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BIOLOGIA MOLECULAR Carolina Saibro Girardi Reação em cadeia da polimerase (PCR) Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Avaliar a reação em cadeia da polimerase: princípio, objetivo e metodologia. � Identificar as etapas da técnica de PCR. � Reconhecer as variações da técnica de PCR e suas aplicações. Introdução Os processos de geração de cópias idênticas de moléculas de DNA, que tem como aplicações práticas o desenvolvimento de testes diagnósticos e a identificação genética de indivíduos, por exemplo, fazem uso, de forma geral, da própria maquinaria de replicação de DNA. Em alguns casos, essa reação de síntese de DNA ocorre in vivo, de forma dependente de um organismo hospedeiro: a sequência de inte- resse é inserida na célula de uma bactéria, por exemplo, e a replicação do genoma bacteriano propiciará a síntese de cópias da sequência de interesse. Em outros casos, a reação ocorre inteiramente in vitro, em um tubo de ensaio: a cópia de uma sequência de interesse ocorre pela incu- bação com a enzima DNA-polimerase e com os substratos para a síntese. Essa última estratégia, independente de organismos hospedeiros para a síntese de DNA, é chamada de reação em cadeia da polimerase (PCR). Neste capítulo, você receberá as ferramentas necessárias para reco- nhecer os princípios do método de PCR, seus objetivos e os detalhes da sua metodologia. Além disso, você reconhecerá algumas adaptações que agregaram novas aplicações práticas à técnica. U N I D A D E 2 Princípios da reação de PCR A técnica de PCR é, essencialmente, bastante simples: moléculas de DNA são amplificadas em milhares ou milhões de novas cópias, por meio de uma reação in vitro muito mais rápida que a técnica de clonagem de DNA em organismos hospedeiros (ZAHA; FERREIRA; PASSAGLIA, 2014; WILSON; WALKER, 2010). A técnica é sensível o suficiente para amplificar fragmentos de DNA em uma quantidade mínima de amostra, e o DNA gerado é suficiente para análises posteriores. Além disso, o método permite a síntese de cópias idênticas de sequências específicas de DNA. A cada ciclo de reação da PCR, o fragmento contendo a sequência-alvo dará origem a uma nova molécula com sequência complementar. Quando consideramos a duplicação de uma dupla-fita, as duas fitas de DNA poderão dar origem a novas fitas complementares, ou seja, o número de moléculas de DNA dobra a cada ciclo quando a eficiência da reação é máxima. O que permite, por sua vez, que a técnica forneça um número tão grande de cópias é o fato de que ela é uma reação em cadeia: são realizados vários ciclos consecutivos, dessa forma, não apenas o DNA original servirá como molde a cada ciclo de PCR, mas também o DNA que foi sintetizado em todos os ciclos anteriores, de forma que o número de cópias de DNA cresça exponen- cialmente (Figura 1). Depois de apenas 20 ciclos de reação, a amplificação pode dar origem a 1 milhão de cópias (ZAHA; FERREIRA; PASSAGLIA, 2014). A PCR permite a amplificação exponencial das sequências-alvo. Quando a reação é eficiente o suficiente para dobrar o conteúdo da sequência-alvo a cada ciclo, o número de moléculas N contendo a sequência-alvo ao fim da reação será: N = N0 × 2 c Onde N0 é o número inicial de moléculas e c é o número de ciclos da reação. Dessa forma, a amplificação ocorre de forma exponencial; no entanto, a reação da PCR não costuma ocorrer com mais que 35 a 40 ciclos. Em torno desse estágio, a cinética enzimática já não é mais favorável e a amplificação atinge um platô, no qual o número de cópias permanece constante, independentemente do número de ciclos da reação. Reação em cadeia da polimerase (PCR)2 Figura 1. Amplificação exponencial da sequência-alvo de DNA por meio da PCR. No primeiro ciclo, uma molécula de DNA dá origem a uma nova molécula, dobrando o con- teúdo da sequência-alvo. No segundo ciclo, tanto a molécula original quanto a molécula recém-sintetizada são utilizadas como molde para a reação, que dobra mais uma vez o conteúdo da sequência-alvo. Fonte: Adaptada de Watson et al. (2015, p. 159). 