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2 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Material de distribuição gratuita. Venda proibida. © 2023. Todos os direitos reservados. Guia de Saúde Mental Pós-pandemia no Brasil 2: um guia focado no cuidado dos profissionais da saúde 2ª edição Instituto de Ciências Integradas CCM Group Endereço: Avenida Paulista 352 sala 27, Bela Vista, CEP 01310-905 Telefone: +55 11 3061 1495 E-mail: ini@institutoini.com.br 23-143975 CDD-616.89 NLM-WM 100 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Guia de saúde mental pós-pandemia no Brasil [livro eletrônico] : um guia focado no cuidado dos profissionais da saúde / [coordenação geral Luis Augusto Rohde. -- 2. ed. -- Porto Alegre, RS : Instituto de Ciências Integradas, 2023. PDF. Vários colaboradores. Bibliografia. ISBN 978-65-999175-1-6 1. Coronavírus (COVID-19) - Aspectos da saúde 2. Profissionais da saúde 3. Saúde mental - Brasil 4. Síndrome de Burnout e Depressão 5. Telemedicina I. Rohde, Luis Augusto. Índices para catálogo sistemático: 1. Saúde mental : Qualidade de vida : Ciências médicas 616.89 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129 3GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C O O R D E N A Ç Ã O G E R A L Luis Augusto Rohde I L U S T R A Ç Õ E S Mind the Graph R E V I S Ã O DC Press C A P A E D I A G R A M A Ç Ã O André Flores (Sense) R E A L I Z A Ç Ã O 4 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Um vírus avassalador afetou desempenho dos pulmões Indiscriminadamente, desafiou o corpo e suas funções De um lado, o medo desta situação alarmante e desconhecida De outro, a superação cotidiana para tentar salvar cada vida Assim foi a rotina do profissional de saúde Que dedicou-se incansavelmente amiúde Viveu incontáveis momentos de ansiedade, angústia e pressão De repente deparou-se com a necessidade de uma rápida adaptação Mais do que nunca teve que lidar com a incerteza E com bravura teve que conviver com a morte e a tristeza Dividiu o sofrimento com cada paciente e familiar Teve que ter força para ele próprio não colapsar E ainda equilíbrio para algum paciente grave, por exemplo, ter que entubar Um desafio sem precedentes Arriscaram a própria vida para cuidar dos doentes Em hospitais, ou no domicílio, sem hora para comer ou sair Privaram-se do convívio com a própria família, muitas vezes sem nem dormir 5GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Carolina B. Menezes #rimasdacarol @rimas_da_carol Expostos, como nunca, a um senso de finitude Demonstraram não apenas capacidade técnica, mas virtude Desde o zelo pelo profissionalismo e pelo ser humano Até o conforto e o abraço de um colega que ajudou a amenizar o dano Mesmo frágil, muitos foram apoiados por um sistema único de saúde abrangente Do rico, ao carente, a Ciência esteve à frente Em um contexto em que a regra era o suplício urgente Mesmo com tantas perdas, a estes profissionais devemos muita experiência exitosa Com sua inabalável atuação, muita vida saiu vitoriosa O nosso profundo respeito e agradecimento À ética e à conduta mantidas em cada difícil momento Em uma espécie de guerra, foram nossos principais soldados Na luta contra o inimigo, foram fiéis aliados Serão, para sempre, com muito orgulho lembrados Sua nobre missão de cuidar em condições extremas do enfermo e da sua dor Fez retumbar e ecoar ainda mais forte um clamor Assim como precisamos deles, é preciso cuidar do cuidador. 6 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Prefácio Introdução Capítulo 1: Impacto da pandemia na saúde dos médicos e profissionais da saúde Capítulo 2: A importância de cuidar de quem cuida Capítulo 3: Lidando com cenários complexos: como tomar decisões num mundo polarizado, com dados científicos ainda em construção e assolado por fake news? Capítulo 4: Pandemia de Covid-19, burnout e estresse traumático Capítulo 5: O efeito da pandemia no aumento de depressão no cuidador Capítulo 6: A ansiedade no pós-pandemia: como o profissional de saúde pode se readaptar ao novo normal Capítulo 7: Como a pandemia alterou a saúde física dos profissionais de saúde Capítulo 8: A pandemia ceifando vidas: o luto pela perda dos pacientes e de pessoas significativas Capítulo 9: As intervenções usadas para melhorar a saúde mental dos profissionais na linha de frente de combate da Covid-19: o que deu certo? Capítulo 10: A revolução da telemedicina na pandemia: quais ferramentas restarão para o uso do profissional de saúde no pós- pandemia? Capítulo 11: Reflexo do pós- isolamento nas relações interpessoais e na sexualidade Capítulo 12: Dicas práticas para o bem-estar e saúde do cuidador em tempos de pós-pandemia 07 36 40 44 49 53 58 08 10 13 17 21 27 31 7GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 O INI, Instituto de Ciências Integradas, é o braço científico do CCM Group, com atuação em edu- cação continuada na área da saúde em diversas especialidades. Tem por propósito estimular o desenvolvimento da pesquisa e da prática clínica, propondo conteúdos relevantes e promovendo eventos inovadores. Todos os anos, o INI concede bolsas para participação de congressos a jovens de diferentes áreas da saúde em início de carreira. Na área da neuropsiquiatria, o INI promove o Brain Congress, congresso de interação e integração que aproxima especialistas de diversas áreas, como: psiquiatria, neurologia, neuropsicologia, geriatria, clínica médica e neurociência básica. E, através de projetos de conteúdo, como a BrainTV e o podcast CCM Conecta, promove e amplia o acesso à infor- mação de qualidade. Depois do sucesso da primeira edição, estamos lançando o “Guia de Saúde Mental Pós-pandemia no Brasil 2: um guia focado no cuidado dos pro- fissionais da saúde”. Para nós do INI é uma honra participar desta parceria com a Viatris, que permitiu a realização deste brilhante projeto. Alessandro da Costa e Eduardo Corrêa Diretores do INI Com um olhar atento à jornada do paciente, a pri- meira edição do guia de saúde mental pós pande- mia discorreu em linguagem simples e acessível, o cenário da saúde mental pós pandemia no Brasil, indicando as melhores práticas para enfrentamen- to de problemas nessa área. Naquele momento ainda não tínhamos visibilidade da duração e gran- deza do impacto que teríamos e diante da realida- de que se impôs, reconhecemos o quão crucial é a saúde mental do trabalhador da saúde. Os trabalhadores da saúde desempenham um papel fundamental na jornada do paciente e entre- gam conosco a missão de empoderar as pessoas a terem mais saúde em todas as fases da vida. A Viatris reúne os melhores conhecimentos científi- cos, de fabricação e distribuição da categoria com comprovados recursos regulatórios, médicos e comerciais para fornecer medicamentos de quali- dade aos pacientes quando e onde eles precisam. Nossos medicamentos tratam 9 das 10 principais causas de morte listadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, além disso, mais de 200 medi- camentos são considerados essenciais pela OMS. Esta nova edição é dedicada aos trabalhadores da saúde que em um cenário incertezas, envol- tos por rotinas exaustivas e de decisões custosas, enfrentaram bravamente um agente invisível e a Covid-19. Reunimos conhecimentos científicos, especialistas inspiradores e de prestígio acadêmico para juntos discutirmos e ajudarmos tantos cole- gas a se entenderem e encontrarem caminhos de alívio aos desafios relacionados à saúde mental e a pandemia. O resultado deste trabalho é uma abor- dagem abrangente, prática e humana do panorama atual sem perder o rigor científico. Luiz Henrique S. Fernandes Diretor Médico Senior - LATAM Elizabeth Bilevicius Diretora Médica - Brasil Marco Antonio da Silva Gerente de Assuntos Médicos P R E F Á C I O 8 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIANO BRASIL 2 I N T R O D U Ç Ã O No momento do lançamento da ver- são anterior deste guia, em novem- bro de 2020, o Brasil contava com cerca de 120 mil mortes por Co- vid-19. Hoje, são cerca de 685 mil! De forma otimista, esperávamos no lançamento anterior que, em 2021, já estivéssemos lidando com o pós- -pandemia. Fato que se mostrou, infelizmente, irreal. A versão anterior buscava trazer, em uma linguagem acessível, dados sobre o impacto da pandemia na saúde mental da população em geral como parte do que se convencionou chamar de a quarta onda, ou seja, o aumento de doenças mentais e trauma psicoló- gico, provocados diretamente pela infecção ou por seus desdobramen- tos secundários. Nessa nova edição, queremos focar na saúde mental dos profissionais de saúde, principalmente daqueles que estiveram na linha de frente enfrentando, no dia a dia, as agru- ras dos efeitos devastadores da Covid-19 nas vidas dos pacientes e suas famílias. Durante toda a produção deste do- cumento, buscamos dados precisos que pudessem nos dar a estimativa do número de profissionais de saú- de que morreram durante a pande- mia no país. Esse dado não é claro! Entretanto, estimativas conservado- ras indicam que pelo menos 13 mil profissionais de saúde perderam a vida para Covid-191, como discutido no capítulo inicial. Mas mesmo naqueles que per- maneceram vivos1, o impacto do enfrentamento cotidiano da doen- ça, com o sofrimento e morte de pacientes, familiares e amigos, leva a cicatrizes emocionais e impacto direto na saúde mental. Esses pro- fissionais não tiveram, muitas vezes, oportunidades e nem foram pre- parados para pensar na sua saúde mental. Diversos estudos internacionais têm se dedicado a estimar as taxas de prevalência de transtornos mentais em profissionais de saúde durante a pandemia. Revisões sistemáti- cas apontam, como será melhor detalhado em diversos capítulos, o aumento de transtornos de ansieda- de e comportamentos2 depressivos, assim como incremento de estresse agudo, sintomas pós-traumáticos, de insônia e burnout nessa popula- ção2,3. Em outras palavras, o que se observou na população em geral ocorreu, como seria de se esperar, em proporções talvez até maiores em profissionais de saúde. Além disso, o profissional de saúde teve que elaborar diversos lutos ao longo Luis Augusto Rohde Professor Titular de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Professor da Pós-Graduação em Psiquiatria da UFRGS e da Universidade de São Paulo (USP), coordenador-geral do Programa de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e vice-coordenador do Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para a Infância e Adolescência. 9GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 da pandemia, seja de seus pacientes ou mesmo de familiares e amigos, como vamos abordar em outros capítulos deste guia. Aqui de novo, em proporções bem maiores do que outros profissionais! Importante salientar que, como será abordado em capítulo específico, a pandemia também impactou, como na população em geral, na saúde física do profissional de saúde. Fe- nômeno previsível, seja pela imensa inter-relação corpo-cérebro/saúde física-saúde mental determinando que ansiedade, depressão e estresse emocional levem a menores cuida- dos com a saúde física4, ou simples- mente pela falta de tempo durante a pandemia para os cuidados neces- sários de saúde. Quando se olha para um cenário tão difícil como esse, é sempre fun- damental chamar atenção para as iniciativas de sucesso, que devem servir como norte para a nossa con- duta, e as oportunidades de cresci- mento advindas dessas dificuldades. Em termos de intervenções em saú- de mental de sucesso, dedicamos um capítulo para discutir os dados do programa chamado TelePSI, um projeto assistencial e de pesqui- sa destinado ao atendimento dos profissionais da linha de frente. Vale salientar que esse provavelmente é o maior ensaio clínico em saúde mental já realizado para essa popu- lação durante a pandemia. Em termos de oportunidades de aprendizagem para o profissional médico com a pandemia, focamos no uso da telemedicina que, sem dúvidas, cresceu exponencialmente durante a pandemia. Em especial, o capítulo dedicado a esse tema busca a discussão de quais ferramentas restarão para o uso do profissional de saúde no pós-pandemia. Nesse contexto, insere-se ainda uma questão muito complexa. Como o profissional de saúde busca dados científicos válidos e confi- áveis sobre a pandemia para seu consumo próprio e para promover educação continuada em saúde de seus pacientes? Como ele separa as chamadas “fake news”, que apren- demos a reconhecer que também existem na literatura de saúde, de dados confiáveis? Essa reflexão é apresentada em um dos capítulos de forma clara e instigadora. Mas a pandemia também deixou suas mar- cas nas formas de relacionamento interpessoal, e em aspectos especí- ficos dessas relações, como a área da sexualidade. Outro capítulo nos traz inúmeras reflexões sobre essas transformações. Como o profissional de saúde busca dados científicos válidos e confiáveis sobre a pandemia para seu consumo próprio e para promover educação continuada em saúde de seus pacientes? Não se pode esquecer, no entan- to, de apresentar um repertório de iniciativas, ferramentas e estraté- gias que podem ser colocadas em prática pelo profissional de saúde, para melhor cuidar da sua saúde mental e melhorar a sua qualidade de vida. Mais do que receitas de bolo, o capítulo dedicado a esse tema busca uma reflexão motiva- cional para instigar o profissional de saúde a olhar também para si e estar atento às suas demandas pessoais, promovendo um melhor bem-estar emocional. Enfim, a mensagem é que não podemos esquecer de cuidar do cuidador, como bem lembrado num dos primeiros capítulos. Não há como cuidar bem de alguém, se não estamos bem e, muitas vezes, os profissionais de saúde são mitifi- cados como semideuses que não necessitariam do descanso, sono, alimentação adequada, carinho, amparo e tempo com seus familiares e amigos, devendo apenas executar algo similar aos “sete trabalhos de Hércules” durante a pandemia. Esperamos que você tenha uma leitura agradável, que lhe acrescente e lhe faça refletir sobre o quanto temos que dar atenção e cuidados a nós mesmos para melhor atender aos nossos pacientes. REFERÊNCIAS: 1. The impact of COVID-19 on health and care workers: a closer look at deaths. Health Workforce Department – Working Paper 1. Geneva: World Health Organization; September 2021 (WHO/ HWF/WorkingPaper/2021.1). Licence: CC BY-NC- SA 3.0 IGO. 2. Aymerich, Pedruzo, Pérez, Laborda. COVID-19 PANDEMIC EFFECTS ON HEALTH WORKERS’MENTAL HEALTH: SYSTEMATIC REVIEW AND META-ANALYSIS. European. Available: https://www.cambridge.org/core/ journals/european-psychiatry/article/covid19- pandemic-effects-on-health-workers-mental- health-systematic-review-and-metaanalysis/ A6DC06C71E38C311893B5FF3FC82F8F9 3. de Sousa GM, Tavares VD de O, de Meiroz Grilo MLP, Coelho MLG, de Lima-Araújo GL, Schuch FB, et al. Mental Health in COVID-19 Pandemic: A Meta-Review of Prevalence Meta-Analyses. Front Psychol. 2021;12: 703838. 4. Prince M, Patel V, Saxena S, Maj M, Maselko J, Phillips MR, Rahman A. No health without mental health. Lancet. 2007 Sep 8;370(9590):859-77. doi: 10.1016/S0140-6736(07)61238-0. 10 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 1 Impacto da pandemia na saúde dos médicos e profissionais da saúde Margareth Pretti Dalcolmo Médica pneumologista, pesquisadora da FIOCRUZ e membro titular da Academia Nacional de Medicina. 11GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Nesses quase três anos de pan- demia da Covid-19, em que nossa resiliência às pessoas e aos serviços foi desafiada ao extremo, acumu- lamos mais do que experiências, cicatrizes,e nos perguntamos, entre tantas angústias e dúvi- das, até onde nos impactou essa vivência, em que parte as nossas vidas em antes e depois da Covid - ou AC/DC - numa alusão temporal? Cada um a seu modo, e na exi- gência de seu intelecto, discute o que seria a nova normalidade, ou simplesmente retoma a rotina, numa espécie de desejo voraz de reencontro ou de sutil apagamen- to dos duros dias vividos. Já não nos sentimos, nós, profissionais da saúde em especial, assolados pelo desconhecido “novo”, pelo desafio cuja solução pareceu tão longínqua em muitos momentos, pelo excesso de informação, por vezes tóxica, e nesse diapasão, ainda sob algumas incertezas, seguimos. Observamos que houve um maior interesse, em grande parte da socie- dade, por leituras de resgate da his- tória das epidemias dos últimos dois milênios, sobretudo num entendi- mento de que a história do homem no planeta se pauta pelo curso das epidemias. Igualmente, por textos científicos e leigos, em profusão (os buscadores de referências revelam mais de 180 mil publicações se usarmos “Covid-19” como palavra- -chave) desde o aparecimento do novo coronavírus1. Passamos assim, a nos interrogar se a categoria de homo eligens, tão magistralmente criada por Zygmunt Bauman em Vida Líquida2, poderá vingar entre nós, como o cerne identitário, como o “ser que escolhe”, numa revisão das relações simbióticas com o mer- cado e com os padrões de consumo até então aplicados, ou no mínimo aspirados, como desejo de possuir, até nosso tempo tão recente. Mui- tas são as manifestações expressas publicamente de que haverá novos modelos, conformando relações de nova qualidade. Mas até que ponto, permanece a interrogação? Tudo se dissipará quando a epidemia se estiolar, tiver perdido sua força des- trutiva, o luto passar e as rotinas, mesmo machucadas, forem reto- madas? Durante a pandemia no Brasil, vimos a contaminação de setores políticos e até médicos, pela ânsia de respostas fáceis ou simplesmente por uma purga da necessidade de fazer algo, prescrever, e portanto usar a práxis do aceitável, pois aplicar bom senso, e se valer de resiliência, é muito mais trabalhoso nos nossos modelos vigentes de assistência. O Renascimento, que emergiu em seu esplendor, por todas as sea- ras da ciência e da cultura após as pestes negras que fecharam a Idade Média, só poderia se emular nesse começo de século, se atenuada a distância que separa os homens, por razões sociais e econômicas. Tudo o que ganhamos no último século na medicina, com o controle da dor com analgésicos; de infec- ções bacterianas com antibióticos; medicamentos biológicos para as doenças auto-imunes; tecnolo- gia para diagnósticos, robôs para intervenções cirúrgicas, transplante de órgãos; e sobretudo adoção de normas éticas para pesquisa em seres humanos se associa ao rigor regulatório para prescrição ou in- corporação, com base nas melhores evidências científicas. Durante a pandemia no Brasil, vimos a contami- nação de setores políticos e até médicos, pela ânsia de respostas fáceis ou simplesmente por uma purga da necessidade de fazer algo, prescrever, e portanto usar a práxis do aceitável, pois aplicar bom senso, e se valer de resiliên- cia, é muito mais trabalhoso nos nossos modelos vigentes de assistência. O resultado foi gerar na sociedade mais do que uma saudá- vel desconfiança, a esperança vã de que poderiam, com uso de medi- camentos sabidamente ineficazes, por exemplo, prevenir ou atenuar a doença. Sabemos que em jogos de futebol é comum a torcida pedir que jogado- res ponham o coração nas pontas de suas chuteiras. É essa imagem que podemos aplicar, transportando para a dedicação e compromisso que motivaram os médicos e de- mais profissionais a entregar o seu melhor durante esse tempo. Muitos abriram mão de suas famílias e vida pessoal por longas semanas, fican- do em hotéis (em modalidade criada com o apoio da iniciativa privada hoteleira para evitar que levassem contágio para suas casas) para se dedicar aos pacientes com paixão e compromisso, mesmo diante do risco e do desconhecido. Em outros países que nos ante- cederam à chegada da epidemia, como na Itália, já se havia verificado que 22% de todas as mortes pela Covid-19 o foram em profissionais da saúde. A Organização Mundial da Saúde estima em 180 mil o número de profissionais da saúde mortos pela Covid-19 no mundo. No Brasil, igualmente houve alta mortalidade entre todas as categorias ligadas à assistência, nas redes pública e privada, estimando-se em 13.600 a mortalidade global nessas catego- rias, dentre os quais 820 médicos3. Hoje nos defrontamos, pacientes e profissionais, com o outro novo, com o mais complexo desafio em 12 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 termos de saúde que é a Covid longa, ou as sequelas da doença, a exigir estruturas transdisciplinares para cuidar e reabilitar pessoas, inclusive profissionais da saúde, física e psiquicamente. Sem dúvida, haverá necessidade de organização de serviços dessa natureza, uma vez que estudos observacionais já revelaram, através de várias publica- ções inclusive brasileiras, que cerca de 58% dos que passam pela do- ença saem com alguma sequela. A duração, se temporária ou indelével, desconhecemos, visto que para essa resposta não temos ainda um recuo histórico que nos permita responder. Muitos abriram mão de suas famílias e vida pessoal por longas semanas, ficando em hotéis para se dedicar aos pacientes com paixão e compromisso, mesmo diante do risco e do desconhecido. Mais do que qualquer retórica, ou reflexão teórica, a magnitude da pandemia atual, e outras que sabidamente ocorrerão, exige intervenções corajosas, inovado- ras, globais, regionais, nacionais e locais, sobretudo para proteger os mais necessitados, para as quais a ciência, a saúde pública, a assistên- cia e os movimentos sociais podem contribuir decisivamente. A historia- dora médica alemã, Barbara Duden (1942-), que foi grande colaboradora do pensador e polímata Ivan Illitch (1926-2002), nos ensina que, na saúde e na medicina em particular, temos que compreender que não são de técnicas e de instituições que precisamos nos libertar, como dos dog- mas, mas da representa- ção e do modo de percepção que elas podem gerar. Isso poderia ser traduzido para os dias atuais a partir dos conceitos de equidade (ou acesso) e transdisci- plinaridade, tão necessários, sus- tentáculos de qualquer modelo de trabalho sanitário bem-sucedido. Gostaríamos de dizer à exaustão e acreditar que nenhum ser humano pode mais ser deixado para trás. REFERÊNCIAS: 1. Dalcolmo M. Um tempo para não esquecer. Ed. Bazar do tempo, 2021. 