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Este trabalho foi escrito entre os anos 2016-2018, período
que o Brasil sofreu o golpe jurídico-parlamentar-midiático
que depôs a primeira mulher presidenta do país e,
posteriormente, condenou ilegalmente o primeiro operário
nordestino a ocupar a presidência da República.
Em 2018, a jovem democracia completaria 30 anos, mas
foi alvejada de morte no “estado de exceção” instalado, em
que o Direito foi suspenso e reinou a arbitrariedade dos
imperialistas.
Os condenados do Sul do mundo lutam não só por uma
segunda abolição, como também por uma segunda
democracia, erigida pelo povo e para o povo.
Dedico, portanto, este trabalho ao povo brasileiro, herdeiro
direto dos povos originários, que, organizados em defesa dos
sonhos de muitos, se levantou em massa e fez dos tempos
sombrios longas primaveras de luta. Viva esta brava gente!
AGRADECIMENTOS
“Minha primeira lembrança de felicidade, quando era uma pirralha magrela e
desgrenhada, é a de mexer ao som dos tambores...A música é um vento levado pelos
anos, pelas lembranças e pelo temor, esse animal preso que carrego dentro de mim. (...)
Dance, dance, Zarité, porque escravo que dança é livre...enquanto dança. Eu sempre
dancei.” 1
Nesta dança de libertação da mente dos processos violentos de
colonização e epistemicídio, há muitos braços que nos empurram para
frente e encorajam a ocupação de espaços como esse.
Agradeço primeiramente à minha família, em nome de meus pais,
irmão e primas. Ao meu pai, por me entregar todo o apoio possível para
seguir caminhando a passos largos, por ser a razão negra que conheço
desde menina; à minha mãe, pela presença constante e amor cuidadoso; ao
meu irmão, pelo companheirismo; às minhas primas Larissa e Natália, pela
irmandade doce e amiga.
Agradeço à minha orientadora Vanessa Berner, por aceitar entrar
nesta jornada comigo, pelo acolhimento de portas abertas e por me propor
lentes decoloniais durante o mestrado da UFRJ.
À Riccardo Cappi, eterno orientador amado, por me apresentar a
criminologia crítica, por brincar com minhas certezas, por nos fazer rebeldes
contra a violência penal e pelo suporte fundamental desde as primeiras
inquietações até o produto �nal desta pesquisa.
Às professoras Marília Montenegro, Fernanda Rosenblatt e Carolina
Salazar gratidão pela oportunidade de acompanhar a pesquisa “Entre
práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e
desa�os do Poder Judiciário”.
À CAPES, pela bolsa concedida que garantiu a exequibilidade deste
trabalho.
À Marcha Mundial das Mulheres, especialmente ao núcleo Rosa dos
Ventos, por me colocar em movimento orientada pelo feminismo popular.
À Consulta Popular como um todo, mas especialmente à do Rio de
Janeiro, por me inserir nas lutas gerais do povo na construção permanente
de um mundo novo. Grata pela solidariedade e pelas jangadas de esperança
saídas para o mar.
Agradeço, por �m, aos negros e negras em diáspora, pela chama que
queima na busca por sobrevivência e luta pela liberdade plena, por
operarem em mim esta força ancestral e adoçarem a memória dos tempos
de resistência de ontem que inspiram a resistência de hoje.
1 ALLENDE, Isabel. A ilha sob o mar (1942). Tradução Ernani Só. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2010.
APRESENTAÇÃO
Bebo da poética das mulheres que pisam o chão descalças, sentem as
pedras, a terra, suportam as estações e atravessam os tempos da história.
Assim como Conceição Evaristo (2009, p.18) se vê no ato de transmitir a
fala, “quando escrevo, quando invento, quando crio a minha �cção, não me
desvencilho de um ‘corpo-mulher-negra em vivência’ e que, por ser esse ‘o
meu corpo, e não outro’, vivi e vivo experiências que um corpo não negro,
não mulher, jamais experimenta”.
Assim também me sinto e vejo no processo de interpretar o mundo,
pisar nele e caminhar para transformá-lo, trilhos estes que não escolhi, mas
me escolheram. Não sou mulher, sou mulheres. Minha consciência é plural,
assim como meu sujeito. Carnes fatigadas, léguas e léguas de preterimentos,
invisibilizações e silenciamentos. Carnes baratas do mercado ardem e
exibem a fúria dos povos espoliados na hora da verdade: nesta terra em
transe, nossa loucura é nossa consciência e está aqui na luta, na resistência.
É um tempo de guerra. Mas outrora representou paz para quem? A
luta de classes é uma guerra constante e sentencia à morte os deserdados
desde o seu princípio. É a partir deste sertão de corpos de mulheres,
negros(as) e pobres empilhados que vou doar minha voz latina para
compreender o funcionamento penal de estigmatização e aniquilamento
com as populações marginais.
Para entender a tônica das relações sociais no Brasil, urge
compreender como operou a violência outrora colonial e, agora,
capitalista/patriarcal/racista. Este mapeamento nos remete aos processos
históricos de dominação e subalternização, orientados pelo projeto da
modernidade a partir do eurocentrismo e dos mitos fundacionais de
superioridade e inferioridade. Os dispositivos de poder e de ‘invenção do
outro’ a partir da lógica binária/excludente, fruto da racionalidade
moderna, foram fundamentados pela ideia de raça e �zeram da América
Latina um lugar de extração, seja de riquezas, seja da vida dos povos.
Essas vidas são extraídas, dentre muitas formas, pelo extermínio físico,
pela coisi�cação, pela exploração do trabalho ou, através da pena por
excelência do capitalismo, o encarceramento. A prisão reúne muitas formas
de apagamento, representa a modernização das tecnologias punitivas que
impõe novas roupagens, mas continua expressando que “a carne mais
barata do mercado é a carne negra” (salve Elza Soares!) e pauperizada. As
permanências autoritárias e racistas no continuum punitivo e na maneira de
atuar do sistema penal atualizam as formas de encarceramento: o
aprisionamento pela raça, pela classe, pelo gênero.
O sistema penal se caracteriza por uma e�cácia instrumental invertida
em que a função real não é combater (reduzir ou eliminar) a criminalidade,
protegendo bens jurídicos universais e gerando segurança pública e
jurídica, mas, ao invés, construi-la seletiva e estigmatizantemente, e neste
processo reproduzir, material e ideologicamente, as desigualdades e
assimetrias sociais de gênero, raça e classe.
A ine�cácia do sistema penal é sentida também no âmbito de proteção
das mulheres contra a violência, porque não previne novas violências, não
escuta os distintos interesses das vítimas, não contribui para a compreensão
do signi�cado da violência para gestão do con�ito, e muito menos para a
transformação das relações de gênero. Assim, é estruturalmente incapaz de
oferecer alguma proteção à mulher e responde com o castigo,
desigualmente distribuído e não cumpre as funções preventivas
(intimidatória e reabilitadora) que se lhe atribuem.
O avanço do capitalismo neoliberal aprofunda contradições sociais
estruturais e re�na seus instrumentos de controle da vida das mulheres,
seja pela condução natural do acirramento da luta de classes, personi�cada
na dinâmica conservadora estampada nos interesses político-econômico-
ideológicos, seja pelo lugar conferido ao Direito nesta lógica espoliativa: o
de fortalecer uma política de gênero violenta.
Para tentar sanar esta incapacidade protetiva, preventiva e resolutória
dos crimes de gênero é que nos associamos àqueles e àquelas que
defendem a multiplicação da prática da Justiça Restaurativa, pois que é
processo participativo, democrático e formativo.
A prática restaurativa foge à didática operacional do castigo como
resposta reparadora ao crime, confronta a justiça penal tradicional a
começar pela concepção de justiça e crime a partir da criminologia crítica,
principalmente de quem é o criminoso e quem é a vítima, bem como da
falência do sistema penal a partir das bases do abolicionismo penal,
deslocando o senso comum teórico2 para a subjetividade por detrás do
con�ito.
É um Direito do encontro e do consenso, e não da força sancionatória,uma vez que foca na restauração das relações intersubjetivas e comunitárias
afetadas pelo crime, na solução do con�ito, na reparação dos danos e dos
traumas, na satisfação das partes (vítimas, infrator e comunidade). Forma
de devolver o con�ito antes apropriado pelo Estado aos verdadeiros
protagonistas, confere elemento participativo e democrático ao modelo
restaurativo e descontrói uma ideia de justiça da ordem para uma justiça
horizontal do debate.
No entanto, sabemos que a ideologia sexista, classista e racista
instrumentaliza os modos de agir nas relações materiais, consolidando
direta ou indiretamente sistemas de dominação- exploração. Por ser assim,
a questão que se coloca é: quais as condições de possibilidade de se realizar
um procedimento restaurativo, fundado na igualdade, paridade e
horizontalidade se entre as partes envolvidas já existe um poder
hierarquizado pré-estabelecido socialmente pela ideologia de classe, gênero
e raça?
O patriarcado é associado ao capitalismo e ao racismo como fontes
formais e materiais de produção de consenso opressor. Nesse sentido, foram
analisadas as opressões através da transversalidade em que incorrem
nos(as) sujeitos(as), pensando-as como um nó, na medida em que atuam
conjuntamente e aprofundam a objeti�cação dos indivíduos, ao tempo em
que demarcam que a violência é declarada, mas também simbólica e
travestida nos discursos e modos de agir dentro e fora do sistema.
Transdisciplinar por excelência, o tema da violência sexista focado na
violência doméstica transita entre as categorias citadas, mas está �rmado na
perspectiva de gênero e, portanto, da criminologia feminista. O sistema
penal androcêntrico é contestado a partir das respostas dadas aos con�itos,
de modo que entre as funções não-declaradas do sistema penal está a
revitimização das mulheres submetidas ao processo penal.
Da imersão nos modos de produção como bases para organizar a
opressão de raça/classe/gênero, denúncia de morte em vida provocada pela
operatividade do sistema penal à crítica da crítica com a Justiça
Restaurativa, este trabalho como toda orientação marxista, é matéria em
movimento, é processo e será construído com as lentes menos colonizadas
que possível for.
A pesquisa se pretende enquanto processo coletivo e instrumento da e
para a luta feminista e abolicionista, afastando o fetichismo normativo
achado na lei para rea�rmar o direito achado nas ruas, revertido a uma
orientação comunitária e de pés �rmes contra a violência travestida de
justiça social.
Portanto, este é um pontapé para avançar no debate criminológico
crítico a respeito da violência doméstica com uma perspectiva feminista
abolicionista, por sabermos das nuances sutis da contradição em defender
as vidas das mulheres ao custo do aprisionamento de homens
subalternizados na sociedade a ponto de contribuir para o apagamento
simbólico das comunidades negras. Não nos isentamos, todavia, de fazer a
crítica da crítica, analisando as condições de possibilidade da execução das
práticas restaurativas dadas as peculiaridades brasileiras.
Os homens e mulheres alienados do processo espoliativo das
sociedades do Sul global transformados em bagaço (sem desfrutar do suco
do capital) fazem parte da história da gente que virou suco3 e também da
gente que constata esse contínuo esmagar de pessoas, essa estrutura que
rouba a dignidade humana.
A dissertação é, portanto, a história da mulher e do homem que não
querem virar suco, que se opõem à pasteurização de suas vidas, que lutam
contra a constante opressão sofrida, desde o depósito em porões da miséria,
até a violência do Direito que não nota sua presença, não distingue sua
diferença e o(a) marginaliza, condenando-o(a) a um crime que nunca
cometera. Este sujeito da história, que se apropria de sua consciência de
classe, deixa de ser mais um(a) de vida severina para transformar as secas
vidas do povo.
2 Warat, L.A – Saber crítico e o senso comum teórico dos juristas. Revista Sequência, 1982.
3 Referência ao �lme “O homem que virou suco”, de 1981, dirigido por João Batista de Andrade, que
conta a estória de um poeta nordestino confundido com um assassino e criminalizado. É uma
sátira do capitalismo e sua mão nada invisível para punir os pobres.
SUMÁRIO
Capa
Folha de Rosto
Créditos
I. O MUNDO COLONIAL NÃO SUPLANTADO: A VIOLÊNCIA
CAPITALISTA-PATRIARCAL-RACISTA
I.1. O fetiche da colonialidade: “eis que me descubro
objeto em meio a outros objetos”4
I.2. Escravismo, colonização e capitalismo dependente
I.3. “A morte reiterada na vida e a vida que habita a
máscara da morte”: das mortes em vida do negro
I.4. Desatar os nós
I.5. Amandla Awethu20: negros(as) do mundo,
aquilombai-vos!
II. ABOLICIONISMO PENAL E APONTAMENTOS TEÓRICOS
SOBRE JUSTIÇA RESTAURATIVA SOB A PERSPECTIVA
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FEMINISTA
II.1. Punição estrutural: a laranja mecânica23 do dia a dia
II.2. A parte que lhe cabe neste latifúndio: a fábrica do
cárcere
II.3. Em busca das promessas perdidas30: o direito penal
desmisti�cado
II.4. “Todo camburão tem um pouco de navio
negreiro”31
II.5. A caminho do horizonte estratégico: as propostas
abolicionistas
II.6. “Em que meu olhar permite ver as coisas?”39:
trocando as lentes
III. NOVAS SENTENÇAS, VELHOS CATIVEIROS, VELHOS
PERSEGUIDOS
III.1. Estado da arte da violência contra mulheres no Brasil
III.2. Introduzindo a pesquisa-paradigma e a lei de Marias
III.3. Potencialidades e riscos da justiça restaurativa em
casos de violência doméstica no Brasil
III.4. O gênero da violência e a crítica da criminologia48
III.5. E as condições de possibilidade?
III.6. Para abolir uma linguagem-fronteira: uma
linguagem-percurso como resposta-percurso
IV. CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APÊNDICE - ENTREVISTA COM UM COMUNISTA ZAMBIANO
I. O MUNDO COLONIAL NÃO
SUPLANTADO: A VIOLÊNCIA
CAPITALISTA-PATRIARCAL-RACISTA
I.1. O fetiche da colonialidade: “eis que me
descubro objeto em meio a outros objetos”4
“Falo de milhões de homens/Em quem deliberadamente inculcaram o medo/O complexo
de inferioridade, o tremor/A prostração, o desespero, o servilismo.”
(Aimé Césaire, 2006)
Um dos maiores estudiosos da diáspora africana, Frantz Fanon, na
introdução da sua tese Pele Negra, Máscaras brancas (2008), ao nos falar
das clausuras da branquitude e da negritude como construções do
colonialismo, diz existir uma “zona de não-ser”, um espaço de negação da
existência em que o negro foi despejado, constatando, com pesar, que na
sociedade de bases coloniais o destino do negro é branco. Denuncia a
morte em vida que é o estado estéril de não-humanidade a que estão
sujeitos os colonizados do mundo.
Demarcando o sentido materialista que orienta a análise, evidencia
que a verdadeira desalienação do negro implica na tomada de consciência
das realidades econômicas e sociais, pois que o complexo de inferioridade
acontece após um duplo processo: inicialmente econômico e em seguida
pela “epidermização” dessa inferioridade, isto é, a interiorização, a gravação
na pele do lugar de poder que cabe a cada um.
As relações modernas5 de poder têm caráter dualista e excludente,
pautadas no dispositivo que constrói o outro mediante uma lógica binária
que reprime as diferenças. A máquina que garante a engrenagem desta
perspectiva é o eurocentrismo, modo de produzir conhecimento que opera
como espelho a distorcer o que re�ete. Todos os povos submetidos ao poder
colonial foram conduzidos a aceitar a imagem europeia re�etida como se
sua fosse. A violência colonial se manifesta, dentre outras formas, na
negação da diferença e na destruição paulatina da cultura das Américas, da
linguagem às experiências históricas, aniquilando as nações ora por
extermínio físico, ora por apagamento cultural.
Esse movimento de disciplinar os per�s de subjetividade a partir de
coordenação estatal conduz ao fenômeno da “invenção do outro”
(CASTRO-GÓMEZ, 2005), muito ligado aoprocesso de produção material
e simbólica no qual se viram envolvidas as sociedades ocidentais a partir do
século XVI.
A respeito dos mecanismos disciplinares de poder no contexto latino-
americano do século XIX, Beatriz González Stephan (1995) identi�ca três
práticas disciplinares que contribuíram para forjar os cidadãos: as
constituições, os manuais de urbanidade e as gramáticas do idioma. Ela
segue o teórico uruguaio Angel Rama ao dizer que essas tecnologias de
subjetivação possuem um denominador comum: sua legitimidade repousa
na escrita e essa lógica da civilização pela linguagem faz parte do projeto
colonizador.
É neste sentido que Silvia Cusicanqui (2010) coloca a retórica da
igualdade e da cidadania como uma caricatura para encobrir privilégios
culturais e políticos. A aquisição de cidadania é tática de ajuste ao tipo de
sujeito requerido pelo projeto da modernidade: homem, branco, pai de
família, católico, proprietário, letrado e heterossexual, o qual cabe muito
bem no formato do bom burguês. Os “outros” - mulheres, empregados,
loucos, analfabetos, negros, hereges, índios, escravos, homossexuais,
dissidentes, migrantes - �cam de fora da cidade “letrada”, reclusos no
âmbito da ilegalidade, submetidos ao castigo por parte da mesma lei que os
exclui. E, por isso, a autora boliviana destacava, já em 1983, em sua obra
Oprimidos pero non vencidos, a necessidade de uma descolonização das
estruturas políticas, econômicas e mentais da Bolívia, cujas reformulações
legais e constitucionais continuaram reproduzindo práticas de exclusão e
dominação6.
Os países de terceiro mundo, classi�cação que Arturo Escobar (1996)
coloca como parte do processo de subjugo e disputa de poder7, estão
sujeitos a um duplo ou triplo tipo de violência: a violência estrutural, base
das desigualdades entre países considerados de primeiro mundo e terceiro
mundo; e uma violência simbólica, de operação sutil e de caráter cultural,
com função legitimadora das formas estruturais e diretas. A violência
cultural se apresenta por meio dos discursos, símbolos, metáforas, religiões,
assim como a violência epistêmica se relaciona com a dualidade saber-
poder, estudada por Foucault, com temas relativos à produção e à maneira
pela qual o poder se apropria e condiciona o conhecimento, determinando
aquilo de primitivo, selvagem e descartável.
Em outras palavras, os discursos patrocinados pelo projeto da
modernidade não toleram as epistemologias alternativas8 e pretendem
negar a alteridade e a subjetividade dos outros de forma a perpetuar a
opressão dos saberes e justi�car a dominação. E é o Estado, como
garantidor da organização racional da vida humana, que detém também o
monopólio da violência para �ns de dirigir as atividades dos cidadãos -
Walter Mignolo (2000) aborda o Estado-nação como uma maquinaria
geradora de “outredades” que devem ser disciplinadas.
Nesse sentido, Gayatri Spivak (2003) problematiza o modo como o
sujeito do terceiro mundo é representado no discurso ocidental,
denunciando o projeto da modernidade como exercício da violência
epistêmica e relacionado ao vínculo conhecimento-disciplina. Esta violência
epistêmica se constitui em uma forma de exercer o poder simbólico e é um
conceito que consiste na negação e no apagamento de signi�cados da vida
de indivíduos e grupos.
Ao identi�carmos que o ponto de partida para a construção das
representações dos sujeitos é o dispositivo de saber/poder, essencial é
localizar o conceito de colonialidade do poder9 (QUIJANO, 1999, pp. 99-
109), mecanismo que gera o sistema-mundo. Para Quijano, a espoliação
colonial é autorizada pelo imaginário que estabelece diferenças
incomensuráveis entre colonizador e colonizado. Aqui as noções de raça e
cultura operam como dispositivos categorizadores que geram identidades
opostas. O colonizado é o “outro”, fato que legitima o exercício de um poder
disciplinar que parte do colonizador. As identidades são excludentes entre
si: enquanto o colonizado é associado à maldade, selvageria, barbárie, o
colonizador aparece vinculado à bondade, civilização e racionalidade.
Com esse panorama, fácil é identi�carmos o viés maniqueísta que
orienta essa dualidade de pensamento e, consequentemente, o controle
social seletivo. Para isso Castro-Gómez (2005, p.83) conecta:
O conceito da colonialidade do poder amplia e corrige o conceito foucaultiano de poder
disciplinar, ao mostrar que os dispositivos panópticos erigidos pelo Estado moderno
inscrevem-se numa estrutura mais ampla, de caráter mundial con�gurada pela relação
colonial entre centros e periferias devido à expansão europeia. Deste ponto de vista
podemos dizer o seguinte: a modernidade é um projeto na medida em que seus
dispositivos disciplinares se vinculam a uma dupla governamentabilidade jurídica. De
um lado, a exercida para dentro pelos estados nacionais em sua tentativa de criar
identidades homogêneas por meio de políticas de subjetivação; por outro lado, a
governamentabilidade exercida para fora pelas potências hegemônicas do sistema-
mundo moderno/colonial, em sua tentativa de assegurar o �uxo de matérias-primas da
periferia em direção ao centro.
A expansão comercial, a dinâmica de troca de mercadoria entre centro
e periferia e a vigilância/domínio sobre os sujeitos dialogam com a relação
de superioridade/inferioridade entre dominador e dominado patrocinada
pelo eurocentrismo. A respeito disso, importante demarcarmos como a ideia
de raça nas Américas é uma maneira de legitimar as relações de dominação
impostas pela conquista (QUIJANO, 2005). A elaboração teórica da raça
surge, oportunamente, como ferramenta de naturalização dessas relações
coloniais de dominação entre europeus e não-europeus.
A maioria dos teóricos sociais dos séculos XVII e XVIII, resgata
Castro-Gómez (2005), coincidia na opinião de que a espécie humana
caminha da ignorância à iluminação em um processo crescente até chegar
ao aperfeiçoamento representado pelas sociedades modernas europeias. O
primeiro estágio de desenvolvimento, relatado pelos navegantes era o das
sociedades indígenas, retratadas com as características da selvageria,
barbárie e ausência completa de arte, ciência e escrita. A América era
sinônimo de superstição, primitivismo, guerra de todos contra todos,
“estado de natureza”, tal qual teorizado por Hobbes. O estágio mais alto do
progresso humano estaria representado pelas sociedades europeias, onde
reinariam a civilidade, o Estado de Direito e o cultivo da ciência e das artes.
A conformação colonial do mundo entre ocidental ou europeu,
concebido como moderno e avançado, e os “outros”, restante dos povos e
culturas, é inaugurada, segundo Edgard Lander (2005), com a conquista
ibérica do continente americano. A partir desse momento, inicia-se a
constituição colonial dos saberes, das linguagens, da memória (MIGNOLO,
1995) e do imaginário (QUIJANO, 1992), processo que culmina nos
séculos XVIII e XIX com a organização de todos os territórios em uma
grande narrativa universal. Nesta narrativa, a Europa é o centro geográ�co
e o auge do avanço. E ao nos referirmos a um lugar sob a perspectiva das
relações de poder, estamos falando de geopolítica; nesse caso, a geopolítica
do conhecimento mostra como tem operado a periferização de uns lugares
e a centri�cação de outros. É nesse sentido que Catherine Walsh (2005, p.
41) nos a�rma que a produção do conhecimento “está marcada geo-
historicamente, geo-politicamente e geo-culturalmente; tem valor, cor e
lugar ‘de origem’”.
Esta construção eurocêntrica que toma a totalidade do tempo e do
espaço para a humanidade a partir da própria experiência, colocando as
particularidades histórico-culturais como padrão de referência superior e
universal, é também um dispositivo de conhecimento colonial. Explicamos:
o dispositivo colonizador do conhecimento transforma um modo de vida de
dada sociedade no modo “normal” do ser humano e da sociedade; as
formas de ser, conhecimentoe organização social não apenas são diferentes,
como também carentes, arcaicas, primitivas, tradicionais, pré-modernas
(LANDER, 2005). Essa visão de mundo tem como eixo articulador central
quatro visões básicas:
1. A visão universal da história associada à ideia de progresso (a partir da qual se
constrói a classi�cação e hierarquização de todos os povos, continentes e experiências
históricas); 2. A ‘naturalização’ tanto das relações sociais como da ‘natureza humana’
da sociedade liberal-capitalista; 3. A naturalização ou ontologização das múltiplas
separações próprias dessa sociedade; e 4. A necessária superioridade do conhecimento
que esta sociedade produz (‘ciência’) em relação a todos os outros conhecimentos.
(LANDER, 2005, p. 13)
Por ser assim, Grosfoguel (2006, p. 21) declara que “os paradigmas
hegemônicos eurocêntricos que têm con�gurado a �loso�a e as ciências
ocidentais no sistema-mundo moderno/colonial capitalista/patriarcal [...]
durante os últimos 500 anos assumem um ponto de vista universalista,
neutro e objetivo”. É nesse sentido que nomeia de “ego-política do
conhecimento” a ideia de que pode existir a produção e apropriação de
conhecimento desde um não-lugar, desde um sujeito deshistoricizado e
descorporizado, isto é, um sujeito universal. Esta ego-política não leva em
conta as relações entre a localização epistêmica do sujeito que produz
conhecimento, o conhecimento gerado e suas articulações com processos de
dominação, exploração e sujeição.
Os processos de exploração nas Américas estão inscritos na estrutura
triangular da colonialidade: a colonialidade do ser, a colonialidade do
poder e a colonialidade do saber, em que este último se localiza em uma
estrutura hierárquica, disciplinar e �scalizadora (CASTRO-GÓMEZ, 2007).
A colonialidade do saber controla a produção intelectual e criativa e
determina aquilo que é considerado bom/belo/importante e o que é
inferior. Essa produção descartável é construída por grupos colonizados e
esse controle é uma forma de segregação não-declarada, fazendo parte do
aperfeiçoamento das tecnologias de sujeição e exploração das populações
periféricas.
Estas marcas serão percebidas no tópico seguinte em que iremos expor
sobre o modo de produção escravista, seu embasamento ideológico e a
relação de dependência para com os países europeus, em que os signos da
colonialidade produziram sentidos de inferioridade racial a justi�car a
exploração e a violência cometida contra os povos negros do Brasil.
I.2. Escravismo, colonização e capitalismo
dependente
A formação social brasileira tem em sua história as marcas da violência
fruto do colonialismo que instaurou modos de produção exploradores da
mão de obra dos povos originários da nação. Desde o princípio do
estabelecimento das nações europeias em território brasileiro, houve o
surrupiamento das riquezas do país e a subalternização dos grupos
instalados, conduta fruto de uma orientação hierárquica de mundo.
Enquanto a violência colonial atua descivilizando e embrutecendo o
colonizador, se propõe, no outro extremo, a submeter e desumanizar o
colonizado. Para Césaire (2006), quando o colonizado resiste, morre pelas
balas dos soldados; quando cede, morre em sua qualidade de homem, pois
se degrada, tendo seu caráter tomado pela vergonha e pelo medo.
A coisi�cação gerada pela colonização só pode ser combatida através
de um processo histórico e radical de descolonização, isto é, de destruição
do mundo colonial para devolver aos homens e mulheres espezinhados a
humanidade e a linguagem, convertendo a antiga coisa colonizada em um
novo homem através da libertação (FANON, 2015).
Entendido o colonialismo como violência em seu estado de natureza,
não se pode derruba-lo senão por uma violência maior. Assim, a
contribuição de Fanon é trazida pela voz de Césaire (2010, p. 25):
Na visão fanoniana, a violência revolucionária é concebida como uma necessidade,
para se quebrar o jugo militar colonial, e também como um indispensável
instrumento de reconstrução da autoestima do colonizado. Fanon concebe que, para o
sujeito colonizado modi�car os termos da relação com o mundo que o oprime, se
fazia necessário o emprego da resistência em todas as suas formas. A resistência ao
racismo eleva o sujeito colonizado ao lugar de protagonista, devolvendo-lhe, com isso,
a humanidade. A violência revolucionária, diz Fanon, é desalienante.
Para Fanon, o inconsciente coletivo dos colonizados que processa a
autodefesa por meio da violência de cunho político e revolucionário, parte
da tomada de consciência enquanto sujeito de um mundo cortado em dois.
O colonizado esteve dominado, inferiorizado, mas nunca domesticado. No
fundo, sempre está preparado para o momento de descuido do colono, em
que abandonará seu papel de presa e assumirá o de caçador.
Para entender a questão racial no brasil, é imprescindível
remontarmos para o escravismo como modo de produção que imperou de
1550-188810, gestou a economia, sedimentou as relações sociais no Brasil
colonial e se estendeu pelos períodos posteriores no que toca à ideologia do
servilismo do negro em função da dominação do branco.
Por assim dizer, estamos em sintonia com Clovis Moura (1994) ao
entendermos que o sociólogo ou historiador deve procurar nas contradições
e nos con�itos as causas geradoras da dinâmica social de um modo de
produção e não nas áreas neutras e estáticas de condições do sistema. Com
esta responsabilidade, os recortes de história narrados no presente texto
partirão do marco de que o único equilíbrio social entre escravos e senhores
que existiu foi promovido pelo controle social.
Em verdade, as colaborações dos escravos e compreensão dos senhores
não representavam a �bra das relações sociais produzidas na dinâmica
colonial. Ao contrário, a tônica era do antagonismo de interesses e da
contenção de classe através do controle social. Narrar dando
intencionalidade para uma harmonia perene como regra, tal qual
segmentos da sociologia o �zeram, é “supor-se que a inércia social é o fator
de mudança e transformação da dinâmica social”(1994, p.20).
Analisar um modo de produção em sua totalidade requer identi�car
as relações centrais e as secundárias e isto se exempli�ca na dinâmica do
escravismo, na qual as relações paci�cas e neutras existiram e possibilitaram
a segurança social do modo de produção. Nesse sentido, é evidente que são
encontradas áreas em que as frações de classe são coloquiais, neutras e
pací�cas, mas isto não explica ou esgota a dinâmica escravista.
A interpretação de Gilberto Freyre, por exemplo, ressalta um caráter
democrático das relações entre negros e brancos no Brasil. Toda a análise
freyriana sobre a escravatura e a história social do negro brasileiro após a
escravidão induz à conclusão de que: a escravatura daqui foi humanizada,
não alienante, fruto do patriarcalismo brasileiro; as peculiaridades culturais
e morais do português e seus descendentes no Brasil tornaram a sociedade
brasileira uma sociedade racialmente democrática.
O que explica esta posição romântica e fantasiosa sobre o escravismo é
que Freyre trabalha na perspectiva da casa-grande e do sobrado, isto é, do
branco senhor de escravos, ou do branco que pensa os problemas raciais
brasileiros na ótica da classe dominante. Para o branco proprietário de
terras e escravos, toda a violência cometida contra os negros era na verdade
uma benevolência, uma oportunidade de acessarem comida e moradia e de
salvarem seus espíritos demoníacos perante Deus. A história pode ser
escrita de formas completamente diferentes a depender da lente daquele
que narra.
Ao contrário, a�rma Clovis Moura (1994, p.21):
O seu agente motor está justamente no oposto da harmonia e da cooperação, nas
contradições que uma parte da classe produtora do valor se abstém dessa produção.
Ora, se todos escravos fossem disciplinados, �zessem acordos, aceitassem a cultura da
escravidão segundo os critérios de concessão do senhor, então,como diria Marx, a
história pararia.
O Brasil, na sua formação histórico-social construiu dois modelos de
sociedade: o escravista colonial, subordinado à economia colonialista e o
capitalismo dependente subordinado ao imperialismo. Mas em que
consistiam as relações sociais entre os grupos da sociedade escravista?
No sistema escravista, o cativo se converteu em coisa. O seu interior e
a sua humanidade foram esvaziados pelo senhor até que ele �casse
totalmente subordinado; a sua re-humanização só era reestabelecida na e
pela rebeldia, isto é, na sua negação consequente como escravo. Essa
constatação revela como o escravismo penetrou na sociedade e injetou seus
valores, de modo a ser o período da história dramaticamente necessário de
se conhecer para compreendermos os alcances atuais dos arranjos sociais.
A divisão social do trabalho correspondeu, na realidade, a uma divisão
racial do trabalho, por força de a divisão compulsória determinar que a mão
de obra escrava seria praticada pelos negros. Em momento posterior, esta
divisão passou a ser acionada no contexto competitivo, reservando-se para o
negro apenas aquilo que o branco, descartava ou desprezava.
O caráter repressivo e violento das relações escravistas de produção é
apreendido da compreensão de que o escravismo é um sistema de
produção de mais-valia absoluta, sistema esse no qual a mercadoria aparece
imediata e explicitamente como produto da força de trabalho alienada.
Ademais, a alienação incide duplamente no escravo, como pessoa,
enquanto propriedade do senhor, e em sua força de trabalho, faculdade
sobre a qual não tem ingerência. Para viver e reproduzir-se, o escravo é
obrigado a produzir muito além do que recebe e não dispõe de condições
para negociar, nem o uso da sua força de trabalho nem a si mesmo. Esse é o
fundamento do caráter repressivo e violento do escravismo. (IANNI, 1978)
Desde o princípio, as sociedades das Américas estão atadas à economia
mundial formadas em estado de dependência enquanto colônias ou países:
primeiro à mercantilista e depois à capitalista. Nessas condições, quando o
capitalismo alcançou certo grau de desenvolvimento, em âmbito mundial,
tornou difícil a continuidade das relações escravistas de produção.
No Brasil, a formação social capitalista foi se constituindo por dentro
da formação social escravista. O ápice do confronto entre a formação social
escravista, em franca decadência, e a formação social capitalista em
expansão foi a queda da monarquia. Explicamos: a luta entre a aristocracia
agrária, de base escravocrata, e a burguesia cafeeira do oeste paulista, na
qual vence esta, era a expressão política dos desajustes e antagonismos
entre as duas formações sociais.
A transição da sociedade escravista para a sociedade competitiva do
capitalismo preservou as estruturas de poder herdeiras da ideologia do
colonizador. As classes dominantes do império, que se transformaram de
senhores de escravos em latifundiários, estabeleceram mecanismos
repressivos, ideológicos, econômicos e culturais a �m de controlar a luta de
classes dessas camadas de ex-escravos, acomodando-os nos espaços
marginais de uma economia de capitalismo dependente. (MOURA, 1980)
A sociedade competitiva que substituiu a escravista favoreceu a
ideologia da democracia racial e produziu nas organizações negras um
assimilacionismo de formas de comportamento brancas como meio de
proteção contra a perseguição por força de seus propósitos radicais. Esta é
uma das faces do pacto entre a ideologia do colonizador e a do colonizado.
Nesse sentido, a re�exão de Moura (op. Cit., p.125):
A sociedade de modelo de capitalismo dependente substituiu a de escravismo colonial.
O sistema competitivo inerente ao modelo de capitalismo dependente, ao tempo em
que remanipula os símbolos escravistas contra o negro procura apagar a sua memória
histórica e étnica, a �m de que ele �que como homem �utuante, ahistórico. Porque
situa-lo historicamente é vê-lo como agente coletivo dinâmico / radical desde a origem
da escravidão no Brasil. É, por outro lado, revalorizar a República de Palmares, único
acontecimento político que conseguiu pôr em cheque a economia e a estrutura militar
colonial; é valorizar convenientemente as lideranças negras de movimentos como as
revoltas baianas de 1807 a 1844.
Segundo Ianni (1978, p. 80), o paternalismo, a ambiguidade, o mito da
democracia racial e outras expressões da dominação exercida pelo branco
confundem e irritam o negro. É frente a esta manipulação ideológica que o
negro toma consciência da sua dupla alienação: como raça e como membro
de classe. Assim, para enfrentar sua condição duplamente subalterna, o
negro é levado a elaborar uma consciência política dúplice; reconhece- se
como membro de outra raça e classe opostas às do branco, passando a
entender que enquanto membro desta raça está só e precisa lutar a partir
desta condição. Nesse cenário, raça e classe subsumem-se reciproca e
continuamente, tornando mais complexa a consciência e a prática política
do negro.
Sobre o aspecto capitalista do Brasil, a re�exão de Jacob Gorender
(1998, pps. 105-106):
A concentração de renda e a deterioração da qualidade de vida de grandes massas da
população justi�caram que se chamasse o capitalismo brasileiro de selvagem. Mas se
trata de uma designação puramente moral, sem valor cientí�co. Qualquer que seja o
país, inclusive os da revolução burguesa clássica, todo capitalismo, por suas leis
imanentes, tende à exploração da força de trabalho até o limite das possibilidades
físicas. O que o impede de chegar a este limite e lhe impõe formas civilizadas de
exploração é a luta de classes dos operários.
As categorias de raça e classe precisam ser compreendidas em suas
especi�cidades. Uma interpretação dos problemas raciais que não incorpora
a localização das pessoas na estrutura de classes, sejam elas classes
amadurecidas, em formação ou em crise, está certamente equivocada e
incompleta.
Portanto, pode-se concluir que o modo de produção escravista entrou
em colapso, mas deixou marcas profundas que se comportam como
elementos vivo nas relações de produção da sociedade brasileira. O modelo
de capitalismo dependente que substituiu o modo de produção escravista
dele se aproveitou e fez dele uma parte dos seus mecanismos reguladores
da economia subdesenvolvida. Desta forma, os vestígios escravistas são
remanejados e dinamizados na sociedade de capitalismo dependente em
função do imperialismo dominante.
I.3. “A morte reiterada na vida e a vida que
habita a máscara da morte”: das mortes em vida
do negro
As estratégias históricas de apagamento da identidade negra
constituem um projeto de genocídio físico e simbólico dos negros em
diáspora. A libertação do negro, nesse sentido, só é possível se reconhecidas
estas variadas servidões visíveis e invisíveis como parte de uma mística
racista de propósito arianista, isto é, de fortalecimento do ideal de
branqueamento.
O uso sem restrições do conceito de genocídio aplicado ao negro
brasileiro foi cunhado pelo grande teórico, político e militante do
movimento negro Abdias do Nascimento. Nesse sentido, o autor aponta
como primeira estratégia de genocídio a do branqueamento da raça.
A intenção do desaparecimento inapelável dos descendentes africanos
no Brasil se deu através do recurso da exploração sexual da mulher negra,
estuprada pelos senhores brancos para produzir o que entendiam como
puri�cação do sangue: o mulato, o pardo, o moreno. A herança negra, vista
como mancha negra, precisava ser combatida por meio do processo de
mulatização, que nada mais é que um fenômeno de genocídio, haja vista o
crescimento da população mulata e o desaparecimento da raça negra sob a
coação do progressivo clareamento da população no país (NASCIMENTO,
1978).
A respeito do papel social do mulato, Abdias (Ibid, p.69) a�rma:
Situado no meio do caminho entre a casa-grande e a senzala, o mulato prestou serviços
importantes àclasse dominante; durante a escravidão, ele foi capitão-do-mato, feitor, e
usado noutras tarefas de con�ança dos senhores, e, mais recentemente, o erigiram como
um símbolo da nossa ‘democracia racial’.
A solução parecia satisfatória e recebeu endosso religioso da Igreja
Católica, que considerava o negro um indivíduo de sangue infectado. Além
disso, as teorias cientí�cas forneceram suporte vital ao racismo arianista que
se propunha a erradicar o negro. Desde o �m do século XIX, o objetivo
estabelecido pela política imigratória foi o desaparecimento do negro
através da “salvação” do sangue europeu.
O dramaturgo Nelson Rodrigues (apud Nascimento, p.77) contribui
com uma linguagem ácida para a caracterização de nossas relações de raça:
Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas
fazemos o que talvez seja pior. Nós os tratamos com uma cordialidade que é o disfarce
pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite.
Com esta passagem, denuncia o racismo travestido em sua linguagem
para soar como parte de um bonito processo de democracia racial, só não
sendo evidente para aqueles(as) que não querem enxergar suas formas de
atuação. Nessa esteira, como outra estratégia de genocídio, Abdias (Ibid,
p.93) aponta o embranquecimento cultural em certeiras e cortantes linhas:
Devemos compreender democracia racial como a metáfora perfeita para designar o
racismo estilo brasileiro: não tão obvio como o racismo dos Estados Unidos e nem
legalizado como o apartheid da África do Sul, mas e�cazmente institucionalizado nos
níveis o�ciais de governo assim como difuso no tecido social, psicológico, econômico,
político e cultural da sociedade do país. Da classi�cação grosseira dos negros como
selvagens e inferiores, ao enaltecimento da virtude das misturas de sangue como
tentativa de erradicação da mancha negra; da operatividade do sincretismo religioso; a
história não o�cial do Brasil registra o longo e antigo genocídio que se vem
perpetrando contra o afro-brasileiro. Monstruosa máquina ironicamente designada
democracia racial que só concede aos negros um único ‘privilégio’: aquele de se
tornarem brancos, por dentro e por fora. (grifos nossos)
Mais contemporaneamente, o africano Achille Mbembe, pensador de
altíssimo requinte no estudo do pós-colonialismo e das questões da história
e da política africana, trabalha através do resgate histórico, político e
�losó�co para mostrar como a raça foi a causa de inúmeras catástrofes,
crimes incalculáveis e carni�cinas no mundo.
Em sua obra “Crítica da Razão Negra”11, o autor discorre, por meio de
uma �loso�a política latente e erudita, sobre a ideia de homem-mercadoria,
a lógica das raças e a consequente condição subalterna do negro no projeto
colonial de esmagá-lo e convertê-lo em coisa. Desta feita, propõe a
descolonização do pensamento europeu para combater o racismo global
como parte do capitalismo.
Para começo de conversa, aponta (Mbembe, 2017) três momentos
paradigmáticos para entender a socialização do negro: o trá�co atlântico
(séc. XV ao XIX) em que homens e mulheres originários de África foram
transformados em homens-objeto, homens-mercadoria e homens-moeda; o
segundo momento corresponde ao acesso à escrita e tem início em �ns do
século XVIII, quando os Negros capturados articularam uma linguagem
para si, reivindicando o estatuto de sujeitos completos do mundo vivo. Não
por acaso, tal período foi marcado por inúmeras revoltas de escravos, pela
independência do Haiti em 1804, por combates pela abolição do trá�co,
pelas descolonizações africanas, pelas lutas pelos direitos cívicos nos Estados
Unidos e, por �m, pelo desmantelamento do apartheid nos últimos anos do
século XIX; o terceiro momento (início do século XXI) refere-se à
globalização dos mercados, ao avanço do neoliberalismo, do complexo
militar e das tecnologias eletrônicas digitais.
Em um discurso inconformado, Mbembe (2017, p.19) esboça o
percurso de criação do conceito de “Negro”, idealizado pelo Ocidente como
uma fábula plena de exotismo, re�nada com elementos carnais de pulsão
sexual e sensualidade, mas principalmente fundido com a imagem de
escravo. Assim discorre:
Produto de uma máquina social e técnica indissociável do capitalismo, da sua
emergência e globalização, este nome foi inventado para signi�car exclusão,
embrutecimento e degradação, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado.
Humilhado e profundamente desonrado, o Negro é, na ordem da modernidade, o único
de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa, e o espírito, em mercadoria-
a cripta viva do capital.
A partir da denúncia do alterocídio, isto é, o ato de constituir o outro
não como semelhante a si mesmo, mas como objeto essencialmente
ameaçador e do qual é preciso proteger-se por meio do controle social ou
do extremo da destruição, o autor propõe um pensamento de
circulação/travessia e ampara-se em Frantz Fanon para associar a raça ao
desejo de vingança.
A raça, preleciona (Ibid, p. 27), não existe da perspectiva física,
antropológica ou genética; atravessou a história como um mecanismo
codi�cado de divisão da diversidade segundo hierarquias estanques. A
raça, em verdade, “não passa de uma �cção útil, de uma construção
fantasista ou de uma projeção ideológica cuja função é desviar a atenção de
con�itos antigamente entendidos como mais verossímeis- a luta de classes
ou a luta de sexos, por exemplo.”
Prossegue na desconstrução assinalando (Ibid, p. 40):
O negro não existe, no entanto, enquanto tal. É constantemente produzido. Produzir o
Negro é produzir um vínculo social de submissão e um corpo de exploração, isto é, um
corpo inteiramente exposto à vontade de um senhor, e do qual nos esforçamos para
obter o máximo de rendimento.
Nesse sentido, Fanon tinha razão ao sugerir que o Negro era uma
�gura ou ainda um objeto inventado pelo branco e �xado, como tal, pelo
seu olhar, por seus gestos e atitudes, tendo sido tecido por relatos e
anedotas. Em um movimento de programar o negro como parte negada do
branco, isto é, aquilo que este não quer ser, aos poucos o negro vai sendo
transformado em inimigo e o branco em vítima compassiva, o opressor
torna-se oprimido e o oprimido o algoz12. Esta é a verdadeira tônica da
alteridade na era moderna.
No momento em que partes cindidas da psique são projetadas para
fora, criando o “outro” como antagonista ao “eu”, o branco faz uma cisão de
si mesmo: a parte do ego- associada a qualidades boas- é vivida como o
verdadeiro “self” e o resto- a parte vinculada a características indesejadas- é
projetada sobre o “outro”. “O outro torna-se então a representação mental
do que o sujeito branco teme reconhecer sobre si mesmo, neste caso: o(a)
ladrão(a) violento(a), o(a) bandido(a) indolente e malicioso” (KILOMBA,
2010, p. 174).
Em outras palavras, prossegue Grada Kilomba (2010), tornamo-nos a
representação mental daquilo com o que o branco não quer parecer. A
branquitude pode ser descrita como uma identidade relacional dependente
que existe através da exploração do “outro”. A isso Toni Morrison (1992)
chama de “dessemelhança”.
Enquanto humilhado e espoliado, o negro vive uma humanidade
mutilada marcada pelo ferro e pela alienação. Todavia, ressigni�cado como
conceito, o Negro torna-se a linguagem pela qual os descendentes de
africanos se anunciam ao mundo e se proclamam como mundo:
Mas, a par da maldição a que a sua vida está destinada e da possibilidade de insurreição
radical que, contudo, transporta e que nunca consegue �car totalmente aniquilada pelos
dispositivos de submissão, ele representa também uma espécie de limo da terra, no
ponto de con�uência de uma multiplicidade de semimundos produzidos pela dupla
violência da raça e do capital. Operando do fundo dos porões, terão sido os primeiros
obreiros da nossa modernidade. E se há algo que assombra a modernidade desde sempre
é precisamente a possibilidade de um acontecimento particular, a revolta dosescravos,
que assinalaria não apenas a libertação dos servos, mas também uma mudança radical
das bases da reprodução da própria vida. (MBEMBE, 2017, pps. 73-74).
