raios disparam Os trovões retumbam E o homem do campo volta para casa Aborrecido, aborrecido. – A palavra aborrecido era tão especialmente bem expressa pela música que todo o encanto da fantasia poderia ter sido arruinado por essa única palavra – considerada de certa forma o antídoto a toda sentimentalidade e exaltação elevada, que pode coexistir com aquilo que é doloroso, terrível, que prostra, que encoleriza, mas não com aquilo que aborrece. – Mas esse antídoto não ajudou Reiser – ele perambulava solitário o dia todo, pensando no que poderia fazer para ser um camponês, sem dar de fato nenhum passo para isso – pelo contrário, passou a sentir novamente prazer com essas doces exaltações. – Quando se imaginava um camponês, acreditava estar destinado a algo melhor e, no tocante ao seu destino, sentia novamente uma espécie de compaixão consoladora consigo mesmo. Enquanto essa fantasia ainda o manteve em pé, ele estava apenas melancólico e triste, mas não propriamente aborrecido com seu estado. Até a privação de suas necessidades mais prementes lhe dava certo prazer, pois ele estava quase certo de que tinha de expiar além da conta suas culpas, conservando assim a doce sensação de compaixão por si mesmo. Mas, finalmente, após ter ficado pela primeira vez três dias sem comer, e ter se mantido o dia todo com chá, a fome o invadiu com ímpeto, derrubando terrivelmente todo o lindo edifício de sua fantasia – ele batia a cabeça contra a parede, vociferava, se enraivecia, e estava à beira do desespero, quando seu amigo Philipp Reiser, que ele negligenciara por muito tempo, entrou em seu quarto e dividiu com ele a sua miséria, que certamente também se reduzia a apenas alguns vinténs. Isso, no entanto, não passou de um paliativo muito pequeno – pois Philipp Reiser não se encontrava naquele tempo em melhores condições do que Anton Reiser. Este realmente caiu num estado terrível permanente, próximo do desespero. – Conforme seu corpo recebia cada vez menos alimento, aos poucos a fantasia que ainda o animava ia se extinguindo, e sua compaixão por si mesmo se transformou em ódio e amargura contra seu próprio ser; em vez de dar um passo em direção à melhora de seu estado, ou se dirigir com ar de súplica a uma pessoa qualquer, preferiu se submeter espontaneamente, com a mais inaudita obsessão, à miséria mais terrível. Pois, durante várias semanas, ele realmente comia apenas num único dia da semana quando ia ao sapateiro S., e nos outros jejuava e se sustentava apenas com chá e água quente, as únicas coisas que ainda podia conseguir de graça. – Numa espécie de terrível contentamento, viu seu corpo decaindo dia a dia com a mesma indiferença com que via sua roupa degradar-se. Quando caminhava pela rua, e as pessoas apontavam o dedo para ele, e seus colegas de escola zombavam dele, e iam ao seu encalço assobiando, e garotos de rua faziam comentários sobre ele – Reiser cerrava então os dentes e aceitava interiormente as risadas de escárnio que ouvia ressoar atrás de si. Mas, quando chegava novamente à casa do sapateiro S., ele se esquecia de tudo. – Ali encontrava seres humanos, ali seu coração por um momento amolecia; com o corpo saciado, sua capacidade de pensar e sua imaginação readquiriam um novo impulso, e voltava a entabular um diálogo filosófico com o sapateiro S., que durava horas, e com ele Reiser recomeçava a respirar e seu espírito tomava fôlego – depois, no calor da discussão, falava frequentemente tão alegre e descontraído sobre um assunto como se nada no mundo o desencorajasse – não deixava que se ouvisse uma sílaba sequer sobre seu estado. Mesmo com seu primo, o peruqueiro, jamais se queixava quando chegava à sua casa, saindo assim que percebia que iriam comer – mas se serviu de um truque por meio do qual conseguiu não morrer de fome. Alegando que daria a um cão que tinha em casa, pediu ao primo a crosta dura da massa na qual era assado o cabelo para as perucas, e seu sustento era essa crosta, junto com a refeição na casa do sapateiro S. e a água quente que bebia. Quando seu corpo recebia algum alimento, às vezes voltava a sentir algum ânimo em seu interior. Possuía ainda um Virgílio velho que o alfarrabista não quisera comprar dele; nesse exemplar começou a ler as éclogas. De um semanário, As Horas Vespertinas, que pegara emprestado de Philipp Reiser, começou a decorar um poema, “O ateu”, de que especialmente gostara, e alguns ensaios em prosa. – Mas, com a falta de alimento que logo se fez sentir de novo, veio a se extinguir também o novo ânimo incandescente, e assim a atividade de sua alma ficou como que paralisada. Para se salvar desse estado mortal de cessação de toda atividade, teve de buscar outra vez refúgio nas brincadeiras infantis, porque elas acabavam em destruição. Reunia uma grande quantidade de caroços de cereja e de ameixa, sentava-se no chão e os colocava em posição de batalha uns contra os outros – os mais bonitos entre eles, Reiser os distinguia pintando neles letras e figuras, e estes viravam generais – depois, pegava um martelo e com os olhos fechados imaginava a fatalidade cega, descendo o martelo ora de um lado, ora de outro – quando reabria os olhos, via com secreto contentamento a terrível devastação, aqui e ali um herói caído, jazendo despedaçado em meio à multidão inglória. Depois, sopesava o destino de cada exército e contava os caídos de cada lado. Ocupava metade do dia dessa maneira – e sua impotente e pueril vingança do destino que o destruíra criou desse jeito um mundo que ele pôde novamente destruir a seu bel-prazer – por mais infantil e risível que esse jogo pudesse parecer aos olhos da plateia, era de fato o resultado mais pavoroso do mais alto desespero que jamais havia sido provocado pelo encadeamento das coisas em um mortal. Mas nisso se vê também como seu estado naquele tempo se avizinhava da insanidade – e, assim que foi capaz de se interessar novamente por seus caroços de cereja e de ameixa, seu estado de ânimo se tornou suportável. – Mas antes disso, quando se sentava e com a pluma pintava traços no papel ou com a faca rabiscava sobre a mesa – esses foram os piores momentos, em que sua existência pesava sobre ele como um fardo insuportável, não lhe provocando nem dor nem tristeza, mas aborrecimento – nesses momentos, tomado por um calafrio pavoroso, tentava muitas vezes se livrar disso. Sua amizade com Philipp Reiser naquela época não podia lhe ser de ajuda, porque este não ia melhor do que ele – a situação de Anton e Philipp Reiser era como a de dois caminhantes que correm perigo de morrer de sede num deserto abrasante e, tentando sair dele, não estão em condições de conversar muito e de oferecer consolação um ao outro. Mas justamente aquele G., que outrora representara o Sócrates moribundo, apelido que Reiser ainda continuava tendo, decidiu ir morar com ele, e também se encontrava na mesma situação de Reiser, mas com uma diferença apenas: chegara a ela por verdadeiro desregramento – nele Reiser encontrou, portanto, um digno companheiro de quarto. Não passou muito tempo, e o filho do camponês, chamado M., que igualmente não se encontrava em melhores condições, também foi morarcom os dois. – Formou-se ali, então, uma agremiação de três dos mais pobres seres humanos que talvez jamais tiveram estado fechados entre quatro paredes. Havia muitos dias em que todos os três sobreviviam apenas à base de água quente e pão – G. e M., no entanto, recebiam ainda algumas refeições gratuitas. G. era, no fundo, uma pessoa inteligente, alguém que falava muito bem, e por quem Reiser sempre sentira muito respeito. Certa vez, ambos tiveram um ataque de dedicação aos estudos e começaram a ler as éclogas de Virgílio, desfrutando realmente o prazer mais puro, quando, após terem desvendado sozinhos com muito trabalho uma écloga, cada um copiou sua tradução. Mas, naquelas circunstâncias, é evidente que isso não podia durar muito – assim que cada um percebeu