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Sumário
APRESENTAÇÃO
1. SINTO MUITO, MAS VOCÊ NÃO É LOUCA
2. O CONTRATO
3. FLASHBACK
4. ENFIM, NÓS. E A CLAUDINHA
5. A TECLA “A”
6. HOMENS DO MERCADO
7. ASSUMINDO O ET PIROCUDO
8. DIRETO DO PLANETA SOLIDÃO
9. COMO LEVAR UMA MULHER PRA CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO
10. ZELADOR
11. VONTADE FILHA-DA-MÃE
12. ANIVERSÁRIO DA SUA AUSÊNCIA
13. CAIPIRA NÃO, MEU
14. DESPERATE HOUSE WRITERS
15. VOCÊ JAMAIS FARIA SEXO VIRTUAL
16. EU NÃO NASCI PRA ISSO
17. A VONTADE E UM DEDINHO DE PROSA
18. DESAMOR REVISITADO
19. OS MICOS DA DIAS FERREIRA
20. MAIS UM PAR DE TÊNIS VELHOS
21. THE KILLERS
22. A PRIMEIRA VEZ
23. ELES
24. O TEATRO DA MOÇA BANAL
25. EU JÁ ESTIVE POR LÁ
26. O QUE VOCÊ FAZ COM AS PESSOAS QUE NÃO QUER MAIS?
27. EU NUNCA VOU ENTENDER
28. TREPAI-VOS, IRMÃOS — UM TRATADO SERIÍSSIMO POR UM MUNDO MELHOR
29. QUE NEM CORAÇÃO DE MÃE
30. A DURA (FORTE, GOSTOSA, CHEIROSA) REALIDADE
A AUTORA
MÁRIO QUINTANA
“Se eu amo o meu semelhante? Sim.
Mas onde encontrar o meu semelhante?”
Mário Quintana
APRESENTAÇÃO
Achei que era bolo de aipim. Aqui em São Paulo a gente não chama de
aipim, mas fica ainda mais gostoso quando chamado assim. O problema é
que só sobraram os farelos e eu continuo com essa vontade.
Abro a geladeira e fico olhando para as possibilidades. Não foco em nada
porque não sei exatamente o que eu quero. Será que a gente pensa que a
geladeira é um portal para outro mundo? E que ao abri-la a gente vai
descobrir para onde quer ir ou o que quer da vida?
Da gaveta de ovos (pra que existem gavetas de ovos?) pularia um sábio
indiano e me diria: você só precisa ter calma e não desejar tanto. Do desejo é
que saem as angústias. E eu crente que ele ia filosofar sobre quem veio
primeiro. Se foi o ovo ou a galinha. Ou, então, pularia a Clarice Lispector. E
me recitaria aquele conto maluco do ovo que me fez pensar que bastava eu
ser muito sem sentido para fazer algum sucesso. Até o dia em que ela fez
sentido e eu me senti especial. E eu seria mais maluca que ela tentando
explicar que apesar de a minha fome não passar nunca, nem a mais óbvia e
superficial, eu vivo enjoada.
Minhas vontades, sempre infinitas, passam muito rápido. E aí eu fico
achando que eu não sei ter vontades. Que eu não mereço as minhas vontades.
E me sinto sempre uma traidora prestes a desistir ou a enjoar de algo que nem
deu tempo de acontecer. E aí fico com preguiça ou mesmo covardia para ter
novas vontades. Se elas vão passar, para que raios elas servem?
Coloco uma música que lembra uma dor sanada. Talvez porque eu esteja a
fim de experimentar aquela dor que já não é mais dor e sentir que o tempo
passa. Sentir isso dá medo de morrer. Mas dá alívio de estar vivo. E então me
pergunto: se amor passa, de que serve senti-lo? Apenas um cansaço em saber
que tudo vira ridículo depois. Tudo. Até sinto certa pena do medo. No final,
qualquer medo vira mais um bicho-papão de pelúcia empoeirado e esquecido
em algum canto que não visitamos para não atacar a rinite. O frio na barriga
vira um missoshiro gostosinho pra tomar num fim de tarde besta na vila
Boim.
Sempre soube, lá no fundo da alma, como é fácil dar valor para as pessoas
pontuais e a beleza do não-eterno nos olhos dessas pessoas. Lindo o que é
passageiro. Difícil é gostar de gente de verdade que, mais cedo ou mais tarde,
vai perder a magia. Mais um defeituoso que você aceita como a própria
existência: cheio de dúvidas mas sem outra saída.
E sou interrompida mais uma vez por essa vontade automática de olhar
minha caixa de e-mails. Ou de comer mais um quadradinho da barra de
alpino. Ou de dar um gole pesado e alongado na água e pedir, sem nem saber,
que ela abaixe minha bola um pouco e eu volte a ficar humilde. Sempre tomo
água sem humildade como se desse um trago em um cigarro. Ninguém traga
com humildade. É a cena mais banal do mundo, mas, sei lá por que, me sinto
sempre uma estrela sedenta quando dou meu gole cheio de tédio em um copo
com água.
E aí se vão alguns minutos em que desejei apenas coisas automáticas ou
fisiológicas ou bobas pra parecer inteligentezinha. E, nem assim, alguns
minutos em que eu não tenha sido escrava do meu desejo absoluto e
insuportável em ser algo grande e não banal. Ou ser algo de uma banalidade
tão verdadeira, que choque as pessoas. Não paro de querer algo, que eu nem
sei ao certo o que é, nem quando limpo uma gotinha no canto da boca.
Não, não tem nenhum e-mail interessante. Que me enfie num carro
acolchoado e me leve por uma estrada florida. Que me faça sentir o máximo e
absolutamente feliz. E absolutamente cheia de amigos e amores. E
absolutamente. Sei lá.
Vontade de sumir para um canto com jardim e sem vista para posto de
gasolina. Posto de gasolina, sei lá por que, me lembra que a força uma hora
acaba. Só chamar os melhores amigos para experimentar minha comida quase
boa. Escrever ao lado de chás, plantas, pôsteres e meias. Ter biblioteca,
dvdteca, enoteca e só pra ser fofa uma linda cama pra tirar uma soneca.
Vontade de andar de carro em horários que só os escolhidos andam. De
me sentir sempre como me sinto quando chega a tarde. Um horário protegido
pelas horas secas da manhã e frias da noite. Um horário pra dormir sem ser o
sono oficial e pra amar sem ser o amor oficial. Um horário não oficial e que
acaba sendo mais vida do que os outros. Vontade de nunca mais passar mal
em avenidas com ônibus, bares que fedem a frango assado às sete da manhã e
almas feias e berebentas que me assaltam e me fazem engolir feiúra para eu
lembrar que tenho medo e que sou preconceituosa.
Eu peso mil quilos. Antes uma chata que uma gorda de verdade. Vontade
de ser do mal. Vontade de ter com quem ir para Tiradentes. Sabe, a cidade
histórica? Não conheço. Tá valendo Petrópolis também. Nem conheço
ninguém com quem eu iria para lá. Se pudesse, jogava no lixo todos eles.
Vontade de lavar o edredom, de ir à missa, de me alongar de forma estranha
olhando a minha montanha da praia do Leblon, de ficar sem sair de São Paulo
pelos próximos mil anos, de sumir de São Paulo, de trocar de celular, de e-
mail, de cabelo, de calcinhas, de amigos, de família, de HD, de vida.
Vontade de ir pra Paris e nunca mais falar em jantares a luz de velas, para
amigos publicitários, como Paris é foda. Já saí dessa fase feliz, segura, e
apenas uma fase.
Vontade infinita de ser velha. E vibrar com casas de chá, passos lentos e
vislumbres sábios de horizontes. Vontade de ser mãe, de ser amada apesar da
péssima postura e de ser o que vim fazer aqui, sem ter que agradar gente que
minha mente idiota acha ser necessária no futuro.
O amor podre só fede pra quem quis sentir alguma coisa. Vontade de
nunca mais ser degustada pelas beiradas; não me levam e ainda deixam um
monte de merdas misturadas a mim. Como se tivessem cagado eu mesma
para mim mesma.
Eu só fiz gostar deles. Ou melhor: eu só fiz usá-los para gostar um pouco
da vida. Se eles me usaram por causa do meu buraco entre as pernas, eu os
usei por causa do meu buraco no meio do peito. Quem é mais esperto? Não
sei.
Estou com vontade de comer um japa, a comida, com alguém de voz
mansinha que me encha de paz. E então vou ter uma vontade arrependida de
estralar o pescoço no meio da noite. E de rir porque armei toda essa
palhaçada de ser só apenas para dormir até meio-dia sem vergonha de ser
inútil ou mesmo um pouco triste.
E vou ficar um pouco feliz porque descobri que não é uma cama metade
vazia e sim inteiramente cheia de mim. E vou ficar cheia de mim. Com tudo o
que isso tem de bom e de ruim. E vou finalmente ter vontade de parar de
pensar. A única que até hoje preencheu alguma coisa. A única vontade que
serve pra alguma coisa. Vontade de porra nenhuma.
Tati Bernardi
1.
SINTO MUITO, MAS
VOCÊ NÃO É LOUCA
Tomei a decisão do ano. Depois de muito adiar, pensar, refutar (o que é
refutar mesmo?), negar, blasfemar e odiar o mundo, resolvi ir a um
psiquiatra.
Na manhã da consulta, tomei um longo banho. Como se estivesse me
preparando para um casamento muito esperado. O grande dia havia chegado.
Eu finalmenteencontraria minha alma gêmea: a minha loucura.
Usei meu sabonete caríssimo de mel puro. Achei que era o caso, afinal,
acredito que a minha loucura deva ter um cheiro adocicado, quase enjoado.
Uma loucura agradável a princípio, charmosa, daquelas que as pessoas falam
“que bonitinha, é louquinha”. Mas depois embrulha o estômago, depois
ninguém mais quer ver na frente. A louca mel.
Usei meu novo terninho rosa. Achei que uma aparência limpinha e
certinha vai bem com uma loucura dessas profundas e perigosas. A louca de
preto e tatuada é só uma rebelde maleta. Mas a louca de terninho rosa pode
acabar com a sua vida. Eu estava incrível.
Eu sabia que ia me perder. Tinha certeza. Nunca tinha ouvido falar
naquela rua estranha, naquele bairro longe, perto daquela avenida a que
nunca vou. Mas não quis olhar no mapa. Me neguei. O atraso me daria um
semblante desesperado e uma entrada triunfante. Posso ser louca, mas jamais
serei uma louca humilde. Se é pra ser louca eu quero pa-rar aquela clínica.
Quero ser a louca do ano. Do bairro. Do país. Da história.
Mas o páreo estava duro. Duríssimo. Já na entrada um tipo nerd-boa-
praça-criado-pelo-avô (que na verdade batia punhetinha pensando na vovó)
contava, com sua voz esgarçada por uma alegria de laboratório, alguma
história de elevador (bateu de dois a zero, acho que hoje esquenta, vida dura,
vamos para mais um dia de batalha, ô vida, sempre em frente, acho que hoje
chove, alguma dessas porras superficiais que fazem todos os individualistas
se sentirem irmãos da humanidade).
Encarei ele alguns segundos tremendo a sobrancelha e dilatando minhas
narinas. Eu nunca havia tremido a sobrancelha ou dilatado as minhas narinas
na vida. Mas fiz aquilo com uma naturalidade tão costumeira que foi como se
mais uma vez meu tique nervoso de anos tomasse conta de mim. Senti que ali
eu começava a ganhar poder. Se eu podia ser mais estranha que aquele tio
virgem de 48 anos, o resto tava no papo. E, por falar em papo, me dei uma
papada extra. Louco que é louco tem um semblante de sapo assustado. Olhos
esbugalhados e queixo colado no peito. A sapa louca.
Mas não, ninguém disse que ia ser fácil. O jogo estava só começando. Ao
meu lado estava uma baixinha toda vestida de flanela (e eu achando que meu
terninho rosa ia fechar com chave de ouro a tarde). Ela segurava um celular
colado ao ouvido, mas nem falava, nem ouvia nada. Quase a abracei e falei:
“não, ele não vai ligar, esquece”. E eu me achando louca porque esperava
alguém me ligar há 28 anos. Ela devia ter pelo menos o dobro da minha
idade, e ainda estava esperando. Quis sentir pena. Quis desistir. Quase chorei.
Mas segui em frente. Eu precisava ser a bela louca da tarde. E ia conseguir.
Quando a recepcionista me chamou para preencher um formulário, notei
que uma das perguntas era “você acredita em Deus?”. Senti que ali tinha
jogo, era a minha deixa, o meu golden point, para plagiar o PAN. E foi então
que perguntei para a recepcionista, em alta e boa voz esganiçada (da onde
saiu aquela voz?): “se eu não acredito em Deus, posso deixar essa parte em
branco ou apenas escrevo eu não acredito em Deus em letras de forma?”.
Todos calaram. A recepcionista arregalou os olhos e colou o queixo no
peito. O tio nerd que queria comer a vovozinha esqueceu seu time, a
temperatura e o “vamo em frente, galera”. A tia da flanela finalmente
desgrudou o celular dos ouvidos. Eu era absoluta. Uma louca atéia. Porque
louco que é louco acredita em Deus. Mas louco muito louco não acredita em
nada. Nada. Louco que é muito louco é louco o suficiente para não acreditar
em nada. Eu era absoluta. A sala de espera era minha. Obrigada, Deus, por
mais essa vitória.
E então ele veio. Alto, magro, careca. O olhar distante. As mãos caídas ao
lado do corpo. O ombro entregue, os joelhos entregues. E então ele preencheu
e entregou também o cheque. Quinhentas pilas. E ficou ainda mais entregue.
Tudo nele se doava, não por bondade, mas por falta de força em permanecer.
Aquilo era triste demais. Quase, por muito pouco, não lhe repassei minha
medalha. Ganhar de psicopatas, tias enlouquecidas por um coração murcho
(ou uma vagina ressecada) e recepcionistas carolas era fácil. Mas ganhar da
tristeza? Poxa, tristeza não tem fim, como diria o poeta. Quem é que quer
medir forças com o infinito? Eu. Eu queria medir forças com o que fosse
preciso. Eu já estava lá mesmo. Eu já ia desembolsar quinhentas pilas. Eu
poderia ser ainda mais triste e ainda mais entregue que aquele careca. Eu só
não poderia ser mais careca.
E foi então que sua esposa chegou. Se sentou ao seu lado. Lhe fez um
carinho no braço. E ele sorriu. O careca, de dentro do inferno, teve um
segundo de paz. E eu, para meu desespero, ganhei novamente. Foi a vitória
mais triste da minha vida. Eu era finalmente o ser mais infeliz daquela sala de
espera. Eu era o ser mais solitário daquela sala de espera. Dizem que o topo
da montanha é frio e solitário. E era exatamente assim que eu me sentia de
cima do pódio da loucura. Peguei meu celular e colei no ouvido. Depois
fiquei com vergonha, olhei para o lado, e puxei papo com o tio da
temperatura: “frio aqui dentro, não? Não gosto de ar-condicionado”. Quase
me levantei e escrevi no formulário “espírita”. Eu acreditava sim em Deus,
mas onde é que ele estava, afinal, que não me dava alguém para me fazer um
carinho no braço e me dar uns segundinhos de paz nessa vida infernal? Onde?
Era minha vez. Pronto. Eu já tinha provado para toda uma sala de espera
que eu era louca. Eu já tinha provado para mim, há muito tempo, que eu era
louca. Dificilmente amigos, namorados, casinhos, familiares e vizinhos
desmentiriam minha loucura. Agora eu só tinha que convencer o melhor
psiquiatra do país. E então eu seria condecorada. Entraria para o hall
chiquérrimo de quem passa por essa vida com uns parafusos a menos. Eu
tinha exatamente uma hora para conseguir o feito. O que certamente não seria
nenhum sacrifício. Bastava que eu fosse eu. Quem finge tremer a
sobrancelha, finge dilatar a narina e finge morrer semanalmente por amor,
provavelmente é mais louco do que quem faz isso pra valer.
Vinte minutos contando para o doutor plus MBA master of the universe
sobre minha bipolaridade e ele nada. Nenhuma comoção. Então quer dizer
que você ama a vida quando tem nhoque de mandioquinha com molho
branco e odeia a vida quando o porteiro não deixa o jornal na sua porta? Ora,
Tatiane, isso é normal!
Mais vinte minutos contando sobre minhas obsessões. Que até hoje eu
quero a cabeça do professor Nicola, que me tratou mal na frente de todos os
alunos, na terceira série. Que até hoje eu quero ver terra na boca do Binho, o
capoeirista do primário que tirava sarro do meu corpo magro. Que até hoje eu
quero que o pinto do fulano caia, só porque ele me largou há uns dez anos. Se
bem que o pinto do fulano já não ficava mesmo em pé naquela época. Essas
coisas. E ele nada. Nenhum movimento próximo do que seria uma caneta
prescrevendo em letras ilegíveis algumas tarjas pretas para mim. Nada. Ele
apenas sorriu e falou: “hummm, não gosta de perder, né, Tatiane? Um pouco
mimada, não?”.
Não! Isso não ia ficar assim. Agora ele iria ver. Sabia, doutor, que eu vejo
espíritos? Sabia? Já vi crianças, velhos, cachorros. E ele nada. Achou bonita a
minha mediunidade. Cachorros e crianças eram energias boas. E os
velhinhos? E os velhinhos, doutor? Eu estava começando a apelar. Os
velhinhos também podem ser energias boas, Tatiane.
Sabe, doutor, quando eu fico muito nervosa, eu espumo! Normal, querida,
nervoso seca a boca e deixa a saliva grossa. Sabe, doutor, eu já empurrei
minha mãe algumas vezes. Mães são chatas mesmo, minha filha. Um dia eu
achei que fosse bater o carro e... bati! Poder da mente, criança. Se eu não
tomo banho antes de ir para a cama, não consigo dormir. Que bom! Uma
garota limpinha! Sabe, doutor, eu choro no banho todos os dias. Eu sei: você
é mulher.
Desisti. Tinha gasto quinhentas pilas para descobrir que eu era normal.
Pior: teria que passar pela humilhação de retornar à sala de esperasem
nenhum pedido médico. Nenhunzinho. Eu já podia ouvir o riso contido dos
loucos. Eu já podia ouvir os comentários que ficariam depois que eu deixasse
a clínica: “coitada, só mais uma garota normal”. Eu estava arrasada.
Quis mais tempo para me defender, mas a consulta havia chegado ao fim.
Derrota absoluta. Ele apenas se levantou, me deu a mão e se despediu com
aquele sorriso experiente das pessoas que têm pena de quem é feliz mas não
sabe dar valor. Eu era feliz, eu era normal, mas não sabia dar valor a isso.
Quando cheguei ao meu carro quis retornar à sala do médico e perguntar,
numa última e desesperada tentativa: “peraí, mas ser feliz e ser normal, e não
dar valor a isso, não é coisa de louco?”.
Mas eu já sabia a resposta. Eu era insuportavelmente igual a todo mundo.
2.
O CONTRATO
Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro.
Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que
está no ar mas não necessariamente dentro de nós.
A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem
também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que
quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso,
como sempre. E a orelha ouviu uma sacanagem qualquer, e a mão se
encaixou ali no meio das minhas pernas.
Você me chamou de amor ontem, enquanto a gente transava. Eu quis
chorar. Mas também quis rir muito da sua cara. Acabei só esquecendo isso.
Talvez o “mô” que você murmurou seja porque, no dia anterior, naquela
mesma cama, você tenha comido alguma “Mônica”. Prefiro pensar assim. Se
eu for muito, mas muito escrota, talvez eu me proteja de me assustar muito.
Caso você seja escroto. Eu sendo de pedra não quebro com a sua pedra. Sei
lá.
Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a
manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me
perguntou: não tô esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de
mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem,
tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um
dia não ia me querer.
Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás
predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas
gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se
ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te
deixa sem vontade de ir embora. Mas, ainda assim, não somos íntimos. Nada
disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas
muito simples em comum: nada melhor pra fazer e vontade de fazer sexo.
Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim.
Muito melhor assim. Tô superbem com tudo isso. Nossa, nunca estive
melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato.
Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo
inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não me deixa
assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo
fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que
eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar
mais fácil e melhor de se viver. Não me faz ser assim tão absurdamente feliz
só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por
acaso.
Combinamos que não era amor, e realmente não é. Mas, esse algo que é, é
realmente muito libertador. Porque, quando você está aqui, ou até mesmo na
sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo,
e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz
filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo
daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho.