Uma relação de co-dependência liga os conceitos de Negro e África,
pois que falar de um é necessariamente evocar o valor do outro. A Idade
Moderna confere à África dois sentidos: o de um lugar em que o humano
se vê no extremo da precariedade da vida e do vazio do ser; e o da condição
de emaranhamento entre o humano, o animal, a natureza, a morte e vida,
“da presença uma na outra, da morte que vive na vida e que lhe dá rigidez
de um cadáver- o ensaio da morte na vida através de um jogo de
desdobramento e de repetição.”(Ibid, p.92)
Desta feita, quer se trate de literatura, �loso�a, artes ou política, os
sentidos de Negro e África estão atravessados pelos acontecimentos da
escravatura, da colonização e do apartheid que, dentre outras coisas,
produziram uma textualidade de folclorização e exotismo a estes
signi�cantes, transformando a mística do continente em um estereótipo. A
identidade negra ressurge, por outro lado, como uma identidade em devir,
em processo de reconhecimento e a�rmação de existência. Quem somos
neste mundo branco? Que podemos esperar e fazer? Somos negros. E,
como diria Florestan Fernandes (2007), negros no mundo dos brancos.
Em uma das belas passagens da obra de Mbembe (Ibid, p.89), somos
agraciados com sua percepção a respeito:
De fato, o substantivo negro tem vindo a preencher três funções essenciais na
modernidade – funções de atribuição, de interiorização e de subversão. (...) Ao longo da
história, aconteceu que aqueles que foram ridiculamente contemplados com esta
alcunha- e tinham, consequentemente, sido postos à parte ou à distância- acabaram por
habitá-la. Passou a ser de uso corrente, mas isto fê-lo mais autêntico? Num gesto
consciente de subversão, poético umas vezes, outras, carnavalesco, muitos a terão
endossado somente para melhor devolverem contra os seus inventores esse patronímico
humilhante. Decidiram transformar este símbolo de abjeção num símbolo de beleza e de
orgulho, utilizado doravante como insígnia de um desa�o radical e de um apelo ao
levantamento, à deserção e à insurreição. Enquanto categoria histórica, o Negro não
existe, portanto, fora destes três momentos: o momento de atribuição, o momento de
aceitação e interiorização e o momento da reviravolta ou da subversão- que aliás
inaugura a plena e incondicional recuperação do estatuto de humanidade antes
rasurada pelo ferro e pelo chicote. (grifos nossos)
O devir negro no mundo é a legítima resposta ao processo predador e
autoritário que forjou as vidas negras através da criação das raças e da
signi�cante “Negro” como subsídio do capitalismo para explorar. Os novos
condenados da terra, aqueles sem direitos, condenados a viver nos
calabouços sociais à mercê dos controles jurídicos, policiais, os clandestinos,
os imigrantes, os sem-papéis, são resultado de uma seleção de claros
pressupostos raciais repaginados pelo tempo.
Por ser assim, para reconstruirmos o mundo pautado na humanidade,
a restituição, reparação e a justiça são condições para recon�gurarmos os
processos de abstração e de coisi�cação promovidos pela história, re-
costurando estas partes amputadas para repararmos as dores e
(re)instalarmos a solidariedade.
I.4. Desatar os nós
Como vimos, a lógica categorial dicotômica e hierárquica se apresenta
como instrumento central do pensamento capitalista13, que se externaliza
na linguagem sobre raça, gênero e sexualidade. Assim, ao se estabelecer a
dominação das Américas, os colonizados passaram a ser vistos como a
negação da regra do colonizador, sendo os não-humanos, os não-brancos,
os não-homens, sendo a oposição ao aceitável no mundo do colonizador, o
não- esperado, o inimigo, o outro.
A prática do poder aparelha o assujeitamento14 entre agentes que são
sujeitos de direitos e humanidade e os assujeitados passivos, de modo que a
produção de subjetividade se encarrega de criar identidades servis. Há,
portanto, um processo de animalização: os colonizados e os escravizados
como o oposto ao civilizado e humano, os selvagens como instrumentos
animados nas relações de produção. Essa concepção legitima a
subordinação e a apropriação do corpo para �ns de exploração para o
trabalho e sexual, pois pressupõe uma irracionalidade que justi�ca a
intervenção em suas vidas.
O termo “colonialidade do poder”, como apresentado alhures, foi
cunhado por Aníbal Quijano e advém da compreensão histórica da
inseparabilidade da racialização e da exploração capitalista como
constitutivas do sistema capitalista de poder que ancorou a colonização das
Américas. O eurocentrismo é lido como novo modo de produção e controle
da subjetividade, um sistema de controle da autoridade coletiva em torno
da hegemonia do estado-nação que exclui as populações racializadas como
inferiores.
Por isso que quando a ex-escrava Sojourner Truth, em dezembro de
1851 na Convenção de mulheres em Ohio, ao não se sentir incluída nas
discussões sobre os direitos feitas na ocasião, se dirigiu à plateia e indagou
“¿Acaso no soy una mujer?”, a resposta seria “não”, já que estava na
encruzilhada, era a negação das categorias de branco e de negro. Essa
denúncia ainda se faz pertinente se identi�carmos o feminismo como
colonizado pelas ideologias de classe e raça e que invisibiliza ainda as pautas
das mulheres negras.
É por isso que as discussões feministas contemporâneas, in�uenciadas
pela literatura desenvolvida pelas feministas negras, marxistas, terceiro-
mundistas e descoloniais apontam para uma interpretação da realidade
como a encruzilhada de opressões. O termo interseccionalidade ganhou
repercussão mundial quando desenvolvido pela advogada militante norte-
americana Kimberlé Williams Crenshaw que, nos seus estudos de teoria
crítica da raça, pensou como as diferentes estruturas de poder interagem
nas vidas dos sujeitos por algum motivo marginalizados, especialmente as
mulheres negras que se viam e vêm invisibilizadas.
Dessa forma, Crenshaw criou a metáfora das ruas que são cortadas por
avenidas e que nas encruzilhadas se é atravessado por diversas direções, nos
dizendo que em determinados pontos as discriminações atuam
simultaneamente e causam impactos maiores, causam acidentes mais
perversos, se formos utilizar um termo que dialogue com a metáfora criada.
Conceber o conjunto de opressões que atuam de formas múltiplas e
arquitetadas pelas ideologias de gênero, de raça e de classe, é admitir o
caráter estrutural da dominação sobre os grupos. A despeito do fenômeno
da fusão das categorias de gênero, classe e raça na realidade, Sa�oti (2015,
p. 122) fala de um “nó” formado por essas três contradições e que signi�ca
um acúmulo qualitativo destas subestruturas- patriarcado- racismo-
capitalismo. Esclarece:
Ademais, o gênero, a raça/etnicidade e as classes sociais constituem eixos estruturantes
da sociedade. Estas contradições, tomadas isoladamente, apresentam características
distintas daquelas que se pode detectar no nó que formaram ao longo da história. Este
contém uma potenciação de contradições. Efetivamente, o sujeito, constituído em
gênero, classe e raça/etnia, não apresenta homogeneidade. Dependendo das condições
históricas vivenciadas, uma destas faces estará proeminente, enquanto as demais, ainda
que vivas, colocam-se à sombra da primeira. Em outras circunstâncias, será uma outra
faceta a tornar-se dominante.
(...)
Não se trata da �gura do nó górdio nem apertado, mas do nó frouxo, deixando
mobilidade para cada uma de suas componentes. Não que cada uma destas contradições
atue livre e isoladamente. No nó, elas passam a apresentar uma dinâmica especial,
própria do nó. De acordo com as circunstâncias históricas, cada uma das contradições
integrantes do nó adquire relevos distintos.
Não se trata de somar racismo + gênero + classe social, mas de perceber a realidade
compósita e novaque resulta desta fusão. Como a�rma Kergoat (1978), o conceito de
superexploração não dá conta da realidade, uma vez que não existem apenas
discriminações quantitativas, mas também qualitativas. Uma pessoa não é discriminada
por ser mulher, trabalhadora e negra. Efetivamente, uma mulher não é duplamente
discriminada porque, além de mulher é ainda uma trabalhadora assalariada. Não se
trata de variáveis quantitativas, mensuráveis, mas sim de determinações, de qualidades,
que tornam a situação destas mulheres muito mais complexa. (pps. 83/123/133)
Nesse sentido, ao dividir as categorias a partir da lente eurocêntrica,
recorta-se o mundo em opressores e oprimidos, lógica que inclui a mulher
negra no “não-lugar”15, no vazio que é não ser homem e não ser branca. O
pensamento dual é uma forma central no desenvolvimento da hierarquia
no capitalismo e a ausência das negras nas categorias “negro” e “mulher’
consolida a colonialidade de gênero.
Revisitar e problematizar como o corpo e vida das mulheres é regulado
no mundo da produção capitalista, é questionarmos qual o lugar do corpo
das mulheres negras e terceiro-mundistas nessa produção, é nos
perguntarmos de que maneira o poder tem colonizado os corpos, saberes e
práticas femininas.
Esse movimento reclama visitarmos fronteiras, desnudarmos histórias
não-contadas, trocarmos o olhar do colonizador para ceder espaço para os
olhares dos(as) colonizados(as), os olhares desde o Sul, transgredindo a
centralização da autoridade de fala para fazermos o deslocamento contra-
hegemônico, primeiro denunciando o paradigma serva-senhora
reproduzido na teorização feminista (HOOKS, 2013) para depois
disputarmos o território de produção da mesma.
O gênero, enquanto categoria histórica, terá aspectos diferentes
enfatizados por cada expressão do feminismo, havendo um campo de
consenso: é a construção social do masculino e do feminino. O termo
gênero é usado como recurso para recusar o essencialismo biológico e a
imutabilidade implícita que a�rma ser a anatomia o destino. Pode ser
entendido como a dimensão da cultura por meio da qual o sexo se expressa
vinculado ao poder, bem como através das funções sociais ordenadas pelo
sexismo.
Na dimensão do corpo, o gênero atua quer como mão de obra, quer
como objeto sexual, ou ainda como reprodutor, cujo destino, no caso das
mulheres, é participar da produção na função de força de trabalho,
reprodução e serviço sexual. Assim, gênero é um conceito desenvolvido
para reivindicar a naturalização da desigualdade de tratamento, acesso e
participação social de homens e mulheres em múltiplas arenas, envolvendo
categorias de inclusão e exclusão. A teorização e a prática feministas em
torno do gênero buscam contestar e transformar sistemas históricos de
diferença sexual nos quais o que se compreende enquanto homem e o que
se compreende enquanto mulher são socialmente formados e posicionados
em relações de hierarquia e oposição.
A preocupação com a questão da mulher é uma constante do
pensamento socialista, compreendendo esta libertação como etapa para
uma transformação radical da sociedade. Os determinantes da vida social
da mulher, portanto, são encarados por Marx como decorrência de um
regime de produção cujo sustentáculo é a opressão do homem pelo
homem, de um regime que aliena, que corrompe tanto o corpo quanto o
espirito.
Os últimos milênios gestaram uma estrutura de poder baseada tanto
na ideologia quanto na violência (Sa�oti, 2015), responsável por
estabelecer um tipo hierárquico de relação a invadir todos os espaços da
sociedade e garantir direitos dos homens sobre as mulheres, a que
chamamos de patriarcado.
Ao conceituar patriarcado, Pateman (1993, p. 16-17) retoma a teoria
política do contrato para concluir que este é o meio pelo qual se constitui o
patriarcado moderno:
O contrato social é uma história de liberdade; o contrato sexual é uma história de
sujeição. O pacto original é tanto um contrato sexual quanto social: é social no sentido
de patriarcal- isto é, o contrato cria o direito político dos homens sobre as mulheres-, e
também sexual no sentido do estabelecimento de um acesso sistemático dos homens ao
corpo das mulheres.
A partir disso, valendo-se da imagem e de como a �gura do prédio de
comando criado por Bentham e estudado por Foucault em Vigiar e Punir
corpori�ca a ideologia de comando, Sa�oti (2015, p. 43) faz a analogia:
As portas de todas as celas dão para o interior do prédio e, no alto, um único guarda é
su�ciente para vigiar um grande número de prisioneiros, sem que estes possam saber em
que momento são observados. Esta imagem adequa-se à descrição da vigilância exercida
sobre as mulheres ou sobre os trabalhadores ou, ainda, sobre os negros. As categorias
sociais contra as quais pesam discriminações vivem, imageticamente falando, no interior
de um enorme panóptico- a sociedade- na medida em que sua conduta é vigiada sem
cessar, sem que elas o saibam. Isto é um controle social poderoso, pois a introjeção das
normas sociais por mulheres funciona como um panóptico.
Por ser assim, diz-se que a ideologia sexista se corpori�ca nos agentes
sociais tanto de um polo quanto de outro da relação de dominação-
subordinação. O �lme Lanternas Vermelhas (1991) apresenta uma trama
que capta isto: a engenharia do patriarcado enquanto estrutura hierárquica
que confere aos homens o direito de dominar as mulheres, independente
da �gura humana investida de poder. Na trama, uma das quatro esposas
reféns do patriarca denuncia a outra que incorria em traição e seria punida
com a morte. Ou seja, o patriarcado estimula a guerra entre as mulheres,
funciona como uma engrenagem com funções automáticas, podendo ser
acionada por qualquer um, inclusive por mulheres.
As relações entre os sexos e a posição da mulher na família e na
sociedade fazem parte de um sistema mais amplo de dominação, de modo
que, para entendermos a exclusão destas da esfera pública para �ns de
manutenção do exclusivo vínculo doméstico, fundamental é �xarmos
características presentes no sistema capitalista que formaram complexos
sociais até hoje justi�cados em nome da tradição.
A partir da articulação entre a moral, religião, educação, são criados
mitos que essencializam os papeis sociais desenvolvidos pelas mulheres
como as funções de sexualidade, reprodução e socialização dos �lhos
desempenhadas na família, por exemplo. A sociedade se vale dos mitos,
revela Sa�oti (2013, p.179), “para retardar a emancipação de uma categoria
social que se impõe a tarefa de libertação”. Assim tem sido com as mulheres,
os negros e os povos originários sob o jugo do colonialismo.
A apreensão na totalidade da temática exige um entendimento-
chave16: ainda que, aparentemente, determinada coletividade seja excluída
das relações de produção em virtude de sua raça ou de seu sexo, há que se
buscar nas primeiras- relações de produção- a explicação da escolha de
fatores raciais e de sexo para operarem como marcadores sociais que
autorizam hierarquizar, segundo uma escala de valores, os sujeitos de uma
sociedade historicamente situada. (SAFFIOTI, 2013)
Quer dizer, enquanto categorias dependentes da instrumentalização
do capital, operam segundo as necessidades do sistema produtivo de bens e
serviços, assumindo feições distintas conforme a fase de desenvolvimento
do tipo estrutural da sociedade. Nas palavras da autora (Ibid, p. 60):
Alguns desses caracteres naturais isolados para operar como desvantagens sociais são
passíveis de anulação ao longo do tempo. Neste caso, a sociedade acaba por encontrar
outros fatores que possam funcionar como marcas sociais e justi�car o desprestígio de
outros setores demográ�cos e sua localização na base da pirâmide social.
É possível entendermos, a partir disso, que os marcadores sociais
atuarão segundo as demandas do modo de produção vigente em dada
sociedade, variando a forma como incide e aparelha as relações sociais. A
história da modernidade é, porassim dizer, a narrativa das diferentes vestes
que as opressões de raça, classe, gênero, entre outras, ganharam ao longo
do tempo.
Por oportuno, enquanto marxista e ao mesmo tempo crítica da
esquerda ortodoxa que defende a primazia da classe sobre as outras
questões de opressão, enquadrando-as como categorias subalternas, Davis
(2011)17 reivindica o entrecruzamento das mesmas:
As organizações de esquerda têm argumentado dentro de uma visão marxista e
ortodoxa que a classe é a coisa mais importante. Claro que classe é importante. É preciso
compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero
informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é
a maneira como a raça é vivida. A gente precisa re�etir bastante para perceber as
intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias
existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a
primazia de uma categoria sobre as outras.
Nessa esteira, por mais que tenhamos feito uma pequena digressão ao
modo escravista de produção para justi�car certas permanências nos
contextos posteriores, o marco temporal deste trabalho é o advento do
capitalismo justamente por compreendermos que o modo capitalista de
produção aprofundou a contradição presente nas formações econômico-
sociais anteriores baseadas na apropriação privada dos meios de produção e
dos produtos do trabalho humano.
Sendo assim, a desigualdade nos status jurídicos dos homens (servos,
escravos, livres) não mais justi�ca a dimensão econômica das relações
sociais. Os novos homens e mulheres libertos possuem sua força de
trabalho e participam do mercado sob a igualdade do status jurídico que,
supostamente, é su�ciente para assegurar a igualdade de fato. 18
Com efeito, Lenin (1956, p. 47) condiciona a vitória da luta do
proletariado à necessária igualdade material entre homens e mulheres, não
só a igualdade jurídica, enfatiza. E assim discorre: “O proletariado não
alcançará a emancipação completa se não for conquistada primeiro a
completa emancipação das mulheres”.
A respeito das condições históricas das relações estabelecidas no
processo de dominação na América Latina, sabemos que a violação
sistemática das mulheres negras19 e indígenas pelos senhores brancos deu
origem à miscigenação, formou a identidade nacional e resultou no
famigerado mito da democracia racial. O fetiche de alguns sociólogos pela
narrativa do romance no contato dos colonizadores e nossos povos
originários é, na verdade, um eufemismo para o contexto de coisi�cação
das mulheres negras e índias.
A violência sexual colonial formou a base das hierarquias de gênero e
raça presentes na nossa sociedade que, ao ser ignorada, centraliza o
feminismo a uma inclinação eurocêntrica/universalista que peca por não
contextualizar as particularidades das relações sociais constituídas no Brasil
colônia e que reverberam até hoje.
O poeta negro Aimé Césaire crava lição primordial neste debate ao
dizer que há duas maneiras de perder-se, ou por segregação ou por diluição
no universal. Nem guetos nem universalização cega. O sentido da luta está,
diz Carneiro (2011, p.8), em garantir a plenitude do ser humano para além
da raça e do gênero, isto é, “ser negro sem ser somente negro, ser mulher
sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra.”
Por isso a sua proposta: enegrecer o feminismo brasileiro para instituir o
peso da questão racial na con�guração das desigualdades, violência e
privilégios da branquitude.
O aspecto servil imposto às relações sociais entre mulheres negras e
brancos(as) se encontra na presença que não se nota, na existência que se
ignora, na dignidade que não se confere, tal qual se percebe no tratamento
dado às empregadas domésticas, função social que personi�ca a
subalternização. A dimensão de poder nega agência enquanto sujeito e
atesta a invisibilidade dessas trabalhadoras, em uma dialética de ausência e
presença, de pertença e não-pertença. Nas palavras de Patricia Hill Collins
(2016), são “forasteiras de dentro”, “estrangeiras de dentro”.
Trata-se de veri�carmos que formas historicamente condicionadas de
trabalho permitem a objeti�cação humana e quais outras aviltam o ser
social do homem e da mulher. O trabalho na sociedade de classes, a par de
ser alienado enquanto atividade, gera um valor do qual não se apropria
inteiramente aquele(a) que o executa, seja homem, seja mulher. Esta,
contudo, se apropria da menor parcela dos produtos de seu trabalho do que
o faz o homem. É óbvio, pois, que a mulher sofre mais diretamente do que
o homem os efeitos da apropriação privada dos frutos do trabalho social.
O espaço que o trabalho tem ocupado na vida das mulheres negras
reproduz padrões escravistas, na medida em que a mulher negra ainda é
vista como unidade de trabalho em tempo integral, mão de obra barata e
trabalhadora valorosa. A respeito das lutas dos(as) trabalhadores(as) por
regulamentação de seus direitos e dos traços escravistas das relações de
trabalho, já no século XIX Marx (2013, p.372) alertava que: “o trabalho de
pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é
marcado a ferro. Mas da morte da escravidão brotou imediatamente uma
vida nova e rejuvenescida.”
De um modo geral, a quali�cação pro�ssional da mulher negra no
Brasil foi construída através de dois estereótipos: doméstica e mulata.
Criada pelo sistema hegemônico para atender a um tipo especial de
mercado, a signi�cante mulata, segundo Lélia Gonzalez (1979) atualmente
supera a tradução da mestiçagem entre negro(a) e branco(a) para ser o
moderno “produto de exportação”, sendo exercida por jovens que buscam
prestígio e desconhecem a construção da hipersexualização das latinas
como moeda de troca para a economia de mercado internacional.
Os traços comuns do racismo institucionalizado não tornam
homogêneas as experiências negras, visto que fatores como classe in�uem
fortemente nas manifestações racistas. Na classe trabalhadora, além do
assujeitamento de raça, há um sentido de propriedade através do controle e
subordinação com mecanismo de salário, horas extras, mecanização da
trabalhadora como sujeita pensante, o esvaziamento do sujeito. Na teoria
marxista, esta última faceta é compreendida como a alienação ou
estranhamento do(a) trabalhador(a) em relação à sua produção.
A construção do exercício do trabalho atrelado à moralidade e como
digni�cador do homem faz parte da estratégia ideológica de disciplinar os
grupos sociais para a produção e manutenção do sistema capitalista. Quanto
a isso, Althusser (apud Gonzalez, 1979, p. 8) doutrina:
Nas sociedades de classes, ideologia é uma representação do real, mas necessariamente
falseado, porque é necessariamente orientada e tendenciosa- e é tendenciosa porque seu
objetivo não é dar aos homens o conhecimento objetivo do sistema social em que vivem,
mas, ao contrário, para mantê-los em seu ‘lugar’ no sistema de exploração de classe.
A partir deste entendimento, e percebendo que o privilégio racial é
uma característica marcante da sociedade brasileira, uma vez que o grupo
branco é o grande bene�ciário da exploração da população negra, o
objetivo do movimento negro é organizar o povo negro “para lutar contra a
superexploração econômica de que tem sido objeto, assim como contra a
‘mais-valia’ cultural e ideológica dele extraída pelo grupo branco
dominante” (Ibid, p.4)
Antes de prosseguirmos, uma questão típica do economicismo merece
explicação (Ibid, p. 9):
tanto brancos quanto negros pobres sofrem os efeitos da exploração capitalista. Mas na
verdade, a opressão racial faz-nos constatar que mesmo os brancos sem propriedade dos
meios de produção são bene�ciários do seu exercício. Claro está que, enquanto o
capitalista branco se bene�cia diretamente da exploração ou superexploração do negro,
a maioria dos brancos recebe seus dividendos do racismo, a partirde sua vantagem
competitiva no preenchimento das posições que, na estrutura de classes, implicam nas
recompensas materiais e simbólicas mais desejadas.
Da mesma forma, o movimento feminista liberal ao reivindicar suas
pautas e desconhecer quão mais complexa é a incidência das opressões na
vida das mulheres negras, por ser branco e burguês, recebe um
protagonismo mesmo que a busca seja por emancipação meramente
individual.
Para Audre Lorde (2015, pps. 193-210), a crença por parte das
feministas brancas de que as mulheres negras desconhecem a opressão
machista até haver uma análise e programa de libertação elaborado por
aquelas advém do fato de acreditarem em uma fonte de conhecimento,
desconhecendo ou ignorando as estratégias de resistência de inspiração
empírica contra situações opressoras diárias e que formam uma consciência
política de potência, embora não sustentada por termos de gênero.
As negras convivem com uma dupla criação a respeito da sua
personalidade: ora os mitos racistas das super-mulheres, portadoras de uma
força que tudo suporta, a tudo combate sem repercussões íntimas; ora a
vítima que questiona esse lugar social que para ela foi criado. Nessa
perspectiva, Audre Lorde (Idem, p. 207) é conclusiva:
Ao projetar sobre as mulheres negras um poder e uma força míticos, as brancas
promovem uma falsa imagem de si mesmas como vítimas impotentes e passivas, ao
mesmo tempo que desviam a atenção de sua agressividade, de seu poder (ainda que
limitado em um Estado hegemonicamente branco, dominado por homens) e de sua
disposição de dominar e controlar os outros.
No território em que se discute como a lógica escravagista continua
presente nas formas de pensamento e nas práticas de apropriação do corpo
negro como subordinado, assim como no feminismo com suas políticas
brancas, trava-se um embate sobre os níveis hierárquicos de opressão.
O preceito de que não se trata de quanti�car a dor do outro não
signi�ca igualar todas as vivências femininas a um mesmo julgo sexista, e
sim reconhecer que existem opressões com maior envergadura política e são
as que fogem à esfera individual e reverberam coletivamente. Nessa esteira,
a lição cirúrgica de Benjamin Barber (1975, p. 30), citado por Audre Lorde:
O sofrimento não é necessariamente uma experiência �xa e universal que possa ser
medida com uma régua única: está relacionado a situações, necessidades e aspirações.
Mas deve haver alguns parâmetros históricos e políticos para o uso do termo, para que
possam ser estabelecidas prioridades políticas e se possa dar mais atenção a diferentes
formas e graus de sofrimento. (Grifos nossos)
A despeito das prioridades políticas e graus de sofrimento, a negritude
é o traço de desumanidade que a herança escravagista permite que se
marque a ferro nas peles, de modo que o movimento contrário à negação
do ser negro(a) é processo de resistência contra a expectativa de
passividade. É assim que, sobre o processo de rea�rmação do ser negro,
Neusa Santos Souza (1983, p. 17) partilha:
A descoberta de ser negra é mais que a constatação do óbvio. (Aliás, o óbvio é aquela
categoria que só aparece enquanto tal, depois do trabalho de se descortinar muitos
véus). Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade,
confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas
alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua
história e recriar-se em suas potencialidades.
E continua:
Ser negro é, além disso, tomar consciência do processo ideológico que, através de um
discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o
aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse desta
consciência e criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que
rea�rme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração.
Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-
se negro. (Grifos nossos) (Idem, p. 77)
A luta das mulheres é a luta contra a atuação do patriarcado nas
relações sociais, contra o capitalismo que superexplora seus trabalhos,
transforma seus corpos em mercadoria e contra o racismo que elenca
aquelas que estarão na zona do submundo da exploração, sujeitas a
violências coloniais que remetem a um estágio anterior às conquistas
liberais do marco internacional de defesa dos direitos humanos.
I.5. Amandla Awethu20: negros(as) do mundo,
aquilombai-vos!
A ascensão de estudos dos quilombos como questão para ciências
humanas advém do reconhecimento da necessidade da temática para
compreensão das formas de organização de luta existentes desde África,
bem como do processo de dar voz aos que vivem/viveram a realidade da
escravização.
O nome original vem da história de resistência angolana e queria dizer
acampamento de guerreiros na �oresta, administrado por chefes rituais de
guerra. Enquanto estabelecimento territorial, há semelhanças e diferenças
entre os quilombos de Angola e os �rmados no Brasil, mas, na concepção
de Beatriz Nascimento (1981), na raiz de todos existe uma procura do
homem por espaço.
Nos estudos historiográ�cos, o fenômeno de reunião de negros
escravizados fugidos assumem, a partir de �ns da década de setenta e início
da década de oitenta, uma conotação ideológica no sentido de comunidade
de luta que reconhece o direito à terra (espaço físico) e à terra-nação que
lhe deve direitos.
Assim observa Beatriz Nascimento no �lme Ori(1989):
É importante ver que, hoje, o quilombo traz pra gente não mais o território geográ�co,
mas o território a nível(sic) duma simbologia. Nós somos homens. Nós temos direitos
ao território, à terra. Várias e várias e várias partes de minha história contam que eu
tenho o direito ao espaço que ocupo na nação. A terra é o meu quilombo. Meu espaço é
meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou. (Grifos nossos)
Esse excerto da obra da re�exão da historiadora remete à ideia de
criação da identidade a partir do pertencimento a um espaço geográ�co, de
reconhecer tal espaço como casa, como porto.
A rede�nição das subjetividades negras por meio da memória
promove um sentido de inclusão e de recon�guração do espaço,
compreendendo que, ao reproduzir espaços como casas-grandes e senzalas,
existe uma divisão racial do território. Isso se compreende da leitura da
naturalização do que é o lugar do negro, ligado à subserviência e à
criminalização e do que é o lugar do branco, relacionado a postos de
comando e dominação.
Lélia Gonzalez (1984, p. 232) ao discorrer sobre, anuncia que “os
diferentes índices de dominação das diferentes formas de produção
econômica existentes no brasil parecem coincidir num mesmo ponto: a
reinterpretação da teoria do ‘lugar natural’ de Aristóteles.” A dialética do
senhor e do escravo se apresenta também na lógica de dominação, que diz
quem domina e quem é dominado, que tenta domesticar e infantilizar o
negro e a mulher. Esse processo é encoberto pelo mito da democracia racial,
tática para induzir uma falsa ideia de igualdade não �dedigna com a
exclusão de fato das pessoas negras.
Com a chave destas questões é que se pretende desnaturalizar a classe,
desnaturalizar a raça e desnaturalizar o gênero, assimilando que um
instrumentaliza o outro e se reúnem em um só golpe. Pensar através da
perspectiva macro é adotar os pontos de referência adequados para captar a
questão política estrutural das mulheres e o problema da universalização a
partir da “mulher-média”, isto é, branca, burguesa e heterossexual, que não
representa a maioria das mulheres negras trabalhadoras que estão na linha
de frente da tropa de choque do Estado, isto é, em posições subalternas e
marginalizadas.
Nesse sentido, o universalismo é encarado como um postulado
colonial, porque, ao generalizar as identidades, essencializa particularidades
e ignora como a combinação de certos aspectos de dominação atravessamdiferentemente os grupos. Por isso que as mulheres que não se opõem
simultaneamente ao patriarcado, ao racismo, ao capitalismo, que buscam
igualdade sem reconhecer os privilégios, foram cooptadas pela ideologia de
um feminismo pan�etário e liberal.
Construir um território livre dos regimes patriarcais é reconhecer que
as ideologias classistas e do branqueamento aparelham a produção
acadêmica que se faz a respeito do feminismo, de modo que o que
pretendemos aqui foi demonstrar que o processo de libertação de um grupo
de mulheres implica na prisão de outras, justamente no lugar do saber,
espaço de disputa ideológica, viciado pelos valores dominantes da
sociedade. Nesse sentido, tomando emprestado mais uma vez os
ensinamentos de Lélia Gonzalez (1984, p. 226), pretendemos entender a
memória como o lugar de emergência da verdade, de recuperação da
história não escrita.
É por isso que, de mãos dadas a esta grande intelectual orgânica,
hasteamos a bandeira em defesa de um feminismo amefricano. O próprio
termo nos permite ultrapassar os limites territoriais, linguísticos e
ideológicos presentes na denominação genérica que resume todos nós,
sulistas, centristas e nortistas como americanos. A linguagem produz
conteúdo de resistência e em terra onde fala o “pretuguês” e se tem povos
em diáspora com identidades de enfrentamento à cultura ocidental nada
mais politicamente pertinente do que reivindicar a categoria da
amefricanidade.
Diretamente ligado aos movimentos da “Négritude” e do
Panafricanismo em África, o termo reconhece na Diáspora uma experiência
histórica de pessoas que, através da escravidão, do colonialismo, do
imperialismo e da migração foram forçadas a deixar suas terras nativas.
Para as mulheres negras brasileiras ou de descendência africana, o marco
diaspórico assinala sua dispersão desde África a sociedades no Caribe,
América do Sul, América do Norte e Europa.
A respeito do movimento político-cultural pan-africanista e das lentes
pan-africanistas socialistas para questões dos povos negros, destacamos a
entrevista com um economista do partido comunista de Zâmbia, transcrita
no apêndice deste trabalho.
Então, Lélia nos convida a abandonarmos as reproduções imperialistas
que massacram culturalmente os povos do continente e rea�rmarmos
nossos laços com África partindo da realidade histórica dos(as)
afroamericanos(as) e sua luta contínua de vida e morte para sobrevivência e
libertação.
Enquanto teoria e prática crítica, o feminismo não pode se isentar de
compreender a realidade na sua totalidade, �ssuras e contradições, de
modo que há que se �xar quais as contribuições essenciais das mulheres
negras a este feminismo que se pretende autodeterminar negro,
anticapitalista e contra-hegemônico sem incorrer, todavia, no separatismo,
armadilha burguesa de enfraquecimento.
A poeta negra americana e revolucionária feminista, tal qual se
reivindicava, Pat Parker, desmente a ilusão de que a revolução é limpa,
anunciando: nem limpa, nem bonita, nem veloz, “a revolução é um
processo sujo (1988, 196)”, seremos confrontados com decisões de vida e
morte, seremos postos em contradição, perderemos batalhas, mas este é o
único caminho para nossa liberdade.
Nessa linha de raciocínio, Audre Lorde (1988, p.91) nos brinda com a
re�exão:
As ferramentas do amo nunca desarmarão a casa do amo. Talvez nos permitam
temporalmente ganhar-lhes no seu próprio jogo, mas nunca nos deixarão efetuar uma
mudança genuína. E este feito é ameaçador somente para as mulheres que ainda de�nem
a casa do amo como o único recurso de apoio.
É preciso clareza: a luta feminista deve estar voltada para a destruição
da estrutura capitalista/racista/colonial/patriarcal que determina os
ponteiros das relações sociais, consciente de que ou se combate as causas ou
estaremos apenas fazendo micro�ssuras sem alterar o modo de
funcionamento da engrenagem.
4 Citação de parte da obra de Frantz Fanon Pele Negra, Máscaras Brancas (2008).
5 Aníbal Quijano (2005) pondera que o conceito de modernidade é ambíguo e contraditório,
alertando para a questão de con�ito de interesses sociais em torno do eurocentrismo e os seus
mitos fundacionais como: a) a ideia da história da civilização humana como uma trajetória que
parte de um estado de natureza e culmina na Europa; b) outorgar sentido às diferenças entre
Europa e não-Europa como diferenças de natureza (racial) e não da história do poder. Esses dois
mitos são reconhecidos no fundamento do evolucionismo e do dualismo (núcleos do
eurocentrismo).
6 Mais recentemente, Silvia Cusicanqui (2010) nos mostra o espelhamento de tais práticas coloniais
em outras esferas da vida, como a acadêmica, inclusive em meio a teóricos que se intitulam
descoloniais.
7 Destaque para uma passagem do autor: “Depois de quatro décadas desse discurso, a maioria das
formas de entender e representar o Terceiro Mundo seguem sendo ditadas pelas mesmas premissas
básicas. As formas de poder que têm surgido não funcionam tanto por meio da repressão, senão
da normalização, não por ignorância senão por controle de conhecimento; não por interesse
humanitário, senão pela burocratização da ação social.” (tradução nossa) (ESCOBAR, 1996, p.
109).
8 Entendemos epistemologia como o ramo da �loso�a que se ocupa da natureza, origens e limites do
conhecimento, no sentido dado por Foucault na obra As palavras e as coisas (2000), em que este
correlaciona os processos históricos, o sujeito e o saber.
9 Para Quijano (2005), a colonialidade é um dos elementos constitutivos e especí�cos do padrão
mundial de poder capitalista. Cabe aqui a diferenciação que o autor faz entre colonialidade e
colonialismo, a�rmando que, ainda que vinculados, o colonialismo se refere estritamente a uma
estrutura de dominação e exploração, na qual há o controle da autoridade política dos recursos de
produção e do trabalho de uma população determinada, mas não necessariamente implica
relações racistas de poder, como no caso da colonialidade. A colonialidade foi engendrada dentro
do colonialismo.
10 Clovis Moura divide o escravismo brasileiro em duas fases fundamentais: o escravismo pleno
(1550-1850) e o escravismo tardio (1851-1888), partindo do princípio de que o movimento
abolicionista começava a germinar e a produzir leis de libertação; e do fato de o escravismo passar
a conviver com outra forma de gestão econômica.
11 O autor não faz crítica direta, mas entendemos o título do livro como uma provocação à obra
mais importante de Immanuel Kant “Crítica da Razão Pura”. O alemão foi canonizado como parte
da �loso�a clássica, embora hoje seja visto pelos críticos como um �lósofo higienista. Aponta-se a
conexão entre a proposição de universalidade moral e o racismo presente nos seus escritos, pois
que a universalidade só poderia existir na medida em que operasse a exclusão, e a demarcação
daqueles portadores de dignidade. Longe dos purismos, Mbembe al�neta com muita categoria
Kant e prova como se faz uma �loso�a compromissada com a descolonização do pensamento.
12 Em uma clara inversão da realidade, as vítimas se tornam algozes, �guras a serem temidas e,
portanto, exterminadas. Referência clara ao romance oitocentista “Vítimas algozes”, de Joaquim
Manuel de Macedo, no que toca ao termo utilizado, mas em divergência com as razões do autor
que evoca um abolicionismo na contramão dos direitos humanos e igualdade. Atemo-nos aqui à
interessante construção sobre a mutação da vítima para o algoz.
13 María Lugones concebe a dicotomia humano e não humano como a dicotomia central da
modernidade colonial.
14 O termo “assujeitamento” foi cunhado por Foucault e remete à construção dos sujeitos pela ação
de práticas e discursos de poder.
15 Termo utilizado por María Lugones em “Hacia um feminismo descolonial”, artigo publicado em
Hypatia, vol 25, no. 4, 2010.
16 As ideias que se seguem devem muito à produção intelectual de Heleieth Sa�oti sobre a mulher e o
capitalismo contidas na obra de maior envergadura e central para o debateestrutural. Ver A
mulher na sociedade de classes, Ibid.
17 Artigo As mulheres negras na construção de uma nova utopia publicado no portal Geledés-
Instituto da Mulher Negra. Disponível em: < https://www.geledes.org.br/as-mulheres-negras-na-
construcao-de-uma-nova-utopia-angela-davis/>
18 A aparência das relações sociais oculta os mecanismos de funcionamento da ordem capitalista
como, por exemplo, a remuneração do trabalho em dinheiro: sob a forma de salário, disfarça a
apropriação, por parte do capitalista, do excedente do trabalho, como que para substituir a
justi�cativa jurídica superada da exploração de uma classe por outra.
19 Para Davis (2016, p. 20), o estupro era “expressão ostensiva do domínio econômico do
proprietário”.
20 Amandla é uma palavra africana que signi�ca “poder” e Awethu quer dizer “em nossas mãos”. A
expressão se consagrou como gritos de ordem do povo africano em resistência ao apartheid e se
�rmou historicamente até hoje como uma entoação de luta.
II. ABOLICIONISMO PENAL E
APONTAMENTOS TEÓRICOS SOBRE
JUSTIÇA RESTAURATIVA SOB A
PERSPECTIVA FEMINISTA
Para trabalhar com o universo da violência contra a mulher, bebemos
do acúmulo teórico feminista que diagnostica sua fonte de legitimidade na
construção social do gênero, na história das mulheres enquanto sujeitos
ausentes, no contrato de liberdade para o homem e de subordinação para a
mulher.21
Para termos subsídio teórico que possibilite interpretar os resultados
da pesquisa e tecer comparações e cruzamentos entre as categorias de raça,
classe e gênero no contexto das práticas retributivas e restaurativas no
contexto da violência doméstica, fundamental que aqui façamos um estudo
sobre a ideologia penal e suas repercussões desastrosas que são nutrientes
para a crítica fecunda à sua existência enquanto método justo de solução de
situações problemáticas. É nesta esteira que este capítulo trará as
contribuições teóricas essenciais para compreendermos o arcabouço
ideológico que subsidia a atuação penal como didática perfeita de
persecução dos inimigos do sistema capitalista-patriarcal-racista, bem como
a consequência histórica lógica: a organização dos setores críticos da
academia e dos movimentos contra as prisões que desembocaram no
abolicionismo penal e, posteriormente, na Justiça Restaurativa.
Sem adentrar nos resultados, desde já é possível sinalizarmos para
aquilo que embasa o direcionamento para a análise que se seguirá. A Lei n.
11.340/2006- Lei Maria da Penha- instaurou mecanismos capazes de
enrijecer o tratamento penal no trato dos casos de violência doméstica no
Brasil, de modo que estimulou o inchamento do direito penal como
mecanismo salvador da questão e, por meio do slogan midiático em prol do
aprisionamento e da campanha em torno da própria lei, aumentou, por
tabela, o controle penal pelo encarceramento, cerne da crítica criminológica
há décadas.
Reconhecendo o potencial transformador do instituto legal, re�exo da
organização e do tensionamento perante o Estado do movimento feminista,
é possível, ainda assim, identi�carmos frustrações nos resultados desta
atuação, seja nas expectativas das vítimas, seja em relação aos dados o�ciais
sobre os con�itos domésticos no Brasil, que seguem alarmantes.
Um breve desnudamento do panorama atual das repercussões da
intervenção penal nestes con�itos aponta para sua ine�cácia na proteção
das mulheres, pois que, dentre outras coisas, como aponta Vera Regina
Andrade(2016), não previne novas violências, não escuta verdadeiramente
as vítimas, não contribui para a compreensão das motivações histórico-
político-sociais que autorizam esse tipo de violência e, por tabela, para uma
nova gestão das relações de gênero, bem como ainda duplica a violência
exercida contra elas. Arremata (Ibid, p. 131): “Isto porque se trata de um
subsistema de controle social, seletivo e desigual, tanto de homens como de
mulheres e porque é, ele próprio, um sistema de violência institucional, que
exerce seu poder e seu impacto também sobre as vítimas.”
Assim, o sistema penal é identi�cado como multiplicador da vitimação
feminina, pois além da violência sexista a que estão expostas, as mulheres
tornam-se vítimas da violência simbólica22 das instituições jurídicas que
reproduzem as violências capitalistas e patriarcais.
Os controles informal e formal constroem uma subjetividade de
submissão, doença psiquiátrica, passividade, domesticidade para a mulher,
de modo que aquelas que não respondem bem a esses mecanismos de
limitação de seu agir são as delinquentes. O que se espera da mulher é que
ela �que no espaço doméstico e cumpra os papeis sociais a ela destinados.
No momento em que ela rompe o ciclo de violência e denuncia, ela
delinque, tem uma posição ativa e empoderada. O sistema, no entanto, ao
perceber que algumas mulheres já ultrapassaram a barreira do silêncio e
que são “transgressoras” por denunciarem, atualiza o mecanismo: ora
revitimiza a mulher nas instâncias judiciais, culpabilizando-a por seus
comportamentos que contrariam as expectativas machistas de subordinação
e, por isso, provocam a violência; ora induz por meio da propaganda e do
punitivismo a uma mentalidade superencarceradora das mulheres para com
seus agressores. Nas duas ocasiões, as mulheres estão sendo controladas
pelo sistema, conforme a conveniência dele: se naquele estágio é
importante que as mulheres estejam no espaço doméstico e submissas, a
primeira postura é adotada; se, ao contrário, a realidade mostra o avanço da
luta das mulheres, mais interessante é cooptar essa demanda e conduzir
para o objetivo maior do sistema penal: encarcerar, excluir e aniquilar (no
caso, o agressor). A mulher delinque ao romper o ciclo da violência e
delinque ao contrariar a vontade punitiva do sistema.
Desta feita, com uma nítida e justa intenção de frear a progressão das
ocorrências de violência de gênero, podemos dizer que houve um
descompasso entre as funções declaradas pela Lei Maria da Penha e as
consequências reais da sua aplicação.
A começar pelo aspecto subjetivo, pesquisas apontam
(MONTENEGRO, 2015) que grande parte das mulheres está mais
interessada em buscar proteção e cessar a prática violenta do que a punição
criminal do agressor. No entanto, a expropriação do con�ito pelo Estado
(CHRISTIE, 1977) além de reduzir a complexidade dos casos, redunda na
apresentação de uma única solução possível: a punição através da prisão.
Dessa forma, ao desconsiderar os aspectos afetivos envolvidos, impõe,
paradoxalmente, sanções como a revitimização da mulher no processo
penal e o encarceramento de agressores advindos das classes subalternas.
Além disso, a lei não se mostrou até agora como meio e�caz na redução
signi�cativa dos índices de violência nem como meio pedagógico na
mudança de comportamento dos homens, posto que pautada na
compreensão dos signos patriarcais que instrumentalizam o machismo nas
relações afetivas.
Nesse sentido, dialogar com um novo paradigma para além da prática
punitiva do aprisionamento e da exclusão social, da ritualística
hierarquizada da justiça tradicional, da palavra de ordem legal e da força, é
colocar em pauta também que o universo da violência é o universo da dor e
que os seus sujeitos têm uma fala, bem como saberes que não passam,
necessariamente, pela mão do Direito Penal.
II.1. Punição estrutural: a laranja mecânica23 do
dia a dia
Comecemos localizando nosso marco como transdisciplinar por
excelência, o que nos garante percursos pelo direito penal, sociologia,
�loso�a, política e nem por isso nos situa em um labirinto teórico.
Recorremos às outras áreas do conhecimento porque sabemos que a boa
prática do direito deve se contaminar e se retroalimentar destas. A partir
disso, nos movemos no sentido de nos libertar da assepsia jurídica que
pretende neutralidade e purismo conceitual. Bem pelo contrário, se
identi�camos que o direito é fruto de uma sociabilidade voltada à
acumulação, exploração do trabalho assalariadoe recortado pelas
contradições de classe, desmascaramos o alegado afastamento e
denunciamos, desde já, que sua institucionalidade e seu conjunto teórico-
abstrato são mecanismos de aperfeiçoamento dos objetivos capitalistas.
Demarcar este lugar de análise aponta o movimento de politizar e
historicizar o debate sobre a questão criminal, no sentido contrário ao
positivismo, que tem pretensão classi�catória e hierarquizante, para �ns de
deslocar o foco do automatismo de subsunção do fato à norma e abrir os
olhos para os mecanismos de controle social punitivo nos sistemas penais
capitalistas.
Para tanto, a ferramenta teórica escolhida é a criminologia crítica. Mas
que coisa é a criminologia crítica? Primeiramente, cabe dizermos que seria
um grupo de saberes que observa o delito como fenômeno social
(Sutherland, 1945), iluminando as relações com a estrutura a partir de um
enfoque macrossociológico que historiciza a realidade comportamental
(Baratta, 2002).
Em oposição à Criminologia tradicional, ciência que a�rma a realidade
ontológica do crime através do método positivista de causas biológicas,
psicológicas e ambientais, a Criminologia crítica se desenvolve pela
mudança de objeto e método: desloca-se a criminalidade como dado
ontológico para a criminalização enquanto realidade construída a partir da
quali�cação da justiça criminal, orientada pelos estereótipos e preconceitos
oriundos dos processos de marginalização social. As determinações causais
do método etiológico são abandonadas e emprega-se o duplo método:
interacionista, de construção do crime e da criminalidade, pelo qual o foco
deixa de ser o indivíduo para ser o sistema, bem como o método dialético,
que insere a concepção criminal no contexto da contradição
capital/trabalho assalariado, pilar das instituições básicas do capitalismo.
(CIRINO DOS SANTOS, 2005)
A criminologia Crítica se �rma pelo debate estrutural da produção do
crime, da criminalidade e do criminoso, discutindo poder, instituições
jurídicas e criminalização seletiva, ao relacionar as relações econômicas,
políticas e jurídicas. Nesse sentido, recebeu e recebe muitas in�uências da
literatura marxista para, através de uma teoria do con�ito de classes,
explicar as contradições que permeiam essas três esferas e discutir a questão
criminal dentro do processo dialógico do capitalismo.