3Reação em cadeia da polimerase (PCR) Em se tratando de uma reação química de síntese, a técnica exige a pre- sença dos substratos e das condições adequadas à replicação de DNA pela DNA-polimerase. DNA com uma sequência-alvo Uma alíquota do DNA amostral (template de DNA) é utilizada, na qual está presente a sequência-alvo da amplificação. A reação é capaz de amplificar fragmentos presentes em baixíssimas concentrações nas amostras, mas depende de a amostra estar em bom estado de conservação e sem a presença de impu- rezas (como proteínas, lipídios e reagentes químicos utilizados na extração). Além disso, a presença de contaminação com DNAs exógenos pode levar à amplificação de produtos inespecíficos na reação da PCR. DNA polimerase A DNA polimerase é a enzima responsável pela síntese de DNA a partir de substratos de desoxirribonucleotídeos (dNTPs) sobre um molde de DNA fita-simples. Ela adiciona nucleotídeos a uma extremidade 3’-OH de uma fita iniciadora anelada ao molde, estendendo a fita complementar (WATSON et al., 2015). Utiliza-se na reação da PCR termoestável as versões da enzima que são capazes de suportar as altas temperaturas da reação. Oligonucleotídeos iniciadores Os iniciadores (ou primers) caracterizam as fitas iniciadoras necessárias à síntese pela polimerase, disponibilizando a extremidade 3’-OH necessária à extensão das cópias de DNA. Sintetizados quimicamente, esses iniciadores podem ter sequências randômicas, permitindo a amplificação da amostra de DNA como um todo. Além disso, eles permitem o reconhecimento e a ampli- ficação de fragmentos específicos em uma amostra complexa de DNA: uma dupla de iniciadores com sequência complementar às regiões flanqueadoras da sequência-alvo delimita a sequência que deve ser amplificada na reação da PCR (WILSON; WALKER, 2010) (Figura 2). Reação em cadeia da polimerase (PCR)4 Figura 2. A reação da PCR pode amplificar sequências específicas no DNA. Com a utilização de um par de oligonucleotídeos iniciadores com sequências complementares às regiões flanqueadoras de uma sequência-alvo, regiões específicas de uma mistura complexa de DNA podem ser amplificadas na reação da PCR. O desenho de iniciadores para regiões específicas no DNA, no entanto, depende do conhecimento prévio da sequência na região de interesse. Fonte: Adaptada de Wilson e Walker (2010, p. 179). Desoxirribonucleotídeos Os dNTPs são os substratos da síntese, os quais são adicionados à cadeia de DNA por pareamento de bases durante a extensão. Eles são compostos por dATP, dTTP, dGTP e dCTP e adicionados à reação em iguais concentrações. 5Reação em cadeia da polimerase (PCR) Tampão de reação A composição da solução-tampão tem como intuito propiciar a melhor eficiência da reação. Essa solução contém o reagente MgCl2, que atua doando cofatores indispensáveis à atividade da polimerase: os íons Mg2+. Além disso, a solução tampão contém íons diversos que estabilizam o pH da reação e agentes estabi- lizantes que auxiliam na manutenção das fitas-simples de DNA desnaturadas. Estágios do ciclo de PCR A cada ciclo de reação, as etapas necessárias à síntese de DNA complementar, a partir do DNA-molde, são a desnaturação das duplas-fitas, o anelamento dos iniciadores à sequência-alvo e a extensão da fita complementar de DNA. (Figura 3). A repetição de vários ciclos de desnaturação, anelamento e extensão (de 30 a 40 ciclos, em média) possibilita a amplificação eficiente do DNA de interesse. Figura 3. O ciclo da reação da PCR consiste em três estágios: desnaturação, anelamento e extensão. Fonte: Adaptada de Wilson e Walker (2010, p. 180). Reação em cadeia da polimerase (PCR)6 Desnaturação Na desnaturação, o aquecimento da amostra a cerca de 95°C é suficiente para desfazer as ligações de hidrogênio que unem as fitas-duplas, separando umas das outras. Com isso, essaetapa promove a conversão de uma solução de DNA fita-dupla para uma solução de fita-simples. Essa etapa é importante para tornar as sequências acessíveis para a reação. Anelamento No anelamento, a temperatura é reduzida até a faixa de 45 a 65°C para possibi- litar a interação do iniciador com a sequência de interesse e o seu anelamento (ZAHA; FERREIRA; PASSAGLIA, 2014). Da mesma forma que temperaturas acima de 90°C desfazem o pareamento de bases entre a fita-dupla, elas também impedem o pareamento de bases entre o iniciador e a sequência de interesse. Sendo assim, é necessária a redução significativa na temperatura. Nessa etapa, os iniciadores têm como função reconhecer as regiões flan- queadoras da sequência de interesse e, ao se anelarem a estas, eles fornecem a extremidade 3’-OH livre necessária para a síntese de uma fita complementar pela polimerase. A temperatura específica de