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(◄ 
CHAVES DA ECONOMIA 
Os limites desta 
colecção, em termos ge­
rais, definem-se pelo espa­
ço que vai dos clássicos do 
pensamento económico até às 
obras dos mais modernos teó­
ricos da economia. Todavia, o seu 
âmbito é suficientemente vasto 
para abranger livros que tratem de 
questões sectoriais, desde a Moe� 
da e a Banca, até às Finanças, 
e à A�ministração Pública. 
Assim como obras consi­
deradas de divulgação 
mas exigentemente 
rigorosas. 
.. --
CE 
CHAVES DA ECONOMIA 
1. A ECONOMIA DO MERCADO COMUM 
de Dennis Swann 
2. A EVOLUÇÃO DO SISTEMA MONETÁRIO INTERNACIONAL 
de Sergio Bortolani 
3. DO SUBDESENVOLVIMENTO CAPITALISTA 
de André Gunder Frank 
4. A TEORIA DO VALOR. DOS CLASSICOS A MARX 
de Marina Bianchi 
A publicar 
A ECONOMIA PORTUGUESA DO SÉC. XX 
(1920-1925) 
de Armando Castro 
O CAPITAL, edição popular 
de Karl Marx 
A TEORIA 
DO VALOR 
(DOS CLÁSSICOS A MARX) 
Título original: La Teoria dei Valore dai Classlcl a Marx 
© Casa edltrlce Gius. Laterza 
& Flgll, Bari, Via Dante 51 
Tradução: Joaquim Chambino 
Capa de Alceu Saldanha Coutinho 
Todos os direitos reservados para a Língua Portuguesa 
~~·~ 
Avenida Duque de Ávila, 69 r/c Esq. 1000 LISBOA 
' Telefs. 55 68 89 / 57 20 01 
Distribuidor no Brasil: LIVRARIA MARTINS FONTES 
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 - SÃO PAULO 
MARINA BIANCHI 
A TEORIA 
DO VALOR 
(DOS CLÁSSICOS A MARX) 
-
PREFACIO À PRIMEIRA EDIÇÃO 
O mérito essencial deste trabalho de Marina Bian-
chi é o de apresentar uma exposição e uma interpretação 
da teoria marxiana elo valor, que reune e integra dois 
pontos de vista que, em geral, até agora foram apre-
sentados separados, porque um deles era assumido por 
economistas e o outro por filósofos. Os economistas, 
e sobretudo os historiadores elo pensamento económico, 
procuraram colocar a teoria do valor de Marx na his-
tória geral da teoria do . valor-trabalho, e julgaram-na, 
por isso ( ou em sentido posiiTvo--ôí, -em sentido nega-
tivo), com critérios não diferentes daqueles que pode-
riam usar-se igualmente para a teoria ricardiana, em 
relação à qual a posição de Marx vem, assim, a assumir 
o aspecto de um aperfeiçoamento, embora substancial. 
Os filósofos sublinharam sobretudo o aspecto ligado à 
categoria do «trabalho abstracto» que, embora esteja 
no fundamento da teoria de Marx, é, porém, de todo 
estranha à economia política clássica, em relação à qual, 
por isso, a posição de Marx vem a apresentar-se como 
uma posição de decisiva ruptura e superação. 
Não creio que seja necessário insistir na importân-
cia que hoje reveste uma interpretação correcta de Marx; 
e nem creio ne.c~s4rfo sribJinhªr___a impor_tgnç_ia__ muita 
particular que com este .propósito reveste- a considera-
ção da te.gria do valor;-muitos (supostos) cálculos se 
fizeram a este propósito, com Marx fictícios, mais que 
com o Marx real. Ora, não há dúvida que este livro é, 
pela construção dessa interpretação, um passo impor-
9 
lante; e é-o, exactamente, pela integração desses dois 
pontos de vista de que falei. 
Em resumo, a autora (com uma análise cujo inte-
resse deriva também da utilização ampla que nela se 
faz dos Grundrisse) sustenta que a avaliação da teoria 
do valor de Marx requer que se tenham presentes quer 
a relação de continuidade, quer a relação de ruptura 
e superação relativamente a Smith e Ricardo; mais pre-
cisamente, que a superação operada por Marx depende 
do retomar, pela sua parte, dos mesmos problemas de 
Smith e de Ricardo, dado que é exactamente da neces-
sidade de resolver estes problemas que nascem em Marx 
as categorias que superam o discurso clássico. 
Em termos muito esquemáticos, e que só parcial-
mente fazem justiça ao texto, a argumentação da autora 
pode pôr-se nestes termos. 
A relação de continuidade e desenvolvimento entre 
Marx, por um lado, e Smith e Ricardo, por outro, pode 
ser surpreendida com base na consideração de que exis-
tem., quer em Smith, quer em Ricardo, duas insuficiên-
cias que são superadas por Marx mediante a integração 
de uma teoria na outra. 
Mais especificamente, Smith vê na troça_sxi.pitalista 
só o que nela é peculiar relativamente à troca mercantil 
geral, ou seja, o carácter desigual da troca, que ele 
exprime mediante a diúrençª oore_«trahalho _contido» 
e « trabalho dom_ingdo». Pelo contrário, Ricardo não vê 
na troca càpitalista senão aquilo· que tem de comum 
com a troca mercantil em geral, o que exprime dizendo 
que a subdivisão do valor em salário e lucro interessa 
apenas à distribuição do próprio valor e não também 
à lei da sua formação. 
Vê-se que se trata de duas posições parciais, ref liec-
tindo no facto de que: a) Smith, embora possa começar 
a compreender a natureza do lucro (como «dedução»), 
fecha-se, porém, por fim, num círculo vicioso, porque 
faz depender os valores de um valor particular, isto é, 
o salário, e por isso ( como aparecerá claramente no seu 
continuador Malthus) reduzirá a questão da origem do 
valor à questão da sua medição; b) Ricardo, embora 
não caia no círculo· fechado smithiano e conserve, por 
isso, uma teoria do valor em sentido próprio, impede, 
porém, qualquer possibilidade de determinar a origem 
do lucro. 
10 
Ora, a peculiaridade de Marx ( ainda no terreno da 
continuidade a que nos referimos agora) consiste no 
reelaborar da teoria do valor-trabalho de modo que, 
no âmbito do rigor ricardiano, seja absorvido o pro-
blema smithiano da <<dedução». De notar que o ponto 
de partida ricardiano de. Marx é essencial, precisamente 
porque é em Ricardo que a teoria do valor é conservada 
como teoria em sentido próprio e não desce ao critério 
de medição. Portanto, o problema de Marx é partir de 
Ricardo, para englobar Smith. 
Pode dizer-se, portanto, que a continuidade de 
Marx em relação a Smith-Ricardo está no assumir, da 
sua parte, dos termos em que o problema aparece posto 
por eles. A ruptura está, pelo contrário, na forma da 
solução, ou seja, na transcendência de todos os termos 
da economia política clássica, exactamente para resol-
ver o problema que esta economia tinha posto. Para 
compreender a transcendência operada por Marx é pre-
ciso partir do facto de que, tanto a dificuldade de Smith 
como a de Ricardo (se bem que sejam muito diferentes, 
como se vê pelo que se disse atrás) derivam ambas de 
uma insuficiência descrita como a não distinção entre 
trabalho e força de trabalho. Com efeito: a) em Smith 
esta não distinção determina o modo errado de com-
pletar o confronto entre «trabalho contido» e «tra-
balho dominado», que induz Smith a julgar que se trata 
de quantidades diferentes; b) em Ricardo, impede de 
ver a diferença entre o custo em trabalho do trabalhador 
G a quantidade de trabalho por este despendida, o que 
impede a determinação do mais-trabalho. 
Por outro lado, um dos resultados mais notáveis 
da análise do livro que aqui se apresenta é que, de 
forma menos imediata, a não distinção entre trabalho 
e força de trabalho deriva de um insuficiente conheci-
mento da natureza do trabalho em situação capitalista. 
Isto é, falta de modo explícito, em Smith e em Ricardo, 
o conceito do trabalho abstracto, como abstracção real 
historicamente produzida por um certo tipo de sociedade. 
A relação que se estabelece ·entre o oonceito de traba-
lho abstracto e o de força de trabalho, pode ser esclare- • 
cida, tal como ela se apresenta em Marx, como se segue. 
Na sociedade mercantil, logo, na troca propria-
mente dita, numa fase logicamente precedente. ao capi: 
tal, 9 trabalho enquanto _JlI_gJbna0.Ldc:_:·w~rcad.ar.ias.,_..isto 
é, de riquez.a_ahstr.ac.ta,, Lfta.balha .abstr:acto. Na troca 
11 
propriamente dita, por outro lado, o produto embora 
seja, à primeira vista, riqueza abstracta, serve todavia 
como meio para a aquisição de riqueza concreta, con-
sumível. Correspondentemente, os produtores, se bem 
que como trabalhadores sejam fornecedores de traba-
lho abstracto, todavia finalizam a sua actividade, em 
última instância, na aquisição· de valoresde uso. Mas 
a riqueza abstracta pode, ou antes deve, ser constituída 
como fim do processo económico: isto verifica-se p'reci-
samente com o capital. Mas para que o capital possa 
realizar esta configuração do processo económico, ocorre 
que, acima dos produtores imediatos, os quais não podem 
deixar de ficar inseridos num esquema de troca sim-
ples, se põe o capital propriamente dito, personificado 
num sujeito específico que é o capitalista. Isto só pode 
acontecer se os próprios produtores imediatos estive-
rem submetidos ao capital, isto é, só se uma parte deles 
mesmos não forem senão capital. A força de trabalho 
é precisamente a realidade desta sua redução a capital. 
Mas então a riqueza abstracta e o trabalho ·abstracto 
são os pressupostos sem os quais não se dá a realidade 
da força de trabalho nem se tem a compreensão desta 
última. 
Por isso, a superação das parcialidades de Smith 
e de Ricardo requer em Marx, preliminarmente, o exame 
e o desenvolvimento da categoria do trabalho abstracto. 
Mas, à parte qualquer outra implícação, continuando 
rio terreno da teoria do valor, o ·conceito de trabalho 
abstracto comporta uma mudança radical da própria 
noção de valor em relação â economia clássica; com 
efeito, o valor, como termo no qual necessariamente se 
representa o trabalho abstracto, torna-se uma categoria 
que precede a do valor de troca e em relação à qual 
o valor de troca é apenas a expressão fenoménica. O cha-
mado valor absoluto, no sentido de Marx, é o próprio 
elemento constitutivo da sociedade merçantil, porquanto 
esta tem o seu desenvolvimento necessário na sociedade 
capitalista. 
Posto isto, pode voltar a percorrer-se o camiuho 
da construção marxiana da teoria crítica do capitalismo: 
o conceito de trabalho abstracto consente o conceito de 
capital; este último consente o conceito de força de 
trabalho; este último consente, numa completa trans-
cendência das teorias clássicas, a integração de Smith 
em Ricardo e, por isso, a explicação do lucrá ( da mais-
12 
-valia) dentro da teoria do valor-trabalho. Em confir-
mação da exactidão desta interpretação, a autora refe-
re-se a textos muito conhecidos, e habitualmente des-
curados, de Marx sobre Malthus, nos quais Marx, que 
embora, como é sabido, não fosse muito delicado para 
com o «sicofanta» das classes proprietárias, reconhece 
todavia a Malthus o mérito de ter mantido vivo, mediante 
a conservação do conceito smithiano da troca desigual, 
o problema da inclusão do lucro na própria definição 
de valor. 
Das velhas dificuldades clássicas, continua em 
Marx aquela, já ricardiana, da formação da taxa geral 
do lucro. A dificuldade tem de ser necessariamente refor-
mulada por Marx noutros termos, dado que já não se 
trata, como para Ricardo, de realçar uma modificação 
induzida sobre o valor da f armação do lucro concorren-
cial, mas trata-se, pelo contrário, de pôr em relação 
uma com a outra, duas diferentes categorias económi-
cas, a do valor e a do preço de produção. Aqui abrir-se-ia 
wn problema ulterior, que a autora não aborda nesta 
obra. 
Em relação a este livro, creio que é difícil encon-
trar no campo 1narxista uma reconstrução da teoria 
marxiana do valor que seja tão aderente ao espírito e 
aos juízos teóricos de Marx. Indubitavelmente, a averigua-
ção em. termos rigorosos da posição de Marx, embora 
seja uma operação decisiva, não é hoje, porém, sufi-
ciente, dado que exactamente dessa averiguação nasce 
uma série de problemas que, a meu parecer, não são 
resolúveis, continuando dentro dos terrenos do mar-
xisnw. A relação entre valor e preço é um destes, e até 
o mais relevante, exactamente no âmbito da teoria do 
valor. A autora aceita a posição marxista clássica, 
segundo a qual a solução dada no terceiro livro do 
Capital, se é insuficiente quanto aos pormenores técni-
cos, é porém suficiente quanto ao princípio que a informa 
( aproveito aqui a ocasião para fazer notar que, contra-
riamente àquilo que alguns tentaram dizer recentemente, 
os Grundrisse Hão trazem, sobre esta questão, nenhum 
ulterior esclarecimento em relação ao Capital). Como 
procurei demonstrar noutro local, não creio que esta 
posição clássica seja aceitável; este não é decerto o 
local para retomar o problema; quero apenas limitar-me 
a recordar a circunstância, de resto óbvia, de que o pró-
prio problema é tudo menos secundário, porque com-
13 
porta um juízo sobre os próprios fundamentos da aná-
lise marxiana do capitalismo, e em particular sobre a 
categoria da exploração. 
Mas voltando ao livro, resta o facto de que o Marx 
a que se limita é surpreendido aqui com tal exactidão, 
nos seus juízos fundamentais e nas suas relações com 
a economia clássica, que o próprio livro se apresenta 
como um valiosíssimo instrumento de trabalho. 
Junho de 1970 
Claudio Napoleoni 
14 
PREFACIO A SEGUNDA EDIÇÃO 
A parte final do Prefácio que escrevi em 1970 não 
corresponde às minhas perspectivas actuais. Vendo bem, 
aquele Prefácio continha uma contradição: de um lado, 
afirma-se - e justamente - que Marx parte da econo-
mia polttica clássica, mas transcende-lhe os termos 
mediante a categoria do «trabalho abstracto»; por outro 
lado, atribui-se a Marx uma contradição que, pelo con-
trário, tem lugar exactamente ao ficar dentro dos ter-
mos da economia clássica, e em particular ricardiana. 
O que se segue quer simplesmente chamar · a atenção 
sobre este último ponto. 
Quando RiCJIBUJ-~~~--de-1.r.oca.-às.-qu.ana 
tidades de trnbq,lho __ cantidas .. nas.m.ercadorias, faz uma 
operação que, como foi esclarecido por Sraffa, tem por 
fim reduzir à homogeneidade agregados heterogéneos 
de mercadorias, e fá-lo mediante um critério que não 
depende da taxa de lucro, porque tal redução serve pre--
cisamt:nte para determinar a taxa de lucro; se o critério 
do trabalho contido fosse aceitável, ou seja, se as rela-
ções de troca coincidissem imediatamente com as rela-
ções entre as quantidades de trabalho, a taxa de lucro 
seria uma relação entre quantidades de trabalho, assim 
como, em Ricardo, ela era uma relação entre quantida-
des de trigo. A relação valor-trabalho está, pois, para 
o 'problema ricardiano, totalmente subordinada ao pro-
blema da determinação de uma medida; subordinada 
no sentido de que, se ficando dentro da categoria ricar-
diana do excedente, o problema da determinação da 
15 
taxa de lucro pudesse ser resolvido sem recorrer àquela 
medição ern termos de trabalho, a referência ao traba-
lho poderia ser abandonada sem que com isto a estru-
tura da teoria ricardiana seja de forma alguma ofendida 
(Sraffa dá justamente o desenvolvimento rigoroso do 
problema ricardiano precisamente na base da renúncia 
ao critério do trabalho contido). Por outro lado, o aban-
dono da categoria do trabalho contido, na sua acepção 
ricardiana, pode ser alegado tanto mais tranquilamente 
porquanto tal trabalho, sendo, naquela acepção, nada 
mais que um modo de medição, tem um significado 
meramente tecnológico ( desempenha, justamente, o 
mesmo papel teórico do «trigo»); isto é, trata-se de uma 
categoria que, desde que se prescinda dos desenvolvi-
mentos de Marx, fica substancialmente muda no que 
respeita à explicação da realidade social do capital. Em 
conclusão, deve dizer-se que em Ricardo a referência 
ao trabalho contido contradiz a própria natureza do 
problema: a impossibilidade de derivar as relações de 
troca apenas das quantidades de trabalho é suficiente 
para eliminar tais quantidades como elementos de expli-
cação do modo como se distribui um excedente tecnolo-
gicamente dado. 
Se nos confrontos de Marx se procede como nos 
confrontos de Ricardo, isto é, se se pensa que em Marx 
as quantidades de trabalho não são mais do qu'e um 
critério de medição, se portanto ( como, de resto, o pró-
prio Marx fez numa parte da sua obra) se procura dedu-
zir as relações de troca das quantidades de trabalho 
com um raciocínio dedutivo de tipo matemático, então 
é inevitável que a mesma contradição ricardiana é repro-
duzidadentro da estrutura teórica de Mq.rx. 
Mas, em Marx, a teoria do valor desempenha um 
papel essencialmente diferente do que desempenha em 
Ricardo, isto é, um. papel em relação ao qual a medição 
se põe como um problema derivado. Qual seja a função 
da teoria marxiana do valor, é um problema para o qual 
não posso fazer mais do que remeter para o que se diz 
neste livro de Marina Bianchi; aqui cumpre•m.e ape.nas 
sublinhar que, nessa teoria, se encontra a referência 
a dois momentos co_essenciais à vida do capital, o do 
equilíbrio e o do desequilíbrio, nenhum dos quais é 
compreensível se tomado fora da relação com o outro. 
Ora, a derivação por via matemática dos preços de pro-
dução dos valores com.porta exactamente a absolutiza-
16 
ção do momento do equilíbrio; com o que se nos impede 
a compreensão da realidade capitalista. 
A formulação da teoria do valor, em termos que 
sejam compreensíveis, de ambos os aspectos do modo 
de produção capitalista, e por isso, a consideração do 
preço de produção como representativo de uma configu-
ração de equilíbrio, que é decerto elemento componente 
da realidade capitalista, mas que em nenhum caso a 
esgota - tudo isto constitui um problema aberto à pes-
quisa e para a solução do qual julgo que estarão em 
Marx todos os dados de partida fundamentais. Penso 
que tal pesquisa deveria mover-se nesta direcção: a rela-
ção entre o valor e o preço de produção não é uma 
relação interna no processo de consecução do equilíbrio, 
é antes uma relação na qual se resumem e se exprimem 
as contradições entre equilíbrio e crise, entre valor de 
uso e valor de troca. 
Julho de 1972 
Claudio Napoleoni 
17 
INTRODUÇÃO 
Aproveito a ocasiao da segunda edição deste livro 
para retomar e tentar precisar alguns dos temas que 
vos são apresentados. 
São essencialmente dois os pontos sobre os quais 
me interessa chamar a atenção: um, é retomar e escla-
recer a forma como as teorias dos economistas clássicos 
se encontram na análise de Marx e o papel que aí desem-
nham, o que constitui uma primeira tentativa de aná-
lise deste livro; o outro, é rever de que maneira Marx 
enfrenta e explica o processo de formação da taxa média 
de lucro e dos preços de produção, e que se apresenta 
sob o nome de «transformação dos valores em preços» 
para o pôr em confronto com a discussão que histori-
camente se desenrolou à volta deste espinhoso problema 
do marxismo (problema este que, pelo contrário, está 
incluído apenas em traços ligeiros neste trabalho). 
É claro como este dois pontos estão estreitamente liga-
dos, no. sentido de que uma determinada resposta ao 
primeiro comporta uma atitude precisa em relação ao 
segundo, e vice-versa. 
Por outro lado, voltar a partir exactamente da rela-
ção entre Marx e a economia clássica, entre Marx, 
Smith e Ricardo, parece-me tanto mais necessário por-
quanto se assiste cada vez, mais frequentemente, mesmo 
da parte de alguns estudiosos do marxismo, à tentativa 
incorrecta, a meu ver, de considerar Marx substancial-
mente um continuador dos clássicos, um continuador 
sagaz e sem dúvida mais rico, mas que no terreno da 
19 
análise económica segue e desenvolve a direcção tra-
çada pela teoria clássica. 
Esta forma de inscrever Marx totalmente dentro 
da tradição dos clássicos e mesmo de o considerar, 
um «economista clássico», tem como consequência ime-
diata que, frente aos problemas e questões cruciais 
que surgem dentro da análise marxiana, põem-se-nos e 
tenta-se resolvê-los com a óptica e os problemas pró-
prios dos economistas burgueses que precederam Marx. 
Assim, em relação ao problema chave do marxismo 
que antes recordámos, isto é, o problema da transfor-
mação, responde-se como se nos encontrássemos em 
face, salvo diferenças de somenos importância, à velha 
formulação ricardiana. 
Um dos pontos que deve constituir objecto de 
indagação é, pois, se Marx pode realmente ser consi-
derado como aquele que herda e assume como tal, 
a teoria económica clássica e, por isso, uma bem deter-
minada análise das relações quantitativas entre as gran-
dezas económicas capitalistas, e se, em consequência, 
o seu papel de inovador é essencial e simplesmente o de 
preencher com um conteúdo social as categorias e as 
relações económicas já descobertas pelos clássicos, em 
conclusão, se Marx pode ser considerado «um Ricardo 
tornado socialista» (1), ou se antes, a sua análise contém 
qualquer coisa 1nais que não pode ser simplesmente 
µcrescentada à posição clássica, mas constitui algo de 
radicalmente diferente e de irredutível às precedentes 
teorias económicas. 
Lembro aqui, muito brevemente, e só para com-
pletar a exposição, algumas questões da relação Marx-· 
-clássicos, cujos aspectos são, de resto, largamente desen-
volvidos no presente livro, e cujos traços essenciais 
se encontram claramente expostos e resumidos no Prefá-
cio de Claudio Napoleoni. Aquilo que de facto agora 
mais me interessa sublinhar, são os elementos de con-
traposição e de crítica que Marx desenvolve a propósito 
da própria análise positiva dos clássicos e da exposição 
da sua posição sobre o valor. . 
Em referência ao papel e ao contributo positivo 
de Smith e de Rica_rdo, é para já verdadeiro, primeiro, 
o contributo fundamental que, mesmo que por razões 
( 1) Cf. Grossman, Marx, l'economia clássica e il problema 
delta dinamica, Laterza, Bari, 1971, p. 36. 
20 
e de modos diferentes, ambos dão à pesquisa marxista, 
e segundo, que Marx, exactamente de Smith e de 
Ricardo, e em particular deste último, herda e deduz 
um modo preciso de representar em termos quantita-
tivos - segundo a teoria do valor-trabalho - a realidade 
económica do capitalismo. 
No que respeita a Smith, ele tem a intuição pro-
funda de que por trás das relações de troca iguais 
existe uma relação de troca particular, que não é igual, 
antes é a troca de menos contra mais, que dá origem 
ao lucro, isto é, a troca entre capital (em Smith era 
entre mercadorias) e trabalho, entre trabalho objecti-
vado e trabalho vivo. Claro que Smith não vai nunca 
até ao fundo neste grau de conhecimento, porque não 
chega a distinguir a troca de mercadoria por trabalho 
da troca simples de mercadoria, por mercadoria, mas 
as bases da ideia marxista da exploração como «mais-
-trabalho», e não como simples mais-produto, são postas. 
Com Smith, portanto, temos uma das primeiras tentativas 
de dar um carácter social às categorias económicas, 
tentativa que se tornará o ponto de partida de Marx, 
e que é indirectamente posto em relevo também por 
um historiador das teorias económicas como Schum-
peter, que diz como Smith, além de nos dar uma teoria 
(confusa) das relações económicas, se deixou depois 
arrastar pela moda rousseauniana do tempo. 
Com Ricardo temos pela primeira vez ur;na formu-
lação completa e coerente das relações de troca. Essa 
formulação segue a teoria do valor-trabalho contido, 
já exposta por Smith, mas por ele retomada com 
coerência e rigor lógico. 
É conhecido o raciocínio com que Ricardo aban-
dona as incertezas smithianas e dá à teoria do valor-
-trabalho uma tal perfeição que, depois, a fórmula 
ricardiana será sempre considerada, em relação à deter-
minação quantitativa da grandeza do valor, idêntica 
ou, pelo menos, análoga à de Marx. 
A dificuldade de Smith, afirma Ricardo, não tem 
razão de subsistir: com efeito,· o facto de uma parte 
do trabalho incorporado na mercadoria não voltar a 
quem produziu, mas ir para o capitalista, não muda 
nada: o seu valor é sempre determinado pelo trabalho 
nela contido; o problema de Smith diz respeito à 
distribuiçüo do valor . produzido, não à sua própria 
formação. 
21 
Ora, esta pos1çao é justíssima quando posta do 
ponto de· vista dos produtos e do seu valor como 
trabalho objectivado, mas é menos justa se se consi-
derar o problema da própria criação do valor; aqui 
então o «erro» de Smith torna-se um erro fecundo, 
no sentido de que, indirectamente, revela como não se 
trata já de simples distinções entre produção e distri-buição (isto é, duma distribuição onde são relegados 
todos os antagonistas sociais e onde são possíveis todos 
os contrastes históricos, e de urna produção que se 
desenrola segundo as regras eternas da relação entre 
o homem e a natureza) assim como precisamente a 
troca desigual entre capital e trabalho é o fundamento 
e o próprio pressuposto da troca igual, isto é, da for-
mação do valor e da mais valia. Um aspecto não pode, 
pois, existir sem o outro. (2). 
Deste ponto são já possíveis alguns reparos críticos: 
de um lado, Smith, ficando enredado na contradição 
entre trabalho contido e trabalho dominado, objectivado 
e vivo, acaba por cair numa teoria do preço fundada 
sobre a teoria dos factores produtivos: o preço de uma 
mercadoria é determinado pela soma dos preços naturais 
do salário, da renda e do lucro. 
Por outro lado, podem dizer-se duas coisas sobre 
Ricardo: 1) que Ricardo, desperdiçando a raiz do erro 
fecundo de Smith, enquanto reconduz à coerência a 
teoria do valor-trabalho, perde toda a possibilidade de 
'ligar a sua teoria à mais complexa dinâmica das rela-
ções sociais capitalistas, em particular à própria origem 
do excedente; 2) que a teoria ricardiana do valor-trabalho 
tem um papel fundamental, mas essencialmente instru-· 
mental na sua análise, corno demonstram tanto a origi-
nária formação do valor feita em termos puramente 
físicos, em trigo, quanto o próprio objectivo teórico 
de Ricardo, que consiste principalmente no estudo da 
distribuição· do produto bruto e do equilíbrio entre 
as classes sociais. 
Da evocação, que agora tentarei fazer, da análise 
de Marx sobre a lei do valor, tal como se forma e 
( 2) Para Marx ,o maior mérito de Smith consiste em 
ter, pelo menos, percebido que relativamente à troca entre 
capital e trabalho assalariado, na própria lei do valor existe 
uma grande lacuna; embora não estivesse em situação de a 
explicar ele vê «que a lei é de facto abolida no seu resultado» 
(Marx, Teorie sul plusvalore, I, Editori Riuniti, Roma, 1961, p. 184). 
22 
precisa, justamente através da crítica à posição clássica, 
creio que ressalta bastante claramente como desta posi-
ção são criticados e postos em discussão os próprios 
pressupostos, e não emendada ou corrigida a falta ou 
a insuficiência deste ou daquele aspecto. 
Portanto, também os problemas e os pontos críticos 
da teoria clássica que acabei de recordar, resultam ser, já 
não o aspecto «mau» de uma teoria «boa», que deveria 
ser depois a mesma que acaba em Marx, mas o coerente 
e inevitável resultado de uma determinada atitude teórica 
perante as categorias económicas do capitalismo e por 
isso, da própria análise do problema do valor. 
Resta agora precisamente analisar em· que termos 
se põe a «superação» por parte de Marx da economia 
clássica, e portanto, se é ou não verdadeira a última 
afirmação feita. 
Perante a concepção, que primeiro evoquei, segundo 
a qual Marx seria aquele que leva substancialmente ao 
fim a análise clássica, parece-me justo recordar a posi-
ção de um estudioso do marxismo que, pelo contrário, 
defende a tese oposta, pondo com força o carácter de 
ruptura, violenta até, que a análise marxista tem em 
relação à precedente; este teórico, cujo livro sobre este 
assunto foi recentemente publicado em italiano, é Hen-
ryk Grossmann (3). É exactamente de alguns princípios 
felizes contidos naquele seu texto, embora não desen-
volvidos até ao fundo, que pretendo partir. , 
Os argumentos de Grossmann encontram um notá-
vel ponto de força na evocação que ele faz do papel 
fundamental que, na análise marxiana da mercadoria 
desempenha a distinção entre valor de uso e valor de 
troca. Creio, com efeito, que precisamente. do desen-
volvimento desta distinção totalmente marxiana, resulta 
mais claramente a especificidade do discurso de Marx. 
Quais são, pois, os argumentos de Grossmann? Gros-
smanri parte exactamente da relação Marx-clássicos. 
Para Marx, já da simples análise da mercadoria, como 
existência molecular do capital, se revela uma dupla 
realidade; a mercadoria é sempre unidade de valor de 
uso e valor de troca, assim como o trabalho, o processo 
de produção capitalista, é unidade de trabalho útil e tra-
balho abstracto, de produção técnica e processo de valori-
zação do capital. Os clássicos, pelo contrário - diz Gros-
(3) H. Grossmann. Marx e l'economia política clássica, cit. 
23 
smann - ficam completamente enredados na forma de 
valor que eles analisam; na sua análise só há lugar para 
uma teoria do valor de troca abstracto, enquanto é cons-
tantemente esquecido o papel dos valores de uso; assim 
como, onde se ocupam da produção, têm em conta exclu-
sivamente o aspecto do valor, esquecendo o real processo 
de trabalho. Tanto em Smith como em Ricardo, pois, os 
valores de uso não são nunca utilizados para a análise 
económica. Mas, esquecendo o papel que o valor de 
uso desempenha no processo de reprodução social capi-
talista, eles não compreendem a forma específica e 
concreta das relações sociais capitalistas. Por isso, «a 
teoria clássica é mais um sistema de deduções lógicas 
do que uma análise e uma representação das relações 
económicas concretas» (4), isto é, é constantemente excluí-
do da análise teórica o processo de trabalho real e as 
relações sociais que ele implica. Ora, dado que «a rea-
lidade não consiste só em valor, mas é, pelo contrário, 
uma unidade de valores e de valores de uso, em Marx 
a crítica parte da duplicidade dos fenómenos econó-
micos, com base na qual o carácter essencial da economia 
burguesa é dado pela conexão específica do processo 
de valorização com o processo técnico de trabalho» (5). 
Até aqui referimos Grossmann. O seu mérito é, 
sem dúvida, ter reivindicado o papel fundamental do 
valor de uso na análise marxiana, papel que foi ~empre 
subvalorizado ou não compreendido. pelos economistas 
posteriores da escola marxista ('). 
Só que as coisas talvez séjam um pouco mais 
complexas do que se apresentam neste livro. 
Antes do mais, é verdade que para Marx, Ricardo,. 
como Smith, faz continuamente abstracção do valor de 
uso e refere-se «apenas exotericamente» (7) a uma cate-
goria tão importante, mas é preciso sublinhar que, na teo-
ria clássica, o valor de uso das mercadorias não desaparece 
simplesmente, antes reaparece, não interposto, a sancionar 
a realidade presente como realidade natural. Em con-
clusão, o valor de uso não é esquecido e basta, mas 
(') H. Grossmann, ob. cit., p. 54. 
(') Idem, pp. 58-59. 
(') Cfr., sobre este assunto R. Rosdolsky, Genesi e struttura 
del Capitale di Marx, Laterza, Bari, p. 101 e segs. 
(') K. Marx, Lineamenti fondamentali della critica dell'eco-
nomia política, vol. II, La Nuova Italia, Florença, 1970, p. 328 
(cfr. também vol. I, p. 311). 
24 
deixa de desempenhar qualquer papel na análise econó-
mica, precisamente enquanto constitui o natural e eterno 
pressuposto do valor de troca. Os produtos do trabalho, 
os bens, os valores de uso são naturalmente mercadorias, 
bens produzidos para a troca. 
Não só, mas em relação aos clássicos não basta 
dizer que a mercadoria, o valor de troca, é também 
valor de uso particular, nem que o processo de valo-
rização é também processo técnico específico, mas que 
para a mercadoria - e ainda mais para o capital- o 
ser também valor de uso, significa estar em contínua 
contradição com a própria existência de valor. 
É exactamente deste ponto central que se pode 
compreender a profundidade da separação e da alteri-
dade de Marx em relação aos clássicos. Para Marx, 
com efeito, não só a mercadoria, esta forma particular 
em que se apresentam os produtos do trabalho no capi-
talismo, é unidade de valor de uso e valor, mas essa 
unidade é fundada na oposição dos dois pólos que a 
compõem. Trata-se agora de desenvolver este aspecto 
fundamental. 
Todos sabem que Marx abre O Capital, e em seguida 
a sua exposição da lei do valor, exactamente com a 
distinção entre valor de uso e valor de troca, e logo em 
seguida, entretrabalho útil, concreto, particular e tra-
balho abstracto, sem qualidade. Por que é que Marx, 
neste e em todos os outros locais em que fala do valor, 
liga tanta importância a essa distinção? De notar que, 
em seguida, como por exemplo em Hilferding, em 
Bukharine e em muitos outros comentadores de Marx, 
esta distinção perde toda a relevância e o valor de us/J 
da mercadoria é relegado para o âmbito da «merceo-
logia», ou seja, fora da economia (repete-se, por razões 
diversas, o mesmo erro dos clássicos). Para Marx, pelo 
contrário, esta distinção, que é também oposição, é 
tão importante que constitui a chave para a compre-
ensão das relações capitalistas de produção. A razão 
é simples. 
O processo de reproduçâo social, aquilo a que 
Marx chama a permuta orgânica material, no modo 
moderno de produção assume uma forma totalmente par-
ticular. Isto é, os valores de uso, os bens, os produtos 
do trabalho, enquanto produtos de produtores privados, 
independentes e em concorrência entre si, não são utili-
záveis socialmente, não satisfazem as diferentes neces-
25 
sidades sociais de / orma imediata, mas apenas mediata-
mente, através da troca e do mercado. E é aqui que os 
valores de uso sofrem uma primeira e estranha meta-
morfose. Eles despem-se da sua veste material e cor-
pórea de tela, roupa, ferro, e tornam-se, enquanto bens 
permutáveis com qualquer outra coisa, enquanto mer-
cadorias, iguais a qualquer outro bem de uso. Como 
mercadorias, os valores de uso, muito diferentes uns 
dos outros, abandonam a sua variegada existência e 
assumém a idêntica qualidade de valores de troca (por 
isso um valor de uso é tão válido como outro e, daí, 
privado de qualquer especificidade de uso), e são dife-
rentes uns dos outros apenas quantitativamente (8). 
Logo, o valor de uso, para ser social, para se 
afirmar como valor de uso, deve passar através de uma 
forma, a do valor de troca, que o nega enquanto valor 
de uso particular, adaptado a este ou àquele fim, e o 
reduz a uma pura relação quantitativa, a da indiferente 
permutabilidade com os infinitos valores de uso do 
mundo das mercadorias. A forma concreta e perfeita 
da permutabilidade universal das mercadorias e da 
indiferença para com o conteúdo de valor de uso das pró-
prias mercadorias é o dinheiro, o deus das mercadorias. 