Originário da criminologia fenomenológica americana de meados do
século XX, o paradigma do labeling approach marca o giro cientí�co da
teoria criminológica, pois analisa o fenômeno criminal como produzido por
normas e valores e de�ne o comportamento criminoso como qualidade
atribuída por agências de controle social, de modo que o criminoso é “o
sujeito ao qual se aplica com sucesso o rótulo de criminoso (Becker, 2008, p.
22). A questão deixa de ser “quem é o criminoso?” e passa a ser “quem é
de�nido como criminoso?”.
Segundo Baratta (1985), o labeling approach representa condição
necessária, mas insu�ciente para formação da Criminologia crítica:
necessária porque coloca o comportamento criminoso como consequência
da aplicação de regras e sanções pelo sistema penal, mas condição
insu�ciente, porque incapaz de indicar os mecanismos de distribuição social
da criminalidade, inseridos no contexto das desigualdades sociais em
propriedade e poder das sociedades contemporâneas. A integração dos
processos estudados pelo labeling approach com os processos estruturais e
ideológicos das relações de produção da vida material enfrentados pelo
marxismo lançou as bases da Criminologia Crítica na Europa e, depois, na
América Latina.
A tese fundamental da Criminologia crítica sobre o sistema de justiça
criminal é: de um lado, estão as funções declaradas de prevenção da
criminalidade e de ressocialização do criminoso que constituem a retórica
legitimadora da repressão seletiva de indivíduos das classes sociais rasteiras,
baseada em indicadores negativos como pobreza e desemprego, marcando a
criminalização da miséria no capitalismo; de outro lado, as funções reais do
sistema penal, isto é, as funções não-declaradas24 de gestão de classe a
partir da gestão diferencial da criminalidade. Em suma, a Criminologia
crítica atribui “o fracasso histórico do sistema penal aos objetivos ideológicos
(funções aparentes) e identi�ca nos objetivos reais (funções ocultas) o êxito
histórico do sistema punitivo, como aparelho de garantia e de reprodução
do poder social”.25
No curso dos discursos criminológicos, assume-se que os objetivos,
métodos e políticas não são neutros, em sintonia com a lição de Mássimo
Pavarini26 quando diz que para entendermos o objeto da criminologia
temos de entender a demanda por ordem de nossa formação econômica e
social, pois que a criminologia se relaciona com a luta pelo poder. A
criminologia e a política criminal surgem como saber/poder a serviço da
acumulação de capital, compromissadas em dar respostas políticas à
necessidade de ordem na perspectiva de luta de classes. 27
Embora o marxismo clássico não tenha sistematizado o assunto,
podemos dizer que há aproximações marxistas à questão criminal, já que o
direito aparece como demanda por ordem vinda de necessidades
econômicas, sociais, culturais e políticas. O marxismo revelou a aparência
legitimadora da norma jurídica sobre os modos e as lutas que se produzem
nas relações de classe, denunciando, sem se anunciar como teoria
materialista do desvio, as estratégias seletivas de controle social.
Segundo Pavarini (apud Batista, 2011), para uma economia política do
delito é importante compreender a natureza estrutural dos processos
criminógenos, relacionando o fenômeno criminal às classes sociais no modo
de produção capitalista. A economia política do crime estaria
consubstanciada no conjunto de interações entre o processo produtivo, a
pauperização e a criminalidade.
Sobre as contribuições do marxismo, Vera Malaguti (2011, p. 84)
coloca que:
são fundamentais para uma ruptura metodológica no curso dos discursos sobre a
questão criminal. É produzida uma passagem da fenomenologia criminal para os
processos de criminalização, o olhar se estende para além do objeto, na tensão constante
da luta de classes e a fúria devastadora do capital. Entram em jogo as relações entre
ilegalidade e mais-valia, ilegalidades das classes trabalhadoras, os crimes contra a
propriedade, as estratégias de sobrevivência das classes trabalhadoras, as relações entre
a estatística criminal e o mercado de trabalho, a ideia de um aprisionamento desigual,
articulado à repressão da classe operária, dos pobres e dos resistentes, como dizia a
brava Rosa Del Olmo. En�m, essa escola de pensamento põe por terra a argumentação
positivista e reti�ca o pensamento liberal de médio alcance. O marxismo e as pesquisas
libertárias e deslegitimadoras da pena do labeling estadunidense pariram a criminologia
crítica.
Compreender a punição a partir de uma chave estrutural, do ponto de
vista econômico, político e social, permite desvendar os objetivos escusos e
perceber o desenvolvimento do pensamento social que orienta comunidade
e Estado na relação com os(as) desviantes. Com isso queremos desenredar
o processo de ideologização subjacente à problemática da punição e, para
tanto, é essencial esclarecermos que as prisões são uma forma
especi�camente burguesa de punição.
A construção da ideologia burguesa de trabalho é acompanhada pelo
surgimento de uma concepção burguesa de tempo que tornará possível o
princípio fundamental de proporcionalidade da pena, do tempo dedicado
ao castigo justo em razão do crime cometido.
A partir da história da luta de classes, dos processos de assujeitamento,
subserviência e desumanização das classes não-proprietárias no tratamento
perverso e vingativo dos(as) divergentes, é possível dizer que a história da
punição é uma grande extensão da história da irracionalidade e crueldade
humana.
A relação direta entre classes subalternas, desvio e punição justi�cada
pordesígnios divinos delineia, na Idade Média, a divina comédia cristã28,
em que a pobreza não é entendida como fenômeno social resultante da
acumulação desproporcional de riquezas e exploração, mas como
benfeitoria de Deus para que aos ricos seja concedida a glória de poder ser
caridoso e aos pobres a possibilidade de se ajoelhar diante de tamanha
misericórdia. Estava pintada a alegoria da Pobreza de forma convincente a
acalentar os corações nobres.
Assim como na Idade Média, em que os malfeitores sem condições de
pagar a �ança em moeda sofriam castigos corporais, o sistema econômico
ainda determina o direito de acesso às prerrogativas penais. A �ança
reservada aos ricos representa as garantias processuais penais e os castigos
corporais foram atualizados para o cárcere aos pobres.
A escolha das lentes do materialismo histórico subsidia a leitura da
política criminal e sua capacidade programada de alienar os sujeitos e ser
instrumento de controle de classe. A dialética tece comparações entre a
dominação capitalista sobre o proletariado e o subjugo do indivíduo
criminalizado, excluído do processo de produção e refém do Direito
burguês.
O método crítico, nos parâmetros marxistas, estatui que o
conhecimento cienti�co coerente com os fatos sociais só pode ser alcançado
se primeiro estudarmos a história constituinte (como devir e
desenvolvimento da superação da luta entre contrários) e o histórico
constituído (como corte transversal da história, o contexto, o momento
conjuntural). A totalidade, assim, garante que não haja uma ideologia por
ocultamento.
A teoria tem em si mesma uma potencialidade transformadora. No
entanto, uma prática teórica que tende à manutenção da ordem é
reprodutora, visto que transformadora será se e quando orientada para a
mudança. Partindo da crítica cultural da escola de Frankfurt e a crítica
econômica de Marx, a função da teoria será a de desmascarar todo tipo de
legitimação ideológica, bem como a de exigir uma discussão racional de
toda relação fática de poder.
Nesta esteira, reunindo elementos trazidos por diversos autores que
forjam a teoria crítica, Lola Aniyar de Castro(2005)29 seleciona elementos
centrais para uma teoria crítica do controle social, quais sejam: deve se
perceber parte de um processo e vinculada à libertação humana; deve ser
auto re�exiva e histórica, fugir de análises lineares; e deve ter caráter
dialético para perceber as contradições.
Por se localizar nesta linha de pensamento, a autora venezuelana
propõe uma teoria crítica do controle social a �m de atingir uma prática
teórica transformadora. Mas o que se entende por isso? Estamos de acordo
com a discrição da autora (CASTRO, 2005, p.53):
o conjunto de sistemas normativos (religião, ética, costumes, usos, terapêutica e direito)
cujos portadores, através de processos seletivos(estereotipia e criminalização) e
estratégias de socialização(primária e secundária), estabelecem uma rede de contenções
que garantem a �delidade(ou, no fracasso dela, a submissão) das massas aos valores do
sistema de dominação; o que, por motivos inerentes aos potenciais tipos de conduta
dissonante, se faz sobre destinatários sociais diferentemente controlados segundo a
classe a que pertencem.
A criminologia trata do controle social e do poder e pode se comportar
como poder. E por falar em poder, de extrema riqueza é levantarmos a
história não contada da criminologia na América Latina, situando a
perspectiva imbricada ao trabalho com a perspectiva desde o Sul, desde as
realidades sociais de cá que, embora diversas entre si, respondem a uma
lógica uniforme que foi ditada pela política que divide o mundo em países
centrais e periféricos.
A respeito da violência resultado do controle social e dos sistemas
penais na América latina, Juarez Cirino dos Santos (1984, p.70-71)
sumariza a violência estrutural e institucional em nossa região:
A realidade criminológica na América Latina pode ser de�nida em três direções
principais: a) a repressão impiedosa das classes dominadas(especialmente os setores do
proletariado urbano e rural não integrados no mercado de trabalho, como força de
trabalho ociosa e excedente), para os quais existem os Códigos Penais e outras leis
especiais ainda mais rigorosas, a polícia, os tribunais e as prisões; b) a imunidade das
classes dominantes pelas práticas criminosas contra a vida, a saúde, a integridade e o
patrimônio do povo, nas práticas antissociais abrangidas pela chamada criminalidade
de colarinho-branco; e a imunidade complementar do terror institucionalizado
(torturas e assassinatos de presos políticos, os assassínios de grupos militares e para
militares- esquadrões da morte- e a tortura sistemática de presos comuns); do genocídio
de índios; do trá�co de escravos para venda de trabalhadores, con�nados em ‘campos de
concentração’ de empresários rurais geralmente estrangeiros. Essas práticas não
constituem privilégio deste ou daquele país do continente, mas se generalizam em toda a
América Latina, como consequência de sua absorção; integração no mercado mundial,
sob a égide do imperialismo (...); c) a terceira forma de violência é, talvez, a mais sutil,
mas não menos e�ciente: a violência do imperialismo ideológico que impõe à América
Latina o consumo de teorias importadas (...).
A partir disso, entendemos que o positivismo racista na América
Latina serviu para subjugar minorias étnicas, para justi�car relações de
exploração Norte-Sul, ao estabelecer um suposto vínculo natural entre
subdesenvolvimento, meio geográ�co e delinquência. Neste contexto, o
direito penal serviu de instrumento para aprofundar as diferenças sociais e
a ciência jurídico-penal justi�cou a intervenção punitiva o�cial em auxílio a
privilégios.
Atualmente, sabemos que a criminalização inicia pelas formulações
legais (vertente ‘legal’ da criminologia), o que se faz basicamente segundo
o pertencimento de classe. O chamado princípio da legalidade faz a
distribuição dos ilegalismos, colocando uns em leis penais e outros em leis
administrativas, civis, conforme o sentido da proteção da ordem burguesa
inaugurada na revolução francesa.
A dogmática penal tem, sim, cumprido o papel de “�loso�a da
dominação”, seja pelo discurso, seja pela força. Especialista na justi�cativa
da ressocialização, a criminologia positivista atuou incidindo apenas sobre o
homem, não sobre as estruturas, não sobre os interesses, não sobre a reação
social, não sobre o exercício do poder.
Mas será que o tratamento realmente fracassou? Lola (2005, p. 49)
opina:
Fracassaram, talvez, os �ns explícitos da prisão e do tratamento. Não fracassou na
medida em que tanto o cárcere-repressão pura- como o tratamento- repressão
ideologizada- lograram cumprir seus �ns implícitos: reproduzir o sistema de classes e
deixar a classe hegemônica de mãos livres para realizar seus objetivos através da
racionalidade do mercado; rati�car as teorias do senso comum, as quais, ao separar as
classes delinquentes das classes não delinquentes, consolidam a estrati�cação.
Para fazer frente a isso, a autora convida todos(as) a conhecer a
criminologia da libertação, conjunção de elementos da teoria crítica do
controle social (nível interpretativo); criminologia crítica, a nova
criminologia e a criminologia radical (nível criminológico); e o materialismo
histórico (nível epistemológico). Esta libertação quer dizer deslegitimação.
Deslegitimação, tratando-se de controle social, é uma discussão sobre
dominação. Mas, a�nal, libertação de que, Lola?
Libertação das estruturas exploradoras; especialmente, mas não exclusivamente, através
de uma libertação da ocultação das relações de poder e do funcionamento mascarado
dos interesses. Libertação do discurso educativo, religioso, artístico e criminológico,
vinculados àquelas relações de poder. Libertação da razão tecnológica que
contrabandeia para nossos países um conceito arti�cial de desenvolvimento. (CASTRO,
2005, p. 110)
O controle social nãoé nada além de um conjunto de táticas,
estratégias e forças para a construção da hegemonia, isto é, para a busca da
legitimação ou garantia do consenso; ou, em caso de fracasso, para a
submissão forçada dos que não se integram à ideologia dominante.
Por conta disso, importantíssimo termos um modelo criminológico
integrado às prerrogativas e debates dos Direitos Humanos. Para tanto, é
oportuno esclarecermos três questões: primeiro, a lei não objetiva
transformar a sociedade, nem tem capacidade de fazê-lo. Segundo, quando
se fala em defesa da sociedade, na verdade se está falando em proteger o
sistema. Assim sendo, os direitos humanos não foram de�nidos para serem
protegidos, mas para, em nome deles, se defender o direito burguês, liberal
e individualista de grupos. (Op. Cit.)
Com efeito, Alessandro Baratta, dentre outras contribuições de
altíssima envergadura para a criminologia e ciências criminais, toma como
objeto o homem e a emancipação humana, base que lhe permitiu quali�car
a criminologia crítica como “um programa de defesa dos direitos humanos,
em contraste com as posições conservadoras dedicadas à legitimação do
status quo” (1997, p. 60-63)
II.2. A parte que lhe cabe neste latifúndio: a
fábrica do cárcere
A estrutura econômica, segundo Cirino dos Santos (2015), percebe a
produção e a circulação de mercadorias, com o objetivo de lucro e através
da apropriação de mais-valia como trabalho não remunerado; a estrutura
do Direito, institui a “legalidade” da desigualdade social entre a classe
capitalista (proprietária dos meios de produção e circulação) e a classe
trabalhadora (possuidora de força de trabalho vendida ao capitalista pelo
preço do salário); e a estrutura política do Estado garante as desigualdades
sociais nas relações econômicas e nas formas jurídicas respectivas através do
poder coercitivo do Sistema de Justiça Criminal.
O sistema punitivo compreende uma lógica de poder movimentada
pela estrutura do Estado, de modo que, desde tempos remotos, a
organização do sistema punitivo é manifestação do controle social. A
punição hegemônica na sociedade moderna está associada à formação do
eu da sociedade burguesa/capitalista (MENEGAT, 2006). Segundo
Menegat:
se a Reforma Protestante ajudou a moldar o eu em sua liberdade e autonomia, que
caracteriza o espírito burguês, o sistema punitivo teria sido o seu outro tanto, necessário
à disciplina e moldura do eu dos trabalhadores imprescindíveis para a indústria
nascente. O que Calvino e Lutero foram para as necessidades morais do bom burguês,
que facilitaram o desenvolvimento da lógica mercantil da sociedade capitalista, as casas
de correção e sua terapêutica disciplinar embrutecedora o foram para as massas que,
literalmente, amassadas e derrotadas, foram transformadas em corpos dóceis para o
trabalho fabril.
Ao analisar a dissolução do mundo feudal e o processo histórico de
separação entre produtor e meio de produção, a chamada acumulação
primitiva do capital nos séculos XV e XVI, Melossi a Pavarini (2006)
apontam como consequência a expropriação dos meios de produção e
expulsão dos trabalhadores do campo para a sua concentração nas cidades,
onde deveriam ser transformados em operários.
Os trabalhadores, que deveriam dispor sua força de trabalho nas
manufaturas eram absolutamente inaptos à disciplina do trabalho
assalariado. Em �ns do século XVI, a escassez de força de trabalho era
crescente e gerava reclamações sobre o ócio dos mendigos, pois, quando as
condições de trabalho eram precárias, estes preferiam sobreviver da
caridade privada ao trabalho regular, optando por mendigar a trabalhar por
baixos salários e em situações muito precárias. Assim, as casas de correção
foram uma forma de impelir os trabalhadores à aceitação de empregos
miseráveis. Assim, Melossi (2004, p. 130) a�rma que:
Vindos das ruínas do feudalismo, capital e operários ‘livres’ são colocados frente a
frente. E são reunidos materialmente na manufatura. Para esse proletariado em
formação, tal abraço não é voluntário nem de modo algum prazeroso. Ele deve adaptar-
se à clausura, à falta de luz e de espaço, à perda daquela relativa autonomia permitida
pelo trabalho nos campos, para submeter-se à autoridade incondicional do
capitalismo, na mais brutal e fatigante monotonia e repetitividade. Não é por acaso,
como veremos, que manufatura e cárcere tenham historicamente uma mesma e
interdependente origem. (grifo meu)
O cárcere desde essa época era lugar de produção de homens servis,
transformando o criminoso rebelde em sujeito disciplinado e adestrado ao
trabalho fabril. Funcionava como instrumento de adestramento dos antigos
camponeses que repeliam os novos métodos de produção, para o trabalho
nas manufaturas pela assimilação da disciplina fabril.
As casas de correção cumpriram o objetivo de formar sujeitos dóceis e
úteis, pela submissão ao trabalho obrigatório e uma rígida disciplina, que
deveriam desviar os trabalhadores expropriados, potenciais mendigos,
vagabundos e bandidos, do caminho do ócio e da vagabundagem,
educando-os e domesticando-os para o trabalho assalariado. As casas de
correção destruíram a resistência do trabalhador em adentrar o mundo da
manufatura, reduzindo a estranheza a esse espaço.
Melossi (2006) a�rma que a fábrica é o mistério revelado da moderna
prisão e o operário o destino ao qual o delinquente está condenado. Isto é,
tanto o operário quanto o delinquente estão condenados a suas prisões, seja
no mundo do trabalho, seja no mundo da justiça penal. A prisão
desenvolve esse papel de ser instrumento para compelir o homem livre a
aceitar as condições degradantes de trabalho ante a possibilidade de ir para
as casas de correção fazer trabalhos pesados di�cilmente aceitos por
homens livres.
A assimilação da disciplina capitalista, própria ao seu processo de
produção, dizem Melossi e Pavarini (2006), desempenhava um papel
fundamental, devendo o preso ter um comportamento regrado e submisso
à autoridade. O cárcere era um espaço de produção onde o trabalhador
deveria aprender a disciplina da produção e o apego à disciplina estava em
aspectos como o respeito à ordem, limpeza, vestuário, comida, ambiente
saudável e linguagem proibida. As casas de correção eram a célula
embrionária do controle físico e ideológico do proletariado nascente para
sua produção e reprodução, formando uma força de trabalho que, pelas
atitudes morais, saúde física, capacidade intelectual, conformidade às
regras, hábito da disciplina e obediência, estaria adaptada ao regime da
fábrica.
Os espaços correcionais eram os atos preparatórios para a reclusão no
ambiente da fábrica, pois incluíam o trabalhador no processo de educação
para o obediente civil e bom proletário, subserviente e produtivo. O preso ia
assumindo um padrão de conduta útil ao processo de trabalho capitalista,
de modo que os corpos e mentes dos homens modernos foram sendo
moldados às necessidades capitalistas pela associação da prisão, da família
mononuclear, da escola, do hospital e do manicômio (MELOSSI e
PAVARINI, op. cit. p. 46).
Para Melossi e Pavarini (2006), a tentativa de transformar o trabalho
carcerário em um trabalho produtivo foi frustrada, pois, do ponto de vista
econômico, o cárcere não alcançou grandes resultados, mas a prisão teve
sucesso na transformação dos criminosos em proletários, pois o “objetivo
desta produção não foram tanto as mercadorias quanto os homens” (Idem,
p. 211). Deste processo emerge o novo homem, “fantasma monstruoso, o
novo animal a um só tempo selvagem e domesticado.” (Idem, p. 237)
Horkheimer e Adorno (1947, pps. 106-107) complementam:
O homem na penitenciária é a imagem virtual do tipo burguês que ele deve se esforçar
para se tornar na realidade(...)
Eles (os prisioneiros) são a imagem do mundo burguês do trabalho pensado até as
extremas consequências, que o ódio dos homens por aquilo que devem fazer a si mesmos
coloca como emblema do mundo(...)
Como, de acordo comTocqueville, as repúblicas burguesas, ao contrário das
monarquias, não violentam o corpo, mas investem diretamente na alma, assim, as penas
deste ordenamento agridem a alma. As suas vítimas não morrem mais ligadas à roda
por longuíssimos dias e noites inteiras, mas perecem espiritualmente, exemplo e
silencioso, nos grandes edifícios carcerários, que apenas o nome, ou quase, distingue dos
manicômios.
Os autores referidos falam de um processo dialético de destruição e
reconstrução, em que a condição de proletário é imposta ao condenado
como única possibilidade de sobrevivência do não-proprietário. O não-
proprietário preso deve ser transformado em proletário, a partir da
aceitação da condição subordinada e do reconhecimento da disciplina do
salário.
A educação para o trabalho assalariado é o único instrumento para
satisfação das necessidades pessoais, com a consequente aceitação do status
de não-ser proprietário. Arrematam brilhantemente: “O cárcere assume,
portanto, a dimensão de projeto organizativo do universo social subalterno,
modelo a ser imposto, espalhado, universalizado” (Idem, p. 216.)
Nesse mesmo caminho, Foucault a�rma que o cárcere deveria fabricar
proletários, requali�cando o interno em operário dócil, impondo a forma
“moral” do salário como condição de sua existência e adquirindo amor e
hábito ao trabalho. Conclui Foucault que a utilidade do trabalho penal não
era o lucro e “nem mesmo a formação de um trabalho útil, mas a
constituição de uma relação de poder, de uma forma econômica vazia, de
um esquema de submissão individual e de seu ajustamento a um aparelho
de produção”. (FOUCAULT, 2009, p. 230)
Acerca da observação do sistema punitivo e de sua função na ordem
jurídica capitalista de garantidor da propriedade privada, Pachukanis
(2017) aponta a inserção do Direito Penal e do Processo penal na lógica
capitalista, em que os delitos e as penas assumem posição de prestação e
contraprestação quando a norma penal negocia a quantidade de liberdade
a ser retirada em detrimento do ato criminoso.
Melossi e Pavarini (op. cit. p. 264-266) apresentam os enlaces entre o
universo da fábrica e o universo do cárcere:
5. Na relação de trabalho, a subordinação do prestador de trabalho é (também)
“alienação pelos/dos meios de produção”. Na relação penitenciária, a subordinação do
preso é “expropriação” (também) pelo/do próprio corpo”. (...)
8. Se o trabalho subordinado é, portanto, coação, a pena carcerária é o “nível mais
alto” (ponto terminal e ideal) da coação. Daí deriva a função ideológica principal da
penitenciária: a hipótese emergente do cárcere como universo onde a situação
material do submetido (internado) é sempre “inferior” à do último dos proletários.
(...)
11. E �nalmente: a “fábrica é para o operário como um cárcere” (perda da liberdade e
subordinação): o “cárcere é para o interno como uma fábrica” (trabalho e disciplina)
(grifo meu)
Assim como o crime é o produto de um contexto político e social de
atribuição de sentido ao que se considera deplorável (ou quem se considera
indesejado) (CHRISTIE, 2013), a pena de prisão é, também, apenas uma
categoria dentre muitas outras possíveis de enfretamento do con�ito.
Assim, na sociedade capitalista, o direito penal capitalista, com seus valores
de submissão do homem pelo homem, instaura um tipo de subjetividade
em que a representação do homem abstrato e do trabalho humano abstrato
são avaliados em tempo. São os dizeres de Pachukanis (Op.cit., p. 177):
A privação de liberdade por um prazo determinado de antemão e especi�cado por uma
sentença do tribunal é aquela forma especí�ca por meio da qual o direito penal moderno,
ou seja, burguês-capitalista, realiza o princípio da reparação equivalente. Este modelo é
inconsciente, mas está profundamente ligado ao homem abstrato e à abstração do
trabalho humano mensurável pelo tempo. Não é por acaso que essa forma de castigo se
fortaleceu e começou a parecer natural justamente no curso do século XIX, ou seja,
quando a burguesia se desenvolveu completamente e pôde a�rmar todas as suas
características. É claro que prisões e calabouços existiam também na Antiguidade e na
Idade Média, ao lado de outros meios de castigo físico. Mas neles deixavam-se as pessoas
até a morte (ou quase) ou até que pagassem em dinheiro pelo resgate.
Estas re�exões endossam o signi�cado político-cultural da punição. No
campo do controle do crime, o mais expressivo evento não é a
transformação das instituições, mas o desenvolvimento pari passu de novas
formas de gerir o crime e os criminosos, a que Garland (2008, p.369) chama
de terceiro setor ‘governamental’. Este novo aparato de prevenção é
formado por organizações, parceiras público-privadas, policiamento
comunitário etc.
A fórmula social que passou a embasar, a partir dos anos 1990, o
recrudescimento nas soluções penais a casos de grande repercussão foi a
somatória de: periculosidade, vitimização, brecha do controle penal, valores
dos meios de comunicação de massa e medos da classe média. A propósito
disso, Za�aroni (2017) já destacou a função crucial dos meios de
comunicação de massa na produção dos medos e na propagação ideológica
do sistema penal como guardião da segurança cidadã.
Para arrematar esta conclusão sobre a atividade predatória penal
somada ao trabalho midiático produtor do senso comum, Garland (2008, p.
73) a�rma que isto consubstancia um “estilo retaliador de elaboração de
leis”, simbolizando o atendimento às urgências punitivas e a clemência por
justiça. Os objetivos centrais são conter a revolta popular, reconfortar o
público e restaurar a credibilidade do sistema. A credibilidade, portanto,
está em endurecer o método e responder às expectativas.
A defesa do autor é que, malgrado as estruturas do controle tenham
mudado, as transformações mais signi�cativas se deram ao nível da cultura
que dá vida a estas estruturas, orienta seu uso e cria seu signi�cado. Três
elementos centrais compõem esta nova cultura do controle: a) um novo
previdenciarismo penal recodi�cado; b) uma criminologia do controle; c)
um estilo econômico de pensamento.
A análise a fundo desses elementos não é o objetivo deste trabalho,
mas uma leitura mínima dos contextos econômicos-políticos presentes
permite a compreensão das novas tecnologias de controle no capitalismo
neoliberal. Se no sistema penal-previdenciário (norte-americano, analisado
por Garland) a prisão era concebida como última instância de correção, na
atualidade é “um tipo de reservatório, uma zona de quarentena, na qual
indivíduos supostamente perigosos são segregados em nome da segurança
pública” (GARLAND, 2008, p. 381).
Os presos de agora também são presos políticos, pois que contrariaram
a lógica do sistema: são de uma subclasse- empregados proletários ou
desempregados-, negros(as), não geram lucro para a economia, estão nos
grupos bene�ciários da previdência.
Em outras palavras, “o encarceramento em larga escala funciona como
um modo de posicionamento econômico e social, um mecanismo de
zoneamento que segrega aquelas populações rejeitadas pelas decadentes
instituições da família, do trabalho e da previdência, colocando-as nos
bastidores da vida social” (GARLAND, 2008, p. 382). A prisão opera como
exílio, não mais pautada no ideal de reabilitação e mais por um ideal que
Rutherford (apud Garland) chama de eliminativo.
Ao tratar o desejo por segurança como valor associado à pós-
modernidade e às novas relações econômicas, Garland (2008, p. 417)
arremata que o que marca a tensão entre liberdade e controle é a dialética,
isto é, o individualismo de mercado consiste na liberdade de alguns
amparada na exclusão e no controle seletivo de outros:
Convencidas da necessidade de rea�rmar a ordem, mas refratárias em restringir as
possibilidades de consumo ou a abrir mão das liberdades pessoais; determinadas a
aumentar sua própria segurança, mas refratárias a pagar mais impostos ou a �nanciar a
segurança de outros; chocados como egoísmo desenfreado e com comportamentos anti-
sociais, mas comprometidas com um sistema de mercado que reproduz precisamente
aquela cultura, as angustiadas classes médias, hoje em dia, buscam solucionar sua
ambivalência zelosamente controlando os pobres e excluindo os marginais.
Dado que os ideais de solidariedade foram eclipsados pelos
imperativos mais básicos de segurança, economia e controle, o
encarceramento se renova porque capaz de funcionar nas sociedades
neoliberais como ferramenta “civilizada” e “constitucional” de segregação
das populações problemáticas criadas pela economia e pelos arranjos sociais
atuais.
Por ser assim, é inevitável escancarar a função real do encarceramento:
satisfação da sanha retributiva e de con�namento do perigo. O resultado
deste propósito é o aprisionamento dos excluídos do mundo do trabalho,
da previdência e da família – no Brasil personi�cado pelos jovens negros
periféricos que, com isso, �nalmente vêm consagrada sua exclusão
econômica-social pelo status criminal. Assim, “um governo que
rotineiramente sustenta a ordem social através da exclusão maciça começa a
se parecer como um Estado-apartheid” (GARLAND, 2008, p. 429).
Qualquer semelhança da conjuntura de hoje com a história não é mera
coincidência.
II.3. Em busca das promessas perdidas30: o
direito penal desmisti�cado
O mestre criminólogo argentino Eugenio Raul Za�aroni, em seu
célebre livro “Em busca das penas perdidas” (1991), começa destrinchando
a razão de nomear de perdidas as penas, esclarecendo que pena é a in�ição
de dor sem sentido e perdida no sentido de ser carente de racionalidade.
Tanto é assim que o discurso penal do qual falaremos “se desarma ao mais
leve toque com a realidade”. (ZAFFARONI, 1991, p. 12)
Ao detectarmos a falência do sistema penal em suas funções
declaradas de prevenção geral, redução da criminalidade e ressocialização
de quem delinque, �ca claro que, cada vez menos, há um esforço de
manter o discurso jurídico-penal racional, por conta do esgotamento das
�cções criadas e alimentadas para garantir a legitimidade de atuação.
Enquanto isso, os órgãos do sistema penal operam com um nível de
violência tamanha a ponto de a marca do seu poder ser a morte em massa.
(Op. Cit., p. 13)
A falsidade do discurso penal foi desmascarada há muitas décadas, de
modo que não cabe mais o argumento de que a prática progrediria ao
serem superados os defeitos produzidos pelo desenvolvimento tardio da
América Latina em relação aos países centrais. Além da má-fé dos que
reconhecem a falsidade e os objetivos reais do discurso penal, sua
permanência também se dá através do garantismo que não vislumbra saída
além do direito penal. Ou seja:
Hoje, temos consciência de que a realidade operacional de nossos sistemas penais jamais
poderá adequar-se à plani�cação do discurso jurídico-penal, e de que todos os sistemas
penais apresentam características estruturais próprias de seu exercício de poder que
cancelam o discurso jurídico-penal e que, por constituírem marcas de sua essência, não
podem ser eliminadas, sem a supressão dos próprios sistemas penais. A seletividade, a
reprodução da violência, a criação de condições para maiores condutas lesivas, a
corrupção institucionalizada, a concentração de poder, a verticalização social e
destruição das relações horizontais ou comunitárias não são características
conjunturais, mas estruturais do exercício de poder de todos os sistemas penais.
(ZAFFARONI, 1991, p. 15)
É por isso que falar em crise para se referir à contradição entre o
discurso jurídico-penal e a realidade operacional do sistema é equivocado,
pois não há uma ruptura, a contradição é justamente sua condição
fundante. Para o supracitado autor, a crise representa, em verdade, o ápice
do descrédito do discurso, signi�cando uma falsidade tão grande que
desconcerta a equivalência entre discurso e prática.
Por legitimidade do sistema penal se entende a característica de
racionalidade conferida a ele, manifestada como poder exercido. Legítimo
é, assim, o discurso racional que atua em conformidade com o sistema
penal. Na realidade de falência dos sistemas prisionais e da incompetência
do direito penal, reparar os danos advindos dos con�itos sociais é �agrante
a ponto de ser possível a�rmar que tanto a racionalidade quanto a
legitimidade são utópicas, não se realizarão.
Costuma-se dizer que ninguém compra um produto sabendo que é
defeituoso. No entanto, compramos a suposta segurança vendida pelo
sistema penal, o produto com vício de fábrica incorrigível. Esta con�ança na
ferramenta penal foi construída historicamente a partir da ideologia
alterocida de criação dos inimigos, aqueles excluídos do sistema de
produção, e da produção de medo coletivo explorado para �ns da adesão à
política de lei e ordem, tal qual exposto no tópico acima.
Porém, como costumeiramente ocorre com críticas que atacam a
estrutura, a deslegitimação teórica do sistema penal foi ‘denunciada’ como
marxista, sendo que não necessariamente precisa sê-lo, muito embora um
debate mais quali�cado que assumimos aqui o seja. Cabe aqui precisar que:
a deslegitimação teórica e a falsidade do discurso jurídico penal são
amparadas pela teoria da rotulação que responde ao interacionismo
simbólico; a pertinência da crítica à teoria da rotulação, por parte daqueles
que a consideram limitada, não diminui seu valor deslegitimante e
destruidor do discurso jurídico-penal, consignando aqui que, na base do
interacionismo simbólico e da fenomenologia, não há uma incorporação
marxista, e sim um pragmatismo.
Como dissemos, embora Marx não tenha analisado em profundidade
o sistema penal, considerava que seria necessário deslegitimar todo o
direito, especialmente o direito penal, relegando-o à categoria de
superestrutura ideológica. O marxismo institucionalizado, não o
criminológico representado por Massimo Pavarini, Alessandro Baratta e
outros, entende que o direito é mera forma jurídica, produto exclusivo da
sociedade capitalista e das relações de troca que lhe são próprias.
Pachukanis, por exemplo, acreditava no desaparecimento do direito,
pois que a mudança de sociedade produziria novas relações não de�nidas
na forma de valor-de-troca, perdendo sentido, deste modo, a sustentação
da forma jurídica gerada das necessidades das relações assim assentadas.
Contrariamente, Stucka sustentou uma tese postulando uma relegitimação
do direito mediante a necessidade de um direito revolucionário, ao qual
não poderia renunciar o poder soviético sem privar o proletariado no poder
de um inestimável e insubstituível instrumento de luta.
Especi�camente sobre a deslegitimação pelo interacionismo simbólico
e pela fenomenologia, pode-se dizer que a tese geral desta corrente é
de�nida pela a�rmação de que cada um de nós se torna aquilo que os
outros veem em nós e, de acordo com essa lógica, a prisão cumpre uma
função reprodutora: a pessoa rotulada como delinquente assume,
�nalmente, o papel que lhe é construído, comportando-se de acordo com o
mesmo. Todo o mecanismo do sistema penal está preparado para a
rotulação e reforço desses papéis.
A deslegitimação pelo interacionismo simbólico foi e tem sido a mais
potente, fundamentando a criminologia da reação social, nutrida pelo
pragmatismo norte-americano e pela psicologia social de George Mead-,
dando lugar à crítica das instituições totais de Go�man, à rotulação de
Becker e ao desenvolvimento de outros autores que completaram a
descrição da operacionalidade do sistema penal como Lemert em
“Estrutura social, control social y desviacion”.
A deslegitimação foucaultiana, paradigmática no que diz respeito à
história do castigo como docilização dos corpos para submissão, analisa a
estrutura das prisões como pena por excelência e lugar de controle. Para
explicar o que denomina de ‘instituições de sequestro’, como a prisão, o
manicômio, o asilo, o hospital, a escola, o autor localiza o momento pós-
revolução mercantil em quea verdade passa a ser estabelecida pelo poder
de um terceiro ‘acima’ das partes. A sociedade militariza-se e o delito passa
a ser considerado um dano ao soberano. Assim, vão surgindo- ou
generalizando-se- estas instituições e a polícia.
Ao a�rmar que cada instituição gera deste modo seu saber e seu
poder, Foucault desquali�ca a distinção marxista entre infraestrutura e
superestrutura ou, ao menos, leva-a a colocar-se em outros termos, pois o
saber e o poder estão muito mais imbricados para Foucault do que para
Marx, já que o poder gera também o sujeito.
A deslegitimação pelos próprios fatos apresenta uma autoridade para
desquali�car o direito penal como resposta e�caz para a resolução dos
con�itos e a segurança nos territórios. No entanto, é preciso reconhecermos
que as técnicas discursivas e imagéticas que a cultura de massa aplica criam
estado de cegueira sobre a realidade. Neste sentido, a fala de Za�aroni
(2017, pag. 38):
Não existe teoria que, por si mesma, tenha força su�ciente para vencer uma estrutura
que se interioriza, desde cedo, na vida das pessoas, se não vier acompanhada de um fato
de particular evidencia, que opere como um choque com a realidade. A percepção de
determinados fatos notórios pode ser perturbada, mas não pode ser negada. Desta
maneira, estes fatos atuam como curto-circuitos do mecanismo inventor da realidade,
iluminando-a com relâmpagos que, frequentemente, levam à ação como opção de
consciência aberta.
O mais leve toque de realidade possibilita o curto-circuito para
perceber que a prisão funciona, portanto, ideologicamente, como um local
abstrato em que os indesejáveis são depositados, aliviando-nos da
responsabilidade de pensar sobre as verdadeiras questões que a�igem as
comunidades de que os presos são tirados em números tão
desproporcionais. Este é o trabalho ideológico que a prisão realiza — nos
livra da responsabilidade de nos engajarmos seriamente nos problemas da
nossa sociedade, especialmente os produzidos pelo racismo e, cada vez
mais, pelo capitalismo global.
Nesse sentido, o termo “complexo industrial prisional” foi introduzido
por ativistas e acadêmicos para contestar as crenças prevalecentes de que o
aumento dos níveis de criminalidade era a causa raiz da crescente
população carcerária. Em vez disso, argumentaram, a construção da prisão e
a tentativa de preencher essas novas estruturas com corpos humanos foram
impulsionadas por ideologias de racismo e busca de lucros.
Disserta Davis (2003, p.16):
Enquanto isso, as corporações associadas à indústria da punição obtêm lucros com o
sistema que gerencia os prisioneiros e adquirem uma clara participação no crescimento
contínuo das populações carcerárias. Simpli�cando, esta é a era do complexo industrial
prisional. A prisão tornou-se um buraco negro no qual os detritos do capitalismo
contemporâneo são depositados. A prisão em massa gera lucros à medida que devora
a riqueza social; e, assim, tende a reproduzir as próprias condições que levam as
pessoas à prisão. (grifo meu)
Entre esses detritos, estão os “resíduos” populacionais raciais e
subalternizados, de modo que, embora o governo, as corporações e a mídia
dominante tentem representar o racismo como uma infeliz aberração do
passado que foi relegada ao cemitério da história, este é uma chaga que
continua se alastrando, produzindo dor, in�uenciando profundamente
estruturas, atitudes e comportamentos.
Qual é, então, a relação entre essas expressões históricas de racismo e o
papel do sistema prisional hoje? Explorar essas conexões pode nos oferecer
uma perspectiva diferente sobre o estado atual da indústria de punição. Se
estamos convencidos de que o racismo não deve ser de�nidor do futuro das
relações sociais, podemos concluir, na esteira da incendiária Angela
Davis(Idem), que as prisões são instituições racistas e obsoletas.
II.4. “Todo camburão tem um pouco de navio
negreiro”31
Consta nos dados, nos atlas, nos anúncios, nas notícias, nos plantões
de meio-dia: o corpo negro está lá estendido no chão, a população negra
está na mira do Estado-policial, é alvo ora do gatilho, ora da caneta que
condena. Segundo o relatório do Atlas da violência publicado em 2019,
75,5%das vítimas de homicídio no Brasil em 2017 eram negras.
A partir do conhecimento da formação social brasileira, da
constituição do colonialismo e, posteriormente, do capitalismo dependente
no país, as formas violentas com que nosso povo foi controlado, seja pela
ideologia, seja pela força, nos defrontamos com a realidade atual e a
necessária interseção entre punição, raça, classe e gênero. Neste tópico,
enfocaremos no primeiro.
A colonização ibérica e o negócio escravista empreenderam o caráter
racista que se espraia até a atualidade através das formas mais distintas de
genocídio do(a) negro(a) brasileiro(a). Quer dizer, os mecanismos foram
atualizados, os discursos reformulados para uma retórica em defesa da
sociedade e menos escrachada no racismo, mas as permanências de
controle e criminalização seguem obedecendo à lógica da eleição racial
como bode expiatório.
É assim que, por meio da observação de como tem atuado o sistema
penal, reconhecemos o caráter genocida do Estado brasileiro, fruto do
casamento incestuoso (FLAUZINA, 2006) com o racismo para �ns de
disciplinamento da massa dos “escravos” modernos. Como bem elucida
Suely Carneiro (2005, p.129), “a matéria punível é a própria racialidade
negra. Então, os atos infracionais dos negros são a consequência esperada e
promovida da substância do crime que é a negritude.”
Inspirada em Du Bois, explícito e severo na crítica ao sistema
carcerário, Angela Davis (2009) fala de um contrato racial em que a
punição é aceita por ser aplicada majoritariamente aos negros, sendo
tolerada justamente pela dimensão de execução neles e não em todos. Quer
dizer, o sistema carcerário torna natural a violência decretada contra as
minorias raciais ao institucionalizar uma lógica circular viciosa: os negros
estão presos porque são criminosos; eles são criminosos porque são negros,
e, se eles estão presos, é porque mereceram. A este movimento,
Davis(idem)chama de “violência ritualística”.
De extrema importância, portanto, é reconhecermos a mutabilidade
das tecnologias de controle e a alteração das estruturas de racismo, por
conta de, frequentemente, existir uma tendência a se trabalhar com
hierarquias de racismo. Existiu, sim, um ápice da desumanização/
coisi�cação dos homens e mulheres transformados em mercadoria no
comércio escravocrata. Ingenuidade é acreditar que tão menos perversas
são as multifacetadas formas de punição à negritude que lutou e recebeu as
promessas de liberdade. Com a abolição da escravidão, “os negros deixaram
de ser escravos, mas imediatamente se tornaram criminosos e, como
criminosos, tornaram-se escravos do Estado” (Du bois, apud Davis, p. 14).
Nem economicamente livres, nem politicamente autônomos, a
punição vista como consequência da vigilância racial faz com que, através
da rotulação, as comunidades que são objeto de vigilância policial tenham
muito mais chances de fornecer indivíduos para a indústria do crime. Nem
Lei Áurea, nem democracia racial, as permanências racistas funcionam
como narrativas antiescravocratas que escravizam.
O discurso abstrato do universalismo, patrocinado pela modernidade,
é a arma teórica para encobrir o racismo. As novas leituras da pena capital-
as estratégias de morte civil através do genocídio, do encarceramento, da
culpabilização essencialista e da coisi�cação- continuam a ser
desproporcionalmente in�igidas aos negros, mas quando estes são
sentenciados às mortes em vida ou às mortes físicas reais, a proteção dos
direitos garantidos a um sujeito jurídico abstrato é invocada. O indivíduo
exposto não é quali�cado como membro de uma comunidade sujeita a
condições que o tornam um candidato perfeito à repressão legal (Ibid). É
assim que se invisibiliza o racismo, vendendo uma igualdade formalinexistente onde o negro ocupa o mundo dos brancos. Todos iguais, mas
uns mais iguais que os outros. Tão desiguais!
Assim como a “proteção” jurídica é usada como defesa para a política,
os mitos são peças-chave para administrar a cultura do controle. Tomemos
como exemplo o mito do estuprador negro, particularmente no pós-
escravidão nos Estados Unidos, e veremos que o pânico moral criado em
torno foi componente central de uma estratégia ideológica esboçada para
reformular o gerenciamento dos negros libertos. Ora, uma verdadeira
artilharia pesada foi produzir uma imagem de monstro dos negros, seja por
um desiquilíbrio sexual, que os faria portarem-se como animais e serem os
verdadeiros algozes violentadores de mulheres brancas indefesas, seja por
uma tendência natural à desordem.
Os pânicos morais, frise-se, sempre irromperam em conjunturas
especiais, sendo um instrumento subjetivo de convencer setores
populacionais sobre a escalada do crime e a periculosidade de
determinados grupos. Estão, na verdade, relacionados a um problema de
gerir grandes populações- especialmente de racialidade indesejada- que se
tornam dispensáveis pelo sistema do capitalismo global.
Da mesma forma funciona o mito da segurança ofertada pelos
presídios. Por que as pessoas se sentem mais seguras com a construção de
novos presídios? Uma das razões é não ter mais que se preocupar com
aquele problema social, que, por hora, foi deslocado de sua vista,
emparedado até segunda ordem.
As relações insidiosas entre a indústria do complexo carcerário e a
indústria do complexo militar são evidenciadas nesse excerto de Davis
(2009, p.46), em que conclui pela assustadora percepção de que tem se
formado um exército industrial das vítimas prisionais:
Os presídios são identi�cados por seu potencial de consumidores e por seu potencial de
mão de obra barata. Há muitas maneiras pelas quais é possível descrever a relação
simbiótica entre exército e prisão. Eu irei me deter numa das conexões mais óbvias: as
semelhanças impressionantes das populações humanas das duas respectivas
instituições. De fato, muitos jovens- especialmente jovens de cor- que se alistam no
exército fazem isso muitas vezes para escapar de uma trajetória de pobreza, drogas e
analfabetismo que os levaria direto para a cadeia. Por �m, uma breve observação que
possui enormes implicações: no mínimo, uma corporação da indústria de defesa tem
recrutado ativamente a mão de obra prisional. Pense nesta imagem: presos fabricando
artilharia que ajuda o governo em sua busca pelo domínio global.
Por ser assim, a autora alerta para a urgência de desenredar as noções
de capitalismo e democracia, em busca de modelos verdadeiramente
democráticos e igualitários. Nosso desa�o não é mais reivindicar
oportunidades iguais para fazer parte da maquinaria de opressão (por mais
que taticamente isto seja plausível), e sim conhecer muito bem as estruturas
em que o racismo continua �rme e desmantelá-las.
Nesse sentido, Angela Davis evoca a noção de Du bois sobre
democracia da abolição, referindo-se à abolição dos presídios e das
condições opressoras produzidas pela escravidão. Na leitura do autor,
signi�ca falar não somente da abolição no sentido de destruição, mas
também como um processo de construção, de criação de novas instituições
livres dessa herança. Mas até que ponto seria isso possível dentro da
estrutura capitalista que, como o próprio Du bois esclarece, é a causa
primária do racismo?