E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha
mesmo que eu gostei de você? Coitado.
Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não
é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão
sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente
feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em
tudo que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão
sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com
você de novo.
Não é amor, não. É mais que isso, é mais que amor. Porque, pra te amar
mais, eu tenho que te amar menos. Porque, pra morrer de amor por você, eu
tive que não morrer. Porque, pra ter você por perto um pouco, eu tive que não
querer mais ter você por perto pra sempre.
E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar
com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui
dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão
virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não-amor, só pra você poder
me vestir e sair por aí com sua casca de não-amor.
E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar
dizendo “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu
vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque, no nosso contrato, tomamos
cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro.
Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem
querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só
para fingir pro cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai
que um dia você acredita.
3.
FLASHBACK
“Acho que é uma balada meio flashback”, ele disse. A tradução para “ele”:
meu amigo, seis anos mais novo e... meu estagiário.
Eu era a última solteira das minhas amigas e estava sozinha em um
casamento com 456 casais cheirando a mofo e sexo mecânico (todos me
olhando com aquela carinha de “calma, tia, sua hora vai chegar”), e achei que
a idéia merecia uma análise. Afinal, a maquiagem tinha custado caro demais
para eu ir dormir antes de borrá-la.
Flashback não tinha descido direito pela goela e, pra piorar, ele disse o
nome que me arrepia de nojo, dos pés à cabeça: vila Olímpia. Mas, pensando
bem, não era uma pena terminar a noite com um vestido tão caro e nenhum
amassadinho nele? Resolvi arriscar.
Assim que cheguei na porta da balada, dei aquele tapa de desenho
animado na testa: que porra tô fazendo aqui? Era justamente um daqueles
lugares a que dedico uma vida a maldizer: garotos bombados, garotas iguais,
música ruim, gente perdida que circula sem parar e/ou dança em círculos.
Já estava dando seta no carro para desintegrar o mais rápido possível dali
quando ele ligou: “nem precisa pegar fila, meus amigos mandam aqui”.
Medo. Essa coisa de ter amigo que “manda” na balada não combina muito
comigo, mas eu já estava lá mesmo, não estava? Ainda era cedo pra dormir,
mas já era muito tarde para tentar arrumar outra coisa pra fazer. Continuei em
frente.
Já na entrada, um daqueles típicos seguranças-armário de recintos playba
(baladinha cult tem hostess lésbica tatuada ou gay que transa mulheres aos
sábados) me parou pra fazer aquela encenação que eles adoram: “Segura aí,
senhorita, que eu tô recebendo instruções”. Sabe a síndrome dos pequenos
poderes? Sabe o zelador dono do prédio? Sabe a recepcionista metida que se
acha amante do dono só porque ele fala “bom dia, princesa” às sextas-feiras?
Sabe guardinha de bairro que adora ajeitar o cinto pra mostrar a pistolinha?
Odeio gente medíocre. Balada playba sempre tem um armário medíocre na
entrada. Aquele que é o melhoooooor amigo das idiotinhas promoters e seus
flyers, mas nunca pega nenhuma porque não tem carro importado.
Enfim, depois do showzinho do armário das Casas Bahia (sem direito a
ganhar um pufe ou um rack) eu pude entrar. A visão de dentro era um pouco
mais infernal que a de fora. Não havia sequer 1 centímetro de metro quadrado
que não fosse ocupado por alguma acéfala de tomara-que-caia ou algum
feromônio macho de regata Diesel. Cascas somente; erasó decifrar qualquer
segundo de papo furado para descobrir que o R da poRta era a letra com
maior volume e ênfase.
Pensei em comunicar ao armário das lojas Marabraz que muito obrigada,
mas eu não ia ficar naquela festinha tão sensacional, mas avistei meu amigo e
seus amigos no bar. Não custava nada, já que os amigos do meu amigo
mandavam na balada, ir até lá para agradecer o convite, ficar mais alguns
segundos e depois retornar ao maravilhoso universo da minha casa vazia e
silenciosa.
“Esse aqui é o Pedro; esse, o Thiago; esse, o Rafa; esse, o Denis; esse, o
Paulão; e esse aqui é o Cesinha.”
Agora vamos à tradução: esse aqui é o lindo; esse, o de olhos azuis; esse é
o de corpo perfeito; esse é o pica de ouro; esse, o ombro largo; e esse aqui, o
boca carnuda. Considerando que meu amigo (tá, meu estagiário, seis anos
mais novo do que eu...) é um gato e tinha mais seis amigos gatos, pensei que,
quem sabe, já era tarde demais para ir a outro lugar e eu já estava lá mesmo,
sei lá, de repente, talvez não fosse uma boa ficar mais uma meia hora por ali.
Por que não? Como diria um amigo meu: tudo vale como pesquisa
antropológica.
Nas picapes o hit era algum poperô revisitado (lembrem-se de que se trata
de uma balada flashback, o.k.?); na minha frente, um grupinho de melhores
amigas que se odeiam brincavam de chicotear com o cabelo de formol quem
atrapalhasse suas danças. É, acho que tá na minha hora. Deu. Fui. Até.
Mas, no minuto em que planejo uma boa desculpa para a despedida, meu
amigo resolve falar comigo se apoiando carinhosamente na minha cintura.
Sua voz no meu ouvido e a visão paradisíaca dos seus amigos caçando em
bando (uga-buga, uga-buga — eu os imagino com o tacape na mão) me
fazem criar forças suficientes para me manter paralisada.
Bebidas coloridas e fumaças doces depois (tô falando daquela fumaça
branca que eles soltam para dar um clima “disco voador da Xuxa
aterrissando” e ninguém ver você dançando como uma besta, e não de
nenhuma droga), lá estava eu me acabando de dançar no meio da pista.
Aquele poperô não era de todo mal, sabia? Me lembrava um tempo não muito
distante (dez anos atrás?) em que eu era menos crítica e mais feliz. As
melhores amigas que se odeiam até que tinham seu charme. A pista
ultramastermegalotada também tinha sua utilidade: eu estava praticamente no
colo do meu amigo, tamanha era a falta de espaço.
Tati, você é o máximo, uma beliscadinha na coxa. Tati, foi um prazer te
conhecer, uma raspadinha no abdômen. Tati, seu perfume é bom, uma
cheiradinha na nunca. Tati, o que você quer beber?, um carinho no cabelo.
Tati, você vem sempre aqui?, um abraço apertado. Resumindo: eu era a
melhooooooor amiga dos caras que mandavam na balada. Algo me dizia que
eu estava feliz. Será que eu estava feliz? Era possível ser feliz em um lugar
tão idiota com pessoas idiotas? Sim, era possível. Era possível porque eu
também era uma idiota. E, quer saber? Realmente só os idiotas são felizes. Eu
estava feliz pra cacete. Ou por causa do cacete. Mais especificamente: sete
cacetes. Era felicidade a dar com o pau. Ou para o pau. Mais especificamente:
sete paus.
Foi aí que meu amigo (e às 3h47 da manhã a palavra “meu estagiário” faz
tanto sentido para uma mulher na seca quanto a frase “é problema na correia
dentada”) resolveu que nossa amizade jamais seria afetada por um beijo. Que
mal há em um beijo? Um simples beijo? Um beijinho de nada? Inofensivo.
Algo mais ou menos como um desentupidor de pia com mais de cinco horas
de duração. Que mal há em um beijo assim? Dado na escada, no cantinho
atrás do bar, no banheiro, no chão, embaixo das mesas, deitados no sofá? Que
mal há em ele enfiar a mão dentro do meu vestido para sentir a renda do meu
novo sutiã? Ou de querer conferir a elasticidade da minha calcinha? Que mal
há nos 345 chupões que eu levei por todo o meu corpo no meio da pista? Que
problema há em abrir zíperes, lamber nucas e umbigos na frente de todo
mundo? Nenhum. Oras, ele não é meu amigo? Amigo é pra essas coisas.
Oras.
Eu tinha esquecido que os jovens beijam. Eu, com essa minha mania de
gostar de tiozão (que prefere ir direto ao assunto, logo depois do foie gras),
havia me esquecido que os jovens beijam. E como beijam. O dia amanhecia
enquanto minha boca ia ficando do tamanho do sol.
A lalarilalalalá a lalariralalalalarirá lalarirarararará. Ahá iéié, wanna be my
lover? Ahá iéié, wanna be my looooooover?! Puta letra iraaaaaaaada! Adoro.
Adoro poperô. Adoro os anos noventa. Quero ser a melhoooooooor amiga
das melhores amigas que se odeiam. E era beijo na orelha. Quero falar poRta.
Tão lindo esse sotaque caipirinha, não? Ah, que fantástica essa vida. E era
beijo no meio da escada, atrapalhando todo mundo. Quero comprar armários
nas Casas Bahia, nas Lojas Marabraz. Quero colecionar flyers. Quero virar
promoter.
Que ser escritora, que nada. Vida chata da porra. Que publicitária, que
nada. Eu quero é ser promoter. Quero inflar meus pulmões desse gás branco
maravilhoso das pistas. E era a língua dele que quase atravessava a minha
cabeça. Quero morrer amiga do Thi, do Rá, do Pê, do Pau, do Dê e do
Cesinha. Adoro essa galera. Adoro essa galera que manda na balada. Que
bom que eu era a última solteira das minhas amigas. Ahá iéié, wanna be my
lover. Puta letra irada.
De todas as dúvidas existenciais que carrego em meu ser, só restavam três:
eu não conseguia decidir se eu tinha 16, 17 ou 18 anos. Acabei escolhendo
17, aquela fase sensacional em que nada é sua culpa, mas já dá pra entrar na
balada sem mostrar a identidade pro armário.
No final da noite eu já não tinha mais nenhuma maquiagem no rosto (em
compensação, ele parecia o Bozo) e meu vestido era uma massa amorfa. Era
hora de voltar para casa. Sozinha, é claro. Afinal: meninas de 17 anos jamais
fazem sexo sem amor. Ou pelo menos não faziam na minha época.
4.
ENFIM, NÓS. E A CLAUDINHA
Foram quatro horas e cinqüenta minutos ao meu lado. E ele vai embora feliz
da vida achando que conheceu alguém legal. Foram menos de cinco horas e
me dá certa pena pensar nos próximos dias, meses. Talvez anos, se ele for
algum tipo de corajoso, algum tipo de masoquista.
Eu consegui, por hoje deu tudo certo. Fui inteligente e carinhosa durante o
cinema. Depois fui engraçada e um pouco mais carinhosa durante o jantar.
Na minha casa eu segui conseguindo, conseguindo ser alguém com quem se
quer passar um feriado em Buenos Aires.
Mas tenho certa pena do dia de hoje, tenho certa pena de como esse dia
corretinho, linear e brilhante pode ser corroído pelas chuvas, calores e
sujeiras. E acabar como algo disforme, fosco e fraco.
Eu queria que você soubesse, meu amor, que sou dessas loucas. Dessas
loucas que vão te chamar de meu amor, mesmo você estando na minha vida
há apenas uma semana. Dessas loucas que vão querer te matar só de pensar
que, talvez, daqui a cinco anos, você me troque pela Claudinha, uma menina
mais nova e sem as minhas manias insuportáveis que você ainda não
conhece.
E aí, mesmo eu te conhecendo há apenas uma semana, vou te odiar pelo
que vou sofrer daqui a cinco anos. E vou te odiar, sobretudo, porque daqui a
uma semana, quando você se apaixonar pelas minhas manias insuportáveis,
eu vou acreditar que você nunca vai enjoar delas.
Eu sou dessas malas-sem-alça que vão ter ciúme dos seus amigos, dessas
pessoas maravilhosas que te conhecem há muito mais tempo que eu. Essas
pessoas maravilhosas que serão as primeiras a saber, daqui a cinco anos, que
você está comendo a vaca da Claudinha. Aliás, eles que vão te apresentar a
vaca da Claudinha.
Só de pensar nessa puta da Claudinha, sabe o que eu fiz assim que você
saiu da minha casa ontem? Eu liguei para o Pedro. Depois para o Ricardo.
Depois para o Fábio. E deixei todos de sobreaviso: ando supercarinhosa,
gatos.
No fundo, no fundo, não tenho a menor vontade de ser carinhosa com
nenhum deles. Mas sou dessas idiotas covardes que, quando percebem que
estão gostando de alguém, resolvem gostar de vários. Só para banalizar o
sentimento. Só para descentralizar a renda. Olha eu, fazendopiadinha meio
de esquerda... olha eu, escrevendo meio parecido com você e dando nomes
para personagens. Eu sei que gosto de alguém quando esqueço de não gostar
tanto de mim. E eu gosto de você, mesmo sabendo que você gosta de mim
por pouco tempo.
Ai, amor, amorzinho, amoreco, moreco. Eu odeio esses carinhos, odeio.
Mas falo todos eles baixinho antes de dormir, para o espaço ao lado da cama
que ninguém ocupa. E eu sou um pouco mais estranha do que ser estranha
permite. Sou estranha além do charme de ser estranha. Eu sou daquele tipo
bizarro, que eu nem sei direito se existe, que vai te acordar, daqui a algumas
semanas, chorando como se tivesse te perdido para sempre, ainda que você
nem saiba direito se fez bem ou não em dormir, logo assim de cara, na minha
casa.
Eu sou sempre cinco anos na frente; eu já começo sofrendo com o fim, eu
já tiro a roupa com o gosto meio vazio de resgatar as peças pelos cantos
depois. Eu vivo o luto de tudo, antes mesmo de comprar uma roupa colorida
pra curtir que você foi embora ontem, lá de casa, querendo voltar. Eu sei que
você quer voltar. E eu sei que serei muito feliz por cinco anos, até a puta da
Claudinha aparecer. Aquela vaca.
Pensa bem, meu amor, pensa bem. Eu sou daquele tipinho baixo de
mulher. Daquele tipinho que rouba o seu celular enquanto você faz seu xixi
feliz da vida, achando que conheceu alguém legal. Eu sou daquele tipinho
raso, que vai xeretar seu orkut, tentando descobrir o que sua ex tinha que te
fez demorar tanto para aparecer na minha vida. E vou odiar toda a sua
história, e vou odiar que seus amigos sejam amigos da sua ex, e vou odiar que
seus amigos adorem contar suas histórias do passado. E vou ficar quietinha,
perdida, no canto da mesa. Querendo ligar pro Ricardo, pro Fábio e pro
Pedro.
Não que eles sejam melhores do que você, porque não são. Mas eu preciso
fugir de você ser tão legal. Porque você é definitivamente muito legal, tão
legal que não vai agüentar e vai me largar daqui a cinco anos. Inebriado pela
mente menos complexa, pelo peito menos angustiado e pela bunda mais dura.
Da Claudinha, claro. Sempre ela.
Ainda dá tempo. Ainda dá tempo de você se libertar do meu cheiro de
manga, que você gosta tanto. Ainda dá tempo de se libertar da minha neura
de contar as coisas e de não encontrar razão para haver um pão de forma na
fruteira. Agora tem graça, mas imagina esse mesmo cheiro de manga e essa
mesma conta que soma o mundo sem nunca subtrair nenhuma tristeza daqui a
cinco anos? Cai fora, irmão. Cai fora.
Não demora muito para eu começar a competir com você. E querer ser
melhor que você. E querer isso justamente para que você nunca deixe de me
admirar. Mas eu, mais uma vez, sem ter medida de nada, vou te sufocar com
meu saquinho furado. Meu saquinho onde todo e qualquer amor ainda é
pouco. Porque meu vazio é imenso.
Já imaginou só? Já imaginou quando algum amigo seu apontar e falar:
quem é aquela louca ali, berrando no meio da festa e pegando um táxi? E
você vai ter de voltar sem graça, e explicar: ela se irritou porque eu peguei a
última água com gás sem perguntar se ela queria.
É isso o que você quer para a sua vida? É isso? Uma mulher que bebe
refrigerante quente em pleno verão do Nordeste, receosa pela procedência do
gelo? Uma mulher que tem mais medo de vomitar do que de paraglider? Uma
namoradinha meiga que a qualquer momento pode soltar 345 palavrões no
seu ouvido só porque você tem mais coisa pra fazer da vida do que me
idolatrar?
Combinado, então? Você vai ler agora esse texto, ficar meio tristinho,
afinal de contas, não é todo dia que se perde uma mulher como eu, mas vai
ser forte e terminar tudo. Terminar tudo e ir logo de uma vez conhecer a puta
da Claudinha. Essa vaca.
E aí, daqui a uns cinco anos, quando você descobrir que mulher é tudo a
mesma coisa, quando você estiver enjoado das manias insuportáveis da
Claudinha, quem sabe algum amigo seu não me apresente a você? E quem
sabe a gente não é feliz pra sempre?
5.
A TECLA “A”
Quem tem MAC sabe a dificuldade que é arrumar um cara que entenda de
MAC. PC qualquer CPD formado em segundo grau técnico sabe mexer. Já
MAC é coisa para uns tipos estranhos. Um cara que fica entre um engenheiro
frustrado e um artista plástico mais frustrado ainda.
Com sorte fui apresentada a um tipo desse, semana passada. Meu
computador tava todo bichado e o tipo estranho veio na hora certa. Por
trezentos paus deixo seu computer zerado e ainda arrumo seu iPod, moça.
Beleza. Topei. Nem sei se fui roubada, mas topei porque o cara trabalha na
esquina da minha rua e isso pra mim foi um sinal de que aquele cara merecia
todo o dinheiro do mundo. Depois da minha mãe, que mora a três quadras de
mim e sabe fazer nhoque de mandioquinha, o Marcelo dos MAC acabava de
ser eleito o cara mais legal do universo.
Ele falou que ia precisar passar a tarde com o meu computador e eu quis
sofrer com isso, afinal: eu trabalho nele. Afinal: minha vida tá nele. Afinal,
caceta: eu tenho dezenas de fotos da minha bunda nua nesse computador!
Fotos que fui tirando ao longo dos anos pra ver se anda servindo de algo o
dinheiro gasto com cremes, massagens e malhação. Minha empregada outro
dia falou: “vixe, a senhora não percebe, mas antes era muito pior!”. Adoro a
Maria, ela sabe valorizar a minha bunda como ninguém.
Foi então que inventei uma desculpa aqui, uma curiosidade ali, e resolvi ir
junto com o meu computador. O tempo que fosse necessário eu ia ficar ali,
junto dele e do Marcelo dos MAC.
O Marcelo olhou pra mim e falou: “a senhora não confia quando faz um
exame médico? É a mesma coisa, tem que confiar no profissional!”.
Pois então, mas eu confio tanto nos médicos que inclusive eu vou junto
com o meu corpo ser examinada por eles, não? Enfim, fiquei quatro horas e
meia na casa do cara. Olhando meu filho ser desmontado, remontado,
desmontado de novo e cuidando para que nenhuma foto da minha bunda
antiga fosse descoberta. Da bunda nova até vai lá!
E quatro horas na casa de um desconhecido estranho só poderia resultar
em um papo muito estranho. Afinal, eu posso ser tudo (ser louca o suficiente
pra ficar anos fotografando minha bunda, ser louca o suficiente pra ficar
quatro horas na casa de um cara cuidando para que ele não visse nenhuma
das fotos, sendo que o mais fácil era ter gravado as fotos num CD e apagado
do computador), mas eu não sou mal-educada. Ou seja: puxei papo com o
cara.
Contei que era escritora, coisa e tal. Trabalhava em casa. Tinha até uma
dúzia de fãs aqui e ali. E ele olhou sério pra mim e falou: “você escreve sobre
amor, não é?”.
Poxa. Tá tão óbvio assim? Só porque sou menina de batom rosinha? Só
porque sou tão carente e possessiva que não consegui ficar longe do meu
computador quatro horas? Só porque meu iPod tem musiquinha mela-cueca?
Porque falei que tenho fãs meninas? Por quê? Hein? Por quê?
E ele me mostrou com simplicidade da onde tinha tirado aquela idéia,
apontando para a tecla “A” do meu computador: “tá apagada; de tanto você
escrever sobre o amor o ‘A’ apagou”.
E foi naquele momento, nos fundos de uma casinha simples e cheia de
monitores e teclados mortos, e que um dia já receberam e escreveram muitas
cartas de amor, que eu tive a brilhante idéia: tá na hora de mudar um pouco
esse foco! Cheeeeega desse assunto! Não agüento maaaais falar disso!
Preciso trabalhar, viver e ser feliz com minhas outras teclas!