Por outro lado, esta forma particular em que se 
exprime o carácter social de um bem, segundo a qual 
um valor de uso não é social como tal, mas apenas 
enquanto exprime, na troca, a abstracta igualdade com 
todos os outros valores de uso,. não é mais do que 
um modo diferente de exprimir a forma particular em 
que se apresenta o carácter social do próprio «trabalho» 
em situação capitalista. Também aqui o trabalho do 
produtor independente é, imediatamente,. trabalho pri-
vado, «não social»: ele deve, pois, tornar-se social. Pode 
fazê-lo, mas não como este ou aquele trabalho particular, 
concreto, útil, não como trabalho do indivíduo propria-
mente dito, mas apenas enquanto trabalho que se afirma 
(') Cfr. K. Marx, Per la critica dell'economia política, 
Editori Riuniti, Roma, 1969, p. 10: «Assim, um volumj;! de 
Propércio (*) e oito onças de tabaco de cheiro podem ter o 
mesmo valor de troca, não obstante a disparidade de valores 
de uso do tabaco e da ·elegia. Como valor de troca, um valor de 
uso vale exactamente o mesmo que outro, desde que estejam 
presentes na devida proporção». 
(*) Sexto Aurélio Propércio, poeta latino, autor de Elegias. Nasceu 
cerca do ano 47 a. C. em Mevânia, na Umbiria (Itália) e morreu por volta do 
ano 15 a. C. (N. T.). 
26 
na e através da troca como o seu contrário, como 
trabalho social, igual, indiferenciado; logo, não só inde-
pendentemente, mas a despeito da real diferença dos 
trabalhos particulares. 
O trabalho, qual nexo social que liga os indivíduos 
produtores uns aos outros, tornou-se ao mesmo tempo 
independente e separado deles. Esta relação social inde-
pendente e estranha aos produtores operantes na socie-
dade, que cada vez mais faz «crescer o abismo entre 
produto propriamente dito e produto como valor de 
troca» (') é precisamente o «valor». 
O trabalho individual está, pois, em contraste com 
o trabalho social, que se torna autónomo e independente 
como trabalho abstracto, valor, a relação social torna-se 
alheia aos indivíduos, há contradição entre indivíduo 
e sociedade: eis desvendado o mistério da mercadoria e 
explicada a natureza profunda e a origem da contradição 
entre o seu aspecto individual e o social, entre o aspecto 
pelo qual ela é valor de uso, e o seu aspecto social 
pelo qual ela é «valor» (1º). 
Por outras palavras: no modo de produção capi-
talista, a «sociabilidade», ou seja, a obtenção do equi-
líbrio social, a reconstituição da permuta orgânica 
material, não é um «dado», o pressuposto racional e 
planificado com que se constitui a relação social, mas 
é, pelo contrário, o «resultado» de relações sociais 
contraditórias e antagonistas. Logo, ele mesmo um 
resultado problemático e contraditório. A sociabilidade 
capitalista, portanto, afirma-se sempre de uma forma não 
imediata, mas mediatamente, através de um processo 
de metamorfoses e passagens contrastantes e violentas. 
O ponto originário desta relação social subvertida e 
distorcida é precisamente o contraste perfeitamente 
capitalista entre individual e social, o mesmo contraste 
que, para Marx, é a origem das crises e das contradições 
violentas do capital, onde a unidade se faz valer com 
a violência. 
O mesmo contraste está na base da formação do 
valor social e dos preços que se afirmam só em prejuízo 
de e em contraste com a sua origem no trabalho indi-
vidual e privado. 
(') K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., vol. I, p. 83. 
('º) Cfr. K. Marx, Storia dJelle teorie economiche, Einaudi, 
Turim, 1971. 
27 
Neste ponto, creio que se pode começar a compre-
ender a dificuldade de assimilar imediatamente a teoria 
marxiana do valor à teoria ricardiana. No sentido em 
que Ricardo faz coincidir teoricamente trabalho indi-
vidual e trabalho social, trabalho concreto e trabalho 
abstracto, e logo, reduz a teoria do valor-trabalho 
a um puro cálculo técnico das quantidades físicas de 
trabalho contido. É assim cancelado, suprimido, exacta-
mente aquilo que é mais importante saber da realidade 
social do capital, isto é,· como se forma e se produz 
o valor, como o trabalho individual pode tornar-se social 
e de que modo isto influi sobre a explicação dos fenó-
menos económicos. 
Este aspecto da relação Marx-Ricardo está expresso 
com extrema clareza numa passagem da História das 
Teorias Económicas. É uma passagem conhecida mas 
que vale a pena transcrever por inteiro: «A fim de 
que as mercadorias possam ser medidas com o quantum 
de trabalho nelas contido - e a medida para o quantum 
do trabalho é o tempo - os trabalhos de diferentes espé-
des contidos nas mercadorias devem ser reduzidos a 
trabalho igual, simples, ao trabalho médio, ordinário, 
não especializado (unskilled). Só então, o quantum de 
trabalho nele contido pode ser medido com o tempo, 
com uma medida comum. Este trabalho deve ser quali-
tativamente igual, a fim de que as diferenças se to'rnem 
sjmples diferenças quantitativas, simples diferenças de 
grandeza. Todavia, esta redução a trabalho simples médio, 
não é a única determinação da qualidade deste trabalho, 
em que, como unidade, se resolvem os valores das merca-
dorias. Que o quantum de trabalho contido numa merca-
doria seja o quantum socialmente necessário à sua pr.odu-
ção - que o tempo de trabalho seja tempo de trabalho 
necessário-é uma determinação que se refere só à gran-
deza de valor .. Mas o trabalho que constitui a unidade da 
mercadoria não é só trabalho médio igual, simples. O tra-
balho é trabalho do indivíduo privado, representado num 
produto determinado. Todavia, enquanto valor, o produto 
deve ser incorporação do trabalho social, e errqu~nto 
tal, deve ser imediatamente transformável de um valor 
de uso em qualquer outro. [ ...] O trabalho · privado 
deve, pois, mostrar-s·e imediatamente como o seu con-
trário, como trabalho social; o trabalho assim transfor-
mado como seu imediato contrário, como trabalho 
abstractamente geral, que se mostre, pois, também num 
28 
equivalente geral. É só com a sua alienação que o tra-
balho individual se mostra realmente como o seu con-
trário» (11 ). 
Aqui se esclarece até ao fundo o significado da 
crítica a Ricardo, a crítica segundo a qual Ricardo ficou 
enredado na simples determinação da grandeza de valor. 
Isto é, o próprio trabalho médio, simples, como ele-
mento determinante e medida da «grandeza» de valor, 
não pode ser compreendido se for simplesmente consi-
derado em si mesmo, mas apenas quando considerado 
como o resultado de um processo, que parte do traba-
lho concreto, individual, e chega ao seu oposto, ao tra-
balho «abstractamente geral», e desta forma «social». 
Ou seja, a mesma determinação quantitativa do valor 
pressupõe necessariamente aquela análise qualitativa, 
que individualiza e descreve o processo social que está 
por detrás da própria formação da grandeza de valor, 
sofre a redução da «medida» da grandeza de valor a 
uma medida puramente contabilística, técnica, não cor-
respondente à realidade social a descrever, e logo, insu-
ficiente também para determinar as mesmas relações 
económicas quantitativas. Mais precisamente: não se pode 
sequer falar de trabalho médio ou de quantidade de 
trabalho contido, como fundamento da permutabilidade 
das mercadorias, se este mesmo trabalho não foi teori-
camente reconduzido a trabalho social abstracto, àquele 
trabalho precisamente que só cria a homogeneidade qua-
litativa das mercadorias e, por isso, consente a forma-
ção do valor de troca no seu aspecto quantitativo. 
Evoquei a distinção entre aspecto qualitativo e 
quantitativo da teoria marxiana do valor, porque ela 
me parece útil para descrever sinteticamente alguns dos 
traços característicos, embora esta fórmula tenha dado 
e dê frequentemente lugar a graves equívocos, no sen-
tido de que sugere a ideia de que Marx teria esgotado 
complétamente o primeiro aspecto e que isto basta tam-
bém para suprir as faltas do segundo, como, por exem-
plo, no caso do problema da transformação. 
Aqui, pelo contrário, tentà-se sublinhar a incindi-
bilidade dos dois momentos: por um lado, com efeito, 
é verdade que, se se perde o aspecto qualitativo, se tem 
uma teoria incapaz de compreender não só o significado 
social das categorias que usa, mas também incapaz de 
( 11 ) K. Marx, Storia cit., vol. III, p. 151. 
29 
descrever os próprios fenómenos económicos do capital, 
por exemplo as crises e a formação da taxa média de 
lucro como o próprio Ricardo, que não reconhece as 
primeiras e não explica a segunda, o demonstra. Por 
outro lado, é também verdade o contrário: que a teoria, 
privada do seu aspecto quantitativo, ou seja, da ligação 
com a realidade económica que pretende representar, 
é reduzida a um conceito genérico e puramente filosó-
fico. Mas se isto é verdade, encontra-se aqui perante o 
problema de que esta relação unitária é refeita no pró-
prio Marx e a partir do problema da transformação. 
Com efeito, se queremos recuperar o sentido e a peculia-
ridade da análise marxiana, que está exactamente no 
facto de ter afirmado pela primeira vez e de manter 
a unidade do aspecto quantitativo e qualitativo da teo-
ria económica, isto é, a incidibilidade dos fenómenos 
económicos da sua especificidade social, então temos 
de reconstruir aquela unidade dentro de alguns nexos 
problemáticos cruciais do marxismo, um dos quais é o 
problema da transformação. E com isto quero dizer 
que é revista a própria posição marxiana do problema, 
dado que os esquemas de transformação formulados por 
Marx, se assumidos e desenvolvidos unilateralmente, con-
duzem necessariamente, como demonstra toda a história 
do problema da transformação, à supressão do próprio 
problema; neste caso, não há mais nada a «transformar», 
p.orque os valores desapareceram. 
Pelo contrário, trata-se de insérever este problema, 
importante, porque respeita à explicação da formação 
da taxa média de lucro e do peso e do papel que esta 
categoria social exerce sobre o valor, dentro de todo 
o discurso marxiano, e por isso, o pôr em relação com 
a temática do valor naquela acepção mais ampla que 
antes se tentava dar: isto é, não ricardianamente, como 
medida técnica de grandezas dadas, mas como medida 
social de uma realidade dualística e contraditória (não 
simples cálculo matemático, mas cálculo dos fenómenos 
económicos no seu processo de formação). 
Assim, existe um problema de transformação, não 
só, mas isto está completamente aberto à pesquisa, no 
sentido de que são Fejeitadas tanto as pseudo-soluções 
da «ortodoxia» marxista clássica, que simplesmente nega 
a própria existência de um problema não resolvido em 
Marx, como daqueles - mesmo marxistas - que aceitam 
a solução dada ao problema por teóricos da transfor-
30 
mação, de Bortkiewitz até à formulação formalmente 
mais coerente de Sraffa. 
Sobre esta última posição, gostaria de me debruçar 
brevemente, tomando como referência uma das suas 
interpretações mais interessantes, por ser defendida por 
um estudioso sempre ligado aos mais vivos debates do 
marxismo: a interpretação de Dobb. Isto servira ao 
mesmo tempo para esclarecer algumas das afirmações 
precedentes. 
Antes de passar a Dobb, são necessárias algumas 
premissas. 
Sobre a onda do problema da transformação mar-
xiana, abriu-se uma vasta literatura que exan11inou a espe-
cífica relação matemática entre valores e preços, a par-
tir da própria sugestão marxiana, e que pode dizer-se 
concluída com o livro de Sraffa Produzione de mexi 
a mezzo di me rei (12), que retoma e conduz à coerência 
toda a experiência teórica precedente sobre este assunto. 
É pelas características deste último, pois, que pode ser 
desvendado o sentido da atitude que os teóricos da 
transformação tiveram sobre este problema e mais em 
geral nos confrontos de Marx. 
'Parece-me que são duas as tarefas teóricas que 
este livro se propõe (embora elas não sejam explicita,. 
mente declarados por Sraffa): primeiro, o de reafirmar 
o fim do revés teórico dos neoclássicos, e em particular 
o fim da sua explicação do lucro como produtividade 
marginal do capital, através de uma crítica à coerência 
formal interna desta teoria (impossibilidade de medir o 
capital), e, com isto, de ver indirectamente confirmada 
a posição teórica clássica e a correspondente teoria do 
lucro, com particular referência à teoria ricardiana que 
considera de facto o lucro, com efeito, não já como o 
preço ou a remuneração de um factor produtivo, mas 
como excedente ou produto bruto. 
Segundo, de resolver o problema da medição dos 
preços de produção, resolvendo directamente a dificul-
dade com que se tinha defrontado Ricardo (ou seja, 
eliminando, com a determinação simultânea da taxa 
média de lucro e dos preços, o círculo vicioso que 
Ricardo não tinha conseguido resolver, isto é, que não 
pode determinar-se o primeiro sem conhecer os segun-
(12) P. Sraffa, Produzione di merci a mezzo di merci, 
Einaudi, Turim, 1969. 
31 
dos, e vice0 versa), e deste modo, de considerar con-
cluído também .o problema marxiano da transformação. 
Se sobre o primeiro p.onto não existem objecções 
formais a fazer, salvo ver se, em seguida, não existem 
substanciais, o segundo levanta dificuldades. Com Sraffa 
temos com efeito que, dados os métodos técnicos de 
produção, com carácter «circular», é possível construir 
um sistema de equações que calcule simultaneamente 
os preços e a taxa média de lucro. Já não são necessários, 
por isso, como para Marx, os valores para calcular 
primeiro a taxa média de lucro e determinar depois os 
preços. Apenas que, para Marx, embora expresso de 
modo insuficiente, não é indiferente este «primeiro» e 
este «depois», mas tem um significado social preciso: 
ele está de facto a representar a tentativa dedar uma 
explicação social significativa da génese da taxa média 
de lucro e dos preços de produção; romper com esta 
ligação específica significa não compreender até ao fundo 
o problema peculiar de Marx e pôr-se, pelo contrário, 
em continuidade directa com Ricardo, de quem herda 
a ocultação da categoria do valor pela do preço. É, além 
disso, claro que, embora se pretenda depois colocar e 
considerar o problema da transformação em Marx, esta 
posição, mais do que uma solução do problema, é um 
seu esvaziamento, porquanto lhe suprime um dos dois 
termos; os valores não desempenham mais nenhumà fun-
ção e o lucro já não pode ser considerado como mais-
-valia reconduzível a mais-trabalho. É verdade que 
Sraffa em seguida opera um processo de redução dos 
preços a quantidades de trabalho, mas isto é puramente 
supérfluo e acessório à determinação dos mesmos, e 
logo, revela-se totalmente impossível as.similar estas 
quantidades de trabalho aos valores de Marx. Por este 
motivo, a posição de Sraffa, a meu parecer, exactamente 
porquanto suprime o termo essencial e específico da 
análise de Marx, aquele que só aproveita, surpreende e 
unifica a complexidade social da realidade económica 
capitalista, isto é, o valor, é heterogénea a Marx, e não 
pode ser considerada sua complementar. E dado q_ue, 
com Sraffa, se completa a história daqueles que se ocupa-
ram do problema da transformação, também estes últi-
mos podem ser considerados em continuidade mais com 
a problemática de Ricardo do que C:Om a de Marx. 
Neste ponto, é interessante a análise da operação 
de Dobb, como exemplo da tentativa de uma recupera-
32 
ção, dentro de Marx, de Sraffa. Como isso é possível, 
ficará claro depois de ter trazido a lume os seguintes 
pontos: o modo como Dobb entende o significado do 
geral «retorno aos clássicos» operado por Sraffa, a sua 
representação da teoria marxiana do valor, o seu modo 
de entender a análise «social» de Marx. 
Os pontos de referência bibliográficos desta posi-
ção são, além da conhecida introdução de Dobb à edição 
italiana do primeiro livro de O Capital e do seu Economia 
política e capitalismo, alguns artigos seus aparecidos 
recentemente em italiano, nos quais esta posição é expli-
citada até ao fundo (13). É a estes últimos que farei par-
ticular referência. 
Antes de mais, para Dobb a crítica à teoria neo-
clássica que constitui o maior mérito da mais recente 
análise económica (em particular de Sraffa) e o retomar 
que isso comporta da teoria e dos problemas dos econo-
mistas clássicos, significa no fundo um retomar e uma 
reafirmação de Marx. Os clássicos vão, pois, de Quesnay 
a Marx. É inútil recordar aqui que Marx se colocava 
como crítico da economia política e prefigurava o «fim» 
da economia política no comunismo; é por outro lado 
interessante sublinhar como, para Dobb, não só não exis-
tia «ruptura» entre Marx e os clássicos, mas, pelo con-
trário, uma substancial continuidade. 
Se se passar às considerações de Dobb sobre o 
valor, encontra-se a mesma coisa. Assim, Dobb· escreve: 
«Resumindo, o que conta é a noção nela [teoria do valor] 
incluída de que as condições de produção determinam 
(fundamentalmente) as condições da troca e da distri-
buição do rédito (e logo, da procura). É bem sabido 
que Marx considerou as relações de troca, se hem que 
importantes, e certamente reais, como uma mera «apa-
rência» sobre a superfície (por assim dizer) da sociedade 
económica, que devia ser interpretada e compreendida 
em termos de condições e de relações sociais entre os 
homens no interior da produção» (14). 
('1) M. Dobb, «Un libro chc farà cpoca», in Economia 
política e capitalismo, Boringhieri, Turim, 1972, p. 333 e segs.; 
«Importanza della teoria marxista del valore e della distribuzione», 
in AA. VV., II capitalismo negli anni 70, Mazzotta, Milão, 1972, 
p. 121 e segs. 
('') M. Dobb, Importanza de/la teoria cit., p. 121 
33 
A teoria do valor é, para Dobb, essencialmente teo-
ria das «condições de produção» em relação às quais 
as relações de troca têm uma função subordinada e até 
quase supérflua. Sobre este segundo ponto, basta recor-
dar que para Marx, valor e valor de troca constituem 
uma unidade incindível pelo que, se é verdade que o 
segundo é o simples modo de manifestação do primeiro 
(a sua expressão «fenoménica»), é também a sua expres-
são fenoménica necessária,· isto é, o mercado, as rela-
ções de troca, são precisamente o local e a forma neces-
sária de manifestação do valor (do trabalho abstracto). 
Mais estranha é a primeira afirmação de Dobb, 
de que valor e «condições de produção» são conceitos 
intermutáveis. 
As «condições de produção» são um conceito muito 
genérico, como as condições do «consumo» e da «dis-
tribuição» e, com efeito, quando Dobb vai precisá-lo, 
não pode senão assimilá-lo ao trabalho humano em geral, 
à genérica actividade humana produtiva (15). 
Aqui, pelo contrário, o problema é específico, isto é, 
trata-se de estabelecer exactamente qual é o trabalho que 
produz o valor; quais são as «condições de produção» 
que só se tornam sociais através da forma da troca e 
do mercado. Pelo contrário, a afirmação de Dobb inverte 
completamente a análise de Marx. 
Com efeito, afirmar de modo completamente gené-
rico que os preços, as categorias económicas finais do 
·capital, são sempre reconduzíveis à produtividade do 
trabalho humano, significa prescindir exactamente do 
modo específico e particular em que o carácter social 
do trabalho e da produção se afirma no processo capi- · 
talista de produção, ou seja, exactamente daquilo que 
se procura explicar. 
Pelo contrário, a especificidade histórica do capital 
está toda no momento da realização do trabalho como 
trabalho «social», no como este trabalho social se afirma. 
E para Marx, o trabalho apenas se afirma como social 
negando-se continuamente como tal, apenas como valor, 
como trabalho social abstracto, ou seja, precisa~ente 
( 15) O motivo segundo o qual, para Dobb, o trabalho ocupa 
um lugar proeminente no sistema de análise económica de Marx 
era que «o trabalho constituía a actividade produtiva dos homens 
na sociedade; actividade produtiva que era o centro e a chave 
do desenvolvimento social» (idem, p, 123). 
34 
como trabalho cuja sociabilidade não é posta, mas resulta 
continuamente a posteriori das relações de troca. Logo, 
o trabalho capitalista, bem longe de ser trabalho humano 
em geral, é um trabalho especialíssimo que poderia, tam-
bém, ser definido como trabalho a-social, ou seja, como 
trabalho que se afirma só no e pelo contínuo contraste 
com o trabalho individual (o trabalho concreto, útil). 
Eis porque não se pode de modo nenhum-:-- como faz 
Dobb - partir do trabalho social ou das condições sociais 
de produção como um «dado», um pressuposto, já que 
é precisamente no facto de que eles não o são que está 
toda a sua especificidade de condições de produção 
capitalista. · 
Este é, pois, o pI'essuposto que está na base da 
possibilidade de identificar a análise marxiana do valor, 
com a determinação dos preços feita pelos teóricos da 
transformação e, enfim, por Sraffa; em conclusão, a 
primeira, reduzida a simples teoria das condições· de 
produção, pode facilmente ser assimilada e completada 
por uma análise como a de Sraffa, que faz exactamente 
das condições da técnica (com o acréscimo de uma con-
dição de igualdade das taxas de lucro que não se sabe 
donde provém e que papel desempenha), o fundamento 
de relações de substituibilidade técnica entre os bens, 
a que são assimilados e reduzidos os preços. 
Mas, com isto, creio que resultam confirmadas algu-
mas afirmações precedentes. Antes de mais, o· carácter 
de substancial retomada de Ricardo de parte desta posi-
ção (que se revela aqui na absoluta falta de problema-
ticidade da categoria do valor), e de contínua assimila-
ção dos problemas de Marx com os de Ricardo; depois, 
a dúvida que primeiro se exprimia acerca da pretensão 
destes autores de ter definitivamente superado a teorianeoclássica. Pelo contrário, esta posição não faz mais 
do que .substituir o valor de uso da teoria marginalista 
pelo conceito também genérico e «naturalista» das «con-
dições da técnica»: os riscos da apologética do capital 
não são assim completamente eHminados. 
Que Dobb percebeu esta última dificuldade resulta 
do facto de que sente continuamente necessidade de subli-
nhar o conteúdo social das categorias que usa. O que, 
com efeito, fica assente por um tipo de análise como 
esta, são as contradições sociais que para Marx fazem 
parte da própria natureza do capital e culminam na 
relação de «exploração» do operário por parte do capi-
35 
talista. Trata-se, pois, de o reafirmar. Como procede 
Dobb? 
Para Dobb a relação de exploração está ligada 
simplesmente a um postulado social: o sistema da pro-
priedade privada. É isto que determina a relação inversa 
entre lucro e salários no processo de distribuição do 
produto bruto já individualizada por Ricardo (e quanti-
ficada por Sraffa), isto é, a relação de antagonismo 
entre capital e trabalho. 
Mas, deste modo, por um lado, o antagonismo 
fundamental da produção capitalista é relegado para 
a simples relação distributiva. Ou seja, a relação entre 
capitalistas e operários torna-se uma simples relação 
de concorrência na repartição do valor produzido e, 
logo, pode ser directamente assimilado ao antagonismo 
distributivo que existe entre proprietários fundiários e 
capitalistas. Por outro lado, fica aberto o caminho às 
sugestões do reformismo que pretende «sanar» os con-
trastes sociais, sanando a injustiça da distribuição. Por 
outro lado, dado que uma vez reduzida a lei do valor 
às gerais condições da técnica, perde-se a relação par-
ticular que Marx instituiu entre mais-produto, mais-valia 
e mais-trabalho, isto é, perde-se a relação do mais-
-trabalho com o trabalho não-pago, pode surgir a objecção 
de que não se compreende por que motivo se deva falar 
de mais-valia como resultado da exploração do «traba-
·lho», e não, por exemplo, como _resultado também ou 
totalmente das máquinas ou do capital com o qual se 
trabalha. A esta possível pergunta, Dobb responde antes 
de mais que a própria teoria marxiana do valor não . 
serve para explicar a exploração: «É verdade que alguns 
defenderam também que a mais-valia e a exploração de 
qualquer forma se deduzem (e dependem, logicamente) 
da teoria do valor-trabalho como na lógica se deriva a 
conclusão da premissa. A premissa, neste caso, seria 
qualquer preceito lockiano, como aquele pelo qual os 
homens têm um direito natural apenas àquilo que é 
fruto do seu trabalho. Por isso, se numa sociedade 
assente na troca as coisas se trocam com base na quan-
tidade de trabalho. necessária para a sua produção, e 
todavia algumas pessoas têm um rendimento sem traba-
lhar, isso deve ser a prova de que houve um acto de 
apropriação ou de sequestro "inatural". Todavia, creio 
que esta interpretação, porquanto sedutora, é, também, 
36 
errada» (16). Em segundo lugar, Dobb declara que a 
exploração é, em todo o caso, exploração de trabalho, 
porque é, em geral, o trabalho aquilo que conta, é o tra-
balho aquilo que genericamente produz: «Porque falar 
de mais-valia como resultado da exploração do trabalho? 
Creio que, aqui, se pode ver a importância da posição 
conferida por Marx ao problema económico da produ-
ção, em termos de actividade humana. Não é apenas um 
jogo de palavras ou uma tautologia. Trata-se de uma ques-
tão essencial. Se aquilo que conta é a actividade humana 
produtiva, então certamente o que importa é a relação 
entre os seres humanos empenhados nessa actividade 
e os seus resultados» (17). 
No que diz respeito ao primeiro ponto, creio que 
não são necessárias muitas palavras para afirmar que 
para Marx é verdadeiro precisamente o contrário, e que 
a sua teoria do valor está interligada com a teoria da 
mais-valia como mais-trabalho (sobre este ponto remeto 
para este livro que, exactamente, se debruça largamente 
sobre isso). Enquanto o modo como Dobb motiva a 
afirmação oposta dizendo que, se se ligasse a teoria do 
valor à exploração, aquela reduzir-se-ia necessariamente 
a simples discurso ético sobre a injustiça distributiva, 
revela até ao fundo a sua incompreensão da teoria do 
valor, ou seja, de uma teoria que é, ao mesmo tempo, 
teoria da igualdade e da liberdade da troca e teoria da 
perfeita desigualdade e não-liberdade: para Dopb, é ver-
dadeiro sobretudo o primeiro aspecto (não é por acaso 
aquele em que a teoria de Marx é mais análoga à de 
Ricardo), cuja tarefa não é ao mesmo tempo explicar 
a mais-valia, mas simplesmente ser coerente, não con-
traditória com aquele sistema institucional que está 
ligado à propriedade e à exploração. Por outro lado, uma 
vez destruída a ligação valor-mais-valia, que é a única 
que pode dar garantia científica ao discurso sobre a 
exploração e não a reduz a uma vazia querela sobre a 
injustiça humana, a única maneira de a recuperar é 
exactamente, como faz Dobb, reportar-se à criação da 
produtividade do trabalho humano, coisa verdadeira 
desde que o homem existe, mas inútil para explicar um 
facto particular e específico como a exploração capita-
(") Idem, p. 122; cfr. também M. Dobb, Introdúzione a 
K. Marx, Il capitale cit., vol. I, p. 10. 
(") Idem, p. 130. 
37 
lista. Exploração onde, com efeito, não se trata da sim-
ples «distinção» entre quem trabalha e quem não tra-
balha, quem produz e quem não produz, na base da 
simples produtividade «material», mas onde essa mesma 
produtividade física se inverte e se nega na produtividade 
de valor e mais-valia, e é esta última que tentamos exac-
tamente explicar. 
Como resultado temos, pois, que a pura análise 
sociológica tenta, por um lado, colmatar os defeitos e as 
carências da análise económica sobre a natureza da 
sociedade e dos seus contrastes, por outro, para o fazer, 
retrocede necessariamente às frases abstractas sobre o 
«homem», sobre a «natureza» e sobre o «trabalho». Com 
isto, da lição de Marx perde-se completamente o signi-
ficado mais profundo, com o qual, pelo contrário, é 
necessário e urgente confrontarmo-nos. 
M. B. 
38 
Capítulo I 
A TEORIA CLASSICA DO VALOR: SMITH E RICARDO 
Ricardo, na sua formulação da teoria do valor­
-trabalho parte da precedente análise smithiana e, ana­
logamente a Smith, faz depender o .valor «de troc_ª�­
de uma mercadoria de certas «quantidade.s_de_trab.alh.u� 
mais precisamente, faz residir o elemento determinante 
e originário do valor unicamente na quantidade de 
trabalho que é necessário dispender para produzir uma 
mercadoria. 
A tese de que o valor depende de certas «quantidades 
de trabalho», que pode ser considerada o ponto comum 
de partida dos dois economistas, assume, na sua análise 
seguinte, consequências e desenvolvimentos diferentes, 
não obstante Smith continuar a constituir, para Ricardo, 
a referência teórica de maior peso. Smith é, de facto, 
o único economista que havia falado de troca das mer­
cadorias directamente em termos de valor, e dela tinha
falado' de modo não imediatamente empírico (embora
alguns germes de uma teoria do valor-trabalho se possam
fazer remotar a Petty e a Locke) e que havia tentado
dar uma organização sistemátita à sua teoria.
Tentamos agora analisar nos seus pontos mais 
salientes os aspectos da investigação económica smi­
thiana que são mais úteis para enquadrar correctamente 
os termos da investigação seguinte de Ricardo. 
Smith, no seu estudo acerca das causas que produ­
zem a riqueza das nações, parte de algumas considerações 
39 
importantes sobre o impulso dado ao desenvolvimento 
produtivo por urna particular organização da produção, 
a divisão do trabalho. 
O enorme e contínuo incremento da produtividade, 
fonte da riqueza moderna, a que nós charnarernos 
«riqueza burguesa», provém mesmo e apenas, segundo 
Smith, do «trabalho» e de uma forma específica do 
trabalho, o trabalho socialmente dividido, que tem como 
fim a produção de mercadorias e a troca. 
Diferentementedos fisiocratas, na base da produ-
tividade, da capacidade, isto é, de criar «produto bruto», 
já não são postos os poderes naturais produtivos do 
solo, ou qualquer outra causa externa, como pela tra-
dição económica antes de Smith, mas, com Smith, só 
e apenas o trabalho, e mais precisamente o trabalho 
verdadeiramente produtivo, capaz de fixar no valor das 
mercadorias que produz um valor «excedente» do seu ('). 
Estas fundamentais premissas srnithianas, que me-
reciam um tratamento muito mais desenvolvido e cui-
dadoso, só nos interessa aqui recordá-las, porquanto 
Smith delas tomará precisamente os princípios para 
explicar a natureza de categorias económicas estreita-
mente ligadas ao conceito de «produto bruto», como 
a origem das três principais formas de rendimento: os 
salários, os lucros e a renda fundiária; estas duas 
últimas, que correspondem, de facto, ao «produto bruto» 
dos fisiocratas, são por ele definidas como puras 
«deduções» do produto do trabalho (2). 
Isto, por um lado; por outro·, colocado o trabalho, 
na sua forma concorrencial e de mercado, ou seja o 
trabalho socialmente distinto, na base da produção da 
riqueza burguesa, Smith pode passar ao estudo mais 
preciso das leis que regulam a troca, e ·assim definir, 
como ele diz, quais são «as regras que os homens 
( 1) Se bem que no primeiro capítulo da Ricchezza delle 
nazioni (Editori Riuniti, Roma 1969) Smith fale do incremento 
da produtividade simplesmente no sentido físico, ou seja do 
aumento «numérico» dos bens produzidos. Esta dupla deter-
minação da produtividade, onde ela é entendida quer no sentido 
próprio como capacidade de criar produto bruto, quer como 
aumento material de riqueza, comportará em Smith a confusão 
acerca da relação entre «riqueza» e «valor» (A. Smith, Ricerca 
sopra la natura e le cause delle riccheza delle nazioni. Utet 
Turim, 1948). 
(') A. Smith, Ricchezza cit., p. 61; cfr. também p. 46. 
40 
seguem na troca dos seus bens», dircctamente aplican<lo 
e desenvolvendo a categoria do trabalho produtivo. 
De facto, ao explicar o mecanismo da troca das 
mercadorias, uma vez que as mesmas mercadorias são 
para ele essencialmente produto de trabalho, ele pode 
começar a adaptar µ,ma t~_oria c:l() valor, e mais preci-
samente pode Jazer depender este valor de certa quan-
tidade de trabalho, destacando-se assim nitidamente das 
posições empiristas precedentes, como a do tipo fisio-
crático, por exemplo, que aceitava os «preços» como 
um dado não analisável ulteriormente. 
A partir, portanto, da análise da existência da 
mercadoria, ou seja de um bem produzido unicamente 
para a troca, Smith define-lhe o valor de troca, nitida-
mente distinto da sua utilidade, ou do 5ieu valor de 
uso, que constitui a sua base material mas não aquilo 
que cria o seu valor, afirmando que este último depende 
da quantidade de trabalho que uma mercadoria adquire, 
ou pelo contrário, o que é o mesmo, da quantidade de 
trabalho que essa mercadoria está em grau de dispor, 
de «pôr em movimento». Assim, de facto, Smith define 
explicitamente o valor de um objecto produzido para 
a troca: ele é «o poder, que a posse daquele objecto 
traz consigo, de adquirir outros bens» (3). «Por isso o 
valor de uma mercadoria qualquer, nos confrontos 
daquele que a possui e que não pretende usá-la ou 
consumi-la ele próprio, é igual à quantidade de trabalho 
que ela o põe em grau de adquirir ou de dispor. 
O tral:>alho é por isso a medida real do v;:ilor de trocei 
de todas as n1ercadqrias;i · (4). 
Desta formulação inicial smithiana do valor deduz-
-se que o \ vaJor de troca de uma mercadoria depende 
da quantidade de trabalho que esta mercadoria «pode 
dominar» ( can command), com a consequência de que 
a quantidade de trabalho, que determina o valor de 
uma mercadoria, depende do «valor do trabalho» ou 
salário. Smith diz, de facto, logo depois: «Elas - as 
mercadorias - contêm o valor de uma certa quantidade 
de trabalho, que nós trocamos tom aquilo que se supõe 
contém naquele momento o valor de uma quantidade 
igual. O trabalho foi o primeiro preço, a moeda origi-
nária, que se pagou pela aquisição de qualquer coisa» ('). 
(') Idem, p. 28. 
(') Idem, p. 29. 
(') Idem, p. 30. 
41 
Nem por isso o princ1p10 do trabalho como quan-
tidade ou tempo de trabalho, como será para Ricardo 
e depois para Marx, é a base da medida dos valores, 
mas o «valor do trabalho». Em Smith, portanto, a 
aplicação do princípio das «quantidades de trabalho» 
às leis capitalistas da troca configura-se como princípio 
do «trabalho dominado», o que comporta que o elemento 
determinante dos valores seja o «valor do trabalho». 
Precisamente sobre estas conclusões incidirá a crítica 
ricardiana. 
Todavia, Smith, no decurso da sua análise dá uma 
intima coerência ao motivo e ao sentido da opção da 
sua teoria. 
No confronto com as épocas precedentes da época 
capitalista, ele é levado a afirmar que, naquele estádio 
«primitivo» da sociedade que precede a acumulação do 
capital e a apropriação da terra, todo o produto do 
trabalho pertence ao trabalhador; e a quantidade de 
trabalho comummente empregada na aquisição e na 
obtenção de uma mercadoria é a única circunstância 
que pode regular a quantidade de trabalho que ela 
deveria comummente adquirir, e da qual pode dispor, 
ou com a qual se pode trocar» (6). 
