Prévia do material em texto
216 a Europa, pErifEria do mundo A sociedade feudal baseava-se na existência de dois grupos sociais principais – senhores e servos – e podia ser caracterizada como estamental, uma vez que as categorias eram claramente definidas e não era comum haver nenhum tipo de mobilidade. O estamento inferior – a camada produtiva e domi- nada constituída pelos servos – formava a maioria da população. Destaque-se que além desse quadro geral, dependendo da região e ao longo do tempo, existiram desde aqueles mais subordinados à servi- dão e submissos às tributações, até alguns com um pouco mais de liberdade, inclusive isentos de algu- mas obrigações. A exploração do trabalho servil era legitimada pela Igreja. Para ela, cada membro da sociedade tinha funções a cumprir em sua passagem pela Terra, o que disseminava uma mentalidade favorável à condição subordinada dos servos. Segundo essa mentalidade, era função do servo trabalhar, do clérigo rezar, e do nobre proteger militarmente a sociedade. p colheita representada numa iluminura medieval. inglaterra, século Xiv. A vidA dos servos Os tributos anuais pagos por um camponês francês chamado Guichard – que viveu na Borgonha [atual França], não longe das pro- priedades do bispo de Mâcon – eram típicos desses acordos. A cada Páscoa, ele dava ao cônego Étienne, seu senhor, um cordeiro; na es- tação do feno, devia-lhe seis peças de dinheiro. Quando chegava a época da colheita, Guichard era obrigado a dar uma medida generosa de aveia, bem como se reunir com outros camponeses para oferecer um banquete ao cônego. Na colheita da uva, Guichard pagava nova quantia em dinheiro, além de três pães e um pouco de vinho. Estava livre de obrigações durante os magros meses de inverno até o início da quaresma, quando o senhor aguardava um capão. Na metade des- se período de penitência, devia mais seis peças de dinheiro, e logo depois chegava o momento de sacrificar o cordeiro da Páscoa e reco- meçar todo o ciclo. [...] A herdade [grande propriedade rural] feudal típica – a casa e as terras do senhor – era um mundo autossuficiente. Tinha sua própria igreja, seu moinho, uma cervejaria e uma padaria centrais, possivel- mente uma taverna. Os campos eram divididos entre os lotes dos camponeses e o terreno pessoal do senhor. As cabanas dos campo- neses geralmente ficavam agrupadas numa aldeia próxima da fonte de água; uma grande herdade podia conter várias aldeias. O senhor ti- nha seus próprios celeiros e estábulos, que geralmente ficavam perto de sua moradia ou castelo; seus arrendatários dividiam amiúde suas cabanas com uma vaca ou cabra da família e, com exceção dos mais pobres, todos tinham um porco. De uma geração para outra, o cenário rural dificilmente se alte- rava. O século VIII trouxera para a Europa os moinhos d’água, arados mais fundos e eficientes e o ciclo de três anos de plantações – trigo, depois aveia ou cevada, depois repouso – que alimentava homens e animais e permitia que a terra recuperasse sua fertilidade. [...] CAMPANHAS sagradas: 1100-1200. Rio de Janeiro: Time-Life/Cidade Cultural, 1990. p. 31-32. (História em Revista). R ep ro d u çã o /B ib lio te ca B ri tâ n ic a, L o n d re s, In g la te rr a. HGB_v1_PNLD2015_214a236_U3_C8.indd 216 3/8/13 9:51 AM Economia, sociEdadE E cultura mEdiEval 217 Os senhores feudais, por sua vez, estabeleciam entre si relações de suserania e vassalagem. Isso ocorria, por exemplo, quando um nobre doava terras a outro nobre, em troca de ajuda em guerras e ou- tras obrigações, como tributos. O senhor que doa va o feudo tornava-se suserano, comprometendo-se a proteger militarmente o nobre que recebera a terra. Este passava a ser vassalo daquele, obrigado a pres- tar, principalmente, ajuda militar ao primeiro. Um suserano poderia ter diversos vassalos, e cada vas- salo outros tantos, de forma que diversos senhores feudais, nobres guerreiros de uma região, assumiam um compromisso mútuo de defesa. Também ocorria de um nobre tornar-se suserano não por doar terras, mas por fazer outros tipos de concessão: por exem- plo, ceder ao vassalo o direito de explorar pedágios em pontes ou estradas, ou recolher taxas numa al- deia ou região. A sociedade medieval era bem marcada pela hierarquia en- tre as ordens e isso ocorria também na distinção existente entre o masculino/feminino. Grande parte da literatura medieval optava por demonstrar as deficiências femininas em relação