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CHAVES DA ECONOMIA
Os limites desta
colecção, em termos ge
rais, definem-se pelo espa
ço que vai dos clássicos do
pensamento económico até às
obras dos mais modernos teó
ricos da economia. Todavia, o seu
âmbito é suficientemente vasto
para abranger livros que tratem de
questões sectoriais, desde a Moe�
da e a Banca, até às Finanças,
e à A�ministração Pública.
Assim como obras consi
deradas de divulgação
mas exigentemente
rigorosas.
.. --
CE
CHAVES DA ECONOMIA
1. A ECONOMIA DO MERCADO COMUM
de Dennis Swann
2. A EVOLUÇÃO DO SISTEMA MONETÁRIO INTERNACIONAL
de Sergio Bortolani
3. DO SUBDESENVOLVIMENTO CAPITALISTA
de André Gunder Frank
4. A TEORIA DO VALOR. DOS CLASSICOS A MARX
de Marina Bianchi
A publicar
A ECONOMIA PORTUGUESA DO SÉC. XX
(1920-1925)
de Armando Castro
O CAPITAL, edição popular
de Karl Marx
A TEORIA
DO VALOR
(DOS CLÁSSICOS A MARX)
Título original: La Teoria dei Valore dai Classlcl a Marx
© Casa edltrlce Gius. Laterza
& Flgll, Bari, Via Dante 51
Tradução: Joaquim Chambino
Capa de Alceu Saldanha Coutinho
Todos os direitos reservados para a Língua Portuguesa
~~·~
Avenida Duque de Ávila, 69 r/c Esq. 1000 LISBOA
' Telefs. 55 68 89 / 57 20 01
Distribuidor no Brasil: LIVRARIA MARTINS FONTES
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 - SÃO PAULO
MARINA BIANCHI
A TEORIA
DO VALOR
(DOS CLÁSSICOS A MARX)
-
PREFACIO À PRIMEIRA EDIÇÃO
O mérito essencial deste trabalho de Marina Bian-
chi é o de apresentar uma exposição e uma interpretação
da teoria marxiana elo valor, que reune e integra dois
pontos de vista que, em geral, até agora foram apre-
sentados separados, porque um deles era assumido por
economistas e o outro por filósofos. Os economistas,
e sobretudo os historiadores elo pensamento económico,
procuraram colocar a teoria do valor de Marx na his-
tória geral da teoria do . valor-trabalho, e julgaram-na,
por isso ( ou em sentido posiiTvo--ôí, -em sentido nega-
tivo), com critérios não diferentes daqueles que pode-
riam usar-se igualmente para a teoria ricardiana, em
relação à qual a posição de Marx vem, assim, a assumir
o aspecto de um aperfeiçoamento, embora substancial.
Os filósofos sublinharam sobretudo o aspecto ligado à
categoria do «trabalho abstracto» que, embora esteja
no fundamento da teoria de Marx, é, porém, de todo
estranha à economia política clássica, em relação à qual,
por isso, a posição de Marx vem a apresentar-se como
uma posição de decisiva ruptura e superação.
Não creio que seja necessário insistir na importân-
cia que hoje reveste uma interpretação correcta de Marx;
e nem creio ne.c~s4rfo sribJinhªr___a impor_tgnç_ia__ muita
particular que com este .propósito reveste- a considera-
ção da te.gria do valor;-muitos (supostos) cálculos se
fizeram a este propósito, com Marx fictícios, mais que
com o Marx real. Ora, não há dúvida que este livro é,
pela construção dessa interpretação, um passo impor-
9
lante; e é-o, exactamente, pela integração desses dois
pontos de vista de que falei.
Em resumo, a autora (com uma análise cujo inte-
resse deriva também da utilização ampla que nela se
faz dos Grundrisse) sustenta que a avaliação da teoria
do valor de Marx requer que se tenham presentes quer
a relação de continuidade, quer a relação de ruptura
e superação relativamente a Smith e Ricardo; mais pre-
cisamente, que a superação operada por Marx depende
do retomar, pela sua parte, dos mesmos problemas de
Smith e de Ricardo, dado que é exactamente da neces-
sidade de resolver estes problemas que nascem em Marx
as categorias que superam o discurso clássico.
Em termos muito esquemáticos, e que só parcial-
mente fazem justiça ao texto, a argumentação da autora
pode pôr-se nestes termos.
A relação de continuidade e desenvolvimento entre
Marx, por um lado, e Smith e Ricardo, por outro, pode
ser surpreendida com base na consideração de que exis-
tem., quer em Smith, quer em Ricardo, duas insuficiên-
cias que são superadas por Marx mediante a integração
de uma teoria na outra.
Mais especificamente, Smith vê na troça_sxi.pitalista
só o que nela é peculiar relativamente à troca mercantil
geral, ou seja, o carácter desigual da troca, que ele
exprime mediante a diúrençª oore_«trahalho _contido»
e « trabalho dom_ingdo». Pelo contrário, Ricardo não vê
na troca càpitalista senão aquilo· que tem de comum
com a troca mercantil em geral, o que exprime dizendo
que a subdivisão do valor em salário e lucro interessa
apenas à distribuição do próprio valor e não também
à lei da sua formação.
Vê-se que se trata de duas posições parciais, ref liec-
tindo no facto de que: a) Smith, embora possa começar
a compreender a natureza do lucro (como «dedução»),
fecha-se, porém, por fim, num círculo vicioso, porque
faz depender os valores de um valor particular, isto é,
o salário, e por isso ( como aparecerá claramente no seu
continuador Malthus) reduzirá a questão da origem do
valor à questão da sua medição; b) Ricardo, embora
não caia no círculo· fechado smithiano e conserve, por
isso, uma teoria do valor em sentido próprio, impede,
porém, qualquer possibilidade de determinar a origem
do lucro.
10
Ora, a peculiaridade de Marx ( ainda no terreno da
continuidade a que nos referimos agora) consiste no
reelaborar da teoria do valor-trabalho de modo que,
no âmbito do rigor ricardiano, seja absorvido o pro-
blema smithiano da <<dedução». De notar que o ponto
de partida ricardiano de. Marx é essencial, precisamente
porque é em Ricardo que a teoria do valor é conservada
como teoria em sentido próprio e não desce ao critério
de medição. Portanto, o problema de Marx é partir de
Ricardo, para englobar Smith.
Pode dizer-se, portanto, que a continuidade de
Marx em relação a Smith-Ricardo está no assumir, da
sua parte, dos termos em que o problema aparece posto
por eles. A ruptura está, pelo contrário, na forma da
solução, ou seja, na transcendência de todos os termos
da economia política clássica, exactamente para resol-
ver o problema que esta economia tinha posto. Para
compreender a transcendência operada por Marx é pre-
ciso partir do facto de que, tanto a dificuldade de Smith
como a de Ricardo (se bem que sejam muito diferentes,
como se vê pelo que se disse atrás) derivam ambas de
uma insuficiência descrita como a não distinção entre
trabalho e força de trabalho. Com efeito: a) em Smith
esta não distinção determina o modo errado de com-
pletar o confronto entre «trabalho contido» e «tra-
balho dominado», que induz Smith a julgar que se trata
de quantidades diferentes; b) em Ricardo, impede de
ver a diferença entre o custo em trabalho do trabalhador
G a quantidade de trabalho por este despendida, o que
impede a determinação do mais-trabalho.
Por outro lado, um dos resultados mais notáveis
da análise do livro que aqui se apresenta é que, de
forma menos imediata, a não distinção entre trabalho
e força de trabalho deriva de um insuficiente conheci-
mento da natureza do trabalho em situação capitalista.
Isto é, falta de modo explícito, em Smith e em Ricardo,
o conceito do trabalho abstracto, como abstracção real
historicamente produzida por um certo tipo de sociedade.
A relação que se estabelece ·entre o oonceito de traba-
lho abstracto e o de força de trabalho, pode ser esclare- •
cida, tal como ela se apresenta em Marx, como se segue.
Na sociedade mercantil, logo, na troca propria-
mente dita, numa fase logicamente precedente. ao capi:
tal, 9 trabalho enquanto _JlI_gJbna0.Ldc:_:·w~rcad.ar.ias.,_..isto
é, de riquez.a_ahstr.ac.ta,, Lfta.balha .abstr:acto. Na troca
11
propriamente dita, por outro lado, o produto embora
seja, à primeira vista, riqueza abstracta, serve todavia
como meio para a aquisição de riqueza concreta, con-
sumível. Correspondentemente, os produtores, se bem
que como trabalhadores sejam fornecedores de traba-
lho abstracto, todavia finalizam a sua actividade, em
última instância, na aquisição· de valoresde uso. Mas
a riqueza abstracta pode, ou antes deve, ser constituída
como fim do processo económico: isto verifica-se p'reci-
samente com o capital. Mas para que o capital possa
realizar esta configuração do processo económico, ocorre
que, acima dos produtores imediatos, os quais não podem
deixar de ficar inseridos num esquema de troca sim-
ples, se põe o capital propriamente dito, personificado
num sujeito específico que é o capitalista. Isto só pode
acontecer se os próprios produtores imediatos estive-
rem submetidos ao capital, isto é, só se uma parte deles
mesmos não forem senão capital. A força de trabalho
é precisamente a realidade desta sua redução a capital.
Mas então a riqueza abstracta e o trabalho ·abstracto
são os pressupostos sem os quais não se dá a realidade
da força de trabalho nem se tem a compreensão desta
última.
Por isso, a superação das parcialidades de Smith
e de Ricardo requer em Marx, preliminarmente, o exame
e o desenvolvimento da categoria do trabalho abstracto.
Mas, à parte qualquer outra implícação, continuando
rio terreno da teoria do valor, o ·conceito de trabalho
abstracto comporta uma mudança radical da própria
noção de valor em relação â economia clássica; com
efeito, o valor, como termo no qual necessariamente se
representa o trabalho abstracto, torna-se uma categoria
que precede a do valor de troca e em relação à qual
o valor de troca é apenas a expressão fenoménica. O cha-
mado valor absoluto, no sentido de Marx, é o próprio
elemento constitutivo da sociedade merçantil, porquanto
esta tem o seu desenvolvimento necessário na sociedade
capitalista.
Posto isto, pode voltar a percorrer-se o camiuho
da construção marxiana da teoria crítica do capitalismo:
o conceito de trabalho abstracto consente o conceito de
capital; este último consente o conceito de força de
trabalho; este último consente, numa completa trans-
cendência das teorias clássicas, a integração de Smith
em Ricardo e, por isso, a explicação do lucrá ( da mais-
12
-valia) dentro da teoria do valor-trabalho. Em confir-
mação da exactidão desta interpretação, a autora refe-
re-se a textos muito conhecidos, e habitualmente des-
curados, de Marx sobre Malthus, nos quais Marx, que
embora, como é sabido, não fosse muito delicado para
com o «sicofanta» das classes proprietárias, reconhece
todavia a Malthus o mérito de ter mantido vivo, mediante
a conservação do conceito smithiano da troca desigual,
o problema da inclusão do lucro na própria definição
de valor.
Das velhas dificuldades clássicas, continua em
Marx aquela, já ricardiana, da formação da taxa geral
do lucro. A dificuldade tem de ser necessariamente refor-
mulada por Marx noutros termos, dado que já não se
trata, como para Ricardo, de realçar uma modificação
induzida sobre o valor da f armação do lucro concorren-
cial, mas trata-se, pelo contrário, de pôr em relação
uma com a outra, duas diferentes categorias económi-
cas, a do valor e a do preço de produção. Aqui abrir-se-ia
wn problema ulterior, que a autora não aborda nesta
obra.
Em relação a este livro, creio que é difícil encon-
trar no campo 1narxista uma reconstrução da teoria
marxiana do valor que seja tão aderente ao espírito e
aos juízos teóricos de Marx. Indubitavelmente, a averigua-
ção em. termos rigorosos da posição de Marx, embora
seja uma operação decisiva, não é hoje, porém, sufi-
ciente, dado que exactamente dessa averiguação nasce
uma série de problemas que, a meu parecer, não são
resolúveis, continuando dentro dos terrenos do mar-
xisnw. A relação entre valor e preço é um destes, e até
o mais relevante, exactamente no âmbito da teoria do
valor. A autora aceita a posição marxista clássica,
segundo a qual a solução dada no terceiro livro do
Capital, se é insuficiente quanto aos pormenores técni-
cos, é porém suficiente quanto ao princípio que a informa
( aproveito aqui a ocasião para fazer notar que, contra-
riamente àquilo que alguns tentaram dizer recentemente,
os Grundrisse Hão trazem, sobre esta questão, nenhum
ulterior esclarecimento em relação ao Capital). Como
procurei demonstrar noutro local, não creio que esta
posição clássica seja aceitável; este não é decerto o
local para retomar o problema; quero apenas limitar-me
a recordar a circunstância, de resto óbvia, de que o pró-
prio problema é tudo menos secundário, porque com-
13
porta um juízo sobre os próprios fundamentos da aná-
lise marxiana do capitalismo, e em particular sobre a
categoria da exploração.
Mas voltando ao livro, resta o facto de que o Marx
a que se limita é surpreendido aqui com tal exactidão,
nos seus juízos fundamentais e nas suas relações com
a economia clássica, que o próprio livro se apresenta
como um valiosíssimo instrumento de trabalho.
Junho de 1970
Claudio Napoleoni
14
PREFACIO A SEGUNDA EDIÇÃO
A parte final do Prefácio que escrevi em 1970 não
corresponde às minhas perspectivas actuais. Vendo bem,
aquele Prefácio continha uma contradição: de um lado,
afirma-se - e justamente - que Marx parte da econo-
mia polttica clássica, mas transcende-lhe os termos
mediante a categoria do «trabalho abstracto»; por outro
lado, atribui-se a Marx uma contradição que, pelo con-
trário, tem lugar exactamente ao ficar dentro dos ter-
mos da economia clássica, e em particular ricardiana.
O que se segue quer simplesmente chamar · a atenção
sobre este último ponto.
Quando RiCJIBUJ-~~~--de-1.r.oca.-às.-qu.ana
tidades de trnbq,lho __ cantidas .. nas.m.ercadorias, faz uma
operação que, como foi esclarecido por Sraffa, tem por
fim reduzir à homogeneidade agregados heterogéneos
de mercadorias, e fá-lo mediante um critério que não
depende da taxa de lucro, porque tal redução serve pre--
cisamt:nte para determinar a taxa de lucro; se o critério
do trabalho contido fosse aceitável, ou seja, se as rela-
ções de troca coincidissem imediatamente com as rela-
ções entre as quantidades de trabalho, a taxa de lucro
seria uma relação entre quantidades de trabalho, assim
como, em Ricardo, ela era uma relação entre quantida-
des de trigo. A relação valor-trabalho está, pois, para
o 'problema ricardiano, totalmente subordinada ao pro-
blema da determinação de uma medida; subordinada
no sentido de que, se ficando dentro da categoria ricar-
diana do excedente, o problema da determinação da
15
taxa de lucro pudesse ser resolvido sem recorrer àquela
medição ern termos de trabalho, a referência ao traba-
lho poderia ser abandonada sem que com isto a estru-
tura da teoria ricardiana seja de forma alguma ofendida
(Sraffa dá justamente o desenvolvimento rigoroso do
problema ricardiano precisamente na base da renúncia
ao critério do trabalho contido). Por outro lado, o aban-
dono da categoria do trabalho contido, na sua acepção
ricardiana, pode ser alegado tanto mais tranquilamente
porquanto tal trabalho, sendo, naquela acepção, nada
mais que um modo de medição, tem um significado
meramente tecnológico ( desempenha, justamente, o
mesmo papel teórico do «trigo»); isto é, trata-se de uma
categoria que, desde que se prescinda dos desenvolvi-
mentos de Marx, fica substancialmente muda no que
respeita à explicação da realidade social do capital. Em
conclusão, deve dizer-se que em Ricardo a referência
ao trabalho contido contradiz a própria natureza do
problema: a impossibilidade de derivar as relações de
troca apenas das quantidades de trabalho é suficiente
para eliminar tais quantidades como elementos de expli-
cação do modo como se distribui um excedente tecnolo-
gicamente dado.
Se nos confrontos de Marx se procede como nos
confrontos de Ricardo, isto é, se se pensa que em Marx
as quantidades de trabalho não são mais do qu'e um
critério de medição, se portanto ( como, de resto, o pró-
prio Marx fez numa parte da sua obra) se procura dedu-
zir as relações de troca das quantidades de trabalho
com um raciocínio dedutivo de tipo matemático, então
é inevitável que a mesma contradição ricardiana é repro-
duzidadentro da estrutura teórica de Mq.rx.
Mas, em Marx, a teoria do valor desempenha um
papel essencialmente diferente do que desempenha em
Ricardo, isto é, um. papel em relação ao qual a medição
se põe como um problema derivado. Qual seja a função
da teoria marxiana do valor, é um problema para o qual
não posso fazer mais do que remeter para o que se diz
neste livro de Marina Bianchi; aqui cumpre•m.e ape.nas
sublinhar que, nessa teoria, se encontra a referência
a dois momentos co_essenciais à vida do capital, o do
equilíbrio e o do desequilíbrio, nenhum dos quais é
compreensível se tomado fora da relação com o outro.
Ora, a derivação por via matemática dos preços de pro-
dução dos valores com.porta exactamente a absolutiza-
16
ção do momento do equilíbrio; com o que se nos impede
a compreensão da realidade capitalista.
A formulação da teoria do valor, em termos que
sejam compreensíveis, de ambos os aspectos do modo
de produção capitalista, e por isso, a consideração do
preço de produção como representativo de uma configu-
ração de equilíbrio, que é decerto elemento componente
da realidade capitalista, mas que em nenhum caso a
esgota - tudo isto constitui um problema aberto à pes-
quisa e para a solução do qual julgo que estarão em
Marx todos os dados de partida fundamentais. Penso
que tal pesquisa deveria mover-se nesta direcção: a rela-
ção entre o valor e o preço de produção não é uma
relação interna no processo de consecução do equilíbrio,
é antes uma relação na qual se resumem e se exprimem
as contradições entre equilíbrio e crise, entre valor de
uso e valor de troca.
Julho de 1972
Claudio Napoleoni
17
INTRODUÇÃO
Aproveito a ocasiao da segunda edição deste livro
para retomar e tentar precisar alguns dos temas que
vos são apresentados.
São essencialmente dois os pontos sobre os quais
me interessa chamar a atenção: um, é retomar e escla-
recer a forma como as teorias dos economistas clássicos
se encontram na análise de Marx e o papel que aí desem-
nham, o que constitui uma primeira tentativa de aná-
lise deste livro; o outro, é rever de que maneira Marx
enfrenta e explica o processo de formação da taxa média
de lucro e dos preços de produção, e que se apresenta
sob o nome de «transformação dos valores em preços»
para o pôr em confronto com a discussão que histori-
camente se desenrolou à volta deste espinhoso problema
do marxismo (problema este que, pelo contrário, está
incluído apenas em traços ligeiros neste trabalho).
É claro como este dois pontos estão estreitamente liga-
dos, no. sentido de que uma determinada resposta ao
primeiro comporta uma atitude precisa em relação ao
segundo, e vice-versa.
Por outro lado, voltar a partir exactamente da rela-
ção entre Marx e a economia clássica, entre Marx,
Smith e Ricardo, parece-me tanto mais necessário por-
quanto se assiste cada vez, mais frequentemente, mesmo
da parte de alguns estudiosos do marxismo, à tentativa
incorrecta, a meu ver, de considerar Marx substancial-
mente um continuador dos clássicos, um continuador
sagaz e sem dúvida mais rico, mas que no terreno da
19
análise económica segue e desenvolve a direcção tra-
çada pela teoria clássica.
Esta forma de inscrever Marx totalmente dentro
da tradição dos clássicos e mesmo de o considerar,
um «economista clássico», tem como consequência ime-
diata que, frente aos problemas e questões cruciais
que surgem dentro da análise marxiana, põem-se-nos e
tenta-se resolvê-los com a óptica e os problemas pró-
prios dos economistas burgueses que precederam Marx.
Assim, em relação ao problema chave do marxismo
que antes recordámos, isto é, o problema da transfor-
mação, responde-se como se nos encontrássemos em
face, salvo diferenças de somenos importância, à velha
formulação ricardiana.
Um dos pontos que deve constituir objecto de
indagação é, pois, se Marx pode realmente ser consi-
derado como aquele que herda e assume como tal,
a teoria económica clássica e, por isso, uma bem deter-
minada análise das relações quantitativas entre as gran-
dezas económicas capitalistas, e se, em consequência,
o seu papel de inovador é essencial e simplesmente o de
preencher com um conteúdo social as categorias e as
relações económicas já descobertas pelos clássicos, em
conclusão, se Marx pode ser considerado «um Ricardo
tornado socialista» (1), ou se antes, a sua análise contém
qualquer coisa 1nais que não pode ser simplesmente
µcrescentada à posição clássica, mas constitui algo de
radicalmente diferente e de irredutível às precedentes
teorias económicas.
Lembro aqui, muito brevemente, e só para com-
pletar a exposição, algumas questões da relação Marx-·
-clássicos, cujos aspectos são, de resto, largamente desen-
volvidos no presente livro, e cujos traços essenciais
se encontram claramente expostos e resumidos no Prefá-
cio de Claudio Napoleoni. Aquilo que de facto agora
mais me interessa sublinhar, são os elementos de con-
traposição e de crítica que Marx desenvolve a propósito
da própria análise positiva dos clássicos e da exposição
da sua posição sobre o valor. .
Em referência ao papel e ao contributo positivo
de Smith e de Rica_rdo, é para já verdadeiro, primeiro,
o contributo fundamental que, mesmo que por razões
( 1) Cf. Grossman, Marx, l'economia clássica e il problema
delta dinamica, Laterza, Bari, 1971, p. 36.
20
e de modos diferentes, ambos dão à pesquisa marxista,
e segundo, que Marx, exactamente de Smith e de
Ricardo, e em particular deste último, herda e deduz
um modo preciso de representar em termos quantita-
tivos - segundo a teoria do valor-trabalho - a realidade
económica do capitalismo.
No que respeita a Smith, ele tem a intuição pro-
funda de que por trás das relações de troca iguais
existe uma relação de troca particular, que não é igual,
antes é a troca de menos contra mais, que dá origem
ao lucro, isto é, a troca entre capital (em Smith era
entre mercadorias) e trabalho, entre trabalho objecti-
vado e trabalho vivo. Claro que Smith não vai nunca
até ao fundo neste grau de conhecimento, porque não
chega a distinguir a troca de mercadoria por trabalho
da troca simples de mercadoria, por mercadoria, mas
as bases da ideia marxista da exploração como «mais-
-trabalho», e não como simples mais-produto, são postas.
Com Smith, portanto, temos uma das primeiras tentativas
de dar um carácter social às categorias económicas,
tentativa que se tornará o ponto de partida de Marx,
e que é indirectamente posto em relevo também por
um historiador das teorias económicas como Schum-
peter, que diz como Smith, além de nos dar uma teoria
(confusa) das relações económicas, se deixou depois
arrastar pela moda rousseauniana do tempo.
Com Ricardo temos pela primeira vez ur;na formu-
lação completa e coerente das relações de troca. Essa
formulação segue a teoria do valor-trabalho contido,
já exposta por Smith, mas por ele retomada com
coerência e rigor lógico.
É conhecido o raciocínio com que Ricardo aban-
dona as incertezas smithianas e dá à teoria do valor-
-trabalho uma tal perfeição que, depois, a fórmula
ricardiana será sempre considerada, em relação à deter-
minação quantitativa da grandeza do valor, idêntica
ou, pelo menos, análoga à de Marx.
A dificuldade de Smith, afirma Ricardo, não tem
razão de subsistir: com efeito,· o facto de uma parte
do trabalho incorporado na mercadoria não voltar a
quem produziu, mas ir para o capitalista, não muda
nada: o seu valor é sempre determinado pelo trabalho
nela contido; o problema de Smith diz respeito à
distribuiçüo do valor . produzido, não à sua própria
formação.
21
Ora, esta pos1çao é justíssima quando posta do
ponto de· vista dos produtos e do seu valor como
trabalho objectivado, mas é menos justa se se consi-
derar o problema da própria criação do valor; aqui
então o «erro» de Smith torna-se um erro fecundo,
no sentido de que, indirectamente, revela como não se
trata já de simples distinções entre produção e distri-buição (isto é, duma distribuição onde são relegados
todos os antagonistas sociais e onde são possíveis todos
os contrastes históricos, e de urna produção que se
desenrola segundo as regras eternas da relação entre
o homem e a natureza) assim como precisamente a
troca desigual entre capital e trabalho é o fundamento
e o próprio pressuposto da troca igual, isto é, da for-
mação do valor e da mais valia. Um aspecto não pode,
pois, existir sem o outro. (2).
Deste ponto são já possíveis alguns reparos críticos:
de um lado, Smith, ficando enredado na contradição
entre trabalho contido e trabalho dominado, objectivado
e vivo, acaba por cair numa teoria do preço fundada
sobre a teoria dos factores produtivos: o preço de uma
mercadoria é determinado pela soma dos preços naturais
do salário, da renda e do lucro.
Por outro lado, podem dizer-se duas coisas sobre
Ricardo: 1) que Ricardo, desperdiçando a raiz do erro
fecundo de Smith, enquanto reconduz à coerência a
teoria do valor-trabalho, perde toda a possibilidade de
'ligar a sua teoria à mais complexa dinâmica das rela-
ções sociais capitalistas, em particular à própria origem
do excedente; 2) que a teoria ricardiana do valor-trabalho
tem um papel fundamental, mas essencialmente instru-·
mental na sua análise, corno demonstram tanto a origi-
nária formação do valor feita em termos puramente
físicos, em trigo, quanto o próprio objectivo teórico
de Ricardo, que consiste principalmente no estudo da
distribuição· do produto bruto e do equilíbrio entre
as classes sociais.
Da evocação, que agora tentarei fazer, da análise
de Marx sobre a lei do valor, tal como se forma e
( 2) Para Marx ,o maior mérito de Smith consiste em
ter, pelo menos, percebido que relativamente à troca entre
capital e trabalho assalariado, na própria lei do valor existe
uma grande lacuna; embora não estivesse em situação de a
explicar ele vê «que a lei é de facto abolida no seu resultado»
(Marx, Teorie sul plusvalore, I, Editori Riuniti, Roma, 1961, p. 184).
22
precisa, justamente através da crítica à posição clássica,
creio que ressalta bastante claramente como desta posi-
ção são criticados e postos em discussão os próprios
pressupostos, e não emendada ou corrigida a falta ou
a insuficiência deste ou daquele aspecto.
Portanto, também os problemas e os pontos críticos
da teoria clássica que acabei de recordar, resultam ser, já
não o aspecto «mau» de uma teoria «boa», que deveria
ser depois a mesma que acaba em Marx, mas o coerente
e inevitável resultado de uma determinada atitude teórica
perante as categorias económicas do capitalismo e por
isso, da própria análise do problema do valor.
Resta agora precisamente analisar em· que termos
se põe a «superação» por parte de Marx da economia
clássica, e portanto, se é ou não verdadeira a última
afirmação feita.
Perante a concepção, que primeiro evoquei, segundo
a qual Marx seria aquele que leva substancialmente ao
fim a análise clássica, parece-me justo recordar a posi-
ção de um estudioso do marxismo que, pelo contrário,
defende a tese oposta, pondo com força o carácter de
ruptura, violenta até, que a análise marxista tem em
relação à precedente; este teórico, cujo livro sobre este
assunto foi recentemente publicado em italiano, é Hen-
ryk Grossmann (3). É exactamente de alguns princípios
felizes contidos naquele seu texto, embora não desen-
volvidos até ao fundo, que pretendo partir. ,
Os argumentos de Grossmann encontram um notá-
vel ponto de força na evocação que ele faz do papel
fundamental que, na análise marxiana da mercadoria
desempenha a distinção entre valor de uso e valor de
troca. Creio, com efeito, que precisamente. do desen-
volvimento desta distinção totalmente marxiana, resulta
mais claramente a especificidade do discurso de Marx.
Quais são, pois, os argumentos de Grossmann? Gros-
smanri parte exactamente da relação Marx-clássicos.
Para Marx, já da simples análise da mercadoria, como
existência molecular do capital, se revela uma dupla
realidade; a mercadoria é sempre unidade de valor de
uso e valor de troca, assim como o trabalho, o processo
de produção capitalista, é unidade de trabalho útil e tra-
balho abstracto, de produção técnica e processo de valori-
zação do capital. Os clássicos, pelo contrário - diz Gros-
(3) H. Grossmann. Marx e l'economia política clássica, cit.
23
smann - ficam completamente enredados na forma de
valor que eles analisam; na sua análise só há lugar para
uma teoria do valor de troca abstracto, enquanto é cons-
tantemente esquecido o papel dos valores de uso; assim
como, onde se ocupam da produção, têm em conta exclu-
sivamente o aspecto do valor, esquecendo o real processo
de trabalho. Tanto em Smith como em Ricardo, pois, os
valores de uso não são nunca utilizados para a análise
económica. Mas, esquecendo o papel que o valor de
uso desempenha no processo de reprodução social capi-
talista, eles não compreendem a forma específica e
concreta das relações sociais capitalistas. Por isso, «a
teoria clássica é mais um sistema de deduções lógicas
do que uma análise e uma representação das relações
económicas concretas» (4), isto é, é constantemente excluí-
do da análise teórica o processo de trabalho real e as
relações sociais que ele implica. Ora, dado que «a rea-
lidade não consiste só em valor, mas é, pelo contrário,
uma unidade de valores e de valores de uso, em Marx
a crítica parte da duplicidade dos fenómenos econó-
micos, com base na qual o carácter essencial da economia
burguesa é dado pela conexão específica do processo
de valorização com o processo técnico de trabalho» (5).
Até aqui referimos Grossmann. O seu mérito é,
sem dúvida, ter reivindicado o papel fundamental do
valor de uso na análise marxiana, papel que foi ~empre
subvalorizado ou não compreendido. pelos economistas
posteriores da escola marxista (').
Só que as coisas talvez séjam um pouco mais
complexas do que se apresentam neste livro.
Antes do mais, é verdade que para Marx, Ricardo,.
como Smith, faz continuamente abstracção do valor de
uso e refere-se «apenas exotericamente» (7) a uma cate-
goria tão importante, mas é preciso sublinhar que, na teo-
ria clássica, o valor de uso das mercadorias não desaparece
simplesmente, antes reaparece, não interposto, a sancionar
a realidade presente como realidade natural. Em con-
clusão, o valor de uso não é esquecido e basta, mas
(') H. Grossmann, ob. cit., p. 54.
(') Idem, pp. 58-59.
(') Cfr., sobre este assunto R. Rosdolsky, Genesi e struttura
del Capitale di Marx, Laterza, Bari, p. 101 e segs.
(') K. Marx, Lineamenti fondamentali della critica dell'eco-
nomia política, vol. II, La Nuova Italia, Florença, 1970, p. 328
(cfr. também vol. I, p. 311).
24
deixa de desempenhar qualquer papel na análise econó-
mica, precisamente enquanto constitui o natural e eterno
pressuposto do valor de troca. Os produtos do trabalho,
os bens, os valores de uso são naturalmente mercadorias,
bens produzidos para a troca.
Não só, mas em relação aos clássicos não basta
dizer que a mercadoria, o valor de troca, é também
valor de uso particular, nem que o processo de valo-
rização é também processo técnico específico, mas que
para a mercadoria - e ainda mais para o capital- o
ser também valor de uso, significa estar em contínua
contradição com a própria existência de valor.
É exactamente deste ponto central que se pode
compreender a profundidade da separação e da alteri-
dade de Marx em relação aos clássicos. Para Marx,
com efeito, não só a mercadoria, esta forma particular
em que se apresentam os produtos do trabalho no capi-
talismo, é unidade de valor de uso e valor, mas essa
unidade é fundada na oposição dos dois pólos que a
compõem. Trata-se agora de desenvolver este aspecto
fundamental.
Todos sabem que Marx abre O Capital, e em seguida
a sua exposição da lei do valor, exactamente com a
distinção entre valor de uso e valor de troca, e logo em
seguida, entretrabalho útil, concreto, particular e tra-
balho abstracto, sem qualidade. Por que é que Marx,
neste e em todos os outros locais em que fala do valor,
liga tanta importância a essa distinção? De notar que,
em seguida, como por exemplo em Hilferding, em
Bukharine e em muitos outros comentadores de Marx,
esta distinção perde toda a relevância e o valor de us/J
da mercadoria é relegado para o âmbito da «merceo-
logia», ou seja, fora da economia (repete-se, por razões
diversas, o mesmo erro dos clássicos). Para Marx, pelo
contrário, esta distinção, que é também oposição, é
tão importante que constitui a chave para a compre-
ensão das relações capitalistas de produção. A razão
é simples.
O processo de reproduçâo social, aquilo a que
Marx chama a permuta orgânica material, no modo
moderno de produção assume uma forma totalmente par-
ticular. Isto é, os valores de uso, os bens, os produtos
do trabalho, enquanto produtos de produtores privados,
independentes e em concorrência entre si, não são utili-
záveis socialmente, não satisfazem as diferentes neces-
25
sidades sociais de / orma imediata, mas apenas mediata-
mente, através da troca e do mercado. E é aqui que os
valores de uso sofrem uma primeira e estranha meta-
morfose. Eles despem-se da sua veste material e cor-
pórea de tela, roupa, ferro, e tornam-se, enquanto bens
permutáveis com qualquer outra coisa, enquanto mer-
cadorias, iguais a qualquer outro bem de uso. Como
mercadorias, os valores de uso, muito diferentes uns
dos outros, abandonam a sua variegada existência e
assumém a idêntica qualidade de valores de troca (por
isso um valor de uso é tão válido como outro e, daí,
privado de qualquer especificidade de uso), e são dife-
rentes uns dos outros apenas quantitativamente (8).
Logo, o valor de uso, para ser social, para se
afirmar como valor de uso, deve passar através de uma
forma, a do valor de troca, que o nega enquanto valor
de uso particular, adaptado a este ou àquele fim, e o
reduz a uma pura relação quantitativa, a da indiferente
permutabilidade com os infinitos valores de uso do
mundo das mercadorias. A forma concreta e perfeita
da permutabilidade universal das mercadorias e da
indiferença para com o conteúdo de valor de uso das pró-
prias mercadorias é o dinheiro, o deus das mercadorias.