O complexo carcerário é, desta feita, resultado da falha em se decretar
a democracia da abolição. Esta expressão foi utilizada por Du Bois no livro
Black Reconstruction, em que, ao apontar que a abolição da escravidão foi
consumada apenas no sentido negativo, propõe um sentido abrangente a
partir da criação de instituições capazes de incorporar os negros dentro da
ordem social. A nossa crítica ao precioso autor é que estas mudanças são
efetivas até certo limite, pois que as relações sociais estarão sempre
condicionadas ao modo de produção e, neste caso, capitalista-patriarcal-
racista, ao ponto que serão aceitas mudanças apenas quando estas forem
essenciais para a manutenção do funcionamento daquela.
Assim resume (Ibid, p. 88-89):
Atrelada à abolição dos presídios, está a abolição dos instrumentos de guerra, a abolição
do racismo e, como não poderia deixar de ser, a abolição das circunstâncias sociais que
levaram homens e mulheres pobres às forças armadas como seu único caminho de fuga
da miséria, da falta de moradia e de oportunidades.
(...) cabe a nós insistir na obsolescência do encarceramento como forma dominante de
castigo, mas não podemos fazer isso brandindo machados e investindo literalmente
contra os muros dos presídios, mas sim reivindicando novas instituições democráticas
que discutam os problemas que não são discutidos pelos presídios de maneira
produtiva.
Que os presídios não sigam sendo como a favela, este quarto de
despejo denunciado poeticamente pela escritora Carolina Maria de Jesus
(2014) e que o futuro seja um estado de liberdade, ainda que tardia.
“Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz? O último a sair do breu
que acenda a luz.” 32
II.5. A caminho do horizonte estratégico: as
propostas abolicionistas
O abolicionismo penal é uma corrente político-criminal, produto do
movimento que animou o aparecimento da teoria do etiquetamento e da
criminologia crítica e que é, por princípio, radical na deslegitimação do
sistema carcerário e de sua lógica punitiva. Os abolicionistas denunciam a
resposta orientada pela lei penal como central na prática de controle do
delito, pois identi�cam nela a �nalidade de punir perversamente o
criminoso e perpetuar uma ordem social desigual.
Segundo Cohen (1989), o abolicionismo é produto da mesma política
contracultural dos anos sessenta que deu origem ao radicalismo cultural da
teoria do etiquetamento (labeling approach) e ao radicalismo político da
nova criminologia ou criminologia crítica. O abolicionismo toma a leitura
do status problemático do rótulo de desviante e avança além da
problemática do estigma e da identidade até uma acepção histórica do
delito como forma de controle social; ataca como a escola crítica, mas em
vez de buscar uma política penal e criminológica socialista (realismo de
esquerda), concebe como forma viável de avançar a eventual abandono da
política criminal e da criminologia.
De acordo com René Van Swaaningen (apud Achutti, 2016, p. 93), a
resposta abolicionista envolve os seguintes pressupostos: a lei penal possui
as mesmas premissas da Inquisição - de onde teria se originado - e desde o
princípio tem se mostrado como uma máquina geradora, e não reparadora
de problemas; a repressão penal é um processo dessocializador das pessoas.
O abolicionismo pode ser delineado tanto como movimento social-
identi�cado nos movimentos escandinavos pela abolição e da prisão, nos
anos 1960, assim como as atividades do grupo Alternativas Radicais à
Prisão (Radical Alternatives Prison-RAP), na Inglaterra dos anos 1970, os
grupos na França de Michel Foucault, e KRAK, na Alemanha Ocidental,
quanto como uma perspectiva teórica , que visa a questionar a validade do
modelo penal do crime-castigo/crime-culpa e propor novas formas de
abordar os con�itos sociais delituosos (Achutti, 2016).
A partir dos anos 1960, teóricos como Nils Christie, Louk Hulsman,
�omas Mathiesen e Herman Bianchi passaram a publicar trabalhos a
respeito do tema, distinguindo-se dos movimentos citados acima por
buscarem a abolição do sistema penal além da abolição da prisão. Oportuna
a explicação de Van Swaaningen (1986, p.10):
O abolicionismo acadêmico gradualmente se desenvolveu das teorias da criminologia
crítica, como o labeling approach de Go�man e Lemert, a etnometodologia de Gar�nkel
e Cicourel, e a nova “Nova Criminologia” de Taylor, Walton e Young. Desde que os novos
criminólogos, unidos no “Grupo Europeu para o estudo do desvio e do controle social”,
iniciaramconferências alternativas aos congressos de criminologas governamentais, a
criminologia não poderia mais ser considerada como uma ciência auxiliar do direito
penal. Como uma extensão mais ou menos lógica disto, os criminólogos mesmos
começaram a apresentar maneiras de lidar com con�itos, como alternativas ao método
da justiça criminal.
Recuperando lição trazida por Za�aroni33, Maria Lúcia Karam (2004,
p. 63) tem uma compreensão importante:
O Estado de Direito, que traz em sua essência a submissão à lei, não só de seus
habitantes, mas principalmente, dos que exercem o poder, com vista a garantir aos
direitos e a dignidade de cada indivíduo, contrapõe-se ao Estado policial, em que seus
habitantes se subordinam ao poder. O poder punitivo, por sua violência, seletividade e
irracionalidade intrínsecas, situa-se no campo do Estado policial, construindo uma de
suas manifestações que maiores riscos trazem ao pleno desenvolvimento do Estado de
Direito.
Louk Hulsman, um dos abolicionistas mais prestigiados e que será
trabalhado nessa pesquisa com mais a�nco, via a punição como forma de
interação humana em diversas práticas sociais: na família, na escola, no
esporte, no trabalho. Na justiça criminal, se usa a linguagem da punição de
modo que as pessoas conectam o castigo com os processos desenvolvidos.
Se os eventos criminais são lidos como eventos excepcionais, os
criminosos são vistos como uma categoria diferente de pessoas e a natureza
excepcional da conduta justi�ca a reação a esta. Acontece que a parcela
daqueles pegos na malha �na da rotulação penal constitui apenas uma
pequena fração dos que estão envolvidos em fatos que legalmente
permitem a criminalização.
A ideia de fundo é que a punição proporcional à gravidade seja o
marco da ordem. A este ponto vincula-se a ideia de que crimes graves não
permitem isenção da punição. A decisão a respeito, no entanto, é viciada
por erros que, segundo Hulsman (1986, pps. 48-49) são três:
a) A criminalidade oculta e a normalidade (neutralidade) dos efeitos
penais;
Cifra oculta foi de�nida para os criminólogos como sendo a diferença
entre os crimes comunicados que constam nas estatísticas policiais e as
estatísticas dos tribunais. Os estudos levam à conclusão de que a
esmagadora maioria dos fatos passíveis de criminalização pertence à cifra
oculta.
A respeito disso, a fala de Passetti (2012, p. 21):
De fato, a sociedade sem castigos existe, também, porque é impossível ao sistema penal
punir todos aqueles que cometem uma infração à lei. Ele funciona de maneira seletiva,
endereçado aos que infringiram o direito de propriedade. No capitalismo, a propriedade
privada material, o corpo da pessoa ou seus bens. No socialismo, a propriedade estatal e
seus derivados imateriais. Em ambas as sociedades, as pessoas consideradas criminosas
devem ser retiradas de circulação, caracterizando uma maneira de educar todos,
conhecida como prevenção geral.
b) O fato de um evento ser criminalizável não é indicativo do nível de
vitimização;
c) A criminalização não é uma resposta especí�ca aos eventos, mas sim
um modo especí�co de olhar para os eventos e, assim, de construir os
próprios eventos.
Assim como a criminalização é um modo especí�co de olhar para os
eventos, sobre o conceito de crime também circula uma relatividade.
Imprescindível resgatar a explanação de Hulsman34:
A única coisa que tais situações têm em comum é uma ligação completamente arti�cial,
ou seja, a competência formal do sistema de justiça criminal para examiná-las. O fato de
elas serem de�nidas como crimes resulta de uma decisão humana modi�cável(...) Um
belo dia, o poder político para de caçar as bruxas e aí não existem mais bruxas(...) É a lei
que diz onde está o crime; é a lei que cria o criminoso.
Em razão de, segundo Passetti (2012, p. 20), o crime não ser nada
além de “uma quali�cação de repulsa a certos costumes em defesa da
sociedade em um determinado momento da história”, o autor (2012, p.25)
resgata posição de Christie (1998) para desmoralizar a prisão e sua postura
de:
(...) neutralizar o delinquente, isolá-lo em gangues, afastando de seu interior grupos de
defesa de direitos. Ampli�ca o paradigma da lei e ordem que apela diretamente ao
ressentimento popular que exige que a prisão faça da vingança uma política pública. Os
efeitos dessa situação, por conseguinte, segundo Wacquant, podem ser resumidos em
três pontos: difusão da noção encarcere o criminoso e jogue a chave fora; despolitização
da prisão, deslegitimando qualquer forma de rebelião; identi�cação do preso com o
rebaixado cultural. O encarcerado permanece sendo o corpo sobre o qual se investem
dor, castigos, produtividade, moral e equipamentos de controle, como os derivados da
economia computacional”
O abolicionismo penal é uma prática anti-hierárquica que transcende
os limites do direito penal, propõe a desconstrução de costumes autoritários
ancorados na tradição ocidental de dispor dos corpos. É uma prática que
soma experimentos, acadêmicos e de outras esferas sociais, pois vislumbra
uma outra forma de olhar as situações, começa por desestabilizar a ideia de
controle pela autoridade e ordem e termina por vislumbrar a demolição do
modelo penal para tratar dos con�itos. Como tática, aproxima-se da
corrente descriminalizadora visando à contenção da criminalização de
novos comportamentos e alia-se à difusão das medidas de redução de
danos.
Para Hulsman, o abolicionismo penal começa na mudança interna da
pessoa, está além da libertação da estrutura, é uma prática de libertação das
amarras sociais do controle, do castigo, da culpa, da vingança. Nesse
sentido, as palavras de Hulsman (Op Cit., pps. 71-72) elucidam as
repercussões do tratamento que envolvem esses dispositivos:
Gostaríamos que quem causou um dano ou um prejuízo sentisse remorsos, pesar,
compaixão por aquele a quem fez mal. Mas como esperar que tais sentimentos possam
nascer no coração de um homem esmagado por um castigo desmedido, que não
compreende, que não aceita e não pode assimilar? Como este homem incompreendido,
desprezado, massacrado, poderá re�etir sobre as consequências de seu ato na vida da
pessoa que atingiu? (...) Para o encarcerado, o sofrimento da prisão é o preço a ser pago
por um ato que uma justiça fria colocou numa balança desumana. E, quando sair da
prisão, terá pago um preço tão alto que, mais do que se sentir quites, muitas vezes
acabará por abrigar novos sentimentos de ódio e agressividade.(...) O sistema penal
endurece o condenado, jogando-o contra a ordem social na qual pretende reintroduzi-lo,
fazendo dele uma outra vítima.
O dispositivo do discurso punitivo e a prática que reproduz o
binarismo do crime-castigo produz subjetividades machucadas pela
perversidade do sistema penal que primeiramente desumaniza,
descaracteriza o(a) encarcerado(a), despe de qualquer lembrança que faça
associação à sua personalidade, e depois, com as condições materiais de
existência indignas, vai retirando paulatinamente o indivíduo da zona que
reconhece como de integridade; o encarcerado se torna um soldado da
disciplina doutrinada na prisão e o personagem estereotipado de criminoso
que criaram dele(a).
Uma das críticas mais comuns ao abolicionismo é a que vincula a
destituição dos aparelhos repressivos à instalação de um cenário hobbesiano
de guerra de todos contra todos, o estado natural, o caos e a anarquia. Esta
associação está presa por uma visão unilateral de formas de organização
social, muito atrelada à burocracia e ao poder nas instituições que não só
centralizam, mas monopolizam o poder. Já a crítica sociológica ao
abolicionismo questiona: este ‘modelo’ é compatível com a sociedade
moderna? É possível?
Folter (1989, p. 59) concebe o abolicionismo como método que luta
pela abolição do sistema penal em sua totalidade. Ao dizer que não existe
algo como a “essência do abolicionismo”, formula: “podemos dizer que o
abolicionismo é a bandeira debaixo da qual navegambarcos de diferentes
tamanhos transportando diferentes quantidades de explosivos”. Uma coisa
há em comum: todos objetivam a destruição ao chegarem em terra �rme.
A abolição do sistema penal não pode mais ser compreendida como
uma utopia nos dias de hoje. O utópico, sem embargo, não é sinônimo de
impossível, tampouco as utopias são sinônimo de falácias. Mais que isso:
muitas utopias foram a base de mudanças sociais concretas e
revolucionárias. Digo mais: a abolição de todo o sistema penal não é uma
utopia, senão uma necessidade lógica, uma gestão realista e uma demanda
de justiça (HULSMAN, 1997; FOLTER, 1989).
Conheçamos, então, os principais teóricos que fundaram a teoria
abolicionista. 35
a) Louk Hulsman
Notadamente o abolicionista mais prestigiado, Louk Hulsman
(Holanda, 1920-2009) foi um defensor radical da extinção do sistema
penal. Para isso, advogava a desconstrução da linguagem convencional da
justiça criminal, questionando o conceito de crime e, com isso,
desmobilizando o discurso em torno do fenômeno do crime e da reação
social que suscita (Hulsman, 1997).
A recepção de uma nova linguagem abriria portas para novas
interpretações em torno das situações con�ituosas e, dessa forma, um leque
de possibilidades de enfrenta-las:
Falar de “atos lamentáveis”, “comportamentos indesejados”, “pessoas envolvidas”,
“situações problemáticas”, já seria um primeiro passo no sentido de se formar uma nova
mentalidade, derrubando as barreiras que isolam o acontecimento e limitam as
possibilidades de resposta(...). Livre da compartimentalização institucional, uma
linguagem aberta facilitaria o surgimento de novas formas de enfrentar tais situações
(HULSMAN, 1997, p.96)
O cerne da questão para o autor era a mudança da linguagem, na
medida em que apostava na potência destruidora que a linguagem penal
tem, a�rmando que “(...) não conseguiremos superar a lógica do sistema
penal, se não rejeitarmos o vocabulário que a sustenta. As palavras crime,
criminoso, criminalidade, política criminal, por exemplo, pertencem ao
dialeto penal, re�etindo a priori o sistema punitivo estatal” (HULSMAN,
1997, p.95-96).
O delito seria o produto dessa linguagem que pretende legitimar o
exercício do poder punitivo, atentando que:
O acontecimento quali�cado como “crime”, desde o início separado de seu contexto,
retirado da rede real de interações individuais e coletivas, pressupõe um autor culpável;
o homem presumidamente “criminoso”, considerado como pertencente ao mundo dos
“maus”, já está antecipadamente proscrito (HULSMAN, 1997, p.96).
Todavia, a troca da linguagem não seria su�ciente se a interpretação
continuasse a reproduzir as antigas categorias, seria mais do mesmo sob a
forma de novo vocábulo. Mais que disfarçar uma prática seletiva através de
artifícios linguísticos, importante seria “olhar a realidade com outros olhos”
(Hulsman, 1997, p. 97), isto é, trocar as lentes para observar o mesmo
fenômeno.
Para Hulsman, “não existem crimes nem delitos, mas apenas situações
problemáticas. E sem a participação das pessoas diretamente envolvidas
nestas situações, é impossível resolvê-las de forma humana” (HULSMAN,
1997, p. 101). Questionava o poder de interferência das pessoas envolvidas
com o con�ito, apontando sua posição de voz passiva quando, em verdade,
eram os maiores interessados e mereciam maior destaque do que uma
entidade abstrata como a sociedade. Aqui o abolicionista se encontra com
Nils Christie, pois este ponto é uma das centralidades de sua crítica.
Rotular como crime ou delito uma conduta reduz as possibilidades de
análise, fechando rotas possíveis de entender a realidade apresentada. A
regulamentação é taxativa e inviabiliza descobrir diferentes rotas para novos
diagnósticos e, em atenção a isso, o reducionismo deveria ser substituído
por interpretações livres dos próprios indivíduos e não a partir de uma
preconcebida estrutura punitiva de Estado.
Em razão dessa abertura para multiplicar os sentidos da reação ao
mesmo fato, uma nova tarefa seria a de esquivar-se do modelo jurídico-
penal “exercido com uma distância enorme da realidade por uma rígida
estrutura burocrática” (HULSMAM, 1997, pps. 99-100). A dinâmica de
buscar soluções deveria se afastar de linhas de pensamento/reação lineares
e repetitivas, pois só a realidade concreta pode apresentar as necessidades e
particularidades.
Destaca a característica da organização cultural da justiça criminal da
ênfase na ‘alocação da culpa’. O programa para alocação da culpa típico da
justiça criminal é uma herdeira da doutrina do ‘julgamento �nal’ e do
‘purgatório’, desenvolvida pelo cristianismo ocidental (HULSMAN, 1997).
A desconstrução da concepção de que existe uma realidade ontológica
do crime, ponto fundamental da justiça penal, desestabilizaria o centro e
permitiria a sua implosão. A partir disto, o autor propõe uma espécie de
política criminal da diferença, a�rmando:
Ninguém se parece com ninguém. Nenhuma situação é idêntica a outra. Um acordo é
sempre fruto do reconhecimento e da aceitação mútua de diferenças. E o acordo deixa
subsistirem as tensões. É inevitável. E fecundo... as tensões obrigam ao encontro, à
confrontação, ao diálogo e estimulam, em cada um, a descoberta de sua própria
identidade. A unanimidade não é mais do que uma aparência e, geralmente, é produto de
ações totalitárias. (Hulsman, 1997, p. 104) (grifos nossos)
O paradigma do con�ito como lugar de encontro das diferenças e
reconhecimento das identidades confrontadas é de fundamental
importância para reconstruir o lugar da situação problemática como um
lugar de isolamento, de violência e de anulação do outro. Tensiona-se a
irracionalidade e a contraproducência do paradigma punitivo, que não
resulta em efeito positivo social, e propõe-se novas formas de perceber, lidar
e interpretar os con�itos.
O autor oferece uma estratégia para efetivar sua proposta:
primeiramente, deve-se evitar novas criminalizações; em seguida,
necessário criar estratégia para reduzir a incidência do sistema penal e
buscar descriminalizar o maior número de condutas possível; e, por �m,
essencial desenvolver estratégia com alternativas ao sistema de justiça
criminal para tratar das situações con�ituosas com a lei, através da
tolerância, da prevenção de delitos e pela substituição da justiça penal por
outras modalidades de controle social punitivo, sejam compensatórios,
conciliatórios ou terapêuticos. (ACHUTTI, 2016, pps. 105-106)
Nesta toada, a convocatória:
De um lado, temos uma postura abolicionista que nega a legitimidade de atividades
desenvolvidas na organização cultural e social da justiça criminal. Nesta visão, a justiça
criminal não é uma resposta legítima a situações-problema, mas apresenta as
características de um problema público. Esta forma de abolicionismo tem o caráter de
um movimento social. (...) De outro lado, temos uma postura abolicionista na qual não
necessariamente a justiça criminal, mas uma maneira de olhar para a justiça criminal é
abolida. Esta forma de abolição concentra-se nas atividades de uma das organizações
por trás da justiça criminal: a universidade e, mais especi�camente, os departamentos de
direito penal e criminologia. (...) Neste sentido, a abolição é a abolição da linguagem
prevalecente sobre justiça criminal e a substituição desta linguagem por outra linguagem
que permita submeter a justiça criminal à hipótese crítica; em outras palavras, que
permita testar a hipótese de que a justiça criminal não é ‘natural’ e que sua ‘construção’
não pode ser legitimada. Se essa hipótese for validada, a linguagem prevalecente sobre a
justiça criminal tem de ser desconstruída e a justiça criminal aparecerá como um
problema público em vez de uma solução para problemas públicos. (HULSMAN, 1997, p.
197)
Em outras palavras, na nova linguagem que substituiria a linguagem
convencional sobre o crime e justiça criminal, a ênfase estaria: em situações,
em vez de comportamentos; na naturezaproblemática, em vez de na
natureza ilegal criminosa; na pessoa/instância para quem algo é
problemático (vítima) em vez do agressor; na questão: “o que pode ser
feito?”, “por quem?”. (HULSMAN, 1997, p. 210)
Louk Hulsman foi se convencendo que o sistema penal era um
problema social em si mesmo, identi�cando três razões que o fazem um
sistema problemático de controle social: causa sofrimento desnecessário, é
desigualmente distribuído; rouba o con�ito às partes, como leciona
Christie; e é difícil de controlar.
A sua postura abolicionista é de tendência radical, de modo a não
fazer exceções para tipos de crimes, ainda aqueles espreitados pelos setores
críticos da sociedade porque associados a autores poderosos, como os de
colarinho branco. 36
Quando Hulsman reclama pela abolição do sistema penal em sua
totalidade, se refere a que a administração estatal centralizada da justiça
penal deveria ser substituída por formas descentralizadas de regulação
autônoma de con�itos, nas quais os envolvidos teriam maior in�uência.
A abolição do sistema penal centralizado teria dois efeitos importantes.
Em primeiro lugar, a diminuição dos problemas sociais causados pelo
sistema como a fabricação de pessoas culpáveis, a estigmatização dos
aprisionados, o con�sco do con�ito, a marginalização de grupos escolhidos,
a dramatização (mais atualmente, sensacionalismo) dos meios de
comunicação de massa etc. Em segundo lugar, a revitalização da �bra social,
visto que a ausência do sistema penal estatal com seus esquemas de
interpretação reducionista e suas soluções estereotipadas permitiria, em
todos os níveis da vida social, outros tipos de solução de con�itos muito
mais vinculados com a experiência imediata daqueles diretamente
envolvidos.
A ideia de solidariedade é básica para seu abolicionismo. Trata-se da
solidariedade viva para sujeitos reais, �lha de um sentimento agudo de
igualdade dos sujeitos que se opõem ao tradicional e excludente modo de
organização social.
Aos que temem que a abolição do sistema penal traga perigos como a
vingança privada, a autodefesa, a violência e a insegurança social, Hulsman
responde que a abolição da maquinaria penal não implica na abolição da
coerção. Considera que a polícia ainda tem o dever de atuar na
manutenção da ordem pública e na detenção de pessoas. Devemos
entender que o sistema de justiça penal é parte menor dos mecanismos de
funcionamento na sociedade para o manejo de con�itos e para o controle
de condutas e situações não desejáveis. 37
Apesar de não vir expressa nas declarações garantistas, esta crítica
parece ignorar que o abolicionismo não só pretende destruir este modelo de
sociedade, como pretende construir um novo. Nesse sentido, não pretende
renunciar à solução dos con�itos que devem ser revolvidos; todos os
autores aqui conhecidos propõem a reconstrução de vínculos solidários,
comunitários, horizontais que deem condições de solução dos problemas
sociais sem a urgência de apelar para o modelo punitivo formalizado
abstratamente.
b) Nils Christie
Nils Christie foi professor do Departamento de Criminologia e
sociologia do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Oslo, na
Noruega, um dos críticos ferrenhos ao controle social punitivo do sistema
penal, opondo-se ao que denominou de “imposição intencional de dor”
(pena de prisão), gerida pelo poder dos agentes jurídicos e pela
centralização estatal da gestão dos con�itos.
Ao contrário de Louk Hulsman, não defende a completa extinção do
sistema penal, por conferir a este um papel de atuar em casos excepcionais
no afastamento do ofensor do meio social. Imprescindível dar luz à posição
enfática do autor nessa perspectiva: na dúvida, não punir; quando punir,
fazê-lo da maneira menos dolorosa possível (Christie, 1981, p.11).
Em sua obra clássica, Con�itos como propriedade- publicado em 1977
na Revista Britânica de Criminologia e considerado pelo corpo editorial da
própria revista como o artigo mais importante da década-, demarca o centro
da crítica discursiva na apropriação estatal dos con�itos e nos atores da
administração de con�itos, apontando a pro�ssionalização como um
entrave na reparação do dano pelos afetados no con�ito.
A denúncia de Christie é de que o Estado furtou o con�ito das partes,
de modo a subtrair delas o direito de pensar conjuntamente a
responsabilização do ofensor, consequências e motivos do crime. Para o
autor, a transgressão a ordem contém uma potencialidade muito rica que
possibilita aos indivíduos administrarem seus problemas de forma
autônoma. Essa oportunidade garantiria aprendizado de uma construção
coletiva, deslocando o foco do ofensor para as necessidades da vítima.
Sobre a retomada da participação da vítima na resolução dos casos,
Christie mira a recuperação da qualidade de protagonista desses
personagens ao bradar que a justiça criminal os trata como “não pessoa em
uma peça de Ka�a”, em uma clara comparação à imagem do pedinte de pés
descalços estendendo a mão para o guarda à porta do prédio da justiça, sem
lhe ser dada a oportunidade de conhecer do procedimento e acessar sua
estrutura.
Este movimento de redistribuição do poder de interferência sobre as
demandas con�ituosas se inspira no modelo dos tribunais comunitários, de
forma a se aproximar dos valores da comunidade em que estão inseridas as
vítimas. (CHRISTIE, 1977, p.8). Este modelo se constituiria em quatro
etapas: na primeira seria averiguada a pertinência da acusação, a �m de
evitar responsabilização equivocada e violação dos direitos do acusado; a
segunda envolveria um levantamento das necessidades da vítima, relatório
formulado por ela própria, considerando o dano causado, as formas de
repará-lo e/ou minimizá-lo; na terceira seria feita uma avaliação pelos
tribunais comunitários sobre a possível punição ao ofensor e, �nalmente,
uma análise da situação pessoal e social do ofensor para discutir a eventual
necessidade de tal medida.
Por meio dessas etapas, estes tribunais locais “representariam uma
mistura de elementos de tribunais civis e penais, mas com uma forte ênfase
nos aspectos civis” (CHRISTIE, 1977, p. 10-11). Essa característica
possibilitava a participação de pessoas leigas no trato dos casos, de modo a
possibilitar um aprendizado entre tribunal e comunidade mutuamente. A
nível estrutural, o que o autor queria apontar como crítica maior nesse
ponto era a especialização que levaria à pro�ssionalização, veri�cável
quando “especialistas adquirem poder su�ciente para dizer que
conquistaram dons especiais, predominantemente através da educação,
dons tão poderosos que é óbvio que eles (os con�itos) podem ser
manuseados apenas pelos artesãos certi�cados” (CHRISTIE, 1977, p.11).
Os pro�ssionais, fossem juristas, psicólogos, sociólogos, assistentes
sociais, deveriam ter sua participação reduzida ao máximo possível para
impedir injustiças na responsabilização de terceiros e situações
problemáticas envolvendo mediação sem critérios dessas áreas conexas. O
caráter de subsidiariedade dada à convocação desses pro�ssionais era como
que dizer: quando inevitáveis, funcionariam como fontes de informação,
“respondendo quando perguntados, mas não dominando, não no centro.
Eles poderiam ajudar a organizar os con�itos, mas não se apropriar deles”
(CHRISTIE, 1977, p.12)
Posteriormente, o autor critica o caráter simplista e categorial de
dividir as pessoas e fatos entre bons/maus, crime/não-crimes,
culpado/inocente, baseado em um sistema binário e antagônico de
classi�cação de atos e pessoas. As consequências dessa simpli�cação
levavam o sistema penal a se preocupar mais com aspectos biológicos ou de
personalidade que com o contexto social que, nas palavras de Achutti
(2016, p. 100) sobre Christie (1986, pps. 96-97):
trata-se de uma armadilha para que as interações não sejam objeto de análise do
sistema, pois do contrário seria necessário abordar a responsabilidade social de todos
os demais sujeitos que participaram,direta ou indiretamente, do ato tido como
delituoso- e a mera noção de responsabilidade social não se enquadra bem na lei penal,
que trabalha, por necessidade, apenas com a responsabilidade individual.
O reducionismo decisório como práxis implica que quanto mais
esvaziado de sentido o ato, quanto menos informações sobre o contexto
social e a pessoa, mais fácil julgar conforme a estrutura binária e dicotômica
do direito penal conforme estereótipos. Essa construção mira uma criação
arti�cial de igualdade, isto é, casos diferentes devem ser reduzidos e
enquadrados como iguais para permitirem tratamentos iguais,
comprometendo as peculiaridades por meio da limitação de informações
relevantes para as partes, que se tornam irrelevantes para o processo legal.
Além disso, o autor tece crítica à teoria da prevenção geral negativa da
pena que busca, através da exemplaridade da punição dos culpados,
controlar atos de terceiros e do próprio culpado contra a prática de novos
crimes e incorrência na reincidência. Os efeitos negativos da prevenção
geral são desmascarados por toda a criminologia crítica ao veri�car
empiricamente que essa função nunca teve êxito na inibição e educação
para a ordem.
Conforme o autor, a validade desta teoria revela que:
o propósito da punição é atingir a conformidade às leis. A punição é, a todo o tempo,
vista como um instrumento com o objetivo direto de controlar os cidadãos (...) O
homem é visto como determinado pela dor e pelo prazer. Ele ou ela são também vistos
como uma criança do Estado. (CHRISTIE,1986, p. 98)
Nesse sentido, a punição endereçada ao condenado busca desviar
outras pessoas do destino perverso do encarcerado, cumprindo um papel
educativo não pelo convencimento do respeito aos valores sociais, e sim por
uma pedagogia da punição e respeito pelo medo de sofrer os efeitos do
aprisionamento. Assim, a punição está a serviço do controle:
Este pensamento preventivo geral é o núcleo da imagem do homem na teoria penal
moderna. O criminoso é aqui punido não por sua causa, nem em razão de algum
princípio abstrato de justiça, mas para a concreta vantagem de controlar outras pessoas.
As pessoas são punidas como exemplos pedagógicos. A dor é usada para bene�ciar
outros. Uma vez que cometeu um crime, a pessoa está sendo usada como uma coisa no
processo social. (CHRISTIE, 1986, p.99)
A oposição ao reducionismo e violência do sistema penal localizaram
Christie no lugar que supera a mera crítica para ocupar o espaço dos que
pensam nova possibilidade de administração de con�itos. Companheiro de
Hulsman na perspectiva de que o crime não existe, convida para novas
leituras das realidades problemáticas por meio de outra linguagem e do
estabelecimento dos centros comunitários de natureza interdisciplinar. O
impulso para o movimento de criminólogos e sociólogos em busca por
novos mecanismos de gerenciamento dos con�itos alinhados pela posição
abolicionista foi essencial para lançar as bases do que oportunamente
veremos a seguir, o paradigma da Justiça Restaurativa.
c) Thomas Mathiesen
“O sistema carcerário, como instituição social, nunca está satisfeito- é como um animal
cujo apetite aumenta ao comer.” (MATHIESEN, 1989, p.122)
�omas Mathiesen formulou os seus principais objetivos na obra �e
Politics of Abolition, em 1974, da seguinte maneira: “A longo prazo, mudar
o pensamento geral a respeito do castigo e substituir o sistema carcerário
por medidas mais modernas e adequadas. A curto prazo, derrubar todos os
muros que não sejam necessários: humanizar as distintas formas de
detenção e aliviar o sofrimento que a sociedade in�ige aos presos.”
(MATHIESEN, 1974, p. 46. Tradução livre).
O sociólogo agregou uma metodologia materialista para lograr uma
compreensão adequada do direito e da legislação como fenômenos sociais.
No livro Law, Society and Political Action (1980), tratou de integrar uma
compreensão materialista da sociedade a sua teoria de ação política
abolicionista.
Devido à sua perspectiva de revolução perante as esferas de
punitividade, foi lido como o “estrategista do abolicionismo” (ZAFFARONI,
2017). Seu pensamento abolicionista encontra-se estreitamente vinculado
ao marxismo, de modo que, para ele, a existência do sistema penal estaria
vinculada à estrutura produtiva capitalista. Cunha, assim, uma proposta que
aspiraria não somente a abolição do sistema penal, mas também a abolição
de quaisquer estruturas repressivas da sociedade.
Para Mathiesen, um movimento abolicionista deve reunir condições
para manter sua vitalidade, quais sejam: sua permanente relação de
oposição e sua relação de competição com o sistema. A oposição requer
uma considerável diferença de pontos de vista sobre as bases teóricas do
sistema e a competição requer uma ação política prática fora do próprio
sistema. (Idem, p. 100)
A política abolicionista defendida por Mathiesen foi a fomentadora da
criação da Organização Norueguesa Anti-Carcerária (KROM), cuja
�nalidade era voltada para a abolição do cárcere; contudo, sem propor
nenhum tipo de proposta substitutiva; ao contrário, negava-se a
possibilidade de aplicação de penas alternativas devido ao temor de que
essas penas se transformassem em novas estruturas carcerárias.
Defensor de uma reforma permanente e gradual do sistema penal,
Mathiesen justi�cava seu posicionamento em relação à não construção de
novas instituições prisionais a partir de oito premissas, quais sejam:
(1.ª) a criminologia e a sociologia demonstram que o objetivo de melhora do detento
(prevenção especial) é irreal, sendo contestável efeito contrário de destruição da
personalidade e a incitação da reincidência; (2.ª) o efeito da prisão no que diz respeito à
prevenção geral é absolutamente incerto, sendo possível apenas estabelecer alguma
reação do impacto de políticas econômicas e sociais na dissuasão do delito; (3.ª) grande
parte da população carcerária é formada por pessoas que praticaram delitos contra a
propriedade, ou seja, contra bens jurídicos disponíveis; (4.ª) a construção de novos
presídios é irreversível; (5.ª) o sistema carcerário, na qualidade de instituição total, tem
caráter expansionista, ou seja, suscita novas construções; (6.ª) as prisões funcionam
como formas institucionais e sociais desumanas; (7.ª) o sistema carcerário produz
violência e degradação nos valores culturais; e (8.ª) o custo econômico do modelo
carcerário é inaceitável. (CARVALHO, 2013, p. 247-248.)
Apoiado na tendência mundial do encarceramento, o autor traz à tona
os discursos legitimadores da prisão, que atuam de modo a ocultar a
irracionalidade da instituição nos processos de distorção da realidade,
produzindo cegueira generalizada sobre o caráter bárbaro da instituição.
O autor sustenta duas teses que seriam responsáveis por uma redução
drástica da necessidade do sistema penal, favorecendo, posteriormente, sua
abolição: o direcionamento de políticas sociais aos sujeitos vulneráveis e a
descriminalização das drogas. Voltando-se ao fato de que grande parte da
população carcerária é composta por pessoas que praticam crimes contra o
patrimônio, conclui que a guerra contra o crime deveria ser, na verdade,
uma guerra contra a pobreza. Destarte, ações sociais voltadas para essa área
especí�ca reduziriam de modo signi�cante os problemas derivados da
pobreza e do desemprego.
Dentre as contribuições fornecidas por Mathiesen, a mais
revolucionária diz respeito à criação de novas formas de proteção à vítima.
Diante do desamparo das vítimas pelo sistema atual, propõe, no lugar do
aumento da punição ao transgressor, o aumento do apoio à vítima,
levando-se em consideração a gravidade do ocorrido.
Para Mathiesen, na nossa sociedade, existe uma persistente e
onipresente ideologia do cárcere (compreendendo ideologias como sistemas
de crenças que dão sentido e infundem legitimidade à vida social). A
ideologia do cárcere penetra dois componentes principais: um de apoio e
outro de negação. (2003, p.223)
Noespectro do componente de apoio, Mathiesen (2003, p. 225)
sustenta que o cárcere serve a cinco funções ideológicas na sociedade
capitalista:
a. Purgatória: funciona como instituição para alojar, controlar uma
porcentagem da população improdutiva das sociedades capitalistas e,
convenientemente, esquecê-la;
b. Consumidora de poder: os purgados são locados em uma situação
estrutural e permanecem como pessoas improdutivas, não-contribuintes ao
sistema;
c. Distratora: a aplicação do cárcere como mão-dura contra os
delinquentes tradicionais, as classes trabalhadoras mais baixas, desvia a
atenção dos perigos a que nos expõem os poderosos de colarinho-branco; (a
estratégia de contenção de classe- os capturados pela máquina de castigar-
para benefício de outra);
d. Simbólica: ligada à função distratora;
e. Executiva: hoje, (o cárcere e o encarceramento) é o tipo de sanção
mais visível em nossa sociedade.
Como consequência, o cárcere ajuda a dividir �sicamente a sociedade
em produtivos e improdutivos, instala uma estrutura que ostensivamente
coloca os presos em uma posição que carecem de poder, arma uma
estrutura que possibilita a superposição e estigmatização de uma classe
sobre outra.
No espectro do componente de negação que compreende os
elementos mediante os quais se nega o fracasso do cárcere, o autor explica
que a negação se dá em três âmbitos públicos: os meios de comunicação
(retroalimentação externo), as instituições comprometidas com a prevenção
do delito, como polícia e tribunais (retroalimentação interna) e os
investigadores.
A relação de poder está evidente nesta análise. O poder funciona
através da negação (os funcionários penitenciários negam os desejos dos
presos; a polícia golpeia os jovens), o poder está nas mãos de grupos
especí�cos de interesses (os sindicatos dos empregados penitenciários e
policiais; os parlamentos e congressos) e funciona pela distorção da
ideologia (a retórica carcerária da reabilitação; a retórica policial sobre a
persecução do crime na comunidade). O poder é uma relação embaraçada
na qual, ao se derrotar um nível de poder, imediatamente aparecem novos
níveis para derrotar. Portanto, a luta contra o poder é continua e não tem
�m. (MATHIESEN,1989, p.145)
O cárcere, para o autor, é indefensável; é um �asco quanto a seus
próprios propósitos. Por conta disso, defende que somente a esquerda,
inspirada nos princípios socialistas, pode se opor à ideologia do mesmo.
Finalmente, é crucial �xar que toda política abolicionista caminha
junto a uma política defensiva, na medida em que a primeira é ofensiva e
trata de acabar com os sistemas repressivos estabelecidos. A segunda, por
sua vez, consiste em trabalharmos para impedir o surgimento de novos
sistemas punitivos. A atividade defensiva há de alternar-se continuamente
com a atividade ofensiva abolicionista, ao que entendemos como defesa
ativa ou, em outras palavras, se proteger das balas do inimigo atirando ao
mesmo tempo contra.
Seja sua concepção materialista e sua fundamentação metodológica do
abolicionismo satisfatória ou não, é um autêntico marxista no sentido de
que, no trabalho prático, realiza a ideia marxista de buscar não só
interpretar o mundo como os �lósofos, e sim, transformá-lo.
d) Michel Foucault
“A prisão é o único lugar onde o poder se manifesta com total desnudez, em sua forma
mais excessiva e onde se justi�ca como força moral.”. (FOUCAULT apud FOLTER, 1989,
p. 76)
Michel Foucault foi um importante �lósofo francês, professor
catedrático da Collège de France, desde a década de 70. Embora não possa
ser considerado um abolicionista da mesma forma como o fazemos com os
demais pensadores aqui citados, que reverteram uma formulação
intencionada para a luta contra as prisões e o sistema penal, foi um
abolicionista, ainda que não tenha reivindicado este lugar (ZAFFARONI,
2017, p. 101).
Sendo assim, é válido apontar, inegavelmente, como sua principal obra
acerca do sistema penal, o livro intitulado de Vigiar e Punir, publicado em
1975, em que expressa toda sua ótica das drásticas consequências do
exercício do poder sobre a criminalidade, observado claramente no cárcere.
A obra clássica Vigiar e Punir faz uma análise cientí�ca sobre a
legislação penal e o sistema punitivo adotados pelos poderes jurídicos para
os que praticam alguma modalidade de crime ao longo dos séculos. Em
uma narrativa histórica da punição, desnuda a �loso�a que embasou os
suplícios; a espetacularização da violência sobre os corpos, modernizada por
formas aparentemente mais humanizadas; e a instituição da prisão como
instrumento de disciplinamento.
Descreve a prisão como uma detestável solução para o sistema penal
de que não se pode abrir mão: conhecem-se todos os seus inconvenientes,
mas não se vê o que pôr no lugar: “Como não seria a prisão a pena por
excelência numa sociedade em que a liberdade é um bem que pertence a
todos da mesma maneira e ao qual cada um está ligado por um sentimento
‘universal e constante’?”. (FOUCAULT, 2009, p.218). Forma mais civilizada
e imediata de todas as penas, a prisão pode ser lida como um quartel mais
estrito, uma escola sem indulgência, uma o�cina sombria, mas, levando ao
fundo, nada de qualitativamente diferente (Idem, p. 219).
A escala do controle na modernidade é contada a partir da
movimentação do ato de punir que se deslocou da vingança do soberano à
defesa da sociedade, a ponto de o infrator passar a ser considerado o
inimigo comum. Exempli�ca: “Onde desapareceu o corpo marcado,
recortado, queimado, aniquilado do supliciado, apareceu o corpo do
prisioneiro, acompanhado pela individualidade do ‘delinquente’”.
(FOUCAULT, 2009, p. 241). O poder normalizador na sociedade moderna,
portanto, foi apoiado pela rede carcerária, em suas formas concentradas ou
disseminadas, com seus sistemas de inserção, distribuição, vigilância,
observação (Idem, p.288).
Podemos dizer que a tônica do abolicionismo de Foucault é questionar
todas as formas de expressão do próprio poder desempenhado, não só pelo
Estado, mas também desprendido pelas atitudes dos próprios indivíduos,
membros da sociedade. Desta feita, analisa o peso da incidência desse
poder, sobre os corpos, preferencialmente os exercidos por instituições
como a prisão e o manicômio.
A prisão, nas bases do livro, é considerada como uma das formas mais
fulminantes de exercício de poder. Através de autoritarismo, faz imperar a
disciplina e a obediência, onde as ilegalidades, ao invés de serem
combatidas, permanecem e reproduzem-se.
Portanto, acidentalmente ou não, o cunho abolicionista penal do
�lósofo Michel Foucault é inquestionável, ao passo que conclui pela
extirpação da punição, promulgando a ideia de uma vigilância
disciplinadora. O enfoque foucaultiano no que tange à estrutura da
sociedade e à forma como aborda o direito de punir, expressa a necessidade
de transformações do âmago da Criminologia Crítica, decretando de forma
imperativa um rompimento com as instâncias formais de controle.
O autor encerra sua obra clássica com a a�rmação de que na
genealogia do sistema prisional contemporâneo, baseado no binômio “vigiar
e punir”, há um ronco surdo de uma batalha. Façamos, então, soar as
buzinas a acompanhar os megafones com gritos de “Alerta!”: a lógica do
crime-castigo precisa ser rompida, os homens não podem continuar
exercendo seus podres poderes 38que matam de fome, de dor, de raiva e de
tristeza os condenados da terra capital.
II.6. “Em que meu olhar permite ver as
coisas?”39: trocando as lentes
A ideologia penal dominante se funda nos mitos da ressocialização e
da recuperação do delinquente por intermédio da prisão, mito este
desconstruído ao veri�carmos a frustração dessa função declarada e a
função não-declarada do modelo punitivo: gestão de classe. 40
O abolicionismo, ora como movimento social, ora como fase
acadêmica, é a proposta crítica de liberdade das respostas condicionadas
pelo modelo punitivo e das consequências funestasdo encarceramento.
Para chegar à abolição do sistema penal, Hulsman aponta para dois
caminhos a serem trilhados em conjunto. O primeiro, chamado de
‘abolicionismo acadêmico’, implica uma transformação conceitual e de
linguagem, evitando a reconstrução ilegítima das situações-problema como
meros fatos criminalizáveis carentes de uma resposta punitiva. Assim, é
possível transcender às etiquetas de vítima e agressor para encarar os
episódios tipi�cados como crime, percebendo a perspectiva transdisciplinar
da natureza con�ituosa.
O segundo, denominado de ‘abolicionismo como movimento social’,
inicia-se com mudanças de comportamentos, negando o poder centralizado
e a lei como verdades absolutas. Não se vai em busca do vitimizado ou do
agressor, mas de indivíduos capazes de terem sua sociabilidade
redimensionada.
Nesse sentido, ao compreendermos a função da resposta penal dentro
da lógica do controle social punitivo, de eliminar os indesejáveis por meio
do estigma e da perseguição penal até a morte social do encarceramento,
deparamo-nos com o horizonte de um novo paradigma de resolução de
con�itos que é a justiça restaurativa.
Um nó se apresenta: Como praticar um sistema de mediação orientado
pelos princípios da Justiça Restaurativa imune à colonização das opressões
de gênero, raça e classe nos casos de violência doméstica?
As tentativas frustradas dos modelos penais e a necessidade de
reinventar respostas sem relegitimar uma política criminal punitivista e
carcerocêntrica estão postas. Os desa�os para aqueles que pretendem se
despir das armadilhas das soluções fáceis promovidas pela lógica penal
giram em torno de rever mecanismos de responsabilização paci�ca dos
con�itos, que sejam e�cazes para reparar o dano e para a compreensão da
dimensão social e política do crime.
Os criminólogos críticos identi�caram nesse percurso um processo de
substituição das penas alternativas por penas aditivas, que substituíssem as
prisões e renovassem as formas de controle social. Ou seja, as estratégias se
renovam e conseguem abranger mais sujeitos na rede de controle, ainda
que com penas mais brandas.
Esta crítica está atrelada à leitura que se faz da implantação dos
Juizados especiais criminais pela Lei n. 9099/05, que pretendia uma gestão
de con�itos baseada na conciliação, economia processual e menor
formalidade, mas que na prática representou, em razão da burocracia e
verticalização, “uma espécie de re�exo em escala menor do modelo
tradicional de administração da Justiça Criminal” (ACHUTTI, 2016, p.22)
A partir das experiências de metodologias alternativas dentro do
sistema penal para tratar os con�itos, é possível a�rmar, segundo Carvalho
(2016, p.23), que:
os únicos satisfeitos com as resoluções apresentadas pelo sistema punitivo são os
próprios operadores da máquina burocrática judiciária; as pessoas efetivamente
envolvidas nas situações problemáticas são desprezadas, seus direitos fundamentais
violados e suas expectativas frustradas. Assim, seria possível concluir que uma das
únicas virtudes do sistema penal (talvez a sua principal) é a de satisfazer a vontade de
punir dos seus atores e do seu público consumidor(...).
O grande nó que se apresenta a esta pesquisa é justamente como
praticar um sistema de mediação orientado pelos princípios da Justiça
Restaurativa imune à colonização das opressões de gênero, raça e classe nos
casos de violência doméstica. Quais as experiências que identi�camos e
como elas vêm sendo construídas? O que o pensamento decolonial, os
estudos da raça e o feminismo marxista contribuem para um modelo de
justiça restaurativa libertador?
As apostas para desatar o nó estão em aprofundarmos a compreensão
dos processos colonizadores capitalistas, racistas e patriarcais, somadas a
uma fundamentação radicalmente abolicionista, para assim rompermos
com a racionalidade penal autoritária moderna e superarmos a centralidade
do binômio crime-castigo.
A partir disso, é recomendável desde o princípio uma postura suspeita
em relação às noções de crime, criminalidade, culpabilização e vitimização.
