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Geografia dos Recursos Hídricos 59 4 Recursos hídricos no Brasil O Brasil é um dos países mais ricos em diversidade biológica e recursos naturais. De fato, seus rios e reservatórios correspondem a mais de 12% de toda a água doce do planeta. Entretanto, apesar dessa abundância, o país enfrenta severas crises hídricas em todo o seu território e apresenta graves problemas ambientais, decorrentes da contami- nação de seus corpos hídricos por esgotos domésticos e industriais sem tratamento. Em 1997, visando contornar esses e outros problemas associados à gestão inade- quada dos recursos hídricos no país, foi criado a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH). Estabelecida pela Lei n. 9.433/97 (BRASIL, 1997), a PNRH é um instrumento que tem como principal objetivo a correta gestão das águas no Brasil. Esse plano se destaca, ainda, por ter sido desenvolvido a partir de um processo amplo de mobiliza- ção e participação da população. Dessa forma, o presente capítulo visa analisar os aspectos legais, éticos e econô- micos dos recursos hídricos no Brasil, tendo como base a PNRH. Também tem como objetivo abordar os diferentes aspectos dos usos das águas no país e os potenciais pon- tos de melhoria. Inicialmente, porém, será apresentado um panorama da hidrologia no Brasil, discutindo sobre as principais bacias hidrográficas em território nacional e o balanço hídrico brasileiro. Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos60 4.1 Hidrologia no Brasil 4.1.1 Regiões hidrográficas brasileiras Bacia hidrográfica é a unidade de gestão hidrográfica, isto é, corresponde à área de drenagem que envolve rios, lagos, reservatórios e escoamentos superficiais e subterrâneos em determinada área (CECH, 2013). Em geral, entretanto, os limites políticos dos países não coincidem com as áreas delimi- tadas pelas bacias hidrográficas, considerando-se que muitos rios cruzam fronteiras interna- cionais, atravessando estados e municípios durante seu trajeto. De fato, aproximadamente metade de todos os territórios do planeta situam-se em áreas de bacias internacionais. Devido à presença de grandes bacias ocupando territórios situados em diversos países, o planejamento e a gestão hídrica podem, muitas vezes, ser realizados de forma inadequada. Assim, é essencial que uma gestão integrada de recursos hídricos seja levada a efeito por todas as partes interessadas na conservação e no uso sustentável das águas em determinada região. Para isso, é fundamental conhecer a importância geográfica e econômica das bacias hidrográficas que abrangem cada país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2004), existem 58 bacias hidrográficas distribuídas em território brasileiro. Essas bacias podem ser agrupadas de acordo com diferentes critérios, como localização físi- ca (dez grupos, segundo o IBGE), ou ainda mediante a área de escoamento da região. Neste último caso, o agrupamento será realizado de acordo com diferentes regiões hidrográficas. Uma região hidrográfica compreende uma área formada por solos ou corpos hídricos e que pode ser constituída por uma ou mais bacias hidrográficas adjacentes. O Brasil, devido à sua grande extensão e riqueza hídrica, apresenta 12 áreas de drenagem, ou regiões hidro- gráficas (Figura 1): • Região Hidrográfica Amazônica; • Região Hidrográfica do Tocantins-Araguaia; • Região Hidrográfica Atlântico Nordeste Ocidental; • Região Hidrográfica Atlântico Nordeste Oriental; • Região Hidrográfica Atlântico Leste; • Região Hidrográfica Atlântico Sul; • Região Hidrográfica do São Francisco; • Região Hidrográfica do Parnaíba; • Região Hidrográfica do Paraná; • Região Hidrográfica do Sudeste; • Região Hidrográfica do Paraguai; • Região Hidrográfica do Uruguai. Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 61 Figura 1 – Mapa das regiões hidrográficas presentes em território brasileiro. Fonte: IBGE, 2017. A Região Hidrográfica Amazônica compreende a maior região hidrográfica em dispo- nibilidade de água do mundo. Essa área se destaca pela riqueza e diversidade de ecossiste- mas, formados devido a sua elevada disponibilidade hídrica. Algumas formações vegetais, como florestas inundadas, várzeas, campos abertos, cerrados e iguapós podem ser encontra- dos nessa região, que abrange cerca de 3,9 milhões de km2 e uma população de 9,7 milhões de habitantes – o que equivale a 2,5 habitantes/km2, a mais baixa densidade demográfica entre as diferentes regiões do país (BRASIL, 2016). O mapa da Figura 2 apresenta as áreas compreendidas pela Região Hidrográfica Amazônica, na América do Sul. Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos62 Figura 2 – Região Hidrográfica Amazônica, a maior área em disponibilidade hídrica do mundo. Fonte: Kmusser/Wikimedia Commons. Analisando a figura, é possível observar que essa região se estende por territórios do Brasil, do Peru, da Bolívia, da Colômbia, do Equador, da Venezuela e da Guiana. Em relação à contribuição da Região Hidrográfica Amazônica na formação dos recur- sos hídricos no Brasil, aproximadamente 73% do total do país estão nela localizados. Isso equivale a uma vazão de pouco mais de 132 mil m3 a cada segundo. Nessa área, a maior demanda de água destina-se ao abastecimento humano e à dessedentação de animais, com- preendendo, respectivamente, 33% e 32% da demanda total da região (BRASIL, 2016). A Região Hidrográfica do Tocantins-Araguaia abrange um território de 919 mil km2, aproximadamente. No Censo de 2010, foram registrados cerca de 8,6 milhões de habitantes nessa região, divididos entre os estados de Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Mato Grosso e Distrito Federal. A densidade demográfica, de acordo com o censo, é igual a 9,3 habitantes/ km2, um valor bem abaixo da média nacional de 22,4 habitantes/km2, assim como observado na Região Hidrográfica Amazônica (BRASIL, 2016). Em relação aos usos da água, a Região Hidrográfica do Tocantins-Araguaia apresenta uma grande demanda destinada ao uso agrícola, equivalente a 62% do uso total de água nessa área, irrigando culturas de arroz, milho, soja e frutíferas. A Região Hidrográfica do Atlântico Nordeste Ocidental, por sua vez, encontra-se si- tuada em grande parte do estado do Maranhão (91%), abrangendo, também, parte do estado do Pará (9%). De acordo com o levantamento de 2010, a população correspondente nessa região é de cerca de 6,2 milhões de habitantes, com mais de 60% vivendo em áreas urbanas. Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 63 Nessa área hidrográfica, a principal demanda envolve o abastecimento humano (45% do total), seguido da dessedentação animal (18%) e da irrigação (15%) (BRASIL, 2016). A Região Hidrográfica do Atlântico Nordeste Oriental apresenta uma grande impor- tância econômica, pois abrange cinco capitais da região Nordeste do país (Recife, Fortaleza, Maceió, Natal e João Pessoa), além de outros importantes centros urbanos e um parque industrial com produção bastante representativa, ocupados por uma população de mais de 24 milhões de pessoas (dados de 2010) (BRASIL, 2016). A demanda é, majoritariamente, para consumo humano, e também para atividades de pecuária, agricultura e extrativismo mineral (tungstênio, cobre e chumbo, por exemplo), o que torna essa área uma das mais impactadas ambientalmente pela ação do homem no país. Em relação à Região Hidrográfica do Atlântico Leste, ela compreende 4,5% do ter- ritório brasileiro, contemplando parte da Bahia e do Sergipe, incluindo suas capitais. Sua população equivale a cerca de 8% do total nacional, sendo que 75% encontra-se em áreas ur- banas. Essa área é altamente povoada, com densidade demográfica igual a 39 habitantes por km2 (BRASIL, 2016). Apresenta fragmentos de biomas costeiros, de caatinga e da Floresta Atlântica, caracterizando-se como a região brasileira em que ocorre a maior quantidade de danos à vegetação devido às atividades antrópicas. Sua maior demanda refere-seaos usos para abastecimento humano e atividades industriais. Assim como as demais regiões hidrográficas costeiras, a Região Hidrográfica do Atlântico Sul tem alta densidade populacional, com cerca de 13,4 milhões de habitantes, 88% deles em áreas urbanas, e destaca-se pelas atividades industriais e de turismo. Essa área é formada pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e apresenta elevados indicadores de distribuição de água potável, que atende 91% da população da região (BRASIL, 2016). Também há em seu território elevada ação antrópica, principalmente na zona de Mata Atlântica. A Região Hidrográfica do São Francisco é a mais importante para a zona do semiárido brasileiro. Sua área ocupa 8% do território nacional, concentrando grande diversidade bio- lógica, entre cobertura vegetal (parte do Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica) e fauna, prin- cipalmente peixes de água doce. Aproximadamente 7,5% da população nacional habita em algum trecho dessa região; entretanto, a maior parte concentra-se na região metropolitana de Belo Horizonte. Ao total, a Região Hidrográfica do São Francisco engloba 521 municí- pios, em seis estados: Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Goiás (BRASIL, 2016). Apesar de presente em áreas secas, muitas vezes a capacidade das bacias dessa região não é suficiente para atender populações do semiárido fora de seus limites, o que leva a períodos críticos de estiagem e ao êxodo rural. Visando contornar essas limitações, o atual projeto de transposição do rio São Francisco tem deslocado parte das águas desse rio para regiões semiáridas brasileiras. No início de 2017, cerca de 265 km de canais de concreto, divi- didos entre os eixos Leste e Oeste, já estavam concluídos e em funcionamento, abastecendo os estados de Pernambuco e Paraíba. No final de sua implementação, um total de 477 km de canais distribuirão água doce para essas regiões (BRASIL, 2017b). Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos64 Em relação à demanda das águas da Região, destacam-se os usos para agricultura, processos de geração de energia, navegação, pesca e aquicultura. O desenvolvimento do turismo também tem ocorrido nos últimos anos, aproveitando suas belezas naturais. A Figura 3 apresenta a imagem de um trecho do Rio São Francisco, principal corpo hídrico constituinte dessa região hidrográfica. Figura 3 – Trecho do Rio São Francisco Fonte: GuilhermeAmbrosio/iStockphoto. A Região Hidrográfica do Parnaíba é a segunda mais importante da região Nordeste, atrás apenas do São Francisco. Sua área abrange os estados do Piauí, Maranhão e Ceará e apresenta baixos índices de desenvolvimento econômico e social, relacionados à baixa dispo- nibilidade hídrica observada nessa localidade. Entretanto, de acordo com a Agência Nacional de Águas (BRASIL, 2016), caso sejam explorados de forma sustentável e sob uma gestão ade- quada, os aquíferos presentes nas bacias do Parnaíba têm grande potencial para o desenvol- vimento da região. Sua área de drenagem1 ocupa cerca de 4% do território nacional, com uma densidade demográfica igual a 12,5 habitantes por km2, mais de 35% ocupando as áreas rurais. A maior demanda na Região Hidrográfica do Parnaíba envolve o consumo doméstico. Grande parte da região não conta com um sistema de tratamento de esgoto adequado, sendo que apenas 10% da população é atendida por esse sistema. Apresentando a maior demanda por recursos hídricos no Brasil, a Região Hidrográfica do Paraná também tem o maior desenvolvimento econômico. Ocupa uma área igual a 879 mil km2, abrangendo os estados de São Paulo (25%), Paraná (21%), Mato Grosso do Sul (20%), Minas Gerais (18%), Goiás (14%), Santa Catarina (1,5%) e Distrito Federal (0,5%). A densidade populacional é a mais elevada do país: de acordo com o Censo de 2010, apro- ximadamente 61,3 milhões de pessoas vivem nessa área, 93% delas em zona urbana. Em relação aos usos dos recursos hídricos, destacam-se a irrigação, com 42% da demanda total por água, e o abastecimento industrial, com 27% (BRASIL, 2016). 1 Área plana (projeção horizontal) de escoamento das águas presentes em uma região. Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 65 A Região Hidrográfica do Sudeste, ou do Atlântico Sudeste, concentra 14,8% da popu- lação total do país, com elevada taxa de urbanização (92%). Apresenta um grande parque industrial, sendo essa atividade uma das principais demandas de uso de água na região (BRASIL, 2016). Entretanto, a falta de gestão adequada e sustentável tem ocasionado severos problemas ambientais. Um dos principais problemas refere-se às ocupações irregulares de encostas e zonas de mananciais2, o que, além de danificar a vegetação ciliar3 e os habitats4 da fauna nativa, também levam ao risco de graves desmoronamentos, colocando em risco a vida da população. A maior planície de inundação do mundo encontra-se na Região Hidrográfica do Paraguai. O Pantanal, declarado Patrimônio Nacional e Reserva da Biosfera pela Unesco, juntamente com as áreas de Cerrado e de transição, formam os biomas presentes nessa re- gião. Aproximadamente 2,2 milhões de pessoas habitam uma área de 363 mil km2, 87% delas vivendo na zona urbana (BRASIL, 2016). Entre as atividades econômicas com elevada de- manda de água, destacam-se a pecuária e o plantio de soja nos terrenos de planalto. Apesar de importantes para a economia local, essas atividades têm agravado problemas ambientais como o desmatamento, a erosão e o empobrecimento do solo. Por fim, a Região Hidrográfica do Uruguai é de grande importância econômica para o Brasil, devido à elevada quantidade de atividades agroindustriais e de geração de energia hidrelétrica presentes nesse território. Sua área em território brasileiro equivale a 2% da área total do país, ou 174 mil km2. De acordo com suas características hidrológicas, a Região Hidrográfica do Uruguai foi dividida em 13 unidades hidrográficas, entre os estados de Santa Catarina (quatro) e Rio Grande do Sul (nove), e é ocupada por 3,9 milhões de pessoas, em 384 municípios (BRASIL, 2016). Originalmente uma das regiões brasileiras mais ricas em diversidade vegetal, principalmente em biomas como a Floresta de Araucárias e a Floresta Atlântica, atualmente encontra-se severamente desmatada devido às inúmeras atividades humanas nela existentes. 4.2 Política Nacional de Recursos Hídricos 4.2.1 Política Nacional de Recursos Hídricos: fundamentos e instrumentos Instituída pela Lei n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997, a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), foi estabelecida visando à correta gestão das águas no Brasil. De acordo com o artigo 1º da Lei (BRASIL, 1997), a PNRH deve ser baseada em alguns importantes fundamentos. São eles: 2 Zonas ou áreas de vegetação com ocorrência de nascentes de água. 3 Vegetação presente nas margens de rios e mananciais. 4 Um habitat é formado pelo espaço físico e pelos fatores abióticos que constituem um ecossistema. Suas características são responsáveis por determinar quais as espécies capazes de se estabelecer e sobreviver nesse ecossistema. Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos66 • A água é um bem de domínio público e um recurso natural limitado e dotado de valor econômico. • Em situações de escassez, o uso prioritário da água é o consumo humano e a des- sedentação de animais. • A gestão dos recursos hídricos visa proporcionar o uso múltiplo das águas. • A bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da PNRH e a atuação do Sistema Nacional de Recursos Hídricos. • A gestão de recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação dos usuários, do Poder Público e das comunidades. O Sistema Nacional de Recursos Hídricos (SINGREH), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, tem como responsabilidade a organização institucional para gestão compartilhada do uso da água no Brasil. É constituído pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos(CNRH), que apresenta como principais atribuições o fornecimento de subsídios para a formulação da Política de Recursos Hídricos, além da resolução de possíveis conflitos no processo de gestão das águas (BRASIL, 2017a). Além da CNRH, também fazem parte do SINGREH: o Ministério do Meio Ambiente, responsável por formular a PNRH, subsidiando a formulação do orçamento da União; a Agência Nacional de Águas (ANA), cujos objetivos são outorgar e fiscalizar o uso de re- cursos hídricos de domínio da União; os órgãos estaduais, que devem outorgar e fiscalizar o uso de recursos hídricos nos estados; além do Comitê de Bacia, que deve decidir sobre o Plano de Recursos Hídricos e a cobrança pelo uso de tais recursos (BRASIL, 2017a). De acordo com a PNRH, a água é um bem limitado, isto é, apesar do ciclo hidrológico garantir a recarga de reservatórios superficiais e subterrâneos, a reserva de água doce no mundo é bastante reduzida. De fato, as águas doces de fácil acesso no planeta representam pouco mais do que 0,007% do total global. Além disso, a gestão inadequada e a poluição hídrica limitam ainda mais a disponibilidade desse recurso. A PNRH apresenta também como fundamento o uso prioritário da água para abasteci- mento humano e dessedentação de animais. É necessário estabelecer prioridades no uso das águas, haja vista as situações de escassez hídrica vivenciadas em muitos países nos últimos anos, inclusive no Brasil. Com efeito, desde 2014 o Estado de São Paulo enfrenta uma severa crise, em que a dis- ponibilidade hídrica dos reservatórios que o abastecem foi reduzida drasticamente, gerando inúmeros problemas econômicos e sociais. Em maio daquele ano, devido às secas prolon- gadas na região, o Sistema da Cantareira, que se destina à captação de água para abasteci- mento da Grande São Paulo, atingiu a menor capacidade utilizável de água desde a década de 1970, isto é, 8,2%. Acredita-se que a crise tenha sido desencadeada pelo período de seca na região Sudeste do país, associado à gestão e ao planejamento inadequados do governo de São Paulo. Além disso, a degradação ambiental da região, que apresenta extensas áreas de desmatamento e ocupação irregular de mananciais, também contribuiu para o agrava- mento da crise (MARENGO et al., 2015). Felizmente, no início de 2016 os níveis do Sistema Cantareira voltaram a subir, permitindo a utilização da água presente no volume útil dos Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 67 reservatórios. A Figura 4 apresenta uma imagem da represa Jaguari, constituinte do Sistema da Cantareira, durante o período mais crítico da crise hídrica em São Paulo. Figura 4 – Represa Jaguari – Sistema da Cantareira, durante o período de crise hídrica no estado de São Paulo. Fonte: IBAMA/Divulgação. Outros fundamentos da PNRH evidenciam a necessidade de se realizar uma gestão descentralizada e que proporcione o uso múltiplo das águas. Isto é, torna-se necessário que toda a comunidade participe do processo, desde a formulação das normas até a sua aplica- ção efetiva. Além disso, a gestão das águas deverá visar ao seu uso sustentável, atendendo a diversos propósitos, como lazer, navegação, irrigação e consumo doméstico. A PNRH também inova ao apresentar alguns instrumentos necessários à realização de uma gestão eficiente e sustentável dos corpos hídricos brasileiros. Em seu artigo 5º, a Lei n. 9.433/97 (BRASIL, 1997) estabelece que os seguintes itens são instrumentos da PNRH: • os Planos de Recursos Hídricos; • o enquadramento dos corpos hídricos em classes, de acordo com os usos prepon- derantes da água; • a outorga dos direitos de uso dos recursos hídricos; • a cobrança pelo uso dos recursos hídricos; • o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos. Como o próprio nome já evidencia, os Planos de Recursos Hídricos têm como objetivo direcionar e estabelecer os fundamentos da PNRH, além de proporcionar ferramentas para o gerenciamento desses recursos em território nacional. Caracterizam-se por serem planos de longo prazo e visam proporcionar um diagnóstico da situação atual dos recursos hídri- cos, além de estabelecer metas para a racionalização do uso e a melhora na quantidade e qualidade dos corpos hídricos no Brasil. O enquadramento, por sua vez, é uma ferramenta importante no processo de gestão das águas em território nacional. Isso porque tem como objetivo assegurar que cada corpo hídrico apresente qualidade compatível com o uso a que se destina. Além disso, mediante Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos68 a realização de ações preventivas permanentes, pretende reduzir a poluição e os impactos ocasionados às águas do país. A outorga de direitos de usos dos recursos hídricos apresenta como principal objetivo o con- trole adequado do uso das águas, tanto quantitativo quanto qualitativo, e visa garantir o efetivo exercício dos direitos de acesso aos corpos hídricos. Os usos das águas que estão sujeitos à outorga pelo Poder Público são: captação da água para abastecimento público; lançamento de esgotos, tra- tados ou não; extração de água de aquíferos subterrâneos; geração de energia hidrelétrica; e outros usos, desde que alterem a quantidade, a qualidade, ou o regime de um corpo d’água. Uma das principais ferramentas de conscientização ambiental, a cobrança pelo uso dos recursos hídricos tem como objetivos: reconhecer a água como um bem econômico, proporcionando ao usuário o reconhecimento da sua importância e valor; incentivar o uso consciente e a racionalização da água; e adquirir recursos financeiros a serem aplicados em intervenções e programas contemplados nos Planos de Recursos Hídricos.A cobrança será realizada a todos os usos das águas que estejam sujeitos à outorga de direitos. O Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos é formado por um método de coleta, armazenamento, tratamento e recuperação de informações referentes aos recursos hídricos. A obtenção dos dados é realizada de forma descentralizada, garantindo o acesso a essas informações por toda a sociedade. Trata-se, portanto, de uma forma de proporcionar subsídios para a elaboração dos Planos de Recursos Hídricos. 4.2.2 Comitês de Bacias Hidrográficas Outra inovação do PNRH foi estabelecer os chamados Comitês de Bacias Hidrográficas. Esses comitês devem atuar na totalidade de uma bacia hidrográfica ou dentro de sub-bacias hidrográficas contíguas. De acordo com o artigo 38 da Lei 9.433/97, aos Comitês de Bacias Hidrográficas compe- te (BRASIL, 1997): • Debater as questões referentes aos recursos hídricos, articulando a atuação das entidades participantes. • Arbitrar os conflitos relativos aos recursos hídricos em primeira instância. • Aprovar o Plano de Recursos Hídricos da Bacia, acompanhando a sua execução e o cumprimento de suas metas. • Recomendar ao Conselho Nacional situações passíveis de serem isentadas da obri- gatoriedade de outorga de direitos de usos dos recursos hídricos. • Estabelecer mecanismos e critérios de cobrança pelo uso das águas, sugerindo os valores a serem cobrados. Os Comitês são constituídos: pela União; pelos Estados e Distrito Federal; pelos muni- cípios; pelos usuários das águas (dentro da área de atuação de cada comitê); além de entida- des civis que tenham atuação comprovada na bacia hidrográfica de interesse. Essa compo- sição visa contemplar tanto o poder público quanto a sociedade, seguindo o fundamento de gestão descentralizada e participativa estabelecido pela PNRH. Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 69 4.3 Usos e qualidade da água no Brasil 4.3.1 Principais usos da água no Brasil Conforme indicado anteriormente, o Brasil apresenta um elevado potencial hídrico, en- globando aproximadamente 12% de toda água doce do planeta. Entretanto, a distribuição dos corpos hídricos em seu território é bastante desigual, sendo que 81% desses recursos encontram-se na Região Hidrográfica da Amazônia. Essa região, porém, é escassamentepo- voada, abrangendo apenas 5% da população do país, o que se reflete em uma baixa deman- da local por água. Por outro lado, as Regiões Hidrográficas do Atlântico, que concentram cerca de 45% da população brasileira em seus territórios, apresentam reduzida disponibili- dade hídrica, isto é, apenas 2,7% dos recursos do país. Essa desigualdade na distribuição dos recursos hídricos, associada à concentração da população nas regiões litorâneas, tem sido fator limitante ao desenvolvimento econômico e social, conduzindo o país a problemas de abastecimento de água potável, saneamento e po- luição hídrica. De fato, de acordo com a Agência Nacional de Águas (BRASIL, 2015), grande parte da população não apresenta um sistema de esgotamento sanitário adequado e, mesmo quando há a coleta, muitos municípios não possuem tratamento dos seus efluentes, o que acarreta problemas de saúde pública e ambiental. A Figura 5 apresenta os indicadores nacionais de abastecimento de água e esgotamento sanitário, e a Figura 6, o Índice de Qualidade da Água no Brasil (dados de 2014-2015). Figura 5 – Indicadores nacionais de abastecimento de água potável e saneamento básico. Fonte: BRASIL, 2015. Assim, é necessário que a gestão das águas no Brasil seja realizada de forma planejada e sus- tentável, visando ao atendimento integral de toda população e à preservação do meio ambiente. Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos70 Dos usos da água em território brasileiro destacam-se: o abastecimento urbano, o uso em atividades de agropecuária e o uso industrial. Além disso, o Brasil apresenta grande potencial de geração de energia pelas usinas hidrelétricas, devido ao grande número de rios de planalto presentes em seu território. No Brasil, o consumo urbano de águas não é muito significativo quando comparado com outras atividades como a agricultura e a pecuária. A demanda para uso urbano equi- vale a 9% do total nacional de consumo. Os consumos médios mensais do país variam de 9,6 m3 em Pernambuco (menor consumo entre os estados) até 23,8 m3 no estado do Rio de Janeiro, com uma média nacional igual a 11,4 m3 mensais (LANNA; BRAGA, 2015). Figura 6 – Índice de qualidade da água no Brasil, nas áreas urbana e rural. Índice de qualidade da água 9% 82% 3% 6%4% 4% 48%23% 21% ótima boa ruim regular péssima 9% 82% 3% 6%4% 4% 48%23% 21% ótima boa ruim regular péssima 9% 82% 3% 6%4% 4% 48%23% 21% ótima boa ruim regular péssima Urbano Rural Fonte: BRASIL, 2015. A Figura 7 apresenta os percentuais de uso das águas no Brasil, de acordo com as prin- cipais atividades realizadas. Figura 7 – Demanda de água no Brasil de acordo com os diferentes setores. 1% 11% 72% 7% 9% urbano rural animal irrigação industrial Fonte: WALBERT, 2013. A agricultura é a atividade com maior demanda de água no Brasil, o que equivale a 72% do total do país. De acordo com dados de 2012, a área irrigada em território brasileiro foi igual a 5,8 milhões de hectares, o equivalente a 20% da sua área total. Com efeito, nos Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 71 últimos anos tem havido um aumento da agricultura irrigada, principalmente em regiões que apresentam deficit hídrico, como a região semiárida, no Nordeste do país. Como áreas de elevada demanda de irrigação no Brasil, podemos citar: as regiões do polo de irrigação de Petrolina-Juazeiro; o oeste baiano; e as áreas de rizicultura na região Sul. A quantidade de uso da água na indústria é bastante variada, dependendo do tipo de atividade industrial realizada, da tecnologia empregada, além dos insumos e matérias-pri- mas exigidas durante o processo. O uso industrial apresenta uma demanda média igual a 7%, com destaque para as indústrias alimentícias, principalmente de bebidas, em que a água é matéria-prima do processo e insumo em outras operações da produção. 4.3.2 Princípios constitucionais do uso das águas no Brasil O acesso à água de qualidade é um direito humano fundamental e uma garantia à saúde e ao bem-estar de uma população. É essencial, portanto, conhecer como esse direito é protegido no âmbito jurídico de um país. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 define a água como um bem público e juridi- camente tutelado, sendo que essa tutela deve ser dividida entre a União e seus estados cons- tituintes. No artigo 20, inciso III, é possível observar como essa divisão deve ser estabelecida: Art. 20. São bens da União: [...] III. os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais [...] (BRASIL, 2012, p. 25) Dessa forma, de acordo com o estabelecido na CF, as regiões hidrográficas brasileiras encontram-se sob a tutela da União, pois essas áreas não estão limitadas a um único estado dentro do território brasileiro. Por outro lado, rios, lagos e córregos que estejam restritos a determinado estado encontram-se, necessariamente, sob a sua tutela deste, incluindo aí a gestão, o controle e a fiscalização desses corpos hídricos. Além disso, no inciso VIII do artigo 20, são definidos como bens da União os potenciais de energia hidráulica do país. Entretanto, são assegurados aos estados, Distrito Federal e municípios a participação nos resultados obtidos a partir da geração de energia em seus territórios, ou a compensação financeira por essa exploração. Em relação à proteção dos direitos humanos, o direito à água potável e ao saneamento não aparece de forma explícita na CF 88, entretanto, é uma consequência natural da preser- vação dos direitos humanos fundamentais, como a vida, a saúde, a dignidade e a cidadania, estabelecidos no artigo 5 da Carta Magna. As condutas nocivas aos corpos hídricos, levadas a efeito pela poluição hídrica, pelo desmatamento e assoreamento5 de rios, por exemplo, encontram-se previstas no artigo 225 da CF, que estabelece que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder 5 Degradação de rios e demais cursos d’água devido ao acúmulo de detritos em seu leito. Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos72 Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras ge- rações” (BRASIL, 2012, p. 127). A União possui competência privativa para legislar sobre o uso das águas no Brasil, mas as leis complementares também podem autorizar os estados a definirem questões es- pecíficas sobre a matéria. Ainda, alguns aspectos de regulação de uso e exploração dos re- cursos hídricos no país são de competência concorrente a União, estados, Distrito Federal e municípios. Dessa forma, a gestão de águas no Brasil caracteriza-se como uma atividade constitucio- nalmente tutelada e protegida por um conjunto de dispositivos legais que, entretanto, apre- sentam um processo complexo de implementação. A fim de que essa gestão seja realizada adequadamente, é importante que se estabeleça a estratégia mais coerente para a divisão de competências entre os entes federativos do país. Ampliando seus conhecimentos Crise hídrica e energia: conflitos no uso múltiplo das águas (GALVÃO; BERMANN, 2015) A gestão da água encontra no Brasil um conflito que é histórico e que envolve a geração de energia elétrica nos reservatórios das usinas hidrelé- tricas e os demais usos múltiplos da água. É interessante salientar que não foi somente a partir da Lei n.9.433 de 8/ janeiro/1997 (Lei das Águas) que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos no Brasil, que o uso múltiplo em reservatórios foi disciplinado. O inciso III do Art. 1º, que enumera os seus cinco fundamentos em que a Lei das Águas se baseia, define que em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídrico é o consumo humano e a dessedentação de animais.Em realidade, o uso múltiplo da água já se encontrava presente desde o Decreto n.24.643 de 10/julho/1934, também denominado “Código das Águas”. No Art. 143, do Livro III – Forças Hidráulicas – Regulamentação da Indústria Hidroelétrica, em seu Título I – Capítulo I – Energia Hidráulica e seu Aproveitamento, se encontra assim definido o uso múltiplo: Art. 143. Em todos os aproveitamentos de energia hidráulica serão satis- feitas exigências acauteladoras dos interesses gerais: Recursos hídricos no Brasil Geografia dos Recursos Hídricos 4 73 a. da alimentação e das necessidades das populações ribeirinhas; b. da salubridade pública; c. da navegação; d. da irrigação; e. da proteção contra as inundações; f. da conservação e livre circulação do peixe; g. do escoamento e rejeição das águas. Segundo o Código das Águas, a propriedade dos rios deixava de ser do proprietário da terra onde corriam, e passava, conforme o caso, a ser pro- priedade do município, do estado ou da União. Por outro lado, o Código estabelecia uma série de regras e restrições ao uso das águas, determi- nando que o uso para abastecimento humano era o mais importante. Ainda segundo o Código das Águas, a propriedade das quedas d’água e do potencial hidrelétrico deixava de ser do proprietário da terra e passava a ser patrimônio da nação, sob a forma de propriedade da União. A partir de então, o aproveitamento de potencial hidrelétrico passou a depender de autorização ou concessão (por prazo máximo de trinta ou cinquenta anos, conforme o montante dos investimentos). No período anterior ao Código das Águas, o Estado não intervinha na produção e distribuição de energia, apenas conferia autorizações para o funcionamento das companhias. Não havia qualquer legislação sobre a energia elétrica e sobre recursos hídricos. Os estados e municípios goza- vam de grande autonomia para estabelecer contratos e autorizações para as empresas privadas de energia. As companhias que na época detinham o monopólio da geração e dis- tribuição de energia elétrica – a empresa canadense Light e a norte-a- mericana Amforp – tinham direito de corrigir suas tarifas e de receber o equivalente em ouro (a chamada “cláusula-ouro”), de maneira a ficarem protegidas da inflação e da desvalorização da moeda brasileira – naquela época a unidade monetária era o mil réis. Com o Código das Águas, as tarifas passaram a ser fixadas segundo os custos de operação e o valor histórico dos investimentos, o que significava o fim da “cláusula-ouro” e da correção monetária automática conforme a variação cambial. Recursos hídricos no Brasil4 Geografia dos Recursos Hídricos74 O Sistema Elétrico Brasileiro que se constituiu a partir do Código das Águas de 1934 acabou por transformar as empresas concessionárias, que obtinham a outorga de seus reservatórios para a finalidade de geração de energia hidrelétrica, em verdadeiras proprietárias dos rios e de seus cursos d’água. As empresas públicas de geração, federais e estaduais, se formaram nota- damente a partir dos anos 1940, processo esse que foi impulsionado pela institucionalização da Taxa de Eletrificação, a título de capitalização para viabilização dos programas de eletrificação em cada um dos estados. A prioridade da água para geração de eletricidade assim se estabeleceu e só passou a ser questionada a partir da Lei das Águas de 1997. Conforme a Lei, a água deve ser utilizada de forma a garantir ao mesmo tempo o abastecimento residencial e industrial, a energia e a irrigação, entre outros usos. O consumo humano e de animais, no entanto, é prioritário em situa- ções de estiagem. Na época em que o sistema elétrico brasileiro foi implantado, as exigên- cias ambientais não eram tão rigorosas e o uso múltiplo das águas não era a prioridade dos projetos. Segundo o diretor-presidente da ANA (Agência Nacional de Águas), Vicente Andreu Guillo, “há uma prepon- derância natural histórica do uso energético, sem levar em consideração as atividades que foram incorporadas ao reservatório”. [...] O uso múltiplo das águas em reservatórios de usinas hidrelétricas é ainda um assunto a ser normatizado. A ausência de mecanismos institucionais que disciplinem de forma adequada o conflito de interesses com a geração de energia elétrica torna a matéria recorrente, com uma frequente suces- são de impasses de difícil superação. A ideia da introdução de regras nas outorgas e nos contratos de concessão definidos entre a União e as companhias de geração de energia elétrica, no sentido de incorporarem os usos múltiplos das águas nas condições de operação dos reservatórios das usinas hidrelétrica, comparece como passo necessário de definição. Neste o processo, o envolvimento das populações através dos Comitês de Bacias deve ser dinamizado [...].