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ANTES DE LEVANTARMOS VOO…
Esta história foi escrita para toda a gente.
 
Mas é também uma história que pode angustiar ou perturbar quem
estiver a viver ou a assistir a um ambiente abusivo em sua casa, tendo
por isso de ser especialmente forte e corajoso.
Se for esse o teu caso e te preocupar o facto de alguém que conheces
estar a ser vítima de maus-tratos, consulta as últimas páginas do livro
para ficares a saber mais sobre as pessoas que estão prontas, e mais do
que prontas, para te ajudar a ti e àqueles que amas. Seja qual for o teu
tamanho — e o daqueles que amas.
 
Com todo o nosso carinho e toda a nossa poeira cósmica…
 
Para a minha tia, Mumtahina (Ruma) Jannat,
cuja estrela fica ao pé da Lua.
 
Para os dois raios de luz que ela foi obrigada a deixar, e para todas as
crianças que sobrevivem aos impactos da Violência Doméstica*.
 
E para a minha mãe e o Zak. Sempre.
 
* A autora desta história não gosta de associar o termo «Doméstica» à palavra «Violência». Isto porque
o termo «Doméstica» pressupõe que a violência que acontece dentro de casa deve permanecer privada,
mesmo quando é crime, o que leva a que muitas pessoas tenham vergonha de fazer queixa. No entanto,
uma vez que este é o termo predominante, optou por usá-lo neste livro, por motivos de clareza.
 
Буди скроман, јер си створен од земље.
Буди племенит, јер си направљен од звезда.
 
Sê humilde, pois és feito de terra.
Sê nobre, pois és feito de estrelas.
PROVÉRBIO SÉRVIO (ATRIBUÍDO)
 
Determinado como um asteroide a arder, flamejando
pelos céus.
HUGO REES (10 ANOS, POETA, ESCOLA DE CRANMORE)
 
ÍNDICE
Antes de levantarmos voo…
 
1. Um mapa estelar
2. As regras da casa de acolhimento
3. O fenómeno no céu
4. A estrela da minha mãe
5. O maior concurso da galáxia
6. As partidas do tempo
7. A detetive secreta
8. A missão ultrassecreta da meia-noite dos caçadores de estrelas!
9. Duas caras
10. O dia perdido
11. O tigre, o guarda-roupa e a bruxa
12. A fuga não-tão-secreta
13. O longo caminho para a via lógica
14. A noite dos quatro contos
15. Artigos estranhos e suspeitos
16. Notícia de última hora!
17. Por Cima e Por Baixo do chão de Londres
18. Estibordo
19. Passar a linha negra e fina
20. Um trabalho de loucos
21. A maior estrela de Hollywood
22. O ladrão que roubou uma vida
23. As sete irmãs
24. A estrela que vejo da minha janela
 
Um sincero agradecimento por contribuíres para a Herstory
O que é a violência doméstica?
Alguns factos e questões que os computadores humanos poderão
explorar…
As estrelas Nesta história
Nota da Autora
Se fores um pequeno sobrevivente…
Para os mais crescidos…
Agradecimentos
Lê também o outro livro maravilhoso desta autora!
1. 
UM MAPA ESTELAR
Sempre quis ser uma Caçadora de Estrelas.
Toda a gente lhes chama astrónomos, mas eu acho que «Caçadora de
Estrelas» soa muito melhor, por isso é o que chamo àquilo que serei.
Mas não vou ser uma caçadora em busca de estrelas antigas. Eu quero
descobrir as novas: as acabadas de nascer, que andam à procura das
pessoas que deixaram. Li uma vez num livro da biblioteca que as estrelas
podem brilhar durante milhões e biliões, e até mesmo triliões de anos.
Espero que isso seja verdade, porque há uma estrela que eu nunca quero
que deixe de brilhar. Ainda não sei onde está, mas sei que anda por aí
algures, à espera de que eu a encontre.
Na casa verdadeira onde vivia com os meus pais, tinha no meu quarto
três prateleiras inteiras cheias de livros, e pelo menos metade deles eram
sobre estrelas e viagens espaciais. As paredes e o teto estavam cheios de
pósteres e estrelas que brilhavam no escuro, que os meus pais me
tinham comprado depois de eu pedir muito. Mas o melhor do meu
quarto era um globo celeste muito especial, que tinha mesmo ao lado da
cama. De muito longe, parecia um globo terrestre, mas não era. Era um
globo do céu noturno que, quando se acendia, em vez de países e
oceanos, fazia brilhar todas as constelações de estrelas que se possa
imaginar. Sempre que o acendia, mostrava uma nova constelação, e eu
sabia-as todas de cor. É por isso que não vou ter dificuldade em descobrir
estrelas novas quando for caçadora de estrelas: quando conhecemos
uma imagem de trás para a frente, sabemos logo quando há algo de
novo nela.
Quem que dera que a minha mãe não se tivesse esquecido de embalar
o globo celeste. Às vezes tenho tantas saudades dele, que me pergunto
se algum dia vou deixar de ter. Ainda mais agora, que eu e o Noah
tivemos de nos mudar para o sítio estranho onde estamos a morar.
Há dois dias que aqui estamos e, apesar de a casa ser muito mais
agradável do que aquela em que tivemos de nos esconder com a mãe,
não sei bem se gosto de cá estar. Há por aqui muitos barulhos
assustadores. As tábuas do chão rangem mesmo não estando lá
ninguém, há coisas invisíveis a bater nos vidros da janela à noite, como
se quisessem entrar, e ouço ruídos baixinhos atrás das paredes. O Noah,
o meu irmão mais novo, acha que a casa está assombrada. Fica com
tanto medo à hora de dormir, que tenho de o fazer deitar-se com a
cabeça por baixo dos cobertores e de o abraçar com força até que
adormeça. O Noah só tem 5 anos. Não faz mal uma criança de 5 anos ter
medo de fantasmas, mas é um bocado parvo uma de 10 acreditar neles,
por isso eu não acredito. Por muito que os ruídos me deem vontade de
me esconder com ele debaixo dos cobertores.
Mas não são só os barulhos que tornam esta casa estranha: são
também as pessoas que aqui moram.
Há um rapaz chamado Travis que não fala. Tem 11 anos, é alto e
magro, e parece uma banda elástica demasiado esticada. Tem dentes
muito salientes por causa do aparelho prateado que usa e uma boca que
mais parece ter sido invadida à toa por andaimes de construção. A
maioria do tempo, limita-se a olhar para mim com os seus enormes
olhos cinzento-acastanhados, esbugalhados como bolas de pingue-
pongue. Não gosto que as pessoas fiquem a olhar para mim. Começo a
ficar com as bochechas vermelhas e a ter vontade de fugir. Mas ele não
para de olhar, mesmo quando eu também fixo o olhar nele.
Depois há o Ben, que tem imenso cabelo preto e fofinho que lhe
parece ter sido posto na cabeça por uma colher de gelado gigante. Tem
10 anos, como eu, olhos muito castanhos que parecem fazer-nos
milhares de perguntas e uma borbulha redonda e reluzente na bochecha
esquerda, que ele espreme quando acha que ninguém está a ver. Anda
sempre com uma camisola com capuz do Newcastle United, que veste
ao contrário, e come pipocas e batatas fritas do capuz como se fosse uma
tigela. O Ben diz coisas estranhas e faz-me todo o tipo de perguntas,
como se fosse um detetive de uma série de televisão e eu fosse a
criminosa. Perguntas como «Então, porque é que estão aqui?», ou
«Vocês também têm de ser adotados?», ou «Bolas carambolas, Aniyah!
Não gostas de filetes? Posso comê-los eu?» Detesto que me façam
perguntas quase tanto como detesto que fiquem a olhar para mim,
principalmente quando não sei as respostas e a voz não me sai. Por isso,
quando ele me pergunta alguma coisa, olho para o chão e encolho os
ombros.
E depois há a Sophie. Tem 13 anos, o que faz dela a mais velha de nós,
apesar de ainda ser mais baixa do que o Travis. Tem cabelo ruivo, liso e
comprido, e exatamente 27 sardas castanhas à volta do nariz. Contei-as
mal a conheci, porque gosto de sardas. Acho que as sardas e as estrelas
têm quase o mesmo aspeto — minúsculas pintas flamejantes —, e é
divertido tentar ver que formas fazem. Quem me dera ter sardas, mas
não tenho nem uma. Se eu e a Sophie fôssemos amigas, dizia-lhe que as
sardas dela formam uma baleia azul ou um barco com três velas,
dependendo da forma de as unir. Mas a Sophie não gosta de mim nem
do Noah, por isso acho que nunca lhe hei de dizer isso. Sei que ela não
gosta de nós porque, sempre que a Sra. Iwuchukwu não está a ver, nos
lança olhares de ódio e fica com os olhos em fresta e os dentes cerrados.
Aqueles olhares fazem-me sempre ficar com as mãos e os pés
enregelados.
A Sra. Iwuchukwu é a dona da casaem que estamos a viver, e é um
dos adultos mais estranhos que já vi. Usa uma enorme quantidade de
colares, pendentes e pulseiras, de maneira que, quando se mexe, faz
imensos barulhinhos que lembram berlindes dentro de um saco. Sorri
tanto, que penso que deve andar sempre com as bochechas a doer.
Nunca vi ninguém sorrir tanto quanto ela. Na maior parte das vezes,
ponho-me a olhar em volta para ver o que está a fazê-la sorrir, porque,
normalmente, para sorrirmos, é preciso que haja um motivo. Mas a
Sra. Iwuchukwu não parece precisar de um motivo. Quando a conheci,
pensei que era a mãe do Ben, porque tinham o mesmo tipo de cabelo,
forte e volumoso, e exatamente o mesmo tom de pele. Ela tem lábios
cor-de-rosa brilhantes, usa imensa sombra com purpurina à volta dos
olhos, que são castanhos, e tem um sotaque que tanto dá a impressão de
que está a cantar, como de que está a ralhar. Mas ainda não sei se eu e o
Noah gostamos dela. De qualquer forma, temos de tentar, assim como
temos de tentar que ela goste de nós, porque, agora que todos
desapareceram, ela é a única pessoa que nos pode manter juntos. É o
que fazem as mães de acolhimento: mantêm crianças como eu e o Noah
juntas quando os pais delas desaparecem.
Até há duas noites, não sabia o que era uma mãe de acolhimento.
Acho que não precisava de saber, porque antes tinha uma mãe de
verdade. Mas, quando a minha mãe partiu, apareceu uma mulher alta,
de fato preto, e dois agentes da polícia, que nos disseram que tínhamos
de ir para uma casa de acolhimento, onde iríamos conhecer a nossa
nova mãe de acolhimento. Não gostei da palavra «acolhimento»: parecia
referir-se a coisas a fingir, coisas que tentam fazer crer que são nossas,
quando na verdade não são. O Noah também não gostou de ouvir aquilo
e desatou logo a chorar e a gritar aos soluços.
O Noah só fica com soluços quando se sente muito assustado. A
minha mãe disse que eu tinha de tomar conta dele para sempre, por
isso, quando ele começou a chorar e a soluçar à frente dos polícias e da
senhora de fato, tentei dizer-lhe com os olhos para não ter medo, porque
eu estava ali para o proteger. Mas acho que ele não viu as minhas
palavras em forma de olhar, porque, durante todo o tempo em que
fomos no banco de trás do carro da polícia e durante toda a noite, não
parou de chorar e soluçar. Gostava de lhe ter conseguido dizer coisas
boas com palavras a sério, em vez de palavras invisíveis, mas fiquei sem
voz quando ouvi a minha mãe partir e deixar-nos, e assim continuo.
Acho que vou voltar a ter voz quando souber com toda a certeza onde é
que a minha mãe está.
É por isso que não posso esperar até ser adulta para me tornar
caçadora de estrelas: tenho de ser caçadora agora, para descobrir em que
parte do céu é que a minha mãe está neste momento. Todas as estrelas
no céu têm um nome e uma história, e as estrelas muitíssimo especiais
passam a fazer parte de uma constelação e, assim, de uma história ainda
maior. Sei isso porque a minha mãe me contou mesmo a verdade acerca
das estrelas depois de vermos juntas O Rei Leão.
O Rei Leão é o meu filme de animação preferido de todos os tempos. A
minha mãe deixava-nos vê-lo, a mim e ao Noah, sempre que o meu pai
chegava a casa do trabalho e tinha de se pôr a arrastar móveis pela casa.
A minha mãe piscava o olho e trancava a porta, depois pegava no
comando e dizia «Vamos deixar o mundo de lado, boa?» Às vezes, o meu
pai batia com força na porta e chamava-a, e então ela deixava-nos a ver o
filme sozinhos, mas nós não nos importávamos. O Noah gostava
especialmente do Timon e do Pumba e, sempre que eles apareciam,
punha-se a rir e a dançar.
Mas a minha parte preferida é aquela em que o pai do Simba lhe diz
que todos os grandes reis leões do passado estão a olhar do alto das
estrelas e que, por causa deles, ele nunca terá de se sentir só. A primeira
vez que ouvi o pai do Simba dizer aquilo, perguntei à minha mãe se só
os reis podiam tornar-se estrelas. Não me parecia justo que as rainhas
não pudessem ser estrelas também, e quis saber o que acontecia se não
conhecêssemos ninguém que fosse rei ou rainha. Ficávamos sozinhos
para sempre? A minha mãe olhou para mim com os seus olhos cor de
chocolate e franziu a testa. Ficou algum tempo a pensar na minha
pergunta e depois disse que era evidente que as rainhas também se
transformavam em estrelas. E que, além disso, as pessoas normais com
um grande brilho no coração também se tornavam estrelas, das maiores
que há no céu. Maiores ainda do que as estrelas de reis e rainhas! Por
isso, toda a gente devia conhecer pelo menos uma das estrelas que nos
olham do alto.
Ainda bem que minha mãe me disse aquilo, porque, se não tivesse
dito, eu não saberia que som foi aquele que se ouviu quando ela nos
deixou para se transformar numa estrela.
Assim que o Noah adormecer e os braços dele amolecerem o suficiente
para me largarem, vou fazer um mapa de todas as estrelas que consigo
ver da janela. Vou trabalhar nele todas as noites, até encontrar todas as
estrelas novas no céu. Tenho de encontrar a estrela mais nova e mais
brilhante de todas, porque essa é que é a minha mãe. Hei de saber
quando a vir, porque, de todas as pessoas que já conheci, ela tinha o
maior e melhor coração de todos. E as pessoas com corações assim
nunca vão parar à terra: vão parar ao céu.
2. 
AS REGRAS DA CASA DE ACOLHIMENTO
Apesar de ser o nosso terceiro dia na casa de acolhimento, nos primeiros
segundos após acordar, esqueço-me de que a minha mãe partiu, que o
meu pai não consegue encontrar-nos e que já não estou em casa, no
meu quarto. Mas depois os meus olhos começam a ver bem e o meu
cérebro começa a lembrar-se de tudo, e então tenho vontade de nem ter
acordado. Volto a fechar os olhos com muita força e agarro o medalhão
de prata que tenho ao pescoço. Adoro o meu medalhão, é redondo e
brilhante, com linhas que se enleiam umas nas outras. Os meus pais
deram-mo quando fiz 7 anos e é a única coisa que ainda tenho que me
faz lembrar os dois. É por isso que todos os dias de manhã, quando me
lembro de que já não estão comigo, o agarro e fecho muito bem os olhos
para depois os abrir outra vez: é para fazer uma surpresa aos meus
olhos. Vi uma vez alguém fazer aquilo na televisão, para conseguir
acordar de um pesadelo. Mas comigo não resulta, porque a imagem não
muda, o que significa que, afinal de contas, o pesadelo não é um sonho.
Mas isto não é a pior parte de acordar numa casa de acolhimento. O
pior é partilhar a cama com o Noah e acordar com as pernas molhadas e
pegajosas porque ele voltou a fazer chichi na cama. Eu sei que ele não
consegue evitar e que só o faz porque sente medo, mas não deixa de ser
chato. Eu podia ir dormir para a cama de cima do beliche, que é onde
devia dormir, mas assim ia deixar o Noah sozinho. Por isso, tento
dormir na borda da cama, para não ficar molhada, mas nunca resulta.
Quando voltar a ter voz, acho que vou pedir um guarda-chuva.
Até agora, a Sra. Iwuchukwu ainda não ralhou com o Noah por fazer
chichi na cama. Pelo contrário, age como se fosse a melhor coisa do
mundo! Todas as manhãs, entra no nosso quarto e diz «Toca a acordar!»,
e põe-se a farejar como se fosse um coelho. Quando chega à cama,
levanta os cobertores e diz «Ah-ah, está aqui!», como se, em vez de uma
enorme poça de chichi, acabasse de encontrar uma coisa muito especial
que andava a procurar. Ri-se e faz-nos sinal para sairmos da cama, e
depois enrola os lençóis molhados em volta dos braços como se fosse
algodão-doce e diz:
— Mais vale isso do que estar a aguentar! É a regra número um cá de
casa: quando estamos aflitos, fazemos o que temos a fazer!
Ter autorização para fazer chichi na cama não é a única regra estranha
nesta casa. A Sra.  Iwuchukwu parece ter uma série de regras
completamente diferentes daquelas que tínhamos em nossa casa.
Quando a senhora do fato preto e os polícias nos levaram para casa da
Sra. Iwuchukwu, não disseram nada acerca das regras da nova casa. Em
vez disso, não paravam de dizer «Vai tudo correr bem» e «Não tens nada
com que te preocupar».Mas há muitas coisas que me preocupam. Por
exemplo: e se eu nunca mais voltar para a escola e nunca mais vir os
meus dois melhores amigos, o Eddie e o Kwan? Ou: o que faço se o
Noah tiver fome a meio da noite e quiser ir lá abaixo à cozinha para tirar
uma bolacha da caixa das bolachas, como costumávamos fazer em casa?
Ou: quão grande é o interruptor da Sra. Iwuchukwu e o que é que temos
de fazer para garantir que nunca fica virado ao contrário? A pergunta do
interruptor é a mais importante de todas, porque sei que toda a gente
tem dentro de si um interruptor que, se for virado, pode fazer com que
se enfureça e nos magoe. Especialmente os adultos que trabalham
muito, como o meu pai. A senhora do fato preto tinha dito que a
Sra. Iwuchukwu se ia esforçar ao máximo para tomar conta de nós, por
isso imagino que ela tenha um interruptor tão grande como o do meu
pai. É por isso que tenho de saber todas as suas regras, para garantir que
eu e o Noah não as infringimos.
Tenho ouvido muito atenta o que a Sra.  Iwuchukwu diz e tenho
observado o Ben, o Travis e a Sophie. Mas não é fácil perceber as regras
de um sítio quando ninguém nos diz claramente quais são. É como ir
para uma escola nova sem saber o que pode fazer com que fiquemos de
castigo. É por isso que gosto de estrelas. Lá em cima, no céu, as regras
são sempre as mesmas e não é preciso que ninguém as diga. Podem
nascer estrelas novas e as estrelas antigas que já não têm de olhar por
ninguém podem extinguir-se, mas, de resto, as estrelas continuam
exatamente no mesmo lugar por milhões de anos, e nunca, mas nunca,
saem do sítio. Acontece que as pessoas não são como as estrelas. Não
vêm com pontinhos brilhantes que podemos unir para saber ao certo
quem são. Por isso, além de caçadora de estrelas, também tenho de ser
caçadora de pistas e procurar pistas para perceber quais são as regras da
Sra. Iwuchukwu e em que parte pode estar o interruptor dela. Todos os
dias tenho aprendido novas regras. Isto é o que sei até agora:
 
Regra Número Um: podemos fazer chichi na cama sempre que
quisermos, que ninguém vai gritar connosco nem fazer-nos ficar
de pé a um canto.
Na verdade, a Sra. Iwuchukwu sorri tanto quando o Noah molha
a cama, que acho que ele começa a pensar que não faz mal se
também fizer chichi noutros sítios. Na noite passada, antes de ela
nos chamar para tomar chá, o Noah perguntou se havia problema
em levantar a perna e fazer chichi numa árvore, como fazem os
cães no parque. Indiquei que não acenando com a cabeça, mas sei
que, quando fomos dormir, ele ainda estava a pensar nisso,
porque não parava de ver a altura a que conseguia levantar a
perna enquanto olhava para o guarda-roupa do quarto.
 
Regra Número Dois: podemos chorar e gritar tão alto quanto
quisermos, que a Sra. Iwuchukwu nunca nos vai dizer «Para com
isso!», ou «Vê se cresces!», ou «Para de te portar como um bebé!»
O Ben chama ao Noah o «Campeão dos Gritos», porque ele passa
a maior parte do tempo a gritar e a chorar. Mesmo quando está a
tomar banho e não quer que a Sra.  Iwuchukwu o lave por a
Sra. Iwuchukwu não ser a nossa mãe, ou de manhã, quando ela o
tenta ajudar a despir o pijama, e à noite, quando ela o tenta ajudar
a vestir o pijama — e em todas as outras alturas do dia. Mas a
Sra.  Iwuchukwu não parece minimamente incomodada com os
gritos dele. Limita-se a sorrir e a acenar com a cabeça, e diz:
— É isso mesmo, deixa os monstros sair, Noah! Não te esqueças
de que podes chorar tudo o que quiseres, tão alto quanto quiseres
e durante o tempo que quiseres. Desde que não comeces a sentir-
te enjoado!
Em casa, os meus pais nunca o teriam deixado chorar e gritar
durante tanto tempo, mas, agora que o pode fazer sempre que
quer, acho que se está a fartar, porque já começa a chorar menos e
a gritar mais baixo.
 
Regra Número Três: podemos sujar tudo quando estamos a comer,
sem que ninguém ralhe connosco ou nos dê uma palmada na
mão.
A Sra.  Iwuchukwu não explicou propriamente esta regra, mas
reparei nela no primeiro dia ao pequeno-almoço. Em nossa casa,
a minha mãe tinha sempre de nos ajudar a comer e cortava a
comida muito pequenina, para que nenhum bocado caísse na
mesa ou no chão, não fosse o meu pai estar com o interruptor
virado. E às vezes, antes da escola, nos dias em que o meu pai
tinha ficado a trabalhar muito no banco e, para conseguir dormir
em paz, precisava que estivéssemos muito sossegados e
limpinhos, a minha mãe dava-nos o pequeno-almoço embrulhado
em papel de cozinha e tínhamos de o comer junto ao carro.
Mas, na casa de acolhimento, o Ben deixa cair migalhas por
todos os lados quando está a comer, e depois ainda as espalha
pela cara em vez de pedir desculpa. E o Travis tem autorização
para pôr chocolate de barrar nas torradas sozinho, sem que
ninguém se certifique de que está tudo certinho e limpinho e de
que ele não entornou nada. E a Sophie pode pôr cereais de vários
tipos na tigela, misturá-los e deitar o leite lá para dentro sem
ajuda. Ao jantar, todos estão autorizados a pôr no prato o que
quiserem e a comer o ketchup que lhes apetecer, que a
Sra.  Iwuchukwu nunca diz nada! Tudo coisas que eu e o Noah
nunca podíamos fazer em nossa casa, por isso o Noah fica muito
entusiasmado quando a Sra. Iwuchukwu nos chama para comer.
Eu ainda não tenho grande apetite para comer como deve ser,
mas, quando encontrar a estrela da minha mãe e a barriga deixar
de me doer tanto, acho que é uma regra de que vou gostar.
 
Regra Número Quatro: pode ouvir-se música na cozinha, e isso faz
com que os adultos pareçam ainda mais estranhos do que já são.
Sempre que está na cozinha, a Sra.  Iwuchukwu liga um rádio
vermelho-vivo que está no parapeito da janela ao lado de umas
plantas e põe músicas sem letra, só com piano, violino e sons de
orquestra. Depois fecha os olhos e põe-se a cantarolar bem alto
enquanto dança pela cozinha e em volta da mesa, como se
dançasse com uma pessoa invisível. Às vezes, pega no Travis e no
Ben e fá-los dançar com ela.
A primeira vez que isto aconteceu, o Noah ficou tão assustado
que não largou o meu braço, porque, em nossa casa, tudo tinha
de estar sossegado e tranquilo para que o meu pai conseguisse
pensar. Nunca vi a minha mãe a dançar nem a cantar. Nunca.
Mas, quando a Sra.  Iwuchukwu começou a fazer isso, o Travis
sorriu e pôs-se também a cantar, a Sophie revirou os olhos, mas
sorriu ao mesmo tempo, e o Ben aproximou-se de nós e disse:
— Não se preocupem, ela está sempre a fazer isto!
 
Não estava à espera de ficar a saber mais regras ao terceiro dia, porque,
quando já todos tinham ido para a escola, a Sra. Iwuchukwu pôs-nos a
fazer as mesmas coisas que tínhamos feito nos dois primeiros dias.
Primeiro, deixou-nos ficar a desenhar e a pintar na sala até à hora de
almoço e, nessa altura, pudemos ver meia hora de televisão. A seguir,
leu-nos uma história e deixou-nos ir brincar para o jardim até os outros
voltarem da escola. Enquanto brincávamos no jardim, percebi que a
regra da Sra.  Iwuchukwu de que não faz mal sujar também era válida
fora de casa, porque não ralhou com o Noah quando ele caiu e ficou com
as calças cheias de lama. Em vez disso, disse:
— Que linda cor tem a terra, não achas, Noah? Vê bem os tons de
castanho que aí estão!
Aquilo fez com que o Noah parasse imediatamente de chorar e se
dobrasse para olhar com atenção para as manchas, como se nunca
tivesse pensado nisso.
Depois de nos mandar para dentro e de vestir umas calças de pijama
ao Noah, a Sra. Iwuchukwu bateu palmas e disse:
— Muito bem, Aniyah e Noah, ao terceiro dia é que é! O que vamos
jantar? Uma lasanha vegetariana? Ou filetes com batatas fritas? Ou
esparguete?
Esperou que respondêssemos enquanto nos fazia sinal para nos
sentarmos à mesa da cozinha. Tinha posto sombra dourada brilhante
nos olhos, o que fazia com que as suas pálpebras parecessem a areia na
praia quando brilha ao sol.
O Noah disse alto:
— Esparguete! Eu quero esparguete!
— Vamos comer esparguete? — disse uma voz vinda do corredor.
Ao fim de alguns segundos, vimos o cabelo e a cara do Ben aparecerde
repente pelo canto da porta da cozinha. A porta de entrada bateu e o
Travis e a Sophie também apareceram na cozinha a correr. Largaram
todos as mochilas da escola no chão, menos a Sophie, que disse:
— Argh! Mãe, chama-me quando estiver pronto!
A seguir, foi lá para cima, para o quarto. Franzi a testa e fiquei a pensar
como era possível que a Sra. Iwuchukwu fosse mãe da Sophie, se elas
eram tão diferentes.
— Travis, esparguete parece-te bem?
Com um gesto de cabeça dirigido à Sra.  Iwuchukwu, o Travis
confirmou que sim e depois voltou-se para olhar para mim sem
pestanejar.
— Aniyah?
O Noah adorava esparguete, por isso acenei com a cabeça, apesar de
ainda não ter fome.
— Boa, vamos lá preparar grandes tigelas de esparguete para todos!
Ben, vai lavar as mãos e depois tira a mozarela, se faz favor… Aquela que
está na embalagem… e corta em pedaços… Mas, antes, escorre o líquido
todo. Travis, podes ir buscar folhas de manjericão. Preciso de cerca de…
vinte. Vai, vai! — Depois, dirigiu-se ao parapeito da janela, ligou o rádio
e o ar encheu-se de música. — Ah! Chopin! — disse alto, e começou a
dançar.
Eu também queria ajudar, mas, como a voz não me saía, não consegui
dizer isso a ninguém, por isso sentei-me e fiquei a ver com o Noah. Tem
graça ver as pessoas a cortar coisas, ir buscar coisas, lavá-las e despejá-
las ao som de música. É como estar a ver um filme que é real. Aquilo fez
com que o Noah fosse batendo palmas enquanto brandia a faca e o
garfo, fazendo-os dançar no ar.
Quando ficou tudo pronto, a Sra.  Iwuchukwu chamou a Sophie para
baixo. Ela ainda vinha com o uniforme da escola, o que me fez desejar
que eu e o Noah ainda tivéssemos os nossos. Quis trazê-los do hotel-que-
não-era-bem-um-hotel, mas a senhora do fato preto disse-nos para não
os levarmos. Foi então que percebi que talvez não voltasse a ver os meus
amigos nem a minha escola.
O Ben pôs um prato de queijo no centro da mesa. Era um tipo de
queijo que eu nunca tinha visto, parecia um rolinho esponjoso de pão
cortado em fatias grossas e redondas, mas era branco como giz. Para
mim, era mais que certo que o queijo devia ser amarelo e não branco,
por isso decidi logo que nunca havia de comer aquilo.
O Ben sentou-se no lugar dele e, depois de levar depressa a mão à
borbulha que tinha na bochecha, como se para garantir que ainda ali
estava, perguntou:
— Hoje vais comer, Aniyah? Porque é que nunca tens fome? Eu estou
sempre esfomeado! Qual é o teu queijo preferido? O meu é este! Queres
um bocado?
Empurrou o prato na minha direção. Eu abanei a cabeça e olhei para a
Sophie. Estava sentada na outra ponta da mesa, ao lado do Noah, e
estava a lançar-lhe outro daqueles olhares de ódio por ele estar a bater
com a faca e com um carro de brincar na mesa. Nisto, chegou o Travis,
que se sentou e ficou a olhar para mim sem pestanejar.
— Ben, podes calar-te um bocadinho e deixar os outros comer, por
favor? — mandou a Sra.  Iwuchukwu, chegando com duas tigelas de
esparguete muito vermelho e escorregadio, que pôs à minha frente e do
Noah.
O Noah preparava-se para meter o garfo no esparguete, mas eu
agarrei-lhe na mão e abanei a cabeça para lhe dizer que esperássemos
até termos autorização.
— Sim, Ben! — murmurou a Sophie, assim que a Sra.  Iwuchukwu
voltou para a cozinha para ir buscar as restantes tigelas. — Achas que
podes estar calado e parar de ser tão estúpido e irritante?
O Ben abanou a cabeça com um ar sério, mas, depois de um silêncio
de exatamente três segundos, segredou:
— Aniyah! Tens de experimentar este pão de alho, é do melhor que há!
Estendeu o pão comprido na minha direção, mas eu não queria, então
abanei a cabeça e voltei a empurrá-lo na direção dele.
— Vá lá! — insistiu o Ben. — Não se pode comer esparguete sem pão
de alho! É sacra-religioso!
— Argh! És tão estúpido, Ben! Diz-se sacrilégio! — disse a Sophie,
revirando os olhos como se não conseguisse acreditar que tivesse de se
sentar à mesa com ele.
O Ben ignorou-a, voltou a empurrar o pão de alho na minha direção e
o Travis pôs-se outra vez a olhar.
Eu queria dizer ao Ben que me doía a barriga e que tinha a garganta
presa e que não queria comer nada, porque nada tinha o mesmo aspeto
nem cheirava ao mesmo que a minha mãe costumava fazer, mas não
consegui, por isso voltei a empurrar o pão. Mas, no momento em que
recolhi o braço, dei sem querer com o cotovelo na tigela de esparguete,
que voou da mesa, deu uma volta no ar e caiu em cheio no chão!
TRÁS! PLOFT!
A tigela partiu-se imediatamente em duas partes, fazendo os fios de
esparguete cheio de molho de tomate esparramarem-se nas pernas da
minha cadeira e na parede azul atrás de mim. O chão parecia um animal
atropelado com as tripas espalhadas por todo o lado…
Pus-me de pé num salto e ali fiquei, junto à cadeira, sem respirar e à
espera de que gritassem comigo, com o corpo a começar a tremer como
se tivesse sido mergulhado em gelo. Ouvi a Sophie fazer um som de
estupefação e o Ben dizer «Ena mena!», enquanto o Travis olhava para
mim de forma estranha. O Noah ficou com medo e começou a soluçar,
que era o que lhe acontecia sempre que um de nós entornava alguma
coisa em casa.
— MÃ-ÃE! Olha o que a Aniyah fez! — gritou a Sophie, enquanto se
sentava direita. — Acabou de ATIRAR a tigela para o chão!
Olhei para a Sophie e depois para a Sra.  Iwuchukwu, que estava na
cozinha. Abri a boca para dizer que tinha sido sem querer, mas não saiu
nenhum som. Não consegui dizer uma palavra.
— Aniyah, querida, tu atiraste a tigela? — perguntou a
Sra. Iwuchukwu calmamente, enquanto se aproximava da mesa com ar
de caso.
Abanei a cabeça outra vez.
— Olha que não gosto que me mintam, Aniyah — disse a
Sra. Iwuchukwu, levantando as sobrancelhas. — É a regra de ouro desta
casa. O que quer que aconteça e o que quer que tenham feito de mal,
estejam ou não muito chateados, estão completamente proibidos de
alguma vez me mentir. Vou perguntar outra vez: atiraste a tigela de
propósito?
Voltei a negar acenando com a cabeça e tentei que as palavras saíssem,
mas a minha voz ainda estava muito longe de mim.
— E-ela n-não fez de pro-propósito — disse o Travis. — Foi shem que-
que-que-rer.
— Pois foi — confirmou o Ben, olhando nervosamente para a Sophie.
A Sophie olhou para o Travis e para o Ben com os olhos em fenda e
depois abanou a cabeça e disse:
— Eles estão a mentir, mãe, porque não querem que ela fique de
castigo! EU VI-A atirar a tigela. Vieste pôr-lhe a tigela na mesa, ela
esperou que voltasses para a cozinha e, a seguir, pegou nela e atirou-a ao
chão.
A Sra. Iwuchukwu inspirou fundo e, ao fim de alguns segundos, disse
calmamente:
— Aniyah, vai lá para cima para o teu quarto, por favor.
O Ben franziu ainda mais a testa. O Travis ficou a olhar para a sua
tigela. E o Noah começou a soluçar tão alto que fez a mesa tremer. Olhei
para a Sophie e senti qualquer coisa arder-me no peito. Ela olhou-me de
frente e fez um sorriso irónico — tão breve, que fiquei a pensar se tinha
sido ilusão minha.
— Lá para cima agora, se faz favor, Aniyah — ordenou a
Sra.  Iwuchukwu e, ainda com cara de caso, começou a apanhar os
pedaços de tigela do chão. — Olha, Noah, a Aniyah só vai para o vosso
quarto para pensar um bocado no que fez, OK? Ela há de voltar quando
estiver preparada para pedir desculpa por desperdiçar uma refeição tão
boa. Não precisas de soluçar tanto, está bem?
O Noah continuou com ar assustado, mas, entre os soluços, acenou
com a cabeça.
Eu queria gritar e bater em alguma coisa até que se partisse. Mas, em
vez disso, olhei para o chão, afastei a cadeira e levantei-me. Ao sair da
sala, olhei para trás e vi a Sophie a olhar para mim. Olhou-me bem nos
olhos e fez outro sorriso invisível que só eu vi. Pensei se a regra de ouro
da Sra. Iwuchukwu não seria também o seu interruptor e, se sim, por
que razão estava a Sophie a virá-lo, pondo-me a mim do lado errado.
3. 
O FENÓMENO NO CÉU
Depois de me fazer estar sozinha no meu quarto por dez minutos, a
Sra. Iwuchukwu mandou o Travis ir buscar-me para que eu acabasse de
jantarcom toda a gente. Mas eu não estava disposta a pedir desculpa por
uma coisa que não tinha feito de propósito, por isso não o fiz. A
Sra. Iwuchukwu disse que, nesse caso, não ia poder comer sobremesa.
De qualquer forma, eu não queria: ainda não tinha fome nenhuma. A
Sophie ficou com a minha. Era doce de chocolate e natas, o que
costumava ser a minha sobremesa preferida.
— Desculpa — disse baixinho o Ben, depois de a Sra. Iwuchukwu nos
dizer para irmos ver meia hora de televisão na sala enquanto ela
arrumava a cozinha. — Não queria arranjar-te problemas.
Acenei com a cabeça, porque o Ben não tinha culpa de a Sophie não
gostar de mim.
— Des-sculpa — disse também o Travis, que agora tinha os olhos do
tamanho de bolas de ténis, em vez de bolas de pingue-pongue. — A
Sra.  I. n-nunca acredita em nós quando a S-Sophie faz alguma coisa.
Não vale a p-pena dizer nada…
— Pois é — concordou o Ben. — E, quando dizemos, a Sophie faz-nos
sempre alguma coisa pior, por isso é melhor não fazeres queixinhas
dela. Uma vez, pôs-me uma minhoca na cama por eu ter dito à Sra. I.
que tinha sido ela a tirar-lhe uma nota de cinco libras da carteira, e não
eu.
Acenei de novo com a cabeça, concordando, e sentei-me num dos sofás
verde-escuros. O Ben deixou que o Noah ficasse com o comando, e ele
ficou tão feliz que foi sentar-se o mais perto possível da televisão, como
se estivesse a ver de que maneira podia entrar lá para dentro. Estavam
mesmo a acabar os seus desenhos animados de ninjas preferidos, que a
minha mãe via sempre com ele.
O Ben veio sentar-se ao meu lado, fazendo o sofá abanar. O Travis
sentou-se numa poltrona amarela ao lado da mesa de café e ficou outra
vez a olhar para mim. Comecei a sentir as bochechas ficarem rosadas
contra a minha vontade.
— Somos amigos, Aniyah? Sim? — perguntou o Ben, dando-me com
o cotovelo ao de leve. — Não ficaste chateada comigo, pois não?
Não sei porquê, mas aquela cotovelada deu-me vontade de sorrir, e foi
o que fiz. Isso fez com que o Travis também sorrisse, apesar de, logo a
seguir, cobrir a boca como se tivesse acabado de se lembrar que o seu
sorriso tinha aparelho, coisa que não queria que ninguém soubesse.
— Então… porque é que não falas? — perguntou o Ben, a olhar para
mim de cabeça inclinada. — Gaguejas, como o Travis? Ou é porque não
consegues…?
O Ben inclinou-se para a frente de maneira a olhar para as minhas
orelhas, para ver se eu tinha algum aparelho auditivo. Abanei a cabeça.
— Esteve aqui um rapaz que era como tu. Veio mesmo antes do Natal
— contou o Ben. — Nunca disse uma palavra, nem mesmo quando
todos lhe demos presentes de Natal! A Sra. I. disse-nos que ele havia de
falar quando quisesse, mas que, por enquanto, não tinha nada para
dizer. No final, tiveram de o levar.
Olhei assustada para o Ben. Será que «eles» o tinham levado porque
não falava? Quem eram «eles»? Para onde é que «eles» o tinham levado?
E ele tinha um irmão mais novo ou uma irmã mais nova? Se sim, o que
lhe tinha acontecido?
— Mas isso é normal — continuou o Ben. — Há sempre crianças a vir
e a ir. É o que fazem as crianças de acolhimento: vêm e vão.
Normalmente, para outra casa de acolhimento. Foi o que eu e o Travis
tivemos de andar a fazer, até virmos para aqui. Mas agora queremos
ficar aqui e ser adotados, mesmo que a Sophie não goste de nós. É muito
melhor ser uma criança adotada do que uma criança de acolhimento,
mas só se não se tiver alguém da família que se queira ver. Nesse caso, é
melhor continuar a ser uma criança de acolhimento, porque assim pode
ver-se a família.
O Travis acenou com a cabeça.
Abri a boca para perguntar porque queriam ficar aqui, o que acontecia
quando se era adotado, e se era por isso que a Sophie podia chamar
«mãe» à Sra.  Iwuchukwu e eles não. Mas a minha voz ainda estava
muito longe e não saiu nada.
— A Sra. I. faz o melhor pudim de caramelo do mundo — explicou o
Ben. — E não tem filhos, por causa daquilo que aconteceu ao Sr.  I, e
então é por isso que ela é tão boa mãe de acolhimento, quase tão boa
como uma mãe a sério. Era mesmo bom se ela nos adotasse e ficasse
connosco. Ela é muito melhor do que todas as mães de acolhimento que
já tive!
Eu queria perguntar-lhes o que tinha acontecido ao Sr. Iwuchukwu e
como era possível alguém ter mais de uma mãe, mas, nessa altura, o
Travis disse:
— Sim, e-ela deu-nos quartos s-simpáticos. E a casa é mais b-bonita do
que todas aj’outras!
Falava um pouco à sopinha-de-massa por causa do aparelho, mas ao
menos tinha voz. Passei o olhar pela sala e apercebi-me de que havia
imensas fotografias nas paredes. Ainda não tinha olhado bem, mas, em
cada uma delas, a Sra.  Iwuchukwu aparecia ao pé de uma criança
diferente. Numa, estava ao lado de um rapaz de cabelo muito ruivo, com
um nariz grande e óculos ainda maiores. Noutra, estava com uma
rapariga de cabelo louro e muito encaracolado. Noutra, com um rapaz de
calções vermelhos que parecia ser chinês. O seu cabelo, preto e liso, era
tão brilhante que refletia a luz do sol. E ainda com duas gémeas de
cabelo comprido e castanho que sopravam bolas de sabão na direção da
câmara.
— Niyah… olha! — chamou de repente o Noah, virando-se para mim e
apontando para a televisão, mas eu estava muito ocupada a pensar
naquilo que o Ben e o Travis tinham dito acerca da adoção, por isso não
ouvi bem.
Não me tinha ocorrido que pudesse haver muitas outras crianças a
viver noutras casas de acolhimento… nem imaginado que alguém
pudesse ter mais do que uma mãe de acolhimento.
— Niyah, olha! — insistiu o Noah, desta vez a gritar, enquanto dava
saltinhos sentado. — É A MÃE! ENCONTREI A MÃE!
Olhei depressa para a imagem para a qual o Noah estava a apontar. Na
televisão, uma enorme bola de fogo que atravessava o céu escuríssimo
ocupava metade do ecrã, enquanto a outra metade mostrava um senhor
muito sério, de cabelo castanho e rijo, a falar para o microfone de testa
franzida.
Fui depressa para ao pé do Noah e carreguei no botão do comando,
que ele tinha nas mãos, para aumentar o volume.
— Os astrónomos nunca assistiram a um tal enigma. Foi uma ocorrência
que desencadeou de imediato uma corrida à escala global entre as
principais instituições do mundo para encontrar qualquer vestígio de
observações semelhantes nos registos que remontam a Ptolomeu e
Galileu — dizia o senhor, enquanto a sua imagem desaparecia e era
substituída por várias imagens de livros e desenhos antigos, com
pessoas a tocarem-lhes com luvas.
Primeiro, viu-se um enorme rolo de papel cheio de caracteres chineses
que parecia ter levado com chá castanho e, depois, um livro com bordas
douradas que tinha desenhos de homens em robes coloridos e turbantes
a olhar por telescópios com uns escritos curvos rodeados de pontinhos.
Voltou a ouvir-se a voz do jornalista:
— Entre registos que vão de pergaminhos chineses antigos aos diários
dos primeiros astrónomos árabes, prosseguem as buscas para encontrar
semelhante ocorrência na história dos céus…
Nesse momento, os livros foram desaparecendo e, em vez deles,
apareceu de novo a imagem do jornalista, que desta vez sorria:
— Tenho comigo a professora universitária Jasmine Grewal e o
astrónomo Alex Withers, do Observatório Real de Greenwich, para nos
ajudarem a compreender este fenómeno extraordinário!
A imagem da estrela do lado direito do ecrã foi encolhendo à medida
que a imagem do jornalista ia aumentando, até ser possível ver, ao seu
lado, uma senhora magra, de óculos e de pele quase tão escura como a
minha. O seu longo cabelo preto esvoaçava ao vento e, atrás dela, estava
um homem de cabelo curto e grisalho, barba pontiaguda e olhos
minúsculos, de um castanho quente, que pareciam vesgos, como se não
abrissem totalmente. Estavam os dois a sorrir.
— Professora Grewal, começamos por si — disse o jornalista, virando-
se com rigidez, como um boneco de plástico, e pondo um enorme
microfone preto em frente da cara dela. — O que significa esta imagem
que vemos no ecrã?
— Bom, Tom, o que estamos a ver é, de facto, algo que nunca
tínhamos visto — afirmou a senhora, sorrindo nervosamentepara a
câmara. — Ao que parece, trata-se de uma estrela ardente, verdadeira e
com vida, que está a passar de um extremo do nosso sistema solar para o
outro, aproximando-se muito da atmosfera do nosso planeta.
— Isso não soa nada bem! — exclamou o jornalista, olhando para a
senhora com má cara, como se, de certa forma, a culpa fosse dela. —
Mas há seguramente milhões de estrelas a deslocar-se no nosso sistema
solar a grande velocidade! O que torna esta tão especial?
A professora olhou para a câmara com um ar confuso:
— Bom, na verdade, as estrelas não costumam deslocar-se. É por isso
que podemos contar que o Sol fique onde está. É a forma de calcularmos
os anos-luz e navegarmos no céu, com base nas constelações. O nosso
Sol é — ou pelo menos era, até ontem! — a estrela mais próxima da
Terra e, ainda assim, está a cerca de 150 milhões de quilómetros de
distância. E sabemos que, se o Sol se aproximasse mais, isso significaria
a aniquilação de toda a vida na Terra. Não só esta estrela ultrapassou
essa distância em mais de três milhões de quilómetros, como também
parece estar a mover-se no céu, ao contrário de tudo o que já vimos!
— Nesse caso, o que significa isto? — interrogou o jornalista, olhando
para cima, como se esperasse que a estrela se deslocasse na sua direção.
Depois, voltou-se para a câmara de sobrancelhas levantadas e, com uma
voz que parecia a de um apresentador de um programa de
entretenimento, perguntou: — Deve a raça humana preparar-se para… a
extinção?
A professora Grewal negou com um gesto de cabeça.
— Não, não! De acordo com os nossos cálculos sobre o seu trajeto
projetado e a sua dimensão atuais, devemos ficar a salvo de sermos
puxados pelo campo de força gravitacional desta estrela. O nosso planeta
poderia sentir fenómenos muito estranhos devido ao imenso calor que a
estrela irradiaria na nossa direção, mas, uma vez que se trata de uma
estrela nova — e uma das mais pequenas estrelas recém-formadas de
que temos registo — prevê-se que resista à atração gravitacional da Terra
e se afaste rapidamente. Felizmente, parece que o seu diâmetro é apenas
ligeiramente superior ao da Terra!
Estupefacta, aproximei-me mais da televisão.
O jornalista fez um gesto com a cabeça como se concordasse, mas não
entendesse ao certo aquilo com que estava a concordar.
— Estou a ver. E, Sr. Withers, por que motivo é este acontecimento tão
importante no mundo da Astronomia?
O senhor mais velho olhou para o jornalista de testa franzida, como se
não entendesse a pergunta, e depois, a olhar para a câmara, disse:
— Bom… por todas as razões que a professora Grewal acabou de
referir.
O jornalista fez o mesmo gesto com a cabeça e esperou que o
Sr. Withers dissesse mais alguma coisa. Este aclarou a voz, virou-se para
a câmara e entortou ainda mais os olhos.
— Aquilo que o mundo tem de compreender é que nunca uma esfera
de gás ardente se aproximou mais de nós do que o Sol. As leis da Física
dizem que um de nós seria puxado pela força gravitacional do outro e
destruído. Neste momento, nenhuma destas hipóteses parece estar a
acontecer. A estrela está apenas… a passar por nós. E não parece estar a
causar quaisquer danos.
— Trata-se então de uma estrela cadente muito simpática? —
perguntou o jornalista enquanto olhava para a câmara de sobrolho
carregado.
— Hã… — respondeu o Sr.  Withers a olhar em volta, como se
desejasse estar a falar com outra pessoa. — Não… Não é uma estrela
cadente. As estrelas cadentes são fragmentos rochosos que entraram
mesmo na nossa atmosfera. Este fenómeno é uma estrela ardente de
verdade.
Ignorando-o, o jornalista voltou-se de novo para a professora.
— Professora Grewal, o que podemos esperar desta estrela a seguir?
Neste momento, pode parecer simpática, mas será que não pode
dizimar a vida na Terra? — perguntou, segurando o microfone junto
dela.
A professora Grewal ajeitou os óculos.
— Bom — disse —, todos os observatórios do mundo estão neste
momento a acompanhar o seu trajeto, cuja progressão sobre o
hemisfério norte é claramente visível. Mas, uma vez que é uma
ocorrência inédita, não sabemos qual a distância que vai percorrer, nem
se irá mudar novamente de direção, nem quando e onde irá parar. No
entanto, podemos dizer com alguma segurança que NÃO vai dizimar…
hã… a vida na Terra.
— Se bem que, em alguns casos, talvez não fosse uma coisa má —
murmurou o Sr.  Withers, a abanar a cabeça enquanto olhava para o
jornalista.
— Niyah! É a mãe? — sussurrou o Noah, tocando na parte do ecrã em
que aparecia a bola de fogo.
Eu sabia que o Travis e o Ben estavam mais atrás, a olhar para nós,
mas não me importei.
Acenei e tentei não pestanejar. Senti-me exatamente como quando a
minha mãe nos ia buscar à escola. Apesar de haver centenas de outras
mães e pais no recreio, eu sabia sempre onde estava a minha —
conseguia senti-la quando estava próxima e, às vezes, percebia logo que
era ela só de lhe ver a parte de trás da cabeça. Nunca, mas nunca, me
enganei. E sabia que também não me enganava desta vez.
— Obrigado — disse o jornalista no momento em que a câmara se
voltou para ele. — Pois aqui temos! Pela primeira vez no universo: uma
estrela desamparada que desafiou as probabilidades da natureza, e a
nossa atração gravitacional, para procurar o seu lugar no céu. Regresso a
ti, Elaine.
O jornalista desapareceu e, em vez dele, apareceu uma mulher de fato
roxo brilhante sentada a uma grande secretária de vidro. Mas a imagem
da estrela continuava atrás dela, por isso aproximei-me da televisão e
toquei-lhe.
— Estivemos com Tom Bradbury, a propósito do novo fenómeno no
céu. Se quiser ter a oportunidade de ajudar o Observatório Real a dar
nome à nova estrela, pode aceder ao seu site, que é: w w w, ponto, r m g,
ponto, c o, ponto, u k, barra, r o y a l, hífen, o b s e r v a t o r y, para mais
informações sobre o novo concurso. A seguir, saiba porque estão os
novos muros da fronteira americana a derreter ao sol.
A imagem atrás da apresentadora do telejornal mudou e a estrela
desapareceu. Então, sem eu saber que tinha voltado, a minha voz
exclamou:
— MÃE!
4. 
A ESTRELA DA MINHA MÃE
— Macacos me comam! Tu falas! — exclamou o Ben. Através do seu
reflexo na televisão, vi que estava surpreendido e que o Travis olhava
para as minhas costas. — Mas… porque é que chamas mãe àquela
estrela?
— Niyah! Era mesmo ela? — perguntou o Noah num sussurro, com os
olhos tão abertos e cheios de lágrimas, que consegui ver neles a minha
cara toda.
Disse-lhe que sim com um gesto de cabeça e voltei-me para olhar para
o Ben e o Travis. Tinha de lhes fazer uma pergunta antes de a
Sra. Iwuchukwu entrar na sala, por isso abri a boca e prometi à minha
voz que a trataria bem para sempre se ela funcionasse naquele instante.
— P-posso… Há algum computador cá em casa? — perguntei.
Sentia a voz estranha, como se não me pertencesse de todo e tivesse
ido embora e depois regressado com a de outra pessoa. Parecia abatida e
baixa. Mas não tinha importância. A única coisa que me importava era
que já tinha voz outra vez, e podia usá-la para procurar a minha mãe.
Tinha de encontrar o site de que o jornalista tinha falado! Tinha de
saber ao certo onde estava a estrela da minha mãe e o que o jornalista
queria dizer com aquilo de as pessoas ajudarem a dar-lhe nome! Se
estava a passar pelo hemisfério norte, isso significava que estava perto,
porque eu sabia, graças ao meu globo celeste, que nós também vivíamos
no hemisfério norte. O que significava que as constelações que eu via à
noite da janela da Sra.  Iwuchukwu eram as mesmas constelações por
onde estava a passar a estrela da minha mãe naquele momento.
O Travis acenou com a cabeça.
— Eu t-tenho um para fazer os trabalhos de casa no meu q-quarto —
disse ele, muito vermelho.
— É para encontrares o site de que estavam a falar nas notícias? —
perguntou o Ben. — Por causa da estrela?
Acenei outra vez. O Ben franziu a testa e começou a morder o lábio de
baixo. Percebi que estava cheio de perguntas na cabeça e que ia precisar
de esclarecer algumas delas.
— Mas…mas porque é que precisas de saber isso? E porque é que
chamas «mãe» àquela estrela? A tua mãe não é mesmo uma estrela no
Espaço, ela m…
Mas, antes que o Ben terminasse a frase, o Noah gritou de repente:
— É, SIM! É UMA ESTRELA, SIM SENHOR!
A seguir, correu até ao Ben e deu-lhe um empurrão.
— Ei! — reclamou o Ben com um ar confuso, e pondo as mãos de
maneira a que o Noah não conseguisse empurrá-lo outra vez.
— PEDE DESCULPA! — gritou o Noah.
Corado e com a cara engelhada como o interior de uma uva, começou
a bater no braço do Ben com toda a força que tinha.
— Desculpa! Ei, eu pedi desculpa! — exclamou o Ben. — Au!
Agarrei nas mãos do Noah.
— Não lhe batas, Noah, ele não sabe! — pedi-lhe.
— Mas ele disse que não era a mãe! — exclamou o Noah, a olhar para
o Ben com um ar zangado.
Tremia por todos os lados, o que fazia com que os seus caracóis
também tremessem, e, enquanto isso, ia ficando com os olhos cada vez
maiores e cheios de lágrimas.
O Ben parecia confuso e deu um passo atrás.
O Travis franzia a testa, ao mesmo tempo que os seus olhos
alternavam muito rapidamente entre mim, o Noah e o Ben. Depois,
disse baixinho:
— Eu d-deixo-te usar o computador… se nos dicheres.
Coçando nervosamente o braço, o Ben concordou com um gesto de
cabeça e deu um passo em frente.
— Podes contar-nos — disse. — Nós prometemos que não contamos a
ninguém.
Enquanto tentava que o Noah ficasse quieto, pensei no que fazer. Se
lhes contasse a verdade, o Ben e o Travis podiam pensar que eu estava a
mentir ou a ser parva, porque é o que as pessoas pensam quando não
querem acreditar no que dizemos em relação a alguma coisa, mesmo
sendo verdade. Eu sei, porque a minha avó Irene e a minha tia Kathy
costumavam dizer à minha mãe que ela era parva e mentirosa quando
ela lhes tentava explicar a verdadeira razão de os nossos pratos terem
desaparecido outra vez ou de ter de usar camisolas de manga comprida
no verão. Uma vez, depois de o meu pai ter andado a arrastar móveis de
tal maneira que partiu a mesa da cozinha e três cadeiras, um polícia foi a
nossa casa e disse à minha mãe para parar de ser histérica. Acho que
«histérica» deve ser outra palavra para «mentirosa», porque, assim que
ele o disse, a minha mãe calou-se e nunca mais voltou a pedir à polícia
que ajudasse com a mobília. Mas o Ben e o Travis não eram a polícia,
nem a minha avó Irene, nem a minha tia Kathy. Havia a possibilidade de
acreditarem em mim.
Obriguei a minha garganta a abrir-se outra vez e disse:
— Eu sou caçadora de estrelas. E aquela estrela que se vê na televisão é
a nossa mãe. Ela deixou-nos há uns dias e transformou-se numa estrela.
Eu ouvi-a, e o Noah também. Tenho tentado encontrá-la, e ela a nós. Mas
agora mostrou-nos exatamente onde está, para que nunca mais nos
percamos dela.
O Noah deu-me a mão e encheu o peito de ar, ao ponto de parecer um
pinguim. Depois olhou para mim como se estivesse assustado e feliz ao
mesmo tempo. Sorri-lhe. Nunca tinha dito aquelas palavras em voz alta,
mas, agora que tinha a minha voz de volta, sabia bem dizê-las com a
língua e ouvir o seu som. Tive vontade de as dizer uma e outra vez, e até
de as gritar! «SOU UMA CAÇADORA DE ESTRELAS E ENCONTREI A
ESTRELA DA MINHA MÃE!»
— És o quê? — perguntou o Ben, franzindo o nariz, confuso.
O Travis pôs o cabelo para trás das orelhas como se quisesse ter a
certeza de que estava a ouvir bem.
— Uma caçadora de estrelas. Os adultos chamam-lhes astrónomos —
expliquei.
— Ah! — disse o Ben. — Mas ainda não podes ser astrónoma,
primeiro tens de acabar a escola!
Pôs os olhos em fenda e olhou para mim como se eu pudesse ser uma
espiã à paisana que fingisse ter só 10 anos.
O Travis olhava para mim de boca aberta. Parecia que tinha encontrado
de repente uma caverna cheia de palavras invisíveis e não soubesse o
que fazer quanto a isso.
— Não é preciso acabar a escola para ser caçadora de estrelas —
afirmei eu, abanando a cabeça e pensando se alguma vez o Ben e o
Travis teriam ido a uma biblioteca. — Pode aprender-se a ser uma nos
livros e, às vezes, também na escola.
— Ah — disse o Ben, de testa franzida, mas ainda com ar de não ter
acreditado.
— E, de qualquer forma, não posso esperar até acabar a escola. Tenho
de encontrar a nossa mãe agora, para nunca mais voltarmos a perdê-la
— acrescentei.
— Mas a vossa mãe não está…
Se, antes, a testa do Ben estava com duas grandes rugas, agora estava
com três. O Travis fechou a boca, sentou-se direito que nem uma régua e
ficou a olhar para o chão. De repente, percebi o que eles estavam a
pensar.
— Ela não está morta — disse eu, com raiva e pena deles ao mesmo
tempo.
— Ai n-não? — perguntou o Travis, levantando o olhar, surpreendido.
— Não. Está lá fora — garanti, e apontei na direção das duas portas de
vidro da sala.
O Ben olhou para trás de mim como se estivesse à espera de ver um
fantasma e as suas sobrancelhas levantaram-se como pão no forno.
— Queres dizer… no jardim?
O Noah riu-se e tapou o rosto com a mão, como se não conseguisse
acreditar que o Ben pudesse ser tão tolinho.
— Não — disse eu, e tentei não me rir. — No céu. Eu já tinha dito, não
ouviste? É que a nossa mãe tinha um coração muito especial, o que fazia
com que brilhasse muito. E, quando temos um coração que brilha
muito, quando partimos, o nosso coração é levado para fora do nosso
corpo e transformado numa estrela, de maneira a poder olhar por todos
aqueles que deixámos. As melhores pessoas estão todas lá em cima: reis
e rainhas e milhões de pessoas que eram demasiado especiais para
partirem para sempre.
— Queres dizer… jogadores de futebol e cantores famosos? —
perguntou o Ben, que parecia estar a ficar impressionado.
— Sim, talvez — respondi, encolhendo os ombros.
— Fixe… — disse o Ben, fazendo que sim com a cabeça como se tudo
começasse a fazer sentido.
— Mas as es-estrelas não são p-pessoas. São só bolas de gásh… —
disse o Travis a olhar para mim como se tivesse medo de mo dizer, não
fosse eu ficar chateada.
— Não estou a inventar! — prometi. — Li muito acerca disso. Alguns
dos maiores caçadores de estrelas e cientistas dizem que tudo é feito de
poeira de estrelas antigas, até nós. E, quando morrermos, também
vamos ser reciclados. Se formos normais, vamos parar à terra e é assim
que somos reciclados. Mas, se formos mesmo especiais, somos
reciclados lá em cima, no Espaço. Isto também vem n’O Rei Leão —
acrescentei, e de repente tive vontade de voltar a ver o filme e mostrar ao
Ben e ao Travis o que queria dizer.
— Tu estás a falar do desenho animado? — perguntou o Ben,
boquiaberto.
Acenei, porque me começava a doer a voz. Tinha puxado muito por ela
desde que tinha voltado, mas nunca mais queria deixar de a usar. Engoli
em seco e continuei a falar:
— Pode ser um desenho animado, mas baseia-se em factos. Fala do
ciclo da vida e da forma como tudo é reciclado, e isso é tudo verdade. E
de como as estrelas não são SÓ bolas de gás. Elas precisam de gás para
continuarem a arder, porque o gás é o oxigénio delas. Mas TODAS têm
um coração — disse eu. — Mesmo aquelas que estão tão longe que mal
se veem. Porque, depois de morrermos, se o nosso coração for muito
especial, é lançado para o céu e ficamos ali, e o que sobra de nós vai para
a terra. Porque é que acham que todas as estrelas têm um nome e uma
história?
— Mas isso não… — começou o Ben, mas parecia que a boca dele ia
deixando de funcionar por ter demasiadas perguntas para as conseguir
expressar como deve ser. — Mas quem é que tira os corações e faz isso
de os lançar?
— O fazedor de estrelas! — exclamou o Noah, a saltar e a rosnar como
um leão, desatando a correr pela sala.
O Ben e o Travis olharam para ele por uns segundos e depois outra vez
para mim.
Encolhi os ombros.
— Não sei. Não tenho resposta para TUDO. E nem os caçadores de
estrelas mesmo velhos sabem isso! Só sei que, agora, o coração da
minha mãe é uma estrela. Até porque ouvi a Katie dizer isso. A Katie era
a senhora que tomava conta de nós antes de virmos para aqui. Disse isso
aos polícias: que a minha mãe agora pertencia aocéu e que ia estar
sempre a olhar por nós. E um polícia disse que era uma pena que
algumas pessoas partissem tão cedo, mas o mundo era mesmo assim.
Por isso, não estou a mentir.
O Ben e o Travis ficaram calados. Percebi que estavam concentrados a
pensar em tudo o que eu estava a dizer. E sabia que não iam conseguir
argumentar, porque ninguém tem argumentos contra os cientistas e os
caçadores de estrelas. A menos que também se tornem cientistas e
caçadores de estrelas. E o Ben e o Travis não eram caçadores de estrelas,
como eu.
A testa do Travis estava tão enrugada, que parecia que um trator lhe
tinha passado por cima. Ao fim de uns segundos, perguntou:
— Que som é que faz… sabes? Quando alguém se t-transforma em es-
estrela?
O Noah parou de correr e pegou-me no braço. Fechei os olhos e pensei
no que tinha ouvido. Lembrava-me do barulho da explosão e de como
tive uma sensação esquisita nos ouvidos, e do som estranho, como um
assobio, que me ensurdeceu. E lembrava-me de me sentir zonza, porque
parecia que a terra estava a abanar, mas não sabia como descrever nada
daquilo. Por isso, disse só:
— É alto, e assustador.
O Travis acenou e também parecia estar a lembrar-se de alguma coisa.
— Se ela é mesmo… bem, uma estrela, o que é que vais fazer? —
perguntou o Ben.
— Vou segui-la — afirmei, enquanto o Noah concordava com um
gesto de cabeça e me puxava o braço, todo contente. — Tenho de
descobrir em que parte do céu ela vai parar e garantir que é um lugar
que possamos ver a qualquer altura. E de onde ela nos veja a nós.
Tinha um desejo secreto de saber se o meu pai também estava a segui-
la, porque, se estivesse, talvez conseguisse encontrar a minha mãe ao
mesmo tempo que nós e levar-me a mim e ao Noah para casa. Mas, por
algum motivo, não disse isso ao Ben e ao Travis.
— Isto é a coisa MAIS ESTÚPIDA que já ouvi! — disse uma voz vinda
da porta da sala.
Virámo-nos todos e o Noah parou de me puxar o braço. A Sophie
estava à porta, a passar os dedos pelo cabelo como se fossem um pente.
Tinha os olhos a brilhar e a boca a rir-se de mim. Já não trazia o
uniforme da escola vestido e estava de calças de ganga e uma t-shirt com
as caras de uma banda pop, que pareciam também estar a rir-se de mim.
— A tua mãe não é uma estrela coisa nenhuma! — disse. —
Desapareceu e NUNCA MAIS vai voltar! Aliás, se calhar até fez de
propósito! Era o que eu faria, se conhecesse alguém tão ESTÚPIDO
como tu!
Depois de a Sophie parar de gritar, não aconteceu nada durante três
segundos. Foi como se as suas palavras nos tivessem petrificado como
estátuas.
Lentamente, senti a minha boca abrir-se e fazer explodir as palavras
«RETIRA O QUE DISSESTE!», e depois ouvi o Ben e o Travis dizerem
coisas e vi o Noah correr até à porta para dar pontapés e murros na
perna da Sophie.
— Au! PARA JÁ COM ISSO, SEU PIRRALHO! — gritou a Sophie,
empurrando-o para o chão. — MÃE! MÃE! OLHA, O NOAH
ENLOUQUECEU! MÃÃÃÃÃÃÃÃE!
— O que foi? Mas o que é que se passa aqui, hã? — disse a
Sra.  Iwuchukwu, que veio a correr para a sala, com o avental meio
desapertado.
De repente, a Sophie gritou.
O Noah tinha-se posto no chão e estava a morder-lhe a perna com
raiva.
— Noah! NÃO! — gritou a Sra. Iwuchukwu, tirando-o dali.
Mas o Noah gritava e batia e tremia de tal maneira que não ouvia nada.
— A… A culpa é minha, mãe! — disse a Sophie, fazendo uma
expressão triste como se lamentasse. — Se calhar, disse alguma coisa
que não devia…
— Não, Noah! Para IMEDIATAMENTE! — ordenou a
Sra.  Iwuchukwu, aprisionando-o com força num abraço. — Sophie, o
que é que disseste? — perguntou, zangada.
— Eu disse-lhes que tinha pena que eles tivessem saudades da mãe
deles, e depois… — disse a Sophie, encolhendo os ombros enquanto
esfregava as minúsculas marcas de dentes na perna. — Ele desatou a
bater-me!
Lembrei-me de que tinha a minha voz de volta e que podia dizer à
Sra.  Iwuchukwu que a Sophie estava a tentar virar-lhe o interruptor
outra vez e abri a boca. Mas, em vez de fazer sons, não fez senão abrir e
fechar, como um peixe em busca de comida.
— Niyah, ela está a MENTIR! — gritou o Noah, esticando a perna na
tentativa de atingir a Sophie do sítio onde estava.
Mas a Sra.  Iwuchukwu ainda estava a agarrar-lhe nos braços e a
Sophie estava demasiado longe.
— Vês? — disse a Sophie com desprezo.
— Não, Noah, NÃO! Aqui dentro NUNCA batemos, nem damos
pontapés, nem MORDEMOS! — afirmou a Sra. Iwuchukwu, dobrando-
se de maneira a ficar com a cara ao mesmo nível da do Noah. —
NUNCA! A Sophie não quis dizer nada que vos chateasse e está
arrependida. Não estás, Sophie?
A Sophie acenou com tristeza, mas, assim que a Sra.  Iwuchukwu
deixou de olhar, sorriu.
O Noah veio ter comigo a correr e limpou com fúria os olhos e a cara à
minha camisola.
A Sra.  Iwuchukwu deu um passo atrás e olhou para mim e para o
Noah e depois para o Travis e o Ben, que estavam a olhar para o chão e a
tentar não olhar para ninguém.
— Muito bem, já chega por hoje! Todos lá para cima, se faz favor —
ordenou a Sra. Iwuchukwu a olhar para mim e para o Noah, enquanto
abanava a cabeça com pena. — Ben e Travis, vão acabar os trabalhos de
casa, e depois, cama! Sophie, vai estudar para o teste de Matemática, se
faz favor. E, Noah, apesar de teres sido um menino MUITO mau hoje,
eu sei que não sabias da regra de não bater e não morder. Por isso, esta
foi a primeira e a última vez que fizeste essas coisas, está bem? Pronto.
Amanhã vai ser um dia importante para vocês os dois, por isso vão já
para a cama. Daqui a nada, vou lá ter convosco para ver como estão. Vá!
A Sophie subiu disparada e bateu com a porta, mas o Ben e o Travis
percorreram o corredor devagar e em silêncio à nossa frente. Percebi
que queriam dizer alguma coisa, mas a Sra. Iwuchukwu vinha atrás de
nós. Parou junto às escadas e ficou a ver-nos subir.
— Não se ponham a fazer barulho! E, Travis, nada de jogos de
computador! — bradou ela, antes de voltar para a cozinha.
Quando chegámos ao corredor ao cimo das escadas, o Travis parou à
frente da porta cinzento-clara que dizia «Quarto do Travis», tirou o
cabelo da frente dos olhos e virou-se.
— V-vimos buscar-vos daqui a pouco, p-para usarem o meu c-
computador — sussurrou ele, com os olhos outra vez muito abertos,
como se quisesse garantir que eu tinha entendido.
— Sim — acrescentou o Ben. — Depois de a Sra. I. vir ver de nós. Não
adormeçam muito cedo, está bem?
Acenei, e eu e o Noah ficámos a vê-los abrir as portas dos quartos e
desaparecer.
— Niyah, eles são nossos amigos? — sussurrou o Noah, enquanto
passávamos pela porta da Sophie, pintada de vermelho e com um grande
póster que dizia «NÃO ENTRAR», e chegávamos a uma porta roxa com
um quadro branco que dizia «Aniyah e Noah».
Na verdade, o quadro já não era bem branco, porque ainda tinha
vestígios cor de rosa e verdes de todos os outros nomes escritos antes
dos nossos e depois apagados.
— Sim — disse eu, abrindo a porta e entrando atrás do Noah. — Acho
que sim.
Ajudei o Noah a preparar-se para ir para a cama e vesti o pijama, e
depois deitámo-nos de maneira a conseguirmos fingir que estávamos a
dormir quando a Sra. Iwuchukwu viesse. Parecia mesmo que estávamos
em nossa casa, como naquelas noites em que a minha mãe nos dizia
para irmos para a cama depressa porque já ouvia o carro do meu pai
chegar. Tínhamos de ver quem se despachava primeiro e fingir
imediatamente que estávamos a dormir, para que o meu pai visse que
tínhamos cumprido todas as regras da hora de deitar. Mas eu e o Noah
nunca fingíamos estar a dormir na mesma cama, por isso desta vez foi
mais divertido. E menos assustador. Especialmente porque sabíamos
que a nossa mãe tinha ignorado todas as regras do planeta para olhar
por nós e que nunca mais voltaríamos a ficar sozinhos.
Agarrei-me com força ao Noah e ao meu medalhão de prata, fechei
muito bem os olhos e esperei que o Travis e o Ben entrassem.
5. 
O MAIOR CONCURSO DA GALÁXIA
Depois de a Sra.  Iwuchukwu nos ir desejar boa-noite e nos dizer para
termos cuidado com os percevejos*, o que fez com que o Noahescondesse logo a cara nos meus braços, ficámos muito tempo à espera
de que o Ben e o Travis fossem ter connosco. Mas, ao fim de um bocado,
o Noah adormeceu, por isso tirei o mapa de estrelas que fiz de dentro da
almofada e fui sentar-me ao pé da janela. Abri os grandes cortinados
azuis e olhei lá para cima.
Agradava-me muito que nenhuma das janelas da Sra.  Iwuchukwu
tivesse cortinas brancas translúcidas. Era uma coisa que facilitava muito
a atividade de caçar estrelas. No hotel-que-não-era-bem-um-hotel em que
a minha mãe teve de nos esconder, a janela tinha umas cortinas
horríveis, finas e fedorentas, e estavam tão sujas, que o branco se tinha
tornado amarelo. Fazia com que me sentisse uma abelha presa numa
rede velha. Mas, nessa noite, apesar de a janela estar muito limpa e não
haver cortinas velhas e sujas pelo meio, não consegui ver estrela
nenhuma por causa das nuvens gigantes que as tapavam. Nem a lua
tinha força suficiente para se fazer ver, parecia uma lanterna com pilhas
fracas.
Pus-me muito atenta, a ver se o Ben e o Travis vinham. Mas tudo
estava em silêncio, por isso abri o mapa e usei a luz de presença amarela
que estava na parede para tentar adivinhar onde podia estar a estrela da
minha mãe. Tive esperança de que fosse parar perto de uma constelação
que fosse fácil de localizar, como as Três Marias ou a caneca com uma
pega, o Grande Carro. Podia até ser que encontrasse alguém que
conhecesse. Como os pais dela. A avó Semina e o avô Pedro eram tão
especiais que também só podiam ser estrelas, por isso talvez ela se
pudesse juntar a um deles para formar uma estrela binária, que são
duas estrelas juntas, como uma família a sério! Estava a pensar se o
coração da minha mãe estaria naquele momento à procura deles,
quando ouvi alguma coisa ranger.
Voltei-me e vi a porta do quarto abrir-se devagar. Percebi que não era a
Sra.  Iwuchukwu, porque ela nunca abre as portas devagar: abre-as de
rompante e entra. Dobrei depressa o mapa e escondi-o atrás da cortina.
— Aniyah?
Na ombreira da porta apareceu uma grande mancha de cabelo fofo,
seguida dos grandes círculos brancos que eram os olhos do Ben.
— Estou ao pé da janela — sussurrei, e levantei-me.
Agora que já tinha a minha voz outra vez, já não me sentia como um
peixe e tudo parecia muito mais simples.
— Anda! — disse ele baixinho, olhando rapidamente para trás.
Olhei para o Noah, para ver se ainda estava a dormir. Senti-me mal por
ir sem ele, mas ele estava com uma perna esticada para cima e a respirar
alto, por isso percebi que estava a dormir profundamente e decidi não o
acordar.
O Ben esperou que eu fosse em bicos de pés até à porta e fez sinal com
o dedo em frente dos lábios.
— Temos de garantir que a Sophie não nos ouve — sussurrou. —
Senão, vai meter-nos em sarilhos.
Acenei com a cabeça e segui-o com cuidado até ao quarto do Travis,
reproduzindo os passos que ele ia dando, de maneira a que as tábuas do
soalho não rangessem. Além do nosso, nunca tinha estado no quarto de
ninguém, nem nunca tinha imaginado como seria. O quarto que a
Sra.  Iwuchukwu me tinha dado a mim e ao Noah era simpático, mas
estava longe de ser tão fixe como o quarto do Travis.
O quarto do Travis era como um museu: um museu de livros de banda
desenhada e bonecos de super-heróis! As paredes eram cinza-prata, o
que dava a impressão de estarmos dentro de uma nave espacial, e havia
muitos pósteres de um desenho de um rapaz de olhos grandes, nariz
pequeno e cabelo castanho-alourado, por baixo da palavra «Hiraku»,
escrita em letras grandes e em ziguezague. Na parede do outro lado da
secretária, havia uma enorme estante com centenas de livros de banda
desenhada e várias figuras pequenas de super-heróis. Achei que era dos
melhores quartos que já tinha visto e fiquei a pensar como seria o quarto
do Ben.
— Em p-princípio, não posso usar o c-computador depois de apagar a
l-luz — disse o Travis e, em silêncio, fez-me sinal para que fosse ter com
ele. — Por isso, não podes dizer a ninguém! P-Prometes?
Acenei e respondi:
— Prometo!
Sentado à sua secretária preta e brilhante, o Travis digitou rapidamente
a palavra-passe. Tentei não olhar, mas vi logo que era «TravisHik123».
Isso fez-me pensar no meu pai, porque sabia que ele teria abanado a
cabeça e dito ao Travis que mudasse para uma palavra-passe mais difícil.
O computador do meu pai tinha uma palavra-passe pelo menos tão
longa como todo o alfabeto, e era tão difícil, que até ele se esquecia dela
às vezes.
Depois de aparecer o desenho do Hiraku no ecrã, o Travis abriu o
navegador de Internet e escreveu:
 
