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Este trabalho foi escrito entre os anos 2016-2018, período que o Brasil sofreu o golpe jurídico-parlamentar-midiático que depôs a primeira mulher presidenta do país e, posteriormente, condenou ilegalmente o primeiro operário nordestino a ocupar a presidência da República. Em 2018, a jovem democracia completaria 30 anos, mas foi alvejada de morte no “estado de exceção” instalado, em que o Direito foi suspenso e reinou a arbitrariedade dos imperialistas. Os condenados do Sul do mundo lutam não só por uma segunda abolição, como também por uma segunda democracia, erigida pelo povo e para o povo. Dedico, portanto, este trabalho ao povo brasileiro, herdeiro direto dos povos originários, que, organizados em defesa dos sonhos de muitos, se levantou em massa e fez dos tempos sombrios longas primaveras de luta. Viva esta brava gente! AGRADECIMENTOS “Minha primeira lembrança de felicidade, quando era uma pirralha magrela e desgrenhada, é a de mexer ao som dos tambores...A música é um vento levado pelos anos, pelas lembranças e pelo temor, esse animal preso que carrego dentro de mim. (...) Dance, dance, Zarité, porque escravo que dança é livre...enquanto dança. Eu sempre dancei.” 1 Nesta dança de libertação da mente dos processos violentos de colonização e epistemicídio, há muitos braços que nos empurram para frente e encorajam a ocupação de espaços como esse. Agradeço primeiramente à minha família, em nome de meus pais, irmão e primas. Ao meu pai, por me entregar todo o apoio possível para seguir caminhando a passos largos, por ser a razão negra que conheço desde menina; à minha mãe, pela presença constante e amor cuidadoso; ao meu irmão, pelo companheirismo; às minhas primas Larissa e Natália, pela irmandade doce e amiga. Agradeço à minha orientadora Vanessa Berner, por aceitar entrar nesta jornada comigo, pelo acolhimento de portas abertas e por me propor lentes decoloniais durante o mestrado da UFRJ. À Riccardo Cappi, eterno orientador amado, por me apresentar a criminologia crítica, por brincar com minhas certezas, por nos fazer rebeldes contra a violência penal e pelo suporte fundamental desde as primeiras inquietações até o produto �nal desta pesquisa. Às professoras Marília Montenegro, Fernanda Rosenblatt e Carolina Salazar gratidão pela oportunidade de acompanhar a pesquisa “Entre práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder Judiciário”. À CAPES, pela bolsa concedida que garantiu a exequibilidade deste trabalho. À Marcha Mundial das Mulheres, especialmente ao núcleo Rosa dos Ventos, por me colocar em movimento orientada pelo feminismo popular. À Consulta Popular como um todo, mas especialmente à do Rio de Janeiro, por me inserir nas lutas gerais do povo na construção permanente de um mundo novo. Grata pela solidariedade e pelas jangadas de esperança saídas para o mar. Agradeço, por �m, aos negros e negras em diáspora, pela chama que queima na busca por sobrevivência e luta pela liberdade plena, por operarem em mim esta força ancestral e adoçarem a memória dos tempos de resistência de ontem que inspiram a resistência de hoje. 1 ALLENDE, Isabel. A ilha sob o mar (1942). Tradução Ernani Só. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. APRESENTAÇÃO Bebo da poética das mulheres que pisam o chão descalças, sentem as pedras, a terra, suportam as estações e atravessam os tempos da história. Assim como Conceição Evaristo (2009, p.18) se vê no ato de transmitir a fala, “quando escrevo, quando invento, quando crio a minha �cção, não me desvencilho de um ‘corpo-mulher-negra em vivência’ e que, por ser esse ‘o meu corpo, e não outro’, vivi e vivo experiências que um corpo não negro, não mulher, jamais experimenta”. Assim também me sinto e vejo no processo de interpretar o mundo, pisar nele e caminhar para transformá-lo, trilhos estes que não escolhi, mas me escolheram. Não sou mulher, sou mulheres. Minha consciência é plural, assim como meu sujeito. Carnes fatigadas, léguas e léguas de preterimentos, invisibilizações e silenciamentos. Carnes baratas do mercado ardem e exibem a fúria dos povos espoliados na hora da verdade: nesta terra em transe, nossa loucura é nossa consciência e está aqui na luta, na resistência. É um tempo de guerra. Mas outrora representou paz para quem? A luta de classes é uma guerra constante e sentencia à morte os deserdados desde o seu princípio. É a partir deste sertão de corpos de mulheres, negros(as) e pobres empilhados que vou doar minha voz latina para compreender o funcionamento penal de estigmatização e aniquilamento com as populações marginais. Para entender a tônica das relações sociais no Brasil, urge compreender como operou a violência outrora colonial e, agora, capitalista/patriarcal/racista. Este mapeamento nos remete aos processos históricos de dominação e subalternização, orientados pelo projeto da modernidade a partir do eurocentrismo e dos mitos fundacionais de superioridade e inferioridade. Os dispositivos de poder e de ‘invenção do outro’ a partir da lógica binária/excludente, fruto da racionalidade moderna, foram fundamentados pela ideia de raça e �zeram da América Latina um lugar de extração, seja de riquezas, seja da vida dos povos. Essas vidas são extraídas, dentre muitas formas, pelo extermínio físico, pela coisi�cação, pela exploração do trabalho ou, através da pena por excelência do capitalismo, o encarceramento. A prisão reúne muitas formas de apagamento, representa a modernização das tecnologias punitivas que impõe novas roupagens, mas continua expressando que “a carne mais barata do mercado é a carne negra” (salve Elza Soares!) e pauperizada. As permanências autoritárias e racistas no continuum punitivo e na maneira de atuar do sistema penal atualizam as formas de encarceramento: o aprisionamento pela raça, pela classe, pelo gênero. O sistema penal se caracteriza por uma e�cácia instrumental invertida em que a função real não é combater (reduzir ou eliminar) a criminalidade, protegendo bens jurídicos universais e gerando segurança pública e jurídica, mas, ao invés, construi-la seletiva e estigmatizantemente, e neste processo reproduzir, material e ideologicamente, as desigualdades e assimetrias sociais de gênero, raça e classe. A ine�cácia do sistema penal é sentida também no âmbito de proteção das mulheres contra a violência, porque não previne novas violências, não escuta os distintos interesses das vítimas, não contribui para a compreensão do signi�cado da violência para gestão do con�ito, e muito menos para a transformação das relações de gênero. Assim, é estruturalmente incapaz de oferecer alguma proteção à mulher e responde com o castigo, desigualmente distribuído e não cumpre as funções preventivas (intimidatória e reabilitadora) que se lhe atribuem. O avanço do capitalismo neoliberal aprofunda contradições sociais estruturais e re�na seus instrumentos de controle da vida das mulheres, seja pela condução natural do acirramento da luta de classes, personi�cada na dinâmica conservadora estampada nos interesses político-econômico- ideológicos, seja pelo lugar conferido ao Direito nesta lógica espoliativa: o de fortalecer uma política de gênero violenta. Para tentar sanar esta incapacidade protetiva, preventiva e resolutória dos crimes de gênero é que nos associamos àqueles e àquelas que defendem a multiplicação da prática da Justiça Restaurativa, pois que é processo participativo, democrático e formativo. A prática restaurativa foge à didática operacional do castigo como resposta reparadora ao crime, confronta a justiça penal tradicional a começar pela concepção de justiça e crime a partir da criminologia crítica, principalmente de quem é o criminoso e quem é a vítima, bem como da falência do sistema penal a partir das bases do abolicionismo penal, deslocando o senso comum teórico2 para a subjetividade por detrás do con�ito. É um Direito do encontro e do consenso, e não da força sancionatória,uma vez que foca na restauração das relações intersubjetivas e comunitárias afetadas pelo crime, na solução do con�ito, na reparação dos danos e dos traumas, na satisfação das partes (vítimas, infrator e comunidade). Forma de devolver o con�ito antes apropriado pelo Estado aos verdadeiros protagonistas, confere elemento participativo e democrático ao modelo restaurativo e descontrói uma ideia de justiça da ordem para uma justiça horizontal do debate. No entanto, sabemos que a ideologia sexista, classista e racista instrumentaliza os modos de agir nas relações materiais, consolidando direta ou indiretamente sistemas de dominação- exploração. Por ser assim, a questão que se coloca é: quais as condições de possibilidade de se realizar um procedimento restaurativo, fundado na igualdade, paridade e horizontalidade se entre as partes envolvidas já existe um poder hierarquizado pré-estabelecido socialmente pela ideologia de classe, gênero e raça? O patriarcado é associado ao capitalismo e ao racismo como fontes formais e materiais de produção de consenso opressor. Nesse sentido, foram analisadas as opressões através da transversalidade em que incorrem nos(as) sujeitos(as), pensando-as como um nó, na medida em que atuam conjuntamente e aprofundam a objeti�cação dos indivíduos, ao tempo em que demarcam que a violência é declarada, mas também simbólica e travestida nos discursos e modos de agir dentro e fora do sistema. Transdisciplinar por excelência, o tema da violência sexista focado na violência doméstica transita entre as categorias citadas, mas está �rmado na perspectiva de gênero e, portanto, da criminologia feminista. O sistema penal androcêntrico é contestado a partir das respostas dadas aos con�itos, de modo que entre as funções não-declaradas do sistema penal está a revitimização das mulheres submetidas ao processo penal. Da imersão nos modos de produção como bases para organizar a opressão de raça/classe/gênero, denúncia de morte em vida provocada pela operatividade do sistema penal à crítica da crítica com a Justiça Restaurativa, este trabalho como toda orientação marxista, é matéria em movimento, é processo e será construído com as lentes menos colonizadas que possível for. A pesquisa se pretende enquanto processo coletivo e instrumento da e para a luta feminista e abolicionista, afastando o fetichismo normativo achado na lei para rea�rmar o direito achado nas ruas, revertido a uma orientação comunitária e de pés �rmes contra a violência travestida de justiça social. Portanto, este é um pontapé para avançar no debate criminológico crítico a respeito da violência doméstica com uma perspectiva feminista abolicionista, por sabermos das nuances sutis da contradição em defender as vidas das mulheres ao custo do aprisionamento de homens subalternizados na sociedade a ponto de contribuir para o apagamento simbólico das comunidades negras. Não nos isentamos, todavia, de fazer a crítica da crítica, analisando as condições de possibilidade da execução das práticas restaurativas dadas as peculiaridades brasileiras. Os homens e mulheres alienados do processo espoliativo das sociedades do Sul global transformados em bagaço (sem desfrutar do suco do capital) fazem parte da história da gente que virou suco3 e também da gente que constata esse contínuo esmagar de pessoas, essa estrutura que rouba a dignidade humana. A dissertação é, portanto, a história da mulher e do homem que não querem virar suco, que se opõem à pasteurização de suas vidas, que lutam contra a constante opressão sofrida, desde o depósito em porões da miséria, até a violência do Direito que não nota sua presença, não distingue sua diferença e o(a) marginaliza, condenando-o(a) a um crime que nunca cometera. Este sujeito da história, que se apropria de sua consciência de classe, deixa de ser mais um(a) de vida severina para transformar as secas vidas do povo. 2 Warat, L.A – Saber crítico e o senso comum teórico dos juristas. Revista Sequência, 1982. 3 Referência ao �lme “O homem que virou suco”, de 1981, dirigido por João Batista de Andrade, que conta a estória de um poeta nordestino confundido com um assassino e criminalizado. É uma sátira do capitalismo e sua mão nada invisível para punir os pobres. SUMÁRIO Capa Folha de Rosto Créditos I. O MUNDO COLONIAL NÃO SUPLANTADO: A VIOLÊNCIA CAPITALISTA-PATRIARCAL-RACISTA I.1. O fetiche da colonialidade: “eis que me descubro objeto em meio a outros objetos”4 I.2. Escravismo, colonização e capitalismo dependente I.3. “A morte reiterada na vida e a vida que habita a máscara da morte”: das mortes em vida do negro I.4. Desatar os nós I.5. Amandla Awethu20: negros(as) do mundo, aquilombai-vos! II. ABOLICIONISMO PENAL E APONTAMENTOS TEÓRICOS SOBRE JUSTIÇA RESTAURATIVA SOB A PERSPECTIVA file:///tmp/calibre_4.23.0_tmp_HP7UzL/OEbKWy_pdf_out/OEBPS/Text/capa.xhtml FEMINISTA II.1. Punição estrutural: a laranja mecânica23 do dia a dia II.2. A parte que lhe cabe neste latifúndio: a fábrica do cárcere II.3. Em busca das promessas perdidas30: o direito penal desmisti�cado II.4. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”31 II.5. A caminho do horizonte estratégico: as propostas abolicionistas II.6. “Em que meu olhar permite ver as coisas?”39: trocando as lentes III. NOVAS SENTENÇAS, VELHOS CATIVEIROS, VELHOS PERSEGUIDOS III.1. Estado da arte da violência contra mulheres no Brasil III.2. Introduzindo a pesquisa-paradigma e a lei de Marias III.3. Potencialidades e riscos da justiça restaurativa em casos de violência doméstica no Brasil III.4. O gênero da violência e a crítica da criminologia48 III.5. E as condições de possibilidade? III.6. Para abolir uma linguagem-fronteira: uma linguagem-percurso como resposta-percurso IV. CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICE - ENTREVISTA COM UM COMUNISTA ZAMBIANO I. O MUNDO COLONIAL NÃO SUPLANTADO: A VIOLÊNCIA CAPITALISTA-PATRIARCAL-RACISTA I.1. O fetiche da colonialidade: “eis que me descubro objeto em meio a outros objetos”4 “Falo de milhões de homens/Em quem deliberadamente inculcaram o medo/O complexo de inferioridade, o tremor/A prostração, o desespero, o servilismo.” (Aimé Césaire, 2006) Um dos maiores estudiosos da diáspora africana, Frantz Fanon, na introdução da sua tese Pele Negra, Máscaras brancas (2008), ao nos falar das clausuras da branquitude e da negritude como construções do colonialismo, diz existir uma “zona de não-ser”, um espaço de negação da existência em que o negro foi despejado, constatando, com pesar, que na sociedade de bases coloniais o destino do negro é branco. Denuncia a morte em vida que é o estado estéril de não-humanidade a que estão sujeitos os colonizados do mundo. Demarcando o sentido materialista que orienta a análise, evidencia que a verdadeira desalienação do negro implica na tomada de consciência das realidades econômicas e sociais, pois que o complexo de inferioridade acontece após um duplo processo: inicialmente econômico e em seguida pela “epidermização” dessa inferioridade, isto é, a interiorização, a gravação na pele do lugar de poder que cabe a cada um. As relações modernas5 de poder têm caráter dualista e excludente, pautadas no dispositivo que constrói o outro mediante uma lógica binária que reprime as diferenças. A máquina que garante a engrenagem desta perspectiva é o eurocentrismo, modo de produzir conhecimento que opera como espelho a distorcer o que re�ete. Todos os povos submetidos ao poder colonial foram conduzidos a aceitar a imagem europeia re�etida como se sua fosse. A violência colonial se manifesta, dentre outras formas, na negação da diferença e na destruição paulatina da cultura das Américas, da linguagem às experiências históricas, aniquilando as nações ora por extermínio físico, ora por apagamento cultural. Esse movimento de disciplinar os per�s de subjetividade a partir de coordenação estatal conduz ao fenômeno da “invenção do outro” (CASTRO-GÓMEZ, 2005), muito ligado aoprocesso de produção material e simbólica no qual se viram envolvidas as sociedades ocidentais a partir do século XVI. A respeito dos mecanismos disciplinares de poder no contexto latino- americano do século XIX, Beatriz González Stephan (1995) identi�ca três práticas disciplinares que contribuíram para forjar os cidadãos: as constituições, os manuais de urbanidade e as gramáticas do idioma. Ela segue o teórico uruguaio Angel Rama ao dizer que essas tecnologias de subjetivação possuem um denominador comum: sua legitimidade repousa na escrita e essa lógica da civilização pela linguagem faz parte do projeto colonizador. É neste sentido que Silvia Cusicanqui (2010) coloca a retórica da igualdade e da cidadania como uma caricatura para encobrir privilégios culturais e políticos. A aquisição de cidadania é tática de ajuste ao tipo de sujeito requerido pelo projeto da modernidade: homem, branco, pai de família, católico, proprietário, letrado e heterossexual, o qual cabe muito bem no formato do bom burguês. Os “outros” - mulheres, empregados, loucos, analfabetos, negros, hereges, índios, escravos, homossexuais, dissidentes, migrantes - �cam de fora da cidade “letrada”, reclusos no âmbito da ilegalidade, submetidos ao castigo por parte da mesma lei que os exclui. E, por isso, a autora boliviana destacava, já em 1983, em sua obra Oprimidos pero non vencidos, a necessidade de uma descolonização das estruturas políticas, econômicas e mentais da Bolívia, cujas reformulações legais e constitucionais continuaram reproduzindo práticas de exclusão e dominação6. Os países de terceiro mundo, classi�cação que Arturo Escobar (1996) coloca como parte do processo de subjugo e disputa de poder7, estão sujeitos a um duplo ou triplo tipo de violência: a violência estrutural, base das desigualdades entre países considerados de primeiro mundo e terceiro mundo; e uma violência simbólica, de operação sutil e de caráter cultural, com função legitimadora das formas estruturais e diretas. A violência cultural se apresenta por meio dos discursos, símbolos, metáforas, religiões, assim como a violência epistêmica se relaciona com a dualidade saber- poder, estudada por Foucault, com temas relativos à produção e à maneira pela qual o poder se apropria e condiciona o conhecimento, determinando aquilo de primitivo, selvagem e descartável. Em outras palavras, os discursos patrocinados pelo projeto da modernidade não toleram as epistemologias alternativas8 e pretendem negar a alteridade e a subjetividade dos outros de forma a perpetuar a opressão dos saberes e justi�car a dominação. E é o Estado, como garantidor da organização racional da vida humana, que detém também o monopólio da violência para �ns de dirigir as atividades dos cidadãos - Walter Mignolo (2000) aborda o Estado-nação como uma maquinaria geradora de “outredades” que devem ser disciplinadas. Nesse sentido, Gayatri Spivak (2003) problematiza o modo como o sujeito do terceiro mundo é representado no discurso ocidental, denunciando o projeto da modernidade como exercício da violência epistêmica e relacionado ao vínculo conhecimento-disciplina. Esta violência epistêmica se constitui em uma forma de exercer o poder simbólico e é um conceito que consiste na negação e no apagamento de signi�cados da vida de indivíduos e grupos. Ao identi�carmos que o ponto de partida para a construção das representações dos sujeitos é o dispositivo de saber/poder, essencial é localizar o conceito de colonialidade do poder9 (QUIJANO, 1999, pp. 99- 109), mecanismo que gera o sistema-mundo. Para Quijano, a espoliação colonial é autorizada pelo imaginário que estabelece diferenças incomensuráveis entre colonizador e colonizado. Aqui as noções de raça e cultura operam como dispositivos categorizadores que geram identidades opostas. O colonizado é o “outro”, fato que legitima o exercício de um poder disciplinar que parte do colonizador. As identidades são excludentes entre si: enquanto o colonizado é associado à maldade, selvageria, barbárie, o colonizador aparece vinculado à bondade, civilização e racionalidade. Com esse panorama, fácil é identi�carmos o viés maniqueísta que orienta essa dualidade de pensamento e, consequentemente, o controle social seletivo. Para isso Castro-Gómez (2005, p.83) conecta: O conceito da colonialidade do poder amplia e corrige o conceito foucaultiano de poder disciplinar, ao mostrar que os dispositivos panópticos erigidos pelo Estado moderno inscrevem-se numa estrutura mais ampla, de caráter mundial con�gurada pela relação colonial entre centros e periferias devido à expansão europeia. Deste ponto de vista podemos dizer o seguinte: a modernidade é um projeto na medida em que seus dispositivos disciplinares se vinculam a uma dupla governamentabilidade jurídica. De um lado, a exercida para dentro pelos estados nacionais em sua tentativa de criar identidades homogêneas por meio de políticas de subjetivação; por outro lado, a governamentabilidade exercida para fora pelas potências hegemônicas do sistema- mundo moderno/colonial, em sua tentativa de assegurar o �uxo de matérias-primas da periferia em direção ao centro. A expansão comercial, a dinâmica de troca de mercadoria entre centro e periferia e a vigilância/domínio sobre os sujeitos dialogam com a relação de superioridade/inferioridade entre dominador e dominado patrocinada pelo eurocentrismo. A respeito disso, importante demarcarmos como a ideia de raça nas Américas é uma maneira de legitimar as relações de dominação impostas pela conquista (QUIJANO, 2005). A elaboração teórica da raça surge, oportunamente, como ferramenta de naturalização dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não-europeus. A maioria dos teóricos sociais dos séculos XVII e XVIII, resgata Castro-Gómez (2005), coincidia na opinião de que a espécie humana caminha da ignorância à iluminação em um processo crescente até chegar ao aperfeiçoamento representado pelas sociedades modernas europeias. O primeiro estágio de desenvolvimento, relatado pelos navegantes era o das sociedades indígenas, retratadas com as características da selvageria, barbárie e ausência completa de arte, ciência e escrita. A América era sinônimo de superstição, primitivismo, guerra de todos contra todos, “estado de natureza”, tal qual teorizado por Hobbes. O estágio mais alto do progresso humano estaria representado pelas sociedades europeias, onde reinariam a civilidade, o Estado de Direito e o cultivo da ciência e das artes. A conformação colonial do mundo entre ocidental ou europeu, concebido como moderno e avançado, e os “outros”, restante dos povos e culturas, é inaugurada, segundo Edgard Lander (2005), com a conquista ibérica do continente americano. A partir desse momento, inicia-se a constituição colonial dos saberes, das linguagens, da memória (MIGNOLO, 1995) e do imaginário (QUIJANO, 1992), processo que culmina nos séculos XVIII e XIX com a organização de todos os territórios em uma grande narrativa universal. Nesta narrativa, a Europa é o centro geográ�co e o auge do avanço. E ao nos referirmos a um lugar sob a perspectiva das relações de poder, estamos falando de geopolítica; nesse caso, a geopolítica do conhecimento mostra como tem operado a periferização de uns lugares e a centri�cação de outros. É nesse sentido que Catherine Walsh (2005, p. 41) nos a�rma que a produção do conhecimento “está marcada geo- historicamente, geo-politicamente e geo-culturalmente; tem valor, cor e lugar ‘de origem’”. Esta construção eurocêntrica que toma a totalidade do tempo e do espaço para a humanidade a partir da própria experiência, colocando as particularidades histórico-culturais como padrão de referência superior e universal, é também um dispositivo de conhecimento colonial. Explicamos: o dispositivo colonizador do conhecimento transforma um modo de vida de dada sociedade no modo “normal” do ser humano e da sociedade; as formas de ser, conhecimentoe organização social não apenas são diferentes, como também carentes, arcaicas, primitivas, tradicionais, pré-modernas (LANDER, 2005). Essa visão de mundo tem como eixo articulador central quatro visões básicas: 1. A visão universal da história associada à ideia de progresso (a partir da qual se constrói a classi�cação e hierarquização de todos os povos, continentes e experiências históricas); 2. A ‘naturalização’ tanto das relações sociais como da ‘natureza humana’ da sociedade liberal-capitalista; 3. A naturalização ou ontologização das múltiplas separações próprias dessa sociedade; e 4. A necessária superioridade do conhecimento que esta sociedade produz (‘ciência’) em relação a todos os outros conhecimentos. (LANDER, 2005, p. 13) Por ser assim, Grosfoguel (2006, p. 21) declara que “os paradigmas hegemônicos eurocêntricos que têm con�gurado a �loso�a e as ciências ocidentais no sistema-mundo moderno/colonial capitalista/patriarcal [...] durante os últimos 500 anos assumem um ponto de vista universalista, neutro e objetivo”. É nesse sentido que nomeia de “ego-política do conhecimento” a ideia de que pode existir a produção e apropriação de conhecimento desde um não-lugar, desde um sujeito deshistoricizado e descorporizado, isto é, um sujeito universal. Esta ego-política não leva em conta as relações entre a localização epistêmica do sujeito que produz conhecimento, o conhecimento gerado e suas articulações com processos de dominação, exploração e sujeição. Os processos de exploração nas Américas estão inscritos na estrutura triangular da colonialidade: a colonialidade do ser, a colonialidade do poder e a colonialidade do saber, em que este último se localiza em uma estrutura hierárquica, disciplinar e �scalizadora (CASTRO-GÓMEZ, 2007). A colonialidade do saber controla a produção intelectual e criativa e determina aquilo que é considerado bom/belo/importante e o que é inferior. Essa produção descartável é construída por grupos colonizados e esse controle é uma forma de segregação não-declarada, fazendo parte do aperfeiçoamento das tecnologias de sujeição e exploração das populações periféricas. Estas marcas serão percebidas no tópico seguinte em que iremos expor sobre o modo de produção escravista, seu embasamento ideológico e a relação de dependência para com os países europeus, em que os signos da colonialidade produziram sentidos de inferioridade racial a justi�car a exploração e a violência cometida contra os povos negros do Brasil. I.2. Escravismo, colonização e capitalismo dependente A formação social brasileira tem em sua história as marcas da violência fruto do colonialismo que instaurou modos de produção exploradores da mão de obra dos povos originários da nação. Desde o princípio do estabelecimento das nações europeias em território brasileiro, houve o surrupiamento das riquezas do país e a subalternização dos grupos instalados, conduta fruto de uma orientação hierárquica de mundo. Enquanto a violência colonial atua descivilizando e embrutecendo o colonizador, se propõe, no outro extremo, a submeter e desumanizar o colonizado. Para Césaire (2006), quando o colonizado resiste, morre pelas balas dos soldados; quando cede, morre em sua qualidade de homem, pois se degrada, tendo seu caráter tomado pela vergonha e pelo medo. A coisi�cação gerada pela colonização só pode ser combatida através de um processo histórico e radical de descolonização, isto é, de destruição do mundo colonial para devolver aos homens e mulheres espezinhados a humanidade e a linguagem, convertendo a antiga coisa colonizada em um novo homem através da libertação (FANON, 2015). Entendido o colonialismo como violência em seu estado de natureza, não se pode derruba-lo senão por uma violência maior. Assim, a contribuição de Fanon é trazida pela voz de Césaire (2010, p. 25): Na visão fanoniana, a violência revolucionária é concebida como uma necessidade, para se quebrar o jugo militar colonial, e também como um indispensável instrumento de reconstrução da autoestima do colonizado. Fanon concebe que, para o sujeito colonizado modi�car os termos da relação com o mundo que o oprime, se fazia necessário o emprego da resistência em todas as suas formas. A resistência ao racismo eleva o sujeito colonizado ao lugar de protagonista, devolvendo-lhe, com isso, a humanidade. A violência revolucionária, diz Fanon, é desalienante. Para Fanon, o inconsciente coletivo dos colonizados que processa a autodefesa por meio da violência de cunho político e revolucionário, parte da tomada de consciência enquanto sujeito de um mundo cortado em dois. O colonizado esteve dominado, inferiorizado, mas nunca domesticado. No fundo, sempre está preparado para o momento de descuido do colono, em que abandonará seu papel de presa e assumirá o de caçador. Para entender a questão racial no brasil, é imprescindível remontarmos para o escravismo como modo de produção que imperou de 1550-188810, gestou a economia, sedimentou as relações sociais no Brasil colonial e se estendeu pelos períodos posteriores no que toca à ideologia do servilismo do negro em função da dominação do branco. Por assim dizer, estamos em sintonia com Clovis Moura (1994) ao entendermos que o sociólogo ou historiador deve procurar nas contradições e nos con�itos as causas geradoras da dinâmica social de um modo de produção e não nas áreas neutras e estáticas de condições do sistema. Com esta responsabilidade, os recortes de história narrados no presente texto partirão do marco de que o único equilíbrio social entre escravos e senhores que existiu foi promovido pelo controle social. Em verdade, as colaborações dos escravos e compreensão dos senhores não representavam a �bra das relações sociais produzidas na dinâmica colonial. Ao contrário, a tônica era do antagonismo de interesses e da contenção de classe através do controle social. Narrar dando intencionalidade para uma harmonia perene como regra, tal qual segmentos da sociologia o �zeram, é “supor-se que a inércia social é o fator de mudança e transformação da dinâmica social”(1994, p.20). Analisar um modo de produção em sua totalidade requer identi�car as relações centrais e as secundárias e isto se exempli�ca na dinâmica do escravismo, na qual as relações paci�cas e neutras existiram e possibilitaram a segurança social do modo de produção. Nesse sentido, é evidente que são encontradas áreas em que as frações de classe são coloquiais, neutras e pací�cas, mas isto não explica ou esgota a dinâmica escravista. A interpretação de Gilberto Freyre, por exemplo, ressalta um caráter democrático das relações entre negros e brancos no Brasil. Toda a análise freyriana sobre a escravatura e a história social do negro brasileiro após a escravidão induz à conclusão de que: a escravatura daqui foi humanizada, não alienante, fruto do patriarcalismo brasileiro; as peculiaridades culturais e morais do português e seus descendentes no Brasil tornaram a sociedade brasileira uma sociedade racialmente democrática. O que explica esta posição romântica e fantasiosa sobre o escravismo é que Freyre trabalha na perspectiva da casa-grande e do sobrado, isto é, do branco senhor de escravos, ou do branco que pensa os problemas raciais brasileiros na ótica da classe dominante. Para o branco proprietário de terras e escravos, toda a violência cometida contra os negros era na verdade uma benevolência, uma oportunidade de acessarem comida e moradia e de salvarem seus espíritos demoníacos perante Deus. A história pode ser escrita de formas completamente diferentes a depender da lente daquele que narra. Ao contrário, a�rma Clovis Moura (1994, p.21): O seu agente motor está justamente no oposto da harmonia e da cooperação, nas contradições que uma parte da classe produtora do valor se abstém dessa produção. Ora, se todos escravos fossem disciplinados, �zessem acordos, aceitassem a cultura da escravidão segundo os critérios de concessão do senhor, então,como diria Marx, a história pararia. O Brasil, na sua formação histórico-social construiu dois modelos de sociedade: o escravista colonial, subordinado à economia colonialista e o capitalismo dependente subordinado ao imperialismo. Mas em que consistiam as relações sociais entre os grupos da sociedade escravista? No sistema escravista, o cativo se converteu em coisa. O seu interior e a sua humanidade foram esvaziados pelo senhor até que ele �casse totalmente subordinado; a sua re-humanização só era reestabelecida na e pela rebeldia, isto é, na sua negação consequente como escravo. Essa constatação revela como o escravismo penetrou na sociedade e injetou seus valores, de modo a ser o período da história dramaticamente necessário de se conhecer para compreendermos os alcances atuais dos arranjos sociais. A divisão social do trabalho correspondeu, na realidade, a uma divisão racial do trabalho, por força de a divisão compulsória determinar que a mão de obra escrava seria praticada pelos negros. Em momento posterior, esta divisão passou a ser acionada no contexto competitivo, reservando-se para o negro apenas aquilo que o branco, descartava ou desprezava. O caráter repressivo e violento das relações escravistas de produção é apreendido da compreensão de que o escravismo é um sistema de produção de mais-valia absoluta, sistema esse no qual a mercadoria aparece imediata e explicitamente como produto da força de trabalho alienada. Ademais, a alienação incide duplamente no escravo, como pessoa, enquanto propriedade do senhor, e em sua força de trabalho, faculdade sobre a qual não tem ingerência. Para viver e reproduzir-se, o escravo é obrigado a produzir muito além do que recebe e não dispõe de condições para negociar, nem o uso da sua força de trabalho nem a si mesmo. Esse é o fundamento do caráter repressivo e violento do escravismo. (IANNI, 1978) Desde o princípio, as sociedades das Américas estão atadas à economia mundial formadas em estado de dependência enquanto colônias ou países: primeiro à mercantilista e depois à capitalista. Nessas condições, quando o capitalismo alcançou certo grau de desenvolvimento, em âmbito mundial, tornou difícil a continuidade das relações escravistas de produção. No Brasil, a formação social capitalista foi se constituindo por dentro da formação social escravista. O ápice do confronto entre a formação social escravista, em franca decadência, e a formação social capitalista em expansão foi a queda da monarquia. Explicamos: a luta entre a aristocracia agrária, de base escravocrata, e a burguesia cafeeira do oeste paulista, na qual vence esta, era a expressão política dos desajustes e antagonismos entre as duas formações sociais. A transição da sociedade escravista para a sociedade competitiva do capitalismo preservou as estruturas de poder herdeiras da ideologia do colonizador. As classes dominantes do império, que se transformaram de senhores de escravos em latifundiários, estabeleceram mecanismos repressivos, ideológicos, econômicos e culturais a �m de controlar a luta de classes dessas camadas de ex-escravos, acomodando-os nos espaços marginais de uma economia de capitalismo dependente. (MOURA, 1980) A sociedade competitiva que substituiu a escravista favoreceu a ideologia da democracia racial e produziu nas organizações negras um assimilacionismo de formas de comportamento brancas como meio de proteção contra a perseguição por força de seus propósitos radicais. Esta é uma das faces do pacto entre a ideologia do colonizador e a do colonizado. Nesse sentido, a re�exão de Moura (op. Cit., p.125): A sociedade de modelo de capitalismo dependente substituiu a de escravismo colonial. O sistema competitivo inerente ao modelo de capitalismo dependente, ao tempo em que remanipula os símbolos escravistas contra o negro procura apagar a sua memória histórica e étnica, a �m de que ele �que como homem �utuante, ahistórico. Porque situa-lo historicamente é vê-lo como agente coletivo dinâmico / radical desde a origem da escravidão no Brasil. É, por outro lado, revalorizar a República de Palmares, único acontecimento político que conseguiu pôr em cheque a economia e a estrutura militar colonial; é valorizar convenientemente as lideranças negras de movimentos como as revoltas baianas de 1807 a 1844. Segundo Ianni (1978, p. 80), o paternalismo, a ambiguidade, o mito da democracia racial e outras expressões da dominação exercida pelo branco confundem e irritam o negro. É frente a esta manipulação ideológica que o negro toma consciência da sua dupla alienação: como raça e como membro de classe. Assim, para enfrentar sua condição duplamente subalterna, o negro é levado a elaborar uma consciência política dúplice; reconhece- se como membro de outra raça e classe opostas às do branco, passando a entender que enquanto membro desta raça está só e precisa lutar a partir desta condição. Nesse cenário, raça e classe subsumem-se reciproca e continuamente, tornando mais complexa a consciência e a prática política do negro. Sobre o aspecto capitalista do Brasil, a re�exão de Jacob Gorender (1998, pps. 105-106): A concentração de renda e a deterioração da qualidade de vida de grandes massas da população justi�caram que se chamasse o capitalismo brasileiro de selvagem. Mas se trata de uma designação puramente moral, sem valor cientí�co. Qualquer que seja o país, inclusive os da revolução burguesa clássica, todo capitalismo, por suas leis imanentes, tende à exploração da força de trabalho até o limite das possibilidades físicas. O que o impede de chegar a este limite e lhe impõe formas civilizadas de exploração é a luta de classes dos operários. As categorias de raça e classe precisam ser compreendidas em suas especi�cidades. Uma interpretação dos problemas raciais que não incorpora a localização das pessoas na estrutura de classes, sejam elas classes amadurecidas, em formação ou em crise, está certamente equivocada e incompleta. Portanto, pode-se concluir que o modo de produção escravista entrou em colapso, mas deixou marcas profundas que se comportam como elementos vivo nas relações de produção da sociedade brasileira. O modelo de capitalismo dependente que substituiu o modo de produção escravista dele se aproveitou e fez dele uma parte dos seus mecanismos reguladores da economia subdesenvolvida. Desta forma, os vestígios escravistas são remanejados e dinamizados na sociedade de capitalismo dependente em função do imperialismo dominante. I.3. “A morte reiterada na vida e a vida que habita a máscara da morte”: das mortes em vida do negro As estratégias históricas de apagamento da identidade negra constituem um projeto de genocídio físico e simbólico dos negros em diáspora. A libertação do negro, nesse sentido, só é possível se reconhecidas estas variadas servidões visíveis e invisíveis como parte de uma mística racista de propósito arianista, isto é, de fortalecimento do ideal de branqueamento. O uso sem restrições do conceito de genocídio aplicado ao negro brasileiro foi cunhado pelo grande teórico, político e militante do movimento negro Abdias do Nascimento. Nesse sentido, o autor aponta como primeira estratégia de genocídio a do branqueamento da raça. A intenção do desaparecimento inapelável dos descendentes africanos no Brasil se deu através do recurso da exploração sexual da mulher negra, estuprada pelos senhores brancos para produzir o que entendiam como puri�cação do sangue: o mulato, o pardo, o moreno. A herança negra, vista como mancha negra, precisava ser combatida por meio do processo de mulatização, que nada mais é que um fenômeno de genocídio, haja vista o crescimento da população mulata e o desaparecimento da raça negra sob a coação do progressivo clareamento da população no país (NASCIMENTO, 1978). A respeito do papel social do mulato, Abdias (Ibid, p.69) a�rma: Situado no meio do caminho entre a casa-grande e a senzala, o mulato prestou serviços importantes àclasse dominante; durante a escravidão, ele foi capitão-do-mato, feitor, e usado noutras tarefas de con�ança dos senhores, e, mais recentemente, o erigiram como um símbolo da nossa ‘democracia racial’. A solução parecia satisfatória e recebeu endosso religioso da Igreja Católica, que considerava o negro um indivíduo de sangue infectado. Além disso, as teorias cientí�cas forneceram suporte vital ao racismo arianista que se propunha a erradicar o negro. Desde o �m do século XIX, o objetivo estabelecido pela política imigratória foi o desaparecimento do negro através da “salvação” do sangue europeu. O dramaturgo Nelson Rodrigues (apud Nascimento, p.77) contribui com uma linguagem ácida para a caracterização de nossas relações de raça: Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. Nós os tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Com esta passagem, denuncia o racismo travestido em sua linguagem para soar como parte de um bonito processo de democracia racial, só não sendo evidente para aqueles(as) que não querem enxergar suas formas de atuação. Nessa esteira, como outra estratégia de genocídio, Abdias (Ibid, p.93) aponta o embranquecimento cultural em certeiras e cortantes linhas: Devemos compreender democracia racial como a metáfora perfeita para designar o racismo estilo brasileiro: não tão obvio como o racismo dos Estados Unidos e nem legalizado como o apartheid da África do Sul, mas e�cazmente institucionalizado nos níveis o�ciais de governo assim como difuso no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país. Da classi�cação grosseira dos negros como selvagens e inferiores, ao enaltecimento da virtude das misturas de sangue como tentativa de erradicação da mancha negra; da operatividade do sincretismo religioso; a história não o�cial do Brasil registra o longo e antigo genocídio que se vem perpetrando contra o afro-brasileiro. Monstruosa máquina ironicamente designada democracia racial que só concede aos negros um único ‘privilégio’: aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora. (grifos nossos) Mais contemporaneamente, o africano Achille Mbembe, pensador de altíssimo requinte no estudo do pós-colonialismo e das questões da história e da política africana, trabalha através do resgate histórico, político e �losó�co para mostrar como a raça foi a causa de inúmeras catástrofes, crimes incalculáveis e carni�cinas no mundo. Em sua obra “Crítica da Razão Negra”11, o autor discorre, por meio de uma �loso�a política latente e erudita, sobre a ideia de homem-mercadoria, a lógica das raças e a consequente condição subalterna do negro no projeto colonial de esmagá-lo e convertê-lo em coisa. Desta feita, propõe a descolonização do pensamento europeu para combater o racismo global como parte do capitalismo. Para começo de conversa, aponta (Mbembe, 2017) três momentos paradigmáticos para entender a socialização do negro: o trá�co atlântico (séc. XV ao XIX) em que homens e mulheres originários de África foram transformados em homens-objeto, homens-mercadoria e homens-moeda; o segundo momento corresponde ao acesso à escrita e tem início em �ns do século XVIII, quando os Negros capturados articularam uma linguagem para si, reivindicando o estatuto de sujeitos completos do mundo vivo. Não por acaso, tal período foi marcado por inúmeras revoltas de escravos, pela independência do Haiti em 1804, por combates pela abolição do trá�co, pelas descolonizações africanas, pelas lutas pelos direitos cívicos nos Estados Unidos e, por �m, pelo desmantelamento do apartheid nos últimos anos do século XIX; o terceiro momento (início do século XXI) refere-se à globalização dos mercados, ao avanço do neoliberalismo, do complexo militar e das tecnologias eletrônicas digitais. Em um discurso inconformado, Mbembe (2017, p.19) esboça o percurso de criação do conceito de “Negro”, idealizado pelo Ocidente como uma fábula plena de exotismo, re�nada com elementos carnais de pulsão sexual e sensualidade, mas principalmente fundido com a imagem de escravo. Assim discorre: Produto de uma máquina social e técnica indissociável do capitalismo, da sua emergência e globalização, este nome foi inventado para signi�car exclusão, embrutecimento e degradação, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado. Humilhado e profundamente desonrado, o Negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa, e o espírito, em mercadoria- a cripta viva do capital. A partir da denúncia do alterocídio, isto é, o ato de constituir o outro não como semelhante a si mesmo, mas como objeto essencialmente ameaçador e do qual é preciso proteger-se por meio do controle social ou do extremo da destruição, o autor propõe um pensamento de circulação/travessia e ampara-se em Frantz Fanon para associar a raça ao desejo de vingança. A raça, preleciona (Ibid, p. 27), não existe da perspectiva física, antropológica ou genética; atravessou a história como um mecanismo codi�cado de divisão da diversidade segundo hierarquias estanques. A raça, em verdade, “não passa de uma �cção útil, de uma construção fantasista ou de uma projeção ideológica cuja função é desviar a atenção de con�itos antigamente entendidos como mais verossímeis- a luta de classes ou a luta de sexos, por exemplo.” Prossegue na desconstrução assinalando (Ibid, p. 40): O negro não existe, no entanto, enquanto tal. É constantemente produzido. Produzir o Negro é produzir um vínculo social de submissão e um corpo de exploração, isto é, um corpo inteiramente exposto à vontade de um senhor, e do qual nos esforçamos para obter o máximo de rendimento. Nesse sentido, Fanon tinha razão ao sugerir que o Negro era uma �gura ou ainda um objeto inventado pelo branco e �xado, como tal, pelo seu olhar, por seus gestos e atitudes, tendo sido tecido por relatos e anedotas. Em um movimento de programar o negro como parte negada do branco, isto é, aquilo que este não quer ser, aos poucos o negro vai sendo transformado em inimigo e o branco em vítima compassiva, o opressor torna-se oprimido e o oprimido o algoz12. Esta é a verdadeira tônica da alteridade na era moderna. No momento em que partes cindidas da psique são projetadas para fora, criando o “outro” como antagonista ao “eu”, o branco faz uma cisão de si mesmo: a parte do ego- associada a qualidades boas- é vivida como o verdadeiro “self” e o resto- a parte vinculada a características indesejadas- é projetada sobre o “outro”. “O outro torna-se então a representação mental do que o sujeito branco teme reconhecer sobre si mesmo, neste caso: o(a) ladrão(a) violento(a), o(a) bandido(a) indolente e malicioso” (KILOMBA, 2010, p. 174). Em outras palavras, prossegue Grada Kilomba (2010), tornamo-nos a representação mental daquilo com o que o branco não quer parecer. A branquitude pode ser descrita como uma identidade relacional dependente que existe através da exploração do “outro”. A isso Toni Morrison (1992) chama de “dessemelhança”. Enquanto humilhado e espoliado, o negro vive uma humanidade mutilada marcada pelo ferro e pela alienação. Todavia, ressigni�cado como conceito, o Negro torna-se a linguagem pela qual os descendentes de africanos se anunciam ao mundo e se proclamam como mundo: Mas, a par da maldição a que a sua vida está destinada e da possibilidade de insurreição radical que, contudo, transporta e que nunca consegue �car totalmente aniquilada pelos dispositivos de submissão, ele representa também uma espécie de limo da terra, no ponto de con�uência de uma multiplicidade de semimundos produzidos pela dupla violência da raça e do capital. Operando do fundo dos porões, terão sido os primeiros obreiros da nossa modernidade. E se há algo que assombra a modernidade desde sempre é precisamente a possibilidade de um acontecimento particular, a revolta dosescravos, que assinalaria não apenas a libertação dos servos, mas também uma mudança radical das bases da reprodução da própria vida. (MBEMBE, 2017, pps. 73-74). Uma relação de co-dependência liga os conceitos de Negro e África, pois que falar de um é necessariamente evocar o valor do outro. A Idade Moderna confere à África dois sentidos: o de um lugar em que o humano se vê no extremo da precariedade da vida e do vazio do ser; e o da condição de emaranhamento entre o humano, o animal, a natureza, a morte e vida, “da presença uma na outra, da morte que vive na vida e que lhe dá rigidez de um cadáver- o ensaio da morte na vida através de um jogo de desdobramento e de repetição.”