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bookstorelivros Isto Vai Doer - Adam Kay

Trecho do livro Isto Vai Doer – Diário Secreto de um Médico, de Adam Kay. Reúne diários de um ex-médico do NHS com relatos do dia a dia hospitalar, jornadas exaustivas, burocracia, anedotas (objetos em orifícios) e comentário sobre a greve de internos de 2015; nomes e datas foram alterados.

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Ficha Técnica
info@culturaeditora.pt I www.culturaeditora.pt
–
First published 2017 by Picador, an imprint of Pan Macmillan, a division of Macmillan
Publishers International Limited
© Adam Kay e Cultura Editora
Título: Isto Vai Doer – Diário Secreto de um Médico
Autor: Adam Kay
Tradução: Cristina Bernardo Silva
Revisão: Marta Moleirinho
Paginação: Gráfica 99
Capa: Vera Braga
Imagem de capa: Shutterstock
ISBN: 978-989-8886-25-5
1.ª edição em papel: Agosto de 2018
Impressão e acabamento: Multitipo – Artes Gráficas, Lda.
Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida,
no todo ou em parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico, fotocópia, fotográfico,
gravação ou outros, nem ser introduzida numa base de dados, difundida ou de qualquer
forma copiada para uso público ou privado, sem prévia autorização por escrito do Editor.
.
Para o James
pelo seu apoio hesitante
E para mim
sem quem este livro
não teria sido possível
.
Por respeito à privacidade de amigos e colegas de trabalho que talvez não queiram ser
reconhecidos, alterei vários detalhes pessoais. Para manter a confidencialidade dos
pacientes, alterei informações clínicas que poderiam servir para identificar indivíduos,
mudei datas1 e anonimizei nomes2. Embora não saiba bem por que raio o fiz – já não
podem ameaçar afastar-me.
1 Trabalhei muito em blocos de partos, e as pessoas tendem a lembrar-se das datas em que
os filhos nasceram.
2 De uma maneira geral, usei nomes de personagens menores de Harry Potter, de forma a
substituir um pesadelo legal por outro.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a13
https://calibre-pdf-anchor.a/#a14
.
Introdução
Em 2010, após seis anos de formação e outros seis passados em
enfermarias, abdiquei de ser médico do Serviço Nacional de Saúde
(National Health Service – NHS). Os meus pais ainda não
conseguiram perdoar-me.
Sabe, os britânicos adoram o NHS. É o nosso orgulho e a nossa
alegria. Pense em nós como uma família que vive ao fundo da rua e
tem um carro antigo dos anos 40. Leva gasolina com chumbo,
indicamos nós, enquanto esticamos a mão pela janela e ligamos o
motor com a ajuda da manivela na parte da frente – mas ainda
funciona. Está na nossa família há várias gerações e vêm pessoas
do mundo inteiro só para o admirar (nunca arranjam um para si
próprias, é certo, limitam-se a admirá-lo). Poderá explicar até se
cansar que existem novos tipos de carros muito mais rápidos ou
com tecnologia mais recente ou mais eficientes quanto ao
combustível. Poderá sublinhar que, com o dinheiro que gastamos na
manutenção do nosso chaço, poderíamos comprar uma frota de
carros novos todos os anos. A verdade é que nunca será capaz de
nos convencer a mudar. Não é uma questão lógica, e nem sequer
nostálgica – é amor.
O NHS foi fundado em 1948 com base em três princípios que
continuam válidos: atende às necessidades de toda a população, é
gratuito, e os tratamentos são dados em função das necessidades
clínicas e não da capacidade financeira. Outros sistemas,
potencialmente mais eficientes, surgiram em todo o mundo, mas
nenhum deles é mais justo.
Em 2015, o ministro da Saúde, por razões desconhecidas, decidiu
declarar guerra aos médicos internos do país. Anunciou que estava
a impor-lhes um novo contrato, contrato esse que teria impactos
profundos nas suas condições de trabalho e que, por isso, afetaria
diretamente a segurança dos pacientes: algo que nenhum médico
jamais defenderia. Com o governo a recusar negociar e sem
qualquer outra opção aparente, os médicos votaram relutantemente
a favor de uma greve.
A máquina de propaganda do governo não poupou esforços na
tentativa de, repetidamente, passar a mensagem para a opinião
pública de que os médicos tinham aderido à greve porque eram
gananciosos, e que estavam a fazer do país refém para obterem
salários mais elevados – algo que não poderia estar mais longe da
verdade. Como continuavam a ter de fazer o seu trabalho e lhes
restava pouco tempo livre para combater as jogadas do governo, os
médicos tiveram dificuldade em transmitir a sua versão dos factos e
o país acreditou no governo. Por fim, e de forma extremamente
desencorajadora, foi-lhes imposto o novo contrato.
Assistir a tudo isto foi angustiante. Quis fazer algo, tentar repor o
equilíbrio. Por isso, desenterrei os diários que mantive durante o
tempo em que trabalhei como médico, deixados numa pasta, sem
que ninguém os visse durante meia década. Se a verdade do dia a
dia de um médico fosse mostrada às pessoas, talvez elas
entendessem como a posição do governo era ridícula?
Ao reler as minhas notas – entre o divertido e o mundano, os
infindáveis objetos em orifícios e as pequenas burocracias – fui-me
lembrando das horas descomunais e do impacto colossal que o
facto de ter sido médico interno teve na minha vida. Senti que o que
esperavam de mim era extremo e irracional, mas naquela altura
limitava-me a aceitar tudo – era parte do meu trabalho. O NHS está
tão ridiculamente sobrecarregado e subfinanciado que todos os
profissionais de saúde são obrigados a ir muito além do dever da
função para que o sistema se mantenha. Penso que houve
momentos no meu diário em que não teria pestanejado se lesse
algo como “tive de ir a nado a uma maternidade na Islândia” ou
“hoje, engoli um helicóptero”.
Portanto, aqui estão eles: os diários que mantive durante o tempo
que estive no NHS, com verrugas e tudo. Como é trabalhar na linha
da frente, os efeitos disso na minha vida pessoal e como, num dia
terrível, percebi que era demais para mim (peço desculpa pelo
spoiler, mas você viu o Titanic a saber como ia acabar).
Ao longo deste percurso, irei ajudá-lo a entender os termos
médicos e dar-lhe algum enquadramento sobre o que cada posto
implicava. Ao contrário do que se faz aos médicos internos, não irei
atirá-lo aos lobos e esperar que você saiba exatamente como
prosseguir.
1
Interno do Ano Comum
A decisão de trabalhar na área da Medicina é uma espécie de
versão do e-mail que recebe todos os anos, no início de outubro,
para escolher as opções de menu da festa de Natal da sua
empresa. É evidente que escolhe o frango, para não correr riscos, e
é muito provável que tudo corra bem. Mas e se, no dia anterior à
festa, alguém partilhar um filme horrível sobre fábricas de produção
animal no Facebook e você assistir, inadvertidamente a uma sessão
de corte de bicos em massa? E se Morrissey morrer em novembro
e, sem sinal de respeito pelo seu desaparecimento, você vira as
costas a um estilo de vida dedicado quase exclusivamente ao
consumo de carne? E se você desenvolver uma alergia a bifes
potencialmente fatal? Em última análise, ninguém sabe o que irá
querer jantar daqui a sessenta jantares.
Todos os médicos fazem a sua escolha de carreira aos dezasseis
anos, dois anos antes de poderem enviar a alguém, de forma legal,
uma imagem dos seus próprios órgãos genitais. Quando
escolhemos a nossa qualificação A levels3, no ensino secundário,
estamos a embarcar numa jornada que só termina na idade da
reforma ou na hora da morte e, ao contrário do que acontece na
festa de Natal da empresa, a Janet do departamento de compras
não troca o nosso frango por umas bruschettas de halloumi –
ficamos presos à nossa escolha.
Aos dezasseis anos, as razões invocadas para se escolher uma
carreira na Medicina são, geralmente, “O meu pai/mãe é médico/a”,
“Gosto muito de ver Holby City” ou “Quero descobrir a cura para o
cancro”. O primeiro e o segundo motivos são absurdos, e o terceiro
seria perfeitamente aceitável, verdade seja dita, não fosse o
pormenor de a cura para o cancro ser levada a efeito por cientistas,
e não por médicos. Além disso, obrigar alguém a honrar a palavra
dada naquela idade parece-me um pouco injusto, tal como seria
https://calibre-pdf-anchor.a/#a47
também injusto que o seu desenho onde podia ler-se “Quero ser
astronauta”, aquele que você fez aos cinco anos, fosse considerado
um documento juridicamente vinculativo.
Pessoalmente, não me lembro de a Medicina ter sido uma decisão
ativa de carreira,sendo antes a configuração predefinida da minha
vida – o toque marimba, a usual cordilheira como imagem de fundo
do computador. Cresci numa família judaica (embora a maioria dos
seus elementos o fosse pela comida); frequentei uma escola que é
basicamente uma fábrica de salsichas projetada para produzir
medicamentos, advogados e membros de gabinetes; e o meu pai
era médico. Estava escrito na pedra.
Como as escolas de Medicina têm dez vezes mais candidatos do
que vagas, todos eles são entrevistados e só os que se aguentam
bem debaixo de fogo é que conseguem um lugar.
Presume-se que todos os candidatos obtiveram nota máxima nas
qualificações A levels, pelo que as universidades baseiam as suas
decisões em critérios não-académicos. É evidente que isto faz
sentido: um médico deve estar psicologicamente apto para trabalhar
– ser capaz de tomar decisões sob uma pressão terrível, dar más
notícias a familiares angustiados, lidar diariamente com a questão
da morte. E deve possuir algo que não pode ser memorizado ou
classificado: um grande médico deve ter um coração enorme e uma
aorta dilatada por onde bombeia um enorme lago de compaixão e
bondade humana.
É o que somos levados a crer. Mas, na realidade, as escolas de
Medicina não querem saber disto para nada. Nem sequer verificam
se você não suporta ver sangue. Em vez disso, focam-se nas
atividades extracurriculares. O estudante ideal é capitão de duas
equipas desportivas, campeão de natação do condado, chefe da
orquestra juvenil e editor do jornal escolar. É basicamente um
concurso Miss Simpatia, mas sem a faixa. Veja o que diz a
Wikipédia relativamente a qualquer médico famoso e poderá ler:
“Provou ser um jogador de râguebi bem-sucedido em ligas juvenis.
Destacou-se em corridas de fundo e, no último ano do ensino
secundário, foi sub-capitão da equipa de atletismo.” Esta descrição
concreta refere-se a um tal de Dr. H. Shipman, pelo que talvez não
se trate de um sistema propriamente sólido.
O Imperial College, em Londres, estipulou que as minhas
distinções no oitavo ano de piano e saxofone, juntamente com
algumas críticas de teatro mal-amanhadas para a revista da escola,
me qualificavam perfeitamente para uma vida nas enfermarias. Foi
assim que, em 1998, fiz as malas e embarquei para a viagem
traiçoeira dos dez quilómetros que separam Dulwich de South
Kensington.
Como imagina, aprender todos os aspetos da anatomia e da
fisiologia do corpo humano, além de cada possibilidade do seu mau
funcionamento, é um empreendimento gigantesco. Mas a excitação
de saber que, um dia, eu seria médico – uma situação tão
importante que implica literalmente mudar de nome, como um
super-herói ou um criminoso internacional – impeliu-me para o meu
objetivo durante esses seis longos anos.
Portanto, ali estava eu, um médico interno4. Poderia ter ido ao
programa Mastermind como especialista em “corpo humano”. Toda
a gente gritaria em casa, em frente à televisão, que o tema que eu
escolhera era demasiado vasto e abrangente e que deveria ter
optado por algo como “aterosclerose” ou “joanetes”, mas a verdade
é que essas pessoas estariam erradas. Eu teria acertado em tudo.
Chegara finalmente a hora de ir para a enfermaria munido de todo
aquele conhecimento exaustivo e transformar a teoria em prática.
Eu não podia estar mais desejoso de entrar em ação. Portanto, foi
para mim um duro golpe descobrir que tinha passado um quarto da
minha vida na faculdade de Medicina e não estava minimamente
preparado para a existência de Dr. Jekyll e Mr. Hyde de um médico
interno do ano comum5,6.
Durante o dia, o trabalho era gerível, desde que entorpecente e
absurdamente demorado. Aparecemos todas as manhãs para a
“ronda da enfermaria”, na qual toda a equipa de médicos deambula
perto de cada um dos pacientes. Seguimos atrás como patinhos
hipnotizados, com a cabeça inclinada para um lado e com um ar
atento, anotando cada sílaba dos nossos mentores – marcar uma
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ressonância magnética, encaminhar para a reumatologia,
providenciar um eletrocardiograma. Depois, passamos o resto do
dia de trabalho (geralmente, mais cerca de quatro horas não
remuneradas), a terminar dezenas, às vezes centenas de tarefas –
preencher formulários, fazer telefonemas. Na prática, é-se uma
espécie de assistente pessoal glorificado. Não era para aquilo que
eu tinha estudado tanto, mas pronto.
No entanto, os turnos da noite fizeram com que Dante se
assemelhasse a Disney – um pesadelo implacável que me levou ao
arrependimento por pensar que a minha educação estava a ser
subvalorizada. À noite, o interno do ano comum recebe um pequeno
dispositivo de chamadas, carinhosamente designado de “bleep”, e a
responsabilidade por cada paciente do hospital. O raio da totalidade
dos pacientes. O interno do ano comum da noite e o interno da
especialidade estão lá em baixo, no serviço de urgência a observar
e a admitir doentes enquanto eu fico lá em cima, nas enfermarias, a
tentar, sozinho, levar a bom porto um navio gigante e em chamas,
que nunca ninguém me ensinou a dirigir. Ensinaram-me a examinar
o sistema cardiovascular de um paciente, conheço a fisiologia da
vasculatura coronária, mas embora seja capaz de identificar todos
os sinais e sintomas de um ataque cardíaco, a verdade é que lidar
com um pela primeira vez é bastante diferente.
É-se “bleepado” por todas as enfermarias, enfermeiras e
emergências – sem intervalos, a noite toda.
No serviço de urgência, os nossos colegas mais velhos observam
doentes com problemas concretos, como pneumonias ou pernas
partidas. Os nossos pacientes sofrem emergências semelhantes,
mas estão internados, o que significa que já tinham um problema
antes de serem internados. É um “crie o seu próprio hambúrguer” de
sintomas por cima de estados por cima de doenças: observamos um
paciente com pneumonia que foi internado com insuficiência
hepática ou um paciente que partiu a perna ao cair da cama na
sequência de outro ataque epilético. Somos um serviço de urgência
composto por uma só pessoa, móvel, basicamente sem qualquer
tipo de treino, que fica encharcada em fluidos corporais (nenhum
dos quais fazem parte do tipo de fluidos divertidos), a observar um
número infindável de pacientes com problemas de saúde que, doze
horas antes, tinham uma equipa inteira de médicos a cuidar deles.
De repente, damos por nós a ansiar pelas sessões de dezasseis
horas de trabalho administrativo. (Ou, idealmente, um qualquer tipo
de trabalho de compromisso, que não esteja completamente além
ou aquém das nossas capacidades.)
Há duas hipóteses: afundamo-nos ou nadamos. E temos de
aprender a nadar ou um grande número de pacientes fará com que
nos afundemos. Na verdade, achei tudo perversamente excitante.
Claro que era um trabalho árduo. Sim, o número de horas era quase
desumano e, sim, vi coisas que se gravaram nas minhas retinas até
hoje, mas era, finalmente, médico.
Terça-feira, 3 de agosto de 2004
Dia um. H7 preparou-me o almoço e colocou-o na lancheira. Tenho
um estetoscópio8 novo, uma camisa nova e um endereço de e-mail
novo: atom.kay@nhs.net. É bom saber que, aconteça o que
acontecer, hoje ninguém poderia acusar-se de ser a pessoa mais
incompetente do hospital. E mesmo que eu o seja, posso sempre
culpar o Atom.
Estou a adorar o potencial de quebrar o gelo da história, mas no
pub mais tarde, o meu caso é ultrapassado pelo da minha amiga
Amanda. O apelido da Amanda é Saunders-Vest, mas como o hífen
foi retirado, ficou amanda.saundershyphenvest@nhs.net.
Quarta-feira, 18 de agosto de 2004
O paciente OM tem setenta anos e é um engenheiro térmico
reformado de Stoke-on-Trent. Mas esta noite ele será um professor
de alemão excêntrico com uma prronúncia póco convizent. Não só
esta noite, aliás, como também esta manhã, esta tarde e todos os
dias do seu internamento; graças a uma demência, exacerbada por
uma infeção do trato urinário9.
A rotina favorita do Professor OM é seguir atrás da ronda da
enfermaria, com a parte de trás dabata do hospital voltada para a
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frente, como se fosse um casaco branco (com mais ou menos roupa
interior, para um pouco de Bratwurst matinal) e gritar um “Sim!”, “Ztá
correcto!” e o ocasional “Genial!” sempre que um médico diz alguma
coisa.
Nas rondas de enfermaria de especialistas e internos da
especialidade, acompanho-o de imediato até à sua cama e certifico-
me de que a equipa de enfermagem o retém durante algumas
horas. Nas rondas que faço sozinho, deixo-o passear um pouco
comigo. Não sei propriamente o que estou a fazer e não tenho
confiança a rodos mesmo quando sei, pelo que tem sido de grande
utilidade ter atrás de mim uma espécie de chefe de claque
superanimada que, de vez em quando, grita: “Izt é brrilhante!”
Hoje, fez cocó no chão, ao meu lado, pelo que, infelizmente, tive
de retirá-lo do serviço ativo.
Segunda-feira, 30 de agosto de 2004
Mais do que compensamos com histórias sobre pacientes aquilo
que nos falta em tempo livre. Hoje ao almoço, na sala dos
médicos10, trocamos histórias de “sintomas” sem sentido que as
pessoas apresentaram. Nas últimas semanas, vimos pacientes com
comichão nos dentes, melhoria súbita de incapacidade auditiva e
dores nos braços durante a micção. Cada um obtém uma risada
educada, como se se tratasse do discurso de um dignitário local
numa cerimónia de graduação. Fazemos à mesa uma espécie de
partilha de histórias assustadoras à volta da fogueira, até calhar a
vez a Seamus. E ele diz-nos que observou alguém esta manhã no
serviço de urgência que dizia transpirar apenas em metade do rosto.
Senta-se, à espera da ovação, mas recebe apenas silêncio. Até
quase toda a gente dizer: “Então? Síndrome de Horner, era isso?”
Ele desconhece tal coisa, e menos ainda o facto de essa condição
poder indicar a existência de um tumor pulmonar. Seamus arrasta a
cadeira para trás com um grito de perfurar os tímpanos e começa a
correr para ir fazer um telefonema e chamar o paciente de volta ao
serviço. Eu acabo de comer o que sobrou do Twix dele.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a54
Sexta-feira, 10 de setembro de 2004
Percebo que todos os doentes da enfermaria têm nos registos de
observação uma pulsação de sessenta. Por isso, inspeciono sub-
repticiamente a técnica de medição do auxiliar de saúde. Ele segura
o pulso do paciente, olha para o relógio e conta de modo meticuloso
o número de segundos por minuto.
Domingo, 17 de outubro de 2004
Para me dar algum crédito, não entro em pânico quando o
paciente que estou a observar na enfermaria começa
inesperadamente a manchar a minha camisa com enormes
quantidades de sangue que lhe saem da boca. Para não me dar
qualquer crédito, já não sei o que fazer. Peço à enfermeira mais
próxima que vá chamar o Hugo, o meu interno da especialidade,
que se encontra na enfermaria ao lado, e enquanto espero coloco-
lhe uma Venflon11 e faço correr alguns fluidos. Hugo chega antes
que eu consiga fazer mais qualquer coisa, o que é bom, uma vez
que as minhas ideias já se esgotaram. Procurar a torneira do
paciente? Enfiar montes de papel de cozinha pela sua garganta
abaixo? Salpicar com um pouco de manjericão e chamar-lhe
gaspacho?
Hugo diagnostica-lhe varizes esofágicas12, o que faz sentido
porque o paciente tem a cor do Homer Simpson – o da série inicial,
quando o contraste era muito maior e todos pareciam pinturas
rupestres – e tenta controlar a hemorragia com uma sonda de
Sengstaken13. Tudo isto enquanto o paciente se debate, numa
tentativa de resistir àquela coisa horrível que lhe desce pela
garganta, com o sangue a jorrar por todo o lado: em cima de mim,
do Hugo, nas paredes, nas cortinas, no teto. Foi como um episódio
particularmente vanguardista do programa de Changing Rooms. O
som foi a pior parte. A cada respiração do pobre homem, podíamos
ouvir o sangue a ser sugado para o interior dos pulmões, sufocando-
o.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a55
https://calibre-pdf-anchor.a/#a56
https://calibre-pdf-anchor.a/#a57
Quando o tubo é finalmente inserido, ele para de sangrar. A
hemorragia acaba sempre por parar, e desta vez isso acontece pelo
motivo mais triste. Hugo declara a morte do paciente, escreve as
suas notas e pede à enfermeira que informe a família. Tiro as
minhas roupas encharcadas de sangue e vestimos silenciosamente
as batas que usamos no resto do turno. Portanto, vamos lá, a
primeira morte que testemunhei foi tão horrível quanto possível.
Nada de romântico ou bonito. Aquele som. O Hugo leva-me até lá
fora para fumarmos um cigarro – precisamos desesperadamente de
um depois daquilo tudo. E eu nunca fumei antes.
Terça-feira, 9 de novembro de 2004
Acordado pelo “bleep” às três da manhã, depois da minha primeira
meia hora de olhos fechados em três turnos, para prescrever um
comprimido para dormir a um paciente cujo sono é obviamente
muito mais importante do que o meu. Os meus poderes são maiores
do que eu pensava – chego à enfermaria e encontro-o a dormir.
Sexta-feira, 12 de novembro de 2004
Os resultados das análises ao sangue de uma doente internada
mostram que não existe qualquer coerência na sua coagulação e a
razão não é boa. Hugo acaba por entender o que se passa. Para
controlar a ansiedade, ela tem tomado cápsulas de St. John’s Wort
que comprou numa loja de produtos naturais. Ele explica-lhe (e,
para dizer a verdade, a mim também) que isso interage com o
metabolismo da varfarina e que a coagulação deverá voltar ao
normal quando ela parar de tomar as cápsulas. Ela fica atónita.
“Pensava que era apenas uma planta natural – como é que pode
fazer tão mal?”
Ao ouvir “apenas uma planta natural”, a temperatura na sala
parece cair alguns graus e Hugo mal consegue conter um suspiro
de desgaste. É claro que não é uma estreia neste tipo de situação.
“Os caroços de alperce têm cianeto”, responde ele, de forma seca.
“O cogumelo cicuta verde tem uma taxa de mortalidade de
cinquenta por cento. O facto de ser natural não quer dizer que é
seguro. Tenho plantas no jardim e você morreria se se sentasse
debaixo delas durante dez minutos.” Missão cumprida: ela deita fora
as cápsulas.
Mais tarde, durante uma colonoscopia, pergunto-lhe que plantas
são aquelas de que ele falou.
“Lírios de água.”
Segunda-feira, 6 de dezembro de 2004
Todos os internos do hospital foram convidados a assinar um
documento que rejeita a Diretiva Europeia do Tempo de Trabalho14
porque os nossos contratos são incompatíveis com o diploma. Esta
semana vi H durante menos de duas horas e trabalhei noventa e
sete, no total. Incompatível nem sequer é o termo mais apropriado.
O meu contrato pegou na diretiva, arrastou-a da cama para fora aos
gritos e torturou-a através de afogamento simulado.
Quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
Caro traficante da treta,
Nas últimas noites, tivemos de admitir três homens e mulheres
muito jovens – todos secos como paus, basicamente prostrados
por hipotensão e com os eletrólitos todos marados15. A única
ligação entre todos eles é o seu consumo recente de cocaína.
Apesar de todos os riscos de ataque cardíaco e contração do
septo que acarreta, o consumo de cocaína não faz com que isto
aconteça. Mas acho que sei o que está a passar-se neste caso – e
quero um Prémio Nobel ou, no mínimo, um Pride of Britain, se
estiver certo – é que estás a fazer render o teu stock com a
furosemida da tua avozinha16.
Além do facto de dares cabo das minhas noites e desperdiçares
as camas da minha unidade, parece-me que levares os teus
clientes ao internamento é uma péssima prática comercial. Por
favor usa giz, como toda a gente.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a58
https://calibre-pdf-anchor.a/#a59
https://calibre-pdf-anchor.a/#a60
Atenciosamente, Dr. Adam Kay
Segunda-feira, 31 de janeiro de 2005
Esta noite, salvei uma vida. O “bleep” tocou para que eu fosse ver
um idoso internado de sessenta e oito anos que estava tão à beira
da morte quanto possível – já tinha tocado à campainha e olhava
através do vidro fosco para o corredor da morte. A sua saturação deoxigénio17 estava nos setenta e três por cento – suspeito que se a
máquina de venda automática não estivesse avariada e eu
comprasse o meu Snickers como planeara, não teria chegado a
tempo.
Nem sequer tive alguns segundos para enunciar os tópicos de um
plano de gestão na minha cabeça – executei ato após ato num
modo de piloto automático que eu nem sabia ter. Oxigénio, acesso
intravenoso, exames sanguíneos, gasometria, diuréticos, cateter.
Ele começou a sentir-se melhor quase de imediato, a corda do
bungee jumping a segurá-lo a um milímetro do betão. Desculpa,
Morte – menos um para o teu jantar de hoje à noite. Quando Hugo
chegou, senti-me o Super-homem.
Uma estranha consciência de que é a primeira vez que salvo, de
facto, uma vida em cinco meses como médico. As pessoas lá fora
imaginam que percorremos as enfermarias com atos rotineiros de
heroísmo; eu próprio assumia que era assim quando comecei. Mas
a verdade é que, embora dezenas, talvez centenas, de vidas sejam
salvas todos os dias nas enfermarias, quando isso acontece é
quase sempre de uma forma muito mais simples, resultante de um
trabalho de equipa. Não tanto por um médico que realiza um único
ato, mas antes pela implementação de um plano sensato realizado
por vários colegas que, a cada etapa, verificam se o paciente está a
melhorar e introduzem alterações ao plano caso não esteja.
Mas às vezes é uma só pessoa; e hoje, pela primeira vez, fui eu.
O Hugo parece estar feliz, ou pelo menos tão feliz como é capaz de
estar: “Bem, acabaste de lhe oferecer mais umas semanas na
Terra”. Tem lá calma aqui com o super-herói.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a61
Segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005
A minha mudança para a cirurgia18 compensou-me ao
proporcionar-me a primeira lesão com desluvamento19.
O paciente WM tem dezoito anos e tinha ido sair com os amigos.
Ao fim da noite, deu por si a dançar em cima da cobertura de uma
paragem de autocarro, e foi quando decidiu descer para o chão a
escorregar por um poste de iluminação abaixo, que se encontrava
mesmo ao lado, como se fosse um varão dos bombeiros. Saltou
para o poste e deslizou até lá abaixo, tipo coala. Infelizmente para
ele, interpretou mal a textura do poste – não foi nem de perto o
suave passeio que ele esperava, mas antes uma descida abrupta,
cheia de atrito, agonizante e áspera do princípio ao fim. Chegou,
portanto, ao serviço de urgência com as palmas das mãos
seriamente raspadas e um desluvamento total do pénis.
No pouco tempo que estive na urologia (e fora dela) vi bastantes
pénis, mas este foi de longe o pior que já vi. Digno de uma roseta,
se ao menos houvesse um local onde fosse possível colocá-la. Meia
dúzia de centímetros de uretra, revestidos por uma fina camada de
polpa sangrenta, talvez meio centímetro de diâmetro no total. Fez-
me lembrar aquele fio de espaguete que fica preso no fundo da
panela por uma pequena camada de molho de tomate. Talvez não
seja surpreendente, mas o WM estava chateado. E ficou ainda mais
angustiado quando perguntou se o seu pénis podia ser “reluvado”.
Mr. Binns, o especialista, explicou-lhe calmamente que a “luva”
estava espalhada uniformemente ao longo de dois metros e meio de
um poste de iluminação na zona oeste de Londres.
Segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005
Ao dar alta a uma paciente após uma laparoscopia20, concedo-lhe
uma baixa médica para que não trabalhe durante duas semanas.
Ela oferece-me dez libras para que a baixa seja de um mês. Eu rio-
me, mas ela fica séria, e sobe a oferta para quinze. Sugiro-lhe que
visite o médico de família caso não se sinta capaz de trabalhar ao
fim de duas semanas.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a62
https://calibre-pdf-anchor.a/#a63
https://calibre-pdf-anchor.a/#a64
É óbvio que devo vestir-me de modo mais inteligente se é este o
nível de suborno que atraio. A caminho de casa, pergunto-me
quanto é que ela teria de me oferecer para que eu aceitasse. É
deprimente, mas reconheço que talvez à volta de cinquenta libras.
Segunda-feira, 14 de março de 2005
Vou jantar com H e alguns colegas – uma pizaria com tijolos
expostos, muitos néons, menus em pranchetas, um sistema de
pedidos desnecessariamente complicado e a quase inexistência de
pessoal em espera. Você recebe um dispositivo que emite um sinal
sonoro e vibra quando o seu pedido está pronto, e em que você se
arrasta pelos ladrilhos perfeitamente incompatíveis para receber a
sua piza de um empregado desinteressado que não hesita em
permanecer sentado, sabendo que nunca ninguém pede que os
doze e meio por cento relativos ao serviço sejam subtraídos à conta
– apesar de ninguém o servir.
O dispositivo dispara, eu digo “Oh, meu Deus” e, reflexivamente,
dou um salto para me levantar. Não que esteja particularmente
entusiasmado com a minha Fiorentina – mas a merda do aparelho
tem exatamente o mesmo tom e timbre do meu “bleep” do hospital.
H pega-me no pulso: noventa e cinco. Na prática, já quase tenho
PSPT (Perturbação de Stresse Pós-traumático), devido ao trabalho.
Domingo, 20 de março de 2005
A transmissão de más notícias é mais complicada do que dizer
“Receio que seja cancro” e “Fizemos tudo o que podíamos”. Nada
nos prepara para explicarmos à filha de um paciente que algo
bastante perturbador aconteceu ao seu pai frágil e idoso durante a
noite.
Tive de lhe dizer que o paciente na cama ao lado da do seu pai
ficou extremamente agitado e confuso na noite anterior. Que ele
pensou, de facto, que o seu pai era a sua própria mulher. Que,
infelizmente, quando as enfermeiras deram conta do alvoroço e
foram lá, já era tarde demais, e esse paciente estava sentado de
pernas abertas em cima do seu pai e tinha ejaculado no seu rosto.
“Pelo menos não foi… além disso”, disse a filha, numa
demonstração de categoria de nível mundial de como ver o lado
positivo de uma situação.
Segunda-feira, 11 de abril de 2005
Prestes a levar um miúdo de dez anos diretamente do serviço de
urgência para o bloco operatório devido à rutura do apêndice. Colin,
um interno da especialidade encantador, está a dar uma verdadeira
aula sobre como lidar com uma mãe preocupada – explicando tudo
o que está a suceder no interior da barriga do seu filho, o que
faremos para que seja corrigido, quanto tempo demora, quando é
que ele poderá voltar para casa. Eu tento absorver o seu método.
Trata-se de libertar apenas uma quantidade certa de informação –
mantendo-a esclarecida, mas não sobrecarregada – e explicar tudo
no nível correto; sem muito jargão, mas também sem paternalismos.
Acima de tudo, trata-se de ser profissional e amável.
Pela sua expressão, ela fica logo mais sossegada e consigo sentir
que a angústia abandona o seu corpo como um espírito maligno ou
gases presos. Está na hora de levar o miúdo para o andar de cima,
por isso, Colin acena com a cabeça para a mãe e diz: “Um beijo
rápido antes de ir para o bloco operatório?” Ela inclina-se e dá um
pequeno beijo na bochecha de Colin. O orgulho e alegria dela
desaparecem, a própria bochecha dele parece tristemente seca.
Terça-feira, 31 de maio de 2005
Há três noites, admiti o paciente MJ, um sem-abrigo nos seus
cinquenta e tal anos, com pancreatite aguda. Foi a terceira vez que
o admitimos com pancreatite aguda desde que comecei a trabalhar
aqui. Demos-lhe algum conforto com o alívio da dor e administrámos
fluidos intravenosos – estava dorido e num estado miserável.
“Ao menos, fica numa cama quente durante algumas noites”,
disse-lhe eu.
“Está a brincar?”, perguntou. “Aqui, vou apanhar o raio de uma
bactéria multirresistente.” É incrível, mas as ruas fora do hospital já
têm melhor reputação, em termos de limpeza, do que os seus
próprios corredores.
Não gosto de dar sermões, mas sou médico e não querer que ele
morra faz, de certa forma, parte do meu trabalho. Então, lembrei-me
de que ele está ali devido ao álcool21 e mesmo que não consiga
persuadi-lo a parar de beber (não consigo), posso ao menos pedir-
lhe que se deixe disso enquanto estiver no hospital, uma vez que,
se o fizer, será uma grande ajuda. Desta vez, seria um verdadeiro
prémiose ele não se importasse de evitar os dispensadores de
álcool em gel.
Ele deu um salto para trás como se eu tivesse acabado de o
acusar de incesto com a irmã gémea, e disse-me que era claro que
jamais seria capaz de tal coisa – a composição foi alterada há pouco
tempo e agora o sabor é muito amargo. Depois, puxou-me para
mais perto de si e sussurrou-me ao ouvido que, neste hospital, o
melhor é chupar os toalhetes de higiene. E deu-me uma palmada
conspiradora no braço como que a dizer “Esta é por minha conta”.
Esta noite, deu alta a si próprio e voltou para “casa”, mas não tenho
dúvidas de que estará de volta nas próximas semanas.
Por tradição, celebro o final desta sucessão de turnos noturnos
com o meu interno do ano comum sénior e vou tomar um belo
pequeno-almoço com uma garrafa de vinho branco ao Vingt-Quatre.
Os turnos noturnos têm basicamente um fuso horário diferente do
resto do país, pelo que, apesar de serem nove da manhã,
dificilmente se poderá chamar de estimulante – é praticamente um
soporífero. Volto a encher os nossos copos, alguém bate à janela. É
MJ, que ri grosseiramente antes de me atirar o seu melhor olhar de
“Eu sabia”. Decido que, da próxima vez, irei sentar-me mais longe
da janela. Ou talvez vá simplesmente chupar um toalhete nos
vestiários.
Domingo, 5 de junho de 2005
https://calibre-pdf-anchor.a/#a65
Não seria justo dizer que todos os cirurgiões ortopedistas são
homens de Neandertal esmagadores de ossos, sobretudo tendo em
conta apenas noventa e nove por cento, mas parece que o meu
coração se afunda a cada “bleep” durante a noite para que me dirija
àquela ala.
Durante este fim de semana, revi dois dos seus pacientes. Ontem:
um homem em fibrilação atrial22 após uma cirurgia para uma
#CDF23. Reparo no seu ECG de admissão que ele estava em FA
também naquela altura – um facto que passou completamente ao
lado da equipa de internamento, apesar de ser mais do que provável
que isso explique por que é que ele se espalhou no chão, em
Debenhams, logo à partida. Tenho vontade de dar uma aula ao
departamento de ortopedia intitulada: “Às vezes, as pessoas caem
por uma razão.”
Hoje, é-me pedido que observe um paciente de vinte anos cujos
exames sanguíneos mostram uma função renal anormal. Tem
ambos os braços engessados, como um vilão do Scooby Doo. Não
tem gotejamento de fluidos e há um copo de água intacto, na sua
mesa de cabeceira, que – apesar de toda a vontade do mundo, não
tenho dúvidas – a física o impediu de alcançar nos últimos dois dias.
Prescrevo fluidos IV para o paciente, embora fosse mais eficaz
prescrever bom senso para alguns dos meus colegas.
Terça-feira, 7 de junho de 2005
Assistir a cirurgias de urgência no bloco operatório, remover um
“objeto estranho” do ânus do paciente. Menos de um ano como
médico e este é já o quarto objeto que removi de um ânus – pelo
menos profissionalmente.
O meu primeiro caso foi o de um jovem italiano muito bonito, que
chegou ao hospital com a maior parte de uma piaçaba no seu
interior (as cerdas entraram primeiro) e voltou para casa com um
saco de colostomia. A sua forte mãe italiana ficou grata de uma
forma como os britânicos não conseguem ficar, e agradeceu e
elogiou todos os elementos da equipa que conheceu, por salvarem
https://calibre-pdf-anchor.a/#a66
https://calibre-pdf-anchor.a/#a67
a vida do filho. Abraçou o jovem igualmente bonito que chegara ao
hospital com o filho. “E graças a Deus que o seu amigo Philip estava
no quarto de hóspedes quando foi preciso chamar a ambulância!”
A maioria destes pacientes sofre da síndrome de Eiffel – “Eu caí,
Sr. Doutor! Caí!”– e as histórias de como as coisas lá entram podem
ser da altura de arranha-céus (pense nisso, é apenas uma questão
de tempo até que alguém tente sentar-se no picle), mas hoje é a
primeira vez que acredito, de facto, na versão do paciente. Tratou-se
de incidente credível e doloroso, com um sofá e um telecomando
que me fez, pelo menos, franzir o sobrolho e pensar: “Bem, suponho
que isto possa suceder.” No entanto, depois da remoção do
telecomando no bloco operatório, percebemos que tinha um
preservativo, pelo que talvez não tenha sido bem um incidente.
Quinta-feira, 16 de junho de 2005
Disse a um paciente que a sua ressonância magnética não seria
feita antes da próxima semana e ele ameaçou partir-me as pernas.
O meu primeiro pensamento foi: “Bem, não trabalho durante duas
semanas.” Estive mesmo para me oferecer para lhe arranjar um
taco de baseball.
Sábado, 25 de junho de 2005
Chamado a pronunciar a morte24 de um paciente idoso – ele
estava extremamente doente, não era para reanimar, e aquilo não
fora inesperado. A enfermeira assistente leva-me até ao cubículo,
aponta o antigo paciente cinza ardósia e apresenta-me a sua
mulher, sobre a qual podemos dizer que não é tecnicamente viúva
enquanto eu não o declarar oficialmente morto. A natureza pode
fazer todo o trabalho pesado, mas eu sou necessário para assinar o
formulário.
Dou os meus pêsames à mulher do paciente e sugiro-lhe que
aguarde lá fora enquanto levo a efeito algumas formalidades, mas
ela responde que prefere ficar. Não sei bem porquê. Penso que ela
também não. Talvez cada momento com ele conte, mesmo que ele
https://calibre-pdf-anchor.a/#a68
já não esteja connosco, ou talvez ela queira certificar-se de que não
sou um daqueles médicos sobre os quais ela leu no Daily Mail, que
fazem coisas indescritíveis aos falecidos. Seja como for, ela senta-
se numa cadeira da fila da frente, quer eu goste ou não.
Já declarei três mortes anteriormente, mas esta é a primeira vez
que tenho uma audiência cativa. Sinto que devia ter providenciado
algo para beber. É evidente que ela não tem noção de quão tenso,
silencioso e prolongado será o trabalho desta noite – mais Pinter do
que Priscilla, a Rainha do Deserto.
Confirmo a identidade do paciente através da pulseira do hospital,
procuro visualmente o esforço respiratório, certifico-me de que não
há resposta a estímulos orais ou físicos. Faço a palpação do pulso
carotídeo, verifico com uma lanterna que as pupilas estão fixas e
dilatadas. Olho para o relógio e procuro escutar sons cardíacos
durante dois minutos. Depois, faço o mesmo para sons pulmonares,
durante mais três minutos. Matar o tempo parece uma expressão
pouco adequada, mas cinco minutos é uma duração
extraordinariamente longa quando estamos parados debaixo de
uma luz branca brilhante, com o estetoscópio encostado ao peito de
um homem seguramente morto e a ser observados por uma mulher
triste. É por isso que tentamos tirá-los da sala durante estes
instantes.
Compreendo por que é que gastamos tempo para ter a certeza – é
uma espécie de quebra de acordo com a morte25. A quase-viúva
continua a perguntar se estou bem – não sei se ela pensa que estou
demasiado perturbado para me mover ou se acabei de me esquecer
do que fazer em seguida quanto à confirmação da morte – mas
sempre que ela diz algo, dou um salto como... bem, como um
médico que ouviu um barulho enquanto escutava com atenção o
peito de um cadáver.
Assim que volto à terra e me recomponho, dou-lhe a triste notícia
e documento as minhas descobertas. Foram, com certeza, uns
cinco minutos de agonia, mas se toda esta coisa da medicina for ao
ar, posso sempre comprar uma lata de tinta prateada Dulux e um
caixote, e ir posar como “homem-estátua” em Covent Garden.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a69
Terça-feira, 5 de julho de 2005
A tentar determinar o consumo de álcool de uma senhora de
setenta anos, para colocar nas notas. Estabeleci que o vinho é o
seu veneno.
Eu: “E que quantidade de vinho por dia, aproximadamente, é que
a senhora bebe?”
Paciente: “Num bom dia, cerca de três garrafas.”
Eu: “Ok… E num mau dia?”
Paciente: “Num mau dia, só consigo aviar uma.”
Quinta-feira, 7 de julho de 2005
Atrocidades terroristas em Londres, declarado incidente da maior
importância, todos os médicos devem apresentar-se às urgências.
A minha responsabilidade foi percorrer as enfermarias cirúrgicas e
dispensar qualquer paciente cuja vida ou membro não estivesse em
riscoimediato, para arranjar espaço para os recém-chegados,
vítimas dos atentados. Eu parecia um limpa-neves com um
estetoscópio – a expulsar todos os que chegassem à terceira sílaba
de “patomimia” sem desmaiar ou tossir sangue. Livrei-me de
centenas de cabrões empata-camas.
Quarta-feira, 13 de julho de 2005
O hospital não recebeu ninguém e, sem pacientes, quase não
trabalhei durante uma semana.
Sábado, 23 de julho de 2005
Este fim de semana é a despedida de solteiro do meu melhor
amigo Ron, e eu tive de me baldar com apenas quatro horas de
antecedência. É irritante por um milhão de razões, desde o facto de
se tratar de uma pequena seleção de grandes amigos, sendo
apenas oito os escolhidos, às t-shirts personalizadas, às agora
desequilibradas equipas de paintball e ao facto de ter gastado o raio
de quatrocentas libras naquilo.
Inicialmente, era suposto estar a trabalhar, mas arranjei uma
permuta de quatro vias (A faz o meu turno, B faz o turno de A, C faz
o turno de B e eu faço o turno de C) –, pelo que este acordo nunca
deixou de ser um pouco precário, como a compra de casa em
cadeia massiva. E agora C (que mal conheço) tem problemas que
se prendem com cuidados infantis reais ou imaginários em relação a
uma das suas crianças reais ou imaginárias, e isso faz com que eu
esteja aqui na enfermaria em vez de estar na Zorbing, com uma
grande tosga.
O pessoal não-médico26 tem dificuldade em entender que, neste
tipo de questões, não adianta sermos avisados com uma grande
antecedência: mais de dois meses antes significa que ainda não
temos escala de serviço. Encomendo uma garrafa de uísque que
não posso pagar – consigo praticamente ouvir Elton John a dizer
“Steady on, let’s not go crazy here” – e faço com que seja entregue
no apartamento do Ron no seu regresso, juntamente com um
pedido a implorar que me desculpe. Organizamos uma despedida
de solteiro para os dois dentro de duas semanas – depois da minha
sequência de noites e depois dos três turnos de substituição que
aceitei fazer para cobrir os custos do fim de semana que estou a
perder agora.
Sexta-feira, 29 de julho de 2005
Passo a totalidade do turno da noite a sentir que há água a jorrar
para o interior do casco do meu barco e a única coisa disponível
para tentar expulsá-la é uma lente de contacto de um coelho dos
brinquedos Sylvanian Families.
Todos os fogos que sou chamado a apagar através dos “bleeps”
que recebo demoram pelo menos um quarto de hora a combater. E
sou chamado a apagar novos incêndios a cada cinco minutos, pelo
que não estou propriamente a dar conta do recado. Os meus interno
do ano comum sénior e interno da especialidade estão presos num
serviço de urgência lotado, e eu dou prioridade aos pacientes que
https://calibre-pdf-anchor.a/#a70
me parecem em pior estado e vou gerindo as expetativas dos
enfermeiros que me chamam para outras coisas.
“Lamento, mas tenho um grande número de pacientes com
situações muito mais urgentes”, digo. “Para sermos realistas, deverá
demorar umas seis horas.” Alguns entendem e outros reagem como
se eu tivesse acabado de dizer: “Merda, estou mesmo a meio de
uma maratona para ver a série Ally McBeal toda de seguida.” Salto
de uma dor no peito para uma sépsis para uma fibrilação atrial para
uma asma aguda, durante toda a noite, como se estivesse numa
espécie de decatlo médico, e de alguma forma todos conseguem
sobreviver.
Às oito da manhã, uma das enfermeiras do turno da noite “bleepa-
me” para me dizer que estive muito bem esta noite e que acha que
eu sou um bom pequeno médico. Estou disposto a ignorar o facto
de que “um bom pequeno médico” soa a personagem de Enid
Blyton, porque tenho a certeza de que é a primeira vez que recebo
algo parecido com um elogio desde que me formei. Não sei bem o
que responder, mas gaguejo uns agradecimentos. Na minha
confusão, despeço-me distraidamente com um: “Adoro-a, adeus.” É
em parte exaustão, em parte o meu cérebro baralhado porque H é
geralmente a única pessoa que me diz coisas agradáveis, e em
parte o facto de, naquela altura, eu a adorar de verdade por me ter
dito aquilo.
3 N. da T.: qualificações geralmente exigidas no acesso às universidades para estudantes
que estão nos últimos dois anos do ensino secundário.
4 “Médico interno” refere-se a qualquer médico que não seja especialista. É um pouco
confuso, já que muitos desses “médicos internos” têm cargos muito altos – alguns
trabalham há quinze anos, têm doutoramentos e outras qualificações de pós-graduação. É
um pouco como chamar “políticos estagiários” a todos os que estão em Westminster,
tirando o primeiro-ministro.
5 A hierarquia é a seguinte: interno do ano comum, interno do ano comum sénior, interno da
especialidade, interno da especialidade sénior, especialista. Recentemente, renomearam
as fileiras: agora é F1, F2, ST1-7. No entanto, ainda se utiliza a terminologia antiga, como
quando o Coco Pops passou a chamar-se Choco Krispies.
6 N. da T.: o interno do ano comum é um interno policlínico no princípio do estágio, mas já
com o diploma de médico.
7 H é há seis meses o meu companheiro de sofrimento de curta duração. Não se preocupe –
não terá de se lembrar de um grande número de personagens. Não é como na Guerra dos
Tronos.
8 Sou completamente a favor de ir explicando a terminologia à medida que avançamos, mas
se você não sabe o que é um estetoscópio, talvez seja melhor oferecer este livro a outra
pessoa.
9 Nos idosos, as infeções do trato urinário ou qualquer tipo de sépsis de nível baixo, torna-os
muitas vezes um pouco loucos.
10 A sala dos médicos é a nossa área comum com alguns sofás e uma velha mesa de bilhar.
11 Uma Venflon, ou cânula, é o tubo de plástico que é enfiado na parte de trás da mão ou na
curva do cotovelo para que possamos administrar medicamentos ou fluidos por via
intravenosa, através de gotejamento. Colocar Venflons é uma das principais
responsabilidades de um interno do ano comum, embora eu tenha passado por toda a
faculdade de Medicina sem nunca o ter experimentado. Na noite anterior ao meu primeiro
dia como médico, um dos meus companheiros de apartamento nas nossas instalações
hospitalares roubou uma caixa de cerca de oitenta Venflons de uma ala e praticámos o
processo durante algumas horas até finalmente conseguirmos. Ficámos cheios de marcas
de picadas durante vários dias.
12 As varizes são uma complicação horrível decorrente de cirrose hepática e são
basicamente veias varicosas enormes no esófago, que podem romper-se em qualquer
ponto e sangrar muito.
13 Uma sonda que se enfia pela garganta que – quando está na posição certa – pode inchar
como um balão, para pressionar os vasos sanguíneos e parar a hemorragia.
14 A Diretiva Europeia do Tempo de Trabalho foi transposta para fornecer algumas medidas
legais de forma a impedir que os empregadores explorem os seus funcionários até à morte,
introduzindo mudanças que obrigam ao máximo de umas “meras” quarenta e oito horas
semanais.
15 Os eletrólitos são os sais do sangue – principalmente sódio, potássio, cloreto e cálcio. Se
os seus níveis passam a ser muito elevados ou diminutos, o seu corpo tem uma forma de o
alertar, fazendo com que o seu coração pare ou com que você entre em estado de coma. É
realmente inteligente.
16 A furosemida é um diurético – se você tem uma acumulação de fluidos nos pulmões ou
tecidos, geralmente devido ao mau funcionamento do coração ou dos rins, a furosemida fá-
lo-á urinar. Se você não tiver uma acumulação de fluidos, como neste caso, fará com que
você urine o conteúdo de água do seu sangue.
17 A saturação de oxigénio é a percentagem de oxigénio no sangue e é medida pelo
pequeno clip que se coloca na ponta do dedo. Deve estar tão próxima de cem por cento
quanto possível, definitivamente acima dos noventa por cento e definitivamente
definitivamente acima dos oitenta por cento.
18 Os médicos internos do ano comum passam geralmente seis meses a trabalhar em
medicina e seis meses na cirurgia. A pior das sortes levou-me a trabalhar na urologia.
19 O desluvamento é um ferimento em que apele é rasgada dos tecidos subjacentes – vê-
se geralmente nos acidentes de moto, em que as mãos do condutor se arrastam pelo chão.
Os ratos são capazes de desluvar as suas caudas se o desejarem, para escapar da
captura. A razão pela qual nos ensinam isto na faculdade de Medicina escapa-me.
20 Quase todas as cirurgias da zona abdominal podem ser realizadas através de uma
laparoscopia, o que em grego significa “muito mais devagar”, e envolve a inserção de
pequenas câmaras e instrumentos em paus compridos através de pequenos orifícios. É
complicado e demora muito tempo a aprender. Faça uma simulação apertando os
atacadores com pauzinhos. Com os olhos fechados. No espaço.
21 A pancreatite é extremamente dolorosa, muitas vezes muito grave, e geralmente tem na
sua origem álcool ou cálculos biliares. Existem várias outras causas, e o mnemónico para
nos lembramos delas é GET SMASHED (N. da T.: excesso de álcool). (O segundo ‘S’
significa veneno de escorpião.)
22 Fibrilação atrial (FA) significa que o coração está a bater rapidamente, de forma errática e
ineficiente – o que não convém nada.
23 #CDF significa fratura do colo do fémur (se pensou que # era um hashtag, está proibido
de ler o resto do livro).
24 Os médicos estão legalmente obrigados a preencher os certificados de óbito dos seus
pacientes, detalhando as causas da morte. Em contexto hospitalar, devem, em geral,
declarar formalmente (confirmar) a morte.
25 Quando um papa morre, não se correm riscos. Segundo as regras do Vaticano,
claramente elaboradas por alguém que pensava que O Exorcista é demasiado brando, o
médico deve chamar três vezes o papa pelo nome, verificar se a sua respiração não apaga
uma vela e, então, só para ter a certeza absoluta, deve dar-lhe uma paulada com um
martelo na cabeça. Ao menos, ela não teve de me ver a fazer isso…
26 Devia haver um termo para o pessoal não-médico, o equivalente médico a “leigo” ou
“civil”. Pacientes, talvez?