notícias estrela nova
 
Apareceu logo uma enorme lista de sites e o Travis carregou no
primeiro. Era uma notícia sobre a estrela da minha mãe.
— Não — disse eu. — Isso não diz para onde a estrela está a ir. E se
tentássemos saber sobre o concurso de que a senhora das notícias falou?
O Travis confirmou com um gesto de cabeça e experimentou uma
pesquisa diferente:
 
concurso nome estrela nova
 
Desta vez, os resultados eram sobre como comprar uma estrela ou
participar em concursos de nomes de bebés.
— Porque é que alguém havia de querer um concurso para dar nome
ao seu bebé? — perguntou o Ben, a abanar a cabeça, ao mesmo tempo
que tirava uma bolacha da camisola, fazendo barulho a mastigar.
— Podemos experimentar o site de que a senhora das notícias falou?
— perguntei.
— A-Ainda te lembras? — perguntou o Travis.
Disse que sim com um gesto de cabeça, fechei os olhos e fiz o meu
cérebro lembrar-se da voz da senhora das notícias e das palavras que
tinha dito, e depois repeti-as. O Travis escreveu o endereço:
 
www.rmg.co.uk/royal-observatory
 
Em menos de um segundo, o ecrã mostrou uma página preta com as
palavras mais emocionantes que eu já tinha lido, escritas em letras
brancas e cintilantes:
 
PARTICIPE NO MAIOR CONCURSO DA GALÁXIA E AJUDE-NOS A DAR NOME A UMA NOVA ESTRELA!
<<CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS>>
 
— Uau! — sussurrou o Ben.
O Travis clicou depressa na última frase. De repente, abriu-se outra
página e, mesmo no cimo, viu-se uma enorme fotografia da estrela da
mãe a arder no Espaço. Senti-me como se tivesse um balão a crescer-me
no centro do peito e comecei a ter cócegas no nariz, e sabia que era por
estar orgulhosa da minha mãe. Tanto tinha andado à minha procura e
do Noah, que se tornara famosa!
O Travis moveu a página. Por baixo da imagem da minha mãe estavam
duas caixas: uma com um número que ia sempre decrescendo e outro
com um número que não parava de aumentar, de uma forma que
ninguém podia adivinhar. Quando olhámos pela primeira vez para o
segundo número, ia em 23 221. Ao fim de uns instantes, ia em 23 429.
Depois, em 23 512.
Aproximámo-nos e o Ben leu a página em voz alta.
 
CONTAGEM 
DECRESCENTE
51:52:15
ENTRADAS
23 578
 
FALTAM TRÊS DIAS PARA FAZER PARTE DA HISTÓRIA ESPACIAL!
O Observatório Real de Greenwich tem o orgulho de o convidar a contribuir para dar
nome ao fenómeno inédito de grande proximidade de uma estrela!
 
Às 14:28:15 GMT de terça-feira, 29 de outubro, os nossos astrónomos foram os
primeiros a detetar o que parecia ser uma estrela acabada de nascer a percorrer o
sistema solar a grande velocidade. Logo notada pela sua perigosa proximidade do
Planeta Terra, esta estrela aparentemente normal, em vez de se dirigir diretamente
para a superfície terrestre, desa�ou as leis da Física ao mover-se novamente para as
paragens mais remotas do espaço intergaláctico!
 
Para honrar este acontecimento prodigioso e assinalar a sua primeira ocorrência na
história da Astronomia, estamos a oferecer aos cidadãos do mundo a possibilidade
única de dar nome a esta estrela que agora procura o seu lugar na Via Láctea.
 
PARA CONCORRER
Basta preencher o formulário «AQUI» antes do �nal do prazo, dizendo o nome que
gostaria de dar à estrela e o motivo. Os nomes TÊM obrigatoriamente de ser
compostos por apenas uma palavra. Embora aceitemos nomes de todos os cantos do
mundo, todas as entradas têm de ser grafadas utilizando o alfabeto inglês.
 
Apenas uma entrada por pessoa.As pessoas de idade igual ou inferior a 16 anos têm de dar o nome e o endereço
eletrónico de um progenitor/encarregado de educação.
 
PRAZO: As entradas devem ser enviadas até às 00:00 de domingo, dia 1 de
novembro.
 
SELEÇÃO DO NOME VENCEDOR
Uma vez encerrado o concurso, a entrada vencedora será aleatoriamente selecionada
pelos nossos computadores. A divulgação do nome vencedor, que será noticiada em
direto às 19:00 de domingo, dia 1 de novembro, terá lugar na Gala da Kronos. Este
prestigioso evento assinala os 250 anos desde a fundação dos Relógios Kronos e terá
lugar no Planetário Peter Harrison em Greenwich, Londres.
 
O participante do nome vencedor será devidamente informado por e-mail, sendo-lhe
atribuído um certi�cado de nomeação único, assim como um Relógio Kronos de
edição limitada.
 
No fundo da página, via-se uma enorme fotografia de um rolo de
pergaminho atado com um laço preto e o relógio mais bonito que eu já
tinha visto. Tinha um mostrador azul-marinho com números prateados
a toda a volta e muitas estrelas brilhantes junto ao rebordo. Os ponteiros
não eram pontiagudos como os ponteiros normais: o maior tinha uma
estrela cadente prateada e o mais pequeno uma lua crescente. A meio do
mostrador, em letras douradas e minúsculas, lia-se «Kronos 250».
— Uau! — disse o Travis. — É o m-melhor relógio que x-xá vi!
— Pois é! — concordou o Ben. — Parece daqueles que o James Bond
usa nos filmes!
Depois calou-se de repente, olhou pela janela e ficou a olhar para o
Espaço. Acho que se estava a imaginar a usar o relógio.
O Travis moveu a página para cima.
— M-mas vejam bem quantas pessoas já enviaram nomes! — referiu,
a apontar para o segundo número, que já ia em 24 112.
O Ben debruçou-se no ombro do Travis e abanou a cabeça.
— E ainda faltam 51 horas para terminar!
Ao olhar para o segundo número, percebi de repente o que significava
e senti um aperto no peito.
— Mas… mas não podem deixar que outra pessoa dê nome à estrela da
minha mãe! — disse eu. — Temos de fazer com que eles percebam que
ela já tem nome!
O Travis moveu a página para a parte onde estava o formulário.
— Será que p-podemos preencher o formulário e dizer-lhes? —
sugeriu.
O Ben abanou a cabeça.
— Não vão ver. Provavelmente, vão receber centenas de milhões de
formulários! É um concurso para toda a galáxia, lembras-te?
O Travis acenou.
— Es-spera lá! — disse ele, enquanto deslocava a página para baixo.
Mesmo no final, na parte em que a página passava a ser preta, havia
uma lista. O Travis clicou onde se lia «Contacte-nos».
— Talvez lhes possamos l-ligar amanhã, quando a Sra. I. não estiver a
v-ver — sugeriu.
Mas, quando a nova página do site abriu, só se via um mapa que
mostrava onde se situava o Observatório Real e um simples endereço de
e-mail. Não havia um único número de telefone.
— Vamos enviar-lhes um e-mail! — afirmou o Ben. — Eu e o Travis
agora temos uma conta de e-mail! Podemos enviar dois e-mails!
Abanei a cabeça.
— Vejam — disse, a apontar para uma linha pequena abaixo do
endereço de e-mail.
O Travis e o Ben aproximaram-se e o Travis leu essa linha em voz alta.
«Todos os pedidos de in-for-mações gerais serão tratados num prazo
de sh-shete dias. Se pretender c-contactar um funcionário conhecido, p-
poderá fazê-lo através do endereço nome.apelido@rog.co.uk.»
— Trombas e trompetas! Mas que chatice — disse o Ben, a morder os
lábios. — Não conhecemos nenhum funcionário… e não podemos
esperar sete dias!
— Aniyah, lembras-te do nome da p-professora? — perguntou o
Travis, a olhar para mim com esperança. — Aquela que apareceu nas n-
notícias, assim como te l-lembraste do enderexo do site?
— Pois é, porque ela é funcionária! — disse o Ben, e deu uma
palmadinha nas costas do Travis. — Boa!
Fechei bem os olhos e tentei lembrar-me. Conseguia ver o cabelo dela,
preto e comprido, a cor dos óculos e a expressão que fez quando o
jornalista lhe fez perguntas. Mas não conseguia lembrar-me do nome
completo…
Abanei novamente a cabeça.
— Só me lembro de que era professora Grey-qualquer-coisa.
— E agora, o que fazemos? — perguntou o Ben, a olhar para nós
desesperado.
Ficámos os três a olhar para o ecrã em silêncio. Enquanto isso, o Travis
clicou no botão «Regressar» e voltou a abrir a página do concurso. De
repente, senti o meu cérebro dar um salto e bater no teto da minha
cabeça: tinha a resposta!
— Já sei! Podemos ir até onde estão os caçadores de estrelas! Estão em
Londres, por isso não podem estar assim tão longe!
Olhei para o Ben e para o Travis e esperei que eles também ficassem
entusiasmados. Mas, em vez disso, fizeram uma careta.
— Nós n-nunca fomos a Londres — declarou o Travis.
— É claro que já foram — disse eu, e pensei qual seria o problema
deles. — Nós estamos em Londres.
O Ben abanou a cabeça.
— Não. Se calhar era onde vivias antes, com os teus pais. Antes de…
Olhei para eles e fiquei a pensar se estavam a gozar. Mas pareciam tão
sérios, que comecei a sentir a cabeça às voltas. Tentei pensar. Na tarde
em que a minha mãe nos tinha ido buscar à escola e dito que íamos
jogar às escondidas com o meu pai, mandou-nos entrar num táxi, e a
viagem de táxi durou muito tempo. Percebi que tinha sido muito tempo
porque adormeci e, quando acordei, o sol já tinha desaparecido. Sabia
que, da última vez que a minha mãe nos tinha feito jogar às escondidas,
nos tínhamos escondido do meu pai, mas não sabia que também nos
tínhamos escondido de Londres! E a senhora do fato preto não nos tinha
dito nada acerca do local da casa de acolhimento nem a que distância
ficava da nossa casa verdadeira. A única coisa que disse, várias vezes, foi
que ia ficar tudo bem!
— Onde… onde é que estamos? — perguntei.
Senti a voz tremer como se estivesse a preparar-se para fugir outra vez.
O Ben e o Travis não disseram nada e olharam um para o outro com
uma expressão de dúvida. Senti alguma coisa escorrer-me do nariz e
limpei-a com raiva.
Então o Ben disse baixinho, como se tivesse pena de mim:
— Vila de Waverley.
— P-Perto de Ox-ford — acrescentou o Travis.
Eu já tinha ouvido falar de Oxford por causa dos dicionários, mas não
sabia onde era, por isso fiquei sem saber o que pensar.
— É bastante longe de L-Londres — explicou o Travis, e ficou outra vez
em silêncio.
Fechei os olhos com força e tentei fazer com que não se inundassem.
Mas não consegui e, de repente, tinha a cara toda molhada e o nariz a
escorrer.
— Não chores, Aniyah — pediu o Ben, pondo a mão no meu ombro.
— Vai ficar tudo bem. Eu também me senti assim quando vim para
aqui.
— Pois é — disse o Travis, a esfregar o nariz de um dos lados, como se
de repente tivesse de ser polido. — Eu a-antes vivia com a minha m-mãe
ao pé da p-praia. Foi difícil vir morar para aqui…
Acenei com a cabeça, com vergonha, e limpei a cara às mangas do
pijama.
Olhei para o Ben e para o Travis e abri a boca, mas tinha ficado outra
vez sem voz. Então, tentei dizer-lhes com os olhos que não importava
nada a distância a que estávamos de Londres nem se ia ser muito difícil
fazer passar a mensagem aos caçadores de estrelas! O computador dizia
que eu tinha mais de 51 horas para os impedir de dar o nome errado à
minha mãe. E era exatamente o que eu ia fazer.
 
* Em inglês, este aviso é na verdade uma expressão de boas-noites equivalente a «sonhos cor-de-
rosa». [N.T.]
6. 
AS PARTIDAS DO TEMPO
Na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, enquanto a Sra.  Iwuchukwu
fazia torradas e dançava, o Ben e o Travis não pararam de segredar coisas
entre eles e de olhar para mim. Estava a perguntar-me sobre o que
estariam eles a conversar, quando o Ben se debruçou na mesa e
segredou, com as mãos em concha em frente da boca:
— Aniyah, hoje à noite reunimo-nos outra vez… por causa daquela
coisa! Está bem?
Acenei, porque também tinha muitas coisas para lhes dizer.
— Olha! — sussurrou o Travis.
Inclinou-se para a frente, olhou em volta para garantir que a Sophie
não estava por perto, e deu-me um papel. Desdobrei-o depressa e li-o.
Não tinha palavras, só uns números rabiscados. Dizia:
 
40:35:11 1 089247
 
O tempo estava a esgotar-se.
— O que é isso? — perguntou a Sophie.
O Noah estava a bater com a colher na mesa e a falar sozinho sobre
tudo o que ia comer ao pequeno-almoço, por isso nenhum de nós a
tinha ouvido chegar.
Escondi depressa o bilhete nas mãos, enfiei-o no bolso das calças e
fiquei à espera de que ela dissesse alguma coisa. Até o Noah tinha
parado de falar e estava a olhar para ela como se também soubesse que
ela era perigosa. Mas ela semicerrou os olhos, fez balançar o seu rabo de
cavalo e, antes de se sentar na sua cadeira, disse:
— Quero lá saber!
— Ora aqui está! — disse a Sra. Iwuchukwu a cantar, pondo na mesa
um grande prato de torradas barradas com chocolate cremoso e rodelas
pequenas de banana por cima.
— Torradas de chocolate e banana de sexta-feira! Não podem dizer que
não vos mimo, hã?
O Ben e o Travis pegaram imediatamente numa cada um e enfiaram-
na na boca como se não comessem há um ano. O Noah começou a dar
saltinhos de entusiasmo. Pus-lhe uma no prato e fiquei a vê-lo pôr a
língua de fora como um lagarto, para lamber as bananas.
— Aniyah? — perguntou a Sra.  Iwuchukwu. — Tira uma para ti
também. Tens mesmo de começar a comer como deve ser, querida.
Senão, vou ter de te levar ao médico. Nesta casa, ninguém fica
malnutrido!
Acenei e pus uma fatia no meu prato. Queria que a Sra. Iwuchukwu
ficasse contente e, assim, me dissesse qual era a distância de Waverley a
Londres. E, pela primeira vez desde que a minha mãe tinha
desaparecido, estava com fome.
— Obrigada, Sra. Iwu-Iwuchukwu — disse eu, e provei a torrada.
— Meu Deus, o que é isto? — exclamou a Sra.  Iwuchukwu, a olhar
para mim e depois para os outros. — Estás a FALAR! Aniyah! Já tens
voz outra vez! Voltaste a ter voz! — Bateu palmas, levantou-se para me
abraçar e continuou: — Oh, que maravilha! Logo à noite, vamos celebrar
como deve ser, boa? A tua assistente social vai ficar tão contente quando
lhe contarmos!
O Travis e o Ben sorriram-me em segredo e o Noah exclamou «Sim,
sim, sim!», e bateu com a colher na mesa com mais força ainda. Eu
tinha-me esquecido de que a Sra. Iwuchukwu não me tinha ouvido falar
no dia anterior, por isso também sorri. Se ela estivesse contente, seria
mais fácil fazer todas as perguntas que tinha e conseguir ter as respostas
de que precisava.
— Mãe, não sejas parva! — reclamou a Sophie, enquanto engolia a
torrada. — Ela já fala desde ontem! Eu ouvi. Mas ela tem andado a
esconder-te isso!
— Ah… — murmurou a Sra. Iwuchukwu, e o seu sorriso tornou-se de
repente mais pequeno.
Olhei para a Sophie, do outro lado da mesa. Não estava a sorrir, mas eu
sabia que se estava a rir de mim por dentro.
— Bem, não deixam de ser ótimas notícias! — disse a
Sra.  Iwuchukwu, tentando parecer tão animada como há instantes. —
Nós, as mães de acolhimento, não temos de saber logo tudo, não é
verdade? Hã?
Não soube o que dizer, por isso olhei para a Sophie e fiz-lhe o meu
primeiro olhar de ódio. Nunca tinha feito aquele olhar a ninguém, nem
mesmo ao Steven Parvinho lá da escola, que gostava de chamar
«pãezinhos malcozidos» a mim e ao Noah, por a nossa mãe ser
brasileira e o nosso pai inglês. Mas devo ter feito mal o olhar, porque,
em vez de fazer com que a Sophie franzisse a testa ou ficasse com um ar
triste, fez com que ela ficasse com um sorriso que durou até ir buscar a
mochila para ir para a escola.
Depois de o Ben e o Travis também saírem para ir para a escola e de eu
ter comido a minha torrada toda, a Sra. Iwuchukwu disse-me a mim e
ao Noah para irmos lá acima buscar os casacos ao armário, porque
íamos sair com ela.
— Sair, mesmo a sério? — perguntei, ficando de repente
entusiasmada.
Desde que estávamos na casa de acolhimento, ainda só tínhamos ido
ao jardim, mas isso não contava, porque o jardim tinha um muro a toda
a volta.
— Sim, sim — anuiu a Sra. Iwuchukwu com um sorriso e um aceno
de cabeça. — Sair mesmo a sério. Hoje vamos conhecer a vossa
assistente social e uma agente da polícia muito especial. Vão arranjar-se,
depressa! Já estamos um bocado atrasados.
Peguei na mão do Noah e levei-o lá para cima, agora não tão
entusiasmada. Não sabia o que era uma «assistente social», mas não
parecia que a coisa fosse ser divertida. E não gostava de polícias, por
muito especiais que fossem, porque, desde que tínhamos começado a
esconder-nos no hotel-que-não-era-um-hotel, a minha mãe ficava
sempre a chorar quando ia ter com um polícia. Mas, se íamos sair, então
eu ia ver onde estávamos e se havia uma estação onde parassem
comboios com destino a Londres.
Ajudei o Noah a vestir o casaco e a calçar os sapatos e depois a
Sra. Iwuchukwu ajudou-nos a entrar no carro dela e arrancou.
Primeiro, foi por uma estrada comprida e cheia de curvas, com casas
de várias cores em volta. Mas depois as casas desapareceram e a estrada
tornou-se mais fina e estreita, até se tornar tão pequena, que, sempre
que vinha um carro no outro sentido, a Sra. Iwuchukwu tinha de parar
para o deixar passar. Nunca tinha visto uma estrada tão mínima, e não
me lembrava de a ter visto quando a senhora do fato preto nos tinha
levado.
Ao fim de algum tempo, a estrada tornou-se maior outra vez e
chegámos a uma cidade cheia de carros, pessoas e edifícios, todos feitos
da mesma pedra castanho-dourada. Encostei o nariz ao vidro e tentei ler
as tabuletas, mas não havia nenhuma que apontasse para Londres e
também não vi nenhuma que indicasse uma estação de comboios.
— Chegámos! — disse a Sra. Iwuchukwu, quando virámos para uma
rua pequena e parámos junto a um edifício que dizia «SERVIÇOS DE
APOIO À CRIANÇA DE OXFORD», em letras gigantes e brancas.
— Niyah, olha! — exclamou o Noah, a apontar para um enorme
escorrega em frente ao edifício, que estava pintado de forma a parecer
uma lagarta. — Podemos ir brincar para ali? Vá láááá! — implorou, a
bater palmas, enquanto a Sra. Iwuchukwu o ajudava a sair do carro.
Mas ela abanou a cabeça e disse:
— Agora não, Noah. Mas, se prometerem que se portam bem, deixo-
vos brincar a seguir. Está bem?
O Noah acenou com a cabeça e, pela primeira vez, deixou que ela lhe
desse a mão.
Eu não queria dar a mão à Sra.  Iwuchukwu, mas ela não pareceu
importar-se com isso e deixou que eu fosse atrás dela e do Noah
enquanto entrávamos no edifício.
— Sra. Iwuchukwu? — perguntou uma senhora quando chegámos à
receção, no piso de cima.
Tinha um macacão com um panda cintilante, mechas de cabelo
amarelo que pareciam espirais de massa e olhos muito azuis. Ao lado
dela, estava uma mulher alta de camisa branca e calças pretas, com o
cabelo atado numa grande trança. Usava óculos prateados que eram tão
redondos como os seus olhos e que a faziam parecer um robot.
A Sra. Iwuchukwu confirmou com um gesto de cabeça.
— Ah! Eu sou a Sra.  Trevors e esta é a Detetive Carolyn Lewis, do
Departamento de Investigação Criminal. E estes devem ser o Noah e a
Aniyah — disse a senhora, baixando-se.
Estendeu-me a mão para que eu lhe desse um passou-bem e a seguir
fez o mesmo ao Noah.
— Podem vir connosco — disse a Sra.  Trevors a sorrir, e levou-nos
para uma sala pequena onde tudo era cinzento. A única coisa que não
era cinzenta era uma mesa pequena onde havia um conjunto de canetas
de colorir, folhas de papel e uma caixa cheia de Lego. — Olhem, Aniyah e
Noah, em princípio, eu só vos veria daqui a algumas semanas, para vos
dar tempo de se instalarem na casa nova com a Sra.  Iwuchukwu —
disse a Sra. Trevors, deixando o Noah ir direito à caixa de Lego e começar
a brincar. — E sei que o vosso Oficial de Ligação Familiar e a
Sra. Granger vos diriam que haviam de me conhecer em breve…
Olhou para mim e para a Sra. Iwuchukwu enquanto nos sentávamos
num sofá cinzento e comprido e ela e a detetive de ar rijo se sentavam
nas cadeiras, ficando de frente para nós. Tentei lembrar-me de quem
eram as pessoas de que ela estava a falar, mas não consegui.
— Mas, neste momento, eu e a Detetive Lewis precisamos de ajuda
para entender certas coisas que aconteceram antes de a vossa mãe…
partir. E temos de vos fazer algumas perguntas. Podeser, Aniyah?
A Sra. Trevors, a Sra. Iwuchukwu e a senhora detetive-robot olharam
todas para mim e ficaram à espera de que eu dissesse alguma coisa. A
minha voz tinha voltado a desaparecer, por isso acenei e sentei-me em
cima das mãos, porque, de um momento para o outro, tinham ficado
frias como blocos de gelo.
— Boa — disse a Sra. Trevors. — Não tens de responder a nada que
não queiras e, se for muito difícil para ti dizer-me alguma coisa, podes
escrever, ou desenhar, com isto aqui. Está bem?
Acenei outra vez e a Sra.  Trevors pôs umas folhas de papel lisas e
canetas de colorir ao pé de mim e depois olhou para o grande relógio de
plástico que estava na parede. O bilhete do Travis dizia que só tínhamos
40 horas para arranjar maneira de impedir os caçadores de estrelas do
Observatório Real de darem o nome errado à minha mãe. Mas isso tinha
sido há mais de uma hora, por isso agora já só tínhamos 39…
A Sra. Trevors olhou para um bloco de notas e começou a ler-me uma
série de perguntas. Algumas delas, já as tinha ouvido da Katie, a amiga
da minha mãe do hotel-que-não-era-mesmo-um-hotel. Eram sobre os
meus pais e os tipos de jogos a que o meu pai gostava de brincar
connosco. Como o Jogo da Hora de Ir para Casa, que era quando eu, a
minha mãe e o Noah tínhamos de ir para casa a correr todos os dias a
seguir à escola e estar lá às 16 horas em ponto, para podermos atender o
telefone quando o meu pai ligasse. Por muito longe que ele estivesse,
mesmo que estivesse noutro país em trabalho, ligava sempre às 16 horas
em ponto para garantir que estávamos todos em casa e que estávamos
em segurança. E o Jogo do Desaparecer e das Desculpas. Era um jogo
que o meu pai jogava quando partia alguma coisa, como um prato ou
uma cadeira, ou quando a minha mãe caía nas alturas em que ele estava
a arrastar móveis. Sabíamos que ele estava a fazer esse jogo porque ele
desaparecia por várias horas e depois voltava com flores, brinquedos,
chocolates e presentes, e tentava pedir desculpa pelo menos 50 vezes por
hora. E ainda havia muitos outros jogos, mas não tive vontade de falar
sobre eles em voz alta, então escrevi alguns deles. É cansativo ter de
responder várias vezes às mesmas perguntas, por isso só dei respostas
curtas.
Mas, depois, a senhora detetive-robot começou a fazer perguntas novas
que eu nunca tinha ouvido, e todas sobre o dia em que a minha mãe
partiu. Comecei a sentir picadas nos olhos e a minha mão a deixar de
conseguir escrever. Porque, na verdade, não consigo lembrar-me de tudo
o que aconteceu naquele dia. Pelo menos, não me lembro bem. E é uma
coisa que me faz ter medo. Nunca me quero esquecer do último dia em
que vi a minha mãe, mas, sempre que me tento lembrar do aspeto dela,
do que trazia vestido ou do que me disse, a minha cabeça fica confusa e
começo a ter medo de me esquecer totalmente dela. Faz-me lembrar
uma história que ela um dia me leu sobre o Pai Tempo, que conseguia
pregar partidas às pessoas de quem não gostava.
Nessa história, o Pai Tempo zangou-se com o mundo dos humanos
por desperdiçarem as suas dádivas ao tentarem transformar o tempo em
dinheiro e travarem guerras. Para os castigar, fez com que todos os
relógios do mundo andassem cada vez mais depressa, até que ninguém
fosse capaz de recordar as pessoas que amava ou as memórias mais
felizes, nem entender como é que, de um momento para o outro, se
tinha tornado velho e cinzento. Só se salvaram as crianças que sabiam
passar o tempo com alegria. Para travar a crueldade do Pai Tempo, só era
preciso estarmos felizes ao máximo, durante o máximo de tempo
possível, e gratos por cada minuto que nos era dado. Porque, assim que
parávamos, o Pai Tempo fazia acelerar os relógios e tornava-nos velhos,
esquecidos e tristes num abrir e fechar de olhos. Acho que devo ter feito
alguma coisa mal no dia em que a minha mãe desapareceu, porque o
tempo continua a aumentar ou a desaparecer e torna pouco nítidas as
imagens que tenho na cabeça, como uma pintura nova para onde, sem
querer, alguém tivesse entornado água.
Estas são as coisas que consigo recordar do dia em que a minha mãe
desapareceu:
Lembro-me de acordar, ver a minha mãe a lavar os dentes no lavatório
minúsculo no canto do quarto em que estávamos a dormir e de ela
prender o cabelo num rabo de cavalo. Tinha deixado de esticar o cabelo,
algo que antes fazia para o deixar perfeito para o meu pai, por isso nessa
altura tinha-o encaracolado e com vontade própria, como o meu e o do
Noah. Também tinha deixado de se maquilhar e dizia que já não
precisava de estar sempre bonita, mas eu achava que ela ficava ainda
mais bonita assim.
Lembro-me de, a seguir, tirar para fora a minha «roupa de disfarce»
para esse dia. Era assim que chamávamos à roupa que tínhamos no
hotel-que-não-era-mesmo-um-hotel, porque tinha vindo de um saco de
lixo gigante e, na verdade, não era nossa. Era roupa que alguém nos
tinha dado e que vestíamos para que ninguém nos reconhecesse e
conseguíssemos ganhar ao jogo das escondidas que estávamos a jogar
com o meu pai.
Lembro-me de me vestir e de perguntar à minha mãe se estava com
bom aspeto e de a ver pousar a grande pilha de papéis que tinha nas
mãos. Eram papéis sobre como nos escondermos melhor e fizeram com
que a minha mãe ficasse com um ar triste e preocupado. Lembro-me de
perguntar se podia ajudar com os papéis e de ela me sorrir. A minha
mãe tinha o sorriso mais bonito do mundo, porque fazia sempre com
que toda a gente à sua volta sorrisse também. Lembro-me de me sentir
feliz e de ter esperança de que, um dia, os meus dentes fossem tão
brancos e brilhantes como os dela. Acho que ela me respondeu qualquer
coisa, mas, quando me tento lembrar, fica tudo desfocado e
ZÁÁÁÁÁÁS! — o tempo passa à frente tudo o que aconteceu ao
pequeno-almoço e o aspeto da minha mãe quando nos fez panquecas
pela última vez e passa a grande velocidade para o momento em que ela
nos estava a levar para o quarto dos brinquedos.
Lembro-me de a Felicity, que tomava conta de nós, abrir a porta e nos
dizer olá e de a minha mãe dizer ao Noah que não se portasse mal.
Lembro-me de o cabelo da minha mãe me fazer cócegas na cara quando
se baixou para me dar um beijo e do som da voz dela quando disse «Até
logo, meninos, portem-se bem. E não se esqueçam de comer os legumes
ao almoço!» E se tentar com muita força e fechar bem os olhos e fizer
com que os meus ouvidos parem de ouvir, consigo mesmo lembrar-me
de ver a minha mãe acenar-me, do brilho que ela tinha nos olhos e da
forma como franziu um bocado o nariz quando disse adeus. Mas depois
a imagem volta a ficar desfocada e ZÁÁÁÁÁÁÁÁS!, o tempo passa à
frente grande parte do dia e só me traz bocados de imagens como se
fossem pedaços de um espelho partido. Por exemplo:
 