Neste estado de coisas, em que a totalidade do 
produto do trabalho pertence ao trabalhador, não se 
interpõe nenhum obstáculo a que o valor de troca das 
111~r__f.adori-ª~-12-1:9_slt1zidas s~_!(..!Il_~» serppre e unkmte 
segunclc)_a. qua~ti_d~.cl~ de ~r~12~H1:Pa __ g~~~~sária para .a 
sua _RI"()gµç~o, iJorquanto ela coinci e com a quantidade 
ele trabalho que com aquela mercadoria se adquire. 
O produto de um certo tempo de trabalho troca-se, 
«domina» sempre o produto, ou o trabalho que contém 
um tempo igual. ÇQ.lllQ _cons~qµê1:iciª J:t .. qna.ntidade._.de. 
tralJalho qµe µma mercadoria domina depe11de_ sempre 
da quantidade de trabalho que é necessário despender 
para a produzir: o trabalho dominado depende do t:ra: 
balho contido. 
Pelo contrário, em situação capitalista, não só, 
«o capital se acumulou nas mãos de algumas pessoas», 
como não parece verificar-se outro tanto. De facto, 
usando o modo smithiano de se exprimir, a quantidade 
de trabalho necessária para produzir uma mercadoria, 
e aquela que com tal mercadoria se adquire, já não 
(') Idem, pp. 45-6. 
42 
coincidem; antes, parece a Smith que a quantidade de 
trabalho comummente despendida para produzir uma 
mercadoria deve ser constantemente menor que aquela 
que tal mercadoria adquire. 
Nós diremos que, em situação capitalista, o «valor» 
do produto do trabalho já não é igual ao «valor do 
trabalho», mas maior, ou, a quantidade de trabalho 
total, necessária para produzir um objecto, é maior que a 
parte que serve ao operário para reconstituir o próprio 
salário. 
Escreve de facto Smith que, na troca do «produto 
completo com moeda, com trabalho, ou com outros 
objectos, além do que pode ser suficiente para pagar 
o preço dos materiais e o salário dos operários, qualquer 
coisa deve ser dada para lucro daquele que se encarregou 
do trabalho» (7). E acrescenta ainda: «É evidente que 
uma quantidade suplementar (de trabalho) é devida aos 
lucros do capital que antecipou os salários e forneceu 
os materiais daquele trabalho» (8). Aqui Smith põe em 
relevo um facto fundamental de uma economia como 
a capitalista, ou seja que a quantidade de trabalho 
que o operário deve dispensar para produzir uma mer-
cadoria deve ser «maior» que a necessária para recons-
tituir o próprio salário e os meios de produção dispen-
didos; ela deve «pagar» também os lucros do capitalista; 
deste modo, uma vez que a quantidade de trabalho 
contida no chamado «valor do trabalho» nã,o iguala a 
contida no valor do produto do trabalho, a troca entre 
«produto do trabalho» e «trabalho» parece não se reali-
zar já segundo quantidades de trabalho equivalentes. 
De facto o valor produzido por umcerto tempo 
de trabalho, não tendo em conta a parte destinada a 
substituir a maquinaria e as matérias-primas consumidas 
na produção, resolve-se no valor dos salários, dos lucros 
e da renda fundiária; se o valor deste tempo de trabalho 
se reconvertesse todo em salários, ele estaria em situa-
ção de «dominar», de adquirir uma quantidade de salá-
rios «maior» que aquela nele contida, e assim de pôr 
em movimento mais trabalho que o nele contido. 
Esta razão por que a troca entre «trabalho» e 
produto do trabalho é para Smith troca de mais trabalho 
(7) Idem, p. 46. 
(') Idem, p. 47. 
43 
por menos trabalho. Como consequência o princ1p10 
do trabalho· contido não é suficiente, segundo ele, nem 
para a explicação da troca entre mercadoria e trabalho, 
que resulta de facto troca de menos trabalho por mais 
trabalho, nem aquela a ela ligada, da formação do 
lucro, o qual, consistindo realmente em «domínio» sobre 
trabalho alheio, ou como diria Smith, na quantidade 
de trabalho que ele adquire, deriva precisamente do 
excedente de valor que o trabalho produz além do 
próprio valor, ou seja além do salário. 
Pelo contrário, o princípio do trabalho contido 
pode ser pensado sem dificuldade, e aplicado, analo-
gamente ao do trabalho dominado, só num tipo de 
economia como a mercantil simples, em que o «valor 
do trabalho» coincide com o valor do produto do tra-
balho. Em tal economia, de facto, é indiferente dizer 
que a troca se faz segundo a quatidade de trabalho 
contido, ou que se faz segundo a quantidade de trabalho 
que as mercadorias dominam, porquanto não existe dife-
rença entre os dois momentos, dado que, havendo sepa-
ração entre quem detém os meios de produção e quem 
pode fornecer só o seu trabalho, não há sequer troca 
directa com trabalho vivo, mas apenas troca de trabalho 
objectivado na forma de produtos. 
Por outro lado, pois que, 2ara Smith, a validade 
ou não de llI,J:!~ __ t~QI.!~L-d9 yªJor ~t.i justa.!!H~nte_ligada 
-ãsua capacidade de explicar a troca de mercadoria.§ 
-por fraoa11i0, e. por isso de explicar o caráCter específico 
da produção capitalista, ou seja a origem e a natureza 
dos lucros e da renda, que, como o próprio Smith havia 
intuido, se realizam através da apropriação- do trabalho 
alheio, e pois que o _ _p~_do_valor....rle troca segundo 
a quantidade de trabalho contido nas mercadorias não 
lhe parece adequado, ele acaba por ver reafirmada a 
lei da troca na ºª-s~ elo tn.1_ba.Jhq _dominado. 
Desde o momento, enfim, em que Smith assimila 
sempre (9) a troca de mercadoria por mercadoria à 
troca de mercadoria por trabalho, ele generaliza esta 
dificuldade no cálculo d~Yillor a toda a troca capitalista: 
a troca de mercadorias, portanto, resulta regulada não 
(') Idem, p. 46. 
44 
pela quantidade de trabalho nele contida, mas pela quan-
tidade de trabalho que elas podem dominar, pôr em mo-
vimento; este princípio tem como pressuposto que a 
medida dos valores se obtém mediante o valor do traba-
lho (10). Smith pode de facto concluir: «O t@balho mede o 
valor_não apenas __ daqy~!~J?~!te _elo _PE~ç9_q1--1:~ .. s.e risoive . 
em trabalho, mas também élaquela que se resolve em 
re~9ª, ~u:lag:u_e1ª qµe se resolveem lucro» (11). E, vice-
~versa, salário, lucro e rendà, as três pàrtes componentes 
do preço de toda a mercadoria, resultam sempre regu-
ladas pela quantidade de trabalho que eles são capazes 
de adquirir. 
Concluindo, se por um lado Smith intui justamente 
como a chave da produção capitalista está, na realidade, 
na troca entre trabalho objectivado nos produtos e no 
trabalho vivo, antecipando assim um motivo que será 
dominante no pensamento de Marx, e como uma correcta 
teoria do valor-trabalho deve ter em conta precisamente 
este traço específico do capitalismo, por outro, não 
conseguindo explicá-lo, como se viu, segundo uma teoria 
que faça depender o valor das mercadorias da «quanti-
dade de trabalho» nele contido, tenta uma explicação 
do valor através de uma teoria como a do «domínio 
sobre o trabalho», ou do «.tr.ab.alh_o_dominado» que, se 
é uma feliz intuição do carácter do processo de repro-
dução e da «acumulação» do capital, não pode constituir 
a fundamentação de uma teoria do valor, o que veremos 
claramente já com Ricardo. 
('º) Marx, na Teorie sul plusvalore, vol. I, Roma. 1962, 
p. 166, exprime com extrema clareza como o erro smithiano 
foi o de ter pensado que, da alterada relação entre trabalho objec-
tivado e trabalho vivo, derivasse também uma alteração na 
determinação do valor relativo das mercadorias. Pelo contrário, 
se é de toda a justiça dizer, como diz Smith, que o trabalho 
objectivado compra sempre uma quantidade adicional de tra-
balho vivo, isto não quer dizer que as mercadorias, que são 
sempre trabalho materializado, já não se calculem na base do 
trabalho nele objectivado. 
Veremos a seguir como em Ricardo se verifica a situação 
oposta. Considerando a troca sempre do ponto de vista das 
mercadorias, isto é, do trabalho objectivado, de modo a poder 
calcular sem dificuldade o valor na base do trabalho nele 
contido, ele não considera, ou melhor, silencia sobre a relação 
alterada entre trabalho vivo e trabalho objectivado nas condições 
de produção capitalista. 
( 11 ) A. Smith, Riccheza cit, p. 47. 
45 
Pode clizer-se que a análise smithiana do valor, 
que nalguns aspectos oferece motivos de desenvolvi-
mento muito interessantes, no que respeita, porém, 
ao «requisito formal essencial» de teoria do valor, ou seja 
o de determinar o valor «a partir de elementos que 
não dependam dos valores» (12), falha: ela, de facto, 
faz mesmo de um valor, o valor de troca do trabalho, 
a essência do valor de todas as mercadorias. 
Na realidade, o problema de Smith, posto nos 
termos em que Smith o põe, é insolúvel. O nó funda-
mental, não superado, do problema parece consistir nisto, 
que a análise de Smith, embora tendo surpreendido 
com extrema sensibilidade a irredutibilidade das condi-
ções de produção capitalista às da economia mercantil 
simples, pela existência de troca directa de mercadorias 
ou dinheiro contra trabalho vivo, não tem, pelo con-
trário, atrás de si, nenhuma clareza teórica acerca da 
natureza e do carácter do «trabalho» que está na origem 
e essência do valor. 
Refiramos aqui apenas, guardando-nos de o tratar 
mais amplamente em seguida, um problema que na 
realidade é muito complexo, e que se encontra igual-
mente por resolver em Ricardo, e ao qual só é dada 
uma resposta definitiva por Marx. 
Ao colocar o «trabalho» na base do valor, Smith 
não faz mais que retomar, permutando-os pela vida de 
todos os dias, sem os submeter a nenhuma crítica, os 
cónceitos usuais de trabalho e de «preço», ou valor, 
do trabalho, o que o impede completamente de distinguir 
a dupla determinação que o trabalho em situação capi-
talista assume: de ser, por um lado, como «tempo de 
trabalho», origem e essência do valor, e por isso, como 
tal, elemento que não tem valor, e por outro, como 
trabalho-mercadoria, desde o momento em que se fala 
de «trabalho» .como objecto dotado de valor de troca, 
«valor» esse por determinar. Só com Marx se aclarará 
como esta mercadoria particular é não o trabalho, mas 
a «força de trabalho», ou seja a simples «possibilidade» 
de fornecer trabalho, isto é, trabalho em potênçia, 
trabalho ainda «a fazer». O erro de Smith, portanto, ao 
determinar a relação entre mercadoria e trabalho, con-
siste em contrapor sempre a uma mercadoria não uma 
( 12) Cfr. C. Napoleoni, «Appunti per una storia del pensiero 
económico,» in Rivista Trimestral, n.º' 15-6, 1965, p. 608. 
46 
outra mercadoria, a força de trabalho, que é, ela mesma, 
uma certa quantidade de trabalho objectivado, mas o 
trabalho «em acto», o trabalho vivo, ou seja a «função» 
da própria força de trabalho. 
Veremos, com Marx, como o valor da força de 
trabalho, e a duração da sua função, o «trabalho», 
são duas coisas completamente distintas. 
Em face desta dificuldade Smith não consegue, 
como se viu, generalizar àépoca capitalista a teoria do 
trabalho contido; e, de facto, se se assume, como faz 
Smith, a categoria de «preço do trabalho», encontramo-
-nos perante o problema de que tal teoria sofreria uma 
suspensão precisamente no mercado do trabalho, desde 
o momento em que a troca directa de mercadorias 
contra «trabalho» aparece, segundo a lei do valor, como 
uma troca «desigual» - desigualdade necessária à for-
mação do lucro. 
lado,Iê>-t2n~~~~s su~~1~~rta~~~¾~gt_i~~c~;iiierifu. 
~- vaJoi-:.__do trab~!hQ, ~_faz_er_depois, de llDlª-.il!Jªlquer 
· mercadoria~·--a--·essência do valor; por outro, o facto 
de que a assunção desta âeterminação do valor o impede 
de desenvolver e de ligar a uma teoria do valor válida 
a sua hipótese correcta acerca da natureza da troca 
entre trabalho e capital. 
Veremos como também com Ricardo, que embora 
apresente pontos de aquisição teóricos decisivos rela-
vamente a Smith, o problema volta a pôr-se nos mesmos 
termos insolúveis. Só com Marx o conceito tradicional 
da economia clássica de «valor do trabalho» entrará 
em crise: ele em primeiro lugar .esclarecer~ qt1(:!_ I.1ª9 
é o «trabalho>;--que _s~ fi~ocâ·)-eràs··õu1ras··111ercªdorias, 
e ê, pois/ :obíêct<>. .. e valor d~ troca,. mas uma mercadoria 
particular, a capacidade de trabalho ou «força de trabalho. 
Com a.introdução desta categoria Marx;-:nãõ opóiido mais 
ao capital o «trabalho» sem ulterior especificação, mas 
postulando claramente a existência do trabalho vivo 
como mercadoria particular, ou_ seja a «força de traba-
lho», estará em situação de explicar, precisamente na 
base de uma teoria do valor como a que faz depender 
os .. :valores_de--.tr-oea-das mfil'CadoJ:ias.pela qualidad@--cle--
.trnbalh9necessári~_parn . .a_suap.rodução, também _a troca 
entre mercadorias, ou trabalho objectivado, e trabalho 
vivo, que Smith tinha justamente considerado como troca 
de menos trabalho por mais trabalho. 
47 
Coloca.das estas premissas necessanas, que tentam 
esclarecer a complexidade dos problemas que estão por 
detrás dos resultados da análise smithiana, e também o 
âmbito teórico dentro do qual se move a investigação 
ricardiana, podemos passar a analisar a teoria ricardiana 
do valor, a partir da crítica que Ricardo faz a Smith. 
Esta crítica considera essencialmente dois pontos. 
Por um lado, de facto, Ricardo, com uma crítica 
que é exposta claramente sobretudo na segunda edição 
dos Princípios, surpreende com agudeza um vício lógico 
de fundo do raciocínio smithiano, consistente no facto de 
que se Smith, como objectivo da sua investigação, põe o 
de determinar os valores de troca das mercadorias, acaba 
pelo contrário por fazer de um «valor», u.valor de troca 
do trabalho, a causa do valor, dando por determinado 
o que se déve ainda determinar, com um evidente círculo 
fechado. 
Pelo outro, existe, da parte de Ricardo, uma chamada 
à coerência; se se admite, de facto, com Ricardo, que o 
princípio do trabalho contido pode ser aplicado sem difi-
culdade numa sociedade de tipo mercantil simples, em 
que existe só troca de mercadorias produzidas por traba-
lhadores independentes, não se vê por que ele não possa 
ser aplicado também à troca das mercadorias em situação 
capitalista. O facto de que uma parte do trabalho incor-
porado na mercadoria não volta a quem a produziu, mas 
vai para o capitalista, não altera nada: o valQLdela é. 
sempre _ determinado pelo tempo de trabâlho necessário 
para_ª- .:produzir. · · ·-- ·· 
- · De facto, sustenta Ricardo, a dificuldade smithiana 
pora chegar a uma tal conclusão, - dificuldade que em 
Smith provém do facto de que o salário dó operário não 
compra inteiramente o produtÓ' do próprio trabalho -
não tem razão para subsistir, desde o momento em que 
este problema diz respeito à distribuição do produto, não 
à determinação do seu valor (13). 
( 13) Esta chamada «à coerência» custa porém cara a 
Ricardo; deste modo ele, partindo exclusivamente da existência 
das mercadorias, dos produtos acabados, perde completamente 
a dimensão do problema peculiar de Smith, o da relação entre 
trabalho objectivado e trabalho vivo, como relação de menos 
trabalho por mais trabalho. Relativamente a isto, o erro de 
Smith, como se viu, foi substancialmente o de sobrepor esta 
relação à determinação das relações de troca entre as merca-
48 
A censura de fundo de Ricardo consiste na afirma-
ção de que . Smjt_h_Jtssume como dt:!term_igação do yalor 
«não já a quãíú:1dade de trabalho empregada na produ-
ção d~_úrp dado objecto, mas a. quanticlªçk_çl~ trabalho . 
. -qúe·a posse daquele objêéto éorisenfe. que se exija no 
mercado», «Ele fala disto como se se tratasse de expres-
sões equivalentes e como se o facto de o trabalho do 
homem se ter tornado duas vezes mais eficiente - por 
lhe permitir produzir uma quantidade dupla - lhe con-
sentisse ter em troca da mercadoria que ele produz uma 
quantidade dupla de mercadorias. Se isto fosse exacto, 
se a retribuição atribuída ao trabalhador fosse sempre 
na razão daquilo que produziu, iguais seriam a quanti-
dade de trabalho empregada na produção de uma tal 
mercadoria, e a quantidade de trabalho que a posse 
de tal mercadoria permite adquirir; as duas poderiam 
medir perfeitamente as variações das outras coisas. 
Na verdade não são iguais; a primeira é, em muitas 
circunstâncias, uma medida de tipo invariável, que indica 
exactamente as variações das outras coisas; a segunda 
está sujeita a tantas flutuações quantas as mercadorias 
com que é posta em confronto» (14). 
Estas últimas observações de Ricardo são muito 
interessantes, quer pela eficácia com que é surpreendida 
a diferença fundamental entre valor do _trabalho e quan-. 
tidade detrª1Jalho1 qu~r pê1ó fado de que é esclarecido 
Eômõ a assunção do «valor do trabalho» como· essência 
do valor poderia ser válida, isto é, ser uma medida de 
tipo invariável, não sobreposta às flutuações da procura 
e da oferta, só no caso em que todo o produto do tra-
balho pertencesse ao trabalhador: neste caso, quantidade 
de trabalho e valor do trabalho (15) seriam, ambos, do 
mesmo modo, dois meios para determinar o valor de 
uma mercadoria. 
dorias, em particular de sobrepor a relação entre uma merca-
doria qualquer e aquela mercadoria, especial que é a força 
de trabalho (que a ele se configura directamente como relação 
entre mercadoria e trabalho em acto), à troca geral das merca-
dorias, pelo que lhe parecia anulada a lei dos valores. 
(1') D. Ricardo, Prindpi clell'econonzia politica e clelle 
imposte, Utet, Turim, 1965, p. 9. 
( 15) Admitindo que se pode falar de «valor do trabalho» 
num tipo de economia como a mercantil simples, em que, exis-
tindo só troca de produtos acabados, ele trabalho objectivado, 
não exislc a troca por trabalho vivo. 
49 
Embora muito perspicazes, estas observações não 
podem todavia ser consideradas como uma crítica sufi-
ciente a Smith; quanto a este último, de facto, é preci-
samente pela não coincidência, em situação capitalista, 
entre quantidade de trabalho e valor do trabalho, que 
têm origem todas as dificuldades, e não, como diz 
Ricardo, pelo facto de Smith considerar equivalentes 
aquelas duas grandezas. 
· Relativamente a estas dificuldades, Ricardo, se con-
segue rebater a validade teórica do princípio da «quanti-
dade de trabalho» necessária à produção, distinguindo 
nitidamente tal princípio do do «valor do trabalho», e 
se pode por isso afirmar que o valor da mercadoria é 
calculado sempre na base do tempo de trabalho gasto 
na sua produção, qualquer que seja depois o destino 
deste produto, só o consegue enquanto se coloca exclu-
sivamente do ponto de vista dos produtos acabados (16) 
e por isso das formas objectivas do trabalho, abstraindo 
da troca entre mercadorias, ou melhor entre capital e 
trabalho vivo, antes considerando-o «como se» fosse 
troca de equivalentes. Na realidade, isto é verdade só 
se se precisa, com Marx, que, contraposto ao capital, 
está, não o trabalho, na sua forma objectivada de pro-
dutos ou de «salário»,mas força de trabalho vivo, que 
se troca realmente com o capital, pelo seu próprio valor, 
ou seja segundo a quantidade de trabalho necessário 
para produzir e reproduzir a força de trabalho; mas 
· já não é verdade (como Smith intui!), se se considera 
o uso que desta força de trabalho faz o capital no pro-
cesso de produção, isto é o de lhe tirar mais trabalho, e 
por isso mais valor, do que aquele que ele pagou (segundo-
ª lei do valor) como salário. 
Portanto, é precisamente por causa da insensibili-
dade de Ricardo relativamente ao problema da existên-
cia, bem capitalista, da troca directa com trabalho vivo, 
que a sua análise não surpreende inteiramente a difi-
culdade que origina o erro smithiano. 
( 16) Cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali della critica 
dell'economia política, II, La Nuova ltalia, Florença, 1970, p. 200. 
Ricardo «constata a existência de uma determinada quan-
tidade de tempo de _trabalho objectivado, que pode também 
aumentar, e pergunta-se: como é distribuída? Mas o problema 
é antes: como é produzida,-e é aqui justamente a natureza 
específica da relação entre capital e trabalho, ou a diferença 
específica do capital, que lhe esclarece a natureza». Cfr. tam-
bém p. 256. 
50 
Se, por isso, justamente, ele não pode aceitar a 
posição smithiana, acaba depois, todavia, por se limitar 
a constatar _.um-dado .. de .. façtº _dõ;Lp:rnd.J.1ção. capitalista,. 
qu~ .. .c>. yal_or elo trabalho é. sel11pre n1.enor que o valor do 
produto_ do trabalho, sem explicar «porque e como» isto 
acontece, enquanto Smith demonstra aqui a profunda 
capacidade de surpreender de modo problemático um 
traço fundamental e _específico da economia capitalista, 
o facto de qµ~ ª J_rnC-ª- i11Jr.~_ti:abalho vivo e mercadoria 
·enqüarit<:> çapital, resulta troca. de mais trabalho por_· 
menos trabalho. 
Por outrÓ lado, Smith, com a sua teoria do traba-
. Jho «dQID.Jnado.>>--- entrevê, precisamente no «domínio 
soõre ..!rnhªlh.o», o segredo da acumulação e do desen-
voTvímento capitalista (17). 
A este propósito, não é por acaso que se afirmou 
que para Smith o pri11cípio do_ trabalho.dominado se 
conf!ggr.a_como_achavedo prQgI"esso, o do trabalho con-
tido da estagnação (18). 
Em conclusão, o problema que aqui, na contrapo-
sição entre troca simples da sociedade mercantil e as 
relações de produção capitalista, Smith põe em evidência 
é o da origem da própria mais-valia, tal como ela se 
produz na relação entre o capital e aquela mercadoria 
particular que é a força de trabalho, e se realiza no 
mecanismo da troca e da concorrência. Este problema, 
cuja complexidade Smith intui, para Ricardo não se 
põe sequer: a troca entre capital e trabalho é directa-
mente assimilada às trocas que tinham lugar nas situa-
ções pré-capitalistas. 
O mérito teórico de Ricardo, não obstante estas 
carências de análise, que darão origem a toda uma série 
( 17) K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, Florença, 
1968, p. ·265: «A troca entre o operário e o capitalista é uma 
troca simples; cada um recebe um equivalente: um, dinheiro, 
o outro, uma mercadoria, cujo preço é exactamente igual ao 
dinheiro por ela pago, aquilo que o capitalista recebe nesta 
troca simples é um valor de uso: uma disposição sobre trabalho 
de outrém». E ainda, p. 293: «Capital, enquanto capital, ele só 
o é, em relação ao operário, no processo de consumo do traba-
lho». (Os sublinhados são nossos). 
( 18) Cfr. G. Pietranera, La teoria del valore e dello sviluppo 
capitalistico in Adamo Smith, Feltrinelli, Milão, 1963, cap. VII, 
p. 251, em que se afirma que o instrumento do valor-trabalho 
dominado é por Smith assumido como «instrumento de expan-
são», o do valor-trabalho contido, como de declínio. 
51 
de dificuldades dentro da sua própria teoria do valor, 
permanece todavia fundamental. Ele, de facto, diferen-
temente de Smith, ªº generalizar-a teo-da-·dc>valor~Irª~ 
,JJalho à economia capitalistç1, ~ ao e~cl~rec:e_:r: qt1~-:ã-_clife_-
rença entre valor do. trabalho e __ yªlQr do_ produto do 
tr3 1:>a1hQ, influi sobre a distribuição do proc:h1~0,· e nª~ 
sobre o seu valor, opera uma importante distinção que, 
fazendo derivar as relações de troca das condições de 
produção (e este precisamente, é o ponto de maior afi-
nidade com Marx) não dá lugar a qualquer falsa teoria 
que atribua ao momento da formação e da distribuição 
do· rédito a função de formação e criação do valor dos 
produtos (armadilha em que cai também Smith, o qual 
afirma que, lucros, salários e renda fundiária, fontes de 
todo o rédito, são também fonte de todo o valor). 
Por outro lado, ao rebater o princípio de que é a 
quantidade de trabalho necessária para produzir as mer-
cadorias o que regula a troca e determina o valor das 
próprias mercadorias, Ricardo exclui toda a tentativa 
grosseiramente empírica, como a dos economistas que 
o tinham pre_cedido, de fazer da «utilidade» das merca-
dorias e das leis da procura e da oferta, a base e a 
essência do valor. 
Resta-nos agora retomar e sublinhar um último 
e decisivo aspecto da relação entre Smith e Ricqrdo, o 
da origem e da natureza do «exceclente», ou do que 
.Marx· chama mais-valia, e que constitui o traço funda-
mental e específico do modo dé produção capitalista. 
. Depois da feliz intuição smithiana do problema do 
desenvolvimento e da produtividade capitalista, através_ 
do conceito de «trabalho produtivo», assiste-se à tenta-
tiva ricardiana de se dotar de um instrumento teórico, 
como uma teoria do valor que supere a dificuldade da 
smithiana, capaz também de explicar fenómenos capi-
talistas mais complexos como justamente a formação 
do lucro e da renda. Com Smith, de facto, é antecipada 
a tese de que na base das três formas de rédito, lucros, 
salários e renda fundiária, na base da própria riqueza, 
está o «trabalho produtivo», entendendo por trabalho 
produtivo o trabalho que acrescenta novo valor ao valor 
das mercadorias existentes como capital sob a forma dos 
instrumentos e das matérias-primas usadas para a pro-
dução, ou seja o trabalho que ao· mesmo tempo repro-
duz o próprio valor e deixa um excedente, que se decom-
põe nos lucros do capitalista e na renda. Com esta defi-
52 
mçao de trabalho produtivo, que constitui o aspecto 
mais interessante da análise smithiana, é avançada pela 
primeira vez a hipótese de que a origem daquele «exce-
dente», que é fonte do lucro e da renda, é o trabalho 
que o operário fornece além do trabalho necessário 
para o seu sustento ou para a reconstituição do próprio 
salário. Esta hipótese corresponde à importante tese 
marxista do lucro como mais-valia ou mais-trabalho. 
As formas do lucro, do juro do capital e da 
renda fundiária aparecem de facto em Smith cdmo puras 
«deduções» do produto do trabalho (19). Ricardo, supe-
rando, como se viu, positivamente, algumas das dificul-
dades da teoria smithiana do valor, (isto é, as da formu-
lação de uma teoria que tem como requisito formal 
essencial que os valores não dependem eles mesmos de 
valores, por sua vez, por determinar), tenta responder 
à mesma exigência teórica que está na base do problema 
smithiano: a de fundamentar uma teoria do valor capaz 
de explicar os fenómenos da acumulação capitalista (e 
é este o motivo, repetimos, pelo qual Smith avança uma 
teoria do valor como a do «labour commanded»). 
A este respeito, Ricardo retoma pontualmente a 
análise smithiana e concebe, analogamente a Smith, a 
diferença entre o valor do produto e o valor do salário, 
como um «excedente». 
Todavia, ele não desenvolve completamente esta 
análise. De facto, por um lado, não transfoqna nunca 
este «excedente» em mais-trabalho, como pelo contrário 
tinha intuído Smith, e como uma teoria do mais-trabalho 
exige (carência, esta, que se liga estreitamente à já refe-
rida insensibilidade ricardiana para compreender toda 
a problemática smithiana); por outro, não lhe tendo 
compreendido completamente a origem e a natureza, 
tende sempre a identificar este novo valor, acrescentado 
pelo operárioalém do necessário para reconstituir o 
próprio salário, directamente com o lucro do capita-
lista. Será necessário esperar por Marx para ter uma 
formulação completa e coerente da origem do «exce-
dente» como «mais-valia» ou mais-trabalho, que, coeren-
temente com tal origem, não deixa de ser referida não a 
todo o capital empregado (lucro), mas precisamente 
àquela parte do capital que acaba em salários (2°). 
( 19) A. Smith, Riccheza cit. p. 63. 
(2º) K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II, p. 256. 
53 
O mérito de Ricardo, todavia, continua a ser o de 
ter fundamentado a análise económica sobre uma for-
mulação mais coerente da lei do valor-trabalho, e con-
sequentemente sobre uma análise mais rigorosa da troca 
das mercadorias, na base da quantidade de trabalho 
gasto na sua produção. 
E Ricardo estava tão consciente da importância 
do princípio por ele assumido que, não obstante as 
dificuldades encontradas na aplicação deste às leis da 
troca e da produção capitalista, ele continuou a ser o 
único ponto de referência teórica de que se serviu para 
explicar os factos económicos. 
54 
Capítulo II 
OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS 
DA TEORIA CLASSICA DO VALOR 
A formulação exposta no capítulo precedente é, nas 
suas grande linhas e nos seus traços essenciais, a for­
mulação ricardiana da teoria do valor-trabalho. 
As dificuldades e carências teóricas que havíamos 
verificado na análise da relação entre a teoria do valor 
ricardiana e a smithiana, e que dizem respeito sobretudo 
à total omissão, por parte de Ricardo, do problema 
da existência do trabalho vivo na forma de .. trabalho 
as.s..alariad9, dificuldades que se repercutem depois pon­
tualmente na aplicação da sua teoria aos problemas 
da economia capitalista, podem agora ser consideradas 
de um outro ponto de vista, isto é, analisando o próprio 
pressuposto teórico que está na base da teoria ricar­
diana do valor: ou seja a natureza e o carácter do 
trabalho que este economista põe na origem e essência 
do valor. 
Viu-se já como Ricardo, na sua resposta aos pro­
blemas teóricos levantados por Smith, embora distinguin­
do correctamente entre «valor» do trabalho e «quantidade 
de trabalho», isto é, distinguindo a «quantidade de tra­
balho» que concorre para a «determinação» do valor, 
do tral,->ªlfa> Jl:!ei:c:_ªc!orill_, existente sob a forma-.de «salá� 
riQ\> ou valor do trabalho que, pelo contrário, aqui 
não concorre (o que lhe permite levar muito por diante, 
relativamente a Smith, a investigação sobre o valor), 
continua a ignorar, pelo contrário, as consequências 
55 
que comporta o problema da existência da troca directa 
de mercadorias contra trabalho «vivo». Com isto, Ricar-
do coloca fora da análise precisamente aquilo que 
constitui o traço específico e fundamental das relações 
de produção capitalistas, e que é considerado como cate-
goria diferente quer pela forma transformada do «salá-
rio», sob o qual o trabalho vivo se manifesta, quer 
pela forma dos produtos acabados, em que ele se objec-
tiva, que são, pelo contrário, as únicas formas, como 
tínhamos procurado sublinhar, entre as quais se move 
a análise ricardiana acerca da relação de troca entre 
capital e trabalho. 
Esta relevância do vício teórico de Ricardo, que 
consiste justamente em assumir estas formas «diferen-
tes» do trabalho, sem remontar às causas que o deter-
minam (vício que já se encontrou em Smith e que é, 
como Marx porá bem em evidência, o traço característico 
de toda a economia política clássica), pode ser feita 
também, mais em geral, com referência ao problema 
de qual é, para Ricardo, a natureza daquele trabalho, 
cuja quantidade, ele analogamente a Smith, põe como 
elemento determinante e essencial do valor. Resulta claro 
até agora como as duas faces do problema, sobre os 
quais aqui nos propomos estudar os traços peculiares 
da teoria do valor-trabalho ricardiana, são na realidade 
uma só. Quer dizer, noutros termos, que a clareza 
t_eórica relativamente ao problema da existência, da 
utilização e do destino do «trabalho vivo» na sua rela-
ção com o capital, problema que será resolvido positi-
vamente só por Marx com a introdução da categoria-
-chave de «força de trabalho», implica necessariamente 
uma semelhante clareza acerca da natureza e do carácter 
que, mais em geral, o trabalho, origem e essência do 
valor, assume na relação de produção capitalista. 
Este segundo aspecto do problema começa a deli-
near-se pela primeira vez na economia clássica com 
Smith, o qual é o primeiro a falar directamente em 
termos de valor-trabalho e a fazer do «trabalho pro-
dutivo» a base do incremento e do desenvolvimento 
da riqueza burguesa. Uma breve referência, todavia, às 
soluções apresentadas pelas teorias económicas anterio-
res a Smith, relativamente aos problemas que aqui nos 
interessam, ou seja relativamente . à determinação do 
valor e, por isso, à análise das formas específicas da 
acumulação burguesa, o lucro e a renda fundiária, e o 
56 
modo como a categoria do trabalho começa a apresentur 
-se e a colocar-se dentro destas soluções, ajudar-nos-á ,1 
compreender a contribuição teórica e ao mesmo temp< > 
a riqueza e a complexidade dos problemas que a inves-
tigação dos dois economistas que estamos a estudar 
oferece. 
As primeiras observações económicas sistemáticas, 
as dos mercantilistas, que tentam explicar a natureza 
do lucro mediante o princípio da <<alienação» da merca-
doria para além do seu valor (cfr. Stewart e o profit 
upon alienation), carecem, na realidade, de uma verda-
deira e própria determinação do valor das mercadorias, 
que é simplesmente resolvido na acidentalidade dos 
acontecimentos do mercado e da concorrência. Relati-
vamente a estas posições, um primeiro momento de 
rotura é assinalado pelos fisiocratas. Estes últimos fazem 
depender a origem e a natureza do valor «excedente» 
do «produto bruto» (que justamente é por eles deslocado 
da troca para a produção), pela natural produtividade 
de um tipo particular de trabalho, o trabalho aplicado 
à agricultura, que suscita sempre novo valor do pro-
duto da terra, e é capaz de criar excedente, ou seja 
um valor maior do que aquele que é necessário para 
a sua produção. 
Para os fisiocratas são ainda as forças naturais 
da produção e os caracteres materiais do trabalho a 
tornar-se a fórmula resolutiva dos problemas . históricos 
e das formas específicas da produção capitalista. 
Com Smith e Ricardo, pelo contrário, a teoria 
económica clássica assinala um ponto fundamental de 
avanço. 
Como fundamento, de facto, do valor das merca-
dorias, e como essência da base da acumulação capita-
lista, já não é posto o carácter determinado e específico 
deste 9u daquele trabalho, a actividade comercial ou 
o trabalho agrícola, mas o trabalho humano em geral, 
o trabalho abstraído da sua especificação concreta, ela 
base material dentro da qual [!pera. 