aos homens. Os religiosos, por abdicarem em tese do contato sexual com as mu- lheres, alimentavam uma visão ainda mais negativa dos aspectos ligados ao público feminino. De acordo com os escritos dos clérigos, as mulheres eram naturalmente propensas à luxúria e incapazes de orientar-se pela voz da razão, o que as tornava presas fáceis das tentações. Dissimuladas e falsas, elas tendiam a reproduzir o pecado original: estavam sempre prontas a seduzir os homens e causar sua ruína. Por isso, os religiosos aconselhavam os homens a manterem suas esposas sob vigilância constante e assegurar sua obediência. Uma mulher insubmissa colocava em risco não só sua família, mas toda a ordem social. Nem mesmo a glorificação da Virgem Maria a partir do século XII, elevada muito acima das outras mulheres, ou a dama do amor cortesão, a inacessível amante dos poetas medievais, reverteram a depreciação feminina. Claro que, apesar do que a história tradi- cional reproduz, houve inúmeros exemplos medievais de mulheres na dianteira, administrando seus lares, ofícios, negócios variados e mesmo feudos, especialmente durante a minoridade dos herdeiros, além da posição de liderança em enfrentamentos cotidianos e mes- mo na Corte, inclusive em situações de guerras. A despeito de sua má reputação, a mulher desempenhava, por exemplo, uma função central nos acordos entre as casas aristocrá- ticas. Por meio dos acordos matrimoniais, as famílias selavam a paz, asseguravam a perpetuação da linhagem e a transmissão das posses e privilégios aos descendentes. Por outro lado, o fracasso da união poderia desencadear guerras e romper as delicadas teias de lealdade entre as famílias nobres. Por isso, a escolha de um esposo para uma jovem era assunto dos mais graves, que competia ao pai ou a outra autoridade masculina da família, desprezando-se a opi- nião da mulher na decisão. Nem a exigência da Igreja para que os casamentos só fossem feitos com o consentimento dos noivos foi capaz de impedir que as moças casassem contrariadas. A necessidade de garantir a legitimidade dos herdeiros impôs mecanismos cada vez mais rigorosos de controle sobre o corpo feminino. Para impedir que a mulher mantivesse algum tipo de re- lação sexual antes do casamento, elas eram encaminhadas preco- cemente às núpcias. Assim, meninas de 12 ou 13 anos tornavam-se esposas de homens 15 ou 20 anos mais velhos. Confinadas ao lar, as mulheres deveriam mostrar obediência e mansidão, dedicando- -se aos assuntos domésticos, como o preparo dos alimentos, a vi- gilância sobre os empregados e a criação dos filhos. Havia grande cobrança pela maternidade, de modo que se esperava que a jovem engravidasse o mais breve possível depois de casada. A esterilidade era malvista e a mulher incapaz de gerar filhos corria o risco de ser repudiada pelo marido e posta à mar- gem da sociedade. Ser mãe era a principal obrigação feminina e boa parte da vida adulta das mulheres da aristocracia era tomada pela gravidez: em geral, antes de completar 40 anos, uma nobre colocava no mundo mais de uma dezena de filhos. No entanto, em função da altíssima mortalidade infantil, poucos eram os casais que, ao fale- cer, tinham mais de 2 ou 3 filhos ainda vivos. sobre A mulher nA idAde médiA Biblioteca Britânica/The Bridgeman/Keystone o ócio era entendido como um risco sem tamanho para as mu- lheres. assim, o bor- dado e a tecelagem eram ensinados às meninas desde a mais tenra idade como for- ma de educar seu cor- po para a quietudee para o adormecimen- to dos pensamentos, para evitar que se en- tregassem a impulsos e práticas considera- dos pecaminosos. na imagem, mulheres tecendo, ilustração do século Xv, de autoria desconhecida, para a obra De Claris Mulie- ribus (sobre mulheres famosas, 1361-62) de Giovanni Boccaccio. P HGB_v1_PNLD2015_214a236_U3_C8.indd 217 3/8/13 9:51 AM 218 a Europa, pErifEria do mundo A lb u m /O ro n o z/ La ti n st o ck Para marcar essa relação de dependência, rea- lizava-se uma cerimônia, a homenagem, durante a qual o senhor que recebia o benefício – por exemplo, a concessão de uma área territorial – fazia um jura- mento de fidelidade diante de uma relíquia religiosa ou perante os evangelhos. Tratava-se de uma teia de relações em forma de pirâmide em cuja base estavam senhores feudais me- nos poderosos e ricos que eram somente vassalos; no meio estavam nobres vassalos de um e suseranos de vários; e, no topo, geralmente, um