Estes signi�cantes sempre estiveram atrelados à imposição de dor, à
violência e a mecanismos perversos de criminalização de grupos
subalternizados.
As décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos marcaram um momento de
crise do discurso ressocializador e da pena privativa de liberdade como
tratamento, processo que impulsionou ideias de restituição penal e de
reconciliação da vítima com o ofensor na década seguinte.
Há quem diga (BRAITHWAITE, 2002, p. 8-10) que as primeiras
movimentações de interesse pela justiça restaurativa surgiram no Ocidente
a partir de um programa de reconciliação vítima e ofensor em Kitchener,
Canadá, em 1974. Tratava-se de programas comunitários que mediavam
con�itos entre vítima e ofensor após a decisão judicial.
Segundo este mesmo autor, nos idos de 1980, a justiça restaurativa se
tornou um importante movimento social em favor da reforma da justiça
criminal após os trabalhos de Howard Zehr (1985,1995), Mark Umbreit
(1984,1994), Kay Pranis (1996), Daniel Van Ness (1986), Tony Marshall
(1985) e Martin Wright (1982). Na década seguinte, as pesquisas críticas de
Alisson Morris, Lode Walgrave, Heather Strang e Laurence Sherman
engrenaram esta progressão do tema.
A partir dos anos 1970, autores como Daly e Immarigeon (1998, p6-
11) identi�caram iniciativas implementadas que poderiam ser identi�cadas
como procedimentos restaurativos, como por exemplo: direitos dos
prisioneiros e alternativas às prisões; resolução de con�itos(envolvia
conselhos comunitários de justiça e centros de justiça comunitária),
programas de reconciliação vítima-ofensor (encontros com a presença de
mediador de vítima e ofensor); mediação vítima-ofensor(envolvia a mesma
estrutura da reconciliação, mas com a participação de outras pessoas
afetadas pelo con�ito); grupos de defesa dos direitos das vítimas(ativistas
ressaltavam a importância da participação das vítimas nos processos
judiciais); conferências de grupos familiares (se diferenciavam da mediação
vítima-ofensor, pois permitiam a inclusão de mais membros da comunidade
nas discussões sobre o caso); círculos de sentença (originário do Canadá na
década de 80, objetivava a restauração do con�ito, a cura dos
envolvidos(ofensor, vítima e comunidade).
Embora sem a menção ao termo justiça restaurativa, essas
modalidades de encontro são práticas próprias desse campo e já
anunciavam a urgência do abolicionismo e da substituição por um modelo
outro de gestão da con�itividade.
Assim, na década de 90, o tema eclode nos Estados Unidos e em
pouco tempo é difundido pelo continente europeu. Embora muito próximo
ao abolicionismo no que toca aos objetivos de superar o modelo processual
penal de tratar os con�itos e questionando o sentido da punição, para
Braithwaite algumas diferenças são importantes entre justiça restaurativa e
abolicionismo, quais sejam: em alguns casos, a justiça restaurativa admite a
utilização da prisão para um certo número de delitos e garante legitimidade
às garantias penais, enquanto que o abolicionismo propõe a substituição da
prisão e a total superação do sistema penal.
Este aspecto apresenta o caráter múltiplo dessa justiça, que recebe
in�uência de diversos movimentos como o abolicionismo (que denuncia a
falência das funções declaradas de prevenção da criminalidade e
ressocialização dos indivíduos através da prisão), a vitimologia (que resgata
a centralidade da vítima) e o que exalta o papel positivo da comunidade.
No que diz respeito à vitimologia, tema ainda não abordado aqui, é
uma movimentação de trocar a centralidade do olhar: desvincular a
atenção apenas aos bens jurídicos e aos que cometeram o delito e recuperar
as necessidades de reparação da vítima.
É a partir dos anos 80 que o debate ganha fôlego, transitando de
leituras positivistas, que buscavam as causas biológicas, antropológicas e
sociais que formam a vítima, incorrendo nomesmo erro das ideias
biologizantes que pretendiam formar um per�l nato do delinquente, até o
ponto mais trabalhado, que é a vitimização secundária, isto é, a alienação
da vítima no processo penal, vez que esta desconhece a dinâmica do
processo penal.
Elucidando isso, Pallamolla (2009, p.52) diz que:
O que a vitimologia trouxe à tona, a�nal, é que o atual sistema de justiça penal ignora a
vítima e suas necessidades- já que as vítimas, muitas vezes, querem apenas que o dano
seja ressarcido, que o ofensor lhe dê explicações para que possa compreender o ocorrido,
ou, ainda, que receba um pedido de desculpas – e, com isso, atua de forma a revitimizá-la,
deixando-lhe uma única saída : recorrer ao processo penal e pedir a punição do ofensor e
com isso satisfazer-se, mesmo sem ter participado ou contribuído para o processo e seu
desfecho.
Em seguida, adverte que a conexão da justiça restaurativa com a
vitimologia não é total, pois que embora tenha sido in�uenciada por esta na
concretização de seus princípios, não é um movimento que não só envolve
as vítimas, como também a comunidade e ofensor.
Na multiplicidade de possibilidades de ser da justiça restaurativa em
termos de elementos, objetivos e orientações, mais apropriado é caracterizá-
la como um “modelo eclodido” (JACCOUD, 2005, p.163), até por não estar
de�nida taxativamente em um sentido acadêmico de ter um conceito-base
para ser o princípio do estudo.
A de�nição aberta permite que transitemos pelas formulações de
diversos(as) autores(as) para entender como essas concepções se
completam, como por exemplo o sentido de Marshall(apud LARRAURI, p.
443) sobre a reunião de todas as partes interessadas para resolver
coletivamente uma questão; o de Braithwaite(2003, p. 1) que a vislumbra
como a busca por “direções práticas sobre como nós, cidadãos democráticos,
podemos levar uma boa vida por meio da luta contra a injustiça” ou o de
Johnstone e Van Ness como movimento global que objetiva transformar as
respostas que a sociedade contemporânea dá às situações
problemáticas(2007, p.5).
Estes últimos autores, por sua vez, asseveram que não há consenso
acerca da de�nição:
Alguns consideram a justiça restaurativa como nova técnica social ou programa que
pode ser usado no interior dos nossos sistemas de justiça criminal. Outros procuram,
em última análise, abolir grande parte do edifício de punição do Estado e substituí-lo
por respostas baseadas na comunidade que ensinam, curam, reparam, reparam e
restauram vítimas, autores de crimes e suas comunidades. Outros, ainda, aplicam a visão
de cura e restauração a todos os tipos de con�itos e danos. Na verdade, o objetivo �nal e
foco principal, eles sugerem, deveria ser a mudança da maneira como vemos a nós
mesmos e nos relacionamos com os outros na vida cotidiana. (JOHNSTONE; VAN
NESS, 2007, p.5)
Apesar da abertura conceitual, podemos destacar uma característica
central dos programas restaurativos, que é a participação das partes
envolvidas como protagonistas e não meramente a leitura jurídica de
violação à lei. Para Alisson Morris (2002, p. 598):
a justiça restaurativa devolve as decisões sobre a melhor maneira de lidar com a ofensa
aos mais afetados- vítimas, ofensores e suas ‘comunidades de cuidado’- e dá prioridade
aos seus interesses. Assim, o Estado não possui mais o monopólio sobre a tomada de
decisão; os produtores das decisões são as próprias partes.
A respeito da amplitude conceitual, Walgrave (2008, p.11) relata:
A justiça restaurativa é um produto inacabado. É um reino vívido e complexo de
diferentes- e parcialmente opostas- crenças e opiniões, renovando inspirações e práticas
em diferentes contextos, duelos cientí�cos em torno à metodologia de pesquisa e seus
resultados. (...) É um campo próprio, procurando por maneiras construtivas de lidar
com as consequências do crime, mas também parte de uma mais ampla agenda
socioética e política.
Como um paradigma novo, o conceito de Justiça Restaurativa ainda é
algo inconcluso, que só pode ser captado em seu movimento ainda
emergente. Ainda assim, há palavras chave que informam a orientação
�losó�ca da restauração que são: democracia participativa, vivência
restauradora e recontextualização do con�ito. Quer dizer, promoverá a
democracia participativa na área de Justiça Criminal, uma vez que a vítima,
o infrator e a comunidade se apropriam de signi�cativa parte do processo
decisório, na busca compartilhada de cura e transformação, mediante uma
recontextualização construtiva do con�ito, em uma vivência restauradora.
O processo transpõe a super�cialidade e mergulha fundo no con�ito,
enfatizando as subjetividades envolvidas, superando o modelo retributivo,
em que o Estado, �gura como a encarnação de uma divindade vingativa,
sempre pronta a retribuir o mal com outro mal.
Reconhecendo esta abrangência terminológica, Johnstone e Van Ness
(2007, p.9-16) apresentam três concepções de justiça restaurativa: a) a
concepção do encontro, com enfoque na liberdade de manifestação dos
envolvidos para a dissolução con�ito; b) a concepção reparadora, com
ênfase na reparação do dano provocado; e c) a concepção transformadora,
que vislumbra nas experiências restaurativas potencial de mudar o estilo de
vida, extinguindo a hierarquia e o individualismo entre os indivíduos.
Os valores obrigatórios para prevenir que o processo restaurativo se
torne opressivo são: a não-dominação(reconhece as diferenças de poder
existentes, mas procura minimizá-las); empoderamento da vítima;
obediência aos limites máximos estabelecidos legalmente como
sanções(desfechos degradantes não podem ser considerados restaurativos);
escuta respeitosa(esta condição revela que o empoderamento de uma parte
que silencia a participação de outra é excessivo e negativo); preocupação
igualitária com todos os participantes; accountability appealability(garante o
direito de optar pelo processo restaurativo em lugar do processo judicial e
vice e versa).
Os conceitos enunciados nos Princípios Básicos sobre Justiça
Restaurativa, enunciados na Resolução do Conselho Econômico e Social das
Nações Unidas, de 13 de Agosto de 2002, são os seguintes41:
1. Programa Restaurativo - se entende qualquer programa que utilize
processos restaurativos voltados para resultados restaurativos.
2. Processo Restaurativo - signi�ca que a vítima e o infrator, e, quando
apropriado, outras pessoas ou membros da comunidade afetados pelo
crime, participam coletiva e ativamente na resolução dos problemas
causados pelo crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. O processo
restaurativo abrange mediação, conciliação, audiências e círculos de
sentença.
3. Resultado Restaurativo - signi�ca um acordo alcançado devido a um
processo restaurativo, incluindo responsabilidades e programas, tais como
reparação, restituição, prestação de serviços comunitários, objetivando
suprir as necessidades individuais e coletivas das partes e logrando a
reintegração da vítima e do infrator.
As práticas de Justiça restaurativa em geral visam promover o encontro
entre as partes afetadas em um ambiente não-adversarial para dialogarem e
decidirem a respeito do dano sofrido, possibilitando a
retratação/responsabilização do ofensor e a aproximação da vítima com suas
sensações do fato. As principais modalidades de intervenção restaurativa
são:
a) Mediação entre vítima-ofensor
Modelo mais difundido, consiste no encontro das partes envolvidas
para que a vítima obtenha uma reparação, restauração ou compensação
facilitada pelo mediador, que irá promover um diálogo desarmado e o mais
horizontal possível.
Nas palavras de Pallamolla (2009, p. 109), “com o uso da mediação, a
justiça restaurativa pretende superar a dicotomia vítima-ofensor e desfazer
os mitos (estereótipos) relacionados a ambos”.
b) Conferências restaurativas
Encontros entre vítima, ofensor e comunidade a�m de encontrar uma
solução coletiva para os problemas gerados com o delito.
c) Círculos restaurativosSão realizados de duas maneiras: círculos de cura, que buscam
restaurar a paz na comunidade afetada pelo con�ito; e os círculos de
sentença, em que participam as partes diretamente envolvidas, as famílias,
pessoas ligadas à vítima e ao infrator que queiram apoiá-los e qualquer
pessoa da comunidade que tenha interesse, assim como pessoas vinculadas
ao sistema de justiça criminal. Podem acontecer antes da ação penal, antes
do processo, antes ou após a sentença.
No que toca aos momentos de aplicação e as consequências jurídicas,
podemos dizer que todas as experiências atuais se desenvolvem através da
justiça criminal e que cada país tem um sistema próprio de justiça
restaurativa. Podemos apontar, nos trilhos das informações que Pallamolla
(2009, p. 100-104) traz do estudo da ONU sobre o tema, que os momentos
em que são encaminhados os programas restaurativos podem ser:
a) Fase pré-acusação, podendo ser encaminhado tanto pela polícia
quanto pelo Ministério Público;
b) Fase pós-acusação, antes do oferecimento da denúncia na justiça
criminal, a ser encaminhada pelo Ministério Público;
c) Fase judicial, a qualquer momento do processo judicial, inclusive ao
tempo da prolatação da sentença, com encaminhamento pelo juiz;
d) Fase pós-judicial, quando da execução da pena privativa de
liberdade, como alternativa ou complemento à prisão.
Conforme o caso, as consequências podem resultar na extinção do
processo, na suspensão condicional da pena/processo e no arquivamento do
inquérito policial ou da queixa, caso haja cumprimento do acordo pelo
ofensor. O acordo poderá in�uenciar a decisão judicial, implicando na
redução, substituição ou isenção da pena para o condenado.
Enquanto procedimento que busca o consenso e reconhece as
diferenças, a Justiça restaurativa tem potencial de promover a democracia
participativa na área de Justiça Criminal, uma vez que a vítima, o infrator e
a comunidade se apropriam do processo decisório e buscam conjuntamente
a transformação mediante uma reconstrução contextualizada do con�ito.
Enquanto a justiça convencional diz: “você cometeu um erro punível e
precisa ser castigado!”, a justiça restaurativa, por outro lado, pergunta: “o
que você pode fazer agora para restaurar isso?”.
Como não é modelo engessado, pode se construir a partir de um
padrão centrado no processo, nas �nalidades ou centrado em ambos.
Concordamos com Jaccoud (2005) segundo a qual o modelo centrado nos
processos é o que mais corrompe os princípios fundadores da justiça
restaurativa. Explica-se: uma justiça participativa ou comunitária é uma
justiça restaurativa se, e somente se, as ações expandidas objetivam a
reparação das consequências vivenciadas após um crime. Por exemplo: um
círculo de sentenças se insere em um modelo de justiça restaurativa
contanto que os membros do círculo recomendem ao juiz a adoção de
medidas restaurativas. Um círculo de sentença que recomenda encarcerar o
autor do delito (sem a reunião de medidas restaurativas) jamais será um
modelo de justiça restaurativa.
Os principais procedimentos que cercam a justiça restaurativa são:
a) Os lugares de prática (perspectiva maximalista x perspectiva
minimalista):
A tendência minimalista estima que o Estado deve ser afastado da
administração destes processos. A justiça restaurativa é concebida, então,
como uma alternativa ao sistema de justiça tradicional e se vê limitada à
adoção de processos de mecanismos não-jurídicos ou de mecanismos civis.
Já a tendência maximalista se opõe a esta visão da justiça restaurativa
devido aos limites de sua aplicação. Walgrave (1999 apud JACCOUD
2005), um dos defensores desta tendência, considera que a justiça
restaurativa deve transformar profundamente o modelo retributivo e, para
tal, deve ser enraizada no sistema de justiça estatal. De acordo com ele,
restringir os processos restaurativos a processos estritamente voluntários
leva a con�nar a aplicação da justiça restaurativa a pequenas causas.
No Brasil, através das resoluções do Conselho Nacional de Justiça, a
tendência em voga é a integração do modelo restaurativo ao modelo de
justiça criminal tradicional. Especi�camos, no entanto, que no presente
trabalho dialogamos tanto com as iniciativas propostas pelo Judiciário,
como, a partir da matriz teórica e de longo prazo, com horizontes
abolicionistas, nos quais esta forma de justiça poderá ser tida como
alternativa e não apenas como complementar a atuar por dentro do sistema
penal.
Na opinião de Jaccoud (2005), é necessário distinguir:
1) um sistema de justiça estatal que mude para privilegiar a reparação
dos danos causados à vítima convidando o ofensor a se responsabilizar com
isto em detrimento da pena. Este sistema não é mais retributivo, mas sim
restaurativo. O termômetro que permite avaliar se um sistema é
restaurativo é, vamos repetir, a �nalidade (reparar as consequências). Neste
contexto, o termo “sistema penal” poderia ser substituído por “sistema de
justiça”;
2) um sistema de justiça estatal que não transforma a �nalidade das
sanções (mantém as �nalidades punitivas), mas que acrescenta uma
dimensão restaurativa às suas modalidades de aplicação das sanções. Este
sistema permanece retributivo em sua essência.
b) O lugar e o papel das vítimas:
Um dos debates mais tensionados sobre a aplicação da justiça
restaurativa diz respeito à aplicação das práticas nos casos de crimes graves
e/ou marcados por um forte desequilíbrio de poder (homicídio, violência
sexual, racismo...). Estes argumentos deixam subentendido que a justiça
restaurativa é considerada como uma forma de justiça mais amena,
informal, que se revela não apropriada nos casos que requerem uma forte
reprovação por parte do Estado.
Estas opiniões não são unânimes. Pesquisadores(as) abertos(as) à ideia
de que a justiça restaurativa pode ser aplicada às situações de trauma grave
insistem na necessidade de impor barreiras protetoras: a segurança das
vítimas dentro dos processos é prioritária; as vítimas devem participar
voluntariamente e podem se retirar do processo a qualquer momento; elas
devem se bene�ciar de serviços de apoio, antes, durante e depois do
processo; o agressor deve reconhecer sua responsabilidade; os facilitadores e
mediadores devem receber uma formação apropriada à administração deste
tipo de situação.
c) O lugar da comunidade:
Há de haver sérias advertências para que o papel da comunidade não
seja romantizado a ponto de conceber que esta sempre dará as respostas
mais justas/adequadas/pautadas em valores não-retributivos. A
comunidade pode ser muito punitiva e repressiva, conforme a sua história
de socialização, de modo que é importante, mas também pode ser
questionada.
Uma crítica persistente é a de que a Justiça restaurativa desjudicializa a
Justiça Criminal e privatiza o Direito Penal, sujeitando as partes envolvidas
a um controle ilegítimo de pessoas não investidas de autoridade pública.
Contra isso é oponível o argumento de que o processo restaurativo não é
exercício privado, mas o exercício comunitário – portanto também público –
de uma porção do antes exclusivo monopólio estatal da justiça penal, numa
concretização de princípios e regras constitucionais.
O que ocorre é um procedimento que combina técnicas de mediação,
conciliação e transação previstas na legislação, com metodologia restaurativa
na participação de vítima e infrator quando for essa a vontade das partes.
Vale realçar que o acordo restaurativo terá que ser aprovado, ou não, pelo
Ministério Público e pelo advogado assim como pelo juiz, ou não.
Um dos precursores dos estudos sobre justiça restaurativa, Howard
Zehr, ao pintar os fenômenos do crime e da justiça como forma de ganhar e
perder poder, propõe que o crime
(...)pode ser uma forma que o ofensor encontra para a�rmar seu poder e ganhar um
sentido de valor pessoal. Mas o crime tira de alguém seu sentido de poder pessoal. Para
que a vítima recobre sua inteireza, é preciso que lhe seja devolvidaa autonomia. Para que
o ofensor conquiste a inteireza, ele deve desenvolver um senso de autonomia que não se
baseie em dominar os outros. E, no entanto, o processo penal intensi�ca o problema,
privando tanto a vítima como ofensor de um sentido legítimo de poder enquanto
concentra o poder perigosamente nas mãos de uns poucos. (2008, p. 55)
Nesse sentido, pensando sobre a misti�cação e miti�cação do processo
pela mídia e política, a culpa como central para ditar as respostas vingativas
e a lei penal como a lei da dor, o autor indica que “o motivo de tanto de
nossos fracassos é a lente através da qual enxergamos o crime e a justiça,
pois essa lente é uma construção da realidade bastante especí�ca, ela é um
paradigma. Mas este não é o único paradigma possível.” (ZEHR, 2008, p.
90)
Experimentado com cautela e controle, o programa deve estar sempre
monitorado e avaliado com rigor cientí�co. Cumpre reiterar que precisamos
construir uma justiça restaurativa brasileira e latino-americana,
considerando as particularidades da criminalidade construída no
continente como reação social organizada a uma ordem injusta, cruel,
violenta e igualmente criminosa. As diretrizes da ONU podem orientar os
caminhos se adaptarmos a Justiça Restaurativa ao nosso contexto.
Ademais, é vital não descuidarmos da indissociabilidade do sistema
com o aparato de proteção aos direitos humanos. O modelo de justiça
restaurativa busca o princípio da comunidade, a regra da negociação, ao
passo que só faz sentido se caminhar junto dos valores proclamados pelos
Direitos Humanos.
É forçoso fazer observações algumas observações. O universo da
Criminologia não fugiu ao androcentrismo dos saberes e teve seu universo
inteiramente centrado no masculino, ora pelo objeto do saber (o crime e os
criminosos), ora pelos sujeitos produtores do saber (os criminólogos).
Com o �m de reduzir a onipresença do masculino e deixar de ser
sujeito ausente, a partir da década de 70, as criminólogas desa�aram as
bases da criminologia que até então negligenciava a questão de gênero
como essencial para compreender os fenômenos criminais situados na
sociedade patriarcal. Antes mesmo de lançarem mão desta provocação, as
críticas feministas já questionavam o universalismo das ciências sociais que
não se dispunha a reconhecer as diferenças de socialização de homens e
mulheres e, portanto, invisibilizavam a realidade opressora das mulheres
em oposição à dos homens.
Para Carmen Hein (2017, p.221),
se a incorporação do paradigma da reação social (labelling approach) propiciou a
primeira virada, o gênero (ou o feminismo) corresponderia à segunda virada
paradigmática da criminologia. O desenvolvimento da categoria gênero revolucionou as
análises feministas que, aplicadas à criminologia, não apenas questionaram seus
pressupostos androcêntricos, mas construíram um novo referencial teórico capaz de
analisar a criminalidade e demandas femininas, até então ignoradas.
Entre as décadas de setenta a oitenta, a crítica feminista na
criminologia se ocupou em denunciar o caráter androcêntrico da disciplina,
visibilizar a criminalidade feminina, expor o sexismo institucional no
estudo/ tratamento do crime e problematizar a naturalização de
comportamentos essencialmente femininos.
Nesse percurso, as teorias da criminalidade também serão objeto de
análise para identi�car as ausências e generalizações na questão de gênero,
questionando os estereótipos e apresentando a via da criminologia
feminista por meio das propostas de Carol Smart, Maureen Cain e
Katheleen Daly.
Assim, no esforço de conceituar o que viria a ser uma criminologia
feminista distinta da investigação criminológica tradicional, Daly e
Chesney-Lind (apud HEIN, 2017, p. 271) sustentam cinco aspectos:
a) O gênero não é um fato natural, mas um complexo produto histórico, social e cultural,
relacionado, mas não simplesmente derivado da diferença sexual biológica ou das
capacidades reprodutivas; b) O gênero e as relações de gênero estruturam a vida e as
instituições sociais de modo fundamental; c)As relações de gênero e as construções de
feminilidade e masculinidade não são simétricas, mas estão baseadas em um princípio
organizador da superioridade masculina e na dominação econômica, social e política das
mulheres; d)A produção do conhecimento re�ete a visão dos homens sobre o mundo
social e natural. O conhecimento é ‘gendrado’; d) As mulheres devem estar no centro da
pesquisa intelectual e não periféricas, invisíveis ou apêndices dos homens.
O universo da violência antes de mais nada, como introduz Vera
Andrade, é o universo da dor e escolhê-la como objeto teórico demanda
um esforço de suspender as implicações que a dor provoca, como o
sentimento de vingança e ódio, mas jamais afastar-se por inteiro desta, pois
que a solidariedade para com as dores do mundo irá nos guiar para a luta
por aqueles que mais sofrem na sociedade: os oprimidos.
A tarefa de quem está nesse lugar de olhar para o direito penal e
apontar suas permanências históricas, para poder apontar objetivos,
omissões e estratégias de combatê-lo a partir de problematizações de
gênero, é ancorar nossas bases na criminologia crítica, desenvolvida a partir
do paradigma da reação social, e mais especi�camente na criminologia
feminista.
Perceber, portanto, o feminismo como novo sujeito que tensiona a
produção masculina e masculinizada de saber e reivindica o lugar ausente
da categoria gênero como categoria de análise, é uma escolha política de
questionar o papel acadêmico de eleger prioridades e quanti�car
importâncias a partir de sua lente eurocentrada. É dizer: esvaziar como
possível o machismo das formas jurídicas para o feminino passar com seu
debate tem um impacto desestabilizador para o direito e, especialmente,
para a criminologia, reduto do androcentrismo por muito tempo. E para
entender as carências de uma criminologia crítica feminista, urge identi�car
pontos de funcionamento do sistema de controle.
Enquanto controle social, o sistema penal não atua sozinho: está
incluído em uma mecânica global. Stanley Cohen, considerado um dos
criminólogos críticos mais in�uentes da língua inglesa, na obra ‘Visions of
social control: Crime, Punishment and classi�cation’ (2001, p.1), de�ne
controle social como “formas organizadas com que a sociedade responde a
comportamentos e a pessoas que inclui como desviantes e ameaçadores.”
Estas respostas se manifestam como castigos, tratamento, prevenção,
segregação, ressocialização, reforma e defesa social. Alimentados por
sentimentos de vingança, salvação e benevolência, pretendem combater
comportamentos de�nidos como crime, desvio, imoralidade.
O criminólogo se propôs a selecionar as tendências-chave nos
esquemas de controle social no mundo ocidental, descrevendo a fundação
do sistema de controle do desvio no século XVIII e XIX e as mudanças
históricas fundamentais, desde a imposição de sofrimento ao corpo, as
penas públicas exemplares, o isolamento do desviante nas casas de correção
e a�ns para transformação através da disciplina e ordem, até as visões
reformistas, a partir da década de 1960, inspiradas pelos conceitos de
progresso e humanitarismo.
A relação Estado-indivíduo na sociedade burguesa se baseia na
manipulação da consciência que dá a ilusão de liberdade aparente, na
desigualdade e na repressão. O funcionamento perfeito da sociedade se
assinta em atingir o objetivo de bem-estar da economia privada, educação
para o conformismo político e infantilismo coletivo (BERGALLI, 1983 p.
40).
As instâncias de controle incutem nos indivíduos premissas da ordem
social que garantem o bem-estar de proprietários em detrimento dos não-
proprietários excluídos. O poder do Estado está em interiorizar a disciplina
social e educar para o consenso.
A autoridade é elemento central do Estado que forja o desejo dos
sujeitos ocuparem o lugar que representa os atributos hegemônicos da
masculinidade, propriedade, conhecimento técnicoe cientí�co, valoração
claramente ideológica do que signi�ca o poder.
No âmbito das instâncias informais, a família se estrutura na �gura do
homem, do pater, que institui a hierarquia e obediência aos costumes; a
escola institui a autoridade por meio da hierarquia dos conhecimentos e o
trabalho estabelece a autoridade por meio da superioridade técnica e
econômica.
No que se refere à alimentação ideológica através da informação, os
meios de comunicação servem como mecanismo amplo de convencimento.
Sobre a questão da criminalidade, se encarregam de informar para a
identi�cação de grupos sociais especí�cos em torno da marginalidade,
estigmatização e controle. Por meio do clima de pânico, ideologia de classe
violenta/criminosa, criam insegurança e clamor popular pela persecução
penal aos transgressores.
A nível formal, as instâncias judiciais e policiais cumprem a função
fundamental de manutenção da ordem interna, através da prevenção e
repressão das ações dos cidadãos, se desconsiderarmos, claro, a ideologia
deste microssistema municiado pelo capitalismo, racismo, patriarcado que
montam a discursividade e justi�cam a atuação, constituindo (e sendo
constituído) o senso comum punitivo.
Logo, em resumo:
Toda a mecânica de controle (enraizada nas estruturas sociais) é constitutiva,
reprodutora das profundas assimetrias de que se engendram e se alimentam, a�nal, os
estereótipos, os preconceitos e as discriminações, sacralizando hierarquias. E nós
interagimos cotidianamente na mecânica (inseridos que estamos em relações de poder
nem sempre percebidas, sendo sujeitos constituídos e constituintes, controlados e
controladores), particularmente na dimensão simbólica da construção social da
criminalidade/vitimação, representada por nosso microssistema ideológico que procede
a microsseleções cotidianas, ao associar, estereotipadamente: criminosos como homens
pobres; desempregados de rua como perigosos; vítimas com mulheres frágeis(...)
(ANDRADE, 2016, p. 137)
Além disso, após pesquisa sobre o sistema de justiça penal e violência
sexual contra as mulheres, Vera Regina (2016, p.131) conclui:
a) Em sentido fraco, o sistema penal é ine�caz para a proteção das mulheres contra a
violência porque, entre outros argumentos, não previne novas violências, não escuta os
distintos interesses das vítimas, não contribui para a compreensão da própria violência
sexual e gestão do con�ito, e muito menos para a transformação das relações de gênero.
O sistema penal não apenas é estruturalmente incapaz de oferecer alguma proteção à
mulher, como a única resposta que está capacitado a acionar- o castigo- é desigualmente
distribuída e não cumpre as funções preventivas (intimidatória e reabilitadora) que se
lhe atribuem. Nesta crítica, sintetizam-se o que denomino de incapacidade protetora,
preventiva e resolutória do sistema penal; b) em sentido forte, o sistema penal (salvo
situações contingentes, empíricas e excepcionais) não apenas é um meio ine�caz para
proteção das mulheres contra a violência, como também duplica a violência exercida
contra elas e as divide, sendo uma estratégia excludente que afeta a própria unidade (já
complexa) do movimento feminista. Isto porque se trata de um subsistema de controle
social, seletivo e desigual, tanto de homens como de mulheres e porque é, ele próprio, um
sistema de violência institucional, que exerce seu poder e seu impacto também sobre as
vítimas.
Com esse desnudamento sobre as funções e repercussões da
intervenção penal sobre as mulheres, se denuncia que o sistema duplica a
vitimação feminina, pois que além da violência física/psicológica, a mulher
se torna vítima da violência institucional com que o sistema reproduz a
violência estrutural das relações capitalistas da sociedade de classes, a
violência das relações patriarcais sob o lastro da desigualdade de gênero,
bem como a violência das relações branqueadoras das opressões de raça.
Partindo do tratamento da violência contra a mulher, do modo como a
mulher é retratada pelo sistema, como a seletividade do sistema penal
conjugada à moral sexual acende prioritariamente os holofotes para autor-
vítima ao invés de sobre fato-crime, bem como da crise de legitimidade das
funções do direito penal, o modelo restaurativo surge como alternativa para
conceder voz e poder de decidibilidade aos sujeitos.
Nesse sentido, dialogar com um novo paradigma para além da prática
punitiva do aprisionamento e exclusão social, da ritualística hierarquizada
da justiça tradicional, da palavra de ordem legal e da força, é colocar em
pauta também que o universo da violência é o universo da dor e os seus
sujeitos têm uma fala, bem como saberes que não passam, necessariamente,
pela mão do Direito Penal.
A discussão feminista tem se oposto categoricamente aos métodos
consensuais de resolução de con�itos por considerar um retrocesso na luta
das mulheres para reconhecimento das violências sexistas. Os debates se
pautam na tolerância mínima com o Estado, as instituições e a sociedade
civil no que toca à violência contra a mulher, atrelando a postura de não
retroceder nenhum passo sobre os direitos conquistados com uma didática
punitivista e do direito penal máximo quando se trata de feminismo.
Ao entender que a mulher vítima não pode se prestar ao papel de
mediar o con�ito, a associação que se faz é que a mediação é ceder ou
concordar com algo a ela imposto quando, na realidade, a mediação é uma
proposta de dar protagonismo às angustias e questões sentidas pela vítima
para reparar o dano e, através do diálogo, restaurar aquela relação fraturada
e ameaçada pelo desnível de poder entre as partes. Diz respeito a
reconhecer o delito como um erro que tem base social e pode ser tratado
sem a reprodução dos estigmas de criminoso, culpa e castigo.
Na mesma esteira, nos lembra Larrauri (2008, p.225) que a crítica
também se �rma no entendimento de que o objetivo da mediação é salvar a
instituição familiar, modelo heteronormativo patriarcal que interessa na
manutenção da propriedade privada e corpori�ca as relações de poder
fundadas na lógica de dominação masculina.
É possível, sim, questionar uma prática restaurativa que não esteja
pautada nos valores feministas, mas não inferir que toda prática
restaurativa por sua natureza é antifeminista. O desconhecimento parte
tanto das teóricas feministas a respeito das críticas criminológicas e,
portanto, da justiça restaurativa no contexto de deslegitimação do direito
penal como resposta aos crimes, até mesmo os de violência doméstica, bem
como das criminólogas que tardaram a reivindicar a categoria de gênero
como estruturante e essencial para um paradigma do confronto, não-
hegemônico e de compreensão total dos mecanismos de controle na
sociedade capitalista.
Nós, pensadoras da criminologia crítica feminista devemos nos
questionar: a justiça restaurativa consegue o intento de reforçar a
autonomia, promover mudanças sociais e oferecer proteção às mulheres?
A respeito das objeções, grupos feministas alegam que declinar as
mulheres para propostas alternativas é diminuir a gravidade da situação,
minimizando esta categoria de delito como se de menor importância fosse e
não merecesse o apreço da força combativa do direito penal.
Não com surpresa, quem se vincula a este tipo de posicionamento não
reconhece alternativa distinta da pena de prisão, por visualizar ser a pena
por excelência que consegue dar uma resposta digna de um Estado que se
preocupa com o bem jurídico violado, conferindo à prisão o grau máximo
de validade e e�ciência.
Na contramão deste argumento, dizemos que, malgrado seja o direito
penal o mecanismo atual que melhor consegue demonstrar a desaprovação
social, vez que estamos socializados nessa dinâmica punitivista em que o
cárcere ainda é vendido como solução para a repressão da criminalidade,
este não se limita à pena de prisão. Nessa linha, admitimos o uso do direito
penal na forma de penas mais brandas, desaídas consensuais.
Na opinião das feministas defensoras da justiça restaurativa, esta se
apresenta como uma forma mais efetiva de conseguir os objetivos de
censurar o comportamento, proteger a vítima, reduzir a reincidência e
reintegrar o infrator (HUDSON apud LARRAURI, p. 228).
Outra objeção é a possibilidade de revitimização na mediação ao ser
confrontada com o agressor a respeito do qual está em situação de
desequilíbrio de poder. Como se viu, a mediação deve ser proposta e �car
ao critério da vítima optar por esta metodologia ou pelo trâmite do direito
penal, ou até a complementariedade dos dois, além de que é viável uma
mediação indireta sem o contato entre as partes. Além disso, podemos
reconhecer que as diferenças de poder manifestadas pelo gênero, raça,
classe e outros mecanismos não se resolverão em espaços da micropolítica
como uma mediação, pois que a mediação está localizada no mundo, é
construída por indivíduos socializados nesse mundo e, portanto, é
inevitável que esses marcadores estejam presentes entre as partes. O que a
justiça restaurativa pretende é minimizar esta hierarquia, reduzindo ao
máximo as diferenças presentes e a dominação. Para isso, ter mediadores
forjados nas perspectivas feministas, cientes das opressões classistas e dos
desdobramentos racistas da estrutura social viabiliza o respeito a todas estas
questões sensíveis ao poder.
21 PATEMAN, Carole. Contrato sexual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
22 BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992.
23 Referência ao icônico �lme de Stanley Kubrick, lançado em 1972 no Brasil, em que os temas do
crime, da personalidade criminosa, da moralidade do crime, da violência, da ciência e dos
dispositivos totalitários dos governos são satirizados em um contexto distópico.
24 ANDRADE, Vera Regina P. de. Pelas mãos da Criminologia: O controle penal para além da
(des)ilusão. Rio de Janeiro: Revan, 2014
25 CIRINO DOS SANTOS, A criminologia radical. Forense, 1981, p. 88, do mesmo, Teoria da pena.
ICPC/Lumen Juris, 2005, p. 2-3.
26 PAVARINI, Massimo. Control y dominación: teorias criminológicas burguesas y proyecto
hegemónico. México: Siglo Veinteuno Editores, 1983.
27 BATISTA, Vera Malaguti. Introdução Crítica à Criminologia brasileira. Rio de Janeiro: Revan, 2011
28 Analogia à obra de Dante Alighieri “A Divina Comédia”, iniciada provavelmente por volta de
1307 e concluída pouco antes de sua morte (1321). O poema narrativo narra uma odisseia pelo
Inferno, Purgatório e Paraíso.
29 Os escritos que fecham este tópico estão muito in�uenciados pelas contribuições trazidas por Lola
Aniyar de Castro em Criminologia da Libertação.
30 Alusão à obra clássica do argentino Eugenio Raúl Za�aroni “Em busca das penas perdidas: a
perda da legitimidade do sistema penal”.
31 YUKA, Marcelo. Todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Intérprete: O rappa. In:
Instinto coletivo ao vivo- versão simples. São Paulo: Warner, 2002, CD- ROM, faixa3.
32 LENINE. Quando negro. In: Falange Canibal. Brasil: Sony BMG, 2002.
33 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal Parte General. Buenos aires: Ediar, 2000.
34 HULSMAN, Louk. Penas perdidas. Niterói: Luam, 1993, pp.63-64
35 Cabe contextualizarmos as falas destes teóricos ao tempo/espaço em que viveram, reconhecendo,
desta forma, os limites inerentes a homens europeus, de modo que as contribuições não estão
isentas de vícios colonialistas. Destacar a importância destes homens não é desmerecer as
contribuições das mulheres, inclusive as latino-americanas mencionadas em outros momentos
deste trabalho, mas é fazer jus àqueles que iniciaram os caminhos que hoje tantos(as) trilhamos.
Na atualidade, frise-se, identi�co na �gura da mulher negra comunista, de nome Angela Davis e
codinome Pantera Negra, a mais rica e completa produção abolicionista.
36 Za�aroni demarca as aberrações protecionistas aos crimes de colarinho branco: “Múltiplos são os
casos demonstrativos de que, em nossa região marginal, os poderosos só são vulneráveis ao
sistema penal quando, em uma luta que se processa na cúpula hegemônica, colidem com outro
poder maior que consegue retirar-lhes a cobertura de invulnerabilidade” (2017, p. 108).
37 Neste sentido, o medo garantista de o abolicionismo engendrar alternativas piores que o direito
penal pode ser notado nas colocações teóricas do direito penal mínimo em autores como Luigi
Ferrajoli. Declaram o risco da reação vindicativa descontrolada, seja em mãos individuais ou
estatais, e o disciplinarismo social, mediante o enraizamento de controles rígidos que atuam sob a
forma de autocensura ou como expressões de política moral coletivas.
38 Referência à produção musical Podres Poderes, de Caetano Veloso, 1984, Álbum Velô.
39 Palestra “Os olhares na pesquisa”, Riccardo Cappi, Rio de janeiro, Junho/ 2016.
40 ANDRADE, Vera Regina P. de. Pelas mãos da Criminologia: O controle penal para além da
(des)ilusão. Rio de Janeiro: Revan, 2014
41 Documento pode ser consultado no endereço eletrônico:
http://www.juridica.mppr.mp.br/arquivos/File/MPRestaurativoEACulturadePaz/Material_de_Ap
oio/Resolucao_ONU_2002.pdf. Acesso em: 05/04/2018.
III. NOVAS SENTENÇAS, VELHOS
CATIVEIROS, VELHOS PERSEGUIDOS
Este capítulo se propõe ao exercício de levantar quais as condições de
possibilidade de utilização da referenciada alternativa ao modelo penal, a
Justiça Restaurativa, no contexto de sociabilidade marcada pela
colonialidade e pelo capitalismo-patriarcal-racista. Se no momento anterior
levantamos a bandeira desta nova forma de se deparar e enfrentar os
con�itos, eis o momento de falarmos de dentro da trincheira, apontarmos as
problemáticas e os pontos de tensão que, no mínimo, desmisti�cam a Justiça
Restaurativa como forma isenta de reproduzir os mecanismos de poder e, no
máximo, denuncia o feminismo carcerário, aportado pelos anseios punitivos
da lei Maria da Penha, como “braço armado” do sistema responsável pela
tragédia da morte em vida da população negra.
Da trincheira da guerra declarada pelo Direito burguês, em que o
terror racial/classista é utilizado para alimentar os anseios amedrontados por
mais sistema penal, o feminismo punitivo se torna o símbolo da normativa
que, em tese, deveria proteger as mulheres, mas que, em verdade, busca a
criminalização dos homens negros e das classes populares.
A partir do objetivo de introduzir as condições necessárias para um
procedimento respeitar os princípios restaurativos, estruturamos nas
seguintes dimensões este momento: a dimensão dos dados – o�ciais e de
pesquisa recentemente publicada escolhida como parâmetro para o
desenvolvimento do atual estado da violência doméstica no país-; dimensão
da criminologia feminista e dimensão da geopolítica da questão, isto é, o nó
dos atravessamentos raciais, patriarcais e classistas na observação dos
resultados da performance penal nesses anos de Lei n. 11.340/2006.
Para tanto, nos valeremos tanto dos dados e conclusões da pesquisa
recentemente publicada pelo Conselho Nacional de Justiça em parceria com
a Universidade Católica de Pernambuco- UNICAP, quanto de dados de
outras plataformas públicas. Ainda assim, a fonte mais referenciada neste
trabalho será esta- “Entre práticas retributivas e restaurativas: a Lei Maria da
Penha e os avanços e desa�os do poder Judiciário” - que, para �ns de
facilitar a compreensão, chamaremos de pesquisa- paradigma.
Além da atualidade, tal pesquisa contou com a ousadia de várias
técnicas de pesquisa como análise documental, entrevistas, grupo focal,
características que conferiram riqueza de conteúdo que merece apreciação
especial. Na oportunidade, me somei ao grupo extenso de pesquisadores(as)
voluntários(as), de modo que colaborei com a análise documental de
sentenças e acompanhei algumas entrevistas com vítimas no Estado de São
Paulo no mês de outubro de 2017. Dessa forma, a metodologia utilizada
para o trabalho foi a análise documental dos relatórios tanto da pesquisa-
paradigma, quanto de outraspesquisas importantes.
III.1. Estado da arte da violência contra mulheres
no Brasil
Angela Davis, ativista política negra e professora da Universidade da
Califórnia, em Santa Cruz, EUA, no discurso de abertura da Conferência
sobre Violência Contra as Mulheres de Cor (2000), indagou: “como nós
desenvolveremos análises e organizaremos estratégias de combate à violência
contra mulheres que reconheçam a raça de gênero e o gênero da raça?”
A pergunta segue instrumentalizando a dinâmica das lutas
permanentes no campo institucional, das políticas públicas e do campo
social: o racismo e atravessamentos como classe e sexualidade não mais
podem estar na periferia dos discursos sobre a violência contra a mulher.
Décadas atrás, quando estas categorias estavam mais invisibilizadas, Sueli
Carneiro (2003) já atribuía este fato a uma conspiração de silêncio que
envolve o tema do racismo e à cumplicidade em relação ao mito da
democracia racial e a tudo que ela dissimula.
Cada vez mais, o enfrentamento é para combatermos uma visão
universalista e generalizante de mulher, incapaz de reconhecer, por vezes,
qual o per�l das mulheres brasileiras. Para Angela Davis (2001)42:
violência é uma dessas palavras que possui um conteúdo ideológico poderoso, cujo
signi�cado constantemente se transforma (...) Muitas de nós levamos tempo para
compreender que a violência e a misoginia são assuntos políticos legítimos. Há pouco
mais de duas décadas a maioria das pessoas considerava que ‘violência doméstica’ era
uma preocupação privada e não propriamente um assunto para discurso público ou
intervenção política. Só uma geração nos separa daquela era de silêncio.
No decorrer do discurso acrescentou:
Nosso encontro poderá nos ajudar a imaginar modos de prestar atenção à violência
onipresente na vida das mulheres de cor e também radicalmente subverter as instituições
e discursos nos quais nós somos compelidas por necessidade a pensar e a trabalhar.
Dados os padrões racistas e patriarcais do Estado, é difícil con�ar no Estado como o
detentor de soluções para o problema de violência contra mulheres de cor. Porém, como o
movimento antiviolência foi institucionalizado e pro�ssionalizado, cabe ao Estado um
papel cada vez maior na concepção e criação de estratégias para minimizar a violência
contra mulheres. A primeira ‘fala’ contra o estupro aconteceu nos idos de 1970, e a
primeira organização nacional contra a violência doméstica foi fundada no �m daquela
década. Só então reconhecemos as proporções epidêmicas da violência nas relações
afetivas e o estupro por pessoas conhecidas, como também a violência no interior da
família. Mas nós também temos de aprender a opor a �xação racista em pessoas de cor
como elemento primário da violência, incluindo violência doméstica e sexual, e ao mesmo
tempo demonstrar o desa�o da real violência que os homens de cor in�igem em mulheres.
Estes são precisamente os homens que já são insultados como o principal alvo da
violência em nossa sociedade: os sócios de gangues, os tra�cantes de drogas – por
atiradores e assaltantes. Em resumo, o criminoso é apresentado como um homem
preto ou latino que deve ser preso. Uma das perguntas principais que exige resposta
nesta conferência é como desenvolver a análise de não permitir que avance o projeto
conservador de aprisionar milhões de homens de cor, conforme as ordens
contemporâneas de capital globalizado e seu complexo industrial prisional, nem o
projeto, igualmente conservador, de abandonar as mulheres pobres de cor à carga
contínua de violência que se estende do mercado de trabalho às prisões, aos abrigos, às
suas casas. (grifos nossos)
A �lósofa toca no ponto chave deste trabalho: defender a autonomia
das mulheres em relação às manifestações das múltiplas violências sem cair
no canto da sereia do punitivismo, pois que assim estaríamos repetindo a
política estatal seletiva, racista e classista que escolheu como clientes penais
as populações negras marginais.
A propósito disso, o Mapa da Violência 2015 (Waisel�sz, 2015)
demonstra que no período 2003-2013 as principais vítimas da violência de
gênero foram meninas e mulheres negras, com queda na evolução das taxas
de homicídio de mulheres brancas – de 3,6 para 3,2 por 100 mil habitantes
– e crescimento nas taxas de mulheres negras – de 4,5 para 5,4 por 100 mil
habitantes –, com prevalência entre 18 e 30 anos de idade e maior
incidência de mortes causadas por força física, objeto cortante/penetrante ou
contundente, e menor participação de arma de fogo.