Diz Marx, de Smith, em Para a Crítica da Economia 
Política: «Depois de terem sido proclamadas verdadeiras 
fontes da riqueza as formas particulares do trabalho 
real, como a agricultura, a manufactura, a navegação, 
o comércio, etc., Adam Smith proclamou como fonte 
única da riqueza material, ou seja dos valores de uso, 
o trabalho em geral, o trabalho no seu aspecto global 
57 
social como divisão do trabalho» (1). Smith, todavia, 
que é embora o primeiro a desligar o trabalho humano 
das formas concretas e materiais em que se manifesta 
através da troca e a considerá-lo como trabalho abstracto, 
ou seja indiferente. para com as suas determinações 
particulares, por outro lado não consegue utilizar toda 
a carga teórica desta descoberta e fica emaranhado 
em algumas partes obscuras e complexas da sua análise 
sobre o valor. Isto impede-o ao mesmo tempo de se 
libertar de modo definitivo da herança dos fisiocratas. 
Como estes, de facto, assumem o trabalho na base dos 
seus traços «físicos» e materiais, e o consideram «dife-
rente», ou seja diversamente produtivo, conforme os 
sectores em que se aplica,assim também Smith, na 
determinação do trabalho enquanto trabalho produtivo, 
tende a privilegiar o trabalho da agricultura, caindo 
no mesmo erro dos fisiocratas de pretender explicar 
através dos elementos «naturais» e eternos da produção, 
os caracteres históricos específicos de um determinado 
sistema produtivo. 
Análogas considerações podem ser feitas para 
Ricardo; pode, de facto, precisar-se agora como também 
neste economista o carácter e a natureza do «trabalho» 
que cria valor seja, também, embora só implicitamente 
(como implicitamente o é para Smith, já que os dois 
não nos deram nunca nenhuma explícita teorização· deste 
problema), o trabalho em geral, o trabalho abstracto, 
éuja relevância produtiva é devida não ao seu carácter 
abstracto, geral. 
O facto de nos termos detido neste problema, não 
deixa de ter um significado. Ainda uma chamada a 
Marx: «o trabalho parece uma categoria inteiramente 
simples. Também a representação do trabalho na sua 
generalidade - como trabalho em geral - é muito antiga. 
E todavia, considerado nesta simplicidade do ponto de 
vista económico, o «trabalho» é uma categoria tão mo-
derna quanto o são as relações que produzem esta 
simples abstracção (2). 
(') Marx, Per la critica dcll'economia política, Editori 
Riuniti, Roma, 1969, p. 40-1; cfr. também Introduzioni del 1857 
(in Marx, Lineamenti f.ondamentali cit., I, p. 31): «Adam Smith 
faz um enorme progresso rejeitando todo o carácter determi-
nado da actividade produtora de riqueza e considerando-o tra-
balho sem mais nada: não trabalho mariufactureiro, nem comer-
cial, nem agrícola, mas tanto um como o outro». 
(') K. Marx, Introduzione del 1857, p. 30 
58 
Deste modo, com a assunção, embora só implícita, 
da categoria do trabalho abstracto por parte da eco-
nomia política clássica, começa a delinear-se aquilo que 
é o traço específico fundamental e necessário da própria 
existência do capital, o carácter de «abstracção do tra-
balho. «Poderia parecer- continua Marx - que assim 
se teria encontrado apenas a expressão abstracta para 
a mais simples e antiga relaçãdr._ em que os homens 
aparecem como produtores, qualquer que seja a forma da 
sua sociedade. A indiferença por um género determinado 
de trabalho pressupõe uma totalidade muito desenvolvida 
de géneros reais de trabalho, nenhum dos quais preva-
lece sobre o conjunto». «Por outro lado, esta abstracção 
do trabalho em geral não é apenas o resultado mental 
de uma concreta totalidade de trabalhos. A indiferença 
pelo trabalho determinado corresponde a uma forma 
de sociedade em que os indivíduos passam com facili-
dade de um trabalho para outro em que o género 
determinado do trabalho é para eles fortuito e por 
isso indiferente. O trabalho, aqui, tornou-se não só na 
categoria, mas também na realidade, o meio para criar 
riqueza em geral, e, como determinação ele cessou de 
crescer com os indivíduos numa dimensão particular» (3). 
A forma abstracta do trabalho é, pois, para Marx, 
a forma «determinada» que o trabalho assume nas 
condições históricas do modo de produção capitalista 
e só é válida para e nestas condições; ela é, .também, a 
forma fundamental e específica destas condições: por-
tanto, compreender como o trabalho «abstracto» se 
produz e opera significa também compreender a origem 
do mecanismo do próprio capital. 
Como se produz? Partamos da existência que os 
produtos do trabalho assumem: a de serem «merca-
dorias», fim específico e generalizado da produção capi-
talista; agora, a troca entre as mercadorias torna-se 
possível só enquanto se abstrai dos seus particulares 
valores de uso, isto é, da sua representação «qualitativa», 
e são considerados equivalentes, permutáveis, unicamente 
segundo determinadas relações quantitativas; a seu modo, 
o «trabalho», que cria estes valores, existe não segundo 
a sua forma útil, mas como trabalho puramente abstrac-
to, trabalho, por assim dizer, «privado de qualidade». 
Esta é a convicção de Marx: ele é o primeiro a 
(3) K. Marx, Introduzione, pp. 31-2. O sublinhado é nosso. 
59 
dar-nos uma teorização do género. «Para medir os valores 
de troca das mercadorias na base do tempo de trabalho 
nele contido, os diferentes trabalhos deverão ser redu-
zidos a trabalho simples, indiferenciado e uniforme, em 
suma ao trabalho que qualitativamente é sempre igual, 
e se diferencia só quantitativamente» (4). E é ainda 
Marx que demonstra como através do processo de auto-
nomização do trabalho, como essência do valor, permite 
não só a determinação do valor de troca na base do 
tempo de trabalho, mas a compreensão em geral· do 
processo de produção moderno, enquanto produção de 
riqueza abstracta. 
E não é por acaso que foi ele o primeiro a fazê-lo: 
a determinação da forma «abstracta» do trabalho implica 
necessariamente a consideração «histórica», isto é «crí-
tica», das próprias condições da produção capitalista, 
o que não é certamente compatível com o método dos 
economistas burgueses, os quais anulam todas as dife-
renças históricas, e em todas as formas de sociedade 
vêem a sociedade burguesa. 
Chegamos aqui ao ponto que mais nos interessa: 
Smith e Ricardo não se afastam de facto, do ponto de 
vista geral de tais economistas: eles continuam, intei-
ramente «dentro» da ideologia do progresso, da civili-
zação, do igualitarismo que constituem os «mito~» da 
sociedade burguesa, e que se traduzem, no plano eco-
n_ómico, na eternização das categorias capitalistas. 
O exemplo do trabalho mostra-o de modo evidente: a 
assunção da categoria do trabalho abstracto, por pctrte 
de Smith e Ricardo, é a constatação «acrítica» de um 
dado facto, de uma condição real do trabalho no modo 
de produção burguesa. A nenhum dos dois ucorre ao 
espírito «como» isto acontece, ou seja como a distinção 
puramente quantitativa dos trabalhos pressupõe a sua 
unidade qualitativa, ou. seja igualdade, e por isso a sua 
redução a trabalho abstractamente humano, e «porquê». 
Ambos fazem, «de facto», a distinção quantitativa dos 
trabalhos, mas não podem dizer-nos nada nem sobre 
como ela se produz, nem o que propriamente ela signi-
fica: em conclusão, não podem dizer-nos nada, sobre 
a caracterização histprica e a função específica que o 
trabalho, como trabalho abstracto, assume e desenvolve. 
(') K. Marx, Per la critica, p. 12. 
60 
Da falta de individuação deste problema, ou seja do 
como e do porquê o trabalho que se representa nos 
valores é trabalho abstracto, procede imediatamente o 
outro, fundamental, «esquecimento» · dos economistas: 
do porquê o trabalho assume a forma de valor, ou do 
porquê o produto do trabalho humano deve apresentar-se 
como mercadoria (5). E não podia ser de outro modo: 
como é «eterno» o trabalho abstracto que é fonte de 
valor, assim a mesma forma de valor, que o trabalho 
assume, é a eterna forma natural da produção social. 
Pelo contrário, e será ainda uma vez mais Marx a descobri-
-lo, a forma de valor assumida pelo trabalho (que para 
Smith e Ricardo não constitui nunca objecto de análise 
como tal, mas é completamente absorvida pela análise 
da grandeza do valor) é a forma mais abstracta, mas 
também a mais geral do modo de produção burguesa, 
por constituir a sua forma peculiar e específica. 
Estas considerações gerais sobre a categoria funda-
mental do trabalho abstracto encontram uma exacta 
confirmação pelo exame das insuficiêi':lcias da análise 
ricardiana do valor e da grandeza do valor, que é todavia 
a mais avançada da economia clássica. 
Ricardo, de facto, tendo embora clara e definitiva-
mente feito do trabalho a fonte do valor, encontra-se 
depois, na aplicação da sua teoria, face aos mais 
importantes aspectos da economia capitalista, de difi-
culdades irresolúveis dentro dos pressupostos de tal 
economia. 
A raiz destas insuficiências de fundo da análise 
ricardiana está substancialmente no facto de que Ricardo 
nunca esteve em situação de apresentar de modo explí-
cito o trabalho que é essência dos valores, como tra-
(5) Marx surpreendecom extraordinária agudeza este 
ponto: «A economia política analisou, certamente, embora 
incompletamente, o valor e a grandeza do valor, e descobriu 
o conteúdo escondido destas formas. Mas nunca pôs nem o 
problema do porquê aquele conteúdo assume aquela forma, 
e por isso do porquê o trabalho se apresenta no valor, e a 
medida do trabalho mediante a suà duração temporal se ,1pre-
senta na grandeza do valor do produto». E acrescenta logo 
depois: «Estas fórmulas trazem a marca de pertencerem a 
uma formação social na qual o processo de produção domina 
os homens e o homem não domina ainda o processo produ-
tivo : e elas valem para a sua consciência burguesa como 
necessidade natural, tão óbvia como o próprio trabalho pro-
dutivo» (K. Marx, ll capita/e, Editori Riuniti, Roma, 1964, I, 
pp. 112-3). 
61 
balho abstracto (6). Para demonstrar esta afirmação é 
oportuno um parêntesis sobre este problema, utilizando 
directamente a posição e as categorias marxistas. 
De facto, que a forma do trabalho em abstracto, 
assim como se manifesta nos valores de troca das 
mercadorias, seja na realidade uma forma mediata, um 
ponto de chegada histórico, determinado por específicas 
relações de produção, e não um dado natural, e um 
elemento originário de cada relação económica, torna-se 
claro só com Marx, assim como se torna claro que tal 
redução constante do trabalho a trabalho abstracto, ou 
seja tal processo de igualização de trabalhos diferentes 
como «abstracção da sua real desigualdade» (7), se produz 
(6) É isto o que Marx entende dizer quando afirma que 
na realidade Ricardo não se ocupa nunca da «forma» e do 
carácter do trabalho, ou seja da determinação específica do 
trabalho enquanto criador de valores de troca; ou também, 
o que é o mesmo, que Ricardo não procura nunca o valor 
segundo a «forma» (a forma determinada que o valor assume 
como essência do valor), mas determina só a «grandeza» dos 
valores, e as suas relações (isto é, as grandezas dos valores das 
mercadorias estão entre sí como a quantidade de trabalho 
necessária para as produzir): cfr. K. Marx, Storia d!elle teorie 
economiche, vol. II, pp. 13-4 e 18. E de facto (idem, pp. 556-7) 
Ricardo «em geral não considera que a determinação quantita-
tiva do valor de troca segundo a qual o valor de troca é · igual 
a um determinado quantum de tempo de trabalho, esquecendo 
pelo contrário a determinação qualitativq, segundo a qual o tra-
balho individual deve representar-se mediante a sua alienação 
(alienation) como trabalho social, abstractamente geral». Na rea-
lidade, o «valor enquanto tal é sempre efeito, nunca causa» 
(K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II, p. 363). Ricardo, pelo 
contrário, limita-se a descrever o efeito sem nunca procurar 
a causa. 
Tal crítica encontra-se também expressa no Capital cm que 
Marx afirma que «mesmo nos seus melhores representantes, 
como Smith e Ricardo, ela (a economia política) trata a forma 
de valor como qualquer coisa de absolutamente indiferente ou 
de exterior à própria mercadoria» K. Marx, Il capitale, p. 112, 
nota 32). De resto, este facto é explicitamente teorizado pelo 
próprio Ricardo, quando afirma querer procurar, através da 
sua teoria, o valor «relativo» das mercadorias e não o «abso-
luto». Pelo contrário, corno veremos, a teoria marxista funda-se 
precisamente sobre a distinção e sobre o nexo entre a «essên-
cia de valor» e a determ\nação da «grandeza de valor» mediante 
o tempo de trabalho socialmente necessário; nexo-distinção entre 
valor absoluto e valor relativo das mercadorias, ou melhor, 
entre valor enquanto tal e a sua «formá fenoménica», o «seu 
modo de expressão» o valor de troca. 
(7) K. Marx, Il capitale, I, p. 105 
62 
e acontece cada dia realmente (e não é por isso uma 
abstracção mental) na troca ('). O trabalho abstracto, 
portanto, como categoria «histórica» e realmente exis-
tente nas relações de troca das mercadorias é contem-
poraneamente, para Marx, a própria existência social 
do trabalho nas relações de produção capitalistas. Mas 
tal «sociabilidade» é totalmente particular. Ela é carac-
terizada, por um lado, pela mediação necessária da redu-
ção real, no valor de troca, de trabalhos diferentes a 
trabalho de igual espécie; por outro, pelo facto de que 
a medida deste trabalho, o tempo, não é o tempo de 
trabalho de um indivíduo, mas do «indivíduo indiferen-
ciado por um outro» (9), o tempo de trabalho «geral» 
o tempo social «necessário», que cada indivíduo empre-
garia na produção da mesma mercadoria. 
Deste modo, o trabalho, para ser social, deve passar 
através da «forma do seu directo oposto, a forma da 
generalidade abstracta» (10), desde o momento em que 
a igualdade abstracta, nos valores de troca, dos trabalhos 
desenvolvidos autonomamente uns dos outros, dos tra-
balhos privados, é o único modo de realização social 
de tais diferentes trabalhos. 
Duas últimas considerações são necessanas para 
esclarecer este ponto: uma é que a natureza «social» 
do valor, isto é, de ser produto do trabalho humano, 
precisamente pelo carácter abstracto e mediato da troca, 
do trabalho, não se manifesta imediatamente: «o valor 
não traz escrito na testa aquilo que é» (11): pelo contrário 
ele «esconde» as reais relações sociais que estão dentro 
dele, e aos produtores «as realizações sociais dos seus 
trabalhos privados aparecem como aquilo que são, ou 
seja, não como relações imediatamente sociais entre 
pessoas nos seus próprios trabalhos, mas pelo contrário 
como relações de coisas entre pessoas e relações sociais 
entre coisas» (12). 
As relações «sociais» dos diferentes trabalhos e dos 
seus produtores aparecem por isso aos próprios produ-
tores como uma directa emanação dos seus produtos. 
:É a «isto» que Marx chama «feiticismo» das mercado-
(8) K. Marx, Per la critica p. 12. 
(') Idem, p. 14. 
('º) Idem, p. 16. 
(") Karl Marx, ll capita/e, I, p. 106. 
(12) Idem, p. 105. 
63 
rias - ou a «mistificação» do mundo das mercadorias, 
que consiste em fazer de uma relação social um elemento 
intrínseco às mesmas coisas que são expressão desta 
relação. 
Mas esta «mistificação» é na realidade o «espelho» 
de relações sociais efectivamente «postas do avesso»: 
àqueles que trocam os seus produtos, o seu próprio 
movimento social surge como movimento social de «coi-
sas» sob o controlo das quais eles se encontram, em 
vez de o ter sob o seu. Daqui a segunda consideração 
que entendemos fazer: a forma «social» do trabalho não 
é um produto da vontade e da acção dos indivíduos, mas 
é uma forma que se «impõe» fora e independentemente 
da sua, através daquelas relações de troca, «casuais e 
sempre oscilantes», nas quais «triunfa com a força 
enquanto lei natural reguladora, o tempo de trabalho 
socialmente necessário» (13) para a produção das merca-
dorias. «O trabalho, assim medido mediante o tempo, 
não aparece de facto como trabalho de indivíduos dife-
rentes, antes os diferentes indivíduos que trabalham apa-
recem pelo contrário como simples órgãos do tra-
balho». (14). 
A realização «social» do trabalho surge, portanto, 
paradoxalmente, como a negação de si mesmo, a contra-
posição, como força independente e «hostil» aos indiví-
duos que trabalham, do tempo de trabalho necessário. 
As formas desta contraposição constituem - ante-
cipamos aqui algumas categorias marxianas que nos pro-
pomos desenvolver e aprofundar em seguida-as próprias 
formas do predomínio do capital, que, como trabalho 
«objectivado», e ele mesmo produto do trabalho, se 
contrapõe como força social autónoma ao. trabalho vivo, 
à força de trabalho. Daqui, ou seja da análise da forma 
do trabalho abstracto àquela que Marx chama a forma 
«alienada» do trabalho, o passo é curto. 
Todavia; o aprofundamento do laço entre a forma 
abstracta das relações sociais de produção e trabalho 
alienado na sociedade capitalista, que constitui o traço 
específico e peculiar da teoria do valor marxiana, será 
objecto do nosso estudo em seguida, quando tratarmos 
de Marx. Agora interessa-nosretomar e definir com pre-
cisão o discurso sobre Ricardo. 
(B) Idem, p. 107. 
(") K. Marx, Per la critica, pp. 12-13. 
64 
Quanto a este ponto, de facto, seja-nos consentido 
retomar a análise até aqui desenvolvida acerca do que 
se disse das carências da investigação ricardiana relati-
vamente ao problema do «trabalho» em relação à «força 
de trabalho». 
De facto, disse-se, a falta de distinção entre tra-
balho e força de trabalho, que caracteriza a teoria ricar-
diana do valor e determina uma boa parte das suas 
insuficiências, pode remontar à ausência, em Ricardo, 
da noção de trabalho abstracto. 
Tal afirmação pode agora, à luz das últimas consi-
derações, ser definitivamente esclarecida. 
A categoria do trabalho abstracto, enquanto cate-
goria real e também a mais geral do modo de produção 
capitalista, permite explicitar, neste tipo de produção, 
quer o carácter geral, de ser destinada unicamente à pro-
dução de riqueza abstracta, e de pôr na sua base neces-
sária o valor de troca, quer, sobretudo, o seu carácter 
específico, aquele pelo qual é reduzida a mercadoria e 
incorporada no capital a própria força fornecedora de 
trabalho. 
O trabalho humano, de facto, como produtor de 
mercadorias (e isto verifica-se já na troca simples, ou 
seja numa fase logicamente precedente ao capital) é 
trabalho abstracto; tal carácter de abstracção é todavia, 
plena e definitivamente assumido pelo trabalho, só 
quando, com o capital, a fim de que a riqueza .abstracta 
seja constituída como fim único do processo económico, 
os mesmos produtores imediatos lhe estiverem subme-
tidos. A força de trabalho é justamente a realidade desta 
sua redução a capital. É, pois, o trabalho abstracto 
enquanto produtor de mercadorias o pressuposto sem 
o qual não se dá a realidade da força de trabalho, nem 
se tem a compreensão desta última. 
Destas últimas observações é-nos justamente con-
sentido· remontar à unidade real dos dois momentos da 
realidade económica que estamos analisando: trabalho 
abstracto e força de trabalho. . 
Resulta agora claro que se a existência da força 
de trabalho, reduzida a momento e elemento do capital 
e que constitui o carácter específico do processo capi-
talista de produção, existe só quando seja pressuposto 
o capital (a produção generalizada de mercadorias); por 
outro lado é também verdade que o carácter abstracto 
do trabalho, ou seja a plenitude e a generalidade da 
65 
realidade capitalista, existe definitivamente só enquanto 
existe a troca de mercadorias contra o trabalho e a 
força de trabalho se torna o eixo do processo de repro-
dução do capital. 
O trabalho abstracto, de facto, ou seja o trabalho 
que cria valores de troca, enquanto não é um produto 
da «natureza», nem um elemento incondicionado e objec-
tivo da produção, não pode senão ser expressão do tra-
balho «vivo» numa particular forma histórica, caracteri-
zada pela produção generalizada de mercadorias, em 
que o mesmo trabalho vivo existe como «mercadoria». 
O trabalho abstracto, o trabalho «social» igual, que se 
concretiza nos produtos, não é por isso senão a força 
de trabalho viva, que actua no processo laboral, ou seja 
a capacidade laboral humana, considerada como simples 
dispêndio «energético» (15) de «uma certa quantidade de 
músculos, nervos, cérebro, etc., humanos» (16). A exis-
tência da mercadoria-trabalho, do trabalhador reduzido 
a mercadoria, a existência da força de trabalho, significa 
por isso a completa redução do trabalho a tempo de 
trabalho, a simples dispêndio quantitativo de força 
humana, sem atender à «forma» e à «qualidade» do seu 
dispêndio. 
Correspondentemente, aqueles «coágulos homogé-
neos de trabalho» que são as mercadorias têm atrás das 
costas uma forma determinada e específica de trabalho, 
o trabalho sempre igual, abstracto, valor de uso de força 
·de trabalho humana genérica, em. conclusão, o trabalho 
«usado» capitalisticamentc. 
Deste modo, a precedente afirmação, segundo a 
qual Ricardo, na determinação do valor, partia sempre· 
da existência dos produtos acabados na sua forma de 
trabalhos «objectivados», mostrando-se incapaz de sur-
preender o problema da existência e do papel do traba-
lho vivo, vê-se agora confirmada, a um nível de clareza 
mais alto, nà impossibilidade por parte de Ricardo de 
desenvolver a categoria do trabalho assumida na base 
da sua teoria do valor, que é o pressuposto lógico e his-
(15) Por outros termos, diz Marx, esta essência social 
(o trabalho abstracto) 'comum aos produtos do trabalho, é uma 
«simples concretização do trabalho humano indistinto, ou seja 
de dispêndio de força laboral humana sem atender à forma do 
seu dispêndio» (K. Marx, ll capitale, p. 70). 
(16) Idem, p. 203. 
66 
tórico daquela existência e por sua vez precisamente 
dela extrai a sua plena realidade. 
Para Marx, a causa disto está no facto de que, 
fechar-se nas formas objectivadas, transformadas, do 
trabalho, que constituem aquelas que ele considera as 
formas «reificadas» e «mistificadas» que os produtos 
do trabalho assumem como valores de troca, significa 
«não descobrir» a realidade das relações sociais que se 
escondem por detrás destas formas. 
Em Ricardo, e com ele toda a economia política 
clássica, de que ele representa o ponto mais alto, «a rela-
ção social das pessoas apresenta-se por assim dizer ao 
contrário, isto é, como relação social das coisas» (17). 
Deste modo, a determinação da grandeza de valor 
mediante o tempo de trabalho, como é para Ricardo, 
por um lado «elimina a aparência de determinação pura-
mente casual das grandezas de valor dos produtos do 
trabalho, mas não elimina de facto a sua forma de 
coisas», ou seja, «não dissipa de facto a aparência que 
o carácter social do trabalho atribui aos objectos» (18). 
Pelo que a descoberta científica de que os produ-
tos do trabalho, enquanto valores, não são senão a expres-
são em forma de coisas do trabalho despendido para a 
sua produção, não basta, por si só, para fundamentar 
uma teoria do valor que explique e determine a comple-
xidade dos fenómenos capitalistas. 
Portanto, as carências teóricas da análise ricar-
diana do valor, que podem, por um lado, ser considera-
das como a identificação da forma capitalista do traba-
lho, o trabalho em abstracto, com toda a forma social 
do trabalho e consequentemente, por outro, a assunção 
da categoria do trabalho, em relação ao capital, unica-
mente na sua forma objectivada (a forma transformada 
do salário que a força de trabalho, como valor de troca, 
assume), sem consideração por isso pelo papel que a 
capacidade laboral humana que como força viva entra 
no processo de produção, desenvolve, impedem esta teo-
ria do valor-trabalho de superar aquela dificuldade, em 
que ela pelo contrário cai, no momento em que tenta 
explicar a dinâmica global da relação entre trabalho e 
capital no processo de produção. 
( 17) K. Marx, Per la critica p. 16. 
( 18) K. Marx, ll capitale, I, pp. 106-7. 
67 
Sempre ligada a estes nós teóricos por deslindar, 
isto é, à falta de análise, dos pontos de partida princi-
pais para a determinação dos valores de troca na base 
do tempo de trabalho, está por outro lado a incapaci-
dade ricardiana (e, é inútil repeti-lo, de toda a economia 
clássica antes de Marx) de surpreender uma última dis-
tinção fundamental: a do duplo carácter do trabalho sob 
o capital: isto é, do trabalho que, enquanto criador de 
valores de troca, é trabalho abstracto, pura determina-
ção quantitativa, trabalho igual em que «é cancelada a 
individualidade de quem trabalha», e do trabalho que, 
enquanto produtor de valores de uso, é actividade «útil» 
concreta específica, volta a adaptar o material sobre 
que se trabalha a este ou àquele objectivo. 
«Enquanto o trabalho que cria valor de troca se 
realiza na igualdade das mercadorias como equivalentes 
gerais, o trabalho, como actividade produtiva conforme 
ao fim, realiza-se na infinita variedade dos seus valores 
de uso» (19). Ou seja, e está aqui a sua diferença essen-cial, este último, como actividade conforme ao objectivo, 
é «condição natural da existência humana, é uma condi-
ção da troca orgânica entre homem e natureza. O traba-
lho que cria valor de troca é, pelo contrário, uma forma 
especificamente social do trabalho» (2°). 
Esta distinção fundamental que retomaremos de 
modo específico quando tratarmos de Marx, interessa-
-nos agora, porquanto ilumina, de um outro ponto de 
vista, o defeito de fundo da economia política clássica, 
que, como já notámos, continuamente oscila da deter-
minação das formas naturais da produção como forma 
da produção capitalista, à análise, pelo contrário, dos 
caracteres específicos da produção capitalista, como for-
mas naturais e imediatas de cada relação' produtiva (21). 
Para a economia clássica, de facto, o carácter do 
trabalho, de ser criador de valores de troca, logo o seu 
carácter abstracto, parece brotar directamente do seu 
ser útil, do seu fixar-se em valores úteis. Deste modo, 
(1 9) K. Marx, Per la critica cit., p. 18. 
(2º) Tde111. 
(21) Aos economistas modernos, diz Marx com eficácia, 
«ora aparece corno relação social aquilo que eles estupidamente 
julgavam estabelecer como coisa, ora os irrita de novo como coi~a 
aquilo que tinham apenns acabado de estabelecer como relaçao 
social» (idem, p. 17). 
68 
o trabalho abstracto, além de perder toda a sua cono-
tação «social» específica, torna-se um prolongamento 
da determinação útil, concreta, do trabalho, assumindo 
ele mesmo, como esta última, um carácter natural ima-
nente ao trabalho em geral. 
Portanto, embora a economia clássica, especial-
mente nos seus máximos expoentes, Smith e Ricardo, 
implicitamente faça distinção entre trabalho concreto e 
trabalho abstracto, considerando o trabalho, pela pri-
meira vez, quantitativamente, pela segunda, qualitativa-
mente, não esclarece nunca o efectivo salto «qualitativo» 
que existe entre os dois momentos: que é pois o «salto» 
entre a forma do trabalho «em geral» e a forma capita-
lista do trabalho. 
Tal carência teórica, que é claríssima em Smith, 
que na análise das relações económicas parte sempre 
do pressuposto geral da troca (fazendo sempre derivar 
da troca a própria divisão do trabalho), do mesmo modo 
se faz sensivelmente sentir em Ricardo, que aparece 
substancialmente agarrado à determinação do trabalho, 
unicamente como trabalho que cria valores de troca (22). 
Esta falta de análise traduz-se, depois, a um nível 
mais alto, na indistinção entre trabalho que, enquanto 
tal, cria valores, isto é, satisfaz determinadas necessida-
des, e trabalho assalariado - a forma do trabalho capi-
talista - que, produzindo valores de troca, cria mais-
-valia. Ou ainda, antecipando alguns pontos da análise 
seguinte, traduz-se na incapacidade de distinguir, no 
próprio processo de produção, entre actividade laboral 
em geral, que conserva e reproduz em novos valores os 
valores de uso existentes, como matérias e instrumentos 
(22) Por outro lado, diz Marx, Smith entende «o trabalho 
como criador de valor, mas concebe o mesmo trabalho como 
valor de uso, como produtividade que existe por si, capacidade 
natural· humana em geral (o que o diferencia dos fisiocratas), 
não como trabalho assalariado, isto é, não na sua determinação 
formal específica oposta ao capital». O mesmo se pode dizer 
de Ricardo, que entende «o trabalho assalariado e o capital 
não como uma determinada forma 'histórica da sociedade, mas 
como uma sua forma natural, destinada à produção de riqueza 
enquanto valor de uso». Por isso, do ponto de vista económico, 
se bem que Ricardo assuma como ponto de partida o valor 
de troca, as mesmas f armas económicas ele terminadas da troca, 
sendo consideradas como formas «naturais», como formas ade-
quadas da riqueza, «não cumprem nenhuma função na sua 
economia» (K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, pp. 324-5; 
cfr. também p. 328. 
69 
de trabalho, e processo específico de aumento de capital, 
mediante produção de novos valores, de excedente ou 
mais-valia (23), em resumo, na falta de distinção entre o 
que Marx chama processo laboral e processo de valori-
zação de capital. 
Pareceu-nos oportuno determo-nos antes demora-
damente sobre pressupostos teóricos da teoria ricardiana 
do valor-trabalho, porquanto, precisamente tais pressu-
postos explicam, depois, a incongruência e os erros da 
sua investigação económica relativamente a problemas 
decisivos, como a análise do dinheiro, a determinação 
dos preços de produção, da taxa de lucro, da renda fun-
diária, etc., a que ele aplica directamente a sua determi-
nação do valor, sem passar através daqueles necessários 
termos médios que, por si sós, garantem a sua aplica-
ção científica. Fizemos por isso amplas referências à 
análise marxiana que, pelo contrário, nos parece a expli-
citação mais clara destes «termos médios». 
Podemos resumir nestes termos os resultados da 
análise até aqui desenvolvida: a carência teórica que 
Ricardo mostra na individuação da existência do tra-
balho vivo na sua relação com o capital e que, como 
se viu, o impede de isolar a categoria da mercadoria 
trabalho, e de não considerar sequer, por isso, o pro-
blema da diferença do «trabalho» das outras mercado-
rias (trabalho vivo e trabalho objectivado), repercute-se 
na impossibilidade, para Ricardo, de ir além na deter-
minação do trabalho abstracto, · isto é, do trabalho 
enquanto criador de valores de troca. 
A mesma afirmação de resto pode ser posta ao 
contrário: isto é, pode dizer-se, como se apontava no · 
início do capítulo, que a mesma falta e:m Ricardo do 
significado e do papel do trabalho abstracto como con-
( 23) Sobre o modo específico de «como» esta produção 
de mais-valia acontece, ver-se-á mais adiante. Contudo ela con-
figura-se, perspectivámo-lo já ao tratar de Smith, como «uso» 
por parte do capital, da força de trabalho, além do tempo de 
trabalho necessário para ela satisfazer simplesmente as suas 
necessidades físicas e sociais (a sua manutenção, a sua formação; 
etc.) e que é representado pelo valor do salário. O novo valor 
produzido, que corresp,onde a trabalho «não pago», é a origem 
do lucro e da renda; produz-se mediante a «adição» simples-
mente «quantitativa» do trabalho (cfr. K. Marx, ll capitale, cit., I, 
p. 235). «Apenas o tempo de trabalho· socialmente necessário 
conta como criador de valor» e de mais-valia, consequentemente 
(idem, p. 224). 
70 
ceita chave para a compreensão da natureza do capital, 
impede-o depois de «descobrir» a existência e o papel da 
força de trabalho no processo de produção. 
Estas duas faces do problema articulam-se uma 
na outra: como de facto a existência da força de traba-
lho não pode ser concebida fora do âmbito do processo 
de produção capitalista, que tem como finalidade a pro-
dução de mercadorias, ou seja de riqueza abstracta, e 
não pode ser por isso sequer pensada fora da presença 
real do trabalho tornado abstracto, assim, ao invés a aca-
bada e definitiva realização «abstracta» do trabalho é 
o resultado da existência do mesmo trabalho como mer-
cadoria, da existência da força de trabalho. 
Os dois problemas estão por isso de tal modo entre-
laçados um no outro, que não dominar um significa não 
dominar os dois. 
Isto aconteceu com Smith, o qual embora colhendo 
a especificidade do capital na existência do trabalho 
vivo, não consegue dar peso científico à sua descoberta 
com a sua inserção numa perfeita teoria do valor, fun-
dada sobre o conceito de trabalho abstracto; isto acon-
teceu com Ricardo, o qual embora tendo dado uma 
definição coerente do valor, não consegue depois inse-
ri-la na especificidade do capital, ou seja na realidade 
histórica da exploração pela presença da força de tra-
balho. 
Também para Ricardo, como para Smith, pode 
pois dizer-se que a falta ele consideração do problema 
da relação entre trabalho e força de trabalho faz perder 
vigor e aplicabilidade, ou seja faz perder cientificidade 
à sua descoberta da lei do valor. Estas considerações 
finaispermitem-nos concluir o discurso sobre a relação 
entre Ricardo e Smith, e sobre o carácter que a teoria 
ricarq.iana por isso assume. 
Ricardo, de facto, não compreende as íntimas 
razões do problema smithiano: isto é, que em Smith 
existe, quer embora de modo contraditório, primeiro: 
que o trabalho assalariado é uma mercadoria, e que para 
ele não vale a lei do valor; segundo - e é este um 
problema que se encontrará, do mesmo modo, em 
Malthus -: que a valorização de uma mercadoria, na 
qual consiste o carácter originário e específico da 
acumulação capitalista, depende não do tempo de tra-
71 
balho nela contido, mas da quantidade de trabalho 
vivo que ela domina (24). 
E tudo isto, ou a falta de distinção entre «trabalho» 
e força de trabalho, entre trabalho vivo e trabalho objec-
tivado, paradoxalmente acontece sem que seja minima-
mente atacada a correcção formal da teoria do valor-tra-
balho ricardiana - do valor determinado pelo tempo de 
trabalho. De facto, para a determinação do valor é indife-
rente, como o próprio Ricardo observa, que o trabalho 
seja objectivado ou vivo, ou, como ele se exprime, seja 
passado ou presente; tal proposição é de facto totalmente 
verdadeira, quando nos é posta, como Ricardo faz, do 
ponto de vista dos produtos acabados, isto é, quando 
não nos é exigido como e donde estes produtos acabados 
provêm. 
Mas, posto que as formas de trabalho presente e 
passado, que aparecem em Ricardo, e que poderiam 
ser assimiladas àquelas de trabalho vivo e objectivado, 
são sempre, na realidade, duas formas objectivadas de 
trabalho - o que constitui o obstáculo mais sério para 
a teoria ricardiana para explicar o problema da natureza 
da acumulação, levantado por Smith-, a afirmação 
precedente (da indiferença entre trabalho vivo e objec-
tivado na determinação do valor) é ao mesmo tempo 
inexacta. Tal diferença, de facto, quando nos afasta da 
realidade estática e «neutra» das mercadorias já· pro-
duzidas, torna-se uma diferença decisiva para a deter-
minação do valor, ou seja de corno o valor é criado, 
e essencial relativamente à explicação da troca entre 
mercadoria e «trabalho», na qual tem origem a própria 
acumulação. Disso se aperceberá o próprio Ricardo, 
quando, como veremos, precisamente pqr causa das 
diferentes quotas de trabalho vivo e trabalho objectivado 
(para ele, de trabalho presente e passado) que influem 
de maneira diferente, para capitais iguais, sobre a for-
mação dos valores e da mais-valia, não conseguirá 
explicar a diferença dos preços pelos valores. 