2. Bauman Zygmunt. Vida Líquida. Editora Zahar, 2005 3. The impact of COVID-19 on health and care workers: a closer look at deaths. Health Workforce Department – Working Paper 1. Geneva: World Health Organization; September 2021 (WHO/ HWF/WorkingPaper/2021.1). Licence: CC BY-NC- SA 3.0 IGO. 4. Prince M, Patel V, Saxena S, Maj M, Maselko J, Phillips MR, Rahman A. No health without mental health. Lancet. 2007 Sep 8;370(9590):859-77. doi: 10.1016/S0140-6736(07)61238-0. 13GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 2 A importância de cuidar de quem cuida Cláudio Laks Eizirik Professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro do corpo clínico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, analista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre e ex-presidente da Associação Psicanalítica Internacional. 14 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Este capítulo tem como objetivo central abordar a importância dos cuidados com o bem-estar e equilí- brio emocional dos profissionais de saúde, enfatizando meios e estra- tégias para atingir tal objetivo e os riscos de se abandonar este acom- panhamento2. Como sabemos, os profissionais de saúde constituemuma das camadas da população mais expostas à situa- ção de ameaças ao seu bem-estar e equilíbrio emocional. Toda a forma- ção desses profissionais enfatiza, de forma prioritária, a aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes que os capacitem a enten- der e atender os sofrimentos físicos e psíquicos de seus pacientes. Além da carga de estudos, atividades práticas, estágios em serviços de saúde, plantões e os requisitos cada vez mais exigentes de uma formação acadêmica de qualidade, esses profissionais são lançados em um mercado de trabalho altamente competitivo, no qual não basta con- seguir uma posição, mas é preciso mantê-la. Não faz parte dos currículos de formação acadêmica, nem dos de pós-graduação strictu ou lato senso, uma ênfase ou mesmo um olhar mais atento à qualidade de vida e aos elementos que podem favorecer ou prejudicar o bem-estar emocio- nal. Pode-se, assim, afirmar que na mente de um profissional de saúde, salvo exceções, os valores interna- lizados, as identificações com o que é supostamente desejável e com os modelos de professores e colegas bem sucedidos e admirados privile- giam a eficiência, os bons resultados e o bem-estar dos pacientes. Os que cuidam ficam, necessariamen- te, colocados em segundo plano e, algumas vezes, a preocupação com os aspectos emocionais, com o impacto das situações traumáticas atendidas, com o equilíbrio entre horas de trabalho e de lazer, com os períodos de repouso e com as férias periódicas, pode ser tomada ou sen- tida como manifestação de fraqueza ou de incapacidade. A consequência dessa lacuna é o risco para a saúde física e emocional dos profissionais de saúde, como vários estudos têm demonstrado1,2,8. Assim, a importância deste tema se inicia por uma necessária mudança da mentalidade vigente, para incluir a dimensão do cuidado de quem cuida. A partir dessas considerações, des- tacarei alguns aspectos relevantes acerca do que significa e de onde se provém a noção de cuidado, a questão do cuidado de quem cuida na pandemia e algumas sugestões sobre como nossos governos e nossas instituições de saúde e de educação podem tornar tal atenção mais eficiente. O que significa o cuidado? Como destaca em seu minucioso estudo sobre o cuidado Marisa Eizirik (2013), cuidado vem de cura’’ (latim). Curare, curae em latim retoma o sentido grego das Kurion, que são as coisas de impor- tância primordial, as Kuriotata, as mais sérias. Aqueles que devem decidir pelos outros, os governantes, têm o “cura”, a responsabilidade prática. Curiosida- de, filha do cura, já é encontrada em Aristóteles, como a surpresa seguida da pesquisa das causas e dos princípios, e que fixa o homem à sua natureza como alguém que naturalmente deseja saber. O cuidado de si e o cuidado de sua vida são a expressão indiscutível de uma preocupação única, porque a vida humana é o lugar das práticas sociais. As disposições e normas inscritas na natureza do homem só poderão se desenvolver na dimensão da existência humana, concebida como uma prática, um agir onde o homem é o autor, que delibera, deseja, age e justifica suas ações. Conhecer a si mesmo é cuidar de si, é promover um melhoramento de si.5 De acordo com a autora, seis sécu- los antes de nossa era (por volta de 600 a.C.), pessoas originárias de di- versas regiões gregas, batizadas de Os Sete Sábios, fizeram inscrever, no frontão do templo de Apolo, em Delphos, breves sentenças resu- mindo os imperativos da existência humana. Uma delas, proposta por Chilon, de Esparta, se tornou funda- mental em nossa civilização: Gnothi seauton, Conhece-te a ti mesmo. O mundo que existia era gover- nado pelos deuses, e os homens eram seus instrumentos. Os sábios advertiam contra a hybris, a des- mesura, que é sempre arriscada, por ultrapassar a medida dada aos humanos e, assim, incorrer na cólera dos deuses e se precipitar na infe- licidade. Sonhos intensos de poder, vontade de se igualar aos deuses, furor ou entusiasmo destrutivo, exaltação de si e ambição de saber tudo, estas são as tentações que devemos combater. Conhecer-se a si mesmo significava, pois, não a exploração da própria interioridade, mas a consciência de seus limites. Nada mais que humanos, devemos controlar e diminuir nossas preten- sões. Em certo momento da evolução do pensamento, porém, as formas míti- cas de entender e explicar o mundo não conseguiam mais responder às inquietações e perplexidades. Entra em formação outra mentalidade, um modo de pensar, buscando expli- cações mais lógicas e racionais dos fenômenos da realidade, aliás uma contraposição que ainda se observa na atualidade3. Neste momento, comenta Eizirik (MF, 2013), vemos desenvolver-se, entre o fim do século VII e o fim do século VI a.C., uma nova forma de pensamento, que marca para o Ocidente o início da Filosofia. Em Mileto surgem os primeiros filósofos – Tales, Anaximandro e Anaxímenes, os primeiros a abordar, de um modo surpreendentemente novo, os mais profundos problemas da vida: o da origem e essência do mundo.5 A realidade era chamada, por esses filósofos, de physis, que significa “natureza”. Encaravam e observa- vam, de forma muito diferente do que até então viam acontecer no mundo. A grande revolução do pen- samento se dava através da busca de uma explicação racional, argu- mentada logicamente, para explicar a realidade. Dentre estes, Heráclito de Éfeso (540 -476 a.C) rompeu com as formas dogmáticas de pensar um único caminho para descrever a natureza. Salientava a necessida- de de autonomia do pensamento. Acreditava na mutabilidade cons- tante do universo, na harmonia das forças opostas. Para ele, o princípio de unidade profunda é o próprio movimento. Tudo muda, nada per- 15GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 manece o mesmo. A mudança que aconte- ceu no mundo e no pensamento grego, acompa- nhando as mudanças políticas e sociais da época, foi a passagem da physis para a methaphy- sis. A novidade trazida por Sócrates foi a de acrescen- tar ao pensamento sobre o ser, a noção de modo de ser, ethos, inaugurando a ética como campo de reflexão, como matéria filosófica. O que se inova é a inserção do homem na reflexão filosófica e na consciência do cuida- do como constitutiva da humanidade. Sendo preceitos constitutivos da humanidade, ética, cuidado de si, hybris, são características comu- mente encontradas nos profissionais de saúde, nos quais a hybris pode dificultar o reconhecimento dos próprios limites, impedindo-os, mui- tas vezes, de dimensionar os reais alcances e possibilidades de sua capacidade física e psíquica. Disso podem advir, nos cuidadores, sentimentos de onipotência, nar- cisismo, invulnerabilidade, por um lado e por outro de fracasso, impo- tência, culpa, depressão, ansiedade, causadores de profundo sofrimento psíquico. Esses sinais precisam ser levados em conta pelos cuidadores, e pelos que cuidam deles. O cuidado de quem cuida na pandemia Ainda vivemos sob a sombra, em- bora cada vez menos ameaçadora, dessa estranha experiência pandê- mica, ao mesmo tempo individual e planetária, como diz o filósofo francês Roger Pol-Droit, que nos obrigou, segundo ele, a enfrentar o enigma do aleatório num mun- do que pretendia eliminar o azar e controlar tudo, e teve que conviver com o imprevisto, o imprevisível, o incontrolável, as nossas fragilidades e a concretude da morte. Quando consegui formular algumas ideias sobre esse momento históri- co, pela primeira vez, uma imagem que me ocorreu, lembrando épocas antigas e seus desafios, era a de que estávamos percorrendo um território não mapeado, em quase todos os sentidos, e, no que nos diz respeito, na nossa prática clínica. Observei que, no início, predominava a ansiedade bilateral, entre os que cuidavam e os que eram cuidados, e em dar conta da invasão inevitá- vel da realidade externa, com sua imprevisibilidade, o medo do contá- gio, da doençae da morte própria e de pessoas queridas, a estranheza, formas de manter alguma assimetria e afinal realizar as tarefas necessá- rias na função de cuidador3,4. É importante assinalar que a palavra CUIDADOR contém, em sua matriz, CUIDAR e DOR. Os profissionais de saúde passaram a vivenciar, cotidianamente, o des- gaste emocional por terem que lidar com fatores estressores no ambien- te de trabalho que se exacerbaram por conta da pandemia. Em relação às repercussões mentais nesse período, podem-se destacar desesperança, desespero, medo incremen- tado da morte de si mesmo e de familiares, medo de ser infectado e de infectar, necessi- dade de enfrentar medidas de isolamento social, que podem facilitar o surgimento de estresse pós-traumático, sintomas depressi- vos e ansiosos e ideação ou conduta suicida2. Ao contrário do que ocorre usual- mente, quando os papéis de cuida- dor e de cuidado estão razoavel- mente bem definidos, durante a pandemia se observou o fenô- meno dos mundos superpostos, descrito por Puget e Wender (1982), em que paciente e psicanalista compartilham uma mesma situação social que os afeta e ameaça igualmente, e que torna a assimetria natural dessa relação impossível6. De maneira similar, observei a pre- sença desse fenômeno durante as várias situações clínicas que atendi ou supervisionei durante a pan- demia, que incluíam residentes de psiquiatria, psicólogos e médicos em formação psicanalítica. Os profissionais de saúde passaram a vivenciar, cotidianamente, o desgaste emocional por terem que lidar com fatores estressores no ambiente de trabalho que se exacerbaram por conta da pandemia. Puget (2003) destacou que, diante do novo, do imprevisível, do senti- mento de vazio e de desamparo pela falta de modelos conhecidos (ou o território não mapeado que des- crevi), uma defesa frequentemente usada é transformar o desconhecido em conhecido, o imprevisível em previsível. Assim, nesse momento de pandemia, não só a chegada do coronavírus foi algo novo, como a 16 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 própria relação entre cuidadores e cuidados passou a ser7. A sobrecarga física e emocio- nal dos cuidadores que, muitas vezes, levava ao burnout, incluía um clima social em que se debatiam, de um lado, as instâncias governamentais e os profissionais de saúde que se empenhavam intensamen- te nas medidas de atendimento dos pacientes infectados e nas de prevenção indispensável, e de outro os setores governamentais, algumas instituições de saúde e muitos pro- fissionais de saúde que abraçavam opiniões e posições negacionistas e uma militância agressiva contra as medidas sanitárias preconizadas pela OMS. Pode-se relacionar essa dissociação, ou a existência dessas duas formas de encarar a mesma realidade, com a questão da imprevisibilidade des- tacada anteriormente, e a busca de uma previsibilidade possível. Face à ameaça e aos riscos produzidos pela pandemia, a procura de certezas se acentuou, e a vulnerabilidade a que todas e todos estavam sujeitos contribuiu para um acirramento de posições antagônicas. Além da relevância de todos esses fatores, por si mesmos, no período agudo e mesmo após a chegada das vacinas, quero enfatizar que a pandemia ofereceu uma espécie de laboratório social, emocional e antropológico, em que a questão da importância de cuidar dos cuidado- res assumiu proporções dramáticas. Que medidas poderiam proporcionar um cuidado mais efetivo aos que cuidam? Os seguintes fatores poderiam con- tribuir neste sentido: • Assumir a consciência de que a mentalidade ainda prevalente não reconhece a necessidade e relevân- cia de cuidar de quem cuida, o que pode ser um passo decisivo para uma mudança dessa mentalidade. • Incluir conteúdos teóricos, prá- ticos e dados de pesquisa sobre a relevância da qualidade de vida dos profissionais de saúde e de medidas concretas sobre o cuidado com sua saúde física e mental, nos cursos de graduação e pós graduação. • Estimular mais pesquisas sobre a saúde mental dos profissionais de todas as áreas do campo da saúde. • Manter e ampliar os programas intitulados Cuidando de quem cuida, que já existem em vários estados do Brasil. • Estimular o olhar sobre si mesmo, e ficar atento aos sinais de sofrimen- to psíquico que aparecem direta ou indiretamente (sob a forma de alte- rações ou sintomas físicos, mudança de comportamento consigo mesmo ou nas relações com os demais, depressão, ansiedade, sentimentos de infelicidade, etc). • Estimular a procura de tratamento psicoterápico e/ou medicamentoso quando tais sinais são identificados. • Estimular os profissionais de saúde a manter e desenvolver redes sociais com colegas, nas quais seja possível compartilhar as experiên- cias de trabalho e de vida e buscar apoio recíproco. REFERÊNCIAS: 1. Bassols, MAS et al Stress and coping in a sample of medical students in Brazil, Arch Clin Psychiatry, 42(1):1-5, 2015 2. Dantas, ESO Saúde mental dos profissionais de saúde no Brasil no contexto da pandemia por Covid-19 https://www.scielo.br/j/icse/a/ rCWq43y7mydk8Hjq5fZLpXg, 2021 3. Eizirik, CL Transferencia, contratransferência, enquadre y campo analítico: evoluciones. Coleccion Pilares de Psicoanalisis Contemporáneo. Buenos Aires:APA Editorial, 2021. 4. Eizirik, CL et al Transitando entre vivências e novas fronteiras psicanalíticas Revista de Psicanálise da SPPA, v. 28, n.1, p.169-185, 2021 5. Eizirik, MF O cuidado de si: uma perspectiva filosófica In Eizirik, CL e Bassols, AM O Ciclo da Vida Humana: Uma Perspectiva Psicodinâmica, Porto Alegre, Artmed, 2013 6. Puget.J. & Wender, L. Analista y pacientes en mundos superpuestos. Psicoanálisis, 4(3), 503- 521,1982. 7. Puget, J, Intersubjetividad:crisis de la interpretación. Psicoanálisis, 25(1),175-89 8. Toledo Batello, GVL et al. Cuidadores de idosos em situação de pandemia: reflexões sobre o cuidar e ser cuidado https://publicações.abennacional. org.br/wp-content/uploads/2021/03/e2- geronto2-cap3.pdf 17GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 3 Lidando com cenários complexos: como tomar decisões num mundo polarizado, com dados científicos ainda em construção e assolado por fake news? Natalia Pasternak Microbiologista, com PhD e pós-doutorado em Microbiologia, na área de Genética Bacteriana na Universidade de São Paulo. Atua como colunista para o jornal “O Globo”, para a revista The Skeptic e para o site Medscape (WebMD). Também apresenta o programa bissemanal “A Hora da Ciência” na Rádio CBN. 18 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Processos decisórios em políticas públicas são motivados por per- cepções construídas em cima de preferências pessoais e ideologias, muitas vezes sem que o gestor se dê conta de que este processo não é essencialmente racional e baseado na melhor evidência científica dispo- nível. O mesmo ocorre com decisões tomadas pelo cidadão comum. Decisões que vão desde questões simples, como qual alimento esco- lher no mercado - o senso comum nos diz que alimentos orgânicos seriam superiores, e pode ser que tenhamos um certo medo do selo dos transgênicos – até questões de saúde, como a decisão de vacinar ou não os filhos, passam pelo que o cidadão e o gestor compreendem de ciência e de evidências científicas. Faz-se necessário, portanto, conhe- cer sobre método científico e como as evidências são construídas, nas mais diversas áreas. É preciso tam- bém compreender nossas próprias limitações e vieses cognitivos que interferem no processo decisório. Compreender a ciência requer um conhecimento mínimo de como a ciência e os processos científicos funcionam, mas não requer uma educação formal e acadêmica, ou ter formação em medicina e/ou saúde, ou outras carreiras científicas. Trata-se de letramento científi- co como uma ferramenta para o exercício consciente de cidada- nia. Infelizmente, tomadores de deci-sões, parlamentares e membros do executivo não têm, em geral, a preparação adequada para avaliar evidências científicas e levá-las em conta no processo decisório. A carreira em gestão pública valoriza conhecimento básico em economia, direito e administração pública, mas a ciência costuma ficar fora do radar. A pandemia de Covid-19 mostrou que essa percepção está errada. Políticas públicas de saúde basea- das em posicionamento político e ideológico tornaram-se comuns ao redor do mundo, a desinformação sobre vacinas e tratamentos causou mortes desnecessárias e impediu coberturas vacinais eficazes. Toma- dores de decisões encaram, agora, o desafio de navegar em um mar de desinformação, com a responsabili- dade de decidir o que é baseado em ciência e o que não é, sem ter rece- bido qualquer tipo de treinamento específico para isso. Consultar especialistas é uma opção, mas nem sempre a melhor, porque mesmo médicos especialistas, que cos- tumam oferecer aconselhamento científico para governos, raramente têm treinamento específico para este trabalho. Durante a pandemia de Covid-19, este mau aconselhamento levou ao uso indiscriminado de curas milagrosas, como hidroxicloroqui- na e ivermectina1, e antes ainda, à adoção de práticas alternativas sem lastro em evidência no Sistema Único de Saúde2. Separar ciência de pseudociência e ciência picareta tornou-se, assim, uma questão de saúde pública e uma ferramenta no processo deci- sório3. Mas como o cidadão comum e o tomador de decisões podem aprender a lidar com a desinformação, que muitas vezes vem dos pró- prios governos e autoridades de saúde? Some-se a isso o fato de que a própria revisão pelos pares é um sistema imperfeito, e a pressão para publicar – do inglês “publish or perish” – acaba levando a um sem número de artigos científicos que extrapolam mais dos dados apre- sentados do que seria possível, con- fundindo público e jornalistas, que acabam transformando experimen- tos preliminares em recomendações de saúde4. Emergências sanitárias, como a pandemia, deixaram claro que é urgente fortalecer a comu- nicação de ciência e de risco, tanto local como globalmente, e estabe- lecer diretrizes – preferencialmente internacionais – indicando como e onde procurar informação baseada em evidências. O controle de doenças infecciosas e epidemias e de ameaças globais, como mudanças climáticas e des- matamento, requerem mudanças de comportamento das pessoas. Mudar comportamento envolve um programa de convencimento e comunicação, no qual gestores pú- blicos precisam ser capazes de fazer este apelo com uma mensagem que justifique decisões e políticas públi- cas. Devem conseguir explicar para a popula- ção, “A primeira regra é não nos enganarmos. E nós somos as pessoas mais fáceis de enganar”. Richard Feynman 19GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 por exemplo, que proibir cigarros em locais fechados está baseado em evidências de que o fumo passivo também pode causar câncer de pulmão, ou que exigir vacinação completa para auxílios governamen- tais é baseado na melhor evidência de práticas de saúde pública5. Modificar o comportamento das pessoas não é tarefa fácil. Estudos já demonstraram que fazer com que pessoas reconheçam o aque- cimento global como real e mudem de atitude para acomodar ações de mitigação é algo que requer um investimento robusto em letramento científico6. Ninguém vai, volunta- riamente, parar de usar carros e nenhum governo vai, ativamente, investir em energia limpa sem uma explicação muito clara e um trabalho de convencimento de que isso é es- sencial para garantir uma exploração sustentável do planeta e a continui- dade da nossa própria espécie. Ao mesmo tempo, desinformação e movimentos anticiência fornecem os argumentos perfeitos para endos- sar comportamentos já existentes e escolhas ruins. O negacionismo en- contra eco no comodismo. Afinal, se eu aceito que o aquecimento global é real, e causado pela humanidade, tenho que agir. Como cidadão, é esperado que eu use menos o carro, coma menos carne. Como gestor, espera-se que eu implemente uma política de créditos de carbono, priorize investimentos em fontes de energia limpa, regularmente uma melhor proteção ao meio ambiente e de atividades que emitem gases de efeito estufa. Mas se tiver bons argumentos de que o aquecimento global na verdade não é tão grave assim, o mundo sempre esquentou e esfriou, é natural, ou que pelo me- nos, eu possa dizer que a causa não é de atividade humana, então não preciso mudar meu comportamento. Na verdade, não preciso fazer nada, porque não há nada a ser feito. O negacionismo é usado como uma ferramenta para justificar a omissão, o não fazer. Outro motivo que faz com que a desinformação seja tão atraen- te é justamente porque ela apela para argumentos que fazem parte do “senso comum”, ou do que o psicólogo Jonatahn Haidt chama de “fundações morais”. Em seu livro “A Mente Moralista”7, Haidt sugere que seis valores