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Sumário APRESENTAÇÃO 1. SINTO MUITO, MAS VOCÊ NÃO É LOUCA 2. O CONTRATO 3. FLASHBACK 4. ENFIM, NÓS. E A CLAUDINHA 5. A TECLA “A” 6. HOMENS DO MERCADO 7. ASSUMINDO O ET PIROCUDO 8. DIRETO DO PLANETA SOLIDÃO 9. COMO LEVAR UMA MULHER PRA CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO 10. ZELADOR 11. VONTADE FILHA-DA-MÃE 12. ANIVERSÁRIO DA SUA AUSÊNCIA 13. CAIPIRA NÃO, MEU 14. DESPERATE HOUSE WRITERS 15. VOCÊ JAMAIS FARIA SEXO VIRTUAL 16. EU NÃO NASCI PRA ISSO 17. A VONTADE E UM DEDINHO DE PROSA 18. DESAMOR REVISITADO 19. OS MICOS DA DIAS FERREIRA 20. MAIS UM PAR DE TÊNIS VELHOS 21. THE KILLERS 22. A PRIMEIRA VEZ 23. ELES 24. O TEATRO DA MOÇA BANAL 25. EU JÁ ESTIVE POR LÁ 26. O QUE VOCÊ FAZ COM AS PESSOAS QUE NÃO QUER MAIS? 27. EU NUNCA VOU ENTENDER 28. TREPAI-VOS, IRMÃOS — UM TRATADO SERIÍSSIMO POR UM MUNDO MELHOR 29. QUE NEM CORAÇÃO DE MÃE 30. A DURA (FORTE, GOSTOSA, CHEIROSA) REALIDADE A AUTORA MÁRIO QUINTANA “Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?” Mário Quintana APRESENTAÇÃO Achei que era bolo de aipim. Aqui em São Paulo a gente não chama de aipim, mas fica ainda mais gostoso quando chamado assim. O problema é que só sobraram os farelos e eu continuo com essa vontade. Abro a geladeira e fico olhando para as possibilidades. Não foco em nada porque não sei exatamente o que eu quero. Será que a gente pensa que a geladeira é um portal para outro mundo? E que ao abri-la a gente vai descobrir para onde quer ir ou o que quer da vida? Da gaveta de ovos (pra que existem gavetas de ovos?) pularia um sábio indiano e me diria: você só precisa ter calma e não desejar tanto. Do desejo é que saem as angústias. E eu crente que ele ia filosofar sobre quem veio primeiro. Se foi o ovo ou a galinha. Ou, então, pularia a Clarice Lispector. E me recitaria aquele conto maluco do ovo que me fez pensar que bastava eu ser muito sem sentido para fazer algum sucesso. Até o dia em que ela fez sentido e eu me senti especial. E eu seria mais maluca que ela tentando explicar que apesar de a minha fome não passar nunca, nem a mais óbvia e superficial, eu vivo enjoada. Minhas vontades, sempre infinitas, passam muito rápido. E aí eu fico achando que eu não sei ter vontades. Que eu não mereço as minhas vontades. E me sinto sempre uma traidora prestes a desistir ou a enjoar de algo que nem deu tempo de acontecer. E aí fico com preguiça ou mesmo covardia para ter novas vontades. Se elas vão passar, para que raios elas servem? Coloco uma música que lembra uma dor sanada. Talvez porque eu esteja a fim de experimentar aquela dor que já não é mais dor e sentir que o tempo passa. Sentir isso dá medo de morrer. Mas dá alívio de estar vivo. E então me pergunto: se amor passa, de que serve senti-lo? Apenas um cansaço em saber que tudo vira ridículo depois. Tudo. Até sinto certa pena do medo. No final, qualquer medo vira mais um bicho-papão de pelúcia empoeirado e esquecido em algum canto que não visitamos para não atacar a rinite. O frio na barriga vira um missoshiro gostosinho pra tomar num fim de tarde besta na vila Boim. Sempre soube, lá no fundo da alma, como é fácil dar valor para as pessoas pontuais e a beleza do não-eterno nos olhos dessas pessoas. Lindo o que é passageiro. Difícil é gostar de gente de verdade que, mais cedo ou mais tarde, vai perder a magia. Mais um defeituoso que você aceita como a própria existência: cheio de dúvidas mas sem outra saída. E sou interrompida mais uma vez por essa vontade automática de olhar minha caixa de e-mails. Ou de comer mais um quadradinho da barra de alpino. Ou de dar um gole pesado e alongado na água e pedir, sem nem saber, que ela abaixe minha bola um pouco e eu volte a ficar humilde. Sempre tomo água sem humildade como se desse um trago em um cigarro. Ninguém traga com humildade. É a cena mais banal do mundo, mas, sei lá por que, me sinto sempre uma estrela sedenta quando dou meu gole cheio de tédio em um copo com água. E aí se vão alguns minutos em que desejei apenas coisas automáticas ou fisiológicas ou bobas pra parecer inteligentezinha. E, nem assim, alguns minutos em que eu não tenha sido escrava do meu desejo absoluto e insuportável em ser algo grande e não banal. Ou ser algo de uma banalidade tão verdadeira, que choque as pessoas. Não paro de querer algo, que eu nem sei ao certo o que é, nem quando limpo uma gotinha no canto da boca. Não, não tem nenhum e-mail interessante. Que me enfie num carro acolchoado e me leve por uma estrada florida. Que me faça sentir o máximo e absolutamente feliz. E absolutamente cheia de amigos e amores. E absolutamente. Sei lá. Vontade de sumir para um canto com jardim e sem vista para posto de gasolina. Posto de gasolina, sei lá por que, me lembra que a força uma hora acaba. Só chamar os melhores amigos para experimentar minha comida quase boa. Escrever ao lado de chás, plantas, pôsteres e meias. Ter biblioteca, dvdteca, enoteca e só pra ser fofa uma linda cama pra tirar uma soneca. Vontade de andar de carro em horários que só os escolhidos andam. De me sentir sempre como me sinto quando chega a tarde. Um horário protegido pelas horas secas da manhã e frias da noite. Um horário pra dormir sem ser o sono oficial e pra amar sem ser o amor oficial. Um horário não oficial e que acaba sendo mais vida do que os outros. Vontade de nunca mais passar mal em avenidas com ônibus, bares que fedem a frango assado às sete da manhã e almas feias e berebentas que me assaltam e me fazem engolir feiúra para eu lembrar que tenho medo e que sou preconceituosa. Eu peso mil quilos. Antes uma chata que uma gorda de verdade. Vontade de ser do mal. Vontade de ter com quem ir para Tiradentes. Sabe, a cidade histórica? Não conheço. Tá valendo Petrópolis também. Nem conheço ninguém com quem eu iria para lá. Se pudesse, jogava no lixo todos eles. Vontade de lavar o edredom, de ir à missa, de me alongar de forma estranha olhando a minha montanha da praia do Leblon, de ficar sem sair de São Paulo pelos próximos mil anos, de sumir de São Paulo, de trocar de celular, de e- mail, de cabelo, de calcinhas, de amigos, de família, de HD, de vida. Vontade de ir pra Paris e nunca mais falar em jantares a luz de velas, para amigos publicitários, como Paris é foda. Já saí dessa fase feliz, segura, e apenas uma fase. Vontade infinita de ser velha. E vibrar com casas de chá, passos lentos e vislumbres sábios de horizontes. Vontade de ser mãe, de ser amada apesar da péssima postura e de ser o que vim fazer aqui, sem ter que agradar gente que minha mente idiota acha ser necessária no futuro. O amor podre só fede pra quem quis sentir alguma coisa. Vontade de nunca mais ser degustada pelas beiradas; não me levam e ainda deixam um monte de merdas misturadas a mim. Como se tivessem cagado eu mesma para mim mesma. Eu só fiz gostar deles. Ou melhor: eu só fiz usá-los para gostar um pouco da vida. Se eles me usaram por causa do meu buraco entre as pernas, eu os usei por causa do meu buraco no meio do peito. Quem é mais esperto? Não sei. Estou com vontade de comer um japa, a comida, com alguém de voz mansinha que me encha de paz. E então vou ter uma vontade arrependida de estralar o pescoço no meio da noite. E de rir porque armei toda essa palhaçada de ser só apenas para dormir até meio-dia sem vergonha de ser inútil ou mesmo um pouco triste. E vou ficar um pouco feliz porque descobri que não é uma cama metade vazia e sim inteiramente cheia de mim. E vou ficar cheia de mim. Com tudo o que isso tem de bom e de ruim. E vou finalmente ter vontade de parar de pensar. A única que até hoje preencheu alguma coisa. A única vontade que serve pra alguma coisa. Vontade de porra nenhuma. Tati Bernardi 1. SINTO MUITO, MAS VOCÊ NÃO É LOUCA Tomei a decisão do ano. Depois de muito adiar, pensar, refutar (o que é refutar mesmo?), negar, blasfemar e odiar o mundo, resolvi ir a um psiquiatra. Na manhã da consulta, tomei um longo banho. Como se estivesse me preparando para um casamento muito esperado. O grande dia havia chegado. Eu finalmenteencontraria minha alma gêmea: a minha loucura. Usei meu sabonete caríssimo de mel puro. Achei que era o caso, afinal, acredito que a minha loucura deva ter um cheiro adocicado, quase enjoado. Uma loucura agradável a princípio, charmosa, daquelas que as pessoas falam “que bonitinha, é louquinha”. Mas depois embrulha o estômago, depois ninguém mais quer ver na frente. A louca mel. Usei meu novo terninho rosa. Achei que uma aparência limpinha e certinha vai bem com uma loucura dessas profundas e perigosas. A louca de preto e tatuada é só uma rebelde maleta. Mas a louca de terninho rosa pode acabar com a sua vida. Eu estava incrível. Eu sabia que ia me perder. Tinha certeza. Nunca tinha ouvido falar naquela rua estranha, naquele bairro longe, perto daquela avenida a que nunca vou. Mas não quis olhar no mapa. Me neguei. O atraso me daria um semblante desesperado e uma entrada triunfante. Posso ser louca, mas jamais serei uma louca humilde. Se é pra ser louca eu quero pa-rar aquela clínica. Quero ser a louca do ano. Do bairro. Do país. Da história. Mas o páreo estava duro. Duríssimo. Já na entrada um tipo nerd-boa- praça-criado-pelo-avô (que na verdade batia punhetinha pensando na vovó) contava, com sua voz esgarçada por uma alegria de laboratório, alguma história de elevador (bateu de dois a zero, acho que hoje esquenta, vida dura, vamos para mais um dia de batalha, ô vida, sempre em frente, acho que hoje chove, alguma dessas porras superficiais que fazem todos os individualistas se sentirem irmãos da humanidade). Encarei ele alguns segundos tremendo a sobrancelha e dilatando minhas narinas. Eu nunca havia tremido a sobrancelha ou dilatado as minhas narinas na vida. Mas fiz aquilo com uma naturalidade tão costumeira que foi como se mais uma vez meu tique nervoso de anos tomasse conta de mim. Senti que ali eu começava a ganhar poder. Se eu podia ser mais estranha que aquele tio virgem de 48 anos, o resto tava no papo. E, por falar em papo, me dei uma papada extra. Louco que é louco tem um semblante de sapo assustado. Olhos esbugalhados e queixo colado no peito. A sapa louca. Mas não, ninguém disse que ia ser fácil. O jogo estava só começando. Ao meu lado estava uma baixinha toda vestida de flanela (e eu achando que meu terninho rosa ia fechar com chave de ouro a tarde). Ela segurava um celular colado ao ouvido, mas nem falava, nem ouvia nada. Quase a abracei e falei: “não, ele não vai ligar, esquece”. E eu me achando louca porque esperava alguém me ligar há 28 anos. Ela devia ter pelo menos o dobro da minha idade, e ainda estava esperando. Quis sentir pena. Quis desistir. Quase chorei. Mas segui em frente. Eu precisava ser a bela louca da tarde. E ia conseguir. Quando a recepcionista me chamou para preencher um formulário, notei que uma das perguntas era “você acredita em Deus?”. Senti que ali tinha jogo, era a minha deixa, o meu golden point, para plagiar o PAN. E foi então que perguntei para a recepcionista, em alta e boa voz esganiçada (da onde saiu aquela voz?): “se eu não acredito em Deus, posso deixar essa parte em branco ou apenas escrevo eu não acredito em Deus em letras de forma?”. Todos calaram. A recepcionista arregalou os olhos e colou o queixo no peito. O tio nerd que queria comer a vovozinha esqueceu seu time, a temperatura e o “vamo em frente, galera”. A tia da flanela finalmente desgrudou o celular dos ouvidos. Eu era absoluta. Uma louca atéia. Porque louco que é louco acredita em Deus. Mas louco muito louco não acredita em nada. Nada. Louco que é muito louco é louco o suficiente para não acreditar em nada. Eu era absoluta. A sala de espera era minha. Obrigada, Deus, por mais essa vitória. E então ele veio. Alto, magro, careca. O olhar distante. As mãos caídas ao lado do corpo. O ombro entregue, os joelhos entregues. E então ele preencheu e entregou também o cheque. Quinhentas pilas. E ficou ainda mais entregue. Tudo nele se doava, não por bondade, mas por falta de força em permanecer. Aquilo era triste demais. Quase, por muito pouco, não lhe repassei minha medalha. Ganhar de psicopatas, tias enlouquecidas por um coração murcho (ou uma vagina ressecada) e recepcionistas carolas era fácil. Mas ganhar da tristeza? Poxa, tristeza não tem fim, como diria o poeta. Quem é que quer medir forças com o infinito? Eu. Eu queria medir forças com o que fosse preciso. Eu já estava lá mesmo. Eu já ia desembolsar quinhentas pilas. Eu poderia ser ainda mais triste e ainda mais entregue que aquele careca. Eu só não poderia ser mais careca. E foi então que sua esposa chegou. Se sentou ao seu lado. Lhe fez um carinho no braço. E ele sorriu. O careca, de dentro do inferno, teve um segundo de paz. E eu, para meu desespero, ganhei novamente. Foi a vitória mais triste da minha vida. Eu era finalmente o ser mais infeliz daquela sala de espera. Eu era o ser mais solitário daquela sala de espera. Dizem que o topo da montanha é frio e solitário. E era exatamente assim que eu me sentia de cima do pódio da loucura. Peguei meu celular e colei no ouvido. Depois fiquei com vergonha, olhei para o lado, e puxei papo com o tio da temperatura: “frio aqui dentro, não? Não gosto de ar-condicionado”. Quase me levantei e escrevi no formulário “espírita”. Eu acreditava sim em Deus, mas onde é que ele estava, afinal, que não me dava alguém para me fazer um carinho no braço e me dar uns segundinhos de paz nessa vida infernal? Onde? Era minha vez. Pronto. Eu já tinha provado para toda uma sala de espera que eu era louca. Eu já tinha provado para mim, há muito tempo, que eu era louca. Dificilmente amigos, namorados, casinhos, familiares e vizinhos desmentiriam minha loucura. Agora eu só tinha que convencer o melhor psiquiatra do país. E então eu seria condecorada. Entraria para o hall chiquérrimo de quem passa por essa vida com uns parafusos a menos. Eu tinha exatamente uma hora para conseguir o feito. O que certamente não seria nenhum sacrifício. Bastava que eu fosse eu. Quem finge tremer a sobrancelha, finge dilatar a narina e finge morrer semanalmente por amor, provavelmente é mais louco do que quem faz isso pra valer. Vinte minutos contando para o doutor plus MBA master of the universe sobre minha bipolaridade e ele nada. Nenhuma comoção. Então quer dizer que você ama a vida quando tem nhoque de mandioquinha com molho branco e odeia a vida quando o porteiro não deixa o jornal na sua porta? Ora, Tatiane, isso é normal! Mais vinte minutos contando sobre minhas obsessões. Que até hoje eu quero a cabeça do professor Nicola, que me tratou mal na frente de todos os alunos, na terceira série. Que até hoje eu quero ver terra na boca do Binho, o capoeirista do primário que tirava sarro do meu corpo magro. Que até hoje eu quero que o pinto do fulano caia, só porque ele me largou há uns dez anos. Se bem que o pinto do fulano já não ficava mesmo em pé naquela época. Essas coisas. E ele nada. Nenhum movimento próximo do que seria uma caneta prescrevendo em letras ilegíveis algumas tarjas pretas para mim. Nada. Ele apenas sorriu e falou: “hummm, não gosta de perder, né, Tatiane? Um pouco mimada, não?”. Não! Isso não ia ficar assim. Agora ele iria ver. Sabia, doutor, que eu vejo espíritos? Sabia? Já vi crianças, velhos, cachorros. E ele nada. Achou bonita a minha mediunidade. Cachorros e crianças eram energias boas. E os velhinhos? E os velhinhos, doutor? Eu estava começando a apelar. Os velhinhos também podem ser energias boas, Tatiane. Sabe, doutor, quando eu fico muito nervosa, eu espumo! Normal, querida, nervoso seca a boca e deixa a saliva grossa. Sabe, doutor, eu já empurrei minha mãe algumas vezes. Mães são chatas mesmo, minha filha. Um dia eu achei que fosse bater o carro e... bati! Poder da mente, criança. Se eu não tomo banho antes de ir para a cama, não consigo dormir. Que bom! Uma garota limpinha! Sabe, doutor, eu choro no banho todos os dias. Eu sei: você é mulher. Desisti. Tinha gasto quinhentas pilas para descobrir que eu era normal. Pior: teria que passar pela humilhação de retornar à sala de esperasem nenhum pedido médico. Nenhunzinho. Eu já podia ouvir o riso contido dos loucos. Eu já podia ouvir os comentários que ficariam depois que eu deixasse a clínica: “coitada, só mais uma garota normal”. Eu estava arrasada. Quis mais tempo para me defender, mas a consulta havia chegado ao fim. Derrota absoluta. Ele apenas se levantou, me deu a mão e se despediu com aquele sorriso experiente das pessoas que têm pena de quem é feliz mas não sabe dar valor. Eu era feliz, eu era normal, mas não sabia dar valor a isso. Quando cheguei ao meu carro quis retornar à sala do médico e perguntar, numa última e desesperada tentativa: “peraí, mas ser feliz e ser normal, e não dar valor a isso, não é coisa de louco?”. Mas eu já sabia a resposta. Eu era insuportavelmente igual a todo mundo. 2. O CONTRATO Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós. A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre. E a orelha ouviu uma sacanagem qualquer, e a mão se encaixou ali no meio das minhas pernas. Você me chamou de amor ontem, enquanto a gente transava. Eu quis chorar. Mas também quis rir muito da sua cara. Acabei só esquecendo isso. Talvez o “mô” que você murmurou seja porque, no dia anterior, naquela mesma cama, você tenha comido alguma “Mônica”. Prefiro pensar assim. Se eu for muito, mas muito escrota, talvez eu me proteja de me assustar muito. Caso você seja escroto. Eu sendo de pedra não quebro com a sua pedra. Sei lá. Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não tô esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer. Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas, ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer e vontade de fazer sexo. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô superbem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não me deixa assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não me faz ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso. Combinamos que não era amor, e realmente não é. Mas, esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque, quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado. Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo. Não é amor, não. É mais que isso, é mais que amor. Porque, pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque, pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque, pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre. E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não-amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não-amor. E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque, no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro. Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para fingir pro cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita. 3. FLASHBACK “Acho que é uma balada meio flashback”, ele disse. A tradução para “ele”: meu amigo, seis anos mais novo e... meu estagiário. Eu era a última solteira das minhas amigas e estava sozinha em um casamento com 456 casais cheirando a mofo e sexo mecânico (todos me olhando com aquela carinha de “calma, tia, sua hora vai chegar”), e achei que a idéia merecia uma análise. Afinal, a maquiagem tinha custado caro demais para eu ir dormir antes de borrá-la. Flashback não tinha descido direito pela goela e, pra piorar, ele disse o nome que me arrepia de nojo, dos pés à cabeça: vila Olímpia. Mas, pensando bem, não era uma pena terminar a noite com um vestido tão caro e nenhum amassadinho nele? Resolvi arriscar. Assim que cheguei na porta da balada, dei aquele tapa de desenho animado na testa: que porra tô fazendo aqui? Era justamente um daqueles lugares a que dedico uma vida a maldizer: garotos bombados, garotas iguais, música ruim, gente perdida que circula sem parar e/ou dança em círculos. Já estava dando seta no carro para desintegrar o mais rápido possível dali quando ele ligou: “nem precisa pegar fila, meus amigos mandam aqui”. Medo. Essa coisa de ter amigo que “manda” na balada não combina muito comigo, mas eu já estava lá mesmo, não estava? Ainda era cedo pra dormir, mas já era muito tarde para tentar arrumar outra coisa pra fazer. Continuei em frente. Já na entrada, um daqueles típicos seguranças-armário de recintos playba (baladinha cult tem hostess lésbica tatuada ou gay que transa mulheres aos sábados) me parou pra fazer aquela encenação que eles adoram: “Segura aí, senhorita, que eu tô recebendo instruções”. Sabe a síndrome dos pequenos poderes? Sabe o zelador dono do prédio? Sabe a recepcionista metida que se acha amante do dono só porque ele fala “bom dia, princesa” às sextas-feiras? Sabe guardinha de bairro que adora ajeitar o cinto pra mostrar a pistolinha? Odeio gente medíocre. Balada playba sempre tem um armário medíocre na entrada. Aquele que é o melhoooooor amigo das idiotinhas promoters e seus flyers, mas nunca pega nenhuma porque não tem carro importado. Enfim, depois do showzinho do armário das Casas Bahia (sem direito a ganhar um pufe ou um rack) eu pude entrar. A visão de dentro era um pouco mais infernal que a de fora. Não havia sequer 1 centímetro de metro quadrado que não fosse ocupado por alguma acéfala de tomara-que-caia ou algum feromônio macho de regata Diesel. Cascas somente; erasó decifrar qualquer segundo de papo furado para descobrir que o R da poRta era a letra com maior volume e ênfase. Pensei em comunicar ao armário das lojas Marabraz que muito obrigada, mas eu não ia ficar naquela festinha tão sensacional, mas avistei meu amigo e seus amigos no bar. Não custava nada, já que os amigos do meu amigo mandavam na balada, ir até lá para agradecer o convite, ficar mais alguns segundos e depois retornar ao maravilhoso universo da minha casa vazia e silenciosa. “Esse aqui é o Pedro; esse, o Thiago; esse, o Rafa; esse, o Denis; esse, o Paulão; e esse aqui é o Cesinha.” Agora vamos à tradução: esse aqui é o lindo; esse, o de olhos azuis; esse é o de corpo perfeito; esse é o pica de ouro; esse, o ombro largo; e esse aqui, o boca carnuda. Considerando que meu amigo (tá, meu estagiário, seis anos mais novo do que eu...) é um gato e tinha mais seis amigos gatos, pensei que, quem sabe, já era tarde demais para ir a outro lugar e eu já estava lá mesmo, sei lá, de repente, talvez não fosse uma boa ficar mais uma meia hora por ali. Por que não? Como diria um amigo meu: tudo vale como pesquisa antropológica. Nas picapes o hit era algum poperô revisitado (lembrem-se de que se trata de uma balada flashback, o.k.?); na minha frente, um grupinho de melhores amigas que se odeiam brincavam de chicotear com o cabelo de formol quem atrapalhasse suas danças. É, acho que tá na minha hora. Deu. Fui. Até. Mas, no minuto em que planejo uma boa desculpa para a despedida, meu amigo resolve falar comigo se apoiando carinhosamente na minha cintura. Sua voz no meu ouvido e a visão paradisíaca dos seus amigos caçando em bando (uga-buga, uga-buga — eu os imagino com o tacape na mão) me fazem criar forças suficientes para me manter paralisada. Bebidas coloridas e fumaças doces depois (tô falando daquela fumaça branca que eles soltam para dar um clima “disco voador da Xuxa aterrissando” e ninguém ver você dançando como uma besta, e não de nenhuma droga), lá estava eu me acabando de dançar no meio da pista. Aquele poperô não era de todo mal, sabia? Me lembrava um tempo não muito distante (dez anos atrás?) em que eu era menos crítica e mais feliz. As melhores amigas que se odeiam até que tinham seu charme. A pista ultramastermegalotada também tinha sua utilidade: eu estava praticamente no colo do meu amigo, tamanha era a falta de espaço. Tati, você é o máximo, uma beliscadinha na coxa. Tati, foi um prazer te conhecer, uma raspadinha no abdômen. Tati, seu perfume é bom, uma cheiradinha na nunca. Tati, o que você quer beber?, um carinho no cabelo. Tati, você vem sempre aqui?, um abraço apertado. Resumindo: eu era a melhooooooor amiga dos caras que mandavam na balada. Algo me dizia que eu estava feliz. Será que eu estava feliz? Era possível ser feliz em um lugar tão idiota com pessoas idiotas? Sim, era possível. Era possível porque eu também era uma idiota. E, quer saber? Realmente só os idiotas são felizes. Eu estava feliz pra cacete. Ou por causa do cacete. Mais especificamente: sete cacetes. Era felicidade a dar com o pau. Ou para o pau. Mais especificamente: sete paus. Foi aí que meu amigo (e às 3h47 da manhã a palavra “meu estagiário” faz tanto sentido para uma mulher na seca quanto a frase “é problema na correia dentada”) resolveu que nossa amizade jamais seria afetada por um beijo. Que mal há em um beijo? Um simples beijo? Um beijinho de nada? Inofensivo. Algo mais ou menos como um desentupidor de pia com mais de cinco horas de duração. Que mal há em um beijo assim? Dado na escada, no cantinho atrás do bar, no banheiro, no chão, embaixo das mesas, deitados no sofá? Que mal há em ele enfiar a mão dentro do meu vestido para sentir a renda do meu novo sutiã? Ou de querer conferir a elasticidade da minha calcinha? Que mal há nos 345 chupões que eu levei por todo o meu corpo no meio da pista? Que problema há em abrir zíperes, lamber nucas e umbigos na frente de todo mundo? Nenhum. Oras, ele não é meu amigo? Amigo é pra essas coisas. Oras. Eu tinha esquecido que os jovens beijam. Eu, com essa minha mania de gostar de tiozão (que prefere ir direto ao assunto, logo depois do foie gras), havia me esquecido que os jovens beijam. E como beijam. O dia amanhecia enquanto minha boca ia ficando do tamanho do sol. A lalarilalalalá a lalariralalalalarirá lalarirarararará. Ahá iéié, wanna be my lover? Ahá iéié, wanna be my looooooover?! Puta letra iraaaaaaaada! Adoro. Adoro poperô. Adoro os anos noventa. Quero ser a melhoooooooor amiga das melhores amigas que se odeiam. E era beijo na orelha. Quero falar poRta. Tão lindo esse sotaque caipirinha, não? Ah, que fantástica essa vida. E era beijo no meio da escada, atrapalhando todo mundo. Quero comprar armários nas Casas Bahia, nas Lojas Marabraz. Quero colecionar flyers. Quero virar promoter. Que ser escritora, que nada. Vida chata da porra. Que publicitária, que nada. Eu quero é ser promoter. Quero inflar meus pulmões desse gás branco maravilhoso das pistas. E era a língua dele que quase atravessava a minha cabeça. Quero morrer amiga do Thi, do Rá, do Pê, do Pau, do Dê e do Cesinha. Adoro essa galera. Adoro essa galera que manda na balada. Que bom que eu era a última solteira das minhas amigas. Ahá iéié, wanna be my lover. Puta letra irada. De todas as dúvidas existenciais que carrego em meu ser, só restavam três: eu não conseguia decidir se eu tinha 16, 17 ou 18 anos. Acabei escolhendo 17, aquela fase sensacional em que nada é sua culpa, mas já dá pra entrar na balada sem mostrar a identidade pro armário. No final da noite eu já não tinha mais nenhuma maquiagem no rosto (em compensação, ele parecia o Bozo) e meu vestido era uma massa amorfa. Era hora de voltar para casa. Sozinha, é claro. Afinal: meninas de 17 anos jamais fazem sexo sem amor. Ou pelo menos não faziam na minha época. 4. ENFIM, NÓS. E A CLAUDINHA Foram quatro horas e cinqüenta minutos ao meu lado. E ele vai embora feliz da vida achando que conheceu alguém legal. Foram menos de cinco horas e me dá certa pena pensar nos próximos dias, meses. Talvez anos, se ele for algum tipo de corajoso, algum tipo de masoquista. Eu consegui, por hoje deu tudo certo. Fui inteligente e carinhosa durante o cinema. Depois fui engraçada e um pouco mais carinhosa durante o jantar. Na minha casa eu segui conseguindo, conseguindo ser alguém com quem se quer passar um feriado em Buenos Aires. Mas tenho certa pena do dia de hoje, tenho certa pena de como esse dia corretinho, linear e brilhante pode ser corroído pelas chuvas, calores e sujeiras. E acabar como algo disforme, fosco e fraco. Eu queria que você soubesse, meu amor, que sou dessas loucas. Dessas loucas que vão te chamar de meu amor, mesmo você estando na minha vida há apenas uma semana. Dessas loucas que vão querer te matar só de pensar que, talvez, daqui a cinco anos, você me troque pela Claudinha, uma menina mais nova e sem as minhas manias insuportáveis que você ainda não conhece. E aí, mesmo eu te conhecendo há apenas uma semana, vou te odiar pelo que vou sofrer daqui a cinco anos. E vou te odiar, sobretudo, porque daqui a uma semana, quando você se apaixonar pelas minhas manias insuportáveis, eu vou acreditar que você nunca vai enjoar delas. Eu sou dessas malas-sem-alça que vão ter ciúme dos seus amigos, dessas pessoas maravilhosas que te conhecem há muito mais tempo que eu. Essas pessoas maravilhosas que serão as primeiras a saber, daqui a cinco anos, que você está comendo a vaca da Claudinha. Aliás, eles que vão te apresentar a vaca da Claudinha. Só de pensar nessa puta da Claudinha, sabe o que eu fiz assim que você saiu da minha casa ontem? Eu liguei para o Pedro. Depois para o Ricardo. Depois para o Fábio. E deixei todos de sobreaviso: ando supercarinhosa, gatos. No fundo, no fundo, não tenho a menor vontade de ser carinhosa com nenhum deles. Mas sou dessas idiotas covardes que, quando percebem que estão gostando de alguém, resolvem gostar de vários. Só para banalizar o sentimento. Só para descentralizar a renda. Olha eu, fazendopiadinha meio de esquerda... olha eu, escrevendo meio parecido com você e dando nomes para personagens. Eu sei que gosto de alguém quando esqueço de não gostar tanto de mim. E eu gosto de você, mesmo sabendo que você gosta de mim por pouco tempo. Ai, amor, amorzinho, amoreco, moreco. Eu odeio esses carinhos, odeio. Mas falo todos eles baixinho antes de dormir, para o espaço ao lado da cama que ninguém ocupa. E eu sou um pouco mais estranha do que ser estranha permite. Sou estranha além do charme de ser estranha. Eu sou daquele tipo bizarro, que eu nem sei direito se existe, que vai te acordar, daqui a algumas semanas, chorando como se tivesse te perdido para sempre, ainda que você nem saiba direito se fez bem ou não em dormir, logo assim de cara, na minha casa. Eu sou sempre cinco anos na frente; eu já começo sofrendo com o fim, eu já tiro a roupa com o gosto meio vazio de resgatar as peças pelos cantos depois. Eu vivo o luto de tudo, antes mesmo de comprar uma roupa colorida pra curtir que você foi embora ontem, lá de casa, querendo voltar. Eu sei que você quer voltar. E eu sei que serei muito feliz por cinco anos, até a puta da Claudinha aparecer. Aquela vaca. Pensa bem, meu amor, pensa bem. Eu sou daquele tipinho baixo de mulher. Daquele tipinho que rouba o seu celular enquanto você faz seu xixi feliz da vida, achando que conheceu alguém legal. Eu sou daquele tipinho raso, que vai xeretar seu orkut, tentando descobrir o que sua ex tinha que te fez demorar tanto para aparecer na minha vida. E vou odiar toda a sua história, e vou odiar que seus amigos sejam amigos da sua ex, e vou odiar que seus amigos adorem contar suas histórias do passado. E vou ficar quietinha, perdida, no canto da mesa. Querendo ligar pro Ricardo, pro Fábio e pro Pedro. Não que eles sejam melhores do que você, porque não são. Mas eu preciso fugir de você ser tão legal. Porque você é definitivamente muito legal, tão legal que não vai agüentar e vai me largar daqui a cinco anos. Inebriado pela mente menos complexa, pelo peito menos angustiado e pela bunda mais dura. Da Claudinha, claro. Sempre ela. Ainda dá tempo. Ainda dá tempo de você se libertar do meu cheiro de manga, que você gosta tanto. Ainda dá tempo de se libertar da minha neura de contar as coisas e de não encontrar razão para haver um pão de forma na fruteira. Agora tem graça, mas imagina esse mesmo cheiro de manga e essa mesma conta que soma o mundo sem nunca subtrair nenhuma tristeza daqui a cinco anos? Cai fora, irmão. Cai fora. Não demora muito para eu começar a competir com você. E querer ser melhor que você. E querer isso justamente para que você nunca deixe de me admirar. Mas eu, mais uma vez, sem ter medida de nada, vou te sufocar com meu saquinho furado. Meu saquinho onde todo e qualquer amor ainda é pouco. Porque meu vazio é imenso. Já imaginou só? Já imaginou quando algum amigo seu apontar e falar: quem é aquela louca ali, berrando no meio da festa e pegando um táxi? E você vai ter de voltar sem graça, e explicar: ela se irritou porque eu peguei a última água com gás sem perguntar se ela queria. É isso o que você quer para a sua vida? É isso? Uma mulher que bebe refrigerante quente em pleno verão do Nordeste, receosa pela procedência do gelo? Uma mulher que tem mais medo de vomitar do que de paraglider? Uma namoradinha meiga que a qualquer momento pode soltar 345 palavrões no seu ouvido só porque você tem mais coisa pra fazer da vida do que me idolatrar? Combinado, então? Você vai ler agora esse texto, ficar meio tristinho, afinal de contas, não é todo dia que se perde uma mulher como eu, mas vai ser forte e terminar tudo. Terminar tudo e ir logo de uma vez conhecer a puta da Claudinha. Essa vaca. E aí, daqui a uns cinco anos, quando você descobrir que mulher é tudo a mesma coisa, quando você estiver enjoado das manias insuportáveis da Claudinha, quem sabe algum amigo seu não me apresente a você? E quem sabe a gente não é feliz pra sempre? 5. A TECLA “A” Quem tem MAC sabe a dificuldade que é arrumar um cara que entenda de MAC. PC qualquer CPD formado em segundo grau técnico sabe mexer. Já MAC é coisa para uns tipos estranhos. Um cara que fica entre um engenheiro frustrado e um artista plástico mais frustrado ainda. Com sorte fui apresentada a um tipo desse, semana passada. Meu computador tava todo bichado e o tipo estranho veio na hora certa. Por trezentos paus deixo seu computer zerado e ainda arrumo seu iPod, moça. Beleza. Topei. Nem sei se fui roubada, mas topei porque o cara trabalha na esquina da minha rua e isso pra mim foi um sinal de que aquele cara merecia todo o dinheiro do mundo. Depois da minha mãe, que mora a três quadras de mim e sabe fazer nhoque de mandioquinha, o Marcelo dos MAC acabava de ser eleito o cara mais legal do universo. Ele falou que ia precisar passar a tarde com o meu computador e eu quis sofrer com isso, afinal: eu trabalho nele. Afinal: minha vida tá nele. Afinal, caceta: eu tenho dezenas de fotos da minha bunda nua nesse computador! Fotos que fui tirando ao longo dos anos pra ver se anda servindo de algo o dinheiro gasto com cremes, massagens e malhação. Minha empregada outro dia falou: “vixe, a senhora não percebe, mas antes era muito pior!”. Adoro a Maria, ela sabe valorizar a minha bunda como ninguém. Foi então que inventei uma desculpa aqui, uma curiosidade ali, e resolvi ir junto com o meu computador. O tempo que fosse necessário eu ia ficar ali, junto dele e do Marcelo dos MAC. O Marcelo olhou pra mim e falou: “a senhora não confia quando faz um exame médico? É a mesma coisa, tem que confiar no profissional!”. Pois então, mas eu confio tanto nos médicos que inclusive eu vou junto com o meu corpo ser examinada por eles, não? Enfim, fiquei quatro horas e meia na casa do cara. Olhando meu filho ser desmontado, remontado, desmontado de novo e cuidando para que nenhuma foto da minha bunda antiga fosse descoberta. Da bunda nova até vai lá! E quatro horas na casa de um desconhecido estranho só poderia resultar em um papo muito estranho. Afinal, eu posso ser tudo (ser louca o suficiente pra ficar anos fotografando minha bunda, ser louca o suficiente pra ficar quatro horas na casa de um cara cuidando para que ele não visse nenhuma das fotos, sendo que o mais fácil era ter gravado as fotos num CD e apagado do computador), mas eu não sou mal-educada. Ou seja: puxei papo com o cara. Contei que era escritora, coisa e tal. Trabalhava em casa. Tinha até uma dúzia de fãs aqui e ali. E ele olhou sério pra mim e falou: “você escreve sobre amor, não é?”. Poxa. Tá tão óbvio assim? Só porque sou menina de batom rosinha? Só porque sou tão carente e possessiva que não consegui ficar longe do meu computador quatro horas? Só porque meu iPod tem musiquinha mela-cueca? Porque falei que tenho fãs meninas? Por quê? Hein? Por quê? E ele me mostrou com simplicidade da onde tinha tirado aquela idéia, apontando para a tecla “A” do meu computador: “tá apagada; de tanto você escrever sobre o amor o ‘A’ apagou”. E foi naquele momento, nos fundos de uma casinha simples e cheia de monitores e teclados mortos, e que um dia já receberam e escreveram muitas cartas de amor, que eu tive a brilhante idéia: tá na hora de mudar um pouco esse foco! Cheeeeega desse assunto! Não agüento maaaais falar disso! Preciso trabalhar, viver e ser feliz com minhas outras teclas! Aí cheguei em casa e resolvi escrever o primeiro texto de não-amor do ano. Melhor: resolvi recomeçar o ano escrevendo o meu primeiro texto que não fala de amor. Um texto que fala de qualquer coisa, do meu MAC que quebrou, por exemplo. Ou da minha rua que fica perto de tantos lugares legais como a casinha do Marcelo dos MAC. Ou das fotos progressivas da minha bunda, da minha empregada Maria, do nhoque da minha mãe. Ou até mesmo de uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas. E foi então que eu descobri uma coisa fantástica, talvez a mais fantástica de todas: quando a gente pára de procurar desesperadamente por um amor, a gente percebe que pode amar qualquercoisa. Eu posso amar meu computador, minha rua, minhas fotos, minha empregada, o nhoque da minha mãe. Ou até mesmo uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas. Droga, e eu achando que dessa vez não ia bater na mesma tecla. 