Aí cheguei em casa e resolvi escrever o primeiro texto de não-amor do
ano. Melhor: resolvi recomeçar o ano escrevendo o meu primeiro texto que
não fala de amor. Um texto que fala de qualquer coisa, do meu MAC que
quebrou, por exemplo. Ou da minha rua que fica perto de tantos lugares
legais como a casinha do Marcelo dos MAC. Ou das fotos progressivas da
minha bunda, da minha empregada Maria, do nhoque da minha mãe. Ou até
mesmo de uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas.
E foi então que eu descobri uma coisa fantástica, talvez a mais fantástica
de todas: quando a gente pára de procurar desesperadamente por um amor, a
gente percebe que pode amar qualquercoisa. Eu posso amar meu
computador, minha rua, minhas fotos, minha empregada, o nhoque da minha
mãe. Ou até mesmo uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas.
Droga, e eu achando que dessa vez não ia bater na mesma tecla.
6.
HOMENS DO MERCADO
Acordei assim meio sem ter o que fazer, uma vontade danada de ter alguém
com quem rir e ficar pelada. Tem desse modelo dois em um que serve pra rir
e pra ficar pelada, moço? Tem, senhora. Senhorita, por favor. Ainda ninguém
quis casar comigo. É pra viagem ou vai comer agora? Vou comer no carro;
embrulha, mas não capricha muito não que eu tô com pressa.
Impressionante essa tecnologia dois em um. Eu realmente dou risada a
noite toda e de tanto rir vai dando aquele calor, aquela vontade de ficar
pelada. A indústria do entretenimento demorou, mas descobriu que o tesão da
mulher tá na laringe. Quanto mais a gente dá gargalhada, maior a vontade de
abrir a perna. Boneco bom esse modelo loiro magrelo, pena que vende aos
montes e quase todo mundo pode ter. No dia seguinte começou a falhar. As
piadas eram as mesmas, o sexo ficou sem magia e o botão do amor deu pau.
Já foi o tempo que a gente dava valor para um produto a ponto de brigar por
ele. Hoje em dia tá tudo tão fácil que comprar outro sai mais barato que tentar
consertar. Tá lá o moço loiro ao lado da lata de lixo do meu prédio. Talvez a
Emengarda faça bom uso dele, talvez como abajur. Ele é branquelo demais.
Aí tava meio de bobeira andando pelas lojas e pensei: por que não um
desses garotinhos com brilho nos olhos? Desses cheios de vontade de vencer
na vida e de viver a vida? Adoro esses garotinhos que não fedem a
frustrações e que tentam desesperadamente parecer homens. Talvez eu goste
deles porque eu também só tente parecer mulher.
Bom, dei algumas moedas na mão da minha menina e dessa vez foi ela
quem saiu feliz da vida com uma imensa sacola cor-de-rosa. Pode tirar a
roupa dele, mãe? Pode, garotinha de maria-chiquinha, mas depois não vá
dizer que eu não avisei: no dia seguinte dá um vaziozinho no coração. Nada
que não passe com as próximas compras. Pode dormir abraçadinha nele,
mãe? Pode, mas aí piora um pouco mais. Melhor um coração vazio e inteiro
do que um todo despedaçado. Mas vai lá, filhinha, é bom pra você aprender.
Brinca bastante com ele, depois, quando ele se autodestruir em alguns
segundos, mamãe compra outro pra você. Chora não, menina boba. Era só
um garotinho igual a 345 que têm nas lojas. Que modelo você quer agora?
Quer o modelo que fala irado, o que fala maior vibe ou o que fala insano?
Ah, mãe, queria um que falasse coisas mais inteligentes e profundas; tem
desse? Tem, mas custa um pouco mais caro porque é importado de outro
planeta. Nada que dez vezes no cartão não resolva.
Acho que preciso de tratamento psiquiátrico. Vou levar as reservas da
minha alma à falência se continuar gastando desse jeito. Nem bem enjôo de
uma compra já quero logo sentir de novo o prazer de tirar um encantamento
da caixa. Novinho em folha. Oi, será que por acaso vocês não têm aí um
modelo que já vem com assunto? Tô sentindo uma falta danada de ter com
quem conversar. Tem, claro que tem. Esse aqui já vem com três cartuchos
sobre cinema europeu e você ainda leva a nova revista Piauí totalmente de
graça.
Volto pra casa com meu novo joguinho. Fico até um pouco cansada
porque o manual de instruções desse modelo vem num português mais
rebuscado. Quase sinto saudade do antigo boneco que com o mesmo
comando falava irado e abaixava as calças. Mas acho que já tenho idade para
passar de fase e tentar uma conquista mais difícil. Putz, botaram toda
tecnologia no cérebro e esqueceram do resto. Boneco chato esse, tá louco.
Sexo que não toca música e coração que não pisca. Já foi o tempo que os
brinquedos faziam pirotecnia. Esse nem voa, nem me faz voar. Começo a me
irritar; essa indústria do entretenimento faz de propósito: não existe o boneco
perfeito justamente pra você voltar na loja todos os dias.
Mas cansei desse papo, não sou besta não. Vou acabar pobre desse jeito.
Ei, moço, vocês não têm aí um que me faça rir, me dê tesão, seja inteligente e
tenha coração? Ah, e de preferência um forte, que não quebre tão fácil. E que
venha com vários cartuchos de assuntos que é para eu não enjoar. Opa, e que
tenha garantia, claro. A pior coisa são esses bonecos que a gente compra
barato, mas vêm sem nota. Tem não, moça. Esse tá em falta. Fizeram uma
versão limitada e vendeu tudo no mesmo dia. Deixa seu nome ali na lista de
espera que quando chegar a gente te liga. Meu nome já tá lá há 28 anos,
moço. Mulher já nasce querendo um desses. Desculpa, moça, vou ficar
devendo. Tudo bem, eu já sabia. Mas, já que é pra esperar sentada, me vê aí
um modelo com o joystick bem grande.
7.
ASSUMINDO
O ET PIROCUDO
Ontem foi o meu aniversário. Vinte e nove anos. Não tô exatamente onde
eu queria estar (fama, glamour, sucesso, machos incríveis, bunda
maravilhosa, ilha de Caras, semblante enigmático que o mundo tenta
decifrar), mas tô muito além do que pensava quando pensava como eu estaria
com 29 anos.
Aí me lembrei da história do duende pirocudo.
Em São Paulo, mais especificamente na vila Madalena, tinha um tiozinho,
que eu acho que até já morreu, que perambulava pelos bares vendendo um
ET pirocudo. Mas era duende ou ET, Tati? Sei lá, o fato é que era pirocudo.
E um ex namorado meu, que não era pirocudo, entrou numa de fazer graça
para os amigos de boteco e me deu de presente a porra do boneco verde
pirocudo. E eu, achando graça, botei a porra do boneco pirocudo em cima da
minha mesa, na época em que era estagiária da W/Brasil. Isso faz dez anos.
Aí o Rodrigo, que era um redator que tinha na W/Brasil, e que era pica
grossa, um dia me chamou na mesa dele e falou: “olha, minha filha, se um
dia você for alguém, se um dia alguém souber quem você é, se um dia você
for fodona, você bota a porra de um ET pirocudo na sua mesa e foda-se o
mundo, mas, antes desse dia, enquanto você é só uma estagiária, é melhor
tirar essa porra daí que pega mal”.
Eu lembro que ensaquei a porra do duende como quem enfia o rabinho
verde entre as pernas e nunca mais apareci com ele por lá. Achei que ele, o
Rodrigo, tinha razão, e continuo achando.
Mas hoje, no meu aniversário de 29 anos, resolvi que chegou a hora de
reverter essa situação.
Eu definitivamente não preciso mais esconder a minha piroca verde. Quer
saber? Eu finalmente sou alguém e sou foda! Chegou a hora de botar o pau
verde pra fora. O pau verde na mesa. De matar a cobra e mostrar o pau verde.
Nem sei mais por onde anda a porra do presente bizarro que meu ex-
namorado me deu e causou tanto mal-estar na W/Brasil (acho que minha
empregada do Reino de Deus jogou fora), mas sei que chegou a hora de
assumir outros monstros verdes e pirocudos. Maiores, mais verdes e mais
pirocudos.
Chegou a hora de assumir, por exemplo, o meu peculiar jeito de ser. Mal-
humorada com sons, principalmente os relacionados a gente que não sabe
comer (comida) ou beijar sem estalar a língua. Fresca com comida, de
preferência as que esperam você cheias de perdigotos em self-service
gordurosos ou, pior, são trazidas pelo garçom que insiste em botar o dedão
dentro do prato.
Sensível pra cacete, maldosa na mesma intensidade, feliz de andar
cantando e depressiva de nunca achar que uma janela é só uma janela. E
cheia de manias bem estranhas do tipo almoçar em livrarias quando estou
catatônica demais para digerir comidas. Não sei por que, mas sempre acho
que dentro de uma livraria todo o peso do mundo é chupado pelos livros e eu
posso flutuar em paz. Comer em paz. Folhear a vida sem medo de ser puxada
pra dentro.
Eu sou sim a pessoa que some, que surta, que vai embora, que aparece do
nada, que fica porque quer, que odeia a falta de oxigênio das obrigações, que
encurta uma conversa besta, que estende um bom drama, que diz o que
ninguém espera e salva uma noite, que estraga uma semana só pelo prazer de
ser má e tirar as correntes da cobrança do meu peito.
Que acha todo mundo meio feio, meio bobo, meio burro,meio perdido,
meio sem alma, meio de plástico, meia bomba. E espera impaciente ser salva
por uma metade meio interessante que me tire finalmente essa sensação de
perna manca quando ando sozinha por aí, maldizendo de tudo e de todos. Eu
só queria ser legal, ser boa, ser leve. Mas dá realmente pra ser assim?
Eu sou essa pessoa. Que não faz questão de ver quem a minha mente
castradora me manda amar e que simpatiza, ainda que por alguma doença,
com quem me judia aos pouquinhos. Que quer matar a velhinha que demora
horas para descer as escadas e segundos depois carrega a porra da velhinha
no colo e chora sensibilizada pelas fragilidades do mundo. Eu só queria que
tudo fosse belo, cheirasse bem e tivesse o brilho de um fim de tarde com
bebezinhos sorridentes. Mas o mundo, as pessoas, as validades, tudo expira,
tudo cai; os mitos ficam defeituosos, as fortalezas são de vidro vagabundo,
tudo perde o encanto. E, para mim, aceitar tudo isso ainda é comer o feijão
com pressa e entupir uma narina. Não entra direito.
E eu volto a focar o lixo ainda que tenha um mar ao fundo. Eu volto a
focar o mijo, ainda que tenha a brisa e a maresia em todos os lugares. Eu
volto a focar o crime, a criança descalça, os olhos adultos de ódio em
corpinhos de cinco anos, ainda que tenha a Adriane Galisteu correndo ao meu
lado. Eu volto a focar o vazio e essa imensa tristeza sem motivo dentro do
meu peito, ainda que o Cristo me mande um abraço aberto não muito longe
dali.
Eu sou essa pessoa. Que deixa doer porque esse é o único esporte que se
pode fazer deitada e que dorme demais como uma resposta blasé a esse
mundo que pensa mandar em mim o tempo todo.
Piroca verde. Piroca verde. Com medo de as paredes fecharem e meus
amigos não me amarem mais. Com medo de sentir tanto, tanto a vida, e
vomitar em cima do mundo. Com medo de quase tudo que se mexe e muito
mais do que não se mexe. Mas com uma curiosidade que cura e emudece
qualquer pânico. Chegar do outro lado sempre ganha de permanecer e se
afogar, ainda que eu engula um pouco de água para pedir socorro em
prestações e jamais precisar do definitivo.
Chegou a hora de botar meu duende e meu ET verde em cima da mesa.
Pendurar no pescoço. Equilibrar em cima da cabeça. Essa sou eu.
Preconceituosa. Com preguiça de gente brega, de gente pobre de viço, que
compra Caras pra se sentir mais viva porque não tem uma vida própria. Com
preguiça dos grupinhos de gente rica que ri aristocraticamente e, mesmo
tendo um currículo de mil viagens à Europa, não entendeu nada do que é ter
um ou outro comentário próprio a respeito do que vê. E também compra
Caras. Eu também, de vez em quando, compro Caras. E também tenho
preguiça de mim.
Essa sou eu. Andando rápido por aí. Um pouco de olheira. Com uma
tromba imensa, pois me protejo de tudo e odeio quem passa por mim.
Qualquer esquina pode ser o fim. Andando lenta, fazendo amizade na banca
de jornal, à espera da esquina que mude meu caminho e me ajude a ter menos
medo.
Piroca verde, não me deixe mais sorrir quando quero mandar se foder. Não
me deixe mais presa em filas, quando tudo que eu quero é não mais pertencer
ou provar. Apenas pensar na vida, usar meus cremes, botar uma meia, fazer
minha massa ruim com legumes, assistir aos Sopranos e sei lá por que sentir
uma alegria que poucas vezes senti ao longo da vida. Ficar comigo, só
comigo. E sorrir pensando que um dia alguém tão bacana quanto eu poderia
se deitar ao meu lado pra gente ser tão especial juntos.
Não me deixe mais paquerar qualquer cara bobo, malvestido, sem assunto
e sem magia só porque preciso de algum bosta me ligando pra me sentir mais
mulher. Isso é coisa de gente imoral, de gente com mais medo da solidão do
que o auge do meu medo da solidão. Não me deixe mais confundir amor com
ego e ficar aprisionada tantos bons anos a um rapaz tão comum. Comum a
ponto de eu querer ser tão comum quanto ele só porque, para mim, isso é ser
diferente. E sair do meu corpo, como se eu tivesse experimentado algum
alucinógeno, pra sentir de perto como é passar a vida rindo e indo a festas
como todo mundo.
Que perda de tempo não me amar absurdamente. Não me validar
absurdamente. Que perda de tempo. Piroca verde, você foi posta pra fora em
boa hora. Eu nunca amei tanto cada defeito e bizarrice minha. E não me
pergunte o motivo pois daria outro texto enorme que não leva a lugar
nenhum. É a maravilha de estar com quase trinta anos e poder ser triste,
perturbada, estranha e má em paz. E poder ser tudo isso com tanta
autenticidade e com tanta entrega, que tudo perde sua força, seu peso, e não
passa de um bom motivo pra rir e continuar em frente. Em frente com os
meus maravilhosos ETs, duendes e pirocas verdes.
8.
DIRETO DO
PLANETA SOLIDÃO
Lá estou eu em mais uma mesa com taças de vinho pela metade, risos pela 
metade, fumaças desenhando algo que quase formou uma imagem, restos de 
couvert e bolinhas inacabadas e nervosas de guardanapo.
Olho pro lado e sinto uma saudade imensa, doída, desesperançada e até 
cínica. Saudade de alguma coisa ou de alguém, não sei. Talvez de mim, de 
algum marido fabuloso que eu tive em alguma encarnação, do útero da minha 
mãe, do meu anjo da guarda que está de férias em Acapulco, do meu avô que 
embrulhava sempre meu aparelho de dentes em um guardanapo e depois 
esquecia e jogava no lixo achando que era resto de algum lanchinho, de 
algum amor verdadeiro que durou um segundo, de uma cena perfeita que meu 
inconsciente formou na infância e que eu me encarreguei de acreditar como 
sendo meu futuro.
Meus amigos me adoram e certamente chorariam se eu morresse. Mas será 
que eles sabem que eu penso sempre na morte? Será que eles sabem que 
aquela garota ali no canto da mesa, de decote, de bolsa da moda, rindo pra 
caramba, contando mais uma de suas aventuras vazias e descartáveis, acorda 
todos os dias pensando: o que eu realmente quero com essa vida? Como eu 
faço pra ser feliz?
Será que eles sabem que, se eu estou morrendo de rir agora, daqui a pouco 
vou morrer de chorar? E vice-versa? E isso 24 horas por dia? E isso mesmo 
com terapia, mesmo com macumba, mesmo com espiritismo, mesmo com 
meditação, mesmo com o namoradinho da semana? Será que eles sabem o 
tanto que eu sofro e o tanto que eu não sofro a cada segundo?
Meus amigos me adoram. Mas, sempre que podem, tiram sarro da minha 
cara. Sempre que podem, me transformam na chacotinha da mesa: Tati não 
sabe nadar, Tati não se droga, Tati não bebe, Tati expõe sua vida no site dela, 
Tati não arruma ninguém que a ame de verdade porque é louca, Tati assusta 
os caras, Tati é boba e se apaixona sempre, Tati não leva ninguém a sério, 
Tati explode por tudo, Tati fala demais, Tati fala palavrão, Tati reclama 
demais…
Minha melhor amiga me ama muito, mas ela adora que eu seja o erro em 
pessoa só para ela se sentir o acerto em pessoa. Meu melhor amigo me 
chamou de infeliz um dia e eu nunca mais consegui rir da infelicidade dele. 
Meu outro amigo me adora, muito, mas, se pudesse, de verdade, ele trepava 
comigo a noite inteira e nem me ligava no dia seguinte. Meus amigos me 
amam, muito, mas nem o máximo de amor de uma pessoa chega perto do que 
deveria ser amor. Amor não significa mais amor. E eu, mais uma vez, olho 
para o lado morrendo de saudade dessa coisa que eu não sei o que é. Dessa 
coisa que talvez seja amor.
Sinto um nojo enorme e desesperador de todos os afetos em pílulas que 
posso ganhar. Fulano me acha a melhor companhia do mundo mas, pensando 
bem, ele pode desfilar com modelos por aí. Fulano pensa em mim todos os 
dias mas, pensando bem, ele tem que curtir a vida com seu carro novo. 
Fulano se diverte horrores comigo mas, pensando bem, ele também curte 
aquela tia tatuada que eu nem sei quem é e no fundo tô pouco me lixando. 
Fulano passeou de mãos dadas comigo naquele fim de tarde que mereceu 
nossos aplausos mas, quer saber? Viram ele dois dias depois de dormir na 
minha casa com outra numa festa. Fulano me apresentou para todos os 
amigos e encheu minha geladeira de comida mas, quer saber?...putz, 
qualquer garotinha do bar dos pseudo-intelectuais malas também pode ser 
interessante ou, caso não seja, ao menos tem um buraco.
Odeio todas as minhas pílulas, odeio todos os amores baratos, curtos e 
não-amores que eu inventei só para pular uma semana sem dor. A cada 
semana sem dor que eu pulo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso 
parar, preciso esperar. Mas a solidão dói e eu sigo inventando personagens. 
Odeio minha fraqueza em me enganar e mais ainda a dor que vem depois dos 
dias entorpecidos.
Eu invento amor, sim. E dói admitir isso. Mas é que não agüento mais não 
dar um rosto para a minha saudade. E não agüento mais os copos, as fumaças, 
os amigos, as intenções e as bolinhas de guardanapo pela metade. É tudo pela 
metade. Ao menos a minha fantasia é por inteiro. Enquanto dura.
No final bruto, seco e silencioso da melhor festa do mundo que nem 
começou, é sempre isso mesmo. Eu aqui tomando meu chá-mate limão meio 
querendo chorar, meio querendo mentir sobre a vida até acreditar. Aí eu 
limpo a maquiagem com creme anti-sinais e percebo que não faz o menor 
sentido ser uma criança chorona preocupada com rugas. Aí eu me acho louca 
porque só tem duas coisas que eu realmente queria nesse mundo: um filho ou
voltar a ser filha. E aí eu deito pra dormir e penso em sacanagem, mas 
também penso em coisas bonitinhas. E eu rezo pedindo a Deus que não 
espere mais eu ser legal para ser legal comigo, porque eu tô esperando ele ser
legal comigo para ser legal. Aí eu penso que ele já é legal comigo e que, 
talvez, eu já seja legal com ele. E que tá tudo bem.
Mas, se eu penso que tá tudo bem nesse segundo, isso só significa que vou 
pensar o oposto no segundo seguinte. E que eu escrevi “ele” sem maiúscula 
mesmo, porque amigo íntimo a gente não fica com essa coisa de endeusar. E 
eu queria que Ele fosse meu amigo íntimo, ou ao menos existisse. E, quando 
vou ver, já dormi. Sozinha.
9.
COMO LEVAR UMA MULHER PRA
CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO
(EU SEI LÁ, VOCÊ É QUE VAI ME DIZER...)
VOCÊ: ...
EU: Melhor não. A gente sabe o que vai acontecer depois.
VOCÊ: ...
EU: E não vai me ligar amanhã nem nunca mais. E eu vou ficar achando que
é porque eu “fui muito fácil”. E isso vai me deprimir não por eu ter sido
muito fácil, mas por ainda existir homens como você que pensam assim. E
por eu ter subido na casa de um que pensa assim.
