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analise do comportamento - pesquisa teoria e aplicação

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Renan Lima

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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:261
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:262
S616 Análise do comportamento [recurso eletrônico] : pesquisa, teoria e aplicação /
Josele Abreu-Rodrigues, Michela Rodrigues Ribeiro (organizadoras). –
Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2007.
Editado também como livro impresso em 2005.
ISBN 978-85-363-1102-9
1. Psicologia – Comportamento. I. Abreu-Rodrigues, Josele. II. Ribeiro,
Michela Rodrigues.
CDU 159.9.019.4
Catalogação na publicação: Juliana Lagôas Coelho – CRB 10/1798
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO
Pesquisa, Teoria e Aplicação
2007
Josele Abreu-Rodrigues
Michela Rodrigues Ribeiro
Organizadoras
Versão impressa
desta obra: 2005
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:263
© Artmed Editora S.A., 2005
Capa
Gustavo Macri
Preparação do original
Rubia Minozzo
Leitura final
Maria Lúcia Barbará
Supervisão editorial
Mônica Ballejo Canto
Projeto e editoração
Armazém Digital Editoração Eletrônica – Roberto Vieira
Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à
ARTMED® EDITORA S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
90040-340 Porto Alegre RS
Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070
É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer
formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na
Web e outros), sem permissão expressa da Editora.
SÃO PAULO
Av. Angélica, 1091 - Higienópolis
01227-100 São Paulo SP
Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333
SAC 0800 703-3444
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:264
AUTORES
Josele Abreu-Rodrigues (org.)
Universidade de Brasília
Michela Rodrigues Ribeiro (org.)
Universidade Católica de Goiás
Universidade de Brasília
Instituto de Aplicação e Pesquisa Comportamental
Alessandra de Moura Brandão
Universidade de Brasília
Alessandra Rocha de Albuquerque
Universidade Católica de Brasília
Ana Karina Curado Rangel de-Farias
Universidade Católica de Goiás
Instituto de Aplicação e Pesquisa Comportamental
Carlos Eduardo Cameschi
Universidade de Brasília
Cristiano Valério dos Santos
Universidade de São Paulo
Elenice S. Hanna
Universidade de Brasília
Elisa Tavares Sanabio-Heck
Universidade Católica de Goiás
Instituto de Aplicação e Pesquisa Comportamental
Geison Isidro-Marinho
Centro Universitário de Brasília
Instituto São Paulo de Terapia e Análise do Comportamento
Gordon R. Foxall
Cardiff University
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:265
João Claudio Todorov
Universidade Católica de Goiás
Universidade de Brasília
Jorge M. Oliveira-Castro
Universidade de Brasília
Karina de Guimarães Souto e Motta
Instituto São Paulo de Terapia e Análise do Comportamento
Kennon A. Lattal
West Virginia University
Laércia Abreu Vasconcelos
Universidade de Brasília
Lincoln da Silva Gimenes
Universidade de Brasília
Marcelo Emílio Beckert
Instituto de Educação Superior de Brasília
Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento
Marcelo Frota Benvenuti
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Rachel Nunes da Cunha
Universidade de Brasília
Raquel Maria de Melo
Universidade de Brasília
Raquel Moreira Aló
West Virginia University
Centro Universitário de Brasília
Sonia Beatriz Meyer
Universidade de São Paulo
Yvanna Aires Gadelha
Centro Universitário de Brasília
vi AUTORES
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:266
DEDICATÓRIA
Ao querido amigo Marcelo Beckert, que, com sua curiosidade,
nos mostrou como é interessante aprender, com sua
alegria, nos mostrou como é possível sorrir mesmo
nos momentos críticos e, com sua vivacidade, nos mostrou
como a vida é curta e deve ser aproveitada.
Marcelo, você está presente em nossa vívida história...
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:267
SUMÁRIO
Apresentação .................................................................................................................... 11
1. Ciência, tecnologia e análise do comportamento .......................................................15
Kennon A. Lattal
2. Operações estabelecedoras: um conceito de motivação ............................................27
Rachel Nunes da Cunha
Geison Isidro-Marinho
3. História de reforçamento .............................................................................................45
Raquel Moreira Aló
4. Momento comportamental ...........................................................................................63
Cristiano Valério dos Santos
5. Desamparo aprendido ..................................................................................................81
Elisa Tavares Sanabio-Heck
Karina de Guimarães Souto e Motta
6. Comportamento adjuntivo: da pesquisa à aplicação .................................................99
Lincoln da Silva Gimenes
Alessandra de Moura Brandão
Marcelo Frota Benvenuti
7. Contingências aversivas e comportamento emocional ........................................... 113
Carlos Eduardo Cameschi
Josele Abreu-Rodrigues
8. Generalização de estímulos: aspectos
conceituais, metodológicos e de intervenção .......................................................... 139
Yvanna Aires Gadelha
Laércia Abreu Vasconcelos
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:269
9. Quantificação de escolhas e preferência .................................................................. 159
João Claudio Todorov
Elenice S. Hanna
10. Autocontrole: um caso especial de comportamento de escolha ............................ 175
Elenice S. Hanna
Michela Rodrigues Ribeiro
11. Variabilidade comportamental .................................................................................. 189
Josele Abreu-Rodrigues
12. Regras e auto-regras no laboratório e na clínica ..................................................... 211
Sonia Beatriz Meyer
13. Correspondência verbal/não-verbal:
pesquisa básica e aplicações na clínica .................................................................... 229
Marcelo Emílio Beckert
14. Equivalência de estímulos: conceito,
implicações e possibilidades de aplicação ............................................................... 245
Alessandra Rocha de Albuquerque
Raquel Maria de Melo
15. Comportamento social: cooperação,
competição e trabalho individual ............................................................................. 265
Ana Karina Curado Rangel de-Farias
16. Análise do comportamento do consumidor ............................................................. 283
Jorge M. Oliveira-Castro
Gordon R. Foxall
10 SUMÁRIO
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APRESENTAÇÃO
A Análise do Comportamento é uma ciên-
cia do comportamento fundamentada na filo-
sofia do Behaviorismo Radical e que tem como
objeto de estudo a interação do indivíduo com
o ambiente. Skinner repetidas vezes afirmou
que o comportamento humano é um campo
de estudo delicado. Delicado no sentido de que
há controvérsia sobre qual seria a melhor forma
de estudá-lo. Delicado também no sentido de
que é multiplamente determinado e que, por-
tanto, consiste em um evento bastante com-
plexo. Esta obra ilustra ambos os aspectos ao
oferecer uma alternativa teórico-conceitual
para o estudo do comportamento humano e
ao especificar diversas estratégias metodoló-
gicas utilizadas na identificação de suas variá-
veis de controle.
Este livro consiste em uma coletânea de
textos que apresentam um conhecimento atua-
lizado e empiricamente fundamentado sobre
processos comportamentais complexos, bem
como as possíveis aplicações desse conhecimen-
to na resolução de problemas práticos. No Ca-
pítulo 1, Kennon A. Lattal apresenta uma aná-
lise das relações entre ciência básica, ciência
aplicada e tecnologia, o que dá suporte para
todas as discussões apresentadas nos capítu-
los posteriores. Para o autor, as pesquisas bási-
ca e aplicada em análise do comportamento
contribuem para o desenvolvimento de tecno-
logias que, porsua vez, ao serem implemen-
tadas e desenvolvidas, fornecem subsídios para
futuras pesquisas. Assim sendo, haveria uma
interdependência entre ciência básica e apli-
cada e tecnologia, tendo em vista que o cresci-
mento de um campo depende das conquistas
efetuadas no outro campo. Apesar de ser co-
mum a realização de estudos em que a transver-
salidade de informações entre ciência e tec-
nologia é descartada, os capítulos deste livro
pretendem seguir um caminho contrário e
apresentam algumas possíveis inter-relações
desses três campos.
No Capítulo 2, Rachel Nunes da Cunha e
Geison Isidro-Marinho apresentam a aborda-
gem analítico-comportamental do conceito de
motivação. A ênfase dos autores recai sobre o
conceito de operação estabelecedora (OE) que,
na atualidade, consiste em um instrumento
conceitual e metodológico para o estudo da
motivação em situação experimental e aplica-
da. Após apresentar uma análise histórica des-
ses conceitos, os autores definem e exemplifi-
cam as OEs incondicionadas e condicionadas
e apontam as dificuldades metodológicas de
se demonstrar empiricamente a diferença en-
tre OE e estímulo discriminativo. São também
descritas pesquisas aplicadas, as quais sugerem
que o conceito de OE é fundamental para a aná-
lise funcional do comportamento e, conseqüen-
temente, para o planejamento de intervenções
efetivas. Ao final do capítulo, os autores discor-
rem sobre as relações entre OEs e estados emo-
cionais, com ênfase no contexto clínico.
O Capítulo 3 aborda os efeitos da histó-
ria de reforçamento sobre a sensibilidade
comportamental a mudanças nas contingên-
cias. Inicialmente, Raquel Aló apresenta as di-
ferentes definições do termo história de refor-
çamento e, em seguida, indica que os efeitos
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2611
12 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
da história dependem de variáveis tais como o
tipo de esquema de reforçamento presente
antes da mudança, da similaridade entre os
estímulos discriminativos antes e após a mu-
dança, das operações estabelecedoras em vi-
gor, etc. Também são apontadas algumas pes-
quisas aplicadas que ilustram os efeitos da his-
tória sobre o comportamento de estudar e so-
bre comportamentos agressivos. A autora dis-
cute possíveis aplicações dos resultados da
pesquisa empírica, enfatizando a relevância das
variáveis históricas para o diagnóstico e a in-
tervenção no ambiente clínico. Por fim, a au-
tora analisa os pontos em comum entre os es-
tudos de história de reforçamento e de outras
áreas, como aqueles sobre resistência a mu-
danças, desamparo aprendido e comportamen-
to governado por regras, incentivando a
integração dos resultados desses estudos.
No Capítulo 4, Cristiano Valério dos San-
tos discute diversas questões metodológicas pre-
sentes nos estudos sobre resistência a mudan-
ças, tanto no que se refere aos procedimentos
experimentais utilizados quanto à mensuração
da resistência. É apresentada uma distinção en-
tre taxa de respostas e resistência à mudança,
as quais seriam determinadas por diferentes
processos comportamentais, bem como uma
definição do modelo de momento comporta-
mental. Após descrever pesquisas básicas sobre
os determinantes (p. ex.: magnitude, atraso,
taxa e tipo de reforço) da resistência, o autor
estabelece um paralelo entre resistência à mu-
dança e escolha/preferência, controle instrucio-
nal e história de reforçamento. Ao final, o autor
exemplifica a utilização dos conceitos de mo-
mento comportamental e resistência à mudan-
ça na solução de problemas aplicados tais como
seguimento de instruções, resolução de proble-
mas de matemática, desempenho em jogos es-
portivos e autocontrole.
O Capítulo 5, de Elisa Tavares Sanabio-Heck
e Karina de Guimarães Souto e Motta, aborda o
fenômeno comportamental conhecido como de-
samparo aprendido, o qual resulta da exposição
a situações de incontrolabilidade, bem como as
estratégias metodológicas utilizadas na preven-
ção e na reversão desse fenômeno. As autoras
também fazem uma análise crítica do status cau-
sal comumente atribuído ao conceito de expec-
tativa pelos pesquisadores dessa área de investi-
gação. Para tanto, analisam estudos de desam-
paro caracterizados pela presença ou pela ausên-
cia de correspondência entre comportamento ver-
bal e não-verbal, apresentando uma interpretação
analítico-comportamental das relações verbais
presentes nesses estudos. Finalmente, são discu-
tidas algumas estratégias terapêuticas (p. ex.:
treino de auto-observação, treino de repertórios
não-verbais e modelagem de relatos discrimina-
dos) relevantes para a reversão dos efeitos da
história de incontrolabilidade.
No Capítulo 6, Lincoln da Silva Gimenes,
Alessandra de Moura Brandão e Marcelo Frota
Benvenuti apresentam a definição de compor-
tamento adjuntivo ou, alternativamente, com-
portamento induzido por contingências de
reforçamento, descrevem alguns tipos desse
comportamento e exemplificam a generalida-
de do fenômeno. Esses autores sugerem que o
modelo de comportamento adjuntivo pode ser
útil para o entendimento de diversos distúrbi-
os comportamentais, tais como drogadição,
obesidade, bulimia, anorexia e síndrome do
cólon irritável, entre outros. Além disso, é tam-
bém ilustrada a possibilidade de controle de
estímulos sobre o comportamento adjuntivo.
O Capítulo 7, de Carlos Eduardo Cames-
chi e Josele Abreu-Rodrigues, avalia a pesquisa
básica sobre contingências aversivas e seus
principais efeitos sobre o comportamento de
organismos humanos e não-humanos. Ao anali-
sar a punição e o reforçamento negativo, além
de apresentar algumas variáveis determinantes
das propriedades aversivas dos eventos
ambientais, os autores enfatizam as controvér-
sias existentes sobre a efetividade da punição,
as dificuldades metodológicas encontradas no
estudo da resposta de fuga, o procedimento
de esquiva de Sidman e o debate entre os adep-
tos de interpretações molares e moleculares do
processo de esquiva. Além disso, os autores
discutem a abordagem analítico-comporta-
mental do comportamento emocional. Por últi-
mo, há uma discussão sobre o uso de controle
aversivo em procedimentos terapêuticos diver-
sos, tais como na Terapia Analítica Funcional
e na Terapia da Aceitação e do Compromisso.
No Capítulo 8, Yvanna Aires Gadelha e
Laércia Abreu Vasconcelos apresentam uma
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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 13
análise teórico-conceitual e metodológica do
processo de generalização. Para tanto, as auto-
ras estabelecem diferenças entre pseudogene-
ralização e generalização verdadeira, generali-
zação e generalidade, classes funcionais e clas-
ses de equivalência, generalização de estímulos
e de respostas. Este capítulo contém, ainda, uma
descrição de estratégias metodológicas para a
promoção de generalização (p.ex., mediação da
generalização, treinamento direto da generali-
zação) e uma discussão do fenômeno da gene-
ralização no contexto clínico. Nessa discussão,
as autoras destacam os conceitos de integrida-
de do tratamento e satisfação do consumidor.
Na seqüência são apresentados dois capí-
tulos referentes à análise do comportamento
de escolha. No Capítulo 9, João Claudio Todorov
e Elenice S. Hanna apresentam os estudos de
quantificação de escolhas e preferência, indi-
cando modelos matemáticos desenvolvidos
para descrever o comportamento de escolha,
em especial o modelo conhecido como lei da
igualação. Os autores também apontam variá-
veis que influenciam a igualação entre distribui-
ção de respostas e de reforços, tais como o atra-
so do reforço para respostas de mudança, a his-
tória dos sujeitos experimentais e os tipos de
esquemas de reforçamento envolvidos na situa-
ção de escolha. Esse capítulo também apresenta
a controvérsia sobre o princípio da relativida-
de, discute a generalidade da lei da igualação
para o comportamento de escolha de huma-
nos ediscorre sobre possíveis aplicações da
relação de igualação para o comportamento de
indivíduos autistas, atletas e estudantes.
No Capítulo 10, Elenice S. Hanna e
Michela Rodrigues Ribeiro avaliam um tipo es-
pecial de situação de escolha – a situação de
autocontrole. Esse capítulo discute o conceito
de autocontrole e impulsividade a partir do
paradigma de autocontrole proposto por
Rachlin. Dentre as variáveis determinantes do
autocontrole, as autoras destacam os parâme-
tros do reforço (atraso, probabilidade, freqüên-
cia e magnitude), atividades desenvolvidas
durante o atraso do reforço, a história de
reforçamento, os estímulos discriminativos pre-
sentes na situação e o custo da resposta. Tam-
bém é discutido o papel do procedimento de
esvanecimento para fortalecer o comportamen-
to de autocontrole em contextos aplicados (p.
ex., indivíduos com atraso de desenvolvimen-
to, crianças hiperativas, adictos em nicotina,
mulheres com vaginismo). Ao final, as autoras
discorrem sobre o papel do comprometimento
em situações aplicadas de autocontrole.
No Capítulo 11, Josele Abreu-Rodrigues
discute o fenômeno da variabilidade com-
portamental. Ao apresentar as contribuições
da pesquisa básica e aplicada para a compre-
ensão desse fenômeno, a autora analisa sepa-
radamente a variabilidade como um sub-
produto de variáveis ambientais (p. ex., in-
termitência do reforço, retirada do reforço) e
como um produto direto de contingências de
variação. Na discussão do controle operante
da variabilidade, a autora discorre sobre tó-
picos tais como controle de estímulos, resistên-
cia à mudança, escolha entre repetição e va-
riação, história de reforçamento e controle
verbal. Neste capítulo, a autora também dis-
cute a relevância dos estudos sobre variabili-
dade para a compreensão do comportamento
criativo e de questões relacionadas à liberda-
de de escolha.
O livro ainda contém uma análise do com-
portamento verbal sob três diferentes ângulos.
Sonia Beatriz Meyer, no Capítulo 12, discute a
utilização de regras e auto-regras no laborató-
rio e na clínica analítico-comportamental. Ao
descrever os principais resultados da pesquisa
básica sobre o tema, a autora aponta diversas
variáveis que afetam a sensibilidade do com-
portamento verbalmente controlado a mudan-
ças nas contingências, tais como o grau de con-
tato com a nova contingência, o conteúdo da
regra, o nível de variabilidade comportamental,
a história de reforçamento e o grau de
discriminabilidade das contingências em vigor.
O capítulo apresenta, em seguida, uma discus-
são sobre o controle verbal no contexto clíni-
co, na qual a autora avalia a efetividade do
uso de regras/instruções e de modelagem na
promoção de mudanças comportamentais. Há
também uma discussão sobre duas variáveis
que influenciam o uso de estratégias diretivas:
a abordagem teórica do terapeuta e a história
de vida do cliente. Por fim, a autora analisa a
relação entre controle verbal e resistência e
adesão ao tratamento.
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2613
14 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
Marcelo Emílio Beckert, no Capítulo 13,
apresenta uma descrição e a análise da corres-
pondência entre comportamento verbal e com-
portamento não-verbal. O autor discute aspec-
tos teóricos e metodológicos derivados da pes-
quisa sobre correspondência, enfatizando a di-
versidade metodológica existente na área, a
efetividade dos diversos tipos de treino da cor-
respondência (p. ex., fazer-dizer, dizer-fazer,
dizer-fazer-dizer) e as variáveis que afetam a
aquisição, a generalização e a manutenção da
correspondência. O capítulo também apresen-
ta algumas implicações dos resultados da pes-
quisa básica para contextos aplicados, com ên-
fase no contexto clínico. Aqui, o autor discorre
sobre a relevância do treino da correspondên-
cia para a aquisição dos comportamentos de
autoconhecimento e de autocontrole.
Alessandra Rocha de Albuquerque e Ra-
quel Maria de Melo, no Capítulo 14, discutem
a aprendizagem por equivalência de estímu-
los. As autoras inicialmente apresentam uma
diferenciação entre equivalência e generaliza-
ção e uma caracterização do procedimento
comumente utilizado para avaliar equivalên-
cia. Ao descrever os resultados da pesquisa
básica sobre o tema, as autoras discutem se a
nomeação oral dos estímulos é necessária para
a emergência de equivalência e sobre a possi-
bilidade de transferência de função entre os
membros de uma classe de equivalência. Por
fim, as autoras discorrem sobre a aplicabilidade
do paradigma de equivalência para o treino de
leitura, escrita, habilidades matemáticas e com-
portamentos clinicamente relevantes (p. ex.,
consumo de drogas, autoconceito negativo).
Finalizando, os dois últimos capítulos
abordam temas sociais. No Capitulo 15, Ana
Karina Curado Rangel de-Farias avalia a
pertinência de uma análise experimental do
comportamento social, enfatizando as estraté-
gias metodológicas utilizadas nas investigações
dos comportamentos de cooperação, competi-
ção e trabalho individual. A autora destaca,
dentre as variáveis de controle desses compor-
tamentos, a magnitude dos reforços, a história
de reforçamento, o custo da resposta, o con-
teúdo das instruções e a iniqüidade de refor-
ços entre os participantes da situação social. É
também discutida a relevância dos estudos so-
bre comportamento social para diversas situa-
ções aplicadas, tais como produtividade no tra-
balho, desempenho acadêmico, participação
em cooperativas de trabalho e manutenção de
recursos naturais.
No Capítulo 16, Jorge M. Oliveira-Castro
e Gordon Foxall apontam a relevância da
abordagem analítico-comportamental para o
estudo do comportamento do consumidor. São
apresentados resultados de pesquisas sobre tó-
picos relacionados ao comportamento do con-
sumidor, como, por exemplo, economia
comportamental, escolha e preferência, siste-
mas de economia de fichas e marketing social.
O capítulo também contém uma caracterização
dos padrões de escolha do consumidor, bem
como uma discussão sobre questões como o ce-
nário de consumo, a história de aprendizagem
do consumidor e as conseqüências do consu-
mo. Os autores mostram, ainda, uma proposta
de categorização do comportamento do consu-
midor. Por fim, os autores descrevem o uso de
procedimentos respondentes e operantes para
investigar o comportamento do consumidor.
É com muito entusiasmo que apresenta-
mos este livro, que poderá ser de grande utili-
dade a alunos de graduação e pós-graduação,
tendo em vista que os temas de que trata cons-
tituem parte de disciplinas obrigatórias na for-
mação desses alunos. Os profissionais que ado-
tam a abordagem analítico-comportamental,
bem como aqueles de áreas afins, que buscam
um conhecimento atualizado e fundamentado
na pesquisa básica e aplicada sobre processos
comportamentais diversos, também se benefi-
ciarão com a leitura deste livro. Além disso,
esta obra poderá amenizar as dificuldades dos
professores da área em oferecer bibliografia
atualizada na língua portuguesa, dificuldade
esta que nos têm levado a adotar, nos cursos
de graduação, traduções já defasadas ou tex-
tos em outros idiomas, o que freqüentemente
traz prejuízos ao processo ensino-aprendiza-
gem. Por fim, queremos agradecer a todos os
colaboradores pelo esforço em apresentar tra-
balhos fortemente embasados na literatura ci-
entífica e em apontar possíveis aplicações dos
resultados da pesquisa a contextos diversos.
As organizadoras
Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2614
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 15
CIÊNCIA, TECNOLOGIA E
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO
KENNON A. LATTAL
os cientistas fazem envolve um “conjunto de ati-
tudes” caracterizado por “uma disposição para
aceitar fatos mesmo quando eles são opostos a
desejos” (p. 12). O comportamento de um cien-
tista envolve “uma busca por ordem, por uni-
formidade, por relações ordenadas entre os
eventos na natureza”e, além disso, demonstra
“mais e mais relações entre eventos ... mais e
mais precisamente” (p.13).
Para essa discussão será também útil dis-
tinguir a ciência básica da aplicada. Tal distin-
ção pode ser feita comportamentalmente em
termos das variáveis que controlam o compor-
tamento do cientista. Na ciência básica o com-
portamento do cientista, amplamente definido,
é controlado pela aquisição de novos conheci-
mentos e pelo desenvolvimento de teorias. O
comportamento do cientista aplicado é simi-
larmente controlado pela aquisição de novos
conhecimentos, mas novos conhecimentos à
medida que estes se relacionam com o impac-
to do conhecimento sobre problemas práticos
(sociais para alguns, como Baer, Wolf, e Risley,
1968), isto é, faz as coisas funcionarem. Como
disse Baer (1991), “algumas disciplinas não se
dedicam a fazer alguma coisa funcionar, mas
sim a notar regularidade, ordem e predições,
enquanto outras dedicam-se a fazer as coisas
funcionarem” (p.429). A adição de controle ao
repertório do cientista aplicado, por meio do
desenvolvimento teórico, obscurece a distin-
ção entre ciência básica e aplicada, mas as va-
riáveis que controlam os dois empreendimen-
tos, aquelas relacionadas com a aquisição de
conhecimento versus aquelas relacionadas com
Os capítulos que compõem este livro ofe-
recem substância para as relações entre os ele-
mentos descritos no título deste primeiro capí-
tulo. Os autores descrevem muitos desenvol-
vimentos na análise experimental de proces-
sos básicos de aprendizagem, e muitos deles
também discutem as implicações de uma com-
preensão desses processos básicos para a reso-
lução de problemas do comportamento huma-
no. A interação entre ciência e tecnologia é
central para o bem-estar da ciência do com-
portamento e da tecnologia que envolve inter-
venções comportamentais planejadas para
melhorar problemas de comportamento. Este
capítulo examina as origens, os pressupostos e
a natureza da interação entre ciência e
tecnologia como um prelúdio para as discus-
sões de tais relações, as quais são desenvolvidas
para áreas específicas e substantivas da análi-
se do comportamento nos capítulos seguintes.
CIÊNCIA BÁSICA, CIÊNCIA APLICADA
E TECNOLOGIA
Uma definição satisfatória e mutuamen-
te acordada de ciência pode ser tão difícil de
se alcançar quanto a de uma série de conceitos
em psicologia, mas é necessária uma definição
como um ponto de partida. A famosa defini-
ção de E. G. Boring de inteligência como “aqui-
lo que os testes de inteligência testam” pode ser
refraseada para definir ciência como “aquilo que
os cientistas fazem”. A partir disso, Skinner
(1953) elaborou a definição de que aquilo que
11
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4415
16 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
a aquisição de conhecimento controlada por
seu impacto em assuntos práticos, ainda dis-
tinguem as duas.
A tecnologia não é controlada por nenhu-
ma dessas variáveis, mas por seu impacto so-
bre problemas práticos. O comportamento do
tecnicista é aquele de adaptação e de aplica-
ção do que é conhecido a partir das ciências
básica e aplicada para resolver problemas prá-
ticos da vida cotidiana, sejam eles construir
uma ponte melhor, ajudar um adulto que atra-
vessa uma crise pessoal ou melhorar a quali-
dade de vida de um adolescente gravemente
retardado. Assim como a distinção entre ciên-
cia básica e aplicada também o é, a distinção
entre ciência aplicada e tecnologia é, algumas
vezes, obscura (cf. Hawkins e Anderson, 2002;
Johnston, 1996).
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO COMO
UMA CIÊNCIA E UMA TECNOLOGIA
A ciência da análise do comportamento
começou com o trabalho de Skinner na déca-
da de 1930 (Skinner, 1956) sobre processos
básicos de aprendizagem. Os métodos de
Skinner encontraram seu espaço na aplicação,
talvez primeiramente na análise experimental
dos efeitos de drogas sobre o comportamento
(Skinner e Heron, 1937) e depois no desen-
volvimento de bombas teleguiadas por pom-
bos para o governo dos Estados Unidos
(Skinner, 1960), mas mais importante, por
meio do que mais tarde tornou-se a análise
comportamental aplicada (ver Ullman e
Krasner, 1965, p. 1-63, para uma revisão his-
tórica). Talvez as mais amplas questões nesses
desenvolvimentos em análise do comportamen-
to tenham sido aquelas referentes a como a
ciência básica, a ciência aplicada e a tecnologia
podem e relacionam-se entre si. Essas questões
têm resultado em um número de revisões úteis
dessas relações. Alguns têm discutido a carac-
terização da análise comportamental aplicada
como uma ciência e uma tecnologia (Hayes,
1978; Epling e Pierce, 1986; Johnston, 1996;
Smith, 1992), outros têm considerado a lacu-
na entre a análise comportamental básica e a
aplicada e sugerido maneiras de eliminá-la
(Baron e Perone, 1982; Hake, 1982; Epling e
Pierce, 1986), e outros ainda têm defendido a
necessidade de considerar as três não em ter-
mos de hierarquia, mas em termos de suas con-
tribuições independentes para a disciplina
(Epling e Pierce, 1986; Hayes, 1978).
A ciência da análise do comportamento é
controlada por variáveis de pelo menos três
fontes: pesquisa empírica passada, teoria e
observações correntes do comportamento. Com
a pesquisa empírica passada e a teoria, o con-
trole é amplamente verbal, visto que estímu-
los tanto escritos quanto orais estabelecem oca-
siões para novas pesquisas. Observações do
comportamento podem ser realizadas tanto no
laboratório quanto em cenários “aplicados”,
tais como clínico e educacional. Essas obser-
vações também incluem o bem conhecido prin-
cípio de “serendipidade” (Bachrach, 1960;
Skinner, 1956), por meio do qual observações
sistemáticas futuras do comportamento são
controladas por observações que desviam do
esperado, isto é, por contingências mais locais
e imediatas em contraste com as contingên-
cias de mais longo termo envolvidas no contro-
le da pesquisa pela teoria ou pela experimenta-
ção prévia.
Um dos objetivos da análise do compor-
tamento como uma ciência é desenvolver prin-
cípios comportamentais gerais que podem ser
aplicados igualmente a humanos e a não-huma-
nos, tanto em laboratório quanto em ambientes
naturais. Hake (1982) propôs que a pesquisa
básica sobre comportamento social e verbal
com humanos poderia servir como uma ponte
entre pesquisa básica com animais não-huma-
nos e a aplicação dos princípios a problemas
de comportamento humano, por exemplo, em
situações clínicas e educacionais. A importân-
cia da pesquisa básica nesses dois tópicos em
relação à aplicação é inquestionável porque
essas características definem partes importan-
tes do ambiente natural dos humanos. O que é
questionável é se elas são uma conexão neces-
sária entre pesquisa básica de laboratório com
animais e trabalho aplicado com humanos.
Hake definiu essa ponte como a extensão dos
princípios comportamentais para novas popu-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4416
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 17
lações e novos padrões de comportamento, e,
nesse sentido, a pesquisa operante básica so-
bre comportamento social e verbal em huma-
nos pode ser considerada uma ponte. Essa ob-
servação não sugere, entretanto, que a pesqui-
sa operante com humanos seja necessária an-
tes da aplicação dos princípios comporta-
mentais a problemas do cotidiano. A história
da análise comportamental aplicada mostra
que o desenvolvimento do trabalho aplicado
não se deu por tal processo de três fases: da
pesquisa operante básica com animais para a
pesquisa operante com humanos e para a apli-
cação. A análise comportamental aplicada de-
senvolveu-se, pelo menos inicialmente, em
função do sucesso da extensão direta dos prin-
cípios comportamentais desenvolvidos com
animais não-humanos, em função da falta de
significativa produção de pesquisa operante bá-
sica com humanos. Uma vez que tanto o com-
portamento social quanto o verbal não são en-
contradosno laboratório animal, tal pesquisa
com humanos parece útil se o interesse é na
melhora de problemas comportamentais que
envolvem esses dois processos. As mesmas fon-
tes de controle na ciência básica operam na
ciência aplicada da análise do comportamen-
to. Embora esta possa estar fundamentada na
ciência básica, ela se desenvolve independen-
temente da ciência básica, uma vez que os pro-
blemas estudados por ela são controlados por
diferentes características do ambiente.
A análise do comportamento funciona
como uma tecnologia de duas maneiras dife-
rentes: aplicando princípios estabelecidos por
meio das pesquisas básica e aplicada para o
melhoramento de problemas de significância
social (Baer et al., 1968) e como uma fonte de
métodos para tornar “observação e mensura-
ção válidas e confiáveis” (Baer, 1991, cf.
Cardwell, 1994, p. 492). É a ênfase na solução
de problemas práticos que tem creditado à
análise do comportamento, dirigida a huma-
nos, sua reputação positiva. Melhoras na vali-
dade e na confiabilidade das observações por
meio do desenvolvimento de tecnologias
observacionais têm, entretanto, contribuído
significativamente para fornecer evidências de
que a análise do comportamento, de fato, fun-
ciona. Além disso, a aplicação de métodos ana-
lítico-comportamentais em áreas diversificadas,
como cognição animal e farmacologia compor-
tamental, tem contribuído imensamente para
o sucesso dessas disciplinas, pelo avanço da
ciência básica associada a cada uma delas.
PRAGMATISMO E PRÁTICA
A análise de comportamento é definida
como uma disciplina pragmática (Moxley,
2001; Baum, 1994), o que significa dizer que
tanto a ciência como a tecnologia da análise
do comportamento têm como critério de ver-
dade de um conceito a utilidade daquele con-
ceito. Na distinção entre pragmática e prática,
Morris (1970) observou que Peirce, quem pri-
meiro descreveu pragmatismo, “preferiu o ter-
mo ‘pragmatismo’ ... [porque] pragmatismo
não estava preocupado com ‘o prático’, nem
mesmo com todos os tipos de ‘prática’, mas com
a maneira como o conhecimento humano ... é
relacionado a ação ou conduta humana” (p. 9-
10). A distinção entre pragmatismo e prática é
importante para discussões das relações entre
ciência básica, ciência aplicada e tecnologia
porque os dois termos, às vezes, são equipara-
dos, com a implicação resultante de que a meta
final da análise do comportamento está em con-
tribuir para a solução de problemas práticos.
Por exemplo, Baer e colaboradores (1968) no-
taram que “behaviorismo e pragmatismo
freqüentemente parecem caminhar lado a lado.
A pesquisa aplicada é eminentemente pragmá-
tica; ela pergunta como conseguir com que um
indivíduo faça algo de maneira eficaz” (p. 93).
O segundo termo é, então, examinado em re-
lação “ao valor de aplicação” e às metas que
são “socialmente importantes” (p. 93). Metas
socialmente importantes certamente podem ser
tanto pragmáticas como práticas, porém nem
todas as metas pragmáticas são práticas. Do
ponto de vista da filosofia pragmática, qual-
quer solução, mesmo aquelas que podem não
satisfazer outros critérios, tais como a aceitabi-
lidade social (sem mencionar a relevância),
pode ser pragmática na medida em que satis-
faça as metas estabelecidas. A pesquisa básica
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4417
18 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
em análise do comportamento é pragmática
sem carregar, com esse rótulo, a necessidade
de ser prática.
O que significa uma disciplina pragmáti-
ca? O pragmatismo veio para a psicologia, e
então para a análise do comportamento, pelos
primeiros trabalhos de James e Dewey que, jun-
tos com Peirce, são considerados os fundado-
res da escola pragmática da filosofia. James e
Dewey rejeitaram a abordagem estruturalista
e seu substrato filosófico racionalista, que de-
finiu o início da psicologia como uma discipli-
na separada da filosofia e da fisiologia. Para
esses três fundadores (Morris, 1970, p. 10):
A ação humana é um tópico de preocupação
central. Esta preocupação, porém, não é com
o “movimento” ou a “atividade” como tal, nem
com os efeitos de idéias sobre a vida humana,
nem com uma teoria completa da natureza
humana; é principalmente focalizada (embo-
ra não exclusivamente) em um aspecto do
comportamento humano: ação inteligente,
que seria o comportamento propositivo ou
dirigido a metas, influenciado por reflexão.
Se o alvo é um assunto teórico ou prático,
o critério pragmático de verdade de utilidade é
definido em termos das metas que são determi-
nadas conforme for mencionado na citação an-
terior. Essa operacionalização de utilidade pa-
rece, a princípio, estar em conflito com uma ci-
ência do comportamento; o próprio Skinner
(1974, p. 55), entretanto, sugeriu que a análise
do comportamento é “o próprio campo do pro-
pósito e da intenção”. Lattal e Laipple (no pre-
lo) descreveram vários modos em que o critério
de verdade de utilidade é incorporado em uma
visão behaviorista de mundo. Pode ser, por
exemplo, considerada uma instância de corres-
pondência entre dizer e fazer (Ribeiro, 1989)
com o estabelecimento da meta e a realização
da meta correspondendo a dizer e a fazer.
RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA BÁSICA,
CIÊNCIA APLICADA E TECNOLOGIA
Tanto a ciência como a tecnologia da aná-
lise do comportamento são controladas por
eventos antecedentes e conseqüentes. Os even-
tos antecedentes incluem desenvolvimentos em
ciência básica, em ciência aplicada e em
tecnologia, e eventos conseqüentes envolvem
a “utilidade” ao longo das linhas do critério
pragmático de verdade de realização de metas
esboçado na seção anterior. A interação entre
esses eventos antecedentes e conseqüentes
constitui um progresso científico e tecnológico.
Moxley (1989) e Neef e Peterson (no pre-
lo) descreveram um modelo interativo, apre-
sentado na Figura 1.1, para enquadrar as rela-
ções entre ciência básica, ciência aplicada e
tecnologia. As atividades no lado esquerdo da
matriz constituem a fonte de informações, isto
é, a condição antecedente, e aquela no topo
da matriz constituiu o receptor ou o beneficiá-
rio das informações. Desse modo, cada ativi-
dade influencia as outras. Os próximos três
itens consideram as implicações de tal confi-
guração para a ciência e para a tecnologia da
análise do comportamento.
A ciência da análise do comportamento
A independência da ciência básica
e da aplicada
As interações mais comuns e influentes
na ciência da análise do comportamento en-
volvem ciência básica para ciência básica e ci-
ência aplicada para ciência aplicada. A análise
do comportamento foi caracterizada como uma
FIGURA 1.1 Uma matriz descrevendo as interações
entre ciência básica, ciência aplicada e tecnologia.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4418
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 19
ciência histórica, visto que práticas atuais e des-
cobertas são construídas a partir de observa-
ções e de experimentações prévias. Este livro
ilustra como o conhecimento atual sobre pro-
cessos e fenômenos comportamentais é o re-
sultado do acúmulo de experimentação, em
que novos experimentos são fundamentados
em experimentos anteriores. As fontes mais
fortes de controle sobre práticas científicas atu-
ais em ciência básica e em ciência aplicada são
os experimentos que as precederam em, na
maioria das vezes, uma área similar ou relacio-
nada. Pode ser só um leve exagero dizer que
muitos, se não a maioria, dos cientistas bási-
cos lêem principalmente o que outros cientis-
tas básicos escrevem. Quer dizer, eles lêem
pouco sobre ciência aplicada ou áreas tecnoló-
gicas de sua disciplina. O mesmo pode ser dito
de cientistas aplicados com respeito à literatu-
ra aplicada. Essa afirmativa é sustentada por
estudos que mostram que as taxas de citações
transversais em artigos de análise do compor-
tamento que aparecem no Journal of the Expe-
rimental Analysis of Behavior e no Journal of
Applied BehaviorAnalysis são, realmente, bas-
tante pequenas (Poling, Alling e Fuqua, 1994).
Uma implicação dessa infreqüente taxa
de citações transversais é que as ciências bási-
cas e as aplicadas da análise de comportamen-
to estão operando de maneira relativamente
independentes entre si. Esse achado não é in-
salubre nem particularmente surpreendente.
A independência entre análise do comporta-
mento básica e aplicada, em termos de pro-
gramas de trabalho de pesquisas e de assuntos
conceituais que comandam a atenção, é um
sinal saudável de crescimento na disciplina
como um todo. Embora a análise do compor-
tamento aplicada derive seus princípios e sua
visão de mundo da ciência básica baseada em
investigações com humanos e com não-huma-
nos dentro da análise experimental do com-
portamento, a análise do comportamento apli-
cada não pode ser estritamente limitada pela
ciência básica em termos tanto dos problemas
que investiga quanto dos métodos que desen-
volve para estudá-los. Ela se fundamenta em
alguns dos assuntos e problemas teóricos deri-
vados da análise do comportamento básica,
entretanto muitos problemas encontrados na
aplicação de princípios do comportamento tam-
bém devem ser tratados. É improvável que a
ciência básica trate esses problemas, colocan-
do, assim, o ônus de investigá-los na análise
do comportamento aplicada. A análise do com-
portamento aplicada não é também limitada
pelos métodos da ciência básica. A importân-
cia dos planejamentos de reversão na ciência
básica é uma parte de quase toda investigação
de um processo básico de aprendizagem. O
procedimento de linha de base múltipla foi de-
senvolvido porque as demandas na condução
de pesquisa em situações naturais algumas
vezes impedem a reversão para a condição de
linha de base. Embora aquele planejamento
seja um “cavalo de força” da análise do com-
portamento aplicada, isto raramente, se algu-
ma vez, foi usado em situações de pesquisa
básica.
Relações interdependentes entre
a ciência básica e a aplicada
Como já foi sugerido, a análise do com-
portamento básica se desenvolveu antes da ci-
ência aplicada e, nesse sentido, a última é uma
descendente linear da primeira. Desse modo,
as ciências básica e aplicada da análise do com-
portamento compartilham uma linhagem co-
mum que inclui uma visão comum de mundo,
uma visão comum das variáveis que determi-
nam o comportamento e os métodos sobrepos-
tos (mas métodos freqüentemente não-idênti-
cos porque os ambientes naturais em que a ci-
ência aplicada muitas vezes ocorre colocam
especial demanda sobre os métodos, deman-
das essas não colocadas sobre pesquisas em
situações de laboratório, como notado anterior-
mente). De forma geral, as ciências básica e
aplicada influenciam fortemente uma a outra.
Mais especificamente, é muito freqüente
o caso em que a pesquisa básica provê o ímpe-
to para a pesquisa aplicada, e muitos têm dis-
cutido que isso deveria ser mais freqüente.
Mace (1994), por exemplo, clamou pelo de-
senvolvimento de pesquisa básica em várias
áreas que ele sugeriu como particularmente
relevantes para a análise do comportamento
aplicada: distribuição de respostas, resistência
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4419
20 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
gia deixar o que se está fazendo e estudar a
nova descoberta. Se tomado muito literalmen-
te, a ciência nunca progrediria porque novas
descobertas definem a atividade. Menos lite-
ralmente, Skinner estava sugerindo que seguir
os dados de maneira indutiva pode ter resulta-
dos recompensadores. Uma maneira de facili-
tar a exposição do cientista para outro tipo de
problema é pedir a ele para relacionar sua pró-
pria pesquisa com outras coisas. Como um bom
exemplo de como isso poderia ser feito, recen-
temente o Journal of Applied Behavior Analysis
tomou a iniciativa criativa de convidar pesqui-
sadores básicos e aplicados para colaborarem
no desenvolvimento de uma revisão de uma
área de análise do comportamento básica com
um olhar nas aplicações de tais pesquisas
(Lattal e Neef, 1996). Desse modo, cientistas
com diferentes focos examinam problemas re-
lacionados a sua própria pesquisa, mas em uma
outra arena.
Ciência e tecnologia
Foram sugeridos dois modelos gerais de
interações entre as ciências, tanto a básica
como a aplicada, e a tecnologia. O mais con-
vencional modelo de progresso da ciência para
a aplicação é um modelo linear. Com esse mo-
delo, desenvolvimentos em ciência básica são
refinados e tornados relevantes por cientistas
aplicados, que, por sua vez, entregam seus pro-
dutos para indivíduos qualificados e bem-trei-
nados para empregá-los como uma tecnologia.
É o caso do modelo de progressão da física e
da química para a engenharia e, então, para a
construção ou produção. O segundo modelo é
parte do que foi descrito previamente como um
modelo interativo em que ciência e tecnologia
influenciam-se mutuamente. Ainda existe o mo-
vimento da ciência básica e da aplicada para a
aplicação, mas os movimentos reversos também
são reconhecidos (cf. Cardwell, 1994).
O modelo linear tem sido apresentado
como uma justificativa para a pesquisa básica,
como a fundação da tecnologia moderna. Como
tal, às vezes é visto como o modo ideal para
maximizar ganhos a partir do conhecimento
científico. Segundo esse modelo, a ciência bá-
à mudança, contracontrole, formação e dife-
renciação/discriminação de classes de estímu-
los e de respostas, análise de comportamento
de taxa baixa e comportamento governado por
regra.
