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Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo – FDSBC Curso de Direito Civil - Direito Civil I - Parte Geral – Prof. Estevan Lo Ré Pousada Aula 01 – Conceitos fundamentais: o fenômeno jurídico § 1º O homem, a adaptação social e o direito. • Direito voltado à aquisição de aptidões para a sobrevivência em sociedade (adaptação aos padrões sociais); • Tendência natural do homem à vida em comunidade (homem como ser gregário); • Diversidade de círculos sociais nos quais acaba por se desenvolver a adaptação do homem para a convivência social: família, comunidade, cidade, Estado, etc.; • Mecanismos sociais de adaptação (dos comportamentos) inatos do homem: religião, moral, política, educação, economia, ciência, arte, moda, etiqueta, direito; • Homem como produto de duas forças distintas: a natureza e o convívio social; • “Reação” e “rebeldia” do homem diante da necessidade de adaptação aos padrões sociais: a função “coercitiva” do direito, como conjunto de “normas de conduta (...) [de] caráter obrigatório em decorrência do qual a sua impositividade ao homem (...) [é] incondicional e independente da adesão das pessoas” (p. 5); • Inconformismo social mais exacerbado – “revolução” – antecede períodos de maior centralização do poder (despotismo); • Movimentos que postulam a eliminação do direito diante da extirpação do jugo social: anarquismo, marxismo, movimento hippie, etc.; • É possível a eliminação completa do direito? Indagação difícil, preponderando a doutrina orientada pelo sentido negativo; • Peculiaridade do direito como único dos processos de adaptação social que tem o poder de vincular incondicionalmente as condutas: “os processos de adaptação social, embora se constituam de normas de natureza comportamental, não têm, exceto o direito, o poder de vincular incondicionalmente as condutas, donde ficarem à mercê da adesão das pessoas. O direito, diferentemente, é obrigatório e nisso consiste o elemento que o caracteriza e o distingue dos demais processos de adaptação social” (p. 5); • Variabilidade dos pressupostos de validade que fundam a obrigatoriedade da regra jurídica: axiológicos (concepções e valores fundamentais), dogmáticos (vinculação meramente lógica), jusnaturalistas (derivada de padrões de comportamento eternos), sociológicos (acatamento social) ; • Distinção entre as regras “jurídicas” e as regras derivadas dos demais processos de adaptação social – conforme critérios do “foro de julgamento” (íntimo e externo) e da “modalidade de reprimenda” (estatal centralizada versus social difusa); • Obrigatoriedade jurídica para Pontes de Miranda: “a obrigatoriedade das normas jurídicas se resume à sua incidência que, transformando o seu suporte fáctico em fato jurídico, subordina às suas normas as condutas relacionadas àquele fato. Se a norma incide, tem de ser aplicada por quem tenha essa responsabilidade no organismo social. Se da aplicação resulta sanção é irrelevante, porque esta é característica de alguns tipos de normas jurídicas, não de todas” (p. 6). § 2º O caráter necessário do Direito. • Direito como processo de adaptação que não pertence à natureza do homem: necessariedade do direito como decorrência da transformação do “homo naturalis” (solidão inicial hipotética) em “homo socialis”; • “Ubi societas ibi ius”: em sociedades primitivas pode-se prescindir do Estado, mas jamais do direito; • Complexidade das regras jurídicas diretamente proporcional à própria complexidade da estrutura social regulada. § 3º Mundo fáctico e mundo jurídico. • Valoração dos fatos e eleição daqueles que são relevantes para o relacionamento inter-humano: o fato jurídico; • Alguns fatos são juridicamente irrelevantes; outros são juridicamente relevantes; outros ainda podem ou não sê-lo (v.g. chuva); • Distinção fundamental: a) evento – fatos que independem de conduta para existirem; b) conduta – ato humano; • Eleição do fato jurídico pelo direito: “a norma jurídica atua sobre os fatos que compõem o mundo, atribuindo-lhes conseqüências específicas (efeitos jurídicos) em relação aos homens, os quais constituem um plus quanto à natureza do fato em si. A norma jurídica (...) adjetiva os fatos do mundo, conferindo-lhes uma característica que os torna espécie distinta dentre os demais fatos: - o ser fato jurídico” (p. 8); 1 • Separação entre os mundos fáctico (todo) e jurídico (“relevante para o direito”); • Mundo fático e mundo jurídico – exemplos de distinção: o ato de cumprimentar alguém é um ato jurídico? Distinção entre o cumprimento ao vizinho e a continência do militar ao superior hierárquico; O parentesco é irrestrito? Parentesco de fato irrestrito e parentesco colateral até o quarto grau (art. 1.592 do Código Civil); • Edificação do mundo jurídico à custa da eleição, pela vontade humana, de elementos originalmente integrantes do mundo dos fatos. § 4º Logicidade do mundo jurídico. • Mundo do direito opera a partir de operações lógicas: ausência de alterações na ordem dos fatos; • Exemplos de alterações meramente lógico-jurídicas (faticamente imperceptíveis): maioridade; condição de objeto do direito (e não de sujeito) do escravo; distinção entre filhos legítimos, naturais, incestuosos e adulterinos; equiparação entre a filiação natural e a filiação adotiva; • Alterações do mundo jurídico não implicam alterações fáticas; mas alteração fática pode implicar em transformações no mundo jurídico; • Momentos do fenômeno jurídico: a) definição do suporte fáctico normativo (abstrato); b) verificação do suporte fáctico concreto; c) incidência e “juridicização” do suporte fáctico; d) passagem de alguns fatos jurídicos pelo plano da validade; e) chegada ao plano da eficácia (com conseqüente produção de efeitos). § 5º Direito e realidade. • A fenomenologia jurídica não repercute diretamente na ordem dos fatos; • Existe repercussão indireta da fenomenologia jurídica na ordem factual, na medida em que os destinatários da norma cumprem ou descumprem (sofrendo uma sanção real) o enunciado normativo – o (des)atendimento do comando normativo se dá no plano dos fatos; • Porém, o desatendimento da norma não retira a legitimidade do jurídico: “é evidente que as normas jurídicas não são feitas para serem descumpridas. Mas, é claro, também, que sendo uma imposição da comunidade ao homem é sempre possível e comum o seu descumprimento. A conduta individual infringente do direito, no entanto, não retira legitimidade às suas normas, desde que o grupo social, considerado no seu todo, as aceite e as imponha pelos meios e instrumentos que cria para assegurar, inclusive pela força, a sua realização, e atendam, elas, aos pressupostos gerais de legitimidade” (p. 13); • Direito como fato social na medida em que repercute na realidade da vida concreta – “efetividade” das regras jurídicas (situação em que a comunidade se comporta de acordo com o teor das regras jurídicas); • Terminologia delicada: “efetividade”, “eficácia” (“legal” e “jurídica”). § 6º As dimensões do fenômeno jurídico. • Na análise do fenômeno jurídico, podem ser identificadas três dimensões inconfundíveis entre si: a) política; b) normativa; c) sociológica; • Dimensão política – valorativa, em que decide quais os valores que devem reger o processo de adaptação do corpo social; • Dimensão normativa – sem preocupações com “o que” é afinal escolhido pela comunidade, voltando-se apenas e tão somente à ordem de validade: “somente importa, assim, se existe uma norma regularmente posta e vigente que, só por isso, é obrigatória, independentemente da circunstância de sua efetivação no meio social pela conduta humana coincidente com suas determinações”; • Dimensão sociológica – subordinação dos fatos da vida à norma jurídica que os previu e regulou: “desde quando essa subordinação seja defeituosa, por não coincidirem a aplicação e a incidência, ter-se-á evidente imperfeição na organização jurídica da sociedade, porque este o elementoque serve para medir o ‘grau de perfeição do grupo social no tocante ao traçamento jurídico’”; • Discordância evidenciada por uma hostilidade comunitária à norma caracteriza sua falta de vigência para parte da doutrina (crítica). § 7º Uma visão integrada do fenômeno jurídico. • “Normativismos”, “positivismos” e “relativismos” como percepções parciais do fenômeno jurídico, centradas exclusivamente na dimensão normativa do direito; • Deve-se observar ter havido um crescimento dos valores fundamentais de juridicidade (paz social, bem comum, justiça, ordem, segurança) após os excessos do regime nazista; 2 • Afastando-se considerações preconceituosas, pode-se dizer que o intuito central do positivismo jurídico foi bastante peculiar: “o que, em essência, se pretendeu com o positivismo foi retirar do rei o poder de ditar livremente as normas jurídicas e de fazê-lo submisso ao direito, bem assim tornar certa a ordem jurídica, fazer certo o direito. Positivado em lei, que pode ser conhecida de todos, dá-se maior estabilidade ao direito e protege-se o cidadão contra a tirania, ou, pelo menos, se reduzem os meios de exercê-la” (p. 16); • Análise simplesmente sociológica é parcial, não entrevendo a dimensão normativa a inibir condutas indesejáveis (adaptação social) – v. g. cinto de segurança, rodízio veicular, faixas exclusivas, fumo (locais fechados), etc.; • Direito não se confunde com os valores que lhe servem de fundamento; perspectiva exclusivamente axiológica é, da mesma forma, parcial; • Perspectiva integrada dos momentos político, normativo e sociológico como mais completa – “valor”, “fato” e “norma”. § 8º Corte epistemológico. • Perspectivas “valorativas” (política), perspectivas “dogmáticas” (teoria geral do direito e ciências dogmáticas) e perspectivas “sociológicas” podem ser adotadas como meros “métodos de estudo” – sendo, nesta medida, salutares. Aula 02 – Conceito e divisão do Direito. § 1º Conceito de direito. • O homem como ser eminentemente social (“homo socialis”) e a finalidade do Direito de adaptar os comportamentos humanos à vida em sociedade (o Direito como um mecanismo de “adaptação social”); • Normas jurídicas diferenciadas das demais normas, à vista de seu caráter preponderantemente “genérico” (pluralidade indistinta de destinatários) e dotado de eficácia reforçada (“garantida” pelo Estado); • Normas jurídicas contidas nas diversas “fontes do Direito” (fontes de cognição), dentre as quais se destacam as “leis”, os “costumes”, a “jurisprudência”, os “princípios gerais de Direito” e a “doutrina”; • As normas jurídicas integram o mundo do “dever ser”, dominado por uma causalidade própria (“causalidade jurídica” ou “imputação”), diversa daquela que prepondera no âmbito das – imutáveis – leis “naturais” (mundo do “ser”); § 2º Distinção entre o direito e a moral. • As normas “jurídicas” e as normas “morais” não se confundem, conquanto apresentem certos pontos de contato; ambas contribuem como mecanismos de adaptação social, embora o “foro de julgamento” e a “origem da sanção” venham a diferenciar os sistemas normativos; • Com base em J. Bentham é usual a menção aos dois elementos como sendo círculos concêntricos (a Moral como o maior e o Direito como o menor); há quem sustente, todavia, que se tratam de círculos “secantes”; • Além das duas diferenças acima assinaladas, deve-se observar que, normalmente, a obediência a uma norma jurídica evita um “mal maior” (e proporciona um bem menor ao agente) – enquanto a norma moral evita um “mal menor” (proporcionando-lhe um bem maior); • Note-se que, por vezes, as normas jurídicas progressivamente consagram deveres que até então só ostentavam relevância moral; § 3º Direito positivo e direito natural. • “Direito positivo” é o ordenamento jurídico em vigor em um determinado contexto (“ius in civitate positum”) – refletindo a manifestação “concreta” do sentido de ordenação jurídica adotado por um povo; • O “direito natural”, por sua vez, corresponde a uma “noção abstrata” de Direito, potencialmente aplicável em todos e quaisquer quadrantes espaço-temporais – diretrizes aplicáveis, enfim, de uma forma absoluta; • Deve-se observar que, historicamente, várias foram as manifestações do Direito Natural com que o Ocidente conviveu – jusnaturalismos romano, tomista, racionalista, etc. –, muitas vezes se tendo sustentado um “antagonismo” entre as duas noções referidas; • Atualmente, todavia, se compreende a noção do Direito natural como um expediente “corretivo” dos excessos do Direito positivo – a respeito, v. g., cf. a noção de “obrigação natural”; § 4º Direito objetivo e direito subjetivo. • Por meio do “raciocínio dicotômico”, pode-se classificar o Direito em: – “Direito objetivo” – conjunto de normas jurídicas de observância indistinta e garantida pelo Estado (“norma agendi”); – “Direito subjetivo” – prerrogativa do sujeito de direito (sujeito ativo) de exigir de outrem (sujeito passivo) um determinado comportamento (“facultas agendi’); 3 • A respeito do conceito de “direito subjetivo” existem várias teorias: desde aquelas que o negam peremptoriamente (H. Kelsen, L. Duguit) até aquelas que o afirmam, compreendendo-o como elemento fundamental do Direito Privado; dentre as afirmativas, destacam-se as que o consideram: – um “poder da vontade” (Savigny, Windscheid) – com destaque ao elemento subjetivo; – um “interesse juridicamente protegido” (Ihering) – destacado o elemento objetivo; e – as teorias “mistas” ou “ecléticas” (G. Jellinek) – conciliadoras das vertentes anteriores; • Prepondera, hoje, a perspectiva que “concilia” as duas noções de Direito; § 5º Direito público e direito privado. • A distinção entre “Direito Público” e “Direito Privado” é bastante antiga e usual na doutrina; compreendida de modo didático – e sem pretensões de observação absoluta – pode ser extremamente útil ao jurista; • Vários são os critérios utilizados para tal distinção: – “interesse” (ou “utilidade”) – repercussão ou órbita (“geral” vs. “individual”); – “sujeito” – presença/ausência do Estado; – “finalidade” – bem “comum” vs. bem “individual”; – “ius imperium” – relações de “coordenação” vs. relações de “subordinação”; • Sendo o Direito “uno”, tal divisão é meramente didática; • Integram, exemplificativamente, o Direito Público: – o Direito Constitucional; – o Direito Administrativo; – o Direito Tributário; – o Direito Penal; – o Direito Processual (Civil e Penal); – o Direito Internacional; – o Direito Ambiental; • Por sua vez, integram – ainda exemplificativamente – o Direito Privado: – o Direito Civil; – o Direito Comercial; – o Direito Agrário; – o Direito marítimo; – o Direito Aeronáutico; – o Direito do Trabalho; e – o Direito do Consumidor; • Deve-se destacar que, em virtude do aumento da interferência do Estado no âmbito do Direito Privado, alguns doutrinadores assinalam um processo de progressiva “publicização” do Direito Privado; • Por fim, deve-se observar a superação da referida dicotomia por aquela estabelecida entre normas “cogentes” (ou inderrogáveis) e normas “dispositivas” – de feição supletiva (e derrogáveis pela vontade dos interessados); • No âmbito do Código Civil, são preponderantemente “cogentes” as normas que informam o Direito de Família, o Direito das Coisas e o Direito das Sucessões; em contrapartida, prevalece o caráter “dispositivo” nas regras (interpretativas e supletivas) que informam o Direito das Obrigações – admitindo-se exceções em todos os casos (como, v. g., nos “contratos por adesão”); § 6º A unificação do Direito Privado. • Propugnada no Brasil, primeiramente, por Augusto Teixeira de Freitas – que tinha o Direito Comercial como uma espécie de direito “privilegiado” – a unificação do direito privado foi defendida inicialmente, na Itália, por Cesare Vivante (tendo sido adotada em países como Suíça, Canadá, Itália e Polônia); • No Brasil, voltou a ser defendida por Inglezde Souza – robustecendo-se a tese unificadora com o “Anteprojeto de Código das Obrigações” de Orozimbo Nonato, Philadelpho Azevedo e Hahnemann Guimarães (1941); • Acabou por prevalecer, no âmbito do Código Civil de 2002, apenas a “unificação parcial” do Direito Privado – circunscrita ao Direito das Obrigações (e “derrogando-se”, pois, o Código Comercial vigente); Aula 03 – Direito Civil: Evolução. § 1º Conceito de Direito Civil. • Direito Civil como complexo ordenador das relações jurídicas mantidas entre particulares (nas quais não adentra o Estado provido de seus “ius imperium”) – desde o momento de sua concepção até a sua morte (havendo a possibilidade de projeção de certos efeitos mesmo para depois da morte do sujeito); • O Direito Civil disciplina relações jurídicas de duas ordens fundamentais: – pessoais (desprovidas de conteúdo econômico); e – patrimoniais (com conteúdo passível de aferição econômica); • Ao longo do século XX houve uma significativa mudança quanto ao panorama analisado pelo estudioso do Direito Civil: enquanto a simples contemplação do Código Civil parecia suficiente durante a primeira metade do 4 século, na segunda se começou a entrever a necessidade de que certas relações fossem disciplinadas diversamente (microssistemas); § 2º Histórico do Direito Civil. • O Direito Civil brasileiro integra a matriz “romano-germano-canônica”; com isso, se ressalta a um só tempo: – a influência desempenhada pelo Direito Romano (“ius civile”, “ius gentium” e “ius naturale”), com seu caráter acentuadamente “individualista”; – a importância do elemento germânico – mais precisamente visigótico – segundo o qual considerações de natureza “social” haviam de preponderar, por vezes, sobre os interesses meramente individuais; – o influxo do direito canônico, desenvolvido graças a fontes bastante diversificadas, em cujo bojo se pode surpreender a consagração de preocupações “éticas” relativamente constantes; • O advento da modernidade assinalou a necessidade de que o Direito fosse concebido de maneira “clara” e “precisa” – de modo que qualquer cidadão, mesmo desprovido de conhecimentos jurídicos, pudesse aplicar suas regras; • No Brasil, após a Proclamação da Independência, vigoravam as Ordenações do Reino de Portugal (Filipinas) – mais precisamente o seu Livro IV em matéria civil – tal como estabelecido pela Lei de 20 de outubro de 1823; • Na própria Constituição Imperial se previa (art. 179, XVIII) a promulgação de um Código Civil e um Criminal, ambos fundados nas “sólidas bases da justiça e da equidade”; • Sobrevindo o Código Criminal em 1831, em matéria privada, a primeira codificação se confunde com o Código Comercial (1850), derrogado tão somente pelo Código Civil de 2002; contudo, em matéria civil, um código somente surgiria no Brasil em 1916 (quase cem anos após a promessa de codificação formulada pelo legislador constituinte); § 3º A codificação. • A “codificação” corresponde a um modelo, a uma forma de se pensar o Direito; diferentemente dos “códigos” da antiguidade – desprovidos de uma técnica legislativa mais acurada (exceção feita ao de Hamurábi) –, a codificação moderna se lastreia no ideal de concepção de um “sistema” (dotado de coerência e plenitude); • Na esteira de tais diretrizes metodológicas, o Código Civil brasileiro de 1916 é resultado de uma série de influências alienígenas de seu tempo, dentre as quais se destacam o Código Napoleônico (1804), o Código Italiano (1865), o Código Português (1867) e o Código Alemão (1896); • No esforço para a promulgação de nosso primeiro Código Civil, foram produzidos diversos projetos, que se seguiram à etapa preparatória de “consolidação” do direito civil vigente no Brasil na segunda metade do século XIX (a “Consolidação das Leis Civis”); dentre eles, destacam-se: – o “Esboço” de Augusto Teixeira de Freitas; – o projeto de Nabuco de Araújo; – o projeto de Felício dos Santos; – o projeto de Coelho Rodrigues; e – o projeto de Clóvis Beviláqua; • Submetido a uma profunda revisão em ambas as casas do Parlamento, o projeto de Clóvis Beviláqua acabou sendo vertido em lei após um intenso debate parlamentar; promulgado no ano de 1916, passou por uma “vacatio legis” bastante longa, entrando em vigor apenas no ano seguinte; • Não obstante a cientificidade do Código Civil de 1916, durante a sua vigência uma copiosa legislação foi produzida, colocando-se em xeque o seu papel central no Direito Privado; o advento dos “microssistemas” pode ser representado pelo advento da legislação seguinte, v. g.: – Lei dos Registros Públicos (Lei Fed. nº 6015/73); – Lei do Divórcio (Lei Fed. nº 6515/77); – Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Fed. nº 8069/90); – Código de Defesa do Consumidor (Lei Fed. nº 8078/90); – Lei do Inquilinato (Lei Fed. nº 8245/91); – Lei de Propriedade Industrial (Lei Fed. nº 9279/96); – Lei de Direitos Autorais (Lei Fed. nº 9610/98); • Questiona-se, nos últimos anos, a conveniência da manutenção do modelo codificatório; prepondera a vertente que sustenta a preservação do modelo, ainda que à custa de uma redução quanto ao seu alcance sistemático; § 4º O Código Civil brasileiro. • O Código de 1916 retrata o direito de uma sociedade agrária, individualista e patriarcal; por isso, seus diversos Livros – ainda que contivessem um grande número de regras similares às atuais – estavam embebidos neste caldo cultural “peculiar”; estando, pois, assim dividido: – Parte Geral; • Livro I – Das pessoas; • Livro II – Dos bens; • Livro III – Dos fatos jurídicos; 5 – Parte Especial; • Livro I – Do direito de família; • Livro II – Do direito das coisas; • Livro III – Do direito das obrigações; • Livro IV – Do direito das sucessões; • Ao longo do século XX diversas leis alteraram, significativamente, o panorama decorrente do Código Civil de 1916: além do Direito de Família – o mais afetado, v. g., pela Lei Fed. nº 4121/62 (Estatuto da Mulher Casada), pela Lei Fed. nº 6515/77 (Lei do Divórcio) e pela Lei Fed. nº 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) – inovações relevantes foram promovidas em matéria de registros públicos (Lei Fed. nº 6515/73) e contratos de consumo (Lei Fed. nº 8078/90); • Além disso, uma nova forma de se conceber o Direito Privado acabou exsurgindo; ao mesmo tempo em que se passou a conceber a igualdade entre os cônjuges (e entre os filhos havidos no ambiente familiar), floresceram os conceitos de “contrato por adesão” e de “função social da propriedade” – em certas vezes, inclusive, à luz de previsão constitucional; • Neste cenário, o Código Civil de 2002 exsurge; dividido da seguinte forma: – Parte Geral; • Livro I – Das pessoas; • Livro II – Dos bens; • Livro III – Dos fatos jurídicos; – Parte Especial; • Livro I – Do direito das obrigações; • Livro II – Do direito de empresa; • Livro III – Do direito das coisas; • Livro IV – Do direito de família; • Livro V – Do direito das sucessões; • O Código de 2002 não representa um total rompimento com o modelo de 1916; além da necessária atualização, todavia, despontou uma utilização de “cláusulas gerais” consagradora de três valores fundamentais: – eticidade; – socialidade; e – operabilidade; • Deve-se observar que o Código Civil de 2002 desponta em um cenário no qual o civilista está plenamente consciente de que sua disciplina está decididamente comprometida com o estabelecido na Constituição Federal de 1988 – daí o surgimento de uma tendência designada por “direito civil-constitucional”; • Como decorrência da projeção da Constituição Federal sobre as relações privadas, admite-se – atualmente – a chamada “eficácia horizontal dos direitos fundamentais”, com a projeção de valores resguardados constitucionalmente no âmbito do tradicional Direito Civil; Aula 04 – Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Legislação envolvida: arts. 1º a 6º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. • art. 1º: promulgaçãoda lei e sua entrada em vigor (“vacatio legis”); • art. 2º: vigência da lei (temporariedade e revogação); • art. 3º: princípio da obrigatoriedade das leis; • art. 4º: colmatação das lacunas do sistema jurídico; • art. 5º: interpretação das normas jurídicas; • art. 6º: efeito imediato e exceções à retroatividade da lei civil; § 1º Conteúdo e função. • A “Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro” (Decreto-Lei nº 4657/42) – anteriormente designada “Lei de Introdução ao Código Civil” – é um repositório de normas de abrangência verdadeiramente “universal” (dentro do sistema jurídico brasileiro), uma vez que se dirige não apenas às normas civis (ou mesmo privadas), mas a todas as normas que integram o ordenamento jurídico nacional – respeitadas algumas exceções, v. g., nos âmbitos criminal e tributário; • Consideradas regras de “sobredireito” (ou “direito de apoio”), as regras instituídas pela Lei de Introdução não se voltam a condutas específicas dos destinatários naturais das normas jurídicas; ao contrário, preocupam-se com o fenômeno de produção do próprio Direito (“metajuridicidade”); • À vista de seu respectivo objeto, as normas que integram a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro podem ser assim escandidas: – art. 1º - entrada em vigor da lei e “vacatio legis”; – art. 2º - vigência indeterminada e revogação da lei; – art. 3º - obrigatoriedade das normas jurídicas; – art. 4º - integração das lacunas; 6 – art. 5º - interpretação das normas jurídicas; – art. 6º - efeito imediato das normas jurídicas e salvaguardas (conflito de leis no tempo); – arts. 7º a 19 – direito internacional privado (conflito de leis no espaço); § 2º Fontes do Direito. • O tema das fontes do direito é melhor enfrentado a partir de uma análise de suas principais dicotomias informativas, v. g.: – fontes de “produção” (órgãos responsáveis pela produção de normas jurídicas) vs. fontes de “cognição” (veículos introdutores de normas jurídicas); – fontes “históricas” (de caráter meramente informativo e voltadas à especulação) vs. fontes “atuais” (de caráter prescritivo e voltadas à aplicação corrente); – fontes “formais” – dotadas de autoridade intrínseca (v. g. a lei, a analogia, os costumes e os princípios gerais) – vs. fontes “informais” – desprovidas de autoridade própria, mas acreditadas pela reputação de quem as produz (v. g. doutrina e jurisprudência); – fontes “diretas” (geradoras de regra jurídica) vs. fontes “indiretas” (concausas no processo de produção de normas jurídicas); • Especial destaque deve ser conferido à jurisprudência, que tem se transformado – na prática – não apenas em uma fonte “formal”, mas também em uma das mais expressivas de nosso sistema jurídico; § 3º A lei. • O tema das fontes do Direito é atemporal; contudo, a análise da importância de cada uma delas deve ser contextualizada, sob pena de se praticarem deslizes imperdoáveis; assim, pode-se dizer que atualmente no sistema da família “romano-germano-canônica” a “lei” é a fonte por excelência do Direito – perspectiva moderna; • No entanto, não é raro encontrarmos o emprego do termo lei em acepções bastante distintas em nosso sistema jurídico: – algumas vezes em sentido amplíssimo, como sinônimo de norma jurídica (art. 5º, II CF); – noutras vezes, como sinônimo de ato estatal (art. 5º, XIII CF); – finalmente, em acepção estritíssima, com o significado de preceito editado pelo Poder Legislativo, mediante procedimento legislativo adequado (art. 5º, XXXIX CF); • Como “características” da lei são ordinariamente apresentadas as seguintes: – “generalidade” (sob o prisma do destinatário): designando ações “universais”, se lhes contrapõem as normas “individuais” (voltadas a um único sujeito); – “abstração” (sob o prisma da conduta regrada): designando “ações-tipo”, se lhes contrapõem as normas “concretas” (voltadas a uma única incidência); – “imperatividade”: evidenciadora de seu teor “prescritivo”, por oposição aos sentidos “descritivo” e “expressivo” – típicos, pois, dos discursos “científico” e “artísitico”; – “autorizamento”: viabilidade do emprego de expedientes sancionatórios, à custa da intervenção de um terceiro estranho à relação (ao que se contrapõem as normas desprovidas de sanção); – “permanência”: possibilidade de sua aplicação em inúmeras oportunidades (a que se contrapõe o conceito de norma concreta); – emanação da autoridade competente – observado, em todo caso, o procedimento legislativo adequado (estabelecido pela própria Constituição Federal); • Sob o prisma taxonômico, as leis podem ser classificadas: – Quanto à “imperatividade”, em: • “cogentes” ou inderrogáveis (de imperatividade absoluta ou de ordem pública); e • “dispositivas” (de imperatividade relativa) – com funções permissivas, supletivas ou interpretativas (podendo ser afastadas pelos interessados); – Quanto à “sanção”, em: • “mais que perfeitas” – conjugando sanções de nulidade e penalidade (art. 37, parágrafo único c/c art. 43, II da Lei Fed. nº 8245/91); • “perfeitas” – admitindo apenas sanções de nulidade (art. 166 CC); • “menos que perfeitas” – prevendo só sanções de penalidade (art. 1641, I CC); e • “imperfeitas” – as quais não estatuem qualquer sanção (art. 189 CPC); – Quanto à sua “natureza”, em: • “substantivas” (ou materiais) – que disciplinam a atribuição de direitos e deveres; e • “adjetivas” (ou processuais) – voltadas à implementação dos direitos e deveres; – Quanto à sua “hierarquia”, em: • “constitucionais” – com o “status” de norma constitucional (art. 60 CF); • “leis complementares” – com “quorum” qualificado de aprovação, por maioria absoluta, em casos previstos na própria Constituição (art. 59 CF); • “leis ordinárias” – com “quorum” ordinário de aprovação (arts. 64 a 67 CF); 7 • “leis delegadas” – com “status” de lei ordinária, são normas produzidas pelo Executivo mediante delegação expressa do Legislativo (art. 68 CF); e • “medidas provisórias” – com requisitos estreitos de aplicação (“urgência” e “relevância”), a serem apreciadas em seguida pelo Congresso Nacional (art. 62 CF); – Quanto à “competência territorial”, em: • “federais” (art. 22 CF); • “estaduais”/”distritais” (arts. 25 e 32 CF); • “municipais” (art. 30 CF); e – E quanto ao seu “alcance”, em: • leis “gerais” (v. g., o Código Civil); e • leis “especiais” (v.g., o Código de Defesa do Consumidor); § 4º Vigência da lei. • As normas jurídicas têm uma existência própria: em seu aspecto temporal, tal existência se confunde com o conceito de “vigência” – que não se confunde com a força vinculante da norma jurídica (o seu “vigor”); • Dá-se o nome de “vacatio legis” ao período compreendido entre a publicação da norma jurídica e o início de produção de seus respectivos efeitos próprios (a respeito, cf. o art. 1º LINDB); a contagem do período se faz com a inclusão do dia da publicação e do último dia do prazo, entrando em vigor no dia imediatamente posterior (art. 8º da LC 95/98); • Note-se que dispositivos de lei vetados – se o veto for derrubado pelo Congresso Nacional – só entram em vigor após o decurso do prazo contado da publicação da deliberação parlamentar; decretos e regulamentos entram em vigor na data de sua publicação – como ocorre, em geral, com os atos do Poder Executivo; • Conforme estabelece o art. 2º da LINDB, a lei tem efeito imediato e permanente, desde que não contenha uma “causa intrínseca” de caducidade, como, v. g.: – o advento do termo de sua duração (leis temporárias); – o implemento de condição resolutiva (leis circunstanciais); ou – a concatenção de seus fins (lei de efeitos concretos) – como as leis orçamentárias; • Observe-se que a “simples” cessação dos motivos que levaram à promulgação de uma lei não implica em sua necessária caducidade; será necessária revogação para que a norma seja expelida do sistema jurídico; • Revogação é a supressão de uma norma do sistema jurídico; pode ser classificadaem: – “total” (ab-rogação) vs. “parcial” (derrogação) – quanto ao grau de comprometimento do panorama normativo anterior; – “expressa” vs. “tácita” – quanto à presença de um pronunciamento expresso do legislador; • A revogação “tácita” pode se dar pela promulgação de um texto em conflito com o anterior; ou pela inteira regulamentação da matéria anteriormente disciplinada pela lei antiga; • Breve alusão deve ser feita à subtração do fundamento de validade de uma norma jurídica em virtude do advento de uma nova ordem constitucional incompatível com o preceito anterior (a chamada “não recepção”); • Deve-se notar que é freqüente a incompatibilidade entre normas jurídicas que integram um mesmo sistema (“antinomia”); neste caso, devem ser empregados os seguintes critérios para a solução dos conflitos estabelecidos entre normas jurídicas: – hierarquia (critério mais forte) – lei superior prevalece sobre lei inferior; – especialidade (critério médio) – lei especial prevalece (nas matérias por ela abrangidas) sobre a lei geral; e, por fim, – cronologia (critério mais fraco) – lei posterior prevalece sobre a lei anterior; • A comparação entre critérios é importante quando, em um conflito concreto, cada critério favorecer uma norma diferente – a chamada “antinomia de segundo grau” (v. g. Código Civil vs. Lei Fed. nº 4591/64); • Por fim, deve-se observar que o direito brasileiro somente admite a “repristinação” expressa (retomada dos efeitos da norma revogada em decorrência da revogação da norma revogadora); § 5º Obrigatoriedade das leis. • O art. 3º da LINDB contempla o “princípio da obrigatoriedade das leis”, segundo o qual “ignorantia legis neminem excusat”; a respeito da natureza da regra a doutrina se divide em três correntes fundamentais, concebendo-a como: – uma presunção legal – “teoria da presunção” (tomada de acontecimento provável como ocorrido); – uma ficção jurídica – “teoria da ficção” (tomada de acontecimento inverídico como ocorrido); ou – um expediente meramente operacional – “teoria da necessidade social” (mecanismo de neutralização da ignorância jurídica); • Note-se que tal princípio não é absoluto; nas legislações penal (“erro de proibição”) e civil (art. 139) se admite – excepcionalmente – a alegação do falso conhecimento do Direito como um mecanismo exonerativo; § 6º A integração das normas jurídicas. 