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AULA 5 URGÊNCIAS E EMERGÊNCIAS EM ADULTOS E IDOSOS Prof.ª Talita Rennê Mendonça 2 CONVERSA INICIAL Urgências e emergências traumatológicas Trauma tem origem no idioma grego, e seu significado é de ferida. Entende- se, em termos populares, que traumas se referem a acontecimentos indesejáveis e imprevistos que provoquem lesões ou danos. Para a psicologia, o trauma refere- se aos acontecimentos emocionalmente dolorosos, que tornam o indivíduo sensível ao sofrimento. Na área médica, define-se o trauma por um conjunto de agravos causados por agente físico, podendo atingir deferentes regiões e sistemas do organismo físico. O trauma é considerado doença no Brasil e representa um problema de saúde em todo o mundo, haja vista a significância da morbidade e mortalidade causadas na população. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que, em 2020, 1 em cada 10 pessoas morrem por trauma. Sabe-se que até então, mais de 9 pessoas por minuto morrem por trauma ou violência; 5,8 milhões de pessoas por ano morrem por estas lesões; e que estes números representam 12% do custo das doenças no mundo. Os acidentes automobilísticos são a maior causa de morte mundial por trauma, com a marca de 1 milhão de mortes por ano e média de 20 a 50 milhões de lesões significativas (ACS, 2012). Portanto, melhorar as avaliações, atendimentos e tratamentos dessas ocorrências, por meio da implementação de protocolos cientificamente estabelecidos e eficazes, é a estratégia de maior sucesso, precedida apenas pela prevenção ao trauma. Desde a década de 1980, após um cirurgião ortopedista e sua família sofrerem um grave acidente de avião nos Estados Unidos, alguns cirurgiões e clínicos reuniram-se, com o apoio da Universidade de Nebraska, e formaram o Comitê de Trauma. Sequencialmente, a combinação de aulas, demonstrações de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) e treinamentos práticos originou o curso intitulado Advanced Trauma Life Support (ATLS) – em português, suporte avançado de vida no trauma –, que sistematizou a avaliação e o atendimento do traumatizado (ACS, 2012). As diretrizes do ATLS, mundialmente divulgadas, podem ser resumidas em três conceitos: “tratar primeiro a maior ameaça à vida; a falta de diagnóstico definitivo nunca deve impedir a aplicação do tratamento indicado; a história detalhada não é essencial para se iniciar a avaliação do traumatizado” (ACS, 2012, tradução nossa). 3 Com base nas diretrizes do ATLS (ACS, 2012) e em boas práticas assistenciais recomendadas mundialmente, os atendimentos de urgência e emergência relacionados a traumas pretendem: • avaliar o paciente rápida e precisamente; • reanimar e estabilizar o paciente; • determinar se as necessidades do paciente excedem os recursos do serviço de saúde e integrar o atendimento à rede de urgência e emergência; • providenciar a transferência apropriada conforme necessidades do paciente; • garantir a qualidade e a segurança assistencial desde o primeiro atendimento, durante o transporte, até o nível do atendimento adequado ao paciente. TEMA 1 – TIPOS DE TRAUMAS Consideramos trauma qualquer lesão produzida no organismo por um agente exterior acionado por uma força que se apresenta de diversas formas. Os traumas físicos são caracterizados de acordo com a região do corpo atingida e podem ser: abdominal, cranioencefálico, raquimedular, torácico, nas extremidades, musculoesquelético, pélvico, maxilofacial e ocular. 1.1 Trauma musculoesquelético Traumas relacionados ao sistema musculoesquelético, também chamados de traumas ortopédicos, são muito comuns no dia a dia das pessoas. Esportes, brincadeiras, desequilíbrios e até mesmo um passo em falso podem causar um ou mais traumas desse grupo. Ainda que os atendimentos a essas lesões devam ser urgentes, o trauma ortopédico não costuma resultar em situações de emergência. Os traumas que representam o sistema musculoesquelético são: • Contusão: causada por um trauma direto nos tecidos superficiais e na musculatura, podendo atingir alguma articulação. • Entorse: caracterizada pela ruptura total ou parcial dos ligamentos das articulações. • Luxação: a perda completa de contato entre extremidades de ossos. 