anelamento dependerá de características do iniciador, como a sua sequência. Quanto maior o conteúdo de bases citosina e guanina (conteúdo G/C), maior a temperatura de anelamento, já que o parea- mento de bases G-C é estável em temperaturas maiores que o pareamento A-T. Extensão Por fim, na etapa de extensão das fitas, a temperatura é aumentada a cerca de 70°C, sendo esta a temperatura ótima da polimerase que realizará a síntese. Na extensão, a fita complementar à sequência de interesse poderá ser sintetizada pela enzima por meio da incorporação dos dNTPs. O tempo necessário para a etapa varia de acordo com o tamanho da região de interesse: quanto maior o fragmento a ser sintetizado, maior o tempo da etapa de extensão. Como cada um dos processos necessários à reação ocorre em uma tempe- ratura específica, as etapas de incubação em temperaturas distintas permitem que determinados fenômenos ocorram de forma isolada e consecutiva ao logo do ciclo de reação. Inicialmente, as transições entre as etapas de incubação eram realizadas à mão, hoje em dia, os tubos de ensaio contendo os reagentes 7Reação em cadeia da polimerase (PCR) e a enzima polimerase são incubados em um termociclador, no qual as tempe- raturas e o período de tempo de cada etapa dos ciclos pode ser automatizada. Modificações na DNA-polimerase que facilitaram a otimização da PCR As primeiras PCRs apresentavam um problema prático: a temperatura necessária para a desnaturação das fitas-duplas de DNA acabava também desnaturando a enzima DNA polimerase que seria responsável pela reação nas etapas seguintes. Lembre-se que o aquecimento a 90°C não desfaz apenas as pontes de hidrogênio que mantêm a estrutura da dupla-hélice, mas também aquelas que estruturam a conformação nativa de proteínas. Assim, a cada passo de desnaturação, a enzima era inativada e mais enzimas precisariam ser adicionadas para a próxima etapa de extensão (ZAHA; FERREIRA; PASSAGLIA, 2014). Com a descoberta e o isolamento de versões da enzima presentes em bactérias termofílicas Thermus aquaticus, a reação se tornou muito mais eficiente. Essas enzimas termoestáveis têm temperatura ótima de funcionamento em 72°C (muito mais alta que a temperatura de 35 a 40°C fisiológica para a maior parte dos organismos) e é capaz de suportar períodos prolongados de exposição a 95°C (WILSON; WALKER, 2010). Assim, ela permanece ativa mesmo ao longo de várias repetições de etapa de desnaturação da reação da PCR. Desde a sua descoberta, diversas otimizações foram realizadas nessa enzima por meio de melhoramento genético para facilitar os protocolos da PCR. Atualmente, algumas enzimas são capazes, inclusive, de estender a fita complementar de DNA nas temperaturas da etapa de anelamento, excluindo a necessidade de uma etapa isolada de extensão. Variações na técnica de PCR A reação da PCR é amplamente utilizada nas análises de biologia molecular para os mais diferentes fins. Algumas adaptações na técnica foram fundamen- tais para isso, permitindo que métodos clássicos de Biologia Molecular fossem suplantados pela PCR e aumentando significativamente as possibilidades de aplicação da técnica. Reação em cadeia da polimerase (PCR)8 PCR convencional Nas técnicas convencionais de PCR, a análise dos produtos da amplificação ocorre ao final da reação. Encerrados os ciclos, a solução enriquecida com uma sequência-alvo de DNA pode ser submetida à eletroforese e os fragmen- tos podem ser observados no gel. Na comparação com um padrão de peso molecular de DNA, as bandas formadas podem ser analisadas quanto ao seu tamanho e à intensidade das bandas (Figura 4A). A reação convencional de PCR é muito utilizada como primeiro passo de diversas outras técnicas de análise de DNA, já que permite o enriquecimento de uma sequência de interesse em soluções que, originalmente, continham apenas uma mistura complexa de DNA amostral. Essa solução enriquecida pode ser utilizada para sequenciamento, genotipagem e até mesmo inserção de sequências exógenas em organismos hospedeiros. Como método de análise, a reação da PCR é comumente utilizada, por exemplo, em testes de impressão digital de DNA. A análise de sequências- -alvo por PCR convencional é útil principalmente quando os resultados são qualitativos (presença ou ausência de sequências). Em análises quantitativas, no entanto, a técnica apresenta algumas falhas: a relação entre a quantidade de cópias e