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Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. Vitiligo e Melasma- Sra. Neusa Vitiligo O objetivo do tratamento inclui a estabilização da doença e a repigmentação. O vitiligo pode ser classificado de acordo com a extensão da superfície corporal acometida: ✓ menos do que 10% ✓ de 10 a 25% ✓ de 25 a 50% ✓ mais do que 50% A doença deve ser considerada estável ou em progressão, o que também define a estratégia para o tratamento. Outro fator na definição da terapêutica é a idade; sabidamente, o vitiligo repigmenta melhor nas crianças. As áreas do corpo que geralmente apresentam a melhor resposta à terapia medicinal são a face, o pescoço, as extremidades médias e o tronco, enquanto as extremidades distais e os lábios são os mais resistentes ao tratamento. A repigmentação geralmente aparece em um padrão perifolicular e/ou a partir da periferia das lesões. Quando os pelos dentro da área de vitiligo estão despigmentados, o padrão anterior não é observado. Corticosteroides Os corticosteroides podem ser usados topicamente, variando a sua potência, com melhor resultado na face e no pescoço. Corticosteroide de alta potência pode ser usado por 1 a 2 meses, com o cuidado para surpreender os efeitos colaterais, como atrofia da pele, estrias, telangiectasia, hirsutismo e erupção acneiforme. Quando o vitiligo está progredindo rapidamente, usa-se a corticoterapia sistêmica por via oral ou intramuscular; no caso de crianças, pode ser usada prednisona 5 a 10 mg/dia durante 2 a 3 semanas e, em adultos, 40 a 60 mg, com retirada gradual; para adultos, pode ser usada uma série de três injeções de triancinolona acetonida, 40 mg a cada 4 ou 6 semanas. Inibidores Da Calcineurina Os inibidores da calcineurina apresentam atividade imunomoduladora, sem os efeitos colaterais dos corticosteroides tópicos. São eles, o tacrolimo em unguento a 0,03% ou 0,1% e o pimecrolimo em creme a 1%, usados 2 vezes/dia. Quando se usa tacrolimo para as crianças, prefere-se a concentração de 0,03%; os resultados são ótimos nas áreas com panículo adiposo desenvolvido. Análogos Da Vitamina D3 Os análogos da vitamina D3, como o calcipotriol, têm ação imunomoduladora e estimulam a melanogênese. Quando usados em monoterapia são menos eficazes que os corticosteroides tópicos, mas quando usados em combinação (p. ex., com betametasona), as taxas de repigmentação aumentam e o tempo para início de resposta diminui. Oxsoraleno Dependendo da adesão e da compreensão do paciente, pode ser feito o tratamento com solução ou creme de oxsoraleno até 0,1%, para uso tópico e exposição solar subsequente, meia hora após a aplicação da fórmula, principalmente no horário de predomínio de raios ultravioleta A (UVA). Foto(quimio)terapia A fototerapia com UVA ou UVB promove a migração e proliferação de melanócitos e a melanogênese, além de inibir a autoimunidade. A fototerapia com UVB narrow band (311 nm), 3 vezes/semana, ganhou importância na última década, e é considerada mais efetiva que a PUVA-terapia, além de ser mais fácil, por não requerer proteção ocular após a sessão de tratamento, nem ter o inconveniente de eventuais efeitos colaterais do uso do oxsoraleno sistêmico (náuseas, cefaleia). Quando o paciente não responder ao UVB de 311 nm, ele pode ser, então, encaminhado à PUVA-terapia. UVB de banda estreita Em geral, o UVB de banda estreita é considerado mais eficiente do que o UVB de banda larga no tratamento do vitiligo. A dose inicial varia de 100 a 250 mJ/cm2 , que é aumentada em incrementos de 10% a 20% a cada exposição subsequente até que o eritema assintomático leve seja alcançado dentro das lesões. Tratamentos são administrados de duas a três vezes por semana, mas não em dois dias consecutivos. Efeitos colaterais de curto prazo incluem prurido e xerose; efeitos colaterais de longo prazo (p. ex ., carcinogênese cutânea) não foram descritos. As vantagens de NB-UVB sobre a terapia psoralenos mais UVA(PUVA) incluem menor tempo de tratamento, Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. ausência de efeitos colaterais gastrointestinais, reações fototóxicas reduzidas e fotoproteção pós- tratamento desnecessária; além disso, NB-UVB pode ser usado em crianças, mulheres grávidas ou lactantes e em indivíduos com disfunção hepática ou renal. Ademais, o NB-UVB produz menor acentuação do contraste entre pele despigmentada e pele normalmente pigmentada. O NB-UVB se tornou a primeira escolha de terapia para adultos e crianças com vitiligo generalizado, especialmente se envolve ≥20% da área de superfície do corpo ou áreas cosmeticamente sensíveis que normalmente respondem ao tratamento. Psoraleno mais UVA Fotoquimioterapia com psoraleno envolve o uso de psoralenos combinados com radiação UVA. Psoralenos podem ser administrados oralmente (PUVAoral) ou aplicados topicamente (PUVAtópico), seguidos por exposição tanto à radiação UVAartificial como à luz solar natural (PUVASOL). Tratamentos PUVAoral usando 8-MOP (0,4–0,6 mg/kg) são tipicamente administrados duas vezes por semana. Para pacientes com vitiligo, a dose inicial de UVA é, em geral, de 0,5 a 1,0 J/cm2 , que é aumentada de modo gradual até que um mínimo eritema assintomático ocorra na pele envolvida. Para reduzir o risco do fenômeno de Koebner, eritema significante (fototoxicidade) é evitado. 