VOCÊ: ...
EU: Tá bom, tá bom. Você me convenceu.
VOCÊ: ...
EU: Não, obrigada! Não gosto de vinho branco.
VOCÊ: ...
EU: Jura? Eu também adoro eles! Baixei todas no meu iPod. Deixa eu ver...
Mas que estranho! Por que seu iTunes está selecionado para tocar “músicas
para o abate”? Melhor eu ir embora...
VOCÊ: ...
EU: Ah, bom! Ufa! Que susto!
VOCÊ: ...
EU: Sério? Então é melhor eu tirar os sapatos. Ainda bem que você me
avisou. Toma, leva meu casaquinho também e minha bolsa.
VOCÊ: ...
EU: Mas que estranho! Por que sua TV só pega esses filmes com homens
bombados trazendo pizza e garotinhas indefesas que precisam trocar a
lâmpada? E por que a vizinha regando o jardim está a fim de ajudar eles a
trocar a lâmpada? Melhor eu ir embora...
VOCÊ: ...
EU: Nossa, que máximo! Como você é inteligente! Vamos assistir ao filme
então, fiquei curiosa agora!
VOCÊ: ...
EU: Aceito sim! Adoro vinho branco! Pode encher!
VOCÊ: ...
EU: Peraí! O que é isso? Tira a mão daí! A gente não combinou? Eu quero ir
embora! Me leva pra casa, por favor?
VOCÊ: ...
EU: Ahhh, desculpa! Tem toda razão! Ai... que vergonha! Como você é
romântico! Melhor eu tirar a blusinha então, né?
VOCÊ: ...
EU: Claro, toma. Leva minha saia também. E desculpa por eu não ter
entendido. É que eu sou um pouco assustada, sabe? Com tanto cafajeste por
aí... vai saber!
VOCÊ: ...
EU: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Só você pra me fazer rir
assim!
VOCÊ: ...
EU: Ei! O que você tanto procura na gavetinha do criado-mudo?
VOCÊ: ...
EU: Ai! Que fofo! Minha mãe também tem várias!
VOCÊ: ...
EU: Claro! Muito bom esse vinho branco!
VOCÊ: ...
EU: Ai, tem um troço me espetando. O que é isso?
VOCÊ: ...
EU: Onde que eu não tô vendo?
VOCÊ: ...
EU: Não brinca! Como a gente é parecido! Que gracinha!
VOCÊ: ...
EU: Mas espera um pouco! O que é isso???? Tem uma algema embaixo do
seu travesseiro! Que @#$%^& é essa? Quero ir embora agora!
VOCÊ: ...
EU: Putz, eu não sabia! E tudo bem pra você falar disso? Não, não, não
chora! Por favor! Já passou, já passou!
VOCÊ: ...
EU: Ahhh, fica feliz! Tava tão bom você feliz!
VOCÊ: ...
EU: Promete que se eu te der você fica feliz?
VOCÊ: ...
EU: Então toma. Mas o que exatamente você vai fazer com uma calcinha?
10.
ZELADOR
No domingo veio o Gustavo. Esse eu confesso que não é o que se pode
chamar de irmãozinho, ainda que a gente já tenha tomado muitos banhos
juntos. Mas, olha, seu Zé, que menino mais fofo: veio me trazer um presente.
Uma luminária superbonita, dessas de chão. Você não acha que ele mereceu
aquele beijo que eu dei nele no elevador? Eu sei que o senhor viu, sei bem. E
sei também que o senhor viu que não foi bem um beijinho inocente. Mas ele
não merece? Um presente bacana desses, veja só! O senhor entende, né?
Na terça tava um silêncio danado na rua, a maior paz. E eu sei que acordei
o senhor. O senhor tava lá dormindo escondidinho na guarita, não tava? E eu
no interfone desesperada pra subir logo. Mas o senhor logo entendeu meu
desespero, não foi? Não vou enganar o senhor não, pra esse eu dei mais do
que um beijo safado no elevador e uma mordiscana irmã no braço. Pra esse
eu dei banho e fiz até torrada no café da manhã. O senhor viu como ele era
bonito? Nossa. Ah, o senhor reparou também que ele é bem mais novo do
que eu? Caramba, seu Zé, mas tá tão na cara assim? Só porque ele usa o
moletom da faculdade? Aliás, que moletom mais cheiroso, seu Zé. Que será
que tá acontecendo comigo, hein? Ando muito a fim desses garotinhos que
ligam pra avisar a mãe que não vão voltar. Será que é a crise dos trinta, Zé?
Ou será que já que o cérebro de um de vinte é o mesmo que o de um de
cinqüenta, então pelo menos vamos ficar com o melhor desempenho na
corrida dos 100 metros rasos? Essa vida, viu, Zé. Pode ser boa que é uma
coisa. Já chorei muito, já doeu muito esse coração. Mas agora tô, ó, tá vendo?
De pedra. Uma tora. Um macho.
Na quarta eu não vi o senhor, mas será que o senhor me viu chegando
cedinho, com o dia amanhecendo? Balada, Zé. E da boa. Sabe quem tava lá?
Esse mesmo. Ele que veio me trazer, o senhor não viu? Ah, o senhor viu?
Que vergonha. Eu tava meio caindo pelas beiradas, não era? Era sono. Tá, um
pouco disso e um pouco daquilo também, mas basicamente sono. O senhor
não viu ele indo embora? Então somos dois. Mas vou confessar pro senhor:
adoro quando eles vão embora sem me dar nenhum trabalho.
Se eu cobro? Que é isso, seu Zé! Tá louco? Sou menina de família!
Escritora, publicitária e à espera de um grande amor. Mas tô me divertindo,
ué. Não é isso que mandam a gente fazer? Quando a gente chora e escreve
aquele monte de poesia profunda? Quando a gente se apaixona e tudo mais e
enche o saco dos amigos com aquela melação toda? Não ficam todos dizendo
pra gente parar de tanto drama e se divertir? Poxa, tô só obedecendo as
pessoas.
Não é isso que todo mundo acha superdivertido? Beber e fumar, e beber, e
fazer sexo sem amor, e beber e fumar e dançar e chegar tarde e envelhecer e
não sentir nada? Sabe, Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui.
Eu não sinto nada. Nada. Uns vêm, uns vão. As garrafas tão lá, ao lado do
lixo. As cinzas saem dançando por aí. As minhas vão junto. No dia seguinte
eu acordo, tomo um banho, passo protetor solar, sento na minha varanda com
o meu jornalzinho e ó: nada. Nadinha. Nem pena do mundo eu consigo mais
sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém
acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da
minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já
era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja.
Bate aqui no meu peito, Zé. Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço,
Zé?Desculpa.
Mas hoje é quinta, hoje tem visita. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem
maquiagem e música. O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que
você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não
é? Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são
outros. Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora,
escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e
descobre que esse aí não existe não.
Amanhã é sexta, um novo dia. Um novo outro qualquer. Eu queria te dizer
que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso te dizer isso porque a verdade é que
eu não sinto mais nada. Nadinha, Zé.
11.
VONTADE
FILHA-DA-MÃE
Me falaram que a planta da felicidade não pode tomar muito sol nem
receber água todos os dias, mas precisa de luz e de um pouco de água dia
sim, dia não. Somo a tudo isso beijinhos, carinhos e palavras ditas baixinho,
perto do caule. Outro dia cheguei ao cúmulo de ninar o vaso, o que meu deu
uma baita dor nas costas considerando que a planta, contando com toda a
terra, deve pesar uns 18 quilos.
A comigo-ninguém-pode é cheia de querer se esconder. E eu respeito isso.
Um pouquinho só de sol que recebeu, em uma das folhas, queimou.
Conversei com ela ontem, daquele jeito humilde que ela gosta: de joelhos e
preocupada. Agora ficou tudo bem, sei disso porque ontem nasceram duas
novas folhinhas. Fiquei tão feliz que cantei uma música para ela. Das minhas
filhas ela é a menos meiga, mas a mais corajosa. Tenho uma sensação boa de
que ela me protege de alguma coisa ruim. Dessas coisas ruins que a gente
nem sabe explicar o que são, mas entram por baixo de nossas portas.
Minha cachorra odeia abraço. Mas o que eu faço se sou a pessoa mais feliz
do mundo quando ela junta as patinhas atrás do meu pescoço e deita a cabeça
no meu ombro? Eu fecho os olhos e imagino que em vez de um cachorro é
um nenê lindo usando uma roupinha felpuda. Mas logo um latido ou mesmo
uma ameaça de mordida defensiva me tiram a ilusão e volto a me sentir uma
idiota: que porra tá acontecendo comigo?
Ontem terminei um projeto longo, daqueles que a gente fica meses
parindo. A sensação foi incrível. Cada folha que saía da impressora era mais
um pedaço do DNA criativo do meu filho. Juntei todo o trabalho e, quando
dei conta do que estava fazendo, percebi que estava sentindo o cheiro da nuca
das folhas sulfites. Só faltava bater nas costas do papel “chamequinho” pra
ver se ele arrotava. Bizarra. Tati, você anda bizarra.
Quando um homem olha pra mim, na rua, com aquela cara de “te comia
muito”, tenho vontade de gritar “então me faz um filho agora, seu merda”.
Caguei para todos os homens do mundo que querem me comer sem rastros. E
caguei também para os que querem me amar por uns dez anos até me darem
um filho. Eu quero um filho agora. Por isso caguei para todos os homens do
universo. Já que nenhum homem normal e equilibrado do planeta vai querer
me dar um filho agora, caguei pra todos eles.
Já faz meses que não vou a festas, baladas ou coisas do tipo. Paro em
frente das festas e penso: e por acaso pega bem uma mãe de família, uma mãe
de recém-nascido, uma grávida de sete meses, pegar essa fila cheia de gente
ensebada e entrar nesse inferninho para ficar a noite inteira tendo que me
esfregar em desconhecidos para conseguir me locomover? Claro que não! Aí
dou meia-volta pra casa. Aí chego em casa e fica esse vazio. Não tem filho
nenhum nem dentro de mim, nem fora de mim.
E caio na risada, depois caio no choro: que porra é essa que tá acontecendo
comigo? Eu lá quero filho agora? Óbvio que não. Ainda sou tão nova, ainda
tenho tantas viagens para fazer, tantos garotos para namorar, tanto dinheiro
para ganhar, tanto trabalho a fazer. Óbvio que não quero um filho agora.
Segundos depois acho tudo um lixo. Essas roupas modernas, esse dinheiro
guardado, esse dinheiro torrado em roupas modernas e viagens modernas.
Esses amigos blasés, esse mundinho das festinhas e baladas. Esses garotos
pra namorar e o buraco oco que fica depois. Todo e qualquer trabalho jogado
no mundo, sem uma única pessoa pra assistir comigo ao meu sucesso ou ao
meu fracasso, e simplesmente sentir amor. Tudo lixo. Lixo. Lixo.
Eu só queria uma família. Essa é a verdade. Uma família minha,
construída por mim. Cansei de todo mundo e de todos os lugares. Cansei de
ser menina, adolescente, jovem. Eu só quero ser mulher, mãe. Cansei de fazer
sexo sem amor. Cansei de conquistar os vapores podres que deixam marcas
que ninguém vê, mas voltam como fantasmas que fedem. Cansei de tudo que
não fica, que não engorda, que não frutifica, que não continua. Cansei de
fechar a porta sabendo que é mais uma porta que não se abre. Cansei de
perder aos poucos a pureza e ganhar aos poucos o desespero.
O relógio biológico, como dizem, bateu. E isso é bizarro, é engraçado, é
louco, é assustador. E eu se fosse homem correria infinitamente de mim. Mas
ainda mais bizarro, penso cá eu com meus hormônios que não me deixam
pensar, é se assustar com um pedido tão simples da vida: mais vida.
E volto a olhar minha barriga seca no espelho e a me perguntar: eu queria
tanto o mundo fora de mim, por que agora quero tanto o mundo dentro de
mim?
12.
ANIVERSÁRIO
DA SUA AUSÊNCIA
A gente quase completou um ano de namoro, quase. Faltou um mês ou um
pouquinho mais, não lembro. Mas hoje, sem mais nem menos, completamos
um ano de separação.
Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem. Eu estava
no show do U2 que você não quis ir comigo e me ocupava em perguntar, de
dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me
ligar e dizer que tinha pensado melhor. Quando?
Você nunca ligou, nunquinha. E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo,
nossa, como eu esperei. Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a
minha vida.
Outro dia uma amiga me perguntou o que você tinha me ensinado. A gente
estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas
e ela quis saber qual tinha sido o seu. O coiso me ensinou a gostar de MPB e
cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro.
Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você?
Que raios me ensinou? Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que
responder para ela.
Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi
você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me
ensinou a sofrer.
Eu nunca, nunca, em 27 anos de vida, tinha sofrido. Nunca. Claro, eu
odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro
que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe
dessa casa com gente louca que fuma demais, berra demais e chuta vasos.
Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de
promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e
acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra?
Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia
seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que
serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de
vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor,
dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que
faltava.
Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me
refugiou dela. Mas quando você, no dia 20 de fevereiro de 2006, me mandou
seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor. Você era
meu príncipe. Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos,
finalmente eu tinha reconhecido, no seu olhar centralizado e no seu sorriso
espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que
porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não
me queria mais por perto?
Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e
acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto
que a fantasia. Pelaprimeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto
que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem
sofre pra caralho.
Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares
descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa
aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca
merda. É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma.
Que nem ninguém nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e
pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama?
A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se
foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses
anos. A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de
cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo,
cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos
e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para
ser sentida.
E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também
pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor
das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das
prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos
limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil? A dor
da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez.
Mas agora já passa da meia-noite. Não é mais nosso aniversário de fim e,
pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E, pra te
falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu
esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a
menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo.
Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas
bizarrices, lê jornais todos os dias, substitui o bege pela cor do verão, tem uns
pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não
espera mais pelo cavalo branco, mas fica ansiosa pelo início da novela e
talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem, e não um
príncipe.
13.
CAIPIRA NÃO, MEU
Carioca tem mania de achar que paulista é caipira. Sempre achei tal
afirmativa um absurdo até me mudar para o Rio. Descobri que eles estão
certos.
Sou a maior prova viva da caipirice paulistana; para comprovar basta me
ver passeando pelo calçadão.
Não estou me referindo a minha cor branca ou ao medo que tenho de
andar solta numa cidade que não é exatamente a minha. Esses dois estágios
estão mais do que superados. Ganhei um pouco de cor e uma certa
malandragem para conviver na cidade de cidades misturadas. Preconceitos
acalmados, confesso que começo até a gostar dessa vida.
O que estou querendo dizer é que é impossível não ser caipira quando se
vê um artista a cada cinco passos. O tempo todo meu cérebro, deslumbrado,
avisa: olha lá o barrigão da Camila Pitanga. Olha lá o Wagner Moura de
mochila. Olha lá a Marília Gabriela saindo do aeroporto.
Não tem jeito. Arregalo os olhos. Se for mulher reparo logo na bunda, pois
fico achando que estrela jamais pode ter uma bunda ruim. E se for gatinho
reparo na roupa. Eu sei que deveria ser o contrário, mas antes de ser caipira
eu sou estranha, vocês bem sabem.
Quase dou uma de chata sem noção e puxo um papo. Sabia, Marília, que
eu tenho um livro publicado e coisa e tal e meu sonho é falar minha frase,
meu verso ou o meu ditado de preferência no seu programa? Decoro esse
momento no banho todos os dias.
Sabia, Capitão Nascimento, que eu quase tive um orgasmo no cinema
quando você gritou “vai ficar todo mundo quietinho aí”? E você, Bebel, sabia
que animava, milagrosamente, as minhas noites numa fase em que eu andava
achando tudo um porre?
Mas não, controlo meus impulsos mais suburbanos e passo reto. Blasé.
Como se tivesse cruzado com alguém tão insignificante quanto eu. Caguei
pros famosos. Caguei. Meu mais novo mantra para não ser caipira no Rio de
Janeiro é “caguei pros famosos”.
Mas a coisa não é tão fácil assim. Escapar de cinco ou seis famosos por
dia no calçadão é moleza, difícil é trabalhar no Projac. Imaginem uma praça
de alimentação inteira com todas as estrelas da novela das oito. E você lá,
sem poder fazer ou falar nada. Sem poder cutucar alguém e falar “a Aline
Moraes consegue ser ainda mais bonita na vida real”, tendo que se concentrar
em um cardápio com massas e saladas ruins. Sim, a praça de alimentação do
Projac é horrível, dá pra acreditar?
Gianecchini de um lado, Alexandre Borges do outro e ele, sim, ele, o
maravilhoso Marcos Palmeira. E você calmamente corta seu franguinho
grelhado. Fingindo cagar horrores pra essa gente maravilhosa, talentosa,
bonita e famosa que, afinal de contas, trabalha no mesmo lugar que você.
Com a diferença que eles são estrelas conhecidas e admiradas no país inteiro
e você, apenas uma escritorazinha baba-ovo contando grana pra não fechar o
mês no vermelho.
Parece uma vida de glamour mas na verdade é puro sofrimento. Se eu
fosse brega ou ridícula, soltava logo um grito no meio da praça de
alimentação, “fudeuuuu, puta que o pariu, quanta gente famosa, poooorra”.
Pronto. Soltava o grito. Tirava de dentro do meu peito essa angústia e
acabava logo com isso. Algum segurança me expulsaria da praça de
alimentação. E então, da rua, eu ligaria pra todo mundo que eu conheço no
mundo, inclusive aquelas amigas que eu não encontro desde o Jardim 3, e
contaria artista por artista que vi. Mentindo alguns só pra dar mais emoção.
Mas não, eu sou a nova roteirista bacaninha, escritora, loirinha, de São
Paulo. Eu sou obrigada a entrar e sair blasé da porra da praça de alimentação.
Eu sou obrigada a manter a pose e até mesmo um certo “caguei pra esse
povo” em meu andar, na minha fala, nos meus olhos.
E eu estava me saindo muito bem, não fosse o incidente da tarde de hoje.
Depois de meses de bom comportamento, tudo foi por água abaixo.
A caipirice falou mais alto quando encontrei o Marcelo na praia, o
psiquiatra psicopata do BBB8. Já que eu não posso gritar para os famosos de
verdade, por que não desopilar a alma com um famoso de mentira?
Gritei: “Marceeeeeloooooo, uhuuuuu”, e ele respondeu: “oi
queridaaaaaaaaa, uhhuuuu”. E esse foi, nos últimos meses de Rio de Janeiro,
o momento mais brega, mais caipira e mais ridículo que passei. E de longe o
mais divertido também.
14.
DESPERATE
HOUSE WRITERS
Linda a combinação da camiseta de super-homem com calça social. Ele tem
cabelo moderninho daqueles que tornam o cafuné mais divertido e usa meias
bonitas. Ele tem um cheiro bom daqueles que só melhoram conforme o
perfume vai saindo. Testosterona jovial. Que homem se preocupa exatamente
com as meias? O da minha vida, claro. Ele é o homem da minha vida. Mas
ele tem só 19 anos e bebe mais que o Zeca Pagodinho! Dane-se. Essa
boquinha pequena dele, com esse biquinho de mau humor, tem o tamanho
certo para aquela minha outra boquinha sempre em crise. O ombro é largo e
dá pra dormir uma tarde inteira ali. É ele. É ele. Ops. Ele acaba de falar que
gosta mesmo é de balada no interior. Com os brothers. Lá as garotinhas são
loucas pra descolar um urbanozinho de Corsa. Droga. Achei que era dessa
vez. Achou mesmo, sua louca? Um garoto de 19 anos que usa as meias que a
mãe compra pra ele? Louca. Olha lá, olha lá! Amor das antigas pintando na
área. Ele não passa um mês sem fazer contato com a nave-mãe. No caso, eu.
No caso, a mulher mais desesperada que eu conheço pra ser mãe. Hormônios
filhos-da-puta. Nem sei o que fazer com um bebê depois, nem quero fazer
nada com ele. A não ser brincar um pouquinho, beijar a barrigona e depois
largar ele lá na minha mãe e ir pegar o garoto da boquinha pequena. Só por
uma noite. Uma noite já dá pra fazer um bebê? Fazer um bebê com outro
bebê. Sua louca, maluca, depósito de hormônios enlouquecidamente
solitários e inúteis. Olha lá o amor antigo pintando na área. Ele quer almoçar.