Ocasionalmente, a relação inversa tam-
bém ocorre. Dois exemplos ilustram o movi-
mento de pesquisa aplicada para pesquisa bá-
sica. Às vezes, a pesquisa aplicada influencia a
pesquisa básica quando uma pesquisa sobre um
problema aplicado revela uma anomalia ou um
resultado inesperado que não é intuitivo a par-
tir do que é conhecido na ciência básica. Como
um exemplo simples, em meu próprio labora-
tório, há vários estudos aplicados que demons-
tram que usando dois tipos diferentes de re-
compensas para a mesma tarefa, brinquedos e
M&M (pastilhas de chocolate), por exemplo,
ocorre um melhor desempenho do que quando
utilizado um ou outro tipo de recompensa in-
dividualmente. Não é óbvio por que isso deve-
ria acontecer, e agora estamos estudando o
problema, usando ratos como sujeitos e pelotas
de comida e leite condensado como reforça-
dores. Outras vezes, modelos de laboratório,
com humanos ou não-humanos, são construí-
dos a partir da ciência básica para estudar fe-
nômenos de interesse para a ciência aplicada
sob condições mais controladas, mas mais im-
portante em termos da discussão presente,
permitir que o fenômeno aplicado seja mais
sistematicamente relacionado aos processos
comportamentais básicos. Lattal (2001) tem
discutido a natureza da extensão dos princí-
pios de um lado para outro entre a ciência
básica e a aplicada dentro da análise do com-
portamento.
As pesquisas básica e aplicada parecem
mutuamente importantes uma para a outra
como uma fonte de novas idéias e soluções de
problemas práticos, mas a dificuldade está em
encontrar formas para pesquisadores básicos e
aplicados deixarem o que estão fazendo e es-
tudar em alguma outra coisa, presumivelmen-
te por causa das contingências que operam para
manter suas atividades presentes. O problema
é o controle do comportamento, neste caso,
do comportamento científico. Skinner (1956)
observou que, quando alguém descobre algo
interessante algumas vezes é uma boa estraté-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4420
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 21
sica tem fornecido a base necessária para a apli-
cação tecnológica de tal forma que se torna
simplesmente uma questão de adaptar o prin-
cípio científico para algum problema prático.
Embora isso freqüentemente seja verdade, não
é sempre o caso, e contra-exemplos trazem à
discussão a generalidade do modelo.
Em sua análise de revoluções científicas,Kuhn (1971) notou que a ciência é perita em
esconder conflitos, especialmente conflitos te-
óricos. Sua posição é que a ciência normal even-
tualmente permite falhas no paradigma sob o
qual ela é conduzida. As falhas são escondidas
ou ignoradas até que um paradigma novo e
melhorado apareça. Então, a história do pro-
blema é reescrita de tal maneira que as incon-
sistências anteriores são encobertas, e a ciên-
cia é apresentada como um acúmulo gradual e
fluente de conhecimento. Essas mesmas idéias
podem ser aplicadas à relação entre ciência e
tecnologia. Moxley (1989) ofereceu o exem-
plo de como o uso de laranjas e limões se de-
senvolveu em um tratamento para o escorbuto.
A descoberta científica dos mecanismos
freqüentemente é retratada como a razão para
a prática (Skinner, 1987), o que se constitui
em um exemplo clássico do modelo linear.
Comer frutas como um tratamento para aque-
le flagelo do serviço naval, o escorbuto, po-
rém, era parte da medicina popular pelo me-
nos por 400 anos antes de ser descoberto que
o escorbuto era o resultado de uma falta de
vitamina C na dieta. Moxley sugeriu que a
tecnologia de comer frutas para prevenir o
escorbuto não foi causalmente ligada à desco-
berta dos mecanismos no final dos anos 1700.
Ele notou que (1989, p. 49):
A história da cura para o escorbuto não é a
história do atraso lento entre uma descoberta
científica inicial e sua aplicação prática. Ao
invés disso, é a história de quanto tempo pode
levar antes que alguma adventícia aplicação
prática bem-sucedida possa ser cientificamen-
te explicada.
O modelo interativo oferece uma visão
relacionada, mas mais completa, da relação
entre a ciência e a tecnologia, levando em conta
os círculos de retroalimentação entre a tecnolo-
gia e as ciências a partir das quais elas se de-
senvolvem. Mesmo dentro de um modelo in-
terativo, a tecnologia é mais freqüentemente
influenciada pela ciência aplicada porque as
aplicações são mais diretas desta para a outra.
Em muitos casos, entretanto, a aplicação
tecnológica é suficientemente direta, de for-
ma que pesquisa aplicada adicional não é ne-
cessária, ou pode ser adiada até que a aplicação
direta da pesquisa básica seja tentada.
Qual a contribuição da
ciência para a tecnologia?
A ciência contribuiu mais freqüentemente
com as matérias-primas das quais a tecnologia
é construída, e esta parte da relação segue o
modelo linear de ciência para tecnologia, pre-
viamente discutido. As tecnologias da análise
do comportamento, por exemplo, foram inicial-
mente construídas sobre os fundamentos
conceituais e experimentais do trabalho de
Skinner, como já notado. O modelo linear não
dá conta, porém, de todas as instâncias de
tecnologia porque algumas tecnologias desen-
volvem-se em resposta direta às contingências
naturais locais sem que, necessariamente, exis-
ta uma ciência básica como pré-requisito. A
roda, a escrita e o desenvolvimento do ferro
podem ser exemplos de tais respostas diretas.
Thomas Edison, o “mago do Parque Menlo”
como era chamado, era um dos inventores mais
prolíferos e bem-sucedidos entre aqueles rei-
vindicados pelos Estados Unidos, mas ele
não tinha nada a ver com a compreensão cien-
tífica de mecanismos. Seu único interesse era
inventar “coisas úteis”. É claro, pode ser argu-
mentado que as matérias-primas das quais ele
construiu suas invenções eram, de fato, um
produto das ciências do seu tempo. Além dis-
so, o trabalho de Edison, e de outros invento-
res, poderia ter prosseguido de maneira mais
eficaz se tivesse a ciência básica provido uma
fundação mais formal. Nikola Tesla, o princi-
pal competidor de Edison e de igual inventi-
vidade, nascido na Croácia, disse sobre Edison
(White, 2002, p. 132):
Se ele tivesse de achar uma agulha em um
palheiro, ele procederia com a diligência da
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4421
22 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
abelha para examinar palha após palha até
encontrar o objeto de sua procura. Eu fui uma
testemunha penosa de tais ações, sabendo que
um pouco de teoria e de cálculo teria econo-
mizado 90% de seu trabalho.
Aqueles que aplicam a tecnologia prova-
velmente têm uma interação direta, relativa-
mente pequena, tanto com a ciência básica
como com a aplicada, mas suas informações
sobre os desenvolvimentos nessas áreas e as
implicações de tais desenvolvimentos para a
prática podem vir daqueles envolvidos tanto
em uma como em outra ciência. Tais informa-
ções são destiladas para algo facilmente apli-
cado e apresentadas em foros tais como semi-
nários, documentação escrita e apresentações
em conferências.
Qual a contribuição da tecnologia
para a ciência?
A ciência também fornece à tecnologia
muitos problemas práticos que ela, a ciência,
precisa que sejam resolvidos para os avanços
adicionais e, diretamente ao ponto desta sub-
seção, a tecnologia retroalimenta a ciência com
muitas das ferramentas que esta precisa de-
senvolver e que, de outra maneira, não se-
ria possível. O fornecimento dessas ferramen-
tas tem um impacto que vai além do propósito
original de seu desenvolvimento. Embora fer-
ramentas sejam criadas em resposta a certas
demandas específicas do ambiente, uma vez
que uma ferramenta torna-se disponível pode
ser disponibilizada para muitos outros usos.
Um desses usos é a expansão da ciência básica
até mesmo em outras direções daquela permi-
tida pela ferramenta original. Avanços tecno-
lógicos, tal como um novo modo de medir uma
resposta difícil ou um novo teste estatístico,
desenvolvido para um determinado propósito,
podem ter uma larga aplicação para outros
problemas da ciência básica e da aplicada.
Desse modo, por exemplo, o desenvolvimento
de uma tecnologia para a análise funcional de
comportamentos-problema de crianças com
atraso de desenvolvimento tem provado ser va-
lioso para um amplo espectro de problemas e
de ambientes.
 Existe um problema potencial de circu-
laridade no fato de que a tecnologia retroali-
menta a ciência básica da qual ela deriva. A
circularidade é quebrada em parte porque a
tecnologia importada de volta para a ciência
é baseada em outras facetas da ciência em
questão, ou porque a tecnologia pode ser im-
portada de outra disciplina (isto é, tecnologia
computacional no caso da ciência da análise
do comportamento). O importante papel da
tecnologia em desenvolvimento científico pa-
rece ser contrário a um modelo estritamente
linear de desenvolvimento científico para apli-
cação porque ele não permite que a tecnologia
retroalimente a ciência e, assim, altere o cur-
so da ciência.
A tecnologia pode sustentar-se sozinha?
O bloco restante da matriz na Figura 1.1
é aquele em que tecnologia é tanto a fonte
quanto o recipiente, gerando a pergunta no tí-
tulo desta subseção. Somente de modo limita-
do pode a tecnologia sustentar-se. Algumas
vezes, ela fornece soluções locais, circunscri-
tas a problemas que surgem em situações es-
pecíficas; mas existem pelo menos três proble-
mas com tecnologia alimentando tecnologia,
talvez especialmente em psicologia. O primei-
ro é que na ausência de qualquer avaliação e
modificação resultante dessa avaliação, tais in-
tervenções psicológicas tecnologicamente
dirigidas tornam-se nada mais do que psicolo-
gia popular, um tipo de alquimia psicológica
em que cada praticante procura seu próprio
caminho de acordo com suas próprias regras,
nenhum dos quais necessariamente concordan-
do com as regras dos outros. Como os limões,
no caso dos marinheiros britânicos, tais inter-
venções podem funcionar, mas sua aplicação
pode ser limitada e ineficiente sem uma com-
preensão do mecanismo que uma análise cien-
tífica permitiria. Tais soluções estritamente
tecnológicas freqüentemente levam a aborda-
gens de pacotes para problemas em que várias
coisas são tentadas de uma vez e, se efetivo, o
pacote permanece o tratamento de escolha, em-
bora só um ou dois elementos possam ser res-
ponsáveispelos efeitos. O segundo problema
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4422
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 23
é relacionado ao primeiro. Quando um pacote
tecnológico não funciona como devia, a me-
nos que os próximos passos sejam articulados,
para o técnico não é claro qual a próxima coi-
sa a ser feita. Desse modo, por exemplo, se re-
compensar algum comportamento alternativo
apropriado de um adolescente com atraso de
desenvolvimento não aumenta a freqüência
daquele comportamento, a solução estritamen-
te técnica de recompensar um comportamen-
to apropriado não sugere qual o próximo pas-
so em direção a aumentar o comportamento-
alvo. Em parte, isso é um problema do quão
específica a tecnologia é, mas quando aplica-
ções tecnológicas começam a incorporar a no-
ção de teorias ou princípios gerais, a distinção
entre tecnologia e ciência é obscurecida. Em
parte, porque não se espera que técnicos sai-
bam os princípios científicos subjacentes; a
menos que se utilizem métodos precisos para
manter a tecnologia como planejada para ser
aplicada, a aplicação da tecnologia pode mu-
dar da sua forma pretendida originalmente.
Essa mudança tecnológica constitui o terceiro
problema da tecnologia servindo tanto como
fonte quanto como recipiente. Particularmen-
te em psicologia, em que muito da tecnologia
envolve pessoas que se comportam de deter-
minadas maneiras, na ausência das condições
originais, o comportamento das pessoas des-
loca-se de seu treinamento original quando
contingências mais locais, nem sempre consis-
tentes com as metas de longo prazo da inter-
venção, entram em jogo. Pennypacker (1986),
por exemplo, descreveu os problemas de trans-
ferência de tecnologia com respeito a manter
um programa de treinamento para ensinar mu-
lheres a realizar auto-exame de mamas como
uma intervenção de prevenção ao câncer.
Trazendo, para a análise do comportamento,
elementos de outras disciplinas
Desde o início, a psicologia, em geral, e a
análise de comportamento, em particular, têm
utilizado idéias de outras disciplinas. A psico-
logia propriamente é uma disciplina híbrida,
tendo surgido de um “casamento” peculiar en-
tre a filosofia e a fisiologia. Sendo assim, des-
de o início a psicologia tem abstraído idéias e
tecnologias de outros universos de discurso.
Idéias filosóficas, como operacionismo, o prag-
matismo, o selecionismo e outras, abundam na
teoria analítico-comportamental moderna tan-
to “básica” como “aplicada”. Muitos dos pro-
blemas científicos mais amplos da psicologia
desenvolveram-se de antigos problemas trata-
dos por filósofos e fisiologistas. Semelhante-
mente, pesquisas básicas em análise do com-
portamento sobre questões como a natureza
de reforço e punição (Dinsmoor, 2001), a con-
dição da força da resposta, as variáveis deter-
minantes da escolha e a natureza da equiva-
lência de estímulos (Sidman, 1986) refletem
questões antigas tanto da psicologia como de
outras disciplinas, como a lógica, a matemáti-
ca e a fisiologia.
Existe uma diferença importante entre a
influência de dados de outras disciplinas e a
incorporação de outras visões de mundo na
metateoria analítico-comportamental. Por
exemplo, um assunto um pouco preocupante
tem sido a relação entre a análise do compor-
tamento e a fisiologia. Schaal (no prelo) no-
tou um número de benefícios derivados da in-
clusão de dados fisiológicos na análise do com-
portamento predominante, mas Reese (1996)
sugeriu que a análise do comportamento não
tem nenhuma obrigação de fazer tal inclusão.
Na verdade, Reese discute que fazê-lo pode
obscurecer a distinção entre as duas e custar
à análise do comportamento um pouco de sua
condição como uma disciplina independente.
Trazer a pesquisa e a teoria de outras discipli-
nas é, porém, tanto inevitável quanto pode
ser altamente útil em expandir o âmbito da
análise do comportamento. Dependendo de
como a mistura é feita, a visão de mundo não
precisa ser necessariamente comprometida.
Por exemplo, Branch (1984) examinou os
modos em que o estudo de ações de drogas
poderia expandir o entendimento dos meca-
nismos tanto das drogas quanto do compor-
tamento. Sua sugestão é que um contribui
para o entendimento do outro, uma posição
diferente daquela de outros que simplesmen-
te usam os métodos da análise do comporta-
mento como uma tecnologia para estudar a
ação de drogas.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4423
24 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
Tomar elementos de outras disciplinas
não é, claramente, limitado a assuntos
conceituais e teóricos. Thompson (1984) no-
tou as estranhas semelhanças entre os méto-
dos da fisiologia experimental descritos no sé-
culo XIX por Bernard (1865/1957) e os méto-
dos contemporâneos da análise experimental
do comportamento. Realmente, um dos mais
importantes instrumentos de pesquisa de
Skinner, o registro cumulativo, evoluiu do
quimógrafo, uma invenção do fisiologista ex-
perimental alemão, Karl Ludwig. Skinner re-
formou o registro cumulativo durante a maior
parte de sua carreira de pesquisador, modifi-
cando e melhorando as versões antigas até
desaparecer, junto com o tambor de memória,
na era da mais versátil tecnologia adotada e
adaptada, o computador digital.
SELECIONISMO, CIÊNCIA
E TECNOLOGIA
O selecionismo tem sido sugerido como
um modelo para evolução orgânica e também
para mudanças ontogenéticas e culturais
(Skinner, 1981). Reconhecendo a análise de
Skinner como um importante componente da
cultura humana, ciência e tecnologia estão,
desse modo, sujeitas aos mesmos princípios de
variação e de seleção que qualquer outra prá-
tica cultural. Petroski (1992) ilustrou a aplica-
ção de um modelo selecionista para entender
a evolução da tecnologia diária na forma de
objetos úteis, como lápis e clipes para papel.
Um quadro de referência selecionista começa
com a variação, porque sem variação não exis-
te nada a ser selecionado por processos natu-
rais. A variação, desse modo, é um elemento
crítico na evolução contínua das práticas cul-
turais de ciência e de tecnologia.
Uma vantagem de conceitualizar a rela-
ção entre a ciência e a tecnologia em termos
do modelo interativo mostrado na Figura 1.1
é que ela representa uma descrição mais am-
pla das fontes de variação nas relações entre
ciência básica, ciência aplicada e tecnologia.
Vários autores têm assinalado a falta de comu-
nicação entre as psicologias operante e não-
operante (Krantz, 1971), entre a análise do
comportamento básica e a aplicada (Poling et
al., 1994) e entre os pesquisadores que traba-
lham com humanos e os que trabalham com-
não-humanos dentro da ciência básica da aná-
lise do comportamento (Perone, 1985). Exis-
tem razões práticas e científicas razoáveis para
tais comunicações restritas, como foi notado
anteriormente neste capítulo. Mas, do ponto
de vista de um selecionista, um sistema muito
fechado é desvantajoso porque limita a maté-
ria-prima sobre a qual a seleção pode agir. Cada
uma dessas fontes é uma fonte potencial de
variação em idéias para o desenvolvimento de
outras que não estão sendo otimizadas.
Outras fontes de variação também podem
contribuir para a evolução contínua da ciência
e da tecnologia da análise do comportamento.
As muitas outras áreas de ciência e de tecno-
logia psicológicas servem para essa função, as-
sim como ocorre com o constante influxo de
jovens cientistas e de técnicos em análise do
comportamento. Kuhn (1971) notou que as
mudanças dentro daquela disciplina freqüen-
temente são provocadas por uma pessoa nova
na disciplina, por uma pessoa jovem ou alguém
mais velho, mas com treinamento diferencia-
do que só agora está entrando na disciplina.
Dentro da disciplina, pesquisadores básicos
considerando problemas aplicados e pesquisa-
dores aplicados considerando problemas bási-
cos semelhantemente podem introduzir varia-
ções saudáveis para as áreas nas quais eles não
trabalharam antes.A variação não é menos
importante para os diferentes empenhos da
análise do comportamento do que é para os
pássaros e para as abelhas.
CONCLUSÃO
Que relações existem entre a ciência bá-
sica, a ciência aplicada e a tecnologia da análi-
se do comportamento? A tecnologia depende
das ciências básica e aplicada, mas de outra
forma também as retroalimenta, provendo mui-
tas das ferramentas para o crescimento e o
desenvolvimento futuros.
As ciências básica e aplicada da análise
do comportamento não podem operar de ma-
neira totalmente independente uma da outra,
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4424
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 25
pois cada uma é controlada por um conjunto
de assuntos e de circunstâncias único em seus
ambientes naturais. Elas dependem uma da
outra para idéias e como um meio de exami-
nar a confiabilidade, a validade e a generali-
dade dos processos e dos mecanismos compor-
tamentais que estão sob investigação. Cada
uma dessas áreas da análise do comportamen-
to também é enriquecida por pesquisas e in-
formações técnicas de outras áreas da psicolo-
gia e também de outras ciências. A interação
de todos esses elementos provê fontes ricas de
variação das quais o ambiente natural pode
selecionar as práticas que definirão a análise
do comportamento no futuro.
NOTA DO AUTOR
Uma versão deste capítulo foi apresenta-
da em um colóquio na Universidade de Brasília,
em janeiro de 2003, como parte das comemo-
rações do quadragésimo aniversário do Insti-
tuto de Psicologia. Agradeço a Lincoln Gimenes
pelos úteis comentários sobre a versão inicial
e pela tradução do capítulo para a língua por-
tuguesa.
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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 27
OPERAÇÕES ESTABELECEDORAS:
UM CONCEITO DE MOTIVAÇÃO
RACHEL NUNES DA CUNHA
GEISON ISIDRO-MARINHO
apresentar ambigüidades pelas várias acepções
do verbete na língua portuguesa. O dicionário
eletrônico do Instituto Antônio Houaiss (2001)
da língua portuguesa traz o verbete motivação
como um substantivo feminino, e na acepção
de “ato ou efeito de motivar”, o verbete é defi-
nido em termos jurídico, lingüístico e semió-
tico e psicológico. Na rubrica da psicologia,
apresenta como significado um “conjunto de
processos que dão ao comportamento uma in-
tensidade, uma direção determinada e uma
forma de desenvolvimentopróprias da ativi-
dade individual”. Tal definição é apresentada
no referido dicionário como:
1. motivação altruísta, aquela “que
considera ou favorece o bem-estar
de outrem”;
2. motivação de eficácia, aquela rela-
cionada à competência (capacida-
de). O dicionário indica como sinô-
nimo e variantes a consulta do ver-
bete “causa”.
Douglas Mook, em seu livro Motivation –
The organization of action (edição de 1987), pre-
ocupa-se com a forma como as diferentes abor-
dagens do conceito de motivação têm sido apre-
sentadas. Refere-se, por exemplo, às controvér-
sias e às questões teóricas que, às vezes, são apre-
sentadas uma em oposição à outra, a exemplo
de impulsos versus instintos (padrões-fixos-de-
ação), impulso animal versus teorias cognitivas,
pesquisa com humanos versus com organismos
não-humanos. Para Mook, esse modo de com-
2
O emprego do conceito de motivação
como termo técnico da psicologia requer pre-
cisão seja qual for o referencial teórico e meto-
dológico utilizado, de modo a dirimir a ambi-
güidade que o termo encerra na linguagem
coloquial.
Historicamente, as variáveis motivacio-
nais têm sido consideradas como determinan-
tes da ação humana, aspecto que manteve o
conceito de motivação como um tópico vigen-
te na psicologia. O que torna esse tema fasci-
nante e desafiador para os psicólogos é com-
preender a que esse conceito se refere no am-
plo arcabouço teórico, conceitual e metodoló-
gico da psicologia. A questão fundamental está
no tratamento e na descrição das variáveis
controladoras do comportamento. Análises so-
bre o papel da motivação na explicação do com-
portamento têm conduzido a várias concepções
teóricas e metodológicas que refletem os es-
forços da psicologia para elucidar uma pergun-
ta básica: por que os homens comportam-se
da maneira como o fazem? O estudo do tópico
de motivação nos conduz à discussão sobre a
natureza das variáveis motivacionais que têm
sido caracterizadas tanto como processos in-
ternos quanto como eventos do ambiente ex-
terno. Essas diferenças ocorrem porque a psi-
cologia apresenta diversidades na definição de
seu objeto de estudo, de sua metodologia e de
seus pressupostos epistemológicos. Para os ana-
listas do comportamento, as variáveis motiva-
cionais são variáveis ambientais.
Um fator complicador é que “motivação”,
como um termo da linguagem coloquial, pode
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4427
28 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
paração pode levar-nos a negligenciar algumas
possibilidades de interface que, por exemplo, as
pesquisas com organismos não-humanos e hu-
manos têm, como nos tópicos sobre fome, sede,
afeiçoamento ou simpatia e desamparo. Não
podemos negar essas divergências e devemos
ter o cuidado para não pôr uma teoria contra
outra, porque poderemos cometer erros de na-
tureza lógica, epistemológica e conceitual. Tal-
vez o maior equívoco seja perder as possibilida-
des de interface entre diferentes concepções que
podem proporcionar uma visão nova ou um me-
lhoramento – ou maior esclarecimento – do con-
ceito de motivação com todo o rigor que a pes-
quisa exige para descaracterizar o uso coloqui-
al do termo motivação.
O conceito de motivação passou por vá-
rias acepções ao longo do tempo – tais como
instinto, impulso e a retomada do conceito de
instinto pelos etologistas –, mas, sem dúvida al-
guma o termo impulso foi o que teve maior im-
pacto. Esse impacto é refletido, por exemplo,
na postura dos analistas do comportamento ao
definir o conceito de motivação sem fazer refe-
rência ao termo impulso, de modo a dissipar a
base mentalista ou organísmica que o termo
recebeu dos behavioristas metodológicos, como,
por exemplo, Clark Hull (1884-1952).
Quando o conceito de impulso tinha um
status fortemente mentalista ou organísmico,
Skinner, em seu livro publicado em 1938, The
behavior of organisms – An experimental
analysis, dedicou dois capítulos a este concei-
to (Capítulo 9 – “Drive” e Capítulo 10 – “Drive
and conditioning: The interactions of two va-
riables”), nos quais fornece uma abordagem
essencialmente objetiva sobre o tópico. Segun-
do Skinner, o problema que temos com o con-
ceito de impulso é a natureza causal de proprie-
dades internas que foi atribuída a essa variá-
vel. Skinner (1938, 1953/2000) trata a moti-
vação em termos de operações de privação,
saciação e estimulação aversiva, enfatizando
essas operações como variáveis ambientais
controladoras do comportamento.
Skinner (1938, 1953/2000), posterior-
mente Keller e Schoenfeld (1950/1974),
Millenson (1967) e Millenson e Leslie (1979)
referem-se ao termo impulso como um evento
do meio ambiente, ou seja, como a descrição
de uma operação que pode ser executada so-
bre o organismo (p. ex.: privá-lo de alimento,
aumentar a temperatura do ambiente acima
das condições adequadas de adaptação e con-
forto). Verificamos, portanto, que a questão
crucial que gera as divergências na definição
do termo motivação está na concepção da cau-
salidade do comportamento dos organismos.
Skinner (1953/2000, p. 24) abordou os ter-
mos causa e efeito em ciência a partir de uma
relação funcional, uma causa foi definida como
“uma mudança em uma variável independen-
te” e um efeito foi definido como “uma mu-
dança em uma variável dependente”. Dessa
forma, para ele, a relação de “causa e efeito”
foi transformada em uma relação funcional.
Para descrever uma relação funcional entre o
organismo e o ambiente, Skinner desenvolveu
um instrumento conceitual que se tornou a fer-
ramenta básica do analista do comportamen-
to: as contingências de reforço.
Para garantir a especificidade de um ter-
mo, na acepção psicológica faz-se necessário
um conjunto de ferramentas intelectuais e ex-
perimentais, constituído de conceitos básicos
e de princípios que norteiem uma análise sis-
temática e funcional do comportamento. Essa
exigência está presente na abordagem analíti-
co-comportamental do conceito de motivação,
denominada de Operações Estabelecedoras.
OPERAÇÕES ESTABELECEDORAS
O termo operações estabelecedoras, como
um conceito de motivação, será abordado, con-
siderando os aspectos históricos, metodológicos
e teóricos das pesquisas básica e aplicada.
Considerações históricas
Keller e Schoenfeld (1950/1974) enfati-
zaram a necessidade de se conceituar a mo-
tivação como variáveis ambientais controla-
doras do comportamento de forma a evitar o
conceito de impulso como variável interna, con-
forme defendido pelos behavioristas metodo-
lógicos, e de acordo com o empreendimento
científico de Skinner denominado de Análise
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4428
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 29
Experimental do Comportamento. Keller e
Schoenfeld chamavam a atenção dos analistas
do comportamento para outros eventos
ambientais, além dos eventos reforçadores, ao
se fazer uma análise de contingências. O as-
pecto ressaltado nessa advertência refere-se ao
fato de que para um objeto funcionar eficaz-
mente como reforçador, faz-se necessário que
um outro evento ambiental estabeleça sua efi-
cácia. Assim, Keller e Schoenfeld introduziram
o conceito de operação estabelecedora para
identificar esses eventos ambientais e demons-
trar sua função motivacional.
Ao empregarem o termo operação estabe-
lecedora (primeiro uso do termo) para definir
a motivação na abordagem analítico-compor-
tamental, Keller e Schoenfeld (1950/1974)
demonstraram que podemos tratar a variável
motivacional como uma variável independen-
te, que pode ser manipulada de maneira expe-
rimental. Definir motivação como operações
estabelecedoras implica poder executar certas
operações sobre o organismo (p. ex.: privá-lo
de alimento), as quais têm como efeitos uma
mudança momentânea da efetividade de um
evento como reforçador e uma mudança mo-
mentânea da freqüência de qualquer compor-
tamento que tenha sido seguido por esse evento
reforçador.
Kellere Schoenfeld (1950/1974) preocu-
param-se em definir o termo impulso não como
estímulo nem como resposta, usando-o como
um recurso de linguagem para descrever um
conjunto de relações. Por exemplo, impulso não
poderia ser confundido com estímulos inter-
nos (câimbras estomacais que acompanham a
privação de alimento). Esses estímulos são
discriminativos para a resposta verbal “tenho
fome” (operante verbal – tato). O impulso tam-
bém não poderia ser confundido com uma res-
posta produzida pela operação de privação, por
exemplo, o comportamento de comprar um
lanche. Para Keller e Schoenfeld, o impulso
seria mais adequadamente definido como um
conjunto de relações entre o organismo e o am-
biente – operações estabelecedoras.
Ao lidar com o conceito de motivação,
Millenson (1967) e Millenson e Leslie (1979)
também enfatizaram o papel das variáveis
ambientais. Para eles, a motivação correspon-
deria a operações de impulso, as quais teriam
a função de alterar o valor dos reforçadores.
Esses autores classificaram em dois tipos as
operações de impulso: “(1) uma [operação]
que tem a função de reduzir ou eliminar o va-
lor reforçador (saciação) e (2) outra que tra-
balha para aumentar o valor dos reforçadores
(privação)” (Millenson, 1967, p. 366).
Preocupado também com a precisão dos
conceitos e com a forma de enunciar relações
funcionais que abrangem interações do indiví-
duo com o ambiente, Michael (1982, 1993)
retomou o conceito de operação estabelece-
dora, proposto por Keller e Schoenfeld (1950/
1974), para definir motivação na análise do
comportamento. Em sua análise, Michael
incluiu as variáveis motivacionais aprendidas
que não foram explicitamente tratadas por
Skinner (1938, 1953/2000), Keller e Schoen-
feld (1950/1974), Millenson (1967) e Millenson
e Leslie (1979), os quais se limitaram a discutir
as variáveis motivacionais filogeneticamente
determinadas (da Cunha, 1993). Michael fez
uma importante contribuição para a análise do
comportamento, ao estabelecer um novo ins-
trumento conceitual e metodológico, caracte-
rizado como operações estabelecedoras apren-
didas, com implicações para as pesquisas bási-
ca e aplicada (da Cunha, 1993, 1995; Iwata,
Smith, e Michael, 2000; Sundberg, 1993).
Skinner não utilizou o termo operação
estabelecedora para tratar do conceito de mo-
tivação, tratando-o em termos de privação/
saciação e estimulação aversiva. Por outro lado,
pode-se dizer que Skinner (1938, 1953/2000),
Keller e Schoenfeld (1950/1974), Millenson
(1967) e Millenson e Leslie (1979) deram o
mesmo tratamento para as variáveis motivacio-
nais como controladoras do comportamento,
ou seja, as variáveis motivacionais foram tra-
tadas como variáveis ambientais (da Cunha,
1993, 1995, 2000).
Definição
Michael (1993) define uma operação
estabelecedora como uma variável ambiental
em função de seus dois principais efeitos, de-
nominados de efeito estabelecedor do reforço
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4429
30 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
e efeito evocativo. O efeito estabelecedor do
reforço é caracterizado pela alteração momen-
tânea da efetividade reforçadora de algum
objeto, evento ou estímulo; o efeito evocativo,
por sua vez, é caracterizado pela alteração
momentânea da freqüência de um tipo de com-
portamento que tem sido reforçado por aquele
objeto, evento ou estímulo. É importante en-
fatizar que a definição do conceito é feita a
partir dos efeitos que a variável motivacional
exerce sobre o comportamento do organis-
mo (da Cunha, 1993, 1995, 2002; Keller e
Schoenfeld, 1950/1974; Michael, 1993, 2000).
Uma operação estabelecedora é um
evento ambiental que está correlacionado
filogenética e ontogeneticamente com a efi-
cácia do reforço ou da punição e que evoca
ou suprime um tipo de comportamento que
tenha sido reforçado ou punido por esse even-
to (privação ou saciação são exemplos de ope-
rações estabelecedoras). Skinner (1953/
2000) cita alguns exemplos de efeitos sobre o
comportamento exercidos por essas operações
estabelecedoras: (a) restringindo-se a ingestão
de água (privação), pode-se aumentar a pro-
babilidade de uma criança beber leite; (b) ser-
vindo-se grandes quantidades de pão de boa
qualidade antes do jantar (saciação), pode-se
diminuir a probabilidade de um cliente recla-
mar da pequena quantidade de comida servi-
da no jantar.
Refinamento do conceito
de operações estabelecedoras
Michael (1982) tratou o conceito de mo-
tivação como estímulo estabelecedor (SE), o
qual teria a função de modificar a efetividade
de um outro estímulo como reforçador e de
evocar um tipo de comportamento que tenha
sido reforçado por aquele estímulo. Em 1993,
o termo estímulo estabelecedor foi substituído
pelo termo operação estabelecedora como uma
forma genérica de se referir à variável motiva-
cional. A partir da classificação de dois tipos
de operações estabelecedoras e da efetivação
de uma taxonomia comportamental, Michael
sistematizou o conceito de motivação.
As operações estabelecedoras de privação
e saciação trabalham em direções opostas. A
privação de algum objeto implica um período
de tempo de acesso restrito a esse objeto, seja
ele alimento, água ou qualquer outra condi-
ção de estímulo, como, por exemplo, interações
sociais. Entretanto as operações ambientais que
trabalham na direção oposta da privação po-
dem variar para um ou outro estímulo e, as-
sim, o termo saciação pode não ser útil. Por-
tanto, Michael (2000) propõe um refinamen-
to conceitual da terminologia motivação, intro-
duzindo o termo operações abolidoras para
fazer referência àquelas operações ambientais
que suprimem a efetividade de um evento
reforçador e a ocorrência de comportamentos
que tenham sido reforçados por esse evento
reforçador.
Classificação
Michael (1993) propôs a classificação
das operações estabelecedoras em duas cate-
gorias:
Operações estabelecedoras incondicionadas
São de origem filogenética e variam de
espécie para espécie. Os efeitos de alteração
da eficácia do reforço que esse tipo de opera-
ção estabelecedora produz abrangem eventos
ou estímulos reforçadores incondicionados, por
isso Michael denominou essas operações de
operações estabelecedoras incondicionadas.
Nascemos com a capacidade de termos nossos
comportamentos reforçáveis por alimentos ou
pela cessação ou redução de estímulos aver-
sivos, sendo que determinados aspectos do
ambiente podem aumentar ou reduzir a eficá-
cia desses reforços. Embora esses reforços se-
jam incondicionados, o comportamento evo-
cado por uma operação estabelecedora incon-
dicionada (verificado pelo efeito evocativo) é
sempre aprendido. Por exemplo, a privação de
água torna a água mais efetiva como forma de
reforçador para os mamíferos, como resultado
dessa operação, sem que haja história de apren-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4430
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 31
dizagem. Porém o repertório comportamental
para adquirir água é sempre aprendido por
esses organismos.
A seguir, apresentamos exemplos de ope-
rações estabelecedoras incondicionadas e seus
respectivos efeitos:
1. Saciação de alimento. Esta operação
tem como efeito estabelecedor do re-
forço a diminuição, momentânea, da
eficácia do alimento como reforça-
dor e, como efeito evocativo, a di-
minuição, momentânea, da freqüên-
cia de qualquer tipo de comporta-
mento que tenha sido reforçado por
algum alimento. Por exemplo, em
uma refeição, comer do prato prin-
cipal até a saciação pode diminuir a
eficácia reforçadora da sobremesa e
suprimir a freqüência do comporta-
mento de consumo desta.
2. Privação de alimento. Esta operação
tem como efeito estabelecedor do re-
forço, o aumento momentâneo da
eficácia do alimento como evento
reforçador, e seu efeito evocativo é
demonstrado pelo aumento, tam-
bém momentâneo, de qualquer tipo
de comportamento que tenha sido
reforçado por alimento. Privando
um indivíduo de alimento,por
exemplo, pode-se alterar a eficácia
reforçadora do alimento e aumen-
tar a freqüência do comportamento
de preparar um lanche.
3. Aumento da temperatura. Esta ope-
ração quando está acima do nível
normal das condições de adaptação
e de conforto tem como efeito esta-
belecedor do reforço a diminuição
do nível da temperatura como um
evento reforçador eficaz. O efeito
evocativo é verificado pelo aumen-
to momentâneo da freqüência de
qualquer comportamento que tenha
sido reforçado pela diminuição do
nível da temperatura. Um exemplo
seria ligar o ventilador em um dia
de calor insuportável.
4. Diminuição da temperatura. Esta
operação quando está abaixo do ní-
vel normal das condições de adap-
tação e de conforto tem como efeito
estabelecedor do reforço o aumen-
to do nível da temperatura como um
evento reforçador eficaz. O efeito
evocativo é verificado pelo aumen-
to momentâneo da freqüência de
qualquer comportamento que tenha
sido reforçado pelo aumento do ní-
vel da temperatura (p. ex.: ligar o
ar quente do carro na presença de
uma temperatura muito baixa).
5. Estimulação dolorosa. Esta operação
tem como efeito estabelecedor do re-
forço o aumento da eficácia momen-
tânea da cessação ou da remoção do
estímulo doloroso, e o efeito evoca-
tivo é demonstrado pelo aumento
momentâneo de qualquer tipo de
comportamento que tenha sido re-
forçado pela cessação ou pela remo-
ção da estimulação dolorosa (p. ex.:
tomar um analgésico em função de
uma forte dor de cabeça).
Michael (1993) identificou nove tipos
de operações estabelecedoras incondicio-
nadas, a saber: estimulação dolorosa; dimi-
nuição da temperatura abaixo das condições
de adaptação e de conforto, aumento da tem-
peratura acima das condições de adaptação
e de conforto; variáveis relacionadas ao
reforçamento do comportamento sexual. Os
outros cinco tipos de operações estão relaci-
onados às operações de privação e de
saciação de água, de alimento, de oxigênio,
de atividade e de sono.
Operações estabelecedoras condicionadas
São de origem ontogenética e, portanto,
relacionadas à história de reforçamento de cada
organismo. A distinção entre as operações
estabelecedoras incondicionadas e as condi-
cionadas é feita com base no efeito estabe-
lecedor do reforço, pois o evento reforçador
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4431
32 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
pode ser inato ou aprendido. No que concerne
às operações estabelecedoras condicionadas,
elas têm recebido maior atenção dos pesquisa-
dores na tarefa de demonstração empírica e
foram classificadas por Michael (1993) em três
tipos:
1. Operação estabelecedora condiciona-
da substituta. Esta operação refere-
se a uma relação simples, envolven-
do uma correlação temporal de um
evento, previamente neutro, que sis-
tematicamente antecede uma ope-
ração estabelecedora incondiciona-
da ou condicionada e, como resul-
tado desse emparelhamento, aque-
le evento neutro adquire a caracte-
rística motivacional da operação
estabelecedora com a qual fora em-
parelhado (adquire suas funções
evocativas e funções de estabeleci-
mento do valor do reforço). Por
exemplo, ao emparelhar uma luz
(estímulo neutro para a função moti-
vacional) com a redução de tempe-
ratura (operação estabelecedora
incondicionada), seria esperado que
a luz adquirisse não só as funções
respondentes (eliciadoras) ou refor-
çadoras/punitivas, como também as
funções motivacionais da redução
da temperatura. A presença dessa
luz deveria estabelecer o aumento
da temperatura como uma forma efi-
caz de reforçamento e evocar qual-
quer tipo de comportamento que
tenha sido reforçado pelo aumento
da temperatura.
2. Operação estabelecedora condiciona-
da reflexiva. Esta envolve uma rela-
ção mais complexa em que um even-
to ou estímulo sistematicamente
precede alguma forma de estimu-
lação aversiva e, se esse estímulo é
removido antes da ocorrência da
estimulação aversiva, a estimulação
aversiva deixa de ocorrer. Os proce-
dimentos de esquiva sinalizada são
exemplos desse tipo de operação
estabelecedora. De acordo com
Michael (1993), o evento ou estímu-
lo sinalizador da esquiva funciona
como uma variável motivacional do
tipo condicionada reflexiva, e não
como um estímulo discriminativo,
como enfatiza a literatura sobre es-
quiva sinalizada (ver o Capítulo 7
para uma discussão detalhada do
papel do estímulo sinal na esquiva).
A denominação condicionada refle-
xiva para esse tipo de operação deve-
se ao fato de que o próprio estímulo
antecedente motivacional adquire a
capacidade de estabelecer sua pró-
pria remoção como uma forma efe-
tiva de reforçador condicionado e
evoca qualquer tipo de comporta-
mento que tenha produzido a su-
pressão desse estímulo reforçador
condicionado. Por exemplo, a luz do
painel de um automóvel que indica
a quantidade de combustível dispo-
nível no tanque possui as proprie-
dades motivacionais de uma opera-
ção estabelecedora condicionada re-
flexiva. Essa luz acesa, aviso de que
o combustível está na reserva, esta-
belece a sua remoção como uma for-
ma de reforço efetivo, pois sua pre-
sença esteve pareada com a aversivi-
dade de ter o automóvel sem gaso-
lina. Além disso, evoca o comporta-
mento de abastecer o carro, o qual
tem sido reforçado pela remoção da
luz acesa.
3. Operação estabelecedora condiciona-
da transitiva. Esta operação é a rela-
ção mais complexa e foi relacionada
por Michael (1993) com o conceito
de reforçador condicionado condi-
cional. A efetividade de muitas
formas de reforçadores positivos
condicionados podem depender de
uma condição de estímulo antece-
dente (operação estabelecedora con-
dicionada transitiva), na qual esses
reforçadores positivos condiciona-
dos tiveram sua eficácia estabele-
cida. O estabelecimento da eficácia
desses reforçadores depende de uma
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4432
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 33
história individual do organismo.
Por exemplo, um aparelho de tele-
fone público é ocasião para o com-
portamento de fazer uma ligação te-
lefônica. Porém, em relação ao car-
tão telefônico, o aparelho funciona
como uma operação estabelecedora
condicionada transitiva porque es-
tabelece o cartão como uma forma
efetiva de reforço e evoca o compor-
tamento de procurá-lo na carteira.
A demonstração empírica desse tipo
de operação estabelecedora tem re-
cebido atenção de alguns pesqui-
sadores com trabalhos publicados
(McPherson e Osborne, 1968; 1988)
e de outros pesquisadores com tra-
balhos não-publicados (McPherson,
Trapp e Osborne, 1984; Osborne e
Mcpherson, 1986; Alling, 1990; da
Cunha, 1993 – estes dois últimos
citados em da Cunha, 1995). Essas
demonstrações empíricas têm uti-
lizado pombos como sujeitos expe-
rimentais e têm, de certa forma, de-
monstrado, com algum sucesso, o
desenvolvimento de procedimentos
experimentais para investigar ope-
rações estabelecedoras condiciona-
das transitivas como uma variável
ambiental e uma variável motiva-
cional controladora do comporta-
mento. Nesses procedimentos têm
sido difícil distinguir a função moti-
vacional de um evento ambiental (a
suposta operação estabelecedora
condicionada transitiva) de sua
função discriminativa, caracterizan-
do assim, como aspecto fundamen-
tal dessa linha de pesquisa, o de-
senvolvimento de procedimentos
que nos permitam demostrar empi-
ricamente essa distinção. Surge, as-
sim, uma nova área de investiga-
ção na análise experimental do
comportamento que possibilita aos
analistas do comportamento estu-
dar a motivação como uma variá-
vel independente e não apenas
contextual (da Cunha, 1993; 1995;
2000; Iwata, Smith e Michael,
2000; Sundberg, 1993).