de novo vivamente sua situação, todo o ânimo e vontade de estudar desapareceram. Quanto às roupas, as de G. e M. eram tão ruins quanto as de Reiser – por isso, quando saíam, formavam um cortejo que parecia a verdadeira imagem do desleixo e da desordem, e as pessoas apontavam o dedo para eles, motivo pelo qual, quando saíam para passear, procuravam sempre deixar a cidade pelos atalhos e ruas estreitas. Os três também levavam uma vida que combinava completamente com a condição deles – ora permaneciam o dia todo deitados na cama, ora os três juntos se sentavam, apoiavam a cabeça na mão e refletiam sobre seu destino, ora se separavam e cada um fazia o que lhe desse vontade. Reiser se sentava no chão e passava em revista seus caroços de cereja; M. ia buscar seu grande pedaço de pão, que tinha trancado cuidadosamente numa mala; e G. permanecia deitado na cama, fazendo projetos que não eram bons, como logo depois se revelou. Nessa época, Reiser leu várias vezes dois livros de cabo a rabo, já que não tinha outros, sentado no chão entre seus caroços de cereja – os livros eram a obra do filósofo de Sanssouci e a obra de Pope, na tradução de Dusch, livros que tinha tomado emprestados do sapateiro S. Certo dia, os três passeavam juntos num dos belos arredores de H., às margens do rio de onde surgia uma pequena ilha repleta de cerejeiras. Para nossos três aventureiros, essas cerejeiras, todas carregadas das mais lindas cerejas, eram uma paisagem tão convidativa que eles não conseguiram evitar o desejo de serem transportados para a ilha, a fim de poderem se satisfazer à vontade com esses frutos esplêndidos. Calhou então de uma quantidade de pedaços de madeira descer boiando o rio; esses pedaços às vezes emperravam na parte estreita do rio, entre a margem e a ilha, formando aparentemente uma ponte para a ilha. Sob o comando de G., que parecia já estar treinado na execução de tais projetos, empreenderam uma façanha arriscada, que facilmente poderia ter custado a vida dos três. No lugar onde os pedaços de madeira tinham parado, eles retiraram da água um pedaço após outro e os levaram até um lugar no qual a distância entre a margem e a ilha lhes pareceu mais estreita, e ali construíram a ponte pela qual queriam atravessar o rio, jogando um pedaço de madeira após outro à frente deles para firmarem os pés – é claro que essa ponte começou a afundar embaixo de seus pés, e eles mergulharam fundo na água ainda antes de terem percorrido quase a metade de sua perigosa travessia – mas, mesmo correndo risco de vida, eles finalmente chegaram à ilha. E de repente os três foram tomados por um espírito de roubo e de avidez, cada um se atirou a uma cerejeira e se pôs a saqueá-la com uma espécie de furor. – Era como se tivessem conquistado de assalto uma fortaleza; queriam receber uma recompensa pelo perigo suportado – perigo que eles mesmos haviam provocado. Quando já estavam fartos de comer e haviam enchido de cerejas todos os bolsos, lenços, echarpes, chapéus e qualquer outra coisa que pudesse conter algo –, tomaram, no entardecer, o caminho de volta, passando pela perigosa ponte, da qual uma parte já tinha sido levada pela correnteza do rio, e, apesar da pilhagem que os aventureiros estavam carregando, tudo terminou bem, muito mais pelo acaso que por habilidade ou cautela. Reiser não se sentia nem um pouco mal em expedições assim – não lhe parecia ser propriamente um roubo, mas tão somente uma perambulação num terreno inimigo que, pela coragem exigida, não deixava de ser algo honroso. E quem sabe em quantas mais façanhas arriscadas desse tipo ele ainda não teria entrado sob o comando de G. se ainda continuassem morando juntos por mais tempo. – Mas G., de fato, fazia parte mais do grupo dos astuciosos do que dos intrépidos – pois era vil o bastante para roubar seus dois companheiros de quarto, Reiser e M., dos quais tinha pegado alguns livros e outras coisas e vendido secretamente, como depois se revelou. – Em suma, esse G., com quem Reiser viveu tão próximo, era na verdade um larápio astucioso que, ao passar o dia inteiro deitado na cama especulando, não pensava em nada a não ser nos delitos que gostaria de cometer – e mesmo assim era capaz de falar da virtude e da moralidade como um livro, o que havia originalmente inspirado a veneração de Reiser por ele. Pois naquela época ele tinha formado um ideal esquisito sobre a virtude, que absorvia de tal modo sua imaginação a ponto de bastar o nome virtude para muitas vezes ser levado às lágrimas. Mas sob o nome de virtude ele pensava em algo demasiado geral, e num geral muito obscuro, e com pouca aplicação a situações específicas, de modo que não poderia ter conseguido realizar nem mesmo o mais sincero intento de ser virtuoso – pois jamais pensou por onde deveria realmente começar. Certa vez, numa linda noite, chegou em casa de um passeio solitário, e a contemplação da natureza tinha derretido seu coração em suaves sensações, o que o fez derramar muitas lágrimas e, em silêncio, jurar a partir de então ser eternamente fiel à virtude! – e, como agarrara firme esse desígnio, sentiu uma satisfação tão celestial com essa decisão que lhe parecia quase impossível vir algum dia a se desviar desse afortunado desígnio. – Com esses pensamentos ele adormeceu – e, quando de manhã despertou, seu coração estava novamente bem vazio; a perspectiva do dia era sombria e erma; todas as suas relações exteriores estavam irrecuperavelmente destroçadas; um invencível tédio de viver ocupou o lugar de suas sensações do dia anterior, com as quais adormecera – procurou salvar-se de si e deu os primeiros passos para ser virtuoso; para tanto, sentou-se no chão e destroçou os caroços de cereja que estavam em ordem de batalha. O verdadeiro começo para a prática da virtude teria sido deixar de fazer isso e ler uma écloga no velho Virgílio, que ele ainda possuía – mas, com sua decisão heroica, não tinha se preparado para esse caso aparentemente muito insignificante. Se examinássemos as ideias de virtude que as pessoas têm, para a maioria delas tais ideias não passariam talvez de representações obscuras e confusas – do que se pode ao menos concluir como é inútil pregar sobre a virtude em geral, sem que o conceito seja aplicado a casos muito particulares e muitas vezes aparentemente insignificantes. O próprio Reiser naquela época se admirava com frequência ao constatar como seu repentino ataque de fervor pela virtude podia se dissipar rapidamente sem deixar nenhum vestígio – mas não cogitava que a autoestima, que para ele à época só podia estar baseada na estima de outras pessoas, é a base da virtude. – E que, sem a virtude, o mais lindo edifício de sua fantasia teria de desabar outra vez a qualquer momento. No estado em que se encontrava, todas as vezes que ainda lhe era possível juntar alguns trocados, ele sempre ia gastar no teatro – mas quando, no meio do verão, a companhia de atores novamente se mudou, o campo que se estendia diante da nova porta da cidade era não só a meta de seus passeios, mas quase sua estada permanente. – Muitas vezes, ficava deitado o dia todo num lugar à luz do sol, ou passeava ao longo do rio, alegrando-se sobretudo quando à hora cálida do meio-dia não avistava nenhuma pessoa à sua volta. Por diasinteiros, enquanto se entregava ali aos seus pensamentos melancólicos, sua imaginação se nutria imperceptivelmente de grandes imagens que, no entanto, começariam a se desenvolver aos poucos um ano depois. Mas desse modo seu tédio de viver chegou ao extremo – muitas vezes, nesses passeios, ele ficava na margem do rio Leine, curvando-se em direção à torrente caudalosa, enquanto a admirável ânsia de respirar lutava contra o desespero e, com terrível força, puxava de volta o seu corpo inclinado. PARTE 3 Com a conclusão desta parte, têm início as andanças de Anton Reiser e, com elas, o verdadeiro romance de sua vida. O conteúdo desta parte é uma representação