Nessa esteira, o Atlas da Violência de 2019, produzido pelo IPEA-
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo FBSP- Fórum Brasileiro de
Segurança Pública, indica que enquanto a taxa de homicídio de mulheres
não-negras teve crescimento de 4,4% entre 2007 e 2017, a taxa de
homicídios de mulheres negras cresceu 29,9%. Frise-se que em números
absolutos a diferença é ainda mais brutal, já que entre não negras o
crescimento é de 1,7% e entre mulheres negras de 60,5%
Ademais, 66% de todas as mulheres assassinadas no país em 2017 eram
negras segundo o Atlas da Violência de 2019. Trocando em miúdos, os
dados são evidência da combinação entre desigualdade de gênero e racismo
extremamente perversa, variável fundamental para compreendermos a
violência letal contra a mulher no país.
Quer dizer, ao tempo em que com as políticas públicas de atendimento
e denúncia, a violência contra mulheres brancas diminuiu, esta taxa a
respeito das mulheres negras aumentou. Quer dizer, as mulheres negras
ainda estão mais afastadas da zona de proteção estatal, sujeitas a condições
sociais que di�cultam o acesso aos instrumentos legais de denúncia, como as
instituições jurídicas, com menor autonomia �nanceira ou nível de
escolaridade inferior que podem servir para as subnoti�cações das violências
sofridas, por mais que, como veremos em dado abaixo, ainda sejam as que
mais denunciam.
Analisando os números sobre a violência contra as mulheres no Brasil,
entendemos que as mulheres negras não contam efetivamente com o apoio
do Estado. Diante de todo um aparato jurídico disponível, as mulheres
negras dependem de si mesmas e do apoio solidário de outras mulheres em
seus territórios.
Dados da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM)
demonstram que em 2016 a situação das mulheres negras no campo da
violência doméstica manteve a posição nos números de vitimização.
Informações do primeiro semestre desse ano, referentes ao atendimento do
Ligue 180, indicaram que, de um total de 555.634 ligações, quase 68 mil dos
atendimentos eram relatos de violência, assim distribuídos: violência física
(51,06%); violência psicológica (31,10%); violência moral (6,51%); cárcere
privado (4,86%); violência sexual (4,3%); violência patrimonial (1,93%);
trá�co de pessoas (0,24%).
Desses atendimentos, 59,71% das mulheres que relataram casos de
violência eram negras e a maioria das denúncias foi feita pela própria vítima
(67,9%). Esses dados, comparados com o quadro da evolução histórica da
violência contra as mulheres, indicam que o Estado, por meio das políticas
públicas, não tem conseguido coibir a violência doméstica e familiar,
especialmente, no que diz respeito às mulheres negras.
Os dados apontam ainda que mulheres negras são as que mais
denunciam a violência doméstica, o que pode explicar a sua maior presença
também nos dados de vitimização; no entanto, esta não é uma explicação
satisfatória, tendo em vista a intersecção de outros elementos que impactam
na vida das mulheres negras.
O que já sabemos sobre a violência contra a mulher? Sabemos que o espaço privado,
familiar, que deveria constituir-se no refúgio de paz das famílias é, por excelência, o
espaço em que a violência doméstica e sexual tem o seu ponto mais alto de incidência.
Perpetradores ou agentes do abuso sexual na maioria absoluta dos casos são maridos,
companheiros, pais, padrastos, tios, ou outros membros próximos da família. Sabemostambém que o fenômeno da violência doméstica e sexual é absolutamente
democrático, atravessando todas as classes sociais e grupos raciais (CARNEIRO, 2003,
p.11). (Grifos nossos)
Julio Jacobo Waisel�sz, responsável pela série Mapa da Violência,
considera que a Lei Maria da Penha ainda está em um estado incipiente de
implementação. Para ele, há um retorno à expansão da violência contra a
mulher e dos homicídios que se expressam nos dados, que além disso
demonstram que o problema na estrutura discriminatória não está sendo
enfrentado:
Vitimiza-se hoje seletivamente. Além disso, as brancas, muitas vezes, são melhores
atendidas, enquanto negras são deixadas de lado. Há toda uma estrutura de segregação
e seletividade da violência. As taxas de violência contra brancas tendem a baixar
enquanto para contra negras tendem a aumentar, o que aumenta também o fosso de
proteção que existe entre brancos e negros na própria Justiça. 43 (WAISELFISZ,2016)
(Grifos nossos)
A partir desse quadro desenhado pelos dados, serão expostos nesse
capítulo um panorama da pesquisa nacional desenvolvida por professoras de
Pernambuco, que traz alguns dados que nos ajudam a problematizar a
importância de métodos alternativos de solução dos con�itos domésticos,
bem como pensar as condições de possibilidade da implantação/efetivação
desses métodos baseados em um feminismo não-carcerário.
III.2. Introduzindo a pesquisa-paradigma e a lei
de Marias
Inicialmente, cabe mencionar que este não se trata de um tópico que
vai trazer exaustivamente os dados da pesquisa, mas apenas apresentar/
descrever o percurso metodológico e as ideias que motivaram a investigação.
Ao longo de todo o capitulo analisaremos e comentaremos os dados
coletados, de modo que aqui serão tratados alguns primeiros dados como
pontapé para as análises em seguida.
A escolha desta forma de apresentação é inspirada por um anseio de
contar a realidade da forma mais atravessada possível, sem que se mostre o
trabalho fragmentado, ora por dados, ora por texto analítico. Faremos da
melhor forma possível para que o(a) leitor(a) não se sinta desorientado no
curso da leitura, pois que em nome da forma entrecruzada abdicamos da
estética organizativa padrão. Vejamos.
O Conselho Nacional de Justiça, através da série Justiça Pesquisa,
contratou por meio de edital de convocação pública e de seleção, a produção
da pesquisa “Entre práticas retributivas e restaurativas: a Lei Maria da Penha
e os avanços e desa�os do poder Judiciário”, realizada pela Universidade
Católica de Pernambuco, nas pessoas das coordenadoras Marília
Montenegro Pessoa de Mello, Fernanda Cruz Fonseca Rosenblatt e Carolina
Salazar L’Armée Queiroga de Medeiros.
O ponto de partida foi a criação das delegacias especializadas de
atendimento à mulher, passando pela Lei n. 9.099/95, pela Lei n.
11.340/2006 para depois, em outra etapa, levantar as experiências nacionais
e internacionais da Justiça Restaurativa em casos de violência doméstica.
O resumo do percurso metodológico empregado pelos(as) diversos(as)
pesquisadores(as) colaboradores(as) pode ser resumido da seguinte forma:
a) Análise documental de processos criminais, com ou sem resolução
de mérito, a �m de coletar dados quantitativos relativos ao per�l
socioeconômico do réu, das vítimas, às informações relativas ao con�ito e ao
padrão de resposta dada pelo poder judiciário;
b) Entrevistas semiestruturadas com magistrados com atuação nos
Juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher de cada
município, com o �to de reconhecer as percepções dos limites da Lei Maria
da Penha- aplicação em casos de violência contra mulheres transgênero,
homens homossexuais, por exemplo-; extensão do conceito de violência
doméstica familiar- aplicação a relações de amizade- ; “responsabilidade da
vítima e do agressor no con�ito” e e�cácia das medidas protetivas
asseguradas pela Lei;
c) Entrevistas semiestruturadas com mulheres vítimas, com o �to de
veri�car o grau de satisfação com relação ao atendimento prestado pelas
instituições que realizam o acompanhamento jurídico, psíquico e social;
d) Realização de grupos focais com as equipes multidisciplinares dos
Juizados (ou varas) de violência doméstica e familiar contra a mulher nas
cidades escolhidas, para analisar os mecanismos do Poder Público no
acompanhamento das medidas protetivas e a reincidência do agressor;
e) Mapeamento da literatura e experiências estrangeiras referentes à
aplicação da Justiça Restaurativa nos casos de violência doméstica contra a
mulher para �ns de ponderar as possibilidades de adoção da mesma no
Brasil.
Importante lembrar qual o contexto de surgimento dessa legislação, a
qual estamos fazendo referência. Em 2001, após denúncia de violação de
Direitos Humanos contra a senhora Maria da Penha Maia Fernandes, a
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, baseada na Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher
(Convenção de Belém do Pará), condenou o Brasil por desrespeitar acordos
internacionais de Direitos Humanos, oportunidade em que a normativa e a
política nacional de proteção integral foi gestada.
A Lei n.11.340 entrou em vigor no ano de 2006 e inovou o olhar do
sistema de justiça para as assimetrias de gênero que desencadeiam crimes de
violência no espaço doméstico, introduzindo no judiciário uma diferença de
tratamento que põe em prática o princípio constitucional basilar da
igualdade, neste caso, estabelecendo critérios especiais de�nidores da
violência de gênero e de um local próprio para resolução do con�ito.
A conceituação da categoria violência de gênero é signi�cativa, pois
rompe com a tradição jurídica de incorporação genérica da violência de
gênero nos tipos penais incriminadores tradicionais. A nova conceituação
de�ne essa violência como violação dos direitos humanos das mulheres e
dispõe sobre as suas formas (artigos 5º, 6º e 7º).44
Outra relevância foi a rede�nição da expressão ‘vítima’, haja vista a
intencional mudança provocada pela expressão ‘mulheres em situação de
violência doméstica’ em contraposição ao termo ‘vítimas’ de violência. Mais
que mero recurso de linguagem, tem por objetivo retirar o estigma contido
na categoria ‘vítima’ para indicar a verdadeira complexidade da situação de
violência doméstica, para além dos preceitos classi�catórios e dicotômicos do
direito penal ortodoxo (p. ex., sujeito ativo e passivo, autor e vítima).
A criação da Lei tornou públicos os con�itos domésticos que até então
estavam invisibilizados e reclusos no âmbito familiar, conferindo-lhes o grau
de problema social representado pelos con�itos privados naturalizados e sem
ingerência estatal sobre. Para poder processar, julgar e executar as causas
decorrentes da prática desta violência, a lei previu a criação de um órgão
pertencente à Justiça comum com competência mista (cível e penal), os
denominados Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
(JVDFMs). Contando com uma estrutura diferenciada e equipe
multidisciplinar especializada nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde, a
previsão de criação dos juizados foi encarada como ótima iniciativa.
Assim, a lei representou a ruptura de não-ingerência estatal nos
con�itos privados advindos das relações domésticas por meio do seu caráter
protecionista e de assistência social à mulher. Nesse sentido, provoca o
Estado para inserir os con�itos dessa natureza na agenda política de sua
atuação, forçando-o a utilizar medidas integradas de prevenção à violência e
facilita, ao menos em tese, o acesso à justiça. Além de apresentar grande
atenção a medidas protetivas às mulheres, a legislação deu destaque ao
papel dos homens no processo de erradicação da violência de gênero, ao
estabelecer o comparecimento deles aos programas de recuperação e
reeducação nas unidades de atendimento aos agressores (MEDEIROS, 2015;
MELLO, 2015).
A escolha política de dar proteção jurídica especial encontrou noenrijecimento penal a estratégia de prevenção e combate, começando pelo
afastamento da lei dos JEcrims (9.099/95) no trato dos casos de violência
previstos. À primeira vista, tal medida parece completamente acertada, por
mostrar um tratamento da questão com seriedade, a�nal o Direito Penal
surge como salvaguarda quando outros campos políticos não têm mais poder
de contenção- segurança pública, saúde, educação. Acontece que, com o
afastamento da Lei n. 9.099/95 do con�ito doméstico contra a mulher,
afastaram-se as medidas despenalizadoras e, entre estas, a possibilidade do
momento da conciliação. Dessa forma, a Lei Maria da Penha reinseriu, por
exemplo, a possibilidade da prisão em �agrante nas infrações de menor
potencial ofensivo.
Na melhor das intenções, objetivava com este enrijecimento romper o
ciclo de violência doméstica contra a mulher, evitando que crimes de menor
potencial ofensivo evoluíssem para crimes mais graves como o homicídio, o
que na prática signi�cou punir de maneira mais rigorosa a ameaça a lesão
corporal leve, amparada pelo justo propósito de frear a progressão das
agressões contra as mulheres.
Malgrado a �nalidade de se pôr em �leira com as mulheres vítimas e
opor resistência à violência doméstica, enrijecendo os mecanismos penais na
imposição de pena aos agressores, a lei Maria da Penha acabou por
desconsiderar um dos aspectos cruciais da questão, que é a dimensão do
afeto envolvido, impondo, contraditoriamente, sanções à mulher, agora
revitimizada em situações que vislumbrava outra atuação penal
(MEDEIROS, 2015; MELLO, 2015). Quer dizer, a lógica punitiva da
intervenção penal barra alternativas conciliadoras e, como �cará
demonstrado, raramente se mostra um meio efetivo para a solução dos
con�itos domésticos.
Isso porque tanto os levantamentos teóricos quanto os resultados da
pesquisa-paradigma demonstram que as demandas das mulheres em
situação de violência são mais a busca da proteção e a interrupção da
violência, do que a punição criminal do agressor. Nesse sentido, a pesquisa-
paradigma se despiu do preconceito taxativo de que os casos de violência de
gênero demandam das feministas uma intervenção radical vinda do sistema
penal para, por meio das variadas metodologias aplicadas, aferir a
pertinência da aplicação da Justiça Restaurativa nos casos.
Critérios e elementos quantitativos
No universo pesquisado e processos localizados nas Varas e Juizados
elencados mais à frente, os seguintes elementos foram escolhidos para serem
descobertos nos documentos:
a) Quem são as vítimas envolvidas nos con�itos que chegam aos
Juizados (ou Varas) de Violência doméstica e Familiar contra a mulher, no
que toca aos aspectos socioeconômicos das vítimas (mulheres) e dos
agressores (homens). Nesse tópico, só foi possível fazer o levantamento
desses dados nas cidades em que se teve acesso a todo o processo e não
apenas à sentença;
b) Tipo de relação familiar entre as partes envolvidas nos con�itos que
chegam aos Juizados (ou Varas) de Violência doméstica e Familiar contra a
mulher;
c) Aspectos da violência doméstica e familiar;
d) Aspectos processuais dos casos.
Partindo para uma análise dos dados obtidos na pesquisa quantitativa,
comecemos por informar que o universo pesquisado inclui as cidades de:
Recife/PE, Maceió/AL, Belém/PA, Brasília/DF, São Paulo/SP e Porto
Alegre/RS. Os objetivos desta investigação documental eram: traçar um
per�l socioeconômico do público dos Juizados ou Varas especializadas,
levantar particularidades dos relacionamentos familiares, aspectos principais
da violência, fazer um mapeamento da resolução dos casos e da taxa de
reincidência.
Preservadas as particularidades, o público do juizado ou vara nas
cidades de Recife, Maceió e Belém- cidades em que as pesquisadoras
tiveram acesso aos autos- é semelhante. É formado majoritariamente por
pessoas de baixa escolaridade (sem nível superior ou grau técnico), com
empregos/ ocupações mal remuneradas e autodeclaradas pardas ou pretas.
O per�l dos acusados encontrados nas varas destas cidades corresponde ao
per�l do cliente do sistema carcerário: negros e pardos, de baixa renda e
baixo nível de escolaridade.
Quanto à idade das mulheres, não foi identi�cada uma concentração
muito maior em nenhuma faixa etária, de modo que dos 18 aos 60 anos há
um número signi�cativo de mulheres representadas pelos juizados, o que
permite concluir que o fenômeno da violência não é uma marca de uma
geração especí�ca.
Já quanto à idade dos homens, nota-se um per�l de homens mais
velhos (maiores de 40 e menores de 60 anos) e idosos. Acusados maiores de
40 anos são 43,1% em Recife, 12,4% em Maceió (atente-se para os 42% não
informados) e 28,8% em Belém. Esse per�l, no entanto, não corresponde ao
per�l mais criminalizado pela justiça criminal, pois que, segundo o Sistema
Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), do Ministério da Justiça,
a maioria (69,7%) dos homens encarcerados no Brasil possui entre 18 e 34
anos (DEPEN, 2012).
O estado civil apresentou um padrão de solteiros e solteiras.
Diante dessa amostra do per�l socioeconômico, não é possível concluir
ser este o per�l da mulher vítima de violência doméstica e esse o per�l do
homem agressor, pois que o universo amostral foi reduzido e limitado. O
que se pode inferir é que há características que podem ser destacadas nas
pessoas parte dos con�itos domésticos.
Assim, vencendo as subnoti�cações e barreiras objetivas e subjetivas
que con�scam os casos de violência à esfera familiar, estes dados são ainda
mais relativizados, pois chegam à polícia e à delegacia em número inferior
aos casos reais. Quer dizer, mesmo vencida a primeira fase da noti�cação,
passam pelo �ltro da seleção dos casos informados à delegacia, depois
vencem as centrais de inquérito e Ministério Público para, �nalmente, serem
processados no Juizado de violência doméstica.
Sobre a relação familiar estabelecida, a maioria dos casos correspondia à
relação conjugal entre homem e mulher que são ou já foram parceiros
íntimos. Além disso, foi possível encontrar que, na maior parte dos casos que
envolviam violência conjugal, o casal estava separado na data da ocorrência
do fato.
A respeito da totalidade das infrações penais julgadas dentro do recorte
temporal da pesquisa, notou-se que a grande maioria (mais de 95% em
todas as cidades analisadas) estaria enquadrada no conceito de baixa
lesividade da Lei 9.099/95- como ameaça, lesões leves, injúria-, de modo
que se não houvesse a vedação da Lei Maria da Penha sobre a aplicação da
Lei dos Juizados Especiais aos casos de violência doméstica e familiar contra
a mulher, estariam abarcadas por aquela. Entre os crimes de baixa
lesividade, nota-se maior índice de ameaças, lesões leves e injúria. Já nas
contravenções penais, há forte presença das vias de fato e a perturbação do
sossego.
O lar foi o espaço em que a violência predominou nas seis cidades- seja
da mulher, do homem, ou o local de coabitação-, muito embora o espaço
público tenha também se apresentado de forma expressiva.
Critérios e elementos qualitativos
No que respeita à pesquisa qualitativa, as informações foram adquiridas
através de entrevistas semiestruturadas com magistrados dos Juizados ou
Varas das cidades escolhi das para o acompanhamento; entrevistas
semiestruturadas com vítimas; grupos focais com equipes multidisciplinares;
pesquisa exploratória sobre Justiça Restaurativa e Violência doméstica.
Sobre o per�l socioeconômico das partes, embora atualmente seja
multifacetado, contando com homens e mulheres das classes média e alta, as
presenças de destaque no poder judiciário são de pessoas de baixa renda,
baixa escolaridade, porque, dentre outras questões, pessoas com maior
poder aquisitivo dispõem de outros meios que não a Justiça para solver o
problema.
Acerca das entrevistas com os magistrados, os objetivos eram veri�car a
formação e capacitação dos magistrados, como os magistrados entendema
Lei Maria da Penha, a aplicação da Lei e as questões de gênero, a percepção
dos magistrados sobre as partes envolvidas e a relação da juízes com a
equipe multidisciplinar.
Primeiramente, quali�quemos esse corpo magistral. A começar pela
raça, dos 24 magistrados entrevistados, 12 são homens e 12 são mulheres.
Com relação à raça, 17 magistrados se identi�cam como brancos, 4 como
pardos, 2 como amarelos e 1 não respondeu; com relação à idade, a maioria
está na faixa entre 41 e 50 anos; a maioria estudou em escola privada e em
instituição pública de ensino superior; o tempo médio que atuam na
magistratura é de 16 anos.
Das entrevistas com as vítimas, o intento era perceber a relação das
mulheres com a lei, o tipo de relação que existia entre ela e o agressor, o
histórico de reiterações e recidivismo para compreender os ciclos da
violência, as expectativas com a intervenção judicial e como se deu o
acompanhamento institucional do caso. Esta etapa da pesquisa tem uma
importância crucial, porque permite tocar nos pontos subjetivos dos con�itos
a partir da escuta da parte central no assunto: a mulher. Para tanto, foram
realizadas 75 entrevistas com vítimas de todos os juizados ou varas das
cidades pesquisadas.
No tocante ao per�l socioeconômico das entrevistadas, 31% delas
sustentam a casa e em 24% dos casos ambos sustentam, quesito
importantíssimo para entendermos o nível de dependência das vítimas ao
agressor. Em relação à raça/cor das mulheres entrevistadas, a maioria
declarou-se de cor parda (34 vítimas), seguida de branca (27 vítimas) e preta
(8 vítimas), de um universo em que apenas 3 das 75 vítimas não informaram
a sua cor.
Quanto ao que pensam sobre o processo penal em que estão inseridas,
relatos apontam para a di�culdade em entender os ritos e demora no
julgamento. Em seguida, ao serem questionadas do porquê procuram o
sistema de Justiça Criminal e do desejo de prisão do agressor, 45% não
informaram, 39% respondem que não desejam a prisão do agressor e apenas
16% responderam pela intenção de ver o agressor preso.
Ademais, foi possível identi�car situações de revitimização que serão
analisadas mais à frente e a ausência de capacitação dos pro�ssionais da
Justiça Criminal para lidar com mulheres em situação de violência
doméstica.
Outra etapa funcionou através dos grupos focais com equipes
multidisciplinares. O grupo focal é a técnica de investigação qualitativa cuja
�nalidade é colher dados referentes à experiência das pessoas que dele
participam sobre vivência em comum. O benefício desse tipo de entrevista é
poder observar a dinâmica interativa que ocorre entre os membros do grupo.
Desse modo, foram realizados grupos focais com assistentes sociais,
psicólogos, pedagogos e outros pro�ssionais da equipe multidisciplinar, com
o intuito de compreender as atribuições dessas equipes no âmbito do
funcionamento da justiça.
Organizados com um máximo de dez participantes, contaram com uma
moderadora e uma observadora da equipe de pesquisadores, que �zeram
anotações e analisaram a linguagem corporal dos participantes.
As discussões realizadas no grupo focal foram orientadas por um
roteiro de perguntas semiestruturadas, que procuraram debater temas
importantes para a pesquisa como, por exemplo, o per�l dos pro�ssionais,
sua forma de atuação nos casos de violência doméstica, impressões sobre o
próprio ciclo de violência e sobre práticas restaurativas, entre outros. Ao
�nal, os integrantes participaram da revisão da síntese elaborada pela
mediadora, gerando, assim, conclusões elaboradas pelo grupo.
Nos grupos, foi possível levantar a quali�cação e capacitação das
equipes, relação destas com a magistratura, a percepção sobre a linguagem
jurídica, per�l socioeconômico das vítimas, a revitimização das mulheres,
demandas das vítimas, autores de violência doméstica e os grupos re�exivos.
A equipe multidisciplinar relatou que, dentre ouras coisas, assume a
tarefa de tradução da linguagem jurídica para o plano prático, explicando
para as mulheres os procedimentos pós-audiência, o que acontecerá depois
daquilo, visto que os juízes e advogados não deixam claro os ritos e
resoluções. Cabe às equipes o apoio subjetivo (psicológico, assistência social
etc.) e humanizado.
A qualidade da triangulação dos métodos da pesquisa foi poder
apreender uma visão panorâmica da cena, seja no que respeita à posição dos
magistrados, seja sobre as expectativas das vítimas e, consequentemente,
frustrações e reclamações, o embasamento teórico, di�culdades e avanços
nas experiências de Justiça Restaurativa já implantadas.
Vencida esta exposição mais geral das etapas desta pesquisa-paradigma,
vamos nos ater à parte que mais nos interessa no momento: as falas das
vítimas, de modo que não mais a título ilustrativo, alguns trechos publicados
pelo relatório analítico da pesquisa-paradigma serão aqui reproduzidos para,
a partir deles, trabalharmos alguns pontos.
Insubmissas vozes de mulheres45
A realização de entrevistas semiestruturadas com mulheres que
procuram os Juizados (ou varas) de violência doméstica e familiar contra a
mulher, pela equipe de pesquisadoras da pesquisa-paradigma, permitiu uma
aproximação com os anseios, histórico da relação com o agressor e impressão
da vítima em relação aos procedimentos legais. Para nossa leitura, este
momento de escuta se mostra o ponto alto da referida pesquisa, visto ter
proporcionado contribuições reveladoras a respeito das percepções das
mulheres que vivenciaram o processo judicial.
Das setenta e cinco entrevistas realizadas nas cidades de Recife-PE,
Maceió-AL, Brasília-DF, São Paulo-SP e Porto Alegre-RS, alguns trechos
serão utilizados para �ns de representação da realidade subjetiva das
mulheres. Segundo informações do relatório analítico da pesquisa-
paradigma, este processo de entrevistas foi marcado por muita
disponibilidade para colaboração das vítimas e a emoção delas em relatar os
casos e, principalmente, serem ouvidas por outras mulheres que se
interessavam e compreendiam a dimensão dos seus problemas. Isso não foi
por acaso, como demonstraremos em suas falas.
Uma vez mantidas em sigilo as identidades das entrevistadas, a
distinção das falas estará feita por ordem alfabética.
Entrevistadora: [...] Tenho nem como agradecer por você ter conversado com a gente, ter
ajudado a gente a pensar tantas coisas nessa pesquisa [...]
Entrevistada X: Eu que agradeço a oportunidade de, eu até falei (...) quando tiver um
fórum, um simpósio, eu quero ter uma fala, eu quero falar porque a maioria das
mulheres, elas num... eu percebi na delegacia assim, a maioria são pessoas humildes
que vão lá, mas depois desistem, elas não sabem se comunicar, têm medo, e assim, eu
também tenho muito medo né, por causa da violência, mas eu já consegui chegar até
aqui; eu quero ter uma fala, falei pra ela, que possa somar, não quero agredir ninguém,
eu quero só mostrar que o sistema é totalmente falido e não funciona. Eu agradeço a
oportunidade.
Nos diálogos estabelecidos pelas entrevistas, a fala das mulheres nos
apresentou o que pensam sobre a justiça, as fases do processo penal a que
estão vinculadas, se e como se sentiram revitimizadas.
A cobrança por uma escuta quali�cada dos agentes judiciais e o
desconhecimento, por falta de informação, das etapas do processo, é uma
constante nas falas que retrataremos aqui.
Entrevistadora: [...] você sentiu então até agora que você tem voz pra escolher o que
acontece ou não? Apesar de respeitada e se sentir ouvida, é... você acha que você vai poder
tomar decisões nesse processo? Do que é que pode acontecer com ele, ou você não sabe?
Entrevistada A: Pra te dizer a verdade, ainda tô confusa mas já como eu �z tudo isso, eu
vou seguir em frente.
Entrevistadora: Certo. A senhora acha que teve alguma escolha, algum poder de decisão
dentro do processo, do que vem acontecendo?
Entrevistada B: Não.
Entrevistadora: Alguma autonomia?
Entrevistada B: Não.
Entrevistadora:A senhora recebeu algum tipo de informação sobre o processo, ou eles
explicam direito o que tá acontecendo?
Entrevistada B: Não, não tive nenhum tipo de informação, não.
Entrevistadora: E se sentiu satisfeita [com o processo]? Confortável?
Entrevistada C: Com eles [equipe multidisciplinar], sim. Agora a questão é que a gente
não sabe de prazos, não sabe quando vai vir uma resposta, onde a gente procurar,
assim, o andamento desse processo pra saber a resposta... isso aí ninguém informa a
você.
Entrevistadora: [...] Você foi assistida pela Defensoria Pública em algum momento? Você
sabe o que é Defensoria Pública?
Entrevistada D: Num foi essa que eu vim agora?
Entrevistadora: O que você veio agora é o Ministério Público.
Entrevistada D: Não, não fui.
Entrevistadora: Nem te informaram sobre a possibilidade de falar com a Defensoria
Pública?
Entrevistada D: Não.
Entrevistadora: Você foi assistida pela Defensoria Pública em algum momento do
processo?
Entrevistada D: Não sei se fui assistida, mas não cheguei a ir na Defensoria.
Entrevistadora: A senhora entendeu o que se passou na audiência?
Entrevistada E: Não.
Entrevistadora: [...] Aí depois conversou com o Defensor pra poder entender?
Entrevistada E: Conversei com as meninas...
Entrevistadora: Ah! As meninas da equipe multidisciplinar. Certo.
Dessas falas representativas, depreendemos que as vítimas não são
informadas de como serão assistidas, quais os atores do processo e seus
papéis, tampouco se sentem in�uenciar o andamento do processo, sendo
conduzidas pelas fases sem conhece-las, o que gera insegurança.
Ademais, há muitos registros nas narrativas de revitimização associadas
à falta de sensibilidade dos atores do sistema de justiça criminal no
tratamento das mulheres. Vejamos.
Entrevistada F: Primeiro que eu fui numa sala passar por uma triagem e as pessoas não têm a
mínima delicadeza no trato de uma mulher agredida, é... elas �cavam gritando no corredor,
uma chamando pela outra, eu entrei na sala e tive que explicar pra essa pessoa o que tinha
acontecido.
(...)
O sistema caiu e não puderam me atender. Voltei cinco vezes lá, depois disso. Sempre o
sistema não tava funcionando, tinha alguma coisa parada. E aí fui falar, eu falei com
uma delegada, comentei o caso, ela fez uma piadinha ainda, né, do caso, quando eu
disse pra ela que (...) ele �cava puxando meu cabelo e no ato eu não conseguia, ele não
conseguia ter ereção, aí ela fez uma piadinha do tipo “pô, nem o pau dele ele consegue
subir”, tipo isso, a delegada. E depois fui dar �nalmente meu depoimento inteiro pra
uma outra pessoa, acho que era um delegado. E tudo isso foi muito, muito exaustivo, foi
torturante, porque eu me senti absolutamente abandonada. A própria situação já faz isso,
né? E além de tudo isso, tinha essas pessoas que não tavam nem um pouquinho preparadas
pra receber uma pessoa destruída como eu tava e eu queria sair de lá o mais rápido possível...
aquele ambiente foi absolutamente hostil pra mim.
(...)
Tinha que ter aqui um psicólogo pra falar comigo, eu achava, por favor, eu gostaria que
tivesse um psicólogo, eu gostaria que tivesse um assistente social, pra eu não �car mais
ouvindo das pessoas que a culpa foi minha, que todas essas agressões que eu sofri foi
porque eu quis, eu ouvi isso esses dois anos inteiros, isso foi torturante pra mim, e aí eu
ainda tô numa sala esperando a audiência e tenho que ouvir aquele absurdo que eles
estavam comentando... Pela misericórdia! Eu �quei... eu me controlei muito pra não
falar nada, eu me controlei demais, porque o que eu queria era desabafar tudo ali. Como é
que um cara, aquele promotor fala os absurdos que ele falou e vai julgar meu caso? Como é
que uma pessoa que pensa o que pensa a respeito de mulheres vai julgar um caso de violência
contra mulher? Que condições ele tem? Porque é óbvio que o que vai prevalecer não é a
imparcialidade, ele vai falar o que ele pensa, ele vai escrever o que ele pensa, e o que ele
pensa é que mulher é isso, que mulher é pra �car bonita o tempo todo, maquiada, bem
vestida... né? Que é pra ser o objeto de sedução, um objeto sexual pro homem. E é por isso
que esses casos aumentam e são tratados dessa forma. Eu não gostaria que ele julgasse meu
caso mais, eu não gostaria, que eu queria mulheres, eu queria mulheres comigo, eu queria
aquela sala repleta de mulheres, porque eu senti vontade de chorar, eu senti... eu �quei
desesperada, eu senti tanta coisa naquele espaço de tempo que eu tava ali e eu tinha que me
manter forte, eu tinha que me manter �rme. (grifos nossos)
Entrevistadora: E como foi perante a audiência? Como a senhora se sentiu? Foi ouvida?
Entrevistada G: Não, não. Eu não fui ouvida, eu só ouvi. Só �zeram perguntas onde eu
respondia sim ou não, eles perguntaram, questionaram se eu queria ter a medida
protetiva, se eu queria que ele �casse afastado de mim, mas em momento nenhum me
ouviram ou deixaram eu falar porque às vezes que eu quis falar, eles não deixaram.
Sempre o rapaz interrompia com outra pergunta.
A di�culdade de ser ouvida é potencializada se o agressor é de classe
social mais favorecida que a vítima, o que não chega a ser uma surpresa para
nós, haja vista ser o Direito formado por uma estrutura essencialmente
classista.
Entrevistadora: Ele, seu esposo?
Entrevistada H: É. Ele meu esposo se veste muito bem, fala muito bem e tem uma boa
aparência física. Então ele usa tudo isso como subterfúgio pra ele, de maneira positiva
pra ele e consegue, ele consegue. E lá, aí ele queria �car falando; eu disse que eu não ia
�car porque quando você chega na sala de recepção pra você prestar boletim de
ocorrência é um ambiente, sendo que se você, se você voltar, se você tá na delegacia o
primeiro ambiente que tem é o psicossocial, então eu disse: eu não vou �car no mesmo
ambiente que você. Eu me retirei e fui pra primeira sala, primeiro ambiente. Eu �quei
lá, só que lá tem as portas de vidro né? Que ganham o corredor e eu vi, num dado
momento, alguém conversando com ele e ele se expressando pra essa pessoa, era a
delegada. E ela atendeu ele muito bem, ela não foi lá falar comigo que era a vítima, e aí a...
uma outra funcionária, uma investigadora, não sei, uma escrivã, me atendeu e também
�cou conversando comigo; e eu tava falando com a assistente social que é [inaudível]
que no primeiro momento ele já foi atendido, ouviram a fala dele e eu estava lá,
falando: não gente, eu não aguento mais vir nesse ambiente porque isso é
repetitivamente, né?! E aí quando eu olhei o re�exo era ele saindo com um copo de
água descartável na mão, eu falei pra ela: ele vai sair daqui agora? Aí eu me desesperei
na delegacia. Aí eu andei rápido, eu falei para o escrivão, não sei quem... policial, eu
falei: ele tá saindo da delegacia? Ele foi ouvido e eu não? Eu consigo trazer ele em
�agrante pra cá e não vai ser feito nada? Aí ela disse: olhe, fale com aquela outra moça
naquela sala; aí eu falei: moça, a moça mandou eu vim falar com você porque ele saiu
agora daqui, eu não consegui... eu não vou conseguir ter êxito nenhum aqui. Aí ela falou:
olhe, aguarde a sua vez. Eu falei: não, eu não quero aguardar a minha vez, eu quero a
minha identidade que eu quero sair daqui AGORA; ela disse: sua identidade tá na sala
da delegada [inaudível] aí eu já fui chorando, subindo a escada correndo e quando eu
cheguei lá, a moça veio atrás de mim, a primeira que eu falei, e disse: dona [nome da
vítima] pare, na escada, a senhora por favor pare, a senhora não pode entrar; eu falei
pra parar onde? Aqui? Ela falou: é. Tá bom, vou sentar aqui. Quando ela desceu a
escala eu entrei na sala. Eu bati na porta e entrei, só bati e entrei, não esperei ela me dá
a licença; e eu falei pra ela: eu quero só, apenas a minha identidade porque eu estou no
ambiente errado, como sempre estou vindo no ambiente errado, porque a senhora atendeu o
agressor, a senhora conversou com ele lá embaixo, eu ouvi a sua voz, mas a senhora não falou
comigo e ele saiu daqui. Ah, ele saiu?[imitando a delegada falando] Eu disse: saiu. ... ela
tentou me acalmar, disse: não dona, se acalme, se acalme, olhe, nós vamos resolver; eu disse:
vocês não vão resolver, vocês nunca resolvem nada. Vocês nunca resolveram nada aqui. A
única coisa que acontece comigo nesse ambiente é que eu e as demais mulheres somos
hostilizadas. (grifos nossos)
A narrativa desesperada desta vítima é angustiante, conseguimos sentir
a sensação de desamparo e desproteção vividos ao ver o tratamento
concedido ao homem, quando nem sequer tinha sido ouvida
adequadamente. A vítima se pergunta se o estabelecimento policial é mesmo
o lugar certo e conclui que não, pois ali não se importavam em ouvi-la.
A revitimização conta com a participação de muitos envolvidos nos
procedimentos policiais e judiciais e, muito comumente, protagonizado pelo
advogado do agressor diante do magistrado, como vemos a seguir:
Entrevistada I: [...] na primeira audiência eu não consegui nem falar quando eu vi ele
[...]. Depois, na segunda vez, foi pra ampliação da medida protetiva, mas quando eu
ouvi que o juiz disse que não iria ter medida protetiva porque ele não enxergava perigo
ali, eu �quei transtornada. Comecei a chorar muito na audiência e eu perdi a audiência, aí
ouvi o advogado dele dizendo “ela é desequilibrada, não tem condições de cuidar do �lho”,
então isso me deixou muito pra baixo. (grifos nossos)
Essa estratégia do discurso de autoridade que se encarrega de construir
um per�l de desequilibrada, descontrolada, louca, perversa para a mulher
vitimada é extremamente cruel, tendo em vista a situação de
vulnerabilidade em que ela já se encontra. A Justiça que, via de regra, já se
mostra um lugar distante e estranho, se mostra como um lugar hostil e
perigoso para o bem-estar dessas mulheres.
O que buscam as vítimas no sistema de Justiça criminal? Se as falas
denunciadoras do tratamento inadequado conferido às mulheres colaboram
para deslegitimar o rito penal como aquele que vai tratar o con�ito e as
partes com justiça, a fala sobre as expectativas com a justiça criminal é
essencial para fundamentarmos se cabíveis práticas restaurativas. Na maioria
dos casos, as necessidades são a interrupção do ciclo da violência, com
expectativas mais direcionadas à concessão de medidas protetivas que ao
processo penal em si.
Entrevistada J: [...] se ele for preso [...] vai ser pior ainda. Eu só quero uma audiência
pra que ele me deixe em paz, só isso.
Entrevistadora: O que a senhora queria com a ajuda da justiça?
Entrevistada K: Que ele �casse longe de mim e me desse sossego e deixasse eu viver a
minha vida em paz.
Entrevistadora: [...] Mas pra te ser sincera o que importa pra gente é muito a tua opinião,
o que é que você acha? O que é que você quer? Assim, olhando pra sua vida, o que você
espera desse processo?
Entrevistada L: Ah, eu só quero viver em paz, só isso. Se ele tiver que �car a um
quilômetro de distância de mim, mil quilômetros ou cem metros... O que eu quero é
justamente que ele viva a vida dele longe de mim, e eu sei que [ele] longe de mim eu
terei paz.
Entrevistadora: E qual é a sua expectativa, assim, é que ele seja punido, ou quê?
Entrevistada M: Que ele seja punido?
Entrevistadora: Qual é a expectativa, assim, em relação ao processo?
Entrevistada M: Eu quero que ele pare de... que ele me esqueça. Só isso.
Entrevistadora: Deixe a senhora...
Entrevistada M: Me deixe em paz pra eu viver a minha vida. Que não... chega de
desaforo, chega de coisinha. Ele que vá viver a vida dele, e eu vivo a minha, entendeu?
Eu vivo a minha vida, e ele a dele. Eu não quero punir, essas coisas. Eu só quero �car com
uma �rmeza, sabe[...] Eu quero uma garantia. Por isso eu quero essa medida. (Grifo nosso)
Entrevistadora: Quais eram, assim, as suas expectativas quando você buscou o
Judiciário? O que é que você esperava com esse processo?
Entrevistada N: Na verdade, eu acho que o que eu tô tendo: paz. Na verdade, eu fui lá
relatar uma situação que aconteceu e tô com medida protetiva e isso realmente me
trouxe sossego.
Entrevistadora: E antes de chegar nas audiências qual era a sua expectativa? Que ele fosse
preso, condenado?
Entrevistada O: [...] tinha a expectativa de que ele fosse condenado sim, mas acho que
prisão... ir pro Presídio [nome do presídio]? Do jeito que ele é frio, calculista, acho que
ir pra prisão só ia potencializar a malvadeza dele. Ele não ia se reconstruir. Acredito
que as pessoas lá não se reconstroem... (...)
Entrevistadora: E o que que tu queria?
Entrevistada O: Eu queria justiça, que ele aprendesse que aquilo é uma coisa horrível e
não �zesse mais e que ele desse a assistência que é de direito porque hoje eu batalho
judicialmente pra poder alimentar meu �lho com dignidade e paz, tanto que naquele
dia do tabefe eu tava brigando com ele pra ele pagar a escola atrasada do �lho e ele se
negou.
Entrevistadora: Você acha que depois da audiência, a juíza vai te ouvir pra poder tomar
uma decisão com base no que você espera do processo?
Entrevistada P: Eu espero... Eu espero que ela... Porque até agora não... Eu �z a minha
declaração na delegacia, e que colocaram no processo, mas quando acaba de acontecer
tudo, é muito confuso. Tem muitas coisas que você se esquece, porque você abafou
aquilo pra continuar em frente, e a agressão não parte só daquele dia e daquele dia tudo
acabou... Você pode perguntar a todas as mulheres [...] meses antes, elas já veem isso,
só que elas abafam aquilo, e eu... Meses depois quando �z a denúncia, aí você se lembra de
muita coisa, e fala “nossa, aquilo ali não foi algo pequeno”, e que por isso eu não falei na
denúncia. E aí hoje eu espero que ela escute, e veja... “OK, eu preciso escutar de você, além
das coisas que olhei no seu processo do que aconteceu”... (Grifo nosso)
Entrevistadora: Quais eram as suas expectativas quando você procurou a delegacia? O
que é que você esperava quando você foi lá...pra delegacia? O que é que você queria?
Entrevistada Q: Eu queria realmente que ele se aproximasse mais da minha �lha e
desse mais atenção pra ela e também que eu pudesse seguir a minha vida...
Entrevistadora: Quando você foi pra delegacia, essa tua trajetória aqui, é... o que é que
você espera? Você espera que ele receba uma pena? Que ele pague pelo que ele fez? O que é
que você acha que poderia ser bom nesse caminho desse processo que está se iniciando?
Entrevistada R: Olha... pra ele ter mais responsabilidade, foi mais por isso. Pra ele ser
responsável.
A busca pela paz, pela compreensão de que seu problema é digno de
preocupação e cuidado por parte das autoridades para assegurar a
legitimidade de contestar uma violência dessa natureza, é a tônica das falas.
Todavia, o sistema de justiça que se apresenta pelas autoridades policiais é o
menos receptivo e que poderia suprir as carências de fala e ajuda em suas
questões. Com efeito, o processo penal nesses casos não é desejado pela
vítima, já que, para suas pretensões, melhor seria que a vara de família
tratasse seu caso- onde, vale ressaltar, muitas vítimas de classes sociais mais
abastadas acabam resolvendo o seu con�ito doméstico.
Até mesmo aquelas que expressam o desejo de punição do agressor,
revelam que esta não precisa se apresentar na forma da prisão:
Entrevistadora: A senhora acha que uma prisão, no caso, se ele fosse preso, isso seria de
alguma forma e�caz, seria su�ciente, a senhora gostaria que isso acontecesse?
Entrevistada S: Eu não queria não, queria que ele fosse punido de outra forma.
Entrevistada T: Eu senti falta de ter conversado com o promotor, que ele chegou
atrasado, né, eu queria ter conversado porque é o seguinte, o pai do meu �lho me
causou muito dano emocional, né. Eu queria, de alguma maneira, ele tivesse algo, não é ver
preso, tudo bem que ele não, apesar e o rapaz falou que alguns é preso e tal, mas assim, eu
queria que alguma coisa tivesse, [...] uma punição branda, mas que tivesse acontecido uma
punição mesmo pra poder os homens, de uma maneirageral, né, entender que eles não
podem sair ameaçando a namorada, a parceira, porque eles entendem que ameaça não é
uma coisa grave. (GRIFO NOSSO)
Grá�co 1: Posicionamento das vítimas entrevistadas quanto ao desejo de prisão do
agressor
Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre
práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder
Judiciário, 2018.
Percepções raciais
Na pesquisa paradigma, a questão da raça esteve marcada primeiro na
autodeclaração das partes e, posteriormente, nas discussões dos grupos
focais com equipes multidisciplinares, isto é, nos encontros com assistente
sociais, psicólogos, pedagogos e outros pro�ssionais da equipe com o objetivo
de compreender pelo olhar desses agentes sua participação e percepção do
sistema de justiça nesses casos.
A temática racial foi destacada por duas equipes dos grupos. O primeiro
apontamento foi sobre as di�culdades materiais de homens negros
participarem dos grupos re�exivos, como a barreira �nanceira que decorre
da precarização das relações de trabalho. Com relação às mulheres negras, a
problematização se centrou no racismo que sofrem nas relações inter-raciais
e na clara demarcação de classe notada naquelas que demandam o serviço
multidisciplinar.
Seja na atividade do grupo focal seja nas entrevistas com os
magistrados, circulou o entendimento de que, independente de classe ou
raça, os Juizados e Varas são procurados por todas as mulheres. No entanto,
quando observamos o per�l socioeconômico das entrevistadas e dos
agressores, somos obrigados a contestar essa percepção. A seguir, será mais
fácil visualizar isto a partir dos dados.
Por oportuno, nunca é demais lembrar dos dados que marcam “a cara
pública” do sistema penitenciário brasileiro. Na terceira posição do ranking
mundial das maiores populações carcerárias, o Brasil tem a maioria de
presos homens, jovens e negros.
A tabela 1 apresenta o panorama geral da população prisional brasileira
registrada em 2019. Em Junho de 2016, a população prisional brasileira
ultrapassou pela primeira vez na história, a marca de 700 mil pessoas
privadas de liberdade, o que representa um aumento da ordem de 707% em
relação ao total registrado no início da década de 90. De lá para cá, a
superlotação só piora conforme vemos nas tabelas a seguir.
Tabela 1. Presos em unidades prisionais no Brasil entre junho e dezembro de 2019
Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, dezembro 2019.
Grá�co 2. População prisional, dé�cit e vagas
Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, dezembro 2019.
Observa-se que há 755.274 pessoas privadas de liberdade ao passo que
as prisões têm condições para abrigar apenas 442.349 pessoas. O dé�cit,
portanto, é de gritantes 312.295 pessoas em condições sub-humanas de
cumprimento de pena, alocadas em celas superlotadas e insalubres que
potencializam a disseminação de doenças, em total desacordo com o as
normativas interacionais que o Brasil se compromete.
A título de comparação direta, vejamos ao lado os dados relativos a
junho de 2016.
Tabela 2. Pessoas privadas de liberdade no Brasil em junho de 2016
Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, Junho/2016. Secretaria
Nacional de Segurança Pública, Junho/2016; Fórum Brasileiro de Segurança Pública,
dezembro/2015; IBGE, 2016.
Ao observarmos a participação dos jovens na população brasileira total,
é possível a�rmar que esta faixa etária está sobre- representada no sistema
prisional: a população entre 18 e 29 anos representa 55% da população no
sistema prisional no mesmo ano.
Grá�co 3. Faixa etária das pessoas privadas de liberdade no Brasil
Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, Junho/2016.
A partir da análise da amostra de pessoas sobre as quais foi possível
obter dados acerca da raça, cor ou etnia, podemos a�rmar que 64% da
população prisional é composta por pessoas negras. Na população brasileira
acima de 18 anos, em 2015, a parcela negra representa 53%, indicando a
sobre-representação deste grupo populacional no sistema prisional,
conforme grá�co 4.