a quantidade do alvo original varia ao longo dos ciclos da reação e é difícil estabelecer essa relação na técnica convencional de PCR. PCR quantitativa (qPCR) Um avanço importante na técnica de PCR foi o desenvolvimento de meto- dologias que possibilitam o acompanhamento da amplificação ao longo da reação, e não apenas ao fim do processo, como na PCR convencional (ZAHA; FERREIRA; PASSAGLIA, 2014). A PCR quantitativa, também chamada de PCR em tempo real, adota sistemas de detecção dos produtos da reação a cada ciclo de PCR e, com isso, permite a sua quantificação. Esses sistemas de detecção empregam marcadores fluorescentes das cópias de DNA (WILSON; WALKER, 2010). Com a utilização de termocicladores capazes de detectar esses marcadores, a amplificação pode ser monitorada pelo nível de fluorescência ao longo dos ciclos da reação (Figura 4). Por ser um método quantitativo e significativamente mais sensível que o PCR convencional, ele é o mais indicado em testes de detecção de sequências presentes em baixíssimas concentrações, como na detecção de genomas virais em amostras biológicas e em testes que têm como intuito estabelecer uma 9Reação em cadeia da polimerase (PCR) relação quantitativa entre a presença de sequências em amostras — é o caso das análises de expressão gênica e de variação no número absoluto de cópias. Figura 4. Análise dos produtos de amplificação da PCR convencional e da PCR quantitativa. (a) Se analisarmos duas sequências-alvo distintas (alvo 1 e alvo 2) nas amostras 1 (A1) e 2 (A2) por PCR convencional, os produtos da amplificação dos alvos podem ser observados após a amplificação por meio de eletroforese. Assim, sabemos com o resultado da PCR convencional que os alvos 1 e 2 estão presentes nas amostras 1 e 2. É possível também observar que o alvo 1 está presente em maior quantidade na amostra 2 que na amostra 1, por exemplo, mas é difícil determinar o quanto. (b) Se analisarmos os mesmos alvos 1 e 2 nas amostras 1 (A1) e 2 (A2) por PCR quantitativo, os produtos da amplificação podem ser acompanhados durante a reação, dando origem aos gráficos de fluorescência versus ciclo exemplificados. Quanto menor o ciclo em que ocorre a amplificação, maior a quantidade inicial de amostra. A análise das curvas de amplificação nos estágios de crescimento expo- nencial possibilita a quantificação relativa das sequências-alvo entre as amostras. PCR com transcrição reversa (RT-PCR) As técnicas de PCR descritas até o momento permitem a amplificação de moléculas de DNA. No entanto, em muitos os casos se deseja amplificar uma sequência presente em moléculas de RNA. É o caso de técnicasde análise de expressão de mRNA e de análise de sequências de RNAs regulatórios, por exemplo. Nesses casos, é realizada uma reação prévia de transcrição reversa (RT do inglês reverse transcription): as moléculas de RNA de interesse pre- sentes em uma mistura complexa de RNAs dão origem a moléculas de DNA com sequência complementar (cDNA) por meio da enzima transcriptase Reação em cadeia da polimerase (PCR)10 reversa (ZAHA; FERREIRA; PASSAGLIA, 2014), a mesma enzima que catalisa a conversão do genoma de RNA de alguns vírus em DNA para a sua incorporação no genoma do hospedeiro. Essa reação ocorre de forma bem similar à reação da PCR com a DNA polimerase, mas adaptada às condições necessárias à síntese de cDNA a partir de um molde de RNA pela transcriptase reversa. Além disso, a etapa de RT envolve apenas um ciclo de amplificação: ao fim da transcrição reversa, é obtida uma cópia de cDNA para cada molécula de RNA de interesse. Para a amplificação em si da sequência de interesse, a reação é acoplada à reação da PCR convencional (RT-PCR) ou à PCR quantitativa (RT-qPCR). Assim, a solução é enriquecida com cópias do cDNA. WATSON, J. D. et al. Biologia molecular do gene. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. WILSON, K.; WALKER, J. (Ed.). Principles and techniques of biochemistry and molecular biology. 7. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. Disponível em: <https:// www.kau.edu.sa/Files/0017514/Subjects/principals%20and%20techiniques%20of%20 biochemistry%20and%20molecular%20biology%207th%20ed%20wilson%20walker. pdf>. Acesso em: 24 out. 2018. ZAHA, A.; FERREIRA, H. B.; PASSAGLIA, L. M. P. (Org.). Biologia molecular básica. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 11Reação em cadeia da polimerase (PCR) Conteúdo: