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RESENHA CRÍTICA DO LIVRO “INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO JURÍDICO CRÍTICO”, DE ANTONIO CARLOS WOLKMER - Alunos 1. INTRODUÇÃO O livro "Introdução ao Pensamento Jurídico Crítico", de Antonio Carlos Wolkmer, centraliza-se na análise crítica das abordagens e teorias tradicionais do Direito, questionando o modelo dogmático de interpretação jurídica. Além disso, o autor busca unir diferentes perspectivas para abordar de maneira inovadora as questões emergentes na sociedade latino-americana. Isso inclui a discussão dos conflitos relacionados às injustiças sociais e à imposição do modelo europeu em detrimento da cultura latina. O cerne da obra, portanto, é oferecer uma nova perspectiva sobre a realidade, fundamentada no pensamento jurídico crítico e suas variadas correntes, tanto no Brasil como na América Latina e nos Estados Unidos. O autor começa definindo termos como "teoria jurídica crítica", "crítica jurídica" e "pensamento crítico", todos direcionados ao mesmo propósito: o exame reflexivo das tradições do pensamento jurídico estabelecido. O autor, de forma concisa e coesa, desmitifica o novo conceito de pensamento jurídico, não como uma teoria científica acabada, mas como um campo aberto a diversas possibilidades. Isso é crucial dada a complexidade do atual contexto histórico, que demanda uma abordagem multidisciplinar, tanto na teoria como na prática, ao lado da dogmática jurídica. A exploração do conteúdo doutrinário da teoria crítica do direito descreve seu objeto e sua aplicação prática, potencializando a implantação de tal abordagem em um cenário de mudanças sociais em curso. O autor identifica que os objetos de estudo abrangem questões epistemológicas e político-ideológicas, exigindo validação empírica. As justificativas apresentadas reforçam a necessidade de superar o pensamento jurídico tradicional, que demonstra esgotamento diante das complexidades contemporâneas. A crítica é apresentada como uma oportunidade de desmascarar mitos e falácias que sustentam o modelo tradicional, com a aspiração de fomentar a construção de uma sociedade mais justa e democrática. A abordagem metodológica adotada pelo livro concentra-se nas décadas de 70, 80 e 90, acompanhando seu desenvolvimento nos Estados Unidos, países da Europa Ocidental e América Latina. Através de uma abordagem indutiva, análises crítico-comparativas e uma pesquisa descritiva de base histórico-social, a obra posiciona os principais protagonistas dessa discussão, como Hans Kelsen e Marx, em um diálogo instigante, abrangendo sete capítulos. 2. CAPÍTULO 1: NATUREZA E PROBLEMATIZAÇÃO DA TEORIA CRÍTICA Neste primeiro capítulo, quando se aborda os paradigmas que moldaram a trajetória da América Latina ao longo dos séculos – os quais se basearam em verdades teológicas, metafísicas e racionalidade, gerando modelos culturais, normativos e instrumentais –, torna-se evidente que esses paradigmas se tornaram "insatisfatórios e limitados" ao confrontá-los com as necessidades e desejos atuais. Esse desgaste se aplica, principalmente, no âmbito filosófico-teórico que fundamenta as práticas e instituições tradicionais. Nesse contexto, a escola de pensamento jurídico crítico surge como uma alternativa filosófica para dar sentido a esse novo cenário. É importante salientar que a crise de paradigmas se origina da emergência de desafios e questões que não podem ser adequadamente abordados pelos moldes da filosofia antiga, alicerçada em ideais dogmáticos. Essa crise se manifesta através da crescente complexidade de conflitos sociais, a diversidade socioeconômica, a concentração de capital e o aumento do intervencionismo do poder Executivo. A intenção do autor não é favorecer uma corrente específica de pensamento crítico, mas sim destacar o movimento e a convergência de diversas manifestações filosóficas críticas que enfrentam os aspectos tradicionais e dogmáticos que perpetuam a opressão e o desconhecimento dos novos fatores sociais. No que se refere à natureza e conceituação da "crítica", dentro do contexto da escola de pensamento jurídico crítico, o termo está associado à ideia ampla de "desmistificar ideologias ocultas que distorcem fenômenos". Esse pensamento se origina da experiência histórico-concreta e das necessidades humanas essenciais. A origem filosófica da teoria crítica está relacionada à escola de Frankfurt, que desempenha um papel fundamental na representação da escola crítica do direito. Autores como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas, cada um à sua maneira, criticam a filosofia tradicional por aceitarem a contradição e o papel constante da negatividade no processo de conhecimento. Essa abordagem democrática e multidisciplinar é mais adequada para lidar com a complexidade atual, em comparação com a perspectiva isolada do direito. No que tange aos objetivos e significado da Teoria Crítica, o autor explicita que sua finalidade é estabelecer um projeto de mudança social em consonância com o surgimento de um novo tipo de ser humano. Esta teoria, por sua vez, é caracterizada como uma filosofia histórico-social que incorpora uma estrutura cognitiva reflexiva, utilizando uma linguagem de cunho progressista que legitima uma visão utópica e revolucionária. Contudo, é necessário reconhecer que a teoria crítica também possui imprecisões e aporias que merecem reflexão. O autor ressalta a importância de não se cair em absolutizações e dogmatismos ao se abordar a Escola Frankfurtiana e enfatiza que até mesmo as críticas enfrentam a possibilidade de interpretações contraditórias. Um autor, como Phil Slater, enfatiza que a teoria crítica não deve ficar apenas na identificação de problemas, mas também deve se envolver ativamente na organização e na ação política. Apesar dessas ambiguidades, aqueles que buscam um projeto transcultural resistente não se deixam deter pelas imprecisões e aporias, permanecendo comprometidos com essa abordagem transformadora. 3. CAPÍTULO 2: TEORIA CRÍTICA NO DIREITO Noutro lado, no segundo capítulo, o autor discorre sobre alguns pontos essenciais da Teoria Crítica do Direito, explorando as origens desse movimento, sua evolução e os debates em torno de suas possibilidades e limites. O autor, Antonio Carlos Wolkerem, ressalta a emergência do movimento crítico do direito na década de 1960, influenciado por juristas europeus, como um esforço para analisar o direito sob uma perspectiva sociopolítica, buscando uma compreensão mais profunda das relações entre direito, Estado e sociedade. Em síntese, destaca que o surgimento da teoria crítica do direito ocorreu na década de 60, influenciada por teóricos como Stucka e Pashukanis da União Soviética, Gramsci, a teoria frankfurtiana e Foucault. Na década de 70, foi impulsionada pelo manifesto da Associação Crítica do Direito na França e pelos magistrados italianos nos anos 80, alcançando também a América Latina. A crítica, enquanto elemento essencial do pensamento jurídico, é entendida como um instrumento operativo que não apenas esclarece e desperta, mas também emancipa um sujeito histórico submerso em uma normatividade repressora. O autor conclui que a Teoria Crítica do Direito é uma abordagem teórico-prática que se manifesta como um exercício reflexivo, capaz de questionar e romper com as normas disciplinadoras, buscando alinhar-se ao sentido sociopolítico do Direito. A teoria crítica legitima-se ao distinguir os aspectos superficiais na esfera jurídica. O autor destaca que o movimento crítico do direito se diferencia de outras doutrinas, como o positivismo jurídico e o jusnaturalismo, ao questionar sua reprodução do sistema capitalista. A crítica do direito é vista como uma ferramenta para esclarecer e emancipar os sujeitos, rompendo com a normatividade opressora. Além disso, o conceito de teoria crítica do direito é apresentado como uma forma de justiça específica dentro de um ordenamento jurídico, capaz de questionar e romper com esse mesmo ordenamento. A ruptura com a racionalidade tradicional é destacada como uma maneira de construir novos paradigmas sociopolíticose epistemológicos. Em relação às possibilidades e limites da teoria jurídica crítica, o autor menciona a controvérsia existente entre diferentes filósofos. Dois grupos são identificados: os que defendem a construção teórica do direito por meio de pressupostos teóricos e os teóricos críticos, que questionam a especificidade da teoria crítica e suas diferentes perspectivas metodológicas. O autor sugere que a teoria crítica do direito visa esclarecer a relação entre as relações sociais e as formas institucionais, destacando a importância de uma epistemologia jurídica para superar os limites da teoria jurídica tradicional e investigar a eficiência do poder jurídico. Em resumo, o trecho aborda de forma abrangente os principais conceitos, objetivos e desafios da Teoria Crítica do Direito, refletindo sobre sua origem, desenvolvimento e abordando debates cruciais sobre sua viabilidade e alcance. Para o autor, nesta perspectiva, as características fundamentais de uma teoria crítica incluem: a) Revelar os mecanismos discursivos presentes. b) Expor as funções políticas e ideológicas do Estado. c) Reavaliar as bases epistemológicas que sustentam a produção tradicional da ciência jurídica. d) Transcender a ideia de direito como um mero saber técnico e reinstaurá-lo no contexto das práticas sociais. e) Formar cidadãos capazes de atuar na esfera social e política, em contraste a meros agentes estatais. f) Adaptar as práticas tradicionais de pesquisa para incorporar abordagens menos convencionais. g) Educar nas faculdades de Direito para nutrir cidadãos autônomos em pensamento, sentimentos e ações. O autor também aponta que a teoria crítica já foi vista como uma vertente científica epistemológica e delimita-se os obstáculos impostos por pesquisadores que questionam sua definição como ciência. A análise se concentra na própria crítica da teoria crítica, muitas vezes devido à falta de sistematização e coesão teórica. O autor destaca que, apesar disso, há um movimento filosófico claro que busca questionar o Direito de forma crítica e superar seu modelo tradicional. Hoje, apesar das críticas e das divergências, há um consenso de que a Teoria Crítica do Direito não está completamente definida em termos epistemológicos e que é mais apropriado vê-la como um conjunto de teorias críticas em evolução. Como um conhecimento em processo, a cooperação entre juristas críticos é crucial para solidificar uma metodologia, objetivos e uma base teórica mais sólida para a Teoria Crítica do Direito. 4. CONCLUSÃO Em suma, o livro "Introdução ao Pensamento Jurídico Crítico" de Antonio Carlos Wolkmer, oferece uma análise profunda e reflexiva sobre a Teoria Crítica do Direito e suas implicações na compreensão do ordenamento jurídico. A obra não apenas desafia os paradigmas tradicionais do Direito, mas também propõe uma abordagem inovadora para enfrentar os desafios complexos da sociedade latino-americana contemporânea. Através de uma análise minuciosa das origens, evolução e características da Teoria Crítica, o autor nos conduz por um caminho de questionamentos e insights sobre como o Direito pode se adaptar e responder de maneira mais eficaz às demandas emergentes. Ao explorar a relação entre a teoria crítica e as estruturas institucionais, Wolkmer nos lembra da importância de examinar as raízes ideológicas que sustentam o sistema jurídico, a fim de alcançar uma compreensão mais completa e crítica da realidade. A abordagem multidisciplinar adotada pelo autor, ao mesclar elementos filosóficos, históricos e políticos, enriquece a compreensão do leitor sobre a amplitude da Teoria Crítica do Direito e sua relevância para as transformações sociais. A análise cuidadosa das diferentes correntes de pensamento, bem como as possíveis aporias, nos convida a refletir sobre os desafios e oportunidades presentes nesse campo de estudo em constante evolução. No entanto, a obra também revela que, apesar do vigor da abordagem crítica, a Teoria Crítica do Direito enfrenta algumas lacunas e contradições que demandam uma cooperação contínua entre os acadêmicos para solidificar sua metodologia e sua aplicabilidade no mundo real. Ainda assim, a força e a urgência do movimento crítico são inegáveis, oferecendo um antídoto valioso para as limitações do pensamento jurídico tradicional e um convite para uma reflexão mais profunda sobre o papel do Direito na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Em última análise, "Introdução ao Pensamento Jurídico Crítico" é uma obra instigante e esclarecedora que nos convida a questionar as bases do sistema jurídico e a considerar novas perspectivas para enfrentar os desafios atuais. O autor nos incentiva a romper com as convenções estabelecidas e a explorar novos horizontes, em busca de um Direito mais sensível e eficaz na promoção da justiça social.