Que graça esse cara vê em almoçartanto comigo? Ele tem tesão em me ver
largando tudo no prato? Nunca consigo comer direito na presença dele. Não
sei ao certo se por amor ou nojo. Tenho nojo de andar pra trás. O mesmo nojo
que tenho de sequer pensar em sexo anal. Mas vivo andando pra trás e tenho
certo tesão em retroceder. É como se a vida dissesse: “eita povo burro, mas
divertido”. Talvez um dia eu faça mesmo sexo anal. Talvez um dia eu
conheça um homem que mereça me foder à luz do dia. E não sozinha, no meu
choro baixinho embaixo das cobertas. Que você quer agora, hein, tio? Ele diz
que minha perna está grossa como nunca, depois diz que quer só um
cafezinho e bater um papinho. E eu não vou não. Preguiça daquele gemidinho
contido dele. Queria que ele berrasse. Queria que ele berrasse: casa logo
comigo! Não vou mais te enrolar, coxuda! Casa logo comigooooooo! Ele é
contido pra gostar, pra gozar, pra casar, pra cagar. Um dia ele explode.
Tomara que nesse dia caia um pouco de dinheiro do céu. Pra alguma coisa
alguém que só me enche há tantos anos tem que servir. Olha lá quem chegou.
Abro a porta e ele fica meio sem graça. Ele sabe que veio aqui pra me pegar,
eu sei que convidei ele pra ser pega. Mas a gente já conversou tanto sobre a
fome humana e a guerra do horror, que nos vimos na obrigação de enrolar um
pouco antes de virar animais. Ele mexe nos meus DVDs e nos meus livros.
Depois tá liberado mexer no pinto. A gente se ama tanto como amigo que
tudo bem. É isso. Só queria ser amada. Só isso. Precisa casar comigo não,
precisa me engravidar não. Basta me olhar assim, basta morrer de rir comigo.
Basta me ler, me decifrar, ser intenso nesse minuto. Vamos todos morrer,
meus amores, vamos então morrer sabendo que demos vida a alguém. Ele me
dá vida e, quando vai embora, tudo fica pequeno. Mas isso não é uma
declaração de amor. É só porque ele tem coisas grandes, se é que vocês me
entendem. Opa, olha de quem chegou um e-mail. De mais um superbom
partido que partiu antes do pôr do sol. Não some não, Tati. Some não. Aí eu
apareço. Peraí, Tati. Não aparece tanto não, não aparece tanto que daí sou eu
que sumo. Aí eu viro mais uma idiota transparente e aí sim arrumo um
namorado pra chamar de meu. Odeio essa expressão “pra chamar de seu”.
Foda-se. Nem desapareço, nem apareço. Tampouco fico transparente porque
não sou vaso decorativo daqueles que você bate palma e a florzinha dança.
Eu apenas viro mais um fantasminha. Eu sei que apareço em muitos
corredores no meio da noite. Bando de gente morna do cacete. Como diria
Janis, I neeeeeed a man to loooove. Tá difícil, Joplin. Tá mais fácil essa
dança maluca que eu inventei aqui pra dançar Prince. Adoro esse cara. Mas
eu não dava pra ele não. Homem tem que dançar pra tirar sarro, jamais pra
ganhar dinheiro. Mas eu dava pro Eminem. Todo mundo tem um defeito. O
meu é este: eu dava muito pro Eminem, de preferência em um dia que ele
tivesse bem puto com a vida. Aliás, eu tenho dois defeitos: eu dava pro Justin
também. E, se a Cameron quisesse vir junto, pegava ela também. Pegava boa
parte dessas mulheres lindas. A outra parte eu deixava me pegar. Tô mesmo a
fim de comer mulher. Minha única dúvida é naquela hora de ficar molinha e
começar a falar tudo molinho e… querer um durinho. Mulher é quase uma
coisa perfeita. Mulher pra ser perfeita tinha que ter pinto. Homem pra ser
perfeito tinha que tirar o pinto. Eita povo besta, mas divertido.
15.
VOCÊ JAMAIS
FARIA SEXO VIRTUAL
Domingo, uma da manhã. A gente nunca combinou ou comentou a
coincidência de sempre se encontrar nesse horário. Mas um sempre soube
que o outro estaria lá. E de fato sempre estava.
E ele dizendo o quanto queria me ver de novo. Mas a vida é complicada. E
eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse me ver de novo. Mas
ele é complicado.
E ele colocava a camerazinha e me mostrava. Olha! Uma Coca-Cola! E eu
colocava a camerazinha e mostrava. Olha como eu fico brega dentro de casa.
Posso ir pegar outra Coca? E ele levantava só de cueca. E eu achava aquilo
bizarro, mas me tranqüilizava pensando “eu jamais faria sexo virtual”. Muito
menos ele.
Cara, essa roupa não tá ridícula? E ele concordava. Aquele era como um
encontro e eu não poderia estar tão malvestida. Lá ia eu botar um vestido pra
ele. Enquanto botava, eu me tranqüilizava. Eu sou batizada e tenho pós-
graduação. Eu jamais faria sexo virtual. Muito menos ele.
E ele acendia um cigarro e soltava os cabelos. E eu botava a perna em
cima da mesa. Abria a janela. Como está quente aqui. E ele me conta que
encontrou aquela atriz gatíssima que dizem que é bissexual. E eu comento
que nunca experimentei, mas, com ela... nossa, com ela até que não seria má
idéia. E ele me diz que também nunca quis saber de duas ao mesmo tempo.
Mas nós duas? Nossa, até que não seria má idéia.
E ele coça o saco, pensa que eu não vejo. Será que ele tá mesmo coçando?
E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa calça jeans
megapertada. Não tenho culpa que o mundo está aquecendo. Eu e os ursos-
polares não temos culpa de sofrer assim. A camerazinha só me pega dos
ombros pra cima. Logo, se eu tirar as calças ele não vai ver! Mas eu estou de
vestido. Caramba, então por que essa vontade de tirar as calças?
Não sei de nada, só sei que ele é um cara bonito, interessante, pegador.
Não precisa trepar com mulher pelo messenger. E eu, bom, eu tenho aí uns
dois ou três amigos que me visitam nos períodos de “entressafra”. Nunca
fiquei a perigo a ponto de precisar trepar com uma camerazinha e umas frases
com carinhas felizes e amarelas.
Ele me mostra suas havaianas. Eu mostro minhas unhas pintadas de
vermelho pra ele. Mas ele quer voltar no assunto do sexo a três, com a atriz
gata e bissexual. E eu digo, assim, na brincadeira, juro, que eu adoraria
experimentar o gosto dela. E ele pára de falar comigo alguns segundos,
acende um cigarro. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na
brincadeira, ele jura, experimentando o gosto dela.
E eu fico assustada, sabe? Poxa, sexo pela internet é coisa desses caras
meio doentes, não? E dessas garotas feias. É coisa de gente que não tem
capacidade pra fazer a coisa ao vivo. Ou de nerd, sei lá. E ele é um puta
escritor. Não é nerd. E eu sou maior legal. Tô longe de ser nerd.
E ele passa a mão pelos cabelos e me manda um beijo. E eu piro naqueles
cabelos e naquela boca. Mas já são três da manhã e ele nem mora em São
Paulo. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, tomando Coca,
fumando cigarro, passando a mão naqueles cabelos dele, mordendo aquela
boca. Nossa, impressionante como essa calça jeans tá me incomodando.
Mesmo eu estando de vestido.
E então, sem aviso prévio ou pedido de desculpas, ele escreve “enquanto
você sente o gosto dela, eu sinto o seu gosto”. E eu, não sei exatamente o
motivo, respondo “mas eu sinto o gosto dela com a boca, o que significa que
minhas mãos estão livres para você”.
Depois disso a coisa piora muito. Corredor, parede, pia de banheiro,
elevador. A gente transa em basicamente todos os lugares possíveis. Nós e a
atriz gata bissexual. Eu, que nunca tinha feito sexo virtual e muito menos a
três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo.
Lembrei do filme Closer, depois lembrei daquele filme, Felicidade. Os
personagens que fazem isso nunca são normais. Mas tudo bem. Agora eu
estava na pia da cozinha, ou melhor, em cima do tanque. Não era a hora pra
pensar em cinema.
No final das contas ele brochou. Ou melhor: a sua conexão caiu. E, no dia
seguinte, ele fez o que todo homem faz com uma mulher que já comeu:
desapareceu. Ou melhor: me bloqueou no messenger. Engraçado como até a
maneira de fazer sexo evoluiu, mas o machismo continua firme e forte desde
o homem das cavernas.
16.
EU NÃO NASCI
PRA ISSO
No meio de uma risada, entre uma e outra troca de intimidade, de repente,
me pergunto o que exatamente estou fazendo aqui. Me maquiando enquanto
você repassa a agenda do celular. Fazendo piadas com toalhas e sucrilhos.
Não faço a menor idéia de quem é esse cara sentado aqui no meu sofá,cheio
de dúvidas se casa comigo ou me esquece uns dias para a vida parecer mais
planejada.
Não nasci para isso, definitivamente. Essa coisa que quase é, esse “pode
ser” que muda para “nem pensar” a cada troca de cômodo. Eu só queria ter a
certeza de estar me maquiando para você, a certeza de estar misturando
toalhas e sucrilhos por conta de uma surpresa da vida, e não de uma luta
contra o tédio. Eu só queria encontrar alguém que não repassasse a porra da
agenda do celular na minha frente.
Puxa, como foi bacana ele ter telefonado no dia seguinte. Claro, muito
bacana. Como foi bacana a gente ter dormido de conchinha e ele ter me
pedido um pouco de bolacha água e sal no meio da madrugada. Adorei que
ele me ligou no dia seguinte, para me dar aquele bom-dia de amigos. Muito
bacana mesmo. Claro que não temos nada nem nunca teremos. A não ser
aquele ataque de riso maravilhoso que ele dá quando eu me atrapalho pra
tomar sorvete e fico parecendo uma desdentada. Tenho esse tesão por ele,
esse tesão pela maneira tímida e desleixada com a qual ele amarra a toalha
branquinha na cintura. E me olha do tipo “ei, velha amiga, não acha que
mereço um pouco de carinho?”.
Mas que bom que ele ligou no dia seguinte para dar aquele bom-dia de
amigo. Que bom. Quem disse que mulher é tudo louca e se você ligar no dia
seguinte para dar bom-dia ela vai achar que está namorando? Quem disse?
Hein? Hum? Quem disse? Achei mesmo bacana essa atitude supermoderna
de um homem macho supermoderno me tratando como uma fêmea
ultramoderna e tudo mais. Mas não nasci pra isso, definitivamente. Como
assim ele me liga no dia seguinte pra me dar bom-dia e depois simplesmente
desaparece no mundo? Como assim? Eu não nasci pra isso não.
Saio do banho sem pensar em nada disso e encho minha cara de cremes.
Creme de boca para ressecamento, creme de testa para oleosidade e creme de
olhos para rugas. Durmo feia, sozinha e tranqüila. Sem pensar em sofás,
sucrilhos, toalhas, bom-dia de amigos e vidas planejadas. Ainda assim,
continuo achando que não nasci pra isso, definitivamente.
17.
A VONTADE E UM
DEDINHO DE PROSA
Enquanto espero começar a reunião na Editora Abril, passo rapidamente
minha listinha de telefones no celular.
Não, o Gabi nem pensar. Além de não saber usar camisinha, ainda faz
muito barulho. Meu apartamento é colado com o do lado, outro dia ligaram
pra reclamar que a minha TV estava muito alta, imagine se esse garoto
começa a uivar na minha casa? Sou cara-de-pau, mas nem tanto.
Putz, aquele chileno metido a cineasta espanhol prometia um sexo
selvagem, será que dou mais uma chance a ele? Não, não, melhor não. Ele
tinha um beijo muito melado, do nada me dava umas linguadas na cara
inteira, pescoço, orelha. Depois eu ficava com o maior cheiro de baba. Tô
fora. Tô a perigo, mas ainda não virei sorvete de leite condensado.
Mas ele tinha um amigo… hummmm, o amigo dele parecia ser
interessante. E o amigo dele também tinha tentado um chega-mais comigo na
mesma noite. Mas peraí: o amigo dele não é aquele que traça o que vier pela
frente? Tô precisando ser traçada urgentemente, mas não sou qualquer coisa
que vem pela frente.
Até porque posso vir pelo lado também. Por trás, pelo teto, pelo chão, pela
janela, diametralmente, de cinta-liga, de enfermeira, pelada. Nossa, preciso
mesmo dar. Mas gosto de rapazes seletivos; esse cara era nojento demais pra
mim.
Enquanto a reunião não começa, tento tirar um pouco de proveito da
minha situação. Afinal, estou em um prédio interessantíssimo com trocentos
jornalistas, escritores, fotógrafos e diretores de arte. Não é possível que no
meio desses tantos não tenha ao menos um digno de entrar em minha morada.
Preciso ser salva.
O primeiro que passa tem um cabelo que faria inveja ao Bozo. Se fosse
para dar um telefone para ele, daria o do L’Officiel. O segundo parece ser
gerente de almoxarifado de repartição pública. Mais “cara de firma”
impossível, deve ser daqueles que avisam: “Ai, com licença, senhorita
Tatiana, mas acho que vou estar estando gozando dentro de alguns instantes”.
O terceiro usa roupas descoladas, tem o cabelo metade raspado e dois
piercings na cara. O problema é que eu quero um criativo, e não um
“criativoso”. Esses que forçam pra ter cara de fashion são os menos fashion
de todos. Aposto que as blusas de lã dele são de Serra Negra.
Ai, dona Tati, dona Tati. Assim fica realmente difícil. Como é que eu vou
liberar minha fantástica periquitinha se acho todo mundo péssimo? Poxa,
chega uma hora em que o dedo cansa. Dedo não conta piada, não fala
baixinho no seu ouvido, não morde a sua coxa.
Calma, vai aparecer alguém. Vai sim. Espero que logo. Finalmente me
chamam para a tal da reunião. Um dos editores do projeto não é de se jogar
fora. O cabelo dele é superajeitadinho, a roupa é bacanuda, o físico,
impecável e as mãos, grandes e másculas. Ui! É esse! Ele é mais velho,
interessante, inteligente, limpo e gosta dos meus textos! Nossa, melhor
impossível! Já tô até vendo ele tocando a campainha da minha casa esta noite
(todas as campainhas) e eu estreando o meu baby-doll com pompom. Não
tem a pele oleosa (ótimo, não vai manchar de óleo meu edredom branco!), é
meio careca (ótimo, não vai encher meu edredom branco de cabelos!) e não
tem filhos porque odeia crianças (ótimo, não vou me apaixonar por ele!).
Finalmente o cara. Finalmente vou me despedir da minha seca de três meses.
Fico tão feliz que exibo um enorme sorriso para ele antes de sair.
Educadamente ele retribui: “Ai, meninaaaaa, que sorriso lindooooo você tem!
Me dá agora o telefone do seu dentista! A-go-ra!”.
Claro, um homem tão perfeito só poderia ser gay. Inferno de vida.
Vou ter de apelar para uma baladinha. Ai, que saco. Baladinhas são
péssimas para mim. Ou eu me trajo tal qual uma retardada no cio ou fico
torcendo para que algum troglodita goste de uma menina decente e queira
saber o que eu acho do Sartre, do Fante, da Clarice. Detesto me sentir na
feira, mas, por outro lado, se é de mandioca que estou precisando não tem
lugar melhor.
Não vou conseguir. Tá frio, vai ter fila, vai ter fumaça de cigarro, vai ter
manobrista que solta pum no carro, vai ter alguma menina com voz de pato
francês anasalada no banheiro contando para alguma outra integrante do
gueto que alguma loja tá liquidando tudo a partir de mil reais. Que inferno.
Outra opção é uma baladinha sem peruas e playbas. Mas essas outras
opções indies quase sempre são GLS, o que dificulta em muito as minhas
chances de arrumar, ao menos hoje, um homem que não saiba dançar
imitando peixinhos fosforescentes. Socorro.
Não, tô com muita preguiça de sair de casa. Homem bem que podia
funcionar como um disque-pizza para dias chuvosos. Ex-namorados e ex-
casos são perfeitos para serem entregues em casa, fora que dispensam
conversas e preliminares, dada a intimidade de outros tempos. Mas tô
defasada até nesse quesito. Tirando a maioria deles, para quem nem vale a
pena ligar porque eram meia-boca sexualmente, a pequena parte que sobra
vale menos que o meu dedinho mindinho do pé. E pelo visto vou continuar
com o meu dedo mesmo.
E a opção amigos?… Não, não vai dar certo. A última vez que um grande
amigo com potencial para me comer me visitou, terminamos a noite chorando
por amores do passado e fazendo piadas escatológicas. Amigo não dá, não
tem mistério, não tem charme. Existe homem-ombro pra te consolar e existe
homem-pinto pra te comer. Lembra da piada “não existe pôr só a cabecinha
porque pinto não tem ombro”? É a mais pura verdade. Alguns até se fazem de
amigos, mas espera você liberar a periquitinha pra ver o que acontece. Amigo
é o cacete! É, o cacete é amigo mesmo. Ai, preciso dar urgente.
Já sei! Vou apelar para meus fãs! Sim, recebo toda semana dezenas de e-
mails de fãs homens. Quase sempre leitores da VIP, ou do meu site, ou do
Blônicas, da TPM, da Viagem e Turismo. Nessas horas é bom escrever para
vários lugares, aumentam as chances de aparecer um leitor bem-apessoado e
mal-intencionado.
O problema é que 80% dos homens que me escrevem acreditam que,por
se comunicarem com uma escritora, precisam se mostrar ultra-
intelectualizados, ultra-alfabetizados e ultraprolixos. Como é que eu vou ter
vontade de liberar para um cara que me escreve infindáveis 456 linhas que
quase sempre começam com: “Vós não imaginais o imensurável prazer
trêmulo com o qual este macambúzio leitor vos escreve pulsantes idílios”?
Esse cara não faz sexo, faz?
Os outros 10% (esses sim, sobretudo leitores da VIP) são o extremo oposto
disso, o que também não me interessa. São aqueles ogros irados ao estilo
“gatinha molhada, vou colar na sua goma hoje pra gente fazer uma sacaneta”.
Pega no meu pau, seu machista analfabeto! Tem ainda uns malucos que
odeiam as minhas baixarias e me mandam encontrar o senhor. Que senhor?
Esse senhor faz sexo?
Meu personal nem pensar, eu ia parar no meio pra reclamar que minha
bunda não tá tão dura quanto o meu bolso, vazio de tanto pagar aulas extras
para ele. Amigo de ex-namorado é crime, ainda que tenha uma quantidade
incrível de amigos de ex-namorados querendo me comer. Onde é que esse
mundo vai parar? Pro meu chefe não posso dar, pelo único motivo de que sou
autônoma e não tenho chefe. Go-go dancer tem a bunda lustrada, isso não me
dá tesão.
Pra quem então? Pra quem? Pra quem? Ah, não, você de novo não! Você
não conta piada, não fala baixinho no meu ouvido, não morde a minha coxa.
Que inferno.
18.
DESAMOR REVISITADO
Ele chega com uma de suas novas jaquetas chiques e de longe eu vejo
aquele cabelinho de banda suja londrina que eu tanto amei, aquela carinha
infantil de “olha, cheguei” que eu tanto amei, aquele olhar de timidez tarada
que eu tanto amei… e me pergunto: por que amei tanto e não amo mais?
Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna
estale, e me diz, como sempre também: “Que é que você tem que eu sempre
largo tudo e venho te ver?”.
Espreguiço para sugerir desinteresse, mas meu coração bagunça tanto que
tenho um ataque de tosse. Entramos de mãos dadas no cinema, felizes como
se tivéssemos acabado de nos conhecer. Ele me olha sem parar, suspira, a
cada movimento que eu faço, cada semblante, cada segundo de raciocínio, ele
está lá me observando encantado. Faço um esforço pra tentar me lembrar: por
que foi mesmo que eu deixei de amar esse homem? Não faço a menor idéia.
O filme é um lixo, máster clichê, mas era o único que tinha e tudo bem: ao
lado dele tudo fica divertido. A gente brinca de adivinhar as próximas cenas,
adivinhamos o filme todo ao som de “xius” que os humanos limitados fazem,
inconformados com aquele casal que tenta boicotar um filme tão supimpa.
Sobra pipoca no dente, colamos pipoca na testa, entra pipoca no sutiã.
Cada vez que nossas mãos se encontram salgadas, dentro do saco, a gente
brinca de se roçar com os dedos como pernas desesperadas.