5-MOP possui cerca da mesma taxa de resposta que o 8-MOP na repigmentação do vitiligo, mas uma menor incidência de efeitos adversos, incluindo fototoxicidade reduzida além de menos náuseas e vômitos. Lasers e dispositivos de luz relacionados O uso do laser de 308 nm (excimer laser) tem a vantagem de ser dirigido a uma lesão individualizada; assim, reduz a exposição ao UV. Pode ser usado em monoterapia ou em combinação com outras modalidades terapêuticas. Recentemente também foi descrito o uso do laser de hélio-neon. O uso de antioxidantes orais (como a vitamina C, vitamina E e o Polypodium leucotomos) ou tópicos (catalase, superóxido desmutase) parece conferir benefício, quando associado a outras modalidades terapêuticas. A modalidade cirúrgica é interessante nos casos de vitiligo segmentar ou estável e cujas lesões são pouco numerosas e de pequenas ou médias dimensões. Dentre as técnicas cirúrgicas, estão disponíveis minienxertos autólogos utilizando punch ou bolhas por sucção ou induzidas por crioterapia. O transplante de células epidérmicas obtidas em cultura tem sido empregado e tem as mesmas indicações dos demais métodos cirúrgicos. Despigmentação Com O Monobenzileter De Hidroquinona (MBEH) A despigmentação com o monobenzileter de hidroquinona (MBEH) deve ser instituída quando mais de 80% de área corporal estejam acometidos pelo vitiligo. A concentração inicial do MBEH deve ser de 10%, sendo aplicado 2 vezes/dia, aumentando-se a concentração gradualmente a cada mês. A resposta ao tratamento pode demorar de 1 a 3 meses. Os efeitos colaterais mais frequentes dessa terapêutica são prurido, dermatite e xerose. Outros O uso de autobronzeadores com di-hidroxiacetona de 5 a 10%, 1 a 2 vezes/semana, e o emprego de maquiagem corretiva podem ser elementos coadjuvantes na terapêutica do vitiligo. É fundamental o uso da proteção solar para evitar queimaduras com consequente risco de desencadear fenômeno de Köebner, assim como o aparecimento de neoplasias. Apoio psicológico pode ser essencial, devendo-se ter sempre atenção à qualidade de vida do paciente. Psicoterapia pode ser de extrema valia para numerosos pacientes. Melasma O tratamento baseia-se na fotoproteção e nos agentes despigmentantes. A restrição à exposição solar é indispensável. Os fotoprotetores devem ser químicos e físicos (p. ex., incorporar dióxido de titânio na fórmula),e de largo espectro. O agente despigmentante mais eficaz é a hidroquinona, usada na concentração de 2 a 4% em creme ou solução, podendo estar associada ao ácido retinoico de 0,01 a 0,05% e à hidrocortisona a 1% ou equivalente. A combinação desses três agentes parece ser a opção mais efetiva para o tratamento inicial do melasma. A hidroquinona, quando usada por longo período, mesmo em baixas concentrações, pode levar à acromia em confete e/ou a ocronose exógena. Deve-se desconfiar dessa intercorrência quando há piora do quadro em vigência do tratamento. Outros agentes despigmentantes incluem ácido azelaico a 20%, ácido kójico a 2%, arbutim a 3% e o extrato de licorice. O uso complementar de peelings químicos, como o de ácido glicólico e ácido retinoico, pode contribuir para o tratamento. A utilização de laser fracionado, luz intensa pulsada e outros tipos de laser Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. tem resultados inconsistentes na literatura, e devese ter cautela com essa opção, recorrendo a ela apenas quando se esgotarem as demais possibilidades. Recentemente foi descrito o uso do ácido tranexâmico, tópico ou intralesional. Sr. Antônio Ptiríase Versicolor Nas formas localizadas, o tratamento pode ser feito com sulfeto de selênio a 2,5%, propilenoglicol a 50%, cetoconazol a 2% ou outros derivados imidazólicos, como soluções hidroalcoólicas ou xampus com associações de antifúngicos imidazólicos, piritionato de zinco a 2,5%, ácido salicílico e LCD por 10 a 20 dias. Essas soluções devem ser sempre aplicadas generosamente muito além das áreas aparentemente acometidas. Em geral, recomenda-se novo tratamento cerca de 2 meses após, a fim de evitar recidivas, que são frequentes. ✓ O xampu deve ser aplicado por cerca de 30 min e, depois, removido no banho; dependendo da proximidade ou do envolvimento do couro cabeludo, recomenda- se lavá-lo semanalmente por vários meses. ✓ A solução hidroalcoólica de sulfeto de selênio deve ser aplicada generosamente além dos limites das lesões. ✓ O uso de bucha no banho é bastante eficaz, pois auxilia na remoção mecânica do fungo que está presente na camada córnea. Nos casos extensos ou recidivantes, utiliza-se por via oral o itraconazol 100 mg, 2 vezes por 5 a 7 dias; ou fluconazol 300 mg por semana por 2 semanas. Nos casos extensos ou recidivantes, utiliza-se por via oral: cetoconazol 200 mg/dia durante 10 a 15 dias; itraconazol 100 mg, 2 vezes por 5 a 7 dias; ou fluconazol 300 mg por semana por 2 semanas. Nos pacientes com recorrências frequentes, deve-se fazer profilaxia por um período de 6 meses, iniciando- se 30 dias após finalizado o tratamento. Há significativa redução das recidivas após o uso de azólicos sistêmicos. A profilaxia com preparados tópicos a cada 1 ou 2 semanas apresenta respostas variáveis e depende da adesão do paciente à prescrição médica. Paula Hanseníase A hanseníase é uma infecção crônica, granulomatosa, curável, que tem como agente etiológico o Mycobacterium leprae ou bacilo de Hansen, um micro- organismo de elevada infectividade, porém baixa patogenicidade, isto é, poucos indivíduos infectados adoecem. O mycobacterium é um Bacilo Álcool Ácido Resistente (BAAR), parasita intracelular obrigatório com predileção pelas células do sistema reticuloendotelial, especialmente os histiócitos do sistema nervoso periférico (célula de Schwann), células da pele e mucosa nasal. Uma importante diferença morfológica com o bacilo da tuberculose (BK) é que o BH, quando em grande quantidade nas lesões, forma aglomerados bacilares, denominados globias. Classicamente, o acometimento cutâneo caracteriza-se por máculas hipocrômicas, hipo ou anestésicas. Entretanto, na dependência da forma clínica, placas, nódulos, tubérculos e mesmo infiltração sem lesões de pele aparentes podem ser observados. O bacilo, quando identificado à histopatologia, localiza- se nas partes profundas da derme. Com a evolução da doença não tratada, as manifestações dermatológicas e neurológicas associam-se a deformidades e mutilações, alterações que tanto estigmatizam os pacientes. Desta forma, o diagnóstico precoce da doença, o tratamento com a poliquimioterapia e o reconhecimento imediato dos quadros reacionais garantem a interrupção da cadeia de transmissão e a prevenção das incapacidades físicas. Tem notificação compulsória em todo o território nacional e é de investigação obrigatória. Após concluir o diagnóstico, o caso deve ser notificado ao órgão de vigilância superior, através de uma ficha de notificação do SINAN. Epidemiologia Nos últimos anos, observou-se bastante sucesso com a implantação dos programas de controle da hanseníase, apoiados