Por outro lado, esta forma particular em que se
exprime o carácter social de um bem, segundo a qual
um valor de uso não é social como tal, mas apenas
enquanto exprime, na troca, a abstracta igualdade com
todos os outros valores de uso,. não é mais do que
um modo diferente de exprimir a forma particular em
que se apresenta o carácter social do próprio «trabalho»
em situação capitalista. Também aqui o trabalho do
produtor independente é, imediatamente,. trabalho pri-
vado, «não social»: ele deve, pois, tornar-se social. Pode
fazê-lo, mas não como este ou aquele trabalho particular,
concreto, útil, não como trabalho do indivíduo propria-
mente dito, mas apenas enquanto trabalho que se afirma
(') Cfr. K. Marx, Per la critica dell'economia política,
Editori Riuniti, Roma, 1969, p. 10: «Assim, um volumj;! de
Propércio (*) e oito onças de tabaco de cheiro podem ter o
mesmo valor de troca, não obstante a disparidade de valores
de uso do tabaco e da ·elegia. Como valor de troca, um valor de
uso vale exactamente o mesmo que outro, desde que estejam
presentes na devida proporção».
(*) Sexto Aurélio Propércio, poeta latino, autor de Elegias. Nasceu
cerca do ano 47 a. C. em Mevânia, na Umbiria (Itália) e morreu por volta do
ano 15 a. C. (N. T.).
26
na e através da troca como o seu contrário, como
trabalho social, igual, indiferenciado; logo, não só inde-
pendentemente, mas a despeito da real diferença dos
trabalhos particulares.
O trabalho, qual nexo social que liga os indivíduos
produtores uns aos outros, tornou-se ao mesmo tempo
independente e separado deles. Esta relação social inde-
pendente e estranha aos produtores operantes na socie-
dade, que cada vez mais faz «crescer o abismo entre
produto propriamente dito e produto como valor de
troca» (') é precisamente o «valor».
O trabalho individual está, pois, em contraste com
o trabalho social, que se torna autónomo e independente
como trabalho abstracto, valor, a relação social torna-se
alheia aos indivíduos, há contradição entre indivíduo
e sociedade: eis desvendado o mistério da mercadoria e
explicada a natureza profunda e a origem da contradição
entre o seu aspecto individual e o social, entre o aspecto
pelo qual ela é valor de uso, e o seu aspecto social
pelo qual ela é «valor» (1º).
Por outras palavras: no modo de produção capi-
talista, a «sociabilidade», ou seja, a obtenção do equi-
líbrio social, a reconstituição da permuta orgânica
material, não é um «dado», o pressuposto racional e
planificado com que se constitui a relação social, mas
é, pelo contrário, o «resultado» de relações sociais
contraditórias e antagonistas. Logo, ele mesmo um
resultado problemático e contraditório. A sociabilidade
capitalista, portanto, afirma-se sempre de uma forma não
imediata, mas mediatamente, através de um processo
de metamorfoses e passagens contrastantes e violentas.
O ponto originário desta relação social subvertida e
distorcida é precisamente o contraste perfeitamente
capitalista entre individual e social, o mesmo contraste
que, para Marx, é a origem das crises e das contradições
violentas do capital, onde a unidade se faz valer com
a violência.
O mesmo contraste está na base da formação do
valor social e dos preços que se afirmam só em prejuízo
de e em contraste com a sua origem no trabalho indi-
vidual e privado.
(') K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., vol. I, p. 83.
('º) Cfr. K. Marx, Storia dJelle teorie economiche, Einaudi,
Turim, 1971.
27
Neste ponto, creio que se pode começar a compre-
ender a dificuldade de assimilar imediatamente a teoria
marxiana do valor à teoria ricardiana. No sentido em
que Ricardo faz coincidir teoricamente trabalho indi-
vidual e trabalho social, trabalho concreto e trabalho
abstracto, e logo, reduz a teoria do valor-trabalho
a um puro cálculo técnico das quantidades físicas de
trabalho contido. É assim cancelado, suprimido, exacta-
mente aquilo que é mais importante saber da realidade
social do capital, isto é,· como se forma e se produz
o valor, como o trabalho individual pode tornar-se social
e de que modo isto influi sobre a explicação dos fenó-
menos económicos.
Este aspecto da relação Marx-Ricardo está expresso
com extrema clareza numa passagem da História das
Teorias Económicas. É uma passagem conhecida mas
que vale a pena transcrever por inteiro: «A fim de
que as mercadorias possam ser medidas com o quantum
de trabalho nelas contido - e a medida para o quantum
do trabalho é o tempo - os trabalhos de diferentes espé-
des contidos nas mercadorias devem ser reduzidos a
trabalho igual, simples, ao trabalho médio, ordinário,
não especializado (unskilled). Só então, o quantum de
trabalho nele contido pode ser medido com o tempo,
com uma medida comum. Este trabalho deve ser quali-
tativamente igual, a fim de que as diferenças se to'rnem
sjmples diferenças quantitativas, simples diferenças de
grandeza. Todavia, esta redução a trabalho simples médio,
não é a única determinação da qualidade deste trabalho,
em que, como unidade, se resolvem os valores das merca-
dorias. Que o quantum de trabalho contido numa merca-
doria seja o quantum socialmente necessário à sua pr.odu-
ção - que o tempo de trabalho seja tempo de trabalho
necessário-é uma determinação que se refere só à gran-
deza de valor .. Mas o trabalho que constitui a unidade da
mercadoria não é só trabalho médio igual, simples. O tra-
balho é trabalho do indivíduo privado, representado num
produto determinado. Todavia, enquanto valor, o produto
deve ser incorporação do trabalho social, e errqu~nto
tal, deve ser imediatamente transformável de um valor
de uso em qualquer outro. [ ...] O trabalho · privado
deve, pois, mostrar-s·e imediatamente como o seu con-
trário, como trabalho social; o trabalho assim transfor-
mado como seu imediato contrário, como trabalho
abstractamente geral, que se mostre, pois, também num
28
equivalente geral. É só com a sua alienação que o tra-
balho individual se mostra realmente como o seu con-
trário» (11 ).
Aqui se esclarece até ao fundo o significado da
crítica a Ricardo, a crítica segundo a qual Ricardo ficou
enredado na simples determinação da grandeza de valor.
Isto é, o próprio trabalho médio, simples, como ele-
mento determinante e medida da «grandeza» de valor,
não pode ser compreendido se for simplesmente consi-
derado em si mesmo, mas apenas quando considerado
como o resultado de um processo, que parte do traba-
lho concreto, individual, e chega ao seu oposto, ao tra-
balho «abstractamente geral», e desta forma «social».
Ou seja, a mesma determinação quantitativa do valor
pressupõe necessariamente aquela análise qualitativa,
que individualiza e descreve o processo social que está
por detrás da própria formação da grandeza de valor,
sofre a redução da «medida» da grandeza de valor a
uma medida puramente contabilística, técnica, não cor-
respondente à realidade social a descrever, e logo, insu-
ficiente também para determinar as mesmas relações
económicas quantitativas. Mais precisamente: não se pode
sequer falar de trabalho médio ou de quantidade de
trabalho contido, como fundamento da permutabilidade
das mercadorias, se este mesmo trabalho não foi teori-
camente reconduzido a trabalho social abstracto, àquele
trabalho precisamente que só cria a homogeneidade qua-
litativa das mercadorias e, por isso, consente a forma-
ção do valor de troca no seu aspecto quantitativo.
Evoquei a distinção entre aspecto qualitativo e
quantitativo da teoria marxiana do valor, porque ela
me parece útil para descrever sinteticamente alguns dos
traços característicos, embora esta fórmula tenha dado
e dê frequentemente lugar a graves equívocos, no sen-
tido de que sugere a ideia de que Marx teria esgotado
complétamente o primeiro aspecto e que isto basta tam-
bém para suprir as faltas do segundo, como, por exem-
plo, no caso do problema da transformação.
Aqui, pelo contrário, tentà-se sublinhar a incindi-
bilidade dos dois momentos: por um lado, com efeito,
é verdade que, se se perde o aspecto qualitativo, se tem
uma teoria incapaz de compreender não só o significado
social das categorias que usa, mas também incapaz de
( 11 ) K. Marx, Storia cit., vol. III, p. 151.
29
descrever os próprios fenómenos económicos do capital,
por exemplo as crises e a formação da taxa média de
lucro como o próprio Ricardo, que não reconhece as
primeiras e não explica a segunda, o demonstra. Por
outro lado, é também verdade o contrário: que a teoria,
privada do seu aspecto quantitativo, ou seja, da ligação
com a realidade económica que pretende representar,
é reduzida a um conceito genérico e puramente filosó-
fico. Mas se isto é verdade, encontra-se aqui perante o
problema de que esta relação unitária é refeita no pró-
prio Marx e a partir do problema da transformação.
Com efeito, se queremos recuperar o sentido e a peculia-
ridade da análise marxiana, que está exactamente no
facto de ter afirmado pela primeira vez e de manter
a unidade do aspecto quantitativo e qualitativo da teo-
ria económica, isto é, a incidibilidade dos fenómenos
económicos da sua especificidade social, então temos
de reconstruir aquela unidade dentro de alguns nexos
problemáticos cruciais do marxismo, um dos quais é o
problema da transformação. E com isto quero dizer
que é revista a própria posição marxiana do problema,
dado que os esquemas de transformação formulados por
Marx, se assumidos e desenvolvidos unilateralmente, con-
duzem necessariamente, como demonstra toda a história
do problema da transformação, à supressão do próprio
problema; neste caso, não há mais nada a «transformar»,
p.orque os valores desapareceram.
Pelo contrário, trata-se de insérever este problema,
importante, porque respeita à explicação da formação
da taxa média de lucro e do peso e do papel que esta
categoria social exerce sobre o valor, dentro de todo
o discurso marxiano, e por isso, o pôr em relação com
a temática do valor naquela acepção mais ampla que
antes se tentava dar: isto é, não ricardianamente, como
medida técnica de grandezas dadas, mas como medida
social de uma realidade dualística e contraditória (não
simples cálculo matemático, mas cálculo dos fenómenos
económicos no seu processo de formação).
Assim, existe um problema de transformação, não
só, mas isto está completamente aberto à pesquisa, no
sentido de que são Fejeitadas tanto as pseudo-soluções
da «ortodoxia» marxista clássica, que simplesmente nega
a própria existência de um problema não resolvido em
Marx, como daqueles - mesmo marxistas - que aceitam
a solução dada ao problema por teóricos da transfor-
30
mação, de Bortkiewitz até à formulação formalmente
mais coerente de Sraffa.
Sobre esta última posição, gostaria de me debruçar
brevemente, tomando como referência uma das suas
interpretações mais interessantes, por ser defendida por
um estudioso sempre ligado aos mais vivos debates do
marxismo: a interpretação de Dobb. Isto servira ao
mesmo tempo para esclarecer algumas das afirmações
precedentes.
Antes de passar a Dobb, são necessárias algumas
premissas.
Sobre a onda do problema da transformação mar-
xiana, abriu-se uma vasta literatura que exan11inou a espe-
cífica relação matemática entre valores e preços, a par-
tir da própria sugestão marxiana, e que pode dizer-se
concluída com o livro de Sraffa Produzione de mexi
a mezzo di me rei (12), que retoma e conduz à coerência
toda a experiência teórica precedente sobre este assunto.
É pelas características deste último, pois, que pode ser
desvendado o sentido da atitude que os teóricos da
transformação tiveram sobre este problema e mais em
geral nos confrontos de Marx.
'Parece-me que são duas as tarefas teóricas que
este livro se propõe (embora elas não sejam explicita,.
mente declarados por Sraffa): primeiro, o de reafirmar
o fim do revés teórico dos neoclássicos, e em particular
o fim da sua explicação do lucro como produtividade
marginal do capital, através de uma crítica à coerência
formal interna desta teoria (impossibilidade de medir o
capital), e, com isto, de ver indirectamente confirmada
a posição teórica clássica e a correspondente teoria do
lucro, com particular referência à teoria ricardiana que
considera de facto o lucro, com efeito, não já como o
preço ou a remuneração de um factor produtivo, mas
como excedente ou produto bruto.
Segundo, de resolver o problema da medição dos
preços de produção, resolvendo directamente a dificul-
dade com que se tinha defrontado Ricardo (ou seja,
eliminando, com a determinação simultânea da taxa
média de lucro e dos preços, o círculo vicioso que
Ricardo não tinha conseguido resolver, isto é, que não
pode determinar-se o primeiro sem conhecer os segun-
(12) P. Sraffa, Produzione di merci a mezzo di merci,
Einaudi, Turim, 1969.
31
dos, e vice0 versa), e deste modo, de considerar con-
cluído também .o problema marxiano da transformação.
Se sobre o primeiro p.onto não existem objecções
formais a fazer, salvo ver se, em seguida, não existem
substanciais, o segundo levanta dificuldades. Com Sraffa
temos com efeito que, dados os métodos técnicos de
produção, com carácter «circular», é possível construir
um sistema de equações que calcule simultaneamente
os preços e a taxa média de lucro. Já não são necessários,
por isso, como para Marx, os valores para calcular
primeiro a taxa média de lucro e determinar depois os
preços. Apenas que, para Marx, embora expresso de
modo insuficiente, não é indiferente este «primeiro» e
este «depois», mas tem um significado social preciso:
ele está de facto a representar a tentativa dedar uma
explicação social significativa da génese da taxa média
de lucro e dos preços de produção; romper com esta
ligação específica significa não compreender até ao fundo
o problema peculiar de Marx e pôr-se, pelo contrário,
em continuidade directa com Ricardo, de quem herda
a ocultação da categoria do valor pela do preço. É, além
disso, claro que, embora se pretenda depois colocar e
considerar o problema da transformação em Marx, esta
posição, mais do que uma solução do problema, é um
seu esvaziamento, porquanto lhe suprime um dos dois
termos; os valores não desempenham mais nenhumà fun-
ção e o lucro já não pode ser considerado como mais-
-valia reconduzível a mais-trabalho. É verdade que
Sraffa em seguida opera um processo de redução dos
preços a quantidades de trabalho, mas isto é puramente
supérfluo e acessório à determinação dos mesmos, e
logo, revela-se totalmente impossível as.similar estas
quantidades de trabalho aos valores de Marx. Por este
motivo, a posição de Sraffa, a meu parecer, exactamente
porquanto suprime o termo essencial e específico da
análise de Marx, aquele que só aproveita, surpreende e
unifica a complexidade social da realidade económica
capitalista, isto é, o valor, é heterogénea a Marx, e não
pode ser considerada sua complementar. E dado q_ue,
com Sraffa, se completa a história daqueles que se ocupa-
ram do problema da transformação, também estes últi-
mos podem ser considerados em continuidade mais com
a problemática de Ricardo do que C:Om a de Marx.
Neste ponto, é interessante a análise da operação
de Dobb, como exemplo da tentativa de uma recupera-
32
ção, dentro de Marx, de Sraffa. Como isso é possível,
ficará claro depois de ter trazido a lume os seguintes
pontos: o modo como Dobb entende o significado do
geral «retorno aos clássicos» operado por Sraffa, a sua
representação da teoria marxiana do valor, o seu modo
de entender a análise «social» de Marx.
Os pontos de referência bibliográficos desta posi-
ção são, além da conhecida introdução de Dobb à edição
italiana do primeiro livro de O Capital e do seu Economia
política e capitalismo, alguns artigos seus aparecidos
recentemente em italiano, nos quais esta posição é expli-
citada até ao fundo (13). É a estes últimos que farei par-
ticular referência.
Antes de mais, para Dobb a crítica à teoria neo-
clássica que constitui o maior mérito da mais recente
análise económica (em particular de Sraffa) e o retomar
que isso comporta da teoria e dos problemas dos econo-
mistas clássicos, significa no fundo um retomar e uma
reafirmação de Marx. Os clássicos vão, pois, de Quesnay
a Marx. É inútil recordar aqui que Marx se colocava
como crítico da economia política e prefigurava o «fim»
da economia política no comunismo; é por outro lado
interessante sublinhar como, para Dobb, não só não exis-
tia «ruptura» entre Marx e os clássicos, mas, pelo con-
trário, uma substancial continuidade.
Se se passar às considerações de Dobb sobre o
valor, encontra-se a mesma coisa. Assim, Dobb· escreve:
«Resumindo, o que conta é a noção nela [teoria do valor]
incluída de que as condições de produção determinam
(fundamentalmente) as condições da troca e da distri-
buição do rédito (e logo, da procura). É bem sabido
que Marx considerou as relações de troca, se hem que
importantes, e certamente reais, como uma mera «apa-
rência» sobre a superfície (por assim dizer) da sociedade
económica, que devia ser interpretada e compreendida
em termos de condições e de relações sociais entre os
homens no interior da produção» (14).
('1) M. Dobb, «Un libro chc farà cpoca», in Economia
política e capitalismo, Boringhieri, Turim, 1972, p. 333 e segs.;
«Importanza della teoria marxista del valore e della distribuzione»,
in AA. VV., II capitalismo negli anni 70, Mazzotta, Milão, 1972,
p. 121 e segs.
('') M. Dobb, Importanza de/la teoria cit., p. 121
33
A teoria do valor é, para Dobb, essencialmente teo-
ria das «condições de produção» em relação às quais
as relações de troca têm uma função subordinada e até
quase supérflua. Sobre este segundo ponto, basta recor-
dar que para Marx, valor e valor de troca constituem
uma unidade incindível pelo que, se é verdade que o
segundo é o simples modo de manifestação do primeiro
(a sua expressão «fenoménica»), é também a sua expres-
são fenoménica necessária,· isto é, o mercado, as rela-
ções de troca, são precisamente o local e a forma neces-
sária de manifestação do valor (do trabalho abstracto).
Mais estranha é a primeira afirmação de Dobb,
de que valor e «condições de produção» são conceitos
intermutáveis.
As «condições de produção» são um conceito muito
genérico, como as condições do «consumo» e da «dis-
tribuição» e, com efeito, quando Dobb vai precisá-lo,
não pode senão assimilá-lo ao trabalho humano em geral,
à genérica actividade humana produtiva (15).
Aqui, pelo contrário, o problema é específico, isto é,
trata-se de estabelecer exactamente qual é o trabalho que
produz o valor; quais são as «condições de produção»
que só se tornam sociais através da forma da troca e
do mercado. Pelo contrário, a afirmação de Dobb inverte
completamente a análise de Marx.
Com efeito, afirmar de modo completamente gené-
rico que os preços, as categorias económicas finais do
·capital, são sempre reconduzíveis à produtividade do
trabalho humano, significa prescindir exactamente do
modo específico e particular em que o carácter social
do trabalho e da produção se afirma no processo capi- ·
talista de produção, ou seja, exactamente daquilo que
se procura explicar.
Pelo contrário, a especificidade histórica do capital
está toda no momento da realização do trabalho como
trabalho «social», no como este trabalho social se afirma.
E para Marx, o trabalho apenas se afirma como social
negando-se continuamente como tal, apenas como valor,
como trabalho social abstracto, ou seja, precisa~ente
( 15) O motivo segundo o qual, para Dobb, o trabalho ocupa
um lugar proeminente no sistema de análise económica de Marx
era que «o trabalho constituía a actividade produtiva dos homens
na sociedade; actividade produtiva que era o centro e a chave
do desenvolvimento social» (idem, p, 123).
34
como trabalho cuja sociabilidade não é posta, mas resulta
continuamente a posteriori das relações de troca. Logo,
o trabalho capitalista, bem longe de ser trabalho humano
em geral, é um trabalho especialíssimo que poderia, tam-
bém, ser definido como trabalho a-social, ou seja, como
trabalho que se afirma só no e pelo contínuo contraste
com o trabalho individual (o trabalho concreto, útil).
Eis porque não se pode de modo nenhum-:-- como faz
Dobb - partir do trabalho social ou das condições sociais
de produção como um «dado», um pressuposto, já que
é precisamente no facto de que eles não o são que está
toda a sua especificidade de condições de produção
capitalista. ·
Este é, pois, o pI'essuposto que está na base da
possibilidade de identificar a análise marxiana do valor,
com a determinação dos preços feita pelos teóricos da
transformação e, enfim, por Sraffa; em conclusão, a
primeira, reduzida a simples teoria das condições· de
produção, pode facilmente ser assimilada e completada
por uma análise como a de Sraffa, que faz exactamente
das condições da técnica (com o acréscimo de uma con-
dição de igualdade das taxas de lucro que não se sabe
donde provém e que papel desempenha), o fundamento
de relações de substituibilidade técnica entre os bens,
a que são assimilados e reduzidos os preços.
Mas, com isto, creio que resultam confirmadas algu-
mas afirmações precedentes. Antes de mais, o· carácter
de substancial retomada de Ricardo de parte desta posi-
ção (que se revela aqui na absoluta falta de problema-
ticidade da categoria do valor), e de contínua assimila-
ção dos problemas de Marx com os de Ricardo; depois,
a dúvida que primeiro se exprimia acerca da pretensão
destes autores de ter definitivamente superado a teorianeoclássica. Pelo contrário, esta posição não faz mais
do que .substituir o valor de uso da teoria marginalista
pelo conceito também genérico e «naturalista» das «con-
dições da técnica»: os riscos da apologética do capital
não são assim completamente eHminados.
Que Dobb percebeu esta última dificuldade resulta
do facto de que sente continuamente necessidade de subli-
nhar o conteúdo social das categorias que usa. O que,
com efeito, fica assente por um tipo de análise como
esta, são as contradições sociais que para Marx fazem
parte da própria natureza do capital e culminam na
relação de «exploração» do operário por parte do capi-
35
talista. Trata-se, pois, de o reafirmar. Como procede
Dobb?
Para Dobb a relação de exploração está ligada
simplesmente a um postulado social: o sistema da pro-
priedade privada. É isto que determina a relação inversa
entre lucro e salários no processo de distribuição do
produto bruto já individualizada por Ricardo (e quanti-
ficada por Sraffa), isto é, a relação de antagonismo
entre capital e trabalho.
Mas, deste modo, por um lado, o antagonismo
fundamental da produção capitalista é relegado para
a simples relação distributiva. Ou seja, a relação entre
capitalistas e operários torna-se uma simples relação
de concorrência na repartição do valor produzido e,
logo, pode ser directamente assimilado ao antagonismo
distributivo que existe entre proprietários fundiários e
capitalistas. Por outro lado, fica aberto o caminho às
sugestões do reformismo que pretende «sanar» os con-
trastes sociais, sanando a injustiça da distribuição. Por
outro lado, dado que uma vez reduzida a lei do valor
às gerais condições da técnica, perde-se a relação par-
ticular que Marx instituiu entre mais-produto, mais-valia
e mais-trabalho, isto é, perde-se a relação do mais-
-trabalho com o trabalho não-pago, pode surgir a objecção
de que não se compreende por que motivo se deva falar
de mais-valia como resultado da exploração do «traba-
·lho», e não, por exemplo, como _resultado também ou
totalmente das máquinas ou do capital com o qual se
trabalha. A esta possível pergunta, Dobb responde antes
de mais que a própria teoria marxiana do valor não .
serve para explicar a exploração: «É verdade que alguns
defenderam também que a mais-valia e a exploração de
qualquer forma se deduzem (e dependem, logicamente)
da teoria do valor-trabalho como na lógica se deriva a
conclusão da premissa. A premissa, neste caso, seria
qualquer preceito lockiano, como aquele pelo qual os
homens têm um direito natural apenas àquilo que é
fruto do seu trabalho. Por isso, se numa sociedade
assente na troca as coisas se trocam com base na quan-
tidade de trabalho. necessária para a sua produção, e
todavia algumas pessoas têm um rendimento sem traba-
lhar, isso deve ser a prova de que houve um acto de
apropriação ou de sequestro "inatural". Todavia, creio
que esta interpretação, porquanto sedutora, é, também,
36
errada» (16). Em segundo lugar, Dobb declara que a
exploração é, em todo o caso, exploração de trabalho,
porque é, em geral, o trabalho aquilo que conta, é o tra-
balho aquilo que genericamente produz: «Porque falar
de mais-valia como resultado da exploração do trabalho?
Creio que, aqui, se pode ver a importância da posição
conferida por Marx ao problema económico da produ-
ção, em termos de actividade humana. Não é apenas um
jogo de palavras ou uma tautologia. Trata-se de uma ques-
tão essencial. Se aquilo que conta é a actividade humana
produtiva, então certamente o que importa é a relação
entre os seres humanos empenhados nessa actividade
e os seus resultados» (17).
No que diz respeito ao primeiro ponto, creio que
não são necessárias muitas palavras para afirmar que
para Marx é verdadeiro precisamente o contrário, e que
a sua teoria do valor está interligada com a teoria da
mais-valia como mais-trabalho (sobre este ponto remeto
para este livro que, exactamente, se debruça largamente
sobre isso). Enquanto o modo como Dobb motiva a
afirmação oposta dizendo que, se se ligasse a teoria do
valor à exploração, aquela reduzir-se-ia necessariamente
a simples discurso ético sobre a injustiça distributiva,
revela até ao fundo a sua incompreensão da teoria do
valor, ou seja, de uma teoria que é, ao mesmo tempo,
teoria da igualdade e da liberdade da troca e teoria da
perfeita desigualdade e não-liberdade: para Dopb, é ver-
dadeiro sobretudo o primeiro aspecto (não é por acaso
aquele em que a teoria de Marx é mais análoga à de
Ricardo), cuja tarefa não é ao mesmo tempo explicar
a mais-valia, mas simplesmente ser coerente, não con-
traditória com aquele sistema institucional que está
ligado à propriedade e à exploração. Por outro lado, uma
vez destruída a ligação valor-mais-valia, que é a única
que pode dar garantia científica ao discurso sobre a
exploração e não a reduz a uma vazia querela sobre a
injustiça humana, a única maneira de a recuperar é
exactamente, como faz Dobb, reportar-se à criação da
produtividade do trabalho humano, coisa verdadeira
desde que o homem existe, mas inútil para explicar um
facto particular e específico como a exploração capita-
(") Idem, p. 122; cfr. também M. Dobb, Introdúzione a
K. Marx, Il capitale cit., vol. I, p. 10.
(") Idem, p. 130.
37
lista. Exploração onde, com efeito, não se trata da sim-
ples «distinção» entre quem trabalha e quem não tra-
balha, quem produz e quem não produz, na base da
simples produtividade «material», mas onde essa mesma
produtividade física se inverte e se nega na produtividade
de valor e mais-valia, e é esta última que tentamos exac-
tamente explicar.
Como resultado temos, pois, que a pura análise
sociológica tenta, por um lado, colmatar os defeitos e as
carências da análise económica sobre a natureza da
sociedade e dos seus contrastes, por outro, para o fazer,
retrocede necessariamente às frases abstractas sobre o
«homem», sobre a «natureza» e sobre o «trabalho». Com
isto, da lição de Marx perde-se completamente o signi-
ficado mais profundo, com o qual, pelo contrário, é
necessário e urgente confrontarmo-nos.
M. B.
38
Capítulo I
A TEORIA CLASSICA DO VALOR: SMITH E RICARDO
Ricardo, na sua formulação da teoria do valor
-trabalho parte da precedente análise smithiana e, ana
logamente a Smith, faz depender o .valor «de troc_ª�
de uma mercadoria de certas «quantidade.s_de_trab.alh.u�
mais precisamente, faz residir o elemento determinante
e originário do valor unicamente na quantidade de
trabalho que é necessário dispender para produzir uma
mercadoria.
A tese de que o valor depende de certas «quantidades
de trabalho», que pode ser considerada o ponto comum
de partida dos dois economistas, assume, na sua análise
seguinte, consequências e desenvolvimentos diferentes,
não obstante Smith continuar a constituir, para Ricardo,
a referência teórica de maior peso. Smith é, de facto,
o único economista que havia falado de troca das mer
cadorias directamente em termos de valor, e dela tinha
falado' de modo não imediatamente empírico (embora
alguns germes de uma teoria do valor-trabalho se possam
fazer remotar a Petty e a Locke) e que havia tentado
dar uma organização sistemátita à sua teoria.
Tentamos agora analisar nos seus pontos mais
salientes os aspectos da investigação económica smi
thiana que são mais úteis para enquadrar correctamente
os termos da investigação seguinte de Ricardo.
Smith, no seu estudo acerca das causas que produ
zem a riqueza das nações, parte de algumas considerações
39
importantes sobre o impulso dado ao desenvolvimento
produtivo por urna particular organização da produção,
a divisão do trabalho.
O enorme e contínuo incremento da produtividade,
fonte da riqueza moderna, a que nós charnarernos
«riqueza burguesa», provém mesmo e apenas, segundo
Smith, do «trabalho» e de uma forma específica do
trabalho, o trabalho socialmente dividido, que tem como
fim a produção de mercadorias e a troca.
Diferentementedos fisiocratas, na base da produ-
tividade, da capacidade, isto é, de criar «produto bruto»,
já não são postos os poderes naturais produtivos do
solo, ou qualquer outra causa externa, como pela tra-
dição económica antes de Smith, mas, com Smith, só
e apenas o trabalho, e mais precisamente o trabalho
verdadeiramente produtivo, capaz de fixar no valor das
mercadorias que produz um valor «excedente» do seu (').
Estas fundamentais premissas srnithianas, que me-
reciam um tratamento muito mais desenvolvido e cui-
dadoso, só nos interessa aqui recordá-las, porquanto
Smith delas tomará precisamente os princípios para
explicar a natureza de categorias económicas estreita-
mente ligadas ao conceito de «produto bruto», como
a origem das três principais formas de rendimento: os
salários, os lucros e a renda fundiária; estas duas
últimas, que correspondem, de facto, ao «produto bruto»
dos fisiocratas, são por ele definidas como puras
«deduções» do produto do trabalho (2).
Isto, por um lado; por outro·, colocado o trabalho,
na sua forma concorrencial e de mercado, ou seja o
trabalho socialmente distinto, na base da produção da
riqueza burguesa, Smith pode passar ao estudo mais
preciso das leis que regulam a troca, e ·assim definir,
como ele diz, quais são «as regras que os homens
( 1) Se bem que no primeiro capítulo da Ricchezza delle
nazioni (Editori Riuniti, Roma 1969) Smith fale do incremento
da produtividade simplesmente no sentido físico, ou seja do
aumento «numérico» dos bens produzidos. Esta dupla deter-
minação da produtividade, onde ela é entendida quer no sentido
próprio como capacidade de criar produto bruto, quer como
aumento material de riqueza, comportará em Smith a confusão
acerca da relação entre «riqueza» e «valor» (A. Smith, Ricerca
sopra la natura e le cause delle riccheza delle nazioni. Utet
Turim, 1948).
(') A. Smith, Ricchezza cit., p. 61; cfr. também p. 46.
40
seguem na troca dos seus bens», dircctamente aplican<lo
e desenvolvendo a categoria do trabalho produtivo.
De facto, ao explicar o mecanismo da troca das
mercadorias, uma vez que as mesmas mercadorias são
para ele essencialmente produto de trabalho, ele pode
começar a adaptar µ,ma t~_oria c:l() valor, e mais preci-
samente pode Jazer depender este valor de certa quan-
tidade de trabalho, destacando-se assim nitidamente das
posições empiristas precedentes, como a do tipo fisio-
crático, por exemplo, que aceitava os «preços» como
um dado não analisável ulteriormente.
A partir, portanto, da análise da existência da
mercadoria, ou seja de um bem produzido unicamente
para a troca, Smith define-lhe o valor de troca, nitida-
mente distinto da sua utilidade, ou do 5ieu valor de
uso, que constitui a sua base material mas não aquilo
que cria o seu valor, afirmando que este último depende
da quantidade de trabalho que uma mercadoria adquire,
ou pelo contrário, o que é o mesmo, da quantidade de
trabalho que essa mercadoria está em grau de dispor,
de «pôr em movimento». Assim, de facto, Smith define
explicitamente o valor de um objecto produzido para
a troca: ele é «o poder, que a posse daquele objecto
traz consigo, de adquirir outros bens» (3). «Por isso o
valor de uma mercadoria qualquer, nos confrontos
daquele que a possui e que não pretende usá-la ou
consumi-la ele próprio, é igual à quantidade de trabalho
que ela o põe em grau de adquirir ou de dispor.
O tral:>alho é por isso a medida real do v;:ilor de trocei
de todas as n1ercadqrias;i · (4).
Desta formulação inicial smithiana do valor deduz-
-se que o \ vaJor de troca de uma mercadoria depende
da quantidade de trabalho que esta mercadoria «pode
dominar» ( can command), com a consequência de que
a quantidade de trabalho, que determina o valor de
uma mercadoria, depende do «valor do trabalho» ou
salário. Smith diz, de facto, logo depois: «Elas - as
mercadorias - contêm o valor de uma certa quantidade
de trabalho, que nós trocamos tom aquilo que se supõe
contém naquele momento o valor de uma quantidade
igual. O trabalho foi o primeiro preço, a moeda origi-
nária, que se pagou pela aquisição de qualquer coisa» (').
(') Idem, p. 28.
(') Idem, p. 29.
(') Idem, p. 30.
41
Nem por isso o princ1p10 do trabalho como quan-
tidade ou tempo de trabalho, como será para Ricardo
e depois para Marx, é a base da medida dos valores,
mas o «valor do trabalho». Em Smith, portanto, a
aplicação do princípio das «quantidades de trabalho»
às leis capitalistas da troca configura-se como princípio
do «trabalho dominado», o que comporta que o elemento
determinante dos valores seja o «valor do trabalho».
Precisamente sobre estas conclusões incidirá a crítica
ricardiana.
Todavia, Smith, no decurso da sua análise dá uma
intima coerência ao motivo e ao sentido da opção da
sua teoria.
No confronto com as épocas precedentes da época
capitalista, ele é levado a afirmar que, naquele estádio
«primitivo» da sociedade que precede a acumulação do
capital e a apropriação da terra, todo o produto do
trabalho pertence ao trabalhador; e a quantidade de
trabalho comummente empregada na aquisição e na
obtenção de uma mercadoria é a única circunstância
que pode regular a quantidade de trabalho que ela
deveria comummente adquirir, e da qual pode dispor,
ou com a qual se pode trocar» (6).