(Ibid, p.92) Desta feita, quer se trate de literatura, �loso�a, artes ou política, os sentidos de Negro e África estão atravessados pelos acontecimentos da escravatura, da colonização e do apartheid que, dentre outras coisas, produziram uma textualidade de folclorização e exotismo a estes signi�cantes, transformando a mística do continente em um estereótipo. A identidade negra ressurge, por outro lado, como uma identidade em devir, em processo de reconhecimento e a�rmação de existência. Quem somos neste mundo branco? Que podemos esperar e fazer? Somos negros. E, como diria Florestan Fernandes (2007), negros no mundo dos brancos. Em uma das belas passagens da obra de Mbembe (Ibid, p.89), somos agraciados com sua percepção a respeito: De fato, o substantivo negro tem vindo a preencher três funções essenciais na modernidade – funções de atribuição, de interiorização e de subversão. (...) Ao longo da história, aconteceu que aqueles que foram ridiculamente contemplados com esta alcunha- e tinham, consequentemente, sido postos à parte ou à distância- acabaram por habitá-la. Passou a ser de uso corrente, mas isto fê-lo mais autêntico? Num gesto consciente de subversão, poético umas vezes, outras, carnavalesco, muitos a terão endossado somente para melhor devolverem contra os seus inventores esse patronímico humilhante. Decidiram transformar este símbolo de abjeção num símbolo de beleza e de orgulho, utilizado doravante como insígnia de um desa�o radical e de um apelo ao levantamento, à deserção e à insurreição. Enquanto categoria histórica, o Negro não existe, portanto, fora destes três momentos: o momento de atribuição, o momento de aceitação e interiorização e o momento da reviravolta ou da subversão- que aliás inaugura a plena e incondicional recuperação do estatuto de humanidade antes rasurada pelo ferro e pelo chicote. (grifos nossos) O devir negro no mundo é a legítima resposta ao processo predador e autoritário que forjou as vidas negras através da criação das raças e da signi�cante “Negro” como subsídio do capitalismo para explorar. Os novos condenados da terra, aqueles sem direitos, condenados a viver nos calabouços sociais à mercê dos controles jurídicos, policiais, os clandestinos, os imigrantes, os sem-papéis, são resultado de uma seleção de claros pressupostos raciais repaginados pelo tempo. Por ser assim, para reconstruirmos o mundo pautado na humanidade, a restituição, reparação e a justiça são condições para recon�gurarmos os processos de abstração e de coisi�cação promovidos pela história, re- costurando estas partes amputadas para repararmos as dores e (re)instalarmos a solidariedade. I.4. Desatar os nós Como vimos, a lógica categorial dicotômica e hierárquica se apresenta como instrumento central do pensamento capitalista13, que se externaliza na linguagem sobre raça, gênero e sexualidade. Assim, ao se estabelecer a dominação das Américas, os colonizados passaram a ser vistos como a negação da regra do colonizador, sendo os não-humanos, os não-brancos, os não-homens, sendo a oposição ao aceitável no mundo do colonizador, o não- esperado, o inimigo, o outro. A prática do poder aparelha o assujeitamento14 entre agentes que são sujeitos de direitos e humanidade e os assujeitados passivos, de modo que a produção de subjetividade se encarrega de criar identidades servis. Há, portanto, um processo de animalização: os colonizados e os escravizados como o oposto ao civilizado e humano, os selvagens como instrumentos animados nas relações de produção. Essa concepção legitima a subordinação e a apropriação do corpo para �ns de exploração para o trabalho e sexual, pois pressupõe uma irracionalidade que justi�ca a intervenção em suas vidas. O termo “colonialidade do poder”, como apresentado alhures, foi cunhado por Aníbal Quijano e advém da compreensão histórica da inseparabilidade da racialização e da exploração capitalista como constitutivas do sistema capitalista de poder que ancorou a colonização das Américas. O eurocentrismo é lido como novo modo de produção e controle da subjetividade, um sistema de controle da autoridade coletiva em torno da hegemonia do estado-nação que exclui as populações racializadas como inferiores. Por isso que quando a ex-escrava Sojourner Truth, em dezembro de 1851 na Convenção de mulheres em Ohio, ao não se sentir incluída nas discussões sobre os direitos feitas na ocasião, se dirigiu à plateia e indagou “¿Acaso no soy una mujer?”, a resposta seria “não”, já que estava na encruzilhada, era a negação das categorias de branco e de negro. Essa denúncia ainda se faz pertinente se identi�carmos o feminismo como colonizado pelas ideologias de classe e raça e que invisibiliza ainda as pautas das mulheres negras. É por isso que as discussões feministas contemporâneas, in�uenciadas pela literatura desenvolvida pelas feministas negras, marxistas, terceiro- mundistas e descoloniais apontam para uma interpretação da realidade como a encruzilhada de opressões. O termo interseccionalidade ganhou repercussão mundial quando desenvolvido pela advogada militante norte- americana Kimberlé Williams Crenshaw que, nos seus estudos de teoria crítica da raça, pensou como as diferentes estruturas de poder interagem nas vidas dos sujeitos por algum motivo marginalizados, especialmente as mulheres negras que se viam e vêm invisibilizadas. Dessa forma, Crenshaw criou a metáfora das ruas que são cortadas por avenidas e que nas encruzilhadas se é atravessado por diversas direções, nos dizendo que em determinados pontos as discriminações atuam simultaneamente e causam impactos maiores, causam acidentes mais perversos, se formos utilizar um termo que dialogue com a metáfora criada. Conceber o conjunto de opressões que atuam de formas múltiplas e arquitetadas pelas ideologias de gênero, de raça e de classe, é admitir o caráter estrutural da dominação sobre os grupos. A despeito do fenômeno da fusão das categorias de gênero, classe e raça na realidade, Sa�oti (2015, p. 122) fala de um “nó” formado por essas três contradições e que signi�ca um acúmulo qualitativo destas subestruturas- patriarcado- racismo- capitalismo. Esclarece: Ademais, o gênero, a raça/etnicidade e as classes sociais constituem eixos estruturantes da sociedade. Estas contradições, tomadas isoladamente, apresentam características distintas daquelas que se pode detectar no nó que formaram ao longo da história. Este contém uma potenciação de contradições. Efetivamente, o sujeito, constituído em gênero, classe e raça/etnia, não apresenta homogeneidade. Dependendo das condições históricas vivenciadas, uma destas faces estará proeminente, enquanto as demais, ainda que vivas, colocam-se à sombra da primeira. Em outras circunstâncias, será uma outra faceta a tornar-se dominante. (...) Não se trata da �gura do nó górdio nem apertado, mas do nó frouxo, deixando mobilidade para cada uma de suas componentes. Não que cada uma destas contradições atue livre e isoladamente. No nó, elas passam a apresentar uma dinâmica especial, própria do nó. De acordo com as circunstâncias históricas, cada uma das contradições integrantes do nó adquire relevos distintos. Não se trata de somar racismo + gênero + classe social, mas de perceber a realidade compósita e novaque resulta desta fusão. Como a�rma Kergoat (1978), o conceito de superexploração não dá conta da realidade, uma vez que não existem apenas discriminações quantitativas, mas também qualitativas. Uma pessoa não é discriminada por ser mulher, trabalhadora e negra. Efetivamente, uma mulher não é duplamente discriminada porque, além de mulher é ainda uma trabalhadora assalariada. Não se trata de variáveis quantitativas, mensuráveis, mas sim de determinações, de qualidades, que tornam a situação destas mulheres muito mais complexa. (pps. 83/123/133) Nesse sentido, ao dividir as categorias a partir da lente eurocêntrica, recorta-se o mundo em opressores e oprimidos, lógica que inclui a mulher negra no “não-lugar”15, no vazio que é não ser homem e não ser branca. O pensamento dual é uma forma central no desenvolvimento da hierarquia no capitalismo e a ausência das negras nas categorias “negro” e “mulher’ consolida a colonialidade de gênero. Revisitar e problematizar como o corpo e vida das mulheres é regulado no mundo da produção capitalista, é questionarmos qual o lugar do corpo das mulheres negras e terceiro-mundistas nessa produção, é nos perguntarmos de que maneira o poder tem colonizado os corpos, saberes e práticas femininas. Esse movimento reclama visitarmos fronteiras, desnudarmos histórias não-contadas, trocarmos o olhar do colonizador para ceder espaço para os olhares dos(as) colonizados(as), os olhares desde o Sul, transgredindo a centralização da autoridade de fala para fazermos o deslocamento contra- hegemônico, primeiro denunciando o paradigma serva-senhora reproduzido na teorização feminista (HOOKS, 2013) para depois disputarmos o território de produção da mesma. O gênero, enquanto categoria histórica, terá aspectos diferentes enfatizados por cada expressão do feminismo, havendo um campo de consenso: é a construção social do masculino e do feminino. O termo gênero é usado como recurso para recusar o essencialismo biológico e a imutabilidade implícita que a�rma ser a anatomia o destino. Pode ser entendido como a dimensão da cultura por meio da qual o sexo se expressa vinculado ao poder, bem como através das funções sociais ordenadas pelo sexismo. Na dimensão do corpo, o gênero atua quer como mão de obra, quer como objeto sexual, ou ainda como reprodutor, cujo destino, no caso das mulheres, é participar da produção na função de força de trabalho, reprodução e serviço sexual. Assim, gênero é um conceito desenvolvido para reivindicar a naturalização da desigualdade de tratamento, acesso e participação social de homens e mulheres em múltiplas arenas, envolvendo categorias de inclusão e exclusão. A teorização e a prática feministas em torno do gênero buscam contestar e transformar sistemas históricos de diferença sexual nos quais o que se compreende enquanto homem e o que se compreende enquanto mulher são socialmente formados e posicionados em relações de hierarquia e oposição. A preocupação com a questão da mulher é uma constante do pensamento socialista, compreendendo esta libertação como etapa para uma transformação radical da sociedade. Os determinantes da vida social da mulher, portanto, são encarados por Marx como decorrência de um regime de produção cujo sustentáculo é a opressão do homem pelo homem, de um regime que aliena, que corrompe tanto o corpo quanto o espirito. Os últimos milênios gestaram uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência (Sa�oti, 2015), responsável por estabelecer um tipo hierárquico de relação a invadir todos os espaços da sociedade e garantir direitos dos homens sobre as mulheres, a que chamamos de patriarcado. Ao conceituar patriarcado, Pateman (1993, p. 16-17) retoma a teoria política do contrato para concluir que este é o meio pelo qual se constitui o patriarcado moderno: O contrato social é uma história de liberdade; o contrato sexual é uma história de sujeição. O pacto original é tanto um contrato sexual quanto social: é social no sentido de patriarcal- isto é, o contrato cria o direito político dos homens sobre as mulheres-, e também sexual no sentido do estabelecimento de um acesso sistemático dos homens ao corpo das mulheres. A partir disso, valendo-se da imagem e de como a �gura do prédio de comando criado por Bentham e estudado por Foucault em Vigiar e Punir corpori�ca a ideologia de comando, Sa�oti (2015, p. 43) faz a analogia: As portas de todas as celas dão para o interior do prédio e, no alto, um único guarda é su�ciente para vigiar um grande número de prisioneiros, sem que estes possam saber em que momento são observados. Esta imagem adequa-se à descrição da vigilância exercida sobre as mulheres ou sobre os trabalhadores ou, ainda, sobre os negros. As categorias sociais contra as quais pesam discriminações vivem, imageticamente falando, no interior de um enorme panóptico- a sociedade- na medida em que sua conduta é vigiada sem cessar, sem que elas o saibam. Isto é um controle social poderoso, pois a introjeção das normas sociais por mulheres funciona como um panóptico. Por ser assim, diz-se que a ideologia sexista se corpori�ca nos agentes sociais tanto de um polo quanto de outro da relação de dominação- subordinação. O �lme Lanternas Vermelhas (1991) apresenta uma trama que capta isto: a engenharia do patriarcado enquanto estrutura hierárquica que confere aos homens o direito de dominar as mulheres, independente da �gura humana investida de poder. Na trama, uma das quatro esposas reféns do patriarca denuncia a outra que incorria em traição e seria punida com a morte. Ou seja, o patriarcado estimula a guerra entre as mulheres, funciona como uma engrenagem com funções automáticas, podendo ser acionada por qualquer um, inclusive por mulheres. As relações entre os sexos e a posição da mulher na família e na sociedade fazem parte de um sistema mais amplo de dominação, de modo que, para entendermos a exclusão destas da esfera pública para �ns de manutenção do exclusivo vínculo doméstico, fundamental é �xarmos características presentes no sistema capitalista que formaram complexos sociais até hoje justi�cados em nome da tradição. A partir da articulação entre a moral, religião, educação, são criados mitos que essencializam os papeis sociais desenvolvidos pelas mulheres como as funções de sexualidade, reprodução e socialização dos �lhos desempenhadas na família, por exemplo. A sociedade se vale dos mitos, revela Sa�oti (2013, p.179), “para retardar a emancipação de uma categoria social que se impõe a tarefa de libertação”. Assim tem sido com as mulheres, os negros e os povos originários sob o jugo do colonialismo. A apreensão na totalidade da temática exige um entendimento- chave16: ainda que, aparentemente, determinada coletividade seja excluída das relações de produção em virtude de sua raça ou de seu sexo, há que se buscar nas primeiras- relações de produção- a explicação da escolha de fatores raciais e de sexo para operarem como marcadores sociais que autorizam hierarquizar, segundo uma escala de valores, os sujeitos de uma sociedade historicamente situada. (SAFFIOTI, 2013) Quer dizer, enquanto categorias dependentes da instrumentalização do capital, operam segundo as necessidades do sistema produtivo de bens e serviços, assumindo feições distintas conforme a fase de desenvolvimento do tipo estrutural da sociedade. Nas palavras da autora (Ibid, p. 60): Alguns desses caracteres naturais isolados para operar como desvantagens sociais são passíveis de anulação ao longo do tempo. Neste caso, a sociedade acaba por encontrar outros fatores que possam funcionar como marcas sociais e justi�car o desprestígio de outros setores demográ�cos e sua localização na base da pirâmide social. É possível entendermos, a partir disso, que os marcadores sociais atuarão segundo as demandas do modo de produção vigente em dada sociedade, variando a forma como incide e aparelha as relações sociais. A história da modernidade é, porassim dizer, a narrativa das diferentes vestes que as opressões de raça, classe, gênero, entre outras, ganharam ao longo do tempo. Por oportuno, enquanto marxista e ao mesmo tempo crítica da esquerda ortodoxa que defende a primazia da classe sobre as outras questões de opressão, enquadrando-as como categorias subalternas, Davis (2011)17 reivindica o entrecruzamento das mesmas: As organizações de esquerda têm argumentado dentro de uma visão marxista e ortodoxa que a classe é a coisa mais importante. Claro que classe é importante. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é a maneira como a raça é vivida. A gente precisa re�etir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras. Nessa esteira, por mais que tenhamos feito uma pequena digressão ao modo escravista de produção para justi�car certas permanências nos contextos posteriores, o marco temporal deste trabalho é o advento do capitalismo justamente por compreendermos que o modo capitalista de produção aprofundou a contradição presente nas formações econômico- sociais anteriores baseadas na apropriação privada dos meios de produção e dos produtos do trabalho humano. Sendo assim, a desigualdade nos status jurídicos dos homens (servos, escravos, livres) não mais justi�ca a dimensão econômica das relações sociais. Os novos homens e mulheres libertos possuem sua força de trabalho e participam do mercado sob a igualdade do status jurídico que, supostamente, é su�ciente para assegurar a igualdade de fato. 18 Com efeito, Lenin (1956, p. 47) condiciona a vitória da luta do proletariado à necessária igualdade material entre homens e mulheres, não só a igualdade jurídica, enfatiza. E assim discorre: “O proletariado não alcançará a emancipação completa se não for conquistada primeiro a completa emancipação das mulheres”. A respeito das condições históricas das relações estabelecidas no processo de dominação na América Latina, sabemos que a violação sistemática das mulheres negras19 e indígenas pelos senhores brancos deu origem à miscigenação, formou a identidade nacional e resultou no famigerado mito da democracia racial. O fetiche de alguns sociólogos pela narrativa do romance no contato dos colonizadores e nossos povos originários é, na verdade, um eufemismo para o contexto de coisi�cação das mulheres negras e índias. A violência sexual colonial formou a base das hierarquias de gênero e raça presentes na nossa sociedade que, ao ser ignorada, centraliza o feminismo a uma inclinação eurocêntrica/universalista que peca por não contextualizar as particularidades das relações sociais constituídas no Brasil colônia e que reverberam até hoje. O poeta negro Aimé Césaire crava lição primordial neste debate ao dizer que há duas maneiras de perder-se, ou por segregação ou por diluição no universal. Nem guetos nem universalização cega. O sentido da luta está, diz Carneiro (2011, p.8), em garantir a plenitude do ser humano para além da raça e do gênero, isto é, “ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra.” Por isso a sua proposta: enegrecer o feminismo brasileiro para instituir o peso da questão racial na con�guração das desigualdades, violência e privilégios da branquitude. O aspecto servil imposto às relações sociais entre mulheres negras e brancos(as) se encontra na presença que não se nota, na existência que se ignora, na dignidade que não se confere, tal qual se percebe no tratamento dado às empregadas domésticas, função social que personi�ca a subalternização. A dimensão de poder nega agência enquanto sujeito e atesta a invisibilidade dessas trabalhadoras, em uma dialética de ausência e presença, de pertença e não-pertença. Nas palavras de Patricia Hill Collins (2016), são “forasteiras de dentro”, “estrangeiras de dentro”. Trata-se de veri�carmos que formas historicamente condicionadas de trabalho permitem a objeti�cação humana e quais outras aviltam o ser social do homem e da mulher. O trabalho na sociedade de classes, a par de ser alienado enquanto atividade, gera um valor do qual não se apropria inteiramente aquele(a) que o executa, seja homem, seja mulher. Esta, contudo, se apropria da menor parcela dos produtos de seu trabalho do que o faz o homem. É óbvio, pois, que a mulher sofre mais diretamente do que o homem os efeitos da apropriação privada dos frutos do trabalho social. O espaço que o trabalho tem ocupado na vida das mulheres negras reproduz padrões escravistas, na medida em que a mulher negra ainda é vista como unidade de trabalho em tempo integral, mão de obra barata e trabalhadora valorosa. A respeito das lutas dos(as) trabalhadores(as) por regulamentação de seus direitos e dos traços escravistas das relações de trabalho, já no século XIX Marx (2013, p.372) alertava que: “o trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro. Mas da morte da escravidão brotou imediatamente uma vida nova e rejuvenescida.” De um modo geral, a quali�cação pro�ssional da mulher negra no Brasil foi construída através de dois estereótipos: doméstica e mulata. Criada pelo sistema hegemônico para atender a um tipo especial de mercado, a signi�cante mulata, segundo Lélia Gonzalez (1979) atualmente supera a tradução da mestiçagem entre negro(a) e branco(a) para ser o moderno “produto de exportação”, sendo exercida por jovens que buscam prestígio e desconhecem a construção da hipersexualização das latinas como moeda de troca para a economia de mercado internacional. Os traços comuns do racismo institucionalizado não tornam homogêneas as experiências negras, visto que fatores como classe in�uem fortemente nas manifestações racistas. Na classe trabalhadora, além do assujeitamento de raça, há um sentido de propriedade através do controle e subordinação com mecanismo de salário, horas extras, mecanização da trabalhadora como sujeita pensante, o esvaziamento do sujeito. Na teoria marxista, esta última faceta é compreendida como a alienação ou estranhamento do(a) trabalhador(a) em relação à sua produção. A construção do exercício do trabalho atrelado à moralidade e como digni�cador do homem faz parte da estratégia ideológica de disciplinar os grupos sociais para a produção e manutenção do sistema capitalista. Quanto a isso, Althusser (apud Gonzalez, 1979, p. 8) doutrina: Nas sociedades de classes, ideologia é uma representação do real, mas necessariamente falseado, porque é necessariamente orientada e tendenciosa- e é tendenciosa porque seu objetivo não é dar aos homens o conhecimento objetivo do sistema social em que vivem, mas, ao contrário, para mantê-los em seu ‘lugar’ no sistema de exploração de classe. A partir deste entendimento, e percebendo que o privilégio racial é uma característica marcante da sociedade brasileira, uma vez que o grupo branco é o grande bene�ciário da exploração da população negra, o objetivo do movimento negro é organizar o povo negro “para lutar contra a superexploração econômica de que tem sido objeto, assim como contra a ‘mais-valia’ cultural e ideológica dele extraída pelo grupo branco dominante” (Ibid, p.4) Antes de prosseguirmos, uma questão típica do economicismo merece explicação (Ibid, p. 9): tanto brancos quanto negros pobres sofrem os efeitos da exploração capitalista. Mas na verdade, a opressão racial faz-nos constatar que mesmo os brancos sem propriedade dos meios de produção são bene�ciários do seu exercício. Claro está que, enquanto o capitalista branco se bene�cia diretamente da exploração ou superexploração do negro, a maioria dos brancos recebe seus dividendos do racismo, a partirde sua vantagem competitiva no preenchimento das posições que, na estrutura de classes, implicam nas recompensas materiais e simbólicas mais desejadas. Da mesma forma, o movimento feminista liberal ao reivindicar suas pautas e desconhecer quão mais complexa é a incidência das opressões na vida das mulheres negras, por ser branco e burguês, recebe um protagonismo mesmo que a busca seja por emancipação meramente individual. Para Audre Lorde (2015, pps. 193-210), a crença por parte das feministas brancas de que as mulheres negras desconhecem a opressão machista até haver uma análise e programa de libertação elaborado por aquelas advém do fato de acreditarem em uma fonte de conhecimento, desconhecendo ou ignorando as estratégias de resistência de inspiração empírica contra situações opressoras diárias e que formam uma consciência política de potência, embora não sustentada por termos de gênero. As negras convivem com uma dupla criação a respeito da sua personalidade: ora os mitos racistas das super-mulheres, portadoras de uma força que tudo suporta, a tudo combate sem repercussões íntimas; ora a vítima que questiona esse lugar social que para ela foi criado. Nessa perspectiva, Audre Lorde (Idem, p. 207) é conclusiva: Ao projetar sobre as mulheres negras um poder e uma força míticos, as brancas promovem uma falsa imagem de si mesmas como vítimas impotentes e passivas, ao mesmo tempo que desviam a atenção de sua agressividade, de seu poder (ainda que limitado em um Estado hegemonicamente branco, dominado por homens) e de sua disposição de dominar e controlar os outros. No território em que se discute como a lógica escravagista continua presente nas formas de pensamento e nas práticas de apropriação do corpo negro como subordinado, assim como no feminismo com suas políticas brancas, trava-se um embate sobre os níveis hierárquicos de opressão. O preceito de que não se trata de quanti�car a dor do outro não signi�ca igualar todas as vivências femininas a um mesmo julgo sexista, e sim reconhecer que existem opressões com maior envergadura política e são as que fogem à esfera individual e reverberam coletivamente. Nessa esteira, a lição cirúrgica de Benjamin Barber (1975, p. 30), citado por Audre Lorde: O sofrimento não é necessariamente uma experiência �xa e universal que possa ser medida com uma régua única: está relacionado a situações, necessidades e aspirações. Mas deve haver alguns parâmetros históricos e políticos para o uso do termo, para que possam ser estabelecidas prioridades políticas e se possa dar mais atenção a diferentes formas e graus de sofrimento. (Grifos nossos) A despeito das prioridades políticas e graus de sofrimento, a negritude é o traço de desumanidade que a herança escravagista permite que se marque a ferro nas peles, de modo que o movimento contrário à negação do ser negro(a) é processo de resistência contra a expectativa de passividade. É assim que, sobre o processo de rea�rmação do ser negro, Neusa Santos Souza (1983, p. 17) partilha: A descoberta de ser negra é mais que a constatação do óbvio. (Aliás, o óbvio é aquela categoria que só aparece enquanto tal, depois do trabalho de se descortinar muitos véus). Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades. E continua: Ser negro é, além disso, tomar consciência do processo ideológico que, através de um discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse desta consciência e criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que rea�rme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração. Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar- se negro. (Grifos nossos) (Idem, p. 77) A luta das mulheres é a luta contra a atuação do patriarcado nas relações sociais, contra o capitalismo que superexplora seus trabalhos, transforma seus corpos em mercadoria e contra o racismo que elenca aquelas que estarão na zona do submundo da exploração, sujeitas a violências coloniais que remetem a um estágio anterior às conquistas liberais do marco internacional de defesa dos direitos humanos. I.5. Amandla Awethu20: negros(as) do mundo, aquilombai-vos! A ascensão de estudos dos quilombos como questão para ciências humanas advém do reconhecimento da necessidade da temática para compreensão das formas de organização de luta existentes desde África, bem como do processo de dar voz aos que vivem/viveram a realidade da escravização. O nome original vem da história de resistência angolana e queria dizer acampamento de guerreiros na �oresta, administrado por chefes rituais de guerra. Enquanto estabelecimento territorial, há semelhanças e diferenças entre os quilombos de Angola e os �rmados no Brasil, mas, na concepção de Beatriz Nascimento (1981), na raiz de todos existe uma procura do homem por espaço. Nos estudos historiográ�cos, o fenômeno de reunião de negros escravizados fugidos assumem, a partir de �ns da década de setenta e início da década de oitenta, uma conotação ideológica no sentido de comunidade de luta que reconhece o direito à terra (espaço físico) e à terra-nação que lhe deve direitos. Assim observa Beatriz Nascimento no �lme Ori(1989): É importante ver que, hoje, o quilombo traz pra gente não mais o território geográ�co, mas o território a nível(sic) duma simbologia. Nós somos homens. Nós temos direitos ao território, à terra. Várias e várias e várias partes de minha história contam que eu tenho o direito ao espaço que ocupo na nação. A terra é o meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou. (Grifos nossos) Esse excerto da obra da re�exão da historiadora remete à ideia de criação da identidade a partir do pertencimento a um espaço geográ�co, de reconhecer tal espaço como casa, como porto. A rede�nição das subjetividades negras por meio da memória promove um sentido de inclusão e de recon�guração do espaço, compreendendo que, ao reproduzir espaços como casas-grandes e senzalas, existe uma divisão racial do território. Isso se compreende da leitura da naturalização do que é o lugar do negro, ligado à subserviência e à criminalização e do que é o lugar do branco, relacionado a postos de comando e dominação. Lélia Gonzalez (1984, p. 232) ao discorrer sobre, anuncia que “os diferentes índices de dominação das diferentes formas de produção econômica existentes no brasil parecem coincidir num mesmo ponto: a reinterpretação da teoria do ‘lugar natural’ de Aristóteles.” A dialética do senhor e do escravo se apresenta também na lógica de dominação, que diz quem domina e quem é dominado, que tenta domesticar e infantilizar o negro e a mulher. Esse processo é encoberto pelo mito da democracia racial, tática para induzir uma falsa ideia de igualdade não �dedigna com a exclusão de fato das pessoas negras. Com a chave destas questões é que se pretende desnaturalizar a classe, desnaturalizar a raça e desnaturalizar o gênero, assimilando que um instrumentaliza o outro e se reúnem em um só golpe. Pensar através da perspectiva macro é adotar os pontos de referência adequados para captar a questão política estrutural das mulheres e o problema da universalização a partir da “mulher-média”, isto é, branca, burguesa e heterossexual, que não representa a maioria das mulheres negras trabalhadoras que estão na linha de frente da tropa de choque do Estado, isto é, em posições subalternas e marginalizadas. Nesse sentido, o universalismo é encarado como um postulado colonial, porque, ao generalizar as identidades, essencializa particularidades e ignora como a combinação de certos aspectos de dominação atravessamdiferentemente os grupos. Por isso que as mulheres que não se opõem simultaneamente ao patriarcado, ao racismo, ao capitalismo, que buscam igualdade sem reconhecer os privilégios, foram cooptadas pela ideologia de um feminismo pan�etário e liberal. Construir um território livre dos regimes patriarcais é reconhecer que as ideologias classistas e do branqueamento aparelham a produção acadêmica que se faz a respeito do feminismo, de modo que o que pretendemos aqui foi demonstrar que o processo de libertação de um grupo de mulheres implica na prisão de outras, justamente no lugar do saber, espaço de disputa ideológica, viciado pelos valores dominantes da sociedade. Nesse sentido, tomando emprestado mais uma vez os ensinamentos de Lélia Gonzalez (1984, p. 226), pretendemos entender a memória como o lugar de emergência da verdade, de recuperação da história não escrita. É por isso que, de mãos dadas a esta grande intelectual orgânica, hasteamos a bandeira em defesa de um feminismo amefricano. O próprio termo nos permite ultrapassar os limites territoriais, linguísticos e ideológicos presentes na denominação genérica que resume todos nós, sulistas, centristas e nortistas como americanos. A linguagem produz conteúdo de resistência e em terra onde fala o “pretuguês” e se tem povos em diáspora com identidades de enfrentamento à cultura ocidental nada mais politicamente pertinente do que reivindicar a categoria da amefricanidade. Diretamente ligado aos movimentos da “Négritude” e do Panafricanismo em África, o termo reconhece na Diáspora uma experiência histórica de pessoas que, através da escravidão, do colonialismo, do imperialismo e da migração foram forçadas a deixar suas terras nativas. Para as mulheres negras brasileiras ou de descendência africana, o marco diaspórico assinala sua dispersão desde África a sociedades no Caribe, América do Sul, América do Norte e Europa. A respeito do movimento político-cultural pan-africanista e das lentes pan-africanistas socialistas para questões dos povos negros, destacamos a entrevista com um economista do partido comunista de Zâmbia, transcrita no apêndice deste trabalho. Então, Lélia nos convida a abandonarmos as reproduções imperialistas que massacram culturalmente os povos do continente e rea�rmarmos nossos laços com África partindo da realidade histórica dos(as) afroamericanos(as) e sua luta contínua de vida e morte para sobrevivência e libertação. Enquanto teoria e prática crítica, o feminismo não pode se isentar de compreender a realidade na sua totalidade, �ssuras e contradições, de modo que há que se �xar quais as contribuições essenciais das mulheres negras a este feminismo que se pretende autodeterminar negro, anticapitalista e contra-hegemônico sem incorrer, todavia, no separatismo, armadilha burguesa de enfraquecimento. A poeta negra americana e revolucionária feminista, tal qual se reivindicava, Pat Parker, desmente a ilusão de que a revolução é limpa, anunciando: nem limpa, nem bonita, nem veloz, “a revolução é um processo sujo (1988, 196)”, seremos confrontados com decisões de vida e morte, seremos postos em contradição, perderemos batalhas, mas este é o único caminho para nossa liberdade. Nessa linha de raciocínio, Audre Lorde (1988, p.91) nos brinda com a re�exão: As ferramentas do amo nunca desarmarão a casa do amo. Talvez nos permitam temporalmente ganhar-lhes no seu próprio jogo, mas nunca nos deixarão efetuar uma mudança genuína. E este feito é ameaçador somente para as mulheres que ainda de�nem a casa do amo como o único recurso de apoio. É preciso clareza: a luta feminista deve estar voltada para a destruição da estrutura capitalista/racista/colonial/patriarcal que determina os ponteiros das relações sociais, consciente de que ou se combate as causas ou estaremos apenas fazendo micro�ssuras sem alterar o modo de funcionamento da engrenagem. 4 Citação de parte da obra de Frantz Fanon Pele Negra, Máscaras Brancas (2008). 5 Aníbal Quijano (2005) pondera que o conceito de modernidade é ambíguo e contraditório, alertando para a questão de con�ito de interesses sociais em torno do eurocentrismo e os seus mitos fundacionais como: a) a ideia da história da civilização humana como uma trajetória que parte de um estado de natureza e culmina na Europa; b) outorgar sentido às diferenças entre Europa e não-Europa como diferenças de natureza (racial) e não da história do poder. Esses dois mitos são reconhecidos no fundamento do evolucionismo e do dualismo (núcleos do eurocentrismo). 6 Mais recentemente, Silvia Cusicanqui (2010) nos mostra o espelhamento de tais práticas coloniais em outras esferas da vida, como a acadêmica, inclusive em meio a teóricos que se intitulam descoloniais. 7 Destaque para uma passagem do autor: “Depois de quatro décadas desse discurso, a maioria das formas de entender e representar o Terceiro Mundo seguem sendo ditadas pelas mesmas premissas básicas. As formas de poder que têm surgido não funcionam tanto por meio da repressão, senão da normalização, não por ignorância senão por controle de conhecimento; não por interesse humanitário, senão pela burocratização da ação social.” (tradução nossa) (ESCOBAR, 1996, p. 109). 8 Entendemos epistemologia como o ramo da �loso�a que se ocupa da natureza, origens e limites do conhecimento, no sentido dado por Foucault na obra As palavras e as coisas (2000), em que este correlaciona os processos históricos, o sujeito e o saber. 9 Para Quijano (2005), a colonialidade é um dos elementos constitutivos e especí�cos do padrão mundial de poder capitalista. Cabe aqui a diferenciação que o autor faz entre colonialidade e colonialismo, a�rmando que, ainda que vinculados, o colonialismo se refere estritamente a uma estrutura de dominação e exploração, na qual há o controle da autoridade política dos recursos de produção e do trabalho de uma população determinada, mas não necessariamente implica relações racistas de poder, como no caso da colonialidade. A colonialidade foi engendrada dentro do colonialismo. 10 Clovis Moura divide o escravismo brasileiro em duas fases fundamentais: o escravismo pleno (1550-1850) e o escravismo tardio (1851-1888), partindo do princípio de que o movimento abolicionista começava a germinar e a produzir leis de libertação; e do fato de o escravismo passar a conviver com outra forma de gestão econômica. 11 O autor não faz crítica direta, mas entendemos o título do livro como uma provocação à obra mais importante de Immanuel Kant “Crítica da Razão Pura”. O alemão foi canonizado como parte da �loso�a clássica, embora hoje seja visto pelos críticos como um �lósofo higienista. Aponta-se a conexão entre a proposição de universalidade moral e o racismo presente nos seus escritos, pois que a universalidade só poderia existir na medida em que operasse a exclusão, e a demarcação daqueles portadores de dignidade. Longe dos purismos, Mbembe al�neta com muita categoria Kant e prova como se faz uma �loso�a compromissada com a descolonização do pensamento. 12 Em uma clara inversão da realidade, as vítimas se tornam algozes, �guras a serem temidas e, portanto, exterminadas. Referência clara ao romance oitocentista “Vítimas algozes”, de Joaquim Manuel de Macedo, no que toca ao termo utilizado, mas em divergência com as razões do autor que evoca um abolicionismo na contramão dos direitos humanos e igualdade. Atemo-nos aqui à interessante construção sobre a mutação da vítima para o algoz. 13 María Lugones concebe a dicotomia humano e não humano como a dicotomia central da modernidade colonial. 14 O termo “assujeitamento” foi cunhado por Foucault e remete à construção dos sujeitos pela ação de práticas e discursos de poder. 15 Termo utilizado por María Lugones em “Hacia um feminismo descolonial”, artigo publicado em Hypatia, vol 25, no. 4, 2010. 16 As ideias que se seguem devem muito à produção intelectual de Heleieth Sa�oti sobre a mulher e o capitalismo contidas na obra de maior envergadura e central para o debateestrutural. Ver A mulher na sociedade de classes, Ibid. 17 Artigo As mulheres negras na construção de uma nova utopia publicado no portal Geledés- Instituto da Mulher Negra. Disponível em: < https://www.geledes.org.br/as-mulheres-negras-na- construcao-de-uma-nova-utopia-angela-davis/> 18 A aparência das relações sociais oculta os mecanismos de funcionamento da ordem capitalista como, por exemplo, a remuneração do trabalho em dinheiro: sob a forma de salário, disfarça a apropriação, por parte do capitalista, do excedente do trabalho, como que para substituir a justi�cativa jurídica superada da exploração de uma classe por outra. 19 Para Davis (2016, p. 20), o estupro era “expressão ostensiva do domínio econômico do proprietário”. 20 Amandla é uma palavra africana que signi�ca “poder” e Awethu quer dizer “em nossas mãos”. A expressão se consagrou como gritos de ordem do povo africano em resistência ao apartheid e se �rmou historicamente até hoje como uma entoação de luta. II. ABOLICIONISMO PENAL E APONTAMENTOS TEÓRICOS SOBRE JUSTIÇA RESTAURATIVA SOB A PERSPECTIVA FEMINISTA Para trabalhar com o universo da violência contra a mulher, bebemos do acúmulo teórico feminista que diagnostica sua fonte de legitimidade na construção social do gênero, na história das mulheres enquanto sujeitos ausentes, no contrato de liberdade para o homem e de subordinação para a mulher.21 Para termos subsídio teórico que possibilite interpretar os resultados da pesquisa e tecer comparações e cruzamentos entre as categorias de raça, classe e gênero no contexto das práticas retributivas e restaurativas no contexto da violência doméstica, fundamental que aqui façamos um estudo sobre a ideologia penal e suas repercussões desastrosas que são nutrientes para a crítica fecunda à sua existência enquanto método justo de solução de situações problemáticas. É nesta esteira que este capítulo trará as contribuições teóricas essenciais para compreendermos o arcabouço ideológico que subsidia a atuação penal como didática perfeita de persecução dos inimigos do sistema capitalista-patriarcal-racista, bem como a consequência histórica lógica: a organização dos setores críticos da academia e dos movimentos contra as prisões que desembocaram no abolicionismo penal e, posteriormente, na Justiça Restaurativa. Sem adentrar nos resultados, desde já é possível sinalizarmos para aquilo que embasa o direcionamento para a análise que se seguirá. A Lei n. 11.340/2006- Lei Maria da Penha- instaurou mecanismos capazes de enrijecer o tratamento penal no trato dos casos de violência doméstica no Brasil, de modo que estimulou o inchamento do direito penal como mecanismo salvador da questão e, por meio do slogan midiático em prol do aprisionamento e da campanha em torno da própria lei, aumentou, por tabela, o controle penal pelo encarceramento, cerne da crítica criminológica há décadas. Reconhecendo o potencial transformador do instituto legal, re�exo da organização e do tensionamento perante o Estado do movimento feminista, é possível, ainda assim, identi�carmos frustrações nos resultados desta atuação, seja nas expectativas das vítimas, seja em relação aos dados o�ciais sobre os con�itos domésticos no Brasil, que seguem alarmantes. Um breve desnudamento do panorama atual das repercussões da intervenção penal nestes con�itos aponta para sua ine�cácia na proteção das mulheres, pois que, dentre outras coisas, como aponta Vera Regina Andrade(2016), não previne novas violências, não escuta verdadeiramente as vítimas, não contribui para a compreensão das motivações histórico- político-sociais que autorizam esse tipo de violência e, por tabela, para uma nova gestão das relações de gênero, bem como ainda duplica a violência exercida contra elas. Arremata (Ibid, p. 131): “Isto porque se trata de um subsistema de controle social, seletivo e desigual, tanto de homens como de mulheres e porque é, ele próprio, um sistema de violência institucional, que exerce seu poder e seu impacto também sobre as vítimas.” Assim, o sistema penal é identi�cado como multiplicador da vitimação feminina, pois além da violência sexista a que estão expostas, as mulheres tornam-se vítimas da violência simbólica22 das instituições jurídicas que reproduzem as violências capitalistas e patriarcais. Os controles informal e formal constroem uma subjetividade de submissão, doença psiquiátrica, passividade, domesticidade para a mulher, de modo que aquelas que não respondem bem a esses mecanismos de limitação de seu agir são as delinquentes. O que se espera da mulher é que ela �que no espaço doméstico e cumpra os papeis sociais a ela destinados. No momento em que ela rompe o ciclo de violência e denuncia, ela delinque, tem uma posição ativa e empoderada. O sistema, no entanto, ao perceber que algumas mulheres já ultrapassaram a barreira do silêncio e que são “transgressoras” por denunciarem, atualiza o mecanismo: ora revitimiza a mulher nas instâncias judiciais, culpabilizando-a por seus comportamentos que contrariam as expectativas machistas de subordinação e, por isso, provocam a violência; ora induz por meio da propaganda e do punitivismo a uma mentalidade superencarceradora das mulheres para com seus agressores. Nas duas ocasiões, as mulheres estão sendo controladas pelo sistema, conforme a conveniência dele: se naquele estágio é importante que as mulheres estejam no espaço doméstico e submissas, a primeira postura é adotada; se, ao contrário, a realidade mostra o avanço da luta das mulheres, mais interessante é cooptar essa demanda e conduzir para o objetivo maior do sistema penal: encarcerar, excluir e aniquilar (no caso, o agressor). A mulher delinque ao romper o ciclo da violência e delinque ao contrariar a vontade punitiva do sistema. Desta feita, com uma nítida e justa intenção de frear a progressão das ocorrências de violência de gênero, podemos dizer que houve um descompasso entre as funções declaradas pela Lei Maria da Penha e as consequências reais da sua aplicação. A começar pelo aspecto subjetivo, pesquisas apontam (MONTENEGRO, 2015) que grande parte das mulheres está mais interessada em buscar proteção e cessar a prática violenta do que a punição criminal do agressor. No entanto, a expropriação do con�ito pelo Estado (CHRISTIE, 1977) além de reduzir a complexidade dos casos, redunda na apresentação de uma única solução possível: a punição através da prisão. Dessa forma, ao desconsiderar os aspectos afetivos envolvidos, impõe, paradoxalmente, sanções como a revitimização da mulher no processo penal e o encarceramento de agressores advindos das classes subalternas. Além disso, a lei não se mostrou até agora como meio e�caz na redução signi�cativa dos índices de violência nem como meio pedagógico na mudança de comportamento dos homens, posto que pautada na compreensão dos signos patriarcais que instrumentalizam o machismo nas relações afetivas. Nesse sentido, dialogar com um novo paradigma para além da prática punitiva do aprisionamento e da exclusão social, da ritualística hierarquizada da justiça tradicional, da palavra de ordem legal e da força, é colocar em pauta também que o universo da violência é o universo da dor e que os seus sujeitos têm uma fala, bem como saberes que não passam, necessariamente, pela mão do Direito Penal. II.1. Punição estrutural: a laranja mecânica23 do dia a dia Comecemos localizando nosso marco como transdisciplinar por excelência, o que nos garante percursos pelo direito penal, sociologia, �loso�a, política e nem por isso nos situa em um labirinto teórico. Recorremos às outras áreas do conhecimento porque sabemos que a boa prática do direito deve se contaminar e se retroalimentar destas. A partir disso, nos movemos no sentido de nos libertar da assepsia jurídica que pretende neutralidade e purismo conceitual. Bem pelo contrário, se identi�camos que o direito é fruto de uma sociabilidade voltada à acumulação, exploração do trabalho assalariadoe recortado pelas contradições de classe, desmascaramos o alegado afastamento e denunciamos, desde já, que sua institucionalidade e seu conjunto teórico- abstrato são mecanismos de aperfeiçoamento dos objetivos capitalistas. Demarcar este lugar de análise aponta o movimento de politizar e historicizar o debate sobre a questão criminal, no sentido contrário ao positivismo, que tem pretensão classi�catória e hierarquizante, para �ns de deslocar o foco do automatismo de subsunção do fato à norma e abrir os olhos para os mecanismos de controle social punitivo nos sistemas penais capitalistas. Para tanto, a ferramenta teórica escolhida é a criminologia crítica. Mas que coisa é a criminologia crítica? Primeiramente, cabe dizermos que seria um grupo de saberes que observa o delito como fenômeno social (Sutherland, 1945), iluminando as relações com a estrutura a partir de um enfoque macrossociológico que historiciza a realidade comportamental (Baratta, 2002). Em oposição à Criminologia tradicional, ciência que a�rma a realidade ontológica do crime através do método positivista de causas biológicas, psicológicas e ambientais, a Criminologia crítica se desenvolve pela mudança de objeto e método: desloca-se a criminalidade como dado ontológico para a criminalização enquanto realidade construída a partir da quali�cação da justiça criminal, orientada pelos estereótipos e preconceitos oriundos dos processos de marginalização social. As determinações causais do método etiológico são abandonadas e emprega-se o duplo método: interacionista, de construção do crime e da criminalidade, pelo qual o foco deixa de ser o indivíduo para ser o sistema, bem como o método dialético, que insere a concepção criminal no contexto da contradição capital/trabalho assalariado, pilar das instituições básicas do capitalismo. (CIRINO DOS SANTOS, 2005) A criminologia Crítica se �rma pelo debate estrutural da produção do crime, da criminalidade e do criminoso, discutindo poder, instituições jurídicas e criminalização seletiva, ao relacionar as relações econômicas, políticas e jurídicas. Nesse sentido, recebeu e recebe muitas in�uências da literatura marxista para, através de uma teoria do con�ito de classes, explicar as contradições que permeiam essas três esferas e discutir a questão criminal dentro do processo dialógico do capitalismo. Originário da criminologia fenomenológica americana de meados do século XX, o paradigma do labeling approach marca o giro cientí�co da teoria criminológica, pois analisa o fenômeno criminal como produzido por normas e valores e de�ne o comportamento criminoso como qualidade atribuída por agências de controle social, de modo que o criminoso é “o sujeito ao qual se aplica com sucesso o rótulo de criminoso (Becker, 2008, p. 22). A questão deixa de ser “quem é o criminoso?” e passa a ser “quem é de�nido como criminoso?”