6. HOMENS DO MERCADO Acordei assim meio sem ter o que fazer, uma vontade danada de ter alguém com quem rir e ficar pelada. Tem desse modelo dois em um que serve pra rir e pra ficar pelada, moço? Tem, senhora. Senhorita, por favor. Ainda ninguém quis casar comigo. É pra viagem ou vai comer agora? Vou comer no carro; embrulha, mas não capricha muito não que eu tô com pressa. Impressionante essa tecnologia dois em um. Eu realmente dou risada a noite toda e de tanto rir vai dando aquele calor, aquela vontade de ficar pelada. A indústria do entretenimento demorou, mas descobriu que o tesão da mulher tá na laringe. Quanto mais a gente dá gargalhada, maior a vontade de abrir a perna. Boneco bom esse modelo loiro magrelo, pena que vende aos montes e quase todo mundo pode ter. No dia seguinte começou a falhar. As piadas eram as mesmas, o sexo ficou sem magia e o botão do amor deu pau. Já foi o tempo que a gente dava valor para um produto a ponto de brigar por ele. Hoje em dia tá tudo tão fácil que comprar outro sai mais barato que tentar consertar. Tá lá o moço loiro ao lado da lata de lixo do meu prédio. Talvez a Emengarda faça bom uso dele, talvez como abajur. Ele é branquelo demais. Aí tava meio de bobeira andando pelas lojas e pensei: por que não um desses garotinhos com brilho nos olhos? Desses cheios de vontade de vencer na vida e de viver a vida? Adoro esses garotinhos que não fedem a frustrações e que tentam desesperadamente parecer homens. Talvez eu goste deles porque eu também só tente parecer mulher. Bom, dei algumas moedas na mão da minha menina e dessa vez foi ela quem saiu feliz da vida com uma imensa sacola cor-de-rosa. Pode tirar a roupa dele, mãe? Pode, garotinha de maria-chiquinha, mas depois não vá dizer que eu não avisei: no dia seguinte dá um vaziozinho no coração. Nada que não passe com as próximas compras. Pode dormir abraçadinha nele, mãe? Pode, mas aí piora um pouco mais. Melhor um coração vazio e inteiro do que um todo despedaçado. Mas vai lá, filhinha, é bom pra você aprender. Brinca bastante com ele, depois, quando ele se autodestruir em alguns segundos, mamãe compra outro pra você. Chora não, menina boba. Era só um garotinho igual a 345 que têm nas lojas. Que modelo você quer agora? Quer o modelo que fala irado, o que fala maior vibe ou o que fala insano? Ah, mãe, queria um que falasse coisas mais inteligentes e profundas; tem desse? Tem, mas custa um pouco mais caro porque é importado de outro planeta. Nada que dez vezes no cartão não resolva. Acho que preciso de tratamento psiquiátrico. Vou levar as reservas da minha alma à falência se continuar gastando desse jeito. Nem bem enjôo de uma compra já quero logo sentir de novo o prazer de tirar um encantamento da caixa. Novinho em folha. Oi, será que por acaso vocês não têm aí um modelo que já vem com assunto? Tô sentindo uma falta danada de ter com quem conversar. Tem, claro que tem. Esse aqui já vem com três cartuchos sobre cinema europeu e você ainda leva a nova revista Piauí totalmente de graça. Volto pra casa com meu novo joguinho. Fico até um pouco cansada porque o manual de instruções desse modelo vem num português mais rebuscado. Quase sinto saudade do antigo boneco que com o mesmo comando falava irado e abaixava as calças. Mas acho que já tenho idade para passar de fase e tentar uma conquista mais difícil. Putz, botaram toda tecnologia no cérebro e esqueceram do resto. Boneco chato esse, tá louco. Sexo que não toca música e coração que não pisca. Já foi o tempo que os brinquedos faziam pirotecnia. Esse nem voa, nem me faz voar. Começo a me irritar; essa indústria do entretenimento faz de propósito: não existe o boneco perfeito justamente pra você voltar na loja todos os dias. Mas cansei desse papo, não sou besta não. Vou acabar pobre desse jeito. Ei, moço, vocês não têm aí um que me faça rir, me dê tesão, seja inteligente e tenha coração? Ah, e de preferência um forte, que não quebre tão fácil. E que venha com vários cartuchos de assuntos que é para eu não enjoar. Opa, e que tenha garantia, claro. A pior coisa são esses bonecos que a gente compra barato, mas vêm sem nota. Tem não, moça. Esse tá em falta. Fizeram uma versão limitada e vendeu tudo no mesmo dia. Deixa seu nome ali na lista de espera que quando chegar a gente te liga. Meu nome já tá lá há 28 anos, moço. Mulher já nasce querendo um desses. Desculpa, moça, vou ficar devendo. Tudo bem, eu já sabia. Mas, já que é pra esperar sentada, me vê aí um modelo com o joystick bem grande. 7. ASSUMINDO O ET PIROCUDO Ontem foi o meu aniversário. Vinte e nove anos. Não tô exatamente onde eu queria estar (fama, glamour, sucesso, machos incríveis, bunda maravilhosa, ilha de Caras, semblante enigmático que o mundo tenta decifrar), mas tô muito além do que pensava quando pensava como eu estaria com 29 anos. Aí me lembrei da história do duende pirocudo. Em São Paulo, mais especificamente na vila Madalena, tinha um tiozinho, que eu acho que até já morreu, que perambulava pelos bares vendendo um ET pirocudo. Mas era duende ou ET, Tati? Sei lá, o fato é que era pirocudo. E um ex namorado meu, que não era pirocudo, entrou numa de fazer graça para os amigos de boteco e me deu de presente a porra do boneco verde pirocudo. E eu, achando graça, botei a porra do boneco pirocudo em cima da minha mesa, na época em que era estagiária da W/Brasil. Isso faz dez anos. Aí o Rodrigo, que era um redator que tinha na W/Brasil, e que era pica grossa, um dia me chamou na mesa dele e falou: “olha, minha filha, se um dia você for alguém, se um dia alguém souber quem você é, se um dia você for fodona, você bota a porra de um ET pirocudo na sua mesa e foda-se o mundo, mas, antes desse dia, enquanto você é só uma estagiária, é melhor tirar essa porra daí que pega mal”. Eu lembro que ensaquei a porra do duende como quem enfia o rabinho verde entre as pernas e nunca mais apareci com ele por lá. Achei que ele, o Rodrigo, tinha razão, e continuo achando. Mas hoje, no meu aniversário de 29 anos, resolvi que chegou a hora de reverter essa situação. Eu definitivamente não preciso mais esconder a minha piroca verde. Quer saber? Eu finalmente sou alguém e sou foda! Chegou a hora de botar o pau verde pra fora. O pau verde na mesa. De matar a cobra e mostrar o pau verde. Nem sei mais por onde anda a porra do presente bizarro que meu ex- namorado me deu e causou tanto mal-estar na W/Brasil (acho que minha empregada do Reino de Deus jogou fora), mas sei que chegou a hora de assumir outros monstros verdes e pirocudos. Maiores, mais verdes e mais pirocudos. Chegou a hora de assumir, por exemplo, o meu peculiar jeito de ser. Mal- humorada com sons, principalmente os relacionados a gente que não sabe comer (comida) ou beijar sem estalar a língua. Fresca com comida, de preferência as que esperam você cheias de perdigotos em self-service gordurosos ou, pior, são trazidas pelo garçom que insiste em botar o dedão dentro do prato. Sensível pra cacete, maldosa na mesma intensidade, feliz de andar cantando e depressiva de nunca achar que uma janela é só uma janela. E cheia de manias bem estranhas do tipo almoçar em livrarias quando estou catatônica demais para digerir comidas. Não sei por que, mas sempre acho que dentro de uma livraria todo o peso do mundo é chupado pelos livros e eu posso flutuar em paz. Comer em paz. Folhear a vida sem medo de ser puxada pra dentro. Eu sou sim a pessoa que some, que surta, que vai embora, que aparece do nada, que fica porque quer, que odeia a falta de oxigênio das obrigações, que encurta uma conversa besta, que estende um bom drama, que diz o que ninguém espera e salva uma noite, que estraga uma semana só pelo prazer de ser má e tirar as correntes da cobrança do meu peito. Que acha todo mundo meio feio, meio bobo, meio burro,meio perdido, meio sem alma, meio de plástico, meia bomba. E espera impaciente ser salva por uma metade meio interessante que me tire finalmente essa sensação de perna manca quando ando sozinha por aí, maldizendo de tudo e de todos. Eu só queria ser legal, ser boa, ser leve. Mas dá realmente pra ser assim? Eu sou essa pessoa. Que não faz questão de ver quem a minha mente castradora me manda amar e que simpatiza, ainda que por alguma doença, com quem me judia aos pouquinhos. Que quer matar a velhinha que demora horas para descer as escadas e segundos depois carrega a porra da velhinha no colo e chora sensibilizada pelas fragilidades do mundo. Eu só queria que tudo fosse belo, cheirasse bem e tivesse o brilho de um fim de tarde com bebezinhos sorridentes. Mas o mundo, as pessoas, as validades, tudo expira, tudo cai; os mitos ficam defeituosos, as fortalezas são de vidro vagabundo, tudo perde o encanto. E, para mim, aceitar tudo isso ainda é comer o feijão com pressa e entupir uma narina. Não entra direito. E eu volto a focar o lixo ainda que tenha um mar ao fundo. Eu volto a focar o mijo, ainda que tenha a brisa e a maresia em todos os lugares. Eu volto a focar o crime, a criança descalça, os olhos adultos de ódio em corpinhos de cinco anos, ainda que tenha a Adriane Galisteu correndo ao meu lado. Eu volto a focar o vazio e essa imensa tristeza sem motivo dentro do meu peito, ainda que o Cristo me mande um abraço aberto não muito longe dali. Eu sou essa pessoa. Que deixa doer porque esse é o único esporte que se pode fazer deitada e que dorme demais como uma resposta blasé a esse mundo que pensa mandar em mim o tempo todo. Piroca verde. Piroca verde. Com medo de as paredes fecharem e meus amigos não me amarem mais. Com medo de sentir tanto, tanto a vida, e vomitar em cima do mundo. Com medo de quase tudo que se mexe e muito mais do que não se mexe. Mas com uma curiosidade que cura e emudece qualquer pânico. Chegar do outro lado sempre ganha de permanecer e se afogar, ainda que eu engula um pouco de água para pedir socorro em prestações e jamais precisar do definitivo. Chegou a hora de botar meu duende e meu ET verde em cima da mesa. Pendurar no pescoço. Equilibrar em cima da cabeça. Essa sou eu. Preconceituosa. Com preguiça de gente brega, de gente pobre de viço, que compra Caras pra se sentir mais viva porque não tem uma vida própria. Com preguiça dos grupinhos de gente rica que ri aristocraticamente e, mesmo tendo um currículo de mil viagens à Europa, não entendeu nada do que é ter um ou outro comentário próprio a respeito do que vê. E também compra Caras. Eu também, de vez em quando, compro Caras. E também tenho preguiça de mim. Essa sou eu. Andando rápido por aí. Um pouco de olheira. Com uma tromba imensa, pois me protejo de tudo e odeio quem passa por mim. Qualquer esquina pode ser o fim. Andando lenta, fazendo amizade na banca de jornal, à espera da esquina que mude meu caminho e me ajude a ter menos medo. Piroca verde, não me deixe mais sorrir quando quero mandar se foder. Não me deixe mais presa em filas, quando tudo que eu quero é não mais pertencer ou provar. Apenas pensar na vida, usar meus cremes, botar uma meia, fazer minha massa ruim com legumes, assistir aos Sopranos e sei lá por que sentir uma alegria que poucas vezes senti ao longo da vida. Ficar comigo, só comigo. E sorrir pensando que um dia alguém tão bacana quanto eu poderia se deitar ao meu lado pra gente ser tão especial juntos. Não me deixe mais paquerar qualquer cara bobo, malvestido, sem assunto e sem magia só porque preciso de algum bosta me ligando pra me sentir mais mulher. Isso é coisa de gente imoral, de gente com mais medo da solidão do que o auge do meu medo da solidão. Não me deixe mais confundir amor com ego e ficar aprisionada tantos bons anos a um rapaz tão comum. Comum a ponto de eu querer ser tão comum quanto ele só porque, para mim, isso é ser diferente. E sair do meu corpo, como se eu tivesse experimentado algum alucinógeno, pra sentir de perto como é passar a vida rindo e indo a festas como todo mundo. Que perda de tempo não me amar absurdamente. Não me validar absurdamente. Que perda de tempo. Piroca verde, você foi posta pra fora em boa hora. Eu nunca amei tanto cada defeito e bizarrice minha. E não me pergunte o motivo pois daria outro texto enorme que não leva a lugar nenhum. É a maravilha de estar com quase trinta anos e poder ser triste, perturbada, estranha e má em paz. E poder ser tudo isso com tanta autenticidade e com tanta entrega, que tudo perde sua força, seu peso, e não passa de um bom motivo pra rir e continuar em frente. Em frente com os meus maravilhosos ETs, duendes e pirocas verdes. 8. DIRETO DO PLANETA SOLIDÃO Lá estou eu em mais uma mesa com taças de vinho pela metade, risos pela metade, fumaças desenhando algo que quase formou uma imagem, restos de couvert e bolinhas inacabadas e nervosas de guardanapo. Olho pro lado e sinto uma saudade imensa, doída, desesperançada e até cínica. Saudade de alguma coisa ou de alguém, não sei. Talvez de mim, de algum marido fabuloso que eu tive em alguma encarnação, do útero da minha mãe, do meu anjo da guarda que está de férias em Acapulco, do meu avô que embrulhava sempre meu aparelho de dentes em um guardanapo e depois esquecia e jogava no lixo achando que era resto de algum lanchinho, de algum amor verdadeiro que durou um segundo, de uma cena perfeita que meu inconsciente formou na infância e que eu me encarreguei de acreditar como sendo meu futuro. Meus amigos me adoram e certamente chorariam se eu morresse. Mas será que eles sabem que eu penso sempre na morte? Será que eles sabem que aquela garota ali no canto da mesa, de decote, de bolsa da moda, rindo pra caramba, contando mais uma de suas aventuras vazias e descartáveis, acorda todos os dias pensando: o que eu realmente quero com essa vida? Como eu faço pra ser feliz? Será que eles sabem que, se eu estou morrendo de rir agora, daqui a pouco vou morrer de chorar? E vice-versa? E isso 24 horas por dia? E isso mesmo com terapia, mesmo com macumba, mesmo com espiritismo, mesmo com meditação, mesmo com o namoradinho da semana? Será que eles sabem o tanto que eu sofro e o tanto que eu não sofro a cada segundo? Meus amigos me adoram. Mas, sempre que podem, tiram sarro da minha cara. Sempre que podem, me transformam na chacotinha da mesa: Tati não sabe nadar, Tati não se droga, Tati não bebe, Tati expõe sua vida no site dela, Tati não arruma ninguém que a ame de verdade porque é louca, Tati assusta os caras, Tati é boba e se apaixona sempre, Tati não leva ninguém a sério, Tati explode por tudo, Tati fala demais, Tati fala palavrão, Tati reclama demais… Minha melhor amiga me ama muito, mas ela adora que eu seja o erro em pessoa só para ela se sentir o acerto em pessoa. Meu melhor amigo me chamou de infeliz um dia e eu nunca mais consegui rir da infelicidade dele. Meu outro amigo me adora, muito, mas, se pudesse, de verdade, ele trepava comigo a noite inteira e nem me ligava no dia seguinte. Meus amigos me amam, muito, mas nem o máximo de amor de uma pessoa chega perto do que deveria ser amor. Amor não significa mais amor. E eu, mais uma vez, olho para o lado morrendo de saudade dessa coisa que eu não sei o que é. Dessa coisa que talvez seja amor. Sinto um nojo enorme e desesperador de todos os afetos em pílulas que posso ganhar. Fulano me acha a melhor companhia do mundo mas, pensando bem, ele pode desfilar com modelos por aí. Fulano pensa em mim todos os dias mas, pensando bem, ele tem que curtir a vida com seu carro novo. Fulano se diverte horrores comigo mas, pensando bem, ele também curte aquela tia tatuada que eu nem sei quem é e no fundo tô pouco me lixando. Fulano passeou de mãos dadas comigo naquele fim de tarde que mereceu nossos aplausos mas, quer saber? Viram ele dois dias depois de dormir na minha casa com outra numa festa. Fulano me apresentou para todos os amigos e encheu minha geladeira de comida mas, quer saber?...putz, qualquer garotinha do bar dos pseudo-intelectuais malas também pode ser interessante ou, caso não seja, ao menos tem um buraco. Odeio todas as minhas pílulas, odeio todos os amores baratos, curtos e não-amores que eu inventei só para pular uma semana sem dor. A cada semana sem dor que eu pulo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso parar, preciso esperar. Mas a solidão dói e eu sigo inventando personagens. Odeio minha fraqueza em me enganar e mais ainda a dor que vem depois dos dias entorpecidos. Eu invento amor, sim. E dói admitir isso. Mas é que não agüento mais não dar um rosto para a minha saudade. E não agüento mais os copos, as fumaças, os amigos, as intenções e as bolinhas de guardanapo pela metade. É tudo pela metade. Ao menos a minha fantasia é por inteiro. Enquanto dura. No final bruto, seco e silencioso da melhor festa do mundo que nem começou, é sempre isso mesmo. Eu aqui tomando meu chá-mate limão meio querendo chorar, meio querendo mentir sobre a vida até acreditar. Aí eu limpo a maquiagem com creme anti-sinais e percebo que não faz o menor sentido ser uma criança chorona preocupada com rugas. Aí eu me acho louca porque só tem duas coisas que eu realmente queria nesse mundo: um filho ou voltar a ser filha. E aí eu deito pra dormir e penso em sacanagem, mas também penso em coisas bonitinhas. E eu rezo pedindo a Deus que não espere mais eu ser legal para ser legal comigo, porque eu tô esperando ele ser legal comigo para ser legal. Aí eu penso que ele já é legal comigo e que, talvez, eu já seja legal com ele. E que tá tudo bem. Mas, se eu penso que tá tudo bem nesse segundo, isso só significa que vou pensar o oposto no segundo seguinte. E que eu escrevi “ele” sem maiúscula mesmo, porque amigo íntimo a gente não fica com essa coisa de endeusar. E eu queria que Ele fosse meu amigo íntimo, ou ao menos existisse. E, quando vou ver, já dormi. Sozinha. 9. COMO LEVAR UMA MULHER PRA CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO (EU SEI LÁ, VOCÊ É QUE VAI ME DIZER...) VOCÊ: ... EU: Melhor não. A gente sabe o que vai acontecer depois. VOCÊ: ... EU: E não vai me ligar amanhã nem nunca mais. E eu vou ficar achando que é porque eu “fui muito fácil”. E isso vai me deprimir não por eu ter sido muito fácil, mas por ainda existir homens como você que pensam assim. E por eu ter subido na casa de um que pensa assim. VOCÊ: ... EU: Tá bom, tá bom. Você me convenceu. VOCÊ: ... EU: Não, obrigada! Não gosto de vinho branco. VOCÊ: ... EU: Jura? Eu também adoro eles! Baixei todas no meu iPod. Deixa eu ver... Mas que estranho! Por que seu iTunes está selecionado para tocar “músicas para o abate”? Melhor eu ir embora... VOCÊ: ... EU: Ah, bom! Ufa! Que susto! VOCÊ: ... EU: Sério? Então é melhor eu tirar os sapatos. Ainda bem que você me avisou. Toma, leva meu casaquinho também e minha bolsa. VOCÊ: ... EU: Mas que estranho! Por que sua TV só pega esses filmes com homens bombados trazendo pizza e garotinhas indefesas que precisam trocar a lâmpada? E por que a vizinha regando o jardim está a fim de ajudar eles a trocar a lâmpada? Melhor eu ir embora... VOCÊ: ... EU: Nossa, que máximo! Como você é inteligente! Vamos assistir ao filme então, fiquei curiosa agora! VOCÊ: ... EU: Aceito sim! Adoro vinho branco! Pode encher! VOCÊ: ... EU: Peraí! O que é isso? Tira a mão daí! A gente não combinou? Eu quero ir embora! Me leva pra casa, por favor? VOCÊ: ... EU: Ahhh, desculpa! Tem toda razão! Ai... que vergonha! Como você é romântico! Melhor eu tirar a blusinha então, né? VOCÊ: ... EU: Claro, toma. Leva minha saia também. E desculpa por eu não ter entendido. É que eu sou um pouco assustada, sabe? Com tanto cafajeste por aí... vai saber! VOCÊ: ... EU: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Só você pra me fazer rir assim! VOCÊ: ... EU: Ei! O que você tanto procura na gavetinha do criado-mudo? VOCÊ: ... EU: Ai! Que fofo! Minha mãe também tem várias! VOCÊ: ... EU: Claro! Muito bom esse vinho branco! VOCÊ: ... EU: Ai, tem um troço me espetando. O que é isso? VOCÊ: ... EU: Onde que eu não tô vendo? VOCÊ: ... EU: Não brinca! Como a gente é parecido! Que gracinha! VOCÊ: ... EU: Mas espera um pouco! O que é isso???? Tem uma algema embaixo do seu travesseiro! Que @#$%^& é essa? Quero ir embora agora! VOCÊ: ... EU: Putz, eu não sabia! E tudo bem pra você falar disso? Não, não, não chora! Por favor! Já passou, já passou! VOCÊ: ... EU: Ahhh, fica feliz! Tava tão bom você feliz! VOCÊ: ... EU: Promete que se eu te der você fica feliz? VOCÊ: ... EU: Então toma. Mas o que exatamente você vai fazer com uma calcinha? 