4 • Fratura: quebra de um osso, incompleta ou total (quando há descontinuidade completa e do que pode resultar algum desvio). 1.1.1 Fratura As fraturas são traumas resultantes de forças aplicadas aos ossos e que ultrapassaram a resistência óssea, resultando em perda de continuidade. São divididas em fraturas fechadas, expostas e intra-articulares, quanto à característica da lesão. As fraturas fechadas são aquelas em que não há comunicação do meio interno com o meio externo, nas quais a pele não se rompe e permanece íntegra. Ao contrário, fraturas expostas são aquelas em que o foco de fratura entra em contato com o meio externo, por meio da pele, que sofreu uma descontinuidade e na qual houve rompimento dos tecidos. As fraturas intra- articulares são aquelas que ocorrem no espaço articular e com hemorragia – caracterizam-se pela hemartrose (presença de sangue no espaço intra-articular). Quanto ao local em que ocorrem, as fraturas podem ser classificadas em fraturas epifisárias, metafisárias, diafisárias e intra-articulares. A classificação quanto ao alinhamento divide as fraturas em alinhadas, de angulação em valgo e ou varo, angulação anterior e posterior, encurtamento, translocação e rotação. Quanto ao traço, as fraturas podem ser transversas, oblíquas, em espiral, cominutivas, segmentares, por impacto e por compressão. As fraturas geram quadro clínico caracterizado por dor intensa e imediata, com piora dos movimentos; incapacidade funcional; e deformidade, dependendo do alinhamento. As complicações comuns resultantes das fraturas são hemorragia, choque, lesão nervosa e contaminação. No entanto, em casos de complicações, as fraturas podem evoluir para osteomielite, lesão nervosa, embolia gordurosa, gangrena gasosa, consolidação defeituosa, necrose, pseudoartrose e sepse. 1.2 Trauma fechado ou penetrante As colisões automobilísticas, quedas e traumas relacionados a transporte, recreação ou trabalho comumente são traumas fechados, nos quais a gravidade dependerá do mecanismo do trauma. Os ferimentos por arma de fogo, arma branca e os empalamentos (estacas que atravessem o corpo) causam traumas 5 penetrantes, cujo prognóstico dependerá da extensão da lesão, da região corporal lesada e dos órgãos atingidos. 1.3 Trauma térmicos As queimaduras são traumas que ocorrem isoladas e acompanhadas por traumas fechados ou penetrantes. Essas lesões apresentam gravidade de acordo com o local de queimadura (espaço fechado ou aberto), com a extensão da queimadura e com o seu agente causador (tipo de substância). Além disso, a inalação ou intoxicação por monóxido de carbono complicam as lesões das queimaduras. TEMA 2 – ATENDIMENTOS INICIAIS APÓS O TRAUMA A avaliação do paciente que sofreu um trauma precisa ser ágil, para que possam ser tomadas as medidas necessárias de suporte de vida. O atendimento inicial ao paciente em urgência e emergência pós-trauma inclui: triagem, para que não se perca tempo com vítimas de prognóstico reservado; avaliação primária seguida de RCP; transporte do paciente; avaliação secundária, com medidas auxiliares como reavaliação e monitorização contínua do paciente; e decisão do tratamento definitivo. O paciente em situação de urgência e emergência pós-trauma necessita ser reavaliado constantemente para evitar deterioração clínica devido à alteração do estado do paciente. Além disso, apesar de as manobras de RCP serem indicadas em qualquer situação, é necessário julgar e determinar a necessidade dos procedimentos, pois o paciente pode não precisar de todas as etapas. O atendimento pré-hospitalar é fundamental para a manutençãoda vida e o bom prognóstico, por isso é importante que o serviço pré-hospitalar notifique o hospital de referência antes de transportar o paciente e, dessa forma, possibilite que a atenção hospitalar prepare os recursos humanos e materiais para atendimento especializado desde a chegada do paciente. Para o adequado atendimento inicial da atenção hospitalar, pois, é importante que a equipe de pronto atendimento tenha tido a oportunidade de se preparar e aguardar a chegada do paciente. A sala de emergência (área de reanimação e monitorização avançada) deve ser preparada com os materiais e equipamentos necessários para suporte ventilatório em via aérea definitiva 6 (laringoscópios, tubos, ventiladores, bombas de infusão medicamentosa etc.) e estarem disponíveis os equipamentos de monitoração. 