. Segundo Baratta (1985), o labeling approach representa condição necessária, mas insu�ciente para formação da Criminologia crítica: necessária porque coloca o comportamento criminoso como consequência da aplicação de regras e sanções pelo sistema penal, mas condição insu�ciente, porque incapaz de indicar os mecanismos de distribuição social da criminalidade, inseridos no contexto das desigualdades sociais em propriedade e poder das sociedades contemporâneas. A integração dos processos estudados pelo labeling approach com os processos estruturais e ideológicos das relações de produção da vida material enfrentados pelo marxismo lançou as bases da Criminologia Crítica na Europa e, depois, na América Latina. A tese fundamental da Criminologia crítica sobre o sistema de justiça criminal é: de um lado, estão as funções declaradas de prevenção da criminalidade e de ressocialização do criminoso que constituem a retórica legitimadora da repressão seletiva de indivíduos das classes sociais rasteiras, baseada em indicadores negativos como pobreza e desemprego, marcando a criminalização da miséria no capitalismo; de outro lado, as funções reais do sistema penal, isto é, as funções não-declaradas24 de gestão de classe a partir da gestão diferencial da criminalidade. Em suma, a Criminologia crítica atribui “o fracasso histórico do sistema penal aos objetivos ideológicos (funções aparentes) e identi�ca nos objetivos reais (funções ocultas) o êxito histórico do sistema punitivo, como aparelho de garantia e de reprodução do poder social”.25 No curso dos discursos criminológicos, assume-se que os objetivos, métodos e políticas não são neutros, em sintonia com a lição de Mássimo Pavarini26 quando diz que para entendermos o objeto da criminologia temos de entender a demanda por ordem de nossa formação econômica e social, pois que a criminologia se relaciona com a luta pelo poder. A criminologia e a política criminal surgem como saber/poder a serviço da acumulação de capital, compromissadas em dar respostas políticas à necessidade de ordem na perspectiva de luta de classes. 27 Embora o marxismo clássico não tenha sistematizado o assunto, podemos dizer que há aproximações marxistas à questão criminal, já que o direito aparece como demanda por ordem vinda de necessidades econômicas, sociais, culturais e políticas. O marxismo revelou a aparência legitimadora da norma jurídica sobre os modos e as lutas que se produzem nas relações de classe, denunciando, sem se anunciar como teoria materialista do desvio, as estratégias seletivas de controle social. Segundo Pavarini (apud Batista, 2011), para uma economia política do delito é importante compreender a natureza estrutural dos processos criminógenos, relacionando o fenômeno criminal às classes sociais no modo de produção capitalista. A economia política do crime estaria consubstanciada no conjunto de interações entre o processo produtivo, a pauperização e a criminalidade. Sobre as contribuições do marxismo, Vera Malaguti (2011, p. 84) coloca que: são fundamentais para uma ruptura metodológica no curso dos discursos sobre a questão criminal. É produzida uma passagem da fenomenologia criminal para os processos de criminalização, o olhar se estende para além do objeto, na tensão constante da luta de classes e a fúria devastadora do capital. Entram em jogo as relações entre ilegalidade e mais-valia, ilegalidades das classes trabalhadoras, os crimes contra a propriedade, as estratégias de sobrevivência das classes trabalhadoras, as relações entre a estatística criminal e o mercado de trabalho, a ideia de um aprisionamento desigual, articulado à repressão da classe operária, dos pobres e dos resistentes, como dizia a brava Rosa Del Olmo. En�m, essa escola de pensamento põe por terra a argumentação positivista e reti�ca o pensamento liberal de médio alcance. O marxismo e as pesquisas libertárias e deslegitimadoras da pena do labeling estadunidense pariram a criminologia crítica. Compreender a punição a partir de uma chave estrutural, do ponto de vista econômico, político e social, permite desvendar os objetivos escusos e perceber o desenvolvimento do pensamento social que orienta comunidade e Estado na relação com os(as) desviantes. Com isso queremos desenredar o processo de ideologização subjacente à problemática da punição e, para tanto, é essencial esclarecermos que as prisões são uma forma especi�camente burguesa de punição. A construção da ideologia burguesa de trabalho é acompanhada pelo surgimento de uma concepção burguesa de tempo que tornará possível o princípio fundamental de proporcionalidade da pena, do tempo dedicado ao castigo justo em razão do crime cometido. A partir da história da luta de classes, dos processos de assujeitamento, subserviência e desumanização das classes não-proprietárias no tratamento perverso e vingativo dos(as) divergentes, é possível dizer que a história da punição é uma grande extensão da história da irracionalidade e crueldade humana. A relação direta entre classes subalternas, desvio e punição justi�cada pordesígnios divinos delineia, na Idade Média, a divina comédia cristã28, em que a pobreza não é entendida como fenômeno social resultante da acumulação desproporcional de riquezas e exploração, mas como benfeitoria de Deus para que aos ricos seja concedida a glória de poder ser caridoso e aos pobres a possibilidade de se ajoelhar diante de tamanha misericórdia. Estava pintada a alegoria da Pobreza de forma convincente a acalentar os corações nobres. Assim como na Idade Média, em que os malfeitores sem condições de pagar a �ança em moeda sofriam castigos corporais, o sistema econômico ainda determina o direito de acesso às prerrogativas penais. A �ança reservada aos ricos representa as garantias processuais penais e os castigos corporais foram atualizados para o cárcere aos pobres. A escolha das lentes do materialismo histórico subsidia a leitura da política criminal e sua capacidade programada de alienar os sujeitos e ser instrumento de controle de classe. A dialética tece comparações entre a dominação capitalista sobre o proletariado e o subjugo do indivíduo criminalizado, excluído do processo de produção e refém do Direito burguês. O método crítico, nos parâmetros marxistas, estatui que o conhecimento cienti�co coerente com os fatos sociais só pode ser alcançado se primeiro estudarmos a história constituinte (como devir e desenvolvimento da superação da luta entre contrários) e o histórico constituído (como corte transversal da história, o contexto, o momento conjuntural). A totalidade, assim, garante que não haja uma ideologia por ocultamento. A teoria tem em si mesma uma potencialidade transformadora. No entanto, uma prática teórica que tende à manutenção da ordem é reprodutora, visto que transformadora será se e quando orientada para a mudança. Partindo da crítica cultural da escola de Frankfurt e a crítica econômica de Marx, a função da teoria será a de desmascarar todo tipo de legitimação ideológica, bem como a de exigir uma discussão racional de toda relação fática de poder. Nesta esteira, reunindo elementos trazidos por diversos autores que forjam a teoria crítica, Lola Aniyar de Castro(2005)29 seleciona elementos centrais para uma teoria crítica do controle social, quais sejam: deve se perceber parte de um processo e vinculada à libertação humana; deve ser auto re�exiva e histórica, fugir de análises lineares; e deve ter caráter dialético para perceber as contradições. Por se localizar nesta linha de pensamento, a autora venezuelana propõe uma teoria crítica do controle social a �m de atingir uma prática teórica transformadora. Mas o que se entende por isso? Estamos de acordo com a discrição da autora (CASTRO, 2005, p.53): o conjunto de sistemas normativos (religião, ética, costumes, usos, terapêutica e direito) cujos portadores, através de processos seletivos(estereotipia e criminalização) e estratégias de socialização(primária e secundária), estabelecem uma rede de contenções que garantem a �delidade(ou, no fracasso dela, a submissão) das massas aos valores do sistema de dominação; o que, por motivos inerentes aos potenciais tipos de conduta dissonante, se faz sobre destinatários sociais diferentemente controlados segundo a classe a que pertencem. A criminologia trata do controle social e do poder e pode se comportar como poder. E por falar em poder, de extrema riqueza é levantarmos a história não contada da criminologia na América Latina, situando a perspectiva imbricada ao trabalho com a perspectiva desde o Sul, desde as realidades sociais de cá que, embora diversas entre si, respondem a uma lógica uniforme que foi ditada pela política que divide o mundo em países centrais e periféricos. A respeito da violência resultado do controle social e dos sistemas penais na América latina, Juarez Cirino dos Santos (1984, p.70-71) sumariza a violência estrutural e institucional em nossa região: A realidade criminológica na América Latina pode ser de�nida em três direções principais: a) a repressão impiedosa das classes dominadas(especialmente os setores do proletariado urbano e rural não integrados no mercado de trabalho, como força de trabalho ociosa e excedente), para os quais existem os Códigos Penais e outras leis especiais ainda mais rigorosas, a polícia, os tribunais e as prisões; b) a imunidade das classes dominantes pelas práticas criminosas contra a vida, a saúde, a integridade e o patrimônio do povo, nas práticas antissociais abrangidas pela chamada criminalidade de colarinho-branco; e a imunidade complementar do terror institucionalizado (torturas e assassinatos de presos políticos, os assassínios de grupos militares e para militares- esquadrões da morte- e a tortura sistemática de presos comuns); do genocídio de índios; do trá�co de escravos para venda de trabalhadores, con�nados em ‘campos de concentração’ de empresários rurais geralmente estrangeiros. Essas práticas não constituem privilégio deste ou daquele país do continente, mas se generalizam em toda a América Latina, como consequência de sua absorção; integração no mercado mundial, sob a égide do imperialismo (...); c) a terceira forma de violência é, talvez, a mais sutil, mas não menos e�ciente: a violência do imperialismo ideológico que impõe à América Latina o consumo de teorias importadas (...). A partir disso, entendemos que o positivismo racista na América Latina serviu para subjugar minorias étnicas, para justi�car relações de exploração Norte-Sul, ao estabelecer um suposto vínculo natural entre subdesenvolvimento, meio geográ�co e delinquência. Neste contexto, o direito penal serviu de instrumento para aprofundar as diferenças sociais e a ciência jurídico-penal justi�cou a intervenção punitiva o�cial em auxílio a privilégios. Atualmente, sabemos que a criminalização inicia pelas formulações legais (vertente ‘legal’ da criminologia), o que se faz basicamente segundo o pertencimento de classe. O chamado princípio da legalidade faz a distribuição dos ilegalismos, colocando uns em leis penais e outros em leis administrativas, civis, conforme o sentido da proteção da ordem burguesa inaugurada na revolução francesa. A dogmática penal tem, sim, cumprido o papel de “�loso�a da dominação”, seja pelo discurso, seja pela força. Especialista na justi�cativa da ressocialização, a criminologia positivista atuou incidindo apenas sobre o homem, não sobre as estruturas, não sobre os interesses, não sobre a reação social, não sobre o exercício do poder. Mas será que o tratamento realmente fracassou? Lola (2005, p. 49) opina: Fracassaram, talvez, os �ns explícitos da prisão e do tratamento. Não fracassou na medida em que tanto o cárcere-repressão pura- como o tratamento- repressão ideologizada- lograram cumprir seus �ns implícitos: reproduzir o sistema de classes e deixar a classe hegemônica de mãos livres para realizar seus objetivos através da racionalidade do mercado; rati�car as teorias do senso comum, as quais, ao separar as classes delinquentes das classes não delinquentes, consolidam a estrati�cação. Para fazer frente a isso, a autora convida todos(as) a conhecer a criminologia da libertação, conjunção de elementos da teoria crítica do controle social (nível interpretativo); criminologia crítica, a nova criminologia e a criminologia radical (nível criminológico); e o materialismo histórico (nível epistemológico). Esta libertação quer dizer deslegitimação. Deslegitimação, tratando-se de controle social, é uma discussão sobre dominação. Mas, a�nal, libertação de que, Lola? Libertação das estruturas exploradoras; especialmente, mas não exclusivamente, através de uma libertação da ocultação das relações de poder e do funcionamento mascarado dos interesses. Libertação do discurso educativo, religioso, artístico e criminológico, vinculados àquelas relações de poder. Libertação da razão tecnológica que contrabandeia para nossos países um conceito arti�cial de desenvolvimento. (CASTRO, 2005, p. 110) O controle social nãoé nada além de um conjunto de táticas, estratégias e forças para a construção da hegemonia, isto é, para a busca da legitimação ou garantia do consenso; ou, em caso de fracasso, para a submissão forçada dos que não se integram à ideologia dominante. Por conta disso, importantíssimo termos um modelo criminológico integrado às prerrogativas e debates dos Direitos Humanos. Para tanto, é oportuno esclarecermos três questões: primeiro, a lei não objetiva transformar a sociedade, nem tem capacidade de fazê-lo. Segundo, quando se fala em defesa da sociedade, na verdade se está falando em proteger o sistema. Assim sendo, os direitos humanos não foram de�nidos para serem protegidos, mas para, em nome deles, se defender o direito burguês, liberal e individualista de grupos. (Op. Cit.) Com efeito, Alessandro Baratta, dentre outras contribuições de altíssima envergadura para a criminologia e ciências criminais, toma como objeto o homem e a emancipação humana, base que lhe permitiu quali�car a criminologia crítica como “um programa de defesa dos direitos humanos, em contraste com as posições conservadoras dedicadas à legitimação do status quo” (1997, p. 60-63) II.2. A parte que lhe cabe neste latifúndio: a fábrica do cárcere A estrutura econômica, segundo Cirino dos Santos (2015), percebe a produção e a circulação de mercadorias, com o objetivo de lucro e através da apropriação de mais-valia como trabalho não remunerado; a estrutura do Direito, institui a “legalidade” da desigualdade social entre a classe capitalista (proprietária dos meios de produção e circulação) e a classe trabalhadora (possuidora de força de trabalho vendida ao capitalista pelo preço do salário); e a estrutura política do Estado garante as desigualdades sociais nas relações econômicas e nas formas jurídicas respectivas através do poder coercitivo do Sistema de Justiça Criminal. O sistema punitivo compreende uma lógica de poder movimentada pela estrutura do Estado, de modo que, desde tempos remotos, a organização do sistema punitivo é manifestação do controle social. A punição hegemônica na sociedade moderna está associada à formação do eu da sociedade burguesa/capitalista (MENEGAT, 2006). Segundo Menegat: se a Reforma Protestante ajudou a moldar o eu em sua liberdade e autonomia, que caracteriza o espírito burguês, o sistema punitivo teria sido o seu outro tanto, necessário à disciplina e moldura do eu dos trabalhadores imprescindíveis para a indústria nascente. O que Calvino e Lutero foram para as necessidades morais do bom burguês, que facilitaram o desenvolvimento da lógica mercantil da sociedade capitalista, as casas de correção e sua terapêutica disciplinar embrutecedora o foram para as massas que, literalmente, amassadas e derrotadas, foram transformadas em corpos dóceis para o trabalho fabril. Ao analisar a dissolução do mundo feudal e o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção, a chamada acumulação primitiva do capital nos séculos XV e XVI, Melossi a Pavarini (2006) apontam como consequência a expropriação dos meios de produção e expulsão dos trabalhadores do campo para a sua concentração nas cidades, onde deveriam ser transformados em operários. Os trabalhadores, que deveriam dispor sua força de trabalho nas manufaturas eram absolutamente inaptos à disciplina do trabalho assalariado. Em �ns do século XVI, a escassez de força de trabalho era crescente e gerava reclamações sobre o ócio dos mendigos, pois, quando as condições de trabalho eram precárias, estes preferiam sobreviver da caridade privada ao trabalho regular, optando por mendigar a trabalhar por baixos salários e em situações muito precárias. Assim, as casas de correção foram uma forma de impelir os trabalhadores à aceitação de empregos miseráveis. Assim, Melossi (2004, p. 130) a�rma que: Vindos das ruínas do feudalismo, capital e operários ‘livres’ são colocados frente a frente. E são reunidos materialmente na manufatura. Para esse proletariado em formação, tal abraço não é voluntário nem de modo algum prazeroso. Ele deve adaptar- se à clausura, à falta de luz e de espaço, à perda daquela relativa autonomia permitida pelo trabalho nos campos, para submeter-se à autoridade incondicional do capitalismo, na mais brutal e fatigante monotonia e repetitividade. Não é por acaso, como veremos, que manufatura e cárcere tenham historicamente uma mesma e interdependente origem. (grifo meu) O cárcere desde essa época era lugar de produção de homens servis, transformando o criminoso rebelde em sujeito disciplinado e adestrado ao trabalho fabril. Funcionava como instrumento de adestramento dos antigos camponeses que repeliam os novos métodos de produção, para o trabalho nas manufaturas pela assimilação da disciplina fabril. As casas de correção cumpriram o objetivo de formar sujeitos dóceis e úteis, pela submissão ao trabalho obrigatório e uma rígida disciplina, que deveriam desviar os trabalhadores expropriados, potenciais mendigos, vagabundos e bandidos, do caminho do ócio e da vagabundagem, educando-os e domesticando-os para o trabalho assalariado. As casas de correção destruíram a resistência do trabalhador em adentrar o mundo da manufatura, reduzindo a estranheza a esse espaço. Melossi (2006) a�rma que a fábrica é o mistério revelado da moderna prisão e o operário o destino ao qual o delinquente está condenado. Isto é, tanto o operário quanto o delinquente estão condenados a suas prisões, seja no mundo do trabalho, seja no mundo da justiça penal. A prisão desenvolve esse papel de ser instrumento para compelir o homem livre a aceitar as condições degradantes de trabalho ante a possibilidade de ir para as casas de correção fazer trabalhos pesados di�cilmente aceitos por homens livres. A assimilação da disciplina capitalista, própria ao seu processo de produção, dizem Melossi e Pavarini (2006), desempenhava um papel fundamental, devendo o preso ter um comportamento regrado e submisso à autoridade. O cárcere era um espaço de produção onde o trabalhador deveria aprender a disciplina da produção e o apego à disciplina estava em aspectos como o respeito à ordem, limpeza, vestuário, comida, ambiente saudável e linguagem proibida. As casas de correção eram a célula embrionária do controle físico e ideológico do proletariado nascente para sua produção e reprodução, formando uma força de trabalho que, pelas atitudes morais, saúde física, capacidade intelectual, conformidade às regras, hábito da disciplina e obediência, estaria adaptada ao regime da fábrica. Os espaços correcionais eram os atos preparatórios para a reclusão no ambiente da fábrica, pois incluíam o trabalhador no processo de educação para o obediente civil e bom proletário, subserviente e produtivo. O preso ia assumindo um padrão de conduta útil ao processo de trabalho capitalista, de modo que os corpos e mentes dos homens modernos foram sendo moldados às necessidades capitalistas pela associação da prisão, da família mononuclear, da escola, do hospital e do manicômio (MELOSSI e PAVARINI, op. cit. p. 46). Para Melossi e Pavarini (2006), a tentativa de transformar o trabalho carcerário em um trabalho produtivo foi frustrada, pois, do ponto de vista econômico, o cárcere não alcançou grandes resultados, mas a prisão teve sucesso na transformação dos criminosos em proletários, pois o “objetivo desta produção não foram tanto as mercadorias quanto os homens” (Idem, p. 211). Deste processo emerge o novo homem, “fantasma monstruoso, o novo animal a um só tempo selvagem e domesticado.” (Idem, p. 237) Horkheimer e Adorno (1947, pps. 106-107) complementam: O homem na penitenciária é a imagem virtual do tipo burguês que ele deve se esforçar para se tornar na realidade(...) Eles (os prisioneiros) são a imagem do mundo burguês do trabalho pensado até as extremas consequências, que o ódio dos homens por aquilo que devem fazer a si mesmos coloca como emblema do mundo(...) Como, de acordo comTocqueville, as repúblicas burguesas, ao contrário das monarquias, não violentam o corpo, mas investem diretamente na alma, assim, as penas deste ordenamento agridem a alma. As suas vítimas não morrem mais ligadas à roda por longuíssimos dias e noites inteiras, mas perecem espiritualmente, exemplo e silencioso, nos grandes edifícios carcerários, que apenas o nome, ou quase, distingue dos manicômios. Os autores referidos falam de um processo dialético de destruição e reconstrução, em que a condição de proletário é imposta ao condenado como única possibilidade de sobrevivência do não-proprietário. O não- proprietário preso deve ser transformado em proletário, a partir da aceitação da condição subordinada e do reconhecimento da disciplina do salário. A educação para o trabalho assalariado é o único instrumento para satisfação das necessidades pessoais, com a consequente aceitação do status de não-ser proprietário. Arrematam brilhantemente: “O cárcere assume, portanto, a dimensão de projeto organizativo do universo social subalterno, modelo a ser imposto, espalhado, universalizado” (Idem, p. 216.) Nesse mesmo caminho, Foucault a�rma que o cárcere deveria fabricar proletários, requali�cando o interno em operário dócil, impondo a forma “moral” do salário como condição de sua existência e adquirindo amor e hábito ao trabalho. Conclui Foucault que a utilidade do trabalho penal não era o lucro e “nem mesmo a formação de um trabalho útil, mas a constituição de uma relação de poder, de uma forma econômica vazia, de um esquema de submissão individual e de seu ajustamento a um aparelho de produção”. (FOUCAULT, 2009, p. 230) Acerca da observação do sistema punitivo e de sua função na ordem jurídica capitalista de garantidor da propriedade privada, Pachukanis (2017) aponta a inserção do Direito Penal e do Processo penal na lógica capitalista, em que os delitos e as penas assumem posição de prestação e contraprestação quando a norma penal negocia a quantidade de liberdade a ser retirada em detrimento do ato criminoso. Melossi e Pavarini (op. cit. p. 264-266) apresentam os enlaces entre o universo da fábrica e o universo do cárcere: 5. Na relação de trabalho, a subordinação do prestador de trabalho é (também) “alienação pelos/dos meios de produção”. Na relação penitenciária, a subordinação do preso é “expropriação” (também) pelo/do próprio corpo”. (...) 8. Se o trabalho subordinado é, portanto, coação, a pena carcerária é o “nível mais alto” (ponto terminal e ideal) da coação. Daí deriva a função ideológica principal da penitenciária: a hipótese emergente do cárcere como universo onde a situação material do submetido (internado) é sempre “inferior” à do último dos proletários. (...) 11. E �nalmente: a “fábrica é para o operário como um cárcere” (perda da liberdade e subordinação): o “cárcere é para o interno como uma fábrica” (trabalho e disciplina) (grifo meu) Assim como o crime é o produto de um contexto político e social de atribuição de sentido ao que se considera deplorável (ou quem se considera indesejado) (CHRISTIE, 2013), a pena de prisão é, também, apenas uma categoria dentre muitas outras possíveis de enfretamento do con�ito. Assim, na sociedade capitalista, o direito penal capitalista, com seus valores de submissão do homem pelo homem, instaura um tipo de subjetividade em que a representação do homem abstrato e do trabalho humano abstrato são avaliados em tempo. São os dizeres de Pachukanis (Op.cit., p. 177): A privação de liberdade por um prazo determinado de antemão e especi�cado por uma sentença do tribunal é aquela forma especí�ca por meio da qual o direito penal moderno, ou seja, burguês-capitalista, realiza o princípio da reparação equivalente. Este modelo é inconsciente, mas está profundamente ligado ao homem abstrato e à abstração do trabalho humano mensurável pelo tempo. Não é por acaso que essa forma de castigo se fortaleceu e começou a parecer natural justamente no curso do século XIX, ou seja, quando a burguesia se desenvolveu completamente e pôde a�rmar todas as suas características. É claro que prisões e calabouços existiam também na Antiguidade e na Idade Média, ao lado de outros meios de castigo físico. Mas neles deixavam-se as pessoas até a morte (ou quase) ou até que pagassem em dinheiro pelo resgate. Estas re�exões endossam o signi�cado político-cultural da punição. No campo do controle do crime, o mais expressivo evento não é a transformação das instituições, mas o desenvolvimento pari passu de novas formas de gerir o crime e os criminosos, a que Garland (2008, p.369) chama de terceiro setor ‘governamental’. Este novo aparato de prevenção é formado por organizações, parceiras público-privadas, policiamento comunitário etc. A fórmula social que passou a embasar, a partir dos anos 1990, o recrudescimento nas soluções penais a casos de grande repercussão foi a somatória de: periculosidade, vitimização, brecha do controle penal, valores dos meios de comunicação de massa e medos da classe média. A propósito disso, Za�aroni (2017) já destacou a função crucial dos meios de comunicação de massa na produção dos medos e na propagação ideológica do sistema penal como guardião da segurança cidadã. Para arrematar esta conclusão sobre a atividade predatória penal somada ao trabalho midiático produtor do senso comum, Garland (2008, p. 73) a�rma que isto consubstancia um “estilo retaliador de elaboração de leis”, simbolizando o atendimento às urgências punitivas e a clemência por justiça. Os objetivos centrais são conter a revolta popular, reconfortar o público e restaurar a credibilidade do sistema. A credibilidade, portanto, está em endurecer o método e responder às expectativas. A defesa do autor é que, malgrado as estruturas do controle tenham mudado, as transformações mais signi�cativas se deram ao nível da cultura que dá vida a estas estruturas, orienta seu uso e cria seu signi�cado. Três elementos centrais compõem esta nova cultura do controle: a) um novo previdenciarismo penal recodi�cado; b) uma criminologia do controle; c) um estilo econômico de pensamento. A análise a fundo desses elementos não é o objetivo deste trabalho, mas uma leitura mínima dos contextos econômicos-políticos presentes permite a compreensão das novas tecnologias de controle no capitalismo neoliberal. Se no sistema penal-previdenciário (norte-americano, analisado por Garland) a prisão era concebida como última instância de correção, na atualidade é “um tipo de reservatório, uma zona de quarentena, na qual indivíduos supostamente perigosos são segregados em nome da segurança pública” (GARLAND, 2008, p. 381). Os presos de agora também são presos políticos, pois que contrariaram a lógica do sistema: são de uma subclasse- empregados proletários ou desempregados-, negros(as), não geram lucro para a economia, estão nos grupos bene�ciários da previdência. Em outras palavras, “o encarceramento em larga escala funciona como um modo de posicionamento econômico e social, um mecanismo de zoneamento que segrega aquelas populações rejeitadas pelas decadentes instituições da família, do trabalho e da previdência, colocando-as nos bastidores da vida social” (GARLAND, 2008, p. 382). A prisão opera como exílio, não mais pautada no ideal de reabilitação e mais por um ideal que Rutherford (apud Garland) chama de eliminativo. Ao tratar o desejo por segurança como valor associado à pós- modernidade e às novas relações econômicas, Garland (2008, p. 417) arremata que o que marca a tensão entre liberdade e controle é a dialética, isto é, o individualismo de mercado consiste na liberdade de alguns amparada na exclusão e no controle seletivo de outros: Convencidas da necessidade de rea�rmar a ordem, mas refratárias em restringir as possibilidades de consumo ou a abrir mão das liberdades pessoais; determinadas a aumentar sua própria segurança, mas refratárias a pagar mais impostos ou a �nanciar a segurança de outros; chocados como egoísmo desenfreado e com comportamentos anti- sociais, mas comprometidas com um sistema de mercado que reproduz precisamente aquela cultura, as angustiadas classes médias, hoje em dia, buscam solucionar sua ambivalência zelosamente controlando os pobres e excluindo os marginais. Dado que os ideais de solidariedade foram eclipsados pelos imperativos mais básicos de segurança, economia e controle, o encarceramento se renova porque capaz de funcionar nas sociedades neoliberais como ferramenta “civilizada” e “constitucional” de segregação das populações problemáticas criadas pela economia e pelos arranjos sociais atuais. Por ser assim, é inevitável escancarar a função real do encarceramento: satisfação da sanha retributiva e de con�namento do perigo. O resultado deste propósito é o aprisionamento dos excluídos do mundo do trabalho, da previdência e da família – no Brasil personi�cado pelos jovens negros periféricos que, com isso, �nalmente vêm consagrada sua exclusão econômica-social pelo status criminal. Assim, “um governo que rotineiramente sustenta a ordem social através da exclusão maciça começa a se parecer como um Estado-apartheid” (GARLAND, 2008, p. 429). Qualquer semelhança da conjuntura de hoje com a história não é mera coincidência. II.3. Em busca das promessas perdidas30: o direito penal desmisti�cado O mestre criminólogo argentino Eugenio Raul Za�aroni, em seu célebre livro “Em busca das penas perdidas” (1991), começa destrinchando a razão de nomear de perdidas as penas, esclarecendo que pena é a in�ição de dor sem sentido e perdida no sentido de ser carente de racionalidade. Tanto é assim que o discurso penal do qual falaremos “se desarma ao mais leve toque com a realidade”. (ZAFFARONI, 1991, p. 12) Ao detectarmos a falência do sistema penal em suas funções declaradas de prevenção geral, redução da criminalidade e ressocialização de quem delinque, �ca claro que, cada vez menos, há um esforço de manter o discurso jurídico-penal racional, por conta do esgotamento das �cções criadas e alimentadas para garantir a legitimidade de atuação. Enquanto isso, os órgãos do sistema penal operam com um nível de violência tamanha a ponto de a marca do seu poder ser a morte em massa. (Op. Cit., p. 13) A falsidade do discurso penal foi desmascarada há muitas décadas, de modo que não cabe mais o argumento de que a prática progrediria ao serem superados os defeitos produzidos pelo desenvolvimento tardio da América Latina em relação aos países centrais. Além da má-fé dos que reconhecem a falsidade e os objetivos reais do discurso penal, sua permanência também se dá através do garantismo que não vislumbra saída além do direito penal. Ou seja: Hoje, temos consciência de que a realidade operacional de nossos sistemas penais jamais poderá adequar-se à plani�cação do discurso jurídico-penal, e de que todos os sistemas penais apresentam características estruturais próprias de seu exercício de poder que cancelam o discurso jurídico-penal e que, por constituírem marcas de sua essência, não podem ser eliminadas, sem a supressão dos próprios sistemas penais. A seletividade, a reprodução da violência, a criação de condições para maiores condutas lesivas, a corrupção institucionalizada, a concentração de poder, a verticalização social e destruição das relações horizontais ou comunitárias não são características conjunturais, mas estruturais do exercício de poder de todos os sistemas penais. (ZAFFARONI, 1991, p. 15) É por isso que falar em crise para se referir à contradição entre o discurso jurídico-penal e a realidade operacional do sistema é equivocado, pois não há uma ruptura, a contradição é justamente sua condição fundante. Para o supracitado autor, a crise representa, em verdade, o ápice do descrédito do discurso, signi�cando uma falsidade tão grande que desconcerta a equivalência entre discurso e prática. Por legitimidade do sistema penal se entende a característica de racionalidade conferida a ele, manifestada como poder exercido. Legítimo é, assim, o discurso racional que atua em conformidade com o sistema penal. Na realidade de falência dos sistemas prisionais e da incompetência do direito penal, reparar os danos advindos dos con�itos sociais é �agrante a ponto de ser possível a�rmar que tanto a racionalidade quanto a legitimidade são utópicas, não se realizarão. Costuma-se dizer que ninguém compra um produto sabendo que é defeituoso. No entanto, compramos a suposta segurança vendida pelo sistema penal, o produto com vício de fábrica incorrigível. Esta con�ança na ferramenta penal foi construída historicamente a partir da ideologia alterocida de criação dos inimigos, aqueles excluídos do sistema de produção, e da produção de medo coletivo explorado para �ns da adesão à política de lei e ordem, tal qual exposto no tópico acima. Porém, como costumeiramente ocorre com críticas que atacam a estrutura, a deslegitimação teórica do sistema penal foi ‘denunciada’ como marxista, sendo que não necessariamente precisa sê-lo, muito embora um debate mais quali�cado que assumimos aqui o seja. Cabe aqui precisar que: a deslegitimação teórica e a falsidade do discurso jurídico penal são amparadas pela teoria da rotulação que responde ao interacionismo simbólico; a pertinência da crítica à teoria da rotulação, por parte daqueles que a consideram limitada, não diminui seu valor deslegitimante e destruidor do discurso jurídico-penal, consignando aqui que, na base do interacionismo simbólico e da fenomenologia, não há uma incorporação marxista, e sim um pragmatismo. Como dissemos, embora Marx não tenha analisado em profundidade o sistema penal, considerava que seria necessário deslegitimar todo o direito, especialmente o direito penal, relegando-o à categoria de superestrutura ideológica. O marxismo institucionalizado, não o criminológico representado por Massimo Pavarini, Alessandro Baratta e outros, entende que o direito é mera forma jurídica, produto exclusivo da sociedade capitalista e das relações de troca que lhe são próprias. Pachukanis, por exemplo, acreditava no desaparecimento do direito, pois que a mudança de sociedade produziria novas relações não de�nidas na forma de valor-de-troca, perdendo sentido, deste modo, a sustentação da forma jurídica gerada das necessidades das relações assim assentadas. Contrariamente, Stucka sustentou uma tese postulando uma relegitimação do direito mediante a necessidade de um direito revolucionário, ao qual não poderia renunciar o poder soviético sem privar o proletariado no poder de um inestimável e insubstituível instrumento de luta. Especi�camente sobre a deslegitimação pelo interacionismo simbólico e pela fenomenologia, pode-se dizer que a tese geral desta corrente é de�nida pela a�rmação de que cada um de nós se torna aquilo que os outros veem em nós e, de acordo com essa lógica, a prisão cumpre uma função reprodutora: a pessoa rotulada como delinquente assume, �nalmente, o papel que lhe é construído, comportando-se de acordo com o mesmo. Todo o mecanismo do sistema penal está preparado para a rotulação e reforço desses papéis. A deslegitimação pelo interacionismo simbólico foi e tem sido a mais potente, fundamentando a criminologia da reação social, nutrida pelo pragmatismo norte-americano e pela psicologia social de George Mead-, dando lugar à crítica das instituições totais de Go�man, à rotulação de Becker e ao desenvolvimento de outros autores que completaram a descrição da operacionalidade do sistema penal como Lemert em “Estrutura social, control social y desviacion”. A deslegitimação foucaultiana, paradigmática no que diz respeito à história do castigo como docilização dos corpos para submissão, analisa a estrutura das prisões como pena por excelência e lugar de controle. Para explicar o que denomina de ‘instituições de sequestro’, como a prisão, o manicômio, o asilo, o hospital, a escola, o autor localiza o momento pós- revolução mercantil em quea verdade passa a ser estabelecida pelo poder de um terceiro ‘acima’ das partes. A sociedade militariza-se e o delito passa a ser considerado um dano ao soberano. Assim, vão surgindo- ou generalizando-se- estas instituições e a polícia. Ao a�rmar que cada instituição gera deste modo seu saber e seu poder, Foucault desquali�ca a distinção marxista entre infraestrutura e superestrutura ou, ao menos, leva-a a colocar-se em outros termos, pois o saber e o poder estão muito mais imbricados para Foucault do que para Marx, já que o poder gera também o sujeito. A deslegitimação pelos próprios fatos apresenta uma autoridade para desquali�car o direito penal como resposta e�caz para a resolução dos con�itos e a segurança nos territórios. No entanto, é preciso reconhecermos que as técnicas discursivas e imagéticas que a cultura de massa aplica criam estado de cegueira sobre a realidade. Neste sentido, a fala de Za�aroni (2017, pag. 38): Não existe teoria que, por si mesma, tenha força su�ciente para vencer uma estrutura que se interioriza, desde cedo, na vida das pessoas, se não vier acompanhada de um fato de particular evidencia, que opere como um choque com a realidade. A percepção de determinados fatos notórios pode ser perturbada, mas não pode ser negada. Desta maneira, estes fatos atuam como curto-circuitos do mecanismo inventor da realidade, iluminando-a com relâmpagos que, frequentemente, levam à ação como opção de consciência aberta. O mais leve toque de realidade possibilita o curto-circuito para perceber que a prisão funciona, portanto, ideologicamente, como um local abstrato em que os indesejáveis são depositados, aliviando-nos da responsabilidade de pensar sobre as verdadeiras questões que a�igem as comunidades de que os presos são tirados em números tão desproporcionais. Este é o trabalho ideológico que a prisão realiza — nos livra da responsabilidade de nos engajarmos seriamente nos problemas da nossa sociedade, especialmente os produzidos pelo racismo e, cada vez mais, pelo capitalismo global. Nesse sentido, o termo “complexo industrial prisional” foi introduzido por ativistas e acadêmicos para contestar as crenças prevalecentes de que o aumento dos níveis de criminalidade era a causa raiz da crescente população carcerária. Em vez disso, argumentaram, a construção da prisão e a tentativa de preencher essas novas estruturas com corpos humanos foram impulsionadas por ideologias de racismo e busca de lucros. Disserta Davis (2003, p.16): Enquanto isso, as corporações associadas à indústria da punição obtêm lucros com o sistema que gerencia os prisioneiros e adquirem uma clara participação no crescimento contínuo das populações carcerárias. Simpli�cando, esta é a era do complexo industrial prisional. A prisão tornou-se um buraco negro no qual os detritos do capitalismo contemporâneo são depositados. A prisão em massa gera lucros à medida que devora a riqueza social; e, assim, tende a reproduzir as próprias condições que levam as pessoas à prisão. (grifo meu) Entre esses detritos, estão os “resíduos” populacionais raciais e subalternizados, de modo que, embora o governo, as corporações e a mídia dominante tentem representar o racismo como uma infeliz aberração do passado que foi relegada ao cemitério da história, este é uma chaga que continua se alastrando, produzindo dor, in�uenciando profundamente estruturas, atitudes e comportamentos. Qual é, então, a relação entre essas expressões históricas de racismo e o papel do sistema prisional hoje? Explorar essas conexões pode nos oferecer uma perspectiva diferente sobre o estado atual da indústria de punição. Se estamos convencidos de que o racismo não deve ser de�nidor do futuro das relações sociais, podemos concluir, na esteira da incendiária Angela Davis(Idem), que as prisões são instituições racistas e obsoletas. II.4. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”31 Consta nos dados, nos atlas, nos anúncios, nas notícias, nos plantões de meio-dia: o corpo negro está lá estendido no chão, a população negra está na mira do Estado-policial, é alvo ora do gatilho, ora da caneta que condena. Segundo o relatório do Atlas da violência publicado em 2019, 75,5%das vítimas de homicídio no Brasil em 2017 eram negras. A partir do conhecimento da formação social brasileira, da constituição do colonialismo e, posteriormente, do capitalismo dependente no país, as formas violentas com que nosso povo foi controlado, seja pela ideologia, seja pela força, nos defrontamos com a realidade atual e a necessária interseção entre punição, raça, classe e gênero. Neste tópico, enfocaremos no primeiro. A colonização ibérica e o negócio escravista empreenderam o caráter racista que se espraia até a atualidade através das formas mais distintas de genocídio do(a) negro(a) brasileiro(a). Quer dizer, os mecanismos foram atualizados, os discursos reformulados para uma retórica em defesa da sociedade e menos escrachada no racismo, mas as permanências de controle e criminalização seguem obedecendo à lógica da eleição racial como bode expiatório. É assim que, por meio da observação de como tem atuado o sistema penal, reconhecemos o caráter genocida do Estado brasileiro, fruto do casamento incestuoso (FLAUZINA, 2006) com o racismo para �ns de disciplinamento da massa dos “escravos” modernos. Como bem elucida Suely Carneiro (2005, p.129), “a matéria punível é a própria racialidade negra. Então, os atos infracionais dos negros são a consequência esperada e promovida da substância do crime que é a negritude.” Inspirada em Du Bois, explícito e severo na crítica ao sistema carcerário, Angela Davis (2009) fala de um contrato racial em que a punição é aceita por ser aplicada majoritariamente aos negros, sendo tolerada justamente pela dimensão de execução neles e não em todos. Quer dizer, o sistema carcerário torna natural a violência decretada contra as minorias raciais ao institucionalizar uma lógica circular viciosa: os negros estão presos porque são criminosos; eles são criminosos porque são negros, e, se eles estão presos, é porque mereceram. A este movimento, Davis(idem)chama de “violência ritualística”. De extrema importância, portanto, é reconhecermos a mutabilidade das tecnologias de controle e a alteração das estruturas de racismo, por conta de, frequentemente, existir uma tendência a se trabalhar com hierarquias de racismo. Existiu, sim, um ápice da desumanização/ coisi�cação dos homens e mulheres transformados em mercadoria no comércio escravocrata. Ingenuidade é acreditar que tão menos perversas são as multifacetadas formas de punição à negritude que lutou e recebeu as promessas de liberdade. Com a abolição da escravidão, “os negros deixaram de ser escravos, mas imediatamente se tornaram criminosos e, como criminosos, tornaram-se escravos do Estado” (Du bois, apud Davis, p. 14). Nem economicamente livres, nem politicamente autônomos, a punição vista como consequência da vigilância racial faz com que, através da rotulação, as comunidades que são objeto de vigilância policial tenham muito mais chances de fornecer indivíduos para a indústria do crime. Nem Lei Áurea, nem democracia racial, as permanências racistas funcionam como narrativas antiescravocratas que escravizam. O discurso abstrato do universalismo, patrocinado pela modernidade, é a arma teórica para encobrir o racismo. As novas leituras da pena capital- as estratégias de morte civil através do genocídio, do encarceramento, da culpabilização essencialista e da coisi�cação- continuam a ser desproporcionalmente in�igidas aos negros, mas quando estes são sentenciados às mortes em vida ou às mortes físicas reais, a proteção dos direitos garantidos a um sujeito jurídico abstrato é invocada. O indivíduo exposto não é quali�cado como membro de uma comunidade sujeita a condições que o tornam um candidato perfeito à repressão legal (Ibid). É assim que se invisibiliza o racismo, vendendo uma igualdade formalinexistente onde o negro ocupa o mundo dos brancos. Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros. Tão desiguais! Assim como a “proteção” jurídica é usada como defesa para a política, os mitos são peças-chave para administrar a cultura do controle. Tomemos como exemplo o mito do estuprador negro, particularmente no pós- escravidão nos Estados Unidos, e veremos que o pânico moral criado em torno foi componente central de uma estratégia ideológica esboçada para reformular o gerenciamento dos negros libertos. Ora, uma verdadeira artilharia pesada foi produzir uma imagem de monstro dos negros, seja por um desiquilíbrio sexual, que os faria portarem-se como animais e serem os verdadeiros algozes violentadores de mulheres brancas indefesas, seja por uma tendência natural à desordem. Os pânicos morais, frise-se, sempre irromperam em conjunturas especiais, sendo um instrumento subjetivo de convencer setores populacionais sobre a escalada do crime e a periculosidade de determinados grupos. Estão, na verdade, relacionados a um problema de gerir grandes populações- especialmente de racialidade indesejada- que se tornam dispensáveis pelo sistema do capitalismo global. Da mesma forma funciona o mito da segurança ofertada pelos presídios. Por que as pessoas se sentem mais seguras com a construção de novos presídios? Uma das razões é não ter mais que se preocupar com aquele problema social, que, por hora, foi deslocado de sua vista, emparedado até segunda ordem. As relações insidiosas entre a indústria do complexo carcerário e a indústria do complexo militar são evidenciadas nesse excerto de Davis (2009, p.46), em que conclui pela assustadora percepção de que tem se formado um exército industrial das vítimas prisionais: Os presídios são identi�cados por seu potencial de consumidores e por seu potencial de mão de obra barata. Há muitas maneiras pelas quais é possível descrever a relação simbiótica entre exército e prisão. Eu irei me deter numa das conexões mais óbvias: as semelhanças impressionantes das populações humanas das duas respectivas instituições. De fato, muitos jovens- especialmente jovens de cor- que se alistam no exército fazem isso muitas vezes para escapar de uma trajetória de pobreza, drogas e analfabetismo que os levaria direto para a cadeia. Por �m, uma breve observação que possui enormes implicações: no mínimo, uma corporação da indústria de defesa tem recrutado ativamente a mão de obra prisional. Pense nesta imagem: presos fabricando artilharia que ajuda o governo em sua busca pelo domínio global. Por ser assim, a autora alerta para a urgência de desenredar as noções de capitalismo e democracia, em busca de modelos verdadeiramente democráticos e igualitários. Nosso desa�o não é mais reivindicar oportunidades iguais para fazer parte da maquinaria de opressão (por mais que taticamente isto seja plausível), e sim conhecer muito bem as estruturas em que o racismo continua �rme e desmantelá-las. Nesse sentido, Angela Davis evoca a noção de Du bois sobre democracia da abolição, referindo-se à abolição dos presídios e das condições opressoras produzidas pela escravidão. Na leitura do autor, signi�ca falar não somente da abolição no sentido de destruição, mas também como um processo de construção, de criação de novas instituições livres dessa herança. Mas até que ponto seria isso possível dentro da estrutura capitalista que, como o próprio Du bois esclarece, é a causa primária do racismo? O complexo carcerário é, desta feita, resultado da falha em se decretar a democracia da abolição. Esta expressão foi utilizada por Du Bois no livro Black Reconstruction, em que, ao apontar que a abolição da escravidão foi consumada apenas no sentido negativo, propõe um sentido abrangente a partir da criação de instituições capazes de incorporar os negros dentro da ordem social. A nossa crítica ao precioso autor é que estas mudanças são efetivas até certo limite, pois que as relações sociais estarão sempre condicionadas ao modo de produção e, neste caso, capitalista-patriarcal- racista, ao ponto que serão aceitas mudanças apenas quando estas forem essenciais para a manutenção do funcionamento daquela. Assim resume (Ibid, p. 88-89): Atrelada à abolição dos presídios, está a abolição dos instrumentos de guerra, a abolição do racismo e, como não poderia deixar de ser, a abolição das circunstâncias sociais que levaram homens e mulheres pobres às forças armadas como seu único caminho de fuga da miséria, da falta de moradia e de oportunidades. (...) cabe a nós insistir na obsolescência do encarceramento como forma dominante de castigo, mas não podemos fazer isso brandindo machados e investindo literalmente contra os muros dos presídios, mas sim reivindicando novas instituições democráticas que discutam os problemas que não são discutidos pelos presídios de maneira produtiva. Que os presídios não sigam sendo como a favela, este quarto de despejo denunciado poeticamente pela escritora Carolina Maria de Jesus (2014) e que o futuro seja um estado de liberdade, ainda que tardia. “Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz? O último a sair do breu que acenda a luz.” 32 II.5. A caminho do horizonte estratégico: as propostas abolicionistas O abolicionismo penal é uma corrente político-criminal, produto do movimento que animou o aparecimento da teoria do etiquetamento e da criminologia crítica e que é, por princípio, radical na deslegitimação do sistema carcerário e de sua lógica punitiva. Os abolicionistas denunciam a resposta orientada pela lei penal como central na prática de controle do delito, pois identi�cam nela a �nalidade de punir perversamente o criminoso e perpetuar uma ordem social desigual. Segundo Cohen (1989), o abolicionismo é produto da mesma política contracultural dos anos sessenta que deu origem ao radicalismo cultural da teoria do etiquetamento (labeling approach) e ao radicalismo político da nova criminologia ou criminologia crítica. O abolicionismo toma a leitura do status problemático do rótulo de desviante e avança além da problemática do estigma e da identidade até uma acepção histórica do delito como forma de controle social; ataca como a escola crítica, mas em vez de buscar uma política penal e criminológica socialista (realismo de esquerda), concebe como forma viável de avançar a eventual abandono da política criminal e da criminologia. De acordo com René Van Swaaningen (apud Achutti, 2016, p. 93), a resposta abolicionista envolve os seguintes pressupostos: a lei penal possui as mesmas premissas da Inquisição - de onde teria se originado - e desde o princípio tem se mostrado como uma máquina geradora, e não reparadora de problemas; a repressão penal é um processo dessocializador das pessoas. O abolicionismo pode ser delineado tanto como movimento social- identi�cado nos movimentos escandinavos pela abolição e da prisão, nos anos 1960, assim como as atividades do grupo Alternativas Radicais à Prisão (Radical Alternatives Prison-RAP), na Inglaterra dos anos 1970, os grupos na França de Michel Foucault, e KRAK, na Alemanha Ocidental, quanto como uma perspectiva teórica , que visa a questionar a validade do modelo penal do crime-castigo/crime-culpa e propor novas formas de abordar os con�itos sociais delituosos (Achutti, 2016). A partir dos anos 1960, teóricos como Nils Christie, Louk Hulsman, �omas Mathiesen e Herman Bianchi passaram a publicar trabalhos a respeito do tema, distinguindo-se dos movimentos citados acima por buscarem a abolição do sistema penal além da abolição da prisão. Oportuna a explicação de Van Swaaningen (1986, p.10): O abolicionismo acadêmico gradualmente se desenvolveu das teorias da criminologia crítica, como o labeling approach de Go�man e Lemert, a etnometodologia de Gar�nkel e Cicourel, e a nova “Nova Criminologia” de Taylor, Walton e Young. Desde que os novos criminólogos, unidos no “Grupo Europeu para o estudo do desvio e do controle social”, iniciaramconferências alternativas aos congressos de criminologas governamentais, a criminologia não poderia mais ser considerada como uma ciência auxiliar do direito penal. Como uma extensão mais ou menos lógica disto, os criminólogos mesmos começaram a apresentar maneiras de lidar com con�itos, como alternativas ao método da justiça criminal. Recuperando lição trazida por Za�aroni33, Maria Lúcia Karam (2004, p. 63) tem uma compreensão importante: O Estado de Direito, que traz em sua essência a submissão à lei, não só de seus habitantes, mas principalmente, dos que exercem o poder, com vista a garantir aos direitos e a dignidade de cada indivíduo, contrapõe-se ao Estado policial, em que seus habitantes se subordinam ao poder. O poder punitivo, por sua violência, seletividade e irracionalidade intrínsecas, situa-se no campo do Estado policial, construindo uma de suas manifestações que maiores riscos trazem ao pleno desenvolvimento do Estado de Direito. Louk Hulsman, um dos abolicionistas mais prestigiados e que será trabalhado nessa pesquisa com mais a�nco, via a punição como forma de interação humana em diversas práticas sociais: na família, na escola, no esporte, no trabalho. Na justiça criminal, se usa a linguagem da punição de modo que as pessoas conectam o castigo com os processos desenvolvidos. Se os eventos criminais são lidos como eventos excepcionais, os criminosos são vistos como uma categoria diferente de pessoas e a natureza excepcional da conduta justi�ca a reação a esta. Acontece que a parcela daqueles pegos na malha �na da rotulação penal constitui apenas uma pequena fração dos que estão envolvidos em fatos que legalmente permitem a criminalização. A ideia de fundo é que a punição proporcional à gravidade seja o marco da ordem. A este ponto vincula-se a ideia de que crimes graves não permitem isenção da punição. A decisão a respeito, no entanto, é viciada por erros que, segundo Hulsman (1986, pps. 48-49) são três: a) A criminalidade oculta e a normalidade (neutralidade) dos efeitos penais; Cifra oculta foi de�nida para os criminólogos como sendo a diferença entre os crimes comunicados que constam nas estatísticas policiais e as estatísticas dos tribunais. Os estudos levam à conclusão de que a esmagadora maioria dos fatos passíveis de criminalização pertence à cifra oculta. A respeito disso, a fala de Passetti (2012, p. 21): De fato, a sociedade sem castigos existe, também, porque é impossível ao sistema penal punir todos aqueles que cometem uma infração à lei. Ele funciona de maneira seletiva, endereçado aos que infringiram o direito de propriedade. No capitalismo, a propriedade privada material, o corpo da pessoa ou seus bens. No socialismo, a propriedade estatal e seus derivados imateriais. Em ambas as sociedades, as pessoas consideradas criminosas devem ser retiradas de circulação, caracterizando uma maneira de educar todos, conhecida como prevenção geral. b) O fato de um evento ser criminalizável não é indicativo do nível de vitimização; c) A criminalização não é uma resposta especí�ca aos eventos, mas sim um modo especí�co de olhar para os eventos e, assim, de construir os próprios eventos. Assim como a criminalização é um modo especí�co de olhar para os eventos, sobre o conceito de crime também circula uma relatividade. Imprescindível resgatar a explanação de Hulsman34: A única coisa que tais situações têm em comum é uma ligação completamente arti�cial, ou seja, a competência formal do sistema de justiça criminal para examiná-las. O fato de elas serem de�nidas como crimes resulta de uma decisão humana modi�cável(...) Um belo dia, o poder político para de caçar as bruxas e aí não existem mais bruxas(...) É a lei que diz onde está o crime; é a lei que cria o criminoso. Em razão de, segundo Passetti (2012, p. 20), o crime não ser nada além de “uma quali�cação de repulsa a certos costumes em defesa da sociedade em um determinado momento da história”, o autor (2012, p.25) resgata posição de Christie (1998) para desmoralizar a prisão e sua postura de: (...) neutralizar o delinquente, isolá-lo em gangues, afastando de seu interior grupos de defesa de direitos. Ampli�ca o paradigma da lei e ordem que apela diretamente ao ressentimento popular que exige que a prisão faça da vingança uma política pública. Os efeitos dessa situação, por conseguinte, segundo Wacquant, podem ser resumidos em três pontos: difusão da noção encarcere o criminoso e jogue a chave fora; despolitização da prisão, deslegitimando qualquer forma de rebelião; identi�cação do preso com o rebaixado cultural. O encarcerado permanece sendo o corpo sobre o qual se investem dor, castigos, produtividade, moral e equipamentos de controle, como os derivados da economia computacional” O abolicionismo penal é uma prática anti-hierárquica que transcende os limites do direito penal, propõe a desconstrução de costumes autoritários ancorados na tradição ocidental de dispor dos corpos. É uma prática que soma experimentos, acadêmicos e de outras esferas sociais, pois vislumbra uma outra forma de olhar as situações, começa por desestabilizar a ideia de controle pela autoridade e ordem e termina por vislumbrar a demolição do modelo penal para tratar dos con�itos. Como tática, aproxima-se da corrente descriminalizadora visando à contenção da criminalização de novos comportamentos e alia-se à difusão das medidas de redução de danos. Para Hulsman, o abolicionismo penal começa na mudança interna da pessoa, está além da libertação da estrutura, é uma prática de libertação das amarras sociais do controle, do castigo, da culpa, da vingança. Nesse sentido, as palavras de Hulsman (Op Cit., pps. 71-72) elucidam as repercussões do tratamento que envolvem esses dispositivos: Gostaríamos que quem causou um dano ou um prejuízo sentisse remorsos, pesar, compaixão por aquele a quem fez mal. Mas como esperar que tais sentimentos possam nascer no coração de um homem esmagado por um castigo desmedido, que não compreende, que não aceita e não pode assimilar? Como este homem incompreendido, desprezado, massacrado, poderá re�etir sobre as consequências de seu ato na vida da pessoa que atingiu? (...) Para o encarcerado, o sofrimento da prisão é o preço a ser pago por um ato que uma justiça fria colocou numa balança desumana. E, quando sair da prisão, terá pago um preço tão alto que, mais do que se sentir quites, muitas vezes acabará por abrigar novos sentimentos de ódio e agressividade.(...) O sistema penal endurece o condenado, jogando-o contra a ordem social na qual pretende reintroduzi-lo, fazendo dele uma outra vítima. O dispositivo do discurso punitivo e a prática que reproduz o binarismo do crime-castigo produz subjetividades machucadas pela perversidade do sistema penal que primeiramente desumaniza, descaracteriza o(a) encarcerado(a), despe de qualquer lembrança que faça associação à sua personalidade, e depois, com as condições materiais de existência indignas, vai retirando paulatinamente o indivíduo da zona que reconhece como de integridade; o encarcerado se torna um soldado da disciplina doutrinada na prisão e o personagem estereotipado de criminoso que criaram dele(a). Uma das críticas mais comuns ao abolicionismo é a que vincula a destituição dos aparelhos repressivos à instalação de um cenário hobbesiano de guerra de todos contra todos, o estado natural, o caos e a anarquia. Esta associação está presa por uma visão unilateral de formas de organização social, muito atrelada à burocracia e ao poder nas instituições que não só centralizam, mas monopolizam o poder. Já a crítica sociológica ao abolicionismo questiona: este ‘modelo’ é compatível com a sociedade moderna? É possível? Folter (1989, p. 59) concebe o abolicionismo como método que luta pela abolição do sistema penal em sua totalidade. Ao dizer que não existe algo como a “essência do abolicionismo”, formula: “podemos dizer que o abolicionismo é a bandeira debaixo da qual navegambarcos de diferentes tamanhos transportando diferentes quantidades de explosivos”. Uma coisa há em comum: todos objetivam a destruição ao chegarem em terra �rme. A abolição do sistema penal não pode mais ser compreendida como uma utopia nos dias de hoje. O utópico, sem embargo, não é sinônimo de impossível, tampouco as utopias são sinônimo de falácias. Mais que isso: muitas utopias foram a base de mudanças sociais concretas e revolucionárias. Digo mais: a abolição de todo o sistema penal não é uma utopia, senão uma necessidade lógica, uma gestão realista e uma demanda de justiça (HULSMAN, 1997; FOLTER, 1989). Conheçamos, então, os principais teóricos que fundaram a teoria abolicionista. 35 a) Louk Hulsman Notadamente o abolicionista mais prestigiado, Louk Hulsman (Holanda, 1920-2009) foi um defensor radical da extinção do sistema penal. Para isso, advogava a desconstrução da linguagem convencional da justiça criminal, questionando o conceito de crime e, com isso, desmobilizando o discurso em torno do fenômeno do crime e da reação social que suscita (Hulsman, 1997). A recepção de uma nova linguagem abriria portas para novas interpretações em torno das situações con�ituosas e, dessa forma, um leque de possibilidades de enfrenta-las: Falar de “atos lamentáveis”, “comportamentos indesejados”, “pessoas envolvidas”, “situações problemáticas”, já seria um primeiro passo no sentido de se formar uma nova mentalidade, derrubando as barreiras que isolam o acontecimento e limitam as possibilidades de resposta(...). Livre da compartimentalização institucional, uma linguagem aberta facilitaria o surgimento de novas formas de enfrentar tais situações (HULSMAN, 1997, p.96) O cerne da questão para o autor era a mudança da linguagem, na medida em que apostava na potência destruidora que a linguagem penal tem, a�rmando que “(...) não conseguiremos superar a lógica do sistema penal, se não rejeitarmos o vocabulário que a sustenta. As palavras crime, criminoso, criminalidade, política criminal, por exemplo, pertencem ao dialeto penal, re�etindo a priori o sistema punitivo estatal” (HULSMAN, 1997, p.95-96). O delito seria o produto dessa linguagem que pretende legitimar o exercício do poder punitivo, atentando que: O acontecimento quali�cado como “crime”, desde o início separado de seu contexto, retirado da rede real de interações individuais e coletivas, pressupõe um autor culpável; o homem presumidamente “criminoso”, considerado como pertencente ao mundo dos “maus”, já está antecipadamente proscrito (HULSMAN, 1997, p.96). Todavia, a troca da linguagem não seria su�ciente se a interpretação continuasse a reproduzir as antigas categorias, seria mais do mesmo sob a forma de novo vocábulo. Mais que disfarçar uma prática seletiva através de artifícios linguísticos, importante seria “olhar a realidade com outros olhos” (Hulsman, 1997, p. 97), isto é, trocar as lentes para observar o mesmo fenômeno. Para Hulsman, “não existem crimes nem delitos, mas apenas situações problemáticas. E sem a participação das pessoas diretamente envolvidas nestas situações, é impossível resolvê-las de forma humana” (HULSMAN, 1997, p. 101). Questionava o poder de interferência das pessoas envolvidas com o con�ito, apontando sua posição de voz passiva quando, em verdade, eram os maiores interessados e mereciam maior destaque do que uma entidade abstrata como a sociedade. Aqui o abolicionista se encontra com Nils Christie, pois este ponto é uma das centralidades de sua crítica. Rotular como crime ou delito uma conduta reduz as possibilidades de análise, fechando rotas possíveis de entender a realidade apresentada. A regulamentação é taxativa e inviabiliza descobrir diferentes rotas para novos diagnósticos e, em atenção a isso, o reducionismo deveria ser substituído por interpretações livres dos próprios indivíduos e não a partir de uma preconcebida estrutura punitiva de Estado. Em razão dessa abertura para multiplicar os sentidos da reação ao mesmo fato, uma nova tarefa seria a de esquivar-se do modelo jurídico- penal “exercido com uma distância enorme da realidade por uma rígida estrutura burocrática” (HULSMAM, 1997, pps. 99-100). A dinâmica de buscar soluções deveria se afastar de linhas de pensamento/reação lineares e repetitivas, pois só a realidade concreta pode apresentar as necessidades e particularidades. Destaca a característica da organização cultural da justiça criminal da ênfase na ‘alocação da culpa’. O programa para alocação da culpa típico da justiça criminal é uma herdeira da doutrina do ‘julgamento �nal’ e do ‘purgatório’, desenvolvida pelo cristianismo ocidental (HULSMAN, 1997). A desconstrução da concepção de que existe uma realidade ontológica do crime, ponto fundamental da justiça penal, desestabilizaria o centro e permitiria a sua implosão. A partir disto, o autor propõe uma espécie de política criminal da diferença, a�rmando: Ninguém se parece com ninguém. Nenhuma situação é idêntica a outra. Um acordo é sempre fruto do reconhecimento e da aceitação mútua de diferenças. E o acordo deixa subsistirem as tensões. É inevitável. E fecundo... as tensões obrigam ao encontro, à confrontação, ao diálogo e estimulam, em cada um, a descoberta de sua própria identidade. A unanimidade não é mais do que uma aparência e, geralmente, é produto de ações totalitárias. (Hulsman, 1997, p. 104) (grifos nossos) O paradigma do con�ito como lugar de encontro das diferenças e reconhecimento das identidades confrontadas é de fundamental importância para reconstruir o lugar da situação problemática como um lugar de isolamento, de violência e de anulação do outro. Tensiona-se a irracionalidade e a contraproducência do paradigma punitivo, que não resulta em efeito positivo social, e propõe-se novas formas de perceber, lidar e interpretar os con�itos. O autor oferece uma estratégia para efetivar sua proposta: primeiramente, deve-se evitar novas criminalizações; em seguida, necessário criar estratégia para reduzir a incidência do sistema penal e buscar descriminalizar o maior número de condutas possível; e, por �m, essencial desenvolver estratégia com alternativas ao sistema de justiça criminal para tratar das situações con�ituosas com a lei, através da tolerância, da prevenção de delitos e pela substituição da justiça penal por outras modalidades de controle social punitivo, sejam compensatórios, conciliatórios ou terapêuticos. (ACHUTTI, 2016, pps. 105-106) Nesta toada, a convocatória: De um lado, temos uma postura abolicionista que nega a legitimidade de atividades desenvolvidas na organização cultural e social da justiça criminal. Nesta visão, a justiça criminal não é uma resposta legítima a situações-problema, mas apresenta as características de um problema público. Esta forma de abolicionismo tem o caráter de um movimento social. (...) De outro lado, temos uma postura abolicionista na qual não necessariamente a justiça criminal, mas uma maneira de olhar para a justiça criminal é abolida. Esta forma de abolição concentra-se nas atividades de uma das organizações por trás da justiça criminal: a universidade e, mais especi�camente, os departamentos de direito penal e criminologia. (...) Neste sentido, a abolição é a abolição da linguagem prevalecente sobre justiça criminal e a substituição desta linguagem por outra linguagem que permita submeter a justiça criminal à hipótese crítica; em outras palavras, que permita testar a hipótese de que a justiça criminal não é ‘natural’ e que sua ‘construção’ não pode ser legitimada. Se essa hipótese for validada, a linguagem prevalecente sobre a justiça criminal tem de ser desconstruída e a justiça criminal aparecerá como um problema público em vez de uma solução para problemas públicos. (HULSMAN, 1997, p. 197) Em outras palavras, na nova linguagem que substituiria a linguagem convencional sobre o crime e justiça criminal, a ênfase estaria: em situações, em vez de comportamentos; na naturezaproblemática, em vez de na natureza ilegal criminosa; na pessoa/instância para quem algo é problemático (vítima) em vez do agressor; na questão: “o que pode ser feito?”, “por quem?”. (HULSMAN, 1997, p. 210) Louk Hulsman foi se convencendo que o sistema penal era um problema social em si mesmo, identi�cando três razões que o fazem um sistema problemático de controle social: causa sofrimento desnecessário, é desigualmente distribuído; rouba o con�ito às partes, como leciona Christie; e é difícil de controlar. A sua postura abolicionista é de tendência radical, de modo a não fazer exceções para tipos de crimes, ainda aqueles espreitados pelos setores críticos da sociedade porque associados a autores poderosos, como os de colarinho branco. 36 Quando Hulsman reclama pela abolição do sistema penal em sua totalidade, se refere a que a administração estatal centralizada da justiça penal deveria ser substituída por formas descentralizadas de regulação autônoma de con�itos, nas quais os envolvidos teriam maior in�uência. A abolição do sistema penal centralizado teria dois efeitos importantes. Em primeiro lugar, a diminuição dos problemas sociais causados pelo sistema como a fabricação de pessoas culpáveis, a estigmatização dos aprisionados, o con�sco do con�ito, a marginalização de grupos escolhidos, a dramatização (mais atualmente, sensacionalismo) dos meios de comunicação de massa etc. Em segundo lugar, a revitalização da �bra social, visto que a ausência do sistema penal estatal com seus esquemas de interpretação reducionista e suas soluções estereotipadas permitiria, em todos os níveis da vida social, outros tipos de solução de con�itos muito mais vinculados com a experiência imediata daqueles diretamente envolvidos. A ideia de solidariedade é básica para seu abolicionismo. Trata-se da solidariedade viva para sujeitos reais, �lha de um sentimento agudo de igualdade dos sujeitos que se opõem ao tradicional e excludente modo de organização social. Aos que temem que a abolição do sistema penal traga perigos como a vingança privada, a autodefesa, a violência e a insegurança social, Hulsman responde que a abolição da maquinaria penal não implica na abolição da coerção. Considera que a polícia ainda tem o dever de atuar na manutenção da ordem pública e na detenção de pessoas. Devemos entender que o sistema de justiça penal é parte menor dos mecanismos de funcionamento na sociedade para o manejo de con�itos e para o controle de condutas e situações não desejáveis. 37 Apesar de não vir expressa nas declarações garantistas, esta crítica parece ignorar que o abolicionismo não só pretende destruir este modelo de sociedade, como pretende construir um novo. Nesse sentido, não pretende renunciar à solução dos con�itos que devem ser revolvidos; todos os autores aqui conhecidos propõem a reconstrução de vínculos solidários, comunitários, horizontais que deem condições de solução dos problemas sociais sem a urgência de apelar para o modelo punitivo formalizado abstratamente. b) Nils Christie Nils Christie foi professor do Departamento de Criminologia e sociologia do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Oslo, na Noruega, um dos críticos ferrenhos ao controle social punitivo do sistema penal, opondo-se ao que denominou de “imposição intencional de dor” (pena de prisão), gerida pelo poder dos agentes jurídicos e pela centralização estatal da gestão dos con�itos. Ao contrário de Louk Hulsman, não defende a completa extinção do sistema penal, por conferir a este um papel de atuar em casos excepcionais no afastamento do ofensor do meio social. Imprescindível dar luz à posição enfática do autor nessa perspectiva: na dúvida, não punir; quando punir, fazê-lo da maneira menos dolorosa possível (Christie, 1981, p.11). Em sua obra clássica, Con�itos como propriedade- publicado em 1977 na Revista Britânica de Criminologia e considerado pelo corpo editorial da própria revista como o artigo mais importante da década-, demarca o centro da crítica discursiva na apropriação estatal dos con�itos e nos atores da administração de con�itos, apontando a pro�ssionalização como um entrave na reparação do dano pelos afetados no con�ito. A denúncia de Christie é de que o Estado furtou o con�ito das partes, de modo a subtrair delas o direito de pensar conjuntamente a responsabilização do ofensor, consequências e motivos do crime. Para o autor, a transgressão a ordem contém uma potencialidade muito rica que possibilita aos indivíduos administrarem seus problemas de forma autônoma. Essa oportunidade garantiria aprendizado de uma construção coletiva, deslocando o foco do ofensor para as necessidades da vítima. Sobre a retomada da participação da vítima na resolução dos casos, Christie mira a recuperação da qualidade de protagonista desses personagens ao bradar que a justiça criminal os trata como “não pessoa em uma peça de Ka�a”, em uma clara comparação à imagem do pedinte de pés descalços estendendo a mão para o guarda à porta do prédio da justiça, sem lhe ser dada a oportunidade de conhecer do procedimento e acessar sua estrutura. Este movimento de redistribuição do poder de interferência sobre as demandas con�ituosas se inspira no modelo dos tribunais comunitários, de forma a se aproximar dos valores da comunidade em que estão inseridas as vítimas. (CHRISTIE, 1977, p.8). Este modelo se constituiria em quatro etapas: na primeira seria averiguada a pertinência da acusação, a �m de evitar responsabilização equivocada e violação dos direitos do acusado; a segunda envolveria um levantamento das necessidades da vítima, relatório formulado por ela própria, considerando o dano causado, as formas de repará-lo e/ou minimizá-lo; na terceira seria feita uma avaliação pelos tribunais comunitários sobre a possível punição ao ofensor e, �nalmente, uma análise da situação pessoal e social do ofensor para discutir a eventual necessidade de tal medida. Por meio dessas etapas, estes tribunais locais “representariam uma mistura de elementos de tribunais civis e penais, mas com uma forte ênfase nos aspectos civis” (CHRISTIE, 1977, p. 10-11). Essa característica possibilitava a participação de pessoas leigas no trato dos casos, de modo a possibilitar um aprendizado entre tribunal e comunidade mutuamente. A nível estrutural, o que o autor queria apontar como crítica maior nesse ponto era a especialização que levaria à pro�ssionalização, veri�cável quando “especialistas adquirem poder su�ciente para dizer que conquistaram dons especiais, predominantemente através da educação, dons tão poderosos que é óbvio que eles (os con�itos) podem ser manuseados apenas pelos artesãos certi�cados” (CHRISTIE, 1977, p.11). Os pro�ssionais, fossem juristas, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, deveriam ter sua participação reduzida ao máximo possível para impedir injustiças na responsabilização de terceiros e situações problemáticas envolvendo mediação sem critérios dessas áreas conexas. O caráter de subsidiariedade dada à convocação desses pro�ssionais era como que dizer: quando inevitáveis, funcionariam como fontes de informação, “respondendo quando perguntados, mas não dominando, não no centro. Eles poderiam ajudar a organizar os con�itos, mas não se apropriar deles” (CHRISTIE, 1977, p.12) Posteriormente, o autor critica o caráter simplista e categorial de dividir as pessoas e fatos entre bons/maus, crime/não-crimes, culpado/inocente, baseado em um sistema binário e antagônico de classi�cação de atos e pessoas. As consequências dessa simpli�cação levavam o sistema penal a se preocupar mais com aspectos biológicos ou de personalidade que com o contexto social que, nas palavras de Achutti (2016, p. 100) sobre Christie (1986, pps. 96-97): trata-se de uma armadilha para que as interações não sejam objeto de análise do sistema, pois do contrário seria necessário abordar a responsabilidade social de todos os demais sujeitos que participaram,direta ou indiretamente, do ato tido como delituoso- e a mera noção de responsabilidade social não se enquadra bem na lei penal, que trabalha, por necessidade, apenas com a responsabilidade individual. O reducionismo decisório como práxis implica que quanto mais esvaziado de sentido o ato, quanto menos informações sobre o contexto social e a pessoa, mais fácil julgar conforme a estrutura binária e dicotômica do direito penal conforme estereótipos. Essa construção mira uma criação arti�cial de igualdade, isto é, casos diferentes devem ser reduzidos e enquadrados como iguais para permitirem tratamentos iguais, comprometendo as peculiaridades por meio da limitação de informações relevantes para as partes, que se tornam irrelevantes para o processo legal. Além disso, o autor tece crítica à teoria da prevenção geral negativa da pena que busca, através da exemplaridade da punição dos culpados, controlar atos de terceiros e do próprio culpado contra a prática de novos crimes e incorrência na reincidência. Os efeitos negativos da prevenção geral são desmascarados por toda a criminologia crítica ao veri�car empiricamente que essa função nunca teve êxito na inibição e educação para a ordem. Conforme o autor, a validade desta teoria revela que: o propósito da punição é atingir a conformidade às leis. A punição é, a todo o tempo, vista como um instrumento com o objetivo direto de controlar os cidadãos (...) O homem é visto como determinado pela dor e pelo prazer. Ele ou ela são também vistos como uma criança do Estado. (CHRISTIE,1986, p. 98) Nesse sentido, a punição endereçada ao condenado busca desviar outras pessoas do destino perverso do encarcerado, cumprindo um papel educativo não pelo convencimento do respeito aos valores sociais, e sim por uma pedagogia da punição e respeito pelo medo de sofrer os efeitos do aprisionamento. Assim, a punição está a serviço do controle: Este pensamento preventivo geral é o núcleo da imagem do homem na teoria penal moderna. O criminoso é aqui punido não por sua causa, nem em razão de algum princípio abstrato de justiça, mas para a concreta vantagem de controlar outras pessoas. As pessoas são punidas como exemplos pedagógicos. A dor é usada para bene�ciar outros. Uma vez que cometeu um crime, a pessoa está sendo usada como uma coisa no processo social. (CHRISTIE, 1986, p.99) A oposição ao reducionismo e violência do sistema penal localizaram Christie no lugar que supera a mera crítica para ocupar o espaço dos que pensam nova possibilidade de administração de con�itos. Companheiro de Hulsman na perspectiva de que o crime não existe, convida para novas leituras das realidades problemáticas por meio de outra linguagem e do estabelecimento dos centros comunitários de natureza interdisciplinar. O impulso para o movimento de criminólogos e sociólogos em busca por novos mecanismos de gerenciamento dos con�itos alinhados pela posição abolicionista foi essencial para lançar as bases do que oportunamente veremos a seguir, o paradigma da Justiça Restaurativa. c) Thomas Mathiesen “O sistema carcerário, como instituição social, nunca está satisfeito- é como um animal cujo apetite aumenta ao comer.” (MATHIESEN, 1989, p.122) �omas Mathiesen formulou os seus principais objetivos na obra �e Politics of Abolition, em 1974, da seguinte maneira: “A longo prazo, mudar o pensamento geral a respeito do castigo e substituir o sistema carcerário por medidas mais modernas e adequadas. A curto prazo, derrubar todos os muros que não sejam necessários: humanizar as distintas formas de detenção e aliviar o sofrimento que a sociedade in�ige aos presos.” (MATHIESEN, 1974, p. 46. Tradução livre). O sociólogo agregou uma metodologia materialista para lograr uma compreensão adequada do direito e da legislação como fenômenos sociais. No livro Law, Society and Political Action (1980), tratou de integrar uma compreensão materialista da sociedade a sua teoria de ação política abolicionista. Devido à sua perspectiva de revolução perante as esferas de punitividade, foi lido como o “estrategista do abolicionismo” (ZAFFARONI, 2017). Seu pensamento abolicionista encontra-se estreitamente vinculado ao marxismo, de modo que, para ele, a existência do sistema penal estaria vinculada à estrutura produtiva capitalista. Cunha, assim, uma proposta que aspiraria não somente a abolição do sistema penal, mas também a abolição de quaisquer estruturas repressivas da sociedade. Para Mathiesen, um movimento abolicionista deve reunir condições para manter sua vitalidade, quais sejam: sua permanente relação de oposição e sua relação de competição com o sistema. A oposição requer uma considerável diferença de pontos de vista sobre as bases teóricas do sistema e a competição requer uma ação política prática fora do próprio sistema. (Idem, p. 100) A política abolicionista defendida por Mathiesen foi a fomentadora da criação da Organização Norueguesa Anti-Carcerária (KROM), cuja �nalidade era voltada para a abolição do cárcere; contudo, sem propor nenhum tipo de proposta substitutiva; ao contrário, negava-se a possibilidade de aplicação de penas alternativas devido ao temor de que essas penas se transformassem em novas estruturas carcerárias. Defensor de uma reforma permanente e gradual do sistema penal, Mathiesen justi�cava seu posicionamento em relação à não construção de novas instituições prisionais a partir de oito premissas, quais sejam: (1.ª) a criminologia e a sociologia demonstram que o objetivo de melhora do detento (prevenção especial) é irreal, sendo contestável efeito contrário de destruição da personalidade e a incitação da reincidência; (2.ª) o efeito da prisão no que diz respeito à prevenção geral é absolutamente incerto, sendo possível apenas estabelecer alguma reação do impacto de políticas econômicas e sociais na dissuasão do delito; (3.ª) grande parte da população carcerária é formada por pessoas que praticaram delitos contra a propriedade, ou seja, contra bens jurídicos disponíveis; (4.ª) a construção de novos presídios é irreversível; (5.ª) o sistema carcerário, na qualidade de instituição total, tem caráter expansionista, ou seja, suscita novas construções; (6.ª) as prisões funcionam como formas institucionais e sociais desumanas; (7.ª) o sistema carcerário produz violência e degradação nos valores culturais; e (8.ª) o custo econômico do modelo carcerário é inaceitável. (CARVALHO, 2013, p. 247-248.) Apoiado na tendência mundial do encarceramento, o autor traz à tona os discursos legitimadores da prisão, que atuam de modo a ocultar a irracionalidade da instituição nos processos de distorção da realidade, produzindo cegueira generalizada sobre o caráter bárbaro da instituição. O autor sustenta duas teses que seriam responsáveis por uma redução drástica da necessidade do sistema penal, favorecendo, posteriormente, sua abolição: o direcionamento de políticas sociais aos sujeitos vulneráveis e a descriminalização das drogas. Voltando-se ao fato de que grande parte da população carcerária é composta por pessoas que praticam crimes contra o patrimônio, conclui que a guerra contra o crime deveria ser, na verdade, uma guerra contra a pobreza. Destarte, ações sociais voltadas para essa área especí�ca reduziriam de modo signi�cante os problemas derivados da pobreza e do desemprego. Dentre as contribuições fornecidas por Mathiesen, a mais revolucionária diz respeito à criação de novas formas de proteção à vítima. Diante do desamparo das vítimas pelo sistema atual, propõe, no lugar do aumento da punição ao transgressor, o aumento do apoio à vítima, levando-se em consideração a gravidade do ocorrido. Para Mathiesen, na nossa sociedade, existe uma persistente e onipresente ideologia do cárcere (compreendendo ideologias como sistemas de crenças que dão sentido e infundem legitimidade à vida social). A ideologia do cárcere penetra dois componentes principais: um de apoio e outro de negação. (2003, p.223) Noespectro do componente de apoio, Mathiesen (2003, p. 225) sustenta que o cárcere serve a cinco funções ideológicas na sociedade capitalista: a. Purgatória: funciona como instituição para alojar, controlar uma porcentagem da população improdutiva das sociedades capitalistas e, convenientemente, esquecê-la; b. Consumidora de poder: os purgados são locados em uma situação estrutural e permanecem como pessoas improdutivas, não-contribuintes ao sistema; c. Distratora: a aplicação do cárcere como mão-dura contra os delinquentes tradicionais, as classes trabalhadoras mais baixas, desvia a atenção dos perigos a que nos expõem os poderosos de colarinho-branco; (a estratégia de contenção de classe- os capturados pela máquina de castigar- para benefício de outra); d. Simbólica: ligada à função distratora; e. Executiva: hoje, (o cárcere e o encarceramento) é o tipo de sanção mais visível em nossa sociedade. Como consequência, o cárcere ajuda a dividir �sicamente a sociedade em produtivos e improdutivos, instala uma estrutura que ostensivamente coloca os presos em uma posição que carecem de poder, arma uma estrutura que possibilita a superposição e estigmatização de uma classe sobre outra. No espectro do componente de negação que compreende os elementos mediante os quais se nega o fracasso do cárcere, o autor explica que a negação se dá em três âmbitos públicos: os meios de comunicação (retroalimentação externo), as instituições comprometidas com a prevenção do delito, como polícia e tribunais (retroalimentação interna) e os investigadores. A relação de poder está evidente nesta análise. O poder funciona através da negação (os funcionários penitenciários negam os desejos dos presos; a polícia golpeia os jovens), o poder está nas mãos de grupos especí�cos de interesses (os sindicatos dos empregados penitenciários e policiais; os parlamentos e congressos) e funciona pela distorção da ideologia (a retórica carcerária da reabilitação; a retórica policial sobre a persecução do crime na comunidade). O poder é uma relação embaraçada na qual, ao se derrotar um nível de poder, imediatamente aparecem novos níveis para derrotar. Portanto, a luta contra o poder é continua e não tem �m. (MATHIESEN,1989, p.145) O cárcere, para o autor, é indefensável; é um �asco quanto a seus próprios propósitos. Por conta disso, defende que somente a esquerda, inspirada nos princípios socialistas, pode se opor à ideologia do mesmo. Finalmente, é crucial �xar que toda política abolicionista caminha junto a uma política defensiva, na medida em que a primeira é ofensiva e trata de acabar com os sistemas repressivos estabelecidos. A segunda, por sua vez, consiste em trabalharmos para impedir o surgimento de novos sistemas punitivos. A atividade defensiva há de alternar-se continuamente com a atividade ofensiva abolicionista, ao que entendemos como defesa ativa ou, em outras palavras, se proteger das balas do inimigo atirando ao mesmo tempo contra. Seja sua concepção materialista e sua fundamentação metodológica do abolicionismo satisfatória ou não, é um autêntico marxista no sentido de que, no trabalho prático, realiza a ideia marxista de buscar não só interpretar o mundo como os �lósofos, e sim, transformá-lo. d) Michel Foucault “A prisão é o único lugar onde o poder se manifesta com total desnudez, em sua forma mais excessiva e onde se justi�ca como força moral.”. (FOUCAULT apud FOLTER, 1989, p. 76) Michel Foucault foi um importante �lósofo francês, professor catedrático da Collège de France, desde a década de 70. Embora não possa ser considerado um abolicionista da mesma forma como o fazemos com os demais pensadores aqui citados, que reverteram uma formulação intencionada para a luta contra as prisões e o sistema penal, foi um abolicionista, ainda que não tenha reivindicado este lugar (ZAFFARONI, 2017, p. 101). Sendo assim, é válido apontar, inegavelmente, como sua principal obra acerca do sistema penal, o livro intitulado de Vigiar e Punir, publicado em 1975, em que expressa toda sua ótica das drásticas consequências do exercício do poder sobre a criminalidade, observado claramente no cárcere. A obra clássica Vigiar e Punir faz uma análise cientí�ca sobre a legislação penal e o sistema punitivo adotados pelos poderes jurídicos para os que praticam alguma modalidade de crime ao longo dos séculos. Em uma narrativa histórica da punição, desnuda a �loso�a que embasou os suplícios; a espetacularização da violência sobre os corpos, modernizada por formas aparentemente mais humanizadas; e a instituição da prisão como instrumento de disciplinamento. Descreve a prisão como uma detestável solução para o sistema penal de que não se pode abrir mão: conhecem-se todos os seus inconvenientes, mas não se vê o que pôr no lugar: “Como não seria a prisão a pena por excelência numa sociedade em que a liberdade é um bem que pertence a todos da mesma maneira e ao qual cada um está ligado por um sentimento ‘universal e constante’?”. (FOUCAULT, 2009, p.218). Forma mais civilizada e imediata de todas as penas, a prisão pode ser lida como um quartel mais estrito, uma escola sem indulgência, uma o�cina sombria, mas, levando ao fundo, nada de qualitativamente diferente (Idem, p. 219). A escala do controle na modernidade é contada a partir da movimentação do ato de punir que se deslocou da vingança do soberano à defesa da sociedade, a ponto de o infrator passar a ser considerado o inimigo comum. Exempli�ca: “Onde desapareceu o corpo marcado, recortado, queimado, aniquilado do supliciado, apareceu o corpo do prisioneiro, acompanhado pela individualidade do ‘delinquente’”. (FOUCAULT, 2009, p. 241). O poder normalizador na sociedade moderna, portanto, foi apoiado pela rede carcerária, em suas formas concentradas ou disseminadas, com seus sistemas de inserção, distribuição, vigilância, observação (Idem, p.288). Podemos dizer que a tônica do abolicionismo de Foucault é questionar todas as formas de expressão do próprio poder desempenhado, não só pelo Estado, mas também desprendido pelas atitudes dos próprios indivíduos, membros da sociedade. Desta feita, analisa o peso da incidência desse poder, sobre os corpos, preferencialmente os exercidos por instituições como a prisão e o manicômio. A prisão, nas bases do livro, é considerada como uma das formas mais fulminantes de exercício de poder. Através de autoritarismo, faz imperar a disciplina e a obediência, onde as ilegalidades, ao invés de serem combatidas, permanecem e reproduzem-se. Portanto, acidentalmente ou não, o cunho abolicionista penal do �lósofo Michel Foucault é inquestionável, ao passo que conclui pela extirpação da punição, promulgando a ideia de uma vigilância disciplinadora. O enfoque foucaultiano no que tange à estrutura da sociedade e à forma como aborda o direito de punir, expressa a necessidade de transformações do âmago da Criminologia Crítica, decretando de forma imperativa um rompimento com as instâncias formais de controle. O autor encerra sua obra clássica com a a�rmação de que na genealogia do sistema prisional contemporâneo, baseado no binômio “vigiar e punir”, há um ronco surdo de uma batalha. Façamos, então, soar as buzinas a acompanhar os megafones com gritos de “Alerta!”: a lógica do crime-castigo precisa ser rompida, os homens não podem continuar exercendo seus podres poderes 38que matam de fome, de dor, de raiva e de tristeza os condenados da terra capital. II.6. “Em que meu olhar permite ver as coisas?”39: trocando as lentes A ideologia penal dominante se funda nos mitos da ressocialização e da recuperação do delinquente por intermédio da prisão, mito este desconstruído ao veri�carmos a frustração dessa função declarada e a função não-declarada do modelo punitivo: gestão de classe. 