10. ZELADOR No domingo veio o Gustavo. Esse eu confesso que não é o que se pode chamar de irmãozinho, ainda que a gente já tenha tomado muitos banhos juntos. Mas, olha, seu Zé, que menino mais fofo: veio me trazer um presente. Uma luminária superbonita, dessas de chão. Você não acha que ele mereceu aquele beijo que eu dei nele no elevador? Eu sei que o senhor viu, sei bem. E sei também que o senhor viu que não foi bem um beijinho inocente. Mas ele não merece? Um presente bacana desses, veja só! O senhor entende, né? Na terça tava um silêncio danado na rua, a maior paz. E eu sei que acordei o senhor. O senhor tava lá dormindo escondidinho na guarita, não tava? E eu no interfone desesperada pra subir logo. Mas o senhor logo entendeu meu desespero, não foi? Não vou enganar o senhor não, pra esse eu dei mais do que um beijo safado no elevador e uma mordiscana irmã no braço. Pra esse eu dei banho e fiz até torrada no café da manhã. O senhor viu como ele era bonito? Nossa. Ah, o senhor reparou também que ele é bem mais novo do que eu? Caramba, seu Zé, mas tá tão na cara assim? Só porque ele usa o moletom da faculdade? Aliás, que moletom mais cheiroso, seu Zé. Que será que tá acontecendo comigo, hein? Ando muito a fim desses garotinhos que ligam pra avisar a mãe que não vão voltar. Será que é a crise dos trinta, Zé? Ou será que já que o cérebro de um de vinte é o mesmo que o de um de cinqüenta, então pelo menos vamos ficar com o melhor desempenho na corrida dos 100 metros rasos? Essa vida, viu, Zé. Pode ser boa que é uma coisa. Já chorei muito, já doeu muito esse coração. Mas agora tô, ó, tá vendo? De pedra. Uma tora. Um macho. Na quarta eu não vi o senhor, mas será que o senhor me viu chegando cedinho, com o dia amanhecendo? Balada, Zé. E da boa. Sabe quem tava lá? Esse mesmo. Ele que veio me trazer, o senhor não viu? Ah, o senhor viu? Que vergonha. Eu tava meio caindo pelas beiradas, não era? Era sono. Tá, um pouco disso e um pouco daquilo também, mas basicamente sono. O senhor não viu ele indo embora? Então somos dois. Mas vou confessar pro senhor: adoro quando eles vão embora sem me dar nenhum trabalho. Se eu cobro? Que é isso, seu Zé! Tá louco? Sou menina de família! Escritora, publicitária e à espera de um grande amor. Mas tô me divertindo, ué. Não é isso que mandam a gente fazer? Quando a gente chora e escreve aquele monte de poesia profunda? Quando a gente se apaixona e tudo mais e enche o saco dos amigos com aquela melação toda? Não ficam todos dizendo pra gente parar de tanto drama e se divertir? Poxa, tô só obedecendo as pessoas. Não é isso que todo mundo acha superdivertido? Beber e fumar, e beber, e fazer sexo sem amor, e beber e fumar e dançar e chegar tarde e envelhecer e não sentir nada? Sabe, Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada. Uns vêm, uns vão. As garrafas tão lá, ao lado do lixo. As cinzas saem dançando por aí. As minhas vão junto. No dia seguinte eu acordo, tomo um banho, passo protetor solar, sento na minha varanda com o meu jornalzinho e ó: nada. Nadinha. Nem pena do mundo eu consigo mais sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Zé. Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé?Desculpa. Mas hoje é quinta, hoje tem visita. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem maquiagem e música. O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é? Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são outros. Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora, escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e descobre que esse aí não existe não. Amanhã é sexta, um novo dia. Um novo outro qualquer. Eu queria te dizer que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso te dizer isso porque a verdade é que eu não sinto mais nada. Nadinha, Zé. 11. VONTADE FILHA-DA-MÃE Me falaram que a planta da felicidade não pode tomar muito sol nem receber água todos os dias, mas precisa de luz e de um pouco de água dia sim, dia não. Somo a tudo isso beijinhos, carinhos e palavras ditas baixinho, perto do caule. Outro dia cheguei ao cúmulo de ninar o vaso, o que meu deu uma baita dor nas costas considerando que a planta, contando com toda a terra, deve pesar uns 18 quilos. A comigo-ninguém-pode é cheia de querer se esconder. E eu respeito isso. Um pouquinho só de sol que recebeu, em uma das folhas, queimou. Conversei com ela ontem, daquele jeito humilde que ela gosta: de joelhos e preocupada. Agora ficou tudo bem, sei disso porque ontem nasceram duas novas folhinhas. Fiquei tão feliz que cantei uma música para ela. Das minhas filhas ela é a menos meiga, mas a mais corajosa. Tenho uma sensação boa de que ela me protege de alguma coisa ruim. Dessas coisas ruins que a gente nem sabe explicar o que são, mas entram por baixo de nossas portas. Minha cachorra odeia abraço. Mas o que eu faço se sou a pessoa mais feliz do mundo quando ela junta as patinhas atrás do meu pescoço e deita a cabeça no meu ombro? Eu fecho os olhos e imagino que em vez de um cachorro é um nenê lindo usando uma roupinha felpuda. Mas logo um latido ou mesmo uma ameaça de mordida defensiva me tiram a ilusão e volto a me sentir uma idiota: que porra tá acontecendo comigo? Ontem terminei um projeto longo, daqueles que a gente fica meses parindo. A sensação foi incrível. Cada folha que saía da impressora era mais um pedaço do DNA criativo do meu filho. Juntei todo o trabalho e, quando dei conta do que estava fazendo, percebi que estava sentindo o cheiro da nuca das folhas sulfites. Só faltava bater nas costas do papel “chamequinho” pra ver se ele arrotava. Bizarra. Tati, você anda bizarra. Quando um homem olha pra mim, na rua, com aquela cara de “te comia muito”, tenho vontade de gritar “então me faz um filho agora, seu merda”. Caguei para todos os homens do mundo que querem me comer sem rastros. E caguei também para os que querem me amar por uns dez anos até me darem um filho. Eu quero um filho agora. Por isso caguei para todos os homens do universo. Já que nenhum homem normal e equilibrado do planeta vai querer me dar um filho agora, caguei pra todos eles. Já faz meses que não vou a festas, baladas ou coisas do tipo. Paro em frente das festas e penso: e por acaso pega bem uma mãe de família, uma mãe de recém-nascido, uma grávida de sete meses, pegar essa fila cheia de gente ensebada e entrar nesse inferninho para ficar a noite inteira tendo que me esfregar em desconhecidos para conseguir me locomover? Claro que não! Aí dou meia-volta pra casa. Aí chego em casa e fica esse vazio. Não tem filho nenhum nem dentro de mim, nem fora de mim. E caio na risada, depois caio no choro: que porra é essa que tá acontecendo comigo? Eu lá quero filho agora? Óbvio que não. Ainda sou tão nova, ainda tenho tantas viagens para fazer, tantos garotos para namorar, tanto dinheiro para ganhar, tanto trabalho a fazer. Óbvio que não quero um filho agora. Segundos depois acho tudo um lixo. Essas roupas modernas, esse dinheiro guardado, esse dinheiro torrado em roupas modernas e viagens modernas. Esses amigos blasés, esse mundinho das festinhas e baladas. Esses garotos pra namorar e o buraco oco que fica depois. Todo e qualquer trabalho jogado no mundo, sem uma única pessoa pra assistir comigo ao meu sucesso ou ao meu fracasso, e simplesmente sentir amor. Tudo lixo. Lixo. Lixo. Eu só queria uma família. Essa é a verdade. Uma família minha, construída por mim. Cansei de todo mundo e de todos os lugares. Cansei de ser menina, adolescente, jovem. Eu só quero ser mulher, mãe. Cansei de fazer sexo sem amor. Cansei de conquistar os vapores podres que deixam marcas que ninguém vê, mas voltam como fantasmas que fedem. Cansei de tudo que não fica, que não engorda, que não frutifica, que não continua. Cansei de fechar a porta sabendo que é mais uma porta que não se abre. Cansei de perder aos poucos a pureza e ganhar aos poucos o desespero. O relógio biológico, como dizem, bateu. E isso é bizarro, é engraçado, é louco, é assustador. E eu se fosse homem correria infinitamente de mim. Mas ainda mais bizarro, penso cá eu com meus hormônios que não me deixam pensar, é se assustar com um pedido tão simples da vida: mais vida. E volto a olhar minha barriga seca no espelho e a me perguntar: eu queria tanto o mundo fora de mim, por que agora quero tanto o mundo dentro de mim? 12. ANIVERSÁRIO DA SUA AUSÊNCIA A gente quase completou um ano de namoro, quase. Faltou um mês ou um pouquinho mais, não lembro. Mas hoje, sem mais nem menos, completamos um ano de separação. Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem. Eu estava no show do U2 que você não quis ir comigo e me ocupava em perguntar, de dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me ligar e dizer que tinha pensado melhor. Quando? Você nunca ligou, nunquinha. E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo, nossa, como eu esperei. Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a minha vida. Outro dia uma amiga me perguntou o que você tinha me ensinado. A gente estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas e ela quis saber qual tinha sido o seu. O coiso me ensinou a gostar de MPB e cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro. Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você? Que raios me ensinou? Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder para ela. Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me ensinou a sofrer. Eu nunca, nunca, em 27 anos de vida, tinha sofrido. Nunca. Claro, eu odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe dessa casa com gente louca que fuma demais, berra demais e chuta vasos. Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra? Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor, dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que faltava. Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me refugiou dela. Mas quando você, no dia 20 de fevereiro de 2006, me mandou seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor. Você era meu príncipe. Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos, finalmente eu tinha reconhecido, no seu olhar centralizado e no seu sorriso espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não me queria mais por perto? Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto que a fantasia. Pelaprimeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem sofre pra caralho. Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca merda. É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma. Que nem ninguém nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama? A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos. A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo, cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para ser sentida. E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil? A dor da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez. Mas agora já passa da meia-noite. Não é mais nosso aniversário de fim e, pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E, pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo. Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas bizarrices, lê jornais todos os dias, substitui o bege pela cor do verão, tem uns pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não espera mais pelo cavalo branco, mas fica ansiosa pelo início da novela e talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem, e não um príncipe. 13. CAIPIRA NÃO, MEU Carioca tem mania de achar que paulista é caipira. Sempre achei tal afirmativa um absurdo até me mudar para o Rio. Descobri que eles estão certos. Sou a maior prova viva da caipirice paulistana; para comprovar basta me ver passeando pelo calçadão. Não estou me referindo a minha cor branca ou ao medo que tenho de andar solta numa cidade que não é exatamente a minha. Esses dois estágios estão mais do que superados. Ganhei um pouco de cor e uma certa malandragem para conviver na cidade de cidades misturadas. Preconceitos acalmados, confesso que começo até a gostar dessa vida. O que estou querendo dizer é que é impossível não ser caipira quando se vê um artista a cada cinco passos. O tempo todo meu cérebro, deslumbrado, avisa: olha lá o barrigão da Camila Pitanga. Olha lá o Wagner Moura de mochila. Olha lá a Marília Gabriela saindo do aeroporto. Não tem jeito. Arregalo os olhos. Se for mulher reparo logo na bunda, pois fico achando que estrela jamais pode ter uma bunda ruim. E se for gatinho reparo na roupa. Eu sei que deveria ser o contrário, mas antes de ser caipira eu sou estranha, vocês bem sabem. Quase dou uma de chata sem noção e puxo um papo. Sabia, Marília, que eu tenho um livro publicado e coisa e tal e meu sonho é falar minha frase, meu verso ou o meu ditado de preferência no seu programa? Decoro esse momento no banho todos os dias. Sabia, Capitão Nascimento, que eu quase tive um orgasmo no cinema quando você gritou “vai ficar todo mundo quietinho aí”? E você, Bebel, sabia que animava, milagrosamente, as minhas noites numa fase em que eu andava achando tudo um porre? Mas não, controlo meus impulsos mais suburbanos e passo reto. Blasé. Como se tivesse cruzado com alguém tão insignificante quanto eu. Caguei pros famosos. Caguei. Meu mais novo mantra para não ser caipira no Rio de Janeiro é “caguei pros famosos”. Mas a coisa não é tão fácil assim. Escapar de cinco ou seis famosos por dia no calçadão é moleza, difícil é trabalhar no Projac. Imaginem uma praça de alimentação inteira com todas as estrelas da novela das oito. E você lá, sem poder fazer ou falar nada. Sem poder cutucar alguém e falar “a Aline Moraes consegue ser ainda mais bonita na vida real”, tendo que se concentrar em um cardápio com massas e saladas ruins. Sim, a praça de alimentação do Projac é horrível, dá pra acreditar? Gianecchini de um lado, Alexandre Borges do outro e ele, sim, ele, o maravilhoso Marcos Palmeira. E você calmamente corta seu franguinho grelhado. Fingindo cagar horrores pra essa gente maravilhosa, talentosa, bonita e famosa que, afinal de contas, trabalha no mesmo lugar que você. Com a diferença que eles são estrelas conhecidas e admiradas no país inteiro e você, apenas uma escritorazinha baba-ovo contando grana pra não fechar o mês no vermelho. Parece uma vida de glamour mas na verdade é puro sofrimento. Se eu fosse brega ou ridícula, soltava logo um grito no meio da praça de alimentação, “fudeuuuu, puta que o pariu, quanta gente famosa, poooorra”. Pronto. Soltava o grito. Tirava de dentro do meu peito essa angústia e acabava logo com isso. Algum segurança me expulsaria da praça de alimentação. E então, da rua, eu ligaria pra todo mundo que eu conheço no mundo, inclusive aquelas amigas que eu não encontro desde o Jardim 3, e contaria artista por artista que vi. Mentindo alguns só pra dar mais emoção. Mas não, eu sou a nova roteirista bacaninha, escritora, loirinha, de São Paulo. Eu sou obrigada a entrar e sair blasé da porra da praça de alimentação. Eu sou obrigada a manter a pose e até mesmo um certo “caguei pra esse povo” em meu andar, na minha fala, nos meus olhos. E eu estava me saindo muito bem, não fosse o incidente da tarde de hoje. Depois de meses de bom comportamento, tudo foi por água abaixo. A caipirice falou mais alto quando encontrei o Marcelo na praia, o psiquiatra psicopata do BBB8. Já que eu não posso gritar para os famosos de verdade, por que não desopilar a alma com um famoso de mentira? Gritei: “Marceeeeeloooooo, uhuuuuu”, e ele respondeu: “oi queridaaaaaaaaa, uhhuuuu”. E esse foi, nos últimos meses de Rio de Janeiro, o momento mais brega, mais caipira e mais ridículo que passei. E de longe o mais divertido também. 14. DESPERATE HOUSE WRITERS Linda a combinação da camiseta de super-homem com calça social. Ele tem cabelo moderninho daqueles que tornam o cafuné mais divertido e usa meias bonitas. Ele tem um cheiro bom daqueles que só melhoram conforme o perfume vai saindo. Testosterona jovial. Que homem se preocupa exatamente com as meias? O da minha vida, claro. Ele é o homem da minha vida. Mas ele tem só 19 anos e bebe mais que o Zeca Pagodinho! Dane-se. Essa boquinha pequena dele, com esse biquinho de mau humor, tem o tamanho certo para aquela minha outra boquinha sempre em crise. O ombro é largo e dá pra dormir uma tarde inteira ali. É ele. É ele. Ops. Ele acaba de falar que gosta mesmo é de balada no interior. Com os brothers. Lá as garotinhas são loucas pra descolar um urbanozinho de Corsa. Droga. Achei que era dessa vez. Achou mesmo, sua louca? Um garoto de 19 anos que usa as meias que a mãe compra pra ele? Louca. Olha lá, olha lá! Amor das antigas pintando na área. Ele não passa um mês sem fazer contato com a nave-mãe. No caso, eu. No caso, a mulher mais desesperada que eu conheço pra ser mãe. Hormônios filhos-da-puta. Nem sei o que fazer com um bebê depois, nem quero fazer nada com ele. A não ser brincar um pouquinho, beijar a barrigona e depois largar ele lá na minha mãe e ir pegar o garoto da boquinha pequena. Só por uma noite. Uma noite já dá pra fazer um bebê? Fazer um bebê com outro bebê. Sua louca, maluca, depósito de hormônios enlouquecidamente solitários e inúteis. Olha lá o amor antigo pintando na área. Ele quer almoçar. Que graça esse cara vê em almoçartanto comigo? Ele tem tesão em me ver largando tudo no prato? Nunca consigo comer direito na presença dele. Não sei ao certo se por amor ou nojo. Tenho nojo de andar pra trás. O mesmo nojo que tenho de sequer pensar em sexo anal. Mas vivo andando pra trás e tenho certo tesão em retroceder. É como se a vida dissesse: “eita povo burro, mas divertido”. Talvez um dia eu faça mesmo sexo anal. Talvez um dia eu conheça um homem que mereça me foder à luz do dia. E não sozinha, no meu choro baixinho embaixo das cobertas. Que você quer agora, hein, tio? Ele diz que minha perna está grossa como nunca, depois diz que quer só um cafezinho e bater um papinho. E eu não vou não. Preguiça daquele gemidinho contido dele. Queria que ele berrasse. Queria que ele berrasse: casa logo comigo! Não vou mais te enrolar, coxuda! Casa logo comigooooooo! Ele é contido pra gostar, pra gozar, pra casar, pra cagar. Um dia ele explode. Tomara que nesse dia caia um pouco de dinheiro do céu. Pra alguma coisa alguém que só me enche há tantos anos tem que servir. Olha lá quem chegou. Abro a porta e ele fica meio sem graça. Ele sabe que veio aqui pra me pegar, eu sei que convidei ele pra ser pega. Mas a gente já conversou tanto sobre a fome humana e a guerra do horror, que nos vimos na obrigação de enrolar um pouco antes de virar animais. Ele mexe nos meus DVDs e nos meus livros. Depois tá liberado mexer no pinto. A gente se ama tanto como amigo que tudo bem. É isso. Só queria ser amada. Só isso. Precisa casar comigo não, precisa me engravidar não. Basta me olhar assim, basta morrer de rir comigo. Basta me ler, me decifrar, ser intenso nesse minuto. Vamos todos morrer, meus amores, vamos então morrer sabendo que demos vida a alguém. Ele me dá vida e, quando vai embora, tudo fica pequeno. Mas isso não é uma declaração de amor. É só porque ele tem coisas grandes, se é que vocês me entendem. Opa, olha de quem chegou um e-mail. De mais um superbom partido que partiu antes do pôr do sol. Não some não, Tati. Some não. Aí eu apareço. Peraí, Tati. Não aparece tanto não, não aparece tanto que daí sou eu que sumo. Aí eu viro mais uma idiota transparente e aí sim arrumo um namorado pra chamar de meu. Odeio essa expressão “pra chamar de seu”. Foda-se. Nem desapareço, nem apareço. Tampouco fico transparente porque não sou vaso decorativo daqueles que você bate palma e a florzinha dança. Eu apenas viro mais um fantasminha. Eu sei que apareço em muitos corredores no meio da noite. Bando de gente morna do cacete. Como diria Janis, I neeeeeed a man to loooove. Tá difícil, Joplin. Tá mais fácil essa dança maluca que eu inventei aqui pra dançar Prince. Adoro esse cara. Mas eu não dava pra ele não. Homem tem que dançar pra tirar sarro, jamais pra ganhar dinheiro. Mas eu dava pro Eminem. Todo mundo tem um defeito. O meu é este: eu dava muito pro Eminem, de preferência em um dia que ele tivesse bem puto com a vida. Aliás, eu tenho dois defeitos: eu dava pro Justin também. E, se a Cameron quisesse vir junto, pegava ela também. Pegava boa parte dessas mulheres lindas. A outra parte eu deixava me pegar. Tô mesmo a fim de comer mulher. Minha única dúvida é naquela hora de ficar molinha e começar a falar tudo molinho e… querer um durinho. Mulher é quase uma coisa perfeita. Mulher pra ser perfeita tinha que ter pinto. Homem pra ser perfeito tinha que tirar o pinto. Eita povo besta, mas divertido. 15. VOCÊ JAMAIS FARIA SEXO VIRTUAL Domingo, uma da manhã. A gente nunca combinou ou comentou a coincidência de sempre se encontrar nesse horário. Mas um sempre soube que o outro estaria lá. E de fato sempre estava. E ele dizendo o quanto queria me ver de novo. Mas a vida é complicada. E eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse me ver de novo. Mas ele é complicado. E ele colocava a camerazinha e me mostrava. Olha! Uma Coca-Cola! E eu colocava a camerazinha e mostrava. Olha como eu fico brega dentro de casa. Posso ir pegar outra Coca? E ele levantava só de cueca. E eu achava aquilo bizarro, mas me tranqüilizava pensando “eu jamais faria sexo virtual”. Muito menos ele. Cara, essa roupa não tá ridícula? E ele concordava. Aquele era como um encontro e eu não poderia estar tão malvestida. Lá ia eu botar um vestido pra ele. Enquanto botava, eu me tranqüilizava. Eu sou batizada e tenho pós- graduação. Eu jamais faria sexo virtual. Muito menos ele. E ele acendia um cigarro e soltava os cabelos. E eu botava a perna em cima da mesa. Abria a janela. Como está quente aqui. E ele me conta que encontrou aquela atriz gatíssima que dizem que é bissexual. E eu comento que nunca experimentei, mas, com ela... nossa, com ela até que não seria má idéia. E ele me diz que também nunca quis saber de duas ao mesmo tempo. Mas nós duas? Nossa, até que não seria má idéia. E ele coça o saco, pensa que eu não vejo. Será que ele tá mesmo coçando? E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa calça jeans megapertada. Não tenho culpa que o mundo está aquecendo. Eu e os ursos- polares não temos culpa de sofrer assim. A camerazinha só me pega dos ombros pra cima. Logo, se eu tirar as calças ele não vai ver! Mas eu estou de vestido. Caramba, então por que essa vontade de tirar as calças? Não sei de nada, só sei que ele é um cara bonito, interessante, pegador. Não precisa trepar com mulher pelo messenger. E eu, bom, eu tenho aí uns dois ou três amigos que me visitam nos períodos de “entressafra”. Nunca fiquei a perigo a ponto de precisar trepar com uma camerazinha e umas frases com carinhas felizes e amarelas. Ele me mostra suas havaianas. Eu mostro minhas unhas pintadas de vermelho pra ele. Mas ele quer voltar no assunto do sexo a três, com a atriz gata e bissexual. E eu digo, assim, na brincadeira, juro, que eu adoraria experimentar o gosto dela. E ele pára de falar comigo alguns segundos, acende um cigarro. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na brincadeira, ele jura, experimentando o gosto dela. E eu fico assustada, sabe? Poxa, sexo pela internet é coisa desses caras meio doentes, não? E dessas garotas feias. É coisa de gente que não tem capacidade pra fazer a coisa ao vivo. Ou de nerd, sei lá. E ele é um puta escritor. Não é nerd. E eu sou maior legal. Tô longe de ser nerd. E ele passa a mão pelos cabelos e me manda um beijo. E eu piro naqueles cabelos e naquela boca. Mas já são três da manhã e ele nem mora em São Paulo. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, tomando Coca, fumando cigarro, passando a mão naqueles cabelos dele, mordendo aquela boca. Nossa, impressionante como essa calça jeans tá me incomodando. Mesmo eu estando de vestido. E então, sem aviso prévio ou pedido de desculpas, ele escreve “enquanto você sente o gosto dela, eu sinto o seu gosto”. E eu, não sei exatamente o motivo, respondo “mas eu sinto o gosto dela com a boca, o que significa que minhas mãos estão livres para você”. Depois disso a coisa piora muito. Corredor, parede, pia de banheiro, elevador. A gente transa em basicamente todos os lugares possíveis. Nós e a atriz gata bissexual. Eu, que nunca tinha feito sexo virtual e muito menos a três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo. Lembrei do filme Closer, depois lembrei daquele filme, Felicidade. Os personagens que fazem isso nunca são normais. Mas tudo bem. Agora eu estava na pia da cozinha, ou melhor, em cima do tanque. Não era a hora pra pensar em cinema. No final das contas ele brochou. Ou melhor: a sua conexão caiu. E, no dia seguinte, ele fez o que todo homem faz com uma mulher que já comeu: desapareceu. Ou melhor: me bloqueou no messenger. Engraçado como até a maneira de fazer sexo evoluiu, mas o machismo continua firme e forte desde o homem das cavernas. 16. EU NÃO NASCI PRA ISSO No meio de uma risada, entre uma e outra troca de intimidade, de repente, me pergunto o que exatamente estou fazendo aqui. Me maquiando enquanto você repassa a agenda do celular. Fazendo piadas com toalhas e sucrilhos. Não faço a menor idéia de quem é esse cara sentado aqui no meu sofá,cheio de dúvidas se casa comigo ou me esquece uns dias para a vida parecer mais planejada. Não nasci para isso, definitivamente. Essa coisa que quase é, esse “pode ser” que muda para “nem pensar” a cada troca de cômodo. Eu só queria ter a certeza de estar me maquiando para você, a certeza de estar misturando toalhas e sucrilhos por conta de uma surpresa da vida, e não de uma luta contra o tédio. Eu só queria encontrar alguém que não repassasse a porra da agenda do celular na minha frente. Puxa, como foi bacana ele ter telefonado no dia seguinte. Claro, muito bacana. Como foi bacana a gente ter dormido de conchinha e ele ter me pedido um pouco de bolacha água e sal no meio da madrugada. Adorei que ele me ligou no dia seguinte, para me dar aquele bom-dia de amigos. Muito bacana mesmo. Claro que não temos nada nem nunca teremos. A não ser aquele ataque de riso maravilhoso que ele dá quando eu me atrapalho pra tomar sorvete e fico parecendo uma desdentada. Tenho esse tesão por ele, esse tesão pela maneira tímida e desleixada com a qual ele amarra a toalha branquinha na cintura. E me olha do tipo “ei, velha amiga, não acha que mereço um pouco de carinho?”. Mas que bom que ele ligou no dia seguinte para dar aquele bom-dia de amigo. Que bom. Quem disse que mulher é tudo louca e se você ligar no dia seguinte para dar bom-dia ela vai achar que está namorando? Quem disse? Hein? Hum? Quem disse? Achei mesmo bacana essa atitude supermoderna de um homem macho supermoderno me tratando como uma fêmea ultramoderna e tudo mais. Mas não nasci pra isso, definitivamente. Como assim ele me liga no dia seguinte pra me dar bom-dia e depois simplesmente desaparece no mundo? Como assim? Eu não nasci pra isso não. Saio do banho sem pensar em nada disso e encho minha cara de cremes. Creme de boca para ressecamento, creme de testa para oleosidade e creme de olhos para rugas. Durmo feia, sozinha e tranqüila. Sem pensar em sofás, sucrilhos, toalhas, bom-dia de amigos e vidas planejadas. Ainda assim, continuo achando que não nasci pra isso, definitivamente. 17. A VONTADE E UM DEDINHO DE PROSA Enquanto espero começar a reunião na Editora Abril, passo rapidamente minha listinha de telefones no celular. Não, o Gabi nem pensar. Além de não saber usar camisinha, ainda faz muito barulho. Meu apartamento é colado com o do lado, outro dia ligaram pra reclamar que a minha TV estava muito alta, imagine se esse garoto começa a uivar na minha casa? Sou cara-de-pau, mas nem tanto. Putz, aquele chileno metido a cineasta espanhol prometia um sexo selvagem, será que dou mais uma chance a ele? Não, não, melhor não. Ele tinha um beijo muito melado, do nada me dava umas linguadas na cara inteira, pescoço, orelha. Depois eu ficava com o maior cheiro de baba. Tô fora. Tô a perigo, mas ainda não virei sorvete de leite condensado. Mas ele tinha um amigo… hummmm, o amigo dele parecia ser interessante. E o amigo dele também tinha tentado um chega-mais comigo na mesma noite. Mas peraí: o amigo dele não é aquele que traça o que vier pela frente? Tô precisando ser traçada urgentemente, mas não sou qualquer coisa que vem pela frente. Até porque posso vir pelo lado também. Por trás, pelo teto, pelo chão, pela janela, diametralmente, de cinta-liga, de enfermeira, pelada. Nossa, preciso mesmo dar. Mas gosto de rapazes seletivos; esse cara era nojento demais pra mim. Enquanto a reunião não começa, tento tirar um pouco de proveito da minha situação. Afinal, estou em um prédio interessantíssimo com trocentos jornalistas, escritores, fotógrafos e diretores de arte. Não é possível que no meio desses tantos não tenha ao menos um digno de entrar em minha morada. Preciso ser salva. O primeiro que passa tem um cabelo que faria inveja ao Bozo. Se fosse para dar um telefone para ele, daria o do L’Officiel. O segundo parece ser gerente de almoxarifado de repartição pública. Mais “cara de firma” impossível, deve ser daqueles que avisam: “Ai, com licença, senhorita Tatiana, mas acho que vou estar estando gozando dentro de alguns instantes”. O terceiro usa roupas descoladas, tem o cabelo metade raspado e dois piercings na cara. O problema é que eu quero um criativo, e não um “criativoso”. Esses que forçam pra ter cara de fashion são os menos fashion de todos. Aposto que as blusas de lã dele são de Serra Negra. Ai, dona Tati, dona Tati. Assim fica realmente difícil. Como é que eu vou liberar minha fantástica periquitinha se acho todo mundo péssimo? Poxa, chega uma hora em que o dedo cansa. Dedo não conta piada, não fala baixinho no seu ouvido, não morde a sua coxa. Calma, vai aparecer alguém. Vai sim. Espero que logo. Finalmente me chamam para a tal da reunião. Um dos editores do projeto não é de se jogar fora. O cabelo dele é superajeitadinho, a roupa é bacanuda, o físico, impecável e as mãos, grandes e másculas. Ui! É esse! Ele é mais velho, interessante, inteligente, limpo e gosta dos meus textos! Nossa, melhor impossível! Já tô até vendo ele tocando a campainha da minha casa esta noite (todas as campainhas) e eu estreando o meu baby-doll com pompom. Não tem a pele oleosa (ótimo, não vai manchar de óleo meu edredom branco!), é meio careca (ótimo, não vai encher meu edredom branco de cabelos!) e não tem filhos porque odeia crianças (ótimo, não vou me apaixonar por ele!). Finalmente o cara. Finalmente vou me despedir da minha seca de três meses. Fico tão feliz que exibo um enorme sorriso para ele antes de sair. Educadamente ele retribui: “Ai, meninaaaaa, que sorriso lindooooo você tem! Me dá agora o telefone do seu dentista! A-go-ra!”. Claro, um homem tão perfeito só poderia ser gay. Inferno de vida. Vou ter de apelar para uma baladinha. Ai, que saco. Baladinhas são péssimas para mim. Ou eu me trajo tal qual uma retardada no cio ou fico torcendo para que algum troglodita goste de uma menina decente e queira saber o que eu acho do Sartre, do Fante, da Clarice. Detesto me sentir na feira, mas, por outro lado, se é de mandioca que estou precisando não tem lugar melhor. Não vou conseguir. Tá frio, vai ter fila, vai ter fumaça de cigarro, vai ter manobrista que solta pum no carro, vai ter alguma menina com voz de pato francês anasalada no banheiro contando para alguma outra integrante do gueto que alguma loja tá liquidando tudo a partir de mil reais. Que inferno. Outra opção é uma baladinha sem peruas e playbas. Mas essas outras opções indies quase sempre são GLS, o que dificulta em muito as minhas chances de arrumar, ao menos hoje, um homem que não saiba dançar imitando peixinhos fosforescentes. Socorro. Não, tô com muita preguiça de sair de casa. Homem bem que podia funcionar como um disque-pizza para dias chuvosos. Ex-namorados e ex- casos são perfeitos para serem entregues em casa, fora que dispensam conversas e preliminares, dada a intimidade de outros tempos. Mas tô defasada até nesse quesito. Tirando a maioria deles, para quem nem vale a pena ligar porque eram meia-boca sexualmente, a pequena parte que sobra vale menos que o meu dedinho mindinho do pé. E pelo visto vou continuar com o meu dedo mesmo. E a opção amigos?… Não, não vai dar certo. A última vez que um grande amigo com potencial para me comer me visitou, terminamos a noite chorando por amores do passado e fazendo piadas escatológicas. Amigo não dá, não tem mistério, não tem charme. Existe homem-ombro pra te consolar e existe homem-pinto pra te comer. Lembra da piada “não existe pôr só a cabecinha porque pinto não tem ombro”? É a mais pura verdade. Alguns até se fazem de amigos, mas espera você liberar a periquitinha pra ver o que acontece. Amigo é o cacete! É, o cacete é amigo mesmo. Ai, preciso dar urgente. Já sei! Vou apelar para meus fãs! Sim, recebo toda semana dezenas de e- mails de fãs homens. Quase sempre leitores da VIP, ou do meu site, ou do Blônicas, da TPM, da Viagem e Turismo. Nessas horas é bom escrever para vários lugares, aumentam as chances de aparecer um leitor bem-apessoado e mal-intencionado. O problema é que 80% dos homens que me escrevem acreditam que,por se comunicarem com uma escritora, precisam se mostrar ultra- intelectualizados, ultra-alfabetizados e ultraprolixos. Como é que eu vou ter vontade de liberar para um cara que me escreve infindáveis 456 linhas que quase sempre começam com: “Vós não imaginais o imensurável prazer trêmulo com o qual este macambúzio leitor vos escreve pulsantes idílios”? Esse cara não faz sexo, faz? Os outros 10% (esses sim, sobretudo leitores da VIP) são o extremo oposto disso, o que também não me interessa. São aqueles ogros irados ao estilo “gatinha molhada, vou colar na sua goma hoje pra gente fazer uma sacaneta”. Pega no meu pau, seu machista analfabeto! Tem ainda uns malucos que odeiam as minhas baixarias e me mandam encontrar o senhor. Que senhor? Esse senhor faz sexo? Meu personal nem pensar, eu ia parar no meio pra reclamar que minha bunda não tá tão dura quanto o meu bolso, vazio de tanto pagar aulas extras para ele. Amigo de ex-namorado é crime, ainda que tenha uma quantidade incrível de amigos de ex-namorados querendo me comer. Onde é que esse mundo vai parar? Pro meu chefe não posso dar, pelo único motivo de que sou autônoma e não tenho chefe. Go-go dancer tem a bunda lustrada, isso não me dá tesão. Pra quem então? Pra quem? Pra quem? Ah, não, você de novo não! Você não conta piada, não fala baixinho no meu ouvido, não morde a minha coxa. Que inferno. 18. DESAMOR REVISITADO Ele chega com uma de suas novas jaquetas chiques e de longe eu vejo aquele cabelinho de banda suja londrina que eu tanto amei, aquela carinha infantil de “olha, cheguei” que eu tanto amei, aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… e me pergunto: por que amei tanto e não amo mais? Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna estale, e me diz, como sempre também: “Que é que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”. Espreguiço para sugerir desinteresse, mas meu coração bagunça tanto que tenho um ataque de tosse. Entramos de mãos dadas no cinema, felizes como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Ele me olha sem parar, suspira, a cada movimento que eu faço, cada semblante, cada segundo de raciocínio, ele está lá me observando encantado. Faço um esforço pra tentar me lembrar: por que foi mesmo que eu deixei de amar esse homem? Não faço a menor idéia. O filme é um lixo, máster clichê, mas era o único que tinha e tudo bem: ao lado dele tudo fica divertido. A gente brinca de adivinhar as próximas cenas, adivinhamos o filme todo ao som de “xius” que os humanos limitados fazem, inconformados com aquele casal que tenta boicotar um filme tão supimpa. Sobra pipoca no dente, colamos pipoca na testa, entra pipoca no sutiã. Cada vez que nossas mãos se encontram salgadas, dentro do saco, a gente brinca de se roçar com os dedos como pernas desesperadas. Antes de a gente chegar ao elevador do seu prédio, ele me oferece as costas e eu subo, o porteiro não entende nada, eu berro de longe: “Sou sobrinha dele”. Adoro essa brincadeira e mais uma vez me pergunto: onde eu estava com a cabeça pra deixar de amar esse homem? Um banheiro é pra escovar o dente, outro é pra tomar banho e o outro é pra fazer cocô, ele explica. Sinto pena dele sozinho naquele apartamento gigante, quase quero ficar ali pra sempre. Ele mostra que tem todas as minhas músicas prediletas (que eu ensinei a ele) no seu iPod última versão, anda esbarrando pela casa em seus milhares de brinquedinhos e insiste para que eu assista a alguns dos seus vídeos caseiros cheios de bobagens. Ele é um super- homem quando a gente precisa e uma criancinha fofa quando a gente também precisa. Meu Deus, agora faço o maior dos esforços do ano: por que cacete deixei de gostar desse cara? Chocolatinhos, vinho, som ambiente, escurinhos. Ele pára o mundo todo, se ajoelha no sofá deixando as mãos no meu colo: “Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo”. Seus olhos se enchem de lágrimas, a música se torna instrumental matando qualquer outra palavra, a cidade não respira, o tempo não existe, a solidão é coisa de gente que mora muito longe dali, minha mente aquieta todos os monstros, as mulheres lindas nas capas das revistas são empilhadas descartavelmente e viram nada, a poluição vira oxigênio puro e cor-de-rosa, o outro homem que é dono sem merecer do meu corpo magoado explode no ar deixando apenas estrelas para iluminar meu recomeço, as dúvidas todas do que fazer pelos próximos mil anos se simplificam porque eu só desejo viver aquele momento, sim, sim, sim, eu quero zerar tudo de antes e de depois e amar esse homem agora, como antes, como nunca. Por que não? Deitada sem forças e coragem para existir, eu quero tomar o banho mais urgente e demorado do mundo. Ele agora está na sacada, olhando a cidade e coçando o saco, tentando pegar algum recado no celular, querendo marcar alguma coisa com algum amigo, fala alto, os carros buzinam e se xingam lá embaixo, talvez ele deseje mais do que tudo se virar e não me ver mais ali. A vida idiota voltou e me fez lembrar novamente que continuo uma idiota. Sua enorme sala inteira chora, todas as plantas, todas as luzes apagadas, todos os CDs empilhados, o carpete caro e fofo, os cantos, o teto, o chão, o ar. Os feixes de luz da cidade entram como espadas pela janela e guilhotinam qualquer razão, todo mundo está deitado e decapitado comigo. Todos estão sujos, todos estão ultrapassados e velhos, todos choram a intenção de amor que nunca dura. A exploração do meu corpo me dá uma sensação mundana de morte pobre e simples, nada de espiritual e eterno ronda minha alma neste momento. Seus restos grudam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos faz viver cheios de medos e traumas. Ele me observa frio e concluído da sacada, não se preocupa com o meu frio, com o vazio gigante que me toma novamente e me deixa assim, palidamente assustada e infantil. Ele até tem pena, mas me considera demais para ter pena de mim. Ele anda mais completo, mais solitariamente feliz, mais homem, mais ereto, mais macho. Eu, corcunda, me enrolo na manta, corro para o banheiro como um bicho cagado, me ajoelho no chão do boxe e deixo a água quente me dizer que tudo bem: não é a primeira vez que você se sente tão perdida, usada, burra e sozinha. Uso o banheiro do cocô para tomar banho, o banheiro do banho para vestir minha roupa que era feliz até duas horas atrás e agora parece escolhida para velar o defunto, e, finalmente, o banheiro de escovar os dentes para mirar meus olhos traídos e esquecidos. Peço desculpas não aceitas a mim. Antes de chegar à minha casa vejo que ele deixou dois chocolatinhos na minha bolsa; arremesso um deles com ódio na valeta da rua, o outro eu como, afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico porque ninguém nessa merda de vida consegue se dar e ser por inteiro. Agora me lembro por que deixei de amar você, lembro exatamente por que deixei de amar todo mundo. Lembro que mais uma vez deixei de me amar. 19. OS MICOS DA DIAS FERREIRA Na minha rua tem de tudo. Não é bem a minha rua, sendo que aluguei apartamento aqui no Rio só enquanto termino de escrever um programa para a nave-mãe. Daqui a pouco, se tudo der certo, volto pra poluição, o mau humor e o trânsito de São Paulo. Não sei explicar, mas voltar é tudo que eu mais quero. Narciso acha feio o que não é espelho mesmo quando o espelho é feio. Mas, enfim, na minha rua carioca, emprestada por alguns meses e que me falaram (muita gente) ser uma das melhores do Rio, tem de tudo. Eu acordo todo santo dia, às 7h43, com as pombas fazendo festa no ar- condicionado. Elas gemem, brigam, reclamam, urram. Sei lá que porra de som é aquele. Parecem mudinhos esfomeados. E me acordam. Rolo na cama pensando que Dias Ferreira, o português, nasceu em um lugar chamado Pombeiro da Beira. Ou seja: vai ver sou eu que estou no lugar errado. Tento ignorar o som e voltar a dormir mais um pouco, afinal, os mudinhos esfomeados não são nada quando comparados a todo o inferno de sons a que fui submetida até chegar àquele ponto. Das dez da noite às duas damanhã, aturo restaurantes e baladas cheias de cariocas, o que, quase sempre, quer dizer gente animada demais e louca por uma mesinha “lá fora”. Não tô ofendendo! É elogio. Mas não tem nada mais chato do que querer dormir com gente animada demais três andares abaixo de você e louca por uma mesinha “lá fora”. Já tentei me unir a eles, mas não dou conta de tanta alegria. Sou paulista e preciso ficar mal-humorada de vez em quando. Caso contrário, tenho impressão de que posso desintegrar ou ser presa por falsidade ideológica. Das duas da manhã às quatro, aturo bêbados que se recusam a ir embora ou falar baixo, e, desse horário em diante, até chegar o horário das pombas, aturo o caminhão de lixo sempre acelerando e o barulho dos vidros e das piadas dos lixeiros que adoram acordar os outros que não são lixeiros. Depois vem o Globo Repórter dizer que eles “amam a sua profissão”. Sei. Durante o dia, minha rua emprestada tem o trânsito parado, cheio de filas duplas e gente que não sabe fazer baliza. Portanto, o buzinaço é sem fim. Sem fim porque é o dia inteiro e sem fim porque cada buzina dura o tempo de eu falar todos os palavrões que eu sei. Carioca ama uma buzina, nunca vi. Só não ama mais do que mijar na rua. Mijar na rua ainda é o hit parade da terra da mulher melancia. Minha rua tem de tudo. E, como tudo que tem de tudo, tem também as coisas boas. Minha rua tem duas livrarias bacanas, a Argumento, minha boa companheira das manhãs, na qual leio meu jornal, e a Letras e Expressões, lugar perfeito pra quando você, em vez de se matar, decide comprar um livro às quatro da manhã. Só não vale comprar Albert Camus, que a vontade volta. Minha rua também tem predinhos com lojinhas charmosas. O famoso (famoso pra mim, sei lá) Palm Beach, com lojas como a da Adriana Barra, e um outro predinho ao lado da Argumento, com uma lojinha de vestidos que é de foder a conta bancária. Tem ainda locadora de vídeos com mais Truffaut que a 2001 de São Paulo, dois supermercados com bastante coisa orgânica, e eu ando super ecochata (uma coisa tem a ver com a outra ou pirei?), duas farmácias (adoro farmácia, até porque vende aqueles protetores de ouvido pra dormir em meio ao barulho) e tem até um Fleury em frente de casa! Adoro o Fleury! Odeio fazer exames e entrar no Fleury, mas adoro ele. Tem restaurante de tudo quanto é tipo, gente de tudo quanto é tipo, bonita, famosa, interessante, metida a besta achando que 26 graus é inverno europeu (carioca adora um motivo pra botar cachecol e bota, nunca vi, e eu só sinto um calor infernal aqui) e tem a coisa mais legal do mundo: uma casa de chá das cinco! Tipo Londres, manja? Maneiro. Maneiríssimo. Mas, como no Rio as coisas são meio malucas, o típico chá inglês deles não leva leite. Vai entender. Minha rua tem de tudo. Outro dia, descendo pra pôr o lixo lá fora, dei de cara com um ex-namorado paulista jantando com sua nova velha namorada que eu acho que é paulista, se não for marciana. Porra, vieram de tão longe (tá bom, é perto) pra jantar em frente da minha casa? Gente chata. Enfim, deixei o lixo lá fora e segui a vida. Minha rua tem de tudo. Todo sábado, um morador de rua faz pirotecnia embaixo do meu prédio. Berrando muito. E seus infinitos filhos são os únicos a aplaudir, pois ninguém agüenta mais o cara. Minha rua tem salão de beleza de perua e de gente que chega em perua. Tem de tudo. Tem botecos e padarias daquele tipo que fede frango assado às seis da manhã mas também tem o Sushi Leblon, terceira casa da revista Caras depois do castelo e da casa da Suzana Viera. Minha rua vende Granado e Phebo como se fossem a coisa mais chique do mundo e vende boinas francesas como se fossem as mais clichês. Minha rua parece São Paulo quando tem briga de motoboy, parece a Alemanha quando eu desço com as minhas canelas brancas para caminhar e parece o melhor lugar do mundo quando não tem ninguém berrando. Mas tem sempre alguém berrando na minha rua. Ou buzinando. O que dá no mesmo. Dizem que essa rua já chamou “do pau”. Não sei, tem de tudo na minha rua, mas até agora não arrumei nada que me fizesse chamar essa rua de rua do pau. Vai ver é por isso que tudo me irrita tanto. Aí (esse aí é de “e então” e não aquele “aiê” de carioca, o.k.?) essa semana, um novo elemento se uniu ao mundo de elementos da minha rua que tem de tudo. Os ratos. Esses seres imundos, nojentos, inferiores, aterrorizantes. Escutava o som deles de manhã, de tarde, de noite, de madrugada. Em meio a todos os outros infinitos sons e de todas as infinitas pessoas. Sempre os ratos. Os ratos. Os ratos. E já tava ficando louca. E ainda mais mal-humorada. E ainda mais reclamona. E ainda mais paulista escrota e com orgulho. E tudo mais. Até que encontrei a filha do zelador na rua e ela apontou, com seu dedinho de quem tem quatro aninhos de idade e uma vida linda, que aquele som, na verdade, era dos macaquinhos da árvore que fica em frente ao meu quarto. Eu tinha macaquinhos lindos na árvore, que coisa bucólica, pueril. Vivam os macaquinhos! Eram macaquinhos fofos, lindos, bebês, uns chuchuzinhos de seres. E eu subi correndo pra ficar vendo os macaquinhos e chorando. De arrependimento. De emoção. De saudade. Sem motivo. De tristeza por eu estar sempre na defensiva e não conseguir ver nem as coisas boas. As coisas bobas. Os macaquinhos. E eu sempre vendo rato em tudo. Na minha rua, ainda que emprestada, tem de tudo, até motivos pra sorrir um pouco ou tentar ser uma pessoa melhor. 20. MAIS UM PAR DE TÊNIS VELHOS Até que enfim, pensei, quando o sol entrou de leve pela janela e fez os cachos dele brilharem. Eu olhei tão apaixonada que ele sorriu, um sorriso do tipo “eu sei que eu sou foda”. Não, eu estava louca novamente, ele estava sorrindo para uma piada idiota qualquer que alguém havia mandado por e-mail. Ele nem me via daquele ângulo com seus olhos pequenos, profundos e da cor dos cabelos, mas eu via seus cachos nunca penteados brilhando o dia todo. “Novo editor, muito prazer. Vou tentar empurrar aí umas colunas de cinema.” Aquela frase ficaria imortalizada na minha mente, não só porque ele era novo, editor, ia empurrar e entendia de cinema. Mas porque para cada terminação de palavra um resto de vogal rouca e sexy demorava a desaparecer no ar. Vou tentaaaaar empurraaaar... aquilo entrava dentro de mim, goela abaixo, corria pelo sangue, saía na calcinha. A voz dele era rara, baixa, firme, rouca e madura. E pra piorar sua boca era um desenho perfeito perdido num emaranhado estranho de pêlos que se interligavam em bigode e cavanhaque. Eu só conseguia olhar para a sua boca e pensar em tipos de arrepios e cócegas em partes de mim que eu nem lembrava que existiam. Um dia ele demorou pra voltar do almoço e eu não resisti, quis saber um pouco mais daquele mundo. Em cinco minutos descobri um universo perfeito. Em cima da mesa ele tinha cinco CDs: Tim Maia em sua versão Racional (o que prova que ele deve ter amigos legais que já fumaram muita maconha, mas agora trocam dicas de móveis e pôsteres bacanas para a casa em que moram sozinhos), Cartola (o que prova que ele já sofreu por amor, mas superou e está pronto novamente porque a vida sem amor é uma merda), Frank Sinatra (ele sabe ser um pouco mafioso e levar uma mulher elegante a um restaurante chiquérrimo, pedir um bom vinho, obviamente pagar tudo e depois mostrar a pistola), Strokes (ele é jovem e moderno, só romance à moda antiga enche o saco) e um CD rabiscado, de caneta própria para CDs, que trazia escrita a palavra “livro” (sem comentários, eu poderia bater uma punheta agora sentada sozinha naquela mesa). Sua proteção de tela era uma foto P&B de um nenê olhando para o pinto, mas eu sabia que ele não tinha filhos, logo, ele ainda era um tio bacana que gostava de crianças, o que torna um homem sempre ainda mais bacana. O típico leonino volta com sua juba iluminada, reclama que depois de comer massa o sono impera no rei e vira um touro preguiçoso entregue à luxúria da contemplação mundana. Espreguiça de leve e eu consigo ver um pouco da sua cueca xadrez.Xeque-mate, esqueço que sou dama, não tem como ganhar de um encantamento porque já se ganha só por estar encantado. Se ele quiser, sumo agora daqui e enfio minha mão com toda a força do planeta naqueles cachos, beijo todos os emaranhados com a pressa de quem tem medo do fim do mundo. Olhar pra ele é o fim do mundo, o fim da rotina, o fim da dor, o fim da espera. Ele é vida nova e tudo vai dar certo. “Tô triste hoje”, ele solta no meio da tarde. Sim, claro. Ele é profundo, ele é intenso, ele é sensível, um homem desses fica triste no meio da tarde, um horário entre o começo do nada e o fim do nada. O meio do nada é ainda mais nada do que tudo. Ele sofre por estar aqui sentado, mas ao mesmo tempo sofre porque estar agora sem ter onde sentar também é angustiante. Viver é angustiante. Senhor, sim, ele me entende. “Por que você está triste?” “Minha mulher jogou meu tênis velho fora.” 21. THE KILLERS Sempre que uma situação começa a ficar boa ou simplesmente começa, solto minhas frasezinhas-bomba. Não sei se com isso quero realmente foder a minha vida ou me proteger de me foder. Acho que, segundos antes de explodir tudo, penso assim: se eu falar a frase mais errada do mundo, só os realmente fortes sobreviverão. O que eu não percebo é que, no começo de alguma coisa, ninguém ainda é realmente forte para agüentar minhas frasezinhas-bomba. E todo mundo, sem exceção, acaba correndo assustado. E no dia seguinte eu acordo com aquele misto de vitória com tristeza. Sozinha novamente. Como se isso fosse um prêmio, mas também uma doença. Dentre as minhas frasezinhas-bomba tenho três prediletas: “tô morrendo de saudades de você”, “a vida sem amor é uma merda” e “você me dá pouca atenção”. Quase nunca tô morrendo de saudades de alguém, não existe a menor chance de eu amar algum desses trastes que me aparecem e caguei se eles me dão ou não muita atenção. Mas ainda assim falo, ainda assim mando uma frase dessas. Só pra ter o triste prazer de ver o covarde ficando branco, escondendo os dentes, enfiando o pinto no cu. E sumindo finalmente da minha vida. É o jeito que arrumei de me rebelar contra essa hipocrisia masculina. Eles podem dormir na casa da gente, enfiar o pauzinho no meio das pernas da gente, pedir uma torradinha com requeijão de manhã, mijar pra fora do nosso vaso, contar a vida deles e pedir mais carinho nas costas. Mas não suportam ouvir no dia seguinte um simples “gosto de você”. Covardes de merda. Odeio essa hipocrisia masculina. Se eles falam mil vezes que querem te ver é tesão e você não pode se assustar, mas, se você falar uma única vez que quer vê-los, é porque você é uma mala que está “misturando sentimentos”. E eles podem se assustar. Que preguiça desse planetinha dos macacos e suas bananas. E sigo com minhas frases matadoras. “Pensei em você hoje”; “Voltei antes pra te ver”; “Vamos nos ver hoje?”; “Vamos comigo na festa da minha amiga?”; “O que você vai fazer no feriado?”. E tenho cada dia mais nojo de como frases ditas pra serem agradáveis soam como um assassinato. E tenho nojo de pensar que, quando você tira o controle deles, eles não sabem mais o que fazer com você. “O que eu vou fazer com uma mulher que eu já conquistei?” Que tal continuar conquistando todos os dias, seu idiota? Que tal viver uma história que passe da primeira página? Tenho cada dia mais nojo de como as pessoas se consomem e não se conhecem, não vivem nada. Não sabem nada da vida da outra a não ser o tamanho dos peitos e se o desenho dos pêlos é mais para Claudia Ohana ou bigodinho do Hitler. Sempre lembro de uma vez que fui passar cinco dias com um namorado no alto de uma montanha e ele me apareceu com um verdadeiro “kit putaria”. Passou antes no sex shop e comprou de óleo de massagem a roupinha de enfermeira. Tenho certeza que fez isso porque pensou “que porra vou fazer com uma mulher cinco dias em cima de uma montanha a não ser trepar?”. Se fosse com algum dos seus amiguinhos eles poderiam rir, se divertir, beber, conversar, apostar corrida, jogar videogame, brincar na piscina, fazer trilha. Mas com uma mulher? Um ser estranho chamado mulher? Que porra ele iria fazer, não é mesmo? Homens acham que a página 1 é trepar e a página 2 é casar. E como têm pavor da 2 (e quem disse que as mulheres também não têm?) acabam nunca saindo da 1. E nisso conversas incríveis, descobertas maravilhosas e histórias lindas morrem antes mesmo de nascer. Eles podem te comer, mas jamais passear de mãos dadas com você. Isso tudo me dá um bode profundo. Mas no fundo tenho mais bode é de mim. Por ter dito frases desse tipo para pessoas sem nenhuma magia, sem nenhuma poesia. E que em vez de enxergar beleza enxergaram “carne ganha”. E no fundo eu nem sentia nada por essas pessoas, estava apenas testando a hipocrisia do mundo. Estava apenas comprovando que se tratava de mais uma “carne podre”. Acho de verdade que a puta da Glenn Close estragou a vida de algumas mulheres. Basta você dizer um inocente “você é legal” pro cara achar que você vai se mudar pra casa dele, mergulhar o poodle dele numa panela com água fervendo e parir trigêmeos bem no dia do futebol com os amigos. Da onde eles tiram que somos tão assustadoras? A gente só quer ter com quem rir no final do dia e ganhar alguns beijos no lugar certo. Nada muito diferente do que eles querem. Mas cansei. Definitivamente cansei. Cansei de um mero “nossa, tava pensando em você” equivaler a um “nossa, tava pensando em você de terno e gravata no altar de uma igreja”. Já que pouca coisa assusta tanto, decidi que agora vou jogar pesado. Daqui pra frente minhas frases matadoras vão ser de “quero ter um filho seu” pra pior. Quem quiser sair comigo vai ter de ouvir “posso dormir aqui?” ou ainda “acho que posso me apaixonar por você”. E quem sobreviver a esse verdadeiro extermínio de pretendentes vai descobrir que eu sou só mais um ser que morre de medo do amor e da convivência. Vai descobrir que falo as frases erradas justamente pra espantar as pessoas e não ter mais trabalho. Mas de verdade (e dessa vez sem medo de assustar ninguém) adoraria encontrar alguém que resolvesse correr esse risco junto comigo. 22. A PRIMEIRA VEZ Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer coisa. Você sempre foi o único homem que me amou. E eu nunca te escrevi nem uma frase num papelzinho amassado. Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu também, depois, eu dormir meio chorando porque é impossível abraçar sequer alguém, o que dirá o mundo. Outro dia eu encontrei um diário meu, de 1999, e lá estava escrito “hoje eu larguei meu namorado sentado e dancei com ele no baile de formatura”. Ele, no caso, é você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo escrito nenhum texto para você, por diversas vezes larguei vários namorados meus, sentados, e dancei com você. Porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado. Depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos escuros espelhados de maconheiro. E eu de calça colorida daquelas “bailarina”. E nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha da classe. Mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso supersexy. E eu me achei ridícula na foto, mas senti uma coisa linda por dentro do peito. Aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha da classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões (uns babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um beijo. Fingindo que ia desmaiar. Foi ridículo. Mas foi menos ridículo do que aquela vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei à força. Você saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo. Eu não sei por que exatamente você não mereceu um texto meu, quando me deu meu primeiro CD do Vinicius de Moraes. Ou quando me deu aquele com historinhas decrianças para eu dormir feliz. Ou mesmo quando, já de saco cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu aquele cartão-postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça. Também não sei por que eu não escrevi um texto quando você apareceu naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida: “eu sei que você não gosta de mim, mas deixa eu te olhar mesmo assim”. Talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente: “me faz companhia enquanto meu namorado está viajando?”. E você fez. E você me olhava de canto de olho, se perguntando por que raios fazia isso com você mesmo. Talvez porque, mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava querendo apenas me olhar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio à falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo. Depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de gostar de mim. E eu podia ter escrito um texto para você. Claro que eu senti ciúme e senti uma falta absurda de você. Mas, ainda assim, eu deixei passar em branco. Nenhuma linha sequer sobre isso. Depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou até desopilar todos os cantos do seu fígado. Eu fiquei numa tristeza sem fim. Depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. E fiquei feliz. Pode me xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta um pouquinho de mim. Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Strokes no carro ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. Tudo é você. Quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. E, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você. Até hoje. Até esta manhã. Em que você, pela primeira vez, foi embora sem sentir nenhuma pena nisso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente foi embora. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida cheia de coisas que não são ela. E que você usa para não sentir dor ou saudade. Foi a primeira vez que você deixou eu te olhar, mesmo você não gostando de mim. E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu. 23. ELES Tentei explicar pra senhora minha mãe, a qual queria mais uma vez se enfiar no shopping em mais uma das visitas que me fez durante o tempo que morei no Rio, que prefiro o caminho pela praia, cheio de gente que não vai te estuprar ou roubar caso você, num ato de sensibilidade menos controlada, desfaleça no meio da rua. Gente bonita, com todos os dentes, cartões e diplomas. E não aquele caminho que vai por dentro da avenida cheio de... cheio deles. Ela não entendeu nada, justificando que o caminho que vai por dentro da avenida era mais rápido e prático. Eu fiquei sem saber o que dizer. Como é que se explica pra alguém que você prefere uma coisa a outra por causa deles? Eles. Mas quem são eles? Aí briguei com ela. Eu não queria o shopping maior, cheio de lojas de tudo quanto é tipo. Mas o menorzinho, com as grifes e coisas charmosas e tal. Tudo para não estar perto deles. Não gosto deles. Mas quem são eles? Queria explicar pra minha mãe que tenho “elesfobia”. Não gosto de estar no mesmo lugar que eles, saber que tenho o mesmo gosto que eles, que compro o mesmo que eles. Não me misturo a eles. Não vou a boteco de quinta, padaria suja, show de graça, praça de alimentação, queimas de estoque, comemorações a que cada convidado leva um prato e festas que sempre terminam com casais nada fotográficos se beijando porque é o que temos. Tudo para não chegar nem perto do cheiro de couro dez reais com creme amarelo de tubão gigante. Mas quem são eles? Tenho pavor de estar no mesmo lugar que eles. Mas não me pergunte quem são eles. Eles são todos iguais, com seus cachorros, com suas poses, com suas sacolas, com seu nariz empinado, com seu sorrisinho de “você tem cama, eu tenho berço”. Odeio eles. Odeio como param em filha dupla na Oscar Freire e descem calmamente, como se ter dinheiro fosse alguma doença mental. E você até quer gritar “ô retardado”, mas fica com pena do cara. Coitado, ele tem um Audi TT. Odeio eles. Eles que resolvem tudo não fazendo porra nenhuma. Que riem aristocrática e pontualmente na hora estipulada para rir e se atrasam para chegar ao psiquiatra porque trabalhar para o sobrenome quatro horas por dia gera a maior confusão na agenda. Eles que demonstram pouca ou nenhuma ânsia de vida porque é falta de finesse sentir as coisas tão passionalmente. Ser passional é coisa de pobre. E eles, eles estão acima do bem e do mal. Eles casam como se dinheiro cagasse de árvore e se separam como se uma bala jujuba valesse euros. Eles. Odeio eles. Em suas festinhas fechadas, com meninas que só gemem interjeições burras e garotos com pau 2.0 na garagem. Mas quem são eles? Como explicar, como apontar, como acusar, como? Quem são eles? Odeio eles. Os que pertencem ao mundo chique, desde que parcelado. Os que moram em bairros emergentes, comem coisas caras só três dias depois do pagamento ou pra gastar com grand finale o Visa Vale. Eles têm estilo, eles suaram. Olha lá o carrão, olha lá o apê bacanudo, fazendo sombra pro apê bacanérrimo. Eles estão cada vez mais se distanciando dos outros e encostando neles, mas quem são os outros, eles e neles? Eles odeiam eles, os primeiros eles que lotam botecos sujos e cheiram Davene. Eles também odeiam os segundos eles, os eles que conseguiram tudo que eles conseguiram mas sofrendo a metade, dando metade do valor. Eles adoram falar que dão valor. E eu acho eles um porre com sua mania de dar valor a tudo e querer o tempo todo renegar os eles e ser os outros. Eles são preconceituosos, perdidos no meio do caminho, carentes como o filho do meio, felizes por pertencer ao maior share da humanidade, ainda que não tenham nem o maior share da grana nem o da desgraça. Mas como explicar pra alguém que eu cansei de tudo porque não quero ser eles, nem sei quem são eles? Percebi que o mundo tinha globalizado de vez e sem volta quando fiz hora numa lojinha besta do shopping Guarulhos esperando pelo vôo para Firenze e, ao chegar a Firenze, fiz hora na mesma loja até liberarem o meu hotel. A mesma loja, a mesma vitrine. Se Guarulhos já pode ser Firenze, pra onde fugir? Em quem se agarrar? Se somos mesmo todos iguais e tava certo aquele papo todo de crescer espiritualmente, tô fora. Pô, eu só queria ser eu, será que rola? Mas a cada dia mais sou todos eles. E os odeio porque é normal e incontrolável brigar com os irmãos. Ver o feio de si espelhado no outro, como diria algum chato de plantão. Deixaram todo mundo igual, todos os sentimentos iguais, todos os tipos de mau humor iguais, todos os preconceitos absurdos. Você não pertence a nada e pertence a tudo. Você não pode mais apontar ninguém, não por ser feio, mas porque tudo virou uma grande massa amorfa sem personalidade. Você é eles e eles são você. Mas de quem a gente tá falando, afinal? 24. O TEATRO DA MOÇA BANAL Olho pela sacada da minha casa e vejo você chegando. Corro para o enorme espelho do meu quarto e repito em mantra: eu não gosto dele, eu não gosto dele, eu não gosto dele. Tenho quase trinta anos e consegui estragar todos os meus relacionamentos simplesmente porque gostei demais das pessoas. Dessa vez quero acertar, por isso, combinei comigo que, apesar de estar morrendo por você, não gosto de você. Espero você tocar a campainha olhando o escuro pelo olho mágico. Meu coração dispara, mas eu mandoele parar. Estraguei todos os meus relacionamentos de tanto que meu coração dispara. Dessa vez quero acertar, dessa vez quero que alguém fique comigo ao menos um mês sem me achar louca. Cansei de sempre ser a garota louca que espanta todo mundo. Você tem cheiro de roupa limpinha com mente suja e eu quero te rasgar inteiro. Mas apenas te dou um beijinho no rosto. Preciso me comportar. Ser como as minhas amigas que se dão bem e arrumam namorados apaixonados. Há anos que eu rasgo os rapazes, enlouqueço, me apaixono, devoro. E termino sozinha no Espaço Unibanco querendo morrer enquanto olho sem fome para o pacotinho com dez minipães de queijo. Chega. Dessa vez vou acertar. Não vou chorar na sua frente porque acho um absurdo estar viva, não vou pirar porque deu quatro da manhã e eu tenho a impressão de que a noite é uma coisa de pirar a cabeça. Não vou beijar sua nuca no meio da noite e gostar de você como naquela canção do Legião que diz que é como se não houvesse amanhã. Eu gosto das pessoas pelo prazer de gostar e não porque deu tempo de gostar delas. E ninguém entende nada. E todo mundo se assusta. Mas prometo ser uma mulher normal dessa vez. Você não sabe por que eu não te atendi o dia todo. Eu te conto que é porque estava muito ocupada. Minhas amigas sempre usam essa desculpa e sempre namoram. Eu era a louca que nem esperava os caras ligar e já ligava pra eles. Mas dessa vez tô ignorando o telefone. Mesmo que ele fique no meio das minhas pernas o dia todo esperando um telefonema seu. Mas você jamais vai saber disso. E jamais vai saber mesmo, sabe por quê? Porque você é o primeiro homem do mundo que não sabe que eu escrevo sobre a minha vida. Chega. Todos os homens morrem de medo dos meus textos e eu não agüento mais essa porra dessa solidão que me dá toda vez que procuro um pouco de amor nos beijos e abraços curtos que alguém me dá só pra poder transar depois. Chega. Você não vai saber nem a pau que eu sou escritora e muito menos que eu gosto de você e escrevo sobre você. Aí você fala que vai cortar o cabelo e eu quero implorar pra você não cortar. Porque esses seus cachos acabam comigo. O cheiro do seu cabelo. A maneira descabelada que você usa pra parecer arrumado. E eu amo a sua cara de argentino e que você odeie os argentinos. E eu amo como a sua calça nova cai bem em você e como você fica elegante de chinelo. E eu quero te pedir pra deixar tudo como está e não cortar meus cachos prediletos de todos os cachos. Você me salvou. Eu não agüentava mais pensar nos mesmos caras que eram sempre os mesmos caras.Você é novinho em folha e eu sou louca por você. Mas tudo isso eu não te conto pra você não achar que eu sou louca. Chega. Dessa vez vou fazer tudo certo. Já é a sexta vez que você vem na minha casa e até agora nada. Não transei com você. Apesar de pirar na sua barriga e na sua nuca. E de querer eternizar o seu cabelo e o seu nariz feio. E de achar que o seu cheiro é o cheiro de uma nova vida que eu estava precisando tanto. E de eu te adorar principalmente porque eu já nem sabia mais como era adorar alguém novinho em folha. Não, não transei com você. Chega de transar sonhando em andar de mãos dadas. Agora vou andar de mãos dadas pra ver se vale a pena transar. Porque dessa vez vou fazer tudo direito. Chega. E você nem sonha que eu sou bipolar, quero ser mãe e acredito no amor da vida. Acredito no amor pra sempre. Acredito em alma gêmea. Você nem sonha com essas coisas porque só conversamos coisas leves e engraçadas. Chega de ser a louquinha intensa. Maior legal transar e se divertir com a louquinha intensa, mas quem agüenta o tranco de me assumir, de me amar? Ninguém. Chega. E você pede pra fazer xixi e faz o xixi baixinho. E eu corro no espelho de novo e repito cem vezes que não gosto de você. Não gosto de você. Não gosto de você. Porque, se eu gostar de você, eu sei que você vai embora. E eu simplesmente não agüento mais ninguém indo embora. Porque nessa vida maluca só se dá bem quem ignora completamente a brevidade da vida e brinca de não estar nem aí para o amor. E eu preciso me dar bem e por isso ignoro minha urgência pelo amor. Porque, se você sentir urgência em mim, vai é correr urgente daqui. Chega. E você implora para a gente finalmente transar. Já é a sexta vez que você vem aqui. E eu quero muito. Muito. Porque você tem a voz mansinha e só fala coisa inteligente. E você é cínico sem ser maldoso. E graças a Deus você não é publicitário. Nem é amigo dos meus amigos. E tá cagando para as meninas bonitas do seu orkut porque você pira em mim. E eu quero transar com você e te contar que escrevo sobre você e que morro pelo seu cabelo. Mas não, não. Estou morrendo de vontade de ser eu, mas ser eu só tem me feito perder e perder. E eu quero ganhar. Só dessa vez. Chega. E eu quero me dar de bandeja pra você. E dentro de mim uma voz diz: pira, Tati, enlouquece. Vive um dia e já está bom. Depois eu demoro semanas pra me levantar, mas pelo menos fui intensa e vivi um dia. Mas não agüento mais nada disso. Quero viver uma história. Por isso dessa vez não vou transar nem gostar de você. Tchau. Peço pra você ir embora. E você jura que eu não estou nem aí pra você. Melhor assim. Dessa vez quero fazer tudo certo. Chega de fazer tudo errado. E eu te espio da janela, indo embora. E quero berrar o quanto gosto de você. E te pedir em namoro. E rasgar sua roupa. E te comer. E dormir enroscada no seu cabelo. E te mandar flores amanhã. E mais uma vez agir como um homem. Mas eu cansei de ser homem. Chega de usar o pinto que eu não tenho pra foder comigo. Eu sou menina. E meninas só transam depois do sexto encontro. Ou depois que o cara fala que gosta delas. Dessa vez vai ser assim. Chega. E se você não se apaixonar por mim mesmo com todo esse teatro de moça banal que eu estou fazendo, vai ser a prova que eu precisava pra saber que você realmente vale a pena. 25. EU JÁ ESTIVE POR LÁ Outro dia fui ao cinema com um grande amigo. Sentamos um ao ladinho do outro, dividimos uma pipoca gigante, confidenciamos comentários bobos a respeito do filme. Essas coisas que amigos fazem. Tudo corria bem não fosse um incômodo generalizado que eu sentia na alma: “peraí, mas eu já dormi com esse cara!”. Não adianta, não consigo ser natural. Homens têm razão quando não gostam de ver suas namoradas muito próximas de “amigos” que já experimentaram do doce. Sempre vai rolar uma piadinha do tipo “ah, mas eu sei que você não é realmente loira”, ou ainda “pára de ajeitar essa blusa, eu já vi tudo que tem aí embaixo mesmo”. Quem já “esteve por lá” sempre vai se sentir, ainda que inconscientemente, um eterno possuidor de território, mesmo que o outro case ou mude de sexo. São como vacas ou bois carimbados. E aí o meu amigo pergunta se eu quero ficar com o saco na mão, referindo-se à pipoca, claro. E eu não consigo disfarçar uma risada eminente. Depois ele pergunta se eu quero uma carona pra voltar pra casa ou prefiro “me virar”. E eu quase me vejo explicando pra ele, de novo, que não curto esse papo de me virar. Mas apenas sorrio e fujo dali o mais rápido possível. Uma vez pelada para uma pessoa, parece que você nunca mais se sentirá de roupa na frente dela. Pior é quando seu ex-parceiro sexual começa a namorar uma amiga. E todo mundo dá uma de civilizado e sai junto, afinal, “faz aí uns bons cinco anos que você saiu com o cara e nem rolou nada muito forte entre vocês”. E você tenta desfocar o máximo que pode das lembranças, mas é só ele abrir a boca com aquela língua presa e a voz nasalada, que você lembra que ele parece o Pato Donald tendo prazer. E não consegue disfarçar um pouco de pena que sente da sua amiga. Ela, mais cedo ou mais tarde, vai se encher daqueles gemidos de gás hélio que ele dá. E aí você vai a uma festinha dessas que têm mais da metade das pessoas com quem você já conviveu ou trabalhou na vida e descobre, para seu falso desespero, que você aproveitou bem seus últimos dez anos. Muito bem, por sinal. E o incômodo na alma começa de novo. Primeiro você tem que ser simpática e natural comaquele uruguaio que você teve de dispensar porque tinha mania de lamber seu braço. Creeeeedo. Depois você encontra um daqueles caras inesquecíveis e é inevitável sorrir que nem uma idiota mesmo que o assunto seja a morte de alguém. O cara te conta que está desempregado e você sorri. Que tem uma doença terminal e você sorri. E vai explicar pro cara que isso é um elogio... Pior é aturar aquele tapinha nas costas e aquele olhar de “ei, gata, lembra de mim?” de algum estagiário precoce que você pegou pra esquecer algum tio moleque. Claro que você lembra dele, teve que atender a mãe dele umas cinco vezes só em uma tarde! E aí você encontra o tio moleque também, e é inevitável ter que cumprimentá-lo “adultamente” mesmo lembrando que vocês adoravam interpretar astros do rock na frente do espelho. Simplesmente não dá para perguntar da CPMF ou das crianças e fingir que nada está acontecendo! A regra é simples: se você já deu, não dá! Fica sempre aquele fantasma berrando na sua cabeça: “eu já estive por lá! Eu sei onde ele tem pinta, eu sei onde ele tem cócegas, eu sei onde ele não tem domínio, eu sei que ele tem uma cueca rasgada, eu sei que ele acorda com baba branca ressecada, eu sei que ele imita o Pavarotti, eu sei que ele pede coisas estranhas...”