1. O quarto dos brinquedos ficar vazio de repente, porque as outras
crianças já se tinham ido embora.
2. A Katie a olhar para o relógio, com o telemóvel encostado ao ouvido,
a abanar a cabeça e a dizer «Não atende».
3. O pequeno jardim junto à casa ficar cada vez mais e mais escuro…
 
E depois, ZÁÁÁÁÁÁÁÁS!, o tempo acelera outra vez e para nas 8 da
noite em ponto. Sei que eram essas horas porque, quando a Katie abriu
a sala da televisão, olhei para cima, para onde estava o relógio. Pensei
que a minha mãe ia estar com ela, mas não era a minha mãe: eram dois
agentes da polícia, e os olhos de ambos, grandes e em lágrimas, olharam
diretamente para os meus.
A última coisa de que me lembro foi de ver os ponteiros do relógio na
parede e de o pequeno estar fixo em cima do número oito, como se não
se quisesse mover. Nesta parte, a minha memória é ainda mais
enganadora, porque faz com que os sons desapareçam e as palavras se
arrastem, como se tudo estivesse a ser esmagado e sugado por um
aspirador gigante e silencioso. As únicas palavras que os meus ouvidos
se lembram de ouvir são «Oficial… Familiar… A tua mãe queria…
Partiu… Tu… Sentimos muito… Compreendes… É preciso ir…»
Não me lembro de quem disse estas palavras, quais eram as palavras
em falta, nem quem pôs as mãos no meu ombro e me gelou.A única
coisa que sei é que… foi nesse momento que ouvi um estampido alto
vindo de uma parte bem funda do meu coração e uma enorme explosão
lá em cima no céu e um chiar, como se o mundo tivesse parado de girar
e não soubesse como voltar a mover-se. Olhei em volta para ver se a
Felicity ou a Katie ou os agentes da polícia também tinham ouvido
aqueles ruídos, mas eles ainda tinham as bocas a abrir e fechar, e então
percebi que não tinham ouvido, porque quem ouve um som daqueles
não consegue continuar a falar. Depois olhei para o Noah, que estava a
olhar para mim, com a cara vermelha e molhada e de boca aberta, e
percebi logo que ele também tinha ouvido aqueles sons. Foram os sons
que a minha mãe fez quando abandonou o corpo e se transformou
numa estrela.
Mas não podia escrever aquelas coisas e não queria dizer à Sra. Trevors
e à senhora detetive-robot que não era capaz de me lembrar bem das
coisas. Esperei que elas se fartassem de me fazer perguntas e que me
fizessem a única questão que eu queria ouvir.
— Então, Aniyah… há alguma coisa que me queiras perguntar, a mim
ou à Detetive Lewis?
Levantei os olhos para a Sra.  Trevors e abri a boca. Senti a garganta
tentar desbloquear-se outra vez e esperei que os sons saíssem. Ao fim de
alguns segundos, ouvi-me perguntar:
— A que distância estamos de Londres?
A Sra. Trevors olhou para mim de testa franzida, depois para a detetive
e depois para a Sra. Iwuchukwu.
— Bom, eu sei que antes vivias em Londres, por isso é perfeitamente
normal que queiras saber — disse ela, escrevendo depressa qualquer
coisa no bloco de notas. — Estamos só a uma hora de comboio, um
pouco mais se for de autocarro ou de carro. Não estamos assim muito
longe, Aniyah. Quando tudo estiver um pouco mais composto, talvez a
Sra. Iwuchukwu vos possa levar até lá para dar um passeio?
A Sra. Iwuchukwu concordou.
— Mais alguma coisa?
Queria fazer-lhe pelo menos umas 50 perguntas. Por exemplo, onde
estava o meu pai e se ele sabia onde é que nós estávamos agora, ou se
tinha desistido de nos procurar. E se o facto de vivermos numa casa de
acolhimento significava que nunca mais ia poder voltar para casa. E, se
não íamos voltar, o que é que ia acontecer ao meu globo celeste, a todos
os meus livros, ao meu fato preferido do Dia das Bruxas, aos ténis
luminosos do Noah e ao boneco que o ajudava a dormir à noite, o
Woody.
Mas, em vez disso, abanei a cabeça e voltei a olhar para o relógio na
parede. Tinha passado mais uma hora, o que queria dizer que já só tinha
38 horas. Esse pensamento fez o meu coração ter vontade de fugir. Mas
não podia deixá-lo fazer isso, porque, dali para a frente, por muitas
partidas que o tempo me pregasse, nunca mais ia deixar que ele me
tirasse nada.
7. 
A DETETIVE SECRETA
Quando regressámos do edifício dos Serviços de Apoio à Criança e
chegámos a casa, a Sra.  Iwuchukwu deixou-nos ir brincar para a sala
enquanto fazia uma pizza para o almoço. Pôs o rádio muito alto por ser
sexta-feira e cantou uma música esquisita de uma forma que mais
parecia que estava a ser estrangulada. Na rádio, disseram que era a
«Hora da Ópera», o que a mim me parece ser uma hora especialmente
dedicada a quem não sabe cantar e tenta cantar o mais alto que
consegue.
Enquanto o Noah estava ocupado a fingir que fazia uma corrida de
carros com a grande caixa de carros de brincar que a Sra.  Iwuchukwu
lhe tinha dado, pus-me a pensar no que a Sra. Trevors tinha dito: que
Londres ficava à distância de uma viagem de comboio ou autocarro.
Mas, quando estávamos a voltar para casa de carro e voltámos a passar
pela cidade com as igrejas antigas, tentei por tudo ver se reparava numa
estação de comboios e se havia autocarros por ali, mas só encontrei um
sinal que dizia «A cidade histórica de Oxford agradece a sua visita»,
muitos carros e pessoas a andar de bicicleta com umas capas pretas
muito estranhas.
Então, de repente, tive uma onda cerebral!
Só precisava de uma bicicleta! Se o Travis ou o Ben tivessem uma que
me emprestassem, podia ir de bicicleta ter com os caçadores de estrelas
que estavam a dar nome à estrela da minha mãe! Podia demorar mais
tempo do que se fosse de comboio ou autocarro, mas também não tinha
dinheiro para o bilhete e, além disso, era boa a andar de bicicleta.
Quando o meu pai me ensinou a andar, disse que eu era uma «ciclista
nata».
Assim que o meu cérebro parou de me enviar ondas, resolvi fazer
todas as perguntas possíveis sem que a Sra. Iwuchukwu percebesse que
eram perguntas importantes. Na nossa antiga casa, sempre que o meu
pai estava noutro país por causa do trabalho do banco, a minha mãe,
como podia fazer o que lhe apetecesse, embrulhava-se numa manta e
ficava a ver uma série de detetives que era sobre um homem com um
sotaque esquisito e um bigode ainda mais esquisito. Fazia sempre
perguntas inteligentes que pareciam simples, mas na verdade não eram,
e a seguir acenava com a cabeça e passava a mão pelo bigode. Era assim
que conseguia ter sempre as respostas de que precisava e resolver os
casos. E era isso que eu ia fazer: ia ser exatamente como o detetive e
conseguir todas as respostas de que precisava sem que ninguém
imaginasse o que eu estava a fazer. Como não tinha bigode, ia passar a
mão pelas sobrancelhas.
Deixei o Noah a brincar e fui à cozinha. A Sra.  Iwuchukwu estava a
cortar tomate junto ao lava-loiça e a abanar o seu vestido verde-vivo ao
som da rádio. Vista de trás, parecia a copa de uma árvore a mover-se ao
sabor do vento. Ao fim de uns instantes, virou-se, deu um salto para trás
e levou a mão ao peito.
— Oh, Aniyah! Não vi que estavas aí! Ias-me dando um chelique!
Era exatamente aquela a reação que as pessoas da série da minha mãe
tinham quando viam o detetive, por isso soube que estava a conseguir
pôr em prática aquela coisa de ser detetive.
— Sra. Iwuchukwu, há alguma bicicleta com que eu possa brincar?
— Queres dizer andar de bicicleta? Agora, agora? — A
Sra. Iwuchukwu franziu a testa e virou-se para olhar para a janela. Havia
nuvens cinzentas a passar lentamente e gotas de chuva no vidro. —
Bem, hoje está um certo frio, Aniyah, e parece que vai começar a chover.
Talvez amanhã, não?
— Mas… mas há alguma bicicleta que eu possa usar? — perguntei,
tentando que a minha expressão não se alterasse e não parecesse muito
entusiasmada.
— Hum, não vejo porque não hás de poder pedir uma emprestada ao
Travis ou ao Ben, ou até à Sophie — disse ela, a sorrir. — Estão no
barracão, por isso podemos tirá-las quando estiver mais sol. E tenho de
ver se consigo arranjar-te um capacete.
Acenei e depois lembrei-me do que fazia o detetive e passei a mão
pelas sobrancelhas. Por fora, a minha cara não se alterou minimamente,
mas, por dentro, o meu cérebro estava aos saltos num trampolim, a dar
socos no ar e a gritar «Siiiim!»
Não queria que a Sra. Iwuchukwu se apercebesse do que eu estava a
fazer, por isso decidi esperar meia hora antes de lhe fazer a minha
próxima pergunta secreta. O detetive da série nunca fazia todas as
perguntas de uma vez, para os suspeitos não ficarem desconfiados, por
isso quis perguntar-lhe outra coisa num momento em que ela não
estivesse à espera de uma pergunta. Se esperasse e só lhe fizesse uma
pergunta de meia em meia hora, ia conseguir descobrir pelo menos três
coisas antes de o Ben e o Travis voltarem da escola!
Assim que decidi esperar meia hora, o tempo começou a passar tão
devagar, que só podia estar avariado. Mas eu não ia desistir, então fui
desenhar com o Noah, depois ajudei a Sra. Iwuchukwu a pôr a mesa, a
seguir comi a pizza muito devagar e engoli o sumo de laranja ainda
mais devagar, até que finalmente passou meia hora.
Pousei o copo e limpei a boca às costas da mão. O Noah, que estava a
imitar-me entre risadinhas, fez o mesmo e esperou para ver o que eu ia
fazer a seguir.
— Sra. Iwuchukwu?
— Sim? — disse a Sra.  Iwuchukwu depois de dar uma dentada na
pizza.
— Gosta de mapas de estradas?
Mais uma vez, tal como as pessoas na série de detetives, a
Sra. Iwuchukwu pareceu surpreendida, o que me deu a certeza de quetinha feito bem a pergunta.
— Bem, não… Não posso dizer que goste… Normalmente, quando vou
a algum lado, uso o GPS. Queres ver?
Acenei e fiquei a vê-la ir até ao parapeito da janela, onde estava o rádio,
e desligar qualquer coisa de um carregador.
— Agora já tem alguns anos, mas o Sr.  Iwuchukwu adorava usá-lo.
Toma — disse, ligando-o e passando-mo para as mãos.
Nunca tinha segurado num GPS, porque os dos meus pais estavam
fixos ao interior do carro e não precisavam de se ligar a uma ficha na
parede para carregarem. Era como um ecrã de televisão minúsculo e
uma consola de jogos num só. O Noah debruçou-se no meu ombro
quando o ecrã se acendeu por um instante e depois voltou a ficar preto.
— Oh, não! Esqueci-me de ligar o interruptor — disse a
Sra.  Iwuchukwu, voltando a tirar-me o GPS da mão e pondo-o a
carregar. — Sou terrível a carregar estas coisas!
— Ah — suspirei eu, e fiquei a pensar se o Travis conseguiria arranjar
o mapa de que eu precisava na Internet e imprimi-lo.
— Mas também tenho um Londres de A a Z… — acrescentou ela,
enquanto voltava a sentar-se à mesa e limpava a boca ao guardanapo.
O Noah tinha parado de me imitar e, em vez disso, estava agora a
imitar a Sra. Iwuchukwu, por isso também pegou no guardanapo. Mas,
em vez de limpar só a boca, pôs-se a limpar a cara toda.
Fiquei a pensar no que a Sra.  Iwuchukwu quereria dizer com «um
Londres de A a Z» e se por acaso teria pensado que eu me estava a referir
a um dicionário e não a um mapa. Mas depois ela disse:
— Ainda o levo comigo quando vou de carro a um sítio novo em
Londres. Às vezes, até os GPS se enganam, por isso é sempre melhor ter
uma alternativa segura! Porquê, gostas de mapas, Aniyah?
A Sra.  Iwuchukwu estava a olhar para mim com a cabeça inclinada
para um lado, o que a fazia parecer-se com o Ben.
Acenei com a cabeça.
— Olha, isso é muito interessante. Acho que não conheço ninguém
que goste de mapas!
— Então posso… posso ver esse Londres de A a Z? — perguntei, e senti
os meus pés ficarem inquietos de entusiasmo debaixo da mesa.
— Claro — sorriu a Sra.  Iwuchukwu. — Está algures numa das
prateleiras da sala. Podes usar sempre que quiseres.
O meu cérebro deu mais um salto no trampolim. Passei a mão pela
sobrancelha e obriguei-me a não fazer mais perguntas.
Depois do almoço, a Sra.  Iwuchukwu encontrou o livro de mapas
Londres de A a Z e deu-mo. Era um livro estranho, com centenas de
páginas de estradas amarelas e manchas verdes, números, linhas e
quadrados, com letras na parte de cima. Já tinha visto mapas como
aqueles em livros escolares antigos, mas não sabia como havia de os
usar para ir ter com os caçadores de estrelas e impedi-los de dar o nome
errado à minha mãe. Decidi que o melhor era o Travis encontrar um
mapa mais fácil no computador e devolver à Sra. Iwuchukwu o Londres
de A a Z, que era uma confusão.
Enquanto eu fingia estar a ver os mapas, para que a Sra. Iwuchukwu
pensasse que eu estava mesmo a gostar, concentrei-me a sério na forma
de fazer a minha última pergunta. Tinha de arranjar outra forma de
dizer «lanterna», mas, por muito que pensasse nisso, não me ocorreu
uma palavra suficientemente boa. Não podia pedir-lhe um pauzinho
luminoso ou uma máquina de luz: não fazia sentido nenhum, e isso fez-
me perceber que há palavras que nunca podem ser substituídas por
outras de forma a terem o mesmo significado. No final, quando a
Sra.  Iwuchukwu estava a tentar ensinar o Noah a estalar os dedos tão
alto como as pessoas na televisão, perguntei:
— Sra. Iwuchukwu… pode dar-me uma lanterna… se faz favor?
A Sra. Iwuchukwu olhou para mim e franziu o sobrolho.
— Uma lanterna? — perguntou.
Acenei. Percebi que ela estava a ter pensamentos sérios, por isso, de
repente, a minha boca disse uma mentira. Nem sabia o que estava a
dizer, até me ouvir proferir as seguintes palavras:
— Não gosto de dormir no escuro sem uma por perto.
Comecei a sentir a minha cara a corar, por não gostar de mentir. Nunca
tinha dormido com uma lanterna, e portanto a minha cara não
conseguiu fingir o contrário. Por outro lado, precisava da lanterna para
chegar à estrela da minha mãe e sabia que ela havia de dizer que não
fazia mal contar aquela mentira, porque assim ia ficar mais segura e
fazer com que a Sra.  Iwuchukwu não ficasse preocupada comigo. A
minha mãe estava sempre a mentir a muitas pessoas para que elas não
se preocupassem connosco, e isso também a fazia sempre corar.
A Sra. Iwuchukwu pôs o dedo no queixo e, ao fim de alguns segundos,
disse:
— Tenho a certeza de que tenho algures uma lanterna de viagem. Vou
ver se consigo encontrá-la, está bem?
Acenei e voltei a fingir que lia o Londres de A a Z. Tinha feito todas as
perguntas que queria e já não tinha de continuar a fazer de detetive.
Assim que o Ben e o Travis chegassem a casa, ia poder contar-lhes o
meu plano e perguntar se algum deles me emprestava a sua bicicleta e
um capacete. Precisava que eles me ajudassem a sair de casa, e talvez
tivesse de aprender a usar o mapa, mas, desde que conseguisse fazer
isso até à noite do dia seguinte, conseguiria chegar antes de o tempo
acabar e de encerrarem o concurso para dar nome à estrela da minha
mãe.
Mas o Ben e o Travis não chegaram a casa às 15h40, como era costume.
Nem às 16. Nem mesmo às 17 horas! Quis perguntar à Sra. Iwuchukwu
onde estavam e porque se estavam a atrasar, porque não gostava de não
saber das pessoas quando elas já deviam ter chegado a casa e já estava a
ficar maldisposta com isso.
Mas depois, às 17h41, a porta de casa abriu-se e ouvi os passos do Ben
e do Travis a correr pelo corredor.
— Meninos! Jantem já! — chamou a Sra.  Iwuchukwu, no momento
em que eles entravam pela cozinha de t-shirt e calções cheios de lama.
— Baril! Hambúrguer com batatas fritas! — disse o Ben, saltando para
a sua cadeira e tirando um dos hambúrgueres que estavam num prato
grande no centro da mesa. — O-há, Aniyah. O-há, Noah! — acrescentou,
com as bochechas tão cheias que pareciam prestes a explodir.
Fiz um aceno com a cabeça e o Noah tocou-me no braço para me pedir
um hambúrguer.
— Não se esqueçam de deixar batatas fritas para a Sophie! — pediu a
Sra.  Iwuchukwu, chegando à cozinha e pondo à nossa frente um
tabuleiro cheio de batatas fritas. — Depois da natação, vai estar esganada
de fome.
O Ben e o Travis acenaram com a cabeça e tiraram, cada um, mais um
hambúrguer, que engoliram em menos de 30 segundos.
O Ben, que estava a mastigar como um camelo e a fazer muito barulho
a engolir, levou uma mão cheia de batatas fritas à boca e, de repente,
pôs-se de pé num salto.
— Sra. I., vou t’mar banho! — gritou.
— Está bem — disse a Sra.  Iwuchukwu, que nesse momento fazia
qualquer coisa no fogão, de onde vinha o som de alguma coisa a fritar.
— Eu t-também — disse o Travis, levantando-se e fazendo barulho a
afastar a cadeira da mesa.
— Psst! Aniyah! Vai ter ao quarto do Travis depois de acabares de
jantar, está bem? — sussurrou o Ben, debruçando-se na mesa.
— Está bem — respondi num sussurro.
— Temos u-uma coisa para te mostrar! — disse o Travis, com um ar
animado.
A seguir, lambeu os bocados de batata frita que tinha no aparelho, fez-
me um sinal com o polegar para cima e saiu da cozinha com o Ben, os
dois numa grande correria.
8. 
A MISSÃO ULTRASSECRETA DA MEIA-NOITE DOS CAÇADORES
DE ESTRELAS!
— Já acabaste, Aniyah? — perguntou a Sra.  Iwuchukwu quando me
levantei rapidamente da cadeira e fiquei de pé ao lado da mesa de jantar.
Confirmei com um gesto de cabeça, na esperança de que a regra de
sair-da-mesa-quando-se-quiser fosse válida para mim tanto quanto
parecia ser para o Ben, o Travis e a Sophie.
A Sra. Iwuchukwu olhou para o meu prato e para o hambúrguer meio
comido que tinha ficado no centro. Não conseguia comer mais, porque
estava em pulgas para saber o que o Travis e o Ben me queriam mostrar.
— Hum — fez ela, de testa franzida. — Quer-me parecer que vais ter
de beber um copo de leite daqui a pouco, não?
Repeti o gesto de cabeça e abri a boca para dizer à Sra. Iwuchukwu que
havia de beber todo o leiteque estivesse no frigorífico se ela me deixasse
sair da mesa naquele momento. Ouvia o chão ranger no piso de cima, o
que significava que o Travis e o Ben já deviam ter acabado de tomar
banho, e já não conseguia esperar mais.
— Está bem, vai lá — anuiu ela, e desviou a cadeira, de maneira a que
eu conseguisse passar entre ela e a bancada da cozinha.
— Eu também! — disse o Noah, lambendo o último bocado de
ketchup dos dedos e saltando da mesa para me seguir.
Ouviu-se a porta de entrada bater com um estrondo e a Sophie veio a
correr pelo corredor como um trovão. Chegou à cozinha, atirou com a
mochila para o chão e grunhiu «A morrer de fome!», lançando-me um
olhar que parecia dizer que a culpa de ela ter fome era minha.
Disse às minhas bochechas para não mudarem de cor, saí da cozinha e
subi as escadas a correr, com o Noah atrás de mim. Parei em frente da
porta do Travis, mas, antes sequer de bater, ela abriu-se de repente.
— E-entra — disse o Travis.
A sua voz parecia estranha, detrás da grande cortina de cabelo
castanho e brilhante que lhe cobria a cara como uma cascata. Estava
molhado e a pingar por todo o lado.
O Noah entrou no quarto antes de mim e foi logo ver os bonecos de
super-heróis nas estantes do Travis.
— C-Cuidado — disse o Travis, pondo depressa alguns dos bonecos
maiores fora do alcance do Noah. — P-podes brincar com eshte —
sugeriu, dando ao Noah um boneco do Batman. — E com e-eshte —
acrescentou, estendendo-lhe um do Incrível Hulk.
O Noah acenou com a cabeça, muito sério, e agarrou neles como se
fossem chupa-chupas que mal pudesse esperar por lamber.
— Onde está o Ben? — perguntei, quando o Travis fechou a porta.
— A-Ainda está a vestir-se — informou o Travis, encolhendo os
ombros e ficando a olhar para mim durante exatamente sete segundos
sem pestanejar uma única vez. Depois virou-se, pegou na mochila e
tirou de lá um jornal. — Olha — disse. — É a tua, hã… esh-eshtrela.
Olhei para baixo e senti o Noah vir ter comigo a correr. Ali estava,
ocupando toda a primeira página, a fotografia da estrela ardente da
minha mãe que tínhamos visto na noite anterior: subia, mais e mais, no
céu negro do Espaço. Em cima, lia-se em letras gigantes:
 
A NOSSA NOVA ESTRELA DE ROCK!
 
Peguei no jornal e segurei-o direito, para que eu e o Noah
conseguíssemos ver como deve ser. Senti-me como se houvesse um
foguetão a descolar dentro de mim. A minha mãe não era só uma
estrela! Era uma estrela de rock! Uma verdadeira estrela de rock, viva!
Tive vontade de abraçar o jornal e ficar a segurá-lo durante pelo menos
mil anos. Talvez o tivesse feito, se o Travis não estivesse ali. Mas estava,
por isso sorri-lhe e disse:
— Obrigada.
— Niyah? Essa é mesmo a mãe? — perguntou o Noah, aproximando a
cara do jornal ao ponto de lhe tocar com o nariz.
Fiz um gesto com a cabeça para lhe dizer que sim e, de repente, ele
lançou-se para a frente e deu à fotografia da nossa mãe um enorme
«CHUAC!». Já quase me tinha esquecido daquele som. Era assim o
beijo que ele costumava dar à nossa mãe quando ela nos ia levar à
escola.
— P-podes ficar com isso — disse o Travis com orgulho.
Olhei para o jornal com vontade de ler tudo o que diziam sobre a
minha mãe, do princípio ao fim. Mas queria fazer isso a sós, para poder
olhar para as imagens com muita atenção e beber todas as palavras,
como se fosse um delicioso batido de manteiga de amendoim. Obriguei
os meus olhos a olhar para outro lado e fiz sinal ao Travis.
— Arranjei-o na escola. Era do m-meu p-professor — disse o Travis
com um sorriso. — E-e eu e o Ben arranjámos-vos isto…
Virou-se, procurou na mochila e tirou de lá um livro.
— É da b-biblioteca da nossa escola. Estava na prateleira das viaxens —
explicou. — A nossa turma foi lá no ano passado, mas n-nós não fomos,
p-porque chegámos atrasados.
Dei o jornal ao Noah, disse-lhe para ter muito cuidado com ele e
peguei no livro brilhante que o Travis me estava a dar. A um canto, dizia
«GUIA DE VISITA», em letras brancas e grossas, e, no centro da
página, estava uma fotografia de um edifício alto de tijolo vermelho.
Tinha pequenas janelas redondas a toda a volta, como daquelas que se vê
nos navios, e, em vez de um telhado triangular normal, tinha uma
cúpula que mais parecia uma cebola gigante cortada ao meio. Entre as
duas metades havia um espaço, como se alguém lhe tivesse tirado uma
fatia, e daí via-se sair um grande telescópio branco.
Pus-me logo a folhear o livro. Havia muitas imagens antigas de
máquinas de aspeto estranho e telescópios gigantes, imagens a cores de
relógios dourados, mapas que pareciam globos e pinturas históricas de
homens velhos a apontar da janela. Era dos melhores e mais
empolgantes livros que eu já tinha visto.
— E o-olha aqui — disse o Travis.
Tirou-me o livro e abriu-o no final, onde havia um mapa que ocupava
duas páginas. Chamava-se «UM MAPA DE GREENWICH EM
LONDRES» e mostrava um rio azul-vivo e cheio de curvas chamado Rio
Tamisa, com desenhos de edifícios à volta. Via-se o Palácio de
Buckingham, o Big Ben e a Catedral de São Paulo, tudo edifícios que eu
já tinha visto em passeios com a minha mãe. Havia também um edifício
estranho que eu nunca tinha visto. Parecia uma bala e chamava-se «O
Gherkin». Estavam todos concentrados num dos lados do rio. Do outro
lado, estava o London Eye, que parecia uma roda de Ferris, mas que eu
sabia que não era. Ao lado da roda havia muitas árvores e também um
navio como os antigos barcos de piratas, com muitas velas que diziam
Cutty Sark, um edifício com teto plano que parecia um castelo pequeno,
chamado Casa da Rainha, e um edifício grande chamado Museu
Marítimo Nacional. Atrás de todos eles, no centro de uma enorme
mancha verde, via-se uma fotografia de um edifício abobadado com um
telescópio a espreitar para fora. Chamava-se «Observatório Real de
Greenwich».
— É aqui que t-temos de ir — indicou o Travis, a apontar para o
telescópio.
— Pois é! — disse o Ben, o que me fez saltar de susto a mim e ao
Travis. — O quê? — perguntou a olhar para nós como se tivesse estado
ali desde o início.
Levou as mãos ao cabelo, que também estava molhado, mas, como era
fofo, não pingava. As gotas de água ficavam onde estavam, como bolhas
muito brilhantes à espera de serem rebentadas. Tinha vestido outra vez
a camisola do Newcastle ao contrário, mas, desta vez, em vez de usar o
capuz para comer bolachas, estava a usá-lo para comer de um enorme
pacote de batatas fritas.
Olhei outra vez para o mapa e tentei ver onde estava escrito Vila de
Waverley, mas não encontrei uma vila que fosse.
— Onde é que nós estamos? — perguntei, passando o mapa ao Travis
para que ele me mostrasse.
Mas o Travis abanou a cabeça.
— Não estamos neste m-mapa. É shó de L-Londres.
— Será que conseguimos encontrar um mapa melhor no computador?
— perguntei ao Travis. — Um que nos mostre como ir daqui até aos
caçadores de estrelas.
— Deixa cá ver! — disse o Travis, ligando o computador.
Eu e o Ben esperámos de pé junto à cadeira dele, porque sabíamos que
a resposta estaria no computador. Os computadores tinham sempre a
resposta para tudo e aquilo que diziam era quase sempre verdade. Era
por isso que eu tinha de ir ter com os caçadores de estrelas antes que os
computadores deles escolhessem um nome para a estrela da minha
mãe. Se eu não conseguisse chegar lá a tempo, toda a gente ia acreditar
nos computadores, e não em mim.
— O que é que estão a ver? — perguntou o Noah.
Largou o jornal, mas não os brinquedos do Travis, e foi ter connosco.
O Noah adora computadores. Em casa, estava sempre a meter-se em
sarilhos por tentar jogar no computador do nosso pai, apesar de ser
absolutamente proibido nós tocarmos nele. Se o fizéssemos, íamos virar
o interruptor dele. Mas, às vezes, o Noah esquecia-se disso.
O Travis abriu a página dos mapas e escreveu o nome da vila em que
estávamos e depois «Observatório Real de Greenwich» numa caixa que
dizia «O Seu Destino». De um momento para o outro, apareceram no
mapa várias linhas de cores diferentes. A primeira tinha, por cima, a
imagem de um carroe, ao lado, a indicação «2 h 34 min». A segunda
tinha a imagem de um comboio e dizia «1 h 54 min». E a terceira tinha
um homenzinho a andar e dizia «1 dia». Mas a mais importante de
todas, aquela que tinha uma bicicleta, dizia «6 h 30 min». Fiquei
boquiaberta. Nunca tinha visto uma viagem de bicicleta que durasse seis
horas.
— Bem, a pé leva-se um dia inteiro! — disse o Ben. — É
estupidamente longe.
— Aonde vamos? — perguntou o Noah, a olhar para o mapa e depois
para mim.
Abanei a cabeça para lhe dizer que ele não ia comigo e preparei-me
para contar o meu plano ao Ben e ao Travis.
— Eu… Eu não vou de comboio, nem de autocarro, nem a pé — disse-
lhes. — Vou… de bicicleta!
O Travis olhou para mim.
— De bicicleta?
Acenei com a cabeça.
— Isso, se… se um de vocês me emprestar uma.
O Ben e o Travis olharam um para o outro por um momento e depois
para mim. Depois, sorriram exatamente ao mesmo tempo.
— Também era essa a nossa ideia — disse o Ben. — Que seria mais
fácil se fôssemos nas nossas bicicletas! E tu podes levar a da Sophie.
Além disso, a Sra. I. deixa-nos ficar até mais tarde no Dia das Bruxas!
— Pois é — concordou o Travis. — E, se todos sairmos cedo para pedir
d-doces ou travessuras, p-podemos ir andando antes sequer de a Sra. I.
saber onde estamos!
— Sim! É capaz de nos matar se descobrir que estamos em Londres,
mas, quando lhe dissermos que é por causa da tua mãe, ela vai
compreender — disse o Ben, dando-me uma palmadinha de incentivo
no braço.
Olhei para o Ben e para o Travis, surpreendida. Com o entusiasmo de
encontrar a estrela da minha mãe, tinha-me esquecido de que no dia
seguinte era Dia das Bruxas.
— Esperem! E se dissermos à Sra.  I. que vamos passar pelo Dan
depois de irmos pedir doces ou travessuras? — perguntou o Ben. —
Assim, pensa que ficamos até mais tarde.
— E p-podemos dizer que precisamos das b-bicicletas para irmos a
casa do Dan! — acrescentou o Travis.
— Pois é — disse o Ben a sorrir. — Ele pode ser o nosso álibi! Só
precisamos de um bom mapa e de lanternas!
— N-nós? — perguntei, confusa, a olhar para eles.
— Sim — respondeu o Travis. — Não p-podes ir sozinha! Podes
perder-te.
— Ou ser raptada — afirmou o Ben, enquanto levava outra mão-cheia
de batatas fritas à boca. — À noite, há imensos raptores à procura de
crianças a andar de bicicleta! Está sempre a aparecer nas notícias.
— Não está nada — contrapus eu, de testa franzida.
O meu pai estava sempre a ver as notícias para saber se as coberturas
de que o banco dele tratava estavam bem, e nunca ouvi história
nenhuma sobre pessoas raptadas a meio da noite enquanto andavam de
bicicleta.
— Niyah! Aonde é que VAMOS? — perguntou o Noah, agora mais
alto, ao mesmo tempo que me puxava o braço.
Não consegui responder, de tão surpreendida que estava com o que o
Ben e o Travis tinham dito. Eles também tinham pensado num plano…
apesar de a estrela ser a da minha mãe e de eu é que ter de garantir que
lhe davam o nome dela. Eles não. E o meu plano não incluía o Ben e o
Travis. Na verdade, não incluía mais ninguém! Nem mesmo o Noah, que
ainda era muito pequeno.
— Vocês não têm de ir comigo — declarei. — É a estrela da minha
mãe.
— E minha! — replicou o Noah, começando a ficar zangado.
— Mas nós podemos ajudar — disse o Ben.
— Pois podemos — insistiu o Travis, pondo o dedo no ecrã e seguindo
a linha da bicicleta até ao Observatório Real. — São s-seis horas e meia!
— disse. — Não é bom ficares tanto t-tempo sozinha no escuro!
— Aonde é que vais durante seis horas e meia, Aniyah? — perguntou
o Noah a puxar-me o braço com mais força.
— Sim. É que vai ser uma looooonga noite — acrescentou o Ben,
levando nervosamente outra mão-cheia de batatas fritas à boca.
— O c-concurso acaba a-amanhã à meia-noite — disse o Travis,
abrindo os dedos um a um, como um leque chinês. — Por isso, temos
menos de 22 horas, sem contar com o tempo que l-levamos a lá chegar.
E mais meia hora, para o caso de f-ficarmos cansados e precisarmos de
d-descansar…
— Isso dá menos de um dia — calculou o Ben, mastigando ainda mais
alto. — Quando é que temos de sair daqui?
— Vocês não têm de sair daqui! — disse eu, agora também mais alto.
— Eu consigo fazer isto sozinha!
O Ben e o Travis ficaram em silêncio. Estavam com os olhos muito
abertos e redondos.
— Eu é que tenho de garantir que dão o nome certo à estrela da minha
mãe. Não são vocês! Eu nunca disse que queria que vocês fossem
comigo.
— Ah — disse o Travis, corando de repente e olhando para o chão,
com o cabelo a tapar-lhe outra vez a cara. — D-desculpa — murmurou,
o que me fez logo sentir mal.
— Nós só… Nós só queríamos ajudar — disse o Ben, encolhendo os
ombros, envergonhado. — Mas não ajudamos… se… se tu não quiseres.
— Eu quero ver a estrela da mãe! — disse o Noah, a observar-nos
como se finalmente tivesse percebido sobre o que estávamos a falar. —
Niyah, posso ir? — perguntou, olhando para mim com um ar confuso.
Fiquei a olhar para as minhas mãos em silêncio. Estavam fechadas em
punho, e sentia o coração bater dentro delas. Queria falar da minha mãe
aos caçadores de estrelas sozinha: era a minha mãe e eu não tinha
estado com ela no momento em que ela nos tinha deixado. Talvez ela
nunca tivesse desaparecido se eu tivesse estado com ela. Mas, se
conseguisse dar o nome dela à estrela e fazer com que toda a gente no
mundo soubesse quem ela era, então ela ficaria orgulhosa. Tal como eu
fiquei orgulhosa quando vi a fotografia dela no jornal…
Olhei para o jornal que estava em cima da cama do Travis, ao pé do
guia de visita, e de repente senti vergonha. O Ben e o Travis só queriam
ajudar e, se não fossem eles, eu não sabia como ir ter com os caçadores
de estrelas nem que a minha mãe se tinha tornado famosa. Talvez eu
não estivesse destinada a ajudar a minha mãe sozinha. Os caçadores de
estrelas precisam sempre de uma equipa para conseguir encontrar
estrelas novas. Por isso, talvez eles também viessem a ser a minha
equipa…
— Desculpem — disse baixinho. — Podem vir. E tu também, Noah.
O Noah agarrou-me na mão e abraçou-a, e depois saltou da cadeira e
foi outra vez brincar com os brinquedos do Travis.
— De certeza? — perguntou o Ben, a franzir o sobrolho de tal maneira
que parecia ter a testa presa.
Acenei.
— Desde que isso não vos dê grandes problemas nem faça com que
vocês não sejam adotados.
— Nah! — disse o Ben. — A Sra. I. vai perder a cabeça, mas depois vai
ficar bem, quando perceber que foi por causa da tua mãe e que não
estávamos a fugir, nem nada do género.
— Então o Noah também v-vem? — perguntou o Travis, de testa
franzida. — Não vai ficar m-muito cansado?
— Eu não estou cansado — respondeu o Noah, dando um empurrão
ao Travis.
Eu sabia que o plano seria mais difícil se o Noah fosse connosco, mas
também sabia que a minha mãe não gostaria que eu o deixasse para trás
numa aventura que tinha que ver com ela. Ela tinha dito que eu tinha de
garantir que ele nunca tivesse medo, e eu sabia que, se ele acordasse a
meio da noite e percebesse que eu já não estava ao pé dele, ficaria com
tanto medo, que nem eu conseguia imaginar.
— Não se preocupem, eu tomo conta dele — prometi. — Ele pode ir
na minha bicicleta.
— Está bem — disse o Travis com um encolher de ombros. — She
ficares c-cansada, podemos ir t-trocando. — Rodou a cadeira e voltou a
olhar para o ecrã do computador. — T-temos de chegar lá até à meia-
noite. Quer dizer q-que temos de sair antes das… — acrescentou,
parando para fazer as contas. — Antes das cinco e meia de a-amanhã à
tarde. E, até lá, temos de preparar i-imensas coisas.
— Mas como é que vamos sair às cinco e meia? — perguntei. — A
Sra. Iwuchukwu vai deixar-nos ir pedir doces ou travessuras a essa hora?
O Ben abanou a cabeça.
— Ela disse que eu e o Travis podíamos ir às seis. Foi na semana
passada, antes de vocês virem para cá. Talvez agora lhe possamos pedir
para sair um pouco mais cedo. Mas temos mesmo de garantir que ela
deixa que vocês venham connosco.
— Porquê? — perguntei. — Ela não nos deixa ir?
O Ben encolheu os ombros e o Travis disse:
— Vocêssão n-novos. Por isso, ela pode p-pensar que não gostam.
— Pois é, por isso hoje à noite têm mesmo de mostrar que querem
muuuuuito ir ao Dia das Bruxas connosco! — reforçou o Ben.
Acenei.
— Então temos de t-tirar as nossas bicicletas, e a da Sophie, d-do
barracão…
— E de levar comida para a viagem — acrescentou o Ben. — Da
última vez que fugi de casa, voltei porque estava com fome.
— Tu já fugiste? — perguntei, a olhar para o Ben.
— Sim, MONTES de vezes! — disse o Ben. — Mas não foi daqui, foi
da minha casa de acolhimento anterior. Eles não eram lá muito bons
para mim, por isso fugi. Foi assim que vim parar aqui.
Não soube o que dizer, porque não conseguia imaginar alguém a ser
mau para o Ben. Por isso, acenei com a cabeça, como se também já
tivesse fugido de casa muitas vezes.
— E de l-lanternas! E temos de im-imprimir o m-mapa… Esperem!
O Travis abriu uma gaveta, tirou de lá um caderno e arrancou uma
página do meio.
— Vamos ech-echrever!
Enquanto o Travis escrevia o plano, o Noah pegou numa caneta e, nas
margens da folha, começou a fazer desenhos de todas as palavras que
nos ouvia dizer.
— Como é que lhe vamos chamar? — perguntou o Ben quando
acabámos, a olhar para a folha com orgulho.
O Travis olhou para mim enquanto o Noah fazia um último desenho
num canto da folha. Tinha a língua para fora, o que queria dizer que
estava muito concentrado. Quando ficou pronto, deu para perceber que
os gatafunhos eram de uma estrela, que também podia muito bem ser
uma árvore de Natal.
— «A Missão Ultrassecreta dos Caçadores de Estrelas» — disse eu,
dando atenção às palavras que estava a dizer, para ver se soavam bem.
— Então e que tal «A Missão da Meia-noite dos Caçadores de Estrelas?»
— sugeriu o Ben. — Já que temos de estar no observatório antes da
meia-noite.
— E se fosse…
O Travis escreveu qualquer coisa no topo da lista, mostrou-nos e todos
concordámos com um gesto de cabeça. O plano estava perfeito, por isso
ficámos em silêncio e voltámos a lê-lo:
 
A Missão Ultrassecreta da Meia-noite dos Caçadores de Estrelas!
 
1. Imprimir o mapa, sem que a Sra. I. veja!!! (Fazer isso quando ela estiver a preparar o pequeno-almoço!) (O
Ben liga a impressora no escritório da Sra. I. e espera que eu, o Travis, ponha a imprimir a partir do meu
computador!)
(A Aniyah f ica do lado de fora do escritório e, se alguém vier, faz barulhos de pássaro.)
(A Aniyah ensaia os barulhos de pássaro hoje à noite!)
2. Fazer com que a Sra. I. deixe a Aniyah e o Noah ir connosco bater às portas no Dia das Bruxas
3. Encontrar lanternas!
(Provavelmente, no barracão. Mas é preciso ter a certeza de que todas têm pilhas.)
4. Esconder coisas do pequeno-almoço, do lanche e do jantar, para podermos comê-las à noite
5. Vestir roupa quente debaixo do fato do Dia das Bruxas (mas não demasiado quente)
6. Eu e o Ben vamos buscar o dinheiro das nossas mesadas, para uma emergência
7. Tirar as três bicicletas do barracão e dizer à Sra. I. que vamos a casa do Dan a seguir
8. Fingir que vamos pedir doces ou travessuras, mas não vamos
9. Seguir o mapa para chegar ao observatório
10. Impedir que os caçadores de estrelas deem o nome errado à estrela da mãe da Aniyah!
 