Antes de a gente chegar ao elevador do seu prédio, ele me oferece as
costas e eu subo, o porteiro não entende nada, eu berro de longe: “Sou
sobrinha dele”. Adoro essa brincadeira e mais uma vez me pergunto: onde eu
estava com a cabeça pra deixar de amar esse homem?
Um banheiro é pra escovar o dente, outro é pra tomar banho e o outro é
pra fazer cocô, ele explica. Sinto pena dele sozinho naquele apartamento
gigante, quase quero ficar ali pra sempre. Ele mostra que tem todas as minhas
músicas prediletas (que eu ensinei a ele) no seu iPod última versão, anda
esbarrando pela casa em seus milhares de brinquedinhos e insiste para que eu
assista a alguns dos seus vídeos caseiros cheios de bobagens. Ele é um super-
homem quando a gente precisa e uma criancinha fofa quando a gente também
precisa. Meu Deus, agora faço o maior dos esforços do ano: por que cacete
deixei de gostar desse cara?
Chocolatinhos, vinho, som ambiente, escurinhos. Ele pára o mundo todo,
se ajoelha no sofá deixando as mãos no meu colo:
“Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo”.
Seus olhos se enchem de lágrimas, a música se torna instrumental matando
qualquer outra palavra, a cidade não respira, o tempo não existe, a solidão é
coisa de gente que mora muito longe dali, minha mente aquieta todos os
monstros, as mulheres lindas nas capas das revistas são empilhadas
descartavelmente e viram nada, a poluição vira oxigênio puro e cor-de-rosa, o
outro homem que é dono sem merecer do meu corpo magoado explode no ar
deixando apenas estrelas para iluminar meu recomeço, as dúvidas todas do
que fazer pelos próximos mil anos se simplificam porque eu só desejo viver
aquele momento, sim, sim, sim, eu quero zerar tudo de antes e de depois e
amar esse homem agora, como antes, como nunca. Por que não?
Deitada sem forças e coragem para existir, eu quero tomar o banho mais
urgente e demorado do mundo.
Ele agora está na sacada, olhando a cidade e coçando o saco, tentando
pegar algum recado no celular, querendo marcar alguma coisa com algum
amigo, fala alto, os carros buzinam e se xingam lá embaixo, talvez ele deseje
mais do que tudo se virar e não me ver mais ali. A vida idiota voltou e me fez
lembrar novamente que continuo uma idiota.
Sua enorme sala inteira chora, todas as plantas, todas as luzes apagadas,
todos os CDs empilhados, o carpete caro e fofo, os cantos, o teto, o chão, o
ar. Os feixes de luz da cidade entram como espadas pela janela e guilhotinam
qualquer razão, todo mundo está deitado e decapitado comigo. Todos estão
sujos, todos estão ultrapassados e velhos, todos choram a intenção de amor
que nunca dura.
A exploração do meu corpo me dá uma sensação mundana de morte pobre
e simples, nada de espiritual e eterno ronda minha alma neste momento. Seus
restos grudam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos
faz viver cheios de medos e traumas.
Ele me observa frio e concluído da sacada, não se preocupa com o meu
frio, com o vazio gigante que me toma novamente e me deixa assim,
palidamente assustada e infantil. Ele até tem pena, mas me considera demais
para ter pena de mim.
Ele anda mais completo, mais solitariamente feliz, mais homem, mais
ereto, mais macho. Eu, corcunda, me enrolo na manta, corro para o banheiro
como um bicho cagado, me ajoelho no chão do boxe e deixo a água quente
me dizer que tudo bem: não é a primeira vez que você se sente tão perdida,
usada, burra e sozinha.
Uso o banheiro do cocô para tomar banho, o banheiro do banho para vestir
minha roupa que era feliz até duas horas atrás e agora parece escolhida para
velar o defunto, e, finalmente, o banheiro de escovar os dentes para mirar
meus olhos traídos e esquecidos. Peço desculpas não aceitas a mim.
Antes de chegar à minha casa vejo que ele deixou dois chocolatinhos na
minha bolsa; arremesso um deles com ódio na valeta da rua, o outro eu como,
afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico porque ninguém nessa
merda de vida consegue se dar e ser por inteiro.
Agora me lembro por que deixei de amar você, lembro exatamente por que
deixei de amar todo mundo. Lembro que mais uma vez deixei de me amar.
19.
OS MICOS DA
DIAS FERREIRA
Na minha rua tem de tudo. Não é bem a minha rua, sendo que aluguei
apartamento aqui no Rio só enquanto termino de escrever um programa para
a nave-mãe. Daqui a pouco, se tudo der certo, volto pra poluição, o mau
humor e o trânsito de São Paulo. Não sei explicar, mas voltar é tudo que eu
mais quero. Narciso acha feio o que não é espelho mesmo quando o espelho é
feio.
Mas, enfim, na minha rua carioca, emprestada por alguns meses e que me
falaram (muita gente) ser uma das melhores do Rio, tem de tudo.
Eu acordo todo santo dia, às 7h43, com as pombas fazendo festa no ar-
condicionado. Elas gemem, brigam, reclamam, urram. Sei lá que porra de
som é aquele. Parecem mudinhos esfomeados. E me acordam. Rolo na cama
pensando que Dias Ferreira, o português, nasceu em um lugar chamado
Pombeiro da Beira. Ou seja: vai ver sou eu que estou no lugar errado.
Tento ignorar o som e voltar a dormir mais um pouco, afinal, os mudinhos
esfomeados não são nada quando comparados a todo o inferno de sons a que
fui submetida até chegar àquele ponto.
Das dez da noite às duas damanhã, aturo restaurantes e baladas cheias de
cariocas, o que, quase sempre, quer dizer gente animada demais e louca por
uma mesinha “lá fora”. Não tô ofendendo! É elogio. Mas não tem nada mais
chato do que querer dormir com gente animada demais três andares abaixo de
você e louca por uma mesinha “lá fora”. Já tentei me unir a eles, mas não dou
conta de tanta alegria. Sou paulista e preciso ficar mal-humorada de vez em
quando. Caso contrário, tenho impressão de que posso desintegrar ou ser
presa por falsidade ideológica.
Das duas da manhã às quatro, aturo bêbados que se recusam a ir embora
ou falar baixo, e, desse horário em diante, até chegar o horário das pombas,
aturo o caminhão de lixo sempre acelerando e o barulho dos vidros e das
piadas dos lixeiros que adoram acordar os outros que não são lixeiros. Depois
vem o Globo Repórter dizer que eles “amam a sua profissão”. Sei.
Durante o dia, minha rua emprestada tem o trânsito parado, cheio de filas
duplas e gente que não sabe fazer baliza. Portanto, o buzinaço é sem fim.
Sem fim porque é o dia inteiro e sem fim porque cada buzina dura o tempo de
eu falar todos os palavrões que eu sei. Carioca ama uma buzina, nunca vi. Só
não ama mais do que mijar na rua. Mijar na rua ainda é o hit parade da terra
da mulher melancia.
Minha rua tem de tudo. E, como tudo que tem de tudo, tem também as
coisas boas. Minha rua tem duas livrarias bacanas, a Argumento, minha boa
companheira das manhãs, na qual leio meu jornal, e a Letras e Expressões,
lugar perfeito pra quando você, em vez de se matar, decide comprar um livro
às quatro da manhã. Só não vale comprar Albert Camus, que a vontade volta.
Minha rua também tem predinhos com lojinhas charmosas. O famoso
(famoso pra mim, sei lá) Palm Beach, com lojas como a da Adriana Barra, e
um outro predinho ao lado da Argumento, com uma lojinha de vestidos que é
de foder a conta bancária.
Tem ainda locadora de vídeos com mais Truffaut que a 2001 de São
Paulo, dois supermercados com bastante coisa orgânica, e eu ando super
ecochata (uma coisa tem a ver com a outra ou pirei?), duas farmácias (adoro
farmácia, até porque vende aqueles protetores de ouvido pra dormir em meio
ao barulho) e tem até um Fleury em frente de casa! Adoro o Fleury! Odeio
fazer exames e entrar no Fleury, mas adoro ele.
Tem restaurante de tudo quanto é tipo, gente de tudo quanto é tipo, bonita,
famosa, interessante, metida a besta achando que 26 graus é inverno europeu
(carioca adora um motivo pra botar cachecol e bota, nunca vi, e eu só sinto
um calor infernal aqui) e tem a coisa mais legal do mundo: uma casa de chá
das cinco! Tipo Londres, manja? Maneiro. Maneiríssimo. Mas, como no Rio
as coisas são meio malucas, o típico chá inglês deles não leva leite. Vai
entender.
Minha rua tem de tudo. Outro dia, descendo pra pôr o lixo lá fora, dei de
cara com um ex-namorado paulista jantando com sua nova velha namorada
que eu acho que é paulista, se não for marciana. Porra, vieram de tão longe
(tá bom, é perto) pra jantar em frente da minha casa? Gente chata. Enfim,
deixei o lixo lá fora e segui a vida.
Minha rua tem de tudo. Todo sábado, um morador de rua faz pirotecnia
embaixo do meu prédio. Berrando muito. E seus infinitos filhos são os únicos
a aplaudir, pois ninguém agüenta mais o cara.
Minha rua tem salão de beleza de perua e de gente que chega em perua.
Tem de tudo. Tem botecos e padarias daquele tipo que fede frango assado às
seis da manhã mas também tem o Sushi Leblon, terceira casa da revista
Caras depois do castelo e da casa da Suzana Viera.
Minha rua vende Granado e Phebo como se fossem a coisa mais chique do
mundo e vende boinas francesas como se fossem as mais clichês. Minha rua
parece São Paulo quando tem briga de motoboy, parece a Alemanha quando
eu desço com as minhas canelas brancas para caminhar e parece o melhor
lugar do mundo quando não tem ninguém berrando. Mas tem sempre alguém
berrando na minha rua. Ou buzinando. O que dá no mesmo.
Dizem que essa rua já chamou “do pau”. Não sei, tem de tudo na minha
rua, mas até agora não arrumei nada que me fizesse chamar essa rua de rua do
pau. Vai ver é por isso que tudo me irrita tanto.
Aí (esse aí é de “e então” e não aquele “aiê” de carioca, o.k.?) essa
semana, um novo elemento se uniu ao mundo de elementos da minha rua que
tem de tudo. Os ratos. Esses seres imundos, nojentos, inferiores,
aterrorizantes. Escutava o som deles de manhã, de tarde, de noite, de
madrugada. Em meio a todos os outros infinitos sons e de todas as infinitas
pessoas. Sempre os ratos. Os ratos. Os ratos. E já tava ficando louca. E ainda
mais mal-humorada. E ainda mais reclamona. E ainda mais paulista escrota e
com orgulho. E tudo mais. Até que encontrei a filha do zelador na rua e ela
apontou, com seu dedinho de quem tem quatro aninhos de idade e uma vida
linda, que aquele som, na verdade, era dos macaquinhos da árvore que fica
em frente ao meu quarto.
Eu tinha macaquinhos lindos na árvore, que coisa bucólica, pueril. Vivam
os macaquinhos!
Eram macaquinhos fofos, lindos, bebês, uns chuchuzinhos de seres. E eu
subi correndo pra ficar vendo os macaquinhos e chorando. De
arrependimento. De emoção. De saudade. Sem motivo. De tristeza por eu
estar sempre na defensiva e não conseguir ver nem as coisas boas. As coisas
bobas. Os macaquinhos. E eu sempre vendo rato em tudo.
Na minha rua, ainda que emprestada, tem de tudo, até motivos pra sorrir
um pouco ou tentar ser uma pessoa melhor.
20.
MAIS UM PAR DE
TÊNIS VELHOS
Até que enfim, pensei, quando o sol entrou de leve pela janela e fez os
cachos dele brilharem. Eu olhei tão apaixonada que ele sorriu, um sorriso do
tipo “eu sei que eu sou foda”.
Não, eu estava louca novamente, ele estava sorrindo para uma piada idiota
qualquer que alguém havia mandado por e-mail. Ele nem me via daquele
ângulo com seus olhos pequenos, profundos e da cor dos cabelos, mas eu via
seus cachos nunca penteados brilhando o dia todo.
“Novo editor, muito prazer. Vou tentar empurrar aí umas colunas de
cinema.”
Aquela frase ficaria imortalizada na minha mente, não só porque ele era
novo, editor, ia empurrar e entendia de cinema. Mas porque para cada
terminação de palavra um resto de vogal rouca e sexy demorava a desaparecer
no ar. Vou tentaaaaar empurraaaar... aquilo entrava dentro de mim, goela
abaixo, corria pelo sangue, saía na calcinha. A voz dele era rara, baixa, firme,
rouca e madura. E pra piorar sua boca era um desenho perfeito perdido num
emaranhado estranho de pêlos que se interligavam em bigode e cavanhaque.
Eu só conseguia olhar para a sua boca e pensar em tipos de arrepios e cócegas
em partes de mim que eu nem lembrava que existiam.
Um dia ele demorou pra voltar do almoço e eu não resisti, quis saber um
pouco mais daquele mundo. Em cinco minutos descobri um universo
perfeito. Em cima da mesa ele tinha cinco CDs: Tim Maia em sua versão
Racional (o que prova que ele deve ter amigos legais que já fumaram muita
maconha, mas agora trocam dicas de móveis e pôsteres bacanas para a casa
em que moram sozinhos), Cartola (o que prova que ele já sofreu por amor,
mas superou e está pronto novamente porque a vida sem amor é uma merda),
Frank Sinatra (ele sabe ser um pouco mafioso e levar uma mulher elegante a
um restaurante chiquérrimo, pedir um bom vinho, obviamente pagar tudo e
depois mostrar a pistola), Strokes (ele é jovem e moderno, só romance à
moda antiga enche o saco) e um CD rabiscado, de caneta própria para CDs,
que trazia escrita a palavra “livro” (sem comentários, eu poderia bater uma
punheta agora sentada sozinha naquela mesa).
Sua proteção de tela era uma foto P&B de um nenê olhando para o pinto,
mas eu sabia que ele não tinha filhos, logo, ele ainda era um tio bacana que
gostava de crianças, o que torna um homem sempre ainda mais bacana.
O típico leonino volta com sua juba iluminada, reclama que depois de
comer massa o sono impera no rei e vira um touro preguiçoso entregue à
luxúria da contemplação mundana. Espreguiça de leve e eu consigo ver um
pouco da sua cueca xadrez.Xeque-mate, esqueço que sou dama, não tem
como ganhar de um encantamento porque já se ganha só por estar encantado.
Se ele quiser, sumo agora daqui e enfio minha mão com toda a força do
planeta naqueles cachos, beijo todos os emaranhados com a pressa de quem
tem medo do fim do mundo. Olhar pra ele é o fim do mundo, o fim da rotina,
o fim da dor, o fim da espera. Ele é vida nova e tudo vai dar certo.
“Tô triste hoje”, ele solta no meio da tarde. Sim, claro. Ele é profundo, ele
é intenso, ele é sensível, um homem desses fica triste no meio da tarde, um
horário entre o começo do nada e o fim do nada. O meio do nada é ainda
mais nada do que tudo. Ele sofre por estar aqui sentado, mas ao mesmo
tempo sofre porque estar agora sem ter onde sentar também é angustiante.
Viver é angustiante. Senhor, sim, ele me entende.
“Por que você está triste?”
“Minha mulher jogou meu tênis velho fora.”
21.
THE KILLERS
Sempre que uma situação começa a ficar boa ou simplesmente começa,
solto minhas frasezinhas-bomba. Não sei se com isso quero realmente foder a
minha vida ou me proteger de me foder. Acho que, segundos antes de
explodir tudo, penso assim: se eu falar a frase mais errada do mundo, só os
realmente fortes sobreviverão. O que eu não percebo é que, no começo de
alguma coisa, ninguém ainda é realmente forte para agüentar minhas
frasezinhas-bomba.
E todo mundo, sem exceção, acaba correndo assustado. E no dia seguinte
eu acordo com aquele misto de vitória com tristeza. Sozinha novamente.
Como se isso fosse um prêmio, mas também uma doença.
Dentre as minhas frasezinhas-bomba tenho três prediletas: “tô morrendo
de saudades de você”, “a vida sem amor é uma merda” e “você me dá pouca
atenção”. Quase nunca tô morrendo de saudades de alguém, não existe a
menor chance de eu amar algum desses trastes que me aparecem e caguei se
eles me dão ou não muita atenção. Mas ainda assim falo, ainda assim mando
uma frase dessas. Só pra ter o triste prazer de ver o covarde ficando branco,
escondendo os dentes, enfiando o pinto no cu. E sumindo finalmente da
minha vida.
É o jeito que arrumei de me rebelar contra essa hipocrisia masculina. Eles
podem dormir na casa da gente, enfiar o pauzinho no meio das pernas da
gente, pedir uma torradinha com requeijão de manhã, mijar pra fora do nosso
vaso, contar a vida deles e pedir mais carinho nas costas. Mas não suportam
ouvir no dia seguinte um simples “gosto de você”. Covardes de merda. Odeio
essa hipocrisia masculina. Se eles falam mil vezes que querem te ver é tesão e
você não pode se assustar, mas, se você falar uma única vez que quer vê-los,
é porque você é uma mala que está “misturando sentimentos”. E eles podem
se assustar. Que preguiça desse planetinha dos macacos e suas bananas.
E sigo com minhas frases matadoras. “Pensei em você hoje”; “Voltei antes
pra te ver”; “Vamos nos ver hoje?”; “Vamos comigo na festa da minha
amiga?”; “O que você vai fazer no feriado?”.
E tenho cada dia mais nojo de como frases ditas pra serem agradáveis
soam como um assassinato. E tenho nojo de pensar que, quando você tira o
controle deles, eles não sabem mais o que fazer com você. “O que eu vou
fazer com uma mulher que eu já conquistei?” Que tal continuar conquistando
todos os dias, seu idiota? Que tal viver uma história que passe da primeira
página? Tenho cada dia mais nojo de como as pessoas se consomem e não se
conhecem, não vivem nada. Não sabem nada da vida da outra a não ser o
tamanho dos peitos e se o desenho dos pêlos é mais para Claudia Ohana ou
bigodinho do Hitler.
Sempre lembro de uma vez que fui passar cinco dias com um namorado no
alto de uma montanha e ele me apareceu com um verdadeiro “kit putaria”.
Passou antes no sex shop e comprou de óleo de massagem a roupinha de
enfermeira. Tenho certeza que fez isso porque pensou “que porra vou fazer
com uma mulher cinco dias em cima de uma montanha a não ser trepar?”. Se
fosse com algum dos seus amiguinhos eles poderiam rir, se divertir, beber,
conversar, apostar corrida, jogar videogame, brincar na piscina, fazer trilha.
Mas com uma mulher? Um ser estranho chamado mulher? Que porra ele iria
fazer, não é mesmo?
Homens acham que a página 1 é trepar e a página 2 é casar. E como têm
pavor da 2 (e quem disse que as mulheres também não têm?) acabam nunca
saindo da 1. E nisso conversas incríveis, descobertas maravilhosas e histórias
lindas morrem antes mesmo de nascer. Eles podem te comer, mas jamais
passear de mãos dadas com você.
Isso tudo me dá um bode profundo. Mas no fundo tenho mais bode é de
mim. Por ter dito frases desse tipo para pessoas sem nenhuma magia, sem
nenhuma poesia. E que em vez de enxergar beleza enxergaram “carne
ganha”. E no fundo eu nem sentia nada por essas pessoas, estava apenas
testando a hipocrisia do mundo. Estava apenas comprovando que se tratava
de mais uma “carne podre”.
Acho de verdade que a puta da Glenn Close estragou a vida de algumas
mulheres. Basta você dizer um inocente “você é legal” pro cara achar que
você vai se mudar pra casa dele, mergulhar o poodle dele numa panela com
água fervendo e parir trigêmeos bem no dia do futebol com os amigos. Da
onde eles tiram que somos tão assustadoras? A gente só quer ter com quem
rir no final do dia e ganhar alguns beijos no lugar certo. Nada muito diferente
do que eles querem.
Mas cansei. Definitivamente cansei. Cansei de um mero “nossa, tava
pensando em você” equivaler a um “nossa, tava pensando em você de terno e
gravata no altar de uma igreja”. Já que pouca coisa assusta tanto, decidi que
agora vou jogar pesado. Daqui pra frente minhas frases matadoras vão ser de
“quero ter um filho seu” pra pior. Quem quiser sair comigo vai ter de ouvir
“posso dormir aqui?” ou ainda “acho que posso me apaixonar por você”.