40 O abolicionismo, ora como movimento social, ora como fase acadêmica, é a proposta crítica de liberdade das respostas condicionadas pelo modelo punitivo e das consequências funestasdo encarceramento. Para chegar à abolição do sistema penal, Hulsman aponta para dois caminhos a serem trilhados em conjunto. O primeiro, chamado de ‘abolicionismo acadêmico’, implica uma transformação conceitual e de linguagem, evitando a reconstrução ilegítima das situações-problema como meros fatos criminalizáveis carentes de uma resposta punitiva. Assim, é possível transcender às etiquetas de vítima e agressor para encarar os episódios tipi�cados como crime, percebendo a perspectiva transdisciplinar da natureza con�ituosa. O segundo, denominado de ‘abolicionismo como movimento social’, inicia-se com mudanças de comportamentos, negando o poder centralizado e a lei como verdades absolutas. Não se vai em busca do vitimizado ou do agressor, mas de indivíduos capazes de terem sua sociabilidade redimensionada. Nesse sentido, ao compreendermos a função da resposta penal dentro da lógica do controle social punitivo, de eliminar os indesejáveis por meio do estigma e da perseguição penal até a morte social do encarceramento, deparamo-nos com o horizonte de um novo paradigma de resolução de con�itos que é a justiça restaurativa. Um nó se apresenta: Como praticar um sistema de mediação orientado pelos princípios da Justiça Restaurativa imune à colonização das opressões de gênero, raça e classe nos casos de violência doméstica? As tentativas frustradas dos modelos penais e a necessidade de reinventar respostas sem relegitimar uma política criminal punitivista e carcerocêntrica estão postas. Os desa�os para aqueles que pretendem se despir das armadilhas das soluções fáceis promovidas pela lógica penal giram em torno de rever mecanismos de responsabilização paci�ca dos con�itos, que sejam e�cazes para reparar o dano e para a compreensão da dimensão social e política do crime. Os criminólogos críticos identi�caram nesse percurso um processo de substituição das penas alternativas por penas aditivas, que substituíssem as prisões e renovassem as formas de controle social. Ou seja, as estratégias se renovam e conseguem abranger mais sujeitos na rede de controle, ainda que com penas mais brandas. Esta crítica está atrelada à leitura que se faz da implantação dos Juizados especiais criminais pela Lei n. 9099/05, que pretendia uma gestão de con�itos baseada na conciliação, economia processual e menor formalidade, mas que na prática representou, em razão da burocracia e verticalização, “uma espécie de re�exo em escala menor do modelo tradicional de administração da Justiça Criminal” (ACHUTTI, 2016, p.22) A partir das experiências de metodologias alternativas dentro do sistema penal para tratar os con�itos, é possível a�rmar, segundo Carvalho (2016, p.23), que: os únicos satisfeitos com as resoluções apresentadas pelo sistema punitivo são os próprios operadores da máquina burocrática judiciária; as pessoas efetivamente envolvidas nas situações problemáticas são desprezadas, seus direitos fundamentais violados e suas expectativas frustradas. Assim, seria possível concluir que uma das únicas virtudes do sistema penal (talvez a sua principal) é a de satisfazer a vontade de punir dos seus atores e do seu público consumidor(...). O grande nó que se apresenta a esta pesquisa é justamente como praticar um sistema de mediação orientado pelos princípios da Justiça Restaurativa imune à colonização das opressões de gênero, raça e classe nos casos de violência doméstica. Quais as experiências que identi�camos e como elas vêm sendo construídas? O que o pensamento decolonial, os estudos da raça e o feminismo marxista contribuem para um modelo de justiça restaurativa libertador? As apostas para desatar o nó estão em aprofundarmos a compreensão dos processos colonizadores capitalistas, racistas e patriarcais, somadas a uma fundamentação radicalmente abolicionista, para assim rompermos com a racionalidade penal autoritária moderna e superarmos a centralidade do binômio crime-castigo. A partir disso, é recomendável desde o princípio uma postura suspeita em relação às noções de crime, criminalidade, culpabilização e vitimização. Estes signi�cantes sempre estiveram atrelados à imposição de dor, à violência e a mecanismos perversos de criminalização de grupos subalternizados. As décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos marcaram um momento de crise do discurso ressocializador e da pena privativa de liberdade como tratamento, processo que impulsionou ideias de restituição penal e de reconciliação da vítima com o ofensor na década seguinte. Há quem diga (BRAITHWAITE, 2002, p. 8-10) que as primeiras movimentações de interesse pela justiça restaurativa surgiram no Ocidente a partir de um programa de reconciliação vítima e ofensor em Kitchener, Canadá, em 1974. Tratava-se de programas comunitários que mediavam con�itos entre vítima e ofensor após a decisão judicial. Segundo este mesmo autor, nos idos de 1980, a justiça restaurativa se tornou um importante movimento social em favor da reforma da justiça criminal após os trabalhos de Howard Zehr (1985,1995), Mark Umbreit (1984,1994), Kay Pranis (1996), Daniel Van Ness (1986), Tony Marshall (1985) e Martin Wright (1982). Na década seguinte, as pesquisas críticas de Alisson Morris, Lode Walgrave, Heather Strang e Laurence Sherman engrenaram esta progressão do tema. A partir dos anos 1970, autores como Daly e Immarigeon (1998, p6- 11) identi�caram iniciativas implementadas que poderiam ser identi�cadas como procedimentos restaurativos, como por exemplo: direitos dos prisioneiros e alternativas às prisões; resolução de con�itos(envolvia conselhos comunitários de justiça e centros de justiça comunitária), programas de reconciliação vítima-ofensor (encontros com a presença de mediador de vítima e ofensor); mediação vítima-ofensor(envolvia a mesma estrutura da reconciliação, mas com a participação de outras pessoas afetadas pelo con�ito); grupos de defesa dos direitos das vítimas(ativistas ressaltavam a importância da participação das vítimas nos processos judiciais); conferências de grupos familiares (se diferenciavam da mediação vítima-ofensor, pois permitiam a inclusão de mais membros da comunidade nas discussões sobre o caso); círculos de sentença (originário do Canadá na década de 80, objetivava a restauração do con�ito, a cura dos envolvidos(ofensor, vítima e comunidade). Embora sem a menção ao termo justiça restaurativa, essas modalidades de encontro são práticas próprias desse campo e já anunciavam a urgência do abolicionismo e da substituição por um modelo outro de gestão da con�itividade. Assim, na década de 90, o tema eclode nos Estados Unidos e em pouco tempo é difundido pelo continente europeu. Embora muito próximo ao abolicionismo no que toca aos objetivos de superar o modelo processual penal de tratar os con�itos e questionando o sentido da punição, para Braithwaite algumas diferenças são importantes entre justiça restaurativa e abolicionismo, quais sejam: em alguns casos, a justiça restaurativa admite a utilização da prisão para um certo número de delitos e garante legitimidade às garantias penais, enquanto que o abolicionismo propõe a substituição da prisão e a total superação do sistema penal. Este aspecto apresenta o caráter múltiplo dessa justiça, que recebe in�uência de diversos movimentos como o abolicionismo (que denuncia a falência das funções declaradas de prevenção da criminalidade e ressocialização dos indivíduos através da prisão), a vitimologia (que resgata a centralidade da vítima) e o que exalta o papel positivo da comunidade. No que diz respeito à vitimologia, tema ainda não abordado aqui, é uma movimentação de trocar a centralidade do olhar: desvincular a atenção apenas aos bens jurídicos e aos que cometeram o delito e recuperar as necessidades de reparação da vítima. É a partir dos anos 80 que o debate ganha fôlego, transitando de leituras positivistas, que buscavam as causas biológicas, antropológicas e sociais que formam a vítima, incorrendo nomesmo erro das ideias biologizantes que pretendiam formar um per�l nato do delinquente, até o ponto mais trabalhado, que é a vitimização secundária, isto é, a alienação da vítima no processo penal, vez que esta desconhece a dinâmica do processo penal. Elucidando isso, Pallamolla (2009, p.52) diz que: O que a vitimologia trouxe à tona, a�nal, é que o atual sistema de justiça penal ignora a vítima e suas necessidades- já que as vítimas, muitas vezes, querem apenas que o dano seja ressarcido, que o ofensor lhe dê explicações para que possa compreender o ocorrido, ou, ainda, que receba um pedido de desculpas – e, com isso, atua de forma a revitimizá-la, deixando-lhe uma única saída : recorrer ao processo penal e pedir a punição do ofensor e com isso satisfazer-se, mesmo sem ter participado ou contribuído para o processo e seu desfecho. Em seguida, adverte que a conexão da justiça restaurativa com a vitimologia não é total, pois que embora tenha sido in�uenciada por esta na concretização de seus princípios, não é um movimento que não só envolve as vítimas, como também a comunidade e ofensor. Na multiplicidade de possibilidades de ser da justiça restaurativa em termos de elementos, objetivos e orientações, mais apropriado é caracterizá- la como um “modelo eclodido” (JACCOUD, 2005, p.163), até por não estar de�nida taxativamente em um sentido acadêmico de ter um conceito-base para ser o princípio do estudo. A de�nição aberta permite que transitemos pelas formulações de diversos(as) autores(as) para entender como essas concepções se completam, como por exemplo o sentido de Marshall(apud LARRAURI, p. 443) sobre a reunião de todas as partes interessadas para resolver coletivamente uma questão; o de Braithwaite(2003, p. 1) que a vislumbra como a busca por “direções práticas sobre como nós, cidadãos democráticos, podemos levar uma boa vida por meio da luta contra a injustiça” ou o de Johnstone e Van Ness como movimento global que objetiva transformar as respostas que a sociedade contemporânea dá às situações problemáticas(2007, p.5). Estes últimos autores, por sua vez, asseveram que não há consenso acerca da de�nição: Alguns consideram a justiça restaurativa como nova técnica social ou programa que pode ser usado no interior dos nossos sistemas de justiça criminal. Outros procuram, em última análise, abolir grande parte do edifício de punição do Estado e substituí-lo por respostas baseadas na comunidade que ensinam, curam, reparam, reparam e restauram vítimas, autores de crimes e suas comunidades. Outros, ainda, aplicam a visão de cura e restauração a todos os tipos de con�itos e danos. Na verdade, o objetivo �nal e foco principal, eles sugerem, deveria ser a mudança da maneira como vemos a nós mesmos e nos relacionamos com os outros na vida cotidiana. (JOHNSTONE; VAN NESS, 2007, p.5) Apesar da abertura conceitual, podemos destacar uma característica central dos programas restaurativos, que é a participação das partes envolvidas como protagonistas e não meramente a leitura jurídica de violação à lei. Para Alisson Morris (2002, p. 598): a justiça restaurativa devolve as decisões sobre a melhor maneira de lidar com a ofensa aos mais afetados- vítimas, ofensores e suas ‘comunidades de cuidado’- e dá prioridade aos seus interesses. Assim, o Estado não possui mais o monopólio sobre a tomada de decisão; os produtores das decisões são as próprias partes. A respeito da amplitude conceitual, Walgrave (2008, p.11) relata: A justiça restaurativa é um produto inacabado. É um reino vívido e complexo de diferentes- e parcialmente opostas- crenças e opiniões, renovando inspirações e práticas em diferentes contextos, duelos cientí�cos em torno à metodologia de pesquisa e seus resultados. (...) É um campo próprio, procurando por maneiras construtivas de lidar com as consequências do crime, mas também parte de uma mais ampla agenda socioética e política. Como um paradigma novo, o conceito de Justiça Restaurativa ainda é algo inconcluso, que só pode ser captado em seu movimento ainda emergente. Ainda assim, há palavras chave que informam a orientação �losó�ca da restauração que são: democracia participativa, vivência restauradora e recontextualização do con�ito. Quer dizer, promoverá a democracia participativa na área de Justiça Criminal, uma vez que a vítima, o infrator e a comunidade se apropriam de signi�cativa parte do processo decisório, na busca compartilhada de cura e transformação, mediante uma recontextualização construtiva do con�ito, em uma vivência restauradora. O processo transpõe a super�cialidade e mergulha fundo no con�ito, enfatizando as subjetividades envolvidas, superando o modelo retributivo, em que o Estado, �gura como a encarnação de uma divindade vingativa, sempre pronta a retribuir o mal com outro mal. Reconhecendo esta abrangência terminológica, Johnstone e Van Ness (2007, p.9-16) apresentam três concepções de justiça restaurativa: a) a concepção do encontro, com enfoque na liberdade de manifestação dos envolvidos para a dissolução con�ito; b) a concepção reparadora, com ênfase na reparação do dano provocado; e c) a concepção transformadora, que vislumbra nas experiências restaurativas potencial de mudar o estilo de vida, extinguindo a hierarquia e o individualismo entre os indivíduos. Os valores obrigatórios para prevenir que o processo restaurativo se torne opressivo são: a não-dominação(reconhece as diferenças de poder existentes, mas procura minimizá-las); empoderamento da vítima; obediência aos limites máximos estabelecidos legalmente como sanções(desfechos degradantes não podem ser considerados restaurativos); escuta respeitosa(esta condição revela que o empoderamento de uma parte que silencia a participação de outra é excessivo e negativo); preocupação igualitária com todos os participantes; accountability appealability(garante o direito de optar pelo processo restaurativo em lugar do processo judicial e vice e versa). Os conceitos enunciados nos Princípios Básicos sobre Justiça Restaurativa, enunciados na Resolução do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, de 13 de Agosto de 2002, são os seguintes41: 1. Programa Restaurativo - se entende qualquer programa que utilize processos restaurativos voltados para resultados restaurativos. 2. Processo Restaurativo - signi�ca que a vítima e o infrator, e, quando apropriado, outras pessoas ou membros da comunidade afetados pelo crime, participam coletiva e ativamente na resolução dos problemas causados pelo crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. O processo restaurativo abrange mediação, conciliação, audiências e círculos de sentença. 3. Resultado Restaurativo - signi�ca um acordo alcançado devido a um processo restaurativo, incluindo responsabilidades e programas, tais como reparação, restituição, prestação de serviços comunitários, objetivando suprir as necessidades individuais e coletivas das partes e logrando a reintegração da vítima e do infrator. As práticas de Justiça restaurativa em geral visam promover o encontro entre as partes afetadas em um ambiente não-adversarial para dialogarem e decidirem a respeito do dano sofrido, possibilitando a retratação/responsabilização do ofensor e a aproximação da vítima com suas sensações do fato. As principais modalidades de intervenção restaurativa são: a) Mediação entre vítima-ofensor Modelo mais difundido, consiste no encontro das partes envolvidas para que a vítima obtenha uma reparação, restauração ou compensação facilitada pelo mediador, que irá promover um diálogo desarmado e o mais horizontal possível. Nas palavras de Pallamolla (2009, p. 109), “com o uso da mediação, a justiça restaurativa pretende superar a dicotomia vítima-ofensor e desfazer os mitos (estereótipos) relacionados a ambos”. b) Conferências restaurativas Encontros entre vítima, ofensor e comunidade a�m de encontrar uma solução coletiva para os problemas gerados com o delito. c) Círculos restaurativosSão realizados de duas maneiras: círculos de cura, que buscam restaurar a paz na comunidade afetada pelo con�ito; e os círculos de sentença, em que participam as partes diretamente envolvidas, as famílias, pessoas ligadas à vítima e ao infrator que queiram apoiá-los e qualquer pessoa da comunidade que tenha interesse, assim como pessoas vinculadas ao sistema de justiça criminal. Podem acontecer antes da ação penal, antes do processo, antes ou após a sentença. No que toca aos momentos de aplicação e as consequências jurídicas, podemos dizer que todas as experiências atuais se desenvolvem através da justiça criminal e que cada país tem um sistema próprio de justiça restaurativa. Podemos apontar, nos trilhos das informações que Pallamolla (2009, p. 100-104) traz do estudo da ONU sobre o tema, que os momentos em que são encaminhados os programas restaurativos podem ser: a) Fase pré-acusação, podendo ser encaminhado tanto pela polícia quanto pelo Ministério Público; b) Fase pós-acusação, antes do oferecimento da denúncia na justiça criminal, a ser encaminhada pelo Ministério Público; c) Fase judicial, a qualquer momento do processo judicial, inclusive ao tempo da prolatação da sentença, com encaminhamento pelo juiz; d) Fase pós-judicial, quando da execução da pena privativa de liberdade, como alternativa ou complemento à prisão. Conforme o caso, as consequências podem resultar na extinção do processo, na suspensão condicional da pena/processo e no arquivamento do inquérito policial ou da queixa, caso haja cumprimento do acordo pelo ofensor. O acordo poderá in�uenciar a decisão judicial, implicando na redução, substituição ou isenção da pena para o condenado. Enquanto procedimento que busca o consenso e reconhece as diferenças, a Justiça restaurativa tem potencial de promover a democracia participativa na área de Justiça Criminal, uma vez que a vítima, o infrator e a comunidade se apropriam do processo decisório e buscam conjuntamente a transformação mediante uma reconstrução contextualizada do con�ito. Enquanto a justiça convencional diz: “você cometeu um erro punível e precisa ser castigado!”, a justiça restaurativa, por outro lado, pergunta: “o que você pode fazer agora para restaurar isso?”. Como não é modelo engessado, pode se construir a partir de um padrão centrado no processo, nas �nalidades ou centrado em ambos. Concordamos com Jaccoud (2005) segundo a qual o modelo centrado nos processos é o que mais corrompe os princípios fundadores da justiça restaurativa. Explica-se: uma justiça participativa ou comunitária é uma justiça restaurativa se, e somente se, as ações expandidas objetivam a reparação das consequências vivenciadas após um crime. Por exemplo: um círculo de sentenças se insere em um modelo de justiça restaurativa contanto que os membros do círculo recomendem ao juiz a adoção de medidas restaurativas. Um círculo de sentença que recomenda encarcerar o autor do delito (sem a reunião de medidas restaurativas) jamais será um modelo de justiça restaurativa. Os principais procedimentos que cercam a justiça restaurativa são: a) Os lugares de prática (perspectiva maximalista x perspectiva minimalista): A tendência minimalista estima que o Estado deve ser afastado da administração destes processos. A justiça restaurativa é concebida, então, como uma alternativa ao sistema de justiça tradicional e se vê limitada à adoção de processos de mecanismos não-jurídicos ou de mecanismos civis. Já a tendência maximalista se opõe a esta visão da justiça restaurativa devido aos limites de sua aplicação. Walgrave (1999 apud JACCOUD 2005), um dos defensores desta tendência, considera que a justiça restaurativa deve transformar profundamente o modelo retributivo e, para tal, deve ser enraizada no sistema de justiça estatal. De acordo com ele, restringir os processos restaurativos a processos estritamente voluntários leva a con�nar a aplicação da justiça restaurativa a pequenas causas. No Brasil, através das resoluções do Conselho Nacional de Justiça, a tendência em voga é a integração do modelo restaurativo ao modelo de justiça criminal tradicional. Especi�camos, no entanto, que no presente trabalho dialogamos tanto com as iniciativas propostas pelo Judiciário, como, a partir da matriz teórica e de longo prazo, com horizontes abolicionistas, nos quais esta forma de justiça poderá ser tida como alternativa e não apenas como complementar a atuar por dentro do sistema penal. Na opinião de Jaccoud (2005), é necessário distinguir: 1) um sistema de justiça estatal que mude para privilegiar a reparação dos danos causados à vítima convidando o ofensor a se responsabilizar com isto em detrimento da pena. Este sistema não é mais retributivo, mas sim restaurativo. O termômetro que permite avaliar se um sistema é restaurativo é, vamos repetir, a �nalidade (reparar as consequências). Neste contexto, o termo “sistema penal” poderia ser substituído por “sistema de justiça”; 2) um sistema de justiça estatal que não transforma a �nalidade das sanções (mantém as �nalidades punitivas), mas que acrescenta uma dimensão restaurativa às suas modalidades de aplicação das sanções. Este sistema permanece retributivo em sua essência. b) O lugar e o papel das vítimas: Um dos debates mais tensionados sobre a aplicação da justiça restaurativa diz respeito à aplicação das práticas nos casos de crimes graves e/ou marcados por um forte desequilíbrio de poder (homicídio, violência sexual, racismo...). Estes argumentos deixam subentendido que a justiça restaurativa é considerada como uma forma de justiça mais amena, informal, que se revela não apropriada nos casos que requerem uma forte reprovação por parte do Estado. Estas opiniões não são unânimes. Pesquisadores(as) abertos(as) à ideia de que a justiça restaurativa pode ser aplicada às situações de trauma grave insistem na necessidade de impor barreiras protetoras: a segurança das vítimas dentro dos processos é prioritária; as vítimas devem participar voluntariamente e podem se retirar do processo a qualquer momento; elas devem se bene�ciar de serviços de apoio, antes, durante e depois do processo; o agressor deve reconhecer sua responsabilidade; os facilitadores e mediadores devem receber uma formação apropriada à administração deste tipo de situação. c) O lugar da comunidade: Há de haver sérias advertências para que o papel da comunidade não seja romantizado a ponto de conceber que esta sempre dará as respostas mais justas/adequadas/pautadas em valores não-retributivos. A comunidade pode ser muito punitiva e repressiva, conforme a sua história de socialização, de modo que é importante, mas também pode ser questionada. Uma crítica persistente é a de que a Justiça restaurativa desjudicializa a Justiça Criminal e privatiza o Direito Penal, sujeitando as partes envolvidas a um controle ilegítimo de pessoas não investidas de autoridade pública. Contra isso é oponível o argumento de que o processo restaurativo não é exercício privado, mas o exercício comunitário – portanto também público – de uma porção do antes exclusivo monopólio estatal da justiça penal, numa concretização de princípios e regras constitucionais. O que ocorre é um procedimento que combina técnicas de mediação, conciliação e transação previstas na legislação, com metodologia restaurativa na participação de vítima e infrator quando for essa a vontade das partes. Vale realçar que o acordo restaurativo terá que ser aprovado, ou não, pelo Ministério Público e pelo advogado assim como pelo juiz, ou não. Um dos precursores dos estudos sobre justiça restaurativa, Howard Zehr, ao pintar os fenômenos do crime e da justiça como forma de ganhar e perder poder, propõe que o crime (...)pode ser uma forma que o ofensor encontra para a�rmar seu poder e ganhar um sentido de valor pessoal. Mas o crime tira de alguém seu sentido de poder pessoal. Para que a vítima recobre sua inteireza, é preciso que lhe seja devolvidaa autonomia. Para que o ofensor conquiste a inteireza, ele deve desenvolver um senso de autonomia que não se baseie em dominar os outros. E, no entanto, o processo penal intensi�ca o problema, privando tanto a vítima como ofensor de um sentido legítimo de poder enquanto concentra o poder perigosamente nas mãos de uns poucos. (2008, p. 55) Nesse sentido, pensando sobre a misti�cação e miti�cação do processo pela mídia e política, a culpa como central para ditar as respostas vingativas e a lei penal como a lei da dor, o autor indica que “o motivo de tanto de nossos fracassos é a lente através da qual enxergamos o crime e a justiça, pois essa lente é uma construção da realidade bastante especí�ca, ela é um paradigma. Mas este não é o único paradigma possível.” (ZEHR, 2008, p. 90) Experimentado com cautela e controle, o programa deve estar sempre monitorado e avaliado com rigor cientí�co. Cumpre reiterar que precisamos construir uma justiça restaurativa brasileira e latino-americana, considerando as particularidades da criminalidade construída no continente como reação social organizada a uma ordem injusta, cruel, violenta e igualmente criminosa. As diretrizes da ONU podem orientar os caminhos se adaptarmos a Justiça Restaurativa ao nosso contexto. Ademais, é vital não descuidarmos da indissociabilidade do sistema com o aparato de proteção aos direitos humanos. O modelo de justiça restaurativa busca o princípio da comunidade, a regra da negociação, ao passo que só faz sentido se caminhar junto dos valores proclamados pelos Direitos Humanos. É forçoso fazer observações algumas observações. O universo da Criminologia não fugiu ao androcentrismo dos saberes e teve seu universo inteiramente centrado no masculino, ora pelo objeto do saber (o crime e os criminosos), ora pelos sujeitos produtores do saber (os criminólogos). Com o �m de reduzir a onipresença do masculino e deixar de ser sujeito ausente, a partir da década de 70, as criminólogas desa�aram as bases da criminologia que até então negligenciava a questão de gênero como essencial para compreender os fenômenos criminais situados na sociedade patriarcal. Antes mesmo de lançarem mão desta provocação, as críticas feministas já questionavam o universalismo das ciências sociais que não se dispunha a reconhecer as diferenças de socialização de homens e mulheres e, portanto, invisibilizavam a realidade opressora das mulheres em oposição à dos homens. Para Carmen Hein (2017, p.221), se a incorporação do paradigma da reação social (labelling approach) propiciou a primeira virada, o gênero (ou o feminismo) corresponderia à segunda virada paradigmática da criminologia. O desenvolvimento da categoria gênero revolucionou as análises feministas que, aplicadas à criminologia, não apenas questionaram seus pressupostos androcêntricos, mas construíram um novo referencial teórico capaz de analisar a criminalidade e demandas femininas, até então ignoradas. Entre as décadas de setenta a oitenta, a crítica feminista na criminologia se ocupou em denunciar o caráter androcêntrico da disciplina, visibilizar a criminalidade feminina, expor o sexismo institucional no estudo/ tratamento do crime e problematizar a naturalização de comportamentos essencialmente femininos. Nesse percurso, as teorias da criminalidade também serão objeto de análise para identi�car as ausências e generalizações na questão de gênero, questionando os estereótipos e apresentando a via da criminologia feminista por meio das propostas de Carol Smart, Maureen Cain e Katheleen Daly. Assim, no esforço de conceituar o que viria a ser uma criminologia feminista distinta da investigação criminológica tradicional, Daly e Chesney-Lind (apud HEIN, 2017, p. 271) sustentam cinco aspectos: a) O gênero não é um fato natural, mas um complexo produto histórico, social e cultural, relacionado, mas não simplesmente derivado da diferença sexual biológica ou das capacidades reprodutivas; b) O gênero e as relações de gênero estruturam a vida e as instituições sociais de modo fundamental; c)As relações de gênero e as construções de feminilidade e masculinidade não são simétricas, mas estão baseadas em um princípio organizador da superioridade masculina e na dominação econômica, social e política das mulheres; d)A produção do conhecimento re�ete a visão dos homens sobre o mundo social e natural. O conhecimento é ‘gendrado’; d) As mulheres devem estar no centro da pesquisa intelectual e não periféricas, invisíveis ou apêndices dos homens. O universo da violência antes de mais nada, como introduz Vera Andrade, é o universo da dor e escolhê-la como objeto teórico demanda um esforço de suspender as implicações que a dor provoca, como o sentimento de vingança e ódio, mas jamais afastar-se por inteiro desta, pois que a solidariedade para com as dores do mundo irá nos guiar para a luta por aqueles que mais sofrem na sociedade: os oprimidos. A tarefa de quem está nesse lugar de olhar para o direito penal e apontar suas permanências históricas, para poder apontar objetivos, omissões e estratégias de combatê-lo a partir de problematizações de gênero, é ancorar nossas bases na criminologia crítica, desenvolvida a partir do paradigma da reação social, e mais especi�camente na criminologia feminista. Perceber, portanto, o feminismo como novo sujeito que tensiona a produção masculina e masculinizada de saber e reivindica o lugar ausente da categoria gênero como categoria de análise, é uma escolha política de questionar o papel acadêmico de eleger prioridades e quanti�car importâncias a partir de sua lente eurocentrada. É dizer: esvaziar como possível o machismo das formas jurídicas para o feminino passar com seu debate tem um impacto desestabilizador para o direito e, especialmente, para a criminologia, reduto do androcentrismo por muito tempo. E para entender as carências de uma criminologia crítica feminista, urge identi�car pontos de funcionamento do sistema de controle. Enquanto controle social, o sistema penal não atua sozinho: está incluído em uma mecânica global. Stanley Cohen, considerado um dos criminólogos críticos mais in�uentes da língua inglesa, na obra ‘Visions of social control: Crime, Punishment and classi�cation’ (2001, p.1), de�ne controle social como “formas organizadas com que a sociedade responde a comportamentos e a pessoas que inclui como desviantes e ameaçadores.” Estas respostas se manifestam como castigos, tratamento, prevenção, segregação, ressocialização, reforma e defesa social. Alimentados por sentimentos de vingança, salvação e benevolência, pretendem combater comportamentos de�nidos como crime, desvio, imoralidade. O criminólogo se propôs a selecionar as tendências-chave nos esquemas de controle social no mundo ocidental, descrevendo a fundação do sistema de controle do desvio no século XVIII e XIX e as mudanças históricas fundamentais, desde a imposição de sofrimento ao corpo, as penas públicas exemplares, o isolamento do desviante nas casas de correção e a�ns para transformação através da disciplina e ordem, até as visões reformistas, a partir da década de 1960, inspiradas pelos conceitos de progresso e humanitarismo. A relação Estado-indivíduo na sociedade burguesa se baseia na manipulação da consciência que dá a ilusão de liberdade aparente, na desigualdade e na repressão. O funcionamento perfeito da sociedade se assinta em atingir o objetivo de bem-estar da economia privada, educação para o conformismo político e infantilismo coletivo (BERGALLI, 1983 p. 40). As instâncias de controle incutem nos indivíduos premissas da ordem social que garantem o bem-estar de proprietários em detrimento dos não- proprietários excluídos. O poder do Estado está em interiorizar a disciplina social e educar para o consenso. A autoridade é elemento central do Estado que forja o desejo dos sujeitos ocuparem o lugar que representa os atributos hegemônicos da masculinidade, propriedade, conhecimento técnicoe cientí�co, valoração claramente ideológica do que signi�ca o poder. No âmbito das instâncias informais, a família se estrutura na �gura do homem, do pater, que institui a hierarquia e obediência aos costumes; a escola institui a autoridade por meio da hierarquia dos conhecimentos e o trabalho estabelece a autoridade por meio da superioridade técnica e econômica. No que se refere à alimentação ideológica através da informação, os meios de comunicação servem como mecanismo amplo de convencimento. Sobre a questão da criminalidade, se encarregam de informar para a identi�cação de grupos sociais especí�cos em torno da marginalidade, estigmatização e controle. Por meio do clima de pânico, ideologia de classe violenta/criminosa, criam insegurança e clamor popular pela persecução penal aos transgressores. A nível formal, as instâncias judiciais e policiais cumprem a função fundamental de manutenção da ordem interna, através da prevenção e repressão das ações dos cidadãos, se desconsiderarmos, claro, a ideologia deste microssistema municiado pelo capitalismo, racismo, patriarcado que montam a discursividade e justi�cam a atuação, constituindo (e sendo constituído) o senso comum punitivo. Logo, em resumo: Toda a mecânica de controle (enraizada nas estruturas sociais) é constitutiva, reprodutora das profundas assimetrias de que se engendram e se alimentam, a�nal, os estereótipos, os preconceitos e as discriminações, sacralizando hierarquias. E nós interagimos cotidianamente na mecânica (inseridos que estamos em relações de poder nem sempre percebidas, sendo sujeitos constituídos e constituintes, controlados e controladores), particularmente na dimensão simbólica da construção social da criminalidade/vitimação, representada por nosso microssistema ideológico que procede a microsseleções cotidianas, ao associar, estereotipadamente: criminosos como homens pobres; desempregados de rua como perigosos; vítimas com mulheres frágeis(...) (ANDRADE, 2016, p. 137) Além disso, após pesquisa sobre o sistema de justiça penal e violência sexual contra as mulheres, Vera Regina (2016, p.131) conclui: a) Em sentido fraco, o sistema penal é ine�caz para a proteção das mulheres contra a violência porque, entre outros argumentos, não previne novas violências, não escuta os distintos interesses das vítimas, não contribui para a compreensão da própria violência sexual e gestão do con�ito, e muito menos para a transformação das relações de gênero. O sistema penal não apenas é estruturalmente incapaz de oferecer alguma proteção à mulher, como a única resposta que está capacitado a acionar- o castigo- é desigualmente distribuída e não cumpre as funções preventivas (intimidatória e reabilitadora) que se lhe atribuem. Nesta crítica, sintetizam-se o que denomino de incapacidade protetora, preventiva e resolutória do sistema penal; b) em sentido forte, o sistema penal (salvo situações contingentes, empíricas e excepcionais) não apenas é um meio ine�caz para proteção das mulheres contra a violência, como também duplica a violência exercida contra elas e as divide, sendo uma estratégia excludente que afeta a própria unidade (já complexa) do movimento feminista. Isto porque se trata de um subsistema de controle social, seletivo e desigual, tanto de homens como de mulheres e porque é, ele próprio, um sistema de violência institucional, que exerce seu poder e seu impacto também sobre as vítimas. Com esse desnudamento sobre as funções e repercussões da intervenção penal sobre as mulheres, se denuncia que o sistema duplica a vitimação feminina, pois que além da violência física/psicológica, a mulher se torna vítima da violência institucional com que o sistema reproduz a violência estrutural das relações capitalistas da sociedade de classes, a violência das relações patriarcais sob o lastro da desigualdade de gênero, bem como a violência das relações branqueadoras das opressões de raça. Partindo do tratamento da violência contra a mulher, do modo como a mulher é retratada pelo sistema, como a seletividade do sistema penal conjugada à moral sexual acende prioritariamente os holofotes para autor- vítima ao invés de sobre fato-crime, bem como da crise de legitimidade das funções do direito penal, o modelo restaurativo surge como alternativa para conceder voz e poder de decidibilidade aos sujeitos. Nesse sentido, dialogar com um novo paradigma para além da prática punitiva do aprisionamento e exclusão social, da ritualística hierarquizada da justiça tradicional, da palavra de ordem legal e da força, é colocar em pauta também que o universo da violência é o universo da dor e os seus sujeitos têm uma fala, bem como saberes que não passam, necessariamente, pela mão do Direito Penal. A discussão feminista tem se oposto categoricamente aos métodos consensuais de resolução de con�itos por considerar um retrocesso na luta das mulheres para reconhecimento das violências sexistas. Os debates se pautam na tolerância mínima com o Estado, as instituições e a sociedade civil no que toca à violência contra a mulher, atrelando a postura de não retroceder nenhum passo sobre os direitos conquistados com uma didática punitivista e do direito penal máximo quando se trata de feminismo. Ao entender que a mulher vítima não pode se prestar ao papel de mediar o con�ito, a associação que se faz é que a mediação é ceder ou concordar com algo a ela imposto quando, na realidade, a mediação é uma proposta de dar protagonismo às angustias e questões sentidas pela vítima para reparar o dano e, através do diálogo, restaurar aquela relação fraturada e ameaçada pelo desnível de poder entre as partes. Diz respeito a reconhecer o delito como um erro que tem base social e pode ser tratado sem a reprodução dos estigmas de criminoso, culpa e castigo. Na mesma esteira, nos lembra Larrauri (2008, p.225) que a crítica também se �rma no entendimento de que o objetivo da mediação é salvar a instituição familiar, modelo heteronormativo patriarcal que interessa na manutenção da propriedade privada e corpori�ca as relações de poder fundadas na lógica de dominação masculina. É possível, sim, questionar uma prática restaurativa que não esteja pautada nos valores feministas, mas não inferir que toda prática restaurativa por sua natureza é antifeminista. O desconhecimento parte tanto das teóricas feministas a respeito das críticas criminológicas e, portanto, da justiça restaurativa no contexto de deslegitimação do direito penal como resposta aos crimes, até mesmo os de violência doméstica, bem como das criminólogas que tardaram a reivindicar a categoria de gênero como estruturante e essencial para um paradigma do confronto, não- hegemônico e de compreensão total dos mecanismos de controle na sociedade capitalista. Nós, pensadoras da criminologia crítica feminista devemos nos questionar: a justiça restaurativa consegue o intento de reforçar a autonomia, promover mudanças sociais e oferecer proteção às mulheres? A respeito das objeções, grupos feministas alegam que declinar as mulheres para propostas alternativas é diminuir a gravidade da situação, minimizando esta categoria de delito como se de menor importância fosse e não merecesse o apreço da força combativa do direito penal. Não com surpresa, quem se vincula a este tipo de posicionamento não reconhece alternativa distinta da pena de prisão, por visualizar ser a pena por excelência que consegue dar uma resposta digna de um Estado que se preocupa com o bem jurídico violado, conferindo à prisão o grau máximo de validade e e�ciência. Na contramão deste argumento, dizemos que, malgrado seja o direito penal o mecanismo atual que melhor consegue demonstrar a desaprovação social, vez que estamos socializados nessa dinâmica punitivista em que o cárcere ainda é vendido como solução para a repressão da criminalidade, este não se limita à pena de prisão. Nessa linha, admitimos o uso do direito penal na forma de penas mais brandas, desaídas consensuais. Na opinião das feministas defensoras da justiça restaurativa, esta se apresenta como uma forma mais efetiva de conseguir os objetivos de censurar o comportamento, proteger a vítima, reduzir a reincidência e reintegrar o infrator (HUDSON apud LARRAURI, p. 228). Outra objeção é a possibilidade de revitimização na mediação ao ser confrontada com o agressor a respeito do qual está em situação de desequilíbrio de poder. Como se viu, a mediação deve ser proposta e �car ao critério da vítima optar por esta metodologia ou pelo trâmite do direito penal, ou até a complementariedade dos dois, além de que é viável uma mediação indireta sem o contato entre as partes. Além disso, podemos reconhecer que as diferenças de poder manifestadas pelo gênero, raça, classe e outros mecanismos não se resolverão em espaços da micropolítica como uma mediação, pois que a mediação está localizada no mundo, é construída por indivíduos socializados nesse mundo e, portanto, é inevitável que esses marcadores estejam presentes entre as partes. O que a justiça restaurativa pretende é minimizar esta hierarquia, reduzindo ao máximo as diferenças presentes e a dominação. Para isso, ter mediadores forjados nas perspectivas feministas, cientes das opressões classistas e dos desdobramentos racistas da estrutura social viabiliza o respeito a todas estas questões sensíveis ao poder. 21 PATEMAN, Carole. Contrato sexual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. 22 BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992. 23 Referência ao icônico �lme de Stanley Kubrick, lançado em 1972 no Brasil, em que os temas do crime, da personalidade criminosa, da moralidade do crime, da violência, da ciência e dos dispositivos totalitários dos governos são satirizados em um contexto distópico. 24 ANDRADE, Vera Regina P. de. Pelas mãos da Criminologia: O controle penal para além da (des)ilusão. Rio de Janeiro: Revan, 2014 25 CIRINO DOS SANTOS, A criminologia radical. Forense, 1981, p. 88, do mesmo, Teoria da pena. ICPC/Lumen Juris, 2005, p. 2-3. 26 PAVARINI, Massimo. Control y dominación: teorias criminológicas burguesas y proyecto hegemónico. México: Siglo Veinteuno Editores, 1983. 27 BATISTA, Vera Malaguti. Introdução Crítica à Criminologia brasileira. Rio de Janeiro: Revan, 2011 28 Analogia à obra de Dante Alighieri “A Divina Comédia”, iniciada provavelmente por volta de 1307 e concluída pouco antes de sua morte (1321). O poema narrativo narra uma odisseia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. 29 Os escritos que fecham este tópico estão muito in�uenciados pelas contribuições trazidas por Lola Aniyar de Castro em Criminologia da Libertação. 30 Alusão à obra clássica do argentino Eugenio Raúl Za�aroni “Em busca das penas perdidas: a perda da legitimidade do sistema penal”. 31 YUKA, Marcelo. Todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Intérprete: O rappa. In: Instinto coletivo ao vivo- versão simples. São Paulo: Warner, 2002, CD- ROM, faixa3. 32 LENINE. Quando negro. In: Falange Canibal. Brasil: Sony BMG, 2002. 33 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal Parte General. Buenos aires: Ediar, 2000. 34 HULSMAN, Louk. Penas perdidas. Niterói: Luam, 1993, pp.63-64 35 Cabe contextualizarmos as falas destes teóricos ao tempo/espaço em que viveram, reconhecendo, desta forma, os limites inerentes a homens europeus, de modo que as contribuições não estão isentas de vícios colonialistas. Destacar a importância destes homens não é desmerecer as contribuições das mulheres, inclusive as latino-americanas mencionadas em outros momentos deste trabalho, mas é fazer jus àqueles que iniciaram os caminhos que hoje tantos(as) trilhamos. Na atualidade, frise-se, identi�co na �gura da mulher negra comunista, de nome Angela Davis e codinome Pantera Negra, a mais rica e completa produção abolicionista. 36 Za�aroni demarca as aberrações protecionistas aos crimes de colarinho branco: “Múltiplos são os casos demonstrativos de que, em nossa região marginal, os poderosos só são vulneráveis ao sistema penal quando, em uma luta que se processa na cúpula hegemônica, colidem com outro poder maior que consegue retirar-lhes a cobertura de invulnerabilidade” (2017, p. 108). 37 Neste sentido, o medo garantista de o abolicionismo engendrar alternativas piores que o direito penal pode ser notado nas colocações teóricas do direito penal mínimo em autores como Luigi Ferrajoli. Declaram o risco da reação vindicativa descontrolada, seja em mãos individuais ou estatais, e o disciplinarismo social, mediante o enraizamento de controles rígidos que atuam sob a forma de autocensura ou como expressões de política moral coletivas. 38 Referência à produção musical Podres Poderes, de Caetano Veloso, 1984, Álbum Velô. 39 Palestra “Os olhares na pesquisa”, Riccardo Cappi, Rio de janeiro, Junho/ 2016. 40 ANDRADE, Vera Regina P. de. Pelas mãos da Criminologia: O controle penal para além da (des)ilusão. Rio de Janeiro: Revan, 2014 41 Documento pode ser consultado no endereço eletrônico: http://www.juridica.mppr.mp.br/arquivos/File/MPRestaurativoEACulturadePaz/Material_de_Ap oio/Resolucao_ONU_2002.pdf. Acesso em: 05/04/2018. III. NOVAS SENTENÇAS, VELHOS CATIVEIROS, VELHOS PERSEGUIDOS Este capítulo se propõe ao exercício de levantar quais as condições de possibilidade de utilização da referenciada alternativa ao modelo penal, a Justiça Restaurativa, no contexto de sociabilidade marcada pela colonialidade e pelo capitalismo-patriarcal-racista. Se no momento anterior levantamos a bandeira desta nova forma de se deparar e enfrentar os con�itos, eis o momento de falarmos de dentro da trincheira, apontarmos as problemáticas e os pontos de tensão que, no mínimo, desmisti�cam a Justiça Restaurativa como forma isenta de reproduzir os mecanismos de poder e, no máximo, denuncia o feminismo carcerário, aportado pelos anseios punitivos da lei Maria da Penha, como “braço armado” do sistema responsável pela tragédia da morte em vida da população negra. Da trincheira da guerra declarada pelo Direito burguês, em que o terror racial/classista é utilizado para alimentar os anseios amedrontados por mais sistema penal, o feminismo punitivo se torna o símbolo da normativa que, em tese, deveria proteger as mulheres, mas que, em verdade, busca a criminalização dos homens negros e das classes populares. A partir do objetivo de introduzir as condições necessárias para um procedimento respeitar os princípios restaurativos, estruturamos nas seguintes dimensões este momento: a dimensão dos dados – o�ciais e de pesquisa recentemente publicada escolhida como parâmetro para o desenvolvimento do atual estado da violência doméstica no país-; dimensão da criminologia feminista e dimensão da geopolítica da questão, isto é, o nó dos atravessamentos raciais, patriarcais e classistas na observação dos resultados da performance penal nesses anos de Lei n. 11.340/2006. Para tanto, nos valeremos tanto dos dados e conclusões da pesquisa recentemente publicada pelo Conselho Nacional de Justiça em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco- UNICAP, quanto de dados de outras plataformas públicas. Ainda assim, a fonte mais referenciada neste trabalho será esta- “Entre práticas retributivas e restaurativas: a Lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do poder Judiciário” - que, para �ns de facilitar a compreensão, chamaremos de pesquisa- paradigma. Além da atualidade, tal pesquisa contou com a ousadia de várias técnicas de pesquisa como análise documental, entrevistas, grupo focal, características que conferiram riqueza de conteúdo que merece apreciação especial. Na oportunidade, me somei ao grupo extenso de pesquisadores(as) voluntários(as), de modo que colaborei com a análise documental de sentenças e acompanhei algumas entrevistas com vítimas no Estado de São Paulo no mês de outubro de 2017. Dessa forma, a metodologia utilizada para o trabalho foi a análise documental dos relatórios tanto da pesquisa- paradigma, quanto de outraspesquisas importantes. III.1. Estado da arte da violência contra mulheres no Brasil Angela Davis, ativista política negra e professora da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, EUA, no discurso de abertura da Conferência sobre Violência Contra as Mulheres de Cor (2000), indagou: “como nós desenvolveremos análises e organizaremos estratégias de combate à violência contra mulheres que reconheçam a raça de gênero e o gênero da raça?” A pergunta segue instrumentalizando a dinâmica das lutas permanentes no campo institucional, das políticas públicas e do campo social: o racismo e atravessamentos como classe e sexualidade não mais podem estar na periferia dos discursos sobre a violência contra a mulher. Décadas atrás, quando estas categorias estavam mais invisibilizadas, Sueli Carneiro (2003) já atribuía este fato a uma conspiração de silêncio que envolve o tema do racismo e à cumplicidade em relação ao mito da democracia racial e a tudo que ela dissimula. Cada vez mais, o enfrentamento é para combatermos uma visão universalista e generalizante de mulher, incapaz de reconhecer, por vezes, qual o per�l das mulheres brasileiras. Para Angela Davis (2001)42: violência é uma dessas palavras que possui um conteúdo ideológico poderoso, cujo signi�cado constantemente se transforma (...) Muitas de nós levamos tempo para compreender que a violência e a misoginia são assuntos políticos legítimos. Há pouco mais de duas décadas a maioria das pessoas considerava que ‘violência doméstica’ era uma preocupação privada e não propriamente um assunto para discurso público ou intervenção política. Só uma geração nos separa daquela era de silêncio. No decorrer do discurso acrescentou: Nosso encontro poderá nos ajudar a imaginar modos de prestar atenção à violência onipresente na vida das mulheres de cor e também radicalmente subverter as instituições e discursos nos quais nós somos compelidas por necessidade a pensar e a trabalhar. Dados os padrões racistas e patriarcais do Estado, é difícil con�ar no Estado como o detentor de soluções para o problema de violência contra mulheres de cor. Porém, como o movimento antiviolência foi institucionalizado e pro�ssionalizado, cabe ao Estado um papel cada vez maior na concepção e criação de estratégias para minimizar a violência contra mulheres. A primeira ‘fala’ contra o estupro aconteceu nos idos de 1970, e a primeira organização nacional contra a violência doméstica foi fundada no �m daquela década. Só então reconhecemos as proporções epidêmicas da violência nas relações afetivas e o estupro por pessoas conhecidas, como também a violência no interior da família. Mas nós também temos de aprender a opor a �xação racista em pessoas de cor como elemento primário da violência, incluindo violência doméstica e sexual, e ao mesmo tempo demonstrar o desa�o da real violência que os homens de cor in�igem em mulheres. Estes são precisamente os homens que já são insultados como o principal alvo da violência em nossa sociedade: os sócios de gangues, os tra�cantes de drogas – por atiradores e assaltantes. Em resumo, o criminoso é apresentado como um homem preto ou latino que deve ser preso. Uma das perguntas principais que exige resposta nesta conferência é como desenvolver a análise de não permitir que avance o projeto conservador de aprisionar milhões de homens de cor, conforme as ordens contemporâneas de capital globalizado e seu complexo industrial prisional, nem o projeto, igualmente conservador, de abandonar as mulheres pobres de cor à carga contínua de violência que se estende do mercado de trabalho às prisões, aos abrigos, às suas casas. (grifos nossos) A �lósofa toca no ponto chave deste trabalho: defender a autonomia das mulheres em relação às manifestações das múltiplas violências sem cair no canto da sereia do punitivismo, pois que assim estaríamos repetindo a política estatal seletiva, racista e classista que escolheu como clientes penais as populações negras marginais. A propósito disso, o Mapa da Violência 2015 (Waisel�sz, 2015) demonstra que no período 2003-2013 as principais vítimas da violência de gênero foram meninas e mulheres negras, com queda na evolução das taxas de homicídio de mulheres brancas – de 3,6 para 3,2 por 100 mil habitantes – e crescimento nas taxas de mulheres negras – de 4,5 para 5,4 por 100 mil habitantes –, com prevalência entre 18 e 30 anos de idade e maior incidência de mortes causadas por força física, objeto cortante/penetrante ou contundente, e menor participação de arma de fogo. Nessa esteira, o Atlas da Violência de 2019, produzido pelo IPEA- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo FBSP- Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indica que enquanto a taxa de homicídio de mulheres não-negras teve crescimento de 4,4% entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 29,9%. Frise-se que em números absolutos a diferença é ainda mais brutal, já que entre não negras o crescimento é de 1,7% e entre mulheres negras de 60,5% Ademais, 66% de todas as mulheres assassinadas no país em 2017 eram negras segundo o Atlas da Violência de 2019. Trocando em miúdos, os dados são evidência da combinação entre desigualdade de gênero e racismo extremamente perversa, variável fundamental para compreendermos a violência letal contra a mulher no país. Quer dizer, ao tempo em que com as políticas públicas de atendimento e denúncia, a violência contra mulheres brancas diminuiu, esta taxa a respeito das mulheres negras aumentou. Quer dizer, as mulheres negras ainda estão mais afastadas da zona de proteção estatal, sujeitas a condições sociais que di�cultam o acesso aos instrumentos legais de denúncia, como as instituições jurídicas, com menor autonomia �nanceira ou nível de escolaridade inferior que podem servir para as subnoti�cações das violências sofridas, por mais que, como veremos em dado abaixo, ainda sejam as que mais denunciam. Analisando os números sobre a violência contra as mulheres no Brasil, entendemos que as mulheres negras não contam efetivamente com o apoio do Estado. Diante de todo um aparato jurídico disponível, as mulheres negras dependem de si mesmas e do apoio solidário de outras mulheres em seus territórios. Dados da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) demonstram que em 2016 a situação das mulheres negras no campo da violência doméstica manteve a posição nos números de vitimização. Informações do primeiro semestre desse ano, referentes ao atendimento do Ligue 180, indicaram que, de um total de 555.634 ligações, quase 68 mil dos atendimentos eram relatos de violência, assim distribuídos: violência física (51,06%); violência psicológica (31,10%); violência moral (6,51%); cárcere privado (4,86%); violência sexual (4,3%); violência patrimonial (1,93%); trá�co de pessoas (0,24%). Desses atendimentos, 59,71% das mulheres que relataram casos de violência eram negras e a maioria das denúncias foi feita pela própria vítima (67,9%). Esses dados, comparados com o quadro da evolução histórica da violência contra as mulheres, indicam que o Estado, por meio das políticas públicas, não tem conseguido coibir a violência doméstica e familiar, especialmente, no que diz respeito às mulheres negras. Os dados apontam ainda que mulheres negras são as que mais denunciam a violência doméstica, o que pode explicar a sua maior presença também nos dados de vitimização; no entanto, esta não é uma explicação satisfatória, tendo em vista a intersecção de outros elementos que impactam na vida das mulheres negras. O que já sabemos sobre a violência contra a mulher? Sabemos que o espaço privado, familiar, que deveria constituir-se no refúgio de paz das famílias é, por excelência, o espaço em que a violência doméstica e sexual tem o seu ponto mais alto de incidência. Perpetradores ou agentes do abuso sexual na maioria absoluta dos casos são maridos, companheiros, pais, padrastos, tios, ou outros membros próximos da família. Sabemostambém que o fenômeno da violência doméstica e sexual é absolutamente democrático, atravessando todas as classes sociais e grupos raciais (CARNEIRO, 2003, p.11). (Grifos nossos) Julio Jacobo Waisel�sz, responsável pela série Mapa da Violência, considera que a Lei Maria da Penha ainda está em um estado incipiente de implementação. Para ele, há um retorno à expansão da violência contra a mulher e dos homicídios que se expressam nos dados, que além disso demonstram que o problema na estrutura discriminatória não está sendo enfrentado: Vitimiza-se hoje seletivamente. Além disso, as brancas, muitas vezes, são melhores atendidas, enquanto negras são deixadas de lado. Há toda uma estrutura de segregação e seletividade da violência. As taxas de violência contra brancas tendem a baixar enquanto para contra negras tendem a aumentar, o que aumenta também o fosso de proteção que existe entre brancos e negros na própria Justiça. 