definem a noção de moralidade de cada pessoa: cuidado, justiça, liberdade, lealdade, autori- dade e pureza. Diferentes grupos sociais (ou mesmo indivíduos) dão diferentes pesos a cada um desses valores, e a combinação desses pesos define uma visão particular de certo e errado, tolerável e inaceitá- vel. O movimento antivacinas, para citar um exemplo de movimento negacionista organizado, explora claramente ao menos quatro dessas seis fundações. A ciência trabalha com verdades provisórias, e não verdades absolutas. Saber comunicar este fato com clareza e honestidade é o primeiro passo para que tanto o gestor público como o cidadão possam fazer escolhas racionais. A liberdade aparece na questão da interferência do Estado, levando o movimento antivacinas para o es- pectro político e ideológico da direita conservadora. A pureza explora o fato de que as vacinas não são naturais, as doenças são. Também se encaixa aí o medo das vacinas genéticas, e a desinformação de que poderiam “interferir” no DNA humano. A justiça apela para o fato de que as vacinas são fabricadas por multinacionais poderosas, movidas pela ganância, e o cuidado nos leva novamente para a família conser- vadora onde a mãe, vista como a responsável pelas decisões sobre a saúde dos filhos, é também culpada por qualquer mal que lhes aconteça. Não é por acaso que o movimento antivacinas dirige sua propaganda nas mídias sociais diretamente a mães8. Mulheres com filhos peque- nos são aterrorizadas com fotos de crianças com supostas sequelas de vacinas, e com histórias de horror de mortes e doenças causadas pela vacinação. Neste caso, fica claro que a desin- formação, gerada pelo movimento antivacinas, mais as fundações morais do “senso comum”, suprem as desculpas ideais para justificar escolhas irracionais. O processo decisório, que deveria ser baseado em evidências, foi corrompido por irracionalidade e negacionismo. Como navegar, então neste mar de incertezas, informações falsas e ao mesmo tempo acompanhar o pro- cesso da ciência? Primeiro, é preciso aceitar que a ciência é baseada em incertezas. O processo científico, que permite o desenvolvimento de tecnologias e o progresso da civilização, é baseado em perguntas, não em respostas. A ciência trabalha com verdades provisórias, e não verdades absolu- tas. Saber comunicar este fato com clareza e honestidade é o primei- ro passo para que tanto o gestor público como o cidadão possam fazer escolhas racionais. Ao mesmo tempo, é preciso ensinar pensamen- to crítico para evitar que as pessoas sejam enganadas com falsas cer- tezas vendidas pelos movimentos negacionistas. A pseudociência e a ciência pica- reta oferecem certezas absolutas, na forma da cura do câncer e de doenças neurodegenerativas, do estilo de vida “natural e saudável” que exclui vacinas e medicamentos, os alimentos que curam tudo desde unha encravadas até depressão, eque estariam disponíveis se “eles” não os escondessem de você. As teorias conspiratórias, as culpas e as certezas da desinformação em saú- de produzem o conforto necessário para que pessoas ignorem a ciência, o desconhecido, a incerteza. Melhorar esta comunicação passa por investimento em letramen- to científico e ensino de ciências. Letramento científico se faz com boa comunicação de ciência, garantin- do que a informação de qualidade circule, com linguagem adequada e acessível, em veículos diferentes para públicos diversos. Checagem de fatos e técnicas de inoculação contra a desinformação – expor as estratégias e falácias argumentati- vas dos negacionistas - são ferra- 20 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. Taschner, N. P., de Almeida, L. G., & Orsi, C. (2021). Revising the “Hype Pipeline” Model in Scientific Communication. Frontiers in Communication, 6. https://doi.org/10.3389/ fcomm.2021.601023 2. Taschner, N. P., Orsi, C., Almeida, P., & Pilati, R. (2022). The impact of personal pseudoscientific beliefs in the pursuit for non-evidence-based health care. Journal of Evidence-Based Healthcare, 3, e3516. https://doi. org/10.17267/2675-021xevidence.2021.e3516 3. Pigliucci, Massimo & Boudry, Maarten (2013). Why the Demarcation Problem Matters. In Massimo Pigliucci & Maarten Boudry (eds.), Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem. 4. Pasternak, N; Orsi, C; Mertz A, Firestein, S. (2022). The attack of zombie science. Nautilus magazine. 5. Brewer, N. T. (2021). What Works to Increase Vaccination Uptake. Academic Pediatrics, 21(4), S9–S16. https://doi.org/10.1016/j. acap.2021.01.017 6. Nisbet, M. (2017). Ho, S., Markowitz, E., O’Neill, S., Schäfer, M., & Thaker, J. (Eds.), The Oxford Encyclopedia of Climate Change Communication. : Oxford University Press. 7. Haidt, J. (2012). The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (1st ed., Vol. 1). Vintage. 8. Baker, S. A., & Walsh, M. J. (2022). ‘A mother’s intuition: it’s real and we have to believe in it’: how the maternal is used to promote vaccine refusal on Instagram. Information Communication and Society. https://doi. org/10.1080/1369118X.2021.2021269 9. Cook, J., Lewandowsky, S., & Ecker, U. K. H. (2017). Neutralizing misinformation through inoculation: Exposing misleading argumentation techniques reduces their influence. PLoS ONE, 12(5). https://doi.org/10.1371/journal. pone.0175799 mentas úteis9. Melhorar o ensino de ciências é imperativo se quisermos formar cidadãos mais racionais e menos vulneráveis à desinformação. O ensino de ciências é, na maioria dos casos, extremamente conteu- dista. Ciência é ensinada como um corpo de conhecimento, algo rígido, imutável, que precisa ser memoriza- do e que será testado com respostas de “sim” ou “não”, ou de múltiplas escolhas onde somente uma está correta. O problema é que o processo cientí- fico é exatamente o oposto disto. A ciência não é fixa, dogmática, imu- tável. E raramente pode ser classifi- cada em respostas simples de certo e errado. Muito mais importante do que ensinar para crianças e jovens que a Terra é redonda – ou uma es- fera imperfeita -, é ensiná-los quais experimentos foram feitos, muito antes de termos viagens espaciais, que permitiram tirar conclusões sobre o formato da Terra. Será que podemos mesmo rir dos terraplanistas sem saber explicar o experimento de Eratóstenes feito na Grécia antiga, há dois mil anos? Se não mudarmos nosso ensino de ciências para uma forma menos conteudista, que abrace as incer- tezas e o processo investigativo, teremos sempre uma população vulnerável aos vendedores de certezas e de desinformação. As certezas absolutas dos negacionis- tas e propagadores de desinforma- ção serão sempre mais atraentes e reconfortantes do que as verdades provisórias da ciência. Cabe a nós, portanto, cientistas, comunicadores de ciência, professores e gestores públicos de saúde, esta- belecer diretrizes para uma boa comunicação com a sociedade, dispo- nibilizando não somente a informação, mas a formação adequada para que a população consiga se proteger dos charla- tões, e reconhecer vieses ideológicos e políticos que dificultam a tomada de decisões racionais. Reco- nhecer nossa própria capaci- dade de sermos enganados é o primeiro passo. 21GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 4 Christian Haag Kristensen Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Coordenador do Grupo de Pesquisa Cognição, Emoção e Comportamento e Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (NEPTE-PUCRS). Pandemia de Covid-19, burnout e estresse traumático 22 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Transcorridos mais de dois anos desde o início da pandemia de Co- vid-19, são notáveis os efeitos desta na saúde mental, no mundo1 e no Brasil,2 em diferentes faixas etárias, como crianças3 e idosos4. Entre os diferentes fatores de risco para saú- de mental associados à pandemia, podem ser destacados o sofrimento, causado pelo isolamento social; a solidão; o medo de conta- minação; o sofrimento, causado pela morte de entes próximos; luto, decorrente destas perdas; e mesmo preocupações financeiras, entre outros5. Conceituar- mos a pan- demia como um estressor crônico é útil para a com- preensão dos fatores de risco (e proteção), mecanismos e processos asso- ciados, desfechos negativos e interven- ções (incluindo prevenção e tratamento). Um levantamento da Organização Mundial de Saúde em 130 países mostrava, ainda em 2020, que a pandemia, como um estressor crônico, interrompeu ou prejudicou serviços essenciais de saúde mental em 93% dos paí- ses em todo o mundo, enquanto aumentava a demanda por saúde mental.6 Ou seja, não apenas a pan- demia aumentou os fatores de risco, mas também reduziu os fatores de proteção a desfechos mais favorá- veis à saúde mental. Desta forma, recente revisão global de estudos na área7 apontou um aumento significativo de proble- mas de saúde mental na população geral no primeiro ano da pandemia, incluindo aumento do Transtorno Depressivo Maior em 27,6% (IC 95%: 25,1–30,3%) e Transtornos de Ansiedade em 25,6% (IC 95%: 23,2–28,0%). Ainda, a solidão e diagnóstico positivo da Covid-19 au- mentaram o risco de pensamentos suicidas na população geral e, quan- do associados à presença de exaus- tão e esgotamento, o risco para este fenômeno em profissionais de saúde. De fato, de forma consisten- te, diferentes estudos indicaram que profissionais de saúde constituem uma população em risco aumenta- do para transtornos mentais, não apenas na pandemia de Covid-198,9, como em outras pandemias por doenças infecciosas anteriormente investigadas10. O objetivo deste capítulo é apresen- tar uma rápida revisão dos efeitos da pandemia de Covid-19 em pro- fissionais de saúde, com ênfase nos transtornos relacionados a trauma e estressores e na Síndrome de Bur- nout, e abordar os principais fatores de risco e estratégias que poten- cializem os fatores de proteção, visando a promoção de desfechos mais positivos em saúde mental. Síndrome de Burnout Burnout é uma síndrome incluí- da na 11a Edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11)11 como um fenômeno ocupacional. É o resultado do estresse crônico no local de trabalho que não foi manejado de forma bem-sucedida. É caracterizada por três dimen- sões: sentimento de exaustão ou depleção de energia; aumento do distanciamento mental do trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho; e sensação de ineficácia e falta de realização. A Síndrome de Burnout é um fenômeno bastante estudado em diferentes categorias profis- sionais no Brasil, tanto na área de educação quanto na saúde, entre os quais, psicólo- gos,12 enfer- meiros13 emédicos.14 E está associa- da a vários desfechos negativos em saúde física (e.g., hiperco- lesterolemia, diabetes tipo 2) e mental (e.g., insônia, sintomas depres- sivos), bem como em problemas ocupacionais (ab- senteísmo, presen- teísmo)15. Claramente, estes impactos no indivíduo apresentam consequências para o sistema de saúde e para os pacientes, pois implica ainda em turnover aumentado entre os profissionais, redução da produ- tividade e redução na qualidade do cuidado16. Problemas relacionados à carga elevada de trabalho e à perda de qualidade de vida estão associa- dos à exaustão física e mental na pandemia17. Nesta mesma revisão, a prevalência de burnout foi estimada em um intervalo de 23% a 76% para profissionais de saúde. Em estudo de metanálise, a prevalência da sín- drome foi de 52% em profissionais de saúde (IC 95%: 40–63%), sendo os sintomas nas dimensões de exaustão emocional (51%) e desper- sonalização (52%) mais prevalentes que sintomas de falta de realização pessoal (28%)18. Ser um profissional que atua na linha de frente, gênero feminino e ser profissional de enfer- magem são fatores que aumentam o risco de desenvolver burnout no contexto da pandemia19-21. 23GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Transtorno de Estresse Pós-Traumático O TEPT é uma síndrome que pode se desenvolver após a exposição a um evento ou série de eventos extremamente ameaçadores ou horríveis. De acordo com os critérios da CID-11, TEPT se caracteriza pelos seguintes fatores: (a) re-experiência do evento ou eventos traumáticos no presente sob a forma de memó- rias vívidas intrusivas, flashbacks ou pesadelos; (b) evitar pensamentos e memórias do evento ou eventos, ou evitar atividades, situações ou pessoas que lembrem o(s) evento(s); (c) percepções persistentes de uma ameaça atual elevada, por exemplo, como indicado pela hipervigilância ou por uma reação de sobressalto aumentada a estímulos tais como ruídos inesperados22 . Os sintomas do TEPT se mantêm por pelo menos várias semanas e causam prejuízos significativos nas áreas pessoal, familiar, social, educa- cional, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento. Está associado a elevada comorbidade com outros transtornos mentais,23 risco aumentado para doenças físi- cas24 e alto impacto social e econô- mico25. Em uma metanálise com 77 estudos informando prevalência de TEPT após pandemias por doenças infecciosas (incluindo Covid-19)10, verificou-se que a prevalência deste transtorno entre profissionais de saúde é elevada (26,9% [IC 95%: 20,3–33,6%]), sendo inclusi- ve superior àquelas observa- das em pacientes infectados (23,8%) e na população geral (19,3%). Em metanálise recente26, a prevalência deste transtorno entre profissio- nais de saúde foi de 17,2% (IC 95%: 11,8–24,5%). Neste mesmo estudo, profissionais que atuavam na linha de fren- te em unidades de Covid-19 apresentaram prevalência muito mais elevada (30,9%) do que profissionais que não atu- avam nessas unidades (13,8%). Ainda, entre os profissionais de saúde, a maior prevalência de TEPT foi identificada em enfermei- ros (28,2% [IC 95%: 15,8–45,1%]), seguido por médicos (10,8% [IC 95%: 6,1–18,4%]) e outros profis- sionais (7,7% [IC 95%: 4,4–12,2%]). Para o diagnóstico do TEPT, tanto no sistema classificatório da CID-11, quanto no sistema do Manual Diag- nóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)27, há necessidade de que seja estabelecida a exposição a um evento (ou série de eventos) que se caracterize como ameaça à vida ou integridade física (Critério A, no DSM-5). Embora não exista dú- vida de que a pandemia de Covid-19 se caracterize como um estressor crônico, há extensa literatura deba- tendo se a mesma pode, de forma generalizada, ser classificada como um evento estressor potencialmen- te traumático28-30 ou se haveria a necessidade de maior especificidade para este o estabelecimento deste critério diagnóstico31,32. Especifica- mente em profissionais de saúde, as seguintes situações poderiam se ca- racterizar como um evento estressor traumático (Critério A) para TEPT: ser sobrecarregado pela magnitude da exposição ou testemunhar pacientes com Covid gravemente doentes ou morrendo; exposição como profis- sional de saúde sem equipamento de prote- ção individual (EPI) adequado32 . De qualquer forma, tomados em conjunto, os dados de prevalência de TEPT em profissionais de saúde são preocupantes, especialmente se considerarmos o curso temporal deste transtorno. Estudo de metaná- lise8, avaliando sintomas pós-trau- máticos em profissionais de saúde no enfrentamento de pandemias (Covid-19; Síndrome Respiratória Aguda Grave - SAR; Síndrome Res- piratória do Oriente Médio - MERS), revelou que os sintomas pós-trau- máticos, apesar de serem mais pre- valentes na fase aguda da pandemia (23,4% [IC 95%: 16,3–31,2%]), se mantém em níveis elevados mesmo após 12 meses (11,9% [IC 95%: 8,4– 15,8%]), indicando a necessidade de atenção à saúde mental desta popu- lação e a identificação de fatores de risco e proteção. Ainda é importante notar que a síndrome de burnout, abordada na seção anterior, é um fator associado ao desenvolvimento de TEPT em profissionais da saúde atuando na pandemia33. De fato, em profissionais de saúde, burnout e TEPT compartilham vários fatores de risco, consequências e possibili- dades de intervenção34. 24 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Fatores de risco e proteção: como se cuidar Ainda que possam haver especificidades, é possível sintetizar alguns dos principais fatores de risco para a síndrome de burnout e para o TEPT, no contexto da pandemia de Covid-1918,35-39 no quadro a seguir .Quadro 01. Fatores de risco e proteção para burnout e TEPT em profissionais de saúde Fatores de Risco Fatores de Proteção F A T O R E S I N D I V I D U A I S Idade (mais jovem) Gênero (feminino) Enfermeiro(a) Histórico de sofrimento psicológico, transtorno mental ou uso de substâncias Condições de saúde física comórbidas Isolamento social Familiar infectado Redução da rede de apoio (familiares; amigos) Contato aumentado com pacientes infectados Treinamento inadequado Baixa experiência clínica Estratégias de enfrentamento inadequadas (coping negativo ou passivo) Percepção aumentada de risco de infecção Suporte social (familiares; colegas) Estratégias de enfrentamento (coping) adaptativas Crença nas medidas preventivas Elevada experiência clínica Trabalhar em uma função administrativa ou gerencial Auto-percepção de ser adequadamente treinado e apoiado F A T O R E S O C U P A C I O N A I S Tempo prolongado de trabalho em áreas de quarentena Percepção de falta de apoio organizacional Atuação em unidades de elevado risco Percepção de falta de adequação do treinamento Falta de confiança no controle de infecção Turnos excessivamente longos Falta de profissionais / elevado turnover / sobrecarga Tempos de descanso adequados na rotina de trabalho Disponibilidade de equipamentos de proteção individual adequados Treinamento eficaz dos profissionais no combate à pandemia Comunicação clara com os profissionais Protocolos de apoio aos profissionais Crenças positivas nos procedimentos de controle de infecções nos serviços Acesso a intervenções psicológicas baseadas nas demandas do grupo e/ou necessidades individuais 25GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. 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Int J Nurs Stud. fevereiro de 2022;126:104136. doi: 10.1016/j.ijnurstu.2021.104136 Evidencia-se, a partir do rápido exame do quadro acima, que vários fatores de risco e proteção estão associados a questões relacionadas ao ambiente de trabalho. Neste sen- tido, estratégias que visam aumentar a comunicação entre as equipes, o constante desenvolvimento de pro- tocolos de treinamento dos profis- sionais, a organização adequada de períodos de descanso e escalas, e a disponibilidade de EPIs adequados, entre outros, claramente encontram apoio na literatura como variáveis que reduzem o risco para burnout e para TEPT em profissionais de saú- de no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Entre os fatores individuais, associa- dos com a redução do risco, desta- cam-se o apoio social e o emprego de estratégias de enfrentamento (coping) mais ativas e positivas. Particularmente, a utilização de estratégias de coping, focadas no problema, ou mesmo estratégias de regulação emocional cognitiva mais adaptativas (como colocar as situações/eventos em perspecti- va, focar nos aspectos positivos da experiência, aceitação, e reavalia- ção cognitiva da situação) produz efeitos positivos em termos de saúde mental. Outras estratégias, como práticas meditativas e mind- fulness (aprofundadas nesta obra no Capítulo 12), têm recebido apoio empírico na redução de sintomas de TEPT e burnout em profissionais de saúde17,40. Da mesma forma, recente revisão evidenciou que exercício e atividade física podem promover melhoras nos sintomas de TEPT em profissionais de saúde atuando na linha de frente41. 26 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 27. American Psychiatric Association. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5o ed. 