Grá�co 4. Raça, cor ou etnia das pessoas privadas de liberdade e da população total
Fonte: Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - Infopen, Junho/2016; PNAD, 2015
Com isso se quer tocar no recorte que já levantamos como essencial
encarar as questões mais sérias sobre a política criminal no Brasil, para mais
à frente pensarmos o que isso tem a ver com as contradições da lei Maria da
Penha.
III.3. Potencialidades e riscos da justiça
restaurativa em casos de violência doméstica no
Brasil
Não há dúvidas quanto ao potencial de devolver às partes o
protagonismo na administração do seu con�ito com a Justiça Restaurativa,
mas até mesmo seu mais famoso defensor já alertou: “A violência doméstica
é provavelmente a área de aplicação mais problemática e, nesse caso,
aconselho grande cautela” (ZEHR, 2012, p. 21). Pensando nisso, para além
de teoricamente apontarmos para a Justiça Restaurativa como solução
possível para o tratamento de con�itos e superação do paradigma crime-
castigo, nos investimos da criticidade necessária para analisar experiências
estrangeiras e problematizar a sua aplicação no contexto social e político do
Brasil, isto é, localizando as particularidades presentes nas partes e no tecido
social como um todo.
Com efeito, este texto é uma costura das contribuições teóricas e
empíricas de pesquisadoras brasileiras e estrangeiras sobre o tema. Assim
sendo, a equipe da pesquisa-paradigma apresenta os seguintes riscos da
adoção de práticas de Justiça Restaurativa a casos de violência doméstica e
familiar contra a mulher no Brasil:
a) Os argumentos mais comuns são: 1) Há casos em que o desequilíbrio
de poder é muito grande e não pode ser ignorado durante o processo
restaurativo, sob pena de revitimização da vítima ou, até mesmo como
a�rmam alguns, contribuição para a permanência das mulheres em situações
abusivas; 2) a informalidade típica dos processos restaurativos favorece a
manipulação do processo por parte do agressor, que pode se valer desse fato
sem o constrangimento da repreensão do recurso à violência, muitas vezes
culpabilizando a vítima; e 3) os crimes graves não podem ser tratados pela
Justiça Restaurativa, pois demandam uma intervenção punitiva do Estado,
sem a qual ocorreria a “banalização” da violência. Com efeito, a
informalidade do processo restaurativo ainda é lida por alguns como um
menosprezo da violência exercida sobre a vítima, a�nal de contas, a tradição
autoritária do direito penal ensinou que quanto mais grave o delito, mais
dura deve ser a reação penal sobre ele. Além disso, a discussão entre vítima
e agressor pode ensejar uma confusão a respeito da verdadeira
responsabilidade pela violência, provocando uma culpabilização da vítima.
b) O foco da restauração/reparação é complexo nos casos de violência
doméstica. Estudo americano (GAARDER, 2015 apud MELLO et al, 2018)
que pesquisou projetos-piloto de Justiça Restaurativa voltados a casos de
violência doméstica (especi�camente entre parceiros íntimos), pontua que a
reparação de danos nesses casos não pode se limitar a pedidos de desculpas,
nem funcionar como via de aproximação forçada/indesejada entre vítima e
infrator. O pedido de perdão pode fazer parte da dissimulação típica do ciclo
da violência, como forma de controle e arrependimento disfarçado.
A esse tipo de problema, a literatura tem dado o nome de “o problema
da justiça barata” (the cheap justice problem) (DROST et al., 2015). Os
processos restaurativos não devem impor nem a aproximação, nem o
afastamento entre agressor e vítima, sob pena de não promover uma
verdadeira “devolução” de con�itos às partes diretamente interessadas nele.
c) Pesquisas sugerem que vítimas que participam de conferências
restaurativas passama ter menos medo do infrator, menos raiva do infrator,
e passam a ser mais compreensivas em relação a eles (SCHEUERMAN;
KEITH, 2015, p. 83 apud MELLO et al, 2018). Ocorre que este dado
empírico envolve pessoas que não tinha qualquer espécie de laço afetivo
antes do crime e talvez essa inferência não se aplique aos casos de violência
doméstica.
d) Outros estudos (MILLS, MALEY e SHY, 2009 apud MELLO et al,
2018) concluem que a justiça restaurativa pode ser usada em casos de
violência doméstica, mas pode ser menos e�caz que o modelo tradicional.
Por outro lado, os estudos de PELIKAN (2010 apud MELLO et al, 2018),
malgrado apontem para o impacto positivo nas taxas de reincidência,
concluem que a maior e�cácia da justiça restaurativa na violência doméstica
se deve mais ao empoderamento da vítima do que a uma mudança de
comportamento do agressor. Ou seja, fundamental buscar respostas para
duas questões interligadas e diferentes: viabilidade e e�cácia da Justiça
Restaurativa nesse tipo de crime.
Doutro lado, no que toca às potencialidades da adoção da prática
restaurativa no âmbito da violência doméstica no Brasil, destacam-se:
a) Empoderamento das vítimas: a garantia do valor da fala da vítima e
da escuta quali�cada devolve à mulher o comando da situação, pois que o
con�ito retorna à sua posse e não mais pertence à polícia, ao promotor ou ao
juiz, por exemplo;
b) A forma dialogada e informal presente nos processos restaurativos
proporciona um ambiente favorável à discussão de con�itos paralelos à
agressão denunciada e que dão causa ou geram consequência à
subjetividade das partes. Esta é uma demanda real e que provoca frustração
das vítimas com o sistema processual brasileiro;
c) O mais forte argumento para fundamentar a adesão ao método da
justiça restaurativa a ditos crimes é que há índices consideráveis de vítimas
que não desejam a punição do seu agressor, mas sim demandam da justiça
criminal uma ação que interrompa o ciclo da violência e restitua a paz
familiar ou de sua própria vida apartada da família. Por esse ângulo, as
pesquisas vitimológicas se forjaram fontes importantes na construção teórica
da Justiça Restaurativa e há muito sugerem que grande parte das vítimas
querem resultados diferentes da punição; as vítimas de crimes não são mais
punitivas que pessoas não-vítimas; não há evidência que a condição de
vítima torna o sujeito mais conservador; não há evidência de que sentenças
mais rígidas para infratores repercutem positivamente sobre a vítima;
d) Há sinalização de estudos empíricos, embora ainda careçam de
limitações, no sentido de que o uso da justiça restaurativa em casos de
violência doméstica tem o potencial de ajudar a evitar a prática de novas
agressões do mesmo agressor contra a mesma vítima (STRANG; SHERMAN,
2015 apud MELLO et al, 2018)
e) Segundo Vanfraechem et al. (2015 apud MELLO et al 2018), o
índice de satisfação das vítimas (dos crimes em geral) que participaram de
mediação vítima-ofensor é relevante em todas as localidades, culturas e
independentemente da gravidade do crime. E esse tem sido o modelo
restaurativo mais utilizado em casos de violência doméstica e familiar contra
a mulher, certamente dentre os países europeus (DROST et al., 2015). Os
altos índices de satisfação das vítimas, nesses casos, estão atrelados aos
sentimentos de justiça informacional, interacional e procedimental
experimentados ao longo do processo restaurativo, os quais diminuem as
chances de revitimização da vítima.
f ) Pesquisas empíricas recentes sugerem de forma reveladora que as
conferências restaurativas “funcionam melhor” para crimes violentos do que
para crimes contra a propriedade (vide, por exemplo, ESTIARTE, 2012;
STRANG; SHERMAN, 2015 apud MELLO et al, 2018). Esta informação
contraria toda a expectativa levantada a respeito do tema, utilizada para
descredibilizar a prática restaurativa;
g) A aplicação da Justiça Restaurativa a casos graves deve tomar
precauções e atentar para as necessidades das vítimas. A este cuidado
especial, (SANTOS, 2014, apud MONTENEGRO et al, 2018) nomeia de
“�ltros de segurança”. Consiste na defesa de práticas restaurativas em casos
de violência doméstica, desde que: vítima e ofensor participem
voluntariamente; o mediador seja treinado em práticas restaurativas e
experiente no trabalho com vítimas de violência doméstica; as partes sejam
preparadas antes através dos pré-círculos; e o agressor reconheça a sua
responsabilidade por pelo menos parte dos fatos alegados.
Particularmente à pesquisa-paradigma desenvolvida para o CNJ, os
resultados foram multifacetados: em alguns critérios as expectativas foram
superadas, mas em outros, como risco de toda pesquisa, os resultados
estiveram abaixo do esperado.
No panorama geral, identi�cou-se problema na capacitação dos atores
do Sistema de Justiça Criminal, tanto na fase policial quanto na fase judicial,
o que contraria a política prevista na própria Lei Maria da Penha que
demanda formação especializada dos pro�ssionais envolvidos.
A perspectiva multidisciplinar não é à toa: mais que formação jurídica,
precisam os magistrados, os membros do Ministério Público e os policias
entenderem a dimensão de gênero, das violências previstas na lei, da
subjetividade da mulher socializada em relações afetivas que lhe dizem ter
autoridade para controlá-las através do medo e das variadas formas de
agressão.
Nesse sentido, os magistrados declaram em sua maioria não possuir
formação no campo do gênero ou violência doméstica, informando, ainda,
não ter sido essa uma exigência do tribunal de origem para atuar em juizado
ou vara especializada em violência doméstica. É evidente que prejuízos são
registrados com essa de�ciência formativa, já que a ausência de formação
em gênero dos principais atores faz com que o machismo apareça
claramente. Tanto é assim que as equipes multidisciplinares cumprem
importante papel na complementação da atividade do(a) julgador(a).
Ademais disso, a forma e a linguagem do direito ainda aparecem como
um mundo distante para as mulheres que relatam desconhecer os
procedimentos do processo, as fases e, portanto, sofrer com a espera do que
não sabem estar por vir. Isto é, o fato de não saberem os passos vindouros do
seu processo provoca uma angústia potencializada pela estrutura fria e
hierárquica das instituições jurídicas e dos seus operadores46.
A morosidade do processo criminal também é perversa com as vítimas
que precisam estar diretamente envolvidas na questão que lhes causa dor
por muito tempo, de modo que este é um critério decisivo para que elas não
recomendem sem restrições o caminho judicial para outras mulheres. Muitas
recomendam por desconhecerem outra saída para o problema.
A leitura sobre a decepção feminina com o sistema penal pode
desaguar em vários pontos problemáticos, mas entendemos que todos
convergem para um fato crucial: o sistema penal se apropriou dos con�itos
das vítimas, tomando para si também a obrigação de falar em nome da
vítima sobre as subjetividades envolvidas no con�ito (CHRISTIE, 1977).
Assim como o depoimento, a subjetividade é reduzida a termo, subsumindo
o fato à norma.
Com isso não queremos fazer uma apologia liberal de Estado mínimo,
mas problematizar a ingerência estatal manifestada pelo sistema de justiça
criminal, alertando para a necessidade de humanizarmos a interpretação do
direito, atravessando-o por questões sociológicas pungentes descartadas pela
tangente.
Isto é, os con�itos de gênero, por exemplo, têm uma signi�cante que
não pode ser ignorada: a do afeto. As normas endurecidas do Direito penal
não contemplam o comprometimento afetivo entre as partes ligadas pelo
crime: está programado para produzir uma reação quando provocado com
uma determinada situação. Ocorre que a violência doméstica normalmente
ocorre onde existe uma relação familiar prévia e, por isso, amor, carinho,
companheirismo. Claro que estes sentimentos podem não mais fazer partede um núcleo familiar ou, até mesmo, nunca terem estado presentes. Estes
são casos que não cabem nessa análise.
Com este ponto não se quer fazer uma defesa incondicional da família
mononuclear burguesa e do casamento, este seria um posicionamento que
desconhece a função da ideologia da família e do casamento no controle e
disciplinamento das mulheres, seja para con�ná-las no espaço doméstico,
seja para regular a sexualidade através do mito da virgindade, seja para
assegurar a proteção da propriedade privada. 47
Em todas as cidades pesquisadas, a primeira porta de entrada das
vítimas entrevistadas para resolver sua situação de violência doméstica é,
como regra, a Delegacia da Mulher sendo lá também, paradoxalmente, onde
se inicia o processo de revitimização. Esta realidade é mais vivida pelas
mulheres pauperizadas, que sentem mais di�culdade em acessar a
Defensoria Pública e redes de apoio, de modo que as instâncias policiais é
que estão disponíveis, mas ao mesmo tempo são as menos preparadas para
receber essas mulheres. Doutro lado, as mulheres com mais dependência
�nanceira, pertencentes a uma classe social mais privilegiada, têm
possibilidades de saídas mais alternativas como a chance de sair da casa de
coabitação, procurar ajuda ao lado de psicólogos, grupos de apoio, hospitais
particulares ou mesmo o auxílio de familiares.
O próprio grau de escolaridade é um fator determinante para o
posicionamento das mulheres diante da violência. As mulheres de classe
média, geralmente portadoras de uma educação formal mais completa, por
ter esse apoio extrapenal à sua disposição e reconhecerem facilmente se
tratar de crime e de uma violência, podem se sentir menos receosas em
publicizar o acontecimento para a família, amigos, trabalho. E isso lhes
garante uma segurança maior, por mais que não necessariamente seja
determinante para diminuir a cifra oculta dos crimes domésticos, já que na
classe média o controle se opera de forma diferente sobre as mulheres, mas
não deixa de operar.
Outro ponto que merece destaque é o que faz a vítima procurar o
Sistema de Justiça Criminal. Na maioria dos casos, desejam cessar o ciclo da
violência, muito mais voltadas às medidas protetivas do que ao processo
penal. Esse fato foi constatado tanto nas entrevistas com as vítimas como nos
relatos dos grupos focais.
Um dado importante narrado nos grupos focais foi a centralidade das
medidas protetivas na interrupção do ciclo da violência, de modo que,
atingido esse objetivo, o processo penal se torna, por vezes, desnecessário. As
medidas protetivas e o apoio da equipe multidisciplinar são apontadas como
as mais importantes contribuições da Lei Maria da Penha.
A centralidade concedida às medidas protetivas se explica pela natureza
da relação íntima que envolve as partes; pesquisas (GREGORI, 1993;
LARRAURI, 2008 apud MELLO et al, 2018) relatam que mulheres violadas
que tornam público o con�ito doméstico vivido não desejam causar mal ao
agressor por meio da punição e criminalização, mas sim romper o ciclo e
restabelecer a paz familiar. Até mesmo aquelas que se decidem pela
separação prezam mais pela coesão familiar mantida do que pela persecução
penal do agressor, contrabalanceando com a criação dos �lhos. A
condenação, na verdade, é encarada mais como ameaça para impedir a
repetição da violência do que como desejo real da mulher.
O estigma do crime tem efeitos extensivos, segundo Go�man (1988),
penalizando não só a �gura do condenado, como também as pessoas
próximas que passam a ser quali�cadas como “ex-companheira” de um
criminoso, “mãe de um criminoso”, “�lha.” etc. A partir disso, a crença de
que a punição do agressor promove o sossego da vítima é, segundo MELLO
et al, 2018, tão falaciosa quanto os ideais de ressocialização e prevenção que
acompanham o modelo da justiça encarceradora. Ou seja, quando o
processo é resolvido com a pena de restrição de liberdade para o agressor, a
mulher que, às vezes ainda nutre sentimentos por ele, ao ver o sofrimento
do condenado, sente-se não mais vítima, e sim algoz por causar o mal do
aprisionamento (MELLO, 2015).
Ainda sobre os processos de revitimização, algumas considerações. No
intuito de encorajar as vítimas a não retirarem as queixas contra seus
agressores, a lei não permite a retratação e torna irreversível o procedimento
processual penal, de modo que, se aquela mulher vítima ainda nutre
sentimentos pelo homem ou prioriza a paz do lar, essa restrição pode inibir a
procura pela ajuda judiciária, contribuindo para o silêncio, temor das vítimas
e o incremento das “cifras ocultas” da violência doméstica e familiar contra a
mulher.
O mesmo fenômeno se observa com o controle social informal sofrido
pelas mulheres que continuam visitando seus companheiros/ex-
companheiros na prisão e são julgadas, porque a conduta mais coerente seria
o rompimento de todo contato (LARRAURI, 2008).
Para Flauzina (2015), o instrumento reservado à proteção feminina ele
próprio poderá penalizá-la de diversas formas. Além disso, esclarece que as
origens da violência sofrida estão nas assimetrias de gênero, de classe e raça.
Por ser assim, é pouco provável que a solução para o problema da violência
doméstica esteja no sistema de justiça criminal, pois que este con�gura-se
como um auxílio secundário e não tem o poder de transformar as relações
sociais estruturadas.
O estado da arte é assim: os primeiros dez anos de aplicação da Lei
Maria da Penha mantiveram distante a possibilidade restaurativa, sendo
aplicada a lei como estratégia retributiva para fortalecer um modelo há
muito falido por não atingir as funções declaradas de ressocialização e
prevenção e, não obstante, aprofundar outros problemas.
O olhar para experiências estrangeiras em torno do uso da justiça
restaurativa em casos de violência doméstica, e considerando os processos de
revitimização vividos e relatados pelas vítimas entrevistadas na pesquisa-
paradigma, entende-se que, de fato, há um potencial restaurativo a ser
explorado no Brasil.
Essas potencialidades, devem vir acompanhadas dos “�ltros de
segurança”, da cautela vital de contextualizar, de adaptar os programas e
experiências testadas em outros lugares à realidade brasileira para que as
práticas restaurativas não redundem na expansão do sistema punitivo à
revelia da satisfação das vítimas ou, simplesmente, em uma reforma
“cosmética” do Sistema de Justiça Criminal, prática recorrente capaz de
inserir novos termos na linguagem do dia a dia do Judiciário sem, contudo,
transformar a prática de resolução do con�ito doméstico (ROSENBLATT,
2014).
Uma avaliação rápida não nos escusa de reconhecer os incontestáveis
avanços promovidos nesses mais de dez anos de aplicação da Lei Maria da
Penha, principalmente no tocante às medidas protetivas, à criação dos
Juizados especializados e às equipes multidisciplinares. Todavia, um dos
pontos cruciais do debate travado aqui é demonstrar a revitimização da
mulher e questões sensíveis que estão invisíveis quando do avanço da sanha
feminista punitiva, como a contribuição para o encarceramento dos eternos
clientes do sistema penal em nome do �m da violência contra a mulher.
A ferramenta de tensionamento com o Estado não pode se tornar arma
de guerra e desconsiderar quais as verdadeiras funções do direito penal e da
justiça criminal, quais sejam a gestão de classe e o controle de vida e morte
das populações racializadas.
III.4. O gênero da violência e a crítica da
criminologia48
Que esperar do direito penal com a mulher? O direito, sitiado por uma
epistemologia androcêntrica, tem destinado normas às mulheres que
re�etem e constroem uma determinada visão do padrão feminino. Que faz o
direito penal com a mulher? É possível conciliar o desejo de ser criminóloga
crítica ou criminóloga abolicionista e ser, ao mesmo tempo, feminista?
Este se apresenta como o grande embaraço de parte considerável do
feminismo hegemônico em relação aos debates da criminologiacrítica. Ao
tempo em que contribuiu para os avanços democráticos de políticas públicas
e legislação aplicada aos crimes com motivação de gênero, parece um
contrassenso a ponderação do trato penal aos homens envolvidos nos
con�itos dessa natureza. A�nal, não seria sinônimo de fraqueza e
subordinação qualquer razoabilidade na tratativa com os homens? Para o
feminismo máximo não deverá incidir o direito penal máximo?
Seria o Direito Penal esta ferramenta pedagógica a enviar mensagens
educativas a serviço de um papel simbólico de disciplinamento das pessoas?
Novos tipos penais (ou o endurecimento das penas) seria o caminho mais
e�caz para reduzir os danos dos crimes e combater práticas futuras?
O percurso teórico até aqui trilhado remete à rejeição da adesão
indiscriminada ao direito penal ao passo que rejeitamos a resposta do castigo
e do cárcere como solução, ventilando recursos alternativos que contribuam
para um “empoderamento” da mulher, mas ao mesmo tempo atentos às
consequências advindas de um avanço da atividade penal nas vidas dos
grupos sociais.
No processo histórico de organização das mulheres para a luta contra a
violência sexista, a �liação ao mecanismo legal soou como segurança para
garantir a efetiva inibição da repetição das condutas reprovadas de múltiplas
formas de agressão feminina. Este depósito de con�ança em um sistema
penal capaz de apresentar contrapartida ao poder do homem se deparou
com um poder penal que não só não desconstrói como reforça a insígnia
patriarcal.
Não é de se estranhar que inúmeras mulheres esperançosas com a
contrapartida penal tenham reconhecido nela o re�exo de mecanismos de
controle vividos nas relações sociais extra-penais, recriando através de sua
atuação as diferenças.
As narrativas sobre a violência na história transitam entre as variantes
de a quem é atribuída a qualidade de �gura perigosa e, portanto,
presumidamente responsável pelas práticas delituosas. A antropologia social
de vertente biologista por muito tempo construiu a imagem do homem
predisposto ao desvio em uma adesão essencialista e racista das
representações sociais. Para Larrauri (2007), particularmente ao recorte de
gênero, moveu-se do contexto que atribuía as causas do comportamento
reprovável a doença psíquica para o que aponta como causa única da
violência a condição de desigualdade e subordinação da mulher.
Para a autora espanhola, o discurso feminista o�cial apresenta três
características: simpli�ca excessivamente a violência contra a mulher nas
relações afetivas ao apresentar este delito como algo que sucede pelo fato de
ser mulher; em segundo lugar, raciocina de forma determinista como se a
desigualdade de gênero tivesse capacidade de alterar, por si só, os índices de
vitimização das mulheres, ignorando outras desigualdades; �nalmente
con�a e atribui ao direito penal a enorme tarefa de alterar esta desigualdade
estrutural, principal responsável pela vitimização feminina.
Partindo da marcação de que a violência sexista decorre da
desigualdade de gêneros na sociedade, pressupõe-se que a superação desta
condição desigual irá pôr �m ou diminuir drasticamente a ocorrência. A
con�ança está no estágio de uma sociedade igualitária que reestruture as
relações de gênero para que as mulheres tenham mais poder, autonomia e
protagonismo nas suas vidas.
Nessa esteira, um traço distintivo da doutrina feminista é atribuir ao
direito penal uma função estratégica de proteger, aumentar a igualdade e
dotar de maior poder dirigido para atingir objetivos certeiros e nunca
irracionais.
Sobre a simpli�cação do problema social representado pela violência
contra a mulher nas relações afetivas, Larrauri (2007) entende equivocada a
concepção determinista do valor da igualdade evocado nos discursos.
Compara esta postura com o contexto de origem da criminologia crítica, em
que se entendia que a pobreza era a causa última de toda delinquência49.
No caso do gênero, esta causa aparece como a estrutura patriarcal da
sociedade. A primeira sempre teve di�culdade em explicar o porquê de
todos os pobres não delinquirem e a segunda em explicar o porquê nem
todas as mulheres são vítimas.
O que no fundo se critica com isso é a naturalização reducionista dos
fenômenos sociais que desconsideram, por vezes, a interferência de outros
fatores na conformação de situações. Negar a relação direta e linear de
subordinação-vitimização não é o mesmo que desconsiderar a
subalternização das mulheres, dos negros, dos pobres, mas é reivindicar o
lugar de não ser vítima desses grupos.
Os fatores de risco e o rol de valores culturais, como naturalização da
violência e o lugar da mulher na sociedade, produzem a violência doméstica,
isto é, um comportamento instrumental dirigido a manter a mulher em uma
posição subordinada. Além disso, o mercado de trabalho, as instituições
sociais e jurídicas discriminam a mulher e com isso fornecem implicitamente
justi�cações para persistir no comportamento abusivo. (Idem, p. 32)
Tomar a desigualdade de gênero e os valores culturais como fatores
fundamentais para explicar a violência contra a mulher entre parceiros não
equivale ao mito de que a violência desta natureza não conhece classes
sociais. Por mais que a condição de mulher seja determinante na sociedade
patriarcal para autorizar a violência contra qualquer mulher, as condições de
raça e classe aprofundam a permissividade para controlar através da
violência.
A intencionalidade da violência em desfavor da mulher é exercer
poder, manter o controle de acordo com as normas culturais dominantes
que criam hegemonia e produzem um consenso de homem: o pai, chefe de
família, �gura pública com menor dedicação ao trabalho doméstico e da
família, tendo uma mulher à disposição sexual contínua, etc.
Da mesma forma, serve para manter o status quo, isto é, não apenas
re�ete a desigualdade de posição e valores, como também serve para manter
essa situação pelo mecanismo do medo. Nem todas as mulheres são
violadas, mas o medo disso condiciona e in�ui os modos de viver de todas.
(Idem, p. 35)
No ambiente doméstico, o autor JOHNSON (2005 apud LARRAURI,
2007) distingue três tipos de violência, quais sejam: a violência usada para
obter o controle da parceira (terrorismo íntimo); a violência exercida como
resposta ao terrorismo íntimo (resistência violenta) e a violência que não
forma parte de um contexto geral de poder e controle, senão que se
reproduz no contexto de uma série de con�itos (violência situacional no
casal).
Assim ilustra Larrauri (2007) ao traçar os mecanismos de poder
múltiplos utilizados como forma de controle, seja por meio de vantagem
econômica para manter a dependência, seja o uso do privilégio masculino
para intimidar nas ações, coagir e ameaçar.
É preciso cautela nessa categorização para não etiquetar a mulher que
recorre a um comportamento violento na defensiva como abusiva. Dois são
os motivos: a violência promovida por mulheres e por homens têm traços
distintos- enquanto uma manifesta poder imposto, a outra é a forma de não
sucumbir à inferiorização-; o julgamento moral da mulher transgressora é
mais perverso do que para o homem agressor.
Atravessemos o campo da compreensão política da violência para a
proteção legal da Lei n. 11.340/2006, resultado de pressão social a respeito
da incapacidade dos Juizados Especiais em julgar os casos de violência
doméstica e do desacordo com a Convenção de Belém do Pará e Convenção
Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher,
das quais o Brasil é signatário.
Consagrado como símbolo da proteção e assistência estatal com a
questão da violência contra a mulher, o estatuto legal surge com potencial de
levar para o espaço público uma preocupação com a prevenção e com a
proteção dos casos, possibilitando maior acesso à Justiça, até mesmo pela
propagandização da temática.
Medidas protetivas de urgência, previsão de criação de grupos
multidisciplinares de apoioàs vítimas e unidades de atendimento aos
agressores são pontos positivos da lei. Todavia, afastar a incidência da Lei
dos Juizados Especiais, vetar medidas alternativas e assumir como regra a
prisão como �m, não isenta de críticas ferrenhas esta normativa, pois que,
neste sentido, vai na contramão dos acúmulos teóricos/empíricos sobre a
falência do modelo prisional como projeto de ressocialização.
O papel midiático na sensibilização com o caso paradigmático da
cearense Maria da Penha contribuiu em muito para a legitimação do
discurso penal como meio próprio para a prevenção e combate de crimes
dessa natureza. A coisa �cou popular, a mídia sobe o morro, invade as casas
com a programação e serve o rigor punitivo na hora do almoço. A fome de
justiça social na causa legítima de defesa da vida das mulheres passa a ser
confundida com a minoração do papel dos direitos humanos para
agressores.
Especialidade televisiva: banalizar a fragilidade alheia e formar
consenso por meio de narrativas bem construídas. Ignora a produção
acadêmica que denuncia o fracasso das ideologias prevencionistas e as
verdadeiras metas do sistema penal ao apresentar aos expectadores o Estado
penal máximo como programa ideal.
Pari passu à empatia com o problema da violência de gênero, então, as
pessoas passaram a consumir uma campanha midiática de demonização dos
agressores de mulheres em prol da validação da pena de prisão como
solução. Este processo de vinculação subjetiva para convencimento de
questões objetivas é explanado por Garland (2008, p. 317):
O batismo de leis criminais e medidas penais com nomes de vítimas de crimes (...) serve
para honrá-las desta forma, embora aqui induvidosamente exista também um elemento
de exploração na medida em que o nome do indivíduo é usado para evitar objeções às
medidas que, na maioria das vezes, não passam de legislação retaliadora, aprovada
unicamente para a exibição pública e obtenção de vantagens políticas. A santi�cação das
vítimas também tende a anular a preocupação com os criminosos. A relação de
incompatibilidade total que se acredita existir entre um e outro faz com que qualquer
demonstração de compaixão para com os criminosos, qualquer invocação de seus
direitos, qualquer esforço de humanizar suas punições sejam representadas como um
insulto às vítimas e suas famílias.
Diante da sensibilização social com a tragédia de Maria da Penha e do
momento favorável à aderência à bandeira feminista contra a violência, bem
como devido ao clamor vindicativo coletivo, a intervenção máxima descarta
até mesmo pesquisas (CAMPOS, 2011; MELLO, 2015) que revelam que os
crimes mais praticados contra mulher no contexto da violência doméstica e
familiar no Brasil são as lesões corporais e a ameaça, enquadrados como de
menor potencial ofensivo.
Por falar no aspecto normativo, cabem algumas considerações. A lei n.
9.099/95 instituiu na legislação brasileira três medidas despenalizadoras50,
isto é, medidas penais ou processuais alternativas que procuram evitar a
pena de prisão. A primeira é a conciliação que, nas infrações de menor
potencial ofensivo de iniciativa privada ou pública, condicionada à
representação, havendo composição civil, resulta na extinção da
punibilidade do agente (art. 74, parágrafo único). A segunda é a transação
penal, que ocorrerá quando não houver composição civil ou nos casos de
ação penal pública incondicionada e, nessas situações, a lei prevê a aplicação
imediata das penas restritivas de direitos ou da pena de multa (art.76). A
terceira é a exigência de representação nos crimes de suspensão condicional
do processo, que, nos crimes cuja pena mínima não seja superior a um ano,
permite a suspensão do processo por um período de dois a quatro anos.
A conciliação surge no Brasil para tratar de con�itos tipi�cados como
infrações penais a partir da lei n. 9.099/95, como uma forma legal de
minoração do papel da pena a partir da reparação dos danos das partes
envolvidas. Essa medida é híbrida, pois é a junção do Direito Penal e do
Direito Civil, procurando satisfazer, principalmente, os anseios da vítima.
Das três novas causas de extinção de punibilidade, a conciliação é a
única que se mostra como alternativa ao direito penal, pois leva o con�ito às
partes, enquanto a transação e a suspensão condicional do processo são
institutos que visam a desafogar o Judiciário e dar-lhe uma maior celeridade
processual.
A dita lei se vincula à proposta do Direito Penal mínimo, defendida por
teóricos(as)- ora como meio de se chegar ao abolicionismo, ora como �m em
si mesmo- com o �to de reduzir o poder punitivo e ampliar as garantias
processuais penais. O minimalismo nada mais é do que a tentativa de
reduzir ao máximo a previsão do delito, o arbítrio judicial, a a�ição da pena
e a violência punitiva (FERRAJOLI, 2002). Ou melhor dizendo:
A teoria do direito penal mínimo representa uma proposta de política criminal
alternativa na perspectiva de criminologia crítica. Trata-se, sobretudo, de um programa
de contenção da violência punitiva através do direito baseado na mais rigorosa a�rmação
das garantias jurídicas próprias do Estado de Direito e dos direitos humanos de todos os
cidadãos, em particular das vítimas, processados e condenados pelo sistema de justiça
penal. Seu programa consiste numa ampla e rigorosa política de descriminalização e,
numa perspectiva �nal, na superação do atual sistema de justiça penal e sua substituição
por formas mais adequadas, diferenciadas e justas de defesa dos direitos humanos frente à
violência. (BARATTA, p.56)
Apesar disso, a lei n. 11.340/2006 introduziu no Direito Penal brasileiro
um tratamento normativo nos casos de violência doméstica que afasta
completamente a lei n. 9.099/95. Esta ampliação do direito penal se
manifesta como resposta dos movimentos feministas que depositam fé na
função simbólica do direito penal que deteria o poder de reverter condutas
em razão da ameaça da punição, funcionando como mecanismo de controle
social. É como uma resposta para acalmar as multidões ansiosas por uma
resposta estatal iluminada que, rapidamente, providencia leis duras
ine�cazes para provar que está agindo contra ações indesejadas.
A mensagem que o legislador quis passar ao afastar a Lei n. 9.099/95
foi a de elevar à máxima potência a fala das mulheres e reduzir ao mínimo o
status de baixa lesividade da violência de gênero, deslocando os institutos
despenalizadores. Nesse sentido, o STF julgou no dia 09/02/2012 a Ação
Direta de Constitucionalidade, proposta pela Procuradoria Geral da
República, que resolveu pela natureza incondicionada do crime de violência
doméstica.
Este uso “simbólico” é um uso político, porque utilizado como
argumento de movimentos sociais feministas para justi�car sua demanda
criminalizadora. Sem trabalhar no cerne do con�ito, as normas penais
“simbólicas” produzem uma sensação de segurança que ilude os seus
destinatários por meio da fantasia da solução penal.
Porém, não deve restar dúvidas de que
o direito penal não constitui meio idôneo para fazer política social, as mulheres não
podem buscar a sua emancipação através do poder punitivo e sua carga simbólica. Punir
pessoas determinadas para utilizá-las como efeitos simbólicos para os demais signi�ca a
coisi�cação dos seres humanos. (MONTENEGRO, 2015, p. 112)
Um argumento forte para justi�car o afastamento das medidas
despenalizadoras é o combate à impunidade historicamente construída no
que respeita a crimes de gênero, a necessidade de reprovação social, exemplo
pedagógico e restauração da segurança pública ora perdida pela ameaça
causada pela violência. Ora, o que se tem aqui é a carência de satisfazer a
sanha vingativa ao impor a pena, já que as vísceras do direito penal estão à
mostra: sabemos da ideologia que o alimenta, das funções não-declaradas e
dos fracassos nas mudanças tanto estruturais quanto no âmbito micro da
esfera de ação das pessoas.
O que não se nota à primeira vistasão as consequências desta opção
legislativa. A começar pela questão de classe, as mulheres de classe média
possuem meios de recorrer a outros agentes de paci�cação de seu con�ito,
tais quais, médico, psicólogo, advogado, família e igreja. Noutra ponta, as
mulheres trabalhadoras, em sua maioria fazendo parte de um modelo mais
informal de família, dependentes �nanceiramente parcial ou totalmente,
casadas com homens trabalhadores e, portanto, frequentemente de baixa
escolaridade, vislumbram como grande feito a ingerência judicial no
con�ito. Outros apoios como casas- abrigo e centros de apoio com serviço
social são precários ou inexistentes a depender da localidade.
Altamente con�antes nas instituições, justamente por representarem
aquilo que lhes atravessa, mas não lhes pertence, que é o poder, as mulheres
populares vislumbram de baixo para cima a justiça penal como peso a
reequilibrar a balança social desigual. Infelizmente, se esquecem de �ssuras
como: as insu�ciências da assistência judiciária gratuita, as estereotipações
das partes de classes populares, tudo que trabalha em seu desfavor.
Além do mais, ao reinserir a prisão em �agrante nos crimes de ameaça
e lesão corporal leve, crimes a�ançáveis, determina quem será preso e quem
poderá comprar sua liberdade, isto é, preserva a clientela do sistema penal.
No jogo dialético de contrapor o sistema penal máximo e a cidadania
mínima, Vera Andrade (2003, p. 22) expurga toda sua crítica:
Enquanto a cidadania é dimensão de luta e emancipação humana, em cujo centro
radica(m) o(s) sujeito(s) e sua defesa intransigente(exercício de poder emancipatório), o
sistema penal(exercício institucionalizado de poder punitivo) é dimensão de controle e
regulação social, em cujo centro radica a reprodução de estruturas e instituições sociais, e
não a proteção do sujeito, ainda que em nome dele fale e se legitime; enquanto a cidadania
é dimensão de construção de direitos e necessidades, o sistema penal é dimensão de
restrição e violação e direitos e necessidades;(...) enquanto a cidadania é dimensão de
inclusão, o sistema penal é dimensão de exclusão social.
Dessa forma, a lei n.11.340/06 tem representado o retorno às principais
críticas feitas ao direito penal relativas às respostas simbólicas e não
instrumentais, como por exemplo: o controle penal intervém sobre efeitos e
não sobre as causas; intervém sobre pessoas e não sobre situações; atua de
forma repressiva e não preventiva.
A realidade descoberta após pesquisa (MONTENEGRO, 2015) revela
os seguintes pontos:
i. Em algumas capitais, após um ano de vigência da lei, houve uma
redução no número de denúncias. Dois são os fatores para isso: a força
“simbólica” da lei provocou nos homens medo de gerar agressões; e
mulheres pararam de denunciar por receio de ver seus companheiros presos
passando, então, a suportar pequenas agressões;
ii. Ou antes do procedimento judicial ou durante as
investigações/depoimentos, a mulher sempre mentia para preservar o
companheiro da prisão;
iii. Dupla vitimização da mulher, principalmente nos casos em que
ocorreu a prisão provisória, pois que passou a se sentir culpada pela prisão
do companheiro, além de ser diretamente atingida emocional e
�nanceiramente com isso;
iv. Embora apresente grandes méritos no que diz respeito às medidas
de prevenção e de proteção da mulher, apresenta problemas graves no
campo penal. Conhecida pelo slogan “homem que bate em mulher agora é
preso”, as medidas de caráter penal simbólicas e seletivas são mais facilmente
aplicadas que as medidas de caráter preventivo/pedagógico;
v. Com o discurso meramente punitivo, o direito penal ignora a
violência estrutural, porque tem como função precípua atribuir culpa, seja ao
homem que bateu na esposa, seja na mulher que por não ter correspondido
aos padrões machistas da tradição burguesa de família merecia apanhar.
Dessa forma, tanto a vítima vingativa- aquela que denuncia e almeja a
prisão do companheiro- quanto a vítima-modelo- aquela que atende ao
estereótipo da passividade- podem sofrer retaliações com o processo, ora
sendo culpabilizada por romper com violência e, portanto, ser uma
mulher que não compreende a lógica familiar, a forma de “amar” do
parceiro, ora sendo acusada de que “gosta de apanhar” e só por isso retira
a queixa;
vi. Frequentemente quando o agressor é condenado, a mulher, que
ainda nutre sentimentos por ele, ao ver seu sofrimento no cumprimento da
pena, se vê uma violadora e não mais uma vítima, pois que mensura o mal
causado muito pior que o mal a ela causado. (ALENCAR; MELLO, 2011).
Assim, a imposição de pena ao agressor impõe, extensivamente, uma sanção
à vítima, subjetiva e objetivamente. Após a intervenção penal, a mulher
pode perder suporte �nanceiro (ou porque não tinha renda ou porque
perdeu o complemento de renda dado pelo companheiro); e afetivo daquele
homem culpado, mas que ainda faz parte da história e memória daquela
mulher; e, o pior, portar o estigma de ser esposa, �lha, etc.
Logo, eis o paradoxo evidenciado na re�exão (MELLO; SALAZAR,
2015, p. 23):
a Lei que surgiu com a �nalidade de prevenir e erradicar a violência doméstica e familiar
contra a mulher, por haver retirado a fala feminina do espaço público e não ter
contemplado as peculiaridades dos con�itos de gênero e a falência do sistema punitivo,
pode contribuir para a ocultação dos dados relativos à violência, já que as mulheres
vítimas preferem o silêncio à dolorosa e ine�ciente intervenção do sistema penal no
ambiente doméstico. Nesse contexto, é urgente que se ampliem as discussões a respeito
das melhores formas de resolução dos con�itos domésticos para além do sistema penal e,
por ora, conferir à vítima a possibilidade de avaliar, conforme valorações íntimas, a
oportunidade e conveniência da ação penal.
Nesse ínterim, para observar as características político-criminais da lei
em comento, Nilo Batista (2007 p. 10) alerta que:
é importante recordar que os sistemas penais do capitalismo pós-industrial se dividem
em dois grandes campos: um deles, aplicável às infrações do “bom cidadão”, se vale do
discurso sobre a deterioração prisional para, recorrendo à transação penal, à suspensão
condicional do processo, ao sursis, às penas restritivas de direito etc., deixá-lo no shopping
exercendo sua boa cidadania; o outro, aplicável às infrações do “inimigo”, do consumidor
frustrado, silencia sobre a deterioração prisional para impor penas privativas de
liberdade neutralizantes.
Nesta toada, a lei, inspirada diretamente na Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (nº 11.
340/2006), tem como principal característica político-criminal exprimir uma
demanda clara por sofrimento penal físico.
Para mensurar essa a�rmação, observaremos o impacto da lei no
encarceramento masculino para questionar quem são os novos (ou velhos)
clientes penais selecionados pela Lei Maria da Penha. Para tanto, levanta-se
dados que revelam tanto o impacto de mencionada legislação no
encarceramento masculino, quanto os efeitos paradoxais desse
aprisionamento que se estendem às mulheres vítimas.
A ideologia da defesa social justi�ca a atuação do sistema de justiça
criminal a partir dos sentidos históricos que desenvolveu com os postulados
básicos do princípio de legitimidade, do bem e do mal, de culpabilidade, da
�nalidade ou da prevenção, de igualdade, do interesse social e do delito
natural (BARATTA, 2002, p.41-42).
Com base nesses postulados, tem atuado a legislação, na contramão do
acúmulo criminológico que revela índices de criminalidade não reduzidos
com o uso acentuado do cárcere, mas aumentados em simultaneidade à
progressão da população carcerária. Os estudos sobre a prisão, a repercussão
nos índices de criminalidade e reincidência permitem a�rmar que há muito
já se sabe ser um instrumento falido, o que não se quer é abrir mão dessa
política criminal populista para assumir uma postura estatal de segurançapública e enfrentamento de questões sociais estruturais.
Nesse sentido, a lição que segue:
A pretensão de que a pena possa cumprir uma função instrumental de efetivo controle (e
redução) da criminalidade e de defesa social na qual se baseiam as teorias da pena deve,
através de pesquisas empíricas nas quais a reincidência é uma constante, considerar-se
como promessas falsi�cadas ou, na melhor das hipóteses, não veri�cadas nem veri�cáveis
empiricamente. Em geral, está demonstrado, nesse sentido, que a intervenção penal
estigmatizante (como a prisão) ao invés de reduzir a criminalidade ressocializando o
condenado, produz efeitos contrários a uma tal ressocialização, isto é, a consolidação de
verdadeiras carreiras criminosas (ANDRADE, 1997, p. 291).
A respeito do papel do estigma que forja uma personalidade que se
reivindica criminosa e passa a representar socialmente carreira criminosa,
anteriormente já falamos na oportunidade da exposição sobre a teoria do
etiquetamento capitaneada academicamente por Howard Becker.
Ademais, o estigma social que marca um ex-condenado, como fazem os
proprietários de gado com a cria para que não sejam confundidos com gados
sem pasto, di�culta a reintegração após a reclusão, de modo que a exclusão
perdura para além do tempo de clausura.
A própria ideia de que as grades separam o mundo real do mundo
paralelo da prisão programado para não se comunicar com a dinâmica da
“cidade letrada” / cidade civilizada trabalha na lógica de pessoas isoladas em
um sistema gestado pelo governo, como se possível fosse excluí-las da vida
em sociedade. O funcionamento do cárcere, no entanto, opera em certa
medida, nessa órbita de exclusão máxima até a morte civil.
A reincidência decorrente da falha investida no encarceramento
progressivo, somada ao discurso penal de enfrentamento aos con�itos
domésticos que ignora as origens patriarcais do con�ito a ponto de
revitimizar as mulheres nos procedimentos das instâncias judiciais, penaliza
com o suposto discurso de proteção as mulheres de forma simbólica e
seleciona o culpado para impor-lhe a pena.
Quem são esses homens agressores que estão sendo presos pela lei
Maria da Penha? Quem são os agressores que estão sendo liberados?
Primeiramente, na esteira de Larrauri (1994), convém salientarmos que a
utilização simbólica do direito penal produz vítimas reais, pois que opera
seletivamente e não castiga a todos os homens senão aqueles que são
clientes do sistema: os excluídos da raça e da classe desejada.
Se enfrentado o per�l socioeconômico dos homens registrados pelo
sistema de justiça para esses casos, descobre-se que 42,3% não têm sequer o
primeiro grau completo (6º ao 9º ano), ao passo que apenas 4,6% têm o 3º
grau (ensino superior) completo, conforme grá�cos ilustrativos abaixo. Esses
dados, coletados pela pesquisa- paradigma, são referentes à cidade de
Recife-PE e ilustram o panorama percebido das cidades com processos e
sentenças analisados (Maceió-Al, Belém-PA, Brasília-DF, São Paulo- SP e
Porto Alegre-RS) que per�zeram o total de 1.731.
Ademais, nota-se a inserção de homens em pro�ssões/ocupações de
baixa quali�cação técnica, em que as funções mais exercidas identi�cadas
em Recife foram ajudante de pedreiro/ pedreiro, ajudante de
mecânico/mecânico, auxiliar de serviços gerais ou homens desempregados.
Grá�co 5: Grau de escolaridade da mulher (Recife-PE)51
Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre
práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder
Judiciário, CNJ, 2018.
Grá�co 6: Grau de escolaridade do homem(Recife-PE)
Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre
práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder
Judiciário, CNJ, 2018.
Percorrendo o recorte socioeconômico, infere-se que, quando
condenados à pena privativa de liberdade, o per�l dos agressores será de
homens populares da classe trabalhadora. Justamente por mapear as
condições a que estão subordinados estes homens, o sistema de justiça
deveria repaginar seus métodos de validação do controle e promoção de
reeducação. É possível tanto encontrar saídas dentro da própria lei
n.11.340/2006, explorando suas medidas cíveis e de caráter preventivo,
quanto saídas à lei, como é o caso das experiências restaurativas.
Tabela 3: Ocupação das mulheres e dos homens (Recife-PE)
Fonte: Relatório Analítico Propositivo ‘Justiça Pesquisa Direitos e Garantias Fundamentais’. Entre
práticas retributivas e restaurativas: A lei Maria da Penha e os avanços e desa�os do Poder
Judiciário.
Não obstante as críticas que já existem aos institutos despenalizadores
no que toca à sua esfera de controle, certamente a descentralização e
minimização da pena de prisão promovidas por estes são mais vantajosas e
dialogadas com os direitos humanos. Partem, estes institutos, de um
emaranhado de constatações: a) os órgãos do Estado pretendem o
monopólio do delito; b) a legalidade é uma �cção e o direito se apresenta
como violência na realidade das vidas sociais; c) o sistema penal converte-se
em espécie de guerra suja da política, na qual os �ns justi�cam os meios; d)
o sistema penal- seletivo e dirigido aos vulneráveis- exerce o seu poder na
contenção de grupos bem determinados.