43 (WAISELFISZ,2016) (Grifos nossos) A partir desse quadro desenhado pelos dados, serão expostos nesse capítulo um panorama da pesquisa nacional desenvolvida por professoras de Pernambuco, que traz alguns dados que nos ajudam a problematizar a importância de métodos alternativos de solução dos con�itos domésticos, bem como pensar as condições de possibilidade da implantação/efetivação desses métodos baseados em um feminismo não-carcerário. III.2. Introduzindo a pesquisa-paradigma e a lei de Marias Inicialmente, cabe mencionar que este não se trata de um tópico que vai trazer exaustivamente os dados da pesquisa, mas apenas apresentar/ descrever o percurso metodológico e as ideias que motivaram a investigação. Ao longo de todo o capitulo analisaremos e comentaremos os dados coletados, de modo que aqui serão tratados alguns primeiros dados como pontapé para as análises em seguida. A escolha desta forma de apresentação é inspirada por um anseio de contar a realidade da forma mais atravessada possível, sem que se mostre o trabalho fragmentado, ora por dados, ora por texto analítico. Faremos da melhor forma possível para que o(a) leitor(a) não se sinta desorientado no curso da leitura, pois que em nome da forma entrecruzada abdicamos da estética organizativa padrão. Vejamos. O Conselho Nacional de Justiça, através da série Justiça Pesquisa, contratou por meio de edital de convocação pública e de seleção, a produção da pesquisa “Entre práticas retributivas e restaurativas: a Lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do poder Judiciário”, realizada pela Universidade Católica de Pernambuco, nas pessoas das coordenadoras Marília Montenegro Pessoa de Mello, Fernanda Cruz Fonseca Rosenblatt e Carolina Salazar L’Armée Queiroga de Medeiros. O ponto de partida foi a criação das delegacias especializadas de atendimento à mulher, passando pela Lei n. 9.099/95, pela Lei n. 11.340/2006 para depois, em outra etapa, levantar as experiências nacionais e internacionais da Justiça Restaurativa em casos de violência doméstica. O resumo do percurso metodológico empregado pelos(as) diversos(as) pesquisadores(as) colaboradores(as) pode ser resumido da seguinte forma: a) Análise documental de processos criminais, com ou sem resolução de mérito, a �m de coletar dados quantitativos relativos ao per�l socioeconômico do réu, das vítimas, às informações relativas ao con�ito e ao padrão de resposta dada pelo poder judiciário; b) Entrevistas semiestruturadas com magistrados com atuação nos Juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher de cada município, com o �to de reconhecer as percepções dos limites da Lei Maria da Penha- aplicação em casos de violência contra mulheres transgênero, homens homossexuais, por exemplo-; extensão do conceito de violência doméstica familiar- aplicação a relações de amizade- ; “responsabilidade da vítima e do agressor no con�ito” e e�cácia das medidas protetivas asseguradas pela Lei; c) Entrevistas semiestruturadas com mulheres vítimas, com o �to de veri�car o grau de satisfação com relação ao atendimento prestado pelas instituições que realizam o acompanhamento jurídico, psíquico e social; d) Realização de grupos focais com as equipes multidisciplinares dos Juizados (ou varas) de violência doméstica e familiar contra a mulher nas cidades escolhidas, para analisar os mecanismos do Poder Público no acompanhamento das medidas protetivas e a reincidência do agressor; e) Mapeamento da literatura e experiências estrangeiras referentes à aplicação da Justiça Restaurativa nos casos de violência doméstica contra a mulher para �ns de ponderar as possibilidades de adoção da mesma no Brasil. Importante lembrar qual o contexto de surgimento dessa legislação, a qual estamos fazendo referência. Em 2001, após denúncia de violação de Direitos Humanos contra a senhora Maria da Penha Maia Fernandes, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, baseada na Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará), condenou o Brasil por desrespeitar acordos internacionais de Direitos Humanos, oportunidade em que a normativa e a política nacional de proteção integral foi gestada. A Lei n.11.340 entrou em vigor no ano de 2006 e inovou o olhar do sistema de justiça para as assimetrias de gênero que desencadeiam crimes de violência no espaço doméstico, introduzindo no judiciário uma diferença de tratamento que põe em prática o princípio constitucional basilar da igualdade, neste caso, estabelecendo critérios especiais de�nidores da violência de gênero e de um local próprio para resolução do con�ito. A conceituação da categoria violência de gênero é signi�cativa, pois rompe com a tradição jurídica de incorporação genérica da violência de gênero nos tipos penais incriminadores tradicionais. A nova conceituação de�ne essa violência como violação dos direitos humanos das mulheres e dispõe sobre as suas formas (artigos 5º, 6º e 7º).44 Outra relevância foi a rede�nição da expressão ‘vítima’, haja vista a intencional mudança provocada pela expressão ‘mulheres em situação de violência doméstica’ em contraposição ao termo ‘vítimas’ de violência. Mais que mero recurso de linguagem, tem por objetivo retirar o estigma contido na categoria ‘vítima’ para indicar a verdadeira complexidade da situação de violência doméstica, para além dos preceitos classi�catórios e dicotômicos do direito penal ortodoxo (p. ex., sujeito ativo e passivo, autor e vítima). A criação da Lei tornou públicos os con�itos domésticos que até então estavam invisibilizados e reclusos no âmbito familiar, conferindo-lhes o grau de problema social representado pelos con�itos privados naturalizados e sem ingerência estatal sobre. Para poder processar, julgar e executar as causas decorrentes da prática desta violência, a lei previu a criação de um órgão pertencente à Justiça comum com competência mista (cível e penal), os denominados Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFMs). Contando com uma estrutura diferenciada e equipe multidisciplinar especializada nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde, a previsão de criação dos juizados foi encarada como ótima iniciativa. Assim, a lei representou a ruptura de não-ingerência estatal nos con�itos privados advindos das relações domésticas por meio do seu caráter protecionista e de assistência social à mulher. Nesse sentido, provoca o Estado para inserir os con�itos dessa natureza na agenda política de sua atuação, forçando-o a utilizar medidas integradas de prevenção à violência e facilita, ao menos em tese, o acesso à justiça. Além de apresentar grande atenção a medidas protetivas às mulheres, a legislação deu destaque ao papel dos homens no processo de erradicação da violência de gênero, ao estabelecer o comparecimento deles aos programas de recuperação e reeducação nas unidades de atendimento aos agressores (MEDEIROS, 2015; MELLO, 2015). A escolha política de dar proteção jurídica especial encontrou noenrijecimento penal a estratégia de prevenção e combate, começando pelo afastamento da lei dos JEcrims (9.099/95) no trato dos casos de violência previstos. À primeira vista, tal medida parece completamente acertada, por mostrar um tratamento da questão com seriedade, a�nal o Direito Penal surge como salvaguarda quando outros campos políticos não têm mais poder de contenção- segurança pública, saúde, educação. Acontece que, com o afastamento da Lei n. 9.099/95 do con�ito doméstico contra a mulher, afastaram-se as medidas despenalizadoras e, entre estas, a possibilidade do momento da conciliação. Dessa forma, a Lei Maria da Penha reinseriu, por exemplo, a possibilidade da prisão em �agrante nas infrações de menor potencial ofensivo. Na melhor das intenções, objetivava com este enrijecimento romper o ciclo de violência doméstica contra a mulher, evitando que crimes de menor potencial ofensivo evoluíssem para crimes mais graves como o homicídio, o que na prática signi�cou punir de maneira mais rigorosa a ameaça a lesão corporal leve, amparada pelo justo propósito de frear a progressão das agressões contra as mulheres. Malgrado a �nalidade de se pôr em �leira com as mulheres vítimas e opor resistência à violência doméstica, enrijecendo os mecanismos penais na imposição de pena aos agressores, a lei Maria da Penha acabou por desconsiderar um dos aspectos cruciais da questão, que é a dimensão do afeto envolvido, impondo, contraditoriamente, sanções à mulher, agora revitimizada em situações que vislumbrava outra atuação penal (MEDEIROS, 2015; MELLO, 2015). Quer dizer, a lógica punitiva da intervenção penal barra alternativas conciliadoras e, como �cará demonstrado, raramente se mostra um meio efetivo para a solução dos con�itos domésticos. Isso porque tanto os levantamentos teóricos quanto os resultados da pesquisa-paradigma demonstram que as demandas das mulheres em situação de violência são mais a busca da proteção e a interrupção da violência, do que a punição criminal do agressor. Nesse sentido, a pesquisa- paradigma se despiu do preconceito taxativo de que os casos de violência de gênero demandam das feministas uma intervenção radical vinda do sistema penal para, por meio das variadas metodologias aplicadas, aferir a pertinência da aplicação da Justiça Restaurativa nos casos. Critérios e elementos quantitativos No universo pesquisado e processos localizados nas Varas e Juizados elencados mais à frente, os seguintes elementos foram escolhidos para serem descobertos nos documentos: a) Quem são as vítimas envolvidas nos con�itos que chegam aos Juizados (ou Varas) de Violência doméstica e Familiar contra a mulher, no que toca aos aspectos socioeconômicos das vítimas (mulheres) e dos agressores (homens). Nesse tópico, só foi possível fazer o levantamento desses dados nas cidades em que se teve acesso a todo o processo e não apenas à sentença; b) Tipo de relação familiar entre as partes envolvidas nos con�itos que chegam aos Juizados (ou Varas) de Violência doméstica e Familiar contra a mulher; c) Aspectos da violência doméstica e familiar; d) Aspectos processuais dos casos. Partindo para uma análise dos dados obtidos na pesquisa quantitativa, comecemos por informar que o universo pesquisado inclui as cidades de: Recife/PE, Maceió/AL, Belém/PA, Brasília/DF, São Paulo/SP e Porto Alegre/RS. Os objetivos desta investigação documental eram: traçar um per�l socioeconômico do público dos Juizados ou Varas especializadas, levantar particularidades dos relacionamentos familiares, aspectos principais da violência, fazer um mapeamento da resolução dos casos e da taxa de reincidência. Preservadas as particularidades, o público do juizado ou vara nas cidades de Recife, Maceió e Belém- cidades em que as pesquisadoras tiveram acesso aos autos- é semelhante. É formado majoritariamente por pessoas de baixa escolaridade (sem nível superior ou grau técnico), com empregos/ ocupações mal remuneradas e autodeclaradas pardas ou pretas. O per�l dos acusados encontrados nas varas destas cidades corresponde ao per�l do cliente do sistema carcerário: negros e pardos, de baixa renda e baixo nível de escolaridade. Quanto à idade das mulheres, não foi identi�cada uma concentração muito maior em nenhuma faixa etária, de modo que dos 18 aos 60 anos há um número signi�cativo de mulheres representadas pelos juizados, o que permite concluir que o fenômeno da violência não é uma marca de uma geração especí�ca. Já quanto à idade dos homens, nota-se um per�l de homens mais velhos (maiores de 40 e menores de 60 anos) e idosos. Acusados maiores de 40 anos são 43,1% em Recife, 12,4% em Maceió (atente-se para os 42% não informados) e 28,8% em Belém. Esse per�l, no entanto, não corresponde ao per�l mais criminalizado pela justiça criminal, pois que, segundo o Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), do Ministério da Justiça, a maioria (69,7%) dos homens encarcerados no Brasil possui entre 18 e 34 anos (DEPEN, 2012). O estado civil apresentou um padrão de solteiros e solteiras. Diante dessa amostra do per�l socioeconômico, não é possível concluir ser este o per�l da mulher vítima de violência doméstica e esse o per�l do homem agressor, pois que o universo amostral foi reduzido e limitado. O que se pode inferir é que há características que podem ser destacadas nas pessoas parte dos con�itos domésticos. Assim, vencendo as subnoti�cações e barreiras objetivas e subjetivas que con�scam os casos de violência à esfera familiar, estes dados são ainda mais relativizados, pois chegam à polícia e à delegacia em número inferior aos casos reais. Quer dizer, mesmo vencida a primeira fase da noti�cação, passam pelo �ltro da seleção dos casos informados à delegacia, depois vencem as centrais de inquérito e Ministério Público para, �nalmente, serem processados no Juizado de violência doméstica. Sobre a relação familiar estabelecida, a maioria dos casos correspondia à relação conjugal entre homem e mulher que são ou já foram parceiros íntimos. Além disso, foi possível encontrar que, na maior parte dos casos que envolviam violência conjugal, o casal estava separado na data da ocorrência do fato. A respeito da totalidade das infrações penais julgadas dentro do recorte temporal da pesquisa, notou-se que a grande maioria (mais de 95% em todas as cidades analisadas) estaria enquadrada no conceito de baixa lesividade da Lei 9.099/95- como ameaça, lesões leves, injúria-, de modo que se não houvesse a vedação da Lei Maria da Penha sobre a aplicação da Lei dos Juizados Especiais aos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, estariam abarcadas por aquela. Entre os crimes de baixa lesividade, nota-se maior índice de ameaças, lesões leves e injúria. Já nas contravenções penais, há forte presença das vias de fato e a perturbação do sossego. O lar foi o espaço em que a violência predominou nas seis cidades- seja da mulher, do homem, ou o local de coabitação-, muito embora o espaço público tenha também se apresentado de forma expressiva. Critérios e elementos qualitativos No que respeita à pesquisa qualitativa, as informações foram adquiridas através de entrevistas semiestruturadas com magistrados dos Juizados ou Varas das cidades escolhi das para o acompanhamento; entrevistas semiestruturadas com vítimas; grupos focais com equipes multidisciplinares; pesquisa exploratória sobre Justiça Restaurativa e Violência doméstica. Sobre o per�l socioeconômico das partes, embora atualmente seja multifacetado, contando com homens e mulheres das classes média e alta, as presenças de destaque no poder judiciário são de pessoas de baixa renda, baixa escolaridade, porque, dentre outras questões, pessoas com maior poder aquisitivo dispõem de outros meios que não a Justiça para solver o problema. Acerca das entrevistas com os magistrados, os objetivos eram veri�car a formação e capacitação dos magistrados, como os magistrados entendema Lei Maria da Penha, a aplicação da Lei e as questões de gênero, a percepção dos magistrados sobre as partes envolvidas e a relação da juízes com a equipe multidisciplinar. Primeiramente, quali�quemos esse corpo magistral. A começar pela raça, dos 24 magistrados entrevistados, 12 são homens e 12 são mulheres. Com relação à raça, 17 magistrados se identi�cam como brancos, 4 como pardos, 2 como amarelos e 1 não respondeu; com relação à idade, a maioria está na faixa entre 41 e 50 anos; a maioria estudou em escola privada e em instituição pública de ensino superior; o tempo médio que atuam na magistratura é de 16 anos. Das entrevistas com as vítimas, o intento era perceber a relação das mulheres com a lei, o tipo de relação que existia entre ela e o agressor, o histórico de reiterações e recidivismo para compreender os ciclos da violência, as expectativas com a intervenção judicial e como se deu o acompanhamento institucional do caso. Esta etapa da pesquisa tem uma importância crucial, porque permite tocar nos pontos subjetivos dos con�itos a partir da escuta da parte central no assunto: a mulher. Para tanto, foram realizadas 75 entrevistas com vítimas de todos os juizados ou varas das cidades pesquisadas. No tocante ao per�l socioeconômico das entrevistadas, 31% delas sustentam a casa e em 24% dos casos ambos sustentam, quesito importantíssimo para entendermos o nível de dependência das vítimas ao agressor. Em relação à raça/cor das mulheres entrevistadas, a maioria declarou-se de cor parda (34 vítimas), seguida de branca (27 vítimas) e preta (8 vítimas), de um universo em que apenas 3 das 75 vítimas não informaram a sua cor. Quanto ao que pensam sobre o processo penal em que estão inseridas, relatos apontam para a di�culdade em entender os ritos e demora no julgamento. Em seguida, ao serem questionadas do porquê procuram o sistema de Justiça Criminal e do desejo de prisão do agressor, 45% não informaram, 39% respondem que não desejam a prisão do agressor e apenas 16% responderam pela intenção de ver o agressor preso. Ademais, foi possível identi�car situações de revitimização que serão analisadas mais à frente e a ausência de capacitação dos pro�ssionais da Justiça Criminal para lidar com mulheres em situação de violência doméstica. Outra etapa funcionou através dos grupos focais com equipes multidisciplinares. O grupo focal é a técnica de investigação qualitativa cuja �nalidade é colher dados referentes à experiência das pessoas que dele participam sobre vivência em comum. O benefício desse tipo de entrevista é poder observar a dinâmica interativa que ocorre entre os membros do grupo. Desse modo, foram realizados grupos focais com assistentes sociais, psicólogos, pedagogos e outros pro�ssionais da equipe multidisciplinar, com o intuito de compreender as atribuições dessas equipes no âmbito do funcionamento da justiça. Organizados com um máximo de dez participantes, contaram com uma moderadora e uma observadora da equipe de pesquisadores, que �zeram anotações e analisaram a linguagem corporal dos participantes. As discussões realizadas no grupo focal foram orientadas por um roteiro de perguntas semiestruturadas, que procuraram debater temas importantes para a pesquisa como, por exemplo, o per�l dos pro�ssionais, sua forma de atuação nos casos de violência doméstica, impressões sobre o próprio ciclo de violência e sobre práticas restaurativas, entre outros. Ao �nal, os integrantes participaram da revisão da síntese elaborada pela mediadora, gerando, assim, conclusões elaboradas pelo grupo. Nos grupos, foi possível levantar a quali�cação e capacitação das equipes, relação destas com a magistratura, a percepção sobre a linguagem jurídica, per�l socioeconômico das vítimas, a revitimização das mulheres, demandas das vítimas, autores de violência doméstica e os grupos re�exivos. A equipe multidisciplinar relatou que, dentre ouras coisas, assume a tarefa de tradução da linguagem jurídica para o plano prático, explicando para as mulheres os procedimentos pós-audiência, o que acontecerá depois daquilo, visto que os juízes e advogados não deixam claro os ritos e resoluções. Cabe às equipes o apoio subjetivo (psicológico, assistência social etc.) e humanizado. A qualidade da triangulação dos métodos da pesquisa foi poder apreender uma visão panorâmica da cena, seja no que respeita à posição dos magistrados, seja sobre as expectativas das vítimas e, consequentemente, frustrações e reclamações, o embasamento teórico, di�culdades e avanços nas experiências de Justiça Restaurativa já implantadas. Vencida esta exposição mais geral das etapas desta pesquisa-paradigma, vamos nos ater à parte que mais nos interessa no momento: as falas das vítimas, de modo que não mais a título ilustrativo, alguns trechos publicados pelo relatório analítico da pesquisa-paradigma serão aqui reproduzidos para, a partir deles, trabalharmos alguns pontos. Insubmissas vozes de mulheres45 A realização de entrevistas semiestruturadas com mulheres que procuram os Juizados (ou varas) de violência doméstica e familiar contra a mulher, pela equipe de pesquisadoras da pesquisa-paradigma, permitiu uma aproximação com os anseios, histórico da relação com o agressor e impressão da vítima em relação aos procedimentos legais. Para nossa leitura, este momento de escuta se mostra o ponto alto da referida pesquisa, visto ter proporcionado contribuições reveladoras a respeito das percepções das mulheres que vivenciaram o processo judicial. Das setenta e cinco entrevistas realizadas nas cidades de Recife-PE, Maceió-AL, Brasília-DF, São Paulo-SP e Porto Alegre-RS, alguns trechos serão utilizados para �ns de representação da realidade subjetiva das mulheres. Segundo informações do relatório analítico da pesquisa- paradigma, este processo de entrevistas foi marcado por muita disponibilidade para colaboração das vítimas e a emoção delas em relatar os casos e, principalmente, serem ouvidas por outras mulheres que se interessavam e compreendiam a dimensão dos seus problemas. Isso não foi por acaso, como demonstraremos em suas falas. Uma vez mantidas em sigilo as identidades das entrevistadas, a distinção das falas estará feita por ordem alfabética. Entrevistadora: [...] Tenho nem como agradecer por você ter conversado com a gente, ter ajudado a gente a pensar tantas coisas nessa pesquisa [...] Entrevistada X: Eu que agradeço a oportunidade de, eu até falei (...) quando tiver um fórum, um simpósio, eu quero ter uma fala, eu quero falar porque a maioria das mulheres, elas num... eu percebi na delegacia assim, a maioria são pessoas humildes que vão lá, mas depois desistem, elas não sabem se comunicar, têm medo, e assim, eu também tenho muito medo né, por causa da violência, mas eu já consegui chegar até aqui; eu quero ter uma fala, falei pra ela, que possa somar, não quero agredir ninguém, eu quero só mostrar que o sistema é totalmente falido e não funciona. Eu agradeço a oportunidade. Nos diálogos estabelecidos pelas entrevistas, a fala das mulheres nos apresentou o que pensam sobre a justiça, as fases do processo penal a que estão vinculadas, se e como se sentiram revitimizadas. A cobrança por uma escuta quali�cada dos agentes judiciais e o desconhecimento, por falta de informação, das etapas do processo, é uma constante nas falas que retrataremos aqui. Entrevistadora: [...] você sentiu então até agora que você tem voz pra escolher o que acontece ou não? Apesar de respeitada e se sentir ouvida, é... você acha que você vai poder tomar decisões nesse processo? Do que é que pode acontecer com ele, ou você não sabe? Entrevistada A: Pra te dizer a verdade, ainda tô confusa mas já como eu �z tudo isso, eu vou seguir em frente. Entrevistadora: Certo. A senhora acha que teve alguma escolha, algum poder de decisão dentro do processo, do que vem acontecendo? Entrevistada B: Não. Entrevistadora: Alguma autonomia? Entrevistada B: Não. Entrevistadora:A senhora recebeu algum tipo de informação sobre o processo, ou eles explicam direito o que tá acontecendo? Entrevistada B: Não, não tive nenhum tipo de informação, não. Entrevistadora: E se sentiu satisfeita [com o processo]? Confortável? Entrevistada C: Com eles [equipe multidisciplinar], sim. Agora a questão é que a gente não sabe de prazos, não sabe quando vai vir uma resposta, onde a gente procurar, assim, o andamento desse processo pra saber a resposta... isso aí ninguém informa a você. Entrevistadora: [...] Você foi assistida pela Defensoria Pública em algum momento? Você sabe o que é Defensoria Pública? Entrevistada D: Num foi essa que eu vim agora? Entrevistadora: O que você veio agora é o Ministério Público. Entrevistada D: Não, não fui. Entrevistadora: Nem te informaram sobre a possibilidade de falar com a Defensoria Pública? Entrevistada D: Não. Entrevistadora: Você foi assistida pela Defensoria Pública em algum momento do processo? Entrevistada D: Não sei se fui assistida, mas não cheguei a ir na Defensoria. Entrevistadora: A senhora entendeu o que se passou na audiência? Entrevistada E: Não. Entrevistadora: [...] Aí depois conversou com o Defensor pra poder entender? Entrevistada E: Conversei com as meninas... Entrevistadora: Ah! As meninas da equipe multidisciplinar. Certo. Dessas falas representativas, depreendemos que as vítimas não são informadas de como serão assistidas, quais os atores do processo e seus papéis, tampouco se sentem in�uenciar o andamento do processo, sendo conduzidas pelas fases sem conhece-las, o que gera insegurança. Ademais, há muitos registros nas narrativas de revitimização associadas à falta de sensibilidade dos atores do sistema de justiça criminal no tratamento das mulheres. Vejamos. Entrevistada F: Primeiro que eu fui numa sala passar por uma triagem e as pessoas não têm a mínima delicadeza no trato de uma mulher agredida, é... elas �cavam gritando no corredor, uma chamando pela outra, eu entrei na sala e tive que explicar pra essa pessoa o que tinha acontecido. (...) O sistema caiu e não puderam me atender. Voltei cinco vezes lá, depois disso. Sempre o sistema não tava funcionando, tinha alguma coisa parada. E aí fui falar, eu falei com uma delegada, comentei o caso, ela fez uma piadinha ainda, né, do caso, quando eu disse pra ela que (...) ele �cava puxando meu cabelo e no ato eu não conseguia, ele não conseguia ter ereção, aí ela fez uma piadinha do tipo “pô, nem o pau dele ele consegue subir”, tipo isso, a delegada. E depois fui dar �nalmente meu depoimento inteiro pra uma outra pessoa, acho que era um delegado. E tudo isso foi muito, muito exaustivo, foi torturante, porque eu me senti absolutamente abandonada. A própria situação já faz isso, né? E além de tudo isso, tinha essas pessoas que não tavam nem um pouquinho preparadas pra receber uma pessoa destruída como eu tava e eu queria sair de lá o mais rápido possível... aquele ambiente foi absolutamente hostil pra mim. (...) Tinha que ter aqui um psicólogo pra falar comigo, eu achava, por favor, eu gostaria que tivesse um psicólogo, eu gostaria que tivesse um assistente social, pra eu não �car mais ouvindo das pessoas que a culpa foi minha, que todas essas agressões que eu sofri foi porque eu quis, eu ouvi isso esses dois anos inteiros, isso foi torturante pra mim, e aí eu ainda tô numa sala esperando a audiência e tenho que ouvir aquele absurdo que eles estavam comentando... Pela misericórdia! Eu �quei... eu me controlei muito pra não falar nada, eu me controlei demais, porque o que eu queria era desabafar tudo ali. Como é que um cara, aquele promotor fala os absurdos que ele falou e vai julgar meu caso? Como é que uma pessoa que pensa o que pensa a respeito de mulheres vai julgar um caso de violência contra mulher? Que condições ele tem? Porque é óbvio que o que vai prevalecer não é a imparcialidade, ele vai falar o que ele pensa, ele vai escrever o que ele pensa, e o que ele pensa é que mulher é isso, que mulher é pra �car bonita o tempo todo, maquiada, bem vestida... né? Que é pra ser o objeto de sedução, um objeto sexual pro homem. E é por isso que esses casos aumentam e são tratados dessa forma. Eu não gostaria que ele julgasse meu caso mais, eu não gostaria, que eu queria mulheres, eu queria mulheres comigo, eu queria aquela sala repleta de mulheres, porque eu senti vontade de chorar, eu senti... eu �quei desesperada, eu senti tanta coisa naquele espaço de tempo que eu tava ali e eu tinha que me manter forte, eu tinha que me manter �rme. (grifos nossos) Entrevistadora: E como foi perante a audiência? Como a senhora se sentiu? Foi ouvida? Entrevistada G: Não, não. Eu não fui ouvida, eu só ouvi. Só �zeram perguntas onde eu respondia sim ou não, eles perguntaram, questionaram se eu queria ter a medida protetiva, se eu queria que ele �casse afastado de mim, mas em momento nenhum me ouviram ou deixaram eu falar porque às vezes que eu quis falar, eles não deixaram. Sempre o rapaz interrompia com outra pergunta. A di�culdade de ser ouvida é potencializada se o agressor é de classe social mais favorecida que a vítima, o que não chega a ser uma surpresa para nós, haja vista ser o Direito formado por uma estrutura essencialmente classista. Entrevistadora: Ele, seu esposo? Entrevistada H: É. Ele meu esposo se veste muito bem, fala muito bem e tem uma boa aparência física. Então ele usa tudo isso como subterfúgio pra ele, de maneira positiva pra ele e consegue, ele consegue. E lá, aí ele queria �car falando; eu disse que eu não ia �car porque quando você chega na sala de recepção pra você prestar boletim de ocorrência é um ambiente, sendo que se você, se você voltar, se você tá na delegacia o primeiro ambiente que tem é o psicossocial, então eu disse: eu não vou �car no mesmo ambiente que você. Eu me retirei e fui pra primeira sala, primeiro ambiente. Eu �quei lá, só que lá tem as portas de vidro né? Que ganham o corredor e eu vi, num dado momento, alguém conversando com ele e ele se expressando pra essa pessoa, era a delegada. E ela atendeu ele muito bem, ela não foi lá falar comigo que era a vítima, e aí a... uma outra funcionária, uma investigadora, não sei, uma escrivã, me atendeu e também �cou conversando comigo; e eu tava falando com a assistente social que é [inaudível] que no primeiro momento ele já foi atendido, ouviram a fala dele e eu estava lá, falando: não gente, eu não aguento mais vir nesse ambiente porque isso é repetitivamente, né?! E aí quando eu olhei o re�exo era ele saindo com um copo de água descartável na mão, eu falei pra ela: ele vai sair daqui agora? Aí eu me desesperei na delegacia. Aí eu andei rápido, eu falei para o escrivão, não sei quem... policial, eu falei: ele tá saindo da delegacia? Ele foi ouvido e eu não? Eu consigo trazer ele em �agrante pra cá e não vai ser feito nada? Aí ela disse: olhe, fale com aquela outra moça naquela sala; aí eu falei: moça, a moça mandou eu vim falar com você porque ele saiu agora daqui, eu não consegui... eu não vou conseguir ter êxito nenhum aqui. Aí ela falou: olhe, aguarde a sua vez. Eu falei: não, eu não quero aguardar a minha vez, eu quero a minha identidade que eu quero sair daqui AGORA; ela disse: sua identidade tá na sala da delegada [inaudível] aí eu já fui chorando, subindo a escada correndo e quando eu cheguei lá, a moça veio atrás de mim, a primeira que eu falei, e disse: dona [nome da vítima] pare, na escada, a senhora por favor pare, a senhora não pode entrar; eu falei pra parar onde? Aqui? Ela falou: é. Tá bom, vou sentar aqui. Quando ela desceu a escala eu entrei na sala. Eu bati na porta e entrei, só bati e entrei, não esperei ela me dá a licença; e eu falei pra ela: eu quero só, apenas a minha identidade porque eu estou no ambiente errado, como sempre estou vindo no ambiente errado, porque a senhora atendeu o agressor, a senhora conversou com ele lá embaixo, eu ouvi a sua voz, mas a senhora não falou comigo e ele saiu daqui. Ah, ele saiu?[imitando a delegada falando] Eu disse: saiu. ... ela tentou me acalmar, disse: não dona, se acalme, se acalme, olhe, nós vamos resolver; eu disse: vocês não vão resolver, vocês nunca resolvem nada. Vocês nunca resolveram nada aqui. A única coisa que acontece comigo nesse ambiente é que eu e as demais mulheres somos hostilizadas. (grifos nossos) A narrativa desesperada desta vítima é angustiante, conseguimos sentir a sensação de desamparo e desproteção vividos ao ver o tratamento concedido ao homem, quando nem sequer tinha sido ouvida adequadamente. A vítima se pergunta se o estabelecimento policial é mesmo o lugar certo e conclui que não, pois ali não se importavam em ouvi-la. A revitimização conta com a participação de muitos envolvidos nos procedimentos policiais e judiciais e, muito comumente, protagonizado pelo advogado do agressor diante do magistrado, como vemos a seguir: Entrevistada I: [...] na primeira audiência eu não consegui nem falar quando eu vi ele [...]. Depois, na segunda vez, foi pra ampliação da medida protetiva, mas quando eu ouvi que o juiz disse que não iria ter medida protetiva porque ele não enxergava perigo ali, eu �quei transtornada. Comecei a chorar muito na audiência e eu perdi a audiência, aí ouvi o advogado dele dizendo “ela é desequilibrada, não tem condições de cuidar do �lho”, então isso me deixou muito pra baixo. (grifos nossos) Essa estratégia do discurso de autoridade que se encarrega de construir um per�l de desequilibrada, descontrolada, louca, perversa para a mulher vitimada é extremamente cruel, tendo em vista a situação de vulnerabilidade em que ela já se encontra. A Justiça que, via de regra, já se mostra um lugar distante e estranho, se mostra como um lugar hostil e perigoso para o bem-estar dessas mulheres. O que buscam as vítimas no sistema de Justiça criminal? Se as falas denunciadoras do tratamento inadequado conferido às mulheres colaboram para deslegitimar o rito penal como aquele que vai tratar o con�ito e as partes com justiça, a fala sobre as expectativas com a justiça criminal é essencial para fundamentarmos se cabíveis práticas restaurativas. Na maioria dos casos, as necessidades são a interrupção do ciclo da violência, com expectativas mais direcionadas à concessão de medidas protetivas que ao processo penal em si. Entrevistada J: [...] se ele for preso [...] vai ser pior ainda. Eu só quero uma audiência pra que ele me deixe em paz, só isso. Entrevistadora: O que a senhora queria com a ajuda da justiça? Entrevistada K: Que ele �casse longe de mim e me desse sossego e deixasse eu viver a minha vida em paz. Entrevistadora: [...] Mas pra te ser sincera o que importa pra gente é muito a tua opinião, o que é que você acha? O que é que você quer? Assim, olhando pra sua vida, o que você espera desse processo? Entrevistada L: Ah, eu só quero viver em paz, só isso. Se ele tiver que �car a um quilômetro de distância de mim, mil quilômetros ou cem metros... O que eu quero é justamente que ele viva a vida dele longe de mim, e eu sei que [ele] longe de mim eu terei paz. Entrevistadora: E qual é a sua expectativa, assim, é que ele seja punido, ou quê? Entrevistada M: Que ele seja punido? Entrevistadora: Qual é a expectativa, assim, em relação ao processo? Entrevistada M: Eu quero que ele pare de... que ele me esqueça. Só isso. Entrevistadora: Deixe a senhora... Entrevistada M: Me deixe em paz pra eu viver a minha vida. Que não... chega de desaforo, chega de coisinha. Ele que vá viver a vida dele, e eu vivo a minha, entendeu? Eu vivo a minha vida, e ele a dele. Eu não quero punir, essas coisas. Eu só quero �car com uma �rmeza, sabe[...] Eu quero uma garantia. Por isso eu quero essa medida. (Grifo nosso) Entrevistadora: Quais eram, assim, as suas expectativas quando você buscou o Judiciário? O que é que você esperava com esse processo? Entrevistada N: Na verdade, eu acho que o que eu tô tendo: paz. Na verdade, eu fui lá relatar uma situação que aconteceu e tô com medida protetiva e isso realmente me trouxe sossego. Entrevistadora: E antes de chegar nas audiências qual era a sua expectativa? Que ele fosse preso, condenado? Entrevistada O: [...] tinha a expectativa de que ele fosse condenado sim, mas acho que prisão... ir pro Presídio [nome do presídio]? Do jeito que ele é frio, calculista, acho que ir pra prisão só ia potencializar a malvadeza dele. Ele não ia se reconstruir. Acredito que as pessoas lá não se reconstroem... (...) Entrevistadora: E o que que tu queria? Entrevistada O: Eu queria justiça, que ele aprendesse que aquilo é uma coisa horrível e não �zesse mais e que ele desse a assistência que é de direito porque hoje eu batalho judicialmente pra poder alimentar meu �lho com dignidade e paz, tanto que naquele dia do tabefe eu tava brigando com ele pra ele pagar a escola atrasada do �lho e ele se negou. Entrevistadora: Você acha que depois da audiência, a juíza vai te ouvir pra poder tomar uma decisão com base no que você espera do processo? Entrevistada P: Eu espero... Eu espero que ela... Porque até agora não... Eu �z a minha declaração na delegacia, e que colocaram no processo, mas quando acaba de acontecer tudo, é muito confuso. Tem muitas coisas que você se esquece, porque você abafou aquilo pra continuar em frente, e a agressão não parte só daquele dia e daquele dia tudo acabou... Você pode perguntar a todas as mulheres [...] meses antes, elas já veem isso, só que elas abafam aquilo, e eu... Meses depois quando �z a denúncia, aí você se lembra de muita coisa, e fala “nossa, aquilo ali não foi algo pequeno”, e que por isso eu não falei na denúncia. E aí hoje eu espero que ela escute, e veja... “OK, eu preciso escutar de você, além das coisas que olhei no seu processo do que aconteceu”... (Grifo nosso) Entrevistadora: Quais eram as suas expectativas quando você procurou a delegacia? O que é que você esperava quando você foi lá...pra delegacia? O que é que você queria? Entrevistada Q: Eu queria realmente que ele se aproximasse mais da minha �lha e desse mais atenção pra ela e também que eu pudesse seguir a minha vida... Entrevistadora: Quando você foi pra delegacia, essa tua trajetória aqui, é... o que é que você espera? Você espera que ele receba uma pena? Que ele pague pelo que ele fez? O que é que você acha que poderia ser bom nesse caminho desse processo que está se iniciando? Entrevistada R: Olha... pra ele ter mais responsabilidade, foi mais por isso. Pra ele ser responsável. A busca pela paz, pela compreensão de que seu problema é digno de preocupação e cuidado por parte das autoridades para assegurar a legitimidade de contestar uma violência dessa natureza, é a tônica das falas. Todavia, o sistema de justiça que se apresenta pelas autoridades policiais é o menos receptivo e que poderia suprir as carências de fala e ajuda em suas questões. Com efeito, o processo penal nesses casos não é desejado pela vítima, já que, para suas pretensões, melhor seria que a vara de família tratasse seu caso- onde, vale ressaltar, muitas vítimas de classes sociais mais abastadas acabam resolvendo o seu con�ito doméstico. Até mesmo aquelas que expressam o desejo de punição do agressor, revelam que esta não precisa se apresentar na forma da prisão: Entrevistadora: A senhora acha que uma prisão, no caso, se ele fosse preso, isso seria de alguma forma e�caz, seria su�ciente, a senhora gostaria que isso acontecesse? Entrevistada S: Eu não queria não, queria que ele fosse punido de outra forma. Entrevistada T: Eu senti falta de ter conversado com o promotor, que ele chegou atrasado, né, eu queria ter conversado porque é o seguinte, o pai do meu �lho me causou muito dano emocional, né. Eu queria, de alguma maneira, ele tivesse algo, não é ver preso, tudo bem que ele não, apesar e o rapaz falou que alguns é preso e tal, mas assim, eu queria que alguma coisa tivesse, [...] uma punição branda, mas que tivesse acontecido uma punição mesmo pra poder os homens, de uma maneirageral, né, entender que eles não podem sair ameaçando a namorada, a parceira, porque eles entendem que ameaça não é uma coisa grave. (GRIFO NOSSO) Grá�co 1: Posicionamento das vítimas entrevistadas quanto ao desejo de prisão do agressor Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder Judiciário, 2018. Percepções raciais Na pesquisa paradigma, a questão da raça esteve marcada primeiro na autodeclaração das partes e, posteriormente, nas discussões dos grupos focais com equipes multidisciplinares, isto é, nos encontros com assistente sociais, psicólogos, pedagogos e outros pro�ssionais da equipe com o objetivo de compreender pelo olhar desses agentes sua participação e percepção do sistema de justiça nesses casos. A temática racial foi destacada por duas equipes dos grupos. O primeiro apontamento foi sobre as di�culdades materiais de homens negros participarem dos grupos re�exivos, como a barreira �nanceira que decorre da precarização das relações de trabalho. Com relação às mulheres negras, a problematização se centrou no racismo que sofrem nas relações inter-raciais e na clara demarcação de classe notada naquelas que demandam o serviço multidisciplinar. Seja na atividade do grupo focal seja nas entrevistas com os magistrados, circulou o entendimento de que, independente de classe ou raça, os Juizados e Varas são procurados por todas as mulheres. No entanto, quando observamos o per�l socioeconômico das entrevistadas e dos agressores, somos obrigados a contestar essa percepção. A seguir, será mais fácil visualizar isto a partir dos dados. Por oportuno, nunca é demais lembrar dos dados que marcam “a cara pública” do sistema penitenciário brasileiro. Na terceira posição do ranking mundial das maiores populações carcerárias, o Brasil tem a maioria de presos homens, jovens e negros. A tabela 1 apresenta o panorama geral da população prisional brasileira registrada em 2019. Em Junho de 2016, a população prisional brasileira ultrapassou pela primeira vez na história, a marca de 700 mil pessoas privadas de liberdade, o que representa um aumento da ordem de 707% em relação ao total registrado no início da década de 90. De lá para cá, a superlotação só piora conforme vemos nas tabelas a seguir. Tabela 1. Presos em unidades prisionais no Brasil entre junho e dezembro de 2019 Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, dezembro 2019. Grá�co 2. População prisional, dé�cit e vagas Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, dezembro 2019. Observa-se que há 755.274 pessoas privadas de liberdade ao passo que as prisões têm condições para abrigar apenas 442.349 pessoas. O dé�cit, portanto, é de gritantes 312.295 pessoas em condições sub-humanas de cumprimento de pena, alocadas em celas superlotadas e insalubres que potencializam a disseminação de doenças, em total desacordo com o as normativas interacionais que o Brasil se compromete. A título de comparação direta, vejamos ao lado os dados relativos a junho de 2016. Tabela 2. Pessoas privadas de liberdade no Brasil em junho de 2016 Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, Junho/2016. Secretaria Nacional de Segurança Pública, Junho/2016; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dezembro/2015; IBGE, 2016. Ao observarmos a participação dos jovens na população brasileira total, é possível a�rmar que esta faixa etária está sobre- representada no sistema prisional: a população entre 18 e 29 anos representa 55% da população no sistema prisional no mesmo ano. Grá�co 3. Faixa etária das pessoas privadas de liberdade no Brasil Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, Junho/2016. A partir da análise da amostra de pessoas sobre as quais foi possível obter dados acerca da raça, cor ou etnia, podemos a�rmar que 64% da população prisional é composta por pessoas negras. Na população brasileira acima de 18 anos, em 2015, a parcela negra representa 53%, indicando a sobre-representação deste grupo populacional no sistema prisional, conforme grá�co 4. Grá�co 4. Raça, cor ou etnia das pessoas privadas de liberdade e da população total Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, Junho/2016; PNAD, 2015 Com isso se quer tocar no recorte que já levantamos como essencial encarar as questões mais sérias sobre a política criminal no Brasil, para mais à frente pensarmos o que isso tem a ver com as contradições da lei Maria da Penha. III.3. Potencialidades e riscos da justiça restaurativa em casos de violência doméstica no Brasil Não há dúvidas quanto ao potencial de devolver às partes o protagonismo na administração do seu con�ito com a Justiça Restaurativa, mas até mesmo seu mais famoso defensor já alertou: “A violência doméstica é provavelmente a área de aplicação mais problemática e, nesse caso, aconselho grande cautela” (ZEHR, 2012, p. 21). Pensando nisso, para além de teoricamente apontarmos para a Justiça Restaurativa como solução possível para o tratamento de con�itos e superação do paradigma crime- castigo, nos investimos da criticidade necessária para analisar experiências estrangeiras e problematizar a sua aplicação no contexto