— Pronto… — disse o Ben quando nos endireitámos e fizemos sinal
de que concordávamos.
Até o Noah estava calado e sério.
Achei que era o melhor plano de sempre. Mas estava com uma dúvida
na cabeça.
— Porque é que… Porque é que vocês me estão a ajudar tanto? —
perguntei a olhar para o Ben e o Travis de testa franzida.
Normalmente, só mesmo os melhores amigos é que nos ajudam a
fazer uma viagem de bicicleta até tão longe e correndo o risco de
arranjar problemas para sempre, e nós só nos tínhamos conhecido há
uns dias.
O Ben encolheu os ombros.
— Porque vocês também são crianças de acolhimento, e as crianças de
acolhimento mantêm-se unidas independentemente de tudo. É a lei.
— Sim — disse o Travis baixinho. E depois, fixando-me durante três
segundos, disse com um sorriso: — E porque agora é como she
fôchemos ir-irmãos e irmã, não é?
Olhei também para ele. Nunca teria pensado que alguém pudesse ter
irmãos sem ter crescido com eles, ou sem ter os mesmos pais. Mas
agradava-me a ideia de ter mais irmãos e que o Noah tivesse mais
irmãos que também tomassem conta dele, para o caso de me acontecer
alguma coisa e eu ter de desaparecer, como a nossa mãe.
— Além disso, quando alguém está à procura da sua mãe, é MESMO
preciso ajudá-la — disse o Ben. — Mesmo que ela já não esteja, bem, já
não esteja mesmo aqui na Terra.
— MENIIIIIIIIIINOOS! — gritou a Sra.  Iwuchukwu lá de baixo. —
DESÇAM E VENHAM TOMAR OS VOSSOS CHOCOLATES
QUEEEEEENTES!
— Baril! — disse o Ben, enquanto o Travis metia depressa o plano na
gaveta da secretária, antes de a fechar com força.
Fui a correr para o nosso quarto e escondi o jornal e o guia de visita
debaixo do beliche. Mais entusiasmada do que alguma vez me tinha
sentido na vida — mais até do que quando, no Natal passado, os meus
pais me tinham levado a mim e ao Noah à Disneyland —, segui o Ben, o
Travis e Noah até lá abaixo, mal podendo esperar pela noite seguinte.
9. 
DUAS CARAS
Na manhã seguinte, acordei agarrada ao meu medalhão. Sentia-me tão
feliz que, por momentos, já nem me lembrava de onde estava. Mas, ao
fim de uns segundos, o meu cérebro acordou e fez-me sentar-me tão
depressa que bati com a cabeça no teto do beliche. Era sábado, Dia das
Bruxas. E era o dia da Missão Ultrassecreta da Meia-noite dos Caçadores
de Estrelas! Por aquela hora, no dia seguinte, os caçadores de estrelas
reais já saberiam o verdadeiro nome da minha mãe e iriam fechar o
concurso e dizer ao mundo como se chamava, na verdade, a estrela dela.
Até o meu pai podia ouvir falar disso, perceber que tínhamos sido eu e o
Noah a consegui-lo e acabar por nos encontrar!
Saltei da cama e corri até à janela. O sol já tinha nascido, mas dava
para ver que ainda era muito cedo, porque havia uma neblina branca a
cobrir a relva e a mover-se, como fantasmas a passear. Não sabia quanto
tempo ainda teria de esperar no quarto até que a Sra.  Iwuchukwu nos
fosse chamar, porque era o primeiro sábado que acordávamos em casa
dela. Em nossa casa, a minha mãe acordava-nos sempre meia hora mais
tarde ao fim de semana, por isso podia ser que também fosse assim
nesta casa. Estava demasiado ansiosa para voltar a dormir, então tirei o
meu mapa estelar do bolso da frente da minha mochila e o jornal e o
guia de visita do beliche e fui sentar-me à janela.
Apesar de, na noite anterior, antes de a Sra. Iwuchukwu nos dizer para
apagarmos a luz, ter lido ao Noah tudo o que havia para ler sobre o facto
de a nossa mãe ser uma estrela de rock, queria ler tudo outra vez só para
mim. Então li, três vezes seguidas. Queria lembrar-me de todas as
frases, como aquela que dizia que a minha mãe tinha «desorientado os
maiores astrónomos do mundo» e «contrariado os princípios da Física».
Outra dizia ainda que, a cada minuto que passava, ela estava a «fazer
história».
Mas o melhor daquele jornal não eram as palavras. Era poder tocar na
fotografia e saber que era real. Quando a minha mãe nos fez fugir para
nos escondermos no hotel-que-não-era-bem-um-hotel, tinha-se
esquecido de levar as fotografias que tínhamos em casa. Só tinha uma
fotografia em que eu, ela e o Noah estávamos juntos, porque a trazia na
mala. Mas eu já não sabia onde ela estava nem se alguma vez a voltaria a
ver, por isso, naquele momento, a fotografia no jornal era a única que
tinha da minha mãe. Quando lhe tocava, o foguetão que tenho dentro de
mim ganhava vida. Prometi a mim mesma que iria guardar aquela
fotografia até crescer, para então a pôr numa moldura para todo o
sempre. Isso fez-me pensar se os caçadores de estrelas do observatório
me deixariam ver a minha mãe em forma de estrela no céu, através
daquele telescópio poderosíssimo que tinham: bem de perto! Disse ao
meu cérebro para se lembrar de perguntar, porque tinha a certeza de
que me deixariam.
Depois de olhar para a estrela da minha mãe com muita atenção, para
que o meu cérebronunca mais se esquecesse dela, dobrei a folha, pu-la
ao pé de mim e abri o guia de visita. Tinha de aprender tudo o que
conseguisse sobre o observatório, para que, quando me encontrasse com
os caçadores de estrelas, eles soubessem que não fazia mal deixarem-me
usar o telescópio para ver a minha mãe, porque eu não o ia partir. Mas o
guia era muito mais difícil de ler do que aquilo que eu esperava. Não era
nada como os guias de visita que trouxemos da Disneyland ou do jardim
zoológico. Parecia mais um manual científico, com várias palavras que
eu nunca tinha ouvido, como «oitante», «altazimute» e «zénite» — que
a mim me soavam a armas de combate dos super-heróis.
Folheei o guia até às últimas páginas e vi uma imagem a preto e
branco de várias mulheres a acenar. A legenda dizia que os caçadores de
estrelas do Observatório Real não usavam apenas bússolas para medir as
estrelas, mas também computadores humanos! Nunca tinha ouvido
falar em computadores humanos, e aquilo fez-me pensar que o Travis
podia ser o nosso computador humano, porque parecia gostar de
números e estava sempre a fazer contas com os dedos. Mas, na linha
seguinte, dizia que os computadores humanos do Observatório Real
eram sempre mulheres, por isso achei que teria de ser eu, apesar de
ainda me baralhar com as tabuadas do sete e do oito.
Fechei o guia e abri o mapa estelar. Tinha de dizer à minha mãe que
parasse junto a uma das constelações que estivessem perto de mim e do
Noah. Fiz figas, fechei os olhos com força e, na minha cabeça, disse à
minha mãe o mais alto que consegui que parasse algures na zona que
dava para ver da janela do segundo andar de casa da Sra. Iwuchukwu —
nas traseiras da casa, e não do outro lado. Depois ainda pedi a todas as
outras estrelas que fizessem o favor de a ajudar a perceber onde parar.
Não sabia se as estrelas falavam ou se usavam uma língua gestual
especial que envolvesse clarões e piscadelas de olho, mas tive a certeza
de que sabiam inglês. O meu pai costumava dizer que toda a gente nesta
galáxia sabia uma ponta de inglês.
— Toca a acordar! — gritou a Sra.  Iwuchukwu, abrindo a porta de
rompante.
Levantei-me num salto e escondi tudo atrás das costas. Estava tão
ocupada a gritar com as estrelas na minha cabeça, que não ouvi nada.
— Ah! Estás acordada, Aniyah! Que linda — disse ela a sorrir, antes de
começar a cheirar o ar.
Tinha posto uma sombra prateada nos olhos, a condizer com o vestido
cinzento, e nas orelhas tinha uns brincos grandes feitos de penas.
Pensei para comigo que parecia um papagaio cinzento que eu tinha
visto uma vez no Jardim Zoológico de Londres, só que mais simpático.
— Vai arranjar-te — pediu. — Enquanto isso, vou ver se o Noah me
deixou algum presente, boa?
Acenei com a cabeça e o Noah sentou-se na cama, a esfregar os olhos.
Era agora! Altura de dar início à Missão Ultrassecreta da Meia-noite!
Depois de lavar os dentes muito depressa, vesti-me à pressa e esperei
que a Sra.  Iwuchukwu fosse preparar o banho ao Noah, como fazia
sempre depois de fazer a cama de lavado. Mas, em vez de descer para
tomar o pequeno-almoço, como de costume, pus-me à porta do quarto
do Travis e bati com o toque ultrassecreto que ele me tinha ensinado na
noite anterior: dois toques lentos, seguidos de três toques rápidos.
O Ben abriu a porta e puxou-me para dentro.
— Estás pronta? — perguntou, com um ar animado.
Vestia uma t-shirt de futebol com o nome dele e calções pretos e meias
vermelhas pelo joelho, e o Travis parecia estar com um pijama branco
muito brilhante, mas na verdade não era pijama nenhum, mas sim um
fato de karaté, o que era muito mais fixe.
Confirmei com um aceno de cabeça e o Travis ligou o computador.
— Mas não sei fazer barulhos de pássaro — disse-lhes. — Passei a
noite a tentar, mas só consigo imitar um cuco, ou então um pombo.
— Um pombo? — perguntou o Ben, com uma careta.
Acenei e mostrei-lhe a minha imitação de pombo:
— Cuuuuu-cooooo…!
— Isso parece um cuco — disse o Ben. — Só que mais lento.
— Mas não é, é diferente. É por isso que é melhor fazer de gato —
expliquei, e fiz um miiiaaaauu. — Vês?
— Está bem — aceitou o Ben com um encolher de ombros. —
Fazemos sons de gato, então.
— É g-grande — disse o Travis, abanando a cabeça e descendo a
página. Tinha aberto o mapa do percurso de bicicleta que tínhamos visto
no dia anterior e estava a ler as indicações. — Tem shete p-páginas! —
disse, quando chegou à última frase, que dizia «O seu destino:
Observatório Real de Greenwich».
Ficámos nervosos a olhar para o ecrã.
De repente, ouvi um estalido atrás da porta e virei-me. O Ben e o Travis
também tinham ouvido, mas a porta continuava fechada e não se ouviu
mais nada, por isso voltámo-nos outra vez para o ecrã.
— Então, Aniyah… Tu f-fazes-me o sinal do gato assim que ouvires o
Ben l-ligar a impressora, está bem? — decidiu o Travis. — E depois f-
finges que estás a fazer alguma coisa, mas não estás.
— Chiu! — disse de repente o Ben, levantando as mãos e ficando
muito quieto.
Ficámos todos em silêncio a ouvir com toda a atenção. Houve uma
série de baques nas escadas e, alguns segundos depois, ouvimos o som
do rádio a ser ligado, a Sra. Iwuchukwu a tirar coisas do frigorífico e o
Noah a bater na mesa da cozinha.
— V-vamos! — disse o Travis, movendo o rato do computador para pôr
o cursor no ícone da impressora. — Ela já está na cozinha!
— Estão prontos? — perguntou o Ben, e olhou para mim com um ar
sério como eu nunca tinha visto nele.
Acenei, apesar de sentir que tudo dentro de mim saltava como sapos
saltitões.
— Vamos, então — declarou o Ben, ajeitando o cabelo como se fosse
para um desfile de moda, e não lá abaixo para ligar a impressora da
Sra. Iwuchukwu às escondidas.
Saí do quarto do Travis com o Ben e imitei-o, passando pelo corredor e
descendo as escadas em bicos dos pés. Ele parou perto da porta da
cozinha, olhou para mim e, depois, fazendo sinal com o dedo em frente
dos lábios, espreitou na esquina. Tive medo de que a Sra.  Iwuchukwu
visse o cabelo dele antes que ele conseguisse espreitar, mas depois,
como uma bailarina com calções de futebol, passou discretamente pela
porta da cozinha num salto. Ouvi o barulho do lava-loiça, engoli em seco
e saltei também, mas aterrei nos pés do Ben.
— Au! — sussurrou ele, a esfregar os dedos dos pés com as mãos.
— Desculpa! — sussurrei eu.
O Ben revirou os olhos, fez-me sinal com a mão e deslizou de meias
no chão de madeira do corredor, parando à porta do escritório da
Sra. Iwuchukwu.
Agarrou na maçaneta e rodou-a até a porta abrir.
— Ainda bem que a Sra. I. nunca a tranca — sussurrou. — Vou entrar.
Espera até me ouvires miar! — acrescentou, antes de desaparecer pela
abertura da porta como uma sombra e fechando-a depois.
— ANIYAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — gritou a Sra. Iwuchukwu da
cozinha, fazendo-me saltar de susto. — BEEEEEENNNN!
TRAAAAAAAAAAVISSSSSSSSSS! SOPHIEEEEEEEEEEE! VENHAM
TOMAR O PEQUENO-ALMOÇO!
Ouvi um miau! miau! vindo do escritório e entrei em ação. Passei pela
porta da cozinha a correr tão depressa, que Sra.  Iwuchukwu não me
veria de certeza, deslizei até ao fundo das escadas e fiz um
«Miiiaaaaaaaauuuuuu! Miiiaaaaaaaauuuuuu!», na esperança de que o
Travis me conseguisse ouvir apesar do volume da música, mas sem que
as miadelas chegassem aos ouvidos da Sra. Iwuchukwu e da Sophie. A
seguir, passei em frente à porta da cozinha em bicos de pés. Felizmente,
a Sra.  Iwuchukwu estava ocupada a bater na torradeira e não deu por
mim.
Quieta como uma estátua de metal num parque, fiquei à espera de que
alguma coisa corresse mal. Mas o rádio continuava a tocar e conseguia
ouvir a Sra. Iwuchukwu a dizer ao Noah para se sentar como deve ser.
Não vinha qualquer barulho das escadas, o que queria dizer que ainda
estavam livres e que a Sophie estava lá em cima.
Aproximei os ouvidos da porta do escritório, sustive a respiração, fiz
figas e concentrei-me. Por favor, faz com que dê para imprimir o mapa! Por
favor, faz com que dê para imprimir o mapa! Por favor, faz com que dê para
imprimir o mapa.
Ao fim de uns segundos,ouvi uma máquina ganhar vida e, depois, o
Ben a fazer «Miau!».
Estava a dar certo! A impressora estava a imprimir! Agora só tinha de
entrar na cozinha e entreter a Sra. Iwuchukwu até que o Ben e o Travis
acabassem, tal como tínhamos planeado.
Ergui-me e dei meia volta, pronta para entrar na cozinha. Mas, em vez
disso, a minha cara esbarrou contra uma parede de lantejoulas
prateadas. Os meus olhos levantaram-se e deram com os olhos da
Sophie. Estava à minha frente, a sorrir de braços cruzados, como se
tivesse estado a olhar para mim durante aquele tempo todo. Senti-me
logo como se alguma coisa pesada tivesse caído de uma prateleira,
passado pelo meu estômago e aterrado aos meus pés.
— O que é que temos aqui? — perguntou, a olhar por cima do meu
ombro como se tivesse visão raio-X e conseguisse ver através da porta.
— A roubar, é?
Abanei a cabeça e abri a boca, esperando que conseguisse emitir uma
miadela de aviso ao Ben. Mas a minha voz acobardou-se e escondeu-se
algures atrás das amígdalas, e não me saiu nada. Então, esperei que a
Sophie fizesse alguma coisa. Talvez me empurrasse e depois apanhasse
o Ben, levasse o mapa da impressora e estragasse tudo. Ou talvez
chamasse a Sra. Iwuchukwu e lhe dissesse que eu era uma ladra e que
era preciso chamar a polícia imediatamente!
Mas a Sophie não fez nada disso. Limitou-se a sorrir e disse, com um
piscar de olho:
— Não te preocupes… Eu não digo nada!
Era a primeira vez que a Sophie me piscava o olho. Sorri-lhe, mas, ao
mesmo tempo, fiquei preocupada.
— Obrigada? — disse eu, embora com uma voz que nem parecia a
minha.
A Sophie fez um aceno com a cabeça. Mas, logo a seguir, o sorriso dela
desapareceu e os seus olhos ficaram tão finos como os seus lábios. De
repente, disse:
— A menos que queira! — E, dando meia volta, correu até à cozinha e
gritou: — MÃE! A ANIYAH ESTÁ A TENTAR ROUBAR ALGUMA
COISA DO TEU ESCRITÓRIO! EU VI-A!
Ouvi um baque repentino vindo do escritório, pés a correr no andar de
cima e, dentro de mim, alguém a tocar tambor. Percebi logo que aqueles
barulhos eram os de uma Missão Ultrassecreta que tinha falhado
redondamente.
10. 
O DIA PERDIDO
Quando vi a Sra.  Iwuchukwu e a Sophie virem a correr da cozinha,
soube de repente o que tinha de fazer: tinha de arranjar uma distração!
Estava sempre a fazer isso em casa, quando queria fazer com que o meu
pai não chegasse perto da minha mãe e do Noah. Não sabia que tipo de
distração podia resultar com a Sra.  Iwuchukwu, por isso tive de
adivinhar. Tive pena de não saber fingir que estava a chorar, mas não
sabia mesmo. Em vez disso, endireitei-me e esperei, enquanto ouvia o
Noah sair da mesa da cozinha para vir ver o que se passava e o Travis a
descer as escadas a correr.
— Aniyah? O que é que se passa aqui? — perguntou a
Sra. Iwuchukwu quando chegou ao pé de mim, de sobrolho franzido.
Não parecia zangada como daquela vez em que a tigela de esparguete
caiu ao chão e sujou tudo. Parecia só... confusa.
Obriguei a minha boca a abrir-se e dei início à manobra de distração.
— DESCULPE, Sra. IWUCHUKWU, A CULPA É MINHA! — disse o
mais alto possível, para que o Ben me ouvisse e se despachasse a
imprimir.
Não o tinha ouvido miar entretanto, por isso ainda devia estar a
imprimir o mapa!
— A IDEIA FOI TODA MINHA! EU QUIS VER O QUE ESTAVA DO
OUTRO LADO DA PORTA, E O BEN DISSE QUE DEVIA PEDIR-LHE.
MAS DEPOIS EU DESAFIEI-O A ENTRAR PRIMEIRO E ELE DISSE
«ESTÁ BEM» E ENTROU. MAS FOI SÓ ISSO! NÃO ESTÁVAMOS A
ROUBAR NADA, JURO!
A Sra. Iwuchukwu franziu ainda mais a testa, ficando com três rugas
tortas.
A Sophie abanou a cabeça.
— Não, mãe! Ela está a mentir — afirmou.
Vi-a voltar a abrir a boca para falar, mas, antes que ela conseguisse
dizer mais alguma coisa, abri eu a minha. Tinha de prolongar a
distração tanto quanto possível, mesmo não sabendo o que dizer a
seguir.
— É VERDADE! — gritei, e senti um calor nas bochechas e na ponta
do nariz. — NÃO ESTÁVAMOS a roubar nada! JURO! FUI EU QUE
DESAFIEI! E o Travis disse que eu não devia fazer isso, mas eu fiz na
mesma. A culpa é minha… pode pôr-me de castigo, se quiser…
A minha voz foi-se tornando mais baixa, até desaparecer no silêncio.
— É v-verdade, Sra. I.! — disse o Travis, com os olhos quase a sair das
órbitas.
A Sra.  Iwuchukwu acenou com a cabeça, disse-me para me afastar e
pôs a mão na maçaneta. Comecei a sentir uma raia gigante invadir-me a
parte de trás da garganta. Sabia que a Sra.  Iwuchukwu ia dar com a
impressora a imprimir, o Ben a miar e a Missão Ultrassecreta espalhada
por todo o lado… o que significava que eu e o Noah íamos ser levados
dali pela polícia e que eu ia vomitar ali mesmo.
A porta abriu-se e a Sra. Iwuchukwu entrou, enquanto, atrás dela, eu,
a Sophie, o Noah e o Travis nos inclinávamos para a frente. Senti
palpitações nos olhos e pestanejei para olhar para dentro do escritório,
que estava muito mais escuro. Ao fim de dois segundos, vi as persianas
de uma janela grande e o Ben sentado na cadeira de escritório da
Sra. Iwuchukwu, a dar voltas como se quisesse ficar zonzo. Mal nos viu,
pôs-se de pé num salto como se tivesse sido apanhado de surpresa.
— Desculpe, Sra. I. — disse ele, tentando endireitar-se.
— Hum... — exprimiu a Sra. Iwuchukwu, entrando e olhando à volta.
Vi o Travis olhar para a impressora preta que estava em cima de um
bloco de gavetas preto de metal. Também olhei, mas estava desligada, e
não tinha folhas de papel na prateleira.
— Muito bem — disse a Sra. Iwuchukwu, dirigindo-se para o bloco de
gavetas metálico e puxando as gavetas para se certificar de que estavam
trancadas. — Bem, não há nada fora do sítio… Vá, saiam todos! O
pequeno-almoço está a arrefecer e já estamos a ficar atrasados! Aniyah?
Parei e esperei que a Sra. Iwuchukwu começasse a gritar comigo. Mas,
em vez disso, ela disse:
— Para a próxima vez, se quiseres ver alguma coisa, só tens de pedir,
querida. Não vos escondo nada e esta casa também é vossa. Está bem?
Acenei, apesar de não acreditar nela. Alguém que não escondia nada
não tinha gavetas trancadas à chave. E a Sra. Iwuchukwu tinha três.
— Mas MÃE! Eles estão a mentir! — exclamou a Sophie a olhar para o
Ben, desconfiada. — Eu ouvi-os dizer que iam roubar alguma coisa…
para… para um desafio!
— Ben, roubaste alguma coisa do escritório? — perguntou a
Sra. Iwuchukwu.
O Ben abanou a cabeça e mostrou as mãos a toda a gente.
— Aniyah, há alguma coisa que queiras levar, ou pedir emprestada, do
escritório?
Abanei também a cabeça.
— Então pronto. Sophie, deves ter ouvido mal, não? Vamos! Hora do
pequeno-almoço!
A Sra.  Iwuchukwu pôs a mão no ombro do Noah, tirou-lhe a colher
que ele tinha na boca e conduziu-o de volta para a cozinha.
Esperei que a Sophie também saísse dali, mas ela não saiu do lugar.
Ficou exatamente onde estava e olhou-nos fixamente. Era um olhar tão
forte, que me fez parar de respirar. Era como se ela estivesse a tentar
hipnotizar-nos com os olhos, como aquela cobra com os olhos a rodar
em espiral nos desenhos animados d’O Livro da Selva, que uma vez a
minha mãe nos tinha deixado ver. Com a diferença de que a cobra era
tonta e engraçada, e a Sophie não era nem uma coisa nem outra.
Esperámos que ela dissesse alguma coisa e vi que o Travis e o Ben
também tinham parado de respirar.
Ao fim de uns segundos, a Sophie apontou-nos o dedo.
— Não sei bem o que andam a tramar — disse baixinho, numa voz
sibilante. — Mas vou descobrir, e então vão ver!
Deu meia volta e saiu do escritório.
— Chiça hortaliça! — disse o Ben, desfazendo-se num sorriso, o que
fez com que eu e o Travis voltássemos a respirar. — Ainda bem que a
Sra. I. não veio revistar-me as calças!
Deu um salto e levantou a t-shirt de futebol: tinha as páginas do nosso
mapa nas costas, meio enfiadas nos calções!
— E-essa foi boa! — disse o Travis, dando mais cinco ao Ben e fazendo
um sorriso tão grande que ficou com o aparelho de fora.
— Foi brilhante! — acrescentei eu, sorrindo também. Levantei as duas
mãos e dei mais dez ao Ben, tal como costumava fazer na escola, com o
Eddie e o Kwan.
—Sim, sou um génio! — concordou o Ben. — Se calhar, é por isso
que tenho o cabelo assim alto, como o do Einstein! A seguir ao pequeno-
almoço, vou ao meu quarto esconder o mapa… Olha! Aquilo é que foi
empatar, Aniyah! — disse ele, batendo-me no braço. — Deu-me tempo
de enfiar o mapa nos calções e desligar a impressora. Foste espetacular.
— Pois foi — concordou o Travis, batendo-me também no braço, mas
com menos força.
— Venham! Quem tem fome? — perguntou o Ben. — Eu já comia
umas 15 torradas! Os trabalhos de agente especial dão-me sempre fome!
Sorriu-nos e foi para a cozinha, meio a correr, meio a deslizar.
Depois de comermos, pensei que a Sra.  Iwuchukwu nos ia deixar
voltar para os nossos quartos ou ver televisão, porque era o que a minha
mãe nos deixava fazer ao fim de semana, na maioria das vezes. Mas, em
vez disso, a Sra. Iwuchukwu disse-nos que nos despachássemos a entrar
para o carro, para que a Sophie pudesse ir às suas aulas de teatro fingir
que era atriz e o Ben pudesse ir jogar futebol, tão mal que os próprios
colegas de equipa só o vaiavam, e o Travis pudesse ir fazer karaté num
salão com uma centena de meninos ninja e levar com os berros de uma
professora de cara muito vermelha e ganchos de metal brilhantes no
cabelo. A seguir a isso, foi o ensaio de orquestra, em que a Sophie tocou
violino, o Ben tocou violoncelo e o Travis ficou sentado a enfiar bocados
de papel nos ouvidos.
No final de todas estas atividades e depois de comermos umas sandes
no carro, tivemos de ir ao centro comercial, porque a Sra.  Iwuchukwu
precisava de comprar doces e fatos do Dia das Bruxas para toda a gente.
Foi então que o Noah tornou possível a primeira parte do nosso plano
sem que tivéssemos de fazer alguma coisa, porque, assim que a
Sra. Iwuchukwu foi comprar o chapéu de bruxa da Sophie, começou a
chorar e a gritar porque também queria um fato! Tanto chorou, que a
Sra.  Iwuchukwu acabou por dizer que nós os dois podíamos ir ao Dia
das Bruxas com o Travis e o Ben, desde que nunca nos separássemos
deles. O Ben e o Travis fizeram-me sinal com o polegar para cima e
piscaram-me o olho, como se eu tivesse feito de propósito para o Noah
chorar. Não sabia como havia de lhes dizer que não tinha feito nada para
que o Noah fizesse aquilo, por isso retribuí o sinal e ajudei a
Sra. Iwuchukwu a escolher os nossos fatos.
Quando acabámos e finalmente chegámos a casa, o relógio da cozinha
dizia que já passava das 16 horas. Assim que vi as horas, senti uma coisa
pequenina às voltas na barriga. Estávamos a menos de uma hora e meia
de termos de sair e ainda só tínhamos o mapa do percurso de bicicleta e
os fatos! Ainda tínhamos muito que fazer, mas, mesmo depois de
chegarmos a casa, a Sra.  Iwuchukwu mandou-nos ir fazer coisas.
Primeiro, o Ben e o Travis tiveram de ir tomar banho, porque cheiravam
a chulé, e eu e o Noah tivemos de ajudar a arrumar as compras. A
seguir, a Sra.  Iwuchukwu afirmou que não ia deixar que comêssemos
sacos de açúcar sem nada no estômago, e tivemos todos de ajudar a pôr
a mesa para o jantar.
Enquanto estávamos na cozinha a ajudar, senti o tempo a passar cada
vez mais depressa. O Travis e o Ben ainda tinham de perguntar se
podíamos tirar as bicicletas do barracão… e ainda tínhamos de levar os
doces que o Ben tinha pedido à Sra.  Iwuchukwu. E de ir buscar as
lanternas! Como é que íamos conseguir sair a tempo?
Quando o Ben e o Travis acabaram de tomar banho e o jantar ficou
pronto, já estava a sentir-me como se tivesse um oceano inteiro a mover-
se dentro de mim. E se o Pai Tempo ainda estivesse zangado comigo e
estivesse a fazer de propósito para eu perder o dia? E se o plano não
desse certo e a estrela da minha mãe ficasse presa ao nome de outra
pessoa? E se eu nunca conseguisse corrigir isso? Ouvi o tiquetaque do
relógio da cozinha ficar cada vez mais alto, como se me estivesse a tentar
avisar de que o tempo estava a passar.
Finalmente, quando já começava a pensar que não era Dia das Bruxas
e que não íamos ter autorização para sair, a Sra.  Iwuchukwu bateu
palmas e disse:
— Oooh! É melhor irem pôr os fatos! Já os ouço chegar!
Um segundo depois, bateram à porta e ouviu-se:
— Doce ou travessuuuura!
Senti o sangue correr em mim como um rio fora do meu controlo e
levantei-me.
A Sra. Iwuchukwu olhou para mim de testa franzida por um segundo
e, logo a seguir, sorrindo, disse:
— Ah! Não é preciso, Aniyah! Acaba de jantar. Eu trato deles.
— A Candice e a Roberta vêm buscar-me às sete, Mãe — disse a
Sophie no momento em que a Sra. Iwuchukwu se levantou num salto,
pegou depressa numa taça grande de doces que estava na bancada da
cozinha e foi a correr pelo corredor. — Convosco é que não vou a lado
nenhum, seus falhados! — acrescentou, fazendo-nos um olhar de ódio
ao sair da cozinha.
Espreitei o relógio enquanto a Sra.  Iwuchukwu não estava ali. Eram
exatamente 18h21. Era mesmo tarde, e ainda nem estávamos prontos!
— Aniyah — sussurrou o Ben, mal ficámos só nós. — Tens MESMO
de dizer que queres ir connosco ao Dan, está bem?
Acenei e o Travis fez-me sinal com o polegar para cima, enquanto o
Noah lambia o prato e também acenava com a cabeça.
— E temos MESMO de fazer com que a Sra. I. saia da cozinha para eu
conseguir levar a nossa comida — pediu o Ben, a olhar para todos os
armários da cozinha que estavam a aprisionar os nossos doces.
— Lá em cima já pensamos n-nicho — disse o Travis.
— Sra.  I.! Podemos levar as nossas bicicletas e levar a da Sophie
emprestada para a Aniyah? — perguntou o Ben, assim que a
Sra. Iwuchukwu voltou.
A taça de doces que trazia nas mãos estava quase vazia, o que me fez
lembrar a minha mãe. Ela também dava sempre demasiados doces a
toda a gente no Dia das Bruxas.
— Para que querem as bicicletas, hã? — perguntou ela, de testa
franzida. — Hoje não quero que vão para muito longe! É a primeira vez
que vão tomar conta da Aniyah e do Noah.
— Mas o Dan disse que, se quiséssemos, podíamos ir a casa dele para
trocarmos doces, e ele mora a três minutos de bicicleta daqui! E disse
para a Aniyah e o Noah também irem! — implorou o Ben. — Vá
lááááááá!
A Sra. Iwuchukwu revirou os olhos e olhou para mim e para o Noah a
pensar no que havia de fazer.
— Hum… — disse ela. — Aniyah e Noah, vocês querem ir?
Acenei com a cabeça e disse:
— Sim, por favor.
E o Noah exclamou:
— Sim! Sim! Eu quero ir numa bicicleta!
— Está a ver? — insistiu o Ben, começando a falar mais depressa. —
Porque, se eles vierem, ficamos com mais doces para trocar, e a Aniyah
também pode ficar amiga do Dan!
Olhei para a Sra. Iwuchukwu e acenei, abrindo os olhos tanto quanto
conseguia. Vá lá, vá lá, vá lááááá, Sra.  Iwuchukwu, deixe-nos levar as
bicicletas, sussurrei na minha cabeça e com os olhos.
— Hum — fez a Sra. Iwuchukwu, a abanar a cabeça para si mesma.
— Está bem. Podem ir a casa do Dan, mas a pé. As bicicletas são muito
grandes para o Noah se conseguir sentar e não quero que haja acidentes.
Mas deixo-vos ficar até às oito e trinta, por isso têm tempo de ir e vir sem
pressas. Está bem?
O Ben e o Travis acenaram com a cabeça e eu e o Noah esperámos para
ver ser eles iam tentar outra vez. Mas eles não tentaram. Em vez disso, o
Ben levantou-se num salto, pôr os braços à volta da cintura da
Sra. Iwuchukwu e abraçou-a.
— Obrigado, Sra. I.! É a MAIOR! — exclamou ele, e a Sra. Iwuchukwu
voltou a abanar a cabeça.
Fiquei a vê-la rir-se e retribuir o abraço, e tive mais saudades da minha
mãe do que alguma vez pensei ser possível.
— Vão lá — disse ela a sorrir-nos, enquanto afastava o Ben. —
Despachem-se, antes que fique muito tarde!
Eu, o Ben, o Travis e o Noah abanámos as cabeças em sinal afirmativo
e saímos da mesa para irmos vestir os nossos fatos. Ao passar pela porta
da cozinha, olhei para o relógio e vi o ponteiro grande pôr-se em cima do
número 6. Já eram seis e meia da tarde! Obriguei-me a achar que não
fazia mal. O Tempo podia ter-nos feito perder o dia todo, a
Sra. Iwuchukwu podia ter feito com que ficássemos sem as bicicletas e
podíamos estar meia hora atrasados em relação ao planeado,mas nada
me ia impedir de fazer com que os caçadores de estrelas dessem o nome
certo à estrela da minha mãe. Nem que, para isso, tivesse de deixar todos
para trás, até mesmo o Noah.
11. 
O TIGRE, O GUARDA-ROUPA E A BRUXA
— Se não quiserem ir, não faz mal — disse eu, quando chegámos ao
corredor que dava para os nossos quartos. — Mostrem-me mais ou
menos o caminho e vou sozinha.
— Que conversa é essa? — perguntou o Ben, a olhar para mim de
testa franzida enquanto punha a mão na maçaneta do quarto dele.
— A Sra.  Iwuchukwu disse que não podíamos levar as bicicletas,
lembram-se? — recordei eu, a pensar se se teriam esquecido. — E é
muito longe para ir a pé! Principalmente para o Noah. Por isso, é melhor
eu ir sozinha.
O Ben abanou a cabeça em desacordo e o Travis franziu ainda mais a
testa.
— Não sejas parva, Aniyah — reclamou o Ben.
— Sim — disse o Travis. — Vamos levar as bichicletas na mesma!
— Ai vamos? — perguntei eu, e o Noah deu saltinhos de alegria.
— Sim, é claro que vamos! A Sra.  I. disse que não podíamos ir de
bicicleta para casa do Dan, por isso não vamos. Vamos é de bicicleta para
Londres! Estás a ver? — explicou o Ben a olhar para mim, com as
sobrancelhas a mexerem-se para cima e para baixo.
O Travis concordou com um aceno.
— Se virmos bem, NÃO VAMOS fazer o que ela disse.
— Oh — murmurei eu, e de repente fiquei tão feliz que tive vontade
de abraçar toda a gente. Mas, em vez disso, acenei com a cabeça e disse:
— Está bem.
— Vamos despachar-nos a v-vestir-nos e depois vamos! — declarou o
Travis, fazendo sinal com o polegar para cima antes de entrar no quarto
dele.
Fui depressa para o meu quarto e do Noah e vi que a Sra. Iwuchukwu
tinha estendido os nossos fatos do Dia das Bruxas em cima da cama de
baixo do beliche. Assim que o Noah se apercebeu disso, foi logo buscar o
fato dele e enfiou-o pela cabeça. Em poucos segundos, desapareceu
debaixo de um grande lençol branco e transformou-se num fantasma.
Mas pôs o lençol ao contrário, de maneira que ficou com os buracos para
os olhos e o enorme sorriso na parte de trás da cabeça. Impedi-o de
chocar contra o escadote do beliche e virei o lençol ao contrário, para que
pudesse ver bem.
— Niyah! Sou um fantasma! — disse ele, e começou a abanar os
braços alegremente, fazendo o lençol flutuar em volta deles. — Agora
todos os fantasmas que aqui vivem vão ter medo de MIM!
— Sim! — anuí eu, vestindo depressa o meu fato às riscas laranja-
garrido e pretas por cima da roupa e pondo o capuz felpudo na cabeça.
Puxei o fecho do meu fato de tigre e a cauda listrada balançou-me
entre as pernas. Eu queria ir de leão, mas não havia leões na loja a que a
Sra. Iwuchukwu nos tinha levado. Talvez não fizesse grande diferença,
já que os tigres também são felinos, como os leões, e rosnam e vivem na
selva, o que significa que, debaixo do pelo, são iguais. Por isso, em vez
de ser o Simba d’O Rei Leão, ia ser Rainha Tigresa caçadora de estrelas, o
que era igualmente fixe.
Fui depressa ao armário e rosnei a mim mesma em frente ao espelho
alto, e depois fui buscar a mochila. Pus lá dentro o guia de visita, o mapa
estelar e o jornal com a fotografia da estrela da minha mãe. Depois
pensei no Noah e pus também umas calças a mais, para o caso de ele
fazer chichi a meio da noite.
— Noah, olha — disse-lhe, com uma caneta na mão.
A minha mãe punha sempre uma a mais no bolso da frente da minha
mochila. Tinha-me esquecido de que estava ali e, quando peguei nela,
tive uma ideia de repente. Entrei no guarda-roupa, afastei a nossa roupa
e escrevi o nome dela na parede, em letras grandes. O Noah saltou
também para dentro do guarda-roupa e, entre risadas, continuou a fazer
barulhos de fantasma.
— Toma isto — pedi eu, e dei-lhe a caneta. — Faz um desenho da
mãe, depressa. Para que toda a gente se lembre dela.
Apontei-lhe o sítio e, em poucos segundos, o Noah desenhou uma mãe
com cabelo encaracolado e um grande sorriso. Quando acabou, acenou
por baixo do lençol de fantasma, como se o desenho fosse secretamente
real. Acenei com a cabeça e pensei para comigo se a ideia resultaria. N’O
Rei Leão, o macaco Rafiki faz um desenho do Simba numa árvore com
sumo de um fruto e faz feitiços para o encontrar. Gostava que
tivéssemos feito o mesmo pela minha mãe, mas não tínhamos um
tronco de árvore nem um fruto mágico e eu não sabia nenhum feitiço.
Só tínhamos um guarda-roupa, uma caneta da escola e um desejo.
— Anda — disse eu, saltando para fora do guarda-roupa e apagando as
luzes.
O Noah parou de fazer barulhos de fantasma e seguiu-me até à porta
do Ben. Bati só uma vez e a porta abriu-se, mas, em vez de darmos com
a cara sorridente do Ben, o que vimos foi uma máscara preta muito
brilhante que mais parecia ter grades de prisão no lugar do nariz, e que
nos olhava com uns grandes olhos de inseto. Mesmo assim, dava para
perceber que era o Ben, por causa da afro muito redonda em volta da
máscara e da camisola do Newcastle United vestida ao contrário por
baixo de um manto.
— Isso é para ser o quê? — perguntei.
— Vou dar uma pista! — anunciou a sua voz atrás da máscara. Depois,
estendendo uma mão e sacudindo o seu longo manto preto com a outra,
disse em voz grave: — Eu sou o teu paaaaai.
Fiz uma careta e o Noah abanou a sua cabeça de fantasma e disse:
— Não és nada!
— Não estão a ver? O Darth Vader! — exclamou o Ben, numa voz
outra vez normal.
Encolhi os ombros.
— Da Guerra das Estrelas?
Voltei a encolher os ombros e o Ben levantou a máscara com uma
careta.
— Quer dizer que vocês, que gostam tanto de estrelas, nunca viram a
Guerra das Estrelas?
Abanei a cabeça e o Ben ficou a olhar para mim como se eu lhe tivesse
dado a notícia mais triste de sempre.
— Bem, não faz mal. Tratamos disso assim que voltarmos para casa!
— afirmou ele.
Nisto, a porta do quarto do Travis abriu-se e ele veio também para o
corredor.
Olhei para ele e tentei não me rir. Trazia um fato de esqueleto que
brilhava no escuro, daqueles estilo pijama-macacão, mas era tão alto e
magro, que o fato parecia um raio-X dos seus ossos. A parte de trás do
capuz também tinha o crânio, que bem podia ser o dele.
— Noah! És um f-fantashma fixe! — elogiou o Travis, dando uma
palmadinha na cabeça do Noah.
A cabeça de fantasma do Noah acenou e as suas mãos fizeram sinal
com o polegar para cima por baixo do lençol.
— Esperem lá — disse o Ben, indicando que fôssemos ao quarto dele.
— Ainda tenho de preparar a mochila.
Fomos para o quarto dele e ficámos a vê-lo pôr-se de joelhos em cima
da cama. Enquanto ele procurava alguma coisa que tinha escondido
debaixo do colchão, eu e o Noah olhámos para o quarto com atenção. Era
tão diferente do quarto do Travis que parecia fazer parte de uma casa
completamente diferente. As paredes eram às riscas pretas e brancas e
havia dois cavalos-marinhos ao lado de uma bandeira do Newcastle
United, o que dava a sensação de termos sido engolidos por uma zebra e
estarmos dentro da sua barriga. Por cima das riscas, havia pósteres de
vários jogadores do Newcastle United e de um cantor com meias
brilhantes, em bicos de pés.
Havia uma parede comprida onde o Ben tinha uma estante, tal como o
Travis. Mas a dele tinha centenas de CD, cadernetas de cromos e
bonequinhos cabeçudos de vários jogadores de futebol cujas cabeças se
moviam sem parar como se houvesse um dedo invisível a tocar-lhes. Na
secretária, em vez de um computador, havia um teclado eletrónico, uma
aparelhagem pequena e uma pista de comboios a toda a volta.
Mal viu o piano, o Noah foi para a secretária, sentou-se na cadeira do
Ben e começou a tocar nas teclas pretas e brancas. Estava desligado, por
isso não fazia som, mas o Noah não se importou. Tinha graça ver um
fantasminha a tentar tocar num piano silencioso.
— Esperem! — pediu o Ben, levantando-se com um ar confuso. —
Não encontro!
— N-não encontras o quê? — perguntou o Travis.
— O mapa que imprimimos… — explicou o Ben, a olhar para nós com
a testa cheia de rugas. — Pu-lo aqui hoje de manhã. Aqui —
acrescentou, a apontar para o colchão.
Foi depressa ao guarda-roupa,abriu-o e olhou ansioso para a
montanha de roupa. Depois voltou para a secretária a correr, viu nas
gavetas, mas só lá estavam os livros da escola.
O Travis abanou a cabeça e apressou-se a ver na cama, entre as
almofadas.
— P-precisamos do m-mapa — disse ele, e começava a parecer
preocupado.
— Estão à procura DISTO, seus parvos?
Assustámo-nos e o Noah parou de fingir que estava a tocar piano, e
voltámo-nos para ver de onde vinha a voz.
Era a Sophie, à porta do quarto com o mapa na mão. Só que já não
parecia a Sophie, porque estava com uma peruca roxa que lhe chegava
ao fundo das costas, um chapéu de bruxa roxo e um manto feito de
lantejoulas roxas e pretas brilhantes por cima de um vestido preto e
comprido. Tinha tapado as sardas com maquilhagem e tinha um pó
branco e dourado nas bochechas e nos olhos. Trazia umas luvas de
renda pretas sem dedos, que terminavam numas unhas compridas e
roxas e, em vez de um caldeirão, levava uma bolsa em forma de gato. Ia
de bruxa. Mas era a bruxa mais fixe e mais roxa que eu já tinha visto.
— Continuas a esconder coisas debaixo do colchão feito palerma, Ben
— gozou ela, a abanar a cabeça com desprezo. — Eu ouvi-vos. Ontem à
noite, quando estavam a planear a vossa estúpida Missão Ultrassecreta
para Londres. Se a mãe soubesse, fazia queixa de vocês à polícia e aos
Serviços Sociais antes que tivessem tempo de dizer «M-m-m-mas, mãe!»
As bochechas do Travis ficaram muito vermelhas quando a Sophie o
olhou de soslaio e eu senti os meus olhos abrirem-se mais quando
percebi que os barulhos que tínhamos ouvido na noite anterior à porta
do quarto do Travis não eram as tábuas do chão a ranger como sempre,
mas sim a Sophie a espiar-nos.
— Dá cá isso! — ordenei eu, surpreendida por não me tremer a voz.
Dei um passo em frente e estendi a mão, à espera do mapa. — Isso é
meu! E do Ben! E do Travis!
— E MEU! — acrescentou o Noah.
A Sophie pôs uma longa mecha de cabelo roxo entre os dedos e
começou a enrolá-lo.
— Pois é, mas, bem, vocês roubaram este papel e a tinta da impressora
da mãe. E, quando ela vir, vai ficar a saber o que estavam a fazer no
escritório dela e perceberá que lhe mentiram!
O Ben e o Travis olharam um para o outro e o Noah saltou da cadeira e
foi pôr-se atrás das minhas pernas, esquecido de que ninguém
conseguia ver a cara dele. Pus um braço à volta dele e tentei não me
sentir culpada. Nunca tinha querido magoar a Sra.  Iwuchukwu
mentindo-lhe. A única coisa que queria era chegar à estrela da minha
mãe a tempo.
— Mas eu até podia devolvê-lo… — disse ela, levantando uma
sobrancelha e olhando para o cabelo como se estivesse a falar com ele e
não connosco. — E acho que podia não contar à mãe tudo o que ouvi…
Mas tinha de ter alguma coisa em troca. Uma coisa GRANDE.
Olhei para o Ben e para o Travis a pensar no que eles iam fazer. Eu não
tinha nada que a Sophie pudesse querer. As únicas coisas que a senhora
do fato preto me tinha deixado trazer do hotel-que-não-era-bem-um-
hotel foram a minha mochila e um saco preto do lixo com roupa de
disfarce.
— Está bem… O que é que queres pelo mapa e por não fazeres
queixinhas? — perguntou o Ben devagar, dando um passo em frente.
— Hum… deixa ver…
A Sophie entrou no quarto, pôs uma unha roxa comprida no queixo e
olhou em volta. Senti as mãos do Noah agarrem-me as pernas com mais
força, como se tivesse medo de que o entregássemos à Sophie.
— Ora bem. O que eu quero… O que eu quero…
O Ben olhou ansiosamente para a sua coleção de jogadores de futebol
cabeçudos e chegou-se mais à estante, como se quisesse protegê-los.
— Não sejas bronco — disse a Sophie. — Quem é que havia de querer
as tuas coisas parvinhas…?
Depois, com um sorriso maldoso, voltou-se e olhou para mim.
— Acho que fico com… isso — revelou ela, a apontar para o meu peito.
— O meu… O meu fato de tigre? — perguntei.
Olhei para as minhas riscas, confusa. A Sophie era muito mais alta do
que eu, por isso aquele fato não lhe servia nem por sombras.
— Não, idiota — disse a Sophie.
Inclinou-se para a frente e pôs o dedo no medalhão que eu tinha ao
pescoço.
— Isso! — exclamou ela. — Quero isso!
Antes que me conseguisse conter, abanei a cabeça e ouvi-me dizer
«Não!», e senti os meus dedos apertarem o meu medalhão de prata.
Nunca o tirava, mesmo não tendo nada lá dentro. Era a única coisa que
ainda tinha que os meus pais me tinham oferecido os dois, e sabia que
nunca havia de querer que ninguém além de mim ficasse com ele ou o
usasse.
— Se não mo deres, vou contar tudo o que ouvi à mãe. E ela não vai só
fazer queixa de vocês à assistente social e aos serviços das crianças: vai
chamar a polícia e separar-te do Noah para sempre — ameaçou a Sophie,
com a cara, a boca, os dentes e os olhos cheios de purpurina roxa cada
vez mais perto da minha cara, como se fosse um tubarão em câmara
lenta. — É o que fazem aos idiotas dos miúdos de acolhimento que
fogem de casa. Mandam-nos embora, separam-nos e nunca mais os
deixam voltar. Pergunta ao Ben. Ele sabe bem!
Olhei para o Ben e esperei que ele negasse. Mas ele ficou calado a
olhar para o chão como se de repente se tivesse aberto um buraco e ele
quisesse saltar lá para dentro.
Ficaram todos em silêncio e eu sabia que o Noah estava com medo,
porque estava a respirar cada vez mais alto, como uma brisa que fica
presa nos ramos de uma árvore e não consegue passar.
— Tens três segundos… — avisou a Sophie. — Senão, vou chamar a
mãe. Um. Dois. Trrrrrrr…
— NÃO! — gritei. — Não faças isso! Toma!
Obriguei os meus dedos a ouvirem-me e fi-los abrir a corrente de prata
que tinha ao pescoço.
A Sophie olhou para o medalhão que eu lhe estava a dar, agarrou nele
e sorriu-me. Por momentos, agarrou no mapa como se afinal fosse ficar
com ele e depois atirou-o na nossa direção, fazendo com que as folhas
voassem por todo o lado como grandes penas brancas e achatadas a
pairar até caírem no chão.
Vi-a pôr o meu medalhão ao pescoço. Tentei engolir a enorme bola de
fogo que me ardia na garganta.
— Ah, assim está melhor — disse ela a sorrir, ajeitando a peruca.
Depois olhou para nós com um sorriso irónico. — Está-se mesmo a ver
que vocês vão ser apanhados. E, quando forem, a mãe não vai ficar com
nenhum de vocês! Pensei que ia ter de me esforçar mais para me ver
livre de vocês… mas estão a fazer tudo por mim! Obrigada, a sério!
Depois sorriu-nos como se fizesse anos e nós tivéssemos acabado de
lhe dar os parabéns, deu meia volta e saiu batendo com a porta. Sem o
meu medalhão, senti-me como se tivesse acabado de perder os meus
pais outra vez.
Assim que ela saiu, o Ben pôs-se a apanhar todas as páginas do nosso
mapa e voltou a pô-las por ordem. Tinha ficado com a cara tão escura
como a máscara de Darth Vader e os seus olhos continuavam a não
olhar para os meus.
— D-desculpa, Aniyah — disse o Travis baixinho, começando a ajudar
o Ben. — Nós vamos c-conseguir recuperá-lo…
Encolhi os ombros e tentei fingir que o colar não tinha importância.
— Não faz mal — afirmei eu, e disse às minhas bochechas para
pararem de arder. — É mais importante chegar a Londres. Mas têm a
certeza de que ela não vai fazer queixinhas? — perguntei, um pouco
agoniada.
Agora que sabíamos que a Sophie sabia de tudo, já nada parecia