2
Interno do Ano Comum Sénior Primeiro Posto
Em agosto de 2005, tornei-me interno do ano comum sénior27. Era,
obviamente, ainda muito jovem, sendo médico há apenas doze
meses, mas a palavra “sénior” já tinha sido aplicada ao meu cargo.
Talvez a ideia fosse aumentar um pouco nos pacientes a confiança
em relação ao jovem de vinte e cinco anos que estava prestes a
enfiar-lhes um bisturi no abdómen. Era também o pequeno impulso
moral de que eu precisava para me impedir de saltar do telhado do
hospital quando tive acesso à minha nova escala pela primeira vez.
No entanto, seria exagerado chamar-lhe uma promoção – acontece
automaticamente depois de um ano como interno do ano comum, tal
como quando se ganha uma estrela no crachá do McDonald’s.
Embora eu suspeite que o Ronald paga melhor do que o NHS28.
Penso que é tecnicamente possível chumbar no ano de interno do
ano comum e ser obrigado a repeti-lo, mas nunca ouvi falar de
nenhum caso. A título de exemplo, há entre os meus amigos um
interno do ano comum que dormiu com uma paciente na sala dos
médicos, e outro que se distraiu e prescreveu penicilina em vez de
paracetamol a um paciente alérgico à penicilina. Tanto um como o
outro passaram, pelo que só Deus sabe o que é preciso fazer para
chumbar.
É na fase de interno do ano comum sénior que temos de optar
pela nossa especialização. Se escolhermos medicina familiar,
ficamos no hospital mais um par de anos, a fazer coisas como
serviço de urgência, medicina interna e pediatria, antes de nos
mudarmos para a comunidade e termos direito a blazer com
remendos nos cotovelos e um sobrolho erguido em permanência.
Se escolhermos medicina hospitalar, há vários caminhos possíveis
nos quais podemos tropeçar cegamente. Se gosta de se imaginar
como cirurgião, poderá inscrever-se em tudo, desde cirurgia
colorretal a cardiotorácica, neurocirurgia e ortopedia (a ortopedia
https://calibre-pdf-anchor.a/#a105
https://calibre-pdf-anchor.a/#a106
está, na prática, reservada à equipa de râguebi da faculdade de
Medicina – é pouco mais do que serrar e pregar – e suspeito que,
para se “inscreverem”, se limitem a mergulhar a mão em tinta e a
gravar a sua impressão palmar).
Existem vários ramos da medicina geral para quem não gosta de
sujar as unhas, como geriatria29, cardiologia, pneumologia ou
dermatologia (pode ser uma vida revoltante, mas relativamente fácil
– poderá contar pelos dedos de uma mão escamosa o número de
vezes que será acordado a meio da noite para uma emergência
dermatológica). Além disso, existem variadíssimas especialidades
que não são bem medicina nem cirurgia, como anestesia, radiologia
ou obstetrícia e ginecologia.
Eu escolhi obstetrícia e ginecologia – também conhecida,
encantadoramente, por “putos e gajas” na minha faculdade de
Medicina. Tinha feito a minha tese de pós-graduação nesse campo,
pelo que tive uma certa vantagem, desde que as pessoas só me
fizessem perguntas sobre resultado neonatal precoce em filhos de
mães com síndrome dos anticorpos antifosfolipídeos, perguntas
essas que, não sei como, nunca me foram feitas. Em obstetrícia,
gostei de acabar com o dobro do número de pacientes com que
comecei, o que é uma média incomum se a compararmos com as
de outras especialidades. (Estou a pensar em ti, geriatria.) Também
me lembro de ter sido informado por um dos internos da
especialidade, durante o estágio, que ele escolhera obstetrícia e
ginecologia por ser fácil. “A sala de partos consiste apenas em
quatro coisas: cesarianas, fórceps, ventosas e coser toda a
trapalhada que se fez”30.
Também gostei do facto de se tratar de uma combinação de
medicina e cirurgia – o meu trabalho de interno do ano comum
mostrou-me que eu também não deveria especializar-me. Teria,
assim, a oportunidade de trabalhar em clínicas de infertilidade e em
blocos de partos – que melhor e mais gratificante uso poderia dar à
minha formação do que fazer nascer bebés e ajudar casais que de
outra forma não os poderiam ter? Sim, o trabalho seria complicado,
em termos emocionais, sempre que as coisas corressem mal – nem
https://calibre-pdf-anchor.a/#a107
https://calibre-pdf-anchor.a/#a108
todas as cegonhas têm aterragens felizes – mas, infelizmente, os
maus momentos são o preço a pagar pelos bons.
Havia também o facto de ter descartado todas as outras
especialidades numa sucessão rápida. Demasiado deprimente.
Demasiado difícil. Demasiado chato. Demasiado repulsivo.
Obstetrícia e ginecologia foi a única que me entusiasmou. Era uma
carreira pela qual eu podia realmente ansiar.
A bem dizer, foram precisos meses para que eu me decidisse,
comprometesse e aplicasse. Penso que hesitei porque, até ali, não
fizera qualquer opção de vida importante desde que escolhera a
minha faculdade de Medicina, aos dezoito anos – e isso deveu-se,
principalmente, ao facto de ter ficado impressionado com as batatas
fritas da associação de estudantes. Aos vinte e cinco anos foi a
primeira vez que tive, realmente, de tomar uma decisão ativa no
livro da minha vida Escolhe a tua Própria Aventura. Não só tive de
aprender a tomar uma decisão, como tive de me certificar de que
tomava a decisão certa.
Você escolhe pegar no fórceps. Vire para a página 34.
Segunda-feira, 8 de agosto de 2005
Primeira semana a trabalhar na sala de partos. Chamado pela
enfermeira-parteira porque a paciente DH se encontrava indisposta
logo após ter dado à luz um bebé saudável. Ninguém gosta de um
parvalhão armado em esperto, mas não era preciso o Columbo, a
Jessica Fletcher e todos os ocupantes do 221b da Baker Street para
descobrir que a paciente estava, muito provavelmente, a sentir-se
mal devido aos litros de sangue que saiam em cascata pela sua
vagina. Toquei o “bleep” de emergência, na esperança de que
alguém fosse um pouco mais útil, e tranquilizei de forma
convincente a paciente, garantindo-lhe que estava tudo bem,
enquanto ela continuava a encharcar as minhas pernas com o seu
volume de sangue.
O interno da especialidade sénior31 chegou a correr, fez um PV32
e removeu um pedaço de placenta que estava na origem do
https://calibre-pdf-anchor.a/#a109
https://calibre-pdf-anchor.a/#a110problema33. Assim que esse pedaço foi retirado e a paciente
recebeu algumas unidades de sangue, começou a sentir-se bem.
Fui aos vestiários para vestir umas calças lavadas. É a terceira
vez numa semana que os meus boxers ficam encharcados no
sangue de outras pessoas e que não tenho outra opção que não a
de os tirar e continuar à frente do turno. A quinze libras o par na
Calvin Klein, parece-me que estou a trabalhar para aquecer.
Desta vez, fiquei mais encharcado do que o costume e dei por
mim a limpar sangue do pénis. Não sei o que é pior: se a perceção
de que poderia ter apanhado o VIH ou se a consciência de que
nenhum dos meus amigos iria acreditar que o tinha apanhado
assim.
Sábado, 27 de agosto de 2005
Chamado por um interno do ano comum para ver uma paciente,
no pós-operatório, que não urina há nove horas34. Digo ao interno
do ano comum que não urino há onze horas por causa de pessoas
como ele, que me fazem perder tempo. O seu rosto engelha-se
como um pacote de batatas fritas amarrotado pelo punho de um
miúdo gordo e eu sinto-me logo terrivelmente mal por ter sido duro
com ele – aquele era eu alguns meses antes. Inclino-me para
observar a paciente. De facto, ela não consegue urinar, mas isso
acontece porque o tubo do seu cateter está preso por baixo da roda
da cama e a sua bexiga tem o tamanho de uma bola para as
crianças saltarem. Deixo de me sentir terrivelmente mal.
Segunda-feira, 19 de setembro de 2005
Primeiro parto por ventosa. De repente, sinto-me um verdadeiro
obstetra – é um título bastante teórico até que se consiga de facto,
ora bem, extrair um bebé. A minha interna da especialidade, Lily,
vai-me dando dicas devagar, mas eu faço tudo sozinho e é
espetacular.
“Parabéns, esteve muito bem”, diz a Lily.
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https://calibre-pdf-anchor.a/#a112
“Obrigado!”, respondo, antes de perceber que ela está a falar com
a mãe.
Quarta-feira, 21 de setembro de 2005
A escrever uma pilha de cartas para médicos de clínica geral, no
fim das consultas de ginecologia, quando Ernie, um dos internos da
especialidade – arrogante, mas de forma engraçada – chega para
me pedir um candeeiro de observação. Espreita por cima do meu
ombro. “Vais ser despromovido se escreveres isso. Muda para ‘com
pus’ ou coloca um hífen em qualquer sítio.”
Olho para a frase ofensiva. “Ela tem corrimento de rata”35,36.
Quarta-feira, 16 de novembro de 2005
Olho para as notas antes de observar uma paciente idosa de
ginecologia na ronda pela enfermaria.
Boas notícias: Foi finalmente vista pela fisioterapia.
Más notícias: “Paciente demasiado sonolenta para ser avaliada”,
diz a nota.
Entro. A paciente está morta.
Terça-feira, 22 de novembro de 2005
Já dei assistência a internos da especialidade e especialistas em
quinze cesarianas. Em três ou quatro ocasiões, ofereceram-se para
me deixar fazer o procedimento enquanto me ensinavam os passos,
mas em todas elas desisti porque tive demasiado medo –
atualmente, sou o único interno do ano comum sénior do novo grupo
que se mantém virgem, como Ernie faz questão de frisar.
Hoje, Ernie não me dá qualquer hipótese – apresenta-me à
paciente como o cirurgião que vai fazer nascer o seu bebé.
Portanto, faço isso mesmo. Perco os três, e logo com uma audiência
ao vivo. Cortei pele humana pela primeira vez, abri um útero pela
primeira vez e fiz um parto cirúrgico pela primeira vez. Gostaria de
https://calibre-pdf-anchor.a/#a113
https://calibre-pdf-anchor.a/#a114
dizer que foi uma experiência incrível, mas estava demasiado
concentrado em cada passo para realmente aproveitar.
A cesariana demora cinquenta e cinco minutos37 penosos desde
que começa até ao final, e Ernie é extremamente paciente comigo.
Enquanto eu limpo a zona da incisão, ele salienta que a minha
incisão estava afastada uns dez graus. Diz à paciente: “Quando
retirar o penso, irá notar que tivemos de entrar de uma forma um
pouco torta”, o que ela parece aceitar sem questionar – o milagre da
maternidade a dourar aquela pílula em particular.
Ernie mostra-me como fazer as notas da cirurgia e faz um balanço
do que se passou durante o café, esticando a sua metáfora sobre
virgindade até não poder mais, como se fosse um pervertido sexual.
Aparentemente, com a prática, a minha técnica irá melhorar, haverá
menos sangue e menos nervos, e é possível que comece a senti-la
como uma rotina chata. O anestesista ajuda à festa: “Mas eu não
tentaria prolongar o desempenho”.
Quinta-feira, 22 de dezembro de 2005
Incidente clínico. Sou “bleepado” às duas da manhã para observar
uma paciente internada no serviço de ginecologia, que estava
inconsciente. Tento explicar à enfermeira que a maioria das pessoas
está inconsciente às duas da manhã, mas ela continua a insistir que
devo aparecer com urgência. A GCS38 da paciente é 14/15, pelo
que “inconsciente” é um exagero, mas está desorientada e
claramente com hipoglicemia. Uma enfermeira vai procurar um
medidor de glicose no sangue noutra enfermaria. Estou bastante
confiante em relação ao meu diagnóstico, pelo que não sou capaz
de esperar e peço a garrafa de concentrado de laranja que
guardamos no frigorífico clínico para esta situação. A paciente bebe
o líquido mas continua sonolenta. É um pouco tarde para me armar
em House, mas mando fazer outros testes e procuro descobrir o que
mais poderá estar na origem da situação, enquanto aguardamos
pelo aparelho. Nunca há um à mão, apesar de serem sempre
necessários e de serem vendidos ao preço da chuva. Pensei em
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comprar um para mim, mas pareceu-me um caminho perigoso que
poderia acabar comigo a manter uma máquina de raio-X na mala do
carro.
O auxiliar de saúde refere que a garrafa vazia que estava prestes
a deitar para o lixo é de concentrado de laranja sem açúcar – com
tanta utilidade para este caso como um vale para adquirir um livro.
Não sei se hei de rir ou chorar, mas estou demasiado cansado para
qualquer uma das coisas. Após comer dois Ferrero Rocher de uma
rececionista, a paciente sente-se muito melhor. A enfermeira
responsável pede desculpa pelo “erro na encomenda” e promete
que, de futuro, os concentrados serão os corretos. Algo me diz que
da próxima vez que vir uma paciente com hipoglicemia irão ao
frigorífico e voltarão de lá com uma abóbora manteiga39.
Domingo, 25 de dezembro de 2005
Boas notícias/más notícias.
Boas notícias: é a manhã do dia de Natal40.
Más notícias: tenho que trabalhar na sala de partos.
Piores notícias: o meu telefone toca. É o meu interno da
especialidade. Não liguei o alarme e agora ninguém sabe por onde
é que eu ando.
Notícias ainda piores: estou a dormir no meu carro. Levo algum
tempo a perceber onde estou e porquê.
Boas notícias: parece que adormeci depois do meu turno da noite
passada e já estou no trabalho, no parque de estacionamento do
hospital.
Salto para fora do carro, tomo um duche rápido e estou pronto,
com apenas dez minutos de atraso. Tenho oito chamadas não
atendidas de H e uma mensagem escrita a dizer “Feliz Natal”, ponto
final, sem beijos.
Este ano, celebramos o Natal no meu próximo dia de folga: seis
de janeiro. “Pensa que haverá menos ‘crackers’ de Natal!”41 foi a
única coisa positiva que consegui dizer.
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Quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
Existem dias em que recebemos uma firme confirmação do nosso
lugar na hierarquia hospitalar, e o nivelador de hoje foi um prolapso
do cordão umbilical42.
Subo para o colchão, atrás da paciente, assumo a posição
veterinária, e a cama é levada para o bloco operatório. Estão a
acabar outra cesariana, pelo que, por enquanto, aguardamos na
sala de anestesia. Para que a paciente se mantenha calma e fazer
com que a situação não pareça tão sinistra, falamos um pouco
sobre nomes de bebés, fraldas e licenças de maternidade.
O seu companheiro descera ao andar de baixo para tomar um
café rápido, pouco antes de as coisas se terem tornado tão…
íntimas, pelo queperdeu o drama todo. Quando regressou, a
enfermeira-parteira informou-o sobre a situação e dá-lhe um pijama
cirúrgico para que ele possa entrar no bloco operatório para assistir
à cesariana. Leva-o para a sala de anestesia, onde estou ajoelhado,
com a vulva da mãe do seu filho a meio do meu antebraço. “Meu
Deus!”, diz ele, com um forte sotaque de Glasgow. A enfermeira-
parteira lembra-o de que o avisara que eu estaria a segurar o
cordão deslocado. “Avisou”, diz ele, com os olhos arregalados –,
“mas não me disse que iria usá-la como o fantoche Sooty”.
Terça-feira, 24 de janeiro de 2006
Deus teve o bom senso de se afastar do meu trabalho, se não
tivermos em conta alguns “Credo!” e o estranho “Jesus!”. Hoje
conheço MM, testemunha de Jeová, para lhe confirmar uma
miomectomia aberta43. É um tipo de cirurgia sangrenta, e devemos
ter quatro unidades de sangue submetido a provas de
compatibilidade no frigorífico do bloco operatório em modo de
espera.
O problema, evidentemente, é que as testemunhas de Jeová
recusam qualquer transfusão de sangue por causa da crença
(completamente estúpida) de que o sangue contém a alma e de que
não devemos introduzir a alma de uma outra pessoa dentro de nós.
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No entanto, estamos num país livre – por isso, respeitamos os
valores e desejos (imbecis) de toda a gente.
MM é brilhante, encantadora e culta, e temos uma conversa muito
interessante. Ela concorda em fazer recuperação intraoperatória de
sangue44 durante a cirurgia e eu passo-lhe a declaração de
consentimento específico para recusar a transfusão de sangue,
mesmo que seja necessária para salvar a sua vida. Trata-se de uma
pequena mas real probabilidade, mesmo com recuperação
intraoperatória de sangue – várias testemunhas de Jeová morreram
por terem recusado produtos sanguíneos. Ela assina, embora
admita que parte da razão pela qual o faz é que a sua família
deixaria de lhe falar se ela recebesse sangue. (Mais um ponto a
favor da transfusão, se quer saber a minha opinião.)
O senhor Flitwick, o meu especialista, conta-me com entusiasmo
que, nos “bons velhos tempos”, ignoravam a declaração e
avançavam com a transfusão de sangue, caso fosse necessário –
os pacientes nunca descobririam, uma vez que se encontravam sob
o efeito da anestesia. Felizmente, a cirurgia de hoje corre de feição
e a máquina de recuperação de sangue fica no canto da sala. Volto
a observá-la na enfermaria durante a noite e, ao folhear as suas
notas, vejo que faz anos dentro de dois dias e que, muito
provavelmente, estará ainda no hospital no dia do seu aniversário.
Lamento por ela, apesar de que também eu, muito provavelmente,
estarei num hospital durante todos os meus aniversários até estar
demasiado fraco para apagar as velas, mas ela diz-me que as
testemunhas de Jeová não celebram aniversários e nem sequer
recebem presentes. Isto é ainda mais marado do que a coisa do
sangue.
Quinta-feira, 26 de janeiro de 2006
Dilema moral. Na ronda da enfermaria, o Ernie está a conversar
com uma mulher muito bem-falante na casa dos trinta – em resumo,
uma versão mais jovem e sofisticada da Rainha. Ela está pronta
para ir para casa, depois de ter dado entrada na urgência, há alguns
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dias, com uma torção ovárica45. Ele marca-lhe uma consulta para
que seja observada daqui a seis semanas, no atendimento
ambulatório, e recomenda-lhe que não conduza durante três
semanas. “Oh, pelo amor de Deus!”, diz ela ao Ernie. “O raio da
coisa está aqui no parque de estacionamento. Por que é que não
anda você com ele até eu ter de voltar cá?” O Ernie está prestes a
recusar, não faz qualquer sentido, mas ela tira da mala um conjunto
de chaves da Bentley, o que complica tudo. Portanto, agora o Ernie
anda de Bentley Continental GT.
Sexta-feira, 27 de janeiro de 2006
Há três meses que visito o Bebé L na SCBU46 – faz parte da
minha rotina antes de ir para casa, e é bom ver um rosto familiar,
mesmo que seja pelo vidro da parede de uma incubadora47. A mãe
dele foi internada no meu segundo sábado a trabalhar, às vinte e
seis semanas da primeira gravidez, com uma dor de cabeça intensa
que rapidamente revelou ser pré-eclâmpsia precoce grave48. Foi
estabilizada e o Bebé L teve de nascer no domingo; auxiliei o
especialista a fazer a incisão. A mãe acabou por ter de passar
alguns dias nos cuidados intensivos – pelo que não podíamos
esperar mais e tivemos de fazer o parto – e saiu o bebé, muito
pequenino e a pesar pouco mais do que um frasco de compota.
Os neonatologistas fazem com que os obstetras se assemelhem a
cirurgiões ortopédicos – são tão académicos, tão meticulosos – a
desafiar Deus e a natureza para fazer com que estes bebés
vinguem. Em 1970, este bebé teria uma probabilidade de
sobrevivência abaixo dos dez por cento, mas hoje a probabilidade é
superior a noventa por cento. Após doze semanas de magia
neonatal, passou de um musaranho de pele transparente ligado a
uma dúzia de tubos e fios para um bebé pequeno como deve ser,
que grita, vomita e dorme, e terá alta hoje à tarde.
Eu deveria estar encantado pelo facto de ele voltar para casa – e
é claro que estou, essa é a nossa razão de ser –, mas vou sentir
falta de ver o meu pequeno amigo, de dois em dois dias.
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Compro o postal menos feio que há na loja da League of Friends e
entrego-o aos enfermeiros pediátricos para que o ofereçam à sua
mãe. Digo-lhe como estou satisfeito por a sua história ter tido um
final feliz, dou-lhe o meu número de telefone e peço-lhe que me
mande, se puder, uma fotografia de vez em quando. É provável que
tudo isto vá contra os regulamentos da Ordem dos Médicos e o
protocolo hospitalar e viole todo o tipo de letras pequenas, diretrizes
e melhores práticas, mas estou preparado para me tramar por este
caso49.
Quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
A escrever cartas para os clínicos gerais no gabinete de
ginecologia.Caro senhor Doutor,Vi XA na consulta com o seu marido
Sam, Esther Sugar e os seus dois filhos…Um momento enquanto
tento lembrar-me da consulta. Quais dos três eram os pais das
crianças? Sinto que deveria saber quem é Esther – qual a razão do
nome completo? É famosa? Mulher de Sir Alan? Na verdade, Esther
nem sequer lá estava.
Há dois meses, a administração despediu quase todas as
secretárias do hospital, substituindo-as por um novo sistema
informático. A primeira diferença fundamental é que, em vez de
darmos as nossas gravações Dictafone às secretárias, temos agora
de as ditar diretamente para o computador, que decide fazer upload
do nosso áudio e enviá-lo para fora, para uma espécie de fábrica de
trabalho escravo, mas com secretárias, ou apagá-lo
instantaneamente sem deixar rasto. A segunda diferença
fundamental é que a qualidade da transcrição sugere que o “back-
end” do sistema envolve duas latas, uma corda comprida e um
lémure que foi ensinado a escrever num teclado. No entanto, não
devemos preocupar-nos com isto: o importante é todo o dinheiro
que a administração está a poupar ao despedir tanta gente que
sempre trabalhou no duro e adorava o hospital. A única vantagem
deste sistema é que podemos ouvir a nossa gravação original ao
rever documentos. Carrego no “play”.Caro senhor doutor,Vi XA na
consulta com o seu marido Sam (S de Sugar) e os seus dois
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filhos.Acredito que isto me coloca no topo da tabela de dotes de
confusões no ditado departamental, com um “A paciente tem
conhecidas analogias” (no lugar de conhecidas alergias).
Quarta-feira, 22 de março de 2006
Cumprimento de três horas na triagem da sala de partos. A
paciente RO tem vinte e cinco anos e está na trigésima semana da
primeira gravidez. Queixa-se de ter muitas manchas indolores na
língua. Diagnóstico: papilas gustativas.
Segunda-feira, 3 de abril de 2006
São duas da manhã e não se passa grande coisa na sala de
partos, pelo que opto por descansarna sala dos médicos para tratar
de umas questões administrativas pessoais e olhar um bocado para
o Facebook. Comento como é bonito o último bebé feio de um
amigo, algo que sou capaz de fazer de modo muito convincente,
uma vez que passo grande parte do meu dia de trabalho a fazer o
mesmo com desconhecidos. Para mim, o verdadeiro milagre do
parto é que pessoas inteligentes e racionais, com empregos e
capacidade eleitoral, olham para estas bolinhas de carne, com
cabeças maltratadas por terem sido espremidas numa pélvis,
cobertas por cinco tipos de gosmas diferentes e horríveis, que
parecem ter estado duas horas a rebolar em cima de uma piza, e
acreditam sinceramente que são bebés lindos. É o darwinismo em
ação, um amor irracional pela prole. O mesmo desejo projetado de
manter a espécie que as faz voltar à sala de partos para uma
segunda ronda, dezoito meses depois da destruição irreparável do
seu períneo.
O outro milagre do parto é que posso colocar fórceps de metal na
cabeça de um bebé e inclinar-me para trás – aplicando sobre ele 20
kg de força de tração, enquanto me encharco em suor – e ele sai
perfeitamente bem, em vez de, como seria de esperar, decapitado.
Quando nasce, cada mãe de primeira viagem faz de tudo para
manter a cabeça direita, encaixando-a na mão. Se as fotografias
falassem, “Cuidado com o pescoço dele!” seria o grito possível de
ouvir em qualquer imagem do familiar sem filhos a posar com um
recém-nascido. Mas tenho a certeza de que poderia segurá-lo pela
cabeça, que ele não teria qualquer problema50.
Vejo perfis de ex para verificar se são incrivelmente infelizes e
estão com excesso de peso sem mim, quando vejo uma publicação
de Simon, o irmão mais novo de um amigo da escola. Tem vinte e
dois anos e, apesar de ter falado com ele duas vezes, há uma
década, isto é o Facebook, onde todos somos amigos. É simples e
devastadoramente eficaz. Quatro palavras: “Adeus a todos. Nada a
fazer.”
Percebo que sou provavelmente a única pessoa a ler isto às duas
e meia da manhã de uma segunda-feira, pelo que decido enviar-lhe
uma mensagem privada a perguntar-lhe se ele está bem. Digo-lhe
que estou acordado, lembro-o de que sou médico e dou-lhe o meu
número de telemóvel. Procuro o número do seu irmão no meu
telemóvel, quando o Simon liga. Está num estado absolutamente
lamentável: bêbado e a chorar. A namorada acabou tudo com ele.
Na verdade, não tenho mais capacidades de o aconselhar do que
teria para o ensinar a substituir a caixa de velocidades ou a colocar
um pavimento flutuante, mas ele presume que tenho, e isto é o
suficiente para ambos. Duas horas (milagrosamente, sem qualquer
“bleep”) mais tarde, tivemos uma bela conversa. Ele vai apanhar um
táxi até à casa da mãe e depois marcar uma consulta de urgência
com o médico de família, logo pela manhã. Sinto a mesma estranha
libertação de endorfinas que me atinge após lidar com qualquer tipo
de emergência médica – exaustão e felicidade, e uma vaga
sensação de ter feito algo “bom” (como você se sentiria depois de
ter participado numa corrida de dez quilómetros por uma causa
solidária). É possível que, esta noite, eu tenha tido uma importância
maior para Simon do que para qualquer um dos meus pacientes.
Respondo a um “bleep” e dirijo-me ao bloco de partos para
observar uma mulher grávida de trinta semanas que decidiu que
precisava que alguém visse o seu eczema às 5h00. “Pensei que
talvez fosse mais calmo agora do que pela manhã”, justifica.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a128
Segunda-feira, 10 de abril de 2006
Referenciação de um interno do ano comum sénior do serviço de
urgência – a paciente tem um tipo de excrescência vulvar áspera.
Pergunto-lhe se pode descrevê-la um pouco melhor. “É como se
fosse uma floresta de couves-flores, amigo. Na verdade, com o
corrimento, é mais como se fossem brócolos.”
H não apreciou esta história ao jantar.
Sexta-feira, 21 de abril de 2006
Na próxima semana, Ron vai ser submetido a uma pequena
cirurgia ao joelho e quer que eu o tranquilize e lhe garanta que não
irá morrer durante a anestesia, uma garantia para a qual não estou
qualificado, mas que tenho todo o prazer em dar-lhe.
Também me pergunta se é verdade que, por vezes, a anestesia
“não funciona”, pelo que decido contar-lhe uma história que se
passou no início do ano, no trabalho:
“Então, há dois tipos principais de anestesias. Em primeiro lugar,
um relaxante muscular – para que o cirurgião possa ter uma
imobilidade adequada à volta. Com o corpo completamente
paralisado, não é possível respirar sem ajuda, e é por isso que o
paciente tem de ser ligado a um ventilador durante o procedimento.
Em segundo lugar, um líquido turvo chamado propofol, o que o
deixa inconsciente, pelo que este dorme ao longo de todo o
procedimento51.
“Agora, imagina que o anestesista pega por engano no líquido
turvo errado do seu carrinho e te injeta um antibiótico em vez do
propofol. Estás deitado numa mesa de anestesia, totalmente
paralisado por um relaxante muscular, mas sem o propofol ficas
completamente acordado – capaz de ouvir tudo o que é dito, de
sentir o cirurgião a limpar-te com um antissético, mas sem poderes
alertar ninguém de que algo de terrivelmente errado se está a
passar. Gritas silenciosamente enquanto o bisturi do cirurgião corta
a tua pele – a dor pior e mais lancinante que alguma vez sentiste...”
https://calibre-pdf-anchor.a/#a129
A expressão de Ron parece ter sido desenhada por Edvard Munch.
“Mas tenho certeza de que vai tudo correr bem!”
Terça-feira, 6 de junho de 2006
Chamado a observar uma paciente no serviço de urgência. Fez
uma interrupção farmacológica da gravidez há alguns dias e
encontra-se em agonia total. Não sei qual é o problema, mas é
óbvio que algo se está a passar – admito-a na enfermaria para lhe
aliviar a dor e para que seja observada por um médico sénior. Ernie
examina-a.
“Está com cãibras. A ecografia antes da interrupção farmacológica
da gravidez revelou uma gravidez intrauterina. Normal. Manda-a
para casa.”
Tento justificar a minha decisão de a internar – é com certeza dor
a mais? Ela está a morfina!
“Só porque lhe prescreveste morfina…”
Mas a verdade é que ninguém fica com tantas dores com uma
interrupção farmacológica da gravidez.
“E como é que tu sabes qual é o limite de dor dela?”, é a resposta
séria. “Talvez ela fique assim quando roça no dedo do pé.”
Arrisco insistir que algo de estranho se está a passar, mas ele não
liga ao que eu digo.
“Se estiveres no teu quarto e ouvires o som de cascos a baterem
no chão lá fora, pode ser uma zebra. Mas se fores à janela e vires
bem, será quase sempre um cavalo.” Diz-me que posso prescrever
alguns antibióticos para o caso de haver infeção – mas que ela tem
mesmo de voltar para casa.
O “bleep” da enfermaria a dizer que o estado da doente se
deteriorou teria idealmente chegado neste preciso momento.
Aconteceu algumas horas mais tarde, mas o resultado foi o mesmo:
ajudar Ernie a remover uma gravidez ectópica52 no bloco operatório,
assim como uma tonelada métrica de sangue da pélvis. A ecografia
que tinha sido feita antes da interrupção da gravidez estava
perigosamente errada.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a130
A paciente melhorou e está de volta à enfermaria. Ernie não me
pediu desculpa, uma vez que isso implicaria alterar toda a sua
personalidade. Neste momento, estou no site da Amazon a
encomendar-lhe um porta-chaves em forma de zebra.
Segunda-feira, 12 de junho de 2006
Explico a uma paciente que perder peso ajudaria a controlar a sua
síndrome dos ovários poliquísticos53, encaminho-a para o
nutricionista e pergunto-lhe se faz exercício físico. Lá porque algo é
óbvio para mim, não quer dizer que o seja sempre para os pacientes
– é um pouco como tocar à porta de um edifício em chamas para
dizer ao proprietário que a sua casa está a arder, mas por vezes
vale a pena. Já a preparar-me para a resposta previsível sobre a
falta de tempo, antecipo-me: “Será que inscrever-se num ginásio a
poderia ajudar?”
“Já estou inscrita num ginásio”, responde. “Mas há cerca de três
mil librasque não ponho lá os pés.”
Segunda feira, 19 de junho de 2006
Chamado para observar com urgência uma grávida no bloco de
partos. A paciente ES iniciou a indução do trabalho de parto por se
tratar de uma gravidez pós-termo54. A enfermeira-parteira,
preocupada, leva-me a uma casa de banho da enfermaria; a
paciente acabara de abrir os intestinos e parece que a Lush lançou
uma nova e terrível bomba de banho vermelha e castanha. Não
augura nada de bom para a hora do lanche da senhora da limpeza,
nem para a própria paciente.
Observo-a para verificar se o sangramento não é vaginal – não é
–, e fico satisfeito por perceber que o CTG55 mostra que o bebé
parece estar bem. O exame retal está totalmente normal, a paciente
diz que nunca teve nada daquilo e que não tem outros sintomas.
Envio o seu sangue para análise, faço uma prova cruzada,
administro-lhe alguns fluidos e encaminho-a com urgência para o
serviço de gastroenterologia. Faço ainda uma pesquisa no Google,
https://calibre-pdf-anchor.a/#a131
https://calibre-pdf-anchor.a/#a132
https://calibre-pdf-anchor.a/#a133
para saber se o Prostin pode causar um sangramento
gastrointestinal massivo. Não há registos de que isso já tenha
acontecido, pelo que este seria o primeiro caso – pergunto-me se
irão dar o meu nome à síndrome. Preferiria que a síndrome de Kay
fosse uma descoberta mais glamourosa do que alguém a defecar
por todo o lado durante a indução do trabalho de parto, mas talvez
seja um preço que vale a pena pagar pela imortalização em livros
didáticos.
O especialista de gastroenterologia aparece antes de eu ter
terminado de escrever as minhas notas, e depois de uma breve
conversa e mais dedo lubrificado, ela é encaminhada para se
submeter a uma colonoscopia. Felizmente, tudo parece normal e
não há indícios de sangramento recente. Mais algumas perguntas e
o especialista chega com o diagnóstico: “bleepa-me” para me
informar.
A confusão que eu vira na retrete era, na verdade, a prova
bastante reprovável das duas grandes latas de beterraba em
conserva que ES tinha inexplicavelmente comido na noite anterior.
O especialista pede “respeitosamente” que, da próxima vez que eu
quiser encaminhar-lhe os movimentos intestinais de alguém, prove
primeiro.
Terça-feira, 20 de junho de 2006
O nosso sistema informático foi atualizado e, como acontece onze
vezes em cada dez, quando o hospital tenta simplificar qualquer
coisa, torna-a muito mais complicada. É certo que tem um ar muito
mais moderno (e menos de programa MS-DOS da escola), mas a
verdade é que não resolveram nenhum dos problemas massivos de
software, e limitaram-se a melhorar o interface. É como tratar um
cancro de pele colocando maquilhagem sobre a lesão. Aliás, é pior
do que isso. Este interface cheio de brilhos utiliza tantos recursos
esgotados do sistema que o desacelerou até se tornar um
rastejamento quase inutilizável. É como tratar um cancro de pele
com maquilhagem à qual o paciente tem uma reação alérgica
extrema.
Os exames de sangue estão agora num menu suspenso e solicitar
um deles implica descer na página através da lista alfabética de
cada um dos exames que todos os médicos já prescreveram ao
longo da história da humanidade. Para chegar a “Vitamina B12” são
precisos três minutos e dezassete segundos. E se, em vez de
descermos até lá manualmente, clicarmos na letra ‘V’, o sistema
“cracha” de tal maneira que é preciso desligar todos os cabos e só
falta mesmo ter de usar um ferro de soldar para que ele funcione
novamente. Noventa e nove por cento das vezes, prescrevemos a
mesma dúzia de exames mas, em vez de dar prioridade aos que
estão no topo da lista (até o site da EasyJet sabe colocar o Reino
Unido acima da Albânia e do Azerbaijão), deixa-os espalhados por
entre milhões de testes de que nunca ouvi falar nem prescrevi.
Alguém sabia que há três exames laboratoriais diferentes para o
selénio no soro? Por isso, há uma pequena margem de pacientes
anémicos para os quais vou passar a pedir os níveis de vitamina
B12. Se você for apenas um pouco anémico, não vou perder o dia a
carregar na seta para baixo com o dedo durante três minutos. E se
for severamente anémico, não vou prescrever as análises porque é
muito provável que você esteja morto no momento em que eu o tiver
feito.
Sexta-feira, 21 de julho de 2006
“Bleepado” para me dirigir à enfermaria de ginecologia, às cinco
da manhã, para escrever um resumo de alta para uma paciente que
voltará para casa de manhã. Deveria ter sido feito durante o dia pelo
seu próprio interno do ano comum sénior e não existe qualquer
razão para que eu o faça. Mas se eu não o fizer esta noite, a alta da
paciente será adiada. Sento-me e escrevo – trata-se de um trabalho
bastante básico, pelo que tenho tempo para planear um ato de
vingança apropriado contra o interno do ano comum sénior em
questão. Ao sair, apercebo-me da luz na sala de visitas próxima da
paciente CR e espreito lá para dentro para ver se está tudo bem.
Admiti-a, depois de ela ter dado entrada no serviço de urgência,
na semana passada, com ascite56 severa e uma suspeita de massa
https://calibre-pdf-anchor.a/#a134
ovárica. Desde então, tenho estado a fazer noites e não sei o que se
passou. Ela disse-me. A suspeita de massa ovárica tornou-se um
diagnóstico de cancro do ovário, que confirmou, por sua vez,
metástases generalizadas, que se transformaram em apenas alguns
meses de vida. Quando a vi na urgência, apesar de suspeitas
evidentes, não pronunciei a palavra “cancro”. Aprendi que quando
dizemos a palavra, mesmo que de passagem, isso é tudo o que o
paciente irá lembrar-se. Não importa o que fazemos para além
disso. Se dissermos aquela palavra apenas uma vez é como se
tivéssemos entrado no cubículo e não tivéssemos dito mais nada a
não ser “cancro, cancro, cancro, cancro, cancro” durante meia hora.
E não é que quiséssemos que uma paciente tivesse cancro, como é
óbvio. Eu não queria mesmo nada que ela o tivesse. Amigáveis,
engraçados, faladores – apesar dos litros de líquido no seu
abdómen que lhe afetavam a respiração –, parecíamos dois amigos
há muito tempo desencontrados que voltaram a ver-se, um ao lado
do outro, numa paragem de autocarro, e que punham toda a
conversa em dia. O seu filho foi admitido na faculdade de Medicina,
a sua filha está na escola que a minha irmã frequentou, ela notou
que uso meias Duchamp. Coloquei-lhe um cateter para retirar o
fluido e admiti-a na enfermaria para que a equipa do dia pudesse
investigar.
Ela conta-me o que descobriram. Começa a chorar
convulsivamente e deixa sair todos os “nunca acontecerá”, a
descoberta arrasadora de que “para sempre” são palavras que só
existem nos postais do dia de São Valentim. O seu filho irá concluir
o curso na faculdade de Medicina – ela não estará lá. A sua filha irá
casar-se – ela não poderá ajudá-la a elaborar o plano da mesa ou
lançar confetes. Nunca conhecerá os seus netos. O seu marido
nunca ultrapassará a sua morte. “Ele nem sequer sabe como
funciona o termóstato!” Ela ri-se, e eu rio-me. Na verdade, não sei o
que dizer. Quero mentir-lhe e dizer-lhe que vai correr tudo bem, mas
ambos sabemos que não será assim. Abraço-a. Até ali, nunca
abraçara um paciente – penso, aliás, que só abracei cinco pessoas,
no total, e um dos meus pais não está nesta lista – mas não sei o
que mais fazer.
Falamos sobre coisas práticas aborrecidas, preocupações
racionais, preocupações irracionais, e consigo ver nos seus olhos
que isso está a ajudá-la. De repente, tenho quase a certeza de que
sou a primeira pessoa com quem ela falou de tudo isto, a única com
quem ela foi completamente honesta. É um estranho privilégio, uma
honra inesperada.
A outra coisa que percebo é que nenhuma das suas inúmeras
preocupações lhe dizem diretamente respeito; todas se referem aos
filhos, ao marido, à irmã, aos amigos. Talvez seja isto a definição de
uma boa pessoa.
Tivemos uma paciente, há alguns meses, em obstetrícia, a quem
foi diagnosticado um cancro da mama com metástases durante a
gravidez e foi-lhe recomendado que o bebé nascesse às trinta e
duas semanaspara que ela pudesse começar o tratamento. No
entanto, ela decidiu esperar até às trinta e sete semanas para dar
ao bebé as melhores hipóteses. Morreu após duas semanas com o
seu bebé – quem sabe se o tratamento inicial, um mês antes, teria
feito alguma diferença. Talvez não.
E estou agora sentado com uma mulher que me pergunta se não
deveria ter as suas cinzas espalhadas pelas Ilhas Scilly. É o seu
local preferido, mas ela não quer que se torne um lugar triste para a
família quando ela tiver partido. A generosidade pura de alguém
plenamente consciente da influência que a sua ausência terá
naqueles que deixa para trás. O meu “bleep” toca – é o interno do
ano comum sénior da manhã a solicitar a transferência. Passei duas
horas nesta sala, o mais longo período de tempo que alguma vez
passei com um paciente que não estava sob o efeito de anestesia. A
caminho de casa, ligo à minha mãe para lhe dizer que a amo.
27 N. da T.: o interno do ano comum é um interno que terminou o policlínico e aguarda
entrada para a especialidade.
28 No primeiro ano como interno ganhei seis libras e sessenta centavos por hora. É um
pouco mais do que oferecem a um operador de caixa no McDonald’s, embora bastante
menos do que um supervisor de turno.
29 A geriatria é atualmente conhecida como “cuidados a idosos”. Talvez a ideia seja dar-lhe
um ar menos clínico – menos como um lugar onde alguém poderia realmente expirar, e
mais como um spa de luxo onde é possível ter serviços de manicura e pedicura enquanto
toma uma bebida verde clara feita por uma empresa de smoothies. Alguns hospitais
mudaram-lhe o nome para a especialidade “cuidados ao paciente idoso” ou “cuidados à
pessoa idosa” – eu sugeriria a designação mais apropriada de “cuidados ao inevitável”.
30 Cerca de um quarto dos bebés no Reino Unido nasce por cesariana. Algumas destas
cesarianas são procedimentos planeados (eletivos) para casos como gémeos, bebés em
posição pélvica ou cesarianas prévias. As restantes são cesarianas não planeadas (de
emergência) porque o trabalho de parto não está a progredir, por sofrimento fetal e outras
causas variadas. Se o bebé ficar preso ou estiver em sofrimento no final de um parto
vaginal, faz-se um “parto instrumental”, recorrendo a fórceps – pinças para salada de metal
– ou a uma ventosa, que é um instrumento em forma de calota, ligado a um aspirador.
Adoraria poder dizer que estas descrições são exageradas.
31 N. da T.: o interno da especialidade sénior é um médico que terminou a especialidade e
continua a trabalhar enquanto aguarda a posição de especialista. Só então terá uma total
autonomia.
32 PV é um exame vaginal (per vaginal). PR é um exame ao reto (per retum), por isso,
esclareça sempre este ponto se alguém lhe disser que trabalha em PR.
33 Se algo se mantiver no útero no final do parto – placenta, membranas amnióticas, um
lego do Darth Vader – o útero não é capaz de se contrair de forma adequada, e isto
provoca sangramento até que a causa seja removida.
34 Os médicos estão obcecados com a produção de urina – embora não no sentido que faria
com que você pensasse duas vezes antes de se encontrar de novo com um deles para
uma saída a dois – é assim que sabemos se o paciente tem um baixo volume de sangue.
Isto é particularmente preocupante após uma cirurgia, uma vez que pode significar que o
paciente está a perder sangue em algum lugar ou que os seus rins estão lixados, sendo
que nenhuma destas situações é boa.
35 No meu hospital seguinte, o serviço de ginecologia ficava mesmo ao lado da sala de
espera onde eram colocadas as pacientes que aguardavam o transporte para casa, e o
cartaz na parede dizia: ENFERMARIA DE GINECOLOGIA / SALA DE ALTA HOSPITALAR
(N. da T.: em inglês, “DISCHARGE LOUNGE”, sendo que “discharge” significa também
corrimento).
36 N. da T.: Pussy discharge em inglês, sendo que, além de “rata”, “pussy” significa também
“purulento”.
37 Uma cesariana sem complicações deveria demorar apenas vinte a vinte e cinco minutos,
se o vento soprar na direção certa.
38 A Escala de Coma de Glasgow é uma medida do nível de consciência. Existe um
parâmetro de 1-4 para a resposta ocular, 1-5 para a resposta verbal e 1-6 para a resposta
motora, perfazendo uma pontuação máxima de quinze se completamente normal e a
menor pontuação possível de três em caso de morte (ou uma pontuação de dois se a
pessoa estiver morta e sem olhos). Por algum motivo, como se as vidas dos médicos não
fossem suficientemente complicadas, os pacientes – particularmente no serviço de
urgência – parecem gostar de fingir que estão mais inconscientes do que estão na
realidade. Nestes casos, os livros didáticos ensinam a aplicar um estímulo doloroso para
avaliar se existe fingimento, como pressionar uma unha com força ou esfregar os nós dos
dedos no esterno. O meu método preferido era levantar um dos braços para cima e deixá-
lo cair no rosto do paciente. Quando estão a fingir, não deixam que o braço chegue ao
rosto e o braço desvia-se milagrosamente para um dos lados. A desvantagem é quando
estão mesmo inconscientes e temos de nos explicar aos familiares.
39 N. da T.: squash significa abóbora. Já orange squash significa concentrado de laranja.
40 No NHS, é irrelevante se você tiver trabalhado no Natal anterior, em primeiro lugar porque
quase de certeza que foi num hospital diferente e, em segundo lugar, ninguém quer saber
disso para nada. Existe uma ordem de prioridade dos menos suscetíveis de trabalhar no
Natal: o primeiro é o médico que organiza a escala, seguido dos médicos com filhos
pequenos. Vários degraus mais abaixo desta hierarquia venho eu, com a minha falta de
filhos a atirar-me para os turnos de Natal praticamente todos os anos. Embora sem
grandes anseios paternais (um sentimento exacerbado por trabalhar na sala de partos),
considerei seriamente fingir ter filhos quando começasse num novo trabalho.
41 N. da T.: “Chistmas crackers” são pequenos brindes-surpresa em forma de bombons que,
no Reino Unido, se abrem tradicionalmente no Natal.
42 O prolapso do cordão umbilical significa que parte do cordão umbilical sai pela vagina
durante o trabalho de parto e, a menos que isto suceda mesmo na altura da saída do bebé,
equivale a uma cesariana muito urgente. Tudo bem que o cordão se deixou emocionar por
aquele momento tão especial e ficou ansioso por aparecer, como um fogo-de-artifício a 4
de novembro, mas quando arrefece entra em espasmo, o que significa que o sangue deixa
de chegar ao bebé. Por isso, deve ser recolocado no interior da vagina, e para que o
cordão fique livre de pressão, a mãe tem de se colocar de gatas, com os joelhos e os
cotovelos no chão, com o médico atrás dela até ao momento em que é novamente deitada
de costas para que se proceda à cesariana. O médico usa uma luva muito comprida que
vai até o ombro e é revoltantemente denominada “A Manopla”.
43 Uma miomectomia é a remoção de fibromas – tumores benignos constituídos por tecido
muscular no útero que se removem usando, basicamente, um saca-rolhas.
44 A recuperação intraoperatória de sangue consiste em reutilizar todo o sangue perdido
durante a cirurgia, em vez de o limpar, colocando-o numa máquina que filtra qualquer
impureza (a água usada no processo, o suor do cirurgião, pequenos pedaços de tinta que
caem do teto). Se for preciso fazer uma transfusão, o sangue do próprio paciente pode ser
utilizado – e algumas testemunhas de Jeová estão contentes por isto estar de acordo com
os seus ensinamentos, uma vez que o sangue permanece dentro de um circuito fechado e
não se pensa que deixou realmente o corpo. Eu sei.
45 A torção ovárica dá-se quando o ovário roda em torno de si mesmo e bloqueia o
fornecimento de sangue – se não for operado rapidamente, fica preto e morre. E, se não for
operada, a paciente torna-se séptica, fica sem oxigénio e morre.
46 SCBU (pronuncia-se Scaboo) é a Unidade de Cuidados Especiais, o NICU é Cuidado
Intensivo Neonatal, o PICU é o Cuidado Intensivo Pediátrico, o PIKACHU é um tipo de
Pokémon.
47 Uma parte muito frustrante dos trabalhosde interno do ano comum era a forma como
nunca sabia o final da história – ao box set de cada paciente faltava sempre o DVD final.
Um paciente entrava com pneumonia, seria tratado suficientemente bem para poder ir para
casa, e fazia isso mesmo – podia viver mais quinze anos, morrer no autocarro a caminho
de casa ou acontecer-lhe algo entre uma coisa e outra, e eu nunca saberia. Sem entrar por
uma curiosidade extrema, sempre me pareceu que talvez fosse útil descobrir se os nossos
planos de gestão tinham sido úteis. Eu gostava da rapidez da obstetrícia – podia
acompanhar todo o processo até ao fim; e ao olhar para trás, para as minhas decisões no
contexto destes resultados, podia aprender e melhorar como médico. Portanto, se um bebé
fosse para a SCBU, eu fazia questão de passar lá para ver como estava.
48 A pré-eclâmpsia é uma complicação da gravidez que pode afetar a maioria dos órgãos do
corpo da mãe, causando danos no fígado e nos rins, inchaço do cérebro, fluidos nos
pulmões e distúrbios das plaquetas, assim como afetar o crescimento e o bem-estar do
bebé. Em última análise, evolui para a eclâmpsia – convulsões que ameaçam a vida. A
maioria dos casos de pré-eclâmpsia é leve, mas todas as grávidas são submetidas à
verificação da pressão arterial e da proteína na urina a cada consulta para que aquela
condição seja detetada numa fase inicial. A única cura para a pré-eclâmpsia é a expulsão
da placenta (e, necessariamente, do bebé primeiro). A grande maioria das grávidas com
pré-eclâmpsia serão controladas durante a gravidez, com alguns comprimidos para reduzir
a pressão arterial ou através da indução do parto uma ou duas semanas mais cedo. No
entanto, algumas pacientes desenvolvem esta condição de um modo severo e bastante
mais cedo na gravidez, o que leva a tomar a difícil decisão de fazer nascer o bebé
prematuramente, para evitar consequências gravíssimas tanto para a mãe como para a
criança.
49 E ela enviou-me uma mensagem.
50 Isto não são recomendações médicas.
51 Ou indefinidamente, se for o Michael Jackson.
52 A gravidez ectópica acontece quando um embrião se forma no lugar errado – geralmente
numa trompa de Falópio. Se não for tratada, acabará por se romper, e esta é a causa mais
comum de morte em mulheres nos primeiros três meses de gravidez. Todas as mulheres
com dores e um teste de gravidez positivo devem ser consideradas como tendo uma
gravidez ectópica, a não ser que fique provado que não se trata de uma, através de
ecografia. Neste caso, o profissional interpretou de forma errada uma gravidez ectópica
como sendo uma gravidez intrauterina.
53 A síndrome dos ovários poliquísticos é a condição endócrina mais comum nas mulheres,
afetando entre uma em cinco e uma em vinte mulheres, dependendo da sua definição, o
que mudará mais três ou quatro vezes entre a altura em que escrevo isto e a altura em que
qualquer outra pessoa ler isto. Pode causar problemas de fertilidade, na pele e pelos do
corpo, e distúrbios menstruais.
54 Tal como o seu amigo bêbado que insiste em ir consigo a mais um bar, embora já tenha
vomitado no cabelo, por vezes as gravidezes prolongam-se por mais tempo do que seria
desejável. Depois de quarenta e duas semanas, a placenta pode começar a ir à vida, pelo
que induzimos o parto antes que as mães tenham de chegar a esse ponto, sendo o
primeiro passo um pessário vaginal, como o Prostin.
55 A cadiotocografia, conhecida como CTG, consiste em prender um cinto às mães durante
o trabalho de parto, que mede e regista continuamente, através de um gráfico, as
contrações e a frequência cardíaca do bebé. São geralmente descritas como CTG
“tranquilizador” ou CTG “não tranquilizador”.
56 A ascite é a acumulação de líquido na cavidade abdominal, e significa quase sempre uma
péssima notícia.