Mais uma vez, pois, se verifica como o ter feito 
remontar correctamente (como acontece com Ricardo) 
o valor ao tempo de trabalho significa ter posto um 
fundamento necessário, mas não suficiente, para a validez 
científica da teoria do valor-trabalho. Por outro lado, 
é determinado como dever específic_o de tal teoria pre-
(24) K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., II, p. 109. 
72 
cisamente o de saber dar razão do modo de formação 
dos valores por obra do trabalho, e ao mesmo tempo 
do modo de produção de mais-valia entendida como 
mais-trabalho. 
Destas considerações gerais sobre a teoria do 
valor-trabalho ricardiana, surge bem claro o carácter 
e a função que esta teoria desenvolve. Em resumo: 
aceite como dado o capital e as suas categorias, o seu 
objectivo é determinar as relações funcionais que se 
estabelecem entre estas grandezas - capital, trabalho, 
salário, lucro. Neste sentido, tal teoria (embora não se 
queira dar a esta afirmação nenhum sentido redutivo) 
é principalmente instrumento de «medida» quantitativa 
dos valores. 
Pelo contrário, uma correcta formulação da teoria 
do valor pressupõe toda uma série de mediações que 
requerem uma explicitação também qualitativa da lei. 
Teremos ocasião de ver como a teoria marxiana do 
valor representa qualquer coisa mais do que uma simples 
teoria do valor (daí, como veremos, a sua irredutibilidade 
às teorias do valor precedentes); de facto «ela não só 
tem a função de explicar o valor de troca ou os preços 
em sentido quantitativo, mas também de evidenciar a base 
histórico-social no processo laboral de uma sociedade 
fundada na troca ou produção de mercadorias, com 
a própria força de trabalho, reduzida ao papel de 
mercadoria» (25). 
(25) M. Dobb, «Introduzione» a K. Marx, Per la critica 
cit., p. XIII. 
73 
Capítulo III 
AS DIFICULDADES DA TEORIA RICARDIANA: 
1. O VALOR DO TRABALHO 
Esclarecidos, deste modo, os pressupostos teóricos da 
investigação de Ricardo, podemos passar a analisar as 
dificuldades que ele tem de afrontar, para tornar compa-
tível a sua teoria do valor-trabalho às leis da troca e 
da produção capitalista. 
São pelo menos dois os pontos em que Ricardo 
é constrangido, implícita ou explicitamente, · a «modi-
ficar» a sua teoria do valor-trabalho: o primeiro, na 
determinação do valor ou preço do trabalho; o segundo, 
na determinação dos preços de produção e da taxa 
geral do lucm. Num caso, que constitui um ponto 
nodal do seu sistema, Ricardo deve num certo sen-
tido violentar a lógica, e falar do valor ou preço 
do «trabalho» (que não é possível estabelecer) como 
valor qu preço do «salário» que o trabalhador recebe. 
Não obstante isto, ele consegue todavia definir correc-
tamente o valor do salário real, na base da quantidade 
de bens, de meios de subsist?ncia que ele está em 
situação de adquirir. 
No outro caso, na determinação dos preços de 
produção, em que pela presença de uma taxa geral de 
lucro, a lei do valor e da mais-valia parece de todo 
ausente, e os preços parecem determinados unicamente 
pelo mecanismo da concorrência, Ricardo faz depender 
o valor das mercadorias, não apenas da quantidade de 
75 
trabalho necessano à sua produção, mas também do 
valor do trabalho. Neste caso Ricardo abandona explici-
tamente a sua originária determinação do valor. 
Procuremos analisar o primeiro caso. 
Em Ricardo encontra-se a mesma expressão de 
«valor» ou «preço do trabalho», que os economistas 
trazem directamente da prática do mercado, segundo 
a qual a compensação que o trabalhador recebe é o 
preço ou o valor do seu próprio «trabalho». 
Mas a assunção imediata desta categoria, em 
Ricardo, levanta uma série de dificuldades: antes de 
mais, a de voltar a propor o problema, já encontrado 
em Smith, que, tendo ele (como Smith) assumido preci-
samente o trabalho como origem e essência do valor, 
encontra-se agora, pelo contrário, a dever determinar 
o valor deste trabalho. Isto por um lado. Pelo outro, 
se a lei ricardiana do valor-trabalho fosse rigidamente 
aplicada à determinação do valor do trabalho, então 
este último deveria depender da quantidade de trabalho 
contido no trabalho, ou - como explica Marx - o valor 
de uma jornada de trabalho, de doze horas, por exemplo, 
seria determinado pelas «doze horas de trabalho contidas 
na jornada de trabalho de doze horas; o que não é 
senão uma insulsa tautologia» (1). 
Na realidade, e abrimos aqui um parêntesis, se a 
categoria do valor do trabalho existisse verdadeiramente, 
então, diz Marx (2), ou o capitalista paga realmente 
este valor ao operário, de modo que o preço do trabalho 
deste iguale o preço do seu produto, com a consequência 
de que a produção de mais-valia e por isso o próprio 
capital seriam abolidos; ou então, o trabalhador não 
recebe inteiramente o valor do produto do. seu trabalho, 
no preço do seu trabalho: e em tal caso seria eliminada 
a mesma lei do valor. De notar como voltam a apre-
sentar-se as mesmas dificuldades analisadas em Smith. 
Todavia, Ricardo evita bastante engenhosamente 
estas dificuldades, e «com uma hábil manobra» (é esta 
a expressão usada por Bailey, ironizando sobre o método 
da operação ricardiana) faz depender o valor do «tra-
balho» do valor do «salário», ou seja da quantidade 
de trabalho necessária para produzir o salário; com 
o que ele entende a · quantidade de trabalho necessária 
(1) K. Marx, Il capitale, cit., I, p. 585. 
(') Idem, p, 592. 
76 
para produziro dinheiro ou as mercadorias que o 
trabalhador recebe. 
Tal operação, todavia, se por um lado dá a justa 
determinação do salário real do trabalhador, que efec-
tivamente se calcula na base da quantidade de trabalho 
necessária para produzir os meios de subsistência que 
permitem ao trabalhador conservar-se e reproduzir-se, 
por outro, consistindo numa simples sobreposição do 
valor do salário ao valor do «trabalho», sem que esteja 
compreendido o desfasamento entre as duas expressões, 
constitui da parte de Ricardo um novo modo de fugir ao 
problema da função do trabalho vivo no processo produ-
tivo, a de elemento criador de valor e de mais-valia, e de 
continuar a assumi-lo, pelo contrário, na «forma trans-
formada» de salário, que esconde as efectivas relações 
entre capital e força de trabalho. 
Este, de resto, é o preço que ele paga por ter 
eliminado a teoria do «trabalho dominado» de Smith, 
o que, no entanto, era necessário para a fundamentação 
de uma teoria do valor que procurasse evitar raciocí-
nios circulares. 
Tais contradições e insuficiências, que põem um 
sério obstáculo à coerência da teoria ricardiana, que 
não obstante é a primeira a pôr claramente como medida 
do valor o tempo de trabalho, oferecem um fértil campo 
de polémica para adversários de Ricardo como Say e 
Bailey. Serão eles os primeiros a destacar como, na 
teoria ricardiana, precisamente o «trabalho» parece fugir 
à determinação de valor comum a todas as mercadorias 
(e ser determinado, não na base da «quantidade de 
trabalho» contida no «trabalho», mas na contida no 
«salário»). E ainda, Bailey terá ocasião de afirmar que, 
quando Ricardo faz depender o valor do trabalho d:1 
quantidade de trabalho necessária à produção do salário, 
ou seja do dinheiro ou da mercadoria que o trabalhador 
recebe, é como se dissesse, por exemplo, «que o valor 
do pano não é mensurável pela quantidade de trabalho 
necessária à sua produção, mas da quantidade de trabalho 
despendida na produção do dinheiro com que o pano 
se troca» (3). 
E na realidade, enquanto o conceito de valor do 
trabalho ou de valor do salário, não for substituído, 
( 3) Citação em Marx, Storia clelle teorie eco11onúche, cit., 
II, p. 113. 
77 
como fará. Marx, pelo valor da força de trabalho, os 
termos do problema não deixarão de pôr-se sempre do 
mesmo modo irracional. 
Todavia, a crítica de Bailey não atribui o justo 
mérito a Ricardo: ele, de facto, embora sem a mediação 
do conceito de força de trabalho, tem a possibilidade 
de determinar correctamente, e em plena coerência com 
a sua teoria do valor, o salário real do trabalhador 
(que é sempre por ele distinguido do nominal). A pos-
sibilidade, de facto, de o trabalhador prover a si e 
a sua família, afirma Ricardo, depende, «não da quan-
tidade de moeda retribuída a título de salário, mas 
da quantidade de alimentos, de objectos de primeira 
necessidade, e também dos objectos agradáveis e essen-
ciais aos hábitos contraídos, que com tal quantidade 
de moeda se podem adquirir. O preço natural do traba-
lho depende por isso do preço dos alimentos, das coisas 
de primeira necessidade e das agradáveis de que neces-
sita o trabalhador e a sua família (4). 
O preço de tais meios de subsistência é determinado 
pois por Ricardo no pleno respeito da sua teoria do 
valor, e, analogamente à definição que dele dará o 
próprio Marx, na base da quantidade de trabalho neces-
sária para produzir tais bens, coisas agradáveis, etc. 
Se bem que isto possa ser reprovado a Ricardo, 
como Marx fará (5), o facto é que a sua definição de 
salário médio como valor determinado pelo tempo de 
trabalho que custa produzir os meios de subsistência 
do operário, embora sendo exacta, na realidade por 
si só não basta para fazer compreender toda a relação 
entre capital e trabalho, em particular a origem da mais-
-valia como mais-trabalho. Ele supõe, de . facto «que o 
tempo de trabalho contido nos meios de subsistência diá-
rios, seja igual ao tempo de trabalho diário que o operário 
deve fornecer para reproduzir o valor destes meios de sub-
sistência» (6), e não representa nunca o tempo de trabalho 
(') D. Ricardo, Princípi cit., p. 59. 
( 5) K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., II, pp: 117 
e segs. 
(º) Idem, p. 119:. « ... se por um lado a produtividade 
do trabalho, sendo dado o tempo de trabalho, a grandeza da 
jornada laboral, pode ser diferente, por outro o tempo de 
trabalho, a grandeza da jornada laboral, sendo dada a produ-
tividade do trabalho, pode ser muitíssimo diferente». Por 
outro lado, acrescenta Marx, é evidente que se é necessá-
78 
objectivado em tais meios, como correspondente só a 
uma parte da jornada de trabalho do operário, aquela 
parte que constitui o trabalho necessário para repro-
duzir o valor da força de trabalho. Além deste limite 
necessário, que depende da produtividade do trabalho 
social que produz directa ou indirectamente meios de 
subsistência, o tempo de duração do trabalho pode de 
facto ser diferentemente prolongado e corresponde, neste 
prolongamento, à grandeza absoluta da mais-valia. 
Em Ricardo a grandeza da jornada de trabalho 
total, como soma de trabalho necessário e mais-valia, 
apresenta-se, pelo contrário, como uma grandeza de 
limites dados, isto é, como a mesma e sempre igual 
quota de trabalho que o operário deve fornecer para 
se reproduzir (como já tinha sido para Smith). Por 
consequência, o aumento ou a diminuição da mais-
-valia (para Ricardo, do lucro) depende só do aumento 
ou da diminuição da produtividade do trabalho. Noutros 
termos, dada como fixa a jornada de trabalho e a 
intensidade do trabalho, o único factor variável toma-se 
a produtividade (e não também o prolongamento abso-
luto da jornada de trabalho além do limite necessário 
ao operário para reproduzir a própria força de trabalho). 
Deste modo, o salário acaba por aparecer como preço 
necessário de uma jornada laboral de limites dados, 
e não como uma sua parte apenas. De resto não podia 
ser de outro modo para Ricardo, o qual não· equivale 
nunca a mais-valia a mais-trabalho, assim como não 
vê por detrás do valor produzido o trabalho vivo que 
o produz (7). 
rio um certo desenvolvimento da produtividade para que exista 
o mais-trabalho, a simples possibilidade desta mais-valia ainda 
não o cria efectivamente. «Com este objectivo é necessário 
antes obrigar o operário a trabalhar além daquela grandeza, 
e é o · capital que exerce esta contrição. Isto falta em 
Ricardo ... ». Ricardo, em conclusão, falhando, como se viu, na 
distinção fundamental entre trabalho e força de trabalho, não 
indaga consequentemente, nem a ori_gem da mais-valia nem a 
mais-valia absoluta: a grandeza da jornada de trabalho apre-
senta-se-lhe por isso como uma grandeza dada (idem, p. 121). 
(') «Ricardo não se preocupa nunca com a origem da 
mais-valia. Considera-a como coisa inerente ao modo de produção 
capitalista que aos seus olhos é a forma natural da produção 
social. Quando fala da produtividade do trabalho não procura 
no trabalho a causa da existência da mais-valia, mas apenas 
a causa que determina a grandeza da mais-valia». K. Marx, 
ll capitale, cit, I, p. 563. 
79 
Em conclusão, Ricardo está efectivamente próximo 
da solução - a de explicar o «valor do trabalho» medi-
ante o valor da força de trabalho-, quando surpreende 
no chamado preço do trabalho o preço da manutenção do 
«trabalhador» (8) (e esta será a que Marx reterá, a resposta 
latente da economia clássica ao problema da existência da 
força de trabalho e da determinação do seu valor (9)); mas 
não tendo ele, depois, a noção de que coisa deva recons-
tituir o salário, ou a que parte do capital ele corresponda, 
fica tudo dentro da determinação do salário como preço 
do trabalho, com a consequência de que o trabalho vivo, 
quando se trata de determinar o papel específico no 
processo de produção relativo ao capital é sempre assu-
mido na forma «transformada» e objectivada do salário. 
Forma transformada, como ficará clarode uma 
vez . por todas com Marx, que oblitera completamente 
as relações que nela se ocultam: em primeiro lugar, a 
troca específica entre trabalho assalariado e capital, entre 
trabalho vivo e trabalho objectivado (que constitui o nó 
de todas as contradições smithianas, e em relação ao 
qual Ricardo não levanta sequer, como já se disse, o 
problema da diferença entre trabalho vivo e trabalho 
objectivado), e daqui, em segundo lugar, a própria ori-
gem da mais-valia. 
Estas dificuldades são resolvidas, logo que se subs-
titui, com Marx, a expressão irracional do «valor do 
trabalho» por valor da força de trabalho. Tal substi-
tuição marxiana permite de facto .esclarecer que, se por 
um lado, o valor da força de trabalho não depende da 
duração da sua função, o trabalho (e, com isto, é elimi-
nada a expressão tautológica que o valor de uma jornada 
de trabalho é igual ao trabalho contido nesta jornada 
laboral), mas da quantidade de trabalho ríecessária para 
produzir e reproduzir a própria força de trabalho; por 
outro lado, pelo contrário, a produção de valor por 
parte da força de trabalho, ou o valor produzido pela 
força de trabalho, não depende do valor desta última, 
mas da duração da sua função; com o que é eliminada 
a contradição smithiana que fazia depender o valor do 
(') Ricardo, de facto, exprime-se assim no capítulo «De 
salários». «O preço natural do trabalho é o preço que ocorre 
quando se põem os trabalhadores no seu conjunto em condições 
de subsistir e perpetuar, sem aumentos ·nem diminuições, a sua 
progénie». D. Ricardo, Princípi cit., p. 59. O sublinhado é nosso. 
(') K. j\farx, Il capita/e, cit., L p. 588. 
80 
produto do trabalho do valor do «trabalho». Somente, 
portanto, esta diferença fundamental, que Marx intui 
entre o «valor da força de trabalho» e a produção de 
valor através da explicitação da sua função, o trabalho, 
consegue resolver a dificuldade não resolvida pela eco-
nomia política clássica; ou seja, por um lado, a questão, 
que já analisámos com Smith, de como a relação entre 
trabalho objectivado e trabalho vivo (que se realiza 
através da troca entre capital e força de trabalho), 
embora sendo relação de valores desiguais (menos tra-
balho contra mais), possa ser explicada mediante a lei 
do valor que pressupõe a igualdade dos valores, por 
outro o problema da própria produção da · mais-valia. 
No primeiro caso Marx esclarece como uma coisa 
é falar do valor da força de trabalho, uma outra do uso 
que desta força de trabalho faz o capital no processo 
produtivo, e que é representado pelo tempo durante o 
qual ele funciona. A força de trabalho, de facto, embora 
seja paga pelo seu próprio valor, ou seja, segundo a 
quantidade dos meios de subsistência que lhe são neces-
sários, é «consumida», é feita trabalhar, durante uma 
quantidade de tempo maior que a necessária para recons-
tituir o próprio valor (1°). 
Está inteiramente aqui o modo em que o valor 
e a mais valia se produzem: esta última é simplesmente, 
diz Marx, a parte de trabalho não paga ao operário, e 
não como «subtracção» do valor da sua força de tra-
balho, mas como resultado do «trabalho» da sua força 
de trabalho, ou seja do seu funcionamento por um 
determinado período ele tempo. 
Voltando a Ricardo, o não ter surpreendido a 
diferença entre salário e trabalho vivo (entre «valor do 
trabalho» e «trabalho»), significa, consequentemente, não 
ter visto, por detrás da parte do capital investida em 
salários, o real movimento do trabalho vivo no processo 
('º) K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II, p. 221. 
O valor do produto é determinado pelo trabalho nele contido, 
não por aquela parte de trabalho nele contida que é paga pelo 
dador de trabalho. O trabalho feito ,e não pago constitui o valor 
do produto; os salários pelo contrário exprimem apenas o 
trabalho pago, nunca o feito ... A quantidade de trabalho que 
o operário efectua é bastante diferente da quantidade de tra-
balho que é elaborada na sua força de trabalho, ou. que é 
necessária para reproduzir a sua força de trabalho. Mas, como 
mercadoria, ele não vende o uso que dele é feito, isto é, não 
se vende como causa, mas sim como efeito». 
81 
de produção, o de produzir, criar valor e mais-valia; 
daqui, uma segunda indistinção, aquela entre a parte 
do capital investida em instrumentos e matérias-primas 
e a investida em salários. Estes dois elementos do capital 
são por ele considerados homogéneos, enquanto só o 
último, pelo facto de ser convertido em trabalho, «trans-
forma» o seu valor no processo produtivo e se torna 
de grandeza a «constante», ou seja de trabalho objec-
tivado ou salário, trabalho vivo que cria sempre novo 
valor. De facto, se se admite, com Marx, que o valor da 
força de trabalho é diferente da função que ela desem-
penha, ou que «o trabalho morto, latente na força de 
trabalho, e o trabalho vivo que pode fornecer a força 
de trabalho, ou seja os custos diários de manutenção 
da força de trabalho e o dispêndio diário desta, são duas 
grandezas totalmente distintas» e que por isso «o valor 
da força de trabalho a sua valorização no processo 
laboral são duas grandezas diferentes» (11), parece agora 
definitivamente que a possibilidade de produzir valor 
depende apenas do trabalho vivo de que tal possibilidade 
constitui uma qualidade particular, assim como a origem 
e a grandeza da mais-valia deve determinar-se sempre 
na base da quantidade de trabalho vivo de que o capital 
se apropria, quantidade de trabalho vivo que é coisa 
distinta, e além disso sempre maior, do valor daquilo 
que o fornece, do valor da força de trabalho, ou seja 
do salário (12). 
Desta fundamental aquisição, segundo a qual a 
possibilidade de produzir valores não pertence a nenhuma 
forma do capital, sejam eles os meios de produção, ou 
as matérias-primas, ou os meios de subsistência neces-· 
sários ao operário, enquanto formas objectivadas do 
trabalho, provém pois a distinção entre a parte do 
capital investida nos meios de produção, a qual, não 
podendo estes acrescentar nunca ao produto mais valor 
do que aquele que possuem, continua «constante» na 
própria grandeza do valor, e a parte investida em salá-
rios, que, convertendo-se em força de trabalho, e por 
( 11 ) K. Marx, ll capitale, cit., I, p. 227. 
(") «Só em face do trabalho assalariado as coisas que 
são as condições objectivas do trabalho, ou seja os meios de 
produção e as coisas que são as condições objectivas da manuten-
ção do operário, ou seja os meios de· subsistência, se tornam 
capital», K. Marx, Il capitale, Livro I, cap. VI, La Nuova Italia, 
Florença, 1969, p. 36. 
82 
isso em trabalho vivo, muda o seu valor no processo 
de produção (13). É esta a conhecida distinção marxiana 
entre parte constante e parte variável do capital, ou 
entre capital constante e capital variável. 
Ricardo, que nunca compreendeu realmente a ori-
gem da mais-valia, não distinguindo nunca a função 
específica do trabalho vivo relativamente ao trabalho 
objectivado (tanto que tende a atribuir não só ao tra-
balho a característica de ser «produtivo», mas também 
ao capital), não pode efectuar esta segunda distinção 
fundamental. 
E estes limites da investigação de Ricardo serão 
carregados de consequências (14): desde a sua indistinção 
entre mais-valia e lucro, às dificuldades na determinação 
dos preços segundo a lei do valor, à errónea teoria da 
queda da taxa de lucro (que faz depender da constante 
descida da taxa de lucro agrícola), etc. 
·Por isso, como vimos para o valor de troca e 
para o trabalho abstracto que o cria, a própria mais-
-valia para a economia política é um dado, um elemento 
que existe e é acolhido como benefício resultante da 
moderna estrutura produtiva. 
A superação dos limites da investigação clássica 
sobre a mais-valia que se .obterá com Marx, está estrei-
tamente ligada ao alcançar de um nível científico sufi-
ciente para a formulação da teoria do valor-trabalho. 
De facto pode afirmar-se que, tal como a prddução de 
mais-valiaconstitui um todo, em Marx, como o processo 
de criação dos valores por parte do trabalho, a teoria 
marxista do valor é a própria teoria da mais-valia; 
fica assim resolvida a questão teórica que pode fazer-se 
remontar, na sua expressão mais clara, a Smith, para 
o qual só uma teoria capaz de explicar as formas 
( 13) Cfr. Marx, Il capitale, cit., I, p. 242. É por isso só 
e apenas sobre esta parte do capital que é calculada a mais-
-valia produzida e não sobre todo o .capital investido. 
(") Precisamente desta confusão acerca da génese da 
mais-valia Marx faz depender a incompreensão ricardiana da 
natureza e da origem de importantes fenómenos capitalistas. 
De facto, «as diferenças na grandeza da mais-valia são descura-
das, e a produtividade do capital, a coerção à mais-valia, a 
mais-valia absoluta por um lado e, por outro, a sua tendência 
imanente a abreviar o tempo de trabalho necessário, é desco-
nhecida; e por isso não é desenvolvida a legitimação histórica 
do capital». K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., I, p. 118. 
83 
específicas. da acumulação, poderia ser uma teoria válida 
do valor. 
Das considerações desenvolvidas acerca de Ricardo, 
todavia, é-nos permitido passar à análise de como a 
categoria da mais-valia se configura no seu sistema, ou 
melhor do papel que ali desempenha o «lucro», desde 
o momento em que estas duas categorias estão nele 
directamente identificadas. 
Este aspecto de Ricardo interessa-nos particular-
mente porque precisamente a falta de individualização 
da categoria da mais-valia como tal, origina, depois, a 
sua incapacidade de explicar os preços de produção 
segundo a teoria do valor de que tinha partido. É esta 
a circunstância que nos tínhamos proposto estudar, na 
qual Ricardo é constrangido a abandonar de modo 
explícito a sua teoria do valor. 
De facto, Ricardo, que não distingue a mais-valia 
daquilo que Marx chama a sua forma fenoménica, o 
lucro, interpreta as variações que o lucro sofre por 
obra da concorrência (nivelamento das diferentes taxas 
de lucro a uma mesma taxa geral, e consequente for-
mação de preços de produção diferentes dos valores) 
como variações da mesma mais-valia, que pelo contrário 
é só diversamente distribuída e não diversamente pro-
duzida, e por isso interpreta os desvios dos preços dos 
valores como variações que se verificariam nos mesmos 
:valores, os quais resultariam assim determinados na base 
de um princípio diferente da lei ·do valor. 
84 
Capítulo IV 
AS DIFICULDADES DA TEORIA RICARDIANA: 
2. A DIFERENÇA ENTRE PREÇOS E VALORES 
Esta segunda, e em certo sentido determinante, 
dificuldade, que Ricardo encontra em se certificar se a 
sua teoria do valor, uma vez superadas as carências da 
teoria smithiana, será susceptível de ulteriores objecções, 
quando for aplicada aos fenómenos mais complexos da 
economia capitalista - dificuldade que, tendo ficado por 
ele sem solução, constituirá o maior pretexto polémico 
para os seus críticos e para os críticos da teoria do valor-
-trabalho, pode ser expressa do seguinte modo. 
Ricardo parte, na determinação do valor, da consi-
deração de que as mercadorias se trocam sempre na 
base das quantidades de trabalho nelas contidas. Todavia 
esta lei segundo Ricardo pode resultar, por assim dizer, 
«modificada» desde que se tomem em consideração as 
«proporções variáveis» ou as diferentes composições dos 
vários capitais investidos na produção das mercadorias. 
De facto a relação que existe entre capital fixo e capital 
circulante no âmbito de um capital global investido 
na produção de uma certa mercadoria, não é desprezável 
para a determinação do valor da mesma mercadoria. 
Antes, precisamente tais diferentes condições do capital 
«fazem que à variável quantidade de trabalho necessária 
para produzir as mercadorias se junte uma causa ulterior 
85 
de variação do seu valor relativo: tal causa é o aumento 
e a diminuição do valor do trabalho» (1). 
A introdução deste novo elemento na determinação 
do valor, em Ricardo, encontra-se assim motivada. Exa-
minando as diferentes formas que capitais de igual 
grandeza, se diversamente investidos, podem assumir, na 
dependência das diversas proporções entre capital fixo 
e capital circulante, entre capitais mais ou menos fixos 
ou entre capitais de diferentes estabilidades, e também 
dependentes dos diversos períodos neoessários para levar 
as mercadorias ao mercado, dos diferentes períodos de 
rotação do capital, etc., ele compreende que esta variada 
composição de capitais de igual massa tem uma directa 
incidência sobre os valores relativos das mercadorias, 
desde que se verifique uma variação no nível dos salários. 
Por isso, ele é induzido a crer que precisamente o 
aumento ou a diminuição do valor do trabalho deve 
incidir sobre o valor das mercadorias, além do t,empo 
de trabalho necessário para as pr.oduzir. Noutros termos, 
a relação de valor entre mercadorias, que embora tenham 
exigido a mesma quantidade de trabalho para ser pro-
duzidas, varia em seguida a uma alteração dos salários. 
Os exemplos de Ricardo sobre este problema são 
muitos, mas para simplicidade de análise podemos sem 
dificuldade considerá-los todos como tendentes a demons-
trar sob diversos aspectos, a mesma coisa, isto é, que 
um aumento ou uma diminuição dos salários, de harmo-
1).ia com as diversas composições dos capitais de igual 
grandeza, que operam em diversas· esferas de produção, 
agirá de modo diferente sobre «valores relativos» das 
mercadorias não obstante a quantidade de trabalho 
necessária ser a mesma. E com efeito, se se supõe que 
a diferença entre dois capitais iguais é devida à diferente 
proporção em que eles são compostos de capital fixo 
ou capital circulante, então em seguida a um aumento 
do valor do . trabalho diminui o «valor relativo» das 
mercadorias produzidas com mais capital fixo e aumenta 
o «valor relativo» das produzidas com menos (2). 
A argumentação ricardiana tem um sentido por-
quanto os efeitos das modificações dos salários não -po-
dem descarregar-se sobre os lucros: estes, de facto resulta-
(1) D. Ricardo, Principi cit., p. 20. O sublinhado é nosso. 
(') Esta convicção de Ricardo, nãó obstante as carências 
que analisámos há pouco, tem todavia o mérito de refutar a 
86 
riam diferentes, de harmonia com as diferentes composi-
ções dos capitais investidos, enquanto aqui é pressuposta 
a condição de fundamental equilíbrio da concorrência, 
a da igualdade dos lucros, ou de uma taxa geral de 
lucros, segundo a qual os lucros são referidos unicamente 
à grandeza global do capital investido. O efeito que 
Ricardo aqui evoca é o resultante dos movimentos dos 
capitais de uma esfera a outra da produção, por obra 
da concorrência, para igualar totalmente os diferentes 
lucros a uma única taxa; já Smith lhe tinha compre-
endido a fundo o mecanismo, e o tinha expresso em 
forma de lei; Ricardo limita-se a dar-lhe uma sistema-
tização maior e mais articulada. 
Em conclusão, pois, a presença por obra da concor-
rência, de uma taxa geral de lucro, que regula o aumento 
do lucro sobre a grandeza do capital investido, provoca, 
segundo Ricardo, efeitos tais sobre os «valores» das 
mercadorias, que elas não podem mais ser determinadas 
só na base do tempo de trabalho necessário à sua pro-
dução, porquanto devem ser consideradas as influên-
cias que uma variação do «valor do trabalho» necessaria-
mente tem sobre eles. 
A crítica de Marx parte precisamente destas últimas 
conclusões: na realidade, diz Marx (3), os valores não 
são minimamente influenciados pelas circunstâncias que 
Ricardo analisa; só os lucros o são, pois que, justamente 
por obra daquelas circunstâncias, eles resulta:dam dife-
rentes entre si, também para iguais massas de capitais, 
se a concorrência não realizasse uma taxa geral de 
lucro, segundo a qual os lucros se regulam directamente 
sobre a grandeza do capital investido; consequentemente 
são só os preços, os quais resultam do movimento da 
concorrência, que devem serdeterminados de modo 
diferente pela referência apenas ao tempo àe trabalho, 
e não os valores. Ricardo - diz Marx- deveria ter falado 
de preços e não de valores. 
a tese errónea, presente também em Smith, segundo a qual 
um aumeno de salários provocaria necessariamente um aumento 
de todas as mercadorias. A tese de Ricardo, pelo contrário, é 
que o preço de algumas mercadorias, em seguida a aumentos 
salariais, pode verdadeiramente diminuir, precisamente o preço 
daquelas produzidas com mais capital fixo. · 
(3) K. Marx. Storia delle teorie economiche, cit., II 
pp. 21 e sgs. 
87 
Deste modo se verifica para Ricardo a circunstância, 
de ele ser obrigado a abandonar a sua teoria do valor, 
precisamente na tentativa de a salvar; de facto, verifi-
cado que a existência de uma taxa geral de lucro, em 
vez de corresponder à determinação do valor mediante 
o tempo de trabalho, prima f acie aqui se contradiz, 
ao tornar os preços diferentes dos seus valores, ele 
procura eliminar esta contradição, tendendo a identificar 
preços e valores e a aplicar aos preços directamente 
- sem mediações - a lei do valor. Pelo contrário, se 
bem que as diferenças entre capitais de igual grandeza, 
analisadas por Ricardo, não considerem de facto os 
valores em si, eles, influenciando de maneira diferente 
os lucros nas diferentes esferas, produzem preços médios 
diferentes dos valores, ou melhor preços de produção 
que são determinados pela grandeza do capital antecipado 
mais o lucro médio e por isso não directamente pelos 
valores. 
Pelo que, segundo Marx, as conclusões de Ricardo 
encobrem pelo menos um duplo erro. O primeiro erro, 
é o de partir de uma taxa geral de lucro como de um 
pressuposto, sem analisar como ela se forma. Isto é, 
Ricardo introduz «de contrabando» a lei da taxa de 
lucro, demonstrando a sua «incapacidade de esquecer, 
nos valores das mercadorias, os lucros, facto que se 
encontra em face da própria existência da concorrên-
cia» (4). O ter por isso saltado todos os termos médios 
que levam à formação desta taxa; e o ter dado como 
descontada a transformação dos valores em preços de 
produção, coisa que leva em Ricardo à sobrevalorização 
dos dois termos, tem, por outro lado, a imediata conse-
quência que, assumida como dada a existência da taxa 
geral, o lucro aparece determinado por leis próprias, 
sem mais nenhum ponto de contacto com a precedente 
lei do valor, desde o momento que parece ter desaparecido 
a própria categoria da mais-valia como mais-trabalho, 
que, pelo contrário, regula o lucro. 
Em conclusão, Ricardo compensa, por um lado, 
o facto de não ter nunca individualizado e separado ~as 
suas formas paniculares, lucros, juro e renda, a categoria 
da mais-valia, que aparece ulteriormente mistificada pela 
presença de uma tàxa geral de lucro, e por outro, 
consequentemente, de não ter nunca. compreendido (pois 
(4) Idem, p. 42. 
88 
que se fecha na simples distinção entre capital fixo e 
capital circulante, etc.) a distinção entre aqueles que 
Marx chama os elementos orgânicos do capital, capital 
constante e capital variável. A composição destes ele-
mentos, ou seja a diferente relação entre capital constante 
e capital variável, diz-nos de facto qual é a diferente 
quota de mais-valia ou mais-trabalho realizada nas mer-
cadorias que contêm a mesma quantidade de trabalho 
e de que o capital se apropria. É em razão desta 
diferente quota, de facto, que os lucros dos capitais de 
igual grandeza resultam diferentes (a taxa de lucro, como 
se sabe, é calculada pela relação entre a mais-valia e 
todo o capital investido) e que os preços inédios para 
igualar as taxas de lucro devem necessariamente diferir 
pelos seus valores. 
Se Ricardo tivesse aprofundado um pouco mais 
a questão, teria reparado que a «simples existência de 
uma taxa geral de lucro implica preços de produção 
diferentes dos valores, supondo também um salário 
constante» (5). 
Por isso, a conclusão a que Ricardo não pode chegar 
e que Marx prospecta é a seguinte: capitais de igual 
grandeza produzem mercadorias de valores desiguais, e 
por essa razão dão mais-valias ou lucros desiguais, pois 
que o valor é determinado pelo tempo de trabalho e a 
massa de tempo de trabalho que um capital realiza 
depende não da sua grandeza global, mas só da grandeza 
do capital variável; ou capitais de igual grandeza, embora 
produzindo valores iguais, apropriam-se, de harmonia 
com o seu diferente processo de circulação, de iguais 
«quantidades» de trabalho não pago por espaços de 
tempo diferentes: daqui, uma segunda diferença nas 
mais-valias e lucros. Para que os lucros sejam de novo 
iguais, é necessário que os preços das mercadorias sejam 
diferentes dos seus valores; mas deve acrescentar-se 
logo depois, o lucro total do sistema é sempre determi-
nado pela mais-valia total enquanto mais-trabalho (6). 
A lei do valor continua, portanto, a ser válida, e 
a constituir o centro real donde partem as efectivas 
variações dos preços. 
O lucro médio e os preços de produção não seriam 
sequer compreensíveis senão se partisse dos valores. 
Ricardo sabe-o, e por isso tende, em face da diferença 
(') Idem, p. 25. 
(') Idem, p. 41. 
89 
dos preços dos valores, directamente a identificá-los (7). 
Daqui o seu segundo erro. 
De facto, Ricardo,. embora conhecendo bem a dife-
rença dos valores dos preços, fala dos efeitos da concor-
rência sobre preços de produção para a diferente com-
posição orgânica dos capitais, como se fossem os próprios 
valores a ser por eles influenciados. Deste modo os 
valores identificados com os preços tendem a não desem-
penhar mais nenhum papel económico e a desaparecer. 
São os preços de produção, enquanto centro real em 
torno do qual rodam todas as flutuações devidas à 
concorrência, e enquanto constituem o «preço natural» 
das mercadorias, como dizia Smith, ou o seu prix neces-
saire como para os fisiocratas, a exaurir todo o discurso 
sobre o valor. Pelo contrário, conclui Marx, não obstante 
a aparente contradição, o valor não é de facto influen-
ciado «pela transformação do valor em preço de pro-
dução, pois que esta transformação não considera em 
geral senão a repartição da mais-valia realizada pelo 
capital total entre os diferentes ramos de produção ou 
entre os capitais nas diferentes esferas produtivas» (8). 
Se se mantém pois, a distinção entre preços e valores, 
é sempre dos valores que se parte para chegar aos 
preços, quaisquer que sejam os factores que regulem 
estes últimos. De facto «o lucro médio, e por isso tai:;nbéin 
os preços de produção seriam puramente imaginários 
o inconsistentes, se não tomássemos como base a deter-
minação do valor. A completa iguáldade das mais-valias 
em diferentes esferas de produção não muda nada a 
grandeza absoluta desta mais-valia total, não lhe modi-
fica senão a repartição nas diferentes esferas de produção. 
A determinação da própria mais-valia deriva porém 
unicamente da determinação do valor mediante o tempo 
de trabalho. Sem esta, o lucro médio é média de nada, 
é uma simples quimera. E poderia ser tanto de 1000 
como de 10 por cento» (9). 
(') Ele elimina assim a contradição da não correspon-
dência dos valores com os preços, mas repropõe-a dando _urna 
nova determinação do valor. 
(') K. Marx, Storia delle teorie economiche, cit., II, p. 52. 
(9) Idem, pp. 41-42. E ainda: «Portanto, uma vez que o 
valor global das mercadorias regula a mais-valia global e esta 
por sua vez a grandeza do lucro médio e, por consequência, 
da taxa geral de lucro - como lei geral ou como lei que domina 
as oscilações - é a lei do valor que determina os preços de 
produção» (K. Marx, Il capitale, cit., III, p. 223). 
90 
Em conclusão, é sempre o tempo de trabalho que 
determina o valor, é sempre do valor assim determinado 
que se extrai a mais-valia, é sempre da mais-valia que 
deriva o lucro (1º). 
Estas dificuldades, que Ricardo encontra por diante 
ao tornar compatível a lei do valor com a formação 
concorrencial dos preços, são por ele expressasde uma 
forma que lhe é peculiar, e que consiste na afirmação, 
pela sua parte, da impossibilidade de encontrar, para 
a determinação dos valores relativos das mercadorias, 
uma medida de tipo invariável: de facto, diz Ricardo, 
«não existe mercadoria que não esteja . ela própria 
exposta às mesmas causas de variações a que estão 
expostas as coisas que ela deveria medir» (11); e não 
só porque toda a mercadoria está sujeita à possibilidade 
de exigir uma maior ou menor quantidade de trabalho 
para ser produzida, mas também porque, uma vez remo-
vida esta dificuldade, isto é, uma vez que se encontrasse 
uma mercadoria que exigisse, para ser produzida, sempre 
a mesma quantidade de trabalho, ela estaria no entanto 
sujeita às variações causadas por um aumento ou por 
uma diminuição dos salários, na razão da diferente 
composição do capital necessário para a produzir, isto 
é, das diferentes quotas percentuais de capital fixo, 
da sua diferente duração, etc. Todavia, a possibilidade 
da existência de uma mercadoria do género, em Ricardo, 
('") Parece-nos oportuno, ao terminar esta expos1çao da 
resposta marxiana à dificuldade de Ricardo sobre a questão dos 
preços, fazer uma precisão para evitar possíveis equívocos sobre 
o sentido e o papel desta resposta. Marx, de facto, avançando 
o problema da transformação da mais-valia em lucro médio, 
não pretende dar nenhuma nova formulação do valor; mas 
pretende simplesmente rebater a necessária e imprescindível 
derivação dos preços dos valores, o que estava porém já 
implícito e posto na formulação do próprio conceito de valor 
tal como ele está definido no primeiro volume do Capital. 
Noutros termos, o problema marxiano da transformação põe 
não só a qrestão de que os preços podem derivar dos valores 
- e limitar-se a isto seria dar uma interpretação redutiva da 
solução marxiana --, mas que unicamente os valores «explicam» 
os preços, isto é, que só a lei do valor (fundamentada do modo 
como Marx a fundamenta no primeiro volume do. Capital), 
enquanto lei explicativa de todas as categorias económicas, é a 
lei que determina também os preços. 
(") D. Ricardo, Principi cit., p. 29. 
91 
tem simplesmente um valor de funcionalidade; de facto, 
embora, como diz ele próprio, não se tenha conhecimento 
de uma mercadoria de valor invariável, de uma merca-
doria para cuja produção seja necessário sempre a mesma 
quantidade de trabalho, o estabelecer-lhe embora, só os 
caracteres essenciais, «ajuda a fazer conhecer as causas 
de variação do valor relativo das mercadorias e a pôr em 
situação de calcular a medida em que é provável que 
tais causas sejam operantes» (1 2). Desde o momento em 
que, porém, como já se viu, para Ricardo toda a modi-
ficação da taxa geral de lucro tem algum efeito sobre 
o valor relativo das mercadorias além das modificações 
devidas às quantidades de trabalho necessárias para as 
produzir, isto introduz um ulterior elemento de dificul-
dade na determinação de uma tal medida invariável. 
Só que, julgando ele, o que veremos daqui a pouco, 
«relativamente ligeiro» o efeito de uma variação dos 
lucros sobre os preços relativos, e pelo contrário «de 
longe mais importante» as alterações devidas às «quan-
tidades de trabalho necessárias para os processos de 
produção», se se supõe removida esta importante causa 
de variações «é-nos provavelmente possível ter a melhor 
aproximação teoricamente compatível a uma exacta 
medida tipo do valor» (1.1). 
Em conclusão, este problema da possibilidade pelo 
menos de descobrir uma unidade de medida «perfeita» 
é .o modo particular em que Ricardo exprime as difi-
culdades que encontra na determinação da lei do valor, 
uma vez que os valores se tenham mostrado diferentes 
dos preços (14). 
Esta questão é retomada e atacada por Ricardo 
num escrito de 1823. «Valor absoluto e valor de troca» (15): 
tem interesse relembrar este escrito, porquanto nele, 
e em particular na categoria de valor absoluto que 
Ricardo introduz, se quis ver a prova da vizinhança 
( 12) Idem, p. 11. Este é, todavia, um trecho que foi omit.ido 
pelo autor na terceira edição. 
(") Idem, p. 31. 
(") Cfr. C. Napoleoni, «Intorno alia storia dei pensiero 
económico», na Rivista Trimestrale, n.º' 28-30, Novembro de 
1969, pp. 423 e segs., com o qual concordamos também no que 
respeita ao seu juízo sobre o escrito ricardiano de 1823. 
(") D. Ricardo, «Valore abssoluto e valore di scambio», na 
Rivista Trimestrale, n."' 19-20, Setembro-Dezembro de 1966, p. 611. 
92 
deste economista com Marx, e até, na verdade, uma 
directa antecipação do conceito de «valor absoluto», que 
tanto espaço e importância terá na obra de Marx. 
Na realidade, embora não seja certamente desco-
nhecido o papel que Ricardo desempenha na obra de 
Marx, não é neste escrito que ele encontra confirmação; 
de facto a determinação do «valor absoluto» surge em 
tal escrito, além do mais incompleto, exactamente nos 
termos que antes apontávamos a propósito da «medida 
invariável» do valor; o «valor absoluto» ricardiano não 
é senão a reproposição de uma mercadoria, seja embora 
hipotética, que contenha sempre a mesma quantidade 
de trabalho, como unidade de medida dotada do neces-
sário requisito da invariabilidade. 
Relativamente à dificuldade que Ricardo encontra 
na determinação da relação entre preços e valores, e que 
se reflectem na sua formulação da «medida invariável» 
do valor, falámos precedentemente de «abandono» por 
sua parte da teoria do valor-trabalho. 
Na realidade, podemos agora precisar que o «aban-
dono» não é total. 
Em face, de facto, de uma concordância dos pre-
ços com os valores, causada pela existência de uma taxa 
geral de lucro, Ricardo, depois da tentativa de simples 
assunç5o dos preços sob a lei do valor, afirma, como 
há pouco nos aconteceu mencionar, que, conquanto o 
valor do trabalho ou o salário entre de algum ·modo nas 
causas de variação do valor das mercadorias, seria erró-
neo atribuir uma importância excessiva a tal causa. De 
longe mais importante, para o valor, é a diferente quan-
tidade de trabalho que nele se realiza, e por isso ele se 
propõe ficar constantemente agarrado ao princípio de 
que «todas as intensas variações que se determinam no 
valor relativo das mercadorias sejam originadas pelas 
variações para mais ou para menos que, de uma época 
a outra se determinam na quantidade de trabalho neces-
sário para as produzir» (16). 
Deste modo Ricardo mantém a determinação do 
valor na base do tempo de trabalho contido, como aquela 
que é aproximadamente mais exacta, além de ser a mais 
importante, ou que mais incide sobre o valor. 
Feitas estas observações sobre a representação 
ricardiana do lucro, deve precisar-se que tal teoria não 
( 16) D. Ricardo, Princlpi cit., p. 25. 
93 
é de facto subvalorizada, porquanto precisamente a ela 
estão ligados alguns aspectos de interesse desigual da 
análise deste economista. Antes de mais deve observar-se 
isto, que quando Ricardo expõe as leis do lucro, na 
realidade ele está a falar daquilo que Marx chama mais-
-valia; de facto ele, singularmente, fala como se se 
tratasse do lucro de um capital inteiramente investido 
em salários, calculando deste modo o «excedente» como 
se faz justamente para determinar a mais-valia, só sobre 
a parte variável e não sobre todo o capital investido. 
Marx exprimirá este facto dizendo que «está de 
tal modo na natureza das coisas o não poder tratar da 
mais-valia senão em relação ao capital variável, ao capi-
tal directamente investido em salário - e sem conheci-
mento da mais-valia não é possível uma teoria do lucro -
que Ricardo trata todo o capital como capital variável e 
faz abstracção do capital constante, se bem que aqui se 
refira ocasionalmente na forma de antecipações» (17). 
Mas, um dos maiores méritos da teoria ricardiana 
do lucro, e que não foi por acaso que desencadeou o 
«ódio de classe» dos economistas chamados «vulgares» 
depois dele, consiste no facto de que com tal teoria é 
avançada uma primeira análisedo possível contraste 
entre as classes que participam no rédito social global. 
Ricardo, de facto, diferencia-se nitidamente pot um 
certo modo de explicar o lucro: o de o definir como o 
«preço» e a justa compensação que• o capitalista recebe, 
pela sua economia, ou pela sua abstinência (!) do con-
sumo (18); tal é, de facto, o modo de se exprimir daqueles 
economistas que, quando se trata de exaltar os dotes do 
capital e da classe que o representa, enchen;i de imagens 
não privadas de uma certa fantasia o vazio da sua 
análise. 
Ricardo, pelo contrário, tem atrás de si todo o 
peso do precedente smithiano, o qual explicitamente con-
cebe o lucro como uma dedução do produto do trabalho. 
Segundo a teoria ricardiana, por isso, embora não em 
termos de todo explícitos, o lucro deve de qualqqer 
modo derivar do trabalho. O específico «contributo pro-
dutivo» do capitalista (o seu «sacrifício»)- como se 
( 11) K. Marx, Storia delle t,eore economiche, cit., II, p. 94. 
(IB) No que respeita à chamada «abstinência dos capita-
listas» cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, p. 269. 
94 
encontra expresso pela primeira vez em Sénior, mas 
também, em forma reelaborada na economia moderna -
não entra aqui na determinação do lucro, que tem, pelo 
contrário, a forma de um exced~nte produto do trabalho. 
Urna tal definição da origem do excedente faz cair 
toda a ilusão sobre o carácter «harmónico» da relação 
entre as classes, e introduz com força a eventualidade 
de um contraste entre as diferentes classes sociais: entre 
as classes possidentes e os assalariados, e entre os que 
representam as rendas fundiárias e o lucro. 
O primeiro contraste pode dizer-se que nasce sobre 
uma «dissimetria» entre as duas formas de rédito, o lucro 
e o salário, porquanto o primeiro é, rnarxisticamente, 
uma apropriação de mai~-valia, o segundo uma simples 
reconstituição em valor do consumo de força de traba-
lho (e este contraste não redutível a um simples pro-
blema de diferente ou melhor distribuição do rédito, 
como pelo contrário acontece para o segundo motivo de 
conflito, porquanto estreitamente dependente do próprio 
carácter da produção capitalista, é, como dirá Marx, 
insanável dentro dela). 
O segundo contraste nasce, pelo contrário, sobre 
uma «simetria» entre renda e lucro porquanto ambos 
são participações no excedente produto do trabalho, ou 
melhor, como dizia Smith, «subtracções» do produto do 
trabalho. 
Os termos deste conflito entre classes•, Ricardo 
exprime-os a partir do contraste entre proprietários fun-
diários e burguesia (19). A razão deste desencontro entre 
os seus interesses é devida a este facto: se se supõe, 
como faz Ricardo, que o salário dos trabalhadores é 
em grande parte constituído por trigo ou por produtos 
agrícolas, isto é, que é um simples salário de subsistên-
cia, então, enquanto o interesse dos proprietários fun-
diários é manter o mais alto possível o preço de tais 
produtós (de que a renda é constituída), o dos capitalis-
tas é precisamente o oposto: com o aumento do preço 
do trigo eles vêem de facto aumentar o preço do salário 
real, e consequentemente diminuir os lucros. 
Todavia, as formas de oposição entre estas duas 
classes, proprietários fundiários e burguesia, encon-
tram-se explicitadas claramente já em Smith. Este 
«Lutero da economia política», como lhe chama Engels, 
(19) Cfr. C. Napoleoni, lntorno alia storia cit., pp. 427 e segs. 
95 
lança frases de verdadeiro e autêntico desdém contra 
aquela classe de parasitas, composta de nobres, padres 
e advogados, e da extensa multidão das «pessoas da 
corte», que trava e retarda o livre desenvolvimento da 
produtividade, «esbanjando» os seus bens em consumos 
improdutivos (isto é que não reproduzem capital) e sem 
os utilizar no emprego do industrious people ou, como 
também ele diz, dos labouring poors, daqueles trabalha-
dores produtivos que conservam e aumentam a riqueza 
(o capital). Ele sabe que quem sustenta sobre as próprias 
costas «todo o edifício da sociedade humana» é a classe 
trabalhadora, como sabe que «a renda que serve para 
sustentar o fausto de patrão indolente foi toda ganha 
pela laboriosidade do camponês» (2°). 
E tudo isto, embora depois irrompa em expressões 
ingénuas e estúpidas em face das maravilhas suscitadas 
pela «divisão do trabalho» que torna também o pobre 
camponês mais rico que um rico rei indiano ou africano, 
que tem mil e ainda mais escravos ao seu serviço. 
Mas Smith aponta também os termos do conflito, 
bem mais importante e típico da sociedade capitalista, 
que se desenvolve entre proletariado e burguesia, e des-
creve-o além dos termos da desigualdade social entre as 
classes, também com referência às frequentes rebeliões 
operárias contra os patrões, e às bem mais fortes coli-
gações dos patrões contra os operários. Mas a existência 
çleste conflito encontra pela primeir"a vez em Ricardo 
uma motivação precisa através cfo exame das razões 
económicas da irredutibilidade do contraste entre os 
interesses burgueses e os interesses operários. 
Ricardo descobre assim as razões do possível con-
traste entre patrões e operários, embora oão na directa 
relação produtiva entre eles. De facto considerando por 
um lado como dada, fixa, a duração e a intensidade da 
jornada de trabalho, por outro o salário do operário 
como simples salário de subsistência e deste modo ta.m-
bém ele como dado, não encontra aqui motivos de con-
( 2º) A. Smith, La ricchezza delle nazioni, Abbozza, Editori 
Riuniti, Roma, pp. 7-9; para ser mais exacto, neste passo Smith 
exprime-se assim: «o pobre camponês», «enquanto produz tudo 
quanto é necessário para alimentar o luxo de todos os outros 
membros ela comunidade e sustenta sobre as suas costas - como 
de facto acontece - todo o edifício da sociedade humana, parece 
esmagado pelo peso e afastado ela vista dos o,1tros nos mais 
profundos alicerces do edifício». 
96 
flito, dado que, de facto, os lucros se regulam sempre 
pelos salários e aumentam quando estes diminuem e vice-
-versa. Todavia, para o operário, o conteúdo real do salário 
é sempre aquele que corresponde ao nível de subsistência, 
ao simples nível biológico, e não pode descer além deste. 
Segundo Ricardo, portanto, a possibilidade de um con-
flito tem outra origem e precisamente a nível da ocupa-
ção operária. Ele fala dele no capítulo dedicado aos 
efeitos que a introdução das máquinas comporta sobre 
os interesses das diferentes classes da sociedade. 
Neste capítulo Ricardo tem ocasião de voltar a tra-
tar uma tese que havia sustentado antes da . publicação 
da terceira edição dos Princípios. Precedentemente tinha, 
de facto, admitido que da introdução das máquinas 
haviam tirado vantagem todas as classes: os proprietá-
rios fundiários, os capitalistas e os próprios trabalhado-
res, os quais viam aumentar o poder de aquisição do 
seu salário, porquanto, com o aumento da produtividade 
do trabalho em seguida à introdução de novas máquinas, 
é necessário menos trabalho para produzir as mercado-
rias, com a consequência de que o seu valor unitário 
diminui. Que uma parte dos trabalhadores possa ser 
despedida pelo facto de ser consideravelmente reduzida 
a quantidade de trabalho necessária para produzir uma 
mercadoria, é uma dificuldade que precedentemente tinha 
sido por ele superada com a afirmação de que tais tra-
balhadores facilmente encontrariam nova ocupação, por 
obra do novo capital libertado em seguida ao aumento 
dos lucros, noutros sectores produtivos. 
É precisamente sobre esta sua convicção que ele 
agora tem dúvidas, que têm origem numa reflexão sobre 
a distinção entre rédito bruto da sociedade, que é com-
posto dos lucros, da renda e dos salários, e o rédito 
líquido, composto apenas dos lucros e das rendas: ora, 
o rédito. líquido pode aumentar sem que necessariamente 
aumente o rédito bruto, o qual, antes, pode justamente 
diminuir. «O erro em que incorre deriva de supor que 
aumenta o rédito bruto da sociedade sempre que aumente 
o réditolíquido: verifico agora que bem pode acontecer 
que aumente a consistência do fundo, do qual proprie-
tários de terra e capitalistas tiram o seu rédito, enquanto 
diminui, ao mesmo tempo, a consistência do outro fundo, 
do qual particularmente depende a sorte da classe tra-
balhadora: daqui se segue, se não estou em erro, que a 
mesma causa que pode conduzir a um aumento do rédito 
líquido da nação pode tornar ao mesmo tempo excessiva 
a população existente e conduzir a um agravamento das 
condições dos trabalhadores» (21). 
Deste modo um aumento dos lucros e da renda, ou 
seja do rédito líquido, não significa necessariamente um 
aumento do rédito bruto - e de facto, diz Ricardo, ao 
capitalista importa pouco se o lucro, que ele arrecada, 
o arrecada empregando ao seu serviço poucos ou muitos 
operários; portanto, embora o rédito líquido continue o 
mesmo, ou aumente, ele não depende necessariamente 
de um igual ou maior nível de ocupação operária, mas 
pode depender de uma sua diminuição. De facto, e é 
este o exemplo que aponta Ricardo, uma igual massa de 
capital que, em anos sucessivos, converta parte da quota 
de capital circulante (ou seja investida em salários) da 
qual era inicialmente composto, em capital fixo (ou seja 
em introdução de maquinaria) vê manter-se constante 
a grandeza do lucro que realiza, mas diminuir a parte 
investida em salários, e por isso diminuir, continuando 
o mesmo produto líquido, a parte destinada à manu-
tenção do nível de ocupação operária. Daqui a possível 
situação de conflito. 
Sabemos, depois de Marx, como as razões do con-
flito, insanável dentro da sociedade capitalista, entre 
burguesia e proletariado, estão no ponto mais alto dos 
resultados que Ricardo analisa; e estão precisamente 
naquela relação entre trabalho assalariado e capital, 
entre o operário (a força de trabalho) constrangido a pro-
duzir mais-valia como mais-trabalho, e a criar valores, 
mercadorias, que não são produtos seus, mas produtos 
do· capital, e o capital que aumenta e acrescenta conti- . 
nuamente o seu poder e o seu domínio sobre o trabalho. 
Trata-se de um conflito que, radicado profundamente 
na produção capitalista, abre porém ao mesmo tempo 
a possibilidade de alternativa revolucionária: o trabalho 
(21) D. Ricardo, Prindpi cit., p. 296. O sublinhado é nosso. 
Relativamente à hipótese ricardiana da diminuição do rédito 
bruto, Marx dirá que o erro cm que Ricardo cai é o de julgar 
que a grandeza do rédito bruto é determinada pela quota do 
capital social investida em salários, e que consequentemente 
uma diminuição do rédito bruto diminui a força de trabalho 
ocupada. Na realidade, no capital o rédito bruto tende a aumen-
tar pelo desenvolvimento das classes intermédias, embora efec-
tivamente o investimento em capital variável tenda, relativa-
mente à grandeza do capital constante, a diminuir. (K. Marx, 
Storia delle teorie economicl1e, cit., II, p. 261). 
98 
de facto - a classe operaria - , que produz e reproduz 
o capital como poder a ele estranho e hostil, cria ao 
mesmo tempo as condições históricas e sociais para a 
sua total e definitiva libertação. 
Antes de concluir esta parte que diz respeito à eco-
nomia política clássica, lembremos o juízo que Marx 
dela faz numa passagem de Para a Crítica da Economia 
Política. Neste juízo são esclarecidos com extraordi-
nária clareza os pontos sobre que havia encalhado a aná-
lise clássica, e sobre que se tinham concentrado as polé-
micas dos economistas depois de Ricardo. Podem assim 
resumir-se, segundo Marx: «Primeiro: o próprio traba-
lho tem valor de troca, e trabalhos diferentes têm um 
valor de troca diferente. É um círculo vicioso fazer do 
valor de troca a medida do valor de troca, pois que o 
valor de troca que mede tem por sua vez necessidade 
de uma medida ... » A teoria do trabalho assalariado dará 
a resposta. 
«Segundo: se o valor de troca de um produto é 
igual ao tempo de trabalho nele contido, o valor de 
troca de uma jornada de trabalho será igual ao produto 
dela. Ou, o salário do trabalho deverá ser igual ao pro-
duto do trabalho. Mas verifica-se o oposto ... » Este pro-
blema resolvê-lo-emos examinando o capital. 
«Terceiro: o preço de mercado das mercadorias 
diminui abaixo ou aumenta acima do seu valor de troca 
com a variação da proporção entre procura e ,oferta ... » 
Este problema será resolvido na teoria da concorrência. 
«Quarto: ... se o valor de troca não é senão o tempo 
de trabalho contido numa mercadoria, como é possível 
que mercadorias que não contenham trabalho tenham 
valor de troca de simples forças naturais?» Este pro-
blema será resolvido na teoria da renda fundiária (22). 
Esta evocação é-nos útil para abrir o discurso, ao 
mesmo tempo, sobre o carácter geral e sobre o papel 
específico, da teoria marxista do valor. 
Da passagem citada resulta de facto como Marx, 
quando se prepara para dar um fundamento teórico 
definitivo à sua análise do valor no Capital tenha per-
feitamente presentes todas as tarefas que tal análise 
é chamada a cumprir, e os pressupostos de que deve 
partir. 
( 22) K. Marx, Per la critica cit., pp. 43-44. 
Y9 
Capítulo V 
SIGNIFICADO E PAPEL DA TEORIA 
MARXISTA DO VALOR 
Das páginas precedentes resulta, de modo explícito, 
como a análise que se tentou da investigação clássica 
sobre valor, foi feita à luz da fundamental contribuição 
da teoria marxista do valor. Este método de análise 
pareceu-nos correcto e justificado, porquanto se tornou 
assim possível um estudo precisamente «dentre;>» da teo-
ria do valor-trabalho, sendo Marx quem exprime de tal 
teoria e de modo mais completo os pressupostos, o 
significado e o uso, ou o seu destino. 
Marx, de facto, por um lado, retoma e exalta, da 
investigação clássica, aqueles aspectos que tiveram o 
peso e a importância de verdadeiras e autênticas desco-
bertas científicas, por outro, liberta definitivamente tal 
investigação daquelas escórias e daqueles limites bur-
gueses ·que a envolveram em insuficiências e contradi-
ções insuperáveis. 
A tarefa que nos resta afrontar agora é a de reco-
lher as observações, esparsas e desorganizadas, feitas 
até aqui sobre Marx, na tentativa de pôr em evidência 
a peculiaridade e a organicidade do trabalho marxista 
que a fazem constantemente ser «diferente», e não sim-
plesmente qualquer coisa «mais», da análise económica 
precedente. 
O núcleo central da investigação marxista sobre 
valor, e o ponto nodal de diferença entre esta investiga-
101 
ção e a investigação clássica é constituído pelo problema 
do «trabalho abstracto», ou seja pela sua função histó-
rica e pelo seu papel específico no processo de produção 
capitalista, aspecto ,este que precedentemente ocupou a 
maior parte da nossa análise sobre Marx, em relação 
à economia clássica. 
Parece-nos, por isso, oportuno voltar a partir daí, para 
tentar colher o significado do todo original da teoria 
marxista, e a sua total incompatibilidade com toda a 
tentativa tendente a reduzir tal teoria a um simples 
desenvolvimento «teórico», das precedentes e (aparen-
temente) análogas experiências, neste âmbito de inves-
tigação. 
Na verdade, precisamente em torno da categoria 
do «trabalho abstracto» - que, como nota Marx, existe 
«de facto» na economia política clássica, sem que exista 
porém o «conceito» (1), ou seja, existe como dado e cate-
goria real, mas privado de toda a elaboração ou repre-
sentação teórica - Marx constrói a própria análise das 
relações sociais específicas de produção entre as quais 
o trabalho opera, a descoberta da «íntima fisionomia» 
de tais relações de que o trabalho humano recebe a 
importância. 
Precedentemente a nossa análise da categoria mar-
xista da «forma» do trabalho sob o capital deteve-se na 
importante conclusão que o trabalho «humano» que se 
representa nos valores, que assume a forma de valor de 
troca, na sociedade capitalista, é sim trabalho humano, 
mas «abstracto», trabalho social igual, e que tal carácter 
de «abstracção» do trabalho não é um dadonatural, mas 
um resultado histórico, que recebe o seu acabamento 
no âmbito de determinadas e específicas relações de 
produção, precisamente as capitalistas (2). 
( 1) K. Marx, Opere filosofiche giovanili, Editori Riuniti, 
Roma, 1960, p. 194. 
(2) Ou seja, o trabalho abstracto pode dizer-se que apa-
rece já nas formas simples da troca e da circulação, na medida 
em que estas formas constituem a primeira manifestação do 
capital. Mas a abstracção do trabalho determina-se e realiza-se 
totalmente só no capital, em que a troca é fim e princípio da 
produção, e em que o próprio trabalho é reduzido ao papel de 
mercadoria. Em conclusão, o trabalho abstracto - o valor de 
troca - põe o capital, embora pelo seu desenvolvimento simples, 
por sua vez o pressupõe (cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali 
cit., I, p., 224). Sobre o carácter de abstracção e de «estranheza» 
do trabalho, presente já na troca simples, quando as relações 
102 
Detivemo-nos longamente sobre a génese histórica 
e sobre o modo concreto e real da manifestação do tra-
balho abstracto nas relações de troca, porquanto preci-
samente a falta de realce deste traço caracterizou o ele-
mento originário da carência da investigação clássica dos 
problemas económicos em geral. 
Ora, em Marx, existe uma total subversão do ponto 
de vista comum dos clássicos: ele, de facto, chega ao 
conceito de trabalho abstracto (e naturalmente, como 
se viu, ao de força de trabalho) precisamente porque 
distingue, através de uma série de mediações teóricas, 
por um lado o trabalho humano, como elemento natural 
eterno da produção, e por outro, o trabalho na sua 
forma histórica de produto e de elemento do capital. 
Tais mediações são constituídas, antes de mais, 
pela concepção geral marxista de que o trabalho, como 
produção de vida material, ou seja de mercadorias de 
subsistência, é a actividade universal do homem, através 
da qual ele realiza o encontro entre si e a natureza, entre 
si e o outro (o outro homem). 
O homem, antes, é a sua própria actividade produ-
tiva, e a «realidade», a existência dos homens, assenta 
na mesma base material entre a qual eles agem; «o que 
eles são coincide por isso imediatamente com a sua pro-
dução, tanto com o que produzem como com o modo 
como produzem. O que os indivíduos são depende por 
isso das condições materiais da sua produção» (3), do 
modo determinado de manifestar a sua vida. 
Este modo determinado da actividade produtiva 
dos indivíduos é expressão de uma relação natural e 
social ao mesmo tempo; natural, porquanto é o meio 
que regula o intercâmbio orgânico entre o. homem e 
a natureza, e dobra e plasma o elemento natural segundo 
os seus fins, e por sua vez é por este plasmado; social, 
no sentido de que os homens «produzem só quando 
colaboram de um determinado modo e trocam recipro-
camente as suas actividades. Para produzir eles entram 
uns com os outros em determinadas uniões e relações, 
e a sua acção sobre a naturezà, a produção, tem lugar 
sociais aparecem mediadas pelo dinheiro, cfr. além da belíssima 
passagem de Marx ainda nos Lineamenti fondamentali cit., I, as 
pp. 96 e segs. 
( 3) K. Marx, L'ideologia tedesca, Editori Riuniti, Roma, 
1967, p. 9. 
103 
apenas no quadro destas umoes e relações sociais» (4). 
Estabelece-se assim uma recíproca relação, uma 
influência mútua, um intercâmbio entre o homem, a 
natureza e o outro homem, entre o trabalho, o objecto 
material externo e as relações sociais produzidas. 
Como consequência, conforme o carácter determi-
nado dos meios de produção, são diferentes as relações 
sociais que ligam uns aos outros os produtores, as 
« condições nas quais eles trocam a sua actividade e 
participam no acto global da produção» (5); «um modo 
de produção ou um estádio industrial determinado está 
sempre unido com o modo de cooperação ou um estádio 
social determinado, e este modo é ele também uma 
«força produtiva»; daqui deriva que a quantidade das 
forças produtivas acessíveis aos homens condiciona a 
situação social e que por isso a «história da humanidade» 
deve ser sempre estudada e tratada em relação com a 
história da indústria e da troca» (6). A importante 
conclusão que daqui se tira é esta: como a realidade do 
homem e a origem da sua própria história deve pro-
curar-se na sua actividade produtiva de vida material, 
assim as formas históricas determinadas, que o trabalho 
assume, recebem sempre em si a marca das correspon-
dentes relações de produção e reflectem os mesmos 
laços sociais que tais relações estabelecem entre os 
indivíduos. 
Não assumimos aqui a tarefa de indagar o abismo 
que Marx, com tal concepção cava .entre si e a tradição 
filosófica precedente: esta exprime-se contudo pela boca 
dos . «idealistas», para os quais a origem da história 
coincidia com a auto-afirmação do indivíduo isolado, 
como puro acto de vontade, como afirmação de cons-
ciência e o primeiro acto histórico consistia neste des-
pertar do espírito do seu torpor material; ou, pela boca 
dos filósofos empiristas, que partiam de um análogo 
ponto de vista abstracto, os homens de qualquer modo 
fixados fantasticamente, acabavam sempre por fazer do 
movimento da história um movimento ideal: ou «uma 
recolha de factos mortos», como para os empiristas, ou 
«uma acção imaginária de indivíduos imaginários», como 
(4) K. Marx, Lavara salariata e capitale, Editori Riuniti, 
Roma, 1960, p. 48. 
(5) Idem, p. 48. 
(6) K. Marx, L'ideolagia ted,esca, cit., p. 20. 
104 
para os idealistas. Esta concepção comum metafísica po-
voava a história de fantasmas (de ideias) e fazia partilhar 
os homens «no seu processo de desenvolvimento, real e 
empiricamente constatável, sob condições determinadas»; 
pelo contrário, só «onde cessa a especulação, na vida 
real, começa a ciência real e positiva, a representação 
da actividade prática, do processo prático de desenvol-
vimento dos homens. Caem as frases sobre a consciência 
e em seu lugar deve suceder o saber real» (7). 
Ê, pelo contrário, suficiente aqui relembrar o pre-
cedente juízo sobre os economistas clássicos, os quais, 
como os filósofos, partem da acção dos indivíduos isola-
dos e em concorrência entre si, e fazem de tal acção 
o pressuposto de toda a acção (exemplar é o caso de 
Smith), e com a análise das relações de troca e da 
concorrência, ou seja de determinadas relações sociais 
que se estabelecem entre os homens, eles vêem esgotada 
a análise de todo o tipo de relação histórica e social. 
Tal limite teórico da economia política como especifi-
caremos melhor em seguida, constitui não só uma limi-
tação do seu âmbito de investigação, como o obstáculo 
de fundo à científicidade do seu próprio discurso. 
Por isso, e para concluir, se o trabalho assume em 
si, na medida em que as determina, as formas peculiares 
e historicamente determinadas das correspondentes rela-
ções sociais de produção, o trabalho «abstracto», que 
vimos fixar-se nos valores de troca, é assim · princípio 
e fim, origem e resultado das relações de produção 
fundadas sobre a divisão do trabalho pela troca, e 
sobre a concorrência: em resumo, das relações de pro-
dução capitalistas. Assim também, o homem que produz 
tal trabalho é constrangido a fazê-lo isolada e autono-
mamente dos outros homens, mediante instrumentos 
(7) · Idem, p. 14. É necessário todavia acrescentar que para 
Marx este ponto de vista abstracto e metafísico dos filósofos, 
de partir do indivíduo isolado e separado dos outros homens, 
não é senão, paradoxalmente, o refl~xo acrítico de uma reali-
dade que é ela própria abstracta e metafísica, ou, como diz 
Marx, «virada do avesso», cm que o homem está separado, 
estranho aos objectos, a si, aos outros homens. Coerentemente 
com os seus pressupostos teóricos, Marx fará coincidir a desmis-
tificação e a superação real do estado de alienação e de fractura 
do homem na sociedade civil, não com um acto puramente 
mental, mas com um acto prático, um acto revolucionário. E este 
é o sentido profundo e o próprio culminar de todoo pensamento 
marxista. 
105 
e meios de produção que não lhe pertencem e tendo 
como fim da sua actividade um produto que não é o 
seu: é o homem estranho e contraposto ao objecto, a 
si próprio e aos outros homens: é o homem alienado. 
O trabalho abstracto é por isso não o trabalho em 
geral, do homem em geral, mas o trabalho do homem 
alienado, é o trabalho alienado na sociedade burguesa. 
O trabalho vivo, elemento real de toda a produção, 
não surge senão «como meio de valorizar os valores 
existentes, e por isso capitalizá-los». Ele não se manifesta 
mais «no trabalho material como no seu órgão objec-
tivo», mas é o trabalho acumulado, materializado nos 
meios de produção que, agindo como capital, «se con-
serva e cresce sugando trabalho vivo, tornando-se assim 
valor que se valoriza». 
Não é o trabalho que usa os meios de produção, 
mas são os meios de produção que usam o trabalho, 
são as «coisas» que fazem mover e dominam o homem. 