social e político do Brasil, isto é, localizando as particularidades presentes nas partes e no tecido social como um todo. Com efeito, este texto é uma costura das contribuições teóricas e empíricas de pesquisadoras brasileiras e estrangeiras sobre o tema. Assim sendo, a equipe da pesquisa-paradigma apresenta os seguintes riscos da adoção de práticas de Justiça Restaurativa a casos de violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil: a) Os argumentos mais comuns são: 1) Há casos em que o desequilíbrio de poder é muito grande e não pode ser ignorado durante o processo restaurativo, sob pena de revitimização da vítima ou, até mesmo como a�rmam alguns, contribuição para a permanência das mulheres em situações abusivas; 2) a informalidade típica dos processos restaurativos favorece a manipulação do processo por parte do agressor, que pode se valer desse fato sem o constrangimento da repreensão do recurso à violência, muitas vezes culpabilizando a vítima; e 3) os crimes graves não podem ser tratados pela Justiça Restaurativa, pois demandam uma intervenção punitiva do Estado, sem a qual ocorreria a “banalização” da violência. Com efeito, a informalidade do processo restaurativo ainda é lida por alguns como um menosprezo da violência exercida sobre a vítima, a�nal de contas, a tradição autoritária do direito penal ensinou que quanto mais grave o delito, mais dura deve ser a reação penal sobre ele. Além disso, a discussão entre vítima e agressor pode ensejar uma confusão a respeito da verdadeira responsabilidade pela violência, provocando uma culpabilização da vítima. b) O foco da restauração/reparação é complexo nos casos de violência doméstica. Estudo americano (GAARDER, 2015 apud MELLO et al, 2018) que pesquisou projetos-piloto de Justiça Restaurativa voltados a casos de violência doméstica (especi�camente entre parceiros íntimos), pontua que a reparação de danos nesses casos não pode se limitar a pedidos de desculpas, nem funcionar como via de aproximação forçada/indesejada entre vítima e infrator. O pedido de perdão pode fazer parte da dissimulação típica do ciclo da violência, como forma de controle e arrependimento disfarçado. A esse tipo de problema, a literatura tem dado o nome de “o problema da justiça barata” (the cheap justice problem) (DROST et al., 2015). Os processos restaurativos não devem impor nem a aproximação, nem o afastamento entre agressor e vítima, sob pena de não promover uma verdadeira “devolução” de con�itos às partes diretamente interessadas nele. c) Pesquisas sugerem que vítimas que participam de conferências restaurativas passama ter menos medo do infrator, menos raiva do infrator, e passam a ser mais compreensivas em relação a eles (SCHEUERMAN; KEITH, 2015, p. 83 apud MELLO et al, 2018). Ocorre que este dado empírico envolve pessoas que não tinha qualquer espécie de laço afetivo antes do crime e talvez essa inferência não se aplique aos casos de violência doméstica. d) Outros estudos (MILLS, MALEY e SHY, 2009 apud MELLO et al, 2018) concluem que a justiça restaurativa pode ser usada em casos de violência doméstica, mas pode ser menos e�caz que o modelo tradicional. Por outro lado, os estudos de PELIKAN (2010 apud MELLO et al, 2018), malgrado apontem para o impacto positivo nas taxas de reincidência, concluem que a maior e�cácia da justiça restaurativa na violência doméstica se deve mais ao empoderamento da vítima do que a uma mudança de comportamento do agressor. Ou seja, fundamental buscar respostas para duas questões interligadas e diferentes: viabilidade e e�cácia da Justiça Restaurativa nesse tipo de crime. Doutro lado, no que toca às potencialidades da adoção da prática restaurativa no âmbito da violência doméstica no Brasil, destacam-se: a) Empoderamento das vítimas: a garantia do valor da fala da vítima e da escuta quali�cada devolve à mulher o comando da situação, pois que o con�ito retorna à sua posse e não mais pertence à polícia, ao promotor ou ao juiz, por exemplo; b) A forma dialogada e informal presente nos processos restaurativos proporciona um ambiente favorável à discussão de con�itos paralelos à agressão denunciada e que dão causa ou geram consequência à subjetividade das partes. Esta é uma demanda real e que provoca frustração das vítimas com o sistema processual brasileiro; c) O mais forte argumento para fundamentar a adesão ao método da justiça restaurativa a ditos crimes é que há índices consideráveis de vítimas que não desejam a punição do seu agressor, mas sim demandam da justiça criminal uma ação que interrompa o ciclo da violência e restitua a paz familiar ou de sua própria vida apartada da família. Por esse ângulo, as pesquisas vitimológicas se forjaram fontes importantes na construção teórica da Justiça Restaurativa e há muito sugerem que grande parte das vítimas querem resultados diferentes da punição; as vítimas de crimes não são mais punitivas que pessoas não-vítimas; não há evidência que a condição de vítima torna o sujeito mais conservador; não há evidência de que sentenças mais rígidas para infratores repercutem positivamente sobre a vítima; d) Há sinalização de estudos empíricos, embora ainda careçam de limitações, no sentido de que o uso da justiça restaurativa em casos de violência doméstica tem o potencial de ajudar a evitar a prática de novas agressões do mesmo agressor contra a mesma vítima (STRANG; SHERMAN, 2015 apud MELLO et al, 2018) e) Segundo Vanfraechem et al. (2015 apud MELLO et al 2018), o índice de satisfação das vítimas (dos crimes em geral) que participaram de mediação vítima-ofensor é relevante em todas as localidades, culturas e independentemente da gravidade do crime. E esse tem sido o modelo restaurativo mais utilizado em casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, certamente dentre os países europeus (DROST et al., 2015). Os altos índices de satisfação das vítimas, nesses casos, estão atrelados aos sentimentos de justiça informacional, interacional e procedimental experimentados ao longo do processo restaurativo, os quais diminuem as chances de revitimização da vítima. f ) Pesquisas empíricas recentes sugerem de forma reveladora que as conferências restaurativas “funcionam melhor” para crimes violentos do que para crimes contra a propriedade (vide, por exemplo, ESTIARTE, 2012; STRANG; SHERMAN, 2015 apud MELLO et al, 2018). Esta informação contraria toda a expectativa levantada a respeito do tema, utilizada para descredibilizar a prática restaurativa; g) A aplicação da Justiça Restaurativa a casos graves deve tomar precauções e atentar para as necessidades das vítimas. A este cuidado especial, (SANTOS, 2014, apud MONTENEGRO et al, 2018) nomeia de “�ltros de segurança”. Consiste na defesa de práticas restaurativas em casos de violência doméstica, desde que: vítima e ofensor participem voluntariamente; o mediador seja treinado em práticas restaurativas e experiente no trabalho com vítimas de violência doméstica; as partes sejam preparadas antes através dos pré-círculos; e o agressor reconheça a sua responsabilidade por pelo menos parte dos fatos alegados. Particularmente à pesquisa-paradigma desenvolvida para o CNJ, os resultados foram multifacetados: em alguns critérios as expectativas foram superadas, mas em outros, como risco de toda pesquisa, os resultados estiveram abaixo do esperado. No panorama geral, identi�cou-se problema na capacitação dos atores do Sistema de Justiça Criminal, tanto na fase policial quanto na fase judicial, o que contraria a política prevista na própria Lei Maria da Penha que demanda formação especializada dos pro�ssionais envolvidos. A perspectiva multidisciplinar não é à toa: mais que formação jurídica, precisam os magistrados, os membros do Ministério Público e os policias entenderem a dimensão de gênero, das violências previstas na lei, da subjetividade da mulher socializada em relações afetivas que lhe dizem ter autoridade para controlá-las através do medo e das variadas formas de agressão. Nesse sentido, os magistrados declaram em sua maioria não possuir formação no campo do gênero ou violência doméstica, informando, ainda, não ter sido essa uma exigência do tribunal de origem para atuar em juizado ou vara especializada em violência doméstica. É evidente que prejuízos são registrados com essa de�ciência formativa, já que a ausência de formação em gênero dos principais atores faz com que o machismo apareça claramente. Tanto é assim que as equipes multidisciplinares cumprem importante papel na complementação da atividade do(a) julgador(a). Ademais disso, a forma e a linguagem do direito ainda aparecem como um mundo distante para as mulheres que relatam desconhecer os procedimentos do processo, as fases e, portanto, sofrer com a espera do que não sabem estar por vir. Isto é, o fato de não saberem os passos vindouros do seu processo provoca uma angústia potencializada pela estrutura fria e hierárquica das instituições jurídicas e dos seus operadores46. A morosidade do processo criminal também é perversa com as vítimas que precisam estar diretamente envolvidas na questão que lhes causa dor por muito tempo, de modo que este é um critério decisivo para que elas não recomendem sem restrições o caminho judicial para outras mulheres. Muitas recomendam por desconhecerem outra saída para o problema. A leitura sobre a decepção feminina com o sistema penal pode desaguar em vários pontos problemáticos, mas entendemos que todos convergem para um fato crucial: o sistema penal se apropriou dos con�itos das vítimas, tomando para si também a obrigação de falar em nome da vítima sobre as subjetividades envolvidas no con�ito (CHRISTIE, 1977). Assim como o depoimento, a subjetividade é reduzida a termo, subsumindo o fato à norma. Com isso não queremos fazer uma apologia liberal de Estado mínimo, mas problematizar a ingerência estatal manifestada pelo sistema de justiça criminal, alertando para a necessidade de humanizarmos a interpretação do direito, atravessando-o por questões sociológicas pungentes descartadas pela tangente. Isto é, os con�itos de gênero, por exemplo, têm uma signi�cante que não pode ser ignorada: a do afeto. As normas endurecidas do Direito penal não contemplam o comprometimento afetivo entre as partes ligadas pelo crime: está programado para produzir uma reação quando provocado com uma determinada situação. Ocorre que a violência doméstica normalmente ocorre onde existe uma relação familiar prévia e, por isso, amor, carinho, companheirismo. Claro que estes sentimentos podem não mais fazer partede um núcleo familiar ou, até mesmo, nunca terem estado presentes. Estes são casos que não cabem nessa análise. Com este ponto não se quer fazer uma defesa incondicional da família mononuclear burguesa e do casamento, este seria um posicionamento que desconhece a função da ideologia da família e do casamento no controle e disciplinamento das mulheres, seja para con�ná-las no espaço doméstico, seja para regular a sexualidade através do mito da virgindade, seja para assegurar a proteção da propriedade privada. 47 Em todas as cidades pesquisadas, a primeira porta de entrada das vítimas entrevistadas para resolver sua situação de violência doméstica é, como regra, a Delegacia da Mulher sendo lá também, paradoxalmente, onde se inicia o processo de revitimização. Esta realidade é mais vivida pelas mulheres pauperizadas, que sentem mais di�culdade em acessar a Defensoria Pública e redes de apoio, de modo que as instâncias policiais é que estão disponíveis, mas ao mesmo tempo são as menos preparadas para receber essas mulheres. Doutro lado, as mulheres com mais dependência �nanceira, pertencentes a uma classe social mais privilegiada, têm possibilidades de saídas mais alternativas como a chance de sair da casa de coabitação, procurar ajuda ao lado de psicólogos, grupos de apoio, hospitais particulares ou mesmo o auxílio de familiares. O próprio grau de escolaridade é um fator determinante para o posicionamento das mulheres diante da violência. As mulheres de classe média, geralmente portadoras de uma educação formal mais completa, por ter esse apoio extrapenal à sua disposição e reconhecerem facilmente se tratar de crime e de uma violência, podem se sentir menos receosas em publicizar o acontecimento para a família, amigos, trabalho. E isso lhes garante uma segurança maior, por mais que não necessariamente seja determinante para diminuir a cifra oculta dos crimes domésticos, já que na classe média o controle se opera de forma diferente sobre as mulheres, mas não deixa de operar. Outro ponto que merece destaque é o que faz a vítima procurar o Sistema de Justiça Criminal. Na maioria dos casos, desejam cessar o ciclo da violência, muito mais voltadas às medidas protetivas do que ao processo penal. Esse fato foi constatado tanto nas entrevistas com as vítimas como nos relatos dos grupos focais. Um dado importante narrado nos grupos focais foi a centralidade das medidas protetivas na interrupção do ciclo da violência, de modo que, atingido esse objetivo, o processo penal se torna, por vezes, desnecessário. As medidas protetivas e o apoio da equipe multidisciplinar são apontadas como as mais importantes contribuições da Lei Maria da Penha. A centralidade concedida às medidas protetivas se explica pela natureza da relação íntima que envolve as partes; pesquisas (GREGORI, 1993; LARRAURI, 2008 apud MELLO et al, 2018) relatam que mulheres violadas que tornam público o con�ito doméstico vivido não desejam causar mal ao agressor por meio da punição e criminalização, mas sim romper o ciclo e restabelecer a paz familiar. Até mesmo aquelas que se decidem pela separação prezam mais pela coesão familiar mantida do que pela persecução penal do agressor, contrabalanceando com a criação dos �lhos. A condenação, na verdade, é encarada mais como ameaça para impedir a repetição da violência do que como desejo real da mulher. O estigma do crime tem efeitos extensivos, segundo Go�man (1988), penalizando não só a �gura do condenado, como também as pessoas próximas que passam a ser quali�cadas como “ex-companheira” de um criminoso, “mãe de um criminoso”, “�lha.” etc. A partir disso, a crença de que a punição do agressor promove o sossego da vítima é, segundo MELLO et al, 2018, tão falaciosa quanto os ideais de ressocialização e prevenção que acompanham o modelo da justiça encarceradora. Ou seja, quando o processo é resolvido com a pena de restrição de liberdade para o agressor, a mulher que, às vezes ainda nutre sentimentos por ele, ao ver o sofrimento do condenado, sente-se não mais vítima, e sim algoz por causar o mal do aprisionamento (MELLO, 2015). Ainda sobre os processos de revitimização, algumas considerações. No intuito de encorajar as vítimas a não retirarem as queixas contra seus agressores, a lei não permite a retratação e torna irreversível o procedimento processual penal, de modo que, se aquela mulher vítima ainda nutre sentimentos pelo homem ou prioriza a paz do lar, essa restrição pode inibir a procura pela ajuda judiciária, contribuindo para o silêncio, temor das vítimas e o incremento das “cifras ocultas” da violência doméstica e familiar contra a mulher. O mesmo fenômeno se observa com o controle social informal sofrido pelas mulheres que continuam visitando seus companheiros/ex- companheiros na prisão e são julgadas, porque a conduta mais coerente seria o rompimento de todo contato (LARRAURI, 2008). Para Flauzina (2015), o instrumento reservado à proteção feminina ele próprio poderá penalizá-la de diversas formas. Além disso, esclarece que as origens da violência sofrida estão nas assimetrias de gênero, de classe e raça. Por ser assim, é pouco provável que a solução para o problema da violência doméstica esteja no sistema de justiça criminal, pois que este con�gura-se como um auxílio secundário e não tem o poder de transformar as relações sociais estruturadas. O estado da arte é assim: os primeiros dez anos de aplicação da Lei Maria da Penha mantiveram distante a possibilidade restaurativa, sendo aplicada a lei como estratégia retributiva para fortalecer um modelo há muito falido por não atingir as funções declaradas de ressocialização e prevenção e, não obstante, aprofundar outros problemas. O olhar para experiências estrangeiras em torno do uso da justiça restaurativa em casos de violência doméstica, e considerando os processos de revitimização vividos e relatados pelas vítimas entrevistadas na pesquisa- paradigma, entende-se que, de fato, há um potencial restaurativo a ser explorado no Brasil. Essas potencialidades, devem vir acompanhadas dos “�ltros de segurança”, da cautela vital de contextualizar, de adaptar os programas e experiências testadas em outros lugares à realidade brasileira para que as práticas restaurativas não redundem na expansão do sistema punitivo à revelia da satisfação das vítimas ou, simplesmente, em uma reforma “cosmética” do Sistema de Justiça Criminal, prática recorrente capaz de inserir novos termos na linguagem do dia a dia do Judiciário sem, contudo, transformar a prática de resolução do con�ito doméstico (ROSENBLATT, 2014). Uma avaliação rápida não nos escusa de reconhecer os incontestáveis avanços promovidos nesses mais de dez anos de aplicação da Lei Maria da Penha, principalmente no tocante às medidas protetivas, à criação dos Juizados especializados e às equipes multidisciplinares. Todavia, um dos pontos cruciais do debate travado aqui é demonstrar a revitimização da mulher e questões sensíveis que estão invisíveis quando do avanço da sanha feminista punitiva, como a contribuição para o encarceramento dos eternos clientes do sistema penal em nome do �m da violência contra a mulher. A ferramenta de tensionamento com o Estado não pode se tornar arma de guerra e desconsiderar quais as verdadeiras funções do direito penal e da justiça criminal, quais sejam a gestão de classe e o controle de vida e morte das populações racializadas. III.4. O gênero da violência e a crítica da criminologia48 Que esperar do direito penal com a mulher? O direito, sitiado por uma epistemologia androcêntrica, tem destinado normas às mulheres que re�etem e constroem uma determinada visão do padrão feminino. Que faz o direito penal com a mulher? É possível conciliar o desejo de ser criminóloga crítica ou criminóloga abolicionista e ser, ao mesmo tempo, feminista? Este se apresenta como o grande embaraço de parte considerável do feminismo hegemônico em relação aos debates da criminologiacrítica. Ao tempo em que contribuiu para os avanços democráticos de políticas públicas e legislação aplicada aos crimes com motivação de gênero, parece um contrassenso a ponderação do trato penal aos homens envolvidos nos con�itos dessa natureza. A�nal, não seria sinônimo de fraqueza e subordinação qualquer razoabilidade na tratativa com os homens? Para o feminismo máximo não deverá incidir o direito penal máximo? Seria o Direito Penal esta ferramenta pedagógica a enviar mensagens educativas a serviço de um papel simbólico de disciplinamento das pessoas? Novos tipos penais (ou o endurecimento das penas) seria o caminho mais e�caz para reduzir os danos dos crimes e combater práticas futuras? O percurso teórico até aqui trilhado remete à rejeição da adesão indiscriminada ao direito penal ao passo que rejeitamos a resposta do castigo e do cárcere como solução, ventilando recursos alternativos que contribuam para um “empoderamento” da mulher, mas ao mesmo tempo atentos às consequências advindas de um avanço da atividade penal nas vidas dos grupos sociais. No processo histórico de organização das mulheres para a luta contra a violência sexista, a �liação ao mecanismo legal soou como segurança para garantir a efetiva inibição da repetição das condutas reprovadas de múltiplas formas de agressão feminina. Este depósito de con�ança em um sistema penal capaz de apresentar contrapartida ao poder do homem se deparou com um poder penal que não só não desconstrói como reforça a insígnia patriarcal. Não é de se estranhar que inúmeras mulheres esperançosas com a contrapartida penal tenham reconhecido nela o re�exo de mecanismos de controle vividos nas relações sociais extra-penais, recriando através de sua atuação as diferenças. As narrativas sobre a violência na história transitam entre as variantes de a quem é atribuída a qualidade de �gura perigosa e, portanto, presumidamente responsável pelas práticas delituosas. A antropologia social de vertente biologista por muito tempo construiu a imagem do homem predisposto ao desvio em uma adesão essencialista e racista das representações sociais. Para Larrauri (2007), particularmente ao recorte de gênero, moveu-se do contexto que atribuía as causas do comportamento reprovável a doença psíquica para o que aponta como causa única da violência a condição de desigualdade e subordinação da mulher. Para a autora espanhola, o discurso feminista o�cial apresenta três características: simpli�ca excessivamente a violência contra a mulher nas relações afetivas ao apresentar este delito como algo que sucede pelo fato de ser mulher; em segundo lugar, raciocina de forma determinista como se a desigualdade de gênero tivesse capacidade de alterar, por si só, os índices de vitimização das mulheres, ignorando outras desigualdades; �nalmente con�a e atribui ao direito penal a enorme tarefa de alterar esta desigualdade estrutural, principal responsável pela vitimização feminina. Partindo da marcação de que a violência sexista decorre da desigualdade de gêneros na sociedade, pressupõe-se que a superação desta condição desigual irá pôr �m ou diminuir drasticamente a ocorrência. A con�ança está no estágio de uma sociedade igualitária que reestruture as relações de gênero para que as mulheres tenham mais poder, autonomia e protagonismo nas suas vidas. Nessa esteira, um traço distintivo da doutrina feminista é atribuir ao direito penal uma função estratégica de proteger, aumentar a igualdade e dotar de maior poder dirigido para atingir objetivos certeiros e nunca irracionais. Sobre a simpli�cação do problema social representado pela violência contra a mulher nas relações afetivas, Larrauri (2007) entende equivocada a concepção determinista do valor da igualdade evocado nos discursos. Compara esta postura com o contexto de origem da criminologia crítica, em que se entendia que a pobreza era a causa última de toda delinquência49. No caso do gênero, esta causa aparece como a estrutura patriarcal da sociedade. A primeira sempre teve di�culdade em explicar o porquê de todos os pobres não delinquirem e a segunda em explicar o porquê nem todas as mulheres são vítimas. O que no fundo se critica com isso é a naturalização reducionista dos fenômenos sociais que desconsideram, por vezes, a interferência de outros fatores na conformação de situações. Negar a relação direta e linear de subordinação-vitimização não é o mesmo que desconsiderar a subalternização das mulheres, dos negros, dos pobres, mas é reivindicar o lugar de não ser vítima desses grupos. Os fatores de risco e o rol de valores culturais, como naturalização da violência e o lugar da mulher na sociedade, produzem a violência doméstica, isto é, um comportamento instrumental dirigido a manter a mulher em uma posição subordinada. Além disso, o mercado de trabalho, as instituições sociais e jurídicas discriminam a mulher e com isso fornecem implicitamente justi�cações para persistir no comportamento abusivo. (Idem, p. 32) Tomar a desigualdade de gênero e os valores culturais como fatores fundamentais para explicar a violência contra a mulher entre parceiros não equivale ao mito de que a violência desta natureza não conhece classes sociais. Por mais que a condição de mulher seja determinante na sociedade patriarcal para autorizar a violência contra qualquer mulher, as condições de raça e classe aprofundam a permissividade para controlar através da violência. A intencionalidade da violência em desfavor da mulher é exercer poder, manter o controle de acordo com as normas culturais dominantes que criam hegemonia e produzem um consenso de homem: o pai, chefe de família, �gura pública com menor dedicação ao trabalho doméstico e da família, tendo uma mulher à disposição sexual contínua, etc. Da mesma forma, serve para manter o status quo, isto é, não apenas re�ete a desigualdade de posição e valores, como também serve para manter essa situação pelo mecanismo do medo. Nem todas as mulheres são violadas, mas o medo disso condiciona e in�ui os modos de viver de todas. (Idem, p. 35) No ambiente doméstico, o autor JOHNSON (2005 apud LARRAURI, 2007) distingue três tipos de violência, quais sejam: a violência usada para obter o controle da parceira (terrorismo íntimo); a violência exercida como resposta ao terrorismo íntimo (resistência violenta) e a violência que não forma parte de um contexto geral de poder e controle, senão que se reproduz no contexto de uma série de con�itos (violência situacional no casal). Assim ilustra Larrauri (2007) ao traçar os mecanismos de poder múltiplos utilizados como forma de controle, seja por meio de vantagem econômica para manter a dependência, seja o uso do privilégio masculino para intimidar nas ações, coagir e ameaçar. É preciso cautela nessa categorização para não etiquetar a mulher que recorre a um comportamento violento na defensiva como abusiva. Dois são os motivos: a violência promovida por mulheres e por homens têm traços distintos- enquanto uma manifesta poder imposto, a outra é a forma de não sucumbir à inferiorização-; o julgamento moral da mulher transgressora é mais perverso do que para o homem agressor. Atravessemos o campo da compreensão política da violência para a proteção legal da Lei n. 11.340/2006, resultado de pressão social a respeito da incapacidade dos Juizados Especiais em julgar os casos de violência doméstica e do desacordo com a Convenção de Belém do Pará e Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, das quais o Brasil é signatário. Consagrado como símbolo da proteção e assistência estatal com a questão da violência contra a mulher, o estatuto legal surge com potencial de levar para o espaço público uma preocupação com a prevenção e com a proteção dos casos, possibilitando maior acesso à Justiça, até mesmo pela propagandização da temática. Medidas protetivas de urgência, previsão de criação de grupos multidisciplinares de apoioàs vítimas e unidades de atendimento aos agressores são pontos positivos da lei. Todavia, afastar a incidência da Lei dos Juizados Especiais, vetar medidas alternativas e assumir como regra a prisão como �m, não isenta de críticas ferrenhas esta normativa, pois que, neste sentido, vai na contramão dos acúmulos teóricos/empíricos sobre a falência do modelo prisional como projeto de ressocialização. O papel midiático na sensibilização com o caso paradigmático da cearense Maria da Penha contribuiu em muito para a legitimação do discurso penal como meio próprio para a prevenção e combate de crimes dessa natureza. A coisa �cou popular, a mídia sobe o morro, invade as casas com a programação e serve o rigor punitivo na hora do almoço. A fome de justiça social na causa legítima de defesa da vida das mulheres passa a ser confundida com a minoração do papel dos direitos humanos para agressores. Especialidade televisiva: banalizar a fragilidade alheia e formar consenso por meio de narrativas bem construídas. Ignora a produção acadêmica que denuncia o fracasso das ideologias prevencionistas e as verdadeiras metas do sistema penal ao apresentar aos expectadores o Estado penal máximo como programa ideal. Pari passu à empatia com o problema da violência de gênero, então, as pessoas passaram a consumir uma campanha midiática de demonização dos agressores de mulheres em prol da validação da pena de prisão como solução. Este processo de vinculação subjetiva para convencimento de questões objetivas é explanado por Garland (2008, p. 317): O batismo de leis criminais e medidas penais com nomes de vítimas de crimes (...) serve para honrá-las desta forma, embora aqui induvidosamente exista também um elemento de exploração na medida em que o nome do indivíduo é usado para evitar objeções às medidas que, na maioria das vezes, não passam de legislação retaliadora, aprovada unicamente para a exibição pública e obtenção de vantagens políticas. A santi�cação das vítimas também tende a anular a preocupação com os criminosos. A relação de incompatibilidade total que se acredita existir entre um e outro faz com que qualquer demonstração de compaixão para com os criminosos, qualquer invocação de seus direitos, qualquer esforço de humanizar suas punições sejam representadas como um insulto às vítimas e suas famílias. Diante da sensibilização social com a tragédia de Maria da Penha e do momento favorável à aderência à bandeira feminista contra a violência, bem como devido ao clamor vindicativo coletivo, a intervenção máxima descarta até mesmo pesquisas (CAMPOS, 2011; MELLO, 2015) que revelam que os crimes mais praticados contra mulher no contexto da violência doméstica e familiar no Brasil são as lesões corporais e a ameaça, enquadrados como de menor potencial ofensivo. Por falar no aspecto normativo, cabem algumas considerações. A lei n. 9.099/95 instituiu na legislação brasileira três medidas despenalizadoras50, isto é, medidas penais ou processuais alternativas que procuram evitar a pena de prisão. A primeira é a conciliação que, nas infrações de menor potencial ofensivo de iniciativa privada ou pública, condicionada à representação, havendo composição civil, resulta na extinção da punibilidade do agente (art. 74, parágrafo único). A segunda é a transação penal, que ocorrerá quando não houver composição civil ou nos casos de ação penal pública incondicionada e, nessas situações, a lei prevê a aplicação imediata das penas restritivas de direitos ou da pena de multa (art.76). A terceira é a exigência de representação nos crimes de suspensão condicional do processo, que, nos crimes cuja pena mínima não seja superior a um ano, permite a suspensão do processo por um período de dois a quatro anos. A conciliação surge no Brasil para tratar de con�itos tipi�cados como infrações penais a partir da lei n. 9.099/95, como uma forma legal de minoração do papel da pena a partir da reparação dos danos das partes envolvidas. Essa medida é híbrida, pois é a junção do Direito Penal e do Direito Civil, procurando satisfazer, principalmente, os anseios da vítima. Das três novas causas de extinção de punibilidade, a conciliação é a única que se mostra como alternativa ao direito penal, pois leva o con�ito às partes, enquanto a transação e a suspensão condicional do processo são institutos que visam a desafogar o Judiciário e dar-lhe uma maior celeridade processual. A dita lei se vincula à proposta do Direito Penal mínimo, defendida por teóricos(as)- ora como meio de se chegar ao abolicionismo, ora como �m em si mesmo- com o �to de reduzir o poder punitivo e ampliar as garantias processuais penais. O minimalismo nada mais é do que a tentativa de reduzir ao máximo a previsão do delito, o arbítrio judicial, a a�ição da pena e a violência punitiva (FERRAJOLI, 2002). Ou melhor dizendo: A teoria do direito penal mínimo representa uma proposta de política criminal alternativa na perspectiva de criminologia crítica. Trata-se, sobretudo, de um programa de contenção da violência punitiva através do direito baseado na mais rigorosa a�rmação das garantias jurídicas próprias do Estado de Direito e dos direitos humanos de todos os cidadãos, em particular das vítimas, processados e condenados pelo sistema de justiça penal. Seu programa consiste numa ampla e rigorosa política de descriminalização e, numa perspectiva �nal, na superação do atual sistema de justiça penal e sua substituição por formas mais adequadas, diferenciadas e justas de defesa dos direitos humanos frente à violência. (BARATTA, p.56) Apesar disso, a lei n. 11.340/2006 introduziu no Direito Penal brasileiro um tratamento normativo nos casos de violência doméstica que afasta completamente a lei n. 9.099/95. Esta ampliação do direito penal se manifesta como resposta dos movimentos feministas que depositam fé na função simbólica do direito penal que deteria o poder de reverter condutas em razão da ameaça da punição, funcionando como mecanismo de controle social. É como uma resposta para acalmar as multidões ansiosas por uma resposta estatal iluminada que, rapidamente, providencia leis duras ine�cazes para provar que está agindo contra ações indesejadas. A mensagem que o legislador quis passar ao afastar a Lei n. 9.099/95 foi a de elevar à máxima potência a fala das mulheres e reduzir ao mínimo o status de baixa lesividade da violência de gênero, deslocando os institutos despenalizadores. Nesse sentido, o STF julgou no dia 09/02/2012 a Ação Direta de Constitucionalidade, proposta pela Procuradoria Geral da República, que resolveu pela natureza incondicionada do crime de violência doméstica. Este uso “simbólico” é um uso político, porque utilizado como argumento de movimentos sociais feministas para justi�car sua demanda criminalizadora. Sem trabalhar no cerne do con�ito, as normas penais “simbólicas” produzem uma sensação de segurança que ilude os seus destinatários por meio da fantasia da solução penal. Porém, não deve restar dúvidas de que o direito penal não constitui meio idôneo para fazer política social, as mulheres não podem buscar a sua emancipação através do poder punitivo e sua carga simbólica. Punir pessoas determinadas para utilizá-las como efeitos simbólicos para os demais signi�ca a coisi�cação dos seres humanos. (MONTENEGRO, 2015, p. 112) Um argumento forte para justi�car o afastamento das medidas despenalizadoras é o combate à impunidade historicamente construída no que respeita a crimes de gênero, a necessidade de reprovação social, exemplo pedagógico e restauração da segurança pública ora perdida pela ameaça causada pela violência. Ora, o que se tem aqui é a carência de satisfazer a sanha vingativa ao impor a pena, já que as vísceras do direito penal estão à mostra: sabemos da ideologia que o alimenta, das funções não-declaradas e dos fracassos nas mudanças tanto estruturais quanto no âmbito micro da esfera de ação das pessoas. O que não se nota à primeira vistasão as consequências desta opção legislativa. A começar pela questão de classe, as mulheres de classe média possuem meios de recorrer a outros agentes de paci�cação de seu con�ito, tais quais, médico, psicólogo, advogado, família e igreja. Noutra ponta, as mulheres trabalhadoras, em sua maioria fazendo parte de um modelo mais informal de família, dependentes �nanceiramente parcial ou totalmente, casadas com homens trabalhadores e, portanto, frequentemente de baixa escolaridade, vislumbram como grande feito a ingerência judicial no con�ito. Outros apoios como casas- abrigo e centros de apoio com serviço social são precários ou inexistentes a depender da localidade. Altamente con�antes nas instituições, justamente por representarem aquilo que lhes atravessa, mas não lhes pertence, que é o poder, as mulheres populares vislumbram de baixo para cima a justiça penal como peso a reequilibrar a balança social desigual. Infelizmente, se esquecem de �ssuras como: as insu�ciências da assistência judiciária gratuita, as estereotipações das partes de classes populares, tudo que trabalha em seu desfavor. Além do mais, ao reinserir a prisão em �agrante nos crimes de ameaça e lesão corporal leve, crimes a�ançáveis, determina quem será preso e quem poderá comprar sua liberdade, isto é, preserva a clientela do sistema penal. No jogo dialético de contrapor o sistema penal máximo e a cidadania mínima, Vera Andrade (2003, p. 22) expurga toda sua crítica: Enquanto a cidadania é dimensão de luta e emancipação humana, em cujo centro radica(m) o(s) sujeito(s) e sua defesa intransigente(exercício de poder emancipatório), o sistema penal(exercício institucionalizado de poder punitivo) é dimensão de controle e regulação social, em cujo centro radica a reprodução de estruturas e instituições sociais, e não a proteção do sujeito, ainda que em nome dele fale e se legitime; enquanto a cidadania é dimensão de construção de direitos e necessidades, o sistema penal é dimensão de restrição e violação e direitos e necessidades;(...) enquanto a cidadania é dimensão de inclusão, o sistema penal é dimensão de exclusão social. Dessa forma, a lei n.11.340/06 tem representado o retorno às principais críticas feitas ao direito penal relativas às respostas simbólicas e não instrumentais, como por exemplo: o controle penal intervém sobre efeitos e não sobre as causas; intervém sobre pessoas e não sobre situações; atua de forma repressiva e não preventiva. A realidade descoberta após pesquisa (MONTENEGRO, 2015) revela os seguintes pontos: i. Em algumas capitais, após um ano de vigência da lei, houve uma redução no número de denúncias. Dois são os fatores para isso: a força “simbólica” da lei provocou nos homens medo de gerar agressões; e mulheres pararam de denunciar por receio de ver seus companheiros presos passando, então, a suportar pequenas agressões; ii. Ou antes do procedimento judicial ou durante as investigações/depoimentos, a mulher sempre mentia para preservar o companheiro da prisão; iii. Dupla vitimização da mulher, principalmente nos casos em que ocorreu a prisão provisória, pois que passou a se sentir culpada pela prisão do companheiro, além de ser diretamente atingida emocional e �nanceiramente com isso; iv. Embora apresente grandes méritos no que diz respeito às medidas de prevenção e de proteção da mulher, apresenta problemas graves no campo penal. Conhecida pelo slogan “homem que bate em mulher agora é preso”, as medidas de caráter penal simbólicas e seletivas são mais facilmente aplicadas que as medidas de caráter preventivo/pedagógico; v. Com o discurso meramente punitivo, o direito penal ignora a violência estrutural, porque tem como função precípua atribuir culpa, seja ao homem que bateu na esposa, seja na mulher que por não ter correspondido aos padrões machistas da tradição burguesa de família merecia apanhar. Dessa forma, tanto a vítima vingativa- aquela que denuncia e almeja a prisão do companheiro- quanto a vítima-modelo- aquela que atende ao estereótipo da passividade- podem sofrer retaliações com o processo, ora sendo culpabilizada por romper com violência e, portanto, ser uma mulher que não compreende a lógica familiar, a forma de “amar” do parceiro, ora sendo acusada de que “gosta de apanhar” e só por isso retira a queixa; vi. Frequentemente quando o agressor é condenado, a mulher, que ainda nutre sentimentos por ele, ao ver seu sofrimento no cumprimento da pena, se vê uma violadora e não mais uma vítima, pois que mensura o mal causado muito pior que o mal a ela causado. (ALENCAR; MELLO, 2011). Assim, a imposição de pena ao agressor impõe, extensivamente, uma sanção à vítima, subjetiva e objetivamente. Após a intervenção penal, a mulher pode perder suporte �nanceiro (ou porque não tinha renda ou porque perdeu o complemento de renda dado pelo companheiro); e afetivo daquele homem culpado, mas que ainda faz parte da história e memória daquela mulher; e, o pior, portar o estigma de ser esposa, �lha, etc. Logo, eis o paradoxo evidenciado na re�exão (MELLO; SALAZAR, 2015, p. 23): a Lei que surgiu com a �nalidade de prevenir e erradicar a violência doméstica e familiar contra a mulher, por haver retirado a fala feminina do espaço público e não ter contemplado as peculiaridades dos con�itos de gênero e a falência do sistema punitivo, pode contribuir para a ocultação dos dados relativos à violência, já que as mulheres vítimas preferem o silêncio à dolorosa e ine�ciente intervenção do sistema penal no ambiente doméstico. Nesse contexto, é urgente que se ampliem as discussões a respeito das melhores formas de resolução dos con�itos domésticos para além do sistema penal e, por ora, conferir à vítima a possibilidade de avaliar, conforme valorações íntimas, a oportunidade e conveniência da ação penal. Nesse ínterim, para observar as características político-criminais da lei em comento, Nilo Batista (2007 p. 10) alerta que: é importante recordar que os sistemas penais do capitalismo pós-industrial se dividem em dois grandes campos: um deles, aplicável às infrações do “bom cidadão”, se vale do discurso sobre a deterioração prisional para, recorrendo à transação penal, à suspensão condicional do processo, ao sursis, às penas restritivas de direito etc., deixá-lo no shopping exercendo sua boa cidadania; o outro, aplicável às infrações do “inimigo”, do consumidor frustrado, silencia sobre a deterioração prisional para impor penas privativas de liberdade neutralizantes. Nesta toada, a lei, inspirada diretamente na Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (nº 11. 340/2006), tem como principal característica político-criminal exprimir uma demanda clara por sofrimento penal físico. Para mensurar essa a�rmação, observaremos o impacto da lei no encarceramento masculino para questionar quem são os novos (ou velhos) clientes penais selecionados pela Lei Maria da Penha. Para tanto, levanta-se dados que revelam tanto o impacto de mencionada legislação no encarceramento masculino, quanto os efeitos paradoxais desse aprisionamento que se estendem às mulheres vítimas. A ideologia da defesa social justi�ca a atuação do sistema de justiça criminal a partir dos sentidos históricos que desenvolveu com os postulados básicos do princípio de legitimidade, do bem e do mal, de culpabilidade, da �nalidade ou da prevenção, de igualdade, do interesse social e do delito natural (BARATTA, 2002, p.41-42). Com base nesses postulados, tem atuado a legislação, na contramão do acúmulo criminológico que revela índices de criminalidade não reduzidos com o uso acentuado do cárcere, mas aumentados em simultaneidade à progressão da população carcerária. Os estudos sobre a prisão, a repercussão nos índices de criminalidade e reincidência permitem a�rmar que há muito já se sabe ser um instrumento falido, o que não se quer é abrir mão dessa política criminal populista para assumir uma postura estatal de segurançapública e enfrentamento de questões sociais estruturais. Nesse sentido, a lição que segue: A pretensão de que a pena possa cumprir uma função instrumental de efetivo controle (e redução) da criminalidade e de defesa social na qual se baseiam as teorias da pena deve, através de pesquisas empíricas nas quais a reincidência é uma constante, considerar-se como promessas falsi�cadas ou, na melhor das hipóteses, não veri�cadas nem veri�cáveis empiricamente. Em geral, está demonstrado, nesse sentido, que a intervenção penal estigmatizante (como a prisão) ao invés de reduzir a criminalidade ressocializando o condenado, produz efeitos contrários a uma tal ressocialização, isto é, a consolidação de verdadeiras carreiras criminosas (ANDRADE, 1997, p. 291). A respeito do papel do estigma que forja uma personalidade que se reivindica criminosa e passa a representar socialmente carreira criminosa, anteriormente já falamos na oportunidade da exposição sobre a teoria do etiquetamento capitaneada academicamente por Howard Becker. Ademais, o estigma social que marca um ex-condenado, como fazem os proprietários de gado com a cria para que não sejam confundidos com gados sem pasto, di�culta a reintegração após a reclusão, de modo que a exclusão perdura para além do tempo de clausura. A própria ideia de que as grades separam o mundo real do mundo paralelo da prisão programado para não se comunicar com a dinâmica da “cidade letrada” / cidade civilizada trabalha na lógica de pessoas isoladas em um sistema gestado pelo governo, como se possível fosse excluí-las da vida em sociedade. O funcionamento do cárcere, no entanto, opera em certa medida, nessa órbita de exclusão máxima até a morte civil. A reincidência decorrente da falha investida no encarceramento progressivo, somada ao discurso penal de enfrentamento aos con�itos domésticos que ignora as origens patriarcais do con�ito a ponto de revitimizar as mulheres nos procedimentos das instâncias judiciais, penaliza com o suposto discurso de proteção as mulheres de forma simbólica e seleciona o culpado para impor-lhe a pena. Quem são esses homens agressores que estão sendo presos pela lei Maria da Penha? Quem são os agressores que estão sendo liberados? Primeiramente, na esteira de Larrauri (1994), convém salientarmos que a utilização simbólica do direito penal produz vítimas reais, pois que opera seletivamente e não castiga a todos os homens senão aqueles que são clientes do sistema: os excluídos da raça e da classe desejada. Se enfrentado o per�l socioeconômico dos homens registrados pelo sistema de justiça para esses casos, descobre-se que 42,3% não têm sequer o primeiro grau completo (6º ao 9º ano), ao passo que apenas 4,6% têm o 3º grau (ensino superior) completo, conforme grá�cos ilustrativos abaixo. Esses dados, coletados pela pesquisa- paradigma, são referentes à cidade de Recife-PE e ilustram o panorama percebido das cidades com processos e sentenças analisados (Maceió-Al, Belém-PA, Brasília-DF, São Paulo- SP e Porto Alegre-RS) que per�zeram o total de 1.731. Ademais, nota-se a inserção de homens em pro�ssões/ocupações de baixa quali�cação técnica, em que as funções mais exercidas identi�cadas em Recife foram ajudante de pedreiro/ pedreiro, ajudante de mecânico/mecânico, auxiliar de serviços gerais ou homens desempregados. Grá�co 5: Grau de escolaridade da mulher (Recife-PE)51 Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder Judiciário, CNJ, 2018. Grá�co 6: Grau de escolaridade do homem(Recife-PE) Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder Judiciário, CNJ, 2018. Percorrendo o recorte socioeconômico, infere-se que, quando condenados à pena privativa de liberdade, o per�l dos agressores será de homens populares da classe trabalhadora. Justamente por mapear as condições a que estão subordinados estes homens, o sistema de justiça deveria repaginar seus métodos de validação do controle e promoção de reeducação. É possível tanto encontrar saídas dentro da própria lei n.11.340/2006, explorando suas medidas cíveis e de caráter preventivo, quanto saídas à lei, como é o caso das experiências restaurativas. Tabela 3: Ocupação das mulheres e dos homens (Recife-PE) Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder Judiciário. Não obstante as críticas que já existem aos institutos despenalizadores no que toca à sua esfera de controle, certamente a descentralização e minimização da pena de prisão promovidas por estes são mais vantajosas e dialogadas com os direitos humanos. Partem, estes institutos, de um emaranhado de constatações: a) os órgãos do Estado pretendem o monopólio do delito; b) a legalidade é uma �cção e o direito se apresenta como violência na realidade das vidas sociais; c) o sistema penal converte-se em espécie de guerra suja da política, na qual os �ns justi�cam os meios; d) o sistema penal- seletivo e dirigido aos vulneráveis- exerce o seu poder na contenção de grupos bem determinados. Consciente da ontologia desigual do sistema penal, Baratta (1997) destaca quais deveriam ser as estratégias da política criminal: não reduzir a política de transformação social à política penal; entender que a seletividade faz parte da natureza penal; lutar pela abolição da pena privativa de liberdade; travar a batalha cultural e subjetiva contra a legitimação do direito desigual através das campanhas de lei e ordem. A batalha cultural/subjetiva há de incidir na estrutura do Estado, pois que, nas palavras de Vera Malaguti (2015, p. 33): na nossa margem, conhecemos essa empreitada, o imenso genocídio iniciado na colonização, aprofundado no escravismo e eternizado pelo capital. São as nossas veias abertas, homens animais, mercadorias ou mercadorias animais. Está lá, em Galeano e em Darcy Ribeiro: a cada ciclo econômico da colonização corresponde um moinho de gastar gente. A criminologia crítica, tal qual a conhecemos hoje com in�uências do marxismo, da vanguarda da criminologia liberal e do abolicionismo, aponta para o sentido classista das criminalizações históricas e do poder punitivo ao perceber que a manutenção da ordem de classe e manutenção da ordem