seguro.
O Ben concordou.
— Agora não pode mesmo fazer queixinhas — disse baixinho. — Tem
o teu medalhão e sabe que, se fizer queixinhas, nós dizemos à Sra. I. o
que ela fez.
— M-mas devíamos ir d-depressa na mesma — afirmou o Travis. — P-
pelo sim, pelo não! T-tenho o plano na minha m-mochila —
acrescentou, apontando para o saco de desporto que tinha em cima da
cama.
— Já tenho o mapa — disse o Ben, enfiando-o na sua mochila do
Newcastle United.
— Mas… e as lanternas? — perguntei, a apontar para o plano. —
Como é que vamos ver o mapa sem luz? E a comida?
— A Sra. I. deve ter algumas no barracão — disse o Ben. — Podemos
trazê-las quando formos buscar as bicicletas. Pensamos na comida
quando estivermos lá em baixo.
— Temos de ir pelas t-traseiras e trepar o muro — indicou o Travis, e o
Ben concordou com um aceno de cabeça.Não percebi o que queriam dizer com aquilo, mas, antes que
conseguisse perguntar, a Sra. Iwuchukwu começou a gritar lá de baixo.
— MENINOS! QUEREM IR AO DIA DAS BRUXAS OU NÃO?
DESPACHEM-SE! JÁ PASSA DAS SETE!
Engoli em seco e senti um baque muito alto no peito, como se uma
coisa invisível me tivesse dado um pontapé.
— Vamos, venham lá! — exclamei.
Saí do quarto e desci as escadas a correr, sem sequer esperar pelos
outros. Se fôssemos depressa, ainda íamos conseguir chegar a tempo.
— Ah, estão aí! — disse a Sra. Iwuchukwu a bater com as palmas das
mãos uma na outra quando entrámos na cozinha. — Ah! Mas que
beldades, todos! — E, tirando a câmara do bolso de trás, apontou-nos
um flash prateado aos olhos. — Ah, têm os sacos para os doces —
afirmou com um aceno de cabeça e dando uma palmadinha na mochila
do Ben. — Ótimo! Liguei à mãe do Dan e deixei-lhe uma mensagem a
dizer que vocês vão passar por lá por volta das oito para trocarem doces.
E que têm de voltar às oito e vinte, o mais tardar.
— Hum, obrigado, Sra.  I. — disse o Ben. — Hum… Podemos levar
comida, e água também?
O Travis fez um aceno com a cabeça e eu fiz o mesmo.
— Então, mas para que é que vocês precisam de comida? Vão receber
milhões de doces daqui a nada! — riu-se a Sra. Iwuchukwu.
— Ah, pois é! — fingiu o Ben, e acenou com a máscara.
— Mas água é boa ideia. Para ajudar a limpar esse açúcar todo!
A Sra.  Iwuchukwu abriu um armário e deu-nos quatro garrafas de
água para levarmos nas mochilas.
— Muito bem — disse ela quando nos dirigimos para a porta da
entrada. — Divirtam-se e NÃO comam doces até caírem para o lado!
Ouviste, Noah?
Por baixo do seu lençol, o Noah acenou.
— Obrigado — disse o Travis a acenar, indo à frente pelo jardim, que
agora estava cheio de paus espetados na relva com lanternas de abóbora
na ponta.
Eu não os tinha visto, por isso talvez a Sra.  Iwuchukwu os tivesse
posto enquanto nos arranjávamos.
— Sim, obrigado, Sra. I.! — retribuiu o Ben.
— Obrigada, Sra.  Iwuchukwu — disse eu, e ela sorriu-me e deu-me
uma palmadinha nas costas.
Sorri-lhe também e senti-me culpada. Depois daquela noite, o mais
provável era ela ficar demasiado zangada comigo para me voltar a sorrir.
Ao abrirmos o portão de madeira para sairmos do jardim da frente,
um grupo de bruxas, seguidas de uma múmia egípcia, passou por nós
muito depressa, dirigindo-se à porta da Sra. Iwuchukwu.
— Por aqui! — sussurrou o Ben, fazendo-nos sinal para que o
seguíssemos.
Em vez de subirmos a rua, que agora estava cheia de crianças, pais e
papéis de rebuçados a voar, dobrámos a esquina na ruela estreita entre a
casa da Sra.  Iwuchukwu e a casa do lado. Passámos por uma grande
fileira de caixotes do lixo e parámos à frente de um portão azul-vivo.
O Ben empurrou-o, mas estava trancado.
— Travis? — sussurrou, tirando a máscara e passando-a para as
minhas mãos.
Peguei nela e fiquei a ver o Travis baixar-se, entrelaçar os dedos e
formar um degrau com as mãos. Calmamente, como se fosse uma coisa
que fizessem todos os dias, o Ben pôs um pé em cima das mãos do
Travis e foi erguido como se estivesse num elevador. Em menos de nada,
tinha desaparecido para o outro lado do muro. Ao fim de pouco tempo,
ouviu-se um estalido e um chiar, e o grande portão do jardim abriu-se.
— Chiu! — sussurrou o Ben, a acenar-nos. — Olhem! A Sra. I. está na
cozinha!
O brilho amarelo da luz da cozinha chegava-nos do outro lado do
jardim, deixando ver uma figura esvoaçante através do padrão florido
das cortinas.
— E agora? — perguntei, indo em bicos de pés atrás do Travis.
— Agora esperamos que a Sra.  I. saia da cozinha — murmurou o
Travis.
— E depois vamos ao Dia das Bruxas? — perguntou o Noah, mais alto
do que devia.
— Chiu! — avisei, pondo uma mão à frente do sítio onde devia ser a
sua boca. — Sim! Mas depois! Primeiro temos de ir buscar as bicicletas
para irmos ver a estrela da mãe. Está bem?
O Noah acenou, pôs os seus braços de fantasma à volta das pernas do
Travis e ficou em silêncio. Algures no ar da noite, enquanto olhávamos
para a janela da cozinha e esperávamos que as luzes se apagassem,
ouviu-se o piar de uma coruja.
12. 
A FUGA NÃO-TÃO-SECRETA
Enquanto esperávamos no escuro, senti-me estranha, vestida de tigre
atrás de um arbusto e ao pé de um fantasminha aborrecido, um
esqueleto que brilhava no escuro e um Darth Vader. Parecia-me ainda
mais estranho do que daquela vez em que o meu pai tinha levado um
palhaço a nossa casa para fazer uma surpresa de aniversário ao Noah.
Não era um palhaço de brincar: era mesmo um palhaço humano de
verdade, que durante uma hora fez animais com balões, para depois
voltar a desaparecer. O meu pai gostava sempre de nos fazer surpresas e
a do palhaço foi, de todas, a mais engraçada e mais estranha que alguma
vez nos fez. Mas, se ele nos visse agora, de certeza que iria achar tudo
muito mais estranho!
— Macacos me comam, vá lá! — sussurrou o Ben, vendo que a luz da
cozinha continuava acesa. — Mas porque é que ela está a demorar tanto?
— Niyah, estou farto! — queixou-se o Noah. — Quero ir ao Dia das
Bruxas!
— Chiu, Noah, já vai! Está bem? Prometo!
O fantasma do Noah suspirou e voltou a encostar-se às pernas do
Travis.
— Olhem! — disse o Ben, em pulgas.
A luz da cozinha tinha-se apagado.
Sustivemos a respiração para ver se a Sra. Iwuchukwu ainda ia voltar.
Mas não voltou.
— Ali em cima — disse o Ben, a apontar para a casa, para uma janela
mais acima que antes estava às escuras mas agora estava iluminada. —
A Sra. Iwuchukwu foi para o quarto dela!
— Pronto! — exclamou o Travis. — É agora!
Arrastámo-nos até ao barracão do jardim e esperámos nervosamente
que o Travis puxasse o manípulo do fecho prateado e abrisse a porta do
barracão. A princípio, só vi uma massa escura, mas, ao fim de uns
segundos, os meus olhos começaram a entender as formas que estavam
a ver e consegui distinguir uma bicicleta grande e três mais pequenas,
deitadas de lado como se alguém as tivesse posto a dormir.
— A-afastem-se! — sussurrou o Travis fazendo-nos sinal para que
voltássemos a sair do barracão. — É mais fácil se f-for eu a tirá-las
sozinho…
Recuámos todos para o jardim e, uma a uma, o Travis levantou as
bicicletas pequenas e fê-las rodar até nós. Um pouco depois, o Ben
segurava uma bicicleta às riscas brancas e pretas e eu uma azul.
O Ben tirou o seu brilhante capacete preto do guiador e pô-lo na
cabeça, e eu pus o capacete azul da Sophie.
— Esperem! — disse baixinho o Ben, ao ver-me ajustar o fecho do
capacete da Sophie. — E o Noah? Não temos capacete para ele!
— E se for o da Sra. Iwuchukwu? — perguntei, a apontar para dentro
do barracão.
— Ela não tem nenhum — disse o Ben, a abanar a cabeça. — Perdeu o
dela algures, no ano passado, e ainda não comprou um novo!
— O q-que foi? — perguntou o Travis, fechando a porta do barracão e
fazendo rodar a sua grande bicicleta vermelha até nós.
— Não temos capacete para o Noah — sussurrei, e senti que era uma
irmã mais velha mesmo má por não ter pensado nisso.
— Ah — fez o Travis, a olhar para o Noah.
O fantasma do Noah olhou para nós de olhos muito abertos, a piscar
por entre os buracos descaídos.
— Já sei! — afirmou o Travis. — Fiquem aqui!
Deu com o pé no descanso metálico da sua bicicleta para que ela
ficasse de pé e foi a correr em direção à casa.
— Aonde vais? — perguntou o Ben, espantado.
Mas o Travis já tinha chegado à porta da cozinha e desapareceu na
escuridão.
Por momentos, tudo pareceu um sonho estranho. No ar noturno, uma
ave soltou um chilreio rouco e a lua afundou-se atrás de uma nuvem
grande, fazendo o jardim mergulhar num buraco negro, de tal forma
que até o Noah ficou em silêncio. Ao luar, a máscara do Ben ganhava
estranhos reflexos preto-arroxeados e o lençol de fantasma do Noah
parecia um copo de leite reluzente a flutuar.
— Venham — instigou o Ben, puxando a máscara para o cabelo. —
Vamos preparar o Noah enquanto esperamos!
Subi com esforço para o selim da bicicleta da Sophie, enquanto o Ben
pegava no Noah e o punha à minha frente, no guiador.
— Au! Istodói! — queixou-se o Noah, a baloiçar no guiador comprido
de metal.
— Assim não vai dar! — sussurrei. — Isto não tem a forma certa!
Em nossa casa, a minha bicicleta tinha um guiador mais baixo em
forma de triângulo, onde o Noah cabia quando vinha comigo. Mas a
bicicleta da Sophie não era própria para partilhar.
— O que é que vamos fazer? — perguntei, começando a entrar em
pânico.
— Espera! — respondeu baixinho o Ben, e voltou a pôr o Noah no
chão.
Voltou para o barracão em bicos de pés e desapareceu lá para dentro.
Ao fim de uns segundos, voltou a aparecer, empurrando uma bicicleta
muito maior.
— Podes usar a da Sra.  I.! E o Noah pode ir aqui — sussurrou, a
apontar para o grande cesto de palha preso à parte de trás da bicicleta. —
Não sei como é que não pensámos nisto antes!
— Vivaaaaa! — exclamou o Noah.
— Chiu! — repreendemos logo eu e o Ben.
— Mas… — disse eu, a olhar da bicicleta da Sophie para a da
Sra. Iwuchukwu.
— Vá lá! — apressou-me o Ben, lendo-me os pensamentos. — Não
temos alternativa! Desde que consigas andar nela! Não é como se
estivéssemos a roubá-la. Só estamos a levá-la emprestada.
Prometi em silêncio à Sra. Iwuchukwu que teria muito cuidado com a
bicicleta dela e baixei o selim tanto quanto era possível. Era maior e mais
pesada do que a da Sophie e obrigava-me a esticar muito mais as pernas
para chegar aos pedais em condições, mas conseguia chegar-lhes com os
bicos dos pés. Enrolei a minha cauda de tigre à volta do braço e fiz sinal
ao Ben com o polegar para cima enquanto ele punha o Noah no cesto,
com as pernas de fora, voltadas para trás. Assim, o Noah ia ficar a olhar
para o lado errado e não ia conseguir ver o que eu estava a fazer, mas
talvez até se divertisse mais.
— Estás bem assim, Noah? — perguntei-lhe baixinho, a olhar para ele.
O lençol de fantasma do Noah acenou, entre risadinhas.
— Boa! — disse o Ben, empurrando rapidamente a bicicleta da Sophie
para o barracão.
Tinha acabado de fechar o trinco, quando de repente ouvimos um
estrondo ensurdecedor que nos aterrou.
Olhámos para a casa. Da cozinha chegou-nos um som de tubos
metálicos a cair no chão como uma fila interminável de peças de
dominó gigantes, fazendo-nos dar um salto a cada estrépito. Quase ao
mesmo tempo, acendeu-se a luz da janela ao lado do quarto da
Sra.  Iwuchukwu, projetando um círculo branco sobre o barracão ao
nosso lado, como se tivéssemos sido apanhados em flagrante pela
lanterna de um polícia. Sustivemos a respiração e, um segundo depois, a
porta da cozinha abriu-se e o Travis veio a correr na nossa direção a toda
a velocidade, trazendo debaixo do braço aquilo que parecia ser um tacho
prateado e brilhante com buracos, quatro grandes sacos do Dia das
Bruxas apertados numa mão e uma coisa pequena, quadrada e reluzente
na outra.
— Fuuuuuujam! — sussurrou freneticamente, ao mesmo tempo que
outra luz amarela se acendeu em casa, no piso de cima.
— Raios e rabiscos! — exclamou o Ben, a correr em direção ao portão
do jardim e a tentar empurrar a bicicleta dele e a do Travis.
Mas, em menos de nada, o Travis passou por nós a toda a velocidade,
atirou ao Ben os sacos dos doces, pegou na bicicleta e abriu bem o
portão.
— Noah! Senta-te bem e agarra-te! — sussurrei, empurrando os pedais
da bicicleta da Sra. Iwuchukwu tanto quanto conseguia.
Ouvia a bicicleta do Ben a passar por mim e a respiração do Travis
enquanto ele mantinha o portão aberto. Mas, por mais que tentasse, não
conseguia que a minha bicicleta andasse. Era como se ela estivesse a
bloquear as rodas por saber que eu estava a querer roubá-la!
— Os t-travões! — explicou o Travis. — Sholta os travões!
Olhei para as minhas mãos e, de repente, senti o meu cérebro fazer
um clique. É claro! Os travões! Os meus dedos tinham entrado em
pânico e estavam a apertar os travões! Larguei-os e senti logo que a
bicicleta avançava à medida que os pedais se libertavam.
— Venham! — chamou o Ben, pondo a máscara para baixo no
momento em que a luz da cozinha se alastrou.
Percebi que estávamos a poucos segundos de sermos apanhados e
senti uma energia percorrer-me os pés, levantei-me na bicicleta da
Sra. Iwuchukwu e pedalei de pé com toda a força e a toda a velocidade.
Antes que o meu coração tivesse tempo de bater duas vezes sequer,
estava a passar pelo portão do jardim e a sentir o chiar das rodas debaixo
de mim quando passaram para a estrada.
— Toma! — exclamou o Travis, inclinando-se e pondo um coador
virado ao contrário na cabeça do Noah, antes de nos ultrapassar.
— Um capacete espacial! — gritou o Noah, vendo os buracos de metal
do coador deslizarem-lhe à frente dos olhos.
— É isso mesmo! — respondi, desviando depressa a nossa bicicleta do
som de alguém a nadar num mar de tachos e panelas e a gritar
«PAREM! LADRÕÕÕÕES!»
Precipitei-me atrás das sombras do Ben e do Travis, que começavam a
desaparecer, e fiz soar a campainha para os avisar de que estava atrás
deles. Depois virei-me para trás e disse:
— Agarra-te bem, Noah! Estamos a caminho do Espaço!
13. 
O LONGO CAMINHO PARA A VIA LÓGICA
A acelerar estrada fora, com os pedais debaixo dos pés a rodar cada vez
mais depressa, segui o Ben e o Travis, que avançavam aos ziguezagues
na rua da Sra. Iwuchukwu por entre as pessoas que andavam a bater às
portas para pedir doces.
— Ei!
— Cuidado!
— Olha, pai! Um tigre a andar de bicicleta!
— Ei! Mais devagar!
— Que miúdos idiotas! — exclamaram várias vozes, à medida que
avançávamos a apitar, por entre bruxas, feiticeiros, monstros
Frankenstein e pelo menos 12 minidráculas com sacos cheios de doces.
Quase todas as casas da rua tinham luzinhas em forma de morcego,
abóboras com velas de plástico lá dentro e caixões que se abriam de
repente quando alguém passava por eles. Tudo aquilo parecia mesmo
divertido e fez com que eu tivesse vontade de que a minha mãe viesse ao
Dia das Bruxas comigo e com o Noah só mais uma vez, em vez de
termos de ir a Londres para falar dela aos caçadores de estrelas do
Observatório Real. Teria sabido bem se ela nos desse a mão enquanto
atravessávamos estradas e batíamos às portas, e ouvir a voz dela dizer-
nos para guardarmos todos os doces que conseguíssemos para levarmos
para a escola. Esse desejo fez-me doer a garganta e os meus olhos
encheram-se de lágrimas, por isso afastei-o e tentei não olhar para as
mães e os pais à nossa volta, felizes e a sorrir com as suas famílias.
O Travis ia atrás de mim, mas, em poucos segundos, passou a ir ele à
frente, acelerando rua abaixo.
— Depressa! — gritou, como se alguém nos estivesse a perseguir.
No final da rua, abrandou, tocou a campainha para garantir que todos
percebêssemos o que ele ia fazer, virou numa esquina e desapareceu. O
Ben seguiu-o e também desapareceu num ápice, e eu guinei atrás deles.
— Noah! Estás bem? — perguntei, e tentei que o bater do meu coração
não me impedisse de ouvir a resposta dele.
Agora que tinha acabado de roubar a bicicleta da Sra.  Iwuchukwu,
além de fugir de casa e fazer com que o Noah, o Travis e o Ben fizessem
o mesmo, tinha a sensação de ter mais dois corações além do meu.
— Sii-iii-iim! — gritou o Noah, por entre os solavancos da bicicleta ao
passar pelas pedras brilhantes da calçada que mais pareciam escamas de
peixe feitas de pedra. — Isto-é-divertii-i-i-i-i-do!
Pestanejei com força para que os meus olhos não perdessem de vista
as sombras do Ben e do Travis, pedalei com vigor e segui-os, virando
também à direita e à esquerda, nas esquinas apertadas. A estrada estava
a ficar mais estreita e as árvores e os arbustos à nossa volta pareciam ir
ficando cada vez mais próximos uns dos outros, como se quisessem ver
o que estávamos a fazer. O vento da noite passava-lhes nas cabeças, nos
braços e nas centenas de folhas, abafando o barulho das rodas das
nossas bicicletas com silvos intensos que cresciam e diminuíam como
as ondas de um mar agitado, enquanto a lua nos seguia por entre as
nuvens grandes e cinzentas.
Continuei a pedalar e tentei sentir-me tão feliz como tinha imaginado
que estaria quando estivéssemos mesmo a caminho de Londres.Mas
não era fácil estar feliz quando tudo o que o meu cérebro conseguia
fazer era pensar quantos polícias e assistentes sociais e senhoras de fato
preto a Sra. Iwuchukwu mandaria à nossa procura. O mais provável era
já estarem a caminho. Pus-me a pensar no que aconteceria quando nos
apanhassem. Imaginei que, mesmo que eu explicasse tudo a toda a
gente e lhes dissesse que tinha obrigado o Ben e o Travis a ajudar, eu e o
Noah seríamos levados na mesma para o sítio onde ficavam as crianças
de acolhimento que se portavam mal, onde quer que isso fosse, e
ficaríamos separados para sempre. Isso queria dizer que, assim que
conseguisse pôr o nome da minha mãe à estrela dela, eu e o Noah
teríamos de fugir a sério e tentar encontrar o meu pai, para que ele nos
pudesse ajudar. Não queria deixar o Ben e o Travis, principalmente
porque eles queriam ser meus irmãos e estavam a ajudar-me com a
estrela da minha mãe, mas assim seria melhor para eles. Não queria
fazer nada que os impedisse de serem adotados.
Quando as luzes das ruas foram ficando menos intensas e as casas e
árvores desapareceram, o Travis abrandou, apitou para não o perdermos
de vista e virou na esquina mais apertada até ali. Guinámos
ruidosamente e demos por nós numa via estreita onde só cabia um
carro, ladeada de espaços amplos e abertos. Perguntei a mim mesma
como é que o Travis sabia por onde ir, se a via não tinha tabuletas e ele
ainda não tinha parado uma única vez para ver o mapa.
À medida que a estrada subia, as minhas pernas foram ficando mais
rígidas e vi que o Ben e o Travis também estavam a abrandar. De ambos
os lados da via, estendia-se uma longa fileira de arbustos espinhosos,
alinhados como oficiais do exército. Ajudavam-nos a atravessar a
escuridão absoluta do oceano de campos secos no silêncio da noite.
Quanto mais avançávamos, mais altos se iam tornando os arbustos,
tanto que, a certa altura, já não víamos nada além deles e do céu, lá no
alto.
— Ei! Vamos… cantar… uma música! — disse o Ben, ofegante, a mover
as pernas com um grunhido.
A estrada tinha-se tornado mais íngreme e, no escuro, dava a
impressão de ser uma montanha.
— Vai fazer… com que o tempo… passe mais depressa!
— Está bem! — gritou o Travis, a tocar a campainha. — Mas não ab-
brandem!
Disse às minhas pernas para continuarem, acenei com a cabeça e
tentei pensar numa música que todos pudéssemos conhecer.
— Noah, escolhe tu! — insistiu o Travis.
Senti o Noah mexer-se no cesto para se virar ao contrário para nos ver.
— Cuidado, Noah! — avisei, com a bicicleta a abanar.
Não lhe vi a cara, mas ele parou de se mexer. E, de repente, como se
tivesse estado a reunir toda a energia que tinha para o fazer, bradou «A-
WIMBA-WOMBAAAAAAAAH!» no ar da noite.
— A-wimba-quê? — perguntou o Ben, a guinar com a bicicleta.
Sorri. Era a «canção feliz» do Noah, aquela que ele cantava na cozinha
para os meus pais quando sabia que estavam todos felizes.
— Não sabes? Do… Rei Leão… — expliquei, conseguindo aproximar-
me do Ben e ficar mesmo atrás dele.
Contente por estar escuro e ele não conseguir ver como a minha cara
estava vermelha, comecei a cantar a música em plenos pulmões.
— Ah, sim! — disse o Ben, com a cara voltada para a minha. — Eu
conheço… essa!
À nossa frente, o Travis cantava «A weeeeeeee-zabimba-imba-
waaaaaaaaaay!». Ao ouvi-lo, o Noah ficou tão contente, que deu meio
salto no cesto e, em resposta, cantou alto:
— A-WIMBA-WOMBA-WIMBA-WOMBA-WIMBA-WOMBA!
De repente, a bicicleta do Travis deu um salto no ar e aterrou com um
solavanco, guinando perigosamente para a esquerda.
— CUIDADO! RA-RAMOS! — gritou.
— RAMOS! — repetiu o Ben, a balançar-se para a esquerda e para a
direita.
Fiz exatamente como ele e as minhas rodas escaparam aos ramos
compridos que estavam no meio da estrada. Toquei a campainha para
agradecer ao Travis, que devia saber que, com o Noah atrás de mim no
cesto, eu nunca teria conseguido evitar que nos estatelássemos se
tivéssemos atingido os ramos.
Muito à frente, o Travis tocou a campainha dele para dizer «De nada» e
ficámos todos em silêncio para nos concentrarmos melhor na estrada.
Continuámos, sem uma palavra. De ambos os lados, as sebes foram-se
tornando mais pequenas e voltámos a ver as árvores e os campos. À
medida que os minutos passavam, as minhas pernas iam ficando cada
vez mais pesadas, a minha respiração cada vez mais alta e a estrada foi-
se tornando cada vez mais difícil. Uma enorme gota de suor escorreu-
me na face e diluiu-se na presilha do capacete da Sophie. Desejei que o
chão fosse sempre a descer até Londres para chegarmos mais depressa,
em vez de continuar a subir. O mapa do computador não dizia nada
sobre as lombas, os montes, as minimontanhas e os paus-cobra na
estrada, nem que tudo isso nos podia atrasar ainda mais!
Estava quase, quase a tocar a campainha da bicicleta da
Sra.  Iwuchukwu para perguntar se podíamos parar para beber água,
mas não toquei. A estrada tinha começado a tremer debaixo das minhas
rodas e ouvi o rugir de uma máquina atrás de mim. Um segundo
depois, dois enormes feixes de luz fizeram a curva e projetaram-se nas
sebes ao meu lado, servindo-me de aviso.
— CAAAAAAAAAAAARRRRRROOOOO! — gritei, virando a
bicicleta diretamente para a sebe quando passou por mim.
Senti milhões de ramos afiados arranharem-me a cara e as mãos no
momento em que a bicicleta embateu numa almofada de folhas que nos
voltou a empurrar para a estrada, como se estivesse irritada connosco
por a perturbarmos. Senti o cesto do Noah desapertar-se e sabia bem o
que ia acontecer a seguir. Levantei-me do selim e vi as minhas mãos e os
meus dedos esticarem-se para trás para agarrar no Noah e no lençol
branco flutuante do seu fato e puxá-lo para mim. Aterrou em cima de
mim com um baque e a choramingar e, logo a seguir, a estrada bateu
contra as minhas costas, tirando-me o ar dos pulmões. Ficámos os dois
deitados onde estávamos enquanto eu tentava voltar a respirar
normalmente. Ouvi um chiar, um baque e o som de rodas a guinar e um
«Aaaaah!», seguido de uma buzinadela irritada.
— BIP-BIP PARA TI! — ouvi o Ben gritar.
Levantei o tronco para olhar em volta e fiz o mesmo ao Noah. O carro
tinha desaparecido no escuro como se nunca tivesse existido e o Travis e
o Ben estavam a desencostar-se da sebe. Não tinham caído como eu e o
Noah.
— Vocês estão bem? — perguntou o Ben, a correr na nossa direção.
— A-Aniyah? — perguntou o Travis, com uma voz preocupada.
Mas eu não respondi, porque, mesmo na escuridão, consegui ver que o
lençol do Noah estava rasgado, e notei que ele tremia e esfregava os
olhos. Tinha um arranhão vermelho e comprido na bochecha, feito por
um ramo afiado da sebe, que passara por um buraco do coador.
— Dói-te, Noah? — perguntei-lhe, tentando aproximar-me da cara dele
para ver melhor.
Ele respondeu que sim com um aceno de cabeça. Percebi que estava a
tentar ser corajoso, porque não estava a chorar aos berros, como de
costume.
Lambi uma das minhas patas de tigre e usei-a para limpar o arranhão,
como a minha mãe fazia sempre que o Noah caía no parque. Estava
sempre a lamber coisas e a limpar-nos com elas quando nos
magoávamos.
— Blhec! — exclamou o Noah, afastando a minha mão e esfregando a
minha limpadela, tal como fazia com a nossa mãe.
Por algum motivo, aquilo fez-me sentir feliz e triste ao mesmo tempo.
— Olhem, não acham que aquilo era a polícia ou alguém dos serviços,
pois não? — perguntou o Ben, a olhar outra vez para a estrada que
subia.
Mas a estrada tinha voltado a ficar completamente escura e vazia.
— Não, eles teriam p-parado — disse o Travis, a olhar para mim de
testa franzida. — Aniyah, tens a certeza de que estás bem?
— Sim — disse eu, deitada, e encolhi os ombros.
Sentia uma dor percorrer-me o tornozelo esquerdo e um formigueiro
nas bochechas e no queixo, mas não quis dizer nada, para o caso de isso
nos obrigar a voltar.
— Mas… a tua cara — afirmou o Ben, a apontar. — E as tuas… —
acrescentou, a apontar para as minhas mãos.
O Noah parou de esfregar os olhos e também olhou para a minha cara.
— Oque foi? — perguntei, e levantei as mãos.
Conseguia ver que estavam cheias de arranhões pequenos, como se
tivesse sido atacada por um gato furioso. Levei os dedos à cara e toquei
nas bochechas com cuidado. Um dos lados estava cheio de arranhões, e
o queixo também.
— Não dói — prometi, dando graças por ainda não ser de dia e
nenhum de nós conseguir ver os arranhões. — Daqui a pouco lavo com
água.
E, ignorando a dor intensa que sentia no tornozelo, levantei a bicicleta
e pus-me em cima dela.
— Vá! Vamos continuar! — tentei dizer com uma voz normal.
Tínhamos de continuar, não podíamos parar. — Podem ajudar a pôr o
Noah? — perguntei, tentando que os meus olhos não se enchessem de
lágrimas. — E a que distância estamos de Londres?
Levei a bicicleta para longe da sebe e olhei para trás, para garantir que
a estrada estava vazia.
— A-ainda falta muito — disse o Travis, verificando se o cesto estava
seguro e voltando a pôr o Noah lá dentro. — Estamos q-quase em O-
Oxford. Mas já shão quase nove horas.
— Uma corrida até Londres, então! — gritei, pedalando tanto quanto o
tornozelo conseguia e tentando que a minha cara não se crispasse.
O Travis e o Ben foram a correr para as suas bicicletas e, em pouco
tempo, estavam outra vez à minha frente. Vi alguma coisa deitar uma
luz azul e cinzenta na parte da frente do guiador do Travis e perguntei-
me o que seria. No escuro, parecia um telefone, mas eu sabia que ele
não tinha um, por isso devia ser outra coisa. Disse ao meu cérebro para
se lembrar de lhe perguntar, da próxima vez que parássemos.
Continuámos a pedalar e fui sentindo a dor no tornozelo tornar-se
mais intensa, o capacete da Sophie ficar cada vez mais pegajoso na
minha cabeça e os golpes nas minhas mãos e cara arderem mais. O Ben
e o Travis tinham estado a cantar e a falar, mas, entretanto, tinham-se
calado e pareciam estar longe, como se estivessem a pedalar num
mundo diferente, embora parecesse o mesmo. Quis que houvesse
tabuletas na estrada que nos dissessem onde estávamos, quanto é que
ainda tínhamos de andar e quantos montes teríamos ainda de subir, mas
não havia tabuletas nenhumas. Só havia uma linha interminável de
arbustos cheios de espinhos que faziam com que a estrada escura
parecesse ainda mais escura e inóspita.
A bicicleta do Travis voltou a apitar quando ele virou à direita, para
outra via pequena sem nome. Quando virámos, ouviu-se um ribombar
muito alto no céu e as estrelas e a lua esmoreceram, como se um manto
negro se tivesse estendido acima das nossas cabeças. Um segundo
depois, caiu-me uma gota grossa de água fria na ponta do nariz.
— MALDITOS MACACOS! — gritou o Ben, pondo o capuz. — ESTÁ
A CHOVER! TRAVIS! ESTÁ A CHOVER!
— EU SEI! — respondeu o Travis, pedalando ainda mais depressa. —
SH-SHIGAM-ME!
Disse às minhas pernas que iam ter de se esforçar mais do que nunca
e, gritando ao Noah para se sentar bem, baixei a cabeça e continuei a
pedalar. Lá de cima, como se um gigante tivesse aberto a porta de casa e
estivesse a mandar baldes de água que nunca mais acabavam, começou
a cair uma torrente de chuva.
À medida que a nossa roupa foi ficando mais molhada e pesada,
tornou-se mais difícil pedalar. A estrada, antes limpa e seca,
transformou-se numa corrente preta e escorregadia e as gotas de chuva
fizeram esmorecer as luzes das bicicletas do Ben e do Travis. Com as
faces e os dedos cada vez mais dormentes e frios, lutávamos contra o
vento gelado que, entretanto, se tinha juntado à festa. O meu tornozelo
gritava, a minha bicicleta começava a ficar para trás e os meus olhos já
não viam o Travis ou o Ben, mas, quando pensava que já não conseguia
pedalar mais uma vez que fosse, o Travis gritou «AQUI!», apitou o mais
alto que conseguiu e virou à direita.
Assim que virámos, a estrada tornou-se mais larga e lisa. À nossa
frente, estava uma tabuleta que dizia «A CIDADE DE OXFORD DÁ-
LHE AS BOAS-VINDAS». Passámos por ela a grande velocidade e, um
pouco mais à frente, havia candeeiros de rua, lojas fechadas com néones
que deitavam luz e, mais longe, do outro lado da estrada, um autocarro
com luzes cor de laranja e vermelhas a piscar.
O Travis tocou a campainha com força, saltou da bicicleta e empurrou-
a a correr em direção a um edifício grande, com degraus que levavam a
uma série de pilares. Ao lado, havia uma via estreita iluminada apenas
por um candeeiro de rua com um letreiro azul e branco que dizia «Via
Lógica».
— Por aqui! — indicou o Travis, apontando para os mosaicos secos por
baixo dos pilares, em frente a uma grande porta de madeira.
Encostámos as nossas bicicletas cansadas a um muro, subimos
depressa os degraus e ficámos de pé todos juntos, a tremer e a ver a
chuva cair a potes.
— Quanto tempo temos de esperar? — perguntou o Ben, soprando
para as mãos em concha e esfregando-as uma na outra.
O Travis encolheu os ombros.
— Até p-parar de chover.
O Ben acenou e o Noah agarrou-se à minha perna e fez um som de
cãozinho a querer ir para casa.
— Mas… isso pode levar horas — disse eu, na esperança de que isso
não fosse verdade e que parasse de chover imediatamente.
— Pois é — disse o Travis calmamente e, nesse momento, um
relâmpago prateado estrondeou no céu. Demos um passo atrás e
sentámo-nos, encostados à porta de madeira. — Mas não p-podemos ir
asshim. T-temos de esperar.
Olhei para a rua alagada e para as enormes gotas de chuva que
morriam à minha frente ao cair. Sabia que, provavelmente, já não íamos
conseguir chegar a tempo aos caçadores de estrelas do Observatório Real
e aos seus computadores. Mesmo que a chuva parasse e todas as estrelas
se mostrassem para nos guiar, não deixava de sentir que tinha o
tornozelo partido e que o tempo estava a passar muito depressa. A nossa
Missão Ultrassecreta tinha falhado e eu tinha falhado perante a estrela
da minha mãe. E não havia nada que pudesse fazer em relação a isso.
14. 
A NOITE DOS QUATRO CONTOS
— Eh, pá! Mas será que nunca mais vai parar de chover? — perguntou o
Ben, tirando outra mão-cheia de doces do seu saco.
Ofereceu-me alguns, mas eu abanei a cabeça. A minha garganta tinha
voltado a fechar-se e não me deixava comer nada. Nem mesmo gomas
de coca-cola ácidas.
Nenhum de nós sabia responder à pergunta do Ben, por isso ficámos
sentados a olhar. O Noah ressonou baixinho e a sua cabeça começou a
deslizar lentamente pelo meu braço. Olhei para as calças dele. A parte de
baixo estava molhada por causa da chuva, mas o fato cobria-lhe o corpo
quase todo, por isso ainda estavam secas no meio. Era bom sinal: queria
dizer que ainda não tinha feito chichi nas calças.
— Então o que é que fazemos agora? — perguntou o Ben, à terceira
mão-cheia de doces.
O Travis tinha o queixo apoiado nos joelhos e olhava em frente,
demasiado cansado para responder.
Abri a boca. Mas a minha garganta fechada não me deixava dizer
«Temos de continuar.»
O Travis tirou um objeto pequeno e preto do casaco do bolso e
mostrou-nos. Era o GPS da Sra. Iwuchukwu. Afinal, era por isso que ele
sabia por quais estradas ir sem nunca usar o nosso mapa…
— Não acredito que trouxeste isso — bradou o Ben com um sorriso de
esguelha, abanando a cabeça. — A Sra.  I. vai passar-se dos carretos
quando vir que desapareceu.
O Travis encolheu os ombros.
— Vi-o a c-carregar na cozinha e p-pensei que podia ser útil. De
qualquer forma, só l-levei emprestado.
Carregou no botão de ligar e um desenho da cabeça de um homem
careca com grandes sobrancelhas e um grande sorriso acenou-nos, ao
mesmo tempo que, acima dele, apareceu escrito «Dynamo-Dom —
Consigo a Cada Passo». Ao fim de uns segundos, desapareceu do ecrã,
para depois aparecer uma linha grossa azul rodeada de várias linhas
cinzentas. No meio estava uma seta branca que parecia um avião de
papel a apontar para onde íamos. Ao lado dela, dizia «As Escolas de
Exame».
Olhei para a enorme porta atrás de nós. Não sabia que havia escolas só
para fazer exames! Disse a mim mesma para nunca ir a uma escola
assim.
O Travis apontou para os números na parte de baixo do ecrã do
Dynamo-Dom. O meu coração disparou quandovi que dizia «1h38» de
um lado e, do outro, «82 quilómetros», mas abrandou quando o Travis
acrescentou:
— Isso é se formos de c-carro. De b-bicicleta é maish do d-dobro.
O Ben fez um gesto com a cabeça quando olhei para o pequeno ecrã.
— D-desculpa, Aniyah — disse o Travis. — Acho que n-não vamos
chegar a tempo…
Mordi a língua com raiva. Teria conseguido chegar aos caçadores de
estrelas a tempo se tivesse partido no dia anterior, sabendo o que tinha
de fazer, e se não tivesse deixado ninguém ir comigo!
— A Sra. I. vai matar-nos — disse o Ben, puxando um esparguete de
goma com os dentes. E acrescentou: — Mas, se matar, eu vou lembrar-
lhe que ela estava sempre a fugir quando era das nossas.
Olhei para o Ben, surpreendida e confusa. A surpresa fez com que a
minha voz voltasse, e ouvi-a perguntar:
— Como assim? Ela também era uma criança de acolhimento?
— Ah, pois! E bem mazinha — respondeu o Ben, inclinando-se para a
frente para me ver melhor. — Estava sempre a fugir, porque detestava
toda a gente. E depois deram-lhe uma mãe de acolhimento mesmo boa e
então decidiu que era o que queria ser quando crescesse. É por isso que
é muito simpática para nós.
— Mas… como é que ela se tornou criança de acolhimento? —
questionei, perguntando-me porque é que ela nunca me tinha dito a
mim e ao Noah que já tinha sido como nós.
— A mãe ficou doente e deixou de poder tomar conta dela, e mais
ninguém a queria — disse o Ben. — Deram-na e ela passou a ser uma
criança de acolhimento. Depois, a mãe morreu e ela tentou ser adotada,
mas não podia, porque já era demasiado velha, por isso esteve sempre a
fugir.
— Como assim, era demasiado velha? — perguntei, de sobrolho
franzido.
— Sim — afirmou o Ben. — Só as crianças de acolhimento mais novas
é que são adotadas. Se formos bebés, somos adotados de certeza. Mas,
quando crescemos e passamos a ser adolescentes, ninguém nos quer,
porque temos hormonas e borbulhas e coisas a aparecer, e passamos a
ser demasiado altos. É por isso que eu e o Travis estamos a tentar fazer
com que a Sra. I. nos adote. Estamos a ficar muito velhos e muito altos,
por isso, é um pouco a nossa última oportunidade.
Olhei para o Travis. Ele abriu os olhos e fez-me sinal com a cabeça,
como se desejasse poder fazer alguma coisa em relação ao facto de ser
alto.
— A Sra.  I. queria ter filhos dela e filhos de acolhimento —
acrescentou o Ben, levando mais um esparguete de goma à boca. —
Dehois de she cashar c’ô Sr.  Iwu-chuk-wu. — Engoliu, fazendo muito
barulho, e depois continuou: — Mas ela e o Sr. Iwuchukwu não podiam
ter filhos e, depois, o Sr.  I. ficou com cancro e morreu, por isso ela
passou a ser mãe de acolhimento.
— Oh — murmurei, sem saber o que dizer.
Agora entendia porque é que a Sra. Iwuchukwu sorria tanto e nunca
ralhava com o Noah por molhar a cama, nem por gritar e chorar. E fiquei
ainda mais preocupada do que antes. E se a Sra.  Iwuchukwu não
acreditasse que a ideia de fugir para ir a Londres tinha sido minha e
decidisse que o Travis e o Ben nunca deixariam de ser crianças de
acolhimento? E se os tivesse feito perder a última oportunidade de
serem adotados ao deixar que eles viessem comigo em busca da estrela
da minha mãe? Começou a crescer-me um caroço gigante, e bem real,
na parte de trás da garganta.
— Mas tu e o N-Noah não precisam de se preocupar — informou o
Travis. — O Noah é pequeno e as p-pessoas gostam de f-ficar com
irmãos e irmãs.
— Porque é que a Sra. Iwuchukwu não vos adotou? — perguntei. —
Vocês são muito mais simpáticos do que a Sophie! Ela devia ter-vos
adotado a vocês e não à Sophie.
O Travis abanou a cabeça e o Ben disse:
— Nah. A Sophie está com a Sra. I. desde os 6 anos! Eu e o Travis só
viemos no ano passado. O Travis veio primeiro e eu vim umas duas
semanas depois. Ainda não é tempo suficiente para ela nos querer
adotar a sério.
— Pois — concordou o Travis, a olhar outra vez para os joelhos.
Ficámos em silêncio por momentos, até que eu fiz a pergunta que
queria fazer desde a primeira noite em casa da Sra. Iwuchukwu.
— Mas, então, porque é que vocês são crianças de acolhimento? Os
vossos pais também desapareceram? — perguntei.
O Travis e o Ben olharam um para o outro em silêncio, como se
estivessem a perguntar um ao outro se haviam de me contar. Devem ter
dito os dois que sim, porque o Ben voltou a olhar para mim e disse:
— Eu passei a ser porque os meus pais já não podiam tomar conta de
mim e da minha irmã.
— Oh! — disse eu, e acenei com a cabeça.
Fiz com que a minha cara não se alterasse, mesmo que o meu queixo
tivesse vontade de descair e os meus olhos quisessem olhar para ele com
mais atenção ainda. O Ben tinha uma irmã! E uma mãe e um pai.
O Ben ficou a olhar para baixo e começou a falar para dentro do capuz,
como se tivesse sido ele a fazer-lhe as perguntas, e não eu.
— O meu pai fazia entregas — continuou. — Tinha a sua própria
carrinha e tudo. Sempre que estava feliz, levava-nos a ver jogos de
futebol. Foi ele que me deu isto — disse, tocando na camisola com
capuz. — Porque nós éramos do Newcastle United. Ele era de lá.
Percebia-o. Eu também tinha uma camisola preferida, que os meus
pais me tinham comprado na Disneyland. Era do Rei Leão e tinha
fotografias de leões — não desenhos, mas fotografias de leões a sério —
com sombra dourada e brilhante nos olhos. Se ainda a tivesse, também
estaria sempre a usá-la.
— Mas depois, quando perdeu o emprego e a empresa dele fechou, o
meu pai ficou mesmo muito triste — continuou o Ben. Fungou, como
se estivesse a pingar do nariz. — Foi então que começou a ir muito aos
bares. Quando voltava, gritava com todos e fazia mal à minha mãe… Até
que, um dia, a minha mãe lhe disse para ir embora e nunca mais voltar
e ele fez-nos tanto mal, que eu e a minha irmã fomos levados dali para
várias casas de acolhimento e vários pais de acolhimento. Mas não
gostámos da maior parte deles, por isso estávamos sempre a fugir. Mas,
quando viemos para a Sra. I., eu gostei, então fiquei…
— E a tua irmã? — perguntei, na esperança de que ela não vivesse
muito longe da casa da Sra. Iwuchukwu.
— Ela não gostava de viver em casas de acolhimento — disse o Ben,
fungando ainda mais alto desta vez. — Então, voltou a fugir. Mas ela já
tem 18 anos, por isso pode viver sozinha. Foi viver para o País de Gales
e… não gosta de me ver, porque lhe trago más recordações. E é isso.
O Ben ainda não tinha tirado os olhos do capuz.
— Oh — murmurei eu outra vez.
Perguntei a mim mesma onde estaria a verdadeira mãe do Ben e se
estaria bem agora. Mas sabia que ele não queria que lhe fizesse mais
perguntas, por isso não disse nada.
O Travis olhou para mim por cima da cabeça do Noah e fiquei à espera
de que ele dissesse alguma coisa. Ele abriu a boca, e depois, olhando
para o Ben, disse:
— Ben, c-conta tu.
O Ben fez um gesto vago com a cabeça e disse:
— A mãe do Travis morreu quando ele tinha 7 anos. Estava doente e
ele estava sozinho com ela quando isso aconteceu. O pai tinha-os
deixado quando ele ainda era bebé, por isso as pessoas dos cuidados
fizeram com que ele vivesse com a tia durante uns tempos. Mas ela não
era boa para ele, por isso, um dia, levaram-no dali e puseram-no em
casas de acolhimento, que é onde tem estado desde então.
O Ben acabou com um encolher de ombros, como se aquilo que estava
a dizer fosse muito normal.
Olhei para o Travis, mas já não lhe consegui ver os olhos. Tinha o
cabelo à frente da cara e estava a olhar para os joelhos e a sacudir uma
coisa invisível de cima deles com os dedos. Agora já sabia porque é que
o Travis tinha perguntado que som tinha feito o coração da minha mãe
ao abandonar o corpo dela para se transformar numa estrela.
— Ele não gosta de falar sobre isso — continuou o Ben. — Porque os
médicos dizem que foi assim que passou a gaguejar. Foi por causa da tia
dele.
Franzi a testa, a pensar como é que alguém podia fazer com que outra
pessoa gaguejasse. O Noah gaguejava de vez em quando, mas só quando
estava com muito medo de dizer aos nossos pais que se tinha portado
mal ou partido algumacoisa. E depois voltava a falar normalmente.
— Foi por causa da tia que ele passou a gaguejar? — perguntei.
O Ben confirmou com um aceno.
— Sim… quer dizer… Fez com que ele tivesse muito medo de falar. Às
vezes, quando a Sophie está a ser muito má, faz com que ele gagueje
mais.
O Travis fungou alto, tal como o Ben tinha feito há pouco.
— Porque é que a Sophie é má para toda a gente? — perguntei, a
pensar na cena da tigela de esparguete, nos olhares de ódio dela e no
meu medalhão.
Só de a imaginar a fazer com que o Travis gaguejasse mais, fiquei a
detestá-la ainda mais do que já detestava. Nunca tinha conhecido
ninguém tão mau como ela.
— P-porque tem medo de que nós também sejamos adotados — disse
o Travis calmamente.
O Ben concordou.
— Ela já foi como nós: uma criança de acolhimento. Mas a Sra.  I.
gostava dela e adotou-a, e a Sophie não quer que ela goste de mais
ninguém, nem que adote mais ninguém. Acho que tem medo de que a
Sra.  I. goste mais de outros do que dela ou que passe a gostar menos
dela. Tenta fazer com que todos se vão embora sendo muito má para
eles, mesmo sabendo como é não ter uma família a sério. O pai morreu
quando ela era pequena e a mãe não a quis, por isso deu-a. Ela foi parar
a outras casas de acolhimento e teve mães e pais de acolhimento, mas
depois a Sra. I. ficou com ela quando ela tinha 6 anos e ela nunca se foi
embora. Teve mesmo muita sorte.
— Pois foi — concordou o Travis.
Afastou finalmente o cabelo, deixando-me olhar para a cara dele.
Estava com os olhos a brilhar muito.
Fiquei sentada em silêncio, a pensar em tudo o que tinha acabado de
ouvir. Nunca tinha ouvido falar de mães que dessem os filhos nem de
pessoas tão más que fizessem alguém gaguejar, nem de pais que
magoassem tanto as mães que fosse preciso separar toda a gente. Tudo
aquilo me parecia horrível e injusto.
Deitei a cabeça em cima da cabeça do Noah e pus-me a pensar onde
estaria o meu pai e por que razão ainda não nos tinha encontrado. Ele
estava sempre a dizer que era um homem de família, por isso sabia que
ele não ia gostar que deixássemos de ser uma família. No hotel-que-não-
era-mesmo-um-hotel, a minha mãe tinha dito que íamos ter de
continuar a esconder-nos do meu pai durante muito tempo. Mas, agora
que ela tinha partido, de certeza que isso não era verdade. E, assim que
ele nos encontrasse, eu ia pedir-lhe ajuda para que o Ben e o Travis
fossem adotados depressa, para não terem mais com que se preocupar.
Os meus pensamentos foram interrompidos de repente, quando um
grande autocarro vermelho parou à nossa frente, esparrinhando os
degraus com água da chuva e fazendo com que encolhêssemos bem as
pernas contra o peito. O autocarro estava todo iluminado e levava muitas
pessoas, algumas delas a dormir com a cabeça encostada à janela. As
portas duplas abriram-se com um silvo, deixando sair uma pessoa com a
cabeça coberta pelo casaco, que seguiu a correr pela Via Lógica.
Quando as portas se fecharam e o autocarro arrancou, o Travis
endireitou-se.
— Olhem! — disse muito animado, a apontar para o autocarro.
Inclinei-me para a frente e li depressa as letras brancas escritas na
horizontal na parte de trás do autocarro, antes de deixarem de se ver.
Diziam:
 
 
 
 
 
— É isso! — exclamou o Ben, dando um toque no braço do Travis. —
Vamos apanhar o autocarro para Londres!
Endireitei-me com tanto entusiasmo, que, sem querer, me esqueci da
cabeça do Noah e ela rolou para trás. Segurando-a, voltei a encostá-la ao
meu ombro.
— Podemos? — perguntei.
Se apanhássemos o autocarro agora, ainda podíamos conseguir chegar
a Londres antes da meia-noite!
— Teremos dinheiro suficiente para os bilhetes?
O Travis acenou com a cabeça.
— Sim, devemos ter! Eu e o B-Ben trouxemos todo o dinheiro que
temos. M-mas temos de esperar até que seja de m-manhã, quando há m-
mais gente e os m-motoristas não chamam a polícia por nossha causa!
— Pois é — concordou o Ben, abanando a mochila e fazendo soar as
moedas que lá tinha dentro. — Ir de autocarro é muito mais seguro do
que de bicicleta, especialmente se a Sra.  I. tiver chamado a polícia e
agora formos criminosos procurados! Além de que, assim, já não somos
derrubados por carros estúpidos — acrescentou.
— Mas… o concurso termina esta noite. De manhã já é tarde —
lembrei. — Os caçadores de estrelas já não vão estar lá quando houver
luz. Eles só trabalham de noite, quando se vê as estrelas, lembram-se? E,
se eles não estiverem lá, não vamos ter ninguém a quem falar da estrela
da minha mãe. É melhor irmos agora!
O Travis abanou a cabeça.
— É m-muito tarde para entrarmos n-num agora. A esta hora, não vai
haver ninguém da nossa i-idade, mesmo sendo Dia das Bruxas! Mas, se
formos de m-manhã — disse o Travis, começando a ficar entusiasmado
— ainda p-podemos chegar a tempo da festa de g-gala! Lembram-se? Os
computadores escolhem um nome à meia-noite, mas ninguém vai
shaber qual é antes da f-festa de amanhã!
Olhei para o Noah e esforcei-me por pensar. O Ben e o Travis tinham
razão. O site dizia mesmo que o nome da estrela da minha mãe só seria
anunciado na gala… o que queria dizer que teríamos o dia todo para ir
ter com os caçadores de estrelas e garantir que eles davam o nome
verdadeiro à estrela da minha mãe e não um nome a fingir escolhido por
computadores. Eu sabia que a minha mãe não havia de querer que lhe
dessem o nome errado, mas também sabia que ela não se importaria de
esperar só mais um bocado para eu tratar de tudo. Ainda tínhamos uma
oportunidade. Só era preciso que a Sra. Iwuchukwu e a polícia não nos
apanhassem!
— Está bem — disse eu, a conter-me para não correr atrás do
autocarro, mesmo à chuva. — Vamos assim que amanhecer!
— Vamos d-dormir primeiro — pediu o Travis, pondo o capuz do seu
fato de esqueleto na cabeça.
O Ben acenou e, enroscando-se no seu manto e pondo a máscara de
Darth Vader na cara para se proteger da chuva, murmurou:
— A Sra. I. vai mesmooo matar-nos…
Ao meu lado, o Noah voltou a suspirar e deixou cair a cabeça para cima
do braço do Travis.
Eu também queria dormir, porque começava a sentir nos olhos o
mesmo que sentia no tornozelo: estavam inchados, pesados e estranhos.
Mas, quando os fechava, começava a pensar nas histórias da
Sra.  Iwuchukwu, do Ben, do Travis e da Sophie, e a imaginar quantas
crianças, pais e casas de acolhimento haveria no mundo e porque é que
eu nunca tinha ouvido falar em nada daquilo antes de eu própria passar
a ser uma criança de acolhimento e viver numa casa de acolhimento. Por
isso, fiquei de olhos abertos a ver a chuva cair nos degraus à minha
frente até o som das gotas de chuva começar a esmorecer, como se
alguém me tivesse posto bolas de algodão nos ouvidos. Pouco depois, as
pálpebras começaram a pesar demasiado e, sem perceber como nem
quando, desisti e senti-me ser puxada para um grande buraco escuro de
sono.
15. 
ARTIGOS ESTRANHOS E SUSPEITOS
— EI! O QUE É QUE ESTÃO AQUI A FAZER?
Os meus olhos abriram-se de súbito para ver o homem estranho que
estava a olhar para mim. Vestia umas calças amarelo-fluorescentes e um
casaco da cor dos marcadores do meu pai, e estava a fitar-me através de
uma barba branca farta e de umas sobrancelhas ainda mais fartas,
segurando uma grande vassoura de madeira na mão como se fosse um
bastão daqueles que se usa para caminhar.
Pestanejei e tentei acordar o meu cérebro, porque não sabia onde
estava ou se ainda estava a dormir. Endireitei-me e vi o capacete espacial
do Noah rebolar-me dos joelhos e cair ruidosamente no chão de
cerâmica. De repente, lembrei-me! Estávamos em Oxford e tínhamos de
apanhar o autocarro e chegar a Londres antes da gala dessa noite!
— VOU REPETIR: O QUE É QUE ESTÃO AQUI A FAZER? O Dia
das Bruxas já ACABOU! E então? O que é que o pequeno está aqui a
fazer? HÃ?
O Travis pôs-se de pé num salto, agarrou na mochila e deu um
pontapé ao Ben para o acordar.
— Deshculpe, senhor — disse ele, enquanto eu acordava o Noah com
uma sacudidela. — Nó-nós perdemo-nos no caminho para c-casa
quando fomos ao Dia das Bruxas. Vamos v-vishitar…— Os nossos… hã, avós — disse o Ben, através da máscara de Darth
Vader.
Confirmei com um gesto de cabeça, enquanto levantava o Noah. Mas,
quando acordou, o Noah começou a chorar. Estava demasiado cansado
para saber o que se estava a passar e queria a nossa mãe.
— Não te preocupes, Noah, vamos agora ter com a avó! — disse eu,
agarrando-lhe na mão e na minha mochila e levantando-me.
Sentia o tornozelo ainda mais inchado e dorido do que na noite
anterior. Tentei afastar a dor e desci as escadas a coxear o mais depressa
que pude.
De sobrolho franzido, o homem ficou a ver-nos pegar nas bicicletas e
fazer-nos à estrada. Nem sequer sabia se estávamos a ir na direção certa,
mas não fazia mal. Tínhamos de ir para onde o homem não nos visse.
Olhei para trás e vi-o a olhar para nós, coçando e abanando a cabeça.
Acenei-lhe e tentei sorrir. Ele ficou a olhar para mim, com o rosto todo
franzido, e depois pôs-se a varrer os mosaicos onde tínhamos dormido.
O Noah recomeçou a chorar e agarrou-se à minha perna, o que me
dificultou o andar.
— Noah, chiu! Lembra-te de que vamos ajudar a dar nome à estrela da
mãe! Estamos numa aventura!
— Anda — disse o Travis, levantando o Noah e pondo-o no banco alto
da bicicleta dele. — Agarra-te ao guiador, Noah! — mandou.
O Noah parou imediatamente de chorar e agarrou-se ao guiador com
um ar entusiasmado.
— Queres, Noah? — perguntou o Ben, tirando um pacote de batatas
fritas do capuz.
O Noah limpou as lágrimas e agarrou alegremente numa mão-cheia de
batatas. Levou-as à boca e começou a cantarolar, o que queria dizer que
estava contente.
— Onde é que as a-arranjaste? — perguntou o Travis, de sobrolho
franzido.
— Sei lá — respondeu o Ben com um encolher de ombros. — Estavam
no meu saco de desporto. Comi tudo o que tinha no meu saco de doces.
Alguém quer partilhar o seu…
— Espera! Aniyah! O que é que se passha com o teu p-pé? —
perguntou o Travis, fazendo-nos todos parar.
— Nada! — menti, tentando pôr todo o pé direito no chão. Mas doía
muito, por isso voltei a apoiar-me nos dedos dos pés.
— Ei! — exclamou o Ben, baixando-se para espreitar. — Aniyah!
Parece que te cresceu uma ameixa!
Olhei para baixo e rodei a perna de maneira a conseguir ver o
tornozelo em condições. O Ben tinha razão. Depois de eu adormecer, o
tornozelo tinha inchado ao ponto de parecer uma horrível bola de água,
num estranho tom entre o azul e o roxo. Parecia mesmo uma ameixa.
— Magoaste-te — disse o Travis, com uma careta. — Temos de i-ir ao
hos-hospital!
— NÃO! — gritei, apesar de não ser minha intenção gritar. — Por
favor! Eu estou bem! Só preciso de… — Mas não sabia o que tinha de
fazer para que a dor desaparecesse, por isso disse: — Só preciso de
andar assim!
Empurrei a bicicleta ao meu lado, andando normalmente com um pé e
apoiando só as pontas dos dedos com o pé que me doía.
— Veem? Não dói assim tanto! Só tem mau aspeto, mais nada!
— Tens a certeza? — perguntou o Ben, com ar de quem não está
convencido.
— Juro — garanti, esperando que o meu sorriso parecesse verdadeiro.
— Venham, por favor! Vamos lá!
O Ben e o Travis concordaram com um gesto de cabeça e seguiram-
me. Ao fim de um minuto a andar meio em bicos de pés, meio
normalmente, passando por lojas e cafés fechados, parei. Tínhamos
chegado à esquina de uma rua que se dividia em quatro caminhos. Em
frente, estava uma igreja pequena com um relógio que nos indicava que
eram quase 7h45, o que significava que tínhamos pouco mais de 11
horas para chegar a Londres, encontrar os caçadores de estrelas e
interromper o concurso.
— Travis, estamos a ir bem?
— Oh! — disse o Travis, procurando o GPS no bolso. Depois parou e
apontou para cima. — Sim! Estamos a ir bem!
Por cima de nós estava um poste com muitas tabuletas com setas
brancas a apontar para várias direções. Uma delas apontava em frente e
dizia «Estação Rodoviária 450 metros».
Continuámos a empurrar as bicicletas passando por lojas e
restaurantes, e começámos a ouvir o barulho de máquinas, pessoas e
carros. As ruas desertas começavam a encher-se e, à medida que nos
aproximávamos da estação de autocarros, íamos vendo mais pessoas.
— Porque é que está toda a gente a olhar? — perguntou baixinho o
Ben, quando chegámos a uma praça cheia de pessoas a montar bancas
de mercado.
Olhei em volta. O Ben tinha razão. Por onde quer que andássemos, os
adultos fitavam-nos com olhos atentos e sobrolho franzido.
Encolhi os ombros, mas depois vi uma mulher, que levava uma caixa
de livros, parar de repente para ficar a olhar para o Ben e o Travis.
É claro!
— É por causa dos fatos! — sussurrei, apercebendo-me de que devia
ser estranho ver um tigre, um esqueleto, o Darth Vader e um
fantasminha com um coador na cabeça a andar pela rua, sendo que já
não era Dia das Bruxas.
— Pois é! — concordou o Ben, tirando a máscara de Darth Vader e
enfiando-a na mochila.
Eu e o Travis olhámos um para um outro com um ar preocupado,
porque não tínhamos nada para vestir em vez dos fatos.
— Não! — gritou o Noah, afastando a minha mão quando lhe tentei
tirar o coador da cabeça e o lençol do fato de fantasma.
— Olhem, ali há casas de banho — informou o Ben, a apontar para
uma tabuleta de metal. — Tenho de ir! Vamos todos e aproveitamos para
nos lavarmos.
O Ben e o Travis encostaram as bicicletas à fachada de uma loja e
apressaram-se a entrar.
— Eu também quero iiiir! — queixou-se o Noah, afastando a minha
mão do seu braço.
— Noah, não! Não podes! Essa casa de banho é para rapazes crescidos!
— Não me importo, quero IR!
Soltou-se de mim e entrou disparado na casa de banho dos homens.
Era a primeira vez que me deixava para fazer alguma coisa sozinho
desde que a nossa mãe tinha partido. Fiquei preocupada, mas também
me senti bem por ele ter dois irmãos mais velhos para o ajudar.
Ao fim de uns minutos a fingir que não estava a olhar para as portas
das casas de banho, vi o Travis e o Ben sair, com o Noah a saltitar atrás
deles. Ainda tinha o capacete espacial, mas já não estava com o fato de
fantasma e tinha a cara cheia de chocolate.
— Obrigada — disse eu, quando o Travis me deu o lençol de fantasma
do Noah para o pôr na minha mochila. — Eu… Eu também tenho de ir.
O Travis acenou e ficou a segurar na minha bicicleta enquanto eu fui lá
dentro lavar a cara e as mãos. Fiquei um bocado assustada quando olhei
para o espelho, porque me tinha esquecido dos arranhões que tinha na
cara e nas mãos. Tinham secado durante a noite e agora faziam-me
parecer um tigre saído de uma luta de felinos. Lavei-os e passei água fria
no tornozelo, porque o sentia arder. A ameixa estava agora ainda mais
escura, mas não quis que o Travis e o Ben me impedissem de continuar
por causa dela, por isso escondi-a puxando as minhas pernas de tigre
para baixo.
Já mais desperta, fui ter com o Travis e o Ben e empurrámos as
bicicletas até à zona dos autocarros.
— Ena, pá — disse eu, a olhar para uma fila de autocarros vermelhos,
cor de laranja, verdes e roxos perfeitamente alinhados na diagonal, como
aviões num aeroporto.
— Temos de ir no v-vermelho — avisou o Travis, a apontar para um
grande Expresso de Oxford de dois andares.
No vidro da frente, lia-se «Estação Victoria, Londres» em letras cor de
laranja luminosas, o que fez o meu coração disparar.
— Como é que vamos entrar? — perguntou o Ben, a olhar
nervosamente em volta. — Acham que temos dinheiro suficiente para
os bilhetes todos?
O Travis acenou com a cabeça.
— Eu tenho cerca de 23 libras. Se cada bilhete for a 8  libras,
precisamos de…
Voltou a abrir os dedos em leque, mas, antes que ele conseguisse dizer
mais alguma coisa, eu adiantei-me:
— 32 libras!
Eu ainda não era um computador humano: tinha feito as contas na
noite anterior, assim que vimos a placa no autocarro. Mas o Travis
pareceu ficar impressionado.
— Sim, 32 libras. Quanto é que tu tens? — perguntou, a olhar para o
Ben.
— 7 libras e 23 pence — disse o Ben.
— O quê? — perguntou o Travis, chocado. — A Sra.  I. deu-te uma
nota de 10 na quarta-feira! Pensei que ainda a tinhas!
— Comprei cromos e uma sandes debatatas fritas — disse o Ben com
uma careta. — Eu não sabia que íamos precisar para isto, não é? E a
Sra. I. tem o meu cartão de poupanças!
O Travis abanou a cabeça. Nesse momento, passou por nós um casal
de velhinhos de mãos dadas. Pareciam dois pinguins felizes e sorriram-
nos ao passar. O sorriso começou por ser grande, mas transformou-se
numa expressão de espanto quando viram a minha cara e a minha
cauda, um pouco enlameada.
— Venham, vá — pediu o Travis, a seguir com o olhar o casal de
velhinhos, que continuavam a olhar para nós e a sussurrar entre eles. —
Vamos depressha!
Dirigimo-nos para a parte de trás da longa fila de autocarros e
encontrámos um grande pilar mesmo atrás daquele em que queríamos
entrar. Encostámos as bicicletas e os capacetes a ele e ficámos a ver a
cena que se desenrolava à nossa frente. Eu e o Noah nunca tínhamos
estado numa estação de autocarros. Já tínhamos andado de autocarro em
viagens da escola, mas, de resto, íamos sempre de carro com os meus
pais. Senti-me entusiasmada: era como estar num aeroporto, com a
diferença de que não havia portas de embarque nem tapetes rolantes e
era tudo ao ar livre. Os motoristas dos autocarros pareciam-se um pouco
com os pilotos, porque estavam todos de camisa branca e casaco da cor
do autocarro que conduziam, mas também gritavam muito e ajudavam
as pessoas com as malas, coisa que os pilotos dos aeroportos nunca
fazem.
— Se não tivermos dinheiro suficiente para os bilhetes, como é que
vamos entrar? — perguntei, esperando que o Ben soubesse a resposta, já
que ele já tinha fugido muitas vezes.
Mas o Ben limitou-se a encolher os ombros.
— Nunca fugi de autocarro — confessou. — Uma vez, entrei num
comboio, mas…
O Travis fez um sorriso irónico.
— Mas ficou muito a-assustado e shaiu duas paragens mais à frente!
— Pois é, porque foi assustador! — revelou o Ben a olhar para mim
como se quisesse que eu acreditasse nele. — Eu só tinha 8 anos! E, além
disso, ia SOZINHO!
Acenei, porque sabia que também me teria sentido assustada. Tentar
fugir a sério era muito mais assustador do que tentar fugir só por uma
noite.
Continuei a olhar para os motoristas dos autocarros e a pensar no que
fazer. Depois, aos poucos, o meu cérebro foi-se apercebendo de um
padrão. O motorista à nossa frente estava a fazê-lo e o do autocarro
verde, à esquerda, também, assim como o motorista do autocarro roxo, à
direita, ao fundo…
Estavam todos a seguir o mesmo padrão! De repente, já tinha a
resposta: sabia como havíamos de entrar num autocarro sem dinheiro!
Toquei no braço do Travis e do Ben para ver se eles também tinham
visto o padrão, mas eles ficaram só a olhar para mim com um ponto de
interrogação.
— Olhem! — indiquei eu, puxando a manga do casaco do Travis. —
Vejam o que o motorista está a fazer!
— Qual deles? — perguntaram o Travis e o Ben ao mesmo tempo, e o
Noah inclinou-se para a frente, puxando o capacete espacial para
também conseguir ver.
— Aquele — disse eu, a apontar diretamente para o autocarro em que
tínhamos de entrar, com destino a Oxford. — Veem? Assim que tem os
bilhetes de toda a gente, manda as pessoas com malas grandes porem-se
daquele lado e deixa as pessoas sem mala entrar!
— Sim, e então? — questionou o Ben.
— Vejam.
Esperámos que o motorista acabasse de recolher os bilhetes de toda a
gente e ficámos a vê-lo dirigir-se para um lado do autocarro, onde as
pessoas com malas muito grandes estavam à espera. Voltou a ver os
bilhetes dessas pessoas, um a um, e pôs as malas num sítio específico.
— Veem? — repeti, tão entusiasmada que até me tremiam as pernas.
Ainda bem que o Noah tinha os braços em volta de uma das minhas
pernas.
— Não! — replicou o Ben.
Revirei os olhos.
— Olha! — disse, a apontar para o autocarro. — Olha para as portas!
Estão ABERTAS! — Não consegui esperar que eles adivinhassem a
resposta. — Ele deixa-as abertas enquanto vai verificar os bilhetes das
pessoas que têm malas. O que quer dizer…
— Que podemos… Que podemos entrar pela f-frente! — concluiu o
Travis.
Acenei com a cabeça e o Noah puxou-me pela manga e esfregou os
olhos. Estava outra vez a ficar cansado.
— Já não falta muito, Noah, prometo — assegurei, abraçando-o com
força.
O Noah acenou e deu um salto no momento em que o motorista do
autocarro à nossa frente fechou o porta-bagagens com estrondo, para, a
seguir, subir para o autocarro e se sentar no seu lugar, deixando as
pessoas das malas entrar. Depois, com um solavanco e um bramido, o
autocarro soltou uma grande nuvem de fumo preto para as nossas caras
e arrancou.
— Que pum GIGANTE! — disse o Noah, com um ar impressionado.
— Sim, e vamos ouvir outros ainda maiores se prometeres não chorar
e se ouvires tudo o que eu disser, está bem? — pedi eu, fazendo o Noah
anuir tão depressa, que me lembrou os bonecos cabeçudos do Ben.
— Olhem! O próximo já aqui está! — indicou o Ben quando outro
Expresso de Oxford vermelho-vivo buzinou, acendeu os faróis e fez
marcha-atrás para ocupar o lugar do autocarro anterior.
— Esperem… — disse o Travis, a olhar, preocupado, para alguma coisa
atrás dele. — O que é que v-vamos fazer com as b-bishicletas?
— Hã? — fez o Ben, em pânico. Depois, vendo a resposta nos olhos do
Travis, lamentou-se: — Oh, não! Não podemos deixá-las aqui! Vão ser
roubadas, ou então a polícia vai levá-las!
Olhámos para as nossas bicicletas como se fossem animais de
estimação que não quiséssemos abandonar.
— Tem de sher — afirmou o Travis, calmamente.
Ao fim de uns segundos, o Ben abanou a cabeça e fez uma festa triste
no selim da sua bicicleta.
— Que chatice, Newky. — Depois, olhando para mim e para o Travis,
acrescentou: — Se algum dia voltarmos para casa, vou pedir para ir para
a prisão. Porque a Sra. I. vai mesmo matar-nos.
O Travis também fez uma festa rápida à sua bicicleta e depois ajudou o
Ben a encostar a dele à sua, e depois a da Sra.  Iwuchukwu. Era uma
sensação horrível, mas, por muito que tentasse pensar de outra forma,
sabia que não conseguiríamos entrar no autocarro com as bicicletas, e
não podíamos usá-las para fazer o caminho até Londres por causa do
meu tornozelo. Prometi a mim mesma que, quando voltássemos, iria
poupar para o resto da vida para comprar ao Travis e ao Ben as melhores
bicicletas alguma vez feitas em todo o universo. E uma bicicleta com um
cesto ainda maior para a Sra. Iwuchukwu.
— Noah, tens de ficar comigo e ser muito rápido para conseguirmos ir
ter com a mãe, está bem? — sussurrei, enquanto esperávamos junto ao
pilar, prontos para correr para dentro do autocarro quando o motorista
estivesse de costas.
Agarrei com força na mão do Noah quando um novo grupo de pessoas
fez fila para entrar no autocarro.
— Está bem! — disse o Noah, esticando o peito e mostrando-se
preparado, ou seja, contraindo a cara ao ponto de parecer um limão
esmagado.
Ajeitou o capacete espacial e pôs-se à espera.
Ficámos a ver as pessoas, que a nós nos pareceram milhares,
empurrarem-se para as portas da frente do autocarro e algumas delas
saírem como peixe enjeitado, para se irem pôr junto ao monte de malas.
— Estão prontos? — sussurrou o Travis, endireitando-se, o que o fez
parecer mais alto.
O Ben engoliu em seco e confirmou com um aceno de cabeça.
Por fim, a motorista desceu do autocarro e dirigiu-se à porta lateral.
Carregou num botão e a porta abriu-se com um silvo alto. Depois,
começou a tirar as malas do grupo de pessoas que, em menos de nada, a
tinham rodeado.
Esperei que o Travis ou o Ben dissessem «Vamos!», mas eles não se
mexeram. De repente, antes que eu tivesse tempo de lhes perguntar
porquê, a motorista fechou as portas e voltou para o seu lugar.
— Na próxima! — prometeu o Ben.
Ficámos a ver o autocarro arrancar e partir e esperámos que viesse
outro. Mas também não saímos do sítio quando veio, nem quando veio o
próximo, porque, de todas as vezes, o motorista parecia maior e mais
assustador, e parecia que as nossas pernas nunca iam ser
suficientemente rápidas.
— É agora! — prometeu o Ben outra vez, quando o quarto autocarro
parou à nossa frente.
Mais umavez, ficámos a ver a motorista recolher os bilhetes de toda a
gente e depois começar a carregar as malas.
— Agora! — sussurrei, porque percebi que o Travis e o Ben ainda
estavam à espera e sabia que eles iam esperar demasiado tempo!
Afastei-me do pilar e fui, meio a correr, meio a saltar num pé, o mais
depressa que consegui pelo lado vazio do autocarro, até ao grande vidro
da frente. Parei junto à grande tabuleta amarela com um número, fiz o
Noah parar também e espreitei para o outro lado. A motorista ainda
estava ocupada com as malas e não nos conseguia ver de todo!
— Depressa! — disse baixinho, passando para o outro lado com as
costas encostadas ao vidro, e puxando o Noah pelos degraus.
Tínhamos entrado!
Nesse preciso momento, eu e o Noah fomos observados por dois pares
de olhos, que depois olharam para outro lado. Passei por eles, pus-me à
frente das escadas, agarrei na minha cauda de tigre e saltei degrau a
degrau, até chegar ao piso de cima. Quis olhar para trás para garantir
que o Ben e o Travis também vinham, mas o meu corpo estava
demasiado assustado para me deixar parar.
Vi três filas de lugares na parte de trás que pareciam vazios e fui
depressa até lá. Puxei o Noah para o lugar junto à janela, apertei-lhe o
cinto e disse-lhe que íamos brincar outra vez às escondidas, como
fazíamos com a nossa mãe.
— Por isso, tens de ficar com a cabeça para baixo, está bem? —
expliquei eu. — Assim!
Sentei-me e mostrei-lhe como baixar a cabeça como se estivéssemos a
dormir.
Esperei para ver se via o Ben e o Travis, para lhes acenar e lhes mostrar
onde estávamos. Mas, primeiro, apareceu um homem crescido, depois,
uma mulher e, a seguir, três homens, uma menina com a avó e depois…
ninguém.
De repente, ouvi um estrondo: estavam a fechar a porta lateral do
autocarro!
Olhei outra vez para as escadas e fiz figas com toda a força. Mas o Ben
e o Travis não vinham!
Nisto, como um monstro a acordar a meio de um ronco, o autocarro
começou a trepidar debaixo dos bancos e ganhou vida.
Senti-o a andar para trás e o meu estômago embrulhou-se como um
furacão. Estariam o Ben e o Travis prestes a ser atropelados? Teriam
ficado atrás do pilar? E se tivessem sido apanhados e presos pela polícia
da estação quando se preparavam para entrar?
À nossa volta ecoou um estalido, antes de se ouvir uma voz de mulher
nos altifalantes:
— Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao serviço das nove e vinte
dos Expressos de Oxford, com paragem em todas as estações até à
Estação Victoria, Londres. Certifique-se de que a sua bagagem se
encontra acondicionada de forma segura nos compartimentos próprios
para o efeito e informe o motorista no caso de detetar artigos suspeitos
ou fora do normal.
O Noah olhou para mim com o capacete a tremer tanto como o
autocarro. Eu sabia que ele estava com medo e também queria saber
onde estavam o Ben e o Travis, mas pus o dedo em frente dos lábios e
avisei-o de que não fizesse barulho, porque tínhamos passado a ser não
só suspeitos, como também fora do comum.
O autocarro arrancou com uma viragem brusca, o que me fez agarrar o
banco e as mãos do Noah com força. Estávamos finalmente a caminho
de Londres… mas sem o Ben e o Travis. E, apesar de o Noah estar
comigo, nunca me tinha sentido tão assustada e sozinha.
16. 
NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!
Assim que o autocarro saiu da estação, pus-me a ver se tinha alguma
ideia quanto ao que havia de fazer. Tive vontade de ir à janela de trás ver
se conseguia ver o Travis e o Ben algures, mas, entretanto, tinham-se
sentado dois homens nesse lugar, e eu não podia ser mais suspeita e
fora do normal do que já estava a ser. Principalmente porque estava
vestida de tigre e sentada ao lado de um rapaz com um coador na
cabeça. A avó e a neta estavam nos lugares à nossa frente e eu tinha a
certeza de que elas tinham olhado para nós de forma estranha quando
se tinham sentado. Se calhar, já sabiam que não tínhamos bilhete e
éramos criminosos ilegais.
O autocarro foi avançando cada vez mais depressa e as estradas que se
viam da nossa janela foram-se tornando maiores, mais largas e mais
movimentadas. Tentei pensar no que fazer, mas, quanto mais me
esforçava, mais o meu cérebro me parecia vazio, como se alguém tivesse
cortado a ficha e a eletricidade e ele já não conseguisse funcionar.
— Niyah, tenho fome — resmungou o Noah, puxando-me o braço. —
Onde é que está o Ben? Ele pode dar-nos mais batatas fritas?
— O Ben vai encontrar-se connosco em Londres — menti, não
sabendo o que dizer.
— Mas eu estou com fome AGORA! — queixou-se ele, começando a
ficar com a cara vermelha.
— Chiu!
— NÃO! — exclamou o Noah, com os lábios a tremer. — Onde é que,
hic, está o Ben? Eu, hic, quero o Ben!
— Toma! — disse uma voz vinda do lugar à minha frente. De repente,
apareceu um braço no espaço entre os dois lugares, e segurava um
pacote azul brilhante. — Podes ficar com elas, se quiseres!
O Noah calou-se logo e, ainda com soluços, ficou a olhar para o pacote
de bolachas com cobertura de chocolate que lhe tinha aparecido à frente.
Depois fez um aceno, agarrou nelas e esperou que eu o deixasse comer.
— Obrigada — disse eu, inclinando-me para o espaço entre os lugares.
Consegui entrever um olho verde-acinzentado posto em mim.
— De nada — disse o olho, antes de desaparecer e dar lugar a uma
bola de cabelo louro e brilhante que voltou ao seu lugar no banco à
minha frente.
— Que linda — sussurrou alguém no lugar ao lado.
Parecia mesmo o sussurro da minha mãe quando eu fazia alguma
coisa para ela ficar contente. Tive vontade de me levantar do lugar para
ver quem é que tinha dito aquilo. Mas não me levantei, porque sabia que
não era a minha mãe.
Em vez disso, deixei que o Noah comesse as bolachas e tentei pensar
mais um bocadinho. A minha barriga começou a dar horas, porque
cheirou o chocolate, mas eu sabia que não ia conseguir voltar a comer
até perceber o que tinha acontecido ao Ben e ao Travis. Devia ter olhado
para trás, para ver se eles me tinham seguido! E nem sequer devia ter
entrado para o autocarro sem eles! Tínhamo-nos separado por minha
culpa, e não sabia como resolver o problema nem o que eu e o Noah
havíamos de fazer quando chegássemos a Londres. Não tinha o mapa
nem o GPS, e também não tinha comida nem dinheiro. Mas isso não
me parecia, nem de perto, tão grave como não ter o Ben e o Travis
comigo. Tinham-me ajudado como nunca ninguém me tinha ajudado,
mesmo sabendo que podiam meter-se em sarilhos. Não me parecia certo
ir ter com os caçadores de estrelas do Observatório Real sem eles. Fechei
os olhos e pedi à estrela da minha mãe que, por favor, por favor, me
ajudasse a encontrá-los outra vez.
— Próxima paragem: Thornhill Park and Ride. Se o seu destino é
Thornhill Park and Ride, desça aqui — disse uma voz de mulher muito
alto quando o autocarro virou à esquerda, para o meio de um grande
parque de estacionamento.
Fiquei a pensar se não devíamos sair e esperar pelo Ben e o Travis no
parque de estacionamento: talvez eles tivessem apanhado o próximo
autocarro e quisessem que esperássemos por eles ali. Mas e se não
tivessem? Quanto tempo íamos ficar à espera? E se eu e o Noah não
conseguíssemos entrar noutro autocarro? Não me pareceu que aquele
truque fosse funcionar num sítio que não era uma estação de
autocarros.
Ainda estava a pensar no que fazer quando o autocarro recomeçou a
andar, fazendo com que o Noah esborrachasse o nariz contra o vidro e
exclamasse «Viva!»
Quando o autocarro entrou por uma grande via rápida, o Noah foi
sossegando, até finalmente adormecer. Fiquei contente, porque assim
conseguia pensar sem ter de me preocupar com ele. Tirei-lhe o capacete
espacial, tirei o guia de visita da minha mochila e olhei para o mapa na
parte de trás. Se ao menos os pudesse encontrar algures…
Era isso! Eles sabiam que eu tinha de ir à grande festa de gala antes
das 19 horas para garantir que os caçadores de estrelas anunciavam o
nome certo para a estrela da minha mãe! Por isso, sabia que eles
também haviam de tentar ir lá ter. Até podia ser que chegassem antes,
porquetinham o Dynamo-Dom para lhes mostrar o caminho, coisa que
eu não tinha!
Senti-me muito melhor. Pus o guia de lado e fiquei a ver a estrada e os
carros passar. Mas, pouco depois, o autocarro começou a abrandar, até
parar por completo.
— Boa — murmurou uma voz atrás de mim. — Mais filas! Vamos ver
quanto tempo é que isto vai demorar.
O autocarro não saiu do sítio durante muito tempo, ou assim me
pareceu. Fechei bem os olhos e pedi ao trânsito para, por favor,
desaparecer de vez, para que pudéssemos chegar a Londres depressa.
Ainda não sabia como ir ter ao Observatório Real a partir dali… nem
onde estariam os caçadores de estrelas ao certo… E tinha tanto para lhes
contar… e… e…
 
 
— Niyah… Niyah! Acorda! Acorda!
Abri os olhos e esfreguei-os à pressa. O Noah estava a puxar-me o
braço e as pessoas que iam no autocarro estavam a levantar-se e a juntar-
se como um enxame de abelhas no cimo das escadas. Pela janela, via-se
uma enorme tabuleta azul e branca que dizia «Estação de Expressos
Victoria».
— Ah! Obrigada, Noah! — disse eu, e desapertei depressa os nossos
cintos.
— Adormeceste! — exclamou o Noah, a abanar a cabeça como se me
tivesse apanhado a fazer alguma coisa de mal.
Perguntei a mim mesma quanto tempo teria dormido e que horas
seriam. Enfiei o capacete espacial na minha mochila, peguei na mão do
Noah e fui esperar atrás de toda a gente para descer as escadas. A dor no
tornozelo tinha-se tornado mais intensa. Mas isso já não tinha
importância. Estávamos em Londres e os caçadores de estrelas já não
estavam longe, e eu sabia que o Ben e o Travis haviam de nos encontrar!
— Anda, Noah, depressa! — mandei eu, agarrando-lhe na mão quando
chegámos ao último degrau.
A motorista já não estava no seu lugar e já não havia ninguém no piso
de baixo. Estava tudo vazio.
— Temos de ir!
— Pssst! Aniyah!
Olhei em volta para ver de onde vinha a voz que me estava a chamar.
Parecia vir do chão na parte de trás do autocarro, mas os lugares estavam
vazios. Teria sido imaginação minha?
De repente, duas cabeças ergueram-se no meio dos bancos. Uma delas
sorriu-me, mas a outra estava tapada com um capuz, que a fazia parecer
um estranho triângulo preto.
— Ufa! Pensámos que tinhas saído! — confessou o Ben, tirando o
capuz e sorrindo-me.
— Pois foi! — disse o Travis, passando por cima do Ben para sair
primeiro.
Fiquei tão feliz, que a única coisa que me lembrei de fazer foi
percorrer o corredor estreito a correr e, ignorando a dor no tornozelo,
saltar para cima do Travis e do Ben para lhes dar o maior abraço que já
alguma vez tinha dado a duas pessoas ao mesmo tempo!
— Au! — exclamou o Ben.
— Hã… Hã… — gaguejou o Travis.
— VIVAAAAA! — gritou o Noah. — BATATAS FRITAS!
— Como é que… Pensei… Onde…?
Queria fazer todas as perguntas que tinha na cabeça, mas eram
demasiadas.
— Depois c-contamos-te! — disse o Travis quando o larguei e voltei a
endireitar-me. Estava tão corado que não destoava muito do vermelho
dos bancos. — V-vamos, antes que a m-motorista v-volte!
— Sim — afirmou o Ben, com um sorriso tão grande, que lhe vi os
dentes todos. — Não consigo sentir as pernas! A parte da fila de trânsito
foi a pior de todas.
— Está bem — concordei, dando meia volta para passar pelo corredor
depressa.
Ouvi os passos do Ben, do Travis e do Noah atrás de mim e fechei os
olhos por um instante para mandar à minha mãe o maior obrigada que
o meu coração era capaz de lhe dar. Sabia que a estrela dela devia ter
ouvido os desejos que lhe tinha pedido, sentada no meu lugar no piso de
cima, e os tinha concretizado. E sabia que era ela que me estava a fazer
sentir mais animada e empolgada do que nunca, como se a maior de
todas as garrafas de bebidas com bolhinhas deste mundo me tivesse
enchido o corpo todo!
Fui a primeira a saltar do autocarro. Tentei ignorar a dor horrível no
tornozelo e voltei-me para ajudar o Noah a descer também.
— EI! — exclamou uma voz atrás de mim. — De onde é que vocês
vêm?
Olhei para trás e vi a motorista do autocarro a olhar para mim de boca
aberta e com as mãos no ar, prestes a bater com a porta do porta-
bagagens.
— Depressa! — exclamou o Travis, saltando do autocarro e
empurrando-me para a frente.
— EI, EI! — gritou a motorista, a precipitar-se na nossa direção.
— SANTA SALSA! FUUUUJAM! — gritou o Ben, saltando à nossa
frente e correndo em direção à estação de autocarros.
— PAREM! — gritou a motorista. — PAREM-NOS!
As pessoas à nossa volta olharam imediatamente para nós, que
fugíamos da motorista o mais depressa que conseguíamos. Eu não
conseguia correr em condições e estava a abrandar, tal era a dor no
tornozelo, e ouvia os passos da motorista cada vez mais perto!
— Aniyah! Salta para aqui! — exclamou o Travis, levantando-me com
as costas para me levar às cavalitas.
— Boa ideia! — disse o Ben, fazendo o mesmo ao Noah.
A correr ainda mais depressa do que antes, romperam pelas portas de
vidro da estação, para o meio de uma multidão de milhões de pessoas.
O toc-toc-toc dos sapatos da motorista deixaram de se ouvir, mas,
quando olhei para trás, vi-a parar e pegar no walkie-talkie para falar.
— RÁPIDO! — gritei ao Travis. — Ela está a chamar a polícia!
— POR AQUI! — indicou o Ben, por entre o abanar de cabeça e o
resmungar dos adultos.
Depois de percorrermos toda a estação e de passarmos por centenas de
pessoas, chegámos a um par de escadas rolantes com uma tabuleta que
dizia «Plataformas 17-21 e Shopping Plaza». À medida que íamos
subindo, fomos sendo capazes de ver toda a estação. Olhámos para ver
se víamos a motorista ou polícias, mas não vimos.
— Ufa! — exclamou o Ben, a limpar o suor da cara com o capuz. —
Foi por pouco!
— Pois foi! — disse eu. — Obrigada por me levares, Travis!
Mas o Travis não estava a olhar para mim nem para o Ben ou o Noah,
nem para o piso de baixo da estação. Estava a olhar para alguma coisa
por cima das escadas rolantes, de boca aberta e o aparelho de fora.
Levantou o dedo e disse:
— Oh não…
Eu e o Ben virámo-nos mal as escadas terminaram e saltámos dali para
fora.
— Chiça nabiça — murmurou o Ben, fazendo o Noah deslizar-lhe das
costas para o chão.
Acima de nós, pendurado no teto de um longo corredor cheio de lojas,
hamburguerias e bancas de doces, estava um dos maiores ecrãs de
televisão que eu já tinha visto. Estava a passar imagens gigantes de
quatro crianças que se pareciam mesmo comigo, com o Noah, com o
Travis e com o Ben — mas sem o cabelo despenteado, manchas de
chocolate nem arranhões. Por cima das nossas caras, lia-se em letras
gigantescas, vermelhas e muito brilhantes:
 
NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA: 
PROCURAM-SE CRIANÇAS 
DESAPARECIDAS
 
Presume-se que as crianças em fuga 
estarão à procura de um suspeito de homicídio
 
O Noah pôs-se aos saltinhos, apontou para a sua cara no ecrã e gritou:
— Niyah! Somos famosos!
Mas eu não respondi. Queria perceber o que queria dizer aquela
notícia.
— Porque é que havíamos de fugir para encontrar um suspeito de
homicídio? — perguntei, de sobrolho franzido.
O Travis e o Ben olharam um para o outro por um instante. Foi muito
rápido, mas percebi logo que estavam a dizer alguma coisa um ao outro
com os olhos. Não sabia o que era, mas sabia que isso os tinha feito
corar. Quando esse momento acabou, o Ben virou-se para mim, riu-se
sem motivo e disse:
— Vá-se lá saber! Os jornalistas são loucos! Venham! É melhor
despacharmo-nos!
Lancei um último olhar ao ecrã e segui com o Noah o Travis e o Ben,
que avançavam depressa por entre filas intermináveis de lojas e de vez
em quando olhavam um para o outro. Não consegui deixar de pensar
quem seria o suspeito de homicídio e porque é que os jornalistas diziam
que nós estávamos a tentar encontrá-lo. E, acima de tudo, porque é que
o Ben e o Travis tinham de repente começado a agir de uma forma tão
suspeita e fora do normal.
17. 
POR CIMA E POR BAIXO DO CHÃO DE LONDRES
— Niyah! Estou outra vez com fome! — disse o Noah, andando ao nosso
lado e tentando ver através dos buracos do capacete a fingir.
O Ben tinha voltado a pôr a máscara de Darth Vader e eue o Travis
tínhamos posto o capuz de maneira a tentar tapar a cara tanto quanto
possível. As pessoas ainda olhavam para nós ao passar, mas a maioria
limitava-se a sorrir — dava para ver que achavam que ainda estávamos
em modo de Dia das Bruxas. No final do corredor de lojas, esperava-nos
um par de portas de vidro que deixava entrever uma rua movimentada,
cheia de gente, carros, camiões e luz do sol. Apesar de sentir que o meu
tornozelo se ia desintegrar daí a nada, mal podia esperar por ir lá para
fora. Começava a sentir-me zonza e enjoada, e sabia que me ia sentir
melhor se apanhasse ar fresco. A minha mãe dizia que o ar fresco fazia
maravilhas e abria sempre as janelas do carro quando eu ou o Noah
estávamos maldispostos, para que pudéssemos respirar as maravilhas.
— Niiiyaaah! — choramingou o Noah, quando parámos mesmo ao pé
das portas.
— Chiu, Noah — mandei eu, a olhar para o Travis, que estava a pegar
no Dynamo-Dom e a tentar ligá-lo.
Mas o ecrã continuava sem nada, por muito que ele carregasse no
botão. Bateu-o levemente contra a perna e tentou outra vez.
— Oh, não! Ficou sem ba-bateria! — disse ele, como se a bateria o
tivesse traído.
— Não te preocupes — sosseguei, tirando o guia de visita do
Observatório Real da mochila. Abri o mapa, na parte de trás, e mostrei-o
ao Travis, ao Ben e ao Noah. — Só precisamos que alguém nos diga
como chegar aqui. Ou aqui — acrescentei, a apontar para o grande barco
de piratas e depois para a sede dos caçadores de estrelas.
— Vai haver comida neste sítio? — perguntou o Noah, a apontar
também para o barco.
Nisto, ouviu-se uma barriga a dar horas, e não era a do Noah. Muito
vermelho, o Ben disse baixinho:
— Desculpem!
— Esperem aqui! — pediu o Travis, e foi a correr em direção às lojas.
Ao fim de alguns minutos, quando eu e o Ben já começávamos a ficar
preocupados, voltou com um saco onde vinham quatro croissants
quentes.
— Oh, pá! Só mesmo tu! — exclamou o Ben, atacando um croissant e
levando metade à boca. — Que de-hí-chia!
O Noah deu um guinchinho de alegria. Agora que estávamos mais
perto dos caçadores de estrelas do observatório, eu também já me sentia
com vontade de comer.
— Ei, olhem! — indicou o Ben, limpando a boca e apontando para um
homem que estava a sair de uma loja de lembranças para turistas.
Trazia um fato verde-escuro e um chapéu que lhe davam ar de
condutor de comboios e tinha um distintivo grande que dizia «Agente
de Informação».
— Vamos perguntar-lhe como é que se vai para Greenwich!
Pôs a máscara de Darth Vader e dirigiu-se para o homem, com o
manto a esvoaçar atrás dele como uma vela negra. Mas, antes que
conseguisse aproximar-se dele, pôs-se à sua frente um grande grupo de
crianças de escola, com bonés de basebol amarelos e t-shirts vermelhas,
rodeando o homem com panfletos. Com a boca a mover-se em todas as
direções, uma mulher alta que segurava um guarda-chuva amarelo
perguntava-lhe coisas aos gritos. Vimos o Ben tentar passar por entre o
grupo e falhar, mas depois a máscara de Darth Vader começou a acenar.
Enquanto a senhora do guarda-chuva tentava ter mão no grupo, que
andava à volta do condutor como num sistema solar humano, o Ben veio
ter connosco a correr.
— Depressa! — disse, levantando a máscara para que o ouvíssemos
melhor. — Aquele grupo vai àquela coisa do barco de piratas que vem no
mapa! Perguntaram-lhe como é que se vai para Greenwich! Vamos
segui-los!
— Isto é que f-foi shorte, Aniyah! — disse o Travis, fazendo-me sinal
com o polegar para cima.
Sorri-lhe, porque sabia que, mais uma vez, tinha sido a minha mãe a
ajudar-nos. Eu sentia-o. Parecia que uma onda gigante se levantava
dentro de mim e me fazia avançar.
— Obrigada, mãe — sussurrei em voz alta, sabendo que ela me ouvia.
Atrás de nós, a senhora alta com o guarda-chuva amarelo estava a
segurar na porta de vidro para a manter aberta.
— Mê-ninoos! Te-nhem de fi-care comigo! — gritou, acenando com a
cabeça enquanto contava os muitos cabeçudos que passavam por ela. —
Não se podem per-dê-ré nesta cidade! Veloce! Veloce, per favore!
— Que língua é aquela? — perguntou o Ben, enquanto esperávamos
que o último do grupo passasse pela porta para começarmos a segui-los.
— Não sei — disse eu. — Espanhol?
— Francês é que n-não é de certeza — disse o Travis. — Talvez seja i-
italiano.
— Eu gosto de espanhol! — disse o Noah, puxando-me a mão e
abanando tanto a cabeça que ficou com o capacete a balouçar.
Seguir o grupo sem que parecesse que estávamos a segui-lo era mais
complicado do que tínhamos pensado. A professora com o guarda-chuva
amarelo e as duas professoras mais baixas que a acompanhavam
estavam sempre a parar para garantir que estavam todos juntos ou para
ralhar com alguém. Sempre que paravam, nós parávamos também e
fingíamos que estávamos a apontar para coisas no céu, até que eles
recomeçassem a andar.
Seguimo-los até um passeio estreito de paragens de autocarro no meio
de duas estradas grandes e vimo-los apressarem-se a entrar num
daqueles autocarros compridos que parecem lagartas vermelhas.
— Venham! — disse eu, puxando o Noah pelo braço para irmos mais
depressa.
Quando nos aproximámos do autocarro, que tinha as portas abertas, vi
logo que ainda não estava um motorista no lugar do condutor, o que
queria dizer que devia estar a fazer uma pausa algures. A estrela da
minha mãe estava a tornar tudo muito simples!
Acenei ao Travis e ao Ben e ajudei o Noah a ir comigo até aos bancos
de trás. Vi a professora do guarda-chuva amarelo a passar muitos
bilhetes de viagem numa máquina amarela e tive esperança de que
ninguém nos viesse pedir bilhetes.
— Ele vem aí! — sussurrou o Travis, no momento em que um
motorista grande e redondo entrou finalmente no autocarro e se sentou
no lugar do condutor.
Esperámos para ver se nos perguntava pelos bilhetes, mas ele não
olhou para ninguém. Limitou-se a sentar-se, fechar as portas e dizer alto
«Todos a bordo!», antes de arrancar.
— Adoro Londres! — sussurrou o Ben, dando-me um toque no
ombro, o que me fez voltar a gostar de Londres.
Mas o nosso amor por Londres não durou muito, porque, ao fim de
duas paragens, o autocarro parou e não voltou a sair do sítio.
— O que é que se passa? — perguntou o Ben, esborrachando a cara
contra a janela.
— Uma fila de t-trânsito — disse o Travis, abanando a cabeça e
encolhendo os ombros. — Tal como no aut-tocarro!
Algures lá fora, os carros começaram a buzinar e, de repente, o ar
encheu-se com o som de uma sirene.
O Ben e o Travis endireitaram-se e olharam para mim, e eu para eles.
Seria a polícia? Teriam descoberto onde estávamos? E estariam a parar o
trânsito só para nos deterem?
Esperámos, com a sirene a tocar cada vez mais alto, até que passou por
nós uma ambulância a grande velocidade.
— Ufa! — sussurrou o Ben, já mais descontraído, como todos nós. —
Não é para nós.
— Senhoras e senhores, devido a um incidente ocorrido mais adiante,
este autocarro vai agora seguir um caminho alternativo — anunciou o
motorista através do altifalante. — Se o seu destino final NÃO for o
Túnel de Greenwich, por favor saia agora.
As portas abriram-se com um silvo, mas a professora do guarda-chuva
amarelo e a turma dela não saíram, por isso fizemos o mesmo.
— Vá lá! — implorei eu, e desejei com força que o trânsito
desaparecesse, para que pudéssemos voltar a andar.
Começava a ficar preocupada. Já não sabia que horas eram nem a que
distância estávamos dos caçadores de estrelas do observatório. Olhei
para o pequeno ecrã preto no autocarro, que normalmente dizia às
pessoas que horas eram e onde estavam, mas estava avariado e não dizia
nada.
Depois de mais duas ambulâncias e um carro da polícia passarem por
nós a grande velocidade, o autocarro pôs-se finalmente em andamento.
— Raios fartam! — disse o Ben. — Já não era sem tempo!
Demos voltas e mais voltas por aquilo que pareceu serem centenas de
ruas, o Noah adormeceu profundamente e os burburinhos do Ben
foram-se tornando mais suaves, até que também ele adormeceu. A
professora do guarda-chuva amarelo já não estava a gritar nema tentar
ter mão na turma, porque eles também estavam meio adormecidos.
Mas, finalmente, depois do que pareceu metade de um dia inteiro, o
motorista parou o autocarro e gritou:
— ÚLTIMA PARAGEM! É FAVOR SAIR!
— Mê-niiinos! Preparati! Preparati! Malas e parceiros, per favore!
Rápido! — gritou a professora, batendo palmas com força e acordando
toda a gente.
Dirigiu-se para as portas e segurou no guarda-chuva como se fosse
uma varinha. Assim que o autocarro parou com um solavanco e toda a
gente começou a sair porta fora, acordei o Noah com um abanão e pu-lo
de pé. Aquela viagem tinha-nos deixado tão moles e cansados, que o
meu tornozelo também tinha acabado por adormecer. Mas lançou uma
dor tão intensa quando o acordei, que tive de morder o lábio.
— Olhem, ali — indicou o Travis, enquanto seguíamos o grupo até um
poste com uma tabuleta preta e bicuda que dizia «Túnel Pedonal de
Greenwich 550 metros».
— Eh, pá! — disse o Ben, tirando a máscara. — Finalmente! É o túnel
que vem no mapa, e isto deve ser a entrada!
Ficámos a ver o grupo caminhar até um edifício de tijolo baixo e
redondo com um teto estranho em forma de cúpula e desaparecer lá
para dentro.
— Venham comprar uma lembrança do rio mais famoso do mundo!
— chamou uma voz perto da porta no momento em que algumas
pessoas que tinham vindo connosco no autocarro passaram por lá. —
Gelados e água, só uma libra e meia. É ao preço da chuva!
Quando nos aproximámos da entrada do túnel, vimos uma mulher
sentada num banco, em frente de uma pequena arca frigorífica de
gelados decorada com ímanes e porta-chaves.
— Niyah, posso comer um gelado? — pediu o Noah, tirando o capacete
e empurrando-me na direção na mulher. — Por favoooor!
— Depois compramos um, Noah! Prometo — disse eu, tentando puxá-
lo.
— Não! Eu quero um agora, Niyah… Eu disse «por favor»!
A mulher sentada no banco olhou para nós e sorriu, vendo que o Noah
nos puxava a todos na sua direção.
— Olá, meu menino! — saudou ela num tom simpático. — O que vai
ser?
— Morango e chocolate com molho de ketchup — disse o Noah a
lamber os lábios.
— Ketchup? — perguntou a mulher com uma careta. — Ah! Queres
d’zer molho de morango! — acrescentou ela, pegando num frasco
vermelho.
O Noah acenou com a cabeça.
— Noah, agora não! — disse eu, puxando-o dali. — Eu disse mais
tarde!
— Sim, Noah, daqui a p-pouco compramos-te um m-maior —
prometeu o Travis.
— NÃO! — gritou o Noah, todo vermelho. — Eu não quero um maior!
Quero este!
Puxei o braço dele com mais força e a mulher começou a olhar para
nós com má cara. Inclinou-se para a frente no banco e olhou para mim,
para o Ben, para o Travis e para o Noah como se soubesse alguma coisa
que nós não soubéssemos. Então pegou num jornal que estava em cima
da arca de gelados.
— Espera lá — disse a mulher, com um olhar carregado. — Tu
chamas-te Noah?
Senti o Ben e o Travis paralisar quando o Noah acenou com a cabeça.
— Oh, minha nossa… Vocês… vocês são AQUELES! Os miúdos… do
jornal! — exclamou a mulher, falando cada vez mais alto.
Olhámos uns para os outros durante um segundo. O Ben olhou para
mim, eu olhei para o Travis, o Travis olhou para a mulher e o Noah
olhou para a arca dos gelados. E, de repente, como se tivéssemos
pensado exatamente o mesmo ao mesmo tempo, eu, o Travis e o Ben
gritámos «FUUUUJAM!», passámos pela mulher a correr e fomos
diretos para as portas do túnel! Ouvi os sapatos do Ben chiarem e
guincharem e a mochila do Travis saltar e chocalhar quando ele pôs o
Noah às cavalitas.
— ESPEREM! — gritou a mulher, saltando do banco. — PAREM!
NÃO VÃO À PROCURA DELE! NÃO É SEGUUUURO!
Enquanto descia as escadas em caracol a correr e tentava ignorar os
gritos do meu tornozelo, olhei para trás. A mulher não estava a seguir-
nos, mas alguma coisa me dizia que era porque estava a chamar a
polícia.
Quando chegámos ao fim das escadas, parei. Estava outra vez a sentir-
me zonza e tinha muitos pontos de luz nos olhos, o que fazia com que o
túnel que tínhamos pela frente parecesse iluminado por uma bola de
discoteca gigante.
— Anda, Aniyah! — gritou o Ben, a voltar para trás para me agarrar no
braço e me puxar.
Apesar de os meus pulmões, o meu peito e o meu tornozelo não
quererem, segui-o enquanto mergulhávamos numa cave estreita feita de
reluzentes azulejos brancos e avançávamos por baixo do chão de
Londres o mais depressa que as nossas respirações e os nossos pés
permitiam.
18. 
ESTIBORDO
— Ela está… atrás de nós? — perguntou o Ben, ofegante, enquanto
limpava a cara com as mangas.
O Travis abanou a cabeça.
— Ótimo! — disse o Ben, parando para se agarrar às laterais do corpo
e inclinando o tronco para baixo. — Não consigo… correr… mais!
— Eu… também não! — disse eu, e encostei as costas e a cabeça a uma
das paredes curvas, sentando-me.
Devíamos ter percorrido metade do túnel a todo o gás e eu já não
conseguia dar mais um único passo. Tinha a cabeça a latejar e sentia a
cara em chamas. Tirei o capuz de tigre e desejei que o túnel tivesse uma
entrada de ar fresco que me ajudasse a refrescar.
O Travis deixou escorregar o Noah das costas e começou a respirar
com dificuldade, como se tivesse alguma coisa presa na garganta.
Estendeu a mão para o Ben, que ficou a olhar para ela durante uns
segundos, antes de exclamar:
— Ah! Água!
Deu-nos as nossas garrafas e ficámos todos em silêncio enquanto
engolíamos o que ainda sobrava.
O Noah esfregou os olhos e, em fúria, enterrou a cabeça na minha
barriga. Queria mostrar-me que não estava contente e que não falava
mais comigo.
O Ben apontou para a frente.
— Então, onde é que isto acaba? — perguntou com uma careta.
Pisquei os olhos para fazer desaparecer os pontos flutuantes e olhei
para onde o Ben estava a apontar. As paredes curvas em azulejo branco e
as luzes de teto compridas e amarelas eram tão extensas, que parecia
não haver luz ao fundo do túnel.
— Vamos — disse o Travis com dificuldade, deitando as últimas gotas
da sua garrafa de água para a cara. — Vamos continuar! Ela a-ainda…
pode v-vir aí!
Dei ao Noah o meu saco de doces para lhe pedir desculpa e o fazer
esquecer o gelado, e tentei dar-lhe a mão para começarmos a correr
outra vez.
Mas o tornozelo que me doía já não podia tocar no chão por mais de
uns instantes. Mordi o lábio e tentei ir ter com o Ben e o Travis ao pé-
coxinho para lhes mostrar que estava bem, mas não estava.
— Apoia-te assim — indicou o Ben.
Pôs o meu braço à volta do pescoço dele e o Travis pôs o outro braço à
volta do dele.
— T-temos de ir ao hos-hospital — disse o Travis, a olhar para mim
com pena.
Abanei a cabeça e comecei a saltar num pé.
— Só depois de dar o nome certo à estrela da minha mãe — insisti, e
agarrei-me aos pescoços do Travis e do Ben com mais força.
Eles concordaram com um gesto de cabeça e eu sabia que estavam a
prometer que não haviam de me fazer desistir. Principalmente agora,
que estávamos quase a chegar.
Enquanto o Noah fazia barulho a comer o que sobrava dos meus doces
e saltitava ao lado das pernas do Travis, nós os três percorremos o resto
do túnel em silêncio. Quando apanhámos o grupo que tinha ido
connosco no autocarro, abrandámos de maneira a ficarmos uns passos
atrás. Estavam a fazer tanto barulho, que parecia que estavam milhões
de pessoas no túnel, o que era bom, porque significava que as pessoas
que vinham em sentido contrário não reparavam tanto em nós. Mesmo
assim, ainda houve muita gente a olhar para nós, principalmente
quando o Noah decidia que era divertido agarrar-me na cauda de tigre e
rugir.
Mas não fazia mal. A única coisa que importava era chegarmos ao fim
do túnel e irmos ter com os caçadores de estrelas sem sermos
apanhados — nem pela senhora dos gelados, nem por mais ninguém.
Percebi que o Ben e o Travis estavam a pensar o mesmo, porque
estavam a fazer a mesma cara que eu.
Saltar ao pé-coxinho por causa de um pé magoado num túnel que
nunca mais acabava começou a provocar coisas engraçadas no meu
cérebro. Fez-me pensar em milhares de coisas diferentes: por exemplo,
no que estariam o Eddie e o Kwan da minhaescola a fazer, e se o meu
pai nos tinha visto nas notícias de última hora e teria percebido que a
nova estrela no céu era o coração da minha mãe. E nas panquecas que a
minha mãe costumava fazer para os pequenos-almoços especiais, que
pareciam sempre uma lua amarela com crateras, coberta de manteiga
dourada. E em como o facto de eu ter magoado o tornozelo podia ser
uma coisa boa, porque, se fosse ao hospital e tivesse de lá ficar, o Noah ia
poder ficar comigo e podíamos não só pedir aos médicos para dizerem
ao nosso pai que nos fosse buscar, como também dizer à
Sra. Iwuchukwu que adotasse o Ben e o Travis antes que eles ficassem
mais altos. Havia muito a fazer depois de dar o nome certo à estrela da
minha mãe, e eu tinha de fazer com que tudo isso acontecesse.
— Ei! — exclamou o Travis. — Estão a ver aquilo? Acho que estou a
ver qualquer coisa!
Eu e o Ben semicerrámos os olhos para ver melhor. Muito ao longe,
via-se um círculo de luz que não vinha dos candeeiros de teto.
— Graças a Zeus — disse o Ben por baixo da máscara. — Até que
enfim! Estamos quase no fim do túnel!
Começámos a andar e a saltitar mais depressa, com o Noah a correr à
nossa volta, a fingir que era um avião. À medida que o espaço entre as
luzes do teto e o chão foi aumentando e a luz ao fundo foi ficando mais
intensa, vimos uma grande linha branca aos nossos pés. Por cima,
estava escrito em maiúsculas:
 
