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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:261 Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:262 S616 Análise do comportamento [recurso eletrônico] : pesquisa, teoria e aplicação / Josele Abreu-Rodrigues, Michela Rodrigues Ribeiro (organizadoras). – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2007. Editado também como livro impresso em 2005. ISBN 978-85-363-1102-9 1. Psicologia – Comportamento. I. Abreu-Rodrigues, Josele. II. Ribeiro, Michela Rodrigues. CDU 159.9.019.4 Catalogação na publicação: Juliana Lagôas Coelho – CRB 10/1798 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO Pesquisa, Teoria e Aplicação 2007 Josele Abreu-Rodrigues Michela Rodrigues Ribeiro Organizadoras Versão impressa desta obra: 2005 Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:263 © Artmed Editora S.A., 2005 Capa Gustavo Macri Preparação do original Rubia Minozzo Leitura final Maria Lúcia Barbará Supervisão editorial Mônica Ballejo Canto Projeto e editoração Armazém Digital Editoração Eletrônica – Roberto Vieira Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à ARTMED® EDITORA S.A. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana 90040-340 Porto Alegre RS Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070 É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. SÃO PAULO Av. Angélica, 1091 - Higienópolis 01227-100 São Paulo SP Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333 SAC 0800 703-3444 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:264 AUTORES Josele Abreu-Rodrigues (org.) Universidade de Brasília Michela Rodrigues Ribeiro (org.) Universidade Católica de Goiás Universidade de Brasília Instituto de Aplicação e Pesquisa Comportamental Alessandra de Moura Brandão Universidade de Brasília Alessandra Rocha de Albuquerque Universidade Católica de Brasília Ana Karina Curado Rangel de-Farias Universidade Católica de Goiás Instituto de Aplicação e Pesquisa Comportamental Carlos Eduardo Cameschi Universidade de Brasília Cristiano Valério dos Santos Universidade de São Paulo Elenice S. Hanna Universidade de Brasília Elisa Tavares Sanabio-Heck Universidade Católica de Goiás Instituto de Aplicação e Pesquisa Comportamental Geison Isidro-Marinho Centro Universitário de Brasília Instituto São Paulo de Terapia e Análise do Comportamento Gordon R. Foxall Cardiff University Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:265 João Claudio Todorov Universidade Católica de Goiás Universidade de Brasília Jorge M. Oliveira-Castro Universidade de Brasília Karina de Guimarães Souto e Motta Instituto São Paulo de Terapia e Análise do Comportamento Kennon A. Lattal West Virginia University Laércia Abreu Vasconcelos Universidade de Brasília Lincoln da Silva Gimenes Universidade de Brasília Marcelo Emílio Beckert Instituto de Educação Superior de Brasília Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento Marcelo Frota Benvenuti Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Rachel Nunes da Cunha Universidade de Brasília Raquel Maria de Melo Universidade de Brasília Raquel Moreira Aló West Virginia University Centro Universitário de Brasília Sonia Beatriz Meyer Universidade de São Paulo Yvanna Aires Gadelha Centro Universitário de Brasília vi AUTORES Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:266 DEDICATÓRIA Ao querido amigo Marcelo Beckert, que, com sua curiosidade, nos mostrou como é interessante aprender, com sua alegria, nos mostrou como é possível sorrir mesmo nos momentos críticos e, com sua vivacidade, nos mostrou como a vida é curta e deve ser aproveitada. Marcelo, você está presente em nossa vívida história... Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:267 SUMÁRIO Apresentação .................................................................................................................... 11 1. Ciência, tecnologia e análise do comportamento .......................................................15 Kennon A. Lattal 2. Operações estabelecedoras: um conceito de motivação ............................................27 Rachel Nunes da Cunha Geison Isidro-Marinho 3. História de reforçamento .............................................................................................45 Raquel Moreira Aló 4. Momento comportamental ...........................................................................................63 Cristiano Valério dos Santos 5. Desamparo aprendido ..................................................................................................81 Elisa Tavares Sanabio-Heck Karina de Guimarães Souto e Motta 6. Comportamento adjuntivo: da pesquisa à aplicação .................................................99 Lincoln da Silva Gimenes Alessandra de Moura Brandão Marcelo Frota Benvenuti 7. Contingências aversivas e comportamento emocional ........................................... 113 Carlos Eduardo Cameschi Josele Abreu-Rodrigues 8. Generalização de estímulos: aspectos conceituais, metodológicos e de intervenção .......................................................... 139 Yvanna Aires Gadelha Laércia Abreu Vasconcelos Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:269 9. Quantificação de escolhas e preferência .................................................................. 159 João Claudio Todorov Elenice S. Hanna 10. Autocontrole: um caso especial de comportamento de escolha ............................ 175 Elenice S. Hanna Michela Rodrigues Ribeiro 11. Variabilidade comportamental .................................................................................. 189 Josele Abreu-Rodrigues 12. Regras e auto-regras no laboratório e na clínica ..................................................... 211 Sonia Beatriz Meyer 13. Correspondência verbal/não-verbal: pesquisa básica e aplicações na clínica .................................................................... 229 Marcelo Emílio Beckert 14. Equivalência de estímulos: conceito, implicações e possibilidades de aplicação ............................................................... 245 Alessandra Rocha de Albuquerque Raquel Maria de Melo 15. Comportamento social: cooperação, competição e trabalho individual ............................................................................. 265 Ana Karina Curado Rangel de-Farias 16. Análise do comportamento do consumidor ............................................................. 283 Jorge M. Oliveira-Castro Gordon R. Foxall 10 SUMÁRIO Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2610 APRESENTAÇÃO A Análise do Comportamento é uma ciên- cia do comportamento fundamentada na filo- sofia do Behaviorismo Radical e que tem como objeto de estudo a interação do indivíduo com o ambiente. Skinner repetidas vezes afirmou que o comportamento humano é um campo de estudo delicado. Delicado no sentido de que há controvérsia sobre qual seria a melhor forma de estudá-lo. Delicado também no sentido de que é multiplamente determinado e que, por- tanto, consiste em um evento bastante com- plexo. Esta obra ilustra ambos os aspectos ao oferecer uma alternativa teórico-conceitual para o estudo do comportamento humano e ao especificar diversas estratégias metodoló- gicas utilizadas na identificação de suas variá- veis de controle. Este livro consiste em uma coletânea de textos que apresentam um conhecimento atua- lizado e empiricamente fundamentado sobre processos comportamentais complexos, bem como as possíveis aplicações desse conhecimen- to na resolução de problemas práticos. No Ca- pítulo 1, Kennon A. Lattal apresenta uma aná- lise das relações entre ciência básica, ciência aplicada e tecnologia, o que dá suporte para todas as discussões apresentadas nos capítu- los posteriores. Para o autor, as pesquisas bási- ca e aplicada em análise do comportamento contribuem para o desenvolvimento de tecno- logias que, porsua vez, ao serem implemen- tadas e desenvolvidas, fornecem subsídios para futuras pesquisas. Assim sendo, haveria uma interdependência entre ciência básica e apli- cada e tecnologia, tendo em vista que o cresci- mento de um campo depende das conquistas efetuadas no outro campo. Apesar de ser co- mum a realização de estudos em que a transver- salidade de informações entre ciência e tec- nologia é descartada, os capítulos deste livro pretendem seguir um caminho contrário e apresentam algumas possíveis inter-relações desses três campos. No Capítulo 2, Rachel Nunes da Cunha e Geison Isidro-Marinho apresentam a aborda- gem analítico-comportamental do conceito de motivação. A ênfase dos autores recai sobre o conceito de operação estabelecedora (OE) que, na atualidade, consiste em um instrumento conceitual e metodológico para o estudo da motivação em situação experimental e aplica- da. Após apresentar uma análise histórica des- ses conceitos, os autores definem e exemplifi- cam as OEs incondicionadas e condicionadas e apontam as dificuldades metodológicas de se demonstrar empiricamente a diferença en- tre OE e estímulo discriminativo. São também descritas pesquisas aplicadas, as quais sugerem que o conceito de OE é fundamental para a aná- lise funcional do comportamento e, conseqüen- temente, para o planejamento de intervenções efetivas. Ao final do capítulo, os autores discor- rem sobre as relações entre OEs e estados emo- cionais, com ênfase no contexto clínico. O Capítulo 3 aborda os efeitos da histó- ria de reforçamento sobre a sensibilidade comportamental a mudanças nas contingên- cias. Inicialmente, Raquel Aló apresenta as di- ferentes definições do termo história de refor- çamento e, em seguida, indica que os efeitos Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2611 12 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. da história dependem de variáveis tais como o tipo de esquema de reforçamento presente antes da mudança, da similaridade entre os estímulos discriminativos antes e após a mu- dança, das operações estabelecedoras em vi- gor, etc. Também são apontadas algumas pes- quisas aplicadas que ilustram os efeitos da his- tória sobre o comportamento de estudar e so- bre comportamentos agressivos. A autora dis- cute possíveis aplicações dos resultados da pesquisa empírica, enfatizando a relevância das variáveis históricas para o diagnóstico e a in- tervenção no ambiente clínico. Por fim, a au- tora analisa os pontos em comum entre os es- tudos de história de reforçamento e de outras áreas, como aqueles sobre resistência a mu- danças, desamparo aprendido e comportamen- to governado por regras, incentivando a integração dos resultados desses estudos. No Capítulo 4, Cristiano Valério dos San- tos discute diversas questões metodológicas pre- sentes nos estudos sobre resistência a mudan- ças, tanto no que se refere aos procedimentos experimentais utilizados quanto à mensuração da resistência. É apresentada uma distinção en- tre taxa de respostas e resistência à mudança, as quais seriam determinadas por diferentes processos comportamentais, bem como uma definição do modelo de momento comporta- mental. Após descrever pesquisas básicas sobre os determinantes (p. ex.: magnitude, atraso, taxa e tipo de reforço) da resistência, o autor estabelece um paralelo entre resistência à mu- dança e escolha/preferência, controle instrucio- nal e história de reforçamento. Ao final, o autor exemplifica a utilização dos conceitos de mo- mento comportamental e resistência à mudan- ça na solução de problemas aplicados tais como seguimento de instruções, resolução de proble- mas de matemática, desempenho em jogos es- portivos e autocontrole. O Capítulo 5, de Elisa Tavares Sanabio-Heck e Karina de Guimarães Souto e Motta, aborda o fenômeno comportamental conhecido como de- samparo aprendido, o qual resulta da exposição a situações de incontrolabilidade, bem como as estratégias metodológicas utilizadas na preven- ção e na reversão desse fenômeno. As autoras também fazem uma análise crítica do status cau- sal comumente atribuído ao conceito de expec- tativa pelos pesquisadores dessa área de investi- gação. Para tanto, analisam estudos de desam- paro caracterizados pela presença ou pela ausên- cia de correspondência entre comportamento ver- bal e não-verbal, apresentando uma interpretação analítico-comportamental das relações verbais presentes nesses estudos. Finalmente, são discu- tidas algumas estratégias terapêuticas (p. ex.: treino de auto-observação, treino de repertórios não-verbais e modelagem de relatos discrimina- dos) relevantes para a reversão dos efeitos da história de incontrolabilidade. No Capítulo 6, Lincoln da Silva Gimenes, Alessandra de Moura Brandão e Marcelo Frota Benvenuti apresentam a definição de compor- tamento adjuntivo ou, alternativamente, com- portamento induzido por contingências de reforçamento, descrevem alguns tipos desse comportamento e exemplificam a generalida- de do fenômeno. Esses autores sugerem que o modelo de comportamento adjuntivo pode ser útil para o entendimento de diversos distúrbi- os comportamentais, tais como drogadição, obesidade, bulimia, anorexia e síndrome do cólon irritável, entre outros. Além disso, é tam- bém ilustrada a possibilidade de controle de estímulos sobre o comportamento adjuntivo. O Capítulo 7, de Carlos Eduardo Cames- chi e Josele Abreu-Rodrigues, avalia a pesquisa básica sobre contingências aversivas e seus principais efeitos sobre o comportamento de organismos humanos e não-humanos. Ao anali- sar a punição e o reforçamento negativo, além de apresentar algumas variáveis determinantes das propriedades aversivas dos eventos ambientais, os autores enfatizam as controvér- sias existentes sobre a efetividade da punição, as dificuldades metodológicas encontradas no estudo da resposta de fuga, o procedimento de esquiva de Sidman e o debate entre os adep- tos de interpretações molares e moleculares do processo de esquiva. Além disso, os autores discutem a abordagem analítico-comporta- mental do comportamento emocional. Por últi- mo, há uma discussão sobre o uso de controle aversivo em procedimentos terapêuticos diver- sos, tais como na Terapia Analítica Funcional e na Terapia da Aceitação e do Compromisso. No Capítulo 8, Yvanna Aires Gadelha e Laércia Abreu Vasconcelos apresentam uma Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2612 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 13 análise teórico-conceitual e metodológica do processo de generalização. Para tanto, as auto- ras estabelecem diferenças entre pseudogene- ralização e generalização verdadeira, generali- zação e generalidade, classes funcionais e clas- ses de equivalência, generalização de estímulos e de respostas. Este capítulo contém, ainda, uma descrição de estratégias metodológicas para a promoção de generalização (p.ex., mediação da generalização, treinamento direto da generali- zação) e uma discussão do fenômeno da gene- ralização no contexto clínico. Nessa discussão, as autoras destacam os conceitos de integrida- de do tratamento e satisfação do consumidor. Na seqüência são apresentados dois capí- tulos referentes à análise do comportamento de escolha. No Capítulo 9, João Claudio Todorov e Elenice S. Hanna apresentam os estudos de quantificação de escolhas e preferência, indi- cando modelos matemáticos desenvolvidos para descrever o comportamento de escolha, em especial o modelo conhecido como lei da igualação. Os autores também apontam variá- veis que influenciam a igualação entre distribui- ção de respostas e de reforços, tais como o atra- so do reforço para respostas de mudança, a his- tória dos sujeitos experimentais e os tipos de esquemas de reforçamento envolvidos na situa- ção de escolha. Esse capítulo também apresenta a controvérsia sobre o princípio da relativida- de, discute a generalidade da lei da igualação para o comportamento de escolha de huma- nos ediscorre sobre possíveis aplicações da relação de igualação para o comportamento de indivíduos autistas, atletas e estudantes. No Capítulo 10, Elenice S. Hanna e Michela Rodrigues Ribeiro avaliam um tipo es- pecial de situação de escolha – a situação de autocontrole. Esse capítulo discute o conceito de autocontrole e impulsividade a partir do paradigma de autocontrole proposto por Rachlin. Dentre as variáveis determinantes do autocontrole, as autoras destacam os parâme- tros do reforço (atraso, probabilidade, freqüên- cia e magnitude), atividades desenvolvidas durante o atraso do reforço, a história de reforçamento, os estímulos discriminativos pre- sentes na situação e o custo da resposta. Tam- bém é discutido o papel do procedimento de esvanecimento para fortalecer o comportamen- to de autocontrole em contextos aplicados (p. ex., indivíduos com atraso de desenvolvimen- to, crianças hiperativas, adictos em nicotina, mulheres com vaginismo). Ao final, as autoras discorrem sobre o papel do comprometimento em situações aplicadas de autocontrole. No Capítulo 11, Josele Abreu-Rodrigues discute o fenômeno da variabilidade com- portamental. Ao apresentar as contribuições da pesquisa básica e aplicada para a compre- ensão desse fenômeno, a autora analisa sepa- radamente a variabilidade como um sub- produto de variáveis ambientais (p. ex., in- termitência do reforço, retirada do reforço) e como um produto direto de contingências de variação. Na discussão do controle operante da variabilidade, a autora discorre sobre tó- picos tais como controle de estímulos, resistên- cia à mudança, escolha entre repetição e va- riação, história de reforçamento e controle verbal. Neste capítulo, a autora também dis- cute a relevância dos estudos sobre variabili- dade para a compreensão do comportamento criativo e de questões relacionadas à liberda- de de escolha. O livro ainda contém uma análise do com- portamento verbal sob três diferentes ângulos. Sonia Beatriz Meyer, no Capítulo 12, discute a utilização de regras e auto-regras no laborató- rio e na clínica analítico-comportamental. Ao descrever os principais resultados da pesquisa básica sobre o tema, a autora aponta diversas variáveis que afetam a sensibilidade do com- portamento verbalmente controlado a mudan- ças nas contingências, tais como o grau de con- tato com a nova contingência, o conteúdo da regra, o nível de variabilidade comportamental, a história de reforçamento e o grau de discriminabilidade das contingências em vigor. O capítulo apresenta, em seguida, uma discus- são sobre o controle verbal no contexto clíni- co, na qual a autora avalia a efetividade do uso de regras/instruções e de modelagem na promoção de mudanças comportamentais. Há também uma discussão sobre duas variáveis que influenciam o uso de estratégias diretivas: a abordagem teórica do terapeuta e a história de vida do cliente. Por fim, a autora analisa a relação entre controle verbal e resistência e adesão ao tratamento. Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2613 14 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. Marcelo Emílio Beckert, no Capítulo 13, apresenta uma descrição e a análise da corres- pondência entre comportamento verbal e com- portamento não-verbal. O autor discute aspec- tos teóricos e metodológicos derivados da pes- quisa sobre correspondência, enfatizando a di- versidade metodológica existente na área, a efetividade dos diversos tipos de treino da cor- respondência (p. ex., fazer-dizer, dizer-fazer, dizer-fazer-dizer) e as variáveis que afetam a aquisição, a generalização e a manutenção da correspondência. O capítulo também apresen- ta algumas implicações dos resultados da pes- quisa básica para contextos aplicados, com ên- fase no contexto clínico. Aqui, o autor discorre sobre a relevância do treino da correspondên- cia para a aquisição dos comportamentos de autoconhecimento e de autocontrole. Alessandra Rocha de Albuquerque e Ra- quel Maria de Melo, no Capítulo 14, discutem a aprendizagem por equivalência de estímu- los. As autoras inicialmente apresentam uma diferenciação entre equivalência e generaliza- ção e uma caracterização do procedimento comumente utilizado para avaliar equivalên- cia. Ao descrever os resultados da pesquisa básica sobre o tema, as autoras discutem se a nomeação oral dos estímulos é necessária para a emergência de equivalência e sobre a possi- bilidade de transferência de função entre os membros de uma classe de equivalência. Por fim, as autoras discorrem sobre a aplicabilidade do paradigma de equivalência para o treino de leitura, escrita, habilidades matemáticas e com- portamentos clinicamente relevantes (p. ex., consumo de drogas, autoconceito negativo). Finalizando, os dois últimos capítulos abordam temas sociais. No Capitulo 15, Ana Karina Curado Rangel de-Farias avalia a pertinência de uma análise experimental do comportamento social, enfatizando as estraté- gias metodológicas utilizadas nas investigações dos comportamentos de cooperação, competi- ção e trabalho individual. A autora destaca, dentre as variáveis de controle desses compor- tamentos, a magnitude dos reforços, a história de reforçamento, o custo da resposta, o con- teúdo das instruções e a iniqüidade de refor- ços entre os participantes da situação social. É também discutida a relevância dos estudos so- bre comportamento social para diversas situa- ções aplicadas, tais como produtividade no tra- balho, desempenho acadêmico, participação em cooperativas de trabalho e manutenção de recursos naturais. No Capítulo 16, Jorge M. Oliveira-Castro e Gordon Foxall apontam a relevância da abordagem analítico-comportamental para o estudo do comportamento do consumidor. São apresentados resultados de pesquisas sobre tó- picos relacionados ao comportamento do con- sumidor, como, por exemplo, economia comportamental, escolha e preferência, siste- mas de economia de fichas e marketing social. O capítulo também contém uma caracterização dos padrões de escolha do consumidor, bem como uma discussão sobre questões como o ce- nário de consumo, a história de aprendizagem do consumidor e as conseqüências do consu- mo. Os autores mostram, ainda, uma proposta de categorização do comportamento do consu- midor. Por fim, os autores descrevem o uso de procedimentos respondentes e operantes para investigar o comportamento do consumidor. É com muito entusiasmo que apresenta- mos este livro, que poderá ser de grande utili- dade a alunos de graduação e pós-graduação, tendo em vista que os temas de que trata cons- tituem parte de disciplinas obrigatórias na for- mação desses alunos. Os profissionais que ado- tam a abordagem analítico-comportamental, bem como aqueles de áreas afins, que buscam um conhecimento atualizado e fundamentado na pesquisa básica e aplicada sobre processos comportamentais diversos, também se benefi- ciarão com a leitura deste livro. Além disso, esta obra poderá amenizar as dificuldades dos professores da área em oferecer bibliografia atualizada na língua portuguesa, dificuldade esta que nos têm levado a adotar, nos cursos de graduação, traduções já defasadas ou tex- tos em outros idiomas, o que freqüentemente traz prejuízos ao processo ensino-aprendiza- gem. Por fim, queremos agradecer a todos os colaboradores pelo esforço em apresentar tra- balhos fortemente embasados na literatura ci- entífica e em apontar possíveis aplicações dos resultados da pesquisa a contextos diversos. As organizadoras Iniciais_Eletronico.p65 19/7/2007, 15:2614 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 15 CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO KENNON A. LATTAL os cientistas fazem envolve um “conjunto de ati- tudes” caracterizado por “uma disposição para aceitar fatos mesmo quando eles são opostos a desejos” (p. 12). O comportamento de um cien- tista envolve “uma busca por ordem, por uni- formidade, por relações ordenadas entre os eventos na natureza”e, além disso, demonstra “mais e mais relações entre eventos ... mais e mais precisamente” (p.13). Para essa discussão será também útil dis- tinguir a ciência básica da aplicada. Tal distin- ção pode ser feita comportamentalmente em termos das variáveis que controlam o compor- tamento do cientista. Na ciência básica o com- portamento do cientista, amplamente definido, é controlado pela aquisição de novos conheci- mentos e pelo desenvolvimento de teorias. O comportamento do cientista aplicado é simi- larmente controlado pela aquisição de novos conhecimentos, mas novos conhecimentos à medida que estes se relacionam com o impac- to do conhecimento sobre problemas práticos (sociais para alguns, como Baer, Wolf, e Risley, 1968), isto é, faz as coisas funcionarem. Como disse Baer (1991), “algumas disciplinas não se dedicam a fazer alguma coisa funcionar, mas sim a notar regularidade, ordem e predições, enquanto outras dedicam-se a fazer as coisas funcionarem” (p.429). A adição de controle ao repertório do cientista aplicado, por meio do desenvolvimento teórico, obscurece a distin- ção entre ciência básica e aplicada, mas as va- riáveis que controlam os dois empreendimen- tos, aquelas relacionadas com a aquisição de conhecimento versus aquelas relacionadas com Os capítulos que compõem este livro ofe- recem substância para as relações entre os ele- mentos descritos no título deste primeiro capí- tulo. Os autores descrevem muitos desenvol- vimentos na análise experimental de proces- sos básicos de aprendizagem, e muitos deles também discutem as implicações de uma com- preensão desses processos básicos para a reso- lução de problemas do comportamento huma- no. A interação entre ciência e tecnologia é central para o bem-estar da ciência do com- portamento e da tecnologia que envolve inter- venções comportamentais planejadas para melhorar problemas de comportamento. Este capítulo examina as origens, os pressupostos e a natureza da interação entre ciência e tecnologia como um prelúdio para as discus- sões de tais relações, as quais são desenvolvidas para áreas específicas e substantivas da análi- se do comportamento nos capítulos seguintes. CIÊNCIA BÁSICA, CIÊNCIA APLICADA E TECNOLOGIA Uma definição satisfatória e mutuamen- te acordada de ciência pode ser tão difícil de se alcançar quanto a de uma série de conceitos em psicologia, mas é necessária uma definição como um ponto de partida. A famosa defini- ção de E. G. Boring de inteligência como “aqui- lo que os testes de inteligência testam” pode ser refraseada para definir ciência como “aquilo que os cientistas fazem”. A partir disso, Skinner (1953) elaborou a definição de que aquilo que 11 Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4415 16 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. a aquisição de conhecimento controlada por seu impacto em assuntos práticos, ainda dis- tinguem as duas. A tecnologia não é controlada por nenhu- ma dessas variáveis, mas por seu impacto so- bre problemas práticos. O comportamento do tecnicista é aquele de adaptação e de aplica- ção do que é conhecido a partir das ciências básica e aplicada para resolver problemas prá- ticos da vida cotidiana, sejam eles construir uma ponte melhor, ajudar um adulto que atra- vessa uma crise pessoal ou melhorar a quali- dade de vida de um adolescente gravemente retardado. Assim como a distinção entre ciên- cia básica e aplicada também o é, a distinção entre ciência aplicada e tecnologia é, algumas vezes, obscura (cf. Hawkins e Anderson, 2002; Johnston, 1996). ANÁLISE DO COMPORTAMENTO COMO UMA CIÊNCIA E UMA TECNOLOGIA A ciência da análise do comportamento começou com o trabalho de Skinner na déca- da de 1930 (Skinner, 1956) sobre processos básicos de aprendizagem. Os métodos de Skinner encontraram seu espaço na aplicação, talvez primeiramente na análise experimental dos efeitos de drogas sobre o comportamento (Skinner e Heron, 1937) e depois no desen- volvimento de bombas teleguiadas por pom- bos para o governo dos Estados Unidos (Skinner, 1960), mas mais importante, por meio do que mais tarde tornou-se a análise comportamental aplicada (ver Ullman e Krasner, 1965, p. 1-63, para uma revisão his- tórica). Talvez as mais amplas questões nesses desenvolvimentos em análise do comportamen- to tenham sido aquelas referentes a como a ciência básica, a ciência aplicada e a tecnologia podem e relacionam-se entre si. Essas questões têm resultado em um número de revisões úteis dessas relações. Alguns têm discutido a carac- terização da análise comportamental aplicada como uma ciência e uma tecnologia (Hayes, 1978; Epling e Pierce, 1986; Johnston, 1996; Smith, 1992), outros têm considerado a lacu- na entre a análise comportamental básica e a aplicada e sugerido maneiras de eliminá-la (Baron e Perone, 1982; Hake, 1982; Epling e Pierce, 1986), e outros ainda têm defendido a necessidade de considerar as três não em ter- mos de hierarquia, mas em termos de suas con- tribuições independentes para a disciplina (Epling e Pierce, 1986; Hayes, 1978). A ciência da análise do comportamento é controlada por variáveis de pelo menos três fontes: pesquisa empírica passada, teoria e observações correntes do comportamento. Com a pesquisa empírica passada e a teoria, o con- trole é amplamente verbal, visto que estímu- los tanto escritos quanto orais estabelecem oca- siões para novas pesquisas. Observações do comportamento podem ser realizadas tanto no laboratório quanto em cenários “aplicados”, tais como clínico e educacional. Essas obser- vações também incluem o bem conhecido prin- cípio de “serendipidade” (Bachrach, 1960; Skinner, 1956), por meio do qual observações sistemáticas futuras do comportamento são controladas por observações que desviam do esperado, isto é, por contingências mais locais e imediatas em contraste com as contingên- cias de mais longo termo envolvidas no contro- le da pesquisa pela teoria ou pela experimenta- ção prévia. Um dos objetivos da análise do compor- tamento como uma ciência é desenvolver prin- cípios comportamentais gerais que podem ser aplicados igualmente a humanos e a não-huma- nos, tanto em laboratório quanto em ambientes naturais. Hake (1982) propôs que a pesquisa básica sobre comportamento social e verbal com humanos poderia servir como uma ponte entre pesquisa básica com animais não-huma- nos e a aplicação dos princípios a problemas de comportamento humano, por exemplo, em situações clínicas e educacionais. A importân- cia da pesquisa básica nesses dois tópicos em relação à aplicação é inquestionável porque essas características definem partes importan- tes do ambiente natural dos humanos. O que é questionável é se elas são uma conexão neces- sária entre pesquisa básica de laboratório com animais e trabalho aplicado com humanos. Hake definiu essa ponte como a extensão dos princípios comportamentais para novas popu- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4416 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 17 lações e novos padrões de comportamento, e, nesse sentido, a pesquisa operante básica so- bre comportamento social e verbal em huma- nos pode ser considerada uma ponte. Essa ob- servação não sugere, entretanto, que a pesqui- sa operante com humanos seja necessária an- tes da aplicação dos princípios comporta- mentais a problemas do cotidiano. A história da análise comportamental aplicada mostra que o desenvolvimento do trabalho aplicado não se deu por tal processo de três fases: da pesquisa operante básica com animais para a pesquisa operante com humanos e para a apli- cação. A análise comportamental aplicada de- senvolveu-se, pelo menos inicialmente, em função do sucesso da extensão direta dos prin- cípios comportamentais desenvolvidos com animais não-humanos, em função da falta de significativa produção de pesquisa operante bá- sica com humanos. Uma vez que tanto o com- portamento social quanto o verbal não são en- contradosno laboratório animal, tal pesquisa com humanos parece útil se o interesse é na melhora de problemas comportamentais que envolvem esses dois processos. As mesmas fon- tes de controle na ciência básica operam na ciência aplicada da análise do comportamen- to. Embora esta possa estar fundamentada na ciência básica, ela se desenvolve independen- temente da ciência básica, uma vez que os pro- blemas estudados por ela são controlados por diferentes características do ambiente. A análise do comportamento funciona como uma tecnologia de duas maneiras dife- rentes: aplicando princípios estabelecidos por meio das pesquisas básica e aplicada para o melhoramento de problemas de significância social (Baer et al., 1968) e como uma fonte de métodos para tornar “observação e mensura- ção válidas e confiáveis” (Baer, 1991, cf. Cardwell, 1994, p. 492). É a ênfase na solução de problemas práticos que tem creditado à análise do comportamento, dirigida a huma- nos, sua reputação positiva. Melhoras na vali- dade e na confiabilidade das observações por meio do desenvolvimento de tecnologias observacionais têm, entretanto, contribuído significativamente para fornecer evidências de que a análise do comportamento, de fato, fun- ciona. Além disso, a aplicação de métodos ana- lítico-comportamentais em áreas diversificadas, como cognição animal e farmacologia compor- tamental, tem contribuído imensamente para o sucesso dessas disciplinas, pelo avanço da ciência básica associada a cada uma delas. PRAGMATISMO E PRÁTICA A análise de comportamento é definida como uma disciplina pragmática (Moxley, 2001; Baum, 1994), o que significa dizer que tanto a ciência como a tecnologia da análise do comportamento têm como critério de ver- dade de um conceito a utilidade daquele con- ceito. Na distinção entre pragmática e prática, Morris (1970) observou que Peirce, quem pri- meiro descreveu pragmatismo, “preferiu o ter- mo ‘pragmatismo’ ... [porque] pragmatismo não estava preocupado com ‘o prático’, nem mesmo com todos os tipos de ‘prática’, mas com a maneira como o conhecimento humano ... é relacionado a ação ou conduta humana” (p. 9- 10). A distinção entre pragmatismo e prática é importante para discussões das relações entre ciência básica, ciência aplicada e tecnologia porque os dois termos, às vezes, são equipara- dos, com a implicação resultante de que a meta final da análise do comportamento está em con- tribuir para a solução de problemas práticos. Por exemplo, Baer e colaboradores (1968) no- taram que “behaviorismo e pragmatismo freqüentemente parecem caminhar lado a lado. A pesquisa aplicada é eminentemente pragmá- tica; ela pergunta como conseguir com que um indivíduo faça algo de maneira eficaz” (p. 93). O segundo termo é, então, examinado em re- lação “ao valor de aplicação” e às metas que são “socialmente importantes” (p. 93). Metas socialmente importantes certamente podem ser tanto pragmáticas como práticas, porém nem todas as metas pragmáticas são práticas. Do ponto de vista da filosofia pragmática, qual- quer solução, mesmo aquelas que podem não satisfazer outros critérios, tais como a aceitabi- lidade social (sem mencionar a relevância), pode ser pragmática na medida em que satis- faça as metas estabelecidas. A pesquisa básica Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4417 18 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. em análise do comportamento é pragmática sem carregar, com esse rótulo, a necessidade de ser prática. O que significa uma disciplina pragmáti- ca? O pragmatismo veio para a psicologia, e então para a análise do comportamento, pelos primeiros trabalhos de James e Dewey que, jun- tos com Peirce, são considerados os fundado- res da escola pragmática da filosofia. James e Dewey rejeitaram a abordagem estruturalista e seu substrato filosófico racionalista, que de- finiu o início da psicologia como uma discipli- na separada da filosofia e da fisiologia. Para esses três fundadores (Morris, 1970, p. 10): A ação humana é um tópico de preocupação central. Esta preocupação, porém, não é com o “movimento” ou a “atividade” como tal, nem com os efeitos de idéias sobre a vida humana, nem com uma teoria completa da natureza humana; é principalmente focalizada (embo- ra não exclusivamente) em um aspecto do comportamento humano: ação inteligente, que seria o comportamento propositivo ou dirigido a metas, influenciado por reflexão. Se o alvo é um assunto teórico ou prático, o critério pragmático de verdade de utilidade é definido em termos das metas que são determi- nadas conforme for mencionado na citação an- terior. Essa operacionalização de utilidade pa- rece, a princípio, estar em conflito com uma ci- ência do comportamento; o próprio Skinner (1974, p. 55), entretanto, sugeriu que a análise do comportamento é “o próprio campo do pro- pósito e da intenção”. Lattal e Laipple (no pre- lo) descreveram vários modos em que o critério de verdade de utilidade é incorporado em uma visão behaviorista de mundo. Pode ser, por exemplo, considerada uma instância de corres- pondência entre dizer e fazer (Ribeiro, 1989) com o estabelecimento da meta e a realização da meta correspondendo a dizer e a fazer. RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA BÁSICA, CIÊNCIA APLICADA E TECNOLOGIA Tanto a ciência como a tecnologia da aná- lise do comportamento são controladas por eventos antecedentes e conseqüentes. Os even- tos antecedentes incluem desenvolvimentos em ciência básica, em ciência aplicada e em tecnologia, e eventos conseqüentes envolvem a “utilidade” ao longo das linhas do critério pragmático de verdade de realização de metas esboçado na seção anterior. A interação entre esses eventos antecedentes e conseqüentes constitui um progresso científico e tecnológico. Moxley (1989) e Neef e Peterson (no pre- lo) descreveram um modelo interativo, apre- sentado na Figura 1.1, para enquadrar as rela- ções entre ciência básica, ciência aplicada e tecnologia. As atividades no lado esquerdo da matriz constituem a fonte de informações, isto é, a condição antecedente, e aquela no topo da matriz constituiu o receptor ou o beneficiá- rio das informações. Desse modo, cada ativi- dade influencia as outras. Os próximos três itens consideram as implicações de tal confi- guração para a ciência e para a tecnologia da análise do comportamento. A ciência da análise do comportamento A independência da ciência básica e da aplicada As interações mais comuns e influentes na ciência da análise do comportamento en- volvem ciência básica para ciência básica e ci- ência aplicada para ciência aplicada. A análise do comportamento foi caracterizada como uma FIGURA 1.1 Uma matriz descrevendo as interações entre ciência básica, ciência aplicada e tecnologia. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4418 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 19 ciência histórica, visto que práticas atuais e des- cobertas são construídas a partir de observa- ções e de experimentações prévias. Este livro ilustra como o conhecimento atual sobre pro- cessos e fenômenos comportamentais é o re- sultado do acúmulo de experimentação, em que novos experimentos são fundamentados em experimentos anteriores. As fontes mais fortes de controle sobre práticas científicas atu- ais em ciência básica e em ciência aplicada são os experimentos que as precederam em, na maioria das vezes, uma área similar ou relacio- nada. Pode ser só um leve exagero dizer que muitos, se não a maioria, dos cientistas bási- cos lêem principalmente o que outros cientis- tas básicos escrevem. Quer dizer, eles lêem pouco sobre ciência aplicada ou áreas tecnoló- gicas de sua disciplina. O mesmo pode ser dito de cientistas aplicados com respeito à literatu- ra aplicada. Essa afirmativa é sustentada por estudos que mostram que as taxas de citações transversais em artigos de análise do compor- tamento que aparecem no Journal of the Expe- rimental Analysis of Behavior e no Journal of Applied BehaviorAnalysis são, realmente, bas- tante pequenas (Poling, Alling e Fuqua, 1994). Uma implicação dessa infreqüente taxa de citações transversais é que as ciências bási- cas e as aplicadas da análise de comportamen- to estão operando de maneira relativamente independentes entre si. Esse achado não é in- salubre nem particularmente surpreendente. A independência entre análise do comporta- mento básica e aplicada, em termos de pro- gramas de trabalho de pesquisas e de assuntos conceituais que comandam a atenção, é um sinal saudável de crescimento na disciplina como um todo. Embora a análise do compor- tamento aplicada derive seus princípios e sua visão de mundo da ciência básica baseada em investigações com humanos e com não-huma- nos dentro da análise experimental do com- portamento, a análise do comportamento apli- cada não pode ser estritamente limitada pela ciência básica em termos tanto dos problemas que investiga quanto dos métodos que desen- volve para estudá-los. Ela se fundamenta em alguns dos assuntos e problemas teóricos deri- vados da análise do comportamento básica, entretanto muitos problemas encontrados na aplicação de princípios do comportamento tam- bém devem ser tratados. É improvável que a ciência básica trate esses problemas, colocan- do, assim, o ônus de investigá-los na análise do comportamento aplicada. A análise do com- portamento aplicada não é também limitada pelos métodos da ciência básica. A importân- cia dos planejamentos de reversão na ciência básica é uma parte de quase toda investigação de um processo básico de aprendizagem. O procedimento de linha de base múltipla foi de- senvolvido porque as demandas na condução de pesquisa em situações naturais algumas vezes impedem a reversão para a condição de linha de base. Embora aquele planejamento seja um “cavalo de força” da análise do com- portamento aplicada, isto raramente, se algu- ma vez, foi usado em situações de pesquisa básica. Relações interdependentes entre a ciência básica e a aplicada Como já foi sugerido, a análise do com- portamento básica se desenvolveu antes da ci- ência aplicada e, nesse sentido, a última é uma descendente linear da primeira. Desse modo, as ciências básica e aplicada da análise do com- portamento compartilham uma linhagem co- mum que inclui uma visão comum de mundo, uma visão comum das variáveis que determi- nam o comportamento e os métodos sobrepos- tos (mas métodos freqüentemente não-idênti- cos porque os ambientes naturais em que a ci- ência aplicada muitas vezes ocorre colocam especial demanda sobre os métodos, deman- das essas não colocadas sobre pesquisas em situações de laboratório, como notado anterior- mente). De forma geral, as ciências básica e aplicada influenciam fortemente uma a outra. Mais especificamente, é muito freqüente o caso em que a pesquisa básica provê o ímpe- to para a pesquisa aplicada, e muitos têm dis- cutido que isso deveria ser mais freqüente. Mace (1994), por exemplo, clamou pelo de- senvolvimento de pesquisa básica em várias áreas que ele sugeriu como particularmente relevantes para a análise do comportamento aplicada: distribuição de respostas, resistência Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4419 20 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. gia deixar o que se está fazendo e estudar a nova descoberta. Se tomado muito literalmen- te, a ciência nunca progrediria porque novas descobertas definem a atividade. Menos lite- ralmente, Skinner estava sugerindo que seguir os dados de maneira indutiva pode ter resulta- dos recompensadores. Uma maneira de facili- tar a exposição do cientista para outro tipo de problema é pedir a ele para relacionar sua pró- pria pesquisa com outras coisas. Como um bom exemplo de como isso poderia ser feito, recen- temente o Journal of Applied Behavior Analysis tomou a iniciativa criativa de convidar pesqui- sadores básicos e aplicados para colaborarem no desenvolvimento de uma revisão de uma área de análise do comportamento básica com um olhar nas aplicações de tais pesquisas (Lattal e Neef, 1996). Desse modo, cientistas com diferentes focos examinam problemas re- lacionados a sua própria pesquisa, mas em uma outra arena. Ciência e tecnologia Foram sugeridos dois modelos gerais de interações entre as ciências, tanto a básica como a aplicada, e a tecnologia. O mais con- vencional modelo de progresso da ciência para a aplicação é um modelo linear. Com esse mo- delo, desenvolvimentos em ciência básica são refinados e tornados relevantes por cientistas aplicados, que, por sua vez, entregam seus pro- dutos para indivíduos qualificados e bem-trei- nados para empregá-los como uma tecnologia. É o caso do modelo de progressão da física e da química para a engenharia e, então, para a construção ou produção. O segundo modelo é parte do que foi descrito previamente como um modelo interativo em que ciência e tecnologia influenciam-se mutuamente. Ainda existe o mo- vimento da ciência básica e da aplicada para a aplicação, mas os movimentos reversos também são reconhecidos (cf. Cardwell, 1994). O modelo linear tem sido apresentado como uma justificativa para a pesquisa básica, como a fundação da tecnologia moderna. Como tal, às vezes é visto como o modo ideal para maximizar ganhos a partir do conhecimento científico. Segundo esse modelo, a ciência bá- à mudança, contracontrole, formação e dife- renciação/discriminação de classes de estímu- los e de respostas, análise de comportamento de taxa baixa e comportamento governado por regra. Ocasionalmente, a relação inversa tam- bém ocorre. Dois exemplos ilustram o movi- mento de pesquisa aplicada para pesquisa bá- sica. Às vezes, a pesquisa aplicada influencia a pesquisa básica quando uma pesquisa sobre um problema aplicado revela uma anomalia ou um resultado inesperado que não é intuitivo a par- tir do que é conhecido na ciência básica. Como um exemplo simples, em meu próprio labora- tório, há vários estudos aplicados que demons- tram que usando dois tipos diferentes de re- compensas para a mesma tarefa, brinquedos e M&M (pastilhas de chocolate), por exemplo, ocorre um melhor desempenho do que quando utilizado um ou outro tipo de recompensa in- dividualmente. Não é óbvio por que isso deve- ria acontecer, e agora estamos estudando o problema, usando ratos como sujeitos e pelotas de comida e leite condensado como reforça- dores. Outras vezes, modelos de laboratório, com humanos ou não-humanos, são construí- dos a partir da ciência básica para estudar fe- nômenos de interesse para a ciência aplicada sob condições mais controladas, mas mais im- portante em termos da discussão presente, permitir que o fenômeno aplicado seja mais sistematicamente relacionado aos processos comportamentais básicos. Lattal (2001) tem discutido a natureza da extensão dos princí- pios de um lado para outro entre a ciência básica e a aplicada dentro da análise do com- portamento. As pesquisas básica e aplicada parecem mutuamente importantes uma para a outra como uma fonte de novas idéias e soluções de problemas práticos, mas a dificuldade está em encontrar formas para pesquisadores básicos e aplicados deixarem o que estão fazendo e es- tudar em alguma outra coisa, presumivelmen- te por causa das contingências que operam para manter suas atividades presentes. O problema é o controle do comportamento, neste caso, do comportamento científico. Skinner (1956) observou que, quando alguém descobre algo interessante algumas vezes é uma boa estraté- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4420 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 21 sica tem fornecido a base necessária para a apli- cação tecnológica de tal forma que se torna simplesmente uma questão de adaptar o prin- cípio científico para algum problema prático. Embora isso freqüentemente seja verdade, não é sempre o caso, e contra-exemplos trazem à discussão a generalidade do modelo. Em sua análise de revoluções científicas,Kuhn (1971) notou que a ciência é perita em esconder conflitos, especialmente conflitos te- óricos. Sua posição é que a ciência normal even- tualmente permite falhas no paradigma sob o qual ela é conduzida. As falhas são escondidas ou ignoradas até que um paradigma novo e melhorado apareça. Então, a história do pro- blema é reescrita de tal maneira que as incon- sistências anteriores são encobertas, e a ciên- cia é apresentada como um acúmulo gradual e fluente de conhecimento. Essas mesmas idéias podem ser aplicadas à relação entre ciência e tecnologia. Moxley (1989) ofereceu o exem- plo de como o uso de laranjas e limões se de- senvolveu em um tratamento para o escorbuto. A descoberta científica dos mecanismos freqüentemente é retratada como a razão para a prática (Skinner, 1987), o que se constitui em um exemplo clássico do modelo linear. Comer frutas como um tratamento para aque- le flagelo do serviço naval, o escorbuto, po- rém, era parte da medicina popular pelo me- nos por 400 anos antes de ser descoberto que o escorbuto era o resultado de uma falta de vitamina C na dieta. Moxley sugeriu que a tecnologia de comer frutas para prevenir o escorbuto não foi causalmente ligada à desco- berta dos mecanismos no final dos anos 1700. Ele notou que (1989, p. 49): A história da cura para o escorbuto não é a história do atraso lento entre uma descoberta científica inicial e sua aplicação prática. Ao invés disso, é a história de quanto tempo pode levar antes que alguma adventícia aplicação prática bem-sucedida possa ser cientificamen- te explicada. O modelo interativo oferece uma visão relacionada, mas mais completa, da relação entre a ciência e a tecnologia, levando em conta os círculos de retroalimentação entre a tecnolo- gia e as ciências a partir das quais elas se de- senvolvem. Mesmo dentro de um modelo in- terativo, a tecnologia é mais freqüentemente influenciada pela ciência aplicada porque as aplicações são mais diretas desta para a outra. Em muitos casos, entretanto, a aplicação tecnológica é suficientemente direta, de for- ma que pesquisa aplicada adicional não é ne- cessária, ou pode ser adiada até que a aplicação direta da pesquisa básica seja tentada. Qual a contribuição da ciência para a tecnologia? A ciência contribuiu mais freqüentemente com as matérias-primas das quais a tecnologia é construída, e esta parte da relação segue o modelo linear de ciência para tecnologia, pre- viamente discutido. As tecnologias da análise do comportamento, por exemplo, foram inicial- mente construídas sobre os fundamentos conceituais e experimentais do trabalho de Skinner, como já notado. O modelo linear não dá conta, porém, de todas as instâncias de tecnologia porque algumas tecnologias desen- volvem-se em resposta direta às contingências naturais locais sem que, necessariamente, exis- ta uma ciência básica como pré-requisito. A roda, a escrita e o desenvolvimento do ferro podem ser exemplos de tais respostas diretas. Thomas Edison, o “mago do Parque Menlo” como era chamado, era um dos inventores mais prolíferos e bem-sucedidos entre aqueles rei- vindicados pelos Estados Unidos, mas ele não tinha nada a ver com a compreensão cien- tífica de mecanismos. Seu único interesse era inventar “coisas úteis”. É claro, pode ser argu- mentado que as matérias-primas das quais ele construiu suas invenções eram, de fato, um produto das ciências do seu tempo. Além dis- so, o trabalho de Edison, e de outros invento- res, poderia ter prosseguido de maneira mais eficaz se tivesse a ciência básica provido uma fundação mais formal. Nikola Tesla, o princi- pal competidor de Edison e de igual inventi- vidade, nascido na Croácia, disse sobre Edison (White, 2002, p. 132): Se ele tivesse de achar uma agulha em um palheiro, ele procederia com a diligência da Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4421 22 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. abelha para examinar palha após palha até encontrar o objeto de sua procura. Eu fui uma testemunha penosa de tais ações, sabendo que um pouco de teoria e de cálculo teria econo- mizado 90% de seu trabalho. Aqueles que aplicam a tecnologia prova- velmente têm uma interação direta, relativa- mente pequena, tanto com a ciência básica como com a aplicada, mas suas informações sobre os desenvolvimentos nessas áreas e as implicações de tais desenvolvimentos para a prática podem vir daqueles envolvidos tanto em uma como em outra ciência. Tais informa- ções são destiladas para algo facilmente apli- cado e apresentadas em foros tais como semi- nários, documentação escrita e apresentações em conferências. Qual a contribuição da tecnologia para a ciência? A ciência também fornece à tecnologia muitos problemas práticos que ela, a ciência, precisa que sejam resolvidos para os avanços adicionais e, diretamente ao ponto desta sub- seção, a tecnologia retroalimenta a ciência com muitas das ferramentas que esta precisa de- senvolver e que, de outra maneira, não se- ria possível. O fornecimento dessas ferramen- tas tem um impacto que vai além do propósito original de seu desenvolvimento. Embora fer- ramentas sejam criadas em resposta a certas demandas específicas do ambiente, uma vez que uma ferramenta torna-se disponível pode ser disponibilizada para muitos outros usos. Um desses usos é a expansão da ciência básica até mesmo em outras direções daquela permi- tida pela ferramenta original. Avanços tecno- lógicos, tal como um novo modo de medir uma resposta difícil ou um novo teste estatístico, desenvolvido para um determinado propósito, podem ter uma larga aplicação para outros problemas da ciência básica e da aplicada. Desse modo, por exemplo, o desenvolvimento de uma tecnologia para a análise funcional de comportamentos-problema de crianças com atraso de desenvolvimento tem provado ser va- lioso para um amplo espectro de problemas e de ambientes. Existe um problema potencial de circu- laridade no fato de que a tecnologia retroali- menta a ciência básica da qual ela deriva. A circularidade é quebrada em parte porque a tecnologia importada de volta para a ciência é baseada em outras facetas da ciência em questão, ou porque a tecnologia pode ser im- portada de outra disciplina (isto é, tecnologia computacional no caso da ciência da análise do comportamento). O importante papel da tecnologia em desenvolvimento científico pa- rece ser contrário a um modelo estritamente linear de desenvolvimento científico para apli- cação porque ele não permite que a tecnologia retroalimente a ciência e, assim, altere o cur- so da ciência. A tecnologia pode sustentar-se sozinha? O bloco restante da matriz na Figura 1.1 é aquele em que tecnologia é tanto a fonte quanto o recipiente, gerando a pergunta no tí- tulo desta subseção. Somente de modo limita- do pode a tecnologia sustentar-se. Algumas vezes, ela fornece soluções locais, circunscri- tas a problemas que surgem em situações es- pecíficas; mas existem pelo menos três proble- mas com tecnologia alimentando tecnologia, talvez especialmente em psicologia. O primei- ro é que na ausência de qualquer avaliação e modificação resultante dessa avaliação, tais in- tervenções psicológicas tecnologicamente dirigidas tornam-se nada mais do que psicolo- gia popular, um tipo de alquimia psicológica em que cada praticante procura seu próprio caminho de acordo com suas próprias regras, nenhum dos quais necessariamente concordan- do com as regras dos outros. Como os limões, no caso dos marinheiros britânicos, tais inter- venções podem funcionar, mas sua aplicação pode ser limitada e ineficiente sem uma com- preensão do mecanismo que uma análise cien- tífica permitiria. Tais soluções estritamente tecnológicas freqüentemente levam a aborda- gens de pacotes para problemas em que várias coisas são tentadas de uma vez e, se efetivo, o pacote permanece o tratamento de escolha, em- bora só um ou dois elementos possam ser res- ponsáveispelos efeitos. O segundo problema Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4422 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 23 é relacionado ao primeiro. Quando um pacote tecnológico não funciona como devia, a me- nos que os próximos passos sejam articulados, para o técnico não é claro qual a próxima coi- sa a ser feita. Desse modo, por exemplo, se re- compensar algum comportamento alternativo apropriado de um adolescente com atraso de desenvolvimento não aumenta a freqüência daquele comportamento, a solução estritamen- te técnica de recompensar um comportamen- to apropriado não sugere qual o próximo pas- so em direção a aumentar o comportamento- alvo. Em parte, isso é um problema do quão específica a tecnologia é, mas quando aplica- ções tecnológicas começam a incorporar a no- ção de teorias ou princípios gerais, a distinção entre tecnologia e ciência é obscurecida. Em parte, porque não se espera que técnicos sai- bam os princípios científicos subjacentes; a menos que se utilizem métodos precisos para manter a tecnologia como planejada para ser aplicada, a aplicação da tecnologia pode mu- dar da sua forma pretendida originalmente. Essa mudança tecnológica constitui o terceiro problema da tecnologia servindo tanto como fonte quanto como recipiente. Particularmen- te em psicologia, em que muito da tecnologia envolve pessoas que se comportam de deter- minadas maneiras, na ausência das condições originais, o comportamento das pessoas des- loca-se de seu treinamento original quando contingências mais locais, nem sempre consis- tentes com as metas de longo prazo da inter- venção, entram em jogo. Pennypacker (1986), por exemplo, descreveu os problemas de trans- ferência de tecnologia com respeito a manter um programa de treinamento para ensinar mu- lheres a realizar auto-exame de mamas como uma intervenção de prevenção ao câncer. Trazendo, para a análise do comportamento, elementos de outras disciplinas Desde o início, a psicologia, em geral, e a análise de comportamento, em particular, têm utilizado idéias de outras disciplinas. A psico- logia propriamente é uma disciplina híbrida, tendo surgido de um “casamento” peculiar en- tre a filosofia e a fisiologia. Sendo assim, des- de o início a psicologia tem abstraído idéias e tecnologias de outros universos de discurso. Idéias filosóficas, como operacionismo, o prag- matismo, o selecionismo e outras, abundam na teoria analítico-comportamental moderna tan- to “básica” como “aplicada”. Muitos dos pro- blemas científicos mais amplos da psicologia desenvolveram-se de antigos problemas trata- dos por filósofos e fisiologistas. Semelhante- mente, pesquisas básicas em análise do com- portamento sobre questões como a natureza de reforço e punição (Dinsmoor, 2001), a con- dição da força da resposta, as variáveis deter- minantes da escolha e a natureza da equiva- lência de estímulos (Sidman, 1986) refletem questões antigas tanto da psicologia como de outras disciplinas, como a lógica, a matemáti- ca e a fisiologia. Existe uma diferença importante entre a influência de dados de outras disciplinas e a incorporação de outras visões de mundo na metateoria analítico-comportamental. Por exemplo, um assunto um pouco preocupante tem sido a relação entre a análise do compor- tamento e a fisiologia. Schaal (no prelo) no- tou um número de benefícios derivados da in- clusão de dados fisiológicos na análise do com- portamento predominante, mas Reese (1996) sugeriu que a análise do comportamento não tem nenhuma obrigação de fazer tal inclusão. Na verdade, Reese discute que fazê-lo pode obscurecer a distinção entre as duas e custar à análise do comportamento um pouco de sua condição como uma disciplina independente. Trazer a pesquisa e a teoria de outras discipli- nas é, porém, tanto inevitável quanto pode ser altamente útil em expandir o âmbito da análise do comportamento. Dependendo de como a mistura é feita, a visão de mundo não precisa ser necessariamente comprometida. Por exemplo, Branch (1984) examinou os modos em que o estudo de ações de drogas poderia expandir o entendimento dos meca- nismos tanto das drogas quanto do compor- tamento. Sua sugestão é que um contribui para o entendimento do outro, uma posição diferente daquela de outros que simplesmen- te usam os métodos da análise do comporta- mento como uma tecnologia para estudar a ação de drogas. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4423 24 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. Tomar elementos de outras disciplinas não é, claramente, limitado a assuntos conceituais e teóricos. Thompson (1984) no- tou as estranhas semelhanças entre os méto- dos da fisiologia experimental descritos no sé- culo XIX por Bernard (1865/1957) e os méto- dos contemporâneos da análise experimental do comportamento. Realmente, um dos mais importantes instrumentos de pesquisa de Skinner, o registro cumulativo, evoluiu do quimógrafo, uma invenção do fisiologista ex- perimental alemão, Karl Ludwig. Skinner re- formou o registro cumulativo durante a maior parte de sua carreira de pesquisador, modifi- cando e melhorando as versões antigas até desaparecer, junto com o tambor de memória, na era da mais versátil tecnologia adotada e adaptada, o computador digital. SELECIONISMO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA O selecionismo tem sido sugerido como um modelo para evolução orgânica e também para mudanças ontogenéticas e culturais (Skinner, 1981). Reconhecendo a análise de Skinner como um importante componente da cultura humana, ciência e tecnologia estão, desse modo, sujeitas aos mesmos princípios de variação e de seleção que qualquer outra prá- tica cultural. Petroski (1992) ilustrou a aplica- ção de um modelo selecionista para entender a evolução da tecnologia diária na forma de objetos úteis, como lápis e clipes para papel. Um quadro de referência selecionista começa com a variação, porque sem variação não exis- te nada a ser selecionado por processos natu- rais. A variação, desse modo, é um elemento crítico na evolução contínua das práticas cul- turais de ciência e de tecnologia. Uma vantagem de conceitualizar a rela- ção entre a ciência e a tecnologia em termos do modelo interativo mostrado na Figura 1.1 é que ela representa uma descrição mais am- pla das fontes de variação nas relações entre ciência básica, ciência aplicada e tecnologia. Vários autores têm assinalado a falta de comu- nicação entre as psicologias operante e não- operante (Krantz, 1971), entre a análise do comportamento básica e a aplicada (Poling et al., 1994) e entre os pesquisadores que traba- lham com humanos e os que trabalham com- não-humanos dentro da ciência básica da aná- lise do comportamento (Perone, 1985). Exis- tem razões práticas e científicas razoáveis para tais comunicações restritas, como foi notado anteriormente neste capítulo. Mas, do ponto de vista de um selecionista, um sistema muito fechado é desvantajoso porque limita a maté- ria-prima sobre a qual a seleção pode agir. Cada uma dessas fontes é uma fonte potencial de variação em idéias para o desenvolvimento de outras que não estão sendo otimizadas. Outras fontes de variação também podem contribuir para a evolução contínua da ciência e da tecnologia da análise do comportamento. As muitas outras áreas de ciência e de tecno- logia psicológicas servem para essa função, as- sim como ocorre com o constante influxo de jovens cientistas e de técnicos em análise do comportamento. Kuhn (1971) notou que as mudanças dentro daquela disciplina freqüen- temente são provocadas por uma pessoa nova na disciplina, por uma pessoa jovem ou alguém mais velho, mas com treinamento diferencia- do que só agora está entrando na disciplina. Dentro da disciplina, pesquisadores básicos considerando problemas aplicados e pesquisa- dores aplicados considerando problemas bási- cos semelhantemente podem introduzir varia- ções saudáveis para as áreas nas quais eles não trabalharam antes.A variação não é menos importante para os diferentes empenhos da análise do comportamento do que é para os pássaros e para as abelhas. CONCLUSÃO Que relações existem entre a ciência bá- sica, a ciência aplicada e a tecnologia da análi- se do comportamento? A tecnologia depende das ciências básica e aplicada, mas de outra forma também as retroalimenta, provendo mui- tas das ferramentas para o crescimento e o desenvolvimento futuros. As ciências básica e aplicada da análise do comportamento não podem operar de ma- neira totalmente independente uma da outra, Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4424 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 25 pois cada uma é controlada por um conjunto de assuntos e de circunstâncias único em seus ambientes naturais. Elas dependem uma da outra para idéias e como um meio de exami- nar a confiabilidade, a validade e a generali- dade dos processos e dos mecanismos compor- tamentais que estão sob investigação. Cada uma dessas áreas da análise do comportamen- to também é enriquecida por pesquisas e in- formações técnicas de outras áreas da psicolo- gia e também de outras ciências. A interação de todos esses elementos provê fontes ricas de variação das quais o ambiente natural pode selecionar as práticas que definirão a análise do comportamento no futuro. NOTA DO AUTOR Uma versão deste capítulo foi apresenta- da em um colóquio na Universidade de Brasília, em janeiro de 2003, como parte das comemo- rações do quadragésimo aniversário do Insti- tuto de Psicologia. Agradeço a Lincoln Gimenes pelos úteis comentários sobre a versão inicial e pela tradução do capítulo para a língua por- tuguesa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bachrach, A. J. (1962). Psychological research: An intro- duction. New York: Random House. Baer, D. M. (1991). Tacting “to a fault”. Journal of Applied Behavior Analysis, 24, 429-431. Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. (1968). Some current dimensions of applied behavior analysis. Jour- nal of Applied Behavior Analysis, 1, 91-97. Baron, A.; Perone, M. (1982). The place of the human subject in the operant laboratory. 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Tal definição é apresentada no referido dicionário como: 1. motivação altruísta, aquela “que considera ou favorece o bem-estar de outrem”; 2. motivação de eficácia, aquela rela- cionada à competência (capacida- de). O dicionário indica como sinô- nimo e variantes a consulta do ver- bete “causa”. Douglas Mook, em seu livro Motivation – The organization of action (edição de 1987), pre- ocupa-se com a forma como as diferentes abor- dagens do conceito de motivação têm sido apre- sentadas. Refere-se, por exemplo, às controvér- sias e às questões teóricas que, às vezes, são apre- sentadas uma em oposição à outra, a exemplo de impulsos versus instintos (padrões-fixos-de- ação), impulso animal versus teorias cognitivas, pesquisa com humanos versus com organismos não-humanos. Para Mook, esse modo de com- 2 O emprego do conceito de motivação como termo técnico da psicologia requer pre- cisão seja qual for o referencial teórico e meto- dológico utilizado, de modo a dirimir a ambi- güidade que o termo encerra na linguagem coloquial. Historicamente, as variáveis motivacio- nais têm sido consideradas como determinan- tes da ação humana, aspecto que manteve o conceito de motivação como um tópico vigen- te na psicologia. O que torna esse tema fasci- nante e desafiador para os psicólogos é com- preender a que esse conceito se refere no am- plo arcabouço teórico, conceitual e metodoló- gico da psicologia. A questão fundamental está no tratamento e na descrição das variáveis controladoras do comportamento. Análises so- bre o papel da motivação na explicação do com- portamento têm conduzido a várias concepções teóricas e metodológicas que refletem os es- forços da psicologia para elucidar uma pergun- ta básica: por que os homens comportam-se da maneira como o fazem? O estudo do tópico de motivação nos conduz à discussão sobre a natureza das variáveis motivacionais que têm sido caracterizadas tanto como processos in- ternos quanto como eventos do ambiente ex- terno. Essas diferenças ocorrem porque a psi- cologia apresenta diversidades na definição de seu objeto de estudo, de sua metodologia e de seus pressupostos epistemológicos. Para os ana- listas do comportamento, as variáveis motiva- cionais são variáveis ambientais. Um fator complicador é que “motivação”, como um termo da linguagem coloquial, pode Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4427 28 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. paração pode levar-nos a negligenciar algumas possibilidades de interface que, por exemplo, as pesquisas com organismos não-humanos e hu- manos têm, como nos tópicos sobre fome, sede, afeiçoamento ou simpatia e desamparo. Não podemos negar essas divergências e devemos ter o cuidado para não pôr uma teoria contra outra, porque poderemos cometer erros de na- tureza lógica, epistemológica e conceitual. Tal- vez o maior equívoco seja perder as possibilida- des de interface entre diferentes concepções que podem proporcionar uma visão nova ou um me- lhoramento – ou maior esclarecimento – do con- ceito de motivação com todo o rigor que a pes- quisa exige para descaracterizar o uso coloqui- al do termo motivação. O conceito de motivação passou por vá- rias acepções ao longo do tempo – tais como instinto, impulso e a retomada do conceito de instinto pelos etologistas –, mas, sem dúvida al- guma o termo impulso foi o que teve maior im- pacto. Esse impacto é refletido, por exemplo, na postura dos analistas do comportamento ao definir o conceito de motivação sem fazer refe- rência ao termo impulso, de modo a dissipar a base mentalista ou organísmica que o termo recebeu dos behavioristas metodológicos, como, por exemplo, Clark Hull (1884-1952). Quando o conceito de impulso tinha um status fortemente mentalista ou organísmico, Skinner, em seu livro publicado em 1938, The behavior of organisms – An experimental analysis, dedicou dois capítulos a este concei- to (Capítulo 9 – “Drive” e Capítulo 10 – “Drive and conditioning: The interactions of two va- riables”), nos quais fornece uma abordagem essencialmente objetiva sobre o tópico. Segun- do Skinner, o problema que temos com o con- ceito de impulso é a natureza causal de proprie- dades internas que foi atribuída a essa variá- vel. Skinner (1938, 1953/2000) trata a moti- vação em termos de operações de privação, saciação e estimulação aversiva, enfatizando essas operações como variáveis ambientais controladoras do comportamento. Skinner (1938, 1953/2000), posterior- mente Keller e Schoenfeld (1950/1974), Millenson (1967) e Millenson e Leslie (1979) referem-se ao termo impulso como um evento do meio ambiente, ou seja, como a descrição de uma operação que pode ser executada so- bre o organismo (p. ex.: privá-lo de alimento, aumentar a temperatura do ambiente acima das condições adequadas de adaptação e con- forto). Verificamos, portanto, que a questão crucial que gera as divergências na definição do termo motivação está na concepção da cau- salidade do comportamento dos organismos. Skinner (1953/2000, p. 24) abordou os ter- mos causa e efeito em ciência a partir de uma relação funcional, uma causa foi definida como “uma mudança em uma variável independen- te” e um efeito foi definido como “uma mu- dança em uma variável dependente”. Dessa forma, para ele, a relação de “causa e efeito” foi transformada em uma relação funcional. Para descrever uma relação funcional entre o organismo e o ambiente, Skinner desenvolveu um instrumento conceitual que se tornou a fer- ramenta básica do analista do comportamen- to: as contingências de reforço. Para garantir a especificidade de um ter- mo, na acepção psicológica faz-se necessário um conjunto de ferramentas intelectuais e ex- perimentais, constituído de conceitos básicos e de princípios que norteiem uma análise sis- temática e funcional do comportamento. Essa exigência está presente na abordagem analíti- co-comportamental do conceito de motivação, denominada de Operações Estabelecedoras. OPERAÇÕES ESTABELECEDORAS O termo operações estabelecedoras, como um conceito de motivação, será abordado, con- siderando os aspectos históricos, metodológicos e teóricos das pesquisas básica e aplicada. Considerações históricas Keller e Schoenfeld (1950/1974) enfati- zaram a necessidade de se conceituar a mo- tivação como variáveis ambientais controla- doras do comportamento de forma a evitar o conceito de impulso como variável interna, con- forme defendido pelos behavioristas metodo- lógicos, e de acordo com o empreendimento científico de Skinner denominado de Análise Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4428 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 29 Experimental do Comportamento. Keller e Schoenfeld chamavam a atenção dos analistas do comportamento para outros eventos ambientais, além dos eventos reforçadores, ao se fazer uma análise de contingências. O as- pecto ressaltado nessa advertência refere-se ao fato de que para um objeto funcionar eficaz- mente como reforçador, faz-se necessário que um outro evento ambiental estabeleça sua efi- cácia. Assim, Keller e Schoenfeld introduziram o conceito de operação estabelecedora para identificar esses eventos ambientais e demons- trar sua função motivacional. Ao empregarem o termo operação estabe- lecedora (primeiro uso do termo) para definir a motivação na abordagem analítico-compor- tamental, Keller e Schoenfeld (1950/1974) demonstraram que podemos tratar a variável motivacional como uma variável independen- te, que pode ser manipulada de maneira expe- rimental. Definir motivação como operações estabelecedoras implica poder executar certas operações sobre o organismo (p. ex.: privá-lo de alimento), as quais têm como efeitos uma mudança momentânea da efetividade de um evento como reforçador e uma mudança mo- mentânea da freqüência de qualquer compor- tamento que tenha sido seguido por esse evento reforçador. Kellere Schoenfeld (1950/1974) preocu- param-se em definir o termo impulso não como estímulo nem como resposta, usando-o como um recurso de linguagem para descrever um conjunto de relações. Por exemplo, impulso não poderia ser confundido com estímulos inter- nos (câimbras estomacais que acompanham a privação de alimento). Esses estímulos são discriminativos para a resposta verbal “tenho fome” (operante verbal – tato). O impulso tam- bém não poderia ser confundido com uma res- posta produzida pela operação de privação, por exemplo, o comportamento de comprar um lanche. Para Keller e Schoenfeld, o impulso seria mais adequadamente definido como um conjunto de relações entre o organismo e o am- biente – operações estabelecedoras. Ao lidar com o conceito de motivação, Millenson (1967) e Millenson e Leslie (1979) também enfatizaram o papel das variáveis ambientais. Para eles, a motivação correspon- deria a operações de impulso, as quais teriam a função de alterar o valor dos reforçadores. Esses autores classificaram em dois tipos as operações de impulso: “(1) uma [operação] que tem a função de reduzir ou eliminar o va- lor reforçador (saciação) e (2) outra que tra- balha para aumentar o valor dos reforçadores (privação)” (Millenson, 1967, p. 366). Preocupado também com a precisão dos conceitos e com a forma de enunciar relações funcionais que abrangem interações do indiví- duo com o ambiente, Michael (1982, 1993) retomou o conceito de operação estabelece- dora, proposto por Keller e Schoenfeld (1950/ 1974), para definir motivação na análise do comportamento. Em sua análise, Michael incluiu as variáveis motivacionais aprendidas que não foram explicitamente tratadas por Skinner (1938, 1953/2000), Keller e Schoen- feld (1950/1974), Millenson (1967) e Millenson e Leslie (1979), os quais se limitaram a discutir as variáveis motivacionais filogeneticamente determinadas (da Cunha, 1993). Michael fez uma importante contribuição para a análise do comportamento, ao estabelecer um novo ins- trumento conceitual e metodológico, caracte- rizado como operações estabelecedoras apren- didas, com implicações para as pesquisas bási- ca e aplicada (da Cunha, 1993, 1995; Iwata, Smith, e Michael, 2000; Sundberg, 1993). Skinner não utilizou o termo operação estabelecedora para tratar do conceito de mo- tivação, tratando-o em termos de privação/ saciação e estimulação aversiva. Por outro lado, pode-se dizer que Skinner (1938, 1953/2000), Keller e Schoenfeld (1950/1974), Millenson (1967) e Millenson e Leslie (1979) deram o mesmo tratamento para as variáveis motivacio- nais como controladoras do comportamento, ou seja, as variáveis motivacionais foram tra- tadas como variáveis ambientais (da Cunha, 1993, 1995, 2000). Definição Michael (1993) define uma operação estabelecedora como uma variável ambiental em função de seus dois principais efeitos, de- nominados de efeito estabelecedor do reforço Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4429 30 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. e efeito evocativo. O efeito estabelecedor do reforço é caracterizado pela alteração momen- tânea da efetividade reforçadora de algum objeto, evento ou estímulo; o efeito evocativo, por sua vez, é caracterizado pela alteração momentânea da freqüência de um tipo de com- portamento que tem sido reforçado por aquele objeto, evento ou estímulo. É importante en- fatizar que a definição do conceito é feita a partir dos efeitos que a variável motivacional exerce sobre o comportamento do organis- mo (da Cunha, 1993, 1995, 2002; Keller e Schoenfeld, 1950/1974; Michael, 1993, 2000). Uma operação estabelecedora é um evento ambiental que está correlacionado filogenética e ontogeneticamente com a efi- cácia do reforço ou da punição e que evoca ou suprime um tipo de comportamento que tenha sido reforçado ou punido por esse even- to (privação ou saciação são exemplos de ope- rações estabelecedoras). Skinner (1953/ 2000) cita alguns exemplos de efeitos sobre o comportamento exercidos por essas operações estabelecedoras: (a) restringindo-se a ingestão de água (privação), pode-se aumentar a pro- babilidade de uma criança beber leite; (b) ser- vindo-se grandes quantidades de pão de boa qualidade antes do jantar (saciação), pode-se diminuir a probabilidade de um cliente recla- mar da pequena quantidade de comida servi- da no jantar. Refinamento do conceito de operações estabelecedoras Michael (1982) tratou o conceito de mo- tivação como estímulo estabelecedor (SE), o qual teria a função de modificar a efetividade de um outro estímulo como reforçador e de evocar um tipo de comportamento que tenha sido reforçado por aquele estímulo. Em 1993, o termo estímulo estabelecedor foi substituído pelo termo operação estabelecedora como uma forma genérica de se referir à variável motiva- cional. A partir da classificação de dois tipos de operações estabelecedoras e da efetivação de uma taxonomia comportamental, Michael sistematizou o conceito de motivação. As operações estabelecedoras de privação e saciação trabalham em direções opostas. A privação de algum objeto implica um período de tempo de acesso restrito a esse objeto, seja ele alimento, água ou qualquer outra condi- ção de estímulo, como, por exemplo, interações sociais. Entretanto as operações ambientais que trabalham na direção oposta da privação po- dem variar para um ou outro estímulo e, as- sim, o termo saciação pode não ser útil. Por- tanto, Michael (2000) propõe um refinamen- to conceitual da terminologia motivação, intro- duzindo o termo operações abolidoras para fazer referência àquelas operações ambientais que suprimem a efetividade de um evento reforçador e a ocorrência de comportamentos que tenham sido reforçados por esse evento reforçador. Classificação Michael (1993) propôs a classificação das operações estabelecedoras em duas cate- gorias: Operações estabelecedoras incondicionadas São de origem filogenética e variam de espécie para espécie. Os efeitos de alteração da eficácia do reforço que esse tipo de opera- ção estabelecedora produz abrangem eventos ou estímulos reforçadores incondicionados, por isso Michael denominou essas operações de operações estabelecedoras incondicionadas. Nascemos com a capacidade de termos nossos comportamentos reforçáveis por alimentos ou pela cessação ou redução de estímulos aver- sivos, sendo que determinados aspectos do ambiente podem aumentar ou reduzir a eficá- cia desses reforços. Embora esses reforços se- jam incondicionados, o comportamento evo- cado por uma operação estabelecedora incon- dicionada (verificado pelo efeito evocativo) é sempre aprendido. Por exemplo, a privação de água torna a água mais efetiva como forma de reforçador para os mamíferos, como resultado dessa operação, sem que haja história de apren- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4430 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 31 dizagem. Porém o repertório comportamental para adquirir água é sempre aprendido por esses organismos. A seguir, apresentamos exemplos de ope- rações estabelecedoras incondicionadas e seus respectivos efeitos: 1. Saciação de alimento. Esta operação tem como efeito estabelecedor do re- forço a diminuição, momentânea, da eficácia do alimento como reforça- dor e, como efeito evocativo, a di- minuição, momentânea, da freqüên- cia de qualquer tipo de comporta- mento que tenha sido reforçado por algum alimento. Por exemplo, em uma refeição, comer do prato prin- cipal até a saciação pode diminuir a eficácia reforçadora da sobremesa e suprimir a freqüência do comporta- mento de consumo desta. 2. Privação de alimento. Esta operação tem como efeito estabelecedor do re- forço, o aumento momentâneo da eficácia do alimento como evento reforçador, e seu efeito evocativo é demonstrado pelo aumento, tam- bém momentâneo, de qualquer tipo de comportamento que tenha sido reforçado por alimento. Privando um indivíduo de alimento,por exemplo, pode-se alterar a eficácia reforçadora do alimento e aumen- tar a freqüência do comportamento de preparar um lanche. 3. Aumento da temperatura. Esta ope- ração quando está acima do nível normal das condições de adaptação e de conforto tem como efeito esta- belecedor do reforço a diminuição do nível da temperatura como um evento reforçador eficaz. O efeito evocativo é verificado pelo aumen- to momentâneo da freqüência de qualquer comportamento que tenha sido reforçado pela diminuição do nível da temperatura. Um exemplo seria ligar o ventilador em um dia de calor insuportável. 4. Diminuição da temperatura. Esta operação quando está abaixo do ní- vel normal das condições de adap- tação e de conforto tem como efeito estabelecedor do reforço o aumen- to do nível da temperatura como um evento reforçador eficaz. O efeito evocativo é verificado pelo aumen- to momentâneo da freqüência de qualquer comportamento que tenha sido reforçado pelo aumento do ní- vel da temperatura (p. ex.: ligar o ar quente do carro na presença de uma temperatura muito baixa). 5. Estimulação dolorosa. Esta operação tem como efeito estabelecedor do re- forço o aumento da eficácia momen- tânea da cessação ou da remoção do estímulo doloroso, e o efeito evoca- tivo é demonstrado pelo aumento momentâneo de qualquer tipo de comportamento que tenha sido re- forçado pela cessação ou pela remo- ção da estimulação dolorosa (p. ex.: tomar um analgésico em função de uma forte dor de cabeça). Michael (1993) identificou nove tipos de operações estabelecedoras incondicio- nadas, a saber: estimulação dolorosa; dimi- nuição da temperatura abaixo das condições de adaptação e de conforto, aumento da tem- peratura acima das condições de adaptação e de conforto; variáveis relacionadas ao reforçamento do comportamento sexual. Os outros cinco tipos de operações estão relaci- onados às operações de privação e de saciação de água, de alimento, de oxigênio, de atividade e de sono. Operações estabelecedoras condicionadas São de origem ontogenética e, portanto, relacionadas à história de reforçamento de cada organismo. A distinção entre as operações estabelecedoras incondicionadas e as condi- cionadas é feita com base no efeito estabe- lecedor do reforço, pois o evento reforçador Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4431 32 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. pode ser inato ou aprendido. No que concerne às operações estabelecedoras condicionadas, elas têm recebido maior atenção dos pesquisa- dores na tarefa de demonstração empírica e foram classificadas por Michael (1993) em três tipos: 1. Operação estabelecedora condiciona- da substituta. Esta operação refere- se a uma relação simples, envolven- do uma correlação temporal de um evento, previamente neutro, que sis- tematicamente antecede uma ope- ração estabelecedora incondiciona- da ou condicionada e, como resul- tado desse emparelhamento, aque- le evento neutro adquire a caracte- rística motivacional da operação estabelecedora com a qual fora em- parelhado (adquire suas funções evocativas e funções de estabeleci- mento do valor do reforço). Por exemplo, ao emparelhar uma luz (estímulo neutro para a função moti- vacional) com a redução de tempe- ratura (operação estabelecedora incondicionada), seria esperado que a luz adquirisse não só as funções respondentes (eliciadoras) ou refor- çadoras/punitivas, como também as funções motivacionais da redução da temperatura. A presença dessa luz deveria estabelecer o aumento da temperatura como uma forma efi- caz de reforçamento e evocar qual- quer tipo de comportamento que tenha sido reforçado pelo aumento da temperatura. 2. Operação estabelecedora condiciona- da reflexiva. Esta envolve uma rela- ção mais complexa em que um even- to ou estímulo sistematicamente precede alguma forma de estimu- lação aversiva e, se esse estímulo é removido antes da ocorrência da estimulação aversiva, a estimulação aversiva deixa de ocorrer. Os proce- dimentos de esquiva sinalizada são exemplos desse tipo de operação estabelecedora. De acordo com Michael (1993), o evento ou estímu- lo sinalizador da esquiva funciona como uma variável motivacional do tipo condicionada reflexiva, e não como um estímulo discriminativo, como enfatiza a literatura sobre es- quiva sinalizada (ver o Capítulo 7 para uma discussão detalhada do papel do estímulo sinal na esquiva). A denominação condicionada refle- xiva para esse tipo de operação deve- se ao fato de que o próprio estímulo antecedente motivacional adquire a capacidade de estabelecer sua pró- pria remoção como uma forma efe- tiva de reforçador condicionado e evoca qualquer tipo de comporta- mento que tenha produzido a su- pressão desse estímulo reforçador condicionado. Por exemplo, a luz do painel de um automóvel que indica a quantidade de combustível dispo- nível no tanque possui as proprie- dades motivacionais de uma opera- ção estabelecedora condicionada re- flexiva. Essa luz acesa, aviso de que o combustível está na reserva, esta- belece a sua remoção como uma for- ma de reforço efetivo, pois sua pre- sença esteve pareada com a aversivi- dade de ter o automóvel sem gaso- lina. Além disso, evoca o comporta- mento de abastecer o carro, o qual tem sido reforçado pela remoção da luz acesa. 