2.1 Avaliação primária pós-trauma A prioridade de avaliação será sobre as condições que impliquem risco à vida; mesmo que haja ferimentos evidentes, devemos nos concentrar a lesões que causem alterações na fisiologia do paciente. Para tal, aplica-se a avaliação primária de acordo com as recomendações de suporte básico de vida (SBV): avaliar a responsividade, por meio do chamado ao paciente; avaliar o débito cardíaco, a circulação efetiva, a possibilidade de hemorragias e choque; avaliar as vias aéreas e a permeabilidade, com foco em fornecer a ventilação adequada; verificar a capacidade do paciente de atender aos comandos e, dessa forma, avaliar seus comprometimentos neurológicos e motores; avaliar e controlar a sua temperatura, a fim de evitar a hipotermia. Vale lembrar que, apesar de didaticamente a avaliação de pacientes em situações de urgência e emergência ser apresentada sequencialmente, os atendimentos realizados por mais de um profissional possibilitam que as avaliações sejam realizadas simultaneamente. Ressalta-se ainda que atendimentos às populações especiais, como crianças, idosos, gestantes e obesos, são considerados prioridades e exigem outras considerações além das abordagens relacionadas ao trauma. 2.2 Reanimação pós-trauma A reanimação pós-trauma segue a sequência: compressões torácicas, via aérea e respiração (C-A-B), que deverá ocorrer simultaneamente à avaliação primária. Nos casos de trauma, a proteção cervical pré-reanimação é fundamental para prevenir tração ou movimento da cabeça e pescoço; no entanto, não se devem retardar as manobras de RCP. O atendimento de RCP aos pacientes traumatizados deverá considerar a seguinte sistematização: • imobilização da cabeça e manutenção da coluna cervical em posição neutra; • realização da sequência do protocolo de SBV; • abertura manual das vias aéreas (por tração da mandíbula); • avaliação constante da respiração para garantir acesso à via aérea; 7 • avaliação da pelve, devido ao fato de as fraturas causarem sangramento e choque; • imobilização adequada do paciente, para minimizar sangramentos; • transporte do paciente, conforme a complexidade do caso e a sua necessidade de atendimento; • realização de acesso venoso; • aviso ao hospital de referência sobre as condições do paciente. A primeira hora pós-trauma é chamada de hora de ouro do paciente, em que a equipe pré-hospitalar não deve demorar mais que 10 minutos em atendimento, pois há pouco o que fazer no local do trauma. Por isso, o atendimento hospitalar com base em suas diretrizes e protocolos deverá ser o foco principal do primeiro atendimento ao trauma. 2.3 Transição de atendimento Na chegada do paciente com trauma ao hospital, é necessário que a passagem de plantão entre equipe pré-hospitalar e equipe hospitalar deixe as condições do paciente amplamente reveladas. Para tal, as diretrizes do ATLS (ACS, 2012) sugerem o formato mnemônico conhecido como Mist: • M: mecanismo (e tempo) do trauma; • I (de injuries): lesões encontradas e suspeitas; • S: sinais e sintomas; • T: tratamento iniciado. 2.4 Avaliação secundária pós-trauma A avaliação secundária é a investigação da cabeça aos pés e, se possível, da história do paciente. Essa abordagem só se inicia após o sucesso das manobras de RCP e de o paciente demonstrar tendência à estabilidade dos sinais vitais, geralmente no ambiente hospitalar. Considera-se a avaliação secundária como uma reavaliação, na qual cada parte do corpo deve ser minuciosamente examinada, a fim de se encontrar lesões que tenham sido despercebidas ou que não apresentavam grau de prioridade. Também é nessa etapa que o exame neurológico deve ser intensificado e se deve determinar a complexidade do quadro por meio do escore na escala de coma de Glasgow. 