8 • Nos termos do art. 4º da LINDB, dá-se o fenômeno da “integração” sempre que se constatar alguma “lacuna” do sistema jurídico; para a sua colmatação, devem ser utilizados os seguintes expedientes: – a analogia (raciocínio indutivo-dedutivo) – à vista da: a) ausência de norma reguladora do caso concreto; b) da semelhança entre as situações apresentadas; e c) da identidade de fundamentos jurídicos aplicáveis; – os costumes – prática imemorial, reiterada, uniforme, constante, pública (elemento objetivo), acompanhada da consciência de sua obrigatoriedade (elemento subjetivo); e – os princípios gerais do direito (mandamentos nucleares do sistema); • Deve-se observar que em certos casos a analogia se pauta na tomada de uma regra individual em consideração (“analogia legis”); todavia, em outros, é necessário o recurso a um arcabouço jurídico mais amplo (“analogia iuris”); • Ademais, deve-se apartar a “analogia” da “interpretação extensiva”: enquanto esta trabalha dentro dos limites do enunciado normativo, aquela se reporta ao espírito da regra, ultrapassando o seu texto; • Ainda quanto à analogia deve ser destacada a sua utilização “cuidadosa” em ramos do Direito que possam repercutir sobre a liberdade e o patrimônio do indivíduo (v. g., direitos penal e tributário); • Por sua vez, o “costume” juridicamente vinculante só é admitido no direito brasileiro quando expressamente autorizado (“secundum” ou “praeter legem”); jamais para justificar, todavia, a desobediência à lei – costume “contra legem” (ou “desuetudo”); • Por fim, destaque-se que a eqüidade não é expediente para colmatação de lacunas do ordenamento jurídico – consistindo em simples técnica de aplicação do Direito; § 7º Aplicação e interpretação das normas jurídicas. • A aplicação das normas jurídicas depende, fundamentalmente, da interpretação de seus enunciados, a fim de que sejam descortinados os respectivos alcances; sua disciplina está prevista, sucintamente, no art. 5º da LINDB; • Neste passo, duas correntes se desenvolveram a fim de nortear os estudos sobre a interpretação jurídica: – a corrente “subjetivista” (“voluntas legislatoris”) – segundo a qual se deve buscar, sempre que possível, a vontade do legislador; e – a corrente “objetivista” (“voluntas legis”) – segundo a qual a “vontade da lei” é relativamente independente daquela afeta ao legislador histórico; • Sob o prisma taxonômico, a interpretação pode ser classificada: – quanto à sua “origem”, em: • autêntica; • doutrinária; e • jurisprudencial; – quanto aos “métodos” utilizados, em: • gramatical (ou literal); • lógica; • sistemática; • histórica; e • teleológica; – por fim, quanto aos “resultados”, em: • declarativa; • extensiva; ou • restritiva; § 8º Conflito das leis no tempo. • A lei retroativa disciplina fatos (ou efeitos) submetidos a uma lei anterior; sob o prisma “político”, a retroatividade é freqüentemente malvista pela comunidade – ainda que nem sempre exista impedimento à promulgação de normas “retrooperantes” (cf. art. 5º, XXXVI CF c/c art. 6º LINDB); • Algumas regras em matéria de retroatividade são usualmente apresentadas pela doutrina: – os princípios da irretroatividade da lei (e do respeito ao direito adquirido) são de ordem constitucional (art. 5º, XXXVI CF); – tais princípios obrigam o legislador e o juiz; – no silêncio, presume-se a irretroatividade da regra; – a retroatividade é admissível quando não atingir uma das balizas constitucionalmente resguardadas (o “ato jurídico perfeito”, o “direito adquirido” e a “coisa julgada”); – a lei nova tem efeito imediato e direto, não se aplicando a fatos anteriores; § 9º Eficácia da lei no espaço. • Por envolverem assunto atinente à disciplina de “Direito Internacional Privado” (ou “conflito de leis no espaço”), os arts. 7º a 19 da LINDB somente são referidos na medida em que consagram soluções diferenciadas quanto aos fatos que interessam a plúrimas ordens jurídicas (fatos “plurilocais”); 9 • A seu respeito pode ser destacado que, no regime da Lei de Introdução ao Código de 1916, prevalecia a aplicação da lei de nacionalidade dos envolvidos (“critério da nacionalidade”) – substituindo-se tal modelo em 1942, quando da promulgação da atual Lei de Introdução (oportunidade em que se adotou o “critério do domicílio” dos interessados); Aula 05 – Das pessoas naturais: Da personalidade e da capacidade. Legislação envolvida: arts. 1º a 10 e 70 a 78 do Código Civil. • art. 1º: personalidade jurídica e capacidade jurídica de gozo; • art. 2º: aquisição da personalidade pela pessoa natural (nascituro); • art. 3º: incapacidade absoluta (capacidade de exercício); • art. 4º: incapacidade relativa (capacidade de exercício); • art. 5º: cessação da incapacidade relativa; • art. 6º: extinção da personalidade da pessoa natural; • art. 7º: morte presumida (com ou sem declaração de ausência); • art. 8º: comoriência; • art. 9º: atos objeto de registro; • art. 10: atos objeto de averbação; • art. 70: domicílio; • art. 71: pluralidade domiciliar; • art. 72: domicílio profissional; • art. 73: domicílio da pessoa sem residência habitual; • art. 74: alteração de domicílio; • art. 75: domicílio das pessoas jurídicas; • art. 76: domicílio necessário (legal); • art. 77: domicílio do agente diplomático; • art. 78: domicílio de eleição; § 1º. Nota introdutória. • Inicia-se a análise das relações jurídicas privadas; no Livro I da Parte Geral do CC/02 são disciplinadas as “pessoas”, assim se dividindo a regulação: – Título I – Das pessoas naturais (arts. 1ºa 39 CC); – Título II – Das pessoas jurídicas (arts. 40 a 69 CC); – Título III – Do domicílio (arts. 70 a 78 CC); • O Título I (“Das pessoas naturais”) contempla a existência legal dos sujeitos de direito providos de existência perceptível pelos sentidos (por oposição às pessoas jurídicas), subdividindo-se em: – Capítulo I – Da personalidade e da capacidade (arts. 1º a 10 CC); – Capítulo II – Dos direitos da personalidade (arts. 11 a 21 CC); – Capítulo III – Da ausência (arts. 22 a 39 CC); • Note-se que no CC/16 a ausência era disciplinada pelo “Direito de Família”; agora é objeto da “Parte Geral” do CC/02; § 2º. Personalidade jurídica. • A personalidade é o “pressuposto” para que qualquer espécie de direito (ou dever) seja atribuído a alguém; por isso, pode ser definida como a aptidão genérica para que o ente figure como sujeito – e não como objeto – em uma relação jurídica (qualquer que seja a sua espécie); • No Direito Romano, o escravo – a quem se reconhecia o caráter humano – era considerado um “objeto” de Direito (ou bem), sobre o qual se exerciam prerrogativas (não integrando, ordinariamente, as relações jurídicas na qualidade de sujeito); a “universalização” da personalidade jurídica assinala o avanço do processo civilizatório (art. 1º CC); • A fim de que não se baralhem os conceitos de “personalidade” e de “capacidade” jurídicas, podemos definir a primeira, pois, como a aptidão genérica do ente para figurar na posição de “sujeito” de uma relação jurídica; § 3º. Capacidade jurídica e legitimação. • Se a “personalidade” jurídica (conceito absoluto) pode ser definida como aptidão a figurar como sujeito de uma relação jurídica, a capacidade “jurídica” – de “direito” ou de “gozo” (conceito relativo) – é a aptidão para ter direitos e deveres na órbita civil (capacidade de “aquisição”); • Os conceitos de “personalidade” e de “capacidade jurídica” não se confundem: o primeiro determina em que posição o ente ingressa na relação jurídica; já o segundo define as conseqüências (potenciais) de um tal enquadramento; • Da mesma forma, a “capacidade jurídica” não se confunde com a “capacidade de fato” (de “agir” ou de “exercício”), que pode ser conceituada como a aptidão à “autogestão” (autodeterminação); e nem com a 10 “legitimação” – aptidão específica para a prática de certos atos da vida civil (v. g. alienação imobiliária na comunhão de bens); § 4º. Os sujeitos da relação jurídica. • O conceito de sujeito de direito é de vital importância na teoria geral da relação jurídica: depois de um longo embate intelectual, se tem difundido cada vez mais a tese de que as relações jurídicas somente podem se estabelecer entre sujeitos de direito; tal premissa acaba tendo substanciais consequências práticas, dentre as quais podemos destacar: – o Direito é eminentemente social – e, portanto, não havendo pluralidade subjetiva tal instrumento se mostraria, pois, desnecessário; – toda relação jurídica (mesmo as de Direito das Coisas) envolve um vínculo entre pessoas (sujeito passivo universal) – e não um liame entre pessoas e coisas; – apenas os entes dotados da personalidade podem figurar como sujeitos em relações jurídicas – afastados, assim, os animais e as entidades místicas (v. g., almas e santos); – certas entidades de existência puramente intelectual seriam dotadas de personalidade por determinação do legislador (pessoas jurídicas) – relegando-se outras à posição de “entes despersonalizados” (espólio, massa falida, condomínio, sociedade irregular, etc.); § 5º. Conceito de pessoa natural. • O art. 1º do CC/02 atribui a toda “pessoa” a titularidade de direitos e deveres na ordem civil; duas retificações foram promovidas em relação ao CC/16: usou-se o termo “pessoa” – em lugar de “homem” – e substituiu-se a expressão “obrigações” por uma outra mais abrangente (“deveres”); • A pessoa “natural” (“física”, de “existência visível” ou “individual”) se opõe à pessoa “jurídica” em senso estrito (de “existência ideal” ou “coletiva”); todavia, isso não obscurece o fato de que a pessoa natural não deixa de ser, também, uma pessoa jurídica – na acepção “genérica” do termo; • Assim, no quadro das pessoas, temos: – as pessoas naturais (físicas, de existência visível ou individuais); – as pessoas jurídicas (de existência ideal ou coletivas) – arts. 40 e ss. CC; e – os entes despersonalizados (a quem não se confere personalidade jurídica) – embora seja reconhecida aptidão especial para a atuação no mundo do Direito; § 6º. Começo da personalidade natural. • O art. 2º do CC/02 estabelece que a personalidade jurídica somente se inicia com o nascimento: não se exigindo viabilidade (direitos francês e holandês), que tenha a forma humana (art. 30 do CC espanhol) ou que perdure durante certo tempo (24 horas conforme o citado art. 30 do CC espanhol), é indispensável, contudo, que tenha nascido – rompendo-se, assim, a unidade biológica mantida com a própria mãe; • Deve-se observar que a apuração do fato do nascimento é de suma importância para efeitos patrimoniais – aplicando-se, para a sua constatação, a “docimasia hidrostática de Galeno”; • A respeito do “nascituro” (já concebido mas ainda não nascido) – diferente do “concepturo” (ainda não concebido, v. g., art. 1799, I, CC) – três teorias acabaram se desenvolvendo: – a teoria “natalista” – a personalidade tem início somente com o nascimento; – a teoria “concepcionista” – a personalidade se inicia com a concepção (art. 7º do Código Civil argentino); e – a teoria da “personalidade condicional” – a personalidade se inicia com o nascimento, sendo o nascituro uma pessoa sujeita a condição suspensiva (apenas se vier a nascer); • A doutrina majoritária, no Brasil, defende a teoria “natalista” (que parece ser, ademais, a adotada pelo art. 2º do Código Civil); contudo, o nascituro é objeto de proteção, na medida em que se lhe resguardam: – o direito à vida (art. 5º CF); – o direito a uma adequada assistência pré-natal (art. 8º da Lei Fed.nº 8.069/90); – a aptidão a receber doação (art. 542 CC); – a aptidão a receber herança (art. 1798 CC); – a aptidão a ter sua paternidade reconhecida (art. 1609 CC); – o direito à curatela, em caso de morte do pai e incapacidade da gestante (art. 1779 CC); • Os tribunais brasileiros oscilaram entre as duas teorias prevalecentes (“natalista” e “concepcionista”); reconhecendo-se, contudo – antes mesmo do advento da Lei Fed. nº 11.804/08 – o direito do nascituro a alimentos indispensáveis a seu um nascimento digno (“alimentos gravídicos”); § 7º. Das incapacidades: conceito e espécies. • Como já tivemos a oportunidade de destacar, os conceitos de “personalidade jurídica”, “capacidade jurídica de gozo” (“de direito”) e “capacidade de fato” (“de agir” ou “de exercício”) não se confundem; esta última está vinculada à disciplina das incapacidades desenvolvida entre os arts. 3º a 5º do Código Civil vigente; • Antes de mais nada, devem ser apartadas as categorias dos: 11 – “absolutamente” incapazes (art. 3º CC) – passíveis de “representação” e cujos atos estão sujeitos à “nulidade” (com efeitos “ex tunc”); – “relativamente” incapazes (art. 4º CC) – que podem praticar alguns atos por si próprios, noutros estando sujeitos à “assistência” que, inobservada, leva à “anulabilidade” do ato (com efeitos “ex nunc”); • São “absolutamente” incapazes, de conformidade com o art. 3º do CC: – os menores de 16 anos – ausente a maturidade necessária à “autogestão” patrimonial; – os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem discernimento para a prática dos atos da vida civil – situações de insanidade mental permanente e duradoura, ensejadoras de “interdição” (inabilitação para a prática de atos “válidos” da vida civil); e – os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua vontade – afastadas as inaptidões prolongadas; • A respeito da interdição, aliás, deve-se observar que a sentença que a promove é simultaneamentedeclaratória (da preexistente insanidade) e constitutiva (do estado jurídico de interdito); por isso, os atos praticados pelo interditado: – depois da sentença de interdição – que deverá ser registrada junto ao 1º Ofício de Registro Civil da comarca – serão “nulos” de pleno direito (sem a necessidade de nova análise do assunto); – antes da sentença de interdição, poderão ser declarados nulos, individualmente, mediante prova inequívoca – servindo o laudo produzido naquele processo como simples prova documental (e não pericial); • Note-se, ainda, que o direito brasileiro não admite os “intervalos lúcidos” quanto aos atos praticados pelo já interditado; e nem mesmo a senilidade é recebida pelo nosso sistema como uma causa viabilizadora – por si só – do comprometimento das faculdades mentais do sujeito; • Por sua vez, são “relativamente” incapazes, de acordo com o art. 4º do CC: – os maiores de 16 e menores de 18 anos: os quais não podem maliciosamente se prevalecer de sua incapacidade relativa (art. 180 CC) – podendo ser responsabilizados, subsidiária e limitadamente, pelos atos ilícitos que praticarem (arts. 928 c/c 932 CC); – os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência mental, tenham o discernimento reduzido: sendo caso de incapacidade relativa apenas o comprometimento resultante do uso prolongado (por oposição à incapacidade absoluta do usuário eventual) – submetido o caso à apreciação do magistrado para que seja averiguada a intensidade de comprometimento (ensejador de incapacidade absoluta ou relativa); – os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo – como alguns casos de “Síndrome de Down”, autismos e certas formas de surdo-mudez; e – os pródigos: que poderão, em casos excepcionais, ser reconhecidos absolutamente incapazes – conquanto normalmente lhes seja suficiente a interdição “em seu próprio interesse” (que os priva tão somente da prática dos atos de disposição patrimonial); • Deve-se observar que os surdos-mudos serão submetidos a distintos tratamentos jurídicos, conforme a intensidade de seu contato com os demais sujeitos; podendo – de acordo com as circunstâncias – ser considerados “absolutamente” incapazes, “relativamente” incapazes, ou mesmo portadores de capacidade “plena”; § 8º. A situação jurídica dos índios. • O Código Civil atual – em lugar do enquadramento dos “silvícolas” como relativamente incapazes – remete à legislação especial a disciplina dos atos civis levados a efeito pelos “índios”; a matéria, na atualidade, é regulada pela Lei Fed. nº 6001/73 (“Estatuto do Índio”) – subordinada, de todo modo, à disciplina constitucional afeta ao tema (arts. 22, XIV c/c 231 e 232 CF); • Tomado pelo “Estatuto do Índio”, genericamente, como um absolutamente incapaz, os negócios jurídicos praticados pelo indígena são, prima facie, nulos de pleno direito (se não houver a supervisão da Funai) – exceto se evidenciados consciência, conhecimento e ausência de prejuízo; • O indígena pode ser emancipado quando, cumulativamente, presentes: – idade mínima de 21 anos; – domínio da língua portuguesa; – habilitação para atividade que lhe garanta subsistência; – conhecimento dos usos e costumes ; e – ato administrativo liberatório (Funai) homologado judicialmente – ou liberação propriamente judicial (Justiça Federal); • Os índios podem ser classificados, de acordo com o grau de sua integração à comunidade nacional, em: – isolados; – em vias de integração; e – integrados – não se aplicando a estes as medidas protetivas estabelecidas pela legislação especial (incapacidades); 12 § 9º. Modos de suprimento da incapacidade. • A incapacidade é suprida, no direito civil brasileiro, por meio de dois institutos: – a “representação” – quanto aos absolutamente incapazes (art. 3ºCC); e – a “assistência” – quanto aos relativamente incapazes (art. 4º CC); • Ainda que as funções de representante e de assistente possam ser exercidas, em momentos distintos, por uma mesma pessoa (o representante legal), os regimes jurídicos correspondentes são bastante distintos, pois, v. g.: – o negócio praticado por meio do representante leva “apenas” em conta a sua manifestação de vontade – enquanto que na assistência também o “assistido” acaba manifestando vontade (e participando do ato); – a ausência de representante leva à “nulidade” do negócio jurídico – enquanto a falta do assistente acarreta tão somente a “anulabilidade” da declaração de vontade; § 10. Sistema de proteção aos incapazes. • Diversos são os mecanismos previstos na legislação civil para a proteção dos incapazes; além dos próprios institutos da “representação” e da “assistência”, podem ser referidos, v. g.: – a suspensão/impedimento da prescrição contra o absolutamente incapaz (art. 198, I CC); – a inexigibilidade do mútuo efetuado a menor (art. 588 CC) – ressalvadas as hipóteses previstas em lei (art. 589 CC); – a repetibilidade da dívida de jogo paga pelo menor (art. 814 CC); – a irrepetibilidade do pagamento efetuado a menor no contexto de uma obrigação anulada – excetuado em caso de proveito demonstrado pela outra parte (art. 181 CC); – a compulsoriedade da partilha judicial em caso de interesses de incapaz (art. 2015 CC); – a curatela especial em caso de conflito de interesses entre o menor e o titular do poder familiar (art. 1692 CC); – a anulabilidade do ato praticado em estado de conflito de interesses entre representante e representado (art. 119 CC); • Note-se que tal sistema protetivo brasileiro, contudo: – não comporta a “restitutio in integrum” (desfazimento da operação válida mas prejudicial ao incapaz); – não isenta o incapaz de responsabilidade por ato ilícito (art. 928 CC); e – nem resguarda o maior de 16 anos em caso de atuação maliciosa (art. 180 CC); § 11. Cessação da incapacidade. • São causas de cessação da incapacidade, nos termos do art. 5º do CC: – a “maioridade” – quando atingidos os dezoito anos completos (art. 5º caput CC); e – a “emancipação” (art. 5º, parágrafo único CC), que pode ser, por sua vez: • voluntária – por concessão dos pais ou de um deles na falta do outro, sempre por meio de escritura pública e sem a necessidade de homologação judicial (art. 5º, parágrafo único, I CC); • legal – pelo casamento (inciso II); pelo emprego público efetivo (inciso III); pela colação de grau superior (inciso IV); pelo estabelecimento ou emprego que proporcionem ao maior de dezesseis anos economia própria (inciso V); • judicial – concedida pelo juiz, ouvido o tutor, ao maior de dezesseis anos; • Note-se que o critério para a constatação da maioridade é exclusivamente etário, com a presunção da capacidade em caso de dúvida; não se pode esquecer, todavia, que a capacidade civil não se confunde com a estabelecida por outros diplomas (v. g. penal, eleitoral, etc.); • A emancipação “voluntária” só pode ser conferida pelos pais que tiverem a titularidade e o exercício do “poder familiar”, não podendo servir de subterfúgio para os eximir da responsabilidade por atos do incapaz (art. 932 CC); ou mesmo do dever de lhe prestar os indispensáveis alimentos; • As emancipações voluntária e judicial devem ser “registradas” no 1º Ofício de Registro Civil da comarca; de maneira que – diferentemente das hipóteses de emancipação legal – não produzem efeito “ipso facto”; • O casamento nulo – salvo hipótese de “putatividade” (art. 1561 CC) – não proporciona a emancipação do relativamente incapaz; • Por fim, a economia própria do emancipando deve decorrer de suas atividades habituais: descabendo a emancipação legal, pois, do favorecido por sucessão “causa mortis”; e daquele que não está vinculado a uma relação de emprego circundada dos elementos previstos pelo art. 3º CLT; § 12. Extinção da personalidade natural: modos de extinção. • De conformidade com o art. 6º CC, a extinção da personalidade natural se dá com a morte; a qual, doutrinariamente, pode ser classificada em: – real(art. 6º CC); – presumida (art. 7º CC); 13 – simultânea – ou comoriência (art. 8º CC); e – civil (art. 1816 CC); • A morte “real” há de ser provada, em regra, por meio de “certidão de óbito”; todavia, excepcionalmente, pode ser utilizada a “justificação de óbito” (art. 88 da Lei Fed. nº 6015/73) ou a “ação declaratória de morte presumida sem decretação de ausência” (art. 7º CC); • “Comoriência” é o perecimento simultâneo – sem a possibilidade de se determinar quem sobreviveu a quem – de sujeitos que tenham relação “sucessória” entre si (ainda que falecidos em locais distintos); • A morte “civil” é instituto típico de sistemas jurídicos mais antigos; atualmente, sua admissão no direito civil só se dá de maneira indireta e incidental, tal como se verifica com aquele que fora excluído da sucessão, por indignidade (art. 1816 CC); • A morte “presumida” é admitida pelo Código Civil com ou sem a decretação de ausência; no primeiro caso, é tida por ocorrida com a abertura da sucessão definitiva (arts. 6º c/c 1571, § 1º CC); no segundo caso, sem a etapa intermediária do reconhecimento da ausência (art. 7º CC); § 13. Individualização da pessoa natural: modos de individualização. • A individualização da pessoa se dá por meio: – do “nome”; – do “estado”; – do “domicílio”; • O nome é a designação pela qual a pessoa é identificada no seio social; é dotado de dois aspectos distintos: – o aspecto “público”, voltado à individualização da pessoa; donde a proibição genérica de sua alteração – ressalvadas as permissões legais (arts. 55 e 58 da Lei Fed. nº 6015/73); e – o aspecto “individual” (ou “privado”), por força do qual se o concebe como um aspecto da personalidade, passível de defesa ante terceiros (v. g., na “ação de contestação”); • Quanto à natureza jurídica, diversas teorias foram concebidas – v. g. propriedade, propriedade sui generis, negativista, signo distintivo – prevalecendo a que nele entrevê um aspecto da personalidade do titular; • Note-se que a tutela deferida ao nome (arts. 16 e seguintes CC) estende-se ao pseudônimo (e aos heterônimos); • A respeito dos elementos que integram o nome, devem ser diferenciados: – o “prenome” (ou nome de batismo); – o “sobrenome” (apelido de família ou patronímico); – o “agnome” (elemento diferenciador dentro do seio familiar); – o “axiônimo” (formas de tratamento); – os “títulos” (de nobreza, acadêmicos ou eclesiásticos) e as “qualificações” de dignidade oficial; – a “alcunha” ou “epíteto” (apelido depreciativo); – o “cognome” (designação qualificativa); – o “hipocorístico” (designação típica da intimidade familiar); • Por força dos arts. 59 e 60 da Lei Fed. nº 6015/73 não pode o nome do pai ser lançado em registro civil sem sua autorização; contudo, o Oficial de Registro Civil remeterá ao juiz os dados sobre o suposto pai (fornecidos pela própria mãe) para que este, convocado pelo magistrado, reconheça a criança voluntariamente – ou seja demandado em “ação investigatória”; • O “prenome” é imutável, em regra, à vista de seu aspecto público – salvo exceções expressamente previstas em lei, notadamente quando esdrúxulo (art. 55 da Lei Fed. nº 6015/73); note-se que o art. 58 da Lei de Registros Públicos permite a alteração do nome para a inclusão (ou substituição) dos “apelidos públicos notórios”; • A “retificação” do nome em caso de evidente erro gráfico é promovida junto ao próprio Oficial (art. 110 da Lei de Registros Públicos); • A jurisprudência tem admitido a alteração do prenome sempre que expuser seu titular a “constrangimento” (ou quando houver intolerável distanciamento em relação ao prenome de uso); em caso de adoção, adotando ou adotado podem buscar também a alteração do prenome (o mesmo se aplicando ao “prenome” de estrangeiros radicados no país); • Durante o primeiro ano após o atingimento da maioridade (art. 56 da Lei de Registros Públicos) pode o interessado buscar, administrativamente, a modificação de seu prenome; após o decurso desse prazo (decadencial), a alteração será sempre judicial, motivada e excepcional (art. 57); • A mudança no patronímico também é excepcional – só se justificando pelo casamento, pela exclusão motivada do nome paterno ou pela inclusão do apelido de família do padrasto ou da madrasta (art. 57, § 8º); • Além das hipóteses já mencionadas, o nome também pode ser alterado nos casos de: – separação judicial; – divórcio – com a manutenção excepcional prevista no art. 1578 CC; – reconhecimento – superveniente – de filho; – união estável – somente se houver impedimento para o casamento (art. 57, § 2º da Lei de Registros Públicos); – transexualismo (Enunciado nº 276 da IV Jornada de Direito Civil); • O estado (conjunto de predicados da personalidade) pode ser: 14 – individual (ou físico) – relacionado a idade, sexo, cor, altura, saúde, etc.; – familiar – relacionado ao matrimônio (solteiro, casado, viúvo, divorciado), à união estável (companheiro) e ao parentesco (pai, filho, irmão, sogro, cunhado, etc.); – político – nacional (nato ou naturalizado) ou estrangeiro – sendo de se diferenciar os conceitos de nacional (titular da nacionalidade brasileira) e de cidadão (titular de direitos políticos); • Note-se que o estado é dotado de certas características, tais como ser: – uno (e indivisível) – ressalvada a cumulação da nacionalidade de origem; – indisponível; e – imprescritível – sendo tutelado, a qualquer tempo, por meio das “ações de estado”; • Por fim, domicílio é a “sede jurídica” da pessoa, não se confundindo com a “residência” (que é um de seus elementos) e nem com a “morada” ou “habitação” (que é desprovida de permanência); é composto, pois, por dois elementos, nos termos do art. 70 do CC: – o “objetivo” – residência (estabelecimento material duradouro); e – o “subjetivo” – o ânimo definitivo (a intenção de ali estabelecer o centro de atuação jurídica); • Ao contrário do Código Civil de 1916 (que previa a unidade domiciliar), o Código vigente admite a “pluralidade domiciliar” (art. 71 CC) – e, inclusive, aquele(s) estabelecido(s) apenas para efeitos “profissionais” (art. 72 CC); • É chamado “domicílio ocasional” o centro de atuação daquele que não tenha residência habitual (art. 73 CC) – correspondendo, para efeitos práticos, ao local em que puder ser encontrado; • A “perda” do domicílio não decorre, pois, de sua simples mudança física; em consonância com os dois elementos que o informam, somente se evidencia quando houver a “intenção manifesta” de o alterar (art. 74 CC); • Quanto às “espécies”, o domicílio pode ser: – voluntário: • geral (escolhido livremente); • especial (de eleição) – para o cumprimento de certo negócio jurídico (art. 78 CC); – necessário (ou legal): determinado por lei (por força da condição ou situação de certas pessoas) – tal como o fazem os arts. 76 (incapaz, preso, marítimo, militar e servidor público) e 77 (agente diplomático) do Código Civil; • O domicílio da pessoa jurídica é o local de sua “sede” (art. 75 CC); assim: – o domicílio da União é o Distrito Federal; – o domicílio dos Estados e Territórios são as respectivas capitais; – o domicílio dos Municípios é a sede da administração; e – o domicílio das demais pessoas jurídicas é o local em que estão concentradas sua direção e administração – salvo disposição estatutária diversa; • No que toca à pessoa jurídica com plúrimos domicílios, será domicílio cada um dos locais em que desenvolve as suas atividades, para os efeitos da atuação ali conduzida (art. 75, § 1º CC); o que se observa, inclusive, em caso de atividades de pessoas estrangeiras atuantes em território nacional (§ 2º); § 14. Atos de registro civil. • Finalmente, de conformidade com o disposto nos artigos 9º e 10 do Código Civil brasileiro, serão: – registrados: • os nascimentos, casamentos e óbitos; • a emancipação (voluntária ou judicial); • a interdição; • as sentenças declaratórias de ausência e morte presumida; e – averbados(anotados à margem do registro): • a sentença de nulidade ou anulação de casamento, separação, divórcio e restabelecimento da sociedade conjugal; e • os atos (judiciais ou extrajudiciais) de declaração ou reconhecimento de filiação; • Note-se que a averbação da “adoção” – prevista originalmente como inciso III do art. 10 do CC – foi suprimida pela Lei Fed. nº 12.010/09; • Observe-se que tais atos serão registrados/averbados perante o Oficial de Registro Civil das Pessoas Naturais – integrante do sistema de registros públicos instituído pela Lei Fed. nº 6015/73 (ao lado do Registro Civil das Pessoas Jurídicas, do Registro de Títulos e Documentos e do Registro de Imóveis) – ou por quem lhe faça as vezes (v. g. as autoridades consulares e os comandantes de embarcações ou aeronaves); Aula 06 – Das pessoas naturais: Dos direitos da personalidade. Legislação envolvida: arts. 11 a 21 do Código Civil. • art. 11: direitos de personalidade e características; • art. 12: tutela (efetiva e inibitória) dos direitos de personalidade; • art. 13: disposição do próprio corpo (em vida); • art. 14: disposição do próprio corpo (para depois da morte); 15 • art. 15: tratamento ou cirurgia com risco de vida; • art. 16: direito ao nome; • art. 17: emprego do nome alheio em situação vexatória; • art. 18: utilização do nome alheio em propaganda comercial; • art. 19: pseudônimo; • art. 20: direito à própria imagem; • art. 21: direito à vida privada; § 1º. Conceito. • Os direitos de personalidade correspondem a direitos subjetivos inerentes à própria pessoa humana (sendo a ela vinculados, portanto, de maneira definitiva); podem recair sobre três categoriais fundamentais, vale dizer: – a integridade “física” – v. g. direito à vida, direito a alimentos, direito ao próprio corpo, direito ao cadáver, direito às partes separadas do próprio corpo, etc.; – a integridade “intelectual” – v. g. liberdade de pensamento, direito à criação intelectual (artística ou industrial), etc.; e – a integridade “moral” – v. g. direito à honra, direito ao segredo, direito ao recato, direito à identidade (pessoal, familiar e social), etc.; • Ao contrário do que pode sugerir a análise dos arts. 11 a 21 do Código Civil, não se trata de categoria plenamente desenvolvida; ali apenas estão apontados “alguns” direitos de personalidade, intimamente vinculados ao paulatino processo histórico de afirmação dos direitos fundamentais – que encontra consagração inicial na jurisprudência e na Constituição de 1988; • Ainda que usualmente designados por meio de outras expressões (v. g. direitos personalíssimos, direitos fundamentais da pessoa, direitos subjetivos essenciais, direitos sobre a própria pessoa, etc.), prevalece a designação “direitos da personalidade”; § 2º. Fundamentos dos direitos da personalidade. • Os direitos da personalidade correspondem a um fértil campo para o embate entre as teorias “normativistas” e “jusracionalistas”: – os partidários do Direito Natural defendem, por um lado, a existência de direitos “inatos” (ao lado de outros que decorreriam de uma concessão estatal); – já os adeptos do positivismo jurídico afirmam que “todos” e quaisquer direitos subjetivos só encontram sustentáculo em uma previsão levada a efeito pelo legislador (tendo uma consistência meramente jurídico-normativa); • Vale dizer que esse esquema de raciocínio é profundamente dependente, pois, da concepção de “contrato social” adotada pelo estudioso: enquanto o modelo “hobbesiano” propende para o paradigma positivista (com a restituição de certas liberdades a critério do Estado), os esquemas “lockeanos” se inclinam pelo reconhecimento de certas prerrogativas que jamais são transferidas ao Estado (sendo retidas pelo particular ao aderir ao contrato social); § 3º. Características dos direitos da personalidade. • Podem ser apresentadas como características dos direitos de personalidade as suas: – intransmissibilidade: “inter vivos” ou “causa mortis”, por meio de quaisquer fatos ou negócios jurídicos – ressalvadas as exceções expressamente contempladas em lei (v. g. arts. 12 e 20 do Código Civil e art. 24 da Lei Fed. nº 9.610/98); – irrenunciabilidade: não são passíveis de afastamento total – inclusive voluntário – da esfera jurídica de seu legítimo titular; contudo, admitem limitações voluntárias, ao contrário do que diz o art. 11 CC (interpretação restritiva); – indisponibilidade: não podem ser objeto de negócio jurídico que implique em restrição quanto ao seu alcance – salvo quando a lei o permitir (arts. 13 e 14 do CC); – oponibilidade ‘erga omnes’: os direitos de personalidade podem ser opostos a quem quer que seja; – ilimitação: os arts. 11 a 21 do Código Civil compõem um rol meramente exemplificativo, que pode ser ampliado – principalmente à custa de inovações científicas que ampliem os aspectos da personalidade potencialmente relevantes ao Direito; – imprescritibilidade: o não exercício de certo direito de personalidade não implica em sua perda (em virtude da inércia de seu titular) – ainda que tal fenômeno possa atingir o “direito à indenização” (relacionado a uma sua violação); – impenhorabilidade: não podem ser objeto de agressão (penhora) no curso de uma execução contra o seu titular – ainda que o possam os aspectos econômicos que lhe são comumente atrelados (v. g. os direitos patrimoniais de autor , “ex vi” do art. 28 da Lei Fed. nº 9.610/98); – inexpropriabilidade: por se vincularem à pessoa humana de modo indestacável, não podem ser objeto de desapropriação – conquanto seja admissível a expropriação de seus aspectos econômicos (v. g. direitos patrimoniais de autor); 16 – vitaliciedade: estendem-se, temporalmente, até o momento da morte de seu titular – sendo atribuída a pretensão à sua tutela aos sucessores do defunto (v. g. arts. 12 e 20 do Código Civil e art. 24 da Lei Fed. nº 9.610/98); § 4º. Disciplina no Código Civil. • Em lugar de uma minuciosa disciplina, o Código Civil de 2002 preferiu enumerar os diversos direitos de personalidade em um rol meramente “exemplificativo”; daí se pode concluir que a “pauta” produzida pelo legislador, em lugar de um modelo exauriente, propendeu – metodologicamente – à adoção de um sistema aberto, caracterizado por uma “atividade criativa” do Poder Judiciário; • À vista da diversidade de seu respectivo objeto, os direitos de personalidade se caracterizam por uma tutela bastante contundente (art. 5º, XXXV da CF), incompatível com o paradigma tradicionalmente adotado pelo Direito Civil (ultrapassando-se, assim, o usual modelo “repressivo”); nesse cenário, ganham corpo a tutela “preventiva” (v. g. a tutela “inibitória”, “ex vi” do art. 12 do Código Civil) e as medidas processuais de natureza antecipatória (arts. 273 e 461 do Código de Processo Civil); • O direito à integridade física é tutelado pelos arts. 13 e 14 do Código Civil, resguardadores do direito ao “próprio corpo” (vivo ou morto) – inteiro e em suas diversas partes integrantes (originais e incorporadas); • Note-se que é admitida pelo direito brasileiro a “doação” (disposição gratuita) de órgãos e tecidos, desde que: – não implique em deformação ou mutilação inaceitável; – seja a todo tempo revogável e revestida pelo princípio do “consenso afirmativo”; e – não envolva qualquer espécie de contrapartida, mesmo que indireta – por não ser admitida a sua “comercialização”; • Note-se que a ablação de órgãos genitais – nos processos de “transgenitalização” – é objeto de acesa polêmica: havendo tendência à sua admissão quando implique em adequação física ao “sexo psicológico” do paciente (cf. Enunciado nº 276 da IV Jornada de Direito Civil); • Como desdobramento dos deveres de “transparência” e de “informação”, o art. 15 do CC veda a realização de “tratamento médico de risco” sem o prévio e expresso consentimento do paciente; caso esteja inconsciente, deverá ser colhido – quando possível – junto aos seu entes mais próximos (ascendentes,descendentes, cônjuge, companheiro e irmãos); • Caso seja impossível obter o consentimento necessário à intervenção (v. g. transfusão de sangue), o procedimento deverá ser adotado – à vista da prevalência constitucional do “direito à vida” (em uma aplicação da técnica da “ponderação” dos bens e valores envolvidos); • Por sua vez, o direito ao nome é tutelado pelos arts. 16 a 19 CC; ainda que indisponível enquanto direito da personalidade, pode ser objeto de disposição voluntária – v. g. licenciamento – no que toca ao seu aspecto patrimonial; • O art. 20 do Código Civil veda a utilização da imagem, da palavra e de escritos alheios, sempre que tal emprego não se lastreie em autorização, administração da justiça ou manutenção da ordem pública – e acabe redundando em prejuízo à honra, à boa fama ou à respeitabilidade do retratado (ou esteja voltado, ainda, a fins comerciais); • Neste caso, a pretensão à abstenção pode ser manejada pelo próprio prejudicado ou por seus entes mais próximos (cônjuge e parentes em linha reta), na forma estabelecida pelo parágrafo único do art. 19 CC; • Observe-se que tal tutela se volta à “imagem-atributo” e à “imagem-retrato” – sendo que esta pode ser objeto de restrição voluntária, com efeitos meramente patrimoniais; • A tutela à “vida privada” (art. 21 CC) abrange também a “intimidade” – tudo como uma forma de preservação do “genérico” direito ao “segredo”; Aula 07 – Da ausência. Legislação envolvida: arts. 22 a 39 do Código Civil. • art. 22: curadoria dos bens do ausente (sem representação); • art. 23: curadoria dos bens do ausente (com representação); • art. 24: nomeação do curador e fixação de seus poderes; • art. 25: curador (ordem de vocação); • art. 26: sucessão provisória; • art. 27: interessados na abertura da sucessão provisória; • art. 28: sentença que determina a abertura da sucessão provisória; • art. 29: conversão dos bens (com o fito de os preservar); • art. 30: imissão na posse dos bens (garantias); • art. 31: alienação dos imóveis do ausente; • art. 32: sub-rogação pessoal dos sucessores do ausente; • art. 33: frutos (e capitalização) dos bens sucedidos; • art. 34: “excluído” da posse dos bens sucedidos (frutos); • art. 35: comprovação superveniente da data da morte do ausente; • art. 36: retorno do ausente; 17 • art. 37: abertura da sucessão definitiva; • art. 38: sucessão definitiva do ausente com mais de 80 anos; • art. 39: retorno do ausente após abertura da sucessão definitiva. § 1º. Introdução. • A ausência, no âmbito do Código Civil de 1916, foi disciplinada em meio ao “Direito de Família” – sendo considerada, à vista de seu art. 5º, IV, uma hipótese de incapacidade absoluta (ensejadora da “nulidade” dos atos praticados pelo ausente); • Na forma do art. 22 do CC (c/c arts. 1159 e 1160 CPC), a ausência será declarada caso se constate: a) desaparecimento de uma pessoa de seu domicílio (sem dela haver qualquer notícia); e b) inexistência de representante apto a gerir os interesses do desaparecido (por não haver incumbência, aceitação, ato de outorga de poderes ou outorga suficiente); • Na ausência plúrimos interesses se conjugam (e se contrabalançam ao longo de suas sucessivas fases): de um lado, a tutela ao patrimônio do desaparecido; de outro, a preservação dos interesses de seus respectivos sucessores (ou titulares de direitos dependentes da morte daquele); • Três são as fases em que se divide o procedimento relacionado à arrecadação, custódia e distribuição dos bens pertencentes ao desaparecido: a) curadoria dos bens do ausente (arts. 22 a 25 do Código Civil); b) sucessão provisória (arts. 26 a 36 do Código Civil); e c) sucessão definitiva (arts. 37 a 39 do Código Civil); • A disciplina da ausência está estabelecida no Código Civil (arts. 22 a 39), conjugada com os arts. 1159 a 1169 do Código de Processo Civil (Lei Fed. nº 5869, de 11 de janeiro de 1973); § 2º. Da curadoria dos bens do ausente. • A “curadoria dos bens do ausente” corresponde à primeira etapa do procedimento a que faz alusão o art. 22 do CC: a preocupação principal do legislador, nesta etapa, é a de preservar os bens do desaparecido, a fim de que possam ser retomados – sem prejuízo – em caso de reaparecimento; • Diferentemente do que fazia o legislador civil de 1916, o Código Civil atual prevê duas “declarações” de ausência: uma primeira, durante a etapa da “curadoria dos bens do ausente” (art. 22 CC); e outra com a abertura da “sucessão provisória” (art. 26 CC); • As “cautelas materiais” são previstas não apenas para o desparecimento “sem” a constituição de representante apto à administração dos interesses do desaparecido – aplicando-se, também, quando aquele não “quiser”, não “puder” ou não “tiver” poderes suficientes para a respectiva gestão (art. 23 CC); • Deve-se observar que os poderes atribuídos ao curador serão definidos pelo próprio magistrado, “conforme as circunstâncias” – com a liberdade prevista no art. 24 do Código Civil (ainda que orientada pela disciplina legal afeta à tutela e à curatela); • Conforme o art. 25 do CC, o “cônjuge” – “companheiro” (“ex vi” do art. 226, § 3º da CF) – do desaparecido é o seu natural curador; em caso de impossibilidade ou impedimento (“falta”), a curadoria será deferida – na ordem – aos ascendentes e aos descendentes (dentre os quais os mais próximos excluem os mais remotos); • Caso não se encontrem vocacionados naturais à curadoria (por inexistência ou impedimento), o magistrado recrutará o curador (judicial) dentre pessoas de sua confiança aptas ao exercício da administração de bens alheios (art. 25, § 3º CC); • A “curadoria dos bens do ausente” se encerra (art. 1162 CPC): a) pelo “reaparecimento” do titular do patrimônio, que recobra a gestão de seus bens; b) pela certeza da morte do sujeito, com a aplicação das regras atinentes ao “Direito das Sucessões” (Livro V da Parte Especial do Código Civil); ou c) pela abertura da “sucessão provisória”, caso ainda penda incerteza quanto à pessoa do desaparecido; • Note-se que durante o período da curadoria dos bens do ausente serão publicados editais, a cada dois meses, convocando o desaparecido a reassumir a gestão de seus bens – na forma estatuída pelo art. 1161 do Código de Processo Civil; § 3º. Da sucessão provisória. • A “sucessão provisória” corresponde à segunda etapa do procedimento a que faz alusão o art. 22 do CC; nesta fase – diante do “relativo equilíbrio” entre a as probabilidades de vida e de morte do desaparecido – a preocupação do legislador está em viabilizar a distribuição de seus bens entre seus sucessores – sempre tomada em consideração, contudo, a possibilidade de regresso do titular (com a retomada de seu patrimônio); • A abertura da sucessão provisória se dará 1 (um) ano após a arrecadação de seus respectivos bens (e publicação do primeiro edital) – ou 3 (três) anos em caso de eficiente representação (art. 26 CC c/c art. 1163 CPC) – observadas as seguintes prescrições legais: – a sucessão provisória somente “poderá” ser requerida (nos termos do disposto junto ao art. 27 do CC c/c art. 1164 do CPC): a) pelo cônjuge não separado do desaparecido; b) pelos sucessores presumidos; 18 c) pelo titular de direito dependente da morte do desaparecido; ou d) pelos credores de dívidas já vencidas (e não pagas); – proferida regular sentença, esta habilita os interessados – desde que transitada em julgado – a proceder a abertura de testamento, o inventário e a partilha dos bens deixados pelo desaparecido (efeito processual); sem que isto implique em produção de efeitos “materiais”, os quais ficarão sobrestados durante os 180 (cento e oitenta dias) posteriores à publicação daquela (art. 28 CC c/c art. 1165 CPC); – note-se que em caso de inércia dos interessados, a sucessão provisória será requerida pelo Ministério Público (art. 28, § 1º CC) – aplicando-se a disciplina da herança jacente (e da herança vacante) caso não surjam interessadosna sucessão (arts., 28, § 2º CC c/c arts. 1819 a 1823 CC e “parágrafo único” do art. 1165 CPC); – a natureza também “cautelar” da sucessão ora analisada implica: a) na conversão – antes da partilha – dos bens móveis (passíveis de deterioração ou extravio) em imóveis e títulos garantidos pela União (art. 29 CC); b) no compulsório oferecimento de garantias (penhores/hipotecas) pelos sucessores “não necessários” que pretenderem imissão na posse dos bens do ausente – sob pena de privação quanto aos seus efeitos (art. 30 CC c/c art. 1166 CPC); e a) na alienação – e oneração – excepcional dos imóveis integrantes do patrimônio do ausente, excetuada a hipótese de desapropriação (art. 31 CC); – como uma aplicação específica do princípio da “saisine”, tão logo imitidos na posse dos bens hereditários, os sucessores farão suas as ações em que o sucedido fosse parte – atuando conjuntamente até o momento da partilha (art. 32 c/c “parágrafo único” do art. 1791 CC); – os frutos dos bens hereditários pertencerão aos sucessores necessários (cônjuge, ascendentes e descendentes) por inteiro; havendo a necessidade de capitalização da metade pelos demais herdeiros, na forma estabelecida pelo art. 33 CC – com a perda da metade cabente ao ausente caso o seu desaparecimento seja reputado “inescusável” – e com a possibilidade de atribuição excepcional de frutos àquele que não puder oferecer garantia pelo quinhão hereditário respectivo, sempre que evidenciada a “falta de meios” (art. 34 CC); – caso desponte prova superveniente da data exata da morte do ausente, a sua respectiva sucessão se regulará pelo disposto junto ao Livro V da Parte Especial do Código Civil (art. 35 CC c/c art. 1167, I CPC); e – em caso de reaparecimento do ausente, retomará os seus bens tal como se achem à data do ressurgimento; fazendo seus todos os frutos percebidos desde então (ou tão logo provada a sua existência) – devendo seus “sucessores” zelar pelos mesmos até o momento da adequada restituição (art. 36 CC); § 4º. Da sucessão definitiva e do retorno do ausente. • A “sucessão definitiva” corresponde à derradeira etapa do procedimento desencadeado pelo desaparecimento a que faz alusão o art. 22 do CC; a preocupação do legislador, neste passo, está concentrada em resguardar os interesses dos sucessores – e de terceiros de boa-fé – conquanto sempre se tenha em conta a possibilidade de retorno do desaparecido; • A abertura da sucessão definitiva se dará (art. 1167 CPC): a) quando decorridos 10 (dez) anos do trânsito em julgado da sentença que decretou a abertura da sucessão provisória (art. 37 c/c art. 28 CC); ou b) quando o desaparecido contar com mais de 80 (oitenta) anos de idade “e” inexistirem notícias a seu respeito em um intervalo inferior a 5 (cinco) anos (art. 38 CC); • O principal efeito “patrimonial” da abertura da sucessão definitiva é que os herdeiros não necessários poderão postular o levantamento das cauções prestadas e dos frutos capitalizados (arts. 30 e 33 CC); • Sob a perspectiva “pessoal”, com a abertura da sucessão definitiva firma-se a presunção de morte do ausente (art. 6º CC, “in fine”) – reputando-se dissolvido, então, o casamento validamente contraído (art. 1571, § 1º CC); • (art. 39 CC c/c arts. 1168 e 1169 CPC); • Caso retorne após o decurso do referido prazo, nada recobrará – tal como estabelece o “caput” do art. 39 CC (interpretado “a contrario sensu”); • Não sendo tomadas providências no sentido de se postular a abertura da sucessão definitiva, os bens arrecadados passarão ao Município, ao Distrito Federal ou à União (caso estejam situados em território federal) – na forma estatuída pelo parágrafo único do art. 39 CC; § 5º. Ausência como causa de dissolução da sociedade conjugal. 19 • Como tivemos a oportunidade de observar há pouco, com a abertura da “sucessão definitiva” instala-se a presunção de morte do ausente (art. 6º CC) – com a dissolução do casamento contraído validamente (art. 1571, § 1º CC) – viabilizadora da contração de novas núpcias pelo então reconhecido “viúvo”; • Entretanto, pode ser postulado – antes da abertura da sucessão definitiva – o “divórcio direto” fundado na separação de fato por mais de dois anos (art. 1580, § 2º CC); • Não tendo sido intentada a ação de divórcio (direto), caso o ausente reapareça após contraídas novas núpcias, o novo casamento não será atingido – ao contrário do estabelecido pelo art. 68 do Código Civil italiano (e à semelhança do que estabelecia o Direito Romano a propósito do “ius postliminii”); Aula 08 – Das pessoas jurídicas: Disposições gerais. Legislação envolvida: arts. 40 a 52 do Código Civil. • art. 40: pessoas jurídicas (direito público e privado); • art. 41: pessoas jurídicas de direito público interno; • art. 42: pessoas jurídicas de direito público externo; • art. 43: responsabilidade das pessoas de direito público interno; • art. 44: pessoas jurídicas de direito privado; • art. 45: início da existência das pessoas de direito privado; • art. 46: conteúdo do registro (ato constitutivo da pessoa jurídica); • art. 47: atos dos administradores (excesso); • art. 48: “quórum” de deliberação (administração coletiva); • art. 49: administração faltante (providências cautelares do juiz); • art. 50: desconsideração da personalidade jurídica; • art. 51: dissolução e liquidação da pessoa jurídica; • art. 52: direitos de personalidade da pessoa jurídica. § 1º. Conceito. • Como tivemos a oportunidade de observar outrora, o homem é um ser eminentemente gregário (social), daí resultando a sua natural propensão à reunião de esforços para a colimação “coletiva” de um certo escopo; • Nesse cenário, a pessoa jurídica exsurge como um instrumento voltado à construção de uma realidade própria, em decorrência da qual são apartados o “grupo” (vontade coletiva resultante) e os diversos “membros” que o integram (vontades individuais); • A pessoa jurídica pode ser definida como o conjunto de pessoas ou bens (“universitas personarum” e “universitas rerum”) afeto à concatenação de certo objetivo reputado lícito pelo ordenamento jurídico, o qual lhe reconhece, assim, uma vocação própria – ainda que artificial – à participação em relações jurídicas – desde que observadas as formalidades legais afetas à sua respectiva constituição; • Conforme também já tivemos a oportunidade de observar anteriormente, a designação “pessoa jurídica” é a prevalecente entre nós (assim como nos direitos espanhol, alemão e italiano), ainda que noutros sistemas jurídicos outras expressões sejam preferidas, tais como “pessoas morais” (direitos francês e suíço), “pessoas colectivas” (direito português) ou mesmo “entes de existência ideal” (direito argentino) – além de designações menos frequentes, tais como: • pessoas “civis” – destacando-se a sua existência propriamente forjada pelo Direito; • pessoas “místicas”; • pessoas “abstratas” – por oposição ao perfil concreto da personalidade natural; • pessoas “compostas” – enfatizando-se a peculiar composição de sua vontade; • universalidades de pessoas (e universalidades de bens) – priorizando-se o aspecto objetivo subjacente; etc.; § 2º. Natureza jurídica. • A respeito da natureza das pessoas jurídicas, duas principais concepções podem ser destacadas: de um lado as “afirmativas”, que admitem a sua existência (ainda que subdivididas em diversas teorias); e, de outro, as “negativistas”, que reduzem tais grupamentos: • aos sujeitos que os integram (Ihering); • ao patrimônio que lhes serve para a consecução de certas finalidades (Brinz/Bekker); • ao condomínio havido entre os sujeitos reunidos, quanto a certos bens (Planiol/Barthélémy); • As teorias negativistas não se sustentam entre nós: a admissão de uma “vontade coletiva” (distinta da mera justaposição das “vontades individuais”) é suficiente para que sejam repelidas – sobretudo quando tomado em consideração o peculiar papel do “escopo” coletivo (que acaba por direcionara utilização que se dá ao patrimônio afetado); • As teorias “afirmativas”, por sua vez, podem ser assim divididas: • Teorias da ficção: • teoria da “ficção legal” (Savigny) – pessoa jurídica como mera criação legislativa; 20 • teoria da “ficção doutrinária” (Vareilles-Sommières) – toma a pessoa jurídica como criação meramente doutrinária (ou científica); • Teorias da realidade: • teoria da “realidade objetiva ou orgânica” (Gierke/Zitelmann) – enfatiza o aspecto sociológico (cabendo ao Estado apenas reconhecer um dado “preexistente”); • teoria “institucionalista” (Hariou) – enaltecedora da organização, toma a pessoa jurídica como um elemento voltado à realização de uma idéia socialmente útil; • teoria da “realidade técnica” (Saleilles/Colin-Capitant) – reconhece que a personificação é um expediente de ordem técnica, passível de extensão, pelo Estado, a grupos a que se reconhece vontade e objetivos próprios (desde que observados os requisitos estabelecidos em lei); • A principal crítica que se pode formular às “teorias da ficção” diz respeito ao fato de que estas consideram a pessoa jurídica um ente puramente técnico, desprovido de qualquer espécie de substrato material; • Por outro lado, nem todas as “teorias da realidade” gozam da mesma aceitação: a teoria da “realidade objetiva” (ou “orgânica”) atribui ao Estado uma função meramente reconhecedora de certos dados (o que impediria a vedação ao reconhecimento da personalidade quanto aos “entes despersonalizados”); e a teoria “institucionalista” põe as pessoas jurídicas a depender de uma finalidade útil ao grupo (descurando, v. g., da fundação criada para atender ao escopo de seu instituidor); • O direito brasileiro (art. 45 CC) adotou a teoria da “realidade técnica” ao discriminar à pessoa jurídica um âmbito de atuação próprio (distinto da de seus membros) – e cercado, pois, de maior segurança; § 3º. Requisitos para a constituição da pessoa jurídica. • A constituição de uma pessoa jurídica pressupõe a presença de elementos de “ordem material” (pessoas, bens, finalidade) e de “ordem formal” (ato constitutivo, registro) – passíveis de síntese por meio dos quatro requisitos fundamentais seguintes: • vontade humana criadora: materializada no ato constitutivo – e, quanto às “universitas personarum”, caracterizada pelas vontades convergentes ligadas por uma intenção comum; • elaboração do ato constitutivo: fundamento negocial desencadeador da personalidade jurídica autônoma (materializado em um estatuto, contrato social, escritura pública ou testamento); • registro do ato constitutivo: forma “ad regularitatem” reputada indispensável, por lei, para o surgimento da personalidade jurídica própria do ente criado (art. 45 CC); e • liceidade de seu objetivo: o “escopo” deve ser lícito, possível e determinado (arts. 53 e 62, parágrafo único, CC); • Note-se que a existência jurídica das pessoas de Direito Público depende de fatores próprios – v. g. lei e ato administrativo (arts. 41 e 42 CC); • Algumas pessoas jurídicas de direito privado, à vista da ligação de suas atividades a interesses de ordem coletiva (v. g. empresas estrangeiras, agências e estabelecimentos de seguros, caixas econômicas, cooperativas, instituições financeiras, sociedades de exploração de energia elétrica, empresas jornalísticas, etc.), carecem de autorização/aprovação do Governo Federal para o exercício de suas atividades; • Excetuadas as sociedades empresárias (Junta Comercial) e as sociedades simples de advogados (OAB), as pessoas jurídicas de direito privado terão os seus atos constitutivos registrados no Registro Civil de Pessoas Jurídicas – ainda que depois submetidos, nalguns casos, a “registros cadastrais” outros (v. g. Tribunal Superior Eleitoral, Ministério do Trabalho); • Três são os sistemas relacionados à atribuição de personalidade jurídica: • livre formação: a emissão da vontade pelos membros é suficiente para o surgimento da personalidade jurídica; • reconhecimento: a chancela pelo Estado é elemento decisivo para a atribuição de personalidade ao ente criando; • disposições normativas: a criação da personalidade independe da chancela estatal, desde que observadas condições legais predeterminadas; • Quanto ao registro, trata-se de “formalidade” indispensável ao exsurgimento da personalidade jurídica (cf. distinção entre formalidade e formalismo), por meio da qual se materializa a forma “ad regularitatem”, com correspondentes repercussões na “eficácia” jurídica (inclusive moral, “ex vi” do art. 52 CC) do ato constitutivo – diferentemente da forma integrante do suporte fático (plano da existência) e da forma “ad substantiam” (plano da validade); • Como regras “genéricas” devotadas às pessoas jurídicas de direito privado – além daquelas que serão objeto de considerações desenvolvidas mais adiante – devem ser destacados os seguintes dispositivos do Código Civil: • art. 46 – a respeito do conteúdo do registro da pessoa jurídica de direito privado (sob pena de nulidade); • art. 47 – relativo à responsabilidade da pessoa jurídica de direito privado pelos atos praticados por seus respectivos órgãos (desde que observados os limites de sua respectiva atuação); • art. 48 – afeto ao regime de tomada de decisões pela pessoa jurídica de direito privado (bem como a propósito das hipóteses e dos prazos de sua respectiva impugnação); • art. 49 – acerca da nomeação de administrador provisório para a pessoa