3. Operação estabelecedora condiciona- da transitiva. Esta operação é a rela- ção mais complexa e foi relacionada por Michael (1993) com o conceito de reforçador condicionado condi- cional. A efetividade de muitas formas de reforçadores positivos condicionados podem depender de uma condição de estímulo antece- dente (operação estabelecedora con- dicionada transitiva), na qual esses reforçadores positivos condiciona- dos tiveram sua eficácia estabele- cida. O estabelecimento da eficácia desses reforçadores depende de uma Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4432 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 33 história individual do organismo. Por exemplo, um aparelho de tele- fone público é ocasião para o com- portamento de fazer uma ligação te- lefônica. Porém, em relação ao car- tão telefônico, o aparelho funciona como uma operação estabelecedora condicionada transitiva porque es- tabelece o cartão como uma forma efetiva de reforço e evoca o compor- tamento de procurá-lo na carteira. A demonstração empírica desse tipo de operação estabelecedora tem re- cebido atenção de alguns pesqui- sadores com trabalhos publicados (McPherson e Osborne, 1968; 1988) e de outros pesquisadores com tra- balhos não-publicados (McPherson, Trapp e Osborne, 1984; Osborne e Mcpherson, 1986; Alling, 1990; da Cunha, 1993 – estes dois últimos citados em da Cunha, 1995). Essas demonstrações empíricas têm uti- lizado pombos como sujeitos expe- rimentais e têm, de certa forma, de- monstrado, com algum sucesso, o desenvolvimento de procedimentos experimentais para investigar ope- rações estabelecedoras condiciona- das transitivas como uma variável ambiental e uma variável motiva- cional controladora do comporta- mento. Nesses procedimentos têm sido difícil distinguir a função moti- vacional de um evento ambiental (a suposta operação estabelecedora condicionada transitiva) de sua função discriminativa, caracterizan- do assim, como aspecto fundamen- tal dessa linha de pesquisa, o de- senvolvimento de procedimentos que nos permitam demostrar empi- ricamente essa distinção. Surge, as- sim, uma nova área de investiga- ção na análise experimental do comportamento que possibilita aos analistas do comportamento estu- dar a motivação como uma variá- vel independente e não apenas contextual (da Cunha, 1993; 1995; 2000; Iwata, Smith e Michael, 2000; Sundberg, 1993). Relação entre os conceitos de operação estabelecedora (OE) e de estímulo discriminativo (SD) Os conceitos de operação estabelecedora e de estímulo discriminativo estão relaciona- dos, pois ambos são eventosantecedentes ao comportamento e têm, de forma diferenciada, implicações com a conseqüência. A análise fun- cional do comportamento tem sido, geralmen- te, realizada com ênfase no SD e, conseqüente- mente, a unidade de análise utilizada tem sido a contingência de três termos. Para se fazer uma análise funcional mais adequada do com- portamento, considerando as funções motiva- cionais e discriminativas dos estímulos ante- cedentes, faz-se necessário incluir a OE como um quarto elemento da contingência. A inclu- são de mais um termo na relação de contin- gência implica a necessidade de distinção das funções discriminativa e motivacional do estí- mulo antecedente. Nesse sentido, o conceito de SD é fundamental para a compreensão e para a demonstração empírica do conceito de OE. Os estímulos discriminativos são, em ge- ral, denominados como sinais ou pistas para uma determinada ação, à medida que sinali- zam as ocasiões em que as respostas terão cer- tas conseqüências e, portanto, ocasionam com- portamento. O conceito de SD tem sido cor- relacionado às condições antecedentes que são ocasião para a resposta levando-se em consi- deração apenas a condição em que uma dada resposta será reforçada. Michael (1982), en- tretanto, retoma o conceito de SD enfatizando as suas duas condições de estímulo: uma con- dição de estímulo SD, em que, dada a efetivi- dade de um evento como reforçador, a ocor- rência de um determinado comportamento será seguida pelo reforço; e uma condição de estí- mulo SΔ, em que, dada a efetividade daquele evento reforçador, a ocorrência desse mesmo comportamento não será reforçada. Isto é, o conceito de SD envolve uma história específica de treino discriminativo com duas condições de estímulos antecedentes relacionadas à dis- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4433 34 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. ponibilidade diferencial de reforçamento (Michael, 1993). Como resultado do treino discriminativo, o SD evoca um dado comporta- mento com uma história de reforçamento dian- te desse estímulo, enquanto o SΔ não evoca o mesmo comportamento. Em resumo, o SD apre- senta uma função evocativa sobre o comporta- mento devido a uma história de correlação tem- poral com o reforço. Em uma dada situação experimental, por exemplo, a função evocativa do SD pode ser cla- ramente observada. Em uma caixa operante, equipada com uma barra, um bebedouro e uma lâmpada localizada acima da barra, um rato privado de água é submetido ao treino discri- minativo. Quando a lâmpada acima da barra está acesa (presença de luz), as respostas de pressão à barra são seguidas por água como reforço. Por outro lado, quando a lâmpada está apagada (ausência de luz), nenhuma conse- qüência é dada ao mesmo comportamento do animal. Após algumas exposições a essas con- dições, o rato exibe o comportamento de pres- são à barra apenas na presença da luz. Diante da luz como condição de estímulo SD, o com- portamento de pressão à barra é reforçado e, portanto, quando a luz está presente o com- portamento é evocado. Diante da ausência de luz (condição de estímulo SΔ), o comportamen- to de pressão à barra não é exibido, pois não há uma história de reforçamento por água nes- sa condição. O conceito de OE, no entanto, está rela- cionado à efetividade do evento reforçador. Para Michael (1993), a OE como condição de estímulo antecedente altera momentaneamen- te a efetividade de um reforço e evoca com- portamentos relacionados historicamente com esse reforço. A privação de água, por exemplo, altera a efetividade reforçadora da água, e qual- quer comportamento que a produza é fortale- cido. Na situação experimental anteriormente citada, a privação alterou o valor da água como reforço, que ao seguir o comportamento de pressão à barra passou a selecioná-lo. Por ou- tro lado, além de estabelecer o valor do refor- ço, a OE evoca o comportamento de pressão à barra, pois há uma relação histórica entre aque- le comportamento e o reforço, cuja efetividade é estabelecida pela privação. Semelhantemente ao SD, a OE possui a função evocativa do comportamento, que, por vezes, é confundida com a função evocativa do SD. O que diferencia as referidas condições de estímulo antecedente é a função estabele- cedora do reforço, a qual é apresentada so- mente pela OE. Essa função é imprescindível para que, em um treino discriminativo, o SD adquira a função evocativa. No exemplo an- terior, o controle discriminativo só foi possí- vel porque havia um reforço efetivo – água – e assim o comportamento de discriminar en- tre a ausência e a presença de luz foi observa- do. Nesse sentido, pode-se verificar que a OE aumentou a efetividade evocativa do SD, o que, para Michael (1993), seria um terceiro efeito da OE. A privação como OE tem uma função motivacional, e a presença da luz (SD) tem uma função discriminativa. Em situações labora- toriais, a clareza na distinção da OE e do SD requer mais estudos empíricos. Em situações aplicadas, essa distinção é obscurecida, algu- mas vezes, por variáveis como, por exemplo, a história de vida particular do organismo. Con- siderar a história do organismo é considerar as relações das quais resultam as operações estabelecedoras condicionadas (OEC). Diante dessas condições, a distinção de uma OEC e um SD pode tornar-se difícil. No seguinte contexto aplicado, por exem- plo, qual seria a função antecedente de um pneu furado de um automóvel para o compor- tamento de trocá-lo ou de procurar por uma borracharia? Em um primeiro momento, pode- se considerar essa condição de estímulo como sendo SD, pois é a ocasião para trocar o pneu pelo estepe. Entretanto o pneu furado altera a efetividade reforçadora do estepe e de todos os objetos (ferramentas) relacionados com a ação de trocar o pneu, bem como de qualquer placa de sinalização que indique a presença de borracharia – função motivacional. Nesse caso, o pneu furado funciona como uma operação estabelecedora condicionada transitiva que es- tabelece o valor reforçador condicionado de alguns estímulos. A consideração precipitada apenas da função evocativa do pneu furado implicaria o equívoco de deixar de lado a fun- ção motivacional que essa condição de estímulo Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4434 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 35 tem sobre a definição de certos objetos como reforçadores. Outro exemplo a ser considerado na dis- tinção da OE e do SD consiste nos procedimen- tos de esquiva sinalizada. Um rato na caixa experimental recebe choques (Ss aversivos) em um intervalo de tempo variável de um minuto (VT 1 min). Antes da apresentação de cada cho- que, um som é apresentado. Ao pressionar a barra, o animal interrompe a apresentação do som e do choque. No entanto, se a pressão à barra ocorrer na presença do som apenas, essa resposta pode prevenir a apresentação do estí- mulo aversivo (choque). Nesse procedimento, o som e o choque são considerados operações estabelecedoras reflexivas condicionada e incondicionada, respectivamente, e não estí- mulos discriminativos (Michael, 1993). O som, ao ser apresentado junto com o choque, adquire as funções necessárias para que sua presença evoque respostas de evi- tação. Para ser considerado um SD, a situação experimental deveria possuir uma condição de estímulo análoga à condição SΔ. Na pre- sença do som, a resposta de esquiva é evocada, pois há uma conseqüência reforçadora ime- diata – a eliminação do som. Supondo um paralelo com a situação de SΔ, a ausência do som impossibilita o reforçamento negativo por sua própria remoção – “a efetividade do re- forçador negativo depende diretamente da presença do estímulo aversivo condicionado” (Miguel, 2000, p. 262), ou seja, depende da presença do som. O mesmo ocorre na situa- ção de fuga do choque em que o reforçador negativo só se torna efetivo quando o choque está presente. Na ausência do estímulo aver- sivo (supostoSΔ), não há reforço negativo, portanto não há reforço efetivo. Nesse senti- do, o choque não é um SD. Tanto o som quan- to o choque estabelecem sua própria remo- ção como formas de reforço efetivo e evocam comportamentos que tenham uma relação histórica com esses reforços e, assim sendo, devem ser identificados como OEs. Paralelamente à situação experimental, no contexto aplicado, a distinção entre SD e OE em situações de esquiva também é possí- vel. Nos Transtornos de Ansiedade, como o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), por exemplo, observa-se uma pessoa emitir inúme- ras vezes uma série de comportamentos com função de esquiva, como lavar as mãos, o veri- ficar o fechamento do registro do botijão de gás e conferir o fechamento de portas e de ja- nelas. As condições dos estímulos anteceden- tes a esses comportamentos (p. ex.: mãos su- jas ou algum tempo sem contato com água e sabão, registro de gás aberto, portas e janelas abertas ou destrancadas ou qualquer outra condição relacionada ao comportamento ob- sessivo) não são SD para as respostas ditas com- pulsivas. Essas condições de estímulo são ope- rações estabelecedoras condicionadas reflexi- vas que estabelecem a efetividade reforçadora das conseqüências do comportamento compul- sivo, semelhantemente à presença do som ou do choque, nas condições laboratoriais. Nesse caso, supor uma situação análoga à condição de SΔ é tão inviável quanto na situação experi- mental anteriormente descrita. Em resumo, o SD apresenta uma função, a função evocativa do comportamento ou discriminativa – na presença do estímulo discriminativo há o aumento na probabilida- de de ocorrência do comportamento por cau- sa de uma história de correlação entre a con- dição de SD e o reforçamento, e entre a con- dição de SΔ e o não-reforçamento. Por outro lado, conforme indicado por Michael (1993), a OE apresenta quatro diferentes efeitos co- muns relacionados à função motivacional. São eles: 1. Efeito estabelecedor do reforço: uma OE aumenta momentaneamente a efetividade reforçadora/punidora de um estímulo. A privação de água torna a água um evento reforçador eficaz. 2. Efeito evocativo/supressivo direto da OE sobre o comportamento: evo- cação/supressão imediata da OE sobre os comportamentos que te- nham uma relação histórica com o reforçador/punidor cuja efetividade fora alterada em (1). A privação de água evoca o comportamento de pressão à barra que tem sido histo- ricamente reforçado por água. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4435 36 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. 3. Efeito da OE sobre a efetividade evocativa/supressiva do SD: aumen- to na efetividade evocativa/supres- siva dos estímulos discriminativos correlacionados com o reforçador/ punidor em (1). No treino discri- minativo, a privação de água au- menta a efetividade evocativa da luz como SD, pois a luz tem uma corre- lação com a água. 4. Efeito da OE sobre o reforçamento/ punição condicionado: aumento da efetividade reforçadora/punidora de reforçadores/punidores condi- cionados cuja efetividade depende de (1). Na seguinte cadeia compor- tamental – um som – puxar a cor- rente → luz → pressionar a barra → água–, o som aumenta a efetivida- de da luz como reforço condicio- nado, que tem uma relação históri- ca com água (reforçador incondicio- nado) e o som também evoca o com- portamento de puxar a corrente, de- vido a relação dessa resposta com um reforço efetivo (luz). Contribuições da pesquisa básica Da Cunha (1993) identificou e classifi- cou os primeiros procedimentos experimentais para investigar os efeitos de operações estabe- lecedoras, realizados no laboratório animal, enfatizando as operações estabelecedoras con- dicionadas transitivas. Entre eles temos os apre- sentados a seguir. Procedimento de três discos McPherson e Osborne (1986, 1988) uti- lizaram um procedimento de tentativa discre- ta com três discos de respostas para pombos. Ao início de cada tentativa, o disco da direita era iluminado. A primeira resposta nesse dis- co tinha como conseqüência a iluminação do disco central. Uma vez iluminado o disco cen- tral, bicadas no disco da direita não tinham conseqüências. O disco da esquerda era ilumi- nado em função de um esquema VT. Quando o disco da esquerda estava iluminado, uma res- posta no disco central era reforçada por ali- mento. Respostas adicionais de bicar o disco central não tinham conseqüências programa- das. O término de cada tentativa ocorria com o acesso ao alimento, que era seguido por um intervalo entre tentativas (ITI). Durante o ITI, todos os discos permaneciam escuros. O reforço para a resposta de bicar o disco da direita foi a iluminação do disco central (um reforço condicionado, estabelecido por sua re- lação com o alimento). O estímulo anteceden- te à resposta de bicar o disco da direita foi a iluminação do disco da esquerda (suposta OEC transitiva). Quando o disco da esquerda não estava iluminado, bicar o disco da direita não estabelecia o valor da iluminação do disco cen- tral como reforçador. De acordo com a con- cepção teórica de Michael (1982, 1993), a ilu- minação do disco da esquerda deveria funcio- nar como uma OEC transitiva, por estabelecer a iluminação do disco central com uma forma efetiva de reforçador condicionado (efeito estabelecedor do reforço) e evocar a resposta de bicar o disco da direita (efeito evocativo). A efetividade reforçadora do disco central es- tava condicionada à iluminação do disco da esquerda. Um efeito eficaz da operação estabe- lecedora deveria produzir um desempenho que consistia em esperar a iluminação do disco da esquerda, então, bicar o disco da direita, cuja conseqüência imediata era a iluminação do disco central e, finalmente, bicar o disco cen- tral, que resultava em alimento. McPherson e Osborne (1986) verificaram que o controle não foi evidente depois de 60 ou mais sessões. Apenas um entre quatro pom- bos demonstrou o desempenho previsto. No se- gundo estudo (McPherson e Osborne, 1988) alterou-se o tempo de iluminação dos discos do centro e da esquerda, visando a um maior controle dos estímulos antecedentes. Quando o disco da esquerda era iluminado, em média 12 s depois da iluminação do disco central, o controle pela OEC (iluminação do disco da es- querda) sobre a resposta no disco da direita foi, em geral, muito fraco. Os experimentos de McPherson e Osborne (1986, 1988) trouxeram contribuições para o início das pesquisas experimentais sobre o con- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4436 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 37 ceito de operações estabelecedoras, pois foram analisadas as dificuldades que o procedimen- to de três chaves apresentava. Entre essas difi- culdades, há a possibilidade de que as contin- gências nos três discos permitam uma inter- pretação de automodelagem de alguns aspec- tos do desempenho, porque as respostas de bicar os discos da direita e do centro foram automodeladas e, uma vez que esses discos fo- ram iluminados, assim permaneciam até o tér- mino da tentativa. Outro fator que talvez te- nha dificultado a demonstração empírica dos efeitos da OE foi o fato de a iluminação do dis- co central (reforço condicionado para a res- posta do disco da direita) permanecer até a obtenção do alimento. Essa situação poderia reduzir o contato com tentativas sem uso do disco central quando o disco da esquerda esta- va escuro. Se a iluminação do disco central fos- se estabelecida em alguns segundos, seria pos- sível um maior controle da função motivacional do disco da esquerda. Essa característica do pro- cedimento também fez com que a suposta OEC funcionasse como um estímulo discriminativo para bicar o disco central quando o mesmo es- tava iluminado antes da condição de OEC. Procedimento de pedal-e-disco Alling (1990) utilizou um procedimento com topografias de respostas diferentes. A res- posta de pressionar um pedal produziaum re- forço condicionado, e a resposta de bicar um disco produzia um reforço incondicionado. Esse procedimento consistia em uma cadeia de duas respostas: a resposta de pressionar o pedal produzia a mudança da cor da luz acima do pedal – de branca para vermelha – (reforço condicionado), e a resposta de bicar o disco produzia 3 s de ração para pombos (reforço incondicionado). Uma única resposta no pe- dal tinha como conseqüência a apresentação do reforço condicionado por 5 s (luz do pe- dal). Uma única resposta no disco da esquer- da, na presença da luz vermelha (luz do pe- dal), produzia alimento por 5 s, dependendo da condição da iluminação da câmara experi- mental que deveria funcionar como a suposta OEC transitiva para a resposta de pressionar o pedal. A luz da câmara apagada foi definida como ausência da OE. Quatro pombos foram distribuídos em dois grupos a fim de balance- ar as condições experimentais: para o Grupo 1, a presença de luz ambiente funcionava como presença da OEC, e sua ausência funcionava como ausência da OEC; para o Grupo 2, as condições experimentais foram invertidas. Cada tentativa experimental começava com a condição de não-OEC, sendo a condição de OEC gerada com base em um esquema de VT 60 s. Quando a condição de OEC começava, ela permanecia em efeito até a obtenção de alimento. O desempenho esperado era não pressio- nar o pedal até que a condição de OEC (luz ambiente acesa ou apagada, dependendo do grupo) estivesse presente, então, a resposta no pedal produziria a mudança de cor da luz do pedal de branca para vermelha e, se em 5 s o pombo bicasse o disco da esquerda, essa res- posta seria seguida por 3 s de acesso ao ali- mento. Todos os quatro pombos desenvolve- ram o desempenho previsto (em 90% ou mais das tentativas verificou-se que a resposta no pedal ocorria na presença da suposta condi- ção de OEC). Na segunda fase – o teste – re- moveu-se a conseqüência para a resposta no pedal, de modo que a luz branca estava sem- pre presente (luz do pedal). Como resultado dessa mudança, esperava-se que ocorresse a quebra na cadeia comportamental, o que não foi observado. A luz da câmara experimental pode ter funcionado como um estímulo discriminativo e não como uma OEC para a resposta no pedal. Supõe-se que a cadeia de duas respostas tenha funcionado como um único bloco de resposta, pois um esquema de razão fixa (FR 1) controlava a resposta de pres- sionar o pedal e, provavelmente, a resposta no disco estivesse mais sob o controle da luz da câmara experimental do que da luz produzida pela resposta no pedal. Outro aspecto que pode ter contribuído para esse resultado foi o uso de dois estímulos visuais, pois a condição de iluminação (luz/escuro) poderia criar condi- ções de estímulos diferentes quando a luz do pedal estivesse branca ou vermelha. Por exem- plo, a luz vermelha acima do pedal poderia ser caracterizada como uma condição de estímulo Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4437 38 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. diferente se a câmara operante estivesse ilu- minada ou escura. A terceira fase consistiu em retomar as condições experimentais da primei- ra fase para se verificar a recuperação da res- posta sob as duas condições experimentais. Como resultados dessa fase, os quatro pombos retomaram a resposta no pedal na presença da OEC em 90% ou mais das tentativas. Para dar continuidade aos estudos expe- rimentais de OECs transitivas, da Cunha (1993) utilizou um esquema de razão variável (VR 6) para controlar a resposta de pressionar o pe- dal que produzia a mudança da luz do pedal (de branca para vermelha) por 5 s. Um estí- mulo auditivo funcionava como a suposta OEC (um som tipo bip), cuja apresentação foi con- trolada por um esquema de tempo randômico (RT 1 min). Quatro pombos foram distribuí- dos em dois grupos: para um grupo, a presen- ça do som era a suposta OEC e, para o outro, sua ausência era a suposta OEC; seus opostos estabeleciam a condição de não-OEC. A medida comportamental dos estudos anteriores foi o percentual de tentativas sem erro (McPherson e Osborne, 1986, 1988; Alling, 1990). Da Cunha (1993) verificou que a taxa de respostas era uma medida mais sen- sível do que a percentagem de tentativas sem erro ao introduzir um esquema de reforçamen- to intermitente para a resposta de pressionar o pedal. Para todos os sujeitos, verificou-se ni- tidamente que a taxa de respostas de pressão ao pedal na condição de OEC foi maior do que na condição de não-OEC. A taxa de respostas de pressão ao pedal na presença da suposta OEC variou de 24 a 27 resp/min, enquanto a taxa de respostas de pressão ao pedal na au- sência da suposta OEC variou de 2 a 8 resp/ min, considerando os dados dos quatro sujei- tos. A segunda fase teve como objetivo testar o controle da suposta variável motivacional, re- movendo o evento reforçador condicionado da resposta de pressão ao pedal (luz vermelha do pedal). Esperava-se uma deterioração da ca- deia comportamental durante a fase de teste, sendo esse resultado observado apenas para dois dos quatro pombos. Os demais sujeitos desenvolveram um padrão de pressionar o pe- dal várias vezes e, então, bicar o disco. A ter- ceira fase do procedimento consistia na reto- mada da Fase 1. Algumas falhas nesse proce- dimento também foram observadas; por exem- plo, não havia uma contingência punitiva para as respostas de mudança do pedal para o dis- co. Verificou-se que os dois sujeitos que manti- veram a resposta no pedal depois da remoção do reforçador condicionado tiveram, aciden- talmente, as respostas de mudança reforçadas. Observou-se, também, que o decréscimo da taxa de respostas na condição de não-OEC po- deria ter sido mascarado pelo efeito da extinção presente nessa mesma condição. Esses estudos contribuíram com sugestões para refinamentos de delineamentos experi- mentais e têm reafirmado a importância da dis- tinção dos controles discriminativo e motiva- cional dos estímulos antecedentes para se de- monstrar com clareza os efeitos de uma ope- ração estabelecedora. Contribuições da pesquisa aplicada Segundo Sundberg (1993), o conceito de OE é útil e relevante para a análise funcional do comportamento, permitindo que a interven- ção dos analistas do comportamento seja mais efetiva. A OE exerce um importante papel na relação de contingência, uma vez que estabe- lece a efetividade da conseqüência. É sabido dos analistas do comportamento que a relação de contingência (antecedente – comportamen- to – conseqüência) é fortalecida quando uma conseqüência reforçadora efetiva é apresenta- da ao comportamento. A efetividade dessa con- seqüência é alterada pela OE que estabelece o valor do reforço e evoca comportamentos re- lacionados historicamente com esse reforço. As conseqüências terão efeitos sobre o comporta- mento somente se forem efetivas como reforça- dores ou punidores, cabendo à OE estabelecer essa efetividade; portanto, é de fundamental importância considerar a inclusão da OE como mais um elemento da relação de contingência. Como veremos, a pesquisa aplicada tem muito a dizer sobre a relevância do conceito. Na tentativa de explicar tanto a ocorrên- cia de comportamentos quanto a efetividade das conseqüências que os mantém, analistas do comportamento vêm, cada vez mais, incluin- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4438 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 39 do o conceito de OE na unidade de análise fun- cional. Um exemplo disso é a publicação de um volume do Journal of Applied Behavior Analysis (JABA) inteiramente dedicado a dis- cussões sobre operações estabelecedoras na análise aplicada do comportamento (JABA, 2000, 33 [4]). Para estimular pesquisas sobre o tema, Iwata e colaboradores (2000) sugerem três grandes temas de pesquisa para a avaliação das influências da OE sobre o comportamento em contextos aplicados: a) demonstrações gerais das influências da OEsobre o comportamento; b) uso da manipulação da OE para clari- ficar os resultados de avaliações comportamentais; c) tentativa de melhorar o repertório comportamental do sujeito pela incor- poração de manipulações da OE como componente do tratamento. Friman (2000) apresenta uma demons- tração de que objetos chamados de transacio- nais – objetos que facilitam a transição de crian- ças jovens de uma fase de dependência para autonomia – podem ocasionar comportamen- tos que sugerem a participação de uma OE. O autor observou uma criança com o comporta- mento de chupar o dedo, sob duas condições: em uma condição, a criança estava no berço sozinha (ausência de estimulação social) e, na outra, ela estava no colo de um adulto (pre- sença de estimulação social). Nessas condições, o comportamento de chupar o dedo foi obser- vado em sessões de linha de base (ausência de um pedaço de pano) e sessões de teste (pre- sença de um pedaço de pano). Os resultados mostraram que o comportamento de chupar o dedo na presença do pedaço de pano ocorria mais freqüentemente quando a criança estava no berço do que quando estava no colo. Du- rante a linha de base, nas duas condições de estimulação a percentagem de intervalos de chupar o dedo foi zero. A presença do pedaço de pano pode ter funcionado como uma OE para o comportamento de chupar o dedo, uma vez que esse objeto poderia ter alterado a efetividade reforçadora da conseqüência des- se comportamento. Friman discute que a efeti- vidade reforçadora dessa conseqüência possa ter ocorrido em função de uma OEC (pedaço pano), pois o processo pelo qual o objeto al- tera a efetividade reforçadora de chupar o dedo, mesmo sendo desconhecido, parece ser aprendido. McCommas, Hoch, Paone e El-Roy (2000) indicaram que exigências ambientais poderi- am funcionar como operações estabelecedoras que evocavam comportamentos agressivos, autolesivos e perturbadores, reforçados nega- tivamente, em crianças com diagnóstico de deficiências intelectuais. Essas exigências envolviam a realização de tarefas acadêmicas difíceis, repetitivas ou em uma seqüência de- terminada por um adulto. A manipulação expe- rimental consistiu na presença e na ausência da suposta OE com três crianças. A primeira criança, que apresentava dificuldade em ope- rações matemáticas, foi exposta às seguintes condições: a) disponibilidade de uma folha de pa- pel com as contas a serem realizadas; b) disponibilidade de uma folha de pa- pel com as contas, incluindo um ábaco e uma calculadora. A segunda criança foi exposta a estas con- dições: a) realização de tarefas repetitivas; b) realização de tarefas não-repetitivas. A terceira criança foi exposta às seguin- tes condições: a) escolha por um adulto da seqüência de tarefas acadêmicas; b) escolha pela criança da seqüência de tarefas. Os resultados mostraram que a maneira como as tarefas acadêmicas foram exigidas fun- cionou como operação estabelecedora. Diante da segunda condição, os comportamentos-pro- blema não foram observados, sendo essa con- dição favorável à emissão de comportamentos acadêmicos mais adequados. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4439 40 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. A intervenção do analista do comporta- mento com o objetivo de reduzir a ocorrência de comportamentos inadequados mantidos por reforçamento negativo torna-se efetiva quando o conceito de operação estabelecedora é utilizado. Smith e Iwata (1997) discutiriam que comportamentos estereotipados e auto- lesivos são padrões comportamentais que po- dem ser controlados pela remoção de exigên- cias sociais. A exigência social funciona como uma operação estabelecedora que determina sua própria remoção como uma forma efetiva de reforço (OEC reflexiva). A dificuldade de uma tarefa, a complexidade do comportamen- to exigido para essa tarefa e a imprevi- sibilidade de eventos ambientais são exem- plos de exigências sociais. Uma primeira es- tratégia para a redução de comportamentos estereotipados e autolesivos evocados nessas situações seria a mudança das exigências ambientais para condições de menor aversi- vidade (apresentação de tarefas mais simples, por exemplo). Uma segunda estratégia seria o uso do esquema de reforço diferencial de outros comportamentos (DRO). O terapeuta pode reforçar os comportamentos mais ade- quados e submeter os comportamentos este- reotipados e autolesivos à extinção. Por exem- plo, permitir a fuga de uma exigência social diante de uma solicitação verbal e não diante de um comportamento autolesivo. Uma ter- ceira estratégia seria utilizar esquemas de reforçamento independente da resposta (p. ex.: os estudos de Durand e Crimmins, 1988; McGill, 1999). Durand e Crimmins (1988) e McGill (1999) sugerem que comportamentos-proble- ma mantidos por atenção, em geral são apre- sentados em ambientes caracterizados pela escassez de contato social. A carência produzi- da por um ambiente com essa natureza pode ser considerada uma operação estabelecedora que torna a atenção um reforço efetivo. Se, no passado, a autolesão e a agressão foram refor- çadas pela atenção social, obviamente a priva- ção de atenção evocará o comportamento tido como problema. Entretanto, se a carência de contato social (operação estabelecedora) for substituída por uma condição de maior acesso ao reforçamento social, pela liberação de aten- ção em esquemas de tempo fixo (FT), os com- portamentos autolesivos e agressivos podem diminuir de freqüência. Essa diminuição na fre- qüência comportamental ocorre devido à di- minuição da efetividade da atenção como re- forço, o que corresponde a uma operação abolidora. Em um estudo envolvendo a manipula- ção da operação estabelecedora como estraté- gia de tratamento de comportamentos-pro- blema, Kahng, Iwata, Thompson e Hanley (2000) forneceram evidências de que a apre- sentação de reforçamento social em esquema de reforçamento de tempo fixo (FT) promove a redução desses comportamentos. Duas con- dições experimentais foram apresentadas a três indivíduos com diagnóstico de Retardo Men- tal. Na condição FT-EXT houve a liberação de reforços sociais de acordo com um esquema FT e extinção para a ocorrência de comporta- mentos-problema, durante 10 min. Na condi- ção EXT subseqüente não houve liberação de reforços sociais durante 20 min. As condições experimentais foram manipuladas dentro de uma mesma sessão. Os resultados da condição FT-EXT revelaram que a apresentação do re- forço sob o esquema FT contribuiu para a re- dução dos comportamentos-problema, em fun- ção de dois possíveis efeitos: primeiro, o reforçamento sob esquema FT pode ter gera- do um efeito semelhante à saciação, devido ao acesso freqüente ao reforço; segundo, a extinção que ocorria simultaneamente pode ter sido a responsável pela diminuição na freqüên- cia do comportamento. A condição EXT visou a testar se esses resultados ocorreram em fun- ção da saciação ou da extinção. Se ocorresse um aumento inicial na freqüência dos compor- tamentos-problema, poderia ser dito que a saciação foi a responsável pela redução desses comportamentos durante o reforçamento sob o esquema FT. Caso contrário, os resultados obtidos pela extinção poderiam ser explicados. Os resultados indicaram que diante da condi- ção EXT, o comportamento-problema perma- neceu com baixa freqüência. Esse dado sugere que os efeitos da extinção durante a apresen- tação do esquema FT podem ter permanecido durante a condição EXT. Assim, a transição entre as condições FT-EXT (reforço presente) Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4440 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 41 e EXT (reforço ausente) pode não ter sido re- levante para evocar o comportamento-proble- ma. Os autores discutem ainda que a dificul- dade de utilização de esquemas FT deve-se ao fato de que nesses esquemas há um compo- nente de extinção presente, o qual obscurece os efeitos diferenciadosda saciação e da extinção, embora ambos os efeitos possam ser responsáveis pela redução da freqüência do comportamento (ver também Hagopian, Crockett, van Stone, DeLeon e Bowman, 2000). Implicações do conceito de operações estabelecedoras para a clínica A clínica analítico-comportamental é ca- racterizada por uma proposta de intervenção que visa não só à mudança de comportamen- tos, mas à identificação das variáveis que os mantém. Skinner (1953/2000) afirmou que não se pode esperar uma explicação adequada do comportamento sem que suas relações com essas variáveis sejam analisadas. O clínico ana- lítico-comportamental que está interessado em fazer uma intervenção adequada no contexto terapêutico deve ter clareza dos diferentes pa- péis das variáveis das quais o comportamento é função. Os problemas comportamentais têm sido explicados com base na contingência tríplice (antecedente – comportamento – con- seqüência), em que os eventos antecedentes históricos e atuais são identificados sem, às vezes, serem distinguidos como eventos com funções comportamentais particulares. Skinner (1953/2000, p. 34) chamou a atenção para certos eventos ambientais que têm funções específicas sobre o comportamen- to. Esses eventos podem atuar no sentido de, certamente, produzir comportamento: É decididamente falsa a afirmação de que se pode levar um cavalo até a água, mas que não se pode fazê-lo beber. Privando-o de água por algum tempo, poderemos estar “absolutamen- te certos” de que o cavalo irá bebê-la assim que chegar até ela. Essa afirmação revela a presença da pri- vação (OE) como variável determinante do comportamento. É claro que outras variáveis (história de condicionamento, potencial bio- lógico) também participam do processo de pro- dução de comportamento, mas é notório o pa- pel da OE. Desse modo, a clareza do papel dessa variável permitirá uma intervenção mais efeti- va do terapeuta analítico-comportamental. Sundberg (1993) sugere que o analista do com- portamento, ao incluir a análise da OE no con- texto clínico, como um termo a mais na rela- ção de contingência, poderá: a) tatear as operações estabelecedoras no ambiente natural de vida do cliente; b) manipular as operações estabelecedo- ras no momento em que podem estar atuando com maior força; c) distinguir seus efeitos motivacionais dos efeitos discriminativos sobre o comportamento. No contexto de vida humana, são obser- vadas algumas operações estabelecedoras co- muns. Carências afetivas (atenção, sexo, reco- nhecimento social, prestígio, popularidade, en- tre outras), carência de bens de consumo (rou- pas, automóveis, imóveis entre outras), carên- cia de lazer e diversão são situações que exer- cem papel de operações estabelecedoras, as quais estabelecem a efetividade reforçadora de certos estímulos, objetos ou eventos. Ao reali- zar a coleta de dados, o terapeuta deve identi- ficar e tatear as possíveis operações estabelece- doras em atuação, bem como verificar seus efei- tos sobre os padrões de comportamento apre- sentados por seu cliente. Em alguns casos de escassez de contatos sociais (carência de atenção e de reconheci- mento), por exemplo, o indivíduo pode apre- sentar padrões de comportamento de insistên- cia e cobrança queixosa em relação ao outro. Esses comportamentos podem, inclusive, ocor- rer na relação terapêutica (p. ex.: um cliente que descreve que ninguém se interessa ou se preocupa com ele e, fitando os olhos do terapeuta, diz enfaticamente: “Ninguém me ama!”). Esse comportamento pode consistir em um mando disfarçado de tato. O terapeuta pode apresentar estímulos discriminativos, na pre- sença dos quais a disponibilidade diferencial de reforço social é maior do que na sua ausên- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4441 42 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. cia e, portanto, o comportamento verbal é evo- cado. No entanto a privação de afeto (OE) pa- rece ser a variável controladora da queixa em relação aos outros, que, na verdade, está sen- do dirigida ao terapeuta. Uma estratégia a ser utilizada pelo clínico analítico-comportamen- tal, em casos desse tipo, poderá ser o reforço diferencial de outras iniciativas comporta- mentais do cliente (DRO) e a liberação de re- forço social em esquemas de tempo fixo (FT), o que pode minimizar os efeitos da carência afetiva por meio de um efeito contrário à ope- ração de privação (saciação). Minimizados os efeitos da carência afetiva, o terapeuta poderá modelar comportamentos mais adequados no repertório comportamental do cliente, come- çando, por exemplo, pela clareza na comuni- cação do que se quer: “Valorize-me! Dê-me amor!”. Michael (1993) define uma OE com base em seus efeitos momentâneos (efeito evocativo e efeito estabelecedor do reforço), consideran- do apenas eventos temporalmente próximos. Daugher e Hackbert (2000), entretanto, dis- cutem a possibilidade de que eventos tempo- ralmente distantes funcionam como operações estabelecedoras, as quais apresentam um efei- to mais duradouro. Esse efeito poderia ser con- siderado em termos de cognição e de emoção. Eventos como a perda de um grande amor, abu- so sexual, trauma, seqüestro, entre outros, são eventos que geram fortes emoções e que alte- ram a efetividade reforçadora/punidora de ou- tros eventos ambientais, inclusive a longo pra- zo. Instruções verbais como “mantenha-se lon- ge do casamento, você pode sofrer” ou “você tem de ser o melhor” estabelecem o valor de certos objetos, eventos ou condições de estí- mulo como reforçadores, valor esse que tam- bém pode perpetuar-se na vida de uma pes- soa. Essas condições, em geral, quando obser- vadas no contexto clínico, caracterizam os efei- tos de uma OE a longo prazo. Skinner (1953/ 2000) afirma que as relações entre as variá- veis ambientais e o comportamento, que delas é função, são quase sempre complexas e sutis, adquiridas a partir de uma história de interação do organismo com o ambiente. Diante dessa ótica, Daugher e Hackbert sugerem uma aná- lise de relações possivelmente sutis que preci- sam de esclarecimentos resultantes de muita reflexão. As relações entre operações estabelece- doras e estados emocionais podem ser com- plexas e intrincadas. Contextos históricos de grave privação de alimento podem manter comportamentos de estocagem de alimento, sem que haja necessidade. O mesmo pode acon- tecer com indivíduos submetidos a privações de afeto por períodos prolongados. Esses indi- víduos podem apresentar alta freqüência de comportamentos reforçados por afeto, mesmo em situações em que não haja carência, e sen- timentos de menos valia e rejeição, os quais se perpetuam por longos períodos na vida. Clien- tes que apresentam histórias prolongadas de carência afetiva, rejeições, ridicularizações e críticas têm, em certos eventos ambientais, reforçadores/punidores efetivos. A história de interação prolongada efetivamente determina as funções comportamentais de relações sociais e interpessoais afetivas como reforçadores e do isolamento ou solidão como punidores. Por exemplo, um dos autores atendeu um cliente que apresentava um quadro de pânico e observou a presença de respostas emocionais típicas e de padrões de esquiva das situações que provocam essas respostas emocionais. O cliente queixava-se de medo de morte iminen- te quando se deparava com situações de via- gens de avião do casal ou do cônjuge, de ne- cessidade de andar de elevador ou de ter de sair da sua cidade por mais de dois dias. Os dados a respeito de sua história de vida in- dicaram a presença prolongada de críticas e de ridicularizações dos familiares, desqualifi- cação de qualquer iniciativa comportamental do cliente e carência afetiva em relação aos pais e irmãos. Esse contexto de desproteção afetiva (operação estabelecedora) alterou tan- to a efetividade reforçadora de qualquer interação social e interpessoal afetiva de cui- dado e proteção quantoa efetividade punidora de situações de isolamento, de avaliação, de críticas e de rejeições. Essas situações, no con- texto do referido cliente, provocavam respos- tas emocionais de pânico e evocavam compor- tamentos de esquiva. Em casos de depressão, a persistência de níveis insuficientes de reforçamento, a perda Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4442 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 43 de grandes fontes de reforço e o excesso de punições e de estimulações aversivas produ- zem efeitos comportamentais, como, por exem- plo, diminuir a freqüência de comportamen- tos adequados, eliciar reações emocionais ne- gativas e alterar a efetividade de conseqüên- cias de certos comportamentos. Essas condi- ções de estímulos, como operações estabele- cedoras, podem estabelecer a efetividade re- forçadora da atenção, da valorização, da assis- tência e de cuidados especiais, além de po- tencializar o valor reforçador do alimento, do isolamento, do sono, de drogas ou álcool. E, ainda, as contingências geradoras da depres- são podem abolir a efetividade reforçadora da interação social, do trabalho e de atividades de lazer (Daugher e Hackbert, 2000). Em ge- ral, os comportamentos depressivos são refor- çados negativamente. Por exemplo, a esquiva pode ser reforçada pela prevenção de inte- rações sociais, uma vez que esses tipos de interações, no passado, estiveram relacionadas a algum tipo de crítica negativa. Por outro lado, os comportamentos depressivos podem ser re- forçados positivamente pela atenção, pelos cui- dados e pela assistência de parentes mais pró- ximos. Uma estratégia de atuação terapêutica, em casos de depressão, seria apresentar o re- forço social contingente aos comportamentos mais adequados e não aos comportamentos depressivos. Dessa forma, o aumento na den- sidade de reforçamento de outros comporta- mentos pode produzir o aumento na freqüên- cia de comportamentos mais funcionais e a di- minuição na freqüência dos comportamentos depressivos. A partir dessa intervenção, pode- se modelar comportamentos mais funcionais no repertório comportamental do cliente, de modo que as contingências de reforço natu- rais mantenham esses comportamentos em alta freqüência. Na terapia, os comportamentos verbais do cliente e do terapeuta são de fundamental im- portância. A audiência não-punitiva estabe- lecida no contexto terapêutico permite ao clien- te falar a respeito de sua vida e de suas ex- periências sem o risco do julgamento. A ver- balização de certos eventos traumáticos per- mite a diminuição de seu impacto negativo sobre a vida do cliente, por um processo de dessensibilização, no qual os estímulos elicia- dores relacionados à situação traumática per- dem gradualmente o poder eliciador de res- postas emocionais negativas. Esse processo de dessensibilização e de extinção respondente altera as funções reforçadoras positivas e ne- gativas de certas contingências relevantes na vida do cliente, permitindo o aumento na fre- qüência de alguns comportamentos adequados e a diminuição na freqüência de comportamen- tos inadequados. Esses comportamentos estão relacionados às contingências de reforço cuja efetividade é alterada pela verbalização. Portanto, a alteração da OE funciona como um ponto-chave para uma intervenção efetiva por parte do analista do comportamen- to junto aos casos clínicos apresentados no consultório de psicologia, na tentativa de me- lhorar o repertório comportamental do cliente e, conseqüentemente, sua qualidade de vida. CONCLUSÃO Um dos aspectos fundamentais da pro- posta de Michael é a possibilidade de a análise do comportamento investigar o controle de va- riáveis motivacionais, como variáveis indepen- dentes, proporcionando, de certa forma, o res- gate do tópico de motivação nesta abordagem. As operações estabelecedoras designam um ins- trumento conceitual e metodológico para o estudo experimental do tópico de motivação. O maior impacto do conceito de opera- ção estabelecedora tem sido sobre a análise aplicada do comportamento, considerando os vários contextos de aplicação. Segundo Iwata e colaboradores (2000), vários temas de pes- quisa estão envolvidos na aplicação da opera- ção estabelecedora. Para esses autores, as pes- quisas de manipulação da variável motiva- cional, como componente relevante para a aná- lise funcional do comportamento, são as mais importantes porque podem potencializar as intervenções. Inúmeras são as possibilidades de aplicação do conceito de operação estabe- lecedora na análise do comportamento, como, por exemplo, nos contextos de medicina comportamental, de clínica, de educação, de organizações, de esportes, entre outros. Inde- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4443 44 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. pendentemente do contexto em que ocorra, o comportamento sempre será o mesmo – um fenômeno natural determinado por variáveis ambientais. A tarefa do analista do comporta- mento é identificar e analisar as relações entre o comportamento e os eventos ambientais para, assim, programar contingências de reforça- mento efetivas em sua prática em quaisquer um desses contextos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alling, K. L. (1990). 