8 O mecanismo do trauma influencia diretamente as condições do paciente; por isso, a história do mecanismo do trauma deve ser incluída na avaliação complementar, ainda que não possa ser obtida pelo próprio paciente. A entrevista deve ser realizada com quem melhor possa esclarecer o estado fisiológico do paciente. Para melhor alcance de informações, por meio de entrevista, nos casos de trauma, a fórmula mnemônica conhecida como Sampla é adaptada, tornando- se Ampla, compreendendo conhecimento de: • A: alergias; • M: medicamentos de uso habitual; • P: passado médico/prenhez; • L: líquidos e alimentos ingeridos recentemente; • A: ambiente e eventos relacionados ao trauma. TEMA 3 – AVALIAÇÕES ESPECÍFICAS PÓS-TRAUMA Após as investigações do mecanismo do trauma, deve-se proceder à procura de lesões anatômicas específicas. 3.1 Cabeça O profissional de saúde deverá avaliar a cabeça e a face, investigando se há ferimentos, fraturas e queimaduras. Deverá reavaliar as pupilas sempre que houver alteração clínica do paciente e, com isso, o nível de consciência e o grau de complexidade do estado do paciente. A inspeção dos olhos deve ainda verificar a presença de hemorragia, lesões penetrantes, alterações visuais, deslocamentos, lentes de contato ou corpos estranhos. Em seguida, avaliam-se boca, orelhas, nariz e verifica-se se há sangramentos ou perda de líquor, lacerações e perda de dentes. 3.2 Pescoço e coluna cervical Ao examinar pescoço e coluna cervical procuram-se lesões penetrantes, desvio de traqueia e uso de musculatura acessória da respiração. Investiga-se se o paciente sente dor, tem hipersensibilidade ou apresenta alguma alteração anatômica como deformidade, edema ou assimetria. Nessa região, auscultamos as artérias carótidas e verificamos a presença de sopros. É necessário realizar o alinhamento e a imobilização do paciente para proteção da sua coluna cervical. 9 3.3 Tórax O tórax deve ser examinado separadamente, em suas faces anterior, lateral e posterior. Em cada face, devem-se procurar contusões ou ferimentos penetrantes e se perceber se há assimetria torácica ou uso de musculatura acessória na respiração. A ausculta do tórax (da parede anterior e das bases das faces posteriores) deverá avaliar batimentos cardíacos e murmúrios vesiculares. Deve-se proceder ainda à palpação (à procura de lesões e crepitação) e à percussão (avaliação da presença de timpanismo ou macicez). 3.4 Abdômen No abdômen, buscaremos descobrir se há lesões penetrantes, contusas e hemorragia interna, examinando a sua parede anterior e posterior. Na ausculta, devem-se avaliar os ruídos hidroaéreos e, na percussão, deve-se pesquisar delicadamente a sensibilidade e perceber sons característicos. Na palpação, pode-se perceber defesa muscular involuntária, dor em relação à descompressão e útero gravídico. 3.5 Períneo O períneo compreende assoalho pélvico, reto e órgãos reprodutores. Na avaliação perineal devem-se investigar contusões, lacerações, hematomas, hemorragia uterina e hemorragia retal. Pode-se verificar o tônus do esfíncter anal e a presença de corpos estranhos ou fragmentos ósseos; e a posição da próstata. Na avaliação vaginal, procura-se, ainda, a presença de sanguena vagina e lacerações. 3.6 Avaliação musculoesquelética Os membros superiores e inferiores podem apresentar contusões, deformidades, ferimentos e lesões penetrantes ou fechadas. Devem-se palpar os membros superiores e inferiores investigando a presença de sensibilidade, dor, som de crepitação, movimentação. Avalia-se a simetria dos membros e a presença de pulso periférico em cada membro. Ao se analisar os membros, avalia- se a correlação com a pelve e com a coluna, investigando-se possíveis hemorragias, ferimentos, contusões associadas. 