Neste estado de coisas, em que a totalidade do
produto do trabalho pertence ao trabalhador, não se
interpõe nenhum obstáculo a que o valor de troca das
111~r__f.adori-ª~-12-1:9_slt1zidas s~_!(..!Il_~» serppre e unkmte
segunclc)_a. qua~ti_d~.cl~ de ~r~12~H1:Pa __ g~~~~sária para .a
sua _RI"()gµç~o, iJorquanto ela coinci e com a quantidade
ele trabalho que com aquela mercadoria se adquire.
O produto de um certo tempo de trabalho troca-se,
«domina» sempre o produto, ou o trabalho que contém
um tempo igual. ÇQ.lllQ _cons~qµê1:iciª J:t .. qna.ntidade._.de.
tralJalho qµe µma mercadoria domina depe11de_ sempre
da quantidade de trabalho que é necessário despender
para a produzir: o trabalho dominado depende do t:ra:
balho contido.
Pelo contrário, em situação capitalista, não só,
«o capital se acumulou nas mãos de algumas pessoas»,
como não parece verificar-se outro tanto. De facto,
usando o modo smithiano de se exprimir, a quantidade
de trabalho necessária para produzir uma mercadoria,
e aquela que com tal mercadoria se adquire, já não
(') Idem, pp. 45-6.
42
coincidem; antes, parece a Smith que a quantidade de
trabalho comummente despendida para produzir uma
mercadoria deve ser constantemente menor que aquela
que tal mercadoria adquire.
Nós diremos que, em situação capitalista, o «valor»
do produto do trabalho já não é igual ao «valor do
trabalho», mas maior, ou, a quantidade de trabalho
total, necessária para produzir um objecto, é maior que a
parte que serve ao operário para reconstituir o próprio
salário.
Escreve de facto Smith que, na troca do «produto
completo com moeda, com trabalho, ou com outros
objectos, além do que pode ser suficiente para pagar
o preço dos materiais e o salário dos operários, qualquer
coisa deve ser dada para lucro daquele que se encarregou
do trabalho» (7). E acrescenta ainda: «É evidente que
uma quantidade suplementar (de trabalho) é devida aos
lucros do capital que antecipou os salários e forneceu
os materiais daquele trabalho» (8). Aqui Smith põe em
relevo um facto fundamental de uma economia como
a capitalista, ou seja que a quantidade de trabalho
que o operário deve dispensar para produzir uma mer-
cadoria deve ser «maior» que a necessária para recons-
tituir o próprio salário e os meios de produção dispen-
didos; ela deve «pagar» também os lucros do capitalista;
deste modo, uma vez que a quantidade de trabalho
contida no chamado «valor do trabalho» nã,o iguala a
contida no valor do produto do trabalho, a troca entre
«produto do trabalho» e «trabalho» parece não se reali-
zar já segundo quantidades de trabalho equivalentes.
De facto o valor produzido por umcerto tempo
de trabalho, não tendo em conta a parte destinada a
substituir a maquinaria e as matérias-primas consumidas
na produção, resolve-se no valor dos salários, dos lucros
e da renda fundiária; se o valor deste tempo de trabalho
se reconvertesse todo em salários, ele estaria em situa-
ção de «dominar», de adquirir uma quantidade de salá-
rios «maior» que aquela nele contida, e assim de pôr
em movimento mais trabalho que o nele contido.
Esta razão por que a troca entre «trabalho» e
produto do trabalho é para Smith troca de mais trabalho
(7) Idem, p. 46.
(') Idem, p. 47.
43
por menos trabalho. Como consequência o princ1p10
do trabalho· contido não é suficiente, segundo ele, nem
para a explicação da troca entre mercadoria e trabalho,
que resulta de facto troca de menos trabalho por mais
trabalho, nem aquela a ela ligada, da formação do
lucro, o qual, consistindo realmente em «domínio» sobre
trabalho alheio, ou como diria Smith, na quantidade
de trabalho que ele adquire, deriva precisamente do
excedente de valor que o trabalho produz além do
próprio valor, ou seja além do salário.
Pelo contrário, o princípio do trabalho contido
pode ser pensado sem dificuldade, e aplicado, analo-
gamente ao do trabalho dominado, só num tipo de
economia como a mercantil simples, em que o «valor
do trabalho» coincide com o valor do produto do tra-
balho. Em tal economia, de facto, é indiferente dizer
que a troca se faz segundo a quatidade de trabalho
contido, ou que se faz segundo a quantidade de trabalho
que as mercadorias dominam, porquanto não existe dife-
rença entre os dois momentos, dado que, havendo sepa-
ração entre quem detém os meios de produção e quem
pode fornecer só o seu trabalho, não há sequer troca
directa com trabalho vivo, mas apenas troca de trabalho
objectivado na forma de produtos.
Por outro lado, pois que, 2ara Smith, a validade
ou não de llI,J:!~ __ t~QI.!~L-d9 yªJor ~t.i justa.!!H~nte_ligada
-ãsua capacidade de explicar a troca de mercadoria.§
-por fraoa11i0, e. por isso de explicar o caráCter específico
da produção capitalista, ou seja a origem e a natureza
dos lucros e da renda, que, como o próprio Smith havia
intuido, se realizam através da apropriação- do trabalho
alheio, e pois que o _ _p~_do_valor....rle troca segundo
a quantidade de trabalho contido nas mercadorias não
lhe parece adequado, ele acaba por ver reafirmada a
lei da troca na ºª-s~ elo tn.1_ba.Jhq _dominado.
Desde o momento, enfim, em que Smith assimila
sempre (9) a troca de mercadoria por mercadoria à
troca de mercadoria por trabalho, ele generaliza esta
dificuldade no cálculo d~Yillor a toda a troca capitalista:
a troca de mercadorias, portanto, resulta regulada não
(') Idem, p. 46.
44
pela quantidade de trabalho nele contida, mas pela quan-
tidade de trabalho que elas podem dominar, pôr em mo-
vimento; este princípio tem como pressuposto que a
medida dos valores se obtém mediante o valor do traba-
lho (10). Smith pode de facto concluir: «O t@balho mede o
valor_não apenas __ daqy~!~J?~!te _elo _PE~ç9_q1--1:~ .. s.e risoive .
em trabalho, mas também élaquela que se resolve em
re~9ª, ~u:lag:u_e1ª qµe se resolveem lucro» (11). E, vice-
~versa, salário, lucro e rendà, as três pàrtes componentes
do preço de toda a mercadoria, resultam sempre regu-
ladas pela quantidade de trabalho que eles são capazes
de adquirir.
Concluindo, se por um lado Smith intui justamente
como a chave da produção capitalista está, na realidade,
na troca entre trabalho objectivado nos produtos e no
trabalho vivo, antecipando assim um motivo que será
dominante no pensamento de Marx, e como uma correcta
teoria do valor-trabalho deve ter em conta precisamente
este traço específico do capitalismo, por outro, não
conseguindo explicá-lo, como se viu, segundo uma teoria
que faça depender o valor das mercadorias da «quanti-
dade de trabalho» nele contido, tenta uma explicação
do valor através de uma teoria como a do «domínio
sobre o trabalho», ou do «.tr.ab.alh_o_dominado» que, se
é uma feliz intuição do carácter do processo de repro-
dução e da «acumulação» do capital, não pode constituir
a fundamentação de uma teoria do valor, o que veremos
claramente já com Ricardo.
('º) Marx, na Teorie sul plusvalore, vol. I, Roma. 1962,
p. 166, exprime com extrema clareza como o erro smithiano
foi o de ter pensado que, da alterada relação entre trabalho objec-
tivado e trabalho vivo, derivasse também uma alteração na
determinação do valor relativo das mercadorias. Pelo contrário,
se é de toda a justiça dizer, como diz Smith, que o trabalho
objectivado compra sempre uma quantidade adicional de tra-
balho vivo, isto não quer dizer que as mercadorias, que são
sempre trabalho materializado, já não se calculem na base do
trabalho nele objectivado.
Veremos a seguir como em Ricardo se verifica a situação
oposta. Considerando a troca sempre do ponto de vista das
mercadorias, isto é, do trabalho objectivado, de modo a poder
calcular sem dificuldade o valor na base do trabalho nele
contido, ele não considera, ou melhor, silencia sobre a relação
alterada entre trabalho vivo e trabalho objectivado nas condições
de produção capitalista.
( 11 ) A. Smith, Riccheza cit, p. 47.
45
Pode clizer-se que a análise smithiana do valor,
que nalguns aspectos oferece motivos de desenvolvi-
mento muito interessantes, no que respeita, porém,
ao «requisito formal essencial» de teoria do valor, ou seja
o de determinar o valor «a partir de elementos que
não dependam dos valores» (12), falha: ela, de facto,
faz mesmo de um valor, o valor de troca do trabalho,
a essência do valor de todas as mercadorias.
Na realidade, o problema de Smith, posto nos
termos em que Smith o põe, é insolúvel. O nó funda-
mental, não superado, do problema parece consistir nisto,
que a análise de Smith, embora tendo surpreendido
com extrema sensibilidade a irredutibilidade das condi-
ções de produção capitalista às da economia mercantil
simples, pela existência de troca directa de mercadorias
ou dinheiro contra trabalho vivo, não tem, pelo con-
trário, atrás de si, nenhuma clareza teórica acerca da
natureza e do carácter do «trabalho» que está na origem
e essência do valor.
Refiramos aqui apenas, guardando-nos de o tratar
mais amplamente em seguida, um problema que na
realidade é muito complexo, e que se encontra igual-
mente por resolver em Ricardo, e ao qual só é dada
uma resposta definitiva por Marx.
Ao colocar o «trabalho» na base do valor, Smith
não faz mais que retomar, permutando-os pela vida de
todos os dias, sem os submeter a nenhuma crítica, os
cónceitos usuais de trabalho e de «preço», ou valor,
do trabalho, o que o impede completamente de distinguir
a dupla determinação que o trabalho em situação capi-
talista assume: de ser, por um lado, como «tempo de
trabalho», origem e essência do valor, e por isso, como
tal, elemento que não tem valor, e por outro, como
trabalho-mercadoria, desde o momento em que se fala
de «trabalho» .como objecto dotado de valor de troca,
«valor» esse por determinar. Só com Marx se aclarará
como esta mercadoria particular é não o trabalho, mas
a «força de trabalho», ou seja a simples «possibilidade»
de fornecer trabalho, isto é, trabalho em potênçia,
trabalho ainda «a fazer». O erro de Smith, portanto, ao
determinar a relação entre mercadoria e trabalho, con-
siste em contrapor sempre a uma mercadoria não uma
( 12) Cfr. C. Napoleoni, «Appunti per una storia del pensiero
económico,» in Rivista Trimestral, n.º' 15-6, 1965, p. 608.
46
outra mercadoria, a força de trabalho, que é, ela mesma,
uma certa quantidade de trabalho objectivado, mas o
trabalho «em acto», o trabalho vivo, ou seja a «função»
da própria força de trabalho.
Veremos, com Marx, como o valor da força de
trabalho, e a duração da sua função, o «trabalho»,
são duas coisas completamente distintas.
Em face desta dificuldade Smith não consegue,
como se viu, generalizar àépoca capitalista a teoria do
trabalho contido; e, de facto, se se assume, como faz
Smith, a categoria de «preço do trabalho», encontramo-
-nos perante o problema de que tal teoria sofreria uma
suspensão precisamente no mercado do trabalho, desde
o momento em que a troca directa de mercadorias
contra «trabalho» aparece, segundo a lei do valor, como
uma troca «desigual» - desigualdade necessária à for-
mação do lucro.
lado,Iê>-t2n~~~~s su~~1~~rta~~~¾~gt_i~~c~;iiierifu.
~- vaJoi-:.__do trab~!hQ, ~_faz_er_depois, de llDlª-.il!Jªlquer
· mercadoria~·--a--·essência do valor; por outro, o facto
de que a assunção desta âeterminação do valor o impede
de desenvolver e de ligar a uma teoria do valor válida
a sua hipótese correcta acerca da natureza da troca
entre trabalho e capital.
Veremos como também com Ricardo, que embora
apresente pontos de aquisição teóricos decisivos rela-
vamente a Smith, o problema volta a pôr-se nos mesmos
termos insolúveis. Só com Marx o conceito tradicional
da economia clássica de «valor do trabalho» entrará
em crise: ele em primeiro lugar .esclarecer~ qt1(:!_ I.1ª9
é o «trabalho>;--que _s~ fi~ocâ·)-eràs··õu1ras··111ercªdorias,
e ê, pois/ :obíêct<>. .. e valor d~ troca,. mas uma mercadoria
particular, a capacidade de trabalho ou «força de trabalho.
Com a.introdução desta categoria Marx;-:nãõ opóiido mais
ao capital o «trabalho» sem ulterior especificação, mas
postulando claramente a existência do trabalho vivo
como mercadoria particular, ou_ seja a «força de traba-
lho», estará em situação de explicar, precisamente na
base de uma teoria do valor como a que faz depender
os .. :valores_de--.tr-oea-das mfil'CadoJ:ias.pela qualidad@--cle--
.trnbalh9necessári~_parn . .a_suap.rodução, também _a troca
entre mercadorias, ou trabalho objectivado, e trabalho
vivo, que Smith tinha justamente considerado como troca
de menos trabalho por mais trabalho.
47
Coloca.das estas premissas necessanas, que tentam
esclarecer a complexidade dos problemas que estão por
detrás dos resultados da análise smithiana, e também o
âmbito teórico dentro do qual se move a investigação
ricardiana, podemos passar a analisar a teoria ricardiana
do valor, a partir da crítica que Ricardo faz a Smith.
Esta crítica considera essencialmente dois pontos.
Por um lado, de facto, Ricardo, com uma crítica
que é exposta claramente sobretudo na segunda edição
dos Princípios, surpreende com agudeza um vício lógico
de fundo do raciocínio smithiano, consistente no facto de
que se Smith, como objectivo da sua investigação, põe o
de determinar os valores de troca das mercadorias, acaba
pelo contrário por fazer de um «valor», u.valor de troca
do trabalho, a causa do valor, dando por determinado
o que se déve ainda determinar, com um evidente círculo
fechado.
Pelo outro, existe, da parte de Ricardo, uma chamada
à coerência; se se admite, de facto, com Ricardo, que o
princípio do trabalho contido pode ser aplicado sem difi-
culdade numa sociedade de tipo mercantil simples, em
que existe só troca de mercadorias produzidas por traba-
lhadores independentes, não se vê por que ele não possa
ser aplicado também à troca das mercadorias em situação
capitalista. O facto de que uma parte do trabalho incor-
porado na mercadoria não volta a quem a produziu, mas
vai para o capitalista, não altera nada: o valQLdela é.
sempre _ determinado pelo tempo de trabâlho necessário
para_ª- .:produzir. · · ·-- ··
- · De facto, sustenta Ricardo, a dificuldade smithiana
pora chegar a uma tal conclusão, - dificuldade que em
Smith provém do facto de que o salário dó operário não
compra inteiramente o produtÓ' do próprio trabalho -
não tem razão para subsistir, desde o momento em que
este problema diz respeito à distribuição do produto, não
à determinação do seu valor (13).
( 13) Esta chamada «à coerência» custa porém cara a
Ricardo; deste modo ele, partindo exclusivamente da existência
das mercadorias, dos produtos acabados, perde completamente
a dimensão do problema peculiar de Smith, o da relação entre
trabalho objectivado e trabalho vivo, como relação de menos
trabalho por mais trabalho. Relativamente a isto, o erro de
Smith, como se viu, foi substancialmente o de sobrepor esta
relação à determinação das relações de troca entre as merca-
48
A censura de fundo de Ricardo consiste na afirma-
ção de que . Smjt_h_Jtssume como dt:!term_igação do yalor
«não já a quãíú:1dade de trabalho empregada na produ-
ção d~_úrp dado objecto, mas a. quanticlªçk_çl~ trabalho .
. -qúe·a posse daquele objêéto éorisenfe. que se exija no
mercado», «Ele fala disto como se se tratasse de expres-
sões equivalentes e como se o facto de o trabalho do
homem se ter tornado duas vezes mais eficiente - por
lhe permitir produzir uma quantidade dupla - lhe con-
sentisse ter em troca da mercadoria que ele produz uma
quantidade dupla de mercadorias. Se isto fosse exacto,
se a retribuição atribuída ao trabalhador fosse sempre
na razão daquilo que produziu, iguais seriam a quanti-
dade de trabalho empregada na produção de uma tal
mercadoria, e a quantidade de trabalho que a posse
de tal mercadoria permite adquirir; as duas poderiam
medir perfeitamente as variações das outras coisas.
Na verdade não são iguais; a primeira é, em muitas
circunstâncias, uma medida de tipo invariável, que indica
exactamente as variações das outras coisas; a segunda
está sujeita a tantas flutuações quantas as mercadorias
com que é posta em confronto» (14).
Estas últimas observações de Ricardo são muito
interessantes, quer pela eficácia com que é surpreendida
a diferença fundamental entre valor do _trabalho e quan-.
tidade detrª1Jalho1 qu~r pê1ó fado de que é esclarecido
Eômõ a assunção do «valor do trabalho» como· essência
do valor poderia ser válida, isto é, ser uma medida de
tipo invariável, não sobreposta às flutuações da procura
e da oferta, só no caso em que todo o produto do tra-
balho pertencesse ao trabalhador: neste caso, quantidade
de trabalho e valor do trabalho (15) seriam, ambos, do
mesmo modo, dois meios para determinar o valor de
uma mercadoria.
dorias, em particular de sobrepor a relação entre uma merca-
doria qualquer e aquela mercadoria, especial que é a força
de trabalho (que a ele se configura directamente como relação
entre mercadoria e trabalho em acto), à troca geral das merca-
dorias, pelo que lhe parecia anulada a lei dos valores.
(1') D. Ricardo, Prindpi clell'econonzia politica e clelle
imposte, Utet, Turim, 1965, p. 9.
( 15) Admitindo que se pode falar de «valor do trabalho»
num tipo de economia como a mercantil simples, em que, exis-
tindo só troca de produtos acabados, ele trabalho objectivado,
não exislc a troca por trabalho vivo.
49
Embora muito perspicazes, estas observações não
podem todavia ser consideradas como uma crítica sufi-
ciente a Smith; quanto a este último, de facto, é preci-
samente pela não coincidência, em situação capitalista,
entre quantidade de trabalho e valor do trabalho, que
têm origem todas as dificuldades, e não, como diz
Ricardo, pelo facto de Smith considerar equivalentes
aquelas duas grandezas.
· Relativamente a estas dificuldades, Ricardo, se con-
segue rebater a validade teórica do princípio da «quanti-
dade de trabalho» necessária à produção, distinguindo
nitidamente tal princípio do do «valor do trabalho», e
se pode por isso afirmar que o valor da mercadoria é
calculado sempre na base do tempo de trabalho gasto
na sua produção, qualquer que seja depois o destino
deste produto, só o consegue enquanto se coloca exclu-
sivamente do ponto de vista dos produtos acabados (16)
e por isso das formas objectivas do trabalho, abstraindo
da troca entre mercadorias, ou melhor entre capital e
trabalho vivo, antes considerando-o «como se» fosse
troca de equivalentes. Na realidade, isto é verdade só
se se precisa, com Marx, que, contraposto ao capital,
está, não o trabalho, na sua forma objectivada de pro-
dutos ou de «salário»,mas força de trabalho vivo, que
se troca realmente com o capital, pelo seu próprio valor,
ou seja segundo a quantidade de trabalho necessário
para produzir e reproduzir a força de trabalho; mas
· já não é verdade (como Smith intui!), se se considera
o uso que desta força de trabalho faz o capital no pro-
cesso de produção, isto é o de lhe tirar mais trabalho, e
por isso mais valor, do que aquele que ele pagou (segundo-
ª lei do valor) como salário.
Portanto, é precisamente por causa da insensibili-
dade de Ricardo relativamente ao problema da existên-
cia, bem capitalista, da troca directa com trabalho vivo,
que a sua análise não surpreende inteiramente a difi-
culdade que origina o erro smithiano.
( 16) Cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali della critica
dell'economia política, II, La Nuova ltalia, Florença, 1970, p. 200.
Ricardo «constata a existência de uma determinada quan-
tidade de tempo de _trabalho objectivado, que pode também
aumentar, e pergunta-se: como é distribuída? Mas o problema
é antes: como é produzida,-e é aqui justamente a natureza
específica da relação entre capital e trabalho, ou a diferença
específica do capital, que lhe esclarece a natureza». Cfr. tam-
bém p. 256.
50
Se, por isso, justamente, ele não pode aceitar a
posição smithiana, acaba depois, todavia, por se limitar
a constatar _.um-dado .. de .. façtº _dõ;Lp:rnd.J.1ção. capitalista,.
qu~ .. .c>. yal_or elo trabalho é. sel11pre n1.enor que o valor do
produto_ do trabalho, sem explicar «porque e como» isto
acontece, enquanto Smith demonstra aqui a profunda
capacidade de surpreender de modo problemático um
traço fundamental e _específico da economia capitalista,
o facto de qµ~ ª J_rnC-ª- i11Jr.~_ti:abalho vivo e mercadoria
·enqüarit<:> çapital, resulta troca. de mais trabalho por_·
menos trabalho.
Por outrÓ lado, Smith, com a sua teoria do traba-
. Jho «dQID.Jnado.>>--- entrevê, precisamente no «domínio
soõre ..!rnhªlh.o», o segredo da acumulação e do desen-
voTvímento capitalista (17).
A este propósito, não é por acaso que se afirmou
que para Smith o pri11cípio do_ trabalho.dominado se
conf!ggr.a_como_achavedo prQgI"esso, o do trabalho con-
tido da estagnação (18).
Em conclusão, o problema que aqui, na contrapo-
sição entre troca simples da sociedade mercantil e as
relações de produção capitalista, Smith põe em evidência
é o da origem da própria mais-valia, tal como ela se
produz na relação entre o capital e aquela mercadoria
particular que é a força de trabalho, e se realiza no
mecanismo da troca e da concorrência. Este problema,
cuja complexidade Smith intui, para Ricardo não se
põe sequer: a troca entre capital e trabalho é directa-
mente assimilada às trocas que tinham lugar nas situa-
ções pré-capitalistas.
O mérito teórico de Ricardo, não obstante estas
carências de análise, que darão origem a toda uma série
( 17) K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, Florença,
1968, p. ·265: «A troca entre o operário e o capitalista é uma
troca simples; cada um recebe um equivalente: um, dinheiro,
o outro, uma mercadoria, cujo preço é exactamente igual ao
dinheiro por ela pago, aquilo que o capitalista recebe nesta
troca simples é um valor de uso: uma disposição sobre trabalho
de outrém». E ainda, p. 293: «Capital, enquanto capital, ele só
o é, em relação ao operário, no processo de consumo do traba-
lho». (Os sublinhados são nossos).
( 18) Cfr. G. Pietranera, La teoria del valore e dello sviluppo
capitalistico in Adamo Smith, Feltrinelli, Milão, 1963, cap. VII,
p. 251, em que se afirma que o instrumento do valor-trabalho
dominado é por Smith assumido como «instrumento de expan-
são», o do valor-trabalho contido, como de declínio.
51
de dificuldades dentro da sua própria teoria do valor,
permanece todavia fundamental. Ele, de facto, diferen-
temente de Smith, ªº generalizar-a teo-da-·dc>valor~Irª~
,JJalho à economia capitalistç1, ~ ao e~cl~rec:e_:r: qt1~-:ã-_clife_-
rença entre valor do. trabalho e __ yªlQr do_ produto do
tr3 1:>a1hQ, influi sobre a distribuição do proc:h1~0,· e nª~
sobre o seu valor, opera uma importante distinção que,
fazendo derivar as relações de troca das condições de
produção (e este precisamente, é o ponto de maior afi-
nidade com Marx) não dá lugar a qualquer falsa teoria
que atribua ao momento da formação e da distribuição
do· rédito a função de formação e criação do valor dos
produtos (armadilha em que cai também Smith, o qual
afirma que, lucros, salários e renda fundiária, fontes de
todo o rédito, são também fonte de todo o valor).
Por outro lado, ao rebater o princípio de que é a
quantidade de trabalho necessária para produzir as mer-
cadorias o que regula a troca e determina o valor das
próprias mercadorias, Ricardo exclui toda a tentativa
grosseiramente empírica, como a dos economistas que
o tinham pre_cedido, de fazer da «utilidade» das merca-
dorias e das leis da procura e da oferta, a base e a
essência do valor.
Resta-nos agora retomar e sublinhar um último
e decisivo aspecto da relação entre Smith e Ricqrdo, o
da origem e da natureza do «exceclente», ou do que
.Marx· chama mais-valia, e que constitui o traço funda-
mental e específico do modo dé produção capitalista.
. Depois da feliz intuição smithiana do problema do
desenvolvimento e da produtividade capitalista, através_
do conceito de «trabalho produtivo», assiste-se à tenta-
tiva ricardiana de se dotar de um instrumento teórico,
como uma teoria do valor que supere a dificuldade da
smithiana, capaz também de explicar fenómenos capi-
talistas mais complexos como justamente a formação
do lucro e da renda. Com Smith, de facto, é antecipada
a tese de que na base das três formas de rédito, lucros,
salários e renda fundiária, na base da própria riqueza,
está o «trabalho produtivo», entendendo por trabalho
produtivo o trabalho que acrescenta novo valor ao valor
das mercadorias existentes como capital sob a forma dos
instrumentos e das matérias-primas usadas para a pro-
dução, ou seja o trabalho que ao· mesmo tempo repro-
duz o próprio valor e deixa um excedente, que se decom-
põe nos lucros do capitalista e na renda. Com esta defi-
52
mçao de trabalho produtivo, que constitui o aspecto
mais interessante da análise smithiana, é avançada pela
primeira vez a hipótese de que a origem daquele «exce-
dente», que é fonte do lucro e da renda, é o trabalho
que o operário fornece além do trabalho necessário
para o seu sustento ou para a reconstituição do próprio
salário. Esta hipótese corresponde à importante tese
marxista do lucro como mais-valia ou mais-trabalho.
As formas do lucro, do juro do capital e da
renda fundiária aparecem de facto em Smith cdmo puras
«deduções» do produto do trabalho (19). Ricardo, supe-
rando, como se viu, positivamente, algumas das dificul-
dades da teoria smithiana do valor, (isto é, as da formu-
lação de uma teoria que tem como requisito formal
essencial que os valores não dependem eles mesmos de
valores, por sua vez, por determinar), tenta responder
à mesma exigência teórica que está na base do problema
smithiano: a de fundamentar uma teoria do valor capaz
de explicar os fenómenos da acumulação capitalista (e
é este o motivo, repetimos, pelo qual Smith avança uma
teoria do valor como a do «labour commanded»).
A este respeito, Ricardo retoma pontualmente a
análise smithiana e concebe, analogamente a Smith, a
diferença entre o valor do produto e o valor do salário,
como um «excedente».
Todavia, ele não desenvolve completamente esta
análise. De facto, por um lado, não transfoqna nunca
este «excedente» em mais-trabalho, como pelo contrário
tinha intuído Smith, e como uma teoria do mais-trabalho
exige (carência, esta, que se liga estreitamente à já refe-
rida insensibilidade ricardiana para compreender toda
a problemática smithiana); por outro, não lhe tendo
compreendido completamente a origem e a natureza,
tende sempre a identificar este novo valor, acrescentado
pelo operárioalém do necessário para reconstituir o
próprio salário, directamente com o lucro do capita-
lista. Será necessário esperar por Marx para ter uma
formulação completa e coerente da origem do «exce-
dente» como «mais-valia» ou mais-trabalho, que, coeren-
temente com tal origem, não deixa de ser referida não a
todo o capital empregado (lucro), mas precisamente
àquela parte do capital que acaba em salários (2°).
( 19) A. Smith, Riccheza cit. p. 63.
(2º) K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II, p. 256.
53
O mérito de Ricardo, todavia, continua a ser o de
ter fundamentado a análise económica sobre uma for-
mulação mais coerente da lei do valor-trabalho, e con-
sequentemente sobre uma análise mais rigorosa da troca
das mercadorias, na base da quantidade de trabalho
gasto na sua produção.
E Ricardo estava tão consciente da importância
do princípio por ele assumido que, não obstante as
dificuldades encontradas na aplicação deste às leis da
troca e da produção capitalista, ele continuou a ser o
único ponto de referência teórica de que se serviu para
explicar os factos económicos.
54
Capítulo II
OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
DA TEORIA CLASSICA DO VALOR
A formulação exposta no capítulo precedente é, nas
suas grande linhas e nos seus traços essenciais, a for
mulação ricardiana da teoria do valor-trabalho.
As dificuldades e carências teóricas que havíamos
verificado na análise da relação entre a teoria do valor
ricardiana e a smithiana, e que dizem respeito sobretudo
à total omissão, por parte de Ricardo, do problema
da existência do trabalho vivo na forma de .. trabalho
as.s..alariad9, dificuldades que se repercutem depois pon
tualmente na aplicação da sua teoria aos problemas
da economia capitalista, podem agora ser consideradas
de um outro ponto de vista, isto é, analisando o próprio
pressuposto teórico que está na base da teoria ricar
diana do valor: ou seja a natureza e o carácter do
trabalho que este economista põe na origem e essência
do valor.
Viu-se já como Ricardo, na sua resposta aos pro
blemas teóricos levantados por Smith, embora distinguin
do correctamente entre «valor» do trabalho e «quantidade
de trabalho», isto é, distinguindo a «quantidade de tra
balho» que concorre para a «determinação» do valor,
do tral,->ªlfa> Jl:!ei:c:_ªc!orill_, existente sob a forma-.de «salá�
riQ\> ou valor do trabalho que, pelo contrário, aqui
não concorre (o que lhe permite levar muito por diante,
relativamente a Smith, a investigação sobre o valor),
continua a ignorar, pelo contrário, as consequências
55
que comporta o problema da existência da troca directa
de mercadorias contra trabalho «vivo». Com isto, Ricar-
do coloca fora da análise precisamente aquilo que
constitui o traço específico e fundamental das relações
de produção capitalistas, e que é considerado como cate-
goria diferente quer pela forma transformada do «salá-
rio», sob o qual o trabalho vivo se manifesta, quer
pela forma dos produtos acabados, em que ele se objec-
tiva, que são, pelo contrário, as únicas formas, como
tínhamos procurado sublinhar, entre as quais se move
a análise ricardiana acerca da relação de troca entre
capital e trabalho.
Esta relevância do vício teórico de Ricardo, que
consiste justamente em assumir estas formas «diferen-
tes» do trabalho, sem remontar às causas que o deter-
minam (vício que já se encontrou em Smith e que é,
como Marx porá bem em evidência, o traço característico
de toda a economia política clássica), pode ser feita
também, mais em geral, com referência ao problema
de qual é, para Ricardo, a natureza daquele trabalho,
cuja quantidade, ele analogamente a Smith, põe como
elemento determinante e essencial do valor. Resulta claro
até agora como as duas faces do problema, sobre os
quais aqui nos propomos estudar os traços peculiares
da teoria do valor-trabalho ricardiana, são na realidade
uma só. Quer dizer, noutros termos, que a clareza
t_eórica relativamente ao problema da existência, da
utilização e do destino do «trabalho vivo» na sua rela-
ção com o capital, problema que será resolvido positi-
vamente só por Marx com a introdução da categoria-
-chave de «força de trabalho», implica necessariamente
uma semelhante clareza acerca da natureza e do carácter
que, mais em geral, o trabalho, origem e essência do
valor, assume na relação de produção capitalista.
Este segundo aspecto do problema começa a deli-
near-se pela primeira vez na economia clássica com
Smith, o qual é o primeiro a falar directamente em
termos de valor-trabalho e a fazer do «trabalho pro-
dutivo» a base do incremento e do desenvolvimento
da riqueza burguesa. Uma breve referência, todavia, às
soluções apresentadas pelas teorias económicas anterio-
res a Smith, relativamente aos problemas que aqui nos
interessam, ou seja relativamente . à determinação do
valor e, por isso, à análise das formas específicas da
acumulação burguesa, o lucro e a renda fundiária, e o
56
modo como a categoria do trabalho começa a apresentur
-se e a colocar-se dentro destas soluções, ajudar-nos-á ,1
compreender a contribuição teórica e ao mesmo temp< >
a riqueza e a complexidade dos problemas que a inves-
tigação dos dois economistas que estamos a estudar
oferece.
As primeiras observações económicas sistemáticas,
as dos mercantilistas, que tentam explicar a natureza
do lucro mediante o princípio da <<alienação» da merca-
doria para além do seu valor (cfr. Stewart e o profit
upon alienation), carecem, na realidade, de uma verda-
deira e própria determinação do valor das mercadorias,
que é simplesmente resolvido na acidentalidade dos
acontecimentos do mercado e da concorrência. Relati-
vamente a estas posições, um primeiro momento de
rotura é assinalado pelos fisiocratas. Estes últimos fazem
depender a origem e a natureza do valor «excedente»
do «produto bruto» (que justamente é por eles deslocado
da troca para a produção), pela natural produtividade
de um tipo particular de trabalho, o trabalho aplicado
à agricultura, que suscita sempre novo valor do pro-
duto da terra, e é capaz de criar excedente, ou seja
um valor maior do que aquele que é necessário para
a sua produção.
Para os fisiocratas são ainda as forças naturais
da produção e os caracteres materiais do trabalho a
tornar-se a fórmula resolutiva dos problemas . históricos
e das formas específicas da produção capitalista.
Com Smith e Ricardo, pelo contrário, a teoria
económica clássica assinala um ponto fundamental de
avanço.
Como fundamento, de facto, do valor das merca-
dorias, e como essência da base da acumulação capita-
lista, já não é posto o carácter determinado e específico
deste 9u daquele trabalho, a actividade comercial ou
o trabalho agrícola, mas o trabalho humano em geral,
o trabalho abstraído da sua especificação concreta, ela
base material dentro da qual [!pera.