BEM-VINDO A GREENWICH:
ONDE O TEMPO SE UNE AO ESPAÇO
 
Nunca tinha visto uma linha de chegada tão boa. Passámos por cima das
letras em silêncio e o grupo à nossa frente parou.
— Vamos com eles de elevador desta vez! — gritou o Ben, a olhar para
o meu tornozelo com um ar preocupado.
— Temos de ter c-cuidado — avisou o Travis. — Ali em cima. —
Apontou para cima para garantir que tínhamos entendido. — N-não te
separes de nós, Aniyah. Podemos ter de a-andar depressha.
Esperámos que o grande elevador de metal chegasse e depois metemo-
nos entre os alunos, a senhora do guarda-chuva amarelo e um casal de
velhinhos que falava alto, com sotaque americano.
— ANIYAH! Vamos para o Espaço! — exclamou o Noah alegremente,
quando sentiu o elevador levantar-se por baixo dos nossos pés.
Ficou com o nariz encostado às grades de metal, enquanto via o chão
lá em baixo afastar-se. Ao fim de alguns minutos, o elevador parou com
um som estridente e as portas abriram-se. Quando a turma à nossa volta
começou a sair, olhei para cima e vi alguém em bicos de pés a olhar em
volta. Era a senhora dos gelados, e ao lado dela estavam dois polícias!
— Baixem-se! — sussurrei, puxando o Ben e o Travis pelos cotovelos e
fazendo-lhes sinal para que se escondessem atrás do grupo e se
mantivessem afastados da senhora dos gelados o mais que pudessem.
O Travis puxou o Noah mais para junto dele e, com o dedo à frente dos
lábios, fez-lhe sinal para que não fizesse barulho. Baixámo-nos tanto
quanto pudemos, saímos rapidamente do elevador e fomos lá para fora,
usando os alunos como escudos. Fomos logo rodeados por centenas de
pessoas que estavam a andar por ali, a tirar fotografias e a apontar para
isto e para aquilo. A senhora e os polícias estavam a poucos passos de
nós, mas continuavam a olhar para dentro do elevador como quem
procura alguma coisa.
— Ali! — sussurrou o Travis, a acenar na direção de uma grande
carrinha que vendia cupcakes e algodão-doce, mesmo ao lado do edifício
do túnel.
Escondemo-nos atrás dela e esperámos, para garantir que ainda
estávamos em segurança.
— Tenho literalmente o coração na boca — murmurou o Ben.
— Foi por pouco — afirmei eu, enquanto víamos um dos polícias falar
para o walkie-talkie e a senhora encolhia os ombros e olhava em redor.
A seguir, entraram todos no edifício do túnel e ficaram a olhar para as
escadas.
— Niyah, olha! Está ali um barco de piratas! — disse o Noah, puxando-
me o braço e correndo para o meio do passeio, que estava cheio de
gente.
— Espetacular! — disse o Ben.
Seguimos o Noah e olhámos para cima. Já não víamos a senhora nem
os polícias, por isso parecia que estávamos em segurança.
Ficámos todos a olhar para um dos maiores e mais brilhantes barcos
de piratas que eu já tinha visto. Parecia feito de milhares de agulhas a
tentar perfurar o céu, todas unidas por uma teia de aranha gigante. E o
que o tornava ainda mais especial era o facto de estar em cima de um
grande diamante feito de vidro, que reluzia como o mar sempre que o
sol batia nele.
Apoiada numa perna, tirei o guia de visita do Observatório Real da
minha mochila.
— Olhem, estamos aqui — informei, a apontar para o pequeno
desenho do Cutty Sark, que era exatamente igual ao nosso barco de
piratas. — E temos de ir por aqui, até aqui.
Movi os dedos do barco para onde dizia «Mercado de Greenwich»,
passando pelas árvores, até à imagem do telescópio.
Muito longe, começou a tocar um sino.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
— Já são quatro horas? — perguntei, em choque.
Por causa das filas do trânsito, das distrações e do meu tornozelo,
tínhamo-nos atrasado muito!
O Ben fez um aceno.
— Devem ser.
— Vamos, então — disse eu com firmeza.
E, com um aceno de cabeça, pusemo-nos a caminho do mercado,
prontos para o que quer que o tempo e o espaço nos pudessem fazer.
19. 
PASSAR A LINHA NEGRA E FINA
— Desculpe, senhor, mas como é que se vai para a casa dos caçadores de
estrelas? — perguntou o Ben, levando à boca mais uma mão-cheia de
batatas fritas a escaldar.
Os cheiros do mercado tinham-nos deixado a todos de água na boca,
por isso o Travis tinha usado o dinheiro dele para comprar um pacote
grande de batatas fritas com vinagre para partilharmos enquanto
andávamos.
O senhor de idade olhou para o Ben de sobrolho franzido.
— Os caçadores de quê? — perguntou.
— Desculpe, senhor, ele quer dizer o Observatório Real — corrigi, a
sorrir para o Ben.
— Ah! Isso é por ali! — disse o senhor, enquanto tentava impedir o
seu cão de o puxar dali e apontava para uma estrada comprida que subia.
— Basta seguirem esta rua até ao fim, depois há o parque e, depois, é
sempre a subir. — As sobrancelhas grisalhas do homem juntaram-se
numa só. Olhou para nós através dos óculos em meia-luz, lançou um
olhar ao relógio e depois voltou a olhar para nós. — Mas vai fechar mais
cedo por causa de um evento especial. E já passa das quatro e meia, por
isso não vão conseguir entrar.
— Oh, nós entramos! — garantiu o Ben, com um sorriso tão grande
que o senhor deu um passo atrás. — O nosso pai trabalha lá! Obrigado!
Confuso, o senhor coçou a cabeça, mas deixou que o cão o puxasse
dali.
— Vai ficar horas a pensar naquilo — riu-se o Ben.
— Essa foi b-boa — sorriu o Travis, enquanto o Noah saltava ao seu
lado para tirar mais batatas fritas.
— O nosso pai…? — disse o Ben, vendo a cara que eu estava a fazer. —
Porque não há dúvida de que parecemos todos ser filhos do mesmo pai!
— Ah! — exclamei, e senti-me estúpida.
Estava ocupada a pensar no que o senhor tinha dito: que o observatório
ia fechar mais cedo e que não íamos conseguir entrar. Não tínhamos
pensado no que faríamos depois de chegarmos ao observatório. E se,
depois daquilo tudo, não conseguíssemos entrar?
Seguimos na direção que o senhor nos tinha indicado e começámos a
subir a rua comprida que ia dar ao parque, comigo ao pé-coxinho e o
Noah às cavalitas. O céu ia escurecendo à medida que o Sol se punha
para dar lugar à noite, e a única coisa que ouvíamos era o barulho de
pessoas a rir e a beber no interior de bares e restaurantes iluminados.
— Onde é que estamos agora? — perguntou o Ben.
— N-não deve faltar muito — disse o Travis, no momento em que
começámos a ver o fim da rua.
Mais à frente, havia uma longa fila de portões pretos decorados com
ornamentos dourados. Dois dos portões maiores estavam abertos de par
em par e havia dois homens grandes, com casacos compridos e pretos e
fios a sair dos ouvidos, parados junto a uma corda vermelha que
impedia a entrada. E, atrás deles, bem longe no cimo de um monte, lá
estava! Uma grande cúpula e uma casa em tijolo, iluminada por luzes
amarelas eazuis…. O Observatório Real. Estávamos tão perto!
Um carro preto muito comprido e muito brilhante passou por nós
devagar. Vimo-lo parar em frente dos portões abertos e um dos homens
grandes foi até à janela de trás, de onde saiu uma luva branca com um
enorme anel de diamantes que lhe mostrou um cartão. O homem fez
um aceno com a cabeça e o segundo homem retirou a corda vermelha
para deixar o carro entrar.
— Devem vir para a f-festa — sussurrou o Travis.
— Sim, e são polícias à paisana — disse o Ben com ar de quem sabe.
— É melhor que não nos vejam! Olhem, está ali uma tabuleta. Vamos lá
ver se diz alguma coisa.
Seguimos o Ben até uma grande caixa de vidro em frente dos portões.
Lá dentro estava um mapa verde muito colorido, com uma seta que dizia
«Você está aqui», e muitos cartões pequenos escritos em letras
diferentes que diziam coisas como «Viu este cão?» e «Procura a sua
alma gémea?» No meio, estava um póster cheio de desenhos de fogo de
artifício e estrelas brilhantes, com um texto em letras douradas, que
dizia:
 
 
— Oh, não! Já fechou! — murmurou o Ben a olhar para trás para os dois
homens, como se a culpa fosse deles.
Encostei a cara ao espaço entre duas grades e olhei para a casa.
Estávamos tão perto. Tínhamos de entrar… Tinha mesmo de ser! Não
podíamos ter feito aquele caminho todo para, no fim, não conseguirmos
entrar. Eu não podia deixar que a estrela da minha mãe andasse pelo céu
para sempre com um nome errado, só por causa de umas estúpidas
grades!
Estiquei as mãos e desejei conseguir chegar à casa ou tocar no
telescópio real. Parecia tudo tão próximo. Olhei para as minhas mãos e
os meus braços esticados à minha frente e, de repente, tive uma ideia!
— Venham — pedi eu, e puxei o Ben e o Travis pelos braços. — Acho
que sei como é que podemos todos entrar. Só temos de garantir que
ninguém nos vê!
Com um ar confuso, o Ben e o Travis ficaram a ver-me afastar-me ao
pé-coxinho do sítio onde estavam os homens-espiões à paisana, para
seguir as grades ao longo da rua. Continuámos a andar até que a casa, os
restaurantes, as vozes, as luzes e as árvores desapareceram e as grades
iam dar a uma parede de tijolo. Não havia mais por onde ir e não havia
ninguém por perto a ver-nos.
— Aqui — disse eu, tirando a mochila. — Podemos entrar aqui!
— Entrar onde? — quis saber o Ben.
— Vejam! — exclamei.
Deitei fora todo o ar que tinha nos pulmões, encolhi a barriga, peguei
na minha cauda de tigre e subi, agarrada a duas barras de ferro. Pus
uma perna no meio delas, depois um braço, até que aos poucos fui
conseguindo fazer passar o resto do corpo por entre elas. Virei a cara
para o lado e fechei os olhos quando os ângulos do metal me passaram
rente às bochechas. Senti-me esmagada e incapaz de respirar, mas só
durou um segundo, porque, de repente, puf!, já estava lá dentro. Estava
do outro lado dos portões!
— Veem? — disse eu, a esfregar a cara para recuperar da pressão. — É
fácil!
O Ben pôs-se de lado ao pé das grades para ver se cabia.
— Mas… o meu cabelo… — murmurou ele a tocar no cabelo, como se
o facto de passar por entre as grades pudesse fazer com que caísse todo.
— O Noah primeiro — disse o Travis, empurrando-o para a frente.
— Noah, anda! Vem para aqui! — murmurei, e puxei-o para as grades.
O Noah deu-me os braços e deixou que eu o puxasse. No momento em
que passou para o outro lado, o capacete espacial bateu nas grades e
tombou. O Travis fê-lo passar juntamente com a minha mochila e depois
também se enfiou pelas grades. No escuro, o seu fato de esqueleto
começava a ter um brilho branco-esverdeado.
— Oh, não! Não vou caber — exclamou o Ben, voltando a tocar no
cabelo.
— Vais, sim — afirmei eu. — Só tens de deitar o ar todo para fora,
como eu fiz!
— Anda lá, B-Ben! — insistiu o Travis. — Nós ajudamos-te com o
cabelo!
— Está bem. Quer dizer… Acho que dá para ver que não vai resultar,
mas ao menos não se pode dizer que não tentei — murmurou o Ben,
segurando-se a uma grade e inspirando fundo. Enfiou metade da cara,
depois uma perna, depois o peito, e esticou uma mão. — Estou preso!
Estou preso!
O Noah ria-se enquanto eu e o Travis pegávamos no braço do Ben e o
puxávamos com toda a força. Um monte de doces caiu do seu bolso
enquanto o puxávamos com força para o nosso lado.
— AAAAAAAAAUUU! — gritou o Ben. — Raios e rabiscos! Porque é
que estas grades são tão juntinhas? Vou morrer!
— Chiu! — avisei, e puxei com mais força ainda.
— Esperem! O meu cabelo! O meu cabelo! — guinchou ele, com a cara
a passar a custo pelas grades.
— E-esquece o cabelo e deita o ar para fora! — mandou o Travis.
— AAAAAAAAAUUU! — gritou o Ben outra vez, enquanto lhe
puxávamos o braço a ponto de parecer que se ia desprender.
Mas o peito começava a mover-se na nossa direção e a cara já estava
quase a passar, até que, de repente, puf!, já estava connosco do outro
lado.
— Olhem que doeu! — disse ele a arfar, confirmando se ainda estava
inteiro. — Pensei que ia morrer, e teria sido uma vergonha! Esperem! —
Levou depressa as mãos ao cabelo e perguntou: — Está bem?
Eu e o Travis olhámos um para o outro e tentámos não nos rir. O
cabelo perfeitamente redondo do Ben era agora um retângulo fofo e
ligeiramente inclinado.
O Noah riu-se da cara que ele estava a fazer.
— Isto das grades foi b-boa ideia, Aniyah! — elogiou o Travis, vindo ter
comigo para me ajudar a andar.
— Sim — disse o Ben. — Apesar de eu quase ter m…
— Chiu! — sussurrei, chegando o Noah a mim.
Estava a ouvir um remexer na relva, cada vez mais alto e mais perto.
Ficámos parados como se fôssemos árvores com forma estranha e
esperámos, assustados.
— AAAAAAAAAARRRRRRRRRGGGGGGHHH!!!!!
RATAZAAAAANAS! — gritou o Ben, a apontar para trás de mim e
fugindo o mais depressa que pôde para o meio das árvores.
Com o coração a bater nos ouvidos, olhei devagar para trás. Uma cara
cinzenta e felpuda com uma cauda grossa deu um salto, com um
amendoim de chocolate entre as patas. Devia ter vindo investigar, depois
de cheirar os doces que tinham caído do bolso do Ben.
— São só esquilos — gritei, libertando o ar que estava a guardar nos
pulmões e começando a rir. — Ben! Para! Está tudo bem! — chamei.
— Vou matá-lo — disse o Travis, levando a mão ao peito e abanando a
cabeça.
Quando o Ben voltou para ao pé de nós a correr, peguei na mão do
Noah e olhei para diante. Por entre as árvores em frente, dava para ver
um campo e mais árvores, assim como uma estrada comprida e sinuosa.
Apesar de já estarmos do outro lado das grades, ainda faltava um bom
bocado até à cúpula e ao observatório. Mas, no ar, já se ouvia o som de
música e de vozes ao fundo, anunciando-nos que o maior concurso da
galáxia estava a acabar e que era a minha última oportunidade de ajudar
a estrela da minha mãe e devolver-lhe o nome com que ela tinha
nascido.
20. 
UM TRABALHO DE LOUCOS
— Pergunto-me quantas pessoas participaram no concurso — disse o
Ben, ajudando-me a saltar ao pé-coxinho por cima de mais ramos
grandes e por entre mais uma longa fila de árvores.
— P-Provavelmente milhões e milhões — respondeu o Travis,
equilibrando o Noah nas costas e tentando que ele não o estrangulasse.
— Mas isso não invalida o f-facto de teres f-fugido de um es-esquilo!
— São como as ratazanas! — argumentou o Ben. — Só que… mais
peludos!
Muito longe, atrás de nós, soou o mesmo sino que tínhamos ouvido há
uma hora.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
Dlim-dlão.
Já eram 17 horas! Isso queria dizer que tínhamos menos de duas horas
para subir o monte e chegar aos caçadores de estrelas para os impedir de
dar o nome errado à minha mãe.
O tocar do sino fez-nos tentar ir mais depressa, mas começava a ser
mais difícil atravessar a floresta a um ritmo acelerado. O céu já tinha
escurecido totalmente e os arbustos e árvores começavam a ficar tão
negros como o céu. Ouvia o Travis tropeçar e escorregar e sentia o Ben
agarrar-me com mais força no braço ao tentar não cair por causa dos
paus e ramos e da lama escorregadia.
Continuámos a subir e a subir. O Noah começou a choramingar e nós
começámosa respirar com dificuldade e a andar mais devagar.
— Finalmente — murmurou o Ben, parando atrás de um tronco de
árvore gigante. — Chegámos!
Agachámo-nos atrás da árvore e olhámos em volta. Não havia mais
árvores à nossa frente, nem zonas de lama. Só uma fila comprida de
carros pretos, todos alinhados na perfeição, na mesma posição em que o
Noah estacionava os carrinhos dele quando fingia que havia filas de
trânsito. Do outro lado da estrada, atrás dos carros, um muro grande
cercava um edifício em tijolo vermelho e, à frente, um telescópio de
metal gigante espreitava do chão. Havia seis taças pretas onde ardiam
fogueiras, assentes em paus muito altos, e, diante delas, um portão
aberto que ia dar a uma escadaria. Um homem grande de casaco preto e
uma mulher de fato estavam parados junto aos portões. Tinham fios a
sair dos ouvidos, tal como tínhamos visto nos guardas à paisana no sopé
do monte.
Olhei para a tabuleta a reluzir para nós no muro em frente, como um
convite gigante feito de espelhos. Dizia «Bem-vindo ao Observatório
Real de Greenwich e ao Planetário Peter Harrison».
— Como é que vamos entrar? — perguntou o Ben.
Estávamos escondidos atrás do troco da árvore, a ver as chamas dançar
ao vento sobre os paus.
— Não sei — disse eu, preocupada.
Nunca tinha pensado que os caçadores de estrelas estivessem
protegidos por piras de fogo e guardas. As fotografias que tinha visto em
livros davam a entender que viviam em bibliotecas e que estavam
sempre prontos a ajudar quem quisesse saber alguma coisa acerca do
Espaço. Iam ter de nos ajudar se conseguíssemos passar pelos guardas…
não?
Afastei estas perguntas e olhei para o Noah, que estava quase a dormir
às cavalitas do Travis.
— E se fingirmos que os nossos pais estão lá dentro e o Noah fingir
que está a chorar?
O Travis abanou a cabeça.
— Mas p-podem pedir os n-nossos n-nomes e ver se estão na l-lista, e
depois p-prendem-nos se não estiverem.
Decidimos todos que o Travis tinha razão e tentámos pensar noutra
ideia.
Ao fim de um minuto, no momento em que o Noah começou a
ressonar baixinho, o Travis virou-se muito entusiasmado.
— Esperem l-lá! Acho que já sei!
— O quê? — perguntámos eu e o Ben ao mesmo tempo.
O Travis apontou para os carros à nossa frente.
— Vamos usá-los!
— Hã… Os carros? — perguntou o Ben com uma careta.
O Travis acenou com a cabeça.
— Sim! O que é que os c-carros têm? — perguntou-nos.
O Ben encolheu os ombros.
— Rodas?
O Travis abanou a cabeça e deu uma cotovelada leve no Ben.
— Não… alarmes!
As sobrancelhas do Ben ficaram direitas e logo depois levantaram-se
em arco.
— Travis! És um GÉNIO! — gritou, abanando-o pelos braços como se
fossem pauzinhos de brilhar no escuro e ele os quisesse acender. — Mas
como?
— Alarmes? — indaguei eu, sem entender do que estavam a falar.
— Os d-doces! — acrescentou o Travis. — Os dos nossos s-sacos.
O Ben pegou na mochila, tirou o que tinha sobrado dos sacos de doces
e segurou-os como se fossem troféus. O dele estava vazio, o do Noah
tinha poucos doces, além de que ele também tinha comido metade dos
meus, mas o saco do Travis ainda não tinha sido aberto.
— P-Perfeito! — exclamou o Travis.
Pegando num dos sacos, despejou o conteúdo para os bolsos das calças
e ficou a ver o Ben fazer o mesmo com os outros sacos.
— O que é que vão fazer? — perguntei, mais confusa do que nunca.
— Vamos u-usá-los… para fazer um truque! — anunciou o Travis a
sorrir.
— Sim — confirmou o Ben. — Um truque que nos vai levar para
dentro daquele portão! Só temos de dar o alarme. Percebes…? Dar o
alarme?
Continuei a não perceber. Mas, de repente, percebi!
— É genial! — exclamei, tapando logo a boca com as mãos, com medo
de ter gritado muito alto.
Mas os guardas do outro lado da estrada não estavam com ar de ter
ouvido nada.
— Nós vamos acioná-los — disse o Ben, e voltou a pôr a máscara. —
Preparem-se para correr, está bem?
Acenei com a cabeça.
— Estejam prontos! — indicou o Travis, fazendo o Noah escorregar-lhe
das costas.
Agarrei nos braços do Noah e tentei que ele ficasse de pé. Mas ele mal
conseguia abrir os olhos e resmungou.
— Chiu! — avisou o Travis, no momento em que afastámos as cabeças
de detrás do tronco da árvore para olhar para os guardas do outro lado da
estrada.
Um deles tinha parado de marchar para lá e para cá e estava a olhar
em volta como se suspeitasse de alguma coisa. Mas, ao fim de alguns
segundos, voltou a andar de um lado para o outro.
— OK — disse o Travis, enquanto eu tentava novamente por o Noah de
pé. — Aqui… aqui vamos nós.
O Ben acenou com a cabeça e mordeu o lábio de baixo com tanta força
que o escondeu dentro da boca.
Eu também acenei. Mas estava a começar a ficar tão nervosa, que não
percebi se estava mesmo a acenar com a cabeça ou se era só o meu
pescoço a tremer.
— Pronto… Tu v-vais pela esquerda e eu pela direita, e encontramo-nos
nos p-portões! — mandou o Travis.
O Ben fez sinal com o polegar para cima e confirmou que ainda tinha
os doces nos bolsos.
Puxando o Noah atrás de mim, saímos de detrás da árvore e passámos
rapidamente para o carro que estava mais perto. Ficámos agachados ao
lado de uma das portas e eu pus um dedo à frente dos lábios para avisar
o Noah de que não fizesse barulho. Ele imitou-me e também pôs um
dedo em frente dos lábios, muito sério e mais desperto.
Fiquei a ver o Ben e o Travis fundirem-se na escuridão, embora, por
brilhar no escuro, o fato de esqueleto do Travis tivesse levado mais
tempo a desaparecer. Esperei, pus-me à escuta e tentei que o Noah
ficasse de pé… até que, finalmente, ouvi um som que parecia pedras de
granizo a cair de uma parte remota do céu! O Travis e o Ben estavam a
atirar os doces bem alto para o ar de maneira a caírem nos tetos
metálicos dos carros e fazerem um tinido.
Depois, tudo voltou ao silêncio.
Por momentos, pus-me à espera, agoniada. E se não tivesse resultado?
E se os doces não fossem suficientemente pesados para fazer disparar os
alarmes? Mas depois, como uma sirene que despertasse, uma luz
começou a disparar e o alarme de um carro rasgou a noite. E depois
outro… e outro!
UÓÓÓÓÓ PIIIIIIIII PIIIIII
PIIIIIIIII PIIIIII UÓÓÓÓÓ
UÓÓÓÓÓ PIIIIIIIII PIIIIII
— Mas que raio…? — exclamou um dos guardas, passando por nós à
esquerda, de onde vinham os sons.
E depois, como que em resposta à primeira série de ruídos, mais
alarmes começaram a disparar do lado oposto.
PIIIIIIIII PIIIIII UÓÓÓÓÓ
UÓÓÓÓÓ PIIIIIIIII PIIIIII
PIIIIIIIII PIIIIII UÓÓÓÓÓ
De repente, o Travis veio a correr para ao pé de mim, com o cabelo
todo espetado como que pela agitação, e agarrou-me no braço. Vimos o
segundo guarda afastar-se do portão e correr em direção ao segundo lote
de carros à nossa direita. Quase ao mesmo tempo, o Ben apareceu do
meio das sombras com um ar nervoso, mas contente.
— Depressa — ordenou ele, a apontar para a frente.
O truque tinha funcionado! Os portões do planetário estavam abertos e
não havia ninguém a impedir-nos de entrar!
Agarrando nos braços uns dos outros, fomos até ao outro lado do carro
e olhámos para a esquerda e para a direita. Não havia sinal dos guardas,
mas o alarme de dois dos carros já tinha parado de soar.
— Vamos! — sussurrou o Travis.
Levantou-se e começou a correr muito rapidamente em direção aos
portões, puxando-nos a todos.
Ao atravessarmos a rua aos tropeções, passando pelos portões e
chegando ao tapete vermelho muito espesso que conduzia aos degraus e
às portas do planetário, ouvimos mais dois alarmes dispararem atrás de
nós. Depois outro. E ainda outro!
— Quem é que está a atirar mais doces? — perguntou baixinho o Ben,
enquanto todos olhávamos confusos uns para os outros.
— Venham, vamos ver! — disse o Travis a acenar-nos.
Chegou ao cimo das escadas, a poucos passos das grandes portas de
vidro do planetário, e virou-se, não para a entrada, mas para o muro, de
forma a ter vista para o parque de estacionamento. Seguimo-lo e
parámos, estupefactos com o que estávamos a ver.
Lá em baixo, a subir e a descer dos telhados pretos e brilhantes dos
carros numa grande correria, estava um autênticoexército de esquilos
cinzentos e felpudos. Andavam em busca dos amendoins cobertos de
chocolate que o Ben e o Travis tinham atirado ao ar e estavam a fazer
disparar mais alarmes!
Com os casacos a abanar ao vento, as caras todas vermelhas e
transpiradas e a praguejar alto e bom som, os dois guardas corriam atrás
deles e iam tentando enxotá-los.
— Travis, acho que é capaz de ter sido o nosso melhor truque até agora
— disse o Ben com um sorriso de orgulho.
— É mais que isso! — exclamei, enquanto sentia uma gargalhada a
formar-se. — É o melhor truque de sempre de toda a história da galáxia!
21. 
A MAIOR ESTRELA DE HOLLYWOOD
— É altura d-de ir procurar os cachadores de estrelas! — disse o Travis,
estendendo as mãos ao Noah, que estava boquiaberto a olhar para os
esquilos como se fossem o seu presente de Natal.
Voltámo-nos para o grande edifício vermelho que nos esperava mesmo
atrás e ficámos todos a contemplá-lo, menos o Noah.
— Espero que não tenhamos de passar por mais guardas — desejou o
Ben, no momento em que encostámos as caras às portas de vidro para
olhar lá para dentro.
Dava para ver que estava escuro, mas havia imagens de estrelas e
planetas a mover-se nas paredes, um relógio com ponteiros que
rodavam tanto para a frente como para trás e letras grandes e brancas
que se acendiam de tempos a tempos: «RELÓGIOS KRONOS — Uma
Obra-Prima do Tempo». Não estava ninguém lá dentro.
Pus a mão no puxador para abrir a porta, na esperança de que não
estivesse trancada. Ouvia-se o eco distante de pessoas a falar e depois a
bater palmas, vindo algures lá de baixo.
Entrámos juntos e olhámos para as escadas em caracol no centro da
enorme divisão. Antes do primeiro degrau, junto a uma corda grossa e
vermelha presa em dois suportes dourados, estava uma tabuleta que
dizia «Jantar Anual da Gala Kronos», com uma seta a apontar para
baixo.
— Venham — disse eu. — Vamos descer!
Fui à frente para junto das escadas, a saltar ao pé-coxinho o mais
depressa que conseguia e a pensar no que encontraríamos quando
chegássemos lá abaixo e como é que eu ia fazer com que todos ouvissem
o que tinha a dizer sobre a estrela da minha mãe. Já não fazia ideia das
horas que eram, mas sabia que não tínhamos muito tempo.
Passámos por baixo da corda e, em silêncio, descemos as escadas em
caracol. Quanto mais descíamos, mais escuro se tornava e mais eu
apertava a mão do Noah. Outra tabuleta, que desta vez dizia «Jantar
Anual da Gala Kronos — Em Frente», apontava para um corredor
comprido. Estava praticamente às escuras, mas, à medida que fomos
avançando, foram-se acendendo imagens de planetas, cometas e buracos
negros nas paredes e até mesmo no teto. O som de música e risos
chegou-nos em espirais da sala em frente.
— Olhem! — gritou o Noah quando uma imagem grande se acendeu
num grande ecrã preto ao fundo do corredor.
Era uma massa de luz branco-rosada em remoinho, com duas formas
de tornado a comprimi-la em cima e em baixo, até se transformar numa
bola cada vez mais pequena e, de repente, sem que nada fizesse prever,
rebentar numa explosão cor de prata azulada. Apareceram as palavras
«Como Nasce Uma Estrela» e, ao fim de três segundos, voltaram a
desaparecer na escuridão. Olhei para as sombras refletidas no ecrã e
depois para o Noah. Não sabia que aspeto tinham as estrelas ao nascer,
mas agora tudo fazia sentido. Quis dizer-lhe que já sabia porque é que o
estalo que tínhamos sentido no peito tinha doído tanto e porque é que a
explosão que tínhamos ouvido na noite em que a nossa mãe tinha
desaparecido tinha soado tão alto. O coração da nossa mãe tinha passado
por uma transformação tão grande! E, apesar de ela ter passado a ser
ainda mais bonita do que já era e isso significasse que ia poder viver
milhões de anos, não deixava de parecer doloroso e solitário.
— Aniyah?
Senti uma mão tocar-me no ombro e sabia que era o Travis a querer
que eu me despachasse. Mas, apesar de me querer virar ao contrário,
não conseguia. O facto de ter visto a forma como talvez o coração da
minha mãe se tivesse transformado numa estrela tinha-me deixado em
estado de eletricidade e pesada como uma pedra.
Uma enorme salva de palmas vibrou à nossa volta, fazendo vibrar
também as duas portas duplas ao nosso lado. O som percorreu-me e
obrigou-me a voltar-me. Engoli a custo a bola peganhenta que tinha na
garganta e conduzi o Ben, o Travis e o Noah até ao fundo da sala repleta
de estrelas.
Em silêncio, abri ligeiramente uma das portas de madeira, deixando
uma fresta para que pudéssemos ver o que estava a acontecer.
Lá dentro, a sala estava cheia de mesas redondas cobertas de flores e
velas altas. Em volta das mesas estavam homens de fato preto-brilhante,
laçarote e camisa branca, o que os fazia parecer pinguins, e mulheres
em vestidos de gala de todas as cores. Algumas tinham grandes
diamantes ao pescoço e nas orelhas, e até mesmo no cabelo, como se
estivessem a fazer um concurso a ver quem brilhava mais. Junto à nossa
porta e nas margens da sala, estavam ainda mais pessoas com grandes
câmaras a disparar e a acender flashes, enchendo o ar de um som
estranho.
Enfiámos as cabeças um pouco mais para dentro e reparei que toda a
gente estava a sussurrar, a apontar os flashes e a olhar para uma mulher
que estava a subir ao grande palco de vidro ao fundo da sala. Apesar de
não ter diamantes no cabelo nem nas orelhas, como as outras mulheres,
e de o seu vestido de gala não ser minimamente brilhante, era bem
possível que fosse a mulher mais bonita do mundo. Tinha a pele
resplandecente e o cabelo preto ondulado caía-lhe em cachos em volta da
cara. O seu vestido preto ondulava até ao chão e, ao pescoço, trazia as
pérolas mais brancas que eu alguma vez tinha visto. Também consegui
ver que, tal como a Sra.  Iwuchukwu, tinha uma sombra brilhante nos
olhos.
— Com mil milhões de milagres… é… é… — começou o Ben, mas
calou-se e começou a tocar-nos no braço, a mim e ao Travis, cem vezes
por segundo. — É a atriz dos filmes de super-heróis! A Audrey…
qualquer coisa!
— Sim, já sei! — assentiu o Travis, ficando de repente muito vermelho
e tímido. — Ela é a m-maior estrela de Ho-Hollywood!
Ficámos a ver a Audrey Qualquer Coisa de pé em frente de uma coluna
de vidro e lançámos um olhar ao resto da sala. Estava toda a gente à
espera em silêncio, como se o que ela estava prestes a dizer pudesse ser
a coisa mais importante que os seus ouvidos ouviriam.
— Senhores e senhoras, estimados mecenas, beneficiários,
cronometristas e astrónomos! Tenho a honra de ser o novo rosto dos
Relógios Kronos.
Uma enorme salva de palmas tomou conta da sala no momento em
que ela dobrou ligeiramente a cabeça, para depois voltar a falar.
— É para mim uma honra ainda maior estar hoje aqui, neste sítio
onde nasceu o tempo moderno e onde continua a crescer o desejo
humano de aprender tudo o que for possível acerca dos mundos que as
nossas galáxias encerram. Aprendi muito enquanto embaixadora da
Empresa e Fundação Kronos, e é com grande expetativa que espero
conhecer-vos a todos.
» Mas agora, é com grande prazer que dou início à gala desta noite
para dar nome ao novo fenómeno que temos observado no céu! Como
sabem, há três dias, o Observatório Real foi o primeiro a detetar uma
estrela, agora famosa, que transcendeu as leis da Física. A primeira
estrela que não só se vê a olho nu, como também se aproxima mais de
nós do que qualquer outra estrela da galáxia!
Na sala rebentou outra salva de palmas, de tal maneira que fiquei com
as orelhas vermelhas. O Ben e o Travis viraram-se para mim e sorriram-
me como se também estivessem orgulhosos da minha mãe.
— Decorridas 72 horas desde o início do concurso global para ajudar a
dar nome à nova estrela, tenho o prazer de informar que foram enviados
mais de 17 milhões de nomes por pessoas de todos os cantos do nosso
mundo e, esta manhã, precisamente um minuto depois do meio-dia, os
nossos computadores selecionaram o nome vencedor!
A sala encheu-se do som de uma ovação tão grande, que o chão tremeu
como se estivesse a haver um tremor de terra.
— Dezassetemilhões… — sussurrou o Ben, boquiaberto.
Continuei a olhar. Um homem baixo de cabelo grisalho todo espetado
e vestido de fato juntou-se à Audrey Qualquer Coisa no palco.
— Aniyah! — disse baixinho o Travis, dando-me uma cotovelada. —
Olha! Ele tem o nome! Viemos mesmo a tempo.
Eu tinha visto o grande envelope dourado que o homem tinha nas
mãos, mas senti as mãos e os pés gelarem e não me consegui mexer…
— Após a seleção, o nome foi selado num envelope e guardado pelo
querido senhor Alex Withers, agora ao meu lado. E, dentro de apenas 30
segundos, iremos anunciar o nome da nossa nova estrela!
Com uma vénia, o Sr.  Withers entregou à Sra.  Audrey o envelope e
toda a gente começou outra vez a bater palmas.
Com a cabeça a latejar e o coração na boca, disse às minhas mãos e aos
meus pés para se mexerem. Mas eles não ouviram. O tempo estava a
acabar, o envelope estava agora nas mãos da Audrey Qualquer Coisa, a
estrela da minha mãe estava prestes a receber o nome errado e, mesmo
assim, eu não me conseguia mexer!
— Em nome dos Relógios Kronos e do Observatório Real de
Greenwich, gostaria de agradecer a todos os que enviaram um nome e a
todos os que aqui estão hoje, por presenciarem este momento histórico.
Com uma vénia, a Sra.  Audrey voltou a bater palmas e começou a
ouvir-se o som de um tambor invisível. Apagaram-se as luzes, a sala
ficou às escuras e um ecrã de cinema ao fundo do palco acendeu-se,
mostrando números gigantes.
10… 9… 8… 7…
O tempo abrandou. Senti as batidas na minha boca tornarem-se mais
intensas e o meu corpo gelar.
— Aniyah! — encorajou o Ben.
Ouvi-o, mas era como se ele estivesse a falar comigo através de uma
parede de gelatina que tornava a sua voz lenta e tremida.
6… 5… 4…
Então, pelo canto do olho, vi uma sombra mover-se atrás de nós. Atrás
do Ben e do Travis vinha um homem grande e careca, a correr pelo
corredor escuro na nossa direção. Vi que tinha um fio a sair-lhe de um
dos ouvidos.
— EI! — gritou quando nos viu.
— NÃO! — gritei eu, deixando de estar congelada e abrindo as portas
em frente de par em par.
Ouvi o homem gritar atrás de mim, mas, agora que me estava a mexer,
já não conseguia parar.
Precipitei-me para dentro da grande sala escura com estrépito e tentei
atravessá-la para alcançar o envelope dourado. Mas tinha-me esquecido
de que o meu tornozelo não estava a funcionar e de que ainda estava
com o meu fato de tigre, porque, assim que cheguei ao palco, senti de
repente uma coisa comprida e fina enrolar-se em volta das minhas
pernas e um estalo lancinante percorrer-me o pé. Tinha tropeçado na
minha cauda de tigre e estava a ser projetada no ar como se estivesse a
voar no Espaço. No momento em que caí com um estrondo
ensurdecedor, só consegui ouvir sons de pasmo, o roçar de vestidos e
cadeiras a arrastar no chão. Ouvi uma onda de «Oh, céus!» murmurada
à minha volta e fiquei quieta, deitada no chão com a cabeça enfiada nos
braços. Queria levantar-me. Queria dizer alguma coisa e mostrar a toda
a gente que estava bem. Mas não tinha a certeza de que conseguiria.
Pelo contrário, sentia os ombros a tremer e as pernas estendidas como
peixes mortos debaixo de mim, enroladas na traiçoeira cauda de tigre.
— Ora, então — disse uma voz que se foi aproximando mais dos meus
ouvidos, à medida que as luzes da sala se tornaram mais intensas —, o
que temos nós aqui?
Senti umas mãos pousarem nos meus braços e puxarem-me para
cima, fazendo-me sentar.
— Por favor! — ouvi a minha voz dizer. — Não podem abrir o
envelope! Não podem dar à minha mãe o nome errado! Não podem!
Mantive os olhos bem fechados e a cabeça para baixo de maneira a que
o cabelo me cobrisse a cara. Não queria ver o Travis, o Ben nem o Noah,
porque sabia que os tinha desiludido e porque não queria que ninguém
me visse. A seguir, senti passos e uns dedos pequenos puxarem-me o
cabelo e abanarem-me os braços.
— Niyah! Niyah! — ouvi exclamar a voz do Noah.
Uma das mãos fortes largou os meus ombros e, com cuidado, tirou-me
o cabelo da frente da cara. Abri os olhos e olhei para cima. Dois olhos
castanho-esverdeados, rodeados de uma sombra de cor prata-
esbranquiçada, estavam a olhar para mim.
— Pois, olá — disse ela. — Eu sou a Audrey. E tu, como te chamas?
Então, como se não pudessem esperar mais um segundo que fosse,
centenas de câmaras começaram a disparar freneticamente os flashes
como relâmpagos no momento em que a maior estrela de Hollywood
abriu os seus lábios vermelhos e me sorriu.
22. 
O LADRÃO QUE ROUBOU UMA VIDA
Sentei-me e olhei para o ecrã de cinema no palco, para ver se a
contagem decrescente tinha parado. Mas não consegui ver nada, porque
havia muitas pessoas agachadas à minha volta e a olhar para mim.
— Querida, como te chamas? — perguntou de novo a Sra. Audrey, a
olhar para os meus olhos como se eu fosse a única pessoa naquela sala.
Limpei os olhos e murmurei:
— Aniyah.
— É um nome lindo — disse ela. — Agora, e que tal se
desenrolássemos essa cauda maravilhosa de volta dos teus pés e te
levantássemos? Pode ser?
Acenei e continuei de cabeça baixa.
— Por favor — disse a Sra. Audrey, levantando os braços. — Vamos
dar um pouco de espaço a esta criança.
Enquanto ela me ajudava a levantar, com o Noah a tentar ajudar
também puxando-me o braço, olhei em volta e vi o Travis e o Ben a meio
da coxia. Pareciam chocados, como se não conseguissem acreditar que a
maior estrela de Hollywood estivesse a falar comigo. Tentei pedir-lhes
desculpa com os olhos por os envergonhar e não ter interrompido a
contagem decrescente mais cedo, mas não percebi se eles repararam.
— Já está — disse a Sra. Audrey, pondo-me de pé. — Como é que te
sentes?
Voltei a limpar os olhos e, apesar de estar com os joelhos doridos, de
ter raspado com os cotovelos no chão e de agora ter quase a certeza de
que tinha partido o tornozelo, disse que estava bem.
— Ah… magoaste-te na perna — notou a Sra. Audrey, vendo que eu
me estava a apoiar só na perna boa. Pôs o braço à minha volta para me
ajudar a equilibrar. — E na cara também — acrescentou, de sobrolho
franzido.
— Abram alas, por favor! Senhores, abram alas!
O homem grande e careca com o fio a sair do ouvido que andava atrás
de nós avançava à força por entre a multidão como um buldózer em
fúria, até chegar ao pé de mim e do Noah.
— Minha senhora, estes miúdos têm de vir comigo! São intrusos.
— Ai são? — perguntou outra voz atrás da minha cabeça.
— Sim. Estivemos a ver os registos de videovigilância, em que eles
invadem a propriedade através das grades e, hã… usam esquilos para
provocarem uma distração e conseguirem entrar aqui — relatou o
guarda.
Sentia os olhos da Sra. Audrey a olhar para mim ao mesmo tempo que
o Travis e o Ben avançavam lentamente para junto de nós. O Noah
estava a olhar para o homem careca e, quando percebeu que estávamos
metidos em sarilhos, começou a soluçar tão alto que aquilo só lhe podia
doer no peito.
O homem careca deu um passo em frente e precipitou-se na minha
direção, prestes a agarrar-me no braço. Era agora: ia ser presa.
Provavelmente, para sempre. E isto antes mesmo que se soubesse que
eu tinha feito todos fugirem de casa da Sra.  Iwuchukwu e que tinha
roubado a bicicleta dela.
— Oh, não seja tolo, Frank — disse a voz atrás da minha cabeça, antes
de a sua detentora ir para junto da Sra.  Audrey. — Diga à sua equipa
para não armar uma guerra por causa de uns miúdos! Eu resolvo isto!
Olhei para cima e, através das espessas cortinas de lágrimas que me
cobriam os olhos, vi uma mulher de cabelo comprido e preto, com uma
cara muito longa e olhos castanhos e com óculos brilhantes. Parecia-me
familiar, mas não sabia porquê.
— Desculpe, minha senhora — disse o homem careca chamado Frank,
a abanar a cabeça. — É o protocolo.
— São crianças — retorquiu a Sra.  Audrey a sorrir para o Noah e a
beliscar-lhe a cara com os dedos.
O Noah olhou para ela timidamente e voltou a soluçar, mas mais baixo.
— Crianças que invadiram propriedade alheia, minha senhora —
insistiu o Frank, com a cara e o peito a esbaforir como um peixe-balão.
— Oh,vá lá! — exclamou um homem do público, fazendo com que
houvesse muitos abanões de cabeça e com que muito mais vozes à
minha volta resmungassem por entre dentes.
— Porque não os levamos para dentro da cúpula para ouvir o que têm
a dizer? — perguntou o Sr.  Withers, a aparecer atrás do Frank. —
Professora Grewal?
Quase me engasguei quando a senhora acenou com a cabeça. Era a
outra caçadora de estrelas das notícias! Nesse momento, esqueci-me de
que estava prestes a ser presa e que já não conseguia sentir as pernas e
gritei:
— Professora Grewal! A senhora é uma caçadora de estrelas! Tem
MESMO de ajudar a minha mãe! Por favor! Pode ajudá-la, por favor?
A professora Grewal olhou para mim de testa franzida e perguntou:
— O que queres dizer com isso, Aniyah? Como é que a tua mãe
precisa de ajuda?
— Ela é a estrela. É o coração dela, percebe? — disse eu, na esperança
de que ela me compreendesse. — Por favor, não podem dar-lhe o nome
errado! Não podem dar-lhe o nome escolhido pelo computador. Por
favor…
Ouvi mais sussurros e sobressaltos à minha volta. A professora Grewal
e a Audrey Qualquer Coisa olharam uma para a outra e tiveram uma
conversa secreta com os olhos.
— Têm MESMO de ajudar! — gritou o Ben, que já não conseguia mais
estar calado. — Passámos a noite e o dia inteiro a tentar vir ter convosco.
E por pouco não morremos! — rematou, enquanto o Travis olhava de
boca aberta e acenava com a cabeça.
Incapaz de continuar de pé, senti os meus joelhos a começarem a
ceder. A Sra. Audrey agarrou-me nos braços e, gritando «Deixem passar,
por favor!», conduziu-me para uma cadeira onde estava sentado um
senhor com ar preocupado e fato de pinguim.
— Senhor, não se importa? — pediu a Sra. Audrey, fazendo com que o
homem se levantasse num salto para me oferecer a cadeira.
Quando me sentei, senti como que uma onda de corpos a pressionar-
me. Havia tantos olhos, tantas caras e tantas joias reluzentes a fitar-me,
que parecia que a sala inteira se estava a chegar a mim para ver o que se
estava a passar.
— Meninos, venham para aqui, por favor — chamou a professora
Grewal, fazendo com que o Ben e o Travis se fossem sentar ao pé de
mim, mas no chão.
Sorriu-nos e perguntou ao Ben, ao Noah e ao Travis como se
chamavam, e depois perguntou-me o que era uma «caçadora de
estrelas», e porque é que eu precisava da ajuda de uma. Desejosos de
que ela soubesse tudo, começámos a responder todos ao mesmo tempo.
— O coração da minha mãe transformou-se numa estrela, na semana
passada, e ela é aquela que viram e foi por causa dela que lançaram o
concurso e nós sabíamos que tínhamos de vir ter com os caçadores de
estrelas para que ficassem a saber a verdade e não lhe dessem o nome
errado!
— Tínhamos de vir procurar-vos — disse o Ben.
— Para que n-não lhe dessem o n-nome errado! — acrescentou o
Travis.
Ao mesmo tempo, o Noah deu um grande soluço e disse:
— A estrela da mãe é a maior de todas.
— Eu também sou caçadora de estrelas, e é por isso que sei que aquela
estrela é dela — expliquei, a olhar para a professora Grewal.
— Por isso, tivemos de f-fugir para chegar a-aqui a tempo!
— Foi assim que nos magoámos!
— Mas eu não queria arranjar problemas a ninguém!
— Hic!
— Ouçam todos… Parem um pouco, pode ser? — pediu o Sr. Withers
com os braços no ar.
Toda a gente naquela sala ficou a vê-lo ir ter comigo, ajoelhar-se e
perguntar:
— Aniyah. Queres dizer que achas… desculpa, que acreditas que o
coração da tua mãe é a estrela que estamos hoje a celebrar?
Concordei com um aceno de cabeça e a Sra. Audrey engasgou-se.
— Oh! — murmurou ela.
— Estou a ver… E porque é que achas isso? — continuou o
Sr. Withers, a olhar para mim com os seus olhos quentes e a sua barba
grisalha e castanha.
Fiquei calada, porque nunca tinha contado a ninguém o baque que
tinha sentido nem a explosão que tinha ouvido. Mas, antes que eu
pudesse dizer alguma coisa, o Noah bateu com as palmas das mãos uma
na outra e disse:
— Porque ela fez «pum»!
A professora Grewal sorriu para o Noah e depois voltou a olhar para
mim e para o Sr. Withers.
— Aniyah? — perguntou ela.
Pensei no que havia de dizer. Sabia que a professora Grewal e o
Sr.  Withers e talvez muitas outras pessoas que estavam a olhar para
mim naquela sala eram caçadores de estrelas ou, pelo menos, sabiam
muito mais sobre estrelas do que uma pessoa normal. E tinha a certeza
de que todos eles sabiam como nasciam as estrelas e qual era o som que
faziam. Mas e se nunca tivessem ouvido um coração a sério transformar-
se numa estrela, como eu e o Noah? E se só tivessem lido sobre isso nas
bibliotecas, mas não soubessem do som horrível e ensurdecedor que
fazia? Ler sobre as coisas não podia ser a mesma coisa que ouvir ou ver
ou sentir essa coisa na vida real. Mas tinha de fazer com que eles
entendessem. A estrela da minha mãe precisava que eu o fizesse. E a
Sra.  Audrey era a maior estrela de Hollywood, o que queria dizer que
sabia tudo sobre estrelas e podia ajudar os outros a entender.
— Porque a ouvi — disse eu, simplesmente. — Quando o polícia e a
senhora de fato preto foram lá e começaram a falar. Ouvi a explosão e o
som do coração da minha mãe a partir e percebi que ela ia arranjar
maneira de nos dizer onde estava e como havíamos de a encontrar. E
arranjou.
— Estou a ver… — assentiu a professora Grewal.
Devia estar com comichão no nariz, porque teve de o coçar algumas
vezes. O nariz do Sr.  Withers também devia estar a fazer comichão,
porque ele não parava de o franzir como um rato-do-deserto.
Vi o Frank começar a franzir a testa.
— Como é que se chamava a tua mãe? — perguntou ele, agora num
tom muito mais simpático.
O Travis e o Ben olharam para mim e o Noah parou de soluçar para
ouvir a resposta.
Abri a boca.
— Isabella Hildon — disse, alto e bom som.
Era a primeira vez que alguém me perguntava o seu nome desde que
ela nos tinha deixado, e dizê-lo assim fez com que sentisse uma coisa
estranha no peito. Como se uma coisa adormecida em mim há muito
tempo tivesse acordado com vontade de dançar.
— Isabella… Hildon…? — perguntou uma voz de homem algures na
multidão.
— Meu Deus! — suspirou uma mulher.
— Oh, coitados! — exclamou outra mulher.
— Que tragédia — murmurou um homem atrás de mim.
Uma mulher de vestido verde-vivo chegou-se depressa à frente e
sussurrou qualquer coisa ao ouvido da professora Grewal, que depois se
virou e sussurrou o mesmo à Sra. Audrey.
— Oh! — exclamou a Sra. Audrey, tapando a boca com as duas mãos.
O Frank abanou a cabeça e olhou-nos com pena; o Ben e o Travis
olharam um para o outro e depois ficaram a olhar para os meus joelhos.
Tocando no ombro do Frank, o Sr. Withers pôs as mãos em concha em
frente da boca e disse qualquer coisa que fez com que ele dissesse que
sim com um gesto de cabeça e saísse da sala. Vi-o pegar no walkie-talkie
e percebi logo que ia acontecer alguma coisa!
— Por favor! — exclamei, tentando levantar-me. — Por favor, não
chamem a polícia! Nós não… Nós não fizemos nada de mal!
— Calma, querida — disse a Sra. Audrey dando-me uma palmadinha
no braço e fazendo com que eu me voltasse a sentar. — Vocês não estão
em sarilhos, está bem? De todo!
— Não estamos? — perguntou o Ben, a olhar como se não tivesse a
certeza de poder confiar na melhor atriz do mundo.
A Sra.  Audrey abanou a cabeça e sorriu-lhe, o que fez com que ele
ficasse a olhar para o chão, de tal maneira que pensei mesmo que ia
inclinar-se e cair para a frente.
— Vamos só avisar toda a gente de que vocês estão em segurança —
informou a professora Grewal. — Há muitas pessoas preocupadas
convosco.
— Ai… Ai há? — perguntou o Travis.
O Sr. Withers e a professora Grewal acenaram com a cabeça.
— É claro — respondeu a professora Grewal. — Precisam mesmo de
saber que vocês estão bem. Vão ficar muito contentes de saber que estão
aqui e não estão à procura do pai da Aniyah.
— O meu pai? — perguntei.
Perguntei-me porque havíamos de estar à procura do meu pai, quando
era ele quem tinha de nos encontrar. Foi o que a minha mãe disse
quando nos foi buscar à escola e nos fez fugirpara o hotel-que-não-era-
mesmo-um-hotel. Disse que nós éramos os que se escondiam e que ele
era quem andava à procura, e que íamos ter de jogar às escondidas
durante mais tempo do que alguma vez alguém tinha jogado.
— Oh! Professora Grewal, acho que não devíamos dizer mais nada —
notou a Sra. Audrey, dando-me a mão.
— Vou dar uma palavrinha à equipa da Kronos — disse o Sr. Withers,
aclarando a garganta. — Quer dizer… para ver o que podemos fazer.
Vi a professora Grewal acenar e a Sra. Audrey dizer alguma coisa, mas
não entendi as palavras que dizia. O meu coração estava a bater com
tanta força, que não sabia se ainda o tinha no peito ou se ele me tinha
ido parar à cabeça. Alguma coisa não estava bem. Porque é que toda a
gente pensava que eu estava à procura do meu pai? De repente, a voz da
senhora do fato preto ecoou-me na cabeça. No dia em que me tinha
levado a mim e ao Noah para o hotel-que-não-era-mesmo-um-hotel,
tinha dito alguma coisa no carro. Se ao menos me conseguisse lembrar!
Tinha dito… tinha dito que agora íamos ficar em segurança. Que já
ninguém nos ia fazer mal, porque o meu pai… o meu pai não ia
conseguir encontrar-nos…
E, de um momento para o outro, como se uma enxurrada de ondas
gigantes me quisesse afogar, lembrei-me da notícia de última hora, das
palavras «SUSPEITO DE HOMICÍDIO» e dos agentes da polícia a
tirarem os chapéus para dizerem que a nossa mãe tinha partido e a Katie
a chorar tanto no hotel-que-não-era-mesmo-um-hotel, que me deixou os
ombros encharcados. E lembrei-me de todos os ruídos, não só de um.
Do estalo lá dentro que me rasgou o coração ao meio, e do outro estalo,
lá em cima no céu. Eu sabia. Sabia que o coração da minha mãe não nos
tinha deixado por querer! Tinha sido roubado. O Pai Tempo tinha
finalmente parado de me pregar partidas e estava a trazer-me de volta
tudo aquilo de que não me conseguia lembrar!
Mas agora eu já não me queria lembrar. Nunca mais. Porque isso
implicava saber que a vida da minha mãe tinha sido tirada por um
ladrão. E que esse ladrão fora o meu pai.
23. 
AS SETE IRMÃS
— Niyah… não chores — pediu o Noah a chorar, indo para cima dos
meus joelhos e tentando limpar-me as lágrimas.
Ouvi gente a fungar na sala inteira e gente a assoar-se, como se
também estivessem de coração partido. Eu não queria chorar à frente
das pessoas. Queria ficar sozinha, dormir e nunca mais acordar. Mas
não conseguia parar de chorar e não conseguia impedir a sensação de
ter a cara a arder outra vez.
A Sra. Audrey estava a limpar uma lágrima e toda a gente à nossa volta
estava em silêncio. Vi o Ben e o Travis limparem a cara e perguntei a
mim mesma se eles saberiam. Queria saber se a Sra. Iwuchukwu sabia,
e também a Sophie. E, se soubessem, porque é que nunca me tinham
dito nada.
— Aniyah — disse baixinho a professora Grewal. — E se agora
fôssemos espreitar a estrela da tua mãe? Provavelmente já sabes, já que
és uma caçadora de estrelas, que temos um dos maiores e mais incríveis
telescópios do mundo a poucas portas daqui.
Olhei para cima, cheia de esperança.
— A sério? — perguntei, e sequei a cara com as minhas mangas de
tigre. — O Noah, o Ben e o Travis também podem vir?
A professora Grewal sorriu.
— Claro! Audrey, gostaria de vir connosco?
A Sra.  Audrey sorriu e levantou-se com tanta energia, que o seu
vestido preto se levantou como uma flor que voltasse a ser um botão.
Estendeu-me a mão.
O Travis e o Ben puseram-se de pé num salto, juntaram-se a mim e ao
Noah, e saímos da sala atrás da professora Grewal, da Sra. Audrey e do
Sr. Withers. Enquanto passávamos pela multidão de homens de fato de
pinguim e senhoras cintilantes que se desviavam para nos deixar passar,
senti mãos a tocar-me nas costas e pessoas a sussurrar «Que corajosa!»
Quando chegámos a uma pequena porta atrás do palco, o Sr. Withers
tirou para fora um cartão, fê-lo passar numa máquina e segurou a porta
para passarmos. Atrás, havia um pequeno corredor. A professora Grewal
e a Sra.  Audrey ficaram ao meu lado enquanto percorríamos vários
corredores, até chegarmos a uma grande porta de ferro que mais parecia
ser a porta de um banco. Em cima, uma tabuleta dizia, em letras
grandes e douradas: «O Grande Telescópio Equatorial, 1893».
— Chegámos — disse a professora Grewal a sorrir, no momento em
que o Sr. Withers pôs a mão no puxador e, com um ruído alto, abriu a
porta, fazendo as luzes acenderem-se.
— Depois de ti, Aniyah — sussurrou a professora Grewal, apontando
para a sala com a cabeça.
Dei um passo em frente no chão de mosaicos vermelhos e pretos, que
parecia um tabuleiro de xadrez interminável, e olhei para cima. À minha
frente estava o telescópio mais comprido e brilhante que eu já tinha
visto, e estendia-se como uma estrada direta para o céu. À sua volta
havia linhas de metal brancas que se cruzavam no teto como uma teia
gigante, até à enorme cúpula pontiaguda acima do telescópio.
Tirando uma chave especial vermelha do bolso, a professora Grewal foi
até uma caixa de metal colocada a grande altura na parede, abriu-a e
enfiou a chave num buraco junto a um botão amarelo.
— Discos devoradores… — sussurrou o Ben, ao mesmo tempo que o
Noah me agarrou na mão e o Travis ficou de boca aberta.
Ficámos todos a ver como, lá de cima, a rede começou a mover-se e a
cúpula começou a dividir-se, como pálpebras gigantes a abrir-se.
Depois de a professora Grewal ter feito o olho abrir-se completamente,
sentou-se numa cadeira especial e pôs-se a girar várias rodas, botões e
discos para fazer o telescópio virar-se e inclinar-se de forma a conseguir
procurar a estrela da minha mãe.
— Será que isto ajuda? — perguntei, lembrando-me de repente do
mapa estelar que tinha feito.
A professora Grewal abriu a folha de papel, agora muito amachucada,
e segurou-a contra a luz para ver melhor.
— Isto está muito bem — disse ela, e a Sra. Audrey também se pôs a
olhar. — Onde é que desenhaste isto? — perguntou, a olhar para mim
com um sorriso.
— Da minha janela, em casa da Sra.  Iwuchukwu — disse eu. — A
janela das traseiras, não da parte da frente.
— A Sra. Iwuchukwu? — perguntou a professora.
— A nossa mãe de a-acolhimento — explicou o Travis, dando um
passo em frente e depois recuando outra vez, como se estivesse a falar
com um general.
— Ah — disse a professora Grewal.
Levantou-se e foi ter com o Sr. Withers, falando com ele em sussurros
ao mesmo tempo que ele ia digitando coisas num grande computador.
Lá em cima, o telescópio gigante moveu-se para a esquerda, depois para
baixo, para cima e novamente para baixo, até que, finalmente, o
Sr. Withers disse:
— Ah-ah!
— Já encontrei — afirmou a professora Grewal. — Vem aqui ver,
Aniyah.
Pondo-me na cadeira para que eu conseguisse ver melhor, a professora
Grewal ajudou-me a pôr o olho de maneira a conseguir ver pelo
telescópio. Durante alguns segundos, ficou tudo preto, mas depois vi-a.
Uma bola de luz azul-esbranquiçada incandescente.
Encostei melhor o olho ao ocular e sussurrei:
— Olá, mãe!
Por instantes, a estrela pareceu brilhar com mais força, como se me
tivesse ouvido.
— Eu quero ver a mãe! — sussurrou o Noah, a puxar-me a cauda.
A professora Grewal ajudou-o a subir para o meu colo e mostrou-lhe.
— Onde? Onde? — perguntou ele vezes sem conta, até finalmente
parecer estar a ver a nossa mãe, acenando-lhe e mandando-lhe um beijo
sonoro.
— Aonde é que ela vai? — perguntei.
Lembrei-me de que, nas notícias, diziam que ela estava a viajar pelo
céu e pensei se ela teria desafiado as leis da Física por estar a tentar ir
para um sítio especial.
— Vamos ver, sim? — disse o Sr.  Withers, movendo o telescópio
alguns milímetros para o lado através de um disco. Confirmou que
estava onde ele queria que estivesse e deu-mo para olhar de novo. —
Consegues ver uma forma feita de estrelas azuis especialmente
brilhantes? — perguntou. — Como as Três Marias, mas mais comprida
e composta por quatro estrelas grandes em vez de três, um pouco como
uma cauda torta?
Acenei, porque o telescópio era tão grande e poderoso, que consegui
ver a forma sem sequer terde a imaginar!
— E, abaixo dessas quatro estrelas brilhantes, consegues ver outras
três, que formam uma espécie de gancho?
Fiz outra vez que sim e tentei não pestanejar. Não queria esquecer-me
nunca do que estava a ver.
— Essas sete estrelas formam um conjunto especial chamado a
constelação das Plêiades, ou as Sete Irmãs — explicou o Sr. Withers. —
São as irmãs mais brilhantes e mais famosas de todo o universo, porque
são as mais próximas da Terra. Estão lá desde o início dos tempos, a
olhar para nós. É como se cada uma daquelas estrelas fosse cem vezes
mais brilhante do que o nosso Sol.
— A sério? — perguntei.
— Uau! Incrível! — exclamou o Ben.
— Porque é que se chamam as Sh-Shete Irmãs? — perguntou o Travis,
chegando-se mais perto do telescópio.
— Talvez a Sra.  Audrey saiba responder a isso — disse a professora
Grewal a sorrir.
— Por acaso, até sei, porque fiz de uma das irmãs num filme —
assentiu a Sra.  Audrey, fazendo uma festa no cabelo do Noah e
apertando-me levemente os ombros. — Diz a lenda que as sete irmãs
foram um dia as mulheres mais bonitas na Terra e aquilo que mais
gostavam de fazer era dançar à noite ao relento. Mas, um dia, um
caçador chamado Orionte quis levá-las e perseguiu-as sem parar.
Perseguiu-as durante sete anos, o que fez as irmãs terem muito medo e
ficarem exaustas. Então, Zeus, o deus dos céus e dos trovões, decidiu
escondê-las de vez, de maneira a que Orionte nunca lhes conseguisse
chegar, transformando-as em estrelas!
— Uau! — disse outra vez o Ben.
— E não se ficou por aí — continuou a Sra. Audrey, com um sorriso.
— Também transformou Orionte numa constelação, e colocou-a do
outro lado do céu, para que ele nunca, nunca mais chegasse perto das
sete irmãs e para que elas ficassem para sempre seguras!
— A-Ainda bem! — exclamou o Travis com raiva.
— Ora bem, a razão por que estamos a mostrá-las à Aniyah é… —
disse a professora Grewal.
A professora Grewal parou de falar no momento em que se começou a
ouvir vozes, gritos e passos à distância.
O Ben e o Travis olharam para mim com os olhos cheios de medo e
surpresa.
— Ah, estão aqui! — exclamou uma voz quando a porta da Sala
Equatorial se abriu de rompante.
— MÃE! — gritaram juntos o Ben e o Travis quando a
Sra. Iwuchukwu entrou disparada na nossa direção e começou a chorar,
a abraçar-nos e a tocar-nos na cara.
A Sophie vinha atrás dela, mas estava toda vermelha. Parecia
embaraçada e não parava de virar a cabeça para olhar para o Frank e os
dois agentes da polícia que seguravam os seus capacetes nas mãos.
Fiquei a ver o Ben pedir desculpa e o Travis fazer o mesmo com um
gesto de cabeça, o Noah ficar com um ar assustado, mas feliz, e a
Sra.  Audrey dar um aperto de mão a toda a gente, mas não consegui
mexer-me nem falar para dizer o que quer que fosse. Sentia-me
paralisada no tempo e só conseguia ver toda a gente a andar de um lado
para outro e a sentir as coisas independentemente de mim.
— Como é que vieram para aqui tão depressa? — perguntou o Ben, a
abraçar a Sra. Iwuchukwu com tanta força, que ela teve de lhe soltar os
braços e pedir-lhe que a deixasse respirar.
— Nós já estávamos com a polícia em Londres! — afirmou a
Sra.  Iwuchukwu a chorar, com a cara tão molhada e reluzente que
parecia um rinque de gelo pronto a estrear. — Viemos de manhã, mal
soubemos que estavam na Estação Victoria, mas a polícia perdeu-vos!
Depois houve uma senhora que disse que vocês tinham ido todos para o
túnel pedonal de Greenwich, mas, mais uma vez, não conseguimos
chegar a tempo!
— Ah! A shenhora d-dos gelados! — lembrou-se o Travis, contente.
— E ainda bem, porque, se não fosse assim, acho que enlouquecia —
disse a Sra. Iwuchukwu a abanar a cabeça. Depois virou-se para mim e
perguntou: — E então, que história é esta da estrela?
Toda a gente olhou para mim, mas eu continuei a olhar para o chão.
Uma coisa escarlate e em brasa começava a crescer dentro de mim, e
tinha de a deixar sair. Estava a doer muito.
Olhei para a Sra. Iwuchukwu e perguntei-lhe:
— Sabia… aquilo do meu pai, e aquilo que ele fez à minha mãe?
Ouvi a Sra.  Audrey fungar e vi o Noah olhar para mim com um ar
confuso e o Ben e o Travis ficarem com um ar preocupado.
A Sra.  Iwuchukwu não disse nada, mas chegou-se ao pé de mim e
agarrou-me nas mãos.
— Sim, Aniyah, sabia. Tenho o dever de saber. E de te proteger.
Vi os olhos pintados da Sra.  Iwuchukwu encherem-se de lágrimas, e
os da Sra. Audrey também.
— A Sra.  I. fez-nos prometer que não dizíamos — disse baixinho o
Ben, vindo também para junto de mim. — Mas é porque não devemos
falar-te de coisas que te possam fazer mal, e nós não queríamos dizer
nada de mal. Não foi por estarmos com segredos, nem nada disso.
O Travis acenou depressa com a cabeça e depois olhou para mim
através da franja.
Comecei a sentir gotas de água a arder-me nos olhos e a cair-me pelas
bochechas. Parecia que todos me tinham mentido.
— Eu sei que vai ser difícil lembrares-te de tudo, querida — disse a
Sra.  Iwuchukwu, agarrando-me nas mãos com mais força. — E sei
como as coisas podem parecer confusas e como tudo isto é injusto. Mas
estamos todos aqui para te ajudar, ouviste?
Toda a gente acenou com a cabeça, e o Noah agarrou-se ao meu braço,
com a cara toda molhada.
— Oh, Aniyah! Sentimos muito! — disse a professora Grewal.
Também estava com a cara molhada e a maquilhagem dos olhos
começava a escorrer-lhe pelas faces, o que quase a fez parecer um
panda.
Respondi com um aceno de cabeça e tentei secar os olhos, mas eles
não paravam de escorrer. Abri a boca para dizer a toda a gente que não
fazia mal, porque o coração da minha mãe era tão forte, que não nos
tinha perdido e nunca nos ia deixar, e que eu tinha a sorte de ter visto o
coração dela a arder no céu. Mas, em vez de proferir palavras, o meu
corpo começou num longo pranto.
A Sra.  Iwuchukwu chegou-me a ela, abraçou-me com força e não
deixou que eu a afastasse. Ao mesmo tempo, a Sra. Audrey abraçou-me
por trás.
— Nada disto é por tua culpa, Aniyah — sussurrou a Sra. Iwuchukwu,
fazendo-me festas no cabelo e dando um suspiro longo e triste. — A tua
mãe adorava-te, e tu a ela. É só isso que importa.
Abri outra vez a boca, porque queria dizer que não era só isso que
importava. É que eu não a tinha salvado. Ninguém a tinha salvado! Mas,
em vez disso, a minha garganta fez outro som de choro e depois ficou
em silêncio.
Depois do que me pareceu uma eternidade, comecei a sentir o ardor
nos olhos desaparecer. Uma mão agarrou-me nos dedos, que estavam
esmagados debaixo dos braços da Sra. Iwuchukwu. A princípio, pensei
que era o Noah, porque nunca ninguém me agarrou nos dedos além da
minha mãe e do Noah, mas, quando olhei para baixo, vi que a mão era
branca e cheia de sardas.
Olhei para trás da Sra. Iwuchukwu, surpreendida. A Sophie estava de
pé à minha frente, com os olhos vermelhos e em lágrimas.
— Toma — disse ela, entregando-me o meu medalhão. — Desculpa
ter-to tirado.
Afastei a Sra. Iwuchukwu e olhei para o medalhão que tinha na mão.
Era estranho tê-lo de volta, agora que sabia que o meu pai era um ladrão.
De alguma forma, já não era a mesma coisa. Sabia que nunca mais ia
conseguir usá-lo, mas também sabia que queria ficar com ele, por causa
da minha mãe.
Nesse momento, o Frank voltou a entrar na sala. Ficou a segurar na
porta e disse:
— Está tudo pronto. É altura de ir.
24. 
A ESTRELA QUE VEJO DA MINHA JANELA
— Estamos mesmo prontos? — perguntou a professora Grewal, agora
com os olhos de panda em muito pior estado.
O Frank confirmou.
— Está tudo preparado. A Sra. Audrey só tem de conduzir!
A professora Grewal ajudou-me a sair do assento do telescópio e deu-
me um abraço tão apertado, que tive de suster a respiração.
— Aniyah, acho que és uma menina muito especial e que a tua mãe
deve ter sido mesmo muito especial por ter posto no mundo uma pessoa
como tu.
Acenei com a cabeça, mas só porque sabia que a minha mãe era muito
especial, não eu.
— E, porque ela era tão especial e tu és tão especial e o Noah é tão
especial… — disse a professora Grewala olhar para o Noah e fazendo-
lhe uma festa na cara. — Bom, vamos lá… vais ver!
A Sra.  Audrey estendeu-me o braço. Enlacei o meu braço no dela, a
professora Grewal deu o braço ao Noah, e o Ben, o Travis, a Sophie, a
Sra. Iwuchukwu e o Sr. Withers saíram atrás de nós.
— Cuidado aí — avisou o Frank, abrindo as portas de metal para que
passássemos e piscando-me o olho.
Fizemos o caminho de volta pelos corredores, com o Travis, o Ben e a
professora Grewal a tentarem ajudar-me a andar junto deles ao pé-
coxinho, e entrámos de novo na grande sala com o palco e o ecrã de
cinema e as mesas cheias de pessoas com diamantes e fatos de pinguim.
Assim que as portas se abriram, houve milhares de câmaras a disparar e
a zumbir freneticamente. Algures ao longe, as pessoas começaram a
bater palmas e a gritar «Bravo!», e a professora Grewal e o Sr. Withers
fizeram-nos sentar numas cadeiras mesmo na frente da sala.
— Aqui vamos nós! — sussurrou a Sra.  Audrey, antes de subir ao
palco.
Toda a gente aplaudiu com força e depois, aos poucos, foi-se fazendo
silêncio.
— Senhoras e senhores — anunciou a Sra. Audrey. — Agradecemos a
vossa paciência. Obrigada também àqueles que estão a assistir à emissão
em direto, por terem aguardado até agora.
Parou para acenar à maior câmara da sala e piscou-lhe o olho.
— Hoje, em circunstâncias quase tão únicas, tão especiais e tão
espantosas como o fenómeno que neste momento percorre a nossa
galáxia, tenho o prazer de desvendar o nome da nossa nova estrela!
O ecrã atrás do palco, antes apagado, mostrou as palavras: «A
EMPRESA KRONOS E O OBSERVATÓRIO REAL DE GREENWICH
TÊM O PRAZER DE APRESENTAR…»
— Toquem os tambores! — gritou a Sra.  Audrey, e ouviu-se
novamente o som dos tambores. — E agora, em memória de uma mãe
muito especial e em honra dos seus dois filhotes, que estão aqui
connosco esta noite, a Empresa Kronos e o Conselho do Observatório
Real deliberaram chamar à nova estrela…
A Sra.  Audrey passou para o lado do palco e apontou para o grande
ecrã atrás de si. Oito letras acenderam-se numa escrita dourada, da mais
brilhante que eu já tinha visto:
 