pela OMS. Entre eles, tivemos o “Estratégia Global para Maior Redução da Carga da Hanseníase e a Sustentação das Atividades de Controle da Hanseníase: 2006-2010” e o “Estratégia Global Aprimorada para Redução Adicional da Carga da Hanseníase: 2011- 2015”. O foco desses programas está na detecção precoce de casos novos, tratamento gratuito com poliquimioterapia, sustentabilidade dos ganhos alcançados e na redução da carga da doença nas comunidades endêmicas. Em 2016, a OMS elaborou mais uma estratégia global como objetivo de eliminar a doença até 2020. No Brasil, o Ministério da Saúde também tem dado prioridade às ações para os casos em menores de 15 anos, a partir da “Campanha Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. Nacional de Hanseníase, Geo-Helmintíases e Tracoma”. Pode-se dizer que a prevalência da doença vem diminuindo em todo o mundo nos últimos 20 anos. Entretanto, esse declínio desacelerou mais recentemente. A taxa global de incidência da hanseníase também parece estar diminuindo, ainda que lentamente e que, em muitas áreas, permaneça estática ou mesmo em crescimento. Segundo a OMS, mais de 214 mil casos de hanseníase foram registrados em 2016. Aproximadamente 94% desse total foram detectados em apenas 13 países e o Brasil é um deles (Brasil, Índia e Indonésia, juntos, são responsáveis por 81% dos casos). Isso indica que a carga da hanseníase está diminuindo lentamente, mas novos casos continuarão a aparecer por muitos anos. Portanto, os serviços de diagnóstico e tratamento precisam ser mantidos em níveis adequados. No Brasil, embora os compromissos internacionais não tenham sido plenamente atingidos, observamos no período de 2000 a 2016 uma redução importante do coeficiente de prevalência de hanseníase – e o mesmo se deu para a incidência. Entretanto, a prevalência de hanseníase ainda apresenta importantes variações regionais e estaduais. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste (exceto Rio Grande do Norte e Distrito Federal), ainda há coeficientes elevados, sobretudo nos estados de Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Rondônia e Pará. Transmissão e Patogenêse O homem é considerado o único reservatório natural do bacilo, apesar do relato de animais selvagens naturalmente infectados (tatus e macacos). Os pacientes portadores de formas multibacilares são a principal fonte de infecção, embora o papel dos paucibacilares na cadeia de transmissão tenha sido demonstrado. A existência de portadores sadios tem sido relatada pelos estudos de DNA utilizando a técnica da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), entretanto o papel desses na transmissão e o seu risco de adoecimento não estão definidos. As vias aéreas superiores provavelmente constituem a principal via de inoculação e eliminação do bacilo. Soluções de continuidade na pele eventualmente podem ser porta de entrada da infecção. Secreções orgânicas como leite, esperma, suor e secreção vaginal podem eliminar bacilos, mas não possuem importância na disseminação da hanseníase. A hanseníase atinge pessoas de todasas idades, ambos os sexos, no entanto raramente ocorre em crianças abaixo de cinco anos de idade. A distribuição da doença em conglomerados, famílias ou comunidades com antecedentes genéticos comuns sugere a possibilidade de uma predisposição genética à infecção pelo BH. Existem marcadores imunológicos relacionados à capacidade dos macrófagos em destruir o bacilo ou simplesmente deixá-lo se multiplicar. Os fenótipos HLADR2 e HLA-DR3 estão relacionados à forma paucibacilar; e o fenótipo HLA-DQ-1, à forma multibacilar da doença. O período de incubação é longo, em média de dois a cinco anos, podendo ser de meses a mais de dez anos. Isso ocorre em virtude do M. leprae ser um micro- organismo “lento”, que se reproduz por divisão binária simples a cada 14 dias, sendo necessários muitos anos para que o organismo possua uma carga bacilar capaz de expressar-se clinicamente. Depois da sua entrada no organismo, não ocorrendo a sua destruição, o bacilo de Hansen irá se localizar na célula de Schwann e na pele. Sua disseminação para outros tecidos (linfonodos, olhos, testículos, fígado) pode ocorrer nas formas mais graves da doença, nas quais o agente infectante não encontra resistência contra a sua multiplicação. A imunidade humoral (dependente de anticorpos) é ineficaz contra o M. leprae. A defesa é efetuada pela imunidade celular, capaz de fagocitar e destruir os bacilos, mediada por citocinas (TNF-alfa, IFN-gama) e mediadores da oxidação, fundamentais na destruição bacilar no interior dos macrófagos. Na forma paucibacilar (lesões tuberculoides), há predomínio de linfócitos Th1, produzindo IL-2 e IFN- gama, enquanto que na forma multibacilar (lesões virchowianas ou lepromatosas), o predomínio é de linfócitos T supressoras e Th2, produzindo IL-4, IL- 5 e IL-10. Na hanseníase tuberculoide, a exacerbação da imunidade celular e a produção de citocinas pró- inflamatórias (IL-1 e TNF-alfa) impedem a proliferação bacilar, mas podem se tornar lesivas ao organismo, causando lesões cutâneas e neurais, pela ausência de fatores reguladores. Na hanseníase virchowiana, a produção de substâncias pelo bacilo (ex.: PGL-1), no interior do macrófago, favorece seu escape à oxidação, pois estes possuem função supressora da atividade do macrófago e favorecem a sua disseminação. OBS: A hanseníase é uma doença de ALTA infectividade e BAIXA patogenicidade. Classificação Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. Existem três classificações diferentes para hanseníase: a classificação de Madrid, a de Ridley e Jopling e a operacional. ✓ Classificação de Madri (Congresso Internacional, 1953) é a mais utilizada no Brasil. Consideram-se dois polos estáveis e opostos (virchowiano e tuberculoide) e dois grupos instáveis (indeterminado e dimorfo), que caminhariam para um dos polos, na evolução natural da doença. ✓ Classificação proposta por Ridley e Jopling (1962), divide a hanseníase em forma Tuberculoide (TT), casos borderline ou dimorfos que são subdivididos em Dimorfo- Tuberculoide (DT), Dimorfo-Dimorfo (DD) e DimorfoVirchowiano (DV), Virchowiano- Subpolar (VVs) e Virchowiano (VV). ✓ Classificação operacional da OMS se dá pelo número de lesões; quando até cinco lesões, é classificado como paucibacilar, e quando apresentar mais de cinco lesões, é classificado em multibacilar. Clínica A hanseníase deve ser lembrada – uma doença semelhante à tuberculose. Inclusive a própria transmissão se dá pela via respiratória! A diferença está basicamente no tipo de lugar que esta bactéria “gosta” de fazer lesão! Podemos marcar a hanseníase como uma doença de duplo acometimento: dermatoneurológica. E se tivermos um sinal marcante para destacarmos na hanseníase, este é, sem dúvidas, a perda de sensibilidade nas áreas afetadas pelas lesões (ou em outras áreas inervadas por nervos periféricos). Ela é mais frequente nos pacientes paucibacilares, nos quais a imunidade celular está exacerbada e, com isso, ao englobar o bacilo, acaba atingindo o nervo. Assim, os macrófagos são, na realidade, os que têm papel fundamental na neurite. É importante salientar, contudo, que, nos pacientes com o vírus HIV, o curso da hanseníase não se altera. Eventualmente, outros achados sistêmicos podem ocorrer em virtude do processo inflamatório associado, como uveíte ou glomerulonefrite, ou da própria extensão da doença em quadros de baixa resistência ao bacilo (linfonodomegalia e hepatoesplenomegalia). Hanseníase Indeterminada (HI) Caracteriza-se pelo aparecimento de mancha(s) hipocrômica(s), anestésica e anidrótica, com bordas imprecisas. As lesões são únicas ou em pequeno número e podem se localizar em qualquer área da pele. Não há comprometimento de troncos nervosos nesta forma clínica, apenas ramúsculos nervosos cutâneos. A baciloscopia é negativa. A HI é considerada a primeira manifestação clínica da hanseníase; e, após período de tempo que varia de poucos meses até anos, dependendo da imunidade, ocorre evolução para cura ou para outra forma clínica, quer seja paucibacilar ou multibacilar. A sua histopatologia apresenta infiltrado perivascular e perineural. Apresenta como diagnóstico diferencial: pitiríase alba, pitiríase versicolor, vitiligo, pinta, leucodermia gutata, nevo acrômico, nevo anêmico, hipomelanose idiopática do tronco, entre outros. ATENÇÃO: A principal diferença entre a lesão da hanseníase e de outras doenças dermatológicas é a alteração de sensibilidade! Hanseníase Tuberculoide (HT) A HT surge a partir da HI não tratada, nos pacientes com boa resistência. No polo de resistência, a hanseníase tuberculoide caracteriza a forma clínica de contenção da multiplicação bacilar, dentro do espectro da doença. As lesões são bem delimitadas, em número reduzido, eritematosas, com perda total da sensibilidade e de distribuição assimétrica. Descrevem- se inicialmente máculas, que evoluem para lesões em placas com bordas papulosas, e áreas de pele eritematosas ou hipocrômicas. Seu crescimento centrífugo lento leva à atrofia no interior da lesão, que pode, ainda, assumir aspecto tricofitoide, com descamação das bordas. Observam- se, ainda, a variedade infantil e a forma neural pura. A primeira manifesta-se em crianças conviventes com portadores de formas bacilíferas e localiza-se principalmente na face. Pode se manifestar como nódulos, placas, lesões tricofitoides ou sarcoídicas. Portanto, é uma forma paucibacilar (a baciloscopia é tipicamente negativa), cujo foco foi um paciente multibacilar. Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. A neurite normalmente se apresenta com um quadro agudo de dor intensa e edema, sem que haja, a princípio, comprometimento funcional do nervo. Contudo, a lesão se torna crônica e passa a evidenciar o dano, identificado por anidrose e ressecamento cutâneo; alopecia; alteração sensitiva (na ordem em que é perdida: térmica, dolorosa e tátil) e motora, cursando com dormência e perda da força muscular. Se não tratado, o acometimento neural pode provocar incapacidades e deformidades. Em alguns casos, as alterações de sensibilidade e motricidade podem aparecer sem os sintomas agudos de neurite (neurite silenciosa). Outra forma é a forma neural pura, quando não se encontram lesões cutâneas, mas encontramos espessamento do tronco nervoso e dano neural precoce e grave. Na hanseníase tuberculoide podemos ver emergindo da placa o espessamento neural, o qual denominamos de sinal da raquete. Os principais troncos nervosos periféricos acometidos na hanseníase são: ✓ Face – Trigêmio e Facial: podem causar alterações na face, nos olhos e no nariz; ✓ Braços – Radial, Ulnar e Mediano: podem causar alterações nos braços e nas mãos; ✓ Pernas – Fibular e Tibial: podem causaralterações nas pernas e nos pés. Principais Síndromes de Nervo Periférico: ✓ Ulnar - mão em garra e atrofia de interósseos. ✓ Mediano - mão do pregador. ✓ Ulnar + mediano - mão simiesca ou garra completa. ✓ Radial - queda do punho. ✓ Ramo trigeminal do facial - lagoftalmo. ✓ Fibular comum - queda do pé. ✓ Tibial posterior - Mal perfurante plantar, deformidade em garra de artelhos. A forma tuberculoide (HT) e a forma indeterminada (HI) constituem as formas paucibacilares da hanseníase. Apesar da possibilidade de cura espontânea na HT, a orientação é de que os casos sejam tratados para reduzir o tempo de evolução da doença e o risco de dano neural. Hanseníase Virchowiana (HV) Esta é a forma multibacilar da hanseníase (também chamada de lepra ou hanseníase lepromatosa), reconhecida por corresponder ao polo de baixa resistência imunológica ao bacilo. Pode evoluir a partir da forma indeterminada ou se apresentar como tal desde o início. Caracteriza-se pela infiltração progressiva e difusa da pele, mucosas das vias aéreas superiores, olhos, testículos, nervos; podendo afetar, ainda, os linfonodos, o fígado e o baço (hepatoesplenomegalia). Na pele, descrevem-se máculas, pápulas, nódulos e tubérculos. A infiltração é difusa e mais acentuada na face e nos membros. A pele torna-se luzidia, xerótica, com aspecto apergaminhado e tonalidade semelhante ao cobre. Há rarefação dos pelos nos membros, cílios e da cauda da sobrancelha (madarose). (FIGURAS 9) A infiltração da face e pavilhões auriculares, com madarose sem queda de cabelo, forma o quadro conhecido como fácies leonina. O comprometimento nervoso