Diz Marx, de Smith, em Para a Crítica da Economia
Política: «Depois de terem sido proclamadas verdadeiras
fontes da riqueza as formas particulares do trabalho
real, como a agricultura, a manufactura, a navegação,
o comércio, etc., Adam Smith proclamou como fonte
única da riqueza material, ou seja dos valores de uso,
o trabalho em geral, o trabalho no seu aspecto global
57
social como divisão do trabalho» (1). Smith, todavia,
que é embora o primeiro a desligar o trabalho humano
das formas concretas e materiais em que se manifesta
através da troca e a considerá-lo como trabalho abstracto,
ou seja indiferente. para com as suas determinações
particulares, por outro lado não consegue utilizar toda
a carga teórica desta descoberta e fica emaranhado
em algumas partes obscuras e complexas da sua análise
sobre o valor. Isto impede-o ao mesmo tempo de se
libertar de modo definitivo da herança dos fisiocratas.
Como estes, de facto, assumem o trabalho na base dos
seus traços «físicos» e materiais, e o consideram «dife-
rente», ou seja diversamente produtivo, conforme os
sectores em que se aplica,assim também Smith, na
determinação do trabalho enquanto trabalho produtivo,
tende a privilegiar o trabalho da agricultura, caindo
no mesmo erro dos fisiocratas de pretender explicar
através dos elementos «naturais» e eternos da produção,
os caracteres históricos específicos de um determinado
sistema produtivo.
Análogas considerações podem ser feitas para
Ricardo; pode, de facto, precisar-se agora como também
neste economista o carácter e a natureza do «trabalho»
que cria valor seja, também, embora só implicitamente
(como implicitamente o é para Smith, já que os dois
não nos deram nunca nenhuma explícita teorização· deste
problema), o trabalho em geral, o trabalho abstracto,
éuja relevância produtiva é devida não ao seu carácter
abstracto, geral.
O facto de nos termos detido neste problema, não
deixa de ter um significado. Ainda uma chamada a
Marx: «o trabalho parece uma categoria inteiramente
simples. Também a representação do trabalho na sua
generalidade - como trabalho em geral - é muito antiga.
E todavia, considerado nesta simplicidade do ponto de
vista económico, o «trabalho» é uma categoria tão mo-
derna quanto o são as relações que produzem esta
simples abstracção (2).
(') Marx, Per la critica dcll'economia política, Editori
Riuniti, Roma, 1969, p. 40-1; cfr. também Introduzioni del 1857
(in Marx, Lineamenti f.ondamentali cit., I, p. 31): «Adam Smith
faz um enorme progresso rejeitando todo o carácter determi-
nado da actividade produtora de riqueza e considerando-o tra-
balho sem mais nada: não trabalho mariufactureiro, nem comer-
cial, nem agrícola, mas tanto um como o outro».
(') K. Marx, Introduzione del 1857, p. 30
58
Deste modo, com a assunção, embora só implícita,
da categoria do trabalho abstracto por parte da eco-
nomia política clássica, começa a delinear-se aquilo que
é o traço específico fundamental e necessário da própria
existência do capital, o carácter de «abstracção do tra-
balho. «Poderia parecer- continua Marx - que assim
se teria encontrado apenas a expressão abstracta para
a mais simples e antiga relaçãdr._ em que os homens
aparecem como produtores, qualquer que seja a forma da
sua sociedade. A indiferença por um género determinado
de trabalho pressupõe uma totalidade muito desenvolvida
de géneros reais de trabalho, nenhum dos quais preva-
lece sobre o conjunto». «Por outro lado, esta abstracção
do trabalho em geral não é apenas o resultado mental
de uma concreta totalidade de trabalhos. A indiferença
pelo trabalho determinado corresponde a uma forma
de sociedade em que os indivíduos passam com facili-
dade de um trabalho para outro em que o género
determinado do trabalho é para eles fortuito e por
isso indiferente. O trabalho, aqui, tornou-se não só na
categoria, mas também na realidade, o meio para criar
riqueza em geral, e, como determinação ele cessou de
crescer com os indivíduos numa dimensão particular» (3).
A forma abstracta do trabalho é, pois, para Marx,
a forma «determinada» que o trabalho assume nas
condições históricas do modo de produção capitalista
e só é válida para e nestas condições; ela é, .também, a
forma fundamental e específica destas condições: por-
tanto, compreender como o trabalho «abstracto» se
produz e opera significa também compreender a origem
do mecanismo do próprio capital.
Como se produz? Partamos da existência que os
produtos do trabalho assumem: a de serem «merca-
dorias», fim específico e generalizado da produção capi-
talista; agora, a troca entre as mercadorias torna-se
possível só enquanto se abstrai dos seus particulares
valores de uso, isto é, da sua representação «qualitativa»,
e são considerados equivalentes, permutáveis, unicamente
segundo determinadas relações quantitativas; a seu modo,
o «trabalho», que cria estes valores, existe não segundo
a sua forma útil, mas como trabalho puramente abstrac-
to, trabalho, por assim dizer, «privado de qualidade».
Esta é a convicção de Marx: ele é o primeiro a
(3) K. Marx, Introduzione, pp. 31-2. O sublinhado é nosso.
59
dar-nos uma teorização do género. «Para medir os valores
de troca das mercadorias na base do tempo de trabalho
nele contido, os diferentes trabalhos deverão ser redu-
zidos a trabalho simples, indiferenciado e uniforme, em
suma ao trabalho que qualitativamente é sempre igual,
e se diferencia só quantitativamente» (4). E é ainda
Marx que demonstra como através do processo de auto-
nomização do trabalho, como essência do valor, permite
não só a determinação do valor de troca na base do
tempo de trabalho, mas a compreensão em geral· do
processo de produção moderno, enquanto produção de
riqueza abstracta.
E não é por acaso que foi ele o primeiro a fazê-lo:
a determinação da forma «abstracta» do trabalho implica
necessariamente a consideração «histórica», isto é «crí-
tica», das próprias condições da produção capitalista,
o que não é certamente compatível com o método dos
economistas burgueses, os quais anulam todas as dife-
renças históricas, e em todas as formas de sociedade
vêem a sociedade burguesa.
Chegamos aqui ao ponto que mais nos interessa:
Smith e Ricardo não se afastam de facto, do ponto de
vista geral de tais economistas: eles continuam, intei-
ramente «dentro» da ideologia do progresso, da civili-
zação, do igualitarismo que constituem os «mito~» da
sociedade burguesa, e que se traduzem, no plano eco-
n_ómico, na eternização das categorias capitalistas.
O exemplo do trabalho mostra-o de modo evidente: a
assunção da categoria do trabalho abstracto, por pctrte
de Smith e Ricardo, é a constatação «acrítica» de um
dado facto, de uma condição real do trabalho no modo
de produção burguesa. A nenhum dos dois ucorre ao
espírito «como» isto acontece, ou seja como a distinção
puramente quantitativa dos trabalhos pressupõe a sua
unidade qualitativa, ou. seja igualdade, e por isso a sua
redução a trabalho abstractamente humano, e «porquê».
Ambos fazem, «de facto», a distinção quantitativa dos
trabalhos, mas não podem dizer-nos nada nem sobre
como ela se produz, nem o que propriamente ela signi-
fica: em conclusão, não podem dizer-nos nada, sobre
a caracterização histprica e a função específica que o
trabalho, como trabalho abstracto, assume e desenvolve.
(') K. Marx, Per la critica, p. 12.
60
Da falta de individuação deste problema, ou seja do
como e do porquê o trabalho que se representa nos
valores é trabalho abstracto, procede imediatamente o
outro, fundamental, «esquecimento» · dos economistas:
do porquê o trabalho assume a forma de valor, ou do
porquê o produto do trabalho humano deve apresentar-se
como mercadoria (5). E não podia ser de outro modo:
como é «eterno» o trabalho abstracto que é fonte de
valor, assim a mesma forma de valor, que o trabalho
assume, é a eterna forma natural da produção social.
Pelo contrário, e será ainda uma vez mais Marx a descobri-
-lo, a forma de valor assumida pelo trabalho (que para
Smith e Ricardo não constitui nunca objecto de análise
como tal, mas é completamente absorvida pela análise
da grandeza do valor) é a forma mais abstracta, mas
também a mais geral do modo de produção burguesa,
por constituir a sua forma peculiar e específica.
Estas considerações gerais sobre a categoria funda-
mental do trabalho abstracto encontram uma exacta
confirmação pelo exame das insuficiêi':lcias da análise
ricardiana do valor e da grandeza do valor, que é todavia
a mais avançada da economia clássica.
Ricardo, de facto, tendo embora clara e definitiva-
mente feito do trabalho a fonte do valor, encontra-se
depois, na aplicação da sua teoria, face aos mais
importantes aspectos da economia capitalista, de difi-
culdades irresolúveis dentro dos pressupostos de tal
economia.
A raiz destas insuficiências de fundo da análise
ricardiana está substancialmente no facto de que Ricardo
nunca esteve em situação de apresentar de modo explí-
cito o trabalho que é essência dos valores, como tra-
(5) Marx surpreendecom extraordinária agudeza este
ponto: «A economia política analisou, certamente, embora
incompletamente, o valor e a grandeza do valor, e descobriu
o conteúdo escondido destas formas. Mas nunca pôs nem o
problema do porquê aquele conteúdo assume aquela forma,
e por isso do porquê o trabalho se apresenta no valor, e a
medida do trabalho mediante a suà duração temporal se ,1pre-
senta na grandeza do valor do produto». E acrescenta logo
depois: «Estas fórmulas trazem a marca de pertencerem a
uma formação social na qual o processo de produção domina
os homens e o homem não domina ainda o processo produ-
tivo : e elas valem para a sua consciência burguesa como
necessidade natural, tão óbvia como o próprio trabalho pro-
dutivo» (K. Marx, ll capita/e, Editori Riuniti, Roma, 1964, I,
pp. 112-3).
61
balho abstracto (6). Para demonstrar esta afirmação é
oportuno um parêntesis sobre este problema, utilizando
directamente a posição e as categorias marxistas.
De facto, que a forma do trabalho em abstracto,
assim como se manifesta nos valores de troca das
mercadorias, seja na realidade uma forma mediata, um
ponto de chegada histórico, determinado por específicas
relações de produção, e não um dado natural, e um
elemento originário de cada relação económica, torna-se
claro só com Marx, assim como se torna claro que tal
redução constante do trabalho a trabalho abstracto, ou
seja tal processo de igualização de trabalhos diferentes
como «abstracção da sua real desigualdade» (7), se produz
(6) É isto o que Marx entende dizer quando afirma que
na realidade Ricardo não se ocupa nunca da «forma» e do
carácter do trabalho, ou seja da determinação específica do
trabalho enquanto criador de valores de troca; ou também,
o que é o mesmo, que Ricardo não procura nunca o valor
segundo a «forma» (a forma determinada que o valor assume
como essência do valor), mas determina só a «grandeza» dos
valores, e as suas relações (isto é, as grandezas dos valores das
mercadorias estão entre sí como a quantidade de trabalho
necessária para as produzir): cfr. K. Marx, Storia d!elle teorie
economiche, vol. II, pp. 13-4 e 18. E de facto (idem, pp. 556-7)
Ricardo «em geral não considera que a determinação quantita-
tiva do valor de troca segundo a qual o valor de troca é · igual
a um determinado quantum de tempo de trabalho, esquecendo
pelo contrário a determinação qualitativq, segundo a qual o tra-
balho individual deve representar-se mediante a sua alienação
(alienation) como trabalho social, abstractamente geral». Na rea-
lidade, o «valor enquanto tal é sempre efeito, nunca causa»
(K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II, p. 363). Ricardo, pelo
contrário, limita-se a descrever o efeito sem nunca procurar
a causa.
Tal crítica encontra-se também expressa no Capital cm que
Marx afirma que «mesmo nos seus melhores representantes,
como Smith e Ricardo, ela (a economia política) trata a forma
de valor como qualquer coisa de absolutamente indiferente ou
de exterior à própria mercadoria» K. Marx, Il capitale, p. 112,
nota 32). De resto, este facto é explicitamente teorizado pelo
próprio Ricardo, quando afirma querer procurar, através da
sua teoria, o valor «relativo» das mercadorias e não o «abso-
luto». Pelo contrário, corno veremos, a teoria marxista funda-se
precisamente sobre a distinção e sobre o nexo entre a «essên-
cia de valor» e a determ\nação da «grandeza de valor» mediante
o tempo de trabalho socialmente necessário; nexo-distinção entre
valor absoluto e valor relativo das mercadorias, ou melhor,
entre valor enquanto tal e a sua «formá fenoménica», o «seu
modo de expressão» o valor de troca.
(7) K. Marx, Il capitale, I, p. 105
62
e acontece cada dia realmente (e não é por isso uma
abstracção mental) na troca ('). O trabalho abstracto,
portanto, como categoria «histórica» e realmente exis-
tente nas relações de troca das mercadorias é contem-
poraneamente, para Marx, a própria existência social
do trabalho nas relações de produção capitalistas. Mas
tal «sociabilidade» é totalmente particular. Ela é carac-
terizada, por um lado, pela mediação necessária da redu-
ção real, no valor de troca, de trabalhos diferentes a
trabalho de igual espécie; por outro, pelo facto de que
a medida deste trabalho, o tempo, não é o tempo de
trabalho de um indivíduo, mas do «indivíduo indiferen-
ciado por um outro» (9), o tempo de trabalho «geral»
o tempo social «necessário», que cada indivíduo empre-
garia na produção da mesma mercadoria.
Deste modo, o trabalho, para ser social, deve passar
através da «forma do seu directo oposto, a forma da
generalidade abstracta» (10), desde o momento em que
a igualdade abstracta, nos valores de troca, dos trabalhos
desenvolvidos autonomamente uns dos outros, dos tra-
balhos privados, é o único modo de realização social
de tais diferentes trabalhos.
Duas últimas considerações são necessanas para
esclarecer este ponto: uma é que a natureza «social»
do valor, isto é, de ser produto do trabalho humano,
precisamente pelo carácter abstracto e mediato da troca,
do trabalho, não se manifesta imediatamente: «o valor
não traz escrito na testa aquilo que é» (11): pelo contrário
ele «esconde» as reais relações sociais que estão dentro
dele, e aos produtores «as realizações sociais dos seus
trabalhos privados aparecem como aquilo que são, ou
seja, não como relações imediatamente sociais entre
pessoas nos seus próprios trabalhos, mas pelo contrário
como relações de coisas entre pessoas e relações sociais
entre coisas» (12).
As relações «sociais» dos diferentes trabalhos e dos
seus produtores aparecem por isso aos próprios produ-
tores como uma directa emanação dos seus produtos.
:É a «isto» que Marx chama «feiticismo» das mercado-
(8) K. Marx, Per la critica p. 12.
(') Idem, p. 14.
('º) Idem, p. 16.
(") Karl Marx, ll capita/e, I, p. 106.
(12) Idem, p. 105.
63
rias - ou a «mistificação» do mundo das mercadorias,
que consiste em fazer de uma relação social um elemento
intrínseco às mesmas coisas que são expressão desta
relação.
Mas esta «mistificação» é na realidade o «espelho»
de relações sociais efectivamente «postas do avesso»:
àqueles que trocam os seus produtos, o seu próprio
movimento social surge como movimento social de «coi-
sas» sob o controlo das quais eles se encontram, em
vez de o ter sob o seu. Daqui a segunda consideração
que entendemos fazer: a forma «social» do trabalho não
é um produto da vontade e da acção dos indivíduos, mas
é uma forma que se «impõe» fora e independentemente
da sua, através daquelas relações de troca, «casuais e
sempre oscilantes», nas quais «triunfa com a força
enquanto lei natural reguladora, o tempo de trabalho
socialmente necessário» (13) para a produção das merca-
dorias. «O trabalho, assim medido mediante o tempo,
não aparece de facto como trabalho de indivíduos dife-
rentes, antes os diferentes indivíduos que trabalham apa-
recem pelo contrário como simples órgãos do tra-
balho». (14).
A realização «social» do trabalho surge, portanto,
paradoxalmente, como a negação de si mesmo, a contra-
posição, como força independente e «hostil» aos indiví-
duos que trabalham, do tempo de trabalho necessário.
As formas desta contraposição constituem - ante-
cipamos aqui algumas categorias marxianas que nos pro-
pomos desenvolver e aprofundar em seguida-as próprias
formas do predomínio do capital, que, como trabalho
«objectivado», e ele mesmo produto do trabalho, se
contrapõe como força social autónoma ao. trabalho vivo,
à força de trabalho. Daqui, ou seja da análise da forma
do trabalho abstracto àquela que Marx chama a forma
«alienada» do trabalho, o passo é curto.
Todavia; o aprofundamento do laço entre a forma
abstracta das relações sociais de produção e trabalho
alienado na sociedade capitalista, que constitui o traço
específico e peculiar da teoria do valor marxiana, será
objecto do nosso estudo em seguida, quando tratarmos
de Marx. Agora interessa-nosretomar e definir com pre-
cisão o discurso sobre Ricardo.
(B) Idem, p. 107.
(") K. Marx, Per la critica, pp. 12-13.
64
Quanto a este ponto, de facto, seja-nos consentido
retomar a análise até aqui desenvolvida acerca do que
se disse das carências da investigação ricardiana relati-
vamente ao problema do «trabalho» em relação à «força
de trabalho».
De facto, disse-se, a falta de distinção entre tra-
balho e força de trabalho, que caracteriza a teoria ricar-
diana do valor e determina uma boa parte das suas
insuficiências, pode remontar à ausência, em Ricardo,
da noção de trabalho abstracto.
Tal afirmação pode agora, à luz das últimas consi-
derações, ser definitivamente esclarecida.
A categoria do trabalho abstracto, enquanto cate-
goria real e também a mais geral do modo de produção
capitalista, permite explicitar, neste tipo de produção,
quer o carácter geral, de ser destinada unicamente à pro-
dução de riqueza abstracta, e de pôr na sua base neces-
sária o valor de troca, quer, sobretudo, o seu carácter
específico, aquele pelo qual é reduzida a mercadoria e
incorporada no capital a própria força fornecedora de
trabalho.
O trabalho humano, de facto, como produtor de
mercadorias (e isto verifica-se já na troca simples, ou
seja numa fase logicamente precedente ao capital) é
trabalho abstracto; tal carácter de abstracção é todavia,
plena e definitivamente assumido pelo trabalho, só
quando, com o capital, a fim de que a riqueza .abstracta
seja constituída como fim único do processo económico,
os mesmos produtores imediatos lhe estiverem subme-
tidos. A força de trabalho é justamente a realidade desta
sua redução a capital. É, pois, o trabalho abstracto
enquanto produtor de mercadorias o pressuposto sem
o qual não se dá a realidade da força de trabalho, nem
se tem a compreensão desta última.
Destas últimas observações é-nos justamente con-
sentido· remontar à unidade real dos dois momentos da
realidade económica que estamos analisando: trabalho
abstracto e força de trabalho. .
Resulta agora claro que se a existência da força
de trabalho, reduzida a momento e elemento do capital
e que constitui o carácter específico do processo capi-
talista de produção, existe só quando seja pressuposto
o capital (a produção generalizada de mercadorias); por
outro lado é também verdade que o carácter abstracto
do trabalho, ou seja a plenitude e a generalidade da
65
realidade capitalista, existe definitivamente só enquanto
existe a troca de mercadorias contra o trabalho e a
força de trabalho se torna o eixo do processo de repro-
dução do capital.
O trabalho abstracto, de facto, ou seja o trabalho
que cria valores de troca, enquanto não é um produto
da «natureza», nem um elemento incondicionado e objec-
tivo da produção, não pode senão ser expressão do tra-
balho «vivo» numa particular forma histórica, caracteri-
zada pela produção generalizada de mercadorias, em
que o mesmo trabalho vivo existe como «mercadoria».
O trabalho abstracto, o trabalho «social» igual, que se
concretiza nos produtos, não é por isso senão a força
de trabalho viva, que actua no processo laboral, ou seja
a capacidade laboral humana, considerada como simples
dispêndio «energético» (15) de «uma certa quantidade de
músculos, nervos, cérebro, etc., humanos» (16). A exis-
tência da mercadoria-trabalho, do trabalhador reduzido
a mercadoria, a existência da força de trabalho, significa
por isso a completa redução do trabalho a tempo de
trabalho, a simples dispêndio quantitativo de força
humana, sem atender à «forma» e à «qualidade» do seu
dispêndio.
Correspondentemente, aqueles «coágulos homogé-
neos de trabalho» que são as mercadorias têm atrás das
costas uma forma determinada e específica de trabalho,
o trabalho sempre igual, abstracto, valor de uso de força
·de trabalho humana genérica, em. conclusão, o trabalho
«usado» capitalisticamentc.
Deste modo, a precedente afirmação, segundo a
qual Ricardo, na determinação do valor, partia sempre·
da existência dos produtos acabados na sua forma de
trabalhos «objectivados», mostrando-se incapaz de sur-
preender o problema da existência e do papel do traba-
lho vivo, vê-se agora confirmada, a um nível de clareza
mais alto, nà impossibilidade por parte de Ricardo de
desenvolver a categoria do trabalho assumida na base
da sua teoria do valor, que é o pressuposto lógico e his-
(15) Por outros termos, diz Marx, esta essência social
(o trabalho abstracto) 'comum aos produtos do trabalho, é uma
«simples concretização do trabalho humano indistinto, ou seja
de dispêndio de força laboral humana sem atender à forma do
seu dispêndio» (K. Marx, ll capitale, p. 70).
(16) Idem, p. 203.
66
tórico daquela existência e por sua vez precisamente
dela extrai a sua plena realidade.
Para Marx, a causa disto está no facto de que,
fechar-se nas formas objectivadas, transformadas, do
trabalho, que constituem aquelas que ele considera as
formas «reificadas» e «mistificadas» que os produtos
do trabalho assumem como valores de troca, significa
«não descobrir» a realidade das relações sociais que se
escondem por detrás destas formas.
Em Ricardo, e com ele toda a economia política
clássica, de que ele representa o ponto mais alto, «a rela-
ção social das pessoas apresenta-se por assim dizer ao
contrário, isto é, como relação social das coisas» (17).
Deste modo, a determinação da grandeza de valor
mediante o tempo de trabalho, como é para Ricardo,
por um lado «elimina a aparência de determinação pura-
mente casual das grandezas de valor dos produtos do
trabalho, mas não elimina de facto a sua forma de
coisas», ou seja, «não dissipa de facto a aparência que
o carácter social do trabalho atribui aos objectos» (18).
Pelo que a descoberta científica de que os produ-
tos do trabalho, enquanto valores, não são senão a expres-
são em forma de coisas do trabalho despendido para a
sua produção, não basta, por si só, para fundamentar
uma teoria do valor que explique e determine a comple-
xidade dos fenómenos capitalistas.
Portanto, as carências teóricas da análise ricar-
diana do valor, que podem, por um lado, ser considera-
das como a identificação da forma capitalista do traba-
lho, o trabalho em abstracto, com toda a forma social
do trabalho e consequentemente, por outro, a assunção
da categoria do trabalho, em relação ao capital, unica-
mente na sua forma objectivada (a forma transformada
do salário que a força de trabalho, como valor de troca,
assume), sem consideração por isso pelo papel que a
capacidade laboral humana que como força viva entra
no processo de produção, desenvolve, impedem esta teo-
ria do valor-trabalho de superar aquela dificuldade, em
que ela pelo contrário cai, no momento em que tenta
explicar a dinâmica global da relação entre trabalho e
capital no processo de produção.
( 17) K. Marx, Per la critica p. 16.
( 18) K. Marx, ll capitale, I, pp. 106-7.
67
Sempre ligada a estes nós teóricos por deslindar,
isto é, à falta de análise, dos pontos de partida princi-
pais para a determinação dos valores de troca na base
do tempo de trabalho, está por outro lado a incapaci-
dade ricardiana (e, é inútil repeti-lo, de toda a economia
clássica antes de Marx) de surpreender uma última dis-
tinção fundamental: a do duplo carácter do trabalho sob
o capital: isto é, do trabalho que, enquanto criador de
valores de troca, é trabalho abstracto, pura determina-
ção quantitativa, trabalho igual em que «é cancelada a
individualidade de quem trabalha», e do trabalho que,
enquanto produtor de valores de uso, é actividade «útil»
concreta específica, volta a adaptar o material sobre
que se trabalha a este ou àquele objectivo.
«Enquanto o trabalho que cria valor de troca se
realiza na igualdade das mercadorias como equivalentes
gerais, o trabalho, como actividade produtiva conforme
ao fim, realiza-se na infinita variedade dos seus valores
de uso» (19). Ou seja, e está aqui a sua diferença essen-cial, este último, como actividade conforme ao objectivo,
é «condição natural da existência humana, é uma condi-
ção da troca orgânica entre homem e natureza. O traba-
lho que cria valor de troca é, pelo contrário, uma forma
especificamente social do trabalho» (2°).
Esta distinção fundamental que retomaremos de
modo específico quando tratarmos de Marx, interessa-
-nos agora, porquanto ilumina, de um outro ponto de
vista, o defeito de fundo da economia política clássica,
que, como já notámos, continuamente oscila da deter-
minação das formas naturais da produção como forma
da produção capitalista, à análise, pelo contrário, dos
caracteres específicos da produção capitalista, como for-
mas naturais e imediatas de cada relação' produtiva (21).
Para a economia clássica, de facto, o carácter do
trabalho, de ser criador de valores de troca, logo o seu
carácter abstracto, parece brotar directamente do seu
ser útil, do seu fixar-se em valores úteis. Deste modo,
(1 9) K. Marx, Per la critica cit., p. 18.
(2º) Tde111.
(21) Aos economistas modernos, diz Marx com eficácia,
«ora aparece corno relação social aquilo que eles estupidamente
julgavam estabelecer como coisa, ora os irrita de novo como coi~a
aquilo que tinham apenns acabado de estabelecer como relaçao
social» (idem, p. 17).
68
o trabalho abstracto, além de perder toda a sua cono-
tação «social» específica, torna-se um prolongamento
da determinação útil, concreta, do trabalho, assumindo
ele mesmo, como esta última, um carácter natural ima-
nente ao trabalho em geral.
Portanto, embora a economia clássica, especial-
mente nos seus máximos expoentes, Smith e Ricardo,
implicitamente faça distinção entre trabalho concreto e
trabalho abstracto, considerando o trabalho, pela pri-
meira vez, quantitativamente, pela segunda, qualitativa-
mente, não esclarece nunca o efectivo salto «qualitativo»
que existe entre os dois momentos: que é pois o «salto»
entre a forma do trabalho «em geral» e a forma capita-
lista do trabalho.
Tal carência teórica, que é claríssima em Smith,
que na análise das relações económicas parte sempre
do pressuposto geral da troca (fazendo sempre derivar
da troca a própria divisão do trabalho), do mesmo modo
se faz sensivelmente sentir em Ricardo, que aparece
substancialmente agarrado à determinação do trabalho,
unicamente como trabalho que cria valores de troca (22).
Esta falta de análise traduz-se, depois, a um nível
mais alto, na indistinção entre trabalho que, enquanto
tal, cria valores, isto é, satisfaz determinadas necessida-
des, e trabalho assalariado - a forma do trabalho capi-
talista - que, produzindo valores de troca, cria mais-
-valia. Ou ainda, antecipando alguns pontos da análise
seguinte, traduz-se na incapacidade de distinguir, no
próprio processo de produção, entre actividade laboral
em geral, que conserva e reproduz em novos valores os
valores de uso existentes, como matérias e instrumentos
(22) Por outro lado, diz Marx, Smith entende «o trabalho
como criador de valor, mas concebe o mesmo trabalho como
valor de uso, como produtividade que existe por si, capacidade
natural· humana em geral (o que o diferencia dos fisiocratas),
não como trabalho assalariado, isto é, não na sua determinação
formal específica oposta ao capital». O mesmo se pode dizer
de Ricardo, que entende «o trabalho assalariado e o capital
não como uma determinada forma 'histórica da sociedade, mas
como uma sua forma natural, destinada à produção de riqueza
enquanto valor de uso». Por isso, do ponto de vista económico,
se bem que Ricardo assuma como ponto de partida o valor
de troca, as mesmas f armas económicas ele terminadas da troca,
sendo consideradas como formas «naturais», como formas ade-
quadas da riqueza, «não cumprem nenhuma função na sua
economia» (K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, pp. 324-5;
cfr. também p. 328.
69
de trabalho, e processo específico de aumento de capital,
mediante produção de novos valores, de excedente ou
mais-valia (23), em resumo, na falta de distinção entre o
que Marx chama processo laboral e processo de valori-
zação de capital.
Pareceu-nos oportuno determo-nos antes demora-
damente sobre pressupostos teóricos da teoria ricardiana
do valor-trabalho, porquanto, precisamente tais pressu-
postos explicam, depois, a incongruência e os erros da
sua investigação económica relativamente a problemas
decisivos, como a análise do dinheiro, a determinação
dos preços de produção, da taxa de lucro, da renda fun-
diária, etc., a que ele aplica directamente a sua determi-
nação do valor, sem passar através daqueles necessários
termos médios que, por si sós, garantem a sua aplica-
ção científica. Fizemos por isso amplas referências à
análise marxiana que, pelo contrário, nos parece a expli-
citação mais clara destes «termos médios».
Podemos resumir nestes termos os resultados da
análise até aqui desenvolvida: a carência teórica que
Ricardo mostra na individuação da existência do tra-
balho vivo na sua relação com o capital e que, como
se viu, o impede de isolar a categoria da mercadoria
trabalho, e de não considerar sequer, por isso, o pro-
blema da diferença do «trabalho» das outras mercado-
rias (trabalho vivo e trabalho objectivado), repercute-se
na impossibilidade, para Ricardo, de ir além na deter-
minação do trabalho abstracto, · isto é, do trabalho
enquanto criador de valores de troca.
A mesma afirmação de resto pode ser posta ao
contrário: isto é, pode dizer-se, como se apontava no ·
início do capítulo, que a mesma falta e:m Ricardo do
significado e do papel do trabalho abstracto como con-
( 23) Sobre o modo específico de «como» esta produção
de mais-valia acontece, ver-se-á mais adiante. Contudo ela con-
figura-se, perspectivámo-lo já ao tratar de Smith, como «uso»
por parte do capital, da força de trabalho, além do tempo de
trabalho necessário para ela satisfazer simplesmente as suas
necessidades físicas e sociais (a sua manutenção, a sua formação;
etc.) e que é representado pelo valor do salário. O novo valor
produzido, que corresp,onde a trabalho «não pago», é a origem
do lucro e da renda; produz-se mediante a «adição» simples-
mente «quantitativa» do trabalho (cfr. K. Marx, ll capitale, cit., I,
p. 235). «Apenas o tempo de trabalho· socialmente necessário
conta como criador de valor» e de mais-valia, consequentemente
(idem, p. 224).
70
ceita chave para a compreensão da natureza do capital,
impede-o depois de «descobrir» a existência e o papel da
força de trabalho no processo de produção.
Estas duas faces do problema articulam-se uma
na outra: como de facto a existência da força de traba-
lho não pode ser concebida fora do âmbito do processo
de produção capitalista, que tem como finalidade a pro-
dução de mercadorias, ou seja de riqueza abstracta, e
não pode ser por isso sequer pensada fora da presença
real do trabalho tornado abstracto, assim, ao invés a aca-
bada e definitiva realização «abstracta» do trabalho é
o resultado da existência do mesmo trabalho como mer-
cadoria, da existência da força de trabalho.
Os dois problemas estão por isso de tal modo entre-
laçados um no outro, que não dominar um significa não
dominar os dois.
Isto aconteceu com Smith, o qual embora colhendo
a especificidade do capital na existência do trabalho
vivo, não consegue dar peso científico à sua descoberta
com a sua inserção numa perfeita teoria do valor, fun-
dada sobre o conceito de trabalho abstracto; isto acon-
teceu com Ricardo, o qual embora tendo dado uma
definição coerente do valor, não consegue depois inse-
ri-la na especificidade do capital, ou seja na realidade
histórica da exploração pela presença da força de tra-
balho.
Também para Ricardo, como para Smith, pode
pois dizer-se que a falta ele consideração do problema
da relação entre trabalho e força de trabalho faz perder
vigor e aplicabilidade, ou seja faz perder cientificidade
à sua descoberta da lei do valor. Estas considerações
finaispermitem-nos concluir o discurso sobre a relação
entre Ricardo e Smith, e sobre o carácter que a teoria
ricarq.iana por isso assume.
Ricardo, de facto, não compreende as íntimas
razões do problema smithiano: isto é, que em Smith
existe, quer embora de modo contraditório, primeiro:
que o trabalho assalariado é uma mercadoria, e que para
ele não vale a lei do valor; segundo - e é este um
problema que se encontrará, do mesmo modo, em
Malthus -: que a valorização de uma mercadoria, na
qual consiste o carácter originário e específico da
acumulação capitalista, depende não do tempo de tra-
71
balho nela contido, mas da quantidade de trabalho
vivo que ela domina (24).
E tudo isto, ou a falta de distinção entre «trabalho»
e força de trabalho, entre trabalho vivo e trabalho objec-
tivado, paradoxalmente acontece sem que seja minima-
mente atacada a correcção formal da teoria do valor-tra-
balho ricardiana - do valor determinado pelo tempo de
trabalho. De facto, para a determinação do valor é indife-
rente, como o próprio Ricardo observa, que o trabalho
seja objectivado ou vivo, ou, como ele se exprime, seja
passado ou presente; tal proposição é de facto totalmente
verdadeira, quando nos é posta, como Ricardo faz, do
ponto de vista dos produtos acabados, isto é, quando
não nos é exigido como e donde estes produtos acabados
provêm.
Mas, posto que as formas de trabalho presente e
passado, que aparecem em Ricardo, e que poderiam
ser assimiladas àquelas de trabalho vivo e objectivado,
são sempre, na realidade, duas formas objectivadas de
trabalho - o que constitui o obstáculo mais sério para
a teoria ricardiana para explicar o problema da natureza
da acumulação, levantado por Smith-, a afirmação
precedente (da indiferença entre trabalho vivo e objec-
tivado na determinação do valor) é ao mesmo tempo
inexacta. Tal diferença, de facto, quando nos afasta da
realidade estática e «neutra» das mercadorias já· pro-
duzidas, torna-se uma diferença decisiva para a deter-
minação do valor, ou seja de corno o valor é criado,
e essencial relativamente à explicação da troca entre
mercadoria e «trabalho», na qual tem origem a própria
acumulação. Disso se aperceberá o próprio Ricardo,
quando, como veremos, precisamente pqr causa das
diferentes quotas de trabalho vivo e trabalho objectivado
(para ele, de trabalho presente e passado) que influem
de maneira diferente, para capitais iguais, sobre a for-
mação dos valores e da mais-valia, não conseguirá
explicar a diferença dos preços pelos valores.