. E tudo isso passando pela sua cabeça enquanto você reclama do calor, do governo, da festa, do emprego, das contas para pagar... quando tudo que você mais queria era reclamar: meu amigo, por favor, me explica onde eu tava com a cabeça quando estive por aí? 26. O QUE VOCÊ FAZ COM AS PESSOAS QUE NÃO QUER MAIS? Dia desses me ligou uma grande amiga do primário. Cheia de cobranças pro meu lado, que eu era uma desnaturada, como assim não tinha atendido ao telefonema dela na madrugada do dia anterior? Há vinte anos ela era uma ruivinha magra, doce e que sempre dividia comigo a maria-mole (como é que eu podia comer isso?!) no recreio. Havia se tornado uma mulher alta demais, que falava alto demais, gesticulava demais, ligava tarde demais, insistia demais na nossa amizade e agora ainda era modelete-manequim-atriz-promoter-organizadora de eventos. Mais da metade dos organizadores de eventos são pessoas que um belo dia pensaram “hummm, deixa ver o que eu gosto de fazer… eu gosto de ir a festas! Boa, vou trabalhar com isso”. Não dá, sinto muito, eu ainda gosto da ruivinha do recreio, mas onde ela foi parar? Outra que não me deixa em paz é a Paulinha, Paulona na verdade, porque acabou engordando umas vinte arrobas depois do ginásio. Nós éramos grudadas e fazíamos tudo juntas. O primeiro beijo aconteceu na mesma época, a primeira recuperação de física, as primeiras noites em claro chorando por algum superincrível macho de 13 anos. A gente se adorava tanto que tomava banho juntas na casa de praia que ela tinha no Guarujá (era chiquérrimo ir pra Enseada, lembra?) e uma ensaboava a outra, juro que sem a menor maldade. Hoje em dia me culpa por ter ficado gorda e eu não; acho que ela pensa que, se eu fosse realmente uma amiga de verdade, a teria acompanhado até nisso! Ela me liga toda semana com insinuações do tipo “claro que ele te ligou, você é magra”, “claro que você não me chamou, você achou que eu não ia caber no carro”. Tentei ajudar, ter paciência, mas a verdade é que ela se transformou num ser insuportável e eu não quero mais ser amiga dela. O que fazer? Como posso simplesmente abandonar minha melhor amiga do ginásio? No colegial eu tinha duas melhores amigas: a Márcia e a Joana. Apesar de a escola ser boa, eu estudava em um bairro mais simples com pessoas mais simples, afinal: minha família é mais simples. Até aí, nenhum problema. Mas, como nessa vida a gente anda pra frente, me formei numa faculdade bacana, trabalhei em bons empregos, ganhei uma graninha, conheci gente que me ensinou o que é um bom restaurante, bom filme, bom livro, boa viagem, mudei de bairro, de carro, de cabelo, de roupas, de opinião. Enquanto isso, a Márcia se casou com o homem mais ogro do planeta, ele não a deixa trabalhar e adora ver que ela depende dele até pra soltar um pum. Ela nunca ouviu falar no Woody Allen, não tem carta de motorista e acha que tudo é pecado. A Joanna continua no mesmo emprego desde os 17 anos, odeia o emprego, mas aprendeu com o seu pai que “trabalhar não é pra ter prazer, é pra comprar comida”, seu último namorado era o “líder” de uma banda de pagode e batia nela de vez em quando. Aí eu me pergunto: que assunto eu vou ter com essas pessoas? Sempre que faço um esforço sobrenatural pra aparecer por segundos em algum evento comemorativo, é com olhares de “traidora, ela se tornou um ser humano melhor” que sou recebida. Não quero mais passar por isso, mas como ignorar amigas tão antigas? A maioria dos meus amigos de hoje foram grandes amigos do passado, que cresceram comigo, sofreram comigo, melhoraram comigo. São pessoas que eu admiro muito e que, mesmo com seus defeitos, me acrescentam, me fazem bem pra alma. Mas o que fazer com os outros que ficaram pra trás e se perderam com o tempo? O que fazer com os íntimos que se tornaram estranhos? Não há muito o que fazer, a não ser sentir saudades de quando tudo era simples como dividir uma maria-mole e ingênuo como dividir um sabonete. Tenho muitas saudades daquelas amigas, mas tenho mais ainda de mim, que julgava menos e era muito mais feliz. 27. EU NUNCA VOU ENTENDER Mais um domingo que você me liga. Igual faz há uns quatro ou cinco anos. Você beija a sua mãe depois do churrasco, dá um oi carinhoso e finalmente sem culpa para a sua ex-mulher, deixa as meninas em casa, cheira sua camiseta pra ver se a coisa tá muito feia e descobre que sua vida está prestes a ficar vazia: chegou a hora de me ligar. Você não sabe ao certo o que vê em mim, mas também não sabe ao certo o que não vê. Você sabe que pode comer uma mulher mais gostosa do que eu, afinal, você é rico e pra piorar ainda tem uma banda de rock. Mas por alguma razão prefere a gostosa garantida, aquela que ainda ri das suas piadas. Mesmo sendo as mesmas piadas há quatro ou cinco anos. Aí você me liga, com aquele ar descompromissado e meigo de quem só quer tomar um café com uma velha amiga. A velha amiga que você come há quatro ou cinco anos, mesmo nunca tendo tomado sequer um café com ela. Eu não faço a menor idéia do que vejo em você, mas também não faço idéia do que não vejo. Eu posso dar para um cara mais gostoso, como de fato já fiz milhares de vezes. Mas por alguma razão prefiro suas piadas velhas e seu jeito homem de ser. Você é um idiota, uma criança, um bobo alegre, um deslumbrado, um chato. Mas você é homem, você é pai, você é chefe, você segura o tranco da vida. E talvez seja só por isso que eu ainda te agüente: você pode ter todos os defeitos do mundo, mas ainda é melhor do que o resto do mundo. Aí a gente, sem saber ao certo o que está fazendo ali, mas sem lugar melhor para estar, acaba pulando o café que nunca existiu e indo direto ao assunto. O mesmo assunto de quatro ou cinco anos que, assim como as suas piadas, nunca cansa ou enjoa. E aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. Mesmo quando não é bom, mesmo quando cansado e egoísta você não espera por mim e vira pro lado pra dormir ou pra voltar à sua bolha egocêntrica de tudo que é seu, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos quatro ou cinco anos, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronta pra começar algo, pra tomar um café de verdade, pra passear de mãos dadas no claro, pra poder te apresentar ao sol sem receber mensagens de gente louca ou olhares curiosos, pra escutar uma piada nova. E você sempre ignorou esse fato, seguindo seu caminho que sempre é interrompido pelo vazio da sua camiseta fedendo a churrasco. Eu nunca vou entender. Eu nunca vou saber por que a vida é assim. Eu nunca vou entender por que a gente continua voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou entender por que você é exatamente o que eu quero, eu sou exatamente o que você quer, mas as nossasexatidões não funcionam numa conta de mais. Eu só sei que agora eu vou tomar um banho, vou esfregar a bucha o mais forte possível na minha pele e vou me dizer pela milésima vez que essa foi a última vez que vou ficar sem entender nada. Mas aí, daqui a uns dias, igual faz há uns cinco ou seis anos, você vai me ligar. Querendo tomar aquele café de sempre, querendo me esconder como sempre, querendo me amar só enquanto você pode vulgarizar esse amor. Me querendo no escuro. E eu vou topar. Não porque seja uma idiota, não me dê valor ou não tenha nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida. Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo. 28. TREPAI-VOS, IRMÃOS — UM TRATADO SERIÍSSIMO POR UM MUNDO MELHOR Cresci com a minha mãe dizendo que mulher que só pensa em sexo não é coisa boa. Tantos livros para ler, tantas contas para pagar, tanta tristeza e violência no mundo, tanta coisa séria para pensar... Sinto muito, mamãe. Mas acho que vou te decepcionar. Sabe, fiz uma recapitulação da minha vida e descobri que, apesar de tudo, não passei um segundo da minha existência pensando em outra coisa. Eu nunca comecei cursos ou empregos novos verdadeiramente motivada pelos desafios de uma carreira ou de salários melhores. O que sempre me impulsionou era a pergunta: aqui tem um bom número de homens para quem eu daria? Não? Então não quero. Não que eu fosse dar para todos. No final das contas, apesar de eu adorar a minha personagem que vende o oposto, acabo não dando pra ninguém ou quase ninguém. Mas não há nada melhor do que estar em um ambiente onde isso poderia acontecer. E que atire a primeira pedra o ser humano que não pensa assim. Juro que não é promiscuidade, é apenas a natureza. Sexo é a melhor coisa da vida e ponto final. Quando acabam as chances de ele acontecer, partimos para outros ares. Os homens compram carros maiores, as mulheres, peitos maiores. Eu simplesmente mudo de emprego ou turminha de amigos. Mas a verdade é que estamos todos pensando em sexo. Até um filme interessante é ainda mais interessante quando alguém quer transar com você porque você achou o filme interessante. Existe fazer a mala feliz se você não tiver ao menos uma esperançazinha de fazer sexo no lugar para onde está indo? Existe acordar cedo para uma reunião, pegar o maior trânsito do mundo, se arrumar minimamente bem, se você não está interessada em fazer um “meting” com alguém desse meeting? Sejamos sinceros. Claro, não sou homem e, na maioria das vezes, apesar de eu me odiar infinitamente por isso, me apaixono. E sempre imagino o desejado da vez me esperando de gravata-borboleta no altar. Sou bobinha. Mas uma bobinha que gosta da coisa. Não consigo ser séria. Certa vez um grupo de amigos me perguntou se eu gostaria de ajudá-los fazendo propaganda sem fins lucrativos para algumas ONGs. Num primeiro momento pensei: trabalhar de graça nem a pau. Depois fui à primeira reunião e constatei: bom, dos sete caras que estão no projeto, eu daria para quatro! Topei na hora e nunca fui tão engajada. Teve uma outra vez também que duas agências de propaganda estavam disputando a minha contratação. Escolhi a que ia me pagar infinitamente menos, mas tinha o chefe mais gostoso. Claro! Dinheiro é bom, mas sem sexo não vale de nada. E sorte de quem tem uma boa vida sexual associada a um amor verdadeiro. Essa soma sim é a verdadeira busca da vida. Que Caminho de Santiago que nada. Que meditar em cima de uma montanha que nada. Já viu alguém que está superfeliz no amor e trepando alucinadamente sumir para encontrar seu verdadeiro eu? Isso é coisa de quem tá na seca ou acabou de levar um pé na bunda. Entre um belo corpo nu e um tronco, só um babaca vai preferir trocar energias com a árvore. No último retiro espiritual em que me meti só não morri porque pegava o canal Playboy na televisão do quarto. Mas sabe, mãe. Eu não acho que meu prazer seja tão egoísta quanto você pensa. Eu lembro que uma vez estava caminhando na praia e vi uma bolinha de frescobol atingir uma gordinha mal-humorada. Ela esbravejou. Ameaçou bater no moleque. Tocou o terror. E o pai do garotinho, que estava jogando frescobol com ele, apenas gritou: “a senhora não goza não?”. Adorei aquilo. Acho que a violência nada mais é que o desejo sexual reprimido. Nada me tira da cabeça que se todos transassem loucamente o mundo seria infinitamente menos louco. 29. QUE NEM CORAÇÃO DE MÃE Meninas mentem o número! Antes fosse da idade. Meninas mentem o número dos parceiros sexuais mesmo. Agora eu me pergunto: pra quê? Feriado passado uma das minhas amigas teve uma idéia genial: clube da Luluzinha. Fomos em 14 mocinhas para o sítio dela e tivemos dias dignos de machos: só falamos em sexo e não tivemos um pingo de saudade da companhia do sexo oposto. Até futebol a gente jogou. Na segunda noite e depois de muito vinho na cabeça, começou o jogo da verdade: com quantos você já transou? Os números variavam de dois (juro!) a seis (juro!). E eu resolvi simular uma síncope alcoólica e desmaiar no meio do assunto. Não sou obrigada a dizer nada da minha vida a ninguém, mas também não estava a fim de fazer o joguinho da santa. E estava na cara que a mulherada estava mentindo. E, se todas estavam mentindo, por que eu ia ser a única honesta a falar a verdade? E, se elas estavam falando a verdade, por que mesmo eu ainda era amiga delas? A verdade é que corri para meu quarto movida por uma certa insegurança e comecei a contar. Eu já tinha um número mais ou menos na cabeça, mas queria ter certeza. Um número que ainda dava para contar nos dedos (lembrando que tenho pés), mas que certamente era maior do que a variação de dois a seis. Fiz as contas mil vezes e dormi pensando: será que eu sou uma safada? Será que eu não sou moça pra casar? Será que a que transou com dois, três, ... merece mais do que eu ser mamãe e construir casinha com cerquinha branca? Calma, Tati, eu me dizia. Essas vacas estão mentindo! Dois a seis o cacete! Poxa, éramos 14 garotas com quase ou mais de trinta anos! São aí, chutando por baixo, uns dez ou quinze anos de vida sexual... Anormal eram elas, não? Dormi mal. E acordei pior ainda, porque na manhã do dia seguinte ainda lembrei de mais um que meu cérebro seletivo tinha esquecido. Acho que um dos únicos, senão o único, com quem eu transei sem estar gostando. Porque todos os outros, que ainda davam para ser contados nos dedos (lembrando que eu tenho dois pés), eram rapazes do bem por quem eu havia me apaixonado. Eu nunca transei com algum desconhecido que conheci em alguma balada e muito menos Carnaval. Com todos eu tive algum envolvimento, alguma história. E no sentido exato da palavra história: a maioria acabou virando tema de livro ou coluna de revista. Não que esteja errado transar com alguém da balada ou do Carnaval ou sei lá eu o quê. Mas, já que eu estava na neura “será que eu não sou moça pra casar?”, essa era uma boa saída para o meu momento machista ignorante. Me convenci que estava tudo o.k. comigo. Ou melhor: resolvi que, se daqui a uns anos meu número passasse de todos os dedos da minha existência, era só arrumar algum gringo que jamais fosse amigo dos meus amigos homens e vir com o papinho de “dois a seis”. Mas acabei concluindo que cada uma faz com sua florzinha o que bem entender. Algumas resolvem virar maria-sem-vergonha, outras, coroa de defunto mesmo, porque dois a seis em trinta anos, ... fala a verdade... essa pessoa está viva? Ou vai ver eu estava sofrendo tanto e essa que transou com dois, transou com eles na mesma noite, vestida de odalisca. Vai saber? No fundo, acho ridículo medir a nobreza ou a “bacaneza” de uma mulher por números. Eu amei ou fui apaixonada ou gostei bastante de todas as pessoas que dividiram uma cama comigo (ou um sofá, um carro, uma pia, um estacionamento de loja de decoração). Quer saber? Meu número não era pequeno, mas meu coração também não. 30. A DURA (FORTE, GOSTOSA, CHEIROSA) REALIDADE Que inferno,que inferno. Vou ter de assumir. Publicamente. Tá doendo. Chega a ser vergonhoso, humilhante, mas fazer o quê? É a verdade. Nada mais que a irônica verdade. Eu gosto mesmo, e muito, é de playboy. Eu tentei de todas as maneiras ver graça nessas espécimes de papete e óculos apenas funcional (daqueles que dispensam qualquer aro fashion ou marca conhecida). Tentei com afinco os tipinhos colecionadores de sebos e traças. Como eu tentei os que querem salvar o mundo entre uma pinguinha com amigos do curso de sociologia e a fita do Chico tocando abafada no carrinho popular. Não são esses os homens interessantes? Não era um desses que eu queria em casa, botando um Cartola pra dançar de rostinho colado? Botando um Bob Dylan pra começar o dia odiando os master of war? Um que só comprasse brinquedos educativos e ecologicamente corretos para nossos filhos? Não fui eu que escrevi 567 textos reclamando dos playbas irados e implorando para o destino colocar nas minhas mãos um autêntico intelectual que prima pelo cérebro em detrimento ao abdômen? Sim, fui eu mesma. E eu paguei a minha língua, como dizem por aí. Nos últimos meses arrumei dezenas senão centenas de homens assim. E, para meu desespero e inconformismo, não me apaixonei por nenhum deles. Nenhunzinho sequer. Nem um soprinho mais quente no coração. Descobri que gosto mesmo é daquela droga de música eletrônica ou do indie rock do momento berrando num carro mais alto em relação aos buracos e lombadas da vida. Tudo isso mergulhado a um bom perfume e uma roupa moderna. Gosto mesmo é do maleta que mostra toda a sua inteligência ao ler uma boa carta de vinhos. Gosto das cuequinhas Calvin Klein! Que saudade delas! Chega de zorba furta-cor! Eu gosto da barriguinha definida, da coxa dura, da virilha cheirosa, da nuca sem aqueles pêlos extras, do ombro largo. Quem lê demais, vai demais ao cinema ou filosofa demais em botecos não tem tempo (nem saco) pra ficar tão gostoso. Levantar livros, ainda que seja toda a coleção do Em busca do tempo perdido, não vai deixar nenhum homem com aquele braço de estivador que eu tanto gosto. Aquele bração que te pega de jeito, puxa teus cabelos, te coloca de qualquer jeito e te faz sentir segura. Me desculpa, Proust, mas com um braço desses eu recupero todo o meu tempo perdido. Chega! É isso aí. Vou parar de ir contra a natureza e assumir meus instintos primitivos: poetas e ativistas de plantão podem até emocionar meu coração, mas nada causam quando o buraco é mais embaixo. Eu sei que depois do sexo é bom conversar. Eu sei que, depois de anos de namoro, o que sobra é um bom papo. Eu sei que depois de casada o que eu vou querer é um bom companheiro com quem dividir o jornal, os DVDs e as idéias. Mas, até chegar aí, eu preciso mesmo é sentir tesão novamente. Me sentir viva novamente. Eu preciso mesmo é de um playboy com tudo a que eles têm direito. Preciso fechar os olhos e enlouquecer com um cheiro, uma apertada, uma lambida, um peito definido, uma mão firme, ... e não com uma frase inteligente ou um comentário deliciosamente cínico. Claro, se eu puder ter as duas coisas, melhor. Mais chances de o relacionamento durar. Mas, pra agora, pra resolver um problema urgente, o raciocínio é simples assim: você tem mais tesão pelo Woody Allen ou pelo Justin Timberlake? CRÉDITOS © 2008 Tati Bernardi Diretor editorial Marcelo Duarte Coordenadora editorial Tatiana Fulas Projeto gráfico Ana Miadaira Diagramação Estúio O.L.M Preparação Alessandra Miranda de Sá Diagramação para ebook Xeriph CIP – BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B444t Bernardi, Tati Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é / Tati Bernardi. – 1. ed. – São Paulo: Panda Books, 2008. 1. Conto brasileiro. I. Título. 08-2619 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 2011 Todos os direitos reservados à Panda Books Um selo da Editora Original Ltda. Rua Henrique Schaumann, 286, cj. 41 05413-010 – São Paulo – SP Tel./ Fax: (11) 3088-8444 edoriginal@pandabooks.com.br www.pandabooks.com.br twitter.com/pandabooks blog.pandabooks.com.br Visite também nossa página no Facebook e no Orkut. A AUTORA A paulistana Tati Bernardi, 29 anos, é redatora publicitária, colunista de revistas da Editora Abril e roteirista da Rede Globo. Pela Panda lançou os títulos A Mulher que não prestava e Tô com vontade de uma coisa que não sei o que é. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 1. SINTO MUITO, MAS VOCÊ NÃO É LOUCA 2. O CONTRATO 3. FLASHBACK 4. ENFIM, NÓS. E A CLAUDINHA 5. A TECLA “A” 6. HOMENS DO MERCADO 7. ASSUMINDO O ET PIROCUDO 8. DIRETO DO PLANETA SOLIDÃO 9. COMO LEVAR UMA MULHER PRA CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO 10. ZELADOR 11. VONTADE FILHA-DA-MÃE 12. ANIVERSÁRIO DA SUA AUSÊNCIA 13. CAIPIRA NÃO, MEU 14. DESPERATE HOUSE WRITERS 15. VOCÊ JAMAIS FARIA SEXO VIRTUAL 16. EU NÃO NASCI PRA ISSO 17. A VONTADE E UM DEDINHO DE PROSA 18. DESAMOR REVISITADO 19. OS MICOS DA DIAS FERREIRA 20. MAIS UM PAR DE TÊNIS VELHOS 21. THE KILLERS 22. A PRIMEIRA VEZ 23. ELES 24. O TEATRO DA MOÇA BANAL 25. EU JÁ ESTIVE POR LÁ 26. O QUE VOCÊ FAZ COM AS PESSOAS QUE NÃO QUER MAIS? 27. EU NUNCA VOU ENTENDER 28. TREPAI-VOS, IRMÃOS — UM TRATADO SERIÍSSIMO POR UM MUNDO MELHOR 29. QUE NEM CORAÇÃO DE MÃE 30. A DURA (FORTE, GOSTOSA, CHEIROSA) REALIDADE A AUTORA