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Neste contexto, profissionais mais jovens, com crianças pequenas, mais desfavorecidos do ponto de vista socioeconômico e que atu- am em áreas de maior estres- se, risco de contágio ou de pacientes muito graves (por exemplo, pronto- -socorro e unidades de terapia inten- siva) estiveram ainda mais predispostos a desenvolver sintomas psiquiátri- cos1. Por outro lado, os pro- fissionais com maior experiência, maior suporte familiar, que aceitam e concordam com as medidas institucionais, que viram cole- gas se curarem do Covid-19 e que têm acesso a programas de saúde mental, tiveram risco relativamente menor de desenvolver sintomas mentais2. De fato, uma revisão sistemática e metanálise da literatura, incluindo 239 artigos, com 271.319 profissio- nais de saúde, mostrou que estes profissionais relataram taxas de sintomas depressivos de 33%; de sintomas de ansiedade de 42%; de estresse agudo de 40%; de sinto- mas pós-traumáticos de 32%; de insônia de 42%; e de burnout de 37%3. Em uma revisão guarda-chu- va, comparando sintomas mentais entre profissionais de saúde e a população em geral, observaram-se taxas aumentadas de insônia, es- tresse e sintomas mentais em geral, com taxas semelhantes à população em termos de ansiedade e depres- são4. Não obstante, uma coorte de enfermeiros nos EUA mostrou que, de abril de 2020 a abril de 2021, a taxa de sintomas de ansiedade chegou a quase 20% e a de sinto- mas depressivos em 16,7%, respec- tivamente maiores a de antes da pandemia (14-16% para ansiedade e 13-14% para depressão). Com a observação de que profissio- nais de saúde apresentavam mais sintomas psiquiátricos, estratégias de pre- venção a agravos da saúde mental nestes profis- sionais passaram a ser de grande interesse, bem como o mapeamento de quais grupos estariam mais pro- pensos a desenvolver estes sinto- mas, além de dados sociodemográ- ficos. Em um estudo, realizado no Peru, identificou-se que uma tríade composta por medo de contrair Co- vid-19, sintomas ansiosos e estresse pós-traumático explicava 70% dos casos de depressão5. Por sua vez, um estudo realizado com profissio- nais de saúde na China mostrou que sobrecarga de trabalho, sintomas respiratórios, sintomas digestivos e estilo de coping negativo foram fatores de risco independentes para depressão6. Por fim, um estudo realizado na Hungria mostrou que fatores subjetivos, como inseguran- ça, percepção de carga de trabalho e falta de previsibilidade da jornada de trabalho, estavam mais associa- dos com depressão do que fatores objetivos (como trabalhar na linha de frente)7. Uma revisão narrativa indicou que as intervenções, relacionadas ao manejo dos sintomas psiquiátricos dos profissionais de saúde mental, incluíram aplicativos de telefones móveis, linhas de apoio (hotlines), opções domiciliares alternativas, organização de gru- pos sociais, acesso a recursos psicoeduca- cionais, sistemas de “companheiros”, áreas de descompressão e profissionais disponíveis para aconselhamento ou tratamento8. Esta revisão narrativa também obser- vou que as necessidades dos profissionais de saúde variam em diferentes cultu- ras e ao longo do tempo. No início da pan- demia, por exemplo, os serviços de “hotline” foram pouco utilizados e tiveram altas taxasde abandono, com os profissionais relatando que tinham necessidades mais básicas, como moradia próxima ao hospital, para que não precisas- sem retornar para suas famílias. Por fim, os autores sugerem que as lideranças dos serviços hospitalares devem focar na promoção da saúde mental, aumentando a “alfabetiza- ção em saúde mental” e alimentan- do uma cultura de engajamento e positividade para programas e ações com impacto benéfico na saúde mental. Desta maneira, os próprios profis- sionais de saúde devem reconhecer em si, ou em seus colegas de traba- lho, sintomas como: • Exaustão emocional; • Dificuldade em dormir; • Exaustão física; • Medo de trabalhar; 29GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 • Mudanças no apetite; • Sintomas somáticos; • Aumento desproporcional ao risco de ser exposto ou infectado; • Baixa auto-estima; • Pensamentos, imagens ou sonhos intrusivos; • Pensamentos acelerados; e • Aumento no consumo, ou abuso, de álcool, tabaco ou outras substân- cias. Dentre as formas de tratamento ou manejo dos sintomas depressivos ou psiquiátricos, algumas propostas gerais são sugeridas, como descre- ve-se a seguir8. Prevenção de agravos à saúde mental: • Promoção das competências dos profissionais para reduzir a carga dos estressores; • Atender à hierarquia de necessi- dades (por exemplo, equipamentos de proteção individual devem estar sempre disponíveis) - “ouça-me, proteja-me, prepare-me, dê-me ajuda e cuide de mim”; e • Criação de espaços de relaxamen- to e de descompressão. Manejo de sintomas mentais: • Facilitação de acesso para trata- mento psiquiátrico/psicológico, se necessário; • Treinamento psicoeducacional; • Uso de recursos digitais e móveis, “hotlines” e material para leitura em portais ou aplicativos, bem como o desenvolvimento de aplicativos terapêuticos e de monitoramento de sintomas; • Desenvolvimento de técnicas de “coping” efetivas. Promoção de positividade: • Fomento à construção de relacio- namentos positivos no trabalho; • Suporte por pares, de maneira formal ou informal; • “Salas Schwartz”, ou seja, sessões de 60 minutos com quatro pessoas da equipe que discutem experiên- cias pessoais, seguidas por uma discussão em grupo facilitada por um profissional especializado; e Mídias sociais, conectando a comu- nidade de saúde local entre si. O programa COMVC-19 Em nosso meio, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), o programa COMVC-19 foi criado para proteger a saúde mental dos profissionais de saúde deste hospital durante a pandemia. No primeiro ano, fo- ram observadas taxas elevadas de sintomas depressivos, ansiosos e de ataques de pânico. Na verdade, 55% dos profissionais de saúde admitidos no programa COMVC-19 apresenta- vam sintomas mentais9. O programa também se caracterizou por uma série de intervenções para manejo de estresse e transtornos mentais, tais como: • Criação de grupos com profissio- nais de saúde e uma linha de apoio (hotline) para que eles pudessem conversar e trocar experiências; • Vídeos psicoeducacionais; • Vídeos motivacionais; • Proposta de “Enfermagem que Acolhe”, implantada pelo Grupo de Humanização, que tinha como objetivo discutir rotinas, desenvol- ver suporte emocional e estimular reflexões entre colegas; • Atividade física guiada por profis- sionais; • Tratamento por aplicativo (app COMVC); • Tratamento por psicoterapia breve. 30 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. Greenberg N. Mental health of health-care workers in the Covid-19 era. Nat Rev Nephrol. 2020;16: 425–426. 2. Kisely S, Warren N, McMahon L, Dalais C, Henry I, Siskind D. 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Por outro lado, os membros do programa notaram um aumento de sintomas depressivos, o que foi atribuído à cronicidade da pandemia, que pode ter afetado mais alguns indivíduos já mais predispostos a desenvolver transtornos depressi- vos10. Concluindo, taxas mais altas de depressão e outros sintomas psi- quiátricos foram observadas em profissionais de saúde, tanto em comparação com anos anteriores, quanto com a população geral. No atual período “pós”-pandêmico, apesar de não haver dados sufi- cientes, tudo indica que estas taxas permanecem elevadas, com uma transição de sintomas ansiosos e de estresse agudo para sintomas depressivos e burnout. Além disso, na medida em que o manejo da Co- vid-19 encontra-se mais descentrali- zado, hospitais e instituições devem se adaptar localmente para criar um ambiente de trabalho que permita que os profissionais de saúde en- contrem espaço para serem ouvidos e assistidos. 31GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 6 Antonio Egidio Nardi Professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro titular da Academia Nacional de Medicina e da Academia Brasileira de Ciências. A ansiedade no pós-pandemia: como o profissional de saúde pode se readaptar ao novo normal 32 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Todos sofremos com a Covid-19 e continuamos padecendo, mesmo já superada a pior fase. Entretanto, os profissionais da saúde sofreram,sofrem e ainda terão que aprender a conviver com as sequelas desta ter- rível pandemia. Estes trabalhadores são vítimas de diversas formas, mas principalmente como linha de frente no combate, sofrendo com pacien- tes, consolando famílias e perdendo amigos e parentes. Os profissionais de saúde são pessoas-chave para conter doenças infecciosas como a Covid-19. A saúde mental e o bem- -estar geral destes profissionais têm implicações organizacionais para a segurança e satisfação dos pacien- tes e famílias, além dos custos finan- ceiros, impacto na produtividade e os efeitos diretos no próprio traba- lhador1. Os profissionais de qualquer área desempenham suas atividades de forma plena e assertiva quando trabalham em um ambiente calmo, onde os riscos de exposição ao estresse são devidamente contro- lados. Assim, devemos entender mais sobre a condição de saúde mental destes profissionais e as repercussões mentais ao enfrentar uma fonte prolongada de sofrimento para planejar ações que promovam e protejam sua saúde mental e física2. Durante a pandemia observamos ambientes de trabalho de alta pressão emocional, elevada carga de trabalho, longas horas de tensão, re- cursos limitados, reestruturação or- ganizacional, e uma cultura de pavor e desinformação que resultaram em aumento do estresse em profissio- nais de saúde, com maior número de licenças e faltas do trabalho, e busca por tratamento psiquiátrico1,3. Medo, incerteza, sintomas de ansie- dade e estigmatização são elemen- tos recorrentes em uma pandemia e podem se tornar um obstáculo para fornecer assistência médica e tratamento de saúde mental. Uma das causas do estresse mental entre os profissionais de saúde, que advinda do trabalho durante a pan- demia, pode estar associada ao so- frimento devido às dificuldades en- contradas para garantir a segurança pessoal, relacionada ao alto risco de exposição a pacientes infectados, grande número de atendimentos, óbitos elevados (inclusive de cole- gas) e a escassez de equipamentos de proteção. Além disso, esses pro- fissionais viram mudanças significa- tivas no seu ambiente de trabalho, como o aumento da responsabi- lidade ocupacional, necessidades de desenvolver novas habilidades, medidas rigorosas de segurança e autocuidado reduzido devido à falta de tempo e energia1,2. Com base em um cenário de crescente ame- aça pandêmica, uma atmosfera de ansiedade, causada pelas medidas recomendadas para reduzir a trans- missão de doenças, e sobrecarga de informações divulgadas por diferen- tes meios de comunicação, algumas atitudes como a coleta de informa- ções sobre o comportamento e a condição mental dos trabalhadores da saúde podem ajudar a estabele- cer medidas efetivas que estimulem e que protejam sua saúde durante e após a luta contra a pandemia. A ansiedade patológica é caracteri- zada por sintomas mentais e somá- ticos graves, incluindo alterações autonômicas (por exemplo, palpita- ções, sudorese, tremores, boca seca, dificuldade respiratória, dor torácica e náusea), insônia, preocupações excessivas, tensão motora, ataques de pânico, irritabilidade, entre outras. Metanálises de sofrimento mental em profissionais de saúde em todo mundo demonstraram evidência de graves sintomas de depressão e de ansiedade, devendo os serviços de saúde considerarem abordagens multiníveis de suporte1. Os sintomas de ansiedade são fre- quentes e limitantes entre profissio- nais de saúde em comparação com a população em geral1,3. Embora mais pesquisas longitudinais sejam ainda necessárias para monitorar resul- tados em longo prazo, e explorar potenciais diferenças na trajetória da saúde mental para profissionais de saúde em comparação com outras populações, os resultados mais recentes são amplamente compa- ráveis a estimativas anteriores para médicos, realizadas nos primeiros três a seis meses da pandemia. Em metanálise de ansiedade em pro- fissionais de saúde1, realizada até meados de setembro de 2020, uma avaliação de subgrupo de 13 estudos de profissionais de saúde documen- tou uma prevalência combinada de 17% (95% CI 12,0–22,0%) para transtornos de ansiedade1. Outra metanálise, realizada para a população em geral, até junho de 2020, estimou a prevalência global em 28% (IC 95% 25–31,2%) para depressão e 26,9% (IC 95% 24– 30%) para ansiedade. Essas taxas são significativamente maiores do que estimativas globais pré-pande- mia para a população geral de 4,7% (4,4–5%) para depressão e 7,3% (4,8–10,9%) para ansiedade1,3. Hou- ve apenas uma revisão sistemática de depressão e ansiedade em pro- fissionais de saúde antes da pande- mia de Covid-19. A depressão variou de 14% a 60%, e a ansiedade variou de 18% a 55%.1 Posteriormente, um estudo transversal holandês relatou prevalência de depressão e ansieda- de entre profissionais de saúde em 29% e 24%, respectivamente1. Metanálises de sofrimento mental em profissionais de saúde em todo mundo demonstraram evidência de graves sintomas de depressão e de ansiedade, devendo os serviços de saúde considerarem abordagens multiníveis de suporte1. Em 2017, um estudo realizado na Irlanda relatou que 16,6% e 14,4% dos profissionais de saúde tinham sintomas de depressão e ansiedade de gravidade moderada ou acima; esses números permanecem consi- deravelmente mais altos do que as taxas na população em geral1. Uma hipótese é que o aumento de depressão e ansiedade entre os profissionais de saúde, durante a pandemia de Covid-19, foi relati- vamente controlado nestes países, em comparação com estimativas anteriores, devido um efeito teto das demandas de trabalho que foi alcançado, ou que maiores recursos de trabalho foram disponibilizados 33GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 durante pandemia para compensar o aumento de trabalho. Por outro lado, vemos no cotidiano que profissionais de saúde, que tra- balham no combate à Covid-19, são cada vez mais afetados por transtor- nos psiquiátricos, distúrbios do sono, estresse e traumatização indireta do que outros grupos ocupacionais. O elevado nível constante de estresse dos profissionais de saúde produz intensa liberação de citocinas pró- -inflamatórias, incluindo interleucina IL-1β e IL-6 no sistema nervoso central. O aumento de citocinas, reação comum na infecção por SARS-CoV-2, também foi observado na depressão, nos transtornos de ansiedade e em outros transtornos mentais. Assim, podemos hipotetizar que a infecção pelo SARS-CoV-2 e os transtornos psiquiátricos têm um efeito comum de inflamação celular2. Nesse cenário clínico, os profissio- nais de saúde apresentam riscos maiores e estatisticamente significa- tivos de sintomatologia psiquiátrica associada à depressão, ansiedade, estresse e insônia, principalmente os que trabalham com pacientes aco- metidos pela Covid-19. Por sua vez, a redução do apoio social, recebido por profissionais de saúde devido às longas jornadas de trabalho e estigmatização dos trabalhadores que tiveram contato com pacien- tes infectados pelo SARS-CoV-2, também podem contribuir para o estresse profissional dos traba- lhadores diretamente envolvidos com a pandemia. Esta evidência é corroborada na análise de 4.357 profissionais de saúde na China, que descobriu que “estar isolado” entre muitos outros fatores era associado ao mau prognóstico dos transtornos mentais2. Da mesma forma, trabalhar no meio rural também foi associado a um maior risco de insônia, ansiedade, depressão e transtorno obsessivo- -compulsivo entre profissionais de saúde. Esse fato também pode ser associado a maiores preocupações sobre o risco de infecção devido à necessidade de trabalhar em um serviço que muitas vezes têm piores condições de trabalho em compara- ção com os da área urbana2. Existe uma forte associação entre profissionais de saúde e Covid-19 em termos de repercussões psiqui- átricas.2,3 Os profissionais de saúde têm um maior nível de traumas indiretos,em que o nível de dano excede a tolerância emocional, e indiretamente resulta em anormali- dades psicológicas. No Reino Unido, uma recente pes- quisa da British Medical Association, com mais de cinco mil médicos, des- cobriu que metade planejava traba- lhar menos horas após a pandemia; um quarto relatou ter mais chances de fazer uma pausa na carreira; e pouco mais de um quinto estava pensando em deixar o National Health System3. De acordo com esta pesquisa, o número de profissio- nais de saúde do Reino Unido que considerou aposentadoria em abril de 2021 foi de 32%, frente a 14% 34 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 em junho de 2020. Respondendo a essas preocupações, a British Medical Association pediu medidas imediatas para assegurar a saúde, a segurança e o bem-estar mental dos médicos. Dado que o Reino Unido e o resto do mundo vão lidar com os efeitos residuais da Covid-19 por muitos anos, é vital que as necessi- dades físicas e psicológicas destes profissionais sejam atendidas. Enquanto há uma série de fatores externos e organizacionais que pode afetar o bem-estar dos profissionais de saúde, é importante quantificar a prevalência de sofrimento e com- preender os fatores individuais que podem reduzir ou aumentar a vulne- rabilidade a sequelas emocionais. Existe uma forte associação entre profissionais de saúde e Covid-19 em termos de repercussões psiquiátricas.2,3 Os profissionais de saúde têm um maior nível de traumas indiretos, em que o nível de dano excede a tolerância emocional, e indiretamente resulta em anormalidades psicológicas. A capacidade mental de se adaptar ao retorno às atividades pré-pan- demia está associada a um risco reduzido de uma ampla gama de psicopatologia, e pode atuar como mediador e/ou moderador na rela- ção entre vida estressante e uma série de resultados de saúde mental. Estudos com foco específico em profissionais de saúde encontraram maior flexibilidade psicológica asso- ciada a menor burnout e sofrimento mental1,3. Esses achados também sugerem a necessidade de maior consideração e apoio a ser dado ao impacto das recentes experiências de vida adversas, tanto dentro como fora do local de trabalho. Dado as altas taxas observadas em todos os níveis de carreira, o apoio deve ser direcionado para médicos em todas as fases da carreira. A melhoria dos sistemas de apoio deve desempenhar um papel central no nosso plano de recuperação à medida que emergimos da pande- mia de Covid-19 e, em última análise, melhorar a qualidade do ambiente de trabalho e o bem-estar da força de trabalho dos profissionais de saúde é essencial nos anos futuros. É necessário implementar medidas preventivas e terapêuticas para de- tectar problemas de saúde mental. Esta reorganização dos profissionais de saúde e de seu trabalho forçado causou sofrimento psicopatológico importante, afetando inclusive a qualidade do sono. A gravidade diminuiu na segunda avaliação, coincidindo com a segunda onda da pandemia, quando a maio- ria dos membros da unidade Covid-19 permaneceu em sua posição habitual, embora suas condições de trabalho tenham sido parcialmente modificadas pela pandemia4. Os impactos psicológicos estudados geralmente dimi- nuíram entre as duas pes- quisas. No entanto, em uma população com recursos de enfrentamento disponíveis, as consequências podem se manifestar em outras dimen- sões, como luto, trauma, ou culpa, bem como reações traumáticas, que podem res- surgir ao relembrar a partici- pação em unidades Covid-194. No entanto, os sentimentos de tristeza e fracasso foram maiores nesta do que em outras amostras da população geral. Enquanto há uma série de fatores externos e organizacionais que pode afetar o bem-estar dos profissionais de saúde, é importante quantificar a prevalência de sofrimento e compreender os fatores individuais que podem reduzir ou aumentar a vulnerabilidade a sequelas emocionais. Existem várias maneiras pelas quais a ansiedade e as preocupações ele- vadas com a saúde podem influen- ciar as respostas comportamentais. Pessoas com grande preocupação com a saúde também tendem a se envolver em uma variedade de ou- tros comportamentos de segurança não adaptativos. No contexto de surtos virais, isso pode incluir lava- gem excessiva das mãos, isolamen- to social e aparecimento de ataques de pânico, mes- mo após a pior fase da pandemia. Vale ressaltar que muitos desses comportamentos são consistentes com as recomendações de saúde pública para o gerencia- mento de epidemias e pandemias. Entretanto, no caso de pessoas com grande ansiedade pela saúde, são levadas ao extremo, o que pode ter consequências negativas para o indivíduo e sua comunidade. A pandemia atual afetou a todos e a nossa saúde mental, ficando claro o risco de desequilíbrio. A ansieda- de pode funcionar como gatilho, mesmo para uma pessoa que nunca teve transtorno mental. O estresse, 35GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. Johns G, Samuel V, Freemantle L, Waddington L. The global prevalence of depression and anxiety among doctors during the covid-19 pandemic: systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 2022: 431-441. 2. Da Silva FCT, Rolim Neto ML. Psychiatric symptomatology associated with depression, anxiety, distress, and insomnia in health professionals working in patients affected by COVID-19: a systematic review with meta- analysis. Progress in Neuropsychopharmacology & Biological Psychiatry 2021: 110057. 3. Johns G, Waddington L, Samuel V. Prevalence and predictors of mental health outcomes in UK doctors and final year medical students during the COVID-19 pandemic. Journal of Affective Disorders 2022: 267-275. 4. Andrés-Oliveira P, García-Aparicio J, Lópes MTL, Sánchez JAB, Martín C, Maciá-Casas A, González-Sánchez A, Marcos M, Roncero C. Impact on Sleep Quality, Mood, Anxiety, and Personal Satisfaction of Doctors Assigned to COVID-19 Units. International Journal of Environmental Research and Public Health 2022: 19, 2712. associado a outros fatores, como riscos de doença, problemas eco- nômicos, confinamento, abuso de álcool e solidão, funciona como estí- mulo ao sistema nervoso central que pode não reagir adequadamente e desencadear principalmente sinto- mas de depressão ou de transtornos de ansiedade. Temos que cuidar da nossa saúde física e principalmente mental. Sugestões de enfrentamento à ansiedade por profissionais de saúde Além das análises de sintomatologia psiquiátrica, algumas intervenções podem contribuir para reduzir o estresse sofrido pelos profissionais de saúde e promover a melhoria da saúde mental, mesmo após a pandemia: • São necessárias mudanças organizacionais e estruturais para garantir que os profissionais de saúde tenham acesso aos recursos mais fundamentais, como tempo para dormir, comer, fazer exercícios físicos e passar tempo com familia- res e amigos. • Esforços contínuos devem ser feitos para desestigmatizar discus- sões em torno da saúde mental. Falar claramente sobre sofrimento mental diminui o estigma, o pre- conceito e facilita o acesso ao tratamento. Atividades formais e sistemas informais de apoio de pares podem ajudar a lidar com o sofrimento mental, a pedir ajuda e devem ser incentivadas. • Os serviços devem con- siderar a incorporação de intervenções baseadas em evidências e de alta qualida- de, como aqueles baseados em mindfulness e terapia cognitivo-comportamental, que se mostraram eficazes na redução do estresse, ansiedade e depressão para profissionais de saúde.2,3 • Promover sistemas para mo- nitorizar o bem-estar dos profis- sionais de saúde, e casos em que é necessário apoio psicológico indivi- dual devem ter encaminhamentos pragmáticos. • Reconhecer algumas reações nes- sas circunstâncias, incluindo irritabi- lidade ou mau humor como resposta ao estresse do cotidiano, que devemser compreendidas e, portanto, não devem ser simplesmente repreen- didas se não resultaram em algo grave. • Garantir necessidades básicas também é especialmente importan- te, além de fazer pausas suficientes, manter uma alimentação saudável e manter-se ativo. • Evitar o uso de substâncias, como álcool e tabaco, como forma de enfrentamento ao estresse, o que poderá resultar em danos mentais e físicos em médio e longo prazo. • Compartilhar experiências e senti- mentos com os colegas que expe- rimentam problemas semelhantes pode ajudar a reduzir o estresse. • Não se isolar. Procure os amigos e a família para manter contato e suporte emocional. Comunicação pelos inúmeros métodos existentes hoje, principalmente pela internet, pode ser usada para manter contatos com pares, amigos e família, o que é um grande contribuinte para manter uma boa saúde mental. • Evitar a automedicação ou o uso exagerado de ansiolíticos. É danoso manter uma medicação sem acom- panhamento e, pior ainda, mudar dose ou interromper medicação sem orientação. • Procurar manter um lazer agradá- vel. • Procurar realizar atividade física e intelectual gratificante e longe da rotina do trabalho. • Aceitar as preocupações e a an- siedade como parte da vida ajuda a não se sentir “anormal”. Lembre-se que algumas formas de lidar com suas preocupações podem ser mais saudáveis. 36 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 7 Pedro Curi Hallal Professor Titular da Universidade Federal de Pelotas no curso de graduação em Educação Física e nos programas de pós-graduação em Educação Física e Epidemiologia. Coordena o EPICOVID-19, o maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil. É um dos coordenadores da Coorte de 2015 de Pelotas e do Observatório Global de Atividade Física. É um dos sócios fundadores e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde. Como a pandemia alterou a saúde física dos profissionais de saúde 37GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 A pandemia de Covid-19 é o grande acontecimento de nossa geração. Quando as aulas de História men- cionarem as primeiras décadas desse milênio, um espaço conside- rável será despendido com a magni- tude, as causas e, principalmente, as consequências da pandemia. Em dois anos e meio, a Covid-19 matou 6,4 milhões de pessoas no mundo e transformou a nossa vida, seja com as rotinas de trabalho remoto ou com o hábito de usar máscaras1. Na população de profissionais de saúde os impactos foram ainda mais brutais. Como se fossem soldados em uma guerra, os profissionais de saúde foram para a linha de frente enfrentar não só o vírus, mas tam- bém os medos e incertezas naturais da pandemia, especialmente de uma doença até então desconhe- cida. Um evento desse porte, como a pandemia de Covid-19, tem ine- gáveis impactos sobre a saúde da população. O entendimento dos efeitos da pandemia sobre a saúde da população exige uma compre- ensão ampliada de saúde, visto que são muitas as formas pelas quais a Covid-19 afetou a vida e a saúde das pessoas. Embora boa parte dos impactos da pandemia sobre os profissionais de saúde tenha ocorrido no âmbito da saúde mental, os demais capítulos dessa obra já abordam esse tema. Neste, serão abor- dados os efeitos da pande- mia sobre a saúde física das pesso- as, com ênfase na popula- ção de profis- sionais de saúde. Mortes por Covid-19 Naturalmente, as principais conse- quências negativas da pandemia foram as mortes causadas pela do- ença. Até o dia 9 de agosto de 2022, o mundo registrava 6,4 milhões de mortes por Covid-19, sendo que 680 mil delas ocorreram no Brasil1,2. Embora a pandemia tenha atingido todo o planeta, seu efeito devas- tador foi ainda maior no Brasil. Um país que concentra 2,7% da po- pulação mundial concentrou, até agosto de 2022, 10,6% das mortes por Covid-19 no mundo. Entre as 29 maiores economias do planeta, o Brasil é o que apresenta a maior mortalidade acumulada por Co- vid-19. Entre os 10 países mais po- pulosos do mundo, o país apresen- tou a maior mortalidade acumulada por Covid-19. Entre os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), somos o país com maior mortalida- de relativa por Covid-192. Pela posição na linha de frente do enfrentamento da pandemia, os profissionais de saúde estiveram em maior risco de óbito pela doença. Embora não haja um levantamento de âmbito nacional sobre as mortes por Covid-19 entre profissionais de saúde, sabe-se que a mortalida- de foi excessiva neste grupo. Por exemplo, dados do Observatório da Enfermagem mostram que, até o dia 9 de agosto de 2022, 872 profissionais da enfermagem já haviam falecido de Covid-19 no Brasil3. Infecção por SARS-CoV-2 A obrigação profissional de cuidar da saúde dos pacientes, estando na linha de frente do enfrentamento da pandemia, aumentou o risco de exposição ao SARS-CoV-2, vírus causador da Covid-19, entre os profissionais de saúde. Ao mesmo tempo em que houve reconheci- mento da população a esses heróis da pandemia, é também necessário lembrar que os profissionais de saú- de tiveram maior risco de infecção por SARS-CoV-2. Um estudo,4 que incluiu 1.525 agentes comunitários de saúde, 527 médicos, 471 enfermeiros, 263 auxiliares de enfermagem e 264 fisioterapeutas em Recife (PE), mostrou que 61,8% dos profis- sionais já haviam sido infectados com SARS-CoV-2, um percentual bastante superior ao encontrado na população em geral. Luto pela perda de familiares, amigos e pacientes Uma pesquisa publicada no The Lancet em 2021 estimou que, entre março de 2020 e abril de 2021, pelo menos 1,1 milhão de crianças ficaram órfãs em decorrência da Covid-195. No Brasil, até o dia 9 de agosto de 2022, a mortalidade acu- mulada por Covid-19 era de 3.173 para cada um milhão de pessoas, contra uma média mundial de 800 mortes para cada um milhão de pessoas2. Isso significa que, de cada 315 brasileiros, um perdeu a vida para a Covid-19 nesse período de pandemia. Naturalmente, essas mortes incluem fami- liares e amigos de pratica- mente todos os brasileiros, incluindo os 38 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 profissionais de saúde. No entanto, os profissionais de saúde ainda con- vivem com o luto de pacientes, au- mentando o impacto das mortes por Covid-19 sobre sua saúde. O tema do luto está abordado no capítulo 8 da presente obra. Sintomas da Covid-19 de longa duração Embora a definição de Covid-19 longa seja variável por incluir mais de 200 sintomas e diferentes opera- cionalizações, a literatura indica que entre cinco e 50% dos pacientes com Covid-19 apresentam sinto- mas de longa duração6. Tendo em vista que a ocorrência da doença é substancialmente mais elevada em profissionais de saúde do que na população em geral, é natural que a Covid-19 longa também seja mais frequente entre profissionais de saúde, prejudicando sua qualidade de vida e capacidade de trabalho, no curto, médio e longo prazo. Alguns dos sinais e sintomas mais comuns da Covid-19 de longa duração incluem tosse, cansaço e dificuldade para respirar persisten- tes, dificuldades de concentração e lapsos de memória, dores pelo corpo e alterações no olfato e paladar. Tais sinais e sintomas, quando obser- vados em profissionais de saúde, prejudicam e, às vezes, inviabilizam, a prática profissional. O manejo adequado da Covid-19 de longa duração é uma prioridade para o futuro da saúde da população brasileira, incluindo os profissionais de saúde. E embora não seja o foco do presente capítulo, é necessário reforçar que muitos de seus sinais e sintomas, embora se manifestem no campo da saúde mental, impactam a saúde física dos profissionais. Aumento da exposição à fatores de risco para doenças e agravos não transmissíveis Na população em geral, os dados do Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não-Transmissíveis emtempos de pandemia (Covitel) ajudam a com- preender os impactos da Covid-19 sobre a agenda de enfrentamento das doenças e agravos não trans- missíveis no Brasil7. O estudo foi realizado com 9.000 adultos (18+ anos) das cinco regiões do país, por meio de entrevistas telefônicas. Os dados mostraram um marcado retrocesso na agenda de enfrentamento das doenças crôni- cas no Brasil. A inatividade física e o excesso de peso aumentaram na população brasileira durante a pan- demia, ao passo que as tendências históricas de redução no tabagismo e no consumo abusivo de álcool foram paralisadas. Além disso, os dados do Covitel indi- cam que as desigualdades em saú- de, já marcantes antes da pandemia, foram acirradas. Ou seja, embora a pandemia tenha atingido pessoas de todos os grupos sociais, foram os mais pobres, proporcionalmente, os mais atingidos, seja pela infecção, pela hospitalização ou pelo óbito por Covid-19. E para piorar, foram os mais vulneráveis também àqueles que mais tiveram impacto sobre sua saúde como consequência da pandemia. Não existem dados comparáveis aos do Covitel para profissionais de saúde de todo o país, mas estudos em populações específicas sugerem que os resultados observados para a população geral também são válidos para os profissionais de saúde. Estudo liderado pela Fiocruz em todo o território nacional, intitulado “Condições de Trabalho dos Pro- fissionais de Saúde no Contexto da Covid-19”, concluiu que os profissio- nais da saúde estavam esgotados, não só com o número excessivo de casos e mortes por Covid-19, mas também pelas alterações no seu bem-estar. Quase metade admitiu trabalhar mais de 40 horas por se- mana durante a pandemia. De acor- do com os dados da pesquisa, 16% dos profissionais relataram pertur- bação do sono e 8% alterações no apetite / mudanças de peso, fatores comprovadamente relacionados ao maior risco de doenças crônicas. Outro estudo nacional8 indicou que 25% dos profissionais de saúde relataram dificuldade para pegar no sono, 30% reportaram dificuldade em se manterem em sono profundo e 33% mencionaram acordar mais cedo do que o habitual durante a pandemia. Quase 30% relataram o uso de medicamentos contra insônia. Um em cada quatro profis- sionais relatou aumento do consu- mo de carboidratos na dieta e 27% referiram ter aumentado o consumo de bebidas alcoólicas. Alarmantes 82% relataram mudanças na prática de atividade física. Ainda sobre os hábitos de sono, estudo com a participação de mais de 300 médicos mostrou que 73% relataram baixa qualidade do sono durante a pandemia9. Além disso, a baixa qualidade do sono esteve rela- cionada com ansiedade e depressão entre os profissionais, reforçando que prejuízos na saúde física acar- retam prejuízos na saúde mental, assim como o oposto também é verdadeiro. Outra pesquisa, focada em ativi- dade física, mostrou uma redução significativa na duração, frequência e intensidade do exercício durante a pandemia entre os profissionais de saúde. Esta redução relacionou- -se com maior risco de depressão, ansiedade e estresse nos profissio- nais10. Um estudo focado em profissionais de saúde de um hospital mostrou que 52% aumentaram o consumo de refeições prontas, fast food e delivery durante a pandemia. Des- taca-se a redução do consumo de saladas e vegetais cozidos, legumi- nosas e oleaginosas. Em relação à atividade física, a maior parte dos participantes (44%) alega ter parado ou reduzido. Em relação ao álcool, 39% alegam ter aumentado ou iniciado. Mais da metade (52%) teve percepção de aumento de peso e 57% referiram ter piorado os hábitos alimentares durante a pandemia11. Outro estudo avaliou profissionais da atenção primária e seus compor- tamentos durante a pandemia. Dois em cada três trabalhadores referiam redução na atividade física, 54% relataram ter aumentado o consumo de alimentos e 17% admitiram ter aumentado o consumo de álcool12. 39GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Em resumo, os dados dessas pesquisas realizadas no Brasil com profissionais de saúde mostram que, durante a pandemia, os profissionais tiveram um aumento da exposição a fatores de risco para doenças e agravos não transmissíveis. Para piorar a situação, os dados da lite- ratura mostram que a piora nesses fatores de risco ocorre de maneira rápida e fácil, enquanto o processo de reversão é lento e gradual. Em outras palavras, ganhar peso, por exemplo, é mais rápido e fácil do que perder. Como consequência, na ausência de intervenções específi- cas de promoção da saúde, demo- rará anos para que os profissionais de saúde consigam recuperar os indicadores que tinham no período pré-pandemia. Conclusões As informações apresentadas neste capítulo sugerem que, no período pós-pandemia, seja dada uma atenção especial à saúde daqueles que historicamente cuidam da saúde dos pacientes. Os profissionais de saúde sairão dessa pandemia esgotados e com necessidade de ajuda. A per- cepção das pessoas de que estes profissionais são como super-heróis, imbatíveis e com poderes mágicos, precisa ser substituída por um reco- nhecimento de que os profissionais de saúde também são vulneráveis e precisam de cuidado. Especificamente, programas de pro- moção da saúde, com ênfase em fa- tores de risco para doenças crônicas são prioritários. Os profissionais de saúde do Brasil precisam de progra- mas de promoção da atividade física, estímulo à alimentação saudável, prevenção e cessação do tabagismo e do consumo abusivo de álcool. Todos esses fatores de risco se tor- naram mais frequentes durante a pandemia de Covid-19, e a reversão dessa tendência exige políticas de promo- ção da saúde efetivas e urgentes. REFERÊNCIAS: 1. https://www.worldometers.info/coronavirus/ 2. https://ourworldindata.org/covid-deaths 3. http://observatoriodaenfermagem.cofen.gov.br/ 4. Albuquerque MFPM, Souza WV, Montarroyos UR, et al. Risk of SARS-CoV-2 infection among front-line healthcare workers in Northeast Brazil: a respondent-driven sampling approach. BMJ Open. 2022 Jun 6;12(6):e058369. doi: 10.1136/ bmjopen-2021-058369. PMID: 35667719; PMCID: PMC9170795. 5. Hillis SD, Unwin HJ, Cluver L, et al. Global minimum estimates of children affected by COVID-19-associated orphanhood and deaths of caregivers: a modelling study. Lancet. July 20, 2021DOI:https://doi.org/10.1016/S0140- 6736(21)01253-8 6. https://www.nature.com/articles/d41586- 022-01702-2 7. https://www.vitalstrategies.org/wp- content/uploads/Covitel-Inque%CC%81rito- Telefo%CC%82nico-de-Fatores-de-Risco- para-Doenc%CC%A7as-Cro%CC%82nicas- na%CC%83o-Transmissi%CC%81veis-em- Tempos-de-Pandemia.pdf 8. Mota IA, Oliveira Sobrinho GD, Morais IPS, Dantas TF. Impact of COVID-19 on eating habits, physical activity and sleep in Brazilian healthcare professionals. Arq Neuropsiquiatr. 2021 May;79(5):429-436. doi: 10.1590/0004-282X-A NP-2020-0482. PMID: 34037163. 9. Brito-Marques JM, Franco CM, Brito-Marques PR, Martinez SC, Padro GF. Impact of COVID-19 pandemic on the sleep quality of medical professionals in Brazil. Arq. Neuro-Psiquiatr. 79 (2). Feb 2021 10. Kua Z, Hamzah F, Tan PT, Ong LJ, Tan B, Huang Z. Physical activity levels and mental health burden of healthcare workers during COVID-19 lockdown. Stress Health. 2022 Feb;38(1):171-179. doi: 10.1002/smi.3078. Epub 2021 Jul 12. PMID: 34231968; PMCID: PMC8420337. 11. Silva AC, Rodrigues C. Mudança do padrão e comportamento alimentar de trabalhadores da área da saúde em um hospital público frente à pandemia de COVID-19. Brazilian Journal of Global Health 2022; 02:02 40. 12. Sumiya A, Pavesi E, Macedo JÁ, Farhat G, Trelha CS. Mudanças de hábitos de vida em trabalhadores da atenção primária durante a pandemia de COVID-19: um estudo transversal. J Manag Prim Health Care, 2020;12:e46 40 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 A pandemia ceifando vidas: o luto pela perda dos pacientes e de pessoassignificativas C A P 0 0 8 Samantha Brandes Médica especialista em Clínica Médica, com área de atuação em Medicina Paliativa. 41GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Acompanhar a morte e sofrimento de alguém não é uma tarefa fácil, tampouco leve1. A ocorrência de casos de infecção por SARS-CoV-2 e óbito em curto espaço de tempo - incluindo mortes múltiplas em uma mesma família, de profissionais de saúde, populações mais vulnerá- veis - trouxeram desafios à forma de lidar com as perdas e viver o luto2. Morrer por Covid-19 colocou novos desafios à reflexão sobre o proces- so, a experiência da morte e elabo- ração do luto, tanto para familiares e amigos, em razão da proibição de cerimônias fúnebres tradicionais, que impede o contato físico nos rituais de despedida - tornando a morte solitária, asséptica, isolada. Como consequência desses pro- cedimentos, em várias localidades ocorrem “enterros-relâmpago, parentes desolados, luto frustrado”3. Os profissionais da saúde precisa- ram ser treinados e atualizados com as informações sobre os protocolos, encaminhamento e comunicação dos óbitos e sobre formas de evitar o seu próprio contágio4. Dadas as múltiplas perdas, principal- mente de pessoas da rede socioafe- tiva, considerou-se esperado o luto no contexto de pandemia. O luto consiste em um processo normativo de adaptação às perdas, abrangen- do emoções, cognições, sensações físicas e mudanças comportamentais. Quando essas perdas envol- vem pessoas da rede socioafeti- va, algumas tarefas são essenciais para ela- boração do luto, a saber: aceitação da realidade da perda, reco- nhecimento do sofrimento que a perda acarretou, adaptação ao contex- to de vida sem a presença da pessoa falecida e reposicionamento emo- cional da pessoa falecida, ou seja, organização de um espaço emocio- nal para lembrar dela, de modo que se possa dar continuidade à vida5,6. O luto implica em ser dinâmico, não estático. Nesse processo, o indivíduo percorre caminhos sobrepostos, concorrentes e paralelos em seus questionamentos sobre religião, espiritualidade, pertencimento e identidade social. Vive repercussões na saúde e na sua capacidade cog- nitiva, com impacto no desempenho de tarefas7. Usualmente, nos hospitais e nas unidades de terapia intensiva (UTIs), são os profissionais da equipe de enfermagem que mais mantêm contato, direto e prolongado, com os pacientes, atendendo a suas ne- cessidades, estabelecendo vínculos afetivos e acompanhando por maior tempo aqueles em processo de terminalidade. Na pandemia de Co- vid-19, esse aspecto se transforma, pois os profissionais da fisioterapia e médicos acabam tendo, igualmente, contato muito intenso e prolongado, principalmente, com os pacientes internados em UTIs8. O cenário vivido durante os períodos mais críticos da pandemia eviden- ciou desafios no autocuidado dos profissionais de saúde, desde aque- les ligados à biossegu- rança - como o uso de Equipa- men- tos de Proteção Individual (EPIs) - aos referentes à saúde mental - em função da sobrecarga de trabalho, da insegu- rança quanto à própria saúde e vida, e sobretudo, pelo contato frequente com grande número de pacientes graves e que evoluíram para o óbito. Estudos identificaram altos níveis de sofrimento psíquico entre profis- sionais atuantes na linha de frente do cuidado, com manifestações de quadros como depressão, ansieda- de, estresse pós-traumático, medo de ser contaminado e contaminar seus familiares, entre outros8,9. Tampouco não se pode esquecer de que os profissionais da saúde que atuaram na linha de frente – sejam das equipes de cuidados intensivos, sejam daquelas de cuidados palia- tivos – enfrentaram dificuldades extremas de executar suas funções, além do estresse pelo risco que correm no seu dia a dia. Wallace et al. (2020) apontaram que, em razão do luto não reconhecido, os profis- sionais da saúde responsáveis pela linha de frente durante a pande- mia apresentam elevado risco de burnout, sofrimento moral, estresse traumático secundário e luto compli- cado, este não enfrentado em razão da pressão de trabalho7. O profissional ligado diretamente à assistência do paciente internado foi, ele mesmo, com seu corpo, suas mãos, sua voz e ouvidos, os meios de interação do paciente com o mundo externo. Nesta direção, da oferta de um cuidado integral ao doente, o profissional de saúde também se comprome- teu inte- gralmente, empres- tando sua corporalida- de: usa a sua voz na leitura de mensagens, seus braços seguram o celular e a ser visto pelos familia- res nas videochamadas. Além disso, participa do encontro familiar como mediador e, muitas vezes, interlocu- tor de ambas as partes. Faz, portan- to, um papel que nenhuma tecno- 42 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 logia ainda pode substituir: a de amparo emocio- nal. Deste modo, o profissional de saúde pode ser com- preendido como mediador físico e emocional entre o pa- ciente e sua rede socioafetiva1. A vivência da espiritualidade foi fundamental para contribuir com a ressignificação, após o processo doloroso de luto, que não pôde ser “materializado” em vigência da pandemia. No contexto hospitalar, o psicólogo pôde identificar os pacientes com alto risco de morte, explorar as compreensões sobre a gravidade da doença, o desejo e as condi- ções emocionais, tanto por parte do enfermo quanto das pessoas afetivamente mais próximas, para realização de ritual de despedida. Além do acompanhamento remoto ao enfermo e à família, o psicólogo também pode oferecer suporte e orientação aos profissionais da linha de frente, inclusive nos procedimen- tos relativos ao ritual de despedida10. Rituais funerários, considerados or- ganizadores do processo de despe- dida e importantes para elaboração do luto, necessitaram de reconfi- guração durante a pandemia. De acordo com as orientações sanitárias vigentes, os falecidos em decorrên- cia da Covid-19 deveriam ser crema- dos ou alocados em caixão lacrado, o que impediu a aproximação ou a visualização do corpo. Quando possível, recomendou-se a realiza- ção de estratégias presenciais de despedida adaptadas às restrições do período, bem como ao contexto sociocultural e familiar, ou mesmo estratégias remotas de despedida11, como videochamada. Embora expressões de condolên- cias, afeto e espiritualidade não substituam os rituais funerários, tradicionalmente adotados pelas comunidades, foi possível auxiliarem na resolução do luto, à medida que oferecem opor- tunidades emocionais e cognitivas para lidar com a perda12. Ademais, dado que a pandemia de Covid-19 interrompeu as experiências usuais de luto, gerando medo quanto ao presente e incertezas quanto ao futuro. Profissionais da linha de frente dedi- caram-se à humanização dos aten- dimentos, com destaque aos cuida- dos paliativos, buscando controlar sintomas e aliviar o sofrimento. Bem como precisaram reinventar formas de auxiliar os pacientes e seus fami- liares a lidarem com a morte. Sobre esse tema, Crepaldi e colaboradores (2020) assinalam a importância de potencializar formas alternativas e respeitosas de ritualização dos processos vividos, que permitam ressignificar as perdas pela Covid-19. Foi possível observar uma mudança na relação dos profissionais com as famílias de pacientes em estado crítico, marcada pela espiritualidade como estratégia para a elaboração do luto. Surgiu uma preocupação dos familiares dos pacientes com a equipe de saúde, em certo sentido uma re- ciprocidade do cuidado4. A espiritu- alidade foi evocada pelos profissio- nais da saúde como um recurso para lidar com situações-limite e manter o compromisso profissional. Nasci- mento e Caldas (2020) a conside- raram uma forma de promoção da saúde psíquica que exerce influência sobre as demais dimensões huma- nas, sendo parte da integralidade do cuidado em saúde13. A vivênciada espiritualidade foi fundamental para contribuir com a ressignificação, após o proces- so doloroso de luto, que não pôde ser “materializado” em vigência da pandemia. A espiritualidade aponta para o sentido da esperança, o poder da resiliência, da reflexão e a dispo- sição dos meios internos para esse enfrentamento14. A espiritualidade se inclui, nesse momento da vida do indivíduo, como uma espécie de “porto-seguro” e direcionamento para as questões da morte, sendo responsável por trazer conforto e esperança aos que vivem a experi- ência do luto15. Torna-se, portanto, necessário refletir acerca do processo de luto 43GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. Reis LB, de Miranda AAWR, Cazelli, R. F. W., da Silva, MC, & Brito, JS. (2021). Luto em tempos de pandemia e os profissionais de saúde: Algumas considerações / Grief in times of pandemic and health professionals: Some considerations. Brazilian Journal of Development, 7(12), 110276– 110291. https://doi.org/10.34117/bjdv7n12-016 2. Crepaldi, MA, Schmidt, B, Noal, D da S, Bolze, SDA, & Gabarra, L. M. (2020). Terminalidade, morte e luto na pandemia de Covid-19: demandas psicológicas emergentes e implicações práticas. Estudos de Psicologia (Campinas), 37. 