Mais uma vez, pois, se verifica como o ter feito
remontar correctamente (como acontece com Ricardo)
o valor ao tempo de trabalho significa ter posto um
fundamento necessário, mas não suficiente, para a validez
científica da teoria do valor-trabalho. Por outro lado,
é determinado como dever específic_o de tal teoria pre-
(24) K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., II, p. 109.
72
cisamente o de saber dar razão do modo de formação
dos valores por obra do trabalho, e ao mesmo tempo
do modo de produção de mais-valia entendida como
mais-trabalho.
Destas considerações gerais sobre a teoria do
valor-trabalho ricardiana, surge bem claro o carácter
e a função que esta teoria desenvolve. Em resumo:
aceite como dado o capital e as suas categorias, o seu
objectivo é determinar as relações funcionais que se
estabelecem entre estas grandezas - capital, trabalho,
salário, lucro. Neste sentido, tal teoria (embora não se
queira dar a esta afirmação nenhum sentido redutivo)
é principalmente instrumento de «medida» quantitativa
dos valores.
Pelo contrário, uma correcta formulação da teoria
do valor pressupõe toda uma série de mediações que
requerem uma explicitação também qualitativa da lei.
Teremos ocasião de ver como a teoria marxiana do
valor representa qualquer coisa mais do que uma simples
teoria do valor (daí, como veremos, a sua irredutibilidade
às teorias do valor precedentes); de facto «ela não só
tem a função de explicar o valor de troca ou os preços
em sentido quantitativo, mas também de evidenciar a base
histórico-social no processo laboral de uma sociedade
fundada na troca ou produção de mercadorias, com
a própria força de trabalho, reduzida ao papel de
mercadoria» (25).
(25) M. Dobb, «Introduzione» a K. Marx, Per la critica
cit., p. XIII.
73
Capítulo III
AS DIFICULDADES DA TEORIA RICARDIANA:
1. O VALOR DO TRABALHO
Esclarecidos, deste modo, os pressupostos teóricos da
investigação de Ricardo, podemos passar a analisar as
dificuldades que ele tem de afrontar, para tornar compa-
tível a sua teoria do valor-trabalho às leis da troca e
da produção capitalista.
São pelo menos dois os pontos em que Ricardo
é constrangido, implícita ou explicitamente, · a «modi-
ficar» a sua teoria do valor-trabalho: o primeiro, na
determinação do valor ou preço do trabalho; o segundo,
na determinação dos preços de produção e da taxa
geral do lucm. Num caso, que constitui um ponto
nodal do seu sistema, Ricardo deve num certo sen-
tido violentar a lógica, e falar do valor ou preço
do «trabalho» (que não é possível estabelecer) como
valor qu preço do «salário» que o trabalhador recebe.
Não obstante isto, ele consegue todavia definir correc-
tamente o valor do salário real, na base da quantidade
de bens, de meios de subsist?ncia que ele está em
situação de adquirir.
No outro caso, na determinação dos preços de
produção, em que pela presença de uma taxa geral de
lucro, a lei do valor e da mais-valia parece de todo
ausente, e os preços parecem determinados unicamente
pelo mecanismo da concorrência, Ricardo faz depender
o valor das mercadorias, não apenas da quantidade de
75
trabalho necessano à sua produção, mas também do
valor do trabalho. Neste caso Ricardo abandona explici-
tamente a sua originária determinação do valor.
Procuremos analisar o primeiro caso.
Em Ricardo encontra-se a mesma expressão de
«valor» ou «preço do trabalho», que os economistas
trazem directamente da prática do mercado, segundo
a qual a compensação que o trabalhador recebe é o
preço ou o valor do seu próprio «trabalho».
Mas a assunção imediata desta categoria, em
Ricardo, levanta uma série de dificuldades: antes de
mais, a de voltar a propor o problema, já encontrado
em Smith, que, tendo ele (como Smith) assumido preci-
samente o trabalho como origem e essência do valor,
encontra-se agora, pelo contrário, a dever determinar
o valor deste trabalho. Isto por um lado. Pelo outro,
se a lei ricardiana do valor-trabalho fosse rigidamente
aplicada à determinação do valor do trabalho, então
este último deveria depender da quantidade de trabalho
contido no trabalho, ou - como explica Marx - o valor
de uma jornada de trabalho, de doze horas, por exemplo,
seria determinado pelas «doze horas de trabalho contidas
na jornada de trabalho de doze horas; o que não é
senão uma insulsa tautologia» (1).
Na realidade, e abrimos aqui um parêntesis, se a
categoria do valor do trabalho existisse verdadeiramente,
então, diz Marx (2), ou o capitalista paga realmente
este valor ao operário, de modo que o preço do trabalho
deste iguale o preço do seu produto, com a consequência
de que a produção de mais-valia e por isso o próprio
capital seriam abolidos; ou então, o trabalhador não
recebe inteiramente o valor do produto do. seu trabalho,
no preço do seu trabalho: e em tal caso seria eliminada
a mesma lei do valor. De notar como voltam a apre-
sentar-se as mesmas dificuldades analisadas em Smith.
Todavia, Ricardo evita bastante engenhosamente
estas dificuldades, e «com uma hábil manobra» (é esta
a expressão usada por Bailey, ironizando sobre o método
da operação ricardiana) faz depender o valor do «tra-
balho» do valor do «salário», ou seja da quantidade
de trabalho necessária para produzir o salário; com
o que ele entende a · quantidade de trabalho necessária
(1) K. Marx, Il capitale, cit., I, p. 585.
(') Idem, p, 592.
76
para produziro dinheiro ou as mercadorias que o
trabalhador recebe.
Tal operação, todavia, se por um lado dá a justa
determinação do salário real do trabalhador, que efec-
tivamente se calcula na base da quantidade de trabalho
necessária para produzir os meios de subsistência que
permitem ao trabalhador conservar-se e reproduzir-se,
por outro, consistindo numa simples sobreposição do
valor do salário ao valor do «trabalho», sem que esteja
compreendido o desfasamento entre as duas expressões,
constitui da parte de Ricardo um novo modo de fugir ao
problema da função do trabalho vivo no processo produ-
tivo, a de elemento criador de valor e de mais-valia, e de
continuar a assumi-lo, pelo contrário, na «forma trans-
formada» de salário, que esconde as efectivas relações
entre capital e força de trabalho.
Este, de resto, é o preço que ele paga por ter
eliminado a teoria do «trabalho dominado» de Smith,
o que, no entanto, era necessário para a fundamentação
de uma teoria do valor que procurasse evitar raciocí-
nios circulares.
Tais contradições e insuficiências, que põem um
sério obstáculo à coerência da teoria ricardiana, que
não obstante é a primeira a pôr claramente como medida
do valor o tempo de trabalho, oferecem um fértil campo
de polémica para adversários de Ricardo como Say e
Bailey. Serão eles os primeiros a destacar como, na
teoria ricardiana, precisamente o «trabalho» parece fugir
à determinação de valor comum a todas as mercadorias
(e ser determinado, não na base da «quantidade de
trabalho» contida no «trabalho», mas na contida no
«salário»). E ainda, Bailey terá ocasião de afirmar que,
quando Ricardo faz depender o valor do trabalho d:1
quantidade de trabalho necessária à produção do salário,
ou seja do dinheiro ou da mercadoria que o trabalhador
recebe, é como se dissesse, por exemplo, «que o valor
do pano não é mensurável pela quantidade de trabalho
necessária à sua produção, mas da quantidade de trabalho
despendida na produção do dinheiro com que o pano
se troca» (3).
E na realidade, enquanto o conceito de valor do
trabalho ou de valor do salário, não for substituído,
( 3) Citação em Marx, Storia clelle teorie eco11onúche, cit.,
II, p. 113.
77
como fará. Marx, pelo valor da força de trabalho, os
termos do problema não deixarão de pôr-se sempre do
mesmo modo irracional.
Todavia, a crítica de Bailey não atribui o justo
mérito a Ricardo: ele, de facto, embora sem a mediação
do conceito de força de trabalho, tem a possibilidade
de determinar correctamente, e em plena coerência com
a sua teoria do valor, o salário real do trabalhador
(que é sempre por ele distinguido do nominal). A pos-
sibilidade, de facto, de o trabalhador prover a si e
a sua família, afirma Ricardo, depende, «não da quan-
tidade de moeda retribuída a título de salário, mas
da quantidade de alimentos, de objectos de primeira
necessidade, e também dos objectos agradáveis e essen-
ciais aos hábitos contraídos, que com tal quantidade
de moeda se podem adquirir. O preço natural do traba-
lho depende por isso do preço dos alimentos, das coisas
de primeira necessidade e das agradáveis de que neces-
sita o trabalhador e a sua família (4).
O preço de tais meios de subsistência é determinado
pois por Ricardo no pleno respeito da sua teoria do
valor, e, analogamente à definição que dele dará o
próprio Marx, na base da quantidade de trabalho neces-
sária para produzir tais bens, coisas agradáveis, etc.
Se bem que isto possa ser reprovado a Ricardo,
como Marx fará (5), o facto é que a sua definição de
salário médio como valor determinado pelo tempo de
trabalho que custa produzir os meios de subsistência
do operário, embora sendo exacta, na realidade por
si só não basta para fazer compreender toda a relação
entre capital e trabalho, em particular a origem da mais-
-valia como mais-trabalho. Ele supõe, de . facto «que o
tempo de trabalho contido nos meios de subsistência diá-
rios, seja igual ao tempo de trabalho diário que o operário
deve fornecer para reproduzir o valor destes meios de sub-
sistência» (6), e não representa nunca o tempo de trabalho
(') D. Ricardo, Princípi cit., p. 59.
( 5) K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., II, pp: 117
e segs.
(º) Idem, p. 119:. « ... se por um lado a produtividade
do trabalho, sendo dado o tempo de trabalho, a grandeza da
jornada laboral, pode ser diferente, por outro o tempo de
trabalho, a grandeza da jornada laboral, sendo dada a produ-
tividade do trabalho, pode ser muitíssimo diferente». Por
outro lado, acrescenta Marx, é evidente que se é necessá-
78
objectivado em tais meios, como correspondente só a
uma parte da jornada de trabalho do operário, aquela
parte que constitui o trabalho necessário para repro-
duzir o valor da força de trabalho. Além deste limite
necessário, que depende da produtividade do trabalho
social que produz directa ou indirectamente meios de
subsistência, o tempo de duração do trabalho pode de
facto ser diferentemente prolongado e corresponde, neste
prolongamento, à grandeza absoluta da mais-valia.
Em Ricardo a grandeza da jornada de trabalho
total, como soma de trabalho necessário e mais-valia,
apresenta-se, pelo contrário, como uma grandeza de
limites dados, isto é, como a mesma e sempre igual
quota de trabalho que o operário deve fornecer para
se reproduzir (como já tinha sido para Smith). Por
consequência, o aumento ou a diminuição da mais-
-valia (para Ricardo, do lucro) depende só do aumento
ou da diminuição da produtividade do trabalho. Noutros
termos, dada como fixa a jornada de trabalho e a
intensidade do trabalho, o único factor variável toma-se
a produtividade (e não também o prolongamento abso-
luto da jornada de trabalho além do limite necessário
ao operário para reproduzir a própria força de trabalho).
Deste modo, o salário acaba por aparecer como preço
necessário de uma jornada laboral de limites dados,
e não como uma sua parte apenas. De resto não podia
ser de outro modo para Ricardo, o qual não· equivale
nunca a mais-valia a mais-trabalho, assim como não
vê por detrás do valor produzido o trabalho vivo que
o produz (7).
rio um certo desenvolvimento da produtividade para que exista
o mais-trabalho, a simples possibilidade desta mais-valia ainda
não o cria efectivamente. «Com este objectivo é necessário
antes obrigar o operário a trabalhar além daquela grandeza,
e é o · capital que exerce esta contrição. Isto falta em
Ricardo ... ». Ricardo, em conclusão, falhando, como se viu, na
distinção fundamental entre trabalho e força de trabalho, não
indaga consequentemente, nem a ori_gem da mais-valia nem a
mais-valia absoluta: a grandeza da jornada de trabalho apre-
senta-se-lhe por isso como uma grandeza dada (idem, p. 121).
(') «Ricardo não se preocupa nunca com a origem da
mais-valia. Considera-a como coisa inerente ao modo de produção
capitalista que aos seus olhos é a forma natural da produção
social. Quando fala da produtividade do trabalho não procura
no trabalho a causa da existência da mais-valia, mas apenas
a causa que determina a grandeza da mais-valia». K. Marx,
ll capitale, cit, I, p. 563.
79
Em conclusão, Ricardo está efectivamente próximo
da solução - a de explicar o «valor do trabalho» medi-
ante o valor da força de trabalho-, quando surpreende
no chamado preço do trabalho o preço da manutenção do
«trabalhador» (8) (e esta será a que Marx reterá, a resposta
latente da economia clássica ao problema da existência da
força de trabalho e da determinação do seu valor (9)); mas
não tendo ele, depois, a noção de que coisa deva recons-
tituir o salário, ou a que parte do capital ele corresponda,
fica tudo dentro da determinação do salário como preço
do trabalho, com a consequência de que o trabalho vivo,
quando se trata de determinar o papel específico no
processo de produção relativo ao capital é sempre assu-
mido na forma «transformada» e objectivada do salário.
Forma transformada, como ficará clarode uma
vez . por todas com Marx, que oblitera completamente
as relações que nela se ocultam: em primeiro lugar, a
troca específica entre trabalho assalariado e capital, entre
trabalho vivo e trabalho objectivado (que constitui o nó
de todas as contradições smithianas, e em relação ao
qual Ricardo não levanta sequer, como já se disse, o
problema da diferença entre trabalho vivo e trabalho
objectivado), e daqui, em segundo lugar, a própria ori-
gem da mais-valia.
Estas dificuldades são resolvidas, logo que se subs-
titui, com Marx, a expressão irracional do «valor do
trabalho» por valor da força de trabalho. Tal substi-
tuição marxiana permite de facto .esclarecer que, se por
um lado, o valor da força de trabalho não depende da
duração da sua função, o trabalho (e, com isto, é elimi-
nada a expressão tautológica que o valor de uma jornada
de trabalho é igual ao trabalho contido nesta jornada
laboral), mas da quantidade de trabalho ríecessária para
produzir e reproduzir a própria força de trabalho; por
outro lado, pelo contrário, a produção de valor por
parte da força de trabalho, ou o valor produzido pela
força de trabalho, não depende do valor desta última,
mas da duração da sua função; com o que é eliminada
a contradição smithiana que fazia depender o valor do
(') Ricardo, de facto, exprime-se assim no capítulo «De
salários». «O preço natural do trabalho é o preço que ocorre
quando se põem os trabalhadores no seu conjunto em condições
de subsistir e perpetuar, sem aumentos ·nem diminuições, a sua
progénie». D. Ricardo, Princípi cit., p. 59. O sublinhado é nosso.
(') K. j\farx, Il capita/e, cit., L p. 588.
80
produto do trabalho do valor do «trabalho». Somente,
portanto, esta diferença fundamental, que Marx intui
entre o «valor da força de trabalho» e a produção de
valor através da explicitação da sua função, o trabalho,
consegue resolver a dificuldade não resolvida pela eco-
nomia política clássica; ou seja, por um lado, a questão,
que já analisámos com Smith, de como a relação entre
trabalho objectivado e trabalho vivo (que se realiza
através da troca entre capital e força de trabalho),
embora sendo relação de valores desiguais (menos tra-
balho contra mais), possa ser explicada mediante a lei
do valor que pressupõe a igualdade dos valores, por
outro o problema da própria produção da · mais-valia.
No primeiro caso Marx esclarece como uma coisa
é falar do valor da força de trabalho, uma outra do uso
que desta força de trabalho faz o capital no processo
produtivo, e que é representado pelo tempo durante o
qual ele funciona. A força de trabalho, de facto, embora
seja paga pelo seu próprio valor, ou seja, segundo a
quantidade dos meios de subsistência que lhe são neces-
sários, é «consumida», é feita trabalhar, durante uma
quantidade de tempo maior que a necessária para recons-
tituir o próprio valor (1°).
Está inteiramente aqui o modo em que o valor
e a mais valia se produzem: esta última é simplesmente,
diz Marx, a parte de trabalho não paga ao operário, e
não como «subtracção» do valor da sua força de tra-
balho, mas como resultado do «trabalho» da sua força
de trabalho, ou seja do seu funcionamento por um
determinado período ele tempo.
Voltando a Ricardo, o não ter surpreendido a
diferença entre salário e trabalho vivo (entre «valor do
trabalho» e «trabalho»), significa, consequentemente, não
ter visto, por detrás da parte do capital investida em
salários, o real movimento do trabalho vivo no processo
('º) K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II, p. 221.
O valor do produto é determinado pelo trabalho nele contido,
não por aquela parte de trabalho nele contida que é paga pelo
dador de trabalho. O trabalho feito ,e não pago constitui o valor
do produto; os salários pelo contrário exprimem apenas o
trabalho pago, nunca o feito ... A quantidade de trabalho que
o operário efectua é bastante diferente da quantidade de tra-
balho que é elaborada na sua força de trabalho, ou. que é
necessária para reproduzir a sua força de trabalho. Mas, como
mercadoria, ele não vende o uso que dele é feito, isto é, não
se vende como causa, mas sim como efeito».
81
de produção, o de produzir, criar valor e mais-valia;
daqui, uma segunda indistinção, aquela entre a parte
do capital investida em instrumentos e matérias-primas
e a investida em salários. Estes dois elementos do capital
são por ele considerados homogéneos, enquanto só o
último, pelo facto de ser convertido em trabalho, «trans-
forma» o seu valor no processo produtivo e se torna
de grandeza a «constante», ou seja de trabalho objec-
tivado ou salário, trabalho vivo que cria sempre novo
valor. De facto, se se admite, com Marx, que o valor da
força de trabalho é diferente da função que ela desem-
penha, ou que «o trabalho morto, latente na força de
trabalho, e o trabalho vivo que pode fornecer a força
de trabalho, ou seja os custos diários de manutenção
da força de trabalho e o dispêndio diário desta, são duas
grandezas totalmente distintas» e que por isso «o valor
da força de trabalho a sua valorização no processo
laboral são duas grandezas diferentes» (11), parece agora
definitivamente que a possibilidade de produzir valor
depende apenas do trabalho vivo de que tal possibilidade
constitui uma qualidade particular, assim como a origem
e a grandeza da mais-valia deve determinar-se sempre
na base da quantidade de trabalho vivo de que o capital
se apropria, quantidade de trabalho vivo que é coisa
distinta, e além disso sempre maior, do valor daquilo
que o fornece, do valor da força de trabalho, ou seja
do salário (12).
Desta fundamental aquisição, segundo a qual a
possibilidade de produzir valores não pertence a nenhuma
forma do capital, sejam eles os meios de produção, ou
as matérias-primas, ou os meios de subsistência neces-·
sários ao operário, enquanto formas objectivadas do
trabalho, provém pois a distinção entre a parte do
capital investida nos meios de produção, a qual, não
podendo estes acrescentar nunca ao produto mais valor
do que aquele que possuem, continua «constante» na
própria grandeza do valor, e a parte investida em salá-
rios, que, convertendo-se em força de trabalho, e por
( 11 ) K. Marx, ll capitale, cit., I, p. 227.
(") «Só em face do trabalho assalariado as coisas que
são as condições objectivas do trabalho, ou seja os meios de
produção e as coisas que são as condições objectivas da manuten-
ção do operário, ou seja os meios de· subsistência, se tornam
capital», K. Marx, Il capitale, Livro I, cap. VI, La Nuova Italia,
Florença, 1969, p. 36.
82
isso em trabalho vivo, muda o seu valor no processo
de produção (13). É esta a conhecida distinção marxiana
entre parte constante e parte variável do capital, ou
entre capital constante e capital variável.
Ricardo, que nunca compreendeu realmente a ori-
gem da mais-valia, não distinguindo nunca a função
específica do trabalho vivo relativamente ao trabalho
objectivado (tanto que tende a atribuir não só ao tra-
balho a característica de ser «produtivo», mas também
ao capital), não pode efectuar esta segunda distinção
fundamental.
E estes limites da investigação de Ricardo serão
carregados de consequências (14): desde a sua indistinção
entre mais-valia e lucro, às dificuldades na determinação
dos preços segundo a lei do valor, à errónea teoria da
queda da taxa de lucro (que faz depender da constante
descida da taxa de lucro agrícola), etc.
·Por isso, como vimos para o valor de troca e
para o trabalho abstracto que o cria, a própria mais-
-valia para a economia política é um dado, um elemento
que existe e é acolhido como benefício resultante da
moderna estrutura produtiva.
A superação dos limites da investigação clássica
sobre a mais-valia que se .obterá com Marx, está estrei-
tamente ligada ao alcançar de um nível científico sufi-
ciente para a formulação da teoria do valor-trabalho.
De facto pode afirmar-se que, tal como a prddução de
mais-valiaconstitui um todo, em Marx, como o processo
de criação dos valores por parte do trabalho, a teoria
marxista do valor é a própria teoria da mais-valia;
fica assim resolvida a questão teórica que pode fazer-se
remontar, na sua expressão mais clara, a Smith, para
o qual só uma teoria capaz de explicar as formas
( 13) Cfr. Marx, Il capitale, cit., I, p. 242. É por isso só
e apenas sobre esta parte do capital que é calculada a mais-
-valia produzida e não sobre todo o .capital investido.
(") Precisamente desta confusão acerca da génese da
mais-valia Marx faz depender a incompreensão ricardiana da
natureza e da origem de importantes fenómenos capitalistas.
De facto, «as diferenças na grandeza da mais-valia são descura-
das, e a produtividade do capital, a coerção à mais-valia, a
mais-valia absoluta por um lado e, por outro, a sua tendência
imanente a abreviar o tempo de trabalho necessário, é desco-
nhecida; e por isso não é desenvolvida a legitimação histórica
do capital». K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., I, p. 118.
83
específicas. da acumulação, poderia ser uma teoria válida
do valor.
Das considerações desenvolvidas acerca de Ricardo,
todavia, é-nos permitido passar à análise de como a
categoria da mais-valia se configura no seu sistema, ou
melhor do papel que ali desempenha o «lucro», desde
o momento em que estas duas categorias estão nele
directamente identificadas.
Este aspecto de Ricardo interessa-nos particular-
mente porque precisamente a falta de individualização
da categoria da mais-valia como tal, origina, depois, a
sua incapacidade de explicar os preços de produção
segundo a teoria do valor de que tinha partido. É esta
a circunstância que nos tínhamos proposto estudar, na
qual Ricardo é constrangido a abandonar de modo
explícito a sua teoria do valor.
De facto, Ricardo, que não distingue a mais-valia
daquilo que Marx chama a sua forma fenoménica, o
lucro, interpreta as variações que o lucro sofre por
obra da concorrência (nivelamento das diferentes taxas
de lucro a uma mesma taxa geral, e consequente for-
mação de preços de produção diferentes dos valores)
como variações da mesma mais-valia, que pelo contrário
é só diversamente distribuída e não diversamente pro-
duzida, e por isso interpreta os desvios dos preços dos
valores como variações que se verificariam nos mesmos
:valores, os quais resultariam assim determinados na base
de um princípio diferente da lei ·do valor.
84
Capítulo IV
AS DIFICULDADES DA TEORIA RICARDIANA:
2. A DIFERENÇA ENTRE PREÇOS E VALORES
Esta segunda, e em certo sentido determinante,
dificuldade, que Ricardo encontra em se certificar se a
sua teoria do valor, uma vez superadas as carências da
teoria smithiana, será susceptível de ulteriores objecções,
quando for aplicada aos fenómenos mais complexos da
economia capitalista - dificuldade que, tendo ficado por
ele sem solução, constituirá o maior pretexto polémico
para os seus críticos e para os críticos da teoria do valor-
-trabalho, pode ser expressa do seguinte modo.
Ricardo parte, na determinação do valor, da consi-
deração de que as mercadorias se trocam sempre na
base das quantidades de trabalho nelas contidas. Todavia
esta lei segundo Ricardo pode resultar, por assim dizer,
«modificada» desde que se tomem em consideração as
«proporções variáveis» ou as diferentes composições dos
vários capitais investidos na produção das mercadorias.
De facto a relação que existe entre capital fixo e capital
circulante no âmbito de um capital global investido
na produção de uma certa mercadoria, não é desprezável
para a determinação do valor da mesma mercadoria.
Antes, precisamente tais diferentes condições do capital
«fazem que à variável quantidade de trabalho necessária
para produzir as mercadorias se junte uma causa ulterior
85
de variação do seu valor relativo: tal causa é o aumento
e a diminuição do valor do trabalho» (1).
A introdução deste novo elemento na determinação
do valor, em Ricardo, encontra-se assim motivada. Exa-
minando as diferentes formas que capitais de igual
grandeza, se diversamente investidos, podem assumir, na
dependência das diversas proporções entre capital fixo
e capital circulante, entre capitais mais ou menos fixos
ou entre capitais de diferentes estabilidades, e também
dependentes dos diversos períodos neoessários para levar
as mercadorias ao mercado, dos diferentes períodos de
rotação do capital, etc., ele compreende que esta variada
composição de capitais de igual massa tem uma directa
incidência sobre os valores relativos das mercadorias,
desde que se verifique uma variação no nível dos salários.
Por isso, ele é induzido a crer que precisamente o
aumento ou a diminuição do valor do trabalho deve
incidir sobre o valor das mercadorias, além do t,empo
de trabalho necessário para as pr.oduzir. Noutros termos,
a relação de valor entre mercadorias, que embora tenham
exigido a mesma quantidade de trabalho para ser pro-
duzidas, varia em seguida a uma alteração dos salários.
Os exemplos de Ricardo sobre este problema são
muitos, mas para simplicidade de análise podemos sem
dificuldade considerá-los todos como tendentes a demons-
trar sob diversos aspectos, a mesma coisa, isto é, que
um aumento ou uma diminuição dos salários, de harmo-
1).ia com as diversas composições dos capitais de igual
grandeza, que operam em diversas· esferas de produção,
agirá de modo diferente sobre «valores relativos» das
mercadorias não obstante a quantidade de trabalho
necessária ser a mesma. E com efeito, se se supõe que
a diferença entre dois capitais iguais é devida à diferente
proporção em que eles são compostos de capital fixo
ou capital circulante, então em seguida a um aumento
do valor do . trabalho diminui o «valor relativo» das
mercadorias produzidas com mais capital fixo e aumenta
o «valor relativo» das produzidas com menos (2).
A argumentação ricardiana tem um sentido por-
quanto os efeitos das modificações dos salários não -po-
dem descarregar-se sobre os lucros: estes, de facto resulta-
(1) D. Ricardo, Principi cit., p. 20. O sublinhado é nosso.
(') Esta convicção de Ricardo, nãó obstante as carências
que analisámos há pouco, tem todavia o mérito de refutar a
86
riam diferentes, de harmonia com as diferentes composi-
ções dos capitais investidos, enquanto aqui é pressuposta
a condição de fundamental equilíbrio da concorrência,
a da igualdade dos lucros, ou de uma taxa geral de
lucros, segundo a qual os lucros são referidos unicamente
à grandeza global do capital investido. O efeito que
Ricardo aqui evoca é o resultante dos movimentos dos
capitais de uma esfera a outra da produção, por obra
da concorrência, para igualar totalmente os diferentes
lucros a uma única taxa; já Smith lhe tinha compre-
endido a fundo o mecanismo, e o tinha expresso em
forma de lei; Ricardo limita-se a dar-lhe uma sistema-
tização maior e mais articulada.
Em conclusão, pois, a presença por obra da concor-
rência, de uma taxa geral de lucro, que regula o aumento
do lucro sobre a grandeza do capital investido, provoca,
segundo Ricardo, efeitos tais sobre os «valores» das
mercadorias, que elas não podem mais ser determinadas
só na base do tempo de trabalho necessário à sua pro-
dução, porquanto devem ser consideradas as influên-
cias que uma variação do «valor do trabalho» necessaria-
mente tem sobre eles.
A crítica de Marx parte precisamente destas últimas
conclusões: na realidade, diz Marx (3), os valores não
são minimamente influenciados pelas circunstâncias que
Ricardo analisa; só os lucros o são, pois que, justamente
por obra daquelas circunstâncias, eles resulta:dam dife-
rentes entre si, também para iguais massas de capitais,
se a concorrência não realizasse uma taxa geral de
lucro, segundo a qual os lucros se regulam directamente
sobre a grandeza do capital investido; consequentemente
são só os preços, os quais resultam do movimento da
concorrência, que devem serdeterminados de modo
diferente pela referência apenas ao tempo àe trabalho,
e não os valores. Ricardo - diz Marx- deveria ter falado
de preços e não de valores.
a tese errónea, presente também em Smith, segundo a qual
um aumeno de salários provocaria necessariamente um aumento
de todas as mercadorias. A tese de Ricardo, pelo contrário, é
que o preço de algumas mercadorias, em seguida a aumentos
salariais, pode verdadeiramente diminuir, precisamente o preço
daquelas produzidas com mais capital fixo. ·
(3) K. Marx. Storia delle teorie economiche, cit., II
pp. 21 e sgs.
87
Deste modo se verifica para Ricardo a circunstância,
de ele ser obrigado a abandonar a sua teoria do valor,
precisamente na tentativa de a salvar; de facto, verifi-
cado que a existência de uma taxa geral de lucro, em
vez de corresponder à determinação do valor mediante
o tempo de trabalho, prima f acie aqui se contradiz,
ao tornar os preços diferentes dos seus valores, ele
procura eliminar esta contradição, tendendo a identificar
preços e valores e a aplicar aos preços directamente
- sem mediações - a lei do valor. Pelo contrário, se
bem que as diferenças entre capitais de igual grandeza,
analisadas por Ricardo, não considerem de facto os
valores em si, eles, influenciando de maneira diferente
os lucros nas diferentes esferas, produzem preços médios
diferentes dos valores, ou melhor preços de produção
que são determinados pela grandeza do capital antecipado
mais o lucro médio e por isso não directamente pelos
valores.
Pelo que, segundo Marx, as conclusões de Ricardo
encobrem pelo menos um duplo erro. O primeiro erro,
é o de partir de uma taxa geral de lucro como de um
pressuposto, sem analisar como ela se forma. Isto é,
Ricardo introduz «de contrabando» a lei da taxa de
lucro, demonstrando a sua «incapacidade de esquecer,
nos valores das mercadorias, os lucros, facto que se
encontra em face da própria existência da concorrên-
cia» (4). O ter por isso saltado todos os termos médios
que levam à formação desta taxa; e o ter dado como
descontada a transformação dos valores em preços de
produção, coisa que leva em Ricardo à sobrevalorização
dos dois termos, tem, por outro lado, a imediata conse-
quência que, assumida como dada a existência da taxa
geral, o lucro aparece determinado por leis próprias,
sem mais nenhum ponto de contacto com a precedente
lei do valor, desde o momento que parece ter desaparecido
a própria categoria da mais-valia como mais-trabalho,
que, pelo contrário, regula o lucro.
Em conclusão, Ricardo compensa, por um lado,
o facto de não ter nunca individualizado e separado ~as
suas formas paniculares, lucros, juro e renda, a categoria
da mais-valia, que aparece ulteriormente mistificada pela
presença de uma tàxa geral de lucro, e por outro,
consequentemente, de não ter nunca. compreendido (pois
(4) Idem, p. 42.
88
que se fecha na simples distinção entre capital fixo e
capital circulante, etc.) a distinção entre aqueles que
Marx chama os elementos orgânicos do capital, capital
constante e capital variável. A composição destes ele-
mentos, ou seja a diferente relação entre capital constante
e capital variável, diz-nos de facto qual é a diferente
quota de mais-valia ou mais-trabalho realizada nas mer-
cadorias que contêm a mesma quantidade de trabalho
e de que o capital se apropria. É em razão desta
diferente quota, de facto, que os lucros dos capitais de
igual grandeza resultam diferentes (a taxa de lucro, como
se sabe, é calculada pela relação entre a mais-valia e
todo o capital investido) e que os preços inédios para
igualar as taxas de lucro devem necessariamente diferir
pelos seus valores.
Se Ricardo tivesse aprofundado um pouco mais
a questão, teria reparado que a «simples existência de
uma taxa geral de lucro implica preços de produção
diferentes dos valores, supondo também um salário
constante» (5).
Por isso, a conclusão a que Ricardo não pode chegar
e que Marx prospecta é a seguinte: capitais de igual
grandeza produzem mercadorias de valores desiguais, e
por essa razão dão mais-valias ou lucros desiguais, pois
que o valor é determinado pelo tempo de trabalho e a
massa de tempo de trabalho que um capital realiza
depende não da sua grandeza global, mas só da grandeza
do capital variável; ou capitais de igual grandeza, embora
produzindo valores iguais, apropriam-se, de harmonia
com o seu diferente processo de circulação, de iguais
«quantidades» de trabalho não pago por espaços de
tempo diferentes: daqui, uma segunda diferença nas
mais-valias e lucros. Para que os lucros sejam de novo
iguais, é necessário que os preços das mercadorias sejam
diferentes dos seus valores; mas deve acrescentar-se
logo depois, o lucro total do sistema é sempre determi-
nado pela mais-valia total enquanto mais-trabalho (6).
A lei do valor continua, portanto, a ser válida, e
a constituir o centro real donde partem as efectivas
variações dos preços.
O lucro médio e os preços de produção não seriam
sequer compreensíveis senão se partisse dos valores.
Ricardo sabe-o, e por isso tende, em face da diferença
(') Idem, p. 25.
(') Idem, p. 41.
89
dos preços dos valores, directamente a identificá-los (7).
Daqui o seu segundo erro.
De facto, Ricardo,. embora conhecendo bem a dife-
rença dos valores dos preços, fala dos efeitos da concor-
rência sobre preços de produção para a diferente com-
posição orgânica dos capitais, como se fossem os próprios
valores a ser por eles influenciados. Deste modo os
valores identificados com os preços tendem a não desem-
penhar mais nenhum papel económico e a desaparecer.