Consciente da ontologia desigual do sistema penal, Baratta (1997)
destaca quais deveriam ser as estratégias da política criminal: não reduzir a
política de transformação social à política penal; entender que a seletividade
faz parte da natureza penal; lutar pela abolição da pena privativa de
liberdade; travar a batalha cultural e subjetiva contra a legitimação do
direito desigual através das campanhas de lei e ordem.
A batalha cultural/subjetiva há de incidir na estrutura do Estado, pois
que, nas palavras de Vera Malaguti (2015, p. 33):
na nossa margem, conhecemos essa empreitada, o imenso genocídio iniciado na
colonização, aprofundado no escravismo e eternizado pelo capital. São as nossas veias
abertas, homens animais, mercadorias ou mercadorias animais. Está lá, em Galeano e em
Darcy Ribeiro: a cada ciclo econômico da colonização corresponde um moinho de gastar
gente.
A criminologia crítica, tal qual a conhecemos hoje com in�uências do
marxismo, da vanguarda da criminologia liberal e do abolicionismo, aponta
para o sentido classista das criminalizações históricas e do poder punitivo ao
perceber que a manutenção da ordem de classe e manutenção da ordem
pública se confundem.
Nessa direção, abolicionistas como Michel Foucault e Louk Hulsman
compreendem as implicações de poder e domínio resultantes da relação
entre direito penal e sociedade e posicionam-se favoravelmente a tomadas
de decisão que abram mão da aplicação universalista/abstrata da lei para
tratar os casos partindo da crítica histórica ao domínio do direito de classe
(Nils Christie e �omas Mathiesen).
A superação do paradigma vindicativo rumo a uma sociedade mais
igualitária dialoga com modelos libertários que apresentam saídas à justiça
criminal. As alternativas à justiça criminal podem ser alternativas legais ou
não-legais, o que implica disputar de�nições alternativas de fatos
criminalizáveis e mentalidade condicionada.
Por exemplo, a respeito da prevenção do crime como medida justa e
desejável, podemos ponderar duas coisas: a de�nição de crime pode
representar feitos bons, a julgar se for um feito heroico ou em nome da
justiça social; o justo, bem sabemos, não se resume à lei penal.
Os fatos criminalizáveis podem, portanto, receber um tratamento mais
coletivo e menos fragmentado a partir das respostas comunitárias
reparatórias, tanto para as vítimas quanto para os delinquentes, permitindo,
como prenunciou Hulsman, a superação da antítese vítima-criminoso na
relação entre eles.
É o que Nils Christie entende como devolver às partes o protagonismo
na resolução dos con�itos,garantindo um envolvimento comunitário, um
desenvolvimento social interno de dada comunidade e garantindo uma
orientação sob o ponto de vista da vítima.
Partindo da acepção de que o lugar comum dos eventos criminalizados
é a autorização para a justiça criminal empreender uma ação contra eles
(Hulsman, 2002) e da que não punir não é o mesmo que não
responsabilizar, retomamos o �o condutor da Justiça Restaurativa e das
possibilidades nos casos da violência com motivação de gênero.
Nos últimos anos, espaços acadêmicos e instituições jurídicas têm se
apropriado da temática da Justiça Restaurativa e induzido, através de
pesquisas, resoluções e outros a melhoria tanto na aplicação da Lei n.
11.340/2006 quanto na garantia de condições necessárias para a mais ampla
prestação jurisdicional.
Ações integradas como as veiculadas pela lei são o mote do período, em
que notamos iniciativas desde o Manual de Rotinas e Estruturação dos
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher(2010); relatório
que levanta as ações do Conselho Nacional de Justiça voltadas à promoção e
ao apoio de políticas públicas de enfrentamento da violência doméstica
contra a mulher(2017), como por exemplo a Jornada Maria da Penha que
viabiliza o debate nos estados desde 2007, o Fórum Nacional de Juízes de
Violência Doméstica e familiar contra a mulher (FONAVID) até a Portaria
n. 15/2017, que estabelece obrigações aos Tribunais de Justiça dos Estados e
do Distrito Federal quanto ao enfrentamento destas violências.
A operatividade do CNJ é para incidir na estrutura, litigiosidade e
mapear os territórios. Entre as medidas estão o incentivo à criação e
estruturação de unidades judiciárias especializadas no processamento de
causas cíveis e criminais; a promoção de cursos para aperfeiçoamento de
servidores e magistrados; o aperfeiçoamento dos sistemas informatizados do
Poder Judiciário para viabilizar o fornecimento de dados estatísticos sobre a
aplicação da Lei Maria da Penha, o processamento e o julgamento de ações
cujo objeto seja feminicídio e das demais causas cíveis e criminais
decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Malgrado essas movimentações positivas no Judiciário, as estatísticas da
violência doméstica no Brasil persistem altas, as mulheres seguem
insatisfeitas com a prestação jurisdicional, inclusive por conta da proibição
legal de qualquer procedimento conciliatório, dialogal ou restaurador.
O sistema penal tem atuado incisivamente, mas produzido armadilhas
na venda da solução perfeita, pois que é obviamente incapaz de resolver
problemas decorrentes de opressões estruturais base da formação social
brasileira. Sendo assim, não será através da criminalização, tampouco da
penalização do homem (diga-se de passagem: seletiva), que se dissolverão os
transtornos advindos dos nós patriarcais, capitalistas e racistas que amarram
as relações sociais.
A ideologia hegemônica que forjou o inconsciente coletivo brasileiro
quanto aos papeis sociais da mulher e às formas disciplinares de controle
punitivo só será superada com a consolidação de nova ideologia
sedimentada em outros valores coletivos, quando as pretas iaiás, as
“mulatas”, as sinhazinhas, as prostitutas, as mães, donas de casas, as
empregadas não estiverem “domesticadas” pelas prisões desses papeis
naturalizados. Até lá, a luta segue sendo por espaços, pela dignidade e pela
divisão do poder.
A emancipação humana depende da emancipação da mulher de forma
plena e esta é incompatível com o direito penal, servente do capitalismo,
criado para manter o status quo e gestar classes. A subjetividade jurídica
deriva da forma mercadoria e, portanto, a existência do direito é sinal de
uma sociabilidade voltada à acumulação, lastreada na exploração do
trabalho assalariado e atravessada pela contradição de classe.
(PACHUKANIS, 2017). Se a forma jurídica e a forma política estatal são
elementos centrais do capitalismo, é ingênuo esperar por transformações
estruturais que advenham do positivismo.
Como leciona Christie (2013, p. 122), a lei penal é um instrumento
perfeito para certos propósitos, porém grosseiros para outros. Deixa de lado
muitas questões relevantes e está baseada em dicotomias do tipo tudo ou
nada, culpável ou inocente. Em muitas situações somos culpáveis “em parte”.
Se esta culpabilidade média é vista à luz de anteriores transgressões da outra
parte ou de seus associados, abre-se uma porta para se chegar a um acordo.
As soluções civis são mais integrativas, se esforçam para preservar os
sistemas sociais como corpos de indivíduos em interação.
Nessa linha de raciocínio, um dos principais atributos da Justiça
Restaurativa é que ela enxerga o crime como uma violação contra pessoas
“reais” no lugar de uma violação dos interesses abstratos do Estado ou de
normas jurídicas abstratas. Assim, no modelo restaurativo de justiça criminal
o Estado não mais monopoliza a decisão, pois que as partes se integram mais
ativamente. Na faixa de compreensão de Christie, os con�itos retornam aos
verdadeiros ‘proprietários’ (vítimas, infratores e comunidade), de modo a
inverter a lógica da justiça criminal: em vez da repressão contra o inimigo,
procura-se por respostas verdadeiramente reparadoras dos danos
decorrentes do crime e, quando possível, a reconciliação entre as partes. Esta
reconciliação não deve ser forçada, pois que pode ser consequência natural
da ressigni�cação do con�ito, como também pode não ocorrer.
Além disso, o processo restaurativo é concebido como um instrumento
de “empoderamento” (empowerment) de vítimas, infratores e comunidades,
a �m de que essas partes possam se fortalecer na superação dos danos
materiais, psicológicos e relacionais decorrentes do crime (BRAITHWAITE,
2002; JOHNSTONE, 2011; ZEHR, 2008). Com efeito, para superar a
estrutura encastelada/hierarquizada da forma jurídica que determina a
maior aptidão dos pro�ssionais na condução do momento pós-con�ito, as
vítimas se empoderam para dominar o destino do seu próprio caso.
Por outro lado, a �m de superar uma longa tradição em que o condenado “recebe”,
passivamente, uma punição, os infratores devem ser empoderados para “assumir” o seu
comportamento desviante, para realmente enfrentar as consequências de suas ações,
reparando os danos provocados a indivíduos e relacionamentos, e aproveitando toda e
qualquer oportunidade para demonstrar con�abilidade e buscar a sua reintegração na
comunidade. Por �m, os membros da comunidade vitimizada (incluindo os familiares e
amigos afetados) devem ser empoderados para resolver os seus próprios con�itos
comunitários e para ajudar a traçar um plano de ação por meio do qual os infratores
arrependidos possam ser (re)inseridos naquela comunidade. (MELLO; ROSENBLATT,
2015, p. 104)
Dessa forma, esses e outros valores comunicam que a Justiça
Restaurativa se volta para a reparação de danos causados pela conduta do
infrator, a qual pode aparecer na forma de compensação �nanceira à vítima,
compensação à vítima através da realização de algum trabalho (por exemplo,
quando o infrator conserta algo que quebrou), pedido de perdão (a
chamada “reparação simbólica”), prestação de serviços à comunidade etc.
(WALGRAVE, 1999).
Diante da ine�cácia do sistema tradicional de justiça criminal
transformar a realidade subjetiva das partes envolvidas no con�ito e a
realidade objetiva do contexto social que possibilita a ocorrência de crimes; e
em vista da necessidade de atender aos anseios das vítimas de violência
doméstica, a justiça restaurativa tem sido proposta como modelo alternativo
apto à resolução de con�itos.
Embora a lei n. 11.340/06 vede a utilização de métodos restaurativos
substituindo o processo convencional na tratativa de crimes de violência
doméstica, é preciso destacar que em 31 de maio de 2016 foi promulgada a
Resolução nº 225 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), instituindo e
disciplinando uma Política Nacional de Justiça Restaurativano âmbito do
Poder Judiciário para acumular conjuntamente ao rito judicial nas comarcas
que tenham a rede de apoio instalada.
Ao passo que acende um farol sobre as concepções, estruturas e modos
de administrar a Justiça no país, a política nacional de Justiça Restaurativa é
uma iniciativa para fomentar o debate na sociedade, disputar a narrativa da
lógica penalesca em detrimento de uma forma autocompositiva de lidar com
con�itos. Tal política é viabilizada pela atuação dos Tribunais de Justiça, de
forma alternativa ou concorrente ao processo convencional.
O desa�o da normatização é imensurável. A Resolução n. 225/2016 do
CNJ não faz restrição à aplicação da Justiça Restaurativa no âmbito dos
Tribunais Estaduais ou Federais; em vez disso, respalda a implementação da
Justiça Restaurativa não apenas em áreas nas quais já se tem experiências
(como a Infância e Juventude infracional), mas também em áreas novas, em
que não se dispõe ainda de experiências prévias (ex.: nas audiências de
custódia).
A normatização da Justiça Restaurativa se faz atenta à ine�cácia do
sistema punitivo, que há muito se mostra como uma estratégia ine�caz no
trato da violência. Ao contrário, um sistema caro e custoso, que não leva à
responsabilização; não acolhe a vítima em suas necessidades; não
proporciona de modo efetivo a reparação do dano sofrido e que, a médio e
longo prazo, acaba por agravar a violência, reforçando a fragilidade de todos
os envolvidos e o esgarçamento do tecido social.
O empenho institucional em promover a capilarização social a respeito
dos princípios de modelos consensuais de solução de con�itos é de extrema
importância, haja vista a capacidade de convencimento dos setores da Justiça
em razão da autoridade construída em torno das resoluções do Direito. Ora,
se é este ‘o’ responsável por tratar as questões de dissenso, também seria o
mais recomendado para propor novas saídas.
O jurista e professor Álvaro Pires em seu texto “A Racionalidade Penal
Moderna, o Público e os Direitos Humanos”, ao re�etir sobre o modo de
pensar e de fazer em matéria penal, aponta características do ‘sistema de
pensamento’ e da estrutura normativa da justiça penal” para criticar a
relação causal crime-pena a�itiva. Em suas palavras:
(...)estabiliza-se a suposição de que a sanção que a�rma a norma no direito penal deve ser
estritamente negativa, de modo que entre o crime e a sanção deve haver uma identidade de
natureza: uma vez que o crime é visto como um mal (de ação), a pena também deve ser
concebida como um mal (de reação), buscando direta e intencionalmente produzir um
mal para “apagar” o primeiro mal ou para efeito de dissuasão. (PIRES, 2004, p. 41-42).
Quando o autor identi�ca uma persistência em valores seculares que
conformam uma racionalidade penal moderna, está nos dizendo que há
entraves na cultura que funcionam como verdadeiras barreiras à inovação
nos métodos da justiça criminal. A partir do momento em que se descobre
que a punição é vantajosa para os governos, formulam-se três razões para a
obrigatoriedade da punição: uma necessidade prática (Beccaria), uma
necessidade moral (Kant) e uma necessidade jurídica (Feuerbach). Achutti
(2016, p.135) explica que tais discursos formam a razão punitiva moderna e
revela a ideia de que “é preciso punir para ser e�caz, para respeitar a moral,
para realizar o direito penal e, ademais, por preocupação com a igualdade”
(PIRES, 1999, p.82, apud ACHUTTI Ibid). Nesses termos, não há justiça
penal se não há punição severa.
Um desa�o se apresenta: diante da expansão nacional da Justiça
Restaurativa, será ela colonizada pelo sistema retributivo, pautando-se na
�nalidade e esquecendo-se que é o processo que confere o status de
retributivo ao método?
Por esse ângulo, a lição de Achutti (2016, p. 125) sobre a Justiça
Restaurativa em uma perspectiva abolicionista:
(a) não pode virar uma presa do sistema penal, para evitar que seja relegada ao papel de
mero suplemento expansionista do poder punitivo; (b) exige a adoção de uma nova
linguagem para o seu funcionamento, para que não seja colonizada pelas práticas e pelas
noções tradicionais de justiça criminal; (c) não faz uma distinção preliminar entre ilícitos
civis e ilícitos penais, de forma a permitir que os envolvidos decidam a maneira pela qual
administrarão a situação; (d) não deve se deixar dominar pelos pro�ssionais, sob pena de
ser sugada pela indústria do controle do crime e pela lógica burocrática moderna; (e) deve
refutar qualquer estereótipo sobre as partes, evitando a revitimização das vítimas e a
estigmatização dos ofensores; (f) necessita ter o seu foco voltado para a satisfação das
necessidades da vítima, do ofensor e das suas comunidades de apoio (communities care), a
partir do envolvimento coletivo na responsabilização pelo atendimento das condições
estipuladas em acordo eventualmente realizado; e (g) deve, fundamentalmente, estimular a
participação ativa das partes na resolução de seus casos, para que decisão oriunda do
encontro seja um produto das suas próprias propostas.
Uma Justiça verdadeiramente restaurativa deve superar os obstáculos
da racionalidade penal e seus valores, vencer as armadilhas da centralização
do poder de resolução dos con�itos para revertê-lo para as mãos dos
interessados, em uma perspectiva coletiva e comunitária de administração
da realidade.
III.5. E as condições de possibilidade?
Problematizar a utilização de práticas restaurativas para a resolução de
con�itos de gênero é fundamental, pois que os marcadores sociais de
assimetrias de poder incidem entre as partes, de modo que o processo pode
ser viciado se manipulado ou não guarnecido pelos já citados “�ltros de
segurança”. É dizer: se o processo restaurativo não estiver profundamente
atento para desconstruir nos limites possíveis estas assimetrias, pode se
mostrar um colaborador da sobrevitimização da mulher.
Mas atenção: não é prudente naturalizar este como um resultado
fatalista, pois que procedimentos sérios devem ser manejados por pessoas
sensíveis e que atuem na minimização desses marcadores. Desse modo, a
literatura restauradora há de estar atenta e crítica aos possíveis riscos de
processos pasteurizados com vícios de forma tão graves quanto os percebidos
na justiça criminal tradicional.
Igualmente, para evitar danos adicionais à vítima, a reconciliação não
pode ser forçada. Isto é, se de um lado o modelo tradicional condiciona ao
rompimento da relação entre as partes, tão equivocado seria se o modelo
restaurativo tolhesse a vontade da vítima de se afastar e não manter mais
contato com o infrator. Nos dois casos, a mulher é tratada como uma
marionete e isto não é aceitável.
Ademais, as questões referentes ao desequilíbrio de poder para
mulheres vítimas nos processos restaurativos também precisam ser levadas
em conta. Quer dizer, por mais que haja o esforço de se instituir nos espaços
restaurativos a horizontalidade, a socialização daquelas pessoas autoriza
certas manifestações que anunciam a possibilidade de controlar de um lado
e conformar do outro.
É dizer: a socialização não é isolada no momento em que se inicia o
processo restaurativo, como se possível fosse criar uma barreira que separasse
o que são as relações sociais e o que é o mundo para dentro das janelas
restaurativas. A movimentação deve ser no sentido de reconhecer os
desníveis presentes, seja no que toca ao gênero, à raça, à classe e reduzir ao
mínimo toda orientação direcionada a denotar a hierarquização.
As mulheres, em particular, podem enfrentar desvantagens práticas nos
encontros vítima-ofensor que têm impacto sobre sua participação efetiva e,
por conseguinte, podem desembocar em resultados injustos do processo.
Grande preocupação feminista é esta: processos informais como os encontros
restaurativos que possam gerar a perpetuação de desequilíbrios de poder e o
reforço da subordinação de mulheres (e aqui acrescentamos: pauperizadas,
negras) dentro de suasfamílias e comunidades.
Assim, duas coisas devem coexistir: todas as partes com capacidade de
participar efetivamente do processo e um equilíbrio de forças entre as partes.
O poder, quem o tem, como ele é usado no contexto de processos informais
de justiça é uma questão difícil e muito debatida.
Os ambientes dos encontros restaurativos não são isentos das estruturas
patriarcais persistentes na sociedade e nas famílias. A força da desvantagem
que as mulheres podem sofrer em contextos de resolução informal de
con�itos está diretamente relacionada a questões de poder relativas aos
gêneros e seus atravessamentos (raça e classe) que afetam sua habilidade
geral de defender efetivamente seus próprios interesses.
Como resultado, é uma execração para muitas escritoras feministas, por
exemplo, que a mediação seja usada em questões de violência doméstica e,
contudo, passos de pesquisas caminham no sentido de que o potencial dos
encontros restaurativos tem de criar um espaço para vozes feministas,
disputar o poder na relação para destitui-lo e empoderar as vítimas de
violência.
A partir disso, imperioso elencar valores obrigatórios (BRAITHWAITE
2002 apud ACHUTTI, 2016, p. 70) cuja inobservância pode comprometer o
caráter restaurativo dos encontros, a saber:
(a) não dominação: toda tentativa de dominação deve ser contida pelas
partes ou pelo mediador, caso contrário não mais será o procedimento
considerado restaurativo;
(b) empoderamento: atuação desimpedida e com possibilidade real de
intervenção;
(c) respeito aos limites: a decisão em nenhuma hipótese pode
ultrapassar limites legais impostos ou do senso de solidário a ponto de
ensejar uma humilhação;
(d) escuta respeitosa: condição para equilíbrio na participação;
(e) igualdade de preocupação pelos participantes: igualdade nas falas
das partes;
(f ) recorrer ao sistema de justiça criminal: reconhecer o direito das
partes de submeterem acordo ao tribunal e, se assim, quiserem, optar por
julgamento no sistema tradicional de justiça;
É bem verdade, por assim dizer, que para compreender o controle
feminino nas relações íntimas na realidade latino-americana é preciso
entender o controle social punitivo além dos marcos institucionais,
percebendo a dimensão parainstitucional no sistema penal, que se formata
como um sistema paralelo caracterizado pelas condutas ilícitas de tortura,
autos de resistência, execuções arbitrárias, por exemplo.
O caráter subterrâneo desse sistema paralelo há de ser compreendido a
partir da questão racial, principal mecanismo de poder nas sociedades
colonizadas. Por não estar marcada, a branquitude tem o poder de ocultar
processos que garantem seu domínio a partir da omissão da questão racial
como o paradigma estruturante do controle social.
E por que falar da branquitude? Porque a criminologia feminista, que
emerge da década de 70, emerge sob o viés da branquitude e é locada nas
lentes norte-americanas, de modo que a teorização iniciada que reivindicou
o local do gênero nos estudos criminológicos negligenciou- por opção ou
pelo véu da branquitude- a categoria racial.
O processo de desumanização imposto às mulheres negras pelo racismo
solapa as possibilidades de se reconhecer nesse segmento os atributos típicos
da feminilidade, o que abre o espaço para penas públicas e privadas no
controle social delas. Assim, é impraticável estudar o controle sobre as
mulheres sem abordar o racismo ou abordá-lo sem reconhecer o papel que
dos privilégios que grupos de não-negros cumprem. Isso, segundo Maria
Aparecida Bento (2002), é sintoma do pacto narcísico, pois segundo a
autora, há um acordo não-verbalizado entre brancos de não se perceberem
como parte essencial no continuum das tensões raciais no Brasil (PIRES,
2017).52
O sistema de poder capitalista mundial está interseccionado
estruturalmente pelos constructos centrais do gênero e da raça. Dessa forma,
para captar a ampla gama de perspectivas que englobam as mulheres negras
em diáspora, um feminismo diaspórico (HURTADO; FIGUEIROA, 2014) se
faz necessário para envolver as lutas das mulheres que transcendem
fronteiras atlânticas.
Problematizando isso, Hillary Potter (2006) denuncia a necessidade de
se �rmar um pensamento baseado nas experiências das mulheres negras
enquanto grupo controlado pelo sistema penal. Esses apontamentos
resultaram em pesquisa com mulheres negras vítimas de violência doméstica
em comunidade norte-americana.
Potter (2006) defende que a criminologia feminista negra deve se
sustentar em quatro pontos: a) opressão estrutural sobre mulheres negras
(classismo, sexismo, racismo); b) relação dessas mulheres com comunidade;
c) relações íntimas; d) seus anseios enquanto indivíduos. Isso nos dá
subsídio para entender que as relações que mulheres negras estabelecem
com agências do sistema penal são bem mais complexas do que pode supor o
feminismo hegemônico.
Por isso, convocamos os criminólogos e criminólogas para a práxis afro-
brasileira do quilombismo, invocada por Abdias do Nascimento como práxis
de resistência e organização pela liberdade: “A revolução quilombista é
fundamentalmente anti-racista, anticapitalista, anti-latifundiária, anti-
imperialista e anti-neocolonialista” (NASCIMENTO, 2009, p. 214). É sobre
isso a batalha das ideias.
III.6. Para abolir uma linguagem-fronteira: uma
linguagem-percurso como resposta-percurso
Questionando os limites e trocando as lentes para fazer analogias das
contaminações sociais, Salete Oliveira analisa o abolicionismo a partir do que
nomeia de fronteira-representação, dividida em quatro movimentos: a peste;
a lógica da representação do sistema penal; a disputa na hierarquia pela fala
do outro; a ruína da representação.
A peste, como aquilo que desordena,
(...)transgride a fronteira-moral. A peste demole representações. Explicita, entre outras
coisas, até mesmo a construção arbitrária da própria fronteira jurídico-política. A peste
pica a ideia do contrato que nunca existiu, a peste coloca a nu e a cru a estultice da crença
na obediência à lei. (OLIVEIRA, 2012, p. 118)
Para conter a doença indisciplinar, a solução-fronteira foi o
aprisionamento moderno, a fronteira-prisão, a prisão-fronteira. A ideia da
fronteira como separação, exclusão, divisão, distância, revela a natureza das
respostas direcionadas às transgressões.
O desconhecimento da base social das situações problemáticas
etiquetadas como crime pode ser explicado em parte pela ideia de ordem
como paradigma para compreensão do fenômeno crime. A partir disso, toda
situação problemática é uma desordem, põe em risco a harmonia social e
compromete o ideal autoritário e fundante de ordem (ordem para o
progresso).
A desordem age, assim, como uma peste a causar uma contaminação
ideológica e demandar a reclusão ou a eliminação dos agentes
contaminados. Salete de Oliveira (2012, p. 119) formula, nesse sentido,
como quem crava unhas na presa:
Através dos dispositivos disciplinares se lê o terror dos ‘contágios’, da peste, das revoltas,
dos crimes, da vagabundagem, das deserções, das pessoas que aparecem e desaparecem,
vivem e morrem na desordem. (...) A divisão constante do normal e do anormal a que
todo indivíduo é submetido, leva até nós, e aplicando-os a objetos totalmente diversos, a
marcação binária e o exílio dos leprosos; a existência de todo um conjunto de técnicas e de
instituições que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os anormais, faz
funcionar os dispositivos disciplinares que o medo da peste chamava.
Os mecanismos de poder, segundo tal analogia, derivam, pois, do medo
do contágio com a desordem ou com o que adoece o corpo (a falta de moral,
a raça, a pobreza), tendo a ordem a função de responder ao designar para
cada um seu lugar, seu direito de vida e seu destino de morte, isto é, o
anormal ou é marcado ou é modi�cado.
Para a autora (Idem), o aprisionamento moderno é apenas uma das
formas que a vontade do poder de punir pode assumir. Interessapontuar o
efeito preciso da racionalidade da fronteira-prisão: a construção do medo do
contágio que se desdobra na necessidade da imagem do medo que a prisão
vem realizar por intermédio da transparência. A prisão é a imagem do medo,
o medo do calabouço, o medo de quem a “habita”, o medo...
Como bem sabemos, a gramática punitiva também é operada para
produzir distâncias, funcionar na oratória das cortes, das decisões jurídicas e
na burocracia das instituições. A “cidade letrada” do Direito é habitada por
vendilhões da norma culta que não comunica as massas, compartilham com
seus pares o seu direito de falar para quem consegue ouvir. A “fronteira-
gramática” encarcera a todos no interior de sua sintaxe, aprisionados na
língua que comunica uma imagem de perigo e legitima a aplicação da pena.
A fronteira linguística cumpre a função de estigmatizar e distanciar a
fala jurídica da compreensão das pessoas; as palavras do discurso penal são
fronteiras. A linguagem abolicionista é por princípio diferente, se pretende
uma “resposta-percurso”, compreende o valor do processo de desconstrução
da lógica dada, mas não está �rme em modelos prontos.
Nas palavras da cientista social:
O abolicionismo arruína linguagens-fronteira e inventa linguagens-percurso ao se dispor
a extinguir limites racionalmente demarcados ou expressões irracionais desta
racionalidade que investe em vontade de verdade de punir. O abolicionismo, também, é a
peste. (Idem, p. 130)
Deixando de lado o automatismo da subsunção do fato à norma e
atentos para o fato de que o sistema penal é uma construção social53 e para a
miséria da prisão rumo a uma ditadura dos pobres, Loic Wacquant (1999)
apresenta contribuições valiosas para entender a conexão do projeto
neoliberal com o grande encarceramento.
O autor francês diz que a penalidade neoliberal está sitiada em um
paradoxo: objetiva corrigir com ‘mais Estado’ policial e penitenciário o
‘menos Estado’ econômico e social que é a própria causa da escalada da
insegurança objetiva e subjetiva nos países do mundo em geral. Traz a
re�exão para o caso brasileiro:
(...) a insegurança criminal no Brasil tem a particularidade de não ser atenuada, mas
nitidamente agravada pela intervenção das forças da ordem. O uso rotineiro da violência
letal pela polícia militar e o recurso habitual à tortura por parte da polícia civil, as
execuções sumárias e os ‘desaparecimentos’ inexplicados geram um clima de terror entre
as classes populares, que são seu alvo, e banalizam a brutalidade no seio do Estado. (...)
Essa violência policial se inscreve em uma tradição nacional multissecular de controle dos
miseráveis pela força, tradição oriunda da escravidão e dos con�itos agrários, que se viu
fortalecida duas décadas de ditadura militar, quando a luta contra a ‘subversão interna’
se disfarçou em repressão aos delinquentes. (WACQUANT, 1999, p. 5)
Essa tradição secular de penalizar a miséria signi�ca invisibilizar o
problema racial e �rmar a dominação sobres os (as) negros(as) a partir de
um aval do Estado. Conclui que:
Em tais condições, desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas
pela desregulamentação da economia, pela dessocialização do trabalho assalariado e pela
pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano,
aumentando os meios, a amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial e
judiciário, equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres. (Idem, p. 6)
A ditadura aos pobres se vale da prisão como fábrica da miséria, do
bom proletário, do bom pobre, do homem disciplinado pela força. A
despeito do Estado neoliberal, a urgência é lutar contra a pobreza e
desigualdade que alimentam a insegurança social, impelem ao crime e
normatiza a economia informal predatória. A respeito disso, a leitura
cirúrgica do sociólogo:
Máquina varredora da precariedade, a instituição carcerária não se contenta em
recolher e armazenar os (sub)proletários tidos como inúteis, indesejáveis ou perigosos,
e, assim, ocultar a miséria e neutralizar seus efeitos mais disruptivos: esquece-se
frequentemente que ela própria contribui ativamente para estender e perenizar a
insegurança e o desamparo sociais que a alimentam e lhe servem de caução. Instituição
total concebida para os pobres, meio criminógeno e desculturalizante moldado pelo
imperativo( e o fantasma) da segurança, a prisão não pode senão empobrecer aqueles
que lhe são con�ados e seus próximos, despojando-os um pouco mais dos magros
recursos de que dispõem quando nela ingressam, obliterando sob a etiqueta infamante
de ‘penitenciário’ todos os atributos suscetíveis de lhes conferir uma identidade social
reconhecida (como �lho, marido, pai, assalariado ou desempregado, doente, etc), e
lançando-os na espiral da pauperização penal, face oculta da ‘política social’ do Estado
para com os mais pobres, que vem em seguida naturalizar o discurso inesgotável sobre
a reincidência e sobre a necessidade de endurecer os regimes de detenção, até que
�nalmente se comprovem dissuasivos.(Idem, p. 94)(grifos nossos)
A face oculta da política penal produz efeitos espirais justi�cadores da
manutenção desta maquinaria: quando o sistema penal desumaniza,
pauperiza, produz a subjetividade criminosa, a prisão se relegitima, ganha
sentido. Por ser assim, essencial reivindicar uma política de esquerda que
destitua essa ordem classista e provenha os direitos fundamentais antes de
priorizar ação pública de segurança disfarçada de justiça social. Uma política
criminal de esquerda passa necessariamente por um projeto democrático e
popular de segurança pública, livre das armadilhas que este conceito
apresenta.
Recriar a liberdade para se libertar das consequências funestas do
encarceramento é reconhecer:
o estado apavorante das prisões do país, que se parecem mais com campos de
concentração para pobres, ou com empresas públicas de depósito industrial dos dejetos
sociais, do que com instituições judiciárias servindo para alguma função penalógica-
dissuasão, neutralização ou reinserção. (Idem, p. 7)
A população carcerária re�ete, portanto, o capitalismo global e como
esse sistema negligencia as necessidades humanas. Os novos condenados da
terra não têm acesso à moradia, educação, saúde ou qualquer outro serviço
que seja necessário para a sobrevivência. A rede carcerária mundial constitui
um vasto depósito onde pessoas que apresentam perigo ou não servem mais
para os interesses do sistema são descartadas como lixo. Aquelas tidas como
as menos importantes são as pessoas negras, do sul global, de origens étnicas
não-brancas.
Ao levantar a bandeira por um feminismo abolicionista no lugar do
feminismo carcerário, Angela Davis (2017) convoca para um feminismo
negro e decolonial que vá até a raiz dos problemas. Essa orientação permite
à �lósofa re�etir a respeito da violência doméstica em conexão com a
violência de Estado e institucional.
Esta re�exão nos é muito cara, pois que toca no ponto nevrálgico
quando se discute violência sexista e emancipação das mulheres.
Frequentemente, reagimos a esta violência como se não tivesse relação com
as violências que estruturam as relações sociais (pelas instituições do Estado
patriarcal, capitalista e racista).
Vejamos: se as taxas de violência sexista são mais comuns- ou mais
noti�cadas- nas frações sociais mais pauperizadas, homens negros/não-
negros/pobres passam a estar na mira do controle social/penal. Davis (2017)
questiona:
Nós precisamos nos perguntar qual é a fonte dessa violência que prejudica e fere tantas
mulheres negras. Qual é a relação dessa violência com a violência policial e do sistema
carcerário? Se essa violência do indivíduo está conectada com a violência institucional e
do estado, isso signi�ca que não conseguiremos erradicar a violência doméstica
enviando aqueles que a praticam ao sistema carcerário. Se desejamos erradicar as
formas mais endêmicas de violência do indivíduo da faceda Terra, então devemos
eliminar também as fontes institucionais de violência. Este é o chamado para a abolição
do encarceramento como a forma dominante de punição para pensarmos novas formas
de abordagem para aqueles que são violentados. Este é o chamado do feminismo negro
para formas de justiça decoloniais.54 (grifos nossos)
Enfrentar, portanto, a questão de dentro da trincheira é assumir a
posição de cautela com a contradição de o sistema penal ser acionado por
nossas demandas feministas, usadas como peças “poderosas na retórica
legitimadora da guerra, que se impõe no aniquilamento de mais vidas num
desses rincões descartáveis pelo mundo afora” (FLAUZINA, 2016, p.97).
Quer dizer, quando a questão político-econômica da punição vislumbra
interesse pelo discurso social de proteção aos direitos humanos das
mulheres, o protesto feminino passa a estar na agenda do Estado. Ora, nosso
papel é descon�ar das conquistas que vêm embaladas na lógica capital-
patriarcal-racial. Não por acaso, o resultado desta movimentação é a maior
carcerização dos homens negros em nome do feminismo bélico
(FLAUZINA,2016) com um acúmulo de forças do sistema penal.
A classe e a raça seguem como pressupostos da criminalização, só que
atualizados por uma so�sticação do discurso que autoriza o controle, o
discurso em nome da proteção das mulheres. Que proteção? Da política
penal.
Se o per�l dos agressores é de homens negros das classes populares,
pensando através da ideia do estigma que se estende da �gura do
condenado para os seus próximos, há, portanto,
uma pena imposta às mulheres acoplada diretamente à dinâmica do encarceramento
masculino. (...) A punição dos homens prevê, assim, uma punição complementar às
mulheres, condenadas pelo delito de serem a eles conectadas, de fazerem parte da mesma
comunidade abjeta situada nos contornos da negritude. (FLAUZINA 2016, p. 100)
Se sabemos ser a justiça penal o instrumento mais a�ado no fomento
do genocídio desenhado para a desarticulação dos povos negros, a quem
está servindo nossa rebeldia discursiva? Quer dizer, o discurso feminista
bélico atende a quem? Queremos uma intervenção radical em nome da
democratização da relação entre homens e mulheres, exigimos
responsabilização, mas não punição, por ser esta o dispositivo principal de
nossas tragédias.
A partir do momento em que a proposta é se afastar ao máximo das
práticas enraizadas pelos signos opressores, temos de formular quais as
condições de ruptura do pacto patriarcal, capitalista e racista. Como
aparelhar a crítica à forma penal de tratar os desvios a partir de uma
criminologia da libertação de todos e todas?
Se superamos as armadilhas que o direito penal tem construído nas
bases do protesto das mulheres para reconhecer a necessidade de um
protesto feminista-negro-popular, entendemos que o projeto penal é �lho do
projeto colonial, carrega seus signos binários/excludentes e só merece ser
pensado a partir das suas ruínas.
Devemos também identi�car as emboscadas da institucionalidade
jurídica que se esgota em si mesma, essa encruzilhada liberal de que o
con�ito se resolve só com mediador na justiça, isto é, centralizado pelo
Direito. Para fazermos o giro decolonial, havemos de fazer uma reversão à
comunidade por entende-la na grande potencialidade de gerar iniciativas
mais humanas, menos hostis e mais distantes da “doença infantil” do
feminismo carcerário.
É disso que se trata: perceber as interferências diretas de uma política
punitiva/carcerária contra os homens agressores para o aumento do
encarceramento dos clientes do direito penal: homens, jovens e pobres,
reproduzindo um feminismo do inimigo e contribuindo para as mortes em
vida do povo negro patrocinadas pela necropolítica (MBEMBE, 2016) do
Estado. Reconhecer no cárcere e no sistema policial estruturas
racistas/classistas é fundamental para avaliar por qual política criminal
devemos lutar: anticapitalista, antirracista, antipatriarcal e,
consequentemente, verdadeiramente feminista. Nossa liberdade não será
plena se condicionada às permanências racistas das formas modernas de
escravidão, em que o cárcere �gura como a mais re�nada delas.
42 Fala na III Conferência Mundial contra o racismo, xenofobia e formas correlatas de intolerância.
43 Entrevista registrada em artigo sobre os 10 anos da Lei da Maria da Penha, realizada pela repórter
Rute Pina (2016) para o site Brasil de Fato.
44 “Art. 7º. São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I – a violência
física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II – a violência
psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-
estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas
ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação,
manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem,
ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause
prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III – a violência sexual, entendida como qualquer
conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada,
mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de
qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force
ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou
manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV – a
violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que con�gure retenção, subtração, destruição
parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos
ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V – a violência moral,
entendida como qualquer conduta que con�gure calúnia, difamação ou injúria.” (Grifos nossos)
45 Inspiração do livro de contos de Conceição Evaristo intitulado Insubmissas lágrimas de mulheres,
no qual a escritora narra as subjetividades e identidades de muitas mulheres negras, unidas pelo elo
dos afetos e dores.
46 O uso do termo aqui é intencional, pois que a crítica deste ponto é ao direito compreendido como
máquina, os juristas como donos da fábrica e os jurisdicionados como operários, explorado e
alienados ao mesmo tempo.
47 Para aprofundar, ver : ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado.
Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Lafonte, 2012.
48 As discussões a seguir devem muito a uma compilação de trabalhos publicados da criminóloga
espanhola Elena Larrauri, em razão de sua dedicação ao tema da mulher perante o direito penal.
49 A criminologia crítica acumulou que nem todos os delitos são causados pela pobreza; que ricos
também delinquem, haja vista os crimes de colarinho-branco; a pobreza pode estar presente, mas há
outros fatores que podem ser determinantes; o valor da igualdade deve ser buscado e pode
colaborar em muito para redução da criminalidade, mas em sociedades sem classes também pode
haver muitos delitos.
50 Despenalizadoras não quer dizer a não aplicação de pena, mas a não aplicação da medida de
privação e liberdade.
51 A escolha dos dados da cidade de Recife-PE para exempli�car foi feita sem critério objetivo pré-
estabelecido, pois que percebemos que, com particularidades de cada lugar, escolaridade e
ocupações obedecem a um padrão.
52 À branquitude tipicamente produzida aqui, Guerreiro Ramos (1995) chama de patologia social do
branco brasileiro.
53 Hulsman alerta para o fato de que uma sociedade sem penas já existe entre nós. Como explicar a
solução dos con�itos que não são enredados pelo sistema penal, se o número dos que caem nesta
malha é in�nitamente menor do que o dos resolvidos fora dela?
54 Conferênciamagna de Angela Davis realizada na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia
25.07.2017, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, e intitulada
“Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”.
IV. CONCLUSÃO
Não nos damos com teus demônios
Decapitamos o teu capeta
Decapitaremos o teu capitão
Decapitaremos o teu capa preta
Decapitaremos o teu capataz. (Alá�a)
Nem segregação intramuros nem diluição no universal. Não há
perdimentos nesse processo, há encontros dialéticos com a ideia de sujeito-
mercadoria, coisi�cado e usado como moeda de troca na história do
racismo, que também é a história do capitalismo, a história de seres
esmagados pela colonização e seus processos legitimadores violentos.
O racismo é uma racionalidade que atua política, econômica e
objetivamente na estruturação das relações sociais, seja na violência
estrutural do projeto genocida de Estado que promove uma política penal
de extermínio da juventude negra, seja nos deslocamentos forçados desde
as rotas do Atlântico, seja na subalternização econômica pós-falsa-abolição,
seja na negação de pertencimento, de humanidade, no apagamento
subjetivo e cultural dos povos em diáspora.
Entendendo que o racismo é uma ferramenta dotada de materialidade
e historicidade, atravessado pelo sexismo e pelo esteio capitalista, um
enfrentamento capaz de desestabilizar as estruturas nas quais estes
mecanismos operam demanda uma ação organizada de disputa de espaços
negados e da produção de conhecimento.
Se estivemos, como disse Lélia Gonzalez, na lata de lixo da sociedade
brasileira, aqui, neste espaço aberto, cavado com unhas e dentes, o lixo fala,
o lixo produz e o lixo transforma-se em matéria-prima para a vida.
Negro(a)-vida, negro(a)-poema, negro(a) é a nossa consciência. E, por sê-
la, questiona os lugares reservados pela branquitude, que enxergam as
violências sem racializá-las, descontextualizadas de nossa formação social
brasileira.
Neste sentido, a proposta deste trabalho foi descolonizar olhares,
trocar e re�nar o grau de lentes para uma dimensão de totalidade do
fenômeno social da punição como resposta aos crimes, especi�camente os
de orientação de gênero. Se sabemos que a expropriação de rendimentos e
vidas negras pelo capital é uma ordem histórica, patrocinada pelos sistemas
penais, não podemos cair no canto da sereia de pensá-los revolucionários
quando incorporam demandas legais de proteção aos direitos das mulheres.
O direito penal desmisti�cado e deslegitimado por suas funções
declaradas não atingidas na prática, não pode ser relegitimado pelo toque
punitivo feminista. O feminismo antirracista, antipatriarcal e anticapitalista
compreende a contradição de disputar a emancipação das mulheres à custa
do patrocínio ao continuum do encarceramento em massa de homens
negros.
A punição estrutural é lida como método de disciplinamento/controle
social baseada na tensão dialética que consiste na liberdade de alguns
amparada na exclusão e no controle seletivo de outros. Os presos de agora
também são presos políticos, pois que contrariaram a lógica do sistema: são
de uma subclasse- empregados proletários ou desempregados-, negros(as),
não geram lucro para a economia, estão nos grupos bene�ciários da
previdência.
É assim que concluímos sobre a função ideológica do encarceramento,
que é formar o sujeito servil e alienado, estranho à sua realidade anterior
ao aprisionamento, ao assimilar os valores ensinados como úteis para a
sociedade fora do cárcere como ser bom trabalhador, produtor de riqueza e
não contestador dos ditames do Estado, pois que compreende a hierarquia
a que está subordinado, entende agora seu lugar no mundo do capital,
aceita esta posição ao receber a parte que lhe cabe como não-proprietário
do “latifúndio”.
O aprisionamento como solução da con�itividade social é expressão
máxima de indignidade. Com a abolição da escravidão, os negros deixaram
de ser escravos, mas imediatamente se tornaram criminosos e, como
criminosos, tornaram-se escravos do Estado.
Diante dessas consequências funestas do império das prisões, a crítica
abolicionista veio acompanhada da proposta restaurativa como saída
alternativa para lidar com os casos de violência contra a mulher, na
contramão do ascenso do feminismo punitivo, que reproduz a condição de
inimigo nos homens agressores, se esquecendo que a maioria deles são
membros racializados das classes populares.
Se sabemos ser a justiça penal o instrumento mais a�ado no fomento
do genocídio desenhado para a desarticulação dos povos negros, a quem
está servindo nossa rebeldia discursiva? Quer dizer, o discurso feminista
punitivo atende a quem? Queremos uma intervenção radical em nome da
democratização da relação entre homens e mulheres, exigimos
responsabilização, mas não punição, por ser esta o dispositivo principal de
nossas tragédias.
Estivemos na encruzilhada da questão, no grande nó formado pela
contradição em defender a pauta feminista da vida e proteção das mulheres
e patrocinar, pelo discurso autorizado do enrijecimento penal na tratativa
dos casos de violência doméstica, o dispositivo responsável por nossas piores
tragédias: o genocídio físico, cultural e simbólico do povo negro,
representado pelo aprisionamento de homens de baixa escolaridade,
empregos informais, pretos e pardos em sua maioria.
Um alerta �ca: Como nossos discursos incendiários podem ser
moldados para o conservadorismo? Como a agenda feminista tem sido
acionada como retórica poderosa para legitimar a guerra, a política de cerco
e aniquilamento das vidas indesejadas? Seria o feminismo o mais novo
braço armado do Estado penal?
Pela fala das mulheres, pelas expectativas depositadas na judicialização
de seus con�itos, percebemos ser a proteção e a interrupção do ciclo da
violência o desejo central, de modo a requererem mais do sistema penal
medidas protetivas e acompanhamento por equipe multidisciplinar do que
a prisão de seus companheiros/ex-companheiros.
A voz das mulheres foi fundamental para honrar a ideia da Justiça
Restaurativa de reversão à comunidade e empoderamento das partes
envolvidas. Romper o pacto patriarcal é o anseio dessas mulheres em
con�ito e as condições de rompimento deste pacto não passam pela
seletividade penal e por um processo que invisibiliza suas narrativas,
homogeiniza suas subjetividades e revitimiza-as pelas violências simbólicas.
Enunciar dores, anunciar cores e valores envolvidos foi a nossa tarefa
de falar de dentro da trincheira, transformar os silêncios em linguagem de
ação. Nossa voz veio falar com outras muitas mulheres, sendo em si mesmo
este ato uma resistência ao epistemicídio dos muros acadêmicos.
A arte de mostrar-se pela escrita é como um grande sol, de pernas
longas para caminhar sem medo. Nossas estórias são riscadas no chão, na
página-chão da realidade, no movimento-gra�a, levando nossas urgências
de vida para as palavras ditas. Nossa escrita é comprometida com o(as)
sujeitos(as) coletivos(as).
É como nos conta Conceição Evaristo (2005, p.21):
E, em se tratando de um ato empreendido por mulheres negras, que historicamente
transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados pela cultura das
elites, escrever adquire um sentido de insubordinação. Insubordinação que pode se
evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere “as normas cultas” da língua, caso
exemplar o de Carolina Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria narrada.
A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da casa grande”
e sim para incomodá-los em seus sonos injustos. (Grifos nossos)
Incomodar o patriarcado capitalista-racista de seus sonos tranquilos foi
a nossa motivação. Como diz a música atômica do maracatu, “o homem
coletivo sente a necessidade de lutar; o orgulho, a arrogância, a glória enche
a imaginação de domínio. São demônios os que destroem o poder bravio da
humanidade.”55 Viva Dandara,viva Luisa Mahin, Tereza de Benguela,
Aqualtune, Maria Felipa, panteras negras, todas as bruxas queimadas,
quilombolas. Eu tenho certeza: elas também lutaram um dia.
55 SCIENCE, Chico. Monólogo Ao Pé De Ouvido. Intérprete: Chico Science e nação zumbi. In: Da
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