3. Silva, AV. Velórios em tempos de Covid-19. In: GROSSI, M. P. & TONIOL, R. (Orgs.). Cientistas Sociais e o Coronavírus. São Paulo, Florianópolis: Anpocs, Tribo da Ilha, 2020. 4. Grisotti, M, Granada, D, Detoni, PP, Oliveira, MC, and DIEHL, E. E. A morte contaminada: a experiência da morte por Covid-19 na perspectiva de profissionais da saúde. In: Portela, MC, Reis, LGC, and Lima, SML, eds. Covid-19: desafios para a organização e repercussões nos sistemas e serviços de saúde [online]. Rio de Janeiro: Observatório Covid-19 Fiocruz, Editora Fiocruz, 2022, pp. 309-319. Informação para ação na Covid-19 series. ISBN: 978-65-5708-123-5. https://doi.org/10.7476/9786557081587.0021 5. Wallace, CL, Wladkowski, SP, Gibson, A, & White, P. (2020). Grief during the Covid-19 pandemic: considerations for palliative care providers [Ahead of Print]. Journal of Pain and Symptom Management. https://dx.doi. org/10.1016/j. jpainsymman.2020.04.012 6. Crepaldi, Maria Aparecida et al. Terminalidade, morte e luto na pandemia de Covid-19: demandas psicológicas emergentes e implicações práticas. Estudos de Psicologia (Campinas) [online]. 2020, v. 37 [Acessado 23 Agosto 2022] , e200090. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1982- 0275202037e200090>. Epub 01 Jun 2020. ISSN 1982-0275. https://doi.org/10.1590/1982- 0275202037e200090. 7. Franco, MHP. O luto no século 21: Uma compreensão abrangente do fenômeno. Summus Editorial, 2021. 8. Santos, MA, Hormanez, M. Atitude frente à morte em profissionais e estudantes de enfermagem: revisão da produção científica da última década. 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Journal of Pain and Symptom Management. https://dx.doi.org/10.1016/j. jpainsymman.2020.04.012 13. Nascimento, AKC, Caldas, MT. Dimensão espiritual e psicologia: a busca pela inteireza. Revista da Abordagem Gestáltica, 26(1): 74-89, 2020. 14. Tavares, C. Dimensões do cuidado na perspectiva da espiritualidade durante a pandemia pelo novo coronavírus (Covid-19). Journal Health NPEPS, v. 5, n. 1, p. 1-4, 2020. Disponível em: https:// pesquisa.bvsalud.org/controlecancer/ resource/pt/biblio-1095281. 15. Freitas, J, Michel, L. A maior dor do mundo: o luto materno em uma perspectiva fenomenológica. Psicol. estud., v.19, n.2, p. 273- 283, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/ pdf/ pe/v19n2/10.pdf. também nos profissionais de saúde - acompanhar a morte e sofrimento de alguém não é uma tarefa fá- cil, mas que reconhecê-la difícil e singular e compartilhá-la com pares e equipe pode tornar a jornada menos solitária e sofrida1. Algumas estratégias de autocuidado, por exemplo: fazer pequenos intervalos e se desconectar da área geradora de tensão; confiar em seu preparo e em sua capacidade para a função exercida; amparar-se em informa- ções confiáveis sobre os recursos e serviços para os quais pode fazer encaminhamentos; e contar com suporte dos pares e supervisão adequada7. A espiritualidade se inclui, nesse momento da vida do indivíduo, como uma espécie de “porto-seguro” e direcionamento para as questões da morte, sendo responsável por trazer conforto e esperança aos que vivem a experiência do luto15. As ações de cuidado com os profis- sionais de saúde não se restringem à oferta de atendimento psicológico a eles, mas no investimento em ações que abram espaço para expressão da subjetividade, que permitam a circulação da palavra, que rompam com o silêncio em torno da morte, mesmo dentro do hospital, e com o imaginário de que profissionais mais competentes são aqueles que se mantém afetivamente afastados do usuário e das questões subjetivas que atravessam suas práticas de cuidado1. É necessário reorganizar os espaços de convívio e relaxamento no âmbito hospitalar (como os refeitórios e áreas de lazer), por onde circulam os profissionais da saúde, de modo a torná-los seguros e aprazíveis, bem como manter um suporte psicosso- cial efetivo para aqueles que estive- ram na linha-de-frente da pandemia e enfrentaram processos de luto3. Também se torna necessário o olhar para a espiritualidade como uma ferramenta de autocuidado, através de crenças e fé do profissional de saúde. Existem outras práticas de autocuidado que podem ser incluí- das na rotina do profissional, como prática regular de atividade física, yoga, meditação, sono adequado, contato com a natureza e relaciona- mentos saudáveis. Para concluir, sabe-se que o luto de cada pessoa é único, o reconhe- cimento de que os processos de terminalidade, morte e luto são ex- perienciados de forma singular, não havendo uma sequência estanque ou normatizadora, tampouco rigidez nos rituais que favorecem a despe- dida e a elaboração de sentido para as perdas em tempos de pandemia2. 44 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 0 9 Carolina Blaya Dreher Professora adjunta de psiquiatria da UFCSPA e da UFRGS, pesquisadora do HCPA e é psiquiatra na prática privada. É preceptora da residência em Psiquiatria da UFCSPA no Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas (HMIPV) e também preceptora da residência de psiquiatria no HCPA, coordenadora do ambulatório de Terapia Cognitivo-Comportamental e preceptora do ambulatório de Ansiedade do HCPA. As intervenções usadas para melhorar a saúde mental dos profissionais na linha de frente de combate da Covid-19: o que deu certo? 45GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 A infecção humana causada pelo coronavírus SARS-Cov-2 foi uma emergência de saúde pública1 que teve impacto na saúde mental da população em geral. Estudos prévios já haviam identificado que pande- mias, desastres naturais e atentados aumentam de forma significativa os problemas de saúde mental imediatos e tardios2–7. Por exemplo, um estudo realizado na Inglaterrademonstrou que a saúde mental da população deteriorou comparada às taxas pré-Covid. Os mais acometidos foram as mulheres, pessoas jovens e crianças2. Outras populações também foram fortemente impactadas, como os profissionais de saúde que lidam na linha de frente dos cuidados8,9. Den- tre eles, as mulheres, bem como os enfermeiros, foram os que sofreram maior impacto negativo na saúde mental10. O sofrimento psíquico, diante de situações extremas das equipes envolvidas na assistência de pan- demias, costuma ser mais a regra que a exceção. Já no início da pandemia, estudos mostraram uma prevalência elevada de sintomas depressivos (50,4%) e ansiosos (44,6%)11.Parte desse sofrimento psíquico podia ser atribuído ao medo como uma resposta natural, pois esses profissionais estavam com um risco aumentado de se infectar. Entretanto, muitos quadros psiquiátricos aumentaram nessa população. Uma metanálise, que avaliou enfermeiros durante a pandemia, encontrou altas taxas de preva- lência de depressão (32%), ansiedade (32%) e síndromes ligadas ao trauma (18,6%)12. A abordagem terapêutica, voltada para os profissionais da linha de frente, precisava, então, abordar as diferen- tes síndromes. Foram diversos os desafios para a construção de interven- ções em larga escala num contexto de excesso de demanda imposto a um sistema que se encontrava saturado. Além disso, o uso da telemedicina no Brasil, no início da pandemia, ainda não estava regulamentado, e a telepsicoterapia ainda era incipien- te. Houve também uma flutuação na demanda de assistência mental, muito relacionada com as diferentes ondas de infecção13. Felizmente, ob- servaram-se várias ações individuais de hospitais e associações voltadas para esse público, mas poucas foram as abordagens estruturadas com ensaio clínico randomizado. A abordagem terapêutica, voltada para os profissionais da linha de frente, precisava, então, abordar as diferentes síndromes. Foram diversos os desafios para a construção de intervenções em larga escala num contexto de excesso de demanda imposto a um sistema que se encontrava saturado. Dentro dessa perspectiva, foi de- senvolvido no Brasil o TelePSI14, um programa assistencial e de pesqui- sa destinado ao atendimento dos profissionais da linha de frente. Esse programa contou com estratégias manualizadas15, equipe treinada e supervisionada, cuidado baseado em medida e otimização dos recur- sos humanos para a assistência e também buscava identificar qual a abordagem mais eficaz num ensaio clínico randomizado. Esse programa também desenvolveu vídeos de psicoeducação, destinados a essa população, mas que também foram disponibilizados livremente para a população geral. Para o tratamento dos participantes, foram desenvol- vidas três diferentes abordagens16 e todas se mostraram efetivas. Uma abordagem de menor intensidade era composta por elementos de psicoeducação, primeiros socorros psicológicos e abordagens motiva- cionais para estratégias de adapta- ções saudáveis, como por exemplo prática de exercício, meditação e socialização através da internet. Outra abordagem disponibilizada foi a terapia cognitivo-comporta- mental, que inclui, além de primeiros socorros psicológicos, técnica de respiração diafragmática, mindful- ness, modelo cognitivo, desenvolvi- mento de pensamento alternativo, reatribuição cognitiva, solução de problemas, ativação com- portamental e prevenção de recaída. E a terceira abordagem disponibili- zada utilizava recursos da terapia interpessoal, voltada para processos de transição e confli- tos interpessoais. Essa abordagem ampara-se no desenvolvimento de uma relação terapêutica e o estabelecimento do foco da terapia em três áreas: luto, disputas interpessoais e tran- sição de papéis. As técnicas utilizadas incluíam a explora- ção do material psí- quico de uma forma não diretiva, com cla- rificação, análise da comunicação, 46 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 análise de decisão, aconselhamento e mentalização. Os ensinamentos do TelePSI foram diversos. Primeiramente, identifica- mos o grande desafio de abordar a população de linha de frente, talvez, por isso, exista pouca evidência científica com essa população. Uma extensa revisão recente de estraté- gias de suporte para profissionais de linha de frente identificou 16 estudos desenvolvidos em epidemias, sendo a maioria na epidemia do Ebola.17 Encontraram que ain- da não há evidência quantitativa ou qualitativa de boa qualidade que tenha, ade- quadamente, avaliado interven- ções para promoção de resiliên- cia e saúde mental, des- tinadas aos profissionais de linha de fren- te. Os autores identificaram al- gumas variáveis que influenciam na entrega de intervenções para essa população. Entre os dificultadores, existe a falta do reconhecimento da necessidade de intervenção pe- los próprios profissionais ou pelas organizações e a falta de recursos técnicos ou de pessoal para o aten- dimento. Entre os facilitadores para as intervenções, estão o fácil acesso, o uso de comunicação efetiva e a abordagem com medidas suporti- vas17. A experiência do TelePSI, prova- velmente, é o maior ensaio clínico17 já realizado para essa população. Embora esse programa tenha con- tornado alguns dificultadores com uma equipe disponível e treinada, bem como contado com facilitadores com a teleterapia e telepsiquiatria, também encontrou a dificuldade de acessar essa população. Inicialmente o recrutamento era disponibilizado através de uma linha telefônica, mas que logo foi naturalmente substituí- do por um recrutamento através do site. O TelePSI acolheu num cadastro inicial mais de 6.700 participantes, mas foi convertido em atendimento para cerca de metade deles. Foram necessárias diversas abordagens de divulgação, tanto em meios de comunicação18, como com contato direto com hospitais, impulsiona- mento através da rede e envio de e-mails semanais para os ges- tores de saúde. Embora o número de participantes supere qualquer relato da literatura até então disponível, o número é inferior ao que havia sido esperado. O pico de procura coinci- diu com o pior período da pandemia no Brasil, em que os hospitais es- tavam predominantemente lotados e o número de mortes atingiu seu pior índice. A intensidade da sinto- matologia dos participantes também surpreendeu. Esperava-se que a distribuição da sintomatologia seguisse a curva de Gauss, entretanto mais da metade dos participantes apresentava sin- tomas graves, predominantemente sintomas ansiosos. Como a busca por atendimento era pessoal, en- tende-se que os que apresentavam sintomas graves buscaram propor- cionalmente mais a assistência. Quando ocorreu o pico de procura, o TelePSI já estava com a equipe adequadamente treinada, com os protocolos de atendimento estabele- cidos e o com acesso através do site. A pronta resposta por atendimento, onde quer que a pessoa estivesse, foi o grande diferencial desse pro- grama. Após o contato inicial com o cadastro, o participante era atendido em até uma semana. Essa aborda- gem somente foi possível por conta do teleatendimento que disponibi- lizou, para todo o país, abordagens psiquiátricas e psicológicas de alta qualidade até mesmo em locais em que não exis- tia profissional de saúde mental. Além da vantagem da pronta resposta, o terapeuta recebia os escores das escalas de sintomatologia e escalas de estra- tégias de regulação do estresse, que o paciente havia preenchi- do no cadastro, otimizando o tempo da sessão inicial e fazendo o uso do cuidado baseado em medi- da. Esta medida demonstrou-se útil no acompanhamento de pacientes psiquiátricos para avaliar o progres- so ao longo do tempo e planejar o cuidado19, no entanto, a sua implan- tação frequentemente sofre com algumas barreiras. Nesse projeto, os resultados das escalas foram apre-sentados com escores normativos e de forma gráfica, representada com cores para identificar a gravidade. Nas reavaliações, o participante também recebeu as suas avaliações sintomáticas ao longo do tempo, permitindo-o utilizar e aplicar os recursos identificados nas sessões de psicoterapia. Como o propósito desse programa era breve, os participantes eram também orientados a identificar os sinais de alerta para buscar aten- dimento na sua rede. O segundo grande ganho desse programa foi a implantação do cuidado, baseado em medida com a utilização clínica 47GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 de escalas validadas, fornecendo um recurso adicional para o terapeuta e também para o participante. A avaliação de risco de suicídio foi feita de forma universal com per- guntas de triagem autoaplicadas. Se houvesse algum pensamento de morte, o participante era avaliado inicialmente por um psiquiatra para uma anamnese detalhada, a fim de identificar e estratificar o risco de suicídio. Os dados iniciais do TelePSI mostraram que 30% do total dos participantes apresentaram, nas últimas duas semana, pensamen- tos de morte, no entanto o risco de suicídio moderado ou grave identifi- cado na avaliação psiquiátrica foi em 7% dessa subamostra, ou seja, em 2% da amostra total. Esses dados mostraram que “ter pensamentos nas duas últimas semanas” era uma pergunta muito inclusiva para exigir a consulta psiquiátrica antes da sessão de psicoterapia. Por outro lado, quando a avaliação do risco pelas perguntas de triagem inden- tificava que a frequência desses pensamentos de morte era maior que a metade dos dias, a chance de identificar um paciente com risco de suicídio moderado ou grave na entrevista psiquiátrica era 28 vezes maior20. Esse modelo, que pode ser facilmente replicado, norteia o encaminhamento para os diferen- tes profissionais da saúde mental e direciona para consulta psiquiátrica somente os com maior probabilida- de de risco. Já os demais participan- tes recebem o atendimento breve, com profissional da área da saúde mental, através da telepsicoterapia, que poderia, posteriormente, enca- minhar para a avaliação psiquiátrica, se fosse necessário. Entre os dificultadores, existe a falta do reconhecimento da necessidade de intervenção pelos próprios profissionais ou pelas organizações e a falta de recursos técnicos ou de pessoal para o atendimento. Entre os facilitadores para as intervenções, estão o fácil acesso, o uso de comunicação efetiva e a abordagem com medidas suportivas17. Identificamos, também, nesse programa que todas as interven- ções funcionaram, e novamente observa-se o custo-efetividade das intervenções breves que incluem primeiros socorros psicológicos. O uso dessa abordagem suportiva21 é a intervenção recomendada pelo de- partamento americano de veteranos frente a uma situação traumática. É uma abordagem não intrusiva, com foco no presente, com estratégias de resolução de problemas voltada para o restabelecimento de função. A eficácia dessa intervenção na população que sofre um estressor agudo provavelmente se ampara num funcionamento prévio hígido e não numa sintomatologia crôni- ca. Sabe-se que a história prévia de psicopatologia é um preditor do adoecimento mental, assim como se observou frente à epidemia22. A tecnologia foi amplamente incor- porada nos cuidados de saúde nos últimos anos. Por exemplo, uma recente revisão sistemática identi- ficou quatro estudos que demons- traram benefícios de aplicativos com vídeos para a utilização de recursos terapêuticos durante uma crise23 de maior demanda emocional. No TelePSI, também os vídeos psicoe- ducativos foram incorporados com um propósito de reforçar as diversas técnicas psicoterápicas e a psico- educação dos participantes entre as sessões. O próprio terapeuta enviava os vídeos para os partici- pantes, caracterizando então um cuidado continuado. Curiosamente, eles foram amplamente visualizados pela população geral, com mais de 100.000 visualizações. Observamos que, dentre os 28 vídeos ofertados, em apenas um deles - da técnica da respiração diafragmática - foi responsável por quase metade das visualizações. A disponibilização de ferramentas de suporte através da internet já havia auxiliado na promo- ção de bem-estar mental, previa- mente24, mas teve seu incremento com a pandemia23. Por fim, entende-se que boa parte dos indivíduos sofrerá com sinto- mas predominantemente ansiosos frente a um estressor grave. No entanto, a maioria evoluirá bem, quando atendida de forma imediata com intervenções de baixa intensi- dade, até mesmo de forma remota. Esse contato possibilita identificar aqueles que necessitam de uma intervenção de maior intensidade para serem referenciados à rede. O uso da tecnologia facilitou o acesso, a mensuração dos sintomas, o meio de abordagem e o reforço de cuida- do, que parece ter sido fundamental para os profissionais de linha de frente. Além disso, a disponibilização do treinamento, dos protocolos25 e dos vídeos, através da rede, acabou atingindo um número muito maior de pessoas. 48 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. World Health Organization (WHO). Coronavirus disease (Covid-19) Pandemic [Internet]. World Health Organization Webpage. 2020 [citado 28 de março de 2020]. 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Disponível em: https://telepsi.hcpa.edu.br/ capacita%C3%A7%C3%A3o-de-terapeutas/ manuais 17. Pollock A, Campbell P, Cheyne J, Cowie J, Davis B, McCallum J, McGill K, Elders A, Hagen S, McClurg D, Torrens C, Maxwell M. Interventions to support the resilience and mental health of frontline health and social care professionals during and after a disease outbreak, epidemic or pandemic: a mixed methods systematic review. Cochrane Database Syst Rev. 2020 Nov 5;11(11):CD013779. doi: 10.1002/14651858. CD013779. 18. https://telepsi.hcpa.edu.br/telepsi-na- m%C3%ADdia [internet]. [citado 2022 Aug 20]. Disponível em: https://telepsi.hcpa.edu.br/telepsi- na-m%C3%ADdia 19. Waldrop J, McGuinness TM. Measurement- Based Care in Psychiatry. J Psychosoc Nurs Ment Health Serv. 2017 Nov 1;55(11):30-35. doi: 10.3928/02793695-20170818-01. 