3
Interno do Ano Comum Sénior Segundo Posto
A certa altura, nos meus primeiros anos como interno do ano
comum sénior lembro-me de ver um documentário sobre os grandes
mestres de Shaolin. Treinam durante uma década, ou mais, num
templo remoto, sendo que acordam às cinco da manhã e só param
à meia-noite, submetendo-se a uma vida de celibato, desprovida de
bens materiais. Não pude deixar de sentir que não era assim tão
mau – ao menos, não tinham de ir desenraizar a sua vida todos os
anos para um templo completamente diferente.
As deaneries do NHS, entidades responsáveis pela formação
médica de pós-graduação, movimentam médicos para diferentes
hospitais a cada seis ou doze meses, de forma a assegurarem que
aprendem com um grande número de especialistas, o que me
parece fazer sentido. Infelizmente, cada deanery cobre uma área
geográfica bastante grande, e somos colocados de forma aleatória
em unidades de toda a região. Por exemplo, uma dessas deaneries
é a de Kent, Surrey e Sussex, que eu (tal como o serviço de
cartografia do Estado, a Ordnance Survey) sempre considerei três
áreas enormes e distintas. Uma outra deanery é a da Escócia. Você
conhece a Escócia, aquele – como é que lhe chamaria, oh sim –
país inteiro que mede quase oitenta mil quilómetros quadrados. Se
está a pensar onde comprar a sua primeira casa, é bastante difícil
escolher uma localização acessível para toda a Escócia. Mesmo
que fossemos suficientemente loucos para passar por uma
mudança de propriedade uma ou duas vezes por ano, isso seria
complicado, uma vez que as deaneries limitam os custos de
relocação a zero libras.
Portanto, enquanto todos os meus amigos em carreiras sensíveis
estavam a contrair créditos e a adotar cachorros, H e eu estávamos
a assinar contratos de arrendamento de um ano e a viver num
qualquer lugar mutuamente inconveniente, mais ou menos a meio
caminho entre os nossos dois locais de trabalho. Era mais um item
na lista das formas como o meu trabalho estava a infligir danos
colaterais a H – viúvo de médico, conselheiro pós-turno e agora
nómada.
Lembro-me de, uma vez, ter ligado a todos os serviços e vários
utilitários e à DVLA57 e assim por diante sobre a nossa mudança de
endereço (penso que por penitência, porque não consegui um dia
de folga para ajudar na mudança) e o pessoal do seguro de
habitação fez-me uma pergunta padrão sobre o número de noites
em que a casa fica vazia. Percebi que, se vivesse sozinho, a apólice
não teria validade, uma vez que a casa seria tecnicamente
considerada “desocupada”.
Apesar dos horários, gostei verdadeiramente do meu primeiro ano
no serviço de ginecologia e obstetrícia – fiz a escolha certa. Passei
de um Bambi cambaleante, aterrorizado sempre que o bleep tocava,
para, se não um corço elegante, pelo menos alguém capaz de imitar
bem um. Eu ganhara agora um pouco de autoconfiança e acreditava
conseguir lidar com a emergência atrás de cada porta de sala de
partos; principalmente graças ao trabalho num hospital com
profissionais seniores que estavam empenhados na minha formação
de médico.
No entanto, quando a deanery lançou os dados pela segunda vez,
fui parar a um hospital muito mais antigo. Quando descreve um avô
como uma pessoa “antiquada”, é um eufemismo para “fala em
encomendar comida chinoca”. Em ambiente hospitalar, significa
“sem qualquer orientação”. Ou seja, estamos por nossa conta.
Fui de uma pista de neve para principiantes diretamente para uma
pista preta à Schumacher onde fora adotada a abordagem agora
maioritariamente extinta de “ver um, fazer um, ensinar um”. Se você
tiver visto alguém a remover uma trompa de Falópio ou a fazer uma
ecografia a um ovário, então já sabe fazer tudo isto perfeitamente.
Talvez pensasse tratar-se de um pesadelo horrível. Acontece que,
neste hospital, era muitas vezes a melhor das situações, uma vez
que o “ver” era frequentemente ignorado, como os preliminares
numa rapidinha de casa de banho de discoteca.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a161
Atualmente, os tutoriais do YouTube ensinam de tudo um pouco,
desde como tratar uma unha encravada a separar gémeos
siameses58. Em 2006, era necessário seguir um conjunto de
instruções impressas num manual. Para ser ainda mais divertido,
era necessário memorizar estes passos geralmentebastante
complicados (pense num kit car em vez de roupeiro do IKEA) antes
de ver o paciente. Confiaria em alguém que estivesse a olhar para o
seus órgãos genitais com um bisturi numa mão e um manual na
outra? Aprendi rapidamente a ter um ar de absoluta confiança, por
muito que as minhas pernas estivessem a estrebuchar
freneticamente debaixo de água. Ou seja, nunca jogue póquer
comigo. Mas lembre-se de mim se tiver alguma dificuldade em
montar a sua mobília.
Como estive a trabalhar durante grande parte do meu tempo
acordado, e como o desamparo era tão grande, aprendi imenso
durante o meu segundo trabalho como interno do ano comum sénior
e fi-lo muito rapidamente. O método “antiquado” pode não ser
divertido, mas funciona. Aqueles sacanas dos Shaolin estavam
basicamente num campo de férias.
Quarta-feira, 2 de agosto de 2006
É quarta-feira negra59 e comecei a trabalhar em St. Agatha. É um
facto reconhecido que as taxas de mortalidade aumentam na
quarta-feira negra. Saber isso retira, de facto, a pressão, pelo que
não estou a esforçar-me demasiado.
Quinta-feira, 10 de agosto de 2006
A observar uma mãe na consulta, seis semanas depois de um
parto traumático. Agora, está tudo bem, mas há algo que a
preocupa. Pergunto-lhe o que se passa e ela começa a chorar –
acha que o bebé tem um tumor cerebral e pede-me para o ver. Não
é propriamente a minha área60, mas ao ver o rosto abatido da mãe,
parece-me que talvez não seja o momento ideal para me armar em
funcionário de bilheteira de estação inútil e aconselhá-la a consultar
https://calibre-pdf-anchor.a/#a162
https://calibre-pdf-anchor.a/#a163
https://calibre-pdf-anchor.a/#a164
o seu médico de família. Examino a criança e espero que aquilo que
a preocupa se encontre dentro dos parâmetros limitados do meu
conhecimento pediátrico.
Ela mostra-me um grande inchaço na parte de trás da cabeça do
bebé. Estou cheio de sorte e posso anunciar-lhe com confiança que
se trata da protuberância occipital do bebé, que é uma zona
totalmente normal do crânio. Olhe, lá está ela na cabeça do seu
outro filho! Aqui está ela também na sua cabeça!
“Oh, meu Deus”, ela chora, com as lágrimas ainda a deslizarem
pelo seu rosto, a olhar para o seu bebé, depois para o seu filho de
três anos, e de novo para o bebé, como se estivesse a assistir a um
jogo em Wimbledon. “É hereditário.”
Segunda-feira, 14 de agosto de 2006
A minha escala implica fazer ecografias na unidade de início de
gravidez a cada duas semanas. Hoje, mal tendo visto alguém fazer
uma ecografia antes, tive de gerir sem qualquer tipo de assistência
vinte pacientes, e examinar pedaços de células de quatro milimetros
através de ultrassom transvaginal61. Pedi (implorei) a um interno da
especialidade que me fizesse uma demonstração rápida, e ele
conseguiu ver uma paciente comigo antes de sair para o bloco
operatório. A minha colega interna do ano comum sénior do turno da
tarde também nunca fizera um antes, pelo que lhe passei a minha
nova habilidade, fazendo o ultrassom da sua primeira paciente. Ver
um, fazer vinte, ensinar um.
Quarta-feira, 16 de agosto de 2006
A acabar de sair de um parto, o meu melhor com ventosa até
agora. No final, a enfermeira-parteira disse-me que pensou que eu
fosse um interno da especialidade (mas como ela é conhecida por
Perigoso Amanhecer não vou dar-lhe muito crédito).
Uma chamada da mamã para me dizer que a minha irmã Sophie
entrou na faculdade de Medicina. Envio uma mensagem a Soph a
felicitá-la com muito entusiasmo e, depois, uma fotografia dos meus
https://calibre-pdf-anchor.a/#a165
polegares para cima, em pijama cirúrgico (recortada para não se ver
a zona salpicada) e um “Tu daqui a seis anos!”.
Se tivesse recebido a chamada no final do turno, a minha
mensagem seria: “CORRE COMO O RAIO DO VENTO!”
Segunda-feira, 21 de agosto de 2006
Ando há mais de duas semanas com um postal dos correios a
dizer “Desculpe, o senhor estava ausente”. Passo o tempo a tirá-lo e
a olhar para ele com interesse, como se fosse uma fotografia do
meu primogénito ou de algum amor de infância há muito falecido, a
reler de modo patético os horários de abertura para a recolha, na
esperança de que se alterem magicamente diante dos meus olhos.
Não se alteram.
Não teria tempo de ir aos correios e voltar durante a minha hora
de almoço, mesmo que tivesse uma hora para almoçar, tempo esse
que não tenho, mas alimento a esperança de um dia, poder sair do
trabalho mais cedo – se o hospital arder, digamos, ou for declarada
uma guerra nuclear. Hoje, começo uma semana de noites, pelo que
bem posso esquecer o sonho de ir buscar a encomenda.
Infelizmente, os correios só guardam as mercadorias durante
dezoito dias, sendo que estive a trabalhar durante todos eles, pelo
que a minha encomenda foi devolvida ao remetente.
Resumindo, H não vai receber um presente de aniversário
amanhã.
Quinta-feira, 14 de setembro de 2006
Na enfermaria pré-natal, a paciente CW precisa de alguns exames
de imagem aos pulmões, portanto, marco-lhe uma ressonância
magnética e verifico a checklist62. Ela não pode fazer uma
ressonância magnética porque colocou um pequeno, mas poderoso,
implante magnético no indicador direito, há alguns anos. Pelos
vistos, esta moda existiu de forma limitada. Os implantes eram
colocados por tatuadores e a ideia era dar ao destinatário um
“sentido adicional” – uma consciência transcendente dos objetos
https://calibre-pdf-anchor.a/#a166
metálicos à sua volta, como se fosse uma aura vibradora (palavras
dela) ou uma versão um pouco manhosa do X-Man (palavras
minhas).
Para ser sincero, penso que as suas técnicas de venda deveriam
ser melhoradas. Afinal, acabou por não se revelar a experiência
mística e etérea que ela procurava, mas uma verdadeira dor de
cabeça – ela diz-me que infetou várias vezes e que passar pela
segurança dos aeroportos é agora um inferno. Brinco um pouco
pedindo-lhe que aponte para o meu colega Cormac para confirmar,
ou não, o rumor segundo o qual ele colocou um Príncipe Alberto63,
mas ela diz que o seu implante se deslocou ou desmagnetizou
recentemente, e que agora já não sente nada, a não ser um inchaço
no dedo. Aliás, ela quer que o implante seja removido, mas o tecido
cicatricial que terá sido formado à volta do íman faz com que se
trate de uma cirurgia relativamente complicada, e não
comparticipada pelo NHS. Marco-lhe uma tomografia computorizada
– ela poderá usar um avental de proteção de chumbo, havendo
pouquíssima exposição à radiação para o bebé. Mas se eu tivesse
prosseguido e marcado uma ressonância magnética, ter-lhe-ia
poupado o custo dessa cirurgia privada.
Domingo, 17 de setembro de 2006
A impressora enlouqueceu ou então foi uma das rececionistas –
quantidades enormes de papel inundaram a receção. Toda a gente
por perto juntou-se para tentar resolver o problema, e todos fazem
exatamente o mesmo: carregar à sorte em botões para um efeito
totalmente nulo.
As páginas saem em cascata pela impressora e para o chão da
sala de partos. Pego numa delas – trata-se de autocolantes de
identificação de pacientes, de um recém-nascido, para serem
colocados em anotações, pulseiras, etc. Durante o resto do dia, toda
a gente verifica os sapatos e as costas numa paranoia total, caso
um autocolante perdido se tenha colado a alguém – trata-se de um
https://calibre-pdf-anchor.a/#a167
rótulo que ninguém quer usar. Um apelido um pouco infeliz fez com
que todos os autocolantes digam BABY RAPER64.
Segunda-feira, 25 de setembro de 2006
Como a outra metade vive. Na unidade pré-natal, uma paciente
extremamente sofisticada aparece para uma consulta de rotina. O
seu feto extremamente sofisticado está ótimo. O seu filho de oito
anos, extremamente sofisticado, faz-lhe uma pergunta sobre a
economia (!) e, antes de lhe responder, ela pergunta ao seu filho de
cinco anos também extremamente sofisticado: “Sabes o que é a
economia, querido?”
“Sim, mamã. É a parte do avião que é terrível.”
Dá para perceber como é que as revoluções começam.
Quarta-feira, 27 de setembro de 2006
Fico doente pela primeira vez desdeque comecei a trabalhar. E
não recebi propriamente compreensão.
“Oh, grande merda”, respondeu o meu interno da especialidade
quando lhe liguei. “Não podes vir de manhã?” Expliquei que era uma
intoxicação alimentar bastante severa e que estava a ter um tipo
qualquer de colapso gastrointestinal. “Tudo bem”, disse ele, com o
tipo de agressão passiva corrosiva e fervilhante que só recebo em
casa. “Mas faz umas chamadas e arranja alguém que esteja de
folga para te substituir.”
Tenho a certeza de que não é este o protocolo na Google ou na
GlaxoSmithKline ou até na Ginsters. Será que há outro trabalho
onde se é convidado a tratar da própria substituição se se estiver
doente? Talvez no exército norte-coreano? Pergunto-me que grau
de doença faria com que isso deixasse de ser da minha
responsabilidade. Bacia partida? Linfoma? Ou tenho de ser intubado
nos cuidados intensivos e estar incapaz de falar?
Felizmente, consegui proferir algumas palavras por entre os
acessos de vómito (quando não por entre acessos de diarreia), e lá
consegui arranjar uma substituta. Não expliquei o que estava a fazer
https://calibre-pdf-anchor.a/#a168
durante o telefonema – é provável que tenha soado como se
estivesse numa sessão de paintball. E agora, em troca, devo-lhe um
turno. Portanto, nem sequer se trata de uma baixa por doença.
Sempre suspeitei que se acabasse por ficar doente a culpa seria
do trabalho. Teria apostado todas as minhas fichas num qualquer
tipo de colapso emocional, talvez insuficiência renal por
desidratação, ser espancado por um familiar zangado ou embater
com o carro numa árvore após um turno noturno sem dormir. Afinal,
foi um assassino muito mais sorrateiro – uma dose de mussaca
caseira estragada, confecionada pela mãe de uma paciente em
trabalho de parto. Tenho a certeza que foi isso: não consegui comer
mais nada o dia inteiro. Deveria haver um ditado sobre os gregos
que oferecem presentes, pensei, enquanto me desfazia numa forte
caganeira, com a garganta a saber a bílis e um ligeiro travo a
beringela.
Sábado, 30 de setembro de 2006
Observo uma mulher na triagem, que acabou de chegar a bufar e
a soprar, em trabalho de parto. Pergunto-lhe com que frequência
está a ter contrações e o marido responde-me que são três a quatro
vezes a cada dez minutos, e que cada uma tem a duração de um
minuto. Explico que tenho de fazer um exame interno para avaliar
até que ponto está dilatada65.
O marido diz-me que verificou antes de sair de casa e que ela
tinha seis centímetros de dilatação. A maioria dos futuros pais não
costuma espreitar, razão pela qual lhe pergunto se é médico. Não,
responde, é estucador, mas “sei o que é um centímetro, amigo”.
Examino a paciente e concordo com as suas conclusões, o que faz
dele uma pessoa mais competente do que a maioria dos meus
colegas.
Sábado, 7 de outubro de 2006
Há seis meses que sou a linha de atendimento permanente de
saúde mental do Simon, desde aquela publicação no Facebook.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a169
Disse-lhe que pode ligar-me sempre que tiver pensamentos
preocupantes, e é isso que ele faz. Também lhe disse várias vezes
que deveria envolver-se de modo mais formal com os serviços de
saúde mental, mas ele não gosta muito de ouvir essa parte. Além do
facto de ser um pouco assustador ter um segundo bleep a ameaçar
tocar a qualquer instante com más notícias, algo me diz que ele teria
uma ajuda melhor por parte de alguém que não teve de ir pesquisar
para o Google, em pânico, “O que dizer a alguém com tendências
suicidas”. Mas, ao que parece, sou melhor do que nada – pelo
menos, ainda está vivo.
A parte mais stressante é descobrir que não atendi uma chamada
dele – se eu devolver a chamada demasiado tarde e ele já se tiver
matado, isso faz com que a culpa seja minha, como se tivesse sido
eu a dar o chuto na cadeira? Presumo que não, mas é assim que os
médicos se sentem, e é provavelmente por isso mesmo que estou
nesta situação. Se você for o primeiro a reparar que o paciente de
outra pessoa está a respirar de forma estranha ou que as suas
análises ao sangue têm valores anormais, é da sua
responsabilidade lidar com a questão, ou pelo menos garantir que
alguém o faça. Tenho a certeza de que os técnicos de equipamentos
de aquecimento não sentem a mesma coisa em relação a todas as
caldeiras avariadas que encontram. A diferença é obviamente, toda
a questão de “vida e morte”, que é o que separa este trabalho de
todos os outros, e o torna tão impenetrável para as pessoas que
estão do lado de fora.
Ligo de volta ao Simon após uma cesariana esta noite. As minhas
sessões de aconselhamento duram até cerca de vinte minutos –
trata-se apenas de ouvir, ser simpático e assegurar-lhe que as
emoções passarão. Ele deve perceber que a conversa é sempre a
mesma, mas é óbvio que isso não o incomoda. Só quer saber que
há alguém que se importa com ele. E a verdade é que essa é uma
parte muito importante da profissão de médico.
Segunda-feira, 9 de outubro de 2006
Hoje o limite das idiotices diárias dos pacientes foi ultrapassado, e
dei comigo à procura de câmaras ocultas na sala. Após uma longa
conversa com o marido de uma paciente sobre como nenhum
preservativo lhe serve, confirmo que ele os estica até tapar os
testículos.
Terça-feira, 10 de outubro de 2006
Não percebi qual era o motivo da discussão, mas uma mulher sai
enfurecida do ambulatório de ginecologia a gritar para a irmã: “Eu
pago o teu salário! Eu pago o teu salário!” A irmã responde, também
aos gritos: “Dás-me um aumento, então?”
Quinta-feira, 19 de outubro de 2006
A minha cara de póquer deu-me bastante jeito ao longo dos anos.
Permitiu-me ouvir um homem de oitenta anos a falar da utilização de
um plug anal chamado The Assmaster e possibilitou-me explicar
calmamente a um casal na consulta de infertilidade que massajar o
sémen no umbigo dela não irá resultar. Fico ali sentado, a acenar
com a cabeça, sem expressão, acenando vagamente como o cão
do anúncio da Churchill. “E o Assmaster é de que tamanho,
senhor?”
Hoje, no entanto, a minha cara de póquer quebrou-se. Na ronda
desta manhã, um estudante de Medicina apresentou a Sra. Ringford
– uma paciente de ginecologia com setenta anos a recuperar na
enfermaria após uma colporrafia posterior devida a um grande
prolapso66. Infelizmente, chamou-a de “Sra. Ringpiece”67 e, tal como
a paciente, caguei-me, mas a rir.
Segunda-feira, 23 de outubro de 2006
Chamado à urgência para observar um cavalheiro na casa dos
setenta. Verifico com o médico da urgência se percebeu que
chamou a ginecologia: observar um homem seria esticar bastante a
https://calibre-pdf-anchor.a/#a170
https://calibre-pdf-anchor.a/#a171
minha função. Ao que parece, é complicado; ele explica quando eu
chegar lá.
Conheço o paciente NS, um cavalheiro sique que não fala inglês.
Está de férias, a visitar a família, e foi inutilmente acompanhado até
ao hospital por um parente que também não fala inglês. Por isso, a
sua história clínica é revelada com a ajuda de um serviço de
intérprete por telefone – neste caso, um tradutor de panjabi está em
linha, e o telefone vai passando de um lado para outro. É bem
possível que este intérprete em particular tenha forjado o seu
currículo – parece saber falar pouco mais panjabi do que alguém
que não sabe uma palavra de panjabi.
A equipa estoica da urgência faz poucos progressos com o
intérprete e transmite o que constatou: o paciente está a sangrar
“por baixo”, isso tem acontecido desde a semana passada e –
essencial para a minha presença – é hermafrodita68. Digo ao
médico da urgência que duvido, sinceramente, que aquele homem
idoso e barbudo faça parte da comunidade intersexual e peço para
falar com o intérprete.
“Pode perguntar ao paciente se tem útero?” O telefone passa de
um para o outro e o paciente começa a repetir-nos uma palavra em
panjabi, em voz alta e com raiva. Depois, desabotoa furiosamente a
sua camisa para nos revelar um Portacath69 – é o nosso momento
eureka. Em uníssono, dizemos: “Hemofílico!” E deixo-os a lidar com
o seu sangramento retal.
Terça-feira,31 de outubro de 2006
Dilema moral. Nos vestiários da sala de partos, no final de um
longo turno. Saio às dez da noite em vez de sair às oito, graças a
uma grande hemorragia obstétrica que acaba no bloco operatório.
Combinei ir a uma festa de Halloween, mas agora não tenho tempo
de ir a casa fantasiar-me. No entanto, neste momento tenho vestido
o pijama cirúrgico e estou salpicado de sangue da cabeça aos pés.
Seria assim tão condenável?
https://calibre-pdf-anchor.a/#a172
https://calibre-pdf-anchor.a/#a173
Sábado, 4 de novembro de 2006
Sou “bleepado” para ver uma paciente no pós-parto à uma da
manhã. O assistente operacional70 diz à enfermeira-parteira que me
“bleepou” que estou a meio de uma cesariana. Sou novamente
“bleepado” à 1h15 (ainda a fazer a cesariana) e à 1h30 (quando
estou a escrever as minhas anotações sobre a cirurgia). Acabo por
ir ver a paciente. A grande emergência? Ela irá voltar a casa de
manhã e quer ter o seu pedido de passaporte assinado por um
médico enquanto ainda está aqui.
Quarta-feira, 15 de novembro de 2006
Chego à primeira parte do exame para MRCOG71. Um livro de
caráter pedagógico aconselha-me a experimentar fazer um exame
antigo antes de começar a rever a matéria – “Poderá ser
surpreendido com tudo o que já sabe!” Tento fazer um.
Março de 1997, documento 1, pergunta 1.
Verdadeiro ou falso? As células cromafins:
A. São inervadas por fibras nervosas pré-ganglionares simpáticas
B. Estão presentes no córtex adrenal
C. Derivam da ectoderme neural
D. Podem descarboxilar aminoácidos
E. Estão presentes nos gânglios celíacos
Além do facto de eu conhecer o significado de menos de metade
destas palavras (e de a maior parte das que conheço serem
preposições), não posso deixar de me perguntar como é que isto é
relevante para a minha capacidade de fazer nascer um bebé. Mas
se é o que os meus suseranos insanos e demoníacos querem que
eu saiba, quem sou eu para os contradizer?
Um segundo livro de caráter pedagógico informa-me alegremente
que “é perfeitamente possível estudar a matéria para a primeira
parte do exame para MRCOG em apenas seis meses, reservando
para tal uma ou duas horas por noite”. É uma daquelas frases que
pretende ser reconfortante, mas tem o efeito oposto, mais ou menos
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https://calibre-pdf-anchor.a/#a175
como “é apenas um pequeno tumor” ou “a maior parte do incêndio já
foi extinta”.
Não estou inteiramente certo de onde é que estas duas horas
diárias adicionais virão – ou tenho de desistir do meu passatempo
fútil de dormir ou cortar na minha viagem de carro para o trabalho,
passando a viver lá, na despensa. Ah, e o meu exame é daqui a
quatro meses, e não seis.
Segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
Não me importo de trabalhar no dia de Natal – há comida por todo
o lado, geralmente as pessoas estão bem-dispostas e há muito
pouca gente com a mania das doenças72. Geralmente, as pessoas
não nos aparecem como pacientes no dia de Natal, a menos que
estejam verdadeiramente doentes, verdadeiramente em trabalho de
parto ou verdadeiramente odeiem a sua família (neste caso, temos
pelo menos algo em comum). Não me parece que H pensa o
mesmo, quando trocamos os presentes a uma velocidade
vertiginosa antes das 7h00.
A tradição em St. Agatha determina que o especialista de
prevenção73 apareça e faça uma ronda no dia de Natal, o que alivia
a carga de trabalho dos internos. O especialista também leva um
saco com presentes para os pacientes – artigos de higiene pessoal,
panetones, esse tipo de coisas – porque, bem, é muito chato estar
internado num hospital durante o Natal e as pequenas coisas fazem
toda a diferença. O melhor de tudo é que a tradição diz que este
especialista irá vestido de Pai Natal enquanto faz a ronda.
A equipa de enfermagem fica visivelmente desapontada quando o
especialista de hoje, Mr. Hopkirk, aparece por volta das dez horas
de calças chino e camisola. Antes que insultos como “Desmancha-
prazeres!” e “Ebeneezer!” se tornem ensurdecedores, ele explica
que, da última vez que ficou de prevenção no dia de Natal, vestiu a
roupa e colocou a barba para a ronda na enfermaria e ia mais ou
menos a meio quando uma paciente idosa entrou, de repente, em
paragem cardíaca. Então, foi ter com ela a correr e deu início à
https://calibre-pdf-anchor.a/#a176
https://calibre-pdf-anchor.a/#a177
reanimação cardiopulmonar enquanto uma enfermeira foi buscar o
carrinho. De forma pouco habitual, a reanimação cardiopulmonar foi
bem-sucedida74, e a paciente voltou à vida com a visão de um Pai
Natal de um metro e oitenta, lábios colados aos seus e braços no
seu peito. “Ainda a ouço a gritar”, disse ele.
“Vá lá”, diz uma das enfermeiras, como uma criança que não
consegue esconder a angústia de o seu presente de Natal ser um
conjunto de caligrafia em vez de um gatinho. “Talvez só o gorro?”
Quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
“Para incentivar a utilização dos transportes públicos”, não há
qualquer parque de estacionamento para o pessoal do hospital –
uma intenção admirável que me levaria a fazer um percurso de duas
horas e vinte minutos para cada lado. Em vez disso, optei por uma
deslocação de setenta minutos de carro, que estaciono no parque
dos visitantes. O sistema de pagamento deve ter sido idealizado por
alguém que percebeu que a probabilidade de ganhar a lotaria mais
do que uma vez era bastante magra, e achou que devia haver outra
forma de conseguir uma receita anual aproximada. São três libras
por hora, sem qualquer desconto para estacionamentos
prolongados no tempo, e aplica-se a cada hora de cada dia e de
cada noite, com exceção do Natal porque devem ter achado que
seria mesquinho.
A única exceção é para mulheres em trabalho de parto, que
recebem um vale de estacionamento válido por três dias, assinado
pelo supervisor da sala de partos. Dou-me bem com os supervisores
– não tanto pelo facto de quase todos os dias resolver situações de
emergência obstétrica, mas porque, ocasionalmente, trago uma
caixa de biscoitos. Por isso, ficam felizes por me assinarem um
bilhete de estacionamento de poucos em poucos dias, e, portanto,
me têm proporcionado um espaço de estacionamento no mercado
paralelo, nos últimos meses.
Mas hoje fui apanhado: o meu carro tem um bloqueador e uma
multa de cento e vinte libras para a sua remoção, presa debaixo do
limpa-para-brisas. Considero comprar uma rebarbadora por
https://calibre-pdf-anchor.a/#a178
cinquenta libras, mas trabalhei doze horas e tudo o quero é dormir o
mais rapidamente possível. Pego na multa para tentar perceber a
quem devo ligar. O fiscal rabiscou na parte de trás “Grande parto,
amigo”.
Domingo, 21 de janeiro de 2007
Precisamente quando estava a pensar que já não via um episódio
de “objetos inesperados presos em orifícios” há algum tempo, hoje
uma paciente de vinte anos chega à urgência porque não consegue
retirar uma garrafa. Espéculo75 lá para dentro – então, o que será
desta vez? Chanel N.º 5? Dois litros de Tizer? A poção mágica que
devo beber para passar ao próximo nível do jogo Dungeons &
Dragons que abandonei há vinte e quatro anos? Ao que parece, é
um frasco de recolha de urina, com urina até acima.
Não consigo determinar a história por trás da história. Por isso,
peço-lhe que me esclareça. Acontece que ela tem de dar amostras
de urina limpa ao técnico responsável pela sua liberdade condicional
e, em vez ir pela via mais simples de não consumir drogas, arranjou
um esquema no qual a sua mãe urina para o interior de um pote,
que ela faz passar clandestinamente por via vaginal e decanta para
o frasco de recolha de urina que recebe do técnico de reinserção
social. Penso no enorme volume de papelada que criarei para mim
próprio se documentar isto nas anotações, finjo que nunca lhe fiz
aquela pergunta e mando-a para casa.
Segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
A minha paciente preferida morreu há algumas semanas, e isso
afetou-me bastante. Não foi nada de inesperado: KL tinha oitenta
anos, cancro no ovário com metástases, e estava na enfermaria
desde que vim trabalhar para estaunidade, menos um par de altas
de curta duração, durante as quais voltou para casa. Metro e meio,
nada da insolência polaca, com olhos brilhantes e cintilantes,
adorava contar longas histórias cheias de meandros sobre o país
natal, relativamente às quais perdia o interesse no preciso momento
https://calibre-pdf-anchor.a/#a179
em que se tornavam interessantes. Terminavam quase todas com
“blá, blá, blá” e um vago aceno de mão.
E o melhor é que ela desprezou o meu especialista, Prof. Fletcher.
Chamava-o “homem velho” sempre que o via, apesar de ter uns
bons quinze anos a mais do que ele, colava-lhe frequentemente um
dedo ao peito quando queria explicar alguma coisa e, uma vez,
chegou a pedir para falar com o seu patrão. Eu ficava realmente
feliz por visitá-la durante a ronda da enfermaria – tínhamos sempre
assunto e parecia que a conhecia de verdade.
Ela percebeu logo que eu era polaco, apesar de três gerações da
minha família viverem em Inglaterra, a reproduzirem-se com
britânicos e a mandarem os seus descendentes para escolas caras.
Ela pergunta-me qual é o meu apelido original – digo-lhe que é
Strykowski. Ela acha triste que um bom nome polaco como este se
encontre fora de serviço; eu devia orgulhar-me dos meus
antepassados e voltar a usá-lo76,77.
Naqueles meses conheci todos os seus filhos, assim como
inúmeros amigos e vizinhos que a vieram visitar. “Agora é que
gostam de mim!”, dizia ela. Apesar da piada, dava para perceber por
que é gostavam: ela tinha uma personalidade magnética.
Fiquei verdadeiramente triste quando soube que ela morreu.
Decidi que iria ao funeral. Pareceu-me ser a coisa certa a fazer. Saí
do serviço esta tarde para poder comparecer, e informei o Prof.
Fletcher de que iria, por cortesia.
Ele disse-me que não podia – os médicos não vão aos funerais
dos seus pacientes, não é nada profissional. Eu não entendi bem a
razão. O argumento era suportado pelo facto de se dever traçar uma
linha entre o pessoal e o profissional, e eu concordo com isso até
certo ponto, mas o seu tom pareceu sugerir que eu ia lá para
seduzir os netos da senhora ou para ser colocado no testamento.
Penso que por trás desta ideia está, na verdade, um sentimento
bastante antiquado de que os médicos “perderam” ou “falharam”
quando um paciente morre. Existe um elemento de culpa ou
vergonha. Não é propriamente uma ideia sustentável na oncologia
ginecológica, onde haverá sempre uma grande rotatividade de
https://calibre-pdf-anchor.a/#a180
https://calibre-pdf-anchor.a/#a181
pacientes. Fiquei desapontado – em parte porque tinha um fato que
mandei limpar a seco especialmente para o funeral – mas ele é meu
chefe e as suas instruções foram muito claras.
É claro que fui ao funeral na mesma – até porque seria o tipo de
“vá à merda” que ela quereria que ele recebesse. Foi um belo
serviço fúnebre, e tenho a certeza de que foi também a coisa certa a
fazer – para mim e para os amigos e família que conheci na
enfermaria. Além disso, consegui ir para a cama com a sua
descendência78.
57 N. da T.: direção-geral de viação britânica.
58 Por favor, não tente.
59 Todos os internos mudam de hospital exatamente no mesmo dia a cada seis ou doze
meses, algo conhecido como quarta-feira negra. Talvez você pense que é uma péssima
ideia trocar todas as peças de Scrabble de uma só vez e esperar que o hospital funcione
exatamente como funcionava no dia anterior, e pensa muito bem.
60 Os pais parecem pensar que os obstetras são corujas sábias com um conhecimento
especializado em bebés, mas a realidade é bem diferente. Sabemos a raiz quadrada de
absolutamente nada, tirando alguns semi-factos, dos quais nos lembramos mais ou menos,
que aprendemos na faculdade de Medicina. A partir do momento em que um bebé deixa de
estar umbilicalmente ligado à mãe, entregamo-los e nunca mais lidamos com eles até
terem idade suficiente para procriar.
61 Isto soa a serviço de comboio de alta velocidade no Cáucaso, mas é consideravelmente
menos sofisticado. Você espreita lá para dentro com um aparelho de ultrassom para decidir
se a gravidez é viável, ectópica ou se há aborto. O diagnóstico incorreto pode levar a uma
acusação por negligência/homicídio.
62 Normalmente, far-se-ia uma tomografia computorizada, mas tentamos evitá-las na
gravidez, uma vez que implicam uma grande quantidade de exposição a raios-X; e
https://calibre-pdf-anchor.a/#a182
qualquer pessoa que tenha ficado acordada durante a noite a ver programas de terror pode
dizer-lhe que radiação e bebés não combinam. Explicaram-me várias vezes o mecanismo
de ressonância magnética, e continuo a não ser a pessoa mais sábia, mas não há raios-X
envolvidos: as imagens são obtidas usando uma combinação de protões, magia e o raio de
um íman gigante. E é mesmo gigante que quero dizer; do tamanho e peso de um T1. A
checklist da ressonância magnética pergunta se têm uma válvula cardíaca de metal
(poderia ser arrancada do seu peito agora morto a oitenta milhas por hora e desfazer-se
aos bocados na máquina) ou se trabalharam numa empresa de metalurgia (pequenos
pedaços de metal teriam entrado nos seus olhos, fazendo com que os dois globos oculares
explodissem mal a porta da sala de ressonância magnética se abrisse).
63 O apelo de um piercing genital, que é já de si praticamente nulo, evaporou-se
instantaneamente quando, na qualidade de interno, vi um paciente com um anel que fora
arrancado durante o sexo. Acontece com tanta frequência que os urologistas têm um termo
para estes casos: “Vingança do Príncipe Alberto”.
64 N. da T.: Violador de Bebés.
65 As contrações do útero fazem com que o colo passe de fechado a uma dilatação total
(dez centímetros) no final do trabalho de parto, altura em que o bebé pode fazer a sua
entrada triunfal. Os primeiros centímetros podem demorar muito tempo, pelo que,
geralmente, a mulher só é admitida na sala de partos depois de já ter pelo menos três
centímetros de dilatação – como numa discoteca estranha, na qual não se pode entrar sem
ter tido dois dedos enluvados na vagina. Aliás, é provável que já exista uma no Soho.
66 Quando se atinge uma certa idade, o corpo tenta virar-se do avesso através da vagina,
mas é possível evitar tudo isto fazendo exercícios para fortalecer o pavimento pélvico.
Existem folhetos que descrevem estes exercícios com pormenores confusos, mas eu
costumava dizer às pacientes: “Imagine que está sentada numa banheira cheia de enguias
e não quer que nenhuma delas entre.”
67 N. da T.: A palavra ringpiece, que significa ânus, é frequentemente usada como insulto.
68 O hermafroditismo é um distúrbio intersexual muito raro, no qual o paciente tem tecido
testicular e ovárico. Deve o seu nome a Hermaphrodito, figura da mitologia grega do
género masculino e feminino. Era filho/a de Hermes e de Afrodite, que, verdade seja dita,
tinham uma forma bastante indolente de escolher os nomes dos filhos.
69 Um Portacath é um dispositivo colocado sob a pele para facilitar a injeção de
medicamentos e a recolha de sangue, para pessoas que precisam de o fazer
frequentemente.
70 Um assistente operacional é como o Muttley para o Dick Dastardly anestesista.
71 Membro do Real Colégio de Obstetras e Ginecologistas – um obstáculo necessário para
progredir na carreira. O exame tem duas partes igualmente terríveis, e é bastante parecido
com os trabalhos de Hércules, na medida em que se é forçado a fazê-lo para demonstrar a
extraordinária dedicação que se tem à área mais do que a qualquer outra coisa.
72 Muitas pessoas (eu não as chamo pacientes, está tudo bem com elas) chegam ao
hospital erradamente convencida de que estão de algum modo doentes – são conhecidas
como as que têm a mania das doenças. Se for devido a algo que leram na Internet,
chamamos-lhes cibercondríacos.
73 Os especialistas estão geralmente de prevenção a partir de casa, fora do horário normal
de trabalho, e dão conselhos ao telefone, sempre que necessário, deslocando-se apenas
para situações de grande urgência.
74 Se o seu coração parar, é provável que você morra. Deus é bastante rigoroso nestaquestão. Se você cair na rua e alguém der início à reanimação cardiopulmonar, a sua
probabilidade de sobreviver é de cerca de oito por cento. No hospital, com pessoal
formado, medicamentos e desfibriladores, essa probabilidade aumenta apenas para o
dobro. As pessoas não entendem como a reanimação é terrível – indigna, brutal e com
uma taxa de sucesso muito fraca. Quando se fala das “ordens de não reanimar”,
geralmente os familiares querem que “tudo seja feito”, sem saberem o que isso significa.
Na verdade, o documento deveria questionar: “Se o coração da sua mãe parasse, gostaria
que lhe partíssemos todas as costelas e a eletrocutássemos?”
75 O espéculo é um dispositivo em forma de bico de pato, que tine e é usado para ver o
interior da vagina. O primeiro espéculo foi inventado em 1845, por um cirurgião norte-
americano chamado Sims. Mais tarde, ele escreveu na sua autobiografia: “Se havia algo
que eu detestava, era examinar os órgãos da pélvis feminina”, o que explica de alguma
maneira a razão pela qual inventou um instrumento tão horrível.
76 Strykowski pronuncia-se Strike-Offski, pelo que não me parece que seja um grande nome
para um médico.
77 N. da T.: do inglês Striken-off, aplicável quando um médico é expulso da Ordem dos
Médicos.
78 “Penso que deveria salientar que se trata de uma piada”, recomendou um dos
advogados.
4
Interno do Ano Comum Sénior Terceiro Posto
Bem sei que toda a gente se queixa do seu salário e pensa que
merece ganhar mais, mas estou feliz por olhar para o tempo que
passei como interno do ano comum sénior com alguma objetividade
e afirmar que fui profundamente mal remunerado. O dinheiro está
completamente desajustado em relação ao nível de
responsabilidade que nos é exigido – literalmente, decisões de vida
e morte – além disso, é preciso sublinhar o facto de termos estado
na faculdade de Medicina durante seis anos, trabalhado como
médicos três e começado a acumular qualificações de pós-
graduação. Mesmo que se considere adequado levar para casa
menos dinheiro por semana do que um maquinista, há ainda o facto
de essas semanas de trabalho poderem implicar mais de cem horas
de trabalho árduo incessante, o que significa que os parquímetros
fora do hospital têm uma melhor taxa horária.
No entanto, os médicos têm uma certa tendência para não se
queixarem da falta de dinheiro. Não é uma profissão que se escolhe
para iluminar os sinais de dólar por trás dos olhos, por muito que
alguns políticos o afirmem. Além disso, mesmo que não estejam
satisfeitos com o seu salário, nada podem fazer para alterar a sua
situação. Está tudo determinado de modo centralizado e afeta toda
a profissão. Talvez não faça sentido falar em salário: o NHS deveria
chamar “estipêndio” aquilo que paga aos médicos, reconhecer que
está abaixo da taxa predominante, mas que eles estão neste
trabalho porque é a sua vocação, e não com propósitos
financeiros79.
Neste trabalho, nunca se tem em conta a estrutura de recompensa
convencional dos funcionários. Não há oportunidades para receber
bónus – o mais parecido com isso é o “ash cash”80, em que os
internos recebem quarenta libras por cada formulário que assinam a
confirmar ao agente funerário que o paciente a ser cremado não tem
https://calibre-pdf-anchor.a/#a196
https://calibre-pdf-anchor.a/#a197
um pacemaker colocado (os pacemakers explodem durante o
processo e dão cabo de crematórios e congregações inteiras, como
descobriu, supostamente, uma família durante um funeral
especialmente stressante). Se pensar nisso, é praticamente o
contrário do pagamento em função do desempenho. Não se dá
graxa aos chefes, nem se passa a perna aos colegas, tal como não
existe qualquer possibilidade de promoção: progride-se na carreira
através de uma taxa de regulação.
Toda a gente parece pensar que os médicos se atualizam nos
aviões, mas a única forma de isso acontecer na realidade é se
vestirem um fato – e se candidatarem a um emprego na cidade,
ganharem mais dinheiro e comprarem um bilhete em classe
executiva. É possível que se tenha acesso ilimitado às opiniões
médicas informais de todas as especialidades que existem se, de
alguma forma, houver algum problema. Isso é bom, e ainda bem
que assim é, já que a probabilidade de tirar uma folga para ir a uma
consulta de ambulatório é diminuta. Mas não sei se o facto de ter de
dar conselhos médicos a todos os amigos em todas as situações
compensa. Ouve-se “Será que podes dar uma olhada rápida?” mais
do que se ouve “Olá, que bom voltar a ver-te”81. O meu único
consolo é não ter de dar conselhos médicos a familiares, uma vez
que muitos dos meus familiares são médicos.
Todos os médicos conseguem lidar com a falta de promoção e de
incentivos financeiros, mas é mais difícil aceitar a raridade de um
“muito bem”. É provável que os mordomos do Palácio de
Buckingham – que têm ordens para recuarem a flutuar para fora dos
quartos e para nunca fazerem qualquer contacto visual com a
Rainha – obtenham um maior reconhecimento. Durante vários anos
– ou pelo menos até à quinta ou sexta vez em que fui repreendido
por um erro sem importância quando um grau de erro humano se
fez sentir – não me apercebi de que nenhum dos meus especialistas
dissera que eu fizera um bom trabalho. Ou que tomara uma decisão
de gestão inteligente, salvara uma vida, mantivera a cabeça no lugar
ou ficara a trabalhar até mais tarde pelo trigésimo turno consecutivo
sem me queixar. Ninguém vai para o NHS para ser aplaudido ou à
https://calibre-pdf-anchor.a/#a198
espera de receber uma condecoração ou um bombom de cada vez
que faz um bom trabalho, mas talvez fosse psicologia básica (e
senso comum) reconhecer ocasionalmente, para não dizer
recompensar, um bom comportamento de forma a obter o máximo
do seu pessoal.
Contudo, os pacientes costumavam entender. Quando um deles
dizia obrigado, sabíamos que estavam a ser honestos, mesmo que
nos parecesse que não era por nada de especial, apenas um dos
mais pequenos horrores daquele dia. Guardei todos os postais que
recebi de pacientes. Acabava sempre por deitar fora postais de
aniversário e de Natal que recebia de amigos e familiares, mas os
outros sobreviveram a todas as mudanças de casa, e até
escaparam quando me livrei, de modo catártico, da minha
documentação médica, quando tudo terminou. Eram pequenos
elogios que me fizeram suportar tudo, raios de consideração dos
meus pacientes que me faziam muito bem quando os meus
superiores não podiam ou não queriam.
Só agora, no meu terceiro trabalho como interno do ano comum
sénior, é que me sinto devidamente reconhecido por um
especialista. Depois de alguns meses de contrato, a minha
supervisora clínica disse-me que um interno da especialidade iria
abandonar o cargo mais cedo devido a um trabalho de investigação
e perguntou-me se eu estaria interessado em preencher o posto na
escala. Disse-me que ficou muito impressionada com o meu
trabalho na unidade. Eu sabia que era mentira; estivera comigo
duas vezes – uma vez na indução e a outra vez para me repreender
por dar a um paciente um antibiótico oral, em vez de intravenoso.
Ela limitara-se a olhar para todos os currículos, tendo verificado que
eu trabalhara durante mais tempo como interno do ano comum
sénior. Mas, por vezes, não importa como dão por si, desde que o
façam. Portanto, respondi que teria todo o gosto.
Também percebi que isso poderia significar uma diferença prática
importante para mim. Há três numa relação, eu e H estávamos
prestes a dar o próximo passo na idade adulta e à procura de um
apartamento para comprar. Eu decidi sacrificar um menor percurso
de casa para o trabalho para que pudéssemos ter uma base
permanente, um lugar ao qual pudéssemos chamar de casa, um
sítio onde fosse possível pendurarmos uma fotografia na parede
sem termos de pagar mais cinquenta libras de caução. Naquela
altura, a maioria dos nossos amigos não médicos estava já a
comprar casas mais caras, e você sabe bem como é quando os
amigos estão a fazer algo que não estamos a fazer. Quer seja a
enfiar os dedos em alguém numa festa, a fazero exame de
condução ou a gastar centenas de milhares de libras numa
masmorra podre – ninguém quer ficar para trás.
Como cada centavo do salário contribui para a obtenção de
financiamento, perguntei à especialista se seria pago à escala do
interno da especialidade enquanto estivesse a substituí-lo. Ela riu-se
tanto e tão alto que tenho a certeza de que foi possível ouvi-la
através de dois conjuntos de portas duplas no bloco de partos.
Segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Prescrevo uma pílula do dia seguinte na urgência. Diz a paciente:
“Dormi com três tipos na noite passada. Será que uma pílula
chega?”
Quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Passo a manhã a rever três meses de extratos bancários com o
meu gestor de conta para que ele possa avaliar as minhas
despesas. “O senhor não... sai muito, pois não?”, pergunta ele, a
fazer contas de somar. Pela primeira vez, fico feliz por ter o trabalho
que tenho: não teríamos poupado o suficiente para um depósito se
eu tivesse a vida social normal de alguém com vinte e poucos anos.
É bastante deprimente verificar para onde vai o dinheiro: muito
café, muita gasolina, muita piza takeaway. Tudo coisas necessárias
e de caráter prático. Não há grandes diversões ou futilidades
extracurriculares. Nada de pubs, restaurantes, cinemas ou férias.
Esperem lá, mas o que é isto? Cá vamos nós: bilhetes de teatro!
Pouco depois, um pagamento a uma florista, depois de desmarcar
com H à última da hora. É deprimente, mas acontece vezes
suficientes para que nem consiga lembrar-me daquela crise de
emergência ou de pessoal em particular.
Quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Na consulta de ginecologia, ligo-me à Internet para pesquisar
algumas diretrizes de gestão para uma paciente. O departamento de
tecnologias de informação da administração bloqueou o site do Real
Colégio de Obstetras e Ginecologistas e classificou-o como
“pornografia”.
Segunda-feira, 12 de março de 2007
Tenho a certeza de que, se obstetrícia e ginecologia der para o
torto, consigo formar-me em psiquiatria em mais ou menos quinze
minutos – ensinei-me a fazê-lo, basicamente, com uma dúzia de
conversas com Simon. Esta noite, estava eu bastante stressado
quando ele me ligou e acabei por me lamentar sobre o trabalho.
Inesperadamente, pareceu-me que isso o ajudou verdadeiramente.
Ou ele é um sádico horrível que gosta da ideia de eu ter um dia
péssimo ou encontra conforto ao saber que toda a gente também
tem problemas na vida. Afinal a miséria gosta de companhia – basta
espreitar para a sala dos médicos para saber isso.
Talvez seja um pouco como quando se está numa relação séria
pela primeira vez e se conhece a família da outra pessoa.
Percebemos que a nossa família não é a única família
completamente lixada, com dezenas de segredos obscuros e
hábitos grotescos à mesa de jantar. Terminámos a chamada de hoje
com Simon a partir-se a rir depois de eu lhe dizer que um pingo de
placenta aterrou na minha boca durante uma remoção à mão e que
tive de ir à medicina do trabalho por causa disso. Pensando bem, é
possível que ele seja mesmo sádico.
Quinta-feira, 15 de março de 2007
Pergunto a uma paciente na consulta pré-natal de quantas
semanas está grávida. Há uma longa pausa. Engrenagens a rodar.
Uma câmara faz, lentamente, uma panorâmica do deserto. A
matemática não é o ponto forte de toda a gente, mas o que eu quero
é o número entre seis e quarenta que as pessoas devem perguntar-
lhe constantemente. Finalmente:
“No total?”
Sim, no total.
“Céus, não sou capaz de dizer nem sequer em meses...”
Sofre de amnésia? Será o clone de outra mulher que está neste
momento presa num covil de um vilão malvado de ficção científica?
Começo a perguntar-lhe quando é que teve o período pela última
vez, e ela interrompe.
“Bem, faço trinta e dois em junho, portanto de certeza que são
mais de mil semanas...”
Cristo.
Quinta-feira, 22 de março de 2007
Ideia para a série Dragons´Den: um “bleep” com botão snooze.
Quinta-feira, 5 de abril de 2007
A vingança é um prato que se serve frio – desde que não
envenene a pessoa errada. Fui chamado para observar uma
paciente na enfermaria: fizera uma drenagem laparoscópica de um
abcesso pélvico durante a manhã e tivera toda a noite uma pulsação
acelerada. Segundo as anotações, esta senhora tinha cinquenta e
cinco anos e descobriu no seu aniversário de casamento que não
tinha sido a única pessoa a receber um colar de pérolas de seu
marido. A sua reação poderia ter sido inspirada na pornografia de
nicho – pegou em si, e no cartão de crédito do marido, e foi para
Trinidade e Tobago, onde durante duas semanas fez sexo com
todos os homens que conseguiu, ampliando o seu repertório de
quarto (e praia) ao incluir sexo anal.
De regresso a casa, de pernas arqueadas, mas firme, sentiu uma
dor abdominal horrível, além de produzir monções purulentas, tanto
da sua Trinidade como do seu Tobago. Foi-lhe diagnosticada
doença inflamatória pélvica82, e nem os antibióticos intravenosos
conseguiram convencer a doença a desaparecer. Pelos vistos, há
uma gonorreia colossal a passear-se pelas Caraíbas. O
procedimento deverá fazer com que fique novamente bem.
Afinal, a pulsação acelerada não tinha origem em complicações
cirúrgicas, mas no facto de ela estar lavada em lágrimas. Perguntei-
lhe o que é que se estava a passar e ela explicou-me que o filho de
dezoito anos chegava amanhã para a visitar, e que não sabia o que
dizer-lhe – como é que ele reagiria quando descobrisse a razão pela
qual ela estava no hospital? Garanti-lhe que um miúdo de dezoito
anos preferiria descascar os próprios testículos e colocá-los em
vinagre de malte do que fazer uma única pergunta sobre a razão
pela qual a mãe está numa enfermaria de ginecologia. As palavras
“problemas das senhoras”, especialmente se forem ditas num tom
sussurrado e a olhá-lo diretamente nos olhos, fará com que ele
mude de assunto no mesmo instante, mesmo que tenha de provocar
um pequeno incêndio como manobra de diversão. As lágrimas e a
pulsação voltam ao normal. Embora talvez não fosse má ideia ela
pensar numa boa desculpa para aquele bronzeado incrível...