jurídica cuja administração vier a faltar – cf. arts. 22 e seguintes CC (relativos à curadoria do ausente); 21 • art. 51 – sobre a dissolução (“ato” e “procedimento”), a liquidação e o cancelamento da pessoa jurídica de direito privado; • As sociedades “de fato” (desprovidas de ato constitutivo) e as “irregulares” (desprovidas de ato constitutivo registrado) não têm personalidade jurídica (ainda que lhes reconheça capacidade processual o art. 12 CPC), de modo que os patrimônios de seus sócios poderão ser agredidos solidária e ilimitadamente – podendo ser invocado o “benefício de ordem” (exceto pelo sócio ostensivo, “ex vi” dos arts. 989 e 990 CC), sem a necessidade de desconsideração da personalidade jurídica (art. 50 CC); • Por sua vez, a massa falida (subjetiva), a herança jacente (e a vacante), o espólio e o condomínio são entes despersonalizados, ainda que dotados, por lei, da aptidão de estarem em juízo (art. 12 CPC) – aos quais a jurisprudência acrescentou os consórcios e os fundos do mercado de capitais (fundos de ações, de pensão, de imóveis); • Especificamente a respeito do condomínio, deve-se observar que ao condomínio edilício a lei reconhece uma específica hipótese de “consideração da personalidade jurídica” (art. 63, § 3º da Lei Fed. nº 4591/64) – em sentido inverso à medida prevista no art. 50 CC (ainda que revestida de semelhante excepcionalidade); § 4º. Classificação da pessoa jurídica. • A pessoa jurídica pode ser classificada: • quanto à sua nacionalidade: em “nacional” – organizada de conformidade com a lei brasileira, tendo no Brasil a sua sede (art. 1126 CC) – e “estrangeira”; • quanto à sua estrutura interna: em “corporação” (“universitas personarum”) e “fundação” (“universitas bonorum” ou “universitas rerum”); • quanto à sua função (ou órbita de atuação): em “pessoas jurídicas de direito público” e “pessoas jurídicas de direito privado” (art. 40 CC); • Quanto à “nacionalidade”, deve-se notar que a pessoa jurídica estrangeira precisa de autorização para atuar em território nacional, podendo ser acionista, em princípio, de sociedade anônima brasileira (art. 1134 CC); • Quanto à “estrutura interna”, pode-se dizer que: • nas “corporações” (“associações” e “sociedades”), prevalece o aspecto “pessoal”, com objetivos internos (predefinidos pelos próprios associados); • nas “fundações”, prepondera o aspecto “material” (patrimonial), com objetivos externos (estabelecidos pelo instituidor); • As “associações” diferenciam-se das “sociedades” por nãoterem, imediatamente, fins econômicos (ainda que possam auferir lucro); as “sociedades”, por sua vez, podem ser classificadas em “simples” ou “empresárias”, conforme seu respectivo “objeto” – atividade própria de empresário (“ex vi” do art. 966 CC); • As “pessoas jurídicas de direito público” se subdividem em “pessoas de direito público externo” – Estados estrangeiros e Organizações Internacionais (art. 42 CC) – e “pessoas de direito público interno” (art. 41 CC) – União, Estados, Distrito Federal, Municípios, autarquias (inclusive “associações públicas”) e demais entidades de caráter público criadas por lei (tais como “fundações públicas” e “agências reguladoras”); • As “pessoas jurídicas de direito privado” (art. 44 CC) podem consistir em: “associações”, “sociedades”, “fundações”, “organizações religiosas” (§ 1º), “partidos políticos” (§ 3º) e “empresas individuais de reponsabilidade limitada” – com possibilidade de “segregação” de parte do patrimônio para responsabilização especificamente empresarial (por oposição à responsabilidade “genérica” do empresário individual); • Sob o prisma técnico, as entidades religiosas têm evidente fundo associativo (“universitas personarum” desprovidas de fins lucrativos); contudo, a sua tomada como simples associações poderia dar ensejo a interferências em seu funcionamento incompatíveis com a liberdade constitucional de crença – a respeito, cf. art. 5º, VI CF; § 5º. Desconsideração da personalidade jurídica. • Como observado há pouco, o efeito mais importante da atribuição de uma personalidade jurídica própria aos entes referidos no art. 44 do Código Civil é a aplicação do princípio da “autonomia patrimonial”, segundo o qual pelas dívidas da pessoa jurídica deve responder o seu próprio patrimônio – ainda que admitida, nalguns casos, a responsabilidade subsidiária de seus respectivos membros (art. 46, V CC); • Nesse cenário, deve-se observar que haverá a possibilidade de responsabilização dos membros da pessoa jurídica em duas hipóteses: • na primeira delas – “fisiológica” – quando o ato constitutivo fixar a responsabilidade “subsidiária”, por exemplo, dos sócios (responsabilidade subsidiária de origem “negocial”) – é o que se verifica, v. g., na sociedade em nome coletivo (art. 1039 CC); • na segunda – “patológica” – quando a agressão ao patrimônio dos membros da pessoa jurídica é viabilizada pela “lei”, mediante constrição judicial fundada na aplicação da figura da “desconsideração da personalidade jurídica” (art. 50 CC); 22 • A “desconsideração da personalidade jurídica” é um instrumento relativamente novo, oriundo do direito alienígena – “disregard of legal entity”, “abus de la notion de personnalité sociale”, “superamento della personalità giuridica” ou “Durchgriff der juristichen Personen”– e incorporado ao cenário brasileiro com o fito de evitar que o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica fosse objeto de abuso por parte de administradores e sócios inescrupulosos; • Deve-se observar que – de acordo com o disposto no art. 50 CC – é permitida pelo Código Civil a agressão ao patrimônio particular dos administradores ou sócios da pessoa jurídica tão somente com relação aos efeitos de “certas e determinadas” relações; com isso, a “desconsideração da personalidade jurídica” – “episódica” – não se confunde com a “despersonalização” – de caráter “definitivo” (ou duradouro); • Não se deve esquecer que não é apenas o Código Civil que permite a desconsideração de personalidade jurídica, viabilizando o ataque de seus credores ao patrimônio particular de seus membros; também o Código Tributário Nacional (art. 135), o Código de Defesa do Consumidor (art. 28) e a Lei Fed. nº 9.605/98 (art. 4º) permitem tal sorte de agressão – submetidas tais medidas a pressupostos específicos e independentes; • Em virtude da referida pluralidade de regimes jurídicos, cada disciplina se estriba em requisitos próprios, que acabam por tornar a aplicação de tais expedientes uma realidade de frequência variável; em virtude de uma tal ordem de idéias, desenvolveram-se duas vertentes da desconsideração da personalidade jurídica, designadas respectivamente por: • teoria menor – para a qual o mero “inadimplemento” por parte da pessoa jurídica autorizaria a agressão ao patrimônio particular de seus administradores e sócios; e • teoria maior – segundo a qual a excepcionalidade do emprego do expediente deve estar comprometida com a presença de estritos requisitos de ordem “subjetiva” ou “objetiva” – indicadores, por sua vez, de fraude ou abuso perpetrados pelos administradores ou sócios; • A “teoria maior” da desconsideração da personalidade jurídica foi a vertente encampada pelo Código Civil de 2002 (art. 50); contudo, há que se observar que tal vertente se subdivide em duas variantes, dotadas de pressupostos específicos: • a “objetiva” – que permite a agressão ao patrimônio dos sócios ou administradores sempre que se evidenciar “confusão” entre o patrimônio da pessoa jurídica e o daqueles; e • a “subjetiva” – que permite o ataque ao patrimônio particular sempre que administradores ou sócios buscarem utilizar a pessoa jurídica para a consecução de objetivos outros, destoantes daqueles depreensíveis de seu objeto social (“desvio de finalidade”); • Não obstante a “unidirecionalidade” da desconsideração prevista pela “lei”, a “jurisprudência” tem utilizado o instrumento quando o sócio busca – para se subtrair ao cumprimento de uma obrigação oriunda do direito de família, v. g. – transferir à pessoa jurídica bens que lhe são próprios: a essa aplicação dá-se o nome de desconsideração da personalidade jurídica “inversa” – a qual não se confunde, pois, com a mera penhora da participação social (como garantia pelas dívidas pessoais do sócio); • Como já tivemos a oportunidade de observar outrora, o art. 63, § 3º da Lei Fed. nº 4.591/64 (Lei de Condomínios e Incorporações) permite que, excepcionalmente, se atribua personalidade jurídica àquele ente (condomínio) que, de ordinário, não a tem – em sentido inverso, pois, ao do art. 50 CC (como uma extraordinária “consideração da personalidade jurídica”); • Por fim, deve-se notar que a “desconsideração da personalidade jurídica” deve ser expediente excepcional no Direito Privado, não podendo sua natureza ser desvirtuada pelo aplicador do Direito, ainda que imbuído das melhores intenções; pois, se assim não se proceder, viabilizam-se não apenas o “descrédito” da ferramenta, mas também do incremento de “efeitos econômicos indesejáveis” – como o desencorajamento de agentes idôneos que, temerosos, acabam por preferir regimes jurídicos que lhes ofereçam um menor risco (ainda que à custa de um “output” menos expressivo); § 6º. Responsabilidade das pessoas jurídicas. • Primeiramente, deve-se observar a abordagem que se fará da responsabilidade das pessoas jurídicas há de se concentrar, pois, no âmbito “civil” – a despeito de sua “excepcional” responsabilização penal (conforme o estabelecido pelo art. 3º da Lei Fed. nº 9.605/98); • Quanto à responsabilidade civil das pessoas jurídicas, devem ser segregados os regimes afetos às pessoas jurídicas de direito privado (art. 44 CC) e de direito público – externo e interno (arts. 41 e 42 CC); • A responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito privado observa as linhas gerais estabelecidas quanto aos atos ilícitos: derivada da conjugação entre os arts. 186 e 927 do CC, orienta-se pela aplicação preponderante da responsabilidade “subjetiva” – observando-se a variante “objetiva” nos casos de atuação “empresarial” (art. 931 CC), ato de “preposto” (arts. 932, III c/c 933 CC) e de atividades de “risco” (art. 927, parágrafo único CC); • Ainda que o tema venha a ser abordado em um momento outro de nosso curso, cumpre desde já observar o incremento progressivo das hipóteses de admissão da responsabilidade “objetiva” (legislação sobre infortunística, Código Brasileiro de Aeronáutica, Lei Fed. nº 6.938/91,Código de Defesa do Consumidor, etc.) – 23 nas quais se faz necessário demonstrar “conduta”, “dano” e “nexo causal” (mas não a “culpabilidade” do sujeito imputado); • A responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito público se orienta pela variante “objetiva” (art. 43 CC), graças a uma evolução histórica bastante significativa: partindo-se da “irresponsabilidade” civil do Estado, passou-se pela teoria “civilista” até que se tenha chegado às variantes “publicistas” da responsabilidade da Administração Pública – segundo as quais ao lesado cumpre demonstrar apenas: • conduta; • dano; e • nexo de causalidade; • As duas teorias “publicistas” se diferenciam exatamente neste ponto: • a teoria do “risco integral” preconiza que a demonstração dos três elementos acima assinalados é “suficiente” para desencadear a responsabilidade civil da Administração – sem qualquer possibilidade de exoneração; • por sua vez, a teoria do “risco administrativo” sustenta que a presença dos três elementos viabilizará uma simples inversão quanto ao “ônus da prova” (presunção de culpabilidade) – possibilitando-se a exoneração do demandado sempre que se puder evidenciar o rompimento do nexo causal via “caso fortuito”, “força maior” ou “culpa exclusiva” (de terceiro ou da própria vítima); • A Constituição Federal de 1988 adotou a teoria do “risco administrativo” quanto aos atos de quaisquer “agentes” públicos (art. 37, § 6º CF); • Em caso de responsabilidade civil do Estado, ao lesado se abre a possibilidade de demandar, v. g., o concessionário de serviço público (responsabilidade objetiva) ou o próprio agente causador do prejuízo experimentado (responsabilidade subjetiva); de maneira que a responsabilidade da própria Administração Pública ostenta, via de regra, um caráter meramente “subsidiário” (insolvência dos responsáveis diretos) – salvo se evidentes a falha na “escolha” ou “fiscalização” do agente (hipótese em que a responsabilidade do Estado será “direta”); • Em consagração do princípio da “economia processual”, caso a “ação de indenização” venha a ser promovida contra a Administração Pública, será admitida a “denunciação da lide”, de modo que a responsabilidade regressiva do funcionário – ante a própria Administração indenizante – será discutida na mesma relação jurídica processual; • Outras hipóteses controvertidas de responsabilidade civil do Estado merecem menção específica, tais como: • responsabilidade por “condutas omissivas”: com a predominância da doutrina que encampa a posição de que, ainda aqui, se estaria diante de uma responsabilidade objetiva; • responsabilidade por “atos judiciais”: “em geral” – com a possibilidade de demanda contra o próprio magistrado em casos de “dolo” ou “culpa” – e por “erro judiciário” – admitindo-se o regresso contra eventual culpado pelo ato judicial lesivo; • responsabilidade por “atos legislativos”: seja na hipótese de lei inconstitucional, seja mesmo no caso de lei constitucionalmente perfeita – ou ainda no de “abuso” quanto ao exercício da imunidade parlamentar (sempre que ultrapassados os limites objetivos do “exercício das funções”); § 7º. Extinção da pessoa jurídica. • A extinção da pessoa jurídica pode ter origem: • “negocial” – sempre que prevista em seu ato constitutivo ou objeto de consenso superveniente entre seus membros (v. g. art. 1033, II CC); • “legal” – quando estabelecida pela própria lei; • “administrativa” – se cassada, por exemplo, a autorização do Poder Público quanto ao seu funcionamento (art. 1033, V CC); ou • “judicial” – quando determinada pela autoridade judicial, por exemplo, ao fim de uma ação voltada à anulação de sua constituição (art. 1034, I CC); • A propósito da extinção negocial da pessoa jurídica, é imperioso diferenciar a “dissolução-ato” da “dissolução procedimento”; pois é apenas ao cabo desta – após a “liquidação” respectiva – que se promoverá o “cancelamento” da inscrição da pessoa jurídica junto ao registro competente – tudo na forma estabelecida pelo art. 51 CC; Aula 09 – Das pessoas jurídicas: Das associações. Legislação envolvida: arts. 53 a 61 do Código Civil. • art. 53: associações; • art. 54: ato constitutivo das associações (conteúdo); • art. 55: isonomia e categorias com vantagens especiais; • art. 56: intransmissibilidade da qualidade de associado; • art. 57: exclusão do associado; • art. 58: restrição ao exercício de direitos do associado; • art. 59: competência da assembléia geral; • art. 60: convocação da assembléia geral; 24 • art. 61: dissolução da associação e destino de seu patrimônio; § 1º. Das associações. • Todo o observado a propósito das “Disposições Gerais” afetas às “Pessoas Jurídicas” se estende, naturalmente, à disciplina das associações; de maneira que a idéia central subjacente à sua disciplina autônoma se concentra no fato de que estas correspondem a coletividades de pessoas (“universitas personarum”) desprovidas de “fins lucrativos” (ainda que possam desenvolver “atividade econômica” voltada à sua subsistência); • Feita a devida menção à substancial alteração da regulamentação das associações promovida pela Lei Fed. nº 11.127/05 (arts. 54, 57, 59 e 60), pode-se sintetizar a sua disciplina da forma seguinte: – art. 53 – finalidade “não econômica” e ausência de “reciprocidade”: a previsão legal de finalidade “não econômica” implica apenas na vedação à repartição do proveito de eventual “superávit” entre os associados (inexistindo qualquer irregularidade no desenvolvimento de operações voltadas ao próprio custeio de suas atividades); além disso, seu ato constitutivo tem natureza de “contrato plurilateral” (“ato-regra”); – art. 54 – conteúdo do estatuto: o estatuto deve conter os elementos mencionados – denominação (cf. art. 52 CC), fins (escopo), sede (domicílio), requisitos para admissão (ingresso), demissão (exclusão espontânea), exclusão (involuntária ou compulsória), direitos, deveres, fontes de recursos (dotações iniciais ou provisões periódicas), constituição e funcionamento dos órgãos deliberativos (sobretudo a assembleia geral), alterações estatutárias (quando admitidas), dissolução (“ato” e “procedimento”), gestão administrativa e sistema de aprovação de contas – sob pena de nulidade (art. 166 CC), reconhecível por declaração pronunciável a qualquer tempo (art. 169 CC); – art. 55 – igualdade de direitos e categorias privilegiadas: todos os associados devem ter os mesmos direitos na vida associativa (à vista dos fins não lucrativos da associação); contudo, o estatuto pode estabelecer prerrogativas a certos membros – tais como, v. g., a prioridade de recebimento das verbas mencionadas no art. 61, § 1º CC; – art. 56 – intransmissibilidade da qualidade de associado: a posição de associado, enquanto ensejadora do exercício de direitos e deveres, não poderá ser transmitida “inter vivos” ou “causa mortis” (salvo disposição contrária do estatuto); o que não impede a circulação do valor patrimonial consubstanciado na “quota” ou “fração ideal”; – art. 57 – exclusão do associado: a exclusão compulsória do associado (não-espontânea) depende de procedimento administrativo em que se evidencie a ocorrência de “justa causa” – e durante o qual possa o demandado exercitar seus direitos ao “contraditório”, à “ampla defesa” e ao acesso às instâncias administrativas superiores, mediante o emprego dos recursos previstos no próprio estatuto (a respeito, cf. art. 5º, LIV e LV da Constituição Federal); – art. 58 – exercício de direitos e funções: investido o associado em função diretiva, por exemplo, só poderá ser removido nas hipóteses – e pelas formas – previstas no estatuto (ou na própria lei); – art. 59 – competência privativa da assembléia geral: somente a assembleia geral pode se pronunciar a respeito dos dois assuntos mais graves na vida associativa (destituição de seus administradores e alteração do estatuto), mediante sessões convocadas especificamente para tais fins, mediante“quorum” eventualmente específico (sob pena de nulidade); a aprovação das contas e a investidura dos administradores podem ficar a cargo de outros órgãos (observados o critérios de eleição estabelecidos no próprio estatuto); – art. 60 – convocação dos órgãos deliberativos: os órgãos deliberativos serão convocados na forma estabelecida pelo estatuto – assegurando-se a associados representantes de 1/5 (um quinto) dos membros o direito de promovê-la; – art. 61 – dissolução da associação e destino de seu patrimônio: aprovada a dissolução (“ato”) da associação, seu “patrimônio líquido” (após o pagamento de todo o passivo associativo) deverá ser revertido à entidade prevista no estatuto ou contemplada por decisão proferida pelos próprios associados (sob pena de reversão à Fazenda Pública caso inviável a aplicação do “caput” da regra); devendo-se, preliminarmente, deduzir do referido montante as verbas a serem restituídas aos associados na forma estabelecida pelo § 1º do art. 61 CC (restituição das contribuições previamente efetuadas pelos próprios associados); Aula 10 – Das pessoas jurídicas: Das fundações. Legislação envolvida: arts. 62 a 69 do Código Civil. • art. 62: fundação (elementos); • art. 63: bens insuficientes para o atingimento dos fins fundacionais; • art. 64: dotação posterior (“mandado”); • art. 65: elaboração do estatuto; • art. 66: Ministério Público e fiscalização; • art. 67: alteração do estatuto (requisitos); • art. 68: ciência à minoria (aprovação da alteração não-unânime); 25 • art. 69: finalidade ilícita, impossível ou inútil; § 1º. Das fundações. • Assim como observado anteriormente, o estabelecido a propósito das “Disposições Gerais” afetas às “Pessoas Jurídicas” se estende, naturalmente, à disciplina fundacional; de modo que a idéia central subjacente à sua disciplina autônoma se concentra no fato de que estas correspondem à reunião de bens (“universitas rerum” ou “bonorum”) voltada à consecução de fins religiosos, morais, culturais ou de assistência favorecidos por seu instituidor; • A disciplina civil das fundações pode ser sumariada da maneira seguinte: – art. 62 – modo de constituição e escopo fundacional: as fundações privadas – as fundações públicas são reguladas pelo Direito Administrativo – são compostas por dois elementos: um “objetivo” (patrimônio) e um “finalístico” (escopo); deve-se observar que este fim deve atender ao interesse público (de modo duradouro e estável), não estando circunscrita a autonomia privada pelas hipóteses previstas no “parágrafo único” – devendo-se, contudo, coibir a criação de fundação voltada a sustentar fins fúteis; – art. 63 – insuficiência da dotação para a atuação da fundação projetada: a constituição de uma fundação se divide em quatro fases (dotação, elaboração dos estatutos, aprovação e registro); contudo, quando a dotação se mostra insuficiente (se os bens afetos via “testamento” ou “doação” não podem lastrear a atividade), reverte-se a dotação a outra fundação de fins semelhantes (salvo previsão diversa do instituidor); – art. 64 – instituição “inter vivos” e recalcitrância do instituidor: especificamente no âmbito da fundação criada por dotação “inter vivos”, o instituidor pode se arrepender, viabilizando-se a revogação até o momento do registro (art. 45 CC); de igual modo, os credores do instituidor podem coibir, nalguns casos, sua iniciativa (art. 158 CC) – bem como os herdeiros necessários prejudicados pela doação inoficiosa (art. 549 CC); – art. 65 – elaboração do estatuto: a elaboração “direta” do estatuto se verifica quando o próprio instituidor individualiza as regras jurídicas negociais por que se regerá a pessoa jurídica de direito privado então criada; todavia, é viável o cometimento da elaboração dos estatutos por terceiro (“fiduciária” ou “incumbida”) – caso em que o resultado será submetido à aprovação do Ministério Público (que poderá aprovar, determinar emendas ou denegar aprovação ao projeto de estatuto), com recurso ao juiz respectivo; – art. 66 – Ministério Público e supervisão da atuação fundacional: a atuação fundacional (inclusive a “alienação” de seus bens) é submetida ao controle de seus órgãos internos, bem como ao “velamento” do Ministério Público – havendo a possibilidade de controle plural quando aquela se estender por mais de uma unidade da federação (§ 2º); – art. 67 – alteração do estatuto fundacional: a modificação do estatuto da fundação, quando admitida (art. 46, IV CC) deverá observar regras específicas (ao largo daquelas estabelecidas no próprio estatuto): em primeiro lugar, o quórum de aprovação é qualificado (dois terços); além disso, não podendo haver comprometimento da finalidade estabelecida pelo instituidor (mediante “contrariedade” direta ou intolerável “desvirtuamento”); sendo, por fim, necessária a aprovação pelo órgão do Ministério Público (com possibilidade de recurso ao magistrado em caso de manifestação negativa); – art. 68 – minoria dissidente (quanto à alteração estatutária): inovando-se em relação à regulamentação anterior, estabelece-se que os administradores da fundação terão de requerer (dever) ao Ministério Público que se dê ciência do pedido de aprovação da alteração estatutária à minoria vencida; a fim de que esta possa impugná-la em dez dias (ônus) – subsidiando-se melhor, assim, a própria decisão do Ministério Público; – art. 69 – extinção da fundação (e destino de seu patrimônio): em caso de supervenientes “impossibilidade”, “ilicitude” ou “inutilidade” do escopo fundacional (ou da expiração do seu prazo de duração), determina-se que qualquer interessado – e inclusive o próprio Ministério Público – poderá postular a extinção da fundação, com a reversão de seu patrimônio a outra fundação de fim igual ou semelhante; observando-se, prioritariamente, o “negócio de instituição” e o “estatuto” fundacionais – e, subsidiariamente, a determinação do magistrado competente; Aula 11 – Dos bens: Dos bens considerados em si mesmos. Legislação envolvida: arts. 79 a 91 do Código Civil. • art. 79: imóveis por natureza; • art. 80: imóveis por força de lei; • art. 81: perduração da imobilidade (alteração material provisória); • art. 82: móveis por natureza; • art. 83: móveis por força de lei; • art. 84: perduração da mobilidade; • art. 85: bens fungíveis; 26 • art. 86: bens consumíveis; • art. 87: bens divisíveis; • art. 88: indivisibilidade negocial; • art. 89: bens singulares; • art. 90: universalidade de fato; • art. 91: universalidade de direito; § 1º. Objeto da relação jurídica. • A matéria dos “bens” integra o Livro II da “Parte Geral” do Código Civil, vinculando-se ao conceito de “objeto” das relações jurídicas; neste sentido, alguns autores consideram que este pode abranger espécies distintas, tais como: – coisas – objeto dos “direitos reais”; – ações humanas (condutas) – objeto dos “direitos obrigacionais”; – atributos da personalidade – objeto dos “direitos da personalidade”; e – direitos – objeto de “metadireitos” (v. g. o usufruto de crédito); • Contudo, para uma adequada conceituação de “bem”, necessário se faz o recurso a certas categorias fundamentais – e para cuja noção lançamos mão da obra de Francesco Carnelutti – dentre as quais destacam-se a de “ente”, “necessidade”, “característica”, “complementaridade”, “utilidade”, “escassez” e “interesse”; • Alguns autores tomam os termos “coisa” e “bem” como sinônimos; outros, todavia, os discriminam – qualificando-os como “gênero” e “espécie” (em ambos os sentidos da respectiva relação); • A noção de “bem” nos parece mais ampla do que a de “coisa”, pois esta implica em necessária “corporalidade” – ao passo que a primeira noção também abarca os objetos dotados de existência incorpórea (ou meramente jurídica); • Deve-se observar, contudo, que nem todo objeto corpóreo será “coisa” na acepção jurídica do termo: pois somente integrarão a categoria dos “bens” aqueles objetos simultaneamente “úteis”e “escassos” – e suscetíveis, ainda, de “apropriação” (sejam “corpóreos” ou “incorpóreos”); • Note-se que uma especial menção deve ser feita: – às coisas comuns (“res commune omnium” e “extra commercium”) – que, insuscetíveis de apropriação, não podem ser objeto de relação jurídica; – às coisas sem dono (“res nullius”) – que não foram objeto de apropriação, conquanto possam ser incorporadas a qualquer tempo ao patrimônio de alguém; e – às coisas abandonadas (“res derelictae”) – que foram objeto de “derrelicção” por parte do proprietário anterior (podendo ser objeto de apropriação posterior); § 2º. Bens corpóreos e incorpóreos. • A primeira grande dicotomia relacionada aos bens se estabelece a propósito da distinção entre os bens: – corpóreos – dotados de existência física (perceptível pelo emprego dos sentidos); e – incorpóreos – de existência puramente ideal (e especialmente jurídica), tais como as energias e as criações mentais prestigiadas pela ordem jurídica (tais como a propriedade intelectual, o crédito, o estabelecimento empresarial, etc.); • Observe-se que a dicotomia referida não tem origem recente; os próprios romanos a reconheceram – considerando bens incorpóreos, v. g., os direitos reais sobre as coisas alheias; • Alguns institutos são de aplicação restrita aos bens corpóreos (v. g., “domínio” e “compra e venda”); outros, por sua vez, se circunscrevem aos bens incorpóreos (v. g. “cessão”) – sendo que alguns são objeto, ainda, de viva disputa quanto à sua aplicação (v. g. “propriedade” e “posse”); § 3º. Patrimônio. • O patrimônio pode ser definido como o complexo de posições jurídicas ativas e passivas de uma pessoa, dotadas de valor econômico (teoria “clássica” ou “subjetiva”); esta noção que o contempla como uma “universalidade de direito” (“universitas iuris”), contudo, é objeto de certas restrições, pois: – de uma parte, em sentido amplíssimo, o patrimônio seria composto de quaisquer posições jurídicas – ainda que desprovidas de sentido econômico (tais como as qualidades, capacidades e aptidões); e – por outro lado, certas definições compreendem o patrimônio apenas como o conjunto de bens que integram o “ativo” de um sujeito – teoria “realista” ou “moderna” (que afeta tais grupamentos a fins específicos); • Note-se que de acordo com a “teoria clássica” não seriam abrangidos pelo patrimônio as relações afetivas, os “direitos de personalidade”, os “direitos de família” (puros) e os “direitos públicos” insuscetíveis de estimação; • A principal repercussão do conceito jurídico de patrimônio é derivada da romana “Lex Poetelia Papiria”, instituidora da responsabilidade patrimonial – e segundo a qual o patrimônio do devedor é a garantia ordinária de seus respectivos credores (a respeito, cf. o art. 391 CC); • São elementos especialmente devotados à proteção do patrimônio (tutela do “patrimônio mínimo”), v. g.: – o instituto do “homestead” ou “bem de família” (Lei Fed. nº 8009/90 e arts. 1711 a 1722, CC); 27 – a proibição à disposição completa do próprio patrimônio (art. 548 CC); e – a impenhorabilidade que recai sobre certos bens (arts. 649 e 650, CPC); § 4º. Classificação dos bens: bens considerados em si mesmos. • Sob o prisma classificatório, os bens podem ser apartados de acordo com: – suas próprias qualidades (“dos bens considerados em si mesmos”); – as relações que guardam entre si (“dos bens reciprocamente considerados”); e – seus respectivos titulares (“dos bens públicos”); • Sob a primeira perspectiva, podem ser segregados em: – (i)móveis; – (in)fungíveis; – (in)consumíveis; – (in)divisíveis; – singulares; e – coletivos; § 5º. Dos bens considerados em si mesmos. • A primeira dicotomia informadora da disciplina legal devotada aos bens é aquela que os segrega de acordo com a sua “mobilidade”, com importantes efeitos legais, tais como: – A transferência – por excelência – da propriedade imobiliária depende de “registro” (art. 1227 CC), enquanto a mobiliária é transferível por meio da “tradição” (art. 1226 CC); – Excetuadas a sucessão “causa mortis” e a “usucapião” (com prazo mais dilargado em matéria imobiliária), no que toca aos modos demais modos de aquisição da propriedade, deve-se observar que a “acessão” somente se aplica aos imóveis – restando outros mecanismos de aquisição aplicáveis unicamente aos bens móveis (ocupação, invenção, especificação, confusão, comissão e adjunção); – A alienação de bens imóveis ostenta formalidades maiores, tais como a necessidade de escritura