Relação entre os conceitos de operação
estabelecedora (OE) e de estímulo
discriminativo (SD)
Os conceitos de operação estabelecedora
e de estímulo discriminativo estão relaciona-
dos, pois ambos são eventosantecedentes ao
comportamento e têm, de forma diferenciada,
implicações com a conseqüência. A análise fun-
cional do comportamento tem sido, geralmen-
te, realizada com ênfase no SD e, conseqüente-
mente, a unidade de análise utilizada tem sido
a contingência de três termos. Para se fazer
uma análise funcional mais adequada do com-
portamento, considerando as funções motiva-
cionais e discriminativas dos estímulos ante-
cedentes, faz-se necessário incluir a OE como
um quarto elemento da contingência. A inclu-
são de mais um termo na relação de contin-
gência implica a necessidade de distinção das
funções discriminativa e motivacional do estí-
mulo antecedente. Nesse sentido, o conceito
de SD é fundamental para a compreensão e para
a demonstração empírica do conceito de OE.
Os estímulos discriminativos são, em ge-
ral, denominados como sinais ou pistas para
uma determinada ação, à medida que sinali-
zam as ocasiões em que as respostas terão cer-
tas conseqüências e, portanto, ocasionam com-
portamento. O conceito de SD tem sido cor-
relacionado às condições antecedentes que são
ocasião para a resposta levando-se em consi-
deração apenas a condição em que uma dada
resposta será reforçada. Michael (1982), en-
tretanto, retoma o conceito de SD enfatizando
as suas duas condições de estímulo: uma con-
dição de estímulo SD, em que, dada a efetivi-
dade de um evento como reforçador, a ocor-
rência de um determinado comportamento será
seguida pelo reforço; e uma condição de estí-
mulo SΔ, em que, dada a efetividade daquele
evento reforçador, a ocorrência desse mesmo
comportamento não será reforçada. Isto é, o
conceito de SD envolve uma história específica
de treino discriminativo com duas condições
de estímulos antecedentes relacionadas à dis-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4433
34 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
ponibilidade diferencial de reforçamento
(Michael, 1993). Como resultado do treino
discriminativo, o SD evoca um dado comporta-
mento com uma história de reforçamento dian-
te desse estímulo, enquanto o SΔ não evoca o
mesmo comportamento. Em resumo, o SD apre-
senta uma função evocativa sobre o comporta-
mento devido a uma história de correlação tem-
poral com o reforço.
Em uma dada situação experimental, por
exemplo, a função evocativa do SD pode ser cla-
ramente observada. Em uma caixa operante,
equipada com uma barra, um bebedouro e uma
lâmpada localizada acima da barra, um rato
privado de água é submetido ao treino discri-
minativo. Quando a lâmpada acima da barra
está acesa (presença de luz), as respostas de
pressão à barra são seguidas por água como
reforço. Por outro lado, quando a lâmpada está
apagada (ausência de luz), nenhuma conse-
qüência é dada ao mesmo comportamento do
animal. Após algumas exposições a essas con-
dições, o rato exibe o comportamento de pres-
são à barra apenas na presença da luz. Diante
da luz como condição de estímulo SD, o com-
portamento de pressão à barra é reforçado e,
portanto, quando a luz está presente o com-
portamento é evocado. Diante da ausência de
luz (condição de estímulo SΔ), o comportamen-
to de pressão à barra não é exibido, pois não
há uma história de reforçamento por água nes-
sa condição.
O conceito de OE, no entanto, está rela-
cionado à efetividade do evento reforçador.
Para Michael (1993), a OE como condição de
estímulo antecedente altera momentaneamen-
te a efetividade de um reforço e evoca com-
portamentos relacionados historicamente com
esse reforço. A privação de água, por exemplo,
altera a efetividade reforçadora da água, e qual-
quer comportamento que a produza é fortale-
cido. Na situação experimental anteriormente
citada, a privação alterou o valor da água como
reforço, que ao seguir o comportamento de
pressão à barra passou a selecioná-lo. Por ou-
tro lado, além de estabelecer o valor do refor-
ço, a OE evoca o comportamento de pressão à
barra, pois há uma relação histórica entre aque-
le comportamento e o reforço, cuja efetividade
é estabelecida pela privação.
Semelhantemente ao SD, a OE possui a
função evocativa do comportamento, que, por
vezes, é confundida com a função evocativa
do SD. O que diferencia as referidas condições
de estímulo antecedente é a função estabele-
cedora do reforço, a qual é apresentada so-
mente pela OE. Essa função é imprescindível
para que, em um treino discriminativo, o SD
adquira a função evocativa. No exemplo an-
terior, o controle discriminativo só foi possí-
vel porque havia um reforço efetivo – água –
e assim o comportamento de discriminar en-
tre a ausência e a presença de luz foi observa-
do. Nesse sentido, pode-se verificar que a OE
aumentou a efetividade evocativa do SD, o
que, para Michael (1993), seria um terceiro
efeito da OE.
A privação como OE tem uma função
motivacional, e a presença da luz (SD) tem uma
função discriminativa. Em situações labora-
toriais, a clareza na distinção da OE e do SD
requer mais estudos empíricos. Em situações
aplicadas, essa distinção é obscurecida, algu-
mas vezes, por variáveis como, por exemplo, a
história de vida particular do organismo. Con-
siderar a história do organismo é considerar
as relações das quais resultam as operações
estabelecedoras condicionadas (OEC). Diante
dessas condições, a distinção de uma OEC e
um SD pode tornar-se difícil.
No seguinte contexto aplicado, por exem-
plo, qual seria a função antecedente de um
pneu furado de um automóvel para o compor-
tamento de trocá-lo ou de procurar por uma
borracharia? Em um primeiro momento, pode-
se considerar essa condição de estímulo como
sendo SD, pois é a ocasião para trocar o pneu
pelo estepe. Entretanto o pneu furado altera a
efetividade reforçadora do estepe e de todos
os objetos (ferramentas) relacionados com a
ação de trocar o pneu, bem como de qualquer
placa de sinalização que indique a presença de
borracharia – função motivacional. Nesse caso,
o pneu furado funciona como uma operação
estabelecedora condicionada transitiva que es-
tabelece o valor reforçador condicionado de
alguns estímulos. A consideração precipitada
apenas da função evocativa do pneu furado
implicaria o equívoco de deixar de lado a fun-
ção motivacional que essa condição de estímulo
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4434
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 35
tem sobre a definição de certos objetos como
reforçadores.
Outro exemplo a ser considerado na dis-
tinção da OE e do SD consiste nos procedimen-
tos de esquiva sinalizada. Um rato na caixa
experimental recebe choques (Ss aversivos) em
um intervalo de tempo variável de um minuto
(VT 1 min). Antes da apresentação de cada cho-
que, um som é apresentado. Ao pressionar a
barra, o animal interrompe a apresentação do
som e do choque. No entanto, se a pressão à
barra ocorrer na presença do som apenas, essa
resposta pode prevenir a apresentação do estí-
mulo aversivo (choque). Nesse procedimento,
o som e o choque são considerados operações
estabelecedoras reflexivas condicionada e
incondicionada, respectivamente, e não estí-
mulos discriminativos (Michael, 1993).
O som, ao ser apresentado junto com o
choque, adquire as funções necessárias para
que sua presença evoque respostas de evi-
tação. Para ser considerado um SD, a situação
experimental deveria possuir uma condição
de estímulo análoga à condição SΔ. Na pre-
sença do som, a resposta de esquiva é evocada,
pois há uma conseqüência reforçadora ime-
diata – a eliminação do som. Supondo um
paralelo com a situação de SΔ, a ausência do
som impossibilita o reforçamento negativo por
sua própria remoção – “a efetividade do re-
forçador negativo depende diretamente da
presença do estímulo aversivo condicionado”
(Miguel, 2000, p. 262), ou seja, depende da
presença do som. O mesmo ocorre na situa-
ção de fuga do choque em que o reforçador
negativo só se torna efetivo quando o choque
está presente. Na ausência do estímulo aver-
sivo (supostoSΔ), não há reforço negativo,
portanto não há reforço efetivo. Nesse senti-
do, o choque não é um SD. Tanto o som quan-
to o choque estabelecem sua própria remo-
ção como formas de reforço efetivo e evocam
comportamentos que tenham uma relação
histórica com esses reforços e, assim sendo,
devem ser identificados como OEs.
Paralelamente à situação experimental,
no contexto aplicado, a distinção entre SD e
OE em situações de esquiva também é possí-
vel. Nos Transtornos de Ansiedade, como o
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), por
exemplo, observa-se uma pessoa emitir inúme-
ras vezes uma série de comportamentos com
função de esquiva, como lavar as mãos, o veri-
ficar o fechamento do registro do botijão de
gás e conferir o fechamento de portas e de ja-
nelas. As condições dos estímulos anteceden-
tes a esses comportamentos (p. ex.: mãos su-
jas ou algum tempo sem contato com água e
sabão, registro de gás aberto, portas e janelas
abertas ou destrancadas ou qualquer outra
condição relacionada ao comportamento ob-
sessivo) não são SD para as respostas ditas com-
pulsivas. Essas condições de estímulo são ope-
rações estabelecedoras condicionadas reflexi-
vas que estabelecem a efetividade reforçadora
das conseqüências do comportamento compul-
sivo, semelhantemente à presença do som ou
do choque, nas condições laboratoriais. Nesse
caso, supor uma situação análoga à condição
de SΔ é tão inviável quanto na situação experi-
mental anteriormente descrita.
Em resumo, o SD apresenta uma função,
a função evocativa do comportamento ou
discriminativa – na presença do estímulo
discriminativo há o aumento na probabilida-
de de ocorrência do comportamento por cau-
sa de uma história de correlação entre a con-
dição de SD e o reforçamento, e entre a con-
dição de SΔ e o não-reforçamento. Por outro
lado, conforme indicado por Michael (1993),
a OE apresenta quatro diferentes efeitos co-
muns relacionados à função motivacional.
São eles:
1. Efeito estabelecedor do reforço: uma
OE aumenta momentaneamente a
efetividade reforçadora/punidora
de um estímulo. A privação de água
torna a água um evento reforçador
eficaz.
2. Efeito evocativo/supressivo direto
da OE sobre o comportamento: evo-
cação/supressão imediata da OE
sobre os comportamentos que te-
nham uma relação histórica com o
reforçador/punidor cuja efetividade
fora alterada em (1). A privação de
água evoca o comportamento de
pressão à barra que tem sido histo-
ricamente reforçado por água.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4435
36 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
3. Efeito da OE sobre a efetividade
evocativa/supressiva do SD: aumen-
to na efetividade evocativa/supres-
siva dos estímulos discriminativos
correlacionados com o reforçador/
punidor em (1). No treino discri-
minativo, a privação de água au-
menta a efetividade evocativa da luz
como SD, pois a luz tem uma corre-
lação com a água.
4. Efeito da OE sobre o reforçamento/
punição condicionado: aumento da
efetividade reforçadora/punidora
de reforçadores/punidores condi-
cionados cuja efetividade depende
de (1). Na seguinte cadeia compor-
tamental – um som – puxar a cor-
rente → luz → pressionar a barra →
água–, o som aumenta a efetivida-
de da luz como reforço condicio-
nado, que tem uma relação históri-
ca com água (reforçador incondicio-
nado) e o som também evoca o com-
portamento de puxar a corrente, de-
vido a relação dessa resposta com
um reforço efetivo (luz).
Contribuições da pesquisa básica
Da Cunha (1993) identificou e classifi-
cou os primeiros procedimentos experimentais
para investigar os efeitos de operações estabe-
lecedoras, realizados no laboratório animal,
enfatizando as operações estabelecedoras con-
dicionadas transitivas. Entre eles temos os apre-
sentados a seguir.
Procedimento de três discos
McPherson e Osborne (1986, 1988) uti-
lizaram um procedimento de tentativa discre-
ta com três discos de respostas para pombos.
Ao início de cada tentativa, o disco da direita
era iluminado. A primeira resposta nesse dis-
co tinha como conseqüência a iluminação do
disco central. Uma vez iluminado o disco cen-
tral, bicadas no disco da direita não tinham
conseqüências. O disco da esquerda era ilumi-
nado em função de um esquema VT. Quando o
disco da esquerda estava iluminado, uma res-
posta no disco central era reforçada por ali-
mento. Respostas adicionais de bicar o disco
central não tinham conseqüências programa-
das. O término de cada tentativa ocorria com
o acesso ao alimento, que era seguido por um
intervalo entre tentativas (ITI). Durante o ITI,
todos os discos permaneciam escuros.
O reforço para a resposta de bicar o disco
da direita foi a iluminação do disco central (um
reforço condicionado, estabelecido por sua re-
lação com o alimento). O estímulo anteceden-
te à resposta de bicar o disco da direita foi a
iluminação do disco da esquerda (suposta OEC
transitiva). Quando o disco da esquerda não
estava iluminado, bicar o disco da direita não
estabelecia o valor da iluminação do disco cen-
tral como reforçador. De acordo com a con-
cepção teórica de Michael (1982, 1993), a ilu-
minação do disco da esquerda deveria funcio-
nar como uma OEC transitiva, por estabelecer
a iluminação do disco central com uma forma
efetiva de reforçador condicionado (efeito
estabelecedor do reforço) e evocar a resposta
de bicar o disco da direita (efeito evocativo).
A efetividade reforçadora do disco central es-
tava condicionada à iluminação do disco da
esquerda. Um efeito eficaz da operação estabe-
lecedora deveria produzir um desempenho que
consistia em esperar a iluminação do disco da
esquerda, então, bicar o disco da direita, cuja
conseqüência imediata era a iluminação do
disco central e, finalmente, bicar o disco cen-
tral, que resultava em alimento.
McPherson e Osborne (1986) verificaram
que o controle não foi evidente depois de 60
ou mais sessões. Apenas um entre quatro pom-
bos demonstrou o desempenho previsto. No se-
gundo estudo (McPherson e Osborne, 1988)
alterou-se o tempo de iluminação dos discos
do centro e da esquerda, visando a um maior
controle dos estímulos antecedentes. Quando
o disco da esquerda era iluminado, em média
12 s depois da iluminação do disco central, o
controle pela OEC (iluminação do disco da es-
querda) sobre a resposta no disco da direita
foi, em geral, muito fraco.
Os experimentos de McPherson e Osborne
(1986, 1988) trouxeram contribuições para o
início das pesquisas experimentais sobre o con-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4436
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 37
ceito de operações estabelecedoras, pois foram
analisadas as dificuldades que o procedimen-
to de três chaves apresentava. Entre essas difi-
culdades, há a possibilidade de que as contin-
gências nos três discos permitam uma inter-
pretação de automodelagem de alguns aspec-
tos do desempenho, porque as respostas de
bicar os discos da direita e do centro foram
automodeladas e, uma vez que esses discos fo-
ram iluminados, assim permaneciam até o tér-
mino da tentativa. Outro fator que talvez te-
nha dificultado a demonstração empírica dos
efeitos da OE foi o fato de a iluminação do dis-
co central (reforço condicionado para a res-
posta do disco da direita) permanecer até a
obtenção do alimento. Essa situação poderia
reduzir o contato com tentativas sem uso do
disco central quando o disco da esquerda esta-
va escuro. Se a iluminação do disco central fos-
se estabelecida em alguns segundos, seria pos-
sível um maior controle da função motivacional
do disco da esquerda. Essa característica do pro-
cedimento também fez com que a suposta OEC
funcionasse como um estímulo discriminativo
para bicar o disco central quando o mesmo es-
tava iluminado antes da condição de OEC.
Procedimento de pedal-e-disco
Alling (1990) utilizou um procedimento
com topografias de respostas diferentes. A res-
posta de pressionar um pedal produziaum re-
forço condicionado, e a resposta de bicar um
disco produzia um reforço incondicionado. Esse
procedimento consistia em uma cadeia de duas
respostas: a resposta de pressionar o pedal
produzia a mudança da cor da luz acima do
pedal – de branca para vermelha – (reforço
condicionado), e a resposta de bicar o disco
produzia 3 s de ração para pombos (reforço
incondicionado). Uma única resposta no pe-
dal tinha como conseqüência a apresentação
do reforço condicionado por 5 s (luz do pe-
dal). Uma única resposta no disco da esquer-
da, na presença da luz vermelha (luz do pe-
dal), produzia alimento por 5 s, dependendo
da condição da iluminação da câmara experi-
mental que deveria funcionar como a suposta
OEC transitiva para a resposta de pressionar o
pedal. A luz da câmara apagada foi definida
como ausência da OE. Quatro pombos foram
distribuídos em dois grupos a fim de balance-
ar as condições experimentais: para o Grupo
1, a presença de luz ambiente funcionava como
presença da OEC, e sua ausência funcionava
como ausência da OEC; para o Grupo 2, as
condições experimentais foram invertidas.
Cada tentativa experimental começava com a
condição de não-OEC, sendo a condição de
OEC gerada com base em um esquema de VT
60 s. Quando a condição de OEC começava,
ela permanecia em efeito até a obtenção de
alimento.
O desempenho esperado era não pressio-
nar o pedal até que a condição de OEC (luz
ambiente acesa ou apagada, dependendo do
grupo) estivesse presente, então, a resposta no
pedal produziria a mudança de cor da luz do
pedal de branca para vermelha e, se em 5 s o
pombo bicasse o disco da esquerda, essa res-
posta seria seguida por 3 s de acesso ao ali-
mento. Todos os quatro pombos desenvolve-
ram o desempenho previsto (em 90% ou mais
das tentativas verificou-se que a resposta no
pedal ocorria na presença da suposta condi-
ção de OEC). Na segunda fase – o teste – re-
moveu-se a conseqüência para a resposta no
pedal, de modo que a luz branca estava sem-
pre presente (luz do pedal). Como resultado
dessa mudança, esperava-se que ocorresse a
quebra na cadeia comportamental, o que não
foi observado. A luz da câmara experimental
pode ter funcionado como um estímulo
discriminativo e não como uma OEC para a
resposta no pedal. Supõe-se que a cadeia de
duas respostas tenha funcionado como um
único bloco de resposta, pois um esquema de
razão fixa (FR 1) controlava a resposta de pres-
sionar o pedal e, provavelmente, a resposta no
disco estivesse mais sob o controle da luz da
câmara experimental do que da luz produzida
pela resposta no pedal. Outro aspecto que pode
ter contribuído para esse resultado foi o uso
de dois estímulos visuais, pois a condição de
iluminação (luz/escuro) poderia criar condi-
ções de estímulos diferentes quando a luz do
pedal estivesse branca ou vermelha. Por exem-
plo, a luz vermelha acima do pedal poderia ser
caracterizada como uma condição de estímulo
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4437
38 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
diferente se a câmara operante estivesse ilu-
minada ou escura. A terceira fase consistiu em
retomar as condições experimentais da primei-
ra fase para se verificar a recuperação da res-
posta sob as duas condições experimentais.
Como resultados dessa fase, os quatro pombos
retomaram a resposta no pedal na presença da
OEC em 90% ou mais das tentativas.
Para dar continuidade aos estudos expe-
rimentais de OECs transitivas, da Cunha (1993)
utilizou um esquema de razão variável (VR 6)
para controlar a resposta de pressionar o pe-
dal que produzia a mudança da luz do pedal
(de branca para vermelha) por 5 s. Um estí-
mulo auditivo funcionava como a suposta OEC
(um som tipo bip), cuja apresentação foi con-
trolada por um esquema de tempo randômico
(RT 1 min). Quatro pombos foram distribuí-
dos em dois grupos: para um grupo, a presen-
ça do som era a suposta OEC e, para o outro,
sua ausência era a suposta OEC; seus opostos
estabeleciam a condição de não-OEC.
A medida comportamental dos estudos
anteriores foi o percentual de tentativas sem
erro (McPherson e Osborne, 1986, 1988;
Alling, 1990). Da Cunha (1993) verificou que
a taxa de respostas era uma medida mais sen-
sível do que a percentagem de tentativas sem
erro ao introduzir um esquema de reforçamen-
to intermitente para a resposta de pressionar
o pedal. Para todos os sujeitos, verificou-se ni-
tidamente que a taxa de respostas de pressão
ao pedal na condição de OEC foi maior do que
na condição de não-OEC. A taxa de respostas
de pressão ao pedal na presença da suposta
OEC variou de 24 a 27 resp/min, enquanto a
taxa de respostas de pressão ao pedal na au-
sência da suposta OEC variou de 2 a 8 resp/
min, considerando os dados dos quatro sujei-
tos. A segunda fase teve como objetivo testar o
controle da suposta variável motivacional, re-
movendo o evento reforçador condicionado da
resposta de pressão ao pedal (luz vermelha do
pedal). Esperava-se uma deterioração da ca-
deia comportamental durante a fase de teste,
sendo esse resultado observado apenas para
dois dos quatro pombos. Os demais sujeitos
desenvolveram um padrão de pressionar o pe-
dal várias vezes e, então, bicar o disco. A ter-
ceira fase do procedimento consistia na reto-
mada da Fase 1. Algumas falhas nesse proce-
dimento também foram observadas; por exem-
plo, não havia uma contingência punitiva para
as respostas de mudança do pedal para o dis-
co. Verificou-se que os dois sujeitos que manti-
veram a resposta no pedal depois da remoção
do reforçador condicionado tiveram, aciden-
talmente, as respostas de mudança reforçadas.
Observou-se, também, que o decréscimo da
taxa de respostas na condição de não-OEC po-
deria ter sido mascarado pelo efeito da extinção
presente nessa mesma condição.
Esses estudos contribuíram com sugestões
para refinamentos de delineamentos experi-
mentais e têm reafirmado a importância da dis-
tinção dos controles discriminativo e motiva-
cional dos estímulos antecedentes para se de-
monstrar com clareza os efeitos de uma ope-
ração estabelecedora.
Contribuições da pesquisa aplicada
Segundo Sundberg (1993), o conceito de
OE é útil e relevante para a análise funcional
do comportamento, permitindo que a interven-
ção dos analistas do comportamento seja mais
efetiva. A OE exerce um importante papel na
relação de contingência, uma vez que estabe-
lece a efetividade da conseqüência. É sabido
dos analistas do comportamento que a relação
de contingência (antecedente – comportamen-
to – conseqüência) é fortalecida quando uma
conseqüência reforçadora efetiva é apresenta-
da ao comportamento. A efetividade dessa con-
seqüência é alterada pela OE que estabelece o
valor do reforço e evoca comportamentos re-
lacionados historicamente com esse reforço. As
conseqüências terão efeitos sobre o comporta-
mento somente se forem efetivas como reforça-
dores ou punidores, cabendo à OE estabelecer
essa efetividade; portanto, é de fundamental
importância considerar a inclusão da OE como
mais um elemento da relação de contingência.
Como veremos, a pesquisa aplicada tem muito
a dizer sobre a relevância do conceito.
Na tentativa de explicar tanto a ocorrên-
cia de comportamentos quanto a efetividade
das conseqüências que os mantém, analistas
do comportamento vêm, cada vez mais, incluin-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4438
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 39
do o conceito de OE na unidade de análise fun-
cional. Um exemplo disso é a publicação de
um volume do Journal of Applied Behavior
Analysis (JABA) inteiramente dedicado a dis-
cussões sobre operações estabelecedoras na
análise aplicada do comportamento (JABA,
2000, 33 [4]).
Para estimular pesquisas sobre o tema,
Iwata e colaboradores (2000) sugerem três
grandes temas de pesquisa para a avaliação das
influências da OE sobre o comportamento em
contextos aplicados:
a) demonstrações gerais das influências
da OEsobre o comportamento;
b) uso da manipulação da OE para clari-
ficar os resultados de avaliações
comportamentais;
c) tentativa de melhorar o repertório
comportamental do sujeito pela incor-
poração de manipulações da OE como
componente do tratamento.
Friman (2000) apresenta uma demons-
tração de que objetos chamados de transacio-
nais – objetos que facilitam a transição de crian-
ças jovens de uma fase de dependência para
autonomia – podem ocasionar comportamen-
tos que sugerem a participação de uma OE. O
autor observou uma criança com o comporta-
mento de chupar o dedo, sob duas condições:
em uma condição, a criança estava no berço
sozinha (ausência de estimulação social) e, na
outra, ela estava no colo de um adulto (pre-
sença de estimulação social). Nessas condições,
o comportamento de chupar o dedo foi obser-
vado em sessões de linha de base (ausência de
um pedaço de pano) e sessões de teste (pre-
sença de um pedaço de pano). Os resultados
mostraram que o comportamento de chupar o
dedo na presença do pedaço de pano ocorria
mais freqüentemente quando a criança estava
no berço do que quando estava no colo. Du-
rante a linha de base, nas duas condições de
estimulação a percentagem de intervalos de
chupar o dedo foi zero. A presença do pedaço
de pano pode ter funcionado como uma OE
para o comportamento de chupar o dedo, uma
vez que esse objeto poderia ter alterado a
efetividade reforçadora da conseqüência des-
se comportamento. Friman discute que a efeti-
vidade reforçadora dessa conseqüência possa
ter ocorrido em função de uma OEC (pedaço
pano), pois o processo pelo qual o objeto al-
tera a efetividade reforçadora de chupar o
dedo, mesmo sendo desconhecido, parece ser
aprendido.
McCommas, Hoch, Paone e El-Roy (2000)
indicaram que exigências ambientais poderi-
am funcionar como operações estabelecedoras
que evocavam comportamentos agressivos,
autolesivos e perturbadores, reforçados nega-
tivamente, em crianças com diagnóstico de
deficiências intelectuais. Essas exigências
envolviam a realização de tarefas acadêmicas
difíceis, repetitivas ou em uma seqüência de-
terminada por um adulto. A manipulação expe-
rimental consistiu na presença e na ausência
da suposta OE com três crianças. A primeira
criança, que apresentava dificuldade em ope-
rações matemáticas, foi exposta às seguintes
condições:
a) disponibilidade de uma folha de pa-
pel com as contas a serem realizadas;
b) disponibilidade de uma folha de pa-
pel com as contas, incluindo um ábaco
e uma calculadora.
A segunda criança foi exposta a estas con-
dições:
a) realização de tarefas repetitivas;
b) realização de tarefas não-repetitivas.
A terceira criança foi exposta às seguin-
tes condições:
a) escolha por um adulto da seqüência
de tarefas acadêmicas;
b) escolha pela criança da seqüência de
tarefas.
Os resultados mostraram que a maneira
como as tarefas acadêmicas foram exigidas fun-
cionou como operação estabelecedora. Diante
da segunda condição, os comportamentos-pro-
blema não foram observados, sendo essa con-
dição favorável à emissão de comportamentos
acadêmicos mais adequados.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4439
40 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
A intervenção do analista do comporta-
mento com o objetivo de reduzir a ocorrência
de comportamentos inadequados mantidos
por reforçamento negativo torna-se efetiva
quando o conceito de operação estabelecedora
é utilizado. Smith e Iwata (1997) discutiriam
que comportamentos estereotipados e auto-
lesivos são padrões comportamentais que po-
dem ser controlados pela remoção de exigên-
cias sociais. A exigência social funciona como
uma operação estabelecedora que determina
sua própria remoção como uma forma efetiva
de reforço (OEC reflexiva). A dificuldade de
uma tarefa, a complexidade do comportamen-
to exigido para essa tarefa e a imprevi-
sibilidade de eventos ambientais são exem-
plos de exigências sociais. Uma primeira es-
tratégia para a redução de comportamentos
estereotipados e autolesivos evocados nessas
situações seria a mudança das exigências
ambientais para condições de menor aversi-
vidade (apresentação de tarefas mais simples,
por exemplo). Uma segunda estratégia seria
o uso do esquema de reforço diferencial de
outros comportamentos (DRO). O terapeuta
pode reforçar os comportamentos mais ade-
quados e submeter os comportamentos este-
reotipados e autolesivos à extinção. Por exem-
plo, permitir a fuga de uma exigência social
diante de uma solicitação verbal e não diante
de um comportamento autolesivo. Uma ter-
ceira estratégia seria utilizar esquemas de
reforçamento independente da resposta (p.
ex.: os estudos de Durand e Crimmins, 1988;
McGill, 1999).
Durand e Crimmins (1988) e McGill
(1999) sugerem que comportamentos-proble-
ma mantidos por atenção, em geral são apre-
sentados em ambientes caracterizados pela
escassez de contato social. A carência produzi-
da por um ambiente com essa natureza pode
ser considerada uma operação estabelecedora
que torna a atenção um reforço efetivo. Se, no
passado, a autolesão e a agressão foram refor-
çadas pela atenção social, obviamente a priva-
ção de atenção evocará o comportamento tido
como problema. Entretanto, se a carência de
contato social (operação estabelecedora) for
substituída por uma condição de maior acesso
ao reforçamento social, pela liberação de aten-
ção em esquemas de tempo fixo (FT), os com-
portamentos autolesivos e agressivos podem
diminuir de freqüência. Essa diminuição na fre-
qüência comportamental ocorre devido à di-
minuição da efetividade da atenção como re-
forço, o que corresponde a uma operação
abolidora.
Em um estudo envolvendo a manipula-
ção da operação estabelecedora como estraté-
gia de tratamento de comportamentos-pro-
blema, Kahng, Iwata, Thompson e Hanley
(2000) forneceram evidências de que a apre-
sentação de reforçamento social em esquema
de reforçamento de tempo fixo (FT) promove
a redução desses comportamentos. Duas con-
dições experimentais foram apresentadas a três
indivíduos com diagnóstico de Retardo Men-
tal. Na condição FT-EXT houve a liberação de
reforços sociais de acordo com um esquema
FT e extinção para a ocorrência de comporta-
mentos-problema, durante 10 min. Na condi-
ção EXT subseqüente não houve liberação de
reforços sociais durante 20 min. As condições
experimentais foram manipuladas dentro de
uma mesma sessão. Os resultados da condição
FT-EXT revelaram que a apresentação do re-
forço sob o esquema FT contribuiu para a re-
dução dos comportamentos-problema, em fun-
ção de dois possíveis efeitos: primeiro, o
reforçamento sob esquema FT pode ter gera-
do um efeito semelhante à saciação, devido ao
acesso freqüente ao reforço; segundo, a
extinção que ocorria simultaneamente pode ter
sido a responsável pela diminuição na freqüên-
cia do comportamento. A condição EXT visou
a testar se esses resultados ocorreram em fun-
ção da saciação ou da extinção. Se ocorresse
um aumento inicial na freqüência dos compor-
tamentos-problema, poderia ser dito que a
saciação foi a responsável pela redução desses
comportamentos durante o reforçamento sob
o esquema FT. Caso contrário, os resultados
obtidos pela extinção poderiam ser explicados.
Os resultados indicaram que diante da condi-
ção EXT, o comportamento-problema perma-
neceu com baixa freqüência. Esse dado sugere
que os efeitos da extinção durante a apresen-
tação do esquema FT podem ter permanecido
durante a condição EXT. Assim, a transição
entre as condições FT-EXT (reforço presente)
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4440
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 41
e EXT (reforço ausente) pode não ter sido re-
levante para evocar o comportamento-proble-
ma. Os autores discutem ainda que a dificul-
dade de utilização de esquemas FT deve-se ao
fato de que nesses esquemas há um compo-
nente de extinção presente, o qual obscurece
os efeitos diferenciadosda saciação e da
extinção, embora ambos os efeitos possam ser
responsáveis pela redução da freqüência do
comportamento (ver também Hagopian,
Crockett, van Stone, DeLeon e Bowman, 2000).
Implicações do conceito de operações
estabelecedoras para a clínica
A clínica analítico-comportamental é ca-
racterizada por uma proposta de intervenção
que visa não só à mudança de comportamen-
tos, mas à identificação das variáveis que os
mantém. Skinner (1953/2000) afirmou que
não se pode esperar uma explicação adequada
do comportamento sem que suas relações com
essas variáveis sejam analisadas. O clínico ana-
lítico-comportamental que está interessado em
fazer uma intervenção adequada no contexto
terapêutico deve ter clareza dos diferentes pa-
péis das variáveis das quais o comportamento
é função. Os problemas comportamentais têm
sido explicados com base na contingência
tríplice (antecedente – comportamento – con-
seqüência), em que os eventos antecedentes
históricos e atuais são identificados sem, às
vezes, serem distinguidos como eventos com
funções comportamentais particulares.
Skinner (1953/2000, p. 34) chamou a
atenção para certos eventos ambientais que
têm funções específicas sobre o comportamen-
to. Esses eventos podem atuar no sentido de,
certamente, produzir comportamento:
É decididamente falsa a afirmação de que se
pode levar um cavalo até a água, mas que não
se pode fazê-lo beber. Privando-o de água por
algum tempo, poderemos estar “absolutamen-
te certos” de que o cavalo irá bebê-la assim
que chegar até ela.
Essa afirmação revela a presença da pri-
vação (OE) como variável determinante do
comportamento. É claro que outras variáveis
(história de condicionamento, potencial bio-
lógico) também participam do processo de pro-
dução de comportamento, mas é notório o pa-
pel da OE. Desse modo, a clareza do papel dessa
variável permitirá uma intervenção mais efeti-
va do terapeuta analítico-comportamental.
Sundberg (1993) sugere que o analista do com-
portamento, ao incluir a análise da OE no con-
texto clínico, como um termo a mais na rela-
ção de contingência, poderá:
a) tatear as operações estabelecedoras no
ambiente natural de vida do cliente;
b) manipular as operações estabelecedo-
ras no momento em que podem estar
atuando com maior força;
c) distinguir seus efeitos motivacionais
dos efeitos discriminativos sobre o
comportamento.
No contexto de vida humana, são obser-
vadas algumas operações estabelecedoras co-
muns. Carências afetivas (atenção, sexo, reco-
nhecimento social, prestígio, popularidade, en-
tre outras), carência de bens de consumo (rou-
pas, automóveis, imóveis entre outras), carên-
cia de lazer e diversão são situações que exer-
cem papel de operações estabelecedoras, as
quais estabelecem a efetividade reforçadora de
certos estímulos, objetos ou eventos. Ao reali-
zar a coleta de dados, o terapeuta deve identi-
ficar e tatear as possíveis operações estabelece-
doras em atuação, bem como verificar seus efei-
tos sobre os padrões de comportamento apre-
sentados por seu cliente.
Em alguns casos de escassez de contatos
sociais (carência de atenção e de reconheci-
mento), por exemplo, o indivíduo pode apre-
sentar padrões de comportamento de insistên-
cia e cobrança queixosa em relação ao outro.
Esses comportamentos podem, inclusive, ocor-
rer na relação terapêutica (p. ex.: um cliente
que descreve que ninguém se interessa ou se
preocupa com ele e, fitando os olhos do
terapeuta, diz enfaticamente: “Ninguém me
ama!”). Esse comportamento pode consistir em
um mando disfarçado de tato. O terapeuta pode
apresentar estímulos discriminativos, na pre-
sença dos quais a disponibilidade diferencial
de reforço social é maior do que na sua ausên-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4441
42 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
cia e, portanto, o comportamento verbal é evo-
cado. No entanto a privação de afeto (OE) pa-
rece ser a variável controladora da queixa em
relação aos outros, que, na verdade, está sen-
do dirigida ao terapeuta. Uma estratégia a ser
utilizada pelo clínico analítico-comportamen-
tal, em casos desse tipo, poderá ser o reforço
diferencial de outras iniciativas comporta-
mentais do cliente (DRO) e a liberação de re-
forço social em esquemas de tempo fixo (FT),
o que pode minimizar os efeitos da carência
afetiva por meio de um efeito contrário à ope-
ração de privação (saciação). Minimizados os
efeitos da carência afetiva, o terapeuta poderá
modelar comportamentos mais adequados no
repertório comportamental do cliente, come-
çando, por exemplo, pela clareza na comuni-
cação do que se quer: “Valorize-me! Dê-me
amor!”.
Michael (1993) define uma OE com base
em seus efeitos momentâneos (efeito evocativo
e efeito estabelecedor do reforço), consideran-
do apenas eventos temporalmente próximos.
Daugher e Hackbert (2000), entretanto, dis-
cutem a possibilidade de que eventos tempo-
ralmente distantes funcionam como operações
estabelecedoras, as quais apresentam um efei-
to mais duradouro. Esse efeito poderia ser con-
siderado em termos de cognição e de emoção.
Eventos como a perda de um grande amor, abu-
so sexual, trauma, seqüestro, entre outros, são
eventos que geram fortes emoções e que alte-
ram a efetividade reforçadora/punidora de ou-
tros eventos ambientais, inclusive a longo pra-
zo. Instruções verbais como “mantenha-se lon-
ge do casamento, você pode sofrer” ou “você
tem de ser o melhor” estabelecem o valor de
certos objetos, eventos ou condições de estí-
mulo como reforçadores, valor esse que tam-
bém pode perpetuar-se na vida de uma pes-
soa. Essas condições, em geral, quando obser-
vadas no contexto clínico, caracterizam os efei-
tos de uma OE a longo prazo. Skinner (1953/
2000) afirma que as relações entre as variá-
veis ambientais e o comportamento, que delas
é função, são quase sempre complexas e sutis,
adquiridas a partir de uma história de interação
do organismo com o ambiente. Diante dessa
ótica, Daugher e Hackbert sugerem uma aná-
lise de relações possivelmente sutis que preci-
sam de esclarecimentos resultantes de muita
reflexão.
As relações entre operações estabelece-
doras e estados emocionais podem ser com-
plexas e intrincadas. Contextos históricos de
grave privação de alimento podem manter
comportamentos de estocagem de alimento,
sem que haja necessidade. O mesmo pode acon-
tecer com indivíduos submetidos a privações
de afeto por períodos prolongados. Esses indi-
víduos podem apresentar alta freqüência de
comportamentos reforçados por afeto, mesmo
em situações em que não haja carência, e sen-
timentos de menos valia e rejeição, os quais se
perpetuam por longos períodos na vida. Clien-
tes que apresentam histórias prolongadas de
carência afetiva, rejeições, ridicularizações e
críticas têm, em certos eventos ambientais,
reforçadores/punidores efetivos. A história de
interação prolongada efetivamente determina
as funções comportamentais de relações sociais
e interpessoais afetivas como reforçadores e do
isolamento ou solidão como punidores.
Por exemplo, um dos autores atendeu um
cliente que apresentava um quadro de pânico
e observou a presença de respostas emocionais
típicas e de padrões de esquiva das situações
que provocam essas respostas emocionais. O
cliente queixava-se de medo de morte iminen-
te quando se deparava com situações de via-
gens de avião do casal ou do cônjuge, de ne-
cessidade de andar de elevador ou de ter de
sair da sua cidade por mais de dois dias. Os
dados a respeito de sua história de vida in-
dicaram a presença prolongada de críticas e
de ridicularizações dos familiares, desqualifi-
cação de qualquer iniciativa comportamental
do cliente e carência afetiva em relação aos
pais e irmãos. Esse contexto de desproteção
afetiva (operação estabelecedora) alterou tan-
to a efetividade reforçadora de qualquer
interação social e interpessoal afetiva de cui-
dado e proteção quantoa efetividade punidora
de situações de isolamento, de avaliação, de
críticas e de rejeições. Essas situações, no con-
texto do referido cliente, provocavam respos-
tas emocionais de pânico e evocavam compor-
tamentos de esquiva.
Em casos de depressão, a persistência de
níveis insuficientes de reforçamento, a perda
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4442
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 43
de grandes fontes de reforço e o excesso de
punições e de estimulações aversivas produ-
zem efeitos comportamentais, como, por exem-
plo, diminuir a freqüência de comportamen-
tos adequados, eliciar reações emocionais ne-
gativas e alterar a efetividade de conseqüên-
cias de certos comportamentos. Essas condi-
ções de estímulos, como operações estabele-
cedoras, podem estabelecer a efetividade re-
forçadora da atenção, da valorização, da assis-
tência e de cuidados especiais, além de po-
tencializar o valor reforçador do alimento, do
isolamento, do sono, de drogas ou álcool. E,
ainda, as contingências geradoras da depres-
são podem abolir a efetividade reforçadora da
interação social, do trabalho e de atividades
de lazer (Daugher e Hackbert, 2000). Em ge-
ral, os comportamentos depressivos são refor-
çados negativamente. Por exemplo, a esquiva
pode ser reforçada pela prevenção de inte-
rações sociais, uma vez que esses tipos de
interações, no passado, estiveram relacionadas
a algum tipo de crítica negativa. Por outro lado,
os comportamentos depressivos podem ser re-
forçados positivamente pela atenção, pelos cui-
dados e pela assistência de parentes mais pró-
ximos. Uma estratégia de atuação terapêutica,
em casos de depressão, seria apresentar o re-
forço social contingente aos comportamentos
mais adequados e não aos comportamentos
depressivos. Dessa forma, o aumento na den-
sidade de reforçamento de outros comporta-
mentos pode produzir o aumento na freqüên-
cia de comportamentos mais funcionais e a di-
minuição na freqüência dos comportamentos
depressivos. A partir dessa intervenção, pode-
se modelar comportamentos mais funcionais
no repertório comportamental do cliente, de
modo que as contingências de reforço natu-
rais mantenham esses comportamentos em alta
freqüência.
Na terapia, os comportamentos verbais do
cliente e do terapeuta são de fundamental im-
portância. A audiência não-punitiva estabe-
lecida no contexto terapêutico permite ao clien-
te falar a respeito de sua vida e de suas ex-
periências sem o risco do julgamento. A ver-
balização de certos eventos traumáticos per-
mite a diminuição de seu impacto negativo
sobre a vida do cliente, por um processo de
dessensibilização, no qual os estímulos elicia-
dores relacionados à situação traumática per-
dem gradualmente o poder eliciador de res-
postas emocionais negativas. Esse processo de
dessensibilização e de extinção respondente
altera as funções reforçadoras positivas e ne-
gativas de certas contingências relevantes na
vida do cliente, permitindo o aumento na fre-
qüência de alguns comportamentos adequados
e a diminuição na freqüência de comportamen-
tos inadequados. Esses comportamentos estão
relacionados às contingências de reforço cuja
efetividade é alterada pela verbalização.
Portanto, a alteração da OE funciona
como um ponto-chave para uma intervenção
efetiva por parte do analista do comportamen-
to junto aos casos clínicos apresentados no
consultório de psicologia, na tentativa de me-
lhorar o repertório comportamental do cliente
e, conseqüentemente, sua qualidade de vida.
CONCLUSÃO
Um dos aspectos fundamentais da pro-
posta de Michael é a possibilidade de a análise
do comportamento investigar o controle de va-
riáveis motivacionais, como variáveis indepen-
dentes, proporcionando, de certa forma, o res-
gate do tópico de motivação nesta abordagem.
As operações estabelecedoras designam um ins-
trumento conceitual e metodológico para o
estudo experimental do tópico de motivação.
O maior impacto do conceito de opera-
ção estabelecedora tem sido sobre a análise
aplicada do comportamento, considerando os
vários contextos de aplicação. Segundo Iwata
e colaboradores (2000), vários temas de pes-
quisa estão envolvidos na aplicação da opera-
ção estabelecedora. Para esses autores, as pes-
quisas de manipulação da variável motiva-
cional, como componente relevante para a aná-
lise funcional do comportamento, são as mais
importantes porque podem potencializar as
intervenções. Inúmeras são as possibilidades
de aplicação do conceito de operação estabe-
lecedora na análise do comportamento, como,
por exemplo, nos contextos de medicina
comportamental, de clínica, de educação, de
organizações, de esportes, entre outros. Inde-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4443
44 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
pendentemente do contexto em que ocorra, o
comportamento sempre será o mesmo – um
fenômeno natural determinado por variáveis
ambientais. A tarefa do analista do comporta-
mento é identificar e analisar as relações entre
o comportamento e os eventos ambientais para,
assim, programar contingências de reforça-
mento efetivas em sua prática em quaisquer
um desses contextos.
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Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4444
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 45
HISTÓRIA DE REFORÇAMENTO
RAQUEL MOREIRA ALÓ
derar variáveis históricas nas mais diversas áre-
as de atuação do psicólogo e de outros profis-
sionais e será proposta a sistematização de
pesquisas cujo interesse é o efeito de variáveis
históricas.