E quem sobreviver a esse verdadeiro extermínio de pretendentes vai
descobrir que eu sou só mais um ser que morre de medo do amor e da
convivência. Vai descobrir que falo as frases erradas justamente pra espantar
as pessoas e não ter mais trabalho. Mas de verdade (e dessa vez sem medo de
assustar ninguém) adoraria encontrar alguém que resolvesse correr esse risco
junto comigo.
22.
A PRIMEIRA VEZ
Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um
texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer coisa.
Você sempre foi o único homem que me amou. E eu nunca te escrevi nem
uma frase num papelzinho amassado.
Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de
abraçar o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu
também, depois, eu dormir meio chorando porque é impossível abraçar
sequer alguém, o que dirá o mundo.
Outro dia eu encontrei um diário meu, de 1999, e lá estava escrito “hoje eu
larguei meu namorado sentado e dancei com ele no baile de formatura”. Ele,
no caso, é você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu
nunca tendo escrito nenhum texto para você, por diversas vezes larguei vários
namorados meus, sentados, e dancei com você. Porque você é meu melhor
companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado.
Depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos
escuros espelhados de maconheiro. E eu de calça colorida daquelas
“bailarina”. E nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha
da classe. Mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso
supersexy. E eu me achei ridícula na foto, mas senti uma coisa linda por
dentro do peito.
Aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha
da classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões
(uns babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um
beijo. Fingindo que ia desmaiar. Foi ridículo. Mas foi menos ridículo do que
aquela vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei à força.
Você saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo.
Eu não sei por que exatamente você não mereceu um texto meu, quando
me deu meu primeiro CD do Vinicius de Moraes. Ou quando me deu aquele
com historinhas decrianças para eu dormir feliz. Ou mesmo quando, já de
saco cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu
aquele cartão-postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça.
Também não sei por que eu não escrevi um texto quando você apareceu
naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase
mais linda que eu já ouvi na minha vida: “eu sei que você não gosta de mim,
mas deixa eu te olhar mesmo assim”.
Talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a
única coisa que não se pede a alguém que ama a gente: “me faz companhia
enquanto meu namorado está viajando?”. E você fez. E você me olhava de
canto de olho, se perguntando por que raios fazia isso com você mesmo.
Talvez porque, mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava
querendo apenas me olhar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu
amor para sobreviver um pouco em meio à falta de amor que eu recebia de
todas as outras pessoas que diziam estar comigo.
Depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de
gostar de mim. E eu podia ter escrito um texto para você. Claro que eu senti
ciúme e senti uma falta absurda de você. Mas, ainda assim, eu deixei passar
em branco. Nenhuma linha sequer sobre isso.
Depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou
até desopilar todos os cantos do seu fígado. Eu fiquei numa tristeza sem fim.
Depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. E fiquei feliz. Pode me
xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta um
pouquinho de mim.
Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar.
Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Strokes no carro
ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. Tudo é você.
Quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. Ou quando eu
fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você
do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei
infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo,
mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. E, ainda assim, nunca, nunquinha,
eu escrevi sequer uma palavra sobre você.
Até hoje. Até esta manhã. Em que você, pela primeira vez, foi embora sem
sentir nenhuma pena nisso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você
simplesmente foi embora. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida
cheia de coisas que não são ela. E que você usa para não sentir dor ou
saudade. Foi a primeira vez que você deixou eu te olhar, mesmo você não
gostando de mim.
E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e
passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros,
mereceu um texto meu.
23.
ELES
Tentei explicar pra senhora minha mãe, a qual queria mais uma vez se
enfiar no shopping em mais uma das visitas que me fez durante o tempo que
morei no Rio, que prefiro o caminho pela praia, cheio de gente que não vai te
estuprar ou roubar caso você, num ato de sensibilidade menos controlada,
desfaleça no meio da rua. Gente bonita, com todos os dentes, cartões e
diplomas. E não aquele caminho que vai por dentro da avenida cheio de...
cheio deles.
Ela não entendeu nada, justificando que o caminho que vai por dentro da
avenida era mais rápido e prático. Eu fiquei sem saber o que dizer. Como é
que se explica pra alguém que você prefere uma coisa a outra por causa
deles? Eles. Mas quem são eles?
Aí briguei com ela. Eu não queria o shopping maior, cheio de lojas de tudo
quanto é tipo. Mas o menorzinho, com as grifes e coisas charmosas e tal.
Tudo para não estar perto deles. Não gosto deles. Mas quem são eles?
Queria explicar pra minha mãe que tenho “elesfobia”. Não gosto de estar
no mesmo lugar que eles, saber que tenho o mesmo gosto que eles, que
compro o mesmo que eles. Não me misturo a eles. Não vou a boteco de
quinta, padaria suja, show de graça, praça de alimentação, queimas de
estoque, comemorações a que cada convidado leva um prato e festas que
sempre terminam com casais nada fotográficos se beijando porque é o que
temos. Tudo para não chegar nem perto do cheiro de couro dez reais com
creme amarelo de tubão gigante. Mas quem são eles?
Tenho pavor de estar no mesmo lugar que eles. Mas não me pergunte
quem são eles. Eles são todos iguais, com seus cachorros, com suas poses,
com suas sacolas, com seu nariz empinado, com seu sorrisinho de “você tem
cama, eu tenho berço”. Odeio eles. Odeio como param em filha dupla na
Oscar Freire e descem calmamente, como se ter dinheiro fosse alguma
doença mental. E você até quer gritar “ô retardado”, mas fica com pena do
cara. Coitado, ele tem um Audi TT. Odeio eles.
Eles que resolvem tudo não fazendo porra nenhuma. Que riem
aristocrática e pontualmente na hora estipulada para rir e se atrasam para
chegar ao psiquiatra porque trabalhar para o sobrenome quatro horas por dia
gera a maior confusão na agenda. Eles que demonstram pouca ou nenhuma
ânsia de vida porque é falta de finesse sentir as coisas tão passionalmente. Ser
passional é coisa de pobre. E eles, eles estão acima do bem e do mal. Eles
casam como se dinheiro cagasse de árvore e se separam como se uma bala
jujuba valesse euros. Eles. Odeio eles. Em suas festinhas fechadas, com
meninas que só gemem interjeições burras e garotos com pau 2.0 na garagem.
Mas quem são eles? Como explicar, como apontar, como acusar, como?
Quem são eles?
Odeio eles. Os que pertencem ao mundo chique, desde que parcelado. Os
que moram em bairros emergentes, comem coisas caras só três dias depois do
pagamento ou pra gastar com grand finale o Visa Vale. Eles têm estilo, eles
suaram. Olha lá o carrão, olha lá o apê bacanudo, fazendo sombra pro apê
bacanérrimo. Eles estão cada vez mais se distanciando dos outros e
encostando neles, mas quem são os outros, eles e neles?
Eles odeiam eles, os primeiros eles que lotam botecos sujos e cheiram
Davene. Eles também odeiam os segundos eles, os eles que conseguiram tudo
que eles conseguiram mas sofrendo a metade, dando metade do valor. Eles
adoram falar que dão valor. E eu acho eles um porre com sua mania de dar
valor a tudo e querer o tempo todo renegar os eles e ser os outros. Eles são
preconceituosos, perdidos no meio do caminho, carentes como o filho do
meio, felizes por pertencer ao maior share da humanidade, ainda que não
tenham nem o maior share da grana nem o da desgraça. Mas como explicar
pra alguém que eu cansei de tudo porque não quero ser eles, nem sei quem
são eles?
Percebi que o mundo tinha globalizado de vez e sem volta quando fiz hora
numa lojinha besta do shopping Guarulhos esperando pelo vôo para Firenze
e, ao chegar a Firenze, fiz hora na mesma loja até liberarem o meu hotel. A
mesma loja, a mesma vitrine. Se Guarulhos já pode ser Firenze, pra onde
fugir? Em quem se agarrar? Se somos mesmo todos iguais e tava certo aquele
papo todo de crescer espiritualmente, tô fora. Pô, eu só queria ser eu, será que
rola? Mas a cada dia mais sou todos eles. E os odeio porque é normal e
incontrolável brigar com os irmãos. Ver o feio de si espelhado no outro,
como diria algum chato de plantão.
Deixaram todo mundo igual, todos os sentimentos iguais, todos os tipos de
mau humor iguais, todos os preconceitos absurdos. Você não pertence a nada
e pertence a tudo. Você não pode mais apontar ninguém, não por ser feio,
mas porque tudo virou uma grande massa amorfa sem personalidade. Você é
eles e eles são você. Mas de quem a gente tá falando, afinal?
24.
O TEATRO DA
MOÇA BANAL
Olho pela sacada da minha casa e vejo você chegando. Corro para o enorme
espelho do meu quarto e repito em mantra: eu não gosto dele, eu não gosto
dele, eu não gosto dele.
Tenho quase trinta anos e consegui estragar todos os meus
relacionamentos simplesmente porque gostei demais das pessoas. Dessa vez
quero acertar, por isso, combinei comigo que, apesar de estar morrendo por
você, não gosto de você.
Espero você tocar a campainha olhando o escuro pelo olho mágico. Meu
coração dispara, mas eu mandoele parar. Estraguei todos os meus
relacionamentos de tanto que meu coração dispara. Dessa vez quero acertar,
dessa vez quero que alguém fique comigo ao menos um mês sem me achar
louca. Cansei de sempre ser a garota louca que espanta todo mundo.
Você tem cheiro de roupa limpinha com mente suja e eu quero te rasgar
inteiro. Mas apenas te dou um beijinho no rosto. Preciso me comportar. Ser
como as minhas amigas que se dão bem e arrumam namorados apaixonados.
Há anos que eu rasgo os rapazes, enlouqueço, me apaixono, devoro. E
termino sozinha no Espaço Unibanco querendo morrer enquanto olho sem
fome para o pacotinho com dez minipães de queijo.
Chega. Dessa vez vou acertar. Não vou chorar na sua frente porque acho
um absurdo estar viva, não vou pirar porque deu quatro da manhã e eu tenho
a impressão de que a noite é uma coisa de pirar a cabeça. Não vou beijar sua
nuca no meio da noite e gostar de você como naquela canção do Legião que
diz que é como se não houvesse amanhã. Eu gosto das pessoas pelo prazer de
gostar e não porque deu tempo de gostar delas. E ninguém entende nada. E
todo mundo se assusta. Mas prometo ser uma mulher normal dessa vez.
Você não sabe por que eu não te atendi o dia todo. Eu te conto que é
porque estava muito ocupada. Minhas amigas sempre usam essa desculpa e
sempre namoram. Eu era a louca que nem esperava os caras ligar e já ligava
pra eles. Mas dessa vez tô ignorando o telefone. Mesmo que ele fique no
meio das minhas pernas o dia todo esperando um telefonema seu. Mas você
jamais vai saber disso.
E jamais vai saber mesmo, sabe por quê? Porque você é o primeiro
homem do mundo que não sabe que eu escrevo sobre a minha vida. Chega.
Todos os homens morrem de medo dos meus textos e eu não agüento mais
essa porra dessa solidão que me dá toda vez que procuro um pouco de amor
nos beijos e abraços curtos que alguém me dá só pra poder transar depois.
Chega. Você não vai saber nem a pau que eu sou escritora e muito menos que
eu gosto de você e escrevo sobre você.
Aí você fala que vai cortar o cabelo e eu quero implorar pra você não
cortar. Porque esses seus cachos acabam comigo. O cheiro do seu cabelo. A
maneira descabelada que você usa pra parecer arrumado. E eu amo a sua cara
de argentino e que você odeie os argentinos. E eu amo como a sua calça nova
cai bem em você e como você fica elegante de chinelo. E eu quero te pedir
pra deixar tudo como está e não cortar meus cachos prediletos de todos os
cachos. Você me salvou. Eu não agüentava mais pensar nos mesmos caras
que eram sempre os mesmos caras.Você é novinho em folha e eu sou louca
por você. Mas tudo isso eu não te conto pra você não achar que eu sou louca.
Chega. Dessa vez vou fazer tudo certo.
Já é a sexta vez que você vem na minha casa e até agora nada. Não transei
com você. Apesar de pirar na sua barriga e na sua nuca. E de querer eternizar
o seu cabelo e o seu nariz feio. E de achar que o seu cheiro é o cheiro de uma
nova vida que eu estava precisando tanto. E de eu te adorar principalmente
porque eu já nem sabia mais como era adorar alguém novinho em folha. Não,
não transei com você. Chega de transar sonhando em andar de mãos dadas.
Agora vou andar de mãos dadas pra ver se vale a pena transar. Porque dessa
vez vou fazer tudo direito. Chega.
E você nem sonha que eu sou bipolar, quero ser mãe e acredito no amor da
vida. Acredito no amor pra sempre. Acredito em alma gêmea. Você nem
sonha com essas coisas porque só conversamos coisas leves e engraçadas.
Chega de ser a louquinha intensa. Maior legal transar e se divertir com a
louquinha intensa, mas quem agüenta o tranco de me assumir, de me amar?
Ninguém. Chega.
E você pede pra fazer xixi e faz o xixi baixinho. E eu corro no espelho de
novo e repito cem vezes que não gosto de você. Não gosto de você. Não
gosto de você.
Porque, se eu gostar de você, eu sei que você vai embora. E eu
simplesmente não agüento mais ninguém indo embora. Porque nessa vida
maluca só se dá bem quem ignora completamente a brevidade da vida e
brinca de não estar nem aí para o amor. E eu preciso me dar bem e por isso
ignoro minha urgência pelo amor. Porque, se você sentir urgência em mim,
vai é correr urgente daqui. Chega.
E você implora para a gente finalmente transar. Já é a sexta vez que você
vem aqui. E eu quero muito. Muito. Porque você tem a voz mansinha e só
fala coisa inteligente. E você é cínico sem ser maldoso. E graças a Deus você
não é publicitário. Nem é amigo dos meus amigos. E tá cagando para as
meninas bonitas do seu orkut porque você pira em mim. E eu quero transar
com você e te contar que escrevo sobre você e que morro pelo seu cabelo.
Mas não, não. Estou morrendo de vontade de ser eu, mas ser eu só tem me
feito perder e perder. E eu quero ganhar. Só dessa vez. Chega.
E eu quero me dar de bandeja pra você. E dentro de mim uma voz diz:
pira, Tati, enlouquece. Vive um dia e já está bom. Depois eu demoro semanas
pra me levantar, mas pelo menos fui intensa e vivi um dia. Mas não agüento
mais nada disso. Quero viver uma história. Por isso dessa vez não vou transar
nem gostar de você. Tchau. Peço pra você ir embora. E você jura que eu não
estou nem aí pra você. Melhor assim. Dessa vez quero fazer tudo certo.
Chega de fazer tudo errado.
E eu te espio da janela, indo embora. E quero berrar o quanto gosto de
você. E te pedir em namoro. E rasgar sua roupa. E te comer. E dormir
enroscada no seu cabelo. E te mandar flores amanhã. E mais uma vez agir
como um homem. Mas eu cansei de ser homem. Chega de usar o pinto que eu
não tenho pra foder comigo. Eu sou menina. E meninas só transam depois do
sexto encontro. Ou depois que o cara fala que gosta delas. Dessa vez vai ser
assim. Chega.
E se você não se apaixonar por mim mesmo com todo esse teatro de moça
banal que eu estou fazendo, vai ser a prova que eu precisava pra saber que
você realmente vale a pena.
25.
EU JÁ ESTIVE POR LÁ
Outro dia fui ao cinema com um grande amigo. Sentamos um ao ladinho do
outro, dividimos uma pipoca gigante, confidenciamos comentários bobos a
respeito do filme. Essas coisas que amigos fazem. Tudo corria bem não fosse
um incômodo generalizado que eu sentia na alma: “peraí, mas eu já dormi
com esse cara!”.
Não adianta, não consigo ser natural. Homens têm razão quando não
gostam de ver suas namoradas muito próximas de “amigos” que já
experimentaram do doce. Sempre vai rolar uma piadinha do tipo “ah, mas eu
sei que você não é realmente loira”, ou ainda “pára de ajeitar essa blusa, eu já
vi tudo que tem aí embaixo mesmo”. Quem já “esteve por lá” sempre vai se
sentir, ainda que inconscientemente, um eterno possuidor de território,
mesmo que o outro case ou mude de sexo. São como vacas ou bois
carimbados.
E aí o meu amigo pergunta se eu quero ficar com o saco na mão,
referindo-se à pipoca, claro. E eu não consigo disfarçar uma risada eminente.
Depois ele pergunta se eu quero uma carona pra voltar pra casa ou prefiro
“me virar”. E eu quase me vejo explicando pra ele, de novo, que não curto
esse papo de me virar. Mas apenas sorrio e fujo dali o mais rápido possível.
Uma vez pelada para uma pessoa, parece que você nunca mais se sentirá de
roupa na frente dela.
Pior é quando seu ex-parceiro sexual começa a namorar uma amiga. E
todo mundo dá uma de civilizado e sai junto, afinal, “faz aí uns bons cinco
anos que você saiu com o cara e nem rolou nada muito forte entre vocês”. E
você tenta desfocar o máximo que pode das lembranças, mas é só ele abrir a
boca com aquela língua presa e a voz nasalada, que você lembra que ele
parece o Pato Donald tendo prazer. E não consegue disfarçar um pouco de
pena que sente da sua amiga. Ela, mais cedo ou mais tarde, vai se encher
daqueles gemidos de gás hélio que ele dá.
E aí você vai a uma festinha dessas que têm mais da metade das pessoas
com quem você já conviveu ou trabalhou na vida e descobre, para seu falso
desespero, que você aproveitou bem seus últimos dez anos. Muito bem, por
sinal. E o incômodo na alma começa de novo. Primeiro você tem que ser
simpática e natural comaquele uruguaio que você teve de dispensar porque
tinha mania de lamber seu braço. Creeeeedo. Depois você encontra um
daqueles caras inesquecíveis e é inevitável sorrir que nem uma idiota mesmo
que o assunto seja a morte de alguém. O cara te conta que está desempregado
e você sorri. Que tem uma doença terminal e você sorri. E vai explicar pro
cara que isso é um elogio...
Pior é aturar aquele tapinha nas costas e aquele olhar de “ei, gata, lembra
de mim?” de algum estagiário precoce que você pegou pra esquecer algum tio
moleque. Claro que você lembra dele, teve que atender a mãe dele umas
cinco vezes só em uma tarde! E aí você encontra o tio moleque também, e é
inevitável ter que cumprimentá-lo “adultamente” mesmo lembrando que
vocês adoravam interpretar astros do rock na frente do espelho.
Simplesmente não dá para perguntar da CPMF ou das crianças e fingir que
nada está acontecendo! A regra é simples: se você já deu, não dá!
Fica sempre aquele fantasma berrando na sua cabeça: “eu já estive por lá!
Eu sei onde ele tem pinta, eu sei onde ele tem cócegas, eu sei onde ele não
tem domínio, eu sei que ele tem uma cueca rasgada, eu sei que ele acorda
com baba branca ressecada, eu sei que ele imita o Pavarotti, eu sei que ele
pede coisas estranhas...”. E tudo isso passando pela sua cabeça enquanto você
reclama do calor, do governo, da festa, do emprego, das contas para pagar...
quando tudo que você mais queria era reclamar: meu amigo, por favor, me
explica onde eu tava com a cabeça quando estive por aí?
26.
O QUE VOCÊ FAZ COM AS
PESSOAS QUE NÃO QUER MAIS?
Dia desses me ligou uma grande amiga do primário. Cheia de cobranças pro
meu lado, que eu era uma desnaturada, como assim não tinha atendido ao
telefonema dela na madrugada do dia anterior?
Há vinte anos ela era uma ruivinha magra, doce e que sempre dividia
comigo a maria-mole (como é que eu podia comer isso?!) no recreio. Havia
se tornado uma mulher alta demais, que falava alto demais, gesticulava
demais, ligava tarde demais, insistia demais na nossa amizade e agora ainda
era modelete-manequim-atriz-promoter-organizadora de eventos. Mais da
metade dos organizadores de eventos são pessoas que um belo dia pensaram
“hummm, deixa ver o que eu gosto de fazer… eu gosto de ir a festas! Boa,
vou trabalhar com isso”. Não dá, sinto muito, eu ainda gosto da ruivinha do
recreio, mas onde ela foi parar?
