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2 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Material de distribuição gratuita. Venda proibida.
© 2023. Todos os direitos reservados.
Guia de Saúde Mental Pós-pandemia no Brasil 2: 
um guia focado no cuidado dos profissionais da saúde
2ª edição
Instituto de Ciências Integradas
CCM Group
Endereço: Avenida Paulista 352 sala 27, Bela Vista, CEP 01310-905
Telefone: +55 11 3061 1495
E-mail: ini@institutoini.com.br
23-143975 CDD-616.89
 NLM-WM 100
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Guia de saúde mental pós-pandemia no Brasil 
 [livro eletrônico] : um guia focado no cuidado 
 dos profissionais da saúde / [coordenação geral 
 Luis Augusto Rohde. -- 2. ed. -- 
 Porto Alegre, RS : Instituto de Ciências 
 Integradas, 2023.
 PDF. 
 Vários colaboradores.
 Bibliografia.
 ISBN 978-65-999175-1-6
 1. Coronavírus (COVID-19) - Aspectos da saúde 
2. Profissionais da saúde 3. Saúde mental - Brasil 
4. Síndrome de Burnout e Depressão 5. Telemedicina 
I. Rohde, Luis Augusto.
Índices para catálogo sistemático:
1. Saúde mental : Qualidade de vida : Ciências 
 médicas 616.89
Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
3GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C O O R D E N A Ç Ã O G E R A L
Luis Augusto Rohde
I L U S T R A Ç Õ E S
Mind the Graph
R E V I S Ã O
DC Press
C A P A E D I A G R A M A Ç Ã O
André Flores (Sense)
R E A L I Z A Ç Ã O
4 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Um vírus avassalador afetou 
desempenho dos pulmões
Indiscriminadamente, 
desafiou o corpo e suas funções
 
De um lado, o medo desta situação 
alarmante e desconhecida
De outro, a superação cotidiana 
para tentar salvar cada vida
 
Assim foi a rotina do 
profissional de saúde
Que dedicou-se incansavelmente amiúde
 
Viveu incontáveis momentos de ansiedade, 
angústia e pressão
De repente deparou-se com a necessidade 
de uma rápida adaptação
 
Mais do que nunca 
teve que lidar com a incerteza
E com bravura teve que conviver 
com a morte e a tristeza
 
Dividiu o sofrimento com cada paciente e familiar
Teve que ter força para ele próprio não colapsar
E ainda equilíbrio para algum paciente grave, por 
exemplo, ter que entubar
 
Um desafio sem precedentes
Arriscaram a própria vida para cuidar dos doentes
 
Em hospitais, ou no domicílio, 
sem hora para comer ou sair
Privaram-se do convívio com a própria família, 
muitas vezes sem nem dormir
5GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Carolina B. Menezes
#rimasdacarol
@rimas_da_carol
 
Expostos, como nunca, 
a um senso de finitude
Demonstraram não apenas capacidade técnica, 
mas virtude
 
Desde o zelo pelo profissionalismo 
e pelo ser humano
Até o conforto e o abraço de um colega que ajudou 
a amenizar o dano
 
Mesmo frágil, muitos foram apoiados por um 
sistema único de saúde abrangente
Do rico, ao carente, a Ciência esteve à frente
Em um contexto em que a regra era o suplício 
urgente
 
Mesmo com tantas perdas, a estes profissionais 
devemos muita experiência exitosa
Com sua inabalável atuação, muita vida saiu 
vitoriosa
 
O nosso profundo respeito e agradecimento
À ética e à conduta mantidas em cada difícil 
momento
 
Em uma espécie de guerra, 
foram nossos principais soldados
Na luta contra o inimigo, 
foram fiéis aliados
Serão, para sempre, com muito orgulho lembrados
 
Sua nobre missão de cuidar em condições 
extremas do enfermo e da sua dor
Fez retumbar e ecoar 
ainda mais forte um clamor
Assim como precisamos deles, 
é preciso cuidar do cuidador.
 
6 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Prefácio
Introdução
Capítulo 1: Impacto da 
pandemia na saúde dos 
médicos e profissionais da 
saúde 
Capítulo 2: A importância de 
cuidar de quem cuida 
Capítulo 3: Lidando com 
cenários complexos: como 
tomar decisões num mundo 
polarizado, com dados 
científicos ainda em construção 
e assolado por fake news?
Capítulo 4: Pandemia de 
Covid-19, burnout e estresse 
traumático
Capítulo 5: O efeito da 
pandemia no aumento de 
depressão no cuidador
Capítulo 6: A ansiedade 
no pós-pandemia: como o 
profissional de saúde pode se 
readaptar ao novo normal
Capítulo 7: Como a pandemia 
alterou a saúde física dos 
profissionais de saúde 
Capítulo 8: A pandemia 
ceifando vidas: o luto pela perda 
dos pacientes e de pessoas 
significativas
Capítulo 9: As intervenções 
usadas para melhorar a saúde 
mental dos profissionais na 
linha de frente de combate da 
Covid-19: o que deu certo?
Capítulo 10: A revolução da 
telemedicina na pandemia: quais 
ferramentas restarão para o uso 
do profissional de saúde no pós-
pandemia?
Capítulo 11: Reflexo do pós-
isolamento nas relações 
interpessoais e na sexualidade
Capítulo 12: Dicas práticas para 
o bem-estar e saúde do cuidador 
em tempos de pós-pandemia
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7GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
O INI, Instituto de Ciências Integradas, é o braço 
científico do CCM Group, com atuação em edu-
cação continuada na área da saúde em diversas 
especialidades. Tem por propósito estimular o 
desenvolvimento da pesquisa e da prática clínica, 
propondo conteúdos relevantes e promovendo 
eventos inovadores. Todos os anos, o INI concede 
bolsas para participação de congressos a jovens de 
diferentes áreas da saúde em início de carreira.
Na área da neuropsiquiatria, o INI promove o Brain 
Congress, congresso de interação e integração que 
aproxima especialistas de diversas áreas, como: 
psiquiatria, neurologia, neuropsicologia, geriatria, 
clínica médica e neurociência básica. E, através de 
projetos de conteúdo, como a BrainTV e o podcast 
CCM Conecta, promove e amplia o acesso à infor-
mação de qualidade.
Depois do sucesso da primeira edição, estamos 
lançando o “Guia de Saúde Mental Pós-pandemia 
no Brasil 2: um guia focado no cuidado dos pro-
fissionais da saúde”. Para nós do INI é uma honra 
participar desta parceria com a Viatris, que permitiu 
a realização deste brilhante projeto.
 
Alessandro da Costa e Eduardo Corrêa
Diretores do INI
Com um olhar atento à jornada do paciente, a pri-
meira edição do guia de saúde mental pós pande-
mia discorreu em linguagem simples e acessível, o 
cenário da saúde mental pós pandemia no Brasil, 
indicando as melhores práticas para enfrentamen-
to de problemas nessa área. Naquele momento 
ainda não tínhamos visibilidade da duração e gran-
deza do impacto que teríamos e diante da realida-
de que se impôs, reconhecemos o quão crucial é a 
saúde mental do trabalhador da saúde.
Os trabalhadores da saúde desempenham um 
papel fundamental na jornada do paciente e entre-
gam conosco a missão de empoderar as pessoas 
a terem mais saúde em todas as fases da vida. A 
Viatris reúne os melhores conhecimentos científi-
cos, de fabricação e distribuição da categoria com 
comprovados recursos regulatórios, médicos e 
comerciais para fornecer medicamentos de quali-
dade aos pacientes quando e onde eles precisam. 
Nossos medicamentos tratam 9 das 10 principais 
causas de morte listadas pela Organização Mundial 
da Saúde (OMS) e, além disso, mais de 200 medi-
camentos são considerados essenciais pela OMS.
Esta nova edição é dedicada aos trabalhadores 
da saúde que em um cenário incertezas, envol-
tos por rotinas exaustivas e de decisões custosas, 
enfrentaram bravamente um agente invisível e a 
Covid-19. Reunimos conhecimentos científicos, 
especialistas inspiradores e de prestígio acadêmico 
para juntos discutirmos e ajudarmos tantos cole-
gas a se entenderem e encontrarem caminhos de 
alívio aos desafios relacionados à saúde mental e a 
pandemia. O resultado deste trabalho é uma abor-
dagem abrangente, prática e humana do panorama 
atual sem perder o rigor científico.
 
Luiz Henrique S. Fernandes
Diretor Médico Senior - LATAM
Elizabeth Bilevicius
Diretora Médica - Brasil
Marco Antonio da Silva
Gerente de Assuntos Médicos
P R E F Á C I O
8 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIANO BRASIL 2
I N T R O D U Ç Ã O
No momento do lançamento da ver-
são anterior deste guia, em novem-
bro de 2020, o Brasil contava com 
cerca de 120 mil mortes por Co-
vid-19. Hoje, são cerca de 685 mil!
De forma otimista, esperávamos no 
lançamento anterior que, em 2021, 
já estivéssemos lidando com o pós-
-pandemia. Fato que se mostrou, 
infelizmente, irreal. A versão anterior 
buscava trazer, em uma linguagem 
acessível, dados sobre o impacto 
da pandemia na saúde mental da 
população em geral como parte do 
que se convencionou chamar de a 
quarta onda, ou seja, o aumento de 
doenças mentais e trauma psicoló-
gico, provocados diretamente pela 
infecção ou por seus desdobramen-
tos secundários. 
Nessa nova edição, queremos focar 
na saúde mental dos profissionais 
de saúde, principalmente daqueles 
que estiveram na linha de frente 
enfrentando, no dia a dia, as agru-
ras dos efeitos devastadores da 
Covid-19 nas vidas dos pacientes e 
suas famílias.
Durante toda a produção deste do-
cumento, buscamos dados precisos 
que pudessem nos dar a estimativa 
do número de profissionais de saú-
de que morreram durante a pande-
mia no país. Esse dado não é claro! 
Entretanto, estimativas conservado-
ras indicam que pelo menos 13 mil 
profissionais de saúde perderam a 
vida para Covid-191, como discutido 
no capítulo inicial.
Mas mesmo naqueles que per-
maneceram vivos1, o impacto do 
enfrentamento cotidiano da doen-
ça, com o sofrimento e morte de 
pacientes, familiares e amigos, leva 
a cicatrizes emocionais e impacto 
direto na saúde mental. Esses pro-
fissionais não tiveram, muitas vezes, 
oportunidades e nem foram pre-
parados para pensar na sua saúde 
mental.
Diversos estudos internacionais têm 
se dedicado a estimar as taxas de 
prevalência de transtornos mentais 
em profissionais de saúde durante 
a pandemia. Revisões sistemáti-
cas apontam, como será melhor 
detalhado em diversos capítulos, o 
aumento de transtornos de ansieda-
de e comportamentos2 depressivos, 
assim como incremento de estresse 
agudo, sintomas pós-traumáticos, 
de insônia e burnout nessa popula-
ção2,3.
Em outras palavras, o que se 
observou na população em geral 
ocorreu, como seria de se esperar, 
em proporções talvez até maiores 
em profissionais de saúde. Além 
disso, o profissional de saúde teve 
que elaborar diversos lutos ao longo 
Luis Augusto Rohde
Professor Titular de Psiquiatria da Universidade 
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Professor da 
Pós-Graduação em Psiquiatria da UFRGS e da Universidade de 
São Paulo (USP), coordenador-geral do Programa de Transtorno de 
Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) do Hospital de Clínicas de 
Porto Alegre e vice-coordenador do Instituto Nacional de Psiquiatria do 
Desenvolvimento para a Infância e Adolescência.
9GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
da pandemia, seja de seus pacientes 
ou mesmo de familiares e amigos, 
como vamos abordar em outros 
capítulos deste guia. Aqui de novo, 
em proporções bem maiores do que 
outros profissionais!
Importante salientar que, como será 
abordado em capítulo específico, a 
pandemia também impactou, como 
na população em geral, na saúde 
física do profissional de saúde. Fe-
nômeno previsível, seja pela imensa 
inter-relação corpo-cérebro/saúde 
física-saúde mental determinando 
que ansiedade, depressão e estresse 
emocional levem a menores cuida-
dos com a saúde física4, ou simples-
mente pela falta de tempo durante a 
pandemia para os cuidados neces-
sários de saúde.
Quando se olha para um cenário tão 
difícil como esse, é sempre fun-
damental chamar atenção para as 
iniciativas de sucesso, que devem 
servir como norte para a nossa con-
duta, e as oportunidades de cresci-
mento advindas dessas dificuldades.
Em termos de intervenções em saú-
de mental de sucesso, dedicamos 
um capítulo para discutir os dados 
do programa chamado TelePSI, um 
projeto assistencial e de pesqui-
sa destinado ao atendimento dos 
profissionais da linha de frente. Vale 
salientar que esse provavelmente 
é o maior ensaio clínico em saúde 
mental já realizado para essa popu-
lação durante a pandemia. 
Em termos de oportunidades de 
aprendizagem para o profissional 
médico com a pandemia, focamos 
no uso da telemedicina que, sem 
dúvidas, cresceu exponencialmente 
durante a pandemia. Em especial, o 
capítulo dedicado a esse tema busca 
a discussão de quais ferramentas 
restarão para o uso do profissional 
de saúde no pós-pandemia. 
 
Nesse contexto, insere-se ainda 
uma questão muito complexa. 
Como o profissional de saúde busca 
dados científicos válidos e confi-
áveis sobre a pandemia para seu 
consumo próprio e para promover 
educação continuada em saúde de 
seus pacientes? Como ele separa as 
chamadas “fake news”, que apren-
demos a reconhecer que também 
existem na literatura de saúde, de 
dados confiáveis? Essa reflexão é 
apresentada em um dos capítulos 
de forma clara e instigadora. Mas a 
pandemia também deixou suas mar-
cas nas formas de relacionamento 
interpessoal, e em aspectos especí-
ficos dessas relações, como a área 
da sexualidade. Outro capítulo nos 
traz inúmeras reflexões sobre essas 
transformações.
Como o profissional 
de saúde busca dados 
científicos válidos e 
confiáveis sobre a 
pandemia para seu 
consumo próprio e para 
promover educação 
continuada em saúde de 
seus pacientes?
Não se pode esquecer, no entan-
to, de apresentar um repertório de 
iniciativas, ferramentas e estraté-
gias que podem ser colocadas em 
prática pelo profissional de saúde, 
para melhor cuidar da sua saúde 
mental e melhorar a sua qualidade 
de vida. Mais do que receitas de 
bolo, o capítulo dedicado a esse 
tema busca uma reflexão motiva-
cional para instigar o profissional de 
saúde a olhar também para si e estar 
atento às suas demandas pessoais, 
promovendo um melhor bem-estar 
emocional.
Enfim, a mensagem é que não 
podemos esquecer de cuidar do 
cuidador, como bem lembrado num 
dos primeiros capítulos. Não há 
como cuidar bem de alguém, se não 
estamos bem e, muitas vezes, os 
profissionais de saúde são mitifi-
cados como semideuses que não 
necessitariam do descanso, sono, 
alimentação adequada, carinho, 
amparo e tempo com seus familiares 
e amigos, devendo apenas executar 
algo similar aos “sete trabalhos de 
Hércules” durante a pandemia.
Esperamos que você tenha uma 
leitura agradável, que lhe acrescente 
e lhe faça refletir sobre o quanto 
temos que dar atenção e cuidados 
a nós mesmos para melhor atender 
aos nossos pacientes. 
REFERÊNCIAS:
1. The impact of COVID-19 on health and care 
workers: a closer look at deaths. Health Workforce 
Department – Working Paper 1. Geneva: World 
Health Organization; September 2021 (WHO/
HWF/WorkingPaper/2021.1). Licence: CC BY-NC-
SA 3.0 IGO.
2. Aymerich, Pedruzo, Pérez, Laborda. 
COVID-19 PANDEMIC EFFECTS ON HEALTH 
WORKERS’MENTAL HEALTH: SYSTEMATIC 
REVIEW AND META-ANALYSIS. European. 
Available: https://www.cambridge.org/core/
journals/european-psychiatry/article/covid19-
pandemic-effects-on-health-workers-mental-
health-systematic-review-and-metaanalysis/
A6DC06C71E38C311893B5FF3FC82F8F9
3. de Sousa GM, Tavares VD de O, de Meiroz Grilo 
MLP, Coelho MLG, de Lima-Araújo GL, Schuch 
FB, et al. Mental Health in COVID-19 Pandemic: A 
Meta-Review of Prevalence Meta-Analyses. Front 
Psychol. 2021;12: 703838.
4. Prince M, Patel V, Saxena S, Maj M, Maselko J, 
Phillips MR, Rahman A. No health without mental 
health. Lancet. 2007 Sep 8;370(9590):859-77. 
doi: 10.1016/S0140-6736(07)61238-0.
10 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 1
Impacto da pandemia 
na saúde dos médicos 
e profissionais 
da saúde
Margareth Pretti Dalcolmo
Médica pneumologista, pesquisadora da 
FIOCRUZ e membro titular da Academia 
Nacional de Medicina.
11GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Nesses quase três anos de pan-
demia da Covid-19, em que nossa 
resiliência às pessoas e aos serviços 
foi desafiada ao extremo, acumu-
lamos mais do que experiências, 
cicatrizes,e nos perguntamos, 
entre tantas angústias e dúvi-
das, até onde nos impactou 
essa vivência, em que parte 
as nossas vidas em antes e 
depois da Covid - ou AC/DC - 
numa alusão temporal? 
Cada um a seu modo, e na exi-
gência de seu intelecto, discute 
o que seria a nova normalidade, 
ou simplesmente retoma a rotina, 
numa espécie de desejo voraz de 
reencontro ou de sutil apagamen-
to dos duros dias vividos. Já não 
nos sentimos, nós, profissionais da 
saúde em especial, assolados pelo 
desconhecido “novo”, pelo desafio 
cuja solução pareceu tão longínqua 
em muitos momentos, pelo excesso 
de informação, por vezes tóxica, e 
nesse diapasão, ainda sob algumas 
incertezas, seguimos. 
Observamos que houve um maior 
interesse, em grande parte da socie-
dade, por leituras de resgate da his-
tória das epidemias dos últimos dois 
milênios, sobretudo num entendi-
mento de que a história do homem 
no planeta se pauta pelo curso das 
epidemias. Igualmente, por textos 
científicos e leigos, em profusão (os 
buscadores de referências revelam 
mais de 180 mil publicações se 
usarmos “Covid-19” como palavra-
-chave) desde o aparecimento do 
novo coronavírus1. Passamos assim, 
a nos interrogar se a categoria de 
homo eligens, tão magistralmente 
criada por Zygmunt Bauman em 
Vida Líquida2, poderá vingar entre 
nós, como o cerne identitário, como 
o “ser que escolhe”, numa revisão 
das relações simbióticas com o mer-
cado e com os padrões de consumo 
até então aplicados, ou no mínimo 
aspirados, como desejo de possuir, 
até nosso tempo tão recente. Mui-
tas são as manifestações expressas 
publicamente de que haverá novos 
modelos, conformando relações de 
nova qualidade. Mas até que ponto, 
permanece a interrogação? Tudo 
se dissipará quando a epidemia se 
estiolar, tiver perdido sua força des-
trutiva, o luto passar e as rotinas, 
mesmo machucadas, forem reto-
madas?
Durante a pandemia 
no Brasil, vimos a 
contaminação de setores 
políticos e até médicos, 
pela ânsia de respostas 
fáceis ou simplesmente 
por uma purga da 
necessidade de fazer algo, 
prescrever, e portanto 
usar a práxis do aceitável, 
pois aplicar bom senso, e 
se valer de resiliência, é 
muito mais trabalhoso nos 
nossos modelos vigentes 
de assistência.
O Renascimento, que emergiu em 
seu esplendor, por todas as sea-
ras da ciência e da cultura após as 
pestes negras que fecharam a Idade 
Média, só poderia se emular nesse 
começo de século, se atenuada a 
distância que separa os homens, 
por razões sociais e econômicas. 
Tudo o que ganhamos no último 
século na medicina, com o controle 
da dor com analgésicos; de infec-
ções bacterianas com antibióticos; 
medicamentos biológicos para as 
doenças auto-imunes; tecnolo-
gia para diagnósticos, robôs para 
intervenções cirúrgicas, transplante 
de órgãos; e sobretudo adoção de 
normas éticas para pesquisa em 
seres humanos se associa ao rigor 
regulatório para prescrição ou in-
corporação, com base nas melhores 
evidências científicas. 
Durante a pandemia no 
Brasil, vimos a contami-
nação de setores políticos 
e até médicos, pela ânsia 
de respostas fáceis ou 
simplesmente por uma 
purga da necessidade de 
fazer algo, prescrever, e 
portanto usar a práxis do 
aceitável, pois aplicar bom 
senso, e se valer de resiliên-
cia, é muito mais trabalhoso 
nos nossos modelos vigentes de 
assistência. O resultado foi gerar na 
sociedade mais do que uma saudá-
vel desconfiança, a esperança vã de 
que poderiam, com uso de medi-
camentos sabidamente ineficazes, 
por exemplo, prevenir ou atenuar a 
doença.
Sabemos que em jogos de futebol é 
comum a torcida pedir que jogado-
res ponham o coração nas pontas 
de suas chuteiras. É essa imagem 
que podemos aplicar, transportando 
para a dedicação e compromisso 
que motivaram os médicos e de-
mais profissionais a entregar o seu 
melhor durante esse tempo. Muitos 
abriram mão de suas famílias e vida 
pessoal por longas semanas, fican-
do em hotéis (em modalidade criada 
com o apoio da iniciativa privada 
hoteleira para evitar que levassem 
contágio para suas casas) para se 
dedicar aos pacientes com paixão 
e compromisso, mesmo diante do 
risco e do desconhecido. 
Em outros países que nos ante-
cederam à chegada da epidemia, 
como na Itália, já se havia verificado 
que 22% de todas as mortes pela 
Covid-19 o foram em profissionais 
da saúde. A Organização Mundial da 
Saúde estima em 180 mil o número 
de profissionais da saúde mortos 
pela Covid-19 no mundo. No Brasil, 
igualmente houve alta mortalidade 
entre todas as categorias ligadas 
à assistência, nas redes pública e 
privada, estimando-se em 13.600 a 
mortalidade global nessas catego-
rias, dentre os quais 820 médicos3. 
Hoje nos defrontamos, pacientes 
e profissionais, com o outro novo, 
com o mais complexo desafio em 
12 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
termos de saúde que é a Covid 
longa, ou as sequelas da doença, a 
exigir estruturas transdisciplinares 
para cuidar e reabilitar pessoas, 
inclusive profissionais da saúde, 
física e psiquicamente. Sem dúvida, 
haverá necessidade de organização 
de serviços dessa natureza, uma 
vez que estudos observacionais já 
revelaram, através de várias publica-
ções inclusive brasileiras, que cerca 
de 58% dos que passam pela do-
ença saem com alguma sequela. A 
duração, se temporária ou indelével, 
desconhecemos, visto que para essa 
resposta não temos ainda um recuo 
histórico que nos permita responder.
Muitos abriram mão 
de suas famílias e vida 
pessoal por longas 
semanas, ficando em 
hotéis para se dedicar 
aos pacientes com paixão 
e compromisso, mesmo 
diante do risco e do 
desconhecido. 
Mais do que qualquer retórica, 
ou reflexão teórica, a magnitude 
da pandemia atual, e outras que 
sabidamente ocorrerão, exige 
intervenções corajosas, inovado-
ras, globais, regionais, nacionais e 
locais, sobretudo para proteger os 
mais necessitados, para as quais a 
ciência, a saúde pública, a assistên-
cia e os movimentos sociais podem 
contribuir decisivamente. A historia-
dora médica alemã, Barbara Duden 
(1942-), que foi grande colaboradora 
do pensador e polímata Ivan Illitch 
(1926-2002), nos ensina que, na 
saúde e na medicina em particular, 
temos que compreender que não 
são de técnicas e de instituições que 
precisamos nos libertar, 
como dos dog-
mas, mas da 
representa-
ção e do 
modo 
de 
percepção que elas podem gerar. 
Isso poderia ser traduzido para os 
dias atuais a partir dos conceitos de 
equidade (ou acesso) e transdisci-
plinaridade, tão necessários, sus-
tentáculos de qualquer modelo de 
trabalho sanitário bem-sucedido. 
Gostaríamos de dizer à exaustão e 
acreditar que nenhum ser humano 
pode mais ser deixado para trás.
REFERÊNCIAS:
1. Dalcolmo M. Um tempo para não esquecer. Ed. 
Bazar do tempo, 2021.
2. Bauman Zygmunt. Vida Líquida. Editora Zahar, 
2005
3. The impact of COVID-19 on health and care 
workers: a closer look at deaths. Health Workforce 
Department – Working Paper 1. Geneva: World 
Health Organization; September 2021 (WHO/
HWF/WorkingPaper/2021.1). Licence: CC BY-NC-
SA 3.0 IGO.
4. Prince M, Patel V, Saxena S, Maj M, Maselko J, 
Phillips MR, Rahman A. No health without mental 
health. Lancet. 2007 Sep 8;370(9590):859-77. 
doi: 10.1016/S0140-6736(07)61238-0.
13GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 2
A importância de cuidar
de quem cuida
Cláudio Laks Eizirik
Professor titular aposentado da Universidade 
Federal do Rio Grande do Sul, membro do corpo clínico 
do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, analista didata 
da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre e 
ex-presidente da Associação Psicanalítica Internacional.
14 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Este capítulo tem como objetivo 
central abordar a importância dos 
cuidados com o bem-estar e equilí-
brio emocional dos profissionais de 
saúde, enfatizando meios e estra-
tégias para atingir tal objetivo e os 
riscos de se abandonar este acom-
panhamento2.
Como sabemos, os profissionais de 
saúde constituemuma das camadas 
da população mais expostas à situa-
ção de ameaças ao seu bem-estar e 
equilíbrio emocional. Toda a forma-
ção desses profissionais enfatiza, 
de forma prioritária, a aquisição 
de conhecimentos, habilidades e 
atitudes que os capacitem a enten-
der e atender os sofrimentos físicos 
e psíquicos de seus pacientes. Além 
da carga de estudos, atividades 
práticas, estágios em serviços de 
saúde, plantões e os requisitos 
cada vez mais exigentes de uma 
formação acadêmica de qualidade, 
esses profissionais são lançados em 
um mercado de trabalho altamente 
competitivo, no qual não basta con-
seguir uma posição, mas é preciso 
mantê-la.
Não faz parte dos currículos de 
formação acadêmica, nem dos de 
pós-graduação strictu ou lato senso, 
uma ênfase ou mesmo um olhar 
mais atento à qualidade de vida e 
aos elementos que podem favorecer 
ou prejudicar o bem-estar emocio-
nal. Pode-se, assim, afirmar que na 
mente de um profissional de saúde, 
salvo exceções, os valores interna-
lizados, as identificações com o que 
é supostamente desejável e com os 
modelos de professores e colegas 
bem sucedidos e admirados privile-
giam a eficiência, os bons resultados 
e o bem-estar dos pacientes. Os 
que cuidam ficam, necessariamen-
te, colocados em segundo plano 
e, algumas vezes, a preocupação 
com os aspectos emocionais, com o 
impacto das situações traumáticas 
atendidas, com o equilíbrio entre 
horas de trabalho e de lazer, com os 
períodos de repouso e com as férias 
periódicas, pode ser tomada ou sen-
tida como manifestação de fraqueza 
ou de incapacidade.
A consequência dessa lacuna é o 
risco para a saúde física e emocional 
dos profissionais de saúde, como 
vários estudos têm demonstrado1,2,8.
Assim, a importância deste tema se 
inicia por uma necessária mudança 
da mentalidade vigente, para incluir 
a dimensão do cuidado de quem 
cuida.
A partir dessas considerações, des-
tacarei alguns aspectos relevantes 
acerca do que significa e de onde 
se provém a noção de cuidado, a 
questão do cuidado de quem cuida 
na pandemia e algumas sugestões 
sobre como nossos governos e 
nossas instituições de saúde e de 
educação podem tornar tal atenção 
mais eficiente.
O que significa o cuidado?
Como destaca em seu minucioso 
estudo sobre o cuidado Marisa 
Eizirik (2013), 
cuidado vem de cura’’ (latim). Curare, 
curae em latim retoma o sentido grego 
das Kurion, que são as coisas de impor-
tância primordial, as Kuriotata, as mais 
sérias. Aqueles que devem decidir pelos 
outros, os governantes, têm o “cura”, 
a responsabilidade prática. Curiosida-
de, filha do cura, já é encontrada em 
Aristóteles, como a surpresa seguida da 
pesquisa das causas e dos princípios, 
e que fixa o homem à sua natureza 
como alguém que naturalmente deseja 
saber. O cuidado de si e o cuidado de 
sua vida são a expressão indiscutível de 
uma preocupação única, porque a vida 
humana é o lugar das práticas sociais. 
As disposições e normas inscritas na 
natureza do homem só poderão se 
desenvolver na dimensão da existência 
humana, concebida como uma prática, 
um agir onde o homem é o autor, que 
delibera, deseja, age e justifica suas 
ações. Conhecer a si mesmo é cuidar de 
si, é promover um melhoramento de si.5
De acordo com a autora, seis sécu-
los antes de nossa era (por volta de 
600 a.C.), pessoas originárias de di-
versas regiões gregas, batizadas de 
Os Sete Sábios, fizeram inscrever, 
no frontão do templo de Apolo, em 
Delphos, breves sentenças resu-
mindo os imperativos da existência 
humana. Uma delas, proposta por 
Chilon, de Esparta, se tornou funda-
mental em nossa civilização: Gnothi 
seauton, Conhece-te a ti mesmo.
O mundo que existia era gover-
nado pelos deuses, e os homens 
eram seus instrumentos. Os sábios 
advertiam contra a hybris, a des-
mesura, que é sempre arriscada, 
por ultrapassar a medida dada aos 
humanos e, assim, incorrer na cólera 
dos deuses e se precipitar na infe-
licidade. Sonhos intensos de poder, 
vontade de se igualar aos deuses, 
furor ou entusiasmo destrutivo, 
exaltação de si e ambição de saber 
tudo, estas são as tentações que 
devemos combater. Conhecer-se 
a si mesmo significava, pois, não a 
exploração da própria interioridade, 
mas a consciência de seus limites. 
Nada mais que humanos, devemos 
controlar e diminuir nossas preten-
sões.
Em certo momento da evolução do 
pensamento, porém, as formas míti-
cas de entender e explicar o mundo 
não conseguiam mais responder às 
inquietações e perplexidades. Entra 
em formação outra mentalidade, um 
modo de pensar, buscando expli-
cações mais lógicas e racionais dos 
fenômenos da realidade, aliás uma 
contraposição que ainda se observa 
na atualidade3. 
Neste momento, comenta Eizirik 
(MF, 2013), 
vemos desenvolver-se, entre o fim do 
século VII e o fim do século VI a.C., uma 
nova forma de pensamento, que marca 
para o Ocidente o início da Filosofia. Em 
Mileto surgem os primeiros filósofos 
– Tales, Anaximandro e Anaxímenes, 
os primeiros a abordar, de um modo 
surpreendentemente novo, os mais 
profundos problemas da vida: o da 
origem e essência do mundo.5
A realidade era chamada, por esses 
filósofos, de physis, que significa 
“natureza”. Encaravam e observa-
vam, de forma muito diferente do 
que até então viam acontecer no 
mundo. A grande revolução do pen-
samento se dava através da busca 
de uma explicação racional, argu-
mentada logicamente, para explicar 
a realidade.
Dentre estes, Heráclito de Éfeso 
(540 -476 a.C) rompeu com as 
formas dogmáticas de pensar um 
único caminho para descrever a 
natureza. Salientava a necessida-
de de autonomia do pensamento. 
Acreditava na mutabilidade cons-
tante do universo, na harmonia das 
forças opostas. Para ele, o princípio 
de unidade profunda é o próprio 
movimento. Tudo muda, nada per-
15GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
manece o 
mesmo.
A mudança 
que aconte-
ceu no mundo 
e no pensamento 
grego, acompa-
nhando as mudanças 
políticas e sociais da 
época, foi a passagem da 
physis para a methaphy-
sis. A novidade trazida por 
Sócrates foi a de acrescen-
tar ao pensamento sobre o 
ser, a noção de modo de 
ser, ethos, inaugurando 
a ética como campo de 
reflexão, como matéria 
filosófica. O que se inova 
é a inserção do homem 
na reflexão filosófica e 
na consciência do cuida-
do como constitutiva da 
humanidade.
Sendo preceitos constitutivos 
da humanidade, ética, cuidado de 
si, hybris, são características comu-
mente encontradas nos profissionais 
de saúde, nos quais a hybris pode 
dificultar o reconhecimento dos 
próprios limites, impedindo-os, mui-
tas vezes, de dimensionar os reais 
alcances e possibilidades de sua 
capacidade física e psíquica.
Disso podem advir, nos cuidadores, 
sentimentos de onipotência, nar-
cisismo, invulnerabilidade, por um 
lado e por outro de fracasso, impo-
tência, culpa, depressão, ansiedade, 
causadores de profundo sofrimento 
psíquico. Esses sinais precisam ser 
levados em conta pelos cuidadores, 
e pelos que cuidam deles.
O cuidado de quem cuida na 
pandemia
Ainda vivemos sob a sombra, em-
bora cada vez menos ameaçadora, 
dessa estranha experiência pandê-
mica, ao mesmo tempo individual 
e planetária, como diz o filósofo 
francês Roger Pol-Droit, que nos 
obrigou, segundo ele, a enfrentar 
o enigma do aleatório num mun-
do que pretendia eliminar o azar e 
controlar tudo, e teve que conviver 
com o imprevisto, o imprevisível, o 
incontrolável, as nossas fragilidades 
e a concretude da morte.
Quando consegui formular algumas 
ideias sobre esse momento históri-
co, pela primeira vez, uma imagem 
que me ocorreu, lembrando épocas 
antigas e seus desafios, era a de que 
estávamos percorrendo um território 
não mapeado, em quase todos os 
sentidos, e, no que nos diz respeito, 
na nossa prática clínica.
Observei que, no início, predominava 
a ansiedade bilateral, entre os que 
cuidavam e os que eram cuidados, 
e em dar conta da invasão inevitá-
vel da realidade externa, com sua 
imprevisibilidade, o medo do contá-
gio, da doençae da morte própria e 
de pessoas queridas, a estranheza, 
formas de manter alguma assimetria 
e afinal realizar as tarefas necessá-
rias na função de cuidador3,4.
É importante assinalar que a palavra 
CUIDADOR contém, em sua matriz, 
CUIDAR e DOR.
Os profissionais de saúde passaram 
a vivenciar, cotidianamente, o des-
gaste emocional por terem que lidar 
com fatores estressores no ambien-
te de trabalho que se exacerbaram 
por conta da pandemia.
Em relação às repercussões mentais 
nesse período, podem-se destacar 
desesperança, desespero, medo 
incremen-
tado da 
morte de si 
mesmo e de 
familiares, medo 
de ser infectado 
e de infectar, necessi-
dade de enfrentar medidas de 
isolamento social, que podem 
facilitar o surgimento de estresse 
pós-traumático, sintomas depressi-
vos e ansiosos e ideação ou conduta 
suicida2. 
Ao contrário do que ocorre usual-
mente, quando os papéis de cuida-
dor e de cuidado estão razoavel-
mente bem definidos, durante a 
pandemia se observou o fenô-
meno dos mundos superpostos, 
descrito por Puget e Wender 
(1982), em que paciente e 
psicanalista compartilham uma 
mesma situação social que os 
afeta e ameaça igualmente, e 
que torna a assimetria natural 
dessa relação impossível6.
De maneira similar, observei a pre-
sença desse fenômeno durante as 
várias situações clínicas que atendi 
ou supervisionei durante a pan-
demia, que incluíam residentes de 
psiquiatria, psicólogos e médicos em 
formação psicanalítica.
Os profissionais de saúde 
passaram a vivenciar, 
cotidianamente, o 
desgaste emocional 
por terem que lidar com 
fatores estressores no 
ambiente de trabalho que 
se exacerbaram por conta 
da pandemia.
Puget (2003) destacou que, diante 
do novo, do imprevisível, do senti-
mento de vazio e de desamparo pela 
falta de modelos conhecidos (ou o 
território não mapeado que des-
crevi), uma defesa frequentemente 
usada é transformar o desconhecido 
em conhecido, o imprevisível em 
previsível. Assim, nesse momento 
de pandemia, não só a chegada do 
coronavírus foi algo novo, como a 
16 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
própria relação entre cuidadores 
e cuidados passou a ser7.
A sobrecarga física e emocio-
nal dos cuidadores que, muitas 
vezes, levava ao burnout, 
incluía um clima social em que 
se debatiam, de um lado, as 
instâncias governamentais e 
os profissionais de saúde que 
se empenhavam intensamen-
te nas medidas de atendimento 
dos pacientes infectados e nas de 
prevenção indispensável, e de outro 
os setores governamentais, algumas 
instituições de saúde e muitos pro-
fissionais de saúde que abraçavam 
opiniões e posições negacionistas 
e uma militância agressiva contra 
as medidas sanitárias preconizadas 
pela OMS. 
Pode-se relacionar essa dissociação, 
ou a existência dessas duas formas 
de encarar a mesma realidade, com 
a questão da imprevisibilidade des-
tacada anteriormente, e a busca de 
uma previsibilidade possível. Face à 
ameaça e aos riscos produzidos pela 
pandemia, a procura de certezas 
se acentuou, e a vulnerabilidade a 
que todas e todos estavam sujeitos 
contribuiu para um acirramento de 
posições antagônicas.
Além da relevância de todos esses 
fatores, por si mesmos, no período 
agudo e mesmo após a chegada 
das vacinas, quero enfatizar que a 
pandemia ofereceu uma espécie 
de laboratório social, emocional e 
antropológico, em que a questão da 
importância de cuidar dos cuidado-
res assumiu proporções dramáticas.
 
Que medidas poderiam 
proporcionar um cuidado mais 
efetivo aos que cuidam?
 
Os seguintes fatores poderiam con-
tribuir neste sentido:
 
• Assumir a consciência de que a 
mentalidade ainda prevalente não 
reconhece a necessidade e relevân-
cia de cuidar de quem cuida, o que 
pode ser um passo decisivo para 
uma mudança dessa mentalidade. 
• Incluir conteúdos teóricos, prá-
ticos e dados de pesquisa sobre a 
relevância da qualidade de vida dos 
profissionais de saúde e de medidas 
concretas sobre o cuidado com sua 
saúde física e mental, nos cursos de 
graduação e pós graduação. 
• Estimular mais pesquisas sobre a 
saúde mental dos profissionais de 
todas as áreas do campo da saúde.
• Manter e ampliar os programas 
intitulados Cuidando de quem cuida, 
que já existem em vários estados do 
Brasil. 
• Estimular o olhar sobre si mesmo, 
e ficar atento aos sinais de sofrimen-
to psíquico que aparecem direta ou 
indiretamente (sob a forma de alte-
rações ou sintomas físicos, mudança 
de comportamento consigo mesmo 
ou nas relações com os demais, 
depressão, ansiedade, sentimentos 
de infelicidade, etc). 
• Estimular a procura de tratamento 
psicoterápico e/ou medicamentoso 
quando tais sinais são identificados. 
• Estimular os profissionais de 
saúde a manter e desenvolver redes 
sociais com colegas, nas quais seja 
possível compartilhar as experiên-
cias de trabalho e de vida e buscar 
apoio recíproco.
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Buenos Aires:APA Editorial, 2021.
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7. Puget, J, Intersubjetividad:crisis de la 
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8. Toledo Batello, GVL et al. Cuidadores de idosos 
em situação de pandemia: reflexões sobre o cuidar 
e ser cuidado https://publicações.abennacional.
org.br/wp-content/uploads/2021/03/e2-
geronto2-cap3.pdf
17GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 3
Lidando com cenários complexos: 
como tomar decisões num mundo 
polarizado, com dados científicos 
ainda em construção e assolado 
por fake news?
Natalia Pasternak
Microbiologista, com PhD e pós-doutorado em 
Microbiologia, na área de Genética Bacteriana 
na Universidade de São Paulo. Atua como 
colunista para o jornal “O Globo”, para a revista 
The Skeptic e para o site Medscape (WebMD). 
Também apresenta o programa bissemanal “A 
Hora da Ciência” na Rádio CBN.
18 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Processos decisórios em políticas 
públicas são motivados por per-
cepções construídas em cima de 
preferências pessoais e ideologias, 
muitas vezes sem que o gestor se 
dê conta de que este processo não é 
essencialmente racional e baseado 
na melhor evidência científica dispo-
nível. O mesmo ocorre com decisões 
tomadas pelo cidadão comum. 
Decisões que vão desde questões 
simples, como qual alimento esco-
lher no mercado - o senso comum 
nos diz que alimentos orgânicos 
seriam superiores, e pode ser que 
tenhamos um certo medo do selo 
dos transgênicos – até questões de 
saúde, como a decisão de vacinar 
ou não os filhos, passam pelo que o 
cidadão e o gestor compreendem de 
ciência e de evidências científicas.
Faz-se necessário, portanto, conhe-
cer sobre método científico e como 
as evidências são construídas, nas 
mais diversas áreas. É preciso tam-
bém compreender nossas próprias 
limitações e vieses cognitivos que 
interferem no processo decisório.
Compreender a ciência requer um 
conhecimento mínimo de como a 
ciência e os processos científicos 
funcionam, mas não requer uma 
educação formal e acadêmica, ou ter 
formação em medicina e/ou saúde, 
ou outras carreiras científicas.
Trata-se de letramento científi-
co como uma ferramenta para o 
exercício consciente de cidada-
nia.
 
Infelizmente, tomadores de deci-sões, parlamentares e membros 
do executivo não têm, em geral, a 
preparação adequada para avaliar 
evidências científicas e levá-las 
em conta no processo decisório. A 
carreira em gestão pública valoriza 
conhecimento básico em economia, 
direito e administração pública, mas 
a ciência costuma ficar fora do radar. 
A pandemia de Covid-19 mostrou 
que essa percepção está errada.
Políticas públicas de saúde basea-
das em posicionamento político e 
ideológico tornaram-se comuns ao 
redor do mundo, a desinformação 
sobre vacinas e tratamentos causou 
mortes desnecessárias e impediu 
coberturas vacinais eficazes. Toma-
dores de decisões encaram, agora, 
o desafio de navegar em um mar de 
desinformação, com a responsabili-
dade de decidir o que é baseado em 
ciência e o que não é, sem ter rece-
bido qualquer tipo de treinamento 
específico para isso. Consultar 
especialistas é uma opção, mas nem 
sempre a melhor, porque mesmo 
médicos especialistas, que cos-
tumam oferecer aconselhamento 
científico para governos, raramente 
têm treinamento específico para 
este trabalho.
Durante a pandemia de Covid-19, 
este mau aconselhamento levou 
ao uso indiscriminado de curas 
milagrosas, como hidroxicloroqui-
na e ivermectina1, e antes ainda, 
à adoção de práticas alternativas 
sem lastro em evidência no Sistema 
Único de Saúde2.
Separar ciência de pseudociência e 
ciência picareta tornou-se, assim, 
uma questão de saúde pública e 
uma ferramenta no processo deci-
sório3. Mas como o cidadão comum 
e o tomador de decisões podem 
aprender a lidar com a 
desinformação, 
que muitas 
vezes vem 
dos pró-
prios 
governos e autoridades de saúde? 
Some-se a isso o fato de que a 
própria revisão pelos pares é um 
sistema imperfeito, e a pressão 
para publicar – do inglês “publish or 
perish” – acaba levando a um sem 
número de artigos científicos que 
extrapolam mais dos dados apre-
sentados do que seria possível, con-
fundindo público e jornalistas, que 
acabam transformando experimen-
tos preliminares em recomendações 
de saúde4. Emergências sanitárias, 
como a pandemia, deixaram claro 
que é urgente fortalecer a comu-
nicação de ciência e de risco, tanto 
local como globalmente, e estabe-
lecer diretrizes – preferencialmente 
internacionais – indicando 
como e onde procurar informação 
baseada em evidências.
O controle de doenças infecciosas 
e epidemias e de ameaças globais, 
como mudanças climáticas e des-
matamento, requerem mudanças 
de comportamento das pessoas. 
Mudar comportamento envolve 
um programa de convencimento e 
comunicação, no qual gestores pú-
blicos precisam ser capazes de fazer 
este apelo com uma mensagem que 
justifique decisões e políticas públi-
cas. Devem conseguir explicar para 
a popula-
ção, 
“A primeira regra é não nos enganarmos. E nós somos as pessoas mais fáceis de enganar”.
Richard Feynman
19GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
por exemplo, que proibir cigarros em 
locais fechados está baseado em 
evidências de que o fumo passivo 
também pode causar câncer de 
pulmão, ou que exigir vacinação 
completa para auxílios governamen-
tais é baseado na melhor evidência 
de práticas de saúde pública5. 
Modificar o comportamento das 
pessoas não é tarefa fácil. Estudos 
já demonstraram que fazer com 
que pessoas reconheçam o aque-
cimento global como real e mudem 
de atitude para acomodar ações 
de mitigação é algo que requer um 
investimento robusto em letramento 
científico6. Ninguém vai, volunta-
riamente, parar de usar carros e 
nenhum governo vai, ativamente, 
investir em energia limpa sem uma 
explicação muito clara e um trabalho 
de convencimento de que isso é es-
sencial para garantir uma exploração 
sustentável do planeta e a continui-
dade da nossa própria espécie.
Ao mesmo tempo, desinformação e 
movimentos anticiência fornecem os 
argumentos perfeitos para endos-
sar comportamentos já existentes e 
escolhas ruins. O negacionismo en-
contra eco no comodismo. Afinal, se 
eu aceito que o aquecimento global 
é real, e causado pela humanidade, 
tenho que agir. Como cidadão, é 
esperado que eu use menos o carro, 
coma menos carne. Como gestor, 
espera-se que eu implemente uma 
política de créditos de carbono, 
priorize investimentos em fontes de 
energia limpa, regularmente uma 
melhor proteção ao meio ambiente 
e de atividades que emitem gases 
de efeito estufa. Mas se tiver bons 
argumentos de que o aquecimento 
global na verdade não é tão grave 
assim, o mundo sempre esquentou 
e esfriou, é natural, ou que pelo me-
nos, eu possa dizer que a causa não 
é de atividade humana, então não 
preciso mudar meu comportamento. 
Na verdade, não preciso fazer nada, 
porque não há nada a ser feito. O 
negacionismo é usado como uma 
ferramenta para justificar a omissão, 
o não fazer. 
Outro motivo que faz com que a 
desinformação seja tão atraen-
te é justamente porque ela apela 
para argumentos que fazem parte 
do “senso comum”, ou do que o 
psicólogo Jonatahn Haidt chama de 
“fundações morais”. Em seu livro 
“A Mente Moralista”7, Haidt sugere 
que seis valores definem a noção de 
moralidade de cada pessoa: cuidado, 
justiça, liberdade, lealdade, autori-
dade e pureza. Diferentes grupos 
sociais (ou mesmo indivíduos) dão 
diferentes pesos a cada um desses 
valores, e a combinação desses 
pesos define uma visão particular de 
certo e errado, tolerável e inaceitá-
vel. O movimento antivacinas, para 
citar um exemplo de movimento 
negacionista organizado, explora 
claramente ao menos quatro dessas 
seis fundações.
A ciência trabalha com 
verdades provisórias, e 
não verdades absolutas. 
Saber comunicar este fato 
com clareza e honestidade 
é o primeiro passo para 
que tanto o gestor público 
como o cidadão possam 
fazer escolhas racionais.
A liberdade aparece na questão da 
interferência do Estado, levando o 
movimento antivacinas para o es-
pectro político e ideológico da direita 
conservadora. A pureza explora 
o fato de que as vacinas não são 
naturais, as doenças são. Também 
se encaixa aí o medo das vacinas 
genéticas, e a desinformação de 
que poderiam “interferir” no DNA 
humano. A justiça apela para o fato 
de que as vacinas são fabricadas por 
multinacionais poderosas, movidas 
pela ganância, e o cuidado nos leva 
novamente para a família conser-
vadora onde a mãe, vista como a 
responsável pelas decisões sobre a 
saúde dos filhos, é também culpada 
por qualquer mal que lhes aconteça. 
Não é por acaso que o movimento 
antivacinas dirige sua propaganda 
nas mídias sociais diretamente a 
mães8. Mulheres com filhos peque-
nos são aterrorizadas com fotos de 
crianças com supostas sequelas de 
vacinas, e com histórias de horror 
de mortes e doenças causadas pela 
vacinação.
Neste caso, fica claro que a desin-
formação, gerada pelo movimento 
antivacinas, mais as fundações 
morais do “senso comum”, suprem 
as desculpas ideais para justificar 
escolhas irracionais. O processo 
decisório, que deveria ser baseado 
em evidências, foi corrompido por 
irracionalidade e negacionismo. 
Como navegar, então neste mar de 
incertezas, informações falsas e ao 
mesmo tempo acompanhar o pro-
cesso da ciência?
Primeiro, é preciso aceitar que a 
ciência é baseada em incertezas. O 
processo científico, que permite o 
desenvolvimento de tecnologias e o 
progresso da civilização, é baseado 
em perguntas, não em respostas. 
A ciência trabalha com verdades 
provisórias, e não verdades absolu-
tas. Saber comunicar este fato com 
clareza e honestidade é o primei-
ro passo para que tanto o gestor 
público como o cidadão possam 
fazer escolhas racionais. Ao mesmo 
tempo, é preciso ensinar pensamen-
to crítico para evitar que as pessoas 
sejam enganadas com falsas cer-
tezas vendidas pelos movimentos 
negacionistas.
A pseudociência e a ciência pica-
reta oferecem certezas absolutas, 
na forma da cura do câncer e de 
doenças neurodegenerativas, do 
estilo de vida “natural e saudável” 
que exclui vacinas e medicamentos, 
os alimentos que curam tudo desde 
unha encravadas até depressão, eque estariam disponíveis se “eles” 
não os escondessem de você. As 
teorias conspiratórias, as culpas e as 
certezas da desinformação em saú-
de produzem o conforto necessário 
para que pessoas ignorem a ciência, 
o desconhecido, a incerteza.
Melhorar esta comunicação passa 
por investimento em letramen-
to científico e ensino de ciências. 
Letramento científico se faz com boa 
comunicação de ciência, garantin-
do que a informação de qualidade 
circule, com linguagem adequada 
e acessível, em veículos diferentes 
para públicos diversos. Checagem 
de fatos e técnicas de inoculação 
contra a desinformação – expor as 
estratégias e falácias argumentati-
vas dos negacionistas - são ferra-
20 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
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pone.0175799
mentas úteis9. Melhorar o ensino de 
ciências é imperativo se quisermos 
formar cidadãos mais racionais e 
menos vulneráveis à desinformação. 
O ensino de ciências é, na maioria 
dos casos, extremamente conteu-
dista. Ciência é ensinada como um 
corpo de conhecimento, algo rígido, 
imutável, que precisa ser memoriza-
do e que será testado com respostas 
de “sim” ou “não”, ou de múltiplas 
escolhas onde somente uma está 
correta.
O problema é que o processo cientí-
fico é exatamente o oposto disto. A 
ciência não é fixa, dogmática, imu-
tável. E raramente pode ser classifi-
cada em respostas simples de certo 
e errado. Muito mais importante do 
que ensinar para crianças e jovens 
que a Terra é redonda – ou uma es-
fera imperfeita -, é ensiná-los quais 
experimentos foram feitos, muito 
antes de termos viagens espaciais, 
que permitiram tirar conclusões 
sobre o formato da Terra. 
Será que podemos mesmo rir dos 
terraplanistas sem saber explicar o 
experimento de Eratóstenes feito na 
Grécia antiga, há dois mil anos?
Se não mudarmos nosso ensino 
de ciências para uma forma menos 
conteudista, que abrace as incer-
tezas e o processo investigativo, 
teremos sempre uma população 
vulnerável aos vendedores de 
certezas e de desinformação. As 
certezas absolutas dos negacionis-
tas e propagadores de desinforma-
ção serão sempre mais atraentes e 
reconfortantes do que as verdades 
provisórias da ciência.
Cabe a nós, portanto, cientistas, 
comunicadores de ciência, 
professores e gestores 
públicos de saúde, esta-
belecer diretrizes para 
uma boa comunicação 
com a sociedade, dispo-
nibilizando não somente 
a informação, mas a 
formação adequada para 
que a população consiga 
se proteger dos charla-
tões, e reconhecer vieses 
ideológicos e políticos que 
dificultam a tomada de 
decisões racionais. Reco-
nhecer nossa própria capaci-
dade de sermos enganados é 
o primeiro passo.
21GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 4
Christian Haag Kristensen
Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia na 
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), 
Coordenador do Grupo de Pesquisa Cognição, Emoção e Comportamento 
e Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse 
(NEPTE-PUCRS).
Pandemia de Covid-19, 
burnout e estresse traumático
22 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Transcorridos mais de dois anos 
desde o início da pandemia de Co-
vid-19, são notáveis os efeitos desta 
na saúde mental, no mundo1 e no 
Brasil,2 em diferentes faixas etárias, 
como crianças3 e idosos4. Entre os 
diferentes fatores de risco para saú-
de mental associados à pandemia, 
podem ser destacados o sofrimento, 
causado pelo isolamento social; 
a solidão; o medo de conta-
minação; o sofrimento, 
causado pela morte de 
entes próximos; luto, 
decorrente destas 
perdas; e mesmo 
preocupações 
financeiras, 
entre outros5.
Conceituar-
mos a pan-
demia como 
um estressor 
crônico é útil 
para a com-
preensão dos 
fatores de risco 
(e proteção), 
mecanismos e 
processos asso-
ciados, desfechos 
negativos e interven-
ções (incluindo prevenção e 
tratamento). Um levantamento da 
Organização Mundial de Saúde 
em 130 países mostrava, ainda em 
2020, que a pandemia, como um 
estressor crônico, interrompeu ou 
prejudicou serviços essenciais de 
saúde mental em 93% dos paí-
ses em todo o mundo, enquanto 
aumentava a demanda por saúde 
mental.6 Ou seja, não apenas a pan-
demia aumentou os fatores de risco, 
mas também reduziu os fatores de 
proteção a desfechos mais favorá-
veis à saúde mental.
Desta forma, recente revisão global 
de estudos na área7 apontou um 
aumento significativo de proble-
mas de saúde mental na população 
geral no primeiro ano da pandemia, 
incluindo aumento do Transtorno 
Depressivo Maior em 27,6% (IC 
95%: 25,1–30,3%) e Transtornos 
de Ansiedade em 25,6% (IC 95%: 
23,2–28,0%). Ainda, a solidão e 
diagnóstico positivo da Covid-19 au-
mentaram o risco de pensamentos 
suicidas na população geral e, quan-
do associados à presença de exaus-
tão e esgotamento, o risco para 
este fenômeno em profissionais de 
saúde. De fato, de forma consisten-
te, diferentes estudos indicaram que 
profissionais de saúde constituem 
uma população em risco aumenta-
do para transtornos mentais, não 
apenas na pandemia de Covid-198,9, 
como em outras 
pandemias por doenças infecciosas 
anteriormente investigadas10. 
O objetivo deste capítulo é apresen-
tar uma rápida revisão dos efeitos 
da pandemia de Covid-19 em pro-
fissionais de saúde, com ênfase nos 
transtornos relacionados a trauma e 
estressores e na Síndrome de Bur-
nout, e abordar os principais fatores 
de risco e estratégias que poten-
cializem os fatores de proteção, 
visando a promoção de desfechos 
mais positivos em saúde mental.
 
Síndrome de Burnout
 
Burnout é uma síndrome incluí-
da na 11a Edição da Classificação 
Internacional de Doenças (CID-11)11 
como um fenômeno ocupacional. 
É o resultado do estresse crônico 
no local de trabalho que não foi 
manejado de forma bem-sucedida. 
É caracterizada por três dimen-
sões: sentimento de exaustão ou 
depleção de energia; aumento do 
distanciamento mental do trabalho, 
ou sentimentos de negativismo ou 
cinismo relacionados ao trabalho; 
e sensação de ineficácia e falta de 
realização. A Síndrome de Burnout 
é um fenômeno bastante estudado 
em diferentes categorias profis-
sionais no Brasil, tanto na área de 
educação quanto na 
saúde, entre os 
quais, psicólo-
gos,12 enfer-
meiros13 emédicos.14 E 
está associa-
da a vários 
desfechos 
negativos em 
saúde física 
(e.g., hiperco-
lesterolemia, 
diabetes tipo 
2) e mental 
(e.g., insônia, 
sintomas depres-
sivos), bem como 
em problemas 
ocupacionais (ab-
senteísmo, presen-
teísmo)15. Claramente, 
estes impactos no 
indivíduo apresentam 
consequências para o 
sistema de saúde e para 
os pacientes, pois implica 
ainda em turnover aumentado entre 
os profissionais, redução da produ-
tividade e redução na qualidade do 
cuidado16.
Problemas relacionados à carga 
elevada de trabalho e à perda de 
qualidade de vida estão associa-
dos à exaustão física e mental na 
pandemia17. Nesta mesma revisão, a 
prevalência de burnout foi estimada 
em um intervalo de 23% a 76% para 
profissionais de saúde. Em estudo 
de metanálise, a prevalência da sín-
drome foi de 52% em profissionais 
de saúde (IC 95%: 40–63%), sendo 
os sintomas nas dimensões de 
exaustão emocional (51%) e desper-
sonalização (52%) mais prevalentes 
que sintomas de falta de realização 
pessoal (28%)18. Ser um profissional 
que atua na linha de frente, gênero 
feminino e ser profissional de enfer-
magem são fatores que aumentam 
o risco de desenvolver burnout no 
contexto da pandemia19-21.
 
23GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Transtorno de Estresse 
Pós-Traumático
 
O TEPT é uma síndrome que pode 
se desenvolver após a exposição 
a um evento ou série de eventos 
extremamente ameaçadores ou 
horríveis. De acordo com os critérios 
da CID-11, TEPT se caracteriza pelos 
seguintes fatores: (a) re-experiência 
do evento ou eventos traumáticos 
no presente sob a forma de memó-
rias vívidas intrusivas, flashbacks ou 
pesadelos; (b) evitar pensamentos 
e memórias do evento ou eventos, 
ou evitar atividades, situações ou 
pessoas que lembrem o(s) evento(s); 
(c) percepções persistentes de uma 
ameaça atual elevada, por exemplo, 
como indicado pela hipervigilância 
ou por uma reação de sobressalto 
aumentada a estímulos tais como 
ruídos inesperados22 .
Os sintomas do TEPT se mantêm 
por pelo menos várias semanas e 
causam prejuízos significativos nas 
áreas pessoal, familiar, social, educa-
cional, ocupacional ou outras áreas 
importantes de funcionamento. Está 
associado a elevada comorbidade 
com outros transtornos mentais,23 
risco aumentado para doenças físi-
cas24 e alto impacto social e econô-
mico25. 
Em uma metanálise com 77 
estudos informando prevalência 
de TEPT após pandemias por 
doenças infecciosas (incluindo 
Covid-19)10, verificou-se que 
a prevalência deste transtorno 
entre profissionais de saúde 
é elevada (26,9% [IC 95%: 
20,3–33,6%]), sendo inclusi-
ve superior àquelas observa-
das em pacientes infectados 
(23,8%) e na população 
geral (19,3%). Em metanálise 
recente26, a prevalência deste 
transtorno entre profissio-
nais de saúde foi de 17,2% 
(IC 95%: 11,8–24,5%). Neste 
mesmo estudo, profissionais 
que atuavam na linha de fren-
te em unidades de Covid-19 
apresentaram prevalência 
muito mais elevada (30,9%) do 
que profissionais que não atu-
avam nessas unidades (13,8%). 
Ainda, entre os profissionais de 
saúde, a maior prevalência de 
TEPT foi identificada em enfermei-
ros (28,2% [IC 95%: 15,8–45,1%]), 
seguido por médicos (10,8% [IC 
95%: 6,1–18,4%]) e outros profis-
sionais (7,7% [IC 95%: 4,4–12,2%]). 
Para o diagnóstico do TEPT, tanto 
no sistema classificatório da CID-11, 
quanto no sistema do Manual Diag-
nóstico e Estatístico de Transtornos 
Mentais (DSM-5)27, há necessidade 
de que seja estabelecida a exposição 
a um evento (ou série de eventos) 
que se caracterize como ameaça à 
vida ou integridade física (Critério A, 
no DSM-5). Embora não exista dú-
vida de que a pandemia de Covid-19 
se caracterize como um estressor 
crônico, há extensa literatura deba-
tendo se a mesma pode, de forma 
generalizada, ser classificada como 
um evento estressor potencialmen-
te traumático28-30 ou se haveria a 
necessidade de maior especificidade 
para este o estabelecimento deste 
critério diagnóstico31,32. Especifica-
mente em profissionais de saúde, as 
seguintes situações poderiam se ca-
racterizar como um evento estressor 
traumático (Critério A) para TEPT: ser 
sobrecarregado pela magnitude da 
exposição ou testemunhar pacientes 
com Covid gravemente doentes ou 
morrendo; exposição como profis-
sional de 
saúde sem equipamento de prote-
ção individual (EPI) adequado32 .
De qualquer forma, tomados em 
conjunto, os dados de prevalência 
de TEPT em profissionais de saúde 
são preocupantes, especialmente 
se considerarmos o curso temporal 
deste transtorno. Estudo de metaná-
lise8, avaliando sintomas pós-trau-
máticos em profissionais de saúde 
no enfrentamento de pandemias 
(Covid-19; Síndrome Respiratória 
Aguda Grave - SAR; Síndrome Res-
piratória do Oriente Médio - MERS), 
revelou que os sintomas pós-trau-
máticos, apesar de serem mais pre-
valentes na fase aguda da pandemia 
(23,4% [IC 95%: 16,3–31,2%]), se 
mantém em níveis elevados mesmo 
após 12 meses (11,9% [IC 95%: 8,4–
15,8%]), indicando a necessidade de 
atenção à saúde mental desta popu-
lação e a identificação de fatores de 
risco e proteção. Ainda é importante 
notar que a síndrome de burnout, 
abordada na seção anterior, é um 
fator associado ao desenvolvimento 
de TEPT em profissionais da saúde 
atuando na pandemia33. De fato, em 
profissionais de saúde, burnout e 
TEPT compartilham vários fatores 
de risco, consequências e possibili-
dades de intervenção34.
24 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Fatores de risco e proteção: como se cuidar
 
Ainda que possam haver especificidades, é possível sintetizar alguns dos principais fatores de risco para a síndrome 
de burnout e para o TEPT, no contexto da pandemia de Covid-1918,35-39 no quadro a seguir .Quadro 01. Fatores de risco e proteção para burnout e TEPT em profissionais de saúde
 Fatores de Risco Fatores de Proteção
 F A T O R E S I N D I V I D U A I S
Idade (mais jovem)
Gênero (feminino)
Enfermeiro(a)
Histórico de sofrimento psicológico, 
transtorno mental ou uso de substâncias
Condições de saúde física comórbidas
Isolamento social
Familiar infectado
Redução da rede de apoio (familiares; amigos)
Contato aumentado com pacientes infectados
Treinamento inadequado
Baixa experiência clínica
Estratégias de enfrentamento inadequadas 
(coping negativo ou passivo)
Percepção aumentada de risco de infecção
Suporte social (familiares; colegas)
Estratégias de enfrentamento (coping) adaptativas
Crença nas medidas preventivas
Elevada experiência clínica
Trabalhar em uma função administrativa ou gerencial
Auto-percepção de ser adequadamente treinado e apoiado
 F A T O R E S O C U P A C I O N A I S
Tempo prolongado de trabalho em áreas de quarentena
Percepção de falta de apoio organizacional
Atuação em unidades de elevado risco
Percepção de falta de adequação do treinamento
Falta de confiança no controle de infecção
Turnos excessivamente longos
Falta de profissionais / elevado turnover / sobrecarga
Tempos de descanso adequados na rotina de trabalho
Disponibilidade de equipamentos de proteção individual 
adequados
Treinamento eficaz dos profissionais no combate à pandemia
Comunicação clara com os profissionais
Protocolos de apoio aos profissionais
Crenças positivas nos procedimentos de controle de infecções 
nos serviços
Acesso a intervenções psicológicas baseadas nas demandas do 
grupo e/ou necessidades individuais
25GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
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Evidencia-se, a partir do rápido 
exame do quadro acima, que vários 
fatores de risco e proteção estão 
associados a questões relacionadas 
ao ambiente de trabalho. Neste sen-
tido, estratégias que visam aumentar 
a comunicação entre as equipes, o 
constante desenvolvimento de pro-
tocolos de treinamento dos profis-
sionais, a organização adequada de 
períodos de descanso e escalas, e a 
disponibilidade de EPIs adequados, 
entre outros, claramente encontram 
apoio na literatura como variáveis 
que reduzem o risco para burnout e 
para TEPT em profissionais de saú-
de no enfrentamento da pandemia 
de Covid-19.
Entre os fatores individuais, associa-
dos com a redução do risco, desta-
cam-se o apoio social e o emprego 
de estratégias de enfrentamento 
(coping) mais ativas e positivas. 
Particularmente, a utilização de 
estratégias de coping, focadas no 
problema, ou mesmo estratégias 
de regulação emocional cognitiva 
mais adaptativas (como colocar as 
situações/eventos em perspecti-
va, focar nos aspectos positivos da 
experiência, aceitação, e reavalia-
ção cognitiva da situação) produz 
efeitos positivos em termos de 
saúde mental. Outras estratégias, 
como práticas meditativas e mind-
fulness (aprofundadas nesta obra 
no Capítulo 12), têm recebido apoio 
empírico na redução de sintomas de 
TEPT e burnout em profissionais de 
saúde17,40. Da mesma forma, recente 
revisão evidenciou que exercício e 
atividade física podem promover 
melhoras nos sintomas de TEPT em 
profissionais de saúde atuando na 
linha de frente41.
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27GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 5
André Russowsky Brunoni
Professor associado e livre-docente da Faculdade de Medicina da 
USP e diretor do Serviço Interdisciplinar de Neuromodulação e Diretor 
Científico do Serviço de ECT do Instituto de Psiquiatria da Faculdade 
de Medicina da USP.
O efeito da pandemia 
no aumento de 
depressão no 
cuidador
28 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Nos primeiros meses da Covid-19, 
enquanto as cidades ao redor do 
mundo entravam em quarentena, 
os profissionais da área da saúde 
permaneceram na linha de frente 
do combate à pandemia. Com isso, 
foram expostos a uma série de es-
tressores, como medo de contágio, 
ou de contagiar a família, carga de 
trabalho excessiva e incertezas em 
relação à melhor conduta clínica. 
Neste contexto, profissionais mais 
jovens, com crianças pequenas, 
mais desfavorecidos do ponto de 
vista socioeconômico e que atu-
am em áreas de maior estres-
se, risco de contágio ou de 
pacientes muito graves 
(por exemplo, pronto-
-socorro e unidades 
de terapia inten-
siva) estiveram 
ainda mais 
predispostos a 
desenvolver 
sintomas 
psiquiátri-
cos1. Por 
outro lado, 
os pro-
fissionais 
com maior 
experiência, 
maior suporte 
familiar, que aceitam e 
concordam com as medidas 
institucionais, que viram cole-
gas se curarem do Covid-19 e que 
têm acesso a programas de saúde 
mental, tiveram risco relativamente 
menor de desenvolver sintomas 
mentais2.
De fato, uma revisão sistemática e 
metanálise da literatura, incluindo 
239 artigos, com 271.319 profissio-
nais de saúde, mostrou que estes 
profissionais relataram taxas de 
sintomas depressivos de 33%; de 
sintomas de ansiedade de 42%; de 
estresse agudo de 40%; de sinto-
mas pós-traumáticos de 32%; de 
insônia de 42%; e de burnout de 
37%3. Em uma revisão guarda-chu-
va, comparando sintomas mentais 
entre profissionais de saúde e a 
população em geral, observaram-se 
taxas aumentadas de insônia, es-
tresse e sintomas mentais em geral, 
com taxas semelhantes à população 
em termos de ansiedade e depres-
são4. Não obstante, uma coorte de 
enfermeiros nos EUA mostrou que, 
de abril de 2020 a abril de 2021, 
a taxa de sintomas de ansiedade 
chegou a quase 20% e a de sinto-
mas depressivos em 16,7%, respec-
tivamente maiores a de antes da 
pandemia (14-16% para ansiedade e 
13-14% para depressão).
Com a observação de que profissio-
nais de saúde apresentavam mais 
sintomas psiquiátricos, estratégias 
de 
pre-
venção a agravos 
da saúde mental nestes profis-
sionais passaram a ser de grande 
interesse, bem como o mapeamento 
de quais grupos estariam mais pro-
pensos a desenvolver estes sinto-
mas, além de dados sociodemográ-
ficos. Em um estudo, realizado no 
Peru, identificou-se que uma tríade 
composta por medo de contrair Co-
vid-19, sintomas ansiosos e estresse 
pós-traumático explicava 70% dos 
casos de depressão5. Por sua vez, 
um estudo realizado com profissio-
nais de saúde na China mostrou que 
sobrecarga de trabalho, sintomas 
respiratórios, sintomas digestivos 
e estilo de coping negativo foram 
fatores de risco independentes para 
depressão6. Por fim, um estudo 
realizado na Hungria mostrou que 
fatores subjetivos, como inseguran-
ça, percepção de carga de trabalho 
e falta de previsibilidade da jornada 
de trabalho, estavam mais associa-
dos com depressão do que fatores 
objetivos (como trabalhar na linha 
de frente)7. 
Uma revisão narrativa indicou que 
as intervenções, relacionadas ao 
manejo dos sintomas psiquiátricos 
dos profissionais de saúde mental, 
incluíram aplicativos de telefones 
móveis, linhas de apoio (hotlines), 
opções domiciliares alternativas, 
organização de gru-
pos sociais, acesso a 
recursos psicoeduca-
cionais, sistemas de 
“companheiros”, áreas 
de descompressão e 
profissionais disponíveis 
para aconselhamento ou 
tratamento8. Esta revisão 
narrativa também obser-
vou que as necessidades 
dos profissionais de 
saúde variam em 
diferentes cultu-
ras e ao longo 
do tempo. No 
início da pan-
demia, por 
exemplo, 
os serviços 
de “hotline” 
foram pouco 
utilizados e 
tiveram altas taxasde abandono, com os 
profissionais relatando 
que tinham necessidades 
mais básicas, como moradia próxima 
ao hospital, para que não precisas-
sem retornar para suas famílias. 
Por fim, os autores sugerem que as 
lideranças dos serviços hospitalares 
devem focar na promoção da saúde 
mental, aumentando a “alfabetiza-
ção em saúde mental” e alimentan-
do uma cultura de engajamento e 
positividade para programas e ações 
com impacto benéfico na saúde 
mental.
Desta maneira, os próprios profis-
sionais de saúde devem reconhecer 
em si, ou em seus colegas de traba-
lho, sintomas como:
 
• Exaustão emocional;
• Dificuldade em dormir;
• Exaustão física;
• Medo de trabalhar;
29GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
• Mudanças no apetite;
• Sintomas somáticos;
• Aumento desproporcional ao risco 
de ser exposto ou infectado;
• Baixa auto-estima;
• Pensamentos, imagens ou sonhos 
intrusivos;
• Pensamentos acelerados; e
• Aumento no consumo, ou abuso, 
de álcool, tabaco ou outras substân-
cias.
 
Dentre as formas de tratamento ou 
manejo dos sintomas depressivos 
ou psiquiátricos, algumas propostas 
gerais são sugeridas, como descre-
ve-se a seguir8.
 
Prevenção de agravos à saúde 
mental:
 
• Promoção das competências dos 
profissionais para reduzir a carga 
dos estressores;
• Atender à hierarquia de necessi-
dades (por exemplo, equipamentos 
de proteção individual devem estar 
sempre disponíveis) - “ouça-me, 
proteja-me, prepare-me, dê-me 
ajuda e cuide de mim”; e
• Criação de espaços de relaxamen-
to e de descompressão.
 
Manejo de sintomas mentais:
 
• Facilitação de acesso para trata-
mento psiquiátrico/psicológico, se 
necessário;
• Treinamento psicoeducacional;
• Uso de recursos digitais e móveis, 
“hotlines” e material para leitura em 
portais ou aplicativos, bem como 
o desenvolvimento de aplicativos 
terapêuticos e de monitoramento de 
sintomas; 
• Desenvolvimento de técnicas de 
“coping” efetivas.
 
Promoção de positividade:
 
• Fomento à construção de relacio-
namentos positivos no trabalho;
• Suporte por pares, de maneira 
formal ou informal;
• “Salas Schwartz”, ou seja, sessões 
de 60 minutos com quatro pessoas 
da equipe que discutem experiên-
cias pessoais, seguidas por uma 
discussão em grupo facilitada por 
um profissional especializado; e
Mídias sociais, conectando a comu-
nidade de saúde local entre si.
 O programa COMVC-19
 
Em nosso meio, no Hospital das 
Clínicas da Faculdade de Medicina 
da USP (HC-FMUSP), o programa 
COMVC-19 foi criado para proteger 
a saúde mental dos profissionais 
de saúde deste hospital durante a 
pandemia. No primeiro ano, fo-
ram observadas taxas elevadas de 
sintomas depressivos, ansiosos e de 
ataques de pânico. Na verdade, 55% 
dos profissionais de saúde admitidos 
no programa COMVC-19 apresenta-
vam sintomas mentais9. O programa 
também se caracterizou por uma 
série de intervenções para manejo 
de estresse e transtornos mentais, 
tais como:
 
• Criação de grupos com profissio-
nais de saúde e uma linha de apoio 
(hotline) para que eles pudessem 
conversar e trocar experiências;
• Vídeos psicoeducacionais;
• Vídeos motivacionais;
• Proposta de “Enfermagem que 
Acolhe”, implantada pelo Grupo 
de Humanização, que tinha como 
objetivo discutir rotinas, desenvol-
ver suporte emocional e estimular 
reflexões entre colegas;
• Atividade física guiada por profis-
sionais;
• Tratamento por aplicativo 
(app COMVC); 
• Tratamento por psicoterapia breve.
30 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
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 Este programa foi eminentemente 
assistencial, não coletando des-
fechos clínicos com alta robustez 
metodológica. No entanto, durante a 
segunda onda da pandemia (1º se-
mestre de 2021), Fukuti e colabora-
dores notaram uma modificação no 
perfil de procura para o programa. 
Por exemplo, houve uma redução 
notável da prevalência de médicos 
procurando suporte de saúde men-
tal. Isto foi atribuído a uma mudança 
menor da rotina de trabalho dos 
médicos, particularmente residen-
tes de outras especialidades que, 
na primeira onda, acompanharam 
pacientes graves na enfermaria e 
na UTI. Por outro lado, os membros 
do programa notaram um aumento 
de sintomas depressivos, o que foi 
atribuído à cronicidade da pandemia, 
que pode ter afetado mais alguns 
indivíduos já mais predispostos a 
desenvolver transtornos depressi-
vos10.
Concluindo, taxas mais altas de 
depressão e outros sintomas psi-
quiátricos foram observadas em 
profissionais de saúde, tanto em 
comparação com anos anteriores, 
quanto com a população geral. No 
atual período “pós”-pandêmico, 
apesar de não haver dados sufi-
cientes, tudo indica que estas taxas 
permanecem elevadas, com uma 
transição de sintomas ansiosos e 
de estresse agudo para sintomas 
depressivos e burnout. Além disso, 
na medida em que o manejo da Co-
vid-19 encontra-se mais descentrali-
zado, hospitais e instituições devem 
se adaptar localmente para criar um 
ambiente de trabalho que permita 
que os profissionais de saúde en-
contrem espaço para serem ouvidos 
e assistidos. 
31GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 6
Antonio Egidio Nardi
Professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de 
Janeiro e membro titular da Academia Nacional de Medicina e da 
Academia Brasileira de Ciências.
A ansiedade no pós-pandemia: 
como o profissional de saúde 
pode se readaptar ao novo normal
32 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Todos sofremos com a Covid-19 e 
continuamos padecendo, mesmo 
já superada a pior fase. Entretanto, 
os profissionais da saúde sofreram,sofrem e ainda terão que aprender a 
conviver com as sequelas desta ter-
rível pandemia. Estes trabalhadores 
são vítimas de diversas formas, mas 
principalmente como linha de frente 
no combate, sofrendo com pacien-
tes, consolando famílias e perdendo 
amigos e parentes. Os profissionais 
de saúde são pessoas-chave para 
conter doenças infecciosas como a 
Covid-19. A saúde mental e o bem-
-estar geral destes profissionais têm 
implicações organizacionais para a 
segurança e satisfação dos pacien-
tes e famílias, além dos custos finan-
ceiros, impacto na produtividade e 
os efeitos diretos no próprio traba-
lhador1. Os profissionais de qualquer 
área desempenham suas atividades 
de forma plena e assertiva quando 
trabalham em um ambiente calmo, 
onde os riscos de exposição ao 
estresse são devidamente contro-
lados. Assim, devemos entender 
mais sobre a condição de saúde 
mental destes profissionais e as 
repercussões mentais ao enfrentar 
uma fonte prolongada de sofrimento 
para planejar ações que promovam e 
protejam sua saúde mental e física2.
Durante a pandemia observamos 
ambientes de trabalho de alta 
pressão emocional, elevada carga de 
trabalho, longas horas de tensão, re-
cursos limitados, reestruturação or-
ganizacional, e uma cultura de pavor 
e desinformação que resultaram em 
aumento do estresse em profissio-
nais de saúde, com maior número de 
licenças e faltas do trabalho, e busca 
por tratamento psiquiátrico1,3. 
Medo, incerteza, sintomas de ansie-
dade e estigmatização são elemen-
tos recorrentes em uma pandemia 
e podem se tornar um obstáculo 
para fornecer assistência médica e 
tratamento de saúde mental.
Uma das causas do estresse mental 
entre os profissionais de saúde, que 
advinda do trabalho durante a pan-
demia, pode estar associada ao so-
frimento devido às dificuldades en-
contradas para garantir a segurança 
pessoal, relacionada ao alto risco de 
exposição a pacientes infectados, 
grande número de atendimentos, 
óbitos elevados (inclusive de cole-
gas) e a escassez de equipamentos 
de proteção. Além disso, esses pro-
fissionais viram mudanças significa-
tivas no seu ambiente de trabalho, 
como o aumento da responsabi-
lidade ocupacional, necessidades 
de desenvolver novas habilidades, 
medidas rigorosas de segurança e 
autocuidado reduzido devido à falta 
de tempo e energia1,2. Com base 
em um cenário de crescente ame-
aça pandêmica, uma atmosfera de 
ansiedade, causada pelas medidas 
recomendadas para reduzir a trans-
missão de doenças, e sobrecarga de 
informações divulgadas por diferen-
tes meios de comunicação, algumas 
atitudes como a coleta de informa-
ções sobre o comportamento e a 
condição mental dos trabalhadores 
da saúde podem ajudar a estabele-
cer medidas efetivas que estimulem 
e que protejam sua saúde durante e 
após a luta contra a pandemia.
A ansiedade patológica é caracteri-
zada por sintomas mentais e somá-
ticos graves, incluindo alterações 
autonômicas (por exemplo, palpita-
ções, sudorese, tremores, boca seca, 
dificuldade respiratória, dor torácica 
e náusea), insônia, preocupações 
excessivas, tensão motora, ataques 
de pânico, irritabilidade, entre outras. 
Metanálises de sofrimento mental 
em profissionais de saúde em todo 
mundo demonstraram evidência de 
graves sintomas de depressão e de 
ansiedade, devendo os serviços de 
saúde considerarem abordagens 
multiníveis de suporte1.
Os sintomas de ansiedade são fre-
quentes e limitantes entre profissio-
nais de saúde em comparação com a 
população em geral1,3. Embora mais 
pesquisas longitudinais sejam ainda 
necessárias para monitorar resul-
tados em longo prazo, e explorar 
potenciais diferenças na trajetória da 
saúde mental para profissionais de 
saúde em comparação com outras 
populações, os resultados mais 
recentes são amplamente compa-
ráveis a estimativas anteriores para 
médicos, realizadas nos primeiros 
três a seis meses da pandemia. Em 
metanálise de ansiedade em pro-
fissionais de saúde1, realizada até 
meados de setembro de 2020, uma 
avaliação de subgrupo de 13 estudos 
de profissionais de saúde documen-
tou uma prevalência combinada 
de 17% (95% CI 12,0–22,0%) para 
transtornos de ansiedade1.
Outra metanálise, realizada para a 
população em geral, até junho de 
2020, estimou a prevalência global 
em 28% (IC 95% 25–31,2%) para 
depressão e 26,9% (IC 95% 24–
30%) para ansiedade. Essas taxas 
são significativamente maiores do 
que estimativas globais pré-pande-
mia para a população geral de 4,7% 
(4,4–5%) para depressão e 7,3% 
(4,8–10,9%) para ansiedade1,3. Hou-
ve apenas uma revisão sistemática 
de depressão e ansiedade em pro-
fissionais de saúde antes da pande-
mia de Covid-19. A depressão variou 
de 14% a 60%, e a ansiedade variou 
de 18% a 55%.1 Posteriormente, um 
estudo transversal holandês relatou 
prevalência de depressão e ansieda-
de entre profissionais de saúde em 
29% e 24%, respectivamente1. 
Metanálises de sofrimento 
mental em profissionais 
de saúde em todo mundo 
demonstraram evidência 
de graves sintomas de 
depressão e de ansiedade, 
devendo os serviços 
de saúde considerarem 
abordagens multiníveis de 
suporte1.
Em 2017, um estudo realizado na 
Irlanda relatou que 16,6% e 14,4% 
dos profissionais de saúde tinham 
sintomas de depressão e ansiedade 
de gravidade moderada ou acima; 
esses números permanecem consi-
deravelmente mais altos do que as 
taxas na população em geral1. 
Uma hipótese é que o aumento de 
depressão e ansiedade entre os 
profissionais de saúde, durante a 
pandemia de Covid-19, foi relati-
vamente controlado nestes países, 
em comparação com estimativas 
anteriores, devido um efeito teto 
das demandas de trabalho que foi 
alcançado, ou que maiores recursos 
de trabalho foram disponibilizados 
33GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
durante pandemia para compensar o 
aumento de trabalho.
Por outro lado, vemos no cotidiano 
que profissionais de saúde, que tra-
balham no combate à Covid-19, são 
cada vez mais afetados por transtor-
nos psiquiátricos, distúrbios do sono, 
estresse e traumatização indireta do 
que outros grupos ocupacionais. O 
elevado nível constante de estresse 
dos profissionais de saúde produz 
intensa liberação de citocinas pró-
-inflamatórias, incluindo interleucina 
IL-1β e IL-6 no sistema nervoso 
central. O aumento de citocinas, 
reação comum na infecção por 
SARS-CoV-2, também foi observado 
na depressão, nos transtornos de 
ansiedade e em outros transtornos 
mentais. Assim, podemos hipotetizar 
que a infecção pelo SARS-CoV-2 e 
os transtornos psiquiátricos têm um 
efeito comum de inflamação celular2.
Nesse cenário clínico, os profissio-
nais de saúde apresentam riscos 
maiores e estatisticamente significa-
tivos de sintomatologia psiquiátrica 
associada à depressão, ansiedade, 
estresse e insônia, principalmente os 
que trabalham com pacientes aco-
metidos pela Covid-19. Por sua vez, 
a redução do apoio social, recebido 
por profissionais de saúde devido 
às longas jornadas de trabalho e 
estigmatização dos trabalhadores 
que tiveram contato com pacien-
tes infectados pelo SARS-CoV-2, 
também podem contribuir para o 
estresse profissional dos traba-
lhadores diretamente envolvidos 
com a pandemia. Esta evidência é 
corroborada na análise de 4.357 
profissionais de saúde na China, que 
descobriu que “estar isolado” entre 
muitos outros fatores era associado 
ao mau prognóstico dos transtornos 
mentais2. 
Da mesma forma, trabalhar no meio 
rural também foi associado a um 
maior risco de insônia, ansiedade, 
depressão e transtorno obsessivo-
-compulsivo entre profissionais de 
saúde. Esse fato também pode ser 
associado a maiores preocupações 
sobre o risco de infecção devido à 
necessidade de trabalhar em um 
serviço que muitas vezes têm piores 
condições de trabalho em compara-
ção com os da área urbana2.
Existe uma forte associação entre 
profissionais de saúde e Covid-19 
em termos de repercussões psiqui-
átricas.2,3 Os profissionais de saúde 
têm um maior nível de traumas 
indiretos,em que o nível de dano 
excede a tolerância emocional, e 
indiretamente resulta em anormali-
dades psicológicas.
No Reino Unido, uma recente pes-
quisa da British Medical Association, 
com mais de cinco mil médicos, des-
cobriu que metade planejava traba-
lhar menos horas após a pandemia; 
um quarto relatou ter mais chances 
de fazer uma pausa na carreira; e 
pouco mais de um quinto estava 
pensando em deixar o National 
Health System3. De acordo com esta 
pesquisa, o número de profissio-
nais de saúde do Reino Unido que 
considerou aposentadoria em abril 
de 2021 foi de 32%, frente a 14% 
34 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
em junho de 2020. Respondendo 
a essas preocupações, a British 
Medical Association pediu medidas 
imediatas para assegurar a saúde, a 
segurança e o bem-estar mental dos 
médicos. Dado que o Reino Unido 
e o resto do mundo vão lidar com 
os efeitos residuais da Covid-19 por 
muitos anos, é vital que as necessi-
dades físicas e psicológicas destes 
profissionais sejam atendidas. 
Enquanto há uma série de fatores 
externos e organizacionais que pode 
afetar o bem-estar dos profissionais 
de saúde, é importante quantificar a 
prevalência de sofrimento e com-
preender os fatores individuais que 
podem reduzir ou aumentar a vulne-
rabilidade a sequelas emocionais.
Existe uma forte 
associação entre 
profissionais de saúde 
e Covid-19 em termos 
de repercussões 
psiquiátricas.2,3 Os 
profissionais de saúde têm 
um maior nível de traumas 
indiretos, em que o nível de 
dano excede a tolerância 
emocional, e indiretamente 
resulta em anormalidades 
psicológicas.
A capacidade mental de se adaptar 
ao retorno às atividades pré-pan-
demia está associada a um risco 
reduzido de uma ampla gama de 
psicopatologia, e pode atuar como 
mediador e/ou moderador na rela-
ção entre vida estressante e uma 
série de resultados de saúde mental. 
Estudos com foco específico em 
profissionais de saúde encontraram 
maior flexibilidade psicológica asso-
ciada a menor burnout e sofrimento 
mental1,3. Esses achados também 
sugerem a necessidade de maior 
consideração e apoio a ser dado ao 
impacto das recentes experiências 
de vida adversas, tanto dentro como 
fora do local de trabalho. Dado as 
altas taxas observadas em todos os 
níveis de carreira, o apoio deve ser 
direcionado para médicos em todas 
as fases da carreira.
A melhoria dos sistemas de apoio 
deve desempenhar um papel central 
no nosso plano de recuperação à 
medida que emergimos da pande-
mia de Covid-19 e, em última análise, 
melhorar a qualidade do ambiente 
de trabalho e o bem-estar da força 
de trabalho dos profissionais de 
saúde é essencial nos anos futuros. 
É necessário implementar medidas 
preventivas e terapêuticas para de-
tectar problemas de saúde mental. 
Esta reorganização dos profissionais 
de saúde e de seu trabalho forçado 
causou sofrimento psicopatológico 
importante, afetando inclusive a 
qualidade do sono. A gravidade 
diminuiu na segunda avaliação, 
coincidindo com a segunda onda 
da pandemia, quando a maio-
ria dos membros da unidade 
Covid-19 permaneceu em sua 
posição habitual, embora 
suas condições de trabalho 
tenham sido parcialmente 
modificadas pela pandemia4.
Os impactos psicológicos 
estudados geralmente dimi-
nuíram entre as duas pes-
quisas. No entanto, em uma 
população com recursos de 
enfrentamento disponíveis, 
as consequências podem se 
manifestar em outras dimen-
sões, como luto, trauma, ou 
culpa, bem como reações 
traumáticas, que podem res-
surgir ao relembrar a partici-
pação em unidades Covid-194. 
No entanto, os sentimentos de 
tristeza e fracasso foram maiores 
nesta do que em outras amostras da 
população geral.
Enquanto há uma série 
de fatores externos e 
organizacionais que pode 
afetar o bem-estar dos 
profissionais de saúde, é 
importante quantificar a 
prevalência de sofrimento 
e compreender os fatores 
individuais que podem 
reduzir ou aumentar a 
vulnerabilidade a sequelas 
emocionais.
Existem várias maneiras pelas quais 
a ansiedade e as preocupações ele-
vadas com a saúde podem influen-
ciar as respostas comportamentais. 
Pessoas com grande preocupação 
com a saúde também tendem a se 
envolver em uma variedade de ou-
tros comportamentos de segurança 
não adaptativos. No contexto de 
surtos virais, isso pode incluir lava-
gem excessiva das mãos, isolamen-
to social e aparecimento de ataques 
de pânico, mes-
mo após 
a pior fase 
da pandemia. Vale ressaltar que 
muitos desses comportamentos são 
consistentes com as recomendações 
de saúde pública para o gerencia-
mento de epidemias e pandemias. 
Entretanto, no caso de pessoas com 
grande ansiedade pela saúde, são 
levadas ao extremo, o que pode ter 
consequências negativas para o 
indivíduo e sua comunidade.
A pandemia atual afetou a todos e 
a nossa saúde mental, ficando claro 
o risco de desequilíbrio. A ansieda-
de pode funcionar como gatilho, 
mesmo para uma pessoa que nunca 
teve transtorno mental. O estresse, 
35GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
REFERÊNCIAS:
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Personal Satisfaction of Doctors Assigned 
to COVID-19 Units. International Journal of 
Environmental Research and Public Health 2022: 
19, 2712.
associado a outros fatores, como 
riscos de doença, problemas eco-
nômicos, confinamento, abuso de 
álcool e solidão, funciona como estí-
mulo ao sistema nervoso central que 
pode não reagir adequadamente e 
desencadear principalmente sinto-
mas de depressão ou de transtornos 
de ansiedade. Temos que cuidar da 
nossa saúde física e principalmente 
mental.
 
Sugestões de enfrentamento à 
ansiedade por profissionais de 
saúde
 
Além das análises de sintomatologia 
psiquiátrica, algumas intervenções 
podem contribuir para reduzir o 
estresse sofrido pelos profissionais 
de saúde e promover a melhoria 
da saúde mental, mesmo após a 
pandemia:
• São necessárias mudanças 
organizacionais e estruturais para 
garantir que os profissionais de 
saúde tenham acesso aos recursos 
mais fundamentais, como tempo 
para dormir, comer, fazer exercícios 
físicos e passar tempo com familia-
res e amigos.
• Esforços contínuos devem ser 
feitos para desestigmatizar discus-
sões em torno da saúde mental. 
Falar claramente sobre sofrimento 
mental diminui o estigma, o pre-
conceito e facilita o acesso ao 
tratamento. Atividades formais 
e sistemas informais de apoio 
de pares podem ajudar a lidar 
com o sofrimento mental, 
a pedir ajuda e devem ser 
incentivadas.
• Os serviços devem con-
siderar a incorporação de 
intervenções baseadas em 
evidências e de alta qualida-
de, como aqueles baseados 
em mindfulness e terapia 
cognitivo-comportamental, 
que se mostraram eficazes 
na redução do estresse, 
ansiedade e depressão para 
profissionais de saúde.2,3
• Promover sistemas para mo-
nitorizar o bem-estar dos profis-
sionais de saúde, e casos em que é 
necessário apoio psicológico indivi-
dual devem ter encaminhamentos 
pragmáticos.
• Reconhecer algumas reações nes-
sas circunstâncias, incluindo irritabi-
lidade ou mau humor como resposta 
ao estresse do cotidiano, que devemser compreendidas e, portanto, não 
devem ser simplesmente repreen-
didas se não resultaram em algo 
grave.
• Garantir necessidades básicas 
também é especialmente importan-
te, além de fazer pausas suficientes, 
manter uma alimentação saudável e 
manter-se ativo.
• Evitar o uso de substâncias, como 
álcool e tabaco, como forma de 
enfrentamento ao estresse, o que 
poderá resultar em danos mentais e 
físicos em médio e longo prazo.
• Compartilhar experiências e senti-
mentos com os colegas que expe-
rimentam problemas semelhantes 
pode ajudar a reduzir o estresse.
• Não se isolar. Procure os amigos 
e a família para manter contato e 
suporte emocional. Comunicação 
pelos inúmeros métodos existentes 
hoje, principalmente pela internet, 
pode ser usada para manter contatos 
com pares, amigos e família, o que é 
um grande contribuinte para manter 
uma boa saúde mental.
• Evitar a automedicação ou o uso 
exagerado de ansiolíticos. É danoso 
manter uma medicação sem acom-
panhamento e, pior ainda, mudar 
dose ou interromper medicação sem 
orientação.
• Procurar manter um lazer agradá-
vel.
• Procurar realizar atividade física 
e intelectual gratificante e longe da 
rotina do trabalho.
• Aceitar as preocupações e a an-
siedade como parte da vida ajuda a 
não se sentir “anormal”. Lembre-se 
que algumas formas de lidar com 
suas preocupações podem ser mais 
saudáveis.
36 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 7
Pedro Curi Hallal
Professor Titular da Universidade Federal de Pelotas no curso de 
graduação em Educação Física e nos programas de pós-graduação 
em Educação Física e Epidemiologia. Coordena o EPICOVID-19, o 
maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil. É um dos 
coordenadores da Coorte de 2015 de Pelotas e do Observatório Global 
de Atividade Física. É um dos sócios fundadores e ex-presidente da 
Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde.
Como a pandemia 
alterou a saúde física 
dos profissionais 
de saúde 
37GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
A pandemia de Covid-19 é o grande 
acontecimento de nossa geração. 
Quando as aulas de História men-
cionarem as primeiras décadas 
desse milênio, um espaço conside-
rável será despendido com a magni-
tude, as causas e, principalmente, 
as consequências da pandemia. Em 
dois anos e meio, a Covid-19 matou 
6,4 milhões de pessoas no mundo e 
transformou a nossa vida, seja com 
as rotinas de trabalho remoto ou 
com o hábito de usar máscaras1.
Na população de profissionais de 
saúde os impactos foram ainda mais 
brutais. Como se fossem soldados 
em uma guerra, os profissionais de 
saúde foram para a linha de frente 
enfrentar não só o vírus, mas tam-
bém os medos e incertezas naturais 
da pandemia, especialmente de 
uma doença até então desconhe-
cida.
Um evento desse porte, como a 
pandemia de Covid-19, tem ine-
gáveis impactos sobre a saúde da 
população. O entendimento dos 
efeitos da pandemia sobre a saúde 
da população exige uma compre-
ensão ampliada de saúde, visto que 
são muitas as formas pelas quais a 
Covid-19 afetou a vida e a saúde das 
pessoas.
Embora boa parte dos impactos da 
pandemia sobre os profissionais de 
saúde tenha ocorrido no âmbito da 
saúde mental, os demais capítulos 
dessa obra já abordam esse 
tema. Neste, serão abor-
dados os efeitos 
da pande-
mia sobre 
a saúde 
física das 
pesso-
as, com 
ênfase na 
popula-
ção de 
profis-
sionais de 
saúde.
 
Mortes por Covid-19
 
Naturalmente, as principais conse-
quências negativas da pandemia 
foram as mortes causadas pela do-
ença. Até o dia 9 de agosto de 2022, 
o mundo registrava 6,4 milhões de 
mortes por Covid-19, sendo que 
680 mil delas ocorreram no Brasil1,2.
Embora a pandemia tenha atingido 
todo o planeta, seu efeito devas-
tador foi ainda maior no Brasil. Um 
país que concentra 2,7% da po-
pulação mundial concentrou, até 
agosto de 2022, 10,6% das mortes 
por Covid-19 no mundo. Entre as 
29 maiores economias do planeta, 
o Brasil é o que apresenta a maior 
mortalidade acumulada por Co-
vid-19. Entre os 10 países mais po-
pulosos do mundo, o país apresen-
tou a maior mortalidade acumulada 
por Covid-19. Entre os BRICS (Brasil, 
Rússia, Índia, China e África do Sul), 
somos o país com maior mortalida-
de relativa por Covid-192.
Pela posição na linha de frente do 
enfrentamento da pandemia, os 
profissionais de saúde estiveram 
em maior risco de óbito pela doença. 
Embora não haja um levantamento 
de âmbito nacional sobre as mortes 
por Covid-19 entre profissionais de 
saúde, sabe-se que a mortalida-
de foi excessiva neste grupo. Por 
exemplo, dados do Observatório 
da Enfermagem mostram que, até 
o dia 9 de agosto de 2022, 872 
profissionais 
da enfermagem já haviam falecido 
de Covid-19 no Brasil3.
 
Infecção por SARS-CoV-2
 
A obrigação profissional de cuidar 
da saúde dos pacientes, estando na 
linha de frente do enfrentamento 
da pandemia, aumentou o risco de 
exposição ao SARS-CoV-2, vírus 
causador da Covid-19, entre os 
profissionais de saúde. Ao mesmo 
tempo em que houve reconheci-
mento da população a esses heróis 
da pandemia, é também necessário 
lembrar que os profissionais de saú-
de tiveram maior risco de infecção 
por SARS-CoV-2.
Um estudo,4 que incluiu 1.525 
agentes comunitários de saúde, 
527 médicos, 471 enfermeiros, 263 
auxiliares de enfermagem e 264 
fisioterapeutas em Recife (PE), 
mostrou que 61,8% dos profis-
sionais já haviam sido infectados 
com SARS-CoV-2, um percentual 
bastante superior ao encontrado na 
população em geral.
 
Luto pela perda de familiares, 
amigos e pacientes
 
Uma pesquisa publicada no The 
Lancet em 2021 estimou que, entre 
março de 2020 e abril de 2021, 
pelo menos 1,1 milhão de crianças 
ficaram órfãs em decorrência da 
Covid-195. No Brasil, até o dia 9 de 
agosto de 2022, a mortalidade acu-
mulada por Covid-19 era de 3.173 
para cada um milhão de pessoas, 
contra uma média mundial 
de 800 mortes para 
cada um milhão 
de pessoas2. Isso 
significa que, 
de cada 315 
brasileiros, um 
perdeu a vida 
para a Covid-19 
nesse período 
de pandemia.
Naturalmente, 
essas mortes 
incluem fami-
liares e amigos 
de pratica-
mente todos 
os brasileiros, 
incluindo os 
38 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
profissionais de saúde. No entanto, 
os profissionais de saúde ainda con-
vivem com o luto de pacientes, au-
mentando o impacto das mortes por 
Covid-19 sobre sua saúde. O tema 
do luto está abordado no capítulo 8 
da presente obra.
 
Sintomas da Covid-19 de longa 
duração
 
Embora a definição de Covid-19 
longa seja variável por incluir mais 
de 200 sintomas e diferentes opera-
cionalizações, a literatura indica que 
entre cinco e 50% dos pacientes 
com Covid-19 apresentam sinto-
mas de longa duração6. Tendo em 
vista que a ocorrência da doença é 
substancialmente mais elevada em 
profissionais de saúde do que na 
população em geral, é natural que 
a Covid-19 longa também seja mais 
frequente entre profissionais de 
saúde, prejudicando sua qualidade 
de vida e capacidade de trabalho, no 
curto, médio e longo prazo.
Alguns dos sinais e sintomas mais 
comuns da Covid-19 de longa 
duração incluem tosse, cansaço e 
dificuldade para respirar persisten-
tes, dificuldades de concentração e 
lapsos de memória, dores pelo corpo 
e alterações no olfato e paladar. Tais 
sinais e sintomas, quando obser-
vados em profissionais de saúde, 
prejudicam e, às vezes, inviabilizam, 
a prática profissional.
O manejo adequado da Covid-19 
de longa duração é uma prioridade 
para o futuro da saúde da população 
brasileira, incluindo os profissionais 
de saúde. E embora não seja o foco 
do presente capítulo, é necessário 
reforçar que muitos de seus sinais e 
sintomas, embora se manifestem no 
campo da saúde mental, impactam a 
saúde física dos profissionais.
 
Aumento da exposição à fatores 
de risco para doenças e agravos 
não transmissíveis
 
Na população em geral, os dados 
do Inquérito Telefônico de Fatores 
de Risco para Doenças Crônicas 
Não-Transmissíveis emtempos de 
pandemia (Covitel) ajudam a com-
preender os impactos da Covid-19 
sobre a agenda de enfrentamento 
das doenças e agravos não trans-
missíveis no Brasil7.
O estudo foi realizado com 9.000 
adultos (18+ anos) das cinco regiões 
do país, por meio de entrevistas 
telefônicas. Os dados mostraram um 
marcado retrocesso na agenda de 
enfrentamento das doenças crôni-
cas no Brasil. A inatividade física e 
o excesso de peso aumentaram na 
população brasileira durante a pan-
demia, ao passo que as tendências 
históricas de redução no tabagismo 
e no consumo abusivo de álcool 
foram paralisadas.
Além disso, os dados do Covitel indi-
cam que as desigualdades em saú-
de, já marcantes antes da pandemia, 
foram acirradas. Ou seja, embora a 
pandemia tenha atingido pessoas 
de todos os grupos sociais, foram os 
mais pobres, proporcionalmente, os 
mais atingidos, seja pela infecção, 
pela hospitalização ou pelo óbito 
por Covid-19. E para piorar, foram os 
mais vulneráveis também àqueles 
que mais tiveram impacto sobre 
sua saúde como consequência da 
pandemia.
Não existem dados comparáveis 
aos do Covitel para profissionais de 
saúde de todo o país, mas estudos 
em populações específicas sugerem 
que os resultados observados para a 
população geral também são válidos 
para os profissionais de saúde.
Estudo liderado pela Fiocruz em 
todo o território nacional, intitulado 
“Condições de Trabalho dos Pro-
fissionais de Saúde no Contexto da 
Covid-19”, concluiu que os profissio-
nais da saúde estavam esgotados, 
não só com o número excessivo de 
casos e mortes por Covid-19, mas 
também pelas alterações no seu 
bem-estar. Quase metade admitiu 
trabalhar mais de 40 horas por se-
mana durante a pandemia. De acor-
do com os dados da pesquisa, 16% 
dos profissionais relataram pertur-
bação do sono e 8% alterações no 
apetite / mudanças de peso, fatores 
comprovadamente relacionados ao 
maior risco de doenças crônicas.
Outro estudo nacional8 indicou que 
25% dos profissionais de saúde 
relataram dificuldade para pegar no 
sono, 30% reportaram dificuldade 
em se manterem em sono profundo 
e 33% mencionaram acordar mais 
cedo do que o habitual durante a 
pandemia. Quase 30% relataram 
o uso de medicamentos contra 
insônia. Um em cada quatro profis-
sionais relatou aumento do consu-
mo de carboidratos na dieta e 27% 
referiram ter aumentado o consumo 
de bebidas alcoólicas. Alarmantes 
82% relataram mudanças na prática 
de atividade física.
Ainda sobre os hábitos de sono, 
estudo com a participação de mais 
de 300 médicos mostrou que 73% 
relataram baixa qualidade do sono 
durante a pandemia9. Além disso, a 
baixa qualidade do sono esteve rela-
cionada com ansiedade e depressão 
entre os profissionais, reforçando 
que prejuízos na saúde física acar-
retam prejuízos na saúde mental, 
assim como o oposto também é 
verdadeiro.
Outra pesquisa, focada em ativi-
dade física, mostrou uma redução 
significativa na duração, frequência 
e intensidade do exercício durante 
a pandemia entre os profissionais 
de saúde. Esta redução relacionou-
-se com maior risco de depressão, 
ansiedade e estresse nos profissio-
nais10.
Um estudo focado em profissionais 
de saúde de um hospital mostrou 
que 52% aumentaram o consumo 
de refeições prontas, fast food e 
delivery durante a pandemia. Des-
taca-se a redução do consumo de 
saladas e vegetais cozidos, legumi-
nosas e oleaginosas. Em relação à 
atividade física, a maior parte dos 
participantes (44%) alega ter parado 
ou reduzido. Em relação ao álcool, 
39% alegam ter aumentado ou 
iniciado. Mais da metade (52%) teve 
percepção de aumento de peso e 
57% referiram ter piorado os hábitos 
alimentares durante a pandemia11.
Outro estudo avaliou profissionais 
da atenção primária e seus compor-
tamentos durante a pandemia. Dois 
em cada três trabalhadores referiam 
redução na atividade física, 54% 
relataram ter aumentado o consumo 
de alimentos e 17% admitiram ter 
aumentado o consumo de álcool12.
 
39GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Em resumo, os dados dessas 
pesquisas realizadas no Brasil com 
profissionais de saúde mostram que, 
durante a pandemia, os profissionais 
tiveram um aumento da exposição 
a fatores de risco para doenças e 
agravos não transmissíveis. Para 
piorar a situação, os dados da lite-
ratura mostram que a piora nesses 
fatores de risco ocorre de maneira 
rápida e fácil, enquanto o processo 
de reversão é lento e gradual. Em 
outras palavras, ganhar peso, por 
exemplo, é mais rápido e fácil do 
que perder. Como consequência, na 
ausência de intervenções específi-
cas de promoção da saúde, demo-
rará anos para que os profissionais 
de saúde consigam recuperar os 
indicadores que tinham no período 
pré-pandemia.
 
Conclusões
 
As informações apresentadas 
neste capítulo sugerem que, no 
período pós-pandemia, seja dada 
uma atenção especial à saúde 
daqueles que historicamente 
cuidam da saúde dos pacientes. Os 
profissionais de saúde sairão dessa 
pandemia esgotados e 
com necessidade de ajuda. A per-
cepção das pessoas de que estes 
profissionais são como super-heróis, 
imbatíveis e com poderes mágicos, 
precisa ser substituída por um reco-
nhecimento de que os profissionais 
de saúde também são vulneráveis e 
precisam de cuidado.
Especificamente, programas de pro-
moção da saúde, com ênfase em fa-
tores de risco para doenças crônicas 
são prioritários. Os profissionais de 
saúde do Brasil precisam de progra-
mas de promoção da atividade física, 
estímulo à alimentação saudável, 
prevenção e cessação do tabagismo 
e do consumo abusivo de álcool. 
Todos esses fatores de risco se tor-
naram mais frequentes durante 
a pandemia de Covid-19, e 
a reversão dessa 
tendência exige políticas de promo-
ção da saúde efetivas e urgentes.
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40 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
A pandemia ceifando vidas: 
o luto pela perda dos pacientes 
e de pessoassignificativas
C A P 0 0 8
Samantha Brandes
Médica especialista em Clínica Médica, 
com área de atuação em Medicina Paliativa.
41GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Acompanhar a morte e sofrimento 
de alguém não é uma tarefa fácil, 
tampouco leve1. A ocorrência de 
casos de infecção por SARS-CoV-2 
e óbito em curto espaço de tempo - 
incluindo mortes múltiplas em uma 
mesma família, de profissionais de 
saúde, populações mais vulnerá-
veis - trouxeram desafios à forma de 
lidar com as perdas e viver o luto2.
Morrer por Covid-19 colocou novos 
desafios à reflexão sobre o proces-
so, a experiência da morte e elabo-
ração do luto, tanto para familiares 
e amigos, em razão da proibição de 
cerimônias fúnebres tradicionais, 
que impede o contato físico nos 
rituais de despedida - tornando a 
morte solitária, asséptica, isolada. 
Como consequência desses pro-
cedimentos, em várias localidades 
ocorrem “enterros-relâmpago, 
parentes desolados, luto frustrado”3. 
Os profissionais da saúde precisa-
ram ser treinados e atualizados com 
as informações sobre os protocolos, 
encaminhamento e comunicação 
dos óbitos e sobre formas de evitar o 
seu próprio contágio4.
Dadas as múltiplas perdas, principal-
mente de pessoas da rede socioafe-
tiva, considerou-se esperado o luto 
no contexto de pandemia. O luto 
consiste em um processo normativo 
de adaptação às perdas, abrangen-
do emoções, cognições, sensações 
físicas e mudanças 
comportamentais. 
Quando essas 
perdas envol-
vem pessoas 
da rede 
socioafeti-
va, algumas 
tarefas são 
essenciais 
para ela-
boração do 
luto, a saber: 
aceitação da 
realidade da 
perda, reco-
nhecimento do 
sofrimento que 
a perda acarretou, 
adaptação ao contex-
to de vida sem a presença da pessoa 
falecida e reposicionamento emo-
cional da pessoa falecida, ou seja, 
organização de um espaço emocio-
nal para lembrar dela, de modo que 
se possa dar continuidade à vida5,6. 
O luto implica em ser dinâmico, não 
estático. Nesse processo, o indivíduo 
percorre caminhos sobrepostos, 
concorrentes e paralelos em seus 
questionamentos sobre religião, 
espiritualidade, pertencimento e 
identidade social. Vive repercussões 
na saúde e na sua capacidade cog-
nitiva, com impacto no desempenho 
de tarefas7. 
Usualmente, nos hospitais e nas 
unidades de terapia intensiva (UTIs), 
são os profissionais da equipe de 
enfermagem que mais mantêm 
contato, direto e prolongado, com os 
pacientes, atendendo a suas ne-
cessidades, estabelecendo vínculos 
afetivos e acompanhando por maior 
tempo aqueles em processo de 
terminalidade. Na pandemia de Co-
vid-19, esse aspecto se transforma, 
pois os profissionais da fisioterapia e 
médicos acabam tendo, igualmente, 
contato muito intenso e prolongado, 
principalmente, com os pacientes 
internados em UTIs8.
 
O cenário vivido durante os períodos 
mais críticos da pandemia eviden-
ciou desafios no autocuidado dos 
profissionais de saúde, desde aque-
les ligados à biossegu-
rança - como o uso 
de Equipa-
men-
tos de Proteção 
Individual (EPIs) - aos referentes 
à saúde mental - em função da 
sobrecarga de trabalho, da insegu-
rança quanto à própria saúde e vida, 
e sobretudo, pelo contato frequente 
com grande número de pacientes 
graves e que evoluíram para o óbito. 
Estudos identificaram altos níveis de 
sofrimento psíquico entre profis-
sionais atuantes na linha de frente 
do cuidado, com manifestações de 
quadros como depressão, ansieda-
de, estresse pós-traumático, medo 
de ser contaminado e contaminar 
seus familiares, entre outros8,9.
Tampouco não se pode esquecer de 
que os profissionais da saúde que 
atuaram na linha de frente – sejam 
das equipes de cuidados intensivos, 
sejam daquelas de cuidados palia-
tivos – enfrentaram dificuldades 
extremas de executar suas funções, 
além do estresse pelo risco que 
correm no seu dia a dia. Wallace et 
al. (2020) apontaram que, em razão 
do luto não reconhecido, os profis-
sionais da saúde responsáveis pela 
linha de frente durante a pande-
mia apresentam elevado risco de 
burnout, sofrimento moral, estresse 
traumático secundário e luto compli-
cado, este não enfrentado em razão 
da pressão de trabalho7.
O profissional ligado diretamente à 
assistência do paciente internado 
foi, ele mesmo, com seu corpo, suas 
mãos, sua voz e ouvidos, os 
meios de interação 
do paciente com o 
mundo externo. 
Nesta direção, 
da oferta de 
um cuidado 
integral ao 
doente, o 
profissional 
de saúde 
também se 
comprome-
teu inte-
gralmente, 
empres-
tando sua 
corporalida-
de: usa a sua 
voz na leitura 
de mensagens, 
seus braços seguram 
o celular e a ser visto pelos familia-
res nas videochamadas. Além disso, 
participa do encontro familiar como 
mediador e, muitas vezes, interlocu-
tor de ambas as partes. Faz, portan-
to, um papel que nenhuma tecno-
42 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
logia ainda pode 
substituir: a de 
amparo emocio-
nal. Deste modo, 
o profissional de 
saúde pode ser com-
preendido como mediador 
físico e emocional entre o pa-
ciente e sua rede socioafetiva1.
A vivência da 
espiritualidade foi 
fundamental para 
contribuir com a 
ressignificação, 
após o processo 
doloroso de luto, 
que não pôde ser 
“materializado” 
em vigência da 
pandemia. 
 
No contexto hospitalar, o psicólogo 
pôde identificar os pacientes com 
alto risco de morte, explorar as 
compreensões sobre a gravidade 
da doença, o desejo e as condi-
ções emocionais, tanto por parte 
do enfermo quanto das pessoas 
afetivamente mais próximas, para 
realização de ritual de despedida. 
Além do acompanhamento remoto 
ao enfermo e à família, o psicólogo 
também pode oferecer suporte e 
orientação aos profissionais da linha 
de frente, inclusive nos procedimen-
tos relativos ao ritual de despedida10. 
Rituais funerários, considerados or-
ganizadores do processo de despe-
dida e importantes para elaboração 
do luto, necessitaram de reconfi-
guração durante a pandemia. De 
acordo com as orientações sanitárias 
vigentes, os falecidos em decorrên-
cia da Covid-19 deveriam ser crema-
dos ou alocados em caixão lacrado, 
o que impediu a aproximação ou 
a visualização do corpo. Quando 
possível, recomendou-se a realiza-
ção de estratégias presenciais de 
despedida adaptadas às restrições 
do período, bem como ao contexto 
sociocultural e familiar, ou mesmo 
estratégias remotas de despedida11, 
como videochamada.
Embora expressões de condolên-
cias, 
afeto e 
espiritualidade não substituam os 
rituais funerários, tradicionalmente 
adotados pelas comunidades, foi 
possível auxiliarem na resolução do 
luto, à medida que oferecem opor-
tunidades emocionais e cognitivas 
para lidar com a perda12. Ademais, 
dado que a pandemia de Covid-19 
interrompeu as experiências usuais 
de luto, gerando medo quanto ao 
presente e incertezas quanto ao 
futuro.
Profissionais da linha de frente dedi-
caram-se à humanização dos aten-
dimentos, com destaque aos cuida-
dos paliativos, buscando controlar 
sintomas e aliviar o sofrimento. Bem 
como precisaram reinventar formas 
de auxiliar os pacientes e seus fami-
liares a lidarem com a morte. Sobre 
esse tema, Crepaldi e colaboradores 
(2020) assinalam a importância de 
potencializar formas alternativas 
e respeitosas de ritualização dos 
processos vividos, que permitam 
ressignificar as perdas pela Covid-19. 
Foi possível observar uma mudança 
na relação dos profissionais com 
as famílias de pacientes em estado 
crítico, marcada pela espiritualidade 
como estratégia para a elaboração 
do luto. Surgiu uma preocupação 
dos 
familiares 
dos pacientes com a equipe 
de saúde, em certo sentido uma re-
ciprocidade do cuidado4. A espiritu-
alidade foi evocada pelos profissio-
nais da saúde como um recurso para 
lidar com situações-limite e manter 
o compromisso profissional. Nasci-
mento e Caldas (2020) a conside-
raram uma forma de promoção da 
saúde psíquica que exerce influência 
sobre as demais dimensões huma-
nas, sendo parte da integralidade do 
cuidado em saúde13.
A vivênciada espiritualidade foi 
fundamental para contribuir com 
a ressignificação, após o proces-
so doloroso de luto, que não pôde 
ser “materializado” em vigência da 
pandemia. A espiritualidade aponta 
para o sentido da esperança, o poder 
da resiliência, da reflexão e a dispo-
sição dos meios internos para esse 
enfrentamento14. A espiritualidade 
se inclui, nesse momento da vida 
do indivíduo, como uma espécie de 
“porto-seguro” e direcionamento 
para as questões da morte, sendo 
responsável por trazer conforto e 
esperança aos que vivem a experi-
ência do luto15.
Torna-se, portanto, necessário 
refletir acerca do processo de luto 
43GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
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13. Nascimento, AKC, Caldas, MT. Dimensão 
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15. Freitas, J, Michel, L. A maior dor do 
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283, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/
pdf/ pe/v19n2/10.pdf.
também nos profissionais de saúde 
- acompanhar a morte e sofrimento 
de alguém não é uma tarefa fá-
cil, mas que reconhecê-la difícil e 
singular e compartilhá-la com pares 
e equipe pode tornar a jornada 
menos solitária e sofrida1. Algumas 
estratégias de autocuidado, por 
exemplo: fazer pequenos intervalos 
e se desconectar da área geradora 
de tensão; confiar em seu preparo 
e em sua capacidade para a função 
exercida; amparar-se em informa-
ções confiáveis sobre os recursos 
e serviços para os quais pode fazer 
encaminhamentos; e contar com 
suporte dos pares e supervisão 
adequada7.
 
A espiritualidade se inclui, 
nesse momento da vida 
do indivíduo, como uma 
espécie de “porto-seguro” 
e direcionamento para as 
questões da morte, sendo 
responsável por trazer 
conforto e esperança aos 
que vivem a experiência 
do luto15.
As ações de cuidado com os profis-
sionais de saúde não se restringem à 
oferta de atendimento psicológico a 
eles, mas no investimento em ações 
que abram espaço para expressão 
da subjetividade, que permitam a 
circulação da palavra, que rompam 
com o silêncio em torno da morte, 
mesmo dentro do hospital, e com o 
imaginário de que profissionais mais 
competentes são aqueles que se 
mantém afetivamente afastados do 
usuário e das questões subjetivas 
que atravessam suas práticas de 
cuidado1.
É necessário reorganizar os espaços 
de convívio e relaxamento no âmbito 
hospitalar (como os refeitórios e 
áreas de lazer), por onde circulam os 
profissionais da saúde, de modo a 
torná-los seguros e aprazíveis, bem 
como manter um suporte psicosso-
cial efetivo para aqueles que estive-
ram na linha-de-frente da pandemia 
e enfrentaram processos de luto3. 
Também se torna necessário o olhar 
para a espiritualidade como uma 
ferramenta de autocuidado, através 
de crenças e fé do profissional de 
saúde. Existem outras práticas de 
autocuidado que podem ser incluí-
das na rotina do profissional, como 
prática regular de atividade física, 
yoga, meditação, sono adequado, 
contato com a natureza e relaciona-
mentos saudáveis.
Para concluir, sabe-se que o luto 
de cada pessoa é único, o reconhe-
cimento de que os processos de 
terminalidade, morte e luto são ex-
perienciados de forma singular, não 
havendo uma sequência estanque 
ou normatizadora, tampouco rigidez 
nos rituais que favorecem a despe-
dida e a elaboração de sentido para 
as perdas em tempos de pandemia2.
44 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 0 9
Carolina Blaya Dreher
Professora adjunta de psiquiatria da UFCSPA e da UFRGS, pesquisadora do HCPA e 
é psiquiatra na prática privada. É preceptora da residência em Psiquiatria da UFCSPA 
no Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas (HMIPV) e também preceptora da 
residência de psiquiatria no HCPA, coordenadora do ambulatório de Terapia 
Cognitivo-Comportamental e preceptora do ambulatório de Ansiedade do HCPA.
As intervenções usadas 
para melhorar a saúde mental 
dos profissionais na linha de frente 
de combate da Covid-19: 
o que deu certo?
45GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
A infecção humana causada pelo 
coronavírus SARS-Cov-2 foi uma 
emergência de saúde pública1 que 
teve impacto na saúde mental da 
população em geral. Estudos prévios 
já haviam identificado que pande-
mias, desastres naturais e atentados 
aumentam de forma significativa 
os problemas de saúde mental 
imediatos e tardios2–7. Por exemplo, 
um estudo realizado na Inglaterrademonstrou que a saúde mental da 
população deteriorou comparada às 
taxas pré-Covid. Os mais acometidos 
foram as mulheres, pessoas jovens e 
crianças2. 
Outras populações também foram 
fortemente impactadas, como os 
profissionais de saúde que lidam na 
linha de frente dos cuidados8,9. Den-
tre eles, as mulheres, bem como os 
enfermeiros, foram os que sofreram 
maior impacto negativo na saúde 
mental10.
O sofrimento psíquico, diante de 
situações extremas das equipes 
envolvidas na assistência de pan-
demias, costuma ser mais a regra 
que a exceção. Já no início da 
pandemia, estudos mostraram uma 
prevalência elevada de sintomas 
depressivos (50,4%) e ansiosos 
(44,6%)11.Parte desse sofrimento 
psíquico podia ser atribuído ao medo 
como uma resposta natural, pois 
esses profissionais estavam com um 
risco aumentado de se infectar. 
Entretanto, muitos quadros 
psiquiátricos aumentaram 
nessa população. Uma 
metanálise, que avaliou 
enfermeiros durante a 
pandemia, encontrou 
altas taxas de preva-
lência de depressão 
(32%), ansiedade (32%) e 
síndromes ligadas ao trauma 
(18,6%)12.
A abordagem terapêutica, 
voltada para os profissionais 
da linha de frente, precisava, 
então, abordar as diferen-
tes síndromes. Foram 
diversos os desafios 
para a construção 
de interven-
ções em larga 
escala num 
contexto de 
excesso de demanda imposto a um 
sistema que se encontrava saturado. 
Além disso, o uso da telemedicina 
no Brasil, no início da pandemia, 
ainda não estava regulamentado, e 
a telepsicoterapia ainda era incipien-
te. Houve também uma flutuação 
na demanda de assistência mental, 
muito relacionada com as diferentes 
ondas de infecção13. Felizmente, ob-
servaram-se várias ações individuais 
de hospitais e associações voltadas 
para esse público, mas poucas foram 
as abordagens estruturadas com 
ensaio clínico randomizado.
A abordagem terapêutica, 
voltada para os 
profissionais da linha de 
frente, precisava, então, 
abordar as diferentes 
síndromes. Foram 
diversos os desafios 
para a construção de 
intervenções em larga 
escala num contexto de 
excesso de demanda 
imposto a um sistema que 
se encontrava saturado.
Dentro dessa perspectiva, foi de-
senvolvido no Brasil o TelePSI14, um 
programa assistencial e de pesqui-
sa destinado ao atendimento dos 
profissionais da linha de frente. Esse 
programa contou com estratégias 
manualizadas15, equipe treinada e 
supervisionada, cuidado baseado 
em medida e otimização dos recur-
sos humanos para a assistência e 
também buscava identificar qual a 
abordagem mais eficaz num ensaio 
clínico randomizado. Esse programa 
também desenvolveu vídeos de 
psicoeducação, destinados a essa 
população, mas que também foram 
disponibilizados livremente para a 
população geral. Para o tratamento 
dos participantes, foram desenvol-
vidas três diferentes abordagens16 
e todas se mostraram efetivas. Uma 
abordagem de menor intensidade 
era composta por elementos de 
psicoeducação, primeiros socorros 
psicológicos e abordagens motiva-
cionais para estratégias de adapta-
ções saudáveis, como por exemplo 
prática de exercício, meditação e 
socialização através da internet.
 Outra abordagem disponibilizada 
foi a terapia cognitivo-comporta-
mental, que inclui, além de primeiros 
socorros psicológicos, técnica de 
respiração diafragmática, mindful-
ness, modelo cognitivo, desenvolvi-
mento de pensamento alternativo, 
reatribuição cognitiva, solução 
de problemas, ativação com-
portamental e prevenção 
de recaída. E a terceira 
abordagem disponibili-
zada utilizava recursos 
da terapia interpessoal, 
voltada para processos 
de transição e confli-
tos interpessoais. Essa 
abordagem ampara-se 
no desenvolvimento de 
uma relação terapêutica 
e o estabelecimento do 
foco da terapia em três 
áreas: luto, disputas 
interpessoais e tran-
sição de papéis. As 
técnicas utilizadas 
incluíam a explora-
ção do material psí-
quico de uma forma 
não diretiva, com cla-
rificação, análise da 
comunicação, 
46 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
análise de decisão, aconselhamento 
e mentalização.
Os ensinamentos do TelePSI foram 
diversos. Primeiramente, identifica-
mos o grande desafio de abordar a 
população de linha de frente, talvez, 
por isso, exista pouca evidência 
científica com essa população. Uma 
extensa revisão recente de estraté-
gias de suporte para profissionais de 
linha de frente identificou 16 estudos 
desenvolvidos em epidemias, sendo 
a maioria na epidemia do Ebola.17 
Encontraram que ain-
da não há evidência 
quantitativa ou 
qualitativa de boa 
qualidade que 
tenha, ade-
quadamente, 
avaliado 
interven-
ções para 
promoção 
de resiliên-
cia e saúde 
mental, des-
tinadas aos 
profissionais de 
linha de fren-
te. Os autores 
identificaram al-
gumas variáveis que 
influenciam na entrega 
de intervenções para essa 
população. Entre os dificultadores, 
existe a falta do reconhecimento da 
necessidade de intervenção pe-
los próprios profissionais ou pelas 
organizações e a falta de recursos 
técnicos ou de pessoal para o aten-
dimento. Entre os facilitadores para 
as intervenções, estão o fácil acesso, 
o uso de comunicação efetiva e a 
abordagem com medidas suporti-
vas17.
A experiência do TelePSI, prova-
velmente, é o maior ensaio clínico17 
já realizado para essa população. 
Embora esse programa tenha con-
tornado alguns dificultadores com 
uma equipe disponível e treinada, 
bem como contado com facilitadores 
com a teleterapia e telepsiquiatria, 
também encontrou a dificuldade de 
acessar essa população. Inicialmente 
o recrutamento era disponibilizado 
através de uma linha telefônica, mas 
que logo foi naturalmente substituí-
do por um recrutamento através do 
site. 
O TelePSI acolheu num cadastro 
inicial mais de 6.700 participantes, 
mas foi convertido em atendimento 
para cerca de metade deles. Foram 
necessárias diversas abordagens 
de divulgação, tanto em meios de 
comunicação18, como com contato 
direto com hospitais, impulsiona-
mento através da rede e envio de 
e-mails semanais 
para os ges-
tores 
de saúde. 
Embora o número de 
participantes supere qualquer relato 
da literatura até então disponível, o 
número é inferior ao que havia sido 
esperado. O pico de procura coinci-
diu com o pior período da pandemia 
no Brasil, em que os hospitais es-
tavam predominantemente lotados 
e o número de mortes atingiu seu 
pior índice. A intensidade da sinto-
matologia dos participantes também 
surpreendeu. 
Esperava-se que a distribuição da 
sintomatologia seguisse a curva de 
Gauss, entretanto mais da metade 
dos participantes apresentava sin-
tomas graves, predominantemente 
sintomas ansiosos. Como a busca 
por atendimento era pessoal, en-
tende-se que os que apresentavam 
sintomas graves buscaram propor-
cionalmente mais a assistência. 
Quando ocorreu o pico de procura, 
o TelePSI já estava com a equipe 
adequadamente treinada, com os 
protocolos de atendimento estabele-
cidos e o com acesso através do site.
A pronta resposta por atendimento, 
onde quer que a pessoa estivesse, 
foi o grande diferencial desse pro-
grama. Após o contato inicial com o 
cadastro, o participante era atendido 
em até uma semana. Essa aborda-
gem somente foi possível por conta 
do teleatendimento que disponibi-
lizou, para todo o país, abordagens 
psiquiátricas e psicológicas 
de alta qualidade até 
mesmo em locais 
em que não exis-
tia profissional 
de saúde 
mental. 
Além da 
vantagem 
da pronta 
resposta, o 
terapeuta 
recebia os 
escores das 
escalas de 
sintomatologia e 
escalas de estra-
tégias de regulação 
do estresse, que o 
paciente havia preenchi-
do no cadastro, otimizando o 
tempo da sessão inicial e fazendo o 
uso do cuidado baseado em medi-
da. Esta medida demonstrou-se útil 
no acompanhamento de pacientes 
psiquiátricos para avaliar o progres-
so ao longo do tempo e planejar o 
cuidado19, no entanto, a sua implan-
tação frequentemente sofre com 
algumas barreiras. Nesse projeto, os 
resultados das escalas foram apre-sentados com escores normativos e 
de forma gráfica, representada com 
cores para identificar a gravidade. 
Nas reavaliações, o participante 
também recebeu as suas avaliações 
sintomáticas ao longo do tempo, 
permitindo-o utilizar e aplicar os 
recursos identificados nas sessões 
de psicoterapia. 
Como o propósito desse programa 
era breve, os participantes eram 
também orientados a identificar os 
sinais de alerta para buscar aten-
dimento na sua rede. O segundo 
grande ganho desse programa foi 
a implantação do cuidado, baseado 
em medida com a utilização clínica 
47GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
de escalas validadas, fornecendo um 
recurso adicional para o terapeuta e 
também para o participante.
A avaliação de risco de suicídio foi 
feita de forma universal com per-
guntas de triagem autoaplicadas. 
Se houvesse algum pensamento de 
morte, o participante era avaliado 
inicialmente por um psiquiatra para 
uma anamnese detalhada, a fim de 
identificar e estratificar o risco de 
suicídio. Os dados iniciais do TelePSI 
mostraram que 30% do total dos 
participantes apresentaram, nas 
últimas duas semana, pensamen-
tos de morte, no entanto o risco de 
suicídio moderado ou grave identifi-
cado na avaliação psiquiátrica foi em 
7% dessa subamostra, ou seja, em 
2% da amostra total. Esses dados 
mostraram que “ter pensamentos 
nas duas últimas semanas” era 
uma pergunta muito inclusiva para 
exigir a consulta psiquiátrica antes 
da sessão de psicoterapia. Por outro 
lado, quando a avaliação do risco 
pelas perguntas de triagem inden-
tificava que a frequência desses 
pensamentos de morte era maior 
que a metade dos dias, a chance de 
identificar um paciente com risco 
de suicídio moderado ou grave na 
entrevista psiquiátrica era 28 vezes 
maior20. Esse modelo, que pode 
ser facilmente replicado, norteia o 
encaminhamento para os diferen-
tes profissionais da saúde mental e 
direciona para consulta psiquiátrica 
somente os com maior probabilida-
de de risco. Já os demais participan-
tes recebem o atendimento breve, 
com profissional da área da saúde 
mental, através da telepsicoterapia, 
que poderia, posteriormente, enca-
minhar para a avaliação psiquiátrica, 
se fosse necessário.
Entre os dificultadores, 
existe a falta do 
reconhecimento 
da necessidade de 
intervenção pelos próprios 
profissionais ou pelas 
organizações e a falta 
de recursos técnicos 
ou de pessoal para o 
atendimento. Entre os 
facilitadores para as 
intervenções, estão o 
fácil acesso, o uso de 
comunicação efetiva e a 
abordagem com medidas 
suportivas17.
Identificamos, também, nesse 
programa que todas as interven-
ções funcionaram, e novamente 
observa-se o custo-efetividade das 
intervenções breves que incluem 
primeiros socorros psicológicos. O 
uso dessa abordagem suportiva21 é 
a intervenção recomendada pelo de-
partamento americano de veteranos 
frente a uma situação traumática. É 
uma abordagem não intrusiva, com 
foco no presente, com estratégias de 
resolução de problemas voltada para 
o restabelecimento de função. 
A eficácia dessa intervenção na 
população que sofre um estressor 
agudo provavelmente se ampara 
num funcionamento prévio hígido 
e não numa sintomatologia crôni-
ca. Sabe-se que a história prévia 
de psicopatologia é um preditor do 
adoecimento mental, assim como se 
observou frente à epidemia22.
A tecnologia foi amplamente incor-
porada nos cuidados de saúde nos 
últimos anos. Por exemplo, uma 
recente revisão sistemática identi-
ficou quatro estudos que demons-
traram benefícios de aplicativos com 
vídeos para a utilização de recursos 
terapêuticos durante uma crise23 
de maior demanda emocional. No 
TelePSI, também os vídeos psicoe-
ducativos foram incorporados com 
um propósito de reforçar as diversas 
técnicas psicoterápicas e a psico-
educação dos participantes entre 
as sessões. O próprio terapeuta 
enviava os vídeos para os partici-
pantes, caracterizando então um 
cuidado continuado. Curiosamente, 
eles foram amplamente visualizados 
pela população geral, com mais de 
100.000 visualizações. Observamos 
que, dentre os 28 vídeos ofertados, 
em apenas um deles - da técnica 
da respiração diafragmática - foi 
responsável por quase metade das 
visualizações. A disponibilização de 
ferramentas de suporte através da 
internet já havia auxiliado na promo-
ção de bem-estar mental, previa-
mente24, mas teve seu incremento 
com a pandemia23.
Por fim, entende-se que boa parte 
dos indivíduos sofrerá com sinto-
mas predominantemente ansiosos 
frente a um estressor grave. No 
entanto, a maioria evoluirá bem, 
quando atendida de forma imediata 
com intervenções de baixa intensi-
dade, até mesmo de forma remota. 
Esse contato possibilita identificar 
aqueles que necessitam de uma 
intervenção de maior intensidade 
para serem referenciados à rede. O 
uso da tecnologia facilitou o acesso, 
a mensuração dos sintomas, o meio 
de abordagem e o reforço de cuida-
do, que parece ter sido fundamental 
para os profissionais de linha de 
frente. Além disso, a disponibilização 
do treinamento, dos protocolos25 e 
dos vídeos, através da rede, acabou 
atingindo um número muito maior 
de pessoas.
48 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
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mental health professionals to provide support 
in brief telepsychotherapy and telepsychiatry 
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J Psychiatr Res. 2020 Dec;131:269-270. doi: 
10.1016/j.jpsychires.2020.09.036.
49GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
A revolução da telemedicina 
na pandemia: quais ferramentas 
restarão para o uso do profissional 
de saúde no pós-pandemia?
C A P 0 1 0
Stephan Sperling
Médico, especialista em 
Medicina de Família e 
Comunidade e Atenção Primária 
à Saúde, Coordenador Médico de 
Projetos de Compromisso Social e Saúde 
Digital no Hospital Sírio-Libanês e Assistente 
ambulatorial na Saúde Suplementar.
Marina Pacheco Coelho
Médica psiquiatra no PROADI-SUS do 
Hospital Sírio-Libanês, na Atenção 
Especializada em Saúde Mental (AMENT) 
e no consultório particular.
Sabrina Gadenz
Epidemiologista que atua em projetos de 
telemedicina, inovação e gestão da saúde. 
Atualmente atua como liderança do portfólio 
de projetos de saúde digital da Diretoria de 
Compromisso Social do Hospital Sírio-Libanês.
50 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
A constituição de uma sociedade 
em redes, com desenvolvimento 
tecnológico presidindo as principais 
cadeias de valor, extremamente 
transformada em seus fundamen-
tos, vem marcadamente modifi-
cando a forma como os usuários 
dos diversos Sistemas e Serviços 
de Saúde relacionam-se com suas 
necessidades e, mais incipientemen-
te, na forma como profissionais e 
serviços vem repensando suas ofer-
tas e intervenções1. O advento da 
globalização e da “nova era digital”, 
precursor de um novo formato dinâ-
mico e fluído de disseminação 
da informação, é capaz de 
aproximar as mais distin-
tas culturas e realida-
des. Ele promove, em 
contrapartida, buscas 
contínuas e desenfre-
adas por conhecimen-
tos, aceitação social e 
uma necessidade de 
“pertencimento” neste 
novo modelo, que 
facilmente extrapola 
os limites psíquicos, 
desencadeia toxicidade 
e fragiliza as interações 
sociais, contribuindo 
para um agravamento 
das questões de saúde 
mental, desde o início 
do século XXI2. A pande-
mia de Covid-19 expôs, de 
forma globalizada, a vulnerabilidade 
humana, aumentando em 25% os 
casos de depressão e ansiedade em 
todo mundo. A situação reforçou a 
importância de discussões atuais e 
contribuiu, fortemente, para redução 
dos estigmas e preconceitos em 
relação à saúde mental3.
No contexto atual, as condições de 
saúde mental são as principais cau-
sas de incapacidade no Brasil e no 
mundo, contribuindo para inúmeros 
problemas de saúde pública - su-
perlotação de serviços, realização de 
exames desnecessários, etc - além 
de exacerbar questões sociais e 
acentuar os gastos governamentais 
e previdenciários. Em contrapartida, 
o acesso a profissionais e serviços 
especializados ainda é muito precá-
rio. A partir da necessidade de adap-
tabilidade, frente a cenários inéditos, 
a pandemia acelerou as transfor-
mações tecnológicas e a construção 
de novas propostas de atenção, 
apoio e acolhimento às questões de 
saúde. Promoveu a ressignificação 
da jornada e do entendimento do 
cuidado, também para os usuários, 
incentivando um maior protago-
nismo na promoção e no gerencia-
mento da própria saúde4. A prática 
da telessaúde contribui com o 
compartilhamento do conhecimento, 
através da educação continuada, 
seja por seminários, 
troca de 
experiências 
e discussões de casos, transcen-
dendo as barreiras físicas locais, 
suscitando a otimização do cuidado 
na saúde mental, de forma integral, 
compartilhada e multidisciplinar5. As 
novas tecnologias também permi-
tem maior acesso à informação aos 
próprios usuários. Cada vez mais, 
eles buscam o autogerenciamento 
de seus processos de cuidado, seja 
na escolha de um profissional ou 
serviço, que atenda às suas neces-
sidades de horário, agendamento e 
deslocamento, seja no formato de 
agendamento deste atendimento - 
ligação, aplicativos, etc. Mesmo nas 
decisões por gatilhos internos (inner 
compass), isto é, menos direcio-
nadas por fatores externos como 
referências acadêmicas ou padrões 
tradicionais, e mais gerenciamento 
às suas necessidades pessoais4.
A simples oferta de agenda assis-
tencial, para a pessoa usuária, deixa 
de ser o objeto central na discussão 
do cuidado digital, cedendo espaço 
para a compreensão da jornada. 
Ospassos devem ser dados para 
estruturar a demanda a ser atendida, 
a partir das necessidades da pessoa 
consultada. Este cenário vem impac-
tando o encontro clínico de forma 
contundente e tem gerado resistên-
cias e incompreensões, justamente, 
por expor as limitações do formato 
de consulta que, até então, minis-
trava-se nas academias como 
padrão ouro de intervenção 
e reproduzia-se como 
única possibilidade de 
encontro2. A atenção 
dedicada ao regis-
tro clínico exces-
sivo, com pouca 
adaptabilidade, 
em um encontro 
de termos prede-
finidos ao contato 
e validado ape-
nas se executado 
presencialmente, 
deslocou-se para 
a atenção à pessoa, 
em registros orienta-
dos para o problema, 
com pactuação dos 
termos em conjunto 
entre profissional e 
paciente e com formas de 
contato variadas. Há, por-
tanto, uma recontratação da clínica 
como a possibilidade de inclinar-se, 
de fato, sobre o paciente, e não 
exclusivamente sobre a agenda do 
profissional. Isso significa, necessa-
riamente, dizer que a tecnologia da 
consulta síncrona presencial está 
em crise, e não é de hoje. Portan-
to, a compreensão do significado 
da consulta e a identificação dos 
passos necessários para obtê-la são 
preliminares ao tipo de tecnologia 
a ser empregada, de modo que o 
recurso tecnológico diga respeito 
não apenas à sua disponibilidade, 
antes sim, à sua pertinência a quem 
se cuida2. 
No processo de descoberta da 
pessoa usuária, e de qual jornada 
de cuidado lhe fará mais sentido, a 
multicanalidade permite ao profis-
sional estruturar sua comunicação 
clínica e otimizar a acessibilidade de 
pessoas. Isto é, a oferta por meio das 
51GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Tecnologias Digitais de Informação 
e Comunicação (TDICs) de diferen-
tes canais para contato síncrono 
ou assíncrono. Destacadamente 
existem: as que possuem restrições 
ao contato presencial por barreiras 
geográficas; as que possuem res-
trição econômica para financiar seu 
deslocamento para os serviços de 
saúde disponíveis; as que convivem 
com redução de mobilidade; ou as 
que possuem pouca disponibilidade 
para encontros presenciais por suas 
dinâmicas laborais. Canais frequen-
temente utilizados para encontro 
síncrono são chamadas telefônicas 
e videochamadas, e para formato 
assíncrono, de aplicativos de trocas 
de mensagem, plataformas que con-
templem chatbox e correspondência 
eletrônica6,7. 
Com várias experiências registra-
das mundialmente, é preciso que 
padrões de boas práticas sejam 
definidos para que as orientações 
clínica, diagnóstica e terapêutica, 
intermediadas pelas TIC, garan-
tam a segurança do paciente e da 
informação e preservem a relação 
profissional-paciente. As TIC, assim 
empregadas no contexto assisten-
cial, tendem a promover proximi-
dade e maior afiliação, isto é, reco-
nhecimento por parte das pessoas 
de quem é seu cuidador. Estão 
disponíveis diferentes soluções de 
mercado que integram ferramentas 
para vídeo-chamada, registro clínico 
e chat para troca assíncrona. Estas, 
frequentemente, são as mais segu-
ras para compartilhamento de dados 
sensíveis como imagens, laudos, 
receituários e demais documentos 
médico-legais. Isto não invalida o 
apoio que outros aplicativos de troca 
de mensagens podem prestar na in-
terface com pacientes. Certamente, 
neste sentido, a plataforma What-
sApp é a mais empregada e, apesar 
de atenção que deva demandar por 
realizar “(...) backups automatizados 
na nuvem e permitir compartilha-
mento de galeria de fotos (...)”, pode 
facilitar compartilhamento de dados 
sem consentimento da pessoa.
O Conselho Federal de Medicina 
normatiza que “o WhatsApp e plata-
formas similares podem ser usados 
para comunicação entre médicos 
e seus pacientes; bem como entre 
médicos em caráter privativo, para 
enviar dados ou tirar dúvidas com 
colegas; em grupos fechados de 
especialistas ou do corpo clínico de 
uma instituição ou cátedra, com a 
ressalva de que todas as informa-
ções passadas têm absoluto caráter 
confidencial; e não podem extrapolar 
os limites do próprio grupo, nem 
tampouco podem circular em grupos 
recreativos, mesmo que composto 
apenas por médicos, ressaltando 
a vedação explícita em substituir 
as consultas presenciais e aquelas 
para complementação diagnóstica 
ou evolutiva a critério do médico por 
quaisquer das plataformas existen-
tes ou que venham a existir”8,9.
Observando-se a rotina assistencial, 
é importante distinguir acessibilida-
de de disponibilidade, especialmente 
quando o vínculo pessoaliza-se e 
quando a jornada de cuidado se 
constrói. As diferentes tecnologias 
devem ser empregadas em jor-
nadas que facilitem o acesso dos 
usuários ao seu melhor cuidado, 
porém devem elaborar e pactuar a 
disponibilidade de tempo para os 
contatos, evitando comprometer 
agendas e rotinas de profissionais 
e recursos humanos envolvidos. A 
fadiga por conectividade e a ansie-
dade por desempenhar respostas 
a todos os acionamentos podem 
impactar negativamente os envolvi-
dos na atenção ofertada, levando a 
esgotamento, diminuição de horas 
trabalhadas e, por fim, comprometer 
o acesso que se havia estruturado10.
Toda experiência de cuidado digital 
deve ser registrada em prontuário 
da pessoa, preferencialmente em 
prontuário eletrônico. O devido re-
gistro se impõe não apenas por força 
deontológica, isto é, por apenas o 
prontuário possuir reconhecimen-
to como documento médico-legal 
e gozar de fé pública. Pode ser 
auditável por perícia estabelecida, 
mas, particularmente nas platafor-
mas de registro, e permite extração 
de dados relevantes para tomada 
de decisões clínicas10. Atualmente, 
existem prontuários eletrônicos que 
atendem a regulamentação e pos-
suem funcionalidades amigáveis e 
intuitivas, permitindo a realização do 
contato, troca de informações com 
o paciente e registro em prontuário, 
integrados na mesma plataforma8.
A prevalência de condições atendi-
das em carteira de pacientes ou po-
pulações adscritas; comportamento 
de indicadores clínicos, pressão 
assistencial (encontros clínicos/dia); 
e frequentação de pacientes (encon-
tros clínicos/população ou carteira 
adscrita/ano) são exemplos de 
mensurações que boas ferramen-
tas podem fornecer ao profissional 
e serviços de saúde. Registro dos 
encontros permitem, igualmente, 
coleta e análises de dados a respeito 
da jornada, entregue para paciente 
e de sua experiência para além de 
desfechos clínicos. É importante 
reconhecer que jornadas multipro-
fissionais, contemplando diferentes 
habilidades e competências, podem 
ofertar cuidado mais abrangente, 
com olhares diversos, inclusive 
trazendo resposta tempestiva a 
dúvidas e conflitos e otimizando 
recursos para suas operações e a 
performance clínica.
Estes novos formatos de atenção 
devem, cada vez mais, conjugar o 
uso de diretrizes clínicas e a pro-
moção de linhas de cuidado, como 
forma de agregar valor à saúde, 
com a segurança da informação 
clínica, através da confidencialida-
de, privacidade e armazenamento 
dos dados, além da dispensação 
segura e eficaz de documentos 
médico-legais11. Frequentemente, 
profissionais de saúde queixam-se 
da multiplicidade de registros e da 
coleta de mesmos dados, bem como 
da reprodução desses em diferentes 
plataformas e sistemas, podendo 
incentivar condutas divergentes e 
mesmo iatrogênicas. O entendimen-
to da precisão de um registro único, 
capaz de contemplar informações e 
dados disponíveis nos mais diversos 
Serviços e Setores de Saúde, para 
além da jornada que faz sentido 
ao usuário e converse com o novo 
modelo de acesso ao cuidado, re-
força a necessidade de soluções de 
interoperabilidade. Nesse sentido, 
uma experiência com adaptação de 
diretrizes clínicas por meio do Digital 
Adaptation Kit (DAK) proposto pela 
OMS - disponível em https://www.
ghspjournal.org/content/ghsp/10/1/
e2100320.full.pdf - demonstra que 
a construção de uma linguagem 
52 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
única, orientada pelos usuários 
e cenáriosde uso, pode produzir 
diretrizes sensíveis à realidade 
clínica e fortalecer o engajamento 
dos profissionais. Como exemplo, 
as diretrizes clínicas adaptadas para 
pré-natal e planejamento reprodu-
tivo, disponíveis, respectivamente, 
em https://www.who.int/publica-
tions/i/item/9789240020306 e 
https://www.who.int/publications/i/
item/978924002974312.
Em experiência de teleconsultas, 
executada em território nacional, 
ofertando cuidado para mais de 17 
condições clínicas, pacientes rela-
taram alta satisfação com a jornada 
proposta (NPS 88), ressaltando 
como pontos de destaque a con-
veniência quanto à economia de 
tempo e à redução de custos com 
deslocamento. A execução envol-
veu três canais: chamada telefônica 
para triagem; videochamada para 
teleconsulta e recebimento de SMS, 
com link para conexão; e avaliação 
ao fim do atendimento. A atuação 
de enfermeiras na triagem das 
condições clínicas e na validação 
do melhor canal para a consulta 
com os pacientes; dos médicos de 
família, no acolhimento e orientação 
de fluxos nos casos de urgência, e 
também no atendimento de condi-
ções clínicas menos estruturadas; 
dos especialistas focais na atenção 
às linhas de cuidado predefinidas; 
e dos operadores de atendimento, 
apoiando o usuário em sua conec-
tividade e trajetória digital foram 
conjuntamente importantes para o 
desfecho positivo da operação.
A associação de recursos de multi-
canalidade e da multidisciplinaridade 
permitiu uma ampla coleta de dados 
– a partir das diferentes perspecti-
vas e atuações técnicas –, e promo-
veu maior acessibilidade ao cuidado, 
uma vez que 53% dos casos tiveram 
seguimento ambulatorial digital, com 
segurança e conforto ao paciente, 
sem necessidade de atendimento 
presencial. Para a sustentabilidade 
da estratégia foi indispensável que 
o acordo do modelo de assistência 
ocorresse compartilhado com o pa-
ciente, respeitando e contemplando 
tanto a expectativa da pessoa, como 
a segurança do manejo da condição 
clínica de forma remota. Foi neces-
sário compreender quais disposi-
tivos da rede de atenção à saúde 
estavam disponíveis ao teleconsultor 
para reduzir a chance de conversão 
do canal. Isto é, da teleconsulta para 
encontro síncrono presencial, por 
exemplo; na indisponibilidade de 
acesso a serviços de apoio diag-
nóstico (realização de exames ou 
procedimentos); na não aceitação de 
documento médi-
co-legal emitido 
com certificação 
digital; e na 
necessidade de 
prescrição de 
medicações com 
dispensação a par-
tir de receituários 
controlados, entre 
outros. 
Assim, a resolubilida-
de de um ambulatório 
digital será proporcio-
nal à capacidade de 
adaptação e acesso às 
ferramentas digitais, 
por parte do usuário, 
e ao desenvolvimento e 
emprego de novas soluções digitais 
pelos serviços da rede de atenção à 
saúde7.
A sustentabilidade da telemedicina, 
a longo prazo, depende da sua im-
plementação efetiva como parte da 
rede de serviços e, também, de mu-
danças organizacionais, logísticas e 
culturais. Por fim, o uso eficiente da 
telemedicina permite que serviços e 
profissionais se conectem entre si e 
também com os usuários de forma 
mais ágil, promovendo maior acesso 
à informação e interações multidis-
ciplinares capazes de transcender 
as barreiras geográficas. Nasce daí a 
possibilidade de otimizar o formato 
de cuidado até então estabelecido, 
humanizando, mais a promoção e o 
acompanhamento das condições de 
saúde já existentes, a partir de uma 
rede de assistência mais integral e 
dinâmica, mais sensível e atenta à 
realidade e especificidade de cada 
indivíduo6.
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53GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 1 1
Carmita Helena Najjar Abdo
Psiquiatra, Professora do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da 
Universidade de São Paulo (FMUSP). Coordenadora do Programa de Estudos em 
Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. 
Membro do Ethics Committee of International Society for Sexual Medicine (ISSM).
Reflexo do pós-isolamento 
nas relações interpessoais 
e na sexualidade
54 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
A emergência sanitária devido à 
pandemia de Covid-19 e as medidas 
adotadas para reduzir sua propaga-
ção tiveram forte impacto sobre a 
saúde, a economia e as sociedades 
em todo o mundo. Estresse pós-
-traumático, ansiedade, depressão, 
transtornos do sono, aversão, medo, 
culpa, dor e raiva foram as respostas 
mais comuns1-5. Todos esses des-
fechos resultaram do isolamento 
prolongado, do receio do contágio, 
da frustração, do tédio, da falta de 
informação, das perdas financeiras 
e do estigma. Some-se a isso, a pre-
ocupação com as crianças, a perda 
de entes queridos e a falta de apoio 
a indivíduos vulneráveis, graves 
ameaças ao bem-estar mental1. A 
pandemia também impactou forte-
mente a sexualidade de pessoas e 
os relacionamentos dos casais6. O 
confinamento, por sua vez, acar-
retou sérios danos às relações, ao 
bem-estar, à segurança e à saúde, 
pelo distanciamento social, pela 
coabitação forçada e pelas restrições 
de locomoção7.
Profissionais de saúde, muito 
frequentemente, não podendo 
se resguardar do contato com os 
pacientes infectados, também 
foram atingidos por todas as even-
tualidades que aqui registraremos, 
especialmente pela exposição sem 
escolha ao vírus. Como até o mo-
mento não há relevantes estudos 
específicos a respeito dos reflexos 
do pós-isolamento sobre as relações 
interpessoais e a sexualidade dos 
profissionais de saúde, vamos 
considerá-los neste texto 
como parte da população 
geral.
Pós-isolamento, 
relações interpessoais e 
sexualidade
No geral, durante o con-
finamento, houve certa 
redução na frequência 
sexual, principalmente 
entre solteiros e entre 
os que não consegui-ram estar com seus(su-
as) parceiros(as)8-14.
As mulheres foram mais 
propensas à ansieda-
de, depressão e estresse 
pós-traumático15,16, com impacto 
negativo sobre a sexualidade8,17-20. 
Aquelas que trabalharam fora de 
casa durante o confinamento e 
aquelas com maior nível de escola-
ridade apresentaram maior proba-
bilidade de piora na função sexual 
e na qualidade de vida, redução da 
frequência sexual e maior nível de 
angústia11. Tudo isso associado a 
maior desejo que os homens de 
praticar sexo casual14.
Os homens relataram piora de ere-
ção, disfunção orgástica e diminui-
ção da satisfação sexual,8,21 associa-
das a perda econômica e sintomas 
de ansiedade e depressão8.
No entanto, especialmente os ho-
mens com relacionamento estável, 
foram mais propensos a relatar 
aumento em vários comportamen-
tos sexuais, entre eles: masturbação 
recíproca, tentativas de novos reper-
tórios sexuais e mesmo sexo virtual 
com diferentes parcerias8,14.
As diferenças do impacto da pan-
demia de acordo com o gênero 
podem ser explicadas por aumento 
do trabalho doméstico (geralmente 
para as mulheres), fechamento das 
escolas e das atividades extracurri-
culares, diminuindo a possibilidade 
de momentos íntimos. De fato, ter 
um ou mais filhos esteve associa-
do à redução nos escores de 
função sexual feminina durante 
a pandemia11. Esses resultados 
também podem ser explicados pelo 
maior engajamento dos homens 
em atividades sexuais solitárias ou 
virtuais22.
Os homens relataram 
piora de ereção, disfunção 
orgástica e diminuição 
da satisfação sexual,8,21 
associadas a perda 
econômica e sintomas de 
ansiedade e depressão8. 
Entre os casais, a ruptura da rotina 
contribuiu para aumento do estresse 
e exacerbação de conflitos relacio-
nais, com consequente diminuição 
da atividade sexual solo e em parce-
ria10,23. 
Quanto à idade, a insatisfação sexu-
al de homens e mulheres esteve sig-
nificativamente correlacionada com 
a idade mais jovem e a gravidade da 
depressão19. Por outro lado, o enve-
lhecimento desempenhou papel na 
diminuição da qualidade percebida 
no casamento e na satisfação dos 
casais24.
Para os profissionais de saúde, 
aumento da carga de 
trabalho e maior risco 
de contágio, para si 
e para seus entes 
queridos, devido ao 
contato próximo 
55GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
com pacientes com Covid-19, in-
fluenciou negativa e genericamente 
as esferas emocional e sexual25.
Em suma, a piora da vida sexual 
parece estar mais relacionada a 
conflitos, emoções e dificuldades 
psíquicas, ser do sexo feminino, 
estar solteiro ou longe do(a) parcei-
ro(a), ser profissional de saúde e ter 
filhos10-12,19,21,25,26. Além disso, estres-
se, coabitação forçada, rotina, ansie-
dade e preocupação com o trabalho 
e a pandemia, sensação de distância 
do(a) parceiro(a) e falta de privaci-
dade foram associados à diminui-
ção de desejo, excitação, 
orgasmo e frequência de 
sexo21,24.
Em contrapartida, 
pessoas que 
passaram 
mais tempo 
com seus 
parceiros, 
sentiam 
menos 
estresse e 
estavam 
mais ente-
diadas (com 
a rotina de-
sestimulante), 
experimenta-
ram aumento em desejo, 
excitação, orgasmo e frequência de 
sexo24.
Redução da frequência sexual foi 
mais comum entre aqueles com 
níveis mais elevados de ansiedade, 
depressão e estresse13,24. Nesse 
sentido, a atividade sexual parece 
desempenhar um papel protetor na 
saúde individual. Tanto que a me-
lhora na sexualidade foi associada 
a viver feliz e estar satisfeito(a) com 
a parceria, sentir-se menos estres-
sado(a), ter mais tempo livre, menos 
oportunidade de recreação e menor 
carga de trabalho21,24,27.
Quanto às mudanças no compor-
tamento sexual, houve aumento no 
uso de brinquedos sexuais e mas-
turbação durante o isolamento12. 
Ocorreu aumento nas experimen-
tações, novas posições e fantasias 
sexuais entre pessoas que viviam 
com seus parceiros. Por outro lado, 
aqueles que moravam sozinhos re-
lataram taxas mais altas de compor-
tamentos sexuais virtuais com uso 
de tecnologia28. 
As medidas de quarentena para pre-
venir o contágio desencadearam um 
aumento do consumo de pornogra-
fia29,30. Além de ter função recreativa, 
assistir pornografia representou 
uma estratégia para lidar com 
emoções e sentimentos negativos, 
estresse, solidão e medo da morte 
(enfrentamento usando o sexo)29,31-
33 .
Utilização da 
web para sustentar o 
envolvimento sexual ativo surgiu 
como um substituto eficaz, reduzin-
do a distância entre os parceiros e 
expandindo os relacionamentos de 
namoro online. A orientação pre-
dominante para casais distantes foi 
manter contato digital regular para 
aliviar as carências34. Esse foi o ím-
peto por trás do sexting, do namoro 
pela webcam ou do hot call, que 
deixou os casais mais desinibidos6. 
A atividade de webcam, às vezes 
também com brinquedos sexuais, 
ampliou o repertório sexual. Praticar 
sexo online com a parceira regular 
(à distância de casa) ou com outra 
pessoa ajudou alguns a manter a 
libido35. 
O impacto negativo do isolamento 
sobre a saúde mental3,5,36-39 pode 
ter sido mais marcante em lésbicas, 
gays, bissexuais, transgêneros, 
queers, intersexo e assexuais (LGB-
TQIA+), mais propensos a sofrer 
transtornos de ansiedade e depres-
são40.
Durante a pandemia, essas pessoas 
estiveram mais em risco de isola-
mento social e físico e sua condição 
foi agravada por viver com famílias 
que não as aceitam, além de estar 
longe de amigos e outras fontes re-
levantes de apoio41,42. Esses aspec-
tos tiveram impacto negativo sobre 
a sexualidade dessas pessoas43.
A falta de apoio e de intimidade 
com familiares e amigos, de-
vido às restrições causadas 
pela Covid-19, 
pode ter 
piorado a vul-
nerabilidade 
à depressão 
e aumentado 
o impac-
to mental 
negativo 
em pessoas 
LGBTQIA+44. 
Maior uso 
de substân-
cias esteve 
relacionado à 
maior proba-
bilidade de ter 
relações sexuais 
tanto protegidas, 
quanto desprotegidas. 
É possível que o aumento da 
atividade sexual e do uso de subs-
tâncias possam representar estraté-
gias de enfrentamento ao sofrimen-
to relacionado ao isolamento33,45.
Envolvimento em sexo casual, du-
rante o isolamento social, foi asso-
ciado a ser mais jovem, solteiro, ter 
comportamentos sexuais mais arris-
cados antes da pandemia e sofri-
mento psíquico intenso31. Homosse-
xuais solteiros, que se sentiam mais 
sozinhos e mais emocionalmente 
angustiados, foram mais propensos 
a quebrar o isolamento social e se 
envolver em sexo casual31.
Considerações clínicas
O que emergiu desta revisão deve 
ser considerado em nível clínico. O 
papel dos problemas mentais e rela-
cionais sobre a sexualidade eviden-
56 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
cia a necessidade de34,46:
• Promover a resiliência e 
reduzir o efeito do estresse no 
relacionamento;
• Promover a coesão e a intimidade 
dos casais (papel protetor contra o 
desenvolvimento de doenças em 
situações de estresse como uma 
pandemia);
• Incentivar novas atividades sexu-
ais com a parceira (para enfrentar 
situação estressante e melhorar a 
vida sexual do casal);
• Atenção especial às populações 
com maior risco de resultados 
negativos (mulheres, LGBTQIA+, 
indivíduos em uso inadequado de 
pornografia);
• Continuar monitorando as mu-
danças na sexualidade das pessoas 
e suas implicações: se as mudanças 
persistem e quais intervenções so-
ciais e/ou de saúde são necessárias 
para mitigar os efeitos negativos da 
pandemia;
• O papel das plataformas digitais 
nesse novo cenário deve ser apre-
ciado, avaliado e considerado como 
uma ferramenta potencial para 
melhorar a saúde sexual, principal-
mente em um cenário tão inovador 
como o pós-Covid-19.
Reflexos do coronavírus 
sobre a atividade sexual e os 
relacionamentos em geral
Durante os estágios iniciais da 
pandemia, não foi dada atenção 
suficiente ao impacto sobre a função 
sexual, o que é compreensível diante 
do risco de infecções potencialmen-
te prejudiciais e fatais. Qualquer 
contato próximo(2m) com uma 
pessoa infectada poderia resultar 
em exposição ao SARS-CoV-2, 
portanto, a doença por coronavírus, 
independentemente de ser ou não 
“sexualmente transmitida” (por meio 
de sêmen ou fluidos vaginais), tem 
risco de exposição proximal, seja 
essa exposição sexual ou meramen-
te física. 
Nos últimos meses, estudos mostra-
ram que a infecção por coronavírus 
pode levar a complicações sexuais 
e dificuldade prolongada de libido, 
porque necessidade de conexão, 
afeto, namoro e expressão sexual 
permanecem, estejam as pesso-
as confinadas ou não. Portanto, o 
significado clínico da interação entre 
bem-estar sexual, fatores emocio-
nais em nível individual e ambiente 
social durante a pandemia precisa 
ser entendido. Um futuro, em que a 
intimidade sexual deva coexistir com 
a Covid-19, e/ou outras emergências 
sanitárias, exigirá a adoção de medi-
das em saúde física e mental34.
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58 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
C A P 0 1 2
Carolina Menezes
Professora Adjunto C4 do Departamento de 
Psicologia da Universidade Federal de Santa 
Catarina (UFSC). Coordena o Laboratório de 
Psicologia Cognitiva Básica e Aplicada 
(LPCOG).
Felipe B. Schuch
Professor adjunto da Universidade Federal de 
Santa Maria (UFSM). Coordenador do grupo 
de pesquisa em exercício físico e saúde 
mental da UFSM. Orientador de mestrado no 
Programa de Pós-graduação em Ciências do 
Movimento e Reabilitação (UFSM). Membro 
da força tarefa em medicina do estilo de vida 
para depressão da World Federation of 
Societies of Biological Psychiatry e da força 
tarefa em exercício físico e nutrição para o 
transtorno do humor bipolar da International 
Society for Bipolar Disorders.
Dicas práticas para o bem-estar 
e saúde do cuidador em tempos 
de pós-pandemia
Monica L. Andersen
Professora Associada e Livre-Docente e 
Chefe da Disciplina Biologia do Sono do 
Departamento de Psicobiologia da UNIFESP 
(2016-2022). Embaixadora do SYRCLE no 
Brasil (Systematic Review Centre for 
Laboratory Animals 
Experimentation-Radboud University, 
Holanda). Diretora de Ensino e Pesquisa do 
Instituto do Sono e Pesquisadora do CNPq 
(Bolsista de Produtividade 1C). Coordenadora 
dos Laboratórios de Sono em Ratos e 
Camundongos do Departamento de 
Psicobiologia. 
59GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
Sem precedentes, a pandemia 
trouxe um cenário de estresse, 
medo, ansiedade e sobreposição de 
notícias negativas, extremamente 
debilitantes ao estado psicológico. O 
aumento crescente da transmissão 
da Covid-19 causou a internação 
de milhares de pessoas mundial-
mente, com a necessidade de 
cuidados constantes e duradouros 
em ambientes hospitalares muitas 
vezes saturados, sem estrutura e/
ou insumos suficientes para uma as-
sistência com as devidas qualidade e 
segurança.
Como esperado, o cenário resultou 
em profissionais de saúde estafados 
e em risco de exposição contínua. 
Profissionais de saúde atendendo 
em ambientes domiciliares também 
foi cenário comum, com destaque ao 
trabalho dos cuidadores da saúde. A 
sobrecarga dos cuidadores desses 
pacientes de faixas etárias variadas 
foi excepcionalmente intensa neste 
período, o que levou ao aumento da 
incidência de sintomas de ansieda-
de, depressão, efeitos do estresse 
e menor qualidade de vida desta 
parcela da população1.
Os cuidadores foram tomados 
não só pelas jornadas de trabalho 
longas, acarretando em privação de 
sono, mas também pelo 
impacto da doen-
ça em diversas 
esferas, preocu-
pação com sua 
própria saúde e de 
sua família, além 
da incerteza social 
e financeira, que per-
manece até hoje. Assim, 
não surpreende que 
um estudo tenha 
identificado altas 
prevalências de 
ansiedade (16-
41%), depressão 
(14-37%) e es-
tresse/transtor-
no do estresse 
pós-traumático 
(18,6-56,5%) 
em trabalhado-
res da saúde2. 
Com prevalências me-
nores, outros problemas de saúde 
mental identificados foram: insônia; 
medo de infecção; transtorno ob-
sessivo-compulsivo; fobias; abuso 
de substâncias e ideação suicida2. A 
qualidade de sono prejudicada em 
diversos profissionais, destacando-
-se também a dos cuidadores, es-
teve e se mantém relacionada com 
alterações orgânicas de um modo 
geral, com ênfase aos comprome-
timentos imunológicos, hormonais, 
neurológicos e de humor.
Para lidar com estes cenários 
adversos e sem precedentes, os 
profissionais de saúde e cuidado-
res, em particular, têm buscado 
intervenções para aumentar ou até 
mesmo recuperar o seu bem-estar e 
qualidade de vida e de sono outrora 
existentes. Algumas medidas que 
têm se mostrado aliadas positivas 
neste enfrentamento, associadas 
à melhor qualidade de vida, são as 
técnicas de meditação mindfulness, 
de exercício físico e de sono.
 
Mindfulness
 
Mesmo antes da pandemia, as práti-
cas de meditação mindfulness já vi-
nham sendo amplamente utilizadas 
por pessoas com diferentes tipos de 
sofrimento psicológico3. Existem 
dis- poníveis 
inúmeras 
evidências 
da eficácia 
de min-
dfulness 
para de-
pres-
são, 
ansiedade, abuso de 
substância e dor, entre outras con-
dições3. Já existiam evidências dos 
potenciais benefícios da mindful-
ness para o psicológico dos profis-
sionais desaúde, assim como maior 
resiliência ao estresse4,5, melhor 
qualidade de sono5, qualidade de 
vida e bem estar6.
A prática de mindfulness não re-
quer uso de equipamentos e pode 
ser feita em diversos ambientes. 
Pensando no ambiente de trabalho, 
alguns autores propõem o uso de 
momentos breves de práticas de 
mindfulness ao longo do dia, a fim 
de proporcionar a estes profissionais 
recursos que os auxiliem no manejo 
do estresse in locus, e que os pos-
sibilitem restabelecer a atenção, a 
motivação e o equilíbrio emocional.7 
Alguns exemplos de práticas mais 
curtas são a meditação de 3 minutos 
(https://www.youtube.com/wat-
ch?v=rOne1P0TKL8), a meditação 
da sola do pé (https://center4msc-
-wpengine.netdna-ssl.com/wp-con-
tent/uploads/2016/03/Soles-of-
-the-Feet_2017.pdf) e exercícios de 
respiração diafragmática. 
A vantagem destas práticas é que 
elas podem ser utilizadas na rotina 
do trabalho e podem ser realizadas 
tanto por pessoas que já praticam 
meditação, como também por pes-
soas que não possuem experiência 
prévia. 
Em consonância com a ideia de 
práticas mais breves, um estudo, 
que embora não tenha sido realiza-
do especificamente com profissio-
nais da saúde, verificou que uma 
intervenção de 10 dias com 
meditação mindfulness 
diária de 10 minutos foi 
capaz de proteger os 
participantes do grupo 
da meditação dos 
efeitos prejudiciais 
de notícias negati-
vas sobre a Covid-19. 
Apenas o grupo con-
trole apresentou aumento 
de efeito negativo após ser 
exposto às notícias8. Este acha-
do parece bastante relevante para 
os profissionais da saúde, tanto du-
rante, como no pós-pandemia, uma 
vez que estes estão constantemente 
expostos às notícias e acontecimen-
tos relacionados ao sofrimento e 
60 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
problemas de saúde.
O efeito protetor da medita-
ção mindfulness também foi 
demonstrado por um estudo 
brasileiro, que realizou uma 
intervenção com profissionais 
de saúde pouco tempo antes da 
pandemia eclodir5. Os parti-
cipantes deste estudo foram 
entrevistados seis meses após a 
intervenção, quando a situação 
da Covid-19 era crítica, e eles já 
estavam trabalhando no contexto 
da pandemia. Segundo relatos 
prévios, ter realizado a interven-
ção da meditação mindfulness 
anteriormente ao surgimento da 
Covid-19 os preparou e forneceu 
recursos psicológicos para melhor 
lidar com o estresse e com a com-
plexidade do trabalho, e contribuiu 
para que tivessem comportamentos 
de cuidado entre si e na equipe5,7.
Assim, as intervenções com práticas 
de meditação mindfulness podem 
caracterizar um manejo da saúde 
mental, tanto em momentos de crise 
como também no pós-pandemia e 
no cotidiano do ambiente profissio-
nal. Estas intervenções combinam 
práticas cujas habilidades treinadas 
parecem ser aplicáveis a diferen-
tes cenários, e com capacidade de 
influenciar mecanismos de base, 
como melhoria do bem-estar, maior 
resiliência e redução do estresse. Ao 
mesmo tempo, são intervenções de 
baixo custo e que podem ser uma 
alternativa àquelas pessoas que não 
respondem bem aos tratamentos 
usuais. Embora as intervenções 
sejam tradicional e majoritariamen-
te oferecidas de forma presencial, 
a sua oferta online tem crescido, 
assim como o aumento no uso de 
aplicativos de meditação9.
Alguns estudos descreveram a ocor-
rência de certos padrões de ondas 
cerebrais observados por eletroen-
cefalograma, no momento da prática 
de meditação10,11. Essas respostas 
podem apresentar semelhanças aos 
achados eletroencefalográficos que 
ocorrem durante o sono regulado, 
o que pode sugerir possível relação 
entre mindfulness e sono12. Isto 
aponta para a relevância desta técni-
ca, especialmente para indivíduos 
com distúrbios de sono, contribuin
do para redução da latência de 
sono, e para a melhora da eficiência 
e qualidade total de sono. Hábitos 
negativos, ocasionados por privação 
de sono, como excesso de tempo 
no leito após despertar, horários 
de sono irregulares, cochilos, má 
alimentação e uso de alimentos 
estimulantes em excesso geram 
uma cadeia de eventos, entre eles, 
incluem-se alterações de humor; 
fadiga mental e física; prejuízo no 
desempenho em atividades diver-
sas; e desconforto mental e físico. 
De um modo cíclico, estes fatores, se 
continuados, são capazes de agravar 
a qualidade de sono e perpetuar 
esta cascata de eventos prejudiciais 
à qualidade de vida e estado psicoló-
gico do indivíduo13.
 
Sono
Entende-se que manter uma rotina 
de sono de qualidade e ritmo cir-
cadiano regularizado não é sempre 
possível para os profissionais cui-
dadores da saúde. Por lidarem com 
pacientes, por vezes, com saúde 
debilitada, a necessidade de atenção 
e alerta dos cuidadores torna-se 
integral. Especialmente nos casos 
em que eles dormem nos domicílios, 
e sua jornada de trabalho torna-se 
extensa, incluindo os 
dois turnos do dia. A tarefa 
do cuidador exige conhecimento, 
atenção e monitoramento de alte-
rações de sinais que seu paciente 
pode apresentar em diversos siste-
mas, para lhe dar assistência o mais 
prontamente possível. Isto requer 
uma atenção redobrada, que pode 
ser tanto influenciada positivamente 
por sono de qualidade, assim como 
prejudicada em casos de distúrbios 
de sono, agravadas por condições 
de vida extenuantes.
As técnicas de higiene do sono, que 
são indicadas para a população em 
geral, devem ser também pratica-
das pelo profissional cuidador no 
momento em que lhe é destinado 
para dormir, o que pode variar, a 
depender do seu turno de traba-
lho. Evitar uso de celulares, telas e 
televisão pelo menos 30 minutos 
antes de deitar; manter ambiente 
escuro; temperatura do local ideal-
mente reduzida; diminuir consumo 
de cafeína; e evitar alimentação em 
excesso, principalmente antes de 
dormir, são hábitos que favorecem 
o relaxamento necessário para início 
do sono. Recomenda-se que o tem-
po total para um sono reparador seja 
entre sete e oito horas14, embora 
haja necessidades individuais com 
menor ou maior número de horas do 
que esta média geral. Evitar realizar 
atividades como assistir televisão ou 
utilizar celular e jogos eletrônicos, 
61GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
alimentar-se ou cochilar durante 
o dia, no ambiente destinado para 
dormir, também é indicado. Estas 
medidas, associadas ao hábito de 
alimentação regular e balanceada, 
ingesta hídrica adequada e às prá-
ticas de meditação, podem facilitar 
a obtenção da rotina de sono de 
qualidade e consequente melhora 
das atividades exigidas na jornada 
de trabalho. É necessário que o 
profissional disponha de tempo ade-
quado de alimentação e descanso 
e, quando possível, reveze turnos 
com outro profissional, destina-
do ao cuidado em saúde. Com a 
facilidade de acesso às tecnologias, 
diversos aplicativos para celula-
res oferecem opções voltadas ao 
relaxamento mental, que podem 
ser ferramentas auxiliadoras e de 
fácil acesso para o benefício do 
sono. Um exemplo de aplicativo de 
terapia cognitivo-comportamental 
para insônia é o SleepUp (sleepup.
com), primeiro aprovado no Brasil 
pela ANVISA, que contém funções 
adicionais para outras terapias.
 
Atividade física
 
A atividade física é um componente 
essencial do comportamento hu-
mano, e em contraponto ao seden-
tarismo (ficar deitado, sentado ou 
reclinado) está associada a diversas 
condições de saúde física e mental. 
Essas informações não são novas, e 
até os povos mais antigos associa-
vam a falta de movimento corporal 
à presença de enfermidades ou à 
fragilidade física e/ou mental15. A 
atividade física e o comportamento 
sedentário são conceitos distintos e 
independentemente associados às 
condições de saúde. Por exemplo, 
uma pessoa pode ser fisicamente 
ativa, atingindo as recomendações 
de saúde pública16 e, ao mesmo 
tempo, manter um comportamento 
sedentário diário.
Inúmeras evidências demonstram 
que a população mundial diminuiu 
o tempo gasto em atividades físicas 
e aumentou o tempo em comporta-
mento sedentário17. Tantoos baixos 
níveis de atividade física, quanto 
os crescentes em comportamento 
sedentários, se associaram a uma 
maior presença de sintomas de 
ansiedade e depressão na 
população em geral18 e, 
não diferentemente, em 
trabalhadores da área da 
saúde19.
A prática de ativi-
dade física é 
promo-
tora 
de 
saúde em 
qualquer tempo, seja antes, durante 
ou pós-pandemia. Para a manuten-
ção de um comportamento ativo, 
alguns princípios podem facilitar a 
transição para uma vida mais ativa:
1) Diminuir, o máximo possível, o 
tempo parado, seja deitado, sentado 
ou reclinado. Procurar se levantar da 
cadeira periodicamente (de prefe-
rência, a cada 30 minutos), mesmo 
que seja só para pegar água. Além 
de quebrar o sedentarismo, você já 
se hidrata!
2) Fazer alguma coisa é melhor do 
que não fazer nada. Qualquer minu-
to a mais gasto em atividade física e 
qualquer minuto a menos gasto em 
comportamento sedentário contam. 
Mesmo que você não consiga fazer 
30 minutos por dia, pequenas quan-
tidades como 10 ou 15 minutos (75 
minutos/semana) já são benéficos 
para a sua saúde mental20;
3) Fazer mais é melhor do que fazer 
alguma coisa. Quando conseguir, 
aumente progressivamente o tempo 
gasto em atividade física, a intensi-
dade (dificuldade) da atividade e a 
frequência semanal;
4) O melhor exercício é aquele que 
faz sentido para você. Os benefícios 
do exercício para a saúde mental 
estão amplamente associados com 
o quanto você percebe que aquela 
atividade é importante e compensa-
tória. Procure praticar aquela ativida-
de física que você se sente bem 
fazendo, a que você percebe que 
lhe beneficia de alguma maneira. É 
essa atividade que vai lhe ajudar a 
se manter ativo21.
5) Quando possível, tenha compa-
nhia. O apoio dos amigos, família 
e colegas é um fator que contribui 
para a aderência à prática. Além de 
se exercitar, você pode aproveitar 
para colocar a conversa em dia, ou 
resolver questões importantes. A 
companhia do seu melhor amigo 
(pet) também conta!
Atualmente, existem várias opções 
de aplicativos de celular que ajudam 
a estimar o tempo gasto em ativi-
dade física, ou o número de passos 
dados. Embora existam amplas mar-
gens de erros nos aplicativos, eles 
podem servir como referência para 
um acompanhamento da variação 
dos níveis ao longo do tempo. Dessa 
forma, escolha um aplicativo que 
seja compatível com seu equipa-
mento e o utilize por um determina-
do período.
62 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2
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