«Como esforço, como manifestação de energia vital, 
o trabalho é actividade pessoal do trabalhador, mas 
enquanto criador de valor ... o trabalho do operário, 
entrado que seja no processo produtivo, é ele mesmo um 
modo de existir do valor-capital, sua parte integrante»; 
esta força criadora de valor é força do capital, «melhor 
ainda, do empobrecimento do operário, que cria valor, 
mas que o cria como valor a ele estranho» (8). · 
:É claro como tal concepção marxista do trabalho 
·abstracto como trabalho alienado na sociedade capita-
lista, que encontra a sua sistematização definitiva, com 
todas as consequências teóricas e práticas que de tal 
concepção se extraem, em O Capital, constitui, por outro· 
lado, o fio que estabelece a continuidade e a coerência 
da obra juvenil marxista com a da maturidade. 
Nos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 
Marx, embora não tendo ainda totalmente organizado 
e articulado o seu discurso económico, precisamente 
neste seu conceito de trabalho marca o seu total destaque 
da economia burguesa. Esta, de facto, nos seus máximos 
expoentes como Smith e Ricardo, reconduziu as «cojsas» 
ao trabalho do homem; mas, «sob a aparência de um 
reconhecimento do homem, a economia política cujo 
princípio é o trabalho, é, antes, apenas a consequente 
( 8) Todas as citações são extraídas de: K. Marx, II capitale, 
Livro I, cap. VI, cit., pp. 18-19. 
106 
efectivação da renegação do homem» (9) desde o momento 
em que o homem e a sua actividade não são mais 
«sujeitos» da vida produtiva, mas objecto e meio da 
propriedade privada. 
O trabalho, que em situação capitalista é ainda 
o único nexo que liga os homens às forças produtivas 
estranhas a si e à sua própria existência, perde para 
ele «toda a aparência de manifestação pessoal e mantém 
a sua vida somente entristecendo-a» (10). O trabalho não 
é mais a actividade vital do homem, mas a vida do 
homem é, apenas fora de tal actividade: no acto de 
comer, beber, ir para a cama. 
Tal alienação do trabalho, como «expropriação da 
actividade humana e força substancial porquanto acti-
vidade e força substancial genérica», cujas expressões 
sensíveis são a propriedade privada, a divisão do trabalho 
e a troca (li), atinge o seu ponto mais alto, a sua extrema 
forma perfeita no capitalismo, em que as forças do 
trabalho estão a tal ponto separadas do homem que 
as produz, a produção de vida material está a tal ponto 
separada da manifestação pessoal, que o trabalho, a 
actividade vital do homem, pela sua essência torna-se 
«apenas um meio para a sua existência» (12). 
Todos os Manuscritos se desenvolvem em torno 
deste tema central, ou seja da distinção entre trabalho, 
como actividade vital e essencial do homem, como a 
produção prática de um mundo objectivo, mediante a 
qual o homem conscientemente estabelece relação com 
a natureza e os outros homens, como com o seu próprio 
ser, e o trabalho abstracto do indivíduo isolado e abs-
tracto, na actual sociedade capitalista. 
Nesta insistência de Marx sobre este conceito, que 
constitui precisamente aquilo de que ele faz partir a 
sua análise económica, e a sua crítica à precedente 
posição clássica, e que é depois dado como adquirido, 
ou melhor, é directamente assumido e desenvolvido 
(') K. Marx, Opere filosofiche giovanili, cit., pp. 219-20. 
('º) K. Marx, L'ideologia tedesca, cit., p. 63. 
(li) K.Marx, Opere filosofiche giovanile, cit., pp. 250-1. 
E acrescenta: «Divisão do trabalho e troca são os dois fenómenos 
pelos quais a economia se vangloria do carácter social da sua 
ciência e exprime ao mesmo tempo, inconscientemente; a contra-
dição da sua ciência: a fundação da sociedade sobre o associai 
interesse particular». 
(") Idem, p. 199. 
107 
no seu «resultado», em O Capital, está todo o sentido 
e o carácter peculiar do discurso científico marxista. 
Esta concepção, de facto, longe de ser o ponto de partida 
«ideal» ou pior ainda, o pressuposto moral que Marx 
colaria ao seu discurso científico, é, pelo contrário, 
a própria substância de tal discurso. 
Por outro lado, a relação entre trabalho abstracto 
e capital é dúplice. Por um lado, o trabalho abstracto 
é elemento e momento do capital (embora conservando 
algumas formas e características do trabalho em geral, 
o que lança os economistas na confusão mais profunda), 
por outro lado o trabalho abstracto é também o próprio 
fundamento ineliminável da vida e da reprodução do 
capital (outra fonte de contradição para os economistas: 
o capital é produtivo, como também o trabalho é pro-
dutivo). Noutros termos o traballho é «sangue e linfa 
do capital», embora sendo - ou precisamente porque 
o é - submetido por ele. 
Desenvolvemos esta proposição, que investe a pró-
pria essência da relação entre capital e trabalho, ou 
a condição geral do trabalho e do seu contraposto, 
o capital. 
O trabalho, no capital, é a «miséria absoluta como 
objecto», e ao mesmo tempo, a «possibilidade geral da 
riqueza como sujeito e como actividade»; ele, «existência 
antitética do capital», é «pressuposto do capital, e por 
outro lado pressupõe pela sua parte o capital» (13). 
O capital, por outro lado, como poder sobre o 
trabalho, apresenta-se como realidade geral da riqueza, 
que constantemente se apropria e engrandece com a 
riqueza produzida. . 
Ele é a superação das formas imperfeitas e limi-
tadas de riqueza da troca simples, no qual o fim do 
processo económico no consumo interfere de imediato 
com a própria natureza do valor de troca- o dinheiro -
tendente a ultrapassar todos os seus limites intrínsecos; 
no qual, por isso, a realização do valor de uso como 
valor de troca e vice-versa, coincide com a sua negação 
e a sua anulação, na sua existência material, um, na sua 
forma geral e universal de riqueza, o outro (o dinheiro), 
cuja unidade é ainda imediatamente a sua diferença, 
(") K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., I, p. 280. 
108 
e cuja diferença é ainda imediatamente a sua unidade (14). 
Pelo contrário, o capital é ao mesmo tempo o 
valor de uso realizado e o valor de troca realizado. 
Ele é todos os valores de uso e todos os valores 
de troca: a sua determinação formal é a sua univer-
salidade, o seu movimento e o seu fim, a superação de 
todo o limite quantitativo que contradiga a sua qualidade 
de representante geral da riqueza: a sua actividade é 
pois só a do enriquecimento, do incremento e da multi-
plicação de si próprio. 
Mas ele é assim, e torna-se, só como expressão, resul-
tado e essência de determinadas relações sociais (o con-
trário, pois, da opinião comum que faz do movimento do 
capital a miraculosa actividade de uma «coisa»; exem-
plaridade de Ricardo, para o qual o capital é simples 
trabalho acumulado, objectivado; também os economis-
tas povoam a história de fantasmas) (15). 
O capital é uma relação burguesa de produção, 
uma relação de produção da sociedade burguesa. O capital 
é capital, porquanto como força social autónoma, inde-
pendente, como força de uma parte da sociedade, se 
conserva e aumenta mediante a troca com a forçade 
trabalho viva, imediata (16). 
A possibilidade da apropriação do trabalho por 
parte do capital é fundada sobre o que paradoxalmente 
aparece como seu resultado: a separação entre proprie-
dade e trabalho, entre trabalho e riqueza: ela é antes a lei 
necessária desta troca. 
O trabalho, de facto, no capital, existe como «tra-
balho separado de todos os meios e objectos de trabalho, 
de toda a sua objectividade. :É o trabalho vivo existente 
('4) Idem, pp. 247 e sgs. O valor de troca - o dinheiro-, 
não pode realizar-se senão suprimindo-se como valor de uso; 
o valor· de uso não pode realizar-se como riqueza senão supri-
mindo a sua essência material; cfr. idem, p. 236: «Dizemos troca 
dinheiro-mercadoria: quer dizer que o valor de troca da merca-
doria desaparece face à sua essência material; dizemos troca 
mercadoria-dinheiro: quer dizer que a sua essência desaparece 
face à sua forma de valor de troca. No primeiro caso é cancelada 
a forma do valor de troca, no segundo a sua essência; em 
ambos por isso a sua realização é uma realização evanescente». 
(15) Cfr. K. Marx, Lavara salariato e capitale, cit., p. 47. 
«O capital é trabalho acumulado que serve como meio para uma 
nova produção. Assim dizem os economistas. O que é um escravo 
negro? Um homem de raça negra. Uma explicação vale a outra». 
( 16) Idem, p. 50. 
109 
como abstracção destes momentos da sua efectiva reali-
dade (e também como não-valor)». Ele é «não matéria-
-prima, não instrumento de trabalho», é a completa 
expolição, pura existência subjectiva (existente na simples 
possibilidade física do operário de libertar trabalho ao 
contacto do capital), privada de toda a objectividade (17). 
Em face do capital, pois, como toda a propriedade 
e toda a riqueza, em face do capitalista sua personifi-
cação, está o operário, apenas possuidor de uma só 
propriedade e de um só poder, a propriedade da pró-
pria força de trabalho, simples trabalho em potência, e o 
poder da livre troca da sua capacidade laboral. 
A troca entre os dois, por isso, fundada sobre o 
direito de propriedade e sobre a recíproca autonomia, 
adquire juridicamente o título de uma troca entre iguais: 
proprietários livres num mercado livre. Mas se por um 
lado o operário vende, em troca dos seus meios de 
subsistência, por um valor já fixado precedentemente, 
o equivalente trabalho objectivado na sua força de 
trabalho, que para ele é de outro modo privada de 
valor, pela outra o capital recebe-o como trabalho vivo 
produtor de riqueza, como força criadora e vitalidade 
fecundante. De facto por isso, realizada a troca, o 
operário encontra-se tal como antes - recebeu o exacto 
equivalente da sua capacidade laboral- e constrangido, 
uma vez consumado tal equivalente, a renovar a troca; 
o capital, pelo contrário, no fim da troca, encontra-se 
na posse da actividade criadora de. valores: o primeiro, 
portanto, empobrece-se e torna-se cada vez mais pobre, 
o segundo aumenta cada vez mais o seu domínio sobre 
o valor de uso da capacidade laboral: o trabalho. 
Esta troca, que tem toda a aparência de uma troca 
simples, é assim só para o operário que recebe o equiva-
lente daquilo que dá, o trabalho contido na sua força 
de trabalho, esta mercadoria que existe no seu próprio 
organismo; para o capitalista ela é, pelo contrário, uma 
não troca, é a utilização, o consumo da força de tra-
balho no processo produtivo onde finalmente ele vê 
realizado o seu objectivo: a transformação dos elementos 
mortos do seu capital em instrumentos criadores · de 
nova riqueza. 
Só em tal processo real de produção, onde a força 
de trabalho é consumada de modo produtivo, de modo 
(") K. Marx, Líneamenti fondarnentali cit., I. p. 279. 
110 
a criar novos valores de troca, a troca entre capital 
e trabalho existente na esfera da circulação se realiza 
efectivamente (o consumo, neste caso, porquanto con-
sumo de uma mercadoria especial, a força de trabalho, 
não sai fora da circulação, como na troca simples entre 
mercadorias e dinheiro, mas, através do processo de pro-
dução e de valorização do capital, reentra aqui como valor 
acrescentado). Deste modo aquilo que estava pressuposto 
no início do processo encontra-se por fim como seu pró-
prio objectivo, ou seja através da simples assunção do 
trabalho vivo como acto que gera e multiplica a riqueza, 
o valor de troca, que estava pressuposto no início, é 
também o termo do processo, como acrescido valor 
de troca. 
Portanto, o processo, visto na sua totalidade e 
circularidade - a realização na produção, da troca, 
aparentemente simples e igual, havida na circulação, entre 
capital e trabalho, através do consumo da força de 
trabalho para a criação de novo e acrescido valor de 
troca - revela até ao fundo a sua natureza: tal troca 
aparente é, não só uma troca fundada na desigualdade 
(separação entre trabalho e riqueza, entre meios de 
produção e trabalho), mas uma troca também, que 
esconde, no que respeita ao operário, a alienação da 
própria força de trabalho a um valor pré-determinado, 
e a exploração, no processo de produção, de tal capa-
cidade além do seu valor, como actividade criadora de 
riqueza, como valorização do capital; no que respeita 
ao capital, pelo contrário, ele esconde a aquisição, medi-
ante a compra da força de trabalho, da total disponibi-
lidade sobre o seu «uso», completamente desvinculado 
do seu «preço», do valor pago. 
Graças, pois, à compra e venda daquela mercado-
ria especial que é a força de trabalho, o capital tem 
a possibilidade de receber grátis todo o tempo do seu 
funcionamento no processo produtivo, durante o qual, 
ela, como trabalho em acto, produz «um valor de uso 
superior para outros» (isto é, produz um valor de uso 
que supera aquele por ela pago, ·e produ-lo para outros) 
«e por isso, um valor superior de troca» (18). Mas o 
capital, além de vender multiplicado o valor de troca 
introduzido na produção, e por isso, alargar constante-
mente a base da sua riqueza, adquire ao mesmo tempo 
(") Idem, p. 300. 
111 
a possibilidade de se conservar na sua base material, 
como valor de uso (19). De facto, a «nobre força repro-
dutiva» (2°) cedida pelo operário como força determinada 
qualitativamente, como força específica, útil, tem a 
capacidade ao mesmo tempo, de conservar, modificar, 
transformar em novos valores de uso, os velhos valores, 
os meios de produção mediante os quais trabalha. 
O capital, portanto, atinge o duplo efeito de auto-
valorizar-se, no próprio momento em que se autoconserva 
como capital. 
Todo o seu mistério está resolvido. A sua total 
existência é afirmada: como conservação da forma mate-
rial da riqueza e como multiplicação dela mesma. 
Mas vejamos as coisas mais de perto. 
O capital apropriando-se do valor de uso da força 
de trabalho pode, portanto, querer apoderar-se implici-
tamente dos dotes naturais do trabalho vivo, que, como 
trabalho específico particular e aderente aos meios de 
produção sobre que trabalha possui a qualidade de 
conservar quantitativamente e transformar os velhos 
valores de uso (tal é de facto o papel material do 
trabalho no processo de produção, que reentra no seu 
valor de uso e pertence portanto, como tal, ao capital), 
quer desfrutar programaticamente as características do 
trabalho «induzidas» pelo próprio capital, de ser trabalho 
abstracto, igual, que, usado quantitativamente como puro 
tempo de trabalho socialmente necessário, cria valores 
novos, quer dizer não existentes no início do processo. 
O trabalho humano abstracto, elemento dinâmico da 
produção, constantemente cresce e desenvolve o processo 
produtivo, não através de uma simples reprodução, mas 
como uma criação sempre nova de valor. . 
Daqui deriva que a possibilidade de prolongamento 
«quantitativo» do trabalho além do equivalente pago, 
ou seja além. do tempo de trabalho necessário à força 
de trabalho para conservar e reproduzir-se a si mesma, 
é a mesma possibilidade de libertar mais-trabalho como 
mais-valia e de produzir mais-valia comomais-produto. 
Todavia, tais aspectos e características do trabi,llho 
que agem como força e energia vital do capital, aparecem 
depois e de facto são reduzidas às suas simples manifes-
tações, momentos e ·«apêndices» da sua autovalorização. 
(") Idem, p. 371. 
("') K. Marx, Lavoro s(ilariato e capitale, cit, p. 51. 
112 
A actividade dinâmica e criativa do trabalho, comple-
tamente absorvida e incorporada pelo capital, coincide 
com o ritmo e a força do seu próprio movimento. 
De novo, à superfície do processo, onde toda a 
mediação aparece só na forma do seu resultado, os 
termos aparecem ao contrário: o carácter propulsivo do 
trabalho torna-se forma própria do capital. Os valores 
de troca, as mercadorias, o salário como preço do tra-
balho, a força de trabalho como meio de produção 
entre os outros, o lucro como juro, etc., acabam por 
explicar e exaurir todo o ciclo da actividade económica; 
são os próprios fenómenos reflexos que se encontram 
depois como principal objecto da análise dos economistas. 
Dado, assim o duplo carácter do trabalho, pelo 
qual ele, por um lado é trabalho útil determinado - ou 
seja a forma natural eterna do trabalho, que, como 
actividade finalista e formadora, concilia a indiferença 
entre matéria e forma, entre objecto natural e ideia (21) 
e em que instrumento e material são momentos do 
trabalho - e, por outro lado, é trabalho abstracto criador 
de valores, o movimento real do capital parece desa-
parecer totalmente no seu resultado. Volta-se à contra-
ditória posição de que havíamos partido: o trabalho 
( 21 ) «Uma vez postos como condições de trabalho vivo, 
instrumento e matéria-prima são reanimados»; deste modo, 
através do trabalho vivo «o material é conservado numa forma 
determinada, ou seja a alteração de forma da matéria é subor-
dinada ao objectivo do trabalho. O trabalho é fogo que dá vida 
e forma; as coisas são transitórias, temporais, uma vez que 
sofrem a actividad,e formadora do tempo vivo». K. Marx, 
Lineamenti fondamentali cit., I, p. 365. O sublinhado é nosso. 
Este conceito marxista de trabalho, como actividade for-
madora, poderia facilmente ser aparentado à análoga definição 
que Hegel dá do trabalho: na realidade a utilização da deter-
minação do trabalho como acto finalístico do homem é pro-
fundamente diferente nos dois. Em Hegel, como diz Marx nos 
A1anoscrltti (cit., pp. 263-4), o conceito de trabalho é determinado 
de modo unilateral e abstracto; unilateral, porquanto a acen-
tuação do trabalho como actividade plasmadora e finalística 
do objecto é feita sem consideração P.ela relação causal e neces-
sária entre o homem e a natureza, o objecto externo do trabalho 
de que se vê por isso só o aspecto positivo, não o negativo; abs-
tracto, no sentido de que apenas o trabalho que Hegel conhece e 
reconhece é o trabalho espiritual abstracto. Para o conceito de tra-
balho cm Hegel, cfr. além dos dois cursos de Lições de lena, que 
são os mais ricos de alusões sobre tal assunto - e em que se 
ressente forte influência dos economistas e de Smith sobretudo -
também a Fenomenologia dello spirito, La Nuova Italia, Florença, 
1963, e Lineamenti di filosofia del diritto, Laterza, Bari, 1965). 
113 
produtor de capital aparece como - e é - seu produto 
e seu elemento: mas esta não é senão a mesma necessária 
e inevitável contradição implícita na assunção do tra-
balho sob o capital, ou seja a de poder existir, como 
força produtiva, só na forma de trabalho assalariado, 
de trabalho alienado. E este é ao mesmo tempo o 
segredo que ficará para sempre hermeticamente fechado 
aos olhos dos economistas burgueses, que olham os 
factos da economia capitalista com os mesmos olhos 
do capital. 
Esta exposição, ampla mas necessária, da análise 
marxista do carácter geral da economia capitalista, total-
mente fundada na troca entre capital e trabalho vivo, 
consente-nos retomar e reafirmar, a um nível mais alto 
de compreensão, a peculiaridade e a complexidade do 
instrumento teórico principal de que Marx faz uso para 
levar ao fim tal análise: a teoria do valor-trabalho. A teo-
ria marxista do valor representa a expressão mais alta 
e acabada da teoria do valor-trabalho: e não simples-
mente no sentido de que ela constitui o prolongamento 
teórico da análoga teoria precedente, mas no sentido 
mais geral de que, relativamente a esta última, ela é a 
ruptura e a contraposição de um ponto de vista com-
pletamente diferente. 
O seu mérito fundamental é o de ter feito remontar 
claramente o valor das mercadorias apenas ao trabalho. 
. Este foi na realidade o resultado de maior inte-
resse da economia política clássica, no seu máximo 
expoente, Ricardo; mas ter restituído ao trabalho os 
seus próprios produtos não foi todavia suficiente para 
reconhecer por detrás de tais produtos do trabalho as 
reais relações sociais que lá estavam escondidas e con-
sequentemente para libertar de modo definitivo o tra-
balho da sua forma de coisa (a forma reificada, mistifi-
cada e alienada do traba]ho sob o capital); pelo que na 
análise clássica afloravam sempre, na determinação do 
valor, quanto aos elementos próprios do trabalho, os 
elementos imediatos e visíveis do capital, que acabavam 
por assumir um papel autónomo contraposto ao trab;;tlho. 
Marx, pelo contrário, reivindica finalmente só e 
apenas para o trabalho o papel de elemento essencial 
e determinante do valor, relegando toda a possível inter-
ferência a tal determinação, no campo das formas feno-
ménicas, quando não verdadeiramente transitórias, dos 
movimentos do capital. E tudo isto, na medida em que 
114 
é ao mesmo tempo reinvindicada só para o trabalho 
humano vivo a capacidade de criar valor e mais-valia, 
e de ser por isso, além do carácter essencial, também 
o instrumento indispensável e insuprimível do capital. 
Em Marx, por isso, existe perfeita coincidência 
entre o trabalho enquanto medida substancial do valor 
(na determinação de tempo de trabalho) e o trabalho 
enquanto elemento que desempenha o papel determi-
nante no processo produtivo, como único elemento cria-
dor de novo valor. Noutros termos, em Marx o problema 
da medida do valor e o da causa do valor confluem e 
identificam-se num problema único (em contraposição 
especialmente a Smith, no qua] pode encontrar-se tal 
problema da não causalidade da escolha da medida com0 
exigência teórica, pois, de facto, a medida do valor, que 
Smith obtém mediante o valor do trabalho, prescinde 
da causa do mesmo valor, ou seja a quantidade de tra-
balho necessária; análoga posição se encontrará em 
Malthus). 
Esta posição marxista, a afirmação de que a origem 
do valor e da mais-valia está no trabalho, não está em 
contradição com a tese de que o trabalho é simples 
momento e elemento do capital, mas antes, precisa-
mente por estar o trabalho submetido ao capital deriva 
a sua possibilidade de ser elemento criador de valores, 
e a sua necessidade de finalizar o valor na criação de 
mais-valia (22). 
(22) Deste carácter necessano do trabalho submetido ao 
capital, e elemento criador de valor e mais-valia, derivam 
segundo Marx duas consequências fundamentais que aqui apon-
tamos apenas, propondo-nos retomá-las em seguida: a) de reco-
nhecer precisamente em tal trabalho coercivo, na contrição 
à mais-valia, a grande função histórica do capital: a de revo-
lucionar toda a técnica produtiva, diminuindo constantemente 
o tempo de trabalho necessário, e lançando as bases para a pos-
sível e êlefinitiva libertação do homem do trabalho (K. Marx, 
Lineamenti fonclam,entali cit., I, p. 317: «Na sua incessante ten-
são para a forma geral da riqueza, o capital impele o trabalho 
para além dos limites das suas necessidades naturais, e deste 
modo cria os elementos materiais para o desenvolvimento de 
uma individualidade rica e dotada de aspirações universais tanto 
na produção como no consumo»); h) de fundar, precisamente 
na necessária e essencial contradição de que o trabalho sob o 
capital conserva (de ser miséria absoluta como ob,iectoe pos-
sibilidade absoluta de riqueza como sujeito, reduzido por isso 
de sujeito a objecto e instrumento do capital) a sua própria 
teoria revolucionária, soldando o fim do papel histórico do 
capital ao papel revolucionário da classe operária. 
115 
Daqui o carácter peculiar da teoria marxista, que 
precedentemente procurámos sublinhar, de ser teoria 
completa do valor ao mesmo tempo que se apresenta 
também como teoria da mais-valia. Deste modo, através 
da multiplicidade de mediações que foram esclarecidas 
no decurso da análise, resulta como o assunto e funda-
mento teórico da investigação sobre o valor está defi-
nitiva e coerentemente posto por Marx, ao fazer da 
«forma» do trabalho, o trabalho abstracto, a forma 
absoluta do valor, e ao medir, relativamente aos outros 
valores, as grandezas de valor produzidas, segundo a 
unidade temporal do trabalho «socialmente» necessário 
(e por isso já reduzido à sua simplicidade e à igualdade 
com os outros trabalhos) necessário para a sua produção. 
Mas a explicitação de tal posição teórica marxista 
não esgota, na realidade, todo o discurso sobre o carácter 
da sua teoria do valor. O outro aspecto original, a ela 
inseparavelmente ligado, é o da descoberta, precisa-
mente mediante tal teoria, das efectivas relações sociais 
que se escondem por detrás das relações e categorias da 
produção capitalista. Isto que de facto se mostra, segundo 
Marx, à superfície de tais relações e categorias, é só o 
seu movimento aparente e fenoménico, não a sua efec-
tiva realidade (23). 
A tarefa dos economistas relativamente a este movi-
·mento aparente foi sempre a da. sua assunção acrítica; 
e o resultado de tal assunção, como é óbvio, foi não a 
realidade, mas a realidade «deformada» num facto 
empírico. 
Ponto de vista oposto tem-se com .Marx. Vejamos 
porquê. Antes de tudo o ponto de partida e o resultado 
da descoberta marxista do mundo mistificado das mer-
cadorias encontra-se na sua própria determinação da 
forma de valor, de mercadoria, que o produto do tra-
balho assume no modo de produção capitalista. Esta 
característica específica do trabalho sob o capital de se 
dever apresentar na forma do valor, que está completa-
(23) Recorde-se o que diz Mar~ eip. Per la critica c!t., p. _16: 
«Característico do trabalho que ena valor de troca t;, en~im, 
que a relação social <!as pe~soas se <l;presenta por assim dizer 
ao avesso, como relaçao social das coJSas» 
116 
mente ausente da análise da economia clássica (24), é a 
sua forma fundamental, a mais universal daquilo que 
é para Marx o «feiticismo» económico, o feiticismo das 
mercadorias. De facto precisamente a forma de merca-
doria, ou seja de bem produzido para a troca, que os 
produtos do trabalho assumem, transfere continuamente 
as qualidades do trabalho humano, social, para as pró-
prias coisas, e enquanto os caracteres do trabalho pare-
cem tornar-se propriedades imanentes às coisas, estas 
últimas parecem animadas de vida própria, autónoma. 
O trabalho humano resulta coisificado, reificado, as coi-
sas personificadas. 
A forma feiticista das mercadorias generaliza-se a 
todas as categorias económicas da produção capitalista, 
é a própria essência delas, e as relações sociais dos indi-
víduos na sua totalidade aparecem «como relações de 
coisas entre pessoas e relações sociais entre coisas» (25). 
Portanto, o «mistério» da forma da mercadoria, 
desta coisa «sensivelmente supra-sensível», consiste sim-
plesmente «no facto de que tal forma, como num espe-
lho, restitui ao homem a imagem dos caracteres sociais 
do seu próprio trabalho, fazendo-lhes aparecer como 
caracteres objectivos dos produtos daquele trabalho, 
como propriedades sociais naturais daquelas coisas, e por 
isso restitui também a imagem da relação social entre 
produtores e trabalho global, fazendo-o aparecer como 
uma relação social entre objectos existentes f9ra desses 
produtores» (26). 
Mas este feiticismo que se «pega aos produtos do 
trabalho», aos produtos da «mão humana» que apenas 
são produzidos como mercadorias, e que mistifica o 
movimento aparente das coisas pelo movimento social 
real, apresentando a realidade subvertida, «do avesso», 
é de facto a própria realidade. O carácter feiticista do 
mundo das mercadorias é por isso uma coisa muito prá-
(") Recorde-se a impossibilidade smithiana e ricardiana 
de dar uma resposta a tal problema, do porquê o trabalho 
contido no valor, dever assumir aquela forma, a forma do valor, 
e como, por consequência, a sua análise, desenvolvendo unica-
mente a determinação das grandezas de valor não representar 
nunca teoricamente este supremo limite de abstracção produ-
zido pela economia capitalista. 
(25) K. Marx, ll capitabe, cit., I, p. 105. 
(26) Idem, p. 104. 
117 
tica e muito real que «surge do carácter social peculiar 
do trabalho que produz as mercadorias» (27). 
Os valores de uso apresentam-se como mercadorias, 
ou seja, como valores de troca, só enquanto «produtos 
de trabalhos privados, executados independentemente 
uns dos outros» (28), nos quais o momento da sociabili-
dade se realiza através da sua real diferença; consequen-
temente: o trabalho apresenta-se nas mercadorias só 
enquanto trabalho abstractamente humano, simples dis-
pêndio de força de trabalho humana. 
Neste sentido, as relações sociais entre os trabalhos, 
dependendo efectivamente das condições nas quais a 
troca põe os produtos do trabalho e os próprios produ-
tores, aparecem a estes últimos como aquilo que são, 
não como relações imediatamente sociais entre pessoas, 
mas como relações sociais entre coisas. 
Este carácter feiticista, e generalizado a todo o 
mundo das mercadorias, atinge além disso o mais alto 
grau no particular feiticismo da mercadoria força de 
trabalho, cuja existência como mercadoria esconde, sob 
a aparência da troca simples, o carácter de exploração 
do modo de produção burguesa: nela se realiza final-
mente o feiticismo já contido na própria forma de 
mercadoria. 
É claro neste ponto, como Marx, através da análise, 
em O Capital, do carácter de feiticismo da mercadoria 
~ do seu mistério, intui um íntimo laço entre a análise 
do carácter «alienado», estranho, ·do trabalho das suas 
obras juvenis, e a forma também «estranha», abstracta, 
reificada, do trabalho como essência do valor; o trabalho 
abstracto aparece como o trabalho alienado na sacie- · 
dde burguesa, a forma perfeita da alienação. 
Concluindo, a teoria do valor, vista na sua globa-
lidade, pode verdadeiramente, como se fez (29), ser defi-
nida como a própria teoria do feiticismo. 
(27) Idem, p. 105. 
(28) Idem, p. 105. 
( 29) Cfr. L. Colletti, «Introduzione a Bernstein», Socialismo 
e socialdemocrazia, Laterza Bari, 1968, p. XLIV, na qual é· reto-
mada, no fim de uma correcta interpretação da fundamentação 
marxista da lei do valor, a temática da relação, fundamental 
em Marx, entre alienação e feiticismo (cfr. também, do mesmo 
autor, Il marxismo de Hegel, Laterza, J,3ari, 1969). Outro impor-
tante contributo vem-nos ainda de L. Colletti, tendo ele aberto, 
de novo, o discurso sobre como a teoria do valor marxista 
- enquanto teoria do feiticismo, ou seja enfim enquanto assun-
118 
Afirmar isto no fim das nossas considerações sobre 
as formas peculiares e os caracteres gerais da teoria 
marxista do valor, não quer dizer senão tornar explí-
cito, no seu significado mais completo, o próprio fun-
damento teórico e ponto de partida da análise marxista: 
o valor segundo a «forma» (3°), isto é, a forma determi-
nada que o trabalho assume como essência do valor. 
Isto significa ao mesmo tempo reafirmar a distância 
que separa Marx da precedente análise clássica, pela 
qual o motivo da falta de análise da «forma de valor», 
se apresenta ao mesmo tempo como motivo estranha-
mente ideológico, político, ou seja de aceitação e de 
defesa, de um ponto de vista naturalista, dos caracteres 
e das categorias históricas e específicas do capital. 
Pelo contrário, «pelo facto de ter simplesmente 
desmascaradotodas as categorias económicas como um 
único grande feiticismo, Marx, na sua nova teoria, ultra-
passou realmente todas as formas e fases da economia 
e da sociedade burguesa» (31), e assumiu sobre si o ponto 
de vista de uma classe, a classe operária, a qual é cha-
mada a desempenhar um papel histórico não já corpora-
tivo, mas universal, o da superação revolucionária das 
relações capitalistas de produção, para a completa e 
definitiva emancipação do homem das relações de pro-
dução «alienadas», que se encontram justamente no 
capitalismo. 
A formulação marxista do valor, que. vimos de 
modo explícito, enfim, fundamentar-se sobre a distinção 
entre valor como tal (o valor segundo a «forma») e a 
sua forma fenoménica, o valor de troca (as relações 
entre as grandezas de valor) - distinção que não se 
encontra nem na análise que precede Marx, nem na 
seguinte - e consequentemente configurar-se não como 
ção explícita do ponto de vista de uma determinada classe, a 
classe operária - se apresenta como unidade inseparável de 
ciência e ideologia, economia e política, teoria e práxis revolu-
cionária (cfr. o artigo publicado em Il Manifesto, «Marxismo: 
scienza o rivoluzione?», Julho de· 1969). Retomaremos o pro-
blema dentro de pouco. 
(30) Esta fórmula, diz Marx, tem assinalada na frente a 
sua «pertença a uma formação social na qual o processo de 
produção domina os homens e o homem não domina ainda o 
processo produtivo», mas ela vale para a consciência burgl'esa 
da economia política «como uma necessidade natural, óbvia 
como o próprio trabalho produtivo» (Il capitale, cit., I, p. 113). 
(31) K. Korsch, Karl Marx, Laterza, Bari, 1969, p. 123. 
119 
um simples e linear aprofundamento teórico das formu-
lações precedentes, ou como uma «correcção» técnica 
das suas carências, mas um total reforço das categorias 
dentro das quais as categorias teóricas se moviam, é 
pois o instrumento de análise por excelência de que 
Marx se dota para enfrentar e resolver os problemas 
deixados abertos pela economia política clássica. 
Estes problemas que, expressão directa das insufi-
ciências e das contradições da formulação clássica do 
valor, constituíram os obstáculos mais graves para a 
plena assunção de tal teoria por parte dos seus primei-
ros fundadores e defensores, e o terreno de revindicta 
dos seus adversários, os quais desde o nascimento da 
teoria do valor de troca segundo o tempo de trabalho 
viram- e não sem razão, no fundo-perigos de rup-
tura da estabilização burguesa, os rodearam sempre, 
podem de qualquer modo ser formulados em torno das 
seguintes questões (32). 
1. O trabalho posto como medida de valor, apa-
rece ele mesmo como um valor de troca: isto conduz 
ao círculo vicioso de fazer de um valor a medida do valor. 
2. Se o tempo de trabalho é o que determina o 
valor, o valor de troca do trabalho deve ser igual ao 
seu produto, isto é, o salário do trabalho igual ao pro-
duto do trabalho. O que, pelo contrário, não se verifica. 
3. Os preços das mercadorias, enquanto determi-
nados pela concorrência são diferentes dos valores. 
· As duas primeiras questões são resolvidas com a 
introdução, feita por Marx pela primeira vez, da distin-
ção. entre trabalho, tempo de trabalho vivo e força de 
trabalho, trabalho em potência, simples capacidade labo-
ral e, mediante esta distinção, com a desco"erta da cate-
goria da «mais-valia» como «mais-trabalho»; a terceira, 
com a instituição do nexo-distinção entre preços e valo-
res, através do qual se por um lado é estabelecida a 
diferença dos· valores, determinados segundo o tempo, 
dos preços, estes últimos fazem-se remontar depois ape-
nas aos primeiros. 
(32) Retomemos aqui directamente o modo em que o pró-
prio Marx, em Per la critica cit., resume as principais objecções 
que podem ser levantadas à economia clássica, trecho que já 
recordámos e citámos, pela sua importância e clareza, na parte 
final do nosso trabalho sobre Ricardo (p. 99). Além dos 
pontos que são evocados, Marx refere-nos um outro, que diz 
respeito ao problema do valor dos «bens naturais» e o com 
ele conexo da renda fundiária (p. 69}. 
120 
Não há dificuldade em reconhecer em tais proble-
mas os nós em torno dos quais se desenvolveu toda a 
nossa investigação até agora: da análise crítica das posi-
ções da economia clássica, através de Smith e Ricardo, 
à determinação e à contraposição do discurso marxista. 
Interessa-nos tê-lo aqui precisado de novo, por-
quanto eles constituem os momentos essenciais de verifi-
cação da teoria marxista do valor, e tornam explícito 
o próprio laço que se interpõe entre tais problemas e os 
pressupostos teóricos que desta teoria havíamos tentado 
aclarar precisamente nas últimas páginas. 
Procuraremos agora desenvolver sob este aspecto 
- a coerência da teoria do valor de Marx nos seus pres-
supostos e na sua verificação - e fá-lo-emos a partir da 
crítica de Marx a Malthus, contida no terceiro volume 
da História das Teorias Económicas (33). Isto porque nos 
consente um duplo resultado, o de nos religar directa-
mente à temática deixada em aberto por Smith e Ricardo, 
porquanto Malthus representa em certo sentido a sua 
retomada e continuação, embora com carácter polé-
mico e reaccionário especialmente nos confrontos com 
Ricardo, e por outro lado de reabrir, pela exemplaridade 
e carácter sintéctico da análise marxista neste texto, e 
concluir o discurso e a posição de Marx sobre estes 
temas à luz das últimas aquisições feitas. 
Em Malthus encontra-se, pois a retomada ,de alguns 
aspectos fundamentais da investigação smithiana em opo-
sição directa a Ricardo; e se bem que ele não resolva os 
problemas que afronta, antes se pode dizer que revela 
em algumas passagens uma posição de regresso relativa-
mente a Smith e Ricardo, quer do ponto de vista teórico 
quer do político, representando e teorizando Malthus os 
interesses da parte reaccionária da própria burguesia 
dos proprietários fundiários, dos «seus lacaios e outros 
apêndices», como dizia Marx (a classe parasitária de 
Smith: nobres, burocracia, padres ... e Malthus era ele 
próprio padre), todavia as suas conclusões teóricas, por 
outras passagens, não deixam de ter um certo interesse. 
De facto, ele retoma de Smith aquele aspecto 
peculiar da sua análise que constitui pelo contrário o 
ponto mais abertamente equívoco da teoria ricardiana: 
(33) K. Marx, Storia dell,e teorie economiche, cit., II, pp. 
13 e sgs. 
121 
ou seja o problema da origem da mais-valia através da 
troca entre trabalho e capital. 
Enquanto «Ricardo não explica como da troca das 
mercadorias segundo a lei do valor - segundo o tempo 
de trabalho nele contido-tenha origem a troca desi-
gual entre trabalho vivo e capital, entre um quantum 
de trabalho acumulado e um determinado quantum de 
trabalho imediato» (34); e de facto faz trocar directa-
mente o capital com o trabalho e não com a força de 
trabalho, Malthus tem o mérito de ter posto o acento 
principal sobre o troca desigual entre capital e trabalho 
assalariado, aquela troca entre trabalho acumulado e 
trabalho vivo, que não coincide imediatamente com a 
lei da troca de mercadorias. De facto se se parte, como 
faz Malthus, do processo de «valorização» da mercadoria 
como capital, no que consiste justamente a origem da 
mais-valia, esta última não pode ser senão o «excedente 
do trabalho (o trabalho não pago) dominado pelo capital, 
pela mercadoria ou pelo dinheiro, relativamente ao 
quantum de trabalho que ela contém» (35), isto é, além do 
trabalho que ela contém, a mercadoria compra, domina, 
uma quantidade de trabalho excedente que ela não 
continha. 
É explícita, nesta formulação, a reproposição da 
temática smithiana do labour commanded: se se. parte 
exclusivamente da consideração do processo de «valo-
rização» do capital, o lucro (ou melhor a mais-vaJia), 
deriva directamente da porção, éla quantidade de tra-
balho vivo de que ele se apropria, que ele «domina»; 
consequentemente, a transformação da mercadoria ou 
do dinheiroem capital não deriva do facto que as 
mercadorias se trocam em conformidade- com a lei do 
valor, segundo o tempo de trabalho nele contido, mas 
«pelo contrário pelo facto de que as mercadorias ou 
o dinheiro (trabalho objectivado) se trocam por mais 
trabalho vivo do que o trabalho nele contido, reali-
zado» (36). 
Malthus chega a tal conclusão, que é a mesma de 
Smith, porquanto faz abstracção de todas as mediações 
que originam este processo; ele estava tanto mais auto-
(34) Idem, p. 14. 
{") Idem, p. 15. 
(36) Idem, p. 16. 
122 
rizado a fazê-lo e a usá-lo como resultado polémico 
contra a teoria do valor ricardiana, já que, diz Marx, 
precisamente tal mediação falta completamente em 
Ricardo. Nem podia ser de modo diferente desde o 
momento que este último «pressupõe sempre o produto 
acabado, que é repartido entre o capitalista e o operário, 
sem considerar a troca, o processo de mediação que 
conduz a esta repartição» (37). 
Em conclusão, a formulação ricardiana do valor 
não nos diz donde «jorra» a mais-valia capitalista, 
enquanto o grande mérito de Malthus é o de querer 
ligar a categoria da mais valia precisamente à determi-
nação do valor. «O senhor Malthus quer logo acolher 
o lucro» na definição do valor, para o retirar imedia-
tamente desta definição, o que Ricardo não faz. Isto 
demonstra que ele intui onde se encontra a dificul-
dade» (38). O que, e abrimos aqui um breve parêntesis, 
é a mesma preocupação teórica de Smith, a de querer 
assumir unna «medida», uma determinação do valor que 
seja ao mesmo tempo uma explicação do valor (e por 
isso da mais-valia), dificuldade que Smith não resolve 
e que é resolvida de maneira positiva, como se viu 
sobejamente, só por Marx ao fazer do tempo de tra-
balho vivo a forma essencial do valor como tal, no 
momento em que é ao mesmo tempo determinado o 
papel e a função específica que este trabalho vivo desem-
penha no processo de produção em geral e no ,capitalista 
em particular. 
Todavia a abstracção de Malthus de todas as media-
ções que conduzem ao processo de valorização como tal, 
lança-o outra vez necessária e imediatamente em contra-
dições e em confusões bastante graves: ele acaba de 
facto, por confundir «a valorização do dinheiro ou da 
mercadoria como capital, e por isso o seu valor na 
função específica de capital, com o valor da mercadoria 
como tal» (39), e deixar para trás não só as aquisições 
de Ricardo, como as do próprio Smith e dos fisiocratas, 
tornando a uma representação do valor que faz derivar 
o valor e o lucro directamente· da circulação das mer-
cadorias, ou seja da troca mercadoria-dinheiro, que 
remonta justamente aos fisiocratas (a teoria grosseira 
( 37) Idem, p. 16. 
(38) Idem. 
( 39) Idem. 
123 
do sistema n1.onetário, e a assunção feiticista do dinheiro 
e da troca}. 
De facto, assumido o «processo» de valorização 
da mercadoria como capital através da troca com o tra-
balho, imediatamente no seu resultado, no valor da 
mercadoria como tal, Malthus pode concluir que as mer-
cadorias se trocam pelo seu próprio valor mais um exce-
dente sobre este valor, o lucro. Pelo contrário, se isto 
é verdade para as condições da reprodução capitalista 
das mercadorias - de se trocarem por uma quantidade 
de trabalho maior que aquele que nela está contido 
- e Malthus faz bem em sublinhá-lo, isto já não é 
verdade do ponto de vista da circulação e da troca de 
mercadoria por mercadoria, e que acontece sempre na 
base do mesmo quantum de trabalho nele contido- e 
nisto tem perfeitamente razão Ricardo. 
Desta sobreposição de produção e circulação, valo-
rização e valor (recorde-se como para Marx, pelo con-
trário, o valor de troca é pressuposto e fim da produção, 
que se encontra na posição de meio entre dois extremos) 
que se insere acima das contradições deixadas em aberto 
por Smith e não tocadas por Ricardo, Malthus tira 
conclusões mais radicais que o próprio Smith, e parece 
tornar à opinião comum do «lucro» resultante da cir-
culação, da venda da mercadoria acima do seu valor. 
Ele chega a tal resultado, pelo facto de assimilar 
a troca geral das mercadorias à trota particular que 
aéontece entre capitalista e operário. Este último, de 
facto, tendo incorporado, durante o processo produtivo, 
na mercadoria, mais trabalho do que o contido na sua 
força de trabalho, é o único que «embora comprando 
todas as mercadorias pelo seu valor, as _pagou acima 
do seu valor, porque comprou acima do seu valor o 
equivalente geral do trabalho, o dinheiro» (4°). 
Isto, todavia, não se verifica na troca geral das 
mercadorias, porque se houvesse efectivamente uma 
compra e venda das mercadorias acima do seu valor, 
poderia falar-se de uma fraude recíproca, mas não certa-
mente de realização do lucro. Este último deriva par;;t o 
capitalista não do facto de que ele vende (ao comprador, 
seja ele um outro capitalista ou um operário) a merca-
doria acima do seu valor, «mas do facto de que antes, 
(40) Idem, pp. 19-20. 
124 
no processo de produção, ele na realidade a comprou, 
àquele operário, abaixo do seu valor» (41) 
Pelo contrário, o «senhor Malthus», transformando 
a valorização da mercadoria no seu valor, transforma 
todos os compradores em operários assalariados; ou 
seja «todos os compradores, segundo Malthus, trocam 
com o capitalista trabalho imediato em vez de merca-
dorias, e restituem-lhe mais trabalho do que o contido 
na mercadoria». Isto que ele de facto não compreende, 
continua Marx, é «a diferença entre a soma total de 
trabalho contido numa mercadoria, e a sonia de trabalho 
pago que ela contém» (42), que é o que constitui a fonte 
do lucro. Malthus, pelo contrário, faz derivar este último 
não só do facto de que a mercadoria é vendida acima 
do valor que ela custa ao capitalista mas também do 
facto de que ela seja vendida acima daquilo que ela custa, 
tornando à opinião vulgar do lucro fruto de expro-
priação (43), ou seja do valor igual ao trabalho contido 
mais o lucro. 
A última conclusão que Malthus tira da convicção 
de que o lucro deriva de qualquer modo da venda da 
mercadoria acima do seu valor, é esta: desde que os 
compradores das mercadorias fossem só operários e 
capitalistas, tal lucro não se realizaria; os primeiros, ele 
facto, podem comprar só uma parte do produto, a 
correspondente ao salário; os segundos, porquanto além 
de compradores são ainda vendedores de mércadorias, 
e o seu dinheiro, o seu capital, não representa senão 
mercadoria vendida, vendem e pagam, um ao outro, 
as mercadorias acima do seu valor, e assim se roubam 
reciprocamente e se roubam na mesma medida, se cada 
qual não realiza senão a taxa geral de lucro: Em con-
clusão, cada qual perde como comprador o que ganhe~ 
como vendedor. Deve-se por isso encontrar, para qut:> 
o lucro dos capitalistas se realize, uma classe de compra-
dores que não sejam vendedores, uma classe de puros 
consumidores : tal classe existe para Mal. hus, e é a 
dos nobres e do aparelho burocrático do Estado. 
Todavia, é fácil objectar que, tal como o rendi-
rnento destas classes, a renda e os impostos, não são 
( 41 ) Idem, P. 20. 
(42) Idem. O sublinhado é nosso. 
(43) Idem. 
125 
outra coisa que uma derivação do mesmo lucro, o 
raciocínio d.e Malthus cai num círculo vicioso. 
Na realidade, se embora o lucro se realiza no 
valor de troca e na troca das mercadorias ele não 
tem certamente origem neste. Malthus, na sua conclusão, 
não faz mais que restituir uma certa função histórica, 
um certo prestígio e papel positivo àquela classe de 
consumidores improdutivos que foi tratada um pouco 
mal por Smith e Ricardo. Quanto ao resto, na sua 
teoria resta um mistério, donde provém o lucro e como 
se realiza. 
O desenvolvimento da teoria malthusiana, em todo 
o caso, é importante, porquanto constitui um dos muitos 
e diferentes modos de exprimir as dificuldades que se 
encontram na determinação da origem e da natureza 
do lucro, problema que justamente se põe na economia 
política clássica (cfr. Smith) como estreitamenteunido 
à própria definição do valor. Tal determinação e deri-
vação do lucro do conceito de valor, torna-se de facto 
tanto mais complicada quanto mais este se apresenta 
através das modificações e das transformações da concor-
rência, que o fazem aparecer como elemento autónomo 
e independente do valor. Um primeiro e patente resul-
tado desta «falsa aparência» viu-se há pouco em Malthus, 
que faz derivar o lucro do próprio processo de circulação. 
A forma extrema de tal mistificação tem-se quando 
os difer,entes lucros, comparando-se, por obra da concor-
rência, a uma única e mesma taxa, -parecem dependentes 
e determinados unicamente pela grandeza do capital 
investido e não pela massa da mais-valia produzida: 
tal como os preços de produção resultantes de tal 
movimento parecem de todo desvinculado~ dos valores. 
Relativamente a esta última forma mistificada do 
mercado, Marx, reconstruindo todas as mediações do 
processo de transformação dos valores em preços de 
produção, através da formação da taxa média de lucro, 
representa a tentativa mais relevante de atribuir aos 
valores determinados segundo o tempo de trabalho um 
papel preciso na formação dos preços e das relaç!)es 
de troca, no conhecimento da não coincidência entre 
as duas categorias. 
Por outro lado,' os modos em que este problema 
foi sucessivamente afrontado sempre suscitaram muitas 
perplexidades, e correspondentemente deram lugar a 
muitas polémicas. 
126 
Na realidade o modo marxista de resolver tal 
problema é extremamente coerente com o próprio pres-
suposto da sua teoria: não se deve esquecer, em primeiro 
lugar, que esta dificuldade era bem clara para Marx 
no próprio momento em que procedia à formulação 
e à fundamentação da sua teoria do valor; demons-
tram-no, quer a passagem já citada de Para a Crítica 
da Economia Política, em que Marx se propõe, através 
da teoria da concorrência, resolver a questão «de como 
sobre a base do valor de troca se desenvolve um preço 
de mercado diferente deste ou, melhor, de como a lei elo 
valor se realiza apenas no seu oposto» (44), como o 
facto de que a estrutura do terceiro livro de O Capital 
estava presente em Marx antes ainda de ele ter escrito 
o primeiro. 
A solução marxista para a questão de que a condição 
geral do valor ser determinado mediante o tempo de 
trabalho não seja respeitada pela presença de uma taxa 
geral de lucro, pode ser posta assim. 
Ponhamos que as mercadorias se trocam sempre 
«directamente» segundo o tempo de trabalho contido: 
desde que tal condição efectivamente se realizasse, veri-
ficar-se-ia que, conforme as diferentes composições orgâ-
nicas dos capitais das diferentes esferas de produção, 
isto é, da diferente relação entre capital constante e 
capital variável, se teriam lucros diferentes, mesmo para 
iguais massas de capitais. Isto contrasta manifestamente 
com a lei geral da concorrência, segundo a qual o lucro 
dos diferentes capitais é determinado unicamente em 
função da quantidade de cada um deles. Em conse-
quência deste efeito da concorrência, por isso, a massa 
global da mais-valia produzida é redistribuída entre os 
capitais em proporção com a sua grandeza, de modo a 
conseguir uma igual e mesma taxa geral de lucro, e dar 
assim qrigem a preços de produção diferentes dos valores. 
A verificação da diferença dos preços dos valores, 
não impede todavia Marx de afirmar, ao mesmo tempo, 
que a massa global do lucro, embora diversamente 
distribuída entre as diferentes indústrias, é sempre deter-
minada pela massa total de mais-valia produzida, e 
esta última por sua vez, necessariamente, segundo a 
lei do valor, pela massa fornecida de mais-trabalho. 
(44) K. Marx, Per la critica cit., p. 44. 
127 
Analogamente, também os valores, embora através 
da sua modificação como preços, continuam a ser deter-
minados pela precedente formulação do valor segundo 
o tempo de trabalho. 
Deste modo Marx, embora afirmando, contra Ricar-
do, a diferença entre preços e vabres, mantém firmemente 
a sua precedente fundamentação do valor, instituindo 
um íntimo e necessário nexo entre os preços das merca-
dorias e a quantidade de trabalho vivo necessário para 
a sua produção (45). 
Quer dizer, quaisquer que sejam os factores que 
regulam os preços, temos: 
«1. A lei do valor determina o seu movimento, 
pois o aumento ou diminuição do tempo de trabalho 
necessário para a produção faz aumentar ou diminuir 
os preços de produção ... » 
«2. O lucro médio que determina os preços de 
produção deve sempre ser aproximadamente igual à 
quantidade de mais-valia que toca a um capital dado, 
considerado como parte alíquota do capital global 
social» (46). 
( 43) Por parte daqueles que enfrentaram o problema da 
transformação, houve, parece-nos, uma interpretação errónea do 
significado que Marx atribuía a este problema. Marx, de facto, 
fundamenta o conceito de valor com a argumentação contida 
no primeiro livro de O Capital, e não pretende refundamentar 
de outro modo este conceito no terceiro, em que ele enfrenta 
especificamente o problema dos preços; se quisermos, pode 
dizer-se que este problema da transfôrmação dos valores em 
preços, e da sua diferença, está contido na própria determinação 
do .valor, ou então, constitui a sua necessária realização. Entre-
tanto os posteriores intérpretes pensam que a derivação dos • 
preços dos valores, é um modo ulterior e talvez o único de 
fundamentar o conceito de valor. 
Isto conduziu a soluções como a de Bortkiewitz, o qual 
não faz mais que identificar de novo os preços aos valores, ou 
a posições como a de R. Meek, o qual acaba, pelo contrário, 
por instituir uma directa relação entre a solução marxista para 
o problema dos preços e a de Sraffa, precisamente e só 
enquanto, interpretando ricardianamente Marx, pode ler «marxis-
tamcnte» Sraffa; na realidade as soluções de Marx e Sraffa 
são substancialmente diferentes. O primeiro chega aos preços 
e à taxa geral de lucro só através de uma prévia determinação 
dos valores; o segundo determina os preços independentemente 
dos valores e ao mesmo tempo do lucro. 
Para Marx, para a fundamentação rigorosa do conceito de 
valor são suficientes as proposições contidas no primeiro livro 
de O Capital. A solução do problema da transformação é, por 
isso, desenvolvida na linha destas proposições. 
( 46) K .. Marx, ll capitale., cit, III, p. 222. 
123 
Não vamos mais longe no aprofundamento desta 
solução marxista que, pela série de complexas articula-
ções que traz consigo, requereria um tratamento parti-
cular e específico. 
Pelo contrário, também com as simples observações 
que desenvolvemos até aqui, parece-nos suficientemente 
apresentado o objectivo que guiou este trabalho: pôr 
em evidência o carácter peculiar e coerente no seu 
íntimo da explicação marxista do valor nos confrontos 
com as anteriores teorias. 
O que de facto nos parece ficar bem vincado pela 
análise até aqui feita da passagem da teoria clássica 
à teoria marxista do valor, é isto: que, enquanto a 
economia política clássica parte, embora com os seus 
grandes méritos, da assunção como tal, isto é, sem a 
submeter a nenhuma crítica, das categorias económicas 
capitalistas, correndo o risco continuamente de perder 
todos os nexos internos destas categorias, que se repro-
duzem prima facie como formas autónomas, desarti-
culadas, contraditórias (e qualquer ciência, diz Marx, 
«seria supérflua se a essência das coisas e a sua forma 
fenoménica coincidissem directamente») (47), a análise 
marxista, pelo contrário, põe-se como análise científica 
da efectiva realidade (da sua «essência, da sua íntima 
fisiologia»), das relações de produção capitalistas e das 
suas leis. Porém, esta «efectiva realidade» é uma realidade 
«mistificada» exteriormente, cheia de contradições insa-
náveis internamente. A ciência de tal realidade quer, 
por isso, ser, nas intenções de Marx, ao mesmo tempo, 
e contrariamente à economia clássica, também «crítica» 
das formas subvertidas e invertidas do capital edas 
suas categorias, e não crítica teórica, mas, imediata-
mente, superação prática, isto é revolucionária, de tais 
categorias e relações. 
J;m suma, uma vez que se ponha a realidade 
capitalista em bases científicas, esta realidade não vem 
assim automaticamente «corrigida», «posta de pé», mas 
são apenas colocadas as base.s para a sua «transfor-
mação» em sentido revolucionário. 
Procuremos ser mais claros, partindo da análise 
dos clássicos. 
O carácter peculiar do modo de produção capitalista, 
diz Marx, é o de apresentar os elementos sociais da pro-
(") Idem, p. 930. 
129 
dução e da riqueza em categorias solidificadas e autóno-
mas, como personificação das coisas e objectivação das 
relações sociais. Esta «religião da vida quotidiana» (48) que 
inicia com a forma de valores de troca, de mercadorias, 
que «de facto» os produtos do trabalho assumem, culmina 
nas formas mais complexas das relações desenvolvidas 
de produção: o capital enquanto tal «produz» lucro; 
o trabalho, a força de trabalho, o salário; a terra, a 
renda fundiária; as «coisas» tornam-se cada vez mais 
livres agentes da produção e apropriam-se da faculdade 
oculta de se tornarem fontes de valor. 
O grande mérito da economia clássica foi o de 
ter dissipado algumas formas da falsa aparência e ilusão 
do mundo das mercadorias, mas também os «seus melho-
res representantes permanecem, e de resto não pode 
acontecer de outro modo partindo do ponto de vista 
burguês, mais ou menos presos naquele mundo de apa-
rência por eles criticamente dissolvida, e por isso caem 
todos mais ou menos em incoerências e contradições não 
resolvidas detendo-se às vezes a meio do caminho» (49). Isto 
não deve surpreender-nos, diz Marx, desde o momento em 
que, no capitalismo, esta falsa aparência e falsificação 
das relações sociais, se torna cada vez maior, das formas 
simples do capital - e também da produção mercantil, 
a mercadoria e o dinheiro - , às suas formas mais 
desenvolvidas. Este carácter mistificante, de facto, «é 
çomum a todas as formas de sociedade, porquanto 
atingem a produção mercantil e a ·circulação monetária. 
Mas no modo de produção capitalista e no caso do 
capital, que é a sua categoria dominante, a sua relação 
de produção determinante, este mundo enfeitiçado e 
subvertido desenvolve-se ainda muito mais» (50). 
A experiência quotidiana e directa da realidade 
não faz senão tornar válido quotidianamente este feiti-
cisrno económico da produção: os nexos sociais aparecem 
devorados pelas coisas, e toda a mediação desaparece. 
As forças produtivas do trabalho são transferidas do 
trabalho para o capital; o valor e a mais-valia contida 
nas mercadorias parece brotar directamente da cirçula-
ção; a transformação da mais-valia em lucro, do lucro em 
lucro médio e, atra".és deste, dos valores em preços de 
(") Idem, p. 943. 
(") Idem, p. 944. 
('°) Idem, p. 940. 
130 
produção, quebra todo o laço com a efectiva realidade 
e origem de tais processos. A taxa de lucro é «regulada 
pelas suas leis, que permitem e também exigem uma 
alteração do mesmo, embora permanecendo igual a taxa 
de mais-valia» (51); isso parece «imanente» ao moderno 
modo de produção, e independente, ou determinado de 
modo só acessório, da efectiva exploração de um dado 
capital; isto é, o lucro médio aparece distinto da mais-
-valia que este capital extraiu aos operários por ele 
empregados. A divisão, por último, do lucro em ganho 
do empreendedor e juro, «completa a autonomização 
da forma da mais-valia, a solidificação da sua forma 
relativamente à sua essência, à sua substância» (52). 
Este é o modo de se manifestar e de proceder 
do capital como contínua e organizada produção de 
mais-valia: em tal produção, todavia, como extorsão 
de mais-valia e criação de mais-produto, consiste ao 
mesmo tempo o elemento progressivo e a função civili-
zadora do capital. 
O seu papel histórico é, segundo Marx, o de levar 
a um estado em que tal extorsão de mais-valia, criada 
de um modo e sob condições que são mais favoráveis 
ao desenvolvimento das forças produtivas e das relações 
sociais, consente criar os meios materiais e o embrião 
de relações que tornam possível «combinar este mais-
-trabalho de uma forma mais elevada de sociedade com 
uma redução maior do tempo dedicado ao trabalho 
material» (53). 
Mas se a tendência necessária do capital, como 
corrida incessante à realização e à criação sempre nova 
de mais trabalho, é a de reduzir constantemente o tempo 
de trabalho necessário à produção de um determinado 
objecto a um mínimo, isso só o é enquanto «um máximo 
de trabalho for valorizado no máximo daqueles objec-
tivos » (54). 
Esta tendência do capital, de facto, que se realiza 
através de uma contínua revolucionarização das técnicas 
( 51 ) Idem, p. 942. 
( 52 ) Idem, p. 942. 
(") Idem, p. 933. 
( 54) Cfr. K. Marx, Lineamenti fondamentali cit., II p. 396. 
Deste modo o capital reduz o tempo de trabalho necessário 
apenas para aumentar o supérfluo, pois o tempo de. trabal~o 
supérfluo torna-se cada vez mais uma condição necessária 
- «question de vie et de mort» - para o trabalho necessário; 
cfr. p. 402. 
131 
produtivas, se se põe como efectiva diminuição do traba-
lho humano o dispêndio de força a um mínimo, não se 
traduz por parte do operário (como queria a apologética 
burguesa) numa abreviação do seu trabalho: pelo con-
trário, ela constitui a condição de um maior encadea-
mento do trabalho à sua pura forma material: a essência 
do trabalho é cada vez mais um simples meio de exis-
tência (55). 
Nesta base o capital apresenta-se como a «contra-
dição em curso, em desenvolvimento», que por um lado 
liberta e suscita as forças da ciência e da natureza, por 
outro dela é condição e instrumento de uma sempre 
maior dependência do operário (e da grande massa da 
sociedade) das condições de produção, que ele não do-
mina, mas pelas quais é dominado. 
« O capital trabalha assim para a sua própria disso-
lução como forma dominante da produção» (56). O desen-
volvimento da força produtiva do trabalho, que é posto 
no capital só como incremento da força fora do traba-
lho e como enfraquecimento do próprio trabalho, cons-
tituirá por isso a base do trabalho emancipado e a con-
dição da sua emancipação. 
As coisas, de facto, diz Marx, chegaram a tal ponto 
no capital, que «os indivíduos devem apropriar-se das 
forças produtivas existentes não só para conseguir a sua 
manifestação pessoal, mas simplesmente para assegurar 
a_ sua própria existência» (57). 
O sujeito desta apropriação é ·a classe operária (58), 
o objecto, as forças produtivas desenvolvidas, a acção, 
o comunismo (59). 
(55) O capital emprega a máquina só enquanto ela habi-
lita o operário a «referir-se a uma parte maior do seu tempo 
como a tempo . que não lhe pertence, a trabalhar ainda mais 
para outro». Idem, p. 396. 
(56) Idem, p. 395. 
(57) K. Marx, L'ideologia tedesca, cit., p. 64. 
(58) «A burguesia não só fabricou as armas que lhe 
provocam a morte, como criou também os homens que usarão 
aquelas armas - os modernos operários, os proletários». Marx -
Engels, Manifesto del partido comunista, Editori Riuniti, Roma, 
1969, p. 65. , 
(59) «O comunismo para nós não é um estado de coisas 
que deva ser instaurado, um ideal ao qual a realidade deverá 
conformar-se. Chamamos comunismo ao movimento real que 
abole o estado de coisas presente». K. Marx, L'ideologia t,edesca, 
cit., p. 25. 
132 
«Só os proletários do tempo presente, totalmente 
excluídos de qualquer manifestação ,pessoal, estão em 
situação de alcançar a sua completa e não mais limitada 
manifestação pessoal, que consiste na apropriação da tota-
lidade de forças produtivas e no desenvolvimento por 
este condicionado, da totalidade de faculdades» (60). 
Esta é a tarefa revolucionária universal de uma 
classe, o proletariado, que nasce no plano da história 
universal, e cujo carácter, não mais limitado por inte-
resses particulares ou corporativos, é ele mesmo uni-
versal. 
Só, pois, a classe operáriano pleno controlo dos 
meios de produção, só o homem socializado, os livres 
produtores associados segundo um plano, poderão defi-
nitivamente regular e dirigir o completo desenvolvimento 
das forças produtivas para a total realização da eman-
cipação do homem (61). 
A alternativa revolucionária, portanto, para tornar 
ao ponto donde partimos, está sempre presente na aná-
lise científica marxista e dela constitui, além disso, a 
própria substância. 
A ciência, segundo Marx, é de facto não a colocação 
de uma «solução» da realidade na consciência, mas 
enquanto ciência da realidade capitalista, isto é, de uma 
realidade que é reconhecida em si contraditória e antago-
nista, é a base teórica para a superação num acto prá-
tico, revolucionário. . 
A «teoria» para Marx deve, por isso, ao mesmo 
tempo pôr-se como ideologia revolucionária: ela não é 
a assunção neutra da realidade como tal, mas a análise 
da realidade do ponto de vista da classe operária, a classe 
que não tem interesses particularistas a defender e cuja 
emancipação é a condição de emancipação de toda a 
sociedade. (Neutra, pelo contrário, tende a apresentar-se 
a ciência burguesa; esta aparência de neutralidade enco-
bre apenas melhor os interesses corporativos da classe 
no poder, que quer conservar o seu domínio sobre uma 
outra.) 
Mas tal «teoria» para terminar em práxis revolu-
cionária, deve ser também ciência. Teoria científica das 
leis do mundo burguês, «reconstrução analítica do modo 
(60) Idem, p. 64. 
( 61 ) «As relações universais modernas não podem ser assu-
midas pelos indivíduos se não forem assumidas por todos». 
Idem, p. 64. 
133 
como funciona o mecanismo da produção capitalista» 
( 62), não simples ideal abstracto ou propaganda volunta-
rista e espontânea, mas interpretação científica da vida 
económica actual e das suas contradições. 
Desde o momento em que esta vida económica real 
é contraditória, e além disso distorcida e «subvertida», 
descobrir a objectividade desta realidade significa des-
cobrir uma objectividade «absolutamente especial», por 
assim dizer «uma objectividade falsa e que se deve abo-
lir» (63). A realidade que Marx analisa não só não é, por-
tanto, por ele tomada como critério e unidade de me-
dida, como deve ser precisamente subvertida e modi-
ficada (64). Por isso, para Marx, não basta «descobrir», 
interpretar o mundo, antes se deve «transformá-lo, e 
para o transformar «praticamente» não basta a vontade, 
é necessária a ciência. 
A ciência deve, por isso, ser a própria ciência da 
transformação do mundo, da revolução; o sujeito desta 
transformação, o moderno proletariado, a classe 
operária. 
Desde as suas primeiras obras Marx, marcando a 
sua nítida discordância com as posições abstractas e 
sofrendo de metafisicismo da filosofia precedente, enun-
cia com clareza este seu programa ao mesmo tempo 
teórico e político. 
Enquanto a filosofia especulativa não fez mais que 
exaurir-se, até agora, em si mesma, agora ela deve 
resolver-se em tarefas para cuja solução existe um único 
meio: a práxis. A possibilidade de realização prática da 
«filosofia» nasce com a própria formação do moderno 
proletariado industrial, uma classe com cadeias radi-
cais, uma classe que não pode emancipar-se a si mesma 
sem emancipar todas as restantes esferas da socie-
dade, cuja libertação é «a autolibertação universal» (65). 
A «teoria» não pode realizar-se senão na acção do 
proletariado, b proletariado não pode constituir-se como 
classe senão apoderando-se da teoria. 
(") L. Colletti, Marxismo: scienza o rivoluzione?, art. 
cit., p. 49. 
(63) Idem, p. 47. 
(64) Idem, p. 49. 
(65) K. Marx, Per la critica della · filosofia del diritto di 
Hegel, Introduzione, in La questione ebraica, Editori Riuniti, 
Roma, 1969, p. 100. 
134 
«A arma da crítica não pode certamente substituir 
a crítica das armas, a força material deve ser abatida 
pela força material, mas também a teoria se torna uma 
força material logo que se apodera das massas» (66). 
«Como a filosofia encontra no proletariado as suas ar-
mas materiais, assim o proletariado encontra na filo-
sofia as suas armas espirituais» (67). 
Este pressuposto teórico marxista investe e por 
sua vez precisa-se no próprio percurso da sua sucessiva 
análise, desde aquela síntese de filosofia e economia que 
são os Manuscritos de 44 até a O Capital. No quadro, pois, 
de tal perspectiva e intenção, que constitui o contributo 
original e peculiar do pensamento de Marx, se coloca e 
e se alarga o sentido e a dimensão da diferença entre 
Marx e a precedente análise clássica, em particular entre 
Marx e Ricardo, que constitui justamente o objectivo 
específico desta investigação. 
Esta diferença, que vimos fundamentar-se e formu-
lar-se em vários e múltiplos níveis, resulta agora defini-
tivamente posta na sua própria origem, no carácter que 
Marx entende dar ao seu discurso científico: o de resul-
tado e de condição do próprio discurso revolucionário. 
( 66) Idem, p. 101. 
( 67) Idem, p. 109. 
135 
1NDICE DOS NOMES 
Bayley, Samuel, 76-78 
Bernstein, Eduard, 118 (nota) 
Bortkiewitz, Ladislaus von, 
31, 128 (nota) 
Bukharine, Nikolaj 
Ivanovic, 25 
Coletti, Lucio, 118 (nota), 
134 (nota) 
Dobb, Maurice, 33-37 
Engels, Friedrich, 95, 
132 (nota) 
Grossmann, Henryk, 20 (nota), 
23 (nota), 24 (nota) 
Hegel, Georg Wilhelm 
Friedrich, 113 
Hilferding, Rudolf, 25 
Korsch, Karl, 119 (nota) 
Locke, John, 39 
Malthus, Thomas, 10, 13, 
115, 121-126 
Marx, Karl, 9-14, 15-17, 19-38, 
42, 45-47, 50 (nota), 50-53, 
56-59, 60 (nota), 61-64, 66-68, 
69 (nota), 70, 72 (nota), 73 
(nota), 76, 77 (nota), 78, 79 
(nota), 80-82, 83 (nota), 84, 
87-90, 91 (nota), 93-94, 98-99, 
101-121, 123-135 
Meek, Ronald L., 128 (nota) 
Napoleoni, Claudio, 46 (nota), 
92 (nota), 95 (nota) 
Petty, William, 39 
Pietranera, Giulió, 51 (nota) 
Quesnay, François, 33 
Ricardo, David, 10-13, 15, 16, 
19-24, 28-30, 32, 35, 37, 39, 
45, 46-54, 55-58, 60-62, 64-67, 
69-72, 75-81, 83-84, 85-98, 109, 
114, 121, 123-124, 126, 128, 135 
Say, Jean-Baptiste, 77 
S~humpeter, Joseph, 21 
Smith, Adam, 10-12, 19-22, 24, 
39-53, 55-58, 60-62, 69, 71, 76, 
81, 83, 95-96, 106, 115, 121-124, 
126 
Sraffa, Piero, 15, 16, 31, 32, 33, 
35, 36, 128 
Steward, Dugald, 57 
lNDICE 
Prefácio de Clãudio Napoleoni . . . . . . . 
Prefácio à segunda edição de Cláudio Napoleoni 
Introdução 
Pdg. 
9 
15 
19 
I. A teoria clássica do valor: Smith e Ricardo 39 
II. Os pressupostos teóricos da teoria clássica do valor 55 
III. As dificuldades da teoria ricardiana : 1. O valor 
do trabalho . 75 
IV. As dificuldades da teoria ricardiana: 2. A direrertça 
entre preços e valores . . . . . . . . . 85 
V. Significado e papel da teoria maxista do valor 101 
fndice de nomes 137

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