Outra que não me deixa em paz é a Paulinha, Paulona na verdade, porque
acabou engordando umas vinte arrobas depois do ginásio. Nós éramos
grudadas e fazíamos tudo juntas. O primeiro beijo aconteceu na mesma
época, a primeira recuperação de física, as primeiras noites em claro
chorando por algum superincrível macho de 13 anos. A gente se adorava
tanto que tomava banho juntas na casa de praia que ela tinha no Guarujá (era
chiquérrimo ir pra Enseada, lembra?) e uma ensaboava a outra, juro que sem
a menor maldade.
Hoje em dia me culpa por ter ficado gorda e eu não; acho que ela pensa
que, se eu fosse realmente uma amiga de verdade, a teria acompanhado até
nisso! Ela me liga toda semana com insinuações do tipo “claro que ele te
ligou, você é magra”, “claro que você não me chamou, você achou que eu
não ia caber no carro”. Tentei ajudar, ter paciência, mas a verdade é que ela
se transformou num ser insuportável e eu não quero mais ser amiga dela. O
que fazer? Como posso simplesmente abandonar minha melhor amiga do
ginásio?
No colegial eu tinha duas melhores amigas: a Márcia e a Joana. Apesar de
a escola ser boa, eu estudava em um bairro mais simples com pessoas mais
simples, afinal: minha família é mais simples. Até aí, nenhum problema.
Mas, como nessa vida a gente anda pra frente, me formei numa faculdade
bacana, trabalhei em bons empregos, ganhei uma graninha, conheci gente que
me ensinou o que é um bom restaurante, bom filme, bom livro, boa viagem,
mudei de bairro, de carro, de cabelo, de roupas, de opinião.
Enquanto isso, a Márcia se casou com o homem mais ogro do planeta, ele
não a deixa trabalhar e adora ver que ela depende dele até pra soltar um pum.
Ela nunca ouviu falar no Woody Allen, não tem carta de motorista e acha que
tudo é pecado. A Joanna continua no mesmo emprego desde os 17 anos,
odeia o emprego, mas aprendeu com o seu pai que “trabalhar não é pra ter
prazer, é pra comprar comida”, seu último namorado era o “líder” de uma
banda de pagode e batia nela de vez em quando.
Aí eu me pergunto: que assunto eu vou ter com essas pessoas? Sempre que
faço um esforço sobrenatural pra aparecer por segundos em algum evento
comemorativo, é com olhares de “traidora, ela se tornou um ser humano
melhor” que sou recebida. Não quero mais passar por isso, mas como ignorar
amigas tão antigas?
A maioria dos meus amigos de hoje foram grandes amigos do passado,
que cresceram comigo, sofreram comigo, melhoraram comigo. São pessoas
que eu admiro muito e que, mesmo com seus defeitos, me acrescentam, me
fazem bem pra alma. Mas o que fazer com os outros que ficaram pra trás e se
perderam com o tempo? O que fazer com os íntimos que se tornaram
estranhos?
Não há muito o que fazer, a não ser sentir saudades de quando tudo era
simples como dividir uma maria-mole e ingênuo como dividir um sabonete.
Tenho muitas saudades daquelas amigas, mas tenho mais ainda de mim, que
julgava menos e era muito mais feliz.
27.
EU NUNCA VOU ENTENDER
Mais um domingo que você me liga. Igual faz há uns quatro ou cinco anos.
Você beija a sua mãe depois do churrasco, dá um oi carinhoso e
finalmente sem culpa para a sua ex-mulher, deixa as meninas em casa, cheira
sua camiseta pra ver se a coisa tá muito feia e descobre que sua vida está
prestes a ficar vazia: chegou a hora de me ligar.
Você não sabe ao certo o que vê em mim, mas também não sabe ao certo o
que não vê. Você sabe que pode comer uma mulher mais gostosa do que eu,
afinal, você é rico e pra piorar ainda tem uma banda de rock. Mas por alguma
razão prefere a gostosa garantida, aquela que ainda ri das suas piadas. Mesmo
sendo as mesmas piadas há quatro ou cinco anos.
Aí você me liga, com aquele ar descompromissado e meigo de quem só
quer tomar um café com uma velha amiga. A velha amiga que você come há
quatro ou cinco anos, mesmo nunca tendo tomado sequer um café com ela.
Eu não faço a menor idéia do que vejo em você, mas também não faço
idéia do que não vejo. Eu posso dar para um cara mais gostoso, como de fato
já fiz milhares de vezes. Mas por alguma razão prefiro suas piadas velhas e
seu jeito homem de ser. Você é um idiota, uma criança, um bobo alegre, um
deslumbrado, um chato. Mas você é homem, você é pai, você é chefe, você
segura o tranco da vida. E talvez seja só por isso que eu ainda te agüente:
você pode ter todos os defeitos do mundo, mas ainda é melhor do que o resto
do mundo.
Aí a gente, sem saber ao certo o que está fazendo ali, mas sem lugar
melhor para estar, acaba pulando o café que nunca existiu e indo direto ao
assunto. O mesmo assunto de quatro ou cinco anos que, assim como as suas
piadas, nunca cansa ou enjoa.
E aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. Mesmo quando não é
bom, mesmo quando cansado e egoísta você não espera por mim e vira pro
lado pra dormir ou pra voltar à sua bolha egocêntrica de tudo que é seu, eu
sempre me apaixono por você.
Todas as vezes que te vi, nesses últimos quatro ou cinco anos, eu sempre
me apaixonei por você. Eu sempre estive pronta pra começar algo, pra tomar
um café de verdade, pra passear de mãos dadas no claro, pra poder te
apresentar ao sol sem receber mensagens de gente louca ou olhares curiosos,
pra escutar uma piada nova. E você sempre ignorou esse fato, seguindo seu
caminho que sempre é interrompido pelo vazio da sua camiseta fedendo a
churrasco.
Eu nunca vou entender. Eu nunca vou saber por que a vida é assim. Eu
nunca vou entender por que a gente continua voltando pra casa querendo ser
de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou
entender por que você é exatamente o que eu quero, eu sou exatamente o que
você quer, mas as nossasexatidões não funcionam numa conta de mais.
Eu só sei que agora eu vou tomar um banho, vou esfregar a bucha o mais
forte possível na minha pele e vou me dizer pela milésima vez que essa foi a
última vez que vou ficar sem entender nada.
Mas aí, daqui a uns dias, igual faz há uns cinco ou seis anos, você vai me
ligar. Querendo tomar aquele café de sempre, querendo me esconder como
sempre, querendo me amar só enquanto você pode vulgarizar esse amor. Me
querendo no escuro.
E eu vou topar. Não porque seja uma idiota, não me dê valor ou não tenha
nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida.
Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência:
não entendemos nada, mas continuamos insistindo.
28.
TREPAI-VOS, IRMÃOS — UM
TRATADO SERIÍSSIMO POR
UM MUNDO MELHOR
Cresci com a minha mãe dizendo que mulher que só pensa em sexo não é
coisa boa. Tantos livros para ler, tantas contas para pagar, tanta tristeza e
violência no mundo, tanta coisa séria para pensar... Sinto muito, mamãe. Mas
acho que vou te decepcionar. Sabe, fiz uma recapitulação da minha vida e
descobri que, apesar de tudo, não passei um segundo da minha existência
pensando em outra coisa.
Eu nunca comecei cursos ou empregos novos verdadeiramente motivada
pelos desafios de uma carreira ou de salários melhores. O que sempre me
impulsionou era a pergunta: aqui tem um bom número de homens para quem
eu daria? Não? Então não quero. Não que eu fosse dar para todos. No final
das contas, apesar de eu adorar a minha personagem que vende o oposto,
acabo não dando pra ninguém ou quase ninguém. Mas não há nada melhor do
que estar em um ambiente onde isso poderia acontecer. E que atire a primeira
pedra o ser humano que não pensa assim. Juro que não é promiscuidade, é
apenas a natureza. Sexo é a melhor coisa da vida e ponto final. Quando
acabam as chances de ele acontecer, partimos para outros ares. Os homens
compram carros maiores, as mulheres, peitos maiores. Eu simplesmente
mudo de emprego ou turminha de amigos. Mas a verdade é que estamos
todos pensando em sexo. Até um filme interessante é ainda mais interessante
quando alguém quer transar com você porque você achou o filme
interessante.
Existe fazer a mala feliz se você não tiver ao menos uma esperançazinha
de fazer sexo no lugar para onde está indo? Existe acordar cedo para uma
reunião, pegar o maior trânsito do mundo, se arrumar minimamente bem, se
você não está interessada em fazer um “meting” com alguém desse meeting?
Sejamos sinceros. Claro, não sou homem e, na maioria das vezes, apesar de
eu me odiar infinitamente por isso, me apaixono. E sempre imagino o
desejado da vez me esperando de gravata-borboleta no altar. Sou bobinha.
Mas uma bobinha que gosta da coisa.
Não consigo ser séria. Certa vez um grupo de amigos me perguntou se eu
gostaria de ajudá-los fazendo propaganda sem fins lucrativos para algumas
ONGs. Num primeiro momento pensei: trabalhar de graça nem a pau. Depois
fui à primeira reunião e constatei: bom, dos sete caras que estão no projeto,
eu daria para quatro! Topei na hora e nunca fui tão engajada. Teve uma outra
vez também que duas agências de propaganda estavam disputando a minha
contratação. Escolhi a que ia me pagar infinitamente menos, mas tinha o
chefe mais gostoso. Claro! Dinheiro é bom, mas sem sexo não vale de nada.
E sorte de quem tem uma boa vida sexual associada a um amor
verdadeiro. Essa soma sim é a verdadeira busca da vida. Que Caminho de
Santiago que nada. Que meditar em cima de uma montanha que nada. Já viu
alguém que está superfeliz no amor e trepando alucinadamente sumir para
encontrar seu verdadeiro eu? Isso é coisa de quem tá na seca ou acabou de
levar um pé na bunda. Entre um belo corpo nu e um tronco, só um babaca vai
preferir trocar energias com a árvore. No último retiro espiritual em que me
meti só não morri porque pegava o canal Playboy na televisão do quarto.
Mas sabe, mãe. Eu não acho que meu prazer seja tão egoísta quanto você
pensa. Eu lembro que uma vez estava caminhando na praia e vi uma bolinha
de frescobol atingir uma gordinha mal-humorada. Ela esbravejou. Ameaçou
bater no moleque. Tocou o terror. E o pai do garotinho, que estava jogando
frescobol com ele, apenas gritou: “a senhora não goza não?”. Adorei aquilo.
Acho que a violência nada mais é que o desejo sexual reprimido. Nada me
tira da cabeça que se todos transassem loucamente o mundo seria
infinitamente menos louco.
29.
QUE NEM CORAÇÃO DE MÃE
Meninas mentem o número! Antes fosse da idade. Meninas mentem o
número dos parceiros sexuais mesmo. Agora eu me pergunto: pra quê?
Feriado passado uma das minhas amigas teve uma idéia genial: clube da
Luluzinha. Fomos em 14 mocinhas para o sítio dela e tivemos dias dignos de
machos: só falamos em sexo e não tivemos um pingo de saudade da
companhia do sexo oposto. Até futebol a gente jogou.
Na segunda noite e depois de muito vinho na cabeça, começou o jogo da
verdade: com quantos você já transou?
Os números variavam de dois (juro!) a seis (juro!). E eu resolvi simular
uma síncope alcoólica e desmaiar no meio do assunto. Não sou obrigada a
dizer nada da minha vida a ninguém, mas também não estava a fim de fazer o
joguinho da santa. E estava na cara que a mulherada estava mentindo. E, se
todas estavam mentindo, por que eu ia ser a única honesta a falar a verdade?
E, se elas estavam falando a verdade, por que mesmo eu ainda era amiga
delas?
A verdade é que corri para meu quarto movida por uma certa insegurança
e comecei a contar. Eu já tinha um número mais ou menos na cabeça, mas
queria ter certeza. Um número que ainda dava para contar nos dedos
(lembrando que tenho pés), mas que certamente era maior do que a variação
de dois a seis.
Fiz as contas mil vezes e dormi pensando: será que eu sou uma safada?
Será que eu não sou moça pra casar? Será que a que transou com dois, três, ...
merece mais do que eu ser mamãe e construir casinha com cerquinha branca?
Calma, Tati, eu me dizia. Essas vacas estão mentindo! Dois a seis o
cacete! Poxa, éramos 14 garotas com quase ou mais de trinta anos! São aí,
chutando por baixo, uns dez ou quinze anos de vida sexual... Anormal eram
elas, não?
Dormi mal. E acordei pior ainda, porque na manhã do dia seguinte ainda
lembrei de mais um que meu cérebro seletivo tinha esquecido. Acho que um
dos únicos, senão o único, com quem eu transei sem estar gostando. Porque
todos os outros, que ainda davam para ser contados nos dedos (lembrando
que eu tenho dois pés), eram rapazes do bem por quem eu havia me
apaixonado.
Eu nunca transei com algum desconhecido que conheci em alguma balada
e muito menos Carnaval. Com todos eu tive algum envolvimento, alguma
história. E no sentido exato da palavra história: a maioria acabou virando
tema de livro ou coluna de revista.
Não que esteja errado transar com alguém da balada ou do Carnaval ou sei
lá eu o quê. Mas, já que eu estava na neura “será que eu não sou moça pra
casar?”, essa era uma boa saída para o meu momento machista ignorante. Me
convenci que estava tudo o.k. comigo. Ou melhor: resolvi que, se daqui a uns
anos meu número passasse de todos os dedos da minha existência, era só
arrumar algum gringo que jamais fosse amigo dos meus amigos homens e vir
com o papinho de “dois a seis”.
Mas acabei concluindo que cada uma faz com sua florzinha o que bem
entender. Algumas resolvem virar maria-sem-vergonha, outras, coroa de
defunto mesmo, porque dois a seis em trinta anos, ... fala a verdade... essa
pessoa está viva? Ou vai ver eu estava sofrendo tanto e essa que transou com
dois, transou com eles na mesma noite, vestida de odalisca. Vai saber?
No fundo, acho ridículo medir a nobreza ou a “bacaneza” de uma mulher
por números. Eu amei ou fui apaixonada ou gostei bastante de todas as
pessoas que dividiram uma cama comigo (ou um sofá, um carro, uma pia, um
estacionamento de loja de decoração).
Quer saber? Meu número não era pequeno, mas meu coração também não.
30.
A DURA (FORTE, GOSTOSA,
CHEIROSA) REALIDADE
Que inferno,que inferno. Vou ter de assumir. Publicamente. Tá doendo.
Chega a ser vergonhoso, humilhante, mas fazer o quê? É a verdade. Nada
mais que a irônica verdade. Eu gosto mesmo, e muito, é de playboy.
Eu tentei de todas as maneiras ver graça nessas espécimes de papete e
óculos apenas funcional (daqueles que dispensam qualquer aro fashion ou
marca conhecida). Tentei com afinco os tipinhos colecionadores de sebos e
traças. Como eu tentei os que querem salvar o mundo entre uma pinguinha
com amigos do curso de sociologia e a fita do Chico tocando abafada no
carrinho popular.
Não são esses os homens interessantes? Não era um desses que eu queria
em casa, botando um Cartola pra dançar de rostinho colado? Botando um
Bob Dylan pra começar o dia odiando os master of war? Um que só
comprasse brinquedos educativos e ecologicamente corretos para nossos
filhos?
Não fui eu que escrevi 567 textos reclamando dos playbas irados e
implorando para o destino colocar nas minhas mãos um autêntico intelectual
que prima pelo cérebro em detrimento ao abdômen?
Sim, fui eu mesma. E eu paguei a minha língua, como dizem por aí. Nos
últimos meses arrumei dezenas senão centenas de homens assim. E, para meu
desespero e inconformismo, não me apaixonei por nenhum deles.
Nenhunzinho sequer. Nem um soprinho mais quente no coração.
Descobri que gosto mesmo é daquela droga de música eletrônica ou do
indie rock do momento berrando num carro mais alto em relação aos buracos
e lombadas da vida. Tudo isso mergulhado a um bom perfume e uma roupa
moderna. Gosto mesmo é do maleta que mostra toda a sua inteligência ao ler
uma boa carta de vinhos. Gosto das cuequinhas Calvin Klein! Que saudade
delas! Chega de zorba furta-cor!
Eu gosto da barriguinha definida, da coxa dura, da virilha cheirosa, da
nuca sem aqueles pêlos extras, do ombro largo. Quem lê demais, vai demais
ao cinema ou filosofa demais em botecos não tem tempo (nem saco) pra ficar
tão gostoso.
Levantar livros, ainda que seja toda a coleção do Em busca do tempo
perdido, não vai deixar nenhum homem com aquele braço de estivador que
eu tanto gosto. Aquele bração que te pega de jeito, puxa teus cabelos, te
coloca de qualquer jeito e te faz sentir segura. Me desculpa, Proust, mas com
um braço desses eu recupero todo o meu tempo perdido.
Chega! É isso aí. Vou parar de ir contra a natureza e assumir meus
instintos primitivos: poetas e ativistas de plantão podem até emocionar meu
coração, mas nada causam quando o buraco é mais embaixo.
Eu sei que depois do sexo é bom conversar. Eu sei que, depois de anos de
namoro, o que sobra é um bom papo. Eu sei que depois de casada o que eu
vou querer é um bom companheiro com quem dividir o jornal, os DVDs e as
idéias.
Mas, até chegar aí, eu preciso mesmo é sentir tesão novamente. Me sentir
viva novamente. Eu preciso mesmo é de um playboy com tudo a que eles têm
direito. Preciso fechar os olhos e enlouquecer com um cheiro, uma apertada,
uma lambida, um peito definido, uma mão firme, ... e não com uma frase
inteligente ou um comentário deliciosamente cínico.
Claro, se eu puder ter as duas coisas, melhor. Mais chances de o
relacionamento durar. Mas, pra agora, pra resolver um problema urgente, o
raciocínio é simples assim: você tem mais tesão pelo Woody Allen ou pelo
Justin Timberlake?
CRÉDITOS
© 2008 Tati Bernardi
 
Diretor editorial
Marcelo Duarte
 
Coordenadora editorial
Tatiana Fulas
 
Projeto gráfico
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Diagramação
Estúio O.L.M
 
Preparação
Alessandra Miranda de Sá
 
Diagramação para ebook
Xeriph
 
CIP – BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
B444t
 
Bernardi, Tati
Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é / Tati Bernardi. – 1. ed.
– São Paulo: Panda Books, 2008.
 
1. Conto brasileiro. I. Título.
 
08-2619 CDD: 869.93
 CDU: 821.134.3(81)-3
 
2011
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A AUTORA
 
 
 
A paulistana Tati Bernardi, 29 anos, é redatora publicitária, colunista de
revistas da Editora Abril e roteirista da Rede Globo. Pela Panda lançou os
títulos A Mulher que não prestava e Tô com vontade de uma coisa que não
sei o que é.
	SUMÁRIO
	APRESENTAÇÃO
	1. SINTO MUITO, MAS VOCÊ NÃO É LOUCA
	2. O CONTRATO
	3. FLASHBACK
	4. ENFIM, NÓS. E A CLAUDINHA
	5. A TECLA “A”
	6. HOMENS DO MERCADO
	7. ASSUMINDO O ET PIROCUDO
	8. DIRETO DO PLANETA SOLIDÃO
	9. COMO LEVAR UMA MULHER PRA CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO
	10. ZELADOR
	11. VONTADE FILHA-DA-MÃE
	12. ANIVERSÁRIO DA SUA AUSÊNCIA
	13. CAIPIRA NÃO, MEU
	14. DESPERATE HOUSE WRITERS
	15. VOCÊ JAMAIS FARIA SEXO VIRTUAL
	16. EU NÃO NASCI PRA ISSO
	17. A VONTADE E UM DEDINHO DE PROSA
	18. DESAMOR REVISITADO
	19. OS MICOS DA DIAS FERREIRA
	20. MAIS UM PAR DE TÊNIS VELHOS
	21. THE KILLERS
	22. A PRIMEIRA VEZ
	23. ELES
	24. O TEATRO DA MOÇA BANAL
	25. EU JÁ ESTIVE POR LÁ
	26. O QUE VOCÊ FAZ COM AS PESSOAS QUE NÃO QUER MAIS?
	27. EU NUNCA VOU ENTENDER
	28. TREPAI-VOS, IRMÃOS — UM TRATADO SERIÍSSIMO POR UM MUNDO MELHOR
	29. QUE NEM CORAÇÃO DE MÃE
	30. A DURA (FORTE, GOSTOSA, CHEIROSA) REALIDADE
	A AUTORA

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