ocorre nos ramúsculos da pele, na inervação vascular e nos troncos nervosos. Estes últimos vão apresentar deficiências funcionais e sequelas tardias. São sinais precoces de HV a obstrução nasal, rinorreia serossanguinolenta e edema de membros inferiores. Um subtipo de HV, com infiltração difusa da pele, mas sem nódulos ou placas, é denominado lepromatose difusa ou “lepra bonita”. Outra variedade é chamada de histoide (FIGURA 12), na qual encontramos lesões nodulares que se assemelham com dermatofibromas (caracterizado por histiócitos fusiformes). O acometimento dos testículos pode levar à diminuição da produção de testosterona, ocorrendo aumento do FSH e LH com queda da libido e eventualmente ginecomastia. O acometimento da câmara anterior do olho resulta em glaucoma e formação de catarata. A insensibilidade da córnea pode levar ao trauma (triquíase) e infecção secundária. Na HV Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. avançada pode ocorrer perfuração do septo nasal e desabamento nasal. A HV apresenta baciloscopia fortemente positiva (multibacilar) e representa, nos casos virgens de tratamento, importante foco infeccioso ou reservatório da doença. A histopatologia demonstra aglomerado de bacilos nas camadas profundas da derme (globias). Na realidade, o microorganismo pode ser isolado de qualquer tecido ou órgão (fígado, baço, medula óssea, etc.) com exceção do pulmão e sistema nervoso central. Hanseníase Dimorfa (HD) ou Borderline (HB) Este grupo é marcado pela instabilidade imunológica, o que faz com que haja grande variação em suas manifestações clínicas, seja na pele, nos nervos, ou no comprometimento sistêmico. As lesões da pele revelam-se numerosas e a sua morfologia mescla aspectos de HV e HT, podendo haver predominância ora de um, ora de outro tipo. A infiltração assimétrica da face e dos pavilhões auriculares, bem como a presença de lesões no pescoço e nuca, é elemento sugestivo desta forma clínica. As lesões neurais são precoces, assimétricas e, com frequência, levam a incapacidades físicas. Dependendo da morfologia, número de lesões e simetria, a hanseníase dimorfa é subclassificada em: ✓ Borderline Tuberculoide (BT): placas ou manchas eritematosas, por vezes anulares, de maior extensão, distribuição assimétrica, pouco numerosas ou com lesões satélite. A baciloscopia é negativa ou discretamente positiva. ✓ Borderline Borderline (BB): lesões bizarras, semelhantes ao “queijo suíço” (“esburacadas”), também descritas como anulares ou foveolares, com limite interno nítido e limites externos imprecisos, com bordos de cor ferruginosa. As lesões são mais numerosas que a BT, mas de distribuição assimétrica. A baciloscopia geralmente é moderadamente positiva. Em alguns casos, o quadro reacional evolui com neurite, orquite, epididimite, irite, iridociclite, artralgia ou artrite, linfadenopatia generalizada, proteinúria e dano hepático. Edema de membros inferiores, pré- tibialgia e febre acompanham esta reação. Às vezes, a febre alta e prolongada domina o quadro clínico. Leucocitose (incluindo reação leucemoide), com desvio para esquerda, anemia normocítica normocrômica, VHS bastante elevado e proteína C reativa aumentada são achados frequentes. Títulos altos de fator reumatoide e FAN podem ser encontrados, confundindo o diagnóstico com o das colagenoses. As reações do tipo 2 repetem-se e evoluem indefinidamente em surtos subentrantes. ✓ Borderline Virchowiana (BV): múltiplas lesões elevadas eritematoinfiltradas, algumas de aspecto anular (FIGURAS 13). A baciloscopia é francamente positiva (tal como na hanseníase virchowiana). Hanseníase Reacional Os surtos reacionais são definidos como episódios inflamatórios que se intercalam no curso crônico da hanseníase. Muitas vezes podem chamar mais atenção do que as próprias lesões primárias da hanseníase, pela riqueza de sinais e sintomas. Ao contrário da apresentação esperada para uma hanseníase, possuem evolução aguda. Os tipos de reação mais importantes são a reação reversa ou reação do tipo 1 e a reação do tipo 2 ou Eritema Nodoso da Hanseníase (ENH). As reações seguem-se a fatores desencadeantes, tais como: infecções intercorrentes, vacinação, gravidez e puerpério, medicamentos iodados, estresse físico e emocional. Os quadros reacionais, às vezes, antecedem o diagnóstico da hanseníase, surgem durante o tratamento ou após a alta. ✓ Reação tipo 1 (reversa): a reação do tipo 1 tende a surgir mais precocemente no tratamento, entre o 2º e o 6º mês, caracteristicamente na hanseníase dimorfa. É considerada reação mediada pela imunidade celular. Caracteriza-se pela exacerbação das lesões preexistentes, que se tornam edemaciadas, eritematosas, brilhantes, semelhante à erisipela; podem surgir novas Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. lesões, embora pouco numerosas (FIGURAS 14). Os sintomas sistêmicos variam (geralmente uma febre baixa). Surgem lesões novas à distância e as neurites mostram-se frequentes e graves, podendo ser a única manifestação clínica. Se não tratadas precocemente, deixam sequelas. As neurites podem ser silenciosas, ou seja, o dano funcional do nervo se instala sem quadro clínico de dor e espessamento do nervo. Os nervos mais comprometidos são os ulnares e medianos nos membros superiores, fibular comum e tibial posterior nos membros inferiores e facial e grande auricular no segmento cefálico. ✓ Reação tipo 2 (eritema nodoso hansênico): observada nas formas multibacilares (virchowianas ou dimorfas), em geral, após seis meses de tratamento. O eritema nodoso hansênico é uma paniculite (inflamação da hipoderme) lobular (predomina nos lóbulos), acompanhado de vasculite. É uma síndrome desencadeada por depósito de imunocomplexos nos tecidos e vasos, mas a imunidade celular possui importância em etapas iniciais do processo. Há aumento de citocinas séricas, como o fator de necrose tumoral alfa e o interferon gama sem, contudo, haver mudança definitiva da condição imunológica do paciente. As manifestaçõesclínicas incluem: ✓ Febre e linfadenopatia; ✓ Neurite – nervo ulnar é o mais comumente acometido; Uveíte; ✓ Orquite; ✓ Glomerulonefrite. Na pele, a lesão típica (eritema nodoso – FIGURA 15A) se