10 3.7 Avaliação neurológica O trauma com alcance de encéfalo e medula espinhal exige abordagens específicas de atendimentos de urgência e emergência neurológica. A avaliação inicial inclui a avaliação das pupilas e do nível de consciência, por meio da aplicação da escala de coma de Glasgow. Deve-se ainda avaliar a resposta motora e sensitiva e observar a presença de sinais de lateralização. TEMA 4 – TRAUMA NO IDOSO Com o aumento da expectativa de vida nas últimas décadas, o envelhecimento global tornou-se um dos itens da responsabilidade com a saúde. Ainda que as causas cardiovasculares sejam as principais causas de morte do idoso, o trauma geriátrico também é uma causa habitual de morte na população de terceira idade. Os pacientes idosos que sofrem trauma habitualmente apresentam maior criticidade, permanecem mais tempo em internação hospitalar e necessitam de mais recursos do que pacientes jovens traumatizados. Por conta do envelhecimento, com consequente diminuição de respostas e de velocidade de respostas fisiológicas, o atendimento pós-trauma a idosos exige cuidados extras. Essas emergências têm características peculiares em relação aos tipos comuns de lesões, aos padrões das lesões, às diferenças fisiológicas e anatômicas. Comorbidades, tais como coagulopatias, diabetes, doenças coronarianas, insuficiências cardíacas ou vasculares, obstruções pulmonares; e o uso contínuo de algumas substâncias medicamentosas dificultam a recuperação pós-trauma do idoso. Dessa forma, o pronto atendimento ao paciente idoso e a adoção de medidas adequadas de reanimação e suporte à vida tornam-se ainda mais relevantes ao prognóstico. Embora indivíduos idosos tenham menores chances de sofrer traumas violentos do que indivíduos jovens, as suas chances de morrer por causas decorrentes do trauma são maiores. O idoso apresenta diminuição fisiológica de massa cerebral, resposta pupilar, capacidade respiratória, função renal, água corporal, sensação de odor e sabor, produção de saliva, secreções gástricas, atividade esofágica, volume e frequência cardíaca, células corporais, elasticidade da pele e gordura corporal. Além disso, “A comorbidade aumenta com a idade” (ACS, 2012). Com isso, o tratamento do trauma no idoso deve ser guiado por uma monitoração rigorosa do quadro e, frequentemente, a condição hemodinâmica, 11 em pacientes geriátricos, necessitará de reposição volêmica. Ademais, o tratamento de traumas geriátricos segue o padrão do tratamento de pacientes jovens com trauma, mas com alta suspeita de lesões específicas. 4.1 Tipos de lesões traumáticas do idoso As quedas são os traumas mais comuns em idosos, representando 40% de mortes nessa faixa etária. Incidência e gravidade de queda são diretamente proporcionais à idade, o que aumenta a hospitalização e os custos em saúde. As causas de quedas de idosos incluem mudanças no sistema nervoso e musculoesquelético, por conta de distúrbios de marcha, diminuição de flexibilidade e coordenação; dificuldade de visão, audição e memória; tontura ou vertigem; e perigos ambientais. De acordo com Souza e Iglesias (2002), mundialmente o acidente automobilístico representa 28% dos traumas em idosos; porém, é a principal causa de morte relacionada ao trauma na faixa etária de 65 a 75 anos. Sequencialmente, os atropelamentos representam cerca de 10% dos traumas geriátricos e os ferimentos por armas de fogo ou armas brancas representam 8% dos traumas geriátricos. Idosos, vítimas de acidentes, que apresentam queimaduras elevam as taxas de mortalidade. Ainda que a área corporal total comprometida represente o principal prognóstico, sabe-se que, em idosos com casos de queimaduras, 10% da superfície corporal atingida pode significar estado grave e que 40%-50% de área comprometida pode ser considerada letal. Atualmente, chama a atenção o número de lesões traumáticas, em idosos, decorrentes de violência, maus-tratos e negligência. Outro aspecto traumático recente relacionado ao idoso é o aumento do índice de suicídio, especialmente entre os homens. 4.2 Prevenção do trauma geriátrico A melhor política de saúde relacionada ao trauma geriátrico é a prevenção. Estratégias diferentes podem ser utilizadas com o intuito de realizar ações preventivas ao trauma geriátrico: • educação da população; • criação de programas e legislações específicas; 12 • uso de serviços de atendimento especializados em prevenção de complicações e agravamentos; • aprimoramento do atendimento, especialmente dos mecanismos de ressuscitação. 