HISTÓRIA DE REFORÇAMENTO:
RELEVÂNCIA E DEFINIÇÃO
De acordo com Skinner (1953), um dos
objetivos da análise experimental do compor-
tamento é demonstrar que o comportamento
é função do ambiente. Diversos estudos têm
indicado que esse controle ambiental pode ser
estabelecido por uma história de exposição a
contingências de reforçamento e punição
(Baron e Leinenweber 1995; Bickel et al., 1988;
Cohen et al., 1994; Cole, 2001; Freeman e
Lattal, 1992; Johnson et al., 1991; LeFrancois
e Metzger, 1993; Nader e Thompson, 1987;
Nevin e Grace, 2000; Ono e Iwabuchi, 1997;
Poppen, 1982; Taylor, O’Reilly e Lancioni,
2000; Urbain et al., 1978; Wanchisen, 1990;
Wanchisen e Tatham, 1991; Wanchisen,
Tatham e Mooney, 1989; Weiner, 1964; 1965;
1969).
Entretanto muitos pesquisadores em aná-
lise do comportamento têm mostrado desinte-
resse pelos efeitos da história de reforçamento,
os quais comumente são minimizados ou ocul-
tados (Baer, Detrich e Weninger, 1988; Hayes
et al., 1985). Tal desinteresse está baseado em
dois argumentos. Primeiro, os efeitos de histó-
ria, quando observados, denotariam deficiên-
3
A sensibilidade comportamental é um fa-
tor primordial para a manutenção das espé-
cies, tendo em vista as mudanças constantes
que ocorrem no ambiente. De acordo com
Madden, Chase e Joyce (1998), um comporta-
mento é considerado sensível se apresentar
uma mudança sistemática e replicável diante
de mudanças nas contingências de reforça-
mento. Por outro lado, se a contingência mu-
dar, mas o comportamento permanecer inal-
terado, este será considerado insensível às
contingências. A literatura tem demonstrado
que a sensibilidade comportamental é afeta-
da, dentre outras variáveis, pela história pas-
sada de reforçamento. Estudos que investigam
os efeitos da história passada procuram pro-
duzir um responder estável sob diferentes es-
quemas de reforçamento, realizando, em se-
guida, alguma modificação nesses esquemas e
observando se os resultados de tal modifica-
ção apresentam diferenças em função dos es-
quemas iniciais. O efeito de variáveis históri-
cas é exemplificado por estudos que mostram
que o organismo tende a apresentar um res-
ponder similar àquele encontrado antes da mu-
dança no esquema de reforçamento em vigor,
principalmente quando essa mudança não é si-
nalizada (LeFrancois e Metzger, 1993; Ono e
Iwabuchi, 1997; Wanchisen e Tatham, 1991).
Neste capítulo, será apontada a importân-
cia de pesquisas sobre história de reforçamento,
bem como serão apresentadas algumas defini-
ções para o termo e contribuições de pesqui-
sas básicas e aplicadas sobre esse tema. Final-
mente, será discutida a relevância de se consi-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4445
46 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
cia no controle experimental: se as variáveis
manipuladas na contingência atual não pro-
duziram mudanças sistemáticas no desempe-
nho, conclui-se que o controle experimental
não foi adequado para minimizar os efeitos de
variáveis passadas às quais o sujeito foi expos-
to. Segundo, apesar das condições passadas de
reforçamento e punição, a única maneira de
modificar o comportamento seria a partir de
manipulações nas contingências atuais; por-
tanto, o interesse principal deveria ser a ela-
boração de intervenções eficazes para mudar
comportamentos inadequados, não importan-
do investigar como esses comportamentos fo-
ram adquiridos.
Esses argumentos apresentam alguns pro-
blemas. Primeiro, de acordo com Cirino (2001,
p. 138), quando os resultados de um estudo são
atribuídos a variáveis históricas não-controla-
das, transforma-se a história de reforçamento
na “lata de lixo” da análise do comportamento.
Para evitar que isso ocorra, por outro lado, é
necessário que os efeitos de contingências his-
tóricas sejam investigadas como variáveis inde-
pendentes. Segundo, de acordo com Lattal e
Neef (1996), como as contingências atuais afe-
tam o comportamento em função de histórias
de reforçamento distintas, a compreensão dos
efeitos da história possibilitaria a elaboração de
intervenções eficazes no sentido de tornar um
comportamento inadequado (ou um comporta-
mento adequado), produzido por contingênci-
as passadas, menos (ou mais) resistente aos efei-
tos das contingências atuais.
Ainda que os efeitos de variáveis histó-
ricas sejam considerados relevantes, a falta de
uma definição consensual para o termo “histó-
ria de reforçamento” dificulta a identificação
dos estudos que investigam tais variáveis. Co-
mo observou Cirino (2001), essa indefinição é
refletida na profusão de termos utilizados in-
distintamente para se referir aos efeitos de con-
tingências passadas sobre o comportamento
atual e sem uma preocupação em apontar suas
definições; por exemplo, história de condicio-
namento, história comportamental, história
passada, história operante, história de esque-
ma, história latente, história de desempenho e
história de reforçamento. Uma vez que cada
um desses termos pode ser definido diferente-
mente, a sistematização dos estudos sobre efei-
tos de história fica comprometida.
Tatham e Wanchisen (1998) apresentaram
uma definição para história comportamental ao
argumentar que qualquer estudo sobre condicio-
namento operante pode ser considerado um
estudo sobre os efeitos de história. De fato, qual-
quer mudança no comportamento descrita como
aprendizagem operante revela o efeito de uma
história de reforçamento. Por exemplo, em pro-
cedimentos de modelagem, um desempenho só
é alcançado porque houve, no passado,
reforçamento diferencial de aproximações su-
cessivas ao desempenho final desejado; um es-
tímulo só adquire propriedades discriminativas
devido a uma história de reforçamento diferen-
cial na presença desse estímulo (isto é, o re-
forçamento é mais provável na presença do es-
tímulo do que em sua ausência) e um estímulo
só adquire propriedades reforçadoras condicio-
nadas por meio de uma história de pareamento
sistemático com estímulos reforçadores incon-
dicionados ou condicionados.
No entanto definir história comporta-
mental como condicionamento operante acar-retaria problemas que inviabilizariam os estu-
dos de história, a saber:
a) o termo se tornaria demasiado abran-
gente para justificar seu uso, já que,
de acordo com Tatham e Wanchisen
(1998), todos os estudos que incluem
comportamentos operantes aprendi-
dos seriam, então, estudos sobre his-
tória de reforçamento;
b) o uso do termo seria desnecessário e
redundante, dada a existência do ter-
mo condicionamento operante que in-
cluiria os mesmos fenômenos;
c) não é possível a delimitação entre va-
riáveis atuais e variáveis históricas,
pois nenhum limite arbitrário no tem-
po é estabelecido;
d) é inviável acessar o efeito de todos os
condicionamentos que ocorrem ao
longo da vida de um organismo
(Cirino, 2000).
Autores como Metzger (1992), Freeman
e Lattal (1992), Wanchisen (1990) e Sidman
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4446
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 47
(1960) propuseram outras definições de his-
tória de reforçamento. De acordo com Metzger
(1992), o termo história comportamental re-
fere-se a exposições anteriores a contingênci-
as de reforçamento e punição, as quais esti-
veram em vigor tanto dentro quanto fora do
laboratório. Dessa forma, estudos de história
incluiriam todas as variáveis que afetaram o
comportamento do organismo durante toda
a sua vida. Essa definição apresenta os mes-
mos problemas da definição anteriormente
discutida.
Outra definição, proposta por Freeman
e Lattal (1992), afirma que a história de
reforçamento é caracterizada por seus efei-
tos, observados quando o controle exercido
pelas contingências atuais é nitidamente in-
fluenciado por contingências passadas. Essa
definição parece apresentar os mesmos pro-
blemas encontrados nas definições anterio-
res; entretanto, de acordo com Cirino (2000),
ela apresenta também um avanço na discus-
são sobre variáveis históricas, uma vez que
enfatiza os efeitos da interação de contingên-
cias atuais e históricas sobre o comportamen-
to, o que não havia sido considerado nas de-
finições anteriores.
Uma outra definição de história compor-
tamental a ser considerada é aquela proposta
por Wanchisen (1990, p. 32). De acordo com
essa definição, história consiste na “exposição
a contingências respondentes e operantes cui-
dadosamente controladas em laboratório an-
tes da fase de teste desejada”. Dessa forma,
um estudo só poderia ser definido como estu-
do de história se seu objetivo for, em uma fase
de teste, acessar os efeitos das contingências
passadas que contribuíram para a aquisição e
para a manutenção da resposta atual. Cirino
(2000) apresenta duas vantagens dessa defi-
nição. A primeira vantagem refere-se à
parcimônia, isto é, a definição apresenta uma
delimitação: uma determinada história é
construída e seus efeitos são avaliados em de-
trimento dos efeitos de outras variáveis histó-
ricas não-manipuladas, o que torna a defini-
ção mais econômica. Segundo, a definição
aponta a possibilidade de teste dos efeitos de
variáveis históricas, como variáveis indepen-
dentes, sobre o comportamento.
A proposta de Sidman (1960) para a de-
finição de história comportamental é consis-
tente com a de Wanchisen (1990). Sidman ar-
gumentou que variáveis históricas podem ser
estudadas sistematicamente se forem arran-
jadas certas experiências e se forem avalia-
dos os efeitos dessas experiências no compor-
tamento subseqüente. Ou seja, estudos de his-
tória seriam aqueles que investigam a in-
teração entre padrões comportamentais an-
teriores (p. ex.: taxas de respostas altas ou
baixas, pausas no responder) e contingências
atuais. Os estudos baseados na proposta de
Sidman têm utilizado o delineamento intra-
sujeito ou de grupo, em que a exposição a
esquemas de reforçamento diferentes, até que
o desempenho alcance um determinado cri-
tério de estabilidade, precede a exposição a
um único esquema de reforçamento, que con-
siste no teste. Alguns desses estudos serão
descritos a seguir.
CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA BÁSICA
Com o objetivo de investigar os efeitos
de duas histórias diferentes de condiciona-
mento sobre a sensibilidade comportamental
em esquemas de intervalo fixo em humanos,
Weiner (1964) expôs três participantes a um
esquemas de razão fixa 40 (FR, em que cada
reforço é contingente à emissão de um de-
terminado número de respostas) e três par-
ticipantes a um esquema de reforçamento di-
ferencial de taxas baixas 20 s (DRL, em que
cada reforço é liberado apenas se houver
transcorrido um intervalo mínimo entre duas
respostas). Cada esquema foi sinalizado por
um estímulo luminoso distinto e nenhuma
instrução foi fornecida sobre a realização da
tarefa. Em seguida, todos os participantes fo-
ram expostos a um esquema de intervalo fixo
10 s (FI, em que uma resposta é reforçada se
for emitida após transcorrido um determina-
do intervalo a partir do último reforço). Du-
rante a história de condicionamento sob o
esquema FR 40 os participantes emitiram
taxas de respostas relativamente altas e cons-
tantes, enquanto sob o esquema DRL 20 s os
participantes emitiram taxas de respostas bai-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4447
48 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
xas. Quando ambos os esquemas foram mu-
dados para um FI 10 s, foi observada a ma-
nutenção das taxas de respostas anteriormen-
te aprendidas, indicando insensibilidade do
desempenho à mudança na contingência em
função da história passada. Essa manuten-
ção do desempenho sugere ainda que a vari-
abilidade da taxa de respostas em esquemas
FI, observada em muitos estudos, pode ser
atribuída a variáveis históricas não-contro-
ladas.
Em um estudo posterior, Weiner (1965,
Emperimento 1) investigou se os efeitos da
história passada seriam alterados pela adi-
ção de uma contingência de custo da respos-
ta. Para tanto, durante o treino, três grupos
foram expostos a um esquema FR 40, FI 10 s
ou DRL 20 s. O reforço consistia na adição
de 100 pontos a um contador. Em seguida,
os participantes foram expostos a um esque-
ma FI 10 s com custo de resposta, que con-
sistia na perda de um ponto para cada res-
posta emitida antes do final do intervalo.
Durante o treino sob o esquema FR 40, os
participantes emitiram taxas de respostas re-
lativamente altas e constantes; sob o esque-
ma DRL 20 s, os participantes emitiram ta-
xas de respostas baixas, apresentando pau-
sas entre respostas e, sob o esquema FI 10 s,
os participantes responderam em taxa inter-
mediária e constante. Durante o teste, os par-
ticipantes do grupo FR 40 emitiram respos-
tas antes do término do intervalo, o que pro-
vocou perda de pontos. Por outro lado, os
participantes dos grupos FI 10 s e DRL 20 s
obtiveram uma pontuação mais alta, pois
emitiram poucas respostas entre os reforços.
Esses resultados indicaram que o desempe-
nho em FI foi influenciado pela história an-
terior de condicionamento, apesar da perda
de pontos que o comportamento controlado
por variáveis históricas produziu.
Visando a dar continuidade aos estudos
anteriores sobre a história de reforçamento e
custo da resposta, no Experimento 2, Weiner
(1969) expôs os participantes de um dos três
grupos experimentais a um esquema DRL 20
s seguido de um esquema FR 40. Depois des-
sa história de condicionamento, os participan-
tes foram expostos a um esquema FI 10 s com
custo. Cada esquema de reforçamento foi si-
nalizado por um estímulo luminoso diferen-
te. O esquema DRL produziu taxas de respos-
tas baixas e pausas entre respostas, enquanto
o esquema FR produziu taxas de respostas al-
tas e constantes; sob o esquema FI ocorreu
um decréscimo na taxa de respostas, tendo os
participantes apresentado taxas de respostas
semelhantes àquelas observadas sob o esque-
ma DRL. Para os participantes dos outros dois
grupos, expostos ao esquema FR 40 ou DRL
de 20 s, foi observada a manutenção das ta-
xas de respostas anteriormente aprendidas
(taxas alta e baixa, respectivamente), duran-te o teste com o esquema FI 10 s com custo
ou FI 600 s sem custo. Novamente, os resul-
tados mostraram que o responder em taxas
altas e baixas pode ser produzido e controla-
do experimentalmente por meio da manipu-
lação das histórias de reforçamento. Além dis-
so, o fato de ter sido observada uma mudan-
ça na taxa de respostas sob o esquema FI com
custo apenas para os participantes que foram
expostos ao esquema DRL seguido do esque-
ma FR indica que a exposição prévia ao es-
quema DRL pode anular a insensibilidade
comportamental resultante da exposição ao
esquema FR.
No Experimento 3 (Weiner, 1969), os efei-
tos da história comportamental no desempe-
nho subseqüente em esquemas FI foram inves-
tigados como o uso de delineamento intra-su-
jeito. Dois participantes foram expostos aos se-
guintes esquemas, nessa ordem: FR 40, FI 10 s
com custo, DRL 10 s com custo, FI 10 s com
custo, FR 40 e FI 10 s com custo, sendo cada
esquema sinalizado por um estímulo luminoso
diferente. Ambos os participantes apresenta-
ram taxas altas no esquema FR 40 inicial, que
se mantiveram no esquema FI 10 s com custo
subseqüente. Quando expostos ao esquema
DRL 10 s com custo, ocorreu uma diminuição
na taxa de respostas. Após esse esquema, am-
bos os participantes apresentaram taxas bai-
xas de respostas sob o esquema FI 10 s com
custo, mesmo depois de reexpostos ao esque-
ma FR 40, no qual responderam em taxas al-
tas. Esses resultados indicaram, novamente,
que a exposição ao esquema DRL pode gerar
taxas baixas sob esquemas FI, mesmo depois
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4448
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 49
de terem sido produzidas taxas altas no esque-
ma FR. Resultados similares foram observados
com a utilização de um esquema de tempo fixo
10 s (FT, em que o reforço é liberado após trans-
corrido um intervalo fixo de tempo, indepen-
dente da emissão de respostas) com custo
(Weiner, 1969, Experimento 4).
Com o objetivo de investigar se os re-
sultados encontrados por Weiner (1969, Ex-
perimentos 2 a 5) seriam replicados com su-
jeitos não-humanos, LeFrancois e Metzger
(1993) separaram seis ratos em dois grupos.
Os sujeitos do primeiro grupo foram expos-
tos ao esquema DRL 20 s e os sujeitos do
segundo grupo, expostos ao esquema DRL de
20 s seguido de um esquema FR de valores
diferentes para cada sujeito. Em seguida, os
sujeitos de ambos os grupos foram expostos
a diferentes esquemas FI com valores deter-
minados pela média de reforços obtidos nos
esquemas anteriores. Todos os sujeitos apre-
sentaram taxas baixas de resposta sob o es-
quema DRL. Quando expostos ao esquema
FR, os sujeitos do segundo grupo apresenta-
ram um aumento na taxa de respostas, sen-
do observada uma relação direta entre a taxa
e o valor do esquema FR. No esquema FI, os
sujeitos do primeiro grupo apresentaram um
pequeno aumento na taxa de respostas; os
sujeitos do segundo grupo, por outro lado,
mantiveram as taxas altas de respostas ob-
servadas no esquema FR. Esses resultados in-
dicaram que o desempenho sob o esquema
FI variou em função da taxa de respostas pro-
duzida no esquema imediatamente anterior
e que a história de reforçamento sob o es-
quema DRL não diminuiu a insensibilidade
comportamental produzida pela exposição
mais recente ao esquema FR.
Esses resultados são inconsistentes com
aqueles encontrados por Weiner (1969, Expe-
rimentos 2 a 5), em que a exposição prévia ao
esquema DRL gerou taxas baixas sob o esque-
ma FI. A discrepância entre os resultados pode
ser atribuída a diferenças entre humanos e não-
humanos relativas às histórias pré-experimen-
tais e a diferenças nos procedimentos, como o
método utilizado em cada estudo para a aqui-
sição do comportamento, o tipo de reforço uti-
lizado e o fato de, no estudo realizado por
LeFrancois e Metzger (1993), não terem sido
utilizados estímulos sinalizadores diferentes
para cada esquema de reforçamento, ao con-
trário do estudo realizado por Weiner (1969),
em que a mudança do estímulo discriminativo
sinalizava a alteração do esquema.
O efeito da história de condicionamento
também foi investigado com o uso de drogas
que afetam o desempenho em esquemas de
reforçamento. Urbain e colaboradores (1978),
por exemplo, investigaram se variáveis histó-
ricas afetariam os efeitos da d-anfetamina so-
bre o desempenho de ratos em um esquema
FI. O primeiro grupo foi exposto ao esquema
FR 40, enquanto outro grupo foi exposto ao
esquema DRL 11 s. Os valores dos esquemas
foram estabelecidos de forma a igualar o nú-
mero de reforços liberados por sessão para os
dois grupos. Em seguida, todos os sujeitos fo-
ram expostos ao esquema FI 15 s, durante o
qual receberam ou uma injeção de salina, ou
diferentes doses de d-anfetamina. Os resulta-
dos mostraram que a taxa de respostas no es-
quema FI, antes da aplicação da droga, variou
em função da história experimental: taxas al-
tas ou baixas produzidas pelos esquemas FR
ou DRL, respectivamente, foram mantidas sob
o esquema FI. Com a aplicação da droga, a taxa
de respostas dos sujeitos que foram expostos
anteriormente ao esquema FR diminuiu em
relação à taxa de respostas na sessão com ad-
ministração de salina, enquanto a taxa produ-
zida pelo esquema DRL anterior aumentou. Os
resultados indicaram que a história de
reforçamento pode afetar o desempenho sob o
esquema FI, o que replica os resultados dos es-
tudos anteriormente descritos, e que o efeito
da d-anfetamina foi função da história de
reforçamento nos esquemas FR e DRL.
Nos estudos anteriores, não somente os
esquemas utilizados durante a fase de história
eram diferentes, como também eram diferen-
tes as taxas de reforços liberados pelos esque-
mas (ver Urbain et al., 1978). Esse fato pode
ter sido responsável pelos efeitos observados,
já que vários estudos têm indicado que quanto
maior a taxa de reforços obtida em um dado
esquema de reforçamento menor será a mu-
dança na taxa de respostas diante de mudan-
ças no esquema (p. ex.: Cohen, Riley e Wiegle,
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4449
50 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
1993; Hearst, 1961, Experimento 1; Nevin,
1974, Experimento 2). Para investigar essa pos-
sibilidade, Freeman e Lattal (1992, Experimen-
to 1) expuseram três pombos a duas sessões
diárias separadas por um intervalo de 6 h: na
primeira, o animal foi exposto a um esquema
DRL e, na segunda, a um esquema FR (Fase
1). Os estímulos luminosos foram diferentes
para cada esquema, e o valor do DRL determi-
nava o valor do FR na sessão posterior de for-
ma a igualar a taxa de reforços nos dois esque-
mas. Em seguida, os esquemas FR e DRL fo-
ram substituídos por dois esquemas FI (Fase
2), cujo valor foi determinado pela média do
intervalo entre reforços (IRI) das 10 últimas
sessões da fase anterior. Os estímulos lumino-
sos não foram alterados. Na Fase 1, a taxa de
respostas no esquema FR foi mais alta do que
no esquema DRL. Na Fase 2, inicialmente, a
taxa de respostas foi mais alta na presença do
estímulo previamente correlacionado com o es-
quema FR do que na presença do estímulo
correlacionado com o esquema DRL. No en-
tanto a taxa de respostas na presença dos dois
estímulos luminosos tendeu a convergir para
um valor intermediário ao longo das sessões.
No Experimento 2, Freeman e Lattal
(1992) investigaram se os efeitos de história
seriam menos observados quando os esquemas
FR e DRL fossem alterados para um esquema
VI, uma vez que a taxa de respostas estável
sob os esquemas FR e DRL produz regularida-
de temporal na liberação de reforços, o que
não acontece em esquemas VI. Para isso, três
pombos ingênuos foram expostos às mesmas
fases e condições do Experimento 1, porém es-
quemas VI estavam em vigor na Fase 2. Assim
como no Experimento 1, a taxa de respostas
no esquema FR foi mais alta do que no esque-
ma DRL durante a Fase 1 e, no início da Fase 2,
as taxas continuaram diferenciadas.Entretan-
to, para dois sujeitos, as taxas de respostas na
presença dos estímulos luminosos convergiram
para valores intermediários em um número
menor de sessões do que no Experimento 1,
indicando que o efeito da experiência prévia
sobre a resposta foi menor no esquema VI do
que no esquema FI e sugerindo que a distribui-
ção temporal irregular entre reforços pode
minimizar os efeitos da história (cf. Lattal,
1975). Os resultados encontrados nas primei-
ras exposições à Fase 2, nos dois experimen-
tos, indicaram controle dos estímulos discrimi-
nativos presentes na fase de história sobre o
responder subseqüente: isto é, a taxa de res-
postas durante as primeiras sessões no esque-
ma FI ou VI dependeram do estímulo sinaliza-
dor relacionado a cada componente do esque-
ma múltiplo.
Outros estudos, como aquele realizado
por Hanna, Blackman e Todorov (1992), apoi-
aram os resultados encontrados por Freeman
e Lattal (1992), ao mostrar que, quando os
estímulos discriminativos permaneceram inal-
terados após as mudanças em um esquema
concorrente VI VI, houve manutenção dos pa-
drões comportamentais anteriormente refor-
çados; por outro lado, quando os estímulos
discriminativos foram modificados, as taxas de
respostas ajustaram-se aos novos esquemas.
Dessa forma, os estudos de Freeman e Lattal
(1992) e de Hanna e colaboradores (1992)
indicam que, além da relação entre a resposta
e o reforço (contingência R-S), uma outra va-
riável que afeta os efeitos da história de
reforçamento é a relação entre o estímulo
discriminativo e o reforço (contingência S-S).
Okouchi (2003) também avaliou o papel
do controle discriminativo nos efeitos da his-
tória de reforçamento mas, em vez de usar es-
tímulos exteroceptivos, seu interesse recaiu
sobre as funções discriminativas dos IRIs. Es-
pecificamente, foi investigado se IRIs idênti-
cos àqueles observados durante a Fase de His-
tória funcionariam como estímulos discrimi-
nativos e, assim como ocorre com estímulos
exteroceptivos, controlariam os efeitos dessa
história. Estudantes universitários foram expos-
tos, na Fase de Treino, a um esquema mix FR
DRL, no qual a mudança de um componente
para o outro não é sinalizada. Os valores dos
esquemas FR e DRL foram estabelecidos de
forma a produzir IRIs diferentes em cada com-
ponente. Em seguida, os participantes foram
expostos à Fase de Teste, que consistiu em um
esquema misto (mix) FI 5 s e FI 20 s por 12
sessões (Experimento 1) ou em seis esquemas
FI, cujos valores variaram entre 5 s e 40 s (Ex-
perimento 2). Sob o esquema mix FR DRL fo-
ram produzidas taxas de respostas diferencia-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4450
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 51
das e maiores no esquema FR. Na Fase de Tes-
te, as taxas de respostas sob o esquema FI fo-
ram mais altas quando os IRIs desse esquema
assemelhavam-se aos IRIs produzidos anteri-
ormente pelo esquema FR; por outro lado,
quando os IRIs do esquema FI assemelhavam-
se àqueles produzidos anteriormente pelo es-
quema DRL, as taxas de respostas foram bai-
xas. Esses resultados sugerem que os IRIs po-
dem desenvolver propriedades discriminativas
e, dessa forma, afetar os efeitos da história.
O objetivo do estudo conduzido por Ono
e Iwabuchi (1997) foi investigar se o intervalo
temporal entre a exposição às contingências de
treino e de teste afetaria a adaptação do res-
ponder às novas contingências, uma vez que,
na maioria dos estudos sobre história, a fase
de teste é iniciada no dia seguinte à última ses-
são do treino (p. ex.: Freeman e Lattal, 1992;
Wanchisen, Tatham e Mooney, 1989). Na pri-
meira condição da primeira fase, os sujeitos
(pombos) foram expostos a um esquema múl-
tiplo – mult DRH (reforçamento diferencial de
taxas altas, em que uma resposta é reforçada
apenas se for emitida antes de transcorrido um
determinado intervalo desde a última respos-
ta) DRL –, sinalizados por luzes verde e ver-
melha, respectivamente, e com taxas de refor-
ços semelhantes. A segunda condição, inicia-
da no dia posterior ao término da primeira,
consistia em um esquema VI sinalizado por
uma luz branca, cujo valor foi determinado pelo
intervalo médio entre reforços das 10 últimas
sessões da condição anterior. Em seguida, os
sujeitos foram expostos à condição de teste que
consistia em um esquema VI de valor idêntico
àquele da segunda condição; entretanto, em
sessões alternadas, a sinalização do esquema
era idêntica à da primeira condição (luz verde
e vermelha apresentadas randomicamente) ou
à da segunda condição (luz branca). A segun-
da fase do experimento foi idêntica à primei-
ra, entretanto a primeira condição foi separa-
da das condições subseqüentes por um inter-
valo de seis meses. Os resultados da primeira
fase indicaram que, após 10 sessões de teste,
as taxas de respostas no esquema VI continua-
ram diferenciadas na presença dos estímulos
correspondentes ao esquema DRH e ao esque-
ma DRL; entretanto, na segunda fase do estu-
do, a diferença entre as taxas de respostas na
presença dos estímulos previamente relaciona-
dos ao esquema DRH e ao esquema DRL foi
menor e menos duradoura do que na primeira
fase, indicando que os efeitos de história fo-
ram amenizados em função do intervalo de
tempo entre o final da fase de história e o iní-
cio da fase de teste.
Manipulações no nível de saciação dos
sujeitos também têm sido usadas para avaliar
os efeitos da história passada. Um procedimen-
to comumente utilizado para manipular o ní-
vel de saciação consiste na alimentação pré-
via, ou seja, no fornecimento de diferentes
quantidades de alimento em algum momento
antes da sessão experimental. Tal procedimento
representa uma mudança na relação resposta-
conseqüência porque modifica o valor do re-
forço, alterando, assim, a taxa de respostas
(para uma discussão mais completa sobre va-
riáveis que alteram o valor do reforço, ver Ca-
pítulo 2), entretanto a maneira como a taxa de
respostas é alterada depende do esquema de
reforçamento presente na fase de história (Aló,
2002) e de características desse esquema, tais
como a densidade, a magnitude e o atraso do
reforço (p. ex.: Bell, 1999; Harper, 1996; Nevin,
Mandell e Atak, 1983).
Para investigar os efeitos de manipulações
no nível de saciação e da história de reforça-
mento sobre a sensibilidade a mudanças nas
contingências, Aló (2002) expôs pombos a um
esquema mult FR DRL durante as três primei-
ras condições experimentais. Inicialmente, foi
determinada a quantidade máxima de alimen-
to que cada sujeito, pesando 80% de seu peso
livre, era capaz de consumir. Na condição de
Linha de Base, todo o alimento diário era obti-
do na sessão experimental (economia fecha-
da). Em seguida, iniciou-se a condição de Tes-
te de Sensibilidade 1, em que os sujeitos fo-
ram separados em dois grupos: o Grupo 100%
teve acesso a 100% da quantidade máxima de
consumo, antes das sessões, enquanto o Gru-
po 20% teve acesso somente a 20% dessa quan-
tidade. Após a reexposição à Linha de Base, o
procedimento de saciação foi repetido na con-
dição de Teste de Sensibilidade 2. O esquema
em vigor era um mult FI FI com valores idênti-
cos, sendo que os estímulos sinalizadores pre-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4451
52 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
sentes nas condições anteriores não foram al-
terados. Os resultados indicaram que, quando
o esquema múltiplo não foi modificado (Teste
de Sensibilidade 1), a taxa de respostas no com-
ponente FR apresentou decréscimos apenas no
maior nível de saciação (100%), enquanto a
taxa DRL permaneceu inalterada nos dois ní-
veis de saciação. Quando o esquema foi modi-
ficado (Teste de Sensibilidade 2), as taxas “FR”
(aquelas obtidas sob o estímulo sinalizador an-
teriormente correlacionado com o esquema FR)
decresceram até o maior nível de saciação e
permaneceram inalteradas no menor nível de
saciação, enquanto as taxas “DRL” (aquelas ob-tidas sob o estímulo sinalizador previamente
correlacionado ao esquema DRL) aumentaram
para ambos os níveis de saciação, de modo que
as taxas nos dois componentes alcançaram va-
lores semelhantes (como seria esperado em um
esquema mult FI FI de valores idênticos) mais
rapidamente para os sujeitos do Grupo 100%.
Esses resultados mostraram que:
a) a sensibilidade das taxas produzidas
a despeito da mudança no esquema
FR dependeu do aumento no nível de
saciação, apesar da mudança no es-
quema;
b) a sensibilidade das taxas produzidas
pelo esquema DRL dependeu da mu-
dança no esquema de reforçamento,
a despeito do nível de saciação;
c) os efeitos do aumento no nível de
saciação foram modulados pela histó-
ria de reforçamento, contribuindo, as-
sim, para uma transição mais rápida
do controle da contingência passada
para a contingência atual.
Em suma, os estudos sobre história de
reforçamento têm indicado, de uma forma ge-
ral, que a história de exposição a esquemas de
reforçamento pode produzir insensibilidade a
mudanças nesses esquemas. Entretanto tal in-
sensibilidade pode ser amenizada por variáveis
como a exposição prévia a determinados tipos
de esquema (Aló, 2002, Fase 2; Weiner, 1969,
Experimentos 2 e 3), a diferença na regulari-
dade temporal da liberação dos reforços nas
fases de treino e de teste (Freeman e Lattal,
1992, Experimento 2; Okouchi, 2003), a dife-
rença entre os estímulos sinalizadores nas fa-
ses de treino e de teste (Hanna et al., 1992), o
atraso entre o final da contingência histórica e
o início do teste (Ono e Iwabuchi, 1997) e au-
mentos no nível de saciação (Aló, 2002).
CONTRIBUIÇÕES DA
PESQUISA APLICADA
Apesar de muitas pesquisas básicas indi-
carem a importância de variáveis históricas
para a compreensão do comportamento expos-
to a novas contingências, tais variáveis não vêm
sendo explicitamente investigadas em pesqui-
sas aplicadas (Lattal e Neef, 1996). Um levan-
tamento bibliográfico realizado no periódico
mais importante da área, o Journal of Applied
Behavior Analysis, revela apenas duas pesqui-
sas cujo objetivo consistiu em avaliar os efei-
tos da exposição a determinadas condições ex-
perimentais sobre o comportamento em con-
dições subseqüentes. Esses estudos serão des-
critos a seguir.
Martens, Bradley e Eckert (1997) pro-
curaram investigar os efeitos de três históri-
as de reforçamento diferentes sobre o engaja-
mento de duas crianças em tarefas escolares
durante o período de extinção. O procedi-
mento incluiu quatro condições, nas quais o
contato entre o experimentador e o partici-
pante ocorria de acordo com um esquema FI
30 s durante os dois primeiros minutos de
cada sessão; os oito minutos finais da sessão
consistiam em extinção. Na Condição A, os
observadores apenas registraram o engaja-
mento dos participantes nas tarefas propostas
pelo professor. Em seguida, os participantes
foram expostos à Condição B, na qual rece-
beram quatro elogios consecutivos (p. ex.:
“Bom trabalho!”), contingentes ao engaja-
mento na tarefa escolar. Durante a Condição
C, os participantes receberam os mesmos elo-
gios contingentes ao envolvimento na tarefa
escolar durante o primeiro e o terceiro in-
tervalo de 30 s dos dois primeiros minutos
da sessão; durante o segundo e o quarto in-
tervalos de 30 s foram fornecidas instruções
para que os participantes voltassem a estu-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4452
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 53
dar, caso não estivessem engajados na tarefa
proposta pelo professor (p. ex.: “Por favor,
pare de conversar e trabalhe na sua tarefa”).
Durante a Condição D, o procedimento foi
semelhante àquele utilizado na Condição C;
no entanto, no segundo e no quarto interva-
los de 30 s, os participantes receberam aten-
ção do experimentador contingente a com-
portamentos de não-engajamento na tarefa
escolar (p. ex.: “algumas vezes é bom fazer
uma pausa no trabalho”).
Considerando-se os dois primeiros mi-
nutos de cada sessão (esquema FI 30 s), os
resultados indicaram acréscimos na freqüên-
cia do comportamento de estudo na Condi-
ção B, para os dois participantes, em relação
à freqüência observada na Condição A. Para
o primeiro participante, a freqüência do com-
portamento de estudo permaneceu constante
a partir da segunda condição; para o segun-
do participante, essa freqüência apresentou
acréscimos adicionais na Condição C e decres-
ceu na Condição D. Com relação aos períodos
de extinção, para o primeiro participante, a
freqüência do comportamento de estudo em
relação à freqüência média desse comporta-
mento nos dois primeiros minutos da sessão
manteve-se constante na Condição B, apre-
sentou aumentos na Condição C e diminuiu
na Condição D. Para o segundo participante,
foram observados decréscimos na freqüência
do comportamento de estudo em relação aos
dois primeiros minutos da sessão nas Condi-
ções B, C e D, sendo mais abrupto na Condi-
ção D. Esses resultados indicam que a histó-
ria de elogios para o comportamento de estu-
dar (Condição B), principalmente quando alia-
da a instruções para o estudo (Condição C),
produziu uma menor sensibilidade à retirada
do reforço que a história de elogios para es-
tudar alternada com atenção para pausas no
estudo (Condição D). No entanto a falta de
sistematicidade dos resultados encontrados
para os dois sujeitos indica que o controle ex-
perimental deveria ser aprimorado.
O segundo estudo na área aplicada que
discutiu efeitos da história de reforçamento foi
realizado por Progar e colaboradores (2001).
O participante desse estudo foi uma criança
com diagnóstico de autismo, que apresentava
comportamentos agressivos mantidos por es-
quiva de tarefas aversivas. O participante e seus
dois terapeutas haviam sido transferidos para
uma nova instituição após o fechamento da ins-
tituição em que o tratamento foi iniciado. Esse
tratamento consistia no fornecimento de itens
comestíveis contingentes ao seguimento de ins-
truções fornecidas pelo terapeuta e à ausência
de comportamentos agressivos (esquema de
reforçamento diferencial de outros compor-
tamentos – DRO). Na nova instituição, o mes-
mo tratamento foi utilizado, realizado por qua-
tro terapeutas: os dois terapeutas que já havi-
am trabalhado com o participante e dois que
não lhe eram familiares. Foram realizadas no
mínimo 10 sessões de 10 min por dia, em que
os comportamentos agressivos foram registra-
dos em intervalos de 10 s por dois observado-
res treinados. Os resultados indicaram diferen-
ças sistemáticas na freqüência dos comporta-
mentos agressivos direcionados aos terapeutas
familiares versus não-familiares, sendo essa fre-
qüência consistentemente mais alta com os
terapeutas que já haviam trabalhado com o
participante. De acordo com os autores, a alta
freqüência de comportamentos agressivos
direcionada aos dois terapeutas familiares pode
ser explicada pela história de exposição a situ-
ações aversivas na antiga instituição em que o
participante foi tratado por esses dois terapeu-
tas; tais situações incluíram mudanças freqüen-
tes na medicação utilizada, restrições de mo-
vimentos e reclusão em um ambiente fechado.
No entanto, considerando-se que não houve
manipulação das variáveis históricas aponta-
das, essa interpretação deve ser considerada
com cautela.
Concluindo, as duas pesquisas apresen-
tadas que discutem explicitamente efeitos de
história de reforçamento, encontradas no pe-
riódico de pesquisas aplicadas de maior reno-
me, apresentam problemas de controle expe-
rimental que comprometem a discussão dos
efeitos das variáveis históricas de interesse.
Considerando-se os resultados de pesquisas
básicas que demonstram a importância de va-
riáveis históricas na determinação do compor-
tamento atual (o que inclui a determinação da
eficácia do tratamento utilizado), é imperati-
vo que sejam desenvolvidas pesquisas aplica-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:445354 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
das sobre o efeito de tais variáveis. Para o apri-
moramento do controle experimental que fa-
voreceria conclusões acerca dos efeitos dessas
variáveis, poderia ser adotado um procedimen-
to-padrão para o estudo na pesquisa aplicada,
assim como vem sendo feito na pesquisa bási-
ca por estudos baseados nas propostas de
Sidman (1960) e de Wanchisen (1990). Ou
seja, o estudo sistemático da história de
reforçamento por meio da exposição a certas
experiências e avaliação dos efeitos dessas ex-
periências no comportamento subseqüente
deveria ser adaptado e adotado em pesquisas
aplicadas interessadas nos efeitos de variáveis
históricas.
DA PESQUISA BÁSICA
PARA A APLICAÇÃO
Em conjunto, os resultados obtidos por
estudos na área de história de reforçamento
indicam que as variáveis históricas devem ser
consideradas para a compreensão do ajusta-
mento do comportamento a novas contingên-
cias, bem como para a elaboração de interven-
ções eficazes em todos os contextos de aplica-
ção da psicologia e de outras áreas que com-
partilhem do interesse pelo comportamento
humano.
É importante ressaltar, no entanto, que
alguns cuidados devem ser tomados com re-
lação à aplicação do conhecimento adquirido
por meio da pesquisa básica. A obtenção de
resultados sistemáticos em uma pesquisa no
laboratório não implica a possibilidade de apli-
cação direta desses resultados para o compor-
tamento humano no ambiente natural. Para
que os resultados possam ser úteis no contex-
to humano, é necessário que se verifique a sua
replicabilidade com outros sujeitos da mes-
ma espécie e nas mesmas condições (repli-
cação direta), e com sujeitos de outras espé-
cies em condições diferentes daquelas do ex-
perimento original (replicação sistemática), o
que aumenta a fidedignidade e a generalida-
de dos resultados inicialmente encontrados
(Sidman, 1960). À medida que crescem as evi-
dências sobre os efeitos das variáveis em ques-
tão (isto é, na medida em que os resultados
são consistentemente replicados), novos tipos
de análise funcional e de intervenção podem
ser elaborados.
Ainda que sejam necessárias replicações
que favoreçam a fidedignidade e a generali-
dade dos resultados aqui descritos, o fato de
que os estudos empíricos têm sistematicamen-
te demonstrado que histórias de reforçamento
diferentes resultam em desempenhos diferen-
cialmente sensíveis a mudanças nas contin-
gências sugere que variáveis históricas devem
ser consideradas nas intervenções comporta-
mentais das mais diversas áreas da psicolo-
gia. No contexto da psicologia organizacional,
por exemplo, a produtividade e a satisfação
dos funcionários de uma empresa podem ser
favorecidas se houver uma preocupação da
parte dos profissionais responsáveis em pla-
nejar a contratação, a alocação e o remaneja-
mento de pessoal, levando-se em conta o his-
tórico de cada funcionário. Outras instituições
que seriam favorecidas pela consideração de
variáveis históricas são aquelas cujo interesse
primário é a aprendizagem (p. ex.: escolas).
Por exemplo, atrasos (ou acelerações) no de-
senvolvimento, que, em muitos casos, são atri-
buídos a outras variáveis (p. ex.: herança ge-
nética), podem ser prioritariamente função da
história de reforçamento sob contingências
que prejudicaram (ou favoreceram) a apren-
dizagem. Conhecendo-se os efeitos de dife-
rentes histórias, seria possível não somente
prever questões relacionadas ao desenvol-
vimento de cada indivíduo, mas também ela-
borar intervenções para produzir um desen-
volvimento mais acelerado quando este for o
interesse.
O conhecimento acerca da importância de
variáveis históricas pode ser útil, também, no
contexto clínico. A história de reforçamento de
um cliente muitas vezes é negligenciada, ou
sua importância é minimizada, porque muitos
terapeutas acreditam que, qualquer que seja
essa história, nada pode ser feito para modificá-
la e, portanto, a terapia deve focalizar as con-
tingências atuais. Entretanto, uma vez que o
papel das contingências atuais é modulado por
variáveis históricas, conhecer essa história pa-
rece ser imprescindível para a compreensão do
controle do comportamento (Lattal e Neef,
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4454
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 55
1996). Somente por meio de análises funcio-
nais precisas estaria o clínico habilitado a de-
senvolver estratégias de intervenção eficazes.
A importância de variáveis históricas para o
processo terapêutico pode ser ilustrada com o
caso clínico descrito a seguir.
Pedro (nome fictício), 22 anos, morava
em uma cidade do interior, onde as pessoas
eram “muito moralistas e religiosas”. Ele rela-
tava que, desde sua infância, engajava-se em
“jogos sexuais” com alguns primos e amigos e
que se sentia sexualmente atraído por meni-
nos. Ao mesmo tempo, ouvia de sua mãe e de
outras pessoas que o homossexualismo era
“sujo e pecaminoso”, que era “uma escolha de
uma pessoa má” e que os homossexuais, quan-
do morressem, “iriam para o inferno”. Para se
esquivar de seus pensamentos (e possíveis atos)
“pecaminosos”, ele se dedicou intensamente
aos estudos e passou a ser reconhecido na ci-
dade como um menino “bonzinho, ingênuo e
inteligente”. Sua vida social era muito restrita
e permaneceu dessa forma até ocorrer uma mu-
dança de cidade para iniciar um curso supe-
rior, o que representou uma grande alteração
nas contingências: Pedro foi morar no aloja-
mento estudantil, onde passou a dividir um
apartamento com outros alunos da universi-
dade que, de acordo com ele, interessavam-se
muito mais por atividades sociais do que por
atividades acadêmicas. No começo, ele nega-
va convites para sair, argumentando que tinha
de estudar. No entanto, após alguns meses, ele
passou a sair com os amigos e conheceu um
rapaz por quem se interessou e com quem ini-
ciou um namoro; seu tempo dedicado aos es-
tudos diminuiu drasticamente, e ele passou a
ser reprovado em várias matérias. O compor-
tamento de estudar, quando ocorria, era sem-
pre na véspera de testes e de provas, o que não
era suficiente para ser aprovado nas discipli-
nas. Decidiu, então, procurar uma terapia.