fiel das cenas de seus anos de juventude, representação que talvez possa servir de lição e advertência àqueles a quem esse tempo inestimável ainda não transcorreu. Talvez essa representação também contenha muitas sugestões, não de todo inúteis, para os professores e educadores, que os levem a ser mais cuidadosos no tratamento de alguns de seus alunos e mais justos ao julgá-los! Assim, Reiser passou doze semanas terríveis de sua vida até que finalmente o pastor M., por intermédio de terceiros, o fez saber que o aceitaria novamente tão logo ele se dignasse se desculpar e se arrepender seriamente por seu comportamento. Com isso, seu coração enfim amoleceu, pois, além de tudo, estava cansado de sua obstinada teimosia e da morosa miséria que dela resultava. Ele se sentou e escreveu uma longa carta ao pastor M., na qual se depreciava com a maior amargura – descrevendo-se como o homem mais indigno que já aparecera sob o sol – e não profetizava para si destino melhor do que morrer um dia de pobreza e necessidade, a céu aberto. Em suma, essa carta, redigida com os mais exaltados termos de desprezo e aviltamento de si que se possa imaginar, podia ser tudo, menos hipocrisia. Naquela época, Reiser se considerava realmente um monstro de maldade e ingratidão; e escreveu a carta inteira ao pastor M. com uma severidade contra si que raramente seria possível encontrar em outra pessoa – ele não pensou em se desculpar, mas em se acusar ainda mais. Apesar disso, compreendeu que o furor pelos romances e pelo teatro era o motivo mais imediato de seu estado atual – mas naquele tempo seu raciocínio não teve força suficiente para retroceder até as razões pelas quais a leitura de romances e as peças de teatro se tornaram uma necessidade fundamental para ele – toda a desonra e o desprezo que desde criança o haviam impelido de seu mundo real para um mundo ideal. – E por isso fez contra si mesmo acusações talvez mais injustas que outros teriam feito a ele – em muitas horas não só se desprezava, mas também se odiava e sentia repulsa de si mesmo. Por isso, a confissão que fez na carta endereçada ao pastor M. foi terrível e única em seu estilo – de modo que o pastor M. ficou espantado quando a leu – pois jamais em sua vida alguém se confessara assim a ele. Desde que enviara a carta, Reiser apenas aguardava a ocasião em que seria recebido pelo pastor M.; e foi marcado um dia, que ele aguardou com estranhos e misturados sentimentos de temor, de esperança e de desespero resignado. Ele havia se preparado para uma cena um tanto teatral, que resultou, porém, num total fracasso. – O que pretendia era cair aos pés do pastor M. e rogar que este lançasse toda a sua ira sobre ele. – Reiser já esboçara em pensamento todas as palavras que iria dirigir ao pastor, e, por onde quer que fosse ou onde quer que estivesse, levava sempre consigo essa ideia, até o dia em que deveria ser recebido pelo pastor M. – Mas, enquanto esperava, um evento o deixou extremamente aborrecido. – Seu pai soube de seu estado e viajou para H. a fim de interceder a favor do filho, deixando Reiser um tanto desgostoso, porque não achava que precisasse da intervenção de qualquer pessoa, mas se julgava suficientemente capaz de tocar o coração do pastor M. com o discurso apaixonado que concebera. Despertou enfim para o importante dia em que falaria com o pastor M. – e sua fantasia estava ocupada com coisas grandiosas – como se jogaria aos pés do pastor M. cheio de arrependimento e desespero – e este o ergueria comovido e o perdoaria. E finalmente chegou à casa do pastor M., aproximando-se com anseio pavoroso da cena tão longamente preparada; enquanto esperava ali fora ser chamado, surgiu um criado e lhe disse que já poderia entrar, seu pai já se encontrava com o pastor M. Essa notícia foi um choque para ele – por um momento ficou atordoado. – Nesse instante todo o seu plano falhara – ele queria falar com o pastor M. sem testemunhas, pois só assim estaria em condições de representar toda a cena de ajoelhar-se diante dele e lhe dirigir as palavras com comoção e paixão. – Era-lhe impossível ficar de joelhos diante do pastor M. na presença de um terceiro, principalmente na de seu pai. – Mandou o criado entrar de novo e dizer que precisava falar sozinho com o pastor M. – Esse diálogo lhe foi negado, e, em vez da brilhante e comovente cena que pensava em apresentar, teve de ficar ali, assim que entrou, como um delinquente, humilhado e aviltado pela presença do pai, sem poder apresentar uma única palavra de todo o discurso que havia tempo planejara – Com isso, apoderou-se dele um sentimento que ainda não havia conhecido em sua vida – ver seu pai ao seu lado em posição de súplica diante do pastor M. lhe foi insuportável –, e teria dado tudo no mundo para que naquele momento seu pai estivesse a quilômetros de distância dali. Ele se sentia duplamente humilhado e envergonhado na pessoa do pai, e a isso se acrescia o aborrecimento de que toda aquela cena – estar aos pés de alguém – não resultara em nada – tudo se passou de maneira tão fria, tão comum e tão habitual – Reiser ficou ali tão indistinto quanto um facínora comum e vulgar a quem se podiam fazer merecidas acusações por seu comportamento – e ele mesmo quis se descrever como um grande facínora e suplicar que caísse sobre ele o mais duro castigo por seu crime. – Mas talvez nenhum acaso em sua vida tenha contado mais para sua legítima vantagem do que justamente esse. – Se dessa vez tivesse conseguido executar as cenas planejadas, quem sabe o que não teria feito depois e que papéis não teria representado? – Talvez esse fosse mesmo o momento decisivo em que seu destino estava em jogo: seria hipócrita e ladrão, ou deveria continuar sendo um homem correto e honesto? A cena de se jogar aos pés de alguém teria sido fundamentalmente afetação, embora não fosse claramente hipocrisia e dissimulação, e como é simples a passagem da afetação para a hipocrisia e a dissimulação! Foi certamente um verdadeiro benefício para Reiser o pastor M. não dar atenção a todas as frases exageradas de sua carta, e, em vez de se comover, achá-las risíveis e declará-las um parto imaturo de uma fantasia excitada pela leitura de romances e pelas peças de teatro; com o acréscimo de que, se Reiser fosse mesmo um facínora, como havia se descrito na carta, o pastor M. não teria a menor preocupação com ele, mas o detestaria como a um monstro. E em vez de estender-se em novas explicações de que o passado lhe seria perdoado desde que tivesse outro comportamento no futuro, ou algo assim, o pastor M., de maneira nada sentimental, começou logo falando das meias e dos sapatos rotos de Reiser, das dívidas que contraíra, e de como teria de pagá-las e de como deveria consertar suas roupas esfarrapadas. – Não deu sequer uma vez a chance para um voto solene de melhora futura ou algo comovente. – Todo o seu comportamento em relação a Reiser, embora de cara o aceitasse de volta, era seco e duro – mas era justamente esse comportamento seco e duro o que despertava Reiser do torpor, transportando-o de seu mundo ideal de romances e peças de teatro para o mundo real, sobretudo quando seu romance, que pensou em apresentar ao pastor M., fracassara, e ele teve de sair novamente de seu terrível estado não pela fantasia oca de tornar-se um camponês, ou algo assim, mas para sair realmente dele. Comessa mudança de seu destino, inumeráveis bons propósitos e decisões se erguiam outra vez em sua alma; a desastrosa cena de ajoelhar- se ainda lhe doía, mas finalmente também nesse aspecto ele se reconciliou com seu destino – e assim teve início uma nova época de sua vida. Ele se mudou da casa do fazedor de vassouras e foi ser inquilino de um alfaiate, com quem tinha de dividir o mesmo cômodo, dormindo no sótão. – A sra. F. e o músico da corte, que também moravam na mesma casa, encarregaram-se dele mais uma vez, dando-lhe de comer uma vez por semana. – A sra. F. lhe