 
Atrás de nós, a sala rompeu num aplauso. O Ben e o Travis saltaram das
cadeiras e puseram-se a dar socos no ar e a dar gritos de alegria, a
Sophie abraçou o Noah e o Noah empurrou-a, e a professora Grewal
agarrou na mão da Sra.  Iwuchukwu com tanta força, que a mão
começou a ficar branca.
— Mas atenção! Não é tudo! — continuou a Sra.  Audrey, usando as
mãos como uma maestrina para silenciar a sala. — Graças aos nossos
«caçadores de estrelas», hoje aqui presentes no observatório, podemos
agora transmitir atualizações em direto da Isabella, enquanto viaja pelo
nosso sistema solar.
O ecrã com o nome da minha mãe alterou-se e voltou a ficar preto.
Mas, desta vez, no meio do preto, via-se um pequeno ponto branco.
Então, o Sr. Withers saltou para o palco e apontou para o ponto.
— Isto aqui é a nossa estrela, a Isabella — disse para o microfone, a
olhar para mim com um sorriso. — E, se a nossa equipa brilhante me
estiver a ouvir, vamos reduzir a imagem para conseguirmos ver em que
direção está a ir.
O ecrã pareceu recuar abruptamente e a estrela da minha mãe foi
ficando mais pequena, mais pequena, mais pequena, até estar rodeada
de vários pontos brancos.
A partir do sítio onde estava o ponto da minha mãe, o Sr.  Withers
começou a desenhar uma linha reta com os dedos e, percorrendo o
palco, apontou para o que parecia serem sete pontos todos em cima uns
dos outros no canto de cima, à direita.
— Parece que a Isabella está a fazer uma trajetória em linha reta em
direção à constelação das Plêiades. Se parar junto delas, como
esperamos, acabará por ficar na melhor das famílias!
Na sala, toda a gente bateu palmas mais uma vez e a professora Grewal
apertou-me os joelhos. Olhei para o ecrã e para os pequenos pontos de
luz para onde a minha mãe se dirigia. Fiquei tão feliz, que até me doeu a
cabeça: a minha mãe nunca ia ficar sozinha! Ia viver com uma família
que a esperava, tal como a família da Sra.  Iwuchukwu tinha esperado
por mim e pelo Noah. Estava a ir ter com uma família que a ia acolher e,
tal como eu, ia ser uma irmã de acolhimento.
 
 
No dia seguinte e nos dois dias que se seguiram, a estrela da minha mãe
apareceu em todos os jornais e todos os canais de televisão. Eu tive de
ficar no hospital durante esses dias, porque os médicos disseram que eu
tinha rasgado alguma coisa junto ao tornozelo que tinha de ser tratada
em condições, o que queria dizer que não me podia mexer. Mas não me
importei, porque o Ben e o Travis me foram levar os jornais todos e a
Sra. Iwuchukwu me deu um livro onde guardar para sempre os recortes
de todos os artigos.
A professora Grewal e o Sr.  Withers não foram visitar-me, mas
enviaram-me um pacote muito especial. Foi o maior pacote que já me
tinham enviado, e a Sra.  Iwuchukwu guardou-o de presente para
quando saísse do hospital e voltasse para casa. Mal entrei em casa e fui
para a sala ao pé-coxinho, o Travis e o Ben correram a buscá-lo e
puseram-no à minha frente, em cima da mesa de café.
— Vá! — disse o Ben, ao mesmo tempo que impedia que as mãos do
Noah abrissem o pacote primeiro. — A menos… que queiras que eu
abra.
Abanei a cabeça.
— Sim, Ben! Deixa que seja ela a abrir! — disse a Sophie, entrando na
sala e indo sentar-se no sofá em frente. — Ela magoou-se no tornozelo,
não nas mãos!
O Ben encolheu os ombros e toda a gente se debruçou para ver.
— Espera! Espera! — exclamou a Sra.  Iwuchukwu, entrando na sala
com uma câmara na mão. — Pronto! Agora sim, FORÇA! — indicou,
pondo-se atrás da Sophie e levantando a câmara.
Assim que comecei a rasgar a embalagem com as mãos, e depois com
os dentes, a Sra. Iwuchukwu começou a fazer disparar a câmara.
— Uau! — disse o Ben, no momento em que uma bola gigante de
plástico-bolha saiu lá de dentro.
— É shó a em-embalagem! — suspirou o Travis, e abanou a cabeça.
Desembrulhei o plástico-bolha e, lá dentro, dei com um pequeno
envelope dourado e uma caixa preta e quadrada.
— É um relógio Kronos! — exclamou o Ben a apontar para a caixa, e
depois deu um salto e agarrou o cabelo. — É o relógio! Só pode ser o
relógio! Ena, pá!
— Aniyah, porque não começas pelo cartão? — perguntou a
Sra. Iwuchukwu a sorrir. — Tenho a certeza de que há de explicar tudo.
Disse que sim com um gesto de cabeça, peguei no envelope e tirei o
pequeno cartão branco que vinha lá dentro.
Dizia assim:
 
Querida Aniyah,
Enviamos-te um presente da parte dos Relógios Kronos: um relógio único,
feito à mão, para comemorar os 250 anos da empresa. Este presente foi
aprimorado com um desenho do nome da tua mãe, criado e oferecido com
carinho pela Sra. Audrey Tahania.
Acreditamos que nos virás visitar em breve para nos contares as evoluções
que tens feito no campo da caça às estrelas! Até lá, deixamos-vos, a ti, ao
Noah, ao Travis e ao Ben, na esperança de que os vossos dias e as vossas
noites sejam cheios de luz e poeira cósmica.
Um abraço,
Prof.a Jasmine Grewal e Sr. Alex Withers
 
Com o Noah e o Ben debruçados sobre mim, pousei o cartão e peguei na
caixa preta. Carreguei para a abrir e ficámos todos a olhar. Ninguém fez
um som que fosse, nem bateu palmas nem agarrou nele. Porque era
demasiado bonito para que tivéssemos vontade de o fazer. Em vez disso,
ficámos só a olhar durante muito tempo.
Era o relógio que tínhamos visto no site do Maior Concurso da Galáxia.
Tinha exatamente os mesmos números prateados a toda a volta, o
mesmo ponteiro grande com uma estrela cadente prateada, o mesmo
ponteiro pequeno com uma lua crescente e a mesmas letras minúsculas
douradas que diziam «Kronos 250» no centro. Mas, no mostrador azul-
marinho, em vez de estarem espalhadas ao acaso, as estrelas minúsculas
brilhantes estavam dispostas como numa constelação e, juntas,
formavam a palavra Isabella.
Segurei o relógio nas mãos e sorri. O nome da minha mãe ia passar a
estar no meu pulso para todo o sempre e eu e o Noah tínhamos dois
novos irmãos e uma irmã para voltarmos a sentir quetínhamos uma
família. Mas, principalmente, a estrela da minha mãe também tinha
encontrado um lar, mesmo em frente à minha janela, onde eu podia
encontrá-la sempre que quisesse, e de onde ela ia poder olhar sempre
por todos nós. Por isso, quando a Sra.  Iwuchukwu voltou a levantar a
máquina fotográfica, olhei diretamente para a lente redonda e reluzente
e fiz o meu melhor sorriso, porque sabia que tinha tudo aquilo de que
alguma vez podia precisar para ser a caçadora de estrelas mais sortuda à
face da Terra.
 
 
UM SINCERO AGRADECIMENTO POR CONTRIBUÍRES PARA A
HERSTORY
Sabias que, ao leres, comprares ou pedires este livro emprestado, estás a
contribuir para a Herstory?
Alguém que contribui para a Herstory é uma pessoa muito especial:
alguém que ajuda a proteger e a salvar mulheres e crianças (tal como a
Aniyah, o Noah e a mãe deles) que têm de viver num ambiente de
violência em que nunca ninguém devia viver.
Ao apoiares este livro, estarás a mudar histórias para melhor, porque a
autora irá oferecer uma parte dos direitos de autor que receber à sua
associação, a Making Herstory. Esta associação destina-se a ajudar os
sobreviventes de abusos — adultos e crianças — a compreender os seus
direitos, a saber aonde se devem dirigir para pedir ajuda e a receber
aquilo de que precisem para estar em segurança. Por isso, obrigada por
fazeres parte disso e por nos ajudares a fazer do mundo um lugar mais
seguro.
 
O QUE É A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA?
Nesta história, a Aniyah, o Noah, o Ben e o Travis já viram ou já viveram,
de formas diferentes, casos de Violência Doméstica.
A Violência Doméstica é o ato de uma pessoa tentar magoar, controlar
ou assustar outra. Há várias formas de um agressor (a pessoa que
magoa) maltratar alguém. Pode recorrer à violência física, mas também
pode usar palavras com a intenção de causar dor ou medo, ou fazer de
propósito para que a outra pessoa se sinta confusa, estúpida ou menos
confiante. Muitos agressores também tentam controlar as suas vítimas
distanciando-as dos amigos e da família ou restringindo-lhes o acesso ao
dinheiro.
O ato de magoar ou tentar controlar outro ser humano é contra a lei e
ninguém devia ter de viver nessa realidade, seja qual for a sua idade.
 
ALGUNS FACTOS E QUESTÕES QUE OS COMPUTADORES
HUMANOS PODERÃO EXPLORAR…
A história da Aniyah pode ter despertado uma série de questões. Se
quiseres saber mais sobre as problemáticas reais que inspiraram esta
história, podes pedir aos teus pais, a um professor ou a outro adulto de
confiança para visitar contigo o site makingherstory.org.uk, onde
encontrarás factos e questões a discutir.
 
AS ESTRELAS NESTA HISTÓRIA
No início de cada capítulo (e no final do último!), há um desenho de
uma constelação. As constelações são muito especiais, porque, tal como
disse a Aniyah, contam uma história.
Aqui ficam os nomes das constelações de cada capítulo. Esperamos
que te divirtas a descobrir as suas histórias e de que forma elas se
relacionam com as aventuras da Aniyah…
 
CAPÍTULO 1 LEÃO E LEÃO MENOR CAPÍTULO 13 O COMPASSO
CAPÍTULO 2 LIRA CAPÍTULO 14 GÉMEOS
CAPÍTULO 3 CISNE CAPÍTULO 15 POMBA
CAPÍTULO 4 TOURO CAPÍTULO 16 GOLFINHO
CAPÍTULO 5 FLECHA CAPÍTULO 17 ERÍDANO
CAPÍTULO 6 RELÓGIO CAPÍTULO 18 POPA
CAPÍTULO 7 LEBRE CAPÍTULO 19 ORÍON
CAPÍTULO 8 AURIGA CAPÍTULO 20 ESCUDO DE SOBIESKI
CAPÍTULO 9 HIDRA CAPÍTULO 21 COROA BOREAL
CAPÍTULO 10 ESCORPIÃO CAPÍTULO 22 BALANÇA E VIRGEM
CAPÍTULO 11 CINZEL CAPÍTULO 23 OFIÚCO, O SERPENTÁRIO
CAPÍTULO 12 PEIXES CAPÍTULO 24 PLÊIADES
NOTA DA AUTORA
Desde que me lembro, sempre tive consciência de como a vida pode ser
injusta para as raparigas — raparigas cujo destino é virem a ser
mulheres. Essa questão influenciou de tal forma a minha infância, que
estavam constantemente a repreender-me por fazer «demasiadas
perguntas». Perguntas como: porque é que nunca havia uma Tartaruga
Ninja Mutante e Adolescente feminina? Porque é que havia um filme do
He-Man, mas não um filme da She-Ra? Porque é que me chamavam
«maria-rapaz» por preferir jardineiras e basquetebol a bonecas Barbie e à
apanhada com beijinhos? Porque é que eu não podia ser eu,
simplesmente? E porque é que, na escola, sempre fui gozada por ser a
«menina dos professores» por querer ter as melhores notas, enquanto
os rapazes igualmente ambiciosos nunca o eram?
À medida que fui crescendo, estas reflexões passaram a ser questões
que me causavam frustração. E, mais tarde, tanto na universidade como
na minha vida profissional, sempre me abalou muito assistir à
universalidade da luta das mulheres pelo direito básico de serem
tratadas de forma humana e com o mesmo grau de dignidade e respeito
que os homens.
No entanto, apesar dos meus estudos, da minha consciência e das
minhas inquietações, não estava minimamente preparada para o abalo
que o meu mundo havia de sofrer a 5 de julho de 2011, quando uma
familiar querida — que tão desesperadamente tentámos libertar de um
homem perigoso e violento — perdeu a vida. A minha tia, Mumtahina
«Ruma» Jannat, lutou cinco anos a fio para salvar a própria vida,
recorrendo a todos os meios ao seu alcance para provar que corria perigo
a quem quisesse ouvir. Mas ninguém acreditou nela, nem mesmo os
juízes responsáveis pelo seu processo.
Em 2012, lancei oficialmente a Making Herstory em sua memória.
Trata-se de uma associação com um objetivo simples: mobilizar todas as
pessoas que conseguirmos para fazer frente a todas as formas de
violência contra mulheres e raparigas. Nunca imaginei que escreveria
um livro infantojuvenil inspirado nas experiências de algumas das
muitas mulheres e crianças mais corajosas que conheci em incontáveis
refúgios para mulheres, nem mesmo na minha tia. Mas aqui está ele…
na esperança de que talvez possa, de alguma forma, ajudar alguém a
libertar-se.
SE FORES UM PEQUENO SOBREVIVENTE…
Se, tal como a Aniyah, o Noah, o Ben ou o Travis, tiveres sofrido maus-
tratos ou viveres com medo das ações de um adulto no teu mundo —
seja em casa, seja fora dela —, há muitas pessoas maravilhosas prontas
para te ajudar.
A coisa mais importante a recordar é que não estás só e que o primeiro
passo para pedir ajuda, para ti ou para aqueles que amas, é contar a
alguém.
É algo que pode ser especialmente difícil quando a pessoa que te
provoca medo ou sofrimento é alguém que conheces; no entanto, é
essencial. Poderás querer dizê-lo a um professor ou médico, mas, se
sentires que não consegues falar com ninguém que conheças, podes a
qualquer altura contactar a linha SOS Criança, para o 116  111, um
número gratuito que funciona todos os dias do ano, 24 horas por dia.
 
Lembra-te sempre de que, se te encontrares em perigo imediato, deves
ligar para o 112, ou pedir a alguém que ligue por ti.
PARA OS MAIS CRESCIDOS…
Se for um sobrevivente adulto, ou souber de alguém que o seja, poderá
procurar ajuda:
 
 Ligando para o número 800 202 148, do Serviço de Informação
às Vítimas de Violência Doméstica, um número gratuito que
funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano.
 Enviando mensagem para o número 3060, se não puder falar
ao telefone.
 Ligando para o número 116 006, da linha de Apoio à Vítima da
APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), que funciona
das 9 às 21 horas nos dias úteis.
AGRADECIMENTOS
Desde a sua conceção até à sua concretização na forma de livro, esta
história foi dos empreendimentos mais difíceis da minha vida. Não teria
sobrevivido à jornada sem as pessoas que se seguem e, apesar de não
estar certa de que as palavras alguma vez lhes possam fazer justiça, não
posso deixar de tentar…
Às minhas eternas fortalezas, a minha mãe e o Zak: obrigada por me
aturarem nos meus dias de «Gollum», quando andava às voltas com esta
história. Conseguiram a proeza de me manter hidratada e alimentada
enquanto me debatia com o meu Mordor interior, e de me trazer de volta
ao The Shire (esta metáfora seria hilariante se não fosse penosamente
verdadeira — e se os meus pés não fossem peludos como são!). Nunca
vos poderei agradecer o suficiente. Zak, estou em infinitadívida para
contigo por me recordares aquilo que o Mufasa disse ao Simba n’O Rei
Leão. A nossa obsessão de infância pelos desenhos animados da Disney
acabou finalmente por compensar!
À minha cavaleira de escudo literário, uma agente que competiria
ferozmente com o James Bond pelos martínis, Silvia Molteni:
permaneço sem palavras capazes de expressar a influência que
continuas a ter nas enormes revoluções pelas quais a minha vida tem
passado. O meu respeito é profundo e só posso esperar que, um dia,
consigas ver pelos teus próprios olhos a forma como a fé que depositas
em mim influenciou, não apenas a mim, como também os mundos que
formam o meu. Obrigada por me compreenderes, por tomares conta de
mim e por me guiares no meio da desorientação deste ano que passou.
Sem a tua presença, estaria literalmente perdida.
Este livro nunca teria ganhado forma, nem tão-pouco em pensamento,
sem uma pessoa: Lena McCauley, uma editora que supera de longe
qualquer editor que jamais tenha existido. Como o par ideal numa sala
de partos, segurou-me nas mãos, respirou, fez sinais com a cabeça,
encorajou-me, manteve a distância, sussurrou e conduziu-me na incrível
dificuldade que foi trazer mais um livro ao mundo. Não creio que
alguma vez venha a mentalizar-me de que isto é mesmo verdade e de
que este segundo livro é real, feito de átomos verdadeiros. És a outra
criadora deste livro, e tanto ele como eu sabemos, enquanto ele dá os
primeiros passos no mundo, que não podíamos desejar ninguém
melhor. Obrigada, do fundo do meu coração e até ao cimo de todas as
estrelas do meu céu, pela tua incrível calma e paciência e por me dares
todo o espaço de que precisava para arrancar de mim esta história. Aqui
está! Conseguimos! De verdade!
Pippa Curnick: acho sinceramente que há magia no seu pincel.
Obrigada por mais uma belíssima capa e por expandir o mundo interior
da história com a sua visão e criatividade. Nada daquilo que me ofereceu
é menos do que espantoso. Emma Roberts, Alison Padley e Sophie:
estou muito grata a todas por colocarem a vossa revisão rigorosa, o vosso
design e as vossas competências editoriais ao serviço desta história,
tornando-a mais coesa e mais do que pronta a ser publicada.
Ao meu grande maestro, Dominic Kingston: obrigada pelo enorme
esforço, pela dedicação e pela infinita capacidade de fazer com que as
relações públicas pareçam fáceis. Juntamente com a minha família de
relações públicas da Hachette — Becci Mansell, Emily Thomas, Fiona
Evans e Lucy Clayton (e, agora, o James McParland) —, têm sido tão
incríveis no apoio que me têm dado neste turbilhão que é uma pessoa
tornar-se Autora de Verdade, que me sinto profundamente abençoada.
Estou em dívida para com todos, e também para com a Helen Thomas e
a Ruth Alltimes — toda uma vida de chás e pelo menos três mil viagens
de carrossel por terem a capacidade de me estabilizar.
A Anoushka Khan, querida amiga e psicóloga clínica que dá tudo de si
a ajudar crianças a lidar com todas as crueldades inimagináveis que a
vida lhes pode trazer: quero agradecer os conselhos serenos e a
maravilhosa ajuda que me deu para garantir que eu entendia as
confusões, os desgostos e os procedimentos frustrantes com que se
deparam as crianças que têm de viver com realidades impensáveis. Não
podes imaginar a gratidão que sinto por me teres apresentado ao David
Trickey e à Katherine Mautner no Centro Anna Freud, que figuram
nesta história pela amabilidade, o tempo e os conhecimentos que me
dedicaram. Desejo a todos um longo caminho no trabalho fundamental
que realizam junto de crianças que merecem que o mundo lhes dê
muito mais amor e apoio.
Aos dedicados voluntários, guias e astrónomos do Observatório Real
de Greenwich: obrigada por se darem ao trabalho de responder às
minhas perguntas, por mais preocupantes que possam ter parecido
(tendo em conta as questões sobre invasão da propriedade alheia,
esquilos e estrelas a cair nos hemisférios)! Um agradecimento especial a
Megan Soley por me deixar assistir a espetáculos esgotados de
observação de estrelas; ao Greg, o Voluntário, que me deixou carregar no
botão para rodar O Grande Telescópio Equatorial — foi o ponto alto da
minha vida —, e a Kirsty Schaper, Sheryl Twigg, Brendan Owens,
Elizabeth Bowers e James Gill, pela rapidez com que agiram para
garantir que tínhamos entendido tudo.
Às almas maravilhosas que apoiaram a Making Herstory (MH) no seu
sonho de erradicar todas as formas de violência contra mulheres e
raparigas: vocês iluminam o meu mundo. Remona Aly (que me faz
bater o coração); Micky e Sandy Youngson (no seu esforço conjunto para
endireitar o mundo); Lusa Nsenga Ngoy (a calma no meio da
tempestade); Doreen Samuels (uma verdadeira campeã no que toca a
corações); Elisabeth Grellet (que, pela MH, foi de bicicleta de Londres a
Paris — nunca o esquecerei); Yasmin Ishaq (rainha da mobilização e
guerreira de gema); Jude Habib (obrigada por me ajudares a confrontar
as minhas histórias); Alexandra Barker (que estabelece pontes,
juntamente com a Fundação Paul Hamlyn); Karen Ingala-Smith e o NIA
(os vossos feitos salvíficos inspiram-me: por favor, continuem); Satdeep
Grewal e Alex Thomas (também conhecidos por Professora Grewal e
Alex Withers! — obrigada por serem as minhas Flores da Esperança)
juntamente com Rabia Barkatulla (são os meus eternos guardiões da
MH); Nadia Abouayoub (por estar lá desde o início); Selma Avci e
Turgay Ozcan (almas gémeas em todas as lutas!); Asha Abdillahi
(querida apoiante); Sughra Ahmed (minha pedra de toque!); Piya Muqit
(guerreira até ao fim); Shaista Chisty (espantosa); Ayisha Malik
(Suprema Autora e Inspiração de Toda uma Vida); Sumiya Hemsi
(acérrima defensora de tantos sobreviventes); Julie Siddiqi (CFV –
Companheira Feminista para a Vida); Homaira Sofia Khan e Atif Butt (a
quem mais recorro para efeitos de cura); Rose Sanders (a mais fiel
contribuidora para a Herstory Maker); John Crawford e Victoria Dyke (os
meus padrinhos encantados); Kamilah, Eshan, Zahir, Inara e Rayan (que
curaram o meu coração), e a todos aqueles que contribuíram para a
Herstory, resolvendo ajudar mulheres e raparigas dos nossos mundos:
posso garantir que não estaria aqui se não fosse por cada um de vós.
Não posso terminar este livro sem escrever o nome daquela cuja vida
— e morte — mudou para sempre o meu mundo. O seu nome era
Mumtahina «Ruma» Jannat. Há três coisas que o mundo tem de saber
acerca da minha tia Ruma. Fazia o pudim de caramelo mais delicioso
que alguma vez se possa imaginar. Raramente se ria — mas, quando o
fazia, conseguia que qualquer coração se risse também. E amava as suas
duas lindas filhas mais do que qualquer coisa no universo. Tudo factos
que fazem com que me pareça insuportável aceitar que a sua vida nos
tenha sido tirada por um homem que não conseguia suportar que ela
fosse livre dele. Tinha apenas 29 anos. Foi com a lembrança da minha
tia, e das injustiças com que a vida a confrontou, que este livro foi
escrito. Só posso esperar que, se fosse viva, ela reagisse à sua criação
com um sorriso, um aceno de cabeça e um abraço em jeito de aprovação.
A todas as mulheres e crianças que atualmente lidam com Violência
Doméstica, saibam que não estão sozinhas e que existem muitas
pessoas incríveis que lutam com todas as forças que têm para mudar as
leis e os sistemas injustos que hoje regem o nosso mundo. Espero que
um dia encontrem o caminho para a segurança e a liberdade e que
possamos todos — homens e mulheres — libertar-nos de todas as
formas de violência tóxica.
A todos os pais adotivos que resolvem ajudar crianças a pôr fim a um
caos que elas não criaram: quero dizer que são verdadeiramente
incríveis. Em particular, quero deixar uma palavra de carinho e gratidão
profunda aos meus tios adotivos, Sabia Begum e Afsorul Islam, o casal
que veio, lutou e acabou por amar as minhas sobrinhas como se fossem
mesmo suas filhas, enquanto a minha própria família se desintegrava.
Foram os pais adotivos dos nossos sonhos e sararam os nossos mundos.
Obrigada por amarem a Maeesha e a Kasheefa dofundo do coração.
A todas as crianças em busca de amor e de um lar: espero que os
encontrem em abundância brevemente e que venham a conhecer quem
vos amará por tudo o que são. Por mais altas que possam vir a ficar.
Por fim, a mais profunda gratidão no meu coração é para com Deus:
por todos os momentos que Ele(a) me continua a oferecer e por todas as
histórias que me chegam.
LÊ TAMBÉM O OUTRO LIVRO MARAVILHOSO DESTA AUTORA!
Há um colega novo na turma. Ele senta-se sempre na última �la, mas não
fala com ninguém nem olha para ninguém. Este rapaz enigmático e
misterioso não sorri. O seu nome é Ahmet.
Intrigados, quatro meninos muito especiais tentam fazer amizade com ele
e conhecer a sua história. Descobrem que o Ahmet é um rapaz refugiado
que foi separado da família. Ele teve de abandonar o seu país para fugir à
guerra.
Uma vez que nenhum adulto consegue ajudar o Ahmet a reencontrar a
família, o quarteto de amigos elabora um plano audaz — nada mais do
que A Melhor Ideia do Mundo — que os levará numa aventura
extraordinária envolvendo a própria Rainha de Inglaterra!
 
Edição original
Título: The Star Outside My Window
Texto: © 2019 Onjali Q. Raúf
Ilustrações: © 2019 Pippa Curnick
Publicado pela Orion Children’s Books,
uma chancela do Hachette Children’s Group, Londres.
Todos os direitos reservados.
 
Edição em português
Título: A Estrela Que Vejo da Minha Janela
Tradução: Maria Leitão
Revisão: Débora Morais
Paginação eletrónica: Wonder Studio
ISBN edição impressa: 978-989-564-260-1
ISBN edição ePub: 978-989-564-425-4
 
1.a edição: janeiro de 2021
Versão 1.0 • janeiro de 2021
 
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perguntas. Esta garantia é adicional aos seus direitos de consumidor e em nada os limita.
 
Os eventos e as personagens deste livro são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas reais,
vivas ou mortas, é pura coincidência e não intencional por parte da autora.
 
Também disponível em versão impressa.
	Antes de levantarmos voo…
	1. Um mapa estelar
	2. As regras da casa de acolhimento
	3. O fenómeno no céu
	4. A estrela da minha mãe
	5. O maior concurso da galáxia
	6. As partidas do tempo
	7. A detetive secreta
	8. A missão ultrassecreta da meia-noite dos caçadores de estrelas!
	9. Duas caras
	10. O dia perdido
	11. O tigre, o guarda-roupa e a bruxa
	12. A fuga não-tão-secreta
	13. O longo caminho para a via lógica
	14. A noite dos quatro contos
	15. Artigos estranhos e suspeitos
	16. Notícia de última hora!
	17. Por Cima e Por Baixo do chão de Londres
	18. Estibordo
	19. Passar a linha negra e fina
	20. Um trabalho de loucos
	21. A maior estrela de Hollywood
	22. O ladrão que roubou uma vida
	23. As sete irmãs
	24. A estrela que vejo da minha janela
	Um sincero agradecimento por contribuíres para a Herstory
	O que é a violência doméstica?
	Alguns factos e questões que os computadores humanos poderão explorar…
	As estrelas Nesta história
	Nota da Autora
	Se fores um pequeno sobrevivente…
	Para os mais crescidos…
	Agradecimentos
	Lê também o outro livro maravilhoso desta autora!

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