O levantamento do histórico desse clien-
te foi muito útil para a compreensão de seu
caso e para a elaboração da intervenção. Suas
dificuldades atuais relacionadas ao estudo
eram, em última instância, fruto das experiên-
cias passadas que produziram um padrão
comportamental inadequado para as atuais
contingências. Ficou claro que seu comporta-
mento em relação ao estudo, até o início da
faculdade, estava sendo mantido prioritaria-
mente por reforçamento negativo (esquiva de
críticas e rejeição) e não por reforçamento po-
sitivo (p. ex.: aprendizagem, boas notas, pres-
tígio entre colegas e professores). Além disso,
esse comportamento era ineficiente uma vez
que, embora o ajudasse a ter um bom desem-
penho escolar, consumia todo o seu tempo fora
da escola (mesmo não envolvendo conteúdos
e exercícios além daqueles exigidos pelos pro-
fessores). Quando as contingências foram al-
teradas, inserido no contexto o reforçamento
positivo de atividades sociais e de práticas ho-
mossexuais, seu comportamento em relação ao
estudo, como seria esperado, declinou subs-
tancialmente, passando a ocorrer somente em
ocasiões de forte controle aversivo (possibili-
dade de reprovação). As novas contingências,
portanto, exigiam um equilíbrio entre estudo
e lazer, algo que não fazia parte do repertório
comportamental de Pedro. Para tanto, era ne-
cessário que seu comportamento em relação
ao estudo se tornasse mais eficiente e passasse
a ser controlado prioritariamente por contin-
gências reforçadoras positivas, o que se tornou
um dos objetivos terapêuticos.
Outro caso clínico que ilustra a importân-
cia de se considerar variáveis históricas no con-
texto terapêutico é o de Sandra (nome fictí-
cio), 24 anos, que vinha de uma cidadedo in-
terior, onde morava com a mãe e três irmãos.
Os primeiros seis meses de terapia dessa clien-
te pareceram pouco proveitosos: ela tinha di-
ficuldades em detalhar eventos que lhe haviam
acontecido, especialmente aqueles relaciona-
dos à sua família, e em discriminar sentimen-
tos relacionados a esses eventos. Quanto a seu
namorado, afirmava que não sabia o que sen-
tia por ele, mas que ele a amava muito, a pon-
to de lhe dizer que ela era “a maior de todas as
suas conquistas” e de ter tentado suicídio quan-
do ela terminou o namoro. Sandra relatou que
todos os seus ex-namorados foram profunda-
mente apaixonados por ela, mas não sabia di-
zer o que havia sentido por eles. Os namoros
eram sempre terminados por iniciativa dela,
talvez porque, segundo ela, era uma mulher
muito independente e auto-suficiente. Perce-
bendo que ela se esquivava de falar sobre o
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4455
56 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
seu relacionamento familiar e sobre seus sen-
timentos, a terapeuta procurou bloquear essa
esquiva, insistindo em assuntos relacionados à
sua família e criando situações que provocas-
sem determinadas emoções, principalmente
aquelas que a cliente revelava nunca sentir (p.
ex.: raiva, ciúme). Nessas situações, no entan-
to, Sandra continuava esquivando-se e dizia
que a terapeuta estava interpretando seu com-
portamento de maneira errônea. Eventu-
almente, Sandra decidiu abandonar a terapia,
argumentando que não estava preparada para
falar dos assuntos que a terapeuta insistia em
abordar. Após três meses de intervalo, a tera-
peuta entrou em contato com a cliente e esta
decidiu, então, voltar à terapia. Após seu re-
torno, a cliente passou a relatar sobre seu his-
tórico familiar e afetivo.
Esses relatos foram extremamente úteis
para a compreensão do caso e para a interven-
ção. De acordo com Sandra, sua mãe (empre-
gada doméstica) era muito apaixonada por seu
pai (vendedor ambulante), mas o sentimento
não era recíproco. Seu pai viajava com muita
freqüência, sem data para voltar e, quando isso
acontecia, a família passava fome. Sua mãe foi
descrita como “uma pessoa sem o menor con-
trole emocional”: nos períodos em que o mari-
do estava ausente, falava alto e sem parar du-
rante todo o dia, principalmente reclamando
do marido e afirmando que ele queria matá-la.
Além disso, atirava objetos pela janela e nas
pessoas que não acatavam as suas ordens, e,
por isso, de acordo com a cliente, a casa “vivia
toda quebrada”. Quando o marido retornava,
a mãe parecia ficar ainda mais nervosa, gri-
tando e brigando com ele o tempo inteiro. Seus
irmãos acabaram ficando “perturbados” devi-
do à convivência com a mãe: um irmão era
“depressivo”, outro tornou-se um “fanático re-
ligioso” e o último comportava-se de forma
muito semelhante à de sua mãe. Diante da fra-
gilidade emocional da mãe e da ausência do
pai, Sandra passou a assumir grande parte das
responsabilidades familiares. Nos períodos em
que estava em casa, seu pai era muito carinho-
so e atencioso com ela, dizendo-lhe freqüente-
mente que sua mãe e seus irmãos eram “lou-
cos” e que o principal motivo para ele voltar
para casa era ela, sua filha preferida e a única
pessoa equilibrada da família. Sempre que re-
latava esses eventos, Sandra chorava muito e
dizia que se sentia abandonada pela única pes-
soa em quem confiava e a quem mais amava,
que era seu pai. Ela relatava que não sabia exa-
tamente o que sentia por todos os outros mem-
bros de sua família, mas que era algo “confuso
e ruim”. Esse sentimento de “confusão” foi des-
crito pela cliente em diversas outras situações,
quando se referia a episódios relacionados a
seu namorado (p. ex.: quando outra mulher
demonstrava interesse por ele) e a sua vida
profissional (uma vez que ela não estava certa
a respeito da profissão que iria seguir).
A análise funcional do caso de Sandra in-
dicou que o déficit no repertório de tato discri-
minado, por ela apresentado, tinha como ori-
gem a ausência de modelos apropriados e a
falta de reforçamento diferencial para tal com-
portamento. Além disso, seu contexto familiar
apresentava uma alta probabilidade de puni-
ção para o relato de sentimentos e de pensa-
mentos. Ou seja, expressar opiniões e revelar
o que sentia poderiam torná-la mais vulnerá-
vel à agressividade de sua mãe e gerar a perda
do afeto de seu pai, uma vez que ele afirmava
que ela era sua filha preferida justamente por
ser a mais diferente da mãe, ou seja, por não
fazer cobranças, não se queixar de nada, ser
sempre carinhosa com ele, enfim, a única “emo-
cionalmente controlada” na família. Diante
desse contexto, a cliente desenvolveu estraté-
gias de esquiva que, no início, consistiam em
não revelar sentimentos e pensamentos e que,
no momento da terapia, eram caracterizadas
por uma dificuldade generalizada de discrimi-
nar o que pensava e sentia, tanto em situações
aversivas quanto em situações reforçadoras.
Além disso, esse padrão de esquiva, antes li-
mitado ao ambiente familiar, passou a ser emi-
tido nos demais relacionamentos interpessoais
da cliente, incluindo o relacionamento com a
terapeuta. Ou seja, em função de uma história
de exposição a contingências aversivas, as quais
selecionaram o comportamento de esquiva
emocional, a cliente apresentava insensibilida-
de às contingências reforçadoras presentes em
seus contextos atuais.
O acesso ao histórico de Sandra, além de
ter sido útil para o fortalecimento do vínculo
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4456
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 57
terapêutico, uma vez que esse histórico incluía
informações muito íntimas e delicadas para a
cliente, também permitiu a compreensão do
quadro funcional de suas dificuldades atuais.
Essa compreensão, por sua vez, foi fundamen-
tal para que a terapeuta abandonasse estraté-
gias anteriormente utilizadas (p. ex.: bloqueio
da esquiva), as quais tinham um forte teor
aversivo para a cliente e, assim, acabaram re-
forçando o padrão de esquiva que se desejava
extinguir. A terapeuta decidiu, então, imple-
mentar estratégias terapêuticas caracterizadas
pelo uso de modelação e modelagem. Os rela-
tos sobre a história familiar, bem como aque-
les sobre os acontecimentos atuais, permitiram
que Sandra “revivesse” momentos difíceis em
um local seguro, onde era permitido que ela
“perdesse o controle emocional” sem que isso
implicasse a perda de afeto por parte da
terapeuta. Ou seja, a terapeuta procurou cons-
truir uma nova história de relacionamento
interpessoal, diferente daquela vivida com os
pais da cliente, oferecendo modelos e refor-
çando diferencialmente a expressão de senti-
mentos e também a emissão de opiniões, de
comentários e de sugestões. Sandra foi, pouco
a pouco, aprendendo a discriminar seus senti-
mentos, de forma que os relatos sobre “senti-
mento de confusão” foram gradativamente
substituídos por relatos de raiva, de ciúme, de
afeto e de admiração, por exemplo. Ela tam-
bém foi gradualmente aprendendo a expres-
sar suas opiniões e, assim, a construir relacio-
namentos interpessoais mais reforçadores. Em
suma, esse caso ilustra como o conhecimento
sobre a história de reforçamento e punição
pode ser extremamente útil para a análise fun-
cional e para a intervenção terapêutica, e não
somente para o conhecimento das origens do
comportamento.
A relevância de se considerar variáveis his-
tóricas não se restringe apenas ao trabalho do
psicólogo, mas também diz respeito a todas as
ciências sociais e políticas, uma vez que a his-
tória de uma população ou grupo social é re-
fletida na forma como esse grupo reage às mais
diversas contingências. Conhecendo o efeito de
variáveis históricas, poderíamos tentar prever,
por exemplo, como um degredado político
adapta-se a um país com uma cultura diferen-
te da sua, como os valores atuais do gênero
feminino são função, em grande parte, das lu-
tas feministasdo passado e como uma popula-
ção reage com ataques terroristas a uma longa
história de imperialismo e subjugo, por exem-
plo. Dessa forma, é importante que educado-
res, psicólogos, sociólogos e todos os profissio-
nais interessados na saúde de homens ou de
grupos humanos estudem os efeitos da histó-
ria de reforçamento e que considerem tais efei-
tos na elaboração de suas intervenções. Gran-
de parte do conhecimento sobre os efeitos de
história tem sido construída com a realização
de pesquisas básicas; portanto, é importante
que os mais diversos profissionais considerem
a importância de tais pesquisas e que se bene-
ficiem de seus achados.
CONCLUSÃO
Investigações sobre os efeitos de variáveis
históricas vêm sendo desenvolvidas por diver-
sas áreas de pesquisa em análise do comporta-
mento. No entanto observa-se uma falta de sis-
tematização dos estudos realizados nessas áre-
as, uma vez que eles não são reconhecidos
como estudos de história de reforçamento e,
conseqüentemente, seus resultados não são in-
tegrados com aqueles obtidos em pesquisas de
história. A integração dos resultados dessas pes-
quisas poderia contribuir para o acúmulo do
conhecimento sobre o comportamento huma-
no (e não-humano), por vários motivos. Pri-
meiro, porque os resultados de alguns estudos
poderiam ser considerados replicações sistemá-
ticas de resultados obtidos em uma outra área,
favorecendo a fidedignidade e a generalidade
dos dados encontrados, além de evitar gastos
desnecessários de tempo e de recursos finan-
ceiros com outras replicações. Segundo, por-
que variáveis que alteram os efeitos da histó-
ria de reforçamento, identificadas em uma área
de pesquisa, poderiam ser manipuladas de
modo a aumentar o controle experimental de
estudos de outras áreas que também investi-
gam efeitos de história. Terceiro, porque os
resultados de estudos em uma dessas áreas de
pesquisa poderiam suscitar questões a serem
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4457
58 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
investigadas, também, por outras áreas de
pesquisa.
Para que os resultados dos estudos que
investigam os efeitos de variáveis históricas
sejam integrados, é necessária uma retomada
da definição anteriormente apresentada de
história de reforçamento. De acordo com a de-
finição proposta por Wanchisen (1990), um
estudo poderá ser considerado um estudo de
história quando o seu objetivo for acessar, em
uma fase de teste, os efeitos da exposição pré-
via a diferentes condições experimentais. Den-
tre os estudos com tais objetivos encontram-
se aqueles da área denominada resistência à
mudança (apresentada no Capítulo 4 deste li-
vro). Ou seja, as pesquisas que investigam a
resistência à mudança e os efeitos da história
de reforçamento compartilham o mesmo in-
teresse: a sensibilidade do desempenho pre-
viamente reforçado diante de mudanças nas
contingências (Santos, 2001). Quanto menor
a sensibilidade comportamental observada,
maior a resistência à mudança ou, alternati-
vamente, maior o efeito da história de
reforçamento sobre o responder atual. No
entanto os procedimentos utilizados nas duas
áreas de investigação guardam algumas dife-
renças. Primeiro, a variável histórica é dife-
rente nas duas áreas: enquanto os estudos de
história investigam os efeitos da exposição,
na fase de treino, a dois ou mais esquemas de
reforçamento diferentes (p. ex.: FR e DRL),
estudos sobre resistência investigam os efei-
tos da liberação de reforços com taxa, magni-
tude ou atraso diferentes sob um único es-
quema de reforçamento (p. ex.: um esquema
mult de VI 1 min VI 3 min), na fase de treino.
Segundo, enquanto os estudos sobre história
geralmente investigam a sensibilidade
comportamental à mudança nas contingênci-
as, utilizando esquemas diferentes nas fases
de treino e de teste, estudos sobre resistência
à mudança investigam a sensibilidade imple-
mentando outros tipos de alterações nas con-
tingências vigentes, tais como aumentos
no nível de saciação, apresentação de um es-
tímulo sinalizador de choques inevitáveis e
extinção. Possivelmente devido a essas dife-
renças, estudos sobre resistência à mudança
não são reconhecidos como estudos de histó-
ria de reforçamento.
Os estudos de resistência à mudança têm
consistentemente indicado que os efeitos de
mudanças nas condições experimentais são al-
terados por diversas variáveis históricas. Por
exemplo, vários experimentos têm indicado que
aumentos no nível de saciação, sobrepostos ao
esquema em vigor, produzem um menor
declínio na taxa de respostas produzida pelo
esquema de reforçamento que envolve a libe-
ração de reforços com maiores magnitudes
(Harper e McLean, 1992, Experimento 1;
Nevin, 1974, Experimento 3; Nevin, Mandell e
Yarensky, 1981, Experimento 1), maiores ta-
xas (Cohen et al., 1993, Experimentos 3 e 4;
Nevin, 1974, Experimento 1) e menores atra-
sos (Grace, Schwendiman e Nevin, 1998, Fase
2; Nevin, 1974, Experimento 4). No entanto
os efeitos de tais variáveis não foram ainda
investigados em função da mudança no esque-
ma de reforçamento, isto é, utilizando-se o pro-
cedimento mais comum na área de história
comportamental.
Outros estudos em análise do comporta-
mento que investigam efeitos de variáveis his-
tóricas, de acordo com a definição proposta por
Wanchisen (1990), são aqueles incluídos na
área de desamparo aprendido, apresentada no
Capítulo 5. De uma forma geral, estudos sobre
desamparo aprendido utilizam três grupos ex-
perimentais que são expostos, na fase de trei-
no, a eventos aversivos independentes da res-
posta, eventos aversivos dependentes da res-
posta ou não recebem nenhum tipo de trata-
mento; na fase de teste, todos os grupos são
expostos a uma única situação experimental,
na qual os efeitos da exposição às condições
anteriores são avaliados.
Assim como os estudos sobre resistência
à mudança, estudos sobre desamparo apren-
dido não são reconhecidos como investigações
sobre história de reforçamento, uma vez que
os procedimentos utilizados nessas duas áreas
guardam algumas diferenças. Primeiro, a variá-
vel histórica cujos efeitos são investigados não
é a mesma: enquanto estudos de história in-
vestigam os efeitos da exposição, na fase de
treino, a dois ou mais esquemas de reforça-
mento, estudos de desamparo investigam os
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4458
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 59
efeitos da exposição a dois esquemas (VI e VT),
em que há ocorrência de eventos aversivos (p.
ex.: choques ou tons altos) dependentes ou
independentes da resposta nessa mesma fase.
Segundo, enquanto estudos de história envol-
vem condições em que há uma relação de de-
pendência entre o evento e a resposta, tanto
na fase de treino quanto na fase de teste, estu-
dos de desamparo geralmente envolvem con-
dições em que há independência entre a res-
posta e o evento na fase de treino e dependên-
cia entre a resposta e o evento, na fase de tes-
te. Terceiro, as variáveis dependentes avalia-
das nas duas áreas de investigação são dife-
rentes: enquanto estudos de história investi-
gam os efeitos de manipulações em variáveis
históricas sobre a sensibilidade da taxa de res-
postas, estudos de desamparo investigam os
efeitos dessas variáveis sobre o tempo de reação
e o número de acertos na nova contingência.
Os resultados de estudos sobre desampa-
ro aprendido têm indicado que o grupo expos-
to a eventos independentes da resposta apre-
senta maiores déficits na aprendizagem (tem-
pos de reação mais longos e menor número de
acertos) subseqüente do que os demais grupos
(Benson e Kennely, 1976; Overmier e Seligman,
1967). Em outras palavras, a história de expo-
sição a eventos independentes da resposta di-
minui a sensibilidade à alteração nas condições
experimentais (de independência para depen-
dência), uma vez que o sujeito permanece com-
portando-se como se não houvesse relação de
contingência entresuas respostas e o reforço.
Além disso, muitos estudos sobre desamparo
indicam que a exposição a condições em que a
ocorrência dos eventos depende da resposta,
antes da fase de treino ou entre esta e a fase de
teste, pode anular os efeitos da história de in-
dependência entre os eventos e as respostas,
não sendo observado, assim, o desamparo
aprendido na fase de teste (Prindaville e Stein,
1978; Williams e Maier, 1977; Yano e Hunziker,
2000, Experimento 2). Tais condições têm sido
denominadas como “imunização” e “terapia”,
respectivamente.
Diversas variáveis investigadas na área de
história de reforçamento não foram ainda
investigadas na área de desamparo aprendido.
Considerando-se os resultados de estudos que
indicam que a diferença na regularidade tem-
poral da apresentação dos eventos nas fases
de treino e de teste (Freeman e Lattal, 1992),
aumentos no atraso entre a fase de treino e a
fase de teste (Ono e Iwabuchi, 1997) e aumen-
tos no nível de saciação (Aló, 2002) promo-
vem a sensibilidade à mudança nas contingên-
cias ou, alternativamente, minimizam os efei-
tos da história de exposição a diferentes esque-
mas de reforçamento, seria interessante inves-
tigar se essas variáveis diminuiriam também
os efeitos da história de independência entre
os eventos e o responder.
O objetivo dos estudos sobre comporta-
mento governado por regras (CGR, apresenta-
do no Capítulo 12) também consiste em inves-
tigar, na fase de teste, os efeitos da exposição
prévia a determinadas condições experimen-
tais e, portanto, também podem ser considera-
dos estudos sobre história de reforçamento, de
acordo com a definição proposta por Wanchisen
(1990). No entanto esses estudos não são re-
conhecidos como tais, provavelmente em fun-
ção de diferenças entre os procedimentos
adotados nas duas áreas. Primeiro, as variá-
veis históricas investigadas são diferentes: en-
quanto estudos sobre história investigam os
efeitos da exposição prévia a diferentes esque-
mas de reforçamento, estudos sobre CGR in-
vestigam os efeitos da exposição prévia a re-
gras. Segundo, estudos de história geralmente
envolvem apenas contingências não-verbais,
enquanto estudos de CGR envolvem dois tipos
de contingências de reforçamento: verbais e
não-verbais. Terceiro, enquanto os estudos so-
bre história investigam a sensibilidade compor-
tamental à mudança nas contingências utili-
zando esquemas diferentes nas fases de treino
e de teste, estudos sobre CGR não envolvem,
necessariamente, mudanças no esquema de
reforçamento. Para avaliar a sensibilidade do
CGR, são utilizadas duas metodologias básicas.
Na primeira, uma regra é fornecida ao par-
ticipante, que é, então, exposto a uma contin-
gência; em seguida, essa contingência é modi-
ficada, enquanto a regra permanece a mesma.
Na segunda, ocorre o inverso, a regra é modi-
ficada, e a contingência permanece inalterada.
Caso a modificação da contingência seja acom-
panhada de mudanças no desempenho, o com-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4459
60 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
portamento é considerado sensível e, caso con-
trário, insensível. Alternativamente, caso a mu-
dança na regra seja acompanhada de mudan-
ças no desempenho, este é considerado insen-
sível; caso contrário, o desempenho é conside-
rado sensível.
Diversos estudos têm demonstrado que a
história de reforçamento por seguir regras pode
promover insensibilidade a mudanças nas con-
tingências ambientais (Hayes et al., 1976;
Kaufman, Baron e Kopp, 1966; Otto, Torgrud e
Holborn, 1999). Outros estudos têm indicado
que essa insensibilidade pode ser minimizada
ou anulada por variáveis como o contato com a
discrepância entre a regra e a contingência
(Buskist e Miller, 1986; Galizio, 1979), a histó-
ria de exposição a instruções ou esquemas de
reforçamento variados (LeFrancois, Chase, e
Joyce, 1988) e a utilização de esquemas com
freqüência alta de reforços (Newman et al.,
1994). Entretanto os efeitos da interação entre
a história de reforçamento por seguir regras e
outras variáveis estudadas na área de história
de reforçamento não foram ainda investigados.
Considerando-se os resultados dessa área que
indicam que a saciação, por exemplo, pode
minimizar os efeitos da história, seria plausível
supor que aumentos no nível de saciação dos
reforços fornecidos na contingência não-verbal
minimizariam a insensibilidade produzida pela
história de reforçamento por seguir regras.
Concluindo, áreas de pesquisa que inves-
tigam os efeitos da história de reforçamento,
como aquelas denominadas de resistência à mu-
dança, desamparo aprendido e comportamen-
to governado por regras, vêm se desenvolven-
do independentemente, não se beneficiando mu-
tuamente com os resultados obtidos. Muitas ve-
zes, pesquisadores interessados em uma área de
pesquisa realizam experimentos com base ape-
nas no que tem sido discutido na área específi-
ca, não procurando integrar os resultados obti-
dos com os de outras áreas. Conforme se procu-
rou ilustrar aqui, os resultados encontrados por
estudos em diferentes áreas poderiam contri-
buir para o aprimoramento do controle experi-
mental, para suscitar novas questões de investi-
gação, ou para complementar as questões for-
muladas por pesquisadores de outras áreas. A
identificação de estudos cujas variáveis de inte-
resse são comuns, de uma forma geral, poderá
promover a integração dos resultados obtidos
em diversas áreas, favorecendo a predição e o
controle do comportamento humano.
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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 63
MOMENTO COMPORTAMENTAL
CRISTIANO VALÉRIO DOS SANTOS
estudar mais detalhadamente a resistência a
mudanças (Nevin e Grace, 2000).
O produto da taxa de respostas e a resis-
tência a mudanças é chamado “momento
comportamental”, em analogia à noção de
quantidade de movimento na Mecânica Clás-
sica: a taxa de respostas seria equivalente à
velocidade com que um corpo se desloca e a
resistência a mudanças seria equivalente à
massa (quantidade de inércia) desse corpo
(Nevin, Mandell e Atak, 1983). Por exemplo,
a força necessária para parar um carro a 100
km/h é maior do que a força necessária para
parar esse mesmo carro se ele estiver a 60
km/h. Por outro lado, parar um caminhão
requer um esforço muito maior do que parar
um carro, pois o caminhão tem maior massa.
Analogamente, seria necessária uma altera-
ção maior nas condições ambientais para per-
turbar o responder que apresenta alto momen-
to comportamental.
Este capítulo é basicamente sobre resis-
tência a mudanças. Inicialmente, serão discu-
tidas questões metodológicas presentes nos
estudos de resistência a mudanças, com ênfa-
se na definição e na mensuração desse fenô-
meno. Em seguida, será feita uma revisão so-
bre as principais variáveis que afetam a resis-
tência a mudanças e sobre seus processos de-
terminantes. A isso, segue-se um item no qual
serão discutidas as semelhanças e as diferen-
ças entre o conceito de resistência a mudanças
e outros conceitos presentes na análise do com-
portamento. Por fim, serão apresentados alguns
estudos que tentaram fazer uma ponte entre
4
A manutenção da resposta em face de mo-
dificações nas condições ambientais é uma
questão de extrema relevância, tanto para
quem trabalha com pesquisa básica quanto para
quem está interessado em propiciar mudanças
duradouras no comportamento de seus clien-
tes. Quem trabalha com pesquisa básica ou apli-
cada dentro do referencial teórico analítico-
comportamental, muito freqüentemente, usa
delineamentos nos quais as variáveis são ma-
nipuladas intra-sujeito, e conhecer como ma-
nipulações prévias podem afetar o desempe-
nho sob contingências atuais torna-se crítico.
Similarmente, quem se preocupa com a apli-
cação direta dos princípios da análise do com-
portamento em situações fora do laboratório
constantemente se questiona sobre como con-
seguir resultados duradouros ou sobre compor-
tamentos especialmente difíceis de modificar.
Em ambos os casos, conhecer as variáveis res-
ponsáveis pela maior ou menor persistência da
resposta é imprescindível.
Tradicionalmente, essa questão tem sido
tratada, em análise do comportamento, sob o
rótulo de “força da resposta”. Mais recentemen-
te, esse termo vem sendo substituído pelo con-
ceito de “momento comportamental”, que en-
volve a observação de duas medidas: a freqüên-
cia com que essa resposta é emitida por unida-
de de tempo (taxa de respostas) e o grau de
alteração no responder quando alguma condi-
ção é alterada (resistência a mudanças). Em-
bora as variáveis que afetam a taxa de respos-
tas já tenham sido amplamente estudadas, so-
mente a partir da década de 1980 procurou-se
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4463
64 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
os dados obtidos em laboratório sobre resis-
tência a mudanças e possíveis aplicações prá-
ticas desse conceito.
MOMENTO COMPORTAMENTAL:
PESQUISA BÁSICA
A pesquisa básica sobre momento com-
portamental, em especial sobre resistência a
mudanças, tem sido desenvolvida ao longo dos
últimos 30 anos. Antes desse período, já havia
estudos conduzidos com o objetivo de avaliar
a resistência do ato de responder em face de
mudanças nas contingências, principalmente
diante de procedimento de extinção, mas al-
guns problemas na forma como os dados fo-
ram analisados, discutidos a seguir, tornam di-
fícil uma comparação entre esses estudos e os
conduzidos mais recentemente. Assim, a revi-
são que se segue focalizará os estudos mais
recentes que não apresentam tais problemas e
que se enquadram dentro do quadro conceitual
do momento comportamental.
Questões metodológicas
Uma forma de se estudar a resistência a
mudanças no laboratório poderia ser feita ex-
pondo um organismo a um esquema de refor-
çamento qualquer e observando mudanças na
resposta quando alguma condição (p. ex.: ní-
vel de privação) é modificada. Contudo Nevin
(1979) apontou que esse procedimento pode
não ser o mais adequado: é possível que a res-
posta não seja alterada sob aquele esquema de
reforçamento, como também pode ser que
aquela mudança no nível de privação não afe-
te a resposta sob nenhum esquema. Assim sen-
do, pouca ou nenhuma informação sobre re-
sistência é obtida.
Um procedimento mais adequado para
o estudo da resistência a mudanças envolve a
exposição de um organismo a duas ou mais
contingências diferentes. Essas contingências
são, em geral, apresentadas em um esquema
múltiplo, que envolve a apresentação suces-
siva de dois ou mais esquemas de reforçamen-
to e com sinalização antecedente diferencia-
da para cada esquema. O esquema múltiplo é
preferido por garantir que uma condição am-
biental vai afetar a resposta em todas as con-
tingências aproximadamente da mesma for-
ma e intensidade. Depois da obtenção de uma
taxa de respostas estável em todas as contin-
gências, alguma condição ambiental é modi-
ficada, e alterações na taxa de respostas são
observadas. Uma resposta é considerada mais
resistente a mudanças quanto menos ela se
alterar em face das modificações nas condi-
ções ambientais. Grandes alterações são in-
dicativas de menor resistência.
Uma outra questão importante para a
qual se deve atentar é a medida de resistência
a mudanças. Observem que o interesse não é
mais na taxa de respostas em si, mas na maior
ou menor manutenção da resposta – que pode
ser a taxa de respostas ou qualquer outra di-
mensão do comportamento – em face de algu-
ma mudança. Se a dimensão de interesse for
semelhante entre os componentes do esque-
ma múltiplo e for observado que, depois da
mudança em alguma condição, essa dimensão
foi afetada em graus diferentes entre os com-
ponentes, a identificação do componente no
qual a obtenção da resposta era mais resisten-
te é bastante clara. Contudo considerem o se-
guinte exemplo: em um dos componentes de
um esquema múltiplo, a taxa de respostas era
de 100 respostas por minuto (R/min); no ou-
tro componente, a taxa era de 50 R/min. Após
a alteração de alguma condição, a taxa de res-
postas no primeiro componente passou a ser
de 80 R/min e no segundo, de 30 R/min. Em
ambos, a taxa de respostas sofreu um decrés-
cimo absoluto semelhante: 20 R/min. No en-
tanto esse mesmo valor representa uma redu-
ção de 20% no primeiro componente e uma
redução de 40% no segundo. Assim, não faz
sentido dizer que ambos os componentes apre-
sentam igual resistência se, em relação à con-
dição anterior, a redução no segundo compo-
nente foi duas vezes maior. Esse problema é
contornado usando-se uma medida relativa ou
uma escala que leve em conta o nível da respos-
ta antes da alteração (p. ex.: escala logarítmi-
ca). A maioria dos estudos apresentados a se-
guir tomou esse cuidado; em caso de exceção,
esse fato será ressaltado explicitamente.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4464
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 65
Um exemplo do procedimento comumen-
te utilizado para estudar resistência a mudan-
ças no laboratório é apresentado no estudo de
Bouzas (1978). Nesse estudo, pombos foram
expostos a um esquema múltiplo com dois
componentes. Em um deles, vigorava um es-
quema de reforçamento de intervalo variável
(VI) 1 min; no outro, vigorava um esquema de
VI 4 min. Assim que a taxa de respostas tor-
nou-se estável nos dois componentes, uma con-
dição ambiental foi alterada: uma contingên-
cia de punição foi sobreposta ao esquema múl-tiplo. Em ambos os componentes, choques de
intensidades variadas eram liberados de acor-
do com um esquema de VI 30 s. Essa alteração
ambiental provocou um decréscimo na taxa de
respostas nos dois componentes, como era de
se esperar. Entretanto esse decréscimo foi maior
no componente que liberava menos reforços
(VI 4 min). De acordo com a definição já apre-
sentada, a resposta mantida pelo esquema VI
4 min foi menos resistente à mudança na con-
tingência.
A introdução de uma contingência de pu-
nição é somente uma entre várias condições
que podem ser alteradas. Outras operações que
freqüentemente são realizadas incluem o pro-
cedimento de extinção (retirada da conseqüên-
cia mantenedora da resposta), alterações no
nível de privação (em especial, saciação antes
da sessão experimental), acréscimo de “refor-
çadores” livres dentro do próprio componente
ou em um intervalo entre componentes, intro-
dução de estímulos que sinalizam a ocorrên-
cia de estímulos aversivos inevitáveis, entre
outras. A lista não pretende ser exaustiva; é
possível pensar em vários outros procedimen-
tos que vão, de alguma forma, afetar a respos-
ta, aumentando-a ou diminuindo-a, e qualquer
um deles pode ser considerado uma operação
que vai, de alguma forma, alterar o curso nor-
mal da resposta (DO, do inglês Disrupting
Operation).
Usando como referência a Mecânica Clás-
sica, o modelo de momento comportamental
pode ser expresso matematicamente conforme
a seguinte função:
log (B
x 
/B
o
) = -f/m (1)
Nessa função B
o
 e B
x
 representam a taxa
assintótica de respostas durante a linha de base
e após a introdução da DO, respectivamente; f
é o valor da DO (p. ex.: taxa de “reforçadores”
livres, quantidade de alimento fornecido an-
tes da sessão ou número de sessões de
extinção), e m é a massa comportamental (re-
sistência a mudanças). O sinal negativo antes
de f indica que a DO diminui a taxa de respos-
tas e, uma vez que o lado esquerdo da equa-
ção é adimensional, f e m devem ser medidos
nas mesmas unidades.
A função logarítmica presente na equa-
ção é preferida por três motivos principais:
a) como já mencionado, a escala loga-
rítmica leva em consideração o ní-
vel da resposta antes da introdução
da DO;
b) essa escala evita o efeito “chão”, uma
vez que vai até – ∞;
c) as funções que relacionam log (B
x 
/B
o
)
aos valores da DO são aproximada-
mente lineares (Nevin, 2002).
Um dado interessante apresentado por
Nevin é o fato de que a medida de resistência
a mudanças apresenta propriedades aditivas,
o que a qualifica como uma escala de razão.
Por exemplo, se duas DOs são combinadas (p.
ex.: introdução de “reforçadores” livres durante
o intervalo entre componentes e extinção), essa
combinação terá o mesmo efeito, numerica-
mente, que a soma algébrica dos efeitos das
DOs isoladas. O mesmo vale para combinação
de diferentes dimensões dos reforçadores (p.
ex.: taxa e magnitude).
Variáveis que afetam
a resistência a mudanças
Ao contrário do que acontece na Mecâni-
ca Clássica, na qual a massa de um corpo em
movimento raramente muda de um momento
para outro, a resistência da resposta a mudan-
ças pode ser afetada por uma série de variá-
veis. Muitas delas afetam igualmente a taxa
de respostas; porém, como veremos adiante,
os processos determinantes da taxa de respos-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4465
66 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
tas e da resistência a mudanças podem ser di-
ferentes. Além disso, a resistência a mudanças
pode ser diferencialmente afetada pelo tipo de
mudança que é realizado.
Dentre as variáveis que afetam a resistên-
cia a mudanças da resposta mantida por
reforçamento positivo, destacam-se a magni-
tude, o atraso e a taxa de reforços. Tanto a mag-
nitude quanto a taxa de reforços, em geral,
apresentam uma relação direta com a resistên-
cia a mudanças; o atraso do reforço e a resis-
tência a mudanças, por outro lado, apresen-
tam uma relação inversa.
O efeito da magnitude do reforço é
exemplificado no estudo de Harper e McLean
(1992, Experimento 1), no qual pombos foram
expostos a um esquema múltiplo VI 120 s VI
120 s, cujos componentes diferiam somente
na duração de acesso ao alimento que era for-
necido (6 s ou 2 s). Em seguida, 3 s de ali-
mento livre foram fornecidos no intervalo
entre componentes de acordo com esquemas
de tempo variável (VT) 30 ou 120 s. Todas as
condições foram mantidas até que a taxa de
respostas atendesse a um critério de estabili-
dade. As mudanças na taxa de respostas em
face da liberação de alimento livre foram ana-
lisadas tanto nas cinco sessões iniciais quan-
to nas cinco últimas sessões. Em ambos os
casos, a taxa de respostas no componente que
liberava o reforço de maior magnitude apre-
sentou um menor decréscimo com a introdu-
ção de alimento livre, indicando, portanto,
maior resistência a essa manipulação. Resul-
tados semelhantes a esses foram obtidos em
outras ocasiões usando extinção (Pavlik e
Collier, 1977), diferentes magnitudes de ali-
mento livre no intervalo entre componentes
(Harper, 1996) e saciação (Nevin, Mandell e
Yarensky, 1981) como DO.
O atraso do reforço, em geral, diminui a
resistência a mudanças, como demonstrado nos
estudos de Nevin (1974) e Grace, Schwendi-
man e Nevin (1998). Entretanto esse efeito
pode ser revertido caso o atraso seja sinaliza-
do. Bell (1999) treinou pombos em um esque-
ma múltiplo com três componentes, separados
por períodos de blackout. No primeiro compo-
nente, vigorava um esquema VI de 120 s e a
primeira resposta após o término do intervalo
iniciava um atraso não sinalizado de 3 ou 8 s.
O segundo componente era idêntico ao primei-
ro, com exceção de que o atraso após o esque-
ma VI era sinalizado por uma mudança na cor
do disco. No terceiro componente vigorava um
esquema VI de 123 ou 128 s, dependendo do
atraso em vigor nos outros dois componentes.
Três testes de resistência foram realizados:
saciação, apresentação de alimento livre du-
rante os períodos de blackout e extinção. Os
três procedimentos provocaram decréscimos na
taxa de respostas nos três componentes, po-
rém de forma mais acentuada no componente
com atraso não-sinalizado; o decréscimo na
taxa de respostas do componente com atraso
sinalizado foi semelhante ao do componente
sem atraso.
De todas as variáveis estudadas, a taxa
de reforços é a que tem recebido maior
atenção dos pesquisadores. Um grande núme-
ro de pesquisas investigou os efeitos de
reforçamento contínuo (CRF) versus reforça-
mento parcial (PRF) sobre a resistência à
extinção, e um dado foi sistematicamente
obtido: o ato de responder mantido por
reforçamento parcial, geralmente, apresentou
maior resistência à extinção. Esse efeito ficou
conhecido como o “efeito do reforçamento
parcial” (PRE, do inglês partial reinforcement
effect). O PRE tem sido compreendido como
resultado do que se chama decréscimo de ge-
neralização. Após um treino extensivo, os
reforçadores passam a fazer parte da situa-
ção de estímulo na qual o treino ocorre e,
quando a extinção começa, há uma mudança
maior na situação de estímulo da condição
de CRF para extinção do que da condição de
PRF para extinção, pois o PRF já inclui perío-
dos em que não ocorre reforçamento. Essa
maior mudança na situação de estímulo
provocada pela transição de CRF para
extinção geraria um decréscimo maior na taxa
de respostas (Grace e Nevin, 2000).
Contudo, mais recentemente, esses dados
têm sido alvo de questionamentos, sendo o
principal deles o tipo de medida utilizado para
avaliar a resistência à extinção. A medida de
resistência à extinção nos estudos que demons-
traram o PRE, em geral, era expressa em valo-
res absolutos. Essa medida, como exposto an-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4466
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 67
teriormente, não é uma medida fidedigna de
resistência uma vez que não leva em conside-
ração o nível da resposta antes daextinção.
Ao fazer uma reanálise desses estudos usan-
do, como medida de resistência, a taxa de res-
postas ao longo das sessões de extinção ex-
pressa como proporção da taxa de respostas
na primeira sessão de extinção, Nevin (1988)
observou que a inclinação da curva de extin-
ção variava de um estudo para outro em fun-
ção do total de reforços obtidos na condição
anterior à extinção: quanto maior o total de
reforços recebidos, mais a resistência à ex-
tinção da resposta mantida por CRF aumen-
tava em relação à resistência à extinção da
resposta mantida por PRF, chegando fre-
qüentemente a superá-la.
Os dados apresentados por Nevin (1988),
junto com outros (Blackman, 1968; Bouzas,
1978; Nevin, 1974, 1984; Nevin, Mandell e
Atak, 1983; Nevin et al., 1990), têm sugerido
que a resistência a mudanças é função direta
da taxa de reforços obtidos. Apesar da sis-
tematicidade dos resultados obtidos nesses es-
tudos, algumas variáveis importantes devem ser
consideradas. Primeiro, a relação direta entre
taxa de reforços e resistência a mudanças é
observada basicamente com o uso de esque-
mas múltiplos, cujos componentes alternam
com uma freqüência relativamente alta (du-
rante a mesma sessão); se as diferentes taxas
de reforços forem apresentadas em esquemas
simples ou se os componentes alternarem a
cada dia ou a cada semana, essa relação direta
não se mantém (Cohen, 1998; Cohen, Riley e
Wigley, 1993). Segundo, os estudos que obti-
veram essa relação direta utilizaram, em sua
grande maioria, procedimentos de operante li-
vre, enquanto estudos que obtiveram PRE usa-
ram procedimentos de tentativa discreta. Com
esse segundo tipo de procedimento, o PRE pode
ser observado apesar do uso de uma medida
relativa e, até o momento, não se sabe exata-
mente que aspecto desse procedimento leva-
ria a esse resultado. Por fim, a resistência a mu-
danças, assim como a taxa de respostas, não é
determinada somente pela taxa de reforços ob-
tidos em um componente isolado, mas depen-
de da taxa de reforços de todos os outros com-
portamentos alternativos, fenômeno esse co-
nhecido como contraste comportamental
(Nevin, 1992).
Além das várias dimensões do estímulo
reforçador, o tipo de evento usado como
reforçador também pode afetar diferencialmen-
te a resistência a mudanças. Mace e colabora-
dores (1997, Experimento 3) expuseram ratos
a um esquema múltiplo cujos componentes di-
feriam somente no estímulo que era usado
como reforçador (sacarina versus ácido cítri-
co). Em uma condição anterior, foi observado
que os ratos apresentavam preferência por sa-
carina em relação ao ácido cítrico. Quando
colocados em extinção, a resposta mantida por
sacarina mostrou-se mais resistente do que a
resposta mantida por ácido cítrico, sugerindo
que a qualidade do reforçador também é uma
variável importante.
Variáveis sociais também podem afetar
a resistência a mudanças. Santos (2001) in-
vestigou o efeito da presença de um outro in-
divíduo da mesma espécie sobre a resistência
a saciação. Inicialmente, ratos foram expos-
tos a um esquema múltiplo com dois compo-
nentes (VI 10 s e VI 90 s). Após a obtenção de
taxa de respostas estável, os sujeitos foram
submetidos a um procedimento de saciação
antes da sessão experimental e expostos no-
vamente ao esquema múltiplo. Contudo, nas
sessões em que ocorria a saciação, os sujeitos
poderiam estar sozinhos na caixa experimen-
tal ou na presença de outro rato, que poderia
estar igualmente respondendo ou meramen-
te presente. A mera presença do outro rato
aumentou tanto a taxa absoluta de respostas
quanto a resistência à saciação, porém o efei-
to sobre a resistência a mudanças só foi
significante no componente VI 10 s.
A própria topografia da resposta, ou a for-
ma como a resposta é organizada, também
pode ser afetada diferencialmente por mudan-
ças no ambiente. Doughty e Lattal (2001), por
exemplo, observaram que o comportamento de
variação pode ser mais resistente a mudanças
do que o comportamento de repetição. Nesse
estudo, pombos foram expostos a um esque-
ma múltiplo com dois componentes, sendo que,
em ambos, a unidade de análise era seqüênci-
as de quatro respostas, emitidas em dois dis-
cos: E, para o disco da esquerda e D, para o
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4467
68 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
disco da direita. Em um dos componentes, so-
mente a seqüência EDED seria reforçada (com-
ponente de repetição); no outro, qualquer se-
qüência poderia ser reforçada desde que sua
freqüência relativa se situasse abaixo de um
patamar predeterminado (componente de va-
riação). A taxa de reforços foi igualada entre
os componentes e foram realizados dois testes
de resistência: saciação antes da sessão e in-
trodução de alimento livre entre os componen-
tes. A resposta no componente de variação foi
ligeiramente mais resistente aos dois testes re-
alizados do que a resposta no componente de
repetição, indicando que a resposta pode ser
afetada diferencialmente por mudanças no
ambiente em função da própria organização
da resposta em análise.
Os dados mencionados até o momento re-
ferem-se a pesquisas com animais não-huma-
nos. Existem poucas pesquisas que investiga-
ram o efeito de diferentes taxas de reforços
sobre a resistência a mudanças com humanos,
usando o modelo proposto por Nevin (1974).