pública na maioria dos casos (art. 108 CC) – bem como a vênia conjugal – excetuado o regime da separação absoluta de bens (art. 1647, I CC); – A hipoteca é reservada prioritariamente aos imóveis (art. 1473 CC) – recaindo o penhor sobre os bens móveis (art. 1431 CC); – Há operações com aplicação restrita – v. g. superfície e depósito (arts. 1369 e 627 CC); – A alienação de imóveis de incapazes e ausentes é objeto de cautela (arts. 1691 e 31 CC); – No âmbito do direito penal, o furto se circunscreve aos bens móveis (art. 155 CP); – No âmbito do direito tributário, certos tributos têm fato gerador relacionado a bens imóveis (v. g. IPTU, ITBI e ITR); – No âmbito do direito processual, para as ações reais imobiliárias devem ser citados o titular e seu cônjuge (art. 10 CPC); • Os bens imóveis podem ser classificados em: – imóveis “por natureza” (art. 79 CC) – aqui se incluindo as acessões “físicas” naturais (que não pressupõem intervenção humana) ou artificiais (que supõem atuação humana, tais como as construções e plantações); ou – imóveis “por determinação legal” (art. 80 CC) – aqui se incluindo certos bens incorpóreos a que o legislador dispensa especial deferência, tais como os direitos reais sobre bens imóveis, as ações que deles defluem e o direito à sucessão aberta; • Por meio do art. 81 do CC o legislador esclarece que certas situações – ainda que “faticamente” ensejadoras de certa dúvida – não afastam a natureza imobiliária dos bens nelas envolvidos: assim no que diz respeito à remoção de edificações para implantação em nova localidade (I) e quanto à provisória separação de certos materiais para ulterior reincorporação ao prédio a que estão afetos (II) – embora não tenha exsurgido disciplina legal específica sobre os “móveis por antecipação”; • Como visto, a categoria dos imóveis por “acessão física” abrange a aderência espontânea (“natural”) ou provocada pela ação humana (“artificial”); já a categoria dos imóveis por acessão “intelectual” não subsiste no regime do Código Civil de 2002, uma vez que acabou sendo absorvida pelo conceito de “pertença” – objeto de regime jurídico específico (arts. 93 e 94 CC); • Já os bens móveis podem ser segregados em: – móveis “por natureza” (art. 82 CC) – aqui se incluindo os móveis em “sentido estrito” e os “semoventes”; e – móveis “por determinação legal” (art. 83 CC) – abrangendo-se as energias dotadas de valor econômico (I), os direitos reais sobre bens móveis (II) e os direitos obrigacionais (III); • Simetricamente à regra do art. 81 do CC, estabelece-se a “mobilidade” dos materiais “a serem” utilizados (mas não reaproveitados) em uma construção – bem como dos oriundos de uma demolição (art. 84 CC); 28 • Os bens “fungíveis” (art. 85 CC) podem ser substituídos por outros de mesmo gênero, quantidade e qualidade (sem o prejuízo de seu titular); os “infungíveis”, por sua vez, são tomados como “espécime única” em virtude da natureza, das circunstâncias ou da vontade dos envolvidos; • Note-se que a idéia de “fungibilidade” não se circunscreve às coisas em si mesmas, mas envolve inclusive as condutas humanas – daí a corriqueira alusão a obrigações “infungíveis” ou “personalíssimas” (art. 247 CC); • Os bens “consumíveis” são aqueles cuja utilização importa no comprometimento de sua substância ou em negócio de alienação (art. 86 CC); observe-se que esta dicotomia se relaciona – de certo modo – com aquela que segrega os bens emduráveis e não duráveis (art. 26 da Lei Fed. nº 8.078/90); • Em regra, os bens são divisíveis; contudo, considerar-se-ão “indivisíveis” aqueles não admitirem fracionamento sem que sua natureza, sua utilidade ou seu valor venham a ser comprometidos (art. 87 CC) – bem como àqueles que forem assim considerados pela “lei” (art. 28 da Lei Fed. nº 6.404/76) ou por “negócio jurídico” (art. 1320 CC); • Diferentemente da “imobilidade”, a “fungibilidade”, a “consuntibilidade” e a “divisibilidade” (art. 88 CC) podem também defluir de negócio jurídico (tal como se dá no comodato “ad pompam vel ostentationem”) – com consequências significativas em matéria de efeitos atrelados aos respectivos regimes jurídicos (a respeito, cf. arts. 645, 1392 e 504 CC); • No que diz respeito à sua identidade, os bens podem ser “singulares” (art. 89 CC) ou “coletivos” (arts. 90 e 91 CC): – os primeiros, sejam “simples” (unissubstanciais) ou “compostos” (plurissubstanciais), consideram-se em si mesmos – ainda que resultantes da conjugação de partes “integrantes” (sem perda de identidade) ou “componentes” (com perda de identidade); – os últimos se subdividem, por sua volta, em: universalidades “de fato”, que correspondem a agregados de bens de um mesmo titular afetos a escopos específicos por ele determinados (art. 90 CC); e “de direito”, que consistem em complexos de posições jurídicas ativas e passivas reunidos pelo próprio legislador (art. 91 CC); • Note-se que, via de regra, a caracterização de um conjunto de bens como uma universalidade importa em uma agregação de valor ao grupo (v. g. biblioteca, coleção, etc.); § 6º. Dos bens reciprocamente considerados. • A primeira dicotomia que informa a análise dos bens reciprocamente considerados é aquela que os segrega (art. 92 CC) em: – “principais” – que existem sobre si mesmos; e – “acessórios” – que supõem a existência de um bem principal; • Note-se que o acessório segue a “natureza” (por força do princípio da “gravitação jurídica”), o “destino” e a “titularidade” do bem principal; • Merecem alusão especial as seguintes modalidades de bens: – as “pertenças” guardam individualidade jurídica, estando funcionalmente voltadas à exploração de outros bens (art. 93 CC) – não se lhes aplicando, de modo automático, a máxima de que o “acessório segue o principal” (art. 94 CC); – os “frutos” (art. 95 CC), por sua vez, são periodicamente separáveis da coisa frugífera sem o comprometimento de sua substância – podendo ser classificados quanto ao seu “estado” (pendentes, percipiendos, percebidos, estantes, consumidos e colhidos por antecipação) e “origem” (naturais, industriais ou civis); – os “produtos” (art. 95 CC) são separados da coisa principal à custa de um seu gradual desgaste – ainda que a disciplina dos frutos possa lhe ser estendida (v. g. art. 1392 CC); e – as “benfeitorias” (art. 96 CC), por fim, decorrem da intervenção humana (art. 97 CC) resultante em melhoramento emprestado ao bem sobre o qual recaem; de acordo com a sua natureza – e à luz das respectivas circunstâncias – podem ser consideradas “necessárias” (§3º), “úteis” (§2º) ou “voluptuárias” (§1º) – com diferentes consequências, por exemplo, no que diz respeito à “indenizabilidade” e ao “direito de retenção” do possuidor (arts. 1219 e seguintes CC); § 7º. Dos bens públicos. • Os bens públicos (art. 98 CC) não são estruturalmente diferentes dos bens particulares: o peculiar regime jurídico que sobre eles recai decorre de sua “afetação” a fins que justificam um tratamento diferenciado – pertencendo a “pessoas jurídicas de direito público interno” (mesmo que se lhes tenha dado estrutura de direito privado); • Os bens públicos (art. 99 CC) se segregam em: – bens de “uso comum do povo” – que são, em regra, de livre utilização por qualquer interessado, ainda que possa sobrevir restrição (por interesse público ou segurança nacional) ou cobrança de remuneração por seu uso (art. 103 CC); – bens de “uso especial” – voltados à execução de serviços públicos (em sentido amplo) pela Administração Pública (direta ou indireta); e 29 – bens “dominicais” – direitos reais ou obrigacionais que integram o patrimônio da pessoa jurídica de direito público (sem integrar qualquer das categorias anteriormente mencionadas); • A respeito da disciplina especificamente voltada aos bens públicos, deve-se observar que: – os bens das pessoas jurídicas de direito público a que se tenha dado estrutura jurídica de direito privado são, em princípio, dominicais (art. 99, “parágrafo único” CC); – diferentemente do que se observa quanto aos bens dominicais (art. 101 CC), os bens de “uso comum do povo” e de “uso especial” são, em regra, inalienáveis – salvo “desafetação” (art. 100 CC c/c Lei Fed. nº 8.666/93); – os bens públicos em geral (móveis ou imóveis) são insuscetíveis de aquisição por usucapião (cf. arts. 183 e 191 da CF c/c art. 102 CC); Aula 12 – Dos fatos jurídicos (Do negócio jurídico): Disposições gerais (arts. 104 a 114, CC) Legislação envolvida: arts. 104 a 114 do Código Civil. • art. 104: validade do negócio jurídico; • art. 105: incapacidade relativa (cabimento da alegação); • art. 106: impossibilidade “relativa” do objeto; • art. 107: forma “ad substantiam”; • art. 108: escritura pública e negócios sobre bens imóveis; • art. 109: negócio jurídico com cláusula de não valer sem escritura; • art. 110: reserva mental; • art. 111: silêncio como manifestação de vontade; • art. 112: vontade vs. declaração (hermenêutica negocial); • art. 113: interpretação conforme boa-fé e usos locais; • art. 114: interpretação restritiva do negócio benéfico (e renúncia). Validade do negócio jurídico (art. 104, CC). • A terminologia “negócio jurídico” – conquanto incorporada pela doutrina produzida sob a égide do Código Civil de 1916 – só foi adotada legislativamente com o advento do Código Civil em vigor; • A primeira observação técnica que se deve fazer a propósito do “negócio jurídico” é no sentido de que este corresponde a uma das diversas modalidades de “fatos jurídicos em sentido amplo” – ao lado dos “fatos jurídicos em sentido estrito”, dos “atos-fatos” e dos “atos jurídicos em sentido estrito”; • “Fato jurídico em sentido amplo” é toda e qualquer ocorrência (perceptível pelos sentidos ou não) à qual o ordenamento jurídico coliga efeitos que lhe são próprios; • Para que desponte “fato jurídico”, se faz necessária a perfeita conjugação entre o antecedente da norma jurídica (“suporte fático abstrato”) e o acontecimento divisado no mundo fenomênico (“suporte fático concreto”) – desencadeando-se, pois, a “incidência” da norma jurídica (“eficácia legal”); • Os “fatos jurídicos em sentido amplo” se dividem em: – “fatos jurídicos em sentido estrito” (acontecimentos da natureza ou “eventos”) – “ordinários” ou “extraordinários”; – “atos jurídicos em sentido amplo” (acontecimentos que pressupõem intervenção humana ou “condutas”); estes, por sua vez, se subdividem em: • “atos-fatos”: quando a conduta humana é equiparada à ocorrência natural (com predomínio da “atuação” sobre a “vontade” do agente); • “atos jurídicos em sentido estrito”: em que se faz necessária uma vontade a se manifestar (conquanto seus efeitos derivem da própria lei, “ex lege”); e, por fim, • “negócios jurídicos”: em que se faz necessária uma vontade a se manifestar – de modo que seus efeitos derivem do quanto depreensível a partir da própria declaração (ou seja, “ex voluntate”); • Atos jurídicos “lícitos” (em sentido amplo) são aqueles em que a conduta do agente não é pressuposto da aplicação de uma sanção; os atos jurídicos “ilícitos” (em sentido amplo), por sua vez, são o pressuposto da atuação sancionadora prevista pelo ordenamento; • Assim, o negócio jurídico pode ser tomado como o instrumento, por excelência, da “autonomia privada” (a qual, por sua vez, não pode ser confundida com a tradicional “autonomia da vontade”); • Da mesma forma, não se podemconfundir o “negócio jurídico” e o “contrato” (pois embora todo contrato pressuponha negócio jurídico, nem todo negócio jurídico dá ensejo a um contrato); • Sob o prisma funcional, os negócios jurídicos podem se voltar: – à “aquisição” de direitos subjetivos (“originária” ou “derivada”; “onerosa” ou “gratuita”; “singular” ou “universal”); – ao seu “resguardo” (“preventivo” ou “repressivo”; “judicial” ou “extrajudicial”); – à sua “modificação objetiva” (“quantitativa” ou “qualitativa”); – à sua “modificação subjetiva” (via transmissão “inter vivos” ou “causa mortis”), ressalvadas as hipóteses de direitos personalíssimos; ou, enfim, 30 – à sua “extinção” – envolvendo, em senso amplo, não apenas o “perecimento”, mas também a “alienação” (“modificação subjetiva”); • Quanto à aquisição de direitos subjetivos, é bastante freqüente a distinção entre: – “expectativa de direito”: quando o suporte fático sequer iniciou a sua formação (o famigerado “herdeiro” de pessoa ainda viva); – “direito eventual”: quando o suporte fático que já iniciou o seu processo de formação (v. g., quando se aguarda o decurso completo do prazo da usucapião); – “direito futuro”: quando suporte fático já se formou, conquanto a superveniência da eficácia jurídica ainda dependa de um elemento estranho (de modo que o direito subjetivo ainda não foi incorporado ao patrimônio do titular); e – “direito atual” (adquirido): já incorporado, pois, ao patrimônio do sujeito; • Os negócios jurídicos podem ser classificados em: – “unilaterais”, “bilaterais” e “plurilaterais” (quanto ao número de declarantes); – “receptícios” e “não-receptícios” (quanto à necessidade de ciência do destinatário para o desencadeamento de seus respectivos efeitos); – “gratuitos”, “onerosos” (“comutativos” ou “aleatórios”), “neutros” e “bifrontes” (quanto à circulação patrimonial); – “inter vivos” e “causa mortis” (quanto à dependência da morte do agente); – “principais” e “acessórios” (quanto à base sobre que existem); – “autônomos” e “derivados” (quanto à referência a outro negócio jurídico); – “solenes” (ou formais) e “não solenes” (quanto à formalidade); – “simples” e “complexos” (quanto à quantidade de declarações); – “dispositivos” e “obrigacionais” (quanto à amplitude de seus efeitos); – “fiduciários” (quando há a utilização de um instrumento abundante); e – “simulados” (quando a intenção do sujeito destoa de sua declaração). • Conquanto não se aplique apenas aos “negócios jurídicos” – sendo passível de extensão, também, aos “atos jurídicos em sentido estrito” – a tricotomia “existência-validade-eficácia” encontra aí a sua sede natural da aplicação; de maneira que: – os “elementos” (de existência) condicionam a própria superveniência do negócio jurídico como tal – sendo de se falar, portanto, em inexistência do negócio quando faltante um daqueles (caso o “suporte fáctico concreto” se revele, assim, “insuficiente”); – por sua volta, os “requisitos” (de validade) pressupõem a incidência da norma e a juridicização do suporte fáctico concreto (que se converteu, pois, em fato jurídico); contudo, ausente um daqueles, a invalidade desponta (diante do suporte fáctico “deficiente”) – sendo de se cogitar de nulidade ou anulabilidade (conforme o grau de relevância do requisito faltante); por fim, – os “fatores” (de eficácia) pressupõem um negócio jurídico existente e válido – não repercutindo sobre o já consumado “ato jurídico perfeito”, mas produzindo reflexos apenas sobre os direitos e deveres daquele decorrentes; • Os “fatos jurídicos em sentido estrito” e os “atos-fatos” não perpassam o plano da validade; assim, consumado o suporte fático “suficiente”, os seus efeitos se desencadeiam sem restrições; • É tradicional na doutrina a utilização do termo “elementos” para a referência a uma outra tricotomia: elementos “essenciais” (“gerais” ou “particulares”, dos quais dependeria a “existência” do negócio jurídico); “naturais” (que gerariam os efeitos ordinários de determinado negócio, passíveis de afastamento pela “autonomia privada”); e “acidentais” (condição, termo e encargo); • Contudo, a utilização técnica do termo “elementos” nos reporta àquilo que, de modo indispensável, é pressuposto por todo negócio jurídico (os “elementos-cerne”): declaração, objeto (idôneo), forma, tempo, lugar, finalidade negocial e circunstâncias negociais; • Além dos “elementos-cerne” do negócio jurídico, existem aqueles que – chamados “completantes” – são exigidos em hipóteses específicas (como a “entrega” no âmbito dos “contratos reais”); • Os “requisitos” (de validade), por sua vez, podem ser “genéricos” (aqueles referidos pelo art. 104 do Código Civil) ou “específicos” (v. g., o assentimento dos descendentes e do cônjuge na venda de ascendente a descendente, ex vi do disposto no art. 496 do CC); • São “requisitos” genéricos (de validade) do negócio jurídico: – agente capaz; – objeto lícito, possível e determinado (ou ao menos determinável); – forma prescrita em lei (ou ao menos não defesa); • Diferentemente dos “elementos” (cerne e completantes) cuja falta implica na inexistência do negócio jurídico, a carência dos “requisitos” e “fatores” repercute, respectivamente, sobre os planos da “validade” e da “eficácia”; por isso, na terminologia ponteana, são chamados “elementos complementares”; assim, por exemplo: – As incapacidades (absoluta e relativa) prejudicam a validade do negócio jurídico – “nulo” e “anulável”, respectivamente; 31 – A falta de poder de disposição (usualmente designado pela doutrina como “legitimação”) prejudica a produção de efeitos pelo negócio jurídico (v. g. a ineficácia da venda “a non domino”); • A respeito da forma do negócio jurídico – conquanto venhamos a nos manifestar mais especificamente a propósito da análise dos arts. 107 e 108 do CC – devemos observar, desde logo, que: – em primeiro lugar, as manifestações de vontade podem ser “expressas”, “tácitas” ou “presumidas”: na primeira hipótese o declarante pretende que chegue ao conhecimento do destinatário sua ordem de intenções (enquanto que na modalidade tácita, a vontade do sujeito não é depreendida de sua declaração, mas sim de seu “comportamento concludente”); já a manifestação presumida é o resultado de uma construção levada a efeito pelo ordenamento jurídico – que “supõe” certa realidade (que pode ou não ter existido efetivamente); – além disso, devem ser diferenciados os conceitos de “formalidade” (instrumento de garantia) e “formalismo” (mazela que serve de obstáculo à distribuição efetiva de justiça); Incapacidade relativa (cabimento da alegação) (art. 105, CC). • Como já tivemos a oportunidade de observar outrora, são relativamente incapazes (art. 4º CC) aqueles que carecem do concurso de “assistentes” para a prática de declarações negociais; • Por sua vez, como teremos a oportunidade de observar mais adiante, a incapacidade relativa é causa ensejadora da simples “anulabilidade” da declaração de vontade prestada sem o concurso regular do assistente (art. 171 CC); • Ora, como também já fora observado, a “teoria das incapacidades” foi forjada como elemento de proteção àqueles que se encontram sob o espectro subjetivo da norma jurídica analisada; por isso, a invocação da incapacidade relativa de um agente – via de regra – somente poderá ser levada a efeito em seu próprio proveito; • Assim, por via de conseqüência, não podem invocar a incapacidade “relativa” do agente: – a “contraparte” do negócio jurídico; e – aquele que é “co-interessado” na celebração do negócio jurídico – e que figura, pois, no mesmo pólo da relação jurídica decorrente do negócio celebrado – ressalvada a hipótese de indivisibilidade do objeto negocial (v. g. a atualização de uma obra intelectual); Impossibilidade “relativa” do objeto (art. 106, CC). • O preceito ora analisado conclama o intérprete a efetuar a distinção entre os conceitos de impossibilidade “absoluta” – que se evidencia emface de toda a comunidade – e “relativa” (aquela que atinge tão somente “parte” da coletividade, nela incluído o declarante); • Considerado, por sua vez, o momento em que a impossibilidade é diagnosticada, pode-se falar em impossibilidade “inicial” (congênita ou originária) ou “superveniente” (quando se estabelece após a celebração do negócio jurídico); • Feitas tais distinções, pode-se afirmar que: – a impossibilidade “superveniente” não invalida o negócio jurídico, viabilizando, tão somente, conseqüências relacionadas à sua respectiva eficácia; – a impossibilidade “originária” (congênita ou inicial) comprometerá a validade do negócio jurídico, salvo se se tratar de: • impossibilidade “relativa” (que atinge tão somente o declarante); ou de • impossibilidade “momentânea” (e que cessa antes do implemento da condição a que o negócio jurídico estiver subordinado); Forma “ad substantiam” (art. 107, CC). • A respeito da forma do negócio jurídico, devem ser diferenciadas: a) a forma que integra o próprio suporte fáctico normativo (e cuja inobservância redunda na inexistência do negócio jurídico) – v. g. art. 579 CC; b) a forma “ad substantiam” (cuja preterição redunda na invalidade do negócio jurídico) – v. g. art. 108 CC; c) a forma “ad probationem” (que, desrespeitada, prejudica a defesa dos interesses do sujeito em juízo) – v. g. art. 646 CC; e d) a forma “ad regularitatem” (desencadeadora de certos efeitos viabilizados pelo ordenamento) – v. g. art. 45 CC; • Deve-se observar, assim, que o preceito sob análise se reporta, tão somente, à forma que pode repercutir sobre a “validade” do negócio jurídico (“forma ad substantiam”); Escritura pública e negócios sobre bens imóveis (art. 108, CC). 32 • O art. 108 do CC inova em relação ao art. 134 do CC/16, ao determinar a compulsoriedade da utilização da escritura pública sempre que o negócio jurídico se referir às seguintes operações relacionadas a “direitos reais sobre imóveis” de valor superior a 30 (trinta) vezes o maior salário mínimo vigente no país: – constituição; – transferência; – modificação; ou – renúncia; • Com efeito, o Código Civil revogado não estendia tal compulsoriedade aos negócios “renunciativos” relacionados a bens imóveis com valor superior à taxa legal; Deve-se observar, pois, que tal disposição se aplica não apenas aos imóveis por natureza, mas também aos assim reputados por força de lei – tal como se dá, pois, quanto à sucessão aberta (art. 80 CC); • Cumpre destacar que a utilização compulsória da escritura pública tem por finalidades principais: – despertar a “atenção” das partes para a seriedade (relevância) do ato a ser praticado; – preconstituir “prova autêntica” a respeito do ato presidido pelo oficial dotado de fé pública; – resguardar a “incolumidade” do próprio ato que, presidido por tabelião, há de ser praticado com observância de todas as formalidades legais (v. g. por meio da colheita dos assentimentos previstos no art. 496 do Código Civil); – assegurar, por meio da interferência direta do tabelião, que a manifestação de vontade das partes é “espontânea” e isenta de quaisquer vícios; • Nota-se no presente preceito o resquício da maior deferência do legislador em relação aos bens imóveis: com efeito, outrora já se defendeu a aplicação da máxima “res mobilis, res vilis”; contudo, há que se indagar se – ainda nos dias atuais – os bens imóveis seriam os mecanismos, por excelência, de acumulação de capital; Negócio jurídico com cláusula de não valer sem escritura (art. 109, CC). • A propósito da análise do presente preceito, devem ser apartadas: – a forma imposta por lei (“forma solene”); – a forma imposta pelas próprias partes (“forma contratual”); – a forma típica das situações em que as partes podem escolher o modo de se praticar o negócio jurídico: • com inteira liberdade (“forma livre”); ou • com liberdade restrita ou parcial (“forma plúrima”); • Não havendo imposição legal de certa formalidade à prática do ato, os declarantes podem determinar, no exercício de sua “autonomia privada”, a “compulsoriedade concreta” da “escritura pública” – sob pena de nulidade da declaração que preterir tal forma (art. 166 CC); Reserva mental (art. 110, CC). • A “reserva mental” corresponde à deliberada desconformidade entre a vontade íntima do declarante e aquela consubstanciada em sua manifestação de vontade; • A principal diferença entre a “reserva mental” e a “simulação” está no fato de que a desconformidade, no primeiro caso, é desconhecida do declaratário; na “simulação”, em contrapartida, o destinatário da declaração conhece o descompasso entre o querer íntimo do agente e aquilo que ele acaba por exteriorizar; • Exatamente em virtude de tal diferença, enquanto a simulação é reconhecida como causa de nulidade do negócio jurídico (art. 167 CC), a reserva mental não surte qualquer espécie de efeito jurídico, salvo se o destinatário da declaração dela tinha conhecimento; Silêncio como manifestação de vontade (art. 111, CC). • Como tivemos oportunidade de observar há pouco, a manifestação de vontade pode ser: – expressa; – tácita; ou; – presumida; • Com efeito, em certos casos o próprio ordenamento jurídico faz com que exsurja fato jurídico – v. g. aceitação – a partir daquilo que é ausência de exteriorização (ou inação) – em sentido fenomênico; • Contudo, para que isso se dê, é imperioso que as “circunstâncias”, os “usos” ou a norma jurídica levem à crença de que a ausência seja tão somente de uma “exteriorização comissiva” – mas não da própria vontade que lhe serve de respectivo fundamento; Vontade vs. declaração (hermenêutica negocial) (art. 112, CC). • A interpretação negocial obedece – em geral – aos mesmos cânones relacionados à interpretação da lei – onde se questiona a respeito da prevalência da vontade do legislador (“voluntas legislatoris”) ou da vontade inerente à própria lei (“voluntas legis”); 33 • Assim, feita a transposição do problema para a esfera negocial, a principal contraposição exsurgente é aquela estabelecida entre o querer íntimo do agente (vontade) e a sua respectiva externação (declaração); • A propósito do problema, diversas teorias foram desenvolvidas; dentre as quais podem ser destacadas: – a teoria da vontade (extremada) – segundo a qual a vontade deveria prevalecer em qualquer hipótese; – a teoria da responsabilidade (moderada com prevalência do elemento vontade) – de acordo com a qual a vontade deve prevalecer sobre a declaração, sempre que o declarante não tiver contribuído decisivamente para o descompasso entre o seu querer íntimo e a exteriorização promovida; – da confiança (moderada com prevalência do elemento declaração) – conforme a qual a declaração deve prevalecer sempre que o seu destinatário não tivesse ciência da desconformidade entre a vontade do declarante e sua externação; – da declaração (extremada) – por força da qual a declaração haveria de ser privilegiada em todo caso; • Observe-se que a interpretação negocial se volta à perquirição não da vontade íntima do sujeito, mas sim daquela que se mostra imersa na declaração negocial externada (“consubstanciada”); • Além disso, deve-se observar que a hermenêutica negocial envolve não apenas a análise do arcabouço normativo (“Do direito”), mas também o enfrentamento – sério e criterioso – do material fático (“Dos fatos”) submetido ao estudioso; Interpretação conforme boa-fé e usos locais (art. 113, CC). • Observe-se que o conceito de boa-fé apresenta três acepções fundamentais no Direito Privado, estando voltada: – ao estado anímico de um dado agente (boa-fé subjetiva) – que desconhece, por exemplo, o vício ou obstáculo impeditivo quanto à aquisição de um certo direito (v. g., art. 1201 CC); – ao dever de probidade (e lealdade recíproca) a ser observado entre os sujeitos de direito inseridos em mercado (boa-fé objetiva), especialmente – mas não exclusivamente – no âmbito do Direito Obrigacional (v. g.art. 422 CC); e – aos parâmetros interpretativos a serem utilizados pelo magistrado (boa-fé interpretativa) quando da análise de um negócio concreto (art. 113 CC); • Note-se, pois, que a acepção emprestada à expressão nesta regra é inconfundível com as demais, uma vez que o preceito é voltado, substancialmente, ao próprio magistrado; Interpretação restritiva do negócio benéfico (e renúncia) (art. 114, CC). • Quando estudada a interpretação da lei, chegamos à conclusão de que ela poderia ser classificada sob diversos aspectos: – em primeiro lugar, quanto aos seus “arautos”, a interpretação pode ser: a) autêntica; b) doutrinária; ou c) jurisprudencial; – por sua vez, quanto aos seus “métodos”, a interpretação pode ser dividida em: a) literal (ou gramatical); b) lógica; c) sistemática; d) histórica; ou e) teleológica; – por fim, no que concerne aos seus respectivos resultados, a interpretação pode produzir efeitos: a) declaratórios (meramente); b) extensivos; ou c) restritivos; • Tais elementos podem ser transpostos – feitas as devidas acomodações – ao cenário da hermenêutica negocial; desde que se tenha sempre em consideração a necessidade de que sejam analisados, simultaneamente, o “arcabouço jurídico” e o “material fático” submetido ao intérprete – superando-se, assim, os indesejáveis limites tradicionais de uma hermenêutica negocial comprometida tão somente com a análise da norma jurídica; • Deve-se observar que o presente preceito orienta o intérprete no sentido de que alguns negócios jurídicos devem ter a sua interpretação efetuada de uma maneira pré-determinada pelo próprio legislador: assim, pois, os negócios jurídicos “gratuitos” (benéficos) e os abdicativos – aos quais se alude por meio da referência expressa a uma de suas modalidades (renúncia) – merecerão interpretação sempre “restritiva”. Aula 13 – Da representação (arts. 115 a 120, CC) Legislação envolvida: arts. 115 a 120 do Código Civil. • art. 115: representação legal e negocial; • art. 116: eficácia representativa direta; • art. 117: negócio consigo mesmo (e substabelecimento); 34 • art. 118: exibição dos poderes de representação (ônus); • art. 119: conflito de interesses entre representante e representado; • art. 120: requisitos e efeitos da representação; Introdução. • A representação pode ser compreendida como a atuação jurídica “em lugar” de outrem; mostrando-se “impossível” – ou “inconveniente” – a presença do interessado quando da celebração do negócio jurídico, lança se mão da figura do representante; • Duas são as espécies de representação: – representação “direta”: na qual o representante atua “em nome” do representado (“contemplatio domini”, “exteriorização” ou “notoriedade”) – ainda que acabe por atuar, excepcionalmente, em seu próprio interesse (representação “stricto sensu”); e – representação “indireta”: na qual o representante atua “por conta” do representado – ainda que, por vezes, venha a praticar atos e negócios jurídicos em seu próprio nome (representação em sentido econômico); • No âmbito do Direito Civil brasileiro a representação (direta) é considerada elemento indissociável do contrato de mandato (art. 653 CC); assim, costuma-se dizer que a representação é da “essência” do mandato; Espécies de representação. • Quanto à sua origem (art. 115 CC), a representação (direta) pode ser: – “legal” – quando estribada em previsão “heterônoma”; ou – “negocial” – quando lastreada em previsão “autônoma”; • A representação caracteriza-se como uma espécie de “munus” (poder-dever), ensejador da atribuição de “prerrogativas” àquele a quem são atribuídos os poderes de percutir a esfera jurídica alheia; embora