São os preços de produção, enquanto centro real em
torno do qual rodam todas as flutuações devidas à
concorrência, e enquanto constituem o «preço natural»
das mercadorias, como dizia Smith, ou o seu prix neces-
saire como para os fisiocratas, a exaurir todo o discurso
sobre o valor. Pelo contrário, conclui Marx, não obstante
a aparente contradição, o valor não é de facto influen-
ciado «pela transformação do valor em preço de pro-
dução, pois que esta transformação não considera em
geral senão a repartição da mais-valia realizada pelo
capital total entre os diferentes ramos de produção ou
entre os capitais nas diferentes esferas produtivas» (8).
Se se mantém pois, a distinção entre preços e valores,
é sempre dos valores que se parte para chegar aos
preços, quaisquer que sejam os factores que regulem
estes últimos. De facto «o lucro médio, e por isso tai:;nbéin
os preços de produção seriam puramente imaginários
o inconsistentes, se não tomássemos como base a deter-
minação do valor. A completa iguáldade das mais-valias
em diferentes esferas de produção não muda nada a
grandeza absoluta desta mais-valia total, não lhe modi-
fica senão a repartição nas diferentes esferas de produção.
A determinação da própria mais-valia deriva porém
unicamente da determinação do valor mediante o tempo
de trabalho. Sem esta, o lucro médio é média de nada,
é uma simples quimera. E poderia ser tanto de 1000
como de 10 por cento» (9).
(') Ele elimina assim a contradição da não correspon-
dência dos valores com os preços, mas repropõe-a dando _urna
nova determinação do valor.
(') K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., II, p. 52.
(9) Idem, pp. 41-42. E ainda: «Portanto, uma vez que o
valor global das mercadorias regula a mais-valia global e esta
por sua vez a grandeza do lucro médio e, por consequência,
da taxa geral de lucro - como lei geral ou como lei que domina
as oscilações - é a lei do valor que determina os preços de
produção» (K. Marx, Il capitale, cit., III, p. 223).
90
Em conclusão, é sempre o tempo de trabalho que
determina o valor, é sempre do valor assim determinado
que se extrai a mais-valia, é sempre da mais-valia que
deriva o lucro (1º).
Estas dificuldades, que Ricardo encontra por diante
ao tornar compatível a lei do valor com a formação
concorrencial dos preços, são por ele expressasde uma
forma que lhe é peculiar, e que consiste na afirmação,
pela sua parte, da impossibilidade de encontrar, para
a determinação dos valores relativos das mercadorias,
uma medida de tipo invariável: de facto, diz Ricardo,
«não existe mercadoria que não esteja . ela própria
exposta às mesmas causas de variações a que estão
expostas as coisas que ela deveria medir» (11); e não
só porque toda a mercadoria está sujeita à possibilidade
de exigir uma maior ou menor quantidade de trabalho
para ser produzida, mas também porque, uma vez remo-
vida esta dificuldade, isto é, uma vez que se encontrasse
uma mercadoria que exigisse, para ser produzida, sempre
a mesma quantidade de trabalho, ela estaria no entanto
sujeita às variações causadas por um aumento ou por
uma diminuição dos salários, na razão da diferente
composição do capital necessário para a produzir, isto
é, das diferentes quotas percentuais de capital fixo,
da sua diferente duração, etc. Todavia, a possibilidade
da existência de uma mercadoria do género, em Ricardo,
('") Parece-nos oportuno, ao terminar esta expos1çao da
resposta marxiana à dificuldade de Ricardo sobre a questão dos
preços, fazer uma precisão para evitar possíveis equívocos sobre
o sentido e o papel desta resposta. Marx, de facto, avançando
o problema da transformação da mais-valia em lucro médio,
não pretende dar nenhuma nova formulação do valor; mas
pretende simplesmente rebater a necessária e imprescindível
derivação dos preços dos valores, o que estava porém já
implícito e posto na formulação do próprio conceito de valor
tal como ele está definido no primeiro volume do Capital.
Noutros termos, o problema marxiano da transformação põe
não só a qrestão de que os preços podem derivar dos valores
- e limitar-se a isto seria dar uma interpretação redutiva da
solução marxiana --, mas que unicamente os valores «explicam»
os preços, isto é, que só a lei do valor (fundamentada do modo
como Marx a fundamenta no primeiro volume do. Capital),
enquanto lei explicativa de todas as categorias económicas, é a
lei que determina também os preços.
(") D. Ricardo, Principi cit., p. 29.
91
tem simplesmente um valor de funcionalidade; de facto,
embora, como diz ele próprio, não se tenha conhecimento
de uma mercadoria de valor invariável, de uma merca-
doria para cuja produção seja necessário sempre a mesma
quantidade de trabalho, o estabelecer-lhe embora, só os
caracteres essenciais, «ajuda a fazer conhecer as causas
de variação do valor relativo das mercadorias e a pôr em
situação de calcular a medida em que é provável que
tais causas sejam operantes» (1 2). Desde o momento em
que, porém, como já se viu, para Ricardo toda a modi-
ficação da taxa geral de lucro tem algum efeito sobre
o valor relativo das mercadorias além das modificações
devidas às quantidades de trabalho necessárias para as
produzir, isto introduz um ulterior elemento de dificul-
dade na determinação de uma tal medida invariável.
Só que, julgando ele, o que veremos daqui a pouco,
«relativamente ligeiro» o efeito de uma variação dos
lucros sobre os preços relativos, e pelo contrário «de
longe mais importante» as alterações devidas às «quan-
tidades de trabalho necessárias para os processos de
produção», se se supõe removida esta importante causa
de variações «é-nos provavelmente possível ter a melhor
aproximação teoricamente compatível a uma exacta
medida tipo do valor» (1.1).
Em conclusão, este problema da possibilidade pelo
menos de descobrir uma unidade de medida «perfeita»
é .o modo particular em que Ricardo exprime as difi-
culdades que encontra na determinação da lei do valor,
uma vez que os valores se tenham mostrado diferentes
dos preços (14).
Esta questão é retomada e atacada por Ricardo
num escrito de 1823. «Valor absoluto e valor de troca» (15):
tem interesse relembrar este escrito, porquanto nele,
e em particular na categoria de valor absoluto que
Ricardo introduz, se quis ver a prova da vizinhança
( 12) Idem, p. 11. Este é, todavia, um trecho que foi omit.ido
pelo autor na terceira edição.
(") Idem, p. 31.
(") Cfr. C. Napoleoni, «Intorno alia storia dei pensiero
económico», na Rivista Trimestrale, n.º' 28-30, Novembro de
1969, pp. 423 e segs., com o qual concordamos também no que
respeita ao seu juízo sobre o escrito ricardiano de 1823.
(") D. Ricardo, «Valore abssoluto e valore di scambio», na
Rivista Trimestrale, n."' 19-20, Setembro-Dezembro de 1966, p. 611.
92
deste economista com Marx, e até, na verdade, uma
directa antecipação do conceito de «valor absoluto», que
tanto espaço e importância terá na obra de Marx.
Na realidade, embora não seja certamente desco-
nhecido o papel que Ricardo desempenha na obra de
Marx, não é neste escrito que ele encontra confirmação;
de facto a determinação do «valor absoluto» surge em
tal escrito, além do mais incompleto, exactamente nos
termos que antes apontávamos a propósito da «medida
invariável» do valor; o «valor absoluto» ricardiano não
é senão a reproposição de uma mercadoria, seja embora
hipotética, que contenha sempre a mesma quantidade
de trabalho, como unidade de medida dotada do neces-
sário requisito da invariabilidade.
Relativamente à dificuldade que Ricardo encontra
na determinação da relação entre preços e valores, e que
se reflectem na sua formulação da «medida invariável»
do valor, falámos precedentemente de «abandono» por
sua parte da teoria do valor-trabalho.
Na realidade, podemos agora precisar que o «aban-
dono» não é total.
Em face, de facto, de uma concordância dos pre-
ços com os valores, causada pela existência de uma taxa
geral de lucro, Ricardo, depois da tentativa de simples
assunç5o dos preços sob a lei do valor, afirma, como
há pouco nos aconteceu mencionar, que, conquanto o
valor do trabalho ou o salário entre de algum ·modo nas
causas de variação do valor das mercadorias, seria erró-
neo atribuir uma importância excessiva a tal causa. De
longe mais importante, para o valor, é a diferente quan-
tidade de trabalho que nele se realiza, e por isso ele se
propõe ficar constantemente agarrado ao princípio de
que «todas as intensas variações que se determinam no
valor relativo das mercadorias sejam originadas pelas
variações para mais ou para menos que, de uma época
a outra se determinam na quantidade de trabalho neces-
sário para as produzir» (16).
Deste modo Ricardo mantém a determinação do
valor na base do tempo de trabalho contido, como aquela
que é aproximadamente mais exacta, além de ser a mais
importante, ou que mais incide sobre o valor.
Feitas estas observações sobre a representação
ricardiana do lucro, deve precisar-se que tal teoria não
( 16) D. Ricardo, Princlpi cit., p. 25.
93
é de facto subvalorizada, porquanto precisamente a ela
estão ligados alguns aspectos de interesse desigual da
análise deste economista. Antes de mais deve observar-se
isto, que quando Ricardo expõe as leis do lucro, na
realidade ele está a falar daquilo que Marx chama mais-
-valia; de facto ele, singularmente, fala como se se
tratasse do lucro de um capital inteiramente investido
em salários, calculando deste modo o «excedente» como
se faz justamente para determinar a mais-valia, só sobre
a parte variável e não sobre todo o capital investido.
Marx exprimirá este facto dizendo que «está de
tal modo na natureza das coisas o não poder tratar da
mais-valia senão em relação ao capital variável, ao capi-
tal directamente investido em salário - e sem conheci-
mento da mais-valia não é possível uma teoria do lucro -
que Ricardo trata todo o capital como capital variável e
faz abstracção do capital constante, se bem que aqui se
refira ocasionalmente na forma de antecipações» (17).
Mas, um dos maiores méritos da teoria ricardiana
do lucro, e que não foi por acaso que desencadeou o
«ódio de classe» dos economistas chamados «vulgares»
depois dele, consiste no facto de que com tal teoria é
avançada uma primeira análisedo possível contraste
entre as classes que participam no rédito social global.
Ricardo, de facto, diferencia-se nitidamente pot um
certo modo de explicar o lucro: o de o definir como o
«preço» e a justa compensação que• o capitalista recebe,
pela sua economia, ou pela sua abstinência (!) do con-
sumo (18); tal é, de facto, o modo de se exprimir daqueles
economistas que, quando se trata de exaltar os dotes do
capital e da classe que o representa, enchen;i de imagens
não privadas de uma certa fantasia o vazio da sua
análise.
Ricardo, pelo contrário, tem atrás de si todo o
peso do precedente smithiano, o qual explicitamente con-
cebe o lucro como uma dedução do produto do trabalho.
Segundo a teoria ricardiana, por isso, embora não em
termos de todo explícitos, o lucro deve de qualqqer
modo derivar do trabalho. O específico «contributo pro-
dutivo» do capitalista (o seu «sacrifício»)- como se
( 11) K. Marx, Storia delle t,eore economiche, cit., II, p. 94.
(IB) No que respeita à chamada «abstinência dos capita-
listas» cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, p. 269.
94
encontra expresso pela primeira vez em Sénior, mas
também, em forma reelaborada na economia moderna -
não entra aqui na determinação do lucro, que tem, pelo
contrário, a forma de um exced~nte produto do trabalho.
Urna tal definição da origem do excedente faz cair
toda a ilusão sobre o carácter «harmónico» da relação
entre as classes, e introduz com força a eventualidade
de um contraste entre as diferentes classes sociais: entre
as classes possidentes e os assalariados, e entre os que
representam as rendas fundiárias e o lucro.
O primeiro contraste pode dizer-se que nasce sobre
uma «dissimetria» entre as duas formas de rédito, o lucro
e o salário, porquanto o primeiro é, rnarxisticamente,
uma apropriação de mai~-valia, o segundo uma simples
reconstituição em valor do consumo de força de traba-
lho (e este contraste não redutível a um simples pro-
blema de diferente ou melhor distribuição do rédito,
como pelo contrário acontece para o segundo motivo de
conflito, porquanto estreitamente dependente do próprio
carácter da produção capitalista, é, como dirá Marx,
insanável dentro dela).
O segundo contraste nasce, pelo contrário, sobre
uma «simetria» entre renda e lucro porquanto ambos
são participações no excedente produto do trabalho, ou
melhor, como dizia Smith, «subtracções» do produto do
trabalho.
Os termos deste conflito entre classes•, Ricardo
exprime-os a partir do contraste entre proprietários fun-
diários e burguesia (19). A razão deste desencontro entre
os seus interesses é devida a este facto: se se supõe,
como faz Ricardo, que o salário dos trabalhadores é
em grande parte constituído por trigo ou por produtos
agrícolas, isto é, que é um simples salário de subsistên-
cia, então, enquanto o interesse dos proprietários fun-
diários é manter o mais alto possível o preço de tais
produtós (de que a renda é constituída), o dos capitalis-
tas é precisamente o oposto: com o aumento do preço
do trigo eles vêem de facto aumentar o preço do salário
real, e consequentemente diminuir os lucros.
Todavia, as formas de oposição entre estas duas
classes, proprietários fundiários e burguesia, encon-
tram-se explicitadas claramente já em Smith. Este
«Lutero da economia política», como lhe chama Engels,
(19) Cfr. C. Napoleoni, lntorno alia storia cit., pp. 427 e segs.
95
lança frases de verdadeiro e autêntico desdém contra
aquela classe de parasitas, composta de nobres, padres
e advogados, e da extensa multidão das «pessoas da
corte», que trava e retarda o livre desenvolvimento da
produtividade, «esbanjando» os seus bens em consumos
improdutivos (isto é que não reproduzem capital) e sem
os utilizar no emprego do industrious people ou, como
também ele diz, dos labouring poors, daqueles trabalha-
dores produtivos que conservam e aumentam a riqueza
(o capital). Ele sabe que quem sustenta sobre as próprias
costas «todo o edifício da sociedade humana» é a classe
trabalhadora, como sabe que «a renda que serve para
sustentar o fausto de patrão indolente foi toda ganha
pela laboriosidade do camponês» (2°).
E tudo isto, embora depois irrompa em expressões
ingénuas e estúpidas em face das maravilhas suscitadas
pela «divisão do trabalho» que torna também o pobre
camponês mais rico que um rico rei indiano ou africano,
que tem mil e ainda mais escravos ao seu serviço.
Mas Smith aponta também os termos do conflito,
bem mais importante e típico da sociedade capitalista,
que se desenvolve entre proletariado e burguesia, e des-
creve-o além dos termos da desigualdade social entre as
classes, também com referência às frequentes rebeliões
operárias contra os patrões, e às bem mais fortes coli-
gações dos patrões contra os operários. Mas a existência
çleste conflito encontra pela primeir"a vez em Ricardo
uma motivação precisa através cfo exame das razões
económicas da irredutibilidade do contraste entre os
interesses burgueses e os interesses operários.
Ricardo descobre assim as razões do possível con-
traste entre patrões e operários, embora oão na directa
relação produtiva entre eles. De facto considerando por
um lado como dada, fixa, a duração e a intensidade da
jornada de trabalho, por outro o salário do operário
como simples salário de subsistência e deste modo ta.m-
bém ele como dado, não encontra aqui motivos de con-
( 2º) A. Smith, La ricchezza delle nazioni, Abbozza, Editori
Riuniti, Roma, pp. 7-9; para ser mais exacto, neste passo Smith
exprime-se assim: «o pobre camponês», «enquanto produz tudo
quanto é necessário para alimentar o luxo de todos os outros
membros ela comunidade e sustenta sobre as suas costas - como
de facto acontece - todo o edifício da sociedade humana, parece
esmagado pelo peso e afastado ela vista dos o,1tros nos mais
profundos alicerces do edifício».
96
flito, dado que, de facto, os lucros se regulam sempre
pelos salários e aumentam quando estes diminuem e vice-
-versa. Todavia, para o operário, o conteúdo real do salário
é sempre aquele que corresponde ao nível de subsistência,
ao simples nível biológico, e não pode descer além deste.
Segundo Ricardo, portanto, a possibilidade de um con-
flito tem outra origem e precisamente a nível da ocupa-
ção operária. Ele fala dele no capítulo dedicado aos
efeitos que a introdução das máquinas comporta sobre
os interesses das diferentes classes da sociedade.
Neste capítulo Ricardo tem ocasião de voltar a tra-
tar uma tese que havia sustentado antes da . publicação
da terceira edição dos Princípios. Precedentemente tinha,
de facto, admitido que da introdução das máquinas
haviam tirado vantagem todas as classes: os proprietá-
rios fundiários, os capitalistas e os próprios trabalhado-
res, os quais viam aumentar o poder de aquisição do
seu salário, porquanto, com o aumento da produtividade
do trabalho em seguida à introdução de novas máquinas,
é necessário menos trabalho para produzir as mercado-
rias, com a consequência de que o seu valor unitário
diminui. Que uma parte dos trabalhadores possa ser
despedida pelo facto de ser consideravelmente reduzida
a quantidade de trabalho necessária para produzir uma
mercadoria, é uma dificuldade que precedentemente tinha
sido por ele superada com a afirmação de que tais tra-
balhadores facilmente encontrariam nova ocupação, por
obra do novo capital libertado em seguida ao aumento
dos lucros, noutros sectores produtivos.
É precisamente sobre esta sua convicção que ele
agora tem dúvidas, que têm origem numa reflexão sobre
a distinção entre rédito bruto da sociedade, que é com-
posto dos lucros, da renda e dos salários, e o rédito
líquido, composto apenas dos lucros e das rendas: ora,
o rédito. líquido pode aumentar sem que necessariamente
aumente o rédito bruto, o qual, antes, pode justamente
diminuir. «O erro em que incorre deriva de supor que
aumenta o rédito bruto da sociedade sempre que aumente
o réditolíquido: verifico agora que bem pode acontecer
que aumente a consistência do fundo, do qual proprie-
tários de terra e capitalistas tiram o seu rédito, enquanto
diminui, ao mesmo tempo, a consistência do outro fundo,
do qual particularmente depende a sorte da classe tra-
balhadora: daqui se segue, se não estou em erro, que a
mesma causa que pode conduzir a um aumento do rédito
líquido da nação pode tornar ao mesmo tempo excessiva
a população existente e conduzir a um agravamento das
condições dos trabalhadores» (21).
Deste modo um aumento dos lucros e da renda, ou
seja do rédito líquido, não significa necessariamente um
aumento do rédito bruto - e de facto, diz Ricardo, ao
capitalista importa pouco se o lucro, que ele arrecada,
o arrecada empregando ao seu serviço poucos ou muitos
operários; portanto, embora o rédito líquido continue o
mesmo, ou aumente, ele não depende necessariamente
de um igual ou maior nível de ocupação operária, mas
pode depender de uma sua diminuição. De facto, e é
este o exemplo que aponta Ricardo, uma igual massa de
capital que, em anos sucessivos, converta parte da quota
de capital circulante (ou seja investida em salários) da
qual era inicialmente composto, em capital fixo (ou seja
em introdução de maquinaria) vê manter-se constante
a grandeza do lucro que realiza, mas diminuir a parte
investida em salários, e por isso diminuir, continuando
o mesmo produto líquido, a parte destinada à manu-
tenção do nível de ocupação operária. Daqui a possível
situação de conflito.
Sabemos, depois de Marx, como as razões do con-
flito, insanável dentro da sociedade capitalista, entre
burguesia e proletariado, estão no ponto mais alto dos
resultados que Ricardo analisa; e estão precisamente
naquela relação entre trabalho assalariado e capital,
entre o operário (a força de trabalho) constrangido a pro-
duzir mais-valia como mais-trabalho, e a criar valores,
mercadorias, que não são produtos seus, mas produtos
do· capital, e o capital que aumenta e acrescenta conti- .
nuamente o seu poder e o seu domínio sobre o trabalho.
Trata-se de um conflito que, radicado profundamente
na produção capitalista, abre porém ao mesmo tempo
a possibilidade de alternativa revolucionária: o trabalho
(21) D. Ricardo, Prindpi cit., p. 296. O sublinhado é nosso.
Relativamente à hipótese ricardiana da diminuição do rédito
bruto, Marx dirá que o erro cm que Ricardo cai é o de julgar
que a grandeza do rédito bruto é determinada pela quota do
capital social investida em salários, e que consequentemente
uma diminuição do rédito bruto diminui a força de trabalho
ocupada. Na realidade, no capital o rédito bruto tende a aumen-
tar pelo desenvolvimento das classes intermédias, embora efec-
tivamente o investimento em capital variável tenda, relativa-
mente à grandeza do capital constante, a diminuir. (K. Marx,
Storia delle teorie economicl1e, cit., II, p. 261).
98
de facto - a classe operaria - , que produz e reproduz
o capital como poder a ele estranho e hostil, cria ao
mesmo tempo as condições históricas e sociais para a
sua total e definitiva libertação.
Antes de concluir esta parte que diz respeito à eco-
nomia política clássica, lembremos o juízo que Marx
dela faz numa passagem de Para a Crítica da Economia
Política. Neste juízo são esclarecidos com extraordi-
nária clareza os pontos sobre que havia encalhado a aná-
lise clássica, e sobre que se tinham concentrado as polé-
micas dos economistas depois de Ricardo. Podem assim
resumir-se, segundo Marx: «Primeiro: o próprio traba-
lho tem valor de troca, e trabalhos diferentes têm um
valor de troca diferente. É um círculo vicioso fazer do
valor de troca a medida do valor de troca, pois que o
valor de troca que mede tem por sua vez necessidade
de uma medida ... » A teoria do trabalho assalariado dará
a resposta.
«Segundo: se o valor de troca de um produto é
igual ao tempo de trabalho nele contido, o valor de
troca de uma jornada de trabalho será igual ao produto
dela. Ou, o salário do trabalho deverá ser igual ao pro-
duto do trabalho. Mas verifica-se o oposto ... » Este pro-
blema resolvê-lo-emos examinando o capital.
«Terceiro: o preço de mercado das mercadorias
diminui abaixo ou aumenta acima do seu valor de troca
com a variação da proporção entre procura e ,oferta ... »
Este problema será resolvido na teoria da concorrência.
«Quarto: ... se o valor de troca não é senão o tempo
de trabalho contido numa mercadoria, como é possível
que mercadorias que não contenham trabalho tenham
valor de troca de simples forças naturais?» Este pro-
blema será resolvido na teoria da renda fundiária (22).
Esta evocação é-nos útil para abrir o discurso, ao
mesmo tempo, sobre o carácter geral e sobre o papel
específico, da teoria marxista do valor.
Da passagem citada resulta de facto como Marx,
quando se prepara para dar um fundamento teórico
definitivo à sua análise do valor no Capital tenha per-
feitamente presentes todas as tarefas que tal análise
é chamada a cumprir, e os pressupostos de que deve
partir.
( 22) K. Marx, Per la critica cit., pp. 43-44.
Y9
Capítulo V
SIGNIFICADO E PAPEL DA TEORIA
MARXISTA DO VALOR
Das páginas precedentes resulta, de modo explícito,
como a análise que se tentou da investigação clássica
sobre valor, foi feita à luz da fundamental contribuição
da teoria marxista do valor. Este método de análise
pareceu-nos correcto e justificado, porquanto se tornou
assim possível um estudo precisamente «dentre;>» da teo-
ria do valor-trabalho, sendo Marx quem exprime de tal
teoria e de modo mais completo os pressupostos, o
significado e o uso, ou o seu destino.
Marx, de facto, por um lado, retoma e exalta, da
investigação clássica, aqueles aspectos que tiveram o
peso e a importância de verdadeiras e autênticas desco-
bertas científicas, por outro, liberta definitivamente tal
investigação daquelas escórias e daqueles limites bur-
gueses ·que a envolveram em insuficiências e contradi-
ções insuperáveis.
A tarefa que nos resta afrontar agora é a de reco-
lher as observações, esparsas e desorganizadas, feitas
até aqui sobre Marx, na tentativa de pôr em evidência
a peculiaridade e a organicidade do trabalho marxista
que a fazem constantemente ser «diferente», e não sim-
plesmente qualquer coisa «mais», da análise económica
precedente.
O núcleo central da investigação marxista sobre
valor, e o ponto nodal de diferença entre esta investiga-
101
ção e a investigação clássica é constituído pelo problema
do «trabalho abstracto», ou seja pela sua função histó-
rica e pelo seu papel específico no processo de produção
capitalista, aspecto ,este que precedentemente ocupou a
maior parte da nossa análise sobre Marx, em relação
à economia clássica.
Parece-nos, por isso, oportuno voltar a partir daí, para
tentar colher o significado do todo original da teoria
marxista, e a sua total incompatibilidade com toda a
tentativa tendente a reduzir tal teoria a um simples
desenvolvimento «teórico», das precedentes e (aparen-
temente) análogas experiências, neste âmbito de inves-
tigação.
Na verdade, precisamente em torno da categoria
do «trabalho abstracto» - que, como nota Marx, existe
«de facto» na economia política clássica, sem que exista
porém o «conceito» (1), ou seja, existe como dado e cate-
goria real, mas privado de toda a elaboração ou repre-
sentação teórica - Marx constrói a própria análise das
relações sociais específicas de produção entre as quais
o trabalho opera, a descoberta da «íntima fisionomia»
de tais relações de que o trabalho humano recebe a
importância.
Precedentemente a nossa análise da categoria mar-
xista da «forma» do trabalho sob o capital deteve-se na
importante conclusão que o trabalho «humano» que se
representa nos valores, que assume a forma de valor de
troca, na sociedade capitalista, é sim trabalho humano,
mas «abstracto», trabalho social igual, e que tal carácter
de «abstracção» do trabalho não é um dadonatural, mas
um resultado histórico, que recebe o seu acabamento
no âmbito de determinadas e específicas relações de
produção, precisamente as capitalistas (2).
( 1) K. Marx, Opere filosofiche giovanili, Editori Riuniti,
Roma, 1960, p. 194.
(2) Ou seja, o trabalho abstracto pode dizer-se que apa-
rece já nas formas simples da troca e da circulação, na medida
em que estas formas constituem a primeira manifestação do
capital. Mas a abstracção do trabalho determina-se e realiza-se
totalmente só no capital, em que a troca é fim e princípio da
produção, e em que o próprio trabalho é reduzido ao papel de
mercadoria. Em conclusão, o trabalho abstracto - o valor de
troca - põe o capital, embora pelo seu desenvolvimento simples,
por sua vez o pressupõe (cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali
cit., I, p., 224). Sobre o carácter de abstracção e de «estranheza»
do trabalho, presente já na troca simples, quando as relações
102
Detivemo-nos longamente sobre a génese histórica
e sobre o modo concreto e real da manifestação do tra-
balho abstracto nas relações de troca, porquanto preci-
samente a falta de realce deste traço caracterizou o ele-
mento originário da carência da investigação clássica dos
problemas económicos em geral.
Ora, em Marx, existe uma total subversão do ponto
de vista comum dos clássicos: ele, de facto, chega ao
conceito de trabalho abstracto (e naturalmente, como
se viu, ao de força de trabalho) precisamente porque
distingue, através de uma série de mediações teóricas,
por um lado o trabalho humano, como elemento natural
eterno da produção, e por outro, o trabalho na sua
forma histórica de produto e de elemento do capital.
Tais mediações são constituídas, antes de mais,
pela concepção geral marxista de que o trabalho, como
produção de vida material, ou seja de mercadorias de
subsistência, é a actividade universal do homem, através
da qual ele realiza o encontro entre si e a natureza, entre
si e o outro (o outro homem).
O homem, antes, é a sua própria actividade produ-
tiva, e a «realidade», a existência dos homens, assenta
na mesma base material entre a qual eles agem; «o que
eles são coincide por isso imediatamente com a sua pro-
dução, tanto com o que produzem como com o modo
como produzem. O que os indivíduos são depende por
isso das condições materiais da sua produção» (3), do
modo determinado de manifestar a sua vida.
Este modo determinado da actividade produtiva
dos indivíduos é expressão de uma relação natural e
social ao mesmo tempo; natural, porquanto é o meio
que regula o intercâmbio orgânico entre o. homem e
a natureza, e dobra e plasma o elemento natural segundo
os seus fins, e por sua vez é por este plasmado; social,
no sentido de que os homens «produzem só quando
colaboram de um determinado modo e trocam recipro-
camente as suas actividades. Para produzir eles entram
uns com os outros em determinadas uniões e relações,
e a sua acção sobre a naturezà, a produção, tem lugar
sociais aparecem mediadas pelo dinheiro, cfr. além da belíssima
passagem de Marx ainda nos Lineamenti fondamentali cit., I, as
pp. 96 e segs.
( 3) K. Marx, L'ideologia tedesca, Editori Riuniti, Roma,
1967, p. 9.
103
apenas no quadro destas umoes e relações sociais» (4).
Estabelece-se assim uma recíproca relação, uma
influência mútua, um intercâmbio entre o homem, a
natureza e o outro homem, entre o trabalho, o objecto
material externo e as relações sociais produzidas.
Como consequência, conforme o carácter determi-
nado dos meios de produção, são diferentes as relações
sociais que ligam uns aos outros os produtores, as
« condições nas quais eles trocam a sua actividade e
participam no acto global da produção» (5); «um modo
de produção ou um estádio industrial determinado está
sempre unido com o modo de cooperação ou um estádio
social determinado, e este modo é ele também uma
«força produtiva»; daqui deriva que a quantidade das
forças produtivas acessíveis aos homens condiciona a
situação social e que por isso a «história da humanidade»
deve ser sempre estudada e tratada em relação com a
história da indústria e da troca» (6). A importante
conclusão que daqui se tira é esta: como a realidade do
homem e a origem da sua própria história deve pro-
curar-se na sua actividade produtiva de vida material,
assim as formas históricas determinadas, que o trabalho
assume, recebem sempre em si a marca das correspon-
dentes relações de produção e reflectem os mesmos
laços sociais que tais relações estabelecem entre os
indivíduos.
Não assumimos aqui a tarefa de indagar o abismo
que Marx, com tal concepção cava .entre si e a tradição
filosófica precedente: esta exprime-se contudo pela boca
dos . «idealistas», para os quais a origem da história
coincidia com a auto-afirmação do indivíduo isolado,
como puro acto de vontade, como afirmação de cons-
ciência e o primeiro acto histórico consistia neste des-
pertar do espírito do seu torpor material; ou, pela boca
dos filósofos empiristas, que partiam de um análogo
ponto de vista abstracto, os homens de qualquer modo
fixados fantasticamente, acabavam sempre por fazer do
movimento da história um movimento ideal: ou «uma
recolha de factos mortos», como para os empiristas, ou
«uma acção imaginária de indivíduos imaginários», como
(4) K. Marx, Lavara salariata e capitale, Editori Riuniti,
Roma, 1960, p. 48.
(5) Idem, p. 48.
(6) K. Marx, L'ideolagia ted,esca, cit., p. 20.
104
para os idealistas. Esta concepção comum metafísica po-
voava a história de fantasmas (de ideias) e fazia partilhar
os homens «no seu processo de desenvolvimento, real e
empiricamente constatável, sob condições determinadas»;
pelo contrário, só «onde cessa a especulação, na vida
real, começa a ciência real e positiva, a representação
da actividade prática, do processo prático de desenvol-
vimento dos homens. Caem as frases sobre a consciência
e em seu lugar deve suceder o saber real» (7).
Ê, pelo contrário, suficiente aqui relembrar o pre-
cedente juízo sobre os economistas clássicos, os quais,
como os filósofos, partem da acção dos indivíduos isola-
dos e em concorrência entre si, e fazem de tal acção
o pressuposto de toda a acção (exemplar é o caso de
Smith), e com a análise das relações de troca e da
concorrência, ou seja de determinadas relações sociais
que se estabelecem entre os homens, eles vêem esgotada
a análise de todo o tipo de relação histórica e social.
Tal limite teórico da economia política como especifi-
caremos melhor em seguida, constitui não só uma limi-
tação do seu âmbito de investigação, como o obstáculo
de fundo à científicidade do seu próprio discurso.
Por isso, e para concluir, se o trabalho assume em
si, na medida em que as determina, as formas peculiares
e historicamente determinadas das correspondentes rela-
ções sociais de produção, o trabalho «abstracto», que
vimos fixar-se nos valores de troca, é assim · princípio
e fim, origem e resultado das relações de produção
fundadas sobre a divisão do trabalho pela troca, e
sobre a concorrência: em resumo, das relações de pro-
dução capitalistas. Assim também, o homem que produz
tal trabalho é constrangido a fazê-lo isolada e autono-
mamente dos outros homens, mediante instrumentos
(7) · Idem, p. 14. É necessário todavia acrescentar que para
Marx este ponto de vista abstracto e metafísico dos filósofos,
de partir do indivíduo isolado e separado dos outros homens,
não é senão, paradoxalmente, o refl~xo acrítico de uma reali-
dade que é ela própria abstracta e metafísica, ou, como diz
Marx, «virada do avesso», cm que o homem está separado,
estranho aos objectos, a si, aos outros homens. Coerentemente
com os seus pressupostos teóricos, Marx fará coincidir a desmis-
tificação e a superação real do estado de alienação e de fractura
do homem na sociedade civil, não com um acto puramente
mental, mas com um acto prático, um acto revolucionário. E este
é o sentido profundo e o próprio culminar de todoo pensamento
marxista.
105
e meios de produção que não lhe pertencem e tendo
como fim da sua actividade um produto que não é o
seu: é o homem estranho e contraposto ao objecto, a
si próprio e aos outros homens: é o homem alienado.
O trabalho abstracto é por isso não o trabalho em
geral, do homem em geral, mas o trabalho do homem
alienado, é o trabalho alienado na sociedade burguesa.
O trabalho vivo, elemento real de toda a produção,
não surge senão «como meio de valorizar os valores
existentes, e por isso capitalizá-los». Ele não se manifesta
mais «no trabalho material como no seu órgão objec-
tivo», mas é o trabalho acumulado, materializado nos
meios de produção que, agindo como capital, «se con-
serva e cresce sugando trabalho vivo, tornando-se assim
valor que se valoriza».
Não é o trabalho que usa os meios de produção,
mas são os meios de produção que usam o trabalho,
são as «coisas» que fazem mover e dominam o homem.