Desses, dois merecem destaque, ambos reali-
zados com participantes que apresentavam
atraso de desenvolvimento. Mace e colabora-
dores (1990) expuseram dois indivíduos com
retardo mental a um esquema múltiplo com
dois componentes. Em ambos os componen-
tes, a tarefa dos sujeitos consistia em agrupar
talheres em conjuntos de garfos, facas e colhe-
res. Os componentes eram sinalizados pela cor
dos talheres (verde e vermelho), e reforços
eram liberados de acordo com diferentes es-
quemas VI em cada um. O comportamento sob
investigação foi alterado pela introdução de um
videoteipe durante a tarefa. A taxa de respos-
tas caiu em ambos os componentes, porém mais
acentuadamente no componente com menor
taxa de reforço. Além disso, em uma segunda
parte do experimento, reforços adicionais fo-
ram introduzidos, em um dos componentes,
independentes da resposta dos sujeitos. Essa
manipulação diminuiu a taxa de respostas nesse
componente, porém aumentou a resistência à
mudança quando o videoteipe foi introduzido.
Dube e McIlvane (2001) obtiveram resultado
semelhante, usando como tarefa um procedi-
mento simples de discriminação condicional
(pareamento de identidade) e esquemas de ra-
zão variável (VR) no lugar de esquemas VI.
Se a quantidade de pesquisas sobre resis-
tência a mudanças com reforçamento positivo
já não é tão grande, menor ainda é a quantida-
de de pesquisas sobre a resistência de compor-
tamentos mantidos por reforçamento negati-
vo. Além disso, as poucas pesquisas que inves-
tigaram esse assunto são, em sua maioria, an-
tigas e apresentam os mesmos problemas na
análise dos dados que as primeiras pesquisas
com reforçamento positivo (uso de uma medi-
da absoluta em vez de uma medida relativa),
de forma que seus resultados devem ser lidos
com cautela. Dos estudos existentes, todos in-
vestigaram a resistência à extinção dos com-
portamentos de fuga e esquiva, usando cho-
que como o estímulo aversivo, obtendo-se os
seguintes resultados: a resistência à extinção
dos comportamentos de fuga e esquiva aumen-
ta com o aumento na intensidade do choque
(Franchina, 1969; Stavely, 1966), com o acrés-
cimo de um estímulo aviso (Shnidman, 1966)
e com o aumento na freqüência de choques
liberados (Courtney e Perone, 1992). Por ou-
tro lado, um aumento na probabilidade de re-
forço provoca uma diminuição na resistência
à extinção de comportamentos de esquiva
(Galvani, 1971; 1973; Olson, Davenport e
Kamichoff, 1971). Dos estudos sobre resistên-
cia à extinção de comportamentos mantidos
por reforçamento negativo, o trabalho de
Courtneye Perone (1992) foi o único que usou
uma medida relativa de resistência e o único
em que a variável de interesse (freqüência de
choques liberados) foi manipulada entre os
componentes de um esquema múltiplo con-
corrente.
Processos determinantes
da resistência a mudanças
A taxa de respostas durante o condicio-
namento e a resistência a mudanças (entendi-
da como maior ou menor alteração em algu-
ma medida da resposta quando alguma opera-
ção que a modifique é realizada) geralmente
têm sido consideradas medidas de força da res-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4468
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 69
posta. No entanto, já em 1938 (p. 85), Skinner
sugeriu uma baixa correlação entre essas duas
medidas:
A definição de condicionamento que foi dada
aqui é em termos de uma mudança na força
do reflexo, mas o ato de reforçamento tem
outro efeito distinto. Ele estabelece a potencia-
lidade de uma curva de extinção subseqüen-
te, cujo tamanho é uma medida da extensão
do condicionamento. Não há uma relação sim-
ples entre essas duas medidas. É possível atin-
gir uma taxa máxima de respostas (uma força
máxima) muito rapidamente. Reforços adicio-
nais não afetam essa medida, mas continuam
a fortalecer a reserva descrita por uma curva
de extinção subseqüente. O efeito típico do
“supercondicionamento” é sentido não em al-
guma propriedade imediata do comportamen-
to, mas sobre suas mudanças subseqüentes du-
rante a extinção. (A ausência de uma relação
entre as duas medidas não é incompatível com
o pressuposto de uma relação entre taxa e re-
serva devido à interposição da reserva imedia-
ta limitada.) (itálico adicionado)
Alguns estudos têm reforçado a proposi-
ção de uma ausência de relação entre taxa de
respostas e resistência a mudanças. Fath e cola-
boradores (1983), por exemplo, expuseram
pombos a um esquema múltiplo VI 60 s VI
60 s, aos quais sobrepuseram um procedimen-
to de pacing, segundo o qual as respostas só
seriam reforçadas se ocorressem em uma taxa
específica. Essa estratégia experimental dife-
renciou a taxa de respostas entre os compo-
nentes, mantendo a taxa e a probabilidade de
reforços constantes entre eles. Taxas de res-
postas diferentes mantidas pela mesma proba-
bilidade de reforço apresentaram a mesma re-
sistência quando alimento livre foi introduzi-
do entre os componentes. Por outro lado,
Blackman (1968), usando um procedimento
de supressão condicionada, observou que ta-
xas de respostas semelhantes mantidas por di-
ferentes taxas de reforços apresentaram resis-
tência diferenciada.
Esses dados levaram Nevin (1984) a su-
gerir que a taxa de respostas e a resistência a
mudanças seriam determinadas por processos
distintos. Mais precisamente, a taxa de respos-
tas seria determinada pela relação de contin-
gência entre resposta e conseqüência (relação
R-S), enquanto a resistência a mudanças seria
determinada pela relação de contingência en-
tre estímulo antecedente e conseqüência (re-
lação S-S). Existe uma relação de contingên-
cia entre dois eventos A e B quando a probabi-
lidade de B ocorrer dada a presença de A for
maior do que em sua ausência. Assim, quanto
maior a probabilidade de a conseqüência ocor-
rer na presença de um estímulo ou de uma res-
posta, em comparação com sua ausência, mais
forte será a relação entre eles.
Uma série de estudos tem sido realizada
com o objetivo de avaliar a proposta de Nevin
(1984) e, de forma geral, essa proposta tem
recebido algum apoio empírico (Nevin et al.,
1990; Nevin, Smith, e Roberts, 1987). Em um
estudo freqüentemente citado, Nevin e cola-
boradores (1990), enfraqueceram a relação R-
S, ao mesmo tempo em que fortaleceram a re-
lação S-S, ao fornecerem uma fonte alternati-
va de reforços na presença do mesmo estímu-
lo antecedente. No Experimento 1, os sujeitos
foram expostos a um esquema múltiplo no qual
esquemas VI idênticos vigoravam nos dois com-
ponentes. Em um dos componentes, além do
esquema VI, o alimento era liberado indepen-
dentemente da resposta, de acordo com um
esquema VT, em uma taxa que variava de 40 a
240 reforços por hora. Dessa forma, a relação
R-S foi enfraquecida – visto que parte do ali-
mento liberado no componente era indepen-
dente da resposta – e o enfraquecimento dessa
relação provocou um decréscimo na taxa de
respostas que foi diretamente relacionado à
quantidade de alimento livre obtido. Contudo
a relação S-S foi fortalecida no componente
com reforços adicionais, já que uma maior
quantidade de alimento era recebida na pre-
sença do estímulo que sinalizava aquele com-
ponente. Para avaliar a proposta de que a re-
sistência a mudanças seria aumentada pelo for-
talecimento da relação S-S, dois testes de re-
sistência a mudanças foram realizados: sa-
ciação e extinção. Nos dois testes, a proposta
foi confirmada: quanto maior a taxa de refor-
ços obtidos, contingentes ou não à resposta,
maior foi a resistência. No Experimento 2, re-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4469
70 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
sultados semelhantes foram obtidos, usando
um procedimento ligeiramente diferente: nes-
se caso, os reforços adicionais poderiam ser
obtidos respondendo em outro disco, cuja cor
era a mesma que sinalizava o componente.
Além disso, um outro estudo mostrou que
os reforçadores liberados independentemente
da resposta podem ser qualitativamente dife-
rentes dos reforçadores liberados dependen-
tes da resposta e, mesmo assim, a resistência é
aumentada. No estudo de Grimes e Shull
(2001), os sujeitos (ratos) respondiam em um
esquema múltiplo e recebiam pelotas de ali-
mento como reforçador. Em um dos compo-
nentes, leite condensado era liberado indepen-
dentemente da resposta e, após a obtenção de
taxas de respostas estáveis, a extinção era rea-
lizada. A resistência à extinção foi maior no
componente no qual o leite condensado era
liberado independentemente da resposta, re-
sultado semelhante ao de Nevin e colaborado-
res (1990). Esses resultados, em conjunto, sa-
lientam a importância de se considerarem to-
das as conseqüências que estão sendo libera-
das dentro de um contexto ou mesmo em con-
textos semelhantes, a despeito do tipo de con-
seqüência.
Apesar disso, mais recentemente, tem-se
observado a influência de algumas relações R-
S sobre a resistência a mudanças (Bell, 1999;
Nevin et al., 2001). No estudo de Bell, descri-
to anteriormente, em um dos componentes vi-
gorava um esquema VI 120 s mais um atraso
não-sinalizado de 3 s, enquanto em outro com-
ponente vigorava um esquema VI 123 s. Dessa
forma, o tempo entre o início do componente
e a liberação do reforço era idêntico entre os
componentes (igual relação S-S), porém o atra-
so não-sinalizado enfraquecia a relação R-S.
Como descrito, o atraso do reforço não-sinali-
zado enfraqueceu a resistência a mudanças,
mostrando que esta também pode ser afetada
por modificações na relação R-S.
Resistência a mudanças e preferência
As variáveis que afetam a resistência a
mudanças parecem também afetar a preferên-
cia de uma alternativa entre várias dispostas
em esquemas concorrentes encadeados. Nevin
(1979) sugeriu que tanto a resistência a mu-
danças quanto a preferência são manifestações
de um constructo maior, a massa comporta-
mental, que seria análoga à massa de um cor-
po físico.
Alguns estudos têm mostrado que a re-
sistência a mudanças e a preferência entre elos
terminais de esquemas concorrentes encade-
ados realmente são co-variantes. Grace e
Nevin (1997) expuseram pombos a duas si-
tuações na mesma sessão experimental. Na
primeira parte da sessão, vigoravam esque-
mas concorrentes encadeados com elos inici-
ais iguais e elos terminais que diferiam so-
mente na taxa de reforços liberados. Na se-
gunda parte, os elos terminais dos esquemas
concorrentes encadeados usados na primeira
parte da sessão foram apresentados em esque-
mas múltiplos. A resistência a mudanças foi
testada com a liberaçãode alimento livre no
intervalo entre os componentes do esquema
múltiplo, e a preferência foi avaliada pela pro-
porção de respostas nos elos iniciais. Tanto a
preferência quanto a resistência a mudanças
mostraram-se diretamente relacionadas à taxa
de reforços liberados. Além disso, preferên-
cia e resistência apresentaram alta correlação
entre si, o que sugere que essas duas medidas
podem ser expressões diferentes e indepen-
dentes de um mesmo constructo, como suge-
rido por Nevin (1979). Resultados semelhan-
tes foram obtidos com componentes de dura-
ção constante ou variável (Grace e Nevin,
2000) e com manipulações na magnitude do
reforço (Grace, Beddel e Nevin, 2002).
Resistência a mudanças versus
sensibilidade comportamental versus
efeitos da história de reforçamento
Outras áreas dentro da análise do com-
portamento, além daquela sobre resistência a
mudanças, observam a manutenção de padrões
de respostas após a alteração de alguma variá-
vel ambiental. Entre elas, destacam-se os estu-
dos sobre a sensibilidade comportamental e so-
bre os efeitos de história de reforçamento e
punição. Embora a nomenclatura seja diferen-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4470
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 71
te, todas essas áreas compartilham um mesmo
interesse: a persistência de padrões de com-
portamento anteriormente reforçados quando
mudanças nas contingências são realizadas.
Essa persistência tem sido denominada, por
diferentes grupos de pesquisadores, de alta
resistência a mudanças, baixa sensibilidade
comportamental ou efeito de história.
O termo sensibilidade comportamental é
geralmente usado em dois contextos diferen-
tes. O primeiro deles se refere à área de esco-
lha e de preferência. Nas pesquisas dessa área,
o procedimento padrão consiste em expor os
sujeitos a um esquema concorrente, cujos com-
ponentes são, em geral, esquemas VI que libe-
ram diferentes taxas de reforços. Após as ta-
xas de respostas tornarem-se estáveis, os valo-
res dos esquemas VI são alterados ao longo de
várias condições, e a proporção de respostas
em cada uma das alternativas é calculada.
Herrnstein (1961) observou que a proporção
de respostas em cada alternativa igualava a
proporção de reforços liberados naquela alter-
nativa. Esse resultado ficou conhecido como a
lei da igualação e tem sido replicado várias ve-
zes (p. ex.: Brownstein e Pliskoff, 1968;
Reynolds, 1963).
Baum (1974), entretanto, observou que
a lei da igualação parecia não descrever acu-
radamente alguns resultados obtidos por meio
do procedimento já descrito. Alguns sujeitos
apresentavam grandes mudanças na propor-
ção de respostas em face de pequenas mudan-
ças na proporção de reforços; outros sujeitos,
por sua vez, apresentavam o padrão contrá-
rio. Em função disso, foram acrescentados dois
parâmetros à lei da igualação: o viés e a sen-
sibilidade. O viés refere-se a uma preferência
por uma das alternativas que se mantém ape-
sar das manipulações na taxa de reforços. A
sensibilidade, por outro lado, é uma medida
que mostra o quanto o comportamento muda
em função de mudanças na taxa de reforços.
Nesse sentido, a sensibilidade comportamental
seria o contrário da resistência a mudanças:
uma alta sensibilidade seria equivalente a uma
baixa resistência a mudanças e vice-versa. A
única diferença seria o tipo de operação utili-
zada (ver Capítulo 9 para uma discussão mais
detalhada sobre escolha e preferência).
É interessante notar que a sensibilidade
comportamental estudada na área de escolha
pode ser influenciada, assim como a resistên-
cia a mudanças, pela relação de contingência
entre o estímulo antecedente e a conseqüên-
cia. Por exemplo, Todorov e colaboradores
(1983) expuseram alguns pombos a diferen-
tes pares de esquemas concorrentes VI VI em
9 condições de 30 sessões cada (Fase 1) e a 5
condições de 55 sessões cada (Fase 2). Os mes-
mos estímulos antecedentes foram utilizados
em todas as condições. Os resultados mostra-
ram que a sensibilidade comportamental em
ambas as fases diminuiu com o aumento no
número de condições experimentais e aumen-
tou com o aumento no número de sessões. O
decréscimo da sensibilidade com o aumento
no número de condições pode ter sido devido
ao fato de que, apesar de os valores dos esque-
mas VI terem mudado, o estímulo anteceden-
te permaneceu o mesmo. Ao se mudarem os
valores dos esquemas, padrões anteriormente
reforçados na presença dos estímulos antece-
dentes tenderam a persistir, sendo tal persis-
tência evidenciada na baixa sensibilidade (ou
alta resistência) às mudanças nos valores dos
esquemas.
Um suporte adicional para essa possibili-
dade foi fornecido posteriormente por Hanna,
Blackman e Todorov (1992). Nesse estudo, seis
pombos foram expostos a 20 combinações de
cinco valores de esquemas VI arranjados con-
correntemente, em uma sessão de 5 h. Na pri-
meira fase, para três sujeitos, cada valor de
intervalo era sinalizado por uma cor diferente,
enquanto para os outros três, a cor do disco de
resposta era sempre a mesma, independente
do esquema em vigor. Na segunda fase, as con-
dições de estímulos foram revertidas para cada
pombo. A presença de estímulos diferentes
sinalizando diferentes esquemas exerceu um
controle sobre a taxa de respostas logo na pri-
meira hora de sessão; já nas condições com
estímulos antecedentes iguais, as taxas de res-
postas foram inicialmente semelhantes, tornan-
do-se diferenciadas após a segunda hora de
sessão. A sensibilidade comportamental tam-
bém foi afetada pela presença de diferentes
estímulos, sendo alta desde o início da sessão
(valores próximos a 1) em comparação com a
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4471
72 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
condição na qual os esquemas foram sinaliza-
dos pela mesma cor. Novamente, quando o es-
tímulo antecedente permaneceu o mesmo,
pode-se supor que padrões de comportamento
anteriormente reforçados tenderam a perma-
necer, diminuindo a sensibilidade (ou aumen-
tando a resistência) às mudanças nas contin-
gências. Esses dados, em conjunto, apontam
para a importância da relação entre o estímu-
lo antecedente e a conseqüência como
determinante da sensibilidade em procedimen-
tos de escolha, assim como da resistência a
mudanças em esquemas múltiplos.
O segundo contexto no qual o termo sen-
sibilidade é utilizado é na área de comporta-
mento governado por regras. Vários estudos
presentes na literatura têm mostrado que o
uso de regras pode tornar o comportamento
insensível a mudanças nas contingências
ambientais (Catania, Shimoff e Matthews,
1989; Hayes et al., 1986; Otto, Torgrud e
Holborn, 1999). O procedimento básico para
a avaliação da insensibilidade do comporta-
mento governado por regras envolve a expo-
sição dos sujeitos a uma contingência prece-
dida por uma instrução. Depois de algum tem-
po, a contingência é modificada e mudanças
no comportamento são registradas. Se o com-
portamento for alterado em função da mu-
dança na contingência, ele é dito sensível; caso
contrário, é considerado insensível (Madden,
Chase e Joyce, 1998). Alternativamente, pode-
se manter a contingência e mudar as instru-
ções fornecidas. Nesse caso, o comportamen-
to seria dito sensível caso não se alterasse com
a mudança nas instruções. Um exemplo des-
se último tipo de procedimento foi apresen-
tado no estudo de Kauffman, Baron e Kopp
(1966), no qual estudantes universitários fo-
ram expostos a uma tarefa por seis sessões de
30 min, nas quais estava em vigor um esque-
ma VI 1 min. Além disso, os autores fornece-
ram instruções precisas e imprecisas aos su-
jeitos: para alguns deles, foi dito que deveri-
am responder de acordo com um esquema VI
1 min; para outros, que deveriam responder
de acordo com um esquema FI 1 min e, para
os demais, de acordo com um esquema VR
150. Todos os participantes responderam con-
forme o padrão descrito na instrução, da pri-
meiraà última sessão, mostrando insensibili-
dade à contingência programada ou, alterna-
tivamente, alta resistência a mudanças (ver
Capítulo 12 para informações mais detalha-
das sobre a sensibilidade do comportamento
governado por regras).
Apesar de alguns autores terem argumen-
tado que a insensibilidade é uma característi-
ca intrínseca ao comportamento governado por
regras, ela também pode ser entendida à luz
do conceito de resistência a mudanças. As ins-
truções utilizadas nos procedimentos dessa
área são estímulos antecedentes verbais que
podem funcionar como estímulos discrimi-
nativos (Okouchi, 1999), operações estabelece-
doras (Michael, 1982) ou operações que alte-
ram a função de outros estímulos (Schlinger,
1993). Independentemente da função exercida,
as instruções são correlacionadas com a ocor-
rência de reforçamento, tanto positivo quanto
negativo. Essa alta correlação entre estímulo
antecedente e conseqüência pode ser respon-
sável pela resistência a mudanças comumente
observada em comportamentos sob controle
funcional de instruções. Por outro lado, se a
relação entre a instrução e a conseqüência é
enfraquecida, o comportamento rapidamente
muda em face das contingências alteradas,
como demonstrou Galizio (1979). No Experi-
mento 3 desse estudo, dois participantes fo-
ram expostos a quatro componentes de um
esquema múltiplo e lhes foi dito que os estí-
mulos antecedentes sinalizavam a ocorrência
de perdas monetárias, que poderiam aconte-
cer ou não a cada 10, 30 ou 60 s, dependendo
do componente. Inicialmente, a contingência
de perda não estava em vigor (condição sem
contato); em seguida, perdas monetárias acon-
teciam a cada 10 s, independente do compo-
nente (condição com contato), após a qual a
condição sem contato foi retomada. Além dis-
so, em cada uma das condições, o experimen-
tador dizia aos participantes que, na presença
de uma luz laranja, as instruções recebidas se-
riam sempre precisas; quando uma luz púrpu-
ra se acendesse, as instruções seriam inacu-
radas. Na primeira condição sem contato, o
desempenho dos participantes foi de acordo
com as instruções recebidas, a despeito de sua
precisão. Na condição com contato, os partici-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4472
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 73
pantes continuaram comportando-se de acor-
do com as instruções quando estas eram “pre-
cisas”, mas as abandonaram rapidamente quan-
do eram “imprecisas”. Nessa condição, a cor-
relação entre a instrução (estímulo anteceden-
te) e a conseqüência foi diminuída. Na condi-
ção seguinte (sem contato), os participantes
abandonaram as instruções quando estas eram
imprecisas, ao contrário do que aconteceu na
primeira exposição a essa condição, indican-
do uma alta sensibilidade à contingência ou,
alternativamente, baixa resistência a mudan-
ças. Esses dados sugerem que, novamente, a
relação de contingência entre antecedente e
conseqüência parece ser uma importante va-
riável na determinação da (in)sensibilidade
comportamental.
Uma segunda variável que guarda seme-
lhança com a resistência a mudanças é o cha-
mado “efeito de história”. Esse efeito também
se refere à observação da persistência de pa-
drões de respostas, anteriormente reforçadas
sob um tipo de esquema de reforçamento,
quando as contingências são alteradas. Um
experimento típico delineado para investigar
o efeito de história envolve a exposição dos su-
jeitos a um tipo de esquema de reforçamento,
o qual posteriormente é substituído por outro.
O efeito de história é observado quando pa-
drões de respostas emitidos no primeiro es-
quema permanecem no esquema seguinte.
Wanchisen, Tatham e Mooney (1989), por
exemplo, observaram o efeito de história ex-
pondo ratos a um esquema VR e, em seguida,
a um esquema FI. Um segundo grupo (contro-
le) foi exposto somente ao esquema FI. Em
contraste com o grupo controle, os ratos ini-
cialmente expostos ao esquema VR exibiram,
no esquema FI, taxas de respostas altas e pau-
sas pós-reforço curtas, padrões de respostas ti-
picamente encontrados sob o esquema VR,
sugerindo que a resposta sob contingências
atuais pode ser influenciada por contingências
passadas. Essa persistência da resposta é co-
mumente descrita como efeito da história de
reforçamento, mas pode igualmente ser consi-
derada como evidência de alta resistência ou
baixa sensibilidade a mudanças (ver Capítulo
3 para informações mais detalhadas sobre his-
tória de reforçamento).
O efeito de história pode igualmente ser
influenciado pela taxa de reforços, assim como
a resistência a mudanças. Okouchi e Lattal
(2000) testaram essa possibilidade ao treina-
rem pombos em um esquema múltiplo em cujos
componentes vigoravam esquemas tandem VI
DRL. Os valores dos esquemas VI foram ajusta-
dos de maneira a tornar a taxa de reforços em
um dos componentes maior do que no outro.
Em seguida, os esquemas tandem VI DRL foram
substituídos por esquemas FI de diferentes va-
lores, porém os estímulos que sinalizavam cada
componente foram mantidos. Durante o treino,
os sujeitos responderam em taxas baixas e se-
melhantes nos dois componentes. Quando hou-
ve a mudança para o esquema FI, a resposta
permaneceu em taxas baixas (padrão anterior-
mente reforçado no esquema DRL) na presença
do estímulo associado com a maior taxa de re-
forços durante o treino por mais tempo do que
a resposta no componente com menor taxa de
reforços, replicando os resultados encontrados
na literatura de resistência a mudanças.
Com isso, podemos concluir que a análi-
se dos conceitos de resistência a mudanças, de
sensibilidade comportamental e de efeito de
história acaba por revelar grandes semelhan-
ças ou, até mesmo, superposições. Nos três
casos, a variável de interesse é a persistência
de padrões de comportamento. Em segundo
lugar, o mesmo processo parece ser responsá-
vel pela ocorrência dessas três variáveis: a re-
lação entre o estímulo antecedente e a conse-
qüência, como os estudos citados têm demons-
trado. Apesar de existirem diferenças de pro-
cedimento e de as variáveis de interesse não
serem exatamente as mesmas, as semelhanças
encontradas levantam a possibilidade, pouco
estudada, de interação entre diferentes áreas
de pesquisas. Conforme Sidman (1960), o mais
produtivo para a ciência é a busca de similari-
dades, e não de diferenças. Por exemplo, inter-
relações entre fenômenos podem conduzir à
integração de áreas de pesquisa, e perguntas
de uma área podem ser esclarecidas ou
complementadas por outra. Além disso, per-
guntas que já foram formuladas em uma área
podem suscitar outros questionamentos em áre-
as afins. Assim, pesquisadores que, até o mo-
mento, trabalharam separadamente poderiam
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4473
74 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
beneficiar-se dos conhecimentos produzidos
em outras áreas que não se restringem às dis-
cutidas aqui, caso semelhanças entre elas se-
jam identificadas.
APLICAÇÕES DOS CONCEITOS
DE MOMENTO COMPORTAMENTAL
E DE RESISTÊNCIA A MUDANÇAS
O conceito de resistência a mudanças, jun-
to com os dados obtidos em pesquisa básica,
tem sido utilizado por alguns pesquisadores na
solução de problemas aplicados. O comporta-
mento sobre o qual existe um maior número
de trabalhos aplicados é a aquiescência a ins-
truções (Strand, 2000). O procedimento pa-
drão nesses estudos compreende a apresenta-
ção de uma instrução a que o participante ra-
ramente obedece (instrução de baixa probabi-
lidade), precedida por um conjunto de instru-
ções a que o participante freqüentemente obe-
dece (instruções de alta probabilidade). Com
o uso desse procedimento, ocorre um aumen-
to na freqüência com a qual a instrução de
baixa probabilidade controla o comportamen-
to do participante.
A lógica por trás do uso desse procedi-
mento é a seguinte: o comportamento de se-
guir instruções é uma classe de respostas de
ordem superior (nessecaso, chamada aquies-
cência), que abarca várias instâncias nas quais
instruções são fornecidas. Dentro dessa classe,
algumas instruções controlam mais facilmen-
te o comportamento do participante e são aque-
las a que o participante obedece com uma alta
probabilidade; outras instruções dificilmente
controlam o comportamento do participante.
Usando a metáfora do momento comporta-
mental, a introdução de instruções que o par-
ticipante dificilmente segue pode ser conside-
rada uma DO, algo que vai alterar o fluxo
comportamental normal do indivíduo. Contu-
do, uma vez que tanto as instruções de alta
probabilidade quanto as instruções de baixa
probabilidade pertencem à mesma classe de
respostas de ordem superior (aquiescência), o
reforçamento de algumas instâncias dessa clas-
se pode aumentar a resistência a mudanças da
classe como um todo, inclusive das instâncias
com baixa probabilidade de ocorrência. Esse
fenômeno foi observado nos exemplos a seguir.
Mace e colaboradores (1988) realizaram
uma série de experimentos, investigando os
efeitos do reforçamento da aquiescência a uma
série de instruções de alta probabilidade sobre
a aquiescência a uma instrução de baixa pro-
babilidade, com participantes que apresen-
tavam atraso no desenvolvimento. No Expe-
rimento 1, o participante foi exposto a cinco
condições. Na linha de base, instruções de bai-
xa probabilidade, tanto afirmativas (p. ex.: “Por
favor, afaste sua lancheira”) quanto negativas
(p. ex.: “por favor, não coloque sua lancheira
na mesa”), eram apresentadas em intervalos
de 1 min e, se seguidas, tinham como conse-
qüência um elogio. Nas condições seguintes,
ora as instruções de baixa probabilidade afir-
mativas, ora as negativas, eram precedidas por
três ou quatro instruções de alta probabilida-
de (p. ex.: “venha cá e me dê um abraço”),
afirmativas ou negativas, respectivamente,
também tinham um elogio como conseqüên-
cia. A introdução de instruções de alta proba-
bilidade aumentou significativamente a aqui-
escência às instruções de baixa probabilidade.
No Experimento 2, os autores adicionaram uma
condição-controle, na qual somente atenção era
dada ao participante antes de uma instrução
de baixa probabilidade, o que não foi suficien-
te para aumentar a aquiescência; o reforça-
mento do seguimento de instruções de alta pro-
babilidade foi necessário para que esse aumen-
to ocorresse.
No Experimento 3, foi investigado o efei-
to da taxa de reforços sobre a aquiescência. O
procedimento foi semelhante ao do Experimen-
to 1. Contudo em algumas condições o experi-
mentador, depois de ter fornecido a última ins-
trução de alta probabilidade, fazia uma pausa
de 20 s antes de fornecer a instrução de baixa
probabilidade; em outras condições, a pausa
era de 5 s. Uma pausa maior entre as instru-
ções supostamente diminuiria a taxa de refor-
ços, e os resultados, condizentes com a litera-
tura de pesquisa básica, mostraram que o au-
mento da pausa diminuiu a probabilidade de
aquiescência. No Experimento 4, o procedi-
mento de instruções de alta probabilidade foi
usado para diminuir a latência ao iniciar tare-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4474
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 75
fas instruídas e, no Experimento 5, o procedi-
mento foi usado para diminuir o tempo de exe-
cução de tarefas (no caso, os vários passos que
deveriam ser realizados ao tomar banho). O
procedimento foi semelhante ao do Experimento
1. Novamente, o fornecimento de instruções de
alta probabilidade diminuiu a latência para ini-
ciar uma tarefa exigida e o tempo para a execu-
ção de tarefas.
Os efeitos observados no estudo de Mace
e colaboradores (1988) também podem ser
influenciados pelo tipo de reforçador utiliza-
do. Conforme anteriormente descrito, Mace
e colaboradores (1997, Experimento 3) mos-
traram que o comportamento de ratos manti-
do por sacarina foi mais resistente à extinção
do que o comportamento mantido por ácido
cítrico, apesar de a taxa de reforços ter sido
semelhante nos dois casos. Nos Experimen-
tos 1 e 2 desse mesmo estudo, os autores ob-
servaram o efeito da exposição ao procedi-
mento de instruções de alta probabilidade, de
forma semelhante ao estudo de Mace e cola-
boradores (1988), porém manipulando o tipo
de reforçador. Em algumas condições, seguir
as instruções de alta probabilidade era refor-
çado com elogios; em outras, com alimento.
Seguir as instruções de baixa probabilidade,
apresentadas em seguida às instruções de alta
probabilidade, era reforçado sempre com elo-
gio, independentemente da condição. Os re-
sultados dos dois experimentos mostraram
uma relação clara entre o tipo de reforçador
e o aumento na probabilidade de aquiescên-
cia: quando o alimento era usado como
reforçador, a probabilidade de aquiescência
era maior do que quando eram usados elogi-
os como reforço. Além disso, esses resultados
são compatíveis com a noção de que a resis-
tência a mudanças e a preferência estão inti-
mamente relacionadas, pois, nos três experi-
mentos, o reforçador que se mostrou mais efi-
caz em aumentar a resistência foi o mesmo
para o qual os participantes já apresentavam
uma preferência anterior. Esses dados, junta-
mente com aqueles obtidos por Grace e Nevin
(1997), sugerem que uma boa forma de se
identificar os reforçadores que serão mais efi-
cazes em produzir alta resistência é identifi-
car os eventos preferidos pelos participantes.
O procedimento de instruções de alta pro-
babilidade também foi usado com sucesso para
melhorar o desempenho na resolução de pro-
blemas matemáticos em participantes sem atra-
so no desenvolvimento e sem o uso de refor-
çadores arbitrários. Belfiore, Lee, Vargas e
Skinner (1997) realizaram inicialmente uma
avaliação de preferência entre exercícios de
multiplicação com um ou três dígitos. As par-
ticipantes foram duas adolescentes que estu-
davam em uma escola alternativa, pois haviam
sido expulsas da escola regular, em função de
se recusarem a iniciar tarefas e a obedecer às
normas da escola. Os resultados da avaliação
de preferência mostraram que ambas as parti-
cipantes preferiam exercícios de multiplicação
com um único dígito. Em seguida, a latência
para iniciar os problemas de multiplicação com
três dígitos foi avaliada em duas condições: na
primeira, as participantes eram simplesmente
expostas aos problemas com três dígitos; na
segunda, antes de cada problema com três dí-
gitos, as participantes eram expostas a três pro-
blemas de multiplicação com um único dígito.
Nenhum tipo de feedback era fornecido pelos
investigadores em nenhuma condição. A latên-
cia para iniciar os problemas de três dígitos
diminuiu significativamente com a introdução
dos três problemas de multiplicação com um
único dígito. Esses resultados foram replicados
posteriormente por Belfiore, Lee, Scheeler e
Klein (2002).
Esses dados são interessantes ao se pen-
sar na generalidade da aplicação do procedi-
mento de instruções de alta probabilidade. Pri-
meiro, nesses dois estudos, as atividades de alta
probabilidade e as atividades de baixa probabi-
lidade eram funcionalmente relacionadas, uma
vez que ambas consistiam na resolução de pro-
blemas matemáticos equivalentes, diferindo
somente no grau de complexidade (em contraste
com estudos anteriores, nos quais as instruções
de alta probabilidade não tinham uma relação
tão clara com as de baixa probabilidade). Se-
gundo, o evento reforçador para os problemas
era a própria conclusão do problema, e não al-
gum evento estabelecido arbitrariamente (p. ex.:
elogio). Em uma situação natural, é praticamen-
te impossível dar a atenção individual que seria
necessária para a liberação de reforçadores ar-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4475
76 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
bitrários. O uso de reforçadores naturais aumen-
ta, assim, a generalidade da aplicação do pro-
cedimento para situações nas quais o controledas conseqüências pelo investigador não pode
ser feito individualmente, como em uma sala
de aula, por exemplo.
A metáfora do momento comportamental
tem sido empregada em várias outras situações,
como, por exemplo, em hospitais. Esses estu-
dos têm demonstrado um aumento da aquies-
cência aos procedimentos médicos (McComas,
Wacker e Cooper, 1998), iniciação de contatos
sociais (Davis et al., 1994), redução de compor-
tamentos autolesivos e agressão (Horner et al.,
1991) e redução de estereotipias (Mace e Belfiore,
1990). Outros estudos, apesar de não terem sido
diretamente delineados dentro do quadro
conceitual do momento comportamental, po-
dem ser considerados como tal. Por exemplo,
Parpal e Maccoby (1985) observaram que um
aumento nas interações parentais recíprocas
com crianças durante brincadeiras aumentava
a probabilidade de elas obedecerem aos pedi-
dos posteriores de suas mães para que guardas-
sem os brinquedos. Dentro da perspectiva do
momento comportamental, ao se engajarem em
interações recíprocas com as crianças, os pais
podem acabar reforçando uma ampla classe de
respostas que poderiam ser denominadas de
cooperação. O reforçamento dessa classe de res-
postas durante as brincadeiras pode ter aumen-
tado a resistência a mudanças dessas respostas,
fazendo com que as mesmas permanecessem,
mesmo na ausência de reforçamento.
A metáfora do momento comportamental
e o procedimento de alta probabilidade tam-
bém podem ter funções heurísticas até mesmo
em áreas nas quais um teste experimental não
pode ser facilmente realizado, como na análi-
se de jogos esportivos. Por exemplo, Mace e
colaboradores (1992) analisaram sete jogos de
basquete e investigaram, por meio de correla-
ções, duas questões:
a) se a resposta de um time de basquete
a uma situação aversiva – considera-
da uma DO – durante o jogo estaria
relacionada à taxa local de reforços
que precedia a situação aversiva;
b) se um pedido de tempo seria uma
intervenção efetiva na redução do
momento comportamental do time
adversário.
Para responder à primeira questão, eles
calcularam a porcentagem de adversidades a
que um time respondeu favoravelmente em
função da taxa de reforços anterior à adversi-
dade (a taxa de reforços foi calculada dividin-
do-se o número de eventos considerados refor-
çadores por períodos de 3 min e agrupada em
classes discretas). Esse cálculo mostrou que a
porcentagem de adversidades a que um time
respondia favoravelmente apresentou correla-
ção positiva com a taxa de reforços anterior. A
segunda questão foi avaliada calculando-se a
razão de reforço (taxa de reforços do time ad-
versário dividida pela do time alvo) 3 min an-
tes e 3 min depois de um pedido de tempo.
Esse cálculo revelou que o pedido de tempo
foi eficaz na redução da taxa de reforços do
time adversário. Esses resultados, apesar de
correlacionais, são consistentes com os resul-
tados de Mace e colaboradores (1988), que ob-
servaram que a probabilidade de se engajar em
um comportamento de baixa probabilidade era
aumentada se este fosse precedido por refor-
çamento de comportamentos de alta probabi-
lidade pertencentes à mesma classe e que esse
efeito é afetado pelo tempo desde o último re-
forço (Experimento 3).
A metáfora do momento comportamental,
junto com os dados de pesquisas sobre resis-
tência a mudanças, também pode lançar luz
sobre tratamentos já tradicionais em análise
aplicada do comportamento. Por exemplo, um
dos procedimentos mais usados no tratamen-
to de comportamentos disfuncionais é o re-
forçamento diferencial de outros comporta-
mentos (DRO), que consiste no fornecimento
de reforçadores para comportamentos incom-
patíveis ou quaisquer outros comportamentos
que não sejam o comportamento-alvo. Esse
procedimento provoca uma redução na fre-
qüência do comportamento-alvo, como predi-
to pela Lei da Igualação (McDowell, 1982). En-
tretanto um efeito colateral indesejável pode
ocorrer em função do uso desse procedimen-
to. Nevin e colaboradores (1990) mostraram
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4476
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 77
que a adição de reforçadores, contingentes ou
não a uma outra resposta, no mesmo contexto
diminui a freqüência da resposta sob análise,
mas aumenta sua resistência a mudanças. O
uso do procedimento DRO, nesse sentido, pode
diminuir a taxa da resposta sob análise, mas
pode aumentar sua persistência quando al-
guma condição for alterada. Segundo Mace
(2000), ele e seus colaboradores testaram essa
possibilidade, usando dois procedimentos de
extinção de comportamentos problemáticos
com crianças com atraso no desenvolvimento.
Em uma fase, o procedimento de extinção foi
precedido por uma linha de base de reforça-
mento intermitente. Em outra, o procedimen-
to de extinção foi precedido por tratamento
com reforçamento diferencial de comporta-
mentos adaptativos no mesmo contexto no qual
os comportamentos problemáticos ocorriam e
eram reforçados. A freqüência de comporta-
mentos problemáticos diminuiu com o refor-
çamento diferencial de comportamentos adap-
tativos, porém os comportamentos problemá-
ticos foram muito mais resistentes à extinção
quando esta era precedida por DRO, em com-
paração com reforçamento intermitente. Ape-
sar de não ter havido uma condição na qual o
procedimento DRO ocorria em um contexto di-
ferente do contexto em que os comportamen-
tos problemáticos eram reforçados, esse estu-
do sugere que o contexto no qual o procedi-
mento DRO ocorre deve ser levado em consi-
deração por clínicos e por pesquisadores que o
utilizarem como forma de intervenção.
A pesquisa básica sobre resistência a mu-
danças também pode lançar luz sobre outras
áreas em análise aplicada do comportamento.
A análise que Rachlin (1995) fez do autocon-
trole, por exemplo, tem semelhanças com o
modelo de momento comportamental. Esse
autor propôs que o autocontrole envolve um
padrão de engajamento em comportamentos
altamente valorizados (p. ex.: um estilo de vida
sadio), apesar da presença de alternativas ten-
tadoras (p. ex.: comidas gordurosas, consumo
de bebidas alcoólicas, etc.). As alternativas ten-
tadoras, nesse caso, podem ser entendidas den-
tro do modelo de momento comportamental
como formas de DO, já que podem alterar o
progresso dos comportamentos altamente va-
lorizados. Esses comportamentos altamente
valorizados seriam reforçados por conseqüên-
cias de grande magnitude (p. ex.: saúde) e, se
elas fossem imediatas e ocorressem com alta
freqüência, esses comportamentos seriam re-
almente muito resistentes às tentações. Con-
tudo as conseqüências que mantêm esses com-
portamentos são geralmente atrasadas ou po-
dem nunca acontecer, o que dificulta a aquisi-
ção e a manutenção dos mesmos. Ainda com
base nos dados de Nevin e colaboradores
(1990), Nevin e Grace (2000) sugeriram que a
escolha por comportamentos saudáveis, por
exemplo, poderia ser aumentada com a adição
de reforçadores adicionais não relacionados à
saúde, tal como ouvir músicas preferidas em am-
bientes associados à emissão de comportamen-
tos saudáveis. Essa análise é obviamente
especulativa e merece a realização de trabalhos
empíricos que a investiguem com mais detalhes,
mas fornece uma sugestão bastante promissora
de como aumentar os comportamentos de
autocontrole (ver Capítulo 10 para informações
mais detalhadas sobre autocontrole).
CONCLUSÃO
Com os avanços metodológicos e refina-
mentos na análise dos dados, têm sido obti-
das relações sistemáticas e quantificáveis en-
tre o grau de persistência da resposta em face
de modificações no ambiente e algumas vari-
áveis ambientais, tais como a taxa e a magni-
tude de reforços. A obtenção dessas relações
sistemáticas e a identificação dos processos
comportamentais por trás delas têm ressalta-
do a relevância do papel do contexto no qual
o comportamento ocorre, das relações entre
os estímulos antecedentes à resposta e os es-tímulos que a sucedem. Cada vez mais, ob-
servamos que os estímulos que sucedem a
ocorrência de uma resposta não selecionam
simplesmente classes de respostas, mas rela-
ções entre os estímulos antecedentes e essas
classes de respostas. São esses estímulos an-
tecedentes que servirão de guia para o com-
portamento em situações futuras (Donahoe e
Palmer, 1994); são eles que fazem a ponte
entre o passado, o presente e o futuro.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4477
78 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
A observação de que existem conceitos in-
timamente relacionados, tal como mostraram
Grace e Nevin (1997) em relação à resistência
a mudanças e à preferência, ou como foi suge-
rido anteriormente, mesmo que especulativa-
mente, em relação aos conceitos de resistência
a mudanças, sensibilidade e efeito de história,
aponta para uma possibilidade instigante: a pos-
sibilidade de uma teoria unificada do compor-
tamento, coerente internamente e com alto grau
de generalidade. Precisamos de mais estudos
que lidem diretamente com essa questão, de
análises que sistematizem melhor os dados exis-
tentes. O conceito de momento comporta-
mental, com seus componentes velocidade e
massa comportamental, tem muito a oferecer,
desencadeando esse processo de unificação.
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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 81
terminadas conseqüências ambientais passa-
riam a selecionar não só características anatô-
micas e fisiológicas dos indivíduos ao longo de
gerações (seleção filogenética), mas também
características comportamentais de um indi-
víduo no decorrer de sua vida (seleção ontoge-
nética) (Matos e Tomanari, 2002).
Uma vez que o comportamento ocorre em
função de conseqüências passadas, a Análise
do Comportamento esbarra em uma dificulda-
de (Hunziker, 2001): como é possível se ter
acesso a uma classe de eventos que não existe
mais? Uma alternativa seria a utilização dos
relatos, seja do próprio sujeito ou de outros
indivíduos, acerca das contingências passadas.
Entretanto os relatos nem sempre correspon-
dem com precisão às contingências às quais os
indivíduos foram expostos (Simonassi, Fróes e
Sanabio, 1995; Simonassi, Oliveira e Gosch,
1997; Simonassi, Oliveira e Sanabio, 1994), po-
dendo estar sob controle de outras variáveis
ambientais (Critchfield, 1993, 1996; Critchfield
e Perone, 1990, 1993; Sanabio e Abreu-
Rodrigues, 2002).