4.3 Complicações e reabilitação A infecção é a complicação mais comum pós-traumas geriátricos, chegando a representar 15% dos casos. A pneumonia caracteriza a maior incidência, seguida de flebite, infecção do trato urinário, infecções de sítio cirúrgico, tétano e sepse (Souza; Iglesias, 2002). As respostas imunológicas do idoso são lentas e diminutas, o que é um fator de complicação, especialmente pelo risco de identificação tardia de um quadro infeccioso. Além disso, a escolha do antibiótico para pacientes idosos deverá considerar a toxicidade da medicação para esses indivíduos. A imunização pode prevenir ocorrências infecciosas como o tétano; no entanto, é necessário investimentos em campanhas que estimulem também a vacinação desse grupo etário. O levantamento do estado nutricional do idoso pode ser uma brilhante estratégia para evitar complicações e melhorar as condições de reabilitação dos idosos, pós-traumas. Atenta-se ao fato de que indivíduos idosos apresentam comprometimento do estado nutricional por conta da diminuição de síntese proteica, o que também afeta o seu sistema imunológico, com consequências negativas em processos inflamatórios e capacidade de cicatrização. Portanto, o suporte nutricional em idosos vítimas de traumas objetiva a redução de complicações, a prevenção à desnutrição e a sua melhor recuperação. A reabilitação do idoso traumatizado leva mais tempo e exige maiores cuidados, especialmente entre a fase acamada e a transição ao retorno da deambulação. A fase de restrição ao leito pode acarretar alterações articulares e atrofia muscular, complicações cardiopulmonares, trombose venosa profunda e lesões por pressão (ou lesões de decúbito, como denominadas anteriormente). A dor pode ser um limitante da mobilidade do idoso. O paciente que se recusa aos períodos de deambulação ou fisioterapia pode estar incomodado com dispositivos tais como equipamentos para administração de oxigênio, linhas intravenosas, drenos, cateteres, cabos de monitorização, entre outros fatores que não o encorajem às atividades fora do leito. Para aqueles que não possam 13 deambular, deve-se programar fisioterapia ativa e passiva mesmo no leito, visto que a mobilização do idoso é um dos fatores determinantes para a sua recuperação. Medidas e dispositivos capazes de diminuir a pressão em áreas de contato e curativos especiais que estimulem a cicatrização são as ações mais recomendadas para aumentar ou acelerar a recuperação de feridas. Conclui-se que a recuperação e a reabilitação do paciente idoso são determinadas por múltiplos fatores que podem incluir seu estado emocional e motivacional, alterações neurológicas e comportamentais, condições sociais e econômicas e estrutura familiar.TEMA 5 – LESÕES QUE IMPLICAM ALTO RISCO À VIDA O trauma físico geralmente exige tratamento hospitalar, que pode incluir cirurgia e reabilitação. O prognóstico dependerá da região e extensão das lesões, do histórico de saúde prévio do paciente e da agilidade de atendimento. O risco à vida pode ser controlado por meio de medidas tais como intubação orotraqueal, acesso à via aérea e ventilação, drenagem torácica ou reposição volêmica. A assertividade da equipe de saúde de urgência e emergência em reconhecer as lesões e realizar os procedimentos de suporte à vida é o diferencial que pode salvar a vida de um paciente. 5.1 Trauma torácico A região torácica armazena estruturas nobres tais como coração, pulmão, pâncreas, fígado, estômago e grandes vasos, que, se lesionadas, podem levar à morte rapidamente. O trauma mais comum nessa região é a fratura costal e o trauma mais letal é a ruptura das artérias aorta ou cardíaca. O trauma de tórax pode ser classificado quanto ao mecanismo de trauma (contuso ou penetrante); ou, ainda, em fechado ou aberto. As lesões que oferecem risco iminente de vida devem ser diagnosticadas e tratadas com base na avaliação primária. São elas: obstrução da via aérea, pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto, tórax instável, hemotórax maciço e tamponamento cardíaco. As lesões com potencial risco de vida devem ser investigadas e tratadas no exame secundário. São elas: pneumotórax simples, hemotórax, contusão pulmonar, laceração traqueobrônquica, traumatismo 14 contuso do coração, ruptura traumática de aorta, ruptura traumática de diafragma e ferimentos transfixantes do mediastino. Os sintomas do traumatismo torácico podem variar de acordo com as lesões causadas. Mas, de maneira geral, traumas torácicos causam dor, com piora na respiração; falta de ar; dor, à palpação; sangramento externo, no caso dos traumas abertos; equimoses; hipotensão; e choque. 