Segunda-feira, 9 de abril de 2007
Resultados publicados hoje. Não sei como, passei na primeira
parte do exame para MRCOG e estou a comemorar no bar com
Ron. Infelizmente, as bebidas são estritamente não alcoólicas, uma
vez que tenho de sair diretamente para um turno noturno, e penso
que aparecer bêbado não é muito bem visto. Ron recebeu
recentemente os seus exames de pós-graduação em contabilidade,
pelo que decidimos fazer algumas comparações. Enquanto a sua
empresa reduziu o seu horário para que ele pudesse estudar, eu tive
que espremer tudo o que consegui estudar depois do trabalho, com
os olhos raiados de sangue. Ron teve uma licença de um mês
inteiro para estudar antes do exame; eu pedi uma semana de folga,
https://calibre-pdf-anchor.a/#a199
mas as lacunas de escala fizeram com que acabasse por ser
cancelada no último instante, sem pio. A sua empresa pagou todas
as taxas de exame e materiais; eu tive de pagar do meu bolso livros
no valor de trezentas libras, um curso de quinhentas libras, recursos
de aprendizagem online por cem libras e o próprio exame, que
custou quatrocentas, perfazendo um total de mil e trezentas libras.
Ou seja, dois terços do meu salário mensal.
As minhas respostas cuidadosamente ponderadas nem sequer
são vistas por um ser humano. Trata-se de um documento de
múltipla escolha no qual se responde a lápis numa grelha, que é
depois digitalizada e sinalizada por um computador. Mostro a Ron o
lápis do RCOG que surripiei.
Ele é imediatamente promovido e obtém um aumento salarial por
ter passado no exame; o que o meu significa é que posso agora
candidatar-me à segunda parte do exame.
“Não. O que significa é que gastaste mil e trezentas libras num
lápis”, diz Ron com um ar compreensivo.
Quinta-feira, 19 de abril de 2007
Um e-mail do Controlo de Infeção informa todos os médicos de
que as camisas de manga comprida estão a partir de agora
proibidas em ambiente clínico. Um estudo qualqueranalisou um
punhado de punhos e descobriu que seria mais higiénico usarmos
camisolas feitas de fezes humanas frescas e frascos de ébola mal
fechados. Parece que o mesmo se aplica a gravatas, que ficam
penduradas e mergulham para dentro e para fora de várias feridas
ulcerosas e de insetos agentes de polinização cruzada pelo hospital,
como abelhas com um ímpeto de morte.
De ora em diante, temos instruções para usar camisas de manga
curta, pelo que tenho de parar de acalentar a esperança de ser capa
da Vogue enquanto estiver a trabalhar e ir investir as minhas
poupanças em cinco coisas daquelas. Estes itens de manga curta,
dizem-nos, podem ser usados sem ou com gravata. Temos,
portanto, a opção de nos vestimos como os comissários de bordo ou
como os pedófilos. Prefiro sem, obrigado. Chá? Café? Uma toalha
quente?
Quarta-feira, 2 de maio de 2007
Acabo de referenciar um casal para cesariana. “Alguma
pergunta?”, pergunto.
“Sim”, intromete-se o filho de seis anos. “Acha que Jesus era
preto?”
Sábado, 5 de maio de 2007
Em vez de um esquema de incentivo no trabalho, criei as minhas
próprias regalias: levo pijamas cirúrgicos para casa que uso para
dormir e roubo uma daquelas refeições esquisitas para pacientes à
noite. É uma da manhã, estou a morrer de fome e esta é a minha
única oportunidade de comer qualquer coisa durante as próximas
sete horas. Por isso, entro na cozinha da enfermaria de ginecologia.
Ao que parece, não sou o único com faro para borlas: há um novo
aviso no frigorífico a dizer que as refeições se destinam única e
exclusivamente a pacientes. Como os sistemas de segurança não
são propriamente sofisticados, é capaz de não ser fácil travar um
ladrão verdadeiramente determinado só com uma folha A4, fita
adesiva e Comic Sans.
A iguaria da noite é “Quiche com Carne Picada e Sultanas ao
estilo Quorn”. É como se tivesse recorrido à Accenture para
apresentar as opções de menu menos atraentes. Acho que vou
arriscar e deixar que o nervosismo e os Red Bull me permitam
seguir em frente.
Sábado, 12 de maio de 2007
A minha filosofia relativamente a voos é estar tão pedrado que
nenhum comissário de bordo no seu perfeito juízo quer ver-me perto
de um passageiro doente, e tem-me sido bastante útil nos últimos
anos83. O carma devolveu-me tudo esta noite, não no voo em si,
https://calibre-pdf-anchor.a/#a200
mas doze horas mais tarde, quando estava em Glasgow para o fim
de semana e a voltar para o hotel depois de jantar e a beber uns
copos, e uns copos, e mais uns coposssssss com Ron e a mulher,
Hannah.
Enquanto caminhávamos pela Bath Street à uma manhã, vemos
três jovens adultos parados perto de umas escadas para uma cave,
em frente a uma loja, cercados por uma quantidade extraordinária
de sangue. Parecia irreal, como se fosse uma cena de homicídio
num drama do Canal 5. Estavam todos completamente rebentados,
embora talvez não mais do que nós, e um deles estava a sangrar do
que parecia ser uma grande hemorragia arterial no antebraço. Era
impossível adivinhar qual a quantidade de sangue que foi jorrado e
acumulado, mas não seria menos de um litro. Ele estava consciente,
embora pouco, e nada estava a ser feito para conter a perda de
sangue.
Fiquei sóbrio num instante e disse-lhes que era médico. Os
amigos apontavam para a porta de vidro estilhaçada e não paravam
de me dizer que ele tinha tropeçado e caído, como se o facto de ele
ter tentado assaltar um quiosque fosse a principal preocupação de
quem ali estava. Tinham já chamado uma ambulância, mas pedi ao
Ron que ligasse para o número de telefone de emergência, de modo
a acelerar a sua chegada, e pedi a Hannah que rasgasse t-shirts
para fazer garrotes. Segurei o braço do tipo para cima e apertei com
força. O pulso era lento e filiforme, e ele recuperava e perdia a
consciência. Eu continuo a falar, a falar, a falar, e digo-lhe que a
ambulância está quase a chegar, que sou médico e que tudo vai
correr bem. Não importa o número de vezes que se diz algo ou se
isso é verdade – bem, pelo menos a parte do “médico” é verdade –
temos de acreditar, porque eles têm de acreditar.
Parecia que ele estava à beira de uma paragem cardíaca e eu já
estava a rever todos os passos da reanimação cardiopulmonar na
minha cabeça, pelo que não tive de pensar duas vezes quando isso
aconteceu. Seria isto conforme à lei – bêbado e com uma
emergência a meu cargo? Eu acreditava que estava a gerir toda a
situação de forma correta, mas não pareceria bem se ele morresse
comigo naquele estado. Misericordiosamente, a ambulância chegou
quase de imediato e levou-o para longe, dando-lhe os líquidos de
que precisava para salvar a sua vida. Tudo está bem quando acaba
bem, mas tive uma terrível sensação de impotência enquanto
esperava que a ambulância chegasse. De volta ao hotel, bebi uma
miniatura do minibar, no valor de doze libras, e percebi que até num
avião eu teria tido mais recursos para o ajudar. O uísque também
teria sido mais barato.
Segunda-feira, 14 de maio de 2007
Na sala dos médicos, o meu amigo Zac – que trabalha atualmente
na ortopedia – diz-me que, na sua cabeça, confunde sempre as
palavras “ombro” e “cotovelo”, e que tem de se focar antes de
utilizar qualquer um dos termos. Antes de eu ter tempo para
processar o que ele acabou de me dizer, e o que isso poderá
significar para o seu próximo paciente, uma interna da especialidade
dos cuidados intensivos que está sentada no sofá do lado junta-se à
conversa: confunde desde criança as palavras “coma” e “casulo”.
Quanto mais ela se esforça por se lembrar de qual é qual, mais a
sua mente a convence de que está enganada. Mostra-nos um
pedaço de papel onde se lê:CASULO = Inseto.
COMA = Paciente.Segundo nos explica, isto ajuda a evitar o
cenário reconhecidamente hilariante de dar a uma mulher
inconsolável a notícia de que o seu marido está num casulo.
Terça-feira, 12 de junho de 2007
Faltam cinco minutos para que o meu turno chegue ao fim e tenho
de sair a tempo de ir jantar fora. Obviamente, pedem-me para
observar uma paciente. Tem uma laceração de segundo grau84 e a
enfermeira-parteira que cuida dela diz-me que ainda não foi
autorizada a tratar dessas85.
Eu: “Eu também não fui autorizado a tratar dessas.”
Parteira: “O senhor não precisa de autorização para fazer coisas –
é médico.” (Deprimente, mas verdadeiro.)
Eu: “Não há outra parteira que possa fazer isto?”
https://calibre-pdf-anchor.a/#a201
https://calibre-pdf-anchor.a/#a202
Parteira: “Está na pausa dela.”
Eu: “E eu estou na minha.” (Falso.)
Parteira: “O senhor não tem direito a pausas.” (Deprimente, mas
verdadeiro.)
Eu: (Já a suplicar, num tom de voz que nunca consegui fazer
antes, como se tivesse desbloqueado um nível secreto das minhas
cordas vocais) “Mas eu hoje faço anos.” (Deprimente, mas
verdadeiro.)
Parteira: “Estamos na sala de partos – há sempre alguém que faz
anos.”
Terça-feira, 19 de junho de 2007
Um e-mail enviado a todos os funcionários clínicos informa-nos
que um internado da psiquiatria foi transferido para a pneumologia
depois de lhe ter sido diagnosticada uma pneumonia. Mas este
aviso não era do tipo “Diga-lhe olá se o vir”, como os que
recebemos quando um novo miúdo é transferido para a nossa
escola. Ontem, descobriu-se que andava a vaguear pela enfermaria
à cata de sobras, como se fosse a última tia de um casamento,
ingerindo o conteúdo de todos os potes de escarros que encontrava
nas mesas de cabeceira dos outros pacientes.
Somos aconselhados a enviar de imediato todas as amostras
clínicas para o laboratório e a não deixar que nenhuma permaneça
facilmente acessível, pelo menos por enquanto. Alguém responde a
todos com um “Que nojo”, o que é mais ou menos como ver um
reator nuclear a explodir e dizer “Oh, não”.
Terça-feira, 26 de junho de 2007
Há já vários dias que estou na lista negra. Estávamos em casa de
uma amiga de H, a Luna, que está grávida e antes do jantar sacou
do álbum das suas recentes ecografias 3D. Pensei que a minha
opinião sobre as ecografias 3D – de que não servem para nada,
além de enriquecerem as empresas de ecografias3D e de
aborrecerem os convidados em jantares de amigos – não seria bem
aceite, fiz o favor de dar uma vista de olhos pelo álbum, como toda a
gente. “Achas que está tudo bem?”, perguntou-me a Luna. Tive
vontade de responder: “Acho que está como estão sempre todos”,
mas pensei que isso talvez caísse mal, pelo que optei por sorrir
carinhosamente, devolvi-lhe as imagens e respondi: “Ela parece-me
perfeita.” A temperatura na sala caiu uns dez graus e vi claramente
raios mortíferos nos olhos de Luna. “Ela? ELA?”
Foi a primeira vez que me descaí com isto, e o pior é que o fiz
com uma amiga e não com uma paciente. O jantar pareceu demorar
duas semanas; contacto visual evitado, pratos especados à minha
frente, sem cerimónia.
Não ajudou nada que a tensão fosse já tão alta em casa. Duas
semanas antes, a nossa compra do apartamento caiu por terra. Ao
que parece, com total desprezo pela minha pressão sanguínea e por
uma relação já um pouco tremida, os proprietários decidiram que,
afinal, não iriam vendê-lo. Mas suspeito que desistiram de nos
vender a casa porque alguém lhes ofereceu um pouco mais de
dinheiro. Felizmente, só gastámos duas mil libras em solicitadores e
avaliações e afins. Conheço melhor este apartamento – que agora
não voltei a pisar – do que qualquer uma das minhas relações de
sangue mais próximas. Toda a gente nos diz que estas coisas
acontecem por algum motivo. No nosso caso, o motivo é que o
mundo favorece os sacanas e quer, evidentemente, que gastemos
com agentes imobiliários todo o nosso tempo livre dos próximos
meses.
Mas a vida continua, mesmo que temperada com lembranças
irritantes. A reduzida conta bancária, por um lado, e o facto de – a
menos que faça um desvio anti-PSPT de cinco minutos – passo em
frente ao apartamento que nos escapou todas as manhãs, a
caminho do trabalho. E hoje – incrivelmente, apenas para provar
que não há escapatória – o casal que nos tramou apareceu na
consulta pré-natal. Nunca os vi antes, mas ali estava a sua morada
à minha frente, exatamente a mesma que tem estado a impedir a
minha felicidade.
Num filme de Tarantino, era agora que eu sacava de duas
espadas de samurai e desencadeava uma tirada de dez minutos
sobre honra, vingança e respeito, antes de os decapitar. Na
realidade, limitei-me a dizer: “Olá, sou o Adam, um dos médicos”, e
eles não souberam de nada. Infelizmente, as questões de
moralidade, probidade e legalidade restringem as oportunidades de
vingança a um nível próximo de zero, pelo que prossegui com a sua
consulta o melhor que pude, embora com os dentes cerrados. Eu
não tinha cem por cento de certeza de que o bebé era cefálico86, e
fiz uma ecografia rápida à mãe. O bebé estava bem posicionado e
estava tudo bem. “Querem ouvir o coração a bater?”, perguntei. “Cá
está. Parece tudo normal. Há um braço, outro braço, isto é uma
perna, isto é o pénis… Oh, não sabiam?”
Sábado, 30 de junho de 2007
Uma notícia sobre um porteiro de hospital que foi preso por ter
fingido ser médico nos últimos anos. Acabo de sair de um destes
turnos que me fazem questionar-me sobre se poderia safar-me a
fingir que sou porteiro.
Terça-feira, 10 de julho de 2007
Tenho mesmo de mudar a minha abordagem. Costuma ser algo
do género: “Não consegui ver nada na ecografia através da sonda
na barriga – não significa que haja algo de preocupante, no início da
gravidez é muito difícil ver algo dessa forma. Posso fazer-lhe uma
ecografia com uma sonda interna para conseguir ver melhor?”
Depois do incidente de hoje, e caso a minha licença para praticar
continue intacta, passarei a dizer o seguinte: “Não consegui ver
nada na ecografia através da sonda na barriga – não significa que
haja algo de preocupante, no início da gravidez é muito difícil ver
algo dessa forma. Posso fazer-lhe uma ecografia com uma sonda
interna para conseguir ver melhor? Dentro de alguns segundos irei
remexer numa gaveta e tirar de lá preservativo e uma saqueta de
KY gel. Deixe-me esclarecer: o preservativo é uma capa para a
sonda e o KY gel serve para o lubrificar. Quando vir o que tenho nas
https://calibre-pdf-anchor.a/#a203
mãos, por favor não grite de tal maneira que três membros da
equipa têm de entrar aqui a correr.”
Segunda-feira, 23 de julho de 2007
A enviar para casa uma paciente da unidade de cirurgia de dia,
depois de uma esterilização laparoscópica. Digo-lhe que pode voltar
a ter relações sexuais mal se sinta preparada, mas que deve usar
um tipo de contraceção alternativa até à sua próxima menstruação.
Aceno com a cabeça para o marido e digo: “Isso quer dizer que ele
tem de usar preservativo.” Não consigo entender por que é que nos
seus rostos há uma expressão de horror, como os nazis de cara a
derreter no final de Os Caçadores da Arca Perdida. O que é que eu
disse? É um bom conselho, não é? Volto a olhar para os dois e
percebo que aquele homem é, na verdade, o pai dela.
Terça-feira, 31 de julho de 2007
Uma das internas do ano comum apareceu ontem à noite na
urgência, após ter tentado suicidar-se com uma overdose de
antidepressivos. Há uma sensação partilhada de entorpecimento
entre os médicos. Estranho é que não aconteça mais vezes – tem-
se uma enorme responsabilidade, uma supervisão mínima e
absolutamente nenhum apoio pastoral87. Trabalhamos até à
exaustão, indo além do que seria razoavelmente expectável, e o
resultado é que acabamos por sentir constantemente que não
sabemos o que estamos a fazer. Por vezes, só parece que assim é,
mas estamos a fazer tudo bem. Outras vezes, não sabemos mesmo
o que estamos a fazer.
Felizmente, este caso é um dos últimos, e ela tomou uma dose
completamente inofensiva de antidepressivos. Em qualquer outra
profissão, se o trabalho das pessoas as levasse a tentarem o
suicídio, seria de esperar que houvesse alguma indagação e um
esforço concertado para garantir que isso não se repetisse. No
entanto, ninguém disse nada – acabámos todos por saber através
de amigos, como se estivéssemos no recreio da escola. Duvido até
https://calibre-pdf-anchor.a/#a204
que chegássemos a receber um simples e-mail caso ela tivesse
morrido. Há pouca coisa capaz de me chocar, mas nunca deixarei
de me surpreender com a inépcia deliberada dos hospitais sempre
que se trata de cuidar dos seus próprios trabalhadores.
79 Tal como os padres são pagos pelo seu dever para com Deus (ou pelo seu amor aos
meninos de coro, dependendo da designação).
80 N. da T.: “Dinheiro das Cinzas”.
81 De uma forma aborrecida, isto transformou-se em algo ainda pior desde que escrevo para
televisão. Eu preferiria sempre “O que pensa desta erupção cutânea?” a “O que pensa
deste script?”.
82 A doença inflamatória pélvica, ou DIP, surge quando a gonorreia ou clamídia não tratadas
se espalham para cima e atingem os órgãos pélvicos – pode ser difícil de tratar e até
resultar numa dor pélvica permanente. É também uma das principais causas da
infertilidade feminina. Ou seja, use preservativos ou poderá acabar por nunca mais ter de
usá-los.
83 Os meus familiares são muito melhores do que eu. Um vez, no Natal, a British Airways
enviou ao meu pai dois bilhetes de ida e volta para qualquer lugar do mundo, como forma
de agradecimento por ter respondido à solicitação “Há algum médico a bordo”, e ter
distribuído alguns anti-histamínicos da caixa de medicamentos. O meu irmão (também
médico de clínica geral) ficou muito pouco impressionado, uma vez que passou um voo
inteiro de uma companhia a gerir uma situação cardíaca urgente com recursos
extremamente limitados e nem sequer recebeu um “obrigado” como forma de
agradecimento, quanto mais uma viagem à borla para Bali.
84 Ter um bebé pode rasgar em pedaços as suas partes íntimas, não há como evitá-lo,
especialmente se for mãe pela primeira vez. A Durex devia imitar o que se faz com os
maços de cigarros e publicar nas suas embalagens fotografias de períneos logo após o
parto – nenhuma mulher seria capaz de olhar para aquilo e, ainda assim, correr o risco de
engravidar. A laceração de primeiro grau atravessa a pele, a laceração de segundo grau
entra nos músculosdo períneo, a laceração de terceiro grau envolve o esfíncter anal e a
laceração de quarto grau arranca uma perna ou qualquer coisa do género.
85 As funções dos médicos e dos enfermeiros-parteiros estão bastante bem definidas
relativamente à maioria dos aspetos da sala de partos – os parteiros são responsáveis por
partos normais; os médicos participam quando existam preocupações quanto ao bem-estar
da mãe ou do bebé, ou quanto à evolução do trabalho de parto. Quanto a quem usa
primeiro o kit de sutura para lacerações de primeiro e de segundo grau, trata-se de uma
área mais cinzenta do que a vagina da sua avó.
86 Cefálico significa que o bebé está de cabeça para baixo – isto é normal. O contrário é o
bebé pélvico, quando o rabo quer sair primeiro. A apresentação pélvica ocorre em três por
cento das gravidezes, e há exemplos famosos como o do Imperador Nero, o Kaiser
Wilhelm, Frank Sinatra e Billy Joel. Se você ganhar, numa noite de quiz, graças a isto, fica
a dever-me uma cerveja.
87 Um estudo da Medical Protection Society, de 2015, revelou que oitenta e cinco por cento
dos médicos tiveram problemas de saúde mental e treze por cento admitiram ter
sentimentos suicidas. Um artigo publicado em 2009 no British Journal of Psychiatry
mostrou que as médicas jovens no Reino Unido têm uma probabilidade duas vezes e meia
maior do que outras mulheres de se suicidarem.
5
Interno da Especialidade Primeiro Posto
Enquanto internos do ano comum, achamos sempre que o nosso
interno da especialidade é impecável e inteligente, talvez uma
espécie de Deus, ou de Google, e tentamos não os incomodar em
circunstância alguma. Enquanto interno do ano comum sénior, ele é
o nosso ponto de referência sempre que bloqueamos e precisamos
de uma resposta: a rede de proteção que é ter acesso a algumas
palavras sábias a apenas um “bleep” de distância. E de repente,
quase sem dar por isso, o interno da especialidade somos nós.
Em obstetrícia e ginecologia, significa que, muitas vezes, somos a
pessoa com o cargo mais importante da unidade. Iremos quase
sempre liderar as rondas da enfermaria. Somos chamados de Mr.
Kay em vez de Dr. – o que faz com que a última década de estudos
pareça uma maldita perda de tempo. Temos de ensinar estudantes
de Medicina. Temos de fazer todas as operações, exceto as mais
interessantes. E, o que é mais importante, dirigimos a sala de
partos. Há internos da especialidade sénior e talvez até
especialistas disponíveis se atingirmos o nível de alerta DEFCON 1,
mas isto acontece geralmente apenas quando se é responsável por
manter vivos uma dúzia de mães em trabalho de parto e bebés, de
forma continuada. Este é provavelmente cesariana, estes dois parto
instrumental, aqui há hemorragia. Tornamo-nos maravilhosos a
hierarquizar. É como se estivéssemos a resolver problemas de
lógica sem parar; aquele do barco, da raposa, da galinha e do saco
de milho. A diferença é que há uma dúzia de galinhas, todas elas
estão a ter trigémeos e o barco é feito de açúcar.
Parece horrível – e às vezes era – mas, no meu primeiro dia como
interno da especialidade, senti que não me faltava ânimo. Já não me
sentia tão otimista desde o dia em que me licenciara – só me faltava
cagar confetes. De repente, estava a meio caminho de me tornar
especialista, a desfrutar da tarde de quarta-feira da minha semana
metafórica. Não só havia um cargo superior a apenas alguns anos
de distância, como eu podia imaginar-me a fazê-lo, talvez até a
fazê-lo bem feito. Parecia que tudo no trabalho e em casa estava a
encaixar-se, como se eu descobrisse, por fim, que tinha segurado o
mapa de cabeça para baixo durante todo este tempo. Finalmente, a
minha vida não parecia tão deprimente em comparação com as dos
meus amigos não-médicos. Eu tinha um apartamento, tinha um
carro (mais) novo e uma relação (mais ou menos) estável. Sentia-
me satisfeito. Não de modo presunçoso ou comodista, mas
simplesmente muito diferente dos anos em que me sentia até certo
ponto insatisfeito com a forma como as coisas estavam a acontecer.
Apercebi-me de que a maior parte dos meus colegas não tinha
assim tanta sorte, especialmente quanto às suas vidas em casa. A
minha fora, em grande medida, mantida graças a níveis sobre-
humanos de tolerância e compreensão; a maioria das relações de
médicos desmoronava depois de mais ou menos um ano – os
problemas que a todos afetavam apareceriam demasiado cedo,
como uma desordem estranha de envelhecimento precoce. Claro
que os horários não ajudam. Ao fim de quatro ou cinco anos de
Kool-Aid NHS intravenoso, trabalhar até tarde, chegar cedo e
substituir colegas tornaram-se hábitos completamente formados.
Uma crença generalizada entre os não-médicos é de que existe
algum grau de escolha envolvido na questão de voltar para casa às
22h00 em vez de voltar às 20h00. Mas a verdade é que a única
escolha que existe tem a ver com se nos lixamos a nós próprios ou
se lixamos os nossos pacientes. A primeira é chata, a última
significa que morrem pessoas. Portanto, não chega a ser
propriamente uma escolha. Em termos de pessoal, o sistema está
no osso e, em todos os turnos exceto os mais calmos, depende da
boa vontade dos médicos que permanecem no local de trabalho
para lá das horas contratadas, a resolver situações. Comprometer,
de forma consciente, a segurança dos pacientes iria contra tudo
aquilo que defendemos, razão pela qual não fazemos. E isso
significa que ficamos até mais tarde depois de cada turno. É claro
que os médicos não são os únicos que ficam a trabalhar até tarde.
Poder-se-á dizer o mesmo dos advogados e dos banqueiros, mas
esses, ao menos, podem planear fins de semana épicos, deixando
cair o cabelo e os seus antepassados numa explosão de hedonismo
incessante. Os nossos fins de semana costumavam ser passados
no trabalho.
Mas vai para além dos horários: geralmente não somos pessoas
divertidas perto das quais as outras pessoas queiram estar quando
chegamos a casa. Estamos exaustos, ficamos irritáveis devido a um
dia stressante e chegamos a negar ao nosso companheiro a
conversa normal depois do trabalho, a falar mal dos colegas. Sabem
que mal começam com as queixinhas sobre o seu trabalho – que,
eventualmente, não envolve qualquer tipo de experiência de quase-
morte, a menos que sejam funambulistas, bombeiros ou
empregados de balcão num drive-thru da Burger King – iremos
reflexivamente tentar superar as suas histórias e falar sobre os
horrores do nosso próprio dia.
O nosso subconsciente acaba por tomar uma decisão por nós. Ou
não somos capazes de desligar das coisas más do nosso trabalho e
tornamo-nos permanentemente distraídos e atormentados em casa
ou criamos um esqueleto emocional mais duro, o que, ao que
parece, não é visto como uma qualidade ideal num companheiro.
Alguns dos meus colegas tiveram filhos por esta altura e viveram
as suas vidas num inferno constante de cuidados infantis,
acrescentando a “culpa” ao livro de psicologia das emoções que
uma carreira na área da Medicina nos dá. Não tenho filhos, mas
entendia o duro golpe que era para os meus colegas terem de se
contentar com um telefonema de boa noite para os filhos, em vez de
os deitarem, aconchegarem e poderem ler-lhes O Grúfalo. Ou, o
que acontecia na maioria das vezes, quando nem sequer chegavam
a ligar porque a sala de partos entrava em colapso. Uma vez, um
amigo meu, médico de cirurgia geral, não pôde acompanhar a
cirurgia de emergência do próprio filho por estar a fazer uma cirurgia
não urgente ao filho de outra pessoa e não haver ninguém para o
substituir.
Quando me tornei interno da especialidade, apercebi-me de um
paradoxo interessante: geralmente, à medida que nos tornamos
especialistas a priorizar no trabalho, pioramos a fazê-lo quando se
trata da vida real. Mas, durante algum tempo, senti-me como a
exceção à regra – o único tipo que teve equilíbrio em tudo, de
alguma maneira, com os pratos todos a girarem ao mesmo tempo.
Agora, só tinha de garantir que nenhum deles caísse…
Quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Uma história de terror. A paciente GL, cujacomposição genética
parece ser cinquenta por cento receitas de goji e cinquenta por
cento posts do site Mumsnet, anunciou-me que quer comer a
própria placenta. Eu e a enfermeira-parteira fingimos não ouvir o
que ela diz. Primeiro, porque desconhecemos o protocolo do
hospital e, segundo, porque nos parece totalmente repulsivo. GL
chama a isto de “placentofagia”, para lhe dar um ar mais oficial, o
que acaba por não ajudar; tudo ganha um ar mais oficial se for
traduzido para o grego antigo88.
Ela explica que é perfeitamente natural entre os outros mamíferos
– outro argumento um pouco coxo, uma vez que também não
permitimos que outros mamíferos concorram às eleições ou
conduzam autocarros, nem normalizamos outras coisas que eles
fazem, como dar cabo de móveis ou comer as próprias crias (ou
“pedofagia”, como talvez ela lhe chamasse).
Mudo de conversa para um assunto mais importante, o de colocar
um fórceps na cabeça do seu bebé para o fazer sair. Isso é feito
calmamente e o bebé está bem – e continuará a estar até começar
a ter aulas em casa e ser levado para férias em família com toda a
gente nua em yurts. Poucos minutos mais tarde, retiro a placenta e
olho para cima para ter a estranha conversa sobre o que GL
gostaria que eu fizesse com ela. GL está com uma cuba rim nas
mãos e enfia na boca as duas mãos cheias de coágulos de sangue.
“Isto não é a placenta?”, pergunta ela, com sangue a escorrer pelos
cantos da boca como uma repugnante descendente de Drácula e do
Monstro das Bolachas. Explico-lhe que são só alguns coágulos que
coloquei na cuba rim depois do parto. Ela fica cinzenta, depois
verde. O sangue não é o delicioso lanche pós-parto que ela
imaginava que a placenta seria. Levanta a cuba rim e vomita lá para
https://calibre-pdf-anchor.a/#a229
dentro, assim como em tudo à volta. Peço desculpa, queria dizer
“tem um episódio de hematémese”.
Quarta-feira, 19 de setembro de 2007
E-mail do Chefe de Administração, Centro de Ensino Universitário:
Caro Adam, como é do seu conhecimento, agradecemos o seu
compromisso com o ensino universitário. De futuro, quando enviar
e-mails sobre sessões aos alunos do quarto ano, por favor refira-se
ao Centro de Aprendizagem Universitária como Centro de
Aprendizagem Universitária, e não como Centro de Aprendizagem
Precoce89.
Terça-feira, 2 de outubro de 2007
Tiro o telemóvel do armário após um dia sem paragens na sala de
partos. Sete chamadas não atendidas de Simon e um montão de
mensagens de voz, tudo desta manhã. Hesito antes de carregar no
“play” – sei do fundo do meu coração que será tarde demais;
começo a preparar-me para falar com o médico legista. Afinal, o
Simon fez umas quantas chamadas de bolso para mim. Filho da
mãe.
Quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Esta é uma noite tranquila na sala de partos, e eu decido ir até à
sala dos médicos, deitar-me numa cama e dar uma olhadela pelo
Facebook para passar o tempo. Alguém publicou um questionário
sobre coisas a fazer antes de morrer, no qual podemos marcar,
numa lista de cem, várias coisas que já fizemos na vida. Já visitou a
Muralha da China? Montou uma avestruz? Recebeu sexo oral de
um segurança de Barry Manilow numa piscina infinita de Las
Vegas? Sucede que fiz muito poucas coisas. Vejo os meus e-mails
e, a seguir, bato uma90.
A meio, o “bleep” de emergência91 dispara. Calças do pijama
cirúrgico de volta para cima, apresso-me a entrar na sala de partos
https://calibre-pdf-anchor.a/#a230
https://calibre-pdf-anchor.a/#a231
https://calibre-pdf-anchor.a/#a232
– a mãe está a fazer força e há um CTG extremamente
preocupante. Um minuto depois de entrar na sala retiro o bebé com
recurso a fórceps. Mãe e bebé estão bem, sou mesmo bom. Agora
posso escrever na minha própria lista de coisas a fazer antes de
morrer: “Fazer um parto ainda ereto.”
Quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Mal comecei a fazer uma cesariana de emergência quando a
minha interna do ano comum sénior entra de rompante no bloco
operatório para me dizer que uma paciente de outro quarto tem um
traçado não tranquilizador, podendo vir a ser necessário fazer um
parto instrumental. O meu interno da especialidade sénior está a
fazer cirurgias de ginecologia complicadas e repulsivas no bloco
operatório principal e esta interna do ano comum sénior é uma
estagiária de clínica geral, numa colocação de seis meses, pelo que
sou totalmente responsável. Peço-lhe que tire uma fotografia do
CTG com o seu telemóvel para que eu possa perceber qual é a
gravidade e tentar pôr em marcha um plano qualquer.
Quando ela regressa ao bloco operatório, já fiz o parto e estou a
começar a suturar o útero. O traçado é muito pior do que a interna
do ano comum sénior tinha descrito, e eu ainda tenho mais quinze
minutos de sutura pela frente. Faço mais um ponto para que o útero
pare de sangrar e peço à enfermeira do bloco operatório que
coloque uma grande compressa molhada por cima da barriga aberta
da paciente (o que faz com que pareça um Teletubby horrível),
desculpo-me e saio para fazer o parto rápido com fórceps do outro
bebé. Ainda mal consegui tirar as pinças da cabeça da criança
quando o alarme de emergência do quarto ao lado começa a tocar.
Outro traçado mau que, desta vez, implica uma extração com
ventosa e, como se isso não fosse suficiente, uma hemorragia pós-
parto para tratar a seguir.
Quando regresso ao bloco para acabar a minha cesariana inicial,
já se passaram quase noventa minutos. Quando essa termina, está
na hora de passar a pasta ao interno da especialidade da manhã.
Conto-lhe a minha história de super-herói, na esperança de que ele
sugira que o meu nome seja atribuído ao hospital. Em vez disso,
ouço um “Sim, acontece”, como se lhe tivesse dito que o bar ficou
sem pão de uvas passas.
Segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Na consulta pré-natal, a paciente diz-me que recorre à Dorothy
todas as manhãs porque tem andado muito stressada. Quem é a
Dorothy? Alguma tia-avó que ela acompanha pelas lojas, num
estranho exercício de relaxamento, como se fosse um cão de
assistência? Ela informa-me que Dorothy é o nome usado nas ruas
para falar de quetamina92.
“E é bom para o stresse?”, pergunto-lhe, genuinamente
interessado na resposta.
Segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Todo o pessoal da cirurgia foi convocado para ir ao Early Learning
Centre para uma palestra sobre segurança do paciente. Na semana
passada, foi removido a um paciente o rim esquerdo totalmente
saudável, deixando-o apenas com o rim direito totalmente inútil.
Lembram-nos que, nos últimos três anos, neurocirurgiões deste
país perfuraram quinze vezes o lado errado de crânios de pacientes.
Por quinze vezes, não foram capazes de distinguir o lado esquerdo
do direito com uma Black and Decker apontada à carola do
paciente. Parece-me razão suficiente para se deixar de usar a
expressão “não é neurocirurgia”.
O hospital exige que a confusão do rim não se repita, embora seja
um pouco tarde demais para aquele pobre rapaz, cujas cinzas terão,
provavelmente, sido espalhadas na praia errada.
Sendo assim, o novo protocolo do hospital determina que
qualquer paciente que entre no bloco operatório deverá ter uma
grande seta desenhada com um marcador Sharpie na perna
esquerda ou na direita, consoante o caso. Levanto a mão e
pergunto o que é que acontece se o paciente já tiver uma tatuagem
https://calibre-pdf-anchor.a/#a233
de uma seta na perna errada. Risada geral na sala de conferências
e o meu especialista chama-me palhaço de merda.
Terça-feira, 13 de novembro de 2007
Recebo um e-mail do Dr. Vane, diretor clínico, a informar-me que
se um paciente tiver uma tatuagem de uma seta numa perna, essa
tatuagem deverá ser coberta com adesivo Micropore e uma nova
seta deverá ser desenhada com um Sharpie na perna correta. Esta
determinação passou a estar incluída no documento com as novas
regras e ele agradece a minha valiosa contribuição.
Terça-feira, 8 de janeiro de 2008
A população está a ficar mais gorda mais rapidamente do que
uma scooter de mobilidade a dirigir-se para a Greggs à hora de
fecho. Hoje,a nossa cama cirúrgica do bloco de partos está a ser
substituída pela segunda vez em tantos anos, porque no mês
passado uma mulher ultrapassou a capacidade, em termos de peso,
da recentemente adquirida “cama de obesos”.
Entendo que se trata de uma questão complicada, mas ser-se tão
gordo que é preciso encomendar equipamento especial talvez seja o
primeiro sinal de que está na altura de começar a descarregar
alguma madeira.
A mesa ainda mais recente tem umas enormes abas que se
levantam dos lados para evitar “excessos”, como se fosse uma
espécie de versão industrial da mesa de jantar que a avó pode
aumentar no Natal para que caibam os vol-au-vents adicionais.
Acho que o Cutty Sark ficaria confortavelmente instalado nesta
cama: foram precisos dez homens, algum equipamento hidráulico e
quase duas horas para conseguir colocá-la no interior do bloco.
Suspeito que a próxima questão será colocada se a cama se
estatelar no chão a meio de uma cesariana e matar toda a gente do
serviço de dermatologia, que fica no piso de baixo.
Sábado, 19 de janeiro de 2008
Hoje entrei em pleno modo síndrome de Estocolmo e decidi ir
trabalhar num sábado em que estava de folga. “Se tens um caso,
podes simplesmente contar-me, sabes”, disse H.
Fiz ontem a minha primeira HAT BSO93 e quis verificar se a
paciente estava bem. Esta manhã, sempre que o meu telemóvel
vibrava, eu achava que era uma mensagem da equipa de fim de
semana a dizer-me que a ferida dela explodira ou que eu lhe tinha
suturado o intestino, cortado o uréter ou que a tinha deixado a
esvair-se em sangue até à morte, com uma hemorragia interna.
Basicamente, eu só precisava de alguma tranquilidade para não
ficar louco.
Como é evidente, ela estava perfeitamente bem e já tinha sido
observada pelo meu colega Fred. Senti-me logo mal: detestaria que
ele pensasse que eu não confiava no seu trabalho (não confio), e
saí sorrateiramente da enfermaria para passar despercebido. Ou
talvez não tão sorrateiramente assim: choquei contra ele quando
saía e tive de fingir que estava “só a passar por ali” e que decidi ver
se ela estava bem.
“Não te culpo”, disse Fred, encolhendo os ombros, e contou-me
que a primeira paciente à qual ele fizera uma grande cirurgia
acabara por morrer no hospital. Ele examinou-a de modo obsessivo
e planeou meticulosamente todos os cuidados pós-operatórios. No
dia em que ela deveria ir para casa, sufocou até à morte com uma
sandes de ovo e agrião.
Agora, estou mais ou menos a considerar colocar um “nada pela
boca” na cama da minha paciente até ela ter alta, pelo sim pelo não.
Depois de ter “só passado por ali”, comecei a conduzir na minha
viagem de uma hora para regressar a casa, e pensei no que H me
dissera antes. Mesmo que eu quisesse ter um caso, parece-me
sinceramente que estaria demasiado cansado para abrir o fecho das
minhas calças.
Terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
https://calibre-pdf-anchor.a/#a234
Prestes a fazer uma histeroscopia94 à paciente FR e, quando
estou a falar no procedimento, ela pergunta-me: “O que é que pode
acontecer no pior dos casos?” Os pacientes estão sempre a fazer
esta pergunta e eu gostava muito que não a fizessem porque, como
é evidente, a resposta sincera é que podem morrer. No caso dela,
tal como sucede com quase todos os pacientes que fazem aquela
pergunta, a probabilidade de morrer é infinitesimal, mas a pergunta
obriga-me a referir o Ceifeiro imediatamente antes da cirurgia.
Nos últimos meses, sempre que alguém me pergunta: “O que é
que pode acontecer no pior dos casos?”, eu respondo: “O mundo
pode explodir.” Geralmente, esta resposta tem como efeito a
paciente perceber que está a ser catastrofista e isso quebra um
pouco o gelo. Além disso, não é mentira – um dia isso irá acontecer
e eu estarei sem dúvida a trabalhar no bloco de partos.
Neste caso concreto, FR acredita fervorosamente que o mundo
vai acabar nos próximos cinco anos e convida-me para uma palestra
de David Icke95 na Brixton Academy, na próxima semana. Sou bem
capaz de ir. O que é que pode acontecer no pior dos casos?
Sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
As ocasiões especiais tendem a fazer com que pacientes insiram
objetos especiais na vagina e no reto. No caso particular do Natal,
fui brindado com uma fada presa (“Quer a fada de volta?” “Sim,
quando a lavar fica ótima”), uma vulva grosseiramente inchada
devido a uma alergia de contacto com azevinho e leves
queimaduras vaginais numa paciente que introduziu um fio de luzes
e o ligou (dando um novo significado à frase “Sou eu que coloco as
minhas próprias luzes de Natal”). Este é o meu primeiro ano
bissexto como médico e o grande público britânico surpreendeu-me
com um problema muito, muito específico.
A paciente JB decidiu aproveitar a tradição para pedir o namorado
em casamento. Teve a despesa de comprar um anel de noivado, o
trabalho de o colocar no interior de um ovo Kinder Surpresa e a
imaginação de o inserir na vagina. A ideia era sugerir que o
https://calibre-pdf-anchor.a/#a235
https://calibre-pdf-anchor.a/#a236
namorado lhe tocasse com os dedos, descobrisse o ovo, o retirasse
e, de seguida, ela ajoelhar-se-ia para lhe fazer a proposta (e a ele,
provavelmente). Partes igualmente inesperadas, repugnantes e,
suponho, românticas. Infelizmente, ele não conseguiu retirar o ovo
como previsto – o objeto voltara-se ao comprido – e nenhum deles
foi capaz de proceder às remexidas necessárias para fazer esta
pata pôr o seu ovo dourado. Mas ela queria tanto manter a surpresa
que não lhe revelou o que fizera nem o motivo por trás de tal
decisão. Finalmente, acabou por perceber que se tratava de um
assunto que envolvia um hospital, pelo que nos encontrámos os três
no cubículo. Foi um parto muito fácil, com a ajuda de uma pinça
Foerster.
Até este instante, ela não me revelara qual era o conteúdo do ovo,
pelo que houve um momento de confusão, tanto para mim como
para o namorado, quando ela lhe pediu que o abrisse. Dei-lhe um
par de luvas de látex, retirando à cena qualquer resquício romântico.
Ela fez a pergunta e ele respondeu que sim; talvez em choque, ou
talvez por medo do que uma mulher que fez aquilo a um Kinder
Surpresa seria capaz de lhe fazer se ele recusasse. Pergunto-me
onde é que o padrinho de casamento irá guardar as alianças
durante a cerimónia?
Segunda-feira, 17 de março de 2008
Ainda não percebi quem é que decidiu que os médicos internos
têm tanto tempo livre que devem realizar auditorias anuais, mas a
auditoria é esta semana, pelo que estou sentado a rever as
anotações dos pacientes depois do meu turno da noite, com o
mesmo entusiasmo que Lady Chatterley viveu no seu casamento
com o impotente Sir Clifford. Além de recolher os meus dados
oficiais de auditoria sobre o índice de APGAR96, descobri algo por
acaso e decidi juntar também alguns dados sobre isso:
Introdução
Na nossa unidade, nascem todos os anos dois mil e quinhentos
bebés, dos quais cerca de setecentos e cinquenta através de
https://calibre-pdf-anchor.a/#a237
cesariana. O cirurgião faz anotações manuscritas para cada
paciente, representando o registo legal permanente do
procedimento.
Método
Revi pessoalmente as anotações relativas a trezentas e oitenta e
duas cesarianas, sendo que todos esses procedimentos foram
realizados entre janeiro e junho de 2007.
Resultados
Em cento e nove casos (vinte e oito e meio por cento), o cirurgião
que realizou o procedimento escreveu, erradamente, “cesareana”
em vez de “cesariana”.
Conclusão
Quase um terço dos meus colegas são idiotas e incapazes de
escrever corretamente o nome do raio da única operação de cujo
nome deveriam lembrar-se.
Quinta-feira, 17 de abril de 2008
Por vezes, são as pequenas coisas que fazem a diferença no
bloco de partos. O toque no nosso braço e um obrigado sussurrado
pela mãe demasiado exausta para falar, devido ao trabalho de parto.
A Coca-Cola Diet que um interno do ano comum sénior nos compra
porque parecemos completamente esgotados. O aceno
reconfortante do nosso especialista, que nos diz “Tu és capaz”. E,
por vezes, são as coisas verdadeiramenteenormes que fazem a
diferença – como o marido de uma paciente que me chama após
uma cesariana de emergência para me agradecer, e refere que é
diretor de marketing para o Reino Unido de uma grande empresa de
champanhe e precisa do meu contacto para me enviar “qualquer
coisinha”. Passo uma semana a sonhar em chapinhar numa taça de
champanhe gigantesca e cheia, até acima, de efervescências
proibitivamente caras, como num ostentoso ato burlesco.
Hoje, chegou ao trabalho uma embalagem para mim. Não quero
parecer ingrato mas, a sério? Um boné de baseball de marca e um
porta-chaves?
Segunda-feira, 21 de abril de 2008
A fazer uma cesariana eletiva, assistido por um estudante de
Medicina em plena ressaca. Tirando a possível exceção da
diatermia97, que cheira deliciosamente a bacon frito, os aromas dos
blocos de partos na manhã seguinte não são propriamente
maravilhosos. Basta ver os ingredientes: há mais de meio litro de
sangue derramado, além de uma onda gigante de líquido amniótico
quando o útero é cortado, o bebé está coberto com mais porcaria do
a que pode ser encontrada no ralo de um gatil e a placenta cheira
sempre a esperma antigo. Ninguém tem vontade de se confrontar
com nenhum deles quando ainda está a arrotar com sabor a shots
de Jägerbomb e a suar caril pelos globos oculares. Bebé cá fora e,
quando estou a suturar o útero, o estudante desmaia, enfiando a
cara em cheio na barriga aberta. “É melhor darmos uns antibióticos
à paciente”, sugere o anestesista.
Terça-feira, 13 de maio de 2008
Estou numa noite de quiz com Ron e mais algumas pessoas, e
uma das perguntas é a seguinte: “Quantos ossos há no corpo
humano?” Falho por cerca de sessenta, para indignação geral dos
meus companheiros de equipa. Tento justificar-me. Não é algo que
devesse ser ensinado; não existe qualquer situação clínica em que
seja preciso saber isto; é uma irrelevância; não espero que Ron
saiba quantos tipos de impostos existem… Mas é demasiado tarde.
Vejo na expressão horrorizada de todos eles que estão a tentar
lembrar-se de todas as vezes em que pediram a opinião de um
médico que não sabe quantos ossos há no corpo humano. Três
outras equipas responderam corretamente98.
Segunda-feira, 2 de junho de 2008
https://calibre-pdf-anchor.a/#a238
https://calibre-pdf-anchor.a/#a239
Consulta pré-natal. Chamado por uma enfermeira-parteira para
observar a paciente – uma “primip” de baixo risco99, grávida de trinta
e duas semanas, para um check-up de rotina. A parteira não
conseguiu detetar o coração do bebé com o Sonicaid100 e quer que
eu o faça. É usual isto acontecer e, em noventa e nove por cento
dos casos, tudo está bem. Costumo levar para a consulta uma
máquina portátil de ecografia, com rodinhas, tipo carrinho de
refeições. Mostro rapidamente aos pais o coração do seu bebé num
monitor e, depois, volto a fazê-la deslizar para fora da consulta, a
sorrir como um apresentador de concurso de televisão. Quando
passam pela agonia de tentar ouvir em vão o som do coração do
seu bebé, o que mais querem é obter uma prova inequívoca, num
ecrã, de que tudo está bem.
No entanto, este era claramente um dos casos que fazem parte do
um por cento, e consegui aperceber-me disso mal entrei na sala.
Esta parteira sabe o que está a fazer e está lívida. A paciente é
médica de família, casada com um interno da especialidade de
oftalmologia, pelo que, ao contrário do que acontece na esmagadora
maioria das vezes, todos nós sabemos que algo de muito errado se
está a passar. Nem consigo articular o meu discurso de “sei que
está tudo bem” antes de pegar na sonda.
Para agravar tudo, tenho de ligar a um especialista para confirmar
a morte fetal para os registos, mesmo sabendo ambos os pais que
estive a olhar para as quatro cavidades imóveis do coração do bebé
no ecrã. Ela mantém-se racional, prática, composta – fica
repentinamente em modo trabalho, com o escudo emocional tão
elevado como o meu. Ele fica desfeito. “Ninguém devia ter de
enterrar um filho.”
Quinta-feira, 5 de junho de 2008
A escala tem-me colocado em várias áreas do hospital, ao que
parece de forma aleatória: da consulta pré-natal ao bloco operatório
de ginecologia, da consulta de infertilidade à sala de partos, da
colonoscopia à ecografia. Graças a esta situação, todos nos
https://calibre-pdf-anchor.a/#a240
https://calibre-pdf-anchor.a/#a241
sentimos como estranhos em cada momento. Já quase abandonei a
esperança de ver alguém que reconheço, a não ser que estejam a
entregar-me um galão no Costa.
É raríssimo ver o mesmo paciente mais do que uma vez, mas na
minha ronda da tarde, na sala de partos, vejo a médica de família a
quem diagnostiquei uma morte intrauterina no início desta semana.
Está agora em trabalho de parto, depois de uma indução101. Ela e o
marido parecem estranhamente satisfeitos por me ver: um rosto
familiar, alguém que não precisa de uma explicação e já sabe o que
se passa pode trazer algum conforto num dia horrível e assustador.
Mas o que é que se pode dizer? Sinto que há na nossa formação
uma lacuna lamentável e que ninguém nos ensinou a falar com
casais aflitos. Será que vou melhorar ou piorar a situação se falar de
forma positiva sobre a “próxima vez”? Quero dar-lhes esperança,
mas sinto que não devo. É uma versão limite de “há muito mais
peixe no mar” após o fim de uma relação, como se os bebés fossem
totalmente substituíveis, desde que se tenha um. Digo-lhes como
estou triste e lamento por eles? Isto faz com que pareça que eu é
que estou a sofrer, atirando para cima deles os sentimentos de mais
uma pessoa que se sente mal com a situação? Devem ter montes
de familiares a sofrer por isto; de certeza que não precisam disso
também da minha parte. Que tal um abraço? É demasiado? Não
chega?
Limitemo-nos ao que sabemos. Falo apenas do que irá acontecer
nas próximas horas. Eles têm mil perguntas, e eu respondo-lhes o
melhor que posso. Esta é claramente a melhor forma de lidar com
isto por enquanto, medicá-la.
Volto de hora a hora, ou até mais vezes, para ver como estão.
Passa das 20h00 e eu decido ficar na sala de partos até que tudo
esteja concluído. H está à espera que eu chegue a casa a qualquer
momento, mas envio-lhe uma mensagem mentirosa, a dizer que
houve uma emergência e que, por isso, tenho de ficar até mais
tarde. Não entendo por que é que não posso simplesmente dizer a
verdade. Minto também à paciente quando ela me pergunta por que
é que ainda estou ali às 23h00. “Estou a substituir uma pessoa”,
https://calibre-pdf-anchor.a/#a242
respondo. Ao que parece, a minha presença, e talvez a minha
capacidade de conversação, estão a ajudar um pouco.
O parto ocorre pouco depois da meia-noite, e eu recolho amostras
de sangue da mãe e falo de todos os testes que podemos fazer para
descobrir a causa do nascimento do nado-morto. Eles querem fazer
todos, o que é compreensível, mas isso significa que tenho que tirar
amostras de pele e músculo do bebé – a pior parte, para mim, de
todo o meu trabalho. Era algo que me incomodava tanto quando
comecei que eu tinha, praticamente, de desviar o olhar enquanto
fazia o que tinha a fazer. Agora, um pouco mais dessensibilizado em
relação a algo que nunca chegamos a acreditar que nos
tornaremos, já consigo olhar. Acho simplesmente que é mesmo
muito triste ter de cortar um bebé morto. Esperamos sempre que
pareçam bonitos, perfeitos, intocados; muitas vezes não o são.