Para tentar resolver esse problema, a aná-
lise das contingências passadas poderia ser re-
alizada em situações experimentalmente con-
troladas. Ou seja, “pode-se estabelecer experi-
mentalmente uma série de relações de contin-
gência que se sucedem de forma a permitir uma
investigação sistemática da influência das con-
tingências passadas sobre o comportamento
atual” (Hunziker, 2001, p. 230). Um exemplo
dessa forma de investigação é fornecido pelos
DESAMPARO APRENDIDO
ELISA TAVARES SANABIO-HECK
KARINA DE GUIMARÃES SOUTO E MOTTA
5
Um dos objetivos principais da Psicolo-
gia é compreender o comportamento huma-
no. De acordo com a Análise do Comportamen-
to, as causas dos comportamentos podem ser
encontradas nas relações entre o organismo e
o ambiente. Como apontado por Skinner
(1953/1994), a explicação do comportamen-
to deve sempre levar em consideração as variá-
veis que “estão fora do organismo, em seu am-
biente imediato e em sua história ambiental”
(p. 42). Para identificar essas variáveis, utili-za-se o conceito de contingência, mais especi-
ficamente, o conceito de contingência tríplice,
definida como uma relação entre eventos am-
bientais ou entre comportamento e eventos
ambientais, na forma “se, então” (Todorov,
1985). Uma análise das contingências irá es-
pecificar sob que condições presentes ou an-
tecedentes um comportamento irá produzir,
como conseqüência, alguma alteração no
ambiente.
Em uma análise de contingências, o pa-
pel da conseqüência é fundamental, pois além
de gerar aumentos ou diminuições na proba-
bilidade futura de emissão do comportamen-
to, também possibilita que a condição antece-
dente adquira funções de controle sobre o de-
sempenho do organismo (Skinner, 1974/
1993). A importância das conseqüências fica
evidente quando Skinner (1981) propõe um
modelo para se tentar compreender as variá-
veis de controle do comportamento dos orga-
nismos. Segundo esse modelo, a partir da
interação do organismo com o ambiente, de-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4481
82 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
estudos sobre os efeitos da história de incon-
trolabilidade. De acordo com a literatura, a
exposição a situações de incontrolabilidade,
caracterizadas por uma relação de independên-
cia entre os eventos programados e o compor-
tamento do organismo, produz um retardo na
aquisição de novos desempenhos em situações
subseqüentes envolvendo eventos controláveis.
Diferentes hipóteses e teorias foram pro-
postas para explicar os efeitos da história de
incontrolabilidade (para uma discussão deta-
lhada das teorias, ver Maier e Seligman, 1976),
dentre as quais se destaca a teoria do desam-
paro aprendido. A idéia central na teoria do
desamparo aprendido é que os organismos ex-
postos a eventos incontroláveis aprendem que
os eventos ambientais são independentes de
suas respostas, uma aprendizagem que irá in-
terferir futuramente na aquisição de novos de-
sempenhos. Segundo Maier e Seligman (1976),
essa aprendizagem ocorre de acordo com duas
etapas. Primeiramente, os arranjos entre o com-
portamento e o meio fornecem a informação
sobre a relação de independência. Em um se-
gundo momento, a informação sobre a rela-
ção de independência é “processada e trans-
formada em uma representação cognitiva da
contingência” (Maier e Seligman, 1976, p. 17).
Tal representação é definida como a expectati-
va de que respostas e eventos ambientais são
independentes. Em função dessa expectativa,
o organismo pode apresentar três tipos de
déficits: déficit motivacional (diminuição da
motivação para emitir respostas), déficit
cognitivo (interferência na aprendizagem de
relações de controlabilidade) e déficit emocio-
nal (alterações fisiológicas como perda de peso,
perda de apetite, aparecimento de úlceras es-
tomacais e passividade).
A dificuldade na aprendizagem de novos
comportamentos ou, alternativamente, a re-
dução na sensibilidade a novas contingências,
resultante da exposição a condições de incon-
trolabilidade, tem sido denominada tanto de
efeito do desamparo aprendido (Maier e
Seligman, 1976; Seligman e Beagley, 1975;
Seligman, Rosellini e Kozak, 1975) como de
efeito de interferência (p. ex.: Crowel e
Anderson, 1981; Glazer e Weiss, 1976a;
1976b). Hunziker (1981) considera o termo
efeito do desamparo aprendido inadequado, por
envolver uma formulação teórica sobre o fe-
nômeno ainda sujeita a questionamentos, po-
dendo a mesma observação ser aplicada ao ter-
mo efeito de interferência. Uma vez que o pre-
sente trabalho propõe-se a abordar os efeitos
da exposição a eventos incontroláveis a partir
de uma perspectiva analítico-comportamental
e que os termos desamparo aprendido e efeito
de interferência estão comprometidos com uma
visão cognitiva desse fenômeno, serão adotados
aqui os termos efeitos da história de incon-
trolabilidade ou efeitos da exposição a eventos
incontroláveis,1 os quais foram escolhidos em
função de seu caráter estritamente descritivo.
Ou seja, tais termos indicarão apenas que a
aquisição de novos comportamentos após uma
história de incontrolabilidade não ocorreu tão
prontamente quanto na ausência dessa história.
A revisão da literatura a seguir apresen-
tará, inicialmente, um panorama da pesquisa
básica sobre os efeitos da experiência prévia
com eventos não-controláveis, enfatizando a
metodologia comumente empregada na área,
os procedimentos de prevenção e reversão
desses efeitos, bem como o papel dos relatos
verbais. Finalmente, algumas implicações clí-
nicas relacionadas aos achados empíricos se-
rão analisadas.
CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA BÁSICA
Uma das primeiras demonstrações do
efeito da história de incontrolabilidade foi fei-
ta por Overmier e Seligman (1967). Durante a
Fase de Treino, cães eram presos a arreios. Os
sujeitos do Grupo Controle não foram expos-
tos a choques, sendo apenas colocados nos ar-
reios. Os três grupos restantes foram expostos
a choques inescapáveis, isto é, nenhuma res-
posta emitida pelo sujeito poderia eliminar a
ocorrência destes, e se diferenciaram em rela-
ção ao número, à duração e ao intervalo mé-
dio entre os choques. Na Fase de Teste, todos
os sujeitos foram expostos a uma contingência
1Os autores mantiveram o termo desamparo apren-
dido no título do capítulo em função de sua ampla
utilização na literatura pertinente.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4482
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 83
de fuga e esquiva, ou seja, o sujeito poderia
eliminar ou evitar o choque, caso a resposta de
saltar uma barreira que dividia a caixa experi-
mental fosse emitida. Os três grupos expostos
aos choques inescapáveis apresentaram tem-
pos de reação mais longos nas respostas de fuga
e esquiva do que o Grupo Controle, não ha-
vendo diferenças entre os primeiros. A partir
desses resultados, os autores concluíram que a
exposição a choques inescapáveis interfere na
aquisição de respostas de fuga e esquiva.
A questão se tal interferência é produto
da exposição aos choques em si ou da incon-
trolabilidade dos mesmos foi investigada por
Seligman e Maier (1967, Experimento 1), por
meio de um modelo triádico (Tabela 5.1). Na
Fase de Treino, um grupo de cães recebeu cho-
ques escapáveis, os quais eram interrompidos
quando os sujeitos emitiam uma resposta de
pressão a um painel (Grupo Escapável). Um
segundo grupo foi exposto ao mesmo padrão
de choques (mesma duração, intensidade e nú-
mero de choques) que o Grupo Escapável, mas
as respostas dos sujeitos não interrompiam os
choques (Grupo Inescapável). O terceiro gru-
po não foi exposto a choques (Grupo Contro-
le). Na Fase de Teste, todos os sujeitos foram
expostos a uma contingência de fuga e esqui-
va semelhante àquela descrita por Overmier e
Seligman (1967). O efeito da história de
incontrolabilidade foi observado no Grupo
Inescapável, que apresentou tempos de reação
mais longos e mais falhas na aprendizagem das
respostas de fuga e esquiva do que os grupos
Escapável e Controle, que não diferiram entre
si. Isto é, o Grupo Inescapável não aprendeu
as respostas de fuga e esquiva, enquanto os dois
outros grupos aprenderam essas respostas ra-
pidamente. Seligman e Maier concluíram que
a incontrolabilidade dos choques foi a variável
responsável pela dificuldade de aprendizagem
das respostas de fuga e esquiva, uma vez que:
a) os grupos Escapável e Inescapável fo-
ram semelhantes em relação à expo-
sição aos choques, mas diferiram em
termos de grau de controlabilidade
dos mesmos, tendo apresentado de-
sempenhos diferentes;
b) os grupos Escapável e Controle diferi-
ram em relação à exposição aos cho-
ques, mas apresentaram desempenhos
semelhantes.
O efeito da exposição a eventos incontro-
láveis também foi demonstrado com partici-
pantes humanos. Em um estudo realizado por
Hiroto (1974), estudantes universitários foram
expostos a um estímulo auditivo durante a Fase
de Treino. Para o Grupo Escapável, o estímulo
auditivo poderia serinterrompido pela emis-
são da resposta de pressão a um botão; para o
Grupo Inescapável, as respostas dos participan-
tes não tinham controle sobre a eliminação do
som. Para o Grupo Controle, não foram pro-
gramadas apresentações do som. Na Fase de
Teste, todos os participantes foram expostos a
tentativas de fuga e esquiva em que, na pre-
sença de um estímulo ou sinal, o participante
deveria mover uma alavanca para eliminar ou
interromper o som. Os resultados foram seme-
lhantes àqueles obtidos por Seligman e Maier
(1967) e Overmier e Seligman (1967): o Gru-
po Inescapável demonstrou efeitos da história
de incontrolabilidade, com tempos de reação
mais longos nas respostas de fuga e esquiva do
que os grupos Escapável e Controle, que não
demonstraram diferenças entre si (ver também
Hiroto e Seligman, 1975; Lamb, Davis, Tramill
e Kleinhammer-Tramill, 1987).
Hunziker (1981) apontou um problema
metodológico nos estudos que demonstram o
efeito da história de incontrolabilidade. Tal pro-
blema é relacionado à programação da situa-
ção de incontrolabilidade, que se refere a um
arranjo experimental em que a probabilidade
de um evento, dada uma resposta específica, é
igual à probabilidade desse evento, dada a não-
ocorrência da mesma resposta. Entretanto, nes-
ses estudos, o critério para a apresentação do
TABELA 5.1 Modelo triádico
Grupos
Condições Treino Teste
Escapável Controlabilidade Controlabilidade
Inescapável Incontrolabilidade Controlabilidade
Controle Controle Controlabilidade
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4483
84 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
evento, não é a ocorrência ou não de uma res-
posta específica, e sim a passagem do tempo.
A ocorrência do evento ambiental em função
da passagem de tempo não garante uma au-
sência de relação entre resposta e evento, pois
esta pode ser estabelecida por reforçamento
acidental. Dessa forma, a afirmação de que a
dificuldade de aprendizagem de um novo com-
portamento resulta de experiências prévias com
situações de incontrolabilidade é questionável,
uma vez que os arranjos experimentais comu-
mente utilizados não têm atendido as exigên-
cias da definição de incontrolabilidade.
Prevenção e reversão do efeito
da história de incontrolabilidade
O efeito da história de incontrolabilidade
pode ser prevenido ou revertido por meio de
dois procedimentos. No primeiro deles, uma
situação de controlabilidade é programada
antes de o organismo ser exposto a eventos
incontroláveis. Tal processo é chamado de
imunização, uma vez que previne a ocorrên-
cia do efeito da exposição a eventos incontro-
láveis. No segundo procedimento, denomina-
do de terapia, o efeito é revertido: após a ex-
periência com incontrolabilidade e anterior à
Fase de Teste, o organismo é exposto a uma
situação na qual os eventos são controláveis
(Tabela 5.2).
Imunização
O estudo pioneiro que investigou os efei-
tos do procedimento de imunização foi reali-
zado por Seligman e Maier (1967, Experimen-
to 2), utilizando cães como sujeitos experimen-
tais. Os grupos I, II e III foram expostos a dife-
rentes seqüências de choques inescapáveis e
escapáveis ao longo das fases de imunização,
treino e teste. O Grupo I (imunização) foi ex-
posto à seqüência choques escapáveis → cho-
ques inescapáveis → choques escapáveis, o Gru-
po II foi exposto a choques inescapáveis → cho-
ques escapáveis e o Grupo III recebeu choques
escapáveis → choques escapáveis. De acordo
com os resultados, o efeito da história de
incontrolabilidade só foi observado para o Gru-
po II, tendo o Grupo I e o Grupo III apresenta-
do desempenhos semelhantes. Ou seja, quan-
do expostos a choques escapáveis, antes de
serem expostos a choques inescapáveis, os par-
ticipantes não demonstraram uma diminuição
na sensibilidade às novas contingências. Tais
resultados evidenciam a eficácia do procedi-
mento de imunização para prevenir o efeito
da história de incontrolabilidade.
Douglas e Anisman (1975, Experimento
3) demonstraram os efeitos do procedimento
de imunização com participantes humanos. Du-
rante a Fase de Imunização, o Grupo I deveria
pressionar botões para desligar luzes coloridas,
enquanto o Grupo II deveria encontrar a saída
de labirintos impressos em folhas de papel. Para
ambos os grupos, as tarefas eram solucionáveis.
Na Fase de Treino, os grupos I e II foram solici-
tados a pressionar botões para desligar luzes.
Contudo, nessa fase, pressionar botões e desli-
gar luzes eram eventos independentes. Na Fase
de Teste, a tarefa consistia na mesma da Fase
de Treino (pressionar botões), mas agora as
respostas de pressionar desligavam as luzes. O
Grupo III foi exposto apenas às fases de treino
e teste, que foram idênticas àquelas progra-
madas para os grupos I e II. O Grupo IV, que
funcionou como controle, foi exposto apenas
à Fase de Teste. Os resultados da Fase de Teste
demonstraram que os grupos I e II, expostos
às tarefas solucionáveis antes de receberem ta-
refas insolucionáveis, apresentaram um melhor
desempenho (maior número de respostas cor-
TABELA 5.2 Procedimentos de imunização e terapia
Condições Treino de
Procedimento imunização Treino Terapia Teste
Imunização Controlabilidade Incontrolabilidade ________ Controlabilidade
Terapia ________ Incontrolabilidade Controlabilidade Controlabilidade
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4484
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 85
retas) quando comparados aos outros grupos.
Os autores concluíram que o procedimento de
imunização previne a ocorrência de efeitos da
história de incontrolabilidade também em par-
ticipantes humanos, e que a imunização ocor-
re a despeito de as tarefas utilizadas no pré-
treino e no treino serem iguais (Grupo I) ou
diferentes (Grupo II).
A relação entre diferentes esquemas de
reforçamento e o procedimento de imuniza-
ção foi investigada por Jones, Nation e Massad
(1977). Os participantes eram expostos a uma
tarefa de discriminação visual que consistia na
apresentação de quatro problemas diferentes,
em blocos de 10 tentativas. A cada problema,
o experimentador selecionava uma caracterís-
tica dentre cinco dimensões diferentes: letra
(A ou T), cor (vermelha ou preta), tamanho
(grande ou pequeno), borda ao redor da letra
(círculo ou quadrado) e posição (direita ou
esquerda). Em cada tentativa, era apresenta-
da uma configuração composta pelas cinco di-
mensões, cabendo aos participantes a tarefa
de adivinhar a característica selecionada pelo
experimentador. Para tanto, eles deveriam in-
dicar se a configuração apresentada incluía ou
não a característica pré-selecionada. Na Fase
de Imunização, o Grupo 0% Imunizado rece-
beu quatro problemas insolucionáveis de dis-
criminação. Tais problemas não tinham solu-
ção específica, uma vez que cada resposta era
sempre seguida do feedback “Incorreto”. O Gru-
po 50% Imunizado recebeu dois problemas
insolucionáveis e dois problemas solucionáveis
(as respostas sempre produziam o feedback
“Correto”). O Grupo 100% Imunizado e o Gru-
po Solucionável foram expostos a quatro pro-
blemas solucionáveis. Na Fase de Treino, to-
dos os grupos receberam quatro problemas de
discriminação diferentes daqueles apresenta-
dos na fase anterior. Para os três primeiros gru-
pos, os problemas eram insolucionáveis; para
o último grupo, os problemas eram solucio-
náveis. O Grupo Controle foi exposto aos pro-
blemas de discriminação, mas não foi solicita-
do a resolvê-los. Na Fase de Teste, todos os gru-
pos foram expostos a anagramas solucionáveis.
Cada anagrama era compostos de cinco letras
embaralhadas. A tarefa do participante consis-
tia em ordenar corretamente as letras para for-
mar uma palavra. A ordem de apresentação
das letras era a mesma para todos os anagra-
mas (3-4-2-5-1), e os participantes eram aler-
tados de que todos poderiam ser resolvidos de
uma mesma maneira.
Dos dois grupos que foram expostos a pro-
blemas solucionáveis durante a Fase de Imuni-zação (grupos 50% e 100%), apenas o Grupo
50% demonstrou o efeito de imunização, apre-
sentando um desempenho na tarefa do ana-
grama semelhante aos grupos solucionável e
controle. Por outro lado, os grupos 100% e 0%
mostraram desempenhos semelhantes, carac-
terizados por tempos de reação mais longos e
maior número de falhas na resolução do ana-
grama do que o desempenho do Grupo 50%.
Segundo Jones e colaboradores (1977), os re-
sultados do Grupo 100% são contrários à li-
teratura animal, a qual prediz que, quanto
maior a exposição a eventos controláveis,
maior o efeito de imunização observado. Es-
ses autores explicam tal divergência com base
na noção de intermitência do reforço. O Gru-
po 50% foi exposto a uma situação de refor-
çamento intermitente na Fase de Imunização:
problemas solucionáveis seriam equivalentes
ao reforçamento, e os problemas insolucio-
náveis, à ausência de reforçamento. Em fun-
ção dessa experiência com reforçamento e
extinção, os participantes apresentaram uma
maior persistência nas respostas de resolução
nas fases seguintes, o que minimizou a influ-
ência da história de incontrolabilidade. Em
contrapartida, os participantes do Grupo 100%
foram expostos a uma situação de reforça-
mento contínuo (apenas problemas solucio-
náveis), produzindo respostas de resolução
menos persistentes. Conseqüentemente, os
efeitos da exposição a eventos incontroláveis
foram observados (ver também Prindaville e
Stein, 1978).
Terapia
Como citado anteriormente, além de se-
rem prevenidos por meio do procedimento de
imunização, os efeitos da história de incontro-
labilidade podem também ser revertidos pelo
procedimento de terapia, ou seja, pela expo-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4485
86 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
sição a eventos controláveis após a experiên-
cia com incontrolabilidade e anterior à Fase
de Teste.
O efeito do procedimento de terapia foi
inicialmente investigado por Seligman e cola-
boradores (1975), que utilizaram ratos como
sujeitos. Inicialmente, os sujeitos foram expos-
tos a 80 tentativas de choques inescapáveis,
liberados de acordo com um esquema de in-
tervalo variável de 1 min (VI 1 min). Posterior
a essa exposição, os animais foram testados em
uma nova situação, na qual o choque poderia
ser interrompido a cada três respostas de pres-
são à barra. Os sujeitos que não apresentaram
respostas de fuga durante 20 s, o que foi con-
siderado como evidência do efeito da história
de incontrolabilidade, foram selecionados para
constituir os grupos experimentais. Em um gru-
po, os sujeitos eram puxados pelo experi-
mentador por meio de uma correia e forçados
a emitir a resposta de pressionar uma barra
(Grupo Fuga Forçada). Tal procedimento era
finalizado quando os sujeitos emitissem res-
postas de fuga em 10 tentativas consecutivas
sem intervenção do experimentador. Um se-
gundo grupo foi acoplado ao Grupo Fuga For-
çada recebendo, assim, o mesmo número e
duração de choques. Os sujeitos desse grupo
também eram puxados pelo experimentador,
mas não eram forçados a pressionar a barra
(Grupo Controle). Os sujeitos do terceiro gru-
po não eram puxados pelo experimentador
nem forçados a emitir respostas de pressão à
barra (Grupo Controle Acoplado), além de re-
ceberem o mesmo número e duração de cho-
ques que os sujeitos dos grupos fuga forçada e
controle. Os sujeitos do Grupo Fuga Forçada
conseguiram atingir o critério de escapar do
choque por 10 tentativas consecutivas, sem
qualquer intervenção por parte do experi-
mentador. Por outro lado, os sujeitos do Gru-
po Controle e Grupo Controle Acoplado não
atingiram o critério, ou seja, apresentaram efei-
tos da história de incontrolabilidade. Os auto-
res concluíram, então, que a terapia forçada
foi um procedimento efetivo na reversão do
efeito produzido pela exposição a eventos
aversivos incontroláveis.
Klein e Seligman (1976, Experimento 1)
investigaram os efeitos do procedimento de te-
rapia com humanos. Na Fase de Treino, estu-
dantes universitários deveriam eliminar tons.
Entretanto os tons programados eram inesca-
páveis. Na Fase de Terapia, problemas de dis-
criminação visual eram apresentados aos par-
ticipantes: um grupo recebeu 12 problemas
solucionáveis (Grupo Solucionável 12), um se-
gundo grupo foi exposto a quatro problemas
solucionáveis (Grupo Solucionável 4) e um ter-
ceiro grupo foi apenas exposto aos problemas
sem resolvê-los (Grupo Controle). Na Fase de
Teste, todos os grupos deveriam mover uma
alavanca para eliminar ou interromper tons.
Os participantes expostos aos problemas
solucionáveis (grupos solucionável 12 e solu-
cionável 4) demonstraram tempos de reação
mais curtos e um menor número de falhas nas
respostas de fuga e esquiva do que o Grupo
Controle, o que demonstra que a exposição
prévia à incontrolabilidade não afetou o desem-
penho posterior.
Os efeitos do procedimento de terapia
também foram investigados por Nation e
Massad (1978). Estudantes universitários fo-
ram distribuídos em quatro grupos. Na Fase
de Treino, o Grupo SOL recebeu quatro pro-
blemas solucionáveis de discriminação visual.
Para esse grupo, cada resposta emitida pelo
participante era seguida de feedbacks precisos.
Os grupos IN-CRF e IN-PRF receberam quatro
problemas insolucionáveis. Ou seja, a ordem
dos feedbacks (“Correto” e “Incorreto”) era pro-
gramada previamente, independente das res-
postas emitidas pelos participantes. O Grupo
NOT não recebeu tratamento (era exposto aos
problemas sem resolvê-los). Na Fase de Tera-
pia, os participantes deveriam pressionar um
botão para eliminar ou interromper tons. Para
os grupos SOL, IN-CRF e NOT, todos os tons
eram escapáveis. Ou seja, os participantes des-
ses grupos foram expostos a um esquema de
reforçamento contínuo. O Grupo IN-PRF, por
sua vez, poderia eliminar ou interromper ape-
nas 50% dos tons apresentados, isto é, esse
grupo era exposto a um esquema de refor-
çamento parcial. Na Fase de Teste, todos os par-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4486
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 87
ticipantes receberam tons inescapáveis, o que
diferencia este estudo dos anteriores, nos quais
a Fase de Teste era caracterizada como uma
situação de controlabilidade.
Os resultados observados ao final da Fase
de Terapia indicaram que os grupos expostos
a problemas insolucionáveis durante a Fase de
Treino e a problemas solucionáveis na Fase de
Terapia (IN-CRF e IN-PRF) apresentaram de-
sempenhos semelhantes aos dos grupos expos-
tos apenas a problemas solucionáveis (SOL e
NOT), sugerindo que tanto uma situação de
reforçamento contínuo (grupos IN-CRF, SOL e
NOT) como uma situação de reforçamento par-
cial (Grupo IN-PRF) são eficazes para reverter
o efeito da exposição a eventos incontroláveis.
Contudo, na Fase de Teste, quando novamente
expostos a uma situação de incontrolabilidade,
os participantes expostos ao esquema de
reforçamento parcial (IN-PRF) mostraram de-
sempenhos mais persistentes quando compa-
rados aos participantes expostos ao reforça-
mento contínuo (IN-CRF), uma vez que se man-
tiveram respondendo por mais tempo (para
uma discussão sobre os efeitos de reforçamento
contínuo e parcial na Fase de Terapia, ver tam-
bém Carvalho, 1998).
O papel dos estímulos verbais
nos estudos sobre história de
incontrolabilidade
Conforme já descrito anteriormente, os
efeitos da história de incontrolabilidade têm
sido atribuídos a diferentes variáveis. Autores
como Maier e Seligman (1976) propõem que,
quando exposto a eventos incontroláveis, o
indivíduo desenvolve uma expectativa de in-
dependência entre respostas e eventos ambien-
tais, sendo essa expectativa considerada a va-
riável de controle mais relevante para o efeito
da história de incontrolabilidade.
As possíveis funções exercidas pelas ex-
pectativas dos indivíduos são investigadas por
meio de duas metodologias. Na primeira, os
participantes são expostosa situações de con-
trolabilidade e/ou incontrolabilidade, assumin-
do-se que essas diferentes situações irão pro-
duzir diferentes expectativas (p. ex.: Alloy,
Peterson, Abramson e Seligman, 1984; Levine,
Rotkin, Jankovic e Pitchford, 1977; Prindaville
e Stein, 1978; Tiggeman e Winefield, 1987).
Na segunda, os participantes também são ex-
postos a controlabilidade e/ou incontro-
labilidade; entretanto, os participantes rece-
bem, diferentes tipos de instruções (p. ex.:
Hiroto, 1974; Klein, Fencil-Morse e Seligman,
1976; Mikulincer, 1986; Oakes e Curtis, 1982,
Experimento 2; Tennen, Gillen e Drum, 1982)
ou, na ausência de instruções, eles são expos-
tos a diferentes tarefas (p. ex.: Douglas e
Anisman, 1975; Ford e Neale, 1985; Klein e
Seligman, 1976; Oakes e Curtis, 1982, Experi-
mento 1; Tennen, Drum, Gillen e Stanton,
1982). Esses estudos assumem que as instru-
ções apresentadas ou as diferenças de tarefas
(p. ex.: fáceis e difíceis) deverão produzir ex-
pectativas distintas.
Tanto nos estudos que apenas expõem os
participantes a situações de controlabilidade
e/ou incontrolabilidade quanto naqueles que
manipulam a instrução e o tipo de tarefa, o
experimentador tem acesso às expectativas por
meio dos relatos dos participantes (p. ex.: Ford
e Neale, 1985; Klein et al., 1976; Klein e
Seligman, 1976; Mikulincer, 1986; Oakes e
Curtis, 1982; Tennen, Drum et al., 1982; Tennen
Gillen et al., 1982, Experimento 2). Tais rela-
tos podem ser solicitados antes do experimen-
to, por meio de questionários e inventários, ou
podem ser solicitados ao longo do estudo, após
as fases de treino ou teste. A prática de solici-
tar relatos sugere que os mesmos são conside-
rados descrições precisas das expectativas dos
participantes. Entretanto, é possível encontrar
estudos nos quais os relatos não são solicitados
e, nesses casos, a expectativa é inferida so-
mente com base nas manipulações efetuadas
(p. ex.: Douglas e Anisman, 1975; Hiroto,
1974).
Além dessas diferenças, é comum encon-
trar variações nos tipos de relatos solicitados.
Por exemplo, em alguns estudos (Alloy et al.,
1984; Klein et al., 1976; Mikulincer, 1986;
Oakes e Curtis, 1982; Tennen, Drum et al.,
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4487
88 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
1982; Tennen, Gillen et al., 1982), o relato do
participante deve indicar os eventos ambientais
responsáveis por seu desempenho. Tais rela-
tos serão denominados, daqui por diante, de
julgamentos de causalidade e podem ser dividi-
dos em seis tipos principais:
a) global: relatos que descrevem o de-
sempenho como produto de fatores
presentes em diversas situações;
b) específico: relatos que descrevem o
desempenho como produto de fato-
res presentes apenas em uma dada si-
tuação;
c) estável: relatos que descrevem o de-
sempenho como produto de fatores
que se mantêm ao longo do tempo;
d) instável: relatos que descrevem o de-
sempenho como produto de fatores
temporários;
e) interno: relatos que indicam que o pró-
prio desempenho exerceu controle so-
bre os eventos ambientais;
f) externo: relatos que indicam que o
desempenho não afetou os eventos
ambientais.
Os julgamentos de causalidade são cole-
tados por meio de escalas: para formular jul-
gamentos de causalidade global ou específica,
por exemplo, os participantes devem escolher
um valor em uma escala de 0 a 10, de modo
que 0 corresponde a “fatores globais”, e 10, a
“fatores específicos”.
Os participantes também podem ser soli-
citados a relatar o grau de controle que seus
desempenhos exercem sobre os eventos am-
bientais (Ford e Neale, 1985; Klein e Seligman,
1976; Mikulincer, 1986; Oakes e Curtis, 1982;
Prindaville e Stein, 1978; Tennen, Drum et al.,
1982; Tennen, Gillen et al., 1982; Tiggeman e
Winefield, 1987). Nesse caso, os relatos são
denominados de julgamentos de controle, que
também são coletados por meio de escalas. Por
exemplo, para responder à pergunta “Quanto
você acha que seu desempenho produziu o tér-
mino do tom?”, o participante deve escolher
um valor em uma escala de 0 a 10, sendo o
valor 0 correspondente à opção “muito pouco”
e o valor 10 correspondente a “totalmente”.
Há ainda um terceiro tipo de relato: após
serem expostos a uma determinada tarefa, os
participantes são solicitados a descrever a so-
lução para o problema apresentado. Nesse caso,
os relatos são denominados de descrições do
desempenho, as quais são formuladas sem a
utilização de escalas, isto é, o participante pode
apresentar qualquer descrição para o proble-
ma (p. ex.: Levine et al., 1977).
Correspondência entre o comportamento
verbal e o comportamento não-verbal
Conforme assinalado anteriormente, ao
serem expostos a situações de controlabilidade
e incontrolabilidade, os participantes são soli-
citados a relatar seus julgamentos acerca da
situação experimental. Esses julgamentos con-
sistem em descrições de prováveis relações
comportamento-ambiente (ou, simplesmente,
do próprio comportamento) em vigor. Quan-
do tais descrições referem-se a relações futu-
ras entre comportamento e ambiente (ou a
comportamentos futuros), elas são denomina-
das de expectativas. Dessa forma, julgamentos
e expectativas são comportamentos verbais. Os
estudos sobre os efeitos da história de incontro-
labilidade comumente assumem uma corres-
pondência entre julgamentos e expectativas,
sendo atribuído a essas expectativas o status
de “causa” dos déficits de aprendizagem ob-
servados. Ou seja, caso o participante relate
que suas respostas não exercem controle so-
bre os eventos ambientais (julgamento de au-
sência de controle), uma expectativa de ausên-
cia de controlabilidade é inferida e considera-
da como a variável responsável pela dificulda-
de de aprendizagem em situações subseqüen-
tes, em detrimento da experiência prévia com
incontrolabilidade per si.
Um exemplo dessa forma de utilização
dos relatos é fornecido por Alloy e colabora-
dores (1984) ao investigarem o papel da simi-
laridade entre as tarefas de treino e de teste,
bem como dos julgamentos de causalidade, em
situações de incontrolabilidade. Estudantes
universitários foram divididos em seis grupos
conforme o tipo de julgamento emitido (glo-
bal ou específico) e o tipo de tratamento rece-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4488
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 89
bido (controlabilidade, incontrolabilidade e au-
sência de tratamento). Os julgamentos eram
coletados por meio de um questionário que
continha seis eventos positivos (p. ex.: receber
elogio de um amigo) e seis eventos negativos
(p. ex.: não ser bem-sucedido em uma tarefa).
Os participantes deveriam, então, relatar a prin-
cipal causa de cada evento, como se estes ti-
vessem sido experienciados por eles próprios.
Após relatar as causas, os participantes deveri-
am classificá-las utilizando uma escala de 0 a
7, sendo o valor 7 correspondente a julgamen-
tos de causalidade global, e o valor zero cor-
respondente a julgamentos de causalidade es-
pecífica.
No Experimento 1, durante a Fase de Trei-
no, os participantes foram expostos a 50 tons.
Os participantes com julgamentos globais e
com julgamentos específicos foram subdividi-
dos em três grupos cada: para o Grupo
Escapável, os tons podiam ser interrompidos
ou eliminados pressionando um botão; o Gru-
po Inescapável era acoplado ao Grupo Esca-
pável em relação à duração e ao número de
tons, mas estes eram inescapáveis; o Grupo
Controle recebeu a mesma quantidade de tons
sem emitir respostas de fuga e esquiva. Na Fase
de Teste, uma tarefa semelhante à tarefa do
treino foi programada: 20 tons eram apresen-
tados e, para interrompê-los ou evitá-los, os
participantes deveriam mover uma alavanca.
Foi observado que apenas os grupos inescapá-
veis (tanto aquele com julgamentos globais
quanto aquele com julgamentos específicos)
apresentaram uma aprendizagem mais lenta
das respostas de fuga e esquiva. Ou seja, osjulgamentos não afetaram diferencialmente os
participantes, sendo seus desempenhos no teste
determinados pelas condições de treino. O
Experimento 2 apresentou uma única diferen-
ça em relação ao Experimento 1: na Fase de
Teste, os participantes deveriam resolver 20
anagramas, de modo que as tarefas do treino e
do teste eram diferentes. Dentre os participan-
tes do Grupo Inescapável, apenas aqueles com
julgamentos de causalidade global apresenta-
ram déficits de aprendizagem.
A partir dos resultados dos experimentos
1 e 2, Alloy e colaboradores (1984) concluí-
ram que as duas variáveis investigadas contri-
buíram para a ocorrência de efeitos da exposi-
ção a eventos incontroláveis:
a) os julgamentos de causalidade que os
participantes formulam a respeito dos
eventos incontroláveis;
b) a semelhança entre a situação atual
(teste) e a situação original (treino).
Caso os julgamentos de causalidade se-
jam globais, o efeito da exposição à incontrola-
bilidade ocorrerá em situações semelhantes ou
distintas da situação original. Caso os julga-
mentos sejam específicos, o efeito da exposi-
ção à incontrolabilidade será observado ape-
nas quando a situação for semelhante à situa-
ção original.
Mikulincer (1986) investigou se o efeito
da história de incontrolabilidade poderia ser
atribuído aos julgamentos de controle dos par-
ticipantes. Na Fase de Treino, os participantes
deveriam resolver quatro problemas de discri-
minação visual. Para o primeiro grupo, os pro-
blemas apresentados eram solucionáveis (Gru-
po Solucionável). Para o Grupo Insolucionável,
os quatro problemas não tinham solução pro-
gramada. O Grupo Controle resolvia os quatro
problemas, mas não recebeu feedbacks após as
respostas de resolução. Outros dois grupos re-
ceberam problemas insolucionáveis e instruções
que se diferenciavam em termos de conteúdo:
um grupo de participantes recebeu uma instru-
ção global, enquanto um outro grupo recebeu
uma instrução específica. Antes de iniciar a Fase
de Teste, julgamentos de controle eram solici-
tados e, após responder, todos os participantes
eram expostos a problemas solucionáveis de
discriminação diferentes daqueles apresentados
na Fase de Treino. Os participantes expostos a
problemas insolucionáveis sem instruções e
aqueles expostos a problemas insolucionáveis
com instruções globais apresentaram tempos de
reação mais longos e um maior número de er-
ros na resolução dos problemas do que os gru-
pos restantes (ver também Mikulincer e Nizan,
1988), além de serem os únicos a apresenta-
rem julgamentos de baixo controle. Ou seja, os
participantes que apresentaram esse tipo de jul-
gamento também demonstraram o efeito da his-
tória de incontrolabilidade.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4489
90 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
Diferente dos estudos descritos, Levine e
colaboradores (1977) não solicitaram julga-
mentos de causalidade ou de controle, mas sim
descrições de desempenho. Esse procedimen-
to foi adotado porque, segundo os autores,
quando expostos a uma determinada situação,
os participantes formulam diferentes descrições
de desempenho, até que a mais precisa seja
selecionada pela contingência em vigor. Quan-
do uma nova tarefa é apresentada, o desempe-
nho seria insensível às novas contingências em
função das descrições formuladas anteriormen-
te. Para avaliar essa possibilidade, os autores
expuseram os participantes a problemas de dis-
criminação visual durante a Fase de Treino. O
primeiro grupo (Solucionável) recebeu 40 pro-
blemas solucionáveis. O segundo grupo
(Insolucionável) era exposto a 40 problemas
sem nenhuma solução programada, isto é, os
feedbacks “Correto” e “Incorreto” eram apre-
sentados aleatoriamente, independentemente
das respostas dos participantes. O terceiro gru-
po recebeu 30 problemas insolucionáveis. En-
tretanto, nos 10 problemas finais, apenas o
feedback “Correto” era apresentado (Grupo
Insolucionável-Correto). Após essa fase, todos
os participantes eram solicitados a descrever a
solução para o problema apresentado. Na Fase
de Teste, 40 novos problemas solucionáveis de
discriminação eram apresentados a todos os
grupos.
Os resultados indicaram que o Grupo So-
lucionável apresentou um número menor de
tentativas para resolver o problema do que os
grupos insolucionável e insolucionável-corre-
to. Uma vez que esses dois últimos grupos apre-
sentaram desempenhos semelhantes, Levine e
colaboradores (1977) concluíram que a expo-
sição a eventos incontroláveis não é o aspecto
crítico para a dificuldade na aprendizagem de
uma nova tarefa. A principal variável de con-
trole seria as descrições de desempenho, uma
vez que os participantes que formularam des-
crições simples (baseadas em uma dimensão
dos estímulos) mostraram tempos de reação
mais curtos na resolução do problema na Fase
de Teste do que aqueles que apresentaram des-
crições complexas (baseadas em seqüências,
combinações ou padrões irrelevantes dos es-
tímulos).
Em suma, nos estudos descritos anterior-
mente, o comportamento verbal dos participan-
tes (julgamentos de controle e causalidade, des-
crições do desempenho e expectativas) foi con-
siderado como a variável crítica para a ocor-
rência do efeito da história de incontrolabi-
lidade, a despeito da experiência com eventos
incontroláveis per si.
Ausência de correspondência
entre o comportamento verbal
e o comportamento não-verbal
Enquanto os estudos anteriormente des-
critos apontam a ocorrência de correspondên-
cia entre o comportamento verbal e o compor-
tamento não-verbal em situações de incontrola-
bilidade e, a partir desse resultado, afirmam
que julgamentos/expectativas dos indivíduos
determinam o retardo na aprendizagem de
novos comportamentos não-verbais, outros
estudos têm demonstrado ausência de corres-
pondência entre comportamento verbal e não-
verbal em situações semelhantes, o que sugere
que o retardo na aprendizagem é controlado
por outras variáveis.
Oakes e Curtis (1982) apontaram um pro-
blema metodológico nos estudos que afirmam
que a dificuldade de aprendizagem é produto
dos relatos dos participantes. Nesses estudos,
após serem expostos a uma situação de in-
controlabilidade e relatarem os eventos am-
bientais como sendo independentes de seus de-
sempenhos, os participantes apresentaram um
retardo na aprendizagem subseqüente de no-
vos comportamentos. Uma vez que a exposi-
ção a eventos incontroláveis e o relato de
incontrolabilidade ocorrem simultaneamente,
não é possível indicar a contribuição de cada
uma dessas variáveis para a ocorrência de tal
retardo. Para separar os efeitos dessas variá-
veis, Oakes e Curtis (1982) programaram uma
situação caracterizada pela ausência de corres-
pondência entre o relato e as condições expe-
rimentais em vigor.
No Experimento 1, durante a Fase de Trei-
no, os participantes receberam uma tarefa de
tiro ao alvo, sendo o tiro um feixe de luz. A
resposta de tiro ao alvo poderia ser seguida
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4490
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 91
pela apresentação de um tom ou pela ausên-
cia deste. A sala experimental era iluminada
de maneira a impedir a discriminação da rela-
ção de independência entre respostas e ocor-
rência do tom. Para o Grupo Contingente Posi-
tivo, apenas as respostas corretas (tiro no alvo)
eram seguidas da apresentação do tom, en-
quanto para o Grupo Contingente Negativo,
apenas as respostas incorretas eram seguidas
da apresentação do tom. Os grupos não-con-
tingente positivo e não-contingente negativo
eram acoplados aos grupos contingente positi-
vo e negativo, respectivamente, em relação ao
número e à seqüência de tons apresentados. O
Grupo Controle foi exposto apenas à Fase de
Teste, na qual todos os participantes recebe-
ram anagramas solucionáveis. Nessa fase, os
participantes deveriam indicar o grau de con-
trole que exerciam sobre a tarefa (julgamen-
tos decontrole) e o grau em que acertos e er-
ros dependiam de sua própria habilidade, difi-
culdade da tarefa, esforço, sorte ou controle
do experimentador (julgamentos de causalida-
de). Os participantes dos grupos não-contin-
gentes apresentaram um tempo de reação mais
longo e maior número de erros nas respostas
de resolução do anagrama quando compara-
dos aos grupos contingentes e controle, que
não diferiram entre si. Em relação aos julga-
mentos de controle, estes foram semelhantes
para todos os grupos, o mesmo ocorrendo com
os julgamentos de causalidade (o fator “con-
trole do experimentador” foi descrito como o
principal responsável pelos desempenhos).
Durante o Experimento 2, a discrimina-
ção da relação de independência entre respos-
tas e eventos ambientais foi manipulada por
meio de diferentes instruções. As fases de trei-
no e de teste foram semelhantes àquelas do
experimento anterior, com a seguinte exceção:
apenas a condição positiva estava em vigor. Na
Fase de Teste, metade dos participantes do
Grupo Contingente e metade dos participan-
tes do Grupo Não-Contingente foi informada
de que, durante a fase anterior, os tons eram
independentes das respostas emitidas. Dessa
forma, formaram-se cinco grupos experimen-
tais diferentes: Contingente Informado, Con-
tingente Não-Informado, Não-Contingente In-
formado, Não-Contingente Não-Informado e
Controle. Após a Fase de Teste, todos os parti-
cipantes deveriam emitir julgamentos de con-
trole e de causalidade, de maneira semelhante
àquela descrita no Experimento 1. Os resulta-
dos foram semelhantes aos do Experimento 1:
apesar dos julgamentos de controle terem sido
semelhantes para os participantes dos grupos
contingente e não-contingente, o desempenho
na tarefa do anagrama foi diferente, tendo os
grupos não-contingentes (com e sem instrução)
demonstrado dificuldades para resolver os ana-
gramas. Em relação aos julgamentos de causa-
lidade, os participantes que receberam a ins-
trução, tanto do Grupo Contingente quanto do
Grupo Não-Contingente, tenderam a atribuir
os acertos e os erros a fatores externos (p. ex.:
dificuldade da tarefa, controle do experimen-
tador). Os participantes que não receberam
instrução não apresentaram julgamentos de
causalidade com diferenças significativas en-
tre os fatores apresentados (sua própria habi-
lidade, dificuldade da tarefa, esforço, sorte ou
controle do experimentador).