20. Motta LS, Costa MA, Spanemberg L, Dreher CB, Salum GA. Is the PHQ-9 item of suicide thoughts good enough to detect clinical risk of suicide in workers from essential services seeking emotional support during the Covid-19 pandemic? Braz J Psychiatry. 2022 Jun 28. doi: 10.47626/1516-4446-2022-2666. 21. Ostacher MJ, Cifu AS. Management of Posttraumatic Stress Disorder. JAMA. 2019;321(2):200–201. doi:10.1001/ jama.2018.19290 22. Johnson SU, Ebrahimi OV, Hoffart A. PTSD symptoms among health workers and public service providers during the Covid-19 outbreak. PLoS One. 2020 Oct 21;15(10):e0241032. doi: 10.1371/journal.pone.0241032. 23. van Leeuwen H, Sinnaeve R, Witteveen U, Van Daele T, Ossewaarde L, Egger JIM, van den Bosch LMC. Reviewing the availability, efficacy and clinical utility of Telepsychology in dialectical behavior therapy (Tele-DBT). Borderline Personal Disord Emot Dysregul. 2021 Oct 30;8(1):26. doi: 10.1186/s40479-021-00165-7. 24. Smoktunowicz E, Lesnierowska M, Carlbring P, Andersson G, Cieslak R. 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C A P 0 1 0 Stephan Sperling Médico, especialista em Medicina de Família e Comunidade e Atenção Primária à Saúde, Coordenador Médico de Projetos de Compromisso Social e Saúde Digital no Hospital Sírio-Libanês e Assistente ambulatorial na Saúde Suplementar. Marina Pacheco Coelho Médica psiquiatra no PROADI-SUS do Hospital Sírio-Libanês, na Atenção Especializada em Saúde Mental (AMENT) e no consultório particular. Sabrina Gadenz Epidemiologista que atua em projetos de telemedicina, inovação e gestão da saúde. Atualmente atua como liderança do portfólio de projetos de saúde digital da Diretoria de Compromisso Social do Hospital Sírio-Libanês. 50 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 A constituição de uma sociedade em redes, com desenvolvimento tecnológico presidindo as principais cadeias de valor, extremamente transformada em seus fundamen- tos, vem marcadamente modifi- cando a forma como os usuários dos diversos Sistemas e Serviços de Saúde relacionam-se com suas necessidades e, mais incipientemen- te, na forma como profissionais e serviços vem repensando suas ofer- tas e intervenções1. O advento da globalização e da “nova era digital”, precursor de um novo formato dinâ- mico e fluído de disseminação da informação, é capaz de aproximar as mais distin- tas culturas e realida- des. Ele promove, em contrapartida, buscas contínuas e desenfre- adas por conhecimen- tos, aceitação social e uma necessidade de “pertencimento” neste novo modelo, que facilmente extrapola os limites psíquicos, desencadeia toxicidade e fragiliza as interações sociais, contribuindo para um agravamento das questões de saúde mental, desde o início do século XXI2. A pande- mia de Covid-19 expôs, de forma globalizada, a vulnerabilidade humana, aumentando em 25% os casos de depressão e ansiedade em todo mundo. A situação reforçou a importância de discussões atuais e contribuiu, fortemente, para redução dos estigmas e preconceitos em relação à saúde mental3. No contexto atual, as condições de saúde mental são as principais cau- sas de incapacidade no Brasil e no mundo, contribuindo para inúmeros problemas de saúde pública - su- perlotação de serviços, realização de exames desnecessários, etc - além de exacerbar questões sociais e acentuar os gastos governamentais e previdenciários. Em contrapartida, o acesso a profissionais e serviços especializados ainda é muito precá- rio. A partir da necessidade de adap- tabilidade, frente a cenários inéditos, a pandemia acelerou as transfor- mações tecnológicas e a construção de novas propostas de atenção, apoio e acolhimento às questões de saúde. Promoveu a ressignificação da jornada e do entendimento do cuidado, também para os usuários, incentivando um maior protago- nismo na promoção e no gerencia- mento da própria saúde4. A prática da telessaúde contribui com o compartilhamento do conhecimento, através da educação continuada, seja por seminários, troca de experiências e discussões de casos, transcen- dendo as barreiras físicas locais, suscitando a otimização do cuidado na saúde mental, de forma integral, compartilhada e multidisciplinar5. As novas tecnologias também permi- tem maior acesso à informação aos próprios usuários. Cada vez mais, eles buscam o autogerenciamento de seus processos de cuidado, seja na escolha de um profissional ou serviço, que atenda às suas neces- sidades de horário, agendamento e deslocamento, seja no formato de agendamento deste atendimento - ligação, aplicativos, etc. Mesmo nas decisões por gatilhos internos (inner compass), isto é, menos direcio- nadas por fatores externos como referências acadêmicas ou padrões tradicionais, e mais gerenciamento às suas necessidades pessoais4. A simples oferta de agenda assis- tencial, para a pessoa usuária, deixa de ser o objeto central na discussão do cuidado digital, cedendo espaço para a compreensão da jornada. Ospassos devem ser dados para estruturar a demanda a ser atendida, a partir das necessidades da pessoa consultada. Este cenário vem impac- tando o encontro clínico de forma contundente e tem gerado resistên- cias e incompreensões, justamente, por expor as limitações do formato de consulta que, até então, minis- trava-se nas academias como padrão ouro de intervenção e reproduzia-se como única possibilidade de encontro2. A atenção dedicada ao regis- tro clínico exces- sivo, com pouca adaptabilidade, em um encontro de termos prede- finidos ao contato e validado ape- nas se executado presencialmente, deslocou-se para a atenção à pessoa, em registros orienta- dos para o problema, com pactuação dos termos em conjunto entre profissional e paciente e com formas de contato variadas. Há, por- tanto, uma recontratação da clínica como a possibilidade de inclinar-se, de fato, sobre o paciente, e não exclusivamente sobre a agenda do profissional. Isso significa, necessa- riamente, dizer que a tecnologia da consulta síncrona presencial está em crise, e não é de hoje. Portan- to, a compreensão do significado da consulta e a identificação dos passos necessários para obtê-la são preliminares ao tipo de tecnologia a ser empregada, de modo que o recurso tecnológico diga respeito não apenas à sua disponibilidade, antes sim, à sua pertinência a quem se cuida2. No processo de descoberta da pessoa usuária, e de qual jornada de cuidado lhe fará mais sentido, a multicanalidade permite ao profis- sional estruturar sua comunicação clínica e otimizar a acessibilidade de pessoas. Isto é, a oferta por meio das 51GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) de diferen- tes canais para contato síncrono ou assíncrono. Destacadamente existem: as que possuem restrições ao contato presencial por barreiras geográficas; as que possuem res- trição econômica para financiar seu deslocamento para os serviços de saúde disponíveis; as que convivem com redução de mobilidade; ou as que possuem pouca disponibilidade para encontros presenciais por suas dinâmicas laborais. Canais frequen- temente utilizados para encontro síncrono são chamadas telefônicas e videochamadas, e para formato assíncrono, de aplicativos de trocas de mensagem, plataformas que con- templem chatbox e correspondência eletrônica6,7. Com várias experiências registra- das mundialmente, é preciso que padrões de boas práticas sejam definidos para que as orientações clínica, diagnóstica e terapêutica, intermediadas pelas TIC, garan- tam a segurança do paciente e da informação e preservem a relação profissional-paciente. As TIC, assim empregadas no contexto assisten- cial, tendem a promover proximi- dade e maior afiliação, isto é, reco- nhecimento por parte das pessoas de quem é seu cuidador. Estão disponíveis diferentes soluções de mercado que integram ferramentas para vídeo-chamada, registro clínico e chat para troca assíncrona. Estas, frequentemente, são as mais segu- ras para compartilhamento de dados sensíveis como imagens, laudos, receituários e demais documentos médico-legais. Isto não invalida o apoio que outros aplicativos de troca de mensagens podem prestar na in- terface com pacientes. Certamente, neste sentido, a plataforma What- sApp é a mais empregada e, apesar de atenção que deva demandar por realizar “(...) backups automatizados na nuvem e permitir compartilha- mento de galeria de fotos (...)”, pode facilitar compartilhamento de dados sem consentimento da pessoa. O Conselho Federal de Medicina normatiza que “o WhatsApp e plata- formas similares podem ser usados para comunicação entre médicos e seus pacientes; bem como entre médicos em caráter privativo, para enviar dados ou tirar dúvidas com colegas; em grupos fechados de especialistas ou do corpo clínico de uma instituição ou cátedra, com a ressalva de que todas as informa- ções passadas têm absoluto caráter confidencial; e não podem extrapolar os limites do próprio grupo, nem tampouco podem circular em grupos recreativos, mesmo que composto apenas por médicos, ressaltando a vedação explícita em substituir as consultas presenciais e aquelas para complementação diagnóstica ou evolutiva a critério do médico por quaisquer das plataformas existen- tes ou que venham a existir”8,9. Observando-se a rotina assistencial, é importante distinguir acessibilida- de de disponibilidade, especialmente quando o vínculo pessoaliza-se e quando a jornada de cuidado se constrói. As diferentes tecnologias devem ser empregadas em jor- nadas que facilitem o acesso dos usuários ao seu melhor cuidado, porém devem elaborar e pactuar a disponibilidade de tempo para os contatos, evitando comprometer agendas e rotinas de profissionais e recursos humanos envolvidos. A fadiga por conectividade e a ansie- dade por desempenhar respostas a todos os acionamentos podem impactar negativamente os envolvi- dos na atenção ofertada, levando a esgotamento, diminuição de horas trabalhadas e, por fim, comprometer o acesso que se havia estruturado10. Toda experiência de cuidado digital deve ser registrada em prontuário da pessoa, preferencialmente em prontuário eletrônico. O devido re- gistro se impõe não apenas por força deontológica, isto é, por apenas o prontuário possuir reconhecimen- to como documento médico-legal e gozar de fé pública. Pode ser auditável por perícia estabelecida, mas, particularmente nas platafor- mas de registro, e permite extração de dados relevantes para tomada de decisões clínicas10. Atualmente, existem prontuários eletrônicos que atendem a regulamentação e pos- suem funcionalidades amigáveis e intuitivas, permitindo a realização do contato, troca de informações com o paciente e registro em prontuário, integrados na mesma plataforma8. A prevalência de condições atendi- das em carteira de pacientes ou po- pulações adscritas; comportamento de indicadores clínicos, pressão assistencial (encontros clínicos/dia); e frequentação de pacientes (encon- tros clínicos/população ou carteira adscrita/ano) são exemplos de mensurações que boas ferramen- tas podem fornecer ao profissional e serviços de saúde. Registro dos encontros permitem, igualmente, coleta e análises de dados a respeito da jornada, entregue para paciente e de sua experiência para além de desfechos clínicos. É importante reconhecer que jornadas multipro- fissionais, contemplando diferentes habilidades e competências, podem ofertar cuidado mais abrangente, com olhares diversos, inclusive trazendo resposta tempestiva a dúvidas e conflitos e otimizando recursos para suas operações e a performance clínica. Estes novos formatos de atenção devem, cada vez mais, conjugar o uso de diretrizes clínicas e a pro- moção de linhas de cuidado, como forma de agregar valor à saúde, com a segurança da informação clínica, através da confidencialida- de, privacidade e armazenamento dos dados, além da dispensação segura e eficaz de documentos médico-legais11. Frequentemente, profissionais de saúde queixam-se da multiplicidade de registros e da coleta de mesmos dados, bem como da reprodução desses em diferentes plataformas e sistemas, podendo incentivar condutas divergentes e mesmo iatrogênicas. O entendimen- to da precisão de um registro único, capaz de contemplar informações e dados disponíveis nos mais diversos Serviços e Setores de Saúde, para além da jornada que faz sentido ao usuário e converse com o novo modelo de acesso ao cuidado, re- força a necessidade de soluções de interoperabilidade. Nesse sentido, uma experiência com adaptação de diretrizes clínicas por meio do Digital Adaptation Kit (DAK) proposto pela OMS - disponível em https://www. ghspjournal.org/content/ghsp/10/1/ e2100320.full.pdf - demonstra que a construção de uma linguagem 52 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 única, orientada pelos usuários e cenáriosde uso, pode produzir diretrizes sensíveis à realidade clínica e fortalecer o engajamento dos profissionais. Como exemplo, as diretrizes clínicas adaptadas para pré-natal e planejamento reprodu- tivo, disponíveis, respectivamente, em https://www.who.int/publica- tions/i/item/9789240020306 e https://www.who.int/publications/i/ item/978924002974312. Em experiência de teleconsultas, executada em território nacional, ofertando cuidado para mais de 17 condições clínicas, pacientes rela- taram alta satisfação com a jornada proposta (NPS 88), ressaltando como pontos de destaque a con- veniência quanto à economia de tempo e à redução de custos com deslocamento. A execução envol- veu três canais: chamada telefônica para triagem; videochamada para teleconsulta e recebimento de SMS, com link para conexão; e avaliação ao fim do atendimento. A atuação de enfermeiras na triagem das condições clínicas e na validação do melhor canal para a consulta com os pacientes; dos médicos de família, no acolhimento e orientação de fluxos nos casos de urgência, e também no atendimento de condi- ções clínicas menos estruturadas; dos especialistas focais na atenção às linhas de cuidado predefinidas; e dos operadores de atendimento, apoiando o usuário em sua conec- tividade e trajetória digital foram conjuntamente importantes para o desfecho positivo da operação. A associação de recursos de multi- canalidade e da multidisciplinaridade permitiu uma ampla coleta de dados – a partir das diferentes perspecti- vas e atuações técnicas –, e promo- veu maior acessibilidade ao cuidado, uma vez que 53% dos casos tiveram seguimento ambulatorial digital, com segurança e conforto ao paciente, sem necessidade de atendimento presencial. Para a sustentabilidade da estratégia foi indispensável que o acordo do modelo de assistência ocorresse compartilhado com o pa- ciente, respeitando e contemplando tanto a expectativa da pessoa, como a segurança do manejo da condição clínica de forma remota. Foi neces- sário compreender quais disposi- tivos da rede de atenção à saúde estavam disponíveis ao teleconsultor para reduzir a chance de conversão do canal. Isto é, da teleconsulta para encontro síncrono presencial, por exemplo; na indisponibilidade de acesso a serviços de apoio diag- nóstico (realização de exames ou procedimentos); na não aceitação de documento médi- co-legal emitido com certificação digital; e na necessidade de prescrição de medicações com dispensação a par- tir de receituários controlados, entre outros. Assim, a resolubilida- de de um ambulatório digital será proporcio- nal à capacidade de adaptação e acesso às ferramentas digitais, por parte do usuário, e ao desenvolvimento e emprego de novas soluções digitais pelos serviços da rede de atenção à saúde7. A sustentabilidade da telemedicina, a longo prazo, depende da sua im- plementação efetiva como parte da rede de serviços e, também, de mu- danças organizacionais, logísticas e culturais. Por fim, o uso eficiente da telemedicina permite que serviços e profissionais se conectem entre si e também com os usuários de forma mais ágil, promovendo maior acesso à informação e interações multidis- ciplinares capazes de transcender as barreiras geográficas. Nasce daí a possibilidade de otimizar o formato de cuidado até então estabelecido, humanizando, mais a promoção e o acompanhamento das condições de saúde já existentes, a partir de uma rede de assistência mais integral e dinâmica, mais sensível e atenta à realidade e especificidade de cada indivíduo6. REFERÊNCIAS: 1. Hatzack F. Process industries: innovation and futures. 2018 set; Copenhagen, Dinamark. 2. Goldberg L, Akimoto C. O sujeito na era digital: ensaios sobre psicanálise, pandemia e história. São Paulo: Edições 70, 2021 3. World Health Organization. World mental health report: transforming mental health for all. World Health Organization; 2022. 4. Drucker P. Management Challenges for the 21st Century. London: Routledge, 2007. 5. Polanczyk GV. O custo da pandemia sobre a saúde mental de crianças e adolescentes. 2020 Maio 11 – [citado 2020 Ago 30]. In: Jornal da USP [Internet]. São Paulo: USP. 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Síndrome de Burnout, teletrabalho e revolução tecnológica um estudo do adoecimento profissional em tempos de Covid-19. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano. 2020,(3):1-37. 11. Ministério da Saúde (Brasil). Portaria nº 1.348, de 2 de junho de 2022. Dispõe sobre as ações e serviços de Telessaúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União nº 105, jun 2022,seção 1. 12. World Health Organization. Digital adaptation kit for antenatal care: operational requirements for implementing WHO recommendations in digital systems. World Health Organization, 2021. 53GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 C A P 0 1 1 Carmita Helena Najjar Abdo Psiquiatra, Professora do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Membro do Ethics Committee of International Society for Sexual Medicine (ISSM). Reflexo do pós-isolamento nas relações interpessoais e na sexualidade 54 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 A emergência sanitária devido à pandemia de Covid-19 e as medidas adotadas para reduzir sua propaga- ção tiveram forte impacto sobre a saúde, a economia e as sociedades em todo o mundo. Estresse pós- -traumático, ansiedade, depressão, transtornos do sono, aversão, medo, culpa, dor e raiva foram as respostas mais comuns1-5. Todos esses des- fechos resultaram do isolamento prolongado, do receio do contágio, da frustração, do tédio, da falta de informação, das perdas financeiras e do estigma. Some-se a isso, a pre- ocupação com as crianças, a perda de entes queridos e a falta de apoio a indivíduos vulneráveis, graves ameaças ao bem-estar mental1. A pandemia também impactou forte- mente a sexualidade de pessoas e os relacionamentos dos casais6. O confinamento, por sua vez, acar- retou sérios danos às relações, ao bem-estar, à segurança e à saúde, pelo distanciamento social, pela coabitação forçada e pelas restrições de locomoção7. Profissionais de saúde, muito frequentemente, não podendo se resguardar do contato com os pacientes infectados, também foram atingidos por todas as even- tualidades que aqui registraremos, especialmente pela exposição sem escolha ao vírus. Como até o mo- mento não há relevantes estudos específicos a respeito dos reflexos do pós-isolamento sobre as relações interpessoais e a sexualidade dos profissionais de saúde, vamos considerá-los neste texto como parte da população geral. Pós-isolamento, relações interpessoais e sexualidade No geral, durante o con- finamento, houve certa redução na frequência sexual, principalmente entre solteiros e entre os que não consegui-ram estar com seus(su- as) parceiros(as)8-14. As mulheres foram mais propensas à ansieda- de, depressão e estresse pós-traumático15,16, com impacto negativo sobre a sexualidade8,17-20. Aquelas que trabalharam fora de casa durante o confinamento e aquelas com maior nível de escola- ridade apresentaram maior proba- bilidade de piora na função sexual e na qualidade de vida, redução da frequência sexual e maior nível de angústia11. Tudo isso associado a maior desejo que os homens de praticar sexo casual14. Os homens relataram piora de ere- ção, disfunção orgástica e diminui- ção da satisfação sexual,8,21 associa- das a perda econômica e sintomas de ansiedade e depressão8. No entanto, especialmente os ho- mens com relacionamento estável, foram mais propensos a relatar aumento em vários comportamen- tos sexuais, entre eles: masturbação recíproca, tentativas de novos reper- tórios sexuais e mesmo sexo virtual com diferentes parcerias8,14. As diferenças do impacto da pan- demia de acordo com o gênero podem ser explicadas por aumento do trabalho doméstico (geralmente para as mulheres), fechamento das escolas e das atividades extracurri- culares, diminuindo a possibilidade de momentos íntimos. De fato, ter um ou mais filhos esteve associa- do à redução nos escores de função sexual feminina durante a pandemia11. Esses resultados também podem ser explicados pelo maior engajamento dos homens em atividades sexuais solitárias ou virtuais22. Os homens relataram piora de ereção, disfunção orgástica e diminuição da satisfação sexual,8,21 associadas a perda econômica e sintomas de ansiedade e depressão8. Entre os casais, a ruptura da rotina contribuiu para aumento do estresse e exacerbação de conflitos relacio- nais, com consequente diminuição da atividade sexual solo e em parce- ria10,23. Quanto à idade, a insatisfação sexu- al de homens e mulheres esteve sig- nificativamente correlacionada com a idade mais jovem e a gravidade da depressão19. Por outro lado, o enve- lhecimento desempenhou papel na diminuição da qualidade percebida no casamento e na satisfação dos casais24. Para os profissionais de saúde, aumento da carga de trabalho e maior risco de contágio, para si e para seus entes queridos, devido ao contato próximo 55GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 com pacientes com Covid-19, in- fluenciou negativa e genericamente as esferas emocional e sexual25. Em suma, a piora da vida sexual parece estar mais relacionada a conflitos, emoções e dificuldades