pediu que ensinasse a menininha que estava morando com eles a escrever e que a instruísse no catecismo. Reiser voltou a frequentar a escola regularmente, e despertaram novas esperanças nele – o próprio príncipe o convocou e lhe falou na presença do pastor M., que recebeu do príncipe o dinheiro para o sustento de Reiser, quitando assim suas dívidas. Tudo então voltou a correr muito bem – e ele novamente passou a se dedicar aos estudos –, embora ali sua situação externa também não fosse propícia a isso – pois na casa do alfaiate não tinha nada, a não ser um cantinho onde ficava seu piano, que lhe servia ao mesmo tempo de mesa e embaixo do qual ele também montara toda a sua biblioteca numa pequena prateleira. – Quando lia em voz baixa e trabalhava, não podia exigir silêncio ao seu redor; e, enquanto durou o inverno, foi obrigado a ficar no cômodo de seu patrono – no verão, ele ia com seu piano e os livros para o sótão, onde dormia e ficava sozinho e sossegado. Fazia ainda poucas semanas que havia deixado sua antiga moradia e seus antigos companheiros de quarto, G. e M., quando aconteceu um evento terrível que o fez sentir muito intensamente a grandeza e a proximidade do perigo no qual havia se envolvido. É que G., certo dia cantando no coral, foi detido em plena rua e imediatamente levado preso a uma das mais profundas masmorras nas portas de…, destinada apenas aos piores criminosos. Ao ver que o levavam, Reiser foi tomado de espanto e pavor – e o que era mais estranho: a ideia de que o considerassem cúmplice do ainda desconhecido delito de seu antigo companheiro de moradia fez surgir imediatamente nele sinais de vergonha e confusão, como se realmente fosse cúmplice – de modo que seu medo se tornou tão grande como se de fato tivesse cometido o delito. Isso era uma consequência natural de sua autoestima reprimida desde a infância, que naquele tempo não era forte o suficiente para se contrapor aos juízos dos outros sobre ele – se alguém o tivesse considerado um notório criminoso, Reiser provavelmente teria, por fim, concordado. Finalmente, soube-se que seu antigo companheiro de moradia, G., cometera um roubo na igreja, tendo furtado à noite galões da toalha do altar, arrebentado até as fechaduras dos bancos da igreja para roubar a prata dos livros de hino que eram ali guardados. Então eram esses os projetos que G. havia tramado e matutado por dias inteiros, deitado na cama. Apesar de ter cometido antes diversos outros roubos, ele de fato só havia roubado a igreja depois de Reiser já ter ido embora. Para o seu delito, cabia realmente a forca – e o temor de ter destino parecido sempre tomava conta de Reiser quando pensava no quão próximo estivera daquele indivíduo e com que facilidade poderia ter sido seduzido gradualmente por ele de um risco a outro, visto que o heroico pontapé inicial já havia sido dado pela expedição à ilha das cerejas. – Reiser teria achado o roubo noturno da igreja muito mais heroico que infame e talvez não tivesse sido muito mais difícil para G. convencê-lo a participar dessa aventura do que daquela na ilha das cerejas. Talvez essa reflexão ou essa consciência vaga contribuíssem para a confusão de Reiser todas as vezes que falavam sobre G. – parecia-lhe haver apenas um passo muito pequeno entre ele e o delito que poderia ter sido levado a cometer, de modo que ele se sentia como quem tem vertigens diante de um abismo do qual se mantém suficientemente distante para não cair, mas, absorvido por seu temor, sente-se irresistivelmente atraído e pensa já estar se afundando nele. A mera possibilidade de poder ter participado do crime de G. despertou quase um sentimento parecido em Reiser, como se realmente tivesse participado do crime, o que pode, portanto, esclarecer muito bem seu medo e confusão. G., no fim, não foi enforcado, mas, após alguns meses na prisão, sua sentença foi comutada, e ele foi levado para a fronteira e expulso do país. – Reiser não soube mais sobre seu destino. – Assim chegou ao fim o verdadeiro Sócrates moribundo, apelido que Reiser carregou por tanto tempo, mesmo sem ter representado o papel, somente o de um amigo sem importância, que não fez nada além de ficar num canto e chorar, enquanto o Sócrates moribundo, para a comoção de toda a plateia, podia beber a taça de veneno e se mostrar ainda na mais esplêndida luz em seu leito de morte. Àquela época, já fazia mais de um ano que Reiser começara a escrever um diário no qual anotava tudo o que lhe acontecia. Era um diário bastante singular, porque não omitia uma única circunstância sequer de sua vida nem um único incidente de seu dia, por mais insignificante que pudesse ser. – Como anotava apenas os acontecimentos verdadeiros, e não as fantasias que tivera durante o dia, as narrativas só podiam ser muito vazias e insossas, e eram desinteressantes como os próprios acontecimentos. – Reiser vivia, de fato, sempre uma vida dupla, interna e externa, completamente diferentes uma da outra, e seu diário descrevia exatamente a parte externa de sua vida, que não valia a pena ser anotada. – Àquela época ele ainda não sabia observar a influência dos incidentes externos, reais, sobre o estado interno de seu ânimo; sua atenção para consigo ainda não tinha tomado o rumo certo. No entanto, seu diário foi melhorando à medida que começou a anotar nele não só os acontecimentos, mas também seus propósitos e decisões, para ver depois de um tempo quais deles haviam se concretizado. – Então impunha a si mesmo suas próprias leis, que anotava em seu diário para executá-las. Às vezes ele até se fazia promessas solenes, como levantar cedo, dividir ordenadamente o dia em horas, e outras coisas assim. Mas era estranho – justamente os mais solenes propósitos que concebia costumavam em geral se cumprir de modo tardio e frio. – Quando conseguia realizá-los nas pequenas coisas, o fogo da fantasia, com o qual imaginara tomar em conjunto as coisas com todas as suas agradáveis consequências, já estava extinto. – Quando, ao contrário, ele se preparava para fazer tudo de modo simples e sem toda a pompa e solenidade, a execução costumava ocorrer muito mais cedo e melhor. Ele era inesgotável em bons propósitos. – Mas isso também o deixava constantemente insatisfeito consigo mesmo, porque os bons propósitos eram tantos que ele nunca conseguia se satisfazer. – Certa vez, esteve por três dias ininterruptos satisfeito consigo mesmo, e ele anotou os três dias como uma grande raridade em sua vida, e de fato haviam sido – pois, até onde conseguia se lembrar, esses três dias foram os únicos assim. – Mas nesses três dias de fato ocorreu uma feliz coincidência de circunstâncias, clima bom, saúde boa, rosto amistoso das pessoas com as quais esteve, e outras pequenas coisas, que lhe facilitaram sensivelmente a execução de seus bons propósitos. – Aliás, ele recorria a qualquer meio para se manter devoto e virtuoso. – Procurou principalmente despertar em si, todas as manhãs, intenções nobres e boas, enquanto recitava “A oração universal”, de Pope, que ele havia copiado e decorado em inglês, e, cada vez que a dizia, ficava realmente comovido e reanimado para bons propósitos e decisões. – Além disso, transcreveu de um livro uma porção de regras de vida, que lia em horas determinadas no decorrer do dia – e algumas árias, que possuíam temas especialmente animadores para a virtude e a devoção, também eram cantadas dia a dia bem meticulosamente por ele, em horas determinadas. Se paralelamentea isso suas condições exteriores tivessem se tornado um pouco mais vantajosas e animadoras com esses propósitos e esforços, bastante raros num jovem de sua idade (ele estava à época com um pouco mais de 16 anos), Reiser teria se tornado um modelo de virtude. Mas o que reiteradamente o derrubava era a opinião dos outros em relação a ele, que não conseguia mudar à força, e, apesar de todos os seus esforços para se tornar um ser humano melhor, não mais