Os resultados dos experimentos 1 e 2 in-
dicam que a experiência prévia com eventos
contingentes ou não-contingentes foi um fator
preditivo do desempenho posterior, o que não
ocorreu com os julgamentos de controle e de
causalidade; ou seja, efeitos da história de
incontrolabilidade foram observados apenas
para os participantes do Grupo Não-Contingen-
te, os quais apresentaram julgamentos de con-
trole e de causalidade semelhantes àqueles dos
participantes do Grupo Contingente. De acor-
do com Oakes e Curtis (1982), se tais julga-
mentos fossem responsáveis por esse efeito,
ambos os grupos deveriam ter apresentado di-
ficuldades na resolução dos anagramas, o que
não foi observado. A partir disso, esses auto-
res sugeriram que o efeito da exposição a even-
tos incontroláveis provavelmente é produzido
pela condição de incontrolabilidade e não pe-
los julgamentos em si (ver também Ford e
Neale, 1985; Tiggeman e Winefield, 1987).
Resultados semelhantes foram encontra-
dos por Tennen, Gillen e colaboradores (1982).
Na Fase de Treino do Experimento 1, os parti-
cipantes eliminavam ou interrompiam tons.
Para o primeiro grupo, os tons eram escapáveis
(Grupo Escapável). Os quatro grupos restan-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4491
92 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
tes receberam tons inescapáveis e eram aco-
plados ao Grupo Escapável em relação ao nú-
mero e à duração dos tons. Dois grupos rece-
beram uma instrução informando que a ocor-
rência dos tons não dependia apenas do de-
sempenho do participante, mas também das
respostas de outro participante. Para o Grupo
Inescapável-Ajuda, essas respostas eram emi-
tidas, na verdade, pelo próprio experimen-
tador; para o Grupo Inescapável-Sem Ajuda,
tais respostas não eram emitidas. Por fim, o
Grupo Controle recebeu tons inescapáveis. Na
Fase de Teste, os participantes resolviam ana-
gramas solucionáveis. Após essa fase, os parti-
cipantes eram solicitados a julgar o grau de
controle sobre a tarefa. Os participantes do Gru-
po Inescapável e do Grupo Inescapável-Ajuda
apresentaram tempos de reação mais longos e
um maior número de falhas na resolução dos
anagramas do que os participantes expostos a
tons escapáveis, demonstrando também julga-
mentos de baixo controle. Tal resultado é in-
consistente com os resultados de Oakes e Curtis
(1982), pois mostra uma correspondência en-
tre os julgamentos dos participantes e seus de-
sempenhos. A ausência de correspondência, en-
tretanto, foi observada para os participantes
dos grupos inescapável-sem ajuda e controle,
os quais, apesar de terem mostrado um desem-
penho semelhante ao dos participantes do Gru-
po Escapável (tempos de reação reduzidos e
poucas falhas na resolução do anagrama), apre-
sentaram julgamentos de baixo controle, o que
corrobora os dados de Oakes e Curtis (1982).
Esses resultados indicam, portanto, relações in-
consistentes entre julgamentos de controle e
desempenho no teste.
O procedimento utilizado no Experimen-
to 2 foi semelhante ao utilizado no Experimento
1. Após o treino, além de descreverem seus jul-
gamentos de controle, os participantes formu-
lavam julgamentos de causalidade. Os resulta-
dos mostraram que os julgamentos de causali-
dade global versus específica, estável versus ins-
tável e interna versus externa foram semelhan-
tes para os participantes de todos os grupos,
isto é, apesar de apresentaram desempenhos
distintos entre si, os participantes de todos os
grupos relataram seus desempenhos como sen-
do produto dos mesmos fatores. Baseados na
ausência de correspondência entre os julga-
mentos de causalidade e o desempenho no tes-
te, os autores concluíram que tais julgamentos
não exerceram controle sobre o comportamen-
to dos participantes (ver também Tennen,
Drum et al., 1982).
IMPLICAÇÕES CLÍNICAS
Diversos autores têm considerado os es-
tudos sobre o efeito da história de incontro-
labilidade como um modelo experimental de
depressão (p. ex.: Alloy e Abramson, 1979;
Hiroto, 1974; Hiroto e Seligman, 1975; Klein
et al., 1976; Klein e Seligman, 1976), uma vez
que os participantes expostos a uma situação
experimental de incontrolabilidade apresentam
com-portamentos semelhantes àqueles obser-
vados em clientes depressivos. Na situação ex-
perimental, a experiência com eventos incon-
troláveis diminui a freqüência da resposta. Essa
diminuição generaliza-se para situações em que
existe uma relação de controlabilidade entre
os eventos ambientais e o responder, ocasio-
nando a perda de reforços disponíveis. Simi-
larmente, indivíduos depressivos comumente
apresentam uma história de exposição a even-
tos incontroláveis, uma redução generalizada
de responder, bem como um baixo nível de
reforçamento positivo.
Entretanto comportamentos classificados
como depressivos são multideterminados, e a
incontrolabilidade é apenas uma de suas variá-
veis de controle. Por exemplo, é possível que
um indivíduo apresente um quadro depressivo
em função de uma história passada de reforça-
mento para comportamentos de isolamento so-
cial (p. ex.: brincar sozinho em casa quando
criança) e uma história de punição para com-
portamentos sociais (p. ex.: trazer colegas para
brincar em casa). Nesse caso, as contingências
de reforçamento/punição, juntamente (ou não)
com uma possível exposição a eventos incontro-
láveis (p. ex.: pais ora punem, ora não punem o
mesmo comportamento), deveriam ser incluí-
das na análise funcional do repertório compor-
tamental desse indivíduo.No caso de clientes com história de expo-
sição a eventos incontroláveis, os resultados
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4492
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 93
da pesquisa básica sugerem que a experiência
com eventos controláveis pode ser efetiva na
reversão dos efeitos dessa história (Carvalho,
1998; Nation e Massad, 1978; Seligman et al.,
1975; Williams e Maier, 1977); ou seja, indiví-
duos expostos a eventos incontroláveis e, em
seguida, a eventos controláveis não apresen-
tam dificuldade de aprendizagem de novos
comportamentos. Em termos de prática clíni-
ca, esses resultados sugerem que o terapeuta
deve estabelecer situações discrimináveis de
controlabilidade ou criar condições para que o
cliente discrimine situações de controlabilidade
já existentes, o que pode ser feito na própria
sessão terapêutica. Tais intervenções serão fei-
tas de modo a promover a aprendizagem de
novos comportamentos (ou aumentar a fre-
qüência de comportamentos adequados ante-
riormente aprendidos), visando à generaliza-
ção dos mesmos para o ambiente natural do
indivíduo.
Partindo do pressuposto de que os prin-
cipais dados a respeito da história de vida do
cliente já foram levantados pelo terapeuta, as-
sim como as informações sobre contingências
atuais, algumas propostas de intervenção se-
rão apresentadas a seguir.
Treino de auto-observação
O contato com situações controláveis
pode ser favorecido a partir da auto-observa-
ção, ou seja, da observação do próprio com-
portamento e de eventos ambientais relevan-
tes. Alguns clientes apresentam dificuldades de
auto-observação, sendo necessário que o tera-
peuta promova o treino desse comportamen-
to. Para tanto, o terapeuta pode utilizar, den-
tre outros, dois procedimentos: a modelação e
o registro comportamental. No primeiro pro-
cedimento, o terapeuta fornece modelos de
auto-observação, descrevendo seu próprio
comportamento e identificando variáveis de
controle antecedentes e conseqüentes, passa-
das e atuais. O comportamento-alvo pode ter
sido emitido tanto fora como dentro da sessão
terapêutica. O mesmo pode ser feito em rela-
ção aos comportamentos do cliente. No segun-
do procedimento, o terapeuta solicita ao clien-
te registros constantes de comportamentos
emitidos fora do setting terapêutico que foram
(ou não) efetivos na obtenção de reforços. Es-
ses registros permitem a identificação, por par-
te do cliente (e também do terapeuta), dos re-
forços disponíveis em seu ambiente. Tanto os
modelos fornecidos pelo terapeuta como os
registros de comportamentos e suas conseqü-
ências poderão auxiliar o cliente a discriminar
situações de controlabilidade.
Treino de repertórios não-verbais
Ao discriminar as situações de controla-
bilidade na sua história passada e atual, o
cliente estará identificando as contingências
às quais será mais provável que se exponha e,
a partir de então, a exposição a essas contin-
gências pode ser programada. Dessa forma, a
exposição a situações de controlabilidade deve
começar levando-se em consideração os com-
portamentos já presentes no repertório do
cliente. Por exemplo, considere uma cliente
que apresenta um quadro de isolamento so-
cial (p. ex.: só sai de casa para trabalhar, ra-
ramente interage com os familiares, não sai
com amigos, chora freqüentemente) após uma
história de repetidos fracassos em relaciona-
mentos amorosos. Ao longo das sessões, al-
gumas contingências reforçadoras passadas
são identificadas: no trabalho, ela era
prestigiada pelo chefe por suas habilidades no
computador; em casa, ajudava a mãe e os ir-
mãos com os serviços bancários e era valori-
zada por isso; com os amigos, era elogiada
por seus conselhos “sempre úteis”. A partir
da identificação desses comportamentos e de
suas conseqüências, é possível programar ati-
vidades nas quais a cliente terá grande pro-
babilidade de emitir tais comportamentos e
nas quais os mesmos provavelmente serão
reforçados. A reexposição a essas contingên-
cias reforçadoras poderá minimizar os efeitos
da exposição anterior a eventos aversivos
incontroláveis e, assim, promover a generali-
zação desses comportamentos para novas
situações.
Quando as condições para a emissão de
comportamentos mais eficientes e adequados
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4493
94 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
envolvem eventos aversivos para o cliente (p.
ex.: situações novas, possibilidade de rejeição
e crítica), o terapeuta pode programar a expo-
sição às contingências por meio de aproxima-
ções sucessivas. Uma cliente cujo isolamento
social consiste em esquiva do risco de outras
desilusões afetivas poderá ser treinada a se ex-
por gradualmente a situações que favoreçam
relacionamentos amorosos e, simultaneamen-
te, a se comportar de maneira mais efetiva
nesses relacionamentos. Por exemplo, ela po-
derá iniciar conversas com pessoas mais pró-
ximas de seu convívio diário, isto é, a aprendi-
zagem desses comportamentos deve ser inici-
ada em contextos interpessoais com baixo teor
aversivo. O ambiente terapêutico, bem como
o ambiente familiar, caso sejam caracteriza-
dos como reforçadores, também podem ofe-
recer um contexto inicial. Em ambas as situa-
ções, a cliente pode aprender a discriminar
quando e como emitir comportamentos so-
cialmente relevantes, tais como expressar sen-
timentos, fazer e negar pedidos, criticar, elo-
giar, etc. Os próximos passos envolveriam um
potencial de risco gradativamente maior. A
cliente poderia ser incentivada a se relacio-
nar mais intensamente com os amigos e, em
seguida, com pessoas desconhecidas visando
ao desenvolvimento de um relacionamento
amoroso. No decorrer desse processo de apro-
ximações sucessivas, é de extrema importân-
cia ressaltar todo e qualquer progresso do
cliente, tanto pelo simples fato de se expor a
situações de “risco” como também pelos re-
forços obtidos em função de seus novos com-
portamentos. Isso deve ser feito para que o
cliente aprenda a discriminar as contingên-
cias reforçadoras presentes em seu ambiente
e, assim, tornar a exposição a tais contingên-
cias cada vez mais provável.
Treino de repertórios verbais
Um aspecto importante do processo te-
rapêutico refere-se à identificação do grau de
correspondência entre as regras do cliente e
as contingências em vigor em seu cotidiano.
Considere um cliente adolescente com uma
história de vida caracterizada pela indepen-
dência entre sucessos/fracassos e seus com-
portamentos (p. ex.: não passou no vestibu-
lar apesar de ter estudado muito, ganhou um
carro dos pais sem um motivo especial). Em
decorrência dessa história, o cliente desenvol-
veu a regra “não adianta fazer A ou B, as coi-
sas acontecem quando têm de acontecer”, e
sempre a verbaliza quando quer justificar o
fato de não lutar por seus objetivos. É impor-
tante lembrar que seguir essa regra pode ge-
rar reforços eventualmente (já que situações
de incontrolabilidade fazem parte do nosso
cotidiano), o que torna difícil o seu abando-
no (Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo).
Uma vez identificado o grau de correspondên-
cia entre regra e contingências, cabe ao
terapeuta ajudar o cliente a discriminar quan-
do tal regra é precisa e quando é imprecisa (o
Capítulo 12 contém informações mais deta-
lhadas sobre controle verbal).
No diálogo (fictício) que se segue é exem-
plificado o uso de frases paradoxais com o ob-
jetivo de colocar o cliente em contato com a
imprecisão da regra.
C: – Nada do que eu faço adianta...
T: – É, realmente, nada do que você faz
adianta.
C: – Como assim?
T: – Você disse que nada do que você faz
adianta, talvez você tenha razão.
C: – Mas não é bem assim... Sei lá...
T: – Como é então?
C: – Eu devo conseguir às vezes. Todo
mundo consegue algo que deseja de
vez em quando, né?
T: – É?
C: – É.
T: – Você sabe identificar o que e quando
você consegue?
C: – Hum, deixa eu ver... Ah, por exemplo,
quando eu quero muito acamparcom
meus amigos nos finais de semana, eu
converso com meus pais e quase
sempre consigo convencê-los a me
deixarem ir.
T: – É um bom exemplo de algo que você
consegue conquistar em função do
que você mesmo fez. Lembra de mais
algum?
C: – Na escola, por exemplo, eu estudo
bastante em época de prova e sempre
consigo tirar boas notas.
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4494
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 95
T: – Isso mesmo, mais um ótimo exemplo!
Você parece conseguir conquistar
algumas coisas então, né?
C: – É verdade... Eu consigo muita coisa,
mas muitas vezes eu não percebo. Por
que isso acontece?
Nesse exemplo, é possível observar que o
terapeuta, além de não reforçar o comporta-
mento verbal inadequado do cliente (“nada do
que eu faço adianta”), apresenta estímulos
discriminativos diferentes daqueles usualmente
apresentados em seu ambiente (“é, realmente,
nada do que você faz adianta”, “... talvez você
tenha razão”) de modo a evocar comportamen-
tos alternativos (“Como assim?”, “Mas não é
bem assim...”). Essa estratégia poderá auxiliar
o cliente a discriminar suas regras inadequadas,
assim como algumas das contingências refor-
çadoras presentes em sua história.
Os relatos dos clientes fornecem informa-
ções importantes sobre atribuição de causali-
dade. Em função de uma história de exposição
a explicações mentalistas, os indivíduos comu-
mente atribuem seus comportamentos a even-
tos internos e, conseqüentemente, seus objeti-
vos na terapia focalizam a eliminação de sen-
timentos e pensamentos negativos (p. ex.: “se
eu perder essa insegurança e melhorar minha
auto-estima, acho que as coisas vão melhorar”).
Outras vezes, as explicações fornecidas pelo cli-
ente apóiam-se em eventos ambientais, mas
uma análise cuidadosa revela que os eventos
apontados são irrelevantes para a ocorrência
do comportamento (p. ex.: “não tenho estuda-
do porque ler muito me dá dor de cabeça”
quando, na realidade, o cliente está esquivan-
do-se do estudo em função de dificuldades na
compreensão do conteúdo). Ambos os relatos
não apresentam a interação comportamento-
ambiente como o foco da atenção.
Diante desse quadro, é importante que o
terapeuta considere com cautela os relatos do
cliente, uma vez que eles podem descrever va-
riáveis irrelevantes para a compreensão do
comportamento (ver Sanabio e Abreu-Rodri-
gues, 2002). Embora essa imprecisão possa ser
de interesse à medida que sugere contingên-
cias de reforçamento e punição às quais o clien-
te foi (ou continua sendo) exposto, é impor-
tante estabelecer contingências para gerar re-
latos acurados. Para tanto, o terapeuta pode
promover o treino de auto-observação, ante-
riormente discutido. Dessa forma, o cliente irá
aprender a identificar, com acurácia, relações
funcionais entre seus comportamentos e os
eventos ambientais, uma aprendizagem que ge-
ralmente ocorre a partir de modelos forneci-
dos pelo terapeuta ou por meio de reforça-
mento diferencial por ele estabelecido. A mo-
delagem das verbalizações do cliente, assim
como a modelação, pode ser feita a partir dos
eventos que ocorrem na própria relação tera-
pêutica (Kohlenberg e Tsai, 1991/2001).
CONCLUSÃO
De acordo com a proposta de Maier e
Seligman (1976), os efeitos da história de
incontrolabilidade seriam produto das expec-
tativas dos indivíduos, as quais são avaliadas
por meio dos relatos. Entretanto a sugestão des-
ses autores apresenta alguns problemas, am-
pliando a necessidade de manipulações expe-
rimentais mais rigorosas na área.
O primeiro deles se refere ao status de
“causa” atribuído às expectativas dos partici-
pantes. Para que qualquer evento seja consi-
derado como variável de controle do compor-
tamento, é necessário demonstrar que há rela-
ção funcional entre esse evento e o comporta-
mento. Para isso, o evento é alterado de ma-
neira sistemática (variável independente), en-
quanto possíveis alterações sobre o comporta-
mento (variável dependente) são observadas.
Quando a variável dependente varia sistema-
ticamente com manipulações da variável inde-
pendente, tem-se uma relação funcional. Des-
sa forma, afirmar que a variável dependente
está funcionalmente relacionada à variável in-
dependente implica dizer que, sob determina-
das condições ambientais, mudanças na pri-
meira ocorrerão em função de mudanças na
segunda; em condições ambientais diferentes,
é possível que tal relação não seja observada.
Nesse caso, a variável independente não é con-
siderada a causa (Chiesa, 1994), uma vez que
uma relação causal sugere que a ocorrência de
um evento é condição necessária e suficiente
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4495
96 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
para a ocorrência de outro evento, o que rara-
mente é observado na natureza (Johnston e
Pennypacker, 1993). Os estudos sobre o efeito
da exposição a eventos incontroláveis que in-
vestigam o papel das expectativas dos indiví-
duos não identificam relações funcionais en-
tre tais expectativas e o comportamento dos
participantes. Isso porque as expectativas, en-
quanto eventos não-observáveis, não são ma-
nipuladas, sendo apenas inferidas a partir dos
relatos dos indivíduos, os quais também não
são diretamente manipulados.
Um segundo problema está relacionado
ao uso do relato como instrumento de coleta
de dados. Conforme discutido anteriormente,
essa prática apóia-se no pressuposto de que os
relatos retratam com fidedignidade as expec-
tativas dos indivíduos. Entretanto vários estu-
dos (p. ex.: Critchfield e Perone, 1990; 1993;
Critchfield, 1993; 1996; Sanabio e Abreu-
Rodrigues, 2002; Shimoff, 1986; Simonassi et
al., 1994, 1995, 1997) têm demonstrado que
os relatos podem estar sob controle de inúme-
ras variáveis e, assim, podem consistir em des-
crições imprecisas das contingências em vigor.
Uma vez que os relatos podem não descrever
com precisão eventos públicos, é viável supor
que o mesmo pode ocorrer com relação aos
relatos de eventos privados, principalmente se
for considerado que a comunidade verbal não
pode prover reforçamento diferencial consis-
tente para tais relatos. Dessa forma, eles de-
vem ser considerados com cautela nas tentati-
vas de explicar o comportamento.
Considerar o efeito de uma história de
incontrolabilidade como produto da expecta-
tiva (um evento privado) gera um terceiro pro-
blema. De acordo com abordagens mentalistas,
modificações no ambiente externo produziriam
modificações em comportamentos privados
não-observáveis, sendo estes últimos conside-
rados como a variável de controle dos com-
portamentos públicos. Ou seja, o foco de inte-
resse dessas abordagens seria os processos
comportamentais não-observáveis diretamen-
te. Sob uma perspectiva analítico-comporta-
mental, entretanto, o mentalismo representa
um problema, pois, conforme apontado por
Skinner (1953/1994, p. 41), “o hábito de bus-
car dentro do organismo uma explicação do
comportamento tende a obscurecer as variá-
veis que estão ao alcance de uma análise cien-
tífica”. Assim sendo, as variáveis de controle
devem ser buscadas no ambiente. Quando isso
ocorre, o controle do comportamento torna-se
possível, uma vez que eventos ambientais po-
dem ser manipulados.
O quarto problema é que os estudos so-
bre efeito de uma história de incontrolabilidade
comumente negligenciam as funções de con-
trole exercidas pelas variáveis manipuladas. To-
dos os estudos da área manipulam a história
de controlabilidade/incontrolabilidade. Ou-
tros, adicionalmente, manipularam o conteú-
do das instruções apresentadas (Hiroto, 1974;
Klein et al., 1976; Mikulincer, 1986) ou o tipo
de tarefa às quais os participantes foram ex-
postos (Douglas e Anisman, 1975; Klein e
Seligman, 1976). Nesses estudos, entretanto,
a história, as instruções e o tipo de tarefa não
foram considerados como fontes primárias de
controle do desempenho não-verbal. De fato,
essas variáveis só eram relevantes à medidaque, supostamente, alteravam as expectativas
dos participantes.
Um quinto problema também pode ser
apontado: os resultados sobre as possíveis re-
lações entre os relatos e os efeitos da exposi-
ção a eventos incontroláveis são inconsisten-
tes. Enquanto alguns autores (p. ex.: Alloy et
al., 1984; Douglas e Anisman 1975; Hiroto
1974; Klein et al., 1976) demonstraram cor-
respondência entre os relatos e o desempenho
não-verbal, outros autores (p. ex.: Ford e Neale
1985; Oakes e Curtis 1982; Prindaville e Stein
1978; Tennen, Drum et al., 1982; Tennen,
Gillen et al., 1982) demonstraram independên-
cia entre esses dois comportamentos. Essa in-
consistência de resultados sugere a necessida-
de de estudos adicionais para identificar as
variáveis responsáveis pela correspondência
entre os relatos e os efeitos da exposição a even-
tos incontroláveis.
Apesar desses problemas, os estudos so-
bre a exposição a eventos incontroláveis são
importantes porque apontam a possibilidade
de contingências verbais influenciarem o com-
portamento não-verbal dos indivíduos, além
de investigarem a influência de contingências
não-verbais passadas sobre o comportamen-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4496
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 97
to atual. A identificação de variáveis históri-
cas justifica-se por duas razões: porque permi-
te aprimorar o controle experimental, uma vez
que efeitos da história passada, quando não
“desejáveis”, poderiam ser minimizados, ou
mesmo eliminados, e porque contribui para a
elaboração de intervenções comportamentais
eficazes, à medida que contingências atuais in-
fluenciam o comportamento de maneiras dife-
renciadas em função de histórias de reforça-
mento/punição distintas (Aló, 2002).
Os estudos sobre a história de incontrola-
bilidade também são relevantes por fornece-
rem subsídios para a prática clínica. No mo-
mento, as intervenções terapêuticas, embora
se mostrem efetivas no tratamento de indiví-
duos expostos a situações de incontrolabili-
dade, parecem não se beneficiar dos achados
da pesquisa básica. Similarmente, os terapeutas
têm apontado diversas variáveis envolvidas no
fenômeno da incontrolabilidade, mas essas va-
riáveis ainda não foram experimentalmente
investigadas. Da mesma forma que a prática
clínica pode ser enriquecida com dados expe-
rimentais que contribuam para o estabeleci-
mento de intervenções mais eficazes, fenôme-
nos e processos clínicos podem gerar questões
experimentais de suma relevância. É preciso,
então, que clínicos e pesquisadores promovam
a interação entre essas duas áreas.
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Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4498
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 99
COMPORTAMENTO ADJUNTIVO:
DA PESQUISA À APLICAÇÃO
LINCOLN DA SILVA GIMENES
ALESSANDRA DE MOURA BRANDÃO
MARCELO FROTA BENVENUTI
sumo excessivo de água (polidipsia) disponí-
vel durante a sessão experimental, sem que os
sujeitos estivessem submetidos a qualquer pri-
vação da mesma. A polidipsia ocorria princi-
palmente após o consumo da pelota de ração e
mantinha-se por toda a sessão que tinha a du-
ração de aproximadamente 3 h. Para alguns
sujeitos, o consumo de água durante a sessão
excedeu em dois terços seu peso corporal e
mostrou-se superior ao consumo de água na
gaiola-viveiro nos períodos entre as sessões ex-
perimentais. A polidipsia também foi observada
na utilização de um esquema de liberação de
alimento não-contingente à resposta, com du-
ração fixa de 60 s, mas não sob um esquema
de reforçamento contínuo (Falk, 1961b). Falk
denominou o fenômeno de polidipsia psicogê-
nica, sugerindo que sua natureza seria compor-
tamental, e não fisiológica.
Os objetivos deste capítulo são apresen-
tar ao leitor os fundamentos experimentais do
comportamento adjuntivo, bem como sugerir
o modelo desse comportamento como uma al-
ternativa para a compreensão de transtornos
comportamentais. Com esses objetivos serão
apresentadas inicialmente as características do
comportamento adjuntivo, incluindo uma dis-
cussão da pertinência da classificação desse
comportamento em uma terceira classe, além
da descrição de diferentes tipos de comporta-
mentos adjuntivos e da generalidade desse fe-
nômeno comportamental. A seguir, serão apre-
6
Nosso problema não é o da analogia, mas o
de conseguir uma compreensão suficiente tan-
to dos ratos como dos homens, para que pos-
samos reconhecer semelhanças nos processos
comportamentais. Temos de ser capazes de
classificar nossas variáveis de uma tal manei-
ra que nos permita reconhecer semelhanças
entre os seus princípios de operação, apesar
de suas especificações físicas poderem ser bem
diferentes (Sidman, 1960/1976, p. 35-36).
Comportamento adjuntivo pode ser gene-
ricamente definido como um comportamento
que é mantido de maneira indireta pelas variá-
veis, que tipicamente controlam um outro com-
portamento, em vez de ser mantido diretamen-
te por suas próprias variáveis controladoras
(Falk, 1971). Em geral, diz-se que o comporta-
mento diretamente controlado é governado pela
contingência (tanto R-S – resposta dependente
– como S-S – resposta independente), enquan-
to o comportamento adjuntivo é induzido pela
contingência. Essa distinção é importante pelo
fato de aquele ser programado por meio das re-
lações contingenciais, enquanto este ocorre
como um correlato dessas relações.
Em um estudo pioneiro, Falk (1961a) ob-
servou a ocorrência sistemática de um com-
portamento não-programado pela contingên-
cia inicial. Em seu experimento com ratos, no
qual pressões à barra eram reforçadas com
pelotas de alimento, segundo um esquema de
intervalo variável de 60 s, ele observou um con-
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4499
100 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
sentados exemplos de transtornos comporta-
mentais, para cuja compreensão o modelo de
comportamento adjuntivo pode contribuir. Es-
ses exemplos incluem drogadição, obesidade
e bulimia, anorexia por atividade e a síndrome
do cólon irritável. Finalmente será discutido o
controle de estímulos sobre o comportamento
adjuntivo e suas implicações para a análise fun-
cional do comportamento.
CARACTERÍSTICAS DO
COMPORTAMENTO ADJUNTIVO
Baseando-se nos trabalhos sobre polidipsia,
Falk (1971) destacou sete características bási-
cas do comportamento adjuntivo:
• A maior taxa desse comportamento
ocorre logo após a apresentação do
reforço/estímulo, isto é, a distribuição
do comportamento no intervalo entre
reforços/estímulos é representada por
uma curva decrescente negativamen-
te acelerada.
• O comportamento depende da dura-
ção dos intervalos entre a apresenta-
ção dos reforços/estímulos, resultan-
do em uma relação bitônica (curva em
forma de U invertido) entre o tama-
nho do intervalo e a taxa do compor-
tamento, com taxas reduzidas quan-
do o intervalo é pequeno ou muito
grande, e altas quando o intervalo é
de um valor intermediário.
• O comportamento varia de acordo
com o nível de privação dos sujeitos,
apresentando uma relação direta en-
tre o nível de privação e a taxa do com-
portamento.
• O comportamento ocorre em excesso se
comparado às condições de controle.
• O comportamento pode ser induzido
tanto por esquemasdependentes
(contingências R-S) como por esque-
mas em que a liberação dos estímu-
los não depende da resposta (contin-
gências S-S).
• O comportamento pode ser usado
como reforço para outros comporta-
mentos, por exemplo, um rato pode
aprender uma nova resposta conse-
qüenciada pelo acesso à água quando
exposto a um esquema intermitente
de apresentação de alimento.
• O comportamento depende dos estí-
mulos ambientais disponíveis, com as
taxas variando em função dos arran-
jos do ambiente, como, por exemplo,
a localização e o tipo de vasilhame uti-
lizado para apresentação da água.
Além dessas características, os com-
portamentos adjuntivos também estão sujeitos
aos efeitos de algumas manipulações ambien-
tais que afetam o comportamento operante.
Dessa forma, o comportamento adjuntivo pode
ser afetado tanto por contingências de puni-
ção – diminuição na taxa do comportamento
(Pellon e Blackman, 1987) – como pela admi-
nistração de diferentes drogas, tais como
apomorfina – diminuição na taxa de compor-
tamento (Snodgrass e Aleen, 1988), d-anfeta-
mina e diazepam – alterações na distribuição
do comportamento dentro do intervalo entre
reforços, mas sem alterar as taxas (Flores e
Pellon, 1997; Pellon e Blackman, 1992), e
amperozide – diminuição na taxa do compor-
tamento (Tung et al., 1994). Os efeitos da ra-
diação ionizante observados sobre o compor-
tamento operante também foram observados
sobre o comportamento adjuntivo de ingestão
de água – diminuição na taxa do comporta-
mento (Brandão, Gimenes e Rodrigues, 2003).
Assim como o operante, o comportamento
adjuntivo pode também interagir com outras
variáveis biológicas, como, por exemplo, o rit-
mo circadiano – a taxa do comportamento
adjuntivo reflete a distribuição do comporta-
mento ao longo de 24 h em condições de livre
acesso sem imposição de contingências, isto é,
o horário da sessão experimental afeta a taxa
do comportamento para mais ou para menos,
de acordo com as taxas observadas no mesmo
horário do dia na condição de livre acesso
(Gimenes e Melo, 1993; Melo et al., 1991).
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:44100
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 101
Comportamento adjuntivo
como uma terceira classe
A polidipsia observada nos arranjos ex-
perimentais descritos veio a ser designada
como comportamento adjuntivo ou comporta-
mento induzido pelo esquema (esses dois ter-
mos têm sido utilizados de forma intercam-
biável na literatura), para diferenciá-lo do com-
portamento governado pelo esquema, o
operante em questão, como definido anterior-
mente. O termo comportamento induzido por
esquemas de reforçamento surgiu a partir do
trabalho de Staddon e Simmelhag (1971), no
qual o efeito de contingências estímulo-estí-
mulo sobre o comportamento de pombos e suas
implicações para a compreensão do compor-
tamento de uma forma mais geral foram expli-
citamente explorados. Esses autores observa-
ram que os pombos que recebiam acesso ao
alimento de acordo com esquemas temporais,
dependentes ou independentes das respostas,
passaram a apresentar um padrão típico e es-
tereotipado de respostas entre as apresenta-
ções do alimento. O padrão geral dos sujeitos
consistiu em respostas variadas logo após a
apresentação do alimento e respostas de bicar
o comedouro pouco antes da apresentação do
alimento. Portanto, respostas variadas ocor-
riam freqüentemente no início dos intervalos
entre as apresentações do alimento, e foram
denominadas de respostas interinas. Respostas
de bicar, que se tornavam muito prováveis para
todos os sujeitos conforme se aproximava uma
nova liberação do alimento foram denomi-
nadas de respostas terminais. Outras respostas,
que ocorreriam durante o intervalo, entre as
respostas interinas e as respostas terminais,
mas sem aumento na sua probabilidade em
função do esquema, foram denominadas de
respostas facultativas, sendo o comportamento
de correr em uma roda de atividade um exem-
plo apresentado por Staddon e Ayres (1975).
Staddon e Simmelhag (1971) consideraram
que respostas interinas e respostas terminais
seriam induzidas pelo esquema, no sentido de
que são respostas que se tornam mais prová-
veis de ocorrer na vigência do esquema indutor,
e não na sua ausência. Nesse contexto, o ter-
mo comportamento induzido por esquema ser-
viria para enfatizar que a ocorrência de respos-
tas terminais e interinas não poderia ser expli-
cada por reforçamento. A ocorrência e as ca-
racterísticas definidoras dos comportamentos
induzidos por esquemas dificilmente poderiam
ser entendidas a partir dos princípios até en-
tão utilizados na análise do comportamento
operante. Para Staddon (1977), a polidipsia
induzida por esquemas de reforçamento seria,
assim, um tipo de resposta interina.
Algumas das características do compor-
tamento adjuntivo, tais como excesso, depen-
dência dos parâmetros do esquema intermiten-
te de reforçamento (principalmente parâmetros
temporais), localização da ocorrência dentro
do intervalo entre reforços, distribuição bitôni-
ca em função do tamanho dos intervalos dos
esquemas, propriedades motivadoras desses
comportamentos, entre outras, levaram Falk
(1971) a propor uma nova classe de compor-
tamentos. Essa terceira classe, a de comporta-
mentos adjuntivos, viria a se contrapor ou a
complementar as outras duas, a de comporta-
mentos operantes e a de comportamentos res-
pondentes. A propriedade dessa classificação
foi, e ainda é, questionada (ver Wetherington,
1982, para uma análise detalhada dessa
questão).
Tipos e generalidades
dos comportamentos adjuntivos
Os achados iniciais de Falk, pelas carac-
terísticas aberrantes da polidipsia observada,
geraram um grande interesse pelo fenômeno
e desencadearam uma longa empreitada de
pesquisas na área. Além da polidipsia, outros
comportamentos adjuntivos têm sido demons-
trados em estudos realizados com animais,
como, por exemplo, o consumo de álcool em
ratos (Lester, 1961), ingestão de materiais não-
comestíveis (pica) em macacos (Villareal,
1967), agressão em pombos (Hutchinson, Azrin
e Hunt, 1968), uso da roda de atividades em
ratos (Levitsky e Collier, 1968), lambedura de
Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:44101
102 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
jatos de ar em ratos (Mendelson e Chillag,
1970), motilidade intestinal em ratos (Rayfield,
Segal e Goldiamond, 1982), hiperfagia em ra-
tos (Wilson e Cantor, 1987) e auto-administra-
ção de drogas em ratos (Falk et al., 1990). Ape-
sar de não mencionar o termo comportamento
adjuntivo, Fernandez e Timberlake (2003) de-
monstraram a ocorrência de diferentes com-
portamentos estereotipados em ursos polares
quando eles eram alimentados segundo esque-
mas temporais específicos. Além dos diferen-
tes tipos de comportamentos adjuntivos, os
mesmos têm sido observados em uma ampla
variedade de espécies. Segundo Falk (1998), a
polidipsia tem sido observada em várias linha-
gens de ratos, camundongos, porquinhos-da-
índia, gerbilo da Mongólia, chinchilas, maca-
cos rhesus, macacos de Java, chimpanzés, pom-
bos e humanos.
A generalidade do fenômeno do compor-
tamento adjuntivo (p. ex.: Roper, 1981) e sua
ocorrência em seres humanos (p. ex.: Overskeid,
1992) têm sido ocasionalmente questionadas.
Entretanto vários estudos têm demonstrado em
algum grau sua ocorrência tanto em crianças
como em adultos. Enquanto os comportamen-
tos adjuntivos de beber, de comer, de ativida-
des motoras, de fumar e de asseio foram ob-
servados em adultos em uma situação de jo-
gos (Fallon, Allen e Butler, 1979; Wallace e
Singer, 1976; Wallace, Sanson e Singer, 1978),
crianças submetidas a esquemas de intervalo
fixo para operação de uma chave telegráfica
apresentaram comportamentos adjuntivos de
vocalização, de beber e de atividades motoras
(Porter, Brown e Goldsmith, 1982) (para uma
resposta às críticas sobre a ocorrência de com-
portamentos adjuntivos em humanos, ver Falk,1993).
COMPORTAMENTO ADJUNTIVO E
TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS
A seguir serão apresentados alguns trans-
tornos comportamentais juntamente com os
fundamentos experimentais que fornecem ele-
mentos para um modelo de comportamento
adjuntivo como um modelo alternativo para a
compreensão dessas disfunções.
Drogadição
A diversidade de excessos comportamen-
tais que podem ocorrer sob um esquema de
reforçamento indutor localiza o abuso de dro-
gas como um caso especial dentro de um con-
texto em que condições ambientais podem ge-
rar muitos tipos de disfunções comportamen-
tais (Falk, 1993). Quando água ou outras so-
luções são disponibilizadas sob um esquema
indutor, seu consumo excessivo e a manuten-
ção da auto-administração dessas substâncias
podem ocorrer. O consumo excessivo de di-
ferentes drogas, tais como etanol, barbitúricos,
opióides, benzodiazepínicos, cocaína e nico-
tina, tem sido investigado sob o modelo expe-
rimental de comportamento adjuntivo por se-
rem substâncias de adição em seres humanos.
Para algumas substâncias, tem sido demons-
trado o desenvolvimento de dependência físi-
ca, enquanto para outras tem-se observado
conseqüências comportamentais negativas
após a sua ingestão, como, por exemplo, “al-
terações no controle motor” (Samson e Falk,
1974).
Em um estudo pioneiro, Lester (1961)
observou a intoxicação por etanol em ratos
submetidos a um esquema de reforçamento
de intervalo variável, utilizando alimento
como reforço e com uma solução de etanol a
5,6% disponível durante a sessão experimen-
tal. Após 3 h de sessão, pôde-se observar um
aumento elevado na concentração de etanol
no sangue dos animais e sinais de intoxica-
ção. Investigações posteriores confirmaram
que ratos sob esquemas indutores semelhan-
tes ingeriram grande quantidade de solução
de etanol em sessões com duração de até 3,5 h
de duração (Everett e King, 1970; Freed,
Carpenter e Hymowitz, 1970). A ingestão de
etanol induzida por esquema de reforçamento
também pôde ser observada em outras
espécies, como camundongos e macacos, com
o consumo de grandes quantidades de etanol,
resultando em alta concentração sangüínea
dessa substância (Mello e Mendelson, 1971;
Woods e Winger, 1971).
A auto-administração oral induzida por
esquema de reforçamento de outras substân-
cias, como cocaína, também tem sido alvo
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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 103
de diversos trabalhos. Tang e Falk (1987) ob-
servaram que ratos expostos a um esquema
de reforçamento de tempo fixo, com pelotas
de alimentos utilizadas como reforço, aumen-
taram drasticamente a ingestão de uma so-
lução de cocaína, sendo que seu consumo au-
mentou em função do aumento da concen-
tração da droga na solução. Posteriormente,
Falk e colaboradores (1990), em um estudo
sob condições semelhantes em que água e
uma solução de cocaína em baixa concentra-
ção eram disponibilizadas, não observaram
uma preferência pela droga. Os autores no-
taram que a preferência pela solução de co-
caína só foi observada quando sacarina e
glicose foram acrescentadas à solução, mos-
trando que o sabor da substância pode ser
considerado como um fator relevante da
ingestão por via oral.
Uma série de estudos estendeu os proce-
dimentos de auto-administração induzida por
esquemas de reforçamento de diferentes agen-
tes tóxicos, como nicotina e cocaína, para a
rota intravenosa, no sentido de eliminar uma
variável indesejável da administração oral que
é o sabor aversivo da droga (Singer, Oei e
Wallace, 1982; Smith e Lang, 1980). Assim,
ao invés de uma garrafa com água ou uma so-
lução, os animais tinham acesso a uma barra
para obter infusões intravenosas da droga.
Lang, Latiff, McQueen e Singer (1977) obser-
varam em ratos que esquemas de razão fixa 1
(FR 1) de injeções intravenosas de nicotina não
era suficiente para controlar o comportamen-
to de auto-administração. Entretanto, quando
o peso dos animais foi diminuído de 100 para
80% do peso livre, a nicotina passou a funcio-
nar como reforçador e quando essa condição
foi combinada com um esquema de tempo fixo
de 1 min (FT 1 min), a auto-administração de
nicotina aumentou significativamente.
Em humanos, vários estudos têm enfati-
zado a importância do comportamento adjun-
tivo de ingestão de substâncias como álcool e
cocaína como um modelo animal para alcoo-
lismo e drogadição. Doyle e Samson (1988)
observaram o consumo de cerveja em huma-
nos sob dois esquemas de intervalo fixo para a
operação de uma máquina caça-níqueis e veri-
ficaram que os sujeitos expostos ao esquema
de intervalo fixo mais longo ingeriram signifi-
cativamente mais cerveja do que aqueles ex-
postos ao esquema de intervalo fixo mais cur-
to. Além disso, foram observadas algumas ca-
racterísticas básicas dos comportamentos ad-
juntivos para o grupo exposto ao esquema de
intervalo fixo mais longo, sugerindo, assim, que
a ingestão de álcool em humanos ocorre de
maneira similar ao modelo animal de polidipsia
induzida por esquema de reforçamento. Além
disso, os autores sugeriram que a exposição a
esquemas indutores é crucial na formação da
história de consumo, e que a exposição a am-
bientes nos quais reforçamento intermitente,
talvez na forma de interação social, e álcool
estão disponíveis pode levar a um padrão de
consumo excessivo que pode se tornar habitual
ou potencializado por ambientes similares em
ocasiões futuras.
As drogas que afetam diretamente o sis-
tema nervoso central podem também produ-
zir fortes efeitos sensoriais. Tanto esses estí-
mulos internos como também os estímulos ex-
ternos ambientais associados ao comportamen-
to de procura e ingestão da droga formam um
conjunto de estímulos discriminativos que es-
tão associados à interação do indivíduo com a
droga. Alguns desses estímulos, tanto internos
como externos, podem tornar-se condiciona-
dos ao efeito farmacológico da droga. Assim,
eles podem levar à ingestão da droga em fun-
ção da instalação de um quadro de abstinên-
cia como também a uma retomada dos com-
portamentos de busca e ingestão da droga por-
que esses comportamentos foram associados
aos reforços positivos produzidos pela ação in-
trínseca dessas substâncias (Falk, 1998). Des-
sa forma, em humanos, o abuso de drogas não
é um excesso comportamental isolado e único,
ao contrário, ele é apenas um dos aspectos de
uma variedade de outros comportamentos
disfuncionais. A aquisição e a manutenção do
abuso de drogas são facilitados não apenas por
fatores intrínsecos ou propriedades farma-
cológicas das drogas, mas também por condi-
ções econômica e socialmente estabelecidas por
esquemas de reforçamento restritivos que po-
dem proporcionar a geração de esquemas
indutores para esses excessos comportamentais
(Falk, 1993).
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104 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS.
Obesidade e bulimia
Embora o comportamento adjuntivo de
consumo de alimento (hiperfagia) não tenha
sido tão claramente demonstrado quanto a
polidipsia (p. ex.: Carlisle, Shanab e Simpson,
1972; King, 1974; Wetherington e Brownstein,
1979), alguns estudos demonstraram que a
ingestão excessiva de alimentos também pode
ser induzida ou adjuntiva a certas contingên-
cias (Bellingham, Wayner e Barone, 1979;
Gimenes e Marinho, 1993; Marinho, Gimenes
e Nogueira, 1991; Wilson e Cantor, 1987). Vale
observar, entretanto, que o consumo de alimen-
to adjuntivo dificilmente pode ocorrer com o
mesmo vigor que a polidipsia adjuntiva. O rato
tem um sistema renal bastante eficiente, ca-
paz de eliminar facilmente líquidos excessiva-
mente ingeridos. Por outro lado, isso não ocorre
com a eliminação do alimento, pois, além das
restrições físicas do estômago para receber ali-
mentos em excesso em um curto período de
tempo, o período para processamento e elimi-
nação é maior.
Bellingham e colaboradores (1979) ob-
servaram a ocorrência do consumo

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