caracteriza por lesões eritematosas, dolorosas, de tamanhos variados incluindo pápulas e nódulos localizados em qualquer região da pele. Os nódulos evoluem para ulceração, e é chamado de eritema nodoso necrotizante (FIGURA 15B). O eritema poliforme também pode acompanhar a reação tipo 2. Em alguns casos, o quadro reacional evolui com neurite, orquite, epididimite, irite, iridociclite, artralgia ou artrite, linfadenopatia generalizada, proteinúria e dano hepático. Edema de membros inferiores, pré- tibialgia e febre acompanham esta reação. Às vezes, a febre alta e prolongada domina o quadro clínico. Leucocitose (incluindo reação leucemoide), com desvio para esquerda, anemia normocítica normocrômica, VHS bastante elevado e proteína C reativa aumentada são achados frequentes. Títulos altos de fator reumatoide e FAN podem ser encontrados, confundindo o diagnóstico com o das colagenoses. As reações do tipo 2 repetem-se e evoluem indefinidamente em surtos subentrantes. Fenômeno de Lucio: ocorre antes do tratamento em poucos pacientes com hanseníase virchowiana, especialmente naqueles com a forma “lepra bonita” ou lepra de Lucio. Lesões maculares equimóticas (necróticas) que se ulceram podem ocorrer em pequeno número ou por uma área extensa da pele, sendo observada mais comumente em extremidades inferiores. No caso de lesões generalizadas, o paciente pode comportar-se como um grande queimado, e a infecção secundária das lesões por Pseudomonas aeruginosa é uma complicação temida. A histopatologia demonstra necrose isquêmica da epiderme e derme superficial, parasitismo intenso de células endoteliais, proliferação de células endoteliais e formação de trombos em grandes vasos das porções profundas da derme. O tratamento consiste na poliquimioterapia, medidas de suporte, antibioticoterapia e transfusões de troca. Os glicocorticoides e a talidomida não são úteis. Ainda se discute se pode ou não ser considerada uma reação. Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. Diagnóstico Esta é uma etapa essencialmente clínica e epidemiológica, com base na história e condições de vida do paciente, além do exame dermatoneurológico. Tem-se como objetivo identificar lesões ou áreas de pele com alteração de sensibilidade e/ou comprometimento de nervos periféricos (sensitivo, motor e/ou autonômico). No exame neurológico, a identificação das lesões deve ser feita pelas seguintes etapas no exame físico: (1) inspeção dos olhos, nariz, mãos e pés; (2) palpação dos troncos nervosos periféricos; (3) avaliação da mobilidade articular; (4) avaliação da força muscular; e (5) avaliação de sensibilidade nos olhos, membros superiores e membros inferiores. Exame Dos Nervos Periféricos O exame dos nervos periféricos é fundamental, procurando-se deficits motores, sensitivos e espessamento dos troncos nervosos pela palpação. O nervo deve ser palpado com as polpas digitais do segundo e terceiro dedos, deslizando-os sobre a superfície óssea, acompanhando o trajeto do nervo, no sentido de cima para baixo. Deve-se verificar se há queixa de dor espontânea no trajeto do nervo; de choque ou de dor; se há espessamento do nervo palpado comparado com o nervo correspondente, no lado oposto; se há alteração na consistência do nervo (endurecimento, amolecimento); se há alteração na forma do nervo (abscessos e nódulos); se o nervo apresenta aderências. Para avaliação da sensibilidade, devemos explicar o teste que será realizado e apresentá-lo numa área da pele com sensibilidade normal. Em seguida, a sensibilidade (térmica, tátil e dolorosa) deve ser testada com o paciente de olhos fechados. Examina-se a sensibilidade térmica através de dois tubos de ensaio, um aquecido e outro frio. Pede-se para o paciente não olhar o exame e encosta o tubo em uma área sadia e outra com lesão, perguntando se ele acha que o tubo está quente ou frio. Para a sensibilidade dolorosa utilizamos uma agulha e tocamos suavemente na pele do paciente, o suficiente para sentir a sensação álgica. A sensibilidade tátil é verificada através de um leve toque, utilizando um tampão de algodão, cuja extremidade foi enrolada de forma a ficar afunilada. Isso permite exercer sobre a pele uma pressão muito leve. (Em caso de falta de algodão, pode-se utilizar o toque muito leve de uma pena de ave). Não se deve mexer o algodão nem fazê-lo escorregar sobre a pele: é mais fácil perceber a sensação de uma coisa que está em movimento. Dessa forma pode-se perder uma área onde a sensibilidade está diminuída, mas ainda não completamente perdida. Dá-se o nome de anestesia à perda total de sensibilidade e de hipoestesia à sua diminuição. Grosseiramente, para analisar a sensibilidade protetora, alguns textos sugerem a testagem em diferentes pontos com a caneta esferográfica de ponta grossa perpendicularmente à pele. No entanto, o melhor é que sejam utilizados os monofilamentos de Semmes-Weinstein (monofilamentos de 0.05 g, 0.2 g, 2 g, 4 g, 10 g e 300 g) – aqueles mesmos do diabetes! Para os olhos, o fio dental (sem sabor) é o indicado para avaliar a sensibilidade da córnea. Considera-se como grau 1 de incapacidade a ausência de resposta ao filamento igual ou mais pesado que o de 2 g (cor violeta). Os nervos comumente avaliados são: nos membros superiores, o nervo ulnar, o mediano e o radial; nos membros inferiores, o tibial posterior e o fibular comum; no segmento cefálico, o grande auricular e o nervo facial que é motor e não é palpável. Sequelas bem definidas podem ser encontradas já no período do diagnóstico, tais como: paralisia facial do tipo periférico unilateral ou bilateral, ou paralisia do ramo orbicular do nervo zigomático, provocando o lagoftalmo, epífora (escoamento de lágrimas devido à Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. obstrução do canal lacrimal) e exposição da córnea; mão em garra (garra do quarto e quinto quirodátilos ou garra completa); mão caída; pé caído, garra de artelhos, que pode ser acompanhada do mal perfurante plantar. Baciloscopia A baciloscopia é o exame complementar mais útil no diagnóstico; é de fácil execução e baixo custo. Deve ser feito com a linfa obtida em pelo menos quatro locais (lóbulos das orelhas direita e