se moldava a seu favor. Reiser parecia ter estragado e decepcionado por demais as expectativas dos outros em relação a ele para poder merecer o respeito e o amor que suscitava anteriormente nas pessoas. Em especial, uma imerecida suspeita caiu sobre ele – era a suspeita de libertinagem, porque tinha morado com um libertino como G. – Reiser estava tão distante disso que, três anos depois, de maneira casual, lhe caiu nas mãos um livro de anatomia que lançou luz sobre certos assuntos a respeito dos quais suas ideias ainda eram bastante confusas e obscuras naquela época. Mas sua leitura de livros no alfarrabista e suas idas ao teatro eram vistas da pior maneira e julgadas ainda uma falta imperdoável. Entretanto, calhou de uma companhia de acrobatas chegar a H., e, já que a entrada custava uma ninharia, certa noite ele foi assistir a essa arriscada arte. – Foi visto por lá – e, como isso também era uma espécie de teatro, comentou-se que seu antigo pendor fora de novo despertado e não havia noite em que não fosse ao teatro ver os acrobatas; e ele de novo gastaria lá seu dinheiro – já dava para ver que não iria melhorar. Sua voz era muito fraca para se erguer contra as afirmações dos que diziam tê-lo visto todas as noites no espetáculo dos acrobatas – em suma, a única noite em que estivera lá contribuiu mais para que decaísse novamente na opinião das pessoas do que toda a sua dedicação anterior aos estudos e seu comportamento correto tinham até então contribuído para melhorá-la. Além disso, alguns acontecimentos o deixaram muito abatido. Estava chegando o Ano-Novo, e ele se alegrava porque, novamente desfrutando os privilégios de sua posição, iria sair em fila junto aos demais no cortejo com tochas e música, e não seria mais, como da última vez, um dos últimos a se perfilar. Mas, para que pudesse pagar a tocha, sua cota na música e outros custos, ele estava esperando apenas a distribuição do dinheiro do coral, que penosamente ganhou cantando no frio e na chuva, e, quando foi até o diretor para receber, o vice-diretor teve a ideia de confiscar o dinheiro pelas aulas particulares que lhe dera na segunda série e ainda não tinham sido pagas. Reiser foi até o vice-diretor e lhe pediu encarecidamente que lhe desse ao menos metade do dinheiro do coral; mas ele foi inflexível; e, quando Reiser voltou ao diretor, também este lhe fez as mais duras acusações de que tinha estado de novo no teatro dos acrobatas e até mesmo comprara mel e pão na feira em frente à escola e comera na rua. – Coisa que Reiser considerava muito inocente e nada humilhante, mas que agora era interpretada como a maior infâmia, levando o diretor a tachá-lo de menino mau, que não tinha honra nem vergonha e de quem ele não queria mais se encarregar. Em toda a sua vida, dificilmente Reiser esteve mais triste e abatido do que nesse momento em que saía da casa do diretor para voltar à sua. Ele não só não reparou no vento nem na nevasca como vagou por hora e meia pelo baluarte e pela cidade, entregue a seu pesar e a seus ruidosos lamentos. Pois de repente tudo fracassou: seu esforço para novamente cair nas graças do diretor por seu comportamento; a esperança de receber um bom dinheiro do coral, dinheiro que costumava ser sempre muito mais considerável na época do Ano-Novo; e o ardente desejo de estar na procissão com tocha e música no dia seguinte e assim caminhar publicamente em fila. Mas o que mais lhe doía era verdadeiramente a última coisa – e isso era muito claro; pois, ao participar do cortejo, ele se sentia outra vez em posse de todos os direitos de sua posição, dos quais muitas vezes fora privado. – Permanecer excluído disso lhe parecia uma das maiores adversidades que lhe podiam acontecer. – Esse era também o motivo pelo qual pedira tão encarecidamente ao vice-diretor a liberação de metade do dinheiro do coral, humilhação pela qual de outro modo jamais teria passado. Todos os seus planos para arrumar dinheiro de nada o ajudaram; ele não conseguiu comprar tochas e, na noite seguinte, teve de ficar em casa pesaroso e sentado ao piano, enquanto todos os seus colegas de escola percorriam com pompa reluzente a rua, em meio a uma multidão de espectadores – procurou se consolar da melhor maneira possível; mas, ao ouvir a música vinda lá de longe, ela produzia um efeito curioso em seu ânimo – ele imaginava com vivacidade o brilho das tochas, a multidão de espectadores, o tumulto, e seus colegas de escola como os personagens principais dessa suntuosa apresentação. – E ele excluído, solitário e abandonado por todo mundo – isso o afundou numa melancolia muito semelhante à sentida quando seus pais o largaram sozinho lá em cima no quarto, enquanto festejavam com o proprietário embaixo, e as risadas alegres da festa e o barulho dos copos ressoavam alto em cima, e ele se sentia tão sozinho e abandonado por todo mundo, consolando-se com os cânticos de Madame Guyon. Acontecimentos assim o impeliam cada vez mais do mundo para a solidão – ele não se sentia mais contente senão quando podia se sentar sozinho ao piano e ler em voz baixa e trabalhar – e não almejou nada mais ardentemente do que a chegada do verão para que pudesse passar o dia todo sozinho no sótão, onde colocaria sua cama. E, quando esse tão almejado verão chegou, Reiser desfrutou antes de mais nada o prazer dos estudos solitários. Havia algum tempo ele recomeçara a pegar emprestados livros no alfarrabista; mas seu gosto estava dirigido exclusivamente a livros científicos. Desde aquela terrível época de sua vida, suas leituras de romances e peças de teatro tinham cessado inteiramente. Assim que o tempo começou a esquentar, ele correu para seu sótão e lá passou as mais prazerosas horas de sua vida, lendo e estudando. Pegara emprestado do alfarrabista, entre outras coisas, o Filosofia de Gottsched, e, embora as matérias nesse livro também fossem muito diluídas, ele deu de certa forma o primeiro estímulo a sua capacidade de pensar – conseguiu ter assim ao menos uma ligeira visão geral de todas as ciências filosóficas, o que organizou as ideias em sua cabeça. Logo que percebeu isso, cresceu também dia a dia sua avidez de ter rapidamente uma visão geral dos assuntos. – Viu que a mera leitura não ajudava em nada – começou então a esboçar por escrito tabelas em folhinhas, nas quais sempre subordinava adequadamente o detalhe ao todo, e desse modo procurava formar uma noção clara daquilo. A simples cópia do sumário já tornava o assunto mais interessante para ele – pois, mantendo diante de si, durante a leitura do livro, a folha na qual copiara as matérias contidas nele, tinha assim a vantagem de, ao mirar o singular, jamais perder de vista o todo, o que no pensamento filosófico é sempre uma exigência fundamental, embora seja também a origem de todas as dificuldades. Tudo aquilo sobre o que ainda não havia refletido estava diante dele nesse mapa como um país desconhecido, o qual verdadeiramente ansiava por conhecer melhor. – Os contornos, a armação já tinham sido traçados em sua alma por essa visão geral do conjunto, e ele se esforçava para preencher uma a uma as lacunas que só agora podia perceber. – E o que antes pareceu ser para ele apenas meros termos vazios aos poucos se tornou conceitos claros e com conteúdo, e, quando relia ou repensava um termo e de repente tudo o que antes lhe era obscuro e confuso se tornava claro e nítido, ele era tomado por um sentimento tão agradável como jamais sentira antes – saboreava pela primeira vez o deleite do pensamento. O apetite constante de logo avistar o todo o guiava através de todas as dificuldadesdo singular. – Em sua capacidade de pensar estava ocorrendo uma nova criação. – Era como se agora seu entendimento estivesse acordando e pouco a pouco o dia irrompesse, e ele não se cansasse de ver a luz revigorante. Nesses momentos, quase se esquecia de comer e beber e de tudo o que estava à sua volta, e durante um período de seis semanas, alegando estar doente, quase não saiu de seu sótão. – Sentava-se diante de seu livro, com a pena na mão, da manhã até a noite, e não descansava antes de ter lido o livro de cabo a rabo. Mas o que jamais deixou sua avidez se extinguir foi, como já dito, manter diante dos olhos constantemente o conteúdo principal – e a permanente ordenação e classificação das matérias, tanto em sua cabeça como no papel. Apesar de suas circunstâncias externas quase não terem melhorado, ele passou aquele verão bastante contente. De todo modo, as horas que passou solitário no sótão estavam entre as mais felizes de sua vida. – Daquele momento em diante, ele ficava em geral menos infeliz, porque sua capacidade de pensar começara a se desenvolver. Aonde fosse ou onde estivesse, ele agora refletia em vez de simplesmente fantasiar como antes – e suas ideias se ocupavam com os mais sublimes objetos do pensamento – com as representações do espaço e do tempo, com a suprema faculdade de representação etc. Mas, já naquela época, muitas vezes ao refletir sentia como se algo de repente o impedisse, como se uma parede de madeira ou um teto impenetrável de repente tapasse sua visão – era como se ele não pensasse em nada – a não ser em palavras. Ali ele deparou com a impenetrável parede que separa o pensamento humano do pensamento dos seres superiores e os torna distintos, deparou com a necessidade imperiosa da linguagem, sem a qual a capacidade humana de pensar não pode ganhar impulso próprio – que é, de certo modo, apenas um recurso artificial para produzir algo parecido ao verdadeiro pensamento puro, o que talvez algum dia alcançaremos. A linguagem lhe parecia um estorvo para o pensamento, mas ele não conseguia pensar sem a linguagem. Às vezes, afligia-se horas a fio tentando ver se era possível pensar sem palavras. – E então vinha ao seu encontro o conceito de existência como o limite de todo pensamento humano – e tudo ficava escuro e ermo. – Então olhava por alguns momentos a curta duração de sua existência, e o pensamento, ou melhor, o não pensamento do não ser, estremecia-lhe a alma – era inexplicável que ele agora existisse realmente e que antes não tivesse existido. – Assim, vagava sem apoio e sem guia nas profundezas da metafísica. Às vezes, quando estava cantando no coral e, em vez de conversar com seus colegas de escola, retirava-se solitário, os colegas por trás diziam: “Lá vai o melancólico!”; ele refletia então sobre a natureza do som e procurava investigar o que não se deixava expressar com palavras. – Isso agora ocupava o lugar de seus antigos sonhos românticos, com os quais ele antes havia devaneado em tantas horas sombrias, quando em dias tristes de inverno cantava na neve e na chuva. Pegou emprestada do alfarrabista a Metafísica de Wolf e a leu também segundo o método anterior – e, quando foi até a casa do sapateiro S., a matéria para seus diálogos filosóficos estava muito mais rica que antes – e eles por si mesmos chegaram a todos os diferentes sistemas expostos pelos filósofos antigos e modernos, sempre repetidos maquinalmente por uma multidão de pessoas. Nesse meio-tempo, o diretor B., em cuja amizade Reiser havia colocado muita esperança, tendo sido iludido tantas vezes, fora também promovido a superintendente numa pequena cidade não muito longe de H., e seu lugar foi ocupado por outro, de nome S. Essa mudança praticamente não interessou a Reiser, que naquela época não pensava em nada a não ser em sua metafísica. – O novo diretor era já um senhor, de conhecimentos e muito gosto, e estava bastante livre do pedantismo, caso muito raro nos antigos pedagogos. Além disso, durante a mudança, muitas aulas foram canceladas. – As faltas de Reiser nem sequer eram notadas. – E, se alguma vez uma falta às aulas públicas foi bem aproveitada, foi o caso de Reiser – em poucos meses, ele fez mais, ampliando seu entendimento com muito mais conceitos, do que em todos os anos de estudos escolares. Ao menos nunca voltou a ouvir todo o curso de filosofia exposto tão detalhadamente quanto naquela época em que ele o concebera por si mesmo – até as outras ciências, como a dogmática, a história etc., ele nunca mais viu explicadas com tanta riqueza na universidade como havia ouvido em parte na escola em H. Na infância, não recebeu instrução alguma, exceto de aritmética e de caligrafia, que agora estavam quase completamente perdidas, porque não tivera chance de fazer exercícios de aritmética e havia machucado a mão copiando textos. – Calhou de receber algumas aulas de caligrafia, que lhe foram de pouca ou quase nenhuma utilidade, mas lhe permitiram exercitar bastante a mão; quando começou de novo a preparar as tarefas escolares e levar seus exercícios ao reitor, este ficou tão admirado com a melhora de sua mão que lhe deu imediatamente algo para copiar, e o obrigou a fazer em sua casa, de modo que Reiser assim conseguiu de novo entrar na casa do reitor; isso o animou com alguma esperança de ter crédito novamente, mas foi logo suprimida, quando seu pai certa vez chegou a H. e o pastor M. não lhe deu nenhum consolo, limitando-se a dizer que Reiser era um depravado que não se tornaria nada. Quando seu pai voltou para casa, Reiser o acompanhou até o lado de fora das portas da cidade, e foi ali que o pai o fez saber das palavras do pastor M., reprimindo-o duramente, ao dizer que ele não reconhecia os favores que recebia, enquanto apontava para a sobrecasaca que Reiser estava vestindo, descrevendo-a como um presente imerecido de seus benfeitores. – Esse último comentário irritou Reiser, pois a sobrecasaca, que era de pano rústico e cinzento, que ele sempre odiou, lhe dava uma aparência completa de serviçal, e por isso disse ao pai que aquela sobrecasaca de serviçal, que era obrigado a vestir para o próprio desgosto, não podia despertar nele nenhum grande sentimento de gratidão. Seu pai, para quem eram sagrados os princípios da humilhação e da mortificação de todo orgulho e presunção saídos dos escritos de Madame Guyon, encheu-se de uma espécie de furor – rapidamente lhe deu as costas e, caminhando, lhe rogou sua maldição. – Assim Reiser se viu numa situação até então inédita; tudo o que havia sofrido e aguentado de seu destino adverso, mesmo o fato de seu pai agora também o rejeitar e lhe rogar maldição, percorreu-lhe a alma naquele instante. Enquanto voltava para a cidade, soltava em voz alta imprecações contra Deus, encontrando-se próximo do desespero – desejou realmente ser tragado pela terra –, e a maldição de seu pai parecia estar de fato em seu encalço. Por um tempo, isso deteve novamente todos os seus bons propósitos e sua dedicação até então espontânea e ininterrupta. O verão estava chegando ao fim – e uma contínua dor física começou com mais frequência a prostrar sua mente. Reiser sentia uma dor de cabeça constante, que durou um ano inteiro, de modo que quase não havia dia ou hora em que se visse livre dela. O alfaiate, em cuja casa Reiser havia morado por um ano, disse-lhe também que a hospedagem terminara, e ele se mudou para a casa de um açougueiro numa rua distante, onde estavam alojados outros estudantes e dois soldados rasos. Ali teve também de ficar na parte de baixo, junto com outros, na sala; e sua mobília, o piano e a estante de livros permaneceram lá embaixo, como antes – em vez do sótão, ele conseguiu, no entanto, um cubículo na parte de cima, onde dormia com outro aluno do coral, e no verão, quando estava quente, cada um podia ficar sozinho. As relações com seu anfitrião, o açougueiro, e com os dois soldados que lá estavam alojados, além de alguns colegas desregrados do coral que ainda moravam com ele, não contribuíram muito para sua formação e o refinamentode seus costumes. Nas noites de inverno, todos se reuniam na sala, e, como ele não conseguia trabalhar com ruído e barulho, preferia se misturar ao bando, se divertindo tanto quanto podia com as pessoas que agora compunham seu círculo mais íntimo. Apesar de suas constantes dores de cabeça, também trabalhava sozinho sempre que conseguia ter um pouco de sossego, e dessa maneira aprendeu francês em poucas semanas, pegando emprestado um livro de Terêncio em latim, com tradução para o francês, e estudando diariamente uma lição, sem interrupção; com isso, progrediu a ponto de compreender razoavelmente qualquer livro em francês. Como suas condições de vida não haviam melhorado e, além do mais, continuava padecendo da dor física, encontrou-se em uma disposição de alma em que os Pensamentos noturnos, de Young, que naquela época ele conseguira por acaso, lhe caíram muitíssimo bem – parecia-lhe que encontrava ali novamente todas as suas ideias anteriores sobre a nulidade da vida e a vaidade de todas as coisas humanas. – Não se cansava de ler esse livro e quase decorou os pensamentos e sentimentos que ali imperavam. O único alívio para sua dor de cabeça era quando podia se esticar de costas na cama – nessa posição ficava com frequência lendo o dia todo. – Era o único prazer da vida que ainda lhe restava e ao qual ainda se apegava, porque de outro modo o tédio mortal teria tornado insuportável a vida miserável em que ele se arrastava. Para fugir às vezes do barulho que o rodeava, Reiser não se esquivava nem da chuva nem da neve, mas no fim da tarde, quando já escurecera, e estava certo de que não seria visto por ninguém e de que nenhuma pessoa iria lhe dirigir a palavra, fazia um passeio pelo baluarte em volta da cidade; era nesses passeios que seu espírito sempre se reanimava um pouco e uma faísca de esperança voltava a arder em sua alma para libertá- lo de seu terrível estado. Quando, pelas ruas contíguas ao baluarte, ele via uma luz acesa dentro das casas, imaginava que em cada cômodo iluminado – e havia muitos em uma casa – vivia uma família, ou então uma comunidade de pessoas, ou uma pessoa sozinha, e que naquele momento um cômodo daquele abarcava em si os destinos e a vida e os pensamentos daquela pessoa, ou de uma comunidade de pessoas; e que ele, após o passeio completo, retornaria também para um cômodo ao qual estaria como que atado e que seria o lugar próprio de sua existência; primeiramente isso provocava nele uma estranha sensação de humilhação, como se seu destino estivesse perdido nesse infinito e confuso amontoado de destinos humanos cruzados e se tornasse por isso mesmo pequeno e insignificante. Mas, depois, essas mesmas luzes em cada um dos cômodos das casas próximas ao baluarte reerguiam pouco a pouco seu espírito, quando extraía delas uma visão do todo e conseguia sair de sua própria e limitante esfera, na qual se perdia entre todos os habitantes da terra que passavam despercebidos e indistintos na vida, e profetizava para si um destino particular e extraordinário, cuja doce ideia o animava com nova esperança e coragem enquanto avançava a passos rápidos. Uma série de salas de estar iluminadas numa casa desconhecida e estranha para ele – onde imaginava um número de famílias de cuja vida e destino pouco sabia, tanto quanto sabiam da sua e do seu – despertou-lhe posteriormente sempre sensações estranhas – e a limitação de cada um dos homens se tornava evidente para ele. Percebeu a verdade: somos apenas mais um entre milhares e milhares que são e foram. Muitas vezes, seu desejo era poder se colocar inteiro no ser e na essência de outra pessoa – às vezes, quando caminhava na rua perto de uma pessoa completamente estranha, o pensamento da estranheza, da completa inconsciência do nome e do destino de um em relação ao do outro, era tão vivo que ele se acercava dessa pessoa, o mais próximo que as boas maneiras permitiam, para se achegar à sua atmosfera e ver se não conseguia atravessar o muro que separava suas memórias e seus pensamentos das memórias e pensamentos desse estranho. Talvez não seja inconveniente trazer aqui mais uma sensação de sua infância – naquela época, ele às vezes imaginava ter outros pais que não os seus, que não conhecesse e que lhe fossem completamente estranhos. – Ao pensar nisso, muitas vezes vertia lágrimas infantis – seus pais poderiam ser o que fossem, mas lhe eram os mais queridos, e ele não os teria trocado pelos mais ilustres e bondosos. Mas ao mesmo tempo já lhe vinha naquela época o estranho sentimento de se perder na multidão, e do fato de que ainda havia uma quantidade muito grande de pais com filhos, inclusive os seus, que também se perdiam nela. Depois, todas as vezes que se encontrava numa multidão, ele tinha o mesmo sentimento de pequenez, de particularidade e quase o de insignificância semelhante ao nada. – Quantas dessas pessoas têm a mesma matéria que a minha! Com que quantidade dessa massa de pessoas se constroem Estados e exércitos, assim como de troncos de árvores se constroem casas e torres! Eram mais ou menos esses os pensamentos que à época produziam nele um sentimento obscuro, porque não conseguia vesti-los em palavras e não sabia como torná-los claros. Certa vez, quando quatro criminosos foram decapitados no patíbulo às portas de H., ele saiu com a multidão e viu lá embaixo, apartados dos restantes, os quatro que deveriam ser exterminados e esquartejados. – Já que a massa de pessoas que os circundava era muito maior, aquilo lhe pareceu tão pequeno e insignificante – como se uma árvore fosse derrubada na floresta ou um boi, abatido. – E, quando os pedaços daqueles homens condenados foram içados à roda, ele se imaginou esquartejado e as pessoas que o rodeavam em pé também – o ser humano se tornou tão sem valor e tão insignificante para Reiser que ele sepultou seu destino e tudo o mais na ideia de despedaçabilidade do animal – voltou para casa com certo prazer até e ao longo do caminho comeu sua pasta de peruca – pois aquela época havia sido justamente seu pior trimestre, em que muitos dias viveu simplesmente daquilo. Comida e roupa eram para ele tão indiferentes quanto morte e vida – que diferença faz uma massa de carne móvel daquelas, da qual havia uma quantidade assustadora no mundo, caminhando ou não por aí? – Depois não podia se controlar e sempre se punha no lugar dos criminosos executados, esquartejados e exibidos em pedaços na roda – e pensava no que Salomão já pensara: O homem é como o gado; assim como o gado morre, morre ele também. Desde então, toda vez que via abaterem um animal, Reiser sempre se unia a ele em pensamento – e, como muitas vezes teve ocasião de ver um abate na casa do açougueiro, durante um bom tempo seu pensamento simples passava horas tentando descobrir a diferença entre ele e um animal abatido. – Muitas vezes, ficava horas a fio fitando um bezerro com cabeça, olhos, orelhas, boca e nariz; e se inclinava, como fazia com pessoas estranhas, tão perto quanto possível, muitas vezes com a tola ilusão de que talvez pudesse se colocar pouco a pouco na essência daquele animal – porque queria saber toda a diferença entre ele e o animal. – Às vezes se esquecia tanto de si nessas observações incessantes que realmente chegava a pensar que naquele instante tinha sentido o modo de existência daquele ser. – Em suma, como seria se, por exemplo, ele fosse um cão que vivia entre os homens, ou outro animal – já desde a infância isso ocupava seu pensamento com frequência. – E, como pensara então na diferença de corpo e alma, nada lhe era mais importante do que descobrir também qualquer diferença fundamental entre ele e o animal, porque caso contrário não poderia se convencer de que o animal, que era muito parecido com ele em sua estrutura corporal, não teria também uma alma como ele. E onde permanecia a alma após a destruição e o despedaçamento do corpo? – Todos os pensamentos de milhares e milhares de pessoas que antes estavam separados uns dos outros pela parede do corpo e que se comunicavam através do movimento de algumaspartes dessa parede pareciam, após a morte da pessoa, confluir todos para a unidade – lá não havia nada mais que os isolasse e os separasse uns dos outros – ele imaginava um homem de que só tivesse restado o intelecto pairando no ar, intelecto que logo se dissolvia em sua faculdade de representação. E daí lhe parecia surgir, da imensa massa de homens, uma imensa e informe massa de almas – ele nem sempre compreendia por que seriam exatamente tantas e não mais nem menos, e como o número parecia ir ao infinito, o singular por fim se tornava quase tão insignificante quanto o nada. Essa insignificância, essa perda na multidão, era fundamentalmente o que muitas vezes tornava sua existência enfadonha. Certo fim de tarde, caminhava pelas ruas triste e irritado – o sol já se punha, mas ainda não estava tão escuro que não pudesse ser visto por ninguém – e o olhar das pessoas lhe era insuportável porque ele acreditava ser objeto de escárnio e de desprezo delas. Havia um vento úmido, uma mistura de chuva com neve – toda a sua roupa estava encharcada – e de repente surgiu nele o sentimento de que não podia fugir de si mesmo. E com esse pensamento ele sentiu como se uma montanha lhe caísse em cima – procurou com todas as forças se erguer, mas era como se o fardo de sua existência o forçasse para baixo. Teria de se levantar e se deitar consigo todo santo dia – a cada passo, seu odiado si mesmo seguiria se arrastando com ele. Com a sensação de desprezo e rejeição, sua consciência de si ficou tão pesada quanto seu corpo com a sensação de umidade e frio; se naquela época uma morte almejada lhe tivesse sorrido de um recanto qualquer, ele teria se despojado de seu corpo de bom grado e com prazer, como de suas roupas encharcadas. Irrevogavelmente Reiser tinha de ser ele mesmo e não podia mais ser outra pessoa; o fato de estar limitado e confinado a si mesmo pouco a pouco lhe provocou um grau de desespero que o levou à beira do rio que atravessava uma parte da cidade onde não havia nenhum parapeito. Ali, durante meia hora, entre o mais terrível tédio de viver e o desejo instintivo e inexplicável de continuar respirando, permaneceu em pé, lutando até perder finalmente as forças e cair sobre o tronco de uma árvore derrubada que estava perto da margem. Ali, durante um momento, como que desafiando a natureza, deixou-se molhar pela chuva até que a sensação de um calafrio de febre e uma bateção de dentes o trouxessem novamente a si, e por acaso lhe ocorreu recordar que naquela noite ele comeria linguiça fresca na casa do seu anfitrião, o açougueiro; e que a sala estaria muito bem aquecida. – Essas lembranças sensoriais e animalescas revigoraram sua vontade de viver – ele se esqueceu completamente de que era homem, assim como se esquecera disso depois da execução dos criminosos, e voltou para casa em seus propósitos e sensações como um animal. E como animal ele desejou continuar vivendo; como ser humano, cada momento da continuação de sua existência se tornara insuportável. Mas como ele, quando as coisas apertavam, já fora tantas vezes salvo de seu mundo real pelo mundo dos livros dessa vez também pegou emprestada no alfarrabista justamente a tradução de Wieland das obras de Shakespeare – e todo um mundo novo de repente se abriu para seu pensamento e sensibilidade! Reiser encontrou ali muito mais do que até então havia pensado, lido e sentido. – Leu Macbeth, Hamlet, Lear e sentiu seu espírito arrebatar-se irresistivelmente – cada hora da vida em que lia Shakespeare era inestimável. – Por onde quer que fosse, agora vivia, pensava e sonhava com Shakespeare, e seu maior desejo era compartilhar tudo o que sentia ao lê-lo. – A pessoa mais próxima com quem pôde compartilhar isso, e que também era muito sensível ao autor inglês, era seu amigo Philipp Reiser, que morava numa vizinhança distante da cidade, onde instalara uma nova oficina e construía pianos – ele continuava cantando no coral, mas não no mesmo de Anton Reiser. – Apesar da estreita amizade dos dois, as circunstâncias da vida os haviam separado durante um bom tempo. Mas, quando Anton Reiser não podia desfrutar seu Shakespeare sozinho, ele sabia que não havia nada melhor a não ser correr para seu amigo romântico. Ler em voz alta para o amigo uma peça inteira de Shakespeare e notar com prazer todas as sensações e declarações dele era para Reiser o maior deleite que desfrutara na vida. Eles dedicavam noites inteiras às leituras, nas quais Philipp Reiser fazia o papel de anfitrião, preparava o café por volta de meia-noite e botava lenha na lareira. – Depois ambos se sentavam a uma mesinha à luz de uma pequena lamparina. – Philipp Reiser inclinava o longo pescoço sobre o livro enquanto Anton Reiser continuava lendo, e a intensa paixão aumentava junto com o interesse pela ação. Essas noites shakespearianas fazem parte das mais agradáveis recordações na vida de Reiser. Se algo formou seu espírito, foram essas leituras, em relação às quais tudo o que havia lido de teatro até então ficou totalmente à sombra e obscurecido. Aprendeu de maneira nobre a não se importar nem mesmo com suas condições de vida – apesar da melancolia, sua fantasia tomava um impulso maior. Shakespeare o fizera percorrer o mundo das paixões humanas – o círculo estreito de sua existência ideal fora ampliado. Não vivia de modo tão isolado e insignificante a ponto de se perder na multidão – pois ele havia sentido profundamente as sensações que milhares sentiram ao ler Shakespeare também. Depois de ter lido Shakespeare, e da maneira como o havia lido, ele já não era um homem vulgar e comum – e não demorou muito para que seu espírito sobrepujasse todas as suas condições externas de vida opressiva, o escárnio e o desprezo que antes sofrera – como a sequência desta história irá mostrar. Os monólogos de Hamlet fixaram sua atenção primeiramente na totalidade da vida humana – não se imaginava mais sozinho quando se sentia atormentado, oprimido e limitado; começou a considerar isso o destino universal da humanidade. Assim, seus lamentos se tornaram mais nobres que antes – a leitura dos Pensamentos noturnos, de Young, já tinha em certa medida provocado esse efeito, mas esses Pensamentos também foram suplantados por Shakespeare. – Shakespeare tornou mais forte o antes frouxo laço de amizade entre Philipp Reiser e Anton Reiser. Como Anton precisava de alguém a quem pudesse dirigir todos os seus pensamentos e sentimentos, em quem poderia recair sua escolha a não ser sobre aquele que tinha sentido o seu adorado Shakespeare inteiramente como ele? A necessidade de compartilhar seus pensamentos e sentimentos lhe suscitou a ideia de fazer novamente uma espécie de diário no qual não pretendia anotar os insignificantes acontecimentos externos como antes, mas a história interna de seu espírito, e endereçar o que anotava ao amigo, como numa carta. Philipp, por sua vez, deveria também lhe escrever, o que acabou se tornando um exercício mútuo de estilo. – Esse exercício foi a primeira formação de Anton Reiser como escritor; começou a sentir um indescritível prazer em expressar seus pensamentos, que concebera para si próprio, em palavras adequadas para poder compartilhá-los com o amigo – e assim nasceram de seu punho vários pequenos ensaios, alguns dos quais não o envergonhariam mesmo em seus anos de maturidade. Mesmo sendo esse exercício unilateral – já que Philipp Reiser ficou para trás com os seus ensaios –, Anton Reiser agora tinha alguém em cujo sentimento e gosto podia confiar, cuja aprovação ou censura não lhe eram indiferentes, e em quem podia pensar todas as vezes que escrevia algo. Era estranho; no princípio, quando queria anotar algo, sempre lhe vinham à pena as palavras: o que é minha existência, o que é minha vida?. E por isso essas palavras estavam também em muitos pequenos pedacinhos de papel em que ele tinha intenção de escrever, e, se não conseguia, jogava-os fora. Sua concepção obscura da vida e da existência, que estavam diante dele como um abismo, era sempre a primeira coisa a