5.2 Trauma abdominal e pélvico As lesões traumáticas do abdômen podem ser variadas. Podemos encontrar lesões restritas ao abdômen ou lesões acompanhadas, que podem chegar a traumas graves e multissistêmicos. A complexidade e as características das lesões abdominais correspondem ao mecanismo e à força empregados, mas são tipicamente categorizados pelo mecanismo da lesão (fechado ou penetrante). As consequências da lesão abdominal incluem ruptura de hematoma; empiemas epidural e subdural; obstrução intestinal ou do íleo; extravasamento biliar ou biloma; síndrome compartimental abdominal. Os seus sinais e sintomas incluem dor abdominal, que pode irradiar-se para o ombro esquerdo, se houver lesão esplênica; dor de perfuração intestinal, com piora progressiva; hematúria, em casos de lesão renal. Os sinais vitais podem evidenciar indícios de hipovolemia (taquicardia) ou choque. Os traumas pélvicos compreendem lesões da sínfise púbica, dos ossos inominados, do acetábulo, da articulação sacroilíaca ou do sacro, com amplo espectro de gravidade, desde lesões estáveis às lesões instáveis, como hemorragias e outras, que configuram gravidade. A mortalidade é alta quando ocorrem fraturas instáveis, posteriores, ou quando há choque hemorrágico. Comumente, a fratura pélvica causa dor na região inguinal e dor lombar, sendo que alguns pacientes não conseguem deambular, em especial em fraturas graves, o que pode indicar instabilidade. Sinais de lesões vaginais, geniturinárias ou ginecológicas incluem: sangue no meato uretral, hematoma escrotal ou perineal, hematúria, anúria, próstata alta e sangramento vaginal. Lesões intestinais ou retais podem causar dor abdominal ou pélvica, sangramento retal e peritonite tardia. Lesões neurológicas causam fraqueza, perda de sensibilidade e reflexos nos membros inferiores, no reto ou no períneo, incontinência e retenção urinária. 15 5.3 Trauma cranioencefálico O traumatismo craniocerebral ou cranioencefálico (TCE) é caracterizado por lesões que comprometem encéfalo, meninges, crânio ou couro cabeludo. Divide-se em fraturas de crânio e lesões intracranianas, sendo as lesões da fratura de crânio divididas em lineares, deprimidas ou cominutivas. As lesões intracranianas são divididas em difusas e focais. Os exames de imagem são necessários para definir a classificação e a conduta a ser realizada, de acordo com as características do TCE. TCEs leves geralmente evoluem sem intercorrências, mas apresentam piora se houver disfunção neurológica. TCEs moderados recebem a mesma abordagem de TCEs leves se seguidos de melhora; em casos de piora, é seguido o protocolo de TCE grave. TCEs graves apresentam o maior risco de morbidade e mortalidade e caracterizam-se como aqueles casos em que são necessárias a RCP e a admissão em hospital que disponha de tratamento neurocirúrgico. 5.4 Trauma musculoesquelético Traumas musculoesqueléticos geralmente não implicam risco à vida; no entanto, pacientes politraumatizados e com lesões vasculares podem apresentar lesões graves, com risco iminente de morte e, muitas vezes, tardiamente descobertas por conta da distração causada por outras lesões menos graves. Grandes artérias localizam-se próximas aos ossos e as articulações. Assim, fraturas de fêmur e bacia podem causar hemorragias graves, com consequência de choque hipovolêmico. Em lesões abertas, há o risco de contaminação e infecção, tornando-se a sepse uma complicação frequente. Esses traumas causam dor intensa e constante, incapacidade funcional e deformidade do membro, podendo haver encurtamento e aumento de volume. Se houver palidez ou cianose, pode-se suspeitar de comprometimento vascular, o que favorecerá a investigação de hemorragias e prevenção ao choque. 16 REFERÊNCIAS ACS – American College of Surgeons. ATLS Student Course Manual: Advanced Trauma Life Support. 9. ed. Chicago, 2012. SOUZA, J. A. G. de; IGLESIAS, A. C. R. G. Trauma no idoso. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 48, n. 1, p. 79-86, mar. 2002.