Olhando para ele, percebe-se que está morto há cerca de duas
semanas – está macerado, com a pele a esfolar, cabeça amolecida,
parece quase queimada. “Desculpa”, digo-lhe, ao retirar as amostras
de que preciso. “Cá está, tudo pronto.”
Visto-o de novo, olho para cima, para um Deus no qual não
acredito, e digo: “Cuida dele.”
Terça-feira, 10 de junho de 2008
Mandado parar pela polícia no Holland Park. “O senhor sabe que
acabou de passar um sinal vermelho?” Por acaso, não sei mesmo.
Estava a conduzir em direção a casa, em piloto automático,
totalmente exausto depois de um turno noturno implacável que
incluiu cinco cesarianas. Espero ter estado mais atento no bloco
operatóriodo que na estrada.
Explico aos meus irmãos de linha da frente que acabei de sair do
bloco de partos após treze horas. Eles não querem saber disso para
nada, uma multa de sessenta libras e os respetivos três pontos de
penalização.
Quarta-feira, 18 de junho de 2008
Usar linguagem de código em frente aos pacientes não me é
estranho. Uma palavra vaga aqui, outra ali, pode ser a diferença
entre um paciente que elabora planos ambiciosos para erigir um
santuário em nossa homenagem e um que nos acusa
histericamente de estarmos a planear a sua morte. Portanto, temos
de recorrer ao equivalente a soletrar p-a-s-s-e-a-r em frente ao
cãozinho ou s-e-p-a-r-a-ç-ã-o para despistar o miúdo de cinco anos
que está à escuta atrás da porta102. Mas não são apenas os
pacientes que nem sempre devem saber tudo. Neste emprego,
também tive de desenvolver um código para que a Miss Bagshot
não pudesse entender-me, de forma a sobreviver às suas
intermináveis rondas como especialista. Quando preciso de um pico
de cafeína, digo ao interno do ano comum para ir observar “a Sra.
Buckstar”, e ele desce para ir à Starbucks por mim. Ao fim de três
meses, ela não foi capaz de interpretar este enigma aparentemente
indecifrável. Ou isso ou o meu hálito a café excita-a.
Sexta-feira, 20 de junho de 2008
Estou a ensinar ao interno do ano comum sénior um método de
sutura da pele através de agrafos que, na minha opinião, tem um
resultado estético tão bom como os pontos, num quarto do
tempo103. Ele faz um excelente trabalho utilizando esta técnica mas,
no final, conto que usou dez agrafos. Explico-lhe que dá azar fechar
a pele com um número par de agrafos e peço-lhe que coloque mais
um a meio da incisão. Não sou supersticioso – passo a dançar por
baixo de escadas e era capaz de viver num apartamento cheio de
chapéus de chuva abertos – mas ensinaram-me isto há anos e,
desde então, ensino-o aos mais novos. A ciência pode superar o
sobrenatural, mas quando alguém nos diz que uma técnica cirúrgica
dá azar, talvez seja melhor prevenir do que remediar. Ninguém quer
ser “bleepado” a meio da noite porque uma catrefada de intestinos
apareceu de surpresa na parte da frente do abdómen de uma
paciente.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a243
https://calibre-pdf-anchor.a/#a244
Totalmente informado sobre como defender-se desta crise
iminente do mundo espiritual, o meu interno do ano comum sénior
pega no agrafador para inserir o talismã final – e espeta acidental e
profundamente um agrafo na polpa do meu dedo.
Quinta-feira, 3 de julho de 2008
Há já dois dias que a paciente TH me diz que a sua bomba tira-
leite está sob escuta. Tive de lhe prometer que vamos investigar
porque, inicialmente, quando tentei tranquilizá-la, ela começou a
gritar que também eu estou feito com os russos. O meu diagnóstico,
pouco contestável, foi psicose puerperal104, mas não consegui
convencer os psiquiatras de que ela estava suficientemente
perturbada para justificar ser vista. Não acreditavam que ela poderia
pôr-se em risco, ou ao seu bebé. Mais pareciam uma equipa da
ortopedia que se recusava a ver um paciente com uma perna
partida, com o argumento de que não iria correr a Maratona de Nova
Iorque.
Chamada telefónica da urgência – a paciente TH está atualmente
a ser vista por um psiquiatria, sendo que foi trazida pela polícia. A
Starbucks lá de baixo ligou para o número de telefone de
emergência depois de ela ter entrado, tirado a roupa toda, subido
para cima de uma mesa e começado a cantar “Holding out for a
Hero”. Foi útil porque fiquei a saber onde é que os psiquiatras
colocam a fasquia.
Sexta-feira, 4 de julho de 2008
A paciente NS apresenta-se na uroginecologia para substituição
de um pessário em forma de anel que está perdido105. Ela pergunta
se há mais opções além daquele género de pessário porque, agora,
trazem-lhe más memórias. Ela tem cinquenta e oito anos, e há
algumas semanas estava a dançar no casamento da sobrinha, e
tinha vestidas roupas íntimas “menos do que substanciais” debaixo
do vestido. Ao dançar vigorosamente a Macarena, o pessário
deslocou-se e mergulhou diretamente na pista de dança. Depois,
https://calibre-pdf-anchor.a/#a245
https://calibre-pdf-anchor.a/#a246
atravessou todo o espaço a rolar e acabou por parar junto aos pés
do padrinho.
“O que é isto?”, gritou ele, a segurá-lo bem alto com a mão. “A
roda perdida do carrinho de compras de alguém? Ah! É um anel de
dentição para crianças?” A paciente saiu da pista de dança e do
casamento antes de perceber se o objeto foi, ou não, metido na
boca de alguma criança pequena. Ofereço-lhe um pessário em
forma de prateleira106 e um sorriso compreensivo.
Segunda-feira, 7 de julho de 2008
Chamada de emergência para um quarto de trabalho de parto. O
marido estava a brincar com uma bola de pilates, caiu e fraturou o
crânio ao embater no chão.
Terça-feira, 8 de julho de 2008
A expressão “montanha-russa de emoções” tem muito tempo de
antena em obstetrícia e ginecologia, mas nunca vi nenhuma com
subidas e descidas tão rápidas como as de hoje. Chamado à
unidade de início de gravidez por um dos internos do ano comum
sénior para confirmar um aborto espontâneo às oito semanas – ele
está a estrear-se nas ecografias e precisa de uma segunda opinião.
Lembro-me perfeitamente dessa sensação e apresso-me. Ele geriu
muito bem as expetativas do casal e, claramente, consciencializou-
os de que a situação não parece ser boa. O casal está triste e
silencioso quando entro.
O que ele não fez muito bem foi a própria ecografia. É possível
que tenha estado a ver a parte de trás da sua mão ou o pacote de
snacks Quavers. Não só o bebé está bem, como também o está o
outro bebé que ele não viu. Não tenho certeza de alguma vez ter
dado boas notícias107.
Quinta-feira, 10 de julho de 2008
https://calibre-pdf-anchor.a/#a247
https://calibre-pdf-anchor.a/#a248
Na próxima semana, H e eu vamos passar duas semanas às
Maurícias para celebrarmos cinco anos de relação. Estou
entusiasmado com a possibilidade de uma existência livre de
“bleeps” e espero não me ter esquecido de como é uma relação que
é mais do que pequenos-almoços apressados e mensagens com
justificações e pedidos de desculpa.
O problema de estar numa bolha é que basta uma picada para
que ela rebente. E esta chega na forma de um e-mail da
administração de pessoal médico, informando-me que terei de
trabalhar no fim de semana entre as duas semanas. Nenhum dos
meus colegas pode trocar comigo e não sei como fazer partos via
Skype, pelo que vou falar com a administração do pessoal médico
para explicar a minha situação. Tenho o tipo de sensação de
afundamento que se tem quando se vai ao gabinete do diretor negar
que se roubou umas gomas de alcaçuz da loja de guloseimas, com
os dentes todos manchados de preto.
Sei de colegas que tiveram de cancelar a lua de mel e faltar a
funerais de familiares, pelo que a probabilidade de alterarem uma
escala devido a umas férias nunca foi muito alta. Recusam-se a
tentar arranjar um substituto. A sua melhor sugestão é que eu dê um
salto a Inglaterra. Acho que não vou conseguir esquivar-me se der
esta notícia a H por mensagem.
88 ‘Cholelithoproctophilia’ seria empurrar cálculos biliares pelo rabo acima, mas acabei de o
inventar. ‘Orbitobelonephilia’ – espetar agulhas nos olhos. ‘Anastamosis Craniophallic’ –
imbecil.
89 Early Learning Centre, uma empresa britânica de brinquedos.
90 Desconheço a posição da Ordem em relação a bater umas nas salas dos médicos. Um e-
mail para eles, para esclarecer este assunto, ficou por enviar durante mais de um mês na
minha pasta de rascunhos, quando eu estava a organizar este livro, antes de me acagaçar
e apagá-lo. Mas todos o fizemos. Basicamente, certifique-se de que o seu médico usa uma
solução hidro-alcoólica nas mãos quando entra à pressa no seu quarto, de noite.
91 Em caso de vida ou morte, podemos ser convocados através de um “bleep” de
emergência – é atribuído ao nosso “bleep” o poder da fala e ele diz-nos exatamente para
onde devemos correr, o que nos faz ganhar alguns segundos valiosos.
92 Háoutros termos para quetamina: K, Kit Kat e Special K. Mas se ela me tivesse dito que
tomava Special K todas as manhãs, talvez eu não tivesse percebido a referência.
93 A histerectomia abdominal total e salpingo-ooforectomia bilateral é a remoção do útero,
colo do útero, trompas de Falópio e ovários. Salpingo-ooforectomia tem três “o” seguidos, o
que deve ser um recorde qualquer?
94 Colocar uma câmara no interior do útero. Um dos pilares da investigação ginecológica,
principalmente para situações de sangramento anormal, mas também é um procedimento
tradicional quando não se sabe o que fazer. O procedimento foi realizado pela primeira vez
em 1869, e a maioria das unidades não comprou novos equipamentos desde essa altura.
95 Icke é um teórico da conspiração profissional, além de negar a existência do Holocausto.
Faz discursos inexoravelmente longos e furiosos. Quando este livro for publicado, será
certamente ministro dos Negócios Estrangeiros.
96 O índice APGAR avalia o nível de adaptação de um recém-nascido. Os bebés obtêm
notas para a aparência (Appearance), o pulso (Pulse), reflexos (Grimace), atividade
(Activity) e respiração (Respiration). Foi elaborado por uma médica chamada Virginia
Apgar, o que me leva a pensar que escolheu medições arbitrárias só porque se
encaixavam no seu apelido. É mais ou menos como se eu decidisse que os melhores
parâmetros da saúde de um bebé são pontapear (Kicking), aplaudir (Applauding) e bocejar
(Yawning).
97 A diatermia funciona basicamente como um soldador elétrico – aquece a área onde lhe
toca e faz com que os pequenos vasos sanguíneos parem de sangrar, selando-os. É
importante não limpar a pele com um antissético à base de álcool antes da cirurgia, caso
contrário as faíscas da diatermia podem incendiar o paciente.
98 São 206.
99 Primip (abreviação de primípara), que significa primeira gravidez. Multip (multípara) para
as gravidezes seguintes.
100 Sonicaid é o aparelho portátil com o qual ouvimos o coração do bebé.
101 É de uma crueldade incrível que quando um bebé morre no útero, o local mais seguro
para o parto seja na sala de partos, um ambiente com dezenas de mães e bebés.
102 Há três tipos de códigos. Em primeiro lugar, temos os termos formais, em latim e grego,
para as doenças. Assim, dizemos “dispneia” em vez de “falta de ar” e “epidídimo-orquite”
em vez de “pila e tomates avariados”. Em segundo lugar, recorremos a uma camada de
eufemismo. Em vez de sugerirmos sífilis, pedimos para ver “o VDRL”, que é o teste de
laboratório correspondente; em vez de dizermos VIH, podemos falar em “deficiência de
CD4”, relativa ao problema imunitário subjacente. Em terceiro lugar, e muito mais
divertidos, estão os termos totalmente inventados que entraram no vocabulário médico nas
últimas duas décadas. Geralmente, parecem credíveis e científicos, e permitem que
sejamos sinceros em frente aos pacientes, mas sem que eles percebam. Alguns dos meus
favoritos são:
Intoxicação crónica por glicose – Obesidade.
Incarcerite – Início dos sintomas que se seguem de imediato após uma paragem cardíaca.
Sinal Q – Língua que sai da boca, de lado, em forma de Q. Em termos de prognóstico, é
um péssimo sinal, embora não tão mau como o sinal Q ponteado, em que há uma mosca
na língua.
Status dramaticus – Clinicamente bem, mas demasiado emocional.
Flebotomia terapêutica – Melhora após análises ao sangue.
Transferido para o décimo quinto andar – Morto. (note bem: o número deve ser superior ao
número de andares do hospital).
103 Os materiais e as técnicas na sutura da pele variam de cirurgião para cirurgião. Os
agrafadores, e os agrafos, usados são pouco diferentes dos que se compram na Ryman.
104 A psicose puerperal é a versão nuclear da depressão pós-parto – sintomas psiquiátricos
graves nos dias seguintes ao parto, que ocorrem, sensivelmente, numa em cada mil
mulheres.
105 Um pessário em forma de anel é um dónute de plástico duro que é colocado no interior
da vagina e mantém os órgãos internos, ora bem, internos. Os pessários existem desde
que existe o prolapso dos órgãos pélvicos, isto é, poucos anos após a primeira mulher ter
dado à luz. Em termos históricos, um tipo popular de pessário era a batata – enfiava-se lá
para dentro e ficava tudo bem. O problema é que o ambiente quente e húmido é o
ambiente ideal para o brotamento de vegetais de raiz, pelo que teriam de cortar os
rebentos verdes assim que estes começassem a roçar as cuecas.
106 O pessário em forma de estante parece um gancho daqueles que se colocam na parte
de trás da porta do quarto para pendurar o roupão. Coloca-se lá dentro ou retira-se
segurando a ponta do gancho, e a parte plana mantém o útero fora dos olhares do público.
107 Uma em cerca de oitenta gravidezes espontâneas é de gémeos. São mais comuns
quando há fertilização in vitro porque, geralmente, é implantado um par de embriões de
cada vez. A probabilidade se serem trigémeos é de uma em oitenta ao quadrado (1: 6,400),
a de serem quadrigémeos é de uma em oitenta ao cubo (1: 512,000) e assim por diante.
Quase todas as complicações da gravidez são mais prováveis quanto mais bebés houver –
qualquer coisa a mais do que gémeos é um pouco como se fosse uma catástrofe
obstétrica. Embora já tenha tido uma paciente com quadrigémeos e, se bem me lembro,
ela acabou por receber fraldas, roupas, alimentos para bebés e uma carrinha através de
patrocínios.
6
Interno da Especialidade Segundo Posto
Ficaria sempre tremendamente orgulhoso por dizer que trabalhei no
NHS. Quem é que não adora o NHS (bom, além do ministro da
Saúde)? É diferente de qualquer outro recurso nacional; ninguém
fala com carinho sobre o Banco da Inglaterra, tal como ninguém irá
pensar mal de si se decidir processar o aeroporto de Cardiff. É fácil
perceber porquê: o NHS faz um trabalho realmente incrível e todos
nós beneficiamos disso. Fizeram o seu parto quando você nasceu e
um dia irão fechá-lo num saco, mas não sem antes terem feito tudo
o que a ciência médica permitir para o manterem em bom estado.
Do berço até ao túmulo, tal como prometeu Bevan em 1948.
Engessaram o seu braço partido no dia do Desporto, fizeram a
quimioterapia da sua avó, trataram da clamídia que você trouxe
quando regressou de Kavos, iniciaram-no no inalador, e não teve de
pagar nada por toda esta magia no momento do serviço prestado.
Não tem de verificar o seu saldo bancário depois de marcar uma
consulta: o NHS está sempre lá para si108.
Por outro lado, saber que se está a trabalhar no NHS torna mais
suportáveis inúmeras coisas relativas ao trabalho: os terríveis
horários, a burocracia, a falta de pessoal, a forma como bloquearam
o Gmail, sem explicações, em todos os computadores num hospital
onde trabalhei (obrigado, caríssimos!). Eu sabia que fazia parte de
algo que era bom, importante, insubstituível, e contribuí como pude.
A minha ética de trabalho inata não é espetacular e não se aplica a
nada do que fiz desde então (como o meu editor poderá confirmar),
mas o NHS é especial e a alternativa é aterradora.
Devemos olhar para as contas astronómicas dos Estados Unidos
da América como o fantasma dos Natais futuros quando se trata da
privatização do NHS. Os políticos agem de forma tonta, mas não o
são, e seremos seduzidos muito subtilmente para esta casa de
gengibre particular. Irão prometer-nos que são apenas pequenos
https://calibre-pdf-anchor.a/#a264
cantos do NHS que estão a ser mudados, mas não haverá trilhos de
migalhas para nos ajudar a encontrar o caminho de volta pela
floresta. Um dia, num piscar de olhos, o NHS ter-se-á totalmente
evaporado – e se esse piscar de olhos revelar ser um AVC,
estaremos completamente tramados.
A minha opinião sobre cuidados de saúde privados no Reino
Unido mudou um pouco quando trabalhei como interno da
especialidade. Eu costumava concordar com a sua existência da
mesma forma que encarava a da educação privada: um grupo de
pessoas ricas que poupam aos contribuintes algum dinheiro ao
fazerem as suas próprias coisas, sem prejudicar ninguém. Podia,
até, imaginar-me a trabalharde vez em quando para o setor privado
como especialista – uma noite por semana numa clínica, talvez, a
lista ocasional de histeroscopias se achasse que merecia um
Mercedes, talvez uma cesariana por mês se achasse que o meu
Mercedes merecia um motorista. Conheci especialistas que tiveram
essa vida, e imaginá-la para mim próprio não afetou a minha
motivação.
Então, no meu segundo ano como interno da especialidade,
comecei a fazer trabalho de substituição regularmente. Tinha-me
esticado no crédito à habitação e pareceu-me ser uma boa forma de
fazer com que o meu rendimento compensasse um pouco as
minhas despesas. Como tinha pouco tempo livre (e o que tinha não
me parecia suficientemente meu para decidir o que fazer com ele),
costumava fazer turnos noturnos entre os dias normais no trabalho
e, para garantir uma ou duas horas de sono, fazia-os em hospitais
privados ou em serviços privados dos hospitais do NHS, onde a
carga de trabalho é muito mais leve.
Hoje em dia, tenho amigos que fizeram escolhas de vida muito
melhores do que as minhas e me perguntam frequentemente sobre
se deveriam ter os filhos no privado. São pessoas que fazem o
pedido do final da lista de vinhos para terem um vinho melhor, ou
que fazem pedidos do final da lista de casas de férias em Chilterns
para conseguirem uma melhor casa de férias em Chilterns. Pessoas
que sabem que embora o dinheiro não tenha a capacidade de nos
comprar felicidade, proporciona-nos coisas bem agradáveis.
Mas a verdade é que esta teoria não se aplica aos partos. É pena,
porque se optar por recorrer ao setor privado, terá de pagar cerca
de quinze mil libras e o seu seguro de saúde não cobrirá esse valor.
Terá seguramente um quarto de hospital mais agradável e a comida
será melhor. Poderá fazer uma cesariana eletiva se assim o desejar.
Na verdade, o seu médico poderá mesmo encorajá-la a fazer uma.
Podem cobrar-lhe mais dinheiro, além das quinze mil libras – e
sabem que não receberão um “bleep” inesperado a meio de um
jantar para lhe tirar o bebé da barriga. E se você começar a sangrar
algumas horas depois, quando o especialista já tiver regressado a
casa, o médico residente irá embora. Quando era comigo, estava
tudo bem – era capaz de lidar com isso, era o meu dia de trabalho.
Mas eu podia ver o resto da escala; e muitos dos meus colegas em
regime de substituição no privado trabalhavam geralmente como
internos do ano comum sénior, sendo que alguns eram
extremamente inexperientes e estavam mal preparados para lidar
com uma situação deste tipo.
Mas e se houver uma grande emergência, que vá para além das
capacidades de um único médico? Uma emergência em que é
preciso uma equipa de obstetras, anestesistas, pediatras, talvez até
clínicos e cirurgiões de outras especialidades? A única coisa a fazer
é ligar para o número de telefone de emergência, ver a paciente ser
levada para uma unidade do NHS projetada para lidar com estes
cenários e esperar que sobreviva o suficiente até chegar lá.
Poderá pesquisar no Google os nomes das maternidades privadas
com as palavras “acordo extrajudicial”, se quiser ver casos de
estudo. Como disse, a comida é sempre excelente. Quanto a se
vale a pena morrer por ela, a decisão é sua.
Pessoalmente, nunca quis arriscar ser o médico sobre o qual recai
a responsabilidade quando tudo corre mal. Por isso, decidi
abandonar a medicina privada depois de alguns meses a fazer
esses turnos. De certa forma, foi pena, porque até já tinha decidido
qual a cor do uniforme que o meu motorista iria usar.
Sábado, 9 de agosto de 2008
Os meus amigos não-médicos ficam sempre impressionados
quando faço diagnósticos a desconhecidos, no local onde estes se
encontram – como se se tratasse de um nível avançado do jogo I
Spy. A senhora do autocarro com Parkinson em fase inicial, o
homem no restaurante com lipodistrofia devido à medicação para o
VIH, o tipo com alterações oculares que revelam colesterol elevado,
o tremor no pulso característico de doença hepática, as alterações
nas unhas do cancro de pulmão.
Mas há claramente uma hora e um local. “Trichomonas Vaginalis”,
digo, com orgulho, a apontar para um resíduo de corrimento verde
revelador na vulva da stripper. E pronto. Acabo de estragar esta
despedida de solteiro.
Segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Dilema moral. Num turno de substituição numa unidade com
algumas salas de parto privadas e chamado pela enfermeira-
parteira para ver uma mulher que está a fazer força e tem um
traçado preocupante. Explico à paciente que tenho de ajudar o seu
bebé a sair porque a sua frequência cardíaca caiu um pouco. Digo-
lhe que não há tempo para esperar que o seu especialista chegue,
mas que se trata literalmente do meu ganha-pão e que tudo irá
correr bem. Ela entende.
Fora da sala, chamo o especialista, Mr. Dolohov, uma cortesia
habitual quando se trata de uma paciente privada. Ele não é muito
cortês na resposta. Diz que está a apenas um minuto de distância e
que vem para aqui diretamente: em nenhuma circunstância devo
fazer o parto da “sua” paciente. Regresso à sala e preparo tudo para
a sua chegada – fórceps, kit de parto, kit de sutura. Mas a certa
altura decido que isto é ridículo; o bebé está claramente em
sofrimento e o seu estado irá deteriorar-se a cada instante se eu
não fizer o parto. E se ele estiver a apenas um minuto de distância
como os minicabs estão a “apenas um minuto de distância”? E se o
bebé tiver sequelas devido à minha inação, lá se vai a minha
inscrição da Ordem. E, pior do que isso, é um bebé com problemas.
Se Mr. Dolohov quiser queixar-se de mim, o pior que pode acontecer
é não voltar a trabalhar num hospital no qual deixei de ter vontade
de trabalhar.
Faço o parto – o bebé demora uns instantes até respirar, mas
acaba por se animar, e os gases do cordão109 confirmam que eu
estava certo quando decidi não esperar. Retiro a placenta, faço uma
sutura, limpo a paciente e digo: “Adam é um belo nome.” Ela vai
chamar-lhe Barclay, naturalmente. Por enquanto, nada de
especialista. Dilema moral corretamente resolvido.
Eu já vesti um pijama cirúrgico lavado quando Mr. Dolohov
aparece finalmente. Uma enfermeira-parteira falou-lhe dos gases do
cordão e ele pede-me muitas desculpas. Preferia que desse uma
grande quantia de dinheiro, especialmente porque vai cobrar à
paciente milhares de libras pelo que eu fiz, mas lá está.
Sexta-feira, 5 de setembro de 2008
“Tem um cantinho?”, perguntou Mr. Lockhart quando me juntei a
ele na clínica pré-natal da manhã. Precisei de uns instantes –
tínhamos estado a falar de férias, em como eu conseguira
finalmente marcar umas e estava prestes a ir para a França com H.
“Sim… Quer dizer, temos as reservas.”
“Não! Um cantinho! Tem um sítio pequeno por lá?”
Como ele não tinha, deliciosamente, a menor noção do que era a
vida de um interno da especialidade. Eu mal podia pagar a
prestação de um pequeno apartamento, mesmo com os nossos dois
salários; um cantinho em França parecia um passo tão provável
como comprar um cavalo de corrida ou um timeshare na Estrela da
Morte. Por outro lado, isto é algo perfeitamente normal para um
especialista – uma luz ambiciosa ao fundo do túnel do interno da
especialidade.
Desculpa-se por ter de sair da clínica um pouco mais cedo. Na
verdade, talvez devesse sair já. Há cinquenta e dois pacientes e sou
agora o único médico por cá. Pode haver uma luz ao fundo do túnel,
mas o túnel tem mais de centro e trinta e cinco quilómetros de
comprimento, está atulhado de fezes impactadas e eu tenho de
encontrar a saída.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a265
Quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Quase dou por mim a chorar no fim de um turno noturno
impiedoso quando vejo que o meu escaninho tem algo para além de
recado mesquinho sobre o estacionamento ou o gel para as mãos.
Trata-se de um postal adorável de uma paciente. Lembro-me bem
dela. Tratei de uma laceração que ela teve há algumas semanas
durante um parto vaginal espontâneo.Caro Adam,Queria apenas
agradecer-lhe. Fez um trabalho fantástico – o meu médico de família
observou os meus pontos edisse que dificilmente poderia dizer-se
que tive um bebé, e muito menos uma laceração de terceiro grau!
Estou-lhe extremamente grata. Mais uma vez, obrigada.
Tudo sobre isto é tão atencioso. É o tipo de coisa que faz todo o
nosso trabalho valer a pena. Ela até o fizera sozinha: um bonito
postal branco, adornado com a pegada do bebé em tinta dourada,
na parte da frente. Mas é possível que não tenha tido muitas
opções. Não deve haver muita procura na Paperchase para postais
a dizer “Obrigada por reparar o meu ânus!”.
Terça-feira, 16 de setembro de 2008
Na triagem do bloco de partos, uma mulher está furiosa por três
ou quatro pessoas que chegaram depois dela terem sido
observadas antes. “Se eu tiver de ir a um hospital, minha senhora”,
diz-lhe uma das parteiras, com muita calma, “quero ser a última a
ser vista. Porque isso significa que todas as outras pessoas estão
em pior estado do que eu.”
Quinta-feira, 18 de setembro de 2008
O meu telemóvel toca às 20h00. Tento adivinhar se é porque me
esqueci de aparecer num turno da noite ou se outra pessoa não
conseguiu aparecer e estou prestes a ser novamente puxado para o
serviço pela minha corda elástica invisível. Felizmente, é só o meu
amigo Lee, embora pareça preocupado. Lee é sem dúvida o meu
amigo mais sereno e menos tenso, pelo que isto é, no mínimo,
alarmante. Ele é advogado de defesa penal e ouço-o com
frequência a falar ao telefone com polícias, juízes e afins,
perguntando animado: “E o ácido destruiu o corpo todo ou só o
crânio?” ou “estamos mais ou menos a falar de um genocídio de que
dimensão?”. Pergunta-me se posso aparecer por lá; o seu colega de
apartamento Terry feriu-se e Lee pensa que talvez seja melhor ele ir
ao hospital, mas gostava de ter a minha opinião. Não fica longe e eu
não estou a fazer nada que não possa esperar, por isso, dou lá um
salto.
Terry magoou-se bastante. As ações mais insignificantes podem
desencadear as piores consequências – e aqui temos um “efeito
borboleta” completo. Cortou o polegar ao abrir uma simples lata de
feijão e rompeu uma pequena artéria que está agora a irrigar o
chão, e a parte superior do polegar fica a bater na de baixo como a
boca de um Marreta. É até possível ver um osso. Fico feliz por dar a
minha opinião profissional de que uma visita ao hospital não só é
aconselhável, como crucial e urgente. Penso que poucas pessoas
no mundo discordariam de mim. Infelizmente, Terry é uma delas.
Lee chama-me para ir até à cozinha. Não será fácil convencer
Terry a ir ao hospital – ele bebe bastante e receia que um exame
qualquer ao sangue revele danos no fígado e leve a uma cascata de
investigações e misérias, das quais ele não quer saber. Também
explicaria por que é que ele estava a sangrar tão intensamente e por
que é que a expressão “o sangue é mais espesso do que a água”
não parece aplicar-se no seu caso110.
Passo algum tempo a tentar negociar com Terry. Digo que os
médicos estarão demasiado preocupados com o facto de metade do
seu polegar estar pendurado para se incomodarem a investigar
outras coisas com muita atenção, mas esta é claramente uma
batalha perdida. Nem sequer me deixa chamar uma ambulância
para que possam observá-lo e tratá-lo. Volto para junto de Lee para
formularmos um Plano B, enquanto Terry arruína mais uns panos de
cozinha. O Plano B é bastante simples. Sou médico, Lee é
advogado; entre nós, podemos fazer com que Terry tenha de ir ao
hospital com base na Lei de Saúde Mental, declarando que ele
https://calibre-pdf-anchor.a/#a266
constitui um risco para si próprio. Lee, que conhece evidentemente
melhor do que eu a Lei de Saúde Mental, explica que não só não é
possível fazermos a declaração os dois, como a lei não lhe seria
aplicável, uma vez que ele é totalmente capaz111 de tomar a decisão
de não ir ao hospital.
Lee tem um Plano C, que me é apresentado na forma de uma
pequena caixa de produtos médicos. Há um ano, fez umas férias no
Uganda (quem é que faz isso?) e um dos conselhos dados aos
felizes viajantes é que comprem um destes kits antes de sair e o
mantenham consigo enquanto estiverem ausentes. Se forem
hospitalizados durante a viagem, o seu equipamento médico poderá
ser utilizado, o que os protegerá da atitude ligeiramente desleixada
de alguns hospitais relativamente ao controlo de infeções e de uma
dose de VIH.
Lee abre a caixa à minha frente como um comerciante num
mercado clandestino e pergunta-me se há o que é preciso para
suturar Terry. É evidente que ele esbanjou o seu dinheiro no kit mais
caro. Há ali material suficiente para retirar um pulmão. Depois de um
curto período de tempo a analisar tudo como uma tia que procura o
bombom de avelã numa caixa de Milk Tray, pego em material de
sutura, tesoura, porta-agulhas, cotonete e solução de limpeza – a
única coisa que falta é o anestésico local. Lee diz a brincar que
Terry pode morder uma colher de pau.
Assim, cinco minutos mais tarde, dou por mim a operar um Terry
incrivelmente cooperante, na mesa da cozinha. Limpo a ferida, faço
alguns grandes pontos profundos para tentar parar a hemorragia
arterial e começo a fechar o polegar, por camadas, depois de tudo
estar seco. A dor começa rapidamente a ser demasiado intensa
para Terry e – na tentativa de conter a sua vontade de gritar (se os
vizinhos aparecessem para ver se estava tudo bem, seria preciso
explicar tudo), Lee passa-lhe a colher de pau. E funciona
incrivelmente bem.
Demoro pouco tempo a fechar a pele e fico bastante satisfeito com
o resultado ao nível estético. Não sei bem até que ponto Terry irá
acatar os meus conselhos sobre o cuidado a ter com a ferida e a
https://calibre-pdf-anchor.a/#a267
remoção dos pontos, mas dou-lhos assim mesmo, enquanto me
agradece a tremer, e pega numa bebida, decidido a nunca mais
comer feijão. Pergunto calmamente a Lee quais são as implicações
médico-legais dos acontecimentos desta noite. Ele ri-se e muda de
assunto, mandando-me embora num táxi, com uma boa garrafa de
rum (presumivelmente de Terry).
A caminho de casa, lembro-me que Terry deveria tomar
antibióticos durante alguns dias, dada a natureza relativamente
clandestina de todo o procedimento. Ligo a Lee para ter certeza de
que ele manda Terry ao médico de família, logo pela manhã. Peço
desculpa por não lhe passar a receita, mas a prescrição a amigos e
familiares vai contra as orientações da Ordem. Consigo ouvir pelo
telemóvel o revirar dos olhos de Lee. “Parece-me que esta deve ser
a menor das tuas preocupações.”
Quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Passo a um substituto uma sala de partos extremamente
movimentada. Trabalhámos a todo o vapor o dia inteiro, e também
não será uma noite tranquila. Algumas mulheres terão, muito
provavelmente, de ser sujeitas a cesarianas, outras duas deverão
ter partos instrumentais, além de uma triagem agitada e pacientes
provenientes da urgência para piorar tudo. Peço muita desculpa: os
turnos agitados são duas vezes mais difíceis quando se é substituto
e não se conhece as peculiaridades de um hospital. Consigo
perceber pelos seus olhos que há nele uma enorme turbulência
interior, mas ele não diz nada.
Apercebo-me de que talvez lhe tenha dito tudo isto de uma forma
demasiado assustadora, pelo que tento emendar ligeiramente. “No
quarto cinco pode ser parto natural, e penso que nesta altura não há
nada de muito urgente na urgência, portanto…” Isto não parece ter
melhorado a situação: ele continua a ter um ar aterrorizado.
Pergunta-me num inglês macarrónico se é suposto fazer cesarianas.
Penso que o que ele quer saber é se a interna do ano comum que
está com ele pode operar, e eu explico-lhe que ela é demasiado
inexperiente. Mas não, ele está a perguntar-me se poderá ter de
fazer uma cesariana esta noite. Nunca fez nenhuma.
Preparo-me para a explicação daquilo que só pode ser um mal-
entendido hilariante. Talvez estivesse designado para trabalhar
como interno da especialidade de neurologia e tenha acabado por
aparecer no serviço errado, e o nosso verdadeiro substituo – aquele
que sabe fazer aquilo que precisamos que ele faça – estejaprestes
a aparecer, pondo a culpa numa qualquer sinalização confusa. Não,
este tipo aceitou um turno da agência de substitutos como interno
da especialidade de obstetrícia e ninguém de lá ou do hospital se
preocupou em perguntar-lhe se já tinha trabalhado numa sala de
partos. Mando-o para casa e chamo o especialista para que me diga
o que fazer, sabendo de antemão que a resposta implica que eu
trabalhe mais doze horas sem ser pago.
Segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Não há absolutamente nada de errado com a paciente HT. Pelo
menos fisicamente. As análises ao sangue são normais, zaragatoas
normais, histeroscopia e laparoscopia normais. Não há qualquer
causa de natureza ginecológica (ou qualquer outro tipo de causa
lógica) para a dor pélvica que ela descreve, e não obteve qualquer
benefício da miríade de tratamentos que lhe fizemos.
Ela continua a insistir que é ginecológico. “Eu conheço o meu
próprio corpo!” Até sabe o tratamento exato que gostaria de ter: que
lhe removamos todos os órgãos pélvicos. Eu, vários colegas e
também chefes explicamos-lhe de forma exaustiva que não
pensamos que isso contribuirá minimamente para aliviar os seus
sintomas. Além disso, seria uma grande cirurgia, com riscos que
não são triviais, incluindo a possibilidade de provocar aderências112
e agravar a sua situação pélvica. Ela insiste que é a única resposta
“tal como tenho estado a dizer este tempo todo”, e que não
contemplará nenhuma opção que não seja a de arrancar toda a sua
canalização. Talvez tenha ficado sem espaço para arrumações em
casa e queira apenas arranjar mais algum?
https://calibre-pdf-anchor.a/#a268
Calha-me a mim, finalmente, afastá-la do serviço e encaminhá-la
para a gestão da dor, que irá, eventualmente, dar-lhe
antidepressivos. Ela não acata bem esta decisão e tenho de ouvir
de tudo, desde “Paguei impostos a minha vida inteira”, até “E diz
você que é médico?”, além da lista de todas as pessoas às quais ela
irá queixar-se, desde o diretor do hospital ao deputado que ajudou a
eleger. Digo-lhe que entendo a sua frustração, mas que penso que
fizemos tudo o que podíamos, por enquanto. Ela pede-me uma
segunda opinião e eu respondo-lhe que já foi vista por muitos dos
nossos médicos, sendo que todos eles têm a mesma opinião.
“Não me vou embora sem ter esta operação marcada”, anuncia,
de mãos cruzadas em cima das pernas, e não há qualquer dúvida
de que está determinada. Não tenho tempo para esperar que
Satanás ganhe terreno, pelo que decido marcar-lhe uma outra
consulta daqui a algumas semanas, atirando um colega para
debaixo do mesmo comboio do qual acabei de me esquivar. Não
tenho dúvidas de que ela pode, e vai, desperdiçar os recursos da
clínica durante um ano ou mais.
Antes de lhe anunciar esta consulta, ela grita: “Por que é que
ninguém me leva a sério?!” Depois, pega num caixote do lixo para
material cortante113 e atira-mo à cabeça. Eu grito, baixo-me e
contraio o meu ânus até ele se tornar num orifício de um milímetro.
O caixote atinge a parede acima da minha secretária e uma chuva
de agulhas cheias de vírus caem à minha volta. Não sei bem como,
mas como quando o Bip Bip foge de uma tentativa de homicídio do
Coiote, nenhuma delas me acerta e livro-me de apanhar doze
estirpes do VIH. Uma enfermeira chega a correr para ver o que se
está a passar e vai ligar aos seguranças. E, com isto, a paciente é
posta a andar do serviço. Próxima!
Quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Perdi uma caneta. Ou, mais precisamente, roubaram-me a minha
caneta. Ou, ainda mais precisamente, a minha caneta foi roubada
por uma de três pessoas no quarto de partos número cinco: a
paciente AG, o namorado ou a mãe. Não ficaria tão perturbado se
https://calibre-pdf-anchor.a/#a269
não se tratasse de um presente de aniversário de H, se não fosse
uma Montblanc e se não tivesse acabado de fazer o parto do seu
bebé.
O trabalho de parto propriamente dito decorreu sem graves
incidentes, mas foram agressivos ao longo de todo o tempo que
passei com eles e os seus rugidos selvagens combinados com um
número considerável de tatuagens – bebé excluído, por enquanto –
fazem com que eu hesite em acusá-los de roubo.
Acho que tenho sorte por ter chegado ao fim de tantos anos sem
nunca ter sido afetado por situações deste género. Já roubaram de
tudo a colegas meus, desde limparem-lhes os bolsos dos pijamas
cirúrgicos a pifarem-lhes carteiras no balcão da receção e forçarem
os seus armários; para não falar de lhes romperem pneus nos
parques de estacionamento hospitalares e até atacarem-nos
fisicamente.
Queixo-me a Mr. Lockhart, em quem não confio para cortar as
unhas de um paciente, mas que é sempre bom a dar alguns
conselhos e a contar histórias curiosas. O conselho foi esquecer,
não ser esfaqueado e dar algum crédito à paciente por reconhecer
uma caneta decente. Depois, começou a contar a história curiosa.
Antes do início da sua carreira em obstetrícia e ginecologia, Mr.
Lockhart foi médico de família no sul de Londres, durante algum
tempo na década de setenta. Para comemorar uma colocação
permanente em medicina familiar, comprou um MGB descapotável
azul brilhante. O carro era o seu grande orgulho e a sua grande
alegria: ele passava a vida a falar sobre o carro com os seus
pacientes, amigos e colegas; encerava-o e polia-o todos os fins de
semana; e só faltava ter uma fotografia do carro na secretária. Mas
um dia tudo acabou, como acontece em todas as relações
amorosas unilaterais, quando ele terminou uma cirurgia e se
apercebeu de que o MGB descapotável azul desaparecera do
parque de estacionamento. Chamou a polícia, fez o que pôde, mas
acabou por não conseguir encontrar o carro. As conversas de
Lockhart com os pacientes, amigos e colegas passaram a incidir
sobre o estado miserável em que o mundo se encontra – como é
que alguém podia ter roubado o seu maravilhoso carro?
Um dia, estava ele a desfiar o rosário para um paciente, que afinal
era um membro de alto nível de uma família local de gângsteres e,
graças ao estranho código moral que muitos criminosos parecem
acarinhar, ficou indignado com toda aquela história. Que tipo de
verme seria capaz de roubar o carro de um médico? Era totalmente
inaceitável. Disse-lhe que tinha a certeza que conseguiria descobrir
o criminoso e persuadi-lo a devolver o carro, embora Mr. L. lhe
tenha dito, evidentemente que não havia qualquer necessidade
disso, tal como se diz que não há “qualquer necessidade disso” a
alguém que nos quer oferecer uma viagem com todas as despesas
pagas para as Seychelles. Ou seja, “força nisso”.
No final daquela mesma semana, Lockhart chegou ao trabalho e
encontrou um MGB descapotável azul brilhante no parque de
estacionamento, com as chaves no tablier. O alívio esmagador que
sentiu transformou-se num misto de emoções quando percebeu que
o carro tinha uma matrícula e um interior totalmente diferentes.
Sábado, 15 de novembro de 2008
Num e-mail, Mme Mathieu conta-me, sem disfarçar um sentimento
de grande arrependimento, que está a devolver-me o restante do
valor que já paguei para as minhas aulas de francês conversacional,
porque já faltei a tantas lições que não serve de nada lá voltar. A
correspondência por e-mail com Mme Mathieu é geralmente feita
inteiramente em francês para uma imersão total na língua. Este é o
primeiro e-mail que recebo em inglês; é óbvio que ela suspeita que
eu não a entendo de outra maneira e isso é como esfregar sel na lá
como se diz “ferida” em francês.
Segunda-feira, 17 de novembro de 2008
A superstição recomenda que nunca se descreva um turno como
“calmo”. É como não dizer “boa sorte” a um ator ou “vai-te foder” ao
Mike Tyson. Quem disser a palavra C a um médico estará
praticamente a criar um feitiço, convocando os pacientes mais
doentes do mundo inteiro para o seu hospital. Chego para um turno
noturno em regime de substituição numa unidade obstétrica privada
e a interna da especialidade informa-me que “esta noite deverá ser
muito calma”. Antes de eu ter sequer tempo de a salpicar com água
e proferir alguns “O PODER DE CRISTO COMPELE-TE!”,ela diz-
me que uma mulher que é um membro importante da realeza de um
país do Golfo acaba de ter um bebé na sala de partos, o que
explica, de alguma maneira, a segurança ao nível de uma entrega
dos Óscares por todo o lado e todos os Ferrari aveludados lá fora.
Na minha opinião, isolar três mesas no All Bar One para um
vigésimo primeiro aniversário é já “um pouco ostensivo”, mas os
nossos estimados convidados não só reservaram toda a unidade da
maternidade, não havendo qualquer outra paciente nas redondezas,
como o seu especialista permanecerá aqui durante toda a noite,
pelo sim pelo não. Era aceitável dizer-se que o turno seria calmo.
Terça-feira, 18 de novembro de 2008
Ron ligou-me esta noite para que lhe desse uma opinião médica.
O seu pai tem perdido muito peso e tem sentido um cada vez maior
desconforto ao engolir. Quando foi, de manhã, ao centro de saúde,
devido a este problema, o médico de família achou que ele estava
um pouco amarelo na zona da garganta e encaminhou-o para ser
visto por um gastroenterologista dali a uma semana. O que é que eu
achava que era?
Se me perguntassem isto num exame, teria respondido que era
cancro do esófago metastático com uma taxa de sobrevivência de
zero por cento. Se fosse um paciente a perguntar-mo, teria
respondido que era muito preocupante e teríamos de investigar com
muita urgência para podermos descartar a possibilidade de cancro.
Mas e se fosse alguém que me é próximo? Respondi-lhe que o
seu médico de família estava a fazer tudo certo (verdade), e que
talvez não fosse nada (seguramente falso – não havia qualquer
versão plausível de eventos em que isto pudesse ser outra coisa
que não algo muito mau). Eu queria desesperadamente que tudo
corresse bem, para Ron e para o seu pai, que conheço desde os
onze anos e, por isso, menti. Nunca se mente a um paciente para
lhe dar falsas esperanças, mas ali estava eu a fazer precisamente
isso, tranquilizando o meu amigo com a garantia de que tudo iria
correr bem.
A Ordem lembra-nos constantemente que não somos médicos de
amigos ou familiares, mas ignorei sempre esta recomendação e fiz
serviço privado de pré-atendimento. Como o meu trabalho faz de
mim um amigo tão inútil de tantas formas, talvez me sinta na
obrigação de oferecer algo para justificar a inclusão do meu nome
na sua lista de postais de Natal. E é basicamente por isto que nos
ensinam a não o fazer.
Quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Em nenhum outro trabalho seria suposto alguém usar sapatos de
um local onde a provisão é partilhada, com base em “o primeiro a
chegar é o primeiro a servir-se”. É como estar num centro de
bowling onde as pessoas são constantemente salpicadas com
líquido amniótico, sangue e tecido placentário, e toda a gente tem
demasiada preguiça para fazer uma limpeza no fim.
Se quisermos ter as nossas próprias socas hospitalares em couro
branco, temos de desembolsar oitenta libras, portanto, só os
especialistas é que as ostentam, deslizando pelo hospital como se
tivessem dois paracetamóis gigantes nos pés. Mas existe agora
uma nova raça de calçado chamada Crocs. Há-os em cores
brilhantes, têm o mesmo efeito e custam menos de vinte libras.
Além disso, há a vantagem de terem buracos, pelo que é possível
juntá-los com um cadeado, o que impede um qualquer imbecil de
lhes pôr as mãos ou as verrugas plantares em cima.
Hoje, apareceu um aviso nos vestiários: “O pessoal não deve, sob
qualquer circunstância, usar calçado da marca Crocs, uma vez que
os buracos não oferecem uma proteção adequada contra objetos
cortantes”. Um estilista pessoal frustrado acrescentou por baixo, “E
também o fazem parecer um palhaço”114.
Sábado, 22 de novembro de 2008
https://calibre-pdf-anchor.a/#a270
Chamado à urgência para observar uma jovem de dezanove anos
com sangramento vaginal intenso – até aqui, nada de novo. Trata-
se, na verdade, de uma miúda de dezanove anos que pegou numa
tesoura de cozinha e fez a sua própria cirurgia de redução labial.
Com grande coragem, conseguiu cortar três quartos do pequeno
lábio esquerdo antes de desistir e chamar uma ambulância. A
confusão era total e sangrava intensamente. Confirmei com o meu
interno da especialidade sénior que não iria inadvertidamente fazer
uma mutilação genital feminina e ser preso se cortasse a
extremidade solta e suturasse em demasia a parte que sangrava.
Estava tudo bem, e cosi tudo. Para ser honesto, o que ela fez não
estava muito pior do que muitas labioplastias que já vi.
Marquei-lhe uma consulta de ginecologia em ambulatório, para
dali a algumas semanas, e conversámos um pouco, agora que o
seu caso já não era urgente. Ela disse-me que “pensava que não
iria sangrar”, ideia para a qual eu não tinha qualquer resposta útil, e
que “só queria parecer normal”. Garanti-lhe que não havia
absolutamente nada de anormal com os seus lábios; que na
verdade, e sinceramente, pareciam normais. “Não como nos filmes
pornográficos”, disse ela.
Tem havido muito ruído na comunicação social sobre os efeitos
nocivos da pornografia e das revistas cor-de-rosa sobre a imagem
corporal, mas esta foi a primeira vez que vi estes efeitos com os
meus próprios olhos. É tão horrível quanto deprimente. Quanto
tempo faltará para começarmos a ver miúdas a agrafar a vagina
para que fique mais apertada115?
Quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Esta semana, o hospital está a fazer um exercício de registo de
tempos de trabalho116. Presumo que, em trabalhos normais, os
trabalhadores sejam monitorizados porque o pessoal está a
trabalhar menos horas do que as que são pagas. Especialistas que
nunca puseram os pés em determinado serviço são vistos a dar
altas aos pacientes, a trabalhar algumas horas na triagem da sala
https://calibre-pdf-anchor.a/#a271
https://calibre-pdf-anchor.a/#a272
de partos, a observar pacientes na urgência, para aumentar a
probabilidade de os internos saírem a horas. Isto sucede até ao
nanossegundo em que o exercício de registo de tempos de trabalho
termina, claro, mas por enquanto estou a aproveitar os seus
benefícios. É o terceiro turno consecutivo do qual saio a horas, o
que leva H a perguntar-me se fui despedido.
Para assegurar a ilusão da precisão, os funcionários da
administração do hospital acompanham alguns médicos, escolhidos
ao acaso, durante os seus turnos. Fui acompanhado durante um
turno noturno – ou pelo menos até às 10h30, altura em que ela foi
para casa, afirmando sem qualquer ponta de ironia que estava
exausta.
Segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
A observar uma paciente na consulta de ginecologia. O seu
médico de família iniciou-a nos adesivos de Terapia Hormonal de
Substituição (THS) e ela tem agora algum sangramento vaginal.
Pergunto-lhe há quanto tempo está a fazer THS e ela levanta a
blusa e conta os adesivos. “Seis… Sete… Oito semanas.” O médico
de família não lhe explicou que ela tinha de retirar o antigo para
colocar um novo.
Sábado, 10 de janeiro de 2009
O casamento de Percy e Marietta, hoje, foi como uma grande
vitória contra todas as probabilidades. Não um, mas dois médicos
conseguiram tirar uma folga para o seu grande dia. Além disso,
conseguiram uma folga de um dia inteiro, ao contrário da minha ex-
colega Amelia, que só conseguiu folgar na tarde do dia do seu
casamento e acabou por ter de dar consultas, durante toda a
manhã, de cabelo arranjado e toda maquilhada, para que o horário
do trabalho encaixasse no da cerimónia.
Mas o milagre mais incrível é terem conseguido manter uma
relação durante tanto tempo, apesar de um sistema que foi
aparentemente projetado para a arruinar. Percy e Marietta fizeram a
formação em deaneries, o que significa que os hospitais mais
próximos nos quais puderam trabalhar durante cinco anos se
encontravam sempre a duzentos quilómetros de distância. Em vez
de optarem por viver juntos num qualquer lugar mutuamente
inconveniente, Percy saiu de casa para viver em instalações
hospitalares horríveis e aparecia em casa sempre que a escala o
permitia, o que raramente acontecia.
No seu discurso, Rufus, o padrinho, um estagiário de cirurgia,
comparouo seu modo de organização com o de alguém que tem
um companheiro a trabalhar na Estação Espacial Internacional. Foi
um discurso brilhante que se tornou ainda mais pertinente porque
Rufus teve de o fazer entre as entradas e o prato principal. Assim
que acabou de comer os fígados de frango na frigideira, saiu a
correr para um turno da noite.
Segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Chamado para observar uma paciente na triagem do bloco de
partos e repetir um exame pélvico, uma vez que a enfermeira tem
algumas dúvidas. Segundo ela, há apresentação cefálica e um
centímetro de dilatação. O que eu observo é apresentação pélvica e
seis centímetros de dilatação. Explico à mãe que o bebé está
sentado, de cabeça para cima, e que o mais seguro será fazer uma
cesariana. Não explico à mãe em que parte do bebé é que a
enfermeira acabou de enfiar o dedo, com um centímetro de
dilatação.
Quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Sem querer, deixei cair o “bleep” no triturador do bloco de partos,
proporcionando-lhe uma morte estaladiça. Senti algo muito
semelhante a quando se urina nas calças – aquela maravilhosa
sensação quente e de enorme alívio, seguida quase de imediato de
um: “Foda-se, e agora o que é que eu faço?”
Quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Esperei cerca de um minuto antes de fazer a incisão uterina para
a cesariana, até a Heart FM tocar a música seguinte. Por muito
apropriado que Cutting Crew possa ser para um cirurgião, recuso-
me a fazer nascer um bebé ao som do refrão “Acabo de morrer nos
teus braços esta noite”.
Sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
A paciente DT tem vinte e cinco anos e foi à consulta de
colposcopia117 para a primeira citologia. E para a segunda citologia:
tem útero didelfo – duas vaginas, duas cérvices, dois úteros. Nunca
vi nada assim. Faço as duas citologias e passo um ou dois minutos
a pensar em como hei de rotular as lâminas e formulários, já que o
programa de rastreio cervical do NHS não está, na verdade,
preparado para este cenário, reconhecidamente raro.
Não vai ao ginecologista desde a adolescência e tem muitas
perguntas para me fazer. Admito que nunca vi antes um caso como
o dela, mas respondo às suas perguntas o melhor que posso. A sua
maior preocupação prende-se com futuras gravidezes118. Pergunto-
lhe se não se importa que lhe faça algumas perguntas. Talvez seja
inapropriado, mas entendemo-nos bem e é bastante provável que
eu não tenha uma nova oportunidade de conversar com alguém
com esta condição.
Eis o que aprendi. Ela costumava contar tudo aos parceiros antes
de terem relações sexuais, o que fazia com que eles se
assustassem, razão pela qual deixou de o fazer. De qualquer forma,
e ao que parece, os homens nunca se apercebem de nada, o que
não surpreende: o conhecimento da maioria dos homens sobre
anatomia genital feminina é vago, na melhor das hipóteses. Além do
antigo clichê de “encontrar o clitóris”, muitos não parecem perceber
que as raparigas têm um buraco separado para fazer xixi e pensam
que se trata de um fantástico túnel de serviço multifuncional.
Aconteceu-me mais do que uma vez companheiros de mulheres em
trabalho de parto perguntarem-me se o facto de lhes ter sido
introduzido um cateter não impediria o bebé de sair.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a273
https://calibre-pdf-anchor.a/#a274
A paciente diz-me que prefere fazer sexo com a vagina esquerda
porque é a maior (como pude observar durante o exame – a direita
precisou de um espéculo mais pequeno), embora ela tenha
acrescentado que é sempre bom ter mais do que uma opção para
“diferentes tamanhos de pénis”. Sugiro-lhe que se ela se esquecer
de qual é qual, pode aplicar a dica dos parafusos: “para a direita
aperta, para a esquerda solta”. Mas, na verdade, é pouco provável
que ela se esqueça de qual é a sua vagina maior e a mais pequena.
Depois do trabalho, conto a H a minha história. “Então, é como um
daqueles afias de metal das escolas, com dois buracos de
tamanhos diferentes?”
Terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Último dia no trabalho antes de passar para os lugares seguintes.
É sempre um pouco estranho deixar um emprego onde se viu a vida
a começar e a acabar, se passou mais horas do que na própria
casa, se viu a secretária da enfermaria mais do que o próprio
parceiro, e se tenha uma saída pouco ou nada reconhecida, mas
acabei por me habituar. Há uma rotatividade tão grande de jovens
médicos que entendo por que é que não se vê uma grande fanfarra.
Como nos disse uma vez uma enfermeira-chefe particularmente
malvada: “Vocês são visitantes temporários no meu local de trabalho
permanente.”
Nunca recebi um cartão de despedida, muito menos um presente.
Até hoje, dia em que encontrei um pacote de Mr. Lockhart no meu
escaninho. Um cartão a dizer adeus e obrigado e uma caneta
Montblanc novinha em folha.
108 Pelo menos por enquanto.
109 Depois de o bebé nascer e ser entregue aos pediatras, tiramos uma amostra de sangue
do pedaço de cordão umbilical ligado à placenta, conhecido por “gases do cordão
umbilical”. O sangue é tratado numa máquina no bloco de partos e mostra de forma
definitiva com que urgência é que o bebé tinha de nascer.
110 Entre as muitas e confusas funções do fígado, ele produz variadíssimos fatores de
coagulação, o que significa que a insuficiência hepática provoca uma coagulação
deficiente.
111 Um paciente tem capacidade de tomar uma decisão se demonstrar que compreende as
informações que lhe são apresentadas, retém essa informação e pondera os prós e os
contras. Mesmo que a sua decisão seja completamente tonta.
112 As aderências são junções de tecido cicatricial interno, causadas por cirurgias anteriores
ou, por vezes, por infeções. Podem provocar dor no paciente, e também complicar muito as
cirurgias seguintes, baralhando todos os órgãos. É que, lá dentro, nem sempre está tudo
perfeitamente ordenado, como bifes e salsichas num churrasco de gente com perturbação
obsessivo-compulsiva, sabe.
113 Todos os gabinetes têm compartimentos separados para o lixo geral, papel, plástico,
etc., que toda a gente ignora. Em instalações médicas, também temos recipientes para
material cortante – caixas de plástico rígido nas quais se colocam agulhas usadas, lâminas,
lancetas e afins.
114 Presumivelmente, o mesmo engraçadinho que mudou o sinal que diz “Aviso! Há ladrões
a operar neste departamento” para “Aviso! Há cirurgiões a operar neste departamento!”
115 A resposta era, afinal, um ano. Um colega viu uma paciente que colocava supercola no
intróito vaginal porque o seu namorado a pressionava a fazê-lo.
116 Durante um exercício de registo de tempos de trabalho, cada médico deve anotar o
número exato de horas que trabalhou. Mas como o hospital não pode (ou não quer) pagar-
nos pelo tempo em que realmente trabalhámos, faz com que o processo perca todo o
sentido. Ou contam connosco para mentirmos nos registos e só anotarmos as horas
contratadas ou colocam dezenas de especialistas nos vários serviços, de forma a retirarem
temporariamente algum peso sobre os internos.
117 A colposcopia é uma forma mais sofisticada de fazer citologias – examinando o colo do
útero na procura de células pré-cancerosas.
118 É provável que ela consiga engravidar, mas há uma maior probabilidade de aborto
tardio, parto prematuro, restrição de crescimento e apresentação pélvica, e é também
muito mais provável que o parto seja feito por cesariana.
7
Interno da Especialidade Terceiro Posto
Acaba por chegar uma altura em que temos de decidir que tipo de
médico queremos ser. Não se trata de questões de ordem técnica,
como se estamos em urologia ou neurologia, mas da questão mais
importante que tem a ver com a forma como comunicamos com os
doentes. A nossa personagem vai evoluindo ao longo da formação
mas, geralmente, estabelecemos uma forma de lidar com os
pacientes poucos anos após começarmos, que continua a ser a
mesma ao longo da carreira de especialista. Você sorri, é
encantador e positivo? Calmo, contemplativo e científico? Presumo
que seja a mesma decisão que os polícias tomam quando escolhem
ser bons políciasou maus polícias (ou polícias racistas).
Escolhi uma abordagem “direto ao assunto” – sem absurdos, sem
conversa da treta, vamos lidar com o que temos à nossa frente,
algum sarcasmo à mistura. Duas razões, na verdade. Já fazia parte
da minha personalidade, pelo que não tinha de representar muito, e
não falar sobre o tempo, o trabalho e a viagem dos pacientes
durante cinco minutos faz-me ganhar muito tempo ao longo do dia.
Isso faz de mim alguém um pouco distante, mas não me parece que
seja assim tão mau. Se há coisa que não quero é ter pacientes a
tentarem adicionar-me no Facebook ou a perguntarem-me de que
cor é que devem pintar a casa de banho do rés do chão.
De acordo com o ensino convencional, os pacientes querem que
os médicos lhes coloquem questões abertas (“Diga-me quais são as
suas preocupações...”), e lhes dê várias opções de tratamento, de
conservador a médico-cirúrgico, para que o paciente possa tomar as
suas próprias decisões. Termos como “escolha” são bons em teoria
– todos nós gostamos de sentir que somos os mestres do nosso
próprio destino – mas já esteve na fila de uma cantina onde há mais
do que dois pratos principais? As pessoas hesitam, mudam de
ideias, pedem a opinião dos amigos. A pescada é boa? Que tal o
empadão? Não sei de que é que gosto. E durante todo esse tempo,
a suas batatas fritas arrefecem. Por vezes, o melhor é ir direto ao
assunto e não deixar qualquer espaço para dúvidas.
Na sala de partos, em especial, descobri que as pacientes
ganhavam confiança nos médicos que defendiam um plano de
gestão único. É preciso que a paciente se mantenha calma e lhe
confie implicitamente a própria vida e a do seu bebé. De igual modo,
em consulta evitei inúmeros atrasos de tratamento efetivo para
pacientes por não lhes oferecer um quadro especial de opções que
quase de certeza não trazem qualquer benefício, pelo que posso
dizer que houve uma escolha do paciente. Em vez disso, dei a
minha opinião especializada; a escolha do paciente é se deve ou
não segui-la. Pessoalmente, é disto que eu gostaria se visitasse um
médico, ou até se tivesse de levar o carro à oficina.
Mas não há como esconder que uma abordagem direta faz nós
médicos menos “agradáveis”. Confiarem em nós é muito mais
importante do que gostarem de nós, mas é bom ter de tudo, pelo
que decidi no meu terceiro posto como interno da especialidade –
agora a trabalhar num hospital universitário enorme – tornar mais
amigável a forma como comunico com pacientes. Tenho de admitir
que não aconteceu de forma totalmente espontânea; alguém fizera
queixa de mim. Foi sobre o meu desempenho clínico, e não sobre o
meu comportamento, mas aquilo deitou-me abaixo de tal forma que
percebi que teria de fazer tudo o que estava ao meu alcance para
nunca mais ser alvo de qualquer tipo de queixa, e se isso implicasse
conversas da treta do género das que se fazem no cabeleireiro e um
sorriso de um cotovelo ao outro, que assim fosse.
De repente, chegou-me uma carta a casa, do hospital onde
trabalhara dois anos antes, informando-me de que uma paciente por
mim operada estava a processar-me por negligência médica.
Sucede que não fui negligente: as lesões na bexiga ocorrem em
1:200 cesarianas, e ela foi informada desse risco antes da cirurgia,
no formulário de consentimento que assinou. Gostaria de pensar
que o risco de eu lhe provocar a si uma lesão na bexiga é
consideravelmente inferior a 1:200, uma vez que só o fiz uma vez e
tive mais de duzentas oportunidades de o fazer. Senti-me péssimo
no momento em que aconteceu, mas sabia que tinha sido bem
tratada: apercebi-me de imediato do que fizera, os urologistas
vieram tratá-la no mesmo instante e, apesar de ter sido doloroso
para a paciente, resultou apenas num ligeiro atraso na sua alta
médica. Pensei que tudo tivesse também ficado bem resolvido
depois, com ela: pedi desculpa, fui honesto e humilde, o que para
este caso não implicava qualquer tipo de representação. A última
coisa que desejamos para um paciente é provocar-lhe uma das
possíveis complicações sobre as quais o informámos. Primeiro, não
prejudicar; está logo no topo da descrição das funções. Mas há dias
de azar e, nesta ocasião, ele bateu-lhe à porta.
Os senhores Imbecil, Imbecilzeco e Imbeciloide – advogados de
porta de cadeia que convencem as pessoas com o “se perder não
paga” – tinham uma visão diferente. Segundo a sua opinião de
especialistas, que parecia ter sido obtida a partir da leitura na
diagonal de um livro chamado Lei: Atira-lhes com a Merda da Lei e
Vê Quem É Que Volta a Levantar-se, a administração fora
negligente, eu fizera a cirurgia num nível bem abaixo do que era
esperado, agravara muito o sofrimento da requerente e atrasara a
sua oportunidade de criar laços com o seu bebé recém-nascido.
Infelizmente, não fui capaz de contrapor com as horas
desnecessariamente passadas a ver registos médicos antigos, em
reuniões com advogados e sindicatos, ou com os danos infligidos ao
meu relacionamento no desgaste do pouco tempo que passamos
juntos, nem com as despesas nos Red Bulls que me mantiveram
acordado nos turnos noturnos depois de dias sem dormir, a redigir
relatórios. Ou o sofrimento que eu senti – a ansiedade e a culpa
acrescidas a uma vida de trabalho já de si tão stressante, a injustiça
de ser acusado de ser péssimo no meu trabalho, o medo de talvez
ser mesmo péssimo no meu trabalho. Sempre dei o melhor de mim
a cada paciente que vi e o facto de alguém sugerir o contrário foi
como apunhalar-me no coração.
Quase de certeza que a paciente não fazia ideia de como este
processo seria triste e cansativo para mim. Sem dúvida que o seu
advogado afagara o bigode, usara a sua expressão de preocupado
e lhe dissera que valia a pena arriscar, caso resultasse numa boa
soma119. E estava certo. O hospital chegou a acordo fora dos
tribunais, como geralmente todos fazem. Talvez seja apenas uma
parte da americanização gradual do serviço de saúde que se torne
necessariamente mais litigioso. Ou talvez a paciente fosse uma
daquelas pessoas vazias que processam metade de toda a gente
que conhece: o motorista de autocarro que não diz bom dia; o
empregado de mesa que se esquece da sua dose de batatas fritas;
eu de novo, por escrever sobre isto tudo. Fosse qual fosse o motivo,
atirou-me para a minha pior fase como interno da especialidade,
levando-me a questionar-me sobre por que é que isso sequer me
incomodava, se agora até os pacientes queriam prejudicar-me.
Ponderei seriamente largar tudo, uma ideia que nunca me passara
antes pela cabeça. Mas não o fiz. Resolvi procurar
desesperadamente o lado positivo de toda esta história, que foi
fazer o melhor possível para me proteger de futuros processos.
“Bom dia!”, disse Adam 2.0, a sorrir, numa consulta pré-natal
tipicamente concorrida.
“Vai tirar mijo, amigo?”, perguntou o marido da paciente. A nova
versão de mim durou dois dias.
Sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
A paciente HJ precisa de uma cesariana de emergência por falta
de evolução do trabalho de parto. Não foi surpreendente. Quando a
conheci aquando do seu internamento, ela apresentou-me o seu
plano de parto de nove páginas, a cores e plastificado. O canto da
baleia que iria pôr a tocar no seu portátil (não me lembro da idade
exata nem do tipo de baleia, mas tenho a certeza de que estava
tudo documentado com esse nível de pormenor), os óleos de
aromaterapia que usaria, uma introdução às técnicas de
hipnoterapia que empregaria, um pedido para a enfermeira-parteira
dizer “ondas” em vez de “contrações”. Estava tudo condenado à
partida. Ter um plano de parto soa-me sempre a ter um plano de
“como gostaria que o tempo estivesse” ou de “como vencer a
lotaria”. Dois séculos de obstetras não conseguiram prever o
https://calibre-pdf-anchor.a/#a292
decurso de um parto, mas um certo tipo de mãe com roupa
esvoaçante parece pensar que é capaz de o gerir sem dificuldades.
Escusado será dizer que o plano de parto de HJ descambou
totalmente. A hipnoterapia deu lugar a gás e a uma epidural. A
enfermeira-parteira conta-me que a paciente disse aomarido para
“desligar essa coisa” quando ele estava a mexer no volume dos
grunhidos da baleia. Ficou parada numa dilatação de cinco
centímetros durante quase seis horas, apesar do Syntocinon120.
Nós já lhe tínhamos dado duas vezes “só mais um par de horas”, e
eu explico-lhe que o bebé não vai sair por via vaginal e que não
estou preparado para esperar até que ele entre, inevitavelmente, em
sofrimento, e se torne numa grande emergência. Vamos ter de fazer
uma cesariana. Como seria de esperar, ela não engole isto de forma
pacífica. “Vá lá!”, diz. “Deve haver uma terceira maneira!”
Não quero receber uma queixa do PALS121 de uma paciente que
deseja que o seu parto seja perfeito e que ficou, de alguma forma,
dececionada. Tive uma queixa no passado de uma paciente à qual
não permiti que tivesse velas acesas enquanto estava em trabalho
de parto. “Não me parece que seja um pedido tão despropositado”,
escreveu ela. Sobre ter velas a arder ao lado de garrafas de
oxigénio.
Esta paciente tem escrito na testa “e-mail violento”, pelo que
decido proteger-me, pedindo ao especialista que tenha uma
conversa rápida com ela. Felizmente, Mr. Cadogan está de serviço.
É paternal, encantador, sabe acalmar as pessoas e cheira a
perfume caro, o que faz com que mulheres elegantes se juntem em
bando na ala privada onde ele preferiria estar.
Em pouco tempo, obtém o consentimento de HJ para a cirurgia.
Oferece-se, até, para fazer ele próprio a cesariana, de forma a
acabar com os murmúrios de chacota e espanto do restante
pessoal. Ninguém aqui é capaz de se lembrar da última vez que ele
fez um parto de graça. Talvez a partida de golfe tenha sido
suspensa por causa da chuva?
Sugere à paciente fazer-lhe algo chamado “cesariana natural”. É a
primeira vez que ouço falar de tal coisa. A intensidade das luzes do
https://calibre-pdf-anchor.a/#a293
https://calibre-pdf-anchor.a/#a294
bloco é diminuída, ouve-se música clássica e o bebé pode sair
lentamente da barriga enquanto ambos os pais assistem a tudo. É,
sem dúvida, uma artimanha, deve servir para lhe trazer muito
dinheiro ao estar incluído no seu Pacote Platina ou o que quer que
seja, mas HJ adora a ideia. É a primeira vez, em todo o dia, que
parece minimamente feliz. Com Mr. Cadogan fora da sala, HJ
pergunta à enfermeira-parteira o que é que ela acha das “cesarianas
naturais”. “Se este tipo estivesse a operar-me, eu ia querer as luzes
no máximo”, responde ela.
Sábado, 7 de fevereiro de 2009
Perdi a primeira parte de Os Miseráveis devido a uma cesariana
complicada às vinte e nove semanas de gravidez122, e não fazia a
menor ideia do que é que estava a passar-se na segunda parte
(sobretudo porque o bom, Jean Valjean, e o mau da fita, Javert, têm
praticamente o mesmo nome).
No final, faço perguntas a Ron e aos outros no pub, mas o facto
de terem visto a primeira metade também não parece tê-los ajudado
a entender melhor o filme.
Domingo, 8 de fevereiro de 2009
Simon ligou-me para me dizer que cortara os pulsos na noite
passada, depois de ter discutido com a nova namorada, e que
acabou no hospital a levar montes de pontos. Está de volta a casa e
está bem, com um acompanhamento programado da psiquiatria.
Perguntou-me se estava zangado com ele e eu respondi que era
claro que não. Mas, na verdade, fiquei extremamente irritado. Por
ele ter feito aquilo, por não me ter ligado antes de o fazer para que
eu pudesse tentar dissuadi-lo. Era o mínimo que ele podia ter feito
depois de todas as horas que passei a falar com ele, certo? Senti-
me culpado por não ter feito o suficiente – por não o ter ajudado
mais, por não ter percebido o que iria acontecer e por não ter podido
evitá-lo. E, depois, senti-me culpado por estar tão irritado com ele.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a295
Conversámos durante uma hora ou mais e lembrei-o de que podia
ligar-me a qualquer hora do dia ou da noite. Mas tivemos esta
conversa tantas vezes nos últimos três anos, que é muito triste
pensar que não estamos melhor do que quando ele publicou o seu
primeiro pedido de ajuda.
Na verdade, é provável que esta seja a forma errada de ver as
coisas. Não se cura a depressão, tal como não se cura a asma; vai-
se gerindo. Eu sou o inalador que ele escolheu e devia estar
contente por ele ter estado tanto tempo sem ter uma crise.
Terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O alarme de emergência soa e é uma situação ligeiramente
complicada no que toca a restaurar a calma. Além das dezenas de
pessoas desorientadas, há pó e entulho por todo o lado e, por causa
disso, também há pânico. Se isto fosse um episódio de Casualty,
haveria metade de uma ambulância espatifada no meio da sala, ao
nosso lado, mas não. A enfermeira-parteira puxou o cordão de
emergência com tanta força que arrancou uma boa parte do teto.
Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
É absolutamente vergonhoso que os nossos deveres de proteção
infantil123 não se estendam a vetar alguns dos nomes horríveis que
os pais escolhem para os infelizes dos seus bebés. Esta manhã fiz o
parto do pequeno Sayton, que se pronuncia Satan (Satanás), como
no jogo King of the Underworld. É difícil acreditar que ele fará o seu
percurso escolar sem ser vítima de bullying, e, no entanto,
acenamos-lhe alegremente à saída para essa jornada (ou talvez ele
seja, de facto, o diabo e eu devesse ter tentado empurrá-lo de novo
para dentro).
Ao almoço, uma discussão acesa com a minha colega Katie sobre
se o meu caso com o bebé Sayton é melhor ou pior do que uma de
quem ela fez o parto, chamada LeSanya, que se pronuncia
Lasanha, como em Lasanha. Comparamos frequentemente histórias
de terror, como se estivéssemos a jogar o Top Trumps: Obstetrícia.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a296
Ela conta-me que uma vez fez o parto de uma menina chamada
Clive, embora eu lhe lembre que temos uma Princesa Michael, pelo
que não é particularmente impressionante. Oliver diz que, onde
nasceu, na Islândia, os nomes têm de ser escolhidos a partir de uma
lista específica, e que é ilegal não o fazer. Não me parece muito má
ideia.
Quarta-feira, 4 de março de 2009
Não deveria ser um evento notável sempre que consigo sair a
horas do bloco de partos, mas hoje consigo, e tenho um jantar há
muito combinado com a minha avó, em Teddington. Ela inclina-se
para a frente depois das entradas, lambe o dedo e limpa um pouco
de comida da minha bochecha. Assim que lambe de novo o dedo,
percebo demasiado tarde que era sangue vaginal de uma paciente.
Decido não falar disso.
Sábado, 7 de março de 2009
“Doutor Adam! O senhor fez o parto do meu bebé!”, grita a mulher
atrás do balcão dos queijos, no Sainsbury’s. Não me lembro nem
um pouco dela, mas a sua história parece bater certo: afinal, é
mesmo esse o meu nome e também o meu trabalho. Pergunto-lhe
como está “a criança”, uma vez que não me lembro se é menino ou
menina. Ele está bem. Ela faz perguntas ridiculamente específicas
relacionadas com a conversa fiada que tive com ela há um ano: se
consegui construir o abrigo, se o Costco sempre estava aberto até
às 20h00, como eu esperava. Sinto-me um pouco culpado em
relação ao desajuste colossal nas impressões que fizemos um do
outro. Mas, lá está, foi um dos momentos mais importantes da vida
dela e, para mim, ela pode muito bem ter sido o parto número seis
daquele dia. É um vislumbre de como é ser-se uma celebridade,
com um fã a perguntar-nos se nos lembramos de uma sessão de
autógrafos no final de um concerto há dez anos.
“Vou pôr isto como se fosse Cheddar”, sussurra, enquanto pesa o
meu queijo de cabra. Com isso, poupo duas libras e, sendo assim,
trata-se de uma das maiores regalias do trabalho que já tive. Sorrio-
lhe.
“Isso não é Cheddar, Rose”, adverte o seu supervisor, enquanto
passa ao lado dela, e lá se vai o meu bónus.
Segunda-feira, 30 de março de 2009
Acabo de imprimir uma ecografia para os pais de um bebé e estou
a limpar o gel da barriga da mãe, quando o pai me pergunta se
posso tirar outra imagem, de um ângulo diferente, afirmando ainda o
seguinte: “Não sei se posso publicar esta no Facebook.” Faço uma
expressãode surpresa para estes cronistas da vida ridículos,
egocêntricos obsessivos das redes sociais, até que olho mais
atentamente para a imagem. E entendo o que ele quer dizer: parece
que o feto está a masturbar-se.
Sexta-feira, 3 de abril de 2009
Bebo um copo com Ron. Falamos do seu trabalho e de como ele
decidiu que “está na altura de seguir em frente”. Por vezes, penso
na ideia de eu próprio seguir em frente, mas é um conceito
ligeiramente alienígena, uma vez que tenho apenas um empregador
possível em todo o País. Ele oferece-se para me arranjar um
encontro com a sua especialista de recrutamento e diz-me que tem
a certeza de que tenho muitas aptidões transferíveis.
Ouço muitos não-médicos falarem nisto, mas não acredito. A ideia
geral é a de que os médicos são especialistas a resolver problemas,
que reúnem uma constelação de sintomas para deduzir um único
diagnóstico. Mas a verdade é que somos mais o Dr. Nick do que o
Dr. House. Aprendemos a reconhecer um conjunto limitado de
problemas específicos a partir de padrões que vimos antes, tal como
a criança de dois anos que é capaz de apontar e dizer “gato” e
“pato”, mas tem dificuldade em identificar um bloco de betão ou uma
chaise-longue. Tenho a forte suspeita de que não duraria muito
tempo como especialista de gestão, a aplicar as minhas aptidões de
resolução de problemas a uma filial da La Senza a caminho da
falência.
“Por esta altura, devias estar a ganhar mais de um milhão”, diz
Ron, enquanto me envia por mensagem os contactos da sua
recrutadora. Digo-lhe que vou falar com ela, mas não tenho a
certeza de o querer fazer verdadeiramente. Também não creio que
ela irá querer-me quando lhe descrever a minha principal aptidão:
retirar bebés e ovos Kinder de vaginas.
Segunda-feira, 6 de abril de 2009
Tudo concentrado numa cesariana eletiva, desta vez devido a
placenta prévia124. Neste caso, que é muito simples, estamos todos
em silêncio e focados, para o caso de se tornar conturbado. Todos,
menos o pai, que está determinado a envolver-me nas suas piadas
tristes.
“Uau, ainda bem que ela tinha pele a tapar isto o resto do tempo”,
“Isto deve fazê-lo perder o interesse por mulheres, doutor”, algo
sobre o pénis do bebé e o cordão umbilical. Os clássicos todos.
Presumo que talvez seja porque está nervoso, mas é extremamente
irritante e perturbador, e nenhuma das suas piadas chegaria a um
balão de diálogo de um qualquer bilhete-postal obsceno. Respondo
“mm-hmm” aos seus gracejos, mas não lhe digo: “Estou a tentar
concentrar-me. Deixe-me fazer este parto. Não apareci de repente
na altura da conceção para o distrair do seu bombeamento com as
minhas graçolas baratas.”
Ele continua: “É bom que não seja preto, não é? Já fez nascer
algum bebé de cor diferente da dos pais?”
“Azul conta?”, respondo. Fim das piadas.
Sexta-feira, 17 de abril de 2009
A paciente JS tem vinte e dois anos e chegou à urgência com dor
abdominal aguda. O responsável da urgência diz-me que ela fez um
teste de gravidez cujo resultado foi negativo e que foi observada
pelos cirurgiões, que suspeitam que possa tratar-se de uma questão
https://calibre-pdf-anchor.a/#a297
de ordem ginecológica. Observo-a. Ela parece-me razoavelmente
bem, pulso um pouco alto, barriga um pouco mole, mas desloca-se
e fala sem dificuldade. Interná-la seria um exagero, e mandá-la de
volta para casa não iria, provavelmente, resolver o seu problema. Se
este fosse um turno diurno durante a semana, talvez a enfiasse na
lista das ecografias de alguém para ter a certeza de que não havia
nada de estranho. Mas é sábado à noite e o NHS está no osso, em
termos de pessoal. Na verdade, estou a ser injusto para as ossadas.
É mais como quando desenterram restos mortais do homem do
Período Neolítico e reconstroem aquilo com que ele poderia ter-se
parecido a partir de um pedaço de clavícula e de uma articulação do
polegar.
O mais usual seria não arriscar e interná-la até ela poder fazer
uma ecografia de manhã, perdendo uma noite da vida da paciente
em vez de sacrificar a minha carreira, no caso de errar. Também se
perde o custo de uma cama de hospital, que anda pelas
quatrocentas libras. Penso que o custo de um turno com ecografia
seria consideravelmente menor, e evitar-se-iam pelo menos dois
internamentos destes por noite, mas quem sou eu para dizer ao
hospital como gastar o seu dinheiro? Principalmente quando
acabam de decidir livrar-se das camas da nossa sala dos médicos.
(Talvez poupem dinheiro na roupa de cama que é mudada uma vez
por semana ou de quinze em quinze dias? Talvez estivessem
preocupados com a possibilidade da motivação estar demasiado
alta? Que os médicos estivessem demasiado despertos, demasiado
prontos a atuar, se dormissem um pouco?)
No serviço de ginecologia e obstetrícia estamos bem – a
enfermeira-chefe da unidade de avaliação de início de gravidez teve
pena de nós, sem dúvida por se aperceber do tamanho das nossas
olheiras, e deu-nos o duplicado de uma chave para que
pudéssemos dormitar numa cama de hospital da sua unidade. É um
ato de caridade tão bom e tão raro que fez com que a minha colega
Fleur chorasse, e depois procurasse no site das distinções se a
enfermeira-chefe seria elegível para a Ordem do Império Britânico.
É difícil descrever a alegria de ouvir que teremos uma cama para
nos deitarmos, depois de alguns turnos noturnos a tentar dormitar
numa cadeira de escritório. Trata-se uma cama com perneiras, mas
a cavalo dado não se olha o dente. Eu aceitaria uma cama com um
piano de cauda pendurado no teto por um pelo púbico, desde que
pudesse fechar os olhos por alguns minutos.
De repente, lembro-me que se trata de uma cama que tem uma
máquina de ecografias ao lado. Vejo se JS continua a poder
caminhar sozinha e vou com ela ao piso de cima. Se vir que tudo
está bem numa ecografia rápida, ela pode voltar para casa e nem
sequer vou cobrar ao NHS as quatrocentas libras que lhe poupei
com a minha ingenuidade.
Olhando para trás, foi um erro não dizer à enfermeira-chefe da
urgência que ia levar a paciente. Imaginei que seria informado de
alguma regra que iria impedir-me de o fazer, e ninguém tem tempo
para esse tipo de argumento. Também foi um erro não pedir a um
porteiro a levar comigo para cima numa cadeira de rodas. Mas o
maior de todos os erros foi sem dúvida do responsável da urgência
que me disse que a paciente tinha tido um teste de gravidez
negativo – a menos que “teste de gravidez negativo” seja o termo
estranho que ele usa para “não fiz qualquer teste de gravidez”.
Quando subimos para o piso de cima, através de um labirinto de
corredores deprimente, e para o meu quarto improvisado com
máquina de ecografias, JS parece-me um pouco pálida e com falta
de ar. A ecografia revela rutura de gravidez ectópica, a barriga dela
está a nadar em sangue. Em vez de estar onde deveria estar, perto
de equipamentos que salvam vidas, está a relaxar comigo numa
área fechada do hospital, como se fossemos dois adolescentes que
vieram dar uns beijinhos às escondidas.
Meia hora depois de uma série de telefonemas de puro pânico,
estamos no bloco operatório, JS tem mais sangue, graças a uma
transfusão, mas menos uma trompa de Falópio, e irá ficar
totalmente bem. Não faço ideia de qual é a moral desta história.
Domingo, 26 de abril de 2009
Chamado a observar uma paciente na urgência. Vejo nas
anotações dela que tem trinta e cinco anos e trabalha num centro de
massagens, numas instalações que, suspeito, não envolvem muitas
massagens – pelo menos não com as mãos. Tem um objeto perdido
na vagina. É um turno agitado, pelo que não tenho tempo para
muitas perguntas. É pernas para cima, luzes acesas, espéculo, ver,
apanhar, retirar. Este é sem dúvida o pior cheiro que já senti.
Verdadeiramente indescritível – basta dizer que quase vomito e a
enfermeira que me acompanha tem de sair imediatamente do
cubículo. Imagino todas as flores do hospital a murcharem de
repente. Não queria ter de perguntar, mas preciso de saber do que
se trata.
A resposta mais simples é que se trata da cabeça de uma esponja
de banho do BombeiroSam. Mas é claro! A resposta mais
complicada é que, há alguns meses, ela apercebeu-se de que o seu
rendimento estava a ser seriamente afetado porque havia
determinados dias do mês em que os seus clientes não queriam ser
“massajados”. Por isso, decidiu improvisar e criou um dispositivo de
barreira menstrual, decapitando o bombeiro Sam. Só Deus sabe
como é que ela explicou aos filhos a mudança na aparência da
esponja: Será que algum deles notou? Será que pensaram que
seriam os próximos a ir à guilhotina se quisessem saber do seu
paradeiro? Embora eficaz a absorver o sangue menstrual
proveniente de cima e também bastante eficaz a absorver outros
fluidos provenientes de baixo, a barreira-carola do Sam não tinha
qualquer fio para facilitar a remoção. Além disso, tinha sido
comprimida pelos arreios dos clientes ao longo dos últimos três
meses.
Na verdade, é injusto dizer-se que o cheiro era indescritível.
Descreve-se da seguinte forma: três meses de sangue menstrual
misturado com secreções vaginais e o sémen fétido de vários
homens, cujo número deve ter atingido os três dígitos. Ao
prescrever-lhe alguns antibióticos, disse-lhe que não seria
necessário executar novas esponjas – ela pode parar os seus
períodos pelo método mais tradicional de tomar a pílula de forma
continuada. Deixo que seja a urgência a rotular o objeto dentro do
frasco que vai para o laboratório de microbiologia.
Segunda-feira, 4 de maio de 2009
Mais um dia, mais um alarme de emergência ou doze. Eu vou
fazer um parto por ventosa devido a um traçado não tranquilizador,
mas quando estou prestes a aspirar de lá o sacaninha do miúdo, o
traçado melhora. Descalço as luvas e digo à enfermeira-parteira que
prossiga com o parto normal. Fico na parte de trás da sala para ir
vendo o traçado, para o caso de voltar a portar-se mal, mas está
tudo bem e dali a pouco tempo a cabeça do bebé aparece.
O pai está bem posicionado, a testemunhar o milagre do parto
pela primeira vez – a fazer sons de admiração e de alegria, e a dizer
à sua mulher, empolgado, como ela está a sair-se bem. A
enfermeira-parteira diz à mãe que pare de fazer força e comece a
praticar as técnicas de respiração, para que ela possa conduzir
lentamente a cabeça do bebé e, com sorte, evitar uma laceração. À
medida que a cabeça vai saindo, o pai grita: “Oh, meu Deus – onde
está a cara dele?” Como seria de esperar, a mãe também grita. A
cabeça do bebé sai de forma descontrolada e o períneo dela
explode. Explico-lhes que os bebés nascem geralmente com a cara
para baixo125, e que a cara do seu bebé parece perfeita (talvez um
pouco mais salpicada de sangue do que deveria). Calço um par de
luvas e abro um kit de sutura.
Terça-feira, 5 de maio de 2009
Paciente na consulta pré-natal solicita uma cesariana sem
indicação clínica. Explico-lhe que a nossa unidade não faz
cesarianas a pedido: tem de haver uma razão médica, uma vez que
se trata de uma cirurgia, com riscos associados a hemorragias, a
infeções, à anestesia, e a mais uma série de coisas. Ela argumenta
que não queria passar por um trabalho de parto prolongado e depois
acabar por fazer uma cesariana de emergência. Tinha obviamente
razão – uma cesariana planeada é muito mais segura do que uma
de emergência, e geralmente também mais segura do que um parto
instrumental – mas eu não podia dizer-lhe isso.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a298
Mas ela não desistiu. “Eseeu feree demasiadefinee
pafazêforcee?”, perguntou, no seu melhor inglês arrastado do
estuário, o que acabei por descodificar como “E se eu for demasiado
fina para fazer força?” Senti-me mal por responder não,
especialmente quando um terço das obstetras optam por cesarianas
– é obviamente injusto.
Ontem, estive do outro lado da barricada. Eu e H fomos ver um
apartamento maior, acompanhados de um agente imobiliário. O filho
da mãe, que não terá ainda vinte anos, estava a tornar a venda
difícil; o apartamento tem uma ótima localização, diz-nos: ele próprio
comprou a sua casa na rua atrás desta. E isso tornou tudo ainda
mais deprimente; um embrião em nylon brilhante pôde poupar
dinheiro suficiente para comprar um apartamento num sítio que nós
mal conseguimos pagar. Será que estou na profissão errada? Ou as
agências imobiliárias são como lojas de artigos usados, onde os
empregados são os primeiros a poder escolher tudo o que aparece?
Ele disse-nos que os vendedores deste apartamento rejeitaram
anteriormente uma oferta abaixo do valor pedido, mas que não
podia dizer-me até que ponto, porque isso vai contra as regras dos
filhos da mãe dos agentes imobiliários, um código de honra entre os
desonestos. Perguntei-lhe se os seus colegas lhe tinham revelado
secretamente até que valores abaixo do pedido tinham sido feitas as
outras ofertas quando ele comprou o seu apartamento. A cara dele
ficou com um tom de tomate seco ao sol. “Pergunte-me qual é o
meu número de libras favorito!”, respondeu. Acontece que o seu
número favorito era onze mil e quinhentos.
“Pergunte-me por que é que algumas mulheres fazem
cesarianas”, respondi à paciente. Esperei que o seu satélite
intelectual processasse o que acabara de lhe dizer, e ela fez-me a
pergunta. Depois, respondi-lhe que algumas mulheres se
preocupam com os efeitos de longo prazo, bastante piores, dos
partos naturais quanto à incontinência da bexiga e do intestino, uma
vez que isso poderia afetar significativamente o seu estilo de vida.
Acontece que ela também está preocupada com isso, e tem agora
uma cesariana eletiva marcada, às trinta e nove semanas.
Quinta-feira, 25 de junho de 2009
Desço até à urgência por volta das onze horas, para observar uma
paciente, e dou uma vista de olhos pelo Twitter enquanto me
preparo para a ver. Há uma grande novidade, mas até agora só os
fofoqueiros do TMZ é que falam dela. “Oh, Céus”, suspiro. “Morreu o
Michael Jackson!” Um dos enfermeiros suspira e levanta-se. “Qual é
o cubículo?”
Sábado, 18 de julho de 2009
Tendo em conta que vão atualizar o juramento de Hipócrates,
deveriam adicionar uma parte sobre nunca mencionarmos em festas
que somos médicos. Principalmente os de ginecologia e obstetrícia,
uma vez que essa revelação dá azo a infindáveis questões, por
parte de todas as mulheres do planeta – questões sobre
contraceção ou fertilidade ou gravidez. Tornei-me especialista em
responder de forma vaga quando desconhecidos me perguntam o
que é que faço. Ou mudo magicamente de assunto.
Esta noite, numa festa numa casa, a conversa é sobre o niqab, e
alguém afirma que, por baixo dos niqabs, muitas mulheres usam
roupas caríssimas, muitas vezes milhares de libras em roupa
escondida. “É verdade”, digo eu. “E por baixo disso, tenho visto
muitas mulheres muçulmanas ortodoxas com lingerie Agent
Provocateur e meia dúzia com topiarias verdadeiramente
elaboradas. Depilações com iniciais, espirais, tudo e mais um par de
botas.” Silêncio absoluto. Percebo, então, que exagerei na parte
misteriosa da coisa. “A propósito, sou médico.”
Terça-feira, 28 de julho de 2009
Estou a marcar uma cesariana eletiva a um casal e eles
perguntam-me se há alguma hipótese de escolherem determinada
data. Trata-se de um casal sino-britânico, e eu sei que, segundo o
zodíaco chinês, alguns dias do ano trazem sorte e outros azar, e é
claro que é preferível ter uma criança numa “data auspiciosa”.
Obviamente, tentaremos ter isso em conta, desde que seja seguro e
praticável. Pedem-me que veja os dias 1 ou 2 de setembro. “Datas
auspiciosas?”, pergunto, a sorrir e a arranjar mentalmente um
espaço na minha lapela para uma medalha por “excelência em
sensibilidade cultural”.
“Não”, responde o marido. “As crianças de setembro entram num
ano letivo diferente e têm melhores notas nos exames.”
Segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Sim, minha senhora, vai fazer cocó durante o trabalho de parto.
Sim, é completamente normal. Tem a ver com a pressão. Não, não
há nada que eu possa fazer para o evitar. Embora, se me tivesse
perguntado isto ontem, eu lhe tivesse explicado que a enorme
quantidade de caril que comeu para “induzir o trabalho de parto”126não iria ajudar.
Segunda-feira, 17 de agosto de 2009
A ensinar a estudantes de Medicina um pouco de anatomia
pélvica, quando alguém da administração da faculdade de Medicina
aparece com notícias de Justin, o elemento ausente do grupo. Ele
não voltará a juntar-se a nós até ao final do ano letivo, e é bastante
provável que também se ausente da profissão médica. Ontem à
noite, zangou-se com o namorado numa discoteca e foi preciso
chamar a polícia. As autoridades descobriram que Justin tinha
consigo uma quantidade de pó branco; concluíram que não era
Canderel e prenderam-no no local. A defesa de Justin era que ele
deveria ser imediatamente libertado, uma vez que é estudante de
Medicina e o seu país precisa dele. Isto teve pouco efeito e a polícia
entrou em contacto com a faculdade de Medicina, dando conta da
sua ausência esta manhã.
O administrador sai e já ninguém está particularmente interessado
em aprender anatomia pélvica (se é que alguma vez alguém
esteve). Falamos sobre as aptidões dos estudantes de Medicina e
sobre ter de sair antes mesmo de ter entrado. Cada aluno faz pelo
https://calibre-pdf-anchor.a/#a299
menos uma vez a pergunta hipotética e ligeiramente velada “E se
um aluno fizesse isto?”, antes de cada um dos seus rostos perder a
cor ao ouvir a minha resposta. Presenteei-os com a história de
alguns dos meus contemporâneos que foram presos. Um grupo do
terceiro ano estava num tour de râguebi em França. Um tour que
consistia no estranho jogo do râguebi e em horas sem fim de jogos
de beber. O mais criativo desses jogos consistia em visitar hotéis
locais e fazer “Very Bloody Marys”. Pediam grandes doses de vodca
no bar, regressavam às suas mesas, pegavam em agulhas e
seringas, retiravam sangue uns aos outros, esvaziam esse sangue
nas vodcas uns dos outros e, depois, bebiam-nas de golada. A
gendarmerie ignorou sem rodeios a regra de que “o que acontece
no tour fica no tour” e respondeu com bastante urgência às
preocupações dos funcionários de bares em relação à grande
quantidade de agulhas descartadas nas suas instalações,
prendendo os alunos e informando a universidade. O meu grupo de
alunos pareceu feliz por se tratar de uma ofensa notável, embora
um tenha referido o fator atenuante de que é bastante
impressionante um grupo do terceiro ano ser capaz de retirar
sangue.
“Pobre Justin” parecia continuar a ser o sentimento dominante. A
minha sugestão de “Pobre namorado espancado do Justin” caiu em
ouvidos moucos.
“Não acredito”, deixou escapar uma rapariga. “O Justin é gay?”
Quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Dilema moral. A fazer as muitas cesarianas eletivas do dia. Esta é
por apresentação pélvica. Faço a incisão no útero e é bastante
óbvio que o bebé não é pélvico. Merda. Devia ter examinado o bebé
antes de começar. É algo que devemos fazer sempre, para o caso
de o bebé ter dado a volta depois da última ecografia. O que nunca
aconteceu. Tirando hoje.
As minhas opções são as seguintes:
a) Fazer o parto do bebé mágico giratório e confessar à paciente
que lhe fiz uma cesariana completamente desnecessária, uma
cicatriz na barriga e a confinei ao hospital durante alguns dias,
embora ela pudesse ter tido um parto natural.
b) Fazer o parto e fingir que se tratava de uma apresentação
pélvica, o que implicaria mentir nas anotações e convencer o meu
assistente e a enfermeira do bloco a cometerem perjúrio por se
conluiarem.
c) Enfiar a mão no útero, dar a volta ao bebé, pegar numa perna e
retirá-lo como se se tratasse de uma apresentação pélvica.
Escolho a opção a) e confesso à paciente, extremamente
compreensiva, que pensei que ela quisesse uma cesariana,
independentemente da posição do bebé. Está na altura de
preencher o formulário de incidente clínico e contar a Mr. Cadogan.
Ele reage muito bem e diz que, pelo menos, não voltarei a
esquecer-me de fazer uma ecografia antes de uma cesariana.
Além disso, faz com que me sinta melhor ao contar-me que já fez
uma cesariana desnecessária quando era um jovem interno. O bebé
não estava a sair com fórceps e ele fez uma cesariana de
emergência. Infelizmente, quando abriu a barriga, o bebé acabou
por sair pela via vaginal. “Como é que explicou isso àquela
paciente?”, pergunto. Momento de silêncio. “Bem, naquela altura
nem sempre éramos muito honestos com os pacientes.”
Quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Autorizo a paciente YS a interromper a gravidez – uma gravidez
não planeada e indesejada de uma estudante de vinte anos, devido
a um preservativo defeituoso. Falamos sobre métodos alternativos
de contraceção e o uso correto do preservativo127. Identifico um erro
na sua técnica. Sou tão adepto da reciclagem como a maioria das
pessoas, mas quando se usa um preservativo do avesso e se volta
a colocá-lo para uma segunda vez, é provável que não seja tão
eficaz128.
Terça-feira, 20 de outubro de 2009
https://calibre-pdf-anchor.a/#a300
https://calibre-pdf-anchor.a/#a301
Temos um interno da especialidade a menos na clínica pré-natal,
pelo que vou sozinho ao leme desta confusão. Vi trinta pacientes
nas consultas da manhã, que acabaram às três da tarde, duas horas
depois do início das minhas consultas da tarde.
Todas as pacientes que vejo estão irritadas, e com razão, uma vez
que estiveram sentadas numa sala de espera durante quatro horas,
rabugentas como galinhas no poleiro. Pedir as mais sinceras
desculpas e explicar que a culpa não é minha não invalida que elas
resmunguem ao longo de todo o caminho até ao consultório. Tenho
a forte suspeita de que se fosse piloto e o meu copiloto não
aparecesse, a companhia aérea arranjaria uma solução melhor do
que “deixar tudo como está e ver o que é que acontece”.
Sete da tarde, e a apenas duas pacientes da linha de chegada,
tenho de encaminhar alguém de urgência para a psiquiatria porque
teve uma recaída de anorexia nervosa grave às trinta semanas. E
comeu mais do que eu hoje.
Quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Tenho de internar uma mulher por doença inflamatória pélvica,
para que lhe sejam administrados antibióticos por via intravenosa.
Infelizmente, ela não quer que lhe dê nada porque está convencida
que estou feito com a indústria farmacêutica, pelo que chegamos a
um impasse. Conversamos sobre as suas preocupações. Sucede
que se trata de uma preocupação muito recente, que só se
manifestou ontem, depois de ela ter lido algo no Facebook.
Trata-se de mais um marco contra a tecnologia, na minha opinião.
A administração reconheceu finalmente que estamos no século XXI
e digitalizou o nosso sistema de radiologia, eliminando todos os
negatoscópios e raios-X físicos impressos. Em vez disso, podemos
agora aceder-lhes a partir de qualquer computador do hospital.
Infelizmente, o sistema não funciona desde que foi instalado, o que
faz com que tenhamos de trabalhar como se estivéssemos no
século XIX, antes da invenção do raio-X.
Muitas vezes, os pacientes chegam à consulta com resmas de
papéis de coisas que pesquisaram no Google, impressos e
sublinhados, e torna-se bastante enfadonho passar dez minutos
adicionais por paciente a explicar por que é que uma blogger em
Copenhaga que usa um tema com corações cor-de-rosa no
Wordpress pode não ser uma fonte credível. Por outro lado, se não
fosse o Google, não poderia mandar pacientes recolherem uma
amostra de urina enquanto pesquiso coisas em pânico.
Hoje em dia, a tecnologia favorece as teorias de conspiração. A
paciente pede-me que prove que fui comprado por empresas
farmacêuticas. Eu sublinho que os antibióticos que lhe prescrevi
custam meia dúzia de tostões e que é provável que as empresas de
medicamentos estejam furiosas comigo por não escolher uns mais
caros. Ela não vacila. Realço que os antibióticos que prescrevi são
genéricos129, em vez de promover os produtos de uma empresa.
Ela continua impassível. Saliento que conduzo um Peugeot 206 com
cinco anos e que, portanto, não sou propriamente rico. “Tudo bem”,
diz ela, e aceita os antibióticos.
Quarta-feira, 4 de novembro de 2009
A paciente TH é uma contabilista com cerca de trinta e cinco anos
a quem foi diagnosticadauma gravidez ectópica. É candidata à
administração de metotrexato130, e prefere usar esse medicamento,
uma vez que isso evitaria a cirurgia. Autorizo-a a receber o
medicamento e falamos do procedimento de acompanhamento.
Explico-lhe os possíveis efeitos colaterais e o que deve “fazer e não
fazer” durante o tratamento, enfatizando que terá de usar um tipo
eficaz de contraceção durante os próximos três meses e abster-se
totalmente de ter relações sexuais durante o primeiro mês após o
tratamento. Ela faz uma pausa para pensar nisto, antes de
perguntar: “Então e sexo anal?”131
Quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Visita ao pai de Ron, que está no hospital. Está com um ar
péssimo, com a pele ictérica esticada sobre os ossos salientes. É
possível ver um mapa rodoviário de vasos sanguíneos no seu rosto,
https://calibre-pdf-anchor.a/#a302
https://calibre-pdf-anchor.a/#a303
https://calibre-pdf-anchor.a/#a304
onde o seu corpo queimou todas as células de gordura, esgotando a
sua energia na luta contra um cancro contra o qual não tem
qualquer hipótese. “Gostava que as pessoas não tivessem de me
ver assim”, diz-me ele.
“Depois, vamos ter de gastar uma fortuna nos agentes funerários
que irão dar-me bom ar – será que não podes esperar mais uns
meses?”
Está no hospital para uma inserção esofágica do stent, de forma a
poder continuar a comer e a beber, para que o seu capítulo final seja
tão confortável quanto possível. O engenheiro aposentado que
existe nele está fascinado com o mecanismo do stent, uma malha
metálica que se expande e é suficientemente resistente para afastar
o tumor e abrir o seu esófago. “Isto não teria sido possível há vinte
anos”, diz-me ele. E conversamos sobre a sorte que é viver neste
piscar de olhos da civilização. “Achas que serão capazes de curar o
cancro daqui a vinte anos?”, pergunta-me. Não sei bem o que é
mais reconfortante: se dizer que sim ou dizer que não. Mudo de
assunto com um “só percebo de vaginas, amigo”. E ele ri-se.
Pergunta seguinte. “Por que é que dizemos sempre que as
pessoas perderam a luta contra o cancro e nunca dizemos que o
cancro ganhou a luta contra as pessoas?” E continua a fazer piadas.
Aliás, faz piadas desde que o conheço. Sinto-me desconfortável
durante os primeiros minutos da minha visita, mas acabo por gostar
verdadeiramente de uma manhã que temia. É uma jogada amável e
inteligente. Não só torna tudo mais fácil para os seus amigos e
familiares quando o visitam, como faz com que nos lembremos dele
como sempre foi, diminuído fisicamente, talvez, mas não na
personalidade.
Quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Um parto com ventosa comovente. Trata-se de uma mãe que
observei na clínica de infertilidade, quando comecei a trabalhar aqui.
Tenho vontade de levantar o bebé como se fosse o Simba, ao som
de “Ciclo da Vida”.
Enquanto a suturo, pergunto-lhe como correu o seu tratamento de
fertilidade. Sucede que acabou por engravidar sem qualquer
tratamento na semana após a consulta. Ainda assim, sinto que fui
eu.
Quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Tragicamente, a violência doméstica durante a gravidez continua a
ser responsável, todos os anos, pela morte de mães e bebés neste
país. Todos os obstetras têm o dever de estar atentos relativamente
a estas situações. Muitas vezes, é difícil, uma vez que os maridos
controladores costumam acompanhar as mulheres nas consultas,
impedindo-as de falar. O nosso hospital tem um sistema para ajudar
as mulheres a revelarem abusos. Na casa de banho das senhoras
há um sinal que diz: “Se quiser falar sobre qualquer questão de
violência doméstica, coloque uma etiqueta vermelha na parte da
frente do seu registo”, e há autocolantes vermelhos em cada
cubículo.
Hoje, pela primeira vez na minha carreira, uma mulher colocou
alguns autocolantes vermelhos na parte da frente do seu registo. É
uma situação complicada, uma vez que apareceu na consulta com o
marido e uma criança de dois anos. Tento, mas não consigo, fazer
com que o marido saia da sala. Chamo a enfermeira-parteira
responsável e, entre nós, conseguimos isolá-la.
Por muito que a questionemos da forma mais delicada possível,
isso não nos serve de nada. Ela fecha-se sobre si mesma,
assustada e confusa. Ao fim de dez minutos, concluímos que os
autocolantes vermelhos são, na verdade, os primeiros esforços
artísticos da criança de dois anos, que os colou no registo quando
foram juntas à casa de banho.
119 Numa situação destas, nunca seria o médico a ter de desembolsar do seu próprio bolso.
O hospital irá pagar a conta, ou uma organização de defesa médica no caso dos médicos
de família. Por vezes, também pode haver um processo criminal, caso seja considerado
que se trata de negligência grave – e isso não se aplica apenas aos médicos. Em 2016, um
optometrista que trabalhava na Boots foi detido por homicídio por não ter detetado um
sintoma numa criança de doze anos que viria a morrer. Uma queixa à Ordem dos Médicos
pode decorrer em paralelo com qualquer outro tipo de queixa legal, comprometendo a
licença e capacidade de trabalhar de um médico.
120 O Syntocinon (oxitocina sintética) é uma droga intravenosa que aumenta as contrações
e acelera o trabalho de parto. A progressão deve ser de um centímetro de dilatação a cada
hora ou a cada duas horas, e se isso não acontecer com o Syntocinon, o parto deve ser
feito por cesariana.
121 O PALS (Aconselhamento ao Paciente e Serviços de Ligação) é o departamento de
reclamações do hospital. Leva o princípio de que “o cliente está sempre certo” para uma
estranha nova dimensão, e por muito trivial que a queixa seja, gostaria de fazer com que o
médico aparecesse em casa do paciente com um ramo de flores e a usar um cilício.
122 As cesarianas são muito mais difíceis para bebés prematuros. O segmento inferior, no
qual se faz o corte para bebés de termo, não se forma adequadamente até cerca das trinta
e duas semanas. Isso significa que é preciso fazer o corte numa zona muito mais espessa
do útero, tornando todo o procedimento mais difícil e sangrento.
123 Todos os médicos têm o dever, consagrado no código deontológico da Ordem, de
proteger crianças e jovens de abuso e negligência, tomando medidas caso algo os
preocupe.
124 Há placenta prévia quando a placenta está implantada na parte inferior do útero. Isto
implica que o bebé nasça por cesariana porque a placenta impede o deslizamento por via
vaginal. Também significa que, se a mãe entrar em trabalho de parto, se trata de uma
emergência, uma vez que a placenta pode romper-se, com profundas consequências para
o bebé e para a própria mãe (setecentos mililitros de sangue passam pela placenta a cada
minuto, a totalidade do seu volume de sangue em cinco minutos).
125 Apenas cinco por cento dos bebês nascem com os olhos para cima. O termo médico
para esta posição é “occipito-posterior”. O termo fofinho é “a olhar para as estrelas”, o
termo antiquado é “de cara para o púbis”, e o termo que percebi mal na qualidade de
interno do ano comum sénior subalterno e que, em seguida, usei de forma humilhante
durante um ano, até ser corrigido por um colega, é “de cara para os púbicos”.
126 O caril não induz o trabalho de parto. Nem o ananás. Nem o sexo. Não há provas
científicas em relação a nenhum destes persistentes mitos urbanos. Presumo que tenham
sido inventados pelo criador do caril de ananás quando estava excitado.
127 Fiz grande número de IVG neste trabalho, já que muitos outros internos tinham objeções
por razões éticas ou religiosas (ou fingiam tê-las, por serem preguiçosos). Não é a primeira
escolha de ninguém como forma de passar uma manhã, mas é um mal necessário e
acabei por desenvolver uma técnica cirúrgica excelente para a ERPC – um procedimento
cirúrgico quase idêntico ao que é feito após certos abortos espontâneos. Nesta altura, sou
capaz, muito provavelmente, de aspirar as escadas pela minha caixa de correio, se for
preciso. Esta paciente não queria criar uma criança, e vivemos numa sociedade civilizada –
não é justo para ela ou para a criança forçá-la a ter o bebé. Segundo a letrada lei (a Lei do
Aborto de 1967, para ser preciso), é necessário que dois médicos concordem que
prosseguir com uma gravidez seria prejudicial para a saúde mental da mulher, mas na
realidade isto abrange qualquer gravidez indesejada. Neste caso, a paciente tentou tomar
precauções razoáveis para não engravidar. Usados corretamente, os preservativos podem
ser efetivos em noventa e oito por cento dos casos, mas os erros frequentes incluem
aplicação tardia, remoção antecipada e lubrificação incorreta, pelo que convém sempre
verificar se estão a ser utilizados de forma correta.
128 Poucos anos mais tarde, vi outro exemplo de mau uso de preservativo, em que o tipo
achava que, como o preservativo está coberto de espermicida, e ele detestava a sensação
de o usar, podia colocá-lo para revestir o pénis de espermicida e retirá-lo antes do sexo.
129 Quase todos os medicamentos que se compram na farmácia têm a versão de marca e
versões genéricas mais baratas. Panadol é um nome de marca do medicamento genérico
paracetamol, Amoxil é uma marca para a amoxicilina.
130 É possível administrar a algumas pacientes com gravidezes ectópicas um medicamento
chamado metotrexato, desde que estejam bem de saúde e a ectopia seja pequena. Trata-
se de um medicamento bastante nuclear que ataca células que se dividem rapidamente, o
que significa que é eficaz na dissolução da gravidez ectópica e pode igualmente ser usado
em quimioterapia.
131 Caso queira saber, a resposta foi “sexo anal também não”. Permanece o risco de rutura
da gravidez ectópica, pelo que tentamos evitar qualquer tipo de confusão naquela zona.
8
Interno da Especialidade Quarto Posto
Ao longo da minha carreira de médico, por cada “importa-se de ver
este/a nódulo/erupção/pénis?” que ouvi fora do horário de trabalho,
houve sempre um “não sei como é que consegues”. E veio de
pessoas que não seriam admitidas como jurados, quanto mais numa
faculdade de Medicina, mas faz sentido ainda assim. É um trabalho
difícil em termos de horários, energia e emoções; e visto de fora,
muito pouco invejável.
Quando já levava seis intensos anos de Medicina, sentia-me
verdadeiramente desgastado. Mais do que uma vez, passou-me
pela cabeça desistir – dias em que as coisas correram mal, em que
os pacientes se queixaram, em que as escalas mudaram no último
minuto – e a minha determinação vacilou. Não chegou para
começar a folhear as páginas de emprego dos jornais, mas foi
certamente suficiente para me perguntar se teria umas tias
milionárias perdidas, prestes a bater a bota.
Mas havia duas coisas que me detinham. Em primeiro lugar,
trabalhara muito para chegar tão longe. Em segundo lugar – e tenho
consciência de que pode parecer um pouco pomposo – é um
privilégio poder ter um papel tão importante na vida das pessoas.
Podemos chegar a casa uma hora mais tarde, mas estamos
atrasados porque evitámos que uma mãe perdesse sangue até
morrer. Podemos ter de observar quarenta mulheres numa clínica
pré-natal projetada para vinte, mas são quarenta mulheres que nos
confiam a saúde dos seus bebés. Até as partes que odiamos do
nosso trabalho – para mim foi a uroginecologia, umas velhinhas com
pavimentos pélvicos que mais parecem areia movediça e os seus
úteros a formarem estalactites na sua roupa interior térmica – cada
decisão que tomamos pode melhorar muitíssimo a qualidade de vida
de outra pessoa. Até um paciente espirrar e termos de pegar num
balde e numa esfregona, e desejarmos ter feito carreira na área da
contabilidade.
Podemos maldizer o trabalho e os horários, possuir efígies de
vudu para a administração e até carregar connosco um frasco de
ricina o tempo todo para o caso de encontrarmos o ministro da
Saúde, mas a nível individual, preocupamo-nos verdadeiramente
com todos os pacientes132.
Devia estar neste género de humor animado, durante o meu
quarto trabalho como interno da especialidade, quando aceitei um
convite para representar a Medicina na feira de carreiras da minha
antiga escola. Tive de ficar uma manhã sentado atrás de uma mesa,
enquanto um grupo de adolescentes desengonçados me faziam
perguntas sobre o meu trabalho. Ou, como se acabou por verificar,
faziam perguntas principalmente a outras pessoas sobre os seus
trabalhos mais interessantes e mais bem pagos. A minha mesa era,
definitivamente, a menos apelativa – todas as outras pessoas
tinham pilhas de folhetos e canecas com canetas, guloseimas e
porta-chaves. A Deloitte chegou a oferecer dónutes Krispy Kremes;
é um pouco como fazer batota. O que é que eu podia ter levado
para motivar as pessoas a enveredarem por uma carreira na
Medicina? Estetoscópios de brincar? Smoothies de líquido
amniótico? Agendas com todos os meus fins de semana, noites e
Natais riscados?
Os estudantes que falaram comigo eram inteligentes, motivados e
eruditos – tenho certeza de que teriam entrado na faculdade de
Medicina se o quisessem –, e dei por mim a passar imenso tempo a
falar do que é mau e do que é bom no meu trabalho. Embora
sentisse que estava a proteger a minha profissão, sobretudo com as
outras mesas à volta, só Deus sabe como é preciso que as pessoas
a abracem com os olhos bem abertos. Portanto, disse-lhes a
verdade: os horários são péssimos, o salário é péssimo, as
condições são péssimas; somos subestimados, desapoiados,
desrespeitados e, muitas vezes, estamos fisicamente em risco. Mas
não há trabalho melhor no mundo.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a327
Clínica de infertilidade: ajudar casais a engravidarem depois de
anos de tentativas frustradas. Casais que quase deixaram de ter
esperança. É difícil explicar como isso nos faz sentir especiais. É
algo que eu faria de boa vontade durante o meu tempo livre e de
graça (o que é conveniente, uma vez que o fiz muitas vezes –
aquelas consultas iam muito para além do tempo previsto). Sala de
partos: uma verdadeira montanha-russa, o que quer dizer que,
geralmente, toda a gente acaba por sobreviver e ficar bem, apesar
do facto de parecer ir contra as próprias leis da natureza. Saltamos
de um quarto para o outro, a fazer partos de bebés que ficam
doentes ou presos, e acabamos por marcar indelevelmente a vida
destes pacientes. Um super-herói de baixo nível – com um cinto de
ferramentas que contém um bisturi, algumas pinças e um aspirador.
As profissões nas outras mesas tinham atrativos óbvios, sendo o
principal uma enormidade de dinheiro todos os meses. Mas não há
sentimento melhor do que o de se saber que se salvou uma vida. E
nem é preciso tanto, metade das vezes; basta saber-se que se fez a
diferença. Voltamos para casa – por mais cansados, atrasados e
salpicados de sangue que estejamos – com um estado de espírito
tão bom que é difícil de descrever, sentindo que somos úteis para o
mundo. Proferi este pequeno discurso umas trinta vezes e, ao fim da
manhã, senti-me como se tivesse estado numa terapia de casal
rigorosa – a falar de todos os problemas, a aperceber-me de que,
afinal, a chama ainda estava viva.
Senti-me animado quando saí do auditório da escola, ansioso por
entrar na sala de partos, na segunda-feira. Que honra que é poder
fazer este trabalho – mesmo que seja significativamente pior do que
a soma das suas partes. Roubei um dónute da Deloitte e fui para
casa133.
E quando alguém me perguntou “A sério? Como é que
consegues?”, eu soube realmente qual era a resposta. Embora a
resposta que geralmente dava fosse “gosto de operar vaginas de
estranhas”, uma vez que servia para por um ponto final na conversa
rapidamente.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a328
Sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
A fazer uma cesariana eletiva a uma mulher que já foi submetida a
três. O seu abdómen está completamente sólido devido a
aderências. Chamo o meu interno da especialidade sénior para me
ajudar, e remeto o interno do ano comum a um papel de mero
espectador. O tecido cicatricial significa que o intestino está
misturado com a bexiga que está misturada com o útero que está
misturado com músculo que está misturado sabe Deus com quê. É
como ter os fios de dez pares de auriculares todos emaranhadose,
a seguir, tudo revestido a cimento.
O interno da especialidade sénior diz-me que durará o tempo que
for necessário. Temos de ser pacientes e metódicos. Mais vale
demorar três horas do que ter de reparar o intestino e ela passar
mais uma semana no hospital. Trabalhamos ao ritmo de uma
escavação arqueológica artrítica. De cada vez que o processo se
torna um pouco mais simples, eu acelero, o interno da especialidade
sénior coloca a mão na minha e eu desisto de novo.
A certa altura, há quase espaço suficiente para fazer o corte e
retirar o bebé. Falta apenas afastar suavemente do útero uma última
ansa intestinal. Estou quase a terminar quando o fedor fétido e
inconfundível dos conteúdos intestinais enche o bloco operatório.
Merda. Literalmente. E estávamos já tão perto. O interno da
especialidade sénior diz-me para retirar o bebé – ele vai sair e
“bleepar” um cirurgião para reparar o dano134. O meu interno do ano
comum sénior interrompe timidamente: “Desculpem lá, pessoal.
Aquilo foi o meu intestino...”
Sábado, 6 de fevereiro de 2010
Encontro-me com Euan, um amigo da residência universitária e a
mulher, Milly, para almoçar na cidade. Eles estão a alimentar-me em
troca de saberem a minha opinião sobre problemas de fertilidade.
Os pratos principais chegam e eu passo do modo reminiscente para
o modo médico. “Então, há quanto tempo é que estão a tentar?”
https://calibre-pdf-anchor.a/#a329
“Há sete meses e duas semanas”, responde Milly, de modo
automático, como se fosse uma máquina de dinheiro a dispensar
dez libras. É estranhamente precisa.
Na verdade, estranha e precisa seriam as suas palavras de
ordem, enquanto mergulha num saco para pegar numa pasta, que
me passa, com uma expressão impenetrável. É evidente que estou
a ver um documento de uma importância colossal. Folheio páginas e
mais páginas de folhas de cálculo; demoro algum tempo a absorver
o horror da sua obra-prima. Trata-se de um arquivo de todas as
vezes que tiveram relações sexuais desde que deixaram de usar
métodos contracetivos, acompanhadas das datas dos períodos de
Milly e, de forma perturbadora, a duração da sessão de sexo e
quem ficou por cima. Não faço ideia da razão pela qual tudo isto foi
documentado com tanta precisão, a não ser que se tratasse de uma
tentativa de reduzir o meu apetite e fazer com que a conta do
almoço fosse pequena.
Fiquei completamente distraído durante o resto da refeição,
incapaz de deixar de pensar nas posições e duração das relações
sexuais do meu ex-colega de apartamento, e dele a montar e a
desmontar, ou a sair de baixo, com o dever regimental de um burro
de carga. Consegui recompor-me o tempo suficiente para lhe dar
um conselho relativamente decente: desistir do café e do álcool, os
testes de sangue deviam obtê-los do seu médico de família, ponto a
partir do qual terão o encaminhamento para a clínica de infertilidade.
“Vale a pena continuar com o registo?”, pergunta Milly.
“Oh, sem dúvida”, respondo, por um lado para que não pensem
que me mostraram desnecessariamente um almanaque de sexo e,
por outro, para proporcionar a um interno da especialidade de
infertilidade uma boa gargalhada dali a alguns meses.
Terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Hoje, enquanto estou a fazer com que um períneo se pareça um
pouco mais com um períneo, após uma extração com fórceps, a
enfermeira-parteira pergunta à mãe se ela quer que o bebé receba
uma injeção de vitamina K. A paciente brinda-nos com uma suposta
notícia assustadora que arranjou num qualquer jornal
sensacionalista, mas parece que esta mulher está a segurar no
jornal de cabeça para baixo.
Ela recusa a vitamina K porque “as vacinas provocam artrite”. A
parteira explica-lhe pacientemente que a vitamina K não é uma
vacina, é uma vitamina, e que é muito importante para a coagulação
do sangue do bebé. Além disso, diz-lhe que não provoca artrite.
Talvez ela quisesse dizer autismo, que também não é causado por
vacinas. E esta injeção não é uma vacina.
“Não”, diz a mãe. “Não vou por em risco a saúde do meu bebé.”
Domingo, 14 de fevereiro de 2010
Primeiro Dia dos Namorados que passo com H em quatro anos.
Refiro que, em termos de São Valentim, sair com um médico é como
fazer anos no dia 29 de fevereiro.
Um adorável jantar tailandês no restaurante Blue Elephant. No fim,
o empregado traz dois doces em forma de coração numa caixa de
madeira esculpida e muito bonita. Eu como o meu todo. Afinal, era
uma vela.
Terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Marido e mulher choram com a notícia de que o seu bebé terá de
sair pelo teto de abrir porque o trabalho de parto não está a avançar.
Ao que parece, a principal causa de toda aquela tristeza é a
obsessão um pouco estranha do marido de ter de ser a primeira
pessoa a tocar no bebé. Não há muito tempo para refletir sobre as
razões pelas quais poderá querer fazê-lo: talvez tencione quebrar
um feitiço encantado ou tenha superpoderes que tem de transferir à
sua prole. A verdade é que não desiste da ideia. Será que não há
mesmo uma forma de ele ser a primeira pessoa a tocar no bebé?
Então, e se for ele a retirá-lo, no fim da cesariana?
Seguramente, desmaiaria, vomitaria ou ambas as coisas, ao ver
como é o interior de um abdómen: uma panela de carne e miúdos
cozidos por alguém irrecuperavelmente louco. Além disso, são
precisas várias cesarianas até que os estagiários possam retirar um
bebé pela cabeça. A não ser que ele consiga praticar rapidamente
ao apanhar umas meloas de um pântano só com uma mão? Além
disso, parece que ninguém entende que há um ritual complicado
que leva tempo a aprender, e que, entre outras coisas, é preciso
esfregar as mãos e, depois, calçar luvas. Luvas! “Então, e se
passarmos o bebé diretamente para si?”, sugiro. “Usamos luvas
para que o senhor seja a primeira pessoa a tocar-lhe.”
Feito.
Quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O alarme de emergência soa na sala de partos. Toda a equipa
corre pelo corredor e nenhum de nós consegue ver qualquer sala
com uma luz a piscar do lado de fora.
Faria sentido terem criado um sistema mais high-tech, uma vez
que estão vidas em risco, mas estamos presos à configuração de
chamadas de passageiros em aviões. Uma pessoa carrega num
botão, toda a gente ouve um sinal sonoro de dois em dois
segundos, e a tripulação/equipa de obstetrícia tem de andar para a
frente e para trás à procura de uma luz, até descobrir quem
pressionou o botão e poder parar o sinal sonoro. Se ao menos eu
pudesse trocar as emergências médicas por algo tão calmo como
servir gin tónico a alguém ou um terrorista a dizer que vai fazer
explodir o avião.
O alarme continua a soar enquanto se perde um tempo precioso,
e decidimos andar de sala em sala a verificar cada paciente em
trabalho de parto. É evidente que uma das luzes está avariada.
Ninguém parece estar em situação de emergência. Onde é que
ainda falta ver? Vestiários, blocos de partos, casa de banho, salas
de anestesia, sala de convívio – dividimo-nos como o Scooby Doo e
os amigos para cobrir cada centímetro da enfermaria. Nada. Um
verdadeiro falso alarme. Além de se tratar de um som incrivelmente
ensurdecedor, todos os elementos da equipa estão condicionados a
reagir-lhe, saltando para a ação. É demasiado perturbador como
ruído de fundo. É como se o rádio começasse a tocar o som de uma
sirene de ataque aéreo.
Chamamos a assistência técnica. Aparece um tipo que remexe
inutilmente numa caixa na parede durante dez minutos. Parece que
vão mandar alguém amanhã para o arranjar. Até lá, temos duas
opções: um alarme estridente que não para de tocar ou nenhum
sistema de alarme. Chamamos o Prof. Carrow, o especialista de
prevenção, e ele fica furioso. Principalmente porque passou a última
década a evitar, com sucesso, entrar na sala de partos durante os
seus turnos, e também – como explica ao técnico – porque se trata
de um incidente clínico extremamente grave. Estão vidas em perigo
e a empresa tem de tratar do problema imediatamente. O técnico diz
que fará o seu melhor, mas que não pode prometer nada e, além
disso, como é que as coisas se passavamnas salas de parto há
cem anos, antes de haver alarmes de emergência?
O Prof. Carrow fita-o com um olhar gélido. “Uma em cada vinte
mulheres morria durante o parto.”
Quarta-feira, 3 de março de 2010
A colocar o último agrafo depois de uma cesariana eletiva sem
complicações, quando a enfermeira do bloco anuncia que há uma
discrepância na contagem das compressas – falta uma135. Não
entres em pânico, dizemos a nós próprios, ao mesmo tempo que
entramos em pânico. Procuramos no chão e no interior das cortinas.
Nenhuma compressa. Verificamos a placenta e os coágulos de
sangue no lixo clínico, no que nos parece ser uma das coisas mais
horríveis que já fizemos. Nenhuma compressa. Ligamos a Mr.
Fortescue, o especialista que está hoje de prevenção, para decidir
se devemos voltar a abrir a paciente ou mandá-la fazer uma
radiografia136.
Mr. Fortescue decide que é melhor voltarmos a abrir, e esperamos
que o reforço da epidural do anestesista faça efeito. Entretanto, ele
conta-me uma história de há alguns anos: uma idosa chegou à
consulta a queixar-se de dor na zona abdominal inferior. Depois de
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https://calibre-pdf-anchor.a/#a331
realizar vários exames, ele mandou-a fazer um raio-X. A principal
descoberta foi a presença de uma colher na cavidade abdominal.
Depois de lhe fazer várias perguntas pertinentes como “Alguma vez
comeu uma colher?”, “Costuma enfiar colheres na vagina ou no
reto?”, estava a começar a perder a esperança em perceber qual a
origem do objeto. Mas estava a causar dor à idosa e teria de ser
removido com cirurgia aberta, sob anestesia geral.
Sem surpresas, durante a cirurgia, foi possível encontrar por entre
intestinos e outras vísceras uma colher de sobremesa. Ao retirá-la,
observou-se que as suas características dignas de nota eram uma
série de arranhões na parte de trás e as palavras “Propriedade do
Hospital St. Theodore” estampadas no cabo. Mr. Fortescue viu-a na
enfermaria, no pós-operatório, e estavam os dois igualmente
perplexos em relação à forma como a colher conseguiu ir de St.
Theodore para a cavidade abdominal. O último contacto dela com
eles, tirando a colher a remexer as suas entranhas como um risoto,
foi uma cesariana na década de 1960. Seguiu-se uma troca de
correspondência com St. Theodore, na qual negaram firmemente
terem como rotina a implantação cirúrgica de colheres, mas
conseguiram desenterrar os registos da paciente. Quanto à questão
da colher, os registos não adiantaram nada – ao que parece, são
raros os médicos que esvaziam as cantinas dos seus talheres para
os colocarem nos estômagos dos pacientes e documentam a coisa
– mas revelaram o nome do cirurgião. O cavalheiro tinha já morrido
há muito tempo, mas Mr. Fortescue acabou por conseguir falar com
alguém que estagiou com ele, e perguntou a essa pessoa se o
cirurgião tinha o hábito de parar a meio de uma cesariana para
comer omelete norueguesa. Surpreendentemente, isto revelou a
explicação. O cirurgião em questão costumava usar uma colher de
sobremesa esterilizada para suturar a bainha do reto137, de forma a
proteger estruturas subjacentes. Naquela cirurgia, a colher tinha
caído, e ele acabou por decidir “que se lixe” e continuar como se
nada fosse. O nosso anestesista avisa que podemos avançar, e
assim que começo a remover agrafos da pele, uma enfermeira-
parteira entra de rompante no bloco e diz-nos para pararmos porque
https://calibre-pdf-anchor.a/#a332
a compressa foi encontrada: era o bebé que a tinha na mão. Um
grande alívio para toda a gente, exceto para a enfermeira do bloco,
que foi submetida a meia hora de stresse desnecessário e a
incursões nos caixotes do lixo. “Filho da mãe do ladrãozinho”, diz
ela – sem ver que logo atrás da enfermeira-parteira estava a
compressa em questão, segurada pelo bebé em questão, segurado
pelo seu pai.
Quinta-feira, 18 de março de 2010
“Bleep” da urgência: uma mulher está a ter um bebé, às vinte e
cinco semanas de gestação e num cubículo. Eu, o interno do ano
comum sénior, o anestesista e a enfermeira-parteira dirigimo-nos
para a urgência, com a equipa neonatal logo atrás, com toda a sua
parafernália. Ela aplica as técnicas de respiração e está num estado
terrível. O anestesista dá-lhe um medicamento para as dores. A
enfermeira-parteira não consegue detetar o coração do feto com o
Sonicaid – isto não é bom. Examino a paciente. Ela não está a ter
um parto ativo. Na verdade, o colo do útero está duro e fechado –
ela não está em trabalho de parto. Muito estranho. Pergunto onde é
que está a ser acompanhada nesta gravidez e ela diz-me que é
aqui. Alguém procura o seu nome no computador e não a encontra.
Mas isto não é incomum. O computador desconhece quase todos os
pacientes – estaríamos mais informados se usássemos cartas de
tarot.
Um dos elementos da urgência tenta encontrar uma máquina de
ecografias e eu pergunto à paciente quando é que fez a última. Na
semana passada. Neste hospital, certo? Sim. No quinto piso? Sim.
Ah, estou a ver. Mando embora o anestesista, a enfermeira-parteira
e os neonatologistas. Todas as ecografias são feitas no rés do chão
deste hospital de três pisos.
A máquina de ecografias aparece e, felizmente, visto que já
mandei embora o resto da equipa, não há qualquer bebé – apenas
algumas ansas intestinais distendidas que fazem com que ela
pareça grávida. Se formos vesgos.
“Mas, onde está o bebé? Para onde é que foi?”, grita ela, para
uma urgência lotada e, sem dúvida, fascinada. Digo-lhe que os
meus colegas voltarão em breve para lhe explicar e, logo depois,
peço à urgência que contacte a psiquiatria para que trate deste
assunto. Vou ao bar para refletir em silêncio sobre o que acabei de
viver. Aborrece-me o facto de outras pacientes terem sido
potencialmente postas em perigo devido ao seu uivo, que levou
tantos médicos para longe da sala de partos. Estou perplexo com o
que ela terá pensado que ia acontecer – ela sabia que estava
prestes a ser apanhada, certo? E estou triste por ela – que tipo de
traumas e demónios a levaram a fazer aquilo? Espero que os meus
amigos da psiquiatria estejam a prestar-lhe o apoio de que ela
precisa.
Fui parvo por pensar que seria capaz de beber um café inteiro
sem qualquer perturbação. De repente, recebo um “bleep” para me
dirigir rapidamente à sala de partos.
“Quarto quatro!”, grita a enfermeira-parteira responsável enquanto
corro pela enfermaria. É a mulher da urgência, que está novamente
a simular o trabalho de parto. Não desiste facilmente e fugiu da
urgência antes de ser vista pela psiquiatria, para tentar a sorte
noutro sítio.
Vê-me e parece extremamente irritada, como se tivesse chovido
na festa dela.
Sábado, 27 de março de 2010
Uma noite muito agradável com alguns velhos amigos da
faculdade de Medicina para nos convencermos de que as nossas
vidas vão bem, apesar das evidências que nos indicam
precisamente o contrário. É bom pôr a conversa em dia, mesmo
tendo sido preciso remarcar tudo sete vezes.
Depois do jantar, vamos para o bar da faculdade, em memória dos
bons velhos tempos e, por algum motivo, talvez a memória muscular
da última vez que lá estivemos, começamos a fazer jogos de beber.
O único jogo relativamente ao qual conseguimos lembrar-nos das
regras é o “Eu nunca”. Resvala para a terapia: já choramos os seis
por causa do trabalho, cinco de nós choraram durante o trabalho,
todos estivemos em situações nas quais nos sentimos inseguros,
três de nós terminaram relações por causa do trabalho e todos
perdemos grandes eventos familiares. Quanto ao lado positivo, três
de nós tiveram relações sexuais com enfermeiras e um de nós fê-lo
enquanto estava a trabalhar. Portanto, nem tudo é mau.
Segunda-feira, 19 de abril de 2010
Miss Burbage, uma das especialistas, tirou duas semanas de
licença de nojo porque um dos seus cães morreu. Muitas piadas na
sala de café do bloco de partos. Eu defendo-a, para surpresa de
toda a gente, e principalmente para minha surpresa.
Miss Burbage despreza-me: decidiu que eu era detestável assim
que me conheceu e nunca mudou de opinião.Quando perguntei se
podia sair mais cedo uma noite para ir a um jantar de anos (mais
cedo do que a hora a que ia acabar, não antes da hora a que era
suposto estar lá) ela disse-me que deveria ficar, argumentando que
seria “mais fácil conseguir um novo amor do que um novo emprego”.
Disse-me que se eu queria trabalhar na clínica pré-natal da
diabetes, onde teria de falar com as pacientes sobre a sua dieta,
teria de ter algum respeito por mim próprio e perder peso (o meu
IMC é 24). Bateu-me na mão no bloco operatório por segurar num
retrator de forma incorreta, e passou-me um raspanete por eu ter
dito “raios”. Disse, aos gritos e em frente a uma paciente, que sou
um imbecil e que devia voltar para a faculdade de Medicina.
E, ainda assim, estou a defendê-la perante os meus colegas. Para
quê gozar com uma pessoa que está transtornada? É claro que isto
é motivo para a respeitarmos – ela sabe que todos vão perceber
que a sua dureza exterior não passava disso mesmo, do exterior.
Não deveríamos sentir pena de uma pessoa que tem tão pouca
coisa na sua vida, a ponto de se sentir completamente destruída
com a morte do seu animal de estimação? Luto é luto – não há
forma certa, nem normal. Murmúrios de “talvez” à minha volta, e
saio, depois de ter sufocado aquela conversa com a almofada da
minha compaixão. Duas semanas por um cão morto – a mulher é
completamente passada dos cornos.
Quarta-feira, 21 de abril de 2010
Um dos estudantes de Medicina viu-me depois da orientação
tutorial e perguntou-me se não me importaria de ver o seu pénis.
Importar-me-ia, mas a verdade é que não tive grande escolha –
deve ser preciso uma grande coragem para pedir a um professor
que olhe para a nossa pila (com exceção da pornografia, onde isso
parece acontecer numa base regular). Fui com ele para uma sala e
calcei umas luvas para dar a ilusão de grande profissionalismo. Ele
disse-me que o seu pénis estava dorido e que tinha dificuldade em
urinar desde a noite anterior.
Parecia que estava a omitir determinados elementos da história; o
seu pénis tinha o aspeto de uma beringela atacada por um tigre –
inchado, roxo e com cortes profundos a todo o comprimento. Com
mais algumas perguntas, fiquei a saber que ele estava a vangloriar-
se para a namorada, na noite anterior, quanto à pujança das suas
ereções e disse-lhe que toda aquela robustez era capaz de parar as
lâminas rotativas de uma ventoinha de mesa. A sua estimativa
estava totalmente incorreta e a ventoinha de mesa foi o claro
vencedor.
Sugeri-lhe que se dirigisse à urgência. Algumas feridas tinham de
ser fechadas e pareceu-me que ele poderia precisar de um
cateterismo até o inchaço diminuir. E talvez ir à urgência de outro
hospital, a menos que não se importasse de ser conhecido pelos
colegas deste como Pénis à Ventoinha138,139.
Quinta-feira, 22 de abril de 2010
Faço a minha primeira cerclagem cervical140, sob a supervisão do
Prof. Carrow. Em praticamente todos os outros procedimentos, o
especialista que nos supervisiona pode, a qualquer instante, colocar
o pé nos travões duplos metafóricos e impedir que provoquemos
grandes danos. Mas na cerclagem tudo depende apenas de nós. O
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https://calibre-pdf-anchor.a/#a335
especialista pode falar connosco para nos orientar, mas ao menor
deslize na sutura, à menor perda de firmeza nas mãos, podemos
romper as membranas e provocar um aborto, fazendo exatamente
aquilo que estamos a tentar evitar com o procedimento. E não há
como praticar a técnica em casa, de forma a aprendermos a fechar
feridas como fazem os internos, que podem abrir uma laranja para
depois a suturarem.
A paciente SW perdeu o primeiro bebé às vinte semanas e está
agora na décima terceira semana da segunda gravidez. O professor
diz-me que tenha calma e paciência, o mais sustentadamente que
eu conseguir. Tenho consciência de que a mínima agitação da
minha mão é dez vezes ampliada na outra extremidade do porta-
agulhas, pelo colo do útero. Respiro profundamente, pisco o suor
dos meus olhos, um ponto, dois, três, quatro, feito. Safei-me.
Penso que esta é a primeira vez que tenho de mudar de roupa
devido ao meu próprio suor. Ocorre-me que, provavelmente, os
pijamas cirúrgicos têm este tom de azul para que os pacientes não
consigam vislumbrar as nossas marcas de suor – uma atitude calma
e profissional é sempre muito adequada até que o escurecimento
rápido das nossas axilas nos trai.
Mais tarde, percebo que, na verdade, há uma forma de praticar o
tipo de motricidade fina de que preciso antes da próxima vez. Envio
uma mensagem à minha mãe para lhe perguntar se por acaso ainda
tem o jogo “Operação” guardado numa gaveta qualquer.
Ela responde a dizer que o encontrou. E acrescenta que também
tem o “Bola 8 Mágica” se eu precisar dele para os meus
diagnósticos.
Sábado, 24 de abril de 2010
Dilema moral. A paciente AB está em trabalho de parto e tem um
traçado não tranquilizador. Vai na terceira enfermeira-parteira do
turno, depois de ter gritado palavras racistas às duas anteriores
(negras) que dela cuidaram. Mais uma destas, foi alertada, e será
expulsa do bloco de partos. A minha interna do ano comum sénior
viu o CTG e avisa-me que AB precisa de uma cesariana. Como não
tenho bem a certeza se é legal cumprir a ameaça de a expulsar, eu
e a interna do ano comum sénior indiana decidimos ignorar o facto
de ela também lhe ter feito reparos de cariz racista.
Ao observar a paciente, concordo com a interna do ano comum
sénior – é cesariana. Transfiro-a para o bloco e decido ficar de boca
fechada quanto ao facto de ser judeu. A cirurgia é simples, e nasce
um menino, de forma segura (provavelmente para lhe ser de
imediato colocado o “Primeiro Capuz KKK para o Bebé” e dada uma
roca na forma de uma cruz em chamas).
Mas. Se a paciente tivesse uma tatuagem de um golfinho na
virilha direita, seria muito mau se a minha incisão na sua pele fosse
levemente maior do que o habitual e eu não tivesse alternativa a
não ser decapitar o golfinho? Poderia afirmar, caso fosse
questionado num inquérito oficial (ou por algum capanga da EDL)
que temia que o bebé fosse maior do que a média e me pareceu
fazer sentido ter um campo operacional com um tamanho razoável.
E, ao suturar, seria assim tão mau se a pele não se unisse muito
corretamente por algum motivo estranho e bastante improvável,
deixando a cabeça do golfinho posicionada uns bons cinco
centímetros à esquerda do resto do corpo do animal?141
Sábado, 1 de maio de 2010
Estou a falar de um caso com a minha colega Padma, na sala do
café, depois das consultas da clínica pré-natal, e uma enfermeira-
parteira entra na conversa com um: “Na verdade, não gostamos de
usar essa palavra”. Sem sabermos qual terá sido a terminologia
ultrapassada que usámos acidentalmente (Consumo? Escrófula?),
ela informa-nos que dissemos “paciente”. Deveríamos ter dito
“cliente” – denominá-las de pacientes é paternalista e degradante e,
além disso, a gravidez é um processo normal e natural, não
patológico. Limito-me a sorrir e lembro-me das palavras sábias que
me disse Mr. Flitwick, um dos meus primeiros especialistas, sobre
as discussões com parteiras – “Não negoceies com terroristas.”
É evidente que Padma não tem esses escrúpulos. “Não fazia ideia
de que paciente é um termo tão degradante”, diz ela. “Lamento
https://calibre-pdf-anchor.a/#a336
muito e não voltarei a usá-lo. Cliente. Cliente é muito melhor. Como
o que as prostitutas têm.”
Domingo, 9 de maio de 2010
Estou eu a fazer cocó quando dispara o alarme de emergência e,
em poucos minutos, faço o parto de um bebé por cesariana. Quando
o alarme tocou, cortei-o a meio, mas a expulsão foi superficial, na
melhor das hipóteses, e é por isso que – logo agora que tenho as
mãos higienizadas e as luvas calçadas, no bloco operatório – sinto
uma comichão intolerável no rabo. É aceitável pedir a alguém que
não está a operar – uma enfermeira ou um técnico auxiliar de saúde
do bloco – que nos ajeite a máscara ou nos puxe os óculos para
cima se estiverema cair, ou até que nos coce o nariz. Será que era
abuso pedir-lhes uma breve coçadela anal?
Segunda-feira, 24 de maio de 2010
Por iniciativa própria, nunca dou a minha opinião sobre os partos
em casa, mas se, como hoje, uma paciente me perguntar
especificamente o que penso sobre isso, como é que agiria se fosse
comigo, então sou sincero. É um discurso de cinco minutos, e
decorre nos seguintes moldes: digo que não tenho a menor dúvida
de que um parto domiciliário que corra como planeado deve ser cem
vezes mais calmo, relaxante e agradável do que um parto no
hospital (embora não tenha certeza de, pessoalmente, ser capaz de
relaxar sabendo que, a qualquer momento, uma hemorragia e uma
emulsão de líquido amniótico podem encharcar o sofá. Como é que
se faz para limpar uma coisa dessas?).
Depois, digo que respeito a escolha da paciente e que é crucial
que se sinta totalmente aos comandos dos seus cuidados de saúde.
Digo que estou preocupado com a crescente promoção do
nascimento “natural”, e que a desmedicalização da gravidez não é
necessariamente uma coisa boa: devemos orgulhar-nos dos
avanços da Medicina que objetivamente salvam vidas, em vez de os
recearmos.
Digo que já vi uma série de casos que quase correram mal,
incluindo um em que ficámos a meros segundos de perder uma
criança que foi transferida para a enfermaria quando num parto em
casa algo de muito errado se passou. Descrevo também partos em
hospitais em mães de baixo risco142, em que eventos raros e
imprevisíveis fariam com que elas ou os seus bebés tivessem
morrido se não estivessem em ambiente hospitalar.
Sou a favor das unidades baseadas em enfermeiras-parteiras,
onde as mulheres podem ter nascimentos mágicos e maravilhosos
em ambientes mais controlados. Cristais, pufes, alguém a cantar
músicas dos Radiohead da frente para trás em sueco, – o que quer
que as faça vibrar, desde que estejam a poucas centenas de metros
de distância de uma sala de partos e da sua equipa de especialistas
capazes de evitar o pior.
Reconheço que quando se trata de partos em casa, vejo os
fracassos e nunca os êxitos, algo que algumas pessoas descrevem
como uma falha fatal na minha argumentação. Presumo que
também tenham problemas com os bombeiros que aconselham o
uso do cinto de segurança, porque eles só veem os condutores que
desencarceram de acidentes em cadeia, e não a maioria das
viagens de carro, que são as que decorrem com toda a segurança.
Levo a mão ao coração e digo à paciente que imploro a qualquer
pessoa que me seja próxima que pense duas vezes antes de ter um
parto em casa.
Infelizmente, as consultas de hoje estão a ficar bastante
atrasadas, e eu tenho um jantar combinado, pelo que não tenho
tempo para tudo isso. Portanto, dou a versão abreviada: “A entrega
ao domicílio é para pizas.”
Quarta-feira, 2 de junho de 2010
Esta manhã, dou aulas a estudantes de Medicina. Estão
interessados em desenvolver a sua capacidade de elaboração de
relatórios de raios-X. Pego em duas radiografias que estão no
carrinho e coloco uma no negatoscópio. É uma radiografia do tórax
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normal de um paciente, tirada antes de uma cirurgia. O primeiro
estudante levanta-se para fazer a apresentação.
“É uma radiografia do tórax póstero-anterior, realizada ontem, de
uma paciente do sexo feminino de sessenta e quatro anos, de nome
NW e nascida em 03/01/46. A inspiração é adequada, a radiografia
é bem penetrada e há ausência de rotação.” Ele é bom.
“A traqueia está centrada, o mediastino não está deslocado e os
contornos cardíacos são normais. A anormalidade óbvia é uma
massa curvilínea no lóbulo superior do pulmão direito, que ocupa…”
Espera lá. Anormalidade? De onde é que isso veio? Ora porra. Vi
isto antes e não detetei um tumor – enviei a paciente para a cirurgia
e para uma morte certa. Desvio o estudante para ver melhor o
cancro. Reposiciono levemente o raio-X e a massa move-se. Era um
adesivo a dizer “dê sangue” no negatoscópio143.
Sábado, 5 de junho de 2010
A minha vida está a começar a parecer-se com um episódio de
Quantum Leap. Acordo de repente e não sei onde estou nem o que
eu tenho de fazer. Hoje, acordei assustado com um grande barulho.
Estou sentado no meu carro a dormir parado nos semáforos e um
velhote bate na janela com a haste do guarda-chuva, enquanto me
pergunta se estou bem.
É o meu segundo sono curto inesperado do turno da noite, depois
de uma enfermeira me ter batido no ombro enquanto eu estava a
dormir profundamente num banco do bloco operatório para me dizer
que a paciente estava a ser levada para a sua marsupialização144.
Lembram-nos constantemente que não devemos usar salas vazias
perto das pacientes para dormitar durante a noite – a administração
mantém que somos pagos para trabalhar turnos completos. Gostaria
de perguntar à administração se já ouviu falar daquela bola grande
de fogo que está no céu, que faz com que seja um pouco mais difícil
dormir de dia do que fazê-lo de noite? Ou se acham que é fácil
deixar de trabalhar durante o dia e dormir de noite para passar a
fazer exatamente o contrário no espaço de vinte e quatro horas?
https://calibre-pdf-anchor.a/#a338
https://calibre-pdf-anchor.a/#a339
Mas, acima de tudo, gostaria de lhe perguntar o seguinte: se os
seus elementos ou as suas mulheres precisassem de uma
cesariana de emergência às sete da manhã, prefeririam que o
interno da especialidade que iria fazê-la tivesse dormido durante
quarenta minutos, quando tudo estava calmo, ou que ele tivesse
sido obrigado a ficar acordado todos os segundos do turno?
Estar tão cansado é uma sensação surreal. É quase como estar
num jogo de computador. Estamos lá, mas não estamos. Suspeito
que os meus tempos de reação são os mesmos como quando já
bebi dois litros de cerveja. No entanto, se eu aparecesse bêbado no
trabalho, não iriam gostar – é importante que a causa do
entorpecimento dos meus sentidos seja a exaustão.
Saí do trabalho às 9h30. Demorei uma hora a escrever as
anotações da minha última cesariana porque estava a ser
verdadeiramente difícil escolher as palavras certas, como se
estivesse a tentar embrulhar as frases em espanhol para o meu
certificado geral do ensino secundário. Será que os tribunais levam
isto em consideração quando adormecemos ao volante e matamos
uma família inteira a caminho de casa?
Sexta-feira, 11 de junho de 2010
Digo a uma mulher na consulta pré-natal que ela tem de deixar de
fumar. Ela lança-me um olhar que me faz ficar na dúvida sobre se
lhe terei dito, sem querer, “Quero foder o seu gato” ou “Vão fechar o
Lidl”. Ela recusa-se a ponderar frequentar uma consulta de
cessação tabágica. Explico-lhe como fumar prejudica o seu bebé,
mas ela não parece particularmente preocupada – diz-me que todas
as suas amigas fumaram durante a gravidez e que os seus filhos
estão muito bem.
Estou cansado e só quero ir para casa. Olho para o relógio: são
seis e meia, as consultas deveriam ter terminado há uma hora e ela
não é a última paciente da minha lista. Desespero.
“Se não parar de fumar enquanto estiver grávida de um bebé,
então não há nada neste mundo capaz de a fazer parar de fumar e
acabará por morrer de uma doença relacionada com o tabagismo.”
Ao dizer-lhe isto, consigo ouvir todas as palavras a serem repetidas
lentamente por um advogado, desta vez para que eu as ouça. Peço,
de imediato, desculpa. Mas, curiosamente, parece ter funcionado.
Ela olha para mim como se fosse a primeira vez que ouviu
realmente alguém, como se ela estivesse prestes a pôr-se de pé na
cadeira e exclamar: “Ó Capitão! Meu Capitão!” Ela não o faz, como
seria de esperar, porque a cadeira parece não poder aguentar, mas
faz-me perguntas sobre a consulta de cessação tabágica. É bom
saber que as ameaças de morte são eficazes para as minhas
pacientes. Ao sair, brinca: “Talvez comece a dar na heroína em vez
de fumar!” Eu rio-me, e não menciono que sim, que isso seria
realmente mais seguro para o feto.
Segunda-feira, 14 de junho de 2010
O Prof. Carrow é o especialista que está hoje de plantão para o
bloco de partos,o que é quase tão útil como ter um recorte de
papelão da Cher de plantão. Na verdade, o recorte da Cher poderia,
pelo menos, fazer subir um pouco o moral.
Não vemos o Prof. Carrow durante o dia, não podemos ligar-lhe
durante a noite – ele é demasiado importante para todas essas
tontices. Quando o vejo aparecer na enfermaria, esta noite, só
posso assumir que se perdeu ou que uma familiar de primeiro grau
está a dar à luz. Tudo faz sentido à medida que uma equipa de
filmagem de um documentário vai surgindo atrás dele, com as
câmaras ligadas145. “Fale-me de como funciona o bloco de partos”,
diz-me Carrow. Faço o que ele me pede, enquanto ele vai acenando
para as câmaras. “Parece que tem tudo sob controlo, Adam. Mas se
houver algum problema durante a noite, seja ele qual for, não hesite
em ligar-me.” A equipa de filmagem tem o que quer e para de
gravar. O Prof. Carrow não se vai embora sem antes me dizer:
“Como é óbvio, não o faça.”
Terça-feira, 15 de junho de 2010
https://calibre-pdf-anchor.a/#a340
Passei muito tempo com a paciente VF, uma vez que estava a
fazer uma colheita de sangue fetal146 por hora no seu bebé. Ela e o
marido têm tido uma discussão acesa nas últimas quatro. Começou
com algo sobre os pais dele, ouvimos tudo sobre o casamento de
um amigo qualquer, onde ela estava a flirtar de novo com o Chris, e
agora estamos a ouvir falar de dinheiro. Se eu estivesse num jantar
com eles, teria escondido o meu pudim por tocar num guardanapo,
pedido desculpa e fugido para casa há séculos, mas a verdade é
que não tenho escolha e tenho mesmo de ouvir tudo aquilo. É uma
demonstração total do estado lastimável da sua relação. Sinto que
sou um conselheiro matrimonial que ficou mudo.
Na verdade, eles portam-se de forma igualmente desprezível, mas
dado que ela está atualmente em trabalho de parto – um processo
conhecido por não ser divertido – tenho de atribuir ao marido cem
por cento dos pontos para sacanas.
A certa altura, ele sai para fazer uma chamada e a parteira
confirma com VF que ele não anda a agredi-la. Ela assegura à
parteira que não é esse o caso. Ele regressa, a discussão continua
e depois agrava-se. Ele está roxo e a gritar com ela. Todos nós lhe
pedimos que se acalme ou saia da sala. Ele grita para ela: “Seja
como for, eu nunca quis o raio do bebé!”, e sai, furioso, para não
voltar a aparecer no hospital. Credo.
Sexta-feira, 18 de junho de 2010
A paciente RB chega à urgência com a equipa de uma ambulância
e dois polícias. E além disso, o que é também digno de nota, uma
protuberância com trinta centímetros de uma estrutura de metal. Por
qualquer motivo, estava a ser perseguida a pé pela polícia quando o
seu plano de fuga implicou escalar uma vedação de um parque.
Infelizmente, a sua tentativa de evasão, falhou quando ela estava a
passar o gradeamento. Escorregou e uma das pontas de metal
deslizou pela sua vagina acima e penetrou pela parte da frente do
seu abdómen.
Ela tinha tido a presença de espírito de encher a cara de cocaína
ao início da noite, o que fez com que ela estivesse suficientemente
https://calibre-pdf-anchor.a/#a341
anestesiada até os bombeiros chegarem e poderem cortar o
gradeamento mesmo abaixo do nível da vagina (enquanto, muito
provavelmente, diziam “foda-se” várias vezes). Quando aqui
chegou, apresentava-se hemodinamicamente estável e bastante
bem, se tivermos em consideração o que se passara. Fizemos uma
TAC urgente para determinar com precisão quais os pedaços de
carne afetados pelo espeto, neste kebab particular. Por milagre, não
havia danos na bexiga ou em vasos sanguíneos importantes, pelo
que era apenas uma questão de a levar para o bloco operatório e
suturar as feridas de entrada e de saída do ferro.
Observámo-la depois da cirurgia – já sóbria, dorida, envergonhada
e com um polícia a acompanhá-la, uma vez que ficou detida.
Dissemos-lhe que tudo parecia estar bem e demos-lhe um plano
sobre os cuidados a ter no pós-operatório. Ela perguntou se poderia
guardar o ferro como lembrança, e eu respondi que não via por que
razão não o poderia fazer. O polícia saiu-se com uma bastante
convincente, lembrando que nunca é uma boa ideia dar a um
criminoso detido uma arma capaz de perfurar um abdómen.
Terça-feira, 22 de junho de 2010
O que fazer quando estamos a gerir uma emergência e surge
outra emergência? Estou na sala de partos quando o alarme dispara
– a mãe está a fazer força e há um traçado terrível, pelo que o bebé
tem de ser urgentemente retirado com fórceps. Faço o que é preciso
e o bebé sai rapidamente, mas está inerte. O neonatologista faz a
sua magia e o bebé volta à vida. Placenta fora e a paciente sangra
moderadamente, da combinação episiotomia147 generosa com um
útero ligeiramente flácido. Começo a fazer a segunda parte do que é
preciso quando ouço outro alarme de emergência. É melhor ficar:
isto pode facilmente escalar e tornar-se uma grande HPP148. Além
disso, ela já perde sangue sempre que não estou a suturá-la ou a
dizer em voz alta o nome do medicamento seguinte que a parteira
tem de injetar. Por outro lado, esta outra emergência desconhecida
pode ser muito pior e é pouco provável que a minha paciente atual
https://calibre-pdf-anchor.a/#a342
https://calibre-pdf-anchor.a/#a343
sofra qualquer dano permanente se eu a deixar nas mãos de uma
enfermeira-parteira experiente.
