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POLÍCIA CIENTÍFICA (PROVA E LOCAL DO CRIME) AULA 2 Prof. Thiago Massuda 2 CONVERSA INICIAL Passaremos agora a estudar a importância do profissional de segurança pública na garantia do isolamento e da preservação do local de crime. Neste módulo, vamos discutir os conceitos e a caracterização do local de crime, definir a importância de ações integradas dos profissionais de segurança pública trabalhando em conjunto para um objetivo final, além de estudar a legislação pertinente ao tema. Ao final desta aula, você será capaz de entender os procedimentos adequados para uma rotina de atendimento de local de crime, bem como as consequências das falhas neste processo para a persecução penal. TEMA 1 – CONCEITOS DE LOCAL DE CRIME Segundo a apostila de Local de Crime do Instituto Geral de Perícias do RS, “Entende-se por ‘crime’ toda a ação ou omissão ilícita, culpável e tipificada na norma penal como tal, atingindo desta forma algum valor social significativo em determinado momento histórico da vida de relações”. Etimologicamente, a palavra provém do latim crimen e significa acusação. Conforme Edmond Locard, a existência de um crime pressupõe três elementos: “a vítima, o criminoso e o local em que se desenrolaram os acontecimentos. É o que ele denominou de triângulo do crime. Neste trabalho, nossa intenção é tratar deste último ponto, isto é, o local de crime”. Local de crime: Entendemos por local de crime a região do espaço em que ocorreu um evento delituoso. Já para Carlos Kehdy, local de crime é “toda área onde tenha ocorrido qualquer fato que reclame as providências da polícia”. Por fim, na acepção de Eraldo Rabello: Local de crime é a porção do espaço compreendida num raio que, tendo por origem o ponto no qual é constatado o fato, se estenda de modo a abranger todos os lugares em que, aparente, necessária ou presumivelmente, hajam sido praticados, pelo criminoso, ou criminosos, os atos materiais, preliminares ou posteriores, à consumação do delito, e com este diretamente relacionados. No livro Ciências forenses, da Editora Millenium, temos a seguinte classificação dos locais de crime: 3 Quanto à região da ocorrência: Imediato: É aquele abrangido pelo corpo de delito e o seu entorno, local em que estão, também, a maioria dos vestígios materiais. Em geral, todos os vestígios que servirão de base para os peritos esclarecerem os fatos que se concentram no local imediato. Mediato: É a área adjacente ao local imediato. É toda a região espacialmente próxima ao local imediato e a ele geograficamente ligada, passível de conter vestígios relacionados com a perícia em execução. Quanto à preservação: Idôneo: é aquele onde os vestígios foram mantidos inalterados, desde a ocorrência do fato até seu completo registro. Inidôneo: é aquele em que os vestígios foram alterados e não servem adequadamente à investigação policial. Quanto à área: Interno: é aquele coberto, podendo ter ou não sua área confinada por paredes. Externo: é aquela situado fora das habitações e que está sujeito à influência do tempo. Virtual: é aquele em que não há relação direta entre determinado espaço físico e a presença dos vestígios a serem periciados. Exemplo: crimes de internet. Quanto à natureza do fato: Local de morte. Local de furto etc. TEMA 2 – O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL E O ISOLAMENTO E PRESERVAÇÃO DO LOCAL DE CRIME A SENASP preconiza que Constatada a existência da ocorrência deverá o policial comunicá-la à autoridade competente para o devido encaminhamento. A função do primeiro policial, entretanto, ainda não acabou. Ele deverá tomar as primeiras providências para o isolamento do local de crime com a finalidade de preservar os vestígios lá existentes. Portanto, não permitirá que ninguém adentre ao local da cena do crime e aguardará até a chegada de outros policiais que o substituam nesta tarefa. Observamos que a responsabilidade dos policiais pela preservação 4 dos vestígios existentes no local estende-se até a chegada da Autoridade Policial. Tais procedimentos estão também consignados como uma exigência legal no Código de Processo Penal (e modificações introduzidas pela Lei n. 8.862, de 28 de março de 1994), conforme podemos verificar no art. 6º, incisos I e II: Art. 6º. - Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá: I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; Portanto, a autoridade policial, assim que constatar a ocorrência da infração, nada mais fará a não ser isolar a área e preservar os vestígios do local do crime, de modo que os peritos possam examinar todo o conjunto de vestígios ali dispostos. No caso de não cumprimento do dispositivo acima, os peritos descreverão que houve alteração do local conforme preconiza o parágrafo único do art. 169 do CPP. Art. 169 - Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos. Parágrafo Único - Os peritos registrarão, no laudo, as alterações do estado das coisas e discutirão, no relatório, as consequências dessas alterações na dinâmica dos fatos. Ainda segundo o manual de Local de Crime da SENASP, Os peritos, ao cumprirem essa determinação legal, não a fazem sob a conotação de fiscalização do trabalho policial, pois não é este o espírito do dispositivo legal. Deve haver coerência e bom senso por parte dos peritos, em simplesmente relatarem tais condições, caso tenha de fato ocorrido prejuízo para a realização da perícia. TEMA 3 – AS TAREFAS DO PROFISSIONAL DE SEGURANÇA NO LOCAL DE CRIME Agora, estudaremos os procedimentos e as tarefas que devem ser realizadas pelo primeiro profissional de segurança pública a chegar ao local de crime. Por um lado, o profissional precisa garantir a segurança das vítimas, dos demais envolvidos e a própria vida; de outro lado, garantir o isolamento e a 5 preservação do local de crime, para possibilitar a ação eficiente dos demais profissionais envolvidos na investigação criminal. 3.1 Profissional de segurança como representante do Estado É importante saber que qualquer integrante das categorias funcionais citadas no tópico anterior, quando estiverem no local de crime como o primeiro profissional de segurança pública, fazem-no em nome do Estado. Isso significa que quando um profissional da segurança pública chega a um local de crime, a sua presença está simbolizando a presença do ente público. É o representante do Estado, nos termos da legislação penal, que está assumindo a execução de uma tarefa que lhe é de exclusiva competência: a titularidade da ação penal. Por isso, vale ressaltar a importância e a responsabilidade que cabe aos profissionais incumbidos desta tarefa. 3.2 Situação do local de crime antes da chegada do primeiro profissional de segurança pública Um dos grandes e graves problemas das perícias em locais onde ocorrem crimes é a pouca preocupação das autoridades em isolar e preservar adequadamente um local de infração penal, de maneira a garantir as condições de se realizar um exame pericial da melhor forma possível e demais procedimentos da investigação. O curso de isolamento e preservação de local de crime da SENASP esclarece que A população em geral desconhece a importância que um local de crime representa para a investigação. Por consequência, é comum quando um profissional da Segurança Pública chega ao local, se depara com inúmeras pessoas transitando por entre osvestígios, sem nenhuma preocupação com a sua preservação. Quando o profissional de segurança pública chega num possível local de crime, é como se entrasse num quarto escuro. Nada conhece sobre os fatos e os possíveis agressores que praticaram tal crime. Abaixo, veremos algumas recomendações estabelecidas pela SENASP de protocolo para isolamento e preservação de local: 6 3.2.1 Segurança pessoal A primeira preocupação do profissional de segurança pública ao dar o atendimento inicial ao local de crime é com a sua segurança pessoal, pois, se não preservar a sua própria vida, nada mais será possível realizar a partir dali. A chegada e as respectivas verificações iniciais devem ser feitas o mais rápido possível, sem serem deixadas de lado, pois o agressor ainda pode estar presente ou o local pode estar sendo objeto de manifestações públicas ou de comoção social em consequência do crime. 3.2.2 Socorro às vítimas no local Após a chegada ao local e as preocupações iniciais com a sua segurança pessoal, a próxima providência é verificar se há vítimas no local e se estão ainda com vida. 3.3 Entrada no local: procedimentos a serem observados O profissional de segurança pública só deve entrar no local (parte central dos vestígios mais a vítima) se houver vítima no local e tiver alguma dúvida sobre ela estar realmente morta. Tomando a decisão de adentrar até o ponto onde se encontra a vítima, deve seguir alguns procedimentos, visando comprometer o mínimo possível a preservação dos vestígios. Veja a seguir. 1. A partir do ponto próximo onde deixou a viatura, observar a área para localizar onde se encontra(m) a(s) vítima(s); 2. Adentrar ao local procurando deslocar-se em linha reta até a vítima e, não sendo possível, adotar o menor trajeto; 3. Chegando até a vítima, parar próximo a ela e fazer a checagem nos pontos já mencionados no tópico anterior; 4. Se estiver morta, não se movimentar mais junto ao cadáver, para evitar qualquer adulteração de vestígios; 5. A partir desse momento, não mexer nem tocar a vítima (não mexer nos bolsos, em carteiras, documentos, dinheiro, joias etc.) em nenhuma hipótese. Toda observação deve ser apenas visual; 6. Aproveitar que está junto ao cadáver e de outros vestígios para fazer uma inspeção visual de toda a área, a partir de uma visão de dentro 7 para fora, com o objetivo de captar o maior número de informações sobre o local; 7. Enquanto permanecer junto ao cadáver, fazendo a observação visual. Não deve se movimentar, permanecendo com os pés na mesma posição; e 8. Jamais recolher vestígios do local, mesmo sendo arma de fogo e/ou munições. 3.4 Saída do local e respectivas observações Depois de certificar-se de que a vítima estava morta, não há mais pressa em executar as demais tarefas, e, a partir deste momento, a preocupação principal é a preservação dos vestígios para o posterior exame pericial. Porém, a partir daquele momento, o profissional de segurança pública deve captar o máximo de informações que possam ser úteis ao esclarecimento do crime, pois, independentemente da sua função, é também um colaborador para a investigação do crime. Veja os procedimentos recomendados para a saída do local de crime: Ao retornar do ponto onde estava o cadáver, adotar o mesmo trajeto da entrada e, simultaneamente, observar atentamente onde está pisando, para ver o que pode estar sendo comprometido, a fim de informar pessoalmente aos peritos criminais; Ao retornar, fazê-lo lentamente para observar toda a área (mantendo seu deslocamento somente pelo trajeto de entrada) e, com isso, visualizar outros possíveis vestígios. Isso é importante para se saber o limite a ser demarcado para preservação dos vestígios; Deslocar-se para fora até um ponto onde não haja risco de comprometer algum vestígio; e Quando estiver na área distante do ponto central, o profissional de segurança pública deve fazer uma observação geral da área e, ainda, deslocar-se pela periferia, para que tenha certeza da área a ser delimitada. 8 TEMA 4 – ALTERAÇÃO DO LOCAL DE CRIME Sabe-se que o resultado sobre as informações que os vestígios e o próprio local de crime possam trazer aos peritos criminais somente será possível se forem empregadas as técnicas criminalísticas adequadas de constatação, registro, identificação e análise de cada um desses vestígios. Se buscarmos no dicionário o significado de idôneo, verificamos que quer dizer: Próprio para alguma coisa. Apto, capaz, competente. Adequado. A partir dessa compreensão, deveria se interpretar que local de crime idôneo seria aquele que estaria completamente intocável, preservados os seus vestígios e mantidas todas as condições deixadas pelos agentes do delito (vítima e agressor). No entanto, a prática tem mostrado que, mesmo com os precários isolamento e preservação dos locais de crime, levados a efeito pela polícia, ainda assim é possível obter grandes resultados na análise de vestígios em um local de crime. Portanto, em tese, será muito comum encontrar os locais já inidôneos, mas isso jamais deverá ser motivo para que os peritos criminais deixem de realizar o exame. Aliás, somente o exame esclarecerá se o local é ou não idôneo. O exame sempre deverá ser realizado. As alterações nos locais de crime podem acontecer por: Por adição: quando alguém, inclusive a autoridade policial, introduz suas impressões digitais em objetos encontrados no local do crime; Por subtração: é muito comum. Muitas vezes, de forma dolosa ou culposa, o próprio agente retira do local objetos que interessam à própria investigação. Por substituição: a subtração de um objeto, substituindo-o por outro, altera gravemente os indícios. Tais ações, se realizadas se maneira intencional, são responsabilizadas criminalmente conforme preconiza o Art. 347 do Código Penal (fraude processual): Art. 347 - Inovar artificiosamente, na pendência de processo civil ou administrativo, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, com o fim de induzir a erro o juiz ou o perito: Pena - detenção, de três meses a dois anos, e multa. Parágrafo único - Se a inovação se destina a produzir efeito em processo penal, ainda que não iniciado, as penas aplicam-se em dobro. 