«Como esforço, como manifestação de energia vital,
o trabalho é actividade pessoal do trabalhador, mas
enquanto criador de valor ... o trabalho do operário,
entrado que seja no processo produtivo, é ele mesmo um
modo de existir do valor-capital, sua parte integrante»;
esta força criadora de valor é força do capital, «melhor
ainda, do empobrecimento do operário, que cria valor,
mas que o cria como valor a ele estranho» (8). ·
:É claro como tal concepção marxista do trabalho
·abstracto como trabalho alienado na sociedade capita-
lista, que encontra a sua sistematização definitiva, com
todas as consequências teóricas e práticas que de tal
concepção se extraem, em O Capital, constitui, por outro·
lado, o fio que estabelece a continuidade e a coerência
da obra juvenil marxista com a da maturidade.
Nos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844
Marx, embora não tendo ainda totalmente organizado
e articulado o seu discurso económico, precisamente
neste seu conceito de trabalho marca o seu total destaque
da economia burguesa. Esta, de facto, nos seus máximos
expoentes como Smith e Ricardo, reconduziu as «cojsas»
ao trabalho do homem; mas, «sob a aparência de um
reconhecimento do homem, a economia política cujo
princípio é o trabalho, é, antes, apenas a consequente
( 8) Todas as citações são extraídas de: K. Marx, II capitale,
Livro I, cap. VI, cit., pp. 18-19.
106
efectivação da renegação do homem» (9) desde o momento
em que o homem e a sua actividade não são mais
«sujeitos» da vida produtiva, mas objecto e meio da
propriedade privada.
O trabalho, que em situação capitalista é ainda
o único nexo que liga os homens às forças produtivas
estranhas a si e à sua própria existência, perde para
ele «toda a aparência de manifestação pessoal e mantém
a sua vida somente entristecendo-a» (10). O trabalho não
é mais a actividade vital do homem, mas a vida do
homem é, apenas fora de tal actividade: no acto de
comer, beber, ir para a cama.
Tal alienação do trabalho, como «expropriação da
actividade humana e força substancial porquanto acti-
vidade e força substancial genérica», cujas expressões
sensíveis são a propriedade privada, a divisão do trabalho
e a troca (li), atinge o seu ponto mais alto, a sua extrema
forma perfeita no capitalismo, em que as forças do
trabalho estão a tal ponto separadas do homem que
as produz, a produção de vida material está a tal ponto
separada da manifestação pessoal, que o trabalho, a
actividade vital do homem, pela sua essência torna-se
«apenas um meio para a sua existência» (12).
Todos os Manuscritos se desenvolvem em torno
deste tema central, ou seja da distinção entre trabalho,
como actividade vital e essencial do homem, como a
produção prática de um mundo objectivo, mediante a
qual o homem conscientemente estabelece relação com
a natureza e os outros homens, como com o seu próprio
ser, e o trabalho abstracto do indivíduo isolado e abs-
tracto, na actual sociedade capitalista.
Nesta insistência de Marx sobre este conceito, que
constitui precisamente aquilo de que ele faz partir a
sua análise económica, e a sua crítica à precedente
posição clássica, e que é depois dado como adquirido,
ou melhor, é directamente assumido e desenvolvido
(') K. Marx, Opere filosofiche giovanili, cit., pp. 219-20.
('º) K. Marx, L'ideologia tedesca, cit., p. 63.
(li) K.Marx, Opere filosofiche giovanile, cit., pp. 250-1.
E acrescenta: «Divisão do trabalho e troca são os dois fenómenos
pelos quais a economia se vangloria do carácter social da sua
ciência e exprime ao mesmo tempo, inconscientemente; a contra-
dição da sua ciência: a fundação da sociedade sobre o associai
interesse particular».
(") Idem, p. 199.
107
no seu «resultado», em O Capital, está todo o sentido
e o carácter peculiar do discurso científico marxista.
Esta concepção, de facto, longe de ser o ponto de partida
«ideal» ou pior ainda, o pressuposto moral que Marx
colaria ao seu discurso científico, é, pelo contrário,
a própria substância de tal discurso.
Por outro lado, a relação entre trabalho abstracto
e capital é dúplice. Por um lado, o trabalho abstracto
é elemento e momento do capital (embora conservando
algumas formas e características do trabalho em geral,
o que lança os economistas na confusão mais profunda),
por outro lado o trabalho abstracto é também o próprio
fundamento ineliminável da vida e da reprodução do
capital (outra fonte de contradição para os economistas:
o capital é produtivo, como também o trabalho é pro-
dutivo). Noutros termos o traballho é «sangue e linfa
do capital», embora sendo - ou precisamente porque
o é - submetido por ele.
Desenvolvemos esta proposição, que investe a pró-
pria essência da relação entre capital e trabalho, ou
a condição geral do trabalho e do seu contraposto,
o capital.
O trabalho, no capital, é a «miséria absoluta como
objecto», e ao mesmo tempo, a «possibilidade geral da
riqueza como sujeito e como actividade»; ele, «existência
antitética do capital», é «pressuposto do capital, e por
outro lado pressupõe pela sua parte o capital» (13).
O capital, por outro lado, como poder sobre o
trabalho, apresenta-se como realidade geral da riqueza,
que constantemente se apropria e engrandece com a
riqueza produzida. .
Ele é a superação das formas imperfeitas e limi-
tadas de riqueza da troca simples, no qual o fim do
processo económico no consumo interfere de imediato
com a própria natureza do valor de troca- o dinheiro -
tendente a ultrapassar todos os seus limites intrínsecos;
no qual, por isso, a realização do valor de uso como
valor de troca e vice-versa, coincide com a sua negação
e a sua anulação, na sua existência material, um, na sua
forma geral e universal de riqueza, o outro (o dinheiro),
cuja unidade é ainda imediatamente a sua diferença,
(") K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, p. 280.
108
e cuja diferença é ainda imediatamente a sua unidade (14).
Pelo contrário, o capital é ao mesmo tempo o
valor de uso realizado e o valor de troca realizado.
Ele é todos os valores de uso e todos os valores
de troca: a sua determinação formal é a sua univer-
salidade, o seu movimento e o seu fim, a superação de
todo o limite quantitativo que contradiga a sua qualidade
de representante geral da riqueza: a sua actividade é
pois só a do enriquecimento, do incremento e da multi-
plicação de si próprio.
Mas ele é assim, e torna-se, só como expressão, resul-
tado e essência de determinadas relações sociais (o con-
trário, pois, da opinião comum que faz do movimento do
capital a miraculosa actividade de uma «coisa»; exem-
plaridade de Ricardo, para o qual o capital é simples
trabalho acumulado, objectivado; também os economis-
tas povoam a história de fantasmas) (15).
O capital é uma relação burguesa de produção,
uma relação de produção da sociedade burguesa. O capital
é capital, porquanto como força social autónoma, inde-
pendente, como força de uma parte da sociedade, se
conserva e aumenta mediante a troca com a forçade
trabalho viva, imediata (16).
A possibilidade da apropriação do trabalho por
parte do capital é fundada sobre o que paradoxalmente
aparece como seu resultado: a separação entre proprie-
dade e trabalho, entre trabalho e riqueza: ela é antes a lei
necessária desta troca.
O trabalho, de facto, no capital, existe como «tra-
balho separado de todos os meios e objectos de trabalho,
de toda a sua objectividade. :É o trabalho vivo existente
('4) Idem, pp. 247 e sgs. O valor de troca - o dinheiro-,
não pode realizar-se senão suprimindo-se como valor de uso;
o valor· de uso não pode realizar-se como riqueza senão supri-
mindo a sua essência material; cfr. idem, p. 236: «Dizemos troca
dinheiro-mercadoria: quer dizer que o valor de troca da merca-
doria desaparece face à sua essência material; dizemos troca
mercadoria-dinheiro: quer dizer que a sua essência desaparece
face à sua forma de valor de troca. No primeiro caso é cancelada
a forma do valor de troca, no segundo a sua essência; em
ambos por isso a sua realização é uma realização evanescente».
(15) Cfr. K. Marx, Lavara salariato e capitale, cit., p. 47.
«O capital é trabalho acumulado que serve como meio para uma
nova produção. Assim dizem os economistas. O que é um escravo
negro? Um homem de raça negra. Uma explicação vale a outra».
( 16) Idem, p. 50.
109
como abstracção destes momentos da sua efectiva reali-
dade (e também como não-valor)». Ele é «não matéria-
-prima, não instrumento de trabalho», é a completa
expolição, pura existência subjectiva (existente na simples
possibilidade física do operário de libertar trabalho ao
contacto do capital), privada de toda a objectividade (17).
Em face do capital, pois, como toda a propriedade
e toda a riqueza, em face do capitalista sua personifi-
cação, está o operário, apenas possuidor de uma só
propriedade e de um só poder, a propriedade da pró-
pria força de trabalho, simples trabalho em potência, e o
poder da livre troca da sua capacidade laboral.
A troca entre os dois, por isso, fundada sobre o
direito de propriedade e sobre a recíproca autonomia,
adquire juridicamente o título de uma troca entre iguais:
proprietários livres num mercado livre. Mas se por um
lado o operário vende, em troca dos seus meios de
subsistência, por um valor já fixado precedentemente,
o equivalente trabalho objectivado na sua força de
trabalho, que para ele é de outro modo privada de
valor, pela outra o capital recebe-o como trabalho vivo
produtor de riqueza, como força criadora e vitalidade
fecundante. De facto por isso, realizada a troca, o
operário encontra-se tal como antes - recebeu o exacto
equivalente da sua capacidade laboral- e constrangido,
uma vez consumado tal equivalente, a renovar a troca;
o capital, pelo contrário, no fim da troca, encontra-se
na posse da actividade criadora de. valores: o primeiro,
portanto, empobrece-se e torna-se cada vez mais pobre,
o segundo aumenta cada vez mais o seu domínio sobre
o valor de uso da capacidade laboral: o trabalho.
Esta troca, que tem toda a aparência de uma troca
simples, é assim só para o operário que recebe o equiva-
lente daquilo que dá, o trabalho contido na sua força
de trabalho, esta mercadoria que existe no seu próprio
organismo; para o capitalista ela é, pelo contrário, uma
não troca, é a utilização, o consumo da força de tra-
balho no processo produtivo onde finalmente ele vê
realizado o seu objectivo: a transformação dos elementos
mortos do seu capital em instrumentos criadores · de
nova riqueza.
Só em tal processo real de produção, onde a força
de trabalho é consumada de modo produtivo, de modo
(") K. Marx, Líneamenti fondarnentali cit., I. p. 279.
110
a criar novos valores de troca, a troca entre capital
e trabalho existente na esfera da circulação se realiza
efectivamente (o consumo, neste caso, porquanto con-
sumo de uma mercadoria especial, a força de trabalho,
não sai fora da circulação, como na troca simples entre
mercadorias e dinheiro, mas, através do processo de pro-
dução e de valorização do capital, reentra aqui como valor
acrescentado). Deste modo aquilo que estava pressuposto
no início do processo encontra-se por fim como seu pró-
prio objectivo, ou seja através da simples assunção do
trabalho vivo como acto que gera e multiplica a riqueza,
o valor de troca, que estava pressuposto no início, é
também o termo do processo, como acrescido valor
de troca.
Portanto, o processo, visto na sua totalidade e
circularidade - a realização na produção, da troca,
aparentemente simples e igual, havida na circulação, entre
capital e trabalho, através do consumo da força de
trabalho para a criação de novo e acrescido valor de
troca - revela até ao fundo a sua natureza: tal troca
aparente é, não só uma troca fundada na desigualdade
(separação entre trabalho e riqueza, entre meios de
produção e trabalho), mas uma troca também, que
esconde, no que respeita ao operário, a alienação da
própria força de trabalho a um valor pré-determinado,
e a exploração, no processo de produção, de tal capa-
cidade além do seu valor, como actividade criadora de
riqueza, como valorização do capital; no que respeita
ao capital, pelo contrário, ele esconde a aquisição, medi-
ante a compra da força de trabalho, da total disponibi-
lidade sobre o seu «uso», completamente desvinculado
do seu «preço», do valor pago.
Graças, pois, à compra e venda daquela mercado-
ria especial que é a força de trabalho, o capital tem
a possibilidade de receber grátis todo o tempo do seu
funcionamento no processo produtivo, durante o qual,
ela, como trabalho em acto, produz «um valor de uso
superior para outros» (isto é, produz um valor de uso
que supera aquele por ela pago, ·e produ-lo para outros)
«e por isso, um valor superior de troca» (18). Mas o
capital, além de vender multiplicado o valor de troca
introduzido na produção, e por isso, alargar constante-
mente a base da sua riqueza, adquire ao mesmo tempo
(") Idem, p. 300.
111
a possibilidade de se conservar na sua base material,
como valor de uso (19). De facto, a «nobre força repro-
dutiva» (2°) cedida pelo operário como força determinada
qualitativamente, como força específica, útil, tem a
capacidade ao mesmo tempo, de conservar, modificar,
transformar em novos valores de uso, os velhos valores,
os meios de produção mediante os quais trabalha.
O capital, portanto, atinge o duplo efeito de auto-
valorizar-se, no próprio momento em que se autoconserva
como capital.
Todo o seu mistério está resolvido. A sua total
existência é afirmada: como conservação da forma mate-
rial da riqueza e como multiplicação dela mesma.
Mas vejamos as coisas mais de perto.
O capital apropriando-se do valor de uso da força
de trabalho pode, portanto, querer apoderar-se implici-
tamente dos dotes naturais do trabalho vivo, que, como
trabalho específico particular e aderente aos meios de
produção sobre que trabalha possui a qualidade de
conservar quantitativamente e transformar os velhos
valores de uso (tal é de facto o papel material do
trabalho no processo de produção, que reentra no seu
valor de uso e pertence portanto, como tal, ao capital),
quer desfrutar programaticamente as características do
trabalho «induzidas» pelo próprio capital, de ser trabalho
abstracto, igual, que, usado quantitativamente como puro
tempo de trabalho socialmente necessário, cria valores
novos, quer dizer não existentes no início do processo.
O trabalho humano abstracto, elemento dinâmico da
produção, constantemente cresce e desenvolve o processo
produtivo, não através de uma simples reprodução, mas
como uma criação sempre nova de valor. .
Daqui deriva que a possibilidade de prolongamento
«quantitativo» do trabalho além do equivalente pago,
ou seja além. do tempo de trabalho necessário à força
de trabalho para conservar e reproduzir-se a si mesma,
é a mesma possibilidade de libertar mais-trabalho como
mais-valia e de produzir mais-valia comomais-produto.
Todavia, tais aspectos e características do trabi,llho
que agem como força e energia vital do capital, aparecem
depois e de facto são reduzidas às suas simples manifes-
tações, momentos e ·«apêndices» da sua autovalorização.
(") Idem, p. 371.
("') K. Marx, Lavoro s(ilariato e capitale, cit, p. 51.
112
A actividade dinâmica e criativa do trabalho, comple-
tamente absorvida e incorporada pelo capital, coincide
com o ritmo e a força do seu próprio movimento.
De novo, à superfície do processo, onde toda a
mediação aparece só na forma do seu resultado, os
termos aparecem ao contrário: o carácter propulsivo do
trabalho torna-se forma própria do capital. Os valores
de troca, as mercadorias, o salário como preço do tra-
balho, a força de trabalho como meio de produção
entre os outros, o lucro como juro, etc., acabam por
explicar e exaurir todo o ciclo da actividade económica;
são os próprios fenómenos reflexos que se encontram
depois como principal objecto da análise dos economistas.
Dado, assim o duplo carácter do trabalho, pelo
qual ele, por um lado é trabalho útil determinado - ou
seja a forma natural eterna do trabalho, que, como
actividade finalista e formadora, concilia a indiferença
entre matéria e forma, entre objecto natural e ideia (21)
e em que instrumento e material são momentos do
trabalho - e, por outro lado, é trabalho abstracto criador
de valores, o movimento real do capital parece desa-
parecer totalmente no seu resultado. Volta-se à contra-
ditória posição de que havíamos partido: o trabalho
( 21 ) «Uma vez postos como condições de trabalho vivo,
instrumento e matéria-prima são reanimados»; deste modo,
através do trabalho vivo «o material é conservado numa forma
determinada, ou seja a alteração de forma da matéria é subor-
dinada ao objectivo do trabalho. O trabalho é fogo que dá vida
e forma; as coisas são transitórias, temporais, uma vez que
sofrem a actividad,e formadora do tempo vivo». K. Marx,
Lineamenti fondamentali cit., I, p. 365. O sublinhado é nosso.
Este conceito marxista de trabalho, como actividade for-
madora, poderia facilmente ser aparentado à análoga definição
que Hegel dá do trabalho: na realidade a utilização da deter-
minação do trabalho como acto finalístico do homem é pro-
fundamente diferente nos dois. Em Hegel, como diz Marx nos
A1anoscrltti (cit., pp. 263-4), o conceito de trabalho é determinado
de modo unilateral e abstracto; unilateral, porquanto a acen-
tuação do trabalho como actividade plasmadora e finalística
do objecto é feita sem consideração P.ela relação causal e neces-
sária entre o homem e a natureza, o objecto externo do trabalho
de que se vê por isso só o aspecto positivo, não o negativo; abs-
tracto, no sentido de que apenas o trabalho que Hegel conhece e
reconhece é o trabalho espiritual abstracto. Para o conceito de tra-
balho cm Hegel, cfr. além dos dois cursos de Lições de lena, que
são os mais ricos de alusões sobre tal assunto - e em que se
ressente forte influência dos economistas e de Smith sobretudo -
também a Fenomenologia dello spirito, La Nuova Italia, Florença,
1963, e Lineamenti di filosofia del diritto, Laterza, Bari, 1965).
113
produtor de capital aparece como - e é - seu produto
e seu elemento: mas esta não é senão a mesma necessária
e inevitável contradição implícita na assunção do tra-
balho sob o capital, ou seja a de poder existir, como
força produtiva, só na forma de trabalho assalariado,
de trabalho alienado. E este é ao mesmo tempo o
segredo que ficará para sempre hermeticamente fechado
aos olhos dos economistas burgueses, que olham os
factos da economia capitalista com os mesmos olhos
do capital.
Esta exposição, ampla mas necessária, da análise
marxista do carácter geral da economia capitalista, total-
mente fundada na troca entre capital e trabalho vivo,
consente-nos retomar e reafirmar, a um nível mais alto
de compreensão, a peculiaridade e a complexidade do
instrumento teórico principal de que Marx faz uso para
levar ao fim tal análise: a teoria do valor-trabalho. A teo-
ria marxista do valor representa a expressão mais alta
e acabada da teoria do valor-trabalho: e não simples-
mente no sentido de que ela constitui o prolongamento
teórico da análoga teoria precedente, mas no sentido
mais geral de que, relativamente a esta última, ela é a
ruptura e a contraposição de um ponto de vista com-
pletamente diferente.
O seu mérito fundamental é o de ter feito remontar
claramente o valor das mercadorias apenas ao trabalho.
. Este foi na realidade o resultado de maior inte-
resse da economia política clássica, no seu máximo
expoente, Ricardo; mas ter restituído ao trabalho os
seus próprios produtos não foi todavia suficiente para
reconhecer por detrás de tais produtos do trabalho as
reais relações sociais que lá estavam escondidas e con-
sequentemente para libertar de modo definitivo o tra-
balho da sua forma de coisa (a forma reificada, mistifi-
cada e alienada do traba]ho sob o capital); pelo que na
análise clássica afloravam sempre, na determinação do
valor, quanto aos elementos próprios do trabalho, os
elementos imediatos e visíveis do capital, que acabavam
por assumir um papel autónomo contraposto ao trab;;tlho.
Marx, pelo contrário, reivindica finalmente só e
apenas para o trabalho o papel de elemento essencial
e determinante do valor, relegando toda a possível inter-
ferência a tal determinação, no campo das formas feno-
ménicas, quando não verdadeiramente transitórias, dos
movimentos do capital. E tudo isto, na medida em que
114
é ao mesmo tempo reinvindicada só para o trabalho
humano vivo a capacidade de criar valor e mais-valia,
e de ser por isso, além do carácter essencial, também
o instrumento indispensável e insuprimível do capital.
Em Marx, por isso, existe perfeita coincidência
entre o trabalho enquanto medida substancial do valor
(na determinação de tempo de trabalho) e o trabalho
enquanto elemento que desempenha o papel determi-
nante no processo produtivo, como único elemento cria-
dor de novo valor. Noutros termos, em Marx o problema
da medida do valor e o da causa do valor confluem e
identificam-se num problema único (em contraposição
especialmente a Smith, no qua] pode encontrar-se tal
problema da não causalidade da escolha da medida com0
exigência teórica, pois, de facto, a medida do valor, que
Smith obtém mediante o valor do trabalho, prescinde
da causa do mesmo valor, ou seja a quantidade de tra-
balho necessária; análoga posição se encontrará em
Malthus).
Esta posição marxista, a afirmação de que a origem
do valor e da mais-valia está no trabalho, não está em
contradição com a tese de que o trabalho é simples
momento e elemento do capital, mas antes, precisa-
mente por estar o trabalho submetido ao capital deriva
a sua possibilidade de ser elemento criador de valores,
e a sua necessidade de finalizar o valor na criação de
mais-valia (22).
(22) Deste carácter necessano do trabalho submetido ao
capital, e elemento criador de valor e mais-valia, derivam
segundo Marx duas consequências fundamentais que aqui apon-
tamos apenas, propondo-nos retomá-las em seguida: a) de reco-
nhecer precisamente em tal trabalho coercivo, na contrição
à mais-valia, a grande função histórica do capital: a de revo-
lucionar toda a técnica produtiva, diminuindo constantemente
o tempo de trabalho necessário, e lançando as bases para a pos-
sível e êlefinitiva libertação do homem do trabalho (K. Marx,
Lineamenti fonclam,entali cit., I, p. 317: «Na sua incessante ten-
são para a forma geral da riqueza, o capital impele o trabalho
para além dos limites das suas necessidades naturais, e deste
modo cria os elementos materiais para o desenvolvimento de
uma individualidade rica e dotada de aspirações universais tanto
na produção como no consumo»); h) de fundar, precisamente
na necessária e essencial contradição de que o trabalho sob o
capital conserva (de ser miséria absoluta como ob,iectoe pos-
sibilidade absoluta de riqueza como sujeito, reduzido por isso
de sujeito a objecto e instrumento do capital) a sua própria
teoria revolucionária, soldando o fim do papel histórico do
capital ao papel revolucionário da classe operária.
115
Daqui o carácter peculiar da teoria marxista, que
precedentemente procurámos sublinhar, de ser teoria
completa do valor ao mesmo tempo que se apresenta
também como teoria da mais-valia. Deste modo, através
da multiplicidade de mediações que foram esclarecidas
no decurso da análise, resulta como o assunto e funda-
mento teórico da investigação sobre o valor está defi-
nitiva e coerentemente posto por Marx, ao fazer da
«forma» do trabalho, o trabalho abstracto, a forma
absoluta do valor, e ao medir, relativamente aos outros
valores, as grandezas de valor produzidas, segundo a
unidade temporal do trabalho «socialmente» necessário
(e por isso já reduzido à sua simplicidade e à igualdade
com os outros trabalhos) necessário para a sua produção.
Mas a explicitação de tal posição teórica marxista
não esgota, na realidade, todo o discurso sobre o carácter
da sua teoria do valor. O outro aspecto original, a ela
inseparavelmente ligado, é o da descoberta, precisa-
mente mediante tal teoria, das efectivas relações sociais
que se escondem por detrás das relações e categorias da
produção capitalista. Isto que de facto se mostra, segundo
Marx, à superfície de tais relações e categorias, é só o
seu movimento aparente e fenoménico, não a sua efec-
tiva realidade (23).
A tarefa dos economistas relativamente a este movi-
·mento aparente foi sempre a da. sua assunção acrítica;
e o resultado de tal assunção, como é óbvio, foi não a
realidade, mas a realidade «deformada» num facto
empírico.
Ponto de vista oposto tem-se com .Marx. Vejamos
porquê. Antes de tudo o ponto de partida e o resultado
da descoberta marxista do mundo mistificado das mer-
cadorias encontra-se na sua própria determinação da
forma de valor, de mercadoria, que o produto do tra-
balho assume no modo de produção capitalista. Esta
característica específica do trabalho sob o capital de se
dever apresentar na forma do valor, que está completa-
(23) Recorde-se o que diz Mar~ eip. Per la critica c!t., p. _16:
«Característico do trabalho que ena valor de troca t;, en~im,
que a relação social <!as pe~soas se <l;presenta por assim dizer
ao avesso, como relaçao social das coJSas»
116
mente ausente da análise da economia clássica (24), é a
sua forma fundamental, a mais universal daquilo que
é para Marx o «feiticismo» económico, o feiticismo das
mercadorias. De facto precisamente a forma de merca-
doria, ou seja de bem produzido para a troca, que os
produtos do trabalho assumem, transfere continuamente
as qualidades do trabalho humano, social, para as pró-
prias coisas, e enquanto os caracteres do trabalho pare-
cem tornar-se propriedades imanentes às coisas, estas
últimas parecem animadas de vida própria, autónoma.
O trabalho humano resulta coisificado, reificado, as coi-
sas personificadas.
A forma feiticista das mercadorias generaliza-se a
todas as categorias económicas da produção capitalista,
é a própria essência delas, e as relações sociais dos indi-
víduos na sua totalidade aparecem «como relações de
coisas entre pessoas e relações sociais entre coisas» (25).
Portanto, o «mistério» da forma da mercadoria,
desta coisa «sensivelmente supra-sensível», consiste sim-
plesmente «no facto de que tal forma, como num espe-
lho, restitui ao homem a imagem dos caracteres sociais
do seu próprio trabalho, fazendo-lhes aparecer como
caracteres objectivos dos produtos daquele trabalho,
como propriedades sociais naturais daquelas coisas, e por
isso restitui também a imagem da relação social entre
produtores e trabalho global, fazendo-o aparecer como
uma relação social entre objectos existentes f9ra desses
produtores» (26).
Mas este feiticismo que se «pega aos produtos do
trabalho», aos produtos da «mão humana» que apenas
são produzidos como mercadorias, e que mistifica o
movimento aparente das coisas pelo movimento social
real, apresentando a realidade subvertida, «do avesso»,
é de facto a própria realidade. O carácter feiticista do
mundo das mercadorias é por isso uma coisa muito prá-
(") Recorde-se a impossibilidade smithiana e ricardiana
de dar uma resposta a tal problema, do porquê o trabalho
contido no valor, dever assumir aquela forma, a forma do valor,
e como, por consequência, a sua análise, desenvolvendo unica-
mente a determinação das grandezas de valor não representar
nunca teoricamente este supremo limite de abstracção produ-
zido pela economia capitalista.
(25) K. Marx, ll capitabe, cit., I, p. 105.
(26) Idem, p. 104.
117
tica e muito real que «surge do carácter social peculiar
do trabalho que produz as mercadorias» (27).
Os valores de uso apresentam-se como mercadorias,
ou seja, como valores de troca, só enquanto «produtos
de trabalhos privados, executados independentemente
uns dos outros» (28), nos quais o momento da sociabili-
dade se realiza através da sua real diferença; consequen-
temente: o trabalho apresenta-se nas mercadorias só
enquanto trabalho abstractamente humano, simples dis-
pêndio de força de trabalho humana.
Neste sentido, as relações sociais entre os trabalhos,
dependendo efectivamente das condições nas quais a
troca põe os produtos do trabalho e os próprios produ-
tores, aparecem a estes últimos como aquilo que são,
não como relações imediatamente sociais entre pessoas,
mas como relações sociais entre coisas.
Este carácter feiticista, e generalizado a todo o
mundo das mercadorias, atinge além disso o mais alto
grau no particular feiticismo da mercadoria força de
trabalho, cuja existência como mercadoria esconde, sob
a aparência da troca simples, o carácter de exploração
do modo de produção burguesa: nela se realiza final-
mente o feiticismo já contido na própria forma de
mercadoria.
É claro neste ponto, como Marx, através da análise,
em O Capital, do carácter de feiticismo da mercadoria
~ do seu mistério, intui um íntimo laço entre a análise
do carácter «alienado», estranho, ·do trabalho das suas
obras juvenis, e a forma também «estranha», abstracta,
reificada, do trabalho como essência do valor; o trabalho
abstracto aparece como o trabalho alienado na sacie- ·
dde burguesa, a forma perfeita da alienação.
Concluindo, a teoria do valor, vista na sua globa-
lidade, pode verdadeiramente, como se fez (29), ser defi-
nida como a própria teoria do feiticismo.
(27) Idem, p. 105.
(28) Idem, p. 105.
( 29) Cfr. L. Colletti, «Introduzione a Bernstein», Socialismo
e socialdemocrazia, Laterza Bari, 1968, p. XLIV, na qual é· reto-
mada, no fim de uma correcta interpretação da fundamentação
marxista da lei do valor, a temática da relação, fundamental
em Marx, entre alienação e feiticismo (cfr. também, do mesmo
autor, Il marxismo de Hegel, Laterza, J,3ari, 1969). Outro impor-
tante contributo vem-nos ainda de L. Colletti, tendo ele aberto,
de novo, o discurso sobre como a teoria do valor marxista
- enquanto teoria do feiticismo, ou seja enfim enquanto assun-
118
Afirmar isto no fim das nossas considerações sobre
as formas peculiares e os caracteres gerais da teoria
marxista do valor, não quer dizer senão tornar explí-
cito, no seu significado mais completo, o próprio fun-
damento teórico e ponto de partida da análise marxista:
o valor segundo a «forma» (3°), isto é, a forma determi-
nada que o trabalho assume como essência do valor.
Isto significa ao mesmo tempo reafirmar a distância
que separa Marx da precedente análise clássica, pela
qual o motivo da falta de análise da «forma de valor»,
se apresenta ao mesmo tempo como motivo estranha-
mente ideológico, político, ou seja de aceitação e de
defesa, de um ponto de vista naturalista, dos caracteres
e das categorias históricas e específicas do capital.
Pelo contrário, «pelo facto de ter simplesmente
desmascaradotodas as categorias económicas como um
único grande feiticismo, Marx, na sua nova teoria, ultra-
passou realmente todas as formas e fases da economia
e da sociedade burguesa» (31), e assumiu sobre si o ponto
de vista de uma classe, a classe operária, a qual é cha-
mada a desempenhar um papel histórico não já corpora-
tivo, mas universal, o da superação revolucionária das
relações capitalistas de produção, para a completa e
definitiva emancipação do homem das relações de pro-
dução «alienadas», que se encontram justamente no
capitalismo.
A formulação marxista do valor, que. vimos de
modo explícito, enfim, fundamentar-se sobre a distinção
entre valor como tal (o valor segundo a «forma») e a
sua forma fenoménica, o valor de troca (as relações
entre as grandezas de valor) - distinção que não se
encontra nem na análise que precede Marx, nem na
seguinte - e consequentemente configurar-se não como
ção explícita do ponto de vista de uma determinada classe, a
classe operária - se apresenta como unidade inseparável de
ciência e ideologia, economia e política, teoria e práxis revolu-
cionária (cfr. o artigo publicado em Il Manifesto, «Marxismo:
scienza o rivoluzione?», Julho de· 1969). Retomaremos o pro-
blema dentro de pouco.
(30) Esta fórmula, diz Marx, tem assinalada na frente a
sua «pertença a uma formação social na qual o processo de
produção domina os homens e o homem não domina ainda o
processo produtivo», mas ela vale para a consciência burgl'esa
da economia política «como uma necessidade natural, óbvia
como o próprio trabalho produtivo» (Il capitale, cit., I, p. 113).
(31) K. Korsch, Karl Marx, Laterza, Bari, 1969, p. 123.
119
um simples e linear aprofundamento teórico das formu-
lações precedentes, ou como uma «correcção» técnica
das suas carências, mas um total reforço das categorias
dentro das quais as categorias teóricas se moviam, é
pois o instrumento de análise por excelência de que
Marx se dota para enfrentar e resolver os problemas
deixados abertos pela economia política clássica.
Estes problemas que, expressão directa das insufi-
ciências e das contradições da formulação clássica do
valor, constituíram os obstáculos mais graves para a
plena assunção de tal teoria por parte dos seus primei-
ros fundadores e defensores, e o terreno de revindicta
dos seus adversários, os quais desde o nascimento da
teoria do valor de troca segundo o tempo de trabalho
viram- e não sem razão, no fundo-perigos de rup-
tura da estabilização burguesa, os rodearam sempre,
podem de qualquer modo ser formulados em torno das
seguintes questões (32).
1. O trabalho posto como medida de valor, apa-
rece ele mesmo como um valor de troca: isto conduz
ao círculo vicioso de fazer de um valor a medida do valor.
2. Se o tempo de trabalho é o que determina o
valor, o valor de troca do trabalho deve ser igual ao
seu produto, isto é, o salário do trabalho igual ao pro-
duto do trabalho. O que, pelo contrário, não se verifica.
3. Os preços das mercadorias, enquanto determi-
nados pela concorrência são diferentes dos valores.
· As duas primeiras questões são resolvidas com a
introdução, feita por Marx pela primeira vez, da distin-
ção. entre trabalho, tempo de trabalho vivo e força de
trabalho, trabalho em potência, simples capacidade labo-
ral e, mediante esta distinção, com a desco"erta da cate-
goria da «mais-valia» como «mais-trabalho»; a terceira,
com a instituição do nexo-distinção entre preços e valo-
res, através do qual se por um lado é estabelecida a
diferença dos· valores, determinados segundo o tempo,
dos preços, estes últimos fazem-se remontar depois ape-
nas aos primeiros.
(32) Retomemos aqui directamente o modo em que o pró-
prio Marx, em Per la critica cit., resume as principais objecções
que podem ser levantadas à economia clássica, trecho que já
recordámos e citámos, pela sua importância e clareza, na parte
final do nosso trabalho sobre Ricardo (p. 99). Além dos
pontos que são evocados, Marx refere-nos um outro, que diz
respeito ao problema do valor dos «bens naturais» e o com
ele conexo da renda fundiária (p. 69}.
120
Não há dificuldade em reconhecer em tais proble-
mas os nós em torno dos quais se desenvolveu toda a
nossa investigação até agora: da análise crítica das posi-
ções da economia clássica, através de Smith e Ricardo,
à determinação e à contraposição do discurso marxista.
Interessa-nos tê-lo aqui precisado de novo, por-
quanto eles constituem os momentos essenciais de verifi-
cação da teoria marxista do valor, e tornam explícito
o próprio laço que se interpõe entre tais problemas e os
pressupostos teóricos que desta teoria havíamos tentado
aclarar precisamente nas últimas páginas.
Procuraremos agora desenvolver sob este aspecto
- a coerência da teoria do valor de Marx nos seus pres-
supostos e na sua verificação - e fá-lo-emos a partir da
crítica de Marx a Malthus, contida no terceiro volume
da História das Teorias Económicas (33). Isto porque nos
consente um duplo resultado, o de nos religar directa-
mente à temática deixada em aberto por Smith e Ricardo,
porquanto Malthus representa em certo sentido a sua
retomada e continuação, embora com carácter polé-
mico e reaccionário especialmente nos confrontos com
Ricardo, e por outro lado de reabrir, pela exemplaridade
e carácter sintéctico da análise marxista neste texto, e
concluir o discurso e a posição de Marx sobre estes
temas à luz das últimas aquisições feitas.
Em Malthus encontra-se, pois a retomada ,de alguns
aspectos fundamentais da investigação smithiana em opo-
sição directa a Ricardo; e se bem que ele não resolva os
problemas que afronta, antes se pode dizer que revela
em algumas passagens uma posição de regresso relativa-
mente a Smith e Ricardo, quer do ponto de vista teórico
quer do político, representando e teorizando Malthus os
interesses da parte reaccionária da própria burguesia
dos proprietários fundiários, dos «seus lacaios e outros
apêndices», como dizia Marx (a classe parasitária de
Smith: nobres, burocracia, padres ... e Malthus era ele
próprio padre), todavia as suas conclusões teóricas, por
outras passagens, não deixam de ter um certo interesse.
De facto, ele retoma de Smith aquele aspecto
peculiar da sua análise que constitui pelo contrário o
ponto mais abertamente equívoco da teoria ricardiana:
(33) K. Marx, Storia dell,e teorie economiche, cit., II, pp.
13 e sgs.
121
ou seja o problema da origem da mais-valia através da
troca entre trabalho e capital.
Enquanto «Ricardo não explica como da troca das
mercadorias segundo a lei do valor - segundo o tempo
de trabalho nele contido-tenha origem a troca desi-
gual entre trabalho vivo e capital, entre um quantum
de trabalho acumulado e um determinado quantum de
trabalho imediato» (34); e de facto faz trocar directa-
mente o capital com o trabalho e não com a força de
trabalho, Malthus tem o mérito de ter posto o acento
principal sobre o troca desigual entre capital e trabalho
assalariado, aquela troca entre trabalho acumulado e
trabalho vivo, que não coincide imediatamente com a
lei da troca de mercadorias. De facto se se parte, como
faz Malthus, do processo de «valorização» da mercadoria
como capital, no que consiste justamente a origem da
mais-valia, esta última não pode ser senão o «excedente
do trabalho (o trabalho não pago) dominado pelo capital,
pela mercadoria ou pelo dinheiro, relativamente ao
quantum de trabalho que ela contém» (35), isto é, além do
trabalho que ela contém, a mercadoria compra, domina,
uma quantidade de trabalho excedente que ela não
continha.
É explícita, nesta formulação, a reproposição da
temática smithiana do labour commanded: se se. parte
exclusivamente da consideração do processo de «valo-
rização» do capital, o lucro (ou melhor a mais-vaJia),
deriva directamente da porção, éla quantidade de tra-
balho vivo de que ele se apropria, que ele «domina»;
consequentemente, a transformação da mercadoria ou
do dinheiroem capital não deriva do facto que as
mercadorias se trocam em conformidade- com a lei do
valor, segundo o tempo de trabalho nele contido, mas
«pelo contrário pelo facto de que as mercadorias ou
o dinheiro (trabalho objectivado) se trocam por mais
trabalho vivo do que o trabalho nele contido, reali-
zado» (36).
Malthus chega a tal conclusão, que é a mesma de
Smith, porquanto faz abstracção de todas as mediações
que originam este processo; ele estava tanto mais auto-
(34) Idem, p. 14.
{") Idem, p. 15.
(36) Idem, p. 16.
122
rizado a fazê-lo e a usá-lo como resultado polémico
contra a teoria do valor ricardiana, já que, diz Marx,
precisamente tal mediação falta completamente em
Ricardo. Nem podia ser de modo diferente desde o
momento que este último «pressupõe sempre o produto
acabado, que é repartido entre o capitalista e o operário,
sem considerar a troca, o processo de mediação que
conduz a esta repartição» (37).
Em conclusão, a formulação ricardiana do valor
não nos diz donde «jorra» a mais-valia capitalista,
enquanto o grande mérito de Malthus é o de querer
ligar a categoria da mais valia precisamente à determi-
nação do valor. «O senhor Malthus quer logo acolher
o lucro» na definição do valor, para o retirar imedia-
tamente desta definição, o que Ricardo não faz. Isto
demonstra que ele intui onde se encontra a dificul-
dade» (38). O que, e abrimos aqui um breve parêntesis,
é a mesma preocupação teórica de Smith, a de querer
assumir unna «medida», uma determinação do valor que
seja ao mesmo tempo uma explicação do valor (e por
isso da mais-valia), dificuldade que Smith não resolve
e que é resolvida de maneira positiva, como se viu
sobejamente, só por Marx ao fazer do tempo de tra-
balho vivo a forma essencial do valor como tal, no
momento em que é ao mesmo tempo determinado o
papel e a função específica que este trabalho vivo desem-
penha no processo de produção em geral e no ,capitalista
em particular.
Todavia a abstracção de Malthus de todas as media-
ções que conduzem ao processo de valorização como tal,
lança-o outra vez necessária e imediatamente em contra-
dições e em confusões bastante graves: ele acaba de
facto, por confundir «a valorização do dinheiro ou da
mercadoria como capital, e por isso o seu valor na
função específica de capital, com o valor da mercadoria
como tal» (39), e deixar para trás não só as aquisições
de Ricardo, como as do próprio Smith e dos fisiocratas,
tornando a uma representação do valor que faz derivar
o valor e o lucro directamente· da circulação das mer-
cadorias, ou seja da troca mercadoria-dinheiro, que
remonta justamente aos fisiocratas (a teoria grosseira
( 37) Idem, p. 16.
(38) Idem.
( 39) Idem.
123
do sistema n1.onetário, e a assunção feiticista do dinheiro
e da troca}.
De facto, assumido o «processo» de valorização
da mercadoria como capital através da troca com o tra-
balho, imediatamente no seu resultado, no valor da
mercadoria como tal, Malthus pode concluir que as mer-
cadorias se trocam pelo seu próprio valor mais um exce-
dente sobre este valor, o lucro. Pelo contrário, se isto
é verdade para as condições da reprodução capitalista
das mercadorias - de se trocarem por uma quantidade
de trabalho maior que aquele que nela está contido
- e Malthus faz bem em sublinhá-lo, isto já não é
verdade do ponto de vista da circulação e da troca de
mercadoria por mercadoria, e que acontece sempre na
base do mesmo quantum de trabalho nele contido- e
nisto tem perfeitamente razão Ricardo.
Desta sobreposição de produção e circulação, valo-
rização e valor (recorde-se como para Marx, pelo con-
trário, o valor de troca é pressuposto e fim da produção,
que se encontra na posição de meio entre dois extremos)
que se insere acima das contradições deixadas em aberto
por Smith e não tocadas por Ricardo, Malthus tira
conclusões mais radicais que o próprio Smith, e parece
tornar à opinião comum do «lucro» resultante da cir-
culação, da venda da mercadoria acima do seu valor.
Ele chega a tal resultado, pelo facto de assimilar
a troca geral das mercadorias à trota particular que
aéontece entre capitalista e operário. Este último, de
facto, tendo incorporado, durante o processo produtivo,
na mercadoria, mais trabalho do que o contido na sua
força de trabalho, é o único que «embora comprando
todas as mercadorias pelo seu valor, as _pagou acima
do seu valor, porque comprou acima do seu valor o
equivalente geral do trabalho, o dinheiro» (4°).
Isto, todavia, não se verifica na troca geral das
mercadorias, porque se houvesse efectivamente uma
compra e venda das mercadorias acima do seu valor,
poderia falar-se de uma fraude recíproca, mas não certa-
mente de realização do lucro. Este último deriva par;;t o
capitalista não do facto de que ele vende (ao comprador,
seja ele um outro capitalista ou um operário) a merca-
doria acima do seu valor, «mas do facto de que antes,
(40) Idem, pp. 19-20.
124
no processo de produção, ele na realidade a comprou,
àquele operário, abaixo do seu valor» (41)
Pelo contrário, o «senhor Malthus», transformando
a valorização da mercadoria no seu valor, transforma
todos os compradores em operários assalariados; ou
seja «todos os compradores, segundo Malthus, trocam
com o capitalista trabalho imediato em vez de merca-
dorias, e restituem-lhe mais trabalho do que o contido
na mercadoria». Isto que ele de facto não compreende,
continua Marx, é «a diferença entre a soma total de
trabalho contido numa mercadoria, e a sonia de trabalho
pago que ela contém» (42), que é o que constitui a fonte
do lucro. Malthus, pelo contrário, faz derivar este último
não só do facto de que a mercadoria é vendida acima
do valor que ela custa ao capitalista mas também do
facto de que ela seja vendida acima daquilo que ela custa,
tornando à opinião vulgar do lucro fruto de expro-
priação (43), ou seja do valor igual ao trabalho contido
mais o lucro.
A última conclusão que Malthus tira da convicção
de que o lucro deriva de qualquer modo da venda da
mercadoria acima do seu valor, é esta: desde que os
compradores das mercadorias fossem só operários e
capitalistas, tal lucro não se realizaria; os primeiros, ele
facto, podem comprar só uma parte do produto, a
correspondente ao salário; os segundos, porquanto além
de compradores são ainda vendedores de mércadorias,
e o seu dinheiro, o seu capital, não representa senão
mercadoria vendida, vendem e pagam, um ao outro,
as mercadorias acima do seu valor, e assim se roubam
reciprocamente e se roubam na mesma medida, se cada
qual não realiza senão a taxa geral de lucro: Em con-
clusão, cada qual perde como comprador o que ganhe~
como vendedor. Deve-se por isso encontrar, para qut:>
o lucro dos capitalistas se realize, uma classe de compra-
dores que não sejam vendedores, uma classe de puros
consumidores : tal classe existe para Mal. hus, e é a
dos nobres e do aparelho burocrático do Estado.
Todavia, é fácil objectar que, tal como o rendi-
rnento destas classes, a renda e os impostos, não são
( 41 ) Idem, P. 20.
(42) Idem. O sublinhado é nosso.
(43) Idem.
125
outra coisa que uma derivação do mesmo lucro, o
raciocínio d.e Malthus cai num círculo vicioso.
Na realidade, se embora o lucro se realiza no
valor de troca e na troca das mercadorias ele não
tem certamente origem neste. Malthus, na sua conclusão,
não faz mais que restituir uma certa função histórica,
um certo prestígio e papel positivo àquela classe de
consumidores improdutivos que foi tratada um pouco
mal por Smith e Ricardo. Quanto ao resto, na sua
teoria resta um mistério, donde provém o lucro e como
se realiza.
O desenvolvimento da teoria malthusiana, em todo
o caso, é importante, porquanto constitui um dos muitos
e diferentes modos de exprimir as dificuldades que se
encontram na determinação da origem e da natureza
do lucro, problema que justamente se põe na economia
política clássica (cfr. Smith) como estreitamenteunido
à própria definição do valor. Tal determinação e deri-
vação do lucro do conceito de valor, torna-se de facto
tanto mais complicada quanto mais este se apresenta
através das modificações e das transformações da concor-
rência, que o fazem aparecer como elemento autónomo
e independente do valor. Um primeiro e patente resul-
tado desta «falsa aparência» viu-se há pouco em Malthus,
que faz derivar o lucro do próprio processo de circulação.
A forma extrema de tal mistificação tem-se quando
os difer,entes lucros, comparando-se, por obra da concor-
rência, a uma única e mesma taxa, -parecem dependentes
e determinados unicamente pela grandeza do capital
investido e não pela massa da mais-valia produzida:
tal como os preços de produção resultantes de tal
movimento parecem de todo desvinculado~ dos valores.
Relativamente a esta última forma mistificada do
mercado, Marx, reconstruindo todas as mediações do
processo de transformação dos valores em preços de
produção, através da formação da taxa média de lucro,
representa a tentativa mais relevante de atribuir aos
valores determinados segundo o tempo de trabalho um
papel preciso na formação dos preços e das relaç!)es
de troca, no conhecimento da não coincidência entre
as duas categorias.
Por outro lado,' os modos em que este problema
foi sucessivamente afrontado sempre suscitaram muitas
perplexidades, e correspondentemente deram lugar a
muitas polémicas.
126
Na realidade o modo marxista de resolver tal
problema é extremamente coerente com o próprio pres-
suposto da sua teoria: não se deve esquecer, em primeiro
lugar, que esta dificuldade era bem clara para Marx
no próprio momento em que procedia à formulação
e à fundamentação da sua teoria do valor; demons-
tram-no, quer a passagem já citada de Para a Crítica
da Economia Política, em que Marx se propõe, através
da teoria da concorrência, resolver a questão «de como
sobre a base do valor de troca se desenvolve um preço
de mercado diferente deste ou, melhor, de como a lei elo
valor se realiza apenas no seu oposto» (44), como o
facto de que a estrutura do terceiro livro de O Capital
estava presente em Marx antes ainda de ele ter escrito
o primeiro.
A solução marxista para a questão de que a condição
geral do valor ser determinado mediante o tempo de
trabalho não seja respeitada pela presença de uma taxa
geral de lucro, pode ser posta assim.
Ponhamos que as mercadorias se trocam sempre
«directamente» segundo o tempo de trabalho contido:
desde que tal condição efectivamente se realizasse, veri-
ficar-se-ia que, conforme as diferentes composições orgâ-
nicas dos capitais das diferentes esferas de produção,
isto é, da diferente relação entre capital constante e
capital variável, se teriam lucros diferentes, mesmo para
iguais massas de capitais. Isto contrasta manifestamente
com a lei geral da concorrência, segundo a qual o lucro
dos diferentes capitais é determinado unicamente em
função da quantidade de cada um deles. Em conse-
quência deste efeito da concorrência, por isso, a massa
global da mais-valia produzida é redistribuída entre os
capitais em proporção com a sua grandeza, de modo a
conseguir uma igual e mesma taxa geral de lucro, e dar
assim qrigem a preços de produção diferentes dos valores.
A verificação da diferença dos preços dos valores,
não impede todavia Marx de afirmar, ao mesmo tempo,
que a massa global do lucro, embora diversamente
distribuída entre as diferentes indústrias, é sempre deter-
minada pela massa total de mais-valia produzida, e
esta última por sua vez, necessariamente, segundo a
lei do valor, pela massa fornecida de mais-trabalho.
(44) K. Marx, Per la critica cit., p. 44.
127
Analogamente, também os valores, embora através
da sua modificação como preços, continuam a ser deter-
minados pela precedente formulação do valor segundo
o tempo de trabalho.
Deste modo Marx, embora afirmando, contra Ricar-
do, a diferença entre preços e vabres, mantém firmemente
a sua precedente fundamentação do valor, instituindo
um íntimo e necessário nexo entre os preços das merca-
dorias e a quantidade de trabalho vivo necessário para
a sua produção (45).
Quer dizer, quaisquer que sejam os factores que
regulam os preços, temos:
«1. A lei do valor determina o seu movimento,
pois o aumento ou diminuição do tempo de trabalho
necessário para a produção faz aumentar ou diminuir
os preços de produção ... »
«2. O lucro médio que determina os preços de
produção deve sempre ser aproximadamente igual à
quantidade de mais-valia que toca a um capital dado,
considerado como parte alíquota do capital global
social» (46).
( 43) Por parte daqueles que enfrentaram o problema da
transformação, houve, parece-nos, uma interpretação errónea do
significado que Marx atribuía a este problema. Marx, de facto,
fundamenta o conceito de valor com a argumentação contida
no primeiro livro de O Capital, e não pretende refundamentar
de outro modo este conceito no terceiro, em que ele enfrenta
especificamente o problema dos preços; se quisermos, pode
dizer-se que este problema da transfôrmação dos valores em
preços, e da sua diferença, está contido na própria determinação
do .valor, ou então, constitui a sua necessária realização. Entre-
tanto os posteriores intérpretes pensam que a derivação dos •
preços dos valores, é um modo ulterior e talvez o único de
fundamentar o conceito de valor.
Isto conduziu a soluções como a de Bortkiewitz, o qual
não faz mais que identificar de novo os preços aos valores, ou
a posições como a de R. Meek, o qual acaba, pelo contrário,
por instituir uma directa relação entre a solução marxista para
o problema dos preços e a de Sraffa, precisamente e só
enquanto, interpretando ricardianamente Marx, pode ler «marxis-
tamcnte» Sraffa; na realidade as soluções de Marx e Sraffa
são substancialmente diferentes. O primeiro chega aos preços
e à taxa geral de lucro só através de uma prévia determinação
dos valores; o segundo determina os preços independentemente
dos valores e ao mesmo tempo do lucro.
Para Marx, para a fundamentação rigorosa do conceito de
valor são suficientes as proposições contidas no primeiro livro
de O Capital. A solução do problema da transformação é, por
isso, desenvolvida na linha destas proposições.
( 46) K .. Marx, ll capitale., cit, III, p. 222.
123
Não vamos mais longe no aprofundamento desta
solução marxista que, pela série de complexas articula-
ções que traz consigo, requereria um tratamento parti-
cular e específico.
Pelo contrário, também com as simples observações
que desenvolvemos até aqui, parece-nos suficientemente
apresentado o objectivo que guiou este trabalho: pôr
em evidência o carácter peculiar e coerente no seu
íntimo da explicação marxista do valor nos confrontos
com as anteriores teorias.
O que de facto nos parece ficar bem vincado pela
análise até aqui feita da passagem da teoria clássica
à teoria marxista do valor, é isto: que, enquanto a
economia política clássica parte, embora com os seus
grandes méritos, da assunção como tal, isto é, sem a
submeter a nenhuma crítica, das categorias económicas
capitalistas, correndo o risco continuamente de perder
todos os nexos internos destas categorias, que se repro-
duzem prima facie como formas autónomas, desarti-
culadas, contraditórias (e qualquer ciência, diz Marx,
«seria supérflua se a essência das coisas e a sua forma
fenoménica coincidissem directamente») (47), a análise
marxista, pelo contrário, põe-se como análise científica
da efectiva realidade (da sua «essência, da sua íntima
fisiologia»), das relações de produção capitalistas e das
suas leis. Porém, esta «efectiva realidade» é uma realidade
«mistificada» exteriormente, cheia de contradições insa-
náveis internamente. A ciência de tal realidade quer,
por isso, ser, nas intenções de Marx, ao mesmo tempo,
e contrariamente à economia clássica, também «crítica»
das formas subvertidas e invertidas do capital edas
suas categorias, e não crítica teórica, mas, imediata-
mente, superação prática, isto é revolucionária, de tais
categorias e relações.
J;m suma, uma vez que se ponha a realidade
capitalista em bases científicas, esta realidade não vem
assim automaticamente «corrigida», «posta de pé», mas
são apenas colocadas as base.s para a sua «transfor-
mação» em sentido revolucionário.
Procuremos ser mais claros, partindo da análise
dos clássicos.
O carácter peculiar do modo de produção capitalista,
diz Marx, é o de apresentar os elementos sociais da pro-
(") Idem, p. 930.
129
dução e da riqueza em categorias solidificadas e autóno-
mas, como personificação das coisas e objectivação das
relações sociais. Esta «religião da vida quotidiana» (48) que
inicia com a forma de valores de troca, de mercadorias,
que «de facto» os produtos do trabalho assumem, culmina
nas formas mais complexas das relações desenvolvidas
de produção: o capital enquanto tal «produz» lucro;
o trabalho, a força de trabalho, o salário; a terra, a
renda fundiária; as «coisas» tornam-se cada vez mais
livres agentes da produção e apropriam-se da faculdade
oculta de se tornarem fontes de valor.
O grande mérito da economia clássica foi o de
ter dissipado algumas formas da falsa aparência e ilusão
do mundo das mercadorias, mas também os «seus melho-
res representantes permanecem, e de resto não pode
acontecer de outro modo partindo do ponto de vista
burguês, mais ou menos presos naquele mundo de apa-
rência por eles criticamente dissolvida, e por isso caem
todos mais ou menos em incoerências e contradições não
resolvidas detendo-se às vezes a meio do caminho» (49). Isto
não deve surpreender-nos, diz Marx, desde o momento em
que, no capitalismo, esta falsa aparência e falsificação
das relações sociais, se torna cada vez maior, das formas
simples do capital - e também da produção mercantil,
a mercadoria e o dinheiro - , às suas formas mais
desenvolvidas. Este carácter mistificante, de facto, «é
çomum a todas as formas de sociedade, porquanto
atingem a produção mercantil e a ·circulação monetária.
Mas no modo de produção capitalista e no caso do
capital, que é a sua categoria dominante, a sua relação
de produção determinante, este mundo enfeitiçado e
subvertido desenvolve-se ainda muito mais» (50).
A experiência quotidiana e directa da realidade
não faz senão tornar válido quotidianamente este feiti-
cisrno económico da produção: os nexos sociais aparecem
devorados pelas coisas, e toda a mediação desaparece.
As forças produtivas do trabalho são transferidas do
trabalho para o capital; o valor e a mais-valia contida
nas mercadorias parece brotar directamente da cirçula-
ção; a transformação da mais-valia em lucro, do lucro em
lucro médio e, atra".és deste, dos valores em preços de
(") Idem, p. 943.
(") Idem, p. 944.
('°) Idem, p. 940.
130
produção, quebra todo o laço com a efectiva realidade
e origem de tais processos. A taxa de lucro é «regulada
pelas suas leis, que permitem e também exigem uma
alteração do mesmo, embora permanecendo igual a taxa
de mais-valia» (51); isso parece «imanente» ao moderno
modo de produção, e independente, ou determinado de
modo só acessório, da efectiva exploração de um dado
capital; isto é, o lucro médio aparece distinto da mais-
-valia que este capital extraiu aos operários por ele
empregados. A divisão, por último, do lucro em ganho
do empreendedor e juro, «completa a autonomização
da forma da mais-valia, a solidificação da sua forma
relativamente à sua essência, à sua substância» (52).
Este é o modo de se manifestar e de proceder
do capital como contínua e organizada produção de
mais-valia: em tal produção, todavia, como extorsão
de mais-valia e criação de mais-produto, consiste ao
mesmo tempo o elemento progressivo e a função civili-
zadora do capital.
O seu papel histórico é, segundo Marx, o de levar
a um estado em que tal extorsão de mais-valia, criada
de um modo e sob condições que são mais favoráveis
ao desenvolvimento das forças produtivas e das relações
sociais, consente criar os meios materiais e o embrião
de relações que tornam possível «combinar este mais-
-trabalho de uma forma mais elevada de sociedade com
uma redução maior do tempo dedicado ao trabalho
material» (53).
Mas se a tendência necessária do capital, como
corrida incessante à realização e à criação sempre nova
de mais trabalho, é a de reduzir constantemente o tempo
de trabalho necessário à produção de um determinado
objecto a um mínimo, isso só o é enquanto «um máximo
de trabalho for valorizado no máximo daqueles objec-
tivos » (54).
Esta tendência do capital, de facto, que se realiza
através de uma contínua revolucionarização das técnicas
( 51 ) Idem, p. 942.
( 52 ) Idem, p. 942.
(") Idem, p. 933.
( 54) Cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II p. 396.
Deste modo o capital reduz o tempo de trabalho necessário
apenas para aumentar o supérfluo, pois o tempo de. trabal~o
supérfluo torna-se cada vez mais uma condição necessária
- «question de vie et de mort» - para o trabalho necessário;
cfr. p. 402.
131
produtivas, se se põe como efectiva diminuição do traba-
lho humano o dispêndio de força a um mínimo, não se
traduz por parte do operário (como queria a apologética
burguesa) numa abreviação do seu trabalho: pelo con-
trário, ela constitui a condição de um maior encadea-
mento do trabalho à sua pura forma material: a essência
do trabalho é cada vez mais um simples meio de exis-
tência (55).
Nesta base o capital apresenta-se como a «contra-
dição em curso, em desenvolvimento», que por um lado
liberta e suscita as forças da ciência e da natureza, por
outro dela é condição e instrumento de uma sempre
maior dependência do operário (e da grande massa da
sociedade) das condições de produção, que ele não do-
mina, mas pelas quais é dominado.
« O capital trabalha assim para a sua própria disso-
lução como forma dominante da produção» (56). O desen-
volvimento da força produtiva do trabalho, que é posto
no capital só como incremento da força fora do traba-
lho e como enfraquecimento do próprio trabalho, cons-
tituirá por isso a base do trabalho emancipado e a con-
dição da sua emancipação.
As coisas, de facto, diz Marx, chegaram a tal ponto
no capital, que «os indivíduos devem apropriar-se das
forças produtivas existentes não só para conseguir a sua
manifestação pessoal, mas simplesmente para assegurar
a_ sua própria existência» (57).
O sujeito desta apropriação é ·a classe operária (58),
o objecto, as forças produtivas desenvolvidas, a acção,
o comunismo (59).
(55) O capital emprega a máquina só enquanto ela habi-
lita o operário a «referir-se a uma parte maior do seu tempo
como a tempo . que não lhe pertence, a trabalhar ainda mais
para outro». Idem, p. 396.
(56) Idem, p. 395.
(57) K. Marx, L'ideologia tedesca, cit., p. 64.
(58) «A burguesia não só fabricou as armas que lhe
provocam a morte, como criou também os homens que usarão
aquelas armas - os modernos operários, os proletários». Marx -
Engels, Manifesto del partido comunista, Editori Riuniti, Roma,
1969, p. 65. ,
(59) «O comunismo para nós não é um estado de coisas
que deva ser instaurado, um ideal ao qual a realidade deverá
conformar-se. Chamamos comunismo ao movimento real que
abole o estado de coisas presente». K. Marx, L'ideologia t,edesca,
cit., p. 25.
132
«Só os proletários do tempo presente, totalmente
excluídos de qualquer manifestação ,pessoal, estão em
situação de alcançar a sua completa e não mais limitada
manifestação pessoal, que consiste na apropriação da tota-
lidade de forças produtivas e no desenvolvimento por
este condicionado, da totalidade de faculdades» (60).
Esta é a tarefa revolucionária universal de uma
classe, o proletariado, que nasce no plano da história
universal, e cujo carácter, não mais limitado por inte-
resses particulares ou corporativos, é ele mesmo uni-
versal.
Só, pois, a classe operáriano pleno controlo dos
meios de produção, só o homem socializado, os livres
produtores associados segundo um plano, poderão defi-
nitivamente regular e dirigir o completo desenvolvimento
das forças produtivas para a total realização da eman-
cipação do homem (61).
A alternativa revolucionária, portanto, para tornar
ao ponto donde partimos, está sempre presente na aná-
lise científica marxista e dela constitui, além disso, a
própria substância.
A ciência, segundo Marx, é de facto não a colocação
de uma «solução» da realidade na consciência, mas
enquanto ciência da realidade capitalista, isto é, de uma
realidade que é reconhecida em si contraditória e antago-
nista, é a base teórica para a superação num acto prá-
tico, revolucionário. .
A «teoria» para Marx deve, por isso, ao mesmo
tempo pôr-se como ideologia revolucionária: ela não é
a assunção neutra da realidade como tal, mas a análise
da realidade do ponto de vista da classe operária, a classe
que não tem interesses particularistas a defender e cuja
emancipação é a condição de emancipação de toda a
sociedade. (Neutra, pelo contrário, tende a apresentar-se
a ciência burguesa; esta aparência de neutralidade enco-
bre apenas melhor os interesses corporativos da classe
no poder, que quer conservar o seu domínio sobre uma
outra.)
Mas tal «teoria» para terminar em práxis revolu-
cionária, deve ser também ciência. Teoria científica das
leis do mundo burguês, «reconstrução analítica do modo
(60) Idem, p. 64.
( 61 ) «As relações universais modernas não podem ser assu-
midas pelos indivíduos se não forem assumidas por todos».
Idem, p. 64.
133
como funciona o mecanismo da produção capitalista»
( 62), não simples ideal abstracto ou propaganda volunta-
rista e espontânea, mas interpretação científica da vida
económica actual e das suas contradições.
Desde o momento em que esta vida económica real
é contraditória, e além disso distorcida e «subvertida»,
descobrir a objectividade desta realidade significa des-
cobrir uma objectividade «absolutamente especial», por
assim dizer «uma objectividade falsa e que se deve abo-
lir» (63). A realidade que Marx analisa não só não é, por-
tanto, por ele tomada como critério e unidade de me-
dida, como deve ser precisamente subvertida e modi-
ficada (64). Por isso, para Marx, não basta «descobrir»,
interpretar o mundo, antes se deve «transformá-lo, e
para o transformar «praticamente» não basta a vontade,
é necessária a ciência.
A ciência deve, por isso, ser a própria ciência da
transformação do mundo, da revolução; o sujeito desta
transformação, o moderno proletariado, a classe
operária.
Desde as suas primeiras obras Marx, marcando a
sua nítida discordância com as posições abstractas e
sofrendo de metafisicismo da filosofia precedente, enun-
cia com clareza este seu programa ao mesmo tempo
teórico e político.
Enquanto a filosofia especulativa não fez mais que
exaurir-se, até agora, em si mesma, agora ela deve
resolver-se em tarefas para cuja solução existe um único
meio: a práxis. A possibilidade de realização prática da
«filosofia» nasce com a própria formação do moderno
proletariado industrial, uma classe com cadeias radi-
cais, uma classe que não pode emancipar-se a si mesma
sem emancipar todas as restantes esferas da socie-
dade, cuja libertação é «a autolibertação universal» (65).
A «teoria» não pode realizar-se senão na acção do
proletariado, b proletariado não pode constituir-se como
classe senão apoderando-se da teoria.
(") L. Colletti, Marxismo: scienza o rivoluzione?, art.
cit., p. 49.
(63) Idem, p. 47.
(64) Idem, p. 49.
(65) K. Marx, Per la critica della · filosofia del diritto di
Hegel, Introduzione, in La questione ebraica, Editori Riuniti,
Roma, 1969, p. 100.
134
«A arma da crítica não pode certamente substituir
a crítica das armas, a força material deve ser abatida
pela força material, mas também a teoria se torna uma
força material logo que se apodera das massas» (66).
«Como a filosofia encontra no proletariado as suas ar-
mas materiais, assim o proletariado encontra na filo-
sofia as suas armas espirituais» (67).
Este pressuposto teórico marxista investe e por
sua vez precisa-se no próprio percurso da sua sucessiva
análise, desde aquela síntese de filosofia e economia que
são os Manuscritos de 44 até a O Capital. No quadro, pois,
de tal perspectiva e intenção, que constitui o contributo
original e peculiar do pensamento de Marx, se coloca e
e se alarga o sentido e a dimensão da diferença entre
Marx e a precedente análise clássica, em particular entre
Marx e Ricardo, que constitui justamente o objectivo
específico desta investigação.
Esta diferença, que vimos fundamentar-se e formu-
lar-se em vários e múltiplos níveis, resulta agora defini-
tivamente posta na sua própria origem, no carácter que
Marx entende dar ao seu discurso científico: o de resul-
tado e de condição do próprio discurso revolucionário.
( 66) Idem, p. 101.
( 67) Idem, p. 109.
135
1NDICE DOS NOMES
Bayley, Samuel, 76-78
Bernstein, Eduard, 118 (nota)
Bortkiewitz, Ladislaus von,
31, 128 (nota)
Bukharine, Nikolaj
Ivanovic, 25
Coletti, Lucio, 118 (nota),
134 (nota)
Dobb, Maurice, 33-37
Engels, Friedrich, 95,
132 (nota)
Grossmann, Henryk, 20 (nota),
23 (nota), 24 (nota)
Hegel, Georg Wilhelm
Friedrich, 113
Hilferding, Rudolf, 25
Korsch, Karl, 119 (nota)
Locke, John, 39
Malthus, Thomas, 10, 13,
115, 121-126
Marx, Karl, 9-14, 15-17, 19-38,
42, 45-47, 50 (nota), 50-53,
56-59, 60 (nota), 61-64, 66-68,
69 (nota), 70, 72 (nota), 73
(nota), 76, 77 (nota), 78, 79
(nota), 80-82, 83 (nota), 84,
87-90, 91 (nota), 93-94, 98-99,
101-121, 123-135
Meek, Ronald L., 128 (nota)
Napoleoni, Claudio, 46 (nota),
92 (nota), 95 (nota)
Petty, William, 39
Pietranera, Giulió, 51 (nota)
Quesnay, François, 33
Ricardo, David, 10-13, 15, 16,
19-24, 28-30, 32, 35, 37, 39,
45, 46-54, 55-58, 60-62, 64-67,
69-72, 75-81, 83-84, 85-98, 109,
114, 121, 123-124, 126, 128, 135
Say, Jean-Baptiste, 77
S~humpeter, Joseph, 21
Smith, Adam, 10-12, 19-22, 24,
39-53, 55-58, 60-62, 69, 71, 76,
81, 83, 95-96, 106, 115, 121-124,
126
Sraffa, Piero, 15, 16, 31, 32, 33,
35, 36, 128
Steward, Dugald, 57
lNDICE
Prefácio de Clãudio Napoleoni . . . . . . .
Prefácio à segunda edição de Cláudio Napoleoni
Introdução
Pdg.
9
15
19
I. A teoria clássica do valor: Smith e Ricardo 39
II. Os pressupostos teóricos da teoria clássica do valor 55
III. As dificuldades da teoria ricardiana : 1. O valor
do trabalho . 75
IV. As dificuldades da teoria ricardiana: 2. A direrertça
entre preços e valores . . . . . . . . . 85
V. Significado e papel da teoria maxista do valor 101
fndice de nomes 137