É de dia, mas quem me garante que todos os meus colegas não
estão ocupados com pacientes, e que cada um deles não presume
que outra pessoa vai responder ao alarme de emergência, que
continua a soar. E se for o tipo de emergência que implica a
presença de toda a gente? Penso em pedir à parteira que vá até lá e
me traga notícias, mas esse tempo pode ser crítico para a outra
paciente. Dou à parteira uma grande compressa e digo-lhe que
pressione com força o períneo até eu voltar e lhe der instruções
sobre os medicamentos seguintes a administrar à paciente, caso
seja necessário. Saio a correr. A luz está a piscar no exterior da sala
três e eu entro, na esperança de ter tomado a decisão certa. Claro
que não é esse o caso.
Uma enfermeira-parteira está a fazer uma simulação de
ressuscitação cardiopulmonar. Há um boneco na cama e alguns
médicos e enfermeiras a dizerem o que fariam se se tratasse de
uma verdadeira emergência. Que não é. Ao contrário da que acabei
de deixar. “Certo, o interno da especialidade está aqui”, diz a
parteira ao interno do ano comum sénior. “O que é que gostaria que
ele fizesse?” O que faço é dirigir-me ao boneco, empurrá-lo para
fora da cama e chamar a parteira de imbecil, acusando-a de sabotar
deliberadamente a segurança da paciente. Depois, volto para o
primeiro quarto, onde, felizmente, tudo está estável, e encontro a
minha paciente não imaginária como nova (pronto, nem tanto).
É óbvio que não me exprimi da forma mais adequada, há pouco,
uma vez que a parteira responsável me chama de lado e me pede
que me desculpe com a parteira em questão por interromper a sua
simulação e perturbá-la. As minhas desculpas assumem a forma de
formulário de incidente clínico, no qual me refiro a esta simulação
como um perigoso quase incidente. Eu costumava ser afável antes
deste trabalho.
Quarta-feira, 23 de junho de 2010
Um e-mail recorda-nos a importância crucial dos exercícios de
capacidades para todos os funcionários clínicos. No entanto, antes
de se fazer qualquer simulação, passou a ser necessário verificar
todas as salas, de forma a garantir que ninguém está envolvido em
emergências.
Segunda-feira, 5 de julho de 2010
Hoje, há uma certa continuidade, muito rara, nos cuidados. Vi esta
paciente há cerca de um mês na clínica geral de obstetrícia de Miss
Burbage, e pareceu-me que ela estava com uma insuficiência
ovárica prematura. A menopausa precoce está para lá das minhas
competências e confessei-o à paciente, desculpando-me antes de
sair da sala para falar com Miss Burbage sobre um plano de gestão.
Ela considerou que também estava para lá das suas competências
e que seria melhor reencaminhá-la para a clínica especializada em
endocrinologia de Mr. Bryce, assim quehouvesse uma vaga. A
paciente não ficou muito aborrecida com o facto de ter perdido a
manhã, uma vez que saiu de lá a saber que, da próxima vez, seria
vista por um especialista.
Sucede que hoje sou o interno da especialidade da clínica de
endocrinologia de Mr. Bryce, e ele está de férias. Da última vez que
vi a paciente, confessei-lhe que não fazia a mais pequena ideia de
qual seria a sua condição e, agora, ela está sentada à minha frente,
a perder uma tarde para estar aqui, na esperança de obter
respostas e a precisar de ajuda. Digo-lhe que estava apenas a ser
modesto da última vez? Que, desde aquele dia, fiz um curso? Falo
com um sotaque diferente? Bigode falso?
Marco-lhe uma consulta para daqui a duas semanas, altura em
que estarei a fazer noites, para evitar um eventual hat-trick.
Terça-feira, 27 de julho de 2010
Hoje, Ron tentou deixar de ser meu amigo – uma conversa
apropriada, séria e adulta. Não sabe por que é que se incomoda a
tentar manter o contacto comigo quando é óbvio que as nossas
vidas seguiram por caminhos totalmente diferentes desde que
deixámos a escola.
Eu devia, ao menos, variar as desculpas que lhe dou. Espero
mesmo que ele acredite que não pude ir à sua festa de noivado ou à
sua despedida de solteiro por causa do trabalho? Que perdi a
cerimónia do casamento por causa do trabalho, e que quase faltei
também à festa? Que não estive no funeral do seu pai e no batizado
da sua filha por causa do trabalho? Ele sabe que o meu trabalho é
muito intenso, mas até que ponto é que alguém não consegue trocar
um turno se quiser realmente fazer determinada coisa?
Levo a mão ao peito e juro a Ron que o adoro, que é um dos
meus melhores amigos e que jamais lhe mentiria. Sei que não tenho
tido qualquer valor para ele, mas tenho estado com ele mais do que
quase todas as pessoas que conheço. O trabalho é incrivelmente
exigente. O pessoal não-médico não é capaz de entender como é
difícil ser-se médico e o impacto que isso tem na vida real. Mas
menti completamente quanto ao batizado – que se lixe essa merda.
Segunda-feira, 2 de agosto de 2010
É o meu último turno – um turno noturno, naturalmente. A minha
nova função começa uma hora antes de esta terminar, a mais de mil
quilómetros de distância – mas atravessarei essa ponte quando lá
chegar, duas horas mais tarde e remeloso.
Tecnicamente, esta função terminou à meia-noite, um facto que
me ocorre na escada, às 00h10, quando o meu cartão magnético se
recusa a deixar-me voltar para a enfermaria e percebo que foi
desativado automaticamente. Sou a Cinderela de bata. Se pedirmos
ao hospital que forneça adequadamente um departamento com
pessoal, disponibilize um sistema informático eficaz ou até cadeiras
suficientes para o serviço, receberá um encolher de ombros e uma
amostra de incompetência colossal. No entanto, quando se trata de
ser capaz de entrar e sair de uma porta, conseguem assumir a
capacidade de um bibliotecário ciborgue. Se os cartões magnéticos
começarem, de repente, a desenvolver cancro, será finalmente
encontrada a cura, e de imediato.
Fico um mero quarto de hora a bater às portas e a rezar para que
o “bleep” de emergência não toque até que alguém me vê e me
deixa voltar para a enfermaria149.
132 Menos os que nos processam.
133 Divulgação total: também peguei num folheto sobre o seu programa de graduação.
134 Detetar uma perfuração intestinal é um método muito parecido com o de localizar um
furo na câmara de ar do pneu de uma bicicleta. Enche-se o abdómen de água e bombeia-
se o ar através do ânus do paciente até ser possível perceber de onde vêm as bolhas.
135 Em cada cirurgia, é utilizado um conjunto de instrumentos inventariados, que são
meticulosamente contados no início e no fim. As compressas estão em embalagens de
cinco unidades e, no final do procedimento, a enfermeira do bloco operatório assegura-se
de ter descartado um número total de compressas que é múltiplo de cinco, de forma a
sabermos que não foi deixada nenhuma no interior da paciente (a menos que tenham lá
sido deixadas cinco).
136 As compressas são feitas com um fio radiopaco que as atravessa como se fosse um
marcador, e que aparece nos raios-X como uma linha. Pouco imaginativo – eu teria
escolhido um radiopaco “UUUPS!”
137 A bainha do reto é uma camada fibrosa que se situa por baixo dos abdominais – quando
se sutura é preciso ter cuidado para não cortar acidentalmente um dos órgãos subjacentes.
138 Ou Tony Fancock. Ou Knob-in-Fan Persie.
139 N. da T.: Cock au Fan, em inglês, numa referência a Coq au Vin. Tony Pénisventoinha
(Tony Fancock, em inglês), numa referência ao ator Tony Hancock. Pénis-em-Ventoinha
https://calibre-pdf-anchor.a/#a344
Persie (Knob-in-Fan Persie, em inglês), numa referência ao futebolista holandês Robin van
Persie.
140 A cerclagem cervical é o tratamento para a incompetência istmo cervical – um termo
horrível que culpa o colo do útero quando este se abre demasiado cedo na gravidez,
causando abortos espontâneos tardios ou partos muito prematuros. A cerclagem é feita
durante o primeiro trimestre de gravidez e, se tudo correr bem, mantém o colo do útero
fechado até pouco tempo antes do termo da gravidez.
141 Bem, nós falámos com um advogado e a resposta, afinal, é “Sim. Isso seria sem dúvida
uma ofensa corporal”. Portanto, diremos que não o fiz.
142 Quando se inscrevem na clínica pré-natal, as pacientes são classificadas como de alto
risco ou de baixo risco, e as grávidas de baixo risco são consideradas aptas para partos
em casa. As pessoas tendem a esquecer-se de que “baixo risco” não significa “nenhum
risco”.
143 O meu amigo Percy estava a trabalhar como interno do ano comum sénior ortopedista
quando houve uma chamada de traumatismo para urgência: um motociclista tinha caído da
mota e fraturado todos os tipos de ossos. A radiografia do tórax (feita por rotina para
verificar se os pulmões estão perfurados), Percy orgulhou-se de anunciar, mostrava
pneumonia a Varicella-zoster – uma complicação rara e perigosa da varicela com uma
aparência característica em raios-X. O paciente tinha claramente sépsis devido à
pneumonia, razão pela qual perdera o controlo e caíra da mota. Ou, como acabou por ser
revelado, os seus pulmões estavam ótimos – uma grande quantidade de cascalho subira
para a parte de trás do seu casaco e apareceu no raio-X.
144 A marsupialização é a técnica de tratamento do quisto de Bartholin – quando as
glândulas que fornecem a lubrificação vaginal ficam infetadas. É criada uma bolsa para
ajudar o quisto a drenar – daí o nome marsupialização, tipo canguru genital.
145 Em Londres nunca se está a mais de dois metros de um rato – e num grande hospital
nunca se está a mais de dois metros de uma equipa de filmagem de documentário.
146 A colheita de sangue fetal é a forma mais precisa de verificar o bem-estar do bebé –
deita-se a grávida de lado, enfia-se um pequeno tubo na vagina e faz-se um corte na parte
superior da cabeça do bebé usando uma faca num pau comprido. Não vale a pena fingir
que é mais elaborado do que isto. Depois, recolhe-se uma gota de sangue num pequeno
tubo capilar, e a enfermeira-parteira sai e deixa-a cair, perde-a, descobre que a máquina
não funciona ou, de vez em quando, regressa com a informação sobre o pH do sangue do
bebé. Por algum motivo, este procedimento bastante comum não é mencionado na aula
pré-natal.
147 A episiotomia é um corte feito com uma tesoura (eu adoraria dizer que são utilizadas
tesouras cirúrgicas especiais, mas são apenas tesouras normais) no períneo para evitar
uma laceração que seria mais difícil de tratar ou poderia alastrar para o ânus. É,
basicamente, uma explosão controlada.
148 HPP significa hemorragia pós-parto para metade dos médicos e hipertensão pulmonar
primária para a outra metade, devido a uma designação ambígua.
149 O obstetra experiente não tem o seu telemóvel consigo na bata. Basta um iPhone
afogar-se uma vez num tsunami de sangue para aprender a lição; e garanto-lhe que não há
quantidade de arroz capaz de reavivá-lo.
9
Interno da EspecialidadeSénior
A Medicina é como o anfitrião que consegue manter-nos nas suas
festas horas depois de termos pensado em sair. “Não vás antes de
cortarmos o bolo de aniversário... Tens de conhecer o Steve antes
de saíres... Acho que a Julie vive a caminho de tua casa, ela está
pronta num minuto, por que é que não vão juntos?... E antes de
darmos por isso, perdemos o último comboio e ficámos lá, a dormir
no sofá.
Depois de irmos para a faculdade de Medicina, podemos terminar
e tornar-nos internos do ano comum, e a partir daí podemos
também muito bem ser internos do ano comum seniores, e a partir
daí podemos também ser internos da especialidade, e a partir daí
podemos ser internos da especialidade seniores, e a partir daí
somos praticamente especialistas. Quase de certeza que não é
preciso haver tantos graus diferentes; suspeito fortemente que tudo
foi programado para que o próximo passo seja sempre ao virar da
esquina. É como a nota de cinquenta libras que perseguimos na rua,
varrida por outra rajada de vento no milissegundo antes de lhe
pormos a mão. E a verdade é que funciona. Um dia percebi – como
se estivesse a acordar depois de um acidente grave – que já estava
nos trinta, na mesma carreira à qual dera início catorze anos antes,
baseado nas razões mais débeis.
O meu bilhete de identidade e o meu recibo de vencimento diziam
agora com orgulho “interno da especialidade sénior” (embora, para
ser honesto, o meu recibo de vencimento também pudesse dizer
“caixa de banco” ou “leiteiro razoavelmente experiente”) e os meus
cargos seguintes fariam a ligação de interno para especialista. E, na
verdade, a vida como especialista pareceu-me bastante atraente. O
salário aumenta, as horas de trabalho diminuem. Reuniões
administrativas, dias de folga. Ninguém a obrigar-me a dar consultas
de ginecologia. O meu nome em letras maiúsculas no topo do
testamento dos meus pais (provavelmente, seguido de “ele é
especialista em ginecologia, sabe”). E a melhor parte é a
estabilidade: um sítio onde posso ficar o tempo que quiser, onde não
tenho de fazer a mala logo após memorizar o código da porta do
vestiário.
Mas antes disso, tive de passar pelos postos de interno da
especialidade sénior – a tempestade antes da calma. Sim, os meus
empregos como interno da especialidade tinham sido loucos e
implacáveis, mas este tipo de stresse era diferente – agora era eu
quem estava no topo da hierarquia do departamento fora do horário
normal. E quando o meu” bleep” tocasse, seria por causa de um
problema que nem o interno do ano comum sénior nem o interno da
especialidade tinham sido capazes de resolver. Sabia que, se
também eu não fosse capaz de o resolver, uma mãe ou um bebé
poderiam morrer. Ter um especialista em casa “de prevenção” não
passa de uma formalidade: a maioria das emergências termina em
poucos minutos, antes de o especialista ter tempo de tirar o roupão.
Eu teria agora de aceitar a responsabilidade final pelas falhas e
cagadas de um interno do ano comum sénior e de um interno da
especialidade que talvez nunca tenha visto. Embora estivesse uma
ou duas horas sem ser “bleepado” num turno noturno, preferia
vaguear ansiosamente pelo bloco de partos, de sala em sala, a
perguntar: “Está tudo bem?” Tudo isto enquanto me vem à cabeça a
memória ocasional daquele interno da especialidade que me disse,
quando eu era estudante, que obstetrícia e ginecologia era uma
especialidade fácil. O filho da mãe mentiroso.
Não fiquei, por isso, muito surpreendido quando marquei consulta
com o médico de família e a enfermeira registou que a minha
pressão arterial era de 182/108 mmHg150. Não aceitou a minha
explicação de que eu acabara de sair de um turno noturno com duas
substituições, ainda um pouco ansioso devido a doze horas nas
enfermarias, com a minha mente agitada com uma dúzia de
equivalentes médicos a “Será que desliguei o gás? A paciente fez a
TAC? Fiz o reforço dos pontos? Prescrevi aquele metotrexato?”
https://calibre-pdf-anchor.a/#a362
Ela marcou-me uma consulta com o médico de família para a
semana seguinte, e a minha pressão arterial continuava tão alta
como antes. Mais uma vez, eu estava a sair do trabalho. Garanti-lhe
que tinha eu próprio verificado a minha pressão arterial no serviço e
que estava perfeitamente normal, mas, ainda assim, ela queria ter a
certeza. A verdade é que eu estava a mentir descaradamente: não
tinha feito nada daquilo. Ela tratou de eu ter uma monitorização
ambulatória da pressão arterial durante vinte e quatro horas151.
Como eu tinha poucos dias de folga, usei-a num dia de clínica pré-
natal, a única altura em que seria possível de gerir (não tinha de ir
ao bloco) e, teoricamente, estaria menos stressado. Durante as
consultas expliquei às pacientes que tinha de lhes prescrever
medicação anti-hipertensiva, apesar do dispositivo amarrado no
meu braço mostrar orgulhosamente que a minha pressão arterial era
bastante mais elevada do que a delas.
De todas as observações previsivelmente “hilariantes” que recebi
das pacientes, houve uma que me disse algo surpreendentemente
perspicaz: “É engraçado como nunca pensamos que os médicos
ficam doentes.” É verdade, e acho que isso é uma pequena parte do
que os pacientes pensam – que os médicos não são humanos. É
por isso que não hesitam em queixar-se se cometemos um erro ou
se nos zangamos. É por isso que se revoltam connosco quando
finalmente as chamamos para o nosso gabinete sobrelotado, às
sete da manhã, sem pensarem que também temos casas onde
preferiríamos estar. Mas é o outro lado da moeda de não quererem
que os seus médicos sejam falíveis, capazes de fazer diagnósticos
errados. Recusam-se a pensar em medicamentos como um assunto
que qualquer pessoa no mundo pode aprender, uma escolha de
carreira que o seu primo estúpido poderia ter feito.
Uma hora depois de ter chegado a casa, a minha pressão arterial
voltou ao normal, e as minhas artérias ainda estavam num estado
decente. Além disso, foi interessante poder quantificar em
milímetros de mercúrio, com toda a precisão, como é stressante ser-
se interno da especialidade sénior.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a363
Segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Hoje, uma paciente deu o meu nome ao seu bebé. Foi uma
cesariana programada, devido a uma apresentação pélvica, e
depois de o bebé nascer, eu disse: “Adam é um belo nome.” Os pais
concordaram, e o nome ficou fechado.
Digo “Adam é um belo nome” no final de cada parto que faço, e
esta foi a primeira vez que alguém aceitou a minha sugestão. Nunca
cheguei, sequer, a ter um nome do meio. Mas hoje esta falta foi
corrigida, e o esquadrão de Adams que eu tanto merecia foi lançado
no bloco cirúrgico número dois. (Não sei bem o que farei com esta
equipa, quando todos os seus membros se reunirem. Combater o
crime, talvez? Obrigo-os a fazer os meus turnos por mim?)
O interno do ano comum sénior que me assistiu na cesariana
perguntou-me quantos bebés fiz nascer. Fiz uma estimativa de mil e
duzentos. Ele pesquisou alguns dados populacionais e disse-me
que, em média, nove em cada mil e duzentos bebés nascidos no
Reino Unido se chamam Adam. É incrível, mas consegui fazer com
que oito conjuntos de pais desistissem de dar o meu nome aos seus
filhos.
Domingo, 15 de agosto de 2010
Convocado para uma sala de partos por uma das internas da
especialidade, que está com dificuldade em fechar o fórceps na
cabeça do bebé. Tivemos o conjunto ocasional de pares
incompatíveis que nos foi enviado recentemente – dois lados
esquerdos ou modelos ligeiramente diferentes embalados no
mesmo set depois da esterilização. Ao examinar, vejo que o ramo
esquerdo está bem colocado na parte lateral da cabeça do bebé. O
ramo direito, contudo, está encravado a meio caminho no reto da
paciente. Erro corrigido e o bebé nasce com segurança (por mim –
nesta altura, não confiaria na interna da especialidade para fazer o
parto de um pintainho).
“Temos de lhe contar?”, pergunta-me ela, com um ar conspirativo,
a testar os meus limites éticos como se eu fosse um construtor e ela
estivesse a tentar evitar pagar o IVA.“Claro que não”, respondo. “Tu
é que tens.”
Segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Terceira semana neste trabalho e estou prestes a acelerar os
critérios de elegibilidade para o tratamento de infertilidade152 aqui.
Hoje, vi um casal que teve um ciclo de FIV mal sucedido – o que
não foi nenhuma surpresa. Neste caso particular, a probabilidade
era de cerca de vinte por cento para um único ciclo. No local onde
eu trabalhava há um mês, a uma distância que pode fazer-se a pé,
ter-se-iam qualificado para três ciclos, o que aumentaria a sua
probabilidade para quase cinquenta por cento. Perguntam-me
quanto custaria o tratamento privado e eu respondo-lhes que seriam
cerca de quatro mil libras por ciclo. O seu olhar revela que se eu
tivesse respondido quatro biliões de libras153 era a mesma coisa.
As pessoas dizem que ter filhos é uma escolha, e é claro que isso
é verdade. Mas ninguém argumenta que as pacientes que têm
abortos espontâneos recorrentes não devem receber tratamentos
até terem um bebé – e o NHS, de forma correta, não limita os seus
cuidados. E o que dizer da paciente que teve duas gravidezes
ectópicas que a deixaram sem trompas de Falópio e sem
possibilidade de engravidar sem uma FIV? O que estamos a fazer é
a permitir que as pessoas façam uma escolha que teriam se não
fosse por uma condição médica. Ou não, porque o seu apelido
começa por G. Estou a exagerar, é claro que isso seria ridículo. Só
lhes seria negada por razões sensíveis, como viverem uma rua fora
da zona de influência.
Sugiro-lhes que reservem um tempo para pensarem sobre as suas
opções e perceberem, de facto, o que pretendem. Abordo as
possibilidades do acolhimento familiar e da adoção. “Não é bem a
mesma coisa, pois não?”, diz o marido. Não, provavelmente não é.
No pouco tempo que trabalho aqui, já anunciei a um casal de
lésbicas que podiam ter acesso ao tratamento, mas tive de recusar
a maternidade de substituição a um casal de homens homossexuais
https://calibre-pdf-anchor.a/#a364
https://calibre-pdf-anchor.a/#a365
que desejavam recorrer a este método. Disse a uma mulher que era
demasiado velha para o tratamento, segundo os nossos critérios,
embora ela não estivesse assim tão velha quando foi encaminhada
para aqui há poucos meses (e não estivesse demasiado velha a
poucas ruas de distância). Fui obrigado a desempenhar o papel de
um Deus malévolo.
Aqui, há um limite de IMC para receber tratamento – algo que eu
nunca tinha visto. Tive de dizer a uma paciente que como tinha três
quilos a mais não teria acesso à FIV, e que voltasse a procurar-me
depois de perder peso. Ela desatou a chorar, e eu registei
acidentalmente o seu peso no formulário como tendo alguns quilos a
menos154. Na semana passada, escrevi uma carta a alegar
circunstâncias excecionais, na qual solicitei tratamento para uma
mulher que teve uma criança de uma relação anterior que morreu na
infância, o que, cruelmente a torna não qualificável para o
tratamento aqui.
Saio da clínica, passando uma série de folhetos que explicam em
pormenor as diferentes opções de tratamento de fertilidade que,
nesta área, o NHS torna impossíveis. Deveríamos ser mais
honestos e substituí-las todas por algo como “Já pensou em arranjar
um gato?”
Quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Uma paciente oncológica da ginecologia, de oitenta e cinco anos,
numa longa estadia, partiu-nos o coração na ronda de ontem pela
enfermaria. Sente a falta do seu falecido marido, os seus filhos
quase nunca a visitaram desde que está no hospital e, aqui, ela nem
sequer pode beber a sua dose habitual de uísque. Decidi prescrever
uísque (cinquenta mililitros por noite) no seu diário médico e dei
vinte libras ao interno do ano comum para comprar uma garrafa no
supermercado e passá-la à equipa de enfermagem, para que
possam cumprir a receita na sua ronda de administração de
medicamentos.
Esta manhã, a enfermeira responsável pela enfermaria conta que
a paciente recusou a sua bebida porque, e passo a citar: “Jack
https://calibre-pdf-anchor.a/#a366
Daniel’s é mijo de gato.”
Segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Uma nova parteira supervisora, Tracy, começou a trabalhar aqui
esta semana e parece absolutamente adorável – calma, experiente
e sensível. É agora a segunda enfermeira-parteira responsável pela
unidade chamada Tracy, sendo a atual um pesadelo horrível,
sempre irritada. Para evitar confusões, decidimos distingui-las,
chamando-as “Traçado Tranquilizador” e “Traçado não-
tranquilizador”.
Sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Dilema moral. Um “bleep” Crackerjack do bloco operatório – é
sexta-feira, são 16h55, é algo extremamente demorado. O
concorrente de hoje é uma emergência ectópica, e o bloco gostaria
que eu aparecesse agora. Este é um momento particularmente
irritante, uma vez que esta noite é noite de saída romântica. Na
verdade, é mais do que uma noite de saída romântica. É noite de
saída romântica num local extremamente caro para pedir desculpa
por meia dúzia de noites de saídas românticas canceladas
recentemente e dissimular as clivagens cada vez mais profundas da
nossa relação. É a noite mais importante de todas. Não virá mal ao
mundo se eu sair às 18h00, digo a mim mesmo. Às 17h45 é hora de
começar a operar. O interno da especialidade da noite está preso na
urgência e não pode ajudar-me.
A melhor prática é operar por laparoscopia – cerca de uma hora
de trabalho para mim, deixa a paciente com uns pequenos buracos,
e irá para casa amanhã. Em alternativa, posso fazer uma rápida
incisão neste abdómen intocado de vinte anos e condicioná-la a
uma cicatriz a sério e a uma estadia mais longa – mas sair a tempo
e manter a minha relação no melhor caminho possível. Além disso,
talvez a paciente goste da comida do hospital? Hesito mais uns
instantes e peço o conjunto de laparoscopia.
Terça-feira, 5 de outubro de 2010
Ao telefone com a minha amiga Sophia, a queixarmo-nos dos
níveis de exaustão e desmoralização nos nossos hospitais. Estamos
os dois bastante saturados. Ela diz-me que acabou de concluir o
curso de piloto privado e que está a planear fazer uma pausa do
NHS. “E vais trabalhar para uma companhia aérea?”, pergunto.
Na verdade, ela irá fretar um avião e voar para vinte e quatro
países africanos, nos quais visitará áreas remotas onde a
morbilidade materna é a mais alta e ensinará às parteiras locais
algumas técnicas que salvam vidas. Irá também doar quantidades
enormes de produtos médicos e recursos educacionais para os
quais terá de angariar fundos antes de partir. Agora, sinto-me
exausto, desmoralizado e egoísta.
Segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Um texto de Simon, do nada; nenhuma notícia, boa notícia. E tem
sido assim nos últimos dezoito meses. Por isso, o meu coração fica
apertado quando vejo o seu nome a aparecer. Ele quer apenas a
minha morada, para me enviar um convite de casamento. Fico
comovido por ele se ter lembrado de mim, e com muita vontade de
ir, e depois desistir no último minuto por causa do trabalho.
Terça-feira, 12 de outubro de 2010
A última paciente de uma consulta pré-natal particularmente
agitada solicita uma cesariana eletiva devido a um parto vaginal
anterior traumático. Trata-se de um pedido bastante comum –
principalmente porque o parto vaginal não traumático é coisa que
não existe. O interno do ano comum sénior que a viu por último fez
o mais sensato e solicitou os registos do hospital onde ela teve o
último bebé, e passo os olhos pela documentação para ver se
aconteceu algo de especialmente traumático.
Ela teve um trabalho de parto demorado que resultou numa
extração com fórceps, e precisou de ir para o bloco operatório na
sequência de uma laceração cervical. Naquela noite, teve uma
hemorragia pós-parto gigantesca, o que a levou a sofrer uma
paragem cardíaca. Foi reanimada com sucesso – o que é evidente,
uma vez que está na consulta – e foi levada de volta para o bloco
operatório para suturar novamente a laceração. Mas aconteceu algo
incrível: correu ainda pior e resultou em danos no intestino delgado
e, depois, a uma ressecção intestinal e à formaçãode estoma. A
seguir, uma série de cartas clínicas da psiquiatria documentavam
uma recuperação gradual de Perturbação de Stresse Pós-
traumático provocada por estes eventos e pelo colapso do seu
casamento. E está de volta para voltar a fazê-lo. A mulher deve ser
tão dura que é possível patinar nela; é deixá-la ter o que quer.
Marco-lhe uma cesariana eletiva. É bom ter os padrões tão baixos
que quase tudo o que fazemos é uma melhoria quando comparado
com a última coisa que fizemos.
Quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Senti-me um pouco estranho da primeira vez que uma paciente
começou a enviar mensagens durante um exame interno, mas
agora parece razoavelmente comum. Hoje, durante uma citologia,
uma paciente usou o FaceTime para falar com uma amiga.
Domingo, 17 de outubro de 2010
Respondo a um alarme de emergência de noite, já tarde – é uma
distocia de ombros155.
Trata-se claramente de um bebé grande, com dois queixos duplos,
devido à força com que o seu pescoço está a ser comprimido contra
o períneo da mãe – e a enfermeira-parteira é experiente, pelo que
sei que já tentou tudo o que havia a fazer. Ninguém tenta enganar a
paciente e fingir que isto não é grave, mas, pelo menos até agora, é
uma paciente de sonho: está calma e faz tudo o que lhe é pedido.
Dreno a bexiga com um cateter, coloco-lhe as pernas na posição
de McRoberts, aplico pressão supra-púbica. Nunca lidei com uma
distocia como esta. Não há qualquer elasticidade; o bebé não se
https://calibre-pdf-anchor.a/#a367
mexe. Peço à parteira supervisora que veja se há especialistas
obstetras no edifício. Tento a manobra de rotação de Woods: nada.
Tento libertar o braço posterior: impossível. Coloco a paciente de
gatas e tento novamente todas as manobras nesta posição. Peço à
parteira que ligue à minha especialista. São já quase cinco minutos
de distocia de ombros e é preciso que algo aconteça urgentemente
para que o bebé possa sobreviver.
Para mim, há três opções de última hora. A primeira é a manobra
de Zavanelli – empurra-se a cabeça do bebé de volta para dentro e
faz-se uma cesariana de emergência. Nunca vi isto a ser feito, mas
acredito que consigo. Também estou bastante confiante de que, no
momento em que a levarmos para o bloco, o bebé terá morrido.
A segunda opção é a fratura intencional da clavícula do bebé para
permitir que ele saia. Também nunca vi isto a ser feito, não faço
ideia de como é que se faz na prática – é um procedimento que tem
fama de ser difícil, mesmo para mãos melhores do que as minhas.
A terceira opção é realizar uma sinfisiotomia, fazendo uma incisão
no osso púbico da mãe para alargar a saída. Mais uma vez, nunca
vi isto a ser feito, mas tenho a certeza de que posso fazê-lo
facilmente e de que esta será a forma mais rápida de tirar o bebé.
Informo a especialista, ao telefone, de que é isto que vou fazer – ela
confere tudo o que já tentei até agora e confirma o meu
entendimento sobre como devo executar a sinfisiotomia. Ela está a
vir de carro, mas sabemos os dois que, quando ela chegar, tudo terá
acabado, de uma forma ou de outra.
Nunca me senti tão mal numa situação clínica: estou prestes a
partir a pélvis da paciente e talvez seja tarde demais para o seu
bebé. Antes de pegar no bisturi, faço uma última tentativa de
desbloquear o braço posterior do bebé. As várias manobras e
mudanças de posição fizeram com que algo se movesse, e o braço
sai, seguindo-se-lhe um bebé muito mole, que a parteira passa aos
neonatologistas. Enquanto aguardamos o choro que pode, ou não,
chegar, lembro-me de uma frase antiga dos manuais, que descreve
um parto bem-sucedido com uma distocia de ombros como uma
“força muscular maior ou um malabarismo infernal” e entendo
completamente a que é que o autor estava a referir-se. O bebé
chora. Aleluia. A enfermeira-parteira também desata a chorar.
Teremos de aguardar para saber se há uma paralisia de Erb156, mas
o neonatologista sussurra-me que os dois braços parecem estar a
comportar-se normalmente.
Vejo que provoquei na mãe uma laceração de terceiro grau. Não é
o ideal, mas é um dano colateral muito menor, no grande esquema
das coisas. Peço à parteira que a prepare para o bloco, o que me dá
vinte minutos para redigir as notas do parto e pegar numa chávena
de café. A minha interna do ano comum sénior entra – posso fazer
um parto rápido com ventosa noutra sala?
Quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Talvez seja porque a sua língua materna é o grego. Talvez ele se
tenha esquecido da nossa conversa anterior na qual me ofereci para
o ajudar na técnica de ecografia. Talvez eu devesse ter formulado a
ideia através de algo como “determinar o género fetal”. Mas, a julgar
pelo olhar de confusão e nojo do interno do ano comum sénior e
pelo seu recuo precipitado pelo corredor, o que eu nunca deveria ter
dito era um animado: “Gostava de me ver a fazer a sexagem de um
bebé?”
Quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Pego nas notas para a próximo paciente que irei ver na consulta
de ginecologia. Reconheço o nome – folheando as notas, vejo uma
carta médica que escrevi para o médico de família em março.
Apercebo-me de uma falha horrível no fecho da carta, graças à
ausência de “hesite em”.
Se tiver alguma dúvida, por favor não contactar.
No entanto, funcionou. Nenhum sinal.
Quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Estou na saúde ocupacional para um teste de seguimento do VIH,
na sequência de uma lesão com uma agulha de uma paciente
https://calibre-pdf-anchor.a/#a368
seropositiva, há três meses. Ela tem uma carga viral indetetável,
mas ainda não é ideal, nem de perto, e eu tenho estado a pensar
nisso constantemente desde então, como se fosse uma dívida às
Finanças.
Faço conversa fiada com o interno da especialidade da saúde
ocupacional enquanto ele me retira sangue, pergunto-lhe o que é
que acontece a um obstetra seropositivo. “Não pode fazer
procedimentos clínicos, pelo que não poderia estar no bloco de
partos, no bloco operatório, de prevenção – só consultas, penso.”
Não o digo, mas isso tornaria o diagnóstico157 menos insuportável.
Domingo, 31 de outubro de 2010
Na festa de Halloween de um amigo, vejo alguém que conheço de
um sítio qualquer. Parece-me que talvez da escola.
Aproximo-me para o cumprimentar. Ele fica na mesma. Não é da
escola. Da faculdade? Não.
És de onde? Trabalhámos juntos? Humilhantemente para mim,
mas por uma questão da sua própria sanidade, faz com que eu pare
e diz-me que talvez o tenha visto na televisão, uma vez que é
apresentador, e que se chama Danny. Humilhantemente para ele,
digo-lhe que o nome não me é estranho, mas que tenho a certeza
que não é daí que o conheço. A mulher dele aparece e, então, eu
percebo: fiz o parto do bebé deles por cesariana há mais ou menos
um ano.
Muitos abraços, apertos de mãos e também “Oh, mas que
coincidência”. Danny faz uma piada e diz que está feliz por ter sido
uma cesariana, porque não saberia como se sentiria a falar com um
homem que já viu a vagina da sua mulher. Quero dizer-lhe que, na
verdade, teria visto a vagina da sua mulher ao cateterizá-la para o
procedimento e que, além disso, se ele quiser algo capaz de fazer
implodir o seu cérebro, eu também teria visto o lado oposto durante
a operação. Não digo nada disto, para o caso de ele não estar a
brincar e as coisas poderem ficar ainda mais estranhas.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a369
Segunda-feira, 8 de novembro de 2010
A cereja em cima de um turno noturno recordista do inferno (com
um interno da especialidade substituto que quase não passou do
valor ornamental) foi uma cesariana de emergência às 7h45, a
quinze minutos da suposta meta. Cesariana, depois outra cesariana,
depois ventosa, depois fórceps, depois cesariana, e depois perdi a
conta, mas mais uma série de bebés e agora uma cesariana final.
Estou completamente exausto, e teria, com todo o prazer, arrastado
os pés daqui para fora e passado tudo para o turno da manhã, não
fosse o traçado pré-terminal158.
Há doze horas que não me sento, muito menos fechei os olhos, o
meu jantar está por comer no meu armário e, sem querer,acabo de
chamar “mãe” a uma enfermeira-parteira. Corremos para o bloco e
faço o parto muito rapidamente. A recém-nascida está mole, mas os
neonatologistas fazem a sua magia negra e, pouco depois, ela faz o
tipo de ruído certo. Os gases do cordão confirmam que tomámos a
decisão mais adequada e coso a paciente a sentir-me como se
estivesse meio pedrado.
O neonatologista puxa-me de lado para me falar depois de sair do
bloco e diz-me que cortei a bochecha da bebé com o meu bisturi, ao
fazer a incisão uterina. Não é muito mau, mas tinha de me informar.
Saio dali e vou diretamente ver a bebé e os pais. Não é um corte
profundo, nem comprido, não teve de levar pontos e a lesão não irá
deixar cicatriz, mas a responsabilidade foi totalmente minha. Peço
desculpa aos pais, que parecem não se importar nada.
Estão apaixonados pela sua bela menina (apenas um pouco
mutilada), e dizem-me que perceberam que o parto teve de ser feito
um pouco à pressa e que essas coisas acontecem. Quero dizer-lhes
que essas coisas não devem acontecer, que nunca me aconteceram
antes, e que é quase certo que não me aconteceriam no início do
turno.
Ofereço-lhes um folheto com os detalhes do gabinete do PALS,
mas eles não o querem. Um quase corte da Ordem para mim, e um
verdadeiro corte na bochecha para a pobre bebé. Dois centímetro
acima e ter-lhe-ia tirado um olho, alguns milímetros mais para dentro
https://calibre-pdf-anchor.a/#a370
e teria provocado cicatrizes e perda de sangue. Há bebés que
morreram por causa de lacerações em cesarianas. Documento a
nossa conversa nas minhas notas, preenchemos o formulário de
incidente clínico, faço tudo o que me é exigido pelo mesmo sistema
que permitiu que isto acontecesse. Daqui a pouco tempo, serei
chamado por alguém para ser gentilmente (ou nem por isso)
castigado, e em nenhum momento irá ocorrer-lhe que pode haver
um problema mais estrutural159.
Quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Suspeitei que o marido do casal na consulta de infertilidade tinha
uma infeção do trato urinário. Por isso, dei-lhe um recipiente e disse-
lhe que fosse à casa de banho recolher uma amostra. Ele pegou no
recipiente e olhou-o durante alguns segundos antes de sair. Talvez
eu não tenha sido suficientemente claro, mas ele voltou
(pouquíssimo tempo depois) com alguns mililitros de sémen no
recipiente. É claro que a falta de comunicação podia ter sido pior:
ele podia ter defecado, sangrado ou enfiado um espeto nos
ventrículos cerebrais para extrair um boa dose de líquido
cefalorraquidiano. Pergunto-me se a razão pela qual eles estão a ter
dificuldades em conceber é o facto de ele urinar na mulher durante o
sexo.
Domingo, 14 de novembro de 2010
É domingo, hora de almoço, e a paciente RZ precisa de uma
cesariana por falta de evolução do trabalho de parto. A paciente
está feliz por fazer a cesariana, mas o seu marido não quer que seja
eu a fazê-la porque sou do sexo masculino. São muçulmanos
ortodoxos e, pelos vistos, alguém lhes disse que podem ser
atendidos apenas por médicas. Digo-lhes que não sei quem lhes
disse isso, mas, embora tenhamos muitas vezes médicas
disponíveis, trabalhamos por escalas e, neste momento, toda a
equipa de obstetrícia e ginecologia é do sexo masculino, incluindo o
especialista de prevenção em casa.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a371
“Então, está a dizer-me, sinceramente, que não há mulheres
médicas no hospital?”
“Não, senhor, estou a dizer-lhe que não há médicas no hospital
em condições de fazerem uma cesariana. Tenho a certeza de que
não teria qualquer dificuldade em arranjar uma dermatologista para
a sua mulher.”
A paciente está claramente muito mais feliz do que o seu marido
com a ideia de ser eu a fazer a cesariana, mas a verdade é que ela
não está autorizada a falar. Vemos todas e nenhumas opções,
ficando ainda mais longe do resultado de que precisamos quanto
mais falamos nisso. “Quando é que chega a próxima médica?”
Quando os turnos mudarem, daqui a sete horas, o que seria uma
péssima ideia para o vosso bebé. “A enfermeira-parteira não pode
fazer a cesariana?” Não, e a empregada da limpeza também não.
Ligo ao especialista para obter algum apoio moral. Sugere que eu
faça bluff e eu suspeito de que está meio a falar a sério. De volta ao
quarto, pergunto: “O Alcorão não permite que médicos do sexo
masculino operem em caso de emergência?” – é o caso, lembro. É
treta, mas parece o tipo de coisa que um texto religioso pode dizer.
Eles pedem-me cinco minutos, fazem alguns telefonemas e o
marido vem ter comigo para me dizer que estão felizes por ser eu a
fazer a cesariana. Diz-mo de uma forma que me faz sentir como se
tivesse de lhes estar grato. E, na verdade, estou muito grato, mas só
porque a minha preocupação principal era o parto seguro da sua
criança, não os sentimentos de Deus (ou de qualquer outra pessoa)
relativamente a esta questão. Além disso, não tenho um Plano B e
não sou capaz de imaginar a quantidade interminável de papelada
que de outra forma me perseguiria para todo o sempre.
O anestesista (um homem, naturalmente) aparece para os
preparar para o bloco, enquanto eu me pergunto se isto será uma
tendência crescente. Talvez devêssemos inspirar-nos nas limpezas
das casas de banho e encher o chão de sinais amarelos a dizer
“Obstetra Masculino de Serviço”.
Pouco tempo depois, estamos no bloco e o bebé nasce em toda a
segurança. Mãe saudável, bebé saudável – tudo o que desejamos,
e eles deveriam estar contentes por tudo ter corrido bem, uma vez
que o mesmo não podem dizer tantas famílias que cruzam estas
portas.
Neste caso, o marido está muito grato. Desculpa-se por me fazer
perder tempo e aumentar a pressão a que estou sujeito, e agradece-
me por tudo o que fiz. Tal como acontece com a maioria dos pais de
primeira viagem, é possível que estivesse apenas ansioso com toda
a situação, e presumo que o risco adicional de uma eventual
condenação eterna também não terá ajudado.
Ele vai lá abaixo, às lojas. Preciso de alguma coisa? Tenho uma
certa vontade de ver a sua reação se lhe pedisse uma sandes de
bacon, uma garrafa de Smirnoff e uns poppers.
Quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Era suporto estar de volta a casa às 19h00 em ponto mas são
21h30 e acabei de sair do bloco de partos. Parece-me apropriado
que os meus compromissos laborais me forcem a reagendar a
recolha de todos os meus pertences do apartamento. O lado bom é
que o meu novo apartamento de solteirão deprimente está a apenas
dez minutos do hospital.
Segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Uma paciente que aguarda ser observada na urgência devido a
uma pequena dor de barriga afunda-se cada vez mais na minha lista
de prioridades, ao longo da tarde, à medida que o bloco de partos
tem cada vez mais gente. Estou a meio da estabilização de uma
paciente com pré-eclâmpsia grave quando sou incomodado por um
interno da especialidade da urgência, que está furioso.
“Se não vier à urgência de imediato, esta paciente vai falhar o
objetivo das quatro horas”160.
“Pois. Mas se for, a minha paciente atual vai morrer”. Está dito.
Há um silêncio de pelo menos cinco segundos durante o qual é
óbvio que ele está a perguntar-se se pode responder à letra com
algo que irá convencer-me a descer e a evitar que ele tenha uma
carga de trabalhos. Passo este momento maravilhado com aquele
https://calibre-pdf-anchor.a/#a372
sistema que está tão obcecado por objetivos arbitrários que a sua
resposta implica demorar imenso tempo a gerar.
“Bem. Venha quando puder”, responde ele, finalmente. “Mas não
estou nada satisfeito com isto”. Quando ela estiver fora de perigo,
vou ver se me lembro de pedir à minha paciente com pré-eclâmpsia
que lhe envie um pedido de desculpas.
Sexta-feira, 26 de novembro de 2010
A última das minha pacientes pré-operatórias a dar o seu
consentimento antes de ir para o bloco é QS, uma idosa com uma
histeroscopia após algum sangramento vaginal recente. Ela é
acompanhada por um filho barulhento e impertinente, de calças
vermelhas. Ele acha que quanto mais tratar mal a equipa médica,
mais convencida ela ficará dasua importância e, portanto, mais bem
tratado ele será. Incrivelmente, esta é uma crença comum e, o que é
muito irritante, ele está totalmente certo. As pessoas como ele são
exatamente o tipo de pessoa que se queixa ao PALS se forem
minimamente contrariadas.
Mordo a língua a cada pergunta que ele me faz. “Quantas destas
operações é que já fez? Não deveria ser o seu especialista a fazer
esta?” Se este fosse a um restaurante e eu fosse o empregado,
estaria agora a revolver o meu cuspo e o meu esperma no seu bife
bourguignon; mas a mãe é uma doce velhinha e não tem de sofrer
porque o filho é um verdadeiro imbecil. Estamos prontos. “Trate-a
como se fosse a sua própria mãe”, diz-me ele. Garanto-lhe que
tenho a certeza de que não é isso que ele quer.
Quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A passar a tarde de domingo no bloco de partos com uma interna
do ano comum sénior excelente. Ela pede-me que reveja o CTG de
uma paciente e eu concordo com a avaliação segundo a qual a
paciente tem de ser submetida a cesariana devido a sofrimento
fetal. Fazem um belo casal, recém-casados; é o seu primeiro bebé e
eles entendem a situação.
A interna do ano comum sénior pergunta se pode fazer a
cesariana, enquanto eu lhe presto auxílio. No bloco, ela atravessa
as várias camadas: pele, gordura, músculos, peritoneu 1, peritoneu
2, útero. Após a incisão uterina, em vez de líquido amniótico,
começa a sair sangue – muito sangue. Houve descolamento
prematuro da placenta161. Mantenho a calma e peço à interna do
ano comum sénior que retire o bebé. Ela não consegue, uma vez
que há algo a impedi-la. Assumo a cirurgia. A placenta está a
impedi-la de retirar o bebé.
A paciente tem placenta prévia por diagnosticar. Isto deveria ter
sido detetado nas ecografias, e ela nunca deveria ter permissão
para entrar em trabalho de parto. Retiro a placenta e depois o bebé,
que está claramente morto. Os neonatologistas tentam ressuscitá-lo,
mas sem sucesso. O útero da paciente está a sangrar fortemente –
um litro, dois litros. As minhas suturas não surtem efeito, a
medicação não surte efeito. Peço que a especialista venha com
urgência. A paciente está agora sob anestesia geral e recebe
transfusões de sangue de emergência; o marido foi retirado do
bloco. A perda de sangue é agora de cinco litros. Tento uma sutura
de B-Lynch162 – sem sorte. Estou a apertar o útero o mais que
consigo, com ambas as mãos – é a única coisa que para a
hemorragia.
Chega a especialista, faz mais uma daquelas suturas – não
funciona. Vejo o pânico nos olhos dela. O anestesista diz-nos que
não consegue colocar fluido com suficiente rapidez na paciente para
substituir o que ela está a perder e estamos a arriscar danificar os
órgãos. A especialista chama outro colega – ele não está de
prevenção, mas é o cirurgião mais experiente de que ela se lembra.
Apertamos o útero por turnos até ele chegar, vinte minutos depois.
Ele faz uma histerectomia; a hemorragia está finalmente sob
controlo. Doze litros. A paciente vai para os cuidados intensivos e
dizem-me que espere o pior. A minha especialista fala com o
marido. Começo a escrever as minhas notas da cirurgia, mas paro
e, em vez disso, choro durante uma hora.
https://calibre-pdf-anchor.a/#a373
https://calibre-pdf-anchor.a/#a374
150 A pressão sanguínea deve ser inferior a 120/80 mmHg, ou milímetros de mercúrio. Se
tiver colocado um tubo de vidro cheio de mercúrio no seu coração, é o número de
milímetros em que a pressão elevaria o nível – embora usemos atualmente um método
ligeiramente menos invasivo para o medir. O número superior é a pressão quando o seu
coração faz o primeiro som cardíaco, o número inferior é quando faz o segundo som
cardíaco.
151 A monitorização ambulatória implica andar com uma braçadeira de pressão sanguínea
no braço durante um dia inteiro, que incha a cada quinze minutos ou mais e regista os
dados aos quais o médico irá aceder. É particularmente útil na “hipertensão de bata
branca”, quando os pacientes ficam nervosos ao visitar o médico, e a sua pressão
sanguínea dispara sempre que é medida. Cerca de uma semana antes dos exames finais
na faculdade de Medicina, o meu amigo Antonin perguntou, durante a orientação tutorial:
“Por que é que se chama hipertensão de gata branca?” Atualmente, é especialista
hematologista (para o caso de querer precaver-se).
152 Houve um “rebranding” da clínica de infertilidade, que passou a designar-se “clínica de
subfertilidade” no decurso da minha formação, para fazer com que soasse menos negativa
e, depois, para “clínica de fertilidade”, que é um pouco como “la la la, isso não está a
acontecer”, com as mãos a taparem os ouvidos. A menos que lá na oncologia estejam
agora a gerir a clínica “definitivamente, não tenho cancro da mama”?
153 Na maioria dos aspetos da medicina privada, obtêm-se algumas vantagens
relativamente ao NHS, mas não há uma grande diferença nos cuidados reais. É-se visto
um pouco mais rápido, a rececionista tem os dentes todos e há uma lista de vinhos
decente para o período de internamento – mas obtém-se o mesmo tratamento. Contudo,
no que diz respeito à medicina da infertilidade, o setor privado está ligeiramente à frente.
Investigam e tratam as pessoas até que elas tenham um bebé (ou um pedido de
insolvência). O NHS exige que as pessoas se encaixem numa demografia bastante
limitada para se qualificarem para qualquer tratamento, e muitas vezes isso não é
suficiente para se atingir um resultado positivo. Entendo que o orçamento seja limitado,
mas nunca ouvimos falar dessa questão noutras áreas da medicina. “Não tratamos
leucemia – o orçamento é limitado. Só tratamos fraturas do lado direito do corpo – o
orçamento é limitado.”
154 Será aquele “truque estranho de perda de peso que os médicos não querem que você
conheça” muito badalado em anúncios na Internet?
155 A distocia de ombros é uma das experiências mais assustadoras para um obstetra – a
cabeça do bebé sai, mas os ombros ficam presos. Durante todo o tempo em que isto está a
acontecer, o cérebro do bebé não está a receber oxigénio, por isso é uma bomba-relógio
de uma questão de minutos antes de ocorrer um dano cerebral irreversível. Todos temos
formação regular sobre como gerir emergência, em particular, no nosso tronco cerebral,
estão impregnados todos os tipos de mnemónicas que nos ajudam a ultrapassá-la, assim
como todos os tipos de manobras físicas: exercer pressões suprapúbicas, McRoberts
(hiperflexão das pernas), manobras de Woods (girar o bebé pelos ombros), fazendo sair o
braço posterior.
156 A paralisia de Erb é uma lesão nervosa no braço resultante de forçar o pescoço neste
tipo de cenário.
157 Desde 2013 que é aceitável que um médico seropositivo com carga viral indetetável
opere, após uma década de pressão no sentido de provar que o risco para os pacientes é
insignificante. O resultado da minha análise sanguínea foi negativo, caso esteja a
perguntar-se se o livro estará prestes a tornar-se mais sinistro.
158 Pré-terminal significa que o bebé está prestes a morrer se nada for feito.
159 Há quase uma década, trabalhei no mesmo hospital, como secretário clínico, durante as
férias da universidade. Éramos obrigados a fazer uma pausa de vinte minutos depois de
cada duas horas a olhar para o ecrã de um computador, por razões de “saúde e
segurança”.
160 Como os hospitais não estão suficientemente sob pressão, o governo decidiu que todos
os pacientes da urgência devem ser admitidos ou ter alta no espaço de quatro horas,
independentemente de terem tido um acidente vascular cerebral ou entalado um dedo. Se
mais de cinco por cento desses pacientes não cumprirem o objetivo, o hospital é multado e
a administração faz a vida negra ao pessoal da urgência.
161 O descolamento prematuro da placenta é uma complicação da gravidez, na qual toda ou
parte da placenta se separa do útero. Como o oxigénio e os nutrientes do bebé são
recebidos através da placenta, esta situação pode revelar-se de extrema gravidade.
162 As suturas de B-Lynch são feitas de pontos muito grandes que circundam o útero para

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