haja consenso a esse respeito quanto à representação fundada em lei, parece-nos francamente passível de extensão àquela derivada da outorga de poderes de representação (por meio do negócio jurídico de “procuração”); • Por implicarem na atuação em nome alheio (“contemplatio domini”), ambas as modalidades de representação ensejam a “prestação de contas” pelo representante – estando este vinculado à gestão até que sejam regularmente aprovadas; • Os representantes podem ser: – legais: v. g. os pais (arts. 1634, V e 1690 CC), o tutor (art. 1747, I CC), o curador (art. 1774 CC), o administrador da coisa comum (art. 1323 CC), o síndico (art. 1347 CC), etc.; – judiciais: v. g. o inventariante (art. 990 CPC), o administrador judicial (arts. 21 e 99, IX da Lei Fed. nº 11.101/05), etc.; ou – negociais: tais como o mandatário (art. 663 CC), o órgão da pessoa jurídica (art. 47 CC) ou qualquer agente a quem tenham sido outorgados poderes de representação (art. 115 CC); • Deve-se observar que os órgãos das pessoas jurídicas, a rigor, não as “representam”; embora as tornem presentes (de modo que assim as “presentariam”), é freqüente, contudo, a menção aos diretores (ou gerentes) da pessoa jurídica como seus representantes; • Destaque-se, ainda, que os poderes de representação podem ser outorgados no ambiente de operações diversas do contrato de mandato; Regras da representação. • Quatro são as regras principais estabelecidas pelo Código Civil de 2002 a respeito da representação: – art. 116 CC: despontando “contemplatio domini” (“exteriorização” ou “notoriedade”), aquilo que for praticado pelo representante – nos limites de seus poderes – produz efeitos sobre a esfera jurídica do representado, como se ato próprio seu fosse (art. 663 CC); – art. 118 CC: atuando em nome do representado (representação direta), o representante “deve” (ônus) exibir o instrumento de outorga de poderes de representação (procuração) aos terceiros com quem se relacionar, sob pena de responder “pessoalmente” pelos atos que os excederem – salvo “ratificação” (arts. 662 e 665 CC); – art. 119 CC: despontando conflito de interesses entre o representante e o representado, os atos praticados por aquele vinculam, em regra, este último (art. 679 CC); entretanto, se o terceiro tiver ciência (efetiva ou potencial) de tal circunstância, despontará “anulabilidade” do negócio representativo praticado – impugnável em prazo decadencial de 180 (cento e oitenta) dias, contados da celebração do ajuste ou da cessação da incapacidade; – art. 120 CC: em regra remissiva, estabelece-se um sistema de “apartamento parcial” entre a representação negocial e o contrato de mandato; bem como uma vinculação em relação às disposições do Direito de Família relacionadas ao assunto – constantes do Código Civil e da legislação extravagante (v. g. Lei Fed. nº 8069/90); 35 Representação e mandato. • Três são os sistemas referentes à relação mantida entre os institutos da representação e do mandato: – o sistema da miscingenação: em que a representação é essencial ao contrato de mandato, constituindo a sua nota distintiva (v. g. Código Civil francês); – o sistema da separação absoluta: em que os institutos são autônomos, ainda que venham a atender a uma mesma função (v. g. BGB e Código Civil português); e – o sistema da separação parcial (ou relativa): em que existe um apartamento relativo entre os institutos – com algumas regras relacionadas à gestão previstas na Parte Geral (arts. 115 a 120 CC) e outras declinadas na Parte Especial (arts. 653 a 692 CC); • A própria doutrina brasileira é dividida a respeito da questão: alguns juristas defendem, ainda hoje, que a representação é “essencial” ao mandato (e que a “procuração” seria o seu instrumento); contudo, não oferecem explicação satisfatória à hipótese de “mandato sem representação” – aventada na parte final do art. 663 CC; Contrato consigo mesmo (autocontratação). • Ainda que a doutrina comumente somente se refira a duas delas, deve-se observar que três são as hipóteses de contratação consigo mesmo (ou “autocontratação”), por meio da utilização de representante (art. 117 CC): a) contrato celebrado entre representados “A” e “B” – ambos tendo por representante “C”; b) contrato celebrado entre orepresentado “A” e seu representante “C” – que figura, simultaneamente, como contraparte e como representante da outra; c) contrato celebrado entre o representante indireto “A” e si mesmo – v. g. na comissão (arts. 693 e ss CC); • A rigor, contrato consigo mesmo (ou “autocontratação”) somente desponta da última hipótese, em que os patrimônios vinculados à operação pertencem a um mesmo sujeito (“A”); nas duas primeiras situações, embora seja um único o declarante (“C”), plúrimas são as declarações de vontade e os patrimônios percutidos (“A” e “B”; “A” e “C”); • A disciplina da “autocontratação” prevista no Código Civil de 2002 busca coibir o exercício da representação em prejuízo dos interesses do representado (mesmo que por meio do substabelecimento fraudulento de poderes); assim, inexistindo conflito de interesses, não despontará “anulabilidade” (art. 179 CC), mormente quando este for afastado por disposição legal ou ato do próprio representado; Aula 14 – Da condição, do termo e do encargo (arts. 121 a 137, CC) Legislação envolvida: arts. 121 a 137 do Código Civil. • art. 121: condição; • art. 122: licitude da condição; • art. 123: condições que invalidam os negócios subordinados; • art. 124: condições reputadas inexistentes; • art. 125: aquisição do direito e condição suspensiva; • art. 126: disposição durante a pendência de condição suspensiva; • art. 127: condição resolutiva e livre exercício do direito; • art. 128: superveniência da condição resolutiva (conseqüências); • art. 129: implemento maliciosamente provocado (ou obstado); • art. 130: direito eventual e atos conservativos; • art. 131: termo inicial (aquisição e exercício de direitos); • art. 132: cômputo de prazos; • art. 133: interpretação dos prazos (testamentos e contratos); • art. 134: negócios exeqüíveis desde logo (prazo ou local diverso); • art. 135: subsídio (ao termo) da disciplina sobre condições; • art. 136: encargo que não impede aquisição do direito; • art. 137: encargo ilícito ou impossível; Introdução. • A condição, o termo e o encargo são comumente referidos pela doutrina como “elementos acidentais” do negócio jurídico, seguindo-se, neste passo, a tradição romana – já abordada em nosso curso – que segregava os elementos “essenciais”, “naturais” e “acidentais” das declarações de vontade; • Contudo, já tivemos a oportunidade de observar que a terminologia “elementos” nos parece passível de reserva apenas àquilo que se mostra indispensável à incidência da norma jurídica e à consequente “existência” do negócio jurídico; quanto ao mais, devemos nos reportar aos “requisitos” (ou pressupostos) de validade e aos “fatores” de eficácia; • Tais “fatores” de eficácia são admitidos, em geral, no âmbito do Direito Privado; contudo, são incompatíveis com algumas espécies de “atos jurídicos lato sensu” (“atos puros”), dentre os quais podemos destacar: 36 – os atos que não admitem qualquer espécie de incerteza (v. g. a aceitação e a renúncia da herança, etc.); – os atos relacionados a direitos de personalidade (v. g. a disposição gratuita dos órgãos para depois da morte, etc.); – os atos relacionados a direitos de família (v. g. o casamento, a adoção, o reconhecimento de filiação, etc.); e – os atos jurídicos “stricto sensu” (v .g. a interpelação, etc.); – os atos-fatos jurídicos (v. g. a especificação, etc.); • Como tais “fatores” de eficácia operam em um plano diferente (plano da “eficácia”) daqueles até agora analisados (planos da “existência” e da “validade”), é importante destacar que ao abordarmos tal tema já temos por suposta – didaticamente – a incidência da norma jurídica e a ordinária aptidão à produção de efeitos (suporte fático concreto “suficiente” e não “deficiente”); Condição. • A condição é o “fator” do negócio jurídico que subordina-lhe os respectivos efeitos à superveniência de um “evento” futuro e incerto; com isso, fique desde logo afastada a confusão terminológica entre a “condição” que integra a declaração de vontade e o “evento” ao qual se refere – e que acaba por desencadear (ou extinguir) os efeitos por ela atingíveis; • Por se tratar de tema afeto à “autonomia privada”, o art. 121 do Código Civil prescreve que somente será considerada condição a subordinação derivada exclusivamente da vontade do declarante (aposta a negócio jurídico unilateral, bilateral ou plurilateral) – não se considera condição a subordinação preestabelecida pela própria lei (“conditio juris”); • Segundo a doutrina majoritária, os requisitos indispensáveis para a caracterização da condição são três: – voluntariedade: que não se trate, pois, de subordinação formulada pelo próprio ordenamento jurídico – “conditio juris” (v. g. que o herdeiro sobreviva ao testador); – futuridade: não podendo a condição se referir a evento passado, ainda que seu desfecho seja desconhecido pelas partes (condição imprópria) – pois ou já se terá negócio eficaz (se o evento ocorreu) ou já fadado à ineficácia (se o evento não se verificou); e – incerteza: caso desponte certeza a respeito do acontecimento futuro, tratar-se-á de “termo” (certo ou incerto) – mas não de condição; • Francisco Amaral sustenta que seriam indispensáveis, ainda, a “possibilidade” (física e jurídica), a “licitude” (ausência de contrariedade ao ordenamento jurídico) e a “não-potestatividade pura” (devendo o evento derivar minimamente do acaso); todavia, tais aspectos não nos parecem ligados à “estrutura” da condição, mas sim à sua admissibilidade pelo ordenamento jurídico – que acaba por invalidar os negócios jurídicos em que se verifiquem estas e outras hipóteses (arts. 122 e 123 CC); • Sob o prisma classificatório, as condições podem ser segregadas: – quanto à sua “licitude”: em “lícitas” (todas são admitidas, em regra, pelo sistema jurídico) ou “ilícitas” (art. 122 CC) – quando contrárias à “lei” (v. g. se roubares), à “ordem pública” (v. g. se mudares de religião), aos “bons costumes” (v. g. se te prostituíres), “perplexas” (v. g. serás meu herdeiro testamentário se a distribuição de meus bens observar inteiramente a sucessão legítima) ou “puramente” potestativas (v. g. se quiseres); – quanto à possibilidade do evento: em “possíveis” ou “impossíveis” (física ou juridicamente); devendo se destacar que a impossibilidade gerará a invalidade do negócio jurídico em caso de suspensividade (art. 123, I CC) ou simplesmente a ineficácia da própria cláusula em caso de resolutividade (art. 124, 1ª parte CC) – assim como na hipótese de subordinação dos efeitos ao não fazer coisa impossível (art. 124, 2ª parte CC); – quanto à origem do evento: em “casuais” (dependentes exclusivamente do acaso), “potestativas” (dependentes da vontade do envolvido) e “mistas” (dependentes da vontade do envolvido e da vontade de terceiro); – quanto aos efeitos da ocorrência do evento: em “suspensivas” (quando o evento desencadeia os efeitos do negócio jurídico) e “resolutivas” (“expressas” ou “tácitas”, quando os extinguem); • São vedadas apenas as condições “puramente” potestativas (em que os efeitos dependem exclusivamente da vontade do envolvido) – sendo admitidas as “simplesmente” potestativas (em que a vontade é conjugada com variantes incontroláveis pelo envolvido); note-se que as primeiras podem se tornar lícitas se perderem tal caráter (condições “promíscuas”); • Diferentemente do que se dá com relação à condição “resolutiva”, deve-se destacar que enquanto não se verifica o evento previsto na condição suspensiva, nenhum direito é de ser considerado adquirido pelo “favorecido” pelo negócio jurídico (art. 125 CC); contudo, este poderá lançar mão de expedientes voltados à proteção de seus interesses, na qualidade de titular de um “direito eventual” (art. 130 CC); • De acordo com o que estabelece o art. 123 do CC, além da impossibilidade (no contexto da condição suspensiva), também geram a invalidade do negócio jurídico em que estão inseridas as condições ilícitas, de fazercoisa ilícita (art. 122 CC) e as condições incompreensíveis ou contraditórias; 37 • Com relação à técnica de operação das condições, deve-se destacar que a superveniência do evento é juridicamente retroativa (os efeitos se desencadeiam desde a data de celebração do negócio jurídico); assim: – eventuais atos de disposição incompatíveis com a condição suspensiva terão os seus efeitos tolhidos (art. 126 CC); – no que tange à condição resolutiva, o direito subjetivo pode ser exercido desde logo pelo favorecido (art. 127 CC) – sendo que o advento do acontecimento previsto frustrará os efeitos das operações subsequentes, ressalvados os negócios de execução continuada ou periódica passíveis de compatibilização com a “retroatividade”, em homenagem à boa-fé (art. 128 CC); a respeito, cf. o art. 1359 CC; • Em deferência ao referido princípio da boa-fé deve-se observar, por fim, que o malicioso “implemento” da condição “pendente” não favorecerá ao beneficiário virtual que maliciosamente o provocar; e, de igual modo, não se considerará “frustrada” a condição quando o virtual prejudicado criar intolerável obstáculo à superveniência do evento (art. 129 CC); Termo. • O termo é o “fator” do negócio jurídico que subordina-lhe os respectivos efeitos à superveniência de um “evento” futuro e certo; não deriva da lei (“termo de direito”) ou da benevolência do credor (“termo de graça”), não se confundindo com a condição à vista da “certeza” atrelada à ocorrência daquele – o que faz com que já se possa ter por adquirido o direito a que vise, conquanto por vezes insuscetível de pronto exercício (art. 131 CC); • Sob a perspectiva classificatória, o termo pode ser: – quanto à certeza relacionada ao momento de sua ocorrência: “certo” (quando se pode prever o momento exato da ocorrência do evento) ou “incerto” – quando se tem certeza do evento (mas não se pode antever o tempo preciso em que este sobrevirá); – quanto à influência que tenha sobre os efeitos do negócio jurídico: “inicial” (desencadeador de efeitos) ou “final” (extintivo dos efeitos até então produzidos); e – quanto à sua importância no contexto do adimplemento das obrigações: “essencial” (gerador de inadimplemento absoluto) ou “não essencial” (gerador de simples mora); • “Prazo” é o intervalo compreendido entre o “termo inicial” (“dies a quo”) e o “termo final” (“dies ad quem”) – sendo que a seu respeito deve-se observar que: – as regras para a sua contagem estão estabelecidas no art. 132 CC; – o prazo sempre se presume em favor do devedor – exceto se a lei, a letra do negócio ou as circunstâncias conduzirem a outro entendimento (art. 133 CC); – os negócios exeqüíveis desde logo podem ser exigidos imediatamente – salvo se o seu cumprimento houver de se dar em local diverso ou depender de tempo (art. 134 CC); – as regras estabelecidas a respeito da condição podem ser aplicadas, na medida do possível, também ao termo (art. 135 CC); Encargo ou modo. • O encargo é o “fator” do negócio jurídico que reduz o alcance de uma “liberalidade” (benemerência praticada por meio de ato “inter vivos” ou “causa mortis”), reduzindo-se a proporção da “gratuidade” do negócio jurídico – sem o transformar, contudo, em um ato “oneroso”; • A respeito do encargo algumas observações podem ser feitas: – o encargo deve ser tomado como uma restrição a liberalidade (“inter vivos” ou “causa mortis”) que não impede a aquisição do direito (art. 136 CC) – diferentemente do que se dá em relação à condição suspensiva (art. 125 CC); – algumas expressões são denunciadoras do encargo ou modo (“para que”, “a fim de que”, “com a obrigação de”) – e servem como elementos de discriminação em relação àquelas evidenciadoras de condição (“se”, “desde que”, “apenas”); – é possível a revogação da liberalidade por inexecução do encargo (por iniciativa do declarante); o beneficiário pode exigir o cumprimento do modo – sendo que os herdeiros e o Ministério Público poderão prosseguir na ação revocatória (sendo que este a poderá ajuizar se a disposição se voltar ao benefício geral); – em caso de dúvida, deve prevalecer a interpretação da disposição como encargo (e não condição) – por ser mais favorável ao adquirente; e, por fim, – o encargo ilícito ou impossível só vicia o negócio se for a razão determinante da liberalidade (art. 137 CC). Aula 15 – Dos defeitos do negócio jurídico (arts. 138 a 165, CC) Legislação envolvida: arts. 138 a 165 do Código Civil. • art. 138: anulabilidade (erro substancial); • art. 139: erro substancial (hipóteses); 38 • art. 140: falso motivo (razão determinante); • art. 141: transmissão da vontade por meios interpostos; • art. 142: erro de indicação da pessoa ou coisa; • art. 143: erro de cálculo; • art. 144: adequação por iniciativa do destinatário (sanação); • art. 145: anulabilidade por dolo; • art. 146: dolo acidental; • art. 147: omissão dolosa; • art. 148: dolo de terceiro; • art. 149: dolo do representante (legal e negocial); • art. 150: dolo recíproco; • art. 151: coação (geradora da anulabilidade); • art. 152: critérios subjetivos para avaliação da coação; • art. 153: temor reverencial e ameaça do exercício de direito; • art. 154: coação de terceiro (viciadora do negócio jurídico); • art. 155: coação de terceiro (que não vicia o negócio jurídico); • art. 156: estado de perigo; • art. 157: lesão; • art. 158: fraude contra credores (em negócios gratuitos); • art. 159: fraude contra credores (em negócios onerosos); • art. 160: consignação de valores; • art. 161: réus da ação pauliana; • art. 162: pagamento antecipado ao credor quirografário; • art. 163: garantias supervenientes à insolvência; • art. 164: negócios ordinários indispensáveis; • art. 165: vantagem resultante da procedência da ação pauliana. Introdução. • A matéria relacionada aos “defeitos do negócio jurídico” envolve a análise do descompasso entre a declaração de vontade e o íntimo querer do sujeito de direito (“vício do consentimento”) – ou em relação à preservação dos interesses de terceiros (“vício social”); • Segundo a doutrina, os “vícios do consentimento” admitidos pelo CC/2002 são: – o erro; – o dolo; – a coação; – o estado de perigo; e – a lesão; • Diferentemente, a “fraude contra credores” e a “simulação” são os “vícios sociais” consagrados pelo CC/2002; • À exceção da “simulação” – reputada pelo legislador mais grave (e, por isso, merecedora de reprimenda mais contundente mediante cominação de “nulidade”) – os demais vícios do negócio jurídico acarretam tão somente sua “anulabilidade” (tornando-o passível de impugnação durante o prazo decadencial para manejo da ação de anulação) – de conformidade com o estabelecido no art. 171, II CC; Erro. • O erro corresponde à falsa representação da realidade, geradora de um descompasso “espontâneo” entre a “consciência” do declarante e a “realidade”; buscando-se readequar o mundo jurídico à sua ordem de intenções, o prejudicado pode buscar a “anulação” do negócio jurídico; • Contudo, é necessário (art. 138 CC) que o erro seja “substancial”, “escusável”, “cognoscível” (pelo co declarante) e “real” – uma vez que a anulação compromete a própria “segurança” do tráfico jurídico; – “substancialidade”: o erro deve estar relacionado a aspecto “essencial” do negócio, por oposição ao mero “erro acidental”, relacionado a aspecto secundário do negócio (o qual, ainda que fosse conhecido, não prejudicaria a sua celebração); segundo o art. 139 do CC, o erro é “substancial” quando está relacionado à “operação” levada a efeito (“error in negotio”), ao seu “objeto” (“error in corpore”), a “qualidade” essencial a este (“error in substantia”), à “identidade” do co-declarante ou interessado (“error in persona”) ou mesmo ao teor (ou alcance) de “regra jurídica” aplicável à espécie (“error juris”); – “escusabilidade” (por oposição ao erro “grosseiro” ou “inescusável”): a falsa compreensão da realidade não deve ser censurável,à vista das peculiares circunstâncias em que se insere a pessoa do declarante – o padrão para a sua aferição é “concreto” (a pessoa do próprio declarante); – “cognoscibilidade”: para viabilizar a anulação do negócio jurídico, o virtual descompasso entre a “consciência” do agente e “realidade” concreta deve ser “perceptível” a um homem de diligência normal – de maneira que ao destinatário da declaração, estribando-se em sua própria “boa-fé”, caberia 39 advertir o declarante de que provavelmente não seria esse o teor de sua declaração uma vez inteiramente esclarecido quanto aos estritos termos da operação (“teoria da confiança”); sendo imperceptível pelo destinatário, a falsa representação não invalidaria a declaração; – “realidade”: o equívoco deve ser relevante – apto a gerar um concreto prejuízo para o declarante; • Note-se que a “escusabilidade” deverá ser apurada “concretamente” – enquanto a “cognoscibilidade” será aferida de modo “abstrato”; • Observe-se que a tutela relacionada ao erro – via “ação anulatória” – se justifica em decorrência do descompasso entre a vontade presumível do sujeito e o teor de sua declaração; assim, ainda que se trate de erro quanto ao objeto (“error in corpore”) ou qualidade que lhe seja essencial (“error in substantia”), não se está a tratar de defeito (“vício”) ensejador de “ação redibitória” (ou mesmo “estimatória”); • Note-se, ainda, que alguns setores da doutrina – inspirada no direito alienígena (particularmente os modelos francês, alemão e italiano) – admitiram que certas modalidades de equívoco (“error in negotio” e “error in corpore”), ante sua expressiva gravidade, acabariam por comprometer a própria “existência” do negócio jurídico (“erro obstativo” ou “impróprio”) – o qual não exsurgiria à vista de uma falta de “consentimento” (não convergindo entre as declarações unilaterais); • Destaque-se que os “motivos” – de ordem meramente psicológica (e que não chegam a alcançar a declaração negocial) – não comprometem a validade do negócio jurídico (art. 140 CC); permanecem estranhos ao mundo negocial enquanto não elevados a “razão determinante” da operação (“consideranda”) – diferentemente da noção de “causa”, relevante nas suas mais diversas acepções (v. g. “causa-função”, “causa concreta”, “causa atribuição-patrimonial”); • Conforme o art. 141 CC, a transmissão da vontade por meios interpostos – v. g. núncio e representante (direto) – pode implicar em invalidade do negócio jurídico sempre que a declaração emitida diretamente também o viabilizasse; contudo, a nunciatura permite uma investigação tão somente da esfera psíquica do “principal” – ao passo que a representação viabiliza uma apuração da consciência do “representante”; • O erro nem sempre acarretará a “anulabilidade” do negócio jurídico; em certas hipóteses – em deferência ao “princípio da conservação” dos negócios jurídicos – poderá haver o seu “convalescimento”, v. g.: a) no erro de indicação de pessoa ou de coisa – sempre que as circunstâncias permitirem a correção da manifestação inadequada (art. 142 CC); b) no erro de cálculo – com a devida retificação da declaração de vontade (art. 143 CC); e c) se destinatário que se oferecer para cumprir o negócio de acordo com a vontade real do declarante – à vista da ausência de um prejuízo justificador da solução excepcional (art. 144 CC); • Note-se que alguns doutrinadores defendem a conveniência de uma tutela do “interesse negativo” do prejudicado pela invalidação da declaração; contudo, sendo a “cognoscibilidade” um requisito do erro, parece-nos implícita a culpabilidade do próprio destinatário – ao qual não deveria, pois, ser destinado ressarcimento algum; Dolo. • O “dolo” corresponde ao defeito do negócio jurídico em que a falsa representação da realidade (característica do confronto entre o estado de consciência do sujeito e os elementos abrangidos pela declaração) é “provocada” pelo co-declarante ou por terceiro; trata-se de expediente prejudicial que se distingue do “erro” em decorrência da “espontaneidade” deste último; • Note-se que esta noção de “dolo” (“defeito do negócio jurídico”) não se confunde com o elemento subjetivo da conduta penal (“dolo penal”, “direto” ou “eventual”) – e nem mesmo com o comportamento reprovável do sujeito durante o desenrolar da relação jurídica processual (“dolo processual”); • Deve-se observar que o “dolo” não se confunde com outras modalidades de vícios (de “consentimento” ou “sociais”) do negócio jurídico, tais como: – o “erro” – em virtude do já referido caráter “espontâneo” deste último; – a “coação” – por não haver atuação sobre a vontade do declarante (mas sim sobre a sua inteligência); – a “simulação” – em que o prejudicado não foi parte do negócio jurídico (em que a vontade real e a declaração se distanciaram); e – a “fraude” – em que o prejudicado não foi parte do negócio real (que desfalcou a garantia representada pelo patrimônio do disponente); • Sob o prisma classificatório, o “dolo” pode ser analisado segundo algumas dicotomias, v. g.: – “dolo principal” (ensejador de anulação do negócio jurídico, cf. art. 145 CC) – onde se conjugam “intenção”, “gravidade”, “razão determinante” e “conhecimento” (efetivo ou potencial) – vs. “dolo 40 acidental” (meramente indenizável, cf. art. 146 CC), se o negócio, de todo modo, acabaria por ser realizado; – “dolus bonus” (o simples enaltecimento das qualidades do objeto da operação) vs. “dolus malus” (ensejador da anulação e/ou indenização) – sendo que a distinção será efetuada pelo magistrado de acordo com as peculiaridades do caso concreto; – “dolo positivo” (“dolo por comissão” ou “por ação”) vs. “dolo negativo” (“omissão dolosa” ou “dolo por omissão”, “ex vi” do art. 147 CC) – note-se que outros preceitos do Código Civil guardam a mesma “ratio legis” (tal como se depreende, v. g. dos arts. 180 e 766); • Além disso, merecem específica menção algumas modalidades específicas de dolo, quais sejam: – “dolo de terceiro” (art. 148 CC): em que se viabiliza a anulação da declaração de vontade se o favorecido o conhecesse (ou o devesse supor) a interferência espúria – caso contrário, será admissível tão somente a indenização por parte do terceiro; – “dolo do representante” (art. 149 CC): não obstante a anulabilidade da declaração de vontade (em caso de “principalidade”), estabelece-se que a responsabilidade do representado pela indenização do co-declarante inocente (em caso de “acidentalidade”) estará limitada ao montante do proveito obtido (se a representação é “legal”) – restando solidária em caso de representação “negocial”; – “dolo bilateral” ou “recíproco” (art. 150 CC): inexistindo boa-fé de qualquer das partes a ser resguardada, não dá ensejo à “anulação” do negócio jurídico – nem mesmo oportunidade a que se pleiteie “indenização”; e – “dolo de aproveitamento” (art. 156 CC): não se confunde com o defeito do negócio jurídico ora analisado, embora – manifestando-se na intenção de se aproveitar da situação a que está exposto o co declarante – inspire outros institutos jurídicos (v. g. a “lesão”); Coação. • A “coação” corresponde ao defeito do negócio jurídico em que existe um “consciente” e “deliberado” descompasso entre a “vontade” interna do sujeito e a sua “declaração” negocial, “desencadeado” pela “injusta” ameaça que lhe é incutida – da prática de um mal “iminente” e “grave” (à sua pessoa, a pessoa que lhe seja juridicamente próxima ou a seus bens); • Note-se que a “coação” se distingue do “erro” e do “dolo” em virtude da falsa representação da realidade que existe nos dois últimos casos (mas não se verifica naquele); ou seja, na “coação” o declarante sabe que aquilo que exterioriza não se confunde, total ou parcialmente, com aquilo que pretende – recaindo o defeito, pois, sobre sua “vontade”, que não é “livre” (e não sobre sua “inteligência”); • Assim como observado com relação ao “dolo”, também quanto à “coação” despontam classificaçõesbastante importantes: – “coação absoluta” ou “física” (“vis absoluta”), que acaba por descaracterizar a própria declaração de vontade (comprometendo a sua respectiva “existência”) vs. “coação relativa” ou “moral” (“vis compulsiva”), que é considerada defeito apto a gerar a anulabilidade do negócio jurídico – na forma estabelecida pelos arts. 151 e seguintes do Código Civil (e desde que preenchidos os seus respectivos pressupostos); – “coação principal” (a influência espúria é a razão determinante da celebração do negócio jurídico), ensejadora de “anulação” da declaração vs. “coação acidental” – o negócio seria celebrado pelo coacto mesmo se inexistisse a influência malévola (em circunstâncias provavelmente menos desfavoráveis) – viabilizadora, tão somente, da “indenização” do coacto; • Assim, para que se caracterize o defeito do negócio jurídico (“vis compulsiva” ou coação “moral”), necessário se faz que estejam presentes seus cinco pressupostos fundamentais, quais sejam: – que a influência tenha sido a “causa determinante” da declaração: diferentemente da “coação acidental” (ensejadora de simples indenização), a “coação principal” só tem a aptidão a gerar a anulação do negócio jurídico em virtude de ter sido o elemento decisivo para a declaração; – “gravidade”: o mal (patrimonial ou moral) representado precisa ser sério (embora não se tenha previsto no sistema atual a “equivalência” estatuída pelo Código Civil de 1916); de maneira que as “circunstâncias” do caso concreto serão muito importantes para que se defina qual a intensidade da ameaça, “objetiva” (mercado) ou “subjetiva” (afeição) – apurada, pois, de acordo com a pessoa do coacto (a respeito, cf. arts. 152 e 1277 CC); – o caráter “injusto” do mal representado (art. 153, 1ª parte CC): ficando descaracterizado, pois, quando se aventa a hipótese de exercício regular de direito – mas não quando se vislumbra a possibilidade de exercício abusivo (art. 187 CC); – a “atualidade” (ou “iminência”) do mal representado: de maneira que, não se tratando de ameaça longínqua (e passível de precaução), influi diretamente na declaração – uma vez que o coacto não tem a alternativa de se servir de recursos (próprios ou alheios) para afastar o perigo; – que o mal representado se refira à pessoa do coacto, aos seus bens ou a pessoa que lhe seja próxima (inclusive a própria pessoa do coator) – tal como estatuído pelo “caput” do art. 151 CC (e por seu “parágrafo único”); 41 • Note-se que a ameaça à “família” – em sentido amplo (abrangente de novas modalidades familiares) – do coacto enseja a anulabilidade do negócio jurídico “ex lege” (ainda que tenha de ser reconhecida em juízo); entretanto, quando dirigida a “pessoa próxima” ao coacto – na forma estabelecida pelo “parágrafo único” do art. 151 CC – será necessária a apreciação das “circunstâncias” do caso pelo magistrado (“discricionariedade” judicial); • Observe-se que o simples “temor reverencial” não expressa, por si só, a coação (art. 153, 2ª parte CC); todavia, como “mais um” elemento que integra o contexto do caso, “pode” influenciar – decisivamente – na caracterização do defeito do negócio jurídico; • Deve-se observar que a coação exercida por terceiro obedece a dois regimes jurídicos diferentes: – se a contraparte sabia (ou devesse saber) da coação: desponta a anulabilidade do negócio jurídico, cumulada com a co-responsabilidade solidária do declaratário pelos danos experimentados pelo coacto (art. 154 CC); contudo, – se a contraparte não sabia (ou não se supõe que devesse ter conhecimento) da coação: não desponta a anulabilidade do negócio jurídico, embora possa o coacto postular indenização proveniente, exclusivamente, do próprio autor da coação (art. 155 CC); Estado de perigo. • O “estado de perigo” corresponde ao defeito em que o declarante celebra negócio jurídico francamente desfavorável em virtude de pressão a que se mostra submetido (ele próprio ou pessoa que lhe é próxima) – e conhecida do declaratário (no âmbito dos negócios jurídicos bilaterais); • Note-se que no “estado de perigo” está presente – em sua máxima expressão (receio de “grave dano”) – aquela idéia de “necessidade” que também informa outros institutos jurídicos (v. g. passagem forçada, “negotiorum gestio”, casamento nuncupativo, testamentos especiais, depósito necessário, etc.); busca-se evitar, aqui, o locupletamento incompatível com a função social dos direitos subjetivos, a boa-fé e a probidade; • O “estado de perigo” não se confunde com situações que lhe são próximas, tais como: – a “lesão”: por viciar a própria “oferta” (aplicando-se a negócios “unilaterais”); por carecer da exposição do declarante a risco de “grave dano”; por exigir a “ciência” do declaratário quanto à vulnerabilidade (subjetividade); e por inadmitir “suplementação” conservativa – bem como a sua aplicação em hipótese estribada no “perfil” subjetivo do declarante (“inexperiência”); – o “estado de necessidade”: ainda que também se lastreie na idéia de “necessidade”, o ataque que viabiliza é desfechado quanto ao “plano da validade” (anulabilidade) – ao passo que na outra hipótese existe exclusão de “antijuridicidade” (que opera os seus efeitos no “plano da eficácia”); – a “coação”: embora também exista uma influência responsável pela dissociação entre “vontade” e “declaração”, o descompasso não provém do beneficiário da declaração (mas sim de fonte “estranha”) – sendo que esta só se mostrará viciada em caso de desvantagem intolerável; • No que concerne aos seus elementos, devem ser destacados: a) a “necessidade” do declarante; b) a “atualidade” (ou “iminência”) de dano “grave” (tomado em consideração o parâmetro do “homem médio”) – sendo necessária apenas a inequívoca constatação da “impressão” (ainda que o risco, objetivamente, não se tenha verificado); c) o “nexo causal” entre a iminência de dano e a declaração emitida; d) a incidência do perigo de dano sobre a pessoa do declarante ou sua família – podendo abranger terceiros (conforme as circunstâncias); e) o “conhecimento” (“efetivo” e “qualificado”) do perigo pelo beneficiado; não se admitindo – “de lege lata” – o simples conhecimento “potencial” (cf. arts. 148 e 154 CC) e aquele desprovido do “dolo de aproveitamento” – aplicando-se, neste último caso, o restabelecimento da situação anterior (art. 182 CC) ou suplemento previsto no art. 157, § 2º CC (solução esta que se estende, ainda, à hipótese de “desconhecimento” pelo destinatário); a) a assunção de obrigação excessivamente “onerosa” – rectius, “prejudicial” (por ser aplicável, inclusive, aos negócios gratuitos); sendo de se destacar que, neste caso, a desvantagem intolerável é “congênita” – e não “superveniente” (como na hipótese da “onerosidade excessiva” prevista nos arts. 478 e seguintes do Código Civil); Lesão. • A “lesão” corresponde ao defeito em que o declarante celebra “contrato” (em regra, negócio jurídico bi ou plurilateral) “sinalagmático” (em que a prestação de uma das partes justifica a prestação alheia) francamente desfavorável em virtude de “premente necessidade” ou de “inexperiência” – não necessariamente conhecidas do declaratário; • Trata-se de um defeito do negócio jurídico que foi (re)instituído pelo Código Civil de 2002 – tendo antecedentes históricos no Direito Romano, no Direito Comum medievo e nas sucessivas Ordenações do Reino de Portugal – na esteira de previsões contidas no âmbito da legislação extravagante, exemplificada pelo Decreto-Lei nº 869/38 (Lei da Economia Popular) e pela Lei Fed. nº 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor); 42 • Note-se que a “lesão” pressupõe uma “desproporcionalidade” entre as prestações das partes: – “congênita” (contemporânea à celebração do negócio jurídico) – e não “superveniente”, como na “onerosidade excessiva” (disciplinada pelos arts. 478 e seguintes do Código Civil e conducente à “resolubilidade” do negócio jurídico); e – que não é lastreada por uma “liberalidade” subjacente(não havendo, pois, o “animus donandi”); • A “lesão” não se confunde com outros defeitos do negócio jurídico, v. g.: – o “erro” e o “dolo” – por inexistir uma falsa representação da realidade (espontânea ou induzida); – a “coação” – pois a premente necessidade não é provocada pelo destinatário da declaração ou por terceiro (que tem por escopo provocar a celebração do negócio jurídico); e – o “estado de perigo” – pois inexiste a iminência ou atualidade de “grave dano” conhecido (bastando a “premente necessidade” ou a “inexperiência”); • Dois são os elementos que compõem a lesão: a) o “objetivo”: a “desproporcionalidade” entre as prestações (aferível pelo magistrado de conformidade com as peculiaridades do caso concreto); e b) o “subjetivo”: a “premente necessidade” (externa) do declarante ou a sua “inexperiência” (interna) – “vulnerabilidade” relacionada, v. g., à falta de conhecimentos técnicos relacionados ao contrato celebrado; • Note-se que na lesão (por inexperiência) o descompasso não se dá entre a “vontade real” do agente e sua “declaração” – sendo que, à semelhança do longínquo “benefício de restituição”, ambas é que destoam da presumível “vontade racional” (ou “razoável”) do “homem médio”; • Deve-se destacar que o art. 157 do CC exige apenas a lesão “simples” (ou “especial”) – não sendo pressuposto o “dolo de aproveitamento” que informa a lesão “usurária” ou “real” (art. 4º da Lei da Economia Popular); • O efeito principal da lesão será, ordinariamente, a anulabilidade do negócio jurídico (na forma do art. 171, II do Código Civil); contudo, o § 2º do art. 157 estabelece que a anulação poderá ser evitada por iniciativa do Réu, oferecendo respectivo “suplemento” ou a “redução” de seu próprio proveito – não nos parecendo admissível pedido “alternativo” (ou mesmo “subsidiário”) de restabelecimento do equilíbrio entre as prestações; Fraude contra credores. • A “fraude contra credores” corresponde ao “vício social” em que o devedor pratica ato lesivo ao seu patrimônio, já reduzido ou por meio de tal operação conduzido à “insolvência”, comprometendo, deste modo, a garantia “ordinária” de seus credores “quirografários” (cf. art. 957 CC); • Segundo a doutrina prevalecente, seus “elementos constitutivos” são: a) “objetivo” (“eventus damni” ou “insolvência”) – situação em que o “passivo” patrimonial supera o “ativo” (inconfundível com a mera “iliquidez”); e b) “subjetivo”: “consilium fraudis” (intenção de prejudicar terceiros) – e que poderia ser presumido (“praesumptio iuris et de iure”) quanto às alienações e onerações “gratuitas”; • Note-se que, em lugar de ensejar uma autêntica “presunção absoluta”, parece-nos simplesmente dispensável – (“ainda quando o ignore”) – o “consilium fraudis” no âmbito dos atos gratuitos (art. 158 CC); • Assim, a justificativa para a anulação dos atos praticados pelo devedor insolvente (ou levado à insolvência pela operação impugnada) repousaria: • quanto aos atos “gratuitos”, na necessidade de se proteger o interesse de seus credores precedentes, impedindo-se o seu “prejuízo” (em lugar de se garantir um “proveito” ao favorecido pela liberalidade atacada); e • quanto aos atos “onerosos” (art. 159 CC), na repugnância em relação à participação do adquirente “leviano” (“insolvência notória” e “consilium presumido”) ou “ciente” (“motivo para ser conhecida” e “consilium provado”); • Quanto aos atos “onerosos” do insolvente, depara-se o legislador com um conflito de interesses estabelecido entre o “prejudicado” e o “adquirente de boa-fé”; tendo optado, acertadamente, pela proteção deste último (inclusive para preservar a “segurança” do tráfico jurídico) – a respeito, cf. o art. 161 CC (em que se admite a “evicção” do terceiro de má-fé); • Destaque-se que nem sempre será possível provar o “consilium fraudis” de modo cabal; desta forma, em muitas vezes, este acabará defluindo de simples – porém “suficientes” – “indícios” (mecanismo de “prova indireta”), v. g.: • a “clandestinidade” da alienação; • bens alienados que permanecem na posse do devedor; • alienação a familiares; • falta de causa de alienação; • preço “vil” da operação; • alienação generalizada de todos os bens; etc.; • Seguindo-se, em larga medida, a orientação adotada pelo Código Civil de 1916, estabelece-se as seguintes hipóteses de atos caracterizadores da “fraude contra credores”: 43 • atos de transmissão gratuita de bens ou remissão de dívida (art. 158 CC) – v. g. doação, renúncia a herança ou a direito real (de fruição ou garantia), atribuição “espontânea” e “desinteressada” de direito real, “excesso” (em transação, confissão de dívida ou doação remuneratória) – sendo desnecessária a prova do “consilium fraudis”; • atos de transmissão onerosa (art. 159 CC) – desde que fique evidenciado o conhecimento “efetivo” ou “potencial” da insolvência por parte daquele que contratou com o insolvente (“notoriedade” ou “motivo para ser conhecida”) – preservando-se a validade da alienação, todavia, ao adquirente de boa fé; • pagamento antecipado de dívida (art. 162 CC) – hipótese de aplicação restrita ao credor “quirografário” (que não ostenta qualquer espécie de privilégio quanto ao recebimento do quanto lhe é devido) – passível de extensão aos credores privilegiados apenas naquilo que ultrapassar o montante das garantias existentes (rompendo-se a “par conditio creditorum”); • concessão fraudulenta de garantias (art. 163 CC) – somente se aplicando, presumidamente (“praesumptio iuris et de iure”), às garantias “reais” – mas não às fidejussórias (que não prejudicam os demais credores, uma vez que oriundas de patrimônio alheio) – com a desconstituição da cautela irregular (sem prejuízo, contudo, da dívida garantida, “ex vi” do “parágrafo único” do art. 165 CC); • O instrumento (material) para a preservação dos interesses do credor prejudicado pela “fraude contra credores” é a “ação pauliana” (ou “revocatória”) – que tem por aspectos principais os seguintes: • “natureza jurídica” – como é hipótese de “anulabilidade”, a sentença proferida é “constitutiva negativa” (e não “declaratória” de simples ineficácia relativa); • “legitimidade ativa” – credores “quirografários” (que já o eram à data da alienação) ou os “privilegiados” que tiveram as suas garantias desfalcadas ou tornadas insuficientes (art. 158, § 2º CC); • “legitimidade passiva” (art. 161 CC) – a envolver o alienante, a contraparte do negócio fraudulento e terceiros adquirentes de má-fé, que “devem” ser demandados em conjunto (litisconsórcio passivo “necessário” e “unitário”); • Quanto à alienação onerosa cujo preço ainda não tenha sido pago ao insolvente, observe-se que a procedência da “ação pauliana” pode ser evitada (e mesmo os “efeitos” da já julgada) por meio da “sanação” prevista no art. 160 CC; assim, a garantia de “idoneidade” da operação – mediante “consignação” judicial (que desfalca o “interesse de agir” do credor virtualmente prejudicado) – é suficiente para evitar a sua anulação; • O art. 164 CC prescreve a validade dos negócios “ordinários” celebrados de boa-fé (“praesumptio iuris tantum”) pelo devedor, desde que voltados à sua própria subsistência, à de sua família, ou à de seu estabelecimento empresarial – apurando-se “abstratamente” a respectiva necessidade; • Por fim, necessário se faz apresentar as linhas gerais que diferenciam a “fraude contra credores” da “fraude à execução”: • a “fraude contra credores” é fenômeno de “direito material” (que não pressupõe ação em curso) – ao passo que a “fraude à execução” é instituto de “direito processual” que supõe demanda ajuizada que pode levar o devedor à insolvência (cf. art. 593 do Código de Processo Civil); • a “fraude contra credores” é defeito do negócio jurídico conducente à sua “anulação” – enquanto a “fraude à execução” é incidente processual que redunda na simples “ineficácia relativa” de certa alienação; • na aquisição onerosa em caso de “fraude contra credores” é precisodemonstrar a má-fé – na “fraude à execução” a má-fé estaria “in re ipsa”; • a “fraude contra credores” pressupõe ação específica (“ação pauliana”) – ao passo que a “fraude à execução” há de ser reconhecida no curso da própria ação executiva (ou de ação incidente, como os embargos de terceiro); • o reconhecimento da “fraude contra credores” favorece todos os credores do insolvente – sendo que a constatação da “fraude à execução” beneficia apenas aquele que a postula; Aula 16 – Da invalidade do negócio jurídico (arts. 166 a 184, CC) Legislação envolvida: arts. 166 a 184 do Código Civil. • art. 166: nulidade do negócio jurídico; • art. 167: simulação; • art. 168: interesse na declaração da nulidade; • art. 169: negócio nulo não convalesce com o decurso do tempo; • art. 170: conversão substancial do negócio jurídico; • art. 171: anulabilidade do negócio jurídico; • art. 172: confirmação do negócio anulável; • art. 173: confirmação “expressa”; • art. 174: confirmação tácita (execução); • art. 175: confirmação e extinção das ações de impugnação; • art. 176: falta de “autorização” e manifestação superveniente; • art. 177: efeitos da anulabilidade; 44 • art. 178: prazos de anulabilidade (incapacidade relativa e defeitos); • art. 179: prazo de anulabilidade (subsidiário); • art. 180: relativamente incapaz e invocação de sua incapacidade; • art. 181: pagamento a incapaz e repetição excepcional; • art. 182: restituição ao “status quo ante” (anulação); • art. 183: invalidade do “instrumento” e invalidade do “negócio”; • art. 184: “utile per inutile non vitiatur”. Introdução. • A “invalidade” abrange a “nulidade” e a “anulabilidade”; excetuadas algumas hipóteses, contidas no próprio CC (e na legislação extravagante), pode-se afirmar que a sua disciplina está confinada, sistematicamente, na “Parte Geral” do CC – sede natural dos “elementos” de existência (cerne) e dos “requisitos” de validade (genéricos) – cabendo à “Parte Especial” disciplinar os “efeitos” dos negócios jurídicos; • Note-se que não foi acolhida a proposta de Clóvis do Couto e Silva no sentido de que a “lesão” e o “estado de perigo” fossem concebidos como hipóteses de “rescisão” do negócio jurídico (e não de simples “anulabilidade”); com efeito, a “rescisão” implica em ataque ao próprio fato jurídico – com reflexos sobre a sua respectiva “existência”; Negócio jurídico inexistente. • A “teoria do negócio jurídico inexistente” foi criada durante o século XIX para solucionar – “satisfatoriamente” (segundo a mentalidade de então) – situações não abrangidas pelo regime de nulidades (“pas de nullité sans texte”), notadamente na disciplina do casamento – v. g. identidade de sexos, falta de celebração, inexistência de consentimento, etc.; • Deve-se observar que a “inexistência” se caracteriza pela falta de elemento estrutural (declaração, objeto idôneo, tempo, lugar, forma, finalidade negocial e circunstâncias negociais): neste caso, o fenômeno “fático” não é absorvido pelo “mundo jurídico” – à vista da “não-incidência” da norma jurídica; • A “inexistência” deve ser “declarada” por sentença; para os que defendem que do nulo não se irradiam efeitos, idênticas seriam, enfim, as conseqüências em casos de “inexistência” e “nulidade”; • Contudo, deve-se observar que em certos casos o legislador pode atribuir efeitos ao “nulo”, ainda que o faça excepcionalmente; sendo possível, aliás, que o ato nulo venha a ser tomado como elemento integrante do suporte fático de regra jurídica diversa – v. g. a compra e venda nula que pode servir como “justo título” para viabilizar a aquisição pela “usucapião ordinária” (cf. art. 1242 CC); • Por outro lado, reconhecer efeitos ao inexistente seria uma “contraditio in terminis”; pois – sendo a atribuição de efeitos um “posterius” em relação à constatação da existência – ao “inexistente” (juridicamente irrelevante) jamais poderiam ser reconhecidos efeitos propriamente “jurídicos” – a respeito, cf. o aberrante art. 8º, “parágrafo único” da Lei Fed. nº 9.307/96 (dispositivo parcialmente inconstitucional à vista de sua contrariedade em relação ao art. 5º, XXXV CF); Nulidade. • A “nulidade” corresponde à “invalidade” de maior porte, decorrente da contrariedade a alguma norma de “ordem pública”; sendo insuscetível, por tal razão, de qualquer espécie de “sanação” – “confirmação” ou “convalidação” (pelo decurso do tempo), “ex vi” do disposto junto ao art. 169 CC; • No que concerne à suas espécies, as nulidades podem ser segregadas em: – nulidade “em sentido estrito” (ensejadoras de “declaração” e invocáveis por qualquer interessado) vs. “anulabilidade” (ensejadoras de “desconstituição” e de invocação restrita) – cf. arts. 168 e 177 CC; – nulidade “absoluta” (invocação ampla) vs. nulidade “relativa” (invocação restrita); – nulidade “total” (que atinge todo o negócio jurídico) vs. nulidade “parcial” (que macula somente parcela do negócio jurídico) – cf. art. 184 CC; – nulidade “textual” (dependente de cominação específica) vs. nulidade “virtual” ou “implícita” (por simples contrariedade ao comando do legislador) – a respeito, cf. o art. 166, VII CC; • As causas de nulidade previstas no art. 166 do Código Civil podem ser subdivididas em: – subjetivas – inciso I; – objetivas – incisos II, III e VI (cf. arts. 147, II c/c 1132 CC/16 e art. 496 CC); e – formais – incisos IV, V; Anulabilidade. • A “anulabilidade” corresponde à “invalidade” de menor porte, decorrente da contrariedade a norma resguardadora de interesses meramente particulares; por isso, admite “sanação” (pelo decurso do tempo) e mesmo “confirmação” pelas partes (arts. 172 a 175 CC); a esse respeito, devem-se destacar: 45 – a previsão quanto à “possibilidade” de confirmação pelos interessados – ressalvados os interesses de terceiros (art. 172 CC); – os “requisitos” de validade do ato de confirmação – consistentes na “substância” do ato confirmando e a “intenção” de o confirmar (art. 173 CC); – a desnecessidade de confirmação expressa em caso de confirmação “tácita” ou “implícita” – desde que o cumprimento se tenha dado com a ciência do vício maculador do negócio (art. 174 CC); e – a extinção das ações (e exceções) cabíveis, após a confirmação (art. 175 CC); • Excetuadas outras previsões esparsas – constantes do próprio Código Civil e da legislação extravagante – as “causas” de anulabilidade do negócio jurídico são as estabelecidas no art. 171 do CC: – incapacidade relativa (inciso I); – defeito do negócio jurídico (inciso II) – “erro”, “dolo”, “coação”, “estado de perigo”, “lesão” e “fraude contra credores”; – falta de assentimento (art. 176 CC); • A falta de assentimento pode dar ensejo a “nulidade” – por inobservância de “formalidade” essencial ao ato (art. 166, V CC) – ou “anulabilidade” (“convalidável”) – sempre que a lei assim expressamente o estabelecer (art. 176 CC); Diferenças entre nulidade e anulabilidade. • A respeito da distinção entre “nulidade” e “anulabilidade” (arts. 168 e 177 CC), podem ser apresentadas as seguintes diretrizes: quesito nulidade anulabilidade interesse envolvido ordem pública ordem privada suprimento inadmissibilidade admissibilidade confirmação inadmissibilidade admissibilidade reconhecimento “ex officio” admissibilidade inadmissibilidade sentença cabível declaratória (cf. posição excepcional) desconstitutiva efeito da sentença “ex tunc” “ex nunc” legitimidade ampla restrita inércia sem efeito, salvo direito de terceiro (art. 169 CC) decadência (arts. 178 e 179 CC) produção de efeitos ineficácia (salvo previsão expressa ou efeito oblíquo) efeitos até que proferida sentença • Note-se que: – quanto à natureza das sentenças, entendemos que a “ação de nulidade” – ainda que também dotada de eficácia “declaratória” – é preponderantemente “constitutiva”; assim, até que proferida uma sentença judicial, parece-nos existir apenas “causade nulidade” (e não “nulidade” propriamente dita); – a respeito da inércia do interessado – em ver reconhecida a “nulidade” – nenhum prejuízo lhe causará a sua abstenção em si mesma; contudo, a longo prazo, pode encontrar entrave em direito superveniente de terceiro (v. g. art. 214, § 5º da Lei Fed. nº 6.015/73); e por fim, – no que toca à produção de efeitos, do nulo podem ser irradiados certos efeitos indiretos, na qualidade de elementos integrantes do suporte fático de outras normas jurídicas (v. g. art. 1242 CC) – bem como se a lei assim o estabelecer de modo expresso (v. g. art. 1561 CC e art. 8º da Lei Fed. nº 9.307/96); Disposições especiais. • Algumas disposições merecem especial destaque no contexto do regime jurídico das invalidades: – a “nulidade do instrumento” não implica, necessariamente, na nulidade do ato representado (art. 183 CC): assim, ainda que a escritura tenha padecido de vício, não despontará nulidade salvo na forma “ad substantiam” (art. 108 CC); – “utile per inutile non vitiatur”: sempre que for possível o reconhecimento meramente “parcial” da invalidade, será efetuada a “segregação” do negócio jurídico, com o fito de que seja aproveitada a parte válida (art. 184 CC) – v. g. art. 1647, III CC (e a preservação da obrigação garantida); – incapacidade “relativa” do menor “malicioso”: a malícia do menor relativamente incapaz revela que este não merece a tutela especial decorrente do sistema de incapacidades erigido pelo Código Civil (art. 180 CC) – disposição “excepcional” que não se aplica, naturalmente, aos casos de incapacidade “absoluta”; 46 • “irrepetibilidade” genérica do pago ao incapaz: aquilo que foi desembolsado em favor de um incapaz é – via de regra – insuscetível de devolução (art. 181 CC) – salvo se evidenciado o “proveito” por aquele obtido com o investimento do quanto recebido em adimplemento obrigacional; – anulabilidade e restabelecimento do “status quo ante”: anulado o negócio jurídico, restabelecer-se-á, sempre que possível, a situação imediatamente anterior à sua celebração (art. 182 CC) – indenizando se a parte prejudicada com o equivalente sempre que não se mostre possível tal providência (v. g. “estado de perigo”); Conversão do negócio jurídico. • Como emanação do princípio da “conservação” do negócio jurídico, a “conversão” é expediente voltado a evitar que o reconhecimento da nulidade implique, inarredavelmente, na privação de todos os efeitos do ato; para se preservar a intenção das partes (e sem a necessidade de “repetição” da declaração de vontade), busca-se o “reenquadramento” da declaração, sob bases diversas daquelas em que fora deduzida; • Assim, admitem-se duas modalidades de conversão do negócio jurídico: – a conversão “substancial”, a fim de que seja promovido um novo enquadramento “material” da declaração – v. g. a aceitação intempestiva tomada como uma nova oferta; e – a conversão “formal”, para que seja promovido um novo enquadramento da declaração, sob a perspectiva da “solenidade” observada – v. g. a escritura pública dispensável preservada como um instrumento particular suficiente; • Note-se que deverão ser observados os elementos indispensáveis à conversão (art. 170 CC), quais sejam: – o “objetivo” – os requisitos do negócio jurídico – em que se converterá – deverão estar presentes; e – o “subjetivo” – a intenção presumidamente favorável à conversão, caso tivesse sido antevista a causa de nulidade – a qual não se mostrará presente ante manifestação “inequívoca” em sentido contrário; Simulação. • A simulação – disciplinada pelo art. 167 CC – corresponde “vício social” caracterizado pela deliberada desconformidade entre o “declarado” e a “vontade real” dos declarantes, decorrente do intuito de enganar terceiros ou de fraudar a lei; • Como “características” da simulação podem ser citadas: – a “bilateralidade” negocial ordinária – sendo a “unilateralidade” negocial excepcional; – a “consciência” de todos os envolvidos; – a “deliberada desconformidade” da declaração em relação à intenção; e – o intuito de fraudar a lei (ou de enganar terceiros); • No que toca às “espécies” de simulação, devem ser apartadas: – “absoluta” (em que inexiste negócio dissimulado ou subjacente) vs. “relativa” (em que o negócio simulado disfarça a operação dissimulada); – “ad personam” (interposição de pessoa); – “inocente” (sem prejuízo decorrente) vs. “fraudulenta” (prejudicial) – uma distinção meramente didática na atualidade; • Três são as hipóteses legais de simulação (art. 167 CC); – interposição de pessoa; – ocultação da verdade; – alteração de data; • O efeito principal da simulação é a subsistência do negócio dissimulado – sendo a simulação “inoponível” a terceiros de boa-fé; Aula 17 – Dos atos jurídicos lícitos (art. 185, CC) Legislação envolvida: art. 185 do Código Civil. Atos jurídicos em sentido estrito (art. 185, CC). • Com a classificação dos fatos jurídicos defluente da “taxonomia dos fatos jurídicos” já estudada, prescreve o legislador a aplicação aos atos lícitos que não forem negócios jurídicos – “no que couber” – das disposições do título a estes correspondente (v. g. representação, defeitos do negócio jurídico, etc.); • Reitere-se que os “fatos jurídicos em sentido amplo” podem ser divididos em: – “fatos jurídicos em sentido estrito” (acontecimentos da natureza ou “eventos”) – “ordinários” ou “extraordinários”; – “atos jurídicos em sentido amplo” (acontecimentos que pressupõem intervenção humana ou “condutas”); estes, por sua vez, se subdividem em: • “atos-fatos”: quando a conduta humana é equiparada à ocorrência natural (com predomínio da “atuação” sobre a “vontade” do agente); 47 • “atos jurídicos em sentido estrito”: em que se faz necessária uma vontade a se manifestar (conquanto seus efeitos derivem da própria lei, “ex lege”); e, por fim, • “negócios jurídicos”: em que se faz necessária uma vontade a se manifestar – de modo que seus efeitos derivem do quanto depreensível a partir da própria declaração (ou seja, “ex voluntate”); • Como tivemos ocasião de observar, os atos jurídicos “lícitos” (em sentido amplo) não pressupõem a aplicação de uma sanção; os atos jurídicos “ilícitos” (em sentido amplo), por sua vez, são o pressuposto da atuação sancionadora prevista pelo ordenamento; • Deste modo, o negócio jurídico pode ser tomado como o instrumento, por excelência, da “autonomia privada” (a qual, por sua vez, não pode ser confundida com a tradicional “autonomia da vontade”); • Por tal ordem de idéias, é necessário que se depurem as regras concebidas para o modelo do negócio jurídico e que são passíveis de extensão aos “atos jurídicos em sentido estrito” e aos “atos-fatos jurídicos”, que se subdividem em: – atos materiais – v. g. “ocupação” (art. 1263 CC); – atos lícitos indenizativos – v. g. responsabilidade civil objetiva do incapaz (art. 928 CC); – atos caducificantes – v. g. prescrição (arts. 189 e seguintes CC); Aula 18 – Dos atos ilícitos (arts. 186 a 188, CC) Legislação envolvida: arts. 166 a 184 do Código Civil. • art. 186: ato ilícito; • art. 187: exercício abusivo de direito; • art. 188: causas excludentes de antijuridicidade; Conceito. • O art. 186 do Código Civil modificou a orientação adotada pelo diploma precedente, no que concerne à definição de ato ilícito; com efeito, segundo o art. 159 do Código Civil revogado, assim se orientava a matéria: “Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano. A verificação da culpa e a avaliação da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código, arts. 1518 a 1532 e 1537 a 1553”; • Note-se que a disposição atual se distingue da orientação precedente à vista de três aspectos bastante peculiares: – em primeiro lugar, pela substituição da conjunção alternativa “ou” pela conjunção aditiva “e”; – em segundo lugar, pela substituição dotermo “prejuízo” pela expressão “dano”; e – finalmente, em virtude da expressa inclusão da menção ao dano moral (ainda que este desponte exclusivamente); • Ainda que as duas modificações derradeiras tenham sido extremamente salutares – uma vez que, consoante se depreende da noção de “externalidade negativa”, nem todo “prejuízo” corresponderá a um autêntico “dano” (passível, pois, de uma reparação “internalizadora”) – deve-se observar que a primeira, ainda que bem recebida pela doutrina, nos parece mais infeliz do que a orientação até então prevalecente, pois: – em primeiro lugar, deve-se destacar que os conceitos de “ato ilícito” e “responsabilidade civil” são autônomos – um concernindo à “qualificação” dos atos jurídicos e outro à estatuição sobre as suas “conseqüências”; – em segundo lugar, deve-se observar que pode haver “responsabilidade civil” sem “ato ilícito” – v. g. os “atos lícitos indenizativos” e a responsabilidade em caso de estado de necessidade (art. 929 CC); – em terceiro lugar, observe-se que pode haver “ato ilícito” sem “responsabilidade civil” – v. g. o incapaz (representado por tutor pobre) e que não tem como reparar o dano sem prejuízo de sua subsistência (art. 928 CC); – por fim, pode haver “responsabilidade civil” sem “dano” (cf. art. 416 CC); • Ou seja: a causação de um “dano” não está vinculada à “ilicitude” do ato (que decorreria, exclusivamente, de sua contrariedade a Direito); concernindo – tão somente – ao tema da “responsabilidade civil”; • Conclui-se que o equívoco do legislador de 1916 esteve no fato de que talvez tenha previsto bem, mas certamente o fez em local equivocado; buscando proporcionar reparação mesmo na atuação não-contrária a Direito (“atos lícitos indenizativos”), dispôs a respeito no art. 159 (atual art. 186 CC) – sendo que tal matéria deveria ter sido abordada, como exceção, junto às “obrigações por atos ilícitos” (cf. art. 927 CC); Responsabilidade contratual e extracontratual. • As responsabilidades “contratual” (rectius, negocial) e “extracontratual” (“aquiliana” ou extranegocial) podem ser diferenciadas quanto a variados aspectos – dentre os quais entendemos que podem ser destacados os seguintes: 48 – primeiramente, quanto à “fonte” de que promanam: enquanto a primeira pressupõe um “ajuste” em cujo contexto desponta o inadimplemento, a segunda se caracteriza pela inobservância de um “dever genérico” – de cautela (ou “cuidado objetivo”) – que se estende, indistintamente, a toda a coletividade; – além disso, o “ônus da prova” da culpabilidade somente exsurge ao prejudicado no contexto da responsabilidade “extracontratual” – ao passo em que a culpabilidade é “presumida” do simples inadimplemento no âmbito da responsabilidade “contratual” (cabendo ao inadimplente elidir a “praesumptio iuris tantum”); – a “incapacidade” pode ser um entrave no que diz respeito à responsabilidade contratual (uma vez que a própria celebração do negócio jurídico pressupõe o concurso do representante legal); mas não no que diz respeito à responsabilidade delitual, que é genérica por parte do incapaz – ainda que “subsidiária” e “mitigada” (conforme estatui o art. 928 CC); por fim, – a responsabilidade aquiliana exsurgirá mesmo em caso de culpa “levíssima” (“in lege Aquilia et levissima culpa venit”) – ao passo em que se admite certo “escalonamento” no âmbito da responsabilidade contratual (cf. art. 629 CC); Responsabilidade civil e responsabilidade penal. • O apartamento – puramente – metodológico entre as responsabilidades “civil” e “penal” é salutar, desde que se tomem certas cautelas – dentre as quais entendemos oportuno ressaltar as seguintes: – primeiramente, deve-se observar que certos autores defendem que a diferença entre as sanções civil e penal decorreria da natureza preponderante do próprio diploma em que se mostram encartadas (“Código Penal” vs. “Código Civil”); contudo, tal posição nos parece inteiramente equivocada, pois cremos que não importará o “locus” em que estiver inserida a norma jurídica, desde que não se perverta o objetivo meramente “reparatório” típico da sanção civil – por oposição ao triplo escopo típico das sanções penais [“retributivo”, “preventivo” (genérico e específico) e “pedagógico”]; – em segundo lugar, deve-se observar que as sanções penais não podem ultrapassar a pessoa do delinqüente (art. 5º, XLV CF) – ao passo que o dever de reparar o dano pode alcançar os sucessores do infrator; – em terceiro lugar, deve-se observar que a sanção penal é preponderantemente “pessoal” (podendo ter simples desdobramentos patrimoniais, excetuado o campo das contravenções); ao passo que a responsabilidade civil, como uma herança da “Lex Poetelia Papiria”, é preponderantemente “patrimonial”, na forma estabelecida pelo art. 957 do Código Civil – ainda que constitucionalmente autorizadas as excepcionais modalidades de prisão meramente “coercitiva” previstas no art. 5º, LXVII [nas hipóteses de “inadimplemento voluntário e inescusável” da obrigação alimentícia e de “infidelidade” do depositário (cf. Súmula Vinculante nº 25)]; – em quarto lugar, deve-se observar que a “culpa” é simples “pressuposto” da responsabilidade civil, não devendo a sua intensidade interferir – em linha de princípio – na correspondente indenização (cf. art. 944 CC); enquanto no âmbito da responsabilidade penal o “grau de reprovabilidade” da conduta (“culpabilidade”) acaba sendo parâmetro decisivo para a fixação da “pena-base” aplicada ao delinqüente (art. 59 CP); e, por fim, – deve-se observar que as sanções penais somente podem ser estabelecidas por “lei” (“legalidade estrita”, conforme estatuído pelo art. 5º, XXXIX CF); razão por que nos parece indispensável que toda sanção de “feição” penal observe o princípio da legalidade, ainda que inserida em um diploma como o Código Civil – a respeito, cf. o art. 944, parágrafo único CC e a tese sobre a admissibilidade de uma responsabilidade civil “punitiva” (“punitive damages”); Responsabilidade subjetiva e responsabilidade objetiva. • A principal diferença entre as responsabilidades “subjetiva” e “objetiva” está no fato de que é desnecessária a prova de culpabilidade do “demandado” nesta última; note-se que o emprego da expressão destacada põe em evidência a circunstância de que a principal repercussão da distinção se dá na seara processual, naquilo que se designa como dinâmica do “ônus da prova”; • No entanto, entrevemos que existem duas modalidades de responsabilidade “objetiva” inconfundíveis entre si: – a responsabilidade objetiva “processual” (em sentido amplo), em que não se exclui a temática da “culpabilidade” da controvérsia estabelecida entre as partes; apenas se estabelecendo uma presunção simples (“praesumptio iuris tantum”) em favor do lesado – abrindo-se ao demandado a possibilidade de provar que não incorreu em culpa (v. g. cf. art. 1527, I CC/16); – a responsabilidade objetiva “material” (em sentido estrito), em que a temática da “culpabilidade” não pode ser objeto de debate, à vista da presunção absoluta que a reveste (“praesumptio iuris et de iure”) – abrindo-se ao demandado apenas a possibilidade de se defender por meio do ataque aos demais pressupostos que informam a responsabilidade civil, tais como, v. g. via rompimento do “nexo de causalidade” (cf. art. 936 CC); 49 • A “responsabilidade subjetiva” continua sendo o paradigma reinante nas “relações interindividuais”; entretanto, prevalece a “responsabilidade objetiva” nas “relações entre o indivíduo e o grupo” – e daí a razão de ser, v. g., de normas como o art. 931 (risco-proveito) e o parágrafo único do art. 927 CC (risco-profissional); • Sob o prisma da “teoria geral do direito”, pode-se dizer que a “responsabilidade subjetiva” tem sido gradualmente derrogada pelo avanço paulatino da “responsabilidade objetiva”; • Entretanto, sob a perspectiva “sociológica”, é indiscutível a prevalência da variante objetiva, à vista de sua eleição como paradigma prevalecente noCDC – cf. arts. 12 e ss. (em especial arts. 14, § 4º e 28, § 4º); Imputabilidade e responsabilidade. • Deve-se observar que os temas da “responsabilidade” e da “culpabilidade” estão tradicionalmente jungidos desde há muito; contudo, o advento (e incremento) da responsabilidade “objetiva” tem justificado medidas de percussão do patrimônio do incapaz, ainda que este não venha a praticar conduta sobre a qual penda “reprovabilidade” (“culpabilidade”); • Desta forma, duas correntes se formam a respeito das condutas levadas a efeito pelo incapaz (com responsabilidade submetida ao art. 933 CC): – alguns, compreendendo que o “ilícito” é essencialmente um ato “reprovável” (culpável), entendem que os incapazes poderão responder – “subsidiária” e “limitadamente” – por condutas “lícitas” que acarretem prejuízo a outrem; – outros, contudo, entendem que inexiste vinculação umbilical entre “antijuridicidade” e “culpabilidade”, de modo que o incapaz praticaria ato “ilícito não-culpável” – à vista de sua “inimputabilidade”; • Note-se que a responsabilidade dos incapazes, ainda que “objetiva”, não será “direta” (mas apenas “subsidiária”); além disso, não poderá ser integral quando vier a comprometer a subsistência do próprio incapaz ou daqueles que dele dependam – assumindo, pois, uma feição “mitigada” (a respeito, cf. arts. 928, 932 e 933 CC); Pressupostos da responsabilidade extracontratual. • Tradicionalmente, quatro são os pressupostos da responsabilidade aquiliana (subjetiva): – conduta (ação ou omissão) – por ato próprio (“responsabilidade direta”), por ato de terceiro, bem como em decorrência de fato relacionado à coisa ou animal (“responsabilidade indireta”); – dano – necessário para justificar o pagamento de uma indenização pelo demandado (admitindo-se, em hipóteses excepcionais, a responsabilidade sem dano); – nexo causal – consistente no liame (“natural” ou “normativo”) entre a conduta e o resultado verificado – passível de afastamento nas tradicionais hipóteses de rompimento (“caso fortuito”, “força maior” e “culpa exclusiva” alheia); – culpabilidade – caracterizada pelo “dolo” (“direto” ou “eventual”) ou pela “culpa” (“lata”, “leve” ou “levíssima”) – consistente esta na inobservância do “dever de cuidado objetivo” (“imprudência”, “negligência” ou “imperícia”); • Note-se que, no âmbito civil, a “culpabilidade” é pressuposto da responsabilidade (mas não influi, via de regra, em sua intensidade); “excepcionalmente”, contudo, a responsabilidade civil “pode” estar vinculada ao grau de reprovabilidade da conduta do agente (art. 944, “parágrafo único”, CC) – tal como costuma ocorrer no âmbito penal (cf. art. 59 CP); • Merecem consideração especial certas hipóteses especiais de culpa, v. g.: – culpa “in eligendo”; – culpa “in vigilando”; – culpa “in comittendo”; – culpa “in omittendo”; e – culpa “in custodiendo”; Atos lesivos não considerados ilícitos. • Não se consideram “ilícitos” os atos que – conquanto abarcados pela hipótese do art. 186 CC – se justificam por terem sido praticados em: – legítima defesa (cf. art. 25 CP); – exercício regular de direito – desde que não evidenciado excesso (cf. art. 23, parágrafo único CP c/c art. 186 CC); e – estado de necessidade (cf. art. 24 CP); • Observe-se que o “estrito cumprimento do dever legal” também é excludente de antijuridicidade penal – encontrando-se, segundo parte da doutrina – abarcado “implicitamente” pelo art. 188 CC; • Ainda que não tenha atuado “ilicitamente” na hipótese de estado de necessidade, o causador do dano deverá reparar os prejuízos experimentados pelo terceiro inocente – tal como estabelecido pelos arts. 929 e 930 CC; • Deve-se destacar que não enseja ato ilícito o exercício “regular” de direito; contudo, o “abuso de direito” constitui ato ilícito expressamente vedado pelo art. 187 CC – sendo duas as perspectivas de abordagem da questão: 50 – subjetiva: toma-se em consideração o “comportamento” do titular do direito; – objetiva: leva-se em conta o “resultado” da conduta adotada pelo titular; • Assim, para os “subjetivistas” o abuso somente se caracterizaria diante da intenção de prejudicar (corrente “intencional”) ou do exercício culposo do direito (corrente “técnica”) – em todo caso, abordando-se a “conduta” do titular; • Por sua vez, para os “objetivistas”, o abuso se daria quando o direito fosse exercitado sem legítimo interesse (variante “econômica”) ou contrariamente à sua função social (variante “teleológica”) – de todo modo, voltando-se o estudioso ao “resultado” da “conduta”; • Assim, pode-se concluir que o Código Civil alemão (§ 226) acabou por adotar uma perspectiva “subjetivista” (na chamada variante “intencional”); • Por sua vez, o Código Civil soviético adotou uma perspectiva “objetivista” (segundo a corrente “teleológica”): “Art. 1º. Os direitos civis são protegidos pela lei, salvo nos casos em que são exercidos em sentido contrário à sua destinação econômica e social”; • E tal perspectiva foi consagrada pelo Código Civil brasileiro de 2002, que por meio de seu art. 187 não indaga a respeito: – da “intenção” do agente (subjetivista “intencional” – cf. art. 1228, § 2º CC); – da “culpabilidade” de sua conduta (subjetivista “técnica” – cf. art. 3º CPC/39); – da ausência de “proveito” (objetivista “econômica – cf. art. 1228, § 2º CC)”; • Com efeito, a atenção do legislador se voltou à relação de conformidade entre o exercício do direito e sua finalidade econômico-social (à moda soviética); eis o teor do art. 187 CC: “Art. 187. também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”; Aula 19 – Da prescrição e da decadência (arts. 189 a 211, CC) Legislação envolvida: arts. 189 a 211 do Código Civil. • art. 189: pretensão (extinção via prescrição); • art. 190: prescrição da exceção; • art. 191: renúncia à prescrição; • art. 192: prazos de prescrição (inalterabilidade); • art. 193: prescrição alegável em qualquer grau de jurisdição; • art. 194: conhecimento da prescrição pelo magistrado; • art. 195: prescrição prejudicial aos relativamente incapazes; • art. 196: aproveitamento do prazo decorrido ante o sucedido; • art. 197: prescrição que não corre (em consideração às pessoas); • art. 198: prescrição que não corre (por razões de ordem pública); • art. 199: prescrição que não corre (por razões de ordem técnica); • art. 200: fato objeto de simultânea persecução civil e penal; • art. 201: suspensão da prescrição (plúrimos credores); • art. 202: interrupção da prescrição (causas); • art. 203: quem pode interromper a prescrição; • art. 204: pluralidade de sujeitos nos pólos da relação jurídica; • art. 205: prazo subsidiário de prescrição; • art. 206: prazos específicos de prescrição; • art. 207: inaplicabilidade das normas prescricionais à decadência; • art. 208: decadência em face dos incapazes; • art. 209: renúncia à decadência legal (nulidade); • art. 210: conhecimento de ofício da decadência legal; • art. 211: decadência negocial (conhecimento em qualquer grau); Introdução. • A “prescrição” e a “decadência” são institutos caracterizados pela conjugação entre o decurso do “tempo” (a) e a “inércia” do titular de uma dada posição jurídica subjetiva ativa (b); tais elementos, reunidos, podem dar ensejo à extinção ou à aquisição de direitos subjetivos – daí a razão por que se alude, v. g., a duas modalidades prescricionais, vale dizer: – a extintiva – regulada na Parte Geral do Código Civil (arts. 189 a 206 CC); e – a aquisitiva – regulada pelo Livro III (Direito das Coisas) da Parte Especial do Código Civil, por meio da disciplina da “usucapião” (arts. 1238 a 1244 e 1260 a 1262 CC); • Tais institutos tem por finalidade proporcionar “estabilidade” (segurança) às relações jurídicas, repreendendo a inércia em prol do “interesse público” – no conflito entreos interesses do prescribente e do titular do direito mutilado; • Por tal ordem de idéias, tais institutos operam um efeito “sanatório” que impede que o exercício dos direitos possa se dar a qualquer tempo, sem que se observe qualquer limite temporal; buscando-se proporcionar a 51 indispensável “tranquilidade” ao tráfico jurídico, são utilizados, v. g., para justificar a aquisição da propriedade pelo decurso do prazo – mesmo em caso de transmissão “primígena” irregular; • Dentre os três princípios cardeais que nortearam a elaboração do Código Civil vigente (eticidade, socialidade e operabilidade), a “operabilidade” justificaria – em tese – a adoção de um critério simplificador para que se distingam as hipóteses de prescrição e decadência: – são (rectius, seriam) de “prescrição” os prazos estabelecidos nos arts. 205 e 206 CC; e – são (rectius, seriam) de “decadência” todos os demais; Conceito e requisitos. • Duas são as perspectivas fundamentais daqueles que estudam os institutos da “decadência” e da “prescrição”: – de um lado, existem aqueles que defendem que eles fulminariam o “direito” (decadência) ou a “pretensão” [bem como a “ação em sentido material” (prescrição)] relacionados a certo interesse juridicamente tutelado (direito subjetivo); e – de outro, existem aqueles que defendem que a superveniência da prescrição, v. g., não extinguiria a “pretensão”, mas apenas redundaria na atribuição de uma “exceção” ao sujeito passivo – que poderia tornar ineficaz a pretensão ainda existente do sujeito ativo; • O art. 189 CC estabelece que só com a violação do direito é que exsurge a pretensão; contudo, isso só se verifica quanto a uma das categorias de “direitos subjetivos em sentido estrito” (“direitos pessoais”), não se aplicando aos “direitos reais” e nem mesmo aos “direitos potestativos”; • Segundo Câmara Leal, quatro são os elementos informadores da prescrição: – “actio nata”; – prazo (decurso); – inércia; e – inocorrência de causa impeditiva, suspensiva ou interruptiva da prescrição em curso (arts. 197 a 204 CC); • Dá-se o nome de prescrição “intercorrente” àquela que sobrevém durante o curso de um processo, quando o Autor permanece inerte por um intervalo prolongado – dando-se ensejo, enfim, à superveniência do prazo após a sua interrupção (e ainda, pois, durante o curso da relação processual); Pretensões imprescritíveis. • Deve-se observar que a “prescritibilidade” é a regra e a “imprescritibilidade” a exceção; assim, podem ser consideradas imprescritíveis, v. g., as pretensões voltadas a proteger: – direitos de personalidade (abstenção) – mas não as relacionadas a eventuais violações (indenização); – estados – atreladas que estão à própria posição; – direitos reais – pois estão vinculadas aos próprios direitos subjetivos (“ius in re propria” e “iura in re aliena”); e – o erário nas hipóteses de improbidade administrativa (art. 23 da Lei Fed. nº 8.429/92); • A prescrição aquisitiva não se admite quanto aos bens públicos (arts. 183, § 3º e 191, parágrafo único CF c/c art. 102 CC) – bem como em favor daquele que não tem posse com “animus domini” (v. g. o depositário); • No que concerne aos direitos potestativos, não se deve cogitar de sua prescritibilidade, uma vez que estão sujeitos a prazos decadenciais – dando ensejo a sentenças “constitutivas” (e não “condenatórias”); Prescrição e institutos afins. • A “prescrição” é frequentemente aproximada de institutos afins que com ela não se confundem, tais como: – a “preclusão” (temporal) – que é a perda da prerrogativa processual de se exercer uma certa faculdade; e – a “perempção” – que é a perda da possibilidade de deduzir uma demanda em juízo (“ação em sentido processual”) em decorrência de três arquivamentos sucessivos sobre a mesma causa (art. 268, parágrafo único do CPC); • Contudo, é com a “decadência” que a prescrição tem uma proximidade maior; justificando-se a diferença entre os institutos, principalmente, pelos seguintes aspectos: – enquanto a decadência se relaciona a “direitos potestativos” (ensejando ações constitutivas negativas), a prescrição se volta aos “direitos subjetivos em sentido estrito” (viabilizando ações condenatórias); – enquanto a decadência atinge o próprio “direito subjetivo”, a prescrição fulmina tão somente a “pretensão” (e, por via reflexa, a exceção, “ex vi” do disposto junto ao art. 190 CC) – segundo a doutrina majoritária; – a prescrição pode ser impedida, suspensa (arts. 197 a 201 CC) e interrompida (arts. 202 a 204 CC) – enquanto só excepcionalmente a decadência pode ser suspensa (cf. arts. 207 e 208 CC); – a prescrição decorre de lei; a decadência também pode resultar da lei – embora possa ser instituída por negócio jurídico (arts. 209 a 211 CC); 52 Disposições legais sobre a prescrição. • A respeito da prescrição, devem ser destacadas as hipóteses seguintes: – art. 189 CC: estabelece-se que a pretensão somente exsurge com a violação ao direito – o que se pode admitir, no âmbito dos “direitos subjetivos em sentido estrito”, somente quanto às pretensões indenizatórias [mas não com relação aos direitos obrigacionais em geral (obrigação a termo) e quanto aos direitos reais (“in re propria” e “in re aliena”)]; – art. 190 CC: preceitua-se que com a prescrição fenece não apenas a “pretensão”, mas também a “exceção” (possibilidade de sua invocação pela via defensiva); – art. 191 CC: admite-se, excepcionalmente, a renúncia (expressa ou tácita) à prescrição – somente quanto àquela já consumada (e desde que proveniente de um agente capaz que não prejudique terceiro por meio de sua declaração); – art. 192 CC: não podem ser modificados os prazos prescricionais por acordo entre os interessados – à vista da natureza “cogente” da disciplina aplicável; – art. 193 CC: a prescrição pode ser invocada em qualquer grau de jurisdição – havendo ressalvas jurisprudenciais quanto à sua admissibilidade em meio às instâncias extraordinárias; – art. 194 CC: dispositivo revogado – estabelecendo-se, graças à Lei Fed. nº 11.280/06, a possibilidade de reconhecimento “ex officio” da prescrição (extintiva ou aquisitiva) pelo magistrado incumbido da analisar o feito (art. 219, § 5º CC); – art. 195 CC: atribui-se ação indenizatória ao relativamente incapaz e à pessoa jurídica em decorrência da desídia de seus (re)presentantes na defesa de seus interesses (ou da negligência em invocá-la oportunamente quando os beneficiem); e – art. 196 CC: admite a “accessio praescriptionis” – viabilizando-se a incorporação dos prazos já decorridos quando da sucessão (“inter vivos” ou “causa mortis”); • Note-se que: – Os prazos de prescrição podem ser alterados durante o seu respectivo curso (a respeito, cf. o art. 2028 CC); e – Não invocada a prescrição na primeira oportunidade, a inércia do prescribente, por si só, não implica em renúncia – mas tão somente na perda das verbas sucumbenciais a que naturalmente teria direito (art. 22 CPC); Das causas que impedem ou suspendem a prescrição. • As causas “impeditivas” e “suspensivas” do curso do prazo prescricional são as constantes dos arts. 197 a 199 CC, lastreadas: – na perduração de relações familiares (ou “de poder”) (art. 197 CC) – à vista da natural “confiança” inerente tais relações; – em questões de “ordem pública” (art. 198 CC); ou – em questões de “ordem técnica” (art. 199 CC); • Além disso, conforme o art. 200 CC, aplica-se o impedimento ao curso da prescrição antes do trânsito em julgado da sentença proferida pelo juízo criminal – o que se explica, especialmente, no âmbito das ações indenizatórias (que tiveram prazo reduzido na forma do art. 206, § 3º, V CC); • O art. 201 CC prevê que o impedimento/suspensão favorecedor de um dos credores solidários só beneficiará os demais em caso de “indivisibilidade”; • Note-se que o Código Civil de 2002 prevê que a prescrição somente poderá ser interrompida uma vez – por qualquer dos atos que integra o rol “taxativo” estabelecidopelo art. 202 CC; • Assim como já aventado a propósito da renúncia à prescrição (sob a perspectiva do devedor), observa-se que terceiros podem ser prejudicados pela superveniência da prescrição (credores do credor); assim sendo, sempre que despontar interesse de terceiro, este poderá interromper a prescrição (art. 203 CC); • Por fim, observe-se que as vicissitudes relacionadas à interrupção da prescrição no âmbito das obrigações com plúrimos sujeitos não afetam aqueles que não estão diretamente relacionados à causa interruptiva (salvo solidariedade) – a respeito, cf. o art. 204 CC; Aula 20 – Da prova (arts. 212 a 232, CC) Legislação envolvida: arts. 212 a 232 do Código Civil. • art. 212: prova (salvo forma “ad probationem”); • art. 213: confissão; • art. 214: irrevogabilidade da confissão (e invalidade); • art. 215: requisitos da escritura pública; • art. 216: certidões, protocolos de audiências e traslados; • art. 217: certidões e traslados dos registradores e tabeliães; • art. 218: certidões e traslados reputados instrumentos públicos; • art. 219: presunção de veracidade das declarações (signatários); 53 • art. 220: anuência/autorização; • art. 221: instrumento particular (e extensão de efeitos a terceiros); • art. 222: telegrama; • art. 223: cópia autêntica; • art. 224: documentos redigidos em língua estrangeira; • art. 225: reprodução fotográfica, cinematográfica, mecânica, etc.; • art. 226: livros e fichas dos empresários; • art. 227: prova exclusivamente testemunhal; • art. 228: inadmissíveis como testemunhas; • art. 229: fatos a respeito dos quais cabe escusa; • art. 230: presunções; • art. 231: recusa a exame médico necessário; • art. 232: recusa a perícia médica. Introdução. • A despeito de constar da disciplina afeta ao “negócio jurídico”, a disciplina desenvolvida entre os arts. 212 a 232 do Código Civil diz respeito a toda e qualquer espécie de “fato jurídico” – abrangidos, naturalmente, os “fatos jurídicos em sentido estrito”, os “atos-fatos” (atos materiais, atos lícitos indenizativos e atos caducificantes) e os “atos jurídicos em sentido estrito”; • Para que o meio de prova possa produzir seus efeitos, é indispensável que seja, simultaneamente: – “admissível” – devendo o meio de prova ser “lícito” (permitido em lei) e “legítimo” (obtido de maneira adequada); – “pertinente” – estando afeto ao fato jurídico que se relaciona ao direito alegado; e – “concludente” – leve à conclusão, pois, de que tal fato efetivamente se deu; • A matéria probatória é regulamentada pelo Código Civil e pelo Código de Processo Civil: ao Direito Civil incumbe disciplinar a “admissibilidade” dos meios de prova e o seu “valor” jurídico (v. g. o art. 227 CC e quais as obrigações quanto às quais se admite a prova exclusivamente testemunhal); já ao Direito Processual compete regulamentar – também sob a supervisão do Direito Constitucional – como a prova será produzida em juízo; • Assim, em disposição de fundo “material” (e não meramente “processual”), o art. 334 do Código de Processo Civil estabelece que independem de prova os fatos “notórios” (inciso I); contudo, não lhe compete demonstrar o direito aplicável à matéria, ressalvadas as hipóteses de legislação municipal, estadual, estrangeira – ou quando se tratar de direito consuetudinário; • Os meios de prova previstos no art. 212 do Código Civil compõem um rol meramente “exemplificativo” (não “taxativo”), admitindo-se outros, desde que moralmente legítimos (v. g. o “indício”); Confissão. • A disciplina dos efeitos civis da confissão está contida entre os arts. 213 e 214 do CC (combinados com os arts. 348 a 354 do Código de Processo Civil); aliás, de maneira duplamente censurável – por se embrenhar em assunto afeto ao direito material ao mesmo tempo em que consagra uma “definição legal” – o art. 348 do CPC conceitua-a como a admissão de um fato contrário ao interesse do “confitente” (e favorável ao “adversário”); • A confissão pode ser classificada em: – quanto ao ambiente no qual exsurge: “judicial” ou “extrajudicial”; – quanto ao elemento que a desencadeia: “espontânea” (não se confundam “espontaneidade” e “voluntariedade”) ou “provocada”; – quanto à presença de uma “intenção” de confessar: “expressa”, “tácita” ou “presumida” (a respeito, cf. arts. 302 e 319 CPC); • Deve-se observar que a confissão só é admissível quando: – produza reflexos quanto a direitos de que possa dispor o confitente (art. 213 CC c/c art. 351 CPC); – emanando de representante negocial, o procurador tenha poderes especiais para confessar (art. 213, parágrafo único e 661 CC); – relacionando-se a bens imóveis, abranger também a manifestação do cônjuge (art. 350, parágrafo único CPC); • Note-se que – consoante estabelece o art. 214 CC – a confissão derivada de erro (de fato) ou de coação pode ser objeto de ação anulatória – conquanto seja “irrevogável”; Documento. • Primeiramente é preciso observar que não se podem confundir a forma atrelada à validade do negócio jurídico (“ad substantiam”) – disciplinada, v. g., nos arts. 108 e 166, IV CC – com a noção de “documento”, respectivamente voltada à disciplina da “prova” (forma “ad probationem”); 54 • No que diz respeito à prova documental, devem ser diferenciados – conquanto ambos façam a mesma prova que os originais (arts. 216 a 218 CC) – ainda: – o “traslado” – como cópia de ato judicial ou extrajudicial; e – a “certidão” – com o extrato de determinado fato ou circunstância, podendo ser completa ou integral (“verbo ad verbum”) ou sintetizada (“breve relato”); • Além disso, devem ser destacadas as principais regras relacionadas à disciplina da prova documental: – art. 215 – contendo os requisitos indispensáveis à escritura pública, tal disposição, quando desrespeitada, pode levar à nulidade do negócio jurídico, por inobservância de formalidade essencial ao ato (art. 166, V CC); – art. 219 – deve-se observar que a presunção aí estabelecida é simples (“praesumtio iuris tantum”) e encontra limitações “subjetivas” (abrangendo apenas as partes que concorrem a declarar) e “objetivas” (envolventes apenas das disposições principais e da legitimidade das partes); – art. 220 – conquanto esteja prevista a matéria em meio à disciplina da “prova”, estabelece-se a “simetria” formal entre o negócio jurídico principal e a anuência que se volta à sua plena validade (a respeito, cf. art. 166 CC); – art. 221 – estabelece-se a força “probante” do instrumento particular (o que não implica, necessariamente, em sua validade); observe-se, contudo, que a oponibilidade “erga omnes”, neste caso, depende da utilização do sistema de registros públicos – como ressalva a parte final da disposição ora analisada; – art. 222 – disciplina da força probante do telegrama; – art. 223 – disciplina da força probante da cópia autenticada – embora não possa ser suprida a “cartularidade” inerente à disciplina dos títulos de crédito; – art. 224 – disciplina da “força probante” do documento redigido em língua estrangeira (conquanto se aluda a “efeitos legais no País”); – art. 225 – disciplina da força probante das reproduções (fotográficas, cinematográficas, fonográficas, mecânicas ou eletrônicas); – art. 226 – disciplina da força probante dos livros e fichas dos empresários; Testemunha. • A testemunha corresponde ao elemento humano de representação de fato ou ato jurídico que se pretenda provar; a seu respeito, três disposições principais são devotadas pelo Código Civil vigente: – art. 227 – disciplina da força probante da prova “exclusivamente” testemunhal de negócio jurídico – conquanto haja tendência a se admitir a prova exclusivamente testemunhal dos seus efeitos (ainda que o valor destes exceda à taxa legal; – art. 228 – disciplina relacionada àqueles que não podem ser admitidos omo testemunhas; – art. 229 – disciplina relacionada à imunidade daquele que, em princípio, poderia ser admitido como testemunha; Presunção.• A presunção é a tomada de um acontecimento “provável” como verdadeiro – que não se confunde com a “ficção”, que é a tomada de um acontecimento “falso” como “verdadeiro” (para fins operacionais, v. g. art. 3º da LINDB); toma-se como provada um acontecimento ou circunstância, graças à presença daquele que é o seu antecedente habitual (ordinário); • As presunções podem ser (art. 230 CC): – legais (“iuris”) – estabelecidas pela própria lei; ou – comuns (“hominis”) – decorrentes da experiência, daquilo que de ordinário se verifica; • As presunções legais podem ser divididas em: – “absolutas” (“praesumptio iuris et de iure”) – as quais não admitem prova em contrário; – “relativas” (“praesumptio iuris tantum”) – que admitem prova em contrário; Perícia. • As perícias podem ser divididas em: – “exames” – realizados por peritos judiciais, tendo por finalidade constatar; – “vistorias” – realizadas “ad perpetuam rei memoriam”, têm por fito preservar (conservar) a eficácia probante; e – “avaliações” – por meio das quais se busca estimar (mensurar); • Deve-se observar que as duas disposições relacionadas à eficácia probante da prova pericial correspondem a inovação do Código Civil de 2002, quais sejam: – recusa a “exame médico necessário” (art. 231 CC); – recusa a “perícia médica” determinada pelo magistrado (art. 232 CC); 55