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Diversos estudos têm indicado que esse controle ambiental pode ser estabelecido por uma história de exposição a contingências de reforçamento e punição (Baron e Leinenweber 1995; Bickel et al., 1988; Cohen et al., 1994; Cole, 2001; Freeman e Lattal, 1992; Johnson et al., 1991; LeFrancois e Metzger, 1993; Nader e Thompson, 1987; Nevin e Grace, 2000; Ono e Iwabuchi, 1997; Poppen, 1982; Taylor, O’Reilly e Lancioni, 2000; Urbain et al., 1978; Wanchisen, 1990; Wanchisen e Tatham, 1991; Wanchisen, Tatham e Mooney, 1989; Weiner, 1964; 1965; 1969). Entretanto muitos pesquisadores em aná- lise do comportamento têm mostrado desinte- resse pelos efeitos da história de reforçamento, os quais comumente são minimizados ou ocul- tados (Baer, Detrich e Weninger, 1988; Hayes et al., 1985). Tal desinteresse está baseado em dois argumentos. Primeiro, os efeitos de histó- ria, quando observados, denotariam deficiên- 3 A sensibilidade comportamental é um fa- tor primordial para a manutenção das espé- cies, tendo em vista as mudanças constantes que ocorrem no ambiente. De acordo com Madden, Chase e Joyce (1998), um comporta- mento é considerado sensível se apresentar uma mudança sistemática e replicável diante de mudanças nas contingências de reforça- mento. Por outro lado, se a contingência mu- dar, mas o comportamento permanecer inal- terado, este será considerado insensível às contingências. A literatura tem demonstrado que a sensibilidade comportamental é afeta- da, dentre outras variáveis, pela história pas- sada de reforçamento. Estudos que investigam os efeitos da história passada procuram pro- duzir um responder estável sob diferentes es- quemas de reforçamento, realizando, em se- guida, alguma modificação nesses esquemas e observando se os resultados de tal modifica- ção apresentam diferenças em função dos es- quemas iniciais. O efeito de variáveis históri- cas é exemplificado por estudos que mostram que o organismo tende a apresentar um res- ponder similar àquele encontrado antes da mu- dança no esquema de reforçamento em vigor, principalmente quando essa mudança não é si- nalizada (LeFrancois e Metzger, 1993; Ono e Iwabuchi, 1997; Wanchisen e Tatham, 1991). Neste capítulo, será apontada a importân- cia de pesquisas sobre história de reforçamento, bem como serão apresentadas algumas defini- ções para o termo e contribuições de pesqui- sas básicas e aplicadas sobre esse tema. Final- mente, será discutida a relevância de se consi- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4445 46 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. cia no controle experimental: se as variáveis manipuladas na contingência atual não pro- duziram mudanças sistemáticas no desempe- nho, conclui-se que o controle experimental não foi adequado para minimizar os efeitos de variáveis passadas às quais o sujeito foi expos- to. Segundo, apesar das condições passadas de reforçamento e punição, a única maneira de modificar o comportamento seria a partir de manipulações nas contingências atuais; por- tanto, o interesse principal deveria ser a ela- boração de intervenções eficazes para mudar comportamentos inadequados, não importan- do investigar como esses comportamentos fo- ram adquiridos. Esses argumentos apresentam alguns pro- blemas. Primeiro, de acordo com Cirino (2001, p. 138), quando os resultados de um estudo são atribuídos a variáveis históricas não-controla- das, transforma-se a história de reforçamento na “lata de lixo” da análise do comportamento. Para evitar que isso ocorra, por outro lado, é necessário que os efeitos de contingências his- tóricas sejam investigadas como variáveis inde- pendentes. Segundo, de acordo com Lattal e Neef (1996), como as contingências atuais afe- tam o comportamento em função de histórias de reforçamento distintas, a compreensão dos efeitos da história possibilitaria a elaboração de intervenções eficazes no sentido de tornar um comportamento inadequado (ou um comporta- mento adequado), produzido por contingênci- as passadas, menos (ou mais) resistente aos efei- tos das contingências atuais. Ainda que os efeitos de variáveis histó- ricas sejam considerados relevantes, a falta de uma definição consensual para o termo “histó- ria de reforçamento” dificulta a identificação dos estudos que investigam tais variáveis. Co- mo observou Cirino (2001), essa indefinição é refletida na profusão de termos utilizados in- distintamente para se referir aos efeitos de con- tingências passadas sobre o comportamento atual e sem uma preocupação em apontar suas definições; por exemplo, história de condicio- namento, história comportamental, história passada, história operante, história de esque- ma, história latente, história de desempenho e história de reforçamento. Uma vez que cada um desses termos pode ser definido diferente- mente, a sistematização dos estudos sobre efei- tos de história fica comprometida. Tatham e Wanchisen (1998) apresentaram uma definição para história comportamental ao argumentar que qualquer estudo sobre condicio- namento operante pode ser considerado um estudo sobre os efeitos de história. De fato, qual- quer mudança no comportamento descrita como aprendizagem operante revela o efeito de uma história de reforçamento. Por exemplo, em pro- cedimentos de modelagem, um desempenho só é alcançado porque houve, no passado, reforçamento diferencial de aproximações su- cessivas ao desempenho final desejado; um es- tímulo só adquire propriedades discriminativas devido a uma história de reforçamento diferen- cial na presença desse estímulo (isto é, o re- forçamento é mais provável na presença do es- tímulo do que em sua ausência) e um estímulo só adquire propriedades reforçadoras condicio- nadas por meio de uma história de pareamento sistemático com estímulos reforçadores incon- dicionados ou condicionados. No entanto definir história comporta- mental como condicionamento operante acar-retaria problemas que inviabilizariam os estu- dos de história, a saber: a) o termo se tornaria demasiado abran- gente para justificar seu uso, já que, de acordo com Tatham e Wanchisen (1998), todos os estudos que incluem comportamentos operantes aprendi- dos seriam, então, estudos sobre his- tória de reforçamento; b) o uso do termo seria desnecessário e redundante, dada a existência do ter- mo condicionamento operante que in- cluiria os mesmos fenômenos; c) não é possível a delimitação entre va- riáveis atuais e variáveis históricas, pois nenhum limite arbitrário no tem- po é estabelecido; d) é inviável acessar o efeito de todos os condicionamentos que ocorrem ao longo da vida de um organismo (Cirino, 2000). Autores como Metzger (1992), Freeman e Lattal (1992), Wanchisen (1990) e Sidman Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4446 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 47 (1960) propuseram outras definições de his- tória de reforçamento. De acordo com Metzger (1992), o termo história comportamental re- fere-se a exposições anteriores a contingênci- as de reforçamento e punição, as quais esti- veram em vigor tanto dentro quanto fora do laboratório. Dessa forma, estudos de história incluiriam todas as variáveis que afetaram o comportamento do organismo durante toda a sua vida. Essa definição apresenta os mes- mos problemas da definição anteriormente discutida. Outra definição, proposta por Freeman e Lattal (1992), afirma que a história de reforçamento é caracterizada por seus efei- tos, observados quando o controle exercido pelas contingências atuais é nitidamente in- fluenciado por contingências passadas. Essa definição parece apresentar os mesmos pro- blemas encontrados nas definições anterio- res; entretanto, de acordo com Cirino (2000), ela apresenta também um avanço na discus- são sobre variáveis históricas, uma vez que enfatiza os efeitos da interação de contingên- cias atuais e históricas sobre o comportamen- to, o que não havia sido considerado nas de- finições anteriores. Uma outra definição de história compor- tamental a ser considerada é aquela proposta por Wanchisen (1990, p. 32). De acordo com essa definição, história consiste na “exposição a contingências respondentes e operantes cui- dadosamente controladas em laboratório an- tes da fase de teste desejada”. Dessa forma, um estudo só poderia ser definido como estu- do de história se seu objetivo for, em uma fase de teste, acessar os efeitos das contingências passadas que contribuíram para a aquisição e para a manutenção da resposta atual. Cirino (2000) apresenta duas vantagens dessa defi- nição. A primeira vantagem refere-se à parcimônia, isto é, a definição apresenta uma delimitação: uma determinada história é construída e seus efeitos são avaliados em de- trimento dos efeitos de outras variáveis histó- ricas não-manipuladas, o que torna a defini- ção mais econômica. Segundo, a definição aponta a possibilidade de teste dos efeitos de variáveis históricas, como variáveis indepen- dentes, sobre o comportamento. A proposta de Sidman (1960) para a de- finição de história comportamental é consis- tente com a de Wanchisen (1990). Sidman ar- gumentou que variáveis históricas podem ser estudadas sistematicamente se forem arran- jadas certas experiências e se forem avalia- dos os efeitos dessas experiências no compor- tamento subseqüente. Ou seja, estudos de his- tória seriam aqueles que investigam a in- teração entre padrões comportamentais an- teriores (p. ex.: taxas de respostas altas ou baixas, pausas no responder) e contingências atuais. Os estudos baseados na proposta de Sidman têm utilizado o delineamento intra- sujeito ou de grupo, em que a exposição a esquemas de reforçamento diferentes, até que o desempenho alcance um determinado cri- tério de estabilidade, precede a exposição a um único esquema de reforçamento, que con- siste no teste. Alguns desses estudos serão descritos a seguir. CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA BÁSICA Com o objetivo de investigar os efeitos de duas histórias diferentes de condiciona- mento sobre a sensibilidade comportamental em esquemas de intervalo fixo em humanos, Weiner (1964) expôs três participantes a um esquemas de razão fixa 40 (FR, em que cada reforço é contingente à emissão de um de- terminado número de respostas) e três par- ticipantes a um esquema de reforçamento di- ferencial de taxas baixas 20 s (DRL, em que cada reforço é liberado apenas se houver transcorrido um intervalo mínimo entre duas respostas). Cada esquema foi sinalizado por um estímulo luminoso distinto e nenhuma instrução foi fornecida sobre a realização da tarefa. Em seguida, todos os participantes fo- ram expostos a um esquema de intervalo fixo 10 s (FI, em que uma resposta é reforçada se for emitida após transcorrido um determina- do intervalo a partir do último reforço). Du- rante a história de condicionamento sob o esquema FR 40 os participantes emitiram taxas de respostas relativamente altas e cons- tantes, enquanto sob o esquema DRL 20 s os participantes emitiram taxas de respostas bai- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4447 48 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. xas. Quando ambos os esquemas foram mu- dados para um FI 10 s, foi observada a ma- nutenção das taxas de respostas anteriormen- te aprendidas, indicando insensibilidade do desempenho à mudança na contingência em função da história passada. Essa manuten- ção do desempenho sugere ainda que a vari- abilidade da taxa de respostas em esquemas FI, observada em muitos estudos, pode ser atribuída a variáveis históricas não-contro- ladas. Em um estudo posterior, Weiner (1965, Emperimento 1) investigou se os efeitos da história passada seriam alterados pela adi- ção de uma contingência de custo da respos- ta. Para tanto, durante o treino, três grupos foram expostos a um esquema FR 40, FI 10 s ou DRL 20 s. O reforço consistia na adição de 100 pontos a um contador. Em seguida, os participantes foram expostos a um esque- ma FI 10 s com custo de resposta, que con- sistia na perda de um ponto para cada res- posta emitida antes do final do intervalo. Durante o treino sob o esquema FR 40, os participantes emitiram taxas de respostas re- lativamente altas e constantes; sob o esque- ma DRL 20 s, os participantes emitiram ta- xas de respostas baixas, apresentando pau- sas entre respostas e, sob o esquema FI 10 s, os participantes responderam em taxa inter- mediária e constante. Durante o teste, os par- ticipantes do grupo FR 40 emitiram respos- tas antes do término do intervalo, o que pro- vocou perda de pontos. Por outro lado, os participantes dos grupos FI 10 s e DRL 20 s obtiveram uma pontuação mais alta, pois emitiram poucas respostas entre os reforços. Esses resultados indicaram que o desempe- nho em FI foi influenciado pela história an- terior de condicionamento, apesar da perda de pontos que o comportamento controlado por variáveis históricas produziu. Visando a dar continuidade aos estudos anteriores sobre a história de reforçamento e custo da resposta, no Experimento 2, Weiner (1969) expôs os participantes de um dos três grupos experimentais a um esquema DRL 20 s seguido de um esquema FR 40. Depois des- sa história de condicionamento, os participan- tes foram expostos a um esquema FI 10 s com custo. Cada esquema de reforçamento foi si- nalizado por um estímulo luminoso diferen- te. O esquema DRL produziu taxas de respos- tas baixas e pausas entre respostas, enquanto o esquema FR produziu taxas de respostas al- tas e constantes; sob o esquema FI ocorreu um decréscimo na taxa de respostas, tendo os participantes apresentado taxas de respostas semelhantes àquelas observadas sob o esque- ma DRL. Para os participantes dos outros dois grupos, expostos ao esquema FR 40 ou DRL de 20 s, foi observada a manutenção das ta- xas de respostas anteriormente aprendidas (taxas alta e baixa, respectivamente), duran-te o teste com o esquema FI 10 s com custo ou FI 600 s sem custo. Novamente, os resul- tados mostraram que o responder em taxas altas e baixas pode ser produzido e controla- do experimentalmente por meio da manipu- lação das histórias de reforçamento. Além dis- so, o fato de ter sido observada uma mudan- ça na taxa de respostas sob o esquema FI com custo apenas para os participantes que foram expostos ao esquema DRL seguido do esque- ma FR indica que a exposição prévia ao es- quema DRL pode anular a insensibilidade comportamental resultante da exposição ao esquema FR. No Experimento 3 (Weiner, 1969), os efei- tos da história comportamental no desempe- nho subseqüente em esquemas FI foram inves- tigados como o uso de delineamento intra-su- jeito. Dois participantes foram expostos aos se- guintes esquemas, nessa ordem: FR 40, FI 10 s com custo, DRL 10 s com custo, FI 10 s com custo, FR 40 e FI 10 s com custo, sendo cada esquema sinalizado por um estímulo luminoso diferente. Ambos os participantes apresenta- ram taxas altas no esquema FR 40 inicial, que se mantiveram no esquema FI 10 s com custo subseqüente. Quando expostos ao esquema DRL 10 s com custo, ocorreu uma diminuição na taxa de respostas. Após esse esquema, am- bos os participantes apresentaram taxas bai- xas de respostas sob o esquema FI 10 s com custo, mesmo depois de reexpostos ao esque- ma FR 40, no qual responderam em taxas al- tas. Esses resultados indicaram, novamente, que a exposição ao esquema DRL pode gerar taxas baixas sob esquemas FI, mesmo depois Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4448 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 49 de terem sido produzidas taxas altas no esque- ma FR. Resultados similares foram observados com a utilização de um esquema de tempo fixo 10 s (FT, em que o reforço é liberado após trans- corrido um intervalo fixo de tempo, indepen- dente da emissão de respostas) com custo (Weiner, 1969, Experimento 4). Com o objetivo de investigar se os re- sultados encontrados por Weiner (1969, Ex- perimentos 2 a 5) seriam replicados com su- jeitos não-humanos, LeFrancois e Metzger (1993) separaram seis ratos em dois grupos. Os sujeitos do primeiro grupo foram expos- tos ao esquema DRL 20 s e os sujeitos do segundo grupo, expostos ao esquema DRL de 20 s seguido de um esquema FR de valores diferentes para cada sujeito. Em seguida, os sujeitos de ambos os grupos foram expostos a diferentes esquemas FI com valores deter- minados pela média de reforços obtidos nos esquemas anteriores. Todos os sujeitos apre- sentaram taxas baixas de resposta sob o es- quema DRL. Quando expostos ao esquema FR, os sujeitos do segundo grupo apresenta- ram um aumento na taxa de respostas, sen- do observada uma relação direta entre a taxa e o valor do esquema FR. No esquema FI, os sujeitos do primeiro grupo apresentaram um pequeno aumento na taxa de respostas; os sujeitos do segundo grupo, por outro lado, mantiveram as taxas altas de respostas ob- servadas no esquema FR. Esses resultados in- dicaram que o desempenho sob o esquema FI variou em função da taxa de respostas pro- duzida no esquema imediatamente anterior e que a história de reforçamento sob o es- quema DRL não diminuiu a insensibilidade comportamental produzida pela exposição mais recente ao esquema FR. Esses resultados são inconsistentes com aqueles encontrados por Weiner (1969, Expe- rimentos 2 a 5), em que a exposição prévia ao esquema DRL gerou taxas baixas sob o esque- ma FI. A discrepância entre os resultados pode ser atribuída a diferenças entre humanos e não- humanos relativas às histórias pré-experimen- tais e a diferenças nos procedimentos, como o método utilizado em cada estudo para a aqui- sição do comportamento, o tipo de reforço uti- lizado e o fato de, no estudo realizado por LeFrancois e Metzger (1993), não terem sido utilizados estímulos sinalizadores diferentes para cada esquema de reforçamento, ao con- trário do estudo realizado por Weiner (1969), em que a mudança do estímulo discriminativo sinalizava a alteração do esquema. O efeito da história de condicionamento também foi investigado com o uso de drogas que afetam o desempenho em esquemas de reforçamento. Urbain e colaboradores (1978), por exemplo, investigaram se variáveis histó- ricas afetariam os efeitos da d-anfetamina so- bre o desempenho de ratos em um esquema FI. O primeiro grupo foi exposto ao esquema FR 40, enquanto outro grupo foi exposto ao esquema DRL 11 s. Os valores dos esquemas foram estabelecidos de forma a igualar o nú- mero de reforços liberados por sessão para os dois grupos. Em seguida, todos os sujeitos fo- ram expostos ao esquema FI 15 s, durante o qual receberam ou uma injeção de salina, ou diferentes doses de d-anfetamina. Os resulta- dos mostraram que a taxa de respostas no es- quema FI, antes da aplicação da droga, variou em função da história experimental: taxas al- tas ou baixas produzidas pelos esquemas FR ou DRL, respectivamente, foram mantidas sob o esquema FI. Com a aplicação da droga, a taxa de respostas dos sujeitos que foram expostos anteriormente ao esquema FR diminuiu em relação à taxa de respostas na sessão com ad- ministração de salina, enquanto a taxa produ- zida pelo esquema DRL anterior aumentou. Os resultados indicaram que a história de reforçamento pode afetar o desempenho sob o esquema FI, o que replica os resultados dos es- tudos anteriormente descritos, e que o efeito da d-anfetamina foi função da história de reforçamento nos esquemas FR e DRL. Nos estudos anteriores, não somente os esquemas utilizados durante a fase de história eram diferentes, como também eram diferen- tes as taxas de reforços liberados pelos esque- mas (ver Urbain et al., 1978). Esse fato pode ter sido responsável pelos efeitos observados, já que vários estudos têm indicado que quanto maior a taxa de reforços obtida em um dado esquema de reforçamento menor será a mu- dança na taxa de respostas diante de mudan- ças no esquema (p. ex.: Cohen, Riley e Wiegle, Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4449 50 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. 1993; Hearst, 1961, Experimento 1; Nevin, 1974, Experimento 2). Para investigar essa pos- sibilidade, Freeman e Lattal (1992, Experimen- to 1) expuseram três pombos a duas sessões diárias separadas por um intervalo de 6 h: na primeira, o animal foi exposto a um esquema DRL e, na segunda, a um esquema FR (Fase 1). Os estímulos luminosos foram diferentes para cada esquema, e o valor do DRL determi- nava o valor do FR na sessão posterior de for- ma a igualar a taxa de reforços nos dois esque- mas. Em seguida, os esquemas FR e DRL fo- ram substituídos por dois esquemas FI (Fase 2), cujo valor foi determinado pela média do intervalo entre reforços (IRI) das 10 últimas sessões da fase anterior. Os estímulos lumino- sos não foram alterados. Na Fase 1, a taxa de respostas no esquema FR foi mais alta do que no esquema DRL. Na Fase 2, inicialmente, a taxa de respostas foi mais alta na presença do estímulo previamente correlacionado com o es- quema FR do que na presença do estímulo correlacionado com o esquema DRL. No en- tanto a taxa de respostas na presença dos dois estímulos luminosos tendeu a convergir para um valor intermediário ao longo das sessões. No Experimento 2, Freeman e Lattal (1992) investigaram se os efeitos de história seriam menos observados quando os esquemas FR e DRL fossem alterados para um esquema VI, uma vez que a taxa de respostas estável sob os esquemas FR e DRL produz regularida- de temporal na liberação de reforços, o que não acontece em esquemas VI. Para isso, três pombos ingênuos foram expostos às mesmas fases e condições do Experimento 1, porém es- quemas VI estavam em vigor na Fase 2. Assim como no Experimento 1, a taxa de respostas no esquema FR foi mais alta do que no esque- ma DRL durante a Fase 1 e, no início da Fase 2, as taxas continuaram diferenciadas.Entretan- to, para dois sujeitos, as taxas de respostas na presença dos estímulos luminosos convergiram para valores intermediários em um número menor de sessões do que no Experimento 1, indicando que o efeito da experiência prévia sobre a resposta foi menor no esquema VI do que no esquema FI e sugerindo que a distribui- ção temporal irregular entre reforços pode minimizar os efeitos da história (cf. Lattal, 1975). Os resultados encontrados nas primei- ras exposições à Fase 2, nos dois experimen- tos, indicaram controle dos estímulos discrimi- nativos presentes na fase de história sobre o responder subseqüente: isto é, a taxa de res- postas durante as primeiras sessões no esque- ma FI ou VI dependeram do estímulo sinaliza- dor relacionado a cada componente do esque- ma múltiplo. Outros estudos, como aquele realizado por Hanna, Blackman e Todorov (1992), apoi- aram os resultados encontrados por Freeman e Lattal (1992), ao mostrar que, quando os estímulos discriminativos permaneceram inal- terados após as mudanças em um esquema concorrente VI VI, houve manutenção dos pa- drões comportamentais anteriormente refor- çados; por outro lado, quando os estímulos discriminativos foram modificados, as taxas de respostas ajustaram-se aos novos esquemas. Dessa forma, os estudos de Freeman e Lattal (1992) e de Hanna e colaboradores (1992) indicam que, além da relação entre a resposta e o reforço (contingência R-S), uma outra va- riável que afeta os efeitos da história de reforçamento é a relação entre o estímulo discriminativo e o reforço (contingência S-S). Okouchi (2003) também avaliou o papel do controle discriminativo nos efeitos da his- tória de reforçamento mas, em vez de usar es- tímulos exteroceptivos, seu interesse recaiu sobre as funções discriminativas dos IRIs. Es- pecificamente, foi investigado se IRIs idênti- cos àqueles observados durante a Fase de His- tória funcionariam como estímulos discrimi- nativos e, assim como ocorre com estímulos exteroceptivos, controlariam os efeitos dessa história. Estudantes universitários foram expos- tos, na Fase de Treino, a um esquema mix FR DRL, no qual a mudança de um componente para o outro não é sinalizada. Os valores dos esquemas FR e DRL foram estabelecidos de forma a produzir IRIs diferentes em cada com- ponente. Em seguida, os participantes foram expostos à Fase de Teste, que consistiu em um esquema misto (mix) FI 5 s e FI 20 s por 12 sessões (Experimento 1) ou em seis esquemas FI, cujos valores variaram entre 5 s e 40 s (Ex- perimento 2). Sob o esquema mix FR DRL fo- ram produzidas taxas de respostas diferencia- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4450 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 51 das e maiores no esquema FR. Na Fase de Tes- te, as taxas de respostas sob o esquema FI fo- ram mais altas quando os IRIs desse esquema assemelhavam-se aos IRIs produzidos anteri- ormente pelo esquema FR; por outro lado, quando os IRIs do esquema FI assemelhavam- se àqueles produzidos anteriormente pelo es- quema DRL, as taxas de respostas foram bai- xas. Esses resultados sugerem que os IRIs po- dem desenvolver propriedades discriminativas e, dessa forma, afetar os efeitos da história. O objetivo do estudo conduzido por Ono e Iwabuchi (1997) foi investigar se o intervalo temporal entre a exposição às contingências de treino e de teste afetaria a adaptação do res- ponder às novas contingências, uma vez que, na maioria dos estudos sobre história, a fase de teste é iniciada no dia seguinte à última ses- são do treino (p. ex.: Freeman e Lattal, 1992; Wanchisen, Tatham e Mooney, 1989). Na pri- meira condição da primeira fase, os sujeitos (pombos) foram expostos a um esquema múl- tiplo – mult DRH (reforçamento diferencial de taxas altas, em que uma resposta é reforçada apenas se for emitida antes de transcorrido um determinado intervalo desde a última respos- ta) DRL –, sinalizados por luzes verde e ver- melha, respectivamente, e com taxas de refor- ços semelhantes. A segunda condição, inicia- da no dia posterior ao término da primeira, consistia em um esquema VI sinalizado por uma luz branca, cujo valor foi determinado pelo intervalo médio entre reforços das 10 últimas sessões da condição anterior. Em seguida, os sujeitos foram expostos à condição de teste que consistia em um esquema VI de valor idêntico àquele da segunda condição; entretanto, em sessões alternadas, a sinalização do esquema era idêntica à da primeira condição (luz verde e vermelha apresentadas randomicamente) ou à da segunda condição (luz branca). A segun- da fase do experimento foi idêntica à primei- ra, entretanto a primeira condição foi separa- da das condições subseqüentes por um inter- valo de seis meses. Os resultados da primeira fase indicaram que, após 10 sessões de teste, as taxas de respostas no esquema VI continua- ram diferenciadas na presença dos estímulos correspondentes ao esquema DRH e ao esque- ma DRL; entretanto, na segunda fase do estu- do, a diferença entre as taxas de respostas na presença dos estímulos previamente relaciona- dos ao esquema DRH e ao esquema DRL foi menor e menos duradoura do que na primeira fase, indicando que os efeitos de história fo- ram amenizados em função do intervalo de tempo entre o final da fase de história e o iní- cio da fase de teste. Manipulações no nível de saciação dos sujeitos também têm sido usadas para avaliar os efeitos da história passada. Um procedimen- to comumente utilizado para manipular o ní- vel de saciação consiste na alimentação pré- via, ou seja, no fornecimento de diferentes quantidades de alimento em algum momento antes da sessão experimental. Tal procedimento representa uma mudança na relação resposta- conseqüência porque modifica o valor do re- forço, alterando, assim, a taxa de respostas (para uma discussão mais completa sobre va- riáveis que alteram o valor do reforço, ver Ca- pítulo 2), entretanto a maneira como a taxa de respostas é alterada depende do esquema de reforçamento presente na fase de história (Aló, 2002) e de características desse esquema, tais como a densidade, a magnitude e o atraso do reforço (p. ex.: Bell, 1999; Harper, 1996; Nevin, Mandell e Atak, 1983). Para investigar os efeitos de manipulações no nível de saciação e da história de reforça- mento sobre a sensibilidade a mudanças nas contingências, Aló (2002) expôs pombos a um esquema mult FR DRL durante as três primei- ras condições experimentais. Inicialmente, foi determinada a quantidade máxima de alimen- to que cada sujeito, pesando 80% de seu peso livre, era capaz de consumir. Na condição de Linha de Base, todo o alimento diário era obti- do na sessão experimental (economia fecha- da). Em seguida, iniciou-se a condição de Tes- te de Sensibilidade 1, em que os sujeitos fo- ram separados em dois grupos: o Grupo 100% teve acesso a 100% da quantidade máxima de consumo, antes das sessões, enquanto o Gru- po 20% teve acesso somente a 20% dessa quan- tidade. Após a reexposição à Linha de Base, o procedimento de saciação foi repetido na con- dição de Teste de Sensibilidade 2. O esquema em vigor era um mult FI FI com valores idênti- cos, sendo que os estímulos sinalizadores pre- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4451 52 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. sentes nas condições anteriores não foram al- terados. Os resultados indicaram que, quando o esquema múltiplo não foi modificado (Teste de Sensibilidade 1), a taxa de respostas no com- ponente FR apresentou decréscimos apenas no maior nível de saciação (100%), enquanto a taxa DRL permaneceu inalterada nos dois ní- veis de saciação. Quando o esquema foi modi- ficado (Teste de Sensibilidade 2), as taxas “FR” (aquelas obtidas sob o estímulo sinalizador an- teriormente correlacionado com o esquema FR) decresceram até o maior nível de saciação e permaneceram inalteradas no menor nível de saciação, enquanto as taxas “DRL” (aquelas ob-tidas sob o estímulo sinalizador previamente correlacionado ao esquema DRL) aumentaram para ambos os níveis de saciação, de modo que as taxas nos dois componentes alcançaram va- lores semelhantes (como seria esperado em um esquema mult FI FI de valores idênticos) mais rapidamente para os sujeitos do Grupo 100%. Esses resultados mostraram que: a) a sensibilidade das taxas produzidas a despeito da mudança no esquema FR dependeu do aumento no nível de saciação, apesar da mudança no es- quema; b) a sensibilidade das taxas produzidas pelo esquema DRL dependeu da mu- dança no esquema de reforçamento, a despeito do nível de saciação; c) os efeitos do aumento no nível de saciação foram modulados pela histó- ria de reforçamento, contribuindo, as- sim, para uma transição mais rápida do controle da contingência passada para a contingência atual. Em suma, os estudos sobre história de reforçamento têm indicado, de uma forma ge- ral, que a história de exposição a esquemas de reforçamento pode produzir insensibilidade a mudanças nesses esquemas. Entretanto tal in- sensibilidade pode ser amenizada por variáveis como a exposição prévia a determinados tipos de esquema (Aló, 2002, Fase 2; Weiner, 1969, Experimentos 2 e 3), a diferença na regulari- dade temporal da liberação dos reforços nas fases de treino e de teste (Freeman e Lattal, 1992, Experimento 2; Okouchi, 2003), a dife- rença entre os estímulos sinalizadores nas fa- ses de treino e de teste (Hanna et al., 1992), o atraso entre o final da contingência histórica e o início do teste (Ono e Iwabuchi, 1997) e au- mentos no nível de saciação (Aló, 2002). CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA APLICADA Apesar de muitas pesquisas básicas indi- carem a importância de variáveis históricas para a compreensão do comportamento expos- to a novas contingências, tais variáveis não vêm sendo explicitamente investigadas em pesqui- sas aplicadas (Lattal e Neef, 1996). Um levan- tamento bibliográfico realizado no periódico mais importante da área, o Journal of Applied Behavior Analysis, revela apenas duas pesqui- sas cujo objetivo consistiu em avaliar os efei- tos da exposição a determinadas condições ex- perimentais sobre o comportamento em con- dições subseqüentes. Esses estudos serão des- critos a seguir. Martens, Bradley e Eckert (1997) pro- curaram investigar os efeitos de três históri- as de reforçamento diferentes sobre o engaja- mento de duas crianças em tarefas escolares durante o período de extinção. O procedi- mento incluiu quatro condições, nas quais o contato entre o experimentador e o partici- pante ocorria de acordo com um esquema FI 30 s durante os dois primeiros minutos de cada sessão; os oito minutos finais da sessão consistiam em extinção. Na Condição A, os observadores apenas registraram o engaja- mento dos participantes nas tarefas propostas pelo professor. Em seguida, os participantes foram expostos à Condição B, na qual rece- beram quatro elogios consecutivos (p. ex.: “Bom trabalho!”), contingentes ao engaja- mento na tarefa escolar. Durante a Condição C, os participantes receberam os mesmos elo- gios contingentes ao envolvimento na tarefa escolar durante o primeiro e o terceiro in- tervalo de 30 s dos dois primeiros minutos da sessão; durante o segundo e o quarto in- tervalos de 30 s foram fornecidas instruções para que os participantes voltassem a estu- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4452 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 53 dar, caso não estivessem engajados na tarefa proposta pelo professor (p. ex.: “Por favor, pare de conversar e trabalhe na sua tarefa”). Durante a Condição D, o procedimento foi semelhante àquele utilizado na Condição C; no entanto, no segundo e no quarto interva- los de 30 s, os participantes receberam aten- ção do experimentador contingente a com- portamentos de não-engajamento na tarefa escolar (p. ex.: “algumas vezes é bom fazer uma pausa no trabalho”). Considerando-se os dois primeiros mi- nutos de cada sessão (esquema FI 30 s), os resultados indicaram acréscimos na freqüên- cia do comportamento de estudo na Condi- ção B, para os dois participantes, em relação à freqüência observada na Condição A. Para o primeiro participante, a freqüência do com- portamento de estudo permaneceu constante a partir da segunda condição; para o segun- do participante, essa freqüência apresentou acréscimos adicionais na Condição C e decres- ceu na Condição D. Com relação aos períodos de extinção, para o primeiro participante, a freqüência do comportamento de estudo em relação à freqüência média desse comporta- mento nos dois primeiros minutos da sessão manteve-se constante na Condição B, apre- sentou aumentos na Condição C e diminuiu na Condição D. Para o segundo participante, foram observados decréscimos na freqüência do comportamento de estudo em relação aos dois primeiros minutos da sessão nas Condi- ções B, C e D, sendo mais abrupto na Condi- ção D. Esses resultados indicam que a histó- ria de elogios para o comportamento de estu- dar (Condição B), principalmente quando alia- da a instruções para o estudo (Condição C), produziu uma menor sensibilidade à retirada do reforço que a história de elogios para es- tudar alternada com atenção para pausas no estudo (Condição D). No entanto a falta de sistematicidade dos resultados encontrados para os dois sujeitos indica que o controle ex- perimental deveria ser aprimorado. O segundo estudo na área aplicada que discutiu efeitos da história de reforçamento foi realizado por Progar e colaboradores (2001). O participante desse estudo foi uma criança com diagnóstico de autismo, que apresentava comportamentos agressivos mantidos por es- quiva de tarefas aversivas. O participante e seus dois terapeutas haviam sido transferidos para uma nova instituição após o fechamento da ins- tituição em que o tratamento foi iniciado. Esse tratamento consistia no fornecimento de itens comestíveis contingentes ao seguimento de ins- truções fornecidas pelo terapeuta e à ausência de comportamentos agressivos (esquema de reforçamento diferencial de outros compor- tamentos – DRO). Na nova instituição, o mes- mo tratamento foi utilizado, realizado por qua- tro terapeutas: os dois terapeutas que já havi- am trabalhado com o participante e dois que não lhe eram familiares. Foram realizadas no mínimo 10 sessões de 10 min por dia, em que os comportamentos agressivos foram registra- dos em intervalos de 10 s por dois observado- res treinados. Os resultados indicaram diferen- ças sistemáticas na freqüência dos comporta- mentos agressivos direcionados aos terapeutas familiares versus não-familiares, sendo essa fre- qüência consistentemente mais alta com os terapeutas que já haviam trabalhado com o participante. De acordo com os autores, a alta freqüência de comportamentos agressivos direcionada aos dois terapeutas familiares pode ser explicada pela história de exposição a situ- ações aversivas na antiga instituição em que o participante foi tratado por esses dois terapeu- tas; tais situações incluíram mudanças freqüen- tes na medicação utilizada, restrições de mo- vimentos e reclusão em um ambiente fechado. No entanto, considerando-se que não houve manipulação das variáveis históricas aponta- das, essa interpretação deve ser considerada com cautela. Concluindo, as duas pesquisas apresen- tadas que discutem explicitamente efeitos de história de reforçamento, encontradas no pe- riódico de pesquisas aplicadas de maior reno- me, apresentam problemas de controle expe- rimental que comprometem a discussão dos efeitos das variáveis históricas de interesse. Considerando-se os resultados de pesquisas básicas que demonstram a importância de va- riáveis históricas na determinação do compor- tamento atual (o que inclui a determinação da eficácia do tratamento utilizado), é imperati- vo que sejam desenvolvidas pesquisas aplica- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:445354 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. das sobre o efeito de tais variáveis. Para o apri- moramento do controle experimental que fa- voreceria conclusões acerca dos efeitos dessas variáveis, poderia ser adotado um procedimen- to-padrão para o estudo na pesquisa aplicada, assim como vem sendo feito na pesquisa bási- ca por estudos baseados nas propostas de Sidman (1960) e de Wanchisen (1990). Ou seja, o estudo sistemático da história de reforçamento por meio da exposição a certas experiências e avaliação dos efeitos dessas ex- periências no comportamento subseqüente deveria ser adaptado e adotado em pesquisas aplicadas interessadas nos efeitos de variáveis históricas. DA PESQUISA BÁSICA PARA A APLICAÇÃO Em conjunto, os resultados obtidos por estudos na área de história de reforçamento indicam que as variáveis históricas devem ser consideradas para a compreensão do ajusta- mento do comportamento a novas contingên- cias, bem como para a elaboração de interven- ções eficazes em todos os contextos de aplica- ção da psicologia e de outras áreas que com- partilhem do interesse pelo comportamento humano. É importante ressaltar, no entanto, que alguns cuidados devem ser tomados com re- lação à aplicação do conhecimento adquirido por meio da pesquisa básica. A obtenção de resultados sistemáticos em uma pesquisa no laboratório não implica a possibilidade de apli- cação direta desses resultados para o compor- tamento humano no ambiente natural. Para que os resultados possam ser úteis no contex- to humano, é necessário que se verifique a sua replicabilidade com outros sujeitos da mes- ma espécie e nas mesmas condições (repli- cação direta), e com sujeitos de outras espé- cies em condições diferentes daquelas do ex- perimento original (replicação sistemática), o que aumenta a fidedignidade e a generalida- de dos resultados inicialmente encontrados (Sidman, 1960). À medida que crescem as evi- dências sobre os efeitos das variáveis em ques- tão (isto é, na medida em que os resultados são consistentemente replicados), novos tipos de análise funcional e de intervenção podem ser elaborados. Ainda que sejam necessárias replicações que favoreçam a fidedignidade e a generali- dade dos resultados aqui descritos, o fato de que os estudos empíricos têm sistematicamen- te demonstrado que histórias de reforçamento diferentes resultam em desempenhos diferen- cialmente sensíveis a mudanças nas contin- gências sugere que variáveis históricas devem ser consideradas nas intervenções comporta- mentais das mais diversas áreas da psicolo- gia. No contexto da psicologia organizacional, por exemplo, a produtividade e a satisfação dos funcionários de uma empresa podem ser favorecidas se houver uma preocupação da parte dos profissionais responsáveis em pla- nejar a contratação, a alocação e o remaneja- mento de pessoal, levando-se em conta o his- tórico de cada funcionário. Outras instituições que seriam favorecidas pela consideração de variáveis históricas são aquelas cujo interesse primário é a aprendizagem (p. ex.: escolas). Por exemplo, atrasos (ou acelerações) no de- senvolvimento, que, em muitos casos, são atri- buídos a outras variáveis (p. ex.: herança ge- nética), podem ser prioritariamente função da história de reforçamento sob contingências que prejudicaram (ou favoreceram) a apren- dizagem. Conhecendo-se os efeitos de dife- rentes histórias, seria possível não somente prever questões relacionadas ao desenvol- vimento de cada indivíduo, mas também ela- borar intervenções para produzir um desen- volvimento mais acelerado quando este for o interesse. O conhecimento acerca da importância de variáveis históricas pode ser útil, também, no contexto clínico. A história de reforçamento de um cliente muitas vezes é negligenciada, ou sua importância é minimizada, porque muitos terapeutas acreditam que, qualquer que seja essa história, nada pode ser feito para modificá- la e, portanto, a terapia deve focalizar as con- tingências atuais. Entretanto, uma vez que o papel das contingências atuais é modulado por variáveis históricas, conhecer essa história pa- rece ser imprescindível para a compreensão do controle do comportamento (Lattal e Neef, Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4454 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 55 1996). Somente por meio de análises funcio- nais precisas estaria o clínico habilitado a de- senvolver estratégias de intervenção eficazes. A importância de variáveis históricas para o processo terapêutico pode ser ilustrada com o caso clínico descrito a seguir. Pedro (nome fictício), 22 anos, morava em uma cidade do interior, onde as pessoas eram “muito moralistas e religiosas”. Ele rela- tava que, desde sua infância, engajava-se em “jogos sexuais” com alguns primos e amigos e que se sentia sexualmente atraído por meni- nos. Ao mesmo tempo, ouvia de sua mãe e de outras pessoas que o homossexualismo era “sujo e pecaminoso”, que era “uma escolha de uma pessoa má” e que os homossexuais, quan- do morressem, “iriam para o inferno”. Para se esquivar de seus pensamentos (e possíveis atos) “pecaminosos”, ele se dedicou intensamente aos estudos e passou a ser reconhecido na ci- dade como um menino “bonzinho, ingênuo e inteligente”. Sua vida social era muito restrita e permaneceu dessa forma até ocorrer uma mu- dança de cidade para iniciar um curso supe- rior, o que representou uma grande alteração nas contingências: Pedro foi morar no aloja- mento estudantil, onde passou a dividir um apartamento com outros alunos da universi- dade que, de acordo com ele, interessavam-se muito mais por atividades sociais do que por atividades acadêmicas. No começo, ele nega- va convites para sair, argumentando que tinha de estudar. No entanto, após alguns meses, ele passou a sair com os amigos e conheceu um rapaz por quem se interessou e com quem ini- ciou um namoro; seu tempo dedicado aos es- tudos diminuiu drasticamente, e ele passou a ser reprovado em várias matérias. O compor- tamento de estudar, quando ocorria, era sem- pre na véspera de testes e de provas, o que não era suficiente para ser aprovado nas discipli- nas. Decidiu, então, procurar uma terapia. O levantamento do histórico desse clien- te foi muito útil para a compreensão de seu caso e para a elaboração da intervenção. Suas dificuldades atuais relacionadas ao estudo eram, em última instância, fruto das experiên- cias passadas que produziram um padrão comportamental inadequado para as atuais contingências. Ficou claro que seu comporta- mento em relação ao estudo, até o início da faculdade, estava sendo mantido prioritaria- mente por reforçamento negativo (esquiva de críticas e rejeição) e não por reforçamento po- sitivo (p. ex.: aprendizagem, boas notas, pres- tígio entre colegas e professores). Além disso, esse comportamento era ineficiente uma vez que, embora o ajudasse a ter um bom desem- penho escolar, consumia todo o seu tempo fora da escola (mesmo não envolvendo conteúdos e exercícios além daqueles exigidos pelos pro- fessores). Quando as contingências foram al- teradas, inserido no contexto o reforçamento positivo de atividades sociais e de práticas ho- mossexuais, seu comportamento em relação ao estudo, como seria esperado, declinou subs- tancialmente, passando a ocorrer somente em ocasiões de forte controle aversivo (possibili- dade de reprovação). As novas contingências, portanto, exigiam um equilíbrio entre estudo e lazer, algo que não fazia parte do repertório comportamental de Pedro. Para tanto, era ne- cessário que seu comportamento em relação ao estudo se tornasse mais eficiente e passasse a ser controlado prioritariamente por contin- gências reforçadoras positivas, o que se tornou um dos objetivos terapêuticos. Outro caso clínico que ilustra a importân- cia de se considerar variáveis históricas no con- texto terapêutico é o de Sandra (nome fictí- cio), 24 anos, que vinha de uma cidadedo in- terior, onde morava com a mãe e três irmãos. Os primeiros seis meses de terapia dessa clien- te pareceram pouco proveitosos: ela tinha di- ficuldades em detalhar eventos que lhe haviam acontecido, especialmente aqueles relaciona- dos à sua família, e em discriminar sentimen- tos relacionados a esses eventos. Quanto a seu namorado, afirmava que não sabia o que sen- tia por ele, mas que ele a amava muito, a pon- to de lhe dizer que ela era “a maior de todas as suas conquistas” e de ter tentado suicídio quan- do ela terminou o namoro. Sandra relatou que todos os seus ex-namorados foram profunda- mente apaixonados por ela, mas não sabia di- zer o que havia sentido por eles. Os namoros eram sempre terminados por iniciativa dela, talvez porque, segundo ela, era uma mulher muito independente e auto-suficiente. Perce- bendo que ela se esquivava de falar sobre o Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4455 56 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. seu relacionamento familiar e sobre seus sen- timentos, a terapeuta procurou bloquear essa esquiva, insistindo em assuntos relacionados à sua família e criando situações que provocas- sem determinadas emoções, principalmente aquelas que a cliente revelava nunca sentir (p. ex.: raiva, ciúme). Nessas situações, no entan- to, Sandra continuava esquivando-se e dizia que a terapeuta estava interpretando seu com- portamento de maneira errônea. Eventu- almente, Sandra decidiu abandonar a terapia, argumentando que não estava preparada para falar dos assuntos que a terapeuta insistia em abordar. Após três meses de intervalo, a tera- peuta entrou em contato com a cliente e esta decidiu, então, voltar à terapia. Após seu re- torno, a cliente passou a relatar sobre seu his- tórico familiar e afetivo. Esses relatos foram extremamente úteis para a compreensão do caso e para a interven- ção. De acordo com Sandra, sua mãe (empre- gada doméstica) era muito apaixonada por seu pai (vendedor ambulante), mas o sentimento não era recíproco. Seu pai viajava com muita freqüência, sem data para voltar e, quando isso acontecia, a família passava fome. Sua mãe foi descrita como “uma pessoa sem o menor con- trole emocional”: nos períodos em que o mari- do estava ausente, falava alto e sem parar du- rante todo o dia, principalmente reclamando do marido e afirmando que ele queria matá-la. Além disso, atirava objetos pela janela e nas pessoas que não acatavam as suas ordens, e, por isso, de acordo com a cliente, a casa “vivia toda quebrada”. Quando o marido retornava, a mãe parecia ficar ainda mais nervosa, gri- tando e brigando com ele o tempo inteiro. Seus irmãos acabaram ficando “perturbados” devi- do à convivência com a mãe: um irmão era “depressivo”, outro tornou-se um “fanático re- ligioso” e o último comportava-se de forma muito semelhante à de sua mãe. Diante da fra- gilidade emocional da mãe e da ausência do pai, Sandra passou a assumir grande parte das responsabilidades familiares. Nos períodos em que estava em casa, seu pai era muito carinho- so e atencioso com ela, dizendo-lhe freqüente- mente que sua mãe e seus irmãos eram “lou- cos” e que o principal motivo para ele voltar para casa era ela, sua filha preferida e a única pessoa equilibrada da família. Sempre que re- latava esses eventos, Sandra chorava muito e dizia que se sentia abandonada pela única pes- soa em quem confiava e a quem mais amava, que era seu pai. Ela relatava que não sabia exa- tamente o que sentia por todos os outros mem- bros de sua família, mas que era algo “confuso e ruim”. Esse sentimento de “confusão” foi des- crito pela cliente em diversas outras situações, quando se referia a episódios relacionados a seu namorado (p. ex.: quando outra mulher demonstrava interesse por ele) e a sua vida profissional (uma vez que ela não estava certa a respeito da profissão que iria seguir). A análise funcional do caso de Sandra in- dicou que o déficit no repertório de tato discri- minado, por ela apresentado, tinha como ori- gem a ausência de modelos apropriados e a falta de reforçamento diferencial para tal com- portamento. Além disso, seu contexto familiar apresentava uma alta probabilidade de puni- ção para o relato de sentimentos e de pensa- mentos. Ou seja, expressar opiniões e revelar o que sentia poderiam torná-la mais vulnerá- vel à agressividade de sua mãe e gerar a perda do afeto de seu pai, uma vez que ele afirmava que ela era sua filha preferida justamente por ser a mais diferente da mãe, ou seja, por não fazer cobranças, não se queixar de nada, ser sempre carinhosa com ele, enfim, a única “emo- cionalmente controlada” na família. Diante desse contexto, a cliente desenvolveu estraté- gias de esquiva que, no início, consistiam em não revelar sentimentos e pensamentos e que, no momento da terapia, eram caracterizadas por uma dificuldade generalizada de discrimi- nar o que pensava e sentia, tanto em situações aversivas quanto em situações reforçadoras. Além disso, esse padrão de esquiva, antes li- mitado ao ambiente familiar, passou a ser emi- tido nos demais relacionamentos interpessoais da cliente, incluindo o relacionamento com a terapeuta. Ou seja, em função de uma história de exposição a contingências aversivas, as quais selecionaram o comportamento de esquiva emocional, a cliente apresentava insensibilida- de às contingências reforçadoras presentes em seus contextos atuais. O acesso ao histórico de Sandra, além de ter sido útil para o fortalecimento do vínculo Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4456 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 57 terapêutico, uma vez que esse histórico incluía informações muito íntimas e delicadas para a cliente, também permitiu a compreensão do quadro funcional de suas dificuldades atuais. Essa compreensão, por sua vez, foi fundamen- tal para que a terapeuta abandonasse estraté- gias anteriormente utilizadas (p. ex.: bloqueio da esquiva), as quais tinham um forte teor aversivo para a cliente e, assim, acabaram re- forçando o padrão de esquiva que se desejava extinguir. A terapeuta decidiu, então, imple- mentar estratégias terapêuticas caracterizadas pelo uso de modelação e modelagem. Os rela- tos sobre a história familiar, bem como aque- les sobre os acontecimentos atuais, permitiram que Sandra “revivesse” momentos difíceis em um local seguro, onde era permitido que ela “perdesse o controle emocional” sem que isso implicasse a perda de afeto por parte da terapeuta. Ou seja, a terapeuta procurou cons- truir uma nova história de relacionamento interpessoal, diferente daquela vivida com os pais da cliente, oferecendo modelos e refor- çando diferencialmente a expressão de senti- mentos e também a emissão de opiniões, de comentários e de sugestões. Sandra foi, pouco a pouco, aprendendo a discriminar seus senti- mentos, de forma que os relatos sobre “senti- mento de confusão” foram gradativamente substituídos por relatos de raiva, de ciúme, de afeto e de admiração, por exemplo. Ela tam- bém foi gradualmente aprendendo a expres- sar suas opiniões e, assim, a construir relacio- namentos interpessoais mais reforçadores. Em suma, esse caso ilustra como o conhecimento sobre a história de reforçamento e punição pode ser extremamente útil para a análise fun- cional e para a intervenção terapêutica, e não somente para o conhecimento das origens do comportamento. A relevância de se considerar variáveis his- tóricas não se restringe apenas ao trabalho do psicólogo, mas também diz respeito a todas as ciências sociais e políticas, uma vez que a his- tória de uma população ou grupo social é re- fletida na forma como esse grupo reage às mais diversas contingências. Conhecendo o efeito de variáveis históricas, poderíamos tentar prever, por exemplo, como um degredado político adapta-se a um país com uma cultura diferen- te da sua, como os valores atuais do gênero feminino são função, em grande parte, das lu- tas feministasdo passado e como uma popula- ção reage com ataques terroristas a uma longa história de imperialismo e subjugo, por exem- plo. Dessa forma, é importante que educado- res, psicólogos, sociólogos e todos os profissio- nais interessados na saúde de homens ou de grupos humanos estudem os efeitos da histó- ria de reforçamento e que considerem tais efei- tos na elaboração de suas intervenções. Gran- de parte do conhecimento sobre os efeitos de história tem sido construída com a realização de pesquisas básicas; portanto, é importante que os mais diversos profissionais considerem a importância de tais pesquisas e que se bene- ficiem de seus achados. CONCLUSÃO Investigações sobre os efeitos de variáveis históricas vêm sendo desenvolvidas por diver- sas áreas de pesquisa em análise do comporta- mento. No entanto observa-se uma falta de sis- tematização dos estudos realizados nessas áre- as, uma vez que eles não são reconhecidos como estudos de história de reforçamento e, conseqüentemente, seus resultados não são in- tegrados com aqueles obtidos em pesquisas de história. A integração dos resultados dessas pes- quisas poderia contribuir para o acúmulo do conhecimento sobre o comportamento huma- no (e não-humano), por vários motivos. Pri- meiro, porque os resultados de alguns estudos poderiam ser considerados replicações sistemá- ticas de resultados obtidos em uma outra área, favorecendo a fidedignidade e a generalidade dos dados encontrados, além de evitar gastos desnecessários de tempo e de recursos finan- ceiros com outras replicações. Segundo, por- que variáveis que alteram os efeitos da histó- ria de reforçamento, identificadas em uma área de pesquisa, poderiam ser manipuladas de modo a aumentar o controle experimental de estudos de outras áreas que também investi- gam efeitos de história. Terceiro, porque os resultados de estudos em uma dessas áreas de pesquisa poderiam suscitar questões a serem Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4457 58 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. investigadas, também, por outras áreas de pesquisa. Para que os resultados dos estudos que investigam os efeitos de variáveis históricas sejam integrados, é necessária uma retomada da definição anteriormente apresentada de história de reforçamento. De acordo com a de- finição proposta por Wanchisen (1990), um estudo poderá ser considerado um estudo de história quando o seu objetivo for acessar, em uma fase de teste, os efeitos da exposição pré- via a diferentes condições experimentais. Den- tre os estudos com tais objetivos encontram- se aqueles da área denominada resistência à mudança (apresentada no Capítulo 4 deste li- vro). Ou seja, as pesquisas que investigam a resistência à mudança e os efeitos da história de reforçamento compartilham o mesmo in- teresse: a sensibilidade do desempenho pre- viamente reforçado diante de mudanças nas contingências (Santos, 2001). Quanto menor a sensibilidade comportamental observada, maior a resistência à mudança ou, alternati- vamente, maior o efeito da história de reforçamento sobre o responder atual. No entanto os procedimentos utilizados nas duas áreas de investigação guardam algumas dife- renças. Primeiro, a variável histórica é dife- rente nas duas áreas: enquanto os estudos de história investigam os efeitos da exposição, na fase de treino, a dois ou mais esquemas de reforçamento diferentes (p. ex.: FR e DRL), estudos sobre resistência investigam os efei- tos da liberação de reforços com taxa, magni- tude ou atraso diferentes sob um único es- quema de reforçamento (p. ex.: um esquema mult de VI 1 min VI 3 min), na fase de treino. Segundo, enquanto os estudos sobre história geralmente investigam a sensibilidade comportamental à mudança nas contingênci- as, utilizando esquemas diferentes nas fases de treino e de teste, estudos sobre resistência à mudança investigam a sensibilidade imple- mentando outros tipos de alterações nas con- tingências vigentes, tais como aumentos no nível de saciação, apresentação de um es- tímulo sinalizador de choques inevitáveis e extinção. Possivelmente devido a essas dife- renças, estudos sobre resistência à mudança não são reconhecidos como estudos de histó- ria de reforçamento. Os estudos de resistência à mudança têm consistentemente indicado que os efeitos de mudanças nas condições experimentais são al- terados por diversas variáveis históricas. Por exemplo, vários experimentos têm indicado que aumentos no nível de saciação, sobrepostos ao esquema em vigor, produzem um menor declínio na taxa de respostas produzida pelo esquema de reforçamento que envolve a libe- ração de reforços com maiores magnitudes (Harper e McLean, 1992, Experimento 1; Nevin, 1974, Experimento 3; Nevin, Mandell e Yarensky, 1981, Experimento 1), maiores ta- xas (Cohen et al., 1993, Experimentos 3 e 4; Nevin, 1974, Experimento 1) e menores atra- sos (Grace, Schwendiman e Nevin, 1998, Fase 2; Nevin, 1974, Experimento 4). No entanto os efeitos de tais variáveis não foram ainda investigados em função da mudança no esque- ma de reforçamento, isto é, utilizando-se o pro- cedimento mais comum na área de história comportamental. Outros estudos em análise do comporta- mento que investigam efeitos de variáveis his- tóricas, de acordo com a definição proposta por Wanchisen (1990), são aqueles incluídos na área de desamparo aprendido, apresentada no Capítulo 5. De uma forma geral, estudos sobre desamparo aprendido utilizam três grupos ex- perimentais que são expostos, na fase de trei- no, a eventos aversivos independentes da res- posta, eventos aversivos dependentes da res- posta ou não recebem nenhum tipo de trata- mento; na fase de teste, todos os grupos são expostos a uma única situação experimental, na qual os efeitos da exposição às condições anteriores são avaliados. Assim como os estudos sobre resistência à mudança, estudos sobre desamparo apren- dido não são reconhecidos como investigações sobre história de reforçamento, uma vez que os procedimentos utilizados nessas duas áreas guardam algumas diferenças. Primeiro, a variá- vel histórica cujos efeitos são investigados não é a mesma: enquanto estudos de história in- vestigam os efeitos da exposição, na fase de treino, a dois ou mais esquemas de reforça- mento, estudos de desamparo investigam os Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4458 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 59 efeitos da exposição a dois esquemas (VI e VT), em que há ocorrência de eventos aversivos (p. ex.: choques ou tons altos) dependentes ou independentes da resposta nessa mesma fase. Segundo, enquanto estudos de história envol- vem condições em que há uma relação de de- pendência entre o evento e a resposta, tanto na fase de treino quanto na fase de teste, estu- dos de desamparo geralmente envolvem con- dições em que há independência entre a res- posta e o evento na fase de treino e dependên- cia entre a resposta e o evento, na fase de tes- te. Terceiro, as variáveis dependentes avalia- das nas duas áreas de investigação são dife- rentes: enquanto estudos de história investi- gam os efeitos de manipulações em variáveis históricas sobre a sensibilidade da taxa de res- postas, estudos de desamparo investigam os efeitos dessas variáveis sobre o tempo de reação e o número de acertos na nova contingência. Os resultados de estudos sobre desampa- ro aprendido têm indicado que o grupo expos- to a eventos independentes da resposta apre- senta maiores déficits na aprendizagem (tem- pos de reação mais longos e menor número de acertos) subseqüente do que os demais grupos (Benson e Kennely, 1976; Overmier e Seligman, 1967). Em outras palavras, a história de expo- sição a eventos independentes da resposta di- minui a sensibilidade à alteração nas condições experimentais (de independência para depen- dência), uma vez que o sujeito permanece com- portando-se como se não houvesse relação de contingência entresuas respostas e o reforço. Além disso, muitos estudos sobre desamparo indicam que a exposição a condições em que a ocorrência dos eventos depende da resposta, antes da fase de treino ou entre esta e a fase de teste, pode anular os efeitos da história de in- dependência entre os eventos e as respostas, não sendo observado, assim, o desamparo aprendido na fase de teste (Prindaville e Stein, 1978; Williams e Maier, 1977; Yano e Hunziker, 2000, Experimento 2). Tais condições têm sido denominadas como “imunização” e “terapia”, respectivamente. Diversas variáveis investigadas na área de história de reforçamento não foram ainda investigadas na área de desamparo aprendido. Considerando-se os resultados de estudos que indicam que a diferença na regularidade tem- poral da apresentação dos eventos nas fases de treino e de teste (Freeman e Lattal, 1992), aumentos no atraso entre a fase de treino e a fase de teste (Ono e Iwabuchi, 1997) e aumen- tos no nível de saciação (Aló, 2002) promo- vem a sensibilidade à mudança nas contingên- cias ou, alternativamente, minimizam os efei- tos da história de exposição a diferentes esque- mas de reforçamento, seria interessante inves- tigar se essas variáveis diminuiriam também os efeitos da história de independência entre os eventos e o responder. O objetivo dos estudos sobre comporta- mento governado por regras (CGR, apresenta- do no Capítulo 12) também consiste em inves- tigar, na fase de teste, os efeitos da exposição prévia a determinadas condições experimen- tais e, portanto, também podem ser considera- dos estudos sobre história de reforçamento, de acordo com a definição proposta por Wanchisen (1990). No entanto esses estudos não são re- conhecidos como tais, provavelmente em fun- ção de diferenças entre os procedimentos adotados nas duas áreas. Primeiro, as variá- veis históricas investigadas são diferentes: en- quanto estudos sobre história investigam os efeitos da exposição prévia a diferentes esque- mas de reforçamento, estudos sobre CGR in- vestigam os efeitos da exposição prévia a re- gras. Segundo, estudos de história geralmente envolvem apenas contingências não-verbais, enquanto estudos de CGR envolvem dois tipos de contingências de reforçamento: verbais e não-verbais. Terceiro, enquanto os estudos so- bre história investigam a sensibilidade compor- tamental à mudança nas contingências utili- zando esquemas diferentes nas fases de treino e de teste, estudos sobre CGR não envolvem, necessariamente, mudanças no esquema de reforçamento. Para avaliar a sensibilidade do CGR, são utilizadas duas metodologias básicas. Na primeira, uma regra é fornecida ao par- ticipante, que é, então, exposto a uma contin- gência; em seguida, essa contingência é modi- ficada, enquanto a regra permanece a mesma. Na segunda, ocorre o inverso, a regra é modi- ficada, e a contingência permanece inalterada. Caso a modificação da contingência seja acom- panhada de mudanças no desempenho, o com- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4459 60 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. portamento é considerado sensível e, caso con- trário, insensível. Alternativamente, caso a mu- dança na regra seja acompanhada de mudan- ças no desempenho, este é considerado insen- sível; caso contrário, o desempenho é conside- rado sensível. Diversos estudos têm demonstrado que a história de reforçamento por seguir regras pode promover insensibilidade a mudanças nas con- tingências ambientais (Hayes et al., 1976; Kaufman, Baron e Kopp, 1966; Otto, Torgrud e Holborn, 1999). Outros estudos têm indicado que essa insensibilidade pode ser minimizada ou anulada por variáveis como o contato com a discrepância entre a regra e a contingência (Buskist e Miller, 1986; Galizio, 1979), a histó- ria de exposição a instruções ou esquemas de reforçamento variados (LeFrancois, Chase, e Joyce, 1988) e a utilização de esquemas com freqüência alta de reforços (Newman et al., 1994). Entretanto os efeitos da interação entre a história de reforçamento por seguir regras e outras variáveis estudadas na área de história de reforçamento não foram ainda investigados. Considerando-se os resultados dessa área que indicam que a saciação, por exemplo, pode minimizar os efeitos da história, seria plausível supor que aumentos no nível de saciação dos reforços fornecidos na contingência não-verbal minimizariam a insensibilidade produzida pela história de reforçamento por seguir regras. Concluindo, áreas de pesquisa que inves- tigam os efeitos da história de reforçamento, como aquelas denominadas de resistência à mu- dança, desamparo aprendido e comportamen- to governado por regras, vêm se desenvolven- do independentemente, não se beneficiando mu- tuamente com os resultados obtidos. Muitas ve- zes, pesquisadores interessados em uma área de pesquisa realizam experimentos com base ape- nas no que tem sido discutido na área específi- ca, não procurando integrar os resultados obti- dos com os de outras áreas. Conforme se procu- rou ilustrar aqui, os resultados encontrados por estudos em diferentes áreas poderiam contri- buir para o aprimoramento do controle experi- mental, para suscitar novas questões de investi- gação, ou para complementar as questões for- muladas por pesquisadores de outras áreas. A identificação de estudos cujas variáveis de inte- resse são comuns, de uma forma geral, poderá promover a integração dos resultados obtidos em diversas áreas, favorecendo a predição e o controle do comportamento humano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aló, R. M. (2002). História de reforçamento e operações estabelecedoras: Efeitos sobre a sensibilidade comporta- mental. Dissertação de mestrado não publicada. Uni- versidade de Brasília, Brasília, DF. Baer, R. A.; Detrich, R.; Weninger, J. M. (1988). On the functional role of the verbalization in correspondence training procedures. Journal of Applied Behavior Analysis, 21, 345-356. Baron, A.; Leinenweber, A. (1995). Effects of a variable- ratio conditioning history on sensitivity to fixed-interval contingencies in rats. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 63, 97-110. Bell, M. C. (1999). Pavlovian contingencies and resis- tance to change in a multiple schedule. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 72, 81-96. 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Acta Comportamentalia, 8, 143-166.Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4462 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 63 MOMENTO COMPORTAMENTAL CRISTIANO VALÉRIO DOS SANTOS estudar mais detalhadamente a resistência a mudanças (Nevin e Grace, 2000). O produto da taxa de respostas e a resis- tência a mudanças é chamado “momento comportamental”, em analogia à noção de quantidade de movimento na Mecânica Clás- sica: a taxa de respostas seria equivalente à velocidade com que um corpo se desloca e a resistência a mudanças seria equivalente à massa (quantidade de inércia) desse corpo (Nevin, Mandell e Atak, 1983). Por exemplo, a força necessária para parar um carro a 100 km/h é maior do que a força necessária para parar esse mesmo carro se ele estiver a 60 km/h. Por outro lado, parar um caminhão requer um esforço muito maior do que parar um carro, pois o caminhão tem maior massa. Analogamente, seria necessária uma altera- ção maior nas condições ambientais para per- turbar o responder que apresenta alto momen- to comportamental. Este capítulo é basicamente sobre resis- tência a mudanças. Inicialmente, serão discu- tidas questões metodológicas presentes nos estudos de resistência a mudanças, com ênfa- se na definição e na mensuração desse fenô- meno. Em seguida, será feita uma revisão so- bre as principais variáveis que afetam a resis- tência a mudanças e sobre seus processos de- terminantes. A isso, segue-se um item no qual serão discutidas as semelhanças e as diferen- ças entre o conceito de resistência a mudanças e outros conceitos presentes na análise do com- portamento. Por fim, serão apresentados alguns estudos que tentaram fazer uma ponte entre 4 A manutenção da resposta em face de mo- dificações nas condições ambientais é uma questão de extrema relevância, tanto para quem trabalha com pesquisa básica quanto para quem está interessado em propiciar mudanças duradouras no comportamento de seus clien- tes. Quem trabalha com pesquisa básica ou apli- cada dentro do referencial teórico analítico- comportamental, muito freqüentemente, usa delineamentos nos quais as variáveis são ma- nipuladas intra-sujeito, e conhecer como ma- nipulações prévias podem afetar o desempe- nho sob contingências atuais torna-se crítico. Similarmente, quem se preocupa com a apli- cação direta dos princípios da análise do com- portamento em situações fora do laboratório constantemente se questiona sobre como con- seguir resultados duradouros ou sobre compor- tamentos especialmente difíceis de modificar. Em ambos os casos, conhecer as variáveis res- ponsáveis pela maior ou menor persistência da resposta é imprescindível. Tradicionalmente, essa questão tem sido tratada, em análise do comportamento, sob o rótulo de “força da resposta”. Mais recentemen- te, esse termo vem sendo substituído pelo con- ceito de “momento comportamental”, que en- volve a observação de duas medidas: a freqüên- cia com que essa resposta é emitida por unida- de de tempo (taxa de respostas) e o grau de alteração no responder quando alguma condi- ção é alterada (resistência a mudanças). Em- bora as variáveis que afetam a taxa de respos- tas já tenham sido amplamente estudadas, so- mente a partir da década de 1980 procurou-se Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4463 64 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. os dados obtidos em laboratório sobre resis- tência a mudanças e possíveis aplicações prá- ticas desse conceito. MOMENTO COMPORTAMENTAL: PESQUISA BÁSICA A pesquisa básica sobre momento com- portamental, em especial sobre resistência a mudanças, tem sido desenvolvida ao longo dos últimos 30 anos. Antes desse período, já havia estudos conduzidos com o objetivo de avaliar a resistência do ato de responder em face de mudanças nas contingências, principalmente diante de procedimento de extinção, mas al- guns problemas na forma como os dados fo- ram analisados, discutidos a seguir, tornam di- fícil uma comparação entre esses estudos e os conduzidos mais recentemente. Assim, a revi- são que se segue focalizará os estudos mais recentes que não apresentam tais problemas e que se enquadram dentro do quadro conceitual do momento comportamental. Questões metodológicas Uma forma de se estudar a resistência a mudanças no laboratório poderia ser feita ex- pondo um organismo a um esquema de refor- çamento qualquer e observando mudanças na resposta quando alguma condição (p. ex.: ní- vel de privação) é modificada. Contudo Nevin (1979) apontou que esse procedimento pode não ser o mais adequado: é possível que a res- posta não seja alterada sob aquele esquema de reforçamento, como também pode ser que aquela mudança no nível de privação não afe- te a resposta sob nenhum esquema. Assim sen- do, pouca ou nenhuma informação sobre re- sistência é obtida. Um procedimento mais adequado para o estudo da resistência a mudanças envolve a exposição de um organismo a duas ou mais contingências diferentes. Essas contingências são, em geral, apresentadas em um esquema múltiplo, que envolve a apresentação suces- siva de dois ou mais esquemas de reforçamen- to e com sinalização antecedente diferencia- da para cada esquema. O esquema múltiplo é preferido por garantir que uma condição am- biental vai afetar a resposta em todas as con- tingências aproximadamente da mesma for- ma e intensidade. Depois da obtenção de uma taxa de respostas estável em todas as contin- gências, alguma condição ambiental é modi- ficada, e alterações na taxa de respostas são observadas. Uma resposta é considerada mais resistente a mudanças quanto menos ela se alterar em face das modificações nas condi- ções ambientais. Grandes alterações são in- dicativas de menor resistência. Uma outra questão importante para a qual se deve atentar é a medida de resistência a mudanças. Observem que o interesse não é mais na taxa de respostas em si, mas na maior ou menor manutenção da resposta – que pode ser a taxa de respostas ou qualquer outra di- mensão do comportamento – em face de algu- ma mudança. Se a dimensão de interesse for semelhante entre os componentes do esque- ma múltiplo e for observado que, depois da mudança em alguma condição, essa dimensão foi afetada em graus diferentes entre os com- ponentes, a identificação do componente no qual a obtenção da resposta era mais resisten- te é bastante clara. Contudo considerem o se- guinte exemplo: em um dos componentes de um esquema múltiplo, a taxa de respostas era de 100 respostas por minuto (R/min); no ou- tro componente, a taxa era de 50 R/min. Após a alteração de alguma condição, a taxa de res- postas no primeiro componente passou a ser de 80 R/min e no segundo, de 30 R/min. Em ambos, a taxa de respostas sofreu um decrés- cimo absoluto semelhante: 20 R/min. No en- tanto esse mesmo valor representa uma redu- ção de 20% no primeiro componente e uma redução de 40% no segundo. Assim, não faz sentido dizer que ambos os componentes apre- sentam igual resistência se, em relação à con- dição anterior, a redução no segundo compo- nente foi duas vezes maior. Esse problema é contornado usando-se uma medida relativa ou uma escala que leve em conta o nível da respos- ta antes da alteração (p. ex.: escala logarítmi- ca). A maioria dos estudos apresentados a se- guir tomou esse cuidado; em caso de exceção, esse fato será ressaltado explicitamente. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4464 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 65 Um exemplo do procedimento comumen- te utilizado para estudar resistência a mudan- ças no laboratório é apresentado no estudo de Bouzas (1978). Nesse estudo, pombos foram expostos a um esquema múltiplo com dois componentes. Em um deles, vigorava um es- quema de reforçamento de intervalo variável (VI) 1 min; no outro, vigorava um esquema de VI 4 min. Assim que a taxa de respostas tor- nou-se estável nos dois componentes, uma con- dição ambiental foi alterada: uma contingên- cia de punição foi sobreposta ao esquema múl-tiplo. Em ambos os componentes, choques de intensidades variadas eram liberados de acor- do com um esquema de VI 30 s. Essa alteração ambiental provocou um decréscimo na taxa de respostas nos dois componentes, como era de se esperar. Entretanto esse decréscimo foi maior no componente que liberava menos reforços (VI 4 min). De acordo com a definição já apre- sentada, a resposta mantida pelo esquema VI 4 min foi menos resistente à mudança na con- tingência. A introdução de uma contingência de pu- nição é somente uma entre várias condições que podem ser alteradas. Outras operações que freqüentemente são realizadas incluem o pro- cedimento de extinção (retirada da conseqüên- cia mantenedora da resposta), alterações no nível de privação (em especial, saciação antes da sessão experimental), acréscimo de “refor- çadores” livres dentro do próprio componente ou em um intervalo entre componentes, intro- dução de estímulos que sinalizam a ocorrên- cia de estímulos aversivos inevitáveis, entre outras. A lista não pretende ser exaustiva; é possível pensar em vários outros procedimen- tos que vão, de alguma forma, afetar a respos- ta, aumentando-a ou diminuindo-a, e qualquer um deles pode ser considerado uma operação que vai, de alguma forma, alterar o curso nor- mal da resposta (DO, do inglês Disrupting Operation). Usando como referência a Mecânica Clás- sica, o modelo de momento comportamental pode ser expresso matematicamente conforme a seguinte função: log (B x /B o ) = -f/m (1) Nessa função B o e B x representam a taxa assintótica de respostas durante a linha de base e após a introdução da DO, respectivamente; f é o valor da DO (p. ex.: taxa de “reforçadores” livres, quantidade de alimento fornecido an- tes da sessão ou número de sessões de extinção), e m é a massa comportamental (re- sistência a mudanças). O sinal negativo antes de f indica que a DO diminui a taxa de respos- tas e, uma vez que o lado esquerdo da equa- ção é adimensional, f e m devem ser medidos nas mesmas unidades. A função logarítmica presente na equa- ção é preferida por três motivos principais: a) como já mencionado, a escala loga- rítmica leva em consideração o ní- vel da resposta antes da introdução da DO; b) essa escala evita o efeito “chão”, uma vez que vai até – ∞; c) as funções que relacionam log (B x /B o ) aos valores da DO são aproximada- mente lineares (Nevin, 2002). Um dado interessante apresentado por Nevin é o fato de que a medida de resistência a mudanças apresenta propriedades aditivas, o que a qualifica como uma escala de razão. Por exemplo, se duas DOs são combinadas (p. ex.: introdução de “reforçadores” livres durante o intervalo entre componentes e extinção), essa combinação terá o mesmo efeito, numerica- mente, que a soma algébrica dos efeitos das DOs isoladas. O mesmo vale para combinação de diferentes dimensões dos reforçadores (p. ex.: taxa e magnitude). Variáveis que afetam a resistência a mudanças Ao contrário do que acontece na Mecâni- ca Clássica, na qual a massa de um corpo em movimento raramente muda de um momento para outro, a resistência da resposta a mudan- ças pode ser afetada por uma série de variá- veis. Muitas delas afetam igualmente a taxa de respostas; porém, como veremos adiante, os processos determinantes da taxa de respos- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4465 66 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. tas e da resistência a mudanças podem ser di- ferentes. Além disso, a resistência a mudanças pode ser diferencialmente afetada pelo tipo de mudança que é realizado. Dentre as variáveis que afetam a resistên- cia a mudanças da resposta mantida por reforçamento positivo, destacam-se a magni- tude, o atraso e a taxa de reforços. Tanto a mag- nitude quanto a taxa de reforços, em geral, apresentam uma relação direta com a resistên- cia a mudanças; o atraso do reforço e a resis- tência a mudanças, por outro lado, apresen- tam uma relação inversa. O efeito da magnitude do reforço é exemplificado no estudo de Harper e McLean (1992, Experimento 1), no qual pombos foram expostos a um esquema múltiplo VI 120 s VI 120 s, cujos componentes diferiam somente na duração de acesso ao alimento que era for- necido (6 s ou 2 s). Em seguida, 3 s de ali- mento livre foram fornecidos no intervalo entre componentes de acordo com esquemas de tempo variável (VT) 30 ou 120 s. Todas as condições foram mantidas até que a taxa de respostas atendesse a um critério de estabili- dade. As mudanças na taxa de respostas em face da liberação de alimento livre foram ana- lisadas tanto nas cinco sessões iniciais quan- to nas cinco últimas sessões. Em ambos os casos, a taxa de respostas no componente que liberava o reforço de maior magnitude apre- sentou um menor decréscimo com a introdu- ção de alimento livre, indicando, portanto, maior resistência a essa manipulação. Resul- tados semelhantes a esses foram obtidos em outras ocasiões usando extinção (Pavlik e Collier, 1977), diferentes magnitudes de ali- mento livre no intervalo entre componentes (Harper, 1996) e saciação (Nevin, Mandell e Yarensky, 1981) como DO. O atraso do reforço, em geral, diminui a resistência a mudanças, como demonstrado nos estudos de Nevin (1974) e Grace, Schwendi- man e Nevin (1998). Entretanto esse efeito pode ser revertido caso o atraso seja sinaliza- do. Bell (1999) treinou pombos em um esque- ma múltiplo com três componentes, separados por períodos de blackout. No primeiro compo- nente, vigorava um esquema VI de 120 s e a primeira resposta após o término do intervalo iniciava um atraso não sinalizado de 3 ou 8 s. O segundo componente era idêntico ao primei- ro, com exceção de que o atraso após o esque- ma VI era sinalizado por uma mudança na cor do disco. No terceiro componente vigorava um esquema VI de 123 ou 128 s, dependendo do atraso em vigor nos outros dois componentes. Três testes de resistência foram realizados: saciação, apresentação de alimento livre du- rante os períodos de blackout e extinção. Os três procedimentos provocaram decréscimos na taxa de respostas nos três componentes, po- rém de forma mais acentuada no componente com atraso não-sinalizado; o decréscimo na taxa de respostas do componente com atraso sinalizado foi semelhante ao do componente sem atraso. De todas as variáveis estudadas, a taxa de reforços é a que tem recebido maior atenção dos pesquisadores. Um grande núme- ro de pesquisas investigou os efeitos de reforçamento contínuo (CRF) versus reforça- mento parcial (PRF) sobre a resistência à extinção, e um dado foi sistematicamente obtido: o ato de responder mantido por reforçamento parcial, geralmente, apresentou maior resistência à extinção. Esse efeito ficou conhecido como o “efeito do reforçamento parcial” (PRE, do inglês partial reinforcement effect). O PRE tem sido compreendido como resultado do que se chama decréscimo de ge- neralização. Após um treino extensivo, os reforçadores passam a fazer parte da situa- ção de estímulo na qual o treino ocorre e, quando a extinção começa, há uma mudança maior na situação de estímulo da condição de CRF para extinção do que da condição de PRF para extinção, pois o PRF já inclui perío- dos em que não ocorre reforçamento. Essa maior mudança na situação de estímulo provocada pela transição de CRF para extinção geraria um decréscimo maior na taxa de respostas (Grace e Nevin, 2000). Contudo, mais recentemente, esses dados têm sido alvo de questionamentos, sendo o principal deles o tipo de medida utilizado para avaliar a resistência à extinção. A medida de resistência à extinção nos estudos que demons- traram o PRE, em geral, era expressa em valo- res absolutos. Essa medida, como exposto an- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4466 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 67 teriormente, não é uma medida fidedigna de resistência uma vez que não leva em conside- ração o nível da resposta antes daextinção. Ao fazer uma reanálise desses estudos usan- do, como medida de resistência, a taxa de res- postas ao longo das sessões de extinção ex- pressa como proporção da taxa de respostas na primeira sessão de extinção, Nevin (1988) observou que a inclinação da curva de extin- ção variava de um estudo para outro em fun- ção do total de reforços obtidos na condição anterior à extinção: quanto maior o total de reforços recebidos, mais a resistência à ex- tinção da resposta mantida por CRF aumen- tava em relação à resistência à extinção da resposta mantida por PRF, chegando fre- qüentemente a superá-la. Os dados apresentados por Nevin (1988), junto com outros (Blackman, 1968; Bouzas, 1978; Nevin, 1974, 1984; Nevin, Mandell e Atak, 1983; Nevin et al., 1990), têm sugerido que a resistência a mudanças é função direta da taxa de reforços obtidos. Apesar da sis- tematicidade dos resultados obtidos nesses es- tudos, algumas variáveis importantes devem ser consideradas. Primeiro, a relação direta entre taxa de reforços e resistência a mudanças é observada basicamente com o uso de esque- mas múltiplos, cujos componentes alternam com uma freqüência relativamente alta (du- rante a mesma sessão); se as diferentes taxas de reforços forem apresentadas em esquemas simples ou se os componentes alternarem a cada dia ou a cada semana, essa relação direta não se mantém (Cohen, 1998; Cohen, Riley e Wigley, 1993). Segundo, os estudos que obti- veram essa relação direta utilizaram, em sua grande maioria, procedimentos de operante li- vre, enquanto estudos que obtiveram PRE usa- ram procedimentos de tentativa discreta. Com esse segundo tipo de procedimento, o PRE pode ser observado apesar do uso de uma medida relativa e, até o momento, não se sabe exata- mente que aspecto desse procedimento leva- ria a esse resultado. Por fim, a resistência a mu- danças, assim como a taxa de respostas, não é determinada somente pela taxa de reforços ob- tidos em um componente isolado, mas depen- de da taxa de reforços de todos os outros com- portamentos alternativos, fenômeno esse co- nhecido como contraste comportamental (Nevin, 1992). Além das várias dimensões do estímulo reforçador, o tipo de evento usado como reforçador também pode afetar diferencialmen- te a resistência a mudanças. Mace e colabora- dores (1997, Experimento 3) expuseram ratos a um esquema múltiplo cujos componentes di- feriam somente no estímulo que era usado como reforçador (sacarina versus ácido cítri- co). Em uma condição anterior, foi observado que os ratos apresentavam preferência por sa- carina em relação ao ácido cítrico. Quando colocados em extinção, a resposta mantida por sacarina mostrou-se mais resistente do que a resposta mantida por ácido cítrico, sugerindo que a qualidade do reforçador também é uma variável importante. Variáveis sociais também podem afetar a resistência a mudanças. Santos (2001) in- vestigou o efeito da presença de um outro in- divíduo da mesma espécie sobre a resistência a saciação. Inicialmente, ratos foram expos- tos a um esquema múltiplo com dois compo- nentes (VI 10 s e VI 90 s). Após a obtenção de taxa de respostas estável, os sujeitos foram submetidos a um procedimento de saciação antes da sessão experimental e expostos no- vamente ao esquema múltiplo. Contudo, nas sessões em que ocorria a saciação, os sujeitos poderiam estar sozinhos na caixa experimen- tal ou na presença de outro rato, que poderia estar igualmente respondendo ou meramen- te presente. A mera presença do outro rato aumentou tanto a taxa absoluta de respostas quanto a resistência à saciação, porém o efei- to sobre a resistência a mudanças só foi significante no componente VI 10 s. A própria topografia da resposta, ou a for- ma como a resposta é organizada, também pode ser afetada diferencialmente por mudan- ças no ambiente. Doughty e Lattal (2001), por exemplo, observaram que o comportamento de variação pode ser mais resistente a mudanças do que o comportamento de repetição. Nesse estudo, pombos foram expostos a um esque- ma múltiplo com dois componentes, sendo que, em ambos, a unidade de análise era seqüênci- as de quatro respostas, emitidas em dois dis- cos: E, para o disco da esquerda e D, para o Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4467 68 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. disco da direita. Em um dos componentes, so- mente a seqüência EDED seria reforçada (com- ponente de repetição); no outro, qualquer se- qüência poderia ser reforçada desde que sua freqüência relativa se situasse abaixo de um patamar predeterminado (componente de va- riação). A taxa de reforços foi igualada entre os componentes e foram realizados dois testes de resistência: saciação antes da sessão e in- trodução de alimento livre entre os componen- tes. A resposta no componente de variação foi ligeiramente mais resistente aos dois testes re- alizados do que a resposta no componente de repetição, indicando que a resposta pode ser afetada diferencialmente por mudanças no ambiente em função da própria organização da resposta em análise. Os dados mencionados até o momento re- ferem-se a pesquisas com animais não-huma- nos. Existem poucas pesquisas que investiga- ram o efeito de diferentes taxas de reforços sobre a resistência a mudanças com humanos, usando o modelo proposto por Nevin (1974). Desses, dois merecem destaque, ambos reali- zados com participantes que apresentavam atraso de desenvolvimento. Mace e colabora- dores (1990) expuseram dois indivíduos com retardo mental a um esquema múltiplo com dois componentes. Em ambos os componen- tes, a tarefa dos sujeitos consistia em agrupar talheres em conjuntos de garfos, facas e colhe- res. Os componentes eram sinalizados pela cor dos talheres (verde e vermelho), e reforços eram liberados de acordo com diferentes es- quemas VI em cada um. O comportamento sob investigação foi alterado pela introdução de um videoteipe durante a tarefa. A taxa de respos- tas caiu em ambos os componentes, porém mais acentuadamente no componente com menor taxa de reforço. Além disso, em uma segunda parte do experimento, reforços adicionais fo- ram introduzidos, em um dos componentes, independentes da resposta dos sujeitos. Essa manipulação diminuiu a taxa de respostas nesse componente, porém aumentou a resistência à mudança quando o videoteipe foi introduzido. Dube e McIlvane (2001) obtiveram resultado semelhante, usando como tarefa um procedi- mento simples de discriminação condicional (pareamento de identidade) e esquemas de ra- zão variável (VR) no lugar de esquemas VI. Se a quantidade de pesquisas sobre resis- tência a mudanças com reforçamento positivo já não é tão grande, menor ainda é a quantida- de de pesquisas sobre a resistência de compor- tamentos mantidos por reforçamento negati- vo. Além disso, as poucas pesquisas que inves- tigaram esse assunto são, em sua maioria, an- tigas e apresentam os mesmos problemas na análise dos dados que as primeiras pesquisas com reforçamento positivo (uso de uma medi- da absoluta em vez de uma medida relativa), de forma que seus resultados devem ser lidos com cautela. Dos estudos existentes, todos in- vestigaram a resistência à extinção dos com- portamentos de fuga e esquiva, usando cho- que como o estímulo aversivo, obtendo-se os seguintes resultados: a resistência à extinção dos comportamentos de fuga e esquiva aumen- ta com o aumento na intensidade do choque (Franchina, 1969; Stavely, 1966), com o acrés- cimo de um estímulo aviso (Shnidman, 1966) e com o aumento na freqüência de choques liberados (Courtney e Perone, 1992). Por ou- tro lado, um aumento na probabilidade de re- forço provoca uma diminuição na resistência à extinção de comportamentos de esquiva (Galvani, 1971; 1973; Olson, Davenport e Kamichoff, 1971). Dos estudos sobre resistên- cia à extinção de comportamentos mantidos por reforçamento negativo, o trabalho de Courtneye Perone (1992) foi o único que usou uma medida relativa de resistência e o único em que a variável de interesse (freqüência de choques liberados) foi manipulada entre os componentes de um esquema múltiplo con- corrente. Processos determinantes da resistência a mudanças A taxa de respostas durante o condicio- namento e a resistência a mudanças (entendi- da como maior ou menor alteração em algu- ma medida da resposta quando alguma opera- ção que a modifique é realizada) geralmente têm sido consideradas medidas de força da res- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4468 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 69 posta. No entanto, já em 1938 (p. 85), Skinner sugeriu uma baixa correlação entre essas duas medidas: A definição de condicionamento que foi dada aqui é em termos de uma mudança na força do reflexo, mas o ato de reforçamento tem outro efeito distinto. Ele estabelece a potencia- lidade de uma curva de extinção subseqüen- te, cujo tamanho é uma medida da extensão do condicionamento. Não há uma relação sim- ples entre essas duas medidas. É possível atin- gir uma taxa máxima de respostas (uma força máxima) muito rapidamente. Reforços adicio- nais não afetam essa medida, mas continuam a fortalecer a reserva descrita por uma curva de extinção subseqüente. O efeito típico do “supercondicionamento” é sentido não em al- guma propriedade imediata do comportamen- to, mas sobre suas mudanças subseqüentes du- rante a extinção. (A ausência de uma relação entre as duas medidas não é incompatível com o pressuposto de uma relação entre taxa e re- serva devido à interposição da reserva imedia- ta limitada.) (itálico adicionado) Alguns estudos têm reforçado a proposi- ção de uma ausência de relação entre taxa de respostas e resistência a mudanças. Fath e cola- boradores (1983), por exemplo, expuseram pombos a um esquema múltiplo VI 60 s VI 60 s, aos quais sobrepuseram um procedimen- to de pacing, segundo o qual as respostas só seriam reforçadas se ocorressem em uma taxa específica. Essa estratégia experimental dife- renciou a taxa de respostas entre os compo- nentes, mantendo a taxa e a probabilidade de reforços constantes entre eles. Taxas de res- postas diferentes mantidas pela mesma proba- bilidade de reforço apresentaram a mesma re- sistência quando alimento livre foi introduzi- do entre os componentes. Por outro lado, Blackman (1968), usando um procedimento de supressão condicionada, observou que ta- xas de respostas semelhantes mantidas por di- ferentes taxas de reforços apresentaram resis- tência diferenciada. Esses dados levaram Nevin (1984) a su- gerir que a taxa de respostas e a resistência a mudanças seriam determinadas por processos distintos. Mais precisamente, a taxa de respos- tas seria determinada pela relação de contin- gência entre resposta e conseqüência (relação R-S), enquanto a resistência a mudanças seria determinada pela relação de contingência en- tre estímulo antecedente e conseqüência (re- lação S-S). Existe uma relação de contingên- cia entre dois eventos A e B quando a probabi- lidade de B ocorrer dada a presença de A for maior do que em sua ausência. Assim, quanto maior a probabilidade de a conseqüência ocor- rer na presença de um estímulo ou de uma res- posta, em comparação com sua ausência, mais forte será a relação entre eles. Uma série de estudos tem sido realizada com o objetivo de avaliar a proposta de Nevin (1984) e, de forma geral, essa proposta tem recebido algum apoio empírico (Nevin et al., 1990; Nevin, Smith, e Roberts, 1987). Em um estudo freqüentemente citado, Nevin e cola- boradores (1990), enfraqueceram a relação R- S, ao mesmo tempo em que fortaleceram a re- lação S-S, ao fornecerem uma fonte alternati- va de reforços na presença do mesmo estímu- lo antecedente. No Experimento 1, os sujeitos foram expostos a um esquema múltiplo no qual esquemas VI idênticos vigoravam nos dois com- ponentes. Em um dos componentes, além do esquema VI, o alimento era liberado indepen- dentemente da resposta, de acordo com um esquema VT, em uma taxa que variava de 40 a 240 reforços por hora. Dessa forma, a relação R-S foi enfraquecida – visto que parte do ali- mento liberado no componente era indepen- dente da resposta – e o enfraquecimento dessa relação provocou um decréscimo na taxa de respostas que foi diretamente relacionado à quantidade de alimento livre obtido. Contudo a relação S-S foi fortalecida no componente com reforços adicionais, já que uma maior quantidade de alimento era recebida na pre- sença do estímulo que sinalizava aquele com- ponente. Para avaliar a proposta de que a re- sistência a mudanças seria aumentada pelo for- talecimento da relação S-S, dois testes de re- sistência a mudanças foram realizados: sa- ciação e extinção. Nos dois testes, a proposta foi confirmada: quanto maior a taxa de refor- ços obtidos, contingentes ou não à resposta, maior foi a resistência. No Experimento 2, re- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4469 70 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. sultados semelhantes foram obtidos, usando um procedimento ligeiramente diferente: nes- se caso, os reforços adicionais poderiam ser obtidos respondendo em outro disco, cuja cor era a mesma que sinalizava o componente. Além disso, um outro estudo mostrou que os reforçadores liberados independentemente da resposta podem ser qualitativamente dife- rentes dos reforçadores liberados dependen- tes da resposta e, mesmo assim, a resistência é aumentada. No estudo de Grimes e Shull (2001), os sujeitos (ratos) respondiam em um esquema múltiplo e recebiam pelotas de ali- mento como reforçador. Em um dos compo- nentes, leite condensado era liberado indepen- dentemente da resposta e, após a obtenção de taxas de respostas estáveis, a extinção era rea- lizada. A resistência à extinção foi maior no componente no qual o leite condensado era liberado independentemente da resposta, re- sultado semelhante ao de Nevin e colaborado- res (1990). Esses resultados, em conjunto, sa- lientam a importância de se considerarem to- das as conseqüências que estão sendo libera- das dentro de um contexto ou mesmo em con- textos semelhantes, a despeito do tipo de con- seqüência. Apesar disso, mais recentemente, tem-se observado a influência de algumas relações R- S sobre a resistência a mudanças (Bell, 1999; Nevin et al., 2001). No estudo de Bell, descri- to anteriormente, em um dos componentes vi- gorava um esquema VI 120 s mais um atraso não-sinalizado de 3 s, enquanto em outro com- ponente vigorava um esquema VI 123 s. Dessa forma, o tempo entre o início do componente e a liberação do reforço era idêntico entre os componentes (igual relação S-S), porém o atra- so não-sinalizado enfraquecia a relação R-S. Como descrito, o atraso do reforço não-sinali- zado enfraqueceu a resistência a mudanças, mostrando que esta também pode ser afetada por modificações na relação R-S. Resistência a mudanças e preferência As variáveis que afetam a resistência a mudanças parecem também afetar a preferên- cia de uma alternativa entre várias dispostas em esquemas concorrentes encadeados. Nevin (1979) sugeriu que tanto a resistência a mu- danças quanto a preferência são manifestações de um constructo maior, a massa comporta- mental, que seria análoga à massa de um cor- po físico. Alguns estudos têm mostrado que a re- sistência a mudanças e a preferência entre elos terminais de esquemas concorrentes encade- ados realmente são co-variantes. Grace e Nevin (1997) expuseram pombos a duas si- tuações na mesma sessão experimental. Na primeira parte da sessão, vigoravam esque- mas concorrentes encadeados com elos inici- ais iguais e elos terminais que diferiam so- mente na taxa de reforços liberados. Na se- gunda parte, os elos terminais dos esquemas concorrentes encadeados usados na primeira parte da sessão foram apresentados em esque- mas múltiplos. A resistência a mudanças foi testada com a liberaçãode alimento livre no intervalo entre os componentes do esquema múltiplo, e a preferência foi avaliada pela pro- porção de respostas nos elos iniciais. Tanto a preferência quanto a resistência a mudanças mostraram-se diretamente relacionadas à taxa de reforços liberados. Além disso, preferên- cia e resistência apresentaram alta correlação entre si, o que sugere que essas duas medidas podem ser expressões diferentes e indepen- dentes de um mesmo constructo, como suge- rido por Nevin (1979). Resultados semelhan- tes foram obtidos com componentes de dura- ção constante ou variável (Grace e Nevin, 2000) e com manipulações na magnitude do reforço (Grace, Beddel e Nevin, 2002). Resistência a mudanças versus sensibilidade comportamental versus efeitos da história de reforçamento Outras áreas dentro da análise do com- portamento, além daquela sobre resistência a mudanças, observam a manutenção de padrões de respostas após a alteração de alguma variá- vel ambiental. Entre elas, destacam-se os estu- dos sobre a sensibilidade comportamental e so- bre os efeitos de história de reforçamento e punição. Embora a nomenclatura seja diferen- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4470 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 71 te, todas essas áreas compartilham um mesmo interesse: a persistência de padrões de com- portamento anteriormente reforçados quando mudanças nas contingências são realizadas. Essa persistência tem sido denominada, por diferentes grupos de pesquisadores, de alta resistência a mudanças, baixa sensibilidade comportamental ou efeito de história. O termo sensibilidade comportamental é geralmente usado em dois contextos diferen- tes. O primeiro deles se refere à área de esco- lha e de preferência. Nas pesquisas dessa área, o procedimento padrão consiste em expor os sujeitos a um esquema concorrente, cujos com- ponentes são, em geral, esquemas VI que libe- ram diferentes taxas de reforços. Após as ta- xas de respostas tornarem-se estáveis, os valo- res dos esquemas VI são alterados ao longo de várias condições, e a proporção de respostas em cada uma das alternativas é calculada. Herrnstein (1961) observou que a proporção de respostas em cada alternativa igualava a proporção de reforços liberados naquela alter- nativa. Esse resultado ficou conhecido como a lei da igualação e tem sido replicado várias ve- zes (p. ex.: Brownstein e Pliskoff, 1968; Reynolds, 1963). Baum (1974), entretanto, observou que a lei da igualação parecia não descrever acu- radamente alguns resultados obtidos por meio do procedimento já descrito. Alguns sujeitos apresentavam grandes mudanças na propor- ção de respostas em face de pequenas mudan- ças na proporção de reforços; outros sujeitos, por sua vez, apresentavam o padrão contrá- rio. Em função disso, foram acrescentados dois parâmetros à lei da igualação: o viés e a sen- sibilidade. O viés refere-se a uma preferência por uma das alternativas que se mantém ape- sar das manipulações na taxa de reforços. A sensibilidade, por outro lado, é uma medida que mostra o quanto o comportamento muda em função de mudanças na taxa de reforços. Nesse sentido, a sensibilidade comportamental seria o contrário da resistência a mudanças: uma alta sensibilidade seria equivalente a uma baixa resistência a mudanças e vice-versa. A única diferença seria o tipo de operação utili- zada (ver Capítulo 9 para uma discussão mais detalhada sobre escolha e preferência). É interessante notar que a sensibilidade comportamental estudada na área de escolha pode ser influenciada, assim como a resistên- cia a mudanças, pela relação de contingência entre o estímulo antecedente e a conseqüên- cia. Por exemplo, Todorov e colaboradores (1983) expuseram alguns pombos a diferen- tes pares de esquemas concorrentes VI VI em 9 condições de 30 sessões cada (Fase 1) e a 5 condições de 55 sessões cada (Fase 2). Os mes- mos estímulos antecedentes foram utilizados em todas as condições. Os resultados mostra- ram que a sensibilidade comportamental em ambas as fases diminuiu com o aumento no número de condições experimentais e aumen- tou com o aumento no número de sessões. O decréscimo da sensibilidade com o aumento no número de condições pode ter sido devido ao fato de que, apesar de os valores dos esque- mas VI terem mudado, o estímulo anteceden- te permaneceu o mesmo. Ao se mudarem os valores dos esquemas, padrões anteriormente reforçados na presença dos estímulos antece- dentes tenderam a persistir, sendo tal persis- tência evidenciada na baixa sensibilidade (ou alta resistência) às mudanças nos valores dos esquemas. Um suporte adicional para essa possibili- dade foi fornecido posteriormente por Hanna, Blackman e Todorov (1992). Nesse estudo, seis pombos foram expostos a 20 combinações de cinco valores de esquemas VI arranjados con- correntemente, em uma sessão de 5 h. Na pri- meira fase, para três sujeitos, cada valor de intervalo era sinalizado por uma cor diferente, enquanto para os outros três, a cor do disco de resposta era sempre a mesma, independente do esquema em vigor. Na segunda fase, as con- dições de estímulos foram revertidas para cada pombo. A presença de estímulos diferentes sinalizando diferentes esquemas exerceu um controle sobre a taxa de respostas logo na pri- meira hora de sessão; já nas condições com estímulos antecedentes iguais, as taxas de res- postas foram inicialmente semelhantes, tornan- do-se diferenciadas após a segunda hora de sessão. A sensibilidade comportamental tam- bém foi afetada pela presença de diferentes estímulos, sendo alta desde o início da sessão (valores próximos a 1) em comparação com a Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4471 72 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. condição na qual os esquemas foram sinaliza- dos pela mesma cor. Novamente, quando o es- tímulo antecedente permaneceu o mesmo, pode-se supor que padrões de comportamento anteriormente reforçados tenderam a perma- necer, diminuindo a sensibilidade (ou aumen- tando a resistência) às mudanças nas contin- gências. Esses dados, em conjunto, apontam para a importância da relação entre o estímu- lo antecedente e a conseqüência como determinante da sensibilidade em procedimen- tos de escolha, assim como da resistência a mudanças em esquemas múltiplos. O segundo contexto no qual o termo sen- sibilidade é utilizado é na área de comporta- mento governado por regras. Vários estudos presentes na literatura têm mostrado que o uso de regras pode tornar o comportamento insensível a mudanças nas contingências ambientais (Catania, Shimoff e Matthews, 1989; Hayes et al., 1986; Otto, Torgrud e Holborn, 1999). O procedimento básico para a avaliação da insensibilidade do comporta- mento governado por regras envolve a expo- sição dos sujeitos a uma contingência prece- dida por uma instrução. Depois de algum tem- po, a contingência é modificada e mudanças no comportamento são registradas. Se o com- portamento for alterado em função da mu- dança na contingência, ele é dito sensível; caso contrário, é considerado insensível (Madden, Chase e Joyce, 1998). Alternativamente, pode- se manter a contingência e mudar as instru- ções fornecidas. Nesse caso, o comportamen- to seria dito sensível caso não se alterasse com a mudança nas instruções. Um exemplo des- se último tipo de procedimento foi apresen- tado no estudo de Kauffman, Baron e Kopp (1966), no qual estudantes universitários fo- ram expostos a uma tarefa por seis sessões de 30 min, nas quais estava em vigor um esque- ma VI 1 min. Além disso, os autores fornece- ram instruções precisas e imprecisas aos su- jeitos: para alguns deles, foi dito que deveri- am responder de acordo com um esquema VI 1 min; para outros, que deveriam responder de acordo com um esquema FI 1 min e, para os demais, de acordo com um esquema VR 150. Todos os participantes responderam con- forme o padrão descrito na instrução, da pri- meiraà última sessão, mostrando insensibili- dade à contingência programada ou, alterna- tivamente, alta resistência a mudanças (ver Capítulo 12 para informações mais detalha- das sobre a sensibilidade do comportamento governado por regras). Apesar de alguns autores terem argumen- tado que a insensibilidade é uma característi- ca intrínseca ao comportamento governado por regras, ela também pode ser entendida à luz do conceito de resistência a mudanças. As ins- truções utilizadas nos procedimentos dessa área são estímulos antecedentes verbais que podem funcionar como estímulos discrimi- nativos (Okouchi, 1999), operações estabelece- doras (Michael, 1982) ou operações que alte- ram a função de outros estímulos (Schlinger, 1993). Independentemente da função exercida, as instruções são correlacionadas com a ocor- rência de reforçamento, tanto positivo quanto negativo. Essa alta correlação entre estímulo antecedente e conseqüência pode ser respon- sável pela resistência a mudanças comumente observada em comportamentos sob controle funcional de instruções. Por outro lado, se a relação entre a instrução e a conseqüência é enfraquecida, o comportamento rapidamente muda em face das contingências alteradas, como demonstrou Galizio (1979). No Experi- mento 3 desse estudo, dois participantes fo- ram expostos a quatro componentes de um esquema múltiplo e lhes foi dito que os estí- mulos antecedentes sinalizavam a ocorrência de perdas monetárias, que poderiam aconte- cer ou não a cada 10, 30 ou 60 s, dependendo do componente. Inicialmente, a contingência de perda não estava em vigor (condição sem contato); em seguida, perdas monetárias acon- teciam a cada 10 s, independente do compo- nente (condição com contato), após a qual a condição sem contato foi retomada. Além dis- so, em cada uma das condições, o experimen- tador dizia aos participantes que, na presença de uma luz laranja, as instruções recebidas se- riam sempre precisas; quando uma luz púrpu- ra se acendesse, as instruções seriam inacu- radas. Na primeira condição sem contato, o desempenho dos participantes foi de acordo com as instruções recebidas, a despeito de sua precisão. Na condição com contato, os partici- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4472 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 73 pantes continuaram comportando-se de acor- do com as instruções quando estas eram “pre- cisas”, mas as abandonaram rapidamente quan- do eram “imprecisas”. Nessa condição, a cor- relação entre a instrução (estímulo anteceden- te) e a conseqüência foi diminuída. Na condi- ção seguinte (sem contato), os participantes abandonaram as instruções quando estas eram imprecisas, ao contrário do que aconteceu na primeira exposição a essa condição, indican- do uma alta sensibilidade à contingência ou, alternativamente, baixa resistência a mudan- ças. Esses dados sugerem que, novamente, a relação de contingência entre antecedente e conseqüência parece ser uma importante va- riável na determinação da (in)sensibilidade comportamental. Uma segunda variável que guarda seme- lhança com a resistência a mudanças é o cha- mado “efeito de história”. Esse efeito também se refere à observação da persistência de pa- drões de respostas, anteriormente reforçadas sob um tipo de esquema de reforçamento, quando as contingências são alteradas. Um experimento típico delineado para investigar o efeito de história envolve a exposição dos su- jeitos a um tipo de esquema de reforçamento, o qual posteriormente é substituído por outro. O efeito de história é observado quando pa- drões de respostas emitidos no primeiro es- quema permanecem no esquema seguinte. Wanchisen, Tatham e Mooney (1989), por exemplo, observaram o efeito de história ex- pondo ratos a um esquema VR e, em seguida, a um esquema FI. Um segundo grupo (contro- le) foi exposto somente ao esquema FI. Em contraste com o grupo controle, os ratos ini- cialmente expostos ao esquema VR exibiram, no esquema FI, taxas de respostas altas e pau- sas pós-reforço curtas, padrões de respostas ti- picamente encontrados sob o esquema VR, sugerindo que a resposta sob contingências atuais pode ser influenciada por contingências passadas. Essa persistência da resposta é co- mumente descrita como efeito da história de reforçamento, mas pode igualmente ser consi- derada como evidência de alta resistência ou baixa sensibilidade a mudanças (ver Capítulo 3 para informações mais detalhadas sobre his- tória de reforçamento). O efeito de história pode igualmente ser influenciado pela taxa de reforços, assim como a resistência a mudanças. Okouchi e Lattal (2000) testaram essa possibilidade ao treina- rem pombos em um esquema múltiplo em cujos componentes vigoravam esquemas tandem VI DRL. Os valores dos esquemas VI foram ajusta- dos de maneira a tornar a taxa de reforços em um dos componentes maior do que no outro. Em seguida, os esquemas tandem VI DRL foram substituídos por esquemas FI de diferentes va- lores, porém os estímulos que sinalizavam cada componente foram mantidos. Durante o treino, os sujeitos responderam em taxas baixas e se- melhantes nos dois componentes. Quando hou- ve a mudança para o esquema FI, a resposta permaneceu em taxas baixas (padrão anterior- mente reforçado no esquema DRL) na presença do estímulo associado com a maior taxa de re- forços durante o treino por mais tempo do que a resposta no componente com menor taxa de reforços, replicando os resultados encontrados na literatura de resistência a mudanças. Com isso, podemos concluir que a análi- se dos conceitos de resistência a mudanças, de sensibilidade comportamental e de efeito de história acaba por revelar grandes semelhan- ças ou, até mesmo, superposições. Nos três casos, a variável de interesse é a persistência de padrões de comportamento. Em segundo lugar, o mesmo processo parece ser responsá- vel pela ocorrência dessas três variáveis: a re- lação entre o estímulo antecedente e a conse- qüência, como os estudos citados têm demons- trado. Apesar de existirem diferenças de pro- cedimento e de as variáveis de interesse não serem exatamente as mesmas, as semelhanças encontradas levantam a possibilidade, pouco estudada, de interação entre diferentes áreas de pesquisas. Conforme Sidman (1960), o mais produtivo para a ciência é a busca de similari- dades, e não de diferenças. Por exemplo, inter- relações entre fenômenos podem conduzir à integração de áreas de pesquisa, e perguntas de uma área podem ser esclarecidas ou complementadas por outra. Além disso, per- guntas que já foram formuladas em uma área podem suscitar outros questionamentos em áre- as afins. Assim, pesquisadores que, até o mo- mento, trabalharam separadamente poderiam Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4473 74 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. beneficiar-se dos conhecimentos produzidos em outras áreas que não se restringem às dis- cutidas aqui, caso semelhanças entre elas se- jam identificadas. APLICAÇÕES DOS CONCEITOS DE MOMENTO COMPORTAMENTAL E DE RESISTÊNCIA A MUDANÇAS O conceito de resistência a mudanças, jun- to com os dados obtidos em pesquisa básica, tem sido utilizado por alguns pesquisadores na solução de problemas aplicados. O comporta- mento sobre o qual existe um maior número de trabalhos aplicados é a aquiescência a ins- truções (Strand, 2000). O procedimento pa- drão nesses estudos compreende a apresenta- ção de uma instrução a que o participante ra- ramente obedece (instrução de baixa probabi- lidade), precedida por um conjunto de instru- ções a que o participante freqüentemente obe- dece (instruções de alta probabilidade). Com o uso desse procedimento, ocorre um aumen- to na freqüência com a qual a instrução de baixa probabilidade controla o comportamen- to do participante. A lógica por trás do uso desse procedi- mento é a seguinte: o comportamento de se- guir instruções é uma classe de respostas de ordem superior (nessecaso, chamada aquies- cência), que abarca várias instâncias nas quais instruções são fornecidas. Dentro dessa classe, algumas instruções controlam mais facilmen- te o comportamento do participante e são aque- las a que o participante obedece com uma alta probabilidade; outras instruções dificilmente controlam o comportamento do participante. Usando a metáfora do momento comporta- mental, a introdução de instruções que o par- ticipante dificilmente segue pode ser conside- rada uma DO, algo que vai alterar o fluxo comportamental normal do indivíduo. Contu- do, uma vez que tanto as instruções de alta probabilidade quanto as instruções de baixa probabilidade pertencem à mesma classe de respostas de ordem superior (aquiescência), o reforçamento de algumas instâncias dessa clas- se pode aumentar a resistência a mudanças da classe como um todo, inclusive das instâncias com baixa probabilidade de ocorrência. Esse fenômeno foi observado nos exemplos a seguir. Mace e colaboradores (1988) realizaram uma série de experimentos, investigando os efeitos do reforçamento da aquiescência a uma série de instruções de alta probabilidade sobre a aquiescência a uma instrução de baixa pro- babilidade, com participantes que apresen- tavam atraso no desenvolvimento. No Expe- rimento 1, o participante foi exposto a cinco condições. Na linha de base, instruções de bai- xa probabilidade, tanto afirmativas (p. ex.: “Por favor, afaste sua lancheira”) quanto negativas (p. ex.: “por favor, não coloque sua lancheira na mesa”), eram apresentadas em intervalos de 1 min e, se seguidas, tinham como conse- qüência um elogio. Nas condições seguintes, ora as instruções de baixa probabilidade afir- mativas, ora as negativas, eram precedidas por três ou quatro instruções de alta probabilida- de (p. ex.: “venha cá e me dê um abraço”), afirmativas ou negativas, respectivamente, também tinham um elogio como conseqüên- cia. A introdução de instruções de alta proba- bilidade aumentou significativamente a aqui- escência às instruções de baixa probabilidade. No Experimento 2, os autores adicionaram uma condição-controle, na qual somente atenção era dada ao participante antes de uma instrução de baixa probabilidade, o que não foi suficien- te para aumentar a aquiescência; o reforça- mento do seguimento de instruções de alta pro- babilidade foi necessário para que esse aumen- to ocorresse. No Experimento 3, foi investigado o efei- to da taxa de reforços sobre a aquiescência. O procedimento foi semelhante ao do Experimen- to 1. Contudo em algumas condições o experi- mentador, depois de ter fornecido a última ins- trução de alta probabilidade, fazia uma pausa de 20 s antes de fornecer a instrução de baixa probabilidade; em outras condições, a pausa era de 5 s. Uma pausa maior entre as instru- ções supostamente diminuiria a taxa de refor- ços, e os resultados, condizentes com a litera- tura de pesquisa básica, mostraram que o au- mento da pausa diminuiu a probabilidade de aquiescência. No Experimento 4, o procedi- mento de instruções de alta probabilidade foi usado para diminuir a latência ao iniciar tare- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4474 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 75 fas instruídas e, no Experimento 5, o procedi- mento foi usado para diminuir o tempo de exe- cução de tarefas (no caso, os vários passos que deveriam ser realizados ao tomar banho). O procedimento foi semelhante ao do Experimento 1. Novamente, o fornecimento de instruções de alta probabilidade diminuiu a latência para ini- ciar uma tarefa exigida e o tempo para a execu- ção de tarefas. Os efeitos observados no estudo de Mace e colaboradores (1988) também podem ser influenciados pelo tipo de reforçador utiliza- do. Conforme anteriormente descrito, Mace e colaboradores (1997, Experimento 3) mos- traram que o comportamento de ratos manti- do por sacarina foi mais resistente à extinção do que o comportamento mantido por ácido cítrico, apesar de a taxa de reforços ter sido semelhante nos dois casos. Nos Experimen- tos 1 e 2 desse mesmo estudo, os autores ob- servaram o efeito da exposição ao procedi- mento de instruções de alta probabilidade, de forma semelhante ao estudo de Mace e cola- boradores (1988), porém manipulando o tipo de reforçador. Em algumas condições, seguir as instruções de alta probabilidade era refor- çado com elogios; em outras, com alimento. Seguir as instruções de baixa probabilidade, apresentadas em seguida às instruções de alta probabilidade, era reforçado sempre com elo- gio, independentemente da condição. Os re- sultados dos dois experimentos mostraram uma relação clara entre o tipo de reforçador e o aumento na probabilidade de aquiescên- cia: quando o alimento era usado como reforçador, a probabilidade de aquiescência era maior do que quando eram usados elogi- os como reforço. Além disso, esses resultados são compatíveis com a noção de que a resis- tência a mudanças e a preferência estão inti- mamente relacionadas, pois, nos três experi- mentos, o reforçador que se mostrou mais efi- caz em aumentar a resistência foi o mesmo para o qual os participantes já apresentavam uma preferência anterior. Esses dados, junta- mente com aqueles obtidos por Grace e Nevin (1997), sugerem que uma boa forma de se identificar os reforçadores que serão mais efi- cazes em produzir alta resistência é identifi- car os eventos preferidos pelos participantes. O procedimento de instruções de alta pro- babilidade também foi usado com sucesso para melhorar o desempenho na resolução de pro- blemas matemáticos em participantes sem atra- so no desenvolvimento e sem o uso de refor- çadores arbitrários. Belfiore, Lee, Vargas e Skinner (1997) realizaram inicialmente uma avaliação de preferência entre exercícios de multiplicação com um ou três dígitos. As par- ticipantes foram duas adolescentes que estu- davam em uma escola alternativa, pois haviam sido expulsas da escola regular, em função de se recusarem a iniciar tarefas e a obedecer às normas da escola. Os resultados da avaliação de preferência mostraram que ambas as parti- cipantes preferiam exercícios de multiplicação com um único dígito. Em seguida, a latência para iniciar os problemas de multiplicação com três dígitos foi avaliada em duas condições: na primeira, as participantes eram simplesmente expostas aos problemas com três dígitos; na segunda, antes de cada problema com três dí- gitos, as participantes eram expostas a três pro- blemas de multiplicação com um único dígito. Nenhum tipo de feedback era fornecido pelos investigadores em nenhuma condição. A latên- cia para iniciar os problemas de três dígitos diminuiu significativamente com a introdução dos três problemas de multiplicação com um único dígito. Esses resultados foram replicados posteriormente por Belfiore, Lee, Scheeler e Klein (2002). Esses dados são interessantes ao se pen- sar na generalidade da aplicação do procedi- mento de instruções de alta probabilidade. Pri- meiro, nesses dois estudos, as atividades de alta probabilidade e as atividades de baixa probabi- lidade eram funcionalmente relacionadas, uma vez que ambas consistiam na resolução de pro- blemas matemáticos equivalentes, diferindo somente no grau de complexidade (em contraste com estudos anteriores, nos quais as instruções de alta probabilidade não tinham uma relação tão clara com as de baixa probabilidade). Se- gundo, o evento reforçador para os problemas era a própria conclusão do problema, e não al- gum evento estabelecido arbitrariamente (p. ex.: elogio). Em uma situação natural, é praticamen- te impossível dar a atenção individual que seria necessária para a liberação de reforçadores ar- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4475 76 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. bitrários. O uso de reforçadores naturais aumen- ta, assim, a generalidade da aplicação do pro- cedimento para situações nas quais o controledas conseqüências pelo investigador não pode ser feito individualmente, como em uma sala de aula, por exemplo. A metáfora do momento comportamental tem sido empregada em várias outras situações, como, por exemplo, em hospitais. Esses estu- dos têm demonstrado um aumento da aquies- cência aos procedimentos médicos (McComas, Wacker e Cooper, 1998), iniciação de contatos sociais (Davis et al., 1994), redução de compor- tamentos autolesivos e agressão (Horner et al., 1991) e redução de estereotipias (Mace e Belfiore, 1990). Outros estudos, apesar de não terem sido diretamente delineados dentro do quadro conceitual do momento comportamental, po- dem ser considerados como tal. Por exemplo, Parpal e Maccoby (1985) observaram que um aumento nas interações parentais recíprocas com crianças durante brincadeiras aumentava a probabilidade de elas obedecerem aos pedi- dos posteriores de suas mães para que guardas- sem os brinquedos. Dentro da perspectiva do momento comportamental, ao se engajarem em interações recíprocas com as crianças, os pais podem acabar reforçando uma ampla classe de respostas que poderiam ser denominadas de cooperação. O reforçamento dessa classe de res- postas durante as brincadeiras pode ter aumen- tado a resistência a mudanças dessas respostas, fazendo com que as mesmas permanecessem, mesmo na ausência de reforçamento. A metáfora do momento comportamental e o procedimento de alta probabilidade tam- bém podem ter funções heurísticas até mesmo em áreas nas quais um teste experimental não pode ser facilmente realizado, como na análi- se de jogos esportivos. Por exemplo, Mace e colaboradores (1992) analisaram sete jogos de basquete e investigaram, por meio de correla- ções, duas questões: a) se a resposta de um time de basquete a uma situação aversiva – considera- da uma DO – durante o jogo estaria relacionada à taxa local de reforços que precedia a situação aversiva; b) se um pedido de tempo seria uma intervenção efetiva na redução do momento comportamental do time adversário. Para responder à primeira questão, eles calcularam a porcentagem de adversidades a que um time respondeu favoravelmente em função da taxa de reforços anterior à adversi- dade (a taxa de reforços foi calculada dividin- do-se o número de eventos considerados refor- çadores por períodos de 3 min e agrupada em classes discretas). Esse cálculo mostrou que a porcentagem de adversidades a que um time respondia favoravelmente apresentou correla- ção positiva com a taxa de reforços anterior. A segunda questão foi avaliada calculando-se a razão de reforço (taxa de reforços do time ad- versário dividida pela do time alvo) 3 min an- tes e 3 min depois de um pedido de tempo. Esse cálculo revelou que o pedido de tempo foi eficaz na redução da taxa de reforços do time adversário. Esses resultados, apesar de correlacionais, são consistentes com os resul- tados de Mace e colaboradores (1988), que ob- servaram que a probabilidade de se engajar em um comportamento de baixa probabilidade era aumentada se este fosse precedido por refor- çamento de comportamentos de alta probabi- lidade pertencentes à mesma classe e que esse efeito é afetado pelo tempo desde o último re- forço (Experimento 3). A metáfora do momento comportamental, junto com os dados de pesquisas sobre resis- tência a mudanças, também pode lançar luz sobre tratamentos já tradicionais em análise aplicada do comportamento. Por exemplo, um dos procedimentos mais usados no tratamen- to de comportamentos disfuncionais é o re- forçamento diferencial de outros comporta- mentos (DRO), que consiste no fornecimento de reforçadores para comportamentos incom- patíveis ou quaisquer outros comportamentos que não sejam o comportamento-alvo. Esse procedimento provoca uma redução na fre- qüência do comportamento-alvo, como predi- to pela Lei da Igualação (McDowell, 1982). En- tretanto um efeito colateral indesejável pode ocorrer em função do uso desse procedimen- to. Nevin e colaboradores (1990) mostraram Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4476 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 77 que a adição de reforçadores, contingentes ou não a uma outra resposta, no mesmo contexto diminui a freqüência da resposta sob análise, mas aumenta sua resistência a mudanças. O uso do procedimento DRO, nesse sentido, pode diminuir a taxa da resposta sob análise, mas pode aumentar sua persistência quando al- guma condição for alterada. Segundo Mace (2000), ele e seus colaboradores testaram essa possibilidade, usando dois procedimentos de extinção de comportamentos problemáticos com crianças com atraso no desenvolvimento. Em uma fase, o procedimento de extinção foi precedido por uma linha de base de reforça- mento intermitente. Em outra, o procedimen- to de extinção foi precedido por tratamento com reforçamento diferencial de comporta- mentos adaptativos no mesmo contexto no qual os comportamentos problemáticos ocorriam e eram reforçados. A freqüência de comporta- mentos problemáticos diminuiu com o refor- çamento diferencial de comportamentos adap- tativos, porém os comportamentos problemá- ticos foram muito mais resistentes à extinção quando esta era precedida por DRO, em com- paração com reforçamento intermitente. Ape- sar de não ter havido uma condição na qual o procedimento DRO ocorria em um contexto di- ferente do contexto em que os comportamen- tos problemáticos eram reforçados, esse estu- do sugere que o contexto no qual o procedi- mento DRO ocorre deve ser levado em consi- deração por clínicos e por pesquisadores que o utilizarem como forma de intervenção. A pesquisa básica sobre resistência a mu- danças também pode lançar luz sobre outras áreas em análise aplicada do comportamento. A análise que Rachlin (1995) fez do autocon- trole, por exemplo, tem semelhanças com o modelo de momento comportamental. Esse autor propôs que o autocontrole envolve um padrão de engajamento em comportamentos altamente valorizados (p. ex.: um estilo de vida sadio), apesar da presença de alternativas ten- tadoras (p. ex.: comidas gordurosas, consumo de bebidas alcoólicas, etc.). As alternativas ten- tadoras, nesse caso, podem ser entendidas den- tro do modelo de momento comportamental como formas de DO, já que podem alterar o progresso dos comportamentos altamente va- lorizados. Esses comportamentos altamente valorizados seriam reforçados por conseqüên- cias de grande magnitude (p. ex.: saúde) e, se elas fossem imediatas e ocorressem com alta freqüência, esses comportamentos seriam re- almente muito resistentes às tentações. Con- tudo as conseqüências que mantêm esses com- portamentos são geralmente atrasadas ou po- dem nunca acontecer, o que dificulta a aquisi- ção e a manutenção dos mesmos. Ainda com base nos dados de Nevin e colaboradores (1990), Nevin e Grace (2000) sugeriram que a escolha por comportamentos saudáveis, por exemplo, poderia ser aumentada com a adição de reforçadores adicionais não relacionados à saúde, tal como ouvir músicas preferidas em am- bientes associados à emissão de comportamen- tos saudáveis. Essa análise é obviamente especulativa e merece a realização de trabalhos empíricos que a investiguem com mais detalhes, mas fornece uma sugestão bastante promissora de como aumentar os comportamentos de autocontrole (ver Capítulo 10 para informações mais detalhadas sobre autocontrole). CONCLUSÃO Com os avanços metodológicos e refina- mentos na análise dos dados, têm sido obti- das relações sistemáticas e quantificáveis en- tre o grau de persistência da resposta em face de modificações no ambiente e algumas vari- áveis ambientais, tais como a taxa e a magni- tude de reforços. A obtenção dessas relações sistemáticas e a identificação dos processos comportamentais por trás delas têm ressalta- do a relevância do papel do contexto no qual o comportamento ocorre, das relações entre os estímulos antecedentes à resposta e os es-tímulos que a sucedem. Cada vez mais, ob- servamos que os estímulos que sucedem a ocorrência de uma resposta não selecionam simplesmente classes de respostas, mas rela- ções entre os estímulos antecedentes e essas classes de respostas. São esses estímulos an- tecedentes que servirão de guia para o com- portamento em situações futuras (Donahoe e Palmer, 1994); são eles que fazem a ponte entre o passado, o presente e o futuro. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4477 78 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. A observação de que existem conceitos in- timamente relacionados, tal como mostraram Grace e Nevin (1997) em relação à resistência a mudanças e à preferência, ou como foi suge- rido anteriormente, mesmo que especulativa- mente, em relação aos conceitos de resistência a mudanças, sensibilidade e efeito de história, aponta para uma possibilidade instigante: a pos- sibilidade de uma teoria unificada do compor- tamento, coerente internamente e com alto grau de generalidade. Precisamos de mais estudos que lidem diretamente com essa questão, de análises que sistematizem melhor os dados exis- tentes. O conceito de momento comporta- mental, com seus componentes velocidade e massa comportamental, tem muito a oferecer, desencadeando esse processo de unificação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Baum, W. M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and undermatching. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 22, 231-242. Belfiore, P. J.; Lee, D. L.; Scheeler, M. C.; Klein, D. (2002). Implications of behavioral momentum and academic achievement for students with behavior disor- ders: Theory, application, and practice. Psychology in the Schools, 39, 171-179. Belfiore, P. J.; Lee, D. L.; Vargas, A. U.; Skinner, C. H. (1997). Effects of high-preference single-digit mathe- matics problem completion on multiple-digit mathe- matics problem performance. Journal of Applied Beha- vior Analysis, 30, 327-330. Bell, M. C. (1999). 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Uma alternativa seria a utilização dos relatos, seja do próprio sujeito ou de outros indivíduos, acerca das contingências passadas. Entretanto os relatos nem sempre correspon- dem com precisão às contingências às quais os indivíduos foram expostos (Simonassi, Fróes e Sanabio, 1995; Simonassi, Oliveira e Gosch, 1997; Simonassi, Oliveira e Sanabio, 1994), po- dendo estar sob controle de outras variáveis ambientais (Critchfield, 1993, 1996; Critchfield e Perone, 1990, 1993; Sanabio e Abreu- Rodrigues, 2002). Para tentar resolver esse problema, a aná- lise das contingências passadas poderia ser re- alizada em situações experimentalmente con- troladas. Ou seja, “pode-se estabelecer experi- mentalmente uma série de relações de contin- gência que se sucedem de forma a permitir uma investigação sistemática da influência das con- tingências passadas sobre o comportamento atual” (Hunziker, 2001, p. 230). Um exemplo dessa forma de investigação é fornecido pelos DESAMPARO APRENDIDO ELISA TAVARES SANABIO-HECK KARINA DE GUIMARÃES SOUTO E MOTTA 5 Um dos objetivos principais da Psicolo- gia é compreender o comportamento huma- no. De acordo com a Análise do Comportamen- to, as causas dos comportamentos podem ser encontradas nas relações entre o organismo e o ambiente. Como apontado por Skinner (1953/1994), a explicação do comportamen- to deve sempre levar em consideração as variá- veis que “estão fora do organismo, em seu am- biente imediato e em sua história ambiental” (p. 42). Para identificar essas variáveis, utili-za-se o conceito de contingência, mais especi- ficamente, o conceito de contingência tríplice, definida como uma relação entre eventos am- bientais ou entre comportamento e eventos ambientais, na forma “se, então” (Todorov, 1985). Uma análise das contingências irá es- pecificar sob que condições presentes ou an- tecedentes um comportamento irá produzir, como conseqüência, alguma alteração no ambiente. Em uma análise de contingências, o pa- pel da conseqüência é fundamental, pois além de gerar aumentos ou diminuições na proba- bilidade futura de emissão do comportamen- to, também possibilita que a condição antece- dente adquira funções de controle sobre o de- sempenho do organismo (Skinner, 1974/ 1993). A importância das conseqüências fica evidente quando Skinner (1981) propõe um modelo para se tentar compreender as variá- veis de controle do comportamento dos orga- nismos. Segundo esse modelo, a partir da interação do organismo com o ambiente, de- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4481 82 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. estudos sobre os efeitos da história de incon- trolabilidade. De acordo com a literatura, a exposição a situações de incontrolabilidade, caracterizadas por uma relação de independên- cia entre os eventos programados e o compor- tamento do organismo, produz um retardo na aquisição de novos desempenhos em situações subseqüentes envolvendo eventos controláveis. Diferentes hipóteses e teorias foram pro- postas para explicar os efeitos da história de incontrolabilidade (para uma discussão deta- lhada das teorias, ver Maier e Seligman, 1976), dentre as quais se destaca a teoria do desam- paro aprendido. A idéia central na teoria do desamparo aprendido é que os organismos ex- postos a eventos incontroláveis aprendem que os eventos ambientais são independentes de suas respostas, uma aprendizagem que irá in- terferir futuramente na aquisição de novos de- sempenhos. Segundo Maier e Seligman (1976), essa aprendizagem ocorre de acordo com duas etapas. Primeiramente, os arranjos entre o com- portamento e o meio fornecem a informação sobre a relação de independência. Em um se- gundo momento, a informação sobre a rela- ção de independência é “processada e trans- formada em uma representação cognitiva da contingência” (Maier e Seligman, 1976, p. 17). Tal representação é definida como a expectati- va de que respostas e eventos ambientais são independentes. Em função dessa expectativa, o organismo pode apresentar três tipos de déficits: déficit motivacional (diminuição da motivação para emitir respostas), déficit cognitivo (interferência na aprendizagem de relações de controlabilidade) e déficit emocio- nal (alterações fisiológicas como perda de peso, perda de apetite, aparecimento de úlceras es- tomacais e passividade). A dificuldade na aprendizagem de novos comportamentos ou, alternativamente, a re- dução na sensibilidade a novas contingências, resultante da exposição a condições de incon- trolabilidade, tem sido denominada tanto de efeito do desamparo aprendido (Maier e Seligman, 1976; Seligman e Beagley, 1975; Seligman, Rosellini e Kozak, 1975) como de efeito de interferência (p. ex.: Crowel e Anderson, 1981; Glazer e Weiss, 1976a; 1976b). Hunziker (1981) considera o termo efeito do desamparo aprendido inadequado, por envolver uma formulação teórica sobre o fe- nômeno ainda sujeita a questionamentos, po- dendo a mesma observação ser aplicada ao ter- mo efeito de interferência. Uma vez que o pre- sente trabalho propõe-se a abordar os efeitos da exposição a eventos incontroláveis a partir de uma perspectiva analítico-comportamental e que os termos desamparo aprendido e efeito de interferência estão comprometidos com uma visão cognitiva desse fenômeno, serão adotados aqui os termos efeitos da história de incon- trolabilidade ou efeitos da exposição a eventos incontroláveis,1 os quais foram escolhidos em função de seu caráter estritamente descritivo. Ou seja, tais termos indicarão apenas que a aquisição de novos comportamentos após uma história de incontrolabilidade não ocorreu tão prontamente quanto na ausência dessa história. A revisão da literatura a seguir apresen- tará, inicialmente, um panorama da pesquisa básica sobre os efeitos da experiência prévia com eventos não-controláveis, enfatizando a metodologia comumente empregada na área, os procedimentos de prevenção e reversão desses efeitos, bem como o papel dos relatos verbais. Finalmente, algumas implicações clí- nicas relacionadas aos achados empíricos se- rão analisadas. CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA BÁSICA Uma das primeiras demonstrações do efeito da história de incontrolabilidade foi fei- ta por Overmier e Seligman (1967). Durante a Fase de Treino, cães eram presos a arreios. Os sujeitos do Grupo Controle não foram expos- tos a choques, sendo apenas colocados nos ar- reios. Os três grupos restantes foram expostos a choques inescapáveis, isto é, nenhuma res- posta emitida pelo sujeito poderia eliminar a ocorrência destes, e se diferenciaram em rela- ção ao número, à duração e ao intervalo mé- dio entre os choques. Na Fase de Teste, todos os sujeitos foram expostos a uma contingência 1Os autores mantiveram o termo desamparo apren- dido no título do capítulo em função de sua ampla utilização na literatura pertinente. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4482 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 83 de fuga e esquiva, ou seja, o sujeito poderia eliminar ou evitar o choque, caso a resposta de saltar uma barreira que dividia a caixa experi- mental fosse emitida. Os três grupos expostos aos choques inescapáveis apresentaram tem- pos de reação mais longos nas respostas de fuga e esquiva do que o Grupo Controle, não ha- vendo diferenças entre os primeiros. A partir desses resultados, os autores concluíram que a exposição a choques inescapáveis interfere na aquisição de respostas de fuga e esquiva. A questão se tal interferência é produto da exposição aos choques em si ou da incon- trolabilidade dos mesmos foi investigada por Seligman e Maier (1967, Experimento 1), por meio de um modelo triádico (Tabela 5.1). Na Fase de Treino, um grupo de cães recebeu cho- ques escapáveis, os quais eram interrompidos quando os sujeitos emitiam uma resposta de pressão a um painel (Grupo Escapável). Um segundo grupo foi exposto ao mesmo padrão de choques (mesma duração, intensidade e nú- mero de choques) que o Grupo Escapável, mas as respostas dos sujeitos não interrompiam os choques (Grupo Inescapável). O terceiro gru- po não foi exposto a choques (Grupo Contro- le). Na Fase de Teste, todos os sujeitos foram expostos a uma contingência de fuga e esqui- va semelhante àquela descrita por Overmier e Seligman (1967). O efeito da história de incontrolabilidade foi observado no Grupo Inescapável, que apresentou tempos de reação mais longos e mais falhas na aprendizagem das respostas de fuga e esquiva do que os grupos Escapável e Controle, que não diferiram entre si. Isto é, o Grupo Inescapável não aprendeu as respostas de fuga e esquiva, enquanto os dois outros grupos aprenderam essas respostas ra- pidamente. Seligman e Maier concluíram que a incontrolabilidade dos choques foi a variável responsável pela dificuldade de aprendizagem das respostas de fuga e esquiva, uma vez que: a) os grupos Escapável e Inescapável fo- ram semelhantes em relação à expo- sição aos choques, mas diferiram em termos de grau de controlabilidade dos mesmos, tendo apresentado de- sempenhos diferentes; b) os grupos Escapável e Controle diferi- ram em relação à exposição aos cho- ques, mas apresentaram desempenhos semelhantes. O efeito da exposição a eventos incontro- láveis também foi demonstrado com partici- pantes humanos. Em um estudo realizado por Hiroto (1974), estudantes universitários foram expostos a um estímulo auditivo durante a Fase de Treino. Para o Grupo Escapável, o estímulo auditivo poderia serinterrompido pela emis- são da resposta de pressão a um botão; para o Grupo Inescapável, as respostas dos participan- tes não tinham controle sobre a eliminação do som. Para o Grupo Controle, não foram pro- gramadas apresentações do som. Na Fase de Teste, todos os participantes foram expostos a tentativas de fuga e esquiva em que, na pre- sença de um estímulo ou sinal, o participante deveria mover uma alavanca para eliminar ou interromper o som. Os resultados foram seme- lhantes àqueles obtidos por Seligman e Maier (1967) e Overmier e Seligman (1967): o Gru- po Inescapável demonstrou efeitos da história de incontrolabilidade, com tempos de reação mais longos nas respostas de fuga e esquiva do que os grupos Escapável e Controle, que não demonstraram diferenças entre si (ver também Hiroto e Seligman, 1975; Lamb, Davis, Tramill e Kleinhammer-Tramill, 1987). Hunziker (1981) apontou um problema metodológico nos estudos que demonstram o efeito da história de incontrolabilidade. Tal pro- blema é relacionado à programação da situa- ção de incontrolabilidade, que se refere a um arranjo experimental em que a probabilidade de um evento, dada uma resposta específica, é igual à probabilidade desse evento, dada a não- ocorrência da mesma resposta. Entretanto, nes- ses estudos, o critério para a apresentação do TABELA 5.1 Modelo triádico Grupos Condições Treino Teste Escapável Controlabilidade Controlabilidade Inescapável Incontrolabilidade Controlabilidade Controle Controle Controlabilidade Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4483 84 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. evento, não é a ocorrência ou não de uma res- posta específica, e sim a passagem do tempo. A ocorrência do evento ambiental em função da passagem de tempo não garante uma au- sência de relação entre resposta e evento, pois esta pode ser estabelecida por reforçamento acidental. Dessa forma, a afirmação de que a dificuldade de aprendizagem de um novo com- portamento resulta de experiências prévias com situações de incontrolabilidade é questionável, uma vez que os arranjos experimentais comu- mente utilizados não têm atendido as exigên- cias da definição de incontrolabilidade. Prevenção e reversão do efeito da história de incontrolabilidade O efeito da história de incontrolabilidade pode ser prevenido ou revertido por meio de dois procedimentos. No primeiro deles, uma situação de controlabilidade é programada antes de o organismo ser exposto a eventos incontroláveis. Tal processo é chamado de imunização, uma vez que previne a ocorrên- cia do efeito da exposição a eventos incontro- láveis. No segundo procedimento, denomina- do de terapia, o efeito é revertido: após a ex- periência com incontrolabilidade e anterior à Fase de Teste, o organismo é exposto a uma situação na qual os eventos são controláveis (Tabela 5.2). Imunização O estudo pioneiro que investigou os efei- tos do procedimento de imunização foi reali- zado por Seligman e Maier (1967, Experimen- to 2), utilizando cães como sujeitos experimen- tais. Os grupos I, II e III foram expostos a dife- rentes seqüências de choques inescapáveis e escapáveis ao longo das fases de imunização, treino e teste. O Grupo I (imunização) foi ex- posto à seqüência choques escapáveis → cho- ques inescapáveis → choques escapáveis, o Gru- po II foi exposto a choques inescapáveis → cho- ques escapáveis e o Grupo III recebeu choques escapáveis → choques escapáveis. De acordo com os resultados, o efeito da história de incontrolabilidade só foi observado para o Gru- po II, tendo o Grupo I e o Grupo III apresenta- do desempenhos semelhantes. Ou seja, quan- do expostos a choques escapáveis, antes de serem expostos a choques inescapáveis, os par- ticipantes não demonstraram uma diminuição na sensibilidade às novas contingências. Tais resultados evidenciam a eficácia do procedi- mento de imunização para prevenir o efeito da história de incontrolabilidade. Douglas e Anisman (1975, Experimento 3) demonstraram os efeitos do procedimento de imunização com participantes humanos. Du- rante a Fase de Imunização, o Grupo I deveria pressionar botões para desligar luzes coloridas, enquanto o Grupo II deveria encontrar a saída de labirintos impressos em folhas de papel. Para ambos os grupos, as tarefas eram solucionáveis. Na Fase de Treino, os grupos I e II foram solici- tados a pressionar botões para desligar luzes. Contudo, nessa fase, pressionar botões e desli- gar luzes eram eventos independentes. Na Fase de Teste, a tarefa consistia na mesma da Fase de Treino (pressionar botões), mas agora as respostas de pressionar desligavam as luzes. O Grupo III foi exposto apenas às fases de treino e teste, que foram idênticas àquelas progra- madas para os grupos I e II. O Grupo IV, que funcionou como controle, foi exposto apenas à Fase de Teste. Os resultados da Fase de Teste demonstraram que os grupos I e II, expostos às tarefas solucionáveis antes de receberem ta- refas insolucionáveis, apresentaram um melhor desempenho (maior número de respostas cor- TABELA 5.2 Procedimentos de imunização e terapia Condições Treino de Procedimento imunização Treino Terapia Teste Imunização Controlabilidade Incontrolabilidade ________ Controlabilidade Terapia ________ Incontrolabilidade Controlabilidade Controlabilidade Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4484 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 85 retas) quando comparados aos outros grupos. Os autores concluíram que o procedimento de imunização previne a ocorrência de efeitos da história de incontrolabilidade também em par- ticipantes humanos, e que a imunização ocor- re a despeito de as tarefas utilizadas no pré- treino e no treino serem iguais (Grupo I) ou diferentes (Grupo II). A relação entre diferentes esquemas de reforçamento e o procedimento de imuniza- ção foi investigada por Jones, Nation e Massad (1977). Os participantes eram expostos a uma tarefa de discriminação visual que consistia na apresentação de quatro problemas diferentes, em blocos de 10 tentativas. A cada problema, o experimentador selecionava uma caracterís- tica dentre cinco dimensões diferentes: letra (A ou T), cor (vermelha ou preta), tamanho (grande ou pequeno), borda ao redor da letra (círculo ou quadrado) e posição (direita ou esquerda). Em cada tentativa, era apresenta- da uma configuração composta pelas cinco di- mensões, cabendo aos participantes a tarefa de adivinhar a característica selecionada pelo experimentador. Para tanto, eles deveriam in- dicar se a configuração apresentada incluía ou não a característica pré-selecionada. Na Fase de Imunização, o Grupo 0% Imunizado rece- beu quatro problemas insolucionáveis de dis- criminação. Tais problemas não tinham solu- ção específica, uma vez que cada resposta era sempre seguida do feedback “Incorreto”. O Gru- po 50% Imunizado recebeu dois problemas insolucionáveis e dois problemas solucionáveis (as respostas sempre produziam o feedback “Correto”). O Grupo 100% Imunizado e o Gru- po Solucionável foram expostos a quatro pro- blemas solucionáveis. Na Fase de Treino, to- dos os grupos receberam quatro problemas de discriminação diferentes daqueles apresenta- dos na fase anterior. Para os três primeiros gru- pos, os problemas eram insolucionáveis; para o último grupo, os problemas eram solucio- náveis. O Grupo Controle foi exposto aos pro- blemas de discriminação, mas não foi solicita- do a resolvê-los. Na Fase de Teste, todos os gru- pos foram expostos a anagramas solucionáveis. Cada anagrama era compostos de cinco letras embaralhadas. A tarefa do participante consis- tia em ordenar corretamente as letras para for- mar uma palavra. A ordem de apresentação das letras era a mesma para todos os anagra- mas (3-4-2-5-1), e os participantes eram aler- tados de que todos poderiam ser resolvidos de uma mesma maneira. Dos dois grupos que foram expostos a pro- blemas solucionáveis durante a Fase de Imuni-zação (grupos 50% e 100%), apenas o Grupo 50% demonstrou o efeito de imunização, apre- sentando um desempenho na tarefa do ana- grama semelhante aos grupos solucionável e controle. Por outro lado, os grupos 100% e 0% mostraram desempenhos semelhantes, carac- terizados por tempos de reação mais longos e maior número de falhas na resolução do ana- grama do que o desempenho do Grupo 50%. Segundo Jones e colaboradores (1977), os re- sultados do Grupo 100% são contrários à li- teratura animal, a qual prediz que, quanto maior a exposição a eventos controláveis, maior o efeito de imunização observado. Es- ses autores explicam tal divergência com base na noção de intermitência do reforço. O Gru- po 50% foi exposto a uma situação de refor- çamento intermitente na Fase de Imunização: problemas solucionáveis seriam equivalentes ao reforçamento, e os problemas insolucio- náveis, à ausência de reforçamento. Em fun- ção dessa experiência com reforçamento e extinção, os participantes apresentaram uma maior persistência nas respostas de resolução nas fases seguintes, o que minimizou a influ- ência da história de incontrolabilidade. Em contrapartida, os participantes do Grupo 100% foram expostos a uma situação de reforça- mento contínuo (apenas problemas solucio- náveis), produzindo respostas de resolução menos persistentes. Conseqüentemente, os efeitos da exposição a eventos incontroláveis foram observados (ver também Prindaville e Stein, 1978). Terapia Como citado anteriormente, além de se- rem prevenidos por meio do procedimento de imunização, os efeitos da história de incontro- labilidade podem também ser revertidos pelo procedimento de terapia, ou seja, pela expo- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4485 86 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. sição a eventos controláveis após a experiên- cia com incontrolabilidade e anterior à Fase de Teste. O efeito do procedimento de terapia foi inicialmente investigado por Seligman e cola- boradores (1975), que utilizaram ratos como sujeitos. Inicialmente, os sujeitos foram expos- tos a 80 tentativas de choques inescapáveis, liberados de acordo com um esquema de in- tervalo variável de 1 min (VI 1 min). Posterior a essa exposição, os animais foram testados em uma nova situação, na qual o choque poderia ser interrompido a cada três respostas de pres- são à barra. Os sujeitos que não apresentaram respostas de fuga durante 20 s, o que foi con- siderado como evidência do efeito da história de incontrolabilidade, foram selecionados para constituir os grupos experimentais. Em um gru- po, os sujeitos eram puxados pelo experi- mentador por meio de uma correia e forçados a emitir a resposta de pressionar uma barra (Grupo Fuga Forçada). Tal procedimento era finalizado quando os sujeitos emitissem res- postas de fuga em 10 tentativas consecutivas sem intervenção do experimentador. Um se- gundo grupo foi acoplado ao Grupo Fuga For- çada recebendo, assim, o mesmo número e duração de choques. Os sujeitos desse grupo também eram puxados pelo experimentador, mas não eram forçados a pressionar a barra (Grupo Controle). Os sujeitos do terceiro gru- po não eram puxados pelo experimentador nem forçados a emitir respostas de pressão à barra (Grupo Controle Acoplado), além de re- ceberem o mesmo número e duração de cho- ques que os sujeitos dos grupos fuga forçada e controle. Os sujeitos do Grupo Fuga Forçada conseguiram atingir o critério de escapar do choque por 10 tentativas consecutivas, sem qualquer intervenção por parte do experi- mentador. Por outro lado, os sujeitos do Gru- po Controle e Grupo Controle Acoplado não atingiram o critério, ou seja, apresentaram efei- tos da história de incontrolabilidade. Os auto- res concluíram, então, que a terapia forçada foi um procedimento efetivo na reversão do efeito produzido pela exposição a eventos aversivos incontroláveis. Klein e Seligman (1976, Experimento 1) investigaram os efeitos do procedimento de te- rapia com humanos. Na Fase de Treino, estu- dantes universitários deveriam eliminar tons. Entretanto os tons programados eram inesca- páveis. Na Fase de Terapia, problemas de dis- criminação visual eram apresentados aos par- ticipantes: um grupo recebeu 12 problemas solucionáveis (Grupo Solucionável 12), um se- gundo grupo foi exposto a quatro problemas solucionáveis (Grupo Solucionável 4) e um ter- ceiro grupo foi apenas exposto aos problemas sem resolvê-los (Grupo Controle). Na Fase de Teste, todos os grupos deveriam mover uma alavanca para eliminar ou interromper tons. Os participantes expostos aos problemas solucionáveis (grupos solucionável 12 e solu- cionável 4) demonstraram tempos de reação mais curtos e um menor número de falhas nas respostas de fuga e esquiva do que o Grupo Controle, o que demonstra que a exposição prévia à incontrolabilidade não afetou o desem- penho posterior. Os efeitos do procedimento de terapia também foram investigados por Nation e Massad (1978). Estudantes universitários fo- ram distribuídos em quatro grupos. Na Fase de Treino, o Grupo SOL recebeu quatro pro- blemas solucionáveis de discriminação visual. Para esse grupo, cada resposta emitida pelo participante era seguida de feedbacks precisos. Os grupos IN-CRF e IN-PRF receberam quatro problemas insolucionáveis. Ou seja, a ordem dos feedbacks (“Correto” e “Incorreto”) era pro- gramada previamente, independente das res- postas emitidas pelos participantes. O Grupo NOT não recebeu tratamento (era exposto aos problemas sem resolvê-los). Na Fase de Tera- pia, os participantes deveriam pressionar um botão para eliminar ou interromper tons. Para os grupos SOL, IN-CRF e NOT, todos os tons eram escapáveis. Ou seja, os participantes des- ses grupos foram expostos a um esquema de reforçamento contínuo. O Grupo IN-PRF, por sua vez, poderia eliminar ou interromper ape- nas 50% dos tons apresentados, isto é, esse grupo era exposto a um esquema de refor- çamento parcial. Na Fase de Teste, todos os par- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4486 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 87 ticipantes receberam tons inescapáveis, o que diferencia este estudo dos anteriores, nos quais a Fase de Teste era caracterizada como uma situação de controlabilidade. Os resultados observados ao final da Fase de Terapia indicaram que os grupos expostos a problemas insolucionáveis durante a Fase de Treino e a problemas solucionáveis na Fase de Terapia (IN-CRF e IN-PRF) apresentaram de- sempenhos semelhantes aos dos grupos expos- tos apenas a problemas solucionáveis (SOL e NOT), sugerindo que tanto uma situação de reforçamento contínuo (grupos IN-CRF, SOL e NOT) como uma situação de reforçamento par- cial (Grupo IN-PRF) são eficazes para reverter o efeito da exposição a eventos incontroláveis. Contudo, na Fase de Teste, quando novamente expostos a uma situação de incontrolabilidade, os participantes expostos ao esquema de reforçamento parcial (IN-PRF) mostraram de- sempenhos mais persistentes quando compa- rados aos participantes expostos ao reforça- mento contínuo (IN-CRF), uma vez que se man- tiveram respondendo por mais tempo (para uma discussão sobre os efeitos de reforçamento contínuo e parcial na Fase de Terapia, ver tam- bém Carvalho, 1998). O papel dos estímulos verbais nos estudos sobre história de incontrolabilidade Conforme já descrito anteriormente, os efeitos da história de incontrolabilidade têm sido atribuídos a diferentes variáveis. Autores como Maier e Seligman (1976) propõem que, quando exposto a eventos incontroláveis, o indivíduo desenvolve uma expectativa de in- dependência entre respostas e eventos ambien- tais, sendo essa expectativa considerada a va- riável de controle mais relevante para o efeito da história de incontrolabilidade. As possíveis funções exercidas pelas ex- pectativas dos indivíduos são investigadas por meio de duas metodologias. Na primeira, os participantes são expostosa situações de con- trolabilidade e/ou incontrolabilidade, assumin- do-se que essas diferentes situações irão pro- duzir diferentes expectativas (p. ex.: Alloy, Peterson, Abramson e Seligman, 1984; Levine, Rotkin, Jankovic e Pitchford, 1977; Prindaville e Stein, 1978; Tiggeman e Winefield, 1987). Na segunda, os participantes também são ex- postos a controlabilidade e/ou incontro- labilidade; entretanto, os participantes rece- bem, diferentes tipos de instruções (p. ex.: Hiroto, 1974; Klein, Fencil-Morse e Seligman, 1976; Mikulincer, 1986; Oakes e Curtis, 1982, Experimento 2; Tennen, Gillen e Drum, 1982) ou, na ausência de instruções, eles são expos- tos a diferentes tarefas (p. ex.: Douglas e Anisman, 1975; Ford e Neale, 1985; Klein e Seligman, 1976; Oakes e Curtis, 1982, Experi- mento 1; Tennen, Drum, Gillen e Stanton, 1982). Esses estudos assumem que as instru- ções apresentadas ou as diferenças de tarefas (p. ex.: fáceis e difíceis) deverão produzir ex- pectativas distintas. Tanto nos estudos que apenas expõem os participantes a situações de controlabilidade e/ou incontrolabilidade quanto naqueles que manipulam a instrução e o tipo de tarefa, o experimentador tem acesso às expectativas por meio dos relatos dos participantes (p. ex.: Ford e Neale, 1985; Klein et al., 1976; Klein e Seligman, 1976; Mikulincer, 1986; Oakes e Curtis, 1982; Tennen, Drum et al., 1982; Tennen Gillen et al., 1982, Experimento 2). Tais rela- tos podem ser solicitados antes do experimen- to, por meio de questionários e inventários, ou podem ser solicitados ao longo do estudo, após as fases de treino ou teste. A prática de solici- tar relatos sugere que os mesmos são conside- rados descrições precisas das expectativas dos participantes. Entretanto, é possível encontrar estudos nos quais os relatos não são solicitados e, nesses casos, a expectativa é inferida so- mente com base nas manipulações efetuadas (p. ex.: Douglas e Anisman, 1975; Hiroto, 1974). Além dessas diferenças, é comum encon- trar variações nos tipos de relatos solicitados. Por exemplo, em alguns estudos (Alloy et al., 1984; Klein et al., 1976; Mikulincer, 1986; Oakes e Curtis, 1982; Tennen, Drum et al., Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4487 88 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. 1982; Tennen, Gillen et al., 1982), o relato do participante deve indicar os eventos ambientais responsáveis por seu desempenho. Tais rela- tos serão denominados, daqui por diante, de julgamentos de causalidade e podem ser dividi- dos em seis tipos principais: a) global: relatos que descrevem o de- sempenho como produto de fatores presentes em diversas situações; b) específico: relatos que descrevem o desempenho como produto de fato- res presentes apenas em uma dada si- tuação; c) estável: relatos que descrevem o de- sempenho como produto de fatores que se mantêm ao longo do tempo; d) instável: relatos que descrevem o de- sempenho como produto de fatores temporários; e) interno: relatos que indicam que o pró- prio desempenho exerceu controle so- bre os eventos ambientais; f) externo: relatos que indicam que o desempenho não afetou os eventos ambientais. Os julgamentos de causalidade são cole- tados por meio de escalas: para formular jul- gamentos de causalidade global ou específica, por exemplo, os participantes devem escolher um valor em uma escala de 0 a 10, de modo que 0 corresponde a “fatores globais”, e 10, a “fatores específicos”. Os participantes também podem ser soli- citados a relatar o grau de controle que seus desempenhos exercem sobre os eventos am- bientais (Ford e Neale, 1985; Klein e Seligman, 1976; Mikulincer, 1986; Oakes e Curtis, 1982; Prindaville e Stein, 1978; Tennen, Drum et al., 1982; Tennen, Gillen et al., 1982; Tiggeman e Winefield, 1987). Nesse caso, os relatos são denominados de julgamentos de controle, que também são coletados por meio de escalas. Por exemplo, para responder à pergunta “Quanto você acha que seu desempenho produziu o tér- mino do tom?”, o participante deve escolher um valor em uma escala de 0 a 10, sendo o valor 0 correspondente à opção “muito pouco” e o valor 10 correspondente a “totalmente”. Há ainda um terceiro tipo de relato: após serem expostos a uma determinada tarefa, os participantes são solicitados a descrever a so- lução para o problema apresentado. Nesse caso, os relatos são denominados de descrições do desempenho, as quais são formuladas sem a utilização de escalas, isto é, o participante pode apresentar qualquer descrição para o proble- ma (p. ex.: Levine et al., 1977). Correspondência entre o comportamento verbal e o comportamento não-verbal Conforme assinalado anteriormente, ao serem expostos a situações de controlabilidade e incontrolabilidade, os participantes são soli- citados a relatar seus julgamentos acerca da situação experimental. Esses julgamentos con- sistem em descrições de prováveis relações comportamento-ambiente (ou, simplesmente, do próprio comportamento) em vigor. Quan- do tais descrições referem-se a relações futu- ras entre comportamento e ambiente (ou a comportamentos futuros), elas são denomina- das de expectativas. Dessa forma, julgamentos e expectativas são comportamentos verbais. Os estudos sobre os efeitos da história de incontro- labilidade comumente assumem uma corres- pondência entre julgamentos e expectativas, sendo atribuído a essas expectativas o status de “causa” dos déficits de aprendizagem ob- servados. Ou seja, caso o participante relate que suas respostas não exercem controle so- bre os eventos ambientais (julgamento de au- sência de controle), uma expectativa de ausên- cia de controlabilidade é inferida e considera- da como a variável responsável pela dificulda- de de aprendizagem em situações subseqüen- tes, em detrimento da experiência prévia com incontrolabilidade per si. Um exemplo dessa forma de utilização dos relatos é fornecido por Alloy e colabora- dores (1984) ao investigarem o papel da simi- laridade entre as tarefas de treino e de teste, bem como dos julgamentos de causalidade, em situações de incontrolabilidade. Estudantes universitários foram divididos em seis grupos conforme o tipo de julgamento emitido (glo- bal ou específico) e o tipo de tratamento rece- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4488 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 89 bido (controlabilidade, incontrolabilidade e au- sência de tratamento). Os julgamentos eram coletados por meio de um questionário que continha seis eventos positivos (p. ex.: receber elogio de um amigo) e seis eventos negativos (p. ex.: não ser bem-sucedido em uma tarefa). Os participantes deveriam, então, relatar a prin- cipal causa de cada evento, como se estes ti- vessem sido experienciados por eles próprios. Após relatar as causas, os participantes deveri- am classificá-las utilizando uma escala de 0 a 7, sendo o valor 7 correspondente a julgamen- tos de causalidade global, e o valor zero cor- respondente a julgamentos de causalidade es- pecífica. No Experimento 1, durante a Fase de Trei- no, os participantes foram expostos a 50 tons. Os participantes com julgamentos globais e com julgamentos específicos foram subdividi- dos em três grupos cada: para o Grupo Escapável, os tons podiam ser interrompidos ou eliminados pressionando um botão; o Gru- po Inescapável era acoplado ao Grupo Esca- pável em relação à duração e ao número de tons, mas estes eram inescapáveis; o Grupo Controle recebeu a mesma quantidade de tons sem emitir respostas de fuga e esquiva. Na Fase de Teste, uma tarefa semelhante à tarefa do treino foi programada: 20 tons eram apresen- tados e, para interrompê-los ou evitá-los, os participantes deveriam mover uma alavanca. Foi observado que apenas os grupos inescapá- veis (tanto aquele com julgamentos globais quanto aquele com julgamentos específicos) apresentaram uma aprendizagem mais lenta das respostas de fuga e esquiva. Ou seja, osjulgamentos não afetaram diferencialmente os participantes, sendo seus desempenhos no teste determinados pelas condições de treino. O Experimento 2 apresentou uma única diferen- ça em relação ao Experimento 1: na Fase de Teste, os participantes deveriam resolver 20 anagramas, de modo que as tarefas do treino e do teste eram diferentes. Dentre os participan- tes do Grupo Inescapável, apenas aqueles com julgamentos de causalidade global apresenta- ram déficits de aprendizagem. A partir dos resultados dos experimentos 1 e 2, Alloy e colaboradores (1984) concluí- ram que as duas variáveis investigadas contri- buíram para a ocorrência de efeitos da exposi- ção a eventos incontroláveis: a) os julgamentos de causalidade que os participantes formulam a respeito dos eventos incontroláveis; b) a semelhança entre a situação atual (teste) e a situação original (treino). Caso os julgamentos de causalidade se- jam globais, o efeito da exposição à incontrola- bilidade ocorrerá em situações semelhantes ou distintas da situação original. Caso os julga- mentos sejam específicos, o efeito da exposi- ção à incontrolabilidade será observado ape- nas quando a situação for semelhante à situa- ção original. Mikulincer (1986) investigou se o efeito da história de incontrolabilidade poderia ser atribuído aos julgamentos de controle dos par- ticipantes. Na Fase de Treino, os participantes deveriam resolver quatro problemas de discri- minação visual. Para o primeiro grupo, os pro- blemas apresentados eram solucionáveis (Gru- po Solucionável). Para o Grupo Insolucionável, os quatro problemas não tinham solução pro- gramada. O Grupo Controle resolvia os quatro problemas, mas não recebeu feedbacks após as respostas de resolução. Outros dois grupos re- ceberam problemas insolucionáveis e instruções que se diferenciavam em termos de conteúdo: um grupo de participantes recebeu uma instru- ção global, enquanto um outro grupo recebeu uma instrução específica. Antes de iniciar a Fase de Teste, julgamentos de controle eram solici- tados e, após responder, todos os participantes eram expostos a problemas solucionáveis de discriminação diferentes daqueles apresentados na Fase de Treino. Os participantes expostos a problemas insolucionáveis sem instruções e aqueles expostos a problemas insolucionáveis com instruções globais apresentaram tempos de reação mais longos e um maior número de er- ros na resolução dos problemas do que os gru- pos restantes (ver também Mikulincer e Nizan, 1988), além de serem os únicos a apresenta- rem julgamentos de baixo controle. Ou seja, os participantes que apresentaram esse tipo de jul- gamento também demonstraram o efeito da his- tória de incontrolabilidade. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4489 90 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. Diferente dos estudos descritos, Levine e colaboradores (1977) não solicitaram julga- mentos de causalidade ou de controle, mas sim descrições de desempenho. Esse procedimen- to foi adotado porque, segundo os autores, quando expostos a uma determinada situação, os participantes formulam diferentes descrições de desempenho, até que a mais precisa seja selecionada pela contingência em vigor. Quan- do uma nova tarefa é apresentada, o desempe- nho seria insensível às novas contingências em função das descrições formuladas anteriormen- te. Para avaliar essa possibilidade, os autores expuseram os participantes a problemas de dis- criminação visual durante a Fase de Treino. O primeiro grupo (Solucionável) recebeu 40 pro- blemas solucionáveis. O segundo grupo (Insolucionável) era exposto a 40 problemas sem nenhuma solução programada, isto é, os feedbacks “Correto” e “Incorreto” eram apre- sentados aleatoriamente, independentemente das respostas dos participantes. O terceiro gru- po recebeu 30 problemas insolucionáveis. En- tretanto, nos 10 problemas finais, apenas o feedback “Correto” era apresentado (Grupo Insolucionável-Correto). Após essa fase, todos os participantes eram solicitados a descrever a solução para o problema apresentado. Na Fase de Teste, 40 novos problemas solucionáveis de discriminação eram apresentados a todos os grupos. Os resultados indicaram que o Grupo So- lucionável apresentou um número menor de tentativas para resolver o problema do que os grupos insolucionável e insolucionável-corre- to. Uma vez que esses dois últimos grupos apre- sentaram desempenhos semelhantes, Levine e colaboradores (1977) concluíram que a expo- sição a eventos incontroláveis não é o aspecto crítico para a dificuldade na aprendizagem de uma nova tarefa. A principal variável de con- trole seria as descrições de desempenho, uma vez que os participantes que formularam des- crições simples (baseadas em uma dimensão dos estímulos) mostraram tempos de reação mais curtos na resolução do problema na Fase de Teste do que aqueles que apresentaram des- crições complexas (baseadas em seqüências, combinações ou padrões irrelevantes dos es- tímulos). Em suma, nos estudos descritos anterior- mente, o comportamento verbal dos participan- tes (julgamentos de controle e causalidade, des- crições do desempenho e expectativas) foi con- siderado como a variável crítica para a ocor- rência do efeito da história de incontrolabi- lidade, a despeito da experiência com eventos incontroláveis per si. Ausência de correspondência entre o comportamento verbal e o comportamento não-verbal Enquanto os estudos anteriormente des- critos apontam a ocorrência de correspondên- cia entre o comportamento verbal e o compor- tamento não-verbal em situações de incontrola- bilidade e, a partir desse resultado, afirmam que julgamentos/expectativas dos indivíduos determinam o retardo na aprendizagem de novos comportamentos não-verbais, outros estudos têm demonstrado ausência de corres- pondência entre comportamento verbal e não- verbal em situações semelhantes, o que sugere que o retardo na aprendizagem é controlado por outras variáveis. Oakes e Curtis (1982) apontaram um pro- blema metodológico nos estudos que afirmam que a dificuldade de aprendizagem é produto dos relatos dos participantes. Nesses estudos, após serem expostos a uma situação de in- controlabilidade e relatarem os eventos am- bientais como sendo independentes de seus de- sempenhos, os participantes apresentaram um retardo na aprendizagem subseqüente de no- vos comportamentos. Uma vez que a exposi- ção a eventos incontroláveis e o relato de incontrolabilidade ocorrem simultaneamente, não é possível indicar a contribuição de cada uma dessas variáveis para a ocorrência de tal retardo. Para separar os efeitos dessas variá- veis, Oakes e Curtis (1982) programaram uma situação caracterizada pela ausência de corres- pondência entre o relato e as condições expe- rimentais em vigor. No Experimento 1, durante a Fase de Trei- no, os participantes receberam uma tarefa de tiro ao alvo, sendo o tiro um feixe de luz. A resposta de tiro ao alvo poderia ser seguida Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4490 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 91 pela apresentação de um tom ou pela ausên- cia deste. A sala experimental era iluminada de maneira a impedir a discriminação da rela- ção de independência entre respostas e ocor- rência do tom. Para o Grupo Contingente Posi- tivo, apenas as respostas corretas (tiro no alvo) eram seguidas da apresentação do tom, en- quanto para o Grupo Contingente Negativo, apenas as respostas incorretas eram seguidas da apresentação do tom. Os grupos não-con- tingente positivo e não-contingente negativo eram acoplados aos grupos contingente positi- vo e negativo, respectivamente, em relação ao número e à seqüência de tons apresentados. O Grupo Controle foi exposto apenas à Fase de Teste, na qual todos os participantes recebe- ram anagramas solucionáveis. Nessa fase, os participantes deveriam indicar o grau de con- trole que exerciam sobre a tarefa (julgamen- tos decontrole) e o grau em que acertos e er- ros dependiam de sua própria habilidade, difi- culdade da tarefa, esforço, sorte ou controle do experimentador (julgamentos de causalida- de). Os participantes dos grupos não-contin- gentes apresentaram um tempo de reação mais longo e maior número de erros nas respostas de resolução do anagrama quando compara- dos aos grupos contingentes e controle, que não diferiram entre si. Em relação aos julga- mentos de controle, estes foram semelhantes para todos os grupos, o mesmo ocorrendo com os julgamentos de causalidade (o fator “con- trole do experimentador” foi descrito como o principal responsável pelos desempenhos). Durante o Experimento 2, a discrimina- ção da relação de independência entre respos- tas e eventos ambientais foi manipulada por meio de diferentes instruções. As fases de trei- no e de teste foram semelhantes àquelas do experimento anterior, com a seguinte exceção: apenas a condição positiva estava em vigor. Na Fase de Teste, metade dos participantes do Grupo Contingente e metade dos participan- tes do Grupo Não-Contingente foi informada de que, durante a fase anterior, os tons eram independentes das respostas emitidas. Dessa forma, formaram-se cinco grupos experimen- tais diferentes: Contingente Informado, Con- tingente Não-Informado, Não-Contingente In- formado, Não-Contingente Não-Informado e Controle. Após a Fase de Teste, todos os parti- cipantes deveriam emitir julgamentos de con- trole e de causalidade, de maneira semelhante àquela descrita no Experimento 1. Os resulta- dos foram semelhantes aos do Experimento 1: apesar dos julgamentos de controle terem sido semelhantes para os participantes dos grupos contingente e não-contingente, o desempenho na tarefa do anagrama foi diferente, tendo os grupos não-contingentes (com e sem instrução) demonstrado dificuldades para resolver os ana- gramas. Em relação aos julgamentos de causa- lidade, os participantes que receberam a ins- trução, tanto do Grupo Contingente quanto do Grupo Não-Contingente, tenderam a atribuir os acertos e os erros a fatores externos (p. ex.: dificuldade da tarefa, controle do experimen- tador). Os participantes que não receberam instrução não apresentaram julgamentos de causalidade com diferenças significativas en- tre os fatores apresentados (sua própria habi- lidade, dificuldade da tarefa, esforço, sorte ou controle do experimentador). Os resultados dos experimentos 1 e 2 in- dicam que a experiência prévia com eventos contingentes ou não-contingentes foi um fator preditivo do desempenho posterior, o que não ocorreu com os julgamentos de controle e de causalidade; ou seja, efeitos da história de incontrolabilidade foram observados apenas para os participantes do Grupo Não-Contingen- te, os quais apresentaram julgamentos de con- trole e de causalidade semelhantes àqueles dos participantes do Grupo Contingente. De acor- do com Oakes e Curtis (1982), se tais julga- mentos fossem responsáveis por esse efeito, ambos os grupos deveriam ter apresentado di- ficuldades na resolução dos anagramas, o que não foi observado. A partir disso, esses auto- res sugeriram que o efeito da exposição a even- tos incontroláveis provavelmente é produzido pela condição de incontrolabilidade e não pe- los julgamentos em si (ver também Ford e Neale, 1985; Tiggeman e Winefield, 1987). Resultados semelhantes foram encontra- dos por Tennen, Gillen e colaboradores (1982). Na Fase de Treino do Experimento 1, os parti- cipantes eliminavam ou interrompiam tons. Para o primeiro grupo, os tons eram escapáveis (Grupo Escapável). Os quatro grupos restan- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4491 92 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. tes receberam tons inescapáveis e eram aco- plados ao Grupo Escapável em relação ao nú- mero e à duração dos tons. Dois grupos rece- beram uma instrução informando que a ocor- rência dos tons não dependia apenas do de- sempenho do participante, mas também das respostas de outro participante. Para o Grupo Inescapável-Ajuda, essas respostas eram emi- tidas, na verdade, pelo próprio experimen- tador; para o Grupo Inescapável-Sem Ajuda, tais respostas não eram emitidas. Por fim, o Grupo Controle recebeu tons inescapáveis. Na Fase de Teste, os participantes resolviam ana- gramas solucionáveis. Após essa fase, os parti- cipantes eram solicitados a julgar o grau de controle sobre a tarefa. Os participantes do Gru- po Inescapável e do Grupo Inescapável-Ajuda apresentaram tempos de reação mais longos e um maior número de falhas na resolução dos anagramas do que os participantes expostos a tons escapáveis, demonstrando também julga- mentos de baixo controle. Tal resultado é in- consistente com os resultados de Oakes e Curtis (1982), pois mostra uma correspondência en- tre os julgamentos dos participantes e seus de- sempenhos. A ausência de correspondência, en- tretanto, foi observada para os participantes dos grupos inescapável-sem ajuda e controle, os quais, apesar de terem mostrado um desem- penho semelhante ao dos participantes do Gru- po Escapável (tempos de reação reduzidos e poucas falhas na resolução do anagrama), apre- sentaram julgamentos de baixo controle, o que corrobora os dados de Oakes e Curtis (1982). Esses resultados indicam, portanto, relações in- consistentes entre julgamentos de controle e desempenho no teste. O procedimento utilizado no Experimen- to 2 foi semelhante ao utilizado no Experimento 1. Após o treino, além de descreverem seus jul- gamentos de controle, os participantes formu- lavam julgamentos de causalidade. Os resulta- dos mostraram que os julgamentos de causali- dade global versus específica, estável versus ins- tável e interna versus externa foram semelhan- tes para os participantes de todos os grupos, isto é, apesar de apresentaram desempenhos distintos entre si, os participantes de todos os grupos relataram seus desempenhos como sen- do produto dos mesmos fatores. Baseados na ausência de correspondência entre os julga- mentos de causalidade e o desempenho no tes- te, os autores concluíram que tais julgamentos não exerceram controle sobre o comportamen- to dos participantes (ver também Tennen, Drum et al., 1982). IMPLICAÇÕES CLÍNICAS Diversos autores têm considerado os es- tudos sobre o efeito da história de incontro- labilidade como um modelo experimental de depressão (p. ex.: Alloy e Abramson, 1979; Hiroto, 1974; Hiroto e Seligman, 1975; Klein et al., 1976; Klein e Seligman, 1976), uma vez que os participantes expostos a uma situação experimental de incontrolabilidade apresentam com-portamentos semelhantes àqueles obser- vados em clientes depressivos. Na situação ex- perimental, a experiência com eventos incon- troláveis diminui a freqüência da resposta. Essa diminuição generaliza-se para situações em que existe uma relação de controlabilidade entre os eventos ambientais e o responder, ocasio- nando a perda de reforços disponíveis. Simi- larmente, indivíduos depressivos comumente apresentam uma história de exposição a even- tos incontroláveis, uma redução generalizada de responder, bem como um baixo nível de reforçamento positivo. Entretanto comportamentos classificados como depressivos são multideterminados, e a incontrolabilidade é apenas uma de suas variá- veis de controle. Por exemplo, é possível que um indivíduo apresente um quadro depressivo em função de uma história passada de reforça- mento para comportamentos de isolamento so- cial (p. ex.: brincar sozinho em casa quando criança) e uma história de punição para com- portamentos sociais (p. ex.: trazer colegas para brincar em casa). Nesse caso, as contingências de reforçamento/punição, juntamente (ou não) com uma possível exposição a eventos incontro- láveis (p. ex.: pais ora punem, ora não punem o mesmo comportamento), deveriam ser incluí- das na análise funcional do repertório compor- tamental desse indivíduo.No caso de clientes com história de expo- sição a eventos incontroláveis, os resultados Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4492 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 93 da pesquisa básica sugerem que a experiência com eventos controláveis pode ser efetiva na reversão dos efeitos dessa história (Carvalho, 1998; Nation e Massad, 1978; Seligman et al., 1975; Williams e Maier, 1977); ou seja, indiví- duos expostos a eventos incontroláveis e, em seguida, a eventos controláveis não apresen- tam dificuldade de aprendizagem de novos comportamentos. Em termos de prática clíni- ca, esses resultados sugerem que o terapeuta deve estabelecer situações discrimináveis de controlabilidade ou criar condições para que o cliente discrimine situações de controlabilidade já existentes, o que pode ser feito na própria sessão terapêutica. Tais intervenções serão fei- tas de modo a promover a aprendizagem de novos comportamentos (ou aumentar a fre- qüência de comportamentos adequados ante- riormente aprendidos), visando à generaliza- ção dos mesmos para o ambiente natural do indivíduo. Partindo do pressuposto de que os prin- cipais dados a respeito da história de vida do cliente já foram levantados pelo terapeuta, as- sim como as informações sobre contingências atuais, algumas propostas de intervenção se- rão apresentadas a seguir. Treino de auto-observação O contato com situações controláveis pode ser favorecido a partir da auto-observa- ção, ou seja, da observação do próprio com- portamento e de eventos ambientais relevan- tes. Alguns clientes apresentam dificuldades de auto-observação, sendo necessário que o tera- peuta promova o treino desse comportamen- to. Para tanto, o terapeuta pode utilizar, den- tre outros, dois procedimentos: a modelação e o registro comportamental. No primeiro pro- cedimento, o terapeuta fornece modelos de auto-observação, descrevendo seu próprio comportamento e identificando variáveis de controle antecedentes e conseqüentes, passa- das e atuais. O comportamento-alvo pode ter sido emitido tanto fora como dentro da sessão terapêutica. O mesmo pode ser feito em rela- ção aos comportamentos do cliente. No segun- do procedimento, o terapeuta solicita ao clien- te registros constantes de comportamentos emitidos fora do setting terapêutico que foram (ou não) efetivos na obtenção de reforços. Es- ses registros permitem a identificação, por par- te do cliente (e também do terapeuta), dos re- forços disponíveis em seu ambiente. Tanto os modelos fornecidos pelo terapeuta como os registros de comportamentos e suas conseqü- ências poderão auxiliar o cliente a discriminar situações de controlabilidade. Treino de repertórios não-verbais Ao discriminar as situações de controla- bilidade na sua história passada e atual, o cliente estará identificando as contingências às quais será mais provável que se exponha e, a partir de então, a exposição a essas contin- gências pode ser programada. Dessa forma, a exposição a situações de controlabilidade deve começar levando-se em consideração os com- portamentos já presentes no repertório do cliente. Por exemplo, considere uma cliente que apresenta um quadro de isolamento so- cial (p. ex.: só sai de casa para trabalhar, ra- ramente interage com os familiares, não sai com amigos, chora freqüentemente) após uma história de repetidos fracassos em relaciona- mentos amorosos. Ao longo das sessões, al- gumas contingências reforçadoras passadas são identificadas: no trabalho, ela era prestigiada pelo chefe por suas habilidades no computador; em casa, ajudava a mãe e os ir- mãos com os serviços bancários e era valori- zada por isso; com os amigos, era elogiada por seus conselhos “sempre úteis”. A partir da identificação desses comportamentos e de suas conseqüências, é possível programar ati- vidades nas quais a cliente terá grande pro- babilidade de emitir tais comportamentos e nas quais os mesmos provavelmente serão reforçados. A reexposição a essas contingên- cias reforçadoras poderá minimizar os efeitos da exposição anterior a eventos aversivos incontroláveis e, assim, promover a generali- zação desses comportamentos para novas situações. Quando as condições para a emissão de comportamentos mais eficientes e adequados Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4493 94 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. envolvem eventos aversivos para o cliente (p. ex.: situações novas, possibilidade de rejeição e crítica), o terapeuta pode programar a expo- sição às contingências por meio de aproxima- ções sucessivas. Uma cliente cujo isolamento social consiste em esquiva do risco de outras desilusões afetivas poderá ser treinada a se ex- por gradualmente a situações que favoreçam relacionamentos amorosos e, simultaneamen- te, a se comportar de maneira mais efetiva nesses relacionamentos. Por exemplo, ela po- derá iniciar conversas com pessoas mais pró- ximas de seu convívio diário, isto é, a aprendi- zagem desses comportamentos deve ser inici- ada em contextos interpessoais com baixo teor aversivo. O ambiente terapêutico, bem como o ambiente familiar, caso sejam caracteriza- dos como reforçadores, também podem ofe- recer um contexto inicial. Em ambas as situa- ções, a cliente pode aprender a discriminar quando e como emitir comportamentos so- cialmente relevantes, tais como expressar sen- timentos, fazer e negar pedidos, criticar, elo- giar, etc. Os próximos passos envolveriam um potencial de risco gradativamente maior. A cliente poderia ser incentivada a se relacio- nar mais intensamente com os amigos e, em seguida, com pessoas desconhecidas visando ao desenvolvimento de um relacionamento amoroso. No decorrer desse processo de apro- ximações sucessivas, é de extrema importân- cia ressaltar todo e qualquer progresso do cliente, tanto pelo simples fato de se expor a situações de “risco” como também pelos re- forços obtidos em função de seus novos com- portamentos. Isso deve ser feito para que o cliente aprenda a discriminar as contingên- cias reforçadoras presentes em seu ambiente e, assim, tornar a exposição a tais contingên- cias cada vez mais provável. Treino de repertórios verbais Um aspecto importante do processo te- rapêutico refere-se à identificação do grau de correspondência entre as regras do cliente e as contingências em vigor em seu cotidiano. Considere um cliente adolescente com uma história de vida caracterizada pela indepen- dência entre sucessos/fracassos e seus com- portamentos (p. ex.: não passou no vestibu- lar apesar de ter estudado muito, ganhou um carro dos pais sem um motivo especial). Em decorrência dessa história, o cliente desenvol- veu a regra “não adianta fazer A ou B, as coi- sas acontecem quando têm de acontecer”, e sempre a verbaliza quando quer justificar o fato de não lutar por seus objetivos. É impor- tante lembrar que seguir essa regra pode ge- rar reforços eventualmente (já que situações de incontrolabilidade fazem parte do nosso cotidiano), o que torna difícil o seu abando- no (Abreu-Rodrigues e Sanabio, no prelo). Uma vez identificado o grau de correspondên- cia entre regra e contingências, cabe ao terapeuta ajudar o cliente a discriminar quan- do tal regra é precisa e quando é imprecisa (o Capítulo 12 contém informações mais deta- lhadas sobre controle verbal). No diálogo (fictício) que se segue é exem- plificado o uso de frases paradoxais com o ob- jetivo de colocar o cliente em contato com a imprecisão da regra. C: – Nada do que eu faço adianta... T: – É, realmente, nada do que você faz adianta. C: – Como assim? T: – Você disse que nada do que você faz adianta, talvez você tenha razão. C: – Mas não é bem assim... Sei lá... T: – Como é então? C: – Eu devo conseguir às vezes. Todo mundo consegue algo que deseja de vez em quando, né? T: – É? C: – É. T: – Você sabe identificar o que e quando você consegue? C: – Hum, deixa eu ver... Ah, por exemplo, quando eu quero muito acamparcom meus amigos nos finais de semana, eu converso com meus pais e quase sempre consigo convencê-los a me deixarem ir. T: – É um bom exemplo de algo que você consegue conquistar em função do que você mesmo fez. Lembra de mais algum? C: – Na escola, por exemplo, eu estudo bastante em época de prova e sempre consigo tirar boas notas. Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4494 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 95 T: – Isso mesmo, mais um ótimo exemplo! Você parece conseguir conquistar algumas coisas então, né? C: – É verdade... Eu consigo muita coisa, mas muitas vezes eu não percebo. Por que isso acontece? Nesse exemplo, é possível observar que o terapeuta, além de não reforçar o comporta- mento verbal inadequado do cliente (“nada do que eu faço adianta”), apresenta estímulos discriminativos diferentes daqueles usualmente apresentados em seu ambiente (“é, realmente, nada do que você faz adianta”, “... talvez você tenha razão”) de modo a evocar comportamen- tos alternativos (“Como assim?”, “Mas não é bem assim...”). Essa estratégia poderá auxiliar o cliente a discriminar suas regras inadequadas, assim como algumas das contingências refor- çadoras presentes em sua história. Os relatos dos clientes fornecem informa- ções importantes sobre atribuição de causali- dade. Em função de uma história de exposição a explicações mentalistas, os indivíduos comu- mente atribuem seus comportamentos a even- tos internos e, conseqüentemente, seus objeti- vos na terapia focalizam a eliminação de sen- timentos e pensamentos negativos (p. ex.: “se eu perder essa insegurança e melhorar minha auto-estima, acho que as coisas vão melhorar”). Outras vezes, as explicações fornecidas pelo cli- ente apóiam-se em eventos ambientais, mas uma análise cuidadosa revela que os eventos apontados são irrelevantes para a ocorrência do comportamento (p. ex.: “não tenho estuda- do porque ler muito me dá dor de cabeça” quando, na realidade, o cliente está esquivan- do-se do estudo em função de dificuldades na compreensão do conteúdo). Ambos os relatos não apresentam a interação comportamento- ambiente como o foco da atenção. Diante desse quadro, é importante que o terapeuta considere com cautela os relatos do cliente, uma vez que eles podem descrever va- riáveis irrelevantes para a compreensão do comportamento (ver Sanabio e Abreu-Rodri- gues, 2002). Embora essa imprecisão possa ser de interesse à medida que sugere contingên- cias de reforçamento e punição às quais o clien- te foi (ou continua sendo) exposto, é impor- tante estabelecer contingências para gerar re- latos acurados. Para tanto, o terapeuta pode promover o treino de auto-observação, ante- riormente discutido. Dessa forma, o cliente irá aprender a identificar, com acurácia, relações funcionais entre seus comportamentos e os eventos ambientais, uma aprendizagem que ge- ralmente ocorre a partir de modelos forneci- dos pelo terapeuta ou por meio de reforça- mento diferencial por ele estabelecido. A mo- delagem das verbalizações do cliente, assim como a modelação, pode ser feita a partir dos eventos que ocorrem na própria relação tera- pêutica (Kohlenberg e Tsai, 1991/2001). CONCLUSÃO De acordo com a proposta de Maier e Seligman (1976), os efeitos da história de incontrolabilidade seriam produto das expec- tativas dos indivíduos, as quais são avaliadas por meio dos relatos. Entretanto a sugestão des- ses autores apresenta alguns problemas, am- pliando a necessidade de manipulações expe- rimentais mais rigorosas na área. O primeiro deles se refere ao status de “causa” atribuído às expectativas dos partici- pantes. Para que qualquer evento seja consi- derado como variável de controle do compor- tamento, é necessário demonstrar que há rela- ção funcional entre esse evento e o comporta- mento. Para isso, o evento é alterado de ma- neira sistemática (variável independente), en- quanto possíveis alterações sobre o comporta- mento (variável dependente) são observadas. Quando a variável dependente varia sistema- ticamente com manipulações da variável inde- pendente, tem-se uma relação funcional. Des- sa forma, afirmar que a variável dependente está funcionalmente relacionada à variável in- dependente implica dizer que, sob determina- das condições ambientais, mudanças na pri- meira ocorrerão em função de mudanças na segunda; em condições ambientais diferentes, é possível que tal relação não seja observada. Nesse caso, a variável independente não é con- siderada a causa (Chiesa, 1994), uma vez que uma relação causal sugere que a ocorrência de um evento é condição necessária e suficiente Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4495 96 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. para a ocorrência de outro evento, o que rara- mente é observado na natureza (Johnston e Pennypacker, 1993). Os estudos sobre o efeito da exposição a eventos incontroláveis que in- vestigam o papel das expectativas dos indiví- duos não identificam relações funcionais en- tre tais expectativas e o comportamento dos participantes. Isso porque as expectativas, en- quanto eventos não-observáveis, não são ma- nipuladas, sendo apenas inferidas a partir dos relatos dos indivíduos, os quais também não são diretamente manipulados. Um segundo problema está relacionado ao uso do relato como instrumento de coleta de dados. Conforme discutido anteriormente, essa prática apóia-se no pressuposto de que os relatos retratam com fidedignidade as expec- tativas dos indivíduos. Entretanto vários estu- dos (p. ex.: Critchfield e Perone, 1990; 1993; Critchfield, 1993; 1996; Sanabio e Abreu- Rodrigues, 2002; Shimoff, 1986; Simonassi et al., 1994, 1995, 1997) têm demonstrado que os relatos podem estar sob controle de inúme- ras variáveis e, assim, podem consistir em des- crições imprecisas das contingências em vigor. Uma vez que os relatos podem não descrever com precisão eventos públicos, é viável supor que o mesmo pode ocorrer com relação aos relatos de eventos privados, principalmente se for considerado que a comunidade verbal não pode prover reforçamento diferencial consis- tente para tais relatos. Dessa forma, eles de- vem ser considerados com cautela nas tentati- vas de explicar o comportamento. Considerar o efeito de uma história de incontrolabilidade como produto da expecta- tiva (um evento privado) gera um terceiro pro- blema. De acordo com abordagens mentalistas, modificações no ambiente externo produziriam modificações em comportamentos privados não-observáveis, sendo estes últimos conside- rados como a variável de controle dos com- portamentos públicos. Ou seja, o foco de inte- resse dessas abordagens seria os processos comportamentais não-observáveis diretamen- te. Sob uma perspectiva analítico-comporta- mental, entretanto, o mentalismo representa um problema, pois, conforme apontado por Skinner (1953/1994, p. 41), “o hábito de bus- car dentro do organismo uma explicação do comportamento tende a obscurecer as variá- veis que estão ao alcance de uma análise cien- tífica”. Assim sendo, as variáveis de controle devem ser buscadas no ambiente. Quando isso ocorre, o controle do comportamento torna-se possível, uma vez que eventos ambientais po- dem ser manipulados. O quarto problema é que os estudos so- bre efeito de uma história de incontrolabilidade comumente negligenciam as funções de con- trole exercidas pelas variáveis manipuladas. To- dos os estudos da área manipulam a história de controlabilidade/incontrolabilidade. Ou- tros, adicionalmente, manipularam o conteú- do das instruções apresentadas (Hiroto, 1974; Klein et al., 1976; Mikulincer, 1986) ou o tipo de tarefa às quais os participantes foram ex- postos (Douglas e Anisman, 1975; Klein e Seligman, 1976). Nesses estudos, entretanto, a história, as instruções e o tipo de tarefa não foram considerados como fontes primárias de controle do desempenho não-verbal. De fato, essas variáveis só eram relevantes à medidaque, supostamente, alteravam as expectativas dos participantes. Um quinto problema também pode ser apontado: os resultados sobre as possíveis re- lações entre os relatos e os efeitos da exposi- ção a eventos incontroláveis são inconsisten- tes. Enquanto alguns autores (p. ex.: Alloy et al., 1984; Douglas e Anisman 1975; Hiroto 1974; Klein et al., 1976) demonstraram cor- respondência entre os relatos e o desempenho não-verbal, outros autores (p. ex.: Ford e Neale 1985; Oakes e Curtis 1982; Prindaville e Stein 1978; Tennen, Drum et al., 1982; Tennen, Gillen et al., 1982) demonstraram independên- cia entre esses dois comportamentos. Essa in- consistência de resultados sugere a necessida- de de estudos adicionais para identificar as variáveis responsáveis pela correspondência entre os relatos e os efeitos da exposição a even- tos incontroláveis. Apesar desses problemas, os estudos so- bre a exposição a eventos incontroláveis são importantes porque apontam a possibilidade de contingências verbais influenciarem o com- portamento não-verbal dos indivíduos, além de investigarem a influência de contingências não-verbais passadas sobre o comportamen- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4496 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 97 to atual. A identificação de variáveis históri- cas justifica-se por duas razões: porque permi- te aprimorar o controle experimental, uma vez que efeitos da história passada, quando não “desejáveis”, poderiam ser minimizados, ou mesmo eliminados, e porque contribui para a elaboração de intervenções comportamentais eficazes, à medida que contingências atuais in- fluenciam o comportamento de maneiras dife- renciadas em função de histórias de reforça- mento/punição distintas (Aló, 2002). Os estudos sobre a história de incontrola- bilidade também são relevantes por fornece- rem subsídios para a prática clínica. No mo- mento, as intervenções terapêuticas, embora se mostrem efetivas no tratamento de indiví- duos expostos a situações de incontrolabili- dade, parecem não se beneficiar dos achados da pesquisa básica. Similarmente, os terapeutas têm apontado diversas variáveis envolvidas no fenômeno da incontrolabilidade, mas essas va- riáveis ainda não foram experimentalmente investigadas. Da mesma forma que a prática clínica pode ser enriquecida com dados expe- rimentais que contribuam para o estabeleci- mento de intervenções mais eficazes, fenôme- nos e processos clínicos podem gerar questões experimentais de suma relevância. É preciso, então, que clínicos e pesquisadores promovam a interação entre essas duas áreas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abreu-Rodrigues, J.; Sanabio, E. T. (no prelo). Instru- ções e auto-instruções: Contribuições da pesquisa bá- sica. Em C. N. Abreu; H. J. Guilhardi (Orgs.), Manual prático de psicoterapia comportamental, cognitiva e construtivista. São Paulo: Editora Roca. Alloy, L. B.; Abramson, L. Y. (1979). Judgment of contingency in depressed and nondepressed students: Sadder but wiser? Journal of Experimental Psychology: General, 108, 441-485. Alloy, L. B.; Peterson, C.; Abramson, L. Y.; Seligman, M. E. P. (1984). Attributional style and the generality of learned helplessness. Journal of Personality and So- cial Psychology, 46, 681-687. 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A polidipsia também foi observada na utilização de um esquema de liberação de alimento não-contingente à resposta, com du- ração fixa de 60 s, mas não sob um esquema de reforçamento contínuo (Falk, 1961b). Falk denominou o fenômeno de polidipsia psicogê- nica, sugerindo que sua natureza seria compor- tamental, e não fisiológica. Os objetivos deste capítulo são apresen- tar ao leitor os fundamentos experimentais do comportamento adjuntivo, bem como sugerir o modelo desse comportamento como uma al- ternativa para a compreensão de transtornos comportamentais. Com esses objetivos serão apresentadas inicialmente as características do comportamento adjuntivo, incluindo uma dis- cussão da pertinência da classificação desse comportamento em uma terceira classe, além da descrição de diferentes tipos de comporta- mentos adjuntivos e da generalidade desse fe- nômeno comportamental. A seguir, serão apre- 6 Nosso problema não é o da analogia, mas o de conseguir uma compreensão suficiente tan- to dos ratos como dos homens, para que pos- samos reconhecer semelhanças nos processos comportamentais. Temos de ser capazes de classificar nossas variáveis de uma tal manei- ra que nos permita reconhecer semelhanças entre os seus princípios de operação, apesar de suas especificações físicas poderem ser bem diferentes (Sidman, 1960/1976, p. 35-36). Comportamento adjuntivo pode ser gene- ricamente definido como um comportamento que é mantido de maneira indireta pelas variá- veis, que tipicamente controlam um outro com- portamento, em vez de ser mantido diretamen- te por suas próprias variáveis controladoras (Falk, 1971). Em geral, diz-se que o comporta- mento diretamente controlado é governado pela contingência (tanto R-S – resposta dependente – como S-S – resposta independente), enquan- to o comportamento adjuntivo é induzido pela contingência. Essa distinção é importante pelo fato de aquele ser programado por meio das re- lações contingenciais, enquanto este ocorre como um correlato dessas relações. Em um estudo pioneiro, Falk (1961a) ob- servou a ocorrência sistemática de um com- portamento não-programado pela contingên- cia inicial. Em seu experimento com ratos, no qual pressões à barra eram reforçadas com pelotas de alimento, segundo um esquema de intervalo variável de 60 s, ele observou um con- Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:4499 100 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. sentados exemplos de transtornos comporta- mentais, para cuja compreensão o modelo de comportamento adjuntivo pode contribuir. Es- ses exemplos incluem drogadição, obesidade e bulimia, anorexia por atividade e a síndrome do cólon irritável. Finalmente será discutido o controle de estímulos sobre o comportamento adjuntivo e suas implicações para a análise fun- cional do comportamento. CARACTERÍSTICAS DO COMPORTAMENTO ADJUNTIVO Baseando-se nos trabalhos sobre polidipsia, Falk (1971) destacou sete características bási- cas do comportamento adjuntivo: • A maior taxa desse comportamento ocorre logo após a apresentação do reforço/estímulo, isto é, a distribuição do comportamento no intervalo entre reforços/estímulos é representada por uma curva decrescente negativamen- te acelerada. • O comportamento depende da dura- ção dos intervalos entre a apresenta- ção dos reforços/estímulos, resultan- do em uma relação bitônica (curva em forma de U invertido) entre o tama- nho do intervalo e a taxa do compor- tamento, com taxas reduzidas quan- do o intervalo é pequeno ou muito grande, e altas quando o intervalo é de um valor intermediário. • O comportamento varia de acordo com o nível de privação dos sujeitos, apresentando uma relação direta en- tre o nível de privação e a taxa do com- portamento. • O comportamento ocorre em excesso se comparado às condições de controle. • O comportamento pode ser induzido tanto por esquemasdependentes (contingências R-S) como por esque- mas em que a liberação dos estímu- los não depende da resposta (contin- gências S-S). • O comportamento pode ser usado como reforço para outros comporta- mentos, por exemplo, um rato pode aprender uma nova resposta conse- qüenciada pelo acesso à água quando exposto a um esquema intermitente de apresentação de alimento. • O comportamento depende dos estí- mulos ambientais disponíveis, com as taxas variando em função dos arran- jos do ambiente, como, por exemplo, a localização e o tipo de vasilhame uti- lizado para apresentação da água. Além dessas características, os com- portamentos adjuntivos também estão sujeitos aos efeitos de algumas manipulações ambien- tais que afetam o comportamento operante. Dessa forma, o comportamento adjuntivo pode ser afetado tanto por contingências de puni- ção – diminuição na taxa do comportamento (Pellon e Blackman, 1987) – como pela admi- nistração de diferentes drogas, tais como apomorfina – diminuição na taxa de compor- tamento (Snodgrass e Aleen, 1988), d-anfeta- mina e diazepam – alterações na distribuição do comportamento dentro do intervalo entre reforços, mas sem alterar as taxas (Flores e Pellon, 1997; Pellon e Blackman, 1992), e amperozide – diminuição na taxa do compor- tamento (Tung et al., 1994). Os efeitos da ra- diação ionizante observados sobre o compor- tamento operante também foram observados sobre o comportamento adjuntivo de ingestão de água – diminuição na taxa do comporta- mento (Brandão, Gimenes e Rodrigues, 2003). Assim como o operante, o comportamento adjuntivo pode também interagir com outras variáveis biológicas, como, por exemplo, o rit- mo circadiano – a taxa do comportamento adjuntivo reflete a distribuição do comporta- mento ao longo de 24 h em condições de livre acesso sem imposição de contingências, isto é, o horário da sessão experimental afeta a taxa do comportamento para mais ou para menos, de acordo com as taxas observadas no mesmo horário do dia na condição de livre acesso (Gimenes e Melo, 1993; Melo et al., 1991). Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:44100 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 101 Comportamento adjuntivo como uma terceira classe A polidipsia observada nos arranjos ex- perimentais descritos veio a ser designada como comportamento adjuntivo ou comporta- mento induzido pelo esquema (esses dois ter- mos têm sido utilizados de forma intercam- biável na literatura), para diferenciá-lo do com- portamento governado pelo esquema, o operante em questão, como definido anterior- mente. O termo comportamento induzido por esquemas de reforçamento surgiu a partir do trabalho de Staddon e Simmelhag (1971), no qual o efeito de contingências estímulo-estí- mulo sobre o comportamento de pombos e suas implicações para a compreensão do compor- tamento de uma forma mais geral foram expli- citamente explorados. Esses autores observa- ram que os pombos que recebiam acesso ao alimento de acordo com esquemas temporais, dependentes ou independentes das respostas, passaram a apresentar um padrão típico e es- tereotipado de respostas entre as apresenta- ções do alimento. O padrão geral dos sujeitos consistiu em respostas variadas logo após a apresentação do alimento e respostas de bicar o comedouro pouco antes da apresentação do alimento. Portanto, respostas variadas ocor- riam freqüentemente no início dos intervalos entre as apresentações do alimento, e foram denominadas de respostas interinas. Respostas de bicar, que se tornavam muito prováveis para todos os sujeitos conforme se aproximava uma nova liberação do alimento foram denomi- nadas de respostas terminais. Outras respostas, que ocorreriam durante o intervalo, entre as respostas interinas e as respostas terminais, mas sem aumento na sua probabilidade em função do esquema, foram denominadas de respostas facultativas, sendo o comportamento de correr em uma roda de atividade um exem- plo apresentado por Staddon e Ayres (1975). Staddon e Simmelhag (1971) consideraram que respostas interinas e respostas terminais seriam induzidas pelo esquema, no sentido de que são respostas que se tornam mais prová- veis de ocorrer na vigência do esquema indutor, e não na sua ausência. Nesse contexto, o ter- mo comportamento induzido por esquema ser- viria para enfatizar que a ocorrência de respos- tas terminais e interinas não poderia ser expli- cada por reforçamento. A ocorrência e as ca- racterísticas definidoras dos comportamentos induzidos por esquemas dificilmente poderiam ser entendidas a partir dos princípios até en- tão utilizados na análise do comportamento operante. Para Staddon (1977), a polidipsia induzida por esquemas de reforçamento seria, assim, um tipo de resposta interina. Algumas das características do compor- tamento adjuntivo, tais como excesso, depen- dência dos parâmetros do esquema intermiten- te de reforçamento (principalmente parâmetros temporais), localização da ocorrência dentro do intervalo entre reforços, distribuição bitôni- ca em função do tamanho dos intervalos dos esquemas, propriedades motivadoras desses comportamentos, entre outras, levaram Falk (1971) a propor uma nova classe de compor- tamentos. Essa terceira classe, a de comporta- mentos adjuntivos, viria a se contrapor ou a complementar as outras duas, a de comporta- mentos operantes e a de comportamentos res- pondentes. A propriedade dessa classificação foi, e ainda é, questionada (ver Wetherington, 1982, para uma análise detalhada dessa questão). Tipos e generalidades dos comportamentos adjuntivos Os achados iniciais de Falk, pelas carac- terísticas aberrantes da polidipsia observada, geraram um grande interesse pelo fenômeno e desencadearam uma longa empreitada de pesquisas na área. Além da polidipsia, outros comportamentos adjuntivos têm sido demons- trados em estudos realizados com animais, como, por exemplo, o consumo de álcool em ratos (Lester, 1961), ingestão de materiais não- comestíveis (pica) em macacos (Villareal, 1967), agressão em pombos (Hutchinson, Azrin e Hunt, 1968), uso da roda de atividades em ratos (Levitsky e Collier, 1968), lambedura de Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:44101 102 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. jatos de ar em ratos (Mendelson e Chillag, 1970), motilidade intestinal em ratos (Rayfield, Segal e Goldiamond, 1982), hiperfagia em ra- tos (Wilson e Cantor, 1987) e auto-administra- ção de drogas em ratos (Falk et al., 1990). Ape- sar de não mencionar o termo comportamento adjuntivo, Fernandez e Timberlake (2003) de- monstraram a ocorrência de diferentes com- portamentos estereotipados em ursos polares quando eles eram alimentados segundo esque- mas temporais específicos. Além dos diferen- tes tipos de comportamentos adjuntivos, os mesmos têm sido observados em uma ampla variedade de espécies. Segundo Falk (1998), a polidipsia tem sido observada em várias linha- gens de ratos, camundongos, porquinhos-da- índia, gerbilo da Mongólia, chinchilas, maca- cos rhesus, macacos de Java, chimpanzés, pom- bos e humanos. A generalidade do fenômeno do compor- tamento adjuntivo (p. ex.: Roper, 1981) e sua ocorrência em seres humanos (p. ex.: Overskeid, 1992) têm sido ocasionalmente questionadas. Entretanto vários estudos têm demonstrado em algum grau sua ocorrência tanto em crianças como em adultos. Enquanto os comportamen- tos adjuntivos de beber, de comer, de ativida- des motoras, de fumar e de asseio foram ob- servados em adultos em uma situação de jo- gos (Fallon, Allen e Butler, 1979; Wallace e Singer, 1976; Wallace, Sanson e Singer, 1978), crianças submetidas a esquemas de intervalo fixo para operação de uma chave telegráfica apresentaram comportamentos adjuntivos de vocalização, de beber e de atividades motoras (Porter, Brown e Goldsmith, 1982) (para uma resposta às críticas sobre a ocorrência de com- portamentos adjuntivos em humanos, ver Falk,1993). COMPORTAMENTO ADJUNTIVO E TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS A seguir serão apresentados alguns trans- tornos comportamentais juntamente com os fundamentos experimentais que fornecem ele- mentos para um modelo de comportamento adjuntivo como um modelo alternativo para a compreensão dessas disfunções. Drogadição A diversidade de excessos comportamen- tais que podem ocorrer sob um esquema de reforçamento indutor localiza o abuso de dro- gas como um caso especial dentro de um con- texto em que condições ambientais podem ge- rar muitos tipos de disfunções comportamen- tais (Falk, 1993). Quando água ou outras so- luções são disponibilizadas sob um esquema indutor, seu consumo excessivo e a manuten- ção da auto-administração dessas substâncias podem ocorrer. O consumo excessivo de di- ferentes drogas, tais como etanol, barbitúricos, opióides, benzodiazepínicos, cocaína e nico- tina, tem sido investigado sob o modelo expe- rimental de comportamento adjuntivo por se- rem substâncias de adição em seres humanos. Para algumas substâncias, tem sido demons- trado o desenvolvimento de dependência físi- ca, enquanto para outras tem-se observado conseqüências comportamentais negativas após a sua ingestão, como, por exemplo, “al- terações no controle motor” (Samson e Falk, 1974). Em um estudo pioneiro, Lester (1961) observou a intoxicação por etanol em ratos submetidos a um esquema de reforçamento de intervalo variável, utilizando alimento como reforço e com uma solução de etanol a 5,6% disponível durante a sessão experimen- tal. Após 3 h de sessão, pôde-se observar um aumento elevado na concentração de etanol no sangue dos animais e sinais de intoxica- ção. Investigações posteriores confirmaram que ratos sob esquemas indutores semelhan- tes ingeriram grande quantidade de solução de etanol em sessões com duração de até 3,5 h de duração (Everett e King, 1970; Freed, Carpenter e Hymowitz, 1970). A ingestão de etanol induzida por esquema de reforçamento também pôde ser observada em outras espécies, como camundongos e macacos, com o consumo de grandes quantidades de etanol, resultando em alta concentração sangüínea dessa substância (Mello e Mendelson, 1971; Woods e Winger, 1971). A auto-administração oral induzida por esquema de reforçamento de outras substân- cias, como cocaína, também tem sido alvo Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:44102 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 103 de diversos trabalhos. Tang e Falk (1987) ob- servaram que ratos expostos a um esquema de reforçamento de tempo fixo, com pelotas de alimentos utilizadas como reforço, aumen- taram drasticamente a ingestão de uma so- lução de cocaína, sendo que seu consumo au- mentou em função do aumento da concen- tração da droga na solução. Posteriormente, Falk e colaboradores (1990), em um estudo sob condições semelhantes em que água e uma solução de cocaína em baixa concentra- ção eram disponibilizadas, não observaram uma preferência pela droga. Os autores no- taram que a preferência pela solução de co- caína só foi observada quando sacarina e glicose foram acrescentadas à solução, mos- trando que o sabor da substância pode ser considerado como um fator relevante da ingestão por via oral. Uma série de estudos estendeu os proce- dimentos de auto-administração induzida por esquemas de reforçamento de diferentes agen- tes tóxicos, como nicotina e cocaína, para a rota intravenosa, no sentido de eliminar uma variável indesejável da administração oral que é o sabor aversivo da droga (Singer, Oei e Wallace, 1982; Smith e Lang, 1980). Assim, ao invés de uma garrafa com água ou uma so- lução, os animais tinham acesso a uma barra para obter infusões intravenosas da droga. Lang, Latiff, McQueen e Singer (1977) obser- varam em ratos que esquemas de razão fixa 1 (FR 1) de injeções intravenosas de nicotina não era suficiente para controlar o comportamen- to de auto-administração. Entretanto, quando o peso dos animais foi diminuído de 100 para 80% do peso livre, a nicotina passou a funcio- nar como reforçador e quando essa condição foi combinada com um esquema de tempo fixo de 1 min (FT 1 min), a auto-administração de nicotina aumentou significativamente. Em humanos, vários estudos têm enfati- zado a importância do comportamento adjun- tivo de ingestão de substâncias como álcool e cocaína como um modelo animal para alcoo- lismo e drogadição. Doyle e Samson (1988) observaram o consumo de cerveja em huma- nos sob dois esquemas de intervalo fixo para a operação de uma máquina caça-níqueis e veri- ficaram que os sujeitos expostos ao esquema de intervalo fixo mais longo ingeriram signifi- cativamente mais cerveja do que aqueles ex- postos ao esquema de intervalo fixo mais cur- to. Além disso, foram observadas algumas ca- racterísticas básicas dos comportamentos ad- juntivos para o grupo exposto ao esquema de intervalo fixo mais longo, sugerindo, assim, que a ingestão de álcool em humanos ocorre de maneira similar ao modelo animal de polidipsia induzida por esquema de reforçamento. Além disso, os autores sugeriram que a exposição a esquemas indutores é crucial na formação da história de consumo, e que a exposição a am- bientes nos quais reforçamento intermitente, talvez na forma de interação social, e álcool estão disponíveis pode levar a um padrão de consumo excessivo que pode se tornar habitual ou potencializado por ambientes similares em ocasiões futuras. As drogas que afetam diretamente o sis- tema nervoso central podem também produ- zir fortes efeitos sensoriais. Tanto esses estí- mulos internos como também os estímulos ex- ternos ambientais associados ao comportamen- to de procura e ingestão da droga formam um conjunto de estímulos discriminativos que es- tão associados à interação do indivíduo com a droga. Alguns desses estímulos, tanto internos como externos, podem tornar-se condiciona- dos ao efeito farmacológico da droga. Assim, eles podem levar à ingestão da droga em fun- ção da instalação de um quadro de abstinên- cia como também a uma retomada dos com- portamentos de busca e ingestão da droga por- que esses comportamentos foram associados aos reforços positivos produzidos pela ação in- trínseca dessas substâncias (Falk, 1998). Des- sa forma, em humanos, o abuso de drogas não é um excesso comportamental isolado e único, ao contrário, ele é apenas um dos aspectos de uma variedade de outros comportamentos disfuncionais. A aquisição e a manutenção do abuso de drogas são facilitados não apenas por fatores intrínsecos ou propriedades farma- cológicas das drogas, mas também por condi- ções econômica e socialmente estabelecidas por esquemas de reforçamento restritivos que po- dem proporcionar a geração de esquemas indutores para esses excessos comportamentais (Falk, 1993). Analise_do_Comportamento.p65 17/7/2007, 15:44103 104 ABREU-RODRIGUES, RIBEIRO & COLS. Obesidade e bulimia Embora o comportamento adjuntivo de consumo de alimento (hiperfagia) não tenha sido tão claramente demonstrado quanto a polidipsia (p. ex.: Carlisle, Shanab e Simpson, 1972; King, 1974; Wetherington e Brownstein, 1979), alguns estudos demonstraram que a ingestão excessiva de alimentos também pode ser induzida ou adjuntiva a certas contingên- cias (Bellingham, Wayner e Barone, 1979; Gimenes e Marinho, 1993; Marinho, Gimenes e Nogueira, 1991; Wilson e Cantor, 1987). Vale observar, entretanto, que o consumo de alimen- to adjuntivo dificilmente pode ocorrer com o mesmo vigor que a polidipsia adjuntiva. O rato tem um sistema renal bastante eficiente, ca- paz de eliminar facilmente líquidos excessiva- mente ingeridos. Por outro lado, isso não ocorre com a eliminação do alimento, pois, além das restrições físicas do estômago para receber ali- mentos em excesso em um curto período de tempo, o período para processamento e elimi- nação é maior. Bellingham e colaboradores (1979) ob- servaram a ocorrência do consumo