senhor feudal mais poderoso que todos: o rei. Ao longo dos séculos, na progressiva complexida- de de relações medievais de dependência e fidelidade entre senhores, surgiram até mesmo reis vassalos de outros suseranos. O fundamental, já que havia uma fragmentação de poderes nas mãos dos senhores e um poder central fraco, é que as relações de suserania e vas- salagem garantissem a coesão mínima entre os mem- bros do grupo social dominante, o que era indispensável para enfrentar ameaças que pudessem subverter a or- dem estabelecida, especialmente por parte dos servos. Os reis feudais não se caracterizavam por suas funções políticas e administrativas, mas principalmen- te pelas militares. No caso de agressão externa, como era comum durante a Alta Idade Média, o rei atuava como chefe militar de um exército formado por cen- tenas de nobres e seus cavaleiros e tropas auxiliares. A evolução da língua traduz com perfeição a carga de des- prezo que oprime o campesinato: não ser nobre corresponde a ser ignóbil (innobilis), e o vilão (etimologicamente um habitante da vila, da aldeia) é por definição um ser grosseiro, do qual não se pode esperar nada além da vilania. Nessas condições, não faz sentido reconhecer a qualidade de homens livres a tais criaturas. BONNASSIE, Pierre. Liberdade e servidão. In: LE GOFF, Jacques; SCHIMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente medieval. Bauru/São Paulo: Edusc/Imprensa Oficial do Estado, 2002. v. 2. p. 71. opressão e desprezo Aos de bAixo IslâmIcos e bIzantInos na contramão da europa feudal Logo após a morte de Maomé, a expansão do Império Islâmico esteve baseada na sucessão de cali- fas de Damasco, capital do Império. O islamismo sig- nificou, para os árabes, a unificação de diversas tribos e a realização de seu ímpeto expansionista de caráter religioso e econômico-comercial. No século VIII, ele já se estendia do rio Indo até a península Ibérica, in- cluindo o norte da África e regiões do sul da Europa, como as ilhas da Córsega e a Sicília. A expansão mu- çulmana, iniciada com os árabes, incluiu os berberes e outros povos, convertidos, aliados ou submetidos ao domínio islâmico. Seu período de expansão (do século VII ao VIII) corresponde a movimentos contrários aos do feudalismo: em vez de fragmentação em feudos e reinos, unificação de tribos por meio de um império dirigido pelos califas; em vez de fechamento econô- mico, expansão comercial. Séculos depois, a expan- são muçulmana enfrentou sua fragmentação, com a formação de califados independentes. Para a história do Brasil, um dos califados mais importantes foi o de Córdoba, que comandava a pe- nínsula Ibérica e marcou profundamente a formação dos espanhóis e portugueses modernos. Os reinos de Portugal e Espanha, surgidos ape- nas nos séculos XII e XV, respectivamente, não foram precedidos por feudos nos moldes descritos até aqui na Idade Média europeia, mas pela dominação mu- çulmana – que demonstrava tolerância e acolhia ju- deus e cristãos, desde que afinados com os objetivos políticos e econômicos do califado. Em Bizâncio, como vimos, o enfraquecimento do poder imperial, os ataques externos e o constan- te confronto com os muçulmanos em suas frontei- ras foram provocando a desagregação do Império, que acabou por desaparecer em 1453, com a to- mada de Constantinopla. Em seu lugar ergueu-se o Império Turco Otomano, que se estendeu até o século XX. p cerimônia de vassalagem, registrada no Livro de Punição de D. Sancho IV de Castela, do século Xiii. HGB_v1_PNLD2015_214a236_U3_C8.indd 218 3/8/13 9:51 AM Economia, sociEdadE E cultura mEdiEval 219 EUROPA ÁSIA Mar Negro M ar Verm elho 30º L 10º N OCEANO ÍNDICO OCEANO ATLÂNTICO ÁFRICA Expansão muçulmana Área cristã no século VIII (Astúrias) Área muçulmana no século VIII Mar Mediterrâneo Mar Cáspio Península da Arábia Oviedo Lisboa Sevilha Córdoba Valência Saragoça Toledo 625 km 0 1250 a IGreJa medIeval Adaptado de: HAYWOOD, John. Atlas histórico do mundo. Colônia: Konimann, 1999. p. 80-81. Como você observou ao estudar a desagregação do Império Romano do Ocidente, o triunfo do cristia- nismo contribuiu para a religiosidade que marcou a Idade Média. Foi nessa época que a Igreja começou a se organizar com o objetivo de zelar pela homoge- neidade dos princípios da religião cristã e promover a conversão dos pagãos. Presentes em todos os níveis sociais, os mem- bros da Igreja medieval incitaram valores como a passividade e a subordinação dos homens comuns perante o senhor, tanto o senhor espiritual (clérigo), encarregado de proteger as almas, quanto o senhor feudal da terra (nobre), que protegia os corpos. O poder da Igreja, portanto, não estava restrito ao plano espiritual, por mais importante que fosse a espiritualidade para as sociedades medievais; era também temporal. Isso porque ela foi, pouco a pouco, se transformando na maior proprietária de terras da Idade Média e construindo fortes vínculos com a es- trutura feudal. Além dos territórios diretamente controlados pelo papa (o Patrimônio de São Pedro), o alto clero (composto pelos bispos, arcebispos e abades) e várias ordens religiosas possuíam muitos feudos. O celibato clerical, criado nos primeiros séculos do cristianismo e rigorosamente aplicado a partir do século XI, contri- buía, além disso, para a manutenção do patrimônio eclesiástico feudal, ao evitar a divisão entre possíveis herdeiros dos membros do clero. O crescente apego de parte do clero à terra e aos bens materiais acabou gerando reações dentro da própria Igreja. Surgiram ordens religiosas que procu- ravam afastar seus membros das tentações do mundo por meio do isolamento em mosteiros e abadias e de votos de castidade, pobreza e silêncio. Distinguiu-se, a partir de então, o clero secular (que vivia no saecu- lum, no “mundo”, em contato com a terra, a adminis- tração e a exploração das riquezas) do clero regular (que vivia de acordo com a regula, as “regras”, como eram chamados os votos que os religiosos faziam). Com o tempo, num mundo em que uma restri- ta minoria era alfabetizada, as igrejas, os mosteiros e as abadias converteram-se nos principais centros da cultura letrada. Nesses mosteiros e abadias medievais funcionavam as escolas e as bibliotecas da época. Era lá que se preservavam e restauravam textos antigos da herança greco-romana. (poder) temporal: em opo- sição ao poder espiritual, o temporal refere-se ao mun- do, à vida terrena. celibato clerical: proibição de casamento imposta aos sacerdotes. A llm ap s/ A rq u iv o d a ed it o ra A expansão muçulmana na península ibérica HGB_v1_PNLD2015_214a236_U3_C8.indd 219 3/8/13 9:51 AM 220 a Europa, pErifEria do mundo A rede de paróquias definiu as estruturas espaciais da Europa medieval, fixando a população no entorno do eixo que eram as igre- jas e os cemitérios. Sobre isso, comenta Jérôme Baschet: A presença dos cemitérios no centro das cidades e das aldeias étão importante que pode ser considerada um sintoma, ou até mesmo um elemento marcante específico da sociedade feudal. Não há, portanto, nada de surpreendente em constatar que é a partir da segunda metade do século XVIII que os cemitérios são expulsos para o exterior das zonas habitadas, para onde a Antiguidade os havia relegado. O feudalismo termina quando os mortos, que a Igreja havia posto no centro do espaço social, são reconduzidos para fora das cidades e das aldeias. BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: do ano 1000 à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. p. 281. Apesar de todo seu poder e influência na socie- dade, a estrutura da Igreja medieval encontrou difi- culdades em manter a homogeneidade da doutrina cristã. Era comum o surgimento de seitas, facções ou orientações que, embora fundadas em princípios cris- tãos, se opunham à doutrina oficial da Igreja – eram as chamadas heresias. O difícil relacionamento com a Igreja bizantina também foi fator de ameaça ao pode- rio da Igreja com sede em Roma, que culminou, como já vimos, em 1054 no Cisma do Oriente. igrejAs e cemitérios ∏ a igreja foi a mais poderosa instituição feudal, e o clero detinha não apenas o poder espiritual e psicológico, mas também o material. durante a alta idade média multiplicaram-se na Europa as igrejas paroquiais e os cemitérios em torno dos lugares de culto. a igreja passou a controlar o casamento, os nascimentos (pelo batismo) e os falecimentos. na imagem ao lado, do século Xii, a consagração do altar-mor da abadia de cluny, frança, por urbano ii. a cerimônia de consagração purifica o altar, para que possa ser usado no culto. p nesta miniatura do século Xv está representada uma biblioteca com diversos manuscritos. R ep ro d u çã o /B ib lio te ca N ac io n al , P ar is , F ra n ça . R ep ro d u çã o /B ib lio te ca N ac io n al , P ar is , F ra n ça . HGB_v1_PNLD2015_214a236_U3_C8.indd 220 3/8/13 9:51 AM