esquerda, cotovelos direito e esquerdo) e em lesão cutânea suspeita. A coloração é feita pelo método de Ziehl-Neelsen e apresenta-se o resultado sob a forma de Índice Baciloscópico (IB), numa escala que vai de 0 a 6+. A baciloscopia mostra-se negativa (IB = 0) nas formas tuberculoide e indeterminada, fortemente positiva na forma virchowiana e revela resultado variável na forma dimorfa. Considera-se um caso de hanseníase a pessoa que apresenta um ou mais dos seguintes sinais cardinais: • mancha e/ou área(s) da pele com alteração (perda) de sensibilidade, característica da hanseníase; • acometimento de nervo(s) periférico(s), com ou sem espessamento, associado a alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas; e • baciloscopia positiva de esfregaço intradérmico. Em caso de dúvida, pode-se lançar mão de provas complementares, que são o teste da histamina (ausência do eritema secundário) e da pilocarpina (anidrose). Teste De Histamina O teste de histamina é feito colocando-se uma gota de solução de cloridrato de histamina a 1:1.000 sob a pele. Com uma agulha fina faz-se uma escoriação embaixo do líquido, de modo que não haja sangramento. O esperado normalmente é que ocorra a tríplice reação de Lewis: a) eritema inicial no local da picada, no máximo com 10 mm, 20 a40 segundos após a picada; b) eritema pseudopódico com 30 a 50 mm após aproximadamente um minuto, devido à vasodilatação arteriolar por ato reflexo axônico; e c) seropápula, dois a três minutos após a escarificação. É um exame útil para auxiliar no diagnóstico de manchas hipocrômicas hansenianas iniciais, pois nestas falta o eritema pseudopódico. Não se realiza este exame na raça negra devido à dificuldade de leitura. O teste é classificado em completo e incompleto. Teste Da Pilocarpina No teste da pilocarpina utilizamos injeção intradérmica de cloridrato de pilocarpina a 1%. Normalmente ocorre sudorese na área picada dois minutos após. Nas lesões hansênicas ocorre anidrose. Os dois testes acima devem ser feitos em áreas sadias e doentes, preferencialmente simétricas. Reação De Mitsuda A reação de Mitsuda é um teste de aplicação intradérmica cuja leitura é tardia (28 dias). Utiliza-se na classificação da doença e na definição do prognóstico. Não possui valor para o diagnóstico, pois de um modo geral é encontrado de forma positiva na população sã, que já teve contato com o bacilo, porém não desenvolveu a doença por apresentar boa imunidade. O teste consiste na aplicação intradérmica – na superfície extensora do antebraço direito – de 0,1 ml de um preparado que contém 40 a 60 milhões de bacilos mortos por mililitro (FIGURA 19A e 19B). Após cerca de 48 a 72 horas da injeção, observa-se uma reação localizada (semelhante à reação tuberculínica), denominada reação de Fernandez, de significado incerto. Depois de 28 a 30 dias pode ocorrer uma segunda reação tardia à mitsudina ou Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. lepromina: é a reação de Mitsuda . Esta consiste na presença de uma pápula ou nódulo, que pode ou não ulcerar. Segundo a Organização Mundial de Saúde, reações até 5 mm chamamos de mitsuda negativo, e acima de 5 mm chamamos de mitsuda positivo. Na lepra de Lucio existe a leitura da chamada reação de Medina, 6 horas após a inoculação intradérmica da lepromina. Outros Exames Os casos com suspeita de comprometimento neural sem lesão cutânea (suspeita de hanseníase neural pura) e aqueles que apresentam área com alteração sensitiva e/ou autonômica duvidosa e sem lesão cutânea evidente deverão ser encaminhados para unidades de saúde de maior complexidade, para confirmação diagnóstica. Nessas unidades, serão submetidos mais uma vez a um exame dermatoneurológico criterioso, bem como à coleta de material para exames laboratoriais (baciloscopia ou histopatologia cutânea ou de nervo periférico sensitivo), exames eletrofisiológicos e/ou outros mais complexos. Em crianças, diante da dificuldade de aplicação e interpretação dos testes de sensibilidade, recomenda-se utilizar o Protocolo Complementar de Investigação Diagnóstica de Casos de Hanseníase em Menores de 15 anos. O antígeno glicolípide fenólico-1 (PGL-1) é específico do M. leprae e leva à formação de anticorpos das classes IgG e IgM. Os títulos de IgM correlacionam-se com a forma clínica e a atividade da doença. Níveis aumentados do anti-PGL-1 têm sido descritos na hanseníase virchowiana e tendem a decrescer com o tratamento específico. Por outro lado, na hanseníase tuberculoide não há resposta desses anticorpos. A identificação do Micobacterium leprae pela Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), que serve para detectar quantidades mínimas de micobactérias, tem sido estudada em centros de pesquisa, mas não é realizada rotineiramente. Tratamento Para o Ministério da Saúde, o êxito do tratamento está diretamente ligado à compreensão e à assimilação do paciente sobre a sua importância, tarefa que muitas vezes só é conseguida após exaustiva orientação quanto à tomada correta do medicamento, além é claro do acolhimento durante as consultas, principalmente no primeiro atendimento. A definição do esquema antimicrobiano para hanseníase depende da classificação operacional do caso, baseada no número de lesões cutâneas: ✓ Paucibacilares (PB) – casos com até cinco lesões de pele; ✓ Multibacilares (MB) – casos com mais de cinco lesões de pele (seis ou mais). A baciloscopia positiva classifica o caso como multibacilar, independentemente do número de lesões. Em 2017, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou o documento “Diretrizes para o diagnóstico, tratamento e prevenção da hanseníase”, no qual recomenda um regime único de três medicamentos (rifampicina, clofazimina e dapsona) para todos os pacientes com hanseníase, com duração de tratamento de 6 meses para hanseníase paucibacilar (PB) e de 12 meses para hanseníase multibacilar (MB). Essa recomendação simplifica o tratamento e previne que pacientes com hanseníase MB sejam erroneamente classificados como PB e sejam tratados com apenas duas drogas, já que todos os pacientes passam a receber o esquema único. Anteriormente o tratamento da hanseníase PB era realizado apenas com rifampicina e dapsona por 6 meses e o tratamento da hanseníase MB era realizado com rifampicina, dapsona e clofazimina por 12 meses. De mesma forma, em 2018 a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) do Ministério da Saúde avaliou e recomendou a ampliação do uso da clofazimina para os pacientes com hanseníase PB, por meio de evidências científicas disponíveis sobre a eficácia, efetividade e segurança. Em 2020, por meio da Nota Técnica nº 4/2020- CGDE/.DCCI/SVS/MS, o Ministério da Saúde passou a recomendar que, a partir de setembro de 2020, todos os casos novos de PB e de MB passassem a iniciar esquema único de tratamento com 3 drogas (rifampicina, clofazimina e dapsona). Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. Entretanto, considerando o contexto da pandemia e o cenário de atraso na importação das cargas de poliquimioterapia por parte da OMS, esse prazo acabou sendo prorrogado. Em 2021, por meio da Nota Técnica nº 16/2021- CGDE/.DCCI/SVS/MS, o Ministério da Saúde implementou de fato a ampliação do uso da clofazimina para o tratamento da hanseníase paucibacilar, conforme já previamente determinado na Portaria SCTIE/MS nº 71, de 11 de dezembro de 2018. Assim sendo, a partir de 1 de julho de 2021, a associação dos fármacos rifampicina + dapsona + clofazimina, na apresentação de blísteres para tratamento da hanseníase, passou a ser denominada “Poliquimioterapia Única – PQT-U”, adulto ou infantil, sendo recomendada para o tratamento de todos os casos novos de hanseníase, tanto paucibacilares quanto multibacilares, com diferença apenas na duração do tratamento. Os pacientes que já haviam iniciado o esquema anterior deverão finalizar o tratamento prescrito e não deverão mudar para o esquema único. As principais medidas de vigilância compreendem: • Notificação: a hanseníase é uma doença de notificação compulsória em todo território nacional e de investigação obrigatória. • Descoberta de casos e tratamento específico: por meio da detecção ativa e passiva (demanda espontânea e encaminhamento). A detecção ativa de casos de hanseníase prevê a busca sistemática de doentes, pela equipe da unidade de saúde, por meio das seguintes atividades: investigação epidemiológica de contatos; exame de coletividade, com inquéritos e campanhas; exame das pessoas que demandam espontaneamente os serviços gerais de unidade de saúde, por outros motivos que não sinais e sintomas dermatológicos ou neurológicos; exame de grupos específicos, em prisões, quartéis, escolas, de pessoas que se submetem a exames periódicos, entre outros; mobilização da comunidade adstrita à unidade, principalmente em áreas de alta magnitude da doença, para que as pessoas demandem os serviços de saúde sempre que apresentaremsinais e sintomas suspeitos. O tratamento da hanseníase é eminentemente ambulatorial e os medicamentos devem estar disponíveis em todas as unidades de saúde de municípios endêmicos. • Vigilância de casos em menores de 15 anos: diante de um caso suspeito de hanseníase em menores de 15 anos, deve ser preenchido o “Protocolo Complementar de Investigação Diagnóstica de Casos de Hanseníase em Menores de 15 Anos” (PCID – < 15) e, se confirmado o caso, remeter esse protocolo à SMS, com a ficha de notificação do Sinan, anexando cópia no prontuário do paciente. • Vigilância de recidivas: As unidades de saúde dos municípios, diante de um caso suspeito de recidiva, devem preencher a “Ficha de intercorrências pós-alta por cura” e, encaminhar o caso para a unidade de referência mais próxima. Uma vez confirmado o caso, remeter a ficha para a secretaria municipal de saúde, juntamente com a ficha de notificação do Sinan, anexando copia no prontuário do paciente. • Atenção às áreas de ex-colônias de hanseníase: apesar do isolamento compulsório ter sido abolido em 1962 no Brasil, muitas pessoas permaneceram residindo em ex-colônias ou em seus arredores. Outras foram internadas por razões sociais até o início dos anos 1980, em alguns estados. Recomenda-se, portanto, que essas populações sejam alvo de ações de vigilância e controle de hanseníase. • Prevenção e tratamento de incapacidades físicas: todos os casos de hanseníase, independentemente da forma clínica, deverão ser avaliados quanto ao grau de incapacidade no momento do diagnóstico e, no mínimo, uma vez por ano, inclusive na alta por cura. Toda atenção deve ser dada ao diagnóstico precoce do comprometimento neural. • Vacinação BCG (Bacilo de CalmetteGuërin): a vacina deverá ser aplicada nos contatos intradomiciliares, sem presença de sinais e sintomas de hanseníase, no momento da avaliação, independentemente de serem contatos de casos PB ou MB. A aplicação da vacina BCG depende da história vacinal. Todo contato de hanseníase deve receber orientação de que a BCG não é uma vacina específica para este agravo e, nesse Isadora Pedreira. Módulo XXII- Problema 01 intermed. grupo, é destinada, prioritariamente, aos contatos intradomiciliares. → Contatos intradomiciliares de hanseníase com menos de um ano de idade, já vacinados, não necessitam da aplicação de outra dose de BCG. → Contatos intradomiciliares de hanseníase com mais de um ano de idade, já vacinados com a primeira dose, devem seguir as instruções do quadro anterior. → Na incerteza de cicatriz vacinal ao exame dos contatos intradomiciliares, recomenda-se aplicar uma dose, independentemente da idade. • Indicadores: usados para ajudar a descrever a situação epidemiológica e para acompanhar mudanças ou tendências em um período de tempo. Referências: AZULAY, R.D.; AZULAY, D.R.; AZULAY-ABULAFIA, L. Dermatologia - 7. ed., rev. e atual - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. BRASIL. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia prático sobre a hanseníase. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2017 BRASIL. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Coordenação- Geral de Vigilância das Doenças em Eliminação. Nota Técnica nº 16/2021-CGDE/.DCCI/SVS/MS. Assunto: orientações a Estados e Municípios para a implementação da “ampliação de uso da clofazimina para o tratamento da hanseníase paucibacilar, no âmbito do Sistema Único de Saúde”… Brasília, DF; 16 Jun 2021