psíquicas, ser do sexo feminino, estar solteiro ou longe do(a) parcei- ro(a), ser profissional de saúde e ter filhos10-12,19,21,25,26. Além disso, estres- se, coabitação forçada, rotina, ansie- dade e preocupação com o trabalho e a pandemia, sensação de distância do(a) parceiro(a) e falta de privaci- dade foram associados à diminui- ção de desejo, excitação, orgasmo e frequência de sexo21,24. Em contrapartida, pessoas que passaram mais tempo com seus parceiros, sentiam menos estresse e estavam mais ente- diadas (com a rotina de- sestimulante), experimenta- ram aumento em desejo, excitação, orgasmo e frequência de sexo24. Redução da frequência sexual foi mais comum entre aqueles com níveis mais elevados de ansiedade, depressão e estresse13,24. Nesse sentido, a atividade sexual parece desempenhar um papel protetor na saúde individual. Tanto que a me- lhora na sexualidade foi associada a viver feliz e estar satisfeito(a) com a parceria, sentir-se menos estres- sado(a), ter mais tempo livre, menos oportunidade de recreação e menor carga de trabalho21,24,27. Quanto às mudanças no compor- tamento sexual, houve aumento no uso de brinquedos sexuais e mas- turbação durante o isolamento12. Ocorreu aumento nas experimen- tações, novas posições e fantasias sexuais entre pessoas que viviam com seus parceiros. Por outro lado, aqueles que moravam sozinhos re- lataram taxas mais altas de compor- tamentos sexuais virtuais com uso de tecnologia28. As medidas de quarentena para pre- venir o contágio desencadearam um aumento do consumo de pornogra- fia29,30. Além de ter função recreativa, assistir pornografia representou uma estratégia para lidar com emoções e sentimentos negativos, estresse, solidão e medo da morte (enfrentamento usando o sexo)29,31- 33 . Utilização da web para sustentar o envolvimento sexual ativo surgiu como um substituto eficaz, reduzin- do a distância entre os parceiros e expandindo os relacionamentos de namoro online. A orientação pre- dominante para casais distantes foi manter contato digital regular para aliviar as carências34. Esse foi o ím- peto por trás do sexting, do namoro pela webcam ou do hot call, que deixou os casais mais desinibidos6. A atividade de webcam, às vezes também com brinquedos sexuais, ampliou o repertório sexual. Praticar sexo online com a parceira regular (à distância de casa) ou com outra pessoa ajudou alguns a manter a libido35. O impacto negativo do isolamento sobre a saúde mental3,5,36-39 pode ter sido mais marcante em lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queers, intersexo e assexuais (LGB- TQIA+), mais propensos a sofrer transtornos de ansiedade e depres- são40. Durante a pandemia, essas pessoas estiveram mais em risco de isola- mento social e físico e sua condição foi agravada por viver com famílias que não as aceitam, além de estar longe de amigos e outras fontes re- levantes de apoio41,42. Esses aspec- tos tiveram impacto negativo sobre a sexualidade dessas pessoas43. A falta de apoio e de intimidade com familiares e amigos, de- vido às restrições causadas pela Covid-19, pode ter piorado a vul- nerabilidade à depressão e aumentado o impac- to mental negativo em pessoas LGBTQIA+44. Maior uso de substân- cias esteve relacionado à maior proba- bilidade de ter relações sexuais tanto protegidas, quanto desprotegidas. É possível que o aumento da atividade sexual e do uso de subs- tâncias possam representar estraté- gias de enfrentamento ao sofrimen- to relacionado ao isolamento33,45. Envolvimento em sexo casual, du- rante o isolamento social, foi asso- ciado a ser mais jovem, solteiro, ter comportamentos sexuais mais arris- cados antes da pandemia e sofri- mento psíquico intenso31. Homosse- xuais solteiros, que se sentiam mais sozinhos e mais emocionalmente angustiados, foram mais propensos a quebrar o isolamento social e se envolver em sexo casual31. Considerações clínicas O que emergiu desta revisão deve ser considerado em nível clínico. O papel dos problemas mentais e rela- cionais sobre a sexualidade eviden- 56 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 cia a necessidade de34,46: • Promover a resiliência e reduzir o efeito do estresse no relacionamento; • Promover a coesão e a intimidade dos casais (papel protetor contra o desenvolvimento de doenças em situações de estresse como uma pandemia); • Incentivar novas atividades sexu- ais com a parceira (para enfrentar situação estressante e melhorar a vida sexual do casal); • Atenção especial às populações com maior risco de resultados negativos (mulheres, LGBTQIA+, indivíduos em uso inadequado de pornografia); • Continuar monitorando as mu- danças na sexualidade das pessoas e suas implicações: se as mudanças persistem e quais intervenções so- ciais e/ou de saúde são necessárias para mitigar os efeitos negativos da pandemia; • O papel das plataformas digitais nesse novo cenário deve ser apre- ciado, avaliado e considerado como uma ferramenta potencial para melhorar a saúde sexual, principal- mente em um cenário tão inovador como o pós-Covid-19. Reflexos do coronavírus sobre a atividade sexual e os relacionamentos em geral Durante os estágios iniciais da pandemia, não foi dada atenção suficiente ao impacto sobre a função sexual, o que é compreensível diante do risco de infecções potencialmen- te prejudiciais e fatais. Qualquer contato próximo(2m) com uma pessoa infectada poderia resultar em exposição ao SARS-CoV-2, portanto, a doença por coronavírus, independentemente de ser ou não “sexualmente transmitida” (por meio de sêmen ou fluidos vaginais), tem risco de exposição proximal, seja essa exposição sexual ou meramen- te física. Nos últimos meses, estudos mostra- ram que a infecção por coronavírus pode levar a complicações sexuais e dificuldade prolongada de libido, porque necessidade de conexão, afeto, namoro e expressão sexual permanecem, estejam as pesso- as confinadas ou não. Portanto, o significado clínico da interação entre bem-estar sexual, fatores emocio- nais em nível individual e ambiente social durante a pandemia precisa ser entendido. Um futuro, em que a intimidade sexual deva coexistir com a Covid-19, e/ou outras emergências sanitárias, exigirá a adoção de medi- das em saúde física e mental34. REFERÊNCIAS: 1. Brooks S, Webster R, Smith LE, Woodland L, Wessely S, Greenberg NJ. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet. 2020;395:912– 920. doi:10.1016/S0140-6736(20)30460-8. 2. Chew QH, Wei KC, Vasoo S, Chua HC, Sim K. Narrative synthesis of psychological and coping responses towards emerging infectious disease outbreaks in the general population: practical considerations for the Covid-19 pandemic. Singapore Med J. 2020:61:350. doi:10.11622/ smedj.2020046. 3. Gawai JP, Singh S, Taksande VD, Sebastian T, Kasturkar P, Ankar RS. Critical review on impact of COVID 19 and mental health. 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Coordena o Laboratório de Psicologia Cognitiva Básica e Aplicada (LPCOG). Felipe B. Schuch Professor adjunto da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Coordenador do grupo de pesquisa em exercício físico e saúde mental da UFSM. Orientador de mestrado no Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento e Reabilitação (UFSM). Membro da força tarefa em medicina do estilo de vida para depressão da World Federation of Societies of Biological Psychiatry e da força tarefa em exercício físico e nutrição para o transtorno do humor bipolar da International Society for Bipolar Disorders. Dicas práticas para o bem-estar e saúde do cuidador em tempos de pós-pandemia Monica L. Andersen Professora Associada e Livre-Docente e Chefe da Disciplina Biologia do Sono do Departamento de Psicobiologia da UNIFESP (2016-2022). Embaixadora do SYRCLE no Brasil (Systematic Review Centre for Laboratory Animals Experimentation-Radboud University, Holanda). Diretora de Ensino e Pesquisa do Instituto do Sono e Pesquisadora do CNPq (Bolsista de Produtividade 1C). Coordenadora dos Laboratórios de Sono em Ratos e Camundongos do Departamento de Psicobiologia. 59GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 Sem precedentes, a pandemia trouxe um cenário de estresse, medo, ansiedade e sobreposição de notícias negativas, extremamente debilitantes ao estado psicológico. O aumento crescente da transmissão da Covid-19 causou a internação de milhares de pessoas mundial- mente, com a necessidade de cuidados constantes e duradouros em ambientes hospitalares muitas vezes saturados, sem estrutura e/ ou insumos suficientes para uma as- sistência com as devidas qualidade e segurança. Como esperado, o cenário resultou em profissionais de saúde estafados e em risco de exposição contínua. Profissionais de saúde atendendo em ambientes domiciliares também foi cenário comum, com destaque ao trabalho dos cuidadores da saúde. A sobrecarga dos cuidadores desses pacientes de faixas etárias variadas foi excepcionalmente intensa neste período, o que levou ao aumento da incidência de sintomas de ansieda- de, depressão, efeitos do estresse e menor qualidade de vida desta parcela da população1. Os cuidadores foram tomados não só pelas jornadas de trabalho longas, acarretando em privação de sono, mas também pelo impacto da doen- ça em diversas esferas, preocu- pação com sua própria saúde e de sua família, além da incerteza social e financeira, que per- manece até hoje. Assim, não surpreende que um estudo tenha identificado altas prevalências de ansiedade (16- 41%), depressão (14-37%) e es- tresse/transtor- no do estresse pós-traumático (18,6-56,5%) em trabalhado- res da saúde2. Com prevalências me- nores, outros problemas de saúde mental identificados foram: insônia; medo de infecção; transtorno ob- sessivo-compulsivo; fobias; abuso de substâncias e ideação suicida2. A qualidade de sono prejudicada em diversos profissionais, destacando- -se também a dos cuidadores, es- teve e se mantém relacionada com alterações orgânicas de um modo geral, com ênfase aos comprome- timentos imunológicos, hormonais, neurológicos e de humor. Para lidar com estes cenários adversos e sem precedentes, os profissionais de saúde e cuidado- res, em particular, têm buscado intervenções para aumentar ou até mesmo recuperar o seu bem-estar e qualidade de vida e de sono outrora existentes. Algumas medidas que têm se mostrado aliadas positivas neste enfrentamento, associadas à melhor qualidade de vida, são as técnicas de meditação mindfulness, de exercício físico e de sono. Mindfulness Mesmo antes da pandemia, as práti- cas de meditação mindfulness já vi- nham sendo amplamente utilizadas por pessoas com diferentes tipos de sofrimento psicológico3. Existem dis- poníveis inúmeras evidências da eficácia de min- dfulness para de- pres- são, ansiedade, abuso de substância e dor, entre outras con- dições3. Já existiam evidências dos potenciais benefícios da mindful- ness para o psicológico dos profis- sionais desaúde, assim como maior resiliência ao estresse4,5, melhor qualidade de sono5, qualidade de vida e bem estar6. A prática de mindfulness não re- quer uso de equipamentos e pode ser feita em diversos ambientes. Pensando no ambiente de trabalho, alguns autores propõem o uso de momentos breves de práticas de mindfulness ao longo do dia, a fim de proporcionar a estes profissionais recursos que os auxiliem no manejo do estresse in locus, e que os pos- sibilitem restabelecer a atenção, a motivação e o equilíbrio emocional.7 Alguns exemplos de práticas mais curtas são a meditação de 3 minutos (https://www.youtube.com/wat- ch?v=rOne1P0TKL8), a meditação da sola do pé (https://center4msc- -wpengine.netdna-ssl.com/wp-con- tent/uploads/2016/03/Soles-of- -the-Feet_2017.pdf) e exercícios de respiração diafragmática. A vantagem destas práticas é que elas podem ser utilizadas na rotina do trabalho e podem ser realizadas tanto por pessoas que já praticam meditação, como também por pes- soas que não possuem experiência prévia. Em consonância com a ideia de práticas mais breves, um estudo, que embora não tenha sido realiza- do especificamente com profissio- nais da saúde, verificou que uma intervenção de 10 dias com meditação mindfulness diária de 10 minutos foi capaz de proteger os participantes do grupo da meditação dos efeitos prejudiciais de notícias negati- vas sobre a Covid-19. Apenas o grupo con- trole apresentou aumento de efeito negativo após ser exposto às notícias8. Este acha- do parece bastante relevante para os profissionais da saúde, tanto du- rante, como no pós-pandemia, uma vez que estes estão constantemente expostos às notícias e acontecimen- tos relacionados ao sofrimento e 60 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 problemas de saúde. O efeito protetor da medita- ção mindfulness também foi demonstrado por um estudo brasileiro, que realizou uma intervenção com profissionais de saúde pouco tempo antes da pandemia eclodir5. Os parti- cipantes deste estudo foram entrevistados seis meses após a intervenção, quando a situação da Covid-19 era crítica, e eles já estavam trabalhando no contexto da pandemia. Segundo relatos prévios, ter realizado a interven- ção da meditação mindfulness anteriormente ao surgimento da Covid-19 os preparou e forneceu recursos psicológicos para melhor lidar com o estresse e com a com- plexidade do trabalho, e contribuiu para que tivessem comportamentos de cuidado entre si e na equipe5,7. Assim, as intervenções com práticas de meditação mindfulness podem caracterizar um manejo da saúde mental, tanto em momentos de crise como também no pós-pandemia e no cotidiano do ambiente profissio- nal. Estas intervenções combinam práticas cujas habilidades treinadas parecem ser aplicáveis a diferen- tes cenários, e com capacidade de influenciar mecanismos de base, como melhoria do bem-estar, maior resiliência e redução do estresse. Ao mesmo tempo, são intervenções de baixo custo e que podem ser uma alternativa àquelas pessoas que não respondem bem aos tratamentos usuais. Embora as intervenções sejam tradicional e majoritariamen- te oferecidas de forma presencial, a sua oferta online tem crescido, assim como o aumento no uso de aplicativos de meditação9. Alguns estudos descreveram a ocor- rência de certos padrões de ondas cerebrais observados por eletroen- cefalograma, no momento da prática de meditação10,11. Essas respostas podem apresentar semelhanças aos achados eletroencefalográficos que ocorrem durante o sono regulado, o que pode sugerir possível relação entre mindfulness e sono12. Isto aponta para a relevância desta técni- ca, especialmente para indivíduos com distúrbios de sono, contribuin do para redução da latência de sono, e para a melhora da eficiência e qualidade total de sono. Hábitos negativos, ocasionados por privação de sono, como excesso de tempo no leito após despertar, horários de sono irregulares, cochilos, má alimentação e uso de alimentos estimulantes em excesso geram uma cadeia de eventos, entre eles, incluem-se alterações de humor; fadiga mental e física; prejuízo no desempenho em atividades diver- sas; e desconforto mental e físico. De um modo cíclico, estes fatores, se continuados, são capazes de agravar a qualidade de sono e perpetuar esta cascata de eventos prejudiciais à qualidade de vida e estado psicoló- gico do indivíduo13. Sono Entende-se que manter uma rotina de sono de qualidade e ritmo cir- cadiano regularizado não é sempre possível para os profissionais cui- dadores da saúde. Por lidarem com pacientes, por vezes, com saúde debilitada, a necessidade de atenção e alerta dos cuidadores torna-se integral. Especialmente nos casos em que eles dormem nos domicílios, e sua jornada de trabalho torna-se extensa, incluindo os dois turnos do dia. A tarefa do cuidador exige conhecimento, atenção e monitoramento de alte- rações de sinais que seu paciente pode apresentar em diversos siste- mas, para lhe dar assistência o mais prontamente possível. Isto requer uma atenção redobrada, que pode ser tanto influenciada positivamente por sono de qualidade, assim como prejudicada em casos de distúrbios de sono, agravadas por condições de vida extenuantes. As técnicas de higiene do sono, que são indicadas para a população em geral, devem ser também pratica- das pelo profissional cuidador no momento em que lhe é destinado para dormir, o que pode variar, a depender do seu turno de traba- lho. Evitar uso de celulares, telas e televisão pelo menos 30 minutos antes de deitar; manter ambiente escuro; temperatura do local ideal- mente reduzida; diminuir consumo de cafeína; e evitar alimentação em excesso, principalmente antes de dormir, são hábitos que favorecem o relaxamento necessário para início do sono. Recomenda-se que o tem- po total para um sono reparador seja entre sete e oito horas14, embora haja necessidades individuais com menor ou maior número de horas do que esta média geral. Evitar realizar atividades como assistir televisão ou utilizar celular e jogos eletrônicos, 61GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 alimentar-se ou cochilar durante o dia, no ambiente destinado para dormir, também é indicado. Estas medidas, associadas ao hábito de alimentação regular e balanceada, ingesta hídrica adequada e às prá- ticas de meditação, podem facilitar a obtenção da rotina de sono de qualidade e consequente melhora das atividades exigidas na jornada de trabalho. É necessário que o profissional disponha de tempo ade- quado de alimentação e descanso e, quando possível, reveze turnos com outro profissional, destina- do ao cuidado em saúde. Com a facilidade de acesso às tecnologias, diversos aplicativos para celula- res oferecem opções voltadas ao relaxamento mental, que podem ser ferramentas auxiliadoras e de fácil acesso para o benefício do sono. Um exemplo de aplicativo de terapia cognitivo-comportamental para insônia é o SleepUp (sleepup. com), primeiro aprovado no Brasil pela ANVISA, que contém funções adicionais para outras terapias. Atividade física A atividade física é um componente essencial do comportamento hu- mano, e em contraponto ao seden- tarismo (ficar deitado, sentado ou reclinado) está associada a diversas condições de saúde física e mental. Essas informações não são novas, e até os povos mais antigos associa- vam a falta de movimento corporal à presença de enfermidades ou à fragilidade física e/ou mental15. A atividade física e o comportamento sedentário são conceitos distintos e independentemente associados às condições de saúde. Por exemplo, uma pessoa pode ser fisicamente ativa, atingindo as recomendações de saúde pública16 e, ao mesmo tempo, manter um comportamento sedentário diário. Inúmeras evidências demonstram que a população mundial diminuiu o tempo gasto em atividades físicas e aumentou o tempo em comporta- mento sedentário17. Tantoos baixos níveis de atividade física, quanto os crescentes em comportamento sedentários, se associaram a uma maior presença de sintomas de ansiedade e depressão na população em geral18 e, não diferentemente, em trabalhadores da área da saúde19. A prática de ativi- dade física é promo- tora de saúde em qualquer tempo, seja antes, durante ou pós-pandemia. Para a manuten- ção de um comportamento ativo, alguns princípios podem facilitar a transição para uma vida mais ativa: 1) Diminuir, o máximo possível, o tempo parado, seja deitado, sentado ou reclinado. Procurar se levantar da cadeira periodicamente (de prefe- rência, a cada 30 minutos), mesmo que seja só para pegar água. Além de quebrar o sedentarismo, você já se hidrata! 2) Fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada. Qualquer minu- to a mais gasto em atividade física e qualquer minuto a menos gasto em comportamento sedentário contam. Mesmo que você não consiga fazer 30 minutos por dia, pequenas quan- tidades como 10 ou 15 minutos (75 minutos/semana) já são benéficos para a sua saúde mental20; 3) Fazer mais é melhor do que fazer alguma coisa. Quando conseguir, aumente progressivamente o tempo gasto em atividade física, a intensi- dade (dificuldade) da atividade e a frequência semanal; 4) O melhor exercício é aquele que faz sentido para você. Os benefícios do exercício para a saúde mental estão amplamente associados com o quanto você percebe que aquela atividade é importante e compensa- tória. Procure praticar aquela ativida- de física que você se sente bem fazendo, a que você percebe que lhe beneficia de alguma maneira. É essa atividade que vai lhe ajudar a se manter ativo21. 5) Quando possível, tenha compa- nhia. O apoio dos amigos, família e colegas é um fator que contribui para a aderência à prática. Além de se exercitar, você pode aproveitar para colocar a conversa em dia, ou resolver questões importantes. A companhia do seu melhor amigo (pet) também conta! Atualmente, existem várias opções de aplicativos de celular que ajudam a estimar o tempo gasto em ativi- dade física, ou o número de passos dados. Embora existam amplas mar- gens de erros nos aplicativos, eles podem servir como referência para um acompanhamento da variação dos níveis ao longo do tempo. Dessa forma, escolha um aplicativo que seja compatível com seu equipa- mento e o utilize por um determina- do período. 62 GUIA DE SAÚDE MENTAL PÓS-PANDEMIA NO BRASIL 2 REFERÊNCIAS: 1. Dhiman S, Sahu PK, Reed WR, Ganesh GS, Goyal RK, Jain S. Impact of Covid-19 outbreak on mental health and perceived strain among caregivers tending children with special needs. Res Dev Disabil. 2020; 107:103790. 2. Chutiyami M, Cheong AMY, Salihu D, et al. Covid-19 Pandemic and Overall Mental Health of Healthcare Professionals Globally: A Meta-Review of Systematic Reviews. Front Psychiatry. 2022; 12. 3. Wielgosz J, Goldberg SB, Kral TRA, Dunne JD, Davidson RJ. Mindfulness Meditation and Psychopathology. Annu Rev Clin Psychol. 2019; 15:285-316. 4. Kinser P, Braun S, Deeb G, Carrico C, Dow A. “Awareness is the first step”: An interprofessional course on mindfulness & mindful-movement for healthcare professionals and students. Complement Ther Clin Pract. 2016; 25:18-25. 5. 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