9 TEMA 5 – PRINCIPAIS LOCAIS DE CRIME O curso de isolamento de preservação de local de crime da SENASP conceitua assim os seguintes os principais locais de crime: Locais de crimes contra a pessoa: Quando ocorre um crime onde há uma vítima fatal no local, deve-se trabalhar com a máxima cautela e eficiência, a fim de evitar ou minimizar a aglomeração de populares, descaracterização do local e outros desdobramentos prejudiciais à realização da perícia. Sendo assim, é útil esclarecer alguns aspectos referentes a este tipo de local. Morte: É um processo de desequilíbrio biológico e físico-químico, culminando com o desaparecimento total e definitivo da atividade do organismo. Ela pode ser classificada em: Morte Natural: é aquela atribuída à velhice ou à decorrência de doenças. Do ponto de vista legal e policial, sempre que a morte ocorrer em circunstâncias em que não houver um médico que ateste o óbito da vítima, o cadáver será submetido à necropsia no Instituto Médico- Legal. Tal situação é definida como morte sem assistência médica. A presença de policiais neste tipo de local é determinante para verificar a ausência de vestígios materiais (obviamente extrínsecos) associados a uma morte violenta, e nesses casos, deverá ser solicitada apenas a remoção do cadáver ao IML, não sendo necessária à realização de levantamento pericial pela equipe do Instituto de Criminalística. Morte Violenta: é aquela decorrente de fator externo claramente tipificado (ocorrência de trânsito, suicídio, homicídio, etc, ...). Nestas situações, o local deverá ser imediatamente isolado e preservado e deverão ser acionadas as equipesdo IC e do IML. Local de Acidente de Trânsito: O isolamento deve abranger os veículos envolvidos na ocorrência, assim como as vítimas. É importantíssimo preservar as marcas no leito da via, especialmente as marcas de arrasto e de frenagem. As marcas de frenagem podem dar uma ideia aproximada da velocidade em que os veículos trafegavam durante o evento. Desta forma, a área de isolamento a considerar pode ser extensa. É aconselhável dispor de sinalizadores adequados para preservar todos os vestígios da ocorrência e até, se for o caso, a interrupção completa do trânsito pela via. A questão do isolamento torna-se especialmente delicada quando o evento se dá em rodovias, devido à velocidade desenvolvida pelos veículos que trafegam por este tipo de via. Deve-se considerar, também, a segurança dos demais veículos em trânsito pela via, assim como, dos policiais e técnicos da perícia em atividade no local do fato. Locais de Furto: Nos locais de furto, tanto em veículos como em imóveis o principal objetivo é materializar o crime e descrever o Modus Operandi, visando dar subsídio à autoridade polícia na identificação do autor e na qualificação do delito, caso haja rompimento de obstáculo, uso de Chade falsa, etc. 10 NA PRÁTICA É comum aos profissionais de segurança pública se depararem com cenas de crime. Caso seja acionado para a constatação de uma cena de crime, será que em minha prática profissional eu estou adotando as medidas recomendadas para a preservação do local? FINALIZANDO Nesta aula, pudemos desenvolver as principais tarefas a serem desempenhadas pelos profissionais de segurança pública no local de crime a fim de que as provas ali produzidas possam servir adequadamente para instrução criminal. 11 REFERÊNCIAS ANUÁRIO Brasileiro de Segurança Pública [do] Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo, dez. 2016. BRASIL. Decreto-lei n. 3.689, de 3 de outubro de 1941. Diário Oficial da União. Poder Legislativo, Rio de Janeiro, RJ, 3 out. 1941. ESPINDULA, A.; VELHO, J. A.; GEISER, G. Ciências forenses – uma introdução às principais áreas da criminalística moderna. Campinas: Millenium, 2017. ESPINDULA, A. Perícia criminal e cível – uma visão geral para peritos e usuários da perícia. 2. ed. Campinas: Millennium, 2006. TOCHETTO, D. et al. Tratado de perícias criminalísticas. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1995.