pública se confundem. Nessa direção, abolicionistas como Michel Foucault e Louk Hulsman compreendem as implicações de poder e domínio resultantes da relação entre direito penal e sociedade e posicionam-se favoravelmente a tomadas de decisão que abram mão da aplicação universalista/abstrata da lei para tratar os casos partindo da crítica histórica ao domínio do direito de classe (Nils Christie e �omas Mathiesen). A superação do paradigma vindicativo rumo a uma sociedade mais igualitária dialoga com modelos libertários que apresentam saídas à justiça criminal. As alternativas à justiça criminal podem ser alternativas legais ou não-legais, o que implica disputar de�nições alternativas de fatos criminalizáveis e mentalidade condicionada. Por exemplo, a respeito da prevenção do crime como medida justa e desejável, podemos ponderar duas coisas: a de�nição de crime pode representar feitos bons, a julgar se for um feito heroico ou em nome da justiça social; o justo, bem sabemos, não se resume à lei penal. Os fatos criminalizáveis podem, portanto, receber um tratamento mais coletivo e menos fragmentado a partir das respostas comunitárias reparatórias, tanto para as vítimas quanto para os delinquentes, permitindo, como prenunciou Hulsman, a superação da antítese vítima-criminoso na relação entre eles. É o que Nils Christie entende como devolver às partes o protagonismo na resolução dos con�itos,garantindo um envolvimento comunitário, um desenvolvimento social interno de dada comunidade e garantindo uma orientação sob o ponto de vista da vítima. Partindo da acepção de que o lugar comum dos eventos criminalizados é a autorização para a justiça criminal empreender uma ação contra eles (Hulsman, 2002) e da que não punir não é o mesmo que não responsabilizar, retomamos o �o condutor da Justiça Restaurativa e das possibilidades nos casos da violência com motivação de gênero. Nos últimos anos, espaços acadêmicos e instituições jurídicas têm se apropriado da temática da Justiça Restaurativa e induzido, através de pesquisas, resoluções e outros a melhoria tanto na aplicação da Lei n. 11.340/2006 quanto na garantia de condições necessárias para a mais ampla prestação jurisdicional. Ações integradas como as veiculadas pela lei são o mote do período, em que notamos iniciativas desde o Manual de Rotinas e Estruturação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher(2010); relatório que levanta as ações do Conselho Nacional de Justiça voltadas à promoção e ao apoio de políticas públicas de enfrentamento da violência doméstica contra a mulher(2017), como por exemplo a Jornada Maria da Penha que viabiliza o debate nos estados desde 2007, o Fórum Nacional de Juízes de Violência Doméstica e familiar contra a mulher (FONAVID) até a Portaria n. 15/2017, que estabelece obrigações aos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal quanto ao enfrentamento destas violências. A operatividade do CNJ é para incidir na estrutura, litigiosidade e mapear os territórios. Entre as medidas estão o incentivo à criação e estruturação de unidades judiciárias especializadas no processamento de causas cíveis e criminais; a promoção de cursos para aperfeiçoamento de servidores e magistrados; o aperfeiçoamento dos sistemas informatizados do Poder Judiciário para viabilizar o fornecimento de dados estatísticos sobre a aplicação da Lei Maria da Penha, o processamento e o julgamento de ações cujo objeto seja feminicídio e das demais causas cíveis e criminais decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher. Malgrado essas movimentações positivas no Judiciário, as estatísticas da violência doméstica no Brasil persistem altas, as mulheres seguem insatisfeitas com a prestação jurisdicional, inclusive por conta da proibição legal de qualquer procedimento conciliatório, dialogal ou restaurador. O sistema penal tem atuado incisivamente, mas produzido armadilhas na venda da solução perfeita, pois que é obviamente incapaz de resolver problemas decorrentes de opressões estruturais base da formação social brasileira. Sendo assim, não será através da criminalização, tampouco da penalização do homem (diga-se de passagem: seletiva), que se dissolverão os transtornos advindos dos nós patriarcais, capitalistas e racistas que amarram as relações sociais. A ideologia hegemônica que forjou o inconsciente coletivo brasileiro quanto aos papeis sociais da mulher e às formas disciplinares de controle punitivo só será superada com a consolidação de nova ideologia sedimentada em outros valores coletivos, quando as pretas iaiás, as “mulatas”, as sinhazinhas, as prostitutas, as mães, donas de casas, as empregadas não estiverem “domesticadas” pelas prisões desses papeis naturalizados. Até lá, a luta segue sendo por espaços, pela dignidade e pela divisão do poder. A emancipação humana depende da emancipação da mulher de forma plena e esta é incompatível com o direito penal, servente do capitalismo, criado para manter o status quo e gestar classes. A subjetividade jurídica deriva da forma mercadoria e, portanto, a existência do direito é sinal de uma sociabilidade voltada à acumulação, lastreada na exploração do trabalho assalariado e atravessada pela contradição de classe. (PACHUKANIS, 2017). Se a forma jurídica e a forma política estatal são elementos centrais do capitalismo, é ingênuo esperar por transformações estruturais que advenham do positivismo. Como leciona Christie (2013, p. 122), a lei penal é um instrumento perfeito para certos propósitos, porém grosseiros para outros. Deixa de lado muitas questões relevantes e está baseada em dicotomias do tipo tudo ou nada, culpável ou inocente. Em muitas situações somos culpáveis “em parte”. Se esta culpabilidade média é vista à luz de anteriores transgressões da outra parte ou de seus associados, abre-se uma porta para se chegar a um acordo. As soluções civis são mais integrativas, se esforçam para preservar os sistemas sociais como corpos de indivíduos em interação. Nessa linha de raciocínio, um dos principais atributos da Justiça Restaurativa é que ela enxerga o crime como uma violação contra pessoas “reais” no lugar de uma violação dos interesses abstratos do Estado ou de normas jurídicas abstratas. Assim, no modelo restaurativo de justiça criminal o Estado não mais monopoliza a decisão, pois que as partes se integram mais ativamente. Na faixa de compreensão de Christie, os con�itos retornam aos verdadeiros ‘proprietários’ (vítimas, infratores e comunidade), de modo a inverter a lógica da justiça criminal: em vez da repressão contra o inimigo, procura-se por respostas verdadeiramente reparadoras dos danos decorrentes do crime e, quando possível, a reconciliação entre as partes. Esta reconciliação não deve ser forçada, pois que pode ser consequência natural da ressigni�cação do con�ito, como também pode não ocorrer. Além disso, o processo restaurativo é concebido como um instrumento de “empoderamento” (empowerment) de vítimas, infratores e comunidades, a �m de que essas partes possam se fortalecer na superação dos danos materiais, psicológicos e relacionais decorrentes do crime (BRAITHWAITE, 2002; JOHNSTONE, 2011; ZEHR, 2008). Com efeito, para superar a estrutura encastelada/hierarquizada da forma jurídica que determina a maior aptidão dos pro�ssionais na condução do momento pós-con�ito, as vítimas se empoderam para dominar o destino do seu próprio caso. Por outro lado, a �m de superar uma longa tradição em que o condenado “recebe”, passivamente, uma punição, os infratores devem ser empoderados para “assumir” o seu comportamento desviante, para realmente enfrentar as consequências de suas ações, reparando os danos provocados a indivíduos e relacionamentos, e aproveitando toda e qualquer oportunidade para demonstrar con�abilidade e buscar a sua reintegração na comunidade. Por �m, os membros da comunidade vitimizada (incluindo os familiares e amigos afetados) devem ser empoderados para resolver os seus próprios con�itos comunitários e para ajudar a traçar um plano de ação por meio do qual os infratores arrependidos possam ser (re)inseridos naquela comunidade. (MELLO; ROSENBLATT, 2015, p. 104) Dessa forma, esses e outros valores comunicam que a Justiça Restaurativa se volta para a reparação de danos causados pela conduta do infrator, a qual pode aparecer na forma de compensação �nanceira à vítima, compensação à vítima através da realização de algum trabalho (por exemplo, quando o infrator conserta algo que quebrou), pedido de perdão (a chamada “reparação simbólica”), prestação de serviços à comunidade etc. (WALGRAVE, 1999). Diante da ine�cácia do sistema tradicional de justiça criminal transformar a realidade subjetiva das partes envolvidas no con�ito e a realidade objetiva do contexto social que possibilita a ocorrência de crimes; e em vista da necessidade de atender aos anseios das vítimas de violência doméstica, a justiça restaurativa tem sido proposta como modelo alternativo apto à resolução de con�itos. Embora a lei n. 11.340/06 vede a utilização de métodos restaurativos substituindo o processo convencional na tratativa de crimes de violência doméstica, é preciso destacar que em 31 de maio de 2016 foi promulgada a Resolução nº 225 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), instituindo e disciplinando uma Política Nacional de Justiça Restaurativano âmbito do Poder Judiciário para acumular conjuntamente ao rito judicial nas comarcas que tenham a rede de apoio instalada. Ao passo que acende um farol sobre as concepções, estruturas e modos de administrar a Justiça no país, a política nacional de Justiça Restaurativa é uma iniciativa para fomentar o debate na sociedade, disputar a narrativa da lógica penalesca em detrimento de uma forma autocompositiva de lidar com con�itos. Tal política é viabilizada pela atuação dos Tribunais de Justiça, de forma alternativa ou concorrente ao processo convencional. O desa�o da normatização é imensurável. A Resolução n. 225/2016 do CNJ não faz restrição à aplicação da Justiça Restaurativa no âmbito dos Tribunais Estaduais ou Federais; em vez disso, respalda a implementação da Justiça Restaurativa não apenas em áreas nas quais já se tem experiências (como a Infância e Juventude infracional), mas também em áreas novas, em que não se dispõe ainda de experiências prévias (ex.: nas audiências de custódia). A normatização da Justiça Restaurativa se faz atenta à ine�cácia do sistema punitivo, que há muito se mostra como uma estratégia ine�caz no trato da violência. Ao contrário, um sistema caro e custoso, que não leva à responsabilização; não acolhe a vítima em suas necessidades; não proporciona de modo efetivo a reparação do dano sofrido e que, a médio e longo prazo, acaba por agravar a violência, reforçando a fragilidade de todos os envolvidos e o esgarçamento do tecido social. O empenho institucional em promover a capilarização social a respeito dos princípios de modelos consensuais de solução de con�itos é de extrema importância, haja vista a capacidade de convencimento dos setores da Justiça em razão da autoridade construída em torno das resoluções do Direito. Ora, se é este ‘o’ responsável por tratar as questões de dissenso, também seria o mais recomendado para propor novas saídas. O jurista e professor Álvaro Pires em seu texto “A Racionalidade Penal Moderna, o Público e os Direitos Humanos”, ao re�etir sobre o modo de pensar e de fazer em matéria penal, aponta características do ‘sistema de pensamento’ e da estrutura normativa da justiça penal” para criticar a relação causal crime-pena a�itiva. Em suas palavras: (...)estabiliza-se a suposição de que a sanção que a�rma a norma no direito penal deve ser estritamente negativa, de modo que entre o crime e a sanção deve haver uma identidade de natureza: uma vez que o crime é visto como um mal (de ação), a pena também deve ser concebida como um mal (de reação), buscando direta e intencionalmente produzir um mal para “apagar” o primeiro mal ou para efeito de dissuasão. (PIRES, 2004, p. 41-42). Quando o autor identi�ca uma persistência em valores seculares que conformam uma racionalidade penal moderna, está nos dizendo que há entraves na cultura que funcionam como verdadeiras barreiras à inovação nos métodos da justiça criminal. A partir do momento em que se descobre que a punição é vantajosa para os governos, formulam-se três razões para a obrigatoriedade da punição: uma necessidade prática (Beccaria), uma necessidade moral (Kant) e uma necessidade jurídica (Feuerbach). Achutti (2016, p.135) explica que tais discursos formam a razão punitiva moderna e revela a ideia de que “é preciso punir para ser e�caz, para respeitar a moral, para realizar o direito penal e, ademais, por preocupação com a igualdade” (PIRES, 1999, p.82, apud ACHUTTI Ibid). Nesses termos, não há justiça penal se não há punição severa. Um desa�o se apresenta: diante da expansão nacional da Justiça Restaurativa, será ela colonizada pelo sistema retributivo, pautando-se na �nalidade e esquecendo-se que é o processo que confere o status de retributivo ao método? Por esse ângulo, a lição de Achutti (2016, p. 125) sobre a Justiça Restaurativa em uma perspectiva abolicionista: (a) não pode virar uma presa do sistema penal, para evitar que seja relegada ao papel de mero suplemento expansionista do poder punitivo; (b) exige a adoção de uma nova linguagem para o seu funcionamento, para que não seja colonizada pelas práticas e pelas noções tradicionais de justiça criminal; (c) não faz uma distinção preliminar entre ilícitos civis e ilícitos penais, de forma a permitir que os envolvidos decidam a maneira pela qual administrarão a situação; (d) não deve se deixar dominar pelos pro�ssionais, sob pena de ser sugada pela indústria do controle do crime e pela lógica burocrática moderna; (e) deve refutar qualquer estereótipo sobre as partes, evitando a revitimização das vítimas e a estigmatização dos ofensores; (f) necessita ter o seu foco voltado para a satisfação das necessidades da vítima, do ofensor e das suas comunidades de apoio (communities care), a partir do envolvimento coletivo na responsabilização pelo atendimento das condições estipuladas em acordo eventualmente realizado; e (g) deve, fundamentalmente, estimular a participação ativa das partes na resolução de seus casos, para que decisão oriunda do encontro seja um produto das suas próprias propostas. Uma Justiça verdadeiramente restaurativa deve superar os obstáculos da racionalidade penal e seus valores, vencer as armadilhas da centralização do poder de resolução dos con�itos para revertê-lo para as mãos dos interessados, em uma perspectiva coletiva e comunitária de administração da realidade. III.5. E as condições de possibilidade? Problematizar a utilização de práticas restaurativas para a resolução de con�itos de gênero é fundamental, pois que os marcadores sociais de assimetrias de poder incidem entre as partes, de modo que o processo pode ser viciado se manipulado ou não guarnecido pelos já citados “�ltros de segurança”. É dizer: se o processo restaurativo não estiver profundamente atento para desconstruir nos limites possíveis estas assimetrias, pode se mostrar um colaborador da sobrevitimização da mulher. Mas atenção: não é prudente naturalizar este como um resultado fatalista, pois que procedimentos sérios devem ser manejados por pessoas sensíveis e que atuem na minimização desses marcadores. Desse modo, a literatura restauradora há de estar atenta e crítica aos possíveis riscos de processos pasteurizados com vícios de forma tão graves quanto os percebidos na justiça criminal tradicional. Igualmente, para evitar danos adicionais à vítima, a reconciliação não pode ser forçada. Isto é, se de um lado o modelo tradicional condiciona ao rompimento da relação entre as partes, tão equivocado seria se o modelo restaurativo tolhesse a vontade da vítima de se afastar e não manter mais contato com o infrator. Nos dois casos, a mulher é tratada como uma marionete e isto não é aceitável. Ademais, as questões referentes ao desequilíbrio de poder para mulheres vítimas nos processos restaurativos também precisam ser levadas em conta. Quer dizer, por mais que haja o esforço de se instituir nos espaços restaurativos a horizontalidade, a socialização daquelas pessoas autoriza certas manifestações que anunciam a possibilidade de controlar de um lado e conformar do outro. É dizer: a socialização não é isolada no momento em que se inicia o processo restaurativo, como se possível fosse criar uma barreira que separasse o que são as relações sociais e o que é o mundo para dentro das janelas restaurativas. A movimentação deve ser no sentido de reconhecer os desníveis presentes, seja no que toca ao gênero, à raça, à classe e reduzir ao mínimo toda orientação direcionada a denotar a hierarquização. As mulheres, em particular, podem enfrentar desvantagens práticas nos encontros vítima-ofensor que têm impacto sobre sua participação efetiva e, por conseguinte, podem desembocar em resultados injustos do processo. Grande preocupação feminista é esta: processos informais como os encontros restaurativos que possam gerar a perpetuação de desequilíbrios de poder e o reforço da subordinação de mulheres (e aqui acrescentamos: pauperizadas, negras) dentro de suasfamílias e comunidades. Assim, duas coisas devem coexistir: todas as partes com capacidade de participar efetivamente do processo e um equilíbrio de forças entre as partes. O poder, quem o tem, como ele é usado no contexto de processos informais de justiça é uma questão difícil e muito debatida. Os ambientes dos encontros restaurativos não são isentos das estruturas patriarcais persistentes na sociedade e nas famílias. A força da desvantagem que as mulheres podem sofrer em contextos de resolução informal de con�itos está diretamente relacionada a questões de poder relativas aos gêneros e seus atravessamentos (raça e classe) que afetam sua habilidade geral de defender efetivamente seus próprios interesses. Como resultado, é uma execração para muitas escritoras feministas, por exemplo, que a mediação seja usada em questões de violência doméstica e, contudo, passos de pesquisas caminham no sentido de que o potencial dos encontros restaurativos tem de criar um espaço para vozes feministas, disputar o poder na relação para destitui-lo e empoderar as vítimas de violência. A partir disso, imperioso elencar valores obrigatórios (BRAITHWAITE 2002 apud ACHUTTI, 2016, p. 70) cuja inobservância pode comprometer o caráter restaurativo dos encontros, a saber: (a) não dominação: toda tentativa de dominação deve ser contida pelas partes ou pelo mediador, caso contrário não mais será o procedimento considerado restaurativo; (b) empoderamento: atuação desimpedida e com possibilidade real de intervenção; (c) respeito aos limites: a decisão em nenhuma hipótese pode ultrapassar limites legais impostos ou do senso de solidário a ponto de ensejar uma humilhação; (d) escuta respeitosa: condição para equilíbrio na participação; (e) igualdade de preocupação pelos participantes: igualdade nas falas das partes; (f ) recorrer ao sistema de justiça criminal: reconhecer o direito das partes de submeterem acordo ao tribunal e, se assim, quiserem, optar por julgamento no sistema tradicional de justiça; É bem verdade, por assim dizer, que para compreender o controle feminino nas relações íntimas na realidade latino-americana é preciso entender o controle social punitivo além dos marcos institucionais, percebendo a dimensão parainstitucional no sistema penal, que se formata como um sistema paralelo caracterizado pelas condutas ilícitas de tortura, autos de resistência, execuções arbitrárias, por exemplo. O caráter subterrâneo desse sistema paralelo há de ser compreendido a partir da questão racial, principal mecanismo de poder nas sociedades colonizadas. Por não estar marcada, a branquitude tem o poder de ocultar processos que garantem seu domínio a partir da omissão da questão racial como o paradigma estruturante do controle social. E por que falar da branquitude? Porque a criminologia feminista, que emerge da década de 70, emerge sob o viés da branquitude e é locada nas lentes norte-americanas, de modo que a teorização iniciada que reivindicou o local do gênero nos estudos criminológicos negligenciou- por opção ou pelo véu da branquitude- a categoria racial. O processo de desumanização imposto às mulheres negras pelo racismo solapa as possibilidades de se reconhecer nesse segmento os atributos típicos da feminilidade, o que abre o espaço para penas públicas e privadas no controle social delas. Assim, é impraticável estudar o controle sobre as mulheres sem abordar o racismo ou abordá-lo sem reconhecer o papel que dos privilégios que grupos de não-negros cumprem. Isso, segundo Maria Aparecida Bento (2002), é sintoma do pacto narcísico, pois segundo a autora, há um acordo não-verbalizado entre brancos de não se perceberem como parte essencial no continuum das tensões raciais no Brasil (PIRES, 2017).52 O sistema de poder capitalista mundial está interseccionado estruturalmente pelos constructos centrais do gênero e da raça. Dessa forma, para captar a ampla gama de perspectivas que englobam as mulheres negras em diáspora, um feminismo diaspórico (HURTADO; FIGUEIROA, 2014) se faz necessário para envolver as lutas das mulheres que transcendem fronteiras atlânticas. Problematizando isso, Hillary Potter (2006) denuncia a necessidade de se �rmar um pensamento baseado nas experiências das mulheres negras enquanto grupo controlado pelo sistema penal. Esses apontamentos resultaram em pesquisa com mulheres negras vítimas de violência doméstica em comunidade norte-americana. Potter (2006) defende que a criminologia feminista negra deve se sustentar em quatro pontos: a) opressão estrutural sobre mulheres negras (classismo, sexismo, racismo); b) relação dessas mulheres com comunidade; c) relações íntimas; d) seus anseios enquanto indivíduos. Isso nos dá subsídio para entender que as relações que mulheres negras estabelecem com agências do sistema penal são bem mais complexas do que pode supor o feminismo hegemônico. Por isso, convocamos os criminólogos e criminólogas para a práxis afro- brasileira do quilombismo, invocada por Abdias do Nascimento como práxis de resistência e organização pela liberdade: “A revolução quilombista é fundamentalmente anti-racista, anticapitalista, anti-latifundiária, anti- imperialista e anti-neocolonialista” (NASCIMENTO, 2009, p. 214). É sobre isso a batalha das ideias. III.6. Para abolir uma linguagem-fronteira: uma linguagem-percurso como resposta-percurso Questionando os limites e trocando as lentes para fazer analogias das contaminações sociais, Salete Oliveira analisa o abolicionismo a partir do que nomeia de fronteira-representação, dividida em quatro movimentos: a peste; a lógica da representação do sistema penal; a disputa na hierarquia pela fala do outro; a ruína da representação. A peste, como aquilo que desordena, (...)transgride a fronteira-moral. A peste demole representações. Explicita, entre outras coisas, até mesmo a construção arbitrária da própria fronteira jurídico-política. A peste pica a ideia do contrato que nunca existiu, a peste coloca a nu e a cru a estultice da crença na obediência à lei. (OLIVEIRA, 2012, p. 118) Para conter a doença indisciplinar, a solução-fronteira foi o aprisionamento moderno, a fronteira-prisão, a prisão-fronteira. A ideia da fronteira como separação, exclusão, divisão, distância, revela a natureza das respostas direcionadas às transgressões. O desconhecimento da base social das situações problemáticas etiquetadas como crime pode ser explicado em parte pela ideia de ordem como paradigma para compreensão do fenômeno crime. A partir disso, toda situação problemática é uma desordem, põe em risco a harmonia social e compromete o ideal autoritário e fundante de ordem (ordem para o progresso). A desordem age, assim, como uma peste a causar uma contaminação ideológica e demandar a reclusão ou a eliminação dos agentes contaminados. Salete de Oliveira (2012, p. 119) formula, nesse sentido, como quem crava unhas na presa: Através dos dispositivos disciplinares se lê o terror dos ‘contágios’, da peste, das revoltas, dos crimes, da vagabundagem, das deserções, das pessoas que aparecem e desaparecem, vivem e morrem na desordem. (...) A divisão constante do normal e do anormal a que todo indivíduo é submetido, leva até nós, e aplicando-os a objetos totalmente diversos, a marcação binária e o exílio dos leprosos; a existência de todo um conjunto de técnicas e de instituições que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os anormais, faz funcionar os dispositivos disciplinares que o medo da peste chamava. Os mecanismos de poder, segundo tal analogia, derivam, pois, do medo do contágio com a desordem ou com o que adoece o corpo (a falta de moral, a raça, a pobreza), tendo a ordem a função de responder ao designar para cada um seu lugar, seu direito de vida e seu destino de morte, isto é, o anormal ou é marcado ou é modi�cado. Para a autora (Idem), o aprisionamento moderno é apenas uma das formas que a vontade do poder de punir pode assumir. Interessapontuar o efeito preciso da racionalidade da fronteira-prisão: a construção do medo do contágio que se desdobra na necessidade da imagem do medo que a prisão vem realizar por intermédio da transparência. A prisão é a imagem do medo, o medo do calabouço, o medo de quem a “habita”, o medo... Como bem sabemos, a gramática punitiva também é operada para produzir distâncias, funcionar na oratória das cortes, das decisões jurídicas e na burocracia das instituições. A “cidade letrada” do Direito é habitada por vendilhões da norma culta que não comunica as massas, compartilham com seus pares o seu direito de falar para quem consegue ouvir. A “fronteira- gramática” encarcera a todos no interior de sua sintaxe, aprisionados na língua que comunica uma imagem de perigo e legitima a aplicação da pena. A fronteira linguística cumpre a função de estigmatizar e distanciar a fala jurídica da compreensão das pessoas; as palavras do discurso penal são fronteiras. A linguagem abolicionista é por princípio diferente, se pretende uma “resposta-percurso”, compreende o valor do processo de desconstrução da lógica dada, mas não está �rme em modelos prontos. Nas palavras da cientista social: O abolicionismo arruína linguagens-fronteira e inventa linguagens-percurso ao se dispor a extinguir limites racionalmente demarcados ou expressões irracionais desta racionalidade que investe em vontade de verdade de punir. O abolicionismo, também, é a peste. (Idem, p. 130) Deixando de lado o automatismo da subsunção do fato à norma e atentos para o fato de que o sistema penal é uma construção social53 e para a miséria da prisão rumo a uma ditadura dos pobres, Loic Wacquant (1999) apresenta contribuições valiosas para entender a conexão do projeto neoliberal com o grande encarceramento. O autor francês diz que a penalidade neoliberal está sitiada em um paradoxo: objetiva corrigir com ‘mais Estado’ policial e penitenciário o ‘menos Estado’ econômico e social que é a própria causa da escalada da insegurança objetiva e subjetiva nos países do mundo em geral. Traz a re�exão para o caso brasileiro: (...) a insegurança criminal no Brasil tem a particularidade de não ser atenuada, mas nitidamente agravada pela intervenção das forças da ordem. O uso rotineiro da violência letal pela polícia militar e o recurso habitual à tortura por parte da polícia civil, as execuções sumárias e os ‘desaparecimentos’ inexplicados geram um clima de terror entre as classes populares, que são seu alvo, e banalizam a brutalidade no seio do Estado. (...) Essa violência policial se inscreve em uma tradição nacional multissecular de controle dos miseráveis pela força, tradição oriunda da escravidão e dos con�itos agrários, que se viu fortalecida duas décadas de ditadura militar, quando a luta contra a ‘subversão interna’ se disfarçou em repressão aos delinquentes. (WACQUANT, 1999, p. 5) Essa tradição secular de penalizar a miséria signi�ca invisibilizar o problema racial e �rmar a dominação sobres os (as) negros(as) a partir de um aval do Estado. Conclui que: Em tais condições, desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas pela desregulamentação da economia, pela dessocialização do trabalho assalariado e pela pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano, aumentando os meios, a amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial e judiciário, equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres. (Idem, p. 6) A ditadura aos pobres se vale da prisão como fábrica da miséria, do bom proletário, do bom pobre, do homem disciplinado pela força. A despeito do Estado neoliberal, a urgência é lutar contra a pobreza e desigualdade que alimentam a insegurança social, impelem ao crime e normatiza a economia informal predatória. A respeito disso, a leitura cirúrgica do sociólogo: Máquina varredora da precariedade, a instituição carcerária não se contenta em recolher e armazenar os (sub)proletários tidos como inúteis, indesejáveis ou perigosos, e, assim, ocultar a miséria e neutralizar seus efeitos mais disruptivos: esquece-se frequentemente que ela própria contribui ativamente para estender e perenizar a insegurança e o desamparo sociais que a alimentam e lhe servem de caução. Instituição total concebida para os pobres, meio criminógeno e desculturalizante moldado pelo imperativo( e o fantasma) da segurança, a prisão não pode senão empobrecer aqueles que lhe são con�ados e seus próximos, despojando-os um pouco mais dos magros recursos de que dispõem quando nela ingressam, obliterando sob a etiqueta infamante de ‘penitenciário’ todos os atributos suscetíveis de lhes conferir uma identidade social reconhecida (como �lho, marido, pai, assalariado ou desempregado, doente, etc), e lançando-os na espiral da pauperização penal, face oculta da ‘política social’ do Estado para com os mais pobres, que vem em seguida naturalizar o discurso inesgotável sobre a reincidência e sobre a necessidade de endurecer os regimes de detenção, até que �nalmente se comprovem dissuasivos.(Idem, p. 94)(grifos nossos) A face oculta da política penal produz efeitos espirais justi�cadores da manutenção desta maquinaria: quando o sistema penal desumaniza, pauperiza, produz a subjetividade criminosa, a prisão se relegitima, ganha sentido. Por ser assim, essencial reivindicar uma política de esquerda que destitua essa ordem classista e provenha os direitos fundamentais antes de priorizar ação pública de segurança disfarçada de justiça social. Uma política criminal de esquerda passa necessariamente por um projeto democrático e popular de segurança pública, livre das armadilhas que este conceito apresenta. Recriar a liberdade para se libertar das consequências funestas do encarceramento é reconhecer: o estado apavorante das prisões do país, que se parecem mais com campos de concentração para pobres, ou com empresas públicas de depósito industrial dos dejetos sociais, do que com instituições judiciárias servindo para alguma função penalógica- dissuasão, neutralização ou reinserção. (Idem, p. 7) A população carcerária re�ete, portanto, o capitalismo global e como esse sistema negligencia as necessidades humanas. Os novos condenados da terra não têm acesso à moradia, educação, saúde ou qualquer outro serviço que seja necessário para a sobrevivência. A rede carcerária mundial constitui um vasto depósito onde pessoas que apresentam perigo ou não servem mais para os interesses do sistema são descartadas como lixo. Aquelas tidas como as menos importantes são as pessoas negras, do sul global, de origens étnicas não-brancas. Ao levantar a bandeira por um feminismo abolicionista no lugar do feminismo carcerário, Angela Davis (2017) convoca para um feminismo negro e decolonial que vá até a raiz dos problemas. Essa orientação permite à �lósofa re�etir a respeito da violência doméstica em conexão com a violência de Estado e institucional. Esta re�exão nos é muito cara, pois que toca no ponto nevrálgico quando se discute violência sexista e emancipação das mulheres. Frequentemente, reagimos a esta violência como se não tivesse relação com as violências que estruturam as relações sociais (pelas instituições do Estado patriarcal, capitalista e racista). Vejamos: se as taxas de violência sexista são mais comuns- ou mais noti�cadas- nas frações sociais mais pauperizadas, homens negros/não- negros/pobres passam a estar na mira do controle social/penal. Davis (2017) questiona: Nós precisamos nos perguntar qual é a fonte dessa violência que prejudica e fere tantas mulheres negras. Qual é a relação dessa violência com a violência policial e do sistema carcerário? Se essa violência do indivíduo está conectada com a violência institucional e do estado, isso signi�ca que não conseguiremos erradicar a violência doméstica enviando aqueles que a praticam ao sistema carcerário. Se desejamos erradicar as formas mais endêmicas de violência do indivíduo da faceda Terra, então devemos eliminar também as fontes institucionais de violência. Este é o chamado para a abolição do encarceramento como a forma dominante de punição para pensarmos novas formas de abordagem para aqueles que são violentados. Este é o chamado do feminismo negro para formas de justiça decoloniais.54 (grifos nossos) Enfrentar, portanto, a questão de dentro da trincheira é assumir a posição de cautela com a contradição de o sistema penal ser acionado por nossas demandas feministas, usadas como peças “poderosas na retórica legitimadora da guerra, que se impõe no aniquilamento de mais vidas num desses rincões descartáveis pelo mundo afora” (FLAUZINA, 2016, p.97). Quer dizer, quando a questão político-econômica da punição vislumbra interesse pelo discurso social de proteção aos direitos humanos das mulheres, o protesto feminino passa a estar na agenda do Estado. Ora, nosso papel é descon�ar das conquistas que vêm embaladas na lógica capital- patriarcal-racial. Não por acaso, o resultado desta movimentação é a maior carcerização dos homens negros em nome do feminismo bélico (FLAUZINA,2016) com um acúmulo de forças do sistema penal. A classe e a raça seguem como pressupostos da criminalização, só que atualizados por uma so�sticação do discurso que autoriza o controle, o discurso em nome da proteção das mulheres. Que proteção? Da política penal. Se o per�l dos agressores é de homens negros das classes populares, pensando através da ideia do estigma que se estende da �gura do condenado para os seus próximos, há, portanto, uma pena imposta às mulheres acoplada diretamente à dinâmica do encarceramento masculino. (...) A punição dos homens prevê, assim, uma punição complementar às mulheres, condenadas pelo delito de serem a eles conectadas, de fazerem parte da mesma comunidade abjeta situada nos contornos da negritude. (FLAUZINA 2016, p. 100) Se sabemos ser a justiça penal o instrumento mais a�ado no fomento do genocídio desenhado para a desarticulação dos povos negros, a quem está servindo nossa rebeldia discursiva? Quer dizer, o discurso feminista bélico atende a quem? Queremos uma intervenção radical em nome da democratização da relação entre homens e mulheres, exigimos responsabilização, mas não punição, por ser esta o dispositivo principal de nossas tragédias. A partir do momento em que a proposta é se afastar ao máximo das práticas enraizadas pelos signos opressores, temos de formular quais as condições de ruptura do pacto patriarcal, capitalista e racista. Como aparelhar a crítica à forma penal de tratar os desvios a partir de uma criminologia da libertação de todos e todas? Se superamos as armadilhas que o direito penal tem construído nas bases do protesto das mulheres para reconhecer a necessidade de um protesto feminista-negro-popular, entendemos que o projeto penal é �lho do projeto colonial, carrega seus signos binários/excludentes e só merece ser pensado a partir das suas ruínas. Devemos também identi�car as emboscadas da institucionalidade jurídica que se esgota em si mesma, essa encruzilhada liberal de que o con�ito se resolve só com mediador na justiça, isto é, centralizado pelo Direito. Para fazermos o giro decolonial, havemos de fazer uma reversão à comunidade por entende-la na grande potencialidade de gerar iniciativas mais humanas, menos hostis e mais distantes da “doença infantil” do feminismo carcerário. É disso que se trata: perceber as interferências diretas de uma política punitiva/carcerária contra os homens agressores para o aumento do encarceramento dos clientes do direito penal: homens, jovens e pobres, reproduzindo um feminismo do inimigo e contribuindo para as mortes em vida do povo negro patrocinadas pela necropolítica (MBEMBE, 2016) do Estado. Reconhecer no cárcere e no sistema policial estruturas racistas/classistas é fundamental para avaliar por qual política criminal devemos lutar: anticapitalista, antirracista, antipatriarcal e, consequentemente, verdadeiramente feminista. Nossa liberdade não será plena se condicionada às permanências racistas das formas modernas de escravidão, em que o cárcere �gura como a mais re�nada delas. 42 Fala na III Conferência Mundial contra o racismo, xenofobia e formas correlatas de intolerância. 43 Entrevista registrada em artigo sobre os 10 anos da Lei da Maria da Penha, realizada pela repórter Rute Pina (2016) para o site Brasil de Fato. 44 “Art. 7º. São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I – a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II – a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto- estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III – a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV – a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que con�gure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V – a violência moral, entendida como qualquer conduta que con�gure calúnia, difamação ou injúria.” (Grifos nossos) 45 Inspiração do livro de contos de Conceição Evaristo intitulado Insubmissas lágrimas de mulheres, no qual a escritora narra as subjetividades e identidades de muitas mulheres negras, unidas pelo elo dos afetos e dores. 46 O uso do termo aqui é intencional, pois que a crítica deste ponto é ao direito compreendido como máquina, os juristas como donos da fábrica e os jurisdicionados como operários, explorado e alienados ao mesmo tempo. 47 Para aprofundar, ver : ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Lafonte, 2012. 48 As discussões a seguir devem muito a uma compilação de trabalhos publicados da criminóloga espanhola Elena Larrauri, em razão de sua dedicação ao tema da mulher perante o direito penal. 49 A criminologia crítica acumulou que nem todos os delitos são causados pela pobreza; que ricos também delinquem, haja vista os crimes de colarinho-branco; a pobreza pode estar presente, mas há outros fatores que podem ser determinantes; o valor da igualdade deve ser buscado e pode colaborar em muito para redução da criminalidade, mas em sociedades sem classes também pode haver muitos delitos. 50 Despenalizadoras não quer dizer a não aplicação de pena, mas a não aplicação da medida de privação e liberdade. 51 A escolha dos dados da cidade de Recife-PE para exempli�car foi feita sem critério objetivo pré- estabelecido, pois que percebemos que, com particularidades de cada lugar, escolaridade e ocupações obedecem a um padrão. 52 À branquitude tipicamente produzida aqui, Guerreiro Ramos (1995) chama de patologia social do branco brasileiro. 53 Hulsman alerta para o fato de que uma sociedade sem penas já existe entre nós. Como explicar a solução dos con�itos que não são enredados pelo sistema penal, se o número dos que caem nesta malha é in�nitamente menor do que o dos resolvidos fora dela? 54 Conferênciamagna de Angela Davis realizada na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia 25.07.2017, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, e intitulada “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”. IV. CONCLUSÃO Não nos damos com teus demônios Decapitamos o teu capeta Decapitaremos o teu capitão Decapitaremos o teu capa preta Decapitaremos o teu capataz. (Alá�a) Nem segregação intramuros nem diluição no universal. Não há perdimentos nesse processo, há encontros dialéticos com a ideia de sujeito- mercadoria, coisi�cado e usado como moeda de troca na história do racismo, que também é a história do capitalismo, a história de seres esmagados pela colonização e seus processos legitimadores violentos. O racismo é uma racionalidade que atua política, econômica e objetivamente na estruturação das relações sociais, seja na violência estrutural do projeto genocida de Estado que promove uma política penal de extermínio da juventude negra, seja nos deslocamentos forçados desde as rotas do Atlântico, seja na subalternização econômica pós-falsa-abolição, seja na negação de pertencimento, de humanidade, no apagamento subjetivo e cultural dos povos em diáspora. Entendendo que o racismo é uma ferramenta dotada de materialidade e historicidade, atravessado pelo sexismo e pelo esteio capitalista, um enfrentamento capaz de desestabilizar as estruturas nas quais estes mecanismos operam demanda uma ação organizada de disputa de espaços negados e da produção de conhecimento. Se estivemos, como disse Lélia Gonzalez, na lata de lixo da sociedade brasileira, aqui, neste espaço aberto, cavado com unhas e dentes, o lixo fala, o lixo produz e o lixo transforma-se em matéria-prima para a vida. Negro(a)-vida, negro(a)-poema, negro(a) é a nossa consciência. E, por sê- la, questiona os lugares reservados pela branquitude, que enxergam as violências sem racializá-las, descontextualizadas de nossa formação social brasileira. Neste sentido, a proposta deste trabalho foi descolonizar olhares, trocar e re�nar o grau de lentes para uma dimensão de totalidade do fenômeno social da punição como resposta aos crimes, especi�camente os de orientação de gênero. Se sabemos que a expropriação de rendimentos e vidas negras pelo capital é uma ordem histórica, patrocinada pelos sistemas penais, não podemos cair no canto da sereia de pensá-los revolucionários quando incorporam demandas legais de proteção aos direitos das mulheres. O direito penal desmisti�cado e deslegitimado por suas funções declaradas não atingidas na prática, não pode ser relegitimado pelo toque punitivo feminista. O feminismo antirracista, antipatriarcal e anticapitalista compreende a contradição de disputar a emancipação das mulheres à custa do patrocínio ao continuum do encarceramento em massa de homens negros. A punição estrutural é lida como método de disciplinamento/controle social baseada na tensão dialética que consiste na liberdade de alguns amparada na exclusão e no controle seletivo de outros. Os presos de agora também são presos políticos, pois que contrariaram a lógica do sistema: são de uma subclasse- empregados proletários ou desempregados-, negros(as), não geram lucro para a economia, estão nos grupos bene�ciários da previdência. É assim que concluímos sobre a função ideológica do encarceramento, que é formar o sujeito servil e alienado, estranho à sua realidade anterior ao aprisionamento, ao assimilar os valores ensinados como úteis para a sociedade fora do cárcere como ser bom trabalhador, produtor de riqueza e não contestador dos ditames do Estado, pois que compreende a hierarquia a que está subordinado, entende agora seu lugar no mundo do capital, aceita esta posição ao receber a parte que lhe cabe como não-proprietário do “latifúndio”. O aprisionamento como solução da con�itividade social é expressão máxima de indignidade. Com a abolição da escravidão, os negros deixaram de ser escravos, mas imediatamente se tornaram criminosos e, como criminosos, tornaram-se escravos do Estado. Diante dessas consequências funestas do império das prisões, a crítica abolicionista veio acompanhada da proposta restaurativa como saída alternativa para lidar com os casos de violência contra a mulher, na contramão do ascenso do feminismo punitivo, que reproduz a condição de inimigo nos homens agressores, se esquecendo que a maioria deles são membros racializados das classes populares. Se sabemos ser a justiça penal o instrumento mais a�ado no fomento do genocídio desenhado para a desarticulação dos povos negros, a quem está servindo nossa rebeldia discursiva? Quer dizer, o discurso feminista punitivo atende a quem? Queremos uma intervenção radical em nome da democratização da relação entre homens e mulheres, exigimos responsabilização, mas não punição, por ser esta o dispositivo principal de nossas tragédias. Estivemos na encruzilhada da questão, no grande nó formado pela contradição em defender a pauta feminista da vida e proteção das mulheres e patrocinar, pelo discurso autorizado do enrijecimento penal na tratativa dos casos de violência doméstica, o dispositivo responsável por nossas piores tragédias: o genocídio físico, cultural e simbólico do povo negro, representado pelo aprisionamento de homens de baixa escolaridade, empregos informais, pretos e pardos em sua maioria. Um alerta �ca: Como nossos discursos incendiários podem ser moldados para o conservadorismo? Como a agenda feminista tem sido acionada como retórica poderosa para legitimar a guerra, a política de cerco e aniquilamento das vidas indesejadas? Seria o feminismo o mais novo braço armado do Estado penal? Pela fala das mulheres, pelas expectativas depositadas na judicialização de seus con�itos, percebemos ser a proteção e a interrupção do ciclo da violência o desejo central, de modo a requererem mais do sistema penal medidas protetivas e acompanhamento por equipe multidisciplinar do que a prisão de seus companheiros/ex-companheiros. A voz das mulheres foi fundamental para honrar a ideia da Justiça Restaurativa de reversão à comunidade e empoderamento das partes envolvidas. Romper o pacto patriarcal é o anseio dessas mulheres em con�ito e as condições de rompimento deste pacto não passam pela seletividade penal e por um processo que invisibiliza suas narrativas, homogeiniza suas subjetividades e revitimiza-as pelas violências simbólicas. Enunciar dores, anunciar cores e valores envolvidos foi a nossa tarefa de falar de dentro da trincheira, transformar os silêncios em linguagem de ação. Nossa voz veio falar com outras muitas mulheres, sendo em si mesmo este ato uma resistência ao epistemicídio dos muros acadêmicos. A arte de mostrar-se pela escrita é como um grande sol, de pernas longas para caminhar sem medo. Nossas estórias são riscadas no chão, na página-chão da realidade, no movimento-gra�a, levando nossas urgências de vida para as palavras ditas. Nossa escrita é comprometida com o(as) sujeitos(as) coletivos(as). É como nos conta Conceição Evaristo (2005, p.21): E, em se tratando de um ato empreendido por mulheres negras, que historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação. Insubordinação que pode se evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere “as normas cultas” da língua, caso exemplar o de Carolina Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria narrada. A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da casa grande” e sim para incomodá-los em seus sonos injustos. (Grifos nossos) Incomodar o patriarcado capitalista-racista de seus sonos tranquilos foi a nossa motivação. Como diz a música atômica do maracatu, “o homem coletivo sente a necessidade de lutar; o orgulho, a arrogância, a glória enche a imaginação de domínio. São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade.”55 Viva Dandara,viva Luisa Mahin, Tereza de Benguela, Aqualtune, Maria Felipa, panteras negras, todas as bruxas queimadas, quilombolas. Eu tenho certeza: elas também lutaram um dia. 55 SCIENCE, Chico. Monólogo Ao Pé De Ouvido. Intérprete: Chico Science e nação zumbi. In: Da lama ao caos. São Paulo: Chaos, 1994. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACHUTTI, Daniel. Justiça restaurativa e abolicionismo penal